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PDL – Projeto Democratização da Leitura

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Agradeço à amiga Martha Argel pelas dicas de impacto ambiental. Grande garota! Agradeço também a todos os leitores que entraram em contato via e-mail cobrando um novo livro. (Aqui está, gente!) Agradeço a todos que vêm lendo e comentando sobre os livros deste escritor para os amigos, parentes, professores e todo ser que anda e lê sobre a terra.

Beijão e abraços para todos. Este livro é dedicado aos meus tios: Negão (Zélio) e Del (Vandélio). Olhando de perto... nossa vida é bem feia.

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Capítulo 1
Abriu os olhos. O lugar estava escuro. Só isso sabia. Que estava num lugar escuro. Flexionou os dedos, sentindo e ouvindo-os estralar. Os braços estavam estendidos, rentes ao corpo. A garganta seca. As costas doloridas, como se tivesse dormido mais do que de costume. Precisava levantar e tomar água. Quis erguer os braços, mas estava fraco. Dor. Confusão mental. Onde estava? O estômago ardia e a garganta seca incomodava mais uma vez. Não estava em sua casa... Uma sensação estranha. Como aquelas de infância quando vamos dormir no sítio do tio e acordamos assustados de manhã, olhando para o teto, encontrando um cenário tão diferente do nosso habitual. Nessas horas a gente leva um instante para lembrar... Lembranças. Sentiu medo. Tentou levantar-se novamente, mas a fraqueza impedia. Sentiu espasmos musculares nas pernas e braços. Cãibras. Dor. Soltou um gemido entre dentes. Tentou pedir ajuda, mas a voz não saiu. O estômago queimava. Tinha alguma coisa espetada no braço. Uma agulha! Não podia ver, mas sabia que tinha uma agulha enfiada no braço. O medo novamente. Os olhos arregalaram e os globos dançaram nervosamente. Onde estava? Não era seu quarto! Sabia que não era! Não estava em sua casa! Respirou fundo repetidas vezes, com o peito subindo e descendo, parando de retorcer-se de dor e desespero por um momento. Tentava lembrar-se... mas não conseguia. Como eram os móveis em seu quarto? Não conseguia se lembrar de sua casa, mas sabia que estava longe de lá. Em sua casa não estaria com uma agulha espetada no braço! A mente clamou por calma. Tentava recuperar o controle da respiração. O coração batia disparado. Talvez estivesse amarrado. Por isso não conseguia mexer-se. Estava amarrado. Respirou fundo. Onde estava? Deus do céu! O que tinha acontecido com sua casa? O que tinha acontecido consigo? — perguntava-se atropeladamente. — Seqüestro? Doença? Onde estava a luz? Desespero. Os olhos começaram a lacrimejar intensamente, a ponto de ter lágrimas escorrendo pelos cantos dos olhos, descendo em direção dos ouvidos, posto que se encontrava deitado. Não conseguia nada além de flexionar os dedos doloridos das mãos. Os artelhos estralaram e também doeram na primeira flexão. Fechou os olhos. Abertos ou cerrados era indiferente. Nada tinha além da escuridão absoluta e do desprazer da consciência. Uma única coisa diferia com os olhos fechados. Uma ponta de segurança. O medo diminuía. Era como mergulhar num canto seguro. Imaginar proteção. Voltava a um lugar conhecido. Voltava para dentro de sua cabeça. O peito doía. Tentou lembrar-se da noite passada. O que tinha feito antes de dormir? O que tinha comido? Pizza da Tomanik? Um Tchê Filet? O medo voltava a crescer. Desespero. Não conseguia lembrar. Não conseguia. Não tinha memória! Não tinha vida!

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Despertou depois de algumas horas. Tinha tido um pesadelo horrível. Tentou levar a mão à testa. Realidade terrível. As mãos continuavam atadas à cama. E aquela dor aguda no braço. Algo na vena... vena? Não. Confusão. A palavra certa era veia, não vena. Dor de cabeça. Tossiu. Garganta seca e dolorida. Fome. Uma fome do cão. Uma fome dos infernos. Sede. Precisava de água. Puta merda! Dor nos músculos. Queria ficar de pé. Chacoalhou-se na cama. Um barulho. Passos. Um facho de luz. Fez um barulho. Um som gutural escapou da garganta... o que deveria ser um pedido de socorro soara como um resmungo. Precisava de ajuda. Calou-se. Conteve a saliva na garganta, evitou engolir. Pensou. E se aqueles passos não viessem de um amigo? Poderia ter sido seqüestrado. Podiam ser os pés do inimigo. O responsável por estar preso e com uma coisa espetada no braço. Os músculos doíam tanto. Não devia ter se chacoalhado. Agora tudo doía. Virou a cabeça e apurou os ouvidos. Passos e vozes. Eram dois ao menos. Fechou os olhos. Fingiria dormir. Talvez passassem por ele sem incomodá-lo. Precisava descobrir onde estava e o que fizera na noite anterior. Relembrar os últimos passos. Mas aí o medo voltava. O pavor. Não se lembrava de nada. Nada! Onde morava? O que fazia? Deus! Amnésia. Só podia ser isso. Não conseguia lembrar . Lembrava a droga do termo médico, mas não lembrava o nome do modelo de seu carro. Carro... Aquietou-se. Fuxicavam. Podia ter sido um acidente de carro. Falavam baixo para que ele nada ouvisse. Quem seriam? Aproximavam-se. Fechou OS olhos. Sabia que estavam parados ao seu lado. Fingir-se-ia de morto. Mas e se fossem a salvação? A resposta para as perguntas? Sentiu dedos forçando sua pálpebra. Abriam-lhe os olhos contra a vontade. Um facho de luz cegante. Explodiu num grito. — Falei que este aqui também tava. A mão forçou o olho mais uma vez. A luz encheu e queimou o globo. Um gemido em protesto. Um pigarro seco. Abriu os olhos. Dois homens com aventais brancos. O mais baixo anotava numa prancheta. O mais alto, de bigode, ajustava um estetoscópio na orelha e colocava o espelho frio em seu peito; na outra mão trazia uma lanterna. — Me ajudem... — gemeu a voz fraca do homem deitado e amarrado. Os homens pareciam ignorá-lo. Nenhuma palavra de amparo. — O que você acha que ele é? — Como vou saber? Ele acabou de acordar. Demora uns dias. — Ah... — exclamou o outro, como se fosse novo no serviço. O de bigode estalou os dedos junto ao tímpano do examinado. O homem assustou-se e virou os olhos para ele rapidamente. — Reflexos bons. Está ouvindo, pelo menos. Tem cada um. — disse, enfadonho. — Anota aí. O mais baixo obedeceu. O de bigodes olhou para o examinado. Fitou-o por uns segundos.

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— Sabe teu nome? Lembra-se de alguma coisa? O paciente meneou a cabeça negativamente. Engoliu a seco, semicerrando os olhos, atordoado pela luz. Deus do céu! Não lembrava nem de seu próprio nome. — Anota aí. — Me ajuda. — clamou o recém-desperto. — Onde estou? — Eles vêm te buscar em algumas horas. Tu e o outro. Vão explicar tudo pra ti. Tenta relaxar. Boa sorte. Quis reclamar, mas a voz não saiu. Os homens deixaram o lugar. O facho de luz desapareceu. Escuridão. "Eles vêm te buscar em algumas horas." Fechou os olhos. Respirava profundamente. Deixando o peito magro encher completamente e depois esvaziar até o último litro. O que estava acontecendo? Sufocou-se com um engasgo involuntário. Lágrimas descendo pelo rosto. Droga! Não lembrava do próprio nome.

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Capítulo 2
Acordou com barulho novamente. Passos aproximando-se. Fachos de luz dançando no seu campo de visão. Luz de lanterna. Fatores de risco. Pensava em fatores de risco. Tentou manter os olhos abertos. Alcoolismo? Ninguém era trouxa de preencher esse campo com um sim. Ano da habilitação? Família? Apertou os olhos. As luzes perto. Moveu a cabeça, estirando-a completamente para trás. A pele do pescoço tesa. O gogó saliente. O cabelo crispado contra o leito. Tentava ver quem vinha. Pareciam dois. Dois homens. Podia ver, de ponta-cabeça, a luz batendo nas paredes. Pareciam recobertas por azulejos brancos. Do chão ao teto. Um hospital? Só podia ser. Não ouvia vozes desta vez. Eles vinham em silêncio. Seriam os mesmos homens de antes? Possivelmente. Lembrou-se que o modelo era importante. O ano. As vezes, o modelo diferia do ano, então alterava o valor. Apertou os olhos. Por que pensava nisso agora? Modelo? Ano? Tinha que se concentrar nos homens chegando. Tinha que se concentrar. Duas lanternas em seu rosto. Não conseguiu manter os olhos abertos. A claridade incomodava absurdamente. Não eram os mesmos homens. Usavam os mesmos aventais, mas não eram os de antes. Eram mais altos e mais fortes. Usavam óculos grossos... óculos de segurança, todo feito em acrílico. E tinham máscaras para respirar. O paciente voltou a respirar rapidamente, aflito. Estavam tão protegidos, tomavam tantos cuidados... logo, só podia estar doente. Só podia ser isso. Tinham os olhos diferentes. Olhos verdes. Sentiu a cama ser deslocada. Era uma maca com rodas. Passou a deslizar pela sala. Podia ver outras macas. Deus! Sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Apesar da penumbra... podia estar certo. Pouca luz vazando do foco das lanternas, mas podia ver outros corpos! Mais gente... parecia gente morta. Quantas camas existiriam? Passou por dezenas. Dezenas. E a luz das lanternas era tão fraca, não conseguia ver muito, não conseguia ter certeza de muita coisa. Os olhos voltaram-se para o teto. Nenhuma lâmpada. As luminárias estavam vazias. Não estavam apagadas. Estavam vazias. A luz nunca chegava ali. Só por aquelas lanternas daqueles homens estranhos. Para onde estava sendo levado? Pigarreou, preparando a garganta seca e teimosamente dolorida. — Onde estou? Os homens olharam ligeiramente para o recém-desperto. Voltaram a prestar atenção no caminho. — Pelo amor de Deus, não me ignorem. — reclamou o homem, pigarreando novamente. — Onde estou? O que aconteceu comigo? — Não podemos falar. Ainda não é hora. — Só queria saber onde estou... por que não podem me dizer? — Você não está preparado. Calou-se.

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Depois a gente fala. não. Não falaram mais com o desperto. Apertaram um botão. sem aviso ou preparo. Um cômodo apertado esperava do outro lado. Dor de cabeça. Simples. Sensação estranha na barriga. Pelo amor de Deus! Só um gole.. Sede.. Sede e dor. Os olhos 9 . formando uma espécie de janela larga.. Sentiu a agulha sair do braço. O mascarado escolheu um deles. Gemeu. Pôde ver sua pele pela primeira vez. O corpo fraco. Estava agitado.. com paredes de cinco metros em cada face. Um pouco de sangue vazou na dobra interna do cotovelo esquerdo.. puxou a extensa agulha do braço do desperto. Um painel com oito círculos numerados. Os olhos arredios rejeitavam a claridade. O quarto de azulejos brancos de cima a baixo era amplo. Surgiram intercaladas uma luminária acesa e duas sem lâmpadas.. Por que tinham parado? O que era aquele botão luminoso. Vigorosamente iluminado. Girou os olhos. elevativo. Elevação. Viram o paciente girar os globos oculares em todas as direções. abrindo passagem. O estômago queimando. igualmente recoberto por azulejos brancos. se precisavam de máscaras lá embaixo. Se estava doente. com os olhos apertados por causa da claridade.Continuou sendo conduzido por um extenso corredor. Entraram com a maca. Dali em diante havia luz.. visivelmente doente. Quando passava pela iluminação mais abundante era obrigado a espremer as pálpebras. Uma das paredes comportava um vidro grosso. Barulho escapando detrás da porta. Agora era com ele. A maca foi conduzida até o centro do ambiente. deixando o recém-desperto a sós. Havia luz na sala toda. por que estavam tirando agora? O elevador abriu a porta novamente. Uma porta foi aberta. Sabia o nome daquilo. mas tentando ver tudo. — Eu vou morrer? Os dois riram. A cabeça parecia que ia explodir. Por que não lhe explicavam as coisas? Por que era assim? Piscou. com a cabeça girando para lá e para cá. Pararam. — Preciso de água. Os homens ignoraram. Estava indignado com o tratamento. Respirou fundo. O cômodo balançou. O barulho aumentou atrás da porta.. Estava doente. O outro libertava seus braços e pernas das cintas de couro que o mantinha imobilizado. Fechou os olhos. Os homens tiraram as máscaras. Impressionou-se com a magreza dos braços e a brancura da derme. Luz. sem parar de conduzir a maca. Um elevador. Mais uma vez a maca trafegou por um corredor. Estranhou. Um dos condutores. Podia ver seus ossos! — O que eu tenho? Estou doente? — Fica quieto que é melhor. não responderam as perguntas. Que raio de hospital era aquele? Que doença ele tinha? Por que não se lembrava direito das coisas? Os homens de avental e máscaras cirúrgicas penduradas no queixo saíram. O homem acordado soltou um gemido breve. A porta dividiu-se. elevador. Ele tentou levantar-se.

Olhou para a grande janela. Veio o enjôo. juntando-se à pélvis. Tocou o chão com a planta dos pés.. Um mês! Teria acontecido algo com sua cabeça? Acidente. Alterou o ritmo da respiração.. As unhas pareciam grossas e estavam mais compridas do que costumava deixar. Não conteve o suco gástrico que verteu ralo. Sentiu até mesmo o saco escrotal retrair-se abruptamente. A vista turvou. Acidente vascular cerebral. mas o lençol que cobria a parte baixa de seu corpo tinha sido levado com os carregadores de maca. onde mais pêlos negros brigavam com a alvura cutânea. Palavrão lembrava. quem era? Lágrimas molharam a face do homem. Impressionantemente empalidecida. Muita tontura. Exceto se. Estava nu. caindo no piso branco de lajotas azulejadas. Ele não se lembrava da própria identidade e isso lhe desesperava. Não tinha percebido por causa da claridade.. Ia vomitar. Ao menos três cortes em cada lábio. Alguma reação do corpo por colocar-se subitamente de pé. Apoiou-se no catre acolchoado e sentou-se à beira.acostumavam-se paulatinamente com a luz. Estava zonzo. Cambaleou e não se conteve. Viu adiante um catre preso por correntes finas à parede. Os pêlos negros sobre o peito pálido destacavam-se. Sentia-se fraco. esperando que o quarto parasse de girar e que os espasmos estomacais abandonassem seu corpo. Horrível. principalmente. da AVC. Via bolinhas flutuando diante dos olhos. Não estava bem. Queria entender o que se passava. A mão era pele e osso. não. Não em um ponto apenas. Que doença havia lhe acometido? Onde estava e. Tinha se lembrando de amnésia. 10 . inspirou fundo. Estendeu as mãos diante dos olhos. Teria sido envenenado? Como podia ter ficado tão mal de um dia para o outro? Como podia ter passado uma noite tão mal dormida? Não fazia sentido. A pele estava estranha. Deitou-se um instante na cama. deixando o tronco elevado. mas o nome. Choques nos nervos. Forçou a cabeça para frente. Tontura. mas não lembrava a porra do nome. Um frio intenso subiu pelas pernas. Os lábios tinham rachado com o esforço. Fazia tempo que não as cortava. Pelo menos a boca fora umedecida. Talvez. Não queria mais vomitar. Mal estar. sentando-se no fino colchonete da maca hospitalar. um calafrio ao imaginar uma terrível possibilidade. As costas doeram. Não conseguia se lembrar do próprio nome. O corpo todo gelou. A barriga afundava. Engatinhou até a parede. Sentiu tontura. Conseguiu apoiar-se nos cotovelos. Sorriu nervoso. Podia estar ali há uma semana. Exceto se não estivesse naquele hospital por um dia apenas. azedando-lhe o paladar e deixando a boca ácida.. Talvez. As unhas dos pés também estavam compridas e arroxeadas.

Vida: só experimentavam durante o dia. Muito medo. Adriano vestiu uma jaqueta jeans. Munição era um artigo valioso. Só relaxavam quando o sol nascia. Beijou a mulher que dormia e deixou a casa. às vezes. As coisas tinham que seguir em frente. O mundo era outro desde a Noite Maldita. Cercadas por muros altos e vigias noturnos. Dos monstros das trevas. Arrastando a mãe para as fortificações e fugindo dos malditos durante a noite. Não eram todos que as tinham hoje em dia. Deus! Sabia que a próxima missão não seria fácil. Essa era a vantagem de ser um soldado importante. Mesmo assim não dispensava armamento pesado deixado ao lado do leito. O próximo forte. protegiam-se como podiam. Mas tremiam quando o astro rei deitava no horizonte. Fechavam-se em comunidades como aquela. Um dos poucos soldados a conhecer o plano. como ficara conhecida a noite daquele funesto evento. Mas sempre tinha medo. Olhos abertos. O céu já não estava mais tão escuro. eles corriam pelas florestas. Temia. Aprendendo a se virar com os sobreviventes. Crescera como muitos da sua idade. com esse luxo. Trinta anos passaram-se desde então. Passou a mão pelo curto cavanhaque. Estavam chegando perto de uma nova arma para combater o mal noturno. Uma claridade fraca tornava-o roxo-alaranjado. Pegou a mochila colocada em cima da cama. Apesar do ar morno àquela hora da madrugada.Capítulo 3 Adriano retirou o capacete de cima da poltrona. fechavam-se. Precisava deixar Nova Luz naquele alvorecer. Um soldado bravo. Sabiam que a luz era a única defesa inabalável. Carina. Armas de fogo carregadas. independente de seus temores. Já tinha feito muitas cruzadas. Crescera um soldado. Adriano era um moleque na ocasião. Era um dos escolhidos. podia dormir a noite toda em paz. Tinha informações novas a levar. A escuridão era a chave que libertava o mal sobre a Terra. Nuvens cruzavam baixas e velozes. O mundo estava tão diferente que. Durante a noite. Um menino que queria aprender a andar de skate como o irmão mais velho. Faltavam poucos minutos para o nascer do sol. pelas 11 . O irmão que se tornara um daqueles malditos. Informações para o plano. durante as horas de sol. O pai caíra em um sono profundo e a mãe tornara-se uma espécie de louca. porque sabia o que acontecia quando as coisas saíam errado na estrada. Outro luxo. ainda dormia. A saída alternativa para derrubar os malditos da noite. era difícil de acreditar que se vivia no mesmo planeta. Muitas empreitadas como aquela. Uma jaqueta sempre era proteção a mais. Defendiam-se dos malditos noturnos. A esposa. Agora era peça importante na luta contra os noturnos. O irmão que nunca mais fora visto. Tinha a casa constantemente vigiada e. Durante as horas noturnas. o trajeto até São Vítor seria feito em motos. Teriam todo o dia para cruzar a estrada até a próxima cidade. Olhou-se no espelho e benzeu-se.

O chão de terra batida exalava um cheiro agradável produzido pelo evaporar do orvalho. por essa razão. Não havia mais eletricidade. Tomavam vidas. O soldado de Nova Luz trazia um saco de lona. com os dedos pressionando as pálpebras. o místico de São Vítor. Oito motos estavam em pé. Adriano 12 . Poucos tinham coragem de se unir à missão dos cavaleiros. Eles destruíam hidrelétricas. Tramavam. ampliavam a separação. com sede de sangue. Atacavam em bandos. Tomavam sangue. A chegada da noite era o terror dos sobreviventes. aceitavam o alistamento tanto de homens quanto de mulheres. Rodeou os companheiros e olhou para Paraná. Raros eram os lugares seguros. Os grandes centros não existiam mais. Choravam desesperados. buscando os vivos para deles tomarem a vida ou criarem novos escravos. Gaspar estava de cabeça baixa. Impediam que os sobreviventes se unissem. Adriano olhou para seu time. As estrelas perdendo o brilho com a chegada da manhã. Tinham medo. A rodovia começava imediatamente após o portão.. A força das criaturas noturnas crescia. Uma tarefa perigosa. do lado esquerdo. comiam a tecnologia conquistada. Era difícil acreditar naquele mundo. Durante as noites. pois era o que eram. com presas afiadas e compridas. uma fantasia tirada dc livros antigos. Apenas um novato. K se essa noite se repetisse. Selvagens. Meros sobreviventes. Paraná acionou a partida elétrica da moto. Eram bons homens. Com medo ou das criaturas noturnas ou de que caíssem no sono e não mais se levantassem. Estava rezando. Minavam as forças dos sobreviventes. Adriano fez um sinal ao homem em cima do muro. lado a lado. A cada alvorecer oravam agradecidos ao céu por estarem vivos. O asfalto esperava. olhos fechados. Eram agora como ratos acuados com medo de gatos gigantes. Adriano adentrou o pátio. Buscavam os adormecidos. Vinham para as comunidades e invadiam os recantos. Não havia mais telefonia.matas que tomavam as cidades antigas. Gatos insanos. Menos nuvens cobrindo o céu. era sempre recebido como um irmão. Lá os noturnos tinham se instalado. sobreviventes. dificultavam estratégias conjuntas. em cima da moto. Um soldado em formação. concentrado e movendo os lábios. Ligar as cidades. Não havia mais rede de computadores. enquanto prendia o capacete. Ao menos para a humanidade. loucos pela escuridão c com medo do sol. esperando por seus cavaleiros. Sabiam que daqui para o fim dos dias era assim que se sentiriam. Caçavam.. Continuar a comunicação. atravessando os muros fortificados. Queriam os adormecidos. eles destruíam estradas. por estarem sãos. E eram tão poucos os que se dispunham a cruzar as estradas que. Adriano olhou para a moto à direita. Para ser cavaleiro era preciso ter coragem. Não importava quão estúpido parecesse o iniciado. A cada anoitecer muitos sucumbiam à loucura. Ia também com ele a lista de nomes de parentes e conhecidos adormecidos nos porões do Hospital Geral de São Vítor (HGSV). Gente que escapou do grande mal que dizimou o mundo conhecido. com mensagens e alguns presentes de pessoas da fortificação para o velho Bispo. tinham medo de acordar feito malditos. de filmes perversos. Chamavam-se assim. formando gigantescos e perigosos covis.

Luz do sol. Uma satisfação quase masoquista em colocar-se em perigo. Uma moto esportiva. iriam atrás. O coração do "puxador" estava acelerado. tão cerrada e repleta de altas árvores que a luz tardava a penetrar e chegar ao asfalto negro. poderiam chegar a outros abrigos. Olhou para os sete acompanhantes. Era sempre uma aventura incerta percorrer a gigantesca distância que separava o lar fortificado da próxima vila protegida. o colega observava a mata com um binóculo. Adriano olhava fixamente para o soldado do muro. Tinham que comer chão e chegar na cidade destino. Oitocentos e noventa quilômetros até São Vítor. em fazer o sangue ser bombeado mais rápido nas veias. Nova Luz era cercada por Mata Atlântica. São Vítor. O medo sempre o colocava alerta.. um a um. Somente depois que ele cruzasse o portão. dando aos homens a visão tão costumeira que tinham do terreno imediato à cidade. trezentos metros a frente. Era um viciado nas estradas. Montou na moto e deu partida. A adrenalina sempre ia às alturas quando deixava Nova Luz para uma missão. Adriano colocou o capacete e repetiu o aceno ao guarda postado em cima do muro da fortificação. Os demais vinham mais atrás.respirou fundo. O vigia acenou. Sorriu-lhes. A vermelhidão persistia no horizonte. pedindo uma coisa: estrada segura. mil e duzentas cilindradas. escondidos pela curva. Do alto do muro o soldado fez um sinal positivo para o motoqueiro líder. mais quatro de seus acompanhantes. Diacho de posto isolado o que foram escolher para morar! Não poderiam parar. mas precisavam de caminho livre para chegar em São Vítor. Adriano soltou a embreagem e disparou pelo asfalto umedecido pelo orvalho. não existia outra fortificação naquela rota. Adriano era o "puxador". antes de dormir. Os soldados também ligaram os motores. a estrada estava livre. tinham durado. o ar ainda estava fresco e agradável. Com o sol recém-desperto. Os faróis das máquinas ainda eram mantidos acesos. Era um soldado. todos potentes. O portão começou a deslizar. Sabia que contra isso nada podia fazer. e a vida em risco. mas motos não cruzavam florestas. Checou o posto de vigia. Apertou a presilha da mochila que vinha nas costas e checou a bainha do facão preso à cintura.. correram atrás do puxador. cruzando a floresta. formando uma fila. Os oito cavaleiros aceleravam de maneira agressiva. Lá do alto. Guardou o rifle no coldre especialmente preso à moto. Uma gratidão expressa pelos hormônios quando colocava o corpo. Só assim para cobrir todo o trajeto sem cair no risco de ficarem na estrada durante as horas de escuridão. Um viciado na aventura. Mas sempre vinha aquela energia. Aquela energia que o fazia sorrir. Pelo retrovisor Adriano contou. Os motores roncaram e. Suas orações. antes do anoitecer. As paradas seriam escassas. Mantinham a embreagem puxada para que as motos não saíssem antes do motor esquentar um segundo. Folhas secas valsavam conforme a passagem feroz das máquinas velozes. Saindo da estrada. 13 . O tempo era tudo. A estrada estendia-se sob as sombras das árvores abundantes. ao menos. pelo menos. Ao menos durante as horas de sol não precisavam se preocupar com os malditos noturnos. uma hora e meia de intensa concentração. Um cavaleiro.

Mas não se lembrava de muitas coisas. enquanto uma ardência chata lembrava que tinha estourado os lábios ressecados... tinha desaparecido. O chão. Sentia-se engaiolado como um rato de laboratório. Pensava. Flutuava nas frações de lembranças quando notou batidas na porta.. Era outro. Cruzou o quarto. Estavam se revezando para vigiá-lo.. A boca estava seca e ainda recendia o gosto azedo do vômito. Pela primeira vez um sorriso brotou na face. parecia refletir em todo o ambiente. Então. de frente para a primeira. Agora. Sentia frio. Esfregou os músculos doloridos das coxas e dos braços e sentiu fisgadas nas costas enquanto olhava para o maldito colchão fino. Lembrava-se de algumas coisas. Parecia que o problema era esse. Olhou com atenção. Respirou fundo.. mimetizando-se às paredes. A sala de azulejos brancos continuava a fazer parte de sua realidade.. mais lúcido. estava se acostumando com a pele branca. vinham da porta de frente ao catre. vinda do teto.. existiam três portas. Não na porta de frente para a janela. Levantou-se. O endereço. Colocou a mão na boca. Um carro cinza veio-lhe à mente. três batidas curtas. Lembrava de árvores em frente ao prédio. Primeiro. Revista Veja. Uma televisão de 21 polegadas. acabaria louco. Anotando coisas em papéis. Uma ao lado do catre e a outra na parede oposta. atrás da grande janela. Lembrava-se da sala de sua casa. Encarou o homem que olhava atrás do vidro. 14 . O homem pareceu anotar mais alguma coisa. que fora deixada no meio do cômodo. onde tinha vomitado. chegaria ao corredor por onde viera. Tentava lembrar. mas não se lembrava dos nomes de todas as coisas. Sentou-se no catre. A última ficava de frente para a janela de vidro. culpado de tanto desconforto. Ainda nu. analisava melhor o quarto.Capítulo 4 Acordou. Lembrou-se de um comercial da Casa do Pão de Queijo. Sentia-se um experimento.. Um tapete azul. Eram todas brancas. Mal havia acordado e a sede transtornava-o. Qual era o nome daquele modelo? Esforçava-se. O homem que anotava ainda estava lá. depois de uma revista. Parecia uma jaula de hospício. Há quantas horas estava sendo vigiado ali? Mais de um dia? O estômago queimava. estava limpo A maca. morava em São Paulo. mas não se lembrava do nome da bendita rua. Novas batidas. não se enojava tanto pela própria aparência. Esperava sair dali logo. os nomes. passando aquela porta. Além da ampla janela de vidro. A luz forte. Achava que tinha entrado por ali. como os azulejos. se ainda não estivesse. Quando lhe dariam algo para vestir? Mais que cobertura. Reparou em outra coisa. Procurou acalmar-se. O engaiolado sorria porque se lembrava da expressão "rato de laboratório". Se ficasse ali mais um dia. mas não conseguia se lembrar do primeiro nome. de orelhões públicos. queria água. Já a palidez mórbida não o assustava. centralizada na parede. mas não se lembrava do nome da rua. Parou de divagar e voltou a examinar as portas.

ficando de frente para o homem. De repente. Ele sorriu. Que vergonha. Ana. Ele obedeceu. Olhava curioso para o teto. encostando-se à parede. a porta de frente ao espelho abriu-se. O homem anotava. Microfonia. — Vim colher sangue para alguns exames. Fechou os olhos por um instante. Depois de minutos intermináveis. Novas batidas.. Ele viu que a médica usava óculos de proteção. Foi até o grande vidro e encostou o rosto na peça transparente. 15 . silencioso. Parecia oca. Viu outro homem de avental branco do outro lado... Respondeu batendo com o punho contra a porta. A garra apertou e puxou seu pescoço e deixou-o colado ao azulejo frio em suas costas nuas. iguais aos dos homens que o trouxeram daquele lugar escuro. A luz fluorescente incomodava. Havia alguma porta de outra cor? Falador idiota... Ninguém entrou. Que era um vizinho.. A janela tinha se transformado. Era uma médica? — Bom dia. como se fizesse um esforço... Sua suposição era certa.. Assustou-se. Isso significaria que a pessoa que batia ao lado também era analisada. cobrindo o sexo com as mãos. pigarreou e pediu que a pessoa entrasse. agora em ritmo.. — Lembrou teu nome? — repetiu a doutora. O mesmo lhe observava.. respondendo aos batuques do outro lado. Ela era feita de metal. e foi até a porta. Afastou-se do vidro. Não poderia ficar excitado. Desses que escapam de alto-falantes. Procurava por outro homem observador. fazendo apertar as pálpebras. A boca da mulher. Estava preso.. ouviu um chiado vindo do teto. Um chiado agudo. Silêncio. viu seu rosto refletido no vidro.. Bateu mais algumas vezes. Aquele plástico. no entanto não se lembrava do nome daquele produto.. Sorriu. quase pôde perceber certa curiosidade no olhar do espectador.. Quando acabava de se deitar. achou-a bonita.. mas agora. O que era aquilo? Mais barulho e dois grilhões envolveram seus punhos. Se não ficasse imóvel e encostado à parede sufocaria. Sou a Dra. — Levante-se. tinha um nome. entre a cama e a porta branca. num espelho. gradativamente. Novas batidas. De onde vinha a voz? Seria o observador? — Encoste-se na parede. tentando ver mais à direita.Voltou ao catre e sentou-se. Ele a viu com o canto dos olhos. Uma mulher de bata branca entrou.. tinha lembrado quando viu aquilo pela primeira vez. Um irmão na condição. Ele olhou para o homem do outro lado do vidro.. Um barulho atrás da cabeça. então. — disse a mulher. Por que não abriam aquela porta? Olhou para o observador. um material plástico. Você já lembrou seu nome? O homem olhou nos olhos da doutora. Levantou-se. Estava pelado. Uma voz metálica. Só tinham portas brancas naquela droga de gaiola de merda. Depois de "vestir-se". Ela trazia uma bandeja metálica. mais uma vez. Voltou para sua cama. Obedeceu. Uma garra metálica enrodilhou seu pescoço.

. então tornou: — Quanto tempo estou internado aqui? Ana olhou-o demoradamente nos olhos. senhora. O homem ficou estranhamente quieto.. Ele sentiu uma fisgada no braço. Lembrei do meu carro.. Lucas.. virou a cabeça do rapaz. A doutora colocava agora um estetoscópio em seu peito. Seu sangue enchia um tubo de ensaio. já. A doutora sorriu enquanto amarrava uma tripa de borracha no braço do paciente. A médica retirou a agulha. 16 . — São Vítor? Não me lembro desse hospital. Aquilo confirmava suas suspeitas. — Ainda não é hora de falar disso. — Por que estou tão pálido. mas não lembro o nome do modelo. já cheio de sangue e também etiquetado. doutora? — Falta de sol. Tem muito fogo e fumaça pela frente.— Não. ruminando hipóteses. nem de nada. — Bem.. quase nada. olhando-a. Depois examinou os olhos.. Você tem que ficar nesse quarto por mais alguns dias até poder sair e saber toda a história. — É assim mesmo. — Você me chamou de Lucas. — Abra a boca. Lembro do nome de algumas coisas. Doeu? — perguntou com um sorriso. Realmente tinha um vizinho. Lembrei do nome do que são feitos os óculos que vocês usam. eu vou indo. mas agora eu esqueci.. Um calafrio percorreu seu corpo. nem do meu. — Esta cidade. doutora? — Vamos descobrir. O homem ficou quieto por um instante. Vamos ver esses exames primeiro. Parecia que aquela mulher estava com pena dele. já. Ana notou quando os olhos dele encheram-se de lágrimas.. Volto amanhã para te ver. — Não. Já tenho o suficiente. Não lembro dos nomes. — balbuciou o homem. segurando-o pelo queixo com a mão enluvada e examinou também os canais auriculares. — O que eu tenho.. Ele identificou alguma coisa naquele olhar. Ana examinou os dentes do paciente. viu outro tubo. Uma etiqueta numerada envolvia o tubo. — Pronto. — Que hospital é esse? — Hospital Geral de São Vítor.. Manipulou o tubo. colocando-o junto com o outro na bandeja. com o canto dos olhos. Sobre a cama. — Você teve enjôos? O homem limitou-se a confirmar com a cabeça. examinou a garganta jogando luz pela cavidade bucal.

do tipo que a faria ser chamada à sala do diretor. ainda emocionado pela revelação do nome. Ana tornou: — Pergunte. Olhou para o espelho.. como se fossem amigos de longa data. — Posso perguntar uma última coisa. Era bom quando eles lembravam sozinhos das coisas mais básicas. E prevenção.. — Por que vocês têm medo de mim. Lucas foi até o catre e deitou-se no colchão fino. Estava quase certa de que ele não era um deles. O empurrãozinho viria depois. Você vai acabar entendendo. ainda perseguindo a intimidade com a alcunha. Os grilhões libertaram Lucas. Quem era Lucas? Apertou os olhos. O nome repetido e repetido. Não era hora de ter lhe dito o nome. Ficou em silêncio. Lucas. Alguma simpatia pela palavra. O homem prendeu os lábios e passou a língua na pele fina. Depois de alguns segundos. tampouco como uma afirmação. As palavras saíram incertas. — Se eu puder responder. com intimidade.. Lucas. olhou profundamente para a mulher. Não dos graves. — Não é medo. Diferente dos outros. como querendo umedecê-los.. Tinha cometido um engano. Os olhos varreram o teto branco. — É esse o meu nome. Aquilo não soou como uma interrogação.. Silêncio nos alto-falantes. com a porta aberta. Ela procurava palavras. Os olhos dançavam nas órbitas. Ouvia agora o nome na boca de vários rostos. A médica saiu com a bandeja e a porta fechou-se automaticamente pelas suas costas." 17 . Não posso ficar aqui o dia todo. Ana? A mulher sorriu. Sua própria voz soando no arquivo de lembranças: "Prazer. aquele homem a tratava pelo nome. como se estivesse buscando no interior de sua mente alguma intimidade com o nome revelado. Ana? A médica ficou quieta por um breve momento.Ana ficou sem graça.. Lucas. Uma confirmação. Repetia infinitamente o próprio nome. Sabia que o observador estava lá. — Estou com sede. Lucas". Gente apertando sua mão e dizendo "Lucas". — Foi um acidente que me deixou assim? Ana já estava na porta de frente ao vidro. Suspirou. mas tinha pisado na bola. com lágrimas descendo pelo rosto. tentando afundar nas lembranças. Olhou de volta para o paciente preso. Mulheres falando "Oi. luz para um homem que não se lembrava do próprio nome. O homem cambaleou para frente. — Estou com sede! — gritou. Mas desembuche. A porta abriu-se. Ela olhou sem graça para o grande espelho. O homem. Não foi um acidente. porra! — falou mais baixo. Bateu duas vezes. — Não.

Tinha que aceitar. De uma identidade a se apegar na beira daquele precipício que o conduziria à loucura. Lucas. finalmente. Mas. 18 ."Qual é sua graça?" Tinha que se acostumar. voltara a ser dono de um nome.

avançava para a pista. o que consumiu mais tempo para transpor o obstáculo. Todas pareciam ter ido ao chão. Capazes de truques como aqueles ou piores. em mais de um sentido. Tudo para prender na estrada os que se aventuravam de uma fortificação a outra. distraindo um pouco o medo. Os animais cresciam e espalhavam-se naturalmente. Sem a interferência maciça da raça humana. gradativamente.. Nenhuma parecia ter sido derrubada pelos noturnos. um grupo de oito soldados não servia para o caçador ganhar prestígio no covil. Ainda tinham muito asfalto para comer até São Vítor. que transbordava à beira do asfalto. Excluindo aquelas que serviam de caça para fins de alimentação. afinal de contas. As novas e de tronco fino eram ceifadas e davam passagem para as motocicletas. Restavam cerca de trezentos quilômetros. com uma circunferência de quatro metros. Todos gostavam da voz do cantor do grupo que embalara muitos acampamentos na estrada. lutando exclusivamente contra seus predadores silvestres. em virtude das condições da estrada. Nem os homens. A bica formava ali um tanque cristalino. mas não chamavam tanta atenção quanto a Mata Atlântica ao redor. As pedras ao fundo podiam ser vistas. começava a desfiar seu repertório exclusivo de flashbacks para os parceiros de estrada. perversas.Capítulo 5 Já tinham ultrapassado a metade do caminho. Mas. Adriano enxugou o suor da testa. em razão de tempestades com ventos avassaladores. Alguém que tivesse vivido há trinta anos estranharia imensamente aquelas novas paisagens. Sinatra. donas das maldades. A voz de Sinatra era acompanhada pelo guincho dos macacos e o piar de vários tipos de aves. Apesar de pequeno. As motos estavam estacionadas no acostamento. O planeta todo sofrera gigantesca alteração nas últimas décadas. o lago era imensamente lindo. Eram lindas demais. Até ali já haviam se deparado com cinco árvores na pista. nem os malditos noturnos. Queriam que os incautos viajantes ficassem desprotegidos na noite. 19 . Adriano também tomou água gelada da fonte natural e abasteceu seu cantil. o que consumiria quatro horas. Sabiam que os noturnos curtiam sangue dos acordados. Um grupo de oito soldados servia de exercício. sentado numa rocha lisa. Tinha mais sabor. dos Titãs. onde existia uma grama rasteira que. aproximadamente. Não raro viam-se animais silvestres pulando entre as árvores. mas eles bem seriam capazes de plantar aqueles percalços no trajeto. destruidora. As aves voltavam a reinar no céu. Quitutes para jogos noturnos. Os soldados tomavam água numa bica natural. As matas e florestas voltavam com força.. que fossem presas fáceis longe dos conglomerados cercados por muros altos e vigiados por soldados acostumados a suas artimanhas. três delas eram imensas. interessavam-se pelas criaturas das florestas. caçando frutas que eram encontradas com fartura naquela época do ano. ouvindo Sonífera Ilha. Eram criaturas astutas. a Terra respirava aliviada e retomava sua exuberância com o passar dos anos. Sim.

encontrando o mundo de pernas pro ar. compondo o time básico de saída. Poucos recebiam detalhes ou sequer imaginavam que um time trabalhava em busca de uma solução definitiva. O novato chamava-se Marcel. O rapaz lavava as mãos na água fria. Sair e rezar para que não haja mais obstáculos pela frente. buscando um lugar menor. os adormecidos eram o alvo principal dos noturnos. Procurava saber mais do sujeito durante as missões. Um vento constante murmurava entre os galhos das árvores. Despertara dez anos atrás. Aquelas árvores no caminho tomaram muito tempo. Adriano aproximou-se deste último. — Já estou na reserva. dando uma cuspida na grama e secando a boca nos pêlos do braço. só mais um sabia do plano. Apesar de velhos cavaleiros. Uma "inteligência" formara-se na última década e. lugares abandonados onde ainda existiam adormecidos aos montes. durante as viagens. Seu rosto de feições juvenis e cheias de vida fazia com que aparentasse por volta de vinte anos. Gaspar sabia a razão da viagem. caso as predições do velho Bispo um dia falhassem. buscava criar uma estratégia para eliminar os noturnos em seus ninhos. Já vai dar uma hora. tentando crescer sem o conhecimento tanto dos noturnos quanto dos sobreviventes. ou buscavam invadir fortificações que serviam de postos de armazenamento e monitoração dessa gente inanimada. Dormiriam algumas noites juntos. disposto a colocar o pescoço em perigo em prol do grupo. Talvez fosse bom na luta. Os caçadores da escuridão buscavam Rios de Sangue. tornavam o sangue mais apetitoso. Mais demora e corremos o risco de ficar para fora. Apenas que crescera na Nova São Paulo e que há três anos tinha se mudado para Nova Luz. Estamos com o horário justo. Sim. não podemos deixar de parar no quarto posto. Lutavam. Vou colocar meu galão sobressalente. Muito amigo de Adriano e também um soldado extremamente experiente. Raul era um deles. Conhecia os papéis que Adriano carregava junto ao peito. Apesar de não saber muito do rapaz. Adriano pouco sabia dele. sorrateiramente. sabia que era boa gente e também pouco perguntava quando encontrava alguém disposto ao alistamento. Eram duros na queda. — disse Raul. — Temos que ir ligeiro. Adriano olhou para o novato.mais buquê. Haveria tempo mais que suficiente para entender se o novato dava ou não para o serviço de soldado. Que graça tinha em beber dos adormecidos? Mas. quando tinha dez anos de idade. 20 . E não eram fáceis de agarrar. uma arma letal. Adormecera na Noite Maldita. Dali para diante ficariam muitas horas juntos. Parecia calmo. Os papéis continham instruções para o chamado "Grande Plano B". Além de Gaspar e Marcel. fazendo barulho e salpicando a rodovia deserta como folhas que se desprendiam das copas. Os demais eram velhacos da estrada. — Vamos sair agora. Talvez viesse a ser um bom soldado. vinham mais cinco soldados. atiravam. com oito integrantes.

chamou-lhe. Adriano freou bruscamente. Adriano assobiou. Por isso. — Se não pararmos no posto. Não podiam perder tempo. benzeu-se e agradeceu a Deus por ter lhe dado olhos e faro de guerreiro. mas. reabastecidos. mesmo assim. mas. assustando o grupo. Teriam que parti-la. quebrando o mágico silêncio da mata. O puxador enrolou o cabo na manopla até o limite. onde ficava mais baixo num determinado ponto. Tinham muito chão para comer e muita reza para entoar. chocar-se-ia contra os galhos e o acidente poderia ser fatal. entregar os papéis e dormir o sono dos justos. não tem jeito. Se estivesse distraído. Por ter soprado em seu ouvido que precisava frear. Não era uma árvore de caule muito espesso. — Vamos agora. Tinham que estar em São Vítor antes do sol baixar. mas demasiadamente frondosa. o novato. Adriano tomou a liderança. Acabaram todos concordando. — juntou Paraná. Queria ter tempo de sobra. — O meu tá no fim. não chego. chamando a atenção do resto do grupo. Uma revoada de araras-azuis decolou do arvoredo próximo à piscina de água natural. 21 . Adriano apeou da moto irritado. Não podia se dar ao luxo de morrer antes de entregar os papéis e assegurar que mais um passo fora dado para acabar com aquelas criaturas que cultuavam a escuridão. benzendo-se. não sentir a urgência queimando sua cabeça.— Valha-me Deus! — retrucou o amigo. Se Deus quisesse. em duas horas estariam no posto quatro e as motocicletas e seus reservatórios sobressalentes seriam. retirando nervosamente o capacete da cabeça. Desejava do fundo do seu ser acabar com aqueles demônios sanguinários. E tinham de fazer o serviço com cuidado para não danificar nenhuma das motocicletas e prosseguirem viagem sem mais nenhum percalço. O sol ainda estava longe do horizonte. A árvore tinha galhos espalhando-se por toda a pista e acostamento. Os homens montaram nas motos e deram partida. — Vamos parar. Temos que parar no posto quatro. As máquinas eram potentes. ele já circulava o obstáculo procurando uma passagem. Depois era só chegar à fortificação. sabia que era necessário chegar com folga de luz à fortificação. Enquanto os outros estacionavam. portanto mais pesadas do que a média. a tarefa requeria tempo e despenderia esforço do grupo. Adriano já tinha retirado seu facão da guarnição quando Marcel. mais uma vez. fazendo a moto disparar na reta. Cada obstáculo daquele colocava cada vez mais a travessia em risco. — disse Adriano. Logo depois da curva havia um galho estendido no meio da pista. Dizia que podiam passar as motocicletas por cima do caule. como soldado experiente e vivido. Uma armadilha. Vocês também devem estar ficando sem combustível. puxando a fila de motoqueiros.

Como eram pesadas aquelas coisas! Muito pesadas. Depois. Marcel divisou o que seria o começo de uma ponte. afastou sua moto para o meio do asfalto e. evitar queimaduras. Chegavam a uma região elevada do planalto. veio a moto de Gaspar. Todo cuidado era pouco. sem poderem desfrutar das agradáveis paisagens e locais de imensurável beleza e encantamento. Pena ela estar tão distante. viu que muita gente lidava com uma moto por vez e percebeu que mais atrapalhava do que ajudava. Os homens passariam por ela a todo vapor. Sabia que os homens perderiam. É pena que tinham que correr o trajeto todo. principalmente faltava espaço. diria que estava fazendo reconhecimento de área. portanto a floresta tapava completamente o restante do cenário. Perdera a mãe e duas irmãs. para São Vítor. resolveu caminhar. Marcel terminou a curva. Viveram fugindo. Decidira alistar-se voluntariamente para ajudar o time que um dia daria um basta naquela situação. Sua bota estalava contra os pedriscos da estrada. Então. Correu em direção 22 . As horas de luz. Perdera incontáveis amigos em ataques sofridos pelos miseráveis sanguessugas da escuridão. como sempre. Conseguir vaga numa fortificação nem sempre era fácil. Trazia na cintura uma pistola. Marcel sentiu o sangue gelar nas veias. Motor irradiando calor. Certamente por causa das árvores no caminho. Sorte que todos usavam luvas de couro. A curva em que haviam entrado continuava. Continuou a caminhar.Os homens juntaram-se para erguer as motocicletas e atravessá-las por cima dos galhos. Mas alguém disposto a montar guarda nos postos externos. ávidos por alcançarem o posto quatro e zarparem. A paisagem. Marcel. sem paradas. Escapamento pelando de quente. Crescera fugindo daquela raça sanguinária. A reta pela frente era longa. O que era aquilo no meio da ponte? Seus olhos estariam lhe pregando uma peça? Só podia ser. mais quinze minutos até atravessarem os outros veículos. já do outro lado da estrada. O esplendor com que a Mata Atlântica desenvolvia-se chegava a invadir-lhe com o louco desejo de deixar a fortificação e fazer morada numa daquelas magníficas clareiras. algum maluco disposto a entrar na boca do leão. de tirar o fôlego. mas estava fora de cogitação aguardar que os motores resfriassem para fazer a operação. Tinham que se virar. mas trabalhar. era sempre bem-vindo e acolhido. onde passariam a ver a imensidão daquele mar verde estendendo-se até o horizonte. Estava no meio da pista. Comida e água não abundavam. Mas Marcel sabia que aquilo seria impossível. Primeiro passaram a moto do novato. ao menos. não teria tempo de chegar até ela e debruçar-se para observar o rio lá de cima. O sol atravessando a folhagem das copas e chegando em graciosos fachos ao chão negro montava uma imagem calma e preguiçosa. Caso alguém questionasse. buscando fortificações onde o trabalho da família fosse útil. curioso com a paisagem. Sabia que aquilo era veneno contra os Funestos caçadores noturnos e também servia muito bem contra os nulos. diga-se. E. O equipamento extremamente quente dificultava tremendamente o manuseio. Balas banhadas em prata. Não perder o precioso tempo.

Os homens mantiveram as armas nas mãos até o rapaz aproximar-se. pois conhecia a estrada de cor e salteado. outro dos soldados. escutando-o rolar no chão. mas a cara de Marcel preocupava. oriundos de zoológicos abandonados após a Noite Maldita. Marcel. colocaram-se de frente para a curva e sacaram suas armas. Os soldados entendiam a gravidade da situação..à plataforma. Seu rosto refletia todo o desânimo que era possível demonstrar. Não quero morrer na floresta. — Calma. por causa do susto. Joel. Pode não estar tão ruim como você pensa. Era coisa séria. Passavam a última motocicleta pelo tronco da árvore quando ouviram o som das botas de Marcel vindo pela estrada. um excelente guerreiro nas horas de aperto. pálido como um maldito noturno. Não vamos chegar a tempo em São Vítor. — Foram eles. Os homens trocaram olhares de apreensão. como Marcel. era um homem negro e forte. Adriano estacionou na entrada da ponte. — Puta que o pariu! Cambada de filhos de uma puta! — gritou Paraná. Marcel falava com dificuldade. — O que vamos fazer. Os homens partiram. Marcel estaria com a pistola pronta para atirar. O homem estava escondido pelas árvores que se erguiam na beira do asfalto.. Nunca chegariam a São Vítor antes do anoitecer. O rapaz passou a mão pelo cabelo encaracolado.. O silêncio da mata permitia ouvir longe. deixando-o sozinho na estrada. em virtude da corrida.. no escuro. A ponte não está lá. A diferença residia na idade. Novatos assustavam-se facilmente. Adriano? É meu primeiro trabalho. Eles destruíram a ponte. Talvez alguma fera selvagem em seu encalço. se fosse o caso. Marcel ficou parado. estava assustado. atravessá-lo com as motos seria impossível. Problemas. moleque. Um bolo formou-se no estômago. Deus! Adriano precisava ver aquilo. Sem a ponte. Viram o novato surgir na estrada. Até mesmo gorilas eram encontrados nas matas brasileiras. Raul estava estacionado no meio da ponte. Adriano. Os malditos noturnos. Entendia que Adriano só estava falando daquele jeito para acalmá-lo. na borda da seção destruída. Deixou o capacete cair de sua mão. — O que foi. Assim que conseguiram pôr a motocicleta no chão. — Calma. eclipsado pela curva que se estendia por mais de cinqüenta metros. Marcel? Se acalma! — A ponte. Raul montou em sua máquina e disparou pelo asfalto negro. Mas. Adriano. Sua pele negra ainda estava arrepiada. 23 . vamos ver a coisa de perto. — Que horas são? — perguntou Joel. sabia que a ponte logo à frente passava por cima de um rio volumoso. Seu rosto personificava a apreensão em pessoa. A população de onças tinha explodido sem a intervenção humana. arfando.

não ia ser nada bom. — Esperem aqui. Só de aventar aquela hipótese. A moto de Marcel chegava. E além dos papéis era responsável pela vida de mais sete homens. Adriano também estimava muito esse soldado pois era o que ficava mais calmo nas horas de maior pressão. mas. vinte metros abaixo. Caso fossem pegos. Os malditos são espertos.. também debruçando-se sobre a ponte e vendo a descida escarpada. Já estamos pra lá da metade do caminho. 24 . pelo menos. Eles virão nos pegar. já era. olhando para o rio. Há anos não se deparava com um faminto noturno. Também não chegamos em casa antes do pôr-do-sol. — Não dá tempo de construir essa ponte. Raul. preocupado. — disse. — respondeu Gaspar.. Temos que atravessar o rio. — Vamos voltar para Nova Luz então. E a queda é bem grande para arriscar. mas nosso grupo também é. Esta é uma ponte estratégica. cuide dos outros. desçam comigo. para facilitar um pouco. não havia árvores nas ribanceiras. Há anos não dormia fora de uma fortificação. — Cinco para uma. foi até à beira da parte destruída. Gaspar. Eram feitas de barro vermelho e moitas de mato. Adriano ainda estava agitado. Dava mais de trinta metros. — retrucou Raul. — E se colocarmos uns galhos aqui? As motos passam por cima. Marcel arregalou os olhos. já era do mesmo jeito. — Mas se a gente ficar aqui à noite.sendo o primeiro mais velho. — Cinco para uma. Isso aqui é uma armadilha! Ouvindo as palavras de Raul. — explicou Adriano. acompanhado da turma. A descida era bem íngreme. Temos que dar outro jeito. Gaspar. Vamos ver o que encontramos lá embaixo. Agitado. a pele negra voltava a se arrepiar. Não vamos chegar em São Vítor nem a pau. Tem também aquelas árvores na estrada. tendo cerca de trinta e cinco anos. — Não dá tempo. durante a noite. — Qualquer deslize. Gaspar. enchendo o ar com o característico ronco surdo. Joel e Raul. — Como vamos atravessar? Como vamos descer? — perguntou Marcel. Ficar com os papéis na floresta. debruçouse sobre o parapeito da ponte. quantos metros são? Adriano. Santo Deus! Era melhor que enfiassem uma bala na cabeça do que ficar a mercê daquelas criaturas. na mata. Raul voltou à seção quebrada.

Deveria estar no hospital nas mesmas condições. Vestiu a calça enquanto o homem de cabelos brancos e ondulados desviava o olhar. Andou até o espelho e mexeu no cabelo despenteando. tentando colocá-lo no lugar. — Qual o teu nome? — quis saber o vizinho. — E o teu nome? 25 . ressabiado. — disse o homem. — Você comeu tudo? — Comi. foi pego de surpresa quando a porta de frente para a sua cama abriu-se. Agora parecia sofrer os efeitos do desjejum. Talvez fosse também um protesto mudo. Lucas sentou-se e cobriu o pênis nu. Além da refeição. Mas até que o estômago parecia bem cheio. Buscava insistentemente a familiaridade que haveria naquelas cinco letras. Comido? Bem. Lembrou-se imediatamente das batidas naquela porta de metal. expor o corpo nu. O visitante vestia uma calça azulclara e uma camisa da mesma cor com as iniciais HGSV. o fato da mulher representar o ofício de médica fizesse soar mais natural a nudez. exibindo as costelas. Lucas. — Lucas. As unhas tinham as mesmas cores horrorosas que as suas. agora olhando-o diretamente. Deduziu que o homem sofria do mesmo mal que lhe afligia. Aí debaixo da cama. apontando para o estômago. — disse. — Tem uma pra você.Capítulo 6 Lucas sentiu uma leve tontura. Lucas notou que o homem também estava excessivamente pálido. Sobre o chão branco encontrou duas peças iguais as que o "vizinho" envergava. Estava magro. O homem aquiesceu novamente. para os que o mantinham cativo naquela cela de hospital. serigrafadas em letras grossas num tom de azul-marinho. — Você ainda está com fome? O cabeludo voltou a olhá-lo. — Tô morrendo de fome. Assustou-se quando viu surgir um homem de cabelos longos e grisalhos pela passagem. tinha se servido daquela sopa rala e insípida. Parece que está faltando alguma coisa aqui dentro. Talvez porque tivesse comido rápido demais. O cabeludo meneou a cabeça. Lucas não tinha se sentido tão nu quando Ana fizera-lhe a visita. Absorto nesses pensamentos. Talvez tivesse uns cinqüenta anos. Pôde ver pela abertura entre as duas salas um catre igual ao seu do outro lado da nova sala. Era bem mais velho. continuava a saborear seu nome. Talvez. Tinha alguém na sala vizinha. assentando os fios com as mãos. demorou a desviar o olhar e baixar a cabeça para conferir embaixo de seu catre. na tentativa de diminuir o desconforto da situação. Fome e sede. Tinha bebido toda a água também. Um copo.

Mulher bonita. acordei aqui. puxando o beiço novamente.. — Eu lembrei do meu nome.. Outras pessoas. com os braços e pés amarrados e somos tratados feitos ratos de laboratório. Acho que não era casado. como forçando a cabeça para lembrar. — Eu nunca ouvi falar nessa cidade. — Eles devem ligar pra casa. — respirou fundo e meneou a cabeça negativamente.. — Você não acha isso estranho? Gabriel não respondeu. Gabriel ficou silencioso. esticando-o e puxando-o para frente repetidas vezes. — balbuciou.. — Você era casado? Lucas ficou quieto. fazendo uma pausa e encarando mais uma vez o interlocutor. pensando. Acho que como você. digerindo a última revelação. O que estariam anotando agora aqueles observadores? Por que tinham juntado eles dois? — Você também está doente? — Doente? Não sei se estou doente. Depois. — Lucas estendeu o braço.. Parecia calmo. morena jambo. — A gente dormiu em casa e acordou aqui. Medo. mostrando o esparadrapo prendendo um pedaço de algodão. Um rosto surgiu em sua mente.. Havia uma mulher em sua lembrança. 26 . Gabriel sentou-se no chão de frente para Lucas. simplesmente. Lucas também se calou por um instante. Uma mulher. Ergueu os ombros. ela virá me buscar...— Gabriel. nem anteontem. — A médica veio tirar seu sangue? — Veio. Preso numa maca. — Eu não estou doente. Alguém que cuidava de mim. Mais rostos. mas eu tinha alguém. — lamentou o cabeludo. apesar da situação estranha em que estava envolvido. sim.. viu-se entrando em casa e abraçando a mulher. — Você lembrou teu nome? O homem balançou a cabeça afirmativamente. — Sem contar essa falta de memória.. Pinçou o lábio inferior com os dedos. acho que estou maluco ou tendo o sonho mais estranho da minha vida. continuando a ouvi-lo. — Sabe como veio parar aqui? — Não lembro de nada que fiz ontem. Não sabia se era casado. Mas não consigo lembrar do nome da minha esposa. Estou preso. São Vítor. Sentiu um calafrio. Isso. — Ana me disse que estamos no Hospital Geral de São Vítor. Não consigo lembrar de nada. com os olhos cerrados. olhando para o espelho. — Não sei. — disse Lucas.

Ficaram quietos por mais de dois minutos.. Não tomamos sol há muito tempo. a gente não conseguiria andar sem fisioterapia... Será que a gente está maluco? Lucas sorriu para o vizinho. mas eu não tinha pensado nisso. Os nossos estariam também. Que homem estranho! 27 .. Acho que estamos aqui há mais tempo do que imaginamos. passando a mão no pescoço. Lucas calou-se. Estamos brancos. Acho que no máximo estamos aqui há alguns dias. Não sabia responder. os músculos estão menores.. — Por que amarram os animais? Amarram quando têm medo. — E as unhas? — Remédios.. Parecia um bicho. Olhou para o vizinho. Ergueu os ombros. A gente está há muito tempo aqui. vendo no espelho que existia ali um fino hematoma. — Mas. acho que é alguma doença mesmo. por que não estamos barbudos? Lucas encolheu os ombros. isso se estivéssemos há meses numa cama. cara. Quanto tempo leva para ficarem desse tamanho? Meses. tempo que parece interminável numa situação como aquela. Depois de algum tempo Gabriel acabou levantando-se. Nossos músculos. — Não sei o porquê. — Tem outra. e podem fazer crescer mais rápido. Muito medo. Foi até o vidro espelhado. Deu uma volta pela cela de Lucas. — Medo? — Quando a médica veio. se fosse assim. — queixou-se Lucas. mas funcionam. Quando ele acordou precisou de fisioterapia. Uma vez um cunhado meu teve um derrame. O homem estava com a cabeça abaixada e os cabelos caindo por cima do rosto. — Apertaram minha garganta.... sem colocar sua camisa azul.. Pra eu não me lembrar dos meus últimos dias fora daqui... sabia? Gabriel meneou a cabeça negativamente. Lucas também se levantou. mas eles têm medo da gente... Gabriel olhava para as unhas dos pés. — Comigo também. Remédios as deixam dessa cor. Estão amarelas e compridas. Sentiu um calafrio. — Pode ser. Estamos magros e fracos. eles me prenderam antes dela entrar. reclamando de dormência na perna e dizendo que estava louco para voltar para casa e rever sua família.. meus braços. Olha a cor da nossa pele. os músculos estavam atrofiados. ficou quatro meses de coma. tanto tempo. Uma boa observação. — É. — Medo dos loucos. — Estou ficando com medo.. Olha para suas unhas.

Lembrar de sua vida. seus prediletos. nada de fast-food. talvez. Ele precisava de respostas. O rosto encoberto pelos cabelos. ver o que estava passando. Não lhe tinha feito nada. Queria ver suas coisas. sem respostas. O slogan da nova campanha da rede era: "Slow food and Relax. as vidraças eram grandes espelhos. Abriu os olhos e afastou-se dois passos. Não sabia o porquê. Rezava para que a doutora Ana aparecesse. tinha seu apartamento. e aquele ambiente branco. Precisava dar o fora dali antes de terminar louco como aquele vizinho cabeludo. Uma imagem. fazia perder a noção do tempo. Lembrava-se do carro. mas tinha amigos. pois voltava a sentir fome e sede e a lembrar de lanchonetes. mas uma crescente antipatia por aquele sujeito ia enraizando-se em seu coração. Em ambas as salas.. Depois cada um deitou em sua cela. Sabia que muito tempo tinha se passado desde a última refeição. Terno e gravata. pelas conversas que faziam lembrar o mundo lá fora. Nenhuma pessoa apareceu. A ansiedade aumentava em cada um deles. acentuado. O homem exalava um cheiro ruim. Levantou-se do catre e caminhou até a porta da cela do vizinho. As lembranças só aumentavam a ansiedade. Comer uma cocada. Antipatia nata. O desejo de sair daquela sala branca crescia.. Lucas não se lembrava de ter uma família para rever.. Lembrava-se que trabalhava. Não se lembrava exatamente o que fazia ou qual cargo ocupava.. mas ganhava bem. O homem inspirava repulsa.As horas avançaram e eles preencheram o tempo com conversas que traziam lembranças à tona. Queria ir ao shopping. mas esse era o fato. Gostava de cinema. 28 . Seu emprego. O sono veio. Apertou os olhos. Propostas. importado. Um carro bonito. Gabriel cochilava na cama. Fogo e fumaça. Sanduíche da rede Tchê's. Papéis. de norte a sul do Brasil".

o que aumentava as chances de um encontro com os noturnos durante a noite. sentindo certo asco por causa da impressão que o fundo barrento do rio lhe passava. Era largo. — Raul. é muito lamacento aqui embaixo. onde. Não encontrou nada. um pouco mais de estrutura para um combate. Uma travessia de quarenta metros. — explicou. A natureza tinha um poder impressionante. Adriano. a região exalava uma serenidade envolvente. Saltou de camiseta dentro da água. O rio descia tão vagaroso que suas águas pardacentas quase não faziam barulho. Tirou as botas. Veja se há alguma chance de passarmos as bichonas por aqui. Ouvia o barulho produzido por Joel e Raul. — Vamos atravessar o rio. descendo o barranco. — Vai você. Apesar da água barrenta e de não poder ver o fundo. Adriano examinou a margem. Como os soldados sabiam que os noturnos costumavam atacar certos pontos estratégicos das estradas. Raul voltava. conseguiriam atravessar as motocicletas a tempo de chegarem em São Vítor com luz do dia. rio acima.Capítulo 7 Adriano chegou primeiro à base da ponte. deixavam material para o contra-ataque em alguns trechos. — Acho que perdi minhas bolas! Que gelo! Joel riu. Assim. Revirou o mato em busca de alguma pista. Adriano caminhou até o barranco.. Ainda estavam longe demais de algum posto de observação. Um rio soberbo. a calça e a jaqueta jeans. Talvez uma balsa. veja a profundidade do rio na área. destruindo pontes e produzindo crateras no asfalto. mesmo em menor proporção que uma fortificação. 29 . mas é fundo demais pras motos. Mesmo com a correnteza suave. Adriano arriscou: — Acho que não é fundo. Apesar do problema que encaravam. Adriano procurava uma embarcação. Afundou até a cintura. ao menos. o barulho de alguém caindo na água tinha lhe chamado a atenção. seria tarefa de risco levar as máquinas. Viu-o cerca de duzentos metros. Não queria nem pensar na possibilidade de ficar na mata durante a noite. Procurou Raul com os olhos. teriam. elas afundariam no leito. O soldado continuava buscando uma passagem possível para as motos. A região era rica em cavernas. Vez ou outra podia ouvir as vozes dos homens lá em cima. Eu não sei nadar. E com o peso. soltando um gemido em protesto contra a água fria. — Não é fundo pra gente.. com algum esforço. Com ajuda de Joel vasculhou todo o mato na base da ponte e na margem do rio. estalando os galhos das poucas árvores que se erguiam ao pé do morro.

Preciso ver se agüenta. sangrando.. Adriano debruçou-se sobre a parte danificada da balsa. Já estava examinando com os olhos o achado. Adriano conseguiu remover uma rede coberta por mato e galhos que servia para esconder um amontoado de tábuas. Uma jangada. procurando manter-se aquecido. olhou para trás. conseguiram erguer um lado da embarcação. Adriano tentou mover o outro lado. — É uma jangada! Vamos conseguir atravessar! — vibrou Raul. Passou a revirar o terreno do lado oposto da ponte. — Precisa de mais gente. Com a ajuda do amigo. Adriano vasculhou uma touceira e um sorriso acendeu sua face. Era grande e pesada. arfante. Algumas eram pontiagudas e obrigavam a caminhar com mais cuidado. Ainda mais com a terrível possibilidade de ter de organizar o pernoite na mata. Não vai dar tempo de substituir essa corda e chegar a tempo em São Vítor. as vigas. que estavam na lateral da balsa. Tirou a camiseta e torceu. — Não vai dar para arrastar! É muito pesada! — reclamou Raul. As cordas pareciam velhas. — Não sei. obrigando-o a passar as mãos nos braços. Vamos dormir pra fora. Uma das cordas tinha rompido. Com o peso da queda. Um facho de luz escorria pela seção destruída da ponte. Um quadro sombrio. Raul vinha para ajudá-lo. Ferido. vindo colorir o rio logo abaixo. — Merda! — protestou Adriano. — Achei. Raul fez força de um lado. O cheiro do sangue atraía aquelas criaturas como as fêmeas no cio atraem os machos na mata. aproximando-se. Olhou para cima. Chegou à outra margem. pois tinham que atravessar.. Apenas em um trecho de dez metros. Raul. Não podia se ferir. — Vamos tirá-la daqui e colocá-la no sol. — Você achou? — perguntou Raul. — Estamos fodidos. Chances reduzidas de assistir a próxima alvorada. — Dá tempo de chegar ao posto pelo menos? Adriano balançou a cabeça. no escuro contra os noturnos. — As cordas estão podres. — Puta merda. soltaram-se e as ripas transversais desarranjaram-se. A água gelada quase o petrificou. tirando dela parte da água fria. longe de uma fortificação. Quanta munição você trouxe? 30 . a água não dava pé. Adriano voltou a ficar sério. Joel teria de superar seu medo. Ali havia mais grama e pedras no chão. obrigando os bíceps dos homens intumescerem. O vento que desceu pelo cânion esculpido pelo rio bateu em seu corpo. Ao ouvir braçadas. Arquejantes. Soltaram ao mesmo tempo.Levou quatro minutos para atravessar.

ainda é mais rápido que providenciar a ponte que você falou. — Deus do céu! A gente na mata.. — Vou precisar de todo mundo lá embaixo. Ele sabia onde estava se metendo. — Não pode pirar. Sabia que as coisas não estavam indo bem. Apesar da escalada não ser tão íngreme. passando a mão na testa. Torcia para que Adriano surgisse com uma solução. Pela cara de Adriano sabia que a situação não era a das melhores. dá pra quebrar um galho. cara. 31 . Chamou a atenção dos demais. Sem contar que a distância até o topo era longa e o esforço tremendo. foi quem percebeu Adriano aproximando-se. tem o novato. o terreno era instável. A água parecia ainda mais fria. Vai dar trabalho. Seria muito azar passar a primeira noite em missão fora de uma fortificação. — A gente pode cortar cipós também. Tragam suas mochilas. As cordas parecem estragadas.. Depois a gente desce as motocicletas. Quando o líder ficava calado era sinal de problemas muito sérios pela frente. Três caixas para a pistola. Vamos arrumar essa jangada.. ficar desprotegido durante a noite nunca era tarefa fácil. Sinatra. o soldado cantor. — Primeiro temos que consertar uma balsa que encontrei. mais dois municiadores de dezoito tiros. Marcel olhou para os amigos que já avançavam morro abaixo. Quem trouxe corda pode trazer. Ele vai pirar. Os homens apanharam as coisas e começaram a descida. até os mais valentes oravam fervorosamente. porra. — juntou Sinatra. Os pés escorregavam ou a terra cedia. Por mais experientes que fossem nas coisas da estrada. vamos precisar. Três caixas para a doze.. Agora aquela enrascada. Tem que ser homem. Fizeram uma roda em torno do líder. — Vamos prosseguir então? — perguntou Gaspar. Raul concordou com o líder e os dois voltaram para o rio. Tem que encarar. Fizeram a travessia em silêncio.— O de sempre. — Vamos chamar os outros para ajudar. — Prata? — Só a munição da pistola. Joel ajudou os companheiros a saírem da água. Caso fossem farejados pelos noturnos nunca mais veriam o sol nascer. Sabia que já tinham perdido tempo demais com árvores caídas no caminho. Levaram mais de cinco minutos para subir. Ouvindo a resposta. que conversavam animadamente. Adriano girou em torno de si mesmo. Até os mais valentes calavam-se. Cada qual remoendo seus temores.

sabiam que. executando coordenadamente as instruções de Adriano. começaram a trabalhar nos reparos. as madeiras. E continuar rezando. Que teriam de providenciar abrigo. Os braços trabalhavam rápido. Era fã daquela banda antes do evento. Tiveram de substituir as cordas dos dois bordos da jangada improvisada. Talvez. por mais que orassem. firmes e longe da podridão. Mesmo com sete homens lhe ajudando. As criaturas donas da noite. Todos sabiam que o sol trasladava inexorável. O sol não sabia ser o que regia a hora da vida e a hora da morte na face da Terra. Um clássico "pré Noite Maldita". Sinatra cantava Infinita Highway. Estavam todos calados. tinham conseguido colocar a balsa na água. Implacável. Quanto tempo mais perderiam para descer as motos? Quanto tempo levariam para atravessá-las. Parecia firme o suficiente. uma a uma? Uma por vez. o sol continuaria a mover-se. O destacamento de Nova Luz voltou a subir o morro. dos Engenheiros do Havaí.Juntos. Sabiam que as mãos deviam superar o desespero e fixar as madeiras umas nas outras. Joel sorriu quando a música lhe chegou aos ouvidos. era o único seco. Uma corda prendeu o barco. Ia permitir a escuridão. Rezavam para que aquelas velhas madeiras suportassem as motocicletas de mil e duzentas cilindradas. por causa do medo da água. Alguma sorte no final das contas. Sinatra conseguisse um bom contrato com uma daquelas imponentes gravadoras ou seria figurinha fácil no programa do Raul Gil. Olhavam-se e em todos os olhos encontravam a mesma coisa. Os homens. Os assassinos cruéis. Os caçadores de sangue. Dos noturnos. O sol não se abalava por nada. ignorados. corriam o risco de ficar sem o veículo. era dificultoso o transporte. pois a balsa e o bom senso não permitiam mais que isso. alheio às súplicas e à necessidade de mais tempo por parte daqueles bravos guerreiros. Pediu que erguessem a balsa. Pregando aflição aos homens que lidavam com as cordas numa frágil balsa na superfície iluminada do planeta. com isso chegavam perto das três da tarde. Apesar das péssimas condições das amarras. ao menos. com cuidado. Rezando para escaparem do olfato apurado das criaturas. Uma banda que fizera 32 . Ia embora em sua marcha contínua e inabalável. apesar da tensão geral. Ia libertar os noturnos. — Tragamos as motos agora. Circunstância. O cuidado com as amarras já tinha comido quase duas horas de sol. Depois que terminaram as amarras. Caso colocassem uma motocicleta em cima das ripas soltas. pareciam secas. Que teriam de correr na estrada. Enquanto subiam. Sinatra fez valer seu apelido e começou uma canção. Adriano comandou o teste. Devolveram o amontoado de madeiras ao rio. Joel. se o velho mundo ainda existisse. Pressa. O salvador tornava-se carrasco. Ele ia embora sem sequer notar a existência de oito soldados na margem do rio. Só trabalhavam. Com a balsa do outro lado do rio. Medo.

a gente podia saltar para o outro lado. muitíssimo tempo. — sugeriu Marcel. Vou fazer bom proveito delas quando os noturnos chegarem. olhando para os amigos que desciam vagarosamente metros abaixo. Não era um salto. Caminhou até a pista e olhou para a ponte. Precisariam de cinco homens para descer cada moto com segurança. Saltar pela vida. Vendo o hiato de perto. 33 . Mas talvez o recordista mundial não tivesse tido a mesma motivação que eles tinham com o sol descendo. Gaspar meneou a cabeça. Tudo tinha que ser considerado. no primeiro instante. Poderiam perder uma moto. Até mesmo uma maluquice sugerida por um novato. a profundidade não seria suficiente para absorver todo o impacto. Um deles ia controlando o freio dianteiro para que não fosse perdido o controle da operação. Minutos depois. — Impossível. ele era escorregadio e as motocicletas. Seria muito azar. De quanto seria o recorde mundial de salto com motos? Quarenta metros era muita coisa. quando atingiram o topo. — E se fizéssemos uma rampa antes do buraco na ponte? Estas motos são esportivas. Era um vôo. Era isso que ia na cabeça de todos. consideravelmente pesadas. Depois. Gaspar caminhou pela ponte. — Cê acha que eles vão encontrar a gente escondido? — Você acha que não? — Vai ser uma noite só. Isso ia consumir muito tempo. E. Loucura. Subir e descer aquele morro desafiador mais sete vezes. juntou-se ao amigo nos trechos mais conhecidos. Pensaram que em três seria possível começar a descida. Tinham que achar um jeito de fazer aquilo mais rápido. Em três não era possível. a coragem diminuía. Gaspar. Depois atravessá-las no rio. passava a mão no queixo. mas nem tenta para economizar tempo e vida. Sua munição. com o suor escorrendo em bicas e sem tempo para descansar.. daquela altura. chegando à beira do abismo produzido pelos inimigos. Oito motos.sucesso no Brasil inteiro e em outros rincões do mundo. a apreensão só fazia aumentar.. Oito viagens. Mas as motos continuariam inteiras quando batessem do outro lado? E se alguém falhasse? O rio não era fundo o suficiente para se salvar. Cerca de quarenta metros. Apesar da maior parte do terreno não ser tão íngreme. o que facilitaria enormemente a descida. Gaspar. Se quiser arriscar me deixa as suas coisas. seria como cair numa tábua. suas armas. a água lá embaixo não seria exatamente um colchão macio. Dois de cada lado e mais um atrás. ou um amigo. Mas era uma hora de desespero. Logo. Marcel. Quando o corpo batesse na água. começaram a estudar a melhor forma de descer os monstros metálicos. Apesar de ser possível descerem com segurança. fazendo força contra a descida para manter a moto equilibrada e fazendo descer sobre as rodas. Você é um cabra muito macho se tentar. Era uma idéia.

Trilhava a estrada com homens capazes de tudo para manterem-se vivos. É de partir o coração. Marcel. Pela salvação dos sobreviventes. mas ou é ela. um esconderijo seguro. em compensação. Outro calafrio. Se ela conseguisse. Depois a descida melhorava. mas. Inquietação. como? Já eram três da tarde. ganhariam muito tempo. era o terreno mais firme. Era bom de equilíbrio. Já ouvi cada coisa. Impossível! Tinham quase trezentos quilômetros pela frente. sorte a dela. Se ficarmos na rua. Aflição. mas. Gaspar voltava para o acostamento. Tinha que arriscar. oitenta por cento de chance de sermos encontrados antes do sol raiar. filho. Deus! Suor descendo na testa. Ainda estavam descendo a primeira moto! Deus! A noite chegaria e ainda estariam no pé da ponte. Só os primeiros dez metros eram escarpados. — Por quê? — Porque ela poderia estar "nos dias". O cagaço é de morrer nas garras desses perversos. Estava lutando por uma causa. Talvez fosse o melhor do bando. Mesmo com estrada boa acabariam chegando depois do pôr-do-sol. Gaspar sentiu um calafrio quando viu os homens descendo com dificuldade. então. filho. Morrer todo mundo morre um dia.. Ainda bem que não veio nenhuma mulher. ainda na metade do caminho. Mas agora sentia medo. Quando tem sangue na parada. filho. Tinha descido e subido aquele morro. Cultivava alguma esperança em encontrar um posto de observação. Teríamos que nos esconder uns dez quilômetros longe da mulher "de chico" e deixá-la sozinha.. No fundo do peito achava que conseguiriam chegar em São Vítor. Vai demorar. depois teriam que subi-las do outro lado. de onde podia acompanhar o progresso da descida da primeira motocicleta. filho. para manteremse longe dos noturnos. A rampa era loucura. Fechou os olhos. Mas. Mas eu não preciso dizer como esses bichos são. é cem por cento de chance deles nos acharem. — Não é medo de morrer. uma dezena de vezes. Coçou o rosto com a barba por fazer. se conseguisse o que pensava. Eles sentem nosso cheiro. Andou do acostamento para a pista. da pista para o acostamento. filho. Cê é novo no negócio. Tinha assumido uma responsabilidade quando se alistara. Olhou para o extremo oposto da ponte. talvez. — Sério? — Já tive que enfiar bala na cabeça de mulher chorando. Impaciência. Tinha ficado verdadeiramente feliz em poder ajudar o restante da Inteligência montada para combater os noturnos. Você os conhece tão bem quanto eu.— Azar e sorte se aplicam à gente. presa à uma corrente 34 . Estava apreensivo. Julgava-se um bom motoqueiro. difíceis. ou é a gente. A chave da moto em cima do peito. Marcel calou-se. Escutava o som dos pedriscos prensados pela bota. Todo aquele trabalho para descer aquelas motos. Marcel continuou calado.

dominou a motocicleta. Adriano largou a moto e desceu aos saltos para socorrer o parceiro. Corajoso. Doía quando respirava. Bravo. Gaspar abriu os olhos.prateada. Alguém lá em cima estava impaciente. Não era à toa que o amigo era o líder do grupo. lutando por equilíbrio. Cuidadosos. Montado na máquina. Estavam compenetrados quando ouviram o ronco do motor poderoso. num ato impensado. — Puta merda. o trecho mais inclinado. Sabia que tinha quebrado! Não estava bem. Ouviram o motor gritar quando a roda traseira girou em falso no ar. Os cavaleiros desciam em marcha lenta. Poeira chovia do céu. só de cuecas. Gaspar desviou. Tinham que chegar com a máquina inteira. Adriano crispou os lábios. Gaspar venceu os primeiros dez metros. O mundo estava de ponta cabeça. Mais pedras.. Estava cometendo um ato extremado em nome do grupo. Puta que o pariu! Que merda! Quase tinha conseguido. Freou. Sempre correndo para ajudar algum dos soldados. A poeira assentou. Gaspar arremessado sobre o guidão. O que pretendia o motoqueiro? Boquiabertos. Gaspar! O que te deu. O mais esperto. A moto arrastou-se sobre o barro levantando uma nuvem de poeira vermelha. Gaspar gritou e desceu o resto do barranco rolando. Tudo menos isso. Pedras. Ganharia tempo precioso. A nuvem de poeira descendo. Descia rápido. Desequilíbrio. arfantes. Ouviam o motor acelerando. Merda! Tinha quase conseguido. Tinha quebrado alguma coisa. Ouvia Adriano gritando. velho. Os pés descalços buscando o chão. atirando-se no ar e vindo bater no barranco. com as pernas estendidas. Raul também soltou a traseira.. Suas costas estavam ardendo Dor. A água já tinha secado completamente. dominando a moto reluzente. — Cê tá legal? — Quebrei alguma coisa. Gaspar. O ronco crescia e diminuía repetidas vezes conforme a manopla era impulsionada. descia Gaspar. como um vaqueiro no couro de um cavalo chucro. Uma moto em disparada. A moto desceu rolando. O pneu dianteiro travado por uma rocha. Dava esperança. Depois ouviram um ronco contínuo e crescente. montou no couro quente de sua motocicleta. Puta que o pariu! Tomara que não estivesse sangrando. Gaspar bufou. Avançava. tenho certeza. Ouviu cascalhos deslizando quando o amigo eclipsou o sol e parou sobre ele. Por que fez isso? — Fala logo! Estou sangrando. Faltava metade da descida. homem? — Estou sangrando? — Você é esperto. obrigando os três restantes a agarrarem a máquina com maior firmeza. Obstáculos. buscando equilíbrio depois de uma inclinação. 35 . atropelando o condutor. Aquilo era loucura. Problemas. Olhos ardendo. Sabia disso também. Estacaram. viram uma moto cruzar a borda do abismo.

Gaspar soergueu a cabeça. Vou ver o que a gente faz. Os olhos viram os gravetos enfiados na barriga. Merda. cara. O que o novato faria para deter Gaspar? Teria tomado um murro no meio da boca se tivesse tentado. aquele inferno de pedra. Apesar da pele negra. — Dois buracos. Gaspar tinha ferrado tudo. — Eu não pude fazer nada. Estavam condenados. — Desculpa. Tô fodido. aquela pedra. O amigo mais velho do grupo. Começou a bufar de dor e ansiedade... porra. Descansa. foi azar. Os três agarrados à motocicleta desciam metro a metro.Adriano deixou os olhos pairarem sobre os dois gravetos espetados na barriga do amigo. — Merda. — Fica deitado. Mais essa agora. chutando os pedriscos no chão. — Fica quieto um pouco. Ninguém era culpado em tentar salvar-se dos noturnos. Cê ta todo fodido. cara. Não iriam escapar daquele buraco com luz do dia na cabeça nem a pau. A cabeça do líder estava a mil. o novato tinha empalidecido. Marcel chegava ao pé do morro agora. Vamos ver se quebrou alguma coisa. 36 . Adriano afastou-se. Sabia que o desespero motivara aquela ação. irmão. Foder com tudo! Puto duma figa! Não encontrava jeito melhor para definir a circunstância. Adriano respirou fundo e olhou para os homens. Olhou para o morro.. Não podia culpá-lo de todo. Juro que conseguia. O cara é louco. Respirava com dificuldade. O companheiro que compartilhava o segredo do plano. Recupera o fôlego.... Adriano aquiesceu. passo a passo. Mas Gaspar tinha terminado de foder tudo! Não tinha expressão polida para extravasar. Três e meia da tarde. Mais essa agora! Queria esganar o amigo. Ia ganhar tempo pra gente. Raul voltava para ajudá-los.

Ainda mais ter de compartilhar o tempo com aquele cabeludo estranho. Ver o mundo. Foda-se. Um daqueles de seis tiros de canhão. Feito um bicho. Como se tivéssemos vivido vidas passadas ao lado daqueles supostos estranhos. Precisava saber. Mas alguma coisa tinha. Estranhou. Ficam quietos na cama. Lembrar-se da bíblia. Onde estaria? Onde ficava o Hospital Geral de São Vítor? Em São Paulo? Qual bairro? E o que mais atormentava era não descobrir quanto tempo estava ali. Ana. Lucas sorriu dos pensamentos. Terminou a sopa. Olhou para a colher de metal. Recapitulou suas últimas concatenações. O homem não tinha lhe feito nada. Ibirapuera? Moema? Piqueri? Queria voltar para casa. seus móveis. toda aquela maçaroca de maus pensamentos. Por que a antipatia crescia tanto contra o vizinho? Não conseguia entender. ou o disparo fora em sua cabeça? Lucas fechou os olhos e inspirou barulhenta e longamente. Talvez fosse um ex-presidiário. Por um segundo não se reconheceu. Por que ainda não lembrava das coisas? Tinha que falar de novo com a Dra. mais um prato da mesma sopa rala e um copo de água. A refeição resumia-se a um pedaço daquela espécie de broa. Devia seguir alguma religião. Fogo e fumaça. Se chegasse muito perto tomaria um safanão.. Antipatia imediata. Podia ser um daqueles psicopatas. Esfriou o fluxo de pensamentos. principalmente. mas. se visse suas coisas. como o amontoado de cabelos estava agora. Talvez devesse acordá-lo. Se aquele doente mental viesse para sua cela. tinha ouvido mesmo. antes de levantar-se. Caramuru. Vontade de ver uma janela. Ver onde estava. Talvez conseguisse retorcer a colher. torná-la pontiaguda. Fechou os olhos engolindo mais um pedaço de pão.. Quem era ela? Se fosse para casa. Para que se importar com aquele desconhecido? Nem sabia quem era o vizinho de cela. Tinha chegado em boa hora. Desentendimentos além vida. Ouviu um barulho. Por que tanta repulsa? Lembrou de uma sala de aula. Um ex-colega de escola. Às vezes. Tentava ver uma igreja.Capítulo 8 Lucas mordeu o meio pão que lhe fora servido. Porém. Lucas meneou a cabeça. Estava faminto e sedento. de vontade de sumir daquele quarto de loucos. A mesma impressão. Era religioso? Não se lembrava. veria o que era bom para tosse. o homem tinha comentado que estava com sede e fome também. Aquele cabeludo só podia ser um maluco. Algo como rojões. Explosões. sem dar trela ao prato de comida. Só de olhar para aquele amontoado de cabelos dormindo crescia uma irritação desconcertante. somos acometidos dessas coisas. Ligar para aquela mulher que aparecera em sua cabeça. Um rosto. sendo ali um hospital. Gabriel não perdia por esperar. levantavam-se como loucos e saíam estrangulando meio mundo. A sede era o que mais incomodava. Talvez um maluco qualquer. dc repente. era tratado daquela forma. suas 37 . Olhando através da porta aberta viu que Gabriel continuava dormindo. Queria ver uma janela. Estava cheio de dúvidas e. Só podia. desistiu. Caramuru? O que significaria isso? Os rojões. Só não entendia por que.

. lembrar-se-ia dela. Devia estar vivendo à base de remédios. senhor. Gabriel não acordou com o grito. entre a cama e a porta branca. Uma garra fechou-se no pescoço. Lucas sentiu 38 . — Fique de pé. Lucas levantou-se. Estava agora tendo um surto de lucidez. Lucas resistiu. Um manicômio para desequilibrados. batendo no vidro. Era isso. Quero ver lá fora. fazendo estardalhaço. Homem idiota. seu escroto redundante! Só tem porta branca! Filho da puta! — Encoste-se na parede. — Aqui só tem porta branca. Estava ali há muito tempo. O desgraçado dormia despreocupadamente. afastado da sociedade. Como ele conseguia? Lucas deixou um olhar insano abater-se sobre o vizinho.. Vamos ajudá-lo. nem mesmo a marca natural que se desenvolve com o uso da aliança. Queimam nossas lembranças. Levantou-se irritado. Um doido varrido.. Queria acordar Gabriel.fotografias. Olhou para o dedo anular esquerdo. — Por favor. com as costas nuas tocando a parede.. Foi para perto do vidro espelhado. Devia ser isso. Devia estar de pé para poderem unir forças para escapar dali. Ficou segurando a mão esquerda. Uma amiga. E Gabriel dormindo. Seria ela sua irmã? Seria ela sua namorada? Casado não era. pois quando decidiu ir até o catre de Gabriel a porta que unia as celas foi fechada rapidamente. Ela podia ser sua irmã. Quero olhar por uma janela. Encoste-se na parede. passando o dedo sobre a falange do anular. Assustou-se quando a voz metálica invadiu a sala. Estava chorando. Sentado na cama. Merecia estar trancafiado. — Quero ir embora! Vocês estão me deixando louco! Lucas apanhou o prato metálico e arremessou contra o vidro espelhado. relembrando coisas. Como podia dormir?! A sala estava tão quente. Estava agitado. Era um hospício. Queria espancar o vizinho. Não era casado. Lucas voltou ao vidro. Matar o desgraçado. Passou a mão na cabeça. como um zumbi. Deu uma volta pelo quarto. Alienado. Encostou-se nos azulejos brancos. — Fique de pé. como se merecesse estar ali. parecendo normal. Lucas. senhor. — Quero sair daqui. entre a cama e a porta branca. Teria alguém do outro lado? — Quero uma janela! — gritou. Queria matar o vizinho! Estava louco! Aquilo não era um hospital comum. Fique em pé e encoste-se na parede. Frio na espinha. Tremia. com uma colher e uma faca na mão. Estava doente da mente. Os remédios fazem isso. fechou os olhos mais uma vez e tocou a testa no joelho. lembraria de mais coisas. Lucas bateu contra a folha metálica.. — murmurou. Estava fora de controle. Iria acordá-lo! Os malditos homens atrás do vidro pareciam ler seus pensamentos. Como da primeira vez. Caiu no chão. Por que queria matar Gabriel? Era isso. Não tinha anel nenhum.. um barulho surgiu atrás de sua cabeça. senhor. obedeceu.

