P. 1
Fernando Pessoa Cancioneiro

Fernando Pessoa Cancioneiro

|Views: 6|Likes:

More info:

Published by: Julio Antonio Arelaro on Jan 28, 2011
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

11/13/2011

pdf

text

original

Sections

  • Abat-Jour
  • Abdicação
  • Abismo
  • A Grande Esfinge do Egito
  • A minha vida é um barco abandonado
  • A morte chega cedo
  • Andei léguas de sombra
  • A alcova
  • Ao longe, ao luar
  • Aqui onde se espera
  • As horas pela alameda
  • As minhas Ansiedades
  • Assim, sem nada feito e o por fazer
  • As tuas mãos terminam em segredo
  • Às vezes entre a tormenta
  • Atravessa esta paisagem o meu sonho
  • Autopsicografia
  • (?) Azul ou verde ou roxo
  • Baladas de uma outra terra
  • Bate a luz no cimo
  • Brilha uma Voz na Noute
  • Canção
  • Cansa Sentir Quando se Pensa
  • Cerca de grandes muros quem te sonhas Conselho
  • Cessa o teu canto!
  • Chove. É dia de Natal
  • Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
  • Chove ? Nenhuma chuva cai
  • Começa a ir ser dia
  • Como a noite é longa!
  • Como inútil taça cheia
  • Como uma voz de fonte que cessasse
  • Conta a lenda que dormia
  • Contemplo o lago mudo
  • Contemplo o que não vejo
  • Dá a surpresa de ser
  • Da minha idéia do mundo
  • De onde é quase o horizonte
  • De quem é o olhar
  • Ditosos a quem acena
  • Dizem que finjo ou minto
  • Dizem?
  • Dobre
  • Dorme enquanto eu velo
  • Dorme, que a vida é nada!
  • Dorme sobre o meu seio
  • Do vale à montanha
  • Durmo. Se sonho, ao despertar não sei
  • É brando o dia, brando o vento
  • Ela canta, pobre ceifeira
  • Ela ia, tranqüila pastorinha
  • Elas são vaporosas
  • Em Busca da Beleza
  • Em horas inda louras, lindas
  • Emissário de um rei desconhecido
  • Em plena vida e violência
  • Além-Deus
  • Entre o bater rasgado dos pendões
  • Entre o luar e a folhagem
  • Entre o sono e sonho,
  • Eros e Psique
  • Esqueço-me das horas transviadas
  • Esta espécie de loucura
  • Feliz dia para quem é
  • Flor que não dura
  • Foi um momento
  • Fosse eu apenas, não sei onde ou como
  • Fresta
  • Fúria nas trevas o vento
  • Glosa
  • Gomes Leal
  • Grandes mistérios habitam
  • Guia-me a só a razão
  • Ilumina-se a Igreja por Dentro da Chuva
  • Intervalo
  • Isto
  • Liberdade
  • Não digas nada!
  • Não: não digas nada!
  • O Andaime
  • O Maestro Sacode a Batuta
  • O que me dói não é
  • Pobre velha música!
  • Põe-me as mãos nos ombros
  • Teus olhos entristecem

Fernando Pessoa

Cancioneiro
Ciberfil Literatura Digital

1

Versão para Adobe Acrobat Reader por Rodolfo S. Cassaca

Março de 2002 Permitida a distribuição Visite nosso site: www.ciberfil.hpg.ig.com.br ou mande-nos um e-mail: ciberfil@yahoo.com

2

Cancioneiro:
Nota Preliminar 1. Em todo o momento de atividade mental acontece em nós um duplo fenômeno de percepção: ao mesmo tempo que tempos consciência dum estado de alma, temos diante de nós, impressionando-nos os sentidos que estão virados para o exterior, uma paisagem qualquer, entendendo por paisagem, para conveniência de frases, tudo o que forma o mundo exterior num determinado momento da nossa percepção. 2. Todo o estado de alma é uma passagem. Isto é, todo o estado de alma é não só representável por uma paisagem, mas verdadeiramente uma paisagem. Há em nós um espaço interior onde a matéria da nossa vida física se agita. Assim uma tristeza é um lago morto dentro de nós, uma alegria um dia de sol no nosso espírito. E — mesmo que se não queira admitir que todo o estado de alma é uma paisagem — pode ao menos admitir-se que todo o estado de alma se pode representar por uma paisagem. Se eu disser “Há sol nos meus pensamentos”, ninguém compreenderá que os meus pensamentos são tristes.

3. Assim, tendo nós, ao mesmo tempo, consciência do exterior e do nosso espírito, e
sendo o nosso espírito uma paisagem, tempos ao mesmo tempo consciência de duas paisagens. Ora, essas paisagens fundem-se, interpenetram-se, de modo que o nosso estado de alma, seja ele qual for, sofre um pouco da paisagem que estamos vendo — num dia de sol uma alma triste não pode estar tão triste como num dia de chuva — e, também, a paisagem exterior sofre do nosso estado de alma — é de todos os tempos dizer-se, sobretudo em verso, coisas como que “na ausência da amada o sol não brilha”, e outras coisas assim. De maneira que a arte que queira representar bem a realidade terá de a dar através duma representação simultânea da paisagem interior e da paisagem exterior. Resulta que terá de tentar dar uma intersecção de duas paisagens. Tem de ser duas paisagens, mas pode ser — não se querendo admitir que um estado de alma é uma paisagem — que se queira simplesmente interseccionar um estado de alma (puro e simples sentimento) com a paisagem exterior. [...]

3

....................................................................................................................................... 35 Chove ? Nenhuma chuva cai........................................................................................... 19 As tuas mãos terminam em segredo...................................................................................................................................................................................................................................... ................. porque a mesma chuva ...................................................... 12 Andei léguas de sombra .............................................................................................................................................................. 48 Dizem que finjo ou minto .............................................................. 9 A Grande Esfinge do Egito ....................................... 46 De quem é o olhar ....... 32 Cessa o teu canto!........................................ 16 As horas pela alameda..................................................................... sem nada feito e o por fazer ............... 11 A morte chega cedo....................... 34 Chove........................ 49 4 .......................................................................................... 23 (?) Azul ou verde ou roxo .................................................. 40 Conta a lenda que dormia................................................ 18 Assim.............. 8 Abismo ........................................................................................... 39 Como uma voz de fonte que cessasse ...................................................... 29 Canção........................................................ 30 Cansa Sentir Quando se Pensa ..................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................... 38 Como inútil taça cheia...................................... 37 Como a noite é longa! .............. 43 Dá a surpresa de ser.................... 7 Abdicação.............. É dia de Natal..................................... 13 A alcova............................................. 10 A minha vida é um barco abandonado.. 21 Atravessa esta paisagem o meu sonho ................................................ 22 Autopsicografia ............................................................. 42 Contemplo o que não vejo ................... 20 Às vezes entre a tormenta .......................................................................................................................................................................................................................................... 25 Baladas de uma outra terra..................................................... 15 Aqui onde se espera ......................... Há silêncio.................. 14 Ao longe............... 27 Bate a luz no cimo................. 17 As minhas Ansiedades ............................................................. 41 Contemplo o lago mudo .............................................................. 28 Brilha uma Voz na Noute ...................ÍNDICE Abat-Jour.............................................. 36 Começa a ir ser dia.... ao luar ............................................................................. 33 Chove................ 31 Cerca de grandes muros quem te sonhas Conselho .................... 45 De onde é quase o horizonte ............................................................................................................. 44 Da minha idéia do mundo ......... 47 Ditosos a quem acena..................

