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2º Ano – 1º Semestre

Biologia Oral

Bruno Costa
Professora Doutora Maria Fernanda Mesquita
ISCSEM
Programa da Disciplina

Tema A – Noções Gerais Sobre a Biologia Oral

• Introdução às células conjuntivas e epiteliais. Matriz extracelular. Função. Dinâmica


metabólica. Lâmina basal.

• Fibroblasto. Modelo biológico para a célula conjuntiva. Secreção de macromoléculas.


Proteoglicanas. Estrutura química. Glucosaminoglicanas. Ácido hialurónico. Síntese.
Função. Associações com outras proteínas. Elastina. Estrutura. Síntese. Função.

• Odontoblasto. Secreção de macromoléculas. Colagénio. Estrutura. Síntese. Secreção


extracelular. Clivagem. Fibrilha de colagénio. Agregação em fibra. Função.

• Proteínas adesivas da matriz extracelular. Fibronectina. Estrutura. Função.


Glicoproteínas. Estrutura. Síntese. Função.

• Degradação dos componentes da matriz extracelular. Receptores da matriz


extracelular. Integrinas. Função.

• Osteoblasto. Osteoclasto. Turnover ósseo.

• Ameloblasto. Biossíntese de proteínas do esmalte. Cimentoblasto.

Tema B – Biologia de Tecidos da Cavidade Oral

• Polpa. Composição celular. Células secretoras da matriz extracelular. Fibroblasto.


Odontoblasto. Metabolismo Celular. Síntese e Turnover das proteínas colagénicas e
não colagénicas. Metabolismo das glicosaminoglicanas na polpa. Variações com a
idade.

• Dentina. Composição orgânica e inorgânica. Colagénio dentinário. Proteínas não


colagénicas. Proteoglicanas. Glicoproteínas. Proteínas contendo ácido gama
carboxiglutâmico.

• Dentinogénese. Odontoblasto. Turnover dentinário.

• Esmalte. Composição e variações relacionadas com a susceptibilidade com a doença.


Matriz amelária. Função biológica da matriz.

• Mineralização da matriz dentinária. Mineralização da matriz amelária.

• Periodonto. Composição. Metabolismo da matriz.

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• Gengiva. Composição. Proteínas não colagénicas. Colagénio. Glicoproteínas de
estrutura. Fibronectina. Proteoglicanas. Enzimas.

• Metabolismo Gengival. Metabolismo Intermediário.

• Glândulas Salivares. Metabolismo.

• Saliva. Componentes inorgânicos da saliva.

• Mecanismos de Secreção Salivar. Controle biológico.

Tema C – Biologia Patológica da Cavidade Oral

• Radicais livres de oxigénio e patologia oral. Produção endógena de radicais livres.


Stress oxidativo. Mecanismos de protecção. Consequências patológicas.
Envelhecimento e pigmentação dentária.

• Placa bacteriana. Definição. Película exógena adquirida. Estrutura. Função.


Adesividade e Coagregação Bacteriana. Importância. Mecanismos (sacarose
dependentes e independentes). Colonização. Espessamento. Maturação. Metabolismo
da placa bacteriana madura. Factores de virulência e de cariogenicidade.

• Cárie Dentária. Definição e importância. Estabelecimento e progressão da lesão


cariosa. Dinâmica dos ciclos de desmineralização e remineralização. Perda de material
inorgânico. Mecanismos. Destruição matricial. Mecanismos. Cárie de esmalte e
dentina.

• Prevenção da cárie dentária. Importância actual. Formas de prevenção e seus níveis de


intervenção. Flúor. Estrutura química. Metabolismo. O flúor na prevenção da cárie
dentária. Mecanismos. Toxicidade do flúor. Efeitos e consequências.

• Periodontias. Definição. Patogénese, progressão e consequências. Fluído gengival.


Formação. Composição orgânica e inorgânica. Função. Tártaro e cálculo-formação.
Periodontopatias e patologia sistémica.

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Tecidos da Cavidade Oral

Tecido Epitelial

O tecido epitelial é um tecido composto por células fortemente justapostas e coesas


(com junções celulares),, que por isso mesmo levam à escassez de substâncias nesses tecidos.
Porém, por ser desprovido de vasos sanguíneos e nervos, é nutrido pelo tecido adjacente
(tecido conjuntivo). Os vasos e nervos chegam somente ao tecido conjuntivo, onde fornecem
os nutrientes
ntes necessários à manutenção de vida nas células. O tecido conjuntivo passa então o
material, por difusão, para o tecido epitelial.

O único tecido epitelial do organismo que produz matriz extracelular é o Esmalte,


matriz essa que desapareceu pela sua mi
mineralização
neralização durante a erupção do dente.
dente

As células epiteliais provêm de 3 folhetos:

• Ectoderme:: pele e cavidades naturais.


• Endoderme:: tubo digestivo e árvore respiratória.
• Mesoderme:: Endotélios vasculares

Quanto às suas funções


funções:

• Revestimento de superfície (pele)


• Revestimento e absorção (intestino)
• Secreção (epitélio glandular)
• Função sensorial (neuroepitélio)

Classificação:
Pavimentoso, Cúbico,
Simples Cilíndrico (ciliado ou ñ
ciliado)

Cilíndrico, Cúbico,
Transição, Pavimentoso
Revestimento Estratificado
(queratinizado/ ñ
queratinizado)

Pseudo-estratificado
Ciliado ou ñ ciliado
Cilíndrico
Tecido Epitelial

Unicelular Células caliciformes

Glandular

Exócrinas, endócrinas
Pluricelular
(cordonal, folicular)

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Epitélio Exemplo de tecido
Pavimentoso Simples Revestimento interno dos vasos, pericárdio
Cúbico Simples Revestimento ovariano
Cilíndrico Simples Revestimento do estômago e intestino
Pavimentoso Estratificado Pele (epiderme), boca e esófago
Cúbico Estratificado Conjuntiva do olho
Cilíndrico Estratificado Epiglote, uretra masculina
Pseudo-estratificado Revestimento da traqueia, fossas nasais e brônquios
Transição Revestimento interno da bexiga e vias urinárias

O epitélio não se encontra directamente apoiado na lâmina própria. Entre ambos existe
uma camada acelular, constituída por proteínas e proteoglicanas, chamada membrana basal.
Essa membrana é permeável aos nutrientes provindo da lâmina própria, permite que o epitélio
seja convenientemente alimentado, servindo-lhe de suporte, promovendo a sua eficiente
fixação no tecido conjuntivo subjacente (lâmina própria).

A Membrana Basal é uma fina camada especializada de materiais da matriz extracelular


que:

• Permite adesão das células epiteliais aos tecidos de suporte e subadjacentes


• Funciona como barreira permeável selectiva
• Controla a organização celular e diferenciação em migração celular, pois organiza as
proteínas de membrana das células induzindo uma polaridade.
• Constituída por fibras reticulares e lâmina basal – formada por colagénio tipo IV,
Glicoproteínas de Estrutura (laminina, entactina) e Sulfato de Heparina.
• Se esta estiver danificada, não há comunicação entre os tecidos e o órgão não
funciona – patologia.

As células têm pólo basal e pólo apical.

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Tecido Conjuntivo

O tecido conjuntivo é cconstituído


onstituído por células separadas por abundante material
intersticial produzido por elas.

Células + Matriz Extracelular

(secretada pelas células e define o tipo de tecido, principalmente fibroblastos).

As células presentes são:

• Fibroblastos
• Macrófago
• Plasmócito
• Célula Adiposa
• Leucócitos
• Célula Mesenquimatosa Indiferenciada

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A Matriz Extracelular é composta por uma parte não estruturada (substância amorfa) e fibras
do conjuntivo (parte definida).

• Substância Amorfa (parte não estruturada)


o Proteoglicanas
o Glicoproteínas de Estrutura (cola que liga as fibras)
o Polissacáridos Hidratados
• Fibras do Conjuntivo (parte definida)
o Colagénicas
o Elásticas
o Reticulares

Formam uma estrutura altamente hidratada em forma de gel (devido aos


polissacáridos). A água permite a difusão de nutrientes, metabolitos e hormonas para o
interior da matriz.

O tecido conjuntivo tem origem mesodérmica e quanto às suas funções temos:

• Armazenamento
o Lípidos
o Água e electrólitos (principalmente no tecido conjuntivo laxo), devido à sua
riqueza em GAGs
o Proteínas (calcula-se que 1/3 das proteínas plasmáticas do organismo estão no
líquido intersticial)
• Defesa
o À custa da viscosidade (ácido hialurónico)
o As células macrófagos, plasmócitos, etc…
o O tecido conjuntivo é responsável pela inflamação
• Reparação
o Tem grande capacidade de regeneração podendo proliferar e preencher os
espaços destruídos
• Transporte
o De substâncias nutritivas dos capilares sanguíneos para os diversos tecidos
o De produtos de refugo do metabolismo celular no sentido inverso

Nos vertebrados as macromoléculas do tecido conjuntivo são organizadas de 3


maneiras diferentes:

1. Formação de tecidos altamente especializados (tendões, cápsulas, lâminas


ricas em colagénio, ligamentos e tendões ricos em elastina, cartilagem rica em
Proteoglicanas e Colagénio, osso e dentina ricos em colagénio mineralizado)
2. Presença destas macromoléculas em tecido parenquimatoso
3. É difuso e intersticial e liga-se aos diferentes tecidos do organismo.

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Classificação

As células secretam todos os componentes da matriz, mas em diferentes proporções,


proporções
dando assim origem a diferentes tipos de tecido conjuntivo (a regulação desta secreção é
obscura).

Laxo

Tecido Conjuntivo
Propriamente Dito Denso
(modelado/não
modelado)

Ósseo

Tecido Conjuntivo
Tecido Conjuntivo de Suporte
Cartilaginoso

Tecido Adiposo

Tecido Elástico

Tecido Conjuntivo
com Propriedades
Especiais Tecido Reticular

Tecido Mucoso

Tecido Sanguíneo

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Fibroblasto

O fibroblasto é a célula mais comum do tecido conjuntivo. Existem dois tipos de


fibroblasto, cuja topologia varia com a idade:

• Fibroblasto jovem – intensa actividade sintética e metabólica (tecidos jovens)


• Fibroblasto maduro – Fibrócito – célula em regressão que pode assumir actividade e
forma de fibroblasto jovem mediante um estímulo adequado (tecidos velhos)

Quanto à sua função, o fibroblasto secreta matriz extracelular.. E a sua evolução vai dar
origem a:

• Célula Muscular
• Condrócito (célula cartilagínea)
• Adipócito (célula de reserva de todas as substâncias lipossolúveis importantes para o
organismo – exemplo da vitamina E)
• Osteoblasto (célula mãe do osso – morre para dar células filhas que amadurecem.
Osso Artificial – a partir do fibroblasto sintetiza
sintetiza-se o osteoblasto).

O ambiente em volta do fibroblasto influencia a sua actividade funcional. Isto é


importante porque a introdução de um material estranho na boca do paciente pode
alterar significativamente o ambiente e consequentemente alterar a função da célula.

Alguns fibroblastos são sensíveis aos estrogénios.

Quanto às suas funções


funções:

• Secreta fibras extracelulares de tecido conjuntivo: colagénio, elastina e oxitalanas


• Sintetizam e mantêm a substância amorfa onde estão as fibras do conjuntivo
• Organizam estruturalmente os tecidos conjuntivos (principalmente na embriogénese,
porque os fibroblasto têm no seu esqueleto proteínas contrácteis que facilitam o seu
movimento e permitem que o fibroblasto participe em processos reparativos)
reparativos
• Mediante determinado estímulo, os fibroblastos degradam as macromoléculas
mac que
produziram produzindo enzimas para o espaço extracelular (metaloproteases e
serinoproteases) e degradam moléculas nos seus lisossomas.

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Colagénio

O colagénio é a proteína fibrosa mais abundante e maior do organismo, constituindo


25% do peso total de proteínas dos vertebrados. Filogeneticamente, é das proteínas mais
antigas, sendo provavelmente a pedra basilar da multicelularidade.

Devido a um processo longo resultou um conjunto de fibras colagénicas, que apesar de


serem idênticas na estrutura base, assumem organizações e funções diferentes como
resultado directo da alteração fenotípica da célula mãe do tecido conjuntivo (fibroblasto).

O Colagénio é secretado por todas as células conjuntivas.

Quanto às suas funções a nível orgânico temos:

• Preenchimento de espaços
• Suporte tencional
• Ancoragem de células (ligação de células à matriz)
• Suporte de mineralização e ossificação de todos os tecidos porque é um importante
depósito de cálcio
• Adjuvante da migração celular na embriogénese

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Biossíntese

1- Síntese da cadeia pró-α


2- Hidroxilação de resíduos de prolina e lisina
3- Glicosilação dos resíduos de hidroxilisina
4- Enrolamento de 3 cadeias pró-α
5- Formação da hélice tripla de pró-colagénio
6- Secreção
7- Clivagem dos pró-péptidos
8- Automontagem em fibrilha de tropocolagénio
9- Agregação das fibrilhas de tropocolagénio de diferentes formas para formar a
molécula de colagénio

1- Síntese da cadeia pró-α


• Inicialmente há transcrição de um gene que codifica para as cadeias α para o mRNA.
Depois há tradução a nível ribossomal para formar uma cadeia alfa polipeptídica – Pré-
pró-α.
• Esta cadeia possui uma sequência sinal que a direcciona para o Retículo
Endoplasmático Rugoso da célula conjuntiva.
• Durante a passagem, o segmento pré é clivado obtendo-se pró-α.

Ao chegar ao RER a cadeia pró-α irá sofrer dois tipos de modificações pós-traducionais.

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2- Hidroxilação dos resíduos de prolina e lisina
• A hidroxilação destes resíduos é muito importante no enrolamento das cadeias.
• A Prolina sofre a acção da enzima Propil Hidroxilase (PH) (reacção de hidroxilação) que
tem ferro no seu centro activo. A PH cliva o oxigénio molecular incorporando um
átomo na Prolina e outro no Succinato obtido por descarboxilação do α-cetoglutarato,
que funciona como co-substrato da reacção.
• Esta enzima (PH) precisa de um co-factor, o Ácido Ascórbico (vitamina C), para manter
permanentemente o ferro reduzido no seu centro activo. Na carência da actividade
desta enzima há escorbuto. A PH é uma enzima-chave sendo inibida pelos
costicosteróides.
• A Lisina sofre a acção da Lisil Hidroxilase que funciona de forma semelhante à PH com
os mesmos co-factores e co-substratos.

3- Glicosilação dos resíduos de hidroxilisina


• A glicosilação ocorre antes do enrolamento das três cadeias e em grau variável
conforme o tipo de colagénio.
• Esta glicosilação ocorre nos resíduos de hidroxilisina presentes no Pró-α, em que
radicais osídicos glucose e galactose são incorporados sequencialmente por uma
Galactosil e uma Glicosil Transferase (enzimas específicas para este tipo de resíduos).
• O grau de glicosilação define o tipo de colagénio.

4- e 5- Enrolamento das 3 cadeias pró-α e Formação da hélice tripla de pró-


colagénio
• Após estas modificações, as cadeias pró-α enrolam-se 3 a 3, formando uma tripla
hélice de Pró-Colagénio.
• Nas extremidades C e N de cada cadeia existem extensões peptídicas.
• Estas extensões (pró-péptidos) não têm, ao nível da estrutura primária, o motivo Gly-
X-Y e são ricas em aminoácidos sulfatados (importantes nas ligações e pontes
bissulfito).
• Na extremidade C terminal estabelecem-se pontes bissulfito entre as cadeias,
facilitando o seu alinhamento favorecendo o enrolamento e formação da tripla hélice.
• As extensões peptídicas são também importantes, pois impedem a formação
extemporânea e intracelular do tropocolagénio, com a sua consequente agregação
macromolecular, o que teria consequências catastróficas para a célula conjuntiva.

6- e 7- Secreção e Clivagem de Pró-péptidos


• A tripla hélice de pró-colagénio é incorporada em vesículas transportadoras até ao
Aparelho de Golgi e neste são incorporadas em vesículas de secreção que são lançadas
no meio extracelular.

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• Ai, há clivagem dos pró-péptidos terminais por pró-colagénio peptidases específicas,
formando uma molécula de Tropocolagénio constituída por 3 cadeias α estabilizando-
a.
• Uma vez formado, este tende a agregar-se imediatamente a outras moléculas de
Tropocolagénio de forma variável, originando assim colagénios com características
diferentes.

Fibras de Colagénio – Estrutura típica do colagénio em que este não se dissolve. Tipo I, II, III, V

• Os tropocolagénios dispõem-se em várias filas adjacentes junto à superfície da célula


de forma escadeada.
• Dentro da mesma fila, cada tropocolagénio está separado do seguinte por um
intervalo regular. Entre as filas adjacentes cada colagénio está escadeado.
• Esta decalage entre moléculas de tropocolagénio origina espaços que se designam
usualmente por buracos de colagénio e que estão presentes nos tecidos
mineralizáveis do nosso organismo (osso, dentina, cimento) tendo uma função
fundamental já que nestes espaços se dá a nucleação do material cristalino.

 Colagénio associado a Fibrilhas


• Tipo IX (colagénio associado a fibronectina)
• Tipo XII (não está bem estudado)
• Permitem a adesão de fibrilhas entre si e com outros componentes da matriz
extracelular.

 Redes de Colagénio (IV, VII)


• Colagénio tipo IV não sofre clivagem das extremidades pró quando é lançado no
espaço extracelular.
• As extremidades pró vão associar várias moléculas de colagénio tipo IV formando uma
rede estabilizada por pontes bissulfito nas extremidades.
• Esta rede insolúvel vai ser muito importante a nível da lâmina basal pois funciona
como um andaime onde se unem os outros componentes da matriz.

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• A sua estrutura em tripla hélice é interrompida por zonas que não possuem o motivo
Gly-X-Y característico e que assumem uma estrutura globular intercaladas com zonas
de tripla hélice.
• No caso de formarem fibras de colagénio, estas são reforçadas por ligações cruzadas,
formando uma fibra de colagénio madura.
o Ligações intramoleculares – ocorrem dentro da molécula de tropocolagénio a
nível da extremidade C ou N. São ligações do tipo aldol em que dois resíduos
de lisina são oxidados pela lisil oxidase, que tem como substrato o piridoxal
fosfato, e se condensam.
o Ligações intermoleculares – ligações hidroxipiridino que se formam entre
moléculas de tropocolagénio, já fibra de colagénio, ligando a extremidade N-
terminal de uma molécula de tropocolagénio ao C-terminal da outra presente
numa fila adjacente.
o Formam-se então dois resíduos de hidroxilisina e uma lisina.

Ligação Cruzada Intramolecular


Tipo Aldol

Tipo Hidroxipiridino

Ligação Cruzada Intermolecular

Os colagénios fibrilhares agrupam-se formando fibrilhas de colagénio, que por sua vez
se agrupam formando fibras de colagénio.

Estrutura

• Os diferentes tipos de colagénio nascem da associação de cadeias α com diferentes


composições (até hoje foram identificados 25 tipos diferentes de cadeias α, que
hipoteticamente podem originar 10.000 tipos de tropocolagénios diferentes, apesar de
só se conhecerem 15 formas diferentes de tropocolagénio).
• As cadeias α contêm uma sequência polipeptídica invulgar, caracterizada pela
repetição de um motivo tripeptídico do tipo Gly-X-Y que ocorre ao longo da quase
totalidade da cadeia (exceptuando curtas zonas C e C terminal) em que X e Y podem
ser representados por qualquer aminoácido. Em cadeia α, a prolina e a hidroxiprolina
encontram-se cerca de 100 vezes em posição X e Y respectivamente.
• A lisina e a hidroxilisina são outros aminoácidos frequentes ocupam a posição Y.
• Na formação de tropocolagénio três cadeias α enrolam-se à volta umas das outras
formando uma super-hélice dextrógira assemelhando-se estruturalmente a um cabo
trançado com cerca de 1,4nm de diâmetro e 300nm de comprimento.

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• O tropocolagénio é estabilizado pois:
o A prolina e a hidroxiprolina têm um anel de 6 elementos (que não têm N livre
para formar pontes de hidrogénio, evitando assim a hélice α e as folhas β).
Este anel forma um ângulo na cadeia polipeptídica vertical ao eixo da hélice,
permitindo que os grupos carbonilos do péptido apontem na direcção das
cadeias vizinhas.
o As glicinas que existem em grandes quantidades (de 3 em 3) são apolares,
hidrofóbicas com cadeias laterais muito pequenas e volta-se para dentro da
estrutura da tripla hélice interagindo por ligações hidrofóbicas com outras
cadeias.
o As hidroxilisinas formam pontes de hidrogénio com a molécula de água do
meio.

O colagénio tem uma estrutura muito estável e a ruptura das suas fibras requer a
actuação de uma enzima metaloprotease muito específica – Colagenase (secretada pelas
células sob a forma de precursor e posteriormente activada por outras proteases).

Após a primeira ruptura numa cadeia polipeptídica, o colagénio perde a sua estrutura
peculiar, ficando susceptível a ser atacado por outras proteases que continuam a degradação.
Durante a remodelação do tecido conjuntivo, os fibroblastos podem degradar o colagénio
intracelular, mediante a sua captura por fagocitose e posterior incorporação nos lisossomas.

TIPO FORMULA FORMA TECIDOS


MOLECULAR POLIMÉRICA EVOLVIDOS
I [α1(I)2]α2(I) FIBRILHA Osso,pele,tendões
ligamentos,orgãos
II [α1(II)3] FIBRILHA Cartilagem discos
intervertebrais
notocordio
III [α1(III)3] FIBRILHA Pele, vasos, orgãos
V [α1(V)2α2(V)] FIBRILHA Acompanha tipo I
XI α1(XI)α2(XI)α FIBRILHA Acompanha tipo II
3(XI)
IX α1(IX)α2(IX)α ASSOCIAÇÃO Cartilagem
3(IX) LATERAL
XII [α1(XII)3] ASSOCIAÇÃO Tendões,ligamentos
LATERAL
IV [α1(IV)2α2(IV)] REDE Lamina basal
VII [α1(VII)3] MOLÉCULA Sub epitelial
DE
ANCORAGEM

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Elastina

A Elastina é uma proteína estrutural, fibrosa e conjuntiva. O seu comportamento


borrachóide permite-lhe conferir elasticidade aos tecidos nos quais é mais abundante.

Os tecidos com quantidades apreciáveis de elastina são ligamentos, parede vascular


arterial, derme, alguns tipos de cartilagem…

A elastina é produzida pelos fibroblastos. Nos tecidos elásticos, estes modificam-se


fenotipicamente para produzir elastina em maior quantidade.

Quanto à perspectiva evolutiva, a elastina foi provavelmente a última proteína a


aparecer nos organismos vivos e o seu estudo é também bastante recente, visto que as suas
características fisiológicas (hidrofobicidade, por exemplo) dificultam o seu estudo.

Biossíntese

1- Transcrição do DNA em mRNA depois tradução ribossomal formando a proteína


Tropoelastina.
2- Incorporação nas cisteínas do Retículo Endoplasmático Rugoso
3- Ao nível do RER
a. A tropoelastina sofre hidroxilação pela Prolil Hidroxilase.
i. Este facto não tem significado funcional para a molécula, pois se
inibirmos a Prolil Hidroxilase obtemos elastina funcional em forma e
quantidades idênticas às que ocorrem normalmente.
b. Ainda no RER, a tropoelastina liga-se a uma EBP (Elastin Binding Protein) que é
uma proteína derivada da β-galactosidase, sem actividade catalítica, mas que
tem segmentos de afinidade à tropoelastina e laminina.
c. A EBP tem função de chaperonina, impedindo a proteólise prematura e
ligações hidrofóbicas extemporâneas entre tropoelastinas, que só devem
ocorrer aquando da agregação em fibra.
4- Secreção da tropoelastina para o espaço extracelular
a. Mesmo processo secretório que os outros elementos conjuntivos, associa-se
(na fracção N-terminal e na presença de cálcio) a elementos glicoproteicos (os
que estão melhor caracterizados são a fibrina I e MAPG – microfibril
associated glicoprotein).
b. A EBP tem um domínio Lectina com afinidade para a fracção glucídica destes
elementos glicoproteicos extracelulares, cuja ligação diminui drasticamente a

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afinidade para a tropoelastina, dissocia-se desta e a tropoelastina fica
correctamente posicionada na macromolécula de elastina em formação. A EBP
é retirada da fibra elástica e é reinternalizada na célula para ser reutilizada.
5- A ligação da tropoelastina à macromolécula em formação faz-se por intermédio de
ligações covalentes cruzadas do tipo Lisinorleucina e Desmosina, Isodesmosina e
Merodesmosina, em que a Desmosina é a mais importante.
6- Em qualquer dos tipos de ligações participam resíduos de Alisina que são derivados
aldeícos da lisina obtidos a partir desta por acção da Lisil-oxidase (enzima extracelular
que utiliza cobre reduzido como co-factor). Perante as dezenas de resíduos de lisina
oxidáveis na molécula de tropoelastina, apenas algumas extremidades da
tropoelastina que estão estrategicamente posicionadas sofrem sistematicamente este
tipo de reacção. A razão deste facto reside no alinhamento das tropoelastinas,
proporcionado pelas Glicoproteínas de Estrutura circundantes que expõem as lisinas
de modo que sejam sempre as mesmas a obter maior afinidade para a lisil-oxidase.

As ligações cruzadas efectuam-se por:

Ligação Desmosina ou Isodesmosina

• Condensação espontânea em planos iguais com 4 resíduos de lisina oxidados (3 de


uma cadeia e 1 de outra cadeia adjacente).
• Mantêm a integridade da molécula elastina, impedindo que esta se desagregue
durante o estiramento sob imposição de uma força deformante; funcionam ainda
como pontes de memória na recuperação elástica da molécula à sua conformação
inicial.

Ligação Lisinorleucina

• Condensação em planos distintos de 2 lisinas modificadas.


• Ligações muito importantes na estruturação tridimensional da molécula de elastina.

Estrutura

• A estrutura da tropoelastina é caracterizada por


o Muito pouca hidroxiprolina
o Inexistência de hidroxilisina
o Abundância de aminoácidos hidrofóbicos (valina, alanina, glicina e prolina).
• Ao longo da cadeia de tropoelastina existem sequências hidrofílicas (1) e hidrofóbicas
(2, 3, 4) que se repetem alternadamente.
o 1- sequências ricas em lisina e alanina do tipo Lys-Ala-Ala-Lys ou Lys-Ala-Ala-
Ala-Lys
o 2- sequências politetrapeptídicas constituídas pela repetição de Val-Pro-Gly-
Gly
o 3- sequências polipentapeptídicas constituídas pela repetição de Val-Pro-Gly-
Val-Gly
o 4- sequências polihexapeptídicas constituídas pela repetição de Ala-Pro-Gly-
Val-Gly-Val

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Estrutura Primária

• Sequências ricas em lisina e alanina que existem disseminadas ao longo da cadeia de


tropoelastina.
• Assumem uma conformação em α-hélice e são rígidos, pelo que não participam
directamente na elasticidade da molécula de elastina.
• No entanto são elementos fundamentais para a integridade da macromolécula pois é
nestas que se processo o cross-linking.

Estrutura Secundária

• Sequências existentes repetidamente ao longo da cadeia de tropoelastina constituídas


por quatro, cinco ou seis aminoácidos.
• Têm em comum o facto do aminoácido número 2 ser sempre a prolina, o número 3 a
glicina e os restantes são aminoácidos hidrofóbicos.
• Ao nível da elastina humana pensa-se que as cadeias repetitivas são formadas
principalmente por repetição de tetrapéptidos.
• Estas sequências são as responsáveis directas pela capacidade elástica da molécula.
• A adjacência de Prolina e Glicina determinam um ângulo rígido conhecido por ângulo
β. Este por sua vez facilita o estabelecimento de uma ponte de hidrogénio entre o
primeiro e quarto aminoácido da cadeia repetitiva. Assim sendo todo o conjunto tetra,
penta ou hexapeptídico assume uma conformação tridimensional designada por β-
turn. (hidrofobicidade)
• A repetição destas estruturas ao longo da cadeia polipeptídica e seu empilhamento
originam uma sucessão de β-turn cujas interacções hidrofóbicas determinam um
sobre-enrolamento espiralado que se designa por espiral β. Posteriormente algumas
zonas β espalhadas de várias cadeias de tropoelastina interagem entre si por ligação
desmosina/isodesmosina e lisinorleucina, super-enrolando-se e formando zonas de
Corda Trançada ou Twisted Rope.

Temperatura de Transição e Comportamento Elástico

As interacções hidrofóbicas que determinam a estrutura tridimensional da elastina


estão à temperatura fisiológica de 37ºC.

A molécula de elastina possui aquilo a que se designa temperatura inversa de


transição. Se observarmos a molécula a 20ºC existe uma disposição desordenada das unidades
constituintes, mas à medida que a temperatura aumenta:

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• A desorganização da água de salvatação permite uma optimização dos contactos
hidrofóbicos por parte dos aminoácidos constituintes
• A partir de uma certa gama de temperaturas, as interacções tornam-se tão fortes que
determinam os enrolamentos tridimensionais.

Quando uma força é imposta à molécula de elastina, as zonas de corda trançada


desenrolam-se assim como a estrutura em espiral β e a molécula alonga-se

Assim que a força é removida, a molécula retorna a sua conformação, que se sabe
hoje ser preferencial a condições de pH e T fisiológicos.

A descoberta deste fenómeno demonstra que a função elástica é determinada por


uma estrutura tridimensional molecular preferencial, extremamente organizada e que
deriva directamente da disposição dos aminoácidos com cadeias laterais hidrofóbicas ao
longo da sequência polipeptídica, pelo que a teoria do comportamento elástico aleatório
(random-coil) de facto não se reveste de aplicabilidade total a este modelo.

Aquilo que existe na molécula de elastina é uma estrutura secundária extremamente


lábil para permitir o desenrolamento e estiramento mas com uma estabilidade
determinante para a recuperação elástica.

Relaxamento

Esticamento

19
Proteoglicanas

As proteoglicanas são moléculas complexas, encontrando-se em quase todos os


tecidos, principalmente ao nível da matriz extracelular, podendo estar associadas a outras
proteoglicanas, colagénio e elastina (com as quais estabelecem ligações específicas). Também
se podem associar a proteínas adesivas da matriz conjuntiva (fibronectina e laminina).

São proteínas glicosiladas conjugadas covalentemente com Glucosaminas (a


quantidade de hidratos de carbono de um Glicosaminoglicano (GAG) é maior que a quantidade
presente numa Glicoproteína).