Quero saber onde estou. Precisa passar essa fase primeiro. Por isso que seu quarto está tão quente. Só o tempo vai lhe dar respostas. Daqui a pouco anoitece. Já servimos água e sopa.. Eu não queria matar o Gabriel.. — Já está terminando. Vocês dois precisam passar por isso. Lucas. Passou o algodão em outro lugar. Grilhões prendendo os punhos. 39 . por favor. Ana passou um algodão embebido em álcool no braço direito de Lucas. Estou em São Paulo? — É dia. cumprindo mecanicamente seu trabalho. quase loiros. Sua mão vacilou sobre a bandeja. Soltou a seringa que a mão em luvas brancas de borracha tinha apanhado. — O que estão fazendo comigo. Lucas. Era um escravo da instituição. Não me mate. me dá uma informação. Ela tinha os cabelos em tom de areia. Lucas. doutora? Quero entender minha condição. A médica ficou muda um instante. — Que fase. Ela aproximou-se com a bandeja metálica. mas não diz nada. Que dia é hoje? Que horas são? É dia. Assim que o paciente obedeceu viu uma veia intumescer. O que o sangue lhe mostrou? O que é que eu tenho? — Nada. Depois passou uma borracha pouco abaixo da axila. Me diz uma coisa. Tudo vai ser explicado. Lucas.. Tinha lágrimas descendo pelo rosto. — Eu quero olhar por uma janela. doutora. Você não vai comer mais nada. Eram cinzas.medo. Quatro da tarde. — Tudo o quê. Você precisa descansar. Sempre gostara daquele tom de olhos. enquanto a agulha despejava a medicação dentro do corpo do paciente. Não sei onde estou. mas essa fase precisa passar.. A porta principal foi aberta.. Iriam matá-lo. Lucas reparou nos olhos da médica. A gente vai te contar um monte de coisas. Só vai beber mais um copo de água. — Durma um pouco. Como fora tolo em encostar-se na parede. Lucas. Ana surgindo. Por isso que você está tão agitado. Por que fiquei louco? — Você não está louco. Está passando por uma fase. Ela era linda. é noite? Preciso me situar. Injeções. Seus olhos e gestos perderam o ar mecânico com o qual entrou na sala. Iam matá-lo. como o de uma máquina. sou um homem perdido. Viu a Dra. fala. Tenha calma.. Seus olhos pareceram ausentes. Não tem nada. doutora? O que está terminando? — O processo. Encare dessa forma. — Não me mate. Eu não sou um lunático. A médica parou na frente do paciente. — Feche a mão. — Quatro da tarde? Por que o Gabriel está dormindo? Como ele consegue? Está um calor. — A senhora fala. É uma fase que está acabando. doutora? Por que eu estou aqui? Ana pareceu compadecerse. prendendo a circulação.

Lucas. não conseguiu se manter de pé. Tinha o olhar triste. — Doutora. Não alcançou a cama. por favor. Durma um pouco. Lucas aquiesceu. doutora? Por que têm medo de mim? Eu sou um psicopata? — Não Lucas. — Quem são eles. sufocava. 40 . Cada um reage de um jeito a essa fase. A garra apertada sobre o pomo de adão lhe engasgava. Ana afastou-se do paciente. Apagou no chão frio. Precisou inspirar fundo. Tenha calma. Não diga mais nada.— Ele está cansado. deixe o quarto. — Você vai ter as respostas em breve. Estava zonzo. A droga que circulava em suas veias era poderosa. Lucas tentava olhar para o espelho. Deixe a sala imediatamente. — ordenou a voz metálica. — Doutora. Com a calça azul e sem camisa. Quando os grilhões foram soltos.

O amigo gemeu e protestou. Sabia que Adriano ia tentar minimizar os ferimentos. talvez. Não era médico.. Adriano tirou um pano da mochila e limpou as feridas do amigo. Retirou um estojo. Tinha que se preocupar em construir um abrigo para a noite. Olhou para os homens. Se Francis estivesse com ele. Enrolou as bandagens com firmeza. mordendo-o firmemente. Aquilo não era bom. Com a mesma frieza arrancou o segundo. mas pareciam profundos. soltaram Gaspar. Rezar para que parasse de sangrar. Provavelmente tinha atravessado a pele. Rezar para que Gaspar não morresse até o nascer do sol. Os homens estavam em volta. Olhou para os soldados. parecia não estar pronto para ficar de pé sem ajuda. Gaspar contorceu-se. Gaspar ainda arquejava. o sangue esvaía pelas bordas das lacerações. os músculos abdominais e afundado para dentro. — Eu consigo. do corpo humano. Levar um homem ferido não era fácil. O tempo correndo. Aos poucos. O sangue jorrou abundante. A cada respiração. Novamente lembrando do tempo. esmagando o máximo que podia o graveto nos dentes. formando uma faixa de um palmo. Adriano balançou a cabeça. Mais sangue escorrendo pela barriga. Estavam com os semblantes preocupados. Tinha que pensar nisso agora. Lavar essa sujeira toda. Vasculhou a mochila e apanhou gazes. Adriano notou que o ombro direito do soldado estava bastante inchado e que filetes de sangue também corriam nas costas esfoladas. o ferido tivesse melhores chances. Todos silenciosos. afastando os braços de seu tronco. Costurou os pequenos cortes para bloquear o sangramento.Capítulo 9 Adriano deu um graveto para Gaspar. O subir e descer da barriga bombeava sangue para fora. Estava fazendo a coisa certa? Era bom quando tinham um médico no grupo ou alguém que entendesse de medicina. 41 . Nenhum médico no grupo. Ainda mais com esse novo contratempo. Gaspar colocou o graveto entre os dentes. O único barulho existente era o som da água descendo e dos gemidos intermitentes do velho soldado ferido. Só tô um pouco tonto. Pediu que levantassem Gaspar e o apoiassem pelas axilas. Com um golpe só arrancou o primeiro pedaço de galho. Pode deixar.. Os buracos eram pequenos. — Vamos levá-lo ao rio. Deixe-o tentar andar sozinho. ia doer. Os fios de sangue estavam marrons. Agulha e linha. Dois pontos em cada abertura. Adriano via dois gravetos cravados no abdome firme de Gaspar. Tinha que dar abrigo para os guerreiros. pois o corpo de Gaspar estava coberto por bastante poeira. Não traziam anestésicos. Estaria sofrendo uma hemorragia? Passava uma artéria importante próximo ao umbigo? Não conseguia lembrar.

me larga aqui. tentou aproximar-se do rio. Adriano o acompanhava. Adriano limpou a ferida com uma gaze. lavada de sangue. Adriano. Procurou pelo graveto mordido. Agora estava com aqueles buracos na barriga. cara. cara. Procure descansar um pouco e ver como reage. limpou e refez a corrida até o parceiro. Gaspar. Eu sei. Era melhor poupá-lo de esforços. que não emmm. — Seu joelho. Me descola um trago. Vou ter que costurar isto também. Os outros começavam a subir o morro para trazer mais uma das motocicletas. Não dava. Olhou para trás. Apoiou-o pelo braço para conduzi-lo até um gramado banhado pelo sol. Tinha que trazer gasolina. Sei até no que você está pensando. — Só mais essa. É melhor do que ficar sangrando e virar isca de noturnos. colocando o graveto na boca. Adriano olhou calado para a ferida. velho. — Não molhe o curativo. Gaspar tinha a perna. Precisava fechar aquela ferida. quando Adriano assustou-se mais uma vez ao olhar para o soldado. com dificuldade. — Mmm.. Que besteira! Droga de pedra! Tinha quase conseguido.Gaspar curvou-se e. deixou o corpo escorregar pela beira do barranco. Eu não agüento mais. — Não vou conseguir. bem no joelho. Começou a 42 . — A gente não trouxe cachaça.. Estavam no meio do caminho. Chegaram ao gramado e Adriano deitou o amigo. Olha o tamanho desta merda. Ele tinha batido aquilo numa pedra e a pele não tinha suportado. já tá doendo pra caralho. Gaspar fechou os olhos e respirou fundo. Dava repugnância. Um corte extenso e também profundo. caindo na parte mais rasa do rio. A seco não vai dar.. mancando. apontando para o corte aberto no joelho. entre gemidos e arrastamento de perna. Toca o barco com os caras. O líder estendeu a mão para trazer o soldado para fora da água. Temos que ver se esse sangue pára de vazar. O corpo doía. — reclamou. — advertiu Adriano. Gaspar parou para olhar. Um rasgo. não chegando a molhar as bandagens. não pinga.. Pegou o estojo mais uma vez. Correu até onde tinham juntado as mochilas procurando pelas bandagens oferecidas pelos companheiros. — Morde isto aqui. — Merda! Puta merda! Sabia que tava doendo demais.. — Lave os braços e vá deitar no sol. — Vou ter que tomar um trago. senão não sei como vai ser a noite. Gaspar. porra. — O que é esse treco branco? — Acho que é sua rótula.. — Eu sei. — Porra. cara. — Quem você está querendo enganar? — resmungou o ferido. da altura do joelho para baixo. A gente toma um bagulho quando chegarmos em São Vítor. Você não pode ficar sangrando.

costurar, com o joelho semi flexionado e tendo de forçar para a pele se juntar. Gaspar gemia, mas evitava mexer no ferimento. Estava agüentando. Adriano não podia esquecer de pedir um novo suprimento de analgésicos injetáveis para a Dra. Ana no Geral de São Vítor. Depois de dar os pontos, cortou a linha do carretel e enrolou faixas na altura do joelho. Gaspar parecia estar mais calmo ou ter desmaiado, uma vez que estava extremamente quieto e de olhos fechados. Como o homem respirava, Adriano não o fez acordar. Deixou Gaspar para trás. Não podia parar também. Um homem a menos já era muita coisa, que dizer dois... Colocou-se morro acima. Os homens desciam com mais uma motocicleta. Só vinte minutos mais tarde, com seis homens descendo a motocicleta é que parou para examinar a de Gaspar. Ela estava com os retrovisores quebrados, a carenagem danificada e mais uns tantos arranhões. Colocou-a de pé e deu partida. Pegou na primeira. Ao menos parecia boa para rodar. Baixou o apoio e deixou-a de pé junto às outras duas. Faltavam cinco. Olhou para o céu. O sol descendo, já próximo das árvores. Olhou ao redor. O vento frio se intensificando. A noite não tardaria chegar. A voz de Sinatra puxando mais um hit do passado chegou aos ouvidos. Era impressionante como aquele cara conseguia manter a calma nas horas mais complicadas. Por que Gaspar não estava ajudando a descer a primeira moto ao invés do Sinatra? Sinatra não teria pulado como um louco lá de cima? Não teria. Teria cantando mais um sucesso das bandas desaparecidas após a catástrofe, uma do Barão Vermelho, do Aerosmith ou do Plantação. Não teria descido aquele morro e acabado todo estropiado feito o Gaspar. Enxugou o suor da testa com os pêlos do braço. — Não subam ainda. Vamos encontrar um lugar para passar a noite. Os homens encararam-no silenciosos, como que recebendo a confirmação dura do que não queriam ouvir. Passariam a noite na estrada. Passariam a noite expostos aos vampiros. Os malditos noturnos. — Vocês três, procurem deste lado do rio. — disse, Adriano, referindo-se a Joel, Raul e Paraná. — Vou com o novato e os outros procurar do outro lado. Estejam aqui, impreterivelmente, em quarenta minutos. Sinatra, Marcel e Zacarias atravessaram o largo rio a braçadas rápidas. O líder Adriano era o que demorava mais, pois levava o facão amarrado na cintura e também tomava cuidado com duas armas de fogo. Essas expedições inesperadas invariavelmente eram entremeadas por surpresas, quase sempre desagradáveis. Os últimos anos tinham dado vigor à mata. Não era difícil deparar-se com onças ou matilhas de cães famintos e raivosos, oriundos dos grandes centros urbanos abandonados. Perigo era o que não faltava. Até mesmo o novato sabia o que estavam procurando. Um abrigo... isso significava que tinham pouco mais de vinte minutos para localizar uma pequena gruta, ou algo que os mantivesse protegidos e cercados, para tentarem sobreviver aquela noite. Uma manilha larga, um cômodo escavado por sobreviventes, qualquer coisa. Sobreviventes do passado faziam aquilo.

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Escavavam cômodos nos morros. Faziam paredes de pedra com uma pequena abertura para o interior. Em geral, esses cômodos perdidos nas florestas tinham uma única entrada, um único caminho para serem atacados e defenderem-se durante a noite. Caso um noturno encontrasse o abrigo, dificilmente você escaparia vivo. Mas, se quisesse tentar, teria de estar acordado. Por isso convinha que uma sentinela passasse a noite toda acordada e, se você estivesse no relento sozinho, nem pensar em cochilar. Os vampiros eram ardilosos. Chegavam sem barulho. Eram caçadores eficientes. Assassinos rápidos. Vinham do céu, pelas árvores. Macacos do inferno. Pisavam nas folhas secas sem que elas estalassem. Muita gente morria sem se dar conta de que caía nas garras das criaturas. Zás... uma garganta cortada. E os bichos da noite alimentavam-se daquilo que jorrava das artérias. Sangue vivo. Sangue humano. Diziam que podiam até subsistir com sangue de outras espécies, mas também diziam que não era a mesma coisa para eles. O sangue humano era mais saboroso. Mais poderoso. Farejavam no ar, a centenas de metros de distância. Um sangramento durante a noite e pronto. Estavam ferrados. Eles viriam. Tão certo quanto o pio da coruja. Diziam também que os vampiros caçadores, os que saiam para as florestas durante a noite em busca de sangue fresco, eram os piores. Os caçadores eram mais fortes. Mais violentos. Eram os noturnos mais preparados. Conheciam as matas. Conheciam os esconderijos. Eram os que derrubavam árvores na estrada. Colocavam explosivos nos caminhos. Sem contar as armadilhas. Armadilhas perfurantes, que faziam a vítima sangrar. Faziam a vítima deixar um rastro. Caso o azarado tivesse que dormir na estrada, estava acabado. Diziam que os vampiros mais fracos ficavam nas tocas, nas cavernas, nos túneis gigantescos, que abrigavam uma população daquelas criaturas. Os noturnos tomavam as velhas cidades desabitadas. Contavam que a extinta cidade de São Paulo abrigava um sem número de tocas e tribos, pois os noturnos dividiam-se em tribos. Ocupavam prédios inteiros. Selavam as janelas, impedindo a entrada do sol. Escravizavam seres humanos para fazer deles sentinelas diurnos. Humanos traidores, que abriam fogo contra as tropas que buscavam desinfetar a Terra daquela raça maldita, surgida do dia para noite, sem mais nem menos. Criaturas que apareceram depois da Noite Maldita, do Evento. Zacarias, o soldado mais baixo e mais gordo do grupo, foi quem lembrou: — Depois dessa ponte não tem aquela lanchonete abandonada? Adriano refletiu um instante: — É, tem. — Por que a gente não procura abrigo por lá? A gente fortifica uma sala. Fica todo mundo junto. Se aparecer alguém durante a noite, a gente manda bala. — Na mata é mais seguro. — replicou o líder.

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— Claro que é mais seguro, mas se a gente não achar nada em meia hora, acho melhor não perdermos mais tempo e começarmos a preparar nosso acampamento lá na lanchonete. Como é mesmo o nome daquele lugar? Rei da Pamonha? — Rancho. — consertou Sinatra. — Rancho da Pamonha. Zacarias sorriu. Uma imagem de infância. O pai sempre parava na estrada para fazerem um lanche no Rancho da Pamonha. Tinha um playground imenso, era muito divertido. O sorriso sumiu. Outra imagem. A casa invadida por vampiros. O pai atirando contra as criaturas. A mãe escapando com ele pelas escadas. Gritaria. Estavam invadindo o prédio todo. Zacarias apertou os olhos. Adriano, que ia à frente atento ao caminho, divisou uma picada dentre o mato alto. Chamou a atenção dos companheiros. Podia ser uma isca. Uma armadilha. Os noturnos eram foda. O facão ampliava a abertura. Talvez terminasse num cômodo de concreto, criado pelos soldados em passagens anteriores. Aquela luta era antiga. Uma guerra sem trégua. Sinatra começou a cantar o maior sucesso de Armstrong. What a Wonderfull World encheu a mata. Adriano arrependeu-se de não ter trazido seu par de botas. Entrar na floresta descalço era coisa de amador. Aquela região era rica em serpentes. Marcel era o que tinha a expressão mais tensa. Era a primeira que vez que se preparava para passar a noite na floresta. Desde que ele, ainda criança recém-desperta, e a mãe foram aceitos na fortificação de Nova São Paulo nunca precisara passar um dia fora dos muros. Já tinha entrado em confronto dezenas de vezes contra os noturnos, mas dentro dos muros de Nova Luz a coisa era diferente. Apesar de cercado por mais sete amigos, ali fora, sentia-se sozinho, desprotegido. Tinha ouvido muita história sobre Adriano e seu grupo, sabia que o líder era um guerreiro experiente, mas isso não estava fazendo diferença naquele exato minuto. Com o coração acelerado, rezava por um milagre. Torcia para acordar sobressaltado e descobrir-se na cama, respirando aliviado por despertar de um pesadelo ultra desconfortável. Adriano chegou ao final da trilha. Acabava numa rocha. Praguejou. Picou mais um pouco para a direita, depois para a esquerda. Balançou a cabeça. O expedicionário que estivera ali antes dele tinha desistido quando chegou naquela rocha. A picada não chegava em lugar algum. Nenhuma gruta. Nenhum cômodo preparado com uma passagem estreita. Nada. — Vamos voltar. Estamos perdendo tempo aqui. — Vamos tentar o Rancho? Adriano só resmungou, o que bastava para os veteranos saberem que a resposta era positiva. Em cinco minutos chegaram à beira do rio mais uma vez. Subiram em direção a ponte. Devia aproximar-se das quatro da tarde. O sol, insistente, dava um aspecto rajado à folhagem atlântica, intercalando o verde com luz e sombra.

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Chegando à ponte, Adriano foi informado que faltavam cinco minutos para completar os trinta. Tinham descido bastante. Talvez fosse precipitado decidir pelo Rancho da Pamonha, pois nem tinha vasculhado rio acima. Mas a incerteza de encontrar abrigo na mata ditava a alternativa. Não podiam arriscar perder mais tempo. Caso arriscassem, quando se dessem conta de que não tinham um canto mais seguro para pernoitar, já estariam perto das cinco da tarde, não tardaria o coaxar dos sapos e a imersão na sombra. Teriam de esconder-se na mata, tendo como proteção as árvores e a fé em Deus. Por outro lado, talvez a outra equipe tivesse tido mais sorte e viesse com a boa nova de um abrigo perfeito, impossível de ser penetrado por um noturno. Partilhou os pensamentos com os acompanhantes. Deixaram as armas de fogo e o facão na margem do rio e voltaram nadando para a outra margem. Enquanto os homens aqueciam-se com os braços, Adriano foi até o gramado onde Gaspar permanecia adormecido. Secou a mão nas próprias pernas e, depois, tocou a testa do amigo. Estava frio. Olhou para as ataduras. Estavam limpas. Livres de sangue. Era bom que fosse assim. Gaspar era seu segundo homem. Não queria deixá-lo para trás. Era, além de um bom soldado, um amigo. Além de um amigo, era o segundo no grupo que conhecia a missão. Conhecia os planos da Inteligência do grupo superior que lutava para construir a estratégia definitiva contra os noturnos. Gaspar não poderia ser deixado para trás. Era valioso demais. Infelizmente tinha sofrido um surto de desespero aquela tarde. Depois de dez minutos, avistaram o grupo de Raul descendo o rio. Vinham em silêncio. Cabisbaixos. Ao que parecia tinham tido a mesma sorte. Nenhum abrigo inexpugnável, nenhum combustível para a esperança que minguava à medida que o sol descia. — Encontramos uma gruta escavada em pedra... — começou Raul. Marcel deu um tapa ligeiro no braço de Sinatra. Esperança. — ... mas é muito pequena. Bastante para um homem, dois, se apertar... não vai dar para todo mundo. O sorriso que enfeitava o rosto negro do novato desapareceu. — O Zacarias lembrou que depois da ponte tem aquele Rancho da Pamonha. Acho que podemos adaptar uma sala para passar a noite. — Dá uns seis quilômetros até lá, uns três minutos de estrada. — emendou Joel. — Se não tiver nenhuma árvore no caminho... — resmungou Marcel. — Mas tô com Adriano e não abro. Se ficarmos aqui discutindo, anoitece. Vamos mexer o esqueleto e correr para o Rancho da Pamonha. — Temos que atravessar duas motos. Temos três aqui embaixo. Vamos esconder as outras no mato. Vampiro fareja sangue, não fareja óleo. A gente dorme no Rancho e amanhã volta para buscar o resto. Vamos subir logo essas máquinas e arrumar um canto para dormir, organizou o líder.

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Uma hora e vinte minutos depois estavam em cima do morro, do outro lado da ponte, com duas motocicletas de motores ligados. Marcel olhou para barranco vermelho que terminava em árvores novas e touceiras altas. Tinham demorado para subir com as motocicletas, pesadas demais e difíceis de elevar. Podia ver do outro lado do rio um corpo estirado numa parte gramada da depressão. Gaspar ficaria para trás. Tinha uma arma ao seu lado. Um reflexo luzia no metal da pistola devido a incidência do sol. Estavam em sete homens no topo do morro. O asfalto negro guardando o destino do pelotão. Raul e Joel tomaram o guidão das motos. — Zacarias e Marcel, vão primeiro. Dêem uma olhada no lugar. Verifiquem se vai ter como montarmos um quarto para o pernoite. Estando tudo ok, voltem para pegar a gente. Acomodaram o máximo de bagagens com o primeiro quarteto. Se a estrada estivesse limpa, chegariam em poucos minutos, três, quatro no máximo, ao velho e abandonado Rancho da Pamonha. Ficaram na beira do morro o líder Adriano, o cantor Sinatra e também Paraná. Paraná era o homem mais velho do grupo. Um senhor na casa dos cinqüenta anos, mas de compleição invejável. Tinha o cabelo cortado à máquina e olhos vivos. Apesar da idade era soldado há apenas quatro anos e estava no grupo de Adriano há menos de dois anos. Tinha servido em outro pelotão, que fora exterminado pelos noturnos numa batalha no front. Diziam que Paraná se alistara depois de ter visto a família dizimada após a invasão dos noturnos à uma fortificação. Foram pegos de noite. As sentinelas não tiveram tempo de dar aviso com rojões. Um massacre. Adriano cofiava o cavanhaque, olhando para o corpo estirado de Gaspar. Os motoqueiros não poderiam demorar, pois planejava ir até a lanchonete abandonada para inspecioná-la com os próprios olhos e depois retornar para levar Gaspar até a gruta encontrada pelo grupo de Raul. Sinatra cantarolava qualquer coisa, enquanto Paraná estava debruçado na amurada da ponte, olhando para a paisagem rio abaixo. O sol continuava sua marcha cadente trazendo o inferno. Depois que Sinatra calou-se, um silêncio avassalador abateu-se sobre o trio. Cada um capturado por seus pensamentos. Minutos escorreram para o passado quando foram despertos pelo som grandioso de uma revoada de araras-azuis e tucanos que cruzaram a ponte, descendo o rio. Quando o som dos pássaros afastou-se, o som dos motores chegou. Meio minuto até que avistassem as motos na rodovia. Marcel e Joel traziam as motocicletas. Capacetes reluzentes rebatendo o pouco do sol que chegava ao asfalto. O astro rei tocava a copa das árvores e o tom azul do céu começava a transformar-se. Quando os homens chegaram e retiraram os capacetes puderam ver os sorrisos.

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— O Raul achou o lugar perfeito! Disse que vamos sobreviver esta noite! — explodiu o jovem Marcel. Adriano resmungou, montando na garupa e pedindo a Marcel que ficasse o mais para frente possível para que Sinatra pudesse subir. A moto deles iria levar três passageiros. Joel e o corpulento Paraná dividiram o segundo veículo e carregaram o resto das mochilas. Dispararam no asfalto. Quatro minutos depois, as máquinas reduziam a velocidade. Adriano ergueu os olhos. O grande complexo da lanchonete estava coberto por um tipo de trepadeira, feito um cobertor herbal. Gastou um minuto olhando para o lugar. Jamais consideraria aquele lugar sombrio um abrigo, mas a ocasião não lhe permitia muito critério. Entrou no Rancho da Pamonha. Caixas registradoras, balcões, displays com o logotipo da empresa espalhavam-se pelo amplo salão, igualmente recoberto por aquela hera. Ouvia as vozes de Raul e Zacarias vindas do fundo do salão. Estavam rindo. Ao menos a tensão do grupo parecia dissolver-se. Confiantes, venceriam aquela noite. Adriano percorreu o salão. Lembranças furtando-lhe a atenção. Via seu pai retirando um litro de suco de milho de uma das geladeiras. Sua mãe costumava pedir curau. Ele detestava. O irmão mais velho... ele pedia sorvete de milho ou gritava por moedas em frente as vending-machines. Sorriu. Voltou à realidade com Paraná pedindo que fosse até a porta de onde Raul surgira. — Venha ver, Adriano. Acho que vamos nos virar bem por aqui. Dá até para morar aqui. Adriano seguiu o amigo. Passaram por uma cozinha industrial, um labirinto de corredores, velhas salas frigoríficas. Chegaram a um corredor bem estreito. Perfeito. Só passava um homem por vez. Depois uma sala com espaço suficiente para passarem uma noite. Uns quinze metros quadrados. Não era nenhuma suíte, mas serviria. Raul mostrou-lhe a grande vantagem. A sala era selada por uma espessa porta metálica que corria sobre trilhos, sem mais nenhum acesso, Era resistente. — Para uma noite, basta. — disse Raul. Adriano meneou a cabeça positivamente. — Limpem isso aqui. Vamos nos alojar por aqui mesmo. Já são mais de cinco da tarde, logo escurece, não temos mais escolha. Vamos orar. Seja o que Deus quiser! Eu vou cuidar do Gaspar. Os homens olharam para o líder. — Vou levá-lo para a gruta que vocês encontraram. Não vou largar ele naquele gramado. Também preciso que dois de vocês vão para lá e escondam as motocicletas. Marcel e Raul ofereceram-se.

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— Vocês, depois de limpar este canto, vasculhem este lugar, de cabo a rabo, vão aos fundos, procurem indícios. Não quero dormir na boca do leão. Se isto for um ninho de noturnos, não vamos durar dois minutos depois do sol cair.

Joel tinha explicado bem para Adriano como chegar até a diminuta gruta. O líder dos soldados respirava com dificuldade. Trazia, apoiado em seu ombro, o soldado ferido. Gaspar estava lúcido, mas gemia a cada passo avançado. Tinha piorado. Talvez estivesse com algum osso quebrado, uma hemorragia interna. Adriano trazia ainda nas costas a espingarda do soldado e sua mochila. Os voluntários encarregavam-se de esconder as motocicletas e tinham ordens expressas de não esperá-lo. Adriano dissera que poderia até mesmo passar a noite junto de Gaspar, para não deixá-lo completamente desamparado, sozinho na mata. A decisão de deixar Gaspar separado dos demais surgira no fato das ataduras, tanto abdominais quanto as do joelho, apresentarem grandes manchas de sangue. Gaspar representava um perigo potencial ao grupo e sabia que era medida básica de sobrevivência separar do grupo os soldados feridos nas horas escuras. Os noturnos viriam em busca do sangue. Alguém sangrando era isca para tubarões. Adriano rangeu os dentes, içando o corpo de Gaspar para o topo de uma rocha. Um tronco de árvore ajudava na subida. Segundo Joel, logo depois daquele ponto, na continuação da rocha, escondido pelo mato alto, encontraria um buraco escavado no duro mineral. Um abrigo improvisado, meia boca. Realmente constatava que mal dava para duas pessoas. Tinha que se esgueirar até o fundo e torcer para que os vampiros não encontrassem aquele buraco. Sem sangue até que seria possível. Estava no meio da mata. Seria muito azar ser encontrado. Adriano empurrou Gaspar pela abertura. Já estava escuro no fundo da gruta. O céu também perdia rapidamente a claridade. Mosquitos notívagos começavam a dar o ar da graça. Adriano estava preocupado. Será que os outros dois já tinham terminado a tarefa de esconder as motos? Tomara que sim. Tomara que já tivessem zarpado rumo a lanchonete-abrigo. Olhou para Gaspar. As faixas enroladas no abdome e no joelho já não bastavam para o sangue. Do joelho escorria um fino filete escarlate, descendo até a bota do soldado. Ele seria achado. Seria pego pelos malditos noturnos. Adriano recuou um passo. Apanhou a espingarda calibre doze e colocou-a no chão, fora da gruta. Gaspar não ia precisar daquilo. Seria pego pelos vampiros. Na melhor das hipóteses, seria morto. Num contexto mais sombrio, poderia ser feito escravo, poderia ser torturado e obrigado a dizer tudo o que sabia sobre o Plano B, sobre a trama para o extermínio dos noturnos, para o remédio. Adriano abaixou-se e abriu a mochila de Gaspar. Retirou documentos do homem e enfiou nos bolsos de sua jaqueta. Retirou a munição. Balas banhadas em prata. A coisa mais eficiente na luta contra os vampiros depois dos bentos. Quando atingiam a cabeça do inimigo,

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colocavam-no fora de combate. Se atingissem um inimigo fraco, podiam até matá-lo definitivamente. Bastante munição. Seria mais útil no Rancho da Pamonha do que ali, naquele buraco escavado na pedra. Adriano tirou sua pistola da cintura. Transpirava pela testa. O coração batia rápido. Os olhos ardiam. Era um líder. Líderes tomavam decisões difíceis como aquela. Tinha que matar Gaspar. Matar seu melhor soldado. Seu amigo. Gaspar sangrava muito. Jamais passaria incólume aquela noite. Se tivesse tempo e certeza de que alcançaria São Vítor no dia seguinte, enterraria o amigo, não o largaria ali, naquele buraco de pedra. Mas o sol já descia no horizonte. A luz começava a faltar e logo aqueles malditos estariam soltos na terra mais uma vez. Adriano ergueu o braço. Gaspar respirava com dificuldade e, apesar do silêncio, estava acordado. Cerrou os lábios. Sabia o que Adriano queria. Sabia por que Adriano fazia aquilo. Sabia que não adiantava protestar. Era a lei. Teria de fazer o mesmo se estivesse do outro lado da pistola. Mas não queria morrer. Não queria morrer naquele dia. Daquele jeito. Morrer por causa de uma decisão precipitada. Por um erro idiota. Tinha sobrevivido a tantas batalhas. Sorriu. Lembrava quando tinha enfiado um escopeta carregada de prata no rabo de um vampiro. Tinha feito o desgraçado cagar prata. Tinha dado cabo de tantos deles. Não era justo. Ele e Adriano eram unidos. Não era justo. Não queria morrer. Tinha acordado aquele dia sem suspeitar que seria o último dia dc sua vida. Tinha acordado sem receber aviso. Um dia comum. Ordinário. Um azar na estrada. A cabeça cansada. Medo da noite. Dos noturnos. Mas sabia que o amigo não podia arriscar. O homem ferido poderia ser pego. Ser obrigado a abrir o bico. Era melhor que fosse assim. Certeza de estar calado quando os sanguessugas chegassem. Certeza de que o segredo não seria proferido ao inimigo. Deus! Mesmo sabendo de tudo isso, não era fácil. Não era fácil despedir-se da vida. Faltou ar no peito. Ergueu a mão, como se pedisse um momento. Talvez tivesse como contornar aquilo. Mundo maldito! Mundo das trevas! Por que Deus tinha deixado aquilo acontecer? Os demônios escaparem pela porta do inferno e tomarem conta do planeta! Não era fácil morrer, droga! Não era fácil! Lágrimas descendo no rosto. Encostou-se o mais ao fundo que pôde, arrastando-se, fodidamente machucado. A porra do joelho doendo. Sangrando. Fodidamente sangrando. Sangrando e condenando. Maldito sangue! Gaspar respirou fundo. Via os olhos do amigo também cheios de água. — Até mais parceiro. — disse Gaspar, com a voz embargada. Adriano passou rapidamente as costas da mão que segurava a pistola sobre os olhos. Não podia fraquejar agora. Santo Deus! Como era difícil fazer aquilo com um amigo... um parceiro. Merda de inferno! — Atira logo, porra! Atira, filho da puta! Adriano voltou a fazer pontaria. Coração ou cabeça? Porra... — Eu não quero morrer... não tô pronto. Me leva com você, cara. Me leva... — choramingou o soldado.

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Ligou. Para que se tornassem criancinhas com medo do bicho papão. Os noturnos deveriam estar abrindo os olhos em suas tocas fedorentas naquele exato momento. Correu mais um pouco e montou na motocicleta. procurando os pontos mais rasos. Tentou. A luz. Ao menos a munição tinha que passar incólume. Vestiu a jaqueta às pressas. Frio. Enfiou a pistola na cintura. O ar não entrava mais. Deus! Essa não. Pensava no sol. Seria bem mais de uma hora de caminhada. se chegasse. Expirou. O sol escondido pelas montanhas. resistiu.. tinha implorado pela vida. como os soldados que rodavam de cidade em cidade. também se rendiam à falta de sol. O peito pesado.. dor e solidão. O sol sumindo. balas caíram. um homem caminha cerca de três quilômetros por hora. Sentia milhares de agulhas perfurando o peito.. Por que os noturnos faziam isso com os homens? Bastava escurecer para que todos se tornassem arremedos dc sobreviventes. Não podia se mexer. 51 .. O cricrilar dos insetos vindo da mata. Sem tempo de parar para juntá-las. A calça ensopada. Os mais bravos. Tinha que ir rápido. Não conseguiu falar. Urgência. esperando que a luz do astro incandescente voltasse e tornasse a terra imune àquela praga mortal.. Tristeza. Seis quilômetros até a lanchonete. Torceu o cabo. A camiseta ainda estava úmida. Adriano. os mais destemidos. O escuro ganhando força. Escuro. Corria mais. A merda da balsa do outro lado. Terminou a escalada com o pulmão parecendo querer sair pela garganta.. perdida no meio das árvores. Frio. A luz da reserva acesa. O coaxar dos sapos chegando em seu ouvido. Silêncio. acabado. marionetes aparvalhadas. Subiu o mais rápido que pôde o morro rente ao pé da ponte. Enxugava pela terceira vez as lágrimas do rosto. O motor falhou. Deixou o rio. O sol danando sua vida. anunciando o anoitecer. Adriano descia correndo.Gaspar prendeu a respiração. mas o ar não veio. Deus! Que a gasolina não acabasse até estar lá! Acelerou.. rente ao rio. difusa. A gasolina! Não podia ter acabado. Acendeu os faróis. O céu vermelho... Estava difícil manter as armas e as roupas secas. Puta que o pariu! Crepúsculo. muita tristeza tomando o coração. A pior parte já tinha passado. seu amigo... puxando mais uma vez o gatilho. O céu ficando mais escuro. Segurou a espingarda com a outra. Tirou as botas e as meias. Dor de cabeça. A moto parada na beira da estrada. Tirou a jaqueta. Fora tão bravo em tantas lutas. O peso da munição de Gaspar batendo no peito. Medo. Apertou o botão de start mais uma vez. O céu estaria totalmente escuro quando chegasse. O motor funcionou. levando e trazendo as boas e más notícias. Entrou no rio. Tudo escuro. A garganta ardendo. Pensou em largar a arma mais pesada. Uma explosão. Chegou na altura da ponte. Mesmo os mais bravos fechavam os olhos e oravam do fundo do coração. O tempo acabando. Parou no meio do caminho ofegante.. agora morrendo como um rato. A pressa atrapalhava tudo. Lágrimas descendo pelo rosto. Lusco fusco. Um barulho desconexo escapou pela boca. Quanto tempo a pé? Andando rápido. Agulhas.. Queria não ter implorado pela vida..

Tiraram o amontoado de bagunças empoeiradas abandonadas naquela sala e providenciaram escoras para a porta corrediça. Ficaram preocupados vendo o sol descer no horizonte e o líder não retornar. oh. I won't be afraid. Paraná tirou de sua bolsa de lona três garrafas de água benta e depositou-as no canto que reservara para cochilar. A noite chegando. A escuridão avançando. jantar frio. stand by me. O salão em silêncio. I won't be afraid. O sol desaparecido atrás da serra. exposto ao vento. Quando aquele bicho passava. A noite instalando-se. quando a voz do amigo cantor encheu o salão com uma deliciosa canção antiga: — When the night has come. Fumaça chamava a atenção dos noturnos. stand by me.. Olhavam para Adriano aproximando-se. apesar da sujeira grossa que resistira a tentativa de limpeza. todos liam: Danação. Raul repetiu o gesto. Reuniram-se no salão principal da velha lanchonete. — pediu Joel. Os homens tinham ajeitado o cômodo escolhido. A noite trazendo pela mão um filhote.. O último rastro de sol que enfeitava o salão esmaeceu lentamente até desaparecer por completo.. Todos viraram-se para o imenso vidro da frente e. oh. um filhote feito uma aberração que tinha uma palavra grafada a ferro quente em seu couro descarnado. Canta alguma coisa para espantar o medo.. stand by me. Uns trezentos metros. stand. No. Estavam famintos e com medo. Stand by me. Não poderiam acender fogo para fazer carne. trazido pela velocidade da máquina.. — Canta alguma coisa. So darling.. darling. A espingarda vinha na coronha ajustada à carenagem. No.Adriano gritou emocionado quando divisou os contornos do Rancho da Pamonha.. Teriam que se virar com os enlatados. teriam que dificultar a passagem de qualquer invasor. Caso fossem encontrados. Estrelas infinitas tomando conta do firmamento. Just as long as you stand. Crepúsculo. logo todos estavam fazendo o sinal-da-cruz. Talvez ele tivesse decidido mesmo ficar junto de Gaspar e encarar a escuridão. Uma descida longa. and the land is dark. 52 . A perna estava gelada. stand by me. com o frio catalisado pelo jeans molhado. Marcel benzeu-se. Sinatra.. viram o farol surgir na estrada.. Sinatra pigarreou.. and the moon is the only light we 'll see. Marcel ouviu primeiro o som do motor. O roxo sucumbindo à noite. A lua minguante clamando sua parte.

Notou que a calça azul estava empapada de suor. o que deveria ser efeito da medicação. Ouviu uma risada vinda do quarto ao lado. Piscando os olhos podia ver a cama de Gabriel. Ergueu a cabeça. — Não pega essa faca. 53 . Lucas levantou. Assombrada. Lucas rilhou os dentes. Não viu nada. O que estava acontecendo? A voz de Gabriel chegou ao seu ouvido.Capítulo 10 Lucas acordou no piso frio. Lucas engatinhou até seu catre. Lucas apertou os olhos. — Eles deram uma para você também? Há!Há!Há! Eles estão deixando a gente louco. esperando a tontura passar. Ameaça. O suor descendo pelo rosto. Estava perdido sensorialmente. Sentou-se e olhou para o grande vidro. Estava todo suado. O cabelo desgrenhado do vizinho parecia formar uma auréola no topo da cabeça de Gabriel. Que porra era aquela agora? Uma espada?! Para quê? O mecanismo parou de ranger. Ana veio à sua cabeça. Onde costumava se recostar para ser preso pela garganta e braços. Por causa de um ataque. Lucas olhava compenetrado para aquele novo personagem em sua louca aventura naquela cela de hospício. São Gabriel. Não estava em seu campo visual. Vinha da parede. Viria de trás daquele espelho? Não. — Não pega essa faca. ao lado do catre. Deitou-se no colchão. Onde estava Gabriel? Já teria sido libertado daquela gaiola de loucos? Provavelmente. Um sinal sonoro contínuo. Gabriel surgiu na porta. O ódio queimando no peito. Uma risada macabra. O vizinho estúpido. Tomou tamanho susto que quase caiu da cama. Seria dia ou seria noite? Sentia muito sono. sabia? Seu maluco! — gritava o vizinho. A imagem da Dra. A impressão de ouvir um sinal sonoro. presa num encaixe de borracha. Olhou para o vidro espelhado. Ele não estava lá. Cara idiota. mantendo a espada de pé. Impressão. senão eu te furo com a minha. — Cadê a Dra. como os alarmes emitidos nos corredores das escolas na troca de aulas. Lucas parou. Ana? Esse homem precisa de remédio. Um santo. O pescoço dolorido. As espáduas retas e tesas. Não vinha. Ficou deitado um tempo. — advertiu o vizinho. O que seria aquilo? Outro efeito da droga? Apanhou a camisa hospitalar debaixo da cama e passou sobre o peito. A imagem de Gabriel vindo na sua cabeça. Aquela voz. Uma garra que sustentava uma espada curta. Trazia uma espada curta. Ele está louco! — gritou para o espelho. Estava no chão por causa de uma injeção. Havia surgido ali um braço mecânico. A porta que separava o quarto vizinho continuava aberta. Lucas continuou imóvel. como um dispositivo mecânico acionado. O suor escorria em bicas. Ouviu um ranger. O ranger continuou. Olhou para a espada presa na garra. Estava sentado.

Estava doido. Lucas não queria arriscar-se. Lucas sem espada. mas sabia que não era um louco.... Só o Lucas prevalecente era que queria matar o vizinho. O Lucas menor dizia isso. com duas espadas. Ou melhor. O pequeno Lucas achava que se saísse daquele doentio quarto branco poderia tornarse soberano e tornar-se o Lucas maior e acabar com aquele Lucas demente. Quem era louco? Ele próprio? Gabriel? Ou os homens atrás do espelho? Aquilo era um reallity show? Big Crazy Brother? O ódio de Lucas triplicou. Era isso. A sua espada para cortar a garganta daquele lunático. Um sorriso sarcástico tomou seus lábios finos. Estava doido. Ele não se lembrava de sua vida antes daquele hospital. Deixá-lo debater-se numa hemorragia letal. Ou talvez o desconhecido estivesse com medo dele. Abriu os olhos. Gabriel estava pegando a segunda espada.. A cabeça esvaziou a loucura que o 54 . Gabriel iria matá-lo. quase rindo. Odiava Gabriel. mas o Lucas maior e louco era mais forte. Fechou os olhos. Estava louco. com espada ou sem espada e arrancar sangue da sua pele. Lucas apertou mais uma vez os dentes. Gabriel avançava em direção à espada da cela de Lucas com sua lâmina em riste. Fazer o vizinho cair morto... Será que as pessoas conseguem ver em nossa cara nossa loucura? Lucas escondeu o sorriso. A que deveria ser a sua. A sua espada para defender-se. O adversário. atentos. um pinel. o velho cabeludo. vendo o sangue sumir do corpo. o verdadeiro Lucas. Gabriel. Odiava aquele maldito quarto branco. Por que matar um desconhecido? E talvez o desconhecido passasse pela mesma experiência. pronta para atacá-lo. Lucas sorriu. O maxilar parecia que ia estourar e os dentes voarem da boca. O Lucas maior queria agarrar aquele homem pela garganta.Nenhuma resposta. Talvez fosse domingo e agora estavam sozinhos. tamanha a tensão que se apoderara de seu corpo. consumindo um resquício de lógica. O suor descendo pelo rosto. torturá-lo. O que aquilo significava? Um desenho geométrico formando-se em sua mente. Um Lucas menor ainda lutava para manter a sanidade do ser. O Lucas menor ficava questionando-se. Será que tinha alguém lá atrás do vidro? Talvez estivessem de folga. E se ele percebesse que ele estava louco? Não queria que os outros soubessem.. porque o Lucas menor não tinha certeza de estar louco. E agora aquele maluco estava lhe apontando uma espada e aproximando-se de outra. As drogas colocavam os Lucas para brigar. Lucas cerrou os dentes e manteve os olhos abertos... Tomar a espada e cortálo. A espada para arrancar as tripas daquele cabeludo irritante.. Só podia ser isso. Que merda era aquela agora? Dodecaedro. Estava louco. Mantinha uma distância segura daquele maluco. Um Lucas tentando encontrar a razão. O sorriso doente voltou sem avisar. Não era! Dodecaedro. Por que tinha tanto ódio daquele homem que nem conhecia?. Lucas sorriu. O Lucas menor. As drogas criavam aquela dicotomia interna. As drogas estavam fazendo aquilo. Lucas recuou até encostar-se na parede oposta ao espelho. Lucas piscou. tentava manter o controle. O Lucas maior pouco importava-se. Matá-lo naquele instante.

Nem das lâminas. Uma vontade de pintar aquelas paredes de vermelho. mas foi impossível. jogando a cabeça da criatura contra o vidro da parede. Lucas levantouse com agilidade e partiu com gana ao encontro do oponente. Cheiro de fera pedindo para ser abatida. Uma em cada mão. Lucas assustou-se. Estava ansioso para começar. dançando na frente do peito do oponente. Lucas foi ao chão com o peso do corpo de Gabriel. Parecia um bicho. Aquilo na sua frente não era Gabriel. soltou-o. Um monstro com dentes pontiagudos e olhos vermelhos. vizinho. arfava cada vez mais rápido. Gabriel. Só via Gabriel e as espadas. Apertá-lo contra as unhas. Estava louco ou via dentes pontiagudos escapando pelos lábios de Gabriel? Gabriel escancarou a boca mais ainda e seus olhos negros brilharam. Gabriel debruçava-se sobre uma das espadas.. O impacto fez com que Gabriel soltasse as espadas e que o espelho fosse trincado. Antes que Gabriel esboçasse reação. praticamente encostado na parede com o vidro. Gabriel grunhiu. Ninguém lhe acusaria. Acidente de percurso. Tinha que agarrar aquele bicho e estrangulá-lo. surpreso. Estava com medo do tempo. Só havia o Lucas louco. sua mente entrava a dois mil por hora num terreno novo. virando-o do avesso com as unhas. Uma vontade de agarrar o oponente pelo couro e arrancar-lhe a carne. Lucas teve certeza de estar diante de um monstro. Gabriel. Foi sua vez de atacar. Era um só. Fechou as mãos sobre as orelhas de Lucas que. pronto para o combate. preocupado em recuperar as espadas. mas manteve-se em posição de defesa. Lucas chutou cada uma das lâminas em direção a um canto do quarto. Algo mudava em sua natureza. Ansioso para ter um bom motivo para tomar aquelas espadas do oponente e arrancar-lhe a cabeça. Lucas sentia algo mudando em seu medo. Gabriel até tentou atingir o vizinho com uma das lâminas. Ergueu as espadas. Era um monstro. Gabriel rugiu mais uma vez.atordoava. Não estava com medo de Gabriel. Ia atacar. Procurou o adversário. Estava defendendo-se. Bateu a cabeça no piso. Atirou-se contra o vizinho. Lucas passou pela guarda de Gabriel e agarrou sua garganta. O Lucas menor tinha ido embora. Um monstro que queria lhe atacar. tornando-se vermelhos cintilantes. Não havia mais dicotomia. As narinas eram aprisionadas por aquela essência. Cheiro do mal. E aquele cheiro era atraente.. Se fizesse aquilo depois de um ataque. feito pulga. O homem tinha rugido. Um bicho que soltava um cheiro. de costas e debruçado 55 . que precisava ser eliminado a qualquer custo. que abriu a boca ameaçadoramente também. Gritou. não seria culpado. Era irresistível. Vermelho-sangue. Lucas não podia resistir. Lucas correu em sua direção. Com medo do combate demorar muito. — Vamos brincar sem essas faquinhas. Seu coração pareceu pegar fogo. Abriu a boca e soltou um rugido. Os olhos brilharam de novo e os caninos pareceram alongarem-se ainda mais.

Caminhou até o corpo inerte. Gabriel foi empurrado pela camisa e pelas ancas até bater com o topo da cabeça na parede. Uma criatura que resistia a uma espada no peito! Lucas gritou e não deu tempo ao monstro de dentes longos refazer-se. Olhou para Gabriel. Abaixou-se e repetiu uma série de golpes. Uma ameaça. ao mesmo tempo. Virou-se imediatamente. Lucas olhou para aquele corpo bizarro. Respirou fundo. Retomava o controle da respiração. Não merecia viver. cambaleou e tombou para trás feito um tronco de árvore decepado caindo de uma vez só. Viu um azulejo rachado. não viu Lucas chegando. Passou o tecido grosso na testa e no peito. Era um bicho. Nunca tinha feito aquilo. Sua pele 56 . Saiu de cima do corpo com o rosto deformado. pois Gabriel já não exibia vigor nos músculos e mal se mantinha de pé. mas o tinha debilitado enormemente. Queria acabar com ele. Um pouco de sangue escapou pelo pescoço aberto. Transpirava em bicas. decapitado. Respirou fundo. não tinha sangue escorrendo dos cortes. Achava que um ferimento daquele faria uma cascata escarlate banhar o chão. Foi até o canto oposto e pegou sua espada. não uma pessoa. bicho dos infernos! Lucas deu as costas para Gabriel e foi até a cama. Socou até não agüentar mais erguer o braço. Aproveitou para cair com os joelhos em torno do pescoço do oponente para imobilizá-lo. Um vulto repetido nas frações do espelho. Continuar. Lucas deixou para entender mais tarde. O suor ainda escorria. Algo dizia que devia fazer aquilo. Um passo para trás a tempo de desviar-se da cabeça de Gabriel que se descolava do pescoço e ia ao chão. Só então Gabriel grunhiu e um fio de sangue quase negro escapou-lhe da camisa do hospital. O que estavam fazendo ali em São Vítor? Criando assassinos? Levantou-se e foi ao encontro do vidro espelhado. Isso servia para acalmar um pouco. Lucas ouviu um "crac" depois de jogar o adversário contra o obstáculo. Avançou com a lâmina pronta para o golpe. Afastou a testa uns dez centímetros e abriu os olhos. agarrou o cabo da espada e a retirou do coração da criatura. O ódio consumia seus pensamentos. — Morre. O corpo. Mirou o peito. Desenhou um arco no ar que foi seguido por um barulho grave. Queria sair dali. Agora que tinha acabado com o adversário. Era um monstro esquisito. Estranhamente. sua calma parecia voltar ao corpo e à mente. Tinha que acabar com ele. O golpe no coração não o tinha matado. Tinha alguma coisa de errado com o corpo de Gabriel. — O que vocês querem de mim?! O que querem?! Deixem-me sair daqui!!! Filhos da puta!!! Lucas calou-se e tocou o vidro trincado com a testa. Queria matá-lo. Tinha matado uma coisa.para apanhar o objeto do chão. Enterrou a espada no coração da criatura. Foi até o catre e apanhou sua camisa azul. Aquilo não era humano. Por mero reflexo desferiu um chute potente contra a barriga de Gabriel e. Gabriel parecia atordoado. Começou uma série de socos certeiros contra o rosto da criatura. Era uma peste.

Tinha sido retalhado de forma selvagem.sujou-se daquele sangue escuro. Fechou os olhos. que acabou se espalhando pelas paredes. Limpou também a espada curta.. Queria descansar um pouco. Eram suas. Procurou a segunda espada e juntou-as. Mais uma vez. Deitou-se. Iria acabar com a raça daquele bicho dos infernos. deixando-a originalmente reluzente. 57 . A calma voltava à medida que o cheiro daquele bicho desaparecia. Não tinha entendido nada. Lucas foi até o catre e usou a camisa azul para sua higiene. Quando se levantou o corpo não tinha mais braços ou pernas presas ao corpo.. pois se voltasse a sentir aquele cheiro iria perder o controle de novo. colocando-as ao seu lado. Ana. Não sabia se aquilo fora um pesadelo ou uma alucinação causada pela droga administrada pela Dra. que tinha que descansar. Só tinha entendido uma coisa. Nenhum bicho daqueles poria as mãos nele novamente.

Subiu mais alguns metros. Adorava seus poderes sobrenaturais. Hora de sair. A noite instalada. No topo da cadeia alimentar. Cantarzo não demorava. Combater os noturnos. Cantarzo sorriu. Eles é que tinham força sobre-humana e graça. voando dentre a folhagem. Farejava o ar. ainda tomados pelo transe que os libertava. Um bicho sem peso. Esgueirou-se para cima até alcançar um galho. Hora de caçar na mata. Aproximando-se da boca da toca. Eles é que eram eternos. O vampiro adorava aquilo. Uma pista.Capítulo 11 Escuridão. Tentavam descobrir o que acontecia com aquelas pessoas. saltando antes que o galho arrebentasse. A toca era uma confusa sucessão de corredores e galerias escavadas na rocha. Iria até a 58 . Saltou para a árvore seguinte. Vinha o cheiro do sangue de animais silvestres.. Alimento para o organismo. Chegavam a estocar milhares de corpos empilhados em prédios abandonados. Ergueu a narina e inspirou demoradamente. A toca tinha plantado armadilhas nos últimos dias. temidos como o demo. Aquela tumba fétida era sua casa. o ópio dos vampiros. Parecia voar. Pois os acordados tinham que lutar contra eles. Viviam do sangue dos humanos e eram temidos. O som da noite. Belas adormecidas. Incrustados nas paredes. muitos dos seus ainda mantinham os olhos fechados. Hibernavam. Cantarzo conhecia o labirinto. Saiu sozinho. quando a humanidade afundara-se no desespero tentando entender o que acontecia. em salões de igreja. dirigindo-se à superfície. No momento. qual a doença que devastara a população. tomando velocidade.. os adormecidos ainda eram a fonte de sangue mais cobiçada pelas cidades de vampiros. Adorava ser um vampiro. Os animais. A criatura pálida abriu os olhos. Alguém passando distraído por ali assustar-se-ia com o brilho emitido pelos olhos vermelhos da criatura. Seu ambiente. Buscava o cheiro. Caminhou por mais três corredores íngremes. Os galhos finos começavam a ficar suscetíveis à carga da criatura. tirando-lhes o ânimo e a consciência. Um predador perigoso. Buscar alimento para a sociedade. sem envelhecer um único dia. Seu trabalho era perseguir velhos centros rurais onde pudesse haver adormecidos. muitos dos sãos começaram a juntar os adormecidos. os noturnos. Noite abençoada. Os adormecidos não estavam mortos. do torpor. Cantarzo parava eventualmente. Sangue humano. Os malditos bebedores de sangue. Estava no fundo de sua toca. Sortudos eram eles. temidos como pragas. faltava o aroma favorito. Conhecia os cheiros. Cheiro de sangue. despertando do transe. Não estavam vivos. aos poucos. Correu. preferia assim. Era amedrontador. Tinham sido colocados em modo de espera. O par de brasas vermelhas percorrendo a mata. Cantarzo habitava uma toca distante dos grandes centros vampíricos. Depois da Noite Maldita. Cantarzo saltou. Seu corpo agarrou-se ao tronco de uma frondosa árvore. grunhiu irritado. Parecia voar. os filhos da noite. Procurava por Rios de Sangue no interior das florestas. Alguns humanos sobreviventes chamavam os adormecidos de "os sortudos".

Gente que apostava que a mãe sorte não os deixaria e faria dos olhos experientes do caçador. Teriam sofrido com as árvores tombadas. Hora de recreação. 59 . Um vento forte bateu contra seu corpo. Gente que se enganava e que esperneava quando as mãos. Queria observar. olhos cegos. Cantarzo saltou para um imponente jequitibá. Era uma criatura tão sutil e perigosa que nem mesmo seus semelhantes notaram a aproximação. Uma das melhores caçadoras da região. Olhou para baixo. Vinha de longe. veloz. Poderosa. O grupo de Raquel avançava rápido. Agarrou-se mais firme ao tronco da árvore. Passou a língua pelos caninos afiados. perdendo tempo e ganhando burrice à medida que o desespero consumia-lhes a sanidade. interrompendo a vida. Por isso. esgueirando-se como lontra na água. viu um grupo de brasas ardendo. Não permitia que a folhagem fizesse barulho. Gente que antes de morrer oferecia-se para tornar-se um mulo. Com alguma sorte teriam se acidentado. Cerca de quatrocentos metros à frente. Cantarzo rumou para galhos mais altos. Chamava o grupo de noturnos somente na hora necessária. colocando-se de pé sobre o galho forte. Avançava em direção ao rio. Dias atrás tinha explodido a ponte. Farejou. Os olhos do bicho brilharam num vermelho mais intenso. Forte. cedo ou tarde. Gente que chorava e clamava por perdão por desafiar os noturnos. Ou quando encontrava muita gente escondida. Cantarzo grunhiu. Alguém poderia ter se cortado atravessando os morros. O cheiro. Dois mulos convertidos e uma vampira desperta no fundo do covil. contudo dificilmente perderiam a pista. esvoaçando. Um teria despencado da ponte. pois sempre iam ou vinham do centro que chamavam de São Vítor. a armadilha da ponte surtira efeito. arrebentando-se contra o rio. Não caía no jogo de disputar a liderança. Sabia que. descendo em queda livre. Guerreira. O grupo de Raquel também tinha parado. Era um caçador solitário. Um grupo de caçadores saídos de uma toca vizinha. Quantos quilômetros? Difícil precisar. Acelerou a marcha. Trinta anos sem interferência humana na mata tinham feito bem à floresta. Vinte metros. um escravo de vampiros. trazido pelo vento. O vampiro continuou contra o vento. Pousou no galho áspero de uma mangueira. O grupo de Raquel. Raquel trazia alguns novatos. os soldados teriam de passar por ali. Grunhiu. Alternava entre as árvores e o chão. O vampiro continuou. A direção sugerida pelo odor dizia que. Quando encontrava um Rio de Sangue. finalmente. Sua roupa. tremulava com a passagem do vento. Cantarzo achava que o bom caçador deveria sair sozinho. Odiava cortejar vampiros antigos. tornando-se um vulto não detectável para olhos humanos. fechavam-se sobre suas gargantas. O vampiro escalou a árvore gigantesca que se erguia além das demais. visitar a estrada e a ponte era obrigação de toda noite. Olhos de vampiro. Cantarzo saltou do galho. Eles também tinham sentido.estrada. Cantarzo tinha deixado o grupo de Raquel passar. Mas a mulher adorava cercar-se de bajuladores. donas de unhas pontiagudas e afiadas. gente viva que se arriscava a cruzar o interior durante a noite.

Quando a sede instaurava-se no vampiro. Uma confusão danada. Bichos das trevas. tinha visto famílias inteiras sucumbirem às trevas. para sobreviver. jamais conseguiria manter vivo os laços humanos fora das fortificações. Talvez fosse até melhor assim. só ele tornara-se um vampiro. Depois que ele próprio falecera como mortal. teimavam querer retorná-los ao seio familiar.. formiga gigante. Depois tornara impossível os encontros com os "vivos" amados. virando um nada. o que não chegava a ser raro. Mas. ao menos enquanto durasse aquele sono mágico. nunca mais pudera juntar-se aos que amava. Cantarzo vira histórias maravilhosas desenrolarem-se. enganados pela sensação de sede. paras as tocas. jamais vira novamente. Gente que vagava pelos cemitérios. teimavam buscar os seus parentes vampiros. Os vampiros aprendiam a não confiar em si mesmos. apesar da busca louca nos primeiros meses. Gente que se escondia de noite e combatia os vampiros.. tentando entender o que acontecia e o porquê de não poderem mais com o sol ou o porquê de não terem direito à tumba. ou tudo na luz. depois de um tempo. Alegria. Força. Sangue eterno. até boje. Histórias heróicas e apaixonadas. Vampiros cá. nunca buscavam a família. adquirindo aversão terrível ao sol. Uma série de suicídios. Assassinos. Durante os primeiros meses pós-Noite Maldita. para quem a vida e a morte eram proibidas. De sua família. Gente que achava consolo no sangue pulsante das veias humanas. Pessoas que.. por mais sentimental que fosse. por vezes.. perguntas para as razões da Noite Maldita continuam sem respostas. Atendia aos da sua espécie. dotada de caninos pontiagudos. Vampiros não podiam transpor os muros das fortificações. Filhos que viravam feras. Os humanos. humanos lá. Cantarzo era um original. dando cobertura à graciosa criatura e às três crianças até uma primeira fortificação. Ninguém entendia o que tinha acontecido e. era como se a criatura entrasse em sintonia com o lado perverso de sua comunidade. abrindo os olhos tristes depois da morte. Gente que vomitava tudo quando.. Entregam ao divino a realização de algo tão poderoso e inexplicável..Além destes três. Morriam em poucos dias. verdadeiros 60 . Famílias separadas. Ajudara a mulher e filhos. Uma ditadura. tentavam alimentar o estômago morto com pão e carne. ou tudo na escuridão. Andarilhos da noite. Seu irmão. No começo havia muito choro.. Logo uma legião desses monstros começou a organizar-se e entender que. vidas separadas. mas a doença não passava e os vampiros. pais que se tornavam bestas. e guardava-os feito rebanho. vinham dois vampiros originais. tinham se tornado doentes. tinham que caçar durante a noite e esconder-se nas horas de luz. fraqueza e uma melancolia devastadora. de uma hora para outra. Tornava-se um ser bizarro. vampiros que fugiam na hora do sol e que combatiam as pessoas "comuns". pronto! O sangue tornava-se tudo e o passado esfarelava-se. Os originais eram vampiros surgidos na Noite Maldita. Um vampiro. Quando a sede invadia a lucidez. Os adormecidos eram disputados.. Ao menos a família permaneceria unida. atribuindo aquela loucura pelo sangue à uma doença passageira. nem humanos arriscavam-se nas trevas. Droga. As feras eram numerosas e a loucura tremenda. Procurava levar o maior número de humanos para os covis.

como dito. poucos na verdade. Sabia que irmão não tinha se tornado um noturno. O estômago queimava. ao lado de uma coruja que demorou em notar a presença do vampiro. Muitos. Precisavam do sangue para continuar a viver. estava de botas. Era perigoso. Avistou o reflexo da lua batendo nas águas do rio. mas o grupo numeroso da vampira levou duas. Ergueu as narinas e farejou. Era mais seguro. O grupo de Raquel andava devagar. mais sete homens próximos ao corpo. com a roupa negra esvoaçando. Talvez houvesse outros com ele. A noite não era mais a mesma. O filho deixava de ser filho e passava a ser comida. humanos para lá. Então. Uma refeição ligeira. Era repugnante para os humanos. quentes e cheios de sangue nas veias. andava devagar. ao menos. Desespero. Cheiro forte. Gabando-se. Olhou a trilha aberta 61 . Apressou seus saltos aéreos. Assim sendo. Nunca. Só podia ser. Pelo cheiro sabia que a caça já estava morta. Amigos tentando guardar o cadáver para os rituais fúnebres. Talvez fosse mais um daqueles que dormiam sem nunca saber o que acontecia. mesmo àquela distância. Eles ainda tinham essa mania.. Cantarzo teria percorrido aquela distância em meia hora. mas sem calça. Era melhor assim. Cantarzo desceu. encontraria. as árvores eram abundantes. Era difícil resistir. Viam as sutilezas escondidas na matéria. Só podia estar ensinando as trilhas e os segredos aos novatos. Cantarzo ergueu o nariz.. Talvez devido àquele inchaço em seu joelho sangrento. Desceu até a abertura. Realmente os novatos tinham muito que aprender. Os vampiros. Mesmo assim. Desesperado. Novamente. Uma gruta escavada na pedra. O cadáver estava logo abaixo. Um homem apenas. Raquel deveria estar explicando coisas aos novatos. caso assim fosse. Dizendo que muita coisa mudava depois que os olhos mudavam. amarrados em tiras de couro. Quantos pais haviam matado os filhos? Quantos filhos tinham afugentado os pais? Cantarzo perdera a conta. perdiam a razão. com o cheiro tão forte trazido pelo vento. mas o sangue ainda estava fresco. Mais nada. Cantarzo cruzou o ar em direção à outra árvore. O irmão estava perdido. Os grupos de soldados costumavam sair em oito. Gente que não queria deixar seus parentes e amigos vampiros para trás e vampiros que tentavam permanecer junto dos seus ao redor das fortificações. o vento lambendo seus cabelos longos. Estava numa área rochosa. Só aquele sangue. Alguns. Os olhos de vampiro viam as coisas com mais clareza. tinha ido para sempre. O cheiro ficava mais forte à medida que se aproximava da ponte. Subiu o máximo. muitos perdiam a cabeça. Pousou num galho firme. talvez o adjetivo explicasse também sua busca pelo irmão desaparecido. Nunca terminavam bem esses casos. O cadáver vestia uma jaqueta. Teria o encontrado. Mas não era o lanche que interessava. suscetíveis à loucura do sangue.romances. Quando tinham os filhos enrolados nos braços. Contando causos. podiam ver até os espíritos da floresta. Desgraça. aquela gente era outra.. Quando queriam sangue. Era estranho adaptar-se ao mundo da noite sem escuridão. como a mulher e as crianças que ajudara.. épicos. os olhos ardiam feito brasas e os dentes surgiam. Vampiros para cá. por certo.

irresistível. ela estava no topo de uma árvore e no instante seguinte já tinha voltado ao 62 . Longos cabelos ruivos e lisos cobriam-lhe os ombros e parte das costas e revoavam com os movimentos ágeis da dona. Esperaria Raquel incógnito. Raquel tinha uma aparência sinistra. Quando percebiam. Quando sorria. um ser que criava situações.. Raquel aproximava-se. Cantarzo viu as bandagens molhadas pelo sangue morto. pois os lábios espichavam-se e deixavam escapar os pontiagudos caninos. como a de qualquer vampiro veterano. Afiadas. Raquel tinha explicado que aquele cheiro diferente vinha do sangue de um morto. Os vampiros aproximaram-se em silêncio. Poucos metros para frente avistou algo de suma importância. Aninhou-se no topo da rocha escondido na folhagem. Retirou uma e devolveu a caixa ao seu lugar didático na trilha. uma caixa de munição caída no chão. obrigava que usasse aquele tampão sobre o olho direito. A noite tornou-se escura para a criatura. perigoso. Mas a atração física dos mais tolos acabaria quando encarassem o rosto de Raquel. Apanhou o objeto. Pareciam unhas de bicho. Animais da noite. Um tapa-olho de couro preso ao crânio. E ela era rápida. Chegando perigosamente perto de seu rosto. Voltou até a boca da gruta artificial.pelos soldados. Balas de prata. Gostava de observar a vampira. Um barulho. seus métodos canhestros. Tinha traços delicados e femininos. limitando-se a acompanhar a veterana. lutando com veias escuras e repugnantes. Olhando de perto notariam que eram estranhamente grossas. como de feras rapineiras. A vampira tinha unhas longas. O cheiro do sangue era forte. O corpo seria sedutor a um homem. Sumia-lhes das vistas num piscar de olhos. com pernas grossas e seios deliciosamente delicados. Cantarzo virou-se repentinamente.. Ela parecia pronta a pular na garganta de um e acabar com sua existência. Deixou os olhos brasis abrandarem até desaparecer o brilho vermelho completamente. Os novatos estavam silenciosos. fatais. ferramenta letal quando posta em uso. O rosto do defunto tornou-se vermelho devido ao espectro luminoso que escapava dos olhos da fera. decididamente. A bela Raquel era uma criatura vil. que semeava discórdia. Um ferimento no passado. Era uma mulher de quase um metro e oitenta. Tinha a pele excessivamente branca. Esbelta. Um tipo. resultado de uma contenda raivosa. Talvez o medo começasse quando observassem bem as unhas daquela criatura. cheia de sortilégios. Um buraco no peito e outro na cabeça. Sangue vivo era mais envolvente. calafrios percorriam os novatos. emprestando-lhe aquele manjado ar de pirata psicopata. Tinham medo quando ela demorava com o sinistro olho vermelho em cima de um deles. cortantes. um mortal notaria um corte costurado com linha preta brotando e escondendo-se logo abaixo do tapa-olho. muito mais grossas que unhas comuns. Até os dois veteranos que escoltavam o grupo de novatos tratavam-na com deferência. com a tira superior passando por cima da orelha esquerda e a inferior abaixo da orelha direita. suas peculiaridades. Raquel era muito rápida. negras e pontiagudas.

Entraram numa picada. até mesmo os novatos. Os vampiros novatos acotovelaram-se para poder enxergar através da boca daquela diminuta gruta. Tinham visto ela esmigalhar a cabeça de um fugitivo num golpe só. A única pessoa que fez cara de pouco entender foi Tatiana. Percebeu a presença de Cantarzo. Os companheiros permitiriam que ele tentasse a sorte. mas nada disse aos outros. Selvagem. Raquel saltou e alcançou o topo sem esforço. Gerson abaixou-se. Tinha que ser calado. Tempos atrás eram sobreviventes refugiados em algum centro fortificado e. Se aquele abelhudo estava ali para arranjar confusão.chão forrado de folhas úmidas. Caso fosse um soldado qualquer. aproximou-se do rio primeiro. seguiria esses moldes. que se aproximou. Eram mais cinco vampiros. — disse a vampira encarando o grupo. Deu passagem a Anaquias. Gesticulou para Raquel. 63 . Talvez o comandante do grupo tivesse dado cabo da vida dele ou. O grupo saía da floresta e aproximava-se da margem do rio. eram feitos vampiros. Bastaria aquele cheiro para. Olhou para as árvores. Gerson. Demorariam a se acostumar. Uma rocha. Um rastro de sangue. Viu as bandagens molhadas de sangue estagnado. um humano não faria aquilo. — Vai. Entra no buraco e toma um pouco do sangue. A pele do homem estava cinza. Assustadora. Os olhos vermelhos intensificaram o brilho e o vampiro pôde ver com maior clareza. A vampira de cabelos vermelhos e tapa-olho virouse e gesticulou para o grupo. servi-lo-ia de um copo cheio. Muitos inspiravam rapidamente e de maneira afetada. expondo os caninos. aquele ali no buraco. Raspou o dedo numa porção do sangue estagnado e levou até à boca. — ordenou Raquel. Muitos cheiros estranhos. tocando o chão com um joelho. Tatiana. somente agora. Raquel aproximou-se da gruta escavada na rocha. Mortal. Olhou para o chão. Um buraco na testa e outro no peito deixava claro que a causa mortis não havia sido hemorrágica. Seus olhos observaram o corpo despojado de vida. Franziu o cenho. — Era um soldado importante. A coleção de adjetivos para cercá-la. talvez ainda estivesse vivo naquele buraco. Aquilo não seria preciso para determinar a posição do cadáver. Aquele cara sabia demais para arriscar ser pego vivo pelos vampiros. junto com Anaquias. Subiram a trilha. mas o do sangue do morto sobrepunha-se a tudo naquele instante. arriscasse a pele sangrenta cruzando a noite e rezando para que o sol viesse. um dos vampiros originais. sempre escoltava Raquel nas saídas. Tinham liquidado ele. Ergueu as narinas. Sabiam que aquele soldado era um dos que conheciam o plano. fosse o próprio comandante do grupo e tivesse pedido que fosse abatido e largado para trás. Estalou a língua. Novatos eram assim. invariavelmente. cheios de medos e agonias. Um soldado. A vampira tinha os braços fortes. depois de tantos anos como escravos. a vampira recém-desperta. Os dois mulos sabiam o que aquilo queria dizer. por isso foi morto e abandonado pelos colegas. darem com ele. empurrando o crânio do humano contra a rocha da caverna. Um caminho curto. e que.

feito cães raivosos. Ajoelhou-se respirando rapidamente. drenando-lhes a coragem. Gerson cansou da brincadeira e. soltando grunhidos. procurando uma posição melhor para tomar o sangue morto. Arrastou-a para fora. debatia-se ferozmente. Como faria para aquele vampiro dobrar os joelhos e beijar o chão? Iria descobrir. Estava mais calma. Tatiana ouviu a voz da vampira vindo pela boca da gruta. Gerson riu. ergueu Tatiana. Os olhos apagaram-se. Passou a mão pelo rosto cinza de Gaspar e subiu levemente os dedos até a ferida na cabeça. trazendo a mão suja de sangue até a boca. O cheiro do sangue diminuía em suas narinas. 64 . Tatiana era pequena e de aparência frágil. mas os dois espremeram-se enlouquecidos. Tatiana aproximou-se do corpo frio. Rasgou as ataduras abdominais e aproximou os lábios dos ferimentos do morto.. tentando feri-lo. agarrando-a também na altura do peito e arremessando-a brutalmente contra a rocha. Tatiana avançou as unhas pontudas para a mão do vampiro. O sangue morto não era tão saboroso quanto ao dos corpos vivos. ora tentando libertar o pé. Gerson era alto e forte. — Saia. porém. colocando-os para fora abruptamente. Tatiana caiu sobre os braços. Era a primeira vez que tomava sangue de um defunto. não poderia atendê-la.. Gerson puxou com mais força e suspendeu a garota. a vampira encarou-os. O ardor estomacal arrefeceu. Os mulos recém-convertidos agitaram-se e também grunhiram dando um passo em direção à gruta. Fez um sinal para que entrassem. num movimento rápido. Precisou sugar com vontade para fazer o sangue coagulado verter para sua boca. mas sempre que percebia Gerson olhando para outro lugar media o soldado grandalhão. deixando-a de ponta-cabeça. O vampiro aproximou-se do buraco e estendeu o braço para agarrar o calcanhar da novata. nem tão cheiroso. Arranhavam-se e empurravam-se. desviando o olhar e encarando os dois mulos. Raquel meneou a cabeça para Gerson. Contudo. Raquel fez outro sinal e seu soldado agarrou os pés dos vampiros novatos. cedo ou tarde. mas servia para alimentação. Tatiana limpou os lábios sujos com as costas das mãos. Queriam logo pousar a boca no sangue do maldito cadáver e fazer aquele ardor no estômago abandonar o corpo.A vampira novata deixou os olhos chamejarem e grunhiu levemente. ouvindo grunhidos de protesto. mas estava agitada. ora tentando alcançar o agressor. Olhou para Gerson e mostrou-lhe os caninos. Ficava imaginando um jeito de ir à forra. não que lhe faltasse ar. A passagem era estreita. mas o desejo de sugar até a última gota era poderoso. antes de darem outro. A cabeça doía.

O sangue caçado. O vampiro impertinente passou pelos novatos e também por Gerson. mas sabia que depois de três novatos terem visitado aquele corpo não existiria sangue o bastante para ela. o fato é que sangue de gente viva e escondida era melhor do que o dos mortos e adormecidos. parecendo que abandonaria o grupo sem maiores explicações ou interrupções. 65 . ao lado da entrada da gruta. mas não era a mesma coisa. em cima de uma pedra. Mas. Raquel tinha se posicionado num ponto mais alto que os demais. Os novatos viam um homem parado em frente da gruta. Via Gerson atrás dos novatos. os olhos apagaram-se e os caninos foram recolhidos. — Já que incumbiram você de ensinar os novatos. O vampiro abriu caminho empurrando os dois pelo peito. batia em seu rosto. nem mesmo atracar-se contra o vampiro poderoso. agora leve. Diferente de Tatiana conheciam a fama de Gerson. — Vamos andar. A mata estava limpa por quilômetros. — Ensine-os a observar melhor. mas não tentaram voltar para a gruta. Também tinha fome. Sorriu rapidamente para o grandalhão. o que temperava a "comida". Farejou profundamente.. — disse subitamente. Talvez porque o medo da morte iminente injetava hormônios na corrente sangüínea. Logo. esse cara não estava sozinho. O olho bom da vampira parecia querer queimá-lo como um raio de sol vermelho. Cantarzo. Poderiam voltar para a toca e abastecerem-se com sangue dos adormecidos. — Não se intrometa. — disse a líder. — Talvez estejam por. voltando a encarar os dois na sua frente. sabia que na frente dos novatos seria mais difícil de Raquel querer esquartejá-lo. Raquel grunhiu nervosamente e balbuciou: — Cantarzo. Cantarzo saltou para a trilha também.Ambos protestaram. — Talvez? Os vampiros assustaram-se. Raquel. Olhou para o grupo. talvez porque a caça permitia que exercitassem seus poderes vampíricos. era mais saboroso.. Não sentia cheiro de mais sangue. A vampira era vaidosa demais para perder a pose na frente de iniciantes. não pode deixá-los sair daqui com um "talvez". — grunhiu a mulher. Estava seguro. Só os mais velhos conheciam a ferocidade escondida por trás das garras da vampira ruiva caolha. de gente escondida. saltando para a trilha. rugindo ameaçadoramente. Um vento entrando pela gruta. tendo o cadáver seminu pelas costas.. virando-se repentinamente para a boca da caverna. ficando próximo à Raquel e Anaquias.. abaixando-se para colher algo no chão.

— O que há com você. Raquel negou com um rápido meneio. Levando em consideração as dimensões.. Gerson ergueu os ombros olhando para Raquel. que produzia um som metálico em resposta a movimentos bruscos.. com a voz forte vindo de outra direção.Cantarzo exibiu uma caixa.. — Como sabe? — perguntou Gerson. o vampiro era importante para a toca. Não tinha tempo para voltar e apanhá-la. Sabia que Raquel não estava brincando.. — Vocês são cegos? O soldado foi assassinado. — A munição é do morto! — gritou a líder. 66 . brutamontes idiota. — A munição. Os novatos procuravam-no com os olhos sem encontrar. Sabia que estava ganhando mais um aliado para ajudá-la a acabar com a raça de Cantarzo. Anaquias tomou a munição da mão do mulo. — tornou a voz de Cantarzo.. Era ágil e fazia uso letal de seus atributos vampíricos. Ela pensa mais rápido que vocês três juntos! — gritou o intruso. Não poderia atacá-lo na frente dos novatos.. Apesar do jeito falastrão e esquivo do caçador. Apesar de odiar Cantarzo. Aproximou-se e murmurou: — Se der mais um pio. — Bravo! — berrou o caçador. O assassino deixou o local depois da execução. vinda do alto das árvores. O rapaz agarrou a pequena caixa. o objeto era bem pesado. tinha que aguardar um momento melhor. Devido ao insulto. Se fosse vocês botava esses narizes para fungar. Cantarzo? Só porque a toca não quer você com novatos resolveu desmoralizar os que estão aqui para ensinar. Raquel sorriu. Gerson olhou de volta para a vampira. queria a autorização. Raquel fulminou a vampira com o olho bom. Jogou-a para um dos mulos. pois não. — Ei. Não existem armas com o defunto. Cantarzo sorriu. Tatiana estremeceu da cabeça aos pés. Gerson abriu a boca exibindo os dentes pontiagudos e voltou a olhar para Cantarzo. — Ensinem direito. — Os soldados estão por perto.. Grunhiu nervoso quando Raquel negou mais uma vez.. Munição. espantouse. Queria permissão para atacar o intruso. sabiam que Cantarzo era páreo duro na hora da contenda. O vampiro não estava mais lá. Era uma caixa com balas de prata. Por que deixaria munição para trás? — Estava com pressa.. explodindo numa gargalhada provocativa. — murmurou Tatiana. Raquel identificou imediatamente a caixa e o tilintar característico.. Eles não estão longe daqui. Raquel! Deixe a novata assumir a liderança. arranco seus braços.

Raquel olhou para Gerson e. caçador? — Porque é preciso encontrá-los. movida pelo vento. Sabia que o vampiro era rápido e competente. Raquel. — Por que ao invés de ficar gritando asneiras. Gritava insultos de uma distância segura. erguendo as mãos. Explique isso aos novatos. — Vamos fazer um joguinho! Uma brincadeira fora da toca. Raquel. Antes que dissessem outra coisa. quem achar primeiro toma mais sangue e ganha o coração dos novatos. Se tentasse alcançá-lo. — Onde vamos começar a procurar. Anaquias continuava caminhando pela trilha. acabamos com sua raça. soltando lascas quando saltou mais para cima. Raquel aquiesceu. e saiu com os aprendizes de vampiro.. Já os novatos. no instante seguinte. Gerson. — Vamos. Esse maldito vai pagar pela falta de respeito. reverenciando a líder. Nós vamos atrás de Cantarzo. Olhou para Gerson. você não nos diz onde os soldados estão. Anaquias curvou-se. mostre o seu machucadinho para eles. Para tudo existe um limite. Anaquias? — perguntou Natan. você vai com os novatos. não conseguiam ver o vampiro. os veteranos puderam ver Cantarzo evadindo o local e começando sua caçada.. Prata é o único material que nos cria feridas. Os novatos entreolharam-se. Era um bravateiro. — Vimos procurar os soldados. — Ótimo! — gritou de volta o vampiro de cima das árvores. — Deixe Anaquias brincar com os novatos. lentos demais. Vou com Gerson para ganhar tempo. — Anaquias. Cravou suas unhas afiadas no tronco. Vá. ele desapareceria em segundos. A ponta da árvore balançava suavemente. Enquanto isso. um dos mulos. saltou para outro tronco de árvore. E garanto que estão por perto. é claro. Ele estava falando sério?! Os veteranos também trocaram um ligeiro olhar. Balas de prata são preciosas demais para estarem soltas no barro. — continuou Cantarzo. Vamos jogar com Cantarzo. — Vamos realmente fazer esse jogo? — perguntou Anaquias surpreso. Com dois movimentos ligeiros estava no topo de um eucalipto com cerca de vinte metros de altura.Raquel via o vampiro no topo de uma árvore. logo abaixo. no bom sentido. saltou para o tronco de uma árvore. Anaquias. que salivava aguardando um sim. Conhecia como ninguém aquelas matas. 67 . Nem um segundo passou para que Gerson estivesse ao seu lado.. Assim que ele encontrar o esconderijo dos soldados. Cantarzo estava esgueirando para um terreno perigoso.. Num segundo. Raquel grunhiu baixinho.

Depois de alguns passos em silêncio. Esses aí só andam nas estradas e não conhecem a mata. Para a estrada. 68 . Vamos para o asfalto. jaqueta e botas de motoqueiro. Quando se escondem. — Depois vamos para a estrada. Morrem de medo da floresta durante a noite. — Por quê? — Porque aquele soldado estava com roupa. Acho que dá naquela ponte. Anaquias respondeu: — Vamos terminar essa trilha. — Estrada? — É. — apontou para a construção que cruzava bem acima do leito do rio. é perto da estrada.

Eles virão te buscar para falar com o doutor.. — Pensei que aquilo tivesse sido um pesadelo. Lucas. Tudo limpo. Sem cheiro. Lucas levantou-se agitado. parecendo deixá-los mais verdeacinzentados. — Alta? Ana não respondeu.. hoje ainda. Os olhos agitados vagaram pelo cômodo branco. — Morto? Ana aquiesceu. Lucas. Lucas manteve-se em silêncio um instante. dando passos desequilibrados para trás. — Doutora? A médica reteve-se já no corredor. Aproximou-se repentinamente da médica. Abriu mais os olhos. Tão repentinamente que a doutora assustou-se.. Ana sorriu. Prometo. nenhum sangue no chão... Respiração rápida. Só estava fazendo uns exames. Lucas passou a mão no cabelo ondulado. ofegante. passou a encará-la com os olhos arregalados. Ana sorriu para o rapaz... aproximando-se e voltando a examinar os olhos do paciente.. — Diga. — Quando vou te ver de novo? — ele perguntou. 69 . Lucas. — Eu quero uma janela. Ana olhou nos olhos de Lucas. — Você. Parecia relutar em falar. Você teve alta. segurou-a firme entre os braços. Nenhum corpo. Cheirou os cabelos e a pele da médica. — Eu mato um cara e tenho alta? Por que não me disseram antes? Tinha acabado com ele no primeiro encontro. Teria sofrido uma alucinação? — Cadê o Gabriel? A doutora Ana abaixou as mãos. — Você vai sair daqui.. eles já o tiraram daqui. indo em direção a porta.. — Não sei. — Doutora. de pé. — Não foi. recuperando-se do susto. Por fim soergueu os ombros. — respondeu. — Vista as roupas limpas que estão debaixo da cama. Não sei. já não ia com a cara dele mesmo.Capítulo 12 Uma luz forte nos olhos. voltando-se para olhar o paciente. Ana abriu ainda mais o sorriso.

Seriam celas habitadas como a sua estivera há pouco? Subiram e desceram escadas. os olhos teimavam em dizer que estava numa legítima área rural. De repente. Meia hora mais tarde. Notou que os enfermeiros aproximavam-se. — Vamos ver o doutor. O corredor logo à frente. Onde estavam os carros? Continuaria minutos 70 . mas era diferente de todas que tinha visto! Nunca tinha olhado para um horizonte tão verde e exuberante. Sorriu ao lembrar que tinha deixado a médica sem graça. Ana mordiscou o lábio e caminhou pelo corredor. Tantas árvores! O lugar era realmente impressionante. Conduziram Lucas para o corredor.. O paciente estava com uma aparência horrível. tirando os pés do chão e abraçando os joelhos. A luz forte ofuscou seus olhos por um breve momento. trocando a roupa suja pela roupa limpa. Como nunca ouvira falar de São Vítor? Uma cidade com um complexo daquele tamanho deveria ser bastante avançada. Alguma coisa estranha. Lucas continuou observando. Os olhos procuravam nos azulejos indícios do combate com aquele bicho que se apossara do vizinho. Não era à toa que Lucas era o que era. Sorriu.A porta deslizou. esperando que se pronunciassem. Lucas passou em frente a incontáveis portas. Lucas obedeceu. recebendo o sol na pele. Percebeu que estava numa espécie de passarela. Não interromperam sua contemplação. Talvez só estivesse impressionada. Não encontrou nem sangue.. Estranhamente diferente. Em São Paulo o céu era cinza e marrom. Heróis sempre impressionam.. Os dois trocaram um olhar curioso. Aquilo só podia significar uma coisa.. Um labirinto de azulejos brancos. mas tinha um brilho nos olhos. Um hospital imenso. havia uma faixa de luz solar cobrindo parcialmente o chão. dois homens de aventais brancos entraram no quarto. Só então pôde contemplar a paisagem. Lucas colocou-se de pé. Lucas sentou-se na cama. O senhor teve alta. O céu limpo como nunca vira. um furor. Lucas sentiu o coração acelerar. senhor Lucas. Magro. Aos poucos. O chão estava frio para os pés descalços do paciente. Um formigamento delicioso cobriu seu braço à medida que era esquentado pela luz do astro-rei.. Pássaros! Inúmeros deles revoando em bandos. Um sorriso largo. sangue cobrindo sua calça e tórax. Os olhos analisavam e tentavam estabelecer uma lógica. Era a conexão entre dois grandes prédios. Instintivamente aproximou-se e farejou o ar ao redor dos homens. Balançou a cabeça negando aquele frio na barriga. Alguma coisa diferente. a escuridão foi dissolvendo-se e os olhos adaptandose à luz. Uma janela! Adiantou-se e correu até o meio do corredor. Estava no interior? Deveria estar bem longe de São Paulo. Lucas afastou-se. Dentro da cela branca. separando médica e paciente.. nem espadas. unhas horrorosas. E nem no Jardim Botânico encontraria árvores tão belas. Olhando para o asfalto percebia que faltava algo. assim que a médica saiu. No entanto. Terminando de vestir-se. Que lugar lindo! Estava numa cidade. cabelos maltratados. Lindo! Um azul tão magnífico que assustava. O sorriso desfez-se. em conseqüência da inanição.

Estava numa sala ampla que dava acesso a três corredores. As paredes eram marrom-claro. o que aconteceu comigo? Que doença eu tenho? — Tinha. Lucas olhou-o por um instante. Ali não havia a ditadura do branco. Imagino que você ainda esteja um pouco confuso com toda esta confusão. dando uma longa baforada e enchendo o ambiente ao redor de fumaça. não fossem as bromélias que brotavam em xaxins alojados em quatro grandes vasos. De outra gaveta tirou uma garrafa oval. Eles não tinham o cheiro. Os enfermeiros ficaram para trás. Escutou uma voz rouca do outro lado ordenando que entrasse. Tinha. — Se quiser um trago é só se servir. Atrás de tudo isso. Sentou-se numa poltrona confortabilíssima. Ficou quieto. você terá tudo o que quiser. contudo os homens fizeram um sinal para prosseguir. 71 . com papadas imensas e uma respeitável coleção de rugas. — disse o soldado da direita apontando o respectivo corredor. Sobre o tampo havia apenas um bloco de notas e uma caneta. Uma escotilha foi aberta para que alguém do outro lado pudesse observar. correndo lateralmente sobre rodízios. — O doutor te espera no final do corredor. Bateram. O que ele tinha a ver com aquelas armas? Por que o sorridente homem das armas tinha trocado o seu nome? Bateu na porta de madeira ao final do corredor. — ruminou o médico. Quadros nas paredes. — Venha rapaz. bento. Penumbra. tentando entender o contentamento do soldado. Um ambiente totalmente monocromático. Havia inalado forte. Madeira clara. — Estamos contentes por você ter despertado. derramando um bocado no próprio copo. Deduziu que eram soldados. O carpete marrom continuava sala adentro. — Seja bem-vindo a São Vítor. Dois copos. filho. Abriu vagarosamente a folha de madeira maciça e pesada. Estavam limpos. mas a informação não se consolidava em sua mente. Sente-se. Um logo em frente. Diplomas fixados nas paredes. no azulejo branco. Bata na porta. A mesa estava limpa. O chão tinha um carpete fino e marrom. Ao final do corredor havia uma porta de ferro. — convidou a voz rouca.. Lucas tentou lembrar-se do nome daquele tipo de madeira. Dava para passar uma vida inteira com a bunda naquele assento. como se fosse continuação daquele pelo que viera.. Parecia mais um escritório do que um consultório. — Doutor. um senhor que aparentava mais de oitenta anos.. outro à esquerda e o último à direita. Um médico experiente. Afastou-se. Lucas arregalou os olhos numa caricatura e estalou os lábios. Lucas notou também as rugas na mão do interlocutor. O médico tirou algo da gaveta. — ofereceu o médico. Acendeu um isqueiro. Um charuto. pois portavam rifles e vestiam um uniforme escuro..a fio contemplando e arregimentando perguntas. A porta foi fechada e Lucas viu-se deixado com dois soldados. Bastante barulho. A porta foi destrancada e abriu. Persianas fechadas.