....................... 76 Flor que não dura .................... 89 Liberdade...................................................... 99 5 ..................................... 74 Feliz dia para quem é ........................................................................................................................................................... 59 Elas são vaporosas............... 95 O que me dói não é............ 63 Em plena vida e violência ................................................................................................................ ............................................................................ 80 Fresta .......................................... 61 Em horas inda louras........ 69 Entre o sono e sonho.................................................. 86 Ilumina-se a Igreja por Dentro da Chuva..................................................................................................................... ........................................................................................................................................................................................................................ Se sonho................................................................. 98 Põe-me as mãos nos ombros.............................................. 52 Dorme................................................................................................................................................................................ 55 Durmo..... 51 Dorme enquanto eu velo............................................................. 78 Fosse eu apenas.............................................. 62 Emissário de um rei desconhecido................. 73 Esta espécie de loucura ........................... ao despertar não sei ........... brando o vento ............... não sei onde ou como ................................................ 81 Fúria nas trevas o vento............................................................................. 92 O Andaime .......... 56 É brando o dia...................................................................... 85 Guia-me a só a razão .............................................................................................................. 97 Pobre velha música! ........................ 54 Do vale à montanha............................ 82 Glosa........................................................... 77 Foi um momento .. lindas .............................. 53 Dorme sobre o meu seio..................................... 70 Eros e Psique ................................................. 58 Ela ia.............................................. 65 Entre o bater rasgado dos pendões...... 60 Em Busca da Beleza......... 57 Ela canta......................................... 50 Dobre.................. 68 Entre o luar e a folhagem ............................................................... 90 Não digas nada!........................................................................................................................................................................................................ 64 Além-Deus ........................................................... 88 Isto...................................................................................................................... que a vida é nada! ...............................................................................................................................Dizem? .............................................................................................................. pobre ceifeira.................................................... 87 Intervalo .......................................................................................... 83 Gomes Leal ..... 93 O Maestro Sacode a Batuta ...................................................... 91 Não: não digas nada!.............................................................. 71 Esqueço-me das horas transviadas............... tranqüila pastorinha.................................................. ........................................ 84 Grandes mistérios habitam..........

.... Não sei quem sou... 104 Vaga.................................................... . ........................................................... 101 Tenho Tanto Sentimento ........ no azul amplo solta ...................................................................................... 105 6 .Sonho.................................................................... 100 Sorriso audível das folhas ........ 103 Tomamos a Vila depois de um Intenso Bombardeamento.......................... 102 Teus olhos entristecem........................

. Quanto me sorria O que nunca vi! E no quarto silente Com a luz a ondear Deixei vagamente Até de sonhar.... No quarto deserto Salvo o meu sonhar... Era dia E longe de aqui. Bem sei. 7 . Faz no chão incerto Um círculo a ondear.Abat-Jour A lâmpada acesa (Outrem a acendeu) Baixa uma beleza Sobre o chão que é meu. E entre a sombra e a luz Que oscila no chão Meu sonho conduz Minha inatenção.

E regressei à noite antiga e calma Como a paisagem ao morrer do dia. pesada a braços lassos. Despi a realeza. ó noite eterna. Deixei-as pela fria escadaria. Eu sou um rei que voluntariamente abandonei O meu trono de sonhos e cansaços. feitos em pedaços Minha cota de malha.Abdicação Toma-me. E meu cetro e coroa — eu os deixei Na antecâmara. tão inútil. 8 . Minhas esporas de um tinir tão fútil. Minha espada. Em mãos viris e calmas entreguei. corpo e alma. nos teus braços E chama-me teu filho.

Vácuo. o momento. e correr? O que é está-lo eu a ver? Sinto de repente pouco.. Perde tudo o ser. idéia. Fico sem poder ligar Ser. à terra e aos céus. 9 .Abismo Olho o Tejo. alma de nome A mim. E súbito isto me bate De encontro ao devaneando — O que é sério. E do pensar se me some. E súbito encontro Deus. e de tal arte Que me esquece olhar olhando. o lugar. Tudo — eu e o mundo em redor — Fica mais que exterior. Tudo de repente é oco — Mesmo o meu estar a pensar. ficar..

.. Caio por um abismo feito de tempo.. Escureceu tudo.. Atravessa o eu não poder vê-la uma mão enorme.. 10 . Varre tudo para o canto do teto que fica por detrás de mim. Escrevo — perturbo-me de ver o bico da minha pena Ser o perfil do rei Quéops .. E sobre o papel onde escrevo. Estou soterrado sob as pirâmides a escrever versos à luz clara deste candeeiro E todo o Egito me esmaga de alto através dos traços que faço com a pena.... Ouço a Esfinge rir por dentro O som da minha pena a correr no papel. Funerais do rei Quéops em ouro velho e Mim! ..A Grande Esfinge do Egito A Grande Esfinge do Egito sonha por este papel dentro.. entre ele e a pena que escreve Jaz o cadáver do rei Quéops. E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo E uma alegria de barcos embandeirados erra Numa diagonal difusa Entre mim e o que eu penso...... Escrevo — e ela aparece-me através da minha mão transparente E ao canto do papel erguem-se as pirâmides..... De repente paro. olhando-me com olhos muito abertos.

Por que não ergue ferro e segue o atino De navegar. no divino Amplexo da manhã. Boiando à tona inútil da saudade. peregrino Frescor de afastamento. Os limos esverdeiam tua quilha. ao seu destino. O vento embala-te sem te mover. casado com o seu fado ? Ah! falta quem o lance ao mar. no ermo porto. E é para além do mar a ansiada Ilha. puro e salgado. e alado Torne seu vulto em velas.A minha vida é um barco abandonado A minha vida é um barco abandonado Infiel. vulto estéril de viver. Morto corpo da ação sem vontade Que o viva. 11 .

12 . E quem tenha alcançado Não sabe o que alcançou.A morte chega cedo A morte chega cedo. Pois breve é toda vida O instante é o arremedo De uma coisa perdida. O amor foi começado. O ideal não acabou. E tudo isto a morte Risca por não estar certo No caderno da sorte Que Deus deixou aberto.

Passa uma caravana. Não pela minha vista. Há um oásis no Incerto E. 13 . E apagaram-se as lâmpadas Na alcova cambaleante.Andei léguas de sombra Andei léguas de sombra Dentro em meu pensamento. Floresceu às avessas Meu ócio com sem-nexo. Esquece-me de súbito Como é o espaço. como uma suspeita De luz por não-há-frinchas. e o tempo Em vez de horizontal É vertical. Tudo prestes se volve Um deserto macio Visto pelo meu tato Dos veludos da alcova.

E o deserto está agora Virado para baixo.A alcova Desce não se por onde Até não me encontrar. Na alma meu corpo pesa-me. Sinto-me um reposteiro Pendurado na sala Onde jaz alguém morto. Não há Cá-dentro nem lá-fora. 14 . Qualquer coisa caiu E tiniu no infinito. Deixo de me incluir Dentro de mim. Ascende um leve fumo Das minhas sensações. A noção de mover-me Esqueceu-se do meu nome.

No rio uma vela. Serena a passar. Que angústia me enlaça ? Que amor não se explica ? É a vela que passa Na noite que fica.Ao longe. 15 . mas meu ser Tornou-se-me estranho. ao luar Ao longe. ao luar. Que é que me revela ? Não sei. E eu sonho sem ver Os sonhos que tenho.

só sossego — O nome venerando.. Que ter a negação — Sossego. Gozando da ventura — Sossego. aqui estarei — Sossego.. Aqui. só sossego — Que fosse antes o dia. Aqui onde. só sossego — Da dor e da esperança. — Sossego. só sossego — Isso que outrora era. dormindo. E nada importaria — Sossego. só sossego — De não ter a amargura De reinar. Que mais quer quem descansa — Sossego. só sossego — Se sente a noite vindo. mas guardando — Sossego. só sossego — De todo o coração ? 16 .Aqui onde se espera Aqui onde se espera — Sossego. só sossego — Como no exílio um rei.

.. Silêncio a tremeluzir.. E ouve-se no ar a expirar — A expirar mas nunca expira — Uma flauta que delira.. Que é mais a idéia de ouvi-la Que ouvi-la quase tranqüila Pelo ar a ondear e a ir.. Vestes de seda sonhada Pela alameda alongada Sob o azular do luar.As horas pela alameda As horas pela alameda Arrastam vestes de seda. 17 ..

Música excessivamente longínqua. Música longínqua. 18 . Para que a Vida passe E colher esqueça aos gestos. Na Múmia a posição é absolutamente exata. Os meus desejos balouçam-se Em meio de um jardim vertical.As minhas Ansiedades As minhas ansiedades caem Por uma escada abaixo.