GAG > Glicoproteína

As Proteoglicanas e Glicosaminoglicanas são componentes essenciais da matriz


extracelular, tendo várias funções biológicas e um papel muito importante na patologia.

A função depende, no entanto, das GAGs constituintes e do núcleo proteico. No


entanto, podem fazer parte da matriz extracelular ou da membrana.

o Secreção de Sinalizadores
o Co-Receptores

Syndecans

É uma proteoglicana integral da membrana plasmática (em fibroblastos e células


epiteliais), formada por uma proteína integral de membrana cuja porção extracelular está
associada a GAG (Condroitino-sulfato e Sulfato de Heparan) e a porção intracelular está
associada ao citoesqueleto celular (actina).

Quanto à sua função é:

• Co-receptor para o colagénio, fibronectina e outras proteínas de matriz


• Co-receptor para o factor de crescimento de fibroblastos (FGF)

Betaglican

É uma proteoglicana integral de membrana plasmática formada por uma proteína que
associa a GAGs (Condroitino-Sulfato e Sulfato de Dermatana).

Como função tem

• Co-receptor para o factor de crescimento (TGF-β)

Versican

É uma proteoglicana de membrana.

20
Biossíntese

• Processo com 3 etapas

1- Ligação das unidades disscarídeas à proteína central


• O processo de biossíntese inicia-se ao nível do RER com a síntese da proteína central.
• À medida que ocorre o processo de tradução proteica, por ribossomas ligados à
membrana do Retículo, a cadeia polipeptídica nascente passa para o interior desse
organito.
• A ligação entre os GAGs e a Proteína Central pode ocorrer de 3 formas:
o Ligação Glicosídica em O entre o resíduo de xylose (Xyl), com origem num
resíduo do açúcar nucleótido UDP-Xylose, e o aminoácido Serina da Proteína
Central. Posteriormente vão ser adicionados dois resíduos de Gal ao resíduo
de Xyl, originando o trissacarídeo de ligação Gal-Gal-Xyl-Ser, ao qual vão sendo
adicionados também no aparelho de forma sequencial os restantes resíduos
responsáveis pelo crescimento da cadeia de GAGs.
o Ligação Glicosídica em O entre uma N-acetil-galactosamina e o aminoácido Ser
ou Thr (Treonina) da proteína Central. Esta ligação característica do sulfato de
Queratana tipo II é formada a partir da cedência do resíduo de GalNAc do
açúcar nucleótido UDP-GalNAc, ao aminoácido Ser ou Thr a partir do qual
serão seguidamente adicionados, de forma sequencial, os vários resíduos
responsáveis pelo crescimento da cadeia de GAGs.
o Ligação Glicosamina em N na qual participa o resíduo de GlcNAc (N-Acetil-
Glucosamina) e o átomo de Azoto do grupo amida do aminoácido Asparagina
semelhante ao que acontece nas ligações glicosídicas em N das glicoproteínas,
num processo que envolve o Dolicolpirofosfato oligossacarídeo.

2- Polimerização da Cadeia GAGs


• Ocorre ao nível do Aparelho de Golgi onde existem um conjunto de
Glicosiltransferases específicas membranares que são responsáveis pela síntese da
cadeia oligossacarídea das GAGs, utilizando para esse efeito vários açúcares
nucleótidos.
• Cada uma destas glicosiltransferases para além de ser específica para um dos açúcares
nucleótidos adiciona apenas um destes resíduos de cada vez à cadeia em crescimento.

3- Conclusão das GAGs


• Durante o período de permanência no Aparelho de Golgi muitos resíduos de açúcar
sofrem modificações covalentes que consistem em dois tipos de reacções: sulfatação e
epimerização sequenciais e coordenadas.
o Sulfatações aumentam enormemente a carga negativa das Proteoglicanas,
através da indução de grupos sulfato por acção das Sulfotransferases
específicas que utilizam o 3 fosfoadenosil-5 fosfosulfato como fornecedor dos
grupos sulfato em diferentes posições (C2, 3, 4, 6)

21
o Epimerizações alteram a configuração dos substituintes –HO e OH ao redor
dos átomos de carbono na molécula de açúcar. A epimerização de resíduos de
ácido urónico é feita por epimerases que catalisam a transferência de resíduos
Ácido Glucorónico em Idurónico. A carga negativa vai provocar conformações
tensas e distendidas, permitindo a formação de soluções gelatinosas muito
viscosas e elásticas mesmo em soluções diluídas (encontrando-se nos espaços
extramoleculares, formando uma matriz viscosa que embebe as fibras de
colagénio e elastina resistindo à compressão).
• Estas duas reacções são as modificações finais que operam na cadeia oligossacarídea
na membrana do Aparelho de Golgi.

Estrutura

• As proteoglicanas são heteropolissacáridos, constituindo a fracção glucídica a porção


mais representativa.
• Cada Proteoglicana pode apresentar na sua estrutura diferentes tipos de GAGs ou ser
constituída por um único tipo de GAGs que se encontram ligadas covalentemente à
proteína central. Existem numerosos tipos de proteínas centrais mas todas elas têm
em comum o facto de a sua porção terminal amina formar uma região globular, que
muitas vezes interage covalentemente com o ácido hialurónico (interacções
electrostáticas estabilizadoras por proteínas de ligação), dando origem a agregados de
Proteoglicanas.

Exemplo – Tecido Cartilaginoso

• Os agregados de proteoglicanas do tecido cartilaginoso apresentam uma cadeia


central de Ácido Hialurónico, onde se encontram associadas diferentes tipos de GAGs,
para além de também estarem outros tipos de proteínas associadas – proteínas de
ligação, cuja função é estabelecer interacções electrostáticas com a porção globular
terminal da proteína central e o Ácido Hialurónico que se encontram fora da célula
fazendo parte da matriz extracelular ou constituindo Proteoglicanas integrais de
membrana.
• Estas são constituídas por uma porção proteica que se estende através da camada
lipídica, ou se encontra aderida à camada lipídica através de glicosilfosfatidilnositol
(função de receptor).

22
Glicosaminoglicanas

Uma GAG é um polissacárido, não ramificado (linear), formada por unidades


dissacarídeas com as seguintes componentes:

• Uma Hexosamina proveniente da alimentação (Glucosamina ou Galactosamina) ou N-


acetil-Hexosamina que na maior parte das vezes é sulfatada (D-Glucosamina ou D-
Galactosamina)
• Um Ácido Urónico, L-Glucorónico ou Ácido L-Idurónico
o Todas as GAGs (menos o ácido hialurónico) contêm grupos sulfato sob a forma
de O-ésteres (na Heparina e Sulfato de Heparina os grupos sulfato encontram-
se sob a forma de N-Sulfato).
o A presença de grupos carboxílicos nos Ácidos Urónicos e de grupos sulfato
esterificados, faz com que esta molécula seja de natureza negativa,
conferindo-lhe uma natureza hidrofílica responsável pela sua função ao nível
da matriz extracelular conjuntiva.

Em função do tipo de açúcares que as constituem, do tipo de ligações formadas entre


estes resíduos, bem como do número e localização dos grupos sulfato podem ser identificadas
as seguintes GAGs

• Ácido Hialurónico
• Sulfato de Condroitina
• Sulfato de Dermatana
• Sulfato de Queratana
• Sulfato de Heparana
• Heparina

Cada GAG tem:

• A sua própria composição glucídica


• Tipo de ligação à proteína
• Mesmo tipo de proteínas ligadas
• Distribuição e função definida nos tecidos

As 7 GAGs diferem umas das outras nas seguintes propriedades

• Composição em açúcar aminado


• Composição em ácido urónico
• Ligação entre os componentes
• Tamanho da cadeia de dissacáridos
• Presença ou ausência de grupos sulfatos e sua localização de ligação aos açúcares
constituintes
• Natureza das proteínas core às quais estão ligadas
• Natureza dessa ligação
• Distribuição tecidular e subcelular
o Função biológica

23
Ácido Hialurónico
Estrutura
Condroitina
GAGs
Dermatana
Secreção: Heparina
Queratana

Função da carga negativa ao nível da matriz

A natureza negativa das cargas existentes nas cadeias polissacarídeas impõem uma
formação linear e inflexível a estas cadeias impedindo-as de se enrolarem originando
estruturas globulares compactas. Assim, as GAGs têm tendência a adoptar conformações
extensas que ocupam um grande volume relativamente à sua massa, proporcionando soluções
gelatinosas de alta viscosidade mesmo quando em baixa concentração.

A sua elevada densidade de cargas negativas (rica em polianiões) é responsável pela


atracção de policatiões e catiões osmóticos activos como o Na+ e o Ca2+. Esta propriedade
atrai a água, por pressão osmótica, para o interior da matriz. Este facto cria um aumento do
volume ou turgescência, permitindo à matriz extracelular resistir a forças compressivas, tendo
também um papel lubrificante.

O facto de a matriz resistir a forças compressivas devido à existência de GAGs faz com
que estas sejam encontradas no espaço extracelular e intracelular, pertencentes a tecidos
conjuntivos (cartilagens, tendões, paredes e vasos sanguíneos) formando uma matriz
altamente hidratada, viscosa, onde se encontram mergulhadas proteínas fibrosas estruturas
(Colagénio, Elastina).

Esta solução gelatinosa permite ainda a migração celular importante no controlo de


infecções e inflamações e na separação dos tecidos.

A quantidade de GAGs no tecido conjuntivo é normalmente apenas 10% do peso


representado pelas proteínas fibrosas.

Estas vão formar géis porosos hidratados e preencher a maioria do espaço extracelular
fornecendo por um lado suporte mecânico para estes tecidos e ao mesmo tempo permitindo a
difusão rápida de moléculas hidrossolúveis e a migração de células.

24
Ácido Hialurónico

O ácido hialurónico é muito importante na cicatrização dos tecidos.

As moléculas de Ácido Hialurónico consistem numa cadeia não ramificada de unidades


dissacarídeas unidas por ligações β-1,4, cada uma delas contendo um L-Glucorónico, ligado por
uma ligação glicosídica β-1,3 a um resíduo N-Acetil-Glucosamina.

Ácido Hialurónico: β-1,4 __ GlcUA __ β-1,3 __ GlcNAc __ β-1,4 __ GlcUA __β-1,3 __ …

Quanto às funções:

• Pelo facto de possuir um elevado peso molecular e apresentar grupos com carga
negativa, porque se repetem fazendo com que esta molécula fique tensa e distendida,
altamente hidratada, que ocupa muito espaço quando em solução.
• Este facto confere aos tecidos ricos em Ácido Hialurónico (cartilagem) a capacidade de
resistir a forças compressivas e desempenhar funções lubrificantes (fixa a água,
volume de turgescência aumentado).
• Em função da sua conformação e tamanho, desempenha durante o desenvolvimento
embrionário, o papel de molécula capaz de preencher espaços e consequentemente
influenciarem as alterações de forma e estrutura que ocorrem durante esse período
de desenvolvimento.
• Esta influencia também a migração celular durante o desenvolvimento embrionário. O
ácido hialurónico é sintetizado no lado basal das lâminas epiteliais criando um espaço
livre de células, pelo qual vão poder migrar posteriormente células – ocorre durante a
formação do Coração e Córnea.

Já quanto à sua localização

• Humor vítreo
• Líquido sinovial
• Em redor de todas as células
• Tecido conjuntivo laxo
• Muito abundante no desenvolvimento embrionário

O ácido hialurónico não se encontra ligado covalentemente a nenhuma proteína


central. Não contém grupos sulfato.

(Sulfato de Condroitina)

25
Sulfato de Condroitina

A Condroitina é uma GAG sulfatada extremamente abundante formada por unidades


dissacarídeas repetidas unidas por ligações β-1,4. Cada ácido glucorónico é ligado por uma
ligação glicosídica β-1,3 a um resíduo de N-Acetil-Glucosamina.

O resíduo de GalNAc pode apresentar um grupo sulfato ligado ao átomo de carbono 4


ou 6, passando a chamar-se respectivamente Condroitina-4-sulfato ou Condroitina-6-sulfato.

Estas glicosaminoglicanas ligam-se por intermédio de um dissacarídeo Gal-Gal à


proteína central, no resíduo Ser da sequência peptídica Xyl-Ser, através de uma ligação
glicosídica em O.

Cada Condroitina contém em média cerca de 40 unidades dissacarídeas e um peso


molecular próximo dos 20.000.

Sulfato de Condroitina: β-1,4 __ GlcUA __ β-1,3 __ GalNAc __ β-1,4 __ GlcUA __β-1,3


__ Gal __ β-1,3 __ Gal __ β-1,4 __ Xyl __ Ser

As Proteoglicanas ricas em Condroitina Sulfato podem ligar-se através de duas


proteínas de ligação ao ácido hialurónico formando um agregado de Proteoglicanas
característico do tecido conjuntivo. As ligações estabelecidas entre as proteínas de ligação com
o ácido hialurónico e com a proteína central são de natureza hidrofóbica.

Sulfato de Dermatana

Esta GAG característica da pele é constituída por unidades dissacarídeas unidas por
ligações β-1,4 cada uma delas contendo um resíduo Ácido Idurónico ligado por uma ligação
glicosídica β-1,3 a um resíduo GalNAc.

Na sua composição podem existir entre 30 a 80 unidades dissacarídeas.

A dermatana sulfato é formada a partir de condroitina sulfato por epimerização


enzimática em C-5 dos resíduos de Ácido Glucorónico que originam Ácido Idurónico.

Esta reacção enzimática é regulada pelo grau de sulfatação dos resíduos de GalNAc
que sendo incompleta explica o facto de a dermatana sulfato conter tanto unidades
dissacarídeas do tipo IdUA-GalNAc como GlcUA-GalNAc.

Estas GAGs ligam-se igualmente, por intermédio de um dissacarídeo Gal-Gal à proteína


central, no resíduo de Serina da sequência peptídica Xyl-Ser.

Sulfato de Dermatana: β-1,4 __ IdUA __ β-1,3 __ GalNAc __ β-1,4 __ GlcUA __β-1,3 __


GalNAc __ β-1,4 __ GlcUA __ β-1,3 __ Gal __ β-1,3 __Gal __ β-1,4 __ Xyl __ Ser

26
Sulfato de Queratana

O Sulfato de Queratana é característico da Córnea e Cartilagens

Esta GAG é constituída por 25 unidades dissacarídeas unidas por ligações β-1,3 cada
uma delas contendo um resíduo GlcNAc ligado por uma ligação glicosídica β-1,4 a um resíduo
Gal.

O resíduo GlcNAc, ou ocasionalmente ou de Gal, encontra-se sulfatado na posição C-6.

Existem dois tipos de moléculas de sulfato de queratana: o tipo I e II.

O sulfato de queratana tipo I é abundante na córnea onde juntamente com o sulfato


de dermatana contribui para a transparência e liga-se à proteína central no resíduo de
Asparagina através de um resíduo de GlcNAc.

O sulfato de queratana tipo II é característico do tecido conjuntivo laxo e apresenta


frequentemente pequenas quantidades de ácido siálico ligados a alguns resíduos sacarídeos
ligando-se através de um resíduo de GalNAc a um aminoácido de Ser/Thr da proteína central.

Heparina

É uma GAG constituída por um polissacárido de baixo peso molecular com unidades
dissacarídeas unidas por ligações β-1,4, cada uma delas contendo um resíduo GlcN ligado a um
IdUA/GlcUA por uma ligação glicosídica α-1,4.

A maior parte dos resíduos de ácido urónico são inicialmente GlcUA mas depois de
terminada a síntese da cadeia polissacarídea uma 5-epimerase converte cerca de 90% dos
resíduos de GlcUA em IdUA.

Resíduos GlcN encontram-se sulfatados em N e alguns estão acetilados.

27
A proteína central da Proteoglicana de heparina apresenta duas características muito
particulares muito particulares em que a primeira reside no facto de a cadeia polipeptídica ser
constituída exclusivamente pelos aminoácidos glicina e serina, e por outro lado, cerca de 2/3
dos resíduos de serina se encontrarem ligados a cadeias de GAGs de heparina com um PM
compreendido entre 5.000 – 15.000 podendo em alguns casos ser superior.

A heparina encontra-se essencialmente em grânulos intracelulares de mastócitos, mas


também no fígado, pulmão e pele.

É um importante anti-coagulante.

Sulfato de Heparina

• Encontra-se ligada a uma proteína central surgindo sob a forma de Proteoglicana


extracelular presente na superfície celular, com o seu núcleo proteico a atravessar a
membrana plasmática da célula.
• Desta forma, participam em fenómenos de comunicação em células.
• Esta proteoglicana é também encontrada ao nível da membrana basal, no rim em
associação com o colagénio tipo IV e com a laminina onde desempenha um
importante papel na capacidade de filtração selectiva do glomérulo renal.
• Embora semelhante à heparina apresenta uma composição mais variável.
• Contém menos resíduos de GlcN sulfatados em N mas mais grupos N-acetilo e o ácido
urónico que predomina é o GlcUA.

28
Glicoproteínas de Estrutura

Biossíntese

Inicialmente é sintetizado o esqueleto proteico ao nível do RER


• À medida que o mRNA vai sendo traduzido para proteínas em ribossomas, esta vai
entrando para o retículo.
• Ao formarem-se as proteínas, estas podem seguir 3 caminhos:
o Lúmen do RER
o Entrar na via de secreção
o Ficar na membrana do RER

Lúmen do Retículo Endoplasmático Rugoso

• Tem na extremidade carboxilo uma sequência KDEL


• Aqui as proteínas vão sofrer modificações pós-traducionais:
o Adquirem estrutura terciária
o Adquirem estrutura quaternária
o Adquirem ligações persulfureto (SS)
 Ligações covalentes que se formam entre átomos de enxofre das
cisteínas que ajudam a estabilizar a estrutura terciária.
o Glicosilação – adição de açúcares a proteínas que tem muita importância
porque
 Protegem as proteínas de membrana da proteólise (int e ext)
impedindo a entrada de ligandos, evitando assim a destruição da
célula
 Activam/desactivam moléculas
 Intervêm no desenvolvimento embrionário
 Podem camuflar células cancerígenas e o organismo não produz anti-
corpos para as destruir
 Altera as propriedades das proteínas modificando a sua estabilidade,
solubilidade e volume
 Os hidratos de carbono adicionados funcionam como sinais de
reconhecimento celular de proteínas, direccionando as proteínas para
o seu destino final.

Tipos de Glicosilações

• Glicosilação do Tipo –N–


o Mais comum no lúmen do RER
o Ligação estabelecida entre um resíduo de açúcar e o átomo de azoto do grupo
amida do aminoácido asparagina.
o A cadeia oligossacarídea das glicoproteínas de estrutura ligadas por átomo de
azoto é geralmente de grande tamanho, tendo pelo menos 5 resíduos de
açúcar.
o A Biossíntese de Glicoproteínas de Estrutura (PS) ligadas por átomos de azoto
começa com a síntese de um lípido insaturado de cadeia longa que fica na

29
superfície citoplasmática da membrana – Dolicol, que é fosforilado para
formar Dolicol Fosfato, reacção catalisada pela Dolicol Quinase cuja fonte de
fosfato é o ATP.
o Na superfície citoplasmática do RER são sintetizados os oligossacáridos:
inicialmente há transferência de uma N-Acetil-Glucosamina fosfato a um
Dolicol Fosfato aceitador, com gasto de energia (UDP) libertando UMP. Depois
une-se a uma N-Acetil Glucosamina formando a 1ª ligação glicosídica, com
gasto de energia (UDP).
o 5 Resíduos de Manose são adicionados sequencialmente a partir de GDP.
o O oligossacárido em formação entra para o lúmen do RER são adicionados
mais 4 resíduos de Manose a partir de um intermediário ligado ao Dolicol
Fosfato.
o 3 Resíduos de Glicose vindos do citosol atravessam a membrana e são
adicionados a partir de um intermediário ligado ao Dolicol Fosfato.
o O oligossacárido complexo é transferido a uma proteína que emerge do lúmen
do RER por uma oligossacárido transferase. Esta transferência é feita para um
resíduo de asparagina pertencente à sequência tripeptídica Asn-X-Ser/Thr
onde X é um aminoácido qualquer excepto prolina ou aspartato.
o Em seguida há um processamento ou modificação do oligossacárido por
glicosilações que envolve a remoção sequencial de alguns resíduos de
açúcares (3 glucoses e 1 manose) da estrutura recém-transferida.
o Glicoproteínas do Tipo Complexo
 São compostas por N-Acetil Glucosamina, manose, fucose, galactose e
Ácido N-Acetil Neuramínico.
 As possíveis diferenças estruturais encontradas dentro das
glicoproteínas deste grupo residem no número de cadeias
oligossacarídeas ramificadas (a maioria varia entre 2, 3, 4 ou 5 cadeias)
e no número de resíduos de Ácido N-Acetil-Neuramínico (variando
entre 0 e 4 por cadeia oligossacarídea).

o Glicoproteínas ricas em Manose


 Constituídas exclusivamente por resíduos de Manose e N-Acetil-
Glucosamina em número variável.
 Habitualmente apresentam 2 a 6 resíduos adicionais de manose
ligados ao núcleo pentassacarídeo.
 Assim, as diferenças existentes entre as glicoproteínas destes grupos
residem no número de resíduos de manose que se encontram ligadas
aos resíduos de N-Acetil-Glucosamina.
o Glicoproteínas Híbridas
 Apresentam na sua composição cadeias oligossacarídeas complexas e
ricas em manose ligadas a diferentes resíduos de asparagina do
mesmo polipéptido.
• Glicosilação do Tipo –O–
o Inicia-se no lúmen do RER e continua-se no Aparelho de Golgi.

30
o Ligação glicosídica estabelecida entre o resíduo de açúcar da cadeia
oligossacarídea e o átomo de oxigénio do grupo hidroxilo dos aminoácidos
serina ou treonina.
o O glicogénio é uma glicoproteína pertencente a esta classe, mas a ligação é
estabelecida com o aminoácido hidroxilisina, a cadeia oligossacarídea das
glicoproteínas liga-as por átomos de oxigénio e é geralmente de tamanho
pequeno contendo apenas 1 a 4 resíduos de açúcares.
o Existem 3 subclasses de ligações tipo –O–:
 GalNAc – Ser/Thr (predominante, mucinas)
 Gal-Gal-Xyl-Ser (Proteoglicanas)
 Gal-hidroxilisina (glicogénio)

GalNAc (mucinas)

• No Aparelho de Golgi ocorre incorporação dos diferentes açúcares nesse esqueleto


proteico envolvendo uma reacção de adição sequencial desses mesmos açúcares a
partir dos respectivos açúcares dinucleotídicos (UDP-N-Acetilglucosamina, UDP-
Galactose, GDP-Manose) e mononucleotídicos (CM-N-Ácido Acetilneuramínico).
• A adição de diferentes açúcares é catalisada por Glicosil Transferases específicas.
Todas as enzimas glicosil transferases conhecidas até ao momento são proteínas
integrais de membrana e apresentam a sua porção catalítica voltada para o interior do
lúmen do aparelho de Golgi onde exercem a sua função.
• Os açúcares nucleotídicos mono e difosfato, que constituem os intermediários de
elevada energia utilizados na biossíntese das cadeias oligossacarídeas, são sintetizados
no citosol a partir de nucleósidos trifosfatados e açúcares fosfatados.
• Depois de sintetizados no citosol estes açúcares nucleotídicos mono e difosfatados
entram para o lúmen do Aparelho de Golgi através de proteínas transportadoras
específicas chamadas Permeases através de um mecanismo especial de antiporte.
• Simultaneamente, no interior do Aparelho de Golgi, o açúcar é adicionado a proteína
em resultado da reacção das diferentes glicosiltransferases com libertação de vários
nucleósidos di e monofosfatados.
• Estes vão ser exportados para o exterior do Aparelho de Golgi.
• No entanto, antes de serem exportados, os nucleósidos fosfatados (UDP e GDP) são
alvo de uma hidrólise por fosfatases existentes no lúmen deste organito que os
transforma nos respectivos nucleósidos monofosfatados (UMP e GMP).

Muitas glicoproteínas têm ligações tipo O e N (Glicopurina da membrana do eritrócito)

Entrar na Via de Secreção

• Aparelho de Golgi
o Vacúolos
o Exterior
o Lisossomas

31
Ficar na Membrana do Retículo Endoplasmático Rugoso

• As proteínas que ficam na membrana do RER têm uma sequência de 20-25


aminoácidos hidrofóbicos que formam uma hélice α transmembranar ancorada na
bicamada fosfolipídica.
• A porção hidrofóbica localiza-se na parte hidrofílica da membrana virada para o lúmen
ou da membrana virada procosol, dispondo-se de diferentes formas – topologia das
proteínas de membrana.

Estrutura

As glicoproteínas são proteínas conjugadas com curtas cadeias laterais de


heterossacáridos (porção menos representativa determinada pela alimentação e enzimas
intervenientes no processo), ligada covalentemente à cadeia polipeptídica (porção mais
representativa determinada geneticamente).

Na posição terminal das cadeias oligossacáridas encontra-se o Ácido N-Acetil


Neuramínico, estando este habitualmente ligado a um resíduo de galactose ou N-Acetil-
Galactosamina subterminal. Nas posições mais internas encontram-se, então, os resíduos de
manose, glucose, fucose e N-Acetil Glucosamina.

Quanto às suas funções

• Moléculas com funções estruturas (glicoproteínas que integram as membranas


estruturais das células)
• Macromoléculas características do tecido conjuntivo (Colagénio e Elastina)
• Lubrificantes e agentes protectores (mucinas e certas secreções mucosas)
• Funções imunológicas (Imunoglobulinas, antigénios de histocompatibilidade,
complemento e interferão)
• Hormonas, enzimas e receptores de membrana
• Todas as GP são factores de coagulação
• Meio de comunicação pois têm radicais glucídicos
• Há GPs que permitem que certos peixes vivam a baixas temperaturas debaixo de água
• Na fertilização existem GPs na zona pelúcida que funcionam como receptores do
espermatozóide.

Mucinas

Contêm grande percentagem de Ácido Siálico e Resíduos Sulfatados: têm sequências


repetidas de Ser-Thr-Pro.

Tem ligações tipo O glicosídicas (G-INAc-Ser) e são altamente viscosas e elásticas.

Função

• Barreira protectora na superfície do tecido epitelial


• Mascaram superfícies de certos antigénios, estando envolvidas nas relações célula-
célula.

32
Lectinas

São capazes de fixar glúcidos e radicais glucoconjugados, permitindo assim a marcação


das GPs muito importantes na investigação bioquímica:

• Purificação e análise de proteínas


• Estudo das superfícies celulares
• Para gerar células mutantes que não têm algumas enzimas para a síntese de
oligossacáridos

Fibronectinas

Dímero composto por duas subunidades muito grandes unidas por um par de pontes
bissulfito próximo das suas extremidades C-terminal.

Cada subunidade é dobrada numa série de domínios funcionalmente diferentes em


forma de bastão, separados por regiões de cadeias flexíveis.

Um domínio, por sua vez, liga-se ao colagénio ou à heparina ou a receptores


específicos da superfície das diferentes células por sequências RGD (Arg-Gly-Asp) da
fibronectina.

Funções

• Interligação dos elementos matriciais (arquitectura adesiva matricial)


• Adesão célula-matriz
o Rede adesiva matricial, polimerização, cross-linking
o Adesão estática (fibroblastos residuais), permitindo uma fixação das células à
matriz
o Migração celular
• Migração celular nos embriões dos vertebrados
• Coagulaçoes, cicatrizações, fagocitose, quimiotaxia (conjunto de elementos que
promovem a migração celular, até um certo local) – fibronectina circulante.

Regulação

• Existem fibronectinas diferentes codificadas por um único gene


• A transcrição produz uma única molécula de RNA que é enorme e pode sofrer splicing
em 3 regiões diferentes, dependendo do tipo celular e seu estado de
desenvolvimento, permitindo que a célula produzida o tipo de fibronectina mais
adequado para as necessidades do tecido.

Tenascina

Quanto à estrutura

• Glicoproteína semelhante à fibronectina, constituída por 6 cadeias polipeptídicas


unidas por ligações bissulfito em C-terminal.

33
• Têm domínios funcionais para a ligação à fibronectina e ao syndecam (Proteoglicana
de Membrana)

Quanto à função

• Promove ou inibe a adesão celular mediada por diferentes domínios e dependendo do


tipo de célula (pensa-se que a inibição é muito importante para a migração celular)
• Tem uma distribuição restrita, sendo abundante na matriz da célula dos tecidos
embrionários.

Laminina

Das primeiras proteínas da matriz extracelular sintetizadas pelo embrião e em estágios


iniciais do desenvolvimento a lâmina basal contém muito pouco ou nenhum colagénio tipo IV,
consistindo principalmente numa rede de laminina.

A laminina é um complexo grande e flexível formado por 3 cadeias muito longas de


polipéptidos organizadas na forma de uma cruz assimétrica e mantida unida através de pontes
dissulfito.

Como muitas outras proteínas da matriz extracelular, contém vários domínios


funcionais:

• Um liga-se às moléculas de tipo IV


• Outro ao sulfato de heparana
• Outro à entactina
• Outros dois ou mais ligam-se a receptores proteicos de laminina localizados na
superfície das células.
• Assim tem como principal função promover a adesão de células epiteliais à lâmina
basal.

Integrinas

Quanto à estrutura

• Proteínas integrais de membrana heterodiméricas, compostas por duas subunidades


de glicoproteínas α e β, associadas não covalentemente. O extremo N-terminal é
extracelular e o C-terminal é intracelular.
• Há uma grande diversidade de integrinas, já que foram definidos 9 tipos de sub-
unidades β e 14 tipos de subunidades α.
• A diversidade é aumentada mais pelo splicing alternativo de alguns RNAs de
integrinas.
• A regulação da ligação é feita por catiões divalentes extracelulares (cálcio, magnésio)
que se ligam em 3 ou 4 domínios da porção extracelular da cadeia α.
• A ligação extracelular da integrina com a matriz faz-se na extremidade N-terminal.
Tem como sequência de afinidade o RGD (Arg-Gly-Asp) e outros existentes nos
ligandos. Os ligandos são multifactoriais ou unifactoriais.

34
• Existem integrinas de sinal específico – Sist Fak – sistema de adesão focal de quinases:
o A integrina receptora é um non receptor tyrosina kinase que quando é
activada por um ligando autofosforila-se, mas não tem capacidade de
fosforilar directamente as outras proteínas. Apenas induz uma ligação
bissulfito promovendo a agregação de integrinas que produzem sinais
intracelulares, através de proteínas intermediárias, que fazem transdução de
sinal (ERK, MAP, SER e P1P3).
• Em algumas situações, a proteína integrina apenas funciona juntamente com um
factor de crescimento que se liga a um co-receptor junto à integrina na membrana
celular, permitindo a activação do receptor integrina. O co-receptor é um core
proteico transmembranar.
• A ligação intracelular da integrina (com o citoesqueleto) é na extremidade C-terminal
após a ligação de uma integrina ao seu ligante na matriz, a cauda citoplasmática da
cadeia β liga-se à Talina ou α-actina ou Vinculina, formando um complexo de proteínas
de ligação intracelular.

Quanto à função

• Ligação célula (citoesqueleto)/matriz


• Modulação da forma celular e orientação da matriz
o A forma da célula vai mudando ao longo de toda a vida, pois a distribuição de
integrinas na célula vai variando também com o tempo. Por outro lado, as
matrizes estão orientadas de forma diferente consoante o tecido em causa e
as células que o constituem.
o Isto acontece porque existem interacções recíprocas entre a fibronectina
extracelular e os filamentos e actina intracelulares através da membrana
plasmática dos fibroblastos, interacções essas mediadas por integrinas.
o Assim, os citoesqueletos das células podem exercer forças que orientam as
macromoléculas da matriz que são secretadas pelas células e as
macromoléculas da matriz organizam os citoesqueletos das células e modulam
a sua forma.
• Diferenciação Celular
o Multifuncional que vai produzir integrinas através de factores de crescimento.
o Estas integrinas deixam de ter afinidade para outra célula e para a secreção
dessa outra célula, formando assim outros tecidos diferentes com células de
formas diferentes.
• Migração Celular
o As integrinas diferem dos receptores da superfície celular por hormonas e ou
outras moléculas sinalizadoras solúveis, porque se ligam aos ligantes com
afinidade relativamente baixa e estão presentes numa concentração muito
superior na superfície da célula.
o Esta distribuição faz sentido uma vez que a ligação simultânea, porém fraca, a
várias moléculas da matriz permite que as células explorem o ambiente sem
perder a sua ligação à matriz, se a ligação fosse muito forte as células

35
provavelmente tornar-se-iam irreversivelmente ligadas à matriz e não teriam a
capacidade de se movimentar – princípio velcro.
o Ex.
 Embriogénese
 Inflamação
• Os fibroblastos movem-se quimiotaxicamente para o local da
lesão para formar cicatrização.
• Esta migração tem a ver com a exposição ou repressão de
integrinas à superfície do tecido.

Fibras Reticulares

São fibras com 0,5 a 2μm de diâmetro que se dispõem formando uma rede ou malha e
com uma forte afinidade pela prata, sendo chamadas de Argirófilas.

Quimicamente formadas por colagénio tipo III associado a elevado teor de


glicoproteínas.

São abundantes nos órgãos hematopoiéticos (baço), fígado e órgãos linfóides.

Constituído por reticulina.

36
Polissacáridos Hidratados

São glúcidos (têm grupos OH C=O), são ósidos. As oses podem reagir umas com as
outras entre o OH do C do carbonilo de uma ose com o OH ou C3 ou C6 da outra ose,
formando moléculas maiores – ligações glicosiladas tipo α ou β simples. Por hidrólise apenas
originam oses e poliosidos (mais de 10 oses são insolúveis em água, não são doces e têm
aspecto de pó).

Podem ser homoglicanas (mesmo tipo de oses) ou heteroglicanas (por hidrólise


libertam vários tipos de oses)

Os polissacáridos hidratados são polissacáridos associados a água (hidratados).

Degradação dos Componentes da Matriz Extracelular

A regulação do turn-over das macromoléculas da matriz extracelular é importante para


uma série de processos biológicos importantes.

A rápida degradação ocorre, por exemplo, quando o útero involui após o parto, ou
quando a cauda do girino é reabsorvida durante a metamorfose.

Uma degradação mais localizada dos componentes da matriz é necessária quando as


células migram através da lâmina basal, como quando as células brancas do sangue migram
através da lâmina basal vascular para os tecidos em resposta a infecções ou alguma lesão, ou
quando células cancerosas migram do seu local original para órgãos distantes, através da
corrente sanguínea, vasos linfáticos, num processo conhecido como metástase.

Mesmo na matriz extracelular de animais adultos, aparentemente estática, há um


lento turn-over devido à degradação e ressíntese.

Em cada um dos casos, os componentes da matriz são degradados por enzimas


proteolíticas extracelulares, secretadas localmente pelas células. A maioria destas enzimas
pertencem a uma das duas classes gerais de proteases: muitas são Metaloproteases que
dependem de Cálcio e Zinco ligado para possuírem actividade, outras são Serinoproteases que
possuem uma serina altamente reactiva no sítio activo.

Vários mecanismos operam para assegurar que a degradação dos componentes da


matriz seja rigorosamente controlada.

Primeiro várias proteases são secretadas como precursores inactivos que só podem ser
activados localmente.

Segundo, a acção das proteases é confinada a áreas específicas por vários inibidores de
proteases secretados pelas células, como os inibidores de metaloproteases teciduais (TIMPs) e
os inibidores de Serinoproteases chamados Serpinas. Estes inibidores são específicos para as
proteases particulares e ligam-se fortemente às enzimas activadas, bloqueando a sua
actividade.

37
Terceiro, várias células possuem receptores na sua superfície para ligar-se a proteases
como a U-PA (activador do plasminogénio tipo Uroquinase), assim restringindo a enzima aos
locais onde ela é necessária.

Elementos Minerais

O nosso organismo tem vários componentes inorgânicos.

Principais:

• Constituem 70% do material inorgânico do organismo.


• Cálcio, fósforo, magnésio, sódio, potássio, cloro, enxofre, lítio…

Oligoelementos:

• Aparecem em pequenas quantidades no nosso organismo.


• Essenciais – cobalto, cobre, cromo, flúor, magnésio, selénio, zinco e Iodo – o
organismo não os produz
• Provavelmente Essenciais – estanho, níquel, silício e vanádio
• Não essenciais – alumínio, antimónio, arsénico, bismuto, germânio, mercúrio, ouro,
platina, titânio

Cálcio

O Cálcio desempenha no organismo funções importantes e variadas:


• Intervém na mineralização
• Coagulação sanguínea, em que interliga os factores K dependentes à superfície lesada
• Contracção muscular, pois só ocorre contracção quando o cálcio entra no citosol das
células musculares e se liga à troponina C. Quando se finaliza, uma ATPase cálcio
dependente devolve o excesso de cálcio ao retículo sarcoplásmico
• Processos de activação enzimática, o cAMP activa a libertação intracelular de cálcio
pelo Retículo Endoplasmático Rugoso, que se liga à calmodulina activando-a. Esta por
sua vez liga-se a uma enzima (guanilato ciclase, fosfodiesterase, ATPase, glicogénio,
fosforilase, quinase, etc.) activando-a. A enzima activada pode fosforilar outras
proteínas como a actina e a miosina do citoesqueleto que promove o movimento de
grânulos de secreção para a periferia e posteriormente para o exterior.
• Adesividade celular e mantém as funções das membranas celulares
• Transmissão do Impulso Nervoso – o cálcio é extracelular e ao entrar para a célula
altera o potencial de membrana, despolarizando-a, criando um impulso
electroquímico.

38
Metabolismo Fósfo-Cálcio

O Metabolismo do Fósfo
Fósfo-Cálcio
Cálcio é um mecanismo e um conjunto de reacções de
natureza química que regulam o ciclo do cálcio e do fosfato no nosso organismo. Começa-se
Começa
pelo metabolismo do Cálcio embora ambos estejam interligados.
Intestino

Vaso

Sanguíneo

Osso

Armazém

Rim

Como em todos os sistemas, há uma porta de entrada para o cálcio, uma porta de
saída e uma de armazenamento
armazenamento.

O cálcio é obtido no exterior por uma via exógena (ingestão de alimentos ricos em
cálcio cuja absorção é feita a nível intestinal).

O cálcio é eliminado para o exterior pelos rins,, regulando assim a concentração de


cálcio. No organismo humano adulto saudável existe aproximadamente 1,2kg de cálcio, que é
uma constante biológica muito estreita permitindo apenas uma variação de 0,1kg. Isto porque
o desvio de cálcio ionizado para além destes valores provoca consequências graves
(hipocalcémia – paragem muscular muscular; hipercalcémia – convulsões tetânicas e
hiperexcitabilidade).

O cálcio é armazenado no osso que funciona como reservatório, preparado para


suprimir as necessidades do organismo (via endógena de obtenção de cálcio).

39
O total de cálcio do nosso organismo está distribuído em três grandes
compartimentos:

Osso, Cartilagem,
Plasma Líquido Intersticial
Dentes

Pool extracelular Pool Periósteo Pool ósseo

1% 1% 98%

Pool miscível Pool imiscível

2% 98%

Existem três factores envolvidos na regulação da calcémia:

1. PTH
2. Calcitriol
3. Calcitonina

PTH (Hormona Paratiroideia)

É produzida pela glândula paratiroideia sob a forma de pré


pré-pró-hormona
hormona até 115
aminoácidos. À medida que vai sendo sintetizada, vai entrando no Retículo Endoplasmático
Rugoso onde a sequência pré é cclivada formando uma pró-hormona
hormona que é transportada para o
Aparelho de Golgi.

Aí, vai ser processada por enzimas proteolíticas que clivam a sequência pró levando à
formação da PTH madura e activa – hormona peptídica composta por uma cadeia simples, sem
ligações nem glicosilações.

40
Regulação da síntese da PTH

A maior parte da PTH é sintetizada e processada com rapidez: quando as


concentrações de cálcio são altas, a formação da pró-PTH é alta. Assim, o cálcio afecta a
produção da PTH não pela síntese, mas pela degradação (o único caminho para intensificar a
síntese de PTH é aumentar o tamanho e número de células produtoras de PTH nas
Paratiroideias).

A PTH é então incorporada no Aparelho de Golgi em vesículas:

• De armazenamento, para uma secreção subsequente


• De secreção imediata para o sangue
• De secreção onde primeiro há uma clivagem da PTH (este tipo de clivagem ocorre
ainda no tecido paratiroideu, mas também pode ocorrer a nível periférico,
nomeadamente nas células de Kupffer no fígado). A clivagem é feita por
endopeptidases, como as catepsinas D e B. As catepsinas clivam a PTH em dois
segmentos:
o PTH 01-36 – para a degradação
o PTH 37 – 84 – para a circulação

Regulação da Secreção em Vesículas

↑Ca2+ Sérico

↑ Ca2+ Intracelular Relação Inversa

Activação das Fosfodiesterases

↓ cAMP produzindo pela Adenilciclase

↓ Activação de proteínas kinases Relação Directa


↓ Fosforilação dos grânulos

↓ PTH

Em baixas concentrações de cálcio, é secretada muita PTH de forma a aumentar a


concentração de cálcio.

A PTH é uma hormona hipercalcemiante.

A PTH entra em circulação e vão exercer a sua acção nos órgãos alvo (actua através de
um mecanismo de transdução hormonal proteica)

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Ligação ao receptor da membrana

Activação da Adenilato Ciclase

Aumento do cAMP intracelular

Ligação do Cálcio à Calmodulina e activação das proteínas quinases

Fosforilação de proteínas intracelulares específicas que medeiam as acções biológicas da hormona

Método Mais Rápido

• No rim actua directamente na reabsorção de cálcio, o que aumenta a secreção de


fosfato (PO42-) para que o limite de solubilidade não seja ultrapassado e não haja
depósitos – pedras nos rins, vesícula.
• Por outro lado, a PTH induz no rim a estimulação da 1-α-hidroxilase, que vai aumentar
as concentrações de Vitamina D.

Método Mais Eficiente

• No osso, a Vitamina D (a PTH não actua directamente) e a PTH vão activar os


osteoclastos que degradam a matriz, libertando cálcio para o sangue. Como também
há libertação de fosfato este vai ser excretado a nível dos rins, para que os dois iões
não fiquem em concentrações muito elevadas no sangue e precipitem.

• No intestino, a PTH não vai actuar directamente, é a Vitamina D que promove a


absorção de cálcio no lúmen.

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Cacitriol (Vitamina D3)

A vitamina D3 é uma hormona esteróide que pode ser obtida de duas formas
diferentes:

Endógena

Exógena

Absorvido ao nível do intestino onde passa para o sangue.

A vitamina D3 é uma molécula lipossolúvel, logo para ser transportada na corrente


sanguínea fá-lo agregada a outra molécula – Globulina Transportadora de Vitamina D.

Regulação

Em baixas concentrações de Vitamina D3, é aumentada a sua produção para repor os


níveis normais. Hormona hipercalcemiante.

Em baixas concentrações de cálcio e consequentemente baixas concentrações de


fosfatos, há aumento da concentração da PTH, o que leva ao aumento da produção de
Vitamina D a nível renal. A vitamina D vai então actuar ao nível do intestino: a Vitamina D
funciona como uma hormona esteróide: une-se a um receptor intracelular que vai fazer a
ligação ao DNA da célula promovendo a transcrição de certos genes em mRNA que vai ser
traduzido para proteínas.

A CBP – Cálcio Binding Protein – fixa o cálcio intracelularmente. Por outro lado, induz
determinados produtos que promovem o movimento do cálcio do lúmen intestinal para o
fluído extracelular (mecanismo mal estudado).

43
Calcitonina

É um péptido de 32 aminoácidos, secretado pelas células parafoliculares da tiróide


(originárias da crista neural) ou Timo.

Toda a molécula incluindo um loop de 7 aminoácidos formado por pontes


pont cis-cis é
necessária para a sua actividade biológica.

A sua produção é estimulada por uma elevada concentração de cálcio e inibida pela
excessiva diminuição desta concentração
concentração.

A sua função é reduzir a concentração de cálcio (hipocalcemiante)


(hipocalcemiante).

Osso Rim Intestino Acção


↑ Velocidade de
↓ Depuração renal Promove a síntese
dissolução do osso.
de cálcio de calcitriol ↑ Cálcio
PTH Estimula os
↑ Excreção de Indirectamente ↑ ↓ Fosfato
osteoclastos a libertar
fosfato absorção de cálcio.
cálcio e fosfato
Favorece a
↑ Cálcio
Calcitriol ↑ Acções da PTH absorção de Cálcio
↑ Fosfato
e Fosfato
↓ Matriz de
reabsorção
↓ Cálcio e fosfato ↓ Cálcio
Calcitonina
sanguíneos ↓ Fosfato
Inibe os osteoclastos
Estimula os osteocitos

44
Mineralização

A Calcificação é semelhante à mineralização, mas pressupõe a utilização só de cálcio.

A Cristalização é diferente da mineralização, pois implica a formação de cristais


organizados.

1ª Fase ou Nucleação

É a fase cristalina que identificamos a partir do momento em que se dá a transição de


uma fase líquida para uma fase sólida
sólida,, ou seja, quando aparece a 1ª fase sólida identificável,
diz-se que se deu a nucleação
nucleação. A nucleação diz-se se primária, quando não existe nenhuma outra
bstância, nem existe nenhum cristal formado. A nucleação primária pode ser:
substância,

 Homogénea – quando o meio está isento de qualquer outra espécie química além dos
elementos que participam na mineralização, ou seja, o cálcio e o fosfato, que se
juntam para formar o cristal, mas não há mais nenhuma substância no meio que ajude
na realização da nucleação.
 Heterogénea – quando existem na solução outras espécies, isto é, substâncias
estranhas ao cristal, mas que permitam a sua formação ((agentes nucleadores –
agentes nucleadores)

45
nucleação que ocorre no homem, pois é mineralizada uma matriz que contém
elementos contaminantes orgânicos – buracos de colagénio.

A nucleação secundária ocorre quando existem cristais já formados, antes de se iniciar


a nucleação. Então, o segundo cristal que aparece já é uma nucleação secundária.

2ª Fase ou Epitaxia

É a fase em que, após a formação do primeiro cristal, se dá o crescimento desse cristal.


No Homem ocorre ao longo das moléculas de tropocolagénio.

Tecidos do Organismo Ricos em Cálcio e Fosfato

• Locais onde ocorre a mineralização: osso, dente (esmalte, dentina e cimento) – osso é
menos mineralizado que a dentina, a dentina tem uma mineralização semelhante à do
cimento, o cimento e a dentina são menos mineralizados que o esmalte.

ESMALTE > DENTINA/CIMENTO > OSSO

• Local onde não ocorre mineralização: rim e músculo

Mineralização dos Tecidos Dentários

Os dentes são formados por três tecidos mineralizados: esmalte, dentina e cimento,
se bem que alguns autores consideram o esmalte como uma estrutura mineralizada, porque
este tecido no estado adulto não contém células no seu interior. A polpa pode também
mineralizar-se em resposta a processos de envelhecimento ou a diversos tipos de agregações,
como as cáries ou os tratamentos dentários.

A mineralização não é um processo totalmente uniforme, dado que apresenta


particularidades para cada tecido.

Por exemplo, a mineralização do esmalte produz-se sobre a matriz orgânica que não
tem nenhuma semelhança com outras matrizes de outros tecidos mineralizados. Dentro da
dentina existem diferenças entre as dentinas do manto e circumpulpares ou entre a
intertubular e a peritubular.

A mineralização consiste na elaboração de uma estrutura – matriz orgânica – rodeada


por um fluido super-saturado de iões cálcio e fosfato que vão precipitar espontaneamente sob
a forma organizada de cristais de hidroxiapatite.

Os cristais não são homogéneos para todos os tecidos. Os maiores aparecem no


esmalte, onde o seu tamanho é dez vezes superior ao dos outros tecidos. Estes cristais estão
rodeados por uma banda de água, chamada capa de hidratação de cristal. Neste meio aquoso
encontram-se dissolvidos diversos iões que podem trocar-se com os que formam a rede iónica
de hidroxiapatite, que pode aparecer à superfície do cristal por interacções electrostáticas.

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A velocidade de mineralização e o tipo de mineral formado depende de factores tais
como o pH e a concentração de iões (cálcio, fosfato e outros). Isto porque:

• A fosfatase alcalina precisa de um pH básico (alto) para funcionar


• Se o pH é muito baixo, os iões H+ vão reagir com o fosfato que deixa de estar
disponível para a mineralização.

Existem várias teorias sobre a mineralização

1) As células do tecido conjuntivo secretam vesículas matriciais

Nos tecidos duros do tipo conjuntivo, quando as células formam uma quantidade
suficiente de matriz orgânica, libertam nessa matriz extracelular pequenas vesículas
provenientes da sua membrana plasmática (estas vesículas foram observadas em zonas nas
quais está a começar a ser produzida a mineralização, por exemplo durante a formação da
dentina de manto ou nas três primeiras etapas da cimentogénese).

O seu diâmetro varia entre 30ª 200 nanómetros e parecem actuar na nucleação, dado
que contêm vários tipos de glicerofosfolípidos diferentes dos da membrana plasmática das
células (apresenta muitos glicoesfingolípidos, fosfatidilserina, esfingocolina e colesterol livre e
não há fosfatidilcolina). Estes glicerofosfolípidos têm uma carga nítida a pH fisiológico. Os iões
cálcio ao interagirem electrostáticamente com os fosfolípidos ficam inseridos na vesícula (foi
identificado que as vesículas quando não têm estes lípidos não conseguem fazer nucleação).

2) As células do tecido conjuntivo secretam uma matriz orgânica

Esta teoria assume que os componentes orgânicos servem como nucleadores, pois têm
regiões de aminoácidos cujas cadeias proteicas têm uma geometria tridimensional
estequiométrica e uma distribuição da carga eléctrica peculiares.

A disposição no espaço destes grupos faria com que num fluido supersaturado de iões
fossem privilegiadas ligações em detrimento de outras, baixando a energia de activação e
orientando o contacto entre o fosfato, o cálcio e os hidroxiliões e, contribuiria para o seu
adequado ordenamento no espaço em forma de rede iónica – Teoria Matricial ou de Molde.

Agentes Nucleadores

a) Colagénio (proteínas colagénicas) – ver propriedades do colagénio associado em


fibras na 1ª parte

Existem três hipóteses para a nucleação nos buracos de colagénio

1) O colagénio tem sido considerado como agente da nucleação, dado que pode
esterificar fosfato com os grupos hidroxilo da hidroxiprolina e atrair o cálcio, que

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interaccionaria com os grupos carboxilos livres. Estas associações produzem-se de
forma regularmente espaçada e repetitiva.
2) A mineralização começa nos buracos, entre as moléculas do tropocolagénio, a partir
de 3 pequenos núcleos cristalinos. Após o crescimento dos cristais ocorre libertação de
novos núcleos.
3) O colagénio forma uma rede que condiciona orifícios. A esta rede ligam-se outras
macromoléculas nucleadoras que intervêm directamente na formação dos cristais.
Assim, o colagénio não funciona directamente como agente nucleador. Esta é a
hipótese mais aceitável, pois ao purificar-se colagénio e ao colocá-lo numa solução
supersaturada de iões não ocorreu mineralização.

A epitaxia ocorre posteriormente ao longo das fibras de tropocolagénio.

b) Proteoglicanas

Na matriz elas associam-se ao colagénio formando as Redes de Mathews e tendem a


ficar concentradas junto dos buracos. As Proteoglicanas são constituídas por GAGs. Antes da
mineralização, a proteoglicana é degrada enzimaticamente, desaparece, e deixa de estar a
fixar o cálcio que fica livre, contribuindo para aumentar a quantidade de cálcio no fluido
supersaturado.

Assim, as Proteoglicanas funcionam como um inibidor enquanto existem, sendo


degradadas para permitir a mineralização.

c) Proteínas Não Colagénicas

São polianiónicas, logo na mineralização tem função de:

• Ser nucleadores minerais, ao colocarem-se nas fibras de colagénio


• Actuam como reguladores da forma e velocidade da mineralização
• Promover a difusão de cálcio no tecido
• Regular a formação de fibras de colagénio e até proteoglicanas.

As Fosfoproteínas depois de serem exocitadas por uma célula para o meio extracelular,
ligam-se a um local específico na fibra de colagénio (zonas de nucleação) por interacções
electrostáticas. Estas proteínas são muito fosforiladas e têm grandes quantidades de fosfato.
Os radicais carboxilo do fosfato vão então ter carga negativa e vão atrair mais iões fosfato. A
este sistema negativo, positivo, negativo chamamos complexo ternário.

Na altura da mineralização temos de disponibilizar cálcio e fosfato – uma das maneiras


possíveis é:

Os complexos ternários da fosfoproteína tendem a dissociar-se nas zonas de


nucleação, porque é aí que vai existir mais cálcio e fosfato, ficando igualmente próximos do
colagénio. Numa dada altura, a parte que não faz complexos ternários é degradada
enzimaticamente, aumentando desta forma o cálcio e o fosfato disponível.

Proteínas Gla: As cargas negativas vão interagir com o cálcio fixando-o e depois
disponibilizando-o na frente de mineralização.

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Glicoproteínas: Têm o papel de provocarem uma concentração no local da nucleação,
da matéria-prima que vai formar o cristal (cálcio). Por outro lado fornecem energia para o
processo de mineralização.

Dada a existência de agentes nucleadores, alguns autores questionaram a função das


vesículas como agentes iniciadores da nucleação. Foi sugerido que estas matrizes poderiam
cumprir outras funções, como a de actuar como bombas de cálcio para controlar a libertação
dos iões inorgânicos no fluido extracelular, de onde estes últimos seriam nucleados por outros
componentes da matriz.

3) Teoria da Fosfatase Alcalina

• Hexose Monofosfato
• Hexose Difosfato Fosfatase Alcalina – Fosfato – Hexose/Glicerol
• Glicero Fosfatos
• Pirofosfato

Em 1923 afirmava-se que a nucleação era feita por uma teoria: a da fosfatase alcalina.
Segundo esta teoria baseada no facto de os locais de mineralização serem ricos nesta enzima,
a fosfatase alcalina hidroliza a ligação éster dos fosfatos orgânicos. A enzima depois, capta os
fosfatos orgânicos que estão na matriz (na forma de hexoses monofosfato e difosfato,
glicerofosfatos, fosfoproteínas, pirofosfato) cliva a ligação do fosfato tornando o Fosfato
Inorgânico.

Deste catabolismo resulta o fosfato livre, disponível para se ligar ao cálcio. Assim,
aumentamos a concentração de fosfato na matriz, formando a supersaturação de cálcio e
fosfato. Quando se ultrapassa o produto de solubilidade os iões depositam-se de forma
desorganizada formando fosfato de cálcio amorfo que depois sofre uma transição para uma
forma cristalina – apatite.

Por vários aspectos esta teoria foi considerada incompleta e actualmente acredita-se
mais na teoria 1 e 2: porque é que apesar de ter cálcio e fosfato o rim não mineraliza?

Porque se produzem alimentos que inibem a mineralização – inibidores de


mineralização

• Produzem fosfoproteínas, pirofosfato que compete com o fosfato para os locais da


nucleação e não permitem que as concentrações dos fosfatos nestes locais sejam tão
elevadas
• Produzem citrato e magnésio que captam o cálcio. Não permitem que a concentração
de cálcio nestes locais seja tão elevada.

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• Produzem fosfoproteínas, osteocalcina, colagénio e glicoproteínas, proteoglicanas que
até serem degradadas mantêm agregadas a si o cálcio.

Porque é que o rim, que é mais rico em fosfatase alcalina do que o tecido
mineralizado não se mineraliza?

• Só pela acção desta enzima não se consegue explicar a grande quantidade de fosfato
que é necessária à mineralização.
• O produto de solubilidade para o fosfato de cálcio amorfo é de 32 enquanto que para
as apatites biológicas é de 8,5, logo, o fosfato de cálcio amorfo é mais solúvel que a
apatite (logo não mineraliza)
• O cálcio e o fosfato existem numa concentração de 18 no plasma, ou seja, o plasma
está supersaturado em relação à apatite, mas está hipossaturado em relação ao
fosfato de cálcio amorfo. Esta é a primeira razão pela qual não existe uma precipitação
espontânea do fosfato de cálcio amorfo no plasma.

Embriologia do Dente

Os dentes começam-se a formar na 6ª semana de vida a partir de um epitélio que


recobre o estomódio. Aí, as células da crista neural vão migrar da ectoderme (células
mesenquimatosas) por estímulos que vêm da mesoderme subadjacente, condensando em 10
zonas em cada maxilar (10 dentes de leite em cada maxilar).

Estas zonas de condensação vão continuar ligadas à ectoderme pela lâmina dentária,
constituindo a bud stage – fase de botão.

50
As zonas de condensação ectodérmica começam-se a organizar de forma diferente e
começam a ter forma diferente (forma de sino) quebrando o contacto com a superfície (órgão
do esmalte) e diferenciando-se em 4 zonas:

1- Epitélio adamantínico externo – vai dar o esmalte


2- Epitélio adamantínico interno – vai dar o ameloblasto
3- Células do retículo estrelado – função de nutrir os ameloblastos, pois estes
afastam-se da zona vascularizada
4- Estrato intermédio – camada central

As células da mesoderme (papila dentária) vão migrar para o epitélio adamantínico


interno e aí diferenciam-se em odontoblastos.

Estes, condicionados por estímulos adequados, começam a secretar a pré-dentina


(produção centrípeta) e a primeira camada é mineralizada em dentina.

51
A pré-dentina, por sua vez, vai estimular a produção de esmalte pelos ameloblastos
(produção centrífuga). Os componentes não ameloblásticos dos órgãos do esmalte reprimem e
atrofiam com a produção de esmalte.

O retículo estrelado fica cada vez mais reduzido, os ameloblastos fundem-se e


degeneram em restos celulares, que desaparecem quando dente erupciona.

A zona HES é uma zona em diferenciação, na qual algumas células se diferenciam em


cimentoblastos e outras em dentina radicular. As células da bainha de Hertwing também
degeneram quando os cimentoblastos depositam cimento na superfície da dentina.

Isto permite a formação da raiz que vai empurrando o dente de forma a que haja a sua
erupção.

O desenvolvimento do dente permanente faz-se a partir de um botão embrionário que


se liga ao epitélio oral pela lâmina dentária, por cima do botão do dente de leite. O
desenvolvimento deste ocorre da mesma forma.

52
Boca

A boca situa-se na parte inferior da face, entre as fossas nasais e a região supra-hióide.
Apresenta uma forma oval de grande eixo ântero-posterior. Divide-se pelas arcadas alvéolo-
dentárias em duas porções: uma exterior, o vestíbulo e outra interior, a boca propriamente
dita. Estas porções comunicam através de espaços inter-dentários e espaços retro-dentários.
Possui 6 paredes.

Parede Anterior

A face anterior apresenta no lábio superior o sulco nasal (ou filtrum), que termina no
tubérculo do lábio superior e no lábio inferior a fosseta mediana.

A face posterior é lisa e coberta por mucosa.

O bordo aderente é limitado exteriormente, no lábio superior, pelo sulco génio-labial


e, no labial inferior, pelo sulco mento-labial. Interiormente, o sulco gengivo-labial é limitado
pela reflexão da mucosa da face posterior dos lábios sobre as gengivas e é interrompido pelo
freio labial (mais nítido no lábio superior).

O bordo livre corresponde à transição entre a pele e a mucosa e apresenta, no lábio


inferior, o entalhe mediano (tubérculo do lábio superior).

A união dos lábios ao nível das suas extremidades origina as comissuras labiais e os
lábios circunscrevem o orifício bucal (ou fenda bucal quando os lábios se aproximam).

Anatomicamente possui uma camada de pele, uma camada muscular, uma camada
submucosa (com glândulas labiais) e camada mucosa.

Paredes Laterais

Estende-se do rebordo inferior da órbita ao bordo inferior da mandíbula e da


comissura dos lábios ao bordo posterior do masséter.

53
Anatomicamente possui pele, tecido subcutâneo (desenvolvimento origina a bolsa
adiposa de Bichat), camada aponevrótica, camada muscular e camada mucosa (apresenta
glândulas molares e orifício de abertura do canal parotidiano – Stenon).

Parede Superior (ou abóbada palatina)

Situa-se entre as arcadas dentárias superiores.

Apresenta, na linha mediana, uma rafe fibrosa que termina no tubérculo que
corresponde ao orifício inferior do canal palatino anterior. No terço superior, de cada lado da
rafe existem cristas transversais.

Anatomicamente possui uma camada óssea, uma camada mucosa e uma camada
glandular.

Parede Inferior (ou pavimento da boca)

É constituída, atrás, pela face superior da língua e adiante pelo pavimento da boca
(apresenta forma triangular).

Apresenta uma porção mediana – freio da língua. De cada lado deste freio observam-
se dois tubérculos que albergam os orifícios do canal submandibular (excretores das
submandibulares). Para fora observam-se os orifícios do canal sublingual major (excretores das
sublinguais).

Entre as arcadas alveolares encontram-se as carúnculas sublinguais (das sublinguais).

Parede Posterior (ou Véu Palatino)

É um septo músculo-membranoso que se estende para trás da abóbada palatina. Pode


elevar-se (na deglutição torna-se horizontal e tapa as fossas nasais) ou baixar-se (contacta com
a língua e não permite a passagem entre boca e faringe).

A face Antero-inferior ou bucal apresenta uma rafe rodeada de orifícios glandulares. A


face póstero-superior ou nasal continua-se com o pavimento das fossas nasais. O bordo
anterior continua-se com a abóbada palatina e o bordo inferior é livre e, na junção média
apresenta a úvula. Esta tem uma forma cónica, cujo vértice se situa entre a base da língua e a
epiglote. De cada lado da úvula encontram-se os pilares do véu palatino.

Dentes

Os dentes são órgãos de consistência dura e implantados no bordo alveolar da maxila


e mandíbula.

Existem duas dentições, a temporária ou decídua, que se estende até por volta dos 7
anos, onde existem 20 dentes (10 por maxilar) sobre a fórmula 2,1,2. A partir dos 7 anos
passam a existir 32 dentes (16 por maxilar) na chamada dentição definitiva sob a fórmula
2,1,2,3.

54
Cada dente é composto por 3 partes: raiz, incluída no alvéolo (não visível), o colo (une
a raiz à coroa) e a coroa (sobressai do bordo alveolar). A coroa é então a porção visível do
dente.

O dente é constituído por diversas faces:

• Faces Vestibulares – olham para o vestíbulo


• Faces Mesiais – olham para o meio
• Faces Distais – olham para fora
• Faces que olham para a boca propriamente dita:
o Em cima – Faces Linguais e Faces Palatinas
o Em baixo – Face Lingual
• Face Oclusal – face para triturar existente nos molares e pré-molares (os dentes que
cortam não têm face oclusal mas sim bordo incisal) – nesta face existem elevações –
cúspides e da união das cúspides surge uma depressão – sulcos ou fissuras.

Os dentes estão fixos através de tecidos periodontais, ou periodentários. O periodonto


é constituído por: ligamento periodontal + osso alveolar + cimento + gengiva (ver periodonto).

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O dente é constituído por 4 tecidos:

A Polpa está localizada em toda a extensão interna do dente. É um tecido conjuntivo


laxo que faz a vascularização/inervação.

A Dentina está localizada à volta da polpa, formando um grande núcleo. É um tecido


conjuntivo mineralizado – 70% (mais que o osso – 60%) e com a função de suporte e absorção
do choque – para que o esmalte não parta.

Na porção radicular, a dentina é coberta pelo Cimento.

Ao nível da coroa, a dentina é coberta pelo Esmalte, que é o tecido mais mineralizado
do corpo humano, é dinâmico e está em equilíbrio dinâmico com a saliva, já que há troca
iónica.

Os dentes classificam-se em:

 Incisivos – são 8 (2 em cada semimaxilar) e servem para cortar os alimentos.


Apresentam uma coroa achatada da frente para trás e a raiz é cónica e achatada
transversalmente.
 Caninos – São 4 (1 em cada semimaxilar), situam-se por fora dos incisivos e são dentes
mais compridos. A raiz é única, volumosa, mais longa que a coroa e apresenta uma
crista vertical na face posterior.
 Pré-molares – São 8 (2 em cada semimaxilar) e situam-se atrás dos caninos. A coroa é
cilíndrica e apresenta 2 tubérculos (interno e externo). A raiz é única. Designam-se da
frente para trás em I e II pré-molares.
 Molares – São 12 (3 em cada semimaxilar) e situam-se atrás dos pré-molares.
Designam-se, da frente para trás, de I a III molares. Têm forma cubóide e apresentam
em regra 4 tubérculos. As raízes são múltiplas.

56
Apatites Biológicas

O tamanho dos cristais depende apenas do tempo de cristalização. Se o tempo de


cristalização for prolongado, dá-se uma cristalização lenta e os cristais formados são grandes.
Se o tempo de cristalização for diminuto, a cristalização é rápida e os cristais formados são
pequenos.

Um corpo pode estar no estado:

• Gasoso – partículas com liberdade de movimentos, logo não têm volume nem forma
definidas.
• Líquido – partículas com alguma liberdade de movimento, volume definido, forma não
definida.
• Sólido – partículas muito estabilizadas, com volume e forma definidos, pois as ligações
intermoleculares são mais fortes e mais numerosas. Um sólido tem como
propriedades físicas: densidade, conductibilidade eléctrica e forças electroestáticas (de
atracção ou repulsão entre as várias moléculas ou átomos que constituem o sólido).

O sólido, por sua vez, pode apresentar-se de 3 formas:

• Sólido Amorfo – as partículas não assumem nenhuma organização especial.


• Sólido Cristalino – o aspecto interno é diferente do externo. As partículas já têm um
determinado arranjo.
• Cristal Puro – O aspecto interno é igual ao externo. Tem um conjunto de propriedades
físicas idênticas na mesma direcção ou em direcções paralelas. Sistemas anisotrópicos.

As apatites biológicas são o cristal que constituem os nossos tecidos mineralizados –


osso, dente (cimento, esmalte, dentina). São um sólido cristalino.

Fórmula Base do Cristal de Apatite

D 5 T 3M
D5 – Catião Divalente ou Bivalente (Ca2+)

T3 – Anião Trivalente (PO43-)

M – Anião Monovalente (OH-)

Existem variantes biológicas, em que por exemplo o OH- e trocado pelo HCO3- (apatite
mais fraca).

A fórmula base também é designada por Motivo de Cristal – menor associação


possível num cristal que se repete, mas que na realidade é impossível isolar (o motivo repete-
se 2 vezes no interior da malha).

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Para isso existe a Fórmula Estequiométrica do cristal – menor associação possível à
qual se pode chamar cristal, pois mantém as propriedades do cristal.

D10T6M2

O Período é o número de vezes que o motivo se repete numa malha (D5T3M)n

O Cristal é constituído por milhares de malhas e cada malha mantém-se à custa de


forças eléctricas. O Cristal apresenta forma hexagonal.

Cada malha é constituída por 2 unidades losângicas e 2 meias unidades (triângulos


equiláteros). Prisma Ortorromboédrico (8 vértices).

A malha tem dois eixos de simetria:

Eixo Senário

É o eixo principal do cristal que perfura o centro da malha. Para dar a volta ao cristal, a
malha tem de rodar 6 vezes em torno deste eixo e vêm-se 6 faces diferentes.

Este eixo contém 2 iões OH- (hidroxilo) à altura de ¼ e 2/4.

Em volta dos iões OH- estão dispostos 3 iões de cálcio num plano paralelo à base,
formando assim um triângulo equilátero.

Os dois triângulos estão invertidos um em relação ao outro. Assim, ao observarmos de


cima, os iões OH- estão sobrepostos e os Ca2+ formam um hexágono regular.

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Os Fosfatos vão estar dispostos entre os cálcios ternários ao mesmo nível (0 e ½).

Esta forma um verdadeiro esqueleto hexagonal em torno do eixo central. Como a


molécula de fosfato não é linear mas sim tetraédrica, 2 oxigénios acompanham sempre o
fósforo, um oxigénio vai para cima e outro vai para baixo, numa imagem de espelho.

As malhas não se encontram isoladas, formam sim uma rede contínua, entrelaçadas
umas nas outras. Assim, o vértice de uma malha corresponde ao eixo senário da outra.

O eixo ternário é o eixo que perfura as duas meias unidades da malha. Para dar a volta
completa ao cristal tem de se rodar três vezes em torno deste eixo e vêem-se três faces
diferentes.

Este eixo possui dois iões de cálcio nos níveis 0 e ½.

No conjunto forma-se um hexágono constituído por:

• Cálcio dos eixos ternários (4)


• Cálcio dos eixos senários (2)
• OH dos eixos senários (2)
• Fosfato entre os cálcios ternários (6)

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Em cada malha podem existir dois tipos de túneis:

• Túnel de Cálcio Tipo I – sobre os eixos ternários da malha. Têm diâmetro de 0,20nm e
4 iões de cálcio.
• Túnel de Cálcio Tipo II – sobre os eixos senários da malha. Têm diâmetro de 0,35nm e
6 iões de cálcio.

Estes túneis permitem a substituição de iões OH- por outros aniões ou mesmo a
formação de lacunas que podemos encontrar muitas vezes nas apatites dos tecidos
calcificados.

Um cristal de hidroxiapatite é menos resistente que um fluoroapatite.

Para se formar cristais de hidroxiapatite, as malhas têm de se encontrar empilhadas,


havendo assim continuação do eixo central. Os OH- na sua disposição, formam um dipólo
eléctrico de carga negativa.

Quando existem na cavidade oral valências ácidas (H+) provocadas por exemplo por
bactérias, estas vão reagir com o fosfato formando sucessivamente: HPO42- / H2PO4- / H2PO4.
Depois reage com o OH- do eixo senário, formando H2O que funciona como concha de
hidratação (libertação de água que esteve sob a forma não livre). Os iões H+ vão portanto
provocar a degradação dos cristais de hidroxiapatite – desmineralização – a um pH inferior a
5,5 (pH crítico dos cristais de hidroxiapatite).

No caso de serem cristais de fluoroapatite, o ião OH- do eixo senário é substituído por
F-. O flúor é o elemento mais electronegativo que existe, atraindo muito mais intensamente os
catiões de cálcio, o que provoca a distensão do cristal que se torna mais comprido, perfeito e
estável. Por outro lado, quando existem valências ácidas (H+) estas vão reagir com o flúor
apenas a um pH inferior a 4,5, oferecendo uma maior resistência à desmineralização.

Antes pensava-se que a desmineralização ocorria apenas nos eixos senários, logo havia
desmineralização do antro do cristal para a periferia. Actualmente sabe-se que a
desmineralização também ocorre à periferia havendo uma desmineralização em ambos os
sentidos.

60
Polpa

A Polpa é o tecido que ocupa a parte central do dente conhecido como espaço pulpar.
Este divide-se em câmara pulpar e no canal da raiz (porção radicular).

Na zona localizada por baixo das cúspides, a câmara pulpar forma uns cornos ou
“hastes” pulpares, cuja presença é muito importante na restauração dentária. O volume da
câmara pulpar diminui com a idade, pois a dentina deposita-se continuamente. O canal da raiz
também se vai estreitando progressivamente com a idade, ficando por vezes quase
completamente fechado.

Histológicamente, a polpa divide-se em 4 zonas:

• Zona Odontoblástica (periferia, contacta com a dentina)


• Zona de Well (livre de células, por baixo do odontoblasto)
• Zona rica em células (adjacente à anterior)
• Núcleo Pulpar (com nervos e vasos sanguíneos)

Quanto à sua função:

• Formação da Dentina, já que os fibroblastos da polpa se diferenciam em


odontoblastos e é a polpa que nutre os odontoblastos permitindo que formem a pré-
dentina e, logo, a dentina.
• Manutenção da Dentina, já que a dentina secundária só se pode formar se os
odontoblastos se mantiverem vivos, o que é assegurado pela polpa. É na polpa que se
diferenciam os odontoblastos celulares que irão produzir uma dentina reparadora e
terciária.
• Nutrição, pois a polpa tem vasos sanguíneos e capilares. Para além disto, os corpos
celulares dos odontoblastos estão mergulhados na polpa e comunicam com esta por
pequenos túbulos e é por estes túbulos que a célula é nutrida.
• Sensorial, pois possui nervos e terminações nervosas que quando estimuladas
transmitem estímulos.
• Defesa, pois tem células imunológicas do tecido conjuntivo e na circulação sanguínea.

A polpa é o único tecido não mineralizado do dente com uma constituição e moléculas
peculiares que se vão alterando.

Constituição

• Vasos Sanguíneos e Linfáticos – os vasos sanguíneos entram e saem da polpa pela via
apical e pelos canais laterais acessórios. As arteríolas da matriz ramificam-se até à área
sub-odontoblástica, podendo chegar até à pré-dentina. O fluxo dos capilares é
máximo, excepto na dentinogénese. As veias drenam todas para um ou duas veias
mais grossas que depois saem pelo orifício apical.
• Nervos – têm uma distribuição semelhante aos vasos sanguíneos.
• Células
o Fibroblastos – em maior quantidade
o Odontoblastos – têm o corpo celular na polpa

61
o Células Mesenquimatosas – indiferenciadas mediante determinados estímulos
originam odonto e fibroblastos.
o Macrófago – têm uma distribuição perivascular e estão implicados na
eliminação de células mortas. Quando se produz uma inflamação na polpa
estes eliminam as bactérias invasoras e interagem com outras células
inflamatórias.
o Histócitos
o Linfócitos – Tipo T numa polpa normal
o Eosinófilos
o Plasmócitos
o Mastócitos – só aparecem em pulpites

Aos 70 anos, as células na polpa diminuem aproximadamente para metade.

• Matriz Extracelular
o Substância amorfa
 Muita água – solvente matricial, diminui com a idade
 Pouca matéria orgânica – oligoelementos, magnésio, ferro, cobre, P,
Na, C, F em que os 3 últimos em concentrações superiores em relação
aos outros tecidos conjuntivos laxos, sendo importantes para a
dentina e aumentam com a idade.
 Elevada concentração de glicoproteínas – nomeadamente
fibronectina. Na polpa, a fibronectina permite a diferenciação do
fibroblasto em odontoblasto durante a embriogénese.
 Elevada concentração de proteoglicanas – constituídas por GAGs.
• As GAGs na polpa têm a função de:
o Formação e Organização do colagénio na polpa
(fibrilhogénese)
o Controlo da infecção e inflamação
o Proliferação celular
o Processo de reparação de tecidos (mineralização na
dentinogénese primária, secundária e terciária e
ligação ao cálcio)
• Principais GAGs
o Sulfatadas
 A sua biossíntese diminui ao longo da vida
durante a fase de germe existe 60% de GAGs,
durante a fase de formação radicular 13% e no
dente maduro 2%.
 Condroitina Sulfato – tempo médio de vida de
4 dias sendo degrada por proteases endo e
exoglicosidases e sulfatases – condroitina
sulfatase – que trabalha a um pH óptimo de 3-
5. Mais abundante, sintetizada pelos
odontoblastos, libertada para a frente de

62
mineralização e a sua síntese aumenta 2x na
presença de TGF-β.
 Dermatana Sulfato – tempo médio de vida de
7 dias, sendo degrada por proteases endo e
exoglicosidases e por sulfatases. Menos
abundante, sintetizada pelos fibroblastos,
manutenção da estrutura do tecido. A sua
síntese aumenta 2x na presença de TGF-β.
o Não Sulfatadas
 Ácido Hialurónico – ocupa o espaço a nível da
papila na embriogénese. É degradado por
proteases endo e exoglicosidases –
hialuronidases que clivam as ligações β-1,4.
o TGF-β – Factor de Crescimento Transformante β
 Encontra-se na matriz dentinária
 Sintetizado como grande precursor proteico (processamento
proteolítico)
 Existem vários (β1, 2, 3, 4, 5) com funções e estruturas semelhantes
(super-família TGF-β)
 Constituem uma família de mediadores locais que regulam a
proliferação e função da maioria dos diferentes tecidos das células dos
vertebrados.
 Acção
• Actua na modulação, proliferação e diferenciação celular
• Estimula a diferenciação dos odontoblastos
• Potente regulador dos vários componentes da matriz: induz a
síntese de GAGs sulfatados na polpa e reparação da dentina.
o Fibras Conjuntivas
 Elastina (alguma)
 Oxitalanas (algumas)
 Quantidade apreciável de colagénio, apesar de em comparação com
outros tecidos periodontais a sua quantidade ser baixa:
• I – 56% - a sua concentração na polpa é superior ao colagénio
tipo III, constituindo fibras grandes
• III – 41% - 12% sob a forma solúvel e 29,4% sob a forma
insolúvel pois tem ligações dissulfito intermoleculares.
• V – 2% apresente espécies moleculares diferentes

O colagénio possui uma síntese e um turn-over rápido, mas o tempo médio de vida
aumenta com a idade (no jovem é 7,5 dias, no adulto 13,5 dias). Com a idade há uma
estabilização ou aumento da quantidade total de colagénio, pois apesar da síntese diminuir
com a idade, a degradação também diminui, pois a enzima colagenase e catepsina diminui a
sua actividade com a idade.

63
Por outro lado, a quantidade de Colagénio tipo III aumenta com a idade (apesar do
colagénio tipo I ser sempre predominante). Isto porque o colagénio tipo III tem maior número
de resíduos de hidroxilisina e é muito glicosilado, é mais resistente e a sua degradação é mais
difícil. O aumento do colagénio tipo III faz com que aumente a fracção insolúvel com
co a idade.

Metabolismo Pulpar

Ocorre na dentinogénese activa

Via Aeróbia Maior na Polpa Apical

Metabolismo Menor na Polpa Coronária


celular

Via Ocorre na polpa inflamada (LDH ↑)


Anaeróbia

As necessidades energéticas aumentam com patologia pulpar ou polpa em


desenvolvimento e diminuem com final da rizogénese (formação de raiz).

Etiologia das Agressões Pulpares

As agressões podem ter origem:

• Microbiana (invasão por agente infeccioso)


• Física (movimentos bruscos)
• Química (apresentação de um antigénio)

Progressão da Lesão

• Lesão Inicial
o Cárie pouco profunda (1mm)
o Lesão reversível da polpa
o Remoção da dentina cariada e restauração
o Recuperação da Polpa
o Aspecto histológico da polpa – poucas células inflamatórias

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• Lesão Avançada
o Desmineralização da Z. esclerose
o Progressão da cárie em direcção à dentina secundária.
o Aspecto histológico da polpa – alterações histológicas significativas com
formação de abcessos
• Cárie Profunda
o Invasão bacteriana com infecção da dentina secundária
o Infecção do tecido necrosado dos abcessos pulpares
o Necrose pulpar
o Infecção de todo o tecido

Quando há uma lesão, o organismo reage com uma resposta inflamatória.

Inflamação

As células da área ferida produzem vários mediadores químicos da inflamação:

• Aminas
o Histamina
 Amina vasoactiva
 Surge após lesão celular
 Desgranulação basófilos e mastócitos
 Mediador de acção rápida/curta
 Duração (Histaminase)
• Vasodilatador potente – permite o suprimento sanguíneo à
zona
• Permeabilidade Capilar – células endoteliais – as gap junctions
retraem-se
• Passagem de fluído – Edema
o Serotonina
 Amina vasoactiva
 Sintetizada pelas células intersticiais
 SNC e Plaquetas
 Triptofano  5-hidroxitriptofano  5-HT
 Funções idênticas – Dor, Edema, migração de células inflamatórias…
• Quininas
o Grupo de péptidos vasodilatadores formados a partir de globulinas circulantes
o Doses baixas
o Potentes Vasodilatadores
o Aumento da Permeabilidade Plasmática
o Aumento do fluxo sanguíneo pulpar
o Quimiotaxia leucócitos
o Dor

Forma-se um tripé de pré-calicreína, cininogénio de alto peso molecular e factor XVII, que
em contacto com o colagénio exposto à superfície dos vasos sanguíneos, promove a proteólise

65
do factor XII a XIIa (reacção amplificada pela calicreína). O factor XII também consegue activar
a conversão da pré-calicreína
calicreína a calicreína, havendo assim uma activação recíproca, o KHM
converte-se
se em Bradicina também pela acção da calicreína.

• Prostaglandinas
se nas fases tardias da infla
o Manifestam-se inflamação
o Vasodilatador – potencia acção das quininas, histaminas e 5-HT
HT
 Permeabilidade Vascular – Aumento da resposta vascular

Regulação da Inflamação

• Citoquina – moléculas solúveis envolvidas na comunicação entre células durante as


respostas imunes. Proteína
Proteínas ou péptidos ou glicoproteínas.
• Sistema de Enzimas Plasmáticas – Sistema coagulação, sistema fibrinolítico/plasmina,
Sistema Quininas, Sistema Complemento
• Mediadores Vasoactivos

Assim, a principal causa de dor pulpar:

pH ácido

Mediadores Dor Aumento da


pressão
Inflamatórios
Pulpar intrapulpar

Isquémias

A polpa está circunscrita a um meio rígido (dentina) e não se pode dilatar, logo,
quando aumenta a pressão intrapulpar, há dor. A actividade quimiotáxica aumenta o número
de células e o fluido intrapulpar (aumento da P), tal como os mediadores inflamatórios que
provocam edema (aumento d da P).

A trombose de pequenos vasos aumenta o número de plaquetas e activa o sistema de


quininas e serotonina (isquémia). Dá
Dá-se aqui também a sensação de dor.

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A polpa é um tecido que apenas academicamente se divide da dentina, visto que estes
estão profundamente relacionados espacial e funcionalmente formando um único complexo.

• Possuem a mesma origem embrionária


• A polpa tem como função formar dentina, já que os fibroblastos da polpa diferenciam-
se em odontoblastos, é a polpa que nutre os odontoblastos permitindo que estes
formem a pré-dentina e logo a dentina.
• A polpa tem como função manter a dentina já que a dentina secundária só se pode
formar se os odontoblastos se mantiverem vivos, o que é assegurado pela polpa. Para
além disso é na polpa que se diferenciam as odontoblast like cells, que irão produzir
uma dentina reparadora quando esta é danificada intensamente.
• Os corpos celulares dos odontoblastos estão mergulhados na polpa e comunicam com
esta por pequenos túbulos (diferentes dos processos odontoblásticos), é por estes
túbulos que a célula é nutrida.
• A polpa necessita da protecção da dentina que a isola completamente do meio
contaminado. Isto é extremamente importante porque quando por exemplo a pele é
activada por uma bactéria activam-se os mecanismos de defesa do organismo que
normalmente provocam inflamação na zona infectada. Os tecidos, quando inflamam,
aumentam ligeiramente de volume. Na pele isto não constitui qualquer problema
porque a pele tem espaço para que ocorra a inflamação e até é bom sinal, significa que
o sistema imunitário está a responder à infecção. Mas na polpa, o espaço está limitado
e vai provocar a compressão do nervo e, consequentemente, dor.
• A dentina saudável impede estas situações.
• Polpa e dentina interligam-se e completam-se, participando juntas em diversos
mecanismos do dente.

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D e n ti n a

É o principal composto estrutural do dente.

Dentinogénese

É um tecido que apresenta uma matriz mineralizada, secretada pelo odontoblasto.

Fase Pré-Secretora

As células da mesoderme (células mesenquimatosas da crista neural) vão formar a


papila dentária que depois se difere em polpa. É a partir da polpa que vão migrar fibroblastos
para junto do epitélio adamantínico interno. Esta migração deve-se às interacções recíprocas
entre uma proteína extracelular com sequência RGD que envolve os fibroblastos – fibronectina
– e os envolve de actina intracelular através da membrana plasmática dos fibroblastos,
interacções mediadas por integrinas. Assim, os citoesqueletos das células podem exercer
forças que orientam macromoléculas da matriz e estas organizam os citoesqueletos das células
modulando a sua forma e permitindo a sua movimentação.

Forma-se então uma fileira de pré-odontoblastos junto à fileira de pré-ameloblastos,


delimitando a polpa (pensa-se que a diferenciação de fibroblastos em pré-odontoblastos se
deve a mediadores químicos). Os pré-odontoblastos são células pulpo-dentinárias.

Em seguida dá-se a diferenciação do pré-odontoblasto em odontoblasto. A


diferenciação faz-se devido à interacção do esmalte e do mesênquima, através da lâmina basal
que serve de túnel comunicativo e simultaneamente de filtro selectivo entre os 2 tecidos
permitindo a passagem de factores que vão induzir a diferenciação (ex. TGF-β).

O TGF-β é um factor de crescimento transformante que se liga a receptores da


membrana externa do pré-odontoblasto (integrinas) que vão ser fosforiladas levando a acções
a nível do núcleo e consequentemente levando à produção de proteínas.

A fibronectina muda então de posição para a porção apical da célula, induzindo a sua
diferenciação.

Factor de Crescimento da Epiderme Estimula o crescimento de muitos tipos de células. Actua como
EGF sinal indutor no desenvolvimento embrionário.
Factor de Crescimento Neural Efeito trópico sobre certos neurónios simpáticos e sensoriais.
NGF
Potencia ou inibe a resposta da maioria das células a outros
Factor de Crescimento
factores de crescimento, dependendo do tipo de célula. Regula a
Transformante
diferenciação de certos tipos celulares. Actua como um sinal
TGF-β indutor no desenvolvimento embrionário.
Factor de Crescimento Derivado das Estimula a proliferação de células mesenquimatosas e células da
Plaquetas Gália.
PDGF
Promove a proliferação, diferenciação e sobrevida dos precursores
Eritropoietina
dos glóbulos vermelhos.
Estimula a proliferação de muitos tipos de células. Inibe a
Factor de Crescimento do
diferenciação de vários tipos de células pluripotentes. Actua como
Fibroblasto FGF sinal indutor no desenvolvimento embrionário.

68
Fase Secretora

O odontoblasto tem as seguintes características:

• Aparelho de Golgi proeminente


• Grande número de vesículas, o que sugere uma célula com alta actividade secretória
• Citoplasma fica polar, ou seja, o núcleo fica voltado para a cavidade pulpar
• Vai apresentar na face voltada para a dentina um prolongamento do citoplasma que se
vai alongar num longo processo odontoblástico, que atravessa a camada da dentina
• Apresenta uniões entre os odontoblastos adjacentes, permitindo a comunicação entre
eles (troca de iões e moléculas de baixo peso molecular). O número e localizações
destas uniões é variável, pois formam-se e desaparecem consoante as condições
funcionais dos odontoblastos.

À medida que os odontoblastos se diferenciam e os organitos (Retículo


Endoplasmático Rugoso e Aparelho de Golgi) se tornam proeminentes, vão formando
macromoléculas que são enviadas para o exterior das vesículas e que constituem a matriz
orgânica – pré-dentina (secreção para fora).

A pré-dentina tem uma grossura variável e é constituída por:

Proteínas

Colagénio

Constitui cerca de 90% do conteúdo proteico da matriz, estando presente:

• Colagénio tipo I é predominante formando uma rede


• Aparecem também pequenas quantidades de colagénio tipo V
• O colagénio tipo IV está presente no começo da dentinogénese quando existe uma
membrana basal a separar a dentina do esmalte
• O colagénio tipo III existe em muito pouca quantidade (produzido por odontócitos),
aumento na dentina secundária e terciária.

Proteínas Não Colagénicas

Constituem cerca de 10% do conteúdo proteico da matriz, sendo elas:

Fosfoproteinas – existem vários tipos presentes que apresentam diferentes graus de


fosforilação.

• Proteínas com baixo teor de fosfato (PP-I), que são divididas por alguns autores em PP-
I moderadamente fosforiladas e PP-I debilmente fosforiladas.
• Proteínas com elevado teor de fosfato ou fosforinas (PP-H).
o São mais ácidas porque têm grande teor de fósforo e são compostas em cerca
de 40% pelo aminoácido aspartato (que não possui cadeia negativa) e em 50%
pelo aminoácido serina que é fosforilado. (mais de 80% dos a-a das proteínas
têm cargas negativas)

69
o A BPP é um PP-H encontrada no bovino com elevada afinidade para o cálcio,
formando complexos ternários. Tem também interacções específicas com o
colagénio tipo I.
o A AG1 é uma PP-I encontrada nos incisivos de rato, constituída por grandes
quantidades de glutamato, com uma única sequência Asparagina-Treonina-
Serina e com alguma quantidade de fósforo.

Proteínas Gla – São proteínas que têm na sua sequência o aminoácido glutamato modificado
(o grupo carboxilo, por acção de uma carboxilase k-dependente, sofre uma carboxilação,
ficando assim com duas cargas negativas). No osso e na dentina encontramos 2 proteínas Gla:

• Proteínas Gla da Matriz (MGP) – apresentam na sua estrutura uma ponte dissulfito e 5
aminoácidos são gamacarboxil-glutamato.
• Proteínas Gla do tipo Osteocalcina – apresentam na sua estrutura uma ponte dissulfito
e 3 aminoácidos são gamacarboxil-glutamato.

Glicoproteínas – A princípio identificaram-se proteínas com pesos moleculares de 95KDa (34%


de Hidratos de Carbono, dos quais 10% Ácido Siálico) e 65KDa (com 24% de Hidratos de
Carbono). Ambas ricas em aspartato, glutamato, serina e glicina. Nos últimos anos
caracterizaram-se outras:

• Osteonectina (SPARC) – identificou-se na dentina e viu-se que era uma proteína de


secreção ácida rica em cisteína. Aparece na pré-dentina e nos prolongamentos
odontoblásticos. É uma proteína fosforilada e ácida porque contém grande
percentagem de aspartato e glutamato (0,5% de fósforo orgânico que é inibidor da
mineralização e 10% de hidratos de carbono).
• Sialoproteína I (BPS-I) – É uma glicoproteína da dentina constituída por grande teor de
aspartato (que forma uma hélice α – união com sódio), serina, glutamato e poucas
fosfoserinas. O seu conteúdo em ácido siálico varia consoante a espécie.
• Sialoproteína Óssea (BPS II) – Com estrutura em lâmina β. O conteúdo de ácido siálico
varia com a espécie e possui 7% de glucosamina e 6% de galactosamina. Apresenta
sulfato que aparece como tirosina sulfato ou unido a oligossacarídeos. O teor em
aminoácidos é conferido pela sequência argnina-guanina-aspartato (promove a união
ou dispersão das células da matriz extracelular).
• Sialoproteínas específicas da dentina (DPS) – Proteína anteriormente designada 95KDa
• Proteína RP4 – Sequência terminal rica em glicina, prolina, glutamina e alanina.
• Proteínas Exógenas ou Séricas – vem da circulação durante a mineralização
o Albumina
o 2HS – Glicoproteína
o Transferrina
o Enzimas

Proteoglicanas – As proteoglicanas da dentina são de tamanho pequeno como a decorina, a


bligluecno e a versican que são constituídas por um resíduo proteico de 400KDa, as GAGs do
tipo: Condroitino-4-sulfato, Condroitina-6-sulfato, Queratana-Sulfato e Dermatana-Sulfato.

70
Estas proteoglicanas tendem a associar-se ao colagénio tipo I, formando um complexo – Rede
de Matthews – que ocupa a matriz da dentina.

Fosfolípidos – Pensa-se que na pré-dentina são provenientes das vesículas secretoras de cálcio
cujas membranas são rompidas e degradadas. Na pré-dentina aparecem situados entre as
fibras individuais ou grupos de fibras de colagénio.

Fase de Mineralização

Começa então a mineralização da pré-dentina para formar dentina primária. A


mineralização ocorre numa linha imaginária, a que se chama frente de mineralização.

A mineralização consiste na deposição de cristais de hidroxiapatite sobre a matriz


orgânica, processo no qual intervêm odontoblastos e elementos da matriz:

• Colagénio
• Proteínas não colagénicas – fosfoproteínas, proteínas Gla, glicoproteínas, RP4 e séricas

Proteínas Séricas

Albumina – não se conhece bem a sua função na dentina, mas a ele são atribuídas algumas
mal-formações da dentina. É uma molécula hidrofílica e como tal com afinidade para a pré-
dentina, ligando-se facilmente a ela. Se não for removida pela acção de determinadas enzimas,
vai ficar retida na dentina mineralizada. Como ocupa um grande volume provoca ondulações
na dentina, o que torna o esmalte mais frágil. É, como tal, um contaminante da dentina.

2HS-Glicoproteína

Transferrina – Faz o transporte do ferro. Tem um receptor ao nível do odontoblasto,


libertando lá o ferro.

Enzimas – Vão ser transportadas da circulação para a matriz e vão eliminar qualquer molécula
estranha que possa interferir na mineralização (por exemplo a dentina). Uma substância
estranha, isto é, contaminante, pode levar a uma mineralização imperfeita, com ondas que
podem condicionar a posterior formação do esmalte também com ondas que, sob pressão
(por exemplo mastigação) pode levar a fissuras no esmalte. Nestas fissuras podem-se
acumular bactérias e restos de comida que poderão levar a uma lesão de cárie.

• Lisozimas – eliminação de substâncias indesejáveis ao organismo


• Catepsinas – eliminação de fragmentos de certas proteínas
• Glicosidases – eliminação do teor glucídico de certas proteínas
• Proteases – degradação de proteínas
• ATPases – degradação de ATP quando o organismo pede
• Fosfatase Alcalina – separação do fósforo de uma molécula fosforilada a pH alcalino.
Assim, fica mais fósforo livre que se associa ao cálcio formando cristais de
hidroxiapatite. Quando é encontrada no organismo significa que este está em
crescimento.

Proteoglicanas

71
Fosfolípidos

Atraem grandes concentrações de cálcio, permitindo a mineralização. Pensa-se que a


sua natureza hidrofóbica permite a compartimentação.

Odontoblastos

Vão participar na metabolização e mesmo reabsorção de vários componentes


orgânicos da matriz da pré-dentina. Os odontoblastos transportam o cálcio da circulação
sanguínea para a frente de mineralização no espaço entre os dois odontoblastos ou
intracelularmente:

• Deduz-se que a entrada de cálcio para os odontoblastos é realizada principalmente por


canais de cálcio tipo II, apesar do transporte depender também de outras vias de
entrada.
• O cálcio é acumulado no corpo celular distal e nos processos odontoblásticos. A maior
parte do cálcio intracelular está em mitocôndrias. Há um mecanismo de captura do
cálcio e um antiporte Ca2+/Na+, para expelir depois o cálcio para o citosol.
• O RER, Aparelho de Golgi e Microssomas possuem uma ATP cálcio dependente. O
papel das proteínas intracelulares ligadoras de cálcio é contraditório
o Quando a concentração e cálcio atinge um determinado valor, o cálcio vai ser
libertado para o meio extracelular por vários mecanismos (antiporte,
ATPases…). O cálcio pode ainda ser libertado em vesículas matriciais.

Os cristais de hidroxiapatite da dentina apresentam-se sob 3 formas predominantes:

• Cristais Grandes e Planos – ocupam espaços entre as fibras de colagénio


• Cristais Medianos – tipicamente hexagonais que ocupam os buracos de colagénio
• Pequenos Cristais – ocupam espaços pequenos entre fibrilhas de colagénio

Os cristais de hidroxiapatite da dentina são 10 vezes menores que os do esmalte, de


forma a que o espaço entre eles seja maior, haja menor fusão, menor dureza, maior
permeabilidade, mobilidade e elasticidade, permitindo que o dente não fracture com
facilidade quando sujeito a uma força de tracção (o esmalte fractura mais facilmente que a
dentina).

A Dentina Primária é constituída por:

• 70% Matéria Inorgânica – cristais de hidroxiapatite com menos fósforo e cálcio que o
esmalte, mas com mais magnésio, carbonato e flúor.
• 10% Água – na superfície dos cristais e nos espaços intercristal
• 20% Matéria Orgânica – há bastantes proteínas colagénicas, colagénio I é
predominante e há algum tipo III. Proteínas não colagénicas (semelhantes à pré-
dentina). Proteoglicanas quase inexistentes, porque foram degradadas na
mineralização. As poucas que há tem uma cadeia proteica central de 45KDa,
fosfolípidos que são provavelmente provenientes das vesículas, mas também dos
processos odontoblásticos que são em parte degradados durante a mineralização,
citrato e mucopolissacáridos.

72
A dentina primária tem a particularidade das fibras de colagénio estarem debilmente
empacotadas, o que provoca desorganização, irregularidade estrutural. A sua matriz é um
pouco menos mineralizada que as outras dentinas e não tem quaisquer túbulos.

À medida que se forma a dentina primária junto à junção amelodentinária, os


odontoblastos vão sendo empurrados na direcção da polpa deixando prolongamentos
odonblásticos – protoplasmas – que vão formar túbulos na dentina (que vão do esmalte à
polpa). Estes protoplasmas são constituídos por citoplasma praticamente desprovido de
mitocôndrias e RER apresentando finos filamentos e microtúbulos.

Os odontoblastos continuam a secretar matriz que vai ocupar agora os espaços entre
os protoplasmas, que é mineralizada e forma a Dentina Secundária que tem:

• Constituição química semelhante à dentina primária


• Dentina secundária tem a particularidade de ter uma estrutura mais organizada (o
colagénio tipo I predomina e o tipo III diminui, daí ser mais mineralizada)
• A dentina secundária é uma dentina tubular e divide-se em:
o Intertubular – Entre os túbulos de dentina e as suas fibras de colagénio estão
fortemente entrelaçadas entre si, promovendo uma organização estrutural
superior à da primária
o Peritubular – Situa-se na periferia dos túbulos da dentina, nunca foram
identificadas fibras de colagénio na sua estrutura, logo devem ser muito
poucas ou mesmo inexistentes. Tem maior densidade e mais 40% da
mineralização que a intertubular, sendo portanto mais rígida. Em condições
normais é esta a dentina produzida pelo odontoblasto durante toda a vida
muito lentamente.

À medida que os odontoblastos são empurrados para a superfície, a área superficial da


polpa é cada vez menor e os odontoblastos não tendo espaço para se disporem à superfície
pulpar, dividem-se por apoptose.

Quando há uma situação nociva para o odontoblasto, ele pressente o perigo pois tem
receptores que se ligam a neurotransmissores retraindo o prolongamento citoplasmático junto
ao esmalte. O túbulo que fica vazio é ocupado por fosfato de cálcio amorfo que fecha a
comunicação com o exterior. Este fosfato de cálcio amorfo é produzido rapidamente pelo
odotonblasto – esclerose dentária. Como o túbulo deixa de estar vazio, o tecido fica mais
homogéneo, há redução do desvio da luz, o que torna a dentina mais translúcida. Isto vai
evitar a entrada de bactérias para a dentina. Se a agressão persistir, o odontoblasto vai
continuar a retrair o prolongamento citoplasmático. Quando não tem mais espaço para retrair
vai produzir uma Dentina Reaccional.

Se, mesmo assim, a agressão continuar, o odontoblasto acaba por morrer formando
túbulos vazios.

Células Mesenquimatosas Indiferenciadas da polpa conseguem diferenciar-se em


Odontoblast like-cells por factores existentes devido a uma grande quantidade de células
imunitárias.

73
Estas migram até à dentina com a ajuda da fibronectina e lá produzem uma matriz com
predomínio de colagénio tipo I e tipo II. Esta matriz é depois mineralizada e não tem estrutura
tubular, tem sim um conjunto de orifícios que a tornam permeável a substâncias da polpa.

Como a dentina é formada rapidamente apresenta uma certa desorganização de


orifícios e algumas inclusões celulares. Esta é a Dentina Terciária ou reparadora ou
regeneradora, por vezes denominada de Osteodentina.

Turn-over Dentinário

Na dentina primária não há turn-over, pois está junto ao esmalte e é desprovida de


células.

A restante dentina tem turn-over, pois tem os prolongamentos odontoblásticos que


permitem a produção de dentina peritubular durante toda a vida.

Intercâmbio com o Meio

No dente erupcionado, os tecidos duros mantêm um intercâmbio de substâncias com


o organismo, o que implica um certo grau de permeabilidade nas estruturas que compõem o
dente.

Foi visto experimentalmente que a ureia radioactiva injectada na polpa atravessava a


dentina indo por vezes até ao esmalte. Esta ureia podia posteriormente regressar à polpa com
uma velocidade de difusão muito rápida.

Pensa-se, portanto, que o intercâmbio com o meio é feito por:

• Canalículos
• Protoplasmas
• Líquido extracelular em redor dos protoplasmas

Um intercâmbio contínuo de soluções, ricas em minerais, pode provocar uma


progressiva obturação dos canais (entupimento). Por isso, os dentes com dentina III têm maior
concentração em iões cálcio e fosfato e menor quantidade de água e matéria orgânica.

74
Esmalte

É o tecido mais superficial do dente.

Amelogénese

A amelogénese define-se como o processo de formação do esmalte dentário.

Fase Pré-Secretora

As células da crista vão migrar da ectoderme por estímulos que vêm da mesoderme
adjacente, condensando-se em 10 zonas de cada maxilar (10 dentes de leite em cada maxilar).

Estas zonas de condensação da ectoderme vão continuar ligadas à ectoderme pela


lâmina dentária, constituindo a Fase de Botão. As zonas de condensação ectodérmica
começam-se a organizar de forma diferente e começam a ter a forma de um sino, quebrando o
contacto com a superfície e diferenciando-se em 4 zonas:

• Epitélio Adamantínico Externo – Camada periférica do esmalte


• Epitélio Adamantínico Interno – Origina os ameloblastos
• Células do Retículo Estrelado – Nutrem os ameloblastos
• Estrato Intermédio – camada central

Após a formação da pré-dentina, esta vai estimular a formação de pré-ameloblastos a


partir do Epitélio Adamantínico Interno.

A pré-dentina e a dentina vão ainda induzir a diferenciação dos pré-ameloblastos em


ameloblastos.

75
Os Ameloblastos adultos são células secretoras polarizadas, com 40 a 50 micrómetros
de altura por cinco de diâmetro, intimamente ligados por complexos juncionais que dão
origem às barras terminais proximal e distal. Possuem um sistema ribossomal e de Golgi bem
desenvolvidos, com um citoplasma rico em mitocôndrias, apresentando um pólo apical de
forma cónica denominado Processo de Thoms. Calcula-se que os ameloblastos adultos
produzam em média 4 micrómetros de espessura de matriz orgânica dos prismas por dia.

Processo de Thoms

A pré-dentina e dentina vão ainda estimular a secreção da matriz orgânica pelos


Ameloblastos.

A dentina consegue influenciar todos estes processos pois os Ameloblastos têm


receptores que activam vias de transdução de sinal.

Grupo I

• Os ligandos são a vasopressina, endotelina e bradicinina


• Os receptores vão activar Proteínas G (s, i, q). As proteínas Gs e Gi vão estimular a
adenilato ciclase a converter ATP em cAMP. As Gs tem função de promover a
diferenciação dos Ameloblastos na fase secretória da matriz. As Gi promovem a
formação do esmalte maduro (fase madura).
• A proteína Gq vai activar a fosfolipase C que por sua vez converte o fosfatidil inositol
4,5 difosfato em 1,2 diacilglicerol e Inositol Trifosfato, que vão activar a proteína
Quinase C havendo libertação de proteínas citosólicas importantes na transferência do
ameloblasto.
• A proteína Gq tem então como função o crescimento e amadurecimento dos pré-
ameloblastos em ameloblastos.

Grupo II

• Os ligandos são factores mitogénicos (“growth factor”)


• Os receptores são receptores Tirosina Quinase (glicoproteínas formadas por 2 sub-
unidades α extracelular e 2 subunidades β transmembranares unidas por pontes
dissulfito.

76
• Quando o ligando se liga, a tirosina cinase fosforila-se, indo activar a fosfolipase C que
por sua vez converte o Fosfidilinositol 3P em Inositol 3P e Diacilglicerol
• Quando o ligando se liga, a tirosina quinase activa Grb2, SOS ou Ras, que vão activar a
MAP quinase que por sua vez promove a libertação de proteínas citosólicas
importantes para a transferência do ameloblasto.
• A função da Grb2 não está definida. A SOS existe nos pré-ameloblastos, próximos do
mesênquima pulpar, tem a ver com as substâncias vindas do sangue.

Grupo III

• Os ligandos são a fibronectina e o colagénio – secretados por pseudópodes emitidos


pelos odontoblastos.
• Os receptores de Integrina activam o sistema FAK que faz a adesão da célula à matriz,
recebendo estímulos da matriz e dando respostas à matriz dentinária.

Grupo IV

• Os ligandos são interleucina (CSI) e prolactina


• Os receptores são receptores de Citoquina que têm uma proteína JAK que tem como
função actuar ao nível dos factores de crescimento.
• VaV – ameloblasto diferenciado (terminus da secreção)

77
Fase Pré-Secretora

Os ameloblastos estão muito unidos entre si (desmossomas) nos pólos basal e apical.
Inicia-se então a secreção da matriz que constitui o esmalte e vai definir o seu tamanho final.
Verificou-se que este processo também ocorria residualmente nas restantes fases, talvez
devido a um controlo pouco restrito do mecanismo.

O processo secretor progride no sentido cervical, aumentando gradativamente a


espessura do esmalte devido ao deslocamento centrífugo dos ameloblastos à medida que
secretam matriz orgânica dos prismas. Nesta fase os ameloblastos secretores estão unidos
entre si, especialmente por desmossomas nos pólos basal e apical (base do processo de
Thoms), constituindo as barras terminais proximal e distal, que impedem o transporte de água,
electrólitos e fosfatos por via extracelular. O transporte só é possível realizar-se por via
intracelular.

 Pouca matéria mineral


 Muita água (depois diminui com a mineralização)
 Muita matéria orgânica (que depois diminui com a mineralização)
o Sem colagénio – logo a matriz não apresenta a disposição fibrilhar própria dos
tecidos de origem mesodérmica, mas apresenta-se como um gel fixotrópico.
o Albumina – provém do sangue
o Poucas proteoglicanas
o Amelogeninases
o Fosfatase Alcalina – produzida pelo estrato intermédio
o Amelogeninas
o Enamelina

Biossíntese de Proteínas

1. Cada RNA tem um processamento diferencial para eliminar intrões


2. Eliminação dos péptidos sinal
3. Glicosilação de algumas proteínas no aparelho de Golgi
4. Secreção das proteínas para a matriz

Amelogeninas – São proteínas de baixo peso molecular (20 – 30 KDa), glicosiladas, ricas em
Pro (impede a proteína de ter uma estrutura terciária globular), His, Leu, Glutamina
(detectaram-se várias amelogeninas com diferentes pesos moleculares e com diferentes
composições em aminoácidos). O ponto isoeléctrico varia entre 6,5 e 7 – são hidrofóbicas.
Predominam durante a fase de desenvolvimento do esmalte, na etapa secretora dos
Ameloblastos, onde chega a constituir 90% do conteúdo proteico da matriz. Desaparecem
posteriormente com a mineralização, chegando a constituir 2% do tecido (ciclo de vida curta).
Na extremidade N-terminal existem 12 a-a hidrofóbicos que facilitam o transporte da proteína
do RER do ameloblasto para a matriz extracelular. Nesta extremidade existem várias zonas de
extremidade β e uma região hélice α. Na sua extremidade C-terminal, os últimos 5 resíduos
estão em hélice α dispostos aleatoriamente. A parte mediana apresenta uma zona globular
que no seu interior tem outra hélice α. A sua principal função é estrutural na formação da
matriz orgânica no esmalte jovem e assim controlar a dimensão dos cristais (porque vão estar

78
localizadas à superfície destes, controlam o crescimento do cristal para alcançar uma forma
pré-definida: quando desaparecem deixam poros que vão ser ocupados por água, o que torna
o tecido mais elástico e resistente à mastigação. Além disso vai ajudar a definir também a
orientação dos cristais porque ao produzir um contorno entre os cristais limita o crescimento
lateral dos eixos e também favorece o crescimento direccional ao longo do eixo c.

Enamelinas – São proteínas muito conservadas evolutivamente e já foram descritos quatro


tipos diferentes de enamelinas. Proteínas de alto peso molecular, glicosiladas, fosforiladas por
ligações éster a grupos hidroxilo dos aminoácidos, ricas em Gli, Ser, Asp, Gla. Esta composição
em aminoácidos origina extremidades em folhas β que se orientam verticalmente ao eixo c dos
cristais intervindo no suporte dos mesmos. A sua composição em aminoácidos confere ainda
características específicas como a sua acidez e hidrofobicidade. São secretadas pelos
Ameloblastos durante a formação do esmalte, constituindo 10% do teor proteico do esmalte
jovem. Ao serem secretadas são muito estáveis e ligam-se à superfície do esmalte em
formação. Aumentam na mineralização persistindo de forme estável no tecido (ciclo de vida
longo) ou em formas degradadas. A sua principal função é controlo da nucleação e do
crescimento dos cristais pois funcionam como cola para os minerais formarem um cristal
(devido à sua natureza ácida e fosfatada que permite a atracção dos iões Cálcio e a sua
distribuição na matriz à superfície dos cristais ou mesmo no interior dos cristais e devido ao
momento em que são secretadas antes das amelogeninas). “In vitro” funcionam ainda como
inibidores quando o crescimento do cristal é excessivo, papel que parece contradizer-se com a
sua principal função talvez devido ao facto de ter sido realizado “in vitro”.

Fase de Mineralização

Processo regulado por um programa intrínseco e não por nenhum factor endócrino do
tipo hormonal, nem por nenhuma vitamina com actividade semelhante à hormonal.

Ao contrário dos outros tecidos, a segunda e terceira fases são simultâneas quando há
secreção da matriz, há mineralização imediata da mesma não formando uma estrutura
intermediária como a pré-dentina, isto porque a matriz tem enamelinas ao contrário dos
outros tecidos.

Quando os ameloblastos deixam de secretar a matriz, é mais notória a degradação da


mesma, isto porque há na fase secretória há degradação residual da mesma. Inicialmente, os
ameloblastos segregam proteases que ao início actuam lentamente, mas que vão aumentando
a sua velocidade progressivamente pelo aumento da sua activação e secreção (inicialmente
são secretadas serina proteases e numa segunda fase gelatinases).

Essas Proteases (amelogenases) vão actuar essencialmente ao nível das amelogeninas,


hidrolizando-as a péptidos mais pequenos e mais solúveis. Entretanto, os cristais começam a
crescer e as proteínas que se encontravam numa fase de gel passam a líquido, o que facilita a
solubilidade e difusão dos péptidos mais pequenos: o aumento da solubilidade diminui a
capacidade de adesão aos cristais de hidroxiapatite e as amelogeninas deixam de ter um papel
inibidor no crescimento dos cristais.

79
Alguns produtos de degradação, juntamente com as proteases vão para o exterior do
esmalte para um destino ainda não conhecido. Os restantes produtos juntamente com a água
são reabsorvidos por endocitose pelos Ameloblastos. Aí, vão ser degradados em lisossomas
(contêm múltiplas formas de fosfatases ácidas e dipeptidil transferases II) ou são
transportados para o estrato intermédio e retículo estrelado sendo posteriormente lançadas
no fluxo sanguíneo. Por ser um tecido ectodérmico, a matriz orgânica é quase totalmente
absorvida antes da finalização do processo de mineralização.

Apenas as Enamelinas e os seus fragmentos são retidos, talvez devido a uma forte
interacção com os cristais, no entanto estes também sofrem uma pequena degradação, mas
não se sabe ao certo até que ponto são degradadas nem quando começa a sua degradação.

À medida que sai água e material orgânico são deixados espaços e entram fosfatos e
cálcios para esses compartimentos permitindo a formação de cristais. Os cristais podem ter a
forma de um paralelepípedo ou de formas hexagonais e o seu tamanho varia muito. Apesar de
no osso existirem os mesmos tipos de cristais, o esmalte é o tecido mais mineralizado no corpo
humano, isto porque no esmalte os cristais são mais perfeitos e estão mais empacotados.

Os cristais vão formar um bastonete e vários bastonetes vão constituir um prisma.


Muitas dúvidas ainda persistem sobre a forma, organização e disposição dos prismas, mas
pensa-se que cada prisma é formado por quatro ameloblastos. À medida que o prisma cresce,
os Ameloblastos vão sendo empurrados para a periferia, formando um ângulo com a matriz
orgânica e os prismas. Formam-se então os prismas com um comprimento maior, com
disposição ondulada e no corte transversal apresentam a forma de um buraco de fechadura.
Os prismas são colocados a partir da junção amelodentinária verticalmente e a partir daí em
todo o esmalte à excepção da última camada que é colocada horizontalmente.

Quando termina a mineralização inicial (30%), os Ameloblastos que estão à periferia


fundem-se com o epitélio adamantínico externo formando uma película orgânica que
desaparece na erupção do dente.

Durante o crescimento dos cristais, na junção amelodentinária, os cristais de apatite


incorporam sódio, carbonatos (a sua presença desordena a estrutura das redes de cristais de
hidroxiapatite) e magnésio (associa-se mais facilmente a redes já desordenadas pelos
carbonatos). A presença destes iões torna o cristal mais débil, tendo uma maior solubilidade
em água e ácidos. Esta é uma zona menos mineralizada com mais matéria orgânica e mais
água – é nesta zona que existem os chamados “enamel tufs”, constituídos por proteínas tufs,
que provêm das enamelinas produzidas nas primeiras etapas de amelogénese.

Na região superficial do esmalte, os cristais incorporam fluoretos, chumbo e zinco, na


sua estrutura molecular, o que os torna menos solúveis em água e ácidos – zona mais
mineralizada.

Estes factos são importantes em relação à prevenção de cárie, porosidade e grau de


solubilidade do esmalte frente ao condicionamento ácido, na maturação bucal do esmalte e
nos fenómenos físico-químicos que ocorrem entre a superfície do esmalte e o meio salivar – o
esmalte não é idêntico em toda a superfície do dente.

80
A mineralização do esmalte é também maior nos dentes caninos e incisivos do que
nos molares.

Fase de Maturação

Quando há erupção do dente, os Ameloblastos já não existem (o esmalte é acelular).


Pensa-se que o ameloblasto desaparece por:

• Mineralização
• Apoptose – morte natural das células pois o ciclo de vida na célula está previamente
definido.

Algumas células que migram do tecido sanguíneo ficam retidas no tecido epitelial e
vão interferir na formação do esmalte. Por exemplo, célula macrofage-like localiza-se próxima
do ameloblasto e tem como função captar por fagocitose os detritos libertados pelos
ameloblastos na sua morte, para que a zona seja toda mineralizada uniformemente e fique
sem altos e baixos.

Após a erupção do dente continua-se a mineralização durante mais ou menos 3 anos,


no qual há uma concentração final de minerais e aumento do tamanho dos cristais (até os
cristais de apatite ocuparem cerca de 96% do volume do esmalte). Forma-se então o esmalte
maduro.

Antigamente pensava-se que o esmalte era um tecido estático, pois não tinha células
vivas para se regenerar. Actualmente sabe-se que é muito dinâmico, pois não há propriamente
um turn-over mas há uma remodelação de material. A destruição não se faz a partir de uma
célula especializada como no osso (osteoclasto), mas sim pela mastigação (que degrada o
esmalte) e a reconstrução faz-se indirectamente pela saliva (que fornece minerais que vão
construir uma película que recobre o dente e que ao entrarem nos poros do esmalte ajudam a
formar cristais, pois esta formação é um processo contínuo e crescente.

Para finalizar, a amelogénese pode apresentar defeitos entendidos como displasias


genéticas ou decorrentes de factores ambientais, como por exemplo estados febris, acção das
tetraciclinas, fluoroses, traumatismos ocasionando aparecimento de linhas ou faixas
pigmentadas e com menor grau de mineralização.

Composição da Matriz do Esmalte Maduro

O esmalte é o tecido mais mineralizado do corpo humano.

 Matéria Inorgânica (96-97%)


o Hidroxiapatite
o Magnésio
o Carbonatos – desordenam a rede
o Sódio
o Potássio
o Zinco
o Chumbo

81
o Estrôncio
o Ferro
o Flúor
o Bicarbonato – desordena a estrutura da malha tornando-a mais frágil
 Matéria Orgânica (1%)
o Sem Colagénio
o Albumina – também há na dentina. Provém a absorção plasmática pelo
esmalte durante o desenvolvimento da sua matriz extracelular. Actualmente
postulou-se que ela poderia vir da capa da dentina em contacto com o
esmalte.
o Fosfatase Alcalina
o Amelogeninas
o Enamelinas
o Amelogeninases
 Água (2,5%)
o Sob duas formas
 Livre – entre os componentes orgânicos
 Imobilizada – formando a capa de hidratação dos cristais de
hidroxiapatite

Intercâmbio com o meio

O esmalte pode reabsorver iões cálcio, fosfato e flúor através de um intercâmbio com
os iões provenientes do meio exterior, sendo substituídos pelo mesmo tipo de iões ou por iões
diferentes.

O intercâmbio da água faz-se em dois sentidos:

• Quando não há placa bacteriana, a saliva tem uma pressão osmótica inferior à do
líquido extracelular da polpa e o seu intercâmbio é feito centripetamente
• Quando há placa bacteriana, esta tem uma pressão osmótica superior à do líquido
extracelular da polpa e o seu intercâmbio é feito centrifugamente.

O intercâmbio de todas as soluções faz-se nos poros intercristal e com maior


velocidade através de folhas que podem produzir-se à superfície dos cristais proporcionados
pelas cáries.

Um intercâmbio contínuo com soluções ricas em minerais, pode provocar uma


progressiva obturação dos canais. Por isso, os dentes com a idade têm uma maior
concentração de iões cálcio e fosfato e menor quantidade de água e material orgânico.

82
Periodonto

Os tecidos que rodeiam, suportam e protegem o dente são conhecidos por


Periodonto.. Todos eles têm características diferentes mas inter
inter-relacionam
relacionam-se para manter
uma estrutura de suporte viável para o dente. Do periodonto fazem parte os seguintes tecidos:

• Gengiva
• Osso Alveolar
• Cimento
• mento Periodontal
Ligamento

Gengiva

A gengiva tem a função de proteger quer o dente, quer o osso alveolar, fazendo assim
uma barreira entre o meio oral (meio contaminado por bactérias) e o meio interno (osso
alveolar e raiz do dente – meio asséptico). Impede a passagem de bactérias para o meio
interno e o extravasamento de substâncias para o meio externo.

A gengiva pode ser dividida em gengiva fixa que proporciona o revestimento protector
lveolar superior e gengiva livre que forma uma espécie de amortecedor, ou seja,
para o osso alveolar
ampara os movimentos do dente.

A gengiva é constituída por tecido epitelial e tecido conjuntivo com uma lâmina basal a
separá-lo.

Composição Bioquímica

• 74% Do volume de água


• Tecido Epitelial
o GAGs
o Proteoglicanas
o Glicoproteínas de Estrutura
o Proteína Epitelial (Queratina)
• Lâmina Basal
• Tecido Conjuntivo
o Proteoglicanas
o Glicoproteínas de Estrutura

83
o Lípidos
o Colagénio tipo I e III

Tecido Epitelial Gengival

Temos 3 tipos de tecidos:

• Epitélio Gengival Externo


• Epitélio do Sulco
• Epitélio de União

Ácido Hialurónico – é uma GAG não sulfatada. É muito volumosa e como tal é
sintetizada na superfície celular, por um complexo enzimático, directamente para a substancia
intersticial, onde se liga com outros GAGs e proteínas para formar Proteoglicanas, que são
macromoléculas volumosas e muito hidratadas que conferem resistência a tecidos, impedindo
que este se rompa aquando da mastigação.

Glicoproteínas

Células Produtoras de Queratina – (90% no epitélio gengival externo) estas células


dividem-se junto à camada mais interna do tecido (camada germinativa), junto à lâmina basal
onde ocorre uma forte divisão mitótica para repor as células que vão descamando à periferia,
ou seja, à medida que as células vão sendo produzidas empurram as outras para a camada
mais externa (este processo leva cerca de um mês). Estas células têm um aspecto mais
arredondado junto à lâmina basal e à medida que caminham para a periferia tem um aspecto
mais achatado. As células desta linhagem são, no seu conjunto, chamadas queranócitos e
produzem queratina.

A Queratina é a principal proteína do tecido epitelial oral. É uma proteína fibrosa


insolúvel (escleroproteína). Produzida dentro de vesículas de queratinócitos que quando
chegam à superfície rompem e libertam a queratina e o queratinócito morre (descamação).
Isto porque à medida que as células se afastam da camada basal, o nível de oxigénio baixa e o
metabolismo da célula torna-se anaeróbio (produz ácido láctico) passando a haver um pH
ácido. Esta descida de pH cria um meio propício à activação de enzimas lisossomais que vão
degradar os vários organitos da célula, ficando então a queratina exposta no exterior.

Quando à sua biossíntese, dá-se através de uma cadeia peptídica em hélice α com
domínio central rico em Cys, que forma ligações dissulfito com outras Cys, o que proporciona
enrolamento. Tem duas extremidades com organização globular. A queratina forma dímeros,
tetrâmeros e polímeros formando fibras insolúveis. Possui um padrão de aminoácidos que se
repetem x vezes, sequências heptapeptídicas (7 aminoácidos). O primeiro e o quarto possuem
cadeias laterais hidrofóbicas e os restantes possuem cadeias laterais hidrofílicas. A cada sete
aminoácidos corresponde uma volta da hélice e o primeiro e o quarto ficam virados para o
mesmo lado, o que proporciona um lado hidrofóbico e um lado hidrofílico da queratina. Dois
lados hidrofóbicos têm afinidade e a queratina forma dímeros, que são estruturas não
polarizadas, ou seja COOH e NH3 de uma cadeia emparelham respectivamente com o COOH e
o NH3 de outra cadeia. Por outro tipo de ligações como salinas, covalentes, electrostáticas,
pontes de hidrogénio, os vários dímeros vão-se agregando em tetrâmeros, hexâmeros e

84
octómeros e assim sucessivamente até formarem grandes polímeros insolúveis. A queratina,
ao contrário do colagénio não forma Gap’s entre os dímeros.

Quanto à função da queratina, esta protege a gengiva com uma camada física
resistente e coesa relativamente permeável a mucinas e substâncias em solução para que o
tecido possa estar sempre lubrificado.

Tecido Conjuntivo Gengival

É diferente do tecido conjuntivo da polpa (que é laxo). É um tecido conjuntivo denso


(70% do seu volume é ocupado por colagénio). Tem também proteínas não colagénicas que
em situação de inflamação gengival podem estar aumentadas cerca de 45% e são todas de
origem sérica (sangue), no entanto, num estado fisiológico, há sempre uma pequena
quantidade destas.

Colagénio Gengival

Gengiva Normal Gengiva Inflamada


Colagénio tipo I – diminui
Síntese Activa Colagénio Tipo III – diminui
Colagénio Tipo I – 80% Colagénio tipo V – aumenta
Colagénio Tipo III – 20% Colagénio tipo I trimer – aumenta

Na gengiva normal temos uma população de fibroblastos que produzem ambos os


tipos de colagénio e outra que produz apenas colagénio tipo I.

O colagénio tipo I é o que existe em maior quantidade, tem poucos aminoácidos


hidroxilisina e, logo, poucos sítios de glicosilação, já que é neste aminoácido que ocorre a
glicosilação. Tem a sua síntese diminuída quando existe inflamação gengival.

O colagénio tipo III é rico em hidroxiprolina e é muito estável, possuindo poucos locais
de glicosilação (pouca hidroxilisina). É um colagénio protector e encontra-se junto às fibras de
colagénio tipo I.

Na gengiva inflamada aumenta o colagénio tipo I Trimer e V. O primeiro está


associado a situações patológicas na gengiva.

O Colagénio tipo I Trimer tem pouca hidroxilisina. Condiciona a resistência do tecido


gengival e diminui o colagénio tipo III. Fica retido dentro do RER, é o colagénio mais
encontrado nos tecidos inflamados.

Proteínas não Colagénicas

Glicoproteínas Estruturais - (Ser, Tre, Gli, Gla, Man, Asp) – dão maior rigidez à gengiva,
pois são bastante insolúveis e ligam o colagénio.

Glicoproteínas Adesivas – (fibronectina) – sintetizada em grandes quantidades


formando um revestimento dos próprios fibroblastos, contribuindo para a sua adesão à matriz
colagénica.

85
GAGs – (Condroitina-4-sulfato, Dermatana sulfato – diminuídas com a idade, Ácido
Hialurónico – aumenta com a idade e tecidos inflamados)

Proteoglicanas – para além de um papel hidratante, também têm um papel estrutural

Proteínas Séricas – 25% das proteínas não colagénicas, em estado normal da gengiva,
mas aumentam na inflamação.

Lípidos

Têm origem nas membranas plasmáticas e são triglicéridos, colesterol e têm uma
função desconhecida, mas são importantes constituintes das membranas:

• Fonte Energética
• Papel Protector
• Relação directa com a queratinização

Osso Alveolar

É formado a partir de prolongamentos das porções basais dos ossos maxila e


mandíbula. Esses prolongamentos são constituídos principalmente por osso esponjoso com
canais de Havers e Walkman, onde estão os vasos sanguíneos que vão nutrir o LPO (Ligamento
Periodontal), coberto por uma camada externa de osso cortical. Eles formam-se com a erupção
dos dentes e normalmente sapo reabsorvidos após a extracção do dente.

Os espaços no osso acomodam as raízes dentárias e são chamados alvéolos. Estes são
delineados por uma camada óssea chamada placa cribiforme, assim chamada por apresentar
inúmeros orifícios para as fibras de Sharpey e para vasos.

Os prolongamentos alveolares subdividem-se em várias partes dependendo das suas


relações com os dentes que os rodeiam. O osso entre as raízes de dois dentes adjacentes é
chamado de osso interproximal. O osso localizado entre as raízes de um dente multirradicular
é chamado osso interradicular. O osso situado nas superfícies linguais e faciais das raízes dos
dentes é chamado osso radicular.

Composição

80% Matéria Orgânica – os minerais são predominantemente cálcio e fosfato mas


também há quantidades apreciáveis de magnésio, sódio, flúor, carbonato e citrato. A matéria
inorgânica está predominantemente sob a forma de cristais de fluorapatite ou hidroxiapatite,
que são extracelulares, estando em contacto com os fluidos corporais (sangue) o que permite
um equilíbrio dinâmico entre e fósforo.

13% Água

25% Matéria Orgânica – Colagénio, Mucopolissacáridos, Lípidos, Citratos, Enzimas


(fosfatase alcalina)

86
Osteoblastos, Osteoclastos e Osteócitos

Este tipo de osso tem uma actividade metabólica superior à dos outros tipos de osso.
Tem também uma curta elasticidade de forma a adaptar-se ao movimento dos dentes e evitar
a ruptura dos mesmos.

Cimento

O cimento é um tecido mesenquimatoso calcificado, que forma a camada externa da


raiz anatómica. É uma forma altamente especializada de tecido conjuntivo calcificado e é
estruturalmente semelhante ao osso, mas diferente nos aspectos funcionais.

Composição

• 65% Matéria Inorgânica


• 12% Água
• 25% Matéria Orgânica
o Fibras de Colagénio – principalmente do tipo I e algumas tipo III – Intrínsecas,
paralelas à superfície do cimento, estão entre e à volta das extrínsecas
(predominam no cimento celular). Extrínsecas – fibras de Sharpey, feixes de
fibras de LPO que ficam presas e foram incorporadas no cimento (predominam
no cimento acelular)
o Fosfoproteínas – fosfotreoninas e fosfoserinas
o Gama-Carboxil-Glutamato
o Fosfatase Alcalina – precipitação do fósforo para formar ácido hialurónico
o Proteoglicanas e GAGs sulfatadas e não sulfatadas para hidratação
o Mucopolissacáridos neutros e ácidos
o Ácidos Siálicos

Cimentogénese

O cimento é constantemente formado nas superfícies da raiz em contacto com o LPO,


por isso tem um turn-over muito baixo. Sabe-se muito pouco sobre a cimentogénese, mas
pensa-se que o seu início resulta da deposição de matriz orgânica sobre a dentina devido à
actuação de células da bainha epitelial da raiz de Hertwig (Hers).

Depois, dá-se a migração de células ectomesenquimatosas dos folículos dentais,


unindo-se à matriz dentinária. Aí, diferenciam-se em pré-cimentoblastos e depois em
cimentoblastos, que se fixam na camada mais externa da dentina.

Começa-se então a depositar a matriz orgânica do cimento e depois ocorre a


mineralização (semelhante à dentina), depositando-se os cristais de hidroxiapatite em
vesículas da matriz. Nas zonas do cimento onde as células se retiram para o ligamento –
cimento acelular nos 2/3 apicais da raiz onde a proporção de colagénio é muito maior, os
cimentoblastos ficam presos em lacunas da matriz – cimento celular.

87
A união do tecido conjuntivo do ligamento periodontal à superfície da dentina requer a
secreção localizada de colagénio e talvez de algum factor de aderência (fibronectina ou ainda
de alguma glicoproteína específica do cimento). Os cimentoblastos que não estavam incluídos
no cimento celular juntam-se aos fibroblastos do osso.

Existem dois tipos de cimento: o acelular e o celular.

O cimento acelular encontra-se na área mais próxima da coroa, e é caracterizado por


densas camadas de fibras colagénicas calcificadas separadas por linhas de crescimento
compostas por substância fibrilhar calcificada. As camadas são geralmente paralelas ao grande
eixo do dente.

O cimento celular encontra-se geralmente na região apical da raiz e nas áreas de


bifurcação dos dentes multirradiculares. Dentro do cimento existem cimentócitos
(cimentoblastos que ficam embebidos no cimento durante a formação e têm bastante
actividade funcional) situados em lacunas e são vascularizados através de canalículos. A junção
entre o esmalte e o cimento é a porção do dente onde o esmalte se une à raiz do dente. Pode
haver 3 diferentes situações nesta junção: em 60% dos casos, o esmalte é coberto pelo
cimento, em 30% dos casos os limites do esmalte e do cimento encontram-se e finalmente em
10% dos casos o cimento não atinge o esmalte, ficando uma porção da dentina exposta, o que
pode causar hipersensibilidade nessa região.

A doença periodontal resulta muitas vezes da hiperactividade dos osteoclastos e


cimentoclastos, células fagocíticas provenientes não dos tecidos conjuntivos do periodonto,
mas da corrente sanguínea. Os sinais destas patologias são a presença de células do sistema
imunitário como linfócitos e macrófagos.

Ligamento Periodontal (LPO)

É um tecido conjuntivo ricamente vascularizado, que envolve as raízes dos dentes e


une o cimento radicular à lâmina dura do osso alveolar.

Constituição

É um tecido conjuntivo onde se encontram vasos, nervos e células numa matriz


extracelular com fibras de colagénio, oxitalanas, elastina e reticulina numa substância amorfa
de glicoproteínas de estrutura, proteoglicanas, água, proteínas simples (mucoproteínas).

Colagénio

É formado principalmente por feixes de fibras de colagénio tipo I, II e algum XII cuja
orientação varia com as diferentes partes do ligamento (apical, interadicular…) entrelaçadas e
dispostas numa rede e que vão do osso alveolar ao cimento da rede. Estas fibras são chamadas
de fibras principais do ligamento periodontal. As extremidades directamente embebidas nos
tecidos chamam-se fibras de Sharpey.

As principais fibras de colagénio estão organizadas em quatro grupos:

• Fibras da crista alveolar – vão do cimento à crista do osso alveolar

88
• Fibras horizontais – vão do cimento ao osso alveolar
• Fibras oblíquas – vão obliquamente do cimento ao osso alveolar
• Fibras apicais – inserem-se à volta do orifício apical do dente até à porção do osso
adjacente

O LPO tem um turn-over muito elevado no colagénio que está relacionado com a sua
função mecânica, dado que uma alteração no equilíbrio biossíntese – degradação pode
modificar estrutural e funcionalmente o tecido. São os fibroblastos que executam esta função,
respondendo ao cAMP e prostaglandinas (PGE), pois têm todas as enzimas necessárias para a
biossíntese e para a sua degradação (colagenase). Isto faz com que existam várias populações
de fibroblastos em estádios etários diferentes (quanto maior a quantidade de fibroblastos,
menor a quantidade de fibras de colagénio – relação inversa).

A alteração estrutural e funcional do LPO provoca sangramento, inchaço, aumento da


mobilidade dos dentes, seguido da sua perda e escorbuto. No escorbuto há falta de Vitamina C
na alimentação, o que diminui a síntese de colagénio: a Vitamina C é necessária para a
actividade das hidroxilases que sintetizam 4-hidroxiprolina e 5-hidroxilisina. A diminuição
destes hidroxiderivados aumenta o número de precursores proteicos do colagénio no RER.
Como a degradação de colagénio segue um ritmo normal, há uma perda excessiva de
colagénio.

O turn-over do colagénio depende também da idade. Na erupção dos molares de rato,


o turn-over ocorria entre 2,5 a 6,5 dias enquanto que no rato adulto, o turn-over aumenta
para 7 a 11 dias.

Oxitalanas – Suporte do dente, aumentando a rigidez do LPO. Dado a sua proximidade


com os fibroblastos periodontais, podem servir como guias para a migração celular durante a
erupção do dente. Dado a sua estreita ligação com os vasos sanguíneos e com os terminais
nervosos periodontais as suas fibras poderiam tomar parte de um sistema mecano-receptor
que modelaria o comportamento dos vasos do ligamento.

Água – 70% do LPO é água essencialmente ligada a proteoglicanas. A sua presença


provoca uma elevada viscosidade na substância amorfa, ajudando a reter bactérias e
funcionando como uma barreira de forma a evitar a expansão da infecção.

Mucoproteínas – Essenciais para uma correcta distribuição da água e electrólitos. Nos


tecidos associam-se por ligações cruzadas a fibras de colagénio em agregados com maior
volume.

Glicoproteínas – Algumas estão implicadas na adesão celular (fibronectina) e outras


são imunoglobulinas.

Proteoglicanas – São o principal componente da substância amorfa. As principais GAGs


no LPO são sulfatadas (condroitina-4 e 6-sulfato, heparana sulfato e dermatana sulfato). A
dermatana sulfato tem uma grande afinidade para o tropocolagénio e dentro do LPO é capaz
de autoassociar-se – importante para o papel de resistência à tensão dos ligamentos.

89
Células

• Fibroblastos – renovação de colagénio e oxitalanas e também degradação quando há


excessiva produção
• Osteoblastos – renovação do tecido ósseo e estão na fronteira com o osso alveolar
para dar origem à matriz óssea
• Cimentoblastos – renovação do cimento e estão à periferia junto ao cimento
• Células mesenquimatosas indiferenciadas

Células não conjuntivas (mas que actuam na matriz)

• Osteoclastos – destruição do tecido ósseo


• Cimentoclastos – destruição do cimento
• Macrófagos – actuam nas patologias dessa zona: periodontites e gengivites
• Mastócitos
• Granulócitos

Vasos – provêm de vasos apicais do dentem da gengiva e do osso alveolar, têm


paredes finas e grande quantidade de capilares fenestrados, nomeadamente durante a
erupção, podendo ter um significado funcional. O volume que ocupam varia com o tipo de
dente e a zona considerada.

Nervos – provêm dos nervos alveolares superiores e inferiores. Existem fibras de


grande diâmetro (mielinizadas) e pequeno diâmetro (mielinizadas ou não e responsáveis pela
dor). Às vezes, as fibras nervosas estão envolvidas por cápsulas que no seu conjunto podem
actuar como mecanismo de receptores. Fibras do SNSimpático estão associadas aos vasos,
afectando o fluxo sanguíneo local.

Quanto às funções, temos:

• Função Mecânica – ligar o dente ao osso e funcionar como amortecedor para as forças
submetidas no dente, forças essas que são direccionadas para o osso, o que o ajuda a
manter a posição e o padrão trabecular normal. O ligamento não é uma estrutura
completamente rígida, permite movimentos de lateralidade para que a tensão possa
ser dissipada.
• Função de Renovação – como o cimento, o osso, a substância amorfa e o colagénio
estão constantemente a serem formados, a sua deposição não seria possível sem um
ligamento periodontal intacto.
• Função Nutritiva – os vasos que irrigam o ligamento nutrem também as células que os
rodeiam (cimento)
• Função Sensorial – através dos nervos que estão presentes no ligamento temos um
meio de controlo do aparelho mastigador.

Existem canais laterais e o orifício apical entre a polpa e o periodonto, que permitem
que as infecções pulpares alterem os tecidos periodontais, coisa que em sentido contrário é
menos frequente.

90
Osteoclasto, Osteoblasto e Turn-over ósseo

Embora o osso pareça um tecido estático, está em constante destruição e construção,


fenómeno em equilíbrio.

• Infância – crescimento – construção maior que a destruição


• Adulto – estabilização – construção em equilíbrio com a destruição
• Idoso (pós-menopausa) – decréscimo – construção menor que destruição –
actualmente pensa-se que a osteoporose não se deve a diminuição da construção mas
a um aumento da destruição.

O processo de remodelação óssea depende de dois factores: sistémicos (sangue) e


locais (osso).

Os osteoblastos são células conjuntivas que derivam de uma célula mesenquimatosa,


que se diferencia em osteoblasto na dependência de vários factores: é inibida pela PTH,
Vitamina D, PGP e estimulada pelo flúor, insulina, fase anabólica e exercício físico.

O osteoblasto é uma célula do tecido ósseo com capacidade de se dividir e dar origem
a outros osteoblastos (no osso há uma circulação permanente e os osteoblastos são
constantemente degradados e sintetizados).

Os osteoblastos têm a função de sintetizar a parte orgânica da matriz e


macromoléculas do tecido ósseo (colagénio tipo I, proteoglicanas e glicoproteínas de
estrutura) – a matriz recém-formada que ainda não sofreu calcificação chama-se matriz
osteóide. A acção dos osteoblastos é regulada pela Leptina (hormona relacionada com a
obesidade: quando o tecido adiposo aumenta, produz leptina que vai para o hipotálamo e
diminui o apetite – sensação de saciedade) e por um factor de crescimento BFA.

Os osteoblastos possuem prolongamentos citoplasmáticos que se prendem aos


mesmos prolongamentos dos outros osteoblastos circundantes, permitindo a sua deposição
em camada. Quando ocorre calcificação da matriz óssea, alguns osteoblastos intervêm pois:

• Controlam a mineralização, regulando a passagem de cálcio e fosfato através da


superfície membranar
• Contêm fosfatase alcalina, que adquire iões fosfato a partir dos fosfatos orgânicos,
contribuindo assim para a mineralização
• Actualmente estão em foco fosfoproteínas acídicas semelhantes às sialoproteínas, que
tal como o colagénio tipo I têm motivos onde se ligam iões cálcio, funcionando como
andaime para a mineralização.

Com a calcificação da matriz, os osteoblastos que não ficam entalados nos cristais de
hidroxiapatite continuam a dividir-se originando mais osteoblastos e consequentemente mais
matriz (factor positivo – turn-over). Os osteoblastos entalados nos cristais de apatite passam a
Osteócitos (osteoblastos maduros que migram associados a outras células da matriz, sem
capacidade de divisão e secreção). A diferenciação de osteoblasto em osteócito é evidenciada
pelo Bapα1n (molécula que faz a transdução de sinal no osteoblasto, induzindo a formar

91
osteócito). Os osteócitos são calcificados e posteriormente destruídos, originando lacunas,
canalículos e a matriz óssea é reabsorvida.

Osteoclastos – células multinucleadas gigantes e móveis, que derivam das células do


sistema imunitário – monócitos – que após atravessarem as paredes dos capilares do osso,
fundem-se formando osteoclastos. Estes podem colocar-se sobre os osteoclastos, de forma a
preencher as lacunas de Howship – 1º - A – Activação dos Osteoclastos

O osteoclasto tem a função principal de reabsorver matriz: 2º - R – Reabsorção Óssea

• Dentro do osteoclasto, a anidrase carbónica produz H+ a partir de água


• A ATPase expele esse H+ através da membrana em franjam para a zona reabsorver
(exterior do osteoblasto nas lacunas de Howship). Isto provoca um abaixamento de pH
para 4 ou menos, o que aumenta a solubilidade da hidroxiapatite, provocando a
desmineralização.
• Entretanto, as enzimas lisossomais são formadas no Aparelho de Golgi, onde recebem
um sinal indicando o seu destino. As hidrolases lisossomais como a catepsina dirigem-
se às proteínas da matriz que ficam assim acessíveis. Os produtos de degradação são
então captados pelo citoplasma do osteoclasto onde são digeridas (ainda mais) e
posteriormente transferidas para os capilares sanguíneos.

3º - I – Inversão, há inactivação dos osteoclastos e activação dos osteoblastos

4º - F – Formação de Tecido Ósseo – esta renovação celular faz-se a partir dos factores solúveis
libertados por cada tipo de célula e por factores libertados durante a degradação da matriz
extracelular.

Os osteoblastos e os osteoclastos são regulados por inúmeros factores:

Osteoblastos Osteoclastos
+ - + -
PTH Corticoesteróides PTH Calcitonina
Vit D Vit D Estrogénio
BMP IL1 TGF
TGF TNF IFN
TGE-2 TGF PGE-2
Não actua directamente no osteoclasto. Inicialmente actuam no osteoblasto, que tem
receptores para a PTH e o osteoblasto vai depois secretar substâncias que vão actuar no
osteoclasto.

Diferenças Entre Cartilagem e Osso

• Os osteócitos são osteoblastos maduros que migram associados a outras células da


matriz por processos
• Os condrócitos são condroblastos maduros que migram sem se associarem a outras
células da matriz ficando independente.
• Na cartilagem, a matriz extracelular é diferente da matriz óssea, não sendo
completamente mineralizada.

92
Saliva

A Saliva é um fluido secretado pelas glândulas salivares que é secretado para a


cavidade oral. Existem diversos tipos de saliva:

• Saliva Total – Fluído que se encontra num determinado tempo na cavidade oral (S.
Mista + S. Pura + S. Serosa + S. Mucosa)
• Saliva Mista – Saliva total que ao ser cen
centrifugada
trifugada são eliminados elementos estranhos
e contaminantes
• Saliva Pura – Saliva colhida directamente de cada glândula salivar
• Saliva Serosa e Saliva Mucosa – Predomínio Seroso ou Mucoso tem a ver com as
células das zonas acinares das glândulas.

Saliva Total

Saliva Mista

Saliva Pura

Serosa
Mucosa

Quanto às Glândulas Salivares temos as

 Major (glândulas tubuloacinosas compostas)


o Parótida (serosa)
o Sub-lingual (mucosa)
o Submandibular (mista)
 Minor (preenchem toda a mucosa oral excepto parte anterior do palato duro e região
gengival)
o Labiais, linguais, p
palatinas,
alatinas, bucais, glossopalatinas e retromolares

O estudo da saliva permitiu


permitiu:

• Detectar alterações sistémicas (compreensão de doenças que afectam a boca)


• Testes de susceptibilidade à doença (depende da composição da saliva)
• Detecção do álcool e estupefacien
estupefacientes
tes (correlação entre o plasma e a saliva)

93
Na prática clínica é imperativo:

• Identificar pacientes em risco


• Identificar pacientes positivos
• Pesquisar os agentes etiológicos
• Remover os factores etiológicos
• Implementar estratégias que minimizem as sequelas

O estudo da saliva é difícil porque:

• Ao contrário do plasma, existe uma variabilidade enorme, variando de pessoa para


pessoa e na mesma pessoa de dia para dia ou ao longo do mesmo dia (existe um ritmo
circadiano para cada elemento da saliva)
• A composição depende de vários factores
• Ainda não se sabe exactamente a sua composição

Propriedades Físicas da Saliva

• Cor clara
• Débito – 750ml/24h (300 – 1500ml/dia)
• Densidade
o Submandibular – 1,004
o Sub-lingual – 1,005
o Parótida – 1,007
• Osmolaridade – 60mosm/Kg – muito inferior à do plasma (290mosm/Kg) e a saliva é
hipotónica em relação ao sangue
• pH
o Saliva total – 6
o Parotidiana – 5,8
o Submandibular – 6,4

94
Com estimulação, o pH sobe, com sono o pH desce. Tem a ver com a variação
glandular e circadiana.

Composição

• 99,4% - 99,5% Água


• 0,18% Resíduos Inorgânicos
o Fosfato de Cálcio (principal)
o Cloro, sódio, potássio (mais abundantes)
o Sódio, amónia, bicarbonato, fosfato, sulfato, tiocinato, iodo e flúor
• 0,32% Resíduos Orgânicos
o Glúcidos
o Proteínas (mais abundantes)
o Hidratos de Carbono (glucose, colesterol, ureia, ácido úrico, citratos e lactato)
o Lípidos (fosfolípidos membranares)
• Gases
o 0,18 – 0,25% de O2
o 0,09% Azoto
o CO2 – ¼ ligado a proteínas, o restante em equilíbrio com o ião bicarbonato e
ácido carbónico: a anidrase carbónica e salivar permite a formação de
bicarbonato.

95
Funções da Saliva

• Protecção das mucosas


o Lubrificação
o Integridade das mucosas
o Reparação Tecidual
• Controlo da Flora Oral
o Bactérias
o Fungos
o Vírus
• Alimentação
o Paladar
o Formação do Bolo Alimentar
o Translocação do Bolo Alimentar
• Digestão
o Fase inicial da digestão de lípidos e glúcidos complexos
 Lipase Lingual
 Amilase Salivar
• Remineralização Dentária
o Iões envolvidos
• Capacidade Tampão
o Sistemas de manutenção de pH

Disfunção Salivar

Caracteriza-se como sendo a falta de produção de saliva (xerostomia). Os pacientes


com xerostomia sentem algum desconforto durante as refeições devido às alterações no
paladar e dificuldade na mastigação e ingestão (especialmente de alimentos secos).

A disfunção salivar pode ter muitas causas:

• Infecciosas
• Auto-imunes
• Neopásicas
• Farmacológicas
• Radiação
• Doenças Sistémicas
• Envelhecimento

E como consequências podemos ter:

• Disgueusias – Alterações no paladar


• Disosmias – Alterações no olfacto
• Disfagia – Alterações no apetite
• Secura das Mucosas
• Cárie
• Periodontite

96
As células das glândulas salivares vão então secretar os componentes orgânicos da
saliva.

Célula Serosa

A célula serosa tem núcleos centrais que se vêem muito bem e cujo citoplasma é roxo,
granuloso e basófilo. É um dos tipos de células existentes numa glândula acinosa.

É uma célula secretora clássica com características de secreção:

• Alta fluidez e baixa viscosidade


• Vocacionada para a secreção iónica
• Secreta proteínas com um papel importante no transporte, catálise e adesão e com as
seguintes características
o Concentração reduzida (3g/dl)
o Grande diversidade
o Glicosilação reduzida
o Baixo volume
• Para além de proteínas, também secreta lípidos salivares e glúcidos salivares.

Proteínas

• Proteínas ricas em prolina (PRP)


• Histatina (proteínas ricas em histidina)
• Cistatinas (nome devido à sua actuação sobre as cisteínas proteases)

As Proteínas Ricas em Prolina também se encontram no tracto respiratório superior e


pâncreas. São constituídas por um polipéptido (60%) com uma cadeia lateral oligossacarídea
(30%). A cadeia lateral é mais pequena que a das GAGs. Contém açúcares e seus derivados N-
acetilados (fucose, galactose, manose) e a presença de ácido siálico é variável ou incerta. São
proteínas não sulfatadas. A ligação glicopeptídica entre a cadeia lateral e a proteína é feita
entre N-Acetil-Glucosamina e resíduos de asparagina.

É constituída por 25 a 40% de prolina (iminoácido + grupo amina está ligado à cadeia
lateral) e tem elevada concentração de glutamato e glicina. Constituem 7 a 28% das proteínas
salivares. Têm afinidade para taninos – têm um efeito benéfico, uma vez que ao unirem-se a
eles permitem a sua separação dos outros componentes da comida, evitando o bloqueio da
absorção do intestino. Localiza-se nos mRNA das células das glândulas parótida e sub-
mandibular.

É um grupo muito heterogénio, sendo a sua classificação feita segundo o ponto


isoeléctrico superior ou inferior a 7

• PRP’s Ácidas (603% das PRPs da parótida)


• PRP’s Básicas (20% das PRPs da parótida)
• PRP’s Glicosiladas (17% das PRP’s da parótida)

97
As PRP’s Ácidas apresentam a extremidade N-terminal rica em regiões N1 e N2
constituídas por:

• 11 Resíduos de glutamato e aspartato (ambos os a-a apresentam cargas negativas


porque a sua cadeia lateral está desprotonada ao pH da saliva. Assim o cálcio une-se à
proteína, podendo inibir a formação de cristais de hidroxiapatite)
• 2 Resíduos de fosfoserina

A sua sequência apresenta, a partir do aminoácido 52, zonas com elevada repetição
dos aminoácidos glicina, prolina e glutamina separados entre si por resíduos básicos.

Os genes que codificam para proteínas ácidas são genes PRH1 e 2. O número de
proteínas é superior aos genes que se podem expressar. Isto deve-se a variações na
transcrição que podem originar diferentes mRNA ou na tradução onde várias proteases podem
produzir diferentes proteínas. O PRH2 vai dar origem a 5 proteínas diferentes: PRP1, PRP1’,
PRP2, PRP3, PRP4.

A PRP3 deriva da PRP1, que contém 150 aminoácidos. A partir do seu N-terminal, os
primeiros 106 resíduos correspondem à sequência da proteína PRP3, logo por acção de uma
protease proveniente da submandibular ou da trombina ou calicreína presente na saliva, há
hidrólise da ligação arginina-glicina formando PRP3.

A PRP2 e a PRP4 são muito semelhantes. A PRP3 pode derivar da PRP2 através de uma
modificação pós-traducional.

Uma vez secretadas, as PRPs Ácidas degradam-se em péptidos com um PM mais baixo.
Os que contêm a zona N-inicial mantêm-se fosforilados e ao conservarem os a-a com cargas
negativas, conservam a propriedade de se ligar ao cálcio e impedir a formação de
hidroxiapatite. Os péptidos com zonas ricas em prolina conservam as propriedades ligadoras
de taninos (efeito benéfico na absorção de alimentos no intestino). Uma utilidade fisiológica
seria que a hidrólise das PRP’s Ácidas evitasse a acção de bactérias à película dentária através
do extremo N-inicial da sua molécula.

Estas proteínas aderem fortemente à hidroxiapatite, fazendo parte da película


adquirida, em que a sua função é manter os níveis de fosfato de cálcio necessários à
integridade do dente. Isto pode ser feito através da inibição da deposição excessiva de mineral
ou também pode atrasar a desmineralização do dente. Uma vez absorvidas podem mediar a
aderência de microrganismos na superfície da película dentária, participando na formação da
placa dentária – o microrganismo Actinomyces Viscous utiliza as PRP’s ácidas para se fixar à
superfície do esmalte e à placa em formação, unindo-se à região C-terminal.

As PRP’s Básicas existem em 4 tipos: PRB1, PRB2, PRB3, PRB4. Todas elas contêm um
péptido sinal na parte inicial uma região com aminoácidos ácidos (semelhante à região N1 das
PRP’s Ácidas) e uma outra característica constituída por glicina, prolina e glutamina e
terminam com arginina. A maior parte provém da cadeia polipeptídica de glicoproteínas e
estão presentes em maior concentração após estimulação. Quanto ao seu papel, são
responsáveis por manter as propriedades viscoelásticas da secreção salivar (semelhante à
secreção tráqueo-brônquica).

98
As PRP’s Glicosiladas tem uma sequência idêntica às proteínas básicas, excepto o facto
de terem sequências Asn-X-Thr. Também se repetem os aminoácidos asparagina e serina,
separados por um outro qualquer aminoácido. Estas sequências são muito importantes, uma
vez que servem como sítios de reconhecimento para posterior glicosilação das cadeias
polipeptídicas do azoto da extremidade amida da asparagina, com a N-glucosamina do glúcido
(ligação N-glucosídica). São constituídas em 40% por material glucídico: ácido siálico, fucose,
galactose e manose. Quanto à sua função, são lubrificantes durante a mastigação e unem-se a
vários microrganismos modulando a flora oral.

Generalizando, as funções gerais das PRP’s são:

• Proteínas transportadoras de fosfatos e cálcios


• Têm apacidade de fixar 50% do cálcio (maior carga negativa)
o Homeostase doc cálcio salivar – contribuem para manter a concentração
constante de cálcio, impedindo que este aumente nos ductos salivares
o Cálculo-formação – As PRP’s fazem variar o pH, que permite uma maior ou
menor libertação de cálcio, logo quando este passa o limite de precipitação
começa a ter formações.
o Dinamismo da superfície do esmalte – remineralização permanente do
esmalte
o Prevenção da sialolitíase – muitas vezes após a refeição existe a formação de
um inchaço na boca que vai desaparecendo ao longo do dia. Isto porque se
forma fosfato de cálcio dentro dos canais salivares, evitando que a saliva saia
(aumenta-se a sua produção durante a refeição, acumula-se dentro da
glândula provocando um inchaço, que vai desaparecendo ao longo do dia por
drenagem da glândula). Para recuperar recorre-se à cirurgia ou corta-se com
um estilete que a saliva sai.

As Histatinas são proteínas muito estudadas, havendo:

• H1 – 38 aminoácidos, fosfato na posição 2, serina


• H2 – formada pelos 26 aminoácidosda da porção terminal da H1
• H3 – 32 aminoácidos em que os 24 iniciais são semelhantes aos do H1 menos o 4 e 11
• H4 – 20 a-a C-terminal da H3
• H5 – 24 aminoácidos N-inicial da H3
• H6 – 20 a-a C-terminal da H6
• H7 – H12 correspondem aos resíduos 12-24/13-24/14-24/13-25/5-11/5-12/ da H3
(também pode ser H5 e H6)

São proteínas ricas em histidina (tampão). Existem 12 tipos em que 11 são produzidos
da clivagem da 1 através de proteases (ex. calicreína salivar). Têm uma função idêntica às
PRP’s. Podem ser importantes componentes do sistema imune da cavidade oral tendo
propriedades anti-bacterianas e anti-fungicas. São sintetizadas na glândula parótida e
submandibular. Podem-se aderir facilmente aos cristais de hidroxiapatite e inibir a formação e
crescimento de cristais. Também podem aumentar a actividade glicolítica de vários

99
microrganismos salivares. Algumas histidinas podem inibir o crescimento de Streptococcus
mutans, outros destroem a concentrações fisiológicas a Candida Albicans patogénica.

As cistatinas são proteínas de baixo peso molecular. O gene que codifica para esta
proteína encontra-se nas glândulas submandibular e parótida, brônquios e glândula lacrimal,
parecendo ser induzido por catecolaminas (hormonas da supra-renal – dopamina,
norepinefrina e epinefrina). São proteínas inibidoras de cisteína proteases de origem
bacteriana e celular, bloqueando a acção destas proteases que degradam os tecidos da
cavidade oral. Têm afinidade para a apatite e inibem o crescimento de cristais. Existem 7
tipos, tendo cada uma delas um ponto isoeléctrico neutro e os outros ácidos.

Na saliva existem diversas proteínas com actividade enzimática:

• Amilase Salivar
• Lactoferrina
• Peroxidase Salivar
• Lisozima
• Calicreína
• Fosfatases Ácidas e Alcalinas
• δ-glutamil-transpeptidase
• Urease
• Esterases
• Catalase
• Pirofosfatase
• Hexocinase

Estas enzimas podem ter origem microbiana, outras provêm de leucócitos e outras da
descamação da mucosa.

A amilase salivar tem uma composição semelhante à amilase pancreática. É o produto


final da secreção serosa da parótida e submandibular. Todas as α-amilases são metaloenzimas
que têm pelo menos um ião cálcio por cada molécula de proteína, sendo este fundamental
para a manutenção da sua actividade enzimática (co-factor). Esta enzima é activada por
halogéneos: cloro, flúor, brómio e tem um peso molecular de 62-67000 Da.

Podem-se distinguir seis tipos de isoenzimas distribuídas por duas famílias de


isoenzimas (enzimas inteiramente proteicas e o centro activo activo da enzima é o que actua
no substrato). Todas elas catalisam uma mesma reacção química, mas têm estrutura diferente.

A amilase salivar activa a um pH óptimo de 6 e inactiva a um pH inferior a 4 (é activa


na cavidade oral e no estômago, enquanto o pH ácido não conseguiu degradar o muco que
envolve o bolo alimentar). Ela tem um papel muito importante na digestão.

100
A amilase salivar inicia a degradação do amido e glicogénio. O amido é um
polissacárido
issacárido vegetal que consiste numa cadeia de moléculas de glucose ligadas por ligações
α1,4 (onde actua a amilase) na cadeia linear e liga
ligações ramificadas α1,6 (amilopectina). O
glicogénio é um polissacárido animal com estrutura semelhante à amilopectina.
amilopectina

A amilase salivar tem especial afinidade para as ligações α1,4 da glucose, ocorrendo
hidrólise em qualquer local da cadeia excepto nas ramificações (processo lento). Os produtos
da digestão desta enzima são a maltose, maltotriose e α-dextrinase-limite. Outra característica
é o facto de esta enzima ter afinidade para os cristais de hidroxi
hidroxiapatite
apatite e tem a função de
modulaçãoão e colonização da flora oral.

A lactoferrina é uma enzima que actua sobre a membrana das bactérias impedindo o
transporte membranar (dependente
dependente de ferro).

É uma “iron binding protein” que tem um mecanismo de acção tipo transferrina. Ela
remove o ferro livre da saliva diminuindo então o ferro importante para o crescimento da
bactéria (actividade antibacteriana) – acção indirecta. Contudo,, algumas bactérias conseguem
digerir a lactoferrina e utilizá
utilizá-la
la como fonte de ferro. A sua resistência a outras bactérias é
conferida por enteroquelinas bacterianas.

A Peroxidase Salivar ou Sialoperoxidase existe na saliva humana em dois tipos com


diferentes
entes pontos isoeléctricos: um ácido e um básico. O estudo desta enzima permitiu
concluir que é diferente quimicamente e cataliticamente da lactoperoxidase, mas ambas
catalisam o mesmo tipo de reacção.

A peroxidase salivar catalisa a reacção de oxidaçã


oxidaçãoo entre a água oxigenada (libertada
pelas bactérias da saliva e glândula parótida) com o tiocianato (SCN-) que passa a
hipotiocianato (OSCN) ou hipotiocianoso (HOSCN). O Tiocianato provém da alimentação,
tabaco, circulação e saliva. Tanto o hipotiocianato ou hipotiocianoso são agentes anti- anti
microbianos oxidantes, ao diminuir a capacidade das bactérias anaeróbias de gerar ácidos e
produzir energia.

A Lisozima tem um peso de 14KDa, sendo composta por 131 aa-a. a. Tem uma origem
variada: parótida e glândulas acessórias por um grupo de células dos ductos estriados. É uma

101
enzima antibacteriana que actua sobre os hidratos de carbono da parede celular bacteriana,
hidrolizando as ligações α1,4 entre N-Acetil-Glucosamina e N-Acetilmurâmico, que mantêm a
estrutura da parede bacteriana. Esta enzima leva então à lise da bactéria, lise que está
potenciada por determinados aniões e por activação de autolisinas bacterianas.

Esta enzima é um antibiótico proteico natural, em que a concentração na saliva é


maior que no plasma, tendo uma actividade reduzida “in vivo”.

A Calicreína é uma proteína salivar proveniente da glândula sublingual, que participa


na degradação de outras proteínas salivares como as PRPs e as histatinas (actua sobre a PRP1
para levar à PRP3, ao hidrolizar uma ligação arginina-glicocola que corresponde aos resíduos
106-107 da PRP1). Apresenta 66% de homologia com a calicreína que se encontra no pâncreas
e no rim. É uma enzima capaz de converter o quininogénio em quinina. A bradicinina
produzida por esta enzima pode estimular as células mioepiteliais e aumentar a secreção
salivar.

As δ-Glutamil-Transpeptidases encontram-se aumentadas em estados inflamatórios.


Possível marcador de destruição do hepatócito. Induzida pelo álcool.

A Urease é uma enzima que degrada a ureia (proveniente do catabolismo proteico)


que aparece na saliva, a amoníaco e dióxido de carbono. Os produtos básicos obtidos podem
neutralizar os ácidos orgânicos formados na placa bacteriana, ao haver fermentação do HC da
dieta. Isto pode provocar a alcalinização da placa bacteriana, quando esta enzima é muito
abundante. A alcalinização vai favorecer a cálculo-formação (mineralização da placa) e
actuação de descarboxilases presentes na saliva, formando aminas primárias que têm um
carácter básico.

Ao nível da saliva existe a Lipase Lingual (esterase) secretada na superfície dorsal da


língua pelas glândulas linguais de Ebner, que têm como substrato ésteres primários de cadeia
curta. Esta enzima consegue continuar a sua actividade no baixo pH do estômago, onde devido
ao tempo de retenção de alimentos se digerem 30% dos triglicéridos dos alimentos.

A Catalase é uma heme proteína que contém 4 grupos hemes. Para além de ter
actividade peroxidásica é capaz de usar uma molécula de H2O2 como oxidante ou aceitador de
electrões. A actividade peroxidásica da catalase “in vivo” está favorecida.

Ao nível da cavidade oral, a sua função é a destruição do peróxido de hidrogénio


proveniente das bactérias e da glândula parótida.

A Pirofosfatase é adjuvante na mineralização, uma vez que disponibiliza fosfatos.

A Hexocinase catalisa a reacção de transformação da glucose em glucose-6-P.

Existem ainda aglutininas que apresençam características antigénicas muito


semelhantes às que possuem as proteínas plasmáticas do sistema imunitário.

Aglutininas são proteínas de suporte de membrana ou de adesão que se ligam a


receptores da superfície das bactérias nos dentes e gengivas. Têm como função aderir à
superfície da cavidade oral tendo afinidade para células epiteliais ao nível das mucosas (1ª

102
camada bacteriana), também são responsáveis pela agregação (camada posterior de bactérias
que se ligam por interposição de proteínas salivares), aglutinação e wash-out.

Quanto ao seu mecanismo de acção, funcionam através de ligandos (lectin like) com
uma fase fluida (solubilizada na saliva), onde continuam em meio salivar agregando-se umas às
outras por partes, aglomeram-se são deglutidas e uma fase sólida (fixam-se às superfícies de
alto peso molecular), alteram a sua composição e precipitam deixando de ter afinidade para as
superfícies.

Existem vários tipos como:

• Glicoproteínas (fibronectina)
• Gama-Globulinas
o IgA – Extracelular, entra nas glândulas salivares pelo plasma e tem um carácter
imunológico, uma vez que se liga às bactérias impedindo que estas adiram à
mucosa. Encontra-se na parótida e nas glândulas acessórias. O sulco gengival
também contribui com uma variante de IgA.
o IgG e IgM em menores quantidades
• Beta 2 microglobulina

Existem ainda outros componentes polipeptídicos

Estaterina que é uma pequena fosfoproteína com um peso molecular de 1200 Da. Tem
43 aminoácidos e está fosforilada em 2 serinas e tem 10Gla. É rica em tirosina e prolina e tem
a propriedade de não permitir o crescimento do cristal de hidroxiapatite (assim como PRP,
Histatinas e Cistatinas).

Apresenta uma elevada capacidade de união com a hidroxiapatite, cálcio e fosfato. No


extremo N-inicial tem sequências ricas em glutamato e aspartato, sendo este extremo
implicado na sua união com a hidroxiapatite. Isto previne a precipitação dos fosfatos de cálcio
das soluções supersaturadas das superfícies dentárias, cavidade oral e glândulas salivares e
inibe a cálculo-formação. Alguns autores consideram que a união da estaterina à
hidroxiapatite permite participar na formação de película dentária.

Existem ainda outros componentes tais como albumina, ceruplasmina, beta


macroglobulinas, transferrina…

Outros compostos orgânicos

Aminoácidos livres – presentes em baixas concentrações. A saliva pode ser usada por
determinadas bactérias como fonte de nutrientes, mas os aminoácidos nela contidos são
poucos para permitir um crescimento médio aceitável.

Ureia – É hidrolisada por muitas bactérias levando à libertação de amónia, o que


aumenta o pH. 12-20mg/100ml.

Lípidos Salivares – 20-30mg/100ml. As glândulas salivares podem sintetizar muitos


lípidos e ácidos gordos a partir de precursores simples. Alguns ácidos gordos inibem a

103
aderência das bactérias à hidroxiapatite, enquanto os lípidos salivares contribuem para a
mineralização da placa dentária.

Não Fosforilados – 73% mono, di, triglicéridos, colesterol livre e esterificado

Lípidos Totais

Fosforilados ou Fosfolípidos – 27% Fosfatidilcolina, fosfatidiletanol,


esfingomielina

Glúcidos Salivares – Podem ter 3 origens: celular, bacteriana e salivar. A secreção


serosa de glúcidos é muito reduzida.

• Glucose – 0,5-1mg/ml – concentrações muito baixas. Estas concentrações podem ser


aumentadas pela diabetes e glicemia (num indivíduo o aumento da glicemia provoca
um aumento da glucose na saliva. No entanto, as concentrações de glucose na saliva
não dão indicações sobre a glicemia.

Célula Mucosa

Uma célula mucosa tem núcleos que estão empurrados contra a membrana basal e
são ovais. O citoplasma é claro e rico em muco. Tem uma secreção muito viscosa (mucinas que
formam uma camada gelatinosa sobre a mucosa), um alto volume (uma vez que são
glicosiladas e constituem as mucinas – glicoproteínas que formam uma camada gelatinosa que
cobre as mucosas). São pouco diversificadas (muito parecidas). Existem mucínas lípidos. Estas
células possuem o ratio cálcio/fosfato invertido (as células mucosas secretam mais
cálcio/fosfato). Estas são indissociáveis tanto na função como na auto-regulação – quando o
cálcio aumenta, o fosfato diminui e ambos estão relacionados com a mineralização do
esmalte). Estas células secretam proteínas – mucinas.

As Mucinas têm uma síntese igual às glicoproteínas. Podem ser glicoproteínas,


proteoglicanas ou mucopolissacáridos, sendo as mais frequentes as glicoproteínas com alto
teor de glicosilação (com HC nas cadeias laterais). As glândulas que mais produzem
glicoproteínas são as sub-lingual e submandibular (proteínas hidrossolúveis).

Uma mucina é então constituída por uma porção proteica (apomucina) e uma porção
glucídica (HC). Estas duas porções encontram-se unidas por ligações tipo O (entre N-
acetilgalactosamina e serina ou treonina) ou ligações tipo N (entre o resíduo glucídico N-Acetil-
Glucosamina com o azoto do grupo amina da asparagina).

104
Apomucina (porção proteica)

• Peso molecular variável


• Constituída por 3 regiões:
o Região N-terminal – constituída por uma sequência sinal com poucos locais de
glicosilação O e N que pode sofrer clivagem pós-traducional
o Região Central – constituída por sequências em tandem altamente
conservadas. Rica em a-a hidroxilados e prolina e tem muitos locais com
glicosilação em O
o Região C-terminal – rica em serina e treonina, sem prolina e a presença de
cisteína é variável.

Porção Glucídica (HC)

• Cadeia oligossacárida de tamanho, composição e ramificação variáveis (15 oses) –


muito ácido siálico, carga negativa e solúvel na saliva.
• Ligação em O condiciona a conformação proteica
• Tamanho das cadeias sacarídicas condiciona viscosidade (interacções intra e
intermoleculares)
• As cadeias sacarídeas determinam a funcionalidade da molécula
o Adesividade
o Conjugação com outros elementos
o Transporte de catiões

Quanto às funções das mucinas:

• Recobrimento das superfícies intraorais


o Ligação ou precipitação
o Conjugação com factores de protecção: devido ao alto teor em
oligossacáridos. As mucinas são muito resistentes às proteases, protegendo as
mucosas de ataques enzimáticos.
o Filme de lubrificação e hidratação, em que MG1 maior que MG2. As mucinas,
assim como outras glicoproteínas salivares conferem à saliva a sua típica
viscosidade. A parte proteica adopta uma conformação laxa helicoidal mas
com a porção glucidica não. As extremidades localizadas no exterior são ricas
em fucose ou ácido siálico. A pH fisiológico, o grupo COOH deste ácido está
ionizado, conferindo à molécula uma forte carga negativa, que permite a
formação de uma nuvem electronegativa. Esta repulsão electrostática mantém
a molécula numa conformação alongada, explicando assim a viscosidade e o
efeito lubrificante das mucinas.
• Alimentação
o Lubrificação dentária e mucosa na mastigação
o Homogeneização do bolo alimentar
o Deglutição
o MG1 mais lubrificante que MG2

105
• Modulação da flora oral
o Ligação a receptores na superfície de microrganismos – uma das funções da
MG2 é o bloqueio e eliminação de diversas bactérias. Ao unir-se Às adesinas
da sua superfície, impedindo a acção destas bactérias na película adquirida.
o Na MG2 há um trissacárido que se une especificamente ao Streptococcus
gordonii e Streptococcus oralis.
o Também há um dissacárido que pode intervir com S. mutans.
o MG2 é menos viscosa, portanto mais fluida, tendo esta propriedade de
aglutinação.

Biossíntese

A apoproteína é sintetizada nos ribossomas e os açúcares sofrem a acção de glicosil


transferases no Aparelho de Golgi. Existem então dois tipos de mucinas: MG1 e MG2.

MG1

• Alto peso molecular


• 25% Proteína
• 75% Glúcidos
• Multiméricas Ligações Sulfatadas – estrutura quaternária com várias cadeias
polipeptídicas unidas por ligações bissulfito (mais sulfato que MG2)
• Muito viscosa: muito lubrificante, menos solúvel
• Tem muita afinidade para hidroxiapatite
• Função de tissue coating e protecção da superfície dentária: como a MG1 é muito
viscosa, adere à superfície do esmalte e mucosas orais permitindo a adesão.
• Adsorção selectiva

MG2

• Baixo peso molecular


• 30% Proteína
• 70% Glúcidos
• Monomérica, sem ligações sulfatadas – uma só cadeia polipeptídica
• Pouco viscosa, lubrifica menos e mais solúvel
• Aglutinina – ao interagir com microrganismos em solução na fase fluida
• Tipos de ligação
o Secreção de cálcio – o cálcio serve como ligação entre vários hidroxilos,
empacotando mucinas até à secreção. Quando o grânulo é libertado para o
lúmen da glândula, o cálcio dispersa-se devido à interacção com água e a
proteína estica-se, ocupando todo o seu volume ficando funcional. Isto
provoca uma força matriz para a glândula.
o A hidrocefaleia é provocada, não só, pela falta de água, mas principalmente
pela falta de mucinas por isso não funciona a saliva artificial (não tem
mucinas).

106
Componentes Inorgânicos da Saliva

• Sódio
o Importante para o mecanismo de transdução de sinal nas papilas gustativas
para termos uma boa percepção de gosto.
• Cloro
o Principal constituinte não motorizado da secreção de fluido salivar
• Potássio
• Magnésio
• Hidrogénio
• Bicarbonato
• Cálcio
• Fosfato
• Flúor
o Os restantes são importantes ao nível do funcionamento da cavidade oral
contribuindo para a osmolaridade da saliva que é metade da do plasma.

Hidrogénio

Muito importante e tem de existir nas quantidades adequadas e mantido debaixo de


uma relação estrita (ácido-base). Para isso existem tampões que permitem que o pH se
mantenha entre 6,5 a 8. Se as concentrações de hidrogénio fossem muito elevadas, o meio era
muito ácido, o que daria cabo das mucosas e desmineralizava o dente.

Como fontes de hidrogénio:

• Secretado acoplado a ácidos orgânicos e inorgânicos


• Produzido pela flora oral – principal fonte de hidrogénios na cavidade oral. As
bactérias acidogénicas produzem ácido no final do seu metabolismo que se dissocia e
produz iões hidrogénio.
• Alimentação e bebidas (ex coca-cola)
• As diversas fontes de hidrogénio, juntamente com as outras substâncias resultam num
equilíbrio ácido-base da cavidade oral muito completo.
• Existem uma grande variação topográfica de pH na cavidade oral, porque o pH da
saliva produzida pelas glândulas é diferente de glândula para glândula, tal como o
sistema de tamponamento é diferente de glândula para glândula.

Bicarbonato

É o principal tampão salivar. A sua concentração é variável sem estimulação e com


esimulação, sendo maior com estimulação. Isto acontece por exemplo ao mascarmos uma
pastilha. As glândulas salivares gastam mais ATP, aumenta a concentração de bicarbonato
(tampão) que vai impedir as grandes variações de pH. Este tampão é formado devido à
presença da anidrase carbónica.

CO2 + H2O  H2CO3  HCO3- + H+

107
Sistema de Fosfatos Salivares

Os existentes presentes na saliva podem estar sob diferentes formas: 10% sob a forma
de ATP, Fosfolípidos e Ésteres de Glucose; 60% em formas iónicas salivares; 10% como
pirofosfatos e 20% associados a cálcio. Os fosfatos salivares são produzidos maioritariamente
na célula serosa da glândula parótida, tendo uma concentração maior que as do plasma. A
concentração dos fosfatos diminui na estimulação, pois as células estão a consumir ATP para
produzir saliva e o fosfato é utilizado. Quando há estimulação, só os fosfatos e o magnésio
descem.

Como funções, este sistema é um importante reservatório para a mineralização, pois


há desmineralização deo dente quando diminui o pH. O fosfato é ainda um importante tampão
no metabolismo bacteriano cálculo-formação. Assim, quando existe um ataque ácido, o
excesso de hidrogeniões tendem a reagir com os fosfatos formando ácido fosfórico.

H3PO4, H2PO4-, HPO42-, PO43-

Cálcio

O calico (component inorgânico mais abundante da saliva) existente na saliva pode


estar sob diversas formas a pH normal: 50% está sob a forma de cálcio ionizado, 10-20% está
ligado a fosfatos e bicarbonatoe 10-30% está sob a forma de proteínas enquanto outros 10%
estão sob a forma de citrato (ácido orgânico).

A concentração de cálcio na saliva produzida pela glândula sub-lingual (secreção


mucosa) é mais alta que na parótida, daí a razão da aparição de calculoformação nos dentes
anteriores e inferiores. O cálcio é secretado sob a forma de vesículas ou associado a proteínas
com um ritmo circadiano cujo pico é à tarde.

A sua função é actuar como depósito que favorece a mineralização do dente ao nível
dos cristais de hidroxiapatite. Reage com inúmeras proteínas (PRP’s) contribuindo para
fenómenos de aderência de germes bucais. Os valores de cálcio podem ser alterados por
agentes que destruam estas proteínas, ou variações de pH ou estímulos.

Os níveis de fosfato e de cálcio são tão elevados que a saliva encontra-se


supersaturada em relação à hidroxiapatite a pH normal oral (a saliva produzida pela
submandibular é mais supersaturada que a da parótida).

Se o pH diminui, aumenta a concentração de hidrogénio. Os fosfatos são convertidos e


os iões hidroxilo neutralizados para formar água. Assim, a saliva não fica supersaturada em
relação à hidroxiapatite.

Se o pH aumenta, é favorecida a remineralização, porque o seu grau de saturação


aumenta.

108
Funções da Saliva

 Protecção das Mucosas


o Lubrificação – importante para falar, mastigar e engolir. A saliva permite a
formação do tissue coating que é responsável pela lubrificação e formação do
bolo alimentar. Esta propriedade é possível devido à presença de água e
mucinas (MG1 maior que MG2). As mucinas estão em diferentes proporções
nas diferentes glândulas (maior nas minor e sub-lingual, intermédia na
submandibular e menor na parótida). A viscosidade varia de secreção para
secreção.
o Integridade das Mucosas
o Reparação Tecidual – tem factores de crescimento, principalmente factores de
crescimento epidérmico, logo cicatrizações da mucosa oral mais rápidas.
 Controlo da Flora Oral
o Bactéria – a saliva tem proteínas (aglutininas-IgA) cuja principal função é
agregar determinadas bactérias que não fazem parte da saliva e prevenir a sua
adesão aos tecidos moles e duros da cavidade oral. Também tem proteínas
que se fixam na mucosa e fazem uma ponte entre estas e os microrganismos,
colonizando a mucosa oral.
o Fungos – há determinadas proteínas com propriedades anti-fúngicas
o Vírus
 Alimentação
o Paladar – a saliva contribui para o paladar dado que as papilas linguais têm
capacidade de captar diferentes tipos de sabores e é a saliva que veicula os
alimentos em solução, estimulando as papilas
o Formação do bolo alimentar
o Translocação do bolo alimentar – ocorre no restante tracto gastro-intestinal
 Digestão
o As funções digestivas da saliva são asseguradas pela amilase salivar e pela
lipase lingual.
 Defesa
o Também pela sialoperoxidase.
o Sistema de calicreína salivar (sistema de quininas)
 Responsável pela activação de vários sistemas de resposta anti-
inflamatória. A calicreína é responsável pela activação da via intrínseca
da hemostase porque activa o factor XII em factor XII activado e este
activa a pré-calicreína que dá origem a mais calicreína.
 Serve assim de estímulo para ampliação de todo o sistema da cascata
de coagulação.
 Quando os tecidos periodontais estão inflamados as quitinas
aumentam.
 A calicreína converte os quininogénios em quininas.
 Estas quininas são importantes e intervêm em reacções em que ocorre
síntese de prostaglandinas que são mediadores inflamatórios.

109
o Sistema Lisozima
 Antibiótico natural que diminui a actividade bacteriana. Degrada a
parede das bactérias Gram+ que é constituída por peptidoglicano.
o Sistema Lactoperoxidase Salivar
 Factor de defesa imune não específico do leite e saliva.
 Excreção
o A saliva serve de veículo de excreção para produtos como ureia, álcool e
medicamentos que se difundem a partir das glândulas salivares.
 Capacidade Tampão
o Protegem os tecidos orais contra os ácidos da comida e da placa. Existem 3
tampões, sendo o mais importante o tampão bicarbonato:
 Tampão Bicarbonato (anidrase carbónica)
 Tampão Fosfato (formação de ácido fosfórico)
 Proteínas (o perigo de desmineralização ao haver ataque ácido numa
superfície como o esmalte fica diminuído devido ao sistema que existe
nos pools de cálcio salivar que estão ligados a proteínas e que são
mobilizados quando há diminuição de pH.
 Remineralização Dentária
o A saliva tem saturação de iões cálcio e fosfato responsáveis pelo crescimento
do cristal. Se não fosse esta saturação, os dentes dissolviam-se na saliva.
Assim, quando ocorre desmineralização, os iões presentes revertem o
equilíbrio até à remineralização por neutralização de ácidos. O cálcio e o
fosfato são a fonte de minerais para a calculoformação. A presença, na saliva,
de inibidores da precipitação (estaterina e PRP’s) é provavelmente o factor
que previne mais o excesso de calcificação na boca, contudo, na placa estas
proteínas não conseguem penetrar devido ao seu grande tamanho, havendo
calculo-formação.
 Formação de Película e de Placa
o Tanto a película como a placa contêm proteínas derivadas da saliva (PRP’s
ácidas, MG1)

Produção da Saliva e sua Regulação

A saliva é produzida nas glândulas salivares ao nível dos ácinos e nos ductos. É formada
em dois tempos (teoria dos dois tempos):

A secreção primária ocorre nos ácinos, em que há formação de fluido primário que é
isotónico com o plasma.

Depois, passa pelos ductos (intercalar, estriado e terminal) ficando hipotónico em


relação ao plasma. A secreção do fluído primário é formada pelo movimento do sódio e do
cloro para o lúmen criando um gradiente osmótico que leva ao transporte de água. Também
são adicionados outros compostos acinares antes do fluido entrar nos ductos, onde os iões de
sódio são reabsorvidos e o bicarbonato e potássio são secretados. Os componentes

110
macromoleculares (amilase, mucinas, etc.) são formados no RER, são processados em vesículas
secretórias e exportados da célula por exocitose.

A produção de saliva é desencadeada pelo SNA que é constituído pelo SNSimpático e


SNParassimpático que enervam as glândulas. O simpático é vasoconstritor e tem como
mediador a adrenalina e a noradrenalina, fazendo aumentar a secreção proteica, havendo
menos fluido, mais viscoso. O parassimpático é vasodilatador e actua por intermédio da
acetilcolina. Quando há estimulação parassimpática há uma maior produção de fluido com
maior concentração de glicoproteínas.

Simpático Parassimpático
• Vasoconstritor • Vasodilatador
• Adrenalina, Noradrenalina • Acetilcolina
• Menor produção de fluido • Maior produção de fluido
• Fluido mais viscoso • Maior concentração de glicoproteínas

Estes nervos enervam as células acinares, células dos ductos, vasos e células
mioepiteliais. Quando é necessário aumentar a produção de saliva é libertado num
neurotransmissor: Acetilcolina, Noradrenalina, Substância P, Polipéptido Vasointestinal,
Aldosterona…

Quando o neurotransmissor chega à célula secretora liga-se a um receptor na


superfície externa da membrana, receptor este que pode estimular (maior parte) ou inibir um
intermediário – proteína G. Esta, quando é activada vai por sua vez activar uma enzima da face
citoplasmática da célula. Esta enzima reguladora parece ser a fosfolipase C ou a Adenilato
Ciclase.

111
Fosfolipase C é uma enzima activada pela ligação da Acetilcolina a receptores
muscarínicos (M1, M2, M3, M4, M5), ligação da Noradrenalina a receptores α1 adrenérgicos e
a ligação da substância P a receptores peptidérgicos, que existem na membrana acinar da
célula. Isto controla a via intracelular, levando à secreção de água e electrólitos.

A Fosfolipase C é responsável pela hidrólise do Fosfatidilinositol Bifosfato (PIP2) a DAG


e IP3. O IP3 abre s canais de cálcio do RER havendo libertação de cálcio para o citoplasma. Há
então aumento de cálcio intracelular, que leva à abertura dos canais de potássio a nível da
membrana acinar, permitindo a difusão deste para fora da célula segundo um gradiente de
concentração estabelecido por uma bomba de sódio/potássio.

Os iões de potássio fora da célula vão estimular na membrana dois sistemas de


transporte

• Sódio, Cloro, Potássio – sistema co-transportador que permite a entrada de 3 iões


acoplados para o interior da célula
• Bomba Sódio, Potássio – na membrana intercelular

O cloro que entrou na célula com sódio e potássio difunde-se através da membrana
luminal, através de um canal sensível ao cálcio. A chegada de cloro ao lúmen provoca um
movimento de sódio nos canais intercelulares por via paracelular pelas tight-junctions e este
aumento de cloro arrasta água por osmose para uma gap-junction a nível dos canais
aquaporinas.

Adenilato Ciclase é activada quando a Noradrenalina ou o VIP se ligam a receptores


adrenérgicos ou peptidérgicos. Esta activação leva à exocitose de proteínas secretórias.
Provoca a formação intracelular de cAMP a partir de ATP. O cAMP vai activar uma proteína
quinase que vão mobilizar a formação de vesículas que levam à exocitose de proteínas.

Está então formado o fluido primário que vai passar pelos ductos e sofrer alterações
ao nível dos ductos estriado e excretor. Aqui dá-se a reabsorção de sódio e cloro e secreção de
potássio, fosfato inorgânico e bicarbonato.

Uma disfunção salivar é muito importante e dá a sensação de boca seca (Xerostomia).


Pode ser diagnosticada com uma sialometria, em que se mede o fluxo salivar e posteriormente
com uma investigação radiológica.

Pode ser provocada pelo uso de medicamentos (narcóticos, anti-histamínicos). Outras


causas mais comuns são doenças sistémicas, cirurgia e radiações.

O tratamento consiste no alívio dos sintomas pela substituição da saliva onde é


extremamente importante a prevenção de cárie e doenças do periodonto. Há que fazer
também uma intensa terapia com flúor e uma boa higiene oral. Se funcionar, o tecido da
glândula pode ser estimulado pela mastigação de comida não cariogénica.

Em recurso podem ser ainda utilizados medicamentos parassimpáticos sobre


acompanhamento médico.

112
Regulação da Composição da Saliva

• Fluxo
o Assim que o fluxo aumenta, as concentrações de proteínas, sódio, cloro e
bicarbonato também aumentam e a concentração de fosfato e magnésio
descem.
 Aumenta a quantidade de fluido primário
 Aumenta o fluxo, pelo que a passagem pelos ductos é mais rápida não
permitindo modificações.
• Ritmo Circadiano
o Os níveis de fosfato e cálcio são mais baixos pela manhã
• Duração e Natureza do Estímulo
o Num fluxo constante de saliva, a composição pode variar com a duração da
estimulação
o Se o fluxo é constante, as secreções do azedo, salgado ou doce são
semelhantes em termos de electrólitos.
o O sal estimula uma maior secreção de proteínas.
o O doce leva ao aumento da amilase salivar
o Quanto a quantidade de ácidos aumenta, a saliva torna-se mais básica.
• Dieta
o Alterações a longo prazo na dieta não têm grande influência na saliva
o Acredita-se que alterações a este nível do plasma das concentrações de
fosfato e ureia devido à dieta poderá influenciar alterações a nível da saliva.
o O aumento da concentração de flúor estimula a secreção de flúor
o Quando há bolo alimentar, a secreção é mais mucosa. Quando não, é mais rica
em electrólitos.
• Efeitos Hormonais
o Mais produção de saliva
o ACTH
o Cortisol (diminuição de sódio, manutenção de potássio)
o ADH (aumenta água na saliva)
o Aldosterona (reabsorve activamente sódio, excreta potássio)
o Não há muitas hormonas na saliva:
 Testosterona livre
 Progesterona Livre
o As hormonas livres são lipossolúveis, entram na saliva segundo via intracelular,
por difusão e as suas concentrações não são dependentes do débito salivar.
o Os esteróides conjugados (não são lipossolúveis) passam pelas junções
celulares e são dependentes do débito salivar.
• Contributo das diferentes glândulas
o Parótida – serosa
o Sub-lingual – mucosa
o Submandibular – mista
o Saliva não estimulada
 Parótida – 10%

113
o Saliva Estimulada
 Fluxo da parótida muito elevado
o A concenração de cálciona saliva da parótida é mais baixo que na
submandibular.
o A saliva estimulada contém baixos níveis de cálcio.

Controlo da Salivação

Normalmente, as glândulas salivares não estão sob controlo do sistema nervoso ao


contrário das outras glândulas do tubo digestivo. As hormonas podem alterar a composição da
saliva, mas não a sua secreção.

Fluxo Não Estimulado

Em condisões de descanso, sem estimulação exógena, existe um fluxo lento de saliva


que mantém a boca húmida e lubrifica a mucosa. É importante para a saúde e bem-estar da
cavidade oral. Varia consideravelmente durante o dia e é influenciado por vários factores:

• Variação Circadiana – pico às 5 da tarde


• Luz e Despertar – o escuro diminui o fluxo salivar. Durante o sono o fluxo é reduzido.
• Hidratação – perda de 8% de água leva à interrupção do fluxo salivar
• Exercício e Stress – boca seca é uma causa de “fright and flight” (assustar e fugir).
Influência do núcleo salivar do hipotálamo.
• Fluxo Psíquico – A sensação de água na boca é uma antecipação da visão de comida.

Reflexos Não Condicionados

• Mastigação – mastigar uma pastilha leva ao aumento do fluxo salivar (receptores nos
músculos mastigadores, ATM, LPO e mucosa – secreção parassimpática de água e
electrólitos)
• Estímulos Gustativos – Aumentam em 10x o fluxo salivar (o mais eficaz é o azedo,
depois o doce e o salgado). O olfacto devido à sua relação também estimula.
• Outros Estímulos – Ligações entre o núcleo salivar e o centro de vómito na espinal
medula (tentativa de neutralizar a substância irritante)

A hipersalivação é também descrita durante a gravidez mas ainda não está bem
clarificado. Pode ter a ver com os enjoos matinais, irritação do esófago e vómito. O excesso de
salivação também pode estar associado a perturbações motoras a nível da musculatura
orofacial.

114
Placa Bacteriana

Produz-se como resultado da acumulação de bactérias na superfície dentária. A placa


bactéria pode originar diversos tipos de doenças: cárie, periodontite. A formação da placa dá-
se em três etapas:

• Formação da película adquirida


• Colonização Primária
• Colonização Tardia

Formação da Película Adequirida

Partindo de um esmalte liso e limpo, ao passar 1h30m, forma-se uma fina camada de
matéria orgânica desprovida de células – Película Adequirida.

A formação desta película adquirida ocorre em todos os indivíduos.


Independentemente do maior ou menor grau de higiene, do genoma da pessoa, da
alimentação ou saliva. Assim, apesar das salivas terem composições diferentes, só alguns
componentes comuns em todas elas têm afinidade para as superfícies dentárias.

Alta afinidade – Proteínas ácidas e Proteínas Básicas

Afinidade moderada – Proteínas com cadeias laterais polares (histidina, serina,…)

Baixa afinidade – Proteínas com cadeias laterais apolares

A formação da película adequirida faz-se a partir da saliva, isto é, os componentes


salivares passam de uma fase solúvel (saliva) para uma fase insolúvel (placa).

O esmalte é abundante em hidroxiapatite, o que expressa na sua superfície uma


polaridade negativa. Isto provoca uma adsorção na superfície do esmalte e moléculas de água,
juntamente com iões com cargas positivas. Por sua vez, as cargas positivas dos iões provocam
uma adsorção de moléculas negativas (nomeadamente proteínas). A atracção pode ser
equimolar (uma carga atrai outra carga) ou equivalente (uma carga atrai uma dupla carga).

Depois há adsorção de macromoléculas de diferentes formas:

Directa – as proteínas ligam directamente o seu grupo glicosil e amina à superfície


negativa do esmalte ou ligam-se directamente por ligações hidrofóbicas.

Indirecta – as proteínas ligam-se a iões positivos da superfície do esmalte que servem


como pontes. Os grupos proteicos que se ligam aos iões positivos são carboxilo, fosfato e
sulfato.

Algumas proteínas que aparecem na película estão modificadas por proteases ou


glicosidases para melhorar a adesão da proteína à superfície do esmalte ou mesmo para
facilitar a posterior adesão de uma determinada bactéria em detrimento de outra.

115
A adsorção de macromoléculas proteicas depende de diversos factores:

• Se há perda de grupos terminais do ácido siálico das proteínas, há diminuição das


cargas negativas, diminui a solubilidade na saliva, aumenta a adsorção e precipitação.
• Diminui adsorção (PRP’s ácidas – são fosfoproteínas que se ligam à superfície do
esmalte através de interacções fortes entre o seu fosfato e o cálcio da hidroxiapatite. A
adsorção diminui na presença de outras proteínas que competem com estas).
• Aumento do cálcio – aumenta adsorção
• Aumento de pH – diminuição adsorção

Composição da Película Adquirida

• Proteínas Salivares principalmente glicoproteínas


o Mucinas
o Estaterinas (receptores para Actinomyces e Fusobacterium)
o PRP’s (receptores para Actinomyces e Estreptococcus)
• Componentes Bacterianos
o Enzimas
o Fragmentos da parede celular
o Moléculas da membrana
o Glúcido mais abundante é glicose, glucosamina, galactose e manose

A película adquirida permite a protecção do esmalte do atrito dos alimentos e


variações de pH. Torna o esmalte colonizável.

Colonização Primária

Primeiro grupo de bactérias que se liga aos locais de colonização.

Localização de microrganismos na cavidade oral:

• Suspensão salivar
• Superfícies mucosas
• Superfícies duras

Pontos de colonização das superfícies duras (esmalte) e mucosas

• Superfícies lisas
o Faces vestibulares
o Faces linguais
o Superfícies gengivais
• Superfícies retentíveis
o Fissuras
o Faces interproximais
o Zonas do sulco gengival
o Dorso da língua

116
Para zonas retentíveis – para retenção mecânica.

Para superfícies lisas – por adesão (por acreção – ligação da bactéria – elemento da
película; por co-acreção – ligação entre o agregado da bactéria – elemento da película).

A adesividade bacteriana é um mecanismo muito complexo que ainda não está bem
compreendido, mas pensa-se que há uma adesividade.

Adesividade Inespecífica

• Por interacções Van der Walls


• Por interacções iónicas

Um exemplo é o ácido teicóico, um polímero nas paredes bacterianas que no caso das
Gram + pode constituir 20 a 40% do peso das paredes e que é libertado em grandes
quantidades pelas bactérias.

A sua estrutura química consiste numa cadeia que se repetem muitas vezes moléculas
de glicerol ou ribitol unidas entre si por ligações fosfodiéster. Os grupos hidroxilo livres do
glicerol e ribitol podem estar unidos a monossacárido ou ácidos. Esta molécula contém uma
parte hidrofóbica e outra de carácter polar.

Este tipo de adesividade inespecífica não justifica, por si só, pois são as interacções
demasiado fracas e também inespecíficas, muitas vezes anuladas por forças repulsivas entre os
corpos negativos dos cristais e os negativos das bactérias.

Adesividade Específica

Para proteínas de adesão localizadas na superfície de bactérias (adesinas) que


reconhecem e se ligam a receptores específicos da película.

As adesinas são proteínas reguladas. Isto é muito importante porque a temperatura,


pH, nutrientes, variam constantemente na cavidade oral (algumas bactérias têm actividade
sacarose dependente, elas vão exprimir adesinas, que até aí não existiam). Os Estreptococcus
exprimem grandes quantidades de receptores quando se liga à Ag I/II. As GTF’s são também
ligandos que vão regular a expressão de adesinas.

Quanto às características das adesinas são um grupo heterogéneo, com peso


molecular de 35-380KDa e apresenta conformações variadas.

As adesinas estão presentes na superfície bacteriana por dois mecanismos distintos:

• Sequências LPXTG a nível C-terminal, ligam-se ao péptidoglucano.


• As de menor peso molecular com sequências LXXC a nível N-terminal, ligam-se a um
lípido membranário.

As adesinas podem ser:


• Lectinas – componentes hidrofóbicas
• Interacções Hidrofóbicas

117
As lectinas são glicoproteínas que se unem a sequências específicas de monossacáridos
existentes em glicoproteínas e/ou glicolípidos.

Os Actinomyces Viscous possuem na sua superfície uma Lectina capaz de reconhecer,


Actinomyces Naeslundi possui resíduos de galactose e Estreptococcus sanguis possui adesinas
que se relacionam com receptores que contêm ácido siálico.

As interacções hidrofóbicas são exemplo no Streptococcus sanguis que quando sujeito


a agentes desmineralizantes que interferem na união hidrofóbica ele perde capacidades
adesivas à película adquirida.

Os colonizadores primários são, na sua maioria, Streptococcus sanguis e oralis,


havendo também bactérias filamentosas que aderem à superfície do dente e depois
desenvolvem formas filamentosas. Posteriormente há a proliferação de Actinomyces viscous.
Os colonzadores primários vão determinar o ambiente metabólico no início da placa.

Colonização Tardia

Consiste na adesão de bactérias por outras bactérias.

Faz-se por co-agregação:

• Directa – entre adesina dos agregados bacterianos e às bactérias da placa jovem


directa por sequências glucídicas
• Indirecta – entre adesinas dos agregados bacterianos e a placa jovem com interposição
de macomoléculas da saliva.

Raramente há ligação directa entre uma bactéria qualquer em suspensão e a bactéria


da placa jovem. Geralmente há bactérias filamentosas tipo Fusobacterium que tem filamentos
com capacidade de se ligarem a um conjunto de bactérias livres e simultaneamente de se ligar
às bactérias da placa jovem, formando estruturas conhecidas como Maçarocas de Milho.

O facto dos colonizadores primários criarem condições favoráveis para a colonização


da placa por outros microrganismos leva ao aparecimento de condições desfavoráveis para si
próprio, levando à sua progressiva morte e desaparecimento:

• Aumento de intermediários tóxicos


• Diminuição de alimentos
• Colonização feita em pontos isolados onde vão criar um ambiente anaeróbio.

Há uma variação na constituição da flora oral que estabiliza após algumas semanas. A
estabilização da placa é dinâmica, ou seja, as bactérias vão sendo constantemente substituídas
por novas bactérias por multiplicação.

As diferenças estruturais, as diferenças das quantidades de matriz intermicrobiana e as


diferenças na deposição influenciam o processo metabólico e propriedades de difusão da placa
dentária.

118
Cá r i e

A cárie não ocorre uniformemente na superfície dos dentes, tende a instalar-se


sempre nas zonas retentivas, tem tendência a ser simétrica e tem maior incidência nos
molares que nos incisivos inferiores.

As bactérias da cavidade oral vivem em condições de “fome crónica”. A saliva tem


baixas concentrações de nutrientes, o que não satisfaz completamente as necessidades
nutricionais das bactérias. Isto faz com que estes microrganismos vivam em constante
competição pelo alimento, sobrevivendo os mais fortes. Após a ingestão de alimentos, elevam-
se as concentrações de nutrientes na cavidade oral que depois permanecem nas zonas
retentivas. Nessas zonas vão-se concentrar bactérias cariogénicas, nomeadamente
Streptococcus mutans, porque não têm adesina para aderirem às superfícies lisas.

Inicialmente duvidou-se se o S. Mutans seria uma bactéria cariogénica, pois não era
encontrada em algumas amostras. Actualmente, sabe-se que é um dos principais factores de
cárie, encontrando-se na placa. A designação mutans advém do facto de na coloração de Gram
as bactérias aparecerem iguais aos streptococcus, mas mais ovais, parecendo mutantes.

O SM é o primeiro grupo de bactérias a colonizar a boca das crianças após a erupção


dos dentes, por isso a cárie é a principal doença dos jovens. Foram também detectados
Streptococcus sobrinus nas placas cariogénicas mas em menor quantidade e com menor
potencial cariogénico.

As bactérias utilizam preferencialmente HC, mas também podem utilizar ácidos


carboxílicos, aminoácidos e péptidos. Por isso possuem uma grande diversidade de enzimas
que intervêm nos processos metabólicos: algumas enzimas são sintetizadas continuamente
assegurando a sobrevivência da célula – constitutivas, outras vão ser apenas sintetizadas
mediante grandes quantidades de substrato, o que permite uma conservação de energia e
vantagens competitivas.

O metabolismo da glucose do SM é altamente favorável já que possui dois sistemas de


transporte de glucose para o seu interior: inicialmente por difusão facilitada até igualar as
concentrações dentro e fora da célula e depois por transporte activo com gasto de energia.

A lactose é convertida em lactose-fosfato e depois hidrolizada em glucose e galactose-


6-fosfato. O sorbitol é convertido em sorbitol-6-fosfato e depois a frutose-6-fosfato pelas
enzimas adicionais sorbitol-6-fosfato-desidrogenase. Uma via semelhante é utilizada na
degradação do manitol.

A frutose origina frutose-1-fosfato que entra na via glicolítica depois de fosforilada a


frutose-1,6-difosfato (na presença de ATP). A frutose pode ainda originar frutose-6-fosfato.
Este último sistem permite a entrada de xilitol que no interior da célula vai formar xilitol-5-
fosfato que depois é fosforilado a xilitol e fosfato inorgânico, em que o xilitol livre é
transportador para o exterior da célula, formando um ciclo energético fútil.

119
Em diminuição da concentração de glucose

A glucose-6-fosfato
fosfato vai continuar na via glicolítica. A via glicolítica é a principal via para
obtenção de energia. Quando chega a piruvato activa o sistema PTS que permite uma maior
obtenção de glucose.

Em anaerobiose, o piruvato é convertido a Acetil


Acetil-CoA
CoA que depois forma etanol e
acetato. Os 2 NADH que se formam por uma molécula de glucose entram na cadeia
respiratória, o que permite a obtenção de en
energia
ergia sob a forma deATP e para o movimento
flagelar.

O principal sistema de transporte activo é o PTS (sistema de fosfotransferases)-


fosfotransferases) É um
sistema de alta afinidade que utiliza fosfoenolpiruvato como fonte de energia. O
fosfoenolpiruvato é então convertid
convertido
o a piruvato transferindo um grupo fosfato para uma
enzima. A enzima, contendo um grupo fosfato, transporta glucose para dentro da célula,
formando glucose-6-fosfato.

Este sistema PTS também transporta outros hidratos de carbono:

• Monossacáridos – glucose, manose, frutose


• Dissacáridos – sacarose, lactose, maltose
• Álcoois Açúcarados – sorbitol, manitol

Grande parte das bactérias morre por acumulação de intermediários tóxicos na via
glicolítica.

O SM desenvolve um mecanismo para se proteger da ameaça de uma morte acelerada


de substrato:

• Sintetiza polissacáridos (activando a via do glicogénio)


• Converte, na via glicolítica, o fosfoenolpiruvato pa piruvato pela piruvato cinase. Deixa
de transportar glucose para o interior da célula e há uma regulação da concentração
concentr
de glucose.

Em aumento da concentração de glucose, o piruvato é convertido a lactato pela lactato


desidrogenase oara regenerar NAD que é necessário às funções vitais da célula.

Entretanto, o pH intracelular diminui pela produção de hidrogeniões pela célula. Para


manter o seu pH alcalino, a célula envia esses hidrogeniões para fora da célula formando ácido
(requer iões potássio).

120
A diminuição extracelular do pH vai inibir a PTS ainda mais, pois a PTS tem uma
actividade óptima em baixas concentrações de açúcar e pH neutro. Muitas outras bactérias
morrem, já a SM consegue sobreviver a um pH óptimo de 5 – 5,5.

Quando o PTS fica bloqueado, há ainda outra forma de captar glucose, através de
transportadores de baixa afinidade – permeases – que vão detectar o pH baixo e vão expulsar
lactato tornando o pH ainda mais baixo.

A sacarose causa mais incidência de cárie que os outros HC principalmente a refinada


pois faz com que o SM expresse a sua máxima virulência.

O alimento preferencial destas bactérias é a sasacarose


carose (glucose + frutose) porque têm
afinidade em metabolizar a glucose e a frutose e contêm enzimas capazes de quebrar as
ligações de alta energia entre elas. Depois a glicose e a frutose vão formar polímeros que dão
sustentação à matriz, fazendo parte ddesta.

O Dextrano (polímero de glucose) é o elemento mais abundante da matriz conferindo-


conferindo
lhe maior sustentação e as Proteases são o segundo elemento. Os dextranos são
polimerizados pelas bactérias cariogénicas a partir de glucose por GTS esp
específicos
ecíficos responsável
pelas ligações lineares e ramificadas (dextrano
(dextrano-sucarase).
sucarase). A estrutura ramificada confere-lhes
confere
alta viscosidade, que vai fornecer coesão à placa e nomeadamente à matriz.

chamam-se Levanos,, são lineares e sintetizados


Os polímeros de frutose chamam sintet por GTS
específicas (levano-sucarase).
sucarase). Os levanos formam ligações lineares e ramificadas.

121
As ligações dos dextranos são mais fortes que as dos levanos. Quando as bactérias
precisam de alimento quebram os levanos.

Consoante o tipo de ligação são mais solúveis (ricos em α1,6) ou mais insolúveis (ricos
em α1,3).

Os glucanos são mais solúveis, têm um papel mais energético, pois são facilmente
degradados em glucose e esta é consumida pela bactéria. São mais solúveis, muito viscosos
permitindo a formação de uma rede extracelular que prolifera até às superfícies lisas. Isto
permitem que as bactérias possam deslocar-se e fixar-se nas superfícies lisas – papel
estrutural.

A diminuição de pH em grandes concentrações de glucose ocorre nomeadamente após


refeições. Em indivíduos saudáveis esta diminuição não desce abaixo dos valores de pH crítico
(pH = 5,5). Após algum tempo, o pH volta a subir devido ao consumo dos cristais de
hidroxiapatite e ao fluido que está entre a placa e o esmalte formado a partir de elementos
que se difundem a partir da placa. Este fluido é rico em urease, bicarbonatos e elementos
antibacterianos.

Se estes ciclos de mineralização-desmineralização compensarem não há cárie. Numa


exposição prolongada a pH baixo devido à ingestão continuada de doces, vai haver constante
desmineralização havendo um desequilíbrio entre ciclos que vai provocar lesões de cárie.

À medida que ocorre desmineralização os poros intercristal aumentam de tamanho e


número e são preenchidos por água (libertada dos cristais) e minerais (Fosfato e Cálcio).

Inicialmente, uma semana depois, a lesão não é visível macroscopicamente, os níveis


de dissolução do esmalte apenas são visíveis a nível ultraestrutural.

Após 14 dias, as alterações no esmalte começam a ser visíveis macroscopicamente,


pois a quantidade crescente de água e fosfatos de cálcio leva à formação das propriedades
ópticas do esmalte – o esmalte torna-se menos translúcido e mais opaco.

Pode ocorrer mineralização formando fosfato de cálcio amorfo, num processo rápido.

Um estado de lesão marca o início da lesão clássica (white spot) – zonas brancas,
opacas, nomeadamente na zona do dente junto à gengiva.

Após algum tempo, os poros vão aumentando em profundidade até atingir a dentina,
permitindo que os produtos tóxicos das bactérias cheguem à dentina.

Se a lesão progredir pode atingir a polpa provocando uma resposta inflamatória.

Neste momento podem aparecer cavidades médias à superfície do esmalte


(cavitação), o que permite a acumulação de outros tipos de bactérias que não se podiam fixar
aqui como exemplo Lactobacillus, que têm uma maior capacidade de lesão que o próprio SM.

A tonalidade castanha característica da cárie obtém-se depois.

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A partir de um dente cariado este pode evoluir para um dente obturado,
posteriormente
rmente uma gengivite e depois periodontite com o final de perda da peça dentária.

Existem 3 tipos de cárie:

• Cárie Activa – pelo menos uma superfície do dente está a apodrecer


• Cárie Inactiva – a superfície não está apodrecida
• Sem Cárie – o dente não está aapodrecido e está preenchido

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Flúor

O Flúor constitui, juntamente com o cloro, bromo, iodo, a família dos halogéneos. É o
elemento mais electronegativo que se conhece, tendo um electrão na sua órbita de valência,
atraído fortemente pelo núcleo, o que o torna extramamente reactivo.

Existe sob a forma de F2, mas é extremamente instável e tende a dissociar-se


espontaneamente dando origem à forma iónica mais comum F- que estará mais disponível
para formar associações com outros elementos.

Fontes de flúor:

• Água (principalmente profunda)


• Casca de marisco
• Peixes (sardinha, salmão)
• Plantas
• Chá
• Cerveja
• Solos
• Tecidos animais

Ingestão

É feita pela boca, mas em condições especiais pode haver absorção pela pele ou
inalação de compostos gasosos. No geral, o flúor entra sob a forma iónica no oganismo.

Absorção

Considera-se que o flúor é absorvido a nível gastrointestinal. Na realidade, o flúor é


predominantemente absorvido a nível gástrico pois a existência um pH ácido vai promover a
forma de ácido fluorídrico (HF), que sendo apolar e lipossolúvel passa pelas membranas. A
nível intestinal, o pH sobe e o flúor passa a existir sob a forma iónica, hidrossolúvel e que
dificilmente passa pela membrana, logo a absorção é muito menor.

A absorção é condicionada por alguns factores:

• Cálcio em grandes concentrações, associa-se ao flúor formando fluoreto de cálcio


insolúvel (por isso deve-se aconselhar tomar um comprimido de flúor em horas
diferentes da ingestão de leite ou seus derivados)
• Associações a elementos formando formas iónicas, passando dificilmente pelas
membranas
• Citrato ou outros ácidos orgânicos que vão quelar o cálcio, facilitando a absorção de
flúor.

Distribuição

Após absorvido, o flúor circula no sangue associado à albumina e sob a forma livre,
mantendo uma concentração de entre 0,05 a 0,5ppm. Após a absorção o flúor atinge o seu

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pico máximo, mas ao passar de algum tempo os valores descem, pois o flúor vai ser
distribuído pelas diferentes partes do organismo:

• 95% Incorporado nos tecidos mineralizados do organismo (esmalte, dentina, osso,


cimento)
• Fluído intra e extracelular (saliva, por exemplo)

Excreção

Para assegurar a homeostase do flúor vai haver excreção do mesmo de diferentes


formas:

• A principal é na urina, eliminando-se cerca de 70% por esta via. Do flúor filtrado no
glomérulo, pouco é reabsorvido (20%), reabsorção que depende do pH da urina
o pH alcalino favorece a excreção de flúor
o pH ácido favorece a reabsorção de flúor
• Via do leite (mulheres)
• Via fecal – para o flúor não absorvido a nível gastrointestinal.

Acção do flúor nos dentes

A administração do flúor nos dentes pode ser feita:

• Antes da erupção
o Via sistémica
o O flúor é absorvido à distância indo depois até ao local de acção pela
circulação
o Tecidos mais profundos do dente são mineralizados
• Após a erupção
o Saliva – derivada da via sistémica com efeito tópico
o Via tópica – pastas, pastilhas, vernizes, géis.
o A zona mais superficial é mineralizada

Acção do Flúor na Cárie

• Adjuvante da mineralização
• Intervém na mineralização do dente nos ciclos de mineralização/desmineralização
• Acções voláteis (substituído a curto prazo)
• Acção Antibacteriana
o Inibe diversas enzimas presentes nas bactérias.
o União do fluoreto ou ácido fluorídrico a um ião magnésio – formando um
complexo ternário. Como o magnésio é essencial para activar a enolase, esta
deixa de exercer a sua função na glicólise, inibindo a produção de
fosfoenolpiruvato. A falta de fosfoenolpiruvato vai inibir o transporte de
glucose para dentro da célula, o que provoca:
 Falta de energia para sobrevivência e multiplicação
 Falta de intermediários glicolíticos que levam à formação de produtos
ácidos finais

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 Falta de glucose para formar reservas intracelulares e polissacáridos
necessários à formação de placa
o Intervém na adesividade bacteriana – cargas negativas, associa-se ao cálcio
evitando que as cargas das bactérias se liguem e impedindo a formação de
placa.
o Existência de uma placa madura que apenas deixa entrar moléculas de baixo
peso (flúor) que se concentram debaixo da placa. Quando o meio fica
acidificado, o flúor associa-se ao excresso de hidrogénio. O HF é polar,
hidrofóbico, hidrossolúvel e atravessa bactérias facilmente por difusão. Uma
vez no interior da bactéria dissocia-se, o hidrogénio diminui o pH intracelular e
a bactéria tem de exportar o hidrogénio com gasto de ATP. O fluoreto vai inibir
algumas enzimas. Cria-se outro ciclo fútil.

Existem, no entanto, bactérias resistentes ao flúor, mais virulentas, capazes de


bombear para fora o HF por uma Adenosina Trifosfatase.

Flúor na Gravidez

Tem sido dito que o flúor administrado durante a gravidez teria efeitos benéficos no
sentido de que, por um lado, ao depositar-se na grávida teria um efeito protector e, por outro,
atravessando a barreira placentária teria um efeito benéfico no bebé.

Após o nascimento, passa pelo leite materno.

No entanto, não há estudos que comprovem a veracidade deste facto.

Para além de não apresentar convenientes (já que o flúor tende a acumular-se na
barreira placentária da grávida e não atravessá-la), tem inconvenientes.

Primeiro, na altura do parto, a grávida precisa de ter um músculo liso rentabilizado ao


máximo. Fornecer-lhe um elemento quelante de cálcio poderá provocar-lhe efeitos nefastos.
Depois, o flúor é um halogéneo. É um elemento radioactivo e administrá-lo tem sempre um
risco de toxicidade.

Já a secreção de flúor pela saliva, mais baixa, controlada e estudada poderá ter efeitos
positivos.

Já foram verificados casos de toxicidade por flúor:

Intoxicação Aguda ou overdose, onde o primeiro sintoma são as diarreias.

Intoxicação Crónica origina fluoroses dentárias. Podem ser ligeiras, moderadas opu
severas.

Quando um indivíduo nasceu e cresceu numa zona com doses normais de flúor e
depois vai para um zona em que o nível de flúor nas águas é elevado, não desenvolve fluorose
dentária pois já tinha os dentes formados, mas sim fluorose óssea que se caracteriza por

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rigidez óssea e articular. Isto acontece porque o flúor tem a capacidade de se incorporar no
osso, sendo este um dos processos pelos quais a homeostasia do flúor é feita.

Actualmente sabe-se que é preferível uma alta frequência e baixas concentrações de


administração de flúor via tópica ou sistémica pelo fornecimento de pequenas quantidades de
flúor na saliva.

Fluorose Óssea

A ingestão macissa de flúor provoca esta doença. Esta doença deixa a pessoa
praticamente inutilizada, já que o esqueleto humano torna-se incapaz de suportar o próprio
corpo. O flúor integra-se na massa óssea formando os cristais de fluorapatite mais resistentes.
Enquanto no dente, tem uma acção benéfica contra a cárie, no osso vai enrigecer o tecido
limitando as movimentações articulares. As articulações ficam mais duras, menos maleáveis e
portanto provocam dores à pessoa.

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