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Aula 02 - Positivismo e Comte

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Centro Universitário de Patos de Minas – UNIPAM Disciplina: Sociologia Geral O positivismo de Auguste Comte 1 - AUGUSTE COMTE (1798-1857

) Comte, cujo nome completo era Isidore-Auguste-Marie-François-Xavier Comte, nasceu em 19 de janeiro de 1798, em Montpellier - Paris, de família modesta, católica e monárquica. Filósofo e auto-proclamado líder religioso, deu à ciência da Sociologia seu nome, estabelecendo a nova disciplina em uma forma sistemática. Ele mesmo escreve sobre seu itinerário intelectual e moral: "Nem bem completara catorze anos, já experimentava a necessidade fundamental de regeneração universal, ao mesmo tempo política e filosófica, sob o impulso ativo da crise revolucionária salutar cuja fase principal precedera meu nascimento. A luminosa influência de uma iniciação matemática que tive em família, felizmente desenvolvida na École Polytechnique fez-me pressentir instintivamente o único caminho intelectual que podia realmente conduzir a essa grande renovação". Discípulo de Saint-Simon, rompe com seu mestre, e passa a se preocupar em elaborar sua filosofia positiva. Não possuindo cadeira acadêmica oficial na qual pudesse expor suas teorias, decide oferecer um curso particular onde divulgaria sua Summa do conhecimento positivo. O curso teve início em abril/1826, porém, devido a um colapso nervoso, deu apenas três aulas, sendo obrigado a interromper o curso. Caiu, então, em um estado melancólico profundo, e tentou o suicídio jogando-se no rio Sena. Somente em agosto/1828 saiu de sua letargia, recomeçando o curso das conferências em 1829. Durante os anos 1830-1842, quando escreveu sua obra prima Cours de philosophie positive, Comte vivia miseravelmente, à margem do mundo acadêmico. Todas as tentativas de ser apontado para uma cadeira acadêmica foram infrutíferas. Neste período, além das dificuldades financeiras e de colocação profissional, sofreu críticas do mundo científico, por parte de importantes figuras que o ridicularizavam pela sua pretensão de submeter ao seu sistema todas as ciências. A mágoa agravou seu estado psicológico. Por razões "de higiene cerebral", decidiuse, em 1838, a não ler mais uma linha de qualquer trabalho científico, limitando-se à leitura de ficção e poesia. Em seus últimos anos o único livro que haveria de ler repetidamente seria o "Imitação de Cristo". Sua vida matrimonial, que sempre fora tempestuosa, também se desfez. Só e isolado, continuou a atacar os cientistas que se recusaram a reconhecê-lo. Queixou-se de seus inimigos aos ministros do Rei, escreveu cartas delirantes à imprensa e atormentou a paciência de seus poucos restantes amigos. Contudo apesar de todas as adversidades, Auguste Comte começou lentamente a adquirir discípulos. Sua doutrina positiva atravessa o Canal e recebe considerável atenção na Inglaterra. Em 1844, conhece Clotilde de Vaux, por quem se apaixonou. Entusiasmado com a própria paixão, Comte afirma que nada pode ser mais eficaz para o bem pensar que o bem querer, e se torna um abrasado feminista. Afirma que a mulher encarna o sentimento e portanto, em última análise, a própria Humanidade. Busca então seriamente associar o sexo feminino à obra de renovação social e moral que se impôs completar. Clotilde tenta colaborar, através de um romance filosófico, Wilhelmine, que ela se põe febrilmente a escrever. Mas adoece de tuberculose e vem a falecer em 1846. O filósofo devota o resto de sua vida à memória do "seu anjo". Em 1851 publica seu Système de politique positive, dedicando-a a Clotilde, e dizendo esperar que a humanidade, reconhecida, haveria de lembrar sempre seu nome junto ao dela.

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Nesta obra, defende a primazia da emoção sobre o intelecto, do sentimento sobre a racionalidade e proclama repetidamente o poder curativo do calor feminino para a humanidade, dominada por tempo demasiado pela aspereza do intelecto masculino. Desta forma, ele escandaliza e perde a maioria dos seguidores racionalistas que havia conquistado com tanta dificuldade nos últimos quinze anos. Auguste Comte cria a Religião da Humanidade, da qual se proclama sumo sacerdote. A observação dos rituais múltiplos segundo o calendário anual, os detalhes da elaborada liturgia indicavam que o antigo profeta do estágio positivo havia regressado às trevas do estágio teológico. Ganha novos discípulos e funda a Societé Positiviste, que se transformou no centro principal de seu ensino. Nesta sociedade, os membros se cotizavam para assegurar a subsistência do mestre, fazendo votos de espalhar sua mensagem. As missões se instalaram na Espanha, Inglaterra, Estados Unidos, e Holanda. Toda noite, exceto nas quartas-feiras quando a Societé Positiviste tinha sua reunião regular, Comte recebia seus discípulos: políticos, intelectuais e operários, que lhe votavam grande respeito e veneração. Porém, estava longe do entusiasmo republicano e libertário de sua juventude. O motor que o impulsiona agora é o de sua Igreja Positiva: amor, ordem e progresso. O jovem estudante de passeata passa a pregar as virtudes do amor, da submissão e a necessidade da ordem para o progresso social. Após alguns meses de enfermidade, falece a cinco de setembro de 1857. Um grupo pequeno de discípulos, amigos e vizinhos seguiu seu esquife ao cemitério de Pere Lachaise. Seu túmulo transformou-se no centro de um pequeno cemitério positivista onde estão sepultados, perto do mestre, seus discípulos mais fiéis. Auguste Comte é o iniciador do positivismo francês, o pai oficial da sociologia e, em certos aspectos, o expoente mais representativo da orientação positivista do pensamento. Também inspirou uma renovação do pensamento jurídico, devido à sua concepção de socialização do direito. 2 - CONTEXTO HISTÓRICO No século XVIII, as transformações econômicas, políticas e culturais se aceleram, fazendo surgir problemas inéditos para os homens que experimentavam as mudanças que ocorriam no ocidente europeu. A dupla revolução, industrial e francesa, constituía os dois lados de um mesmo processo, qual seja a, a instalação definitiva da sociedade capitalista. A palavra sociologia apareceria somente um século depois, por volta de 1830, mas são os acontecimentos desencadeados pela dupla revolução que a precipitam e a tornam possível. A revolução industrial significou algo mais do que a introdução da máquina a vapor e dos sucessivos aperfeiçoamentos dos métodos produtivos. Ela representou o triunfo da indústria capitalista, capitaneada pelo empresário capitalista que foi pouco a pouco concentrando as máquinas, as terras e as ferramentas sob o seu controle, convertendo grandes massas humanas em simples trabalhadores despossuídos. Cada avanço com relação à consolidação da sociedade capitalista representava a desintegração, o solapamento de costumes e instituições até então existentes e a introdução de novas formas de organizar a vida social. A utilização da máquina na produção, não apenas destruiu o artesão independente, que possuía um pequeno pedaço de terra, cultivado nos seu momentos livres. Este foi também submetido a uma severa disciplina, a novas formas de conduta e de relações de trabalho, completamente diferentes das vividas anteriormente por ele. Um dos fatos de maior importância relacionados com a revolução industrial é o aparecimento do proletariado e o papel histórico que ele desempenharia na sociedade capitalista. Os efeitos catastróficos que esta revolução acarretava para a classe trabalhadora levaram-na a negar suas condições de vida. As manifestações de revolta dos trabalhadores atravessaram diversas fases,

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concordavam a cerca do princípio básico da existência de leis naturais. não era apenas mudar a estrutura do Estado. seriam sempre as 3 . os contemporâneos de Comte intentavam consagrar-se à solução da imensa crise que assolava a Europa. A tarefa a que esses pensadores se propõem é a de racionalizar a nova ordem. etc. especialmente os trabalhadores pobres das cidades (que. seus costumes e hábitos arraigados. além de inelutáveis. na esperança de fazerem reviver as antigas instituições. e ao mesmo tempo promover profundas inovações na economia. situando-a além do projeto e dos interesses da burguesia. pela nova classe dominante. alguns meses mais tarde. atos de sabotagem e explosão de algumas oficinas. foram mobilizadas as massas. sua própria literatura. procedendo a uma crítica da sociedade capitalista e inclinando-se para o socialismo como alternativa de mudança. portanto. como para reformar ou modificar radicalmente a sociedade de seu tempo. etc. leis que. mas abolir radicalmente a antiga forma de sociedade. por exemplo. investiu decididamente contra os fundamentos da sociedade feudal. em "objeto" que deveria ser investigado. para encontrar um estado de equilíbrio na nova sociedade. e outras dirigidas para o futuro. O objetivo desta revolução. estava disposta a aprofundá-la. era de fundamental importância proceder a modificações substanciais em sua teoria da sociedade. esta passava a se constituir em "problema". A burguesia. em busca de novos sistemas políticos. Não desejavam produzir um mero conhecimento sobre as novas condições de vida geradas pela revolução industrial. roubos e crimes. começava a organizar-se para enfrentar os proprietários dos instrumentos de trabalho. os jacobinos. "não se comprazendo a humanidade em habitar ruínas". A Revolução acabara com o Antigo Regime: era preciso. controlar e neutralizar novos levantes revolucionários. confiscando suas propriedades. A burguesia. Dividiam-se então as cabeças pensantes da Europa em dois campos: umas voltadas para o passado. de acordo com os interesses da classe emergente. na política. e que protegesse e incentivasse a empresa capitalista. com suas instituições tradicionais. Os economistas do século XVIII. ao tomar poder em 1789. na observação de Saint-Simon. suprimindo os votos monásticos e transferindo para o Estado as funções da educação. reguladoras do progresso material das sociedades humanas. Investiu contra e destruiu os antigos privilégios de classe. Uma das facções revolucionárias. com a interdição dos seus sindicatos). uma vez instalada no poder. se assusta com a própria revolução. Mas para restabelecer a "ordem e a paz". ou seja. tanto para manter.como a destruição de máquinas. homens que desejavam introduzir determinadas modificações na sociedade. formação de sindicatos. face à Igreja. Preocupados em reconstruir a sociedade. evoluindo para a criação de associações livres. Para a destruição do antigo regime. pois. amparou e incentivou o empresário. A conseqüência desta crescente organização foi a de que os pobres deixaram de se confrontar com os ricos. pois é a esta missão que esses pensadores se entregam. iam produzindo seus jornais. A profundidade das transformações em curso colocava a sociedade num plano de análise. Os pensadores ingleses que testemunhavam estas transformações eram antes de tudo. mas uma classe específica. seria necessário. instituindo. procurando construir um Estado que assegurasse sua autonomia. ou restaurá-lo ou construir. Nesta trajetória. Nesse sentido. seria necessário conhecer as leis que regem os fatos sociais. Para contornar a propagação de novos surtos revolucionários. enquanto estratégia para modificação das sociedades. embora divergissem quanto a certos aspectos do problema econômico. um regime novo. tradicionalmente controladas pela Igreja. na vida cultural. a classe operária com consciência de seus interesses. mas procuravam extrair dele orientações para a ação. uma ciência da sociedade. foram "presenteados". radicalizando-a e levando-a até o fim. A revolução desferiu também seus golpes contra a Igreja. encontrando soluções para o estado de "desorganização" então existente. sobre novas bases.

sendo o governo ideal a anarquia. E. sendo os fenômenos econômicos regidos por leis imprescritíveis. no "Curso de Filosofia Positiva". Passou a economia política a pregar em nome da ciência. laisser passer. conclui que era inútil qualquer instituição especialmente destinada a regularizar a coordenação espontânea de acontecimentos econômicos. Suprimiu. em vez de vislumbrar aí apenas a primeira fonte da possibilidade de se lhes dar uma direção mais consentânea com os interesses sociais. já em 1826 protestava Comte. mas até em empreendimentos públicos decisivos como estradas. como sendo o meio mais adequado a secundar o surto espontâneo de sociedade. nas Considerações Sobre o Poder Espiritual. Segundo Jean B. limpeza pública. "Os princípios da Economia Política não são obra dos homens. de desorganização e anarquia no sentido preciso e rigoroso do termo. tendem estas espontaneamente a estabelecer-lhes a ordem e o equilíbrio. Aos fisiocratas filiou-se a chamada escola liberal ou individualista. Foi. a abolição de todas essas instituições dos séculos idos. facilitando a ascensão da burguesia que. então asfixiada por toda sorte de entraves. sobre a licitude. mediante abolição das alfândegas. quer do comércio. decorrente dos ensinos dos economistas clássicos e resumida na máxima "laisser faire. onde mostra que o espírito geral da economia política levava. voltando ao assunto. isto é. a ausência de qualquer governo. Até a Revolução Francesa. assim como a saída de numerário era meticulosamente fiscalizada pelos poderes públicos.melhores que a natureza comporta. a sua obra – assinalava Comte – antes de mais nada. o sistema católicofeudal. demonstrando que bem governar consiste em não governar de modo algum. Ninguém ignora que a Idade Média transmitiu às monarquias européias minuciosa regulamentação quer da produção. aspirava substituir-se à nobreza. laisser fair aludia à liberdade da indústria. as corporações de ofício. na observação de Augusto Comte. tido como um mal necessário. assim. deveria ser nula. Essa pseudociência. a erigir em dogma a ausência de qualquer intervenção reguladora. na Revolução Francesa. em sua época. É o célebre princípio do laisser faire. em cada situação grave que sucessivamente se apresentava. portos. canais. Resultou desta concepção o conceito de "estado úlcera". a intervenção dos governos no campo econômico. Say. as profissões possuíam regras tradicionais. Contra a inércia governamental. restringindo-se a sua missão ao ofício de manter a ordem pública. Perguntava-se: qual a melhor maneira de encorajar o comércio? Respondia-se: Laisser faire. Para Augusto Comte era a economia política de seu tempo uma das criações mais peculiares da idade crítica ou metafísica. Ninguém os estabelece. em 1838. instaurou a liberdade ilimitada do comércio e proclamou os benefícios do individualismo. lhes não perturbe a marcha autônoma. assim. devendo-se escrupulosamente evitar qualquer interferência no sentido de corrigir as imperfeições espontâneas da ordem natural (fisiocracia). isto é. laisser passer . Chegavam a um abstencionismo absoluto. Adotava. negando a legitimidade da interferência do Estado não só no estímulo a produção. pontes. esgotos. dos governantes intervirem nos acontecimentos econômicos. e laisser passer referia-se à liberdade de comércio. Visavam essas criações a demolir no ocidente. uma obra destrutiva ou crítica. A seu ver a tarefa do legislador tem de limitar-se a descobrir as leis naturais e evitar tudo quanto possa entravar-lhes o livre jogo. a movimentação do trigo e demais mercadorias de um ponto para outro de cada país. após uma imperfeita verificação de casos particulares e considerando a tendência das sociedades humanas para uma certa ordem. laisser passer". atinente à economia dirigida. Conduzia a economia política liberal ou ortodoxa. desde que o Estado. não sabia a economia política responder às exigências da prática senão com uma abstenção sistemática. desde muito. que resumia os ensinos dos liberais ortodoxos. a abolir qualquer governo. ou não. Tanto mais cabalmente preencheu a velha economia política o 4 . que significa o que traz as leis depois de descobri-las. pois. Segundo a escola liberal. para os quais. os ofícios obedeciam a velhos costumes. decorrem da natureza das coisas. e não o que as faz. a opinião de Quesnay quanto à sabedoria da formação da palavra legislador. São encontrados".

Para dotar a nova ciência de bases sólidas. de uma maneira muito explícita. por isto. o governo que em toda situação normal é a cabeça da sociedade. ao "aperfeiçoamento" da sociedade. Suas idéias políticas expostas no Sistema de Política Positiva. Marrocos e demais colônias européias. tem de haurir seus elementos no próprio estado de coisas que pretende mudar. a do século XX deve ser reorganizadora". são as considerações do filósofo sobre a política colonial das nações ocidentais. Cada vez mais ficava claro para a burguesia e seus representantes intelectuais que a filosofia iluminista. pregando a urgência de ser Gibraltar espontaneamente restituído pela Inglaterra à Espanha. obtiveram a adesão de vários chefes do partido republicano. Notáveis nesse tratado e de grande atualidade. A interpretação crítica e negadora da realidade. da natureza como um todo e do próprio universo. foi sistematicamente despojado de todo princípio de atividade e privado de qualquer participação importante no conjunto do organismo social. de "anarquia política" e criar uma ordem social estável. traduzindoa sob a forma de leis naturais. ele empreendeu. e definitivamente emancipadas a Índia. Em seguida uma vez fundada a sociologia. levaram Augusto Comte a efetuar um exame completo dos métodos. dos instrumentos através dos quais o entendimento humano consegue elaborar os conhecimentos de que necessita. esforçou-se por tirar dela todos os resultados filosóficos. o guia e o agente de ação geral.papel histórico que lhe atribui o filósofo quanto reduzia como vimos. coordenando-os exclusivamente através do método científico ou positivo. isto é. 5 . proclamando serem os governos tanto melhores quanto menos governam. Sua primeira tarefa foi rever os métodos lógicos e o conteúdo de todas as ciências do seu tempo. a fim de depurá-los dos elementos metafísicos e torná-los homogêneos e coerentes. o fundador da sociologia provou que a solução gradativa do problema social depende de um conjunto de circunstâncias. não seria capaz de interromper aquilo que denominavam estado de "desorganização". Respeitando as leis fundamentais que regem a existência do homem. Argélia. mas à "organização". convencendo os próprios governantes de sua radical inaptidão para dirigirem o surto industrial. políticos e morais. deveria de agora em diante ser "superada" por uma outra que conduzisse não mais à revolução. e. Essas leis seriam a base da regulamentação da vida do homem. A preocupação com a reorganização social e a descoberta das leis que regem os fenômenos correspondentes. principalmente quanto ao modo de conceber a propriedade. afirmaria a este respeito que "a filosofia do último século foi revolucionária. uma física ou ciência social. A partir da terceira década do século XIX. entre as quais a mudança da mentalidade. que constituiu um dos traços marcantes do pensamento iluminista e alimentou o projeto revolucionário da burguesia. preliminarmente. fundada na observação do evolver histórico e dos fatos sociais do presente. A contestação da ordem capitalista. para frutificar. Comte contrapunha aos sistemas arbitrários puramente fantasiosos. um balanço de todos os conhecimentos científicos acumulados até então. intensificam-se na sociedade francesa as crises econômicas e as lutas de classes. isto é. E. Saint-Simon. suscetível de explicar o passado e prever o futuro. levada a cabo pela classe trabalhadora. O progresso não é mais do que o desenvolvimento da ordem. A crença no poder exclusivo e absoluto da razão humana para conhecer a realidade. "atividade crítica inconseqüente". toda reforma social. assim. deu origem ao positivismo. que passava a ser designada por eles como "metafísica". passa a ser reprimida com violência. a quase nada as atribuições do Estado. desde a matemática até à biologia.

ao caso da concentração de capital. organicamente composto. seria sempre merecedora da admiração e da gratidão dos positivistas. com o propósito de defender os interesses dominantes da sociedade capitalista. Desde Comte. as divisões fundamentais. procurando dar a elas uma nova roupagem. a autoridade. ou seja. tal como foi por Comte constituída. justificadoras da autoridade reinante e facilitadoras da proteção dos interesses – riqueza e poder. a questão da igualdade. enfatizando a importância de instituições como a autoridade. eliminando também qualquer discussão sobre a realidade existente. 6 . os primeiros sociólogos revalorizam determinadas instituições que segundo eles desempenham papéis na integração e na coesão da vida social. utiliza como instrumento ordenador a coesão social. Enquanto resposta intelectual à "crise social" de seu tempo. deixando de abordar. Por isso o positivismo foi chamado também de organicismo. Esta corrente filosófica social positivista se baseava no método de investigação das ciências naturais. principalmente. e à qual o homem deve resignar-se ("o espírito positivo tende a consolidar a ordem pelo desenvolvimento racional de uma sábia resignação diante dos males políticos incuráveis"). função. da justiça. e para tal. Na concepção de Comte. Desta forma. as leis aplicadas a todas as sociedades possíveis. procurando identificar na sociedade as mesmas relações e princípios da vida natural. referindo-se.3 . como os de hierarquia. tentando instaurar um estado de equilíbrio numa sociedade em constantes conflitos de classe. Daí advém os conceitos da Física social. imutável. repensar o problema da ordem social. ligando-se aos movimentos de reforma conservadora da sociedade. Esta identificação da sociologia com a natureza elimina o papel da prática social como elemento gerador de mudanças na sociedade que passa a ser concebida como um modelo de ordem natural. da raça e das condições políticas. é uma ciência abstrata. a hierarquia social. A pesquisa das leis faz-se pela observação direta dos fatos sociais: elas não se deduzem mais de dados apriorísticos hauridos na metafísica. a sociologia deveria orientar-se no sentido de conhecer e estabelecer aquilo que ele denominava leis imutáveis da vida social.FUNDAMENTOS DA SOCIOLOGIA POSITIVISTA A Sociologia. ou seja a idéia de fenômenos interdependentes dentro de um sistema funcional. A oficialização da sociologia foi portanto em larga medida uma criação do positivismo. concebendo-a como um organismo constituído de partes integradas e coesas que funcionavam harmonicamente. Todos os primeiros estudiosos da realidade social tentaram derivar as ciências sociais das ciências físicas. por eles considerada imortal. por exemplo. a família. a hierarquia e os valores morais. É entre os autores positivistas. abstendo-se de qualquer consideração crítica. órgão. dinâmica. A recém criada sociologia assumia como tarefa intelectual. esta sociologia inicial revestiu-se de um indisfarçável conteúdo estabilizador. São estes autores que. Auguste Comte e Émile Durkheim. O próprio Comte deu inicialmente o nome de "física social" às suas análises da sociedade. antes de criar o termo Sociologia. ou Sociologia. consenso. destacando a sua importância teórica para o estudo da sociedade. da liberdade. Procedendo dessa forma. Esta linha de pensamento facilita a aceitação das normas (leis naturais) que consolidam a ordem vigente. e uma vez assim constituída procura realizar a legitimação intelectual do novo regime. estática. iniciaram o trabalho de rever uma série de idéias dos conservadores. os métodos. do clima. Ele expõe o objeto. de modo destacado Saint-Simon. os métodos indutivos apoderaram-se definitivamente do estudo sistemático das sociedades humanas. Alguns deles chegavam a afirmar que a "escola retrógrada". de modo destacado. ou mesmo em ciências mais simples (a Biologia ou a Psicologia). Os fenômenos econômicos são apontados por Comte como expressão dessas leis sociais naturais invariáveis. fazendo abstração de todos os modificadores decorrentes do meio. que as idéias dos conservadores exerceriam uma grande influência.

propriedade. mas estava exatamente preocupado em organizar a realidade. Em sua visão. as idéias religiosas haviam há muito perdido sua força na conduta dos homens e não seria a partir delas que se daria a reorganização da nova sociedade.A união dos industriais com os homens de ciência. Inversamente. No estado metafísico. Muito menos das idéias dos iluministas. os revolucionários preocupavam-se tão somente com o progresso. o desenvolvimento histórico ocorre pela evolução organizada. progresso histórico é ordem. não possuía caráter destrutivo. fenômenos são explicados em função das essências. formando a elite da sociedade e conduzindo seus rumos era a força capaz de trazer a ordem e harmonia à emergente sociedade industrial. os fenômenos são frutos do sobrenatural. correspondendo á noção de progresso. etc. imperando a monarquia. através de um refazer dos costumes e de uma reforma intelectual do homem.. em oposição à filosofia iluminista. A visão de ordem origina-se na noção de estática. Seu ponto de partida era a ciência e o avanço que ela vinha obtendo em todos os campos de investigação. as sociedades européias se encontravam em profundo estado de caos social. em boa medida. a reconciliação entre a "ordem" e o "progresso". da atividade da vida coletiva. combate-se qualquer doutrina revolucionária. linguagem. de estrutural ("família. regida por leis naturais. A sociedade se modifica através da visão de progresso como resultante da ordem. religião. No estado positivo (ou científico). A sociologia positiva considerava que a ordem existente era o ponto de partida para a construção da nova sociedade. Para ele. pregando a necessidade mútua destes dois elementos para a nova sociedade. O espírito positivo. seriam responsáveis pelo movimento estático da sociedade"). sem incomodar a ordem econômico-política da sociedade. Desta forma. os teólogos e militares. direito. A motivação da obra de Comte repousa no estado de "anarquia" e de "desordem" de sua época histórica. posteriormente incorporada ao pensamento socialista. argumentava. a humanidade evolui da mesma forma que o psiquismo dos indivíduos. um defensor sem ambigüidades da nova sociedade. sem destruição da ordenação vigente. o equívoco dos conservadores ao desejarem a restauração do velho regime feudal era postular a ordem em detrimento do progresso. Para ele. criando um conjunto de crenças comuns a todos os homens. reconhece- 7 . Admitia Comte que algumas reformas poderiam ser introduzidas na sociedade (mudanças que seriam comandadas pelos cientistas e industriais) de tal modo que o progresso constituiria uma seqüência suave e gradual da ordem. Ao contrário desse pensador. Segundo ele. Comte é um pensador inteiramente conservador. Para ele. onde só se pode compreender a existência naquilo que ela oferece de fixo. Com o objetivo de fortalecer a ordem social. No estado teológico. concentrando-se todas as forças numa renovação moral da sociedade. num processo evolutivo. que em sua visão apenas criticava. a propagação das idéias iluministas em plena sociedade industrial somente poderia levar à desunião entre os homens. É necessário melhorar as condições de vida das classes menos favorecidas. Convicto de que a reorganização da sociedade exigiria a elaboração de uma nova maneira de conhecer a realidade. Comte procurou estabelecer os princípios que deveriam nortear os conhecimentos humanos. Comte considerava como um dos pontos altos de sua sociologia. ou seja. Vários historiadores do pensamento social têm observado que Comte. deve suas principais idéias a Saint-Simon. menosprezando a necessidade de ordem na sociedade. imperando os juristas e filósofos. A lei dos três estados de Comte demonstra essa visão do desenvolvimento histórico da sociedade. Para haver coesão e equilíbrio na sociedade seria necessário restabelecer a ordem nas idéias e nos conhecimentos. que possuía uma faceta progressista. A Sociologia dinâmica se preocupa com o entendimento do movimento. idéias ou forças abstratas. do desenvolvimento.

resultando na tendência dos organismos se adaptarem cada vez melhor ao ambiente. nem a não participação igualitária de todos nas conquistas da civilização. no século XIX. o poder espiritual passa para as mãos dos sábios e cientistas. do passado da humanidade. se a epistemologia comteana está devidamente superada. o último é o estado fixo e definitivo. O Imperador neutralizava a oposição. na medida em que o conceito de ciência que lhe servia de suporte também foi reformulado. Os cientistas sociais positivistas. possibilitada pela competição natural. 4 . inspirados nas concepções organicistas e evolucionistas. Essa explicação "científica". criando formas mais complexas e avançadas de existência e sobrevivência dos seres mais aptos e evoluídos. em geral. Desta forma. o domínio colonialista de nações européias sobre povos da América. A política de D. mais adaptado e mais complexo. correspondendo à industria. África. "primitivos". o segundo serve apenas como etapa de transição. podendo fazer e desfazer ministérios e ministros. e aqui foram muito bem aceitas e divulgadas. a sobrevivência dos seres mais aptos e evoluídos) transpostas para a análise da sociedade. e brasileira em particular. e passa-se a buscar descobrir as relações invariáveis de sucessão e semelhança. Assim. e o poder material para o controle dos industriais. mesmo sendo o Brasil uma monarquia constitucional representativa e hereditária. resultaram no Darwinismo Social. Opor-se ao poder da coroa condenava o opositor ao ostracismo político. as sociedades mais simples e de tecnologia menos avançada deveriam evoluir em direção a níveis de maior complexidade e progresso na escala da evolução social. Estabelece-se o tecnicismo ou tecnocracia. exemplares de estágios anteriores. com o uso bem combinado do raciocínio e da observação. entendiam que as sociedades tradicionais encontradas nos continentes supracitados não eram senão "fósseis vivos". existindo uma Constituição e um regime parlamentar. Foi durante o Segundo Império (por volta de 1850) que as idéias positivistas chegaram ao Brasil. à exploração da natureza pelo homem. em que o organismo social se mostraria mais evoluído. A tese darwinista de evolução dos seres (que afirmava que as diversas espécies de seres vivos se transformam continuamente com a finalidade de se aperfeiçoar e garantir a sobrevivência. pois a política realizava-se apenas entre dois partidos. garantindo a sobrevivência dos organismos – sociedades e indivíduos – mais fortes e mais evoluídos. Nele. ou seja. até atingir o "topo": a sociedade industrial européia. No período monárquico havia sido gerada a insatisfação entre os políticos e intelectuais. justificava-se. Oceania e Ásia. Pedro II fazia com que. justificava a intervenção européia nos continentes já citados. especialmente quanto à pretensão de reduzir a Filosofia a uma reflexão sobre a Ciência. trazidas por brasileiros que foram estudar na França. Surge aí o princípio de que as sociedades se modificam e se desenvolvem num mesmo sentido e que tais transformações representariam sempre a passagem de um estágio inferior para outro superior. além de legitimar intelectualmente o estabelecimento da república. isto é. sendo o ponto final da escala de conhecimento e grau superior de formação definitiva da ciência. o Conservador e 8 .O POSITIVISMO NO BRASIL Hoje. O primeiro é o ponto de partida necessário da inteligência humana. Mas. existe ainda uma herança positivista disseminada em diversos setores da atividade humana ocidental. a Filosofia Positiva de Comte está superada no Ocidente.se a impossibilidade do conhecimento absoluto. mas não explicava o porque dos frutos do progresso não serem igualmente distribuídos na Europa. o Imperador fosse sempre o juiz de partidos e de estadistas. O estado positivo seria a base da sociedade moderna.

O veículo de ascensão social era o exército e os antigos amantes da farda eram substituídos por jovens que amavam as letras e as matemáticas em detrimento do antigo sentimento da velha classe militar. Somente os militares. em caráter especulativo e enquadrado na nossa realidade social. somente se efetivou com a obra de Luís Pereira Barreto. para atingirmos esse 9 . os republicanistas defendiam uma república provisória como meio para alcançarmos a ordem e o progresso. ou científica). estando desacreditado junto às classes menos favorecidas e ignorado pelos indivíduos voltados para o pensamento racionalista. O Imperador adotava medidas paliativas. o país ansiava por idéias que lhe desse uma nova concepção de valores. Desde 1850 as doutrinas comteanas começaram a surgir na Escola Militar do Rio de Janeiro.o Liberal. que se transformou na Igreja Positivista do Brasil. O clero não exercia influência nas classes dirigentes. "As Três Filosofias". levaria à não existência de mais escravos no país). mediante sanção de leis regulamentadoras (inicialmente quanto ao tráfico escravo. um ideal de república similar à ditadura sociocrática positivista (filosofia política que considera que a sociedade caminha necessariamente para uma estruturação racional. Cada bacharel era o "doutor" de um setor da realidade que era visto como um corpo autônomo. no Brasil. A Constituição estabelecia as relações entre a Igreja e o Estado. Os positivistas apresentam-se em dois grupos: os ortodoxos (onde se incluem oficiais do Exército e da Marinha e professores) e os dissidentes (incluídos os políticos que buscaram no comtismo os elementos fundamentadores da República). Em conseqüência das atividades doutrinárias positivistas. Como em outros aspectos da doutrina positivista. prendendo a primeira aos interesses deste último. Mas. A doutrinação que Comte dirigia ao proletariado europeu. trazendo respostas válidas para a época cientificista e materialista do século XIX. voltou-se para a burguesia. que se revezavam no poder. entre alguns brasileiros. funda-se a Sociedade Positivista Brasileira. dedicavam-se a estudos científicos. cujo primeiro volume foi publicado em 1874. depois quanto aos escravos de idade avançada e a famosa Lei do Ventre Livre. Os membros do Parlamento Imperial representavam a classe ruralista e eram eleitos por ela (a única aristocracia que o Brasil conheceu). A questão política crucial era a da escravatura. firmando-se. surgindo a necessidade de se fazer uma obra afirmativa da prática republicana. surgiu. havia a existência dos bacharéis (filhos. fatalmente. pois era submetido ao Estado pelo regalismo.democrata) e a autoritária (basicamente inspirada no positivismo de Auguste Comte). Esta "cultura intelectual" era mais literária. a longo prazo. os engenheiros e médicos. orientando seus atos. a difusão do Positivismo. No início da República. uma vez que o nosso proletariado era inculto. O Positivismo preenche esta aspiração. constituído principalmente pelo escravo e pelo imigrante. combatida pelos positivistas. Além do problema da escravidão. posteriormente. existiam duas correntes: a liberal-democrática (fundamentada na obra de John Locke . representantes ou herdeiros dos senhores de engenho ou das fazendas de café). Em 1876. mas defendida pelos conservadores que viam no trabalho escravo um dos suportes da nossa economia essencialmente agrícola. a maior preocupação era com a crítica aos remanescentes da monarquia. formado no seio do regime monárquico. preparando uma "abolição progressiva". Inspirados na Teoria dos Três Estados de Augusto Comte. era inativo e chegando a reconhecer que o espírito do catolicismo estava a definhar no país. No republicanismo brasileiro. no meio estudantil. o que. Neste contexto. aqui também o mecanicismo atribuído à natureza é transposto para a História.

Com uma campanha republicana acalorada. o crédito da Proclamação da República deve ser dirigido não aos ortodoxos. abertamente fascista no Estado Novo. em progresso. alcançaram um elemento precioso para a divulgação e expansão das idéias positivistas. necessariamente. fruto do castilhismo. O comtismo serve então de fundamentação doutrinária a uma facção política conservadora e antidemocrática que. a filosofia política positivista considera o direito de voto um dogma metafísico. ocorreu ao longo de várias décadas. os positivistas conseguiram alcançar: liberdade religiosa e profissional. de maneira "científica". Com a formação da Assembléia Constituinte. proibição do anonimato na imprensa.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS • COSTA. do Rio Grande do Sul. O "apogeu do positivismo" no Brasil deu-se no período imediato ao 15 de novembro. mais tarde. Rapidamente esfriou o entusiasmo com as idéias positivistas. a centralização do poder nas mãos do Chefe do Executivo. a idéia de representação é substituída pelas idéias de tutela e hegemonia. São Paulo: Moderna. Sociologia: Introdução à ciência da sociedade.46-47. A concentração da força política nas mãos do governante. com a reforma educacional de Benjamin Constant. elaborada quase que exclusivamente por ele.objetivo tornava-se necessária a instauração de um regime ditatorial que. se irradia para todo o país. A detenção do poder legislativo pelo executivo perde a sua temporalidade e tem sua continuidade assegurada. Porém. defendia o republicanismo. permitiria a existência de um regime capaz de promover o bem estar social. o sistema político brasileiro baseava-se na idéia de representação elaborada por John Locke. o decreto dos feriados e o casamento civil. ao combater a monarquia. Cristina. A evolução da elite política brasileira. os militares políticos que realizaram uma tarefa doutrinária. que se haviam apoderado da jovem república e que constituíam-se em oposição aos políticos positivistas. 5 . a polêmica se travava não só entre anti-monarquistas e conservadores. Após Júlio de Castilhos. de tradição monarquista. no meio militar. mas aos chamados dissidentes. Desta forma. Tal polêmica era reforçada pelas atividades da Igreja Positivista que publicava opúsculos e circulares anuais. inspirado no Sistema de Política Positiva de Comte e que sustenta: o combate à democracia e ao voto popular como medida legítima para a implantação de um mandato governamental. evidenciam-se na Constituição Estadual do Rio Grande do Sul de 1891. a separação da Igreja e do Estado. nada tem de déspota. A sociedade passa a ser racionalmente estruturada. numa autocracia. garantido pela responsabilidade moral dos depositários do poder. abolição de medidas anticlericais e. Desde a monarquia. incorporação do proletariado e das forças econômicas ao Estado. inclusive as tarefas legislativas. no meio político. podemos destacar as seguintes medidas republicanas: a bandeira com o dístico ORDEM E PROGRESSO. A propaganda em favor da República Ditatorial não inspirava simpatia aos políticos liberais. Entretanto. Sob a influência do positivismo. e do positivismo. implantar tais idéias (Castilhismo). a continuidade administrativa garantida pela reeleição do governante. 10 . 1997. O ditador. p. o que permitirá a instalação da ordem moral que resultará. no plano nacional. reunida um ano após a proclamação da República. seguidores da Igreja Positivista. mas também dentro do próprio Partido Republicano. segundo este pensamento. Os pontos básicos positivistas adotados por Júlio de Castilhos. Getúlio Vargas procura.

p. São Paulo: Cortez. 1991. forja divisas "Ordem e Progresso". um Curso de filosofia positiva rapidamente interrompido por uma depressão nervosa . Consuelo. a criação de uma ciência social e de uma política científica. O que é sociologia. notadamente seu discípulo Littré.(que lhe vale ser internado durante algum tempo no serviço de Esquirol). Littré . Cap. Pp. São Paulo: Ática. Invasão Positivista no Marxismo: manifestações no ensino da Metodologia no Serviço Social. p. "Viver para o próximo". p. não obterá o desejado cargo de professor da Politécnica. rua do Faubourg Montmartre. a ordem por base. Cap. SANTOS.• • • • • • HABERMAS. de Saint-Simon: O Organizador. esposa abandonada de um cobrador de impostos (que fugira para a Bélgica após algumas irregularidades financeiras). MARTINS. Na primavera de 1845. Apesar de seus reiterados pedidos. Entre 1851 e 1854 aparecem os enormes volumes do Sistema de política positiva ou Tratado de sociologia que institui a religião da humanidade. nem mesmo a cátedra de história geral das ciências positivas no Collège de France. Comte é nomeado em 1832 explicador de análise e de mecânica nessa mesma escola e. A publicação do Curso iniciase em 1830 e se distribui em 6 volumes até 1842. Conhecimento e interesse. desde 1826. Dois encontros capitais presidem as duas grandes etapas desta obra. 1982. divulgador do 11 . MORAIS FILHO.° distrito. mas atual e eterna". Retoma o ensino em 1829. numa sala da prefeitura do 3. Comte sente então sua razão vacilar. Desde 1831 Comte abrirá. o progresso por fim". Rio de Janeiro: Saga. 24ed. o filósofo de 47 anos declara a esta mulher de 30 seu amor fervoroso. Comte abre em sua casa. "O amor por princípio. O último volume sobre o Futuro humano prevê uma reformulação total da obra sob o título de Síntese Subjetiva. Auguste Comte: sociologia. p.310-312. Trata-se da irmã de um de seus alunos. 58p.49-52.autor do célebre Dicionário. Desde 1847 Comte proclamou-se grande sacerdote da Religião da Humanidade. 1983. mas entregase corajosamente ao trabalho. MARCUSE. Compreende-se que alguns tenham contestado a unidade de sua doutrina. Em 1817. Boaventura de Sousa. 367p. Em 1844 publica o prefácio do curso sob o título: Discurso sobre o espírito positivo. "Eu a considero como minha única e verdadeira esposa não apenas futura. que quisera criar em benefício próprio. Um discurso sobre as ciências. A obra de Comte guarda estreitas relações com os acontecimentos de sua vida. funda numerosas igrejas positivistas (ainda existem algumas como exemplo no Brasil).89101. o Sistema Industrial. Institui o "Calendário positivista" (cujos santos são os grandes pensadores da história).60-78. I: A crise da crítica do conhecimento: a idéia de uma teoria do conhecimento como teoria da sociedade. Porto: Afrontamento. que em 1851 abandona a sociedade positivista. depois. Já de posse. Rio de Janeiro: Zahar. um curso público e gratuito de astronomia elementar destinado aos "operários de Paris". Carlos Benedito. São Paulo: Brasiliense. e concebe. Clotilde de Vaux.Vida e obras Estudante da Politécnica aos 16 anos.11-46. É em outubro de 1844 que se situa o segundo encontro capital que vai marcar uma reviravolta na filosofia de Augusto Comte. Ver-se-á retirado desta última função em 1844 e de seu posto de explicador em 1851. É o "ano sem par" que termina com a morte de Clotilde a 6 de abril de 1846. das grandes linhas de seu sistema. a partir daí. Ele morre em 1857 após ter anunciado que "antes do ano de 1860" pregaria "o positivismo em Notre-Dame como a única religião real e completa". ele conhece H. Jürgen. examinador de vestibular. POSITIVISMO: UMA PRIMEIRA FORMA DE PENSAMENTO SOCIAL Auguste Comte (1798-1857) . curso este que ele levaria avante por sete anos consecutivos. em 1837. p. Comte partiu de uma crítica científica da teologia para terminar como profeta. Pragmatismo e Historicismo. QUIROGA. II: Positivismo. Razão e Revolução.17-23. 1989. 1969. 1988. Clotilde oferece-lhe sua amizade.

trouxe consigo a destruição da velha ordem feudal e a consolidação da nova sociedade – a capitalista. que não deve considerar a obra com um julgamento pessoal.aceita o que ele chama a primeira filosofia de Augusto Comte e vê na segunda uma espécie de delírio político-religioso. Seu conhecimento pretendia substituir as explicações teológicas. conseguiu distinguir-se de outras ciências estabelecendo um espaço próprio à ciência da sociedade. O positivismo derivou do “cientificismo”. A rápida evolução dos conhecimentos das ciências naturais – física. pode considerar-se autorizado a afirmar a unidade essencial e profunda da doutrina de Comte. passa por profundas transformações com a crescente substituição da concorrência entre inúmeros produtores de cada ramo industrial por uma concorrência limitada a um pequeno número de produtores de cada ramo. estruturada sobre a indústria.positivismo nos artigos do Nacional . a primeira a definir precisamente o objeto. Essa filosofia social positivista se inspirava no método de investigação das ciências da natureza. mas propor normas de comportamento. 12 . A própria sociedade foi concebida como um organismo constituído de partes integradas e coesas que funcionavam harmonicamente. Littré podia sem dúvida. mesmo se o encontro com Clotilde deu à obra do filósofo um novo tom. da crença no poder exclusivo e absoluto da razão humana em conhecer a realidade e traduzi-la sob a forma de leis naturais. segundo um modelo físico ou mecânico. obtida pelas revoluções burguesas que atingiram todos os países europeus até 1870. com objetividade e ausência de metas preconcebidas. Seu primeiro e principal sistematizador foi o pensador francês Auguste Comte (1798-1857). filosóficas e de senso comum por meio das quais – até então – o homem explicava a realidade. a livre concorrência. A expansão da Revolução Industrial pela Europa. Mas o historiador. a estabelecer conceitos e uma metodologia de investigação. a Sociologia. assim como procurava identificar na vida social as mesmas relações e princípios com os quais os cientistas explicavam a vida natural. a fim de prover”. é certo que Comte. o positivismo. Surgia a época dos monopólios e dos oligopólios. da natureza como um todo e do próprio universo. Além disso. Essa tentativa de derivar as ciências sociais das ciências físicas é patente nas obras dos primeiros estudiosos da realidade social. O darwinismo social É importante situar o desenvolvimento do pensamento positivista no contexto histórico do século XIX. antes de criar o termo sociologia. química. Comte defendia o ponto de vista de somente serem válidas as análises das sociedades quando feitas com verdadeiro espírito científico. inspirado pelo amor platônico do filósofo por Clotilde. Por isso o positivismo foi chamado também de organicismo. que era a regra geral de funcionamento da sociedade capitalista européia. Os estudos das relações humanas. Já no final do século. biologia – e o visível sucesso de suas descobertas no incremento da produção material e no controle das forças da natureza atraíram os primeiros cientistas sociais para o seu método de investigação. em nome de suas próprias concepções. isto é. assim. Esta não deveria limitar-se apenas à análise. seguindo a orientação na famosa fórmula positivista: “saber para prever. Essas leis seriam a base da regulamentação da vida do homem. que. Todavia. "separar Comte dele mesmo". sempre pensou que a filosofia positivista deveria terminar finalmente em aplicações políticas e na fundação de uma nova religião. O próprio Comte deu inicialmente o nome de “física social” às suas análises da sociedade. ao definir a especificidade do estudo científico da sociedade. já antes do Curso de filosofia positiva (e principalmente em seu "opúsculo fundamental" de 1822). Introdução: cientificismo e organicismo A primeira corrente teórica sistematizada de pensamento sociológico foi o positivismo. deveriam constituir uma nova ciência.

Porém essa explicação aparentemente “científica” para justificar a 13 . a poligamia. Assim. Itália se apoderavam de regiões do mundo cujo modo de vida era totalmente diferente do capitalismo europeu. pela competição natural. a exploração eficaz dessas novas colônias encontrava resistência nas estruturas sociais e produtivas vigentes nesses continentes que. essa nova forma de colonialismo se assentava na justificativa de que a Europa tinha. as nações que conquistava. transpostas para a análise da sociedade. o europeu teve primeiro de organizar. ou voltada pra um pequeno comércio local e artesanato doméstico. até atingir o “topo”: a sociedade industrial européia. Assim a conquista. em sua grande maioria. as sociedades mais simples e de tecnologia menos avançada deveriam evoluir em direção a níveis de maior complexidade e progresso na escala da evolução social. de retirá-las do atraso em que viviam. bem como locais ideais para investimentos em obras de infra-estrutura. Em consonância com essa forma de pensar desenvolveram-se as idéias do cientista inglês Charles Darwin a respeito da evolução biológica das espécies animais. entendiam que as sociedades tradicionais encontradas na África e na Ásia. os organismos tendem a se adaptar cada vez melhor ao ambiente. a conquista e a dominação foram transformadas em “missão civilizadora”. eram também pequenos mercados consumidores. nesses territórios. pois era perigoso continuar investindo na indústria européia sem causar novas e mais profundas crises de superprodução. diante dessas sociedades. De outra forma seria impossível racionalizar a exploração da matéria-prima e da mão-de-obra. A “civilização” era oferecida. portanto. Países como Inglaterra. Esse tipo de mudança garantiria a sobrevivência dos organismos – sociedades e indivíduos – mais fortes e mais evoluídos. Em conseqüência. economia agrária de subsistência. criando formas mais complexas e avançadas de existência. em que o organismo social se mostraria mais evoluído. Tais idéias. de modo a permitir o consumo de produtos industrializados europeus e a aplicação rentável dos capitais excedentes na Europa. assim. Porém. isto é. bem como mão-de-obra barata. Para Darwin. castas sociais sem qualquer tipo de mobilidade. no sentido de transformar suas formas tradicionais de vida e neles introduzir os valores do colonizador. Crescer para fora dos limites da Europa era. Nesse sentido. a obrigação moral de civilizá-las. como forma de “elevar” essas nações do seu estado primitivo a um nível mais desenvolvido. Isso explica o fato de a conquista européia estar revestida de um manto humanitário que ocultava a violência da ação colonizadora. de forma alguma. Transformar esse modo conquistado em colônias que se submetessem aos valores capitalistas requeria uma empresa de grande envergadura. o capital financeiro necessitava de novos mercados para poder crescer. a única saída para garantir a continuidade dessas indústrias. Desencadeava-se. A Europa deparou com civilizações organizadas sob princípios tais como o politeísmo. combinando as concepções organicistas e evolucionistas inspiradas na perspectiva de Darwin. Assim. o princípio de que as sociedades se modificam e se desenvolvem num mesmo sentido e que tais transformações representariam sempre a passagem de um estágio inferior para outro superior. exemplares de estágios anteriores. sob novos moldes. mesmo contra a vontade dos dominados. Da mesma forma.associados ao capital dos grandes brancos. a corrida para a conquista de impérios além-mar. Assim. os alvos eram a África e a Ásia. estruturando-as segundo os princípios que regiam o capitalismo. Nesses continentes podia-se obter matériaprima bruta a baixíssimo custo. que possibilitam. “primitivos”. as diversas espécies de seres vivos se transformam continuamente com a finalidade de se aperfeiçoar e garantir a sobrevivência. a sobrevivência dos seres mais aptos e evoluídos. a dominação e a transformação da África e da Ásia pela Europa precisavam apresentar uma justificativa que ultrapassasse os interesses econômicos imediatos. A atuação dos europeus sobre os demais continentes foi intensa. formas de poder tradicionais. pois dessa transformação dependiam a expansão e a sobrevivência do capitalismo industrial. dão origem ao capital financeiro. mais adaptado e mais complexo. resultaram no darwinismo social. Os principais cientistas sociais positivistas. Como foi dito. entendia-se que o ápice da humanidade – o mais alto grau de civilização a que o homem poderia chegar – seria a sociedade industrial européia do século XIX. Alemanha. atendiam às necessidades do capitalismo europeu. do passado da humanidade. na América e na Oceania não eram senão “fósseis vivos”. Holanda. França.

ao darwinismo social. então. Esses dois movimentos revelariam ser a ordem o princípio que rege as transformações sociais. desvios importantes. Uma visão crítica do darwinismo social – ontem e hoje Essa transposição de conceitos físicos e biológicos para o estudo das sociedades e das relações entre essas trouxe. dois tipos característicos de movimento na sociedade. como justificativa de uma ação política e econômica que nem sequer avaliava efetivamente aquilo que representaria o “mais forte” ou mais evoluído. propriedade. incapaz de explicar o que ocorria na própria Europa. como outros elementos da cultura humana. as revoltas deveriam ser contidos sempre que pusessem em risco a ordem estabelecida ou o funcionamento da sociedade. Essa transposição serviu. Duas formas de avaliar as mudanças sociais O darwinismo social. como a industrialização. A adaptabilidade do homem e a sua dependência cada vez menor em relação ao meio têm transformado o ser humano numa espécie à qual a seleção natural se aplica de maneira especial e relativa. Auguste Comte identificou na sociedade esses dois movimentos vitais: chamou de dinâmico o que representava a passagem para formas mais complexas de existência. da menos avançada à mais evoluída. Essa ordem implicaria o ajustamento e a integração dos componentes da sociedade a um objetivo comum. resultantes do desenvolvimento das relações entre os homens e entre as sociedades. religião. por sua vez. As instituições que mantém a coesão e garantem o funcionamento da sociedade. da mais simples à mais complexa. princípio necessário para a evolução social ou o progresso. por exemplo. Lá. Pressupõe-se que a competitividade seja o princípio natural – e portanto universal e exterior ao homem – que assegura a sobrevivência do melhor. o bem comum e os anseios da maioria da população. Os primeiros pensadores sociais positivistas responderam com as idéias de ordem e progresso. Se o homem constitui sociologicamente uma espécie. e de estático o responsável pela preservação dos elementos permanentes de toda organização social. os frutos do progresso não eram igualmente distribuídos. refletia o grande otimismo com que o progresso material da industrialização era recebido pelo europeu. garantindo o melhor funcionamento da sociedade. do mais forte e do mais adaptado. O fundamento do conceito de espécie em Darwin dificilmente pode ser transposto para o estudo das diferentes sociedades e etnias. os conflitos. É preciso lembrar que o mercado. Os movimentos reivindicatórios. Ainda hoje se tenta essa transposição para justificar determinadas realidades sociais. segundo a lei universal. Os empobrecidos e explorados – camponeses e operários – organizavam-se exigindo mudanças políticas e econômicas. ou ainda quando inibissem o progresso. Comte relacionava os dois movimentos 14 . nem todos participavam igualmente das conquistas da civilização. principalmente pela doutrina do neoliberalismo. Outro procuraria ajustar todos os indivíduos às condições estabelecidas. linguagem.intervenção européia nesses continentes era. A regra darwinista da competição e da sobrevivência do mais forte é aplicada às leis de mercado. Hoje. Um levaria à evolução transformando as sociedades. Os princípios da seleção natural são aplicáveis às espécies cujo comportamento é expressão das leis imperativas da natureza. família. o mesmo não se pode dizer das diferentes culturas que ele desenvolveu. O desenvolvimento industrial gerava a todo momento novos conflitos sociais. além de justificar o colonialismo da Europa no resto do mundo. Haveria. direito etc seriam responsáveis pelo movimento estático da sociedade. entretanto. sente-se que a complexidade da cultura humana tem concorrido para limitar a ação da lei de seleção natural. obedece a leis de organização social essencialmente humanas – e portanto.

Isso significava que. Essa harmonia só se quebra por exceção. independentes da ação e da vontade dos indivíduos. indispensável ao funcionamento integrado. (COSTA. 2000) Ordem e Progresso As palavras que ficam no centro da bandeira do Brasil. é sinal de que o animal está doente. atingir o progresso. escola sociológica fundada por Auguste Comte. Desde então. A integração. azul e branca. que conseguiram deixar seu lema bordado na bandeira verde. Só com a harmonia entre as partes. o padrão de normalidade da vida em sociedade seria integração. a regra. mas também aceitas e praticadas inconscientemente pela maioria da população. a sociedade contemporânea é analisada como um todo orgânico. que traria a todos o fruto do progresso. partes da sociedade) teria uma função específica. O positivismo teve seus adeptos entre os republicanos brasileiros. diferente das demais. para ele. invariáveis. Introdução à ciência da sociedade. cérebro etc). Da mesma forma que cérebro. mas agem integrados para o bom desempenho do organismo animal. aconteceria algo parecido com o organismo social. A existência da sociedade burguesa industrial era defendida tanto em face dos movimentos reivindicativos que aconteciam em seu próprio interior quanto em face da resistência das sociedades agrárias e pré-mercantis em aceitar o modelo industrial e urbano. são conhecidas de todos. enquanto um todo. harmônico. amarela. mas mutuamente dependentes. rins e pulmões têm funções específicas e distintas.vitais de modo a privilegiar o estático sobre o dinâmico. dentro da ordem natural das coisas. Cada parcela da sociedade teria sua função específica (daí essa corrente ser conhecida como “funcionalista”. sua existência saudável dependerá de leis naturais. regulado por leis naturais. A regra normal seria a integração entre os membros da sociedade. pacífico do corpo social. a conciliação. Por exemplo. “Ordem e progresso” é o lema do positivismo. da mesma forma que o organismo de um ser vivo é composto por vários órgãos interdependentes. destoa do conjunto. Uma sociedade saudável e progressista seria aquela em que todos trabalhassem em ordem e com afinco para o desenvolvimento do corpo social. Portanto. São Paulo: Moderna. Já os conflitos seriam vistos como exceção. Cristina. é que se torna possível a sociedade crescer como um todo. 15 . de modo que quem delas diverge aparece como exceção. sintoma de doença no organismo social. Assim se justificava a intervenção na sociedade sempre que fosse necessário assegurar a ordem ou promover o progresso. presentes não apenas nos cérebros e nas ações dos donos do poder. só sobrevive a partir do bom funcionamento de cada um dos seus órgãos (coração. com a sociedade. em caso de doença. o consenso. Por analogia. a interdependência entre os diversos órgãos do animal é a regra. Ela também seria regida por leis naturais. consagrando uma harmonia biológica natural.que prevalece enquanto ele tem saúde. que existem objetivamente. algumas ideias positivistas tornaram-se dominantes no Brasil. Mas nem sempre se sabe de onde elas vêm. a conservação sobre a mudança. O modelo desse tipo de pensamento está na biologia. o corpo de um animal. Uma harmonia natural reinaria no organismo social: cada um dos órgãos (segmentos. na França. mas funcionando integradamente para o bom desenvolvimento da totalidade do corpo social. A regra seria a integração entre as partes que compõem o organismo social (por isso a sociologia positivista também é chamada de “sociologia da integração”). o funcionamento harmônico das várias partes que a compõem. desenvolver-se. o progresso deveria aperfeiçoar os elementos da ordem e não destruílos. podendo até morrer. A sociedade seria um organismo composto por partes diferentes. O modelo biológico de sociedade Na visão positivista. Se não houver integração entre os órgãos. a ponto de integrarem o senso comum – entendido como idéias gerais incorporadas por quase todos. sobretudo militares. isto é. fígado. independentemente de quaisquer vontades individuais.

(RIDENTI. Marcelo. com os mesmos métodos de pesquisa e sobretudo. a consolidar a ordem pública. com a mesma neutralidade e ausência de juízos de valor com que um biólogo. que. do estado de anomia (ausência de regras. físicos. químicos e fisiológicos. A sociologia seria uma espécie de biologia social. mas não tem condições de atuar no sentido de por em prática as suas descobertas. do químico e do biólogo. imparcial e objetiva do físico. Quase todos os cidadãos concordam que o Estado é uma entidade acima dos indivíduos. O Estado seria o cérebro social. Daí a necessidade de surgir uma ciência específica.. a ideia central da corrente positivista é de uma simplicidade evangélica: nas ciências sociais. o bem comum. A finalidade do sociólogo ou historiador deve ser a de atingir a mesma neutralidade serena.. se conclui que o método nas ciências sociais pode e deve ser o mesmo que o das ciências da natureza. cuja descoberta é a finalidade especial dessas pesquisas. estudaria o desenvolvimento natural do organismo social. leis). Só os políticos podem fazê-lo. como integrantes do Estado. independentes da vontade e da ação humana. na vida social reina uma harmonia natural. A política positivista O cientista social (sociólogo) pode lançar mão de seu instrumental de análise para detectar a normalidade e a doença da sociedade. como nas ciências da natureza é necessário afastar os preconceitos. em seu livro “Método dialético e teoria política”. dos grupos e das classes. considerados dentro do mesmo espírito que o dos fenômenos astronômicos. o lugar da política que zela pelo bem comum. quer dizer. sujeitos a leis naturais invariáveis. cuja franqueza não é um dos méritos menores: posto que as leis sociais são leis naturais. tendo por função coordenar as funções da sociedade em seu conjunto. O Estado seria uma entidade acima dos indivíduos e dos grupos sociais em particular. objetiva e desligada dos fenômenos.” O positivismo comteano está. difundida por todo lado e que parece uma verdade banal. a ciência da ideologia. a sociedade não pode ser transformada. Essa idéia.) 16 . B – a sociedade é regida por leis naturais. portanto. fundamentado sobre duas premissas essenciais. Por estas premissas.A persistência dos conflitos. Política pra quê? São Paulo: Atual. com o mesmo caráter de observação “neutra”. a sociologia. pois instalaria o caos e a desordem que impedem o progresso. capaz de pensar o destino e os interesses do conjunto da sociedade. estando longe de ser consensual entre os estudiosos do Estado e da política. um físico se posicionam diante de uma matéria desconhecida nos seus campos de trabalho. O sociólogo observaria a sociedade como um olho pairando sobre ela. As implicações ideológicas conservadoras. o positivismo enaltece a aceitação passiva do “status quo” social: “o positivismo tende profundamente por sua natureza. reacionárias e contra-revolucionárias dessa concepção são evidentes e aliás explicitamente formuladas por Comte. seria um risco para a continuidade da vida em sociedade. pelo desenvolvimento de uma sábia resignação (. leis invariáveis. E o discurso oficial dos políticos é o de que eles defendem os interesses da sociedade em seu conjunto. Ele tem a responsabilidade de coordenar as funções de todos os órgãos para que o corpo se mantenha saudável. da mesma maneira que os biólogos estudam o funcionamento dos organismos vivos. contra os sonhos revolucionários utópicos e negativos. encarna o bem comum. Deixemos a palavra com Comte: “eu entendo por física social a ciência que tem por objetivo próprio o estudo dos fenômenos sociais. 1997) Críticas à doutrina positivista Para o sociólogo Michael Lowy . separar os julgamentos de fato dos julgamentos de valor. quer dizer.. na visão positivista. é parte do ideário positivista. para estudar o funcionamento das instituições ou fatos sociais. estreitamente ligadas: A – a sociedade pode ser epistemologicamente (estudo crítico do conhecimento científico) assimilada à natureza (o que nós chamaremos de “naturalismo positivista”).

levando-os à resignação. determinada por uma hierarquia social rígida. Características gerais do Positivismo • • • • a sociedade é regida por leis naturais. que do 1º constitui apenas uma modificação dissolvente. críticas. Corresponderia a uma fase da sociedade num período distante (os homens não dispunham de Razão para explicar o mundo). a sociologia de Comte. podemos apreender melhor o sentido verdadeiro da palavra “positivo”. A ciência da sociedade deve limitar-se à observação e á explicação causal dos fenômenos.” A idéia central de Marcuse é que a sociologia de Comte foi construída com o objetivo de preparar os homens para a disciplina e a obediência à ordem estabelecida. em particular aquelas entre trabalhadores e empresários. em geral. disposição permanente para suportar com constância e sem nenhuma esperança de compensação. O que não implicava eliminar a posição de inferioridade dos operários. descartando as prenoções (idéias pré-concebidas de determino fenômeno) Fundamentos do Positivismo: Teoria dos Três estados ou estágios Registra a passagem que conduziria os conhecimentos e as instituições humanas da idade teológica à positiva. no seu envolver espiritual. técnicas e processos aplicados ao estudo da natureza. leis invariáveis. É um conhecimento absoluto e o saber assenta no poder e produção da imaginação. personificadas aos deuses. A sociedade deve ser estudada pelos mesmos métodos. O homem só consegue explicar a natureza mediante a crença na intervenção de seres pessoais e sobrenaturais. É o estágio da sociedade em que os homens não se valem da Razão. passando pela transição metafísica. independentes da vontade e da ação humana. da Revolução Francesa e do socialismo. A sociedade vai evoluindo e possui três fases: 17 . opor sua doutrina às perigosas teorias negativas. erige-se não só em defesa ideológica da sociedade burguesa. subversivas. quais males inevitáveis a não ser como conseqüência de um profundo sentimento das leis invariáveis que regem todos os diversos gêneros dos fenômenos naturais. de forma a objetiva. destrutivas. não podiam ocorrer livremente mas deviam ser regulamentadas a fim de se obter uma “harmonia indispensável”. A socióloga Lelita Benoit em seu livro Sociologia Comteana diz “ Para Marcuse.Evidentemente. passa por três estados em sua evolução intelectual. é transitório. Na sociedade reina uma harmonia natural e qualquer perturbação é sintoma de “doenças sociais”. como ademais contém “as sementes de uma justificação ideológica do autoritarismo. livre de julgamento de valores. o Estado concebido por Comte tem traços em comum o “moderno Estado autoritário” . A – Estado Teológico: (explicação religiosa – Idade Antiga). neutra. sua idéia de progresso exclui a revolução. isto é. deuses). voltando-se contra as tendências negativas do Iluminismo. Explica os diversos fenômenos através de causas primeiras. a fim de conduzir ao terceiro: positivo – único normal e constitui o regime da razão humana. A humanidade. revolucionárias da filosofia das luzes. espontâneas. ou melhor. não pode existir verdadeira resignação. quer dizer. empregada por Comte para distinguir. pois acreditam em forças sobrenaturais. em uma palavra. de concepção do mundo e da vida: Estado teológico deve ser sempre concebido como provisório e preparatório.” Ainda segundo Marcuse. dissolventes. uma vez que as relações sociais. metafísico. pois o desenvolvimento histórico era tão-somente “a evolução harmoniosa da ordem social sob leis naturais perenes.” (Comte) Baseado neste trecho.

Resposta do Estado? Ordem e progresso Ordem: ajustar todos os indivíduos às condições estabelecidas. C – Estado Positivo (Idade Moderna. garantindo o bem comum. tenta-se explicar a natureza dos seres. ou seja. Cada classe de fenômenos possui seu deus distinto. comportamentos sócio-culturais estuda as leis de harmonia social e hierarquia social divisão do trabalho social leva à solidariedade social noção central: consenso entre todos os fenômenos sociais Dinâmico • • • • teoria do progresso (busca as leis de sucessão) evolução natural: ela é geral.• • • Fetichismo: o homem confere vida. explicação filosófica). B – Estado metafísico (Idade Média. entretanto. econômicas. Predomina o pensamento especulativo. as “constantes”. etc. virtudes. baseada na experimentação e nas provas. Monoteísmo: quando se desenvolve a crença num deus único. ação e poder sobrenatural a seres inanimados e a animais. É o estado dominado pela ciência. tradição. que vai construir uma sociedade ideal. Positivismo e a Política 18 . Todos os fenômenos da natureza são divinos. propriedade. a origem e o destino de todas as coisas e como se produzem os fenômenos. explicação científica). Progresso: transformações das sociedades. Politeísmo: atribui-se a diversos deuses certos traços da natureza humana: vícios. o conjunto de explicações. naturais invariáveis. Exigiam? Mudanças políticas. o homem tenta compreender as relações entre as coisas e os acontecimentos através da observação científica e do raciocínio. Fase que corresponde ao desenvolvimento da filosofia. Busca-se na Razão. Fórmula: “saber para prever. formulando leis. universal mobilidade (indivíduos e classes) estuda o desenvolvimento contínuo e gradual da humanidade Em síntese: teoria da ordem/progresso – controle sobre a evolução natural. Tem por objetivo estabelecer leis (relações constantes que existem entre os fenômenos observados). Dois movimentos vitais: Estático • • • • • teoria da ordem social (busca as condições de equilíbrio na sociedade) instituições que mantém a coesão social: família. que vai construir uma sociedade ideal. Fase dominada pela Ciência . da mais simples a mais complexa. o homem não consegue fazer ciência. como método de argumentação. a adoração dos astros caracteriza a fase. o progresso destinase a aperfeiçoar os elementos da ordem. não destruí-la. Teoria da ordem e progresso Desenvolvimento industrial: gera conflitos de camponeses e proletários. religião. Por que? Para fazer previsões e eliminar os problemas. ou seja. a fim de prover”.

e vice-versa. Adversário do sufrágio universal. Divisão do trabalho • • • • positividade do trabalho : leva à coesão e solidariedade social combate aos conflitos sociais consenso. impedindo a revolução violenta e permitindo a melhoria pacífica da sociedade. que se inicia pela formação de uma sólida e forte opinião pública. com supressão do parlamento. teriam todos as mesmas oportunidades. pregava Comte a intervenção do Estado na vida econômica e na organização social.• • • • • • • • Comte defende a forma de governo republicana Adversário do sufrágio universal Defendia a supressão do Parlamento Defendia um Executivo forte e o único responsável pela elaboração das leis Contrário aos sonhos revolucionários Enaltece a aceitação passiva do “status quo” social Antiliberal. burgueses e proletários. mantendo a ordem. o estado normal da humanidade. Papel do cientista social Neutralidade científica. A doutrina positivista seria a única capaz de. As leis deveriam ser de competência do executivo. nada mais lhe resta senão se resignar. Contudo. O homem somente é livre na medida em que compreende e consegue colocar as leis naturais a seu serviço. unicamente necessário para a elaboração do orçamento. com o desaparecimento da hipócrita distinção entre leis e decretos. controle. conciliação ou parceria entre o capital e o trabalho otimista diante da ciência e da indústria. revela-se o sistema positivista como conservador. viuvez eterna Positivismo: filosofia social conservadora Antiliberal e antiindividualista. caso contrário. impedindo a revolução violenta e permitindo a melhoria pacífica da sociedade francesa. abrangendo todas as classes da sociedade e todos os ramos do conhecimento humano. Na prática. enfrentar os subversivos. de forma objetiva e imparcial Moral positivista • • família: célula-mater da sociedade valores a serem preservados: virgindade. tal a ojeriza que tinha Comte pela anarquia. da monarquia absoluta ou constitucional. Assim. via na república. das assembléias. segundo Comte vê na liberdade o instrumento do progresso. Apresenta-se defensora da ordem e garantidora do progresso. 19 . pregava a intervenção do Estado na vida econômica e na organização social. desde a Matemática à Moral. É preciso haver plano. enfrentar os subversivos. através de ampla liberdade de pensamento e de discussão. ricos e pobres. sem ordem. mantendo a ordem. processa-se dentro da ordem. A desordem e anarquia originam-se da ausência de regulação positiva. condição indispensável para o progresso. A educação deve ser universal. Comte apresentava a doutrina positivista como a única capaz de. casamento indissolúvel. É preciso haver plano e controle. um estado nascia do anterior. A doutrina positiva. sem saltos. não admitia saltos na evolução da natureza nem da sociedade. A desordem e anarquia originam-se da ausência de regulação positiva. A mudança social. não há progresso.