Vejo os meus dias nulos decorrer. E a tarde exterior seu tédio verte Sobre quem nada fez e nada quere. sem nada feito e o por fazer Mal pensado. sim. Inútil vida. E a mesma falsa mocidade cansa. nau sem mar. deixem-se sonhar sem esperar! 19 . Como a quem com saúde jaz no leito Ou quem sempre se atrasa sem razão. que esqueço de querer. Mas a mesma esperança o tédio invade. posta a um canto e ida Sem que alguém nela fosse. como uma mocidade Que a si mesma se sobrevive. Ah. sem nada feito e o por fazer Assim. Obra solentemente por ser lida. ou sonhado sem pensar. Perdura. Vadio sem andar. E o cansaço de nada me aumentar. meu ser inerte Contempla-me. Leve correr dos dias sem ação. Tênue passar das horas sem proveito.Assim. a esperança.

. Mas quando o mar subir na praia e for Arrasar os castelos que na areia As crianças deixaram. Será o haver cais num mar distante. Entre buxos e ao pé de bancos frios Nas entrevistas alamedas. quedo O vendo põe o seu arrastado medo Saudoso o longes velas de navios. meu amor.... Pobre do rei pai das princesas feias No seu castelo à rosa do Levante! 20 .As tuas mãos terminam em segredo As tuas mãos terminam em segredo. Os teus olhos são negros e macios Cristo na cruz os teus seios (?) esguios E o teu perfil princesas no degredo.

Às vezes entre a tormenta Às vezes entre a tormenta. Sofremos? Os versos pecam. E. E tudo é chuvas que orvalham folhas caídas que secam. quer num quer noutro caso. raia uma espécie de calma que não conhece o langor. com que a alma se alimenta. E às vezes entre o torpor que não é tormenta da alma. Mentimos? Os versos falham. raia uma nesga no céu. restam os versos que deito. vinho no copo do acaso. Porque verdadeiramente sentir é tão complicado que só andando enganado é que se crê que se sente. 21 . quando já umedeceu. como o mal feito está feito.

.. 22 . como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada. Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol. Esta paisagem toda. O vulto do cais é a estrada nítida e calma Que se levanta e se ergue como um muro.. Súbito toda a água do mar do porto é transparente E vejo no fundo.... O porto que sonho é sombrio e pálido E esta paisagem é cheia de sol deste lado. estrada a arder em aquele porto. Liberto em duplo. e entra por mim dentro.. E os navios passam por dentro dos troncos das árvores Com uma horizontalidade vertical... E passa para o outro lado da minha alma... E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro. E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem E chega ao pé de mim.Atravessa esta paisagem o meu sonho Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios Que largam do cais arrastando nas águas por sombra Os vultos ao sol daquelas árvores antigas. Não sei quem me sonho.... abandonei-me da paisagem abaixo. renque de árvore.

Mas só a que eles não têm. E os que lêem o que escreve. Esse comboio de corda Que se chama coração. 23 . Não as duas que ele teve. E assim nas calhas de roda Gira. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. Na dor lida sentem bem.Autopsicografia O poeta é um fingidor. a entreter a razão.

24 .

quando são Grandes as ondas e é deveras mar Parece incertamente recordar. O mar é áspero (?). por mais que descante Sobre a ignorância natural do mar. a murmurar. contramestres — todos nautas Da descoberta infiel de cada dia Acaso vos chamou de ignotas flautas A vaga e impossível melodia. Quanto em terra ou em nada nunca esquece. Pressinto-o. Acaso o vosso ouvido ouvia Qualquer coisa do mar sem ser o mar Sereias só de ouvir e não de achar? 25 . Ensina-me a saber-te meditar. É uma vez abismo e outra espelho.. ou verde. vem da lua Que uma vez o abate outra o levanta. ou roxo quando o sol O doura falsamente de vermelho.. Os grandes capitães e os marinheiros Com que fizeram a navegação. é água nua. Mas. Mas sonho. Capitães. como a poesia. casual (?) ou mol(e). vasante. lúgubres parceiros Do nosso esquecimento e ingratidão.(?) Azul ou verde ou roxo Azul. Quem sabe o que é a alma ? Quem conhece Que alma há nas coisas que parecem mortas. O mar é água. Só o mar às vezes. Evoco porque sinto velho O que em mim quereria mais que o mar Já que nada ali há por desvendar. Quem sabe se no espaço vácuo há portas? O sonho que me exortas A meditar assim a voz do mar. Jazem longínquos. Serva do obscuro ímpeto distante Que.

Quem atrás de intérminos oceanos Vos chamou à distância ou quem Sabe que há nos corações humanos Não só uma ânsia natural de bem Mas, mais vaga, mais sutil também Uma coisa que quer o som do mar E o estar longe de tudo e não parar. Se assim é e se vós e o mar imenso Sois qualquer coisa, vós por o sentir E o mar por o ser, disto que penso; Se no fundo ignorado do existir Há mais alma que a que pode vir À tona vã de nós, como à do mar Fazei-me livre, enfim , de o ignorar. Dai-me uma alma transposta de argonauta, Fazei que eu tenha, como o capitão Ou o contramestre, ouvidos para a flauta Que chama ao longe o nosso coração, Fazei-me ouvir , como a um perdão, Numa reminiscência de ensinar, O antigo português que fala o mar!

26

Baladas de uma outra terra
Baladas de uma outra terra, aliadas Às saudades das fadas, amadas por gnomos idos, Retinem lívidas ainda aos ouvidos Dos luares das altas noites aladas... Pelos canais barcas erradas Segredam-se rumos descridos... E tresloucadas ou casadas com o som das baladas, As fadas são belas e as estrelas São delas... Ei-las alheadas... E são fumos os rumos das barcas sonhadas, Nos canais fatais iguais de erradas, As barcas parcas das fadas, Das fadas aladas e hiemais E caladas... Toadas afastadas, irreais, de baladas... Ais...

27

Bate a luz no cimo...
Bate a luz no cimo Da montanha, vê... Sem querer eu cismo Mas não sei em quê.... Não sei que perdi Ou que não achei... Vida que vivi, Que mal eu a amei!... Hoje quero tanto Que o não posso ter, De manhã há o pranto E ao anoitecer... Tomara eu ter jeito Para ser feliz... Como o mundo é estreito, E o pouco que eu quis! Vai morrendo a luz No alto da montanha... Como um rio a flux A minha alma banha, Mas não me acarinha, Não me acalma nada... Pobre criancinha Perdida na estrada!...

28

Brilha uma Voz na Noute . 29 . Oh... eu sou-te.. Mero eco de mim. Ó Universo. do archote Se apagar. Sermente em ti eu sou-me. que me guia! Cinzas de idéia e de nome Em mim.... Brilha uma voz na noute De dentro de Fora ouvi-a.. e a voz: Ó mundo.. o horror da alegria Deste pavor. me inundo De ondas de negro lume Em que pra Deus me afundo.

Ondulam como em voltas De estradas não sei onde Ou como alguém que entre árvores Ora se mostra ou esconde.. Por que choro não sei.. Os pinhais e eu estar triste.Canção Silfos ou gnomos tocam?. Roçam nos pinheirais Sombras e bafos leves De ritmos musicais. Mas cessa. 30 . como uma brisa Esquece a forma aos seus ais.. Mal oiço e quase choro. Tão tênue melodia Que mal sei se ela existe Ou se é só o crepúsculo. E agora não há mais música Do que a dos pinheirais.. Forma longínqua e incerta Do que eu nunca terei.

