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A EVOLUÇÃO FÍSICA E SOCIAL DA ILHA DO FOGO EM ILHÉU DE

CONTENDA
LIMITES DA FICÇÃO E UNIVERSO REAL EVOCADO

GLÓRIA DE BRITO
UNIVERSIDADE ABERTA

Resumo

As obras de Teixeira de Sousa (1919) constroem um universo regional no qual se move todo um conjunto
de figuras representativas de uma classe social em decadência, a burguesia branca de antigos donos da
ilha, gradualmente absorvida pela preponderância socioeconómica dos mestiços e mulatos.
Ilhéu de Contenda (1978) constitui um marco narrativo na ficção realista cabo-verdiana e fornece um
tratamento preciso sobre o surgimento dos fenómenos perturbadores de um equilíbrio secularmente
estabelecido e sobre a dramática transição para uma nova forma de sociedade.
Ao longo do romance, o narrador postula sobre a génese desta substituição e vai delineando as
propriedades intrínsecas à nova composição social que prenunciam os traços essenciais da identidade
foguense.

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Falar de Ilhéu de Contenda (1978) implica falar simultaneamente de várias


questões relacionadas quer com o contexto do aparecimento desta obra, quer com as
características da própria narrativa. Trata-se do primeiro romance de Henrique Teixeira
de Sousa (1919) que até então só tinha publicado ensaios e contos, constituindo, por
conseguinte, um marco fundador da sua obra romanesca que actualmente conta com
sete títulos.
José Luís Hopfer Almada (1997, 179) considera este romance como “uma baliza
do segundo realismo da ficção cabo-verdiana, pela sua novidade no que diz respeito ao
aprofundamento da questão social que se inicia com a primeira geração claridosa”i.
Aliás Ilhéu de Contenda faz parte de uma trilogia que integra os romances Xaguate
(1987) e Na Ribeira de Deus (1992) na qual o escritor recria e retoma diferentes
momentos da sociedade da ilha do Fogo, sua terra natal, cronologicamente distribuídos
por um período que vai do fim da escravatura ao período da pós-independência,
abrangendo um ciclo completo.

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Nesta perspectiva, a obra cimenta alguns indícios de uma ruptura com a escrita
da Claridade, já anteriormente manifestados por outros escritores, entre os quais
destacamos Gabriel Mariano (1928), Luís Romano (1922) e Pedro Duarte (1924).

Uma outra questão que se poderá abordar na leitura da obra, reside na determinação da
sua filiação ao um determinado tipo de romance ou a um movimento literário. Segundo
Arnaldo França (1998, 206) “a perspectiva da obra não é estranha à experiência neo-
realista portuguesa no quadro económico-social das personagens”. Estas dividem-se em
estratos sociais distintos e evoluem no sentido inverso da luta pelo acesso a um poder
local, conquistado com os dólares americanos da emigração. Aquele autor considera que
os romances da trilogia de Teixeira de Sousa são os únicos textos da ficção cabo-
verdiana em que se pode verificar uma análise dialéctica e uma oposição de classes, na
qual a cor da pele intervém como elemento de discriminação.
Ilhéu de Contenda ficciona a decadência da classe aristocrática da ilha do Fogo,
gradualmente absorvida pela preponderância socioeconómica dos mulatos e mestiços. O
romance articula o relato da última geração da saga familiar dos Medina da Veiga com
as várias configurações do auge e queda dos antigos donos da ilha, determinada por
factores de ordem económica e histórico-social: a extinção da escravatura e do
morgadio, a emigração e a alteração do rumo do comércio internacional e nacional. A
significação da ruína daquela família é construída no conjunto dos três romances que
compõem a trilogia, pela mediação do olhar dos narradores e das personagens sobre a
mudança irrevogável da sociedade. As reflexões críticas, sociais e políticas sobre meio
século de história da ilha do Fogo, tecidas ao longo das narrações reenviam para um
vasto conjunto de uma referências espácio-temporais, associadas a uma realidade sócio-
histórica anterior e exterior à escrita do romanceii, assegurando alguma conformidade
com o domínio exofórico.
O tipo de narrativa, centrado numa escolha consciente de temas e ambientes de
etapas determinantes da história da ilha do Fogo, bem como o processo de narração, que
consiste em confiar a uma personagem central (inventada ou não) acontecimentos
passados, actualizados de forma viva e crítica, conferem uma certa verosimilhança ao
universo referencial evocado nos romances. Esta trilogia fornece uma imagem global de
uma sociedade e da vida de uma época sob a forma de “pequenos pormenores