As etapas do pensamento sociológico. Comte considera que a sociedade moderna está em crise e a contradição entre uma ordem histórica e a contradição entre uma ordem histórica teológico-militar em vias de desaparecer e uma ordem social científico-industrial que nasce. ficava a família. José Murilo de. . poderia ser utilizado nessa manutenção da ordem. 1990 p. Para isso é preciso uma síntese das ciências e a criação de uma política positiva. A partir do encontro com Clotilde. não-sobrenatural. já havia Comte criado a Religião da Humanidade em 1847. CARVALHO. seus rituais. como classe especulativa. O jovem Comte reflete sobre a sociedade de seu tempo. pelo seu não comprometimento com os interesses constituídos da burguesia e por não terem recebido a educação oficial. A sociedade que nasce é científica. com sua teologia. In: A formação das Almas. São Paulo: Martins Fontes. regime e dogma. fundia o religioso com o cívico. anteriormente existentes. Raymond. demonstrável. Os cientistas substituem os sacerdotes e teólogos como a categoria social que dá a base intelectual e moral da ordem social. a reorganização mental. da herança e da propriedade. Inaugurou um novo calendário. Sempre em busca da unanimidade e da completa unidade espiritual. O sentimento foi colocado em primeiro plano. Para expor a nova religião. As três etapas do pensamento de Comte A evolução filosófica de August Comte se dá pelas três obras principais: Opúsculos de Filosofia Social (entre 1820 e 1826). transformado. Comte conclui que a reforma social tem como condição a reforma intelectual. oferecerá a única base regular de uma conciliação equitativa e pacífica de seus conflitos. 129-142 O imaginário Comtista Antes do encontro com Clotilde de Vaux. com culto. Mas a questão social e toda a crise social eram mais de natureza espiritual e moral. deslocando a razão. ARON. Religião positiva. sendo ele próprio o Grande-Sacerdote. Os santos da nova religião eram os grandes homens da humanidade. O exército permanente. Os positivistas e a manipulação do imaginário. seguida da pátria e. criou o sacerdócio positivista. 20 . Comte desenvolveu os elementos utópicos e religiosos de seu pensamento. os novos sacerdotes eram os positivistas. Os empreendedores. no sentido em que a sociedade que morre era teológica. responsável por sua “regeneração moral”. os rituais eram festas cívicas.Via no proletariado e na mulher os dois agentes mais capacitados para compreender e aceitar o advento do positivismo. banqueiros estão assumindo o lugar dos militares. para uma posição subordinada.” A favor do casamento indissolúvel e da viuvez eterna. São Paulo: Companhia das Letras. o pensamento de Comte já exibia elementos que não provinham de fontes científicas ou positivistas. Na base. diretores de fábricas. 1993. a humanidade. a sociedade européia no princípio do século XIX. interpondo habitualmente uma comum autoridade moral entre os operários e seus chefes. Desde essa época. via nesta uma “instituição fundamental”. viria em breve a substituir todas as religiões teológicas. como culminação do processo. do que propriamente de natureza material “ sem perturbar a economia geral. Para constituir o seu poder espiritual. em 1844. base de sua obra anterior. Curso de Filosofia Positiva (1830-1842) e Sistema de Política Positiva (1851-1854). a teologia era sua filosofia e sua política. com novas festas comemorativas em homenagem aos grandes cultos do passado. embora devendo sofrer sérias e profundas limitações no seu uso em proveito da coletividade. O positivismo comtiano evoluiu na direção de uma religião da humanidade. escreveu o Catecismo Positivista.

para seguir os ensinamentos da experiência. mas se daria na família. Não nos foi possível identificá-lo. pela figura feminina. salientando os aspectos religiosos e ritualísticos. foram acusados pelos adversários de excesso de ortodoxia. os processos de análise. de classificação natural que criaram. em 1881. pelo mito de Tiradentes. Era sua arma principal de convencimento dos setores médios. pela bandeira republicana. do comércio e da indústria indica o grau de civilização ao qual pode cada povo chegar. de fanatismo religioso. as regras de uma restrita indução. Dela fizeram uso abundante em livros. A briga pelas imagens adquiria importância central. um artigo escrito e assinado por P. efetuaram uma reorientação do movimento no Brasil. O dogma da superioridade do sentimento e do amor sobre a razão e a atividade aplicava-se também às raças e às culturas. dominava a corrente mais próxima de Littré. Anteriormente a seu ingresso. da ciência. o discípulo de Comte que não aceitava a fase pósclotilde do mestre. foi dedicado aos amigos Dr. Ao regressar ao Brasil. da legislação. O desenvolvimento da moral.M. do bem e cumprir os seus deveres para com Deus. ao passo que a raça branca era marcada pela razão. No Cours de philosophie. Por essa razão. Se a ação tinha de se basear no convencimento. menos afetos. mas o seu papel não se limitaria à reprodução. Lemos buscou assumir a direção da Sociedade Positivista. Tal superioridade se basearia no fato de a mulher representar o lado afetivo e altruístico da natureza humana. Daí a luta incansável dos ortodoxos pelo coração e pela cabeça dos cidadãos. Como observar as regras do honesto. publicações da Igreja. da literatura. especialmente tendo em vista dois públicos estratégicos: as mulheres e os proletários. ela teria a responsabilidade da formação moral do futuro cidadão. A mulher. Em primeiro lugar. Diz ele: “A civilização é o aperfeiçoamento progressista dos homens na sociedade. editado em 1905) Na edição nº 4. A época contemporânea nos oferece o espetáculo de um desenvolvimento extraordinário. para com seus semelhantes? Jamais poderá ser bom cidadão. em que. os dois reconhecidos chefes da ortodoxia positivista. Eufrásio Rodrigues e Agenor Maciel. ele terminou por afirmar a superioridade social e moral da mulher sobre o homem. jornais. seria o principal responsável pela reprodução da espécie. pelo predomínio do sentimento. A raça negra seria superior à branca por se caracterizar. Miguel Lemos e Teixeira Mendes. até mesmo de lunatismo. data do dia em que foram abandonadas os velhos erros do método a priori. Agora. mas percebe-se que conhece a fundo a doutrina filosófica positivista de Comte. ao menos no Brasil. causa principal do progresso material e econômico. Manipuladores de símbolos A junção da doutrina comtista com a visão estratégica dos ortodoxos fez desses positivistas os principais manipuladores de símbolos da República. Mas empregaram também o simbolismo das imagens e dos rituais. razão por que afirmo que sem a instrução não pode haver civilização. não 21 . Os ortodoxos brasileiros basearam-se principalmente nos ensinamentos finais de Comte. impunha-se o uso dos símbolos. (positivista) . como as mulheres. física ou naturais à feliz aplicação dessas ciências à industria e ao comércio. como mãe. de síntese. a palavra escrita e falada. Com efeito. convencê-los da verdade da doutrina. à palavra escrita. Daí sua luta pelos monumentos. sua posição em relação à mulher não discrepava da visão tradicional de inferioridade em relação ao homem. sob o título “A instrução da mocidade”. devido ao progresso das ciências matemática. conferências públicas. Atingir esses dois públicos. O Positivismo no Jornal ‘O TRABALHO’(1º jornal de Patos de Minas.A guinada clotideana foi indiscutível na elaborada visão da mulher e de seu papel na evolução social. Ridicularizava-se sua clotildolatria. das artes. por meio da batalha dos símbolos. jamais poderá amar a sua pátria o homem ignorante. O progresso científico.

Lelita. Sociologia Comteana. São Paulo: Martins Fontes. o princípio da autoridade. sejamos civilizados e instruamos a mocidade. pois os meninos e a nossa mocidade já não está tão adiantada? O articulista respondeu: “poderão eles conhecer os seus deveres e praticá-los se ignoram até mesmo os princípios rudimentares da verdadeira civilização. Os Pensadores. a constituição da família e o amor da pátria.M. São Paulo: Brasiliense. dizendo que um velhote havia lido o artigo. Infelizmente ainda não temos no nosso vasto e esperançoso município um só estabelecimento onde os jovens filhos do sertão possam receber a luz da instrução civilizada e religiosa. o que seja a sociedade e a família? Não. 69-115 BENOIT. COMTE. 22 . Método dialético e teoria Política. MORAES FILHO. onde encontraremos as bases do direito social. Crescem embebidos nos vícios e na mais depravada corrupção. voltou ao assunto “A instrução da mocidade”. é como uma nau embandeirada prestes a fazer vela em mar . 1982. 1999. dela não se pensa. meu bom velho. mas que era bobagem. RIBEIRO. O que é Positivismo. Evaristo (org) Comte. As etapas do pensamento sociológico. a mocidade é o futuro da pátria e sua instrução é o manancial da ordem e do progresso. Façamos justiça. Michael. esperança do porvir. tendo por guia o sopro benefício e indispensável da religião. 1986.” Bibliografia ARON. LOWY.pode haver progresso. São Paulo: Abril Cultural. São Paulo: Discurso Editorial. E no entanto a nossa mocidade é descuidada. 1993 p. P.” No jornal de edição nº 6. 1978. Raymond. São Paulo: Ática. A religião. a pátria e a família reclamam a instrução de nossa mocidade que. uma vez instruída. 1982. João. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Auguste.

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