Pesa-me o informe real que existe Na noite antes de amanhecer. No ar da noite a madrugar Há uma solidão imensa Que tem por corpo o frio do ar. Mundo mudo. nada é assim!) 31 . frio. Tudo isto me parece tudo. negror sem fim.Cansa Sentir Quando se Pensa Cansa sentir quando se pensa. silêncio mudo — Ah. Neste momento insone e triste Em que não sei quem hei de ser. Mas noite. (Tudo isto me parece tudo. E é uma noite a ter um fim Um negro astral silêncio surdo E não poder viver assim. nada é isto.

que veja e fite. Onde os olhares possam entrever O teu jardim com lho vais mostrar. Onde ninguém o vir não ponhas nada.. Por trás do qual a flor nativa roça A erva tão pobre que nem tu a vês. onde é visível o jardim Através do portão de grade dada. Deixa as flores que vêm do chão crescer E deixa as ervas naturais medrar. possa Saber mais que um jardim de quem tu és — Um jardim ostensivo e reservado. E que ninguém. e nunca o vê ninguém. Faze de ti um duplo ser guardado. Mas onde és teu. 32 . Põe quantas flores são as mais risonhas. Faze canteiros como os que outros têm.Cerca de grandes muros quem te sonhas Conselho Cerca de grandes muros quem te sonhas. Depois.. Para que te conheçam só assim.

que. ouvia Uma outra voz Com que vindo Nos interstícios Do brando encanto Com que o teu canto Vinha até nós.Cessa o teu canto! Cessa o teu canto! Cessa. Faz-me chorar. Se agora a lembro. 33 . E a melodia Que não havia. enquanto O ouvi. Ouvi-te e ouvi-a No mesmo tempo E diferentes Juntas cantar.

Lá para o Norte é melhor: Há a neve que faz mal. Quando o corpo me arrefece Tenho o frio e Natal não.Chove. Deixo sentir a quem quadra E o Natal a quem o fez. E toda a gente é contente Porque é dia de o ficar. É dia de Natal. Pois se escrevo ainda outra quadra Fico gelado dos pés. Pois apesar de ser esse O Natal da convenção. É dia de Natal Chove. Antes isso que nevar. Chove no Natal presente. E o frio que ainda é pior. 34 .

. Chove. se esquece. O céu dorme. Nada apetece. Nada em mim sente.. Há silêncio.. Como uma coisa certa que nos minta. Chove longínqua e indistintamente. porque a mesma chuva Chove... Tão calma é a chuva que se solta no ar (Nem parece de nuvens) que parece Que não é chuva. Chove. o sentimento é cego. Não paira vento.Chove. porque a mesma chuva Não faz ruído senão com sossego. Como um grande desejo que nos mente. 35 . não há céu que eu sinta. ao sussurrar. Quando a alma é viúva Do que não sabe. Chove.. Há silêncio. Meu ser (quem sou) renego. mas um sussurrar Que de si mesmo. Chove.

e os derradeiros Tons do poente segredam nas arcadas. Meu ser é a invisível curva Traçada pelo som do vento... Os céus da tua face.. e não posso.. E a luz e a sua alegria Cai aos meus pés como um disfarce..Chove ? Nenhuma chuva cai. alguém dentro de mim ouve A chuva.. E a cor do outono é um funeral de apelos Pela estrada da minha dissonância. 36 . Como se a hora me estorvasse.. Ah. No claustro seqüestrando a lucidez Um espasmo apagado em ódio à ânsia Põe dias de ilhas vistas do convés No meu cansaço perdido entre os gelos.. chamar-te meu... Ó céu azul. como a voz de um fim.. E eis que ante o sol e o azul do dia.. na minha alma sempre chove. E o escuro ruído da chuva É constante em meu pensamento. Se escuro. Há sempre escuro dentro de mim.. Chove? Nenhuma chuva cai... ó claro céu ? Eu quero sorrir-te. Eu sofro.. Então onde é que eu sinto um dia Em que ruído da chuva atrai A minha inútil agonia ? Onde é que chove. que eu o ouço ? Onde é que é triste.

E há um frio sem vento Que se ouve e mal se sente. Numa menor negrura Da sua noite escura.Começa a ir ser dia Começa a ir ser dia. Na noite que se perde. Que é isto que a minha alma sente ? Nem isto. Mas eu. em vão. Não sinto noite ou frio. Só sinto o indefinido Do coração vazio. Em vão. não. Em vão o dia chega Quem não dorme. O céu negro começa. 37 . Que quando vive nega E quando ama não tem. A Ter uma cor fria Onde a negrura cessa. a quem Não tem que ter razão Dentro do coração. o mal-dormido. Nem sinto vir o dia Da solidão vazia. e o céu Azula-se de verde Acinzentadamente. nem eu. Um negro azul-cinzento Emerge vagamente De onde o oriente dorme Seu tardo sono informe.

... Que é feito de tudo ? Que fiz eu de mim? Deixa-me dormir.. minha ama.. 38 . Senta-te. Era uma princesa Que amou. Hoje nada existe.. Aqui ao pé da cama Canta-me.. Uma canção triste. Como estou esquecido! Canta-me ao ouvido E adormecerei.. Já não sei.. ama. perto Do leito onde esperto.. Amei tanta coisa. Vem p’r’ao pé de mim. Dormir a sorrir E seja isto o fim...Como a noite é longa! Como a noite é longa! Toda a noite é assim.

Sonhos de mágoa figura Só para Ter que sentir E assim não tem a amargura Que se temeu a fingir. Ficção num palco sem tábuas Vestida de papel seda Mima uma dança de mágoas Para que nada suceda.Como inútil taça cheia Como inútil taça cheia Que ninguém ergue da mesa. Transborda de dor alheia Meu coração sem tristeza. 39 .

O mistério silente como os mares. Apareceu já sem disfarce De música longínqua...Como uma voz de fonte que cessasse Como uma voz de fonte que cessasse (E uns para os outros nossos vãos olhares Se admiraram). grande lago mudo.. E Deus. 40 . a voz que do meu tédio nasce Parou. p’ra além dos meus palmares De sonho. asas nos ares. a Grande Ogiva ao fim de tudo. O mundo... silêncio a que a hora assiste... E. perto ou longe... A paisagem longínqua só existe Para haver nela um silêncio em descida P’ra o mistério. Quando morreu o vento e a calma pasce.. o informe mundo onde há a vida.

tentado. e encontra hera. E. 41 . Deixasse o caminho errado Por o que à Princesa vem. E. E falso. inda tonto do que houvera. Mas cada um cumpre o Destino — Ela dormindo encantada. que viria De além do muro da estrada. A Princesa Adormecida. dormindo espera. E. esforçado. Sem saber que intuito tem. Ela para ele é ninguém. Ele buscando-a sem tino Pelo processo divino Que faz existir a estrada. Ã cabeça. em maresia. ele vem seguro. Chega onde em sono ela mora. vencendo estrada e muro. já libertado. Antes que. Ele dela é ignorado. Se espera. Longe o Infante. Verde. uma grinalda de hera. Vencer o mal e o bem. E vê que ele mesmo era A Princesa que dormia. Sonha em morte a sua vida.Conta a lenda que dormia Conta a lenda que dormia Uma Princesa encantada A quem só despertaria Um Infante. Ergue a mão. E orna-lhe a fronte esquecida. Ele tinha que. se bem que seja obscuro Tudo pela estrada fora. Rompe o caminho fadado.

Não sinto a brisa mexê-lo Não sei se sou feliz Nem se desejo sê-lo.Contemplo o lago mudo Contemplo o lago mudo Que uma brisa estremece. Trêmulos vincos risonhos Na água adormecida. Não sei se penso em tudo Ou se tudo me esquece. Por que fiz eu dos sonhos A minha única vida? 42 . O lago nada me diz.

Mas triste é o que estou. E quanto em mim desejo Está parado ante o muro. Sinto árvores além. é quase escuro.Contemplo o que não vejo Contemplo o que não vejo. Confunde-se o que existe Com o que durmo e sou. No que há e no que penso. Há folhas em vaivém. É tarde. Tudo é do outro lado. Por cima o céu é grande. Nem há ramo agitado Que o céu não seja imenso. 43 . Embora o vento abrande. Não sinto. não sou triste.

Faz bem só pensar em ver Seu corpo meio maduro.Dá a surpresa de ser Dá a surpresa de ser. Apetece como um barco. Tem qualquer coisa de gomo. quando é que eu como ? 44 . É alta. E a mão do seu braço branco Assenta em palmo espalhado Sobre a saliência do flanco Do seu relevo tapado. de um louro escuro. quando é que eu embarco? Ó fome. Meu Deus. Seus seios altos parecem (Se ela tivesse deitada) Dois montinhos que amanhecem Sem Ter que haver madrugada.

45 . Além-Deus! Além-Deus! Negra calma. Clarão do Desconhecido. Sem ter Eu nem Ali. Tudo tem outro sentido..... Visão que se não pode ver. Vácuo além do profundo.. Vácuo sem si-próprio.Da minha idéia do mundo Da minha idéia do mundo Caí...... ó alma...... Mesmo o ter-um-sentido.. caos De ser pensado como ser. Escada absoluta sem degraus.