Ao final do trabalho. — E quando chegou ao seu apartamento? O que você fez. Tomou um banho quente. Enquanto o médico falava. O mundo mudou muito desde que você adoeceu. filho. Você viu algum carro. limpas.. fazendo dois pilares de fumaça escaparem das narinas ao final da frase. Ficou encurvando o pescoço para aliviar a tensão do dia.. relaxar a musculatura do pescoço.. Mudou muito. — Só isso? — As ruas. Teve.. ficando espremido como sardinha. desertas. antes de acordar naquele hospital. filho? Lucas meneou negativamente a cabeça. — Tudo. — disse.. suas últimas horas de lucidez. Percebendo que Lucas inquietava-se na poltrona. — Lucas..O médico fez uma pausa. O céu estava tão bonito. tenho certeza que parou lá por uns instantes. — Não conhece este lugar.. Heitor Villa Lobos? — o médico fez uma pausa para uma nova tragada e baforada. Você sofreu do mal da Noite Maldita. Estas pessoas. — Sem carros. você deveria trabalhar num escritório ordinário como a maioria das milhões de pessoas fazia. ou pegou o metrô lotado para casa.. Nem faz idéia de quanto tempo passou aqui. Lembra. A vida. — O que aconteceu. preso num congestionamento recorde e ouvindo o tamborilar da chuva no capô.. sintonizado na Jovem Pan. Teve uma jornada cansativa naquele fatídico dia. irmão Lucas? Ligou o computador. — O que eu tenho? — Teve. ou ficou mofando no banco do carro. fez um sinal para que esperasse enquanto puxava mais fumaça para a boca. — Vamos por partes. Livrou-se daquele terno barato comprado na Colombo. Tenho certeza que não conhecia nem mesmo este hospital. filho. Quando você olhou por aquela janela. — Você tem idéia de quanto tempo está aqui ? Você se lembra do seu último dia acordado. À noite em que tudo começou a mudar. 72 . — Aposto que você está totalmente confuso. não parou? Não percebeu nada de estranho? — O céu.. Lucas via-se nas circunstâncias descritas. certo? Lucas balançou a cabeça negativamente. Cada par de olhos que confronto aqui é a mesma situação. doutor? O que mudou? — insistiu Lucas. como se o médico pudesse ler sua mente. Provavelmente. — Tudo o quê? — Como pode perceber. rezando para que trânsito andasse e que chegasse em casa antes da Voz do Brasil. A Terra. Colocou um congelado no microondas aguardando pelo jantar instantâneo. Como se o médico tivesse assistido seu passado. antes de abrir os olhos neste hospital? Lucas repetiu o gesto negativo. verificou os e-mails. respostas simples não cabem nesta sala.

Ele deveria estar com quase sessenta anos agora. Como um milagre.. erguendo os ombros. são parte do fenômeno da Noite Maldita. que escondeu seu rosto por um instante. Estava. Escovou os dentes. — Você dormiu trinta anos. com o prato feito. Sem envelhecer como envelhecemos. Todos.. Procurava entender. Sem enlouquecer como enlouquecemos. talvez. num tom retórico. À noite em que o mundo mudou. O médico. inexplicavelmente. — jogou.. os adormecidos. Os noturnos. O que ele queria dizer com "na sua época"? — Naquela época vocês costumavam assistir o quê? Com um prato de lasanha preparado no microondas. — Todo mundo gostava dessas coisas. Vocês. você deve ter assistido o Ratinho. Todos sofremos. divagando. após a Noite Maldita. Lucas sentiu a pele arrepiar. Em alguns os cabelos crescem bastante também. dando continuidade às descrições — Aí veio o sono.São Paulo. Deus deixou nossa terra e libertou as feras da noite. Amarrou um pano de prato no pescoço para que o molho não sujasse a camisa. sem olhar nos olhos de Lucas. Protegido contra os vampiros dentro dos muros de São Vítor. O que estava passando? O que passava na sua época? Lucas.. arrepiou-se. foram poupados. Mas havia passado boa parte dos últimos tempos de frente para um grande espelho. Suas unhas crescem lentamente. Muita gente desapareceu. Colocou o prato na pia. O evento. Famílias se desfizeram e vocês.. Não viram o desespero quando. dentro do possível.. Dormiu como nunca havia dormido antes. Juntou as costas das mãos olhando-as demoradamente. — Quanto tempo? O médico puxou fumaça para a boca e soltou uma nuvem condensada.. normal. Que time você torce? — perguntou o médico. Tirando a palidez e as unhas. Trinta anos era muito tempo. procurando rugas ou alguma imperfeição. Trinta anos em suspensão. a Grande Família. Ligou com o controle remoto. vocês foram poupados. — Dormiu trinta anos. os olhos grudados na TV. Trinta anos sem ver o que acontecia ao seu redor. Não havia. um oásis.. no meio de tanta tragédia. vendo o auto-exame do rapaz. Dia cansativo. uma novela da Glória Perez. deixando Lucas digerir as últimas palavras. diria que estava com o mesmo rosto de quando adormeceu. adormecidos sortudos. Os malditos. Tomou água.. prosseguiu: — Vocês não envelheceram. Foi para a cama e dormiu. O doutor fez uma pausa grave. foi para frente da TV de vinte e nove polegadas. Veio a Noite Maldita e te apanhou no meio do sono. Dormiam enquanto nós reconstruíamos o mundo. criatura. Os seus músculos 73 . mudo. Lucas. Não dava para acreditar. Mas.. vocês estivessem vendo um dos jogos do torneio Rio . olhando para a parede ao lado. como batizamos aquele dia.— . Lucas ficou calado por um bom tempo também. Perdiam horas na frente da TV Se fosse uma quarta-feira.

. Ela não respondeu. Veio o desespero. Ocupado. para internação e exames clínicos. se é que conseguisse um dia. tinham batimentos cardíacos. que noite! O doutor abaixou a cabeça e pôs o dedão na testa.. O doutor levantou-se e andou pela sala. se tornaram algo pior. Frango. Depois. para que não se assustasse. Chamei minha esposa para avisá-la do ocorrido. Ninguém sabe. Tinha gritado. Você é nossa salvação. durante a noite. chacoalhado. Ninguém tomava narcóticos. Chamava-me porque sou médico. Ele também era um deles. Mas quero que tenha uma idéia do mundo que vai encontrar fora desse hospital.. Um milagre. minha esposa e filhas já estavam dormindo. Mas o milagre não pára por aí. abaixo da média. Pedi um minuto e voltei ao meu apartamento. O despertador tocando estridente. Não 74 . tudo num estado de suspensão. gritava. O telefone estava ocupado. Tentei o telefone do hospital. Seu sistema nervoso entrou em pausa. Logo chegaremos nele. Os tecidos. De camisola. Ligamos para o 190 para chamar uma ambulância. O gás estava desligado. filho. Lucas. dizendo que sua família estava morta. — Salvação?! — o espanto não abandonava Lucas.. O motivo de você estar na minha sala agora é ser uma peça importante para nossa salvação. Como? Não sei. Quando acordam conseguem até caminhar. filho. — Decidi levá-los pessoalmente. buscando complementação para um trabalho literário. Nosso libertador. parecia sofrer ao reviver a situação.. Eu estava navegando na extinta internet. Disse que teria de levar todos para o hospital. O marido estava na mesma condição. a mãe tentava acordá-los para irem à faculdade. Dormiam. Atendi a velha amiga entrando em sua casa e indo para o quarto de seus filhos. filho. Deus. A luz intermitente entrando pelas frestas das persianas emprestava um ar sombrio àquele escritório de tons marrons. batidas na minha porta. e pode apostar que eu me lembro muito bem como foram aquelas horas de terror.. A certeza de que estavam mortos. muitos. Voltou até a mesa e tomou mais uma dose de seu bourbon. Lucas ergueu os olhos. com aquele "béééé-béééé" repetido. despenteada. — Nossa salvação. — Naquela noite. Apesar de não ter sentido cheiro de nada diferente no ar eu corri até a cozinha. como você. batatas. Uma pessoa comum que acordasse de um coma vinte anos depois precisaria de muita fisioterapia para voltar a andar normalmente. Ouvi gritos no apartamento do vizinho. Este pobre médico não sabe. bilhões entraram nesse sono misterioso. A mulher estava desesperada. mas o coração funcionava. batido e nada. — Gabriel. Quando dei por mim a manhã já vinha chegando. Os garotos tinham cerca de dezoito anos. Perguntei o que tinham jantado. Bilhões.não atrofiam. sem saber. — Sim. acompanhando a voz rouca do médico. Tornaram-se monstros. Acalmei a mulher quando constatei que os três estavam com a pressão regular. Naquela noite. E.

profundamente. Os adormecidos estavam por todos os lugares. Na manhã seguinte. aos poucos. Ela também estava tomada pelo sono. — O mundo acabou. Do outro lado da linha.respondeu. uma Grand Silverado. Ela ficava descontrolada quando exposta à luz. bombeiros. desespero. Não vimos relação até chegarmos ao hospital. enquanto eu tentava cuidar também de Júlia. — interrompeu Lucas. Gente dormindo com aquela doença por todo o planeta. Com a chegada do anoitecer ninguém queria dormir. ainda. Ninguém queria se tornar mais um adormecido. Perdido. Acabou naquela maldita noite. Havia fogo em alguns prédios. Mas o que imperava naquele momento era o pânico. Nunca mais voltou a ser minha pequena Júlia. Muníamo-nos de drogas que bloqueavam o sono. A TV não funcionava. todos tomados por aquele mal. junto com a vizinha que se uniu a nós. Os colegas me diziam que um tipo de epidemia tinha tomado conta da cidade durante a madruga. Não desconfiávamos do quadro geral. Sem vagas. Júlia começou com uma estranha sensibilidade ao sol. Coloquei-os no meu carro. nunca mais abriam os olhos. Era um bicho. O trânsito estava um inferno. eriçando os cabelos que eu ainda tinha. foram sendo contados de todo o mundo. Com a chegada do amanhecer percebemos que as surpresas não acabavam naquele fenômeno. Para meu assombro.. Chacoalhei-a pelos ombros e ela despertou assustada. como milhares dos acordados. notando que havia muita confusão nas ruas. só chiado. Quem teria atacado nosso Brasil com armas químicas? O médico parou para outro trago e mais uma baforada. Gente jogada pelo corredor. No dia. minha filha morreu. sem tragar a fumaça. 75 . Confusão. Balancei minha mulher. Sabíamos que a doença estava se espalhando pelo planeta porque algumas pessoas conseguiam ligações de telefone fixo para fora do país. uma aberração. Falavam em armas químicas. Ela. o coração dela não pulsava. Senti um alívio momentâneo enquanto a abraçava. dos meus vizinhos.. Me senti impotente. Em nosso apartamento.. Lucas. — Seguro caro. foi levada para o mundo da escuridão. Um alvoroço na entrada. A pele queimava. Quando dormiam. — Fomos para o hospital. Os olhos dela se tornaram vermelhos e ela não parava de chorar. — Fui até o quarto de minha filha adolescente. Mas como uma arma química ia escolher um e deixar o outro? É verdade que tem gente que é mais suscetível que outra. Lucas. na hora. os olhos ardiam. Os casos. Com a ajuda da vizinha e de minha filha fomos descendo os adormecidos até o subsolo. o pânico. ambulâncias.. ligamos o rádio em busca de notícias na CBN. E realmente isso veio a acontecer com uns poucos. Ela nunca mais falou comigo. — o médico chupou o charuto mais uma vez. Depois a lembrança de minha esposa. Lucas. Não fora um efeito regional. Júlia estava dormindo. Um caos. De noite. Entender que mal se abatera sobre minha menina. Lembro até hoje do arrepio percorrendo meu corpo. cuidávamos de nossos adormecidos. Júlia abriu os olhos e não era a mesma.

segurava firme nos encostos para os braços da confortável poltrona.. Eles destruíram nossas redes de comunicação.. Tentam tomar os adormecidos.. Durante o dia é o nosso turno de jogo. Durante a noite é novamente a vez deles. — Essa doença. Caçam os hospitais. mais enfraqueceremos o inimigo. As ruas ficaram perigosas. Quanto menos sangue deixarmos para trás. Júlia.. Quando a noite chega.Minha filha estava tremendamente doente e minha medicina não valia de nada. Quando a noite chega. pois não tivemos tempo de saber nem quantos sobreviveram ao sono. — Vê algum telefone nessa sala? Algum telefone nesse prédio? Lucas balançou a cabeça. nosso algoz. Essas bestas que caminham no escuro tentam. Mas morrem no sol. As noites passaram a ser horas terríveis. Acabaram com praticamente tudo o que nossa ciência ergueu. Nenhum telefone. Eles pareciam ser consumidos por um tipo de loucura. Tornou-se tão perigosa que foi impossível mantê-la comigo. vê algum telefone em minha mesa. quando Júlia era tomada por uma espécie de demência. Tomam nosso sangue. tentam acabar com nossas vidas. ninguém fica fora da fortificação. um dos maiores centros brasileiros da atualidade. nunca foi possível quantificar com precisão quantos adoeceram. Noite após noite. Nos caçam durante a noite.. essa loucura que acometeu metade da população livre do sono bizarro. viraram nosso maior tormento. Querem nos ver loucos. tudo o que fazemos é orar antes de fechar os olhos.. Evitam que nos reagrupemos. Lucas. Sorveu mais um gole do bourbon. Quando a noite chega. tentava me atacar com objetos cortantes ou com dentes pontiagudos e afiados. caçamos nas velhas cidades por depósitos de gente que ainda existem por aí. Bloqueiam os caminhos. ninguém ousa ficar nas ruas.. Tentam vencer nossas cidades. Estavam todos loucos.. Com os adormecidos confinados em suas tocas eles têm sangue garantido por muito tempo.. Vândalos começaram a destruir a cidade. — Vampiros. São Vítor. essas pessoas infectas. apesar de meu carinho. A hora em que tivemos que nos separar.. Demorou algumas semanas até entendermos o que estava acontecendo com os nossos filhos. Destruíram nossas estradas. Vampiros. O médico fez uma nova pausa enquanto era visitado pelo passado. — Não viu e nem verá. Os olhos baços. Acho que essa foi a hora mais triste. Orar e esperar pelo nascer do sol. Lucas? O homem olhou para o tampo liso de madeira. tenso com o desenrolar da narrativa. Acabar com o que resta de nossa organização. liquidar com nossa existência. O que evitou nossa completa extinção foi o horror que estes seres têm do sol. nosso salvador. noite após noite. Lucas. é um dos alvos preferidos dos exércitos mais organizados 76 . Têm dentes malditos. O que o doutor lhe dizia era algo inacreditável.. elas passaram a nos caçar. — Isso mesmo....

segundo a profecia. — Você dormiu como um vendedor de seguros. O doutor colocou o charuto na boca. É o que completa o número. Irão trazer o dedo de Deus para a Terra e varrerão os noturnos do planeta. Eles têm medo de nossa união. Atacam nossas muralhas. Mas mesmo assim somos nós quem teme mais.. O estômago oco. Lucas arqueou as sobrancelhas. e acordou como um messias! Nem eu acreditaria. Eles estão por todos os cantos. Somos nós que não podemos andar livres durante a noite. arrastando-o na direção do rapaz. Um messias.. Os dentes pontiagudos. Levarão os números. Lucas.. — Você. Não querem que juntemos vocês.. Será muito bem-vindo.. A boca abriu sem conseguir dizer nada.. — É melhor você tomar um gole. 77 . Mais um instante de silêncio... eu. Um Messias. Livrarão a gente do medo da escuridão. — Não entendo. Fome. noite após noite. em sua marcha de salvação. Eles têm medo. Um libertador. o trigésimo. O pelotão dos bentos. Criaturas demoníacas. É o mais aguardado dos libertadores. eu só não esperava viver o suficiente para vê-lo acordar.. é um enviado. Tudo isso já era esperado. Um Salvador. Sabem que essa será a chave para nossa liberdade. — Um vendedor de seguros? O médico da voz rouca sorriu. vitória após vitória. o mais especial deles. Lucas balançou a cabeça. Lucas. Os olhos sinistros de Gabriel. como será chamado por muitos. Estão em todas as florestas. Lucas permanecia tenso.. — Bentos? — Sim. A história incrível que o médico lhe contara convergia para um ponto escuro. os abençoados. E.. Lucas.desses malditos. — Não. Eles conhecem a profecia. filho. O que um homicida maluco podia trazer de bom? Então.. A cabeça estava confusa.. Um escolhido. Serão celebrados vila após vila. sem compreender. eu. O médico completou o copo com a bebida de cor escura e encheu um segundo copo. mas é isso que você é. outra lembrança veio-lhe à mente. — Você é um homem especial. Gabriel era um vampiro! — Você é um dos bentos. o que ele pessoalmente tinha a ver com toda aquela calamidade que tomara o planeta? Lembrou-se de Gabriel morto no chão branco.. um homem bento.

Não havia cheiro. Seriam picados um a um. a respiração pesada. Talvez tivessem encontrado as motocicletas escondidas pelo mato e desconfiassem que estariam escondidos ali. Adorava o combate. Ficaram mudos. Insistiu na porta. Raul acabava de engolir um bocado de saliva. Adriano empunhou seu facão prateado e manteve os olhos na porta metálica. ouvidos atentos. tocando os lábios e pedindo silêncio. Passos no corredor. O esconderijo era bom e antes daquela porta havia um corredor por demais estreito. Também ouviu o barulho. Zacarias levou o dedo erguido para a frente do nariz. Ela tremeu. Todos dormiam. Zacarias continuou nervosamente pedindo silêncio para Raul. só dava para um maldito por vez. Talvez o intruso fosse embora.Capítulo 13 Zacarias foi quem ouviu primeiro. mas o medo era impossível de controlar. Sinatra parou de roncar. sem sair de seu canto. Talvez a coisa fosse embora. embalado em sono pesado. mas continuava dormindo. o sangue gelou nas veias. Raul anuiu. Ninguém ali dentro estava sangrando. Alguém mais fraco 78 . sobressaltados. A pressão arterial deveria ter subido ao ser invadida por uma dose generosa de adrenalina. Zacarias repetiu o gesto com o dedo no nariz pedindo silêncio. Antes de dormir já tinham substituído a munição comum por balas de prata. Santo Deus! Tinha escutado passos no corredor! Que não fossem os vampiros! Ficou quieto. Com o pé.. olhos bem abertos.. Estava bem presa e uma porção de caibros firmemente encaixados impediria que a porta deslizasse com facilidade. Segurou com firmeza o rifle nas mãos. Sinatra roncava. estacou. Balançou a cabeça duas vezes no sentido da porta e apontou para o ouvido. Levou a mão até a trava da arma. Os três acordados anteriormente gesticulavam pedindo calma e silêncio. Os homens preparam as armas.. somente um vampiro investia contra a porta. Porra! Tinha cochilado! Zacarias olhou para o resto do cômodo. olhando Raul nos olhos. Ficou calado. O barulho indesejado repetiu-se. A porta estremeceu. assustado. Alguém andando do lado de fora. O líder dos soldados sentiu o coração bombeando freneticamente. cutucou o ombro de Adriano. Antes que o líder acordasse. assustado. e ergueu os ombros como uma interrogação. Só passariam destruindo aquela porta.. Adriano colocou-se sentado. Adriano abriu os olhos. Sabia que. A porra do sentinela estava cochilando! — Raul! — sussurrou com urgência na voz. Um golpe mais forte contra o metal fez os outros colocarem-se de pé. Raul abriu os olhos. virando de lado. Olhou para Raul que estava de sentinela. fossem quantos fossem do outro lado.

Valiosos porque era sempre bem visto pelo ninho a captura de soldados. A porta de ferro resistia corajosamente. Era torturado. cedo ou tarde. Deixou-a para fora. carregando para longe o cheiro da caça. 79 . eram os inimigos mais perigosos nesse jogo de gato e rato. Não conheciam a mata. Marcel tinha lágrimas descendo pelo rosto. sobre o peito. Os golpes aumentaram de intensidade. senão não teriam deixado tantas balas de prata para trás.poderia borrar as calças numa situação dessas. Olhos arregalados. Aquilo só tinha confirmado que a caça estava nas cercanias. Talvez. Foi Cantarzo que. Por que não tinham um bento no grupo? Tinham água benta nas mochilas. ou talvez o vento noturno não estivesse ajudando. Gostava de decepar aqueles malditos. Teriam medo de arriscar. com pedaços de cimento despregando no contorno do batente. nem nada. guardavam um ou dois vivos para tortura. Algumas vezes. às vezes. próxima ao pé da ponte. Cantarzo tinha encontrado mais uma caixa de munição na outra margem do rio. tornavam-se mais saborosos e mais valiosos. Os soldados buscariam esconderijos perto da estrada. Este sabia mais segredos. Grunhiu baixinho escalando árvores e cruzando o ar de galho em galho. Tinham fugido próximo ao pôr-do-sol. cair nas garras daqueles monstros e servir de comida para os dentes afiados dos vampiros. ora parecendo um macaco ágil. após vasculhar as pequenas grutas conhecidas na região. deixando as cabeças dos soldados cobertas por um pó esbranquiçado. Além de serem cheios de sangue como qualquer ser humano vivo. Nada. A preocupação cresceu e os olhares convergiram para Adriano. A cada pancada contra o obstáculo. Sabia que chegaria ao local antes de Raquel e seu bando. descobriam os passos dos humanos em busca de uma solução final para a ameaça vampírica. Estavam tensos. Depois de três minutos de golpes ininterruptos. Se entrassem em combate e se atracassem com um vampiro. Bastava pegar as garrafas de água benta e encharcar a roupa. mas não ousava soltar um pio. Faziam parte do time dos poucos que ousavam resistir. poderiam produzir um falso bento. Tentavam sempre capturar o líder.. Soldados eram especiais. facilitava as coisas. Nenhum deles estava sangrando. após liquidar com a maioria. Nem sangue. A boca salivava. Adriano passou os olhos sobre os homens. quando os encontravam em bando. Bastava abraçar o monstro e vê-lo se debater ao contato com a água venenosa. Os homens benzeram-se e em seguida destravaram as armas. Mais poeira descia do teto a cada batida tornando o ar espesso e difícil de respirar. Queriam saber do líder o que fazer. valia alguma revelação interessante. mas temia. estando com a roupa encharcada de água benta. Parou no topo de uma árvore e farejou. há alguns minutos. Às vezes. lembrouse da velha lanchonete. ora parecendo uma ave de rapina. por isso.. Isto. os soldados engoliram a seco quando perceberam o ferro envergando e a parede começando a rachar. uma nuvem de poeira despencava do teto. Paraná sacou do peito o crucifixo e beijou a peça com ternura.

Caminhou até o asfalto. Levou algum tempo até aproximar-se da lanchonete abandonada. Estava desarmado. que pudessem carregar mensagens de uma fortificação a outra. vigiando. Qualquer soldado fora dos muros deveria ser encontrado e atacado. mas não pôde ver dali os olhos vermelhos dos concorrentes. Só depois de perceber não haver nenhum indício externo dos soldados e decidir entrar no salão da lanchonete é que se concentrou em tornar-se uma criatura silenciosa. mas poderia aproveitar a oportunidade e esperar os outros. Cantarzo desceu ao solo.. mesmo de longe. Cantarzo pensava em tirar partido de seu poder pessoal. um motoqueiro veterano.levado ao extremo do sofrimento. para as árvores. Poderia regular a pressão do corpo. muitos anos atrás. Mas estavam escondidos ali dentro. Destruir estradas. conseguiu ver algumas trilhas de motocicleta saindo do acostamento em direção ao local recoberto de plantas. mas estava concentrando em olhar tudo. torturado e morto. Quantos seriam? Talvez estivessem acordados. Poderiam capturar um número maior de soldados vivos e levá-los ao ninho para a obtenção de segredos. não se preocupando de imediato com o ruído. Grunhiu demoradamente. Gostava de caçar assim. Olhou de novo para a estrada e depois para a mata. Destruir os cabos telefônicos restantes. Anaquias e Gerson. Contudo. além de trazer armas de fogo no grupo. Foi depois de sucessivas sessões de torturas. Por isso. vasculhando o ambiente com os olhos. compondo excelente reforço. tinham experiência na caçada de motoqueiros. Subiu o primeiro degrau e já pôde vislumbrar parte do salão do que fora o Rancho da Pamonha. Sabia que poderia lançar mão de sua velocidade de vampiro e das garras afiadas para fazer sangrar as vítimas. Cantarzo era valente. mas ainda mais prudente. Raquel. Achava que as mãos nuas causavam ainda mais medo à caça. isso era certo. de sua capacidade superior de assimilar o sangue ingerido. Os olhos da criatura cintilaram. antenas. vampiros como Cantarzo eram treinados para procurar Rios de Sangue para manter o ninho abastecido de sangue fresco e também para vigiar as florestas e estradas em busca de soldados impetuosos. Envolto nessas ponderações. que perceberam ser necessário começar a destruir todas as ligações das vilas. esperando o primeiro vampiro surgir na porta. do topo daquela árvore. tudo que pudesse permitir a união de informações. Se houvesse ali um líder. Se os deixassem tramar e conspirar livremente. 80 . Depois era degolado e servido aos mais antigos do ninho de vampiros. Derrubar linhas elétricas. Olhou para trás. rodou sobre os próprios pés voltando ao chão arenoso do lado de fora. Os soldados estavam ali. Cantarzo apurou o olfato. As botas Timberland começaram a estalar contra os pedriscos do acostamento.. Nem sinal dos vampiros. sabiam que os humanos logo conseguiriam construir alguma estratégia para combater mais habilmente os vampiros. Talvez fosse melhor aguardar os outros. a comunicação rápida. mas não conseguiu sentir cheiro de sangue. Nem sinal de fumaça ou fogo. Não conseguia ver as motos utilizadas pelos humanos. Sabia que Raquel e Gerson vinham atrás. Por outro lado. para que não fizesse barulho algum. Atravessou a rodovia. poderia tomar seu sangue e absorver dele as habilidades.

. mas não é tão rápido quanto nos. Sabe que o seu amigão aí é forte. Cantarzo abaixou-se e agarrou o oponente pelas costas.. Precisava ganhar tempo. imobilizando-o pelo pescoço. mas não era tão rápido quanto ele... Cantarzo. estou farta de seu jeito desrespeitoso comigo. Cantarzo? Acha que já capturou soldados o suficiente para agradar aos velhos vampiros? Você sabe que o respeito é tudo que nos resta nesta vida maldita. preso pelo pescoço. Raquel deu um passo em direção ao vampiro de cabelos longos e presos por aquelas ridículas tiras de couro. Cantarzo tinha parado de debater-se. Será que ele vai garantir que você saia com o pescoço inteiro lá de dentro? 81 . Não é que o bom Cantarzo venceu a aposta. — Ora. Por que você não engole esse orgulho besta e não me ajuda a levar um bom número deles vivos para o ninho? Se conseguirmos arrancar bons segredos.. — murmurou Gerson. ora. Recolocou-se em guarda e procurava Raquel com os olhos quando sentiu o braço da vampira agarrá-lo pelas costas. Gerson. quem sabe vocês dois também não gozem de alguns privilégios e tornam-se os novos queridinhos do covil? — Não preciso de seus conselhos para ser bem-vista pelos velhos. Cantarzo desviou e desferiu uma cotovelada na nuca da vampira. — TPM. indo até a escadaria frontal. Estava furioso.. Raquel grunhiu irritada com a provocação. antes de ser novamente agarrado. — Não sabia que vampira também sofria de TPM. Quando ergueu os olhos. sete soldados.. O grandalhão era forte. cara? — perguntou Gerson. — Você chega e me humilha na frente dos novatos. pelo menos. Grunhiu nervosa e mostrou-lhe os dentes. o vampiro. refeito. — grunhiu a vampira no ouvido do inimigo. fazendo-a ir de rosto ao chão. pôde ver dois vampiros parados no acostamento. Guardava energia para uma oportunidade concreta de livrar-se do braço forte de Raquel e ter tempo ainda de atingir Gerson.Desceu de cabeça baixa. ora. — Se eu fosse você. aproximou-se dos vampiros. arremessando-o contra os degraus da lanchonete. Tenho meus próprios trunfos. Gerson investiu. Acha que é o queridinho do ninho.. diminuindo assim sua força e capacidade de reação. água benta. — Este lugar está cheio de soldados. Ela foi hábil ao tirar-lhe o centro de equilíbrio. Raquel voou em direção ao vampiro. pararia enquanto ainda tem um olho bom. os olhos pareciam duas brasas prontas para incendiar o inimigo. — balbuciou Cantarzo. — São. Balas de prata. Cantarzo. Apesar do tom ríspido que soou a frase. sentiu a oponente vacilar. — Do que você está falando. espadas. analisando as pegadas de botas deixadas no chão.

Cerco-te. levou a mão ao ferimento. Antes que pudesse localizar a vampira. tomou um golpe poderoso no tórax e foi arremessando contra o peito largo de Gerson.. Do perigo. Se fizer gracinhas na frente de meus soldados. Era isso que Cantarzo mais gostava. As unhas de Gerson pareciam atravessar o couro de seu sobretudo negro e a pressão parecia a ponto de esmigalhar seus ossos. Calado por um instante. 82 . não vou cair mais na sua conversinha de. Cantarzo não sairia inteiro daquela caçada. que o agarrou pelos ombros. Num ambiente fechado como aquele. assim que tivessem dominado alguns dos soldados. certamente Cantarzo ouviria. Raquel afastou-se de Cantarzo e usou sua velocidade vampírica. Precisaria tomar mais cuidado com aqueles dois dessa noite em diante. Raquel queria dizer suas reais intenções para o parceiro. Vingança. Os humanos eram cheios de artimanhas e armas carregadas com a maldita prata. a mulher ruiva com o tapa-olho negro. abrindo-lhe um rasgo no lado esquerdo da face. um exemplo. sabiam que podiam esperar de tudo dos soldados. O vampiro foi na frente. você não é indestrutível e tem que se lembrar disso. A maldita estava dando ouvidos à ladainha daquele vampiro imbecil. não retornaria à caverna para colher os louros da captura daqueles soldados. Se Gerson chegasse um pouco mais perto. com um. Ela estava ponderando.. Você é uma lenda dentre nossa raça. depois a vingança. Cantarzo virou-se rapidamente. Um vacilo e pronto! Você estaria liquidado.. Falo muito bem de você aos iniciantes. vampiro agonizante. — Vamos entrar e acabar com a raça deles. Cantarzo grunhiu de dor. afastando o dedo do nariz do oponente e dirigindo a unha afiada ao rosto do vampiro.Sentiu o braço afrouxar mais um pouco. mas exijo respeito e edificação diante dos meus pupilos. quero ser tratada da mesma forma. Raquel. Primeiro os soldados. não quero falar com você e nem cruzar com seus olhos. Raquel fez outro sinal para Gerson. O orgulho da vampira falava mais alto e ainda mostrava-se muito machucado. Gerson grunhiu e olhou para a vampira. acabaria com a raça do vampiro.. vampiro. mas. Raquel. menos deixá-los seguir impunes pela estrada. Raquel não estava autorizando o ataque.. Não quero ser sua amiga e nem busco sua consideração. com dez vampiros. O dedo em riste de Raquel tocou-lhe o nariz.. Queria desfiar Cantarzo com as unhas. Raquel deixaria Cantarzo ajudá-los. Sabia que ambos estavam com o orgulho ferido e só o tinham libertado para terem um par de garras a mais dentro daquela lanchonete. mas eu juro que esta foi sua última chance. Fechou a boca numa expressão amarga. sem terem tido a oportunidade de observar o grupo antes de abordá-lo.. Cantarzo. Cantarzo ficou livre das mãos de Gerson. desprevenido.. mas daquela distância.. — Raquel disse com a voz rouca e sensual.. surgiu na sua frente e apontou-lhe ameaçadora-mente o dedo indicador.

Por meio dos humanos capturados e torturados sabiam que lá ficava o maior Rio de Sangue da atualidade. Afastou-se. As botas estalando contra pedriscos. Uma encenação gigante de João e Maria. O corredor era apertado e não dava para dois vampiros tentarem juntos vencer o obstáculo. Talvez o presunçoso Cantarzo estivesse errado. Os ouvidos do trio vampiro ouviram nitidamente o engatilhar de várias armas. Raquel aproximou-se. mas Gerson tinha certeza que faria a diferença. só isso. Adormecidos em número suficiente para nunca mais precisarem lutar pelo sangue da alimentação. Apenas dois deles pareciam ter sido limpos muito recentemente. Cantarzo presumia que os soldados estariam por perto por culpa de uma caixa de balas de prata. Pegadas no piso empoeirado. Gerson gesticulou.Gerson vasculhou com os olhos o primeiro salão. Estava emperrada ou. Dali para frente lutaria pelo sangue do prazer. O chão e o teto cobertos por um tipo de trepadeira de caule grosso. Rente a porta. Daí para frente seria apenas questão de tempo até a extinção dos humanos rebeldes. não encontrariam Rios de Sangue dentro daquela fortaleza. São Vítor era um centro estratégico.. Era uma porta de deslizar. Os vampiros vasculhavam o salão procurando por indícios dos soldados. As trepadeiras acabavam ali. Continuou em frente. o caule grosso em alguns ramos havia sido decepado. Os soldados poderiam até ter passado por ali. displays da ElmaChips. bloqueada. Os escravos seriam marcados feito gado. Talvez o homem tivesse sido descuidado. onde seriam presos em jaulas e alimentados para um estoque de volume nunca visto de sangue pulsante. Empregou mais força na segunda tentativa. Nenhum cheiro de sangue. Uma confirmação afinal! Os vampiros 83 . mas não se moveu. Não. O prazer da matança. Terminava em uma porta metálica de cor bege. mas um verdadeiro Mar de Sangue. Os amplos vidros que davam para a estrada estavam cobertos de poeira. Se alguém estivesse olhando o salão naquele instante teria a impressão de ver cinco brasas vermelhas flutuando fantasmagoricamente. Gerson chegou a um corredor estreito depois de atravessar a cozinha. Caixas registradoras. Empurrou-a cuidadosamente da primeira vez. Passou para a segunda parte do salão. Os olhos vermelhos intensificaram o brilho. Chamou com a mão os outros dois. dotados de capacidade auditiva muito superior a dos humanos. Recuou. O exército de vampiros não lograra êxito nas tentativas de invasão anteriores. Naquela parte havia uma grande área do chão sem vegetação. Gerson chegou ao final do corredor. Cheiro de seiva fresca. revelando a desconfiança. Nada ouviu. Talvez uma pista falsa. As pegadas deixadas ali eram muitas e indicavam trânsito recente. Contava os dias para ser chamado para o ataque a São Vítor. Botas. Olhou para o teto. mas podiam estar a quilômetros de distância. Inspirou profundamente. O vampiro golpeou o metal. Para lá destinavam a maioria dos adormecidos. O prazer dos gritos de horror. chamando silenciosamente os outros dois.. Apurou os ouvidos. Diacho de corredor estreito! Abaixou-se rente a porta. Raquel e Cantarzo surgiram na cozinha. Humanos eram patéticos e cometiam burrices como aquela. Deu lugar a Gerson que era o mais forte. passou por seu parceiro com certa dificuldade. velhos expositores refrigerados.

conduzindo para dentro do Rancho da Pamonha os seguidores... depois de algumas portas. onde as nuvens bailavam ligeiras ao sabor do vento. Um número irrisório para três vampiros experientes. viajando como o vento. Sabia que. Cantarzo atravessou novamente a cozinha e. Raquel e Gerson estavam muito ocupados para lembrarem-se disso.grunhiram. era uma ótima oportunidade para aprenderem algo de útil.. golpeando incessantemente a porta. depois do confronto. depois de acabarem com os soldados e capturarem alguns para levarem ao covil. talvez fosse alvo da fúria da dupla Raquel e Gerson. Cantarzo disparou para o outro lado da rua e saltou para cima de um eucalipto. Estavam longe de um abrigo seguro. Perguntou o que Cantarzo fazia ali. Por que não usa? — Queremos pegá-los vivos. mas colocaria as mãos naqueles malditos soldados. Anaquias não perdeu mais tempo com o vampiro. todo cuidado é pouco. em um par de horas. aproximou-se de Raquel. Parou na entrada da casa. Raquel mal deu atenção ao vampiro. o sol despontaria no horizonte. — Sim. Raquel salivava e não via hora de atravessar aquela porta. Mesmo com sua habilidade sobrenatural. ou algo para arrombar aquela passagem. Tocou novamente a ferida. Eles estavam excitados. Cantarzo sorriu. Que fizessem bom proveito da investida. O corredor era estreito e nada poderia fazer até aquela porta ir abaixo. Sem sombra de dúvidas. Estavam doentes de sede. — Vou procurar alguma coisa para arrombar essa porcaria. Cantarzo foi até o acostamento da estrada. — Você tem granadas. com soldados motoqueiros. Lembrarem-se que estavam longe do covil. Gerson aumentou a investida. Cantarzo acalmou-se. O alpendre do estabelecimento era decorado de modo rústico. Não seria ele que daria o alerta. Cantarzo sorriu mais uma vez. Vá lá para dentro e mostre aos novatos uma manobra de invasão. Apesar de serem humanos. Derrubaria se fosse preciso. Raquel e Gerson estão tentando arrombar uma porta fortificada. A lua já havia descido e. Cantarzo recolheu às presas. — Encontramos os soldados. Olhou para o céu. Em segundos estava a mais de vinte metros de altura. com muita madeira e enfeites de milho de modo a combinar com o nome da marca. Quando se preparava para disparar com velocidade vampírica para dentro da mata do outro lado da estrada. — Encontramos? — estranhou o parceiro de Raquel. — Se assim quer. Quantos soldados seriam? Se o morto fosse membro dessa expedição estariam em sete no mínimo. correndo contra o tempo. na 84 . estava mais uma vez no salão principal.. Olhava fixamente para a porta que era esmurrada e empurrada pelo enlouquecido vampiro Gerson. buscando o covil. Assim que os viu desaparecer no salão. Anaquias e seu grupo de novatos aproximaram-se. Vim procurar um outro acesso.

que por mais novatos que pudessem ser. Cantarzo nos largou aqui! — Mas. seguida por Anaquias. Tirou Tatiana de seu caminho com um empurrão enraivecido. Anaquias! Ele nos deixou aqui para morrer! Os mulos convertidos em vampiros surgiram no alpendre. Gerson golpeava a porta há mais de dez minutos. Urrou mais uma vez com a boca voltada para o céu. deixando o salão principal. eram vampiros. — Onde está Cantarzo? — vociferou a vampira. só perceberia o erro tarde demais... como se não tivesse peso. — Ele fugiu.. a tarefa levaria tempo e o barulho havia terminado com qualquer chance de surpresas. Temos que voltar para a toca agora.. O corredor estava tomado por uma nuvem de poeira que descia do teto. Raquel alcançou o salão. cercada de novatos e dois capangas bobocas. — E os soldados? — Vão viver. Graças a Cantarzo. mas entenderia o recado. Mesmo assim. 85 . — Não há outra entrada. A novata esparramou-se no chão da cozinha com as presas expostas. A prontidão dos soldados seria um problema. Entenderia que jamais deveria ter rasgado sua face. Raquel agarrou Anaquias pelo pescoço e suspendeu-o no ar. Raquel olhou para Anaquias e procurou Cantarzo com o olho bom. Anaquias. Entenderia que Cantarzo era um vampiro dos melhores. pois Raquel encontraria algum canto escuro para salvar seu rabo. Anaquias! Você conhece este lugar melhor que eu! Raquel agarrou-se às trepadeiras que subiam pela fachada da casa comercial. Os vampiros estavam em franca superioridade agora. Urrou nervosa. O vampiro não estava mais lá. mas criassem as artimanhas que fossem. levaria. ao menos. A vampira notou que a parede trincava ao redor do batente. pois contavam com três novatos. Cantarzo sabia que isso seria sorte demais. Raquel percebera a aproximação de Anaquias e pediu silêncio. Com alguma sorte morreria tostada pelos primeiros raios de sol. pousando nos pedriscos de frente do alpendre sem fazer barulho algum.. Correu pelo telhado até alcançar o ponto mais alto.. uma hora e meia para chegar à boca da caverna. Na retaguarda ainda existiam os veteranos.. Saltou do telhado. — Chame Gerson.. cheio das virtudes e dos defeitos reservados às criaturas da noite. — Ele saiu para procurar outra entrada para encurralar os soldados. Raquel. deslealdade suficiente para abandonar os semelhantes à própria sorte sem peso algum sobre o peito. defeitos como aquele. vão viver. jamais escapariam daquele beco vivos. Raquel soltou Anaquias no chão de terra.melhor da hipóteses. Farejou nervosamente. — Não tem "mas".

Como sugere tamanha asneira? Esse lugar é rota de soldados. Em instantes. perco Cantarzo. talvez. Estava arisca.. — Raquel olhou para a mata na tentativa vã de encontrar rastros de Cantarzo ou até mesmo seus olhos vermelhos. ainda sentado no chão de terra. Minutos intermináveis tinham se arrastado. Usaremos o esconderijo deles durante as horas de sol. metros adiante. assim. mas isso vai levar tempo. Se eles eram esperados com data marcada na próxima cidade.. Os homens viram-se obrigados a controlar as emoções. tirá-lo daquela posição humilhante diante dos novatos. — Vai levar tempo. — Cantarzo evadiu porque sabia que depois dos soldados seria sua vez. provavelmente teremos uma patrulha buscando esses infelizes amanhã. Raquel. — Se não tivermos tempo. — Você está com algum problema. zelar pelo dom dos malditos noturnos. e talvez não tenhamos tempo de voltar ao covil.. Quero mais aquele vampiro do que esse bando de humanos.. ainda tivesse chance de deitar os braços no vampiro. A poeira não mais caía do teto. Sem essa possibilidade não lhe interessava aqueles desgraçados. Cantarzo havia gorado seu plano. Queria que o vampiro os ajudasse a capturar os soldados com vida. O novato estava sentando no canto da sala e tinha abandonado a arma 86 . Raquel andou pelo pátio. O som das pancadas tinha cessado. estendendo a mão para tirá-lo do chão. Pagaria caro por aquela humilhação.. ao menos. O prêmio? Encontrar o covil e esconder-se do sol e. Já falei. cega pela raiva..— Podemos destruir aquela porta. fazendo seu traje negro esvoaçar. Cantarzo pagaria. teremos que nos esforçar mais. nosso abrigo para as horas de sol. se chegarem aqui nas horas de sol. vampiro. — Podemos até conseguir derrubar a porta que aqueles homens bloquearam. Se saíssem agora.. Poderemos fazer desse abrigo. — Você é um dos mais espertos do covil. teremos. Se ficarmos. Tempo que não temos. tomado o sangue desses andarilhos. Anaquias? — perguntou a mulher. Sabia que seria difícil. Grunhiu irritada. — Podemos vencer aquela porta. acabam com nossa raça em dois tempos. o dom da vida eterna. olhando para cima para encarar a líder. Anaquias obedeceu a líder e foi buscar Gerson. ainda mais servindo de ama seca para aqueles novatos. e se ele não a levou abaixo. Saltar com velocidade e força vampírica. Raquel. Tempo. agarrando-se no galho mais alto e voando para o seguinte.. Brigar contra o poderoso deus Chronos. O único som no momento era o choro descontrolado de Marcel. O coração parecendo que ia explodir parecia atrapalhar a audição. o bando de Raquel estava embrenhado na mata e os novatos aprendiam com urgência uma importante lição. com graça e agilidade. — insistiu Anaquias. Gerson esmurrou aquilo.

Os homens entreolhavam-se nervosamente. O lenço que trazia amarrado na cabeça estava agora na boca. Sabiam o que os aguardava do outro lado daquela porta. que se voltou para o novato descontrolado. entre os dentes. Como o rapaz não conseguia conter as lágrimas nem o soluço. Zacarias voltou a estender o dedo indicador diante do nariz.aos pés de Paraná. Adriano fez um sinal para Paraná. Estavam com medo. Estavam com medo. clamando por silêncio. Paraná acabou esbofeteando-o até fazê-lo calar-se. passando-lhes as unhas. Conheciam a maldade encerrada nos corpos gelados dos malditos noturnos. Ninguém pensou em conter a selvageria do parceiro. tentando aplacar o pranto. mas a maioria das armas era sustentada por mãos trêmulas. A maioria estava a um triz de cair no mesmo descontrole. que mantinham os dedos instáveis longe dos sensíveis gatilhos. Sabiam como rasgavam a carne humana com facilidade. simplesmente. nem mesmo de fazer graça com o desespero do outro. A maioria deles não chorava. Paraná curvou-se e pediu silêncio duas vezes. Todos eles. 87 .

Agora. Raul atravessou a cozinha sem problemas. 88 . O sol banhava o asfalto e o dia começava a esquentar. Precisou de um bastão para servir de alavanca e conseguir retirar os mais resistentes.Capítulo 14 Há algumas horas as investidas contra a porta de ferro já tinham cessado. Raul soltou a arma e foi até a porta. mas ali na cozinha existia escuridão suficiente para manter um vampiro vivo. O resto do pessoal continuou no cômodo apertado. Após retirar o último. Nem sinal dos noturnos. Passou pelo corredor estreito com os olhos arregalados. Entretanto. Não haveria ali nenhum vampiro. era o mais calado. Temia que fosse largado em São Vítor e destituído do posto de soldado que tanto almejara. de modo algum. o novato. disse que o caminho estava livre. mas ele queria ser soldado. com balas de prata. os soldados. não sabia o que fariam com um soldado chorão. Podia ver a claridade batendo fracamente no salão. precisou da ajuda do grandalhão Paraná para fazer a porta deslizar. a porta não tinha corrido pelo trilho e dado passagem aos assassinos noturnos. Dez para as sete da manhã. Atravessou o salão principal. Marcel. Até que seria bom encontrar com os bastardos malditos que fizeram a visita da madrugada.. A função de horteiro não era ruim. A folha metálica estava completamente distorcida por causa das pancadas recebidas. Com um movimento rápido da mão. no máximo haviam sentado.. mas o susto passado durante a madrugada pedia cautela. Não sabia por que os monstros tinham ido embora antes de derrubar aquela bendita porta. Os soldados. surgiu atrás de Raul. Tinham conseguido. Um passo de cada vez. Tinham sobrevivido a um ataque. A luz do sol entrava timidamente pelo salão principal. Dificilmente o Rancho da Pamonha serviria como esconderijo de pernoite no futuro. Sua estrutura havia sido completamente comprometida. Graças àqueles caibros. o mais baixo e gordo do grupo (só não era o mais velho por causa do Paraná). Zacarias. Também empunhava uma espingarda calibre doze. num esforço hercúleo de relaxar. com o sol forte brilhando lá fora. Fez um sinal para o seu amigo com traços de índio. A arma pronta para o disparo acompanhava seus olhos. eram eles. Raul ajeitou seu cabelo liso que lhe caía nos olhos. Com certeza muito envergonhado por causa de seu descontrole no primeiro encontro com os vampiros. O soldado foi retirando os caibros colocados antes do anoitecer. nem depreciativa. O que faria então? Voltaria a ser horteiro? Horteiro era o jeito que chamavam os homens incumbidos das plantações para o abastecimento do povoado. Adriano olhou para o relógio. que mandavam. Não havia dúvidas de que a luz solar já cobria as matas. mas graças a Deus tomaram aquela decisão. Tomavam coragem para sair. Saiu para o alpendre e desceu os degraus.

. serviria para o cumprimento dos ritos. agora é pra valer. Tinha lido em algum lugar na infância que o ser humano era o único animal no planeta que sepultava o semelhante. Só me avisem o que decidirem porque quero ir na primeira moto. Tinha conseguido arame suficiente. puseram a mesa do velho Gaspar em outro lugar essa manhã. enchiam a mata com o refrão: "Marvin. Falta de combustível.. calado e sem demonstrar o entusiasmo costumeiro quando obtinham sucesso mesmo nas menores vitórias. na voz dos imbatíveis Titãs. contudo assistiam a um guia atípico. Secou o suor da testa. — Além das motos temos que ver como vai nosso parceiro. estava deixando as decisões nas mãos dos soldados. levou as motocicletas para a frente do rancho. Sobreviver ao ataque de um bando de vampiros era uma vitória e tanto.. Zacarias foi até o esconderijo das motocicletas. Se quiserem acender o fogo agora. Suspirou.. — Adriano passou a mão no cavanhaque louro e deu as costas ao grupo voltando ao Rancho da Pamonha. Acho melhor prepararmos o café da manhã lá no rio.. Gaspar foi deixado naquele buraco e deve estar com fome como todos nós... pedindo que se apressassem nos preparativos para voltar à margem do rio. não. Com a ajuda de Marcel. Quando Raul sugeriu que acendessem o fogo para preparem um café da manhã. o sol do meio-dia 89 . A cruz. mesmo que mal alambreada. A barra tá mais do que limpa. Trouxeram uma mangueira para passarem um pouco de gasolina para o tanque quase vazio da moto de Adriano. de forma incomum. mas não precisam se apressar por causa do Gaspar. Vocês decidem o que querem fazer. Tinham ali outro problema. — Não precisam se apressar por causa de Gaspar. com um ar desmotivado e olhos entristecidos. — . Logo a apropriada voz de barítono de Joel uniu-se à do cantor e. Os demais olharam para o líder que. de Clarence Carter. Alguma coisa tinha perturbado os visitantes noturnos. pois estava faminto. ele não vai tomar café da manhã com a gente. fiquem à vontade. Vamos pôr o comboio na estrada. Raul. Sinatra resolveu colaborar para a elevação dos ânimos e a descontração entoando a versão brasileira de Patches. que trouxe as chaves. do contrário encontrariam os veículos inutilizados. — sugeriu o grandalhão. não quero ficar mais uma noite me borrando nas calças. noturnos não costumavam dar esse boi. foi Paraná quem elevou a voz. Fez uma pausa nas palavras com notória emoção. não tô muito legal hoje. de cor".. olhando para Adriano que se aproximava do grupo do lado de fora pela primeira vez.— Manda todo mundo sair. Deu graças por encontrá-las intactas. Se quiserem fazer a refeição na beira do rio será mais vantajoso porque o novato prepara o rango e a gente desce as motos que estão faltando. pelo menos quatro dos soldados. eu fiz o meu melhor e o seu destino eu sei. em instantes.

no topo do morro. Demorava meses sem fim para um bento despertar e sempre quando se aproximavam da concretização da profecia. olhou para baixo fixando na cruz de madeira. Decididamente. mas decidira não comer nada. as notícias indo e vindo e. em nome de um plano suicida. Davam cabo de mais vampiros em uma única batalha do que um simples soldados daria em toda sua carreira. Baixou a cabeça. Os bentos eram duros na queda. encoberta por mata e galhos frondosos. Os sete homens cercaram a cova uma última vez e puxaram um pai-nosso e uma ave-maria. Acenou um tchau para o amigo e montou em sua moto. O som do rio descendo moroso e o sol batendo no gramado seriam a companhia do parceiro de agora para todo o sempre. Adriano levantou-se e ficou calado olhando para a cova. O estômago queimava de fome. Apesar de abalado. demarcando o sepulcro. mas valeria a pena? E se jogasse tudo para o alto e aceitasse as palavras do Bispo? O velho dizia que o que havia acontecido ao mundo era uma benção. Para fazer valer a pena teria que deixar toda a tristeza e incerteza para trás. A motocicleta de Gaspar também foi escondida debaixo da ponte. Tanto sacrifício para isso: acabar dando um tiro no peito de um amigo em nome de um segredo. Não poderiam esperar eternamente pela vinda de mais um bento. Teria de unir-se para reforçar o time de libertação. não um mal. Retiraram a jangada da água e a esconderam ao pé da ponte. Nos primeiros trinta segundos seguiu em baixa velocidade. um ataque avassalador dos malditos noturnos acabava por azedar o andamento da carruagem. Tinha carregado bastantes pedras. levando a vida de um bento ou dois. enrolando o cabo do acelerador e rasgando o asfalto em alta velocidade.castigava o cocuruto. Eram selvagens e destemidos. não colocaria em xeque sua certeza na luta contra as feras noturnas. quase vinte e quatro horas sem alimento. Para que o sacrifício do amigo não fosse em vão sabia exatamente o que teria de fazer. Estava valendo a pena toda essa abnegação? Poderia estar em Nova Luz neste exato momento. Chamou os soldados. Faltavam quatro horas de estrada até São Vítor. fazendo parte do grupo que tentava pôr o plano de libertação em andamento. A gasolina havia sido retirada e seria repartida entre as máquinas restantes. ocupando-se de algo diferente do que cruzar as estradas e tentar manter os centros unidos. 90 . depois soltou um grito e reassumiu sua função de puxador. Adriano. Deu partida e assumiu a ponta. comungar com o irmão que não tinha tido direito a uma última refeição. na beira daquele rio. principalmente. não poderiam esperar pela concretização da profecia. Despediram-se de Gaspar e desceram a margem do rio até onde aguardava a balsa. do lado da mulher que amava. seria mais um dia de horário apertado. Chegando à outra margem repetiram o que tinham feito os últimos soldados que estiveram ali.

Seu ex-companheiro de cela tinha lhe saltado para cima com dentes compridos e rugidos monstruosos. Apesar de três andares. Usara uma palavra que não se lembrava agora. A cabeça girava com as informações recentemente adquiridas.. não vinha sozinho. chão. causando um repentino formigamento. Parecia um daqueles nomes eslovacos. Sol. Mas não tinha como negar aquela realidade. muito mais do que o habitual. mas suficiente para bloquear os detalhes cruciais para uma lembrança clara da vida. o dormitório lhe parecia um tanto mais aconchegante. Diferente da cela branca azulejada. Alguma coisa por dentro lhe dizia que não 91 . Dentro de um roteiro de filme de ficção. no último deles. O céu estava limpo e vestido num azul nunca visto. O dormitório ficava num pequeno prédio de três andares e localizava-se. Quem vinha.. Lindo. móveis. Instintivamente. O doutor comentara que ele fora corretor de seguros de automóveis. Ouviu passos no corredor. A Dra. Os olhos teimavam em procurar gente. Deixando-se guiar pelo barulho dos passos. Dar-lhe-iam um terno? O doutor dissera que ele seria preparado para conhecer alguém. Sorriu. Gabriel tinha transformado-se num bicho. Mesmo assim não pôde deixar de sentir aconchego naquele quarto médio. Lucas ficou de pé. torcia para não ser outro médico. depois de desperto. só havia conhecido médicos. Mas e todo o resto? Seria também verdade? Encostou a testa no vidro da janela.Capítulo 15 Lucas tinha sido conduzido até um dormitório. Não tinha como duvidar. Ah! Como queria acordar daquele sonho ruim! A cabeça doía toda vez que a voz do doutor repetia a história em seu cérebro. Sua cabeça estava uma merda. Lucas aproximou-se da janela. mas a luz quase cegava. Não conseguia se lembrar de muita coisa. Barulho de crianças brincando. O que seria habitual agora? Seria comum encontrar uma onça-pintada no meio da rua? E aquela história de vampiros? Mais uma vez passou a mão pela cabeça. As duas crianças tinham sumido do seu campo de visão. Lucas apoiou-se no balaústre. Lucas ergueu as narinas e começou a inspirar rapidamente.. A luz do sol entrando pela janela e desenhando um trapézio no chão de madeira enchia o ambiente abstrato com uma sensação de realidade. O passado estava submerso numa névoa tênue. Tinha lido o nome do doutor num dos diplomas. Ana e o "doutor". principalmente. pôde divisar algumas cabeças subindo a escada. o complexo de dormitórios era baixo. Olhou a cama com o lençol desarrumado apenas onde estivera repousando o traseiro. Coçou a cabeça. Tentou enxergar quem vinha pelo vidro. afinal de contas. Viu duas crianças brincando num pátio. justamente. foi até a porta e saiu para o corredor. O doutor dissera apenas que teria de esperar o alfaiate.. num vampiro. Não podia duvidar sobre vampiros. Podia ver muitos pássaros. A luz do sol chegava ao chão vermelho e cobria sua pele. Nostalgia. Tristeza. Ouviu vozes. O peito apertou-se. Sem conseguir. O passado. Não sabia exatamente o que fazer. Parecia dentro de um sonho ruim. que não se lembrava agora.

Os homens benzeram-se e o líder. estacou. Notou que eram seis homens e que se ajudavam carregando alguns baús de madeira que pareciam pesados. Os homens olharam para o rapaz parado no corredor. — Levantem-se! Não fiquem conversando comigo de joelhos. Quando um deles viu Lucas. estava visivelmente emocionado. — Vamos para dentro. Não temos tempo a perder. 92 . mas se o senhor é quem dizem ser.. agulhas e linhas delicadas.. — Você é o bento? Lucas franziu a testa. senhor. senhor. O alfaiate era realmente forte. e que parecia ser o líder dos visitantes. eles não tinham "o cheiro". Os homens puseram-se de pé. — Você é o recém-desperto.precisava preocupar-se com aqueles que chegavam. Assim que se acomodou. O Bispo lhe espera e seu aparato é um tanto demorado de ajustar. — Sim. senhor. Chegou bem perto e colocou-se de joelhos. aproximou-se ainda mais de Lucas. A parada brusca fez com que um dos baús fosse ao chão. Você veio para unir os bentos para a libertação dos humanos. Nesse instante Lucas pôde ter uma impressão melhor do tamanho do líder. depois em direção ao quarto do recém-acordado. talvez por isso não o tivessem notado parado ali. senhor. — Não diga nada. um dos auxiliares pediu que Lucas sentasse numa cadeira dobrável. no piso vermelho encerado do corredor. imbecil! Quer assustar o salvador?! Ele será preparado pelo Bispo. isso é o mínimo que posso fazer para agradecer tua vinda. Sou eu. O alfaiate virou-se e deu uma vigorosa bofetada no rosto do auxiliar.. Viemos prepará-lo para o encontro com o Bispo. Os visitantes atingiram seu andar e logo estavam vindo em sua direção. Não entendeu por que o homem não usou a que estava em seu quarto. aproximou-se primeiro. seria mais natural vê-lo como um soldado do que como um costureiro. Fez uma reverência com a cabeça. Os que me seguem são meus auxiliares. — Desculpe. com passos estudados. lidando com dedais. Não estava acostumado com a alcunha. O mais alto e forte. como aqueles usados em salões de cabeleireiros. um outro auxiliar cobriu seu peito nu com um avental branco. Dentro do quarto.. O homem levantou a cabeça para Lucas. não é? Lucas? — insistiu o homem. — Dizem que sou quem? Um dos auxiliares aproximou-se ajoelhando-se enquanto falava: — Você é o salvador. trazida no baú. — Não precisa ajoelhar-se para falar comigo. mais alto que ele. — Eu sou o alfaiate.

tentando desembaraçar a situação. Estava até que gostando daquele cuidado todo. bah! Essa é boa! Lucas sentiu um lampejo na cabeça. Tinha dormido um "Zé Ninguém" e acordado como um rei. — explicou o assistente que prendia o avental no pescoço de Lucas. — Onde já se viu dizer uma coisa dessas? Como o Bispo poderia ter uma má impressão com nosso salvador? Vamos ajudá-lo a se arruinar porque essa é nossa função. um dos auxiliares baixou suas calças. constrangido. Peças de couro. Tudo realizado com muita habilidade e cuidado. Depois de uns segundos.. mas até agora estava gostando. Agora alguém cuidava das unhas de seus pés. Que diacho estavam preparando? Em poucos minutos Lucas viu-se de barba feita e cabelos castanhos ondulados aparados. Não sabia se isso era bom.. negando-se a cortá-las. sabe como é. Contudo. Lucas viu o alfaiate abrir alguns dos baús. Depois de ter as unhas dos pés aparadas. O tempo poderia ter passado. as coisas vão voltando a funcionar. Estendeu a mão direita para um auxiliar. Uma mulher ajustando sua gravata e passando a mão carinhosamente sobre a lapela de seu terno. 93 . — Por isso vou fazer sua barba. O cabelo volta a crescer e a barba também. deixando-o completamente nu. — Cada macaco no seu galho! — berrou Lucas.. responderam ao sorriso do bento. — O que é isso? Vão me dar banho também. O alfaiate olhou com reprovação para o auxiliar. sem ser advertido. — disse o auxiliar. vão? — perguntou. senhor. As unhas compridas como as de mulher e amareladas como se estivesse doente lhe causava asco. O alfaiate olhou-o da cabeça aos pés. Lucas passou a mão pelo rosto. a primeira impressão é a que fica. cada vez mais velhos. passou a peça para Lucas. Peças reluzentes de metal. Uma lembrança. senhor. Foi colocado de pé e. mesmo sem entender o que o desperto queria dizer. Lucas estendeu as mãos para o auxiliar. Parem de falar asneira! "A primeira impressão é a que fica". Depressa! O auxiliar abriu um baú que estava no chão e estendeu-lhe uma peça branca. por sua vez. Ela dizia o mesmo ditado: "a primeira impressão é a que fica". mas os velhos ditados continuavam lá. voltando aos afazeres. O alfaiate. — Tudo de volume dois. Não queremos que o Bispo tenha uma má impressão.. Os homens entreolharam-se.— Depois que um adormecido acorda. o auxiliar fez um leve meneio. Realmente podia sentir a pele áspera por causa da barba começando a despontar. com um sorriso nos lábios. — Não convém apará-las.

essa peça era bastante pesada. — respondeu o alfaiate. quente. senhor. as tiras foram puxadas e ajustadas pelos assistentes. O próximo item era um colete de couro cru e de grossa espessura. O alfaiate observou-a sem tocá-la. logo aquiescendo. Lucas sorriu. que por sua vez fulminava com os olhos o assistente linguarudo. — É para não ser ferido em combate pelos vampiros. Lucas lamentou não ter um espelho para olhar-se. pardacentos. Veio então um saiote escuro. e cheio de ilhoses nas costas. 94 . recoberto por pêlos curtos. senhor. É uma cota de prata. seus braços e seu coração. Vestiu o primeiro item e logo recebia uma nova peça. Diferente do colete. mas parecia que não estava ali para escolher. Lucas ficou quieto. que foram abotoadas na frente. que iam presas aos calcanhares. Era largo e parecia com aquelas peças que via nos filmes épicos de soldados romanos. mas causava certo desconforto ao roçar seu queixo. sentiu o metal frio em sua testa. Pelos orifícios passavam tiras resistentes feitas do mesmo material e. Cheiro de roupa nova. Detestava cuecas brancas. Certamente. Colocaram-lhe meias grossas e calçaram seus pés com um par de coturnos negros. Até onde aqueles malucos iriam? Estavam aprontando-o para um baile a fantasia? Seria aquele Bispo interno de algum manicômio? Um barulho como o de correntes sendo levantadas rapidamente tirou o sorriso do seu lábio. abandonando os braços e enchendo o quarto de barulho ao mover-se com a roupa de metal. O alfaiate deu passagem a dois assistentes que lhe traziam uma cota prateada. primeiro lugar em qualquer baile de carnaval. ao vestir o colete. provida de mangas longas e uma espécie de touca feita do mesmo metal. Lucas soltou o ar dos pulmões com o aperto e sentiu o tórax enrijecer. quase preto. Do terceiro baú. Vai proteger seu pescoço. A peça terminava em alças. Vestiu. demorou examinando-a. Uma camiseta branca de mangas longas. parecia também ser de algodão. Um segundo ajudante abaixou-se e colocou-as no lugar. mas depois notou ter a tintura puxada para o verde-escuro. mas era de tecido bem grosso. após um dos assistentes cobrir-lhe a cabeça.Lucas desdobrou o pedaço de pano. inquieto. Era uma cueca de algodão. — interveio o assistente que tentava alcançar seu braço para adicionar mais alguma coisa ao traje. que lhe pareceu de cor preta na primeira olhadela. Quando recebeu em suas mãos. e sim para ser vestido. A blusa de metal acabava em seus punhos e. o auxiliar tirou uma peça escura. O cheiro era bom. olhando para o alfaiate. aquela fantasia estava impagável. — Mas o que é tudo isso? Tudo isso para quê? — repetiu o recém-desperto. — O que é isso? — Acho que é uma das peças mais importante de sua veste. Essa gola não apertava. Parecia uma daquelas meiascalças de mulher. O colete tinha golas altas. ou como nos santinhos de Santo Expedito. Um terceiro auxiliar fez com que Lucas se curvasse para receber a nova parte da vestimenta.

A essa altura os braços de Lucas tinham sido capturados pelos assistentes e dois deles enrolavam tiras de couro em seus punhos.— O Bispo falará sobre os vampiros. Lucas entendeu que a peça destinava-se a cobrir exclusivamente o tórax. Não seria possível que todos fossem malucos. — Fiz o meu melhor. Estavam falando a verdade. Os homens afastaram-se do bento e abriram o baú maior. Lucas teve a impressão de que conseguiria tirar e recolocar a peça sem precisar da ajuda de terceiros. dirigiram-se ao homem. Estava justa e firme. presa por seis travas de pressão. O senhor transpira paz e tranqüilidade. Ao contrário de quando foi apertado o colete de couro. Era impressionante o polimento do artefato que reluzia vigorosamente ao mais tímido contato com luz solar. Notou que a cota descia até sua virilha e agora um terceiro assistente passava uma nova tira de couro em alguns elos maiores presos ao extremo da peça. dividindo a peça em duas partes. uma espécie de colete rígido. nosso salvador. Restava apenas um lacrado. e sobre a benção da prata em seu uniforme de batalha. encerrando o tórax do guerreiro dentro da proteção. Nas costas do guerreiro agarrou a armadura pelas aberturas axilares e chacoalhou a prata. perto do que fazia instantes atrás. senhor. — Perfeito! Parece que foi feita para você! Os assistentes fechavam os baús.. em conseqüência da atrofia originada pelo sono prolongado. O mundo todo tinha 95 . — Vocês mataram quantas vacas para colocar tanto couro em mim? Alguns dos assistentes riram. É certo que será um bom guerreiro. Lucas percebeu que aquelas tiras reduziam bastante o incômodo barulho que era produzido pela cota de prata ao mexer os braços. Pelo formato. O alfaiate rodeou Lucas. — o homem tinha agora os olhos marejados. havia dois enfeites dourados. Era o mais comprido e estreito de todos. Vendo o senhor nas vestes de um bento estou certo de que as profecias são de fé. Notou também que nos cantos superiores. — Tragam o peito. A armadura torácica era unida com facilidade. A peça parecia ter sido forjada sob encomenda para seu corpo magricelo. não houve desconforto algum. Estava quieto e tenso. posterior e anterior. O alfaiate parou de frente para Lucas olhando-o nos olhos. Puseram de pé uma armadura prateada. senhor. O alfaiate estalou os dedos. Agora era um "barulhinho". Lucas precisava erguer um pouco o rosto para encarar o alfaiate. Ficou em silêncio.. enquanto os auxiliares exibiam a peça ao alfaiate. Depois do líder aprovar. parecendo duas cabeças de animal. Quando terminaram a tarefa. Funcionaria como um cinto aparentemente também para conter o barulho. admirando a cruz dourada fixada em relevo no centro da peça. olhando a indumentária de cima a baixo. onde seriam os ombros.

Sua vocação vai se revelar e a profecia irá se cumprir. Defendera-se instintivamente. senhor.. não sei como vou salvar vocês dessa enrascada.mudado e agora buscavam um jeito de vencer a guerra contra os vampiros. Não era um guerreiro.. — Não se preocupe... eu sou só um homem que esteve doente. Eu. uma lembrança que ocupava um canto escuro de seu cérebro.. — o alfaiate deu um tapa nos ombros de Lucas ao terminar de ajustar as luvas. senhor. Um ato que mais parecia lembrança de um pesadelo do que lembrança de um momento.... O senhor conhecerá o bento Francis.. senhor.. depois de falar com o homem santo. Sei que está confuso. alfaiate? — Meu nome é Paulo. senhor. estou sendo honesto com vocês porque vejo que depositam uma confiança exagerada em mim. Paulo apressou-se em ajudar Lucas a calçá-las. eu. — Desculpe. Rapidamente. — Olhe para mim. Aqueles vampiros que estava acostumado a ver na televisão. — Qual é seu nome. para que ninguém percebesse. Lucas pousou a mão no ombro do forte Paulo. um ato de loucura. fui salvo.. É assim mesmo.. Um dos assistentes já tinha o par de luvas nas mãos. Seremos salvos. enxugou uma lágrima que descia. mas o senhor é um bento. O único homem que tinha matado até hoje fora aquele Gabriel. Quase fui comido pelos malditos noturnos. mas eu nunca lutei. mas não teve tempo de responder. eu. Nossa. Estava desesperado... — Eu acordei faz doze anos. Lucas abria e fechava as mãos ajustando as luvas. Vai entender o que eu estou dizendo. Todos os que eu vesti estavam confusos antes de falar com o Bispo. que horror! Eu não queria aceitar. Lucas murmurou algo.. Deus do céu! E ele era um dos guerreiros! Nunca tinha servido nas Forças Armadas. senhor.. Estava encarcerado na cela branca do hospital.. Aqueles chupadores de sangue que moravam na Transilvânia. e Gabriel é quem tinha lhe atacado em primeiro lugar. — Tragam-me as luvas do senhor Lucas. o senhor vai entender e a confiança irá voltar. graças ao bento Francis. Como pudemos esquecer? — bateu palmas fazendo com que seus auxiliares aprumassem-se.. Eu nunca disparei com uma arma de fogo. Imagine o senhor que quis até fugir da fortificação! Que tolice a minha. Mas. Eu. não sei o que andaram dizendo por aí. Mas.... Paulo. no cinema. 96 .. Paulo olhou para a mão de Lucas em seu ombro.. Paulo sinalizou para o assistente que guardava o último baú. O senhor vai ficar pronto para a batalha. eu sei que é difícil. sabia? Quando a gente acorda tem um choque.. acordar e encontrar o mundo assim.. Nunca tinha dado um tiro em ninguém. Eu também fui adormecido.... senhor Lucas. Sentiu o estômago embrulhar. — Não precisa se preocupar. Estendeu ao alfaiate.

espalhando-o uniformemente e encobrindo parcialmente a frente da figura do guerreiro. Retirou uma corrente do próprio pescoço. o toque final. Todos os bentos faziam aquilo quando deitavam a mão em sua espada pela primeira vez. Lucas aparou a medalhinha na palma da mão enluvada. O alfaiate ofereceu-a ao guerreiro estendendo-a em sua palma para que Lucas a apanhasse pelo cabo. Passou-o ao alfaiate que. senhor. um em cada ombro.O rapaz abriu e ele tirou um cinto de couro negro. Com a ajuda de mais dois. soltando a imagem e deixando-a guarnecer seu peito. este lhe indicou a bainha presa ao cinto recém adicionado à cintura. Podia ver-se quase que com perfeição. que permanecia calado. como descrevendo golpes e defesas imaginárias. Os assistentes em volta sorriram para o alfaiate. havia uma haste de ferro negro cruzando a espada. Paulo ajeitou o tecido. com uns dez centímetros para cada lado e suavemente inclinada para cima em direção aos gumes afiados. A espada deslizou suavemente pela abertura e repousou na proteção. Paulo. O alfaiate aproximou-se de Lucas mais uma vez. que aguardava. Lucas admirou não ter percebido esse item quando o cinto foi atado. a capa foi presa à vestimenta. mas reconheceu prontamente na figura do cavaleiro subjugando o dragão a imagem de São Jorge. Agradeço de coração. — Para que o senhor não tema o bom combate. Estalou o dedo mais uma vez e um dos baús foi reaberto. era grossa e dotada de uma ponta aguda. Paulo foi até o baú e retirou um bastão envolto em tecido vermelho. O senhor vai usar isto. Ergueu-a e baixou-a seguidas vezes. fazendo a espada formar uma espécie de letra "T". — Obrigado. — O senhor não precisa se preocupar com armas de fogo. A empunhadura era revestida em couro e. Em seguida. como imaginava as espadas de cavaleiros medievais. Era linda! Não era muito comprida. antes de começar a lâmina. Leva contigo a imagem do bento dos bentos. O bento ergueu-a e mirou seu reflexo na lâmina. Era incrível! Assim que Lucas encarou o alfaiate novamente. prendeu a capa vermelha sobre as costas do cavaleiro e as pontas do tecido foram engolidas pelos dois dragonetes que enfeitavam a armadura. curioso. Não fora um católico fervoroso. o pesado manto vermelho onde a espada viera enrolada. Lucas. — disse. no máximo. donde os auxiliares 97 . — Agora. O alfaiate tomou da mão do assistente. O senhor não vai atirar em ninguém. Dessa forma. viu o alfaiate desenrolar um tecido que acabou por revelar uma espada reluzente. Não era tão pesada quanto supusera. E passou-a pela cabeça do guerreiro. sessenta centímetros. por sua vez. A lâmina teria. atou-o na cintura de Lucas.

No meio do peito destacava-se a cruz dourada em relevo e a pequena medalha de São Jorge. com certa dificuldade. No queixo via uma ponta do colete de couro.tiraram três pedaços vítreos que. Lucas fitou demoradamente o homem desconhecido que se apresentava no reflexo de sua imagem. Os braços estavam igualmente protegidos pela cota de metal. terminando nas luvas de couro. A capa vermelha cobria todo seu corpo. Apesar do sol que brilhava do lado de fora. não um guerreiro bento. o tecido vermelho era revestido por uma faixa marrom. que protegia suas pernas e estava longe de criar constrangimento. O saiote verde-escuro. Aquele não era ele. compunham um espelho quase de igual altura ao recém-desperto. quase negro. confundia-se com a grossa malha escura. O espelho foi desmontado e recolhido e os baús empilhados no dormitório. Na extremidade inferior. chegando a arrastar no chão. — Vamos. 98 . Passou até a respirar de modo diferente. Ele era um vendedor de seguros de carro. não sentia calor ou desconforto dentro do inusitado uniforme. A cabeça estava encoberta pela touca de prata que emoldurava seu rosto e descia pelo pescoço. desaparecendo dentro da couraça prateada. juntos. senhor? Lucas assentiu. Era por inteiro feita de um tecido grosso e pesado. uma vez que parecia dentro do contexto.

todos esses lugares e tantos nomes quanto você possa lembrar. a superpopulação planetária havia desaparecido e agora espaço não parecia ser grande problema. podia ver um borrão escuro subindo ao céu. Praticamente não dá para passar uma noite com vida nesses lugares. viraram redutos de malucos e de vampiros. os homens trataram de cercar o guerreiro. não era? — Hum-hum. Paulo vinha à sua esquerda e indicava o caminho. Campinas. altiva.Capítulo 16 Lucas desceu os três andares do prédio de dormitórios acompanhado pelo alfaiate e seus assistentes. Rio de Janeiro. São Paulo. obrigando-o a assumir uma postura ereta. O que seria aquele prédio maior que os outros? — Isso aqui era o campus de uma universidade federal décadas atrás. Observou que caminhavam sobre uma alameda larga e prédios de poucos andares. Belo Horizonte. Como os sobreviventes tinham se virado até então? Queria era ter a sorte de encontrar com um conhecido e sentar num bar para tomar chope a madrugada inteira. medianos. como lendo o pensamento do guerreiro. Lucas estava impressionado com a pureza do ar. Os passos dos homens ecoando. — O que é aquele prédio no final da rua? 99 . Ribeirão Preto. na distância onde seus olhos começavam a falhar. um colado ao outro. Aracaju. alguém em quem pudesse acreditar. ocupavam a paisagem espaçadamente. Ao chegarem ao pátio. Teriam que caminhar um bocado até chegar à residência do Bispo. Lucas acostumava-se ao aspecto imposto pelo traje. nenhum traço do céu marrom-cinzento de São Paulo.. em meados do século XXI. nada daqueles prédios empilhados. Viraram cidades fantasmas. fazendo com que a bainha não chacoalhasse tanto. Florianópolis. Salvador. como no centro urbano. já eram. a mão direita foi ao cabo da espada. — comentou o alfaiate. Sorocaba.. Ao redor dos prédios havia bastante gramado. perguntar tudo. O colete de couro dificultava que as costas fossem arqueadas. Campo Grande. Nada de fumaça. Ouvir da boca de um amigo. poucas pessoas cruzavam os caminhos cimentados. certamente. — A maioria dos grandes centros foram abandonados. Ao que parecia. Lucas percebeu que a alameda estendia-se por centenas de metros e. Sem perceber. recoberto por granito. tudo o que havia se passado enquanto dormia.. Niterói. Com o colapso da sociedade. — As principais metrópoles foram abandonadas. todo o conceito arquitetônico conhecido tinha sido abolido após o traumático evento que o doutor lhe descrevera. A capa vermelha ocultava ambos os braços. Presidente Prudente.. Uma história fabulosa. Silêncio. Você era dc São Paulo.

esvaziarmos a mente. — Paulo parou e colocou a mão em concha na altura da sobrancelha. mas nem acredito que estou diante do senhor. Os vampiros acabaram com tudo. Pôde ouvir a voz aguda da mulher crescer em euforia fazendo com que dezenas dos passantes parassem para olhar. Tem gente traumatizada até hoje. A mulher soltou duas sacolas pesadas de nylon colorido e correu em sua direção. mesmo atrapalhada por um grupo de rapazes que empurravam um carroção repleto de hortaliças. a senhora. Tinha habituado-se ao caminho quase deserto. calou-se por um segundo e molhou os lábios com a língua. Vê. só nos resta rezar. Agora. Mas. o senhor veio e há de se cumprir o que foi profetizado. tomaram uma rua à direita. É ele. levantando o tronco. Quando o sol vai caindo no horizonte. — Bendito seja Deus que te enviou para nos salvar! — gritou a mulher. verá que ele é completamente cercado. senhor? — Não é isso. Se ficarmos quietos.. não é? — perguntou insistente tornando os olhos para o alfaiate. — Mas basta passar das três da tarde para essa fantasia de liberdade ir por água abaixo. até temos. Bem aventurado os que tiveram a inspiração de buscar centros afastados. — Como iríamos passar um muro em volta de Sorocaba inteira. com impressionante agilidade e pressa.Os homens olharam adiante. — Por que não ficaram nas cidades. Ao menos. senhor. permanecendo de joelhos e tomando a mão de Lucas para beijá-la.. — O que foi profetizado? — Isso o Bispo é quem lhe dirá. — Orei dia e noite para que esse dia chegasse. a impressão de estarmos em liberdade. Os sobreviventes foram empurrados para pequenos povoados. quis dizer. e erguíamos muros. Aquilo é um muro. Se olhar ao redor do campus. Lucas pôde ver o que parecia ser uma grande praça com chão de concreto queimado.. A gente se juntava em lugares menores que as grandes cidades. Paulo respondeu: — Não é um prédio. e essa luta é eterna. — rebateu o alfaiate. graças a Deus. é assim. apontasse em sua direção. pondo a mão no ombro do guerreiro e fazendo-o voltar a andar. dentro desses muros.. escolas por lá mesmo? — Aqueles dias eram pesadelos vivos. para sobreviver.. Tivemos que aprender a combatê-los.. querendo entender. senhor. alcançou o homem de capa vermelha e prostrou-se aos seus pés. o muro está tão afastado que até podemos esquecer dele um pouco. Iríamos viver enjaulados em pequenos espaços? Ficaríamos doidos. Os primeiros meses foram difíceis de acostumar.. senhor. Lucas olhou para Paulo. por que não fortificaram hospitais. Não demorou um minuto até que uma senhora parasse no meio da praça e. 100 . não ficamos todos claustrofóbicos. Antes que o alfaiate pudesse dizer alguma coisa. senhor. estranhando o volume de gente passando por ali.. como esses.. bento Lucas. murado. mesmo? Por que não. Depois de cinco minutos de caminhada..

Não toquem na capa. como se um mecânico operasse algum tipo de teste. A menina estendeu-lhe um dente-de-leão. Estamos levando-o para ser visto e abençoado pelo Bispo. abandonado suas coisas e vinham cercar o grupo de Paulo. foi preciso a intervenção enérgica do gigante Paulo. Lucas soprou gentilmente o dente-de-leão fazendo com que os corpúsculos desprendessem da extremidade da planta e esvoaçassem ao sabor da brisa. Como se não pudesse ouvir a voz de trovão do alfaiate. curiosos surgiam e engrossavam a multidão da praça. provavelmente muito envergonhada de estar sendo observada por tanta gente. Estava zonzo. abram passagem. um bom número de motocicletas.— É ele. Perguntou a Paulo do que se tratava e lhe foi explicado que aquele prédio sediava a base militar de São Vítor. voltou a cabeça por causa dos puxões. Era coisa demais para um dia só. mas os danados eram bons em esconder qual era o objetivo. Parecia ter uns onze anos. Sorriu e pousou a mão enluvada na cabeça da menina. Lucas permaneceu calado. Todo mundo sabia que os soldados buscavam uma solução. — Nem posso acreditar que o trigésimo despertou aqui! Em nossa cidade! Em São Vítor! — continuou a velha. levantando-se com rapidez e abraçando inadvertidamente a armadura do guerreiro. Ao terminar a praça. fazendo patrulhas de rotina. Sorriu ao falar a palavra "secreto". cada vez mais. Lucas apanhou a flor e agradeceu a menina que se retirou em desabalada carreira. muitos queriam tocá-lo e. Um corredor formou-se com a passagem do grupo e. Quanto menos gente soubesse o 101 . Lucas admirou a beleza da criança. — Por favor. Diziam que o alvo deveria ser mantido em sigilo. Pelo amor de Deus. eufórica. Soube também que um bom número de soldados estava fora naquela hora. realmente. que mirava um pouco além da praça e observava uma nova face da muralha que protegia o povoado. A garota de pele morena abriu também um sorriso. ela é novinha. Lucas notou. Uma delas foi acelerada naquele instante. As pessoas chegavam com sorrisos e olhos brilhantes. senhora. não estraguem meu serviço. Todos tinham parado seus afazeres. quando passavam junto a um prédio cercado e protegido por um grosso muro de pedra e mais duas sentinelas em extremidades diferentes. Se a multidão tentasse alguma coisa seriam poucos para ajudá-lo. Paulo gesticulou para que voltassem a caminhar. que o bento salvador tinha chegado. Paulo comentou também que os soldados estavam muito empenhados numa espécie de plano secreto para tentar pôr fim à ameaça dos vampiros antes mesmo que os bentos o fizessem. procurando indícios de atividade vampírica na redondeza e um outro tanto estava fora em missões em outras cidades. Lucas. mas não deixou de ser seguido por um bom número de pessoas que queriam ver mais um pouco se era verdade o que corria de boca em boca. o grupo pôde caminhar com mais folga. uma criança teimosa venceu a barreira e puxou repetidamente a capa do cavaleiro. Olhou para a praça. — Precisamos levá-lo ao Bispo agora! — gritou.

— Vocês sofreram demais no começo. parecia que caminhavam para algum avanço. Depois ergueu a mão que ainda trazia entre os dedos a haste do que fora um dente-de-leão. mas suava. senhor. — Não existem mais crianças nascendo.. Não sentia calor excessivo.segredo. as mulheres não engravidam mais. as crianças que vieram estão livres desses pesadelos. Lucas olhou para o chão.. — Desde aquela noite maldita. A caminhada estava fazendo-o transpirar demais. depois conduzido pelo corredor central de um salão luxuoso. Baixou a touca de metal que cobria sua cabeça. Parece que a vontade de Deus é que não nasçam mais crianças. Lucas parou de caminhar mais uma vez. Paulo. em geral. compadecido do tom de voz do amigo. Paulo? E a garotinha que me deu aquela flor? Também vi crianças brincando no pátio do prédio dormitório. temos traumas até hoje. Ao que tudo indicava. Crianças que nasceram depois do começo de tudo. É um pesadelo. — Como não.. Paulo explicou que. Sentia-se estranho.. senhor. Suspirou ainda mais entristecido. menos chance os vampiros teriam de gorar o intento. — Não sei o porquê. mas a corporação contava com um ou dois carrancudos. Que ficaria encarando os clássicos vitrais com a paixão de Cristo enquanto aguardava o homem santo ser apresentado. os soldados eram homens de boa índole. Imaginava-se recebido no átrio luminoso de uma imponente catedral. Os soldados diziam que estavam fartos de esperar pela solução divina. senhor. pareciam agir com "mau caratismo". Tinha pré-concebido uma imagem diferente do local de encontro com o tão reverenciado Bispo. que.. às vezes. Que ficaria admirando a nave da igreja e pudesse rezar de frente a uma cruz bem-feita apropriadamente 102 . dos piores dias. parado em cima daquele tapete vermelho. tenho calafrios. mas tenho a impressão de que a sessão de más notícias não está nem na metade. — Eram como você. Sombras. Eram adormecidos que despertaram e damos graças ao céu por isso ainda ser possível. Cortinas pesadas encerravam as janelas de modo que um mirrado fio de luz invadia o ambiente. — Crianças que vieram? — Sim. Só de lembrar daquelas primeiras noites. — Lucas ficou parado no meio da sala. — Ao menos. Passou a luva na testa. não foi? — interferiu Lucas. senhor. senhor. — Como disse.. por isso buscavam uma alternativa.

Isso sabia fazer bem. Era comum. sedã. Provavelmente o tal do Bispo não vivia ali. garimpar nas bancas de revistas usadas os velhos números da Chiclete com Banana.. Star Wars. Bufou de novo. As paredes eram forradas com tapeçaria de gosto duvidoso e mais um tanto de enfeites típicos dos estados do Ceará.. Achava esse tipo de argumento e diálogos uma porcaria. Era um cara comum! Não era herói! Nem religioso era. A mesa à sua esquerda. Piratas do Tietê. do Angeli. ele gostava de assistir o Programa do Ratinho. A estante tinha tanta coisa que parecia incapaz de conter um alfinete a mais.. estava diante do profeta. Essa fala era sempre proferida por um cara. assistira dúzias de vezes: Sábado.. Era vendedor de seguros. E ele diria: Você é o escolhido.. como muitas outras coisas dentro daquela velha casa. brinquedos. Torcia para o Santos. popular.. Ganhava de qualquer um.. Pulp Fiction e Coração Valente. taxista. como pôde notar o guerreiro. infinitas quinquilharias. a caminhada parou em frente a uma casa pequena e sem nada de imponente. peças de artesanato nordestino.. O diacho do doutor adivinhara.. Era mais natural visualizar-se sendo o primeiro a borrar-se todo na hora da luta e sair correndo sem olhar para trás do que sendo o bravo guerreiro que todos supunham. Lucas via-se vivendo a mesma situação. Cara! Onde tinha uma vídeo-locadora naquela cidade? Bufou. Central do Brasil e O Xangô de Baker Street.. tinha os brasileiros também. não tinha como recusar. caminhoneiro. Salvador? Enviado? Deus! Gostava de cinema e odiava aqueles filminhos que vinham com esse papinho de que fulano era o "escolhido". Pernambuco e região.. tipo King Kong... mas essa parada de armadura e espada. hatch. Esportivo. Sorriu. Não sabia nem se seria capaz de erguer a espada para lutar. não desistia até arrancar um sim. estava recoberta por uma visível camada de poeira.. motociclista. do Laerte. A imobilidade do lugar e do ar causava desconforto e o tique-taque monótono de um relógio de pêndulo encoberto em algum canto fazia a ansiedade aumentar. No entanto. sem chance. Começou a imaginar onde se encaixaria naquele jogo abstrato que o destino havia armado. Gostava de comprar a Playboy quando saía uma gostosa. Você irá nos guiar até a vitória. Você é o "escolhido". Como poderia ser santo?! Tinha algo errado. também ao alcance de sua mão. Os Normais.... Só poderia ser um pesadelo. Jornal Nacional. que poderia tocar se estendesse a mão. justamente o cara que parecia ser o oposto de tudo aquilo que a personagem e a platéia buscavam. Odiava literatura. A Casa. estava a porta fechada que lacrara os ajudantes do alfaiate do lado de fora. À sua direita. sabia fechar o negócio. do "Bispo". Tinha também aquele do Belline. O ponto é que não conseguia 103 . Lucas tentava entender se a sala era muito pequena ou atulhada demais com móveis e bugigangas a ponto de tudo parecer espremido naquele cômodo. Belline e a Esfinge. Gostava de cinema. A pintura em tom de areia descascada e o piso da diminuta varanda mostrava-se já bem gasto.elevada no altar. oprimido pela espera. Retratos. Seria ele realmente o salvador daquela gente? Impossível que fosse! Era um cara comum. Era até feia na verdade. Alugar filme repetido. um oráculo..