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concretos”, sugerindo o “efeito de real” barthianoiii. Todavia, se a descrição
pormenorizada de acontecimentos, figuras e lugares participa na construção de um
sistema de representação que poderemos aproximar da enunciação realista, também é
certo que o empenhamento e a reflexão crítica se manifestam relevantes na interpretação
da evolução socioeconómica e cultural do Fogo. De entre alguns factores determinantes
do carácter histórico de uma narração, que não cabe desenvolver neste trabalho,
nomeadamente, a distância entre o tempo da escrita e do enunciado, as formas e registos
linguísticos da representação (“ressurreição”iv) de épocas históricas e de seres
desaparecidos, Martin Kuester considera que “a presença de uma consciência histórica
numa situação historicamente condicionada se revela fundamental”v. Nesta concepção,
tanto os narradores como as personagens implicados na intriga dos romances da trilogia
atrás referidos emitem juízos, interrogações e até perplexidade perante a mudança,
inscrevendo na narrativa uma consciência crítica da realidade social. Nesta lógica,
podemos conferir a alguns factos e personagens da diegese, não só uma representação
de uma existência com um fundo verídico, como um carácter interpretativo no qual se
inscreve a ideologia do texto. O escritor, numa entrevista dada a Michel Laban (s.d.,
215), revela o seu processo de criação do romance, comparando-o a uma sinfonia:

“O fio melódico é a personagem principal, enquadrada numa orquestração


complexa, constituída pelo meio e pelas restantes personagens. Falando em personagens,
estas são na sua totalidade enumeradas, nomeadas, caracterizadas física e psicologicamente.
As personagens são geralmente criadas a partir de pessoas conhecidas, às vezes duas, três
pessoas, fundidas numa única personalidade”.

O recurso concertado a elementos e códigos do mundo real, garante a natureza


realista do texto, construído a partir de um sistema de relações referências precisas e
conhecidas que se revelam fiáveis no contexto socio-histórico representado.
Do mesmo modo, se poderia colocar a questão das fronteiras que delimitam a
História passada da contemporânea e a qualidade do “histórico” no romance (C.
Bernard, 1996, 68-69), por oposição ao imaginado. Ilhéu de Contenda centra-se na
ruína de uma família, paradigma da queda do grupo da aristocracia branca do Fogo. Na

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Ribeira de Deus foca a evolução urbana (física e económica) de S. Filipe e o
protagonismo da classe popular na vida social. Xaguate reconstrói as transformações
físicas, sociais e humanas da ilha, tecidas pelo olhar retrospectivo e avaliativo de um
emigrante que, após cinquenta anos de diáspora na América, regressa definitivamente
ao país natal. Nestas ficções, os índices do “histórico” em Ilhéu de Contenda denotam
um maior efeito de coerência na recomposição dos acontecimentos particulares e gerais
ancorados na História da ilha, assegurados pela proximidade da ficção com as grandes
mudanças e conflitos ocorridos na época evocada.

Os sinais da transição

Em Ilhéu de Contenda, a intriga tece-se a partir da morte de Nha Caela, viúva de


Pedro Simplício da Veiga, antigos donos de sobrados, comércio e propriedades
agrícolas. É assegurada por Eusébio, o protagonista do romance e filho mais novo do
casal. A estrutura da obra baseia-se num conjunto de setenta e seis capítulos curtos,
ligando uma sequência de episódios, nos quais se desenvolvem situações, práticas,
comportamentos e sentimentos que introduzem o leitor numa época de transição da
História da ilha do Fogo. Ou seja, num passado, recomposto, ressuscitado, revestido de
dinâmica e de mimetismovi. O leitor é convidado a presenciar as circunstâncias de
espaço e de tempo que geraram os factos narrados e até a ouvir as palavras e a
presenciar os gestos dos seres que nelas estiveram envolvidos. Este efeito realista é
construído pela introdução de um olhar que escolhe, organiza, explica e comenta o
universo referencial, supostamente verídico.
Assim, a decadência da família do Medina da Veiga é representada como um
fenómeno paradigmático da mudança irreversível e trágica das famílias “de gente
branca” que ocorreu em Cabo Verde, e de forma mais exacerbada na ilha do Fogo, na
primeira metade do século vinte. Os primeiros sinais desta mudança já se deixam
entrever no romance Na Ribeira de Deus, que reconstitui o período cronológico anterior
ao de Ilhéu de Contenda. A desagregação e queda deste grupo dominante, de
ascendência europeia, e a emergência de uma classe de mulatos enriquecidos com a
emigração nos E.U.A., responsáveis pela nova ordem física e social constituem uma
temática tratada nas três obras da trilogia de Teixeira de Sousa, acima referidas. Mas é