Um pouco de alto medito A névoa só com a ver. A crença? Não sei viver. Faz cair seu ser de trapo Sobre os contornos macios. E com braços de farrapo Quase invisíveis e frios. 46 .De onde é quase o horizonte De onde é quase o horizonte Sobe uma névoa ligeira E afaga o pequeno monte Que pára na dianteira. A vida? Não acredito.

Não os meus tristes passos. E assim a hora passa Metafisicamente.De quem é o olhar De quem é o olhar Que espreita por meus olhos ? Quando penso que vejo. Espaço misterioso Entre espaços desertos Cujo sentido é nulo E sem ser nada a nada. Mas a realidade De eu ter passos comigo ? Às vezes. Quem continua vendo Enquanto estou pensando ? Por que caminhos seguem. Se acenderem as velas E não houver apenas A vaga luz de fora — Não sei que candeeiro Aceso onde na rua — Terei foscos desejos De nunca haver mais nada No Universo e na Vida De que o obscuro momento Que é minha vida agora! Um momento afluente Dum rio sempre a ir Esquecer-se de ser. Toma um outro sentido Em mim o Universo — É uma nódoa esbatida De eu ser consciente sobre Minha idéia das coisas. quando eu Por mim próprio mesmo Em alma mal existo. 47 . na penumbra Do meu quarto.

48 . A maresia dos dias.. Eu sofro sem pena a vida.. E sobe até mim.Ditosos a quem acena MARINHA Ditosos a quem acena Um lenço de despedida! São felizes : têm pena. No cais de onde nunca parto. Órfão de um sonho suspenso Pela maré a vazar. E a dor é já de pensar. já farto De improfícuas agonias. Dôo-me até onde penso...

Dizem que finjo ou minto Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Não uso o coração. sinta quem lê! 49 . Essa coisa é que é linda. Por isso escrevo em meio Do que não está ao pé. Sentir. É como que um terraço Sobre outra coisa ainda. Sério do que não é. Livre do meu enleio. O que me falha ou finda. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Tudo o que sonho ou passo.

50 .Dizem? Dizem? Esquecem. Por quê Esperar ? Tudo é Sonhar. Não dizem ? Disseram. Fazem? Fatal. Não fazem? Igual.

51 .Dobre Peguei no meu coração E pu-lo na minha mão Olhei-o como quem olha Grãos de areia ou uma folha. Olhei-o pávido e absorto Como quem sabe estar morto. Com a alma só comovida Do sonho e pouco da vida.

Nem quero ter nos braços Meu sonho do teu ser. Os meus desejos são cansaços. 52 . dorme.. Deixa-me sonhar. A tua carne calma É fria em meu querer.Dorme enquanto eu velo. Vaga em teu sorrir... Quero-te para sonho. Dorme enquanto eu velo... Dorme. Sonho-te tão atento Que o sonho é encantamento E eu sonho sem sentir.. Não para te amar.. Nada em mim é risonho.. dorme.

Não há lugar nem dia Para quem quer achar. Achou-a em confusão. que a vida é nada! Dorme. que a vida é nada! Dorme. que tudo é vão! Se alguém achou a estrada. Nem paz nem alegria Para quem. 53 .Dorme. Sem pensar nem querer. Em quem ama confia. Melhor entre onde os ramos Tecem docéis sem ser Ficar como ficamos. Dando o que nunca damos. Com a alma enganada. por amar.

. No teu olhar eu leio Um lúbrico vagar. No teu olhar eu leio O íntimo torpor De quem conhece o nada-ser De vida e gozo e dor. e. Saibas do coração sorrir Sorrisos de esquecer. Sem mágoa nem amor. Dorme. Dorme no sonho de existir E na ilusão de amar. e tudo Um sonho finge ser. Dorme sobre o meu seio. Sonhando de sonhar. 54 . ao adormecer. Tudo é nada... O ‘spaço negro é mudo..Dorme sobre o meu seio Dorme sobre o meu seio.

Sem ninguém que o conte. Cavaleiro monge. Cavalo de sombra. 55 . Da montanha ao monte. Caminhais secretos. Por Quinta e por fonte. Cavaleiro monge. Do vale à montanha. por prados. Do vale à montanha.Do vale à montanha Do vale à montanha. Caminhais em mim. Atrás e defronte. Por penhascos pretos. Da montanha ao monte. Por quanto é sem fim. Cavaleiro monge. Pr casas. Cavalo de sombra. cavalo de sombra. Caminhais aliados. Da montanha ao monte.

ao despertar não sei Que coisas eu sonhei. pois que despertei Para o que inda não sei. Durmo. 56 . desperto Para um espaço aberto Que não conheço.Durmo. Melhor é nem sonhar nem não sonhar E nunca despertar. Se sonho. Se sonho. ao despertar não sei Durmo. Se durmo sem sonhar.

Assim fosse meu pensamento! Assim fosse eu. tudo é isto! 57 . E tudo é isto.É brando o dia. brando o vento É brando o dia.. o mundo é quanto nós trazemos. Há porque vemos.. brando o vento É brando o sol e brando o céu. Existe tudo porque existo. Ser eu assim ser eu assim! Ah. assim fosse eu! Mas entre mim e as brandas glórias Deste céu limpo e este ar sem mim Intervêm sonhos e memórias.

E há curvas no enredo suave Do som que ela tem a cantar. canta sem razão! O que em mim sente ‘stá pensando. e ceifa. Na sua voz há o campo e a lida. canta. passai! 58 . Canta. Ondula como um canto de ave No ar limpo como um limiar. pobre ceifeira. cheia De alegre e anônima viuvez. E canta como se tivesse Mais razões pra cantar que a vida. E a consciência disso! Ó céu! Ó campo! Ó canção! A ciência Pesa tanto e a vida é tão breve! Entrai por mim dentro! Tornai Minha alma a vossa sombra leve! Depois. e a sua voz. Ouvi-la alegra e entristece. Derrama no meu coração a tua incerta voz ondeando! Ah. Julgando-se feliz talvez. Ah. sendo eu! Ter a tua alegre inconsciência. pobre ceifeira Ela canta. levando-me. poder ser tu.Ela canta.

Seu vulto perde-se na escuridão..Ela ia. “Em longes terras hás de ser rainha Um dia lhe disseram.. tranqüila pastorinha Ela ia. Pela estrada da minha imperfeição. mas só pastora _ Só sempre a mesma pastorinha a ir. O seu rebanho. Só sua sombra ante meus pés caminha. mas em vão.... tranqüila pastorinha. esse indistinto Abismo entre o meu sonho e o meu porvir. Segui-a. E eu serei teu regresso. rainha não.... a saudade minha. E em terras longe do que eu hoje sinto Serás. Deus te dê lírios em vez desta hora.. como um gesto de perdão. 59 ..

em rodas. Ora uma brisa que treme Sua leveza solene. 60 .... Passam e agitam a brisa.. Chora no som dos repuxos O ritmo que há nos seus vultos. Seu vulto feito de todas. a rarear.. Pálido pálio lunar .. dançar Com perfumes soltos Entre os canteiros e os buxos.. No jardim lívido e frio. Pálida.. as rosas Nadas da hora lunar. Pálidas sombras. Vêm... Sob o.. a fio... Passam nos ritmos da sombra.. delindo Seu perfil único e lindo. Como um fumo indo. Pelo ar longínquo e vazio.. a pompa indecisa Da sua flébil demora Paira em auréola à hora. disperso pelo ar... Passam sozinhas. Nas alamedas.Elas são vaporosas MINUETE INVISÍVEL Elas são vaporosas. E assim vão indo.. aéreas. Ora é uma folha que tomba.

que perturba a vista. dolorido epicurista. Achando-a intérmina. o céu talvez o tenha. O mar tem fim. Os versos teus.Em Busca da Beleza Soam vãos. Mas vi depressa. que a minha dor despreza. a chorar perdemos. Já tive a alma sem descrença presa Desse teu sonho. já sem a alma acesa. Da Perfeição segui em vã conquista. Que a própria idéia em nós dessa beleza Um infinito de nós mesmos dista. Nem à nossa alma definir podemos A Perfeição em cuja estrada a vida. 61 . Mas não a ânsia da Coisa indefinida Que o ser indefinida faz tamanha.

brandas. As vindas vendo das varandas. E há nevoentos desencantos Dos encantos dos pensamentos Nos santos lentos dos recantos Dos bentos cantos dos conventos.Em horas inda louras. De onde ouvem vir a rir as vindas Fitam a fio as frias bandas... Brincam no tempo das berlindas. lentos. lindas Clorindas e Belindas. tantos Que encantam os atentos ventos.. 62 . Mas em torno à tarde se entorna A atordoar o ar que arde Que a eterna tarde já não torna! E o tom de atoarda todo o alarde Do adornado ardor transtorna No ar de torpor da tarda tarde. lindas Em horas inda louras. Prantos de intentos.