Por que agora via-se no centro das atenções? Isso o deixava assustado. 104 . mas. Fique calmo e fique em paz. — Gostou da roupa. Lucas sentiu-se burro. o doutor de oitenta anos parecia um garotão na flor da idade. Apesar da aparência. — Não se impressione tanto com a minha aparência. a voz ganhava força e firmeza e era carregada de um sotaque nordestino. nas quinquilharias decorativas. Gostei. onde deveria sentar-se. sempre ereto em virtude da armadura. O alfaiate ajeitou a cadeira da forma que certamente o homem gostava.. Você está aqui por uma razão. com certa dificuldade. Um segundo depois. Das sombras surgiu a figura de um senhor muito velho. senhor Bispo. Ao olhar para o homem na cadeira de rodas. O velho balançou o queixo fazendo a papada tremer. filho? — Gostei. Lucas procurou relaxar diante dos olhos do velho. — disse o velho no meio de uma sucessão de pigarros. o sotaque nordestino era tão presente no dia-adia paulistano. sim. ao menos. fazendo-o verdadeiramente relembrar de sua vida passada. O homem tinha os olhos fundos nas órbitas e os globos oculares pareciam demasiadamente amarelados. recobertos de certa viscosidade. — disse o alfaiate antes de retirar-se.. Postou-se diante do velho. rosto encovado. Soltou a cadeira e contornou-a com cuidado. Chegou a temer que o velho principiasse um acesso de tosse. Perto do Bispo. A pele chegava a impressionar de tantos sulcos e acreditava nunca ter visto antes alguém tão velho. Lucas sorriu e pediu desculpas. Achou engraçado o jeito do velho. Parou de frente para Lucas e ajeitou sua capa. senhor. O sofá era coberto com um tipo de tapete de trançadinhos e estava inteiramente empoeirado. sentando-se com cuidado. Não estava certo se o homem podia vê-lo. Pode limpar seu coração de qualquer dúvida. não por um acidente. a cadeira estava de frente para o sofá. ergueu o braço e indicou o sofá. notou que a mesma não estava de frente para ele. eu já estive bem pior. Foi aberta vagarosamente. como se estivesse com a saúde extremamente comprometida.sentir-se especial.. "Bichinho"?! — Sua mãe nunca lhe disse que é feio ficar encarando os mais velhos? Lucas riu um pouco. Era magro. Olhou para o rosto do Bispo. A porta na sua frente rangeu. bichinho. Lucas ouvia a porta da sala emitir um "clique" ao ser fechada por Paulo. Não era mais nem menos que ninguém.. esbarrando o mínimo possível nos obstáculos no caminho. Achou curioso. — Vai dar tudo certo. é claro. estava agora no mesmo nível do seu possível interlocutor. Segurou nos ombros do rapaz e olhou-o nos olhos. Estava desconfortável. O velho. sendo trazido em cadeira de rodas por Paulo.

como dizia meu painho. Nem padre eu sou. rapaz! Quem foi que disse que tu é um enviado de Nosso Senhor Jesus Cristo? Tu não é enviado nem de Deus nem do Diabo. — Pára de me chamar de "senhor Bispo". O senhor mesmo disse que Deus não dá asas para cobra. deixa eu tentar te explicar. — o velho tossiu duas vezes e fez um gesto com a mão enrugada pedindo que Lucas aproximasse o rosto.. mas não é um enviado. Lucas não encontrou sentido no que o velho disse. Eu só passei muito tempo pensando e andei tendo muitos sonhos que diziam coisas que iam acontecer. tu não ia muito à igreja. com pompa e circunstância. Todos eles quando acordavam resmungavam a mesma coisa. É difícil abrir os olhos num lugar diferente do lugar que tu dormiu noite passada. não. senhor Bispo. menino. Nunca ouviu aquela história de que Deus não dá asas pra cobra? — Eu nunca fui de ir à igreja.. não. — Mas eu não sei se sou mesmo o que dizem que sou. — Bispo. Não sabia o que dizer para aquele homem. A cabeça e o corpo continuavam imóveis. Como é que posso ter tamanha responsabilidade? Ser um enviado de Deus? — Ôche. Tu foi ungido. menino. não conhecia? — Conhecia. — Eu não entendi. Não é fácil. filho.. Não sabia o que fazer. Eu vi cada um dos predestinados passar aqui nessa sala. — Olha pro rosto desse velho aqui. senhor Bispo. mas num foi trazido.. Sentia-se perdido. Até agora só havia escutado os outros. eu estou confuso. filho. "O pai do céu tá enganado... Seja ele um iluminado feito tu. como se eu fosse capaz de fazer o fogo cair do céu ou dividir o mar feito Moisés. — Essa sensação vai passar logo. ou um desgraçado feito eu. É assim quando todo mundo acorda. Mas já que o povo 105 . deve ser pior ainda estar no seu couro. cabra. é porque é. somente as pupilas dançavam na figura do interlocutor. É abençoado.. — Tu é um bento. Meu nome é Bispo. ao ser obedecido continuou num tom mais baixo de voz. mas não retrucou dessa vez. mas cale essa boca. mas conhecia a Bíblia. O povo é que me chama assim. Assuma isso." Todos vieram com a mesma ladainha. É porreta. eu não.Os olhos baços do velho ficaram movimentando-se nas órbitas como se analisassem o jovem sentado na sua frente. Lucas sentiu-se um tanto constrangido. Não precisa ter cagaço." "Quero não. homem. No couro de um predestinado. "Quero não. ser um guerreiro da luz. — Se tão dizendo por aí que você é bento. Agora.. E olha que eu já vi muita coisa nesta vida. meu filho. seu Bispo. — Todo mundo fica confuso. Só Bispo. filho... — Olhe. "Bispo". ser possuidor dessa armadura. rodeado de rostos familiares. Não estava mais em sua cidade.

Se juntar dez. sai confusão. Então também não fala de vocês.. Bispo. Ninguém dá tiro na cabeça do irmão por causa de droga. Me tratam bem. dando uma risada rouca no final. porque não existem mais presídios. Não existe mais fome assolando um país inteiro. Todo mundo junto.. vai dormir fora do muro. Hoje há união. esquece umas coisas. E é por isso que te digo que não vai acabar. seu menino. metade ia virar aqueles malignos e o outro tanto sofrer na Terra. Aqui cada um escolhe o que vai ser.me dá tanta trela e me trata com tanto respeito. eu te juro que em canto algum da Bíblia fala que o inundo ia acabar desse jeito. você não encontra gente passando fome debaixo de ponte. — Aprendia o que tinha se assucedido. os bentos. boa sorte. Quem erra. antes de cair naquele sono misterioso. aprendia as histórias do velho e do novo testamento. — Cabra. Nos povoados de hoje em dia ninguém faz seqüestro relâmpago. — concluiu o velho. Tu. se endireita. E não é ditadura. azar. o que estava se assucedendo e o que ainda ia se assuceder. não existe rebelião em presídio. Ninguém é obrigado a ser certinho.. Fica lá por cinco dias. — Em que lugar da Bíblia tava escrito que o mundo ia acabar assim? Lucas deu de ombros. eu deixo. Pra mim tá bom até demais. mas ninguém agradece pelas veredas que o destino nos apresentou. as portas do muro são serventia da casa. — Filho. cabra. Esse papo de Deus sempre rendeu pano para muita manga. vai se juntar com teus iguais. Ninguém quer 106 . Lucas achou sentido em parte do que o velho dizia. — Mas a violência é da natureza humana. todo mundo maldiz o dia em que essa desgraça começou. É opção do coração. tu lembra de como era a vida nas grandes cidades? Lembra de como São Paulo e Rio de Janeiro estavam se acabando na violência? Era centenas de vezes pior do que hoje em dia. senhor.. não é verdade? — É verdade. eu tava dizendo que quando tu lia a Bíblia. Sempre tem alguém pensando maldade. misturada a mais um tanto de tosse engasgada. Tá tudo mais igual. — Mas vamos tentar manter o fio da meada. filho. mas um outro tanto de palavras soavam vazias. Se for comido pelos dito cujos. Dentro desses muros agora só existe gente de bem. unido. Se voltar. bichinho. Ninguém vai para a forca ou para a guilhotina. às vezes. não. O mundo mudou depois daquela Noite Maldita. Cuidam deste esqueleto cansado. Lucas riu. E em canto nenhum do Livro Sagrado dizia que metade dos homens iam cair em sono misterioso e dos que sobrasse. Se não entra no ciclo da comunidade. sem responder. Não existe morro ocupado pelo tráfico. correto? — Certo. Se achar outro caminho. porque essa minha cabeça cansada. Todo mundo acha sua serventia na atualidade. Bom ou mau. passar bem. filho. — Agora não é mais assim.

Pelo que eu sonhei. Tá aqui. está favorecendo esse velho. ela simplesmente está aqui. estaria nas escrituras. só vai sobrar gente de boa fé.. bichinho. não existem mais estupradores. Isso não é o fim do mundo. novamente. Isso é o que eu sempre digo. É um guerreiro da gota serena. E tu é nosso campeão. Lucas começou a rir. — Sem ela saber o que está fazendo. Uma piscada do Pai lá de cima.. pelo pouco que essa cabeça velha pôde compreender. Acabou aquela violência descabida que dominava o mundo antes daquela noite. Essa coisa de falar sem dizer com clareza. Estou me sentindo o próprio Eric.. me lembrou algo da minha infância. e. Para acabar com essa briga do bem contra o mal. — Deixa teu coração em paz que a resposta vai chegar. Se fosse. — O outro? — É.. Ele fechou os olhos e deixou a energia que rege tudo tomar conta de nosso destino. imóvel.. Isso é sim um recomeço. Tu é um cabra da molesta. Ficou com aquele rosto enrugado. Não precisam ficar chorando pelos cantos. 107 .... essa energia não escolhe o lado. mas essa coisa de bento? Por que dizem que sou bento? Sou salvador? Sou um messias? Mas aí o senhor me diz que não sou enviado de Deus coisa nenhuma. tá me dizendo como fazer os cabra da molesta do lado bom acabar com os cabra malvado. Tu não arrancou o couro de um cabra lá no hospital? Lucas aquiesceu. Não existem mais traficantes. E vai lutar pela nossa liberdade. Bispo. — O quê? — Parece que dormi e vim parar num episódio de A Caverna do Dragão. Vai açoitar os malditos e preparar a terra para o recomeço. A água do vinho. É isso que a gente tardou a notar. Bondade e maldade não se misturam. Agora é só gente e vampiro. — Eu entendi parte da sua argumentação. não foi? Então não precisa duvidar. — Desculpe. É confuso demais. O velho Bispo parou de falar. — Foi. Bendita noite. nem políticos feito os daqueles tempos existe mais. filho. Se tu fosse ruim. somente os olhos úmidos e amarelados movimentavam-se... Bispo. com essa capa vermelha. Desculpe. filho. O guia da batalha. Vai ficar claro como água. Quem é mau acaba sendo atraído pelos malignos.. sentado de frente para. — Bispo mexeu a boca enrugada e piscou os olhos amarelados. não teria acordado bento. Essa brincadeira que a energia fez foi para separar o joio do trigo. Tu vai buscar a verdade. Tu será o cavaleiro da justiça. soprando no meu ouvido. no meu sangue. Gente ruim está pra fora dos muros e correndo atrás de gente boa para tomar o sangue ou de gente ruim igual a eles que adoram aquelas criaturas da escuridão.ficar lá fora.. Quando essa guerra acabar. Teria sido o outro. estelionatários... Gente de coração puro. eu digo. mas não pude conter o riso. Quem é do bem é atraído pelos benignos.

. — Mas. É que demora pra tu se posicionar nessa nova realidade. eu comecei a anotar os sonhos que eu me lembrava. a rocha mais dura do planeta. A história dos trinta cavaleiros de coração guerreiro. filho bento. É o bem contra mal. — O senhor mencionou uma profecia. Você tem sempre que lembrar que agora só existe em e mal e que agora é a hora da verdade. filho. Fazendo tais notas comecei a montar um quebra-cabeça. sonhar e antever a queda de uma mulher na feira. nem tudo tão ruim.— O mestre dos magos? — É. a hora e o lugar. de alguma forma... o destino soprava no meu ouvido ventos que a vida ainda não tinha soprado.. assombrado. vai virar uma rocha. A história dos salvadores. — Isso aqui não é A Caverna do Dragão. Quando comecei a perceber essas pequenas coisas. vai passar pela provação e seremos Vitoriosos. sem eu a escolher. Tá tudo diferente. — E quando o senhor acordava. — Não. via vocês montando tordilhos e arrancando a cabeça dos malditos vampiros. Lucas. — Eu comecei a sonhar com essas coisas. O destino deixava vazar para cabeça deste pobre velho o que estava por vir.. como a cena de um jegue fugindo do dono e indo se esconder em tal lugar até coisas mais complexas. Eu escrevi o romance que todos queriam ler.. então. A sua história. com as peças desse quebra-cabeça doido eu escrevi uma profecia mais doida ainda. É simples. filho.. O que mais o senhor sonhava? — É o que eu ia dizê. Lucas respirou fundo. Ela me contou o futuro e. Eu percebi que. Se você vacilar. — Sim. se você se firmar. mas não tá tudo perdido. no princípio não ligava. molhando a pele fina.. mas essa cadeira de rodas é um tanto lenta e barulhenta. derrubar alguma coisa para desviar tua atenção e depois desaparecer diante de seus olhos.. Via vocês cruzando os pastos nessas roupas maravilhosas. encontrava o jegue? — perguntou Lucas. depois. Poderia até brincar com você. certinho. — o velho fez uma pausa e passou a língua pelos lábios. mas. por que me chama de bento? 108 . Lucas e Bispo riram juntos. A energia me escolheu. num sabe? Sonhava desde coisas simples. coisa que no meu sonho só se daria na semana seguinte. — Não tem confusão.. Eu via vocês. algumas coisas com que eu sonhava começaram a acontecer. achava que era só o meu desejo de ver essa sombra maldita sumir do céu e nos deixar em paz. cabra. nosso lado perde. se não sou enviado de Deus. O auto do homem que lideraria esse grupo até a vitória. filho. — Encontrei.. a invasão dos vampiros pelo muro três. O velho voltou a tossir e ficar em silêncio. num canto da floresta.. Isto é só um exemplo bobo. he. ter fé no teu poder. Disse ao homem onde o jegue estava e pimba! O bichinho estava lá. he. he. pra mim não é.

Contudo. — Não foi dito. Bispo? O velho balançou a cabeça negativamente.— Lá vem você de novo com essa pergunta. — E por que o senhor diz que Deus não tem nada a ver com o que está acontecendo aqui na Terra? — Porque esse período de trevas não tá lá nas escrituras.. Não é abençoado por Deus.. quatro milagres iriam acontecer. decifrar o que essa força cósmica tá me soprando no ouvido. Só querem reduzir a bagunça esparramada por aí.. Sem os milagres.. cabra. dentro de vocês. balela.. Não é só aqui na Terra que isso tá acontecendo. fizessem uma limpeza. a energia me dá as receitas. caso essas receitas tivessem sendo sopradas nos ouvidos de nossos inimigos. filho. — Como vamos vencer. — Mas. Sonhei com isso também. Abençoado seja o homem que varrerá os malditos das terras escuras. bichinho.. que quando trinta de vocês fossem reunidos. Nos sonhos. — Bispo sorriu e balançou a cabeça. senhor Bispo? — Eu sonhei. não.. menino.. Esse dom é uma tortura. só foram com a cara do amarelo. filho. E a soma desses milagres fará com que a vitória sobre os vampiros seja possível. tá bem claro que quatro milagres vão acontecer. Abençoado seja o homem que nos livrará do medo da escuridão. aí. estamos fadados a terminarmos escravos desses peçonhentos. restaria a nós cavar um buraco bem fundo para tentar escapar de uma sobremesa bem das amargas. É abençoado pelo coração. O universo tá limpando a sujeira espalhada por aí. Elas não tão escolhendo amarelo ou vermelho por lógica. guerreiros da gota serena. não me dá o bolo pronto. meu filho. misturar as coisas com jeitinho. o que eu tenho que fazer? Onde estão esses homens bentos agora? 109 . Lucas notou que o Bispo parecia cansado. Não sonhei com glória nem com derrota.. Sem os milagres. tu é uma benção. Não foi revelado. — E onde eu me encaixo nessa profecia.. — Sorte a nossa essa energia ter procurado o nosso lado. filho. — Isso não foi revelado a esse pobre velho. filho. — Quais? O velho suspirou e deixou os olhos passearem pela face do bento.. Apesar de estarmos no meio de uma piscadela de Deus. vencê-los será impossível. Respirava com maior dificuldade do que quando entrou na sala. Deus está de férias e deixou que as energias do universo tomassem conta da casa. tenho que tatear no escuro. As energias do universo são as faxineiras mais esquisitas que eu já vi.. Ô diacho! Parece fixação! Tu é bento porque vai nos salvar. sonhei com o caminho para a entrada do horizonte dos acontecimentos.

da minha esposa. o desespero. cabra. Aquele negócio de túnel de luz. tudo me fazia sofrer muito.. Podia ouvir o drama de ter um marido inválido. É bem perigosa. de verdade. pediam que ficassem preparados. mas dizem que são feios. não movia meus lábios. acordo gritando "Sai de retro Satanás". tudo voltava a ser escuridão e sabia que minha parte fantasma estava de volta ao corpo. o trigésimo iria guiar os demais. Que a guerra será dura e muito sangue será derramado até esse dia.. Não conseguia ir para longe do meu corpo. Às vezes.. Ninguém podia imaginar. Fiquei em coma por semanas. Comecei a sonhar com a grande tragédia. uns meses antes dessa benção de mudança começar.. era um vegetal. Doidinho.— Nos sonhos me foi dito que quando trinta bentos estivessem despertos. Nunca saí dessa cadeira de rodas desde que acordei. Não movia nada. E pensar. Encarcerado numa cabeça viva. as lamentações. O pior era isso. Ver na minha frente. além disso nada sei. os prognósticos eram sombrios. — Não. mexeu rapidamente as mãos. Bispo inspirou tentando encher completamente o peito. as piadinhas na UTI. Podia ouvir o sofrimento dos meus filhos. Naqueles dias estávamos a poucos meses da grande transformação. ficava preso ao meu sangue. Nos meus sonhos são como o capeta. eu sofri um derrame. Que os números serão importantes. Ouvia e via os médicos. atirado numa cama de hospital com o futuro incerto. não vi túnel nenhum. Ter consciência de tudo o que estava acontecendo com você. Uns irmãos teus já viram essa peçonhenta na floresta. nunca vi. olhando para a minha casca inválida. Tome cuidado com ela. principalmente quando sonho com aquela de tapa-olho. sonhar o que estava prestes a acontecer. Aquelas criaturas medonhas. Eu nunca botei os olhos num dos bichos.. Não tive essa sorte. depois. Pensar. Recostou a cabeça no 110 . comia por meio de sonda. Mal saio dessa casinha. ninguém sabia que eu podia ouvir tudo. — Rezarei por você. Milhares de pessoas mortas. Respirava por meio de aparelhos.. Não movia minhas pernas.. exceto eu. Iria levar as trinta espadas dos guerreiros ao norte e que os milagres se apresentariam onde repousa o coração do deus Tupã. Vocês tem que ganhar. minha audição funcionava. estava com a vida perdida. Acho que estive à beira da morte por dezenas e dezenas de vezes. Lucas crispou as sobrancelhas. Os médicos não acreditavam na minha recuperação e não davam muitas esperanças para meus familiares. — O velho fez nova pausa. Foi nesse período macabro que meus sonhos começaram. a raiva. quando acordei. não fui um adormecido como você.. amigo. Vão e lutem o bom combate... doidinho. Desespero. O pior era ouvir o que os médicos falavam.. Eu era um espectro. dando apertos no encosto da cadeira de rodas. amontoado num corpo morto. É que. Os prantos. Tem que vencer os malditos. Lucas. Achei que já estava completamente doido. A vida corria normal. tenho uns arrepios. uma assombração no corredor daquele andar de hospital.. sentado ao lado do meu leito hospitalar. Apesar de ter perdido a visão. mas por muitas vezes estive fora do meu corpo.

. Quem andava de cadeiras de roda. Lucas pensou em levantar e chamar o alfaiate. não é? Precisava ver como eu tava naquela noite. Desde aquela noite. isso quando o evento tá ligado a mortes dos entes queridos. as abandonou.. Muitos tiveram perdas. — Daí chegou o dia. Muita dor. — O senhor realmente acha que esse evento trouxe algum bem? O velho meneou a cabeça afirmativamente. Reparou como têm muitos velhinhos andando por aí? Lucas anuiu. Choro... — Tenho certeza. Realmente tinha notado isso. bento. Ela deve ter se mordido de curiosidade com o fato de um morto agarrado na beira do precipício da morte ainda estar respirando.. O pacote de benefícios é muito mais cheio que o das mazelas. A bendita noite em que tudo mudou. filho. Isso não é motivo para festejar? Não basta para chamar o evento de bendito? Quem tinha câncer. por causa da antiga doença. As pessoas morrem de velhice ou por causa de um trauma.. vivendo de favores de loucos que ainda perambulavam pela cidade. Tava largado num hospital. As pessoas não morrem. talvez parte do pacote ruim. Tava à beira da morte... e acho que bastou para o sopro do destino me manter do lado de cá.. A maioria das pessoas da vila pareciam ter mais de cinqüenta anos. curou. Meses depois. mas antes que o fizesse o velho voltou a abrir os olhos. — Tá perguntando o que eu estou fazendo aqui. — Que pacote? — Eu tinha 46 anos quando tive o derrame. Tô mais acabado que qualquer senhor de 76 anos que tu conhece. talvez tenha ficado tanto tempo me olhado que ela se engraçou com o meu charme e resolveu dar uma colher de chá para esse esqueleto cansado.. fiquei muito debilitado. Leia-se: confronto com os malditos. O ser humano tem essa mania de exaltar muito mais as perdas do que os benefícios de uma grande mudança. Mas agora tu tá diante de um homem de 76.. Sua pele enrugada parecia mais seca e os olhos mais cansados. Lucas alterou a expressão. Eu fiquei anos melhorando lentamente. Finalmente voltava a ver e ouvir com os meus órgãos de carne. — As pessoas não morrem mais de doenças. mas ainda tava ligado naqueles aparelhos. à perda de pessoas para a escuridão. quando os sobreviventes começaram a ser 111 . Mas eu sabia que aquilo viera para um bem.apoio da nuca. O primeiro dos sentidos que voltou foi a visão. fechou os olhos e respirou em silêncio por alguns segundos. Quem sofria de Alzheimer voltou a desenvolver suas funções com normalidade. Já te disse que estive morto por alguns minutos? Pois te digo que estive morto por horas. as mulheres não puderam mais ter filhos. pois.. e talvez tenha sido isso que chamou a atenção da energia.

A angústia tios tementes tem hora. nessa lonjura que Deus me deu. continuou. com um sorriso bobo no rosto por reconhecer mais uma expressão de sua época em uso. Percebendo que o rapaz continuava calado. O velho fez nova pausa na revelação. a gente dá bola pra altura do muro e para o pôr-do-sol. Bispo? — Acho que esse velho já falou demais por um dia. Os homens têm muito medo da morte e. — Já consigo. Mas. Lucas viu-se sozinho diante da sala atulhada de objetos. Coisa boa. é verdade. num dia bom. Pra pensar. Eles fazem a parte deles. Venha me visitar uma hora dessas. daquelas bem caprichadas. Assim que o alfaiate levou a cadeira de rodas através da porta. Mas. quatro. Os sonhos voltaram e começaram a me explicar sobre as forças do espaço negro. das faxineiras do Senhor nosso Deus. Não precisamos mais desconfiar de um semelhante que cruza nosso caminho. Não há mais a agonia e o desespero do dinheiro. em sermos unidos e irmãos. Esse tempo todo de clausura me serviu para meditar. por isso. por favor. Chame o Paulo. Agora sabemos quem é nosso inimigo. O alfaiate e os demais já sabem de cor e salteado o que devem fazer. fui trazido por uma equipe de resgate para cá.reorganizar. para São Vítor.. agora. Sentia-se afundando 112 . São tantos. Eu tava doido pra comer uma buchada. lamentam tanto o acontecido. Agora temos urgência é em conversar uns com os outros. — Ao final de quatro anos podia falar e começar a comer coisas sólidas.. bichinho. É uma gritaria da gota serena quando os bichos conseguem passar as muralhas. E acho que foi muito bom o que me aconteceu. nada de ruim aconteceu. até dar alguns passos. Pra entender. parecia esgotado. — Posso ajudar. boquiaberto com a história que chegava ao seu conhecimento. Ninguém dá bola pra gerente de banco e contas pra pagar. — o velho fez uma pausa. montado no lombo de um bom jegue.. três. vou te contar mais dessas coisas incríveis que tu perdeu. Vou instruir o Paulo pra te levar aos outros meninos. bichinho. repito pela milésima vez. É a hora em que o sol se põe. Não precisamos mais temer andar na rua. Seja um bento da moléstia. Agora quem é bom é bom e quem é mau é mau. Nada mau pra um cabra que já teve morto. — mais uma vez o velho interrompeu o discurso inflamado para tomar fôlego. Os olhos de globos amarelados continuaram em cima do jovem salvador sentado na sua frente. porque os vampiros vêm com toda sua fúria e selvageria. nos dias de hoje. — De cor e salteado. ao menos temos medo com hora marcada. O universo é cheio dessas coisas estranhas. Não dê descanso àqueles malditos noturnos. — murmurou Lucas. Vilas inteiras são engolidas nos ataques.. E esses benditos sonhos trouxeram de novo a esperança aos meus irmãos. A cabeça cheia de informação. mas tenho fé que voltarei a caminhar e a conhecer melhor esse novo mundo. sorrindo e continuou. Também buscam a vitória e vão fazer de tudo para que vocês falhem. Suspirou fundo.

O encontro com Bispo servira mais para confundi-lo do que para esclarecê-lo. — Vamos. Era muita informação. O velhinho falante parecia tirado de uma fábula incrível.numa realidade que não queria aceitar de pronto. Era muita responsabilidade. Impossível crer naquilo tudo. Ao menos soubera da boca do velho que de infarto não morreria. Queria virar fumaça e desaparecer. Era muita fantasia. de uma produção da Pixar. bento Lucas. Não sabia se isso era bom ou ruim. Vou apresentá-lo aos seus parceiros de batalha. Paulo voltou e indicou a saída ao guerreiro. 113 . Não estava preparado.

. Marcel saltou da moto. que terminaria num encerado camuflado por galhos. que a mil e cem foi ao chão. tão desnorteado. — Merda! Merda! Malditos filhos de umas putas! — O Chorão vai começar de novo. agora. mostrando existir ali muito mais do que um par de árvores frondosas cruzando a pista. venceriam a descida do sol. O posto de reabastecimento era um lugar conhecido apenas dos soldados mais experientes. sem abrir passagem com facão para não denunciar o sítio estratégico.Capítulo 17 O sol mostrava claramente seu perigoso movimento descendente e cadente para os que estavam fora do portão... que era reposta periodicamente. teriam que rezar para chegar com vida. A camada verde era compacta. novato! — berrou energicamente o líder. Depois de reabastecidas as máquinas e recuperado o soldado. Mesmo assim. Todos olharam para Adriano.. Zacarias e Paraná não puderam conter o riso. um após o outro. espantados com o nervosismo. onde eram acondicionados dezenas de galões somando centenas de litros de gasolina. Debaixo do encerado. Guiando-se ainda pela rocha e por algumas árvores características do lugar encontrariam a picada já aberta. foram retirando seus capacetes. bem escondida. indicava a proximidade do local. Estavam a duas horas de São Vítor e chegavam agora às quatro horas da tarde. os motoqueiros rasgavam pela rodovia. chegariam com a noite começando. Parando alinhado com a rocha. — brincou Joel. Uma rocha apelidada de "O Grande Sofá". por causa do seu inusitado formato. Continuando nessa velocidade. apesar da gasolina de Marcel ter acabado bem antes do posto de abastecimento. Marcel parou de atracar-se com os galhos e com os inúteis xingamentos. Ao encostarem ao lado do líder. Ao menos para isso serviu o desatino do novato. Não precisava ser um expert em matemática para concluir que a sorte não estava do lado daquele grupo naquela missão. três folhas de madeirite tapavam a entrada para o buraco escavado. Mesmo sem aquela árvore. os soldados mostravam-se contentes pois. A confiança dos motoqueiros desfez-se quando viram a moto do puxador parada em frente a uma muralha de folhas verdes. O novato correu até a muralha e começou a chutar os galhos mais próximos. era ainda preciso caminhar cerca de cento e cinqüenta metros em mata fechada. Não havia outra palavra melhor para descrevê-los naquele instante do que decepcionados. — Cala a boca. 114 . os demais alcançaram a meta e puderam socorrer o novato com rapidez. Um obstáculo plantado no meio do caminho.

— esclareceu Társio. Os escravos de vampiros. seja plantando explosivos em pontos estratégicos das muralhas pouco antes do sol cair. três para a direita. 115 . Engatilharam as pistolas. os malditos poderiam ter ordenado que um grupo de mulos fosse até aquele ponto da estrada e improvisasse aquele obstáculo. distribuindo abraços efusivos. Sinatra aquiesceu e começou a escalar galhos e troncos das grossas árvores que compunham a muralha verde. seja empoleirando-se em galhos altos à beira da estrada com rifles de longo alcance ou fazendo serviços como aquele: derrubar árvores para encurralar motoqueiros às portas da escuridão. Os vampiros que haviam deixado o Rancho da Pamonha sabiam que tinham deixado para trás um grupo de soldados vivos. — Cuidado com isso. atiraram-se contra a barreira. Todos entenderam. em geral. — Estamos salvos! — berrou. Os soldados trocaram nervosos. não eram muito habilidosos com armas. O jovem negro também era magro e de reconhecida agilidade em escaladas. Um zumbido de um pequeno motor. — Bendito Bispo! — celebrou Zacarias. dando as boas novas ao sofrido grupo de Adriano. Paraná gesticulou para Sinatra. Quatro para a esquerda da pista. Os que estavam apenas vigiando o trabalho dos companheiros dirigiram-se ao grupo de Adriano. Os homens gritaram vivas e. Reconheciam aquele ronco. escalando o obstáculo. O ruído aumentou de volume como se outra máquina se unisse à primeira. Ele sonhou que teu grupo precisava de ajuda. erguendo os óculos de proteção. quase que ao mesmo tempo. Apesar do sol ainda iluminar fartamente o céu e impedir qualquer ação dos noturnos. — O velho Bispo. As motosserras trabalhando deveriam estar partindo mais troncos de árvores antigas e fazendo-as cair no meio do asfalto. Eram motosserras. — São soldados de São Vítor! Tem um bento com eles! — juntou Joel caindo ao lado do amigo.Adriano repetiu o sinal de silêncio. — Como sabiam? — perguntou o líder de Nova Luz. que saltava os ramos e toras. Adriano sinalizou de novo e o grupo se dividiu. até formar um ronco possante. que era o mais leve do grupo. Quando chegou ao cume e identificou o grupo que cortava árvores abriu um sorriso e praticamente saltou lá do alto de volta ao asfalto. depois mais outra e mais outra. líder daquele grupo de São Vítor. Apesar do ronco ensurdecedor das motosserras. Uma máquina. tomava cuidado para não partir os galhos e não chamar a atenção. Sinatra atingiu primeiro o topo do muro de árvores. mas eram um risco surpresa nas horas de luz. Tentariam a todo custo emboscá-los uma segunda vez. ampliando a dificuldade do obstáculo. Um barulho bem alto. o escolhido foi o Joel. porque a gente tá descendo! — alertou o grandalhão Paraná. Os soldados pararam com as serras. No flanco direito. Do grupo de Adriano.

. de altura suficiente para que as motos cruzassem os troncos primeiro. o presságio. Felizmente. — Realmente vocês encontrariam problemas com esse amontoado de madeira na pista. Tem uns dez minutos. o que havia permitido construir ali aquela armadilha perfeita. Francis era um dos bentos mais antigos. Até livrar a pista vai mais de hora e já são quatro e cinco. reluzia abundante.Os soldados.. Chegaram há pouco. estaremos muito bem reforçados. Tivemos que esperar um montão até ele "montar" o sonho. tirando um cigarro caseiro do bolso. Adriano reuniu os homens para ver em que poderiam ajudar. com a cruz dourada incrustada ao centro. a rodovia era muito estreita. mas você conhece o Bispo e a mania dele de sonhar pela metade. Ainda observando Francis andar dentre os homens. caso a gente não chegue até às cinco. O sol 116 . — resmungou Társio. E duvido que o quartel não mande mais uma patrulha.. As motosserras eram cinco e aproximar-se da área de trabalho com outras ferramentas de corte mais iria atrapalhar do que ajudar. — concluiu o líder de São Vítor. soltando a primeira baforada do cigarro caseiro. Concluiu que deixariam para amanhã a remoção definitiva do obstáculo. naquele trecho. rosto másculo. apontando para o guerreiro que também ria e confraternizava com os amigos. já que o sol da tarde incidia na rodovia. como naquele caso. os soldados esculpiam uma passagem em "v" invertido. O que poderiam fazer era revezarem-se na operação das motosserras e irem retirando o entulho de galhos e folhas do meio do asfalto.. de pele bronzeada. com bigode estilo espanhol e um filete de barba que descia do lábio inferior até o fim do queixo. Adriano notou que uma das motos tinha uma carreta atrelada. junto com as ferramentas alguém teve a brilhante idéia de trazer o bento Francis. — Com o bento Francis com a gente. Olhou para o obstáculo de madeira e ficou contente ao perceber que o equipamento partia galhos e troncos com rapidez. ouviu alguém explicando para Paraná que. parte pela ocupação desenfreada da mata. Começamos a cortar agora. Terminado os cumprimentos. ainda trocavam apertos de mãos e abraços com os companheiros. — O velho nos avisou às oito da manhã. O tilintar característico da cota de malha de prata seguia os movimentos do guerreiro. — explicou. parte por culpa do traçado. Adriano riu e deu tapinhas cordiais nas costas do amigo. — Metade do nosso grupo teve que voltar até São Vítor para buscar as motosserras. Da indumentária cabida ao combatente. O peito de prata. Aquele acessório era muito usado quando precisam transportar mantimentos a mais ou. mas a gente nada pôde fazer quando chegamos aqui mais cedo. amigos de longa data. ferramentas para áreas de trabalho distantes. É muito tronco! Se ele tivesse dito que era isso. Engenhosamente. mesmo que escureça no meio do caminho. para bento só faltava a capa vermelha. despertado sete anos depois do evento. Tinha altura mediana.

117 .baixava rápido. ao menos com ele por ali seu novato não cairia naquele ridículo berreiro novamente. Sorriu sozinho ao agradecer a presença do bento. mas certamente a presença do bento manteria o grupo calmo e seguro.

àquela hora. dotado de gramado baixo e verdejante. Ouviu Paulo perguntar por um outro nome. A sede súbita desaparecera. junto ao muro para o qual se dirigiam alguns barracões rústicos e muitos trabalhadores. doces e suculentas completara a deliciosa refeição.Capítulo 18 Lucas tivera seu primeiro almoço farto desde que despertara no hospital de São Vítor. Talvez a grande parte da comunidade fizesse a refeição um pouco mais cedo. com traves desprovidas de redes. Uma zuada que não acaba. Podia-se ver longe. Tinham tentado localizar um bento chamado Francis. É difícil. — Quando vai ser a próxima pelada? — perguntou Lucas. às vezes. a existência de diversos canteiros com todo o sortimento de hortaliças e legumes. 118 . todo mundo quer assistir. rodando pelas estradas em um comboio de carros-fortes. mas. aparece aqui o time do Caranguejeira. Lucas não cansava de observar o comportamento dos moradores de São Vítor. Lucas estava contente. Vou apresentá-lo e ficará com os seus. que à primeira vista parecia bem próximo. Quando eles aparecerem. O muro. — Bento Vicente está no muro da frente. O grande clássico é Horteiros versus Vaqueiros. Notou. exigia uma boa caminhada para ser alcançado. Junta gente pra caramba. O Caranguejeira é líder de um grupo de malucos que ficam perambulando de cidade em cidade. pois o estômago não estranhava mais a comida sólida e o organismo parecia ter entrado num funcionamento aproximado do regular. o alfaiate e seus auxiliares levaram Lucas pela cidade em direção a um dos muros. Você escuta os rojões a quilômetros de distância. bem como as tonturas. um dia mostrava-se de topologia plana. mas que. Chamamos de Copa. mas. O refeitório não havia sido o destino imediato após saírem da casa de Bispo. Sorriu. Paulo sorriu. Frutas frescas. eu sou apenas um alfaiate. É incrível. a pelada é da boa. Quando estamos em tempos de calmaria até organizamos umas partidas externas ou trazemos visitantes para cá. — Temos campeonatos disputadíssimos por aqui. Acontecesse o que acontecesse o brasileiro seria um eterno apaixonado por futebol. que só podiam ser agricultores. Podia ver também um campo de futebol de boas dimensões. Comera com Paulo e os alfaiates num refeitório coletivo. Souberam que ele tinha partido com o grupo de Társio para a estrada. Eles é que sabem o que vão fazer daqui para adiante. A pessoa procurada também não estava ali. Sem dúvida um lugar pitoresco. apontando para o campo. Feita a refeição. A maior parte da vila que fora um campus universitário. Comera batatas e vagens cozidas. Depois de recebidas as informações é que caminharam até o refeitório. um bocado de arroz e um generoso bife de vaca bastante acebolado. estava praticamente vazio.

Um homem daquele tamanho. Ele já veio jogar aqui com a seleção de Esperança. enroladas em rodas de ferro. — E um bom Corinthians e Palmeiras? — perguntou Lucas. essas copas não tem data para acontecer. Jogador brasileiro que fora uma grande estrela para o tricolor São Paulo e depois fizera carreira exemplar no exterior. não? — Às vezes. Tem uma fortificação perto de onde foi a cidade de São Paulo. de que as pessoas não ficavam doentes. Sabe quem é soldado lá? Lucas encolheu os ombros. Ao que se lembrasse somente o velho Bispo tinha parecido tão fraco. seu cérebro também ia voltando a funcionar. forte como um touro. fazendo graça. Estavam chegando. Foi um dia divertido. achando impossível adivinhar. — Grande capitão. — Ele despertou dez anos depois do evento.. Correntes de extensão indeterminada. O guerreiro olhou para o muro na sua frente.. mas já aconteceu. tão débil.. imediatamente. estava bem perto dos cinqüenta anos. aos poucos. é raro. Lucas percebia saudosismo na fala do alfaiate. — O Cafú do penta?! — perguntou admirado. Rosto de homem experiente e vivido. erguendo o caneco para bilhões de pessoas. — É. como o restante do organismo. faltando cerca de cinqüenta metros para alcançarem o muro. vigorosas. acorda um jogador de futebol conhecido. mas isso a gente não viu mais... chamada Esperança. ter reconhecido o nome e a pessoa. Estava contente também por. Talvez a constituição física espetacular devesse ao fato mencionado por Bispo. Parecia diante de uma obra 119 . Lembrar do Cafú no final da copa de 2002.. Lembrava-se perfeitamente do Cafú. falando feito criança. Quem diria.por motivos de segurança. — O Cafú. a ponto de interromper a marcha. Sou palmeirense fanático.. O sorriso insistia no rosto não só pela satisfação em saber que mais um rosto conhecido e familiar habitava aquela terra dos dias de hoje. — continuou o alfaiate. — Ah! Bons tempos aqueles. Chegou até a ficar emocionado.. Lucas continuou com o sorriso no rosto quando voltaram a caminhar. nunca mais.. O rosto sulcado do alfaiate mostrava que. uma pena. Indicava que. Aposto que foi duro para ele aceitar a realidade. Realmente tinha visto pessoas de faces coradas e a grande maioria de aparência excelente. Perto deles observou um imenso portão de madeira e ferro. As fortificações montam verdadeiras seleções. se já não tivesse passado. Cada jogo. agora era um soldado! — Nas horas vagas dizem que ele ensina a garotada de Esperança a jogar futebol.. Daquela distância era obrigado a erguer a cabeça para alcançar o topo.. — O Cafú do penta.

pela qual subira. — Isto é óleo vegetal. debruçado sobre a parte externa do muro. de rosto rude. mas era muito baixo e os vampiros. — chamou o alfaiate. Mas. algumas vezes para ele e o grupo do alfaiate. só pelo fato de termos alisado as paredes com essa massa. notou uma porta metálica. Quando sobra a gente passa pelo muro nos pontos estratégicos. olhando-o fixamente. A areia branca refletia a luz do sol e provocava aquela sensação de calor. saindo das sombras. Depois aumentamos para doze metros. cravam em tudo. Lucas encontrou um corredor de três metros de largura. olhavam. pulavam com facilidade para dentro. Os olhos doíam com tanta luz. vigias. Nesse instante. aqueles demônios subiam isso como se fosse uma escada. Ficou escuro por alguns metros e logo voltou a clarear com a luz do sol atravessando na boca de saída. olhavam. Enxergou dois pontos negros a longa distância.. Logo entendeu a razão de ser daquela desertificação. Sentiu um arrepio percorrer o corpo quando bateu os olhos na armadura prateada com a cruz dourada no meio do 120 . depois continuavam andando. que serviria para selá-la. já prejudicou bastante para o lado dos noturnos. Próximo a eles. provavelmente na iminência de uma invasão. passando por degraus rudes. Tome cuidado com as unhas deles quando estiver em batalha. Antes. Mas demorou um pouquinho para chegarmos a esse resultado. deixando o abrigo. Lucas viu um outro homem. Lucas viu uma parte coberta da muralha que serviria para proteger os soldados do sol. Não haveria como não perceber a aproximação de alguém bem antes que este estivesse próximo o suficiente para oferecer risco. Vê como as faces do muro são lisas? Vamos subir para você ver melhor. Lucas ergueu-se. Andavam um pouco e paravam. Paulo conversava com esse soldado. Era impossível detê-los. Havia soldados no topo do muro. Muito além delas começava uma linha verde que deveria ser uma floresta. Pareciam duas árvores secas. No topo da muralha. Aquele deserto era uma proteção. havia um homem apenas. quando a gente tinha deixado no tijolo cru. Eles têm umas unhas duras. Lucas aproximou-se. — Que altura tem isso aí? — Primeiro foi construído com sete metros. quando alcançavam o muro.. — Vem ver. Já não pulam com facilidade. uma no extremo esquerdo do campo visual e outra no canto direito. — Olhe como esta parede é lisa. Lucas passou a mão. Realmente era lisa e a julgar pela viscosidade aderida em sua mão. Por cerca de um quilômetro a visão era de um Saara. prateada. Ao final da escada. Olhando para a direita.medieval ou de um cenário de Tolkien. Subiram por um corredor estreitíssimo. Lucas estava mais impressionado com o baque quente que tinha tomado no rosto quando se debruçou sobre a muralha do que propriamente com o obstáculo de pedra. forte. porque é difícil cobrir o muro inteiro.

que apesar de portar altura mediana. — Calado.. Bento Vicente é como me chamam. — começou uma risada. Lucas percebeu no peito do guerreiro uma imagem de São Jorge igual a sua que. lugar onde não era hostilizado pelos semelhantes. — Fale quando eu perguntar. — despediu-se Paulo. essa coisa de profecia me mata. parou em sua frente e cruzou os braços. Lucas queria sumir dali. — Deixo-te com teu irmão. Se na presença de um deles já se sentia impostor e incapaz. Tinha uma espada na cintura. Esperava um colosso.peito. por culpa das proporções corpóreas diferentes. que só foi acompanhada pelo soldado próximo... Paulo precisou abaixar-se para sumir pela passagem que dava nas escadas. voltando para seus ajudantes. Mas você é tão pequeno que chega a ser engraçado. com a voz desanimada. Era um bento! Lucas sentiu um suor frio brotar da testa. A confusão mental aumentava conforme as passadas do homem traziam-no em sua direção. bem mais alto e forte do que ele. Com alguma sorte. Mais uma gracinha e iria tirar a arma da bainha. — Meu nome é Vicente. — interrompeu secamente o bento. bento Lucas. Não tinha ouvido falar em cadeia. a do bento dava a impressão de ser uma peça bem menor do que a que Lucas carregava no traje. — o bento fez uma pausa e sorriu. bento? — perguntou o grandalhão. Um campeão. — Essa eu quero ver de perto. que vai te explicar como serão as coisas daqui para frente. — Ah. — Eu matei um vampiro. Assim acabaria logo com aquilo. na presença de bento Vicente. medindo-o com evidente desdém. esse é o tal? O bento que vai nos guiar contra os vampiros. O homem. Um bento de verdade! Lucas sentia-se prestes a ser desmascarado. Lucas inclinou a cabeça. O bento enxugou as lágrimas nos olhos. Paulo aproximou-se com um sorriso nos olhos e com as mãos juntas. — Então. 121 . Que vai tornar certa nossa vitória. — Esse é. — apresentou-se o grandalhão.. A capa vermelha daquele homem estava bem desbotada e as bordas inferiores com a proteção marrom de couro já bem gastas. Ficou olhando para Lucas. longe de ser um baixinho. onde sentia-se bem melhor do que ali. mas estou surpreso. seria esquartejado na primeira briga. media dois palmos a menos que o brutamontes encapado. nervoso. O bento contornou Lucas. Tinha acordado numa terra estranha. — Eu já vou indo. Desculpe minha sinceridade. como seria quando os outros viessem para vê-lo? Queria virar fumaça e desaparecer. — Você já viu um vampiro.

O que eu tô falando é coisa séria. Olhou fundo nos olhos do bento. — Você pode ter até razão. Não quero nem ver. Só assim para dizerem que você é um bento. Lá na floresta. Esses são de verdade. e pra reunir essa galera toda que fala a profecia do velho Bispo. Estamos perdidos. O que acontece é que ele sonha pela metade direto. Fez um aceno com o queixo para que Lucas desembuchasse. Mas sonhar errado nunca tinha sonhado. — Eu também estou perdido. Bailarina? Você já se olhou no espelho? Vicente fechou o rosto e aproximou-se ainda mais de Lucas. Tô falando que você não pode ser o cara.. Você precisa ver um vampiro da floresta. não é? — Não. São o bicho. mas não precisa ofender. Um vampiro antigo. Cê nem tem jeito de casca-grossa. Não sabem usar as armas que têm. Acho que com você é a primeira vez.. meu. criado no mundo. — Mas. ninguém vai botar fé. Agora ferrou. Hoje é o meu primeiro dia do lado de fora. resto de bento. afastando-se alguns passos. Onde já se viu mandar alguém do teu tamanho para guiar um bando de soldados? Ninguém vai te obedecer.. de noite. vamos ter que viajar de dia e de noite. Não sei o que vim fazer aqui ou por que me meteram nessa roupa. — Acho que aquele velho tá caducando. não vem com graça pro meu lado que você não me conhece. Eles são novos. Sabem que atrasam nosso lado quando matam um dos nossos. um vampiro da floresta. Antes de acordar naquela droga de hospital nunca tinha matado um mosquito sem pedir desculpas. — Quer saber um segredo? Vicente olhou para o soldado que estava próximo e gesticulou para que o homem se afastasse. não pode nem piscar. — O cheiro ruim é o mesmo? Vicente encarou Lucas por alguns segundos sem responder... — Então você é um irmão. Se me chamar de bailarina de novo. Quando o bicho pegar quero ter do meu lado alguém que saiba fatiar vampiro. — disse Vicente. Quando os vampiros descobrem um bento.— No hospital. Fui falar com o Bispo e. te quebro a cara. lógico. é um filho da mãe dum caça-vampiros. Sonha pela metade. você ainda não viu. Não sei nem se agüenta com essa espada. — Escuta aqui. parece uma bailarina. juntam um bando cem vezes maior que o nosso. — Os vampiros do hospital não contam. Às vezes eles erram sabe.. 122 . Ele nunca errou nessas paradas de sonho. sem chance. Logo você? Você é muito pequeno. mesmo? Se sentiu o cheiro. O bento Francis tá fora numa missão e quando ele chegar vamos começar a arrumar as coisas para ir atrás dos outros. Se você é especial vai ter que mostrar a que veio. Nossa carne vale ouro.

mas sabia que gostava muito do pessoal do trabalho. Apesar do estresse diário. eu não gosto de ficar pajeando recém-acordado. passou mais de meia hora observando a paisagem. Reparando no trabalho monótono. Poderia estar dando uma volta no Parque Trianon ou mesmo estar passando pelo vão livre do Masp. — Aqui não tem professor. Lucas observou São Vítor mais uma vez. Sentimento estranho. Tudo estava diferente de fato. dos amigos. se estivesse no trabalho. Viu um prédio imenso que passara despercebido em suas andanças com o alfaiate. esse parecia muito mais fraterno. O asfalto terminava justamente nos portões de São Vítor. olhou para o céu. Voltou para a face interior. Depois do pôr-do-sol. Talvez a impressão viesse do fato de Lucas ser uma celebridade. Tem nego que tem paciência. de onde surgira anteriormente. Ao tentar lembrar-se do pessoal do escritório. Meu negócio é ficar nesse muro e ficar de olho em quem chega e em quem vai. Voltou-se para o lado da cidade. Nada parecido com as movimentadas e congestionadas ruas de São Paulo. Bento Vicente deu as costas para o novato e atravessou a parte coberta. era capaz de ser tachado de louco. É tanta pergunta que a gente fica tonto. porém ininterrupto dos agricultores. gostava da empresa. Rostos felizes nas pessoas. A cabeça dizendo que ali era sua casa agora. Só podia ser o complexo do Hospital de São Vítor.— Foi você quem me xingou primeiro. Não sei brigar essa briga. O escritório ficava na Pamplona. pois deixava para almoçar sempre um pouco mais tarde. É só essa lição que vou te ensinar. Como reflexo dos pensamentos. Odiava o trânsito. Debruçado sobre aquele muro. Ao longe viu o que parecia um rebanho de vacas movimentando-se. Ar puro. contribuindo com o crescente volume de emissão de poluentes. Eu não tenho. Delicioso. Reparou na estrada que cortava a areia branca. O sol estava bem mais baixo e supôs aproximar-se das três da tarde. para alcançar outro corredor da muralha. mas vocês têm que me ensinar. se parasse na rua para cumprimentar desconhecidos. A rodovia não terminava! A alameda 123 . Apesar da breve passagem no meio do povo. Lembrou-se da menção que Paulo fizera ao time dos vaqueiros. Tem nego que não tem. os rostos pareciam embaçados e os que se revelavam não sabia se eram fisionomias reais ou coadjuvantes emprestados pela imaginação. estaria voltando do almoço. Recolocou a touca da cota de prata sobre a cabeça. Lucas preferiu ficar ali onde estava. Se eu sou um bento vim para somar. é melhor ficar longe dos muros. velho. Qualquer lugar longe do bento Vicente seria melhor do que em sua companhia. Espera outro bento chegar pra tu ficar na bota dele. Por que era tão grande e cheio de médicos se as doenças haviam sido erradicadas com o advento da Noite Maldita? Sem doenças não precisariam de médicos! Voltou a olhar para a face desértica. Apesar do metrô a uma quadra do prédio. Se for depois do pôr-do-sol. Nada daquela nuvem cinza-amarronzada no horizonte. meu trabalho é furar quem chega. A uma hora dessas. preferia dirigir o próprio carro. pacatas. Em São Paulo de sua época. Isso também era outra diferença gritante. não preciso nem perguntar.

Engenhoso.principal de São Vítor. E os adormecidos valem ouro para os sanguinolentos. — Lucas. por onde andara com o grupo do alfaiate e passara pela praça principal. Satisfação em conhecê-lo. Sorriu com a descoberta. — Meu nome é Carlos. Mais algum tempo passou até que dois homens se aproximassem. — Hã?! No HC? Na Dr. de dia e de noite. O mais baixo era o que estivera no muro e fora afastado por Vicente. Quase todo dia chega um carregamento. São trazidos para o hospital. — explicou com a voz calma o líder Amaro. duro é ter de engolir essa arrogância. — Escala? — É. — Sou Amaro. Abrimos essa faixa de mil metros ao redor da fortificação toda. mas é impossível de invadir. Havia um grupo de trinta pessoas mais ou menos. Olharam pelo muro. Arnaldo? 124 . Eles também caçam os adormecidos e têm um estoque como o nosso. Trabalho com Amaro. — Temos seis no total. É aqui que concentramos boa parte dos adormecidos. Lucas acompanhava interessado a explicação do soldado. vendo Amaro descer pela escada. destemido que só. — A fortificação é intransponível? — Quê? Esses bastardos têm o estoque deles num lugar que não é fortificado. Já teve muita briga aqui em São Vítor? — Pô! Essa fortificação é um dos centros estratégicos dos sobreviventes. da sua altura. Um mediano. — Dia de escala é sempre assim. era rodovia. líder de um grupo de soldados daqui de São Vítor. Lucas ia responder quando foram interrompidos por um burburinho vindo do portão. apontando para o par de espigões negros que Lucas julgara serem duas árvores secas. Sabemos onde é. E mais duas na parte sul. Vêm de todo canto. — No antigo Hospital das Clínicas. Ele é assim com todo mundo. — disse Carlos. Um homem surgiu ao final da escada e chamou Amaro. na parte interior da fortificação. — Vocês pensam em tudo. pois luta contra os vampiros como ninguém. Toda terça-feira sai a escala semanal das torres. — Não ligue para o jeito idiota do bento Vicente. que aparentava cerca de sessenta anos e tinha os cabelos completamente grisalhos. e outro mais baixo e magro. Mais duas no muro dois. Duas desse lado. Com os postos avançados podemos ver tudo que se mexe sobre a areia. Entendemos que ele é especial. Estavam com expressões de bons amigos e logo estenderam a mão para Lucas. Sabe onde os desgraçados guardam os adormecidos? — Não tenho idéia. — Tá vendo as torres? — perguntou.

Pegam bem no olho. e se formos de dia? Não conseguimos acabar com eles. Dá pra acreditar num treco desses? Cê tem noção? Viver de tomar sangue de gente. — Isso. É gente do mal. Os mulos ficam em posições estratégicas. ironicamente.. Esses são os venenosos. Quando cai a escuridão você só escapa por milagre. Vampiros e loucos dominando as cidades. A sorte é que a maioria é grossa na pontaria. — É. — Cara. deixaram para trás os cães. O lugar tá dominado. não dá pra acreditar. Eu já tive numa emboscada dessa.. — Mas. tornaram-se selvagens. mas tudo longe. Eles tomaram as ruas. fazendo surgir um novo tipo de flagelo ambulante. — Escravos de vampiros. Lucas balançou a cabeça. — Meu. Cê já parou pra se perguntar quantos cachorros viviam na Grande São Paulo naquela época? — Milhares? — Milhões. organizaram-se em matilhas gigantescas. As matilhas de cães urbanos. Tu olha para aqueles arranha-céus. Eles viram snipers. quando escurece tu não tem para onde escapar. Piraram. atacam tudo que se mexe. Quando vêm nossas motocicletas ou tropas aproximando-se. com sniper é sem chance.. todos ocupados por vampiros. — Pode crer. bento. São Paulo virou um ninho de vampiros. tentam acertar a gente só nas pernas. E tem mais. Tem noção de quantos prédios têm em São Paulo? Cada um deles tomado por trepadeiras e verdadeiros ninhos de vampiros. Se você entra naquela arapuca. O que aconteceu com os bichos? — Piraram. Não tinha ninguém para cuidar deles e. Mas de dia o HC é vigiado pelos mulos. Como diria o bento Vicente. — Mas de dia eles não atacam. Não dava para acreditar. — O que pode ser pior que isso? — Quando as pessoas fugiram das cidades. apesar de viverem nas cidades. Vicia. manja aquele lance de sniper? Pois é. tu não sai mais. Graças a Deus estamos bem longe daquela tumba a céu aberto..— É. Depois que a baderna começa. abrem fogo sem dó. E a maioria dos mulos é um perigo porque a maioria deles foi banida de alguma fortificação por andar fora da conduta. As balas passavam zunindo. Os que são bons no gatilho vão para as armas de longa distância. Deve ser que nem droga. Eles querem mais é ver o circo pegar fogo. aliás. são doidos para virar vampiro. escravos. Comiam o que encontravam pela frente. É medonho. atacam? — Não. 125 . E esses mulos.

Vocês só param depois de mortos. Agora é com vocês. Porque demora para acordar um bento. Se não é em São Vítor é em Éden Novo. — De dia cães e mulos. bento. Sorte suas. A profecia falava trinta. Nossos snipers tentam salvar o pessoal da torre que deu o alerta. a vila fica ruim por semanas. com a comida e as pessoas rareando nos arredores. Eles estão longe demais para a gente ajudar com eficiência. Lucas olhou pelo muro. — Vampiro e bento são iguais a gato e cachorro. porque é ele que organiza a programação. Se não é no Éden. Tem que ficar de olho aberto. Depende da vontade dos vampiros. são poucos que escapam nessa situação. Graças a Deus você acordou. Já era. bento. os bichos começaram a atacar até mesmo os vampiros ou até mesmo as matilhas rivais. Os vampiros têm o maior cagaço de bater de frente com vocês. — É um trabalho de responsabilidade. Uma verdadeira guerra. Ninguém. A profecia cumpriu-se. Porque quando dá o sinal e dispara os foguetes. Aí vocês são as feras da guerra. Teve semana que surgiram dois. — Sempre que sai a escala alguém discorda e vem ter com o chefe. De vocês nunca tomam o sangue. Vocês querem mais é ver o oco. Já chegou a demorar mais de um ano. É por isso que tá essa confusão aí embaixo. — E os bentos? Não ficam com medo? Não fogem da briga? — Como se vocês pudessem. 126 . É tipo um ácido para os caras. — É um trabalho ingrato. É por isso que a gente tem medo quando os vampiros vêm em grande número. Tramam. Eles são ardilosos. ninguém quer ir para as torres. É uma guerra. se eu fosse te atualizar de tudo. Tem hora que é pior topar com uma matilha de cães urbanos do que topar com os malditos. Demora meses. Todo dia tem ataque. — resmungou o soldado. mas é raríssimo. E toda vez que morre um bento. Conosco voam na jugular na hora. Não sobra nem o pó. Acabam com a dupla que tiver lá em cima. — Sério? — Sério. A noite são os vampiros que não dão descanso. Quando recebemos o sinal disparamos o alarme.. vêm todo mundo pro muro. cara. Já vi nego aqui dando a vida no combate para que os bentos não levassem a pior. Você vigia os muros para a coletividade e quando vê o bando dos vampiros chegando tem que dar o sinal. quando o combate parte para o corpo a corpo. Pronto. não da nossa. Que fauna! — Ih.. É quase certeza que vão te apagar. Os bentos são nossa última defesa. é em Nova Luz. cara. você pirava antes de sair daqui. os vampiros sabem que na torre tem gente e já era para quem está vigiando. Nunca vi um bento bater em retirada. Você tá indo para o sacrifício.— Com o tempo. Amaro conversava com a delegação nervosa. o resto manda bala nos invasores. E nunca chegávamos no número. São trinta bentos. cara. É foda.

Depois do bater do sino. — Não é missa. Lucas sorriu e recolocou a garrafa de água benta no lugar. Carlos continuou. — O Amaro dividiu a vila em três grupos. Era um mundo cheio de sangue e batalhas. mas pode ter certeza que no próximo turno do seu grupo você vai estar no topo da lista. vão para as torres. sempre tem discussão quando sai a lista da semana. tranca tudo e dorme em paz. Lucas sentia-se montando o quadro real do mundo em que se encontrava. O planeta havia submergido novamente na idade das trevas. Esses três grupos correspondem a um rodízio trimestral. Serve para jogar na cabeça dos vampiros. passa o trimestre inteirinho sem ser agraciado. Dá o maior azar puxar guarita no lugar de morto. Então. Apesar de ser democrático. cedo ou tarde.Pouco a pouco. Quando alguém morre numa invasão. tranca tudo e esconde-se debaixo da cama. Eles derretem que é uma beleza. ao notar que algumas das pessoas haviam parado os afazeres e passavam a andar apressadas. Você que é bento! Não eu.. ela fica fraca e vai ficando fraquinha até que não funciona mais. Tem gente que é menos preocupada. eu não durmo direito. Você que tem que saber. Mulher só se for voluntária. durante três meses você tá na lista e. Explico: a gente não sabe quem vai estar vivo amanhã. — Por que o Amaro não prepara a lista do trimestre inteiro? — Porque já é arriscado pra caramba fazer com uma semana de antecipação. Se fizer mais. os cidadãos. — Água que vocês benzem. Com isso você fica três meses tensos. seis meses tranqüilos e assim vamos tocando o barco. ninguém quer substituir o cara. menos os soldados. acaba indo para a torre. Por isso é melhor fazer um pouquinho por dia. É o sino das cinco da tarde. conversa a conversa. Pena que vocês façam tão pouca água benta. Procurava a torre de onde o sino retinia. Diante do silêncio do bento que andara até perto das garrafas. — Onde vai ser a missa? — perguntou. — Como é que eles fazem essa água? — Vou lá saber. — O que é aquilo? — Água benta.. Anuncia que falta pouco para anoitecer. estão liberados das tarefas. Às vezes. Desviou o assunto quando viu uma série de garrafas de vidro cheias de água empilhadas e amparadas num canto. Esse modelo é copiado na maioria das fortificações. claro. Todo mundo. Lucas entendeu o problema. A maioria vai para casa. Um sino soou repetidas vezes. menos as mulheres e os bentos. particularmente. E o bento que força a água fica uns dias sem conseguir fazer. Durmo bem 127 . — Quanta água um bento faz? — Por dia? Dá um barril de quarenta litros. bento. não. Lucas colocou as mãos em concha acima das sobrancelhas para diminuir a luz e melhorar a visão.

porque aqui dentro fica todo mundo de sobreaviso.depois que amanhece. dá tempo da vila inteira preparar-se. Às vezes. mas como aqui tem o hospital. Já deixa também os fogos no esquema. Quando você dá o tiro de prontidão. chegam aqui irritados. Tem que deixar as armas prontas pra mandar fogo.. É difícil agradar a gregos e troianos. salvo pelo gongo. porque se fossem bem comandados. O problema é que a vigília é feita em dupla. Os soldados nos muros e nos postos estratégicos e os cidadãos todos trancados. Começa as dezessete e trinta de um dia e termina as dezessete e trinta do dia seguinte. — E ao mesmo tempo em que o vigia salva a vida dos que estão na vila. Se não tem remédio. o camarada que caiu com você no sorteio é meio dorminhoco. Às vezes. Armam as fileiras no limiar da floresta. Como você mesmo disse. bento. passam mil. Você não sabe o que vai acontecer. mas vamos levando. quando estamos lá na vigia e justamente no nosso turno vemos a mancha de olhos vermelhos chegando. Você está entre a cruz e a espada. Por conta dessas diferenças. — o líder Amaro fez uma pausa. enquanto o outro vai preparando as bichonas. Querem tomar o controle do hospital por causa dos adormecidos.. prontos para o combate final se tudo der errado. por vinte quatro horas. Mesmo assim. passam cem. Você vê aquele mar de olhos em brasa queimando o escuro da mata. é raro. Passam dez. Os homens reclamam muito dos parceiros. Aí um dos vigias fica olhando.. coloca a própria em risco. Depois do aviso é segurar o cano e rezar. porque nunca passa um sozinho. É feio. é a pior coisa do mundo. A luz do dia ia mudando gradualmente. — E quanto a vocês. dá um frio no espinhaço. ninguém ia tá aqui para contar a história. Quando eles passam o muro. a maioria vai para lá. Amaro subiu as escadas. não ajuda muito ou morre de medo. Esses veados nunca vão me pegar sem luta. Lucas e os soldados fitaram demoradamente a torre à esquerda. por que reclamam tanto? — A queixa não é tanto pela responsabilidade. os malditos ficam naquela pressão psicológica. vou te contar. Rojão de seis tiros avisa que a mancha está indo para a cidade. A nossa sorte é que os ataques desses vampiros são muito desorganizados. Rojão de três tiros coloca os guardas de prontidão no muro. flutuando feito capetas alados.. literalmente. Não sei se é sorte ou azar. Até soldado já deu pra trás. Mas aí é que tem homem que vacila lá em cima. não tem remédio. soldados? — Sabemos contra o que estamos lutando. É um deus-nos-acuda. — Carlos estava me explicando sobre o rodízio nas torres. filho. Com o aviso do sino os reclamantes afastaram-se e deixaram livre o comandante. Seriam imbatíveis e tu teria acordado um dia desses dentro de uma caverna escura. debaixo da cama. mas às vezes dá errado. Lucas olhou para o horizonte. 128 . olhando demoradamente para ambas as faces do muro. O sol caía rápido.

. — continuou o líder de voz mansa. não tem jeito. Quando decidem atacar. debaixo do telhadinho. Por alguma razão. são destruídos. Uma vez ou outra. É como na lenda mesmo. — Aqui. prata. Parecia uma metralhadora. até água benta se for necessário. — continuou o líder veterano. Como agora estamos na lei da sobrevivência e da solidariedade. uma de prata. O bicho tá acabado.? — Vampiros não morrem. Já era. tem que decapitar com espada de prata porque se alguém tira a estaca do peito do bicho ele acorda de novo. — É o nosso trunfo. — Como é que se mata um vampiro. — Essa é nossa "deita-corno". chumbo.. prata.— Como eu disse. Mantenha-se longe das garras do vampiro decapitado. Tiros de bala de prata também apavoram bem as feras. Apontou para o artefato. talvez porque internamente eles sejam mais moles que a gente. Usamos balas que se fragmentam quando entram no corpo dos malditos. não carece de ser maciço em prata. alho e estaca? — Estaca no peito funciona. — E aquela história de cruz. No tempo de vacas gordas. às vezes. — Mas se não morrem. Mas. mas quando os noturnos são muitos. recua e some na escuridão. No período de vacas magras os municiadores são intercalados. Eram dezessete. — A mancha fica na beira da floresta e depois de minutos. Uma metralhadora ponto sessenta. a gente garante daqui o pessoal da vigia. uma tortura psicológica. danam bem menos os safados. Cruz eles não encostam. Mas logo que você arranca a cabeça dele tem que tomar cuidado com o corpo. Lucas viu uma parede com duas dúzias de rifles pendurados. Um arregaço. fica o armamento extra. a gente deixa o municiador inteiro com pontas de prata. matam os vigias.. Quando soa o alarme já vem com o rifle e munição. chumbo. às vezes. Já assisti coisa que até Deus duvida. aquelas lendas que ouvíamos. Uma arma maior chamou a atenção. depois. os malditos fazem só uma pressão. O cano de disparo tinha mais de um metro e meio. mas elas não surtem o mesmo efeito que em nós. pode ser fatal. — Ela é que ajuda a deitar a maioria dos vampiros no areião. Cada soldado é responsável por sua arma. Temos que dividir tudo. ferimentos feitos com a prata no corpo do vampiro não cicatrizam. levamos as outras para fortificações menos guarnecidas. — convidou Amaro. Derruba até avião. mas não tem 129 . Lucas sorriu. Quatro balas comuns. nem ela basta. Uma caixa com grande quantidade de pentes de munição prontos para uso. vão passar pela torre e em retaliação ao aviso dado. como vocês fazem? — Tem algumas formas de destruí-los. porque ele não está morto ainda. Lucas seguiu o líder até a cobertura sobre a muralha. horas. Vem ver. As balas são só banhadas no metal. Decapitá-los com uma lâmina de prata. humanos. Temos três em São Vítor. Mas..

medo, não. Alho não funciona. Não bebem é sangue de bento. Parece que é ácido para eles. O melhor remédio mesmo é o sol. A profecia diz que quando os trinta bentos se juntarem, vamos vencer os malditos. Acho que vamos ter sol dia e noite ou melhor, dia e dia. Deve ser isso. Lucas mirou o horizonte. Uma assombrosa quantidade de pássaros voava em grupos distintos, embelezando o disco rubro que se escondia atrás das árvores. O céu estava vermelho e carregado de nuvens que refletiam ainda mais lindamente a luz minguante. Emocionou-se com a força da natureza. Não se lembrava ter visto pôr-do-sol mais belo em toda sua vida. Contudo, um misto de confusão e ansiedade não o deixava aproveitar o cenário. Era a primeira vez que via o sol mergulhando no horizonte e a noite começando a chegar. Nem mesmo a variedade de aves passando, a visão de grupos imensos de tucanos, garças e mais um sortimento impressionante de aves aplacavam aquela sensação de desalento. Estaria ele aos pés do bento Vicente? Seria mesmo ele um salvador? Difícil de acreditar.

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Capítulo 19
Mal o sol caiu no horizonte deixando um rastro de luz vermelho arroxeada, a temperatura começou a baixar. O vento de morno passou a frio. Lucas ficou contente por estar dentro daquela roupa quente. Podia ver, de tempos em tempos, o bento Vicente na outra seção da muralha, que chamavam de muro dois, com permanente cara de poucos amigos e jeito nervoso. Lucas fixou o olhar no areião. Tinha visto, cinco minutos atrás, dois homens chegarem na torre da parte esquerda, quase simultaneamente com a dupla que se conduziu para a torre da direita. A guarda rendida encontrava-se agora a caminho da cidade fortificada. Vinham caminhando rapidamente, decididos, em menos de dez minutos estariam dentro de São Vítor. Amaro e Carlos estavam ao lado do bento e pareciam calmos, sentados em banquetas pequenas, peças rústicas feitas de duas partes de madeira, semelhantes a uma letra "T". Um terceiro soldado veio do muro dois com uma tocha acesa e começou a acender outras tochas espetadas em lanças altas acima do muro. Lucas voltou-se para a cidade e viu o ritual sendo repetido nas residências distantes do muro e notou luz em algumas ruas. — No hospital havia luz elétrica. Não usam aqui? — A gente usa luz onde é mais necessário. Temos um holofote no topo da cobertura, que serve aos dois muros, mas não usamos muito. A luz é reservada para o hospital, para a escola, para o refeitório e para o quartel. Atendemos alguns pedidos especiais. Perto da fortificação, subindo o rio, mantemos uma pequena barragem onde geramos energia, mas não seria o suficiente para a vila toda. — explicou o líder Amaro. Neste instante, alguns soldados começaram a aparecer pela boca da escada. Estavam sorridentes e aproximaram-se em silêncio. — Sou Matias, líder do terceiro grupo de São Vítor. Vim assim que pude para conhecer o novo bento. — apresentou-se o homem simpático, de olhos puxados e traços indígenas. Matias não era muito alto, mas bastante forte, como a maioria dos soldados que Lucas tinha observado. Ao menos, confortava saber que lutaria ao lado de homens bem-feitos e que, certamente, seriam habilidosos em combate. Mais dois líderes apresentaram-se. Um mulato chamado Willian e um oriental apresentado como Chen. Todos foram simpáticos e mostraram-se contentes em finalmente verem desperto o trigésimo bento e de descobrirem, de uma vez por todas, até onde ia a veracidade da profecia. De acordo com as histórias proclamadas pelo velho Bispo, de agora em diante, os vampiros estariam com os dias contados. A conversa continuou animada. Os soldados explicavam para o incrédulo bento como eram os vampiros e tentavam imbuir-lhe de coragem, dizendo artimanhas e pontos

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fracos para derrubar o maior número de feras possível. O clima descontraído por parte dos soldados só foi quebrado quando ouviram o estalar de um rojão de tiro único. Como cães de caça, em um segundo estavam todos juntos ao muro, olhando em direção à floresta. Lucas olhava para a torre de onde viera o disparo, vendo a fumaça de pólvora desfazer-se no ar. — Um só, bento sortudo. Ainda não era hora de mostrar a que veio. — bradou a voz forte de Vicente, vinda do muro dois. Lucas espantou-se mais com a possibilidade de ouvir tão bem Vicente, mesmo estando ele tão longe, do que propriamente com a mensagem carregada de maldade. — Finalmente. — disse Amaro, debruçando-se sobre o muro e sinalizando para os soldados que haviam descido correndo. — O quê? — quis saber o bento novo. — Um tiro só diz que o vigia está vendo gente nossa chegando. É a patrulha de Társio. Já não era sem tempo. Willian já estava organizando o grupo para sair atrás do Társio. — explicou Carlos. Não demorou muito para que o rugido das motos enchesse o ar. Amaro fez novo sinal para os soldados postados ao lado do grande portão. Os homens começaram a girar uma roda de ferro que estendia um cabo de aço que, por sua vez, tracionava o portão. A imensa peça de madeira e ferro começou a deslizar, deixando o asfalto livre para quem quisesse entrar. Notou que os soldados em cima do muro estavam tensos e seguravam as armas de prontidão. Até mesmo um deles preparava a potente metralhadora, baixando uma portinhola de madeira debaixo da cobertura. Dessa forma, o cano da metralhadora tinha na sua frente todo o deserto branco sob a mira. Olhando para a estrada, o bento viu o surgimento de luzes de faróis. Um comboio com mais de quinze motocicletas aproximava-se em alta velocidade. Duas vinham um tanto mais para trás, mesmo assim desenvolvendo mais que oitenta quilômetros por hora. Lucas não tinha calculado, mas desde que apontaram saindo da floresta, até cruzarem os portões, não havia se passado um minuto. Carlos conversou rapidamente com Amaro e retornou para o lado de Lucas. — Vamos até o quartel. Você vai ser apresentado ao bento Francis. Lucas engoliu a seco. A última apresentação a um bento não havia sido uma boa experiência. Não sabia o que o futuro lhe guardava, mas sabia que se aceitasse aquela missão, se aceitasse aquela realidade, deveria travar bom relacionamento com os bentos. Chegando ao prédio vigiado, retangular e cinzento, passaram pelo portão principal, que dava imediatamente na garagem. As motos estavam desligadas e as unidades mais próximas ao portão irradiavam calor, indicando que pertenciam ao comboio recém-chegado. Numa delas, uma

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Harley, vinha atrelada a um carrinho de eixo duplo e cercado de madeira. Dentro dele, em cima de um cobertor velho, viram um homem maltrapilho, desacordado. Carlos empurrou uma porta dupla de vaivém e conduziu Lucas pelo corredor. Os soldados que cruzavam com o novo guerreiro cumprimentavam com a cabeça. Alguns, mais animados, demonstrando simpatia, outros meramente formais, dando pouca atenção. Mais uma porta de vaivém e chegaram a um novo salão tão amplo quanto a garagem da entrada. Vários soldados conversavam e riam alto, mas a figura que capturou a atenção de Lucas foi a do homem que trazia uma armadura prateada, semelhante à sua, no peito. Diferindo de seu traje, no outro não existia a capa vermelha, nem mesmo desbotada como estava a de Vicente, e também não havia a touca. Quando o homem de peito prateado viu Lucas também parou com a conversa. Abriu um sorriso largo, de dentes bem cuidados e brilhantes, e caminhou decidido com a mão enluvada estendida para Lucas. — Então você é o tal? O trigésimo bento? Que satisfação! — Esse é o bento Francis. — juntou Carlos. Lucas não poderia ter melhor recepção por parte de um semelhante. Teve uma boa impressão a respeito daquele sujeito. Não era um brutamontes como Vicente, nem malhumorado. Apesar desse bom sentimento, mais uma vez ficou intimidado pelo vigor físico demonstrado pelos veteranos. Lucas sentia-se raquítico, doente. Talvez, por isso, alguns dos soldados olhassem enviesado para sua figura franzina, pensava. Todos, sem exceções, pareciam bem mais fortes que ele. Depois do cumprimento de mão, bento Francis emendou um abraço fraterno no recémdesperto, fazendo seus peitos de metal baterem um contra o outro. — Qual é o seu nome? — perguntou, afastando o trigésimo do peito. — Lucas. — Lucas. — repetiu o bento, olhando firme nos olhos do novo bento e colocando as mãos nos ombros do rapaz. — Seja bem-vindo. O novo bento ficou mudo. — Com sua chegada, tudo muda. Esta noite, que seria comum como outra, ganha importância histórica. Vamos falar com Vicente mais tarde, temos muitos preparativos para realizar. Amanhã, ao amanhecer, partiremos em nossa missão profetizada. Temos agora que reunir os trinta abençoados para que tenha início a salvação de nossa terra. — Não sei se estou preparado... — A preparação é na raça, nenhum bento tem escolha. Antigamente, antes das universidades, os engenheiros, médicos, mecânicos se faziam na prática. Ninguém chega preparado para esse mundo, Lucas. Você será um bento prático. Vai aprender a dominar sua força. Medo não existe, acredite em mim... essa é nossa sina. Bater com os vampiros até a morte,

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a mente fica leve e vazia de temores, você fica selado na espada e a única coisa que interessa é arrancar cabeças de malditos noturnos, esquivar dos ataques e arrancar mais cabeças de vampiros, exatamente nessa ordem. — Não sei se sou o tal salvador... Os soldados presentes a essa altura já haviam rodeado os dois guerreiros. Francis colocou as mãos nos ombros de Lucas mais uma vez. — Você é nosso salvador. Você é o trigésimo bento. Isso nunca aconteceu antes, então é você, não tem erro. Está escrito na sua testa: "Eu sou o cara". Você é o salvador, não duvide disso. — Diga isso para o seu amigo grandalhão, o Vicente. — Nosso amigo grandalhão, Lucas. Nosso. — destacou Francis, rindo ao final da afirmação, mantendo as mãos nos ombros de Lucas. — Vicente tem aquele jeito mas não pode fugir de nossa sina. Pode até não querer participar, mas quando chegam os vampiros, não tem jeito. Vicente tem muito para te ensinar, já matou mais vampiros que qualquer outro bento. Temos uma contagem para incentivar. Um score. Aquele grandalhão carrancudo já abateu mais de seiscentos vampiros nesses anos. É um Pelé da espada. Lucas sorriu. — Fique tranqüilo. Todos nós vamos te ajudar. Só precisamos reunir os outros. Os soldados juntaram-se a Francis em exclamações coletivas de incentivo. A vida de todos estava em jogo. — Estou indo ao hospital agora. Encontramos um ex-morador de São Vítor no caminho para cá, na beira da estrada. Eu não lembrava do sujeito, mas um dos soldados o reconheceu. Parece que foi mandado embora porque roubava coisas das casas dos outros moradores, isso não é tolerado por aqui... mas como está desacordado, e parece que vinha buscar ajuda em São Vítor, para mim não é correto largar um moribundo na estrada. Fiz votos para tratar os necessitados, não posso negar o que vai no meu caráter. Deve ter passado fome e estar desacordado de fraqueza. Por que não vem comigo? Assim conversamos mais. Lucas atendeu prontamente e, juntos, mais Carlos, seguiram para o pátio de entrada do quartel. É claro que estava curioso em conhecer mais daquele mundo ao lado daquele que diziam ser seu semelhante. Mas o que logo veio a cabeça de Lucas foram um par de olhos verdeacinzentados e lábios largos e sensuais. Talvez tivesse sorte de encontrar com a sua linda doutora Ana. Francis pediu que Carlos conduzisse a motocicleta com a carroceria até o HGSV, enquanto caminhava ao lado do novato. No trajeto que levou quinze minutos de caminhada pelas ruas mal iluminadas por luz que escapavam das frestas de algumas janelas ou por tochas chamejantes espalhadas

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aleatoriamente, Francis explicou que sete anos depois da Noite Maldita ter desencadeado os fatos ele despertou num pequeno hospital na região de Cabo Frio, Rio de Janeiro. Naquela época, os sobreviventes já viviam em pequenos povoados fortificados que começavam a montar-se em São Vítor, a dias de viagem dali. Pouco sabia-se sobre os bentos, mas já existiam seis. Os homens viravam lendas vivas por conta de atos destemidos e combates memoráveis contra as investidas vampíricas em suas vilas. Logo Francis ganhou fama igual e da germinal São Vítor chegou uma mensagem. Estavam reunindo os bentos em São Vítor e era imprescindível que estivesse lá em poucos dias. Explicou que foi nessa ocasião que o velho Bispo também começara a ganhar fama por conta de suas previsões certeiras e por conta do esboço da profecia. Começava a acender esperança entre os sobreviventes. Francis falava pausadamente e, muitas vezes, parava para olhar nos olhos do novato e passar algo com mais emoção ou então ajeitar os bigodes finos e bem aparados, que pareciam dois triângulos com as bases unidas abaixo das narinas do homem de pele morena. Francis revelou também que foi em São Vítor que começou a lembrar-se de sua vida passada. Parecia que o destino estava colocando-o no lugar certo. Participar da organização do Hospital Geral foi fundamental para reavivar sua memória. Francis tinha sido médico do Hospital das Clínicas, na São Paulo viva. Com o passar de mais alguns meses, lembrava-se quase de tudo. Explicou para Lucas que não deveria ter pressa em recuperar a memória. Era como mágica. Você está amarrando uma pamonha, quando de repente, záz! Vai voltando tudo. O bento veterano explicou também que, em pouco tempo, Lucas poderia ter acesso ao seu prontuário no HGSV Alguns adormecidos contavam com essa vantagem, graças a um trabalho heróico desenvolvido por uma gangue de motoqueiros, que vivia próxima à distante Osasco. O relato curioso e vivo de alguém que presenciou e protagonizou passagens sombrias e cruciais na recente história humana foi cortado quando chegaram ao hospital. Contrastando com as ruas escuras o salão era bem iluminado por lâmpadas fluorescentes c o ambiente dotado de limpeza e harmonia exemplar. Lucas viu o homem desacordado deitado numa maca. Carlos apontou para Francis quando entraram. Uma moça de roupas coloridas deu a volta no balcão e começou a fazer perguntas. Precisava saber onde tinham encontrado o homem, em que condições, nome, coisa que ninguém sabia. Francis explicou o que pôde e disse que, pela manhã, deveriam chamar o pessoal mais velho da vila para reconhecer o ex-morador e, inclusive, fazer chegar ao conhecimento do líder Amaro o exato porquê daquele homem ter sido expulso da fortificação. Disse inclusive que o homem deveria ficar sob vigilância de um guarda o tempo todo, até que o conselho decidisse o que seria feito dele após a recuperação. Francis destacou Carlos para a vigília inicial. O soldado pareceu contrafeito a princípio, pois estava escalado para o muro e não tinha falado com ninguém sobre ficar no hospital escoltando um maluco achado na estrada. Francis disse que precisava resolver coisas com Lucas e que, assim

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que retornasse ao quartel, pediria para alguém vir imediatamente substituí-lo. Carlos resmungou qualquer coisa e acabaram chegando num acordo. Quando um enfermeiro levou a maca para dentro, Carlos desapareceu pelo corredor, seguindo a maca. Não deveria desgrudar os olhos do paciente. Francis virou-se para Lucas. — Vem. Vou te mostrar o depósito. — Depósito? — É. O lugar onde guardamos os adormecidos. Lucas aquiesceu. Acompanhou por intermináveis corredores o novo companheiro. Alguns trechos menos iluminados que outros. Logo estavam em corredores cobertos do chão ao teto pelos conhecidos azulejos brancos. Um elevador. Lucas ouviu a máquina funcionar e sentiu uma leve brisa escapar pela fresta central da porta. Quase um minuto até que a luz do carro surgisse do outro lado da porta. Entraram. O novo bento notou que no painel havia oito botões. Sensação de dejavu. Oito número diferentes... estranho. Não havia oito andares no prédio. Francis apertou o último abaixo. A máquina começou A descer, pareceu acelerar. O elevador era largo e fundo. O suficiente para carregar duas macas. Parou abruptamente, forçando a flexão dos joelhos do homem surpreso. As portas abriram. Ao invés de um caminho livre, uma nova porta de metal. Um painel com um visor de cristal líquido. Francis digitou rapidamente no painel numérico. Um alarme rápido e seco soou. A porta deslizou de cima para baixo. Lucas seguiu o parceiro. As botas estalavam contra um piso metálico. — Cuidado! — avisou Francis. — Qualquer coisa, segure no corrimão. Lucas não entendeu a advertência, de toda forma andou com mais cautela. Esperava uma escada perigosa ou uma descida íngreme. Nada disso encontrou. Via só uma luz fraca quinze metros adiante e um vento forte cortante vindo dos pés, que parecia atravessar o piso metálico. — Aqui é o depósito. Todos os adormecidos recolhidos nessa região são trazidos para cá, para centralizarmos a operação. Como você mesmo viu, não é só gente normal e bentos que despertam do sono. Tem também os malditos. Mesmo desorientados e fracos pelo acordar recente, são bem perigosos... se conseguirem tomar a primeira dose de sangue, então. Chegaram no fraco ponto de luz. Francis girou um botão. Lucas ouviu um zumbido demorado, como de um flash carregando e, de repente, as luzes começaram a acender. Lucas agarrou-se ao corrimão como aconselhara o amigo. Sentiu uma vertigem inesperada. Estavam numa passarela metálica suspensa no topo de um imenso vão. Não podia mensurar a distância até o chão porque a vista não alcançava. Na sua frente, distante uns dez metros da passarela suspensa, um piso repleto de macas e sobre cada uma delas um corpo coberto por um lençol branco, deixando apenas a cabeça descoberta. Eram tantos! Não podia contar e estava olhando

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para um andar apenas! O piso repleto de macas repetia-se à sua direita e sua esquerda. Só não existia acesso na parede terminada no elevador, que era lisa até onde a vista alcançava. — Quantos andares? — Sessenta andares subterrâneos. — Sessenta?! — Sessenta. Aqui vocês são hidratados e monitorados. Capacidade de mil e seiscentos adormecidos por andar. Até o vigésimo subsolo todos estão em macas. Dali para baixo todos estão em cima de colchonetes produzidos aqui mesmo. Somos responsáveis por oitenta e três mil vidas humanas aqui. Tem muito, muito mais gente aí fora ou em poder dos malditos. — São mortos pelos vampiros? — Mortos? Você não tem noção... Os adormecidos tratados pelos vampiros são até melhor preservados do que aqui. — Cê tá brincando? — Nada. Os adormecidos são fonte de sangue inesgotável aos malditos. Sangue vivo. Credo. — Francis fez um sinal da cruz sobre o peito metálico. — Nossa! Tem mais gente aqui embaixo do que lá em cima. — Tem. Lucas olhou para o teto. Grandes hélices giravam lentamente provocando a corrente de ar. — Mantemos um eficiente sistema de ventilação que garante oxigênio abundante dia e noite.. — Nossa... é impressionante. — murmurou o novato, debruçado sobre a grade e olhando para as intermináveis fileiras de corpos deitados. — Com não morrem? — Ninguém sabe. Ninguém nem quer mais pesquisar. Com certeza está ligado ao fato de não adoecermos mais. Ninguém morre de gripe, de câncer ou derrame. Os corpos definham um pouco, mas você vai ver, logo vai ganhar força como nós, seus músculos voltarão à forma antiga ou até melhor. Os adormecidos não têm escaras, feridas que se formam em razão da imobilidade. Não sofrem infecções hospitalares, não têm infarto, falência múltipla, nada. Só morrem se for por falta de oxigênio. De fome só morrem os despertos. Por isso, contamos com um avançado sistema de vigilância. Luxo destinado ao subsolo apenas, pois não temos abundância em energia elétrica. Usamos câmeras com visão noturna que trafegam em trilhos fixos no teto de cada andar. Voluntários também cuidam da patrulha diária para monitorar esse exército de gente em estado de hibernação. Ao menor sinal de movimento, vêm os enfermeiros remover os recém-acordados para cima. — É impressionante. — Você ainda não viu nada, Lucas. É impossível absorver todas as novidades no primeiro dia. Você vai ficar com essa cara de espanto por mais uns seis meses ainda. Estou até estudando

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138 . Já tinha escurecido completamente e o firmamento encheu gloriosamente a visão do novato. Quero que os vampiros acabem. Nossa vida vai bem assim. — Nem tudo é desgraça nessa nova vida. contendo fotografias. Em cerca de seis minutos estavam fora do hospital.. — Nossa! — Falei. Temos que chamar um guarda para render o Carlos. em que condições. CDs com arquivos de programas. com os olhos demonstrando surpresa. agendas. Lucas ergueu os olhos para o céu.. Todos se sentem perdidos. Em muitos casos. documentos. Diziam onde foram encontrados. Dali para frente deveriam se arranjar com o pessoal da cidade destino. Todos os adormecidos possuíam um prontuário anexo à maca e uma etiqueta no dedão.. como corpos no IML. Tem muita coisa boa acontecendo também. sem os dentes deles. achava difícil que alguém realmente sentisse falta daquela vida. A escala não pode ser quebrada. Uma vez a cada dois meses.com o conselho formar uma espécie de cartilha para o recém-desperto estudar. só isso. as pessoas conseguiam reencontrar a família. sem os confortos de outrora.. Os prontuários tinham quase nada de informações médicas. — Vampiros! — bradou Francis. Alguns desses prontuários eram mais recheados. — balbuciou Lucas. o possível endereço residencial e informações de onde estavam os familiares. Estacaram. — Rojão de três tiros. E o pior é acordar e saber que você é o cara que tem que pôr um ponto final nessa desgraça. Lucas sorriu e apressou o passo para acompanhar o veterano. eram montadas tropas para escoltar os adormecidos que tinham família até as fortificações onde seus parentes deveriam residir. Estou até tonto. — Vamos. começando uma corrida em direção ao muro. Tinha esfriado bastante. mas sim um histórico a respeito do paciente. mas. É muita coisa. coisas que poderiam ser úteis para a memória do recém-desperto. pessoalmente. Francis explicou mais alguma coisa a respeito do estoque. Esses prontuários "bônus" eram conseguidos por gangues fora das muralhas. Esse espanto não pára. meu amigo. Tinham direito a uma tentativa. como a mencionada anteriormente pelo bento veterano. Em instantes voltaram para as ruas mal iluminadas. Ele tem que voltar para o muro. Lucas. Estavam a meio caminho do quartel quando ouviram em alto e bom som três explosões repetidas. muita informação. — Põe perdido nisso. DVDs. Vai ser um "Nossa!" atrás do outro. Lucas balançou a cabeça anuindo. Talvez eu sinta até saudades quando esse inferno todo passar.

caladão. no entanto eram desprezados pelas criaturas. Uma boca fechada faz muitos amigos. uma moranga de barro para a água fresca e uma rústica peça de ferro fundido. Um menino de nove anos tornara-se vampiro na grande mudança. era montada no alto de um corpulento tronco de jequitibá. Cida. remexeu a mochila. A dupla rendida descia rapidamente a escada vertical de madeira. sua esposa. Um com mangas rosas e outro trazendo um bom tanto de jabuticabas negras e roliças como o horteiro e algumas mexericas cheirosas. costumava falar somente quando lhe perguntavam. o 139 . Dela retirou a munição. mas de uma cidade muito a noroeste de Cuiabá. Traziam uma mochila com mantimentos para as vinte e quatro horas de vigília. Balas não faltariam. Pior ainda era essa sensação para as duplas que cuidavam das torres um e dois. atento. Ivan. Ela acordara doze anos atrás. Dentro dos refratários o jantar da dupla. Feijão. bem estreita.O horteiro Feijão e o mecânico Ivan tinham chegado ao pé da torre esquerda religiosamente às dezessete e trinta. viera também do Mato Grosso. onde tentavam manter brasas acessas para a feitura do café ou qualquer coisa quente para ingerir. era tido como pessoa agradável e gentil. Tinha à disposição uma potente luneta. Os últimos dias haviam transcorrido com relativa calma nos postos de observação. Eram burros os vampiros. Enquanto um descansava sobre um colchão fino. Ivan compadecera-se da mulher que tinha perdido uma criança para o lado das trevas. A prática fazia com que os vinte metros de altura não intimidassem mais os homens. Dois rifles e duas dúzias de municiadores cheios. Cida e o filho caçula adormeceram naquela maldita noite. cabendo os dois homens de plantão. feita uma casa na árvore. em pouco menos de uma hora já seria noite fechada e os vampiros poderiam atacar a qualquer momento. O almoço do dia seguinte seria trazido por alguma boa alma pela manhã. O posto era relativamente espaçoso. Ou iam em direção ao muro um ou corriam para o muro dois. gozava de boa fama com os amigos de trabalho. Dificilmente também atacavam as duas ao mesmo tempo. um mato-grossense. Olhou para o canto onde o equipamento de trabalho na torre jazia. Ser vigia da torre três ou da quatro despertava alívio. habilidoso mecânico que fora acolhido em São Vítor junto com o pai e a mãe há dez anos. pensava ele. Introspectivo. pouco papo e muita reza. Voltou-se para o braseiro e reavivou as chamas. mesmo assim. Os malditos sempre vinham pela um ou pela dois. Por razões desconhecidas. Por último puxou um potinho com pó de café. os vampiros idiotas preferiam esse caminho. terminada na extremidade superior por uma caixinha ventilada. E a alegria só veio a esquentar um pouquinho o coração da mulher quando o filho. fazendo quase divisa com Rondônia. pois os muros do lado sul eram mais baixos. Feijão sequer lembrava de ter ouvido falar de morte nas torres sul. de um metro de altura. o outro ficava sentado no chão de tábuas. Ivan tinha casado ali mesmo em São Vítor. mesmo assim. Primeiro passaria um café do jeito que gostava. também foi até a mochila. corpulento. A torre. A nova dupla sempre chegava quando sol já estava tocando a mata. Feijão também tirou da mochila duas marmitas. Retirou embornais com frutas. as primeiras horas na torre eram tensas.

esse cuidado durante a noite não convinha. Como tinha que ficar vinte e quatro horas enfurnado na torre. Esses bichos eram assassinos empoleirados. Sentia-se bem ao lado dela e do filho caçula. Muitas vezes. Olhou para a floresta. A luz minguava rapidamente. com respingos do líquido preto indo ao chão. Às vezes. acordou do sono inexplicável. Não demorou muito até entender que não conseguiria mais viver sem aquelas duas pessoas em sua vida e o casamento veio como conseqüência natural. Ivan tirou da mochila um estojo de madeira. que terminava de checar as armas. colocou a caneca de ferro esmaltado e de pintura gasta pelo uso em cima de um banquinho à sua direita. mas que de macaco não tinha nada. Eram quatro latões cheios de óleo que queimavam e emitiam uma luz flamejante que dançava e variava de alcance de acordo com o vento. Mas a luz das tochas acabava muito antes da floresta. Era seu equipamento de limpeza. Feijão também era uma figura quieta e dava-se bem com o parceiro de cabelos ruivos e pele sardenta. bastava um lustro para começar a matar o tempo. Ivan. sentado no chão de tábua. feito macaco esperto. Deixaria para desmontá-los depois do amanhecer. mais uma vez. O beiço proeminente do camarada subia e descia sem controle. viu-se contagiado pela felicidade da mulher. Era impossível não vê-los. posto que só a caneca 140 . Existia uma espécie de varanda que contornava a torre quase que inteira. Tinha estado no movimento monótono de vaivém com o pano por um bom tempo. quando seus olhos bateram de relance na caneca do amigo negro. Feijão estava tremendo dos pés à cabeça. os olhos treinados na tarefa detectavam até mesmo um único par de olhos chamejantes correndo pelos galhos. que havia consolado por conversas seguidas o coração de Cida. A caneca não parava quieta. Por hora. Desmontava e limpava minuciosamente. Não no plantão deles! Não podia ser! Engoliu a seco e trocou um olhar com Feijão. investir contra os muros. Espalhou um produto de cheiro forte num paninho velho e começou a limpeza superficial da arma. trezentos metros à frente. O cruzeiro da dois também ardia e permitia boa visão do areião. mas depois do pôr-do-sol a porta de acesso à área interna ficava sempre fechada. procurando um momento de distração ou de fraqueza da cidade para. Fazia parte do seu "fazer hora". Ivan sentiu o sangue esfriar nas veias. desanuviando. Como não era muito de conversa. O negro parecia ter retomado parcialmente o controle. O coração disparou e um suor frio brotou na testa. Feijão olhava pela estreita janela de vigilância. Ivan. Feijão estendeu um copo com café fumegante para o vizinho. Olhou para a torre dois.caçula. Colocou-se de joelhos e espiou pela janela. matava o tempo limpando os rifles. O cruzeiro de tochas no areião tinha sido aceso pela dupla rendida. repetia a tarefa três vezes durante a espera. tentar lograr os soldados e invadir o hospital de São Vítor. Esfregava a coronha da arma para tirar a gordura aderida pelo contato com os parceiros menos prendados. o que não chegava exatamente a ser um problema para o trabalho. uma vez que os malditos vampiros possuíam olhos que ardiam feito brasas quando se preparavam para o ataque.