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no romance Ilhéu de Contenda que a referência aos fenómenos da crise e de adaptação à
nova realidade é concebida de forma mais completa, viva e emotiva. As alterações de
espaço e de padrões de conduta sociocultural e os estados psicológicos gerados por esta
decadência são traduzidos neste romance com um relevo e uma abordagem
pormenorizada, reforçados pelo processo da recorrência, próprio do realismo.
Pelo agenciamento dos episódios, o autor insere na narrativa principal um vasto
conjunto de estórias de famílias de proprietários brancos e mulatos e, igualmente, do
povo, recriando, uma atmosfera histórica e social através das interacções entre as classes
e das vivências quotidianas em espaços e ambientes diversificados. Os cenários da
acção (sobrados, lojas, propriedades agrícolas, o porto, a igreja, o hospital...) são
recompostos pela voz de um narrador que se funde com as vozes das personagens
contemporâneas dos acontecimentos. Ou pelas passagens dialogadas das vozes
individuais, exprimindo a diversidade de situações e de sentimentos em linguagem
quotidiana. Este jogo da narração cria no leitor a ilusão da presença dos acontecimentos
narrados e não da sua repetição. Esta encenação literária permite ao enunciador inserir
elementos informativos importantes na sucessibilidade de todo um processo factual
evocadovii.
Assim, na construção da narrativa, a evocação dos acontecimentos passados,
anteriores ao presente da narração, permite mergulhar no encadeamento de estórias da
família dos Veigas que prosperaram com o negócio dos escravos, do café e da
purgueira, ou da família dos Vieiras que se arruinou com a ociosidade e o vício do jogo.
E, ainda, reproduzir as histórias de infância, as aventuras dos emigrantes e embarcados,
o interior do sobrado de Ilhéu de Contenda, as festas das bandeirasviii... Citamos apenas
alguns dos inúmeros episódios nos quais se reconstrói, retrospectivamente, o desenrolar
de uma etapa de evolução social e física da ilha do Fogo. Estes episódios inscrevem-se
numa sucessão cronológica de factos representados na trilogia e adquirem especificação
temporal e espacial de maior ou menor relevo numa ou noutra das três obras. Por
conseguinte, é a apreensão da cadeia dos acontecimentos e das suas referências
contextuais desenvolvidas no conjunto da trilogia que nos permite quer uma visão
temporal e espacial, quer uma interpretação do passado.

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Cada um dos romances se inspira numa figura ou num grupo que serve de fio
condutor para tratamento de tema(s) da evolução social do Fogo. Enquanto que no
romance Na Ribeira de Deus, que descreve uma etapa de crescimento social e urbano de
S. Filipe, se verifica uma forte presença do povo e dos braçais, ou seja “a vida popular
concreta na sua plenitude nativa e na sua riqueza humana” (Georges Lukacs, 1965,
375), em Ilhéu de Contenda, o grupo visado é a aristocracia branca dominante, na sua
fase de declínio. Xaguate propõe como tema central o fenómeno do regresso à ilha
natal, de emigrantes enriquecidos, recriando um passado mais recente, o período da pós-
independência. Mas, pela sua dimensão anafórica, este romance também reenvia para
toda uma anterioridade, mergulhando nas repercussões da decadência da classe abastada
e da ascensão dos mulatos e mestiços. Com efeito, o conjunto das três obras permite
traçar a evolução física, social e económica da ilha do Fogo e até do arquipélago durante
cerca de setenta décadas.
Existe na tradição popular cabo-verdiana um dito popular de tom satírico,
referido aliás em Ilhéu de Contendaix, e igualmente num ensaio do escritor publicado na
revista Claridadex, que preconiza a inversão das classes sociais, no qual se afirma: “o
macaco mora na rocha, o negro mora no funco, o mulato mora na loja e o branco mora
no sobrado. Há-de chegar o dia em que o macaco correrá com o negro do funco, o negro
correrá com o mulato da loja e o mulato com o branco do sobrado e o branco então irá
tombar na rocha”. Este dito reenvia para uma tripla dimensão: está associado ao
julgamento dos factos, à validação da sabedoria popular sobre a justiça e o fatalismo
humanos e à reversibilidade cíclica das transformações físicas e sociais. Ele sublinha,
igualmente, os elementos trágicos inerentes a qualquer situação de fim de ciclo, que,
aliás, são reiterados ao longo daquele romance, através de um conjunto de signos que
remetem para a origem e efeitos da decadência, como atesta a seguinte passagem:

“Nha Noca era realmente uma jogadora de fama, como de resto todos os
Vieiras da Fonseca. Com a diferença de que até àquela idade conservava
ainda todas as propriedades, ao passo que o resto da gente daquele naipe
havia caído na completa miséria. O sobradão da Cabeça do Monte lá
estava a atestar o mau governo dos descendentes de Simão Vieira da

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Fonseca. Esbarrondado de alto a baixo, as cabras passeando por entre os
muros, tudo obra de vinte e poucos anos, durante os quais a preguiça, o
jogo, a bebida, haviam de dar esse resultado”xi.

A referência à ruína de uma família, sugerida pelo desmoronar de um baralho de


cartas, não só enuncia a sua queda rápida, como também assinala a precariedade do
poder e dos objectos materiais, enquanto símbolos de riqueza sujeitos às contingências
particulares e históricas. O narrador e o protagonista de Ilhéu de Contenda evidenciam
uma grande sensibilidade na descrição de sintomas dos fenómenos perturbadores,
responsáveis pela mudança socioeconómica representada na obra. E, igualmente, sobre
as matrizes das atitudes e dos comportamentos determinados pela esfera de instabilidade
que envolve as personagens.

Perfil de situações e de comportamentos

Poderemos, deste modo, traçar alguns perfis de situações e de comportamentos


humanos associados aos fenómenos que intervêm na perturbação do equilíbrio da época
dos sobrados, relatados em Ilhéu de Contenda, mas igualmente extensivos às duas obras
da trilogia. Em primeiro lugar, destacamos os factores de ordem natural, como a morte
dos proprietários, numa fase em que o morgadio já não estava em vigor e à qual se
segue a desagregação familiar e fundiária É o caso da família Medina da Veiga, dispersa
em Lisboa, S. Vicente e Fogo, que após a morte da mãe procede à partilha dos sobrados
e das propriedades agrícolas. Assiste-se a um espaço que se divide e reparte com as
consequentes alterações na esfera social e nas estruturas produtivas. A partida dos donos
dos sobrados e o abandono das propriedades fundiárias constituem situações tipo que
traduzem a incapacidade de aceitação ou de adaptação à nova realidade. É o caso de
Alberto, irmão de Eusébio, que vive em Lisboa e das irmãs que vivem em S. Vicente,
revelando desinteresse e até algum desprezo pelo espaço natal, desfazendo-se das
propriedades herdadas.
Outro tipo de situações (coexistentes ou não com os fenómenos de ordem
natural) revelados pelo comportamento individual, como o vício do jogo, a ociosidade, a
arrogância e intolerância vão delineando a degradação social e moral e acentuando as

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tensões e clivagens entre as classes. Inscrevem-se neste perfil os elementos da família
dos Vieira da Fonseca, de que Felisberto representa o expoente deste denominador
comum. Recusam a nova ordem económica e sociocultural e refugiam-s na nostalgia
dos privilégios passados. Nha Noca, e Felisberto são os protagonistas das acções deste
mundo fechado, cada vez mais reduzido e, por isso, dissociado da nova sociedade
emergente. Nas sessões do jogo do bacará, e do sete-e-meio, o narrador reproduz as suas
vozes, denunciando os preconceitos e as atitudes discriminatórias. As estruturas
socioculturais e ideológicas deste grupo minoritário, impermeáveis a novos elementos
exteriores, denotam sinais de corrosão, prenunciando a sua própria morte. Paul Ricœur
([1955] 1964, 297), no seu estudo sobre a questão do poder, considera que:
“Il y a pour l’humanité deux façons de traverser le temps : la
civilisation développe un certain sens du temps qui est à la base
d’accumulation et de progrès, tandis que la façon dont un peuple développe
sa culture repose sur une loi de fidélité et de création : une culture meurt dès
qu’elle n’est plus renouvelée, récréée”.

A consciência trágica da não sobrevivência dos donos dos sobrados é expressa


de várias formas. A perda dos traços de integridade por parte dos elementos desta
classe, leva Felisberto, mesmo involuntariamente, a arrastar-se na corrente da mudança,
vivendo de expedientes. Atraído pelo dinheiro fácil, alia-se a Anacleto na angariação de
emigrantes para as roças de São Tomé e colabora com a PIDE na denúncia de
personagens consideradas subversivas. O narrador e Eusébio, cujas vozes se fundem na
recriminação do itinerário de Felisberto, condenam, em particular, a sua ingratidão,
irresponsabilidade e delação:

“Esse Felisberto era na verdade um degenerado que não honrava nada as boas
famílias do Fogo. Bem se via que descendia do tronco dos Vieiras da Fonseca, que se
arruinaram no jogo e desapareceram da ilha. Dessa cepa apenas restavam Felisberto e os
muros esbarrondados da Cabeça do Monte. E assim se ia finando a aristocracia da terra
morrendo, falindo, fugindo, dando delatores como Felisberto, putas como Esmeralda ”xii.

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Este tipo de comportamento contraditório, favoreceu as formas de repressão
colonial praticadas na ilha. O que leva Teixeira de Sousa a afirmar, num ensaio, que “a
ilha do Fogo foi o último reduto do colonialismo interno”xiii.
Os fenómenos de ascensão económica dos mulatos enriquecidos inscrevem na
narrativa um outro tipo de situações associadas à alteração física e social do espaço
regional, decorrente da emigração iniciada em Cabo Verde a partir da segunda metade
do século XIXxiv.

Os emigrantes que regressam ricos, como Frank Teixeira, comprador do sobrado


dos Medina da Veiga e os mulatos que aprendem a gerir os dólares da emigração como,
é o caso de Anacleto Soares e de Antoninho Barato instalam-se, gradualmente, na esfera
do comércio, no exercício do poder local e nas propriedades urbanas e fundiárias.
Instituem, por isso, uma nova realidade económica e sociocultural, marcada pelo
esbatimento dos preconceitos étnicos, pela neutralização dos conflitos de classe e pela
miscigenação de padrões de cultura importados de um espaço exterior, neste caso, do
americano. Este grupo é recriado pelo olhar depreciativo da classe usurpada,
gradualmente destronada. Mas, também não merece as apreciações favoráveis do
narrador. Em relação aos emigrantes regressados dos Estados Unidos da América, ele
ridiculariza a sua ostentação de riqueza e a rudeza dos gestos e da linguagem, como se
pode confirmar na seguinte passagem:

“A camioneta parou no largo e Frank desceu aos abraços e apertos de mão

a toda a gente, a corrente do relógio balançando no peito, a pasta de couro

bem segura na mão esquerda. Vinha como sempre bem disposto, roncando

de prosperidade, exuberante como de costume, na fala, nos gestos, no

vestuário, nos cumprimentos”xv.

Perante a preponderância económica de Anacleto que “pulava a olhos vistos”


com os cheques da América, o narrador denuncia as artimanhas, bem como as
pretensões e a vaidade, ressaltando o contraste entre a riqueza conquistada e o baixo

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nível de instrução. Estes traços são extensivos ao novo grupo de mestiços e mulatos
comerciantes que vai absorvendo as posições até então dominadas pelas famílias dos
sobrados.
Por fim, destaca-se a referência ao rumo do comércio na qual se inscreve um
tipo de situações de carácter histórico e económico, associadas aos mecanismos da
concorrência local e do monopólio comercial gerido pela indústria nacional. O romance
Na Ribeira de Deus reconstitui com pormenor e precisão o nascimento de lojas
controladas pela nova classe emergente, bem como o processo de reconversão do
comércio local da purgueira. As passagens revestem-se de interesse documental para a
história económica da Ilha do Fogo. Ilhéu de Contenda faz alusão a este fenómeno,
sobretudo, pela voz de Eusébio que critica a democratização do comércio e
responsabiliza o negócio exclusivo pela situação de crise que se vive no Fogo. Ele
evoca os tempos áureos do negócio da purgueira, um produto que assumiu um relevo na
economia do arquipélago, na época anterior à relatada na narrativa:

“Ouvia contar ao pai que outrora exportavam purgueira para Marselha


por bom preço. Depois que a indústria nacional se assenhoreara dessa
oleaginosa, o preço desceu escandalosamente. Antigamente a purgueira
era o mealheiro do pobre e a burra do negociante. O povinho vestia-se
com a purgueira que colhia. O comerciante pagava em tecidos a
purgueira que comprava. Vinham grandes lugres e patachos carregar
purgueira. E era negócio que não falhava, quer chovesse, quer não”xvi.

Esta evocação, embora introduza o leitor na consciência da personagem,


ultrapassando os limites da “lógica dos discursos estritamente históricos” (M.
Vuillaume, 1990, 52), reenvia para as alterações comerciais que impuseram uma nova
fisionomia geográfica e novos valores sociais e culturais na ilha. No entanto, em Ilhéu
de Contenda, os novos modelos e os novos interesses ainda chocam com os argumentos
paradoxais da antiga oligarquia local sobrevivente. É o exemplo do novo tipo de casal
simbolizado por Ondina e pelo Dr. Vicente, cujo impedimento de Felisberto, pai de
Ondina se traduz na incongruência de pretextos arreigados a preconceitos fiéis a uma
tradição moribunda. A linguagem utilizada por Felisberto, condenando as pretensões do

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Dr. Vicente em relação à sua filha, exprime, com animosidade e imoderação a
intolerância racista e a incapacidade de aceitação da mudança:

“Ele, se torna a aparecer de noite debaixo da janela da Ondina, despejo-lhe


o bacio de urina para cima daquela carapinha”xvii. [...]
“Não há dúvida que eles é que andavam a dar confiança demasiada ao
mulatinho de cabelo cuzcuz. Daí, o atrevimento até de levar a serenata
para debaixo da janela da Ondina como se ela fosse da classe de Jaquim
Bangainha, Dr. Vicente e companhia limitada”xviii.

Os primos Eusébio e Felisberto representam duas figuras emblemáticas desta


época, mas assumem posturas e opções opostas. Eusébio revela-se mais tolerante e
humano e tenta inverter o curso dos acontecimentos optando pelo regresso definito ao
espaço de Ilhéu de Contenda. Refugia-se no sobrado herdado directamente da mãe e na
gestão da vida agrícola, com projectos de restaurar as plantações de café e de conservar
o sobrado cuidado. Este refúgio simboliza uma tentativa do regresso ao passado,
portanto uma recusa do presente:

“A pouco e pouco vinha desaparecendo a classe grada e irrompendo os


mulatos com toda a força da sua ignorância e ordinarice. A sociedade do
Fogo estava-se a transformar numa jagacida intragável. Mil vezes a
gentinha de outros tempos, honesta, humilde, respeitadora, do que os
Anacletos, os Antoninhos Baratos, os Franks. Por isso, só fugir era
remédio, afastar-se para sempre dessa cambada feita à pressa. Ilhéu de
Contenda! Até morrer não largaria esse reduto que Afonso Sanches da
Veiga inventou para resistir até a última geração de brancos”xix.

A dimensão do espaço associado a um refúgio é tratada em Ilhéu de Contenda,


igualmente, por outras duas personagens: Jerónimo e o Dr. Rafael. Embora revestindo
significações diferentes, o refúgio no campo implica inconformismo com a nova ordem
estabelecida na nova sociedade urbana do Fogo e traduz alguma desilusão. Aliás,

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verifica-se um sentimento de desilusão que percorre toda a obra, sustentado pela
consciência da classe decadente. Eduardo Lourenço (1993, 303)xx afirma que “a
desilusão flaubertiana é uma novidade na história da ficção ocidental, como é sem
exemplo o desafio escrito para a colmatar”. E considera ainda que não são apenas as
personagens de Balzac, Eça ou Flaubert que sucumbem por falta de ilusões, mas
também a burguesia e até Humanidade inteira. Trata-se de uma coincidência entre
história e ficção. O mesmo sentimento de desilusão perante um passado que se fecha,
desenha-se cedo no espaço do romance Ilhéu de Contenda. Imediatamente após o
funeral de Nha Caela o narrador restitui uma voz plural premonitória: “Todos saíram
convencidos de que o sobradão de Ilhéu de Contenda jamais poderia ser a mesma coisa
depois da morte de tão bondosa criatura”xxi. A desilusão funde-se na consciência da
queda irremediável, na exaltação nostálgica do auge de um passado cumprido,
irreversível e na convicção de que a mudança augura o início de ruína. Este presságio é
reiterado no funeral de Nha Mariquinhaxxii, ressaltando a oposição entre a opulência e a
fertilidade de um tempo próspero em contraste com a pobreza que não poupa a própria
natureza.

Um sopro de emancipação

A figura do médico, atravessa todos os romances de Teixeira de Sousa, sendo


indissociável das marcas pessoais e profissional do escritor na sua escrita. O espaço
consagrado aos protagonistas médicos mulatos e às suas actividades clínicas constitui
um elemento novo na produção literária cabo-verdiana. Certamente, que as experiências
vividas e observadas pelo próprio autor no exercício da medicina em Cabo Verde, e em
particular na ilha natal, contribuíram para modelar esta personagem e evocar os
ambientes hospitalares, quer sob o regime colonial quer no período da pós-
independência. E até descrever sintomas clínicoa e características de determinadas
doenças frequentes na época, como acontece com a lepra que atingiu Belinha, a amante
de Eusébio de Ilhéu de Contenda, bem como intervenções cirúrgicas, como é o caso da
autópsia de Roque em Na Ribeira de Deus. Estas passagens descritivas revestem um
carácter científico e cívico, enquanto que os momentos de diálogo e de debate entre as

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personagens médicos, frequentes nos três romances, reenviam, sobretudo, para a
dimensão sociológica e política e, por conseguinte, de crítica social, um traço recorrente
na obra de Teixeira de Sousa.
A personagem do médico reveste-se de dignidade, de integridade e de
autoridade, em contraste com as personagens da aristocracia decadente, marcadas pela
desilusão, pela arrogância ou pelo ridículo, com foi referido. Em Ilhéu de Contenda, o
Dr. Vicente e o grupo que o apoia surge como um sopro de emancipação a nível
sociocultural, político e até administrativo. Ele protagoniza um conjunto de iniciativas
que contribuem para o progresso regional, promovendo simultaneamente a politização e
a solidariedade. Daí, ser alvo de delação por parte de Felisberto e de perseguições por
parte da PIDE.
O médico assume um papel relevante e influente na vida social e familiar,
reflectindo, igualmente, uma realidade da ilha do Fogo, atestada pelo próprio autor na
entrevista dada a Michel Labanxxiii. Gilberto Freyre (1900-1987), na sua obra Sobrados
e Mucambosxxiv, refere-se também à influência determinante do médico na educação
psicológica e social da mulher brasileira ao longo do século XIX. O médico, enquanto
personagem que cruza vários espaços e ambientes (hospitalares, administrativos, sociais
e familiares) constitui uma peça chave no desenvolvimento das linhas axiológicas
abordadas por Teixeira de Sousa nas suas várias obras. Ele escapa ao pessimismo da
classe decadente e à vaidade da classe emergente pelo seu humanismo, saber e
intervenção social e cívica. A recorrência desta figura constitui um traço da produção
literária do autor, projectando o seu saber profissional na produção ficcional. Tal como
Germano de Almeida (1945), jurista, em O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva
Araújo (1989) e Os dois irmãos (1995). O panorama profissional construído na ficção
destes autores é transferido do domínio concreto da actividade socioprofissional,
embora recriado por processos e tons diferentes, inscrevendo nas narrativas a reflexão
sobre as ideias científicas.

Conclusão
Teixeira de Sousa já manifestara a sua lucidez na análise e evolução da
sociedade foguense na primeira metade do século XX, em artigos publicados na revista
Claridadexxv. Neles propôs uma descrição das matrizes que permitem reproduzir os

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fenómenos historico-sociais e culturais da sua ilha natal. Os romances Na ribeira de
Deus, Ilhéu de Contenda e Xaguate trazem o seu contributo tanto para a história da Ilha
do Fogo como para a de Cabo Verde e da colonização portuguesa. Nesta trilogia, o
escritor propõe, de igual modo, uma análise desta época, recriada pelas representações
individuais de vários painéis de ambientes e de personagens. Estas cobrem praticamente
todos os sectores de actividade socioprofissional, bem como espaços urbanos, rurais,
marítimos, sobrados, lojas e funcos.
Regista-se um processo de acumulação de episódios e de personagens
secundárias, salientando uma das características da escrita de Teixeira de Sousa. Aliás,
esta faceta pletórica concorre para a reconstituição e compreensão da atmosfera socio-
histórico.
Voluntariamente, o autor inscreve, ao longo das narrativas, fragmentos da
tradição oral, musical, assim como uma variedade de práticas tradicionais, destacando-
se as numerosas referências à culinária e as descrições das festas das bandeiras. Nestes
elementos reside o fundo dos valores, na opinião de Paul Ricœurxxvi. De igual modo, a
realidade telúrica e climática é objecto de representação e de recriação de ambientes que
envolvem e afectam as relações entre as personagens, concorrendo para sublinhar
determinados contextos sociais gerados por fenómenos naturais.
E na medida em que os factos são restituídos retrospectivamente, o narrador
exprime na narração reflexões e apreciações, conferindo ao discurso um carácter
avaliativo, inserindo, assim, nas narrativas a consciência crítica da evolução física e
social da Ilha do Fogo.

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BIBLIOGRAFIA
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VUILLAUME Marcel (1990), Grammaire Temporelle des Récits, Paris, Les Éditions de
Minuit.

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i
O primeiro número da revista Claridade foi publicado em 1936, sendo os fundadores Manuel Lopes,
Baltasar Lopes e Jorge Barbosa. Na sua primeira fase, o movimento associado à revista publicou três
números num ano. A revista foi interrompida durante dez anos, devido à dispersão do grupo e retomou a
publicação em 1947, tendo publicado mais cinco números até 1960, embora de forma irregular.
ii
Expressões utilizadas por Claude Duchet no seu artigo sobre a “socialidade” da matéria romanesca:
“Une écriture de la socialité”, in Poétique nº 16, Paris, 1973, p. 449.
iii
Roland Barthes, “L’effet de réel”, in Littérature et Réalité, Paris, Seuil, p. 89-90 : “la littérature réaliste
est, certes, narrative, mais c’est parce que le réalisme est en elle seulement parcellaire, erratique, confiné
aux « détails » et que le récit le plus réaliste qu’on puisse imaginer se développe selon des voies
irréalistes”.
iv
Expressão utilizada por Claudie Bernard no artigo “Le roman historique, le roman d’aventures et la
mort”, Poetique nº 101, Paris, Seuil, 1995, p. 69-83.
v
Afirmação de Martin Kuester, Framing Truths – Parodic Structures in Contemporary English –
Canadian Historical Novels, Toronto, London, Buffalo, University of Toronto Press, 1992, p. 27, citado
por Maria de Fátima Marinho, O Romance Histórico em Portugal, V. N. Famalicão, Campo das Letras –
Editores, S. A., 1999, p. 13.
vi
Sobre a mimésis, veja-se Erich Auerbach, Mimésis, la représentation de la réalité dans la littérature
occidentale, Paris Gallimard, [1946], 1968, nomeadamente os capítulos XVIII-XX.
vii
Michel de Certeau, L’Écriture de l’Histoire, Paris, Gallimard, 1975, p.120, afirma a propósito da
historiografia: “la narrativité, métaphore d’un performatif, trouve précisément appui dans ce qu’il cache:
les morts dont elle parle deviennent le vocabulaire d’une tâche à entreprendre. Ambivalence de
l’historiographie: elle est la condition d’un faire et la dégénération d’une absence; elle joue tour à tour
comme discours d’une loi (le dire historique ouvre un présent à faire) ou comme alibi, illusion réaliste
(l’effet de réel crée la fiction d’une autre histoire). Elle oscille entre “faire l’histoire” et “raconter des
histoires”, sans être réductible ni à l’un ni à l’autre”.
viii
Sobre esta tradição, veja-se o texto de Félix Monteiro, “Bandeiras da Ilha do Fogo: o Senhor e o
escravo divertem-se”, in Claridade nº 8, S. Vicente, Maio de 1958, p. 9-22.
ix
Henrique Teixeira de Sousa, Ilhéu de Contenda, Mem Martins, Publicações Europa América, s.d.,
p.132.
x
Henrique Teixeira de Sousa, “Sobrados, lojas & funcos, contribuição para o estudo da evolução social
da ilha do Fogo”, Claridade, nº 8, S. Vicente, Cabo Verde, 1958, p. 2-8.
xi
Teixeira de Sousa, op. cit., p. 58.
xii
op. cit., p.253.
xiii
Michel Laban, Encontro com Escritores, Porto, Fundação Eng. António de Almeida, s.d., I vol., p.
174.
xiv
Sobre a emigração em Cabo Verde, veja-se, entre outros, os seguintes estudos: António Carreira,
Migrações nas Ilhas de Cabo Verde, Instituto Caboverdeano do Livro, com o patrocínio das
Comunidades Económicas Europeias, (C.E.E.), Mem Martins, 1983; Luís Terry, “O Problema da
Emigração Cabo-verdiana” in Colóquios Cabo-Verdianos, nº 22, Lisboa, Junta de Investigação do
Ultramar, Centro de Estudos Políticos e Sociais, 1959, p. 97-112; José Maria Almeida (org.), Découverte
des Îles du Cap-Vert, Praia – Paris, Archives Historiques Nationales (Cap-Vert), 1998.
xv
op. cit., p. 285.
xvi
op. cit., p. 26-27.
xvii
op. cit., p. 46.
xviii
op. cit., p. 101.
xix
op. cit., p. 245.
xx
Eduardo Lourenço, O Canto do Signo, Existência e Literatura (1957-1993), Lisboa, Editorial Presença,
1994, p. 303-304.
xxi
op. cit., p. 22.
xxii
op. cit., p. 217.
xxiii
Veja-se a entrevista dada a Michel Laban, Encontro com Escritores, Porto, Fundação Eng. António de
Almeida, s.d., I vol., p.195-203
xxiv
Gilberto Freyre, História da Sociedade Patriarcal no Brasil – 2, Sobrados e Mucambos, Introdução à
Decadência do Patriarcado Rural e Desenvolvimento do Urbano, Rio de Janeiro, Editora Record [1936]
1990, p. 119-122, e 144-145.

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xxv
Além do estudo já referido, publicado na Revista Claridade 8, Teixeira de Sousa publicou ainda o
ensaio “A estrutura social da ilha do Fogo em 1940” in Claridade nº 5, S. Vicente, Setembro de 1947 ,
1947, p. 2-8.
xxvi
Paul Ricœur, Histoire et Vérité, Paris, Éditions du Seuil, [1955] 1964, p. 296: “Il me semble que, si
l’on veut atteindre le noyau culturel, il faut creuser jusqu’à cette couche d’images et de symboles qui
constituent les représentations de base d’un peuple”.

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