Não sei se existe o Rei que me mandou. Eu cumpro informes instruções de além... 63 .. Meu orgulho o deserto em que em mim estou. E as bruscas frases que aos meus lábios vêm Soam-me a um outro e anômalo sentido. Já viram Deus as minhas sensações. Inconscientemente me divido Entre mim e a missão que o meu ser tem.. Mas há! Eu sinto-me altas tradições De antes de tempo e espaço e vida e ser...Emissário de um rei desconhecido Emissário de um rei desconhecido.. Minha missão será eu a esquecer.. E a glória do meu Rei dá-me desdém Por este humano povo entre quem lido...

Vê que. Será que a mente. pela janela aberta. Desce ao meu próprio coração. Há uma paisagem toda incerta E um sonho todo a apetecer ? 64 .Em plena vida e violência Em plena vida e violência De desejo e ambição. já desperta Da noção falsa de viver. De repente uma sonolência Cai sobre a minha ausência.

Deus é a sua sombra. Turbilhão de Ignorado.. II/ PASSOU Passou. Fico sem poder ligar Ser... O Universo é o seu rasto.Além-Deus Abismo Passou A Voz de Deus A Queda Braço sem Corpo Brandindo um Gládio I/ ABISMO OLHO O TEJO. Vácuo. e de tal arte Que me esquece olhar olhando. e de Passando. o lugar. o momento. De Porquê... E súbito encontro Deus. Vasto por fora do Vasto Sem ser.. Tudo de repente é oco — Mesmo o meu estar a pensar. E do pensar se me some. que a si se assombra. à terra e aos céus...... Perde tudo o ser. 65 . Sem ter turbilhonado. Tudo — eu e o mundo em redor — Fica mais que exterior. e correr? O que é está-lo eu a ver? Sinto de repente pouco.. idéia. ficar. fora de Quando.. E súbito isto me bate De encontro ao devaneando — O que é ser-rio. alma de nome A mim..

caos De ser pensado como ser... Mesmo o ter-um-sentido. Oh.. V/ BRAÇO SEM CORPO BRANDINDO UM GLÁDIO (Entre a árvore e o vê-la) Entre a árvore e o vê-la Onde está o sonho? Que arco da ponte mais vela Deus?.. Vácuo sem si-próprio. que me guia! Cinzas de idéia e de nome Em mim. Vácuo além de profundo. o horror da alegria Deste pavor. 66 ....... Mero eco de mim. Sem ter Eu nem Ali.III/ A VOZ DE DEUS Brilha uma voz na noute.. Visão que se não pode ver. E eu fico tristonho Por não saber se a curva da ponte É a curva do horizonte. Tudo tem outro sentido. me inundo De ondas de negro lume Em que para Deus me afundo. Sermente em ti eu sou-me. do archote Se apagar... Além-Deus! Além-Deus! Negra calma..... Clarão de Desconhecido.. IV/ A QUEDA Da minha idéia do mundo Caí.... Escada absoluta sem degraus. e a voz: Ó mundo..... eu sou-te.. ó alma. De dentro de Fora ouvi-a.. Ó Universo..

E o pombal elevado Está em torno na pomba.Entre o que vive e a vida Pra que lado corre o rio? Árvore de folhas vestida — Entre isso e Árvore há fio? Pombas voando — o pombal Está-lhes sempre à direita.... Mas entre quê e quê?. Entre o que digo e o que calo Existo? Quem é que me vê? Erro-me.. ou é real? Deus é um grande Intervalo. ou de lado? [1913?] 67 .

Entre o bater rasgado dos pendões
Entre o bater rasgado dos pendões E o cessar dos clarins na tarde alheia, A derrota ficou : como uma cheia Do mal cobriu os vagos batalhões. Foi em vão que o Rei louco os seus varões Trouxe ao prolixo prélio, sem idéia. Água que mão infiel verteu na areia — Tudo morreu, sem rastro e sem razões. A noite cobre o campo, que o Destino Com a morte tornou abandonado. Cessou, com cessar tudo, o desatino. Só no luar que nasce os pendões rotos ’Strelam no absurdo campo desolado Uma derrota heráldica de ignotos.

68

Entre o luar e a folhagem
Entre o luar e a folhagem, Entre o sossego e o arvoredo, Entre o ser noite e haver aragem Passa um segredo. Segue-o minha alma na passagem. Tênue lembrança ou saudade, Princípio ou fim do que não foi, Não tem lugar, não tem verdade. Atrai e dói. Segue-o meu ser em liberdade. Vazio encanto ébrio de si, Tristeza ou alegria o traz ? O que sou dele a quem sorri ? Nada é nem faz. Só de segui-lo me perdi.

69

Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim É o quem eu me suponho Corre um rio sem fim. Passou por outras margens, Diversas mais além, Naquelas várias viagens Que todo o rio tem. Chegou onde hoje habito A casa que hoje sou. Passa, se eu me medito; Se desperto, passou. E quem me sinto e morre No que me liga a mim Dorme onde o rio corre — Esse rio sem fim.

70

que as verdades que vos foram dadas no Grau de Neófito. a mesma verdade. Sem saber que intuito tem.. Chega onde em sono ela mora.. Ele buscando-a sem tino Pelo processo divino Que faz existir a estrada. dormindo espera. Vencer o mal e o bem. Ele dela é ignorado.Eros e Psique . ainda que opostas. E falso. Ele tinha que.E assim vêdes. que viria De além do muro da estrada. Rompe o caminho fadado. são. Se espera. meu Irmão. (Do Ritual Do Grau De Mestre Do Átrio Na Ordem Templária De Portugal) Conta a lenda que dormia Uma Princesa encantada A quem só despertaria Um Infante. Deixasse o caminho errado Por o que à Princesa vem. Sonha em morte a sua vida. se bem que seja obscuro Tudo pela estrada fora. tentado. Mas cada um cumpre o Destino Ela dormindo encantada. E vencendo estrada e muro. Verde. uma grinalda de hera. 71 . esforçado. E orna-lhe a fronte esquecida. E. Antes que. já libertado. Ela para ele é ninguém. A Princesa Adormecida. ele vem seguro. e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor. Longe o Infante.

os 41-42. Ergue a mão. n. eu não citaria o trecho do Ritual. Acerca da epígrafe que encabeça este poema diz o próprio autor a uma interrogação levantada pelo crítico A. em carta a este último: A citação. de um trecho (traduzido. À cabeça. Se não estivesse em dormência.] 72 . indica simplesmente — o que é fato — que me foi permitido folhear os Rituais dos três primeiros graus dessa Ordem. em maresia. Casais Monteiro. e encontra hera. Coimbra.E. inda tonto do que houvera. E vê que ele mesmo era A Princesa que dormia. maio de 1934. ou em dormência desde cerca de 1888. pois o Ritual é em latim) do Ritual do Terceiro Grau da Ordem Templária de Portugal. extinta. pois se não devem citar (indicando a origem) trechos de Rituais que estão em trabalho [In VO/II. epígrafe ao meu poema “Eros e Psique”. Publicado pela primeira vez in Presença.

. Hóstia de assombro a alma. No claustro seqüestrando a lucidez Um espasmo apagado em ódio à ânsia Põe dias de ilhas vistas do convés No meu cansaço perdido entre os gelos E a cor do outono é um funeral de apelos Pela estrada da minha dissonância.Esqueço-me das horas transviadas PASSOS DA CRUZ Esqueço-me das horas transviadas o Outono mora mágoas nos outeiros E põe um roxo vago nos ribeiros.. fadas De sepulcros a orgíaco... e toda estradas. Trigueiros Os céus da tua face. e os derradeiros Tons do poente segredam nas arcadas.. 73 ... Aconteceu-me esta paisagem....

sempre haverá Sol ou sombra na cidade. Mas em mim não sei o que há 74 . Não me traz felicidade.Esta espécie de loucura Esta espécie de loucura Que é pouco chamar talento E que brilha em mim. enfim. na escura Confusão do pensamento. Porque.

75 .

E no exterior azul que vê Simples confia! Azul do céu faz pena a quem Não pode ser Na alma um azul do céu também Com que viver Ah. e se o verde com que estão Os montes quedos Pudesse haver no coração E em seus segredos! Mas vejo quem devia estar Igual do dia Insciente e sem querer passar. a ironia De só sentir a terra e o céu Tão belo ser Quem de si sente que perdeu A alma p’ra os ter! 76 .Feliz dia para quem é Feliz dia para quem é O igual do dia. Ah.

Só nunca mais. te vi Onde não sou senão a terra e o céu.Flor que não dura Flor que não dura Mais do que a sombra dum momento Tua frescura Persiste no meu pensamento. 77 . ó flor. Não te perdi No que sou eu.

um pouco. A tua mão E a retiraste. Mas lembro E sinto ainda Qualquer memória Fixa e corpórea Onde pousaste A mão que teve Qualquer sentido Incompreendido. No coração. Não houve um ritmo Novo no espaço ? Como se tu. Mas tão de leve!. Senti ou não ? Não sei. Num movimento Mais de cansaço Que pensamento.. 78 ... Mas numa estrada Como é a vida Há muita coisa Incompreendida.. Sei eu se quando A tua mão Senti pousando ‘Sobre o meu braço. Súbito e etéreo. Tudo isto é nada.Foi um momento Foi um momento O em que pousaste Sobre o meu braço. Sem o querer. E um pouco. Em mim tocasses Para dizer Qualquer mistério.

Assim a brisa Nos ramos diz Sem o saber Uma imprecisa Coisa feliz. 79 .Que nem soubesses Que tinha ser.

. e .. 80 . Fada maliciosa ou incerto gnomo Fadado houvesse de não pertencer Meu intuito gloríola com Ter A árvore do meu uso o único pomo. Morrendo entre bandeiras desfraldadas Na última tarde de um império em chamas. não sei onde ou como Fosse eu apenas. de alma em outras gamas.Fosse eu apenas. num crepúsculo de espadas. Fosse eu uma metáfora somente Escrita nalgum livro insubsistente Dum poeta antigo.. Uma coisa existente sem viver.. Noite de Vida sem amanhecer Entre as sirtes do meu dourado assomo... Mas doente. não sei onde ou como..

conheço. E tudo é névoas e muros Quanto a vida dá ou tem. Entrego-lhe o coração. Vejo o longínquo horizonte Cheio de sol posto ou nado Revivo. erguendo a fronte De onde em mim sou aterrado. existo. Nada mais quero nem peço.Fresta Em meus momentos escuros Em que em mim não há ninguém. ainda que seja ilusão O exterior em que me esqueço. Se. um instante. E. 81 .

82 . Parece que a alma tem Treva onde sopre a crescer Uma loucura que vem De querer compreender.Fúria nas trevas o vento Fúria nas trevas o vento Num grande som de alongar. Estou preso ao meu pensamento Como o vento preso ao ar. Raiva nas trevas o vento Sem se poder libertar. Não há no meu pensamento Senão não poder parar.

E só a vida me deixou por dor ? Quem. entre o incêndio da alma em que o ser periga.. Negando o fruto e emurchecendo a flor ? Ninguém ou o Fado.. Quem me dispôs para o que não pudesse ? Quem me fadou para o que não conheço Na teia do real que ninguém tece ? Quem me arrancou ao sonho que me odiava E me deu só a vida em que me esqueço.Glosa Quem me roubou a minha dor antiga. “Onde a minha saudade a cor se trava ?” 83 . Me deixou só no fogo e no torpor ? Quem fez a fantasia minha amiga. e a fantasia siga A seu infiel e irreal sabor.

Apolo em seu regaço A Saturno entregou. a solidão.Gomes Leal Sangra. álgida e ignota. Este. Oito luas fatais fitam no espaço. a alguns o astro baço. A plúmbea mão Lhe ergueu ao alto o aflito coração. Seus três anéis irreversíveis são A desgraça. sangrando lasso. poeta. Inúteis oito luas da loucura Quando a cintura tríplice denota Solidão e desgraça e amargura! Mas da noite sem fim um rastro brota. sinistro. o apertou. E. a tristeza. 84 . Vestígios de maligna formosura : É a lua além de Deus. erguido.

E à minha alma é cataclismo O limiar onde está. Hesito se sondo e cismo. 85 .Grandes mistérios habitam O limiar do meu ser. Porque o limiar é medonho E todo passo é uma cruz. Então desperto do sonho E sou alegre da luz. Inda que em dia tristonho. São aves cheias de abismo. O limiar onde hesitam Grandes pássaros que fitam Meu transpor tardo de os ver. Como nos sonhos as há.

fora eu bendito» ? Como olhar. Não sei. Pensar um descaminho. Se ver é enganar-me. vejo. Deu-me olhos para ver. Deus os quis dar-me Por verdade e caminho. acredito. a razão Deus me deu. 86 . Tivesse quem criou O mundo desejado Que eu fosse outro que sou. Não me deram mais guia. Alumia-me em vão ? Só ela me alumia. Como ousarei dizer: «Cego. Ter-me-ia outro criado. Olho.Guia-me a só a razão Guia-me a só a razão. para ver Para além da visão — Olhar de conhecer.

E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça. Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso. Soa o canto do coro. Súbito vento sacode em esplendor maior A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe Com o som de rodas de automóvel.. E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro ........ O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar.... 87 . latino e vento a sacudir-me a vidraça E sente-se chiar a água no fato de haver coro... A missa é um automóvel que passa Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste .Ilumina-se a Igreja por Dentro da Chuva Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia.. E apagam-se as luzes da igreja Na chuva que cessa .

Quem te disse tão cedo? Não fui eu. seria? Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei? Foi só qualquer ciúme meu de ti Que o supôs dito. imerecida e louca — A que as deusas esperam da ledice Com que o Olimpo se apouca. porque não sabia. Não foi um outro. Te falou desse amor em mim presente Mas que não passa do meu pensamento Que anseia e que não sente? Foi um desejo que. Que o supôs feito. A teus ouvidos de eu sonhar-te disse A frase eterna. 88 . sem corpo ou boca.Intervalo Quem te disse ao ouvido esse segredo Que raras deusas têm escutado — Aquele amor cheio de crença e medo Que é verdadeiro só se é segredado?. que te não ousei dizê-lo.. Mas quem roçou da testa teu cabelo E te disse ao ouvido o que sentia? Seria alguém. porque o não direi. porque o só fingi Em sonhos que nem sei? Seja o que for. quem foi que levemente. A teu ouvido vagamente atento..

Não uso o coração.Isto Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Sério do que não é. Por isso escrevo em meio Do que não está ao pé. Sentir? Sinta quem lê! 89 . Essa coisa é que é linda. Tudo o que sonho ou passo. Livre do meu enleio. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Não. O que me falha ou finda. É como que um terraço Sobre outra coisa ainda.

Esperar por D. Quanto é melhor. essa.Sebastião. Mais que isto É Jesus Cristo. Estudar é uma coisa em que está indistinta A distinção entre nada e coisa nenhuma.. bem ou mal.. Sol doira Sem literatura O rio corre. Ter um livro para ler E não fazer! Ler é maçada.Liberdade Ai que prazer Não cumprir um dever. 90 .. Flores. Como o tempo não tem pressa. que peca Só quando. Mas o melhor do mundo são as crianças. seca. música. De tão naturalmente matinal. a bondade e as danças. Sem edição original. Que não sabia nada de finanças Nem consta que tivesse biblioteca. Livros são papéis pintados com tinta. em vez de criar... Quer venha ou não! Grande é a poesia.. o luar. E a brisa. Estudar é nada. quanto há bruma. e o sol.

.... Não digas nada Deixa esquecer Talvez que amanhã Em outra paisagem Digas que foi vã Toda essa viagem Até onde quis Ser quem me agrada.Não digas nada! Não digas nada! Nem mesmo a verdade Há tanta suavidade em nada se dizer E tudo se entender — Tudo metade De sentir e de ver. Mas ali fui feliz Não digas nada. 91 .

92 . És melhor do que tu. O que és não vem à flor Das frases e dos dias.Não: não digas nada! Não: não digas nada! Supor o que dirá A tua boca velada É ouvi-lo já É ouvi-lo melhor Do que o dirias. Não digas nada: sê! Graça do corpo nu Que invisível se vê.

Sou mais velho do que sou. Horas. Impaciente deixei-me Como a um louco que teime No que lhe foi desmentido. Gulosas da margem ida. quanto do meu passado Foi só a vida mentida De um futuro imaginado! Aqui à beira do rio Sossego sem ter razão. Gastei tudo que não tinha. Que lembranças sonolentas De esperanças nevoentas! Que sonhos o sonho e a vida! Que fiz de mim? Encontrei-me Quando estava já perdido. Este seu correr vazio Figura. tão leves Que não sois ondas sequer. anônimo e frio. Ondas do rio. e o reino acabou. anos. dias. A vida vivida em vão. Rola mais que o meu desejo. breves Passam — verduras ou neves Que o mesmo sol faz morrer. Só no palco era rainha: Despiu-se. que me mantinha. Leve som das águas lentas. A ‘sp’rança que pouco alcança! Que desejo vale o ensejo? E uma bola de criança Sobre mais que minha ‘s’prança.O Andaime O tempo que eu hei sonhado Quantos anos foi de vida! Ah. A ilusão. 93 .

94 . Que cerquei com um andaime A casa por fabricar.Som morto das águas mansas Que correm por ter que ser. porque hão de morrer. Só um sonho me liga a mim — O sonho atrasado e obscuro Do que eu devera ser — muro Do meu deserto jardim. Leva não só lembranças — Mortas. Ondas passadas. levai-me Para o alvido do mar! Ao que não serei legai-me. Sou já o morto futuro.

Donde há árvores e entre os ramos ao pé da copa Com orquestras a tocar música. uma bola que tinha dum lado O deslizar dum cão verde. jockey amarelo tornando-se preto. E dum lado para o outro.... Todo o teatro é um muro branco de música Por onde um cão verde corre atrás de minha saudade Da minha infância. (Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos. E o muro do quintal é feito de gestos De batuta e rotações confusas de cães verdes E cavalos azuis e jockeys amarelos .. e eis na minha infância De repente entre mim e o maestro. E a música atira com bolas À minha infância. cavalo azul com um jockey amarelo. da direita para a esquerda..... aquele dia Em que eu brincava ao pé dum muro de quintal Atirando-lhe com. Vai e vem a bola. Para onde há filas de bolas na loja onde a comprei E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância.O Maestro Sacode a Batuta O maestro sacode a batuta. Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal Vestida de cão verde tornando-se jockey amarelo..) Atiro-a de encontra à minha infância e ela Atravessa o teatro todo que está aos meus pés A brincar com um jockey amarelo. E a música cessa como um muro que desaba.. muro branco. Ora um cavalo azul com um jockey amarelo. A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos.. Prossegue a música.. Lembra-me a minha infância.... a minha infância Está em todos os lugares e a bola vem a tocar música. 95 .. ora um cão verde.. Todo o teatro é o meu quintal... o maestro. E do alto dum cavalo azul. e do outro lado Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo . A lânguida e triste a música rompe . e um cão verde E um cavalo azul que aparece por cima do muro Do meu quintal..

96 .. Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo. pousando a batuta em cima da fuga dum muro.Agradece. com uma bola branca em cima da cabeça. sorrindo. E curva-se..

uma a uma. Caíssem suas folhas Entre o vestígio e a bruma. (Fernando Pessoa. 5-9-1933) 97 ... São as formas sem forma Que passam sem que a dor As possa conhecer Ou as sonhar o amor. São como se a tristeza Fosse árvore e.O que me dói não é O que me dói não é O que há no coração Mas essas coisas lindas Que nunca existirão.

Enche-se de lágrimas Meu olhar parado. Recordo outro ouvir-te. Não sei se te ouvi Nessa minha infância Que me lembra em ti.Pobre velha música! Pobre velha música! Não sei por que agrado. Com que ânsia tão raiva Quero aquele outrora! E eu era feliz? Não sei: Fui-o outrora agora. 98 .

Meu desde onde venho.Põe-me as mãos nos ombros. Minha vida é escombros. Tudo é ilusão. Põe-me as mãos nos ombros... A minha alma insonte. Eu não sei por quê.. E vê tudo estranho. Sou o ser que vê.. Beija-me na fronte. Sonhar é sabê-lo. Põe a tua mão Sobre o meu cabelo.. 99 ....

Não sei quem sou neste momento. Se existo é um erro eu o saber. Sonho. Durmo sentindo-me. Minha alma não tem alma. Fantasmas me limitam e me contêm. Sinto que não sei. Se acordo Parece que erro. Não tenho ser nem lei. 100 . Coração de ninguém. Na hora calma Meu pensamento esquece o pensamento.Sonho. Não sei quem sou. Nada quero nem tenho nem recordo. Dorme insciente de alheios corações. Lapso da consciência entre ilusões.

Sorriso audível das folhas Sorriso audível das folhas Não és mais que a brisa ali Se eu te olho e tu me olhas. Ri e olha de repente Para fins de não olhar Para onde nas folhas sente O som do vento a passar Tudo é vento e disfarçar. de estar olhando Onde não olha. voltou E estamos os dois falando O que se não conversou Isto acaba ou começou? 101 . Quem primeiro é que sorri? O primeiro a sorrir ri. Mas o olhar.

102 . Mas reconheço. ninguém Nos saberá explicar. todos que vivemos. Qual porém é a verdadeira E qual errada. Que não senti afinal.Tenho Tanto Sentimento Tenho tanto sentimento Que é freqüente persuadir-me De que sou sentimental. ao medir-me. E a única vida que temos É essa que é dividida Entre a verdadeira e a errada. Temos. Que tudo isso é pensamento. Uma vida que é vivida E outra vida que é pensada. E vivemos de maneira Que a vida que a gente tem É a que tem que pensar.

Creio que nunca o ouviste De tão tua que és. Olhas-me de repente De um distante impreciso Com um olhar ausente. 103 .. Começas um sorriso. e prossigo.. Teus olhos entristecem Nem ouves o que digo..Teus olhos entristecem. sonham esquecem. Já quase não sorrindo. Não me ouves. Até que neste ocioso Sumir da tarde fútil.. Continuo a falar. de triste. Te disse tanta vez. Dormem. Se esfolha silencioso O teu sorriso inútil. Continuas ouvindo O que estás a pensar. Digo o que já.

.Tomamos a Vila depois de um Intenso Bombardeamento A criança loura Jaz no meio da rua. A cara está um feixe De sangue e de nada. Tem as tripas de fora E por uma corda sua Um comboio que ignora.. E o da criança loura? 104 . Luz um pequeno peixe — Dos que bóiam nas banheiras — À beira da estrada. Longe. ainda uma luz doura A criação do futuro. Cai sobre a estrada o escuro.

105 . no azul amplo solta. O meu passado não volta. Visto da dor com que minto Dor que a minha alma tem. Entra mais na alma da alma. Está para além da saudade. Mas como. em verdade. no azul amplo solta Vaga. E isto lembra uma tristeza E a lembrança é que entristece. A nuvem flutua calma. Vai uma nuvem errando. no céu sem gente. Dou à saudade a riqueza De emoção que a hora tece. O que choro é diferente.Vaga. Não sei o que é nem consinto À alma que o saiba bem. Mas. o que chora Na minha amarga ansiedade Mais alto que a nuvem mora. Não é o que estou chorando.

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->