Em poucos segundos. irmão. — Eles vão acabar com a gente. que já procurava a trava no teto do cômodo para disparar o alarme. Feijão. — Santo Deus! Faz o que tem que fazer. Retirou a corrente com um crucifixo do pescoço e enroscou na ponta do cano da arma.chacoalhava. derrubando o café pelo assoalho. Ivan já tinha deixado o equipamento no jeito. — Deus do céu! Cuida do meu filho e da minha mulher. O alerta estava dado. a floresta em frente a torre um parecia estar em chamas.. Feijão apanhou seu rifle também. Nunca tinham visto tantos vampiros. Enquanto ouvia o pavio consumir-se. meu Deus. ainda trêmulo. Não precisava 141 . Mais um minuto que pareceu levar um ano. — Nunca vi tanto vampiro. Feijão. Retirou do saco na parede o rojão de seis tiros. outras pareciam voar. Voltou a colocar o cano do rifle através da janela estreita em altura. voltando os olhos para a floresta. Feijão espetou uma brasa do braseiro e levou até o pavio do rojão. Feijão. homem. Os olhos negros do horteiro refletiam a floresta envolta em chamas espectrais.. Ivan. Nunca vi tanto vampiro. — O que a gente faz. Pode ser que eles se vão. senhor? — Calma. Estremeceu quando ouviu a explosão do disparo seguida de três explosões. apanhou o rojão de três tiros. Vicente ergueu os olhos para o céu. — balbuciou Feijão. O horteiro tirou os olhos escancarados da janela e fixou-os em Ivan. — É agora. Ivan. Feijão engoliu saliva. — Eles vão invadir. segurando o braço do parceiro. Sentiu o característico embrulho no estômago que antecedia o combate. — Espera. Três disparos. porque vão começar a atirar neles antes de alcançarem a torre. arregalados. o crescente movimento dos malditos na mata adiante. O número de brasas crescendo. Pai do céu! Nós estamos fritos! — praguejou o mecânico. e melhora para o nosso lado também. Ivan recolheu o rifle rapidamente. Estava pronto para o uso. o número dobrou e. Pares de brasas rubras dançavam inquietas entre os galhos das árvores. acompanhando. os olhos não desgrudavam da floresta. mas larga na horizontal. Vampiros. Os olhos não paravam. Dispara logo essa merda! Ai. fazendo o sinal da cruz. — pediu Ivan. — pediu Ivan. O coração batia acelerado e agora os olhos estavam fixos na mancha. O crucifixo dançava de lá para cá denunciando o tremor da arma. no final de um minuto. O alvoroço começou no muro. Espera. mas ciente do dever. irmão. Umas saltavam ao chão. Se a gente dá o aviso antes pelo menos a vila tem alguma chance. colocando o cano do rifle através da janela.

Era o aviso final. De saber se aquele magricela realmente era quem diziam ser. Isso faz parte de nosso ritual de iniciação. Lucas vinha na garupa. Você não confia em mim? Lucas. Os líderes de tropa é que comandavam os homens. — juntou Francis. Vicente já tinha deixado o muro e procurava pelo bento novato. disse que sim. Enquanto saltava da moto. Uma espécie de prova final.gritar ordens. Mais um minuto até que todos estivessem em posição. Francis colocou-se de joelho e começou a orar. que se aproximou com sua capa desbotada esvoaçando. Agora era a hora da verdade. Vicente aproximou-se de Lucas e agarrou-lhe brutamente o rosto pelo queixo. — respondeu o novato a Vicente. mocinha. Lucas! Hoje é seu dia de sorte! Lembra o que isso significa? — Significa que eles estão vindo. — Hora da verdade. todos sabiam mecanicamente o que tinham de fazer. Grossas correntes davam a volta nos troncos de madeira e agora terminavam em seus punhos. Vocês têm que me ensinar! — Pára de chorar. Se você é especial vai tirar esse batizado de letra. Não se passaram três minutos até que um caminhão parasse perto do muro e de lá descessem os guardas extras de muralha. A argumentação foi quebrada quando ouviram seis tiros espocando. Então vai ter que nos mostrar porquê. Lucas! — gritou Francis. bento Francis apanhou uma motocicleta. Lucas. mas depois de tantos anos de confronto. desorientado. — Se fosse para o seu mal eu não estaria fazendo isso. Foi arrastado até o meio de duas toras de árvore enterradas na areia. — A profecia diz que você vai salvar o mundo dos vampiros. Pararam bem antes do muro. Lucas viu os braços agarrados pelos bentos. rindo no final. — A profecia diz que você é especial. 142 . Snipers nas posições mais altas e dois soldados montando a metralhadora "deita-corno". bento. Como queriam que lutasse assim? — Não posso lutar assim! — bradou Lucas. Estava preso. — Um bento de verdade pode! — respondeu Vicente. — Não se preocupe. — Eu não posso lutar assim. Lucas teve um braço agarrado por Vicente. — Rojão de seis tiros. enquanto via os pulsos serem atados em algemas de ferro. Ao passarem em frente ao quartel. É uma brincadeira entre iguais. — Eu não sei lutar contra vampiros. — O que é isso? — Relaxa.

Eles ou nós. Vampiros duma figa! Tudo culpa deles! Por que tinham que estar ali? Tinha arrancado a cabeça de Gabriel. Francis terminou a oração e ficou de pé. O peito de prata luzia. — São os snipers. Aposto que você não agüenta nem erguer essa espada. Os olhos ardendo como se pegassem fogo. escapando da touca de prata. Duas flechas cravadas no peito. desapareceu. — E vocês. Dor de cabeça. Um suor frio descendo da testa. A escuridão mudou. Os tiros espocando. Disparos esparsos eram ouvidos do muro. Um soldado caiu do muro para a parte interna da fortificação. O cheiro. Para sua sorte esses noturnos são rápidos. Os tons mais claros tornaram-se amarelados. enchendo todo o peito e depois soltando o ar lentamente. Lucas passou a respirar pesado. Estava sentindo aquele maldito cheiro. O muro todo começou a atirar. Aí vamos nos engalfinhar e só vamos parar quando todos estiverem mortos. mas o cérebro do novato não queria ouvi-lo. Ouvia os gritos dos soldados e das feras. Francis estava falando alguma coisa para Vicente. Maldição! 143 . erguendo as armas. fazendo sinais. Aquele fedor horrendo tomando as narinas. Era como se tivesse perdendo os sentidos. Lucas dobrou os joelhos e também grunhiu. Lucas fechou os olhos e o céu amarelo. de costas para Lucas. andando em direção ao muro. Vicente afastou-se. eles estão chegando! Vicente fez um sinal da cruz e desembainhou a espada. Se os snipers pararem de atirar é porque os caras das torres já eram. Lucas abaixou a cabeça. Francis parecia começar também a sentir a aproximação dos vampiros. preso nessas algemas? — Se você não é o tal por que deveria se salvar? Se a profecia for uma farsa. — E se eu não for o tal? Como vou me salvar. O fedor horrível que Gabriel exalava no hospital.— Todo mundo fala que você vai dar um jeito nesse inferno. Os olhos acompanhando os homens do muro que gesticulavam. Sentiu os olhos arderem. Os guinchos e grunhidos das feras. Francis olhou para trás. quando vão ajudar? — Só quando os vampiros cruzarem o portão e o cheiro dos malditos seqüestrar nossa sanidade. — Se prepara. refletindo a chama das tochas ao redor. Sorriu para o bento agitado. Quero só ver. Os ouvidos captando as explosões sucessivas. Um brilho no céu. Queria sair dali. O bento veterano deu alguns passos para frente. Lucas. Lucas. por causa da luz bruxuleante emanada pelas tochas nos muros e nas casas. Quando começar a ouvir a artilharia pesada do muro é porque eles estão por perto. Tinha colocado as tripas do homem para fora. Chacoalhou as correntes. Ia fazer o mesmo com aqueles desgraçados! Deu um puxão na corrente. é melhor que você seja morto pelos vampiros para pagar a derrota do povo.

Os malditos estavam lá em cima. encarando Ivan. Por precaução Ivan tinha descido a proteção de madeira da janela estreita. O negro sem vida rolou. Vinham rápido. que servia de torre. Ossos ensangüentados cravaram-se na parede oposta. isso fazia com que não se levantassem mais e. Disparou algumas vezes contra o telhado de madeira. Estava com escotilha da escada aberta e metia bala para baixo. Ivan notou que as criaturas estavam muito perto. sumindo pela abertura. A cabeça da maldita se desfez em pedaços. morreriam definitivamente com a chegada da manhã. Quando a munição terminou pela enésima vez. tentando.Ivan não parava de atirar. Uma criança. Se ao menos Feijão pudesse ajudar. A zoada no telhado só crescia e as batidas 144 . Recolocou um pente no fuzil. Respiração entrecortada. rodeando a pequena casa da árvore. Atirava e rezava. Enxugou o suor da testa. como marimbondos rodeando a colméia. praticamente sem ar. com as bocas escancaradas e sorrisos malditos contrastando contra as presas pontiagudas. Todas as portas travadas. Feijão estava imóvel. que a passagem para o outro mundo seria em questão de minutos. talvez até de segundos. tentando descascar a proteção do humano. Ia morrer! O terceiro vampiro. Ivan superou o bloqueio momentâneo e fez o topo do crânio da menina desaparecer. O coração quase parava quando a munição acabava e perdia segundos preciosos na substituição do cartucho vazio pelo carregado. Os malditos não usavam necessariamente a escada e muitos escalavam enfiando as unhas no tronco do jequitibá. O peito queimava. Ivan gritou desesperado dessa vez. O corpo de Feijão parecia vivo de tanto que chacoalhavam as tábuas da escotilha do chão. alcançando o topo sem entrar na sua mira. O sangue cruzava as tábuas e escorria pelos sulcos entre as madeiras. Parecia a um instante de cair. Recostou-se no fundo da guarita. Ouviu pancadas no teto da guarita. Com os rostos voltados para cima. saber mesmo. A cabeça pálida de uma vampira demoníaca surgiu pela fresta. Era duro confrontar a morte e saber. Puxou a caixa de municiadores para perto. Novo disparo. Um homem. com uma flecha atravessada na garganta. caído no chão. Estavam batendo no teto e na porta de acesso à varanda de observação. Aquilo só servia para atiçar ainda mais a sede daqueles malditos. Tinha ouvido ainda meia dúzia de flechas baterem na tábua. se não fossem salvos pelos amigos de presas longas e arrastados para as tocas. Era mais fácil acertar aqueles que tentavam subir do que se preocupar com os que já tinham conseguido e agora saltavam no telhado e no corredor da vigia distribuindo unhadas contra as tábuas. Os olhos vermelhos brilharam enchendo a guarita daquela luz maldita. A arma vacilou. impedir a aproximação das criaturas. Ivan ergueu a arma e a cápsula explodiu. Não estava fácil. O mecânico procurava enfiar a bala de prata bem no meio dos olhos das criaturas. A preocupação estampada no rosto. Uma pilha de corpos de vampiros jazia imóvel no areião. Uma menina. Tampou a escotilha do chão. A dedo do homem tremeu. em vão. vítima de enfarto. Três segundos e outra criatura tomou o lugar da primeira. quase forçando o homem a disparar novamente. Por baixo não iriam entrar. Arrastou o pesado corpo de Feijão para cima dela. Dessa vez o corpo da criatura demorou a cair.

Ia morrer. Fumaça saía do ferimento aberto no pescoço do vampiro. com a cabeça para fora. Nenhum deles mexia-se. Ivan fechou os olhos seguidas vezes. Ivan apertou o crucifixo. Nenhuma explosão. A haste da flecha rompida ainda estava cravada no tórax. Os vampiros tentavam escutar algo. atingindo o inimigo repetidas vezes. O vampiro forte que lhe mantinha preso pelo pescoço exibia-lhe os dentes.contra a porta lateral da guarita aumentavam. Pareciam esperar alguma coisa. O ar faltando no peito. grunhindo e erguendo as narinas. O sangue abandonava o corpo com 145 . mas o vampiro não caiu. O humano percebeu que o barulho do lado de fora tinha cessado. mandando oxigênio para a circulação. Ouvia os tiros ao longe. Mais um tiro. Ivan não errou o disparo. a sentinela inspirou fundo. sendo arrancada lentamente pela criatura. A cabeça latejando e o sofrimento causado pela flecha aumentando terrivelmente. Entendia agora. Os vampiros franziram o cenho e fixaram o olhar no bravo sentinela. A mão inimiga apertando ainda mais a traquéia. derrubando o braseiro. No instante seguinte. Mais um entrava pelo buraco do chão. ferindo a cabeça ao batê-la contra o teto. anunciando seu final. E com razão. Disparou. pois foi agarrado e erguido pelo pescoço. mas para retirar a correntinha com o crucifixo do cano quente do fuzil. asfixia. Deitou-se. Uma nova cabeça pálida e peçonhenta surgiu pelo buraco da escada. Um estalo seco. Ergueu o fuzil na direção do vampiro resistente que entrava pela porta lateral. Quando achou que desmaiaria de dor. A dor aumentando. quase na base do pescoço. buscando explicação. Perderia a consciência. O sangue brotando do pescoço ferido pelas garras afiadas da criatura que penetravam sua carne. como corpos caindo. prendendo-o à parede. vindos da muralha. A flechada tinha provocado uma ferida fatal. De tanto estranhamento. Ivan mantinha os olhos fixos no buraco. pois não havia mais tempo. o agressor chegou a afrouxar a garra e soltar Ivan no chão. Um novo vampiro surgiu pelo buraco da escotilha e um segundo pela porta lateral. Ivan puxou a arma. Fechou os olhos. embebedando-se do aroma hipnótico do sangue fresco derramado. Era estranho demais. A explosão de dor atrapalhou a visão. A porta lateral voou para dentro da guarita. Mal teve tempo de desenroscar a peça a segurá-la contra a palma da mão. Outra cabeça. Os olhos dos vampiros iam daqui para ali. não para recarregar. que tinha entrado por baixo do abrigo. fazendo-o tombar bem na porta. Dor infernal! Ivan puxou o gatilho na direção do que vinha pela porta. atravessado seus ossos. Ouviram seguidos baques. uma dor lancinante no peito. lambia o sangue de Feijão. não porque quisesse. mas as batidas no teto tinham parado e parecia ser isso que os vampiros estranhavam. notou que os malditos estavam estáticos. que grunhia enraivecido e injetava-lhe um olhar amedrontador. quando puxava outra vez o gatilho. O vampiro. Ivan gritou. Ao cair. Uma flecha tinha perfurado sua carne. A casa da árvore estava tomada por vampiros enlouquecidos pelo cheiro do sangue. mas faltava-lhe forças para manter-se acordado. Ainda conseguiu atingir o novo vampiro que entrava pelo buraco debaixo. Um vampiro entrou pela porta lateral. Sem chance de eles entrarem por ali. mas mataria o maior número possível de noturnos.

Era sempre assim. Os foguetes sinalizadores subiam até quase perder de vista. estavam tão agitados e gritaram tantas vezes que a mancha era gigante. Saberiam enfim porque a profecia dizia que Lucas seria especial em combate. com os olhos esbugalhados em direção aos pilares onde Lucas fora acorrentado. mesmo os malditos usando a velocidade sobrenatural da qual eram dotados. O odor intensificando-se. Dependia daquele confronto colocarem em prática a seqüência do plano. Mais três disparos de sinalizador para o céu. Ivan forçou a visão uma última vez antes de mergulhar nas trevas. depois desciam vagarosamente. Desviou o olhar da espada e olhou para o chão. como aqueles usados pela marinha. estando o grandalhão mais próximo do muro. Para ele era como estar a bordo de um carrinho da montanha-russa e aquela era a hora em que o carrinho desprendia-se do cabo do elevador e entrava no trilho para o primeiro mergulho. de costas para o muro. Logo os malditos estariam pulando o muro e seria a vez dos bentos baterem com as espadas. — murmurou ao desmaiar. Fatiariam os invasores e lutariam com gana. Francis via Vicente poucos metros na sua frente. Muitas vezes os soldados conseguiam impedir a passagem dos malditos sem a interferência dos bentos. agora que a haste de fibra de carbono repousava na mão de seu algoz. Sinalizadores. Francis controlou a respiração. Não podia ser! Lucas parou retomando o controle sobre a respiração e sobre o próprio corpo. Os tiros reduziram. Os disparos foram diminuindo de intensidade. A luz amarelada do céu tinha desaparecido. O cheiro das criaturas era inconfundível. Corpos indo ao chão. Os tiros explodindo. Sentiu o suor brotar na testa.. Uma mancha vermelha movimentando-se na guarita. Nem Dante desenharia cenário igual. Francis conhecia esse ritual. — Bento. O bento estava parado. Sabia que. Ouviu mais três baques. incandescentes. logo os malditos ganhariam os muros de São Vítor. Cada um tinha uma reação. Ergueu a mão com o crucifixo pendurado para o santo salvador. lentamente virou a cabeça. Reunir os trinta bentos. mas. Fato estranho. O combate avizinhava-se. Era formidável assistir o trabalho do muro.. Também segurava e espada e a balançava com ansiedade. Olhou enojado para a espada suja de sangue negro. Buscou os olhos de Vicente. Francis. banhando de luz o deserto e permitindo maior sucesso contra as criaturas.. Alguma coisa anormal estava acontecendo. pelo volume de gritos e movimentos. Frio na barriga. Guardou a arma cortante na bainha e olhou para os braços feridos. descendo lentamente do céu. fedorento e podre. Estava frio. Francis estranhou mais. O trigésimo bento não estava mais lá! As correntes balançavam soltas diante dos olhos espantados dos dois veteranos. Instantes atrás.. seus olhos encheram-se de uma visão que só poderia ser a do próprio inferno.rapidez. Teria sido questão de poucos minutos. Depois veio uma explosão de vivas e festa por parte dos soldados. dessa vez. O que via agora eram pontos de luz vermelha. As 146 . Os soldados eram bravos e derrubavam um bom número de criaturas.

Aos seus pés. O trigésimo bento chegaria ao mundo para acabar com os vampiros. Pedaços de corpos caindo. Lembrava-se de subir aquela escada vertical. inflamações e tormentos que acompanhavam ferimentos daquela proporção. o corpo moribundo de um sentinela agonizante. assistindo o bento aproximar-se pela areia. investido de puro ódio. As luzes vermelhas dos sinalizadores desciam sobre um mar de corpos de vampiros aniquilados. tirou a espada da bainha e traçou o primeiro arco no ar. Os vampiros gritando. Lucas foi recebido com vivas e muita excitação. Mataria todos aqueles fedorentos. trazendo um corpo sobre o ombro direito. bento Francis. Bastava estancar o sangue e repor o volume perdido. Os homens do muro ficaram estáticos. O metal silvou e perpassou o pescoço de uma das criaturas. A meio quilômetro dali. Estivera de fato no areião. Via-se parando no topo da casa da árvore. perdido no meio da situação.. — disse um dos soldados. A escuridão. O velho Bispo estava certo. que assumira uma estranha coloração amarelada. belíssima. cercado por corpos decapitados amontoados. Não tinha bem certeza do que tinha feito. Colocou as mãos na borda da muralha e olhou para o areião. Nunca tinham visto aquilo. Lucas tinha acabado com metade do exército que viera com carga total. Ele é o cara. Sentia-se muito bem. incrédulo. balançando como pêndulos. de madeira. Segundo os soldados. A cabeça gritante rolou para cima e tombou na areia. — juntou outro. tinha abandonado o céu. Aquele mundo onde doenças não existiam estava livre de infecções. Deitados no areião deveria existir mais de dois mil corpos. Queria salvar o soldado e vampiro nenhum impediria isso. seriam recarregadas. Lucas ainda conservava um ar de embaraço. dando um tapinha no ombro do guerreiro incrédulo. Lembravase do momento. Salvando a 147 . Francis chegou ao topo do muro um. oportunamente.. Tinha que tomar cuidado com as cápsulas espalhadas pelo chão.. Francis trocou mais um olhar silencioso com Vicente. Imagens ocupavam sua cabeça. — Eu parei de atirar só para assistir. mas sentia-se bem. De subir destroçando o que encontrava pela frente. Os soldados nunca tinham visto nada igual. Tinham que agir rápido se quisessem salvar o pobre homem. Ivan foi prontamente socorrido e levado com vida pelo caminhão até o hospital. podia ver um homem com capa vermelha. O bento estava tonto.. um bento. o novato. Ao cruzar o portão. de ambas. Sua capa esvoaçando. E já tinha começado bem.argolas da algema ainda estavam presas em seus punhos e. que também chegara ao muro. — Ele é o cara. pedaços das correntes que lhe aprisionaram momentos atrás pendiam com seus elos encadeados.

Nessa hora. Contragolpe. Nesses momentos. Uma espada em seu braço. Aparava um golpe com a espada. Alguns atiravam flechas. moribundos. Onde estavam. — Você é especial. Lembrava-se de ser melhor e mais rápido. concentrando-os junto ao muro. batendo contra a malha de metal. Uma ferida muito pequena para quem havia enfrentado e vencido um exército de demônios. Sabia exatamente qual caminho traçar com a lâmina. — Se ainda existem alguns vivos. havia caído vítima das balas dos exímios atiradores de muralha. Medo. Estavam calados. que agonizava. A maioria dos vampiros parecia congelada no tempo e ele. por que não estamos daquele jeito. Doía próximo ao cotovelo. protegendo o agressor. Manejava a espada como se a tivesse usado a vida toda.. não ficamos descontrolados. A maioria. Fúria. Precisão. feroz. Girava e a capa vermelha voava. Francis abriu um sorriso. A articulação funcionava bem. como se fosse algo que brotara na palma de sua mão. já era. Abaixava-se e levava pernas e joelhos. Mais soldados passaram pelos bentos. Lucas olhou para o braço atingido. Enchia o peito. Fúria. rasgando carne pálida. A capa vermelha dançando. — Então? O que achou? Lucas encolheu os ombros sem dizer nada. que sofregamente levantou a mão tentando evitar o golpe. Mas basta começarem a atacar. parecendo malucos? — perguntou Lucas. confundindo o inimigo. Sabia como deslizar sobre o osso. separando as cabeças dos vampiros que ainda se mexiam. — respondeu Francis. Lucas voltou para o portão. — O sol vai dar cabo desses corpos fedorentos. já protegido na fortificação. Fio afiado. cercado pelos homens que lhe rendiam exclamações de surpresa e imediata devoção. Lucas alcançou os bentos. enquanto descia a espada no pescoço de uma vampira. Opressores vendo-se oprimidos. Respirava fundo.. Destruição. Olhos injetados. Aparava mais golpes. — explicou Vicente..sentinela. Outros soldados também se adiantaram e puxavam pelas pernas alguns dos corpos. Corpos tombando. Largando-o no areião. Viu Vicente e Francis a vinte metros de distância. Ossos e restos de vampiro batendo contra seu peito de prata. Não restam dúvidas. Atravessou novamente a pequena abertura. poucos dos vampiros estavam decapitados. A medalha de São Jorge sacudindo no peito. — Não sei. cercado. Depois de entregar a sentinela para os soldados. uma extensão que fizesse parte de seu corpo. Andavam entre os corpos. querem nos pegar. Desespero nos olhos das criaturas. quando era o mais rápido. Certeza. no meio dos soldados. Descendo com o homem nos ombros. removendo cabeças do lugar. — Sei que quando estão assim. Mexeu o braço. Dentes cerrados. 148 . — tornou Francis. — Quando amanhecer.. Viram pó. suficiente para passar um homem por vez. como saindo de um transe. sentia um frio na barriga. Os homens puxavam os corpos espalhados. Vampiros vindo de todos os lados.

Trocaram um olhar demorado. quando deram as costas. — murmurou o soldado. A espada zuniu com tamanha agressividade que a cabeça do vampiro subiu dez metros antes de cair ao chão. Grandão. Mas essa história de HC é melhor deixar para mais tarde. enojado. um par de braços brancos e de veias roxas levantou-se do amontoado de corpos. Se os vampiros não atacam. A profecia não tem erro. — completou Vicente. Sinistro. Quando o corpo do vampiro desfaleceu sobre a pilha viram os olhos amarelos apagarem-se lentamente. Vicente grunhiu qualquer coisa inaudível. Olhou para o grupo de soldados que. Esse cara é o presente de Natal que estava faltando. — Sairemos ao amanhecer. as estranhezas não terminaram. — Você acha que com ele conseguimos invadir o Hospital das Clínicas? — Com ele conseguiremos invadir até a casa do capeta. Lucas recuou dois passos. vi isso na minha vida. grunhindo como uma fera da escuridão. Lucas franziu a testa com repugnância. Vicente espetou essa bolha negra e um líquido espesso. Era assustador. — comunicou Francis. Lucas tinha desaparecido diante de seus olhos e ressurgia duzentos metros a frente. um tanto contrariado. Viram Lucas olhar para os lados. — Sangue podre. pronto! Parece que o cão atiça a cabeça da gente e viramos marionetes assassinas de vampiro. — Nunca. Vicente tirava a espada do peito de um vampiro e abria-lhe um talho na barriga. Mas. revestido por uma película brilhosa. Num piscar de olhos. removia um vampiro decapitado de cima de um grupo que ele havia atacado. Um vampiro vivo e armando o ataque! Bento Vicente e Francis pararam com o trabalho quando ouviram o grunhido escapando da boca de Lucas. bento. mas em vez de vermelho maléfico.— É isso mesmo. misturou-se com a areia. Estáticos e espantados viram os olhos do trigésimo bento mudar de cor. ameaçador. A profecia diz que agora é hora de juntar os trinta bentos.. Sabemos que estão por perto. Vicente. Eram como as brasas que queimavam os olhos dos malditos noturnos. Contudo. a tempo de evitar que a flecha armada por um maldito fosse disparada contra os trabalhadores. Sentimos o cheiro. 149 . nem no céu nem no inferno. colocando uma flecha no arco que trazia. não ficamos loucos.. Ele vai ser a peça chave da luta contra os vampiros. você vai ter que dar o braço a torcer. se um deles pensar em levantar o dedo para nos pegar. Retiraram outro corpo e. os olhos emanavam uma luminosidade amarela viva. — murmurou Vicente. com cautela. e duas vezes mais fedorento. O vampiro era um homem gordo e da ferida escapou um bolo negro e mal cheiroso. — É.

Enquanto não ouvisse a explosão. oportunamente não fora identificado. seria erigido um barracão para ferramentas ou qualquer tipo de depósito. por ser noite. O vampiro tinha lhe prometido a conversão. Aquele punhado de sangue lhe compraria a eternidade. Todos pagariam. contudo não sabiam exatamente quem ele era. O velho não tinha dado trabalho. Sabiam que ele era um degredado. Torcia para que a casa não explodisse antes do raiar do sol. Talvez já tivessem dado por seu sumiço no hospital. O líquido ainda estava morno. contente com a perfeita execução da segunda fase de seu plano. pois. procurando um doente enlouquecido. Recostou-se ainda mais na madeira. Fosse a hora que fosse. andando de lá para cá. não haveria volta.Capítulo 20 O mais difícil tinha sido esperar a desatenção do guarda do muro para embrenhar-se num amontoado de caibros e tábuas de madeira. mesmo driblando o guarda do muro. Tinha plantado um explosivo com detector de aproximação no quarto do velho. Amaro pagaria. um cidadão a mais perambulando no areião não chamaria tanto a atenção das sentinelas. agora daria o troco. quando desse pela falta do homem. mas. desejando tornar-se invisível. o pote de vidro. O coração batia rápido. Retirou do saco de pano. poderia até mesmo matá-lo antes que conseguisse esconder-se na floresta. A vila de São Vítor lhe pagaria. BUMMM! Poderia ouvir o barulho a quilômetros de distância. pelo que tinha entendido nos diálogos que tinha escutado. Seria uma criatura da noite também. chegasse perto de seu leito. Os malditos soldados não demorariam dois minutos para ligar seu sumiço à explosão na casa do velho. Assim que algum curioso. Seria o vilão que todos achavam que era. sabia que as coisas estavam dentro do controle e poderia esperar pelo amanhecer para tentar escapar com maior naturalidade. futuramente. Daria razão às línguas e julgamentos daqueles cidadãos. Caso dessem por sua falta. 150 . Tinha sido expulso de São Vítor por culpa de um mal-entendido. Depois desse alarme. pronto. pediriam uma patrulha comum. teria de transpor o muro e cruzar o areião. Com alguma sorte. por estarem sob ataque de vampiros. dificilmente passaria despercebido no areião. A sentinela da torre. Ainda ouvia os disparos na muralha um. o assassino retornou o pote ao saco de pano. Seria imortal também. Sorrindo. onde. quando quase todos na vila já estariam metidos com seus afazeres. depois das oito da manhã. Morrera sem dar um pio.

— É mais ou menos como um "sentido aranha". porém a fumaça fazia os olhos arderem e nada podia ver. Assim que a luz do sol tocou a areia. Lucas sentiu um cutucão no ombro. — alertou Francis. mas conseguimos nos controlar. Francis apontou para o pé do muro. protegendo o amontoado de corpos de vampiros ao seu pé. O cheiro era o mesmo que o tirava do sério quando os vampiros aproximavam-se. os soldados ergueram as chapas metálicas. Uma fumaça branca subiu e foi levada para o alto pelo vento. Na face oposta da cidade. Lucas voltou a debruçar-se e olhar para baixo.. Fora da cidade. Mas.. Lembrava-se do homemaranha. nervosos. só saímos do sério quando eles querem nos atacar. Caminharam pelo corredor de manobras. cada um dos grupos arrastando atrás de si.. se no meio da mata. a luz do sol tocava o topo das árvores e avançava. Subiram a escada interna da muralha. Limparam a areia de cima das peças. atado por cordas. Estivera calado por mais de meia hora. fazendo com que a luz fosse refletida para o pé do muro. — Você já vai ver. mas podemos raciocinar. Francis riu. — O que é aquilo? — perguntou Lucas.. No entanto. a muralha de doze metros de altura produzia uma extensa sombra sobre o areião. distante do muro. os soldados puxando as chapas.Capítulo 21 A vermelhidão no horizonte denunciava a chegada do sol. Não entendia bem por que não estava enlouquecido naquele instante. o disco amarelo levantar-se-ia trazendo luz ao novo dia. Se cruzarmos no meio da floresta com um deles. pedindo para que os malditos cruzem nosso caminho. uma extensa chapa metálica. 151 . Era fétida e densa. puxando o ombro de Lucas para trás. sentimos o cheiro. afastaram-se cem metros do muro um.. Em poucos minutos. — Afaste-se. sai da frente! Ninguém segura a gente. em razão do ângulo da incidência da luz. Virou a cabeça e viu bento Francis. Quando estão vindo contra as muralhas. — Por que o cheiro deles queimando não tira a gente do sério? — Como estávamos explicando à noite. Ficamos mais ariscos.. Três grupos de cinco soldados caminhavam pelo areião. que deveriam medir dez metros de largura por dois de altura. O sol ganhou altura e os benéficos raios de luz cruzaram acima da muralha. na escuridão. eles também nos vêem e vêm pra cima. Lucas debruçou-se e vislumbrou o amontoado de corpos de vampiros decapitados. — Venha. Veja o que acontece quando chega o sol.

— Assim que bater um vento mais forte. Cada hora perdida nos põe longe da vitória. Não podemos nos deter muito mais tempo. 152 . bento Vicente e sua capa vermelha desbotada estavam no pátio. — Estou aguardando Adriano. — Já é hora! — bradou o fortão. como se os músculos não se cansassem da carga constante do traje e do fato de estar alerta há mais de vinte e quatro horas. essa montanha horrorosa vira areia. contudo sentia-se muito disposto. — Você sabe montar? — perguntou Francis. Amaro está preparando nossos cavalos. Sentia apenas um pouco de fome. Lucas. — respondeu. — explicou o companheiro. Lucas. Os soldados vão nas monta-rias também. que está falando com Társio. Soldados preparando armas. — Tudo bem. Quero descobrir de uma vez por todas que raios de milagres são esses que nos libertarão dos malditos. Temos que juntar os nossos amigos. nada de motos. Depois de alguns minutos. — Não me lembro. nada muito urgente. Francis ficou com o olhar perdido no horizonte por um instante. anuiu. Lucas não havia dormido aquela noite. Ao chegarem ao quartel. — Quantos soldados vão conosco? — Dez. Serão muitas horas de viagem e muitos dias se passarão até que os trinta bentos estejam juntos. — Vamos embora. Talvez o descanso acumulado de trinta anos causasse agora uma in-sônia permanente. virou-se para o novato. Depois de um breve momento.— Deve ser. lembrando o formato de braços e pernas esqueléticos. no entanto. Ao que pôde perceber contariam com a escolta de vários soldados. Francis pareceu avaliar o número. Mochilas sendo carregadas com alimento. Uma pilha de estátuas ressequidas. Havia bastante movimentação. Vai ter que lembrar. a fumaça dissolveu-se e então Lucas conseguiu enxergar a rés do muro. — Vai ter que lembrar. Só não podemos perder muito mais tempo. Depois de um longo hiato. Os vampiros tinham praticamente virado pó. Não podemos mais perder tempo.

mas era sincero. O verde espalhava-se e tomava os rincões. Bento Vicente segurava a rédea do cavalo. — Vamos voltar? — perguntou Adriano. os três bentos.Capítulo 22 Três horas depois de terem deixado a fortificação de São Vítor. Em seguida adentraram uma planície imensa. Lucas fez uma pausa nos pensamentos e abriu um sorriso quando uma grande borboleta pousou na crina de seu cavalo. Lucas puxou a rédea de sua montaria e fez o cavalo dar meia-volta. Sem o homem destruindo tudo. — acrescentou o soldado que vinha ao seu lado. impressionado com a beleza do lugar. reduzido sua agressão. Mundo. Algo como uma explosão vinda de muito longe. Pararam na beira do morro. A palavra "mundo" ganhava um novo significado em sua cabeça. sua saúde de direito. O soldado parecia não ser alguém muito instruído. chegavam ao topo de um aclive. — Esta terra tá linda demais. Animais belos. empurrado pelo vento. Como estariam os outros países? Todos viveriam assim? Entocados. Bandos de pássaros em revoada deixavam a copa das árvores. Olhou para os outros dois bentos e depois para os soldados. Essa palavra fez Lucas suspirar. O inseto passou para a mão do bento por breves segundos e retomou vôo. empertigados. andando para frente e para trás. Um bando de pombos brancos veio em sua direção. Os animais também tinham se agitado. Avançando montados em cavalos tordilhos. Como estariam os outros lugares? Os lugares que nunca tinha estado. Olhou para a paisagem que se estendia morro abaixo. — São Vítor! — exclamou Francis. bento Lucas. — Nossa! — exclamou Lucas. Unidos no propósito de lutar contra aquela raça maligna. Ainda sorria quando um barulho surdo e distante chegou aos ouvidos. ouviu a reação dos animais. A natureza poderosa recuperava cada vez mais seu lugar de direito. Estavam silenciosos. fazendo Lucas curvar-se sobre o torso do tordilho. espalhando vida e beleza pelos quatro cantos do mundo. O planeta parecia feliz pelo fato do homem ter reduzido seus domínios. tentando mantê-lo parado. Pelagem marrom escura. O jeito simples do homem falar fez Lucas refletir. Era como se a floresta morro abaixo ganhasse vida. — O senhor ainda não viu nada. facilmente confundida com negro. com árvores garbosas espalhadas aqui e ali pelo terreno coberto por um tapete verde de tirar o fôlego. parece que o mundo está até mais feliz. Escondidos durante a escuridão. Um segundo depois. Os animais tinham quase a mesma cor. Pelas suas costas ouviu o galopar dos bentos e dos soldados voltando. acompanhados por um grupo de dez soldados. Parece que a gente só fazia maltratar esta natureza que nos cerca. Tentou colocá-la em seu dedo recoberto pela grossa luva. 153 . Falava a verdade. com medo de ser atingido. tingindo o céu em multicores.

Lucas foi o último a descer do tordilho. Isto já é o começo. O tal Joel era um rapaz negro. igualmente a bento Vicente. — Não sei. Às onze da manhã. Lucas agarrou-se às rédeas. São Vítor corria perigo. Achava que deveriam voltar. Um fio de fumaça subia ao encontro das nuvens. Francis e Vicente conversavam. Os homens apearam. Francis bateu com a rédea nas ancas de seu cavalo e disparou. magro e bem mais jovem. exalava vigor e juventude. Só assim a vitória contra o mal prevalecerá. que disparou sobre o gramado. Vamos continuar. muito forte. com a pele morena e cabelos escorridos. Seu lugar era a estrada e as 154 . Não sei. Vicente ficara para trás. dominando o animal. Faltava muito para acostumar-se com a paleta do mundo novo. Não era dono de seu destino. Lucas. Não podemos voltar. pegando o bento novato desprevenido. — Lutar contra o que não existia? Que merda isso quer dizer? — perguntou o bento mais truculento. que apesar da feição madura. Vinte e dois. Os soldados acompanharam o cavaleiro em seu galope. Lucas continuou a corrida. estavam preparando um acampamento. O bento. Não sabiam o que ele queria dizer. Que lutaríamos contra o que não existia antes. Fitou demoradamente o lago. Paraná era alto e. com o número de pássaros piando nas matas e o tanto de bichos cruzando o caminho. vinte e quatro anos. olhava para o horizonte. prendendo-o junto aos outros. Carina. os trinta guerreiros. pareciam discutir um assunto tenso. Um enorme bando de capivaras correndo na margem. Um líder de pelotão. Voltando para sua mulher. Logo um soldado aproximou-se tomou a rédea do animal. O sol radiante produzia um brilho encantador sobre a água. atendia pelo nome de Raul. antes de disparar em perseguição ao grupo. — O Bispo me preveniu. Vicente.— Não. Só sei que temos de ser velozes. aproximando-se da manada em disparada. como de costume nas última horas. Ao que pôde entender. encaixou-se na sela e encontrou equilíbrio. na f a i x a dos quarenta anos. Disse que seriam muitas as armadilhas no caminho. Mais um amigo juntou-se a eles. ondulando somente sob os pés nervosos dos animais silvestres. Não estava em seus planos estar ali. para surpresa do veterano. provavelmente assustadas com a aproximação dos cavaleiros. Nossa primeira distração. Temos que unir os trintas bentos. Os soldados retiraram os calçados e lavavam os pés no lago. Tinha lá seus afazeres. Adriano enxugou o cavanhaque amarelo com o braço. este tinha as feições de índio. Um homem. Uma hora dessas estaria voltando para Nova Luz. Bento Vicente aproximou-se de Lucas e golpeou a anca do cavalo. Lucas demorou um instante com os olhos na paisagem. em disparada. o comboio parou na beira de um lago. mas. ficou encantado com a paisagem. levando notícias de volta ao lar. Mas era um soldado. Percebeu que os soldados que chamavam de Paraná e Joel descarregavam parte dos cavalos. Os soldados olharam para Francis. no máximo. com o azul assustador do céu.

Fariam de tudo para derrubá-los. Era o que vinha depois. quando eram detectados pelo lado do mal. Caminhou sem botas pelo solo marcado. Salvação. Talvez os soldados que conheciam o plano desistissem e finalmente se rendessem à profecia. Aproveitavam ao máximo as primeiras paradas. Sentou-se no chão e recostou-se em um largo tronco. Gostava de carregar água fresca. Era por isso que correr risco valia a pena.. ajudando Marcel e Paraná a prepararem a bóia. Cumpriam uma espécie de ritual de início de toda jornada.. Lucas estava afastado. quando fosse posto junto. Que ironia! Um dia. durante o dia ou noite. O problema não era a primeira briga. feito um mantra. Adriano não era um cara de coração mole. Para que os bentos não fossem trinta. O trigésimo bento acordado. Balançou a cabeça. não acreditaria que ele fosse capaz de empunhar a espada que carregava. Marcel tinha desembalado todo o equipamento da cozinha. Antes de partir. que discutiam alguma coisa. Olhou de novo para o bento.. mas teve que apertar os olhos que estavam ficando vermelhos. Tinha que manter o rifle sempre limpo e pronto para a ação. perdido no meio dos soldados. Se não tivesse visto o estrago que aquele magricela tinha produzido ontem no areião. arriscando o pescoço por um grupo de esquisitos que andavam para lá e para cá com capas vermelhas. longe de Vicente e Francis. Estar junto aos bentos era um coringa. Se duas noites atrás o maldito plano não fosse mais a coisa importante que era. Um rapaz magrelo. Poderia significar proteção ou morte. Pensou em Carina. mas. Tudo para fazer com que a profecia não se cumprisse. Tirou o lenço da cabeça e esfregou-o no cano de sua arma. Adriano baixou a cabeça um instante. Um dia a mais e Gaspar teria vivido para ver aquilo. A briga árdua contra os vampiros. contra mulos ou vampiros. repetiria a operação. Abaixou-se e encheu o cantil com água. Troféus ambulantes. O soldado líder de Nova Luz fechou os olhos. Precisavam juntar os trinta bentos. entremeado por grama e terra seca. A partir do pôr-do-sol estariam andando em terreno inimigo. talvez não tivesse que ter dado aquele tiro no meio da testa do amigo. Os bentos eram temidos pelos vampiros. poderiam cruzar com mulos pela manhã ou com banidos que viviam na mata e agora serviam aos noturnos. O soldado virou-se e olhou para o bento novato. uma briga.aventuras. atiçando fogo. Os outros homens também estavam livres das botas e procuravam relaxar. Alvos ambulantes. Um encontro. Só assim manteriam a cabeça no lugar. servia de alerta.. parecendo com medo até de pisar na bosta dos cavalos. Era por isso que aquela jornada valia a pena. não tivesse que ter dado um jeito em Gaspar. Mesmo que não cruzassem com vampiros durante a primeira noite. 155 . tornavam-se troféus cobiçados. quando ainda estavam incógnitos e em área segura. Delatava a posição do grupo e era particularmente perigoso quando carregavam bentos consigo. Paraná assoprava os gravetos empilhados. Era isso que cada um deles repetia-se. desencadearia os quatro milagres. Um grupo que. Olhou para o lado e viu Gaspar ali com eles. Seus soldados teriam de lutar com toda a gana para manter aquele magrelo vivo.

talvez demore um pouco ou até nunca volte tudo. — Quando acordei não lembrava nem do meu nome. Mas com sortudos como você. mas tudo bem.. Fazer o quê? Eu estava fora de controle. O rapaz negro olhou para o grandalhão. mas ríspidos. — É assim mesmo. — É por isso que a gente gosta de andar com o Sinatra. Não estavam exatamente aos berros. Paraná riu de volta. Lulu Santos! — Quem disse que o rádio não funciona mais? — perguntou Francis. E o cantor? Era o. o bento médico. Conhecia aquela canção. O bento sorriu e passou a mão na cabeça. — emendou o soldado. o rapaz ainda esfregava a arma com o lenço que usava na cabeça. — Desculpe o mau jeito lá no Rancho da Pamonha. Aproximou-se calado. O suficiente para fazer saber que batiam boca.O grandalhão Paraná jogou um punhado de carne seca dentro da panela e pendurou acima das chamas.. — Eu lembrei o nome do cantor dessa música. mas a maior parte da carga era reservada ao armamento. Ao aproximar-se notou que ainda discutiam calorosamente. sentindo-se deslocado. O aroma dos temperos começava a espalharse e a abrir o apetite dos companheiros de jornada. balançando repetidamente a cabeça. por isso fazia questão de caprichar no sabor. acho que você não vai sobreviver. era preciso economizar nas refeições. Como poderiam ficar vários dias na mata antes de alcançar a próxima fortificação. Lulu. Marcel. Mexeu mais uma vez na panela da carne. Um rádio ambulante. comedidos para não inflar o grupo. caindo na risada com a própria brincadeira.. Gostava da voz do amigo. sem chamar a atenção dos outros. Lucas. Paraná olhou para Marcel.. — Então deixa pra lá. Uma panelada de legumes completaria a refeição. Tomara que você não perca o controle numa próxima vez. Lucas olhou para o soldado que cantava. Sorriu quando Sinatra começou a cantar. mas foi o único jeito de fazer você parar. bento. mas pareciam nervosos. Se eu tiver que te esbofetear com esse meu muque. Despejou grãos de arroz numa outra peça. Os cavalos carregavam um bom peso. Paraná. o que chamavam de Sinatra. — Minha cabeça tá doendo até agora. Tem gente que lembra a vida toda. A comida não era abundante. que dormiram tempo demais. sempre presente nas andanças de soldados. Como era o nome? Não lembrava. juntou-se aos bentos. aproximando-se. — Você vai lembrar um monte de coisas. A comida era racionada em função do volume a ser transportado. — Ô. Mexeu com uma colher de pau para as ervas e temperos misturarem-se à carne e ao óleo. não estava? Paraná anuiu. exibindo o bíceps do braço magro. 156 .

Lucas ficou surpreso com a resposta atravessada. nada de soneca. empurrada pelo vento calmo que cruzava sobre as águas do lago. bentos. com um linguajar de malandro e sotaque fluminense. Encontraremos mais dois companheiros: bento Edgar e bento Duque. Vamos refazer parte desse caminho de hoje depois de passar por Esperança. Só nós. Era um novato. Fora os sete soldados do grupo de Adriano. — As trinta espadas. até mesmo para discutir. Pediu que se sentasse em um dos troncos ao redor do fogo. Pediu para reunirmos os trinta bentos. Lucas. — respondeu Francis. deixamos o sul e começamos a rumar para o norte. Francis voltou até onde o novato estava.— O que vocês estavam discutindo tanto? — Um pouco demais para você. A imagem de São Jorge balançava presa ao cordão encardido enquanto o bento gesticulava e falava com o grupo. Ainda não é da sua conta. Francis andava sem capa. Se conseguirmos manter uma boa marcha. Vamos ter de subir. 157 . E quando eu digo norte. rumo a Bahia. mas nos desviaremos de São Vítor. o plano alternativo. certamente tentava convencer Francis a empurrar Lucas em direção à concretização do plano desenvolvido por um grupo de soldados inconformados. Bento Vicente. Era também o que Lucas conhecia melhor dentre todos os soldados. — O quê? — Como o Bispo falou. Temos bentos espalhados pelo Brasil. depois da interrupção da discussão. E ainda contra o plano pesava o fato de não terem certeza de que a máquina ainda funcionaria. Lá nosso grupo aumenta. caso quisessem botar as mãos na máquina. O crucifixo encravado no peito fazia relembrar cavaleiros das cruzadas. Mas. compunham o comboio mais três soldados oriundos de São Vítor. um dos poucos bentos a engajar-se na causa dos soldados. — Temos que comer rápido! — gritou Francis. O líder Willian e os soldados Carlos e Alicate. As trinta espadas. acho que no máximo em trinta. a armadura cobrindo o tronco refulgia com a luz do sol. — Engulam a bóia. é norte mesmo. mas não insistiu. Temos muito chão para cruzar até Esperança. Pra chegar lá vamos passar duas noites na floresta. Carlos era o mais falante dos três. o líder dos soldados de Nova Luz sabia que o bento Francis não colocaria em risco a conclusão da profecia em troca da ação ousada que teriam de encenar. levantamos acampamento e tchau e benção. Sabia que os dois veteranos discutiam por causa do plano secreto. tinha distanciado-se. acelerada. Tinha pouca informação. teremos todos os bentos reunidos. — Depois que chegarmos a Esperança e apanharmos a primeira dupla de bentos. trinta e dois dias. Bento Vicente. Adriano olhou para o bento mais velho. A capa desbotada balançava levemente. carregamos espadas.

— Francis baixou mais a voz. enquanto Joel e Marcel carregaram os cavalos. Vicente já abateu seiscentas criaturas. Os cavalos soltos na planície foram reagrupados. Os quatro milagres. Não se exponha a riscos desnecessários. acho que em um mês estaremos os trinta reunidos e teremos o início do prometido. todas as pessoas de bem vivem em função do próximo. — Não. O que você fez ontem já te confere o status de herói. Para você ter uma idéia. não é? — Você vive uma vida diferente agora. Lucas aquiesceu. a verdade e o propósito são claros. Francis olhou para Lucas. Quero você vivo até juntarmos os trinta bentos. Seja bento ou não. Esse seria um milagre premium. mas o caminho será sinalizado. Você derrubou trezentos e sessenta vampiros em um único ataque. cruzando essas florestas. ajudar o irmão. Lucas passou a mão na cabeça e suspirou. Sinatra e Zacarias cuidaram da parafernália do almoço. Se você repetir a façanha. Os ataques 158 . os vampiros peguem fogo e desapareçam. — proferiu o bento veterano. Agora. E é isso que estamos buscando. — É muita responsabilidade para nós. Concordava. quero que preste muita atenção. Isso é tudo o que precisávamos. naquela terra perdida. você alcança o placar do bento mais produtivo na sua segunda batalha. bento Lucas.— É. não precisa fazer mais nada. — Talvez assim que nos juntemos. em todos os anos de bento. mas continuava achando que a missão de salvar o mundo era muita responsabilidade para trinta homens. Os milagres. Não sei até quando você continuará favorecido. Era hora de deixar para trás o acampamento do almoço e voltar para a floresta. — Quatro milagres que salvarão o mundo. Francis sorriu. mesmo depois dos milagres. — Lucas. Bispo disse que. É tudo o que precisamos. com nossos corações cobertos pela poluição e pelo dinheiro. Acho que não temos direito a esse pacote. — Quatro milagres. Isso é fantástico. mas estou preocupado. Então. A vitória não estará garantida. Teriam de encontrar um lugar seguro para o acampamento noturno. Sabiam que estavam numa região que os favorecia. Como eu dizia. Precisamos de você vivo. — Quatro milagres. — Não sei se isso será uma constante em suas lutas. — balbuciou Lucas. ainda teremos muita luta. viver em comunhão. Cuida do próximo que estará cuidando de ti mesmo. Carlos me disse que contaram por alto. nossos valores estavam também confusos e sepultados. Um remédio definitivo contra o mal vampiro. Precisamos descobrir quais são os milagres que irão nos libertar dos malditos. eu vi o que você fez ontem. Todos querem proteger o irmão. No passado. Trezentos e sessenta! — Isso é coisa pra caramba! Nunca tinha visto isso.

O fogo comeu tudo. Precisamos de vocês lá. mensageiro? — Uma desgraça. E. quando estariam em zona de grande risco. — Desembuche logo. — Ainda não sabemos. Ela explodiu. O rapaz olhou espantado para bento Francis. — Devíamos voltar. Pouco provável que fosse um desconhecido. de boca aberta. senhor? Estamos em apuros. quando o trigésimo bento caminhava ao encontro do cumprimento da profecia. Queria que esperassem. mas o seguro morreu de velho. Era o responsável pelo renascimento da esperança. o medo insistia em suas veias. lançando sombras sobre o futuro. — disse Lucas. Uma luz. Estão tentando descobrir o que aconteceu na casa do seu Bispo. senhor. Alguém que conhecia o que os olhos humanos não viam. O que preocupava os mais experientes era a noite seguinte. O que aconteceu? — A casa do Bispo. baixando o binóculo. Uma explosão. Estão todos em pânico. Todos os olhares convergiram para Francis. Willian! Uma desgraça. Estavam quase todos montados quando ouviram o galopar. O homem gesticulava. garoto. — disse o líder Willian. Os soldados ficaram quietos. trazendo alguém em suas costas. — Ninguém vai voltar. — Por que não voltou. mas em todo o país. O mensageiro de São Vítor permaneceu encarando o bento. Um cavalo aproximava-se. Mesmo estando com os bentos que arrebentavam com as criaturas. Os dois morreram. — Ninguém vai voltar. rompendo o silêncio. — O que aconteceu. O cavaleiro precisou de mais um minuto para vencer a distância. graças a Deus. Sabia que aquela explosão que tinham escutado significava problema. Sua face. Não só em São Vítor. Mordeu os lábios. Os soldados sabiam que a morte de Bispo pesaria enormemente. A fé seria abalada. Bispo era uma espécie de guia. rapaz. Aquilo só podia ser brincadeira do bento Francis. os olhos de Bispo iam-se embora. — Como isso aconteceu? — perguntou Willian. — É um mensageiro de São Vítor. alcancei os senhores. O garoto procurou sustentação no olhar de Vicente e do líder Willian. Todos estão em pânico. Estava agitado. Tudo virou fogo. acabando com o fio de vida em sua esperança. mensageiro. — Graças a Deus! Graças a Deus encontrei vocês! Vicente circulou o cavaleiro. O seu Fernando entrou na casa e nunca mais saiu. Mas. Francis encarou o novato. não escondia a surpresa e a decepção. 159 . Da distância que estava não podia identificar o cavaleiro. senhor. Carlos tirou sua pistola da cintura e deixou-a pronta.durante a noite a grupos de soldados eram menores naquela parte do trajeto. — Ouvimos a explosão. como se o guerreiro lhe cravasse um golpe de misericórdia. justamente agora. — repetiu.

vacilante. Vamos! — bradou o bento. Se deixarmos o caminho para Esperança. aproximando-se do grupo mais uma vez. O mensageiro também galopava. mostrando-se preparado para situações de emergência. Devemos continuar rumando para o sul. Descubram o que aconteceu. agitando os demais.— Não. De que serviremos em São Vítor? Somos abençoados. a cota de malha. — Não podemos acordar os mortos. Ao encontro dos dois bentos em Esperança. Em busca de uma profecia. O cavalo de Vicente empinou. mas não levantamos mortos. deve ser enterrado. Não conseguiremos fazer o velho Bispo levantar da cova. Peça que Amaro investigue pessoalmente o ocorrido. Isso é só o começo. — Já discutimos isso. como se quisesse decorar cada palavra do líder Willian. — Deus te ouça. — Peça que Amaro explique ao povo por que motivo não voltamos. A capa vermelha esvoaçava e a espada batia em sua perna ao sabor do galope. Vicente. Temos uma missão de importância sem precedentes em nossa História. depois se dirigiu ao mensageiro. Francis guiou o grupo. Não devemos voltar. Era um escolhido. — retrucou Adriano. — Sem precedentes em nossa História. Em busca de outros bentos. Lucas. O despertar de Lucas não é a garantia da vitória. circulando na margem do rio. — resmungou Vicente. O próprio Bispo havia me prevenido. cobrindo seus ouvidos. Esses malditos vampiros e seus mulos plantarão mais armadilhas. retornando a São Vítor. Francis olhou com reprovação para Adriano. galopando rapidamente. — Coloque os soldados em alerta. Só depois disso veremos qual será nosso caminho. — Não percamos mais tempo. Se Bispo está morto. 160 . Nosso destino está na nossa frente. Seria um sonho? Aquele novo mundo assustava. Dobrem a segurança. Não precisaremos da máquina se formos rápido. — repetiu o mensageiro. Bento Francis está certo. deixaremos o caminho para o cumprimento do que foi visto. Lucas lançou um olhar para trás. Ouvia o tilintar de sua touca metálica. — Devíamos é aproveitar a força desse desengonçado e tentar colocar as mãos na máquina. Os trinta bentos têm que se juntar. Em busca de milagres e salvação. Agora temos o trigésimo bento. no dorso de um cavalo numa cruzada inimaginável. — orientou o líder Willian. Ia no sentido oposto. — Vá para São Vítor e diga que nada podemos fazer. O bento olhou para frente e agarrou-se firme à rédea. Peça que levem o corpo do Bispo ao hospital antes de ser enterrado. Estava acostumando-se com a montaria.

há muito. Em algum lugar distante. viajantes acampavam... é o vampiro que passa. talvez fizesse uma visita. Das pessoas envoltas nos muros. Cantarzo balançava no topo da árvore. O galho fino no cume não agüentaria o peso de um homem daquele tamanho. Cavalos tinham passado por ali. ora lambendo as botas dos mais antigos dos moradores das sombras. Caçar. Quem sabe os viajantes pudessem ajudar. Nada queria com eles essa noite. Os olhos de vampiro perscrutando a escuridão. Queria vento mexendo com as tiras de couro que prendiam seus cabelos. Pegadas. dissessem: cuidado. cruzando o ar e parando no topo de um eucalipto. Um trecho do chão ficava sem a cobertura verde e tornava-se de barro. Colocando suas unhas afiadas sobre a jugular da caça. dando pistas sobre o paradeiro de um novo Rio de Sangue? Cantarzo saltou. Muito melhor do que viver como Raquel. balançando ao sabor de sua passagem. Cantarzo desceu pelo tronco largo do flamboyant florido. Provavelmente soldados. O esplendoroso firmamento refletindo luz branda para a Terra. não importava. talvez mais. Banidos. Gostava disso. Era como se. O mais poderoso e delicioso dentre os animais. Só os soldados andavam em bandos naquela região. Nenhuma pista adicional. como fizera seu lacaio. Cavalos. Estavam longe. Queria apenas encontrar seu soldado. ora ensinando novatos. em conjunto. Fazendo-os falar. Os parasitas que sugavam somente os adormecidos. Ele não queria aquilo. deixando o vento noturno invadir seus pulmões. Um bicho da noite. Soldados. Andou pelo gramado. Seduzindo. banidos. Vivia em prol daqueles parasitas que temiam a mata. Seguiu o cheiro. Era sua natureza. em geral. Uma coisa encantada. Saltou do cume da árvore para outro. Talvez depois de tratar com lacaio. Curioso. Seu "paumandado". Queria cravar os dentes no pescoço dos desavisados. As copas das árvores agitavam-se com sua presença. não poderia ser denominada de homem. A sombra do vampiro cruzou o topo de doze árvores na floresta. Doce e maldita vida eterna. Raquel cortejava e gostava de ser cortejada. na floresta. Um vampiro caçador da melhor qualidade. mas logo estaria sobre eles. Agitavam outras criaturas.Capítulo 23 Cantarzo ergueu as narinas. era um vampiro. pedindo pelo apadrinhamento de um vampiro. Era outra coisa. A criatura. mas a criatura. pendurada feito um animal silvestre. 161 . Do sangue humano. Acelerou os saltos. Os cheiro dos viajantes convergia para o ponto de encontro. Queria a floresta. impingindo medo e dominação. assustar. Homens que não se enquadravam nas regras dos acuados. Eles sempre chegavam com o mesmo pedido. Tomar energia direto da fonte. Cheiro de fumaça. beber vida. Os pássaros desavisados disparavam em vôo quando o vampiro batia nos galhos onde faziam ninho. eram homens solitários. Rastros frescos. Era um vampiro caçador. queria a noite. Gostava de sua função. Eram a escória errante. Talvez seis.

Tinha ouvido um dos vampiros comentar que Raquel havia sido chamada num dos grandes centros vampíricos. Nada. Deixaria cega e perdida nas sombras. Cantarzo não se interessava. Mostraria a ela o que era agilidade na caçada. Cantarzo ergueu mais uma vez o nariz. completou: — Não estou falando desta fogueira. Dar-lhe-ia poder suficiente para erigir um exército de noturnos. Tinha uma direção segura. Caso o maldito lacaio ainda não estivesse no ponto de encontro. ganharia poder inimaginável. um pouco de ação para exercitar não seria de todo o mal.Cantarzo ergueu os olhos. estava certo. Poder para dar-lhes a vitória contra a resistência e lhes garantir o domínio sobre todos os Rios de Sangue da Terra. Caso seu plano surtisse o efeito vislumbrado. Os pássaros estavam fugindo. Assim que tivesse a chance. Os olhos arregalaram. Depois de ter abandonado Raquel e seus estúpidos seguidores à própria sorte no esconderijo dos soldados na beira da estrada. Francis ouviu o som dos pássaros em revoada. Poder para açoitar as fortificações de forma contundente. Correu e saltou para o tronco de outra árvore frondosa. Alguma coisa grande acontecia. que mostraria aos mais antigos o quanto ele. Fugindo de vampiros! O bento deixou sua tenda. Achava-a petulante. Cantarzo sorriu. Um exército de irmãos da noite. O cheiro de fumaça estava mais forte. diacho! Estou falando daquela fogueira! 162 . notando a indagação no olhar dos soldados. Alguma coisa importante incomodava os mais velhos. Talvez um engano. Olharam para as cinzas mortas do fogo que usaram para preparar o jantar e voltaram os olhos para o bento. Gostava de irritar a guerreira. escalando com agilidade seus primeiros galhos. Nem mesmo Raquel conseguiria esconder-se tão bem. Um estalido. Ela e aquele vampiro Gerson pagariam caro pela arrogância que carregavam. Estaria louco? Francis. Vasculhou as redondezas. Sabia que a vampira viria como raio atrás de vingança. Um plano que traria a ele a proteção absoluta dos vampiros mais velhos e lhe daria poder fundamental para subjugar de uma vez por todas a raça humana. Era madrugada. ganhando altura. O lugar dos vampiros era na superfície. sempre cercada por aqueles vampiros grandalhões. O que era esperteza. Achava-se protegida. Raquel estava ocupada. Cantarzo. Ainda mais se seu plano concretizasse-se. Cantarzo saltou para outra árvore. Cantarzo rasgaria o segundo olho da vampira. Aquele som queria dizer uma coisa: perigo. com a raça inferior humana subjugada. Olhou para a floresta. Joel e Carlos estavam vigiando o acampamento e não tinham acendido fogueira alguma. Aproximou-se dos soldados de sentinela e perguntou: — Quem acendeu essa droga de fogueira? Raul. tinha que colocar um olho nas costas. atento.

— Fiquem quietos.. Joel. Suas unhas afiadas dançaram no ar. O homem mexeu-se no seu sono. Exibiu os dentes pontiagudos e grunhiu mais alto. Finalmente.. Cantarzo aproximou-se e agarrou-lhe pelo pescoço. fazendo o ramo vergar. — pediu o bento. colocando o dedo na frente da boca. erguendo-o de uma vez e colocando-o contra a parede de pedra. Os homens ficaram em silêncio. A árvore balançou mais uma vez e a criatura passou para o outro galho. depois de localizarem-se com a indicação do bento. Mais pássaros deixaram os galhos. Seu corpo cruzou o ar com rapidez e bateu no chão sem fazer barulho. — Eles vão nos pegar.. Os homens no acampamento não conseguiam ver o vampiro. — Como sabe que não viram a gente? — Se tivessem visto. Cantarzo viu seu rosto. abrigo para um homem só. Ouviram. — Ssshhhhh! — fez o bento. enxergaram um fio de fumaça subindo ao céu. Joel apanhou sua arma. O homem dormia. Caminhou ao encontro do homem. virando o corpo. Cantarzo deixou os olhos vermelhos brilharem. Estaria correndo ao encontro daquela árvore agora. Cantarzo agarrou-se ao galho fino. Emitiu involuntariamente um ligeiro grunhido.. Pendeu o corpo até a ponta. os bentos seriam mortos! Joel olhou para o bento. não era a hora certa de cruzar com um bando de vampiros. tomado. Raul e Carlos deitaram a mão em seus rifles. eu já estaria louco. Se eles fossem muitos. Alguns passando em frente à lua. Mesmo com três bentos. com uma pequena parte passando ao largo do halo de luz provocado pela lua. — Não tínhamos nota. Cheiro de sangue. Saltou da árvore. Havia uma grande pedra debaixo dela. Estão atrás daquele fio de fumaça que algum idiota acendeu. Queria o sangue. — Você! — grunhiu o vampiro. Uma árvore balançou.Os homens tiveram que esforçar a visão. — Silêncio. Eles não nos viram. Não sabiam dizer se era um ou mais. O homem gritou aterrorizado. Não parecia um acampamento. O cheiro tomava todo o seu ser e começava a drenar-lhe a razão. Raul deu de ombros. O homem remexeu-se. Seus instintos falavam alto. Um cheiro familiar tomando as narinas. Olhou para a fogueira. Carlos fez o sinal-da-cruz. 163 . que não virão.

— Como ousa tu. vampiro. — murmurou o vampiro com os olhos brilhando.. Jogar para valer. Não! — Por que não foi ao ponto de encontro? — Ainda estava longe! Gasp! Está me enforcando. — Passei por maus bocados. Não ouse quebrar sua promessa. — Tão fácil? Não vejo feridas. vampiro. Tinha medo daquela face espectral. Vocês são tantos. — Você conseguiu. O vampiro grunhiu. retirou um jarro de vidro. O homem passava a mão no pescoço. continuando a segurar o lacaio pelo pescoço. daqueles olhos que banhavam ao redor com luz vermelha. ainda. Lúcio apanhou um saco de couro e. — Jogar? — Um dia será nossa vez nesse jogo. Cantarzo grunhiu nervoso e soltou a garganta do homem. Chegará o momento de nossa raça jogar.— O que faz aqui tão cedo? Por que acampa no mato.. mortal.. Serei o homem mais caçado nesse mundo todo por culpa do meu crime. Era a primeira vez que o ouvia da boca do vampiro. Não sei como vocês não conseguem tomar aquela porcaria de cidade. mas antes que o alcançasse o humano recolheu o jarro. — Você prometeu me transformar num vampiro. Cantarzo estendeu a mão para apanhar o pote. — Aqui está. — Primeiro cumpra suas tarefas. Ainda tremia quando virou-se e encarou o vampiro. Não ouse me abandonar. será nosso round. evitando sua queda. com fogo aceso? Quer ser morto por outro vampiro?! — Não. — Eu consegui! Eu consegui! Trouxe o que me pediu. Cantarzo. cobrar de mim alguma coisa? Não tem medo de mim. mortal. Cantarzo urrou e ergueu o mortal mais uma vez pelo pescoço. Cantarzo não deu ouvidos. Tomou o cuidado de amparar o jarro de vidro. buscando aliviar a dor do estrangulamento sofrido. — Onde está meu tesouro. criatura? 164 . — Não tomamos porque não é nossa hora.. Lúcio? O lacaio arrepiou-se ao ser chamado pelo nome pela criatura. — Eles são tolos. deixando-o no chão. de dentro dele. Será o fim de sua raça. vampiro. Disse que eram. abraçando-o.

ali. Cantarzo. Os olhos vermelhos da criatura pareciam cuspir fogo. Essa parte foi fácil. sabe. Era uma lenda na floresta. era só um velho indefeso. — De manhã. Mas. — Eu temo. Ouvi uma certa explosão. só esperando o que eu ia fazer. Eles só me maltratam. Como você conseguiu incitar um ataque a fortaleza. Cantarzo soltou a vítima. Cantarzo. O sangue do feiticeiro está nas suas mãos agora. vampiro.O homem engoliu a seco. Entrei na casa do Bispo. Isso não importa. a confusão foi armada toda de novo. Cantarzo olhou mais uma vez para o jarro. Sei como as coisas funcionam. Falei que foi a caldeira do refeitório que tinha ido pro saco. quando a casa do velho explodiu.. sem perguntas. porque o velho não tinha muita força. O Bispo. incógnito. segurando o recipiente com as mãos espalmadas. Confio em você.. pobrezinho. Juro por Deus que é o sangue do Bispo. Depois degolei. Como você acha que ia conseguir degolar um bento? Os caras são fogo. Um troféu. Eu acabo com você. eu também maltratei o velho. Uma velha etiqueta de papel. Foi fácil passar pelo muro. Como os homens me maltrataram pra caramba. degolei o velho e enchi o jarro com o sangue. Tinha que tomar o sangue conseguido e descobrir se sua trama teria efeito. sabe. envolvia o vidro. — Fica calmo. Encostou o nariz no jarro. A sentinela do areião me viu. Mais valioso que a cabeça de um bento. Plantei a bomba de aproximação e me mocozei num monte de madeira junto do muro. — comentou ironicamente o assassino. Quando vai me tornar vampiro? — Silêncio. São fortes. Uma bomba com detector de movimento. humano. Mas quero ter certeza de que me tornará um vampiro. 165 . eu me esgueirei do hospital. os soldados deixaram o quartel e tive tempo de visitar o arsenal. Eu temo.. Ergueu o jarro até a altura dos olhos. Sabia que ninguém ia até a casa do velho. com a logomarca da Cica suja de sangue humano. Espetei ele aqui. Ajoelhou-se. Apanhei um explosivo. — Como conseguiu? — Eu fingi que estava desmaiado na beira da estrada quando ouvi as motos. Ele engoliu. como a gente combinou. Con. Não gosto dos homens. — Conta. Estava apavorado na verdade.. Com todo mundo em alerta. mas estava tão atônito com a explosão que só perguntou se eu sabia o que tinha acontecido. querendo ser engraçado e exibindo um sorriso sádico. Quando vi já estava dentro da cidade. Foi mais fácil do que eu esperava. — Se isso for o sangue de um bento. Cantarzo abaixou-se e colocou a jarra no chão. a uma hora dessas já devem estar atrás de mim. Ficou com aquele olhão arregalado. E alguma coisa me dizia que eu saberia a hora em que encontrariam o corpo do Bispo. assim que dispararam o alarme e todo mundo ficou louco e preocupado em se esconder dos vampiros. Conhecia a fama do caçador. Cantarzo era um vampiro terrível. Incrédulo.

Sentiu a cabeça doer. Sorveu o conteúdo todo a grandes goles. Vá para o norte! 166 . O sangue do velho queimava seu órgão. — O que me deste. — Onde ela está? — Eu não vejo tudo. — Para onde. Não era uma vampira. Vá para o norte. Sangue especial. Vá. Lúcio puxou a mão de Cantarzo.. Havia algo de bizarro na voz da criatura. manchando sua pele alva com o vermelho-sangue. Passou a mão pela boca. tentando erguê-lo. Só o cheiro já dizia. — Não morra. mas havia algo diferente ali. Cantarzo aproximou o pote da boca. senhor? — Vá para o norte. senhor. Cantarzo desrosqueou o pote. Um rio. enovelandose no chão. Só conseguirei continuar depois que a bruxa me curar. filho-da-mãe. Uma face. Uma mulher de cabelos brancos e olhos mortos. Ela mostrava alguma coisa. — disse o humano. — Vá para onde a serpente engole a tartaruga. Não era uma vampira. O cheiro do sangue de Bispo infestou suas narinas. sentindo dor. Um aroma adocicado. Mostrava um lugar. Era um cheiro bom. Lúcio permaneceu estático. vampiro duma figa! Me torne um imortal também. O sangue do velho estava em seu estômago.. Inspirou fundo. O lacaio debruçou-se sobre o vampiro e aproximou-se. A mulher abriu a boca. — Primeiro vá e me traga Tereza. — Vá. como se tivesse sangue bombeando nas veias! Como se tivesse um coração pulsando! Abriu os olhos e estendeu as garras para Lúcio. amedrontado. — Onde ela está? Cantarzo urrou de dor e contorceu-se mais uma vez.. sem conseguir levantar-se. Dei o sangue do velho. Urrou. Safra rara. lacaio. senhor? — Traga Tereza.Lúcio não ousou abrir a boca novamente. Infiltrava em seu ser.. Era o primeiro presente do dom maldito. Cantarzo sentiu seu corpo esquentar subitamente. Arremessou o jarro contra o paredão de pedra. articulando os lábios. Baixou o vidro só depois de saborear a última gota. Cantarzo contorceu-se. Apertou os olhos e mais uma vez viu a bruxa. como se cem baionetas cruzassem seu crânio. Eu vejo a serpente comendo a tartaruga. Cantarzo apertou os olhos.. Lúcio. sentindo o cheiro da noite. O sangue do velho penetrando sua carne de vampiro. Uma mulher surgiu diante de seus olhos. assombrado pelo espetáculo diante de seus olhos. Lúcio? — O sangue do velho. fechando os olhos. — Para onde..

tão súbito como começou. Seu corpo estremeceu sobremaneira que Lúcio afastou-se.. assustado. o vampiro estacou. debatendo-se.Cantarzo gritou mais uma vez e entrou em convulsão. O vampiro parecia um peixe jogado para fora d'água. agonizando. morto. um pedaço de carne amaldiçoada sob a luz da lua.. 167 . inerte. De repente.

— Aqueles prédios? — É. Um tiro de rojão espocou. Os soldados de Adriano desciam o morro com cautela. Ao contrário do grupo de Nova Luz. — Era a porra de Campinas. aumentando o número para cinco. Mais dois juntar-se-iam ao comboio. 168 . Lucas viu os muros altos e largos fechando completamente o povoado. uma terra tomada pelos vampiros. Francis apontou para frente. Prédios. Lucas bateu com os calcanhares no tordilho e colocou-se a descer o morro. Carlos e Alicate desciam com mais ímpeto. percebendo a expressão preocupada do bento escolhido. afinal de contas você é o salvador anunciado pelo falecido Bispo. formando uma paisagem conhecida. Conforme a luz do sol ganhava força. sendo os primeiros a atingir o descampado que circundava a fortificação. tirou os olhos dos muros e mirou o horizonte. sentindo um novo arrepio percorrer os braços. Perguntou alto para Vicente: — O que é aquilo? Vicente olhou para o horizonte. confundidas com as árvores apontadas para o céu. bento novo. Cada. Depois de alguns segundos. Lucas desceu calado. Lucas sentiu a pele arrepiar ao lembrar que ali conheceria mais dois dos homens bentos. Quatro milagres. Lucas olhou para Vicente. Cada bairro uma armadilha. Uma infinidade deles erguendo-se no horizonte. Provavelmente. um perigo. anunciando à cidade a aproximação dos soldados. ruminando as palavras do bento. Lucas engoliu a seco.Capítulo 24 Os cavalos chegaram à beira de uma depressão. Ainda era recente na memória do grupo o acidente fatal vivido por Gaspar. prédio é um covil. Lucas demorou um pouco mais olhando para a fortificação de cima do morro. Vicente. A visão do dia raiando e a vida começando a mover-se em Esperança era privilegiada. De noite e de dia. Não sabia se o veterano estava lhe incentivando ou espicaçando. Quatro milagres para libertar a humanidade das garras das criaturas das trevas. — Aquela cidade agora é um túmulo. as sombras. tomavam forma. pois Vicente fazia pouco dele e parecia ter ciúmes. os trinta homens bentos. Os malditos noturnos. Ainda teriam de correr atrás de mais vinte e cinco para juntar as trinta espadas. continuou: — Você não devia se importar com a situação da cidade. para conseguir os profetizados milagres. a segunda alternativa.

As pessoas cochichavam e apontavam para Lucas. desconfortável. quando abatera com a espada que trazia na cintura mais de trezentos vampiros. que cambaleou dois passos para frente. tinha os braços fortes e o peito largo. contrastando com a do abençoado colega. de pele muito negra. O primeiro sorria para a multidão e para Lucas. com o grande crucifixo em relevo ao centro e os belos dragonetes dourados nos ombros prendendo a conhecida capa vermelha. Lucas notou no peito de ambos a medalha de São Jorge. O novo bento foi invadido novamente por aquela sensação de intrusão. Juntos com Vicente foram ao encontro dos bentos Duque e Edgar. Vicente aproximou-se e deu um tapa nas costas de Lucas. um presente do alfaiate a todos os escolhidos pela profecia. contagiado pela emoção. era da estatura de Lucas. portando aparência menos truculenta que os demais guerreiros. Edgar. mantendo o cavalo emparelhado ao do novato. Francis e Vicente ladeavam o novato. Lucas viu dois homens trajando as armaduras torácicas. 169 . Bastou cruzar os portões para que fosse de ouvido em ouvido a boa nova de que o trigésimo bento havia despertado e que. A capa presa aos dragonetes era desbotada e mostrava um reforço na barra. pousando a mão nos ombros de Lucas. Edgar olhou Lucas de cima a baixo e também pousou a mão no ombro do novato por um segundo. Vicente mantinha a cara fechada. Não disse uma palavra. Duque. Sentia-se um farsante. Sorrisos foram pipocando aqui e ali e logo o povo junto à muralha gritava extasiado. Os dois bentos que guardavam Esperança. provavelmente arrastada por quilômetros e quilômetros atrás dos malditos vampiros. empolgado com o momento. de agora em diante. revelando um traço da experiência contida na vida daqueles homens. a vitória contra os malditos seria questão de tempo. Duque tinha a armadura amassada na parte lateral esquerda e a prata riscada. tinha olhos verdes. não se sentia ainda igual aos outros guerreiros. saudando o trigésimo bento. Vicente parou e desceu do cavalo. mas seu sorriso aberto revelava a simpatia pelo novo irmão. Apesar do revelador e impressionante episódio perpetrado em São Vítor. com braços mais finos. Era uma espécie de tradição. Ambos guerreiros abriram um sorriso largo ao pararem os olhos sobre o novo irmão. — É este o homem? — perguntou Duque. Vieram em direção aos bentos e abriram os braços para Francis.Uma parte dos cavaleiros ao pé do morro disparou em cavalgada em direção ao portão de Esperança. Auxiliou Lucas. de pele pálida. A indumentária de Edgar era igualmente "batida". Os cavaleiros foram recebidos com muita curiosidade.

— Ele é metido naquele plano. — Sofreu um daqueles acidentes estranhos. Quem irá guiar nosso caminho de agora em diante? Quem vai nos dizer se estamos indo para o lado certo ou não? Os olhos calmos de Edgar transformaram-se e pararam sobre Vicente. É isso mesmo. Duque olhou mais uma vez para o novo bento. Temos um número reduzido de soldados e armamento. 170 . — resmungou Vicente. Um descanso rápido e partiremos. — Você diz que o Bispo morreu? — É irmão. de Nova Luz e mais três de São Vítor. — Ele não fez nenhuma objeção. É melhor isso não ser divulgado prontamente. — O que tem o Gaspar? — quis saber Edgar. — Esperança ficará desprotegida. Trouxemos dez conosco. — O Adriano. Quantos homens vão precisar? — perguntou Duque. deixe a gente sofrida saborear a chegada de Lucas. Edgar aquiesceu. ainda mais agora com a morte do Bispo. ao que parece. — intrometeu-se Francis. concordando prontamente. — Os soldados que conhecem o plano só estavam buscando uma garantia. Não reclamou em ajudar os bentos? Francis olhou para o líder de Nova Luz. — Viemos para reunir os bentos. caso nosso trigésimo bento nunca aparecesse. Adriano descia do cavalo e confraternizava com os soldados de Esperança. Vamos fazer uma refeição e dar de beber aos cavalos. Não se baseie pelo tamanho e pelos braços murchos deste rapaz. agora sem o sorriso enfeitando a face. o bento de olhos verdes e serenos.— Este magrelo é o nosso salvador. — Como aconteceu? — Não sabemos ao certo. Duque. Até onde sei não tem nada garantido nessa história. — Vocês devem nos acompanhar. estava analisando o novato.. Dizem que vai me passar fácil. — completou Duque. — comentou Francis. — Sabemos que houve uma explosão e que o velho Bispo foi vítima desse acidente. Edgar e Francis riram. — revelou Francis. fácil no placar. se não morrer antes. como se quisesse colocar panos quentes no assunto. Aqueles acidentes que só os soldados que estão metidos nesse raio de plano sofrem. Está estranho. — Nenhum por enquanto. — E estão certos.. Disseram-me no acampamento que é por causa do Gaspar. eu vi o que ele fez em São Vítor. O grupo de Adriano. como reza a profecia. passando a mão por seus bigodes afilados. O bichinho é rápido na espada.

— Deixar o povo saborear a chegada de Lucas. Estava de novo em Esperança. recuperar aquela sensação. um ou outro. mas. que atacava as fatias de pão caseiro e bolo de cenoura com cobertura de chocolate. deitou também um pouco de leite no recipiente. Lucas sentiuse angustiado.. nada daquela sensação de proximidade do mar. tocar o recém-desperto. Os soldados em missão mais os bentos foram levados ao refeitório comunitário de Esperança. Lucas sentou-se ao lado do soldado Carlos. A voz de Carlos.Vicente balançou a cabeça. Ninguém queria ir aos afazeres. Bá! Que bobagem! — resmungou. Nada mais formava em sua cabeça. Todos teriam chance de ver o trigésimo bento. Logo depois ao desjejum.. era o grasnar coletivo de um bando de gaivotas. Estava procurando alguma coisa. Todos diziam palavras de incentivo e. Estava procurando alguma coisa perdida. O perfume não enganava. O que fazia perto do mar. A voz do soldado foi desaparecendo gradativamente e o que chegava em sua cabeça. o sabor do líquido negro era tão agradável quanto o aroma. Sabia disso. uma cidade fortificada próxima a Campinas. Sorveu do líquido morno. ecoava sem sentido em sua cabeça. Aquelas pessoas? Por que iria lutar junto daqueles homens? Por que estava vestindo aquela roupa estranha. Depois de uma xícara. com as risadas de Carlos e Alicate nos ouvidos. antes de ser atirado aos olhos dos aldeões. Vicente estava lhe encarando. Alguma coisa querida. Mexeu mais uma vez o café-com-leite. Lucas fechou os olhos. Uma mulher? Uma paixão? Não sabia.. davam com o burburinho. Talvez a memória se refrescasse. Nada de gaivotas. Estava em um mundo onde lutava contra criaturas da noite. dariam tempo para o recém-desperto fazer a primeira refeição do dia. tomando café-com-leite? Quando teria feito aquilo? Estava angustiado naquela manhã longínqua. 171 . Sozinho e triste. Tão repentinamente quanto havia mergulhado naquela vaga lembrança. Lucas permaneceu no refeitório e recebeu a visita das centenas de aldeões que estavam acotovelando-se na porta do galpão. Tinha era tristeza. voltou ao refeitório. Estava. no fito de ganhar mais lembranças. Para eles.. tornando-se grave e pastosa. chegavam a pedir benção ao herói aguardado. Aquela pontinha de lembrança lhe dizia. O dia na fortificação ganhou ares de feriado. O bento sentiu o encorpado cheiro vindo do bule de café. antes de chegarem ao destino. o brucutu nojento tinha percebido sua súbita mudança de estado de espírito. Queriam apenas ver o trigésimo bento. sem mais nada voltar a mente. trazido pelos ouvidos. estar com Lucas já parecia um milagre realizado. Estava sozinho. Provavelmente. Uma fila começou a formar-se na porta do refeitório e os soldados de Esperança tiveram trabalho para conter os curiosos. Ficou estático por um tempo. como se discordasse. Som de mar. Ondas arrebentando. Lucas piscou os olhos e depois deixou a visão vagar pelo refeitório. cavalgando com uma capa vermelha por terras desconhecidas? Lucas sorveu mais café. gastando conversa com Alicate. Adicionou açúcar e mexeu com uma colherinha. a pedido do soldado líder da cidade. Todos que acordavam para o trabalho.

Não sentia frio. O trigésimo desvirou a couraça. Teria que se habituar com aquela desconfortável vestimenta. com a parte traseira caindo no colchão da cama de solteiro e a frontal sendo amparada pelas mãos de Lucas. Juntou a parte de trás da couraça e colocou-a sobre a capa vermelha. Lucas contou doze camas. Com exceção de Francis. Sugeriu que o novato descansasse o esqueleto junto com os demais enquanto os preparativos para seguir adiante eram providenciados. os outros quatro bentos faziam as capas tremularem ao sabor do vento e da cavalgada. tirando-o do refeitório. Fechou os olhos enquanto refletia. Era um costume. Como podia saber que aquilo era um costume? Tinha dormido trinta anos no subsolo de um hospital. O tilintar dos elos de prata ganharam volume. depois soltaram os fechos nos ombros. só isso. Soltou também a tira que percorria a barra da cota e puxou a peça pela cabeça. olhando demoradamente para a cruz dourada que dividia a peça em quatro partes prateadas. colocando-a a seus pés. descoberto. Estavam agora indo para as fortificações ao norte. O negro conduziu Lucas até os aposentos da soldadesca. encoberto numa manhã quente. Soltou as tiras de couro do punho. deixando Esperança com o reforço dos bentos Edgar e Duque. bento Duque aproximou-se de Lucas. Lucas sentou-se na cama forrada assim que Duque deixou o alojamento. Sempre dormia coberto. debaixo dos protestos dos remanescentes que aguardavam sua vez. pela posição incomoda e pela largura do couro. mesmo assim. Deitou-se e cobriu-se com o cobertor marrom. Providencialmente. Como poderia ter certeza de como é que dormia em seu apartamento? Não poderia. Mas sentia-se muito bem. Lucas pressionou os dragonetes sobre a armadura. Por volta das onze da manhã. liberando sua capa. o grupo de cavaleiros cruzava novamente o portão. Dois soldados que o acompanhavam na jornada já roncavam. As janelas tinham cortinas pesadas. dormindo profundamente. O que aquele símbolo significava? Por que carregavam cruzes de ouro no peito se Bispo havia lhe dito que estavam vivendo no meio de um cochilo de Deus? Lucas passou a luva de couro sobre a cruz. estavam rumando para áreas de 172 . sentia-se mais confortável. tentando não demonstrar o desconforto que sentia. Assim que Lucas deu um jeito no obstáculo sentiu o colete de couro afrouxar. A gola alta tinha deixado um hematoma abaixo do seu queixo e a pele tinha ficado dolorida. liberando as mangas da cota de malha de ferro. Não sabia o que dizer àquela gente. Jogou o colete por cima da cota metálica e por último livrou-se do ridículo saiote verde-escuro. jogado numa maca.Lucas manteve-se calado boa parte da visita. Foi a vez da tira de couro das costas ser desatada. Essa deu um pouco mais de trabalho. Estariam cada vez mais expostos aos vampiros e era improvável não toparem com o exército das criaturas nas próximas noites. Tirou as luvas marrons e apertou os dedos um instante. na altura das clavículas. independente do clima. Seus dedos soltaram as travas laterais do peito de ferro. Símbolos. Enrolou-a. O tórax dividiu-se em dois. Distribuía sorrisos.

Cedo ou tarde. Seriam caçados. 173 . As espadas de prata não descansariam na bainha todo o tempo. seriam detectados.atividade intensa durante as horas de escuridão.

As botas afundaram no mato alto que ladeava o casebre.Capítulo 25 Aproximava-se das cinco da tarde. — Um amontoado de tijolos que o Adriano encontrou. protegidos pelos soldados que iam ao redor. Os olhos pesavam. erguendo um copo de chope. de Caymmi! Lucas viu-se numa mesa. Não temiam tanto um primeiro embate. Vicente e Adriano ressurgiram. O sol. mas a lamentável situação de ter a posição do grupo delatada. tingindo o céu de púrpura. quando suas figuras tinham transformado-se em pontos galopantes. Risadas. Lucas. Quarenta minutos mais tarde. os homens foram desmontando. quando os vampiros organizarse-iam e viriam em número impressionante para cima da tropa. quando o sol já batia na linha do horizonte. Não se lembrava de ter sentido tanto cansaço algum dia em sua vida. seguido por Adriano e Paraná. sentia-se cansado. Os cavalos aceleraram. Tinham encontrado um lugar apropriado para o acampamento noturno. O problema seria a noite seguinte. Tinham que zelar pela realização dos quatro milagres. Os soldados fazendo coro para Sinatra. — O que é isso? — perguntou bento Francis. Bento Vicente conversava com Adriano. Duas moças num microfone. fazendo mais cinco cantar o refrão em conjunto. O campo aberto e de vegetação rasteira permitiu que fossem vistos pelo grupo por um bom tempo. Conversavam sobre o acampamento noturno. acompanhando a dupla pela mata. Paraná tinha improvisado um vassourão com folhas secas e tirava o que conseguia de pó do interior da decrépita construção. Não podiam pôr em risco a missão de juntar os trinta bentos. De um casebre colado a um riacho escapava luz tremeluzente. Olhou 174 . Teriam de encontrar um abrigo. desapareceram na mata que se erguia na frente. Era um karaokê. Lucas sentiu novamente o passado inundando sua mente. Os bentos permaneciam agrupados no centro. avançava rapidamente de encontro ao horizonte. apesar do longo cochilo da manhã. ainda amarelo e vivo. Essa música. Cerca de trezentos metros adiante. disparou na frente do grupo. Vicente.. Os cavalos rodearam o casebre e. aos poucos. O primeiro combate poderia ser vencido. Vicente afastou-se de Carlos e veio ter com Francis. Estavam em território perigoso e um confronto prematuro com as criaturas da noite deveria ser evitado a todo custo. Um bar. Sinatra entoava mais uma canção antiga. ao aproximarem-se.. era Andança. Fechou os olhos. — respondeu Vicente. chegando ao local escolhido com o céu escuro. Afagou a crina de seu tordilho marrom escuro antes de apear.

apanhou o rifle recostado na parede do casebre. — É melhor eu tirar isso aqui fora e ir lavar os pés no riacho.. estava calado. Aquilo não passava de um amontoado de tijolos. cantarolava alguma coisa. pastando tranqüilo. Contudo.com mais atenção a construção. Não quero fogueira chamando a atenção de ninguém. Lucas sorriu. 175 . torcendo por um bom pedaço de carne no bucho antes de pregar os olhos. como de costume. A maioria dos homens estava faminta. prontos a desabar. Comam pães. compunham toda a mobília existente. surgiu do lado de fora. colocando-o na frente do nariz. sem paredes ou qualquer tipo de divisão. colocando-se de pé. tinham que concordar com o bento. Já estavam no que consideravam área de risco. demonstrando surpresa. O casebre era dotado de cômodo único. de dentro. Um vacilo e pronto! Estariam na mira dos vampiros. e destravando a arma. O trigésimo bento. tingidas de negro pelo pó acumulado. — Quem está com fome? — perguntou Paraná. — Não é uma suíte do Luxor. Alicate. Duas mesas grandes. — advertiu o soldado. O rugido vigoroso ecoou mais uma vez na noite. Bento Duque. Pobres animais! Deveriam também estar cansados da corrida constante. ainda no riacho com os cavalos. Quantas estrelas! lira impressionante. viraram para a floresta. Sinatra. igual às paredes. Lucas afagava o pescoço de sua montaria quando ouviu aquilo. parecia aguardar o sopro do lobo mau para desabar sobre os pobres porquinhos. senão vocês não me deixarão dormir aí dentro. mas vai servir de abrigo para o pernoite. ainda parado no batente da porta. Os olhos de Duque. Ouvindo o comentário de Francis. Lucas caminhou em direção ao tordilho. O soldado apanhou as rédeas de dois cavalos e levou-os para perto do riacho. — Vai ser bóia fria. Duque levantou o dedo.. descalço. Surgiram alguns muxoxos depois da ordem de Vicente. Certamente usavam a força da água para a moagem de algum produto agrícola. Na parede mais próxima ao riacho. Velhas teias de areia. também cobertas pelo pó dos anos. Ergueu os olhos para o céu. para que tomassem água fresca. um engenho estendia uma haste de cobre através de um buraco pela parede. Pela primeira vez concordava com o grandalhão mal encarado. vendo uma sombra fraca de sua figura ser projetada para a terra de pedriscos na frente. Lucas adentrou o ambiente iluminado por um lampião a querosene. projetavam sombras fantasmagóricas na parede. Sinatra. enquanto Alicate livrava-se da bota do lado de fora da casa. enquanto Sinatra parou com a música para uma risada. olhou ao redor. Lucas voltou ao batente da porta. O teto. — O que foi isso? — perguntou Lucas ao bento negro. pedindo silêncio. mais podero SO e mais próximo dessa vez. Olhou para o seu cavalo no meio do mato alto. com sua couraça surrada por batalhas.

Escorem bem a porta e fiquem de ouvidos atentos. — revelou bento Duque. um vulto saltou do meio das árvores vindo para o leito do riacho. Quando o grupo descongelou. Estava correndo. — Zacarias e Marcel pegam o primeiro turno. Lucas recolheu a espada. escorreria para a terra dos sonhos. — Vamos descansar o esqueleto. Assim que deitasse. em voz baixa.— Uma onça. — Pelo menos a bóia de amanhã tá garantida. O bicho alcançou o "soldado-cantor". depois do riacho. Estava nas árvores. Um segundo disparo do rifle de Alicate fez a criatura tombar. — sugeriu Alicate. Lucas. Cinco da manhã: cavalgar. Alicate. com mira pronta. Uma capivara. — Onça. para trás do casebre. — orientou o líder Adriano.. Os homens riram. — rebateu Duque. Vicente também deixou o casebre c foi para o lado de Sinatra. Amanhã temos um dia cheio. 176 . correndo na direção de Sinatra. Os homens voltaram-se para o riacho. macacada.. — Vocês nunca descansam. O bento grandalhão desembainhou sua espada. com os olhos varrendo o escuro. Francis negou com a cabeça. derrubando-o na margem do rio. olhou para os soldados por um momento e esgueirou sua pelagem pintada de volta à escuridão. — Onça é o menor dos nossos problemas. Levantou-se mais uma vez. não? Duque sorriu. junto ao riacho. próximo de Lucas. voltando a correr. — Sshhh! — repetiu Duque. disparou. — E se acendermos uma fogueira? Ela não vai chegar perto da gente com uma fogueira acesa. Pássaros despertos pela fera voavam em disparada. E das grandes. Alicate avançou até a capivara abatida e encostou o cano do fuzil no animal. Nove da manhã: cavalgar. Repentinamente. O belíssimo animal parou na beira da mata. Podiam ouvir a grande onça movimentar-se na mata. Depois revezam com Alicate e Sinatra. enchendo a noite de barulhos. A inesperada visita tinha espantado o sono. exibindo sua dentição perfeita. Lucas tirou a mão do cavalo e desembainhou a espada. Sete da manhã: cavalgar. — É o que tem de monte por aqui. Estava morto. desanuviando um pouco. cofiando o cavanhaque. — lembrou Vicente. Ouviram o rugido da fera mais uma vez. mas o cansaço ainda pesava sobre os ombros. uma onça-pintada imensa surgiu das árvores. Zacarias e Joel surgiram na porta do casebre. — murmurou Lucas. trazendo suas armas prontas para disparar. Para surpresa de todos.

A criatura flexionou o tronco e farejou no ar. uma tribo antiga e primitiva. Criaturas leves. sentindo conforto. Um pano vermelho sujo e desbotado amarrado ao redor de um tronco. Eram tantos. Como uma tribo silvestre. Som de goteiras. Lucas tateou as paredes de pedra. onde havia adormecido. Respiração entrecortada. balbuciava algo ininteligível. Pedras negras. o monstro. Achou um corredor entre os corpos. Ficou imóvel. Em tantos galhos. Um vento suave farfalhando os galhos. Aqueles seres. vindo de mais adiante. Lucas passou a enxergar o chão. — Onde você está? — perguntou Lucas. O vampiro em cima da pedra ergueu o tronco e urrou. Claridade. Lucas ergueu os olhos. Não estava no casebre. Pisou sobre corpos para aproximar-se do homem que lhe chamava. Gotas desprendendo do teto. sentia-se petrificado de medo. Estava cercado por corpos empilhados. Lucas. Limbo. Atingiu a boca da caverna. Criaturas saltando nos galhos. Saltou do topo da árvore e bateu em cima da pedra ao lado da qual estava caído. por alguma razão. escondendo seus olhos de brasas ardentes na boca da caverna. de modo selvagem. Musgo nas reentrâncias. Uma claridade fraca. Caninos longos. um novo canal de pedras. Arrancaria a arma da bainha. Caminhou por todo o corredor. que transitavam com graça. O último deles. Grunhiu. Lucas olhou fixamente para a horrenda criatura. Era por isso que tinha aberto os olhos. A pele do trigésimo bento arrepiou-se. Lucas. Alguém chamando seu nome mais uma vez. Lucas ouviu a voz repetindo. Um "mortovivo". o que estava 177 . Tinha os lábios ressequidos e olhos vermelhos. despertando de fato. Lucas desequilibrou-se e caiu junto a uma pedra. cadavéricos. Estava amanhecendo. Os galhos das árvores agitaram-se mais ariscos. A floresta plena de árvores. Por fim.Lucas acordou suavemente. Olhos afundados nas órbitas. Abriu os olhos tentando enxergar na escuridão. Um sussurro. Lucas arregalou os olhos. mas. Olhou ao redor. Tocou o peito. Um terreno acidentado. Corpos ressequidos. A voz chamando. sentindo a cruz em relevo. As criaturas saltaram das árvores. Em vez de seu nome. preferiam caminhar sobre as árvores do que sobre o chão. Procurou pela voz. quase seco. Um ser cadavérico estendeu o braço em sua direção. Eram vampiros! Posou a mão na espada. feitos para rasgar a carne da presa. Eucaliptos ao redor. O chamado tornou a acontecer. Seres leves como plumas. como se tivesse chovido muito sobre o teto do casebre. Um ar frio percorrendo o corredor. o chão liso e viscoso. Folhas caindo. Sede de sangue. O coração disparou. Escalou três metros para abandonar o buraco. Criaturas. Estava chegando ao final. Uma sombra ao seu lado. Mais pedras. O bento levantou-se. — Venha. Sentouse sobressaltado. Alguém chamando. Talvez pedisse ajuda. O monstro tinha a pela branca e as veias azuis destacavam-se de maneira gritante. As pedras úmidas. Uma delas aproximou-se. que. Ouvia gotas caindo do teto e estalando nas poças.

Comer minha consciência. filho. — Tá vendo. — Você está morto! — espantou-se o bento. Éa guerra. também deu seu salto e desapareceu pela boca da toca. 178 . Fui vítima de uma cilada. Bispo afastou-se antes de ser tocado. não. Lucas sobressaltou-se e virou. tua energia é tão poderosa que tu tá até aqui comigo. só tu. O corpo translúcido do velho Bispo estava na sua frente! — Bispo! — exclamou. Lucas. — São nossos irmãos. Isso não te diz alguma coisa? — Acho que estou sonhando. Lucas abaixou a cabeça. — revelou o fantasma. com olhos serenos. Lucas levantou-se. Bispo. bichinho. menino. — Você. De uma trama maldita. Não acreditando no que via. O coração ainda disparado.. — disse a voz. com voz calma e baixa. Lucas andou novamente ao encontro do fantasma. — Não sei por quanto tempo estarei por aqui. confuso. — Rios de Sangue. deve ser isso.. Agora que tu tá aqui. isso vai ter um fim. tenho certeza de que isso não vai durar. Mas. — Ainda tá com medo? Mesmo depois de ter dado conta de uma legião do capeta nos muros de São Vítor? Ôche! Deixa de ser besta. Viu aquela gente seca lá embaixo? Lucas aquiesceu. Escondem-nos para servirem-se de sangue. Tá tentando me digerir. No meio das árvores. fitou longamente o bento. — murmurou Lucas aproximando-se. A mão no cabo da espada. cabra. Lucas. Tudo arde e a luta é constante.. E são nesses buracos que escondem nossos irmãos. Lucas engoliu a seco.. A boca da caverna morta. — Eu estou com medo. Caminhou ao encontro da visão. São o que os malditos sanguinolentos chamam de "Rios de Sangue". Lucas estava com os olhos arregalados. Lucas. de noite eles varrem a escuridão para prender mais gente. O fantasma andou entre as árvores. De dia a gente roda para salvar o povo adormecido. Ninguém mais tá. Tua força. Caminhou em direção à boca da caverna e apontou para o buraco. O fantasma. O corpo espectral abandonou sua posição também chegando mais perto do interlocutor. a imagem de um homem. bichinho? E aqui que os cabras se escondem. — É aí que eles moram. A floresta voltou ao silêncio e as árvores ao movimento calmo proporcionado pela brisa suave. — Meu corpo tá morto.cravado no topo da rocha feito uma gárgula maldita.

Vocês têm que correr. Olhou para onde o velho apontava. Vai melar.. Um fio de luminosidade entrava por frestas nas telhas de barro. O inferno. O mundo dos sonhos rege o mundo dos vivos. bento Lucas. tem que despertar aquela tua teimosia. — Vim para te dar um aviso. estampado o medo. — Nós vamos conseguir juntar os trinta bentos? Bispo não respondeu. Bispo sorriu. Tome cuidado. Lucas. a boca movia-se rapidamente. O Lucas que procura sem cansar. — Lucas! — um grito. O fantasma apontou na direção de um eucalipto. No semblante de Bispo. Põe gana nesses homens. — repetiu o velho. Bispo? O fantasma falava. filho. Não sei. O pano vermelho ao redor do tronco. filho. — Você está andando. Lembra da teimosia? Obstinação. deixando o ar leve. — Tu tem que tomar cuidado. Só agora o bento notava que o velho "andava". Bispo? Diga.. vai começar a ver o que é bom pra ele. É desse Lucas que teus bentos precisam. — Tudo que é sonhado é colocado em prática. E eles também vão aprender a lutar. Lucas. têm que ter pressa. — Aqui eu continuo vendo coisas. — Você viu? Você viu os milagres? — perguntou Lucas. É um guerreiro danado de bom. — Eu te vejo lutando contra o Demônio. — Aqui eu ando. menino. Um vento forte farfalhando as folhas das árvores. — O que você viu. Lucas sentiu um embrulho no estômago. vai começar a ver o que eu vejo também. Lucas. filho. — O que são os milagres.. 179 . menino. Tu é o escolhido. Fogo e fumaça. Não é bom isso? Lucas aquiesceu. impaciência. bento. — O que vai acontecer quando juntarmos os trinta bentos? O fantasma do Bispo mudou o rosto. Lucas engoliu a seco.. Vai querer estragar nossa vitória. Bento Duque o balançava pelos ombros. chegando a escurecer de seriedade. — Tu vai lutar contra a fera. E se apressa. interrompendo o espectro. Não sei até quando. cabra da peste! Mas pra juntar os trinta. Vai melar. Minha essência escorreu pela garganta de um maldito e eu temo que. Mas. Lucas abriu os olhos fitando as teias e as ripas do teto.— O mundo dos sonhos rege o mundo dos vivos. Tu vai pegar a pior parte do trabalho. mas som nenhum saía. O velho bispo andou mais um pouco. O bento notou que a expressão do velho mudou. afoito. Lucas caminhou até a boca da caverna. se ele sobreviver. Os milagres.

Passou a mão na cabeça. prendendo-a ao cordão de couro. Bento Duque. Lucas. calado. Com o velho Bispo.— Sono pesado. — Ninguém tem sonhos. Lucas olhou ao redor. — Eu tive um sonho. Os malditos podem atacar a qualquer instante. Não pode ser assim. quieto. agitando sua capa vermelha e caminhando até desaparecer pela porta iluminada. Ninguém sonha desde o dia que os malditos infestaram a terra. estacou e virou-se. — Teve o quê? — Tive um sonho. Vamos partir. 180 . Duque parou de frente para Lucas. Era o último dentro do cômodo. apanhou sua espada embainhada. Lucas levantou-se. — Coloque sua capa. Lucas. que caminhava para fora. Bento Duque virou-se. irmão.

Onde houvesse fumaça. Afinal tinha ingerido sangue. Lúcio raspou as unhas na barba. agora o maldito estava daquele jeito. talvez conseguisse comer alguma coisa. contendo o corpo de Cantarzo. Para baixo. Não sabia o que fazer. Mas sabia que eles não caíam mortos depois de tomar o líquido da vida. Tomaria essa decisão depois. Hibernando. Por mais quanto tempo o vampiro permaneceria daquele jeito? Acordaria algum dia? Estaria morto? Não podia ir até algum covil devolvê-lo. Depois colocaria o coco para pensar. Começou a descer o morro. mas. Andou entre as árvores e chegou na beira do barranco. Continuavam feito cães urbanos atrás da caça sangrenta. 181 . puxou as velhas raízes para cima e cobriu tudo com uma boa quantidade de folhas velhas. O sol vinha chegando e nada do maldito acordar. Onde encontraria a cobra engolindo a tartaruga? Teria de abandoná-lo à própria sorte. assim evitaria o sol direto sob o caixão. limpando o suor. uma serpente e uma tartaruga. Sol nenhum atingiria a caixa. Seria morto. Apanhou a casca de árvore e cavou mais entre as raízes. Tinha conseguido o caixão e a corda para puxar o maldito. se encontrasse a casa de algum banido. alargando a reentrância. Demorou para recuperar o fôlego da exaustiva tarefa. Tinha que encontrar uma bruxa. Apesar da lama fazer o caixote deslizar mais fácil. Não sabia se voltaria. Teria de esconder o corpo inanimado de Cantarzo ou carregá-lo consigo. ainda assim o corpo do noturno era pesado. Não ia conseguir arrastá-lo por muito tempo. mais mata. Depois de suar mais de meia hora na tarefa de tirar o barro úmido debaixo do raizame da velha árvore. Demônios. mais mata. Para tornar o esconderijo ainda melhor. Nunca tinha visto antes um vampiro alimentando-se de perto. provavelmente haveria comida. Iria por baixo das copas mais frondosas. Sentou-se em uma pedra para descansar mais e aproveitar para memorizar as particularidades da paisagem. Arrastou a caixa de madeira. Não sabia o que fazer. Sangue mais especial que aquele no meio dos humanos não haveria. Para cima. Sabia disso. Cantarzo era pesado. E se não estivesse morto? Poderia estar em uma espécie de transe. Por outro lado. adornando todo o pé do barranco. Tinha feito o que o vampiro havia pedido em troca da imortalidade. o maldito não tinha tomado sangue qualquer. Fora o sangue de Bispo.Capítulo 26 Lúcio olhou para o caixote de madeira. Algumas espécies de bromélias jaziam logo abaixo. Não conhecia muito bem aquela região. Estava com fome. Não tinha garantias de que voltaria a ver Cantarzo andando pela mata novamente. apagado. para o fundo e começou a recobrir com o barro revolvido. Lúcio passou o braço sujo de barro debaixo do nariz. Queria um pedaço de pão. Lúcio passou o braço pela testa. Teria que tomar cuidado para não perder o vampiro. Iria procurar água e fumaça. já tinha espaço suficiente. Curioso algum descobriria o esconderijo.

A luz do sol inundou sua cabeça. As pessoas estavam mudadas. Daquela noite assombrada em diante. Os homens falavam em esperança e salvação. mas aquelas escutadas dentro da casa do velho. Via uma valise. Entendia cada vez mais as palavras que Bispo havia lhe dito. Nem uma vez ouvira alguém falar de dinheiro. agora. Pássaros em abundância trocavam de lado nos arvoredos que ladeavam a estrada. Sua casa. Uma aflição crescente. Lucas suspirou. Mais três bentos se juntarão à nossa cruzada. Ninguém lhe havia pedido dinheiro algum. Lucas. — Vamos cortar caminho por ali. Abriu os olhos. Todos colocando em primeiro lugar o bem-estar do grupo e não a cobiça privada. arrancando Lucas de suas divagações. Bispo tinha dito que o dia fatídico. — disse bento Francis. varrendo para baixo do tapete da consciência seu fiapo de memória. Bem diferente do mundo que havia conhecido. O deus dinheiro não era mais importante. Os cascos dos cavalos produziam um som oco contra o asfalto. Os grandes bancos. Apertou os olhos. que havia separado os vivos dos mortos. Uma valise cheia de notas. Lucas sorriu com seus pensamentos recentes. — Menos três bentos até os milagres. Todos sob o mesmo sol. ocupados pelos vampiros amaldiçoados pela escuridão e sedentos de sangue. Uma pilha de contas em sua casa. O mundo aglomerado de gente que se trombava na rua sem acenar a cabeça ou dar um bom dia. O sorriso sumiu. espada. sob o mesmo céu. não no pesadelo bizarro da noite passada. Tinha tido diante de si muito dinheiro. Não conseguia se lembrar de amigos ou parentes. A maior parte do dia tinham cavalgado sobre a pista negra. Seu passado perdido. Que fosse o homem com quem Bispo sonhara. 182 . Dinheiro.Capítulo 27 — Amanhã. Aquele dinheiro representava vida. Lucas olhou para o céu azul e límpido. — disse Vicente. O libertador que bateria os malditos vampiros para os confins do inferno e baniria o medo da noite. deveriam agora ser ninho dos malditos. Falavam em irmandade e união. Dinheiro. — adicionou Edgar. o mundo cinza de aparência e atitude. Proteger uns aos outros. Não cansava de notar a exuberância da natureza. restavam dois sentimentos a que os sobreviventes agarravam-se: o medo e a união. Viver uns com os outros. Sorriu novamente rememorando os últimos dias. a uma hora dessas. Pediam só que fosse de fato o salvador. cavalo. Recebera roupas de guerreiro. Dinheiro. os grandes ícones do homem iam ao chão e. O fim do velho mundo fora necessário para lembrar aos homens da real missão dos irmãos na Terra. Muito dinheiro. O libertador dos humanos. Havia sido um divisor de águas. Uma lembrança vaga. com suas sedes erigidas e encravadas nos corações das metrópoles. havia sido um dia de benção e não de tragédia. estaremos cruzando os portões de São Pedro.

Os banidos viviam nas matas e usavam desses expedientes para gozarem de bom relacionamento com os monstros da noite e terem seus pescoços poupados. Lembrou-se dos mulos. quando chegar a noite os malditos estarão em cima da gente. Adriano aproximou-se com um volume nas mãos. sim. Eles poderiam criar encrenca durante as horas de sol. Outros cercavam os guerreiros armados. O caminho escurecia na medida que as árvores intensificavam-se. As peças eram grandes capas de cor marrom com capuzes na extremidade. os escravos dos vampiros. — Conhecem. O som seco dos cascos de cavalo ia dando lugar ao barulho da lama. Conhecem. 183 . Evitamos armadilhas por parte dos malditos noturnos. — Mas a essa hora. Alguns dos soldados iam na frente. Bentos são perigosos. ainda tem sol. Lucas. — Eles devem conhecer a profecia. Os cinco bentos puseram as capas e mais três soldados. compactuam com os malditos. Assim os noturnos sabem onde guardamos os adormecidos. Lucas apanhou uma peça de pano da mão do soldado. serão picados e moídos por nossas espadas de prata. Por que atacam tanto São Vítor? Porque sabem que lá se concentra o maior número de adormecidos de todo o Brasil. Olhou para o caminho para o qual se dirigiam. — Mas os mulos podem.. mas são peças importantes no jogo dos noturnos. Lucas olhou para Francis. O bento mais antigo suspirou fundo.O bento olhou para onde o colega apontava. as pessoas más que são colocadas para fora das fortificações. Eles não podem nos atacar no sol. Lucas fez o mesmo. provavelmente. dão com a língua nos dentes. — Se algum mulo vê nossas capas vermelhas e armaduras reluzentes. Selam amizade. Um caminho largo. — Por que não descobrem onde ficam esses mulos e não acabam com eles? Francis puxou a rédea do cavalo e parou o animal. — Assim não damos tanto na vista que somos bentos. Sentiu um mal-estar. — argumentou Lucas. aberto na floresta. Esses banidos. Estamos em terreno perigoso. — Vista isto. mesmo sabendo que.. Viu Adriano distribuir peças iguais aos outros. averiguando a passagem. Poderiam detectar um grupo de soldados em missão e delatar a posição ao inimigo noturno assim que o sol baixasse. Valemos muita coisa para esses desgraçados pularem feito loucos em cima do nosso couro. Vendem informações. com chão de barro úmido.

esses banidos são uns coitados. aliviando o calor proporcionado pela farda de guerreiro. — É estranho. Os cavaleiros balançando sobre as selas. Dá um embrulho no estômago. e até mesmo seus protetores da noite acabam se virando contra eles. Continuou calado. acompanhando o movimento dorsal da montaria. não é? Edgar concordou com a cabeça. E vamos orar também. Dos malditos vampiros empoleirados nas árvores feitos pássaros do inferno. 184 . — Já. a atividade dos noturnos é constante. — Que nem você. O grupo de cavaleiros afastava-se. tão terrível. abriu a boca: — E aí? Como é ser o tal? Lucas sorriu. lá.. Bento Edgar aproximou-se com sua montaria. que fizemos um voto de não matar os irmãos.. — Como é que você chegou aqui? — quis saber Lucas. Lucas.. não matamos gente. Uma brisa constante refrescava a pele. cerca de vinte metros acima de suas cabeças. alertando aos incautos: fiquem longe de mim. As copas. altíssimas.. Edgar levantou o rosto. Cavalgaram vagarosamente por cerca de uma hora. Apesar do ar sombrio que sentira a princípio. A pele branca com as veias negras e azuladas realçando a aparência demoníaca e asquerosa. já vai escurecer. Se descobrem um grupo de cinco bentos na mata.— Não matamos gente. — Viver fora da fortificação já é castigo suficiente. juntarão tantos noturnos quantos for possível para arrancar nosso couro. Lucas. São vítimas de suas atitudes. soltando ar pelo nariz. pois estamos em terreno inimigo. Apenas Alicate aguardava a dupla que conversava. — Mas se eles prejudicam tanto a missão. olhando para as árvores ao redor. mesmo os maus.. Essa vida já é tão desgraçada. Lucas. exalando pelos poros uma névoa de perigo. lembrando-se da visão em seu pesadelo. Quando querem sangue só buscam um corpo quente e de coração pulsante. peneiravam os raios de sol. Mesmo dando vontade. o caminho revelara-se calmo e harmonioso ao bento novato.. permanecendo ao lado de Lucas. Temos que percorrer muito chão até São Pedro. Lucas arrepiou-se. Esquecem de pactos e de relacionamento. Um dia acordei. Fui colocado numa sala e fiquei esperando o que ia acontecer. Depois de cinco minutos ao lado do trigésimo. A voz dos soldados conversando na frente e o barulho dos cavalos passando pelo chão úmido. Os noturnos são bestas sem escrúpulos e sem coração. que vivem fora dos muros. — Vamos andando. — Sei. Mesmo com os pactos que tecem com os malditos noturnos. Nessa região.

— . — O que foi que aconteceu? Eu não lembro bem. — repetiu Lucas. — Lembra do caso do asilo? Passou no Fantástico. Continuaram em silêncio mais um instante.. preferia ficar desmemoriado.. — Lucas puxou a rédea. — Sei.. Carros de TV — Não tenho certeza. As praias mais lindas do litoral paulista. Às vezes. Um rapaz conhecido. Eu era policial rodoviário. mas voltam. acordei como salvador do mundo. — É.. sem explicação.. mas que deu certo. — É o que eu ia falar. pedindo aos empresários de Ubatuba e região. — Teve uma época que aquele asilo só funcionava na base de voluntários. Um flash. Eu comecei uma campanha. — Não acredito! — "Desespero que Salva". — O caso Roberto. lembra? — Lembro. A Globo deu o maior apoio pra nossa causa. Lembra? Lucas apertou os olhos. Ela tirava a filha de uma multidão de famintos...— Dormi como corretor de seguros. Era eu. — Ubatuba? — É.. daí a prefeitura cortou a verba que sustentava o pouco que restara da casa de velhinhos. Assim o peito não ia doer tanto na hora de lembrar da minha preta e dos meus dois bacuris. Já lembrei de tudo. Morava em Ubatuba e trabalhava em Caraguatatuba.. pedindo uma contribuição mensal 185 ... O policial maluco. Edgar também parou seu animal. Nem do meu nome eu lembrava. o louco do asilo. Faz tempo.. — Eu era policial rodoviário. Edgar abriu um sorriso largo. — concordou Lucas. Olhando para o lado. Não sei se isso é bom. — Tá difícil. — Ubatuba. lembra? — Ubatuba. demora pras coisas voltarem pra cachola. às vezes. mas nas horas vagas eu dava uma de professor de Educação Física voluntário no maior asilo de Ubatuba. Baixou a cabeça. A ação "Desespero que Salva".. Lucas riu da expressão. — E você? Lembra da sua vida antes de adormecer? — Ah. Foi esse o slogan idiota que eu bolei. A foto de um rapaz. Lucas tinha a expressão estranha. de uma hora pra outra. O som das ondas. Tinha um folheto na mão. fazendo o cavalo parar..acho que eu estava lá.. — Eu lembrei tudo.. ouvindo os gritos desesperados de uma mulher.

Faxineiro. tinham cortado tudo.. De tanto que eu enchi o saco no fórum. Juntei eu e mais três malucos e ficamos sentados na frente do asilo. eu já não tava vendo mais nada. tava no asilo. Mas só assim pra esses cornos aparecerem. Tinha nego que trazia bolacha pra gente. mas a gente ia levando. No nono dia a coisa engrossou. — Putz. passamos a quatorze. Cento e cinqüenta velhinhos. — E ninguém tava cagando pros coitados. mas no terceiro dia começou a acontecer. consegui duas semanas de prazo. Trazia frango. Os coitados estavam morrendo à míngua. Começamos uma greve de fome. Quando chegou o dia de tirar os velhinhos do asilo. Não deixei ninguém fraquejar até onde agüentei.para manter o asilo. — Chegou uma ordem de despejo. em uma semana éramos cento e cinqüenta grevistas do desespero. Acabou com o ânimo de todo mundo. quem disse que tiveram coragem de tirar a gente da frente? Com a televisão lá. Em dois dias tava todo mundo sabendo e indo lá pra frente do asilo ver os quatro malucos que não comiam nada. Não deixamos passar disso pois queríamos que cada um de nós representasse um velhinho. não tinha água. eu simplesmente não conseguia largar aquela gente ali. mas a gente tava unido. Tinha muito nego que ajudava. todo mundo querendo mostrar os cento e cinqüenta malucos. Tinha médico voluntário que vinha atender a gente. Não dava pra eu colocar cento e cinqüenta velhinhos dentro de um apê de dois dormitórios. que seriam postos no olho da rua. não passou um. Não tinha luz. — Nossa. mas chegou uma hora que não dava mais. Do sétimo dia em diante.. vinha hidratar e tudo o mais. porque quando eu não tava no trabalho. Graças a Deus mais voluntários apareceram. Até o dia da merda maior. foi demais. — O que você fez? — O que eu fiz? Comecei com a ação "Desespero que Salva". — E deu certo? — Não era pra dar. que nem eu. Virei enfermeiro na raça.. tinha um monte de gente lá que tinha sido pai e mãe de família. Sabe. o SBT. Lucas acompanhou o bento. mas isso não ia adiantar. a Rede TV. nem tinha mais sentido eu continuar tentando dar aulas de educação física. Veio o Fantástico. Minha mulher já tava querendo me largar. De quatro. Um monte de grevistas foi 186 . Mandamos avisar jornais e rádios da região. Eu sei lá. quatro filhos e nenhum filho-da-puta aparecia pra ajudar. fazendo-o voltar a andar. Não dava pra fazer milagres. Mais dez pessoas se juntaram a mim. Cara. só na base da água. mas tudo gente pobre. Você não pirou? O que aconteceu? — Se eu não pirei? Acho que não pirei porque Deus mandou um monte de anjos pra segurar minha cabeça. tinha criado três.. — Que merda? Bento Edgar deu um toque de calcanhar na barriga de seu cavalo.

187 . Mas tive que fazer o maior auê. Os soldados que iam na frente já tinham descido e buscavam amarrar os animais próximos a um córrego de água limpa e fundo de pedras. Uma construtora. Contrataram médico e enfermeira para os velhinhos de Ubatuba. As pernas e a virilha já não incomodavam tanto e não se sentia tão desengonçado sentado ao dorso do cavalo. como tantas outras que haviam cruzado. Dizia que aquilo não podia e que eu sozinho não podia nada. As criaturas sedentas baixavam elegantemente a cabeça. Uma bela noite eu dormi e alakazan! Aqui estou eu. você falando. Lucas viu bento Vicente e bento Duque apeando os cavalos. descontraindo os parceiros de viagem. Continuaram atrás do grupo. Encontrou neles algo diferente. sem saber o porquê. — Acho que agora. Bento Lucas parou o animal.. Eu não.. — O que foi? Que cara é essa? Lucas encarou o soldado por um breve segundo. — Tá vendo? Tinha gente boa ainda no mundo. Por que aquela sensação crescente de desconforto? Aquele pressentimento de perigo? Sinatra encheu a floresta com sua voz aveludada. Lucas. no entanto o bento já havia se acostumado ao transporte. O soldado Carlos aproximou-se para auxiliá-lo a descer do tordilho. — Não sei quanto tempo passou. Dizia que morria se ninguém desse um jeito na situação do asilo. — Tinha. Todos nós temos essa teimosia. Cara! Lucas sorriu. eu lembro. — Que história! Você é um cara bastante obstinado. Pagaram as contas atrasadas. Carlos notou os olhos de Lucas. deixando a crina encobrir-lhes parcialmente enquanto bebiam água. Depois de completar a curva. O novato suspirou mais uma vez. as coisas voltaram ao normal. como saindo de um transe. Lucas. pagaram AS contas nos hospitais dos grevistas. Voltou a olhar para o caminho de barro na frente. é só encontrar a chave. de Cazuza. Uma floresta de eucalipto. O bento olhava para todos os lados. A luz no céu minguando. Um semblante preocupado. cantando Exagerado. inquieto. — Legal. — Depois de um tempo. igualmente aberto por baixo da copa das altas árvores. sentiu outro calafrio. Teve uma empresa que assumiu o asilo. Até ganhei uma medalha do comando por isso. Estava perturbado. Não deixava. — Todos nós somos. descendo rapidamente e sem embaraço algum. essa gana por dentro.levado para os hospitais. não é? — É. Eu voltei a ser um simples guarda de estrada.

Carlos olhou em volta também. Bento Duque torceu a capa marrom com a ajuda de Alicate. Tinha pisado em falso ao aproximar-se do córrego e uma pequena pedra tinha rolado. arrancou a capa marrom. Pode deixar. Sinatra voltava a cantar. Quando livrou-se do apetrecho. Duque ainda ria com alguns dos soldados. Os amigos que escarneciam não tinham culpa de seu acidente. — Andamos demais. O grandalhão Paraná acendia fogo para esquentar água para um café. Carlos correu até o meio dos colegas. também sorriu. irritado. Somos cinco bentos. Com certeza encontraremos abrigo adiante. não gritem meu nome. A quentura da rocha talvez tirasse a umidade do tecido. Não vou ajudar nenhum de vocês. balançando a cabeça. Vicente olhava para o morro na frente. — Na escuridão? Sem chance. Marcel auxiliava e já tinha estendido uma toalha no chão onde havia deposto duas broas salpicadas de farinha. — Vai chegar o dia de vocês. Sei. vindo atrás. Sentou-se junto com os soldados para descansar um pouco da jornada no lombo do cavalo. Francis. Ainda estava junto do bento novo quando ouviram um barulho e em seguida risadas. Faltava pouco para o pôr-do-sol. Duque. — Quando tiverem um vampiro nas suas costas. Vamos encontrar um abrigo. onde a hóstia rubra começava a tocar. Lucas. Uma sensação de perigo. Lucas. O sol já vai embora e não encontramos um esconderijo decente para esta noite. Ao que parecia procuraria um esconderijo por conta própria. Estendeu a capa do capuz em cima de uma pedra. apertando as luvas. levando seu pé e o resto do corpo ao fundo da água. empapada pela água. Infelizmente. — Não assuste os homens. Vicente resmungou qualquer coisa e começou a andar sozinho pela estrada de barro. — respondeu o soldado. Os homens estavam na beira do regato. Vicente. Onde já se viu? Rirem de um pobre bento que cai no rio! Os soldados riram ainda mais alto e fizeram também suas graças.— Nada. — disse. Uma refeição ligeira não cairia mal. irmão. — brincava o negro grandalhão. Os outros bentos e os soldados faziam gozação. É só uma sensação esquisita. Os cavalos estão mortos. Vampiro nenhum vai se meter a besta conosco. — Vamos descansar mais um segundo. ajudando a distrair os rapazes. Conhecemos pouco estes cantos. Os cavalos relincharam e ergueram as patas. viu quando bento Duque levantou-se da água. — Huum. depois das risadas junto ao riacho. 188 . livrou-se daquele aperto no peito. Carlos. Só não estou me sentindo bem. faltava pouco para o sol esconder-se no horizonte.

Cada vez mais convencia-se que eram pessoas do bem. Vicente vinha pela estradinha de barro. batendose contra o perigo. O disco vermelho já tinha caído para trás do morro. Tentava descobrir que tipo de pessoa existia por trás de cada rosto. Lucas apontou para as árvores. trazendo nela as marcas de combates antigos. Olhou para as árvores. também torceu bem o manto. Com a ajuda de outro soldado. atabalhoado. Não que o sofrimento as enobrecesse. Lucas mais ouvia do que falava. Seu coração batendo tão rápido e tão forte que poderia arrancar a armadura. Olhou em volta. quando se voltou mais uma vez para o horizonte. tingindo o céu de tons vermelhos e violáceos. O pão macio. Analisava também o jeito de cada soldado. Baixou os olhos vendo o caminho abaixo das copas das árvores. mais segurança. O bento sorria ao aproximar-se. Caiu da pedra em que se encontrava sentado. Vinte minutos passaram-se e todos sorviam em pequenos goles o café fumegante e saboroso preparado pelo cuca Paraná. Derrubou a caneca e sentiu o coração disparar. confortava o estômago. enrodilhando o tronco de um eucalipto. Estavam na estrada porque queriam trazer mais conforto para os irmãos. Olhou para o bento. Descobrir palavras e integrar-se ao novo vocabulário. Retirou a capa e depois os coturnos. Não estava estendida sobre pedra alguma. Abriu os braços ainda desequilibrado. Traziam cicatrizes nos braços e faces porque estavam na estrada. Olharam na direção que o dedo indicava. sorvendo mais café quente. Mas sofriam porque queriam sofrer. 189 . A peça também estava molhada e ficava colada nas costas de sua armadura e também nas batatas das pernas. Risadas dos soldados. A caneca na boca. Lucas estava descontraído. — Uhhh. à beira do fogo.Duque pressionou os dragonetes que vinham nos ombros e liberou a capa vermelha. Esses valores pareciam a Lucas a moeda corrente do mundo novo. Ganhavam irmandade e companheirismo. apanhado em Esperança. Ganhavam gratidão. Esperavam encontrar um monstro empoleirado na árvore. com a caneca de café quente na boca. Procurou pela capa. causando desconforto. Livrar o mundo daquelas pestes da escuridão. Engasgou-se com o líquido fumegante. a capa marrom de bento Duque parecia quase seca. — Encontrei uma gruta segura! Lucas olhou para o córrego. onde as sombras da noite já tomavam seu lugar. Sobre uma grande pedra. como Edgar mostrara-se. caminhando somente com a elegante armadura torácica de prata. mas tudo que viam era a capa vermelha do bento Duque amarrada no alto. Bento Francis o encarou com seriedade. cuidado com a capa! — escarneceu Vicente. Conversavam despreocupados. Estava sem a capa. eram excelentes para o novato descobrir mais sobre a sociedade atual. De cada bento. As reuniões. Gente sofrida que lutava pela sobrevivência. Olhou em volta à procura de um lugar seguro para secar o tecido. Lucas levantou-se. Não ganhavam dinheiro em troca. observando.

Bento Francis aproximou-se. — Está vendo aquela touceira logo ali? Francis levantou-se e olhou rapidamente. mas uma explosão bem ao lado deles interrompeu a conversa. O tiro parecia ter vindo do lado esquerdo da clareira. pois o amigo bento havia lhe contado em detalhes o pesadelo e lembrava-se do bento comentar alguma coisa sobre um pano vermelho. Ninguém sonhava desde a Noite Maldita. quando estava com aquele rifle. mas não tinha garantia nenhuma de estarem no meio de um cerco. — O que tem a gruta. cara. Se o maldito desse mais um tiro revelaria sua posição. — Ali é a boca de uma gruta. dificilmente perdia um tiro. Também sentira um calafrio percorrer a espinha. lembrando-se do sonho na gruta. Os soldados buscaram a proteção das pedras. Uma lasca de árvore saltou próxima à cabeça de bento Vicente. — Todo mundo pro chão! — gritou o líder Adriano. Lucas? Tem vampiros nela. Tem alguns vivos. Pensava nisso quando ouviram uma explosão..— Meu sonho! — gritou.. O soldado destravou a arma e apoiou-se em uma rocha fazendo mira na floresta. Durante a visão com o velho Bispo. — Sorte nossa que esses mulos são ruins de tiro. — De adormecidos? — Gente. — Certeza. — E vampiros. Outro tiro. Lucas levantou a cabeça. 190 . Lucas? — Ela está cheia de gente. gente seca. Francis ia dizer alguma coisa. — A gruta. — Certeza? — perguntou o líder Willian. — Eu acertei! — gritou Raul. Tinham o riacho às costas e somente as pedras como barreira. tinha visto um tecido vermelho enrolado num tronco de árvore.. Adriano rastejou até os cavalos. Adriano arremessou um fuzil para Paraná. Sabiam que Raul era o melhor de mira do grupo e. Pode apostar. — completou Lucas.. a gruta que Vicente encontrou. Raul ergueu o rifle com mira telescópica em sinal de vitória e voltou a se proteger contra a pedra. Teriam sorte se houvesse apenas um atirador. Precisamos ajudá-los.. — Mulo desgraçado! — urrou o grandalhão. Os soldados do grupo de Adriano não questionaram.. — balbuciou Francis ao ouvido de Lucas.

Preparem as armas. preparando as armas. Lembra? O bento balançou a cabeça positivamente. poderemos nos defender melhor. — gritou Raul. Os soldados aquiesceram. Sonhou com as criaturas. Os soldados levantaram-se e iam em direção a Vicente. — Nenhum. O silêncio pesou sobre o grupo. — pediu Francis ao bento Edgar. — Você vai ficar prestando atenção em tudo que esse merda fala? 191 . — Na gruta. — Tudo limpo. buscando o corpo do atirador na direção indicada por Raul. Joel atravessou a estrada de barro e embrenhou-se na mata. sua amiga inseparável. Os soldados ouriçaram-se. Partiram para os cavalos. — O pesadelo de Lucas. Marcel retirou três garrafas do meio de suas coisas. Ouviram? Nenhum. — disse Adriano. sinais de inimigos nas proximidades. Aquela tinha passado raspando. Nós vamos sair dessa. Um fino fio vermelho perdia a força. bau bau profecia. — Defendam os bentos. Um azarado. Quando os malditos chegarem. tem vampiros. Balas de prata. — Traga Joel. — Na gruta não! — gritou Francis. Água benta. saiu atrás do soldado. Se um morre. Não podemos perder nenhum. olhavam a outra margem do riacho. Alicate e Carlos. — Como sabem que tem vampiros naquela gruta? — questionou Vicente. — Acho que era um só. — Quanto tempo temos? — perguntou Alicate. — Vamos nos esconder na gruta! Lá estaremos protegidos. Edgar. o magricela de músculos definidos. — Por quê? — quis saber bento Edgar. Willian e seus soldados.Vicente olhou para a árvore lascada e mediu um palmo até sua cabeça. não teremos que nos preocupar com a retaguarda. — Se tiver mais gente por perto os tiros vão chamar a atenção. levantando-se também. Custe o que custar. — Ele sonhou com esse lugar. fazendo graça com a expressão. Repetiu o sinal-da-cruz e pousou a mão no cabo da espada. procurando indícios de movimentação. eles vão ficar loucos. Trinta. entregando o céu à noite. Os bentos também pareciam empertigados. Raul olhava para a mata com a mira telescópica. — Ele sonhou com esse lugar. — Precisamos juntar trinta bentos. — repetiu Vicente. mudando a voz para um tom mais agudo. Os homens continuaram um instante atrás das pedras.. Um vento frio agitou a copa das árvores. Fez o sinal-da-cruz. Vicente olhou para o horizonte..

deixando uma árvore e partindo para outra. Edgar cuspiu na luva de couro e sacou sua arma também. você tem que aceitar que Lucas é o homem! Ele veio para nos ajudar. É o único caminho. — Você vai ficar prestando atenção em tudo que esse merda fala? — repetiu bento Francis. Bastou o grito ameaçador da fera para que os bentos fossem tomados pela força estranha que os empurrava de encontro àqueles monstros. Um bento! Dezenas de vampiros saíam pela boca da gruta. Bento Duque estralou os dedos e desembainhou a espada prateada. O líder foi o primeiro a abandonar o galho frondoso e cruzar o ar em direção ao grupo de humanos. Lutar por um pouco de sangue quente no começo da noite seria um bom exercício. indo na direção do vampiro líder. — Vicente. Parou e examinou melhor o grupo. A maioria saltava direto da abertura para um galho de árvore. Bento Francis sacou a espada. A touceira de mato alto agitou-se. as criaturas saltaram das árvores. — Fogo! — gritou Adriano. apontando para Duque. fazendo graça na sua vez. formando uma perigosa nuvem de criaturas da escuridão ao redor dos poucos soldados. Os demais vampiros grunhiram. ponha sua espada ao lado dele. O vampiro agarrou-se firme ao galho. a luta seria infernal. Uma sombra sinistra escapou pela boca da gruta e saltou para cima de uma árvore. Morra no lugar dele. As roupas negras da criatura esvoaçaram quando cruzou o ar. Ele veio para nos salvar. — Sangue bento! — bradou o líder dos vampiros. Bento Vicente sacou a espada. Relinchos de cavalo encheram a mata. movendo-se com grande velocidade e agilidade. Grunhiu chamando a atenção dos irmãos noturnos. Eram muitos inimigos chegando. Seus olhos vermelhos varreram a mata. Um homem negro trazia o tórax protegido pela armadura de prata. As capas marrons com capuz confundiriam por um instante as criaturas. 192 . Ao invés de ficar fazendo pouco. O vampiro parou empoleirado no galho firme do eucalipto. exibindo seus dentes pontiagudos e descendo para mais perto do chão.Um vento mais forte bateu na estrada. Assim que o líder tocou o solo. cercando perigosamente o grupo de soldados junto ao córrego. Bento Duque gritou e ergueu sua lâmina. Abriu um sorriso ao avistar quarenta metros adiante o grupo de soldados.

O vampiro urrou de dor. Marcel que. O vampiro líder parou o ataque antes de encontrar-se com a espada de Duque. A mão segurou firme o cabo da espada. evitando a fuga das criaturas. O vampiro. O cheiro fétido das criaturas entrava por suas narinas. ferido gravemente. sugando-lhe o auto-controle. quando o bento disparou em desabalada carreira. o golpe poderoso da lâmina atravessou 193 . Ao tocar o solo. cruzando o espaço com a espada acima da cabeça. Mais um segundo e a lâmina passava em seu abdome. saltando. A fera não teve mais forças e despencou das alturas com os olhos vermelhos fixos num par de gemas amarelas espectrais. Lucas arrancou a espada da bainha provocando um chiado metálico. Abriu a capa marrom e retirou o capuz. a prata sempre exercia essa maldita reação. Os soldados tentariam abater o maior número possível de criaturas. Queria alcançar as árvores. ignorando os vampiros que surgiam ao seu lado. O círculo de vampiros em torno deles pareceu aguardar um segundo ao perceber mais um bento revelado. seu corpo vampírico perdia as forças e sua cabeça escapava do pescoço. sentiu a pele arrepiar. Dezenas delas estavam no chão. colocando para fora seus órgãos podres. Notaram que. No entanto. O líder dos soldados de São Vítor fez nova mira. debaixo daquelas capas marrons. percebeu uma sombra prateada e vermelha cruzando seu caminho. No instante seguinte. ficaram tensos quando perceberam o vampiro líder cair decapitado. Não teve tempo de dar o alerta. Os olhos do bento estavam amarelos! Marcel chamava a atenção de Raul. surpreso. alcançando um a um. Lucas começou a sentir uma queimação interna. antes delas tocarem nos bentos. Mais um desgraçado saía do caminho. Assim que o vampiro líder gritou e tocou no chão. parou para observar Lucas. observando a batalha. Quando flexionou o corpo. Mais um bom número ainda empoleirado nas árvores. surgiam cada vez mais bentos. Os olhos do bento encheram-se de luz. Outro vampiro sentiu a carne penetrada pelas balas de prata. Lucas continuou a corrida. Risos partiram da boca das feras. igual aos malditos. Lucas partiu para o seguinte. de encontro aos malditos. teve que voltar ao chão ao notar a massa crescente de atacantes fechando-se sobre os companheiros. abaixou a cabeça. Os vampiros que gargalhavam em cima das árvores. Tentariam a todo custo salvar aqueles homens sagrados e manter a concretização da profecia em curso. a espada afiada do bento já o tinha atingido na altura do joelho. Adriano deu mais um tiro. vindo de encontro à espada de Duque.Disparos começaram a espocar ao redor dos bentos. um deles notou aquele homem de capa vermelha subindo rapidamente na árvore. No instante seguinte. fazendo sua capa vermelha esvoaçar ao girar o corpo. tombando aos gritos. Lucas. Um grunhido gutural formando-se em sua garganta. com suor escorrendo da testa. Saltou de cima da árvore. emanando um espectro amarelado. de galho em galho. Viu sua perna rodopiando no ar e indo ao chão. apesar da tensão do momento. queimando a carne e comendo os nervos.

Mas creio que levarão. bentos e soldados perceberam as brasas circundantes em cima das árvores irem desaparecendo. respondeu: — Não dá pra saber. adotou nova estratégia. Em poucos minutos havia se afastado cerca de um quilômetro do acampamento. juntando-se aos amigos. que os corpos dos "mortos-vivos" permanecessem seguramente inanimados. dividindo-a ao meio. Os malditos estavam fugindo! Lucas. Os bentos olharam para Lucas. mais quatro horas para se reorganizar. Aos poucos. voltar até aqui. acaba de escurecer. Não vão querer se bater com nosso grupo sem uma preparação. Queria estrangulá-los. com sangue esvaindo por cortes abertos pelas afiadas garras dos monstros da escuridão. que permanecia empoleirado nas árvores. o número gigante de criaturas noturnas impedia uma tortura mais severa. Por outro lado. percebendo que os bentos estavam investindo pesado contra o ataque em terra. Lucas não teve mais como perseguir os vampiros em fuga. — Eles voltarão com mais. encontrou mais meia dúzia deles. largados ao chão. mutilados. Eram tantos ao redor. Assim que o fedor desapareceu. Usava o cotovelo e as pernas para afastálos e a lâmina afiada para exterminá-los. Três soldados estavam feridos. por conta do odor horrendo que escapava das criaturas. no mínimo. entocados em buracos e grupamentos de árvores. Os malditos noturnos conheciam bem a floresta e seus esconderijos. dessa forma. contar o ocorrido. Por que quer saber? 194 . Mas. garantindo. Voltou para o acampamento. Os tiros dos soldados estavam sendo de grande valia. Vendo os semelhantes caindo um a um com grande velocidade. Empenhava toda sua força e raiva contra as criaturas. — juntou Duque. eventualmente lançavam seus braços. tentando derrubar os guerreiros. — Alguns se foram. voltou a sua fúria para os vampiros que tentavam fugir. Mesmo assim. O bento cruzou a espada horizontalmente. Eles terão tempo de sobra para uma segunda investida. alcançando um bom número e fazendo seus corpos caírem retalhados. Muitos deles morreram aqui. Lucas apertou o cabo da espada e com maior ferocidade bateu contra as criaturas que o cercavam. Seus olhos voltaram à coloração normal. bailando pelos galhos tal qual faziam os malditos. Voltou a correr e atirar-se árvore acima. Miravam principalmente na cabeça do inimigo. Impedindo muitas vezes que os guerreiros espadachins fossem agarrados pelas costas. Terão de juntar outros bandos. o número reduzido de vampiros. acovardados. Não consegui acabar com todos. um a um. Tinha que ser breve nos golpes.de cima a baixo uma vampira. onde os companheiros tinham dado cabo do numeroso bando de inimigos. Francis. Os agonizantes. O cheiro horrendo que exalava dos malditos o deixava cego. repartindo ao meio mais uma criatura. Edgar abaixou. — Quanto tempo temos? — perguntou Lucas. Não tinha medo. — Maldição! — protestou bento Vicente.

como transportaríamos eles para São Pedro? Como levaríamos essa gente para lá? Nos Rios de Sangue não encontramos uma ou duas dúzias de pessoas. Se esses malditos voltam em número dobrado... não poderemos deixar uma sequer para trás. Eles estocam centenas. Lucas baixou a cabeça. Tinha gente viva lá embaixo. — Caso fossemos para o fundo da gruta salvar gente. Raul e Willian feridos. Não estava certo. adeus quatro milagres. A noite é deles. no meu sonho.. — continuou Francis. Lucas aquiesceu. Vi gente viva lá dentro! Bispo não deve ter me mostrado isso à toa! — Seguramente não mostrou à toa. consternado. É isso que eu vi no meu sonho.. Não é isso que você quer.. Lucas! Centenas! Depois de entrar lá. — Vou cuidar dos feridos.. Socorrer os feridos. Eles matarão todos os restantes e mudarão para outra toca. — murmurou o soldado Sinatra. se nos mantivermos firmes em nossa meta. — Mas não podemos nos deter por causa disso. — Rios de Sangue. como vamos detê-los? Esse primeiro ataque deixou Zacarias. — Vamos abandoná-los? Eu vi esse lugar antes.. Ajude os demais a preparem as coisas para nossa partida. com a ajuda dos quatro milagres. essa gruta será o primeiro lugar que visitaremos.— Dentro daquela gruta. Lucas não discutiu mais. Não é isso que eu quero. — Temos uma missão a cumprir. Lucas. certo? — Não. 195 . — Prometo que depois que os trinta bentos estiverem juntos. Não poderemos contar com os braços deles. — impôs um fim à discussão. Temos que levantar acampamento. Não podemos ficar aqui e essa noite ainda será longa. — É isso mesmo. Um ex-médico ainda sabe dar jeito numas feridas.. meu bravo irmão. tem gente viva lá embaixo. Andar por esses caminhos com três homens sangrando é chamar confusão. E se perdermos um bento que seja. com certeza poderemos voltar a essa gruta e a salvar essa gente. Lucas. Mas. Seremos esmagados. a noite é deles. referindo-se aos vampiros. praticamente nossos melhores atiradores.

Cantarzo tinha deitado-se ali. Sangue de gente. — Também posso sentir o cheiro do filho-da-mãe. como ela. ela mesma.Capítulo 28 Raquel ergueu mais o nariz. Não se incomodaria com o sumiço do vampiro. vigorosa. Encontrou sobras de uma fogueira na clareira. Algo estranho. Gerson andava vagarosamente. Abaixou a cabeça até o chão. Não cheirava sangue de gente. Alguma coisa estava acontecendo. A "caçadora-líder" continuava sem entender. Cheiro de vampiro.. — Ele esteve aqui. Buscavam pistas que pudessem levá-los a Cantarzo. Por ela arrancaria a garganta de sua mãe. Um humano. Anaquias foi o último a surgir. sua mestra da noite. Depois dela. Um par de brasas vermelhas saiu da mata. Aquela porção ainda estava úmida. a floresta. Olhou para o chão com barro ressequido. Raquel estava debruçada sobre a fogueira. Não havia sangue ali. Uma mancha na pedra. Anaquias baixou os olhos. Mas era fiel a Raquel. No fundo do círculo. Cantarzo. com mais gana. aproximando-se. Cantarzo sofreria o pior castigo impingido a vampiros inimigos.. dar cabo do vampiro. chamando a atenção de seus dois escudeiros.. Era engraçado. Anaquias lambeu o sangue. Definharia até que seu corpo vampírico não pudesse mais ser 196 . Não via nem ouvia notícias de Cantarzo há duas noites. Reviraria aquela floresta de cima a baixo para encontrá-lo.. Era um caçador puro. Não gostava de mulos. Encontrou uma peça menor. cheirando o barro. farejando. Saboroso. Anaquias cheirou mais uma vez. A fera. um círculo que revelava que aquele monte de pedaços já fora um pote. Lambeu novamente. até mesmo Cantarzo. Até gostava do velho Cantarzo. Arremessou o vidro ao chão. — emendou Gerson. partindo-o em dois pedaços. permitindo que enxergasse ainda melhor na noite. Era o único não obcecado pela idéia de estrangular Cantarzo. havia mais daquele sangue estranho. iniciava. Feriu a língua no vidro afiado. Raquel agachou-se ao lado da fogueira. Era dele o cheiro esquisito. Seu olho bom vasculhou o caminho. Pegadas. O maldito pagaria pela traição. Vidro estilhaçado. E a ela deviam respeito. mas queria. Não era natural. O maldito tinha desaparecido. em companhia de um humano? O que estava tramando? Cantarzo não era de travar amizade com humanos. O "caçador-vampiro" não era de todo ruim. Gerson também olhava para todos os lados. Encontrou marcas no barro ressequido. Seria estaqueado e enterrado. Raspou com a unha. Um odor estranho. se fosse pedido. Seus olhos acenderam. O que o vampiro tinha feito ali. — murmurou a vampira. Raquel era a senhora da toca. Raquel grunhiu e gesticulou. mas era. buscando no chão por pistas que levassem ao vampiro. Anaquias caminhou até uma grande rocha que marcava o fim do descampado. Sangue seco. Sentia o cheiro de alguma coisa.

Merda! Como tinha sido dolorido! Gerson percebeu o amigo dobrado. Uma sensação que nunca tinha experimentado antes. ciente de sua danação. O que fora aquilo? — Está tudo bem? — perguntou Gerson. A maioria das pegadas do humano estavam sobrepostas por um sulco largo. nunca mais lhe diminuiria perante os velhos vampiros. quase caindo para frente. fora.animado. Tinha visto uma coisa. Subiu e saltou para a árvore vizinha. Sentiu um tremor. Anaquias correu para não ficar para trás. Se tivesse um coração humano funcionando. Uma serpente. Não sentia mais nada. que estivera molhado tempos atrás. Percebeu as marcas ao redor de onde Cantarzo teria se deitado. O chão. A vampira correu e saltou para o tronco espinhoso de uma jaqueira. desapareceu. de boca aberta. Seria ferido e desfiado à unha. Mas que fora estranho. Apertou os olhos.. Como se algo cutucasse seu corpo. Iria atrás daquele humano. Teria o humano dado cabo do caçador? Impossível. da cabeça aos pés. Anaquias caminhava em direção a Raquel quando sentiu uma contração no estômago.. 197 . engolindo uma tartaruga. cambaleando. — resmungou Gerson. Raquel ergueu o olho bom para o caminho. aproximando-se. Fumaça. — Vamos. com um pedaço de madeira enterrado no peito. de sua incapacidade. deixava claro. Só ele lhe daria as respostas do que teria acontecido com Cantarzo. como se outros olhos mostrassem. mas as marcas diziam isso. Encostou numa árvore. Como se algo mexesse em sua cabeça. o músculo cardíaco estaria disparado. Curvou-se.. Raquel agachou-se sobre as pegadas do humano. igual veio. Estranho. O vampiro grandalhão acompanhou a "vampira-líder".. Pereceria. Não sabia o que aquilo significava. Anaquias buscou equilíbrio. Nunca mais Cantarzo lhe faria de idiota na frente dos demais. O vampiro desencostou da árvore e buscou Raquel com o olhar. Anaquias recolocou-se de pé. algo sendo arrastado. A dor.

a preocupação maior do médico seria controlar a inflamação e debelar uma provável infecção que se instalaria na ferida. habilidoso. Esse era seu dever. Além de água para o bando. Em outros tempos. passou a faca por baixo do couro da capivara. sentia falta do corpo macio e quente da esposa. de forma alguma. sem que os bentos e soldados experimentassem novas surpresas. já estariam em São Pedro a uma hora dessas. O líder dos soldados de São Vítor tinha um extenso corte abdominal e não poderia fazer esforços até que a cicatrização estivesse avançada. As árvores altas filtravam os raios intensos. Do contrário. Francis concordou e em menos de cinco minutos estavam todos com os pés na água. começou a juntar pedras de bom tamanho para demarcar o fogo. Tirou a faca afiada da cintura e rasgou o bucho do bicho. sentia-se muito melhor. principalmente. Aquele negócio de cavalo estava acabando com suas costas e com sua paciência. com a ajuda de Marcel. Estavam perto de chegar na estrada novamente. a marcha seria mais lenta aquele dia. Desceu para junto de Zacarias e molhou os braços. De noite. Dos 198 . mergulhando a comitiva em ladrilhos de sombras e luz. Com o sol a pino. Provavelmente não alcançariam São Pedro até o poente. numa missão tão importante. Tirou a camisa e a calça e desceu a margem do riacho para banhar-se. o soldado queria descanso para os cavalos com um pouco de sombra e água fresca. Paraná pediu uma parada quando alcançaram um regato. mas precisariam. refrescando-se um pouco do sol ardido. de descanso. Adriano sentia-se ansioso. a todo galope. Pouco do sangue que tinha sobrado no corpo da criatura tingiu a água do regato. vendo os preparativos. Paraná tirou a capivara do lombo de seu cavalo e. Não tinha raiva por acompanhar os bentos. Talvez fosse o caso de mandar um soldado na frente. Queria sua moto. Se tivessem indo pela estrada.Capítulo 29 A noite angustiante passou lenta. apesar dos cortes no corpo. mas. para buscar ajuda na próxima fortificação e preparar a chegada dos bentos e dos homens feridos. Em mais alguns instantes aquele pernil gordo estaria servindo de almoço para o grupo. Mas. Willian. Por volta das oito horas da manhã levantaram acampamento para que os soldados feridos tivessem os curativos revistos por Francis e para que descansassem um pouco da jornada. finalmente. o sol levantou-se. Com os três machucados. Zacarias. a saudade de Carina falava alto no peito. Esse era seu trabalho. 0 líder Adriano também tirou a camiseta. Francis estava certo de que os três feridos não morreriam. tirando a pele do bicho. carregou-a para junto do riacho. o sangramento poderia voltar e a hemorragia levar embora a vida do soldado. Paraná. ao menos. Joel. dormindo no meio da "marmanjada". Ainda mais agora. torcendo o cabo.

vamos acabar dormindo fora da fortificação. Vamos continuar nessa marcha lenta até o fim do dia. Bento Vicente aproximou-se e estendeu duas goiabas grandes para o colega. mas não revelavam os detalhes a ninguém que fosse de fora do círculo. depois. — Posso ajudar. Lucas tirou a capa vermelha e. Os soldados. — Você deve dar dois do Paraná. Mas nessa velocidade. começaram a rir. O soldado Alicate aproximou-se. — Depois da bóia. Francis sorriu.. vai enganando a barriga enquanto o grandão prepara a bóia. o peito de prata para descansar o esqueleto. monta teu cavalo e corre sem parar até São Pedro. Abriu seu embornal e retirou um frasco com comprimidos feitos no HGSV Deu Um comprimido a cada um e estendeu o cantil. Alicate. como boi marcado. Vá buscar ajuda. Temiam que seu segredo salvador caísse nas garras dos vampiros. o sol brilhava acima das árvores. na beira do rio. Lucas apanhou as frutas e acenou agradecido. Tinham era pouca fé na profecia do velho Bispo. mas não podemos abusar. Não era uma tatuagem. Quanto tempo levaria para juntar os trinta bentos? Francis. senhor? Francis olhou para o céu. deitados junto à raiz de uma grande goiabeira.. que acomodava Raul e Willian. Uma porção da água fresca reteve-se em seu cavanhaque loiro. — Pode.beijos quentes. — retrucou Lucas. Aqueles homens envolvidos com o plano tinham marcas mesmo.. Apesar do calor. Os soldados estavam com os olhos fechados. Deveria ser quase meio-dia. Voltou a olhar para Adriano.. — Estão mal assim? — Não vão morrer. mas esses analgésicos de São Vítor não são para isso. a vestimenta já não incomodava tanto. que se queixavam de dor nos cortes. Entregou água fria nos músculos dos braços. Baixou as mãos em concha e jogou água no rosto. que Vicente conhecesse tudo. Não abriam 0 bico. O soldado tinha uma marca no peito. Francis desviou o olhar. — Olha quem fala. — Isso. era uma cicatriz. Vá direto a São Pedro e peça transporte aos feridos. Bando de doidos. Todos sabiam que tramavam alguma ação ousada. fitou o líder de Nova Luz por um instante. 199 . Se acelerarmos no lombo dos cavalos vão sofrer demais. Alicate olhou para Willian e Raul. Quantos dias ainda levariam naquele caminho. — Como? — Você monta bem? — Só não sou chamado de vaqueiro porque já me chamam de Alicate. eu costurei as feridas dos homens. Francis duvidava. até mesmo. Então era verdade. Zacarias contava alguma piada e fazia graça com os colegas.

Lucas terminou o sorriso. — Do que você está falando. pareciam com as janelas dos malditos.. tu parece frágil feito borboleta. Vicente tirou a capa surrada e soltou também o peito de prata. — Esse é um mundo louco. estavam amarelos. só queria dizer que pode contar comigo. — Se a gente vivesse no mundo de antes. pareciam duas brasas amarelas. — Nunca vi gente com o olho daquele jeito. em vez de vermelho. no meio de mais uma mordida.. — Do quê? — perguntou o trigésimo bento. duvido que um de vocês estivesse aqui.. Lucas mordeu novamente a goiaba. sobre o tecido. É que nem o Ali falava.. — Que jeito? — Seus olhos. Lucas não entendeu. mas. — De tudo voltar a ser como era. Não sei o porquê que fui escolhido para estar com vocês. arrebentando cabeça de capetas. Só tô dizendo que você é diferente. Lucas parou um instante. Voltar a ser que nem antes. Lucas quase engasgou com a goiaba.... Lucas sorriu. e agora que os milagres virão. mas ferroa como um zangão.. mas não quero que as pessoas voltem a agir como agiam antes dos vampiros.. O velho Bispo devia tá certo. não sou bajulador. — O que você fez ontem. sim. Vicente? — Tô falando que rezo sempre para o mundo não voltar a ser o que era antes. parado. — Não quer que os vampiros desapareçam? — Isso eu quero. mas é rápido. Coçou a barba... — Você me elogiando? — Elogiando o escambau! Não sou viado pra ficar agradando homem.Vicente sorriu.. — Mas isso não ia ser bom? Vicente bufou e balançou a cabeça negativamente. Lucas mordeu a goiaba... nessa missão dos infernos. A fruta de interior vermelho estava doce e saborosa. sem dúvida você é especial. — Você é magrelo feito um grilo.. colocando-o no chão. só tenho medo de uma coisa. Mas depois que eles desaparecerem? O que vai ser da gente? Pra que vamos existir? 200 . Lucas.. — Eu não tenho muito jeito pra falar com os outros. falando comigo.

— Será visto como um guerreiro.Lucas deu de ombros. nas costas. Lucas ficou imóvel.. Era pra eu ter ficado mais. Saio retalhando tudo. Cada coisa. Vicente. Se você parar pra falar com cada nego aqui nesse acampamento. Quando os vampiros vêm pra cima eu não tenho escolha. trazendo o reforço de São Pedro para escoltar os cavaleiros até a fortificação. — Mas você. no peito.. Em cerca de um minuto os faróis surgiram na escuridão e mais alguns segundos até os veículos cercarem os cavaleiros. — Cara bom? Há! Há! Há! Sou um cara bom porque acordei bento. O bento era coberto por tatuagens. Todo mundo ficou louco. Foi assim que eu saí de lá.. Por fim. Escuta cada coisa. Lucas estava impressionando. Teve nego que entrou numa de saquear tudo.. com 201 .. Mas eu me pergunto. depois a cota de malha de metal. Já taquei fogo em malandro folgado. Mas também teve nego que foi sangue bom. já cortei rola de estuprador. — Firmeza. De roubar apartamento. ainda não tinha tempo de sentar debaixo de uma goiabeira para meditar sobre o futuro. velho. de juntar jóias. E depois? Depois que os vampiros forem exterminados? Vou ser visto como um bento ou vou ser visto como um ex-presidiário? Lucas levantou-se e ergueu o braço. — Cara. — Teve cada história. Algum bom samaritano tirou esse sangue ruim do buraco. você. Que arriscou o pescoço e voltou pro xadrez pra tirar os adormecidos do buraco. fitou Lucas demoradamente. calado. A noite há muito tinha chegado quando os cavaleiros aproximaram-se de São Pedro. — Firmeza. tirou sua camisa de mangas longas. pousando a mão no ombro do colega de jornada. bento Vicente. Tanta novidade na cabeça. — Como eu arranco cabeça de vampiro. você é um cara bom. todo mundo gosta de mim.. sorrindo de volta. Sua vida era o presente. Depois de alguns segundos abriu um sorriso. — Sete anos no xadrez. Bento Vicente riu alto. Mas aí veio a Noite Maldita. — balbuciou Lucas. Puxei cadeia em tudo que é canto. sem chance. Até as trancas do xadrez os doidos abriram. Vicente tirou o colete de couro. — retribuiu Lucas.. Minha pena era de trinta e dois. não tá? Lucas aquiesceu. velho. Dá até vontade de chorar. Alicate vinha em cima de uma das motos. Já roubei. Faltavam cinqüenta quilômetros quando ouviram o ronco dos motores rasgando a estrada.. nos braços. deixando o peito largo e pálido nu. Já matei. Lucas olhou demoradamente para Vicente. — Deve estar perguntado onde eu descolei esse barato. Isso eu garanto. Um dos veículos era uma pickup Ford. O gigante virou de costas. Lucas sorriu. boquiaberto. Já fiz de tudo. — Fiquei sete anos guardado.

aproximou-se: — Ele partiu esta tarde. Era como um jogo dos sete erros. Ao adentrarem os portões de São Pedro. o único que precisou ficar no alojamento médico em separado. Partiu em missão. — Normalmente conhecemos as missões importantes com antecedência. o prometido. No meio da algazarra. Vicente gargalhando e brincando no colo com um bebê. notou algo de estranho. Também sentia o estômago queimar e os músculos reclamarem da jornada. ainda saudando e festejando a presença dos bentos e dos soldados. Juntou os outros? Não estou entendendo. Raul e Zacarias já se encontravam sentados à mesa para o jantar àquela altura. Os rostos felizes davam vivas e queriam tocar as capas vermelhas dos guerreiros. Os demais chegaram hoje de manhã e. em especial a do trigésimo. É por isso que a população está tão efusiva. bento Lucas. que notava a preocupação no semblante do amigo. Olhou para Duque. apesar de passar das nove horas da noite. senhor. A mesa foi colocada com fartura.. recebendo atenção de uma enfermeira. ao que pude perceber. Depois do breve relatório médico. Mas algo estava errado naquela cena. Apenas esta jornada que começamos hoje não era conhecida e começou de sopetão.uma "deita-corno" ponto 50 acoplada a um tripé. teria mandado um mensageiro. — Espera um pouco. a multidão que aguardava para saudar os bentos entrou em alvoroço. Faltava algo no cenário que não era para estar faltando. Francis demorou em juntar-se aos demais. um dos líderes dos soldados de São Pedro. com um caprichado sortimento de carnes e vegetais a fim de aplacar a fome dos guerreiros. para onde os cavaleiros foram conduzidos. Demorou até atinar o quê. recebendo um jantar adequado. Queriam um pouco de descanso. Os cavaleiros estavam cansados do esforço depreendido e acumulado nos últimos dias de viagem. Francis aproximou-se: — Onde está o bento de São Pedro? A fortificação era guardada pelo bento Arthur e sua presença não era percebida no salão. A fortificação contava com um refeitório comunitário. Explicou bem a situação de Willian. 202 . — Acho que não teve tempo. a maior parte do caminho foi feita em silêncio. bento Francis dirigiu-se ao refeitório.. Elton. pois deixava o médico da fortificação a par da situação dos três feridos. Juntou os outros e partiu em missão de libertação. Ninguém vai conseguir dormir esta noite. senhor. logo ao raiar do sol voltariam para a estrada. — Missão? Que tipo de missão? — Acho que a mesma de vocês. muito semelhante ao de São Vítor. A escolta decorreu sem aborrecimentos. Mas se Arthur tivesse uma missão. algo sutil. — insistiu. chegaram de surpresa. As pessoas contentes. Apesar das felicitações calorosas ao encontro. senhor. o guerreiro salvador.

tentando mantê-la em baixo volume para não despertar a atenção dos camaradas dentro do refeitório. visivelmente nervoso. ao menos era no que acreditava. servindo-se de um pedaço de cordeiro assado. Zacarias e Marcel olharam para o líder de Nova Luz. Sabia que. você está enganado. — Vinte daqui. Encontrou o líder de São Vítor de costas. mesmo sabendo que tramavam às nossas costas. Francis. os seis bentos estavam desviando da rota traçada pela profecia. de Nova São Paulo e também de São Joaquim. soerguendo as sobrancelhas e farejando desgraça. Assim que pisou no calçamento externo do refeitório. descrentes de nossa missão. Eram os bentos descrentes. esta tarde e eu preciso saber que merda de plano é esse. falava com a voz carregada. foi abordado pelo bento. propositadamente. soldados. Tinham notado seriedade na voz do bento. senhor. — Precisamos conversar agora. — Oitenta soldados. Francis empalideceu. — Quem eram esses "demais"? — quis saber Francis. — murmurou o bento negro. Vicente também simpatizava pela idéia desses fracos de espírito. senhor. senhor. trinta de São Joaquim e trinta da Nova São Paulo. — Cinco bentos e mais um grande grupo de soldados. banhado apenas pela luz oscilante de um trio de tochas pendurado rente à parede.— Você preencheu um relatório sobre essa saída extraordinária? — perguntou Duque. Pessoas que não tinham fé nas palavras de Bispo. rumando para a Velha São Paulo. no entanto permanecia aliado ao grupo que buscava cumprir o que fora profetizado pelo velho Bispo. — Nunca pressionei vocês. Adriano fazia parte dos desesperados que tinham um "plano". Soldados daqui de São Pedro. ouviu o retinir de metal e um reflexo ligeiro cruzou o ar. Sabia o que aquilo significava.. — Claro. Pessoas que estavam colocando naquele exato momento o futuro de todos os sobreviventes dentro de um barril de merda. — Se você acha que vai me intimidar com esse seu tom de voz.. Francis buscou Adriano com os olhos. Plano bolado pelos bentos descrentes e por líderes da soldadesca descrente. Lançou um rápido olhar para o bento que ainda brincava com o bebê. Aconteceu algo aqui. Preciso saber agora! Adriano soltou um risinho baixo. Francis deu as costas ao soldado e partiu para a porta do refeitório sem esperar resposta. O bento caminhou rápido até o soldado e bateu-lhe nas costas. Saíram em missão. Adriano soltou o pedaço de cordeiro no prato. O fio da espada do bento pressionava perigosamente sua garganta. Levantou-se e seguiu pela mesma porta pela qual Francis saíra. — Quantos soldados? — insistiu Duque. com o dedo em riste. Mal terminou de pronunciar a frase. fortemente armados. 203 .

Foram a São Paulo para quê? Para que se arriscar? Que máquina é essa que Vicente tanto fala? — os olhos faiscantes de Francis queimavam os de Adriano. nenhum a menos. — Preciso saber para onde foram. Estava cansado e estressado. Só os soldados envolvidos com esse plano desesperado. A máquina está lá. — Por que acha que eu sei de alguma coisa? — Todo mundo sabe que você é envolvido com esse tal plano. A marca em seu peito. o plano de vocês perdeu o sentido. — Eu vou. Voltou a encarar Adriano. Não posso permitir isso. se for necessário. Chegaremos de tarde. permaneceu calado. Nenhum a mais. — O quê? — Que nunca mais vai colocar a porra dessa espada no meu pescoço. que maldita máquina é essa? O que é que ela faz de tão importante para valer a vida de seis bentos e oitenta soldados numa missão suicida? — Quando eles partiram? — Elton disse que partiram esta tarde. — Deus! Deus! Temos que partir agora. — Não. ainda mais até o Hospital das Clínicas. Engoliu a seco. ninguém. se soubesse de Lucas. E a morte em vão de um irmão.. mas o momento é delicado e estou disposto a tudo para fazer com que os trinta bentos se juntem. O Hospital das Clínicas. Se por um acaso eles foram para a velha São Paulo. corpos adormecidos. conhecem os detalhes. Adriano passou a mão no cavanhaque. O fantasma de Gaspar morto por sua pistola aparecia em sua mente. com essa marca. com a lâmina ainda encostada em seu pescoço.. Rios de Sangue. Francis baixou a lâmina. — Então vão tentar entrar ao amanhecer. Adriano. — Precisamos de trinta bentos.. — Mesmo que partamos agora. 204 . até mesmo encher um cemitério de mártires. esperança enfim. poderia ter tentado salvar o amigo. Com o despertar de Lucas. havia se convertido no maior covil que se tinha notícia. Uma espada no seu pescoço não tinha ajudado em nada. Francis apertou os lábios. Balançou a cabeça negativamente e passou a mão no cabelo. quer dizer que podem não voltar. Você não consegue enxergar isso? Vamos dar uma chance à profecia.— Não quero intimidar. não chegaremos até a alvorada em São Paulo. Adriano.. Tua vida é mais preciosa que a minha. valoroso soldado. Salvou mais gente nas matas do que eu decepei vampiros com minha espada. Eu estou do seu lado. como sabiam. Eu ajudo vocês. Mas tem que me prometer uma coisa. recolhendo a espada. — A máquina. Depois que Lucas acordou. Era no HC que os vampiros estocavam sua comida. Não haveria pior lugar para se ir na Velha São Paulo. — Eles foram para o HC.

em uma missão desesperada de resgate.— Às vezes. exceto aos três feridos. encontrá-los e trazê-los de volta a São Pedro. que o descanso havia sido suspenso. sem descanso. estavam prestes a entrar no sepulcro gigante formado pela velha São Paulo. Depois de falar com Elton. na próxima hora. dia e noite. Seis bentos. bento Francis avisou aos demais. 205 . De volta ao curso da profecia. — retrucou Adriano. passando a mão no vergão formado na altura de seu pomo de Adão. Teriam que partir de São Pedro. Teriam de correr. — É. De volta à salvação. Deu pra perceber. as piores surpresas aparecem daqueles que cavalgam ao seu lado. mais oitenta soldados. Tinham uma missão das mais duras pela frente.

Edgar e Vicente.Capítulo 30 O líder Elton. Restavam agora os bentos do norte e nordeste do Brasil. Bento Lucas ficava à margem dessa tarefa. que andavam para lá e para cá.. — Quer que eu vá na frente? 206 . Carregavam os cavalos. Francis estacou no meio do pátio. Mesmo tendo agido com pressa e urgência. Uma incursão à velha São Paulo era o pior que poderia acontecer a essa altura do jogo. conseguiu reunir trinta homens para a missão de Bento Francis. Traçavam estratégias.. dos cavalos e da agitação da soldadesca. Duque. contando com ele próprio. Vamos alcançá-los a tempo. soldados dos noturnos e. André e Cosme. Não eram todos soldados. A velha metrópole era infestada por mulos atiradores. Estão juntos e vão nos poupar um tempo precioso. — O que você tem em mente. sem conhecer o cenário do novo mundo era difícil ajudar. Murilo.. Francis gritava. pois uma boa parte do contingente especializado havia seguido com bento Arthur e não convinha deixar a cidade sem a cobertura de homens mais treinados. poupando tempo precioso da jornada. uma vez que seis bentos estavam a caminho de enterrar-se naquele inferno infestado de perigos. Se havia alguma sorte naquilo era o fato dos bentos recrutados pertencerem a fortificações da região leste e noroeste. coordenando o regimento. — Vira essa boca pra lá. mas a jornada até a velha São Paulo não costuma trazer boas lembranças. Tarso. mas insuficientes para saírem vivos de uma incursão ao Hospital das Clínicas. Guerreiros da pesada.. isso vai facilitar a coisa pra nós. — Tirando o grupo de malucos que foi à velha capital. Sabia que a jornada corria um risco imenso. Lucas andava perdido no meio da agitação. Sabia que ir à velha São Paulo estava longe do plano dos bentos. Duque? O bento negro olhou para o amigo. se os revermos com vida.. — Francis fez uma pausa. nas horas escuras. E se morressem? Francis soube de Elton que os guerreiros recrutados por bento Arthur foram os bentos Eliseu. O bento passou os dedos por seu bigode afilado aproximando-se de bento Duque. — O que você acha de fazer um passeio diferente do nosso. fazendo os ajustes finais para a partida. Traziam munição. — Aprecio sua fé. xará? — Os bentos que estão com Arthur são do leste e noroeste.. o destacamento só ficou pronto três horas depois do pedido de bento Francis. Duque. a maioria dos nossos irmãos está agora no norte e nordeste do país. Francis. era o maior playground de vampiros do mundo. Francis juntara-se com Elton. voltando ao assunto.

Vinte e cinco soldados embarcados em veículos motorizados iriam pela estrada. os vampiros sempre tinham vantagem. Vamos ganhar tempo. Esse desvio inesperado para a Nova São Paulo vai nos tomar tempo demais. ferindo a montaria e os soldados com crueldade e devorando grupamentos inteiros em questão de minutos. que sonhe comigo. Dois dias ou três. — Sei. ao cair do sol. depois do evento. como experimentavam agora. aumentando brutalmente o percurso até a velha São Paulo. — Vá! Que Deus lhe acompanhe! — Se ele ainda estiver cochilando. esperamos vocês lá. outras vezes 207 . uma vez que não precisavam de oxigênio no organismo. — respondeu o negro. Era a primeira vez que se sentia verdadeiramente exausto depois de ter despertado no hospital de São Vítor. os cavalos realmente pareciam diminuir. com trechos onde a água não alcançava a sola dos calçados. a profundidade do alagado eventualmente variava. Fugiriam do terreno pantanoso. Se chegarmos primeiro. o atalho que bento Edgar lhe falara horas atrás. trazendo o que havia restado de armamento pesado deixado pela missão suicida de bento Arthur. Francis pousou a mão no ombro do guerreiro. os bentos cruzavam a região pantanosa durante a noite.— Isso. Como previsto. ao menos. ainda era vigiada pelos mulos durante o dia. A região que. dividindo o grupo de soldados. Os cavalos moviam-se habilmente pelo terreno pantanoso. — E se eu chegar primeiro. Ali o perigo era constante. Lucas estava sonolento. — concluiu Duque. Estavam entrando na região pantanosa. em Santa Maria. podiam submergir por tempo indeterminado. Somente em circunstâncias extremas. A história do alagado remontava tantas batalhas sanguinárias. deixando a água muitas vezes cobrir o bota dos cavaleiros. Que sonhe uma coisa boa. criando as mais terríveis armadilhas no meio do pântano. longe disso. Vamos nos reunir ao norte da velha Salvador. Baixou sua tocha. sorrindo. Parte do grupamento tinha vindo em veículos motorizados. Mas. — Junte um grupo de soldados e busque os cinco bentos do norte. As criaturas medonhas da noite. Percebeu os cavalos na frente reduzirem de tamanho abruptamente. como dizia o velho Bispo. os veículos não teriam condições de fazer o caminho mais rápido e perigoso. apertando os olhos para ver se não estava sendo vítima de alucinação por causa da fadiga. espero você lá. fortificação de bento Dimas. teriam que ter a atenção redobrada de agora em diante. tomara os arredores da gigante metrópole. onde. Os animais afundavam parcialmente. Quanto a Lucas e os cavaleiros.

o líder Elton. traziam poucas tochas. Estava exausto. — Vamos descansar meia hora. os tordilhos avançavam. uma nuvem de vapor escapou com a respiração. mas a utilização da manobra mantinha incógnito o número preciso de guerreiros abençoados. Como. Depois continuamos. Demorou dois minutos até voltar. Caminhou. com a voz abatida. — Por que ficou tão desanimado? — perguntou Lucas. Este lugar é o ponto de descanso. podendo. Além da escuridão. com os olhos pesando de sono. Francis inspirou e soltou fundo. depois voltavam para a água. A marcha prosseguiu monótona madrugada adentro. Quando exalou o ar. — disse Francis. Lucas. Não tem idéia. Balançou a cabeça negativamente.chegando quase aos joelhos. — Mas e se eles conseguirem o que querem? Se conseguirem a máquina e derem o fora? — Você não tem idéia no que se transformou nossa cidade natal. uma névoa constante varria a região. Ambos os bentos olhavam para frente. a uma hora dessas. desaparecendo na neblina cerrada. Precisava dormir. — murmurou o bento. O clarão traiçoeiro das tochas era um mal necessário. até o bento médico.. os homens desmontaram. Em alguns trechos conduzia os amigos soldados por áreas secas. Eles estão marchando e. Os olhos também fundos. carregada pelo vento frio da noite. 208 . Depois das três da manhã. — Esperava encontrá-los aqui. virando-se de costas. Os vampiros conheciam aquele artifício. Mesmo assim. exclamações de satisfação e um bom tanto de insatisfeitos também. O chão era coberto por grama verde e uma neblina intensa varria o terreno seco. O rosto aborrecido. Caminhou até uma árvore e enrolou a rédea do animal num galho. Estrategicamente. puxava a tropa. para evitar chamar a atenção. intimidar o ataque de um grupo reduzido de malditos noturnos. O cavalo de Elton foi adiante. melhor conhecedor da região.. fortes. era difícil enxergar o grupo todo. só esperando o raiar do sol para irem ao Hospital da Clínicas. alcançaram uma campina seca. Árvores desfolhadas cercavam a paisagem. Lucas bateu com os calcanhares na barriga de seu cavalo e aproximou-se de bento Edgar e Francis. devem estar à margem da cidade. Boa parte dos cavaleiros vinha trajando o manto marrom encapuzado. Isso não bastaria para descansar. Árvores tortas e agourentas lançavam seus ramos encurvados sobre a cabeça dos soldados. eventualmente. Depois de alguns murmúrios. dificultando a visão dos soldados e impedindo que a luz da lua ajudasse. cavalgavam cerca de um quilômetro por cima de mata alta. Lucas desceu com facilidade de seu cavalo. para que os bentos não ficassem francamente expostos. sendo circundados novamente pelo líquido gelado e pela névoa esvoaçante. Tinha esperança que tivessem montado acampamento nessa clareira e que pudéssemos evitar uma desgraça. Francis estava com a cabeça baixa. mas Francis dissera meia hora.

Ninguém conversava muito sobre a missão adiante. mas sentimentos ambíguos crivavam seus pensamentos. Lucas desmontou ágil. Francis queria seus bentos e seus quinze soldados descansados. Eles foram à velha São Paulo. Lucas aquiesceu e voltou vagarosamente para junto de seu cavalo. Lucas calou-se e engoliu a seco. Dez horas da manhã. um soldado. Como poderia ele. Os soldados de Adriano juntaram-se para ajudar e bater papo. por que eles arriscariam? Francis baixou o capuz e tirou o manto marrom. de quebra. O cansaço geral havia aumentado após as oito horas da manhã. Sentiu uma lufada de medo gelando seu peito. Alguma coisa nele o faria útil para aquele grupo de guerreiros. como ouvindo as súplicas mentais dos cavaleiros. Tirou também o manto marrom e dobrou-o. ser o salvador? — Vá descansar. Estava feliz pelo trigésimo bento ter acordado. Desesperados. cedo ou tarde. Suas costas prateadas refulgiam a luz lúgubre das chamas alaranjadas. cada vez mais acostumado ao mundo novo. um medroso. Pela primeira vez não desejava que tudo fosse resolvido apenas com um passe de mágica. Não dormiria. fazendo dele um travesseiro. dar uma passadinha na velha São Paulo para resgatar um grupo de malucos. Paraná começou a preparar o fogo para o bóia. Medo. Lucas. Deite um pouco. Baixou a cabeça envergonhado. Meia hora passa voando. Mais uma vez. Pensaria. Estavam cada vez mais próximos dos escombros. Queria ser um guerreiro. ao menos não ousava colocar obstáculo contra a marcha. o que mais prevalecesse fosse o de frustração. O sol tinha afugentado a neblina. Lucas queria ser um bento. Deveria haver alguma coisa dentro dele que justificasse aquele acaso. arremessando-o ao chão. Francis. Não sabiam. subindo rapidamente e ardendo contra o grupamento. Lucas. para aquela merda de HC.— Eles devem ter alguma chance. Francis ofereceu uma pausa para que os animais se refizessem e que os homens comessem e tivessem um breve repouso. Queria ser igual a eles. escoltar os bentos e. alertas e prontos para passar fogo nos malditos mulos que perambulavam pela ex-capital. Levaria mais tempo tirando e recolocando a vestimenta do que dando um descanso aos olhos e ao esqueleto. não um covarde. mas parecia impossível. mas. Sua capa marrom esvoaçou com a descida da montaria e sua touca de metais rilhou. Talvez. Queria tirar um pouco a couraça reluzente que cobria seu peito e tomar um banho. Virou-se para encarar Lucas. Se a cidade está tão ruim assim. Não usava capa. do que fora o coração econômico da América Latina. Adriano sabia que esse dia chegaria. há 209 . Francis explicara bem a situação e cada minuto ganho seria decisivo. Não estava nos planos de nenhum deles deixar Nova Luz. O descanso de meia hora no meio da madrugada não tinha aliviado muita coisa. Apesar de Lucas desejar parar para uma hora de cochilo. porque estão desesperados. — Porque eles não sabiam que você despertou.

que já não cria ser possível um dia juntar trinta santos enviados por Deus para livrar a terra daquele mal. Mas não daquele jeito! Tinha lutado todos esses anos nas estradas. Ficaram em silêncio um instante. trocando informações. A maioria dos soldados calou-se. Apertou os olhos e benzeu-se. apertando a mão do rapaz. —. Lucas fez um meneio e retribui com um sorriso. Balançou a cabeça consternado. 210 . não é? — Do quê. Queriam deitar às mãos na máquina de alteração genética. Acreditava naquilo que bento Arthur estava fazendo. mas aquilo era burrice. os bentos e soldados estivessem entrando no HC neste exato momento. não sabia predizer quantos perigos aguardariam a comitiva. Matias? — Do quanto o senhor era esperado. os bentos. teria de invadir a velha São Paulo com. percebendo que o rapaz queria achegar-se. enquanto pensava naquilo. Desde então não deixei de rezar um dia sequer para o senhor despertar. Mesmo Arthur e seu pequeno Exército entrando na velha São Paulo no alvorecer. carregando soldados para lá e para cá. Não dava para acreditar que o mundo que eu vivia tinha virado isso aqui.. Um calafrio percorreu os braços do líder Adriano. Lucas balançou a cabeça negativamente. pelo menos. A voz do soldado Sinatra tomou o acampamento. Os mulos já estariam despertos. mesmo uma agulha. buscando uma estratégia para os comandantes. Teriam de extraí-la do maior covil do mundo. Talvez estivessem agora descobrindo demônios pelos corredores. Uma ação tresloucada seguida de outra. de traslado de corpos. — Meu nome é Matias. Uma vez dentro do HC.Acordei há nove anos. Um jovem aproximou-se de Lucas com bastante cerimônia. não na mágica. Nem imagina o desespero que foi para eu aceitar. três mil homens. levariam algumas horas até alcançar o abandonado e sombrio Hospital das Clínicas. O senhor não tem idéia. Seis bentos e oitenta soldados não dariam cabo daquilo. Sabia que estavam indo para a velha São Paulo para. Bastaria um disparo para chamar a atenção de todo filho-da-mãe armado que habitasse a região. fez um sinal com a mão. tinha deixado de acreditar naquela profecia. Na lógica. Para tomar o HC de assalto e conseguir tirar dali alguma coisa. que maneiro. senhor. servirem de cortejo fúnebre. Frustração. senhor. demônios que passam dentes afiados nos pescoços dos soldados e capturam os bentos para preparar-lhes uma morte lenta e dolorosa. Talvez. O bento desviou os olhos de Sinatra. Cara. Tudo sendo jogado fora. — o rapaz fez uma pausa e sentou-se ao lado de Lucas.muito. no máximo. Tantas vezes tinha ouvido das batalhas sangrentas em que os bentos acabavam estraçalhados pelos vampiros. — Aí eu conheci vocês. ouvindo a aveludada voz afinada do homem cantar Crying ao estilo do bom e velho Roy Orbison. é um prazer conhecer você. Teriam de lutar contra os lacaios dos vampiros. vivo em São Pedro.. Isso seria inevitável. Respeitava bento Arthur. O rapaz abriu um sorriso e estendeu o braço para cumprimentar o guerreiro. Eram tantas as mortes nas fortalezas.

— Nós vamos até esses lugares e tentamos resgatar a identidade daquele adormecido. — continuou Lucas. — Serão quatro. alguns dos adormecidos. 211 . Isso tudo em questão de dois ou três segundos. Depois. — Time da memória? — É. Quatro milagres. soldado. — Sei. todo mundo sabe. — Se você não é soldado. eu não sou soldado.. sim. Entendi que isso era feito logo após a Noite Maldita. sim. todo mundo tem que defender o muro. Vamos até o lugar onde encontraram as pessoas. não. Quando a coisa aperta... O bom é que esses malditos.. É ruim lembrar tudo sozinho. Ajudá-lo. — Ainda fazemos. É verdade. outras vezes um aglomerado. — continuou o Matias. um milagre. quando acordam. eu também ia torcer pra caramba para uma coisa dessas acontecer. o que faz em sua cidade? — interessou-se Lucas. quando querem entrar numa fortificação.. viu-se fazendo a barba. às vezes. — Tinha ouvido falar desse trabalho. — Então você não sabe usar isso aí. toda informação que pudermos encontrar no local e vamos colocando dentro de computadores. tem a chance de relembrar algo mais. senhor Lucas. Hoje em dia. às vezes uma família inteira. Só vim ajudar nessa missão porque esperei isso a minha vida toda. Ao lado do nosso salvador. Queria conversar com o senhor. — Na verdade eu trabalho no time da memória.. Tentamos deixar alguma coisa pra que ele refresque a memória. Time da memória.. Lucas pegou-se num flash de memória naquele exato instante. — Hã. senhor. senhor. — Ah. às vezes uma ou duas pessoas. — Pegamos documentos. como os malditos chamam: Rios de Sangue.— Faço idéia. na tentativa de livrar o vidro do vapor que aderira a superfície e dificultava a visão. parecem que ficam burros. O líder Elton falou no refeitório que estavam precisando de ajuda. — O que é isso? — Nosso grupo trabalha depois dos soldados encontrarem adormecidos por aí. a gente nem lembra de tudo. — o rapaz fez nova pausa e cuspiu na grama ao seus pés. — O quê? — Estar ao lado do libertador. Sua mão percorrendo o espelho do banheiro. defender a cidade. — É. Assim. vêm sempre pelo mesmo caminho. Lucas olhou para o rifle preso por uma cinta de couro no ombro do rapaz. Demora demais e.. senhor. fotografias. mas não achei que ainda faziam isso. praticamente.

— Não se incomode. eu ia de metrô. Mais um imbecil com contas para pagar todo mês. tudo mudou. Aceito isso. — completou o adolescente. Comprar presentes para.. nesta nova realidade. se me focalizo aqui. Eu não paro para pensar. uma certeza. Com fatura do cartão de crédito vencida. mas quando precisava economizar combustível ou quando tinha rodízio. comprar presentes para uma mulher. arregalando os olhos. mas vou lembrar.. às vezes. é um contexto novo.. Com contas de água e luz. Fico inseguro. não te assusta? Lucas encarou o rapaz. Um escolhido é forjado pela fortuna e torna-se o que os outros querem.. — . de libertador.... Eles sempre mostram as coisas quando a pessoa acorda. uma espada na cintura. Alguém disse que eu serei o salvador desse novo mundo e que levarei a humanidade aos milagres que nos libertarão dos vampiros.. impotência. dissimulando: — Assusta. Me põem essa couraça no peito.. A noite a gente tinha medo uns dos outros. eu era mais um na multidão. O que eu sou? Você disse bem. continuando.. Trombava com milhares de rostos todos os dias a caminho do trabalho.. — Lucas baixou a cabeça e fez uma pausa. neste mundo. me dá força. impostos sufocando.. — É verdade. Mas o que é um escolhido? O rapaz deu de ombros. Não sabia o que responder.. eu lembro disso. — Lucas baixou a cabeça. Não sou eu mesmo.. Não sei quem eu sou ao certo. Que resposta aquele menino queria ouvir? Que estava se borrando nas calças com medo de não ser o tal? Que estava afundando num mar de antagonismos. Eu vou lembrar das coisas.. Sou um escolhido. lenta. às vezes. Os olhos do jovem brilhavam de excitação. como se uma nova lembrança chegasse. — Isso. impossibilitando viver. Saco a espada da bainha e faço coisas indizíveis. Tem hora que sinto um fogo inflamar meu peito. Depois. — Então acho que não tinha nada. — Eu me misturava na multidão. Com prestação do carro atrasada. Minha preocupação era com meu emprego e minha aparência. como se ainda estivesse sob efeito de lembranças. Quando farejo esses vampiros desgraçados eu viro outra pessoa. 212 . Que fardo eu carrego? O de salvador. Estalou a língua e passou a mão no cabelo.. — Esse fardo. Aos poucos. Um farsante. Matias.— O senhor viu seus pertences? As anotações em sua prancheta? O bento meneou a cabeça negativamente. Matias.. Eu era. — um frio no estômago. às vezes. quando estou sozinho e pensando nas coisas e em mim mesmo. — Um escolhido é uma marionete na mão do destino. acabava indo de metrô.. Não lembro do meu passado. Tinha carro.. Ufa! — Lucas bufou. cercado por certezas recheadas de incertezas? Com medo de não trazer droga de milagre nenhum para humanidade? Não se dê utilidade alguma.. — Agora. estava prestes a dizer um nome.. Lucas sorriu. senhor. Comprar roupas novas. Eu não sou assim. Mas. me chamam de herói.. sinto um vazio.

Sabia que estava se engajando numa missão difícil e perigosa. Sei que aqui estão as pessoas de bom coração e que. Deitou-se um pouco e cerrou os olhos. Lucas reteve o olhar um instante sobre a figura do rapaz. tem suas vantagens. — Mas este mundo novo. — Lucas olhou para bento Vicente por um instante. de alguma forma macabra. não tenho mais medo dos semelhantes. fez dele um travesseiro. onde trabalhávamos para sustentar nossas contas correntes. Acho que é uma benção o dinheiro não existir mais. Não precisa dessa coisa de senhor e de bento. na luta contra os noturnos. Ia deixar o bento descansar. — O senhor tem razão.Matias levantou-se. quando olho ao redor. — Ei. O menino não tinha medo de lutar. bento Lucas. pode me chamar só de Lucas. Que Deus os ajudasse a vencer aquele mal! Que os ajudasse a unir os trinta bentos e desencadear o fim daquelas criaturas! O bento retirou o manto marrom encapuzado que envolvia sua couraça e. o destino separou os bons dos maus. Gente trabalhando junta. O bento benzeu-se fazendo o sinal-da-cruz. novamente. mas estava ali para estar com ele. Lucas. Talvez seja até mais apropriado dizer que o sol separou os bons dos maus. — Tudo é bem diferente do mundo antigo. Eu vejo agora gente se ajudando. Matias. 213 . Ao menos. Matias sorriu e afastou-se carregando o rifle.

Apesar da aparente solidão. por humanos degredados dos novos centros ou que. Numa loja do piso térreo tinha sobrado a fachada de alguns pontos comerciais. Como a maioria deles. estava coberto por uma camada negra de fuligem. Vai saber. por trepadeiras verdejantes. Estavam a poucas quadras da Avenida Nova Faria Lima. mostrando que se consumira em chamas sem que os bombeiros viessem em seu socorro. Francis e Edgar iam na frente. Lucas ergueu a rédea do cavalo e cutucou-o levemente com o calcanhar. Nesse momento. Os cascos dos cavalos estalando contra o asfalto rachado. tentando "ouvir" adiante. Bandos imensos cruzavam dentre as torres de concreto. o mato selvagem vencia as brechas e erguia verdadeiras touceiras no meio do caminho. A velha cidade era rica em pássaros. perecendo. ao passar ao seu lado. — resmungou bento Vicente. Estavam atentos. abandonados na fuga para as fortificações. Continuaram cavalgando. Talvez tivesse feito um curso de idiomas ali ou comprado um sanduíche tropical. O que antes eram prédios comerciais e moradias. Fora os adormecidos. Não fique pra trás. Pressentiam que a qualquer segundo. Lucas voltou a observar o cenário caótico e inacreditável da cidade morta há trinta anos. O prédio na sua frente era mais um no meio de centenas naquele bairro. o primeiro disparo de arma seria dado e o inferno se instalaria ao redor da tropa. Há pouco haviam penetrado na velha cidade de São Paulo e viam-se cercados por incontáveis esqueletos negroacinzentados que subiam verticalmente. agora eram elevações assombradas em concreto armado. Lucas reteve o cavalo um momento. Talvez aquelas logomarcas trouxessem aquela sensação. Podia ver restos do que fora uma Drogasil. um apartamento ou outro ocupado pelos serviçais dos vampiros. em mais da metade de sua altura. preferiam a companhia das criaturas da noite que dos semelhantes. Dentro daqueles prédios jaziam milhares de corpos adormecidos. Edgar parecia ter escutado alguma coisa. devorados pela 214 . não só o novato Lucas. As ruas da gigantesca capital do estado estavam desertas e a maioria dos prédios era coberta. uma loja da Casa do Pão de Queijo e uma unidade do CCAA. Um tiro talvez. mas a maioria dos homens. — Anda. Era como se vultos malditos assomassem eventualmente as janelas dos prédios fantasmas. Por cima da camada negra queimada crescera vegetação. Sensação de déjàvú. todos carregam a estranha sensação de olhos colados nas costas. Os soldados tinham que desviar. cavalgava com os olhos arregalados e surpresos com o cenário. Os carros abandonados há décadas tinham perdido a cor original.Capítulo 31 Eram mais de duas horas da tarde. Em diversos pontos do chão escuro. por alguma razão bizarra.

Buzinas. camelôs anunciando produtos pirateados. Sentiu um calor súbito subindo-lhe pelo corpo. caiu no asfalto da Rebouças. cobradores de lotações berrando itinerários. — o soldado. O sinal vinha de longe. enquanto Edgar erguia seu binóculo. que ascendia além dos prédios. No meio do encontro da Avenida Rebouças com a Avenida Faria Lima. risadas altas. mal podendo manter-se de pé. hoje pareciam um cenário de algum filme surrealista. como ferro atraído por um imã poderoso. — pediu Francis. como uma bomba. Ainda admiravam a trilha escura. Quando Lucas também atiçou o cavalo. chamando a atenção da tropa.. tudo isso vinha aos seus ouvidos. Tomavam o caminho liderado por Francis quando ouviram claramente uma explosão. erguendo uma mão 215 . fazendo mira..ferrugem ou pelo fogo. deixando os escombros queimados do que fora um tradicional restaurando japonês da Rebouças. Não fora um disparo. Era algo maior. uma granada. Fixou o olhar num poste de sinalização de trânsito. Puxaram as rédeas freando os cavalos. Tontura. ao ver o bento aproximado-se. batendo os calcanhares em seu cavalo e perseguindo o amigo Vicente. os soldados de escolta dispararam atrás do trigésimo bento. — Eu derrubo daqui. Continuaram avançando em silêncio. — Não atire. O ferido. Via os dois luminosos que auxiliavam os pedestres na travessia. viram uma grossa coluna de fumaça negra subindo o céu. Como se fosse preciso pedir. Lucas parou o cavalo novamente. — Iaaá. Está ferido. O bento voltou a si quando Francis gritou. Das sacadas dos prédios desciam samambaias gigantes e toda sorte de vegetação era encontrada. Lucas olhou ao redor. Estavam no meio de um dos mais tradicionais cruzamentos da cidade. A capa vermelha do guerreiro gigante farfalhava presa aos dragonetes. Um minuto depois. Olhando para a Rebouças acima. Um homem cambaleando em direção ao meio da pista que descia. — Estamos nos aproximando do HC! Cuidado redobrado! Lucas sorriu. Vicente disparou em sua montaria. É um dos nossos. Os pneus murchos deixavam o que restara das rodas ao nível do chão. quando viram a estranha figura. — gritou Francis. quando as olhou pela última vez. Aquelas ruas. O homem estava vazando sangue. Apertou os olhos. não viam nada de anormal ou imediatamente preocupante. Um barulho absurdo entrou pelos ouvidos. uma coisa à Jonh Carpenter. Ao ouvir bento Edgar. estavam abarrotadas de gente no vaivém frenético do dia a dia. O soldado Carlos ergueu seu rifle. — Espere. Vicente alcançou o soldado. morro acima.

Vicente precisou baixar mais para ouvir a voz fraca do soldado. mas de maneira contínua. Não poderia ser verdade.. Ergueu a camiseta do soldado e espalhou água sobre as feridas da região abdominal..para o alto. esses sentimentos seriam multiplicados. Eles nos emboscaram. Eles sabiam. Percebeu outra perfuração no braço esquerdo. Afunilaram o caminho. — O que disse? — Eles estavam esperando por nós. Com o som dos cascos de cavalos ao redor.. Francis levantou transtornado. — Todos eles.. Mas eu não consegui voltar.. Havia bastante sangue descendo da cabeça e uns ferimentos abdominais.. Quando nos 216 . — Eles. fiquei encoberto por entulho. — balbuciou o ferido.. desde de manhã. Estava tudo acabado. consternado. A hemorragia era importante.. eles estavam esperando por nós. Não podiam crer no que ouviam. — Quem foi morto? — quis saber Francis. — Eles estavam esperando por nós... Os rostos dos bentos e dos soldados em volta do sobrevivente esmoreceram. Eu. Providenciou um curativo e pressionou o ferimento maior. — Sabiam o quê? Francis baixou-se ao lado do soldado ferido. O desespero e a decepção não tardariam a tomar aquele grupo e..... Vicente desmontou rapidamente e abaixou-se.. Só deixaram passagem pela Teodoro Sampaio. A roupa rasgada e chamuscada em vários pontos. interrompendo o relato. Vão acabar com todos. Apanhou um pano limpo e tentou remover a maior quantidade possível de sangue. Olhou para o soldado ferido... O abdome estava bastante inchado e extremamente dolorido ao toque. Estão acabando com todos nós. Francis e Vicente trocaram um olhar grave. desvirando o homem e encarando-o enquanto os demais também chegavam e cercavam. — E quanto aos bentos? O soldado fez uma expressão de dor. só esperando a gente se mexer. — Só eu consegui fugir. — O que aconteceu? Como ficou assim? — perguntou. eles estão nos prédios. O sangue esvaía vagarosamente. quando a notícia chegasse aos povoados. eles colocaram preparávamos para entrar. meu cavalo. — Estamos lá. eles os mataram. bento Vicente.. acho que não vou conseguir. Mordeu os lábios. levando a esperança e a salvação embora. Pelo ferimento do braço também perdia sangue. terminando por soltar um gemido. Eu estou ferido. foi morto. alguma coisa explodiu. Todos os bentos. Apanhou seu cantil e ajoelhou-se junto ao homem... snipers lá. A atitude precipitada daquele sexteto de bentos havia colocado a profecia abaixo. contorceu-se nos braços de Vicente.

Como. — Onde eles estão? — perguntou novamente bento Francis. não vão conseguir fugir. às vezes. um bolo dolorido formava-se na boca do estômago. a grande maioria tinha o semblante abatido. nem aflição. Tinha sido despertado como trigésimo bento para ser um líder. Quantas daquelas criaturas malditas existiriam naquela cidade-fantasma? Quantos vampiros se esconderiam dentro daquele sem número de prédios abandonados? Mesmo sendo empossado de uma força que desconhecia. Como Duque havia partido em missão. Já estivera quieto. que o fazia saltar feito uma besta louca para cima dos vampiros. os que conseguem escapar da metralhadora são pegos pelos snipers. Não juntariam mais os trinta bentos. mas a pressa era demais. — Já disse. senhor. apertando o manto que cobria Vicente. Olhou para sua tropa. Lucas engoliu a seco. Muitos pensamentos ao mesmo tempo. Nessas horas. tinha vontade de sair correndo. Algo do passado soprava em seu peito. Tinha que ser o oposto disso. Estão na Teodoro Sampaio. para guiá-los. secou-as apressadamente e recolocou as luvas de couro.— Eles estão lá. as incertezas represadas há muito começavam a vazar por essas novas frestas.. Sentia-se refém de um pesadelo horrendo e sem fim. Às vezes. mato em pontos rachados e escombros de alguma coisa que já fora um prédio. a convicção de viver num mundo real. talvez pelo fato de acabarem de saber que seis bentos estavam mortos e tinham acabado de voltar a estaca zero com a profecia. Ergueu os olhos mais uma vez e olhou novamente para os homens. O bento médico derrubou água nas mãos limpando o sangue. E essa era a hora. Esperança. A provação. cercados. tomam uma rajada de fogo. Os vampiros vão acabar com todos nós. Daqui a algumas horas vai cair a noite. Sentiu o peito apertar. estavam em quatro bentos e mais quinze homens. coberto por pedriscos. vinte e cinco deles. Toda vez que tentam abandonar os esconderijos. morto e apático por trinta anos. pois com os veículos motorizados não conseguiriam vir pelo atalho alagado.. tinham se separado. Sentia-se perdido e afundando. provações desdobravam-se diante de seus olhos e sua fé rachara. cada vez mais. O restante dos soldados. Olhando para o asfalto antigo. Estão sendo arrasados. Como ele. perdia a certeza. Tinha vontade de voltar ao Hospital Geral de São Vítor e voltar a dormir. como quando despertara sete anos atrás e descobrira que tinha perdido sua esposa e seu filho de cinco anos. — E quando a noite chegar. Fechou os olhos e inspirou fundo. Tentava formar uma estratégia. estarão liquidados. Sabia qual combustível precisava queimar no peito daqueles homens. Não estava ali para disseminar medo. Nada tinha a temer. — o soldado contorceu-se mais uma vez. Vão mantêlos naquela ratoeira até o anoitecer. Tinha baixado a cabeça sem perceber. olhando ao redor. Ruminava pensamentos. Não adiantava ser apenas uma espada afiada. quando descobrira que não era mais o médico chefe do 217 . talvez pela marcha acelerada e cansativa que tinham enfrentado nas últimas horas.

do meio dos homens. Não creio que tenham visto esse soldado fugir. Era para isso que existia.departamento de queimados onde trabalhara. — Eu vou levar vocês até lá e vou trazer cada soldado que ainda estiver vivo de volta para casa. — Levar vocês até lá e acabarmos com aquele bando de assassinos. acreditem. seu sangue gelava nas veias. Aqueles mulos malditos! Estavam só 218 . Quantos soldados tinham caído? A metade do grupo formado por bento Arthur? Talvez já fossem mais. feito castelo de areia. Traçariam rapidamente uma estratégia e partiriam para dar fim ao cerco que trucidava os soldados. Estava acabado. — Eu sei exatamente o que temos que fazer. Lucas estava mexendo com a cabeça deles. E isso era tudo o que precisavam para entrar em terreno hostil. notou uma mudança até mesmo no olhar do truculento bento Vicente. Era isso. metido a besta. Temos a vantagem da surpresa do nosso lado. mas talvez fosse justamente aquilo. O que aquele recém-acordado. chamando a atenção do grupo. na beira da praia. Vamos fazê-los se arrepender de terem mexido com a turma errada. caminhando decidido e com um brilho diferente nos olhos. Foi nesse momento de aflição que seus olhos viram surgir bento Lucas. Os homens começaram a gritar. A cada espoco que escutava. — disse Lucas. diariamente. com inimigos escondidos em todos os cantos prontos para massacrá-los. Gabriel tinha a respiração rápida e entrecortada. palavras que Lucas proferira. Estavam inundados de confiança. se divertindo em matá-los. Era por isso que respirava. Eu sou o trigésimo bento e nunca mais se esqueçam disso. Para estar próximo de Bispo e ouvir de sua boca. virou-se para Lucas. Estavam embriagados pelas poucas. que não dava o braço a torcer. Por isso tinha escolhido defender São Vítor. com a notícia da morte dos seis bentos precipitados. onde bastava a fala de um líder militar e religioso para entregar a vida por um ideal. contudo poderosas.. estão atacando os homens encurralados. Francis não sabia o que Lucas pretendia de fato com aquele teatrinho. Estão preocupados. Estava lhes dando esperança. que havia uma esperança. esses mulos. Seu mundo estava se perdendo novamente. e.. erguendo as armas que traziam. iria fazer agora? — Esses atiradores. bento Lucas? — perguntou bento Edgar. pois o bento havia transformado o semblante daqueles dezoito homens. tudo se dissolvia. Com Bispo morto. Lucas pediu que bento Francis e o soldado Elton mostrassem o que haviam trazido de explosivos. como que ingressando no mundo dos fanáticos. Apesar de ser um sujeito invejoso. O cumprimento da profecia. surpresa é meio caminho andado para se vencer uma batalha. Uma vez li um livro de Szun Tsu. Bento Vicente. — O que você tem em mente. sempre carrancudo.

o sangue jorrando do pescoço. Estariam com a máquina a essa hora do dia e ela seria enviada ao hospital Geral de São Vítor. Os outros estavam correndo. Os técnicos veriam se ela estava de lato funcionando e. Sangue vivo era mais saboroso. Eram oitenta soldados. estendido na sua frente. tudo parecia favorável. Via-se agora como um rato. Via mais cinco soldados na sala. A fé era farelo. não que não acreditasse nos amigos. com a perna recolhida para não sujar a calça no sangue de outro soldado.. Quando se abaixou. os malditos despertariam do sono hipnótico e viriam sobre eles. Estava ao lado dele na hora do primeiro tiro. aquele disparo lhe parecera perfeito. Se o lendário bento André afundava nas garras da morte diante de seus olhos. Só tinham que deitar a mão na bendita máquina. Gabriel tentara abaixar para ajudá-lo. Diziam que os mulos eram ruins de tiro. igualmente assustados.. ouviu o segundo tiro. no meio da desértica Teodoro Sampaio. acuado. Mantendo-os apavorados e acuados. Mesmo assim não o deixaria morrer ali. Olhos arregalados. O bento não falava. Tinham que sair dali. Em sua mente tinha se visto centena de vezes. voltando Vitorioso para casa. Quando partiram de São Joaquim para São Pedro. Tudo estava acabado. O sangue insistia espirrar entre os dedos. com a missão cumprida.brincando com eles. particularmente. dariam uma dor de cabeça nervosa naqueles vampiros filhos de uma puta. Estava no chão. Não via sorriso. com a boca aberta e um buraco no meio da testa. Gabriel era soldado de São Joaquim. Quando o sol caísse no horizonte. sabia para onde estava indo. Há anos nenhum humano maluco tentava nada contra o Hospital das Clínicas. Liquidados. Em algumas horas anoiteceria e estariam liquidados. Gabriel apertou os olhos. Um tiro no pescoço! Aflição. Não era médico. Desespero. descrevendo um arco escarlate no 219 . rendidos. era um tiro no pescoço porra! Não tinha sido um arranhão no cotovelo. Torturando-os. nem ouvia vivas. mas parecia não acreditar que terminaria daquele jeito. Gabriel sentiu os olhos marejarem. abraçando seu fuzil. Os mulos desgraçados queriam que os soldados remanescentes ficassem vivos. Não houve tempo para reação. e estavam correndo rua abaixo. vermelhos. Quando fechava os olhos via o espectro de bento André tombando ao seu lado. Olhou ao redor. Era entrar e sair do covil. Tirou as mãos do pescoço do bento caído. Mas não era isso que acontecia. Bento André no chão. Desespero. Era isso que via no rosto dos colegas. A surpresa ajudaria. Enquanto discutiam com os bentos o plano. conseguindo colocá-la em atividade. Não precisavam ser melhor que aquilo para matar gente. O plano era bom. Não soubera o que fazer na hora. sabia de todas aquelas possibilidades. Estavam despreparados. Há anos os mulos não temiam invasão à velha São Paulo. Um esguicho de sangue voou longe. Conhecia o plano. Apenas tinha virado os olhos em sua direção e os mantinha horripilantemente arregalados. Gabriel sentiu medo. mais seis bentos. dias atrás. com os joelhos flexionados. O soldado estava sentado. um reles soldado? Seria morto também. acuado. mas para ele. Estavam preparando o terreno para os vampiros. o que seria dele. no interior do que fora uma loja de instrumentos musicais. Pressionou com ambas as mãos a ferida no pescoço de André. Um tiro no meio dos olhos.

Do bolso interno do seu colete. Barulho de vidro quebrando.céu. começara a escutar berros dos soldados. Outro espoco vindo dos prédios. Não era medo o que sentia agora. O tiro potente ecoando entre os prédios. não sabiam quantos eram os inimigos. Ouviu mais tiros. Como os bentos não perceberam que as ruas bloqueadas com carros destruídos. fazendo cacos de vidro e sangue colarem na sua pele. o qual atingiu a armadura prateada de André. foram tombando. Jamais voltaria a ver a esposa. os tiros diminuíram de quantidade. Gabriel balbuciou algo inteligível. Sabiam que viriam. Deu dois passos para trás e tropeçou. caídos no meio do asfalto da Teodoro Sampaio. largou o rifle e entregou-se às lágrimas. tentando reger uma reação. Gabriel soltou-a assustado com o barulho de ricochetear da bala na couraça. Deu dois passos. Mordeu os lábios. Essa certeza ia se solidificando cada vez mais e uma angústia sufocante entalava a garganta. Gabriel ficou hipnotizado por um segundo com aquela cena terrível. colou a testa no chão. Ela segurando Júnior. Os homens começaram a atirar contra os snipers. seriam pegos pelas garras das criaturas da noite. caído de cara no meio da rua. Para complicar. Os malditos mulos sabiam. Gabriel passou a mão sobre o rosto dos dois. um a um. O sangue entrou por seu ouvido. Gabriel ergueu o bento para tentar a fuga. Se não fossem pegos pelas balas dos mulos. mas não sabiam de onde os tiros dos mulos vinham. O filho perdido. Os malditos mulos tinham preparado a cilada e obtido êxito. formando verdadeiras paredes de ferro. como ele. mais um batimento cardíaco. Aquele segundo jato hemorrágico pareceu tirar o horrorizado soldado do transe. os snipers eram muitos e estavam bem escondidos. escondidos em outros estabelecimentos abandonados. Ouviu o farfalhar de asas. retirou a foto de Agnes. Seus olhos pousaram no legendário bento André. Não sabiam ao certo para onde direcionar a rajada de fogo. Como se a rápida e repentina crise tivesse aliviado seu peito. Gabriel lembrava-se. Sentia algo estranho no peito. diante de seus olhos. Apertou os olhos e inspirou fundo. Por fim. sobraram os soldados amedrontados demais para arquitetar um estratagema e colocar todos fora dali. Um calor 220 . mais um arco de sangue escapando do pescoço do bento agonizante. Era um segundo tiro. Com isso perderam munição e mais vidas. Estavam encurralados. Um bando de pássaros voando a curta distância. Gabriel assustou-se com o jato de sangue acertando em cheio o lado de seu rosto. faziam parte de um plano maldito para exterminá-los? Depois. Em seu pranto. Em mais algumas horas. que gritavam ordens tentando organizar o batalhão e iniciar um revide. Estavam fritos. Os bentos. Respingos choveram em seu rosto. Mais um segundo. chegaria a escuridão. Estranhou. Passou a mão na testa. Voltou a colar-se na parede. Escutou uma segunda explosão. Eles gritavam. Queria ver Agnes pelo menos mais uma vez. a salvo. livrando-se dos cacos e sujando os dedos com o sangue de algum colega. o tempo nunca parava de correr e o sol ia mudando perigosamente de lugar. Mais um jorro de sangue escapando da ferida. Podia ouvir os gritos dos soldados feridos. Desesperado. Não sabiam onde atirar! Depois de cinco minutos. empilhados. mas sempre perdiam mais homens batendo de frente com o mesmo problema.

os soldados foram invadindo o perímetro. Não conseguiria acabar com todos. deveriam recolher somente os seis bentos. A estratégia era uma ação de assalto. Olhou em direção de onde viera o tiro. Um buraco largo surgiu dentro os veículos que foram ao chão. Vinha de outra posição. Restos do que fora um Ford Ka jaziam junto ao calçamento. Não poderia afirmar cem por cento que o inimigo estava morto. Um novo disparo escapou daquele maldito sniper. Outro tiro. Outro assassino. disparando rajadas contra o chão. do contrário. no topo de dois prédios via os malditos descontraídos. provavelmente já estaria estirado na calçada. O cano do sniper ainda estava lá. Sexto andar. Gabriel fez mira na veneziana quebrada. Coragem. Uma densa cortina de fumaça formou-se. cravou o joelho direito no chão e voltou a fazer mira na veneziana. Gabriel recostou-se no carro que lhe servia de abrigo e. Os soldados de São Pedro perguntavam pelos corpos dos bentos. assim que a grande quantidade de fumaça foi se dissolvendo. E assim fariam. Estavam simplesmente mantendo-os ali. Era isso. indo parar no meio da rua. Com sorte seria um a menos. estourando os corpos no calçamento. Olhou fixamente. Gabriel puxou o gatilho mais uma vez. Agora eram sete homens. ao menos. naquele beco construído com carros destruídos e empilhados nos cruzamentos da Teodoro. Dois 221 . a qualquer preço. Ele não era o alvo desta vez. mas o cano do rifle desapareceu da fresta. aproveitando a cortina de fumaça. Um explosivo abriu a parede de veículos improvisada pelo inimigo na altura da praça Benedito Calixto. Cilindros fumegantes voaram cento e cinqüenta metros adiante. naquela jaula. abriu um sorriso. Ergueu mais a cabeça. gritando e mostrando onde estavam os homens sobreviventes. Não havia mais vestígios de fumaça no ar. Serviria de distração e protegeria alguns deles durante a ação. coragem! Inspirou fundo e colocou-se melhor na porta do estabelecimento. O disparo do agressor passara longe. Buscou a direção com os olhos. os soldados acuados foram deixando seus esconderijos e auxiliando os que acabaram de chegar. Uma janela quebrada. Voltou o cano de sua arma para o topo do prédio mais próximo. Dessa vez. Poderia ter localizado o maldito sniper dessa forma. Evitar o confronto com os mulos e localizar o mais rápido possível os sobreviventes. Da calçada. com os pés no beirai do telhado. Puxou o gatilho e o rifle expeliu uma seqüência de disparos. o soldado Gabriel orientava. Dos corpos. Sentia conforto. A parede de veículos ruiu. Rápidos e objetivos. Em poucos segundos. um deles seria morto por sua arma. mas. Setenta metros de distância. Não apontava em sua direção. uma explosão nas suas costas. Cinco caíram. onde vira o par de mulos rindo segundos atrás.alentador. encontrou uma trilha de fumaça subindo para o céu. Quando colocou o dedo no gatilho. um cano entre as venezianas retorcidas. Capas vermelhas esvoaçantes! Bentos! Mais soldados! Reforços! Elton disparou com uma arma de cano largo. tinha certeza que um deles ria ao conversar com os demais. Gabriel. Bento Lucas havia sido preciso em sua orientação.

Revidavam tiro. se demorassem. descendo a Teodoro Sampaio. onde pretendia buscar abrigo. O rosto inanimado de bento André passou diante de seus olhos. Lucas colocou o homem no ombro e refez o caminho sentido à Rua Teodoro Sampaio.desapareceram. Estavam com medo! Agora. Os mulos estavam recuando. Gabriel puxou o gatilho mais uma vez. Isso significava que estavam com medo. a sensação de já ter estado rodeado por fuzis e disparos não lhe era estranha. Bento Murilo tinha tentado avançar. mais perigosa. imóvel. Três dos bentos abatidos na operação desciam a Teodoro nas costas de soldados de São Pedro. Os mulos foram surpreendidos e tomavam cuidado. Fez mira no prédio seguinte. Não contavam com um segundo regimento. os soldados teriam partido e seria mais difícil escapar com vida daquela batalha. fazendo um sinal-da-cruz. pois a presença dos soldados e da fumaça distrairia os inimigos. Bento Murilo. Olhou para cima. buscando proteção dentro de um sobrado comercial. ora arrancavam pedaços das paredes. mas algo em sua cabeça dizia que aquilo não era tão singular em sua vida. — Bento Murilo. vendo os inimigos. Recostaram-se atrás de uma pickup. Interrogavam os soldados que escapavam. Os tiros ora ricocheteavam. Os soldados dando cobertura. Sua posição era como se sua última atitude fora rastejar. Tiros vindo na direção do grupo. O som dos rifles em conjunto era ensurdecedor. Os soldados começaram a revidar. com a mão estendida. Os mulos pareciam se refazer do susto. quase ao final da nova quadra. Subiram um quarteirão. Nenhum sinal de mulos. Adentrou o quarteirão. Lucas estava ocupando-se do resgate dos bentos mortos. faltando poucos metros para encontrarem-se com o grupo principal e empreender escapada. Havia distribuído os soldados em três quintetos. Lucas sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo. Na rua transversal. para o lado oposto da rua. fazendo nova vítima. Arrastou o corpo do bento para perto de um carro. — disse um dos soldados. Teriam de ser rápidos. O homem de capa vermelha e couraça metálica no peito estava de bruços. Como aquelas lembranças sem hora marcada. Da esquina oposta vinham rajadas de projéteis. Dois soldados mortos do seu lado esquerdo. buscando proteção para efetuar disparos. seguido por sua escolta. Olhou para o asfalto. tocando os primeiros degraus da escada de mármore. 222 . mas. dando cobertura um ao outro. Gabriel sentou-se na calçada e recostou-se no Ka. Correu até o corpo. os soldados conseguiam revidar os disparos. de Nova São Paulo. Bento Lucas chamou oito soldados. Ouvia tiros na rua principal. Lucas foi obrigado a abaixar-se próximo à esquina. um homem de capa vermelha. Lucas jamais estivera no meio de uma guerra. perdendo o equilíbrio e derrubando Murilo. Lucas comandava parte do pelotão. mas terminara a vida em suas escadarias. Lucas desvirou-o. As saraivadas de tiros aumentavam e surgiam de forma mais organizada. Faltava um corpo. Estavam quase na esquina.

protegidos. A lataria do carro que lhe servia de cobertura tilintava a cada novo projétil recebido. — Vamos esperar os nossos amigos abrirem caminho. temporariamente. Diante de seus olhos. Elton disparou mais granadas de fumaça. Lucas olhou para Domingos. um dos soldados que o escoltava. soldado! Eu vou tirar vocês daqui com vida! Continuem atirando. os disparos adversários pareciam aumentar. espantados. Não se deixem apanhar. — O que vamos fazer. mas não parecia suficiente. sim! Tenho que juntar os trinta bentos! — Como vamos passar por eles. bento Lucas? — perguntou Domingos. As línguas de fumaça providenciadas pelo soldado bloquearam temporariamente a visão dos inimigos que disparavam do alto dos edifícios. Olhou para cima dos prédios. Atiravam contra o prédio de esquina do outro lado do quarteirão. — Procurem proteção e disparem contra os prédios. estavam. Temos que garantir a saída de Lucas! — gritou bento Francis. os soldados escutaram uma retumbante explosão. As balas arrancavam pedaços da fachada dos prédios em frente ao grupo. Chamou a atenção de seus homens. — Nunca vamos sair com vida! — Vamos viver. tentando conter os adversários. parte do topo do prédio na esquina oposta virou fumaça.Lucas ordenou que permanecessem naquela posição mais uns instantes. Bento Francis estava de volta à passagem aberta na parede de carros empilhados. a cada segundo. Mal terminada a frase de Lucas. Continuavam debaixo de fogo cerrado e. O soldado disparava repetidamente com o fuzil. Teriam de subir dois quarteirões. Lucas olhou para os soldados. — Ele precisa escapar com vida! Os soldados deixaram os corpos dos bentos mortos abaixo da linha de carros empilhados e voltaram para atender a ordem de Francis. Percebeu o tiroteio intensificando-se duas quadras acima. Lucas estava lá. Abriram fogo. Eventualmente um disparo ou outro varava o chassi do veículo. Recostados aos veículos. Buscaram posições onde houvesse o mínimo de proteção. fazendo lascas do cimento da calçada voar para todos os lados. — Tenha fé! Tenha fé. lançando dejetos sobre suas cabeças e enchendo o ar de poeira. senhor? — retornou o soldado. Só faltava seu grupo. em busca de Murilo. Mandem bala em tudo que se mexer. — Eles são demais! — gritou outro dos soldados ao seu lado. Eles sabem que estamos aqui e sabem o que têm que fazer. incrédulo. mas o fato é que agora não contariam mais com o efeito surpresa. Pedaços de 223 . A cada instante mais e mais mulos surgiam nas janelas e não demorou mais de um minuto para que o primeiro deles fosse atingido. Havia soldados na esquina à esquerda e podia ouvir mais disparos sendo efetuados da rua onde estava Lucas. bloqueando as balas inimigas.

Desta vez não se escondiam de balas. Apesar de terem escapado daquela emboscada com sucesso. Os tiros teriam mais efeito moral que fatal. os soldados gritaram rua abaixo. Os mulos. Era um pedaço do prédio! Sabia que aquele destroço não cairia em cima dele e dos soldados. Nem soldados. Assim que dobraram a esquina. Do meio da nuvem de fumaça viu surgir um pedaço enorme de concreto. O acidente seria o despiste ideal. em instantes. Sobravam poucas horas de sol e. Francis regeu a retirada dos soldados. O choque do concreto contra o asfalto foi tremendo.concreto atingiam a calçada com um barulho ensurdecedor e uma nuvem imensa de poeira tomou a avenida. não sentir medo. como que hipnotizados pela explosão. ainda cegos pela poeira. retomaram seus cavalos. A tropa motorizada tinha acabado de chegar e. voltavam a efetuar perigosos disparos que cortavam o ar sobre suas cabeças. Tinha um inimigo gigante. tampando a visão. Lucas e a escolta foram encobertos pela nuvem de dejetos. Nos veículos motorizados. — É a nossa deixa! Vamos correr. seriam atacados por um número inimaginável de criaturas da noite. tendo recuperado os corpos dos bentos e salvo doze soldados sobreviventes ao massacre. que descia em sentido ao horizonte. Viam Lucas e os soldados. se não tivessem longe do centro de São Paulo e daqueles prédios malditos. vivos. sabiam que a batalha ainda não tinha terminado. marrons. mesmo assim era difícil não se impressionar. voltaram a atirar na direção dos edifícios. Lucas colocou Murilo nas costas novamente e abandonaram a proteção dos carros. tinham vindo armas de grande poder destrutivo e uma espécie de canhão ainda fumegante deveria ter sido o responsável pelo estrondoso incidente assistido há pouco. nem mulos disparavam. Lucas e os soldados abaixaram-se. — Vamos embora! Vamos sair daqui. Lucas lançou um olhar para cima. Lucas e os soldados tinham entendido o que acontecia. 224 . agora! Francis tinha pressa. Num relance pôde ver três ou quatro mulos ainda agarrados no que sobrara de janelas do edifício. Seguindo a ordem de Vicente. mesmo ainda sem poderem enxergar claramente por causa da nuvem de poeira que ainda valsava. — Corram! — gritou. Vendo Lucas se aproximando com o corpo morto de bento Murilo. a artilharia pesada também surgira para salvar o restante dos soldados. mas de uma furiosa nuvem de poeira que varreu o cruzamento da Teodoro Sampaio. Os corpos dos bentos foram acondicionados nos veículos e. gritaram eufóricos. buscando proteção atrás de outro veículo abandonado pelo tempo. descendo pelo calçamento. com ela. Um silêncio nervoso instaurou-se momentaneamente.

Uma grande mudança havia acontecido e Francis não fazia idéia por qual estrada o destino os conduziria dali em diante. 225 . para a libertação. cheio de ansiedade e medo. Sorte dos soldados e bentos que os snipers competentes muito provavelmente haviam sido chamados para a armadilha. Mesmo que seu peito lutasse com a amargura e certeza de que os trinta bentos jamais seriam unidos. Não havia traço daquele rapaz franzino. Eventualmente deparavam-se com novos disparos. Alguém que os conduziria. Alguém que tomara o comando daquela tropa e salvara a vida de um punhado de soldados apanhados numa ratoeira. Mulos escondidos nos apartamentos pelo caminho atentavam contra os fugitivos. Francis olhou para o novato. Quem cavalgava ao seu lado era um herói altivo.Cavalos e veículos começaram a descer os cruzamentos mortos da Teodoro Sampaio. Alguém que devolvera esperança ao rosto da tropa que descia a rua naquele momento. de alguma forma. Era outro homem que estava montado no cavalo. Bento Francis cavalgava ao lado de Lucas. posto que carregavam na frente o corpo de seis de seus amigos. uma chama queimava sua alma. afastando-se rapidamente da aglomeração inimiga.

cada qual. mas todos ao seu redor. no seu eterno curso natural. Como aquele homem conseguia aquilo? Transbordar determinação e atitude. Seus braços fortes vinham na rédea do cavalo. Mas.. perturbado. fazendo o papel da cavalaria. Algo que escapara à ele na primeira impressão. O fantasma da escuridão penetrava no pensamento dos combatentes. sabia que podia contar com Lucas. mas não havia outra forma de definir aquilo. sim. nem para si próprio. Nunca tivera heróis na vida. Os olhos do guerreiro vagavam de rosto em rosto. Quando Lucas avançou contra os mulos estavam em dezenove homens. Tinham tido a notícia prévia de que os seis bentos que organizaram a expedição haviam sido mortos. Gostar de um homem. Algo tinha acontecido com Lucas. era esquisito. Lucas atraía a todos e todos. indo para o horizonte. Lutava contra aquilo. Um líder. por esse novo homem. Preciosa e perigosa. sentia-se envolvido. Os parceiros da mãe iam e vinham. os vinte e cinco motorizados chegaram depois. que não afetara apenas o bento novo. algo muito bom. Algo que o velho e falecido Bispo tinha visto antes de todos eles com aquele olho mágico que enxergava o futuro. Nunca tivera um pai presente. Como um código secreto. Nunca vira aquele bando atirar-se tão cegamente contra os inimigos. Lucas vinha ao lado de Francis. estariam dispostos a morrer para levar Lucas adiante. A infância pobre colocara-o no trabalho aos nove anos de idade. Vicente sentia-se estranho. nunca admitiria. Isso. como ele. Mesmo olhando agora para o veículo que metros a frente transportava os corpos dos bentos mortos. Nunca antes admirara um homem. Vicente conhecera também companhias erradas. rumo à concretização da profecia. nesse caso. conduzindo a montaria. Vicente experimentava outra sensação. Encher o peito dos homens ao redor com esperança e bravura. Sabia que era macho. Observava os soldados. Crescera entre bandidinhos. Não tinha heróis.. que era espada. Estavam 226 . E. atraído por essa nova energia. deixando a sua marca na pedra bruta que era a cabeça de Vicente. O sol descia. Vicente mordeu os lábios e voltou a olhar para frente. todos partilhavam sem falar daquela sensação. caído de quatro em admiração. Sentia-se envergonhado por estar atraído por um homem. toda aquela adversidade não foi capaz de ofuscar o brilho e a energia que emanavam daquele bento novato. Estavam cansados e preocupados. marginais pé-de-chinelo. que estava seduzido. Aquela admiração crescente. A violência doméstica esculpira uma jóia rara. que a princípio fizera pouco da figura franzina e frágil de Lucas e fizera questão de exibir sua arrogância nata e brutalidade forjada pela mão de padrastos bêbados e marmanjos aproveitadores. os inimigos estavam em vertiginosa vantagem numérica. Olhou para trás. feito um joalheiro.Capítulo 32 O truculento bento Vicente cavalgava mudo. Seu tordilho de pelagem negra era um dos mais belos animais do comboio. Era essa a palavra: admiração. E ele próprio. Lembrando desse ponto da missão. feito um ourives. Isso atrapalhava a sua cabeça. Imponente.

libertando as feras malditas. Não queria que os demais vissem o seu sorriso. Olhou demoradamente para o atalho e respirou fundo. coberto por uma barba rala. de repente. Marcharam mais duas horas até chegar à entrada do vale pantanoso. Parou na margem do terreno pantanoso. equipados com a artilharia pesada. — Não temos tempo. viu-se reprimindo um sorriso no rosto duro. por fim. Os cavaleiros que seguiam Edgar também pararam. não um babão que se encantava com outro macho. Edgar aguardou até todos se reunirem. Se os cavaleiros decidissem ir pelo pântano. 227 . Era um homem.abatidos pelo fato dos bentos terem morrido. Tomou a dianteira da marcha. postando-se metros na frente de bento Edgar. Precisamos unir os trinta bentos o mais rápido possível. Francis desmontou do cavalo com agilidade e cruzou o meio do grupo a pé. Vampiros não tomavam sangue de bentos. Ao menos teremos a proteção das armas pesadas. que lhe protegeria o pescoço. — Não. Tinham que definir uma estratégia de escapada. Edgar. novamente na ponta do grupo. Horas preciosas. Vicente. Os olhares convergiram para o novato. O sol derramava a luz derradeira sobre os morros. Vicente olhou para o horizonte. — interferiu Lucas. sendo dragada rapidamente pelas trevas. talvez. bento Lucas emanava um elixir calmante. A temível região pantanosa teria de ser transposta na escuridão. Levou a mão à testa e fez o sinal-da-cruz. Somente com o auxílio dos quatro milagres colocaremos fim a essa situação. irmão. Sabiam que Lucas resolveria aquele impasse. Bateu com os calcanhares no tordilho e fêlo disparar. Queria preservar seu ar marrudo e mal-encarado. Exalava uma sensação que os fazia crer que tudo se arranjaria. ali seria novamente o ponto de separação. Os veículos motorizados aproximaram-se lentamente. Sentiu um arrepio cruzar o peito. Somente os cavalos conseguiriam avançar naquele terreno traiçoeiro e brumoso. — disse. A visão da região pantanosa na frente provocou-lhe um calafrio. A velha São Paulo desaparecia nas sombras. Era a primeira vez que paravam desde que debandaram da armadilha. O atalho nos dará horas de vantagem. parou o cavalo puxando fortemente a rédea. mas de alguma forma. Não queria que percebessem que também tinha gostado da batalha e que se simpatizava com a atitude do novo bento. e desceu do cavalo. trazendo com a noite o desespero. Depois olhou para os veículos motorizados. mais uma hora de luz. Fim a esse medo da escuridão. mas procuravam suas jugulares para abrir um talho e tirar-lhes a vida. — Acho melhor desistirmos do atalho e avançarmos pela estrada. Agora não duvidava nem de que o bento novo fosse capaz de ressuscitar os mortos. Sabiam que não teriam muito tempo até o anoitecer. Ergueu sua touca de malha de ferro.

— disse. apontando para o pântano e depois olhando para os veículos. o soldado salvo da emboscada por bento Lucas. — Posso estar enganado. Mas. Gabriel. Os vampiros precisam de uma lição. que tinham que seguir por aquele pântano. mas perdemos seis bentos esta tarde. quiçá anos até que seis novos bentos despertem do sono. Não vamos esperar tanto. Você é poderoso. Precisam temer algo além do sol. A inexistência de energia elétrica não permitia que as luzes dos postes públicos fossem acesas. 228 . agravando ainda mais a má impressão que aquele mausoléu gigantesco podia proporcionar. — Sepultá-los? — perguntou. teremos mais chance. Se não agirmos com presteza e caminharmos de encontro à profecia. Vim para as horas amargas e não para as alegrias. mas te garanto que essas horas serão cruciais. — Desculpe a intromissão. algo que não vou ignorar. — O que serão três ou quatro horas a mais? — Serão tudo. Temos que ir por este caminho. De fato não poderia ressuscitar os mortos. — Sei que está preocupado e que preza pela vida de seus companheiros de jornada. Durante as horas que economizarmos cruzando esse pântano. pelo asfalto. — Os bentos morreram. bento Lucas. e era isso que fariam. Se cruzarmos o pântano. — Não. mas não ressuscita os mortos. Lucas. Os carros estarão levando os feridos. nossos dias estarão contados. — Os seis estão mortos e nosso dever agora é sepultá-los. precisamos reunir os bentos faltantes.. Se nos mantivermos unidos. Caminhou até a pickup que levava os corpos dos bentos no compartimento traseiro. podemos perder muito mais.Lucas também olhou para São Paulo e seu amontoado de prédios negros. Por que tanta urgência se os trinta bentos não serão postos juntos tão cedo? Teremos que aguardar meses. mas escute bento Francis. Não serão tão ágeis. Perdemos seis irmãos. o mais rápido possível. algo dizia que tinham que ganhar as horas. Sinto essa urgência queimando o meu peito... Temos que cruzar o pântano. Indo com os veículos. Esse risco é desnecessário. soldado. Cada minuto é precioso. Temos que ir por esse caminho. incrédulo e com nítida decepção na voz. — Sei que não devemos estar juntos essa noite. vamos nos atrasar. posso te garantir. Lucas. A voz preocupada de Francis cortou o silêncio. Temos que ganhar tempo. Os vampiros ganharão uma arma poderosa essa noite. Lucas encarou Elton. Eu sou o trigésimo bento e fui escolhido para levá-los de encontro ao que foi profetizado.. A luz enviesada do poente criava sombras extensas que anunciavam a chegada da noite. seis bentos não acordarão. É um palpite. Lucas olhou para o soldado Adriano.

Com as tiras de couro que escapavam das bainhas. mantendo-os firmes. A escuridão tomava a mata. fechou-as na mão e fez uma longa e silenciosa oração. que jazia ao pé da cova de Murilo. era um perigo. Entregou o primeiro par de espadas para bento Francis. até que a cova de cada bento estivesse representada pela respectiva armadura. Com o mesmo cuidado uniu o segundo par e entregou-o a bento Edgar.— Como Francis disse. Segurando as seis imagens. Quando as covas ficaram prontas. Francis. criando uma atmosfera sombria ao redor das sepulturas. Francis passou a Vicente a primeira couraça torácica. À medida que as couraças e espadas eram depostas. Um silêncio respeitoso cresceu até que só o som dos pássaros na mata e das pás contra o solo tomaram conta do ambiente. enterrou metade do cabo improvisado. com cuidado. Unindo o par de espadas. os soldados olharam para Francis buscando confirmação. que tinha o corpo tratado como um santo. as capas e as espadas desses homens. Vicente surgiu com cajados feitos de galhos das árvores próximas. dando instruções e confirmando que não cumpririam a risca o rito de sepultamento. Ao final da operação. — Lucas aproximou-se do veículo com os corpos. O último par de espadas conduziu até bento Vicente. com cerimônia. No cume de cada cova. O bento juntou-se aos homens que começaram a cavar o solo. — Cuidem dessas armas com a vida. Minutos mais tarde. Havia um cerimonioso ritual a ser cumprido antes do sepultamento de um bento. meia dúzia de pás surgiu dos veículos. os seis estão mortos e nada há para se fazer a esse respeito. Isso vai conosco. — Vamos enterrá-los. fechava firmemente o embrulho. enrolava-as. Diante do grupo silencioso o trio cumpriu a ordem de Lucas. usando um par de capas vermelhas. No entanto. Os corpos foram depositados no fundo das covas e cobertos com pressa. apanhava as armas embainhadas de duas em duas. mediante as circunstâncias e urgência. Ao terminar olhou para os 229 . As lanternas dos veículos foram acesas. Lucas assistia mudo à ação. o ritual deveria ser abreviado. Apesar da liderança súbita e arrebatadora que Lucas havia adquirido. Fez o mesmo com as demais. Vicente fixou o peito de prata com firmeza no cajado. Vamos enterrá-los e continuar nossa jornada. Francis aquiesceu e. Apontou para os três soldados que ocupavam o veículo. — Tirem as couraças. De noite. Lucas voltou-se com serenidade e olhou para os corpos enfileirados. Lucas. cravados na terra. que permanecia montado em seu cavalo. aproximouse dos cadáveres e retirou do pescoço de cada um deles o cordão com a figura de São Jorge. suado com o esforço empreendido. unin-do-o à madeira com uma fita de couro. Tinham que correr se não quisessem virar comida de vampiros. naquela região. o sol já havia se deitado. um segundo depois.

soldados. Matias olhou para o céu. Tinham a impressão de saltarem do fogo para a frigideira. tochas foram acesas para que o caminho no pântano fosse iluminado. soldado. Adriano apanhou a peça e olhou-a demoradamente. A maioria dos cavaleiros benzeu-se antes de adentrar o terreno pantanoso. molhando a face. chamando todos para a marcha. — Fogo! — bradou Vicente. Meia dúzia de soldados reclamou do cansaço. — Tome. comprimindo contra a palma da mão a pequena imagem do guerreiro São Jorge. que poucas vezes na vida tinha o rosto livre da carranca.. Se aquela névoa se adensasse não seria nada bom. Enquanto os carros manobravam para voltar à estrada e dividir o grupo. era urgente retomar a marcha. Do contrário. O líder de Nova Luz fechou os dedos. entrava em seus ouvidos. Nela. Os motores dos veículos roncaram e as luzes dos faróis vibraram. Cavalgar no pântano. uma garoa leve balançava ao sabor do vento. Com as tochas prontas. guardando um exército sem fim de criaturas da escuridão. com chuva.. Apesar do bento estar calado. ficariam sozinhos na beira do pântano. Que isto te traga proteção. apressaram-se em reduzir a fogueira em cinzas. os que adentravam aquele temido terreno. Pelo menos. 230 . estariam acompanhados dos bentos. todos perceberam a emoção na expressão daquele gigante. mas não tinham outro remédio. Francis aproximou-se de Adriano e estendeu-lhe a corrente de bento André. os soldados montavam os cavalos. enquanto os bentos e alguns dos soldados vestiam as túnicas marrons. mais uma vez buscando confundir a visão de possíveis inimigos. com a velha São Paulo na suas costas. Os soldados improvisaram uma fogueira com rapidez. Lucas benzeu-se em frente aos túmulos e acenou para Francis. enquanto a voz de Francis. Fechou os olhos.

Anaquias empurrou o inimigo para o meio da sala. — Como eu disse. O vampiro urrava de dor. Tinha os ossos das pernas e dos braços literalmente moídos. você sabe de muitas coisas. 231 . Você não pode com todos nós. Renda-se. — Você é o vampiro chamado César. Gerson sorriu. com os braços acorrentados nas costas e presos firmemente pelas mãos de dezenas de outros vampiros. Não atacariam até que o líder novamente ordenasse. Anaquias saltou sobre o agressor e o agarrou pelo pescoço. Anaquias desviou-se com habilidade. Metade do ambiente estava tomado por vampiros com ares de poucos amigos. Estavam na sala do que fora um imenso apartamento em bairro chique de São Paulo. — Fui eu quem ensinou isso a ele. Acendeu-os feito brasas e exibiu as presas afiadas. — disse um vampiro cinzento e de face cadavérica. cessando o ataque. — Peça você que seus lacaios cessem os ataques. Viu Gerson e Raquel. — Sei o seu nome. O vampiro de face cadavérica andou pelo assoalho de madeira da sala. Virou-se para encarar Anaquias. mas sabia que não poderia fazer aquilo a noite toda. Um vampiro voou em sua direção. O semicírculo de vampiros frente a Anaquias manteve-se imóvel. Iniciou uma série de golpes. Suas botas estalavam a cada passo. Anaquias desviou-se do segundo agressor. É por isso que estou aqui. César tirou o vampiro com os ossos moídos do chão. deixando o agressor chocar-se contra parede. — Eles vieram? Vocês conseguiram? As perguntas de Anaquias quase não foram ouvidas em razão dos gemidos de dor do vampiro ferido. O vampiro de face sulcada encarou Anaquias. não conseguindo manter-se de pé. Estava cercado e seu instinto fê-lo preparar-se para o combate. Anaquias. — Pare. Aproximou-se da sacada do prédio. Quando o terceiro inimigo atacou. — Você sabe de muitas coisas. Ergueu-o como se não possuísse peso. não para ser trucidado.Capítulo 33 Anaquias abriu os olhos abandonando o transe. — disse Anaquias. — murmurou sorridente a líder Raquel. Vim aqui para ajudar. deixando os atacantes escutarem uma seqüência de "claques" e "crecs".

— Sabia? — perguntou César. — Ele me disse.César ergueu o ferido sobre a cabeça e virou-se para a sacada. — Que outros? — Como você disse.. César. arremessando-o metros a frente. — Você não fede a traidor. resolvi vir pessoalmente lhe perguntar se realmente você está do nosso lado. Fechou as mãos e ajoelhou-se. Anaquias fez nova careta de dor. — Acontece que convidados inesperados surgiram na festa. mas. — Eles vieram? — insistiu o vampiro.. César simplesmente meneou positivamente a cabeça. César agarrou Anaquias pelas costas e. retorcendo-se de dor. disse que eles viriam. fechamos a Teodoro Sampaio. antes que o grito da vampira pudesse ajudar. — Quem lhe falou? — repetiu. como sou o responsável pela segurança dessa parte de São Paulo. César andou para a frente e para trás. O vampiro voou junto com os cacos. arremessou o suspeito contra a parede. Anaquias tombou. — Eu sabia! — berrou. Vocês os pegaram? 232 .. Nas suas costas. Não falou de outros.. Preparamos a tocaia. Anaquias. Disse que viriam seis bentos. a voz na minha cabeça. pela confirmação. Anaquias abriu um sorriso e virou-se de costas. A risada de César sobrepôs o murmúrio de Anaquias. embebedado pela vitória. tentando erguer-se. impaciente. — Então.. A parede estava afundada onde havia recebido o choque de seu corpo. levaria meses até que pudesse ficar de pé. caso ainda estivesse inteiro. Usando velocidade sobrenatural.. através da vidraça... parte do reboco da parede ruiu. Está? Anaquias grunhiu. Seus olhos apagaram. — Foi a voz. tirando o cabelo de sua testa. Construímos o corredor. César caminhou até Anaquias. vampiro? Anaquias passou a mão pelo peito. encarando-o demoradamente. Provavelmente sobreviveria a tal atrocidade. — Duvida? — Quem lhe falou que eles viriam. caindo quinze andares até a rua. — Por que não nos contou que os outros viriam? Anaquias ajoelhou-se novamente. olhando para os vampiros amarrados e depois de volta para Anaquias.

..César parou de rir. Os vampiros se entreolharam. César deu uma bofetada com as costas das mãos no rosto de Anaquias. — Ele? Bruxa? — perguntou César. Anaquias virou-se para o bando de soldados vampiros que mantinham Raquel e Gerson amarrados.. Os olhos de Anaquias acenderam-se mais uma vez. — Mas como? Vocês prepararam o caminho. é a voz do vampiro-rei. Anaquias foi mais ágil. incertos. Os corpos foram levados com os outros. — Durante meu sono o vampiro-rei disse mais coisas. — Guardem o sangue deles. No entanto. — . arregalou os olhos. Todos olhavam estáticos para o vampiro franzino. disse que vocês viriam... O vampiro. surpreso.. teve a iniciativa contida por um brado do inimigo... Anaquias arremessou-o de encontro ao teto e agarrou-o novamente pelo pescoço. — Foram mortos. Anaquias dobrou-se perante o golpe. com ar de deboche. Viu a bruxa pedindo o sangue dos bentos. Quando o primeiro dos vampiros pensou em avançar contra Anaquias. na minha cabeça. Os seis. 233 . Viriam e junto a mim haveriam de preparar.... Ele vai precisar.. Os outros que "ele" esqueceu de dizer... mesmo que tivessem vindo outros. virando-se rapidamente e agarrando César primeiro. — Guardem o sangue. esmagando o crânio do vampiro inimigo. Colocou César sobre os ombros e deu passos decididos em direção à janela arremessando o vampiro pela sacada. — A voz. — Impossível. — . — Quem é ele? — insistiu César. César abaixou-se para agarrar o vampiro pelo pescoço. O vacilo de um instante foi suficiente para dar mais solidez ainda à impressão causada pelo vampiro vidente. — Acalmem-se! Nem pensem em me atacar! O brado foi tão poderoso e cheio de razão que os vampiros sentiram-se minados. Ele viu isso. é a voz. Anaquias segurou a cabeça de César e empurrou-a contra uma coluna no meio da sala. Baixou a testa no chão.

ainda confusos. Estava desconfiando que Anaquias tinha contato com os humanos. Não devemos voltar de mãos vazias ao covil. Você deu sorte com César. Os lacaios de César afastaram-se de Gerson e Raquel.. — disse um deles. — Não estou com brincadeiras. que estava armando alguma tramóia para entregar o covil do Hospital das Clínicas aos bentos. Não deveriam confiar naquele vampiro estranho. O do soldado arremessado por César ladeado pelo próprio carrasco. Anaquias. como se nada tivesse acontecido aqui. De alguma forma Anaquias estava controlando aqueles vampiros. Olhou para baixo. — Pára com esse teatro. César tinha armado um esquema para capturá-los. Esta noite fui visitado novamente pelas imagens.. Trocaram olhares. Anaquias olhou friamente para o olho bom de Raquel. começaram uma discussão em voz baixa. pouco mais de vinte deles. Mais uma vez os vampiros ficaram sem reação. de nosso trabalho. tomando o queixo. 234 . mulher. ainda ajoelhados e acorrentados. O grupo de soldados-vampiros... Ainda boquiabertos. Os vampiros se entreolharam. Sabe que ainda quero arrancar o couro de Cantarzo. Raquel aproximou-se do companheiro magro e transformado e sussurrou-lhe. Pareciam conferenciar acerca do pedido de Anaquias. olhavam incrédulos para a figura transformada do pacato Anaquias. Tampouco podemos deixar que vão embora. Anaquias caminhou de volta à sacada do apartamento. — retrucou Anaquias. tão forte quanto Gerson. Vamos dar o fora daqui. Gerson e Raquel sentiram as mãos soltas. Na rua encontrou dois corpos. A voz diz coisas que estão por vir. — Jamais arremessarei um de vocês janela abaixo. — Tu acabastes com nosso líder. A discussão tomou mais de um minuto. — Libertem-nos! — urrou Anaquias. Tinha o cabelo raspado e uma tatuagem tribal subia do pescoço. Raquel e Gerson. A voz nos guiará. — Obedeçam a mim e a voz dirá o que devem fazer. mas não abuse. Esse era alto e forte. adiantando-se. — Devemos obediência aos anciãos daqui. Anaquias caminhou pelo assoalho de madeira.— O vampiro-rei precisará de nossos braços. Não é assim que um líder impõe respeito. cortando o vampiro. — Obedeçam a mim de agora em diante. — Libertem Raquel e Gerson. encarando o vampiro que lhe dirigira a palavra. Uma coleção de trepadeiras tomava a lateral do prédio e ramos grossos espalhavam-se para todos os lados.

— respondeu Anaquias. que discutiam. Vi um caminho para acabarmos com os humanos.. O futuro. O vampiro tatuado deu dois passos para a frente do grupo. — Deixa disso. O que está acontecendo com você? Anaquias baixou a cabeça pela primeira vez. contrariados. de uma vez por todas. para fincarmos nossas garras na terra e tomarmos. como se o velho Anaquias ressurgisse naquele rosto duro. — Se deixarmos vocês partirem. todo vampiro que rasteja pela terra deverá obedecer ao vampiro-rei! — bradou Anaquias. eu vi o futuro. — Eu escutei a voz... — Nem a mim nem aos anciãos.. Os vampiros. debochada. cessaram o barulho. Anaquias. — De agora em diante.Raquel sorriu com o canto da boca. — O que você viu? — Vi o futuro. 235 .. seremos destroçados pelos anciãos.. Os vampiros voltaram a cochichar. Gerson. Gerson também ladeou Anaquias. A quem devemos obedecer? A ti ou aos anciãos? Raquel bufou e meneou negativamente a cabeça. encarando Anaquias. Mas sentimos fé no que disse. o topo da cadeia alimentar.

que eram tão comuns nas fortalezas de traficantes na virada do milênio. escorado na parede. Ao lado do braseiro tinha uma penca de bananas. O formigamento ia diminuindo aos poucos. era de sua herança genética. Acabou sentando-se. os muros da fortificação. Lembrando disso. não queria que o parceiro de vigília achasse que estava ao lado de um cagão. com poderosos refletores. Começou a se lembrar. ao redor da torre de madeira. O areião banhou-se de luz. As armas continuam servindo para o mesmo fim. Ficou olhando pela vigia por uns dois minutos. produzira um sorriso de canto de boca. Coçou a 236 . Tinha jogado profissionalmente para a equipe de Suzano. O abrigo no topo da torre era baixo e não dava para ficar em pé. mas. sentindo o metal suavemente aquecido tocar a pele do peito. nesse exato momento. A tarde tinha esfriado consideravelmente e agora. Acionou um interruptor vermelho. Respirou fundo de novo. um pote com pó de café e um fuzil russo. Trouxeram uma caixa. Também. Élcio coçou o nariz e voltou a massagear a coxa. enchendo-a de manchas escuras. servindo a pessoas que tiravam a vida por um punhado de químicos e muito dinheiro. Respirou fundo. uns duzentos metros adiante. pelos humanos sobreviventes. contudo estavam sendo usadas dentro das novas fortalezas.Capítulo 34 Élcio aconchegou-se junto ao braseiro. Era o sentinela de plantão daquela noite. Élcio espichou a perna que formigava. Fora jogador de Basquete. Via a garoa salpicando a areia. Há semanas que os escalados para a estressante tarefa de ficar plantado em cima da torre voltavam ilesos. Valdo olhou pela janelinha. calado. defender e arrancar a vida do inimigo. Há semanas não viam sequer um par de olhos na floresta. Quando abriu os olhos naquele novo mundo custou a acreditar em tanta mudança. Tinha ficado muito tempo acocorado. Há semanas que não tinham problemas com os malditos noturnos. iluminando. Tinha dois metros e cinco de altura. Enfiou-o de novo dentro da blusa. protegendo o povoado de Santa Rita contra os miseráveis noturnos. só olhando para os remoinhos de garoa agitada pelo vento. Graças a Deus. com a chegada da noite e o princípio de garoa. quem não tinha cagaço de ficar nas torres? Isso não seria vergonha nenhuma. roubando-Ihe a cor clara. Aquelas armas. puxando a correntinha de dentro da fina blusa de lã. aquele calorzinho viria a calhar. Mas isso não era garantia de nada e sua angústia só aumentava. Para trás. Fazia vinte minutos que tinham chegado na torre. Enfiou a mão num dos bolsos da calça de tecido grosso. Tentava não fazer transparecer pelas suas feições. Valdo espiou pela vigia. Demorou também para lembrar do seu passado. pensando consigo mesmo. a culpa não era do abrigo. para frente. Sacou um maço de cigarros caseiros e uma caixa de munição. Apertou o crucifixo na palma da mão. Precisou dar uma boa lida nos arquivos feitos em seu nome. confortavelmente. Uma fotografia. a floresta erguendo-se depois do areião.

Deixava de ser uma bela adormecida para encarar o novo mundo. Levou anos até que retomasse o gosto pelo céu azul e pelo sorriso após as piadas. pelo sono incerto dos adormecidos. lendo à luz de vela as cartas deixadas pelo marido. — Olha o que eu descolei pra gente. da caridade de outras boas almas. Olhou para Élcio. — no meio de mais uma tragada longa. Expirou fazendo bico. — Você não trouxe uma blusa. O cheiro da carne assada encheu a casa. Separada da filha. Passara por maus bocados depois de acordada. Sabrina passara adormecida ao lado da filha por dezoito anos. seu novo marido. Sabia que o gigante era esquisitão. havia morrido nos primeiros anos após a Noite Maldita. Parte desse ânimo vinha de Gustavo. em poucos minutos. Sabrina colocou a mesa. estendendo a arma para o parceiro. sem tirar os olhos do livro. depois. lançando a fumaça para o outro lado do cômodo. O rapaz só balançou a cabeça negativamente. pelo sono eterno dos mortos. vagava sem ânimo pelas comunidades da detestável realidade. Vou colocar umas balas revestidas de prata na sua munição. por favor? — reclamou. Apanhou a pistola no assoalho ao seu lado. Tudo o que sabia do marido fora dito por quem cuidara dela. onde o 237 . Havia morrido em combate. substituindo todas por balas banhadas em prata. — Vai esfriar mais. Não ligava quando encontrava a mulher com os olhos cheios de lágrimas. — Sou calorento. Élcio ergueu os olhos. Sabrina jamais vira o marido após a Noite Maldita. desperta há poucos meses. Valdo arrancou o municiador das pistolas e retirou as balas comuns. Era a primeira vez que fazia vigília com Élcio. — O que você está lendo? — João Ubaldo Ribeiro. Valdo sorriu. e do marido. Vivia de vila em vila. — Você se importa em deixar eu ler em paz por uns vinte minutos. a substituição dos projéteis estaria completa. — Ah. foi a primeira a entrar na cozinha. uma longa. Pra quebrar um galho. Valdo apanhou a caixa de munição. a filha de nove anos. Deu duas tragadas rápidas e. O pai biológico de Eloísa. Era hábil e. O grandalhão magrelo voltou os olhos para o livro.. — Passa aí sua pistola.barba por fazer e envergou-se sobre o braseiro para acender o cigarro. O gigante magrelo estava lendo uma brochura. Gustavo apoiara Sabrina e não desistira dela nunca. marido de Sabrina. Élcio fechou os olhos. não? — perguntou para Élcio.. — Peguei com o Negão. Eloísa.

num interminável sono encantado. caso Gustavo estivesse em casa. e as aventuras perseguindo o fio de esperança na organização da sociedade na nova situação. provavelmente. nas incontáveis visitas à sua filha adormecida. trabalhava junto nos canteiros da fortificação. hortelãos. Adorava os legumes fresquinhos e coloridos que guarneciam a carne saborosa. Bolo de cenoura com cobertura de chocolate. A pequena bela adormecida.pobre homem contava parte de seu desespero ao vê-las dormentes como mortas. Adorava o assado da mãe. era permitido que cada casa preparasse sua refeição. Ia toda noite acariciar a face pálida e encovada de Eloísa. servia para evitar desidratação demasiada. atrapalhasse qualquer celebração naquela noite. Gustavo respeitava as lembranças de Sabrina e não sofria de ciúmes por um homem morto. Tinha saído de casa dando um beijo apaixonado em sua Sabrina. Havia lhe apertado a cintura e terminado com um abraço terno e demorado. um dia que merecia um bom pedaço de caça e o melhor tempero e dedicação. Muitas vezes a 238 . como em outras fortificações. no novo mundo. E. Estaria mil vezes mais contente. Era melhor hidratá-los. Dado esse fato. Todos aqueles corpos guardados. Aquela manobra. O prato com a sobremesa. Maldito rodízio! Eloísa rodeou a mesa com os olhos compridos para cima da travessa. antes da vila dormir. sabiam disso. mas assumiam uma aparência horrível. contribuindo para com a vida na vila. Sabiam a importância de cada par de braços no atual método de vida. um ano atrás. era um dia especial. Santa Rita manter um estoque de adormecidos. apesar de pequena. Não eram poucas as lágrimas que desciam em algumas visitas. O único inconveniente naquela vila prazerosa era o fato de. transformando o corpo num amontoado de pele e osso. apesar de fria. como ela fazia. O novo casal. hoje. Sabrina abriu mais o sorriso. com direito a músicos no coreto. deitados lado a lado. haveria algum tipo de comemoração no galpão de festas. Sentia-se mais mãe quando o fazia. Mesmo desidratados. sem dúvida. Sentia-se cuidando da menina. Numa vigília sem data para terminar. Os adormecidos ocupavam cinco dos seis galpões de um velho parque industrial. os corpos não morriam. A mulher sentia calafrios quando cruzava aqueles corredores. duvidava que aquela garoa. Fazia tempo que os malditos noturnos não tentavam nada em Santa Rita. Mais dois casais viriam até a casa e. Gustavo não jantaria em casa esta noite pois tinha caído na inevitável escala de sentinela. Pedira permissão para sempre renovar o soro da menina. tornando-os caveiras recobertas por couro. como se fosse possível. Até um ano atrás era comum encontrá-la cruzando as fileiras de intermináveis rostos pálidos e corpos magros conectados a bolsas de soro. Mas os olhos buscam um outro prato. Assim seria mais fácil para a procissão de pessoas que tinham que caminhar entre os corpos. mas a virada do tempo não permitiria. Santa Rita não contava com um refeitório central. A comemoração poderia até ser na praça. a não ser o dos soldados. diziam os médicos. Como amava aquela mulher! Sabrina sempre ficava com o coração apertado quando Gustavo tinha que se empoleirar naquela torre de madeira.

servia-lhe de conforto. Sabrina era aquele tipo de garota que não se consegue resistir por muitas horas. não adiantou "caras pintadas" ocupando a reitoria. dado o fato de que Sabrina sentia contrações que davam a ela um novo significado a palavra dor. tão cheio dos traços firme e belos do pai. Francisco tornou-se preparador físico dos funcionários dessa empresa. Francisco. naturalmente atraída por homens negros. em situações normais. quando acariciava interminavelmente o rosto doce de Eloísa. Deus! Como Ele deixara isso acontecer com a gente? Era um fim de mundo inimaginável. Tinha gravado na memória o nome da mulher que digitava seus dados e os do marido 239 . que moravam em São Paulo e haviam fundado uma importante empresa de segurança patrimonial. só tinha pedido para que Sabrina não contasse à mãe que ele estivera lá. exalunos. deliciosa e cheia de energia. Não adiantou advogado.. Ainda que convivesse com outro homem. Casaram-se no civil contando com os amigos de padrinhos e da família. porém viva da filha. tanto que por alguma razão incompreensível. não demorou a paixão a chegar. Sabrina já tinha fugido para a casa de Francisco. Encantadora. que não cedia nem aos panos quentes que o pai colocava.cabeça ficava bagunçada. Mas. que dureza! Mal completara um ano de namoro. que a encontrara no Mato Grosso e fizera dela uma princesa. Como era triste aquilo. não seriam lembrados depois de tantos anos e tantos fatos bizarros já decorridos. resistiu o quanto pôde. O pai tinha se simpatizado de pronto com Francisco. levava horas para se acalmar. Novas lágrimas brotavam sempre que vinha a lembrança do dia do casamento civil. Naqueles momentos de vigília ao lado da filha adormecida. As duras discussões com a mãe racista. mas a mãe. A primeira e única vez que entrara feliz num hospital para ser internada. O pai tinha sumido depois da Noite Maldita. como mexer uns pauzinhos meses depois da união e acontecer de Francisco ser demitido da faculdade federal acusado de algum crime contra a moral. nascido e criado em Fortaleza.. Sabrina era aluna de Francisco. Muitas vezes Sabrina deixava os olhos vagarem pelas pilhas de corpos. O coração duro e sem propósito impelia a fazer coisas estúpidas. Francisco arranjou tudo com bons amigos. tinha gravado dois detalhes que. Sabrina agradeceria-lhe a vida toda por aquele gesto. Sabrina dava entrada no hospital. Sabrina relembrava o início do romance. Depois da fuga de casa e do casamento secreto. Depois do desespero. Nunca mais tinha tido notícias do velho querido. na maioria vigias e seguranças. tinha prestado concurso e trabalhava como professor na Universidade Federal de Cuiabá. Meses mais tarde. apenas a presença secreta do pai de Sabrina. O pessoal do atendimento do Hospital e Maternidade São Luiz era muito simpático. olhar para o rosto sereno de Eloísa trazia boas lembranças de seu antigo marido. Enchia-se de perguntas. Francisco tinha lhe sido um deus negro. na posição de professor. O pai. A pele negra e empalidecida. Francisco era forte e inteligente. para evitar mais atrito em casa. formado em educação física. Orgulhoso. a mãe aumentara o amargor. uma vez que tirara uma aluna de casa. O salário era melhor que o de professor e via-se rodeado de amigos. tão bacana.

acariciando a face de sua pequena Eloísa. Às vezes. Que ficasse para sempre com aquele rostinho infantil. Célio deveria seguir até Santa Maria. Havia a profecia. O nome da mulher era Sueli.. hoje era dia para festejar. como todas as 240 . Secou as lágrimas em um pano de prato e tomou cuidado para que Eloísa não percebesse que tinha chorado. Mexeu rápido com a colher de pau. Uma contração mais forte a fez soltar um forte gemido e a mão forte de Francisco apertou seu braço. Existiam outros males. Mas. de maneira insana.. Tanto passado. Apertou os olhos antes que começasse a chorar novamente. encapadas e vendidas pelas livrarias do mundo ou alugados em forma de DVDs nas prateleiras das vídeo locadoras. Nunca se juntavam os trinta. e juntar-se aos bentos. E os bentos. Suas predições eram certeiras.no computador com a finalidade de preparar sua entrada e lhe garantir um bom quarto. Às vezes. A história espalhada pelo velho Bispo. Uma massa pálida. Agora o mal era um só. E se a profecia estivesse certa. O segundo fato estranho era o de ter visto sobre a mesa de trabalho de Sueli um atraente livro de capa negra. livro de vampiros. A história de que trinta bentos se juntariam para dar fim àquela raça maldita. sempre houvera a esperança. quando os vampiros eram meramente ficção gravada em páginas amontoadas. criaturas com dentes afiados e sedentas por sangue humano. Tanta gente. O trigésimo bento havia despertado e os trinta deveriam se agrupar para que vencessem os vampiros. Sem aquelas pestes noturnas rondando as casas. Sabrina encontrou-se hipnotizada diante do fogão a lenha. gravados no fundo do seu cérebro. ao norte da Velha Salvador. Agora não. Mas daí seus ditos vinham e aconteciam.. Um mensageiro chegara trazendo uma mensagem para bento Célio. Como ignorar o poder dos bentos? Aqueles homens que surgiam de tempos em tempos e defendiam as fortificações com bravura. chamada carinhosamente de "minha neguinha". Fez uma anotação mental naquele instante de que no futuro iria comprar aquele livro e que iria mandar uma caixa de bombons para a tal da agradável Sueli. mas eram humanos. Era sempre triste lembrar-se do antes. Sempre apertava o coração saber que o mundo fora diferente daquilo. com o creme alaranjado borbulhando e começando a queimar no fundo do tacho. Sabrina entrara no elevador com o nome da mulher e a capa do livro negro. com um olho vermelho queimando e chamando a atenção. Era dia para jogar todos os medos num buraco e dar de ombros para as dificuldades. O doce de abóbora estava demorando para dar ponto. Mas. enquanto estava no depósito de adormecidos. empunhando apenas uma espada. conduzindo Sabrina para o atendimento obstétrico.. às vezes. Em certas ocasiões achava que aquilo era tudo invencionice daquele velho. Jamais comprou o tal livro de vampiros. Forçou um sorriso e remexeu o tacho mais uma vez. Com aquele jeito de criança e que só abrisse os olhos quando os malditos tivessem sumido da face da Terra. jamais enviou a caixa de bombons de agradecimento para a bendita Sueli. Uma outra funcionária do hospital retirou sua cadeira de rodas do elevador. Sabrina desejava que ela não despertasse. perdendo a vida. batendo-se contra centenas de vampiros.

. — Por quê? — Você não ouviu a história? — Do trigésimo bento? — flap. — Relaxa. é? — perguntou a mulher. Gustavo fechou os olhos. Sabrina afastou-se do fogão. Queria tanto que Gustavo estivesse ali. Eloísa desenhava com lápis coloridos num pedaço de papel. Logo os vizinhos chegariam. Parece que esses malditos esqueceram dos adormecidos de Santa Rita. fazer o quê? Estamos na escala. Será que os soldados tinham ido para casa para celebrar a notícia da chegada do trigésimo bento? Olhou demoradamente. Sentou no chão de madeira recostando-se nas tábuas que formavam a parede. Floresta negra. fechando a vigia. mais uma lasca de madeira escapuliu da escultura da mulher. Gustavo espiou pela vigia.. talvez esse fosse o último "plantão" que daria em cima da torre de vigia. Não estava esculpindo uma obra de arte. Quanto tempo não atacam nossa cidade? Dois meses? — Acho que mais. Estamos no perigo. Garoa dançando no facho de luz projetado pelos holofotes no topo da vigia. Quando olhou para o outro canto do cômodo. Um pouco de garoa fria passou pela vigia aberta. Aos poucos. Thais o estava encarando. reunido com eles. Queria estar em casa. Voltou para o outro lado e espiou mais uma vez. O pedaço de madeira bateu seco contra a parede. — disse. cara. 241 . dando de ombros. quando os trinta estivessem juntos. o mundo se livraria dos malditos.previsões do velho Bispo estavam. Atravessou o cômodo e espiou do outro lado. Tudo calmo. preocupado.. O muro de Santa Puta parecia deserto. Era um dia para se comemorar. A floresta negra e calma. Um vento mais forte balançou a torre. apenas distraía-se. Raspou mais uma vez o canivete arrancando outro filete do toco.. A mãe apertou a bochecha da filha e afagou-lhe o cabelo. Só estavam longe demais para seus olhos negros alcançarem algum sinal na escuridão. ia surgindo uma ponta longa e uniforme.. Gustavo levantou-se e ergueu a portinhola de novo. Gustavo anuiu. Thais respirou fundo.. Era assim que queria passar a noite. — Queria estar em casa hoje. Bufou prolongadamente. Estava escuro e o muro distava mais de duzentos metros. — Ouvi. passando o fio afiado na madeira. Com certeza os soldados estavam lá. — Tá de saco cheio. Ergueu o braço e arrancou o graveto do lugar que sustentava a portinhola. Se aquelas histórias fossem verdade.. — Mas..

Acho que é isso. — Machista? — Machista. traços orientais ou índios. E era a única mulher de Santa Rita que participava do rodízio. 242 . Poderia estar na vila. Diacho! Era casado! Tinha a Sabrina que era mil vezes mais bonita que a Thais. sim. Dessa vez foi Gustavo que arqueou as sobrancelhas. Aposto que estava pensando que sou uma mulher bonitinha demais para estar encarrapitada aqui em cima com soldados.. Gustavo fechou os olhos. As pessoas na vila. Tinha pouco mais de vinte e dois anos.. O sorriso sumiu do rosto da mulher. — reclamou a mulher.. putz! Como cheirava gostoso! Pesava mais do que uma modelo de moda do tempo que o mundo era mundo pesaria. Que sou maluca por ser uma voluntária. meu amigo machista. — Você ri. Voltou a sentar-se.. — Pensei que você é maluca. A pele morena e.. um gordurinha ali. E. Pela vigia não estava conseguindo ver a torre vizinha. Thais arqueou as sobrancelhas e abriu a boca. desviando do sorriso hipnótico que emanava da boca bem feita da mulher. ninguém vai estar a salvo. — A salvo? Foi a vez de Thais levantar e espiar pela vigia. Se tivessem atacado Santa Rita ontem.Thais passou a lâmina na madeira.. Riu sozinho e balançou a cabeça. mas olhar não era trair. todo mundo vai comemorar. Gustavo sorriu para Thais. Era voluntária. fazendo justiça. Recebemos a notícia de que o trigésimo bento despertou. difícil dizer.. — O que foi? — Nada.. — Pára de falar de comida que eu estou com fome. mas via o facho de luz projetado dela batendo no areião molhado. E voluntários não eram descartados. Thais era uma garota bonita. o que fazia Thais a segunda colocada no Miss Universo Fodido. — Por que apareceriam hoje? Gustavo deu de ombros.. Sabrina era só duas vezes mais bonita.. onde estariam Élcio e Valdo. estamos felizes. num lugar quentinho e a salvo. da escala. — Enquanto esses malditos existirem. — Sabe aquela história de que alegria de pobre dura pouco? Então. — . Vão fazer assado.. tirando dessa vez uma pele bem fina que encaracolou enquanto desprendia-se do que fora um galho. olhando pra mim e diz: nada! Faz favor. Baixou a portinhola mais uma vez. duvidaria que aparecessem hoje. Tinha os olhos amendoados. Tinha um pneuzinho aqui. Vão dançar.. e é isso que me preocupa. minha mulher. mas ao inferno com as esqueléticas! Aquilo é que era mulher! Chuchu beleza. Gustavo! Vai dizer o que pensou. independente do gênero...

depois de muita insistência. Deixa-me explicar antes que a menina fique roxa de vergonha. Depois das risadas. — Pára de graça. Estavam todos contentes demais para se preocuparem com o frio repentino. Sabrina soergueu as sobrancelhas. menina! — convidou Fátima.. fazendo a massa juntar-se em coro. enquanto Eloísa. convidei-a para celebrar conosco a chegada do trigésimo bento. já mastigava um pedacinho de bolo de cenoura com cobertura de chocolate falso. contando com mais duas travessas de assado com legumes. — Como o Élcio também está de plantão nas torres avançadas. Luiz Antônio. 243 . avançada e ambulante! Mais risadas pela insistente piada de Luiz Antônio.. na garoa. — Oi. afastouse do quarteto de amigos e foi atender. Uma adolescente aparentando não mais que dezoito anos estava parada do lado de fora. vocês conhecem. tinha organizado um bar e servia sem cessar a todos os amigos reunidos. — brincou Luiz Antônio. pessoal. despejando vinho nas canecas. A garota exibiu uma garrafa de vinho e abriu um sorriso.. comentava a respeito da fumaça que subia de uma boa quantidade de chaminés mostrando que quem não havia atendido a celebração no galpão de festas. Uma banda tocava clássicos do rock brasileiro conhecidos por todos. estaria fazendo o mesmo que eles: um apetitoso banquete para marcar a chegada do trigésimo bento. como dona da casa. Pode entrar. Tônico. — Esta aqui é Maria Alice. mas ninguém parecia querer perder tempo no refeitório preparando a beberagem. Maria Alice sorriu encabulada. Uma batida na porta chamou a atenção dos adultos. Todos lamentaram a falta do animado e engraçado Gustavo. — Ah! O poste ambulante.O galpão de festas estava efervescendo em agitação. com frutas. Fátima continuou. quem normalmente puxava as primeiras piadas e lembranças cômicas dos acontecidos. enquanto Luiz Antônio apanha a garrafa de vinho. Dois casais de amigos tinham chegado na casa de Sabrina. marido de Fátima. A mesa estava cheia. Negão. Os dias de medo estavam chegando ao fim. Fátima chegou à porta e estendeu a mão para a garota. o líder dos soldados de Santa Rita. — O Élcio é uma torre avançada. — Como ela ia ficar sozinha pela primeira noite aqui em Santa Rita. ainda não estava tão à vontade. É namorada do Élcio. Ela é nova em nossa vila. — Fátima fez uma pausa e apertou os ombros de Maria Alice. Todos conversavam animados na sala. Todos acenaram. Sabrina. Sabrina sorriu e abraçou-a.. Estavam felizes. Maria Alice. puxando a moça pela mão. Alguém tinha sugerido preparem vinho quente.

Tudo o que precisar é só pedir ou apanhar.. 244 . O que fazia daquela garrafa dos raros vinhos industrializados restantes na face do planeta um presente de elevada estima. apesar do bento Célio ter partido para tal missão de encontro. abra logo o vinho que estou morrendo de sede. O lacre saltou da boca da garrafa. — Eu não sei cozinhar direito.. pois. — Deixa disso. caso encontrasse o bendito saca-rolhas. marido de Betânia. Estavam felizes demais para pensar em um combate. — Vai. Fátima e Maria Alice silenciaram as risadas. como se acabassem de escutar a piada mais engraçada do mundo. nenhum pronunciamento oficial fora feito até o anoitecer. dando um passo para trás. — acalmou Fátima. Sabrina.. Ficaram parados como estátuas. como se aquele procedimento parecesse o mais correto no momento. Sabrina e Fátima riam enquanto a primeira buscava um saca-rolhas na gaveta. — queixou-se Mauro. Era nisso que pensavam enquanto uma lágrima descia pelo rosto de Sabrina. Sabrina gemeu novamente levando o dedão à boca. Seria uma delícia saboreá-lo. — Escapou. Aquilo mostrava o quanto o pessoal estava dando importância ao mero boato. então eu só trouxe esse vinho. Três gotas gordas de sangue pingaram no chão. Ainda mantinha o ferimento junto à língua quando todos na casa silenciaram-se ouvindo o ecoar do disparo de um rojão de três tiros. No galpão deveriam estar tomando vinho produzido em Santa Rita mesmo. Sabrina desistiu do utensílio e apanhou uma faca afiada para primeiro romper o lacre de alumínio que protegia a rolha. o segundo casal que participava do jantar. Foi mal! — Há! Há! Há! Escapou?! Graças a Deus! Imagine como seria se você tivesse soltado um de propósito. Vinho industrializado.— Seja bem-vinda na nossa vila e na minha casa. lá no galpão de festas. — Sabrina estendeu a mão para um novo cumprimento. Negão tivesse encarregando-se disso agora. Valdo. a Sabrina nem teria onde colocar outra travessa na mesa.. Estavam felizes demais para acreditar que eles viriam. Maria Alice. Boato. enquanto uma nova gota de sangue ia ao chão da cozinha. Valdo e Élcio riam alto. — Se você aparecesse com outro assado com legumes. Vinho novo. conduzindo a menina atrás da anfitriã para a cozinha. até agora. Instantes atrás. Olhou para a garrafa de vinho. abriu um sorriso. abrindo estrelas escarlates no piso. Talvez. mas. junto com um gemido de Sabrina. A faca havia vencido com facilidade o alumínio e também boa parte do dedo da mulher. surpresas e aflitas com o ferimento da amiga. Fátima fez mais alguma piada e as três riram na cozinha. Assim que Maria Alice viu os três assados sobre a toalha. era um boato. petrificados pelo medo.

estendendo a mão trêmula. certamente. Ergueu a portinhola na esperança de criar uma corrente de ar fresco que banisse de vez aquele cheiro. Desde a Noite Maldita ninguém ficava doente. Ainda ria da situação inusitada quando fixou os olhos na floresta trezentos metros adiante. achando que Valdo ainda fazia graça. Valdo olhou para Élcio. Não estavam caindo raios do céu para iniciar um incêndio florestal. Dizendo que fora culpa do almoço preparado por Maria Alice. Deixa-me abrir essas vigias senão você me mata asfixiado. qualquer incomodo relacionado ao tempo seria melhor do que suportar o fedor da bufa sonora de seu colega Élcio. atrapalhou num primeiro momento. — Que horror! — continuou reclamando Valdo. Ele não estava brincando. não traria um resfriado. dançando sob o facho de luz dos holofotes. — Porra. fazendo com que a garoa gelada apanhasse o corpo do vigilante. — Credo. — Foi sem querer! — Ainda bem que não foi motoquinha. A garoa. Entrou novamente e cruzou o abrigo. Ninguém brincava com um treco daqueles. mas também não precisa exagerar. indo para o exterior da torre de vigia em busca de ar fresco. Um refogado de repolhos. abrindo a vigia que dava para a face do muro distante. pois foi tão alto que a vila teria confundido seus traques com um rojão de alerta ou invasão! Há! Há! Há! Valdo abriu a porta dupla que dava para a estreita varanda exterior da torre. — Me passa o rojão. — Ai meu Deus do céu! — repetiu Valdo. — Me passa o rojão de três tiros.. No entanto. — Ai meu Deus! Élcio continuava rindo. Revirou os olhos com o fedor invadindo as narinas. pelo amor de Deus! 245 . O frio. Olha que fedentina. sem conseguir argumentar mais. — Sei que o negócio tá brabo. dirigindo-se à vigia oposta ao muro. a que dava para a floresta escura. Chamas aglomeradas. Mas. Valdo sabia que aquilo não era fogo. Élcio ficou com os olhos paralisados nas mãos trêmulas do parceiro de vigília. acompanhado de salada de ovos cozidos. Mas. A floresta parecia arder em chamas. Me passa o rojão. — brincou Valdo. Vão me gozar por dois anos seguidos. Estava tão escuro que mal poderia divisá-lo se quisesse. contorcendo-se. Valdo encarou o muro escuro de Santa Rita por um instante. Se eu tiver que te levar pro pronto-socorro da vila. a temperatura baixa incomodava o corpo.— Há! Há! Há! — ria Élcio. — Parece até que você comeu pão com rato podre! Vai feder assim no inferno! Estava ventando bastante. tô perdido.. Élcio! Nunca fui vítima de um peido tão fedorento! Deus me livre! Élcio ria. amigo.

Élcio! O semi-gigante abriu a caixa de ferro ao seu lado e retirou um rojão de três tiros. Élcio. — Levanta! — berrou Élcio. O pavio ia sumindo dentro do cartucho de papelão. tocando o corpo inteiro até a bunda.. graças aos holofotes providencialmente instalados no topo das torres. Mas. Estavam longe da outra torre. O rojão dançou na mão. mas não acendia. quando o vento tinha balançado a torre. Ela levantou-se agilmente e foi até a porta dupla. Acende no braseiro. — Você ouviu isso? — perguntou o homem. a porta soltou-se de sua mão e bateu contra o batente. Valdo tropeçou e caiu no outro canto. Ergueu-o em direção ao buraco da vigia. Élcio. O pavio amarronzado do rojão Caramuru tocava uma brasa. estendeu os braços apoiando-se nas paredes. ricocheteando no telhado simples da guarnição no topo da torre. enchendo o ar de cinzas. Apesar da distância. O homem apanhou o rojão. que balançava de forma medonha. Não podia. — Vai logo! Élcio soprou o braseiro. jogada pelo vento. a portinhola tinha descido. Élcio gritou quando os três projéteis incandescentes voaram pela boca do papelão. dificilmente as torres passariam de pé por aquela provação. Outra rajada de vento sacudiu a torre e fez bater as portas duplas. Um calafrio percorreu sua espinha. Aquela rajada tinha sido das perigosas.. o peito do homem contra sua nuca. cortando a corrente de ar. Outra rajada de vento balançou a torre. estendendo o braço. — Olha! — disse Gustavo. — O verde? — É. Élcio tinha começado a tremer. Ergueu perigosamente o rojão apontado para a cabeça de Valdo.. com os braços cruzados e sentada no chão.. Voltou a mão na maçaneta e puxou. ergueu a cabeça e encarou o olhar de Gustavo. — Passa a porra do rojão. Um rolou para perto da cabeça de Valdo. O que tinha o anel verde era o de três tiros. Ainda não tinha olhado pela vigia. Se não fossem os quatro cabos de aço tensos e fixos no chão. o verde. Já tinha ouvido falar tantas vezes. Um espoco seco. junto com a explosão. Thais. O som da pólvora queimando e correndo pelo pavio chegou aos ouvidos.Um vento mais forte balançou a torre. mas sabia que não podia ser brincadeira. 246 . Gustavo surgiu nas suas costas. Os projéteis queimando no chão de madeira. de joelhos (e já quase tocando o teto da guarnição). Valdo teve que se segurar para não cair. podiam ver uma porção de fumaça escapando do telhado da casa de vigia. A garoa estava se transformado numa tempestade de vento.

Luiz Antônio abriu a porta e puxou Fátima pelo braço. O barulho de mais gente correndo entre as casas. Thais atravessou a guarnição e espiou pela vigia em direção à floresta. — Meu Deus! O que vou fazer? O sino tocando. Tremia. reconhecendo o perigo alardeado pelo sino insistente badalando na torre não muito longe dali. Sabrina repeliu a menina com um empurrão. Eloísa. foi a vez de Mauro puxá-la. mas pelo som estarrecedor da tripla explosão de um rojão. Antes que a porta batesse contra o batente. mais soldados acudindo ao chamado do badalo. 247 . choramingando. Correu até o sino preso à torre e começou a badalar. havia outras vigias daquele lado. Merda de vampiros! Parecia que podiam ler pensamentos! Justo hoje. Um corte sangrento. Sabrina vasculhou as gavetas da cozinha de móveis rústicos. A cabeça de Thais saiu da vigia. vibrando com uma boa notícia. Achava que seria só mais uma noite longa na beira do muro de Santa Rita. Será que foi um acidente? Para responder a pergunta do parceiro de rodízio. Do caminho de barro entre as casas da vila olhou para dentro da casa de Sabrina e partiu. Arrancou mais duas gavetas. talvez pela aflição da mãe tentando estancar o sangue com a mão boa ou ainda no medo estampado nos olhos dos homens que tinham arrastado e fugido com suas mulheres dali. Justo hoje que a vila estava em paz. trazendo consigo sua esposa.— Estão com problemas? — Acho que foi um rojão. Uma latinha vermelho-alaranjada de chá-mate Leão. a moça nova na vila. Não com palavras. gotas vivas de sangue deixavam uma trilha perigosa. bem agora! Maldição! Azar! Os malditos farejariam o sangue. Os malditos! Os malditos estavam lá! O soldado ergueu os olhos. deixando livre um quadrado aberto diante de seus olhos por onde Gustavo via uma linha vermelha agrupada onde começava a floresta. correu para a mãe e tentou abraçá-la. Três tiros. Gustavo engoliu a seco e olhou para a mulher. Eloísa desequilibrou-se e só não foi ao chão porque foi amparada por Maria Alice. como que fazendo uma prece. Betânia. Por onde passava. Justo na noite em que não contariam com a ajuda de bento Célio para defendê-los dos sugadores de sangue. mas esperava por uma resposta. Certamente. Sabrina olhava aflita para o ferimento. Abriu-a com a mão boa. sinal de perigo. Apanhou quatro e começou o curativo. Sabrina respirou fundo e olhou para cima. segundos intermináveis depois. A cabeça de Thais tampava completamente o buraco de observação. Montículos de gaze. E ela veio.

. Na torre vizinha.. escutou o espoco surdo com o ouvido bom. O coração batia disparado. — Sabe atirar com esse aqui? — Também fui treinada. cara. em Santa Rita. Gustavo abriu a porta dupla de face para a floresta. Fátima tinha dito que ela era nova na vila. Eram centenas.. — Vocês têm um abrigo em casa? — Temos sim. — disse. — Deixa o medo pra depois. Beijou o crucifixo e recolocou-o no lugar. pôde ver o ouvido direito do parceiro sangrando. Gustavo estendeu o rifle para Thais. O número de pontos vermelhos vagando pelo areião tinha triplicado. Só isso. — Não toque no sangue! Não toque! — berrou a mãe. O primeiro disparo. talvez porque estivesse apavorada demais para fazê-lo ou talvez nem soubesse o que fazer. Gustavo destravou o rifle. Thais meneou a cabeça concordando.. se fizesse menos de dois meses. Provavelmente Valdo perderia a audição daquele lado. — choramingava Eloísa. Gustavo abriu as vigias. Maria Alice? — Um ano. zonzo. As faíscas desapareceram dentro do cilindro de papelão. — Somos a primeira defesa. O homem engoliu a seco. Santo Deus! Nunca tinha visto tantos! O 248 .. Ouviram um disparo. Valdo segurou firme o rojão e. Gustavo olhou para Thais. Sabrina enrolou o primeira gaze no dedo ferido e olhou para a filha agarrada à cintura de Maria Alice. e bateu contra a parede. Somos a primeira defesa. Eu nunca encarei esses malditos aqui na torre. Talvez fosse uma recém-desperta e. manheeeê. correndo feito loucos. Pontos vermelhos desgarravam-se da escuridão da floresta e avançavam em alta velocidade pelo areião. Valdo virou-se. — Há quanto tempo você está desperta.. A respiração da mulher soltava nuvens de vapor diante de seu rosto. Seis brasas riscaram o céu negro e explodiram.— Mamãe. não se mexia. Thais olhou para Gustavo. senhora. — Eu também não. em seguida. — murmurou a voz da mulher nas suas costas. Só estou congelada de medo. nunca teria assistido a um ataque de vampiros. A única que não lhe abandonara repentinamente. Thais puxava a correntinha de dentro da blusinha vermelha por baixo da blusa de moletom que recobria os braços. assustado. — Santo Deus. Vinham em grupos desiguais. deslizando a trava e provocando um barulho característico. senhora. Thais estava atabalhoada. Élcio.

como nunca teriam vindo. Um pecado que poderia custar muitas vidas. a banda tocava alto. 249 .escalado fez mira e puxou o gatilho. Logo estariam rodeados por aqueles vampiros medonhos e seriam vítimas dos dentes e das garras afiadas dos assassinos da noite. horteiros. Santa Rita estava desprotegida e os malditos viriam atrás dos adormecidos. Somente os bentos tinham coragem de enfrentálos e. Soldados. cagando nas calças quando chegava a escuridão e aquele maldito sino rompia o silêncio. Com força total. Essa dúzia de pessoas mais próximas da porta de entrada e saída permaneceu estática tal qual o soldado com um pé dentro e outro fora do salão. Finalmente. E pior que isso. mas era o som do badalo do muro. De perto os vampiros eram imbatíveis. estacados nos seus. O som que evocava a atenção e as armas. sem pensar em passar em visita as sentinelas no muro. Sorte que os malditos sempre atacavam daquela forma. a luta seria mais feroz. E essa noite. Os mais próximos da porta podiam ouvir o sino retinindo. Sem se preocupar com os quatro cidadãos nas torres avançadas. Pouco antes do rojão de seis tiros tonitruar no céu. As que quisessem lutar deveriam munir-se e aguardar um par de olhos em brasas surgir na sua frente e queimar a testa do maldito com um disparo a queima roupa. Thais também começou a disparar. sua forma estática. Havia o feito de propósito. Santa Rita não contava com nenhum protetor. todas essas pistas formavam uma garra que apertava o coração daqueles que interpretavam corretamente os sinais... o sino lá longe. os olhos do soldado encontraram-se com os do líder. O rosto pálido e assustado do soldado na porta. Estavam despreparados e os malditos viriam. Puta merda. mas aqueles olhos atormentados. Negão havia negligenciado sua função de líder da soldadesca. Havia negligenciado de propósito. dentro do galpão de festas. As mulheres deveriam se proteger em casa. Nem Negão tinha escutado o primeiro rojão de alerta. naquela noite. festejavam a boa nova. O tiro único cruzou a distância e um dos malditos foi ao chão. os olhos aflitos. De vinho e sorrisos. engolido pelo ritmo musical que embalava a festa. todas as pessoas. com os olhos em brasa. Um som tímido. Para eles a noite ainda era de alegria e dança. Queria uma única noite para embebedar-se e simular prazer em viver atrás daqueles muros. Até que a porta foi escancarada. Aqueles sinais diziam de pronto que era hora de apanhar as armas e correr para o muro. queria apenas uma única noite de paz e de tranqüilidade. Teriam de detê-los à bala. O resto do salão ainda ria alto e era envolvido pelos instrumentos da banda. Na escuridão tornavam-se alvos visíveis. Teriam de lutar pela vida. Sabiam que a festa tinha acabado. Não seria hora de ajudar os convivas a varrer o galpão e apanhar as sobras de comida. caçadores. esconderem-se nos buracos. diziam que ele havia cometido um pecado. Uma dúzia de pessoas notou o soldado que tinha empurrado a porta com tanta energia. Tinha o direito a uma noite feliz no galpão de festas. Mas a voluntária sabia que a vantagem evaporaria assim que os primeiros estivessem perto demais. o rifle com a coronha apoiada na cintura e o cano de descarga para cima.

Foi até o quarto e acendeu outra vela. Negão cruzou o salão. A eletricidade em Santa Rita era reservada aos galpões de conservação dos adormecidos e ao aparato dos soldados defensores. Fez um movimento que lhe pareceu em câmera lenta. Metade das pessoas ainda não tinham caído em si e ainda gargalhavam. chamando-o para fora. O líder dos soldados passou pela porta chegando à calçada cimentada ao redor dos galpões. o soldado à porta se mexeu. coisa comum naquelas residências que não contavam com energia elétrica. as roupas tinham molhado o suficiente para causar desconforto. Um pouco de desespero e urgência não faria nada mal. o salão tornou-se deserto. Não tinham tempo para os adormecidos. de temor. mas isso não tinha mais importância. Sujaram todo o piso com a lama que ficara grudada nos calçados. A garota chorava. junto com uma rajada de vento. A mão do soldado. Não queria apavorar os festivos cidadãos dentro do galpão. O céu era só nuvens e garoa. antes que o líder negro de Santa Rita terminasse suas orientações. uma de sete dias. grossa e larga que tinha o propósito de sempre manter uma chama acesa dentro de casa. Negão deu a notícia desagradável e pediu o apoio dos homens para defenderem a cidade e os galpões dos adormecidos com unhas e balas. brincando. não pelo aperto na mão. mas pela mãe que ficara para trás. Maria Alice afrouxou a mão da garota enquanto tateava próxima à janela em busca de uma vela. Eles estavam vindo. E o último quarto de gente esgueirava-se pela porta. enquanto roia a unha de nervoso. Maria Alice apertava tanto a mão da menina Eloísa que poderia deixá-la roxa. A jovem companheira de Élcio abriu a porta de casa. Era isso que os malditos vinham buscar. Logo o som do badalo chegou aos tímpanos. Entretanto. ganhando a rua. de preocupação. balançou duas vezes pela porta. Um quarto delas começava um zum-zum-zum. Avançou para o palco e tomou o microfone da mão do vocalista bêbado que protestou. que estava destrancada. Negão olhou para os galpões nas suas costas. Só pensavam numa coisa: ficarem vivos por mais uma noite. O soldado não queria gritar que estava acontecendo uma puta duma merda lá fora. tentando tomar de volta o aparelho. nada de noite clara. Depois de uma eternidade. e entrou com a menina. Nada de céu estrelado.Era sempre assim. Milhares de adormecidos aguardando o despertar. Apesar do trajeto curto. sentou a pequena Eloísa na cama de casal. A garoa fria cobriu-lhe a cabeça e o espaço sem banda tocando alto provou-lhe uma sensação estranha nos ouvidos. 250 . A chama bruxuleante espalhou luz no quarto. Os convivas tinham urgência em retornar à suas casas e tentar dar proteção às mulheres e crianças. indo e vindo vagarosamente. O líder militar correu para dentro do galpão e cruzou o salão de novo. com exceção dos músicos que pareciam congelados ao seu lado. Maria Alice. nem coragem para ficarem fora de casa com Santa Rita sob ataque sem a proteção de bento Célio. quase em concha.

Mais bloqueio. parecendo fazer uma prece. ocupou-se da tampa. — Vai logo. — Entra que a tia conta uma historinha. — Tenho medo. com muito esforço. olhou para cima. Não agüentaria mantê-la erguida muito mais. Fiquei no hospital quinze dias e quase morri na mesa de cirurgia. Eloísa.. — Eu quero a minha mãeeeee.. eu já vou atrás. — choramingou novamente a menina. Maria Alice. abriu um sorriso largo e abaixou-se na beira do buraco.Pediu que ela esperasse e voltou para a sala. — Pula logo. e quanto a cama? Ela ficaria naquela posição. não suportando mais o peso das tábuas. se eles quisessem mesmo entrar. Eloísa espiou o buraco escuro. Aquilo não deteria os malditos. a tampa cairia sobre elas. Se a gente ficar pra fora a gente vai morrer. — começou a choramingar a menina. Debaixo dele havia uma tampa de madeira. — Legal! — exclamou. — Pula aí. A jovem já pensava numa maneira de se jogar no fosso quando se lembrou de um detalhe. Normal. logo atrás.. Maria Alice bufou.. ouvindo o baque do corpo da criança caindo ao fundo do buraco. — Pula.. Se ela se jogasse agora. Eloísa enxugou um olho e fungou. antes de pular dentro do esconderijo. — É muito escuro. menina. Eloísa. — Tia! 251 . a tia já vai. mas ao menos lhes daria trabalho. Eloísa ficou muda. Deixando a cama em ângulo de noventa graus ao chão. Por fim. suspendendo as pesadas tábuas pregadas nas duas vigas e mantendo um buraco escavado no barro aberto. A tampa de madeira era pesada. abraçando a cintura da mulher. — Que historinha? — A de quando eu operei de apendicite. Eloísa. trancando a porta da casa e passando uma trave grossa de madeira que dificultava ainda mais a passagem. Puxou a menina da cama e. De uma explicação do namorado. selando-as no buraco. Mas. encarando a mulher. Eloísa gritou com medo. levantada a noventa graus ao lado da tampa de tábuas? Que raio de esconderijo seria aquele? Maria Alice deu uma gingada no corpo e deixou a tampa cair sobre o buraco. De volta ao quarto deslizou três travas da porta no batente do cômodo. conseguiu erguer o móvel. — Louvado seja Deus! — respondeu Maria Alice. — Tô com medo. fechando os olhos.

Era bem comprido. A garota desfez o laço e esticou o fio de barbante. Nunca tinham juntado 252 . voltou a esticar a mão diante da escuridão completa. enquanto. — Se a senhora falar palavrão de novo. O buraco era profundo por culpa da estatura magnífica do namorado. — reverberou a voz melosa da menininha. Eloísa. Tateou as paredes úmidas de barro e numa extremidade encontrou um caibro atravessado na diagonal. mas conseguiu pular no fundo do esconderijo. A escuridão era assustadora. exjogador de basquete. outra centena. vasculhava o estrado da cama erguido. formando uma coluna de fogo. o papai do céu manda um vampiro bem grandão morder sua língua. Pronto. A cama tinha vindo abaixo. Ouvia a respiração de Eloísa. Maria Alice voltou a buscar Eloísa.Maria Alice acalmou a pequena. Encontrou o fio grosso e soltou a menina. Instruiu Eloísa a ficar longe daquele barbante. Abraçadas. escutavam tiros disparados do muro de contenção. O peso das tábuas machucou suas mãos. Abraçou mais a menina. Sentiase uma cabeça de vento. um enxame de morte. preso com um laço no meio. A mão tateou as ripas até que encontrou. O artifício serviria para escalarem de volta à superfície. As duas respiravam mais calmas. Três segundos depois ouviu um sonoro "blam" acima de suas cabeças. A garoa fina amolecia a floresta. Maria Alice bufou enervada. tia. desesperada. Quando já não havia mais o que jogar ao fundo. querida. tentando encontrar o barbante. — Tia. Laura saltou para o galho mais alto do jequitibá. Procurou um vão na tampa de tábuas e foi descendo o fio. que já estava indo. voltou a erguer a tampa de tábuas e esgueirou-se buraco adentro. não podia? — Caralho! — Credo. do outro. Ao seu lado. — Que foi. Os olhos em brasa montavam uma cena maravilhosa. Puxou com força. Seguiu-se um longe silêncio brutal. Élcio tinha mostrado. Um emaranhado de barbante grosso. dizendo que era rápido. O abraço demoraria a desfazer-se. Eloísa? — A senhora podia ter me dado a vela. uma centena de irmãos da noite. — Fica quieta. — Pronto. Eventualmente. — Tinham duas velas lá em cima. Estendeu a mão e abraçou a menina. escondendo sob sua forma a tampa do fosso. Estavam prontos para atacar.. — Desculpe.. fixo na ponta superior do estrado. abraçou-a forte e acocorou-se no chão. O fundo do esconderijo era frio. Devia ter pegado a vela. A organização daquele ataque tinha vindo de forma diferente.

com os pés na areia molhada. Olhou para trás e ergueu os olhos. Laura saltou para a árvore da frente. A ventania também fazia o fogo nas tochas formarem ângulo nas hastes incandescentes. Dois espigões. De quebra. Os homens com fuzis estavam prontos. Centenas de vampiros começaram a corrida. Nem o bento protetor daria conta daquela invasão. Sorriu. Os olhos da vampira detiveram-se sobre as torres. O número de malditos guerreiros da noite estava próximo de mil. Olhando para a floresta. Os irmãos da escuridão eram tantos naquela noite. Ah! Como queria que bento Célio estivesse com eles! Nunca tinha visto tantos vampiros num ataque só. As torres balançavam perigosamente. Inquieta. Quando a vampira baixou os braços. prontas para engoli-lo. Apertou firme a empunhadura do fuzil que trazia nas 253 . Negão benzeu-se. Podia vê-la vinte metros abaixo. engoliu a seco. Era a vez dos vampiros obedecerem a voz. prontas para o ataque. Ficavam balançando nos galhos das árvores mais altas. Torcia para que aqueles desgraçados permanecessem no limiar da mata. Esse Anaquias havia prometido uma retumbante vitória esta noite. O soldado no ponto cinqüenta estava pronto. Negão chegou ao muro. As duas torres de colunas finas. Aguardavam o sinal da vampira l. semi flexionando as pernas. beijou o crucifixo de prata que vinha na corrente. forçando os homens mantê-los semi-cerrados. Para reforçar. com homens armados à sua espera. uma onda furiosa de assassinos sobrenaturais voou das árvores ao chão de areia. O vento forte trazia gotículas aos olhos. riscando o céu. Pobres vigias. feito um general de infantaria. que ficassem apenas querendo apavorar o pessoal de Santa Rita. poderiam matar tudo o que entrasse no caminho. Olhou para os dois lados. Ela andava.udymila. balançavam ao sabor da ventania. tensionando os cabos de aço que as sustinham. Vampiros feito urubus ariscos. Havia um boato. Vencer os muros da fortificação. como já haviam feito tantas vezes. empoleirados em galhos. Ludymila ergueu os braços. expondo a ponta dos caninos longos. Um tal de Anaquias tinha vindo de um covil do interior das florestas. empertigada. feitos macacos do inferno. Garrafas e garrafões cheios d'água benta estavam prontos. tinham ainda que lidar com o temor dos troncos vergando-se a cada rajada de vento. A garoa insistente dificultava a visão. aguardando a presa morrer para lançarem-se sobre a carniça. Provar que era a vez dos vampiros jogarem. Urros ensurdecedores encheram a noite. Uma vitória para provar aos anciãos. E era isso que ela era naquele instante.tantos vampiros. Nunca tinham sentido tanta urgência num ataque. feitas cada qual do tronco de uma árvore. alcançar o depósito de adormecidos e trazê-los para o covil. responsável pelo ataque daquela noite. a vampira de cabelos longos remexeu-se. fazendo barulho. caindo mais de dez metros. ficando agora na última árvore antes da areia. para lá e para cá. Não bastasse o terror de terem diante de si a floresta tomada pelos monstros horrendos da noite. Que espetáculo! Estava envolta por brasas vermelhas que balançavam nos galhos das árvores. Era a vez dos vampiros receberem o guerreiro.

Assim economizaria munição. Mais farpas voando. terminariam as cargas dos fuzis mais eficientes e contaria com sua última defesa. Todos quietos. Blam! Derrubou outro. arrebentaria com um bom número daqueles desgraçados primeiro. O cano do fuzil procurou o próximo alvo. Plac! Fim da munição. Outra rajada tripla. Mais um vampiro fora do jogo. a pistola com projéteis encapsulados em prata. Seis tiros de rojão espocando no céu. Um desgraçado a menos tentando trepar no muro de Santa Rita. olhos fixos na mesma direção. — Protejam as torres! Protejam as torres! — gritou para os snipers. Outro estalo.. Valdo. Um tranco seco. Valdo foi ao chão com o empurrão de Élcio.. a pistola presa ao coldre da cintura. Não comemorou. Só instinto. deixando as árvores e ganhando o areião. Olhos capturados pelo medo. Não vibrou. Blam-blam-blam. Os olhos buscavam a nova vítima. Uma vampira com cabelos cor de fogo e olhos em brasa corria em direção a torre. Sabia que as balas existentes eram poucas para aquela situação. Ritmo. pensamento concreto. Foi nesse momento que escutou tudo o que não queria. Filhos duma puta! Valdo rastejou até um canto do abrigo. Pontinhos vermelhos dançando. Santo Deus! O cano correu para o seguinte. Logo. O dedo pressionava o gatilho e pronto! Mais um desgraçado fora do jogo. a visão periférica via a enxurrada de malditos passando pela areia. Outro vampiro tombado na areia. Não demorou muito para o primeiro tiro ecoar no muro de Santa Rita. Forçou a visão. a estratégia era fatal. Um tiro de cada vez. Voltou a vigia aberta. Entrava em sintonia com ritmo da criatura. O primeiro disparo triplo estourou a cabeça de um vampiro. Olhou para os homens ao seu lado. mais seguro. Valdo recostou-se na madeira do abrigo. Os malditos estavam atirando. 254 . Élcio fez mira. Abriu um garrafão de cinco litros e despejou a água sobre a tampa do alçapão. Blam! Desgraça! Tiro errado. Plá! Plá! Destravado. Os olhos concentravam-se no alvo. que valsavam sobre a areia. Madeira. Afundou no orifício de alimentação o novo. Brasas do inferno que viriam incendiar Santa Rita. Tiros certeiros na cabeça. Valdo sentia sua arma vibrar a cada novo disparo. não usava o recurso de disparo triplo. caindo ao chão. Os vampiros tombavam e cessavam o ataque letal. Alguma coisa em seu olho. Se tivesse de ir ao inferno. Pareciam brasas sopradas pela ventania. Eram vampiros demais. Blamblam-blam. Apanhou outro municiador do fuzil russo. vencendo a garoa insistente. Quantos deles já teriam passado? Sessenta? Setenta? Talvez mais. Calculava a velocidade. Não houve tempo nem. Blam! Não corria mais.mãos. A respiração parava por um segundo. Um estalo. Os disparos triplos do fuzil de Élcio ensurdeciam. Velocidade. Eram tantos dessa vez. Com balas de prata recheando a munição. Eram treinados para isso. Descartou o vazio. — Abaixa! — gritou o parceiro. Mesmo mantendo os olhos no alvo selecionado. Farpas de madeira voando.

Retomou a carga de disparos. Gustavo colocou-se de pé e foi até a vigia. voltando a cair e perder a vida efêmera que a física lhe emprestara. Olhou para a floresta. A torre balançou perigosamente. sentindo uma fisgada na costela. agudo e prolongado. Um ou outro macaco do diabo pulando de cá para lá.— Por aqui não vão entrar.. Perceberam algo passando pela janela. Élcio levantou-se e foi à vigia. os tiros das defesas dos muros de Santa Rita. Thais perdeu o equilíbrio e foi ao chão. Sua arma tombou de lado e disparou uma rajada acidental. Não eram os vampiros. Thais ouvia as armas da torre vizinha e de armas que deveriam ser inimigas. pareciam ignorar. Os vampiros estavam ignorando a sua torre! Mas era um dos cabos de aço que cedera. Thais arrepiou-se. partira-se e balançava no ar. passando direto pela torre. Entre o intervalo de seus tiros e do parceiro. O ronco potente da ponto 50 que deveria estar deitando cornos. não se importando com os disparos vindos da torre. Quase nada do incêndio encenado pelos olhos em brasa das feras da noite restava nos galhos das árvores limítrofes. Olhou para a floresta. Bateu forte contra alguma coisa. mas por causa do novo balanço do abrigo e pelo som agudo que escutaram. mais longe. Os malditos não pareciam se importar com as construções. Gustavo também foi ao chão. Gustavo ajeitou-se na vigia e voltou aos disparos. Azar. A esteira feita de monstros passava. Normalmente (isso a mulher não sabia se era sorte ou azar). Um bando deles investindo contra o telhado do abrigo e tentando varar as madeiras. as bestas corriam como formigas ocupadas. Enfiou o fuzil e retomou seus disparos. Thais recarregava pela primeira vez sua arma. Não pela trovoada provocada por Thais nem pelas telhas que ainda caiam aqui e ali. Ouvia também. Azar do caralho! Diferente deles. Passavam a toda velocidade. Gustavo disparava repetidamente. Os tiros inimigos tinham cessado. Ao largo do halo de luz podia ver um amontoado que talvez contasse com cerca de trinta vampiros abatidos. a torre vizinha via-se às voltas com um bom número de vampiros subindo os degraus. 255 . Fixaram os olhos uns nos outros por segundos longuíssimos. Respiração curta. próximas.. Farpas de madeira e estilhaços de telha encheram o abrigo após a rajada perigosa provocada pela parceira. As torres estavam cercadas de vampiros. correndo feito loucos em direção ao muro. Acertava tudo que entrava no rastro dos poderosos holofotes fixos no telhado do abrigo. mas estavam fora do jogo. Arriscou colocar a cabeça pela vigia e olhar para a torre vizinha. depois de ter sido entendido ao máximo. As tábuas molhadas tornavam-se cada vez mais escorregadias. Os corpos tremelicavam. os malditos já estariam encarapitados nos degraus de acesso ao abrigo superior ou desfiando os cabos de aço com as unhas demoníacas. No areião.

ainda sangrando. Élcio podia ouvi-los andando no telhado. Sabia que seria difícil escapar com vida. Gotas grossas indo ao chão. Os irmãos da noite saltavam para dentro de Santa Rita. Uma mancha tomando os dedos. Não para a torre acima de sua cabeça. Assustou-se quando a colega de vigília voltou com a cabeça intacta para dentro do abrigo. mas para a torre vizinha. Estalou a língua. Gustavo segurou o dedo. O homem mantinha uma mão diante dos olhos. na parte mais externa. Olhou novamente para a torre vizinha. Notou o silêncio acima de sua cabeça. o cheiro saboroso que vinha da torre era hipnótico. Continuou disparando contra aqueles que tentavam escalar os degraus enquanto o palito gigante humano tomava conta do telhado. Quantos seriam? A munição seria suficiente? Ouvia o colega gritar e atirar. Tinha que dar um jeito de livrar a cara do garoto. Ergueu os olhos. Os som dos tiros entravam pelo ouvido direito. parecia surdo. Olhou para a muralha vencida. Deveria ir direto ao rio de sangue e roubar os adormecidos. Estavam descascando o abrigo com as unhas. nem mesmo com essas torres idiotas. tirava-lhe a razão. O esquerdo. Gustavo bambeou. O tal Anaquias sabia das coisas. tentando evitar a invasão pela escada de acesso. afastada cerca de cem metros. junto ao vento. Deveria abandoná-las e completar sua parte na missão. Alcançou a varanda externa e olhou para a torre vizinha. Sangue! Valdo inspirou e expirou rapidamente. Mais uns oito vampiros haviam 256 . Atrás do sangue. Puxou o gatilho. — Eles estão com problemas. não deveriam perder tempo. parado no meio do abrigo. com a cabeça para fora da janela. acertando dois a queima-roupa e um terceiro maldito cinco metros abaixo. arranhando as paredes de madeira. Mas. Thais estava estática. mantendo-a com a cabeça para fora? Fazendo-a sangrar até a morte? Gustavo foi até Thais. a pele morena empalidecida. Levá-los para o covil e garantir sustento de sangue por anos. Alguém também sangrava naquele lugar. A missão era clara. Podia ouvi-los andando pela varanda. três vezes seguidas. Levou a coronha metálica do fuzil ao encaixe do ombro. Logo conseguiriam arrancar as telhas e invadir. exibindo seus dentes pontiagudos. tomando a cidade. Um buraco na altura do peito. Dor na costela. Thais olhou para a blusa do colega. Mais vampiros subindo pela escada. Fazia mira quando percebeu Gustavo lívido. Haveria um maldito com as garras cravadas no rosto da amiga.Percebendo a pausa na arma da parceira. trouxe-lhe uma notícia. Cravava as balas na testa e via-os despencar. O cheiro de sangue era forte. Preparava-se para subir quando a boa garoa. Imaginou um quadro macabro. Sabia que os malditos estavam vindo atrás dele. Abriu o alçapão e enfiou o fuzil. Laura estava ao pé da torre. Olhou para o lado. Thais correu até a porta dupla de frente para o muro.

Isso acontecia quando o número de malditos era reduzido. Thais descia esbaforida. Era obrigação do vigia escalado ser a primeira defesa da cidade. raramente. Negão tinha instituído um modus operandi que talvez salvasse o couro dos vigias em situações como aquela. Eles haviam perpetrado um ataque maciço como nunca visto. O disparo acidental fizera uma vítima mais importante que o telhado do abrigo. quando os vampiros alcançavam o muro e o grosso da batalha passava a ser as portas de Santa Rita. — Você. isso responde a minha pergunta. quando a coisa degringolava. Mais cautelosa. — murmurou. Tinha que chegar a Santa Rita. Tirava essa conclusão pela quantidade de sangue deixada nas ripas arredondadas que faziam os degraus daquela escada vertical. Gustavo estava fora de controle e. Thais apoiou o homem.. face a urgência em salvar sua família. outro nos vampiros na torre vizinha. A descida era longa e exigia esforço. quando faziam ataques suicidas. Mantinham-nas cobertas por lonas.. Mas. Ainda estava parado. Os vampiros. como naquela noite.. Gustavo sentia fisgadas a cada degrau descido. próximo a um apagão geral. — Sabrina. você atirou em mim. Continuavam investindo contra o abrigo dos miseráveis atiradores.. Bastava distanciar-se das torres e dos muros. num momento de ataque organizado. livrando-se do feitiço do sangue e só então mirou o muro de Santa Rita. mas mais por não saber o que fazer. Para a fuga. deixavam de seguir (estranhamente) a trilha habitual. Não era o caso naquela noite. Tinha que proteger Sabrina e Eloísa. passando de contratempo a heróis. os vigias vinham em motos preparadas para as condições do terreno. um olho nos degraus.. começou a descer atrás de Gustavo. mas continuava sem parar.recebido o recado. perplexo. — Eu tenho que te tirar daqui. O som dos tiros e do desespero na torre vizinha existia em seus ouvidos. escondidas na areia. — Você consegue descer? Gustavo ergueu os olhos. Pararam a escalada e olhavam igualmente hipnotizados para a torre vizinha. a agonia dos colegas tinha virado ruído branco. contudo. — Bem. Ela ficou parada um instante diante da abertura. Thais viu Gustavo livrar-se de suas mãos e erguer o alçapão. pregada ao tronco liso de um ipê roxo. Negão deixava os vigias abandonarem as torres e tentarem a sorte no areião. os vigias venciam a batalha sozinhos. Não parecia que ele ia desabar. julgava.. Ás vezes. que teve os 257 . Em seguida ele atirou o corpo pelo buraco e começou a descer rapidamente. Gustavo não ouviu Thais. Os que estavam mais para o alto não tinham ganhado a lufada de vento com o cheiro agradável do alimento dos mortos-vivos. Os vampiros pulavam livremente para dentro da cidade. Esse pequeno contratempo na frente dos vampiros rendia minutos preciosos de preparação nos muros e na vila.

emitindo um rosnar. mas não puxou o gatilho. Tinha que socorrer Sabrina. Tinha que salvar a mulher amada. Infelizmente. evitando uma segunda investida. Errou! Não porque o disparo passou longe. mas não tinha forças para se arrastar. Gustavo estava chegando ao chão. Tiros de merda de acidentes. Maldita branquela dos infernos. Os desgraçados já tinham farejado a generosa hemorragia. ferino. Caindo era mais rápido. o disparo que acertara o amigo escapara da sua arma. Viu os primeiros vampiros abandonando a torre vizinha. na areia.. mas de sua arma. Thais gritou desesperada. certamente ficaria bem mais fraco. ou melhor. Um hospital. Sem forças. de vampiros atrás de sangue! Não precisava de metáforas àquela altura. Escuridão. enchendo a boca de areia. Sentia-se tonto. Ele já estava pálido quando se deram conta do ferimento. Parecia ter participado involuntariamente de uma maratona dupla. ainda existiam os acidentes. Não podia morrer ali. Gustavo colocou o pé no areião. Não existiam mais doenças. Não queria abrir outro rombo no amigo. O que era aquela coisa gelada? O maldito. Fez mira. O rosto branco e raiado de veias verdes estava manchado de sangue. Gustavo gemeu. Interrompeu a descida. a garoa e o vento (e a porra da hemorragia!) deixavam mais difícil a procura. Afinal de contas. Ergueu o rifle. o vento e a garoa eram arrastados naquela direção. Para ela ainda faltavam dez metros e não tinha coragem de pular. A coisa fria e áspera roçando sua pele. graças aos idiotas. A maldita tinha os dentes mais longos que já tinha visto. Ele só precisava de uma atadura. procurando pela lona. a maldita vampira estava passando a língua em seu tórax. Estava a dois palmos de distância. Malditos demônios! Eles podiam fazer isso. Desespero. Girou. involuntariamente. Viriam feito cães atrás de gato. Não tinham mais preocupação com germes.galhos da copa decepados para acomodar o posto de vigília. Pensou nisso porque viu uma vampira chegando perto demais. A vampira moveu-se rápido e enterrou os dentes em seu pulso.. A criatura apenas agarrou seu punho. Agarrou sua mão e girou seu punho.. Era um deles. Por cima dela viu o vulto de mais cinco ou seis malditos aproximando-se. Soltou-se da escada. Lambendo seu sangue. Tentou alcançar o fuzil. procurando pela moto. Não podia socorrer todos ao mesmo tempo. Não tinha problema de areia entrar no buraco. mas porque a vampira desapareceu diante de seus olhos. Ofegante. Tinha que levá-lo a um hospital. Gritos vindo da torre vizinha. Um vampiro. O golpe pareceu atingir sem força a vampira. A vampira estava sugando seu sangue pela ferida. Sentiu um baque nas costas. Não levava o menor pique para ironman. Merda. Sentia-se culpada. Era tudo muito explícito e rápido. graças a Deus! Mas.. Iria priorizar seu colega de vigia. com aquele esforço. Quase gritou de horror. passando a sorver o sangue da artéria 258 .. Mesmo com a claridade dada pelos holofotes. Olhou para o chão. Prendeu-o como pôde e puxou o gatilho. Com uma mão apenas era difícil firmá-lo. agora. Ergueu-a pelos cabelos. Dor. Bufou caindo no chão. difícil fazer mira. Seu sangue! Desferiu um soco no nariz da criatura.. De cauterização.

entre as casas. Por fim. Os tiros na torre tinham parado. O vampiro que tinha saltado corria em sua direção. Nada. Os vampiros estavam na metade da descida. Thais sorriu. O motor girou. Bala de prata na cabeça. Outros arrancavam telhas do reto. Os disparos não tinham ido contra a cabeça. a briga deixara de ser travada nos limites da cidade. Brigavam na vila. Criaturas horríveis! Deteve-se um instante sobre o último. Thais aproximou-se. Plac! Sem munição. há alguns minutos. Expressão familiar. Podia jurar que era ele. Mudou a chave do fuzil para tiro único.pulsante. como um bêbado. Deu o primeiro tranco. A luz dos holofotes apagando-se. Mais três rajadas para frente. mas não pegou. Laura sentiu um baque nas costas. Bateu na partida de novo. Estaria morto? Aproximou-se. ameaçando pegar. Cinco vampiros para o chão. Ela deu novo tranco no pedal de ignição. mas morreu de novo. Uma chance. Estava sentando e bambeando o tronco. Thais benzeu-se. Os vampiros tinham entrado e. Era como diziam. Carga tripla. Eram perigosos. Um a um foi abatendo com um tiro na testa. No treinamento repetiam até cansar. Morrer a dentadas não era seu destino. Vinham rápido. Estavam perto demais. Nada. O segundo. Girou sobre os calcanhares. Foi até o meio do grupo de vampiros que se contorcia em razão das balas prateadas correndo o corpo. — Não! — gritou Thais. de desespero e dor. buscando apoio no fuzil. Olhou para Gustavo. Os vampiros saltitavam. Uma explosão. Os homens resistiam. Estava lívido. Não precisava fazer mira. Puxou a lona e ergueu a motocicleta. Ergueu o fuzil e fez mira. Pelo cansaço. Deus do céu! O vampiro morto tinha a cara do Oswaldo. com fúria e urgência. A última coisa que captou nas retinas foi a sombra de um anjo descendo do céu. Fora vencido pela exaustão. Os malditos sabiam matar. Sentou-se e tentou a partida elétrica. Gritos e tiros vindo lá de cima. Ele tossiu. Tinha que dar o fora dali. A outra dúzia de vampiros saltava da escada a poucos metros do chão e começava a correr sobre o areião. Lágrimas começaram a molhar seu rosto. atirando lajotas ao chão. O amigo estava tentando levantar-se. vencido. agarravam-se aos degraus tentando vencer o alçapão e entrar por baixo no abrigo. Olhou para a torre vizinha. Preparou o pedal para a partida mecânica. 259 . olhando para o chão. Olhou para o muro de Santa Rita. A moto. O primeiro vampiro chegava perto. Era dor? Thais ergueu o fuzil e disparou. O que era aquilo que experimentava? Algo que não sentia há anos. vindo perigosamente ao chão. Encontrou. Interromper a ação. Mais uma vez ouviu o motor e nada de pegar. Não havia dor no novo ferimento. Um saltou do topo da torre. Correu até o volume fora dos fachos de luz. Bateu as mãos no bolso da calça. o pastor batista da igreja que a mãe freqüentava. Girou o pedal com um novo coice. O fuzil de Gustavo abatera o inimigo. O motor girou. pousou os olhos em Gustavo. Branco feito as criaturas da noite. A cabeça da vampira desfez-se e o corpo decapitado tombou. Gustavo tombou a cabeça. Viu uma dúzia de vampiros descendo pela escada pregada ao tronco de jequitibá. Olhou para trás. Nenhum municiador novo. contorcendo-se. Nada. Escuridão. Rolou.

Aquela operação tinha lhe tomado poucos segundos. Valdo cuspiu fora o cartucho de munição vazio. Os poucos segundos perdidos permitiram um avanço assustador dos atacantes. Gustavo falava a verdade. fazendo o pneu traseiro erguer um arco de areia. Segundos tensos passavam-se até a detecção de novos ruídos no telhado e um novo invasor. doía também a testa. — Vambora. me ajuda! — suplicou a mulher batendo a testa no painel.. Burra! Girou a chave e voltou a bater no pedal. confiando em sua audição. Era rápido e gostava das armas. Sua boca abriu-se. o desfecho para a dupla Valdo e Élcio foi sombrio. Eram os últimos dois.— Meu Deus.. 260 . Derrapou ao lado do amigo e estendeu-lhe a mão para que se pusesse de pé. Rolou sobre as tábuas molhadas de garoa e água benta e apanhou mais dois municiadores cheios. Estava lutando para manter-se aceso.. Sem a parte elétrica ativada. — Você consegue. — Já eram. Mulher idiota! Pensou dela mesma.. No último coice.. satisfeita e aliviada. Com a cabeçada no painel. Rolou novamente e abriu o alçapão. Quando entrara na vigia e inspecionara a munição. seu pé havia escapado do pedal. Não tinham tido tempo de pensar em munição extra. abrindo um ferimento dolorido. A gafe da chave devia-se aos vampiros correndo para sua garganta. Girou a manopla e disparou na direção de Gustavo. o motor nunca funcionaria. Soltou uma bufada. Élcio continuava disparando contra o telhado. — Eu é que pergunto. Você consegue subir e se segurar? Gustavo ergueu a perna com dificuldade. Incomodando-se com a dor na testa olhou para a chave. Estava cansado e com sede. que tinha atingido a fronte na extremidade da chave. Logo estariam cercados. Sorte saber pilotar a motocicleta. ouvindo um segundo e um terceiro disparo. não tinha virado a chave para a posição de "liga".. ao menos por enquanto.. que nunca acabariam. Enfiou pelo encaixe e deixou a arma pronta para novos disparos.. Estavam perdidos. agora achava-as tão poucas. — E os dois lá em cima? Gustavo lançou um olhar para a vigia silenciosa. No afã de empreender escapada. Burra! O motor roncou e funcionou perfeitamente. raspando a canela no ferro. Fitou um instante aqueles cartuchos. Ouvia os malditos puxando as telhas e mandava bala na direção do ruído. Sempre gostara de motos e não fora uma das meninas relegadas à garupa.? — quis perguntar o homem. Minutos atrás. Thais levantou a cabeça. achou que tinham tantas balas. — murmurou o homem no ouvido da garota. pois sabia que a munição de Gustavo também chegaria ao fim.

Élcio foi ao chão. explodindo a cabeça da criatura. Braços vampiros surgiram pelas frestas abertas na parede pelo palito humano. Poderia ferir o amigo ou. Viu o vulto de três ou quatro deles. 261 . Valdo ergueu o cano de disparo. O ouvido ferido apitando. soltaram o grandão. tão alto que bateria a cabeça no telhado. puxando o ar para o pulmão. Valdo disparava sem cessar. cravando-lhe garras pontudas e fazendo seu sangue escapar da pele. pior. ficou imóvel por um instante. Eram tantos! Ouviu um grito nas suas costas. As unhas afiadas balançando para lá e para cá. Os braços de vampiros invadiam a choupana e tinham feito Élcio de refém. A madeira estourou. Enfiou o cano de descarga pelo buraco aberto pela fera e disparou. exibindo veias esverdeadas subindo pelo pescoço e tomando parte da face e a pele de aparência repugnante. Agachou-se e retomou seu fuzil. passando a mão em volta do pescoço. Chegou a sentir os dedos doerem dentro da bota. Escutou pancadas na madeira. — É o último. cara. então voltou a encarar sua vítima. Agarrou uma garrafa com água benta e arrebentou-a contra as tábuas. Valdo ergueu a cabeça. Um urro ferino encheu o abrigo. Um odor de podridão esparramou-se pelo abrigo. Atirou contra a vigia fechada. — Estou ficando sem balas. Tinham lhe apertado o pescoço com tanta força que achara que aquela seria sua hora derradeira. batendo contra as telhas do cômodo. — Você está perdido. Uma garra de vampiro surgiu no teto. enquanto o corpo desmembrado do vampiro escorregava pela boca do alçapão e despencava para o areião vinte e cinco metros abaixo. mantinha-se encurvado. abrir ainda mais os buracos feitos. Faça bom uso. fazendo pedaços de braços voarem para a parede. Grunhiu demoradamente. Valdo ignorou a ameaça do vampiro e baixou o fuzil. abrindo uma fenda perigosa. Valdo disparava para baixo. Élcio foi preciso dessa vez. O vampiro pendeu a cabeça. fumegando em contato com a água abençoada. Valdo arremessou um pente cheio. Élcio viu dois vampiros despencando do abrigo com o empurrão do vento. Valdo desferiu um chute poderoso. Puxou o gatilho mais uma vez. gelando o ar. a tampa voou do encaixe. A água benta desceu pela madeira e os braços malditos. A pilha ao pé da torre aumentando. Quando se preparava para erguê-lo. Mais uma vez surgiu um buraco na parede. O guri estava ficando doido. A garoa entrava em remoinhos. Um vento forte sacudiu o abrigo. Voltou para o alçapão. Uma cabeça pálida e de olhos vermelhos como sangue vivo surgiram pelo buraco. estourando as dobradiças.Élcio. — Venta mais! Venta mais! — gritou. — Deus do Céu! Que fedor! — exclamou Élcio.

— Descer? Só se você conseguir limpar o caminho.. Fez mira e puxou o gatilho. Não resistiriam tanto. olhou para o parceiro. às voltas com as cabeças vampíricas assomando pela entrada do alçapão. A coronha seria a arma agora. Ouviram um silvo distante. Valdo derrubou mais dois. conseguindo bons resultados. primeiro cuidou dos que avançavam pelo alçapão. voltando o fuzil ao alçapão. Dezoito balas. Mas.. Escuridão. Logo abaixo vinham mais. Recostou-se na parede e ergueu rapidamente a vigia de face ao muro de Santa Rita. Não demorou muito até o "plec-plec" começar no fuzil do jogador de basquete. onde quase não havia mais telhado. Um amontoado de corpos. Começou a golpear a cabeça dos invasores. Tentando afastar o perigo. enfiando a mão para dentro do abrigo. Não havia munição suficiente. Mesmo ouvindo os gritos e súplicas do amigo. O homem. Fim das balas. — Isso aqui não chega nem aos pés daquele seu traque nojento! Se não estivesse com a corda no pescoço. Tirou a pistola do coldre. até quando agüentaria? Quando seus braços se extenuariam e parariam de colaborar? Faltava mais de oito horas até o nascer do sol. — Estamos por nossa conta! — berrou. sem disparo. Quando o vampiro alcançou a boca do alçapão. Era tudo. Élcio teria rido da graça do parceiro. Nada de tranco. Temos que descer e pegar a moto. — Valdo! — berrou o rapaz. Valdo girou o fuzil agilmente e agarrou o cano ainda quente. Mais um vampiro surgiu pelo buraco. Valdo olhou para a escada. Eles subiam aos montes. Ficou 262 . o tufo de algodão doce como prêmio. Valdo sacou seu último recurso. Será que serviriam para amortecer a queda caso pulasse? Descer pela escada não parecia boa idéia. Queriam bebê-los a todo custo. deixando a garoa entrar generosamente. Sua cabeça e pescoço eram apertados por braços que vinham do teto e procuravam içar a vítima. Os braços das criaturas invadindo pelo teto e as pancadas na madeira ao redor da varanda aumentavam velozmente. O vento balançou o abrigo novamente.. como o de uma corda de violão arrebentando. Estavam obstinados. seriam o torrão de açúcar na ponta. — Estamos sozinhos. Só o "plec-plec" seco. subindo leito formigas num espeto e eles. — O quê? — perguntou. Valdo retomou os disparos pela abertura. os vigias. enquanto o peito era agarrado por tentáculos pálidos que nascidos na parede de tábuas. Queriam entrar. Élcio continuava atirando contra os barulhos no teto. Não existiam mais soldados defendendo o muro nem snipers defendendo as torres.— Fedor?! — espantou-se Valdo.. Élcio estava sendo envolvido por um emaranhado de braços. Élcio não conseguiria dar conta de todos.

cada vez mais. até um clarão total tomar conta de sua visão.. Estava tudo acabado. As garras penetrando seu parceiro. Mirou o peito de Élcio. esgueirando-se para longe daquelas criaturas perturbadoras que agora bebiam seu sangue. Nem bento.. No flasb seguinte viu o abrigo desgraçado encher-se de bolinhas de luz. Atirou contra os vampiros nas escadas. nem ouvia nada. As balas acabando.. Vai lá que eu já estou indo. Viu num flash os vampiros aproximando-se. — Vai lá. Sabia que eles entrariam. Logo seria sua vez. Desmoronou sem perceber. Procurou os olhos do vigia.de pé. era como se toda sua existência escapasse pela boca. Fechou os olhos e. sem ver que uma sombra esgueirava-se nas suas costas. encostou o cano na própria cabeça. Puxou o gatilho. entrando pelo alçapão. antes de ser abraçado pelos vampiros que tomavam o abrigo nas suas costas. deu dois passos para trás. Recuou a pistola. Sabia. tomando cuidado com os braços que pareciam dezenas de lustres fantasmas. amigão. Valdo disparou. Não sentia nada. gritando feito louco. Élcio gritando. Valdo aproximou-se de Élcio. Na verdade não precisava ver. 263 . nem milagre. extinguindo com a vida do vigia.. Expirou. Logo viriam os dentes.

ajudava mantendo o caminho enlameado e propício a deslizar mais facilmente o caixão. carregando somente o seu próprio esqueleto. pensara em abandonar a missão dada pelo demônio. Lúcio riu da expressão literal. Depois de decidir pegar. A chuva ajudava a manter o corpo resfriado. Primeiro.. no embornal. Por conta disso tinha avançado pouco. Para ser também um imortal sanguessuga. Por outro lado. 264 . Cantarzo não poderia lhe causar mal algum. Tinha voltado atrás. Não conseguia enxergar bem o caminho pela frente. ainda com as mãos em frangalhos por conta do peso que trazia consigo. Maçãs envenenadas. O caixão com o noturno ficava cada vez mais pesado. Era uma carta fora do baralho. Por que tinha se arriscado em São Vítor? Por que tinha acabado com o velho Bispo? Para barganhar com o vampiro. então. A bruxa cura. antes de bater com a caçoleta. Não conseguiria ir muito longe com aquele cadáver maldito. As mãos estavam cheias de bolhas d'água. Tinha tido sorte e apanhado um filhote de porco do mato. voltou ao esconderijo do caixão e. Mesmo alimentado. Se o abandonasse para buscá-lo mais tarde. Tinha descansado um bocado no final da tarde. perdida há uma hora e meia. Precisava manter o corpo de Cantarzo debaixo dos olhos. Somente se Cantarzo fosse refeito isso seria possível e.. produzidas pela fricção da pele contra as cordas que rodeavam a caixa de madeira e serviam para o homem trazer consigo o fardo.Capítulo 35 Lúcio estava exausto. trazia um bom pedaço de caça para o café da manhã. ela acreditaria num homem de mãos feridas e abanando? Não acreditaria. ela. antes de escurecer. Mas sabia que o destino estava muito longe. "Peso morto". Era por conta desse medo que estava mais uma vez arrastando aquele peso morto. a carne tinha rendido um jantar saboroso e. Tinha que encontrar um esconderijo seguro e seguir para o norte sozinho. Lúcio perdia as forças. O som só não se sobrepunha ao barulho da chuva. o vampiro tinha falado alguma coisa de cura. mais uma vez. certamente encontraria a tartaruga engolida pela serpente mais cedo. Era pegar ou largar. Ela tinha chamado Cantarzo. Não teria forças. aprisionamento de fidalgos. Ela daria um jeito nas coisas. viu-se novamente seduzido pela ambição da imortalidade. Trazendo Cantarzo nas costas a missão poderia levar anos. Morto daquele jeito. Se ele tinha dito. É verdade que já estava arrependido de ter tirado o caixão do esconderijo. via-se arrastando aquele esquife provisório pela floresta. Riu sozinho em alto e bom som. mas tinha medo de jamais revê-lo e perder o tesouro da vida imortal. haveria de curar. depois de refletir um pouco. Lúcio agarrou o sisal e voltou a puxar. Bruxas faziam essas coisas. Mas se esquecesse onde o tinha deixado? E quando encontrasse a bruxa. Ainda sem sal. O lacaio de Cantarzo coçou a barba grossa. Há um par de horas a garoa tinha virado aquele aguaceiro. Lutava contra o medo de perder o caixão e a incerteza. Encontraria a bruxa mais cedo. ressurreição de vampiros bestas. Carregando aquele caixão não conseguira manter sua tocha acesa.

empurrada pela lama e pela água da chuva. inspirando e expirando alucinadamente. provocando desequilíbrio. Cantarzo era pesado o suficiente. sentindo uma pontada nas costelas. Ia precisar de um bom desjejum depois daquilo. Lucas foi quem ergueu a voz e pediu que pros- 265 . O chão molhado estava escorregadio. O tranco foi forte e os gritos de dor estouraram junto com as bolhas doloridas na escuridão. O atrapalhado lacaio perdeu a pedra de apoio. Francis pensou em organizar um acampamento quando alcançassem alguma proteção segura. Perdera o controle da respiração. Seu pé dançante pisou em falso no barro. quando as queixas começaram. festejando antecipadamente sua vitória. Elton continuava liderando os soldados. Os braços do homem giraram procurando um ponto de apoio. quando a caixa começou a escorregar. Arranjou uma posição menos dolorida para agarrar-se à corda. Puxou o corpo para cima. Lúcio foi girando para a ponta. Se conseguisse alguma coisa para içar o corpo. A despeito da tortura. Tomara que o pedaço de carne ainda estivesse lá. Depois que a garoa virou aguaceiro. um barranco enlameado. A ponta da caixa surgiu na beira do barranco. Olhou para baixo. Não podia ver quão alta seria a queda. Serviria para ajudá-lo. Tão feliz estava com suas conclusões que não percebia que se aproximava da beira de um barranco. Lúcio soltou a corda novamente. Gritou. Estava quase conseguindo. A chuva apertou. tendo escapado com êxito da região pantanosa e conduzido com boa velocidade o grupo de cavaleiros pelos caminhos na mata. tendo o corpo todo a tremer. Lúcio gritou palavrões e firmou os dedos no sisal. Olhou para o embornal. A mão tinha pegado a corda do caixão. mas não podia perder o vampiro. Seu pé tinha firmado-se numa pedra. Não perderia o vampiro. A corda de tração. A cabeça voltara para cima. Lúcio fechou a boca para não engolir barro. Daria um jeito. Quando Cantarzo voltasse a abrir os olhos. O conjunto. preso à seu ombro. rodopiando sobre a lama. caso o pé escapasse daquele apoio. Alcançou. cansado. Não conseguiu ver para a frente. Lúcio manteve-se firme. A dor nas mãos era gigantesca. Ergueu os braços para o céu. Já tinha aberto um sorriso agradecido ao acaso quando percebeu a caixa passando ao seu lado. escaparia daquela enrascada. O que era a dor perante a chance da vida eterna? Segurou firme. Cantarzo seria eternamente grato. A escuridão não deixou que percebesse a armadilha. uma tocha ou outra continuou acessa. Lucas e seus seguidores há muito tinham deixado o pântano. deslizando barranco abaixo.Algum outro espertalhão poderia querê-lo para si. aflito. ainda enrodilhada em suas mãos. As bolhas estavam deixando suas palmas das mãos em carne-viva. Cantarzo faria dele um vampiro eterno. A água descia vertiginosamente pela beira do barranco. mas. O peso de Lúcio escorregando puxou-a pela borda e a física se encarregou do resto. mas viu seus pés fixarem-se cada qual num caule de árvore nova. Faria dele um imortal. Lúcio desceu tão repentinamente que o pé não encontrou a pedra que servira de apoio centímetros abaixo. Lúcio caiu de lado. havia pedido descanso. para sua surpresa.

altivo. O bento fez o cavalo ir para a frente. Não era uma premonição. paravam ali. não agora. O animal também estava exausto. Praticamente não tinham tido descanso desde que deixaram o acampamento onde haviam deparado-se com a onça. Bateu levemente com os calcanhares na barriga do tordilho. Enquanto Lucas teimava em examinar ao redor. Não poderiam parar até aquele momento. repentinamente. Por que fora trazido até ali com tanta urgência? O que isso teria a ver com a profecia? O que teria a ver com seu destino? Talvez tivesse que encontrar alguma coisa naquele pedaço do caminho. mas não ali.seguissem. — comentou Joel para Adriano. — Acho que esse cara pirou. A luz lúgubre das tochas atingiram a clareira. Não entendiam o porquê. em cima de seu cavalo imponente. observando Lucas. um propósito que não sabia explicar. insistia em deixar os olhos vasculhando ao redor. Talvez até fosse agradável. sem perceber que bento Vicente estava nas suas costas.. Os que estavam mais perto das chamas viam os respingos da chuva contínua sobre as poças d'água. O cavalo moveu-se lentamente. Seus olhos estavam cansados e pregando. Era como se soubesse que tinham que passar por ali. em dias de sol e estiagem. toda aquela aflição em deixar a Velha São Paulo e recusar o caminho mais longo e seguro desembocava naquela clareira. Era somente um sentimento de ansiedade. Só a chuva e a noite. Os soldados de Nova Luz riram baixinho. O trigésimo guerreiro olhou ao redor. mas sabia que toda aquela pressa. A escuridão e a chuva não deixavam a floresta mostrar muita coisa.. tentando alcançar uma poça d'água mais profunda e tomar um pouco do líquido fresco vindo do céu. Sabia que o esgotamento era geral. o bicho baixava a cabeça. algo que não deslindava aos seus olhos. Angústia queimando no peito. parando entre Joel e Adriano. Os homens permaneceram em silêncio e mantiveram os cavalos imóveis. Tinha tido um palpite e não fora à toa. Agora aquela merda de terem seis bentos mortos! Lucas olhou ao redor. Mas não tinha nada diante de seus olhos. Lucas remoia seus pensamentos e seus instintos. O som de pequenas enxurradas formando-se e descendo e escapando da clareira e descendo o morro. A clareira terminava num barranco à sua direita e o caminho cortado no meio das árvores seguia à frente. Os dois ainda riam. Não sabia como. Tinham passado por lugares tão melhores para aguardar a chuva parar. Lucas ergueu o braço e a comitiva parou. Uma certeza de que não poderiam parar. Joel continuou espirituoso: 266 . Não era uma coisa clara. Aquela clareira era desprovida de abrigo. Não tinha nada na clareira. Mal tinham descansado e os problemas na jornada tinham começado. Tinham que ter deixado a Velha São Paulo e vindo naquela direção por um propósito. O som da água descendo das árvores. O trigésimo bento.

sem parar pra dar um barro se quer. dessa vez um pouco mais alto. E se fizessem perguntas? Poderiam querer saber o que tinha no caixão. Para surpresa dos soldados. transformando-se numa tempestade. permanecendo recostado à lama. Os soldados trocaram olhares indignados. Com barulho da água que descia pelo barranco e da chuva que aumentava. — Desculpa. Nunca mais faça pouco de nossa missão. A chuva parecia ter aumentado ainda mais de intensidade e ia juntando-se com relâmpagos e trovoada. Não coloque em risco nosso trabalho. Vicente! — espantou-se Joel. No barranco. com as gotas arrebentado na folhagem das árvores. Virou-se novamente. Só foi dar conta de que tinha gente na clareira por conta do clarão provocado pelas tochas. Não. Os soldados de Nova Luz voltaram às risadas.— Acho que tá sendo demais para o novato. Iriam querer tomá-lo. É certo que descobririam que era um vampiro. o cara tá louquinho. — interferiu Adriano. Seu pé deslizou.. O moleque entendeu o recado. Não entenderiam sua relação com a caixa. Vicente olhou para o líder de Nova Luz. Lúcio não escutou os cavalos. embainhando a espada. — retrucou o guerreiro. não de comediantes ou inimigos. — Foi mau. olharam para bento Edgar que estava ao lado e parecia ter assistido tudo. girando o cavalo e indo juntar-se à Lucas. Por fim. Vicente. Pirou o cara. tirou a espada da bainha. — Bento Vicente. Foi mau. Foi aí que ouviu um "crec". Tá parado aqui no meio da chuva depois de fazer a gente correr feito cachorro. — Guarde suas brincadeiras pros seus amigos de estrada. Precisamos de soldados. Vicente fechou a expressão. — Pode guardar isso. — repetiu Joel. cara. num movimento ágil. Não quero ver o nome de Lucas diminuído por nenhum deles. pra você. — Hoje você tirou a confiança de dois homens no trigésimo bento. seu sorriso desapareceu.. Amanhã pode tirar a confiança do grupo inteiro. Vicentão. Poderia pedir ajuda e tirar seu rabo dali. O caule não suportou mais o peso 267 . Vicentão. — Cuide de seus soldados. ainda aferrado à corda que sustinha o caixão e com os pés apoiados nos caules das pequenas árvores. Vicentão. Poderiam querer tomar-lhe o tesouro. chamando a atenção do resto do grupo. Lúcio chegou a abrir um sorriso. junto com o caixão. Lucas permanecia andando em círculos pela clareira. Talvez fosse melhor não clamar socorro. Quando pensou no caixão. Acho que o cara não tá botando uma fé. — Ô! Pera lá. Eu só tava brincando. cara. Edgar sorriu e ergueu os ombros. Adriano. Lúcio vencia a dor.

Frio na barriga.e cedeu. O peito doendo. Não havia nada naquela clareira. Buscar um abrigo para descansar dois pares de hora e retomar à jornada. mas a queda continuava em ar livre. Agarrou-se. Lucas chegou à beira do barranco. Seu corpo afundava na escuridão. Bateu as costas numa pedra. Precisavam buscar um abrigo. Sentiu o golpe duro quando as costas bateram na superfície. Lúcio via-se perseguindo involuntariamente seu mestre morro abaixo. Seu corpo foi carregado e bateu forte contra uma nova pedra. No entanto. O barranco tinha terminado. vencido. custasse o que custasse. Estava muito escuro. — Vão se foder! — berrou para a noite. a corda escapou entre os dedos e o caixão deslizou morro abaixo. Era o caixão! Deus! Tinha encontrado o caixão na escuridão! O destino queria que o esquife permanecesse em suas mãos! O caixão flutuava! Não morreria afogado! Lúcio riu alto. Juntaria o restante dos bentos. Iria esborrachar-se sobre rochas e seria o fim da aventura. Se ao menos não estivesse chovendo. Baixou a cabeça. soltando um gemido de dor. Quando abriu a boca. A correnteza era poderosa. Subiu à superfície e puxou o ar. Não era uma pedra. e ninguém e nem nada o faria mudar de idéia. Nada que explicasse a aflição. escurecendo rapidamente. O tranco machucou sua mão pela enésima vez. Finalmente. O caule cedeu mais e. Só conseguiu enxergar alguma coisa quando Edgar aproximou-se com a tocha flamejante. Estava cansado demais para continuar cavalgando e continuar acordado. A luz alaranjada correu pelas árvores e por cinco metros barranco abaixo. estava envolto pela chuva. 268 . esta encheu-se de água. Estaria tendo alucinações após a morte? Não. Não era isso. no segundo seguinte. no instante seguinte. Depois sentiu o corpo flutuando.

Capítulo 36
Tinham acampado às seis da manhã, quando a chuva voltou a ser uma garoa fina e quase imperceptível. Estavam cansados demais para preparar comida quente. Pães e bolachas foram divididos em pequenas cotas entre os viajantes. Alguns soldados foram para a mata apanhar frutas frescas. Apenas uma distração para o estômago deixá-los em paz para um cochilo. Adriano e Paraná ficaram responsáveis pelo primeiro turno de vigília. Era manhã e os vampiros não tinham conseguido encontrá-los depois do Vitorioso resgate na Teodoro Sampaio. Contudo, mesmo o sol tendo raiado timidamente, deixando uma suave luz passar por entre as grossas nuvens, tomar cuidado com eventuais mulos não seria precaução demais. O grupo motorizado havia chegado por volta das dez horas ao ponto de encontro, precisando também de descanso e uma refeição. Às onze da manhã, as nuvens deram trégua e um sol generoso e revigorante deu vida ao céu, deixando-o azul e esplendoroso. Os pássaros resolveram dar o ar da graça, enchendo de chilreados a mata. Os soldados que já tinham despertado do descanso trataram de tirar as roupas molhadas, cobertores e todo sortimento de coisa ensopada pela chuva insistente e botá-las sob os raios de sol. Lucas caminhou até o meio da floresta. Tinha a sensação de ter visto um reflexo ali. Olhou para trás e chamou bento Francis. O amigo não escutou seu chamado. Berrou por Vicente. Vicente estava mexendo um caldeirão sobre as brasas. Paraná e Sinatra estavam preparando o rango do almoço. Ninguém escutou seu chamado. Olhou mais uma vez para a floresta. Novamente viu o reflexo movendo-se. Entrou na mata e desembainhou sua espada prateada. Tinha alguma coisa ali. Aquela sensação de urgência crescendo. A luz do sol penetrava dentre as copas das árvores. Lucas escutou um barulho nas árvores. Olhou para cima. Viu quatro macacos pequenos, saltitando nos galhos altos. Eles começaram a gritar, parecendo comunicarem* se. O bento voltou com os olhos para frente. Novamente viu o reflexo. Alguém se afastando. Começou a correr. O terreno tornava-se inclinado na frente, obrigando Lucas a subir em troncos caídos e tomar cuidado onde pisava, evitando a lama para não escorregar. Quando chegou ao topo do morro, descobriu que ainda estava envolto pela floresta. Tinha que descer. Saltou sobre um monte de folhas molhadas. No segundo passo desequilibrou-se e rolou morro abaixo. A cabeça estava latejando. Quando abriu os olhos, a luz do sol incidiu direto sobre seu rosto, dificultando a visão. Um brilho maior veio de cima das árvores. Sentiu a luz do dia mudar. Apertou os olhos e levantou-se. Devia ter batido a cabeça com muita força, pois um zumbido tinha tomado seus ouvidos e a floresta parecia estranha. Parecia que o céu e as árvores tinham

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assumido uma coloração monocromática, acinzentada. Viu mais uma vez o reflexo. Ele agora aproximava-se, não se afastava. Lucas apertou os olhos mais uma vez. O que era aquilo? O primeiro ficou nitidamente visível quando estava a cerca de dez metros de distância. Lucas engoliu saliva, com a espada erguida, imóvel. Era um dos bentos. Um dos bentos mortos. Aquele pelo qual arriscara o pescoço numa das ruas transversais da Teodoro Sampaio. Bento Murilo. O peito de metal do bento era o responsável pelos reflexos que o atraíram até ali. Lucas estava tenso. O segundo estava chegando. Outro homem com os trajes de bento. Um que tinha um rombo na cota de malha de ferro, que revelava um ferimento no pescoço. Bento André. Lucas assustou-se e quase caiu quando outro espectro surgiu ao seu lado. A capa vermelha do novo bento agitou-se com o vento cortante que tomou aquela depressão no meio da floresta. Ficou de olhos arregalados, os seis bentos mortos estavam ali, na floresta, acompanhando o bando. Estavam unidos em espírito. Era isso que significava aquela visão. Bento Arthur continuou andando até parar a um passo de bento Lucas. Lucas manteve-se imóvel. A espada abaixada. Respirava com dificuldade. O coração estava disparado. Bento Arthur ergueu a mão em sua direção até tocar sua cabeça. Os dedos espectrais envoltos na luva de couro perpassaram sua pele, afundando em sua cabeça. Lucas sentiu o corpo estremecer e apertou os olhos. Soltou um grito quando caiu novamente. O trigésimo bento manteve os olhos fechados por um segundo. Escutava tiros ao seu redor. Tiros de fuzil. Tiros de pistola. Uma guerra. Abriu os olhos. Escuridão. Era noite. Não estava na mata. Via dois casebres à sua frente. Gritos. Gritos de gente. Aquele cheiro maldito. Cheiro de vampiros. Lucas caminhou entre os casebres. Mais casa simples pela sua frente. Um homem acocorado, com o rosto abaixado, escondido entre os braços. Tremia. Parecia chorar. Lucas caminhou até ele. Agora era sua capa que balançava, jogada pelo vento. O trigésimo bento flexionou o joelho da frente e tocou no ombro do estranho. O homem agachado ergueu os olhos para o bento. Lucas arrepiou-se dos pés a cabeça. Conhecia aqueles olhos. Conhecia aquele rosto. Deu passo para trás, assustado. Era o velho Bispo. O trigésimo levou a mão ao cabelo. Era e não era o velho. Era Bispo, mas com o rosto dezenas de anos mais moço. — Lucas... — disse a voz chorosa do vidente. O bento, refeito da surpresa, reaproximou-se de Bispo. — Eu não quero mais ver, Lucas. — Onde estamos? — Mande Adriano voltar. Tá vendo esse inferno? Eles virão pra cá, Lucas. Esse é o futuro de Nova Luz. O bento ergueu Bispo. — Nova Luz?

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— Sim, Lucas. Esse é o futuro. Eu vi mais coisas. Fogo e inferno, Lucas. Tu terás de ser forte. Eu não vou conseguir... mas tu não pode titubear. Os demônios de bocas maiores virão... eu não posso evitar. — Eu pressenti uma coisa, Bispo. Eu corri da Velha São Paulo em busca de uma pista... eu sei que perdi... não sei se conseguirei. Bispo enxugou as lágrimas do rosto. Envergonhava-se de ser visto daquela forma, vulnerável. — O vampiro está falando coisas pra mim, Lucas. Está corroendo minha fé. Eu tentei te mandar, te mandar para o túmulo do maldito. Ele está num caixão. Está enterrado. Eu não vejo tudo, Lucas. Só vejo o que ele deixa escapar. Ele está vendo as coisas também, Lucas. Você tem que correr. Correr mais do nunca. Tem que juntar os trinta bentos. — Seis morreram. — Eu sei, bichinho. Mas não se incomode com a carne deles, pois como viu lá no mato, eles seguirão seus homens. Lucas reviu num flash a face dos seis bentos espectrais ao seu redor. Espíritos. — O próximo que encontrarão será bento Teodoro. Dois dias de viagem. Vá para o litoral. Nas Minas tua ajuda será clamada e sua espada não deve ser negada.

Mais tiros. Lucas chegou a baixar-se, temendo ser atingido. — O mundo dos sonhos rege o mundo dos vivos, bichinho. Não esqueça. Lucas tentava digerir as palavras quando se sentiu caindo. Estremeceu o corpo, procurando equilíbrio. Um clarão atingiu seus olhos. Não era uma lanterna na noite trágica e barulhenta de Nova Luz. Era o sol a pino descendo do céu e penetrando suas pálpebras. Mais uma vez fora visitado por sonhos sobrenaturais. O som dos gritos e dos disparos de armas de fogo foram substituídos pelo gorjear dos pássaros e a relinchar dos cavalos e a conversa animada dos soldados refeitos pelo sono. Lucas levantou-se. Estava seminu. O corpo fedia a suor e o estômago roncava de fome. Passou a mão pelo rosto áspero, enegrecido por um pouco de barro e pela barba rala que cobria sua porção inferior. Francis aproximou-se sorridente. — Revigorado, Lucas? — Acho que sim. — Quando partimos? — Imediatamente. — Um ou outro ainda almoça. — Apresse-os.

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Francis calou-se um instante. Sentiu a voz do trigésimo alterada. Faltava aquele jeito curioso e surpreso do rapaz acordado há poucos dias. Falava com pressa e autoridade. Parecia querer bancar o chefão de agora em diante. — Tive outro daqueles sonhos estranhos. — O quê? — Adriano. Chame Adriano. Ele e os seus soldados devem partir. — O que diz? O grupo do cara é o melhor. Vamos precisar deles. Vamos para... — O litoral. — É. Elton achou que esse será o melhor caminho para o norte. Apesar da região ainda ser uma das mais belas do Brasil, após a Noite Maldita tornou-se quase desabitada, exceto por pequenas fortificações. Vamos para Angra. Lucas passou os olhos pelo bando. Procurava Adriano com os olhos enquanto Francis continuava. — Em Angra encontraremos bento... — Teodoro. — completou Lucas. Francis calou-se. Não se enganara. Aquele Lucas amedrontado e de habilidades duvidosas tinha desaparecido. O Lucas na sua frente era uma massa em constante transformação, sendo moldado hora a hora por forças mágicas. — Chame Adriano e peça que Vicente e Edgar levantem acampamento imediatamente. Apresse as coisas. Não temos tempo a perder. Vou me lavar e colocar minha tralha. É um minuto. Lucas afastou-se, deixando o bento médico mudo e parado às suas costas. Francis levantou o dedo, fazendo menção de dizer alguma coisa, mas acabou desistindo. Foi Lucas quem se virou e acrescentou: — Quanto aos bentos mortos, Francis, acalme os homens. Tudo será arranjado. Ainda estamos no jogo.

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Capítulo 37
Lucas sentiu alívio quando os primeiros raios de luz chegaram ao céu naquele novo dia. Nada de confrontos com vampiros. Tinham tido sorte. Há pouco tinham deixado o estado de São Paulo e cruzavam agora ao litoral sul do Rio de Janeiro. Segundo bento Francis e Edgar, para continuar seguindo ao norte, a melhor rota seria cruzar a Rio-Santos. Segundo os mais experientes, aquela rodovia registrava um baixo índice de atividade vampírica. Lucas avistou alguns dos cavaleiros parados na subida, junto a uma curva. Havia uma construção pequena ali. Balaústres de cimento formando um mirante. Lá embaixo, envolta pelas brumas da manhã, descansava a antiga Parati. Podia ver a espuma branca formada pelas ondas, avançando para a costa, mas estava longe demais para escutar a arrebentação. Com a partida de Adriano e seus soldados, o grupo parecia incompleto. A voz de Sinatra não acompanhava mais a comitiva, deixando a marcha um tanto mais triste. Lucas lembrou do rosto do homem. O soldado experiente não duvidara um instante de suas palavras, mesmo sabendo que os homens não sonhavam mais, não perdeu tempo perguntando-se se o trigésimo era um charlatão ou coisa parecida. Adriano tinha dado atenção era para o fato de Lucas ter dito que vira vampiros invadindo Nova Luz. Vampiros promovendo terror e desgraça. Lucas tinha dito que vira o futuro e que ainda haveria tempo de socorrer seus companheiros deixados na fortificação antes da tragédia. Adriano apanhara suas coisas e, junto com seus soldados, tomara o rumo de São Vítor, onde reaveriam suas motos velozes. Que Deus permitisse que chegassem antes dos vampiros! Despertando das lembranças recentes, o trigésimo bento tornou ao cavalo, cavalgando lentamente em meio ao grupo. Os homens estavam abatidos física e psicologicamente. Sabia que a morte dos seis bentos tinha minado a confiança da maioria deles. E também o fato de ter insistido para cruzarem o pântano perigoso nas cercanias da Velha São Paulo sem que houvesse razão aparente. Dirigindo-se para esses pensamentos, Lucas voltava a encher o peito com aquele sentimento pujante. Naquela noite, naquela chuva, naquela clareira, alguma coisa poderosa tinha escapado a seus olhos. Alguma coisa importante tinha se escondido. Ele tinha sido enviado até ali por um motivo. Ele tinha seguido seus instintos por uma razão. Mas nada havia no barro. Nada havia na lama. O dia tinha passado rapidamente. Lucas e a comitiva tinham atravessado cerca de duzentos quilômetros de rodovia, fartamente ladeada por Mata Atlântica. Lucas, muito mais adaptado à nova vida, espantava-se menos com a exuberância da natureza, o que achava uma pena. Tinha ficado alguns minutos parados em dois momentos. Primeiro quando cruzaram o que foram cabinas de pedágio. Os cavalos e veículos passaram

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vagarosamente pelas cancelas. Lucas deteve-se quando passou. Mais uma vez um flasb passando por sua cabeça. Uma sensação de déjàvú. Parou ao lado da cabine. Sobre o caixa repousava um esqueleto humano. Os dedos abraçando a máquina de recolher dinheiro. Um amontoado de ossos escondendo-se por baixo de um uniforme de uma empresa privada que cuidava da rodovia. O bento parou novamente enquanto passavam frente a um posto da policia rodoviária federal. Uma pickup, uma viatura da corporação jazia à beira da pista, abandonada no tempo. Os pneus tinham se fundido com o asfalto e grossos ramos de trepadeira subiam pela lataria, invadindo o veículo e atravessando as janelas, que não contavam com vidros. O pára-brisa estava inteiro, coberto por uma camada grossa de poeira. Suspirou fundo e continuou cavalgando. Quantas histórias curiosas não deveriam ter existido com a chegada da Noite Maldita. Bento Edgar aproximou-se, avisando que parariam para um descanso e para alimentar os homens e os animais. Edgar também exibiu preocupação acerca da minguante gasolina disponível. Se no próximo ponto de parada não encontrassem reservas de combustível, previa a necessidade de alguns veículos terem de ser abandonados e a gasolina restante no tanque de cada um ser transportada para os carros que continuariam a viagem. Lucas não objetou quanto ao descanso. Sabia que os homens precisavam parar. Sua vontade pessoal era de continuar. Continuar sem descanso até juntarem os trinta bentos. Não dormiria se fosse necessário. Alguma coisa imprimia urgência em seu coração. Depois de meia hora de cavalgada e bastante conversa com bento Edgar, chegaram ao ponto onde fariam acampamento. Lucas admirava a construção costeira. Um complexo encravado na rocha, chegando ao mar. Atravessaram uma espécie de alameda, tomada por vegetação rasteira que cobria todo o chão pavimentado. — Que lugar é esse? — perguntou o trigésimo, curioso. — Aqui é onde funcionava a Usina Nuclear de Angra dos Reis. — Huum. — resmungou Lucas. Chegaram até um prédio baixo e redondo. Os cavaleiros pararam ao lado dessa construção e desmontaram dos animais. Tinham reabastecido os cantis e dado de beber aos cavalos numa mina d'água quilômetros atrás. — O povoado de bento Teodoro fica há quatro horas daqui, em Angra dos Reis. Chegaremos lá com a noite avançada. — explicou Edgar. — Não é melhor esperarmos amanhecer? — perguntou o jovem soldado Matias, aproximando-se.

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— Não. — respondeu Lucas. — Vamos descansar e continuar viagem. Temos que alcançar Teodoro e seguir viagem. Faltam muitos irmãos para termos a primeira parte da profecia concluída. Vicente aproximou-se de Lucas. O bento truculento e de cara amarrada nada disse, apenas juntou-se ao grupo que conversava. Os soldados acenderam fogo para prepararem a bóia. Uma dúzia procurava um canto para descansar à sombra. Francis juntou seis soldados e aproximou-se de Lucas. — Aguarde aqui com os demais, Lucas. Vou com esses soldados procurar por um depósito de gasolina. A coisa tá feia.

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Capítulo 38
Anaquias despertou do sono vampírico. Durante o transe sua mente havia sido transportada novamente para o mundo do vampiro-rei. O vampiro adormecido. Não via o ser mágico. Apenas ouvia a voz em sua cabeça. A voz que ordenava. O vampiro demandava preparação. Anaquias devia juntar seguidores. Preparar o caminho para sua chegada. A vitória sobre os humanos seria retumbante. O vampiro-rei via o futuro. Reclamava que o futuro era um quebra-cabeça. Que alguma coisa lhe soprava as coisas, dava-lhe peças que compunham uma figura... mas algumas peças não encaixavam e outras não eram fornecidas. O quadro ficava cheio de buracos, mas as visões davam uma boa idéia do que ia acontecer. O que quer que estivesse ajudando o vampiro-rei mostrava coisas, mas não mostrava tudo. Era como um jogo, uma brincadeira. Entretanto o fiel da balança pendia para a escuridão. O vampiro-rei tinha chamado a atenção dos regentes do destino. E Anaquias participava dessa trama. De alguma forma desconhecida, Anaquias fora arremessado para o olho do furacão, onde a calmaria permitia que assistisse de camarote a desgraça. O vento soprou uma peça enorme daquele quebra-cabeça para os olhos de Anaquias. Um pedaço de um mapa. O norte apontado. O vampiro-líder do novo exército caminhou entre os vampiros que despertavam aos poucos. Havia organizado cem deles ao seu redor. Cem vampiros que propagavam a nova notícia. Pregavam a chegada do vampiro-rei. Os olhos de Anaquias acenderam-se. Seus dentes tornaramse mais proeminentes ainda. Estava faminto. Há dias não caçava. Caça fresca. Caminhou até a sacada do salão, que fora o escritório central de uma multinacional. Pisou sobre a folhagem da vegetação irritante que insistia em vencer o concreto e devorar os prédios da Velha São Paulo. O céu estava limpo. Nuvens rarefeitas cruzavam o halo de luz rebatida pela lua. Anaquias olhou para trás. — Vamos ao norte. Vamos acabar com os bentos. O vampiro com o pescoço tatuado aproximou-se. — E o exército, senhor? Anaquias sorriu. — Tudo será arranjado, Daniel. Tudo na sua hora. Todo vampiro que cruzar nosso caminho será recrutado. Raquel, no meio dos vampiros enlouquecidos que pareciam hipnotizados pela presença do novo Anaquias, permaneceu calada. Dissera para Gerson que acompanharia Anaquias e abandonaria aqueles malucos em hora propícia. Tomaria aquele estranho levante a seu favor. A caçada interrompida a Cantarzo seria retomada. Agora queria ver e entender o que o sonso do

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Aquela lengalenga de vampiro-rei estava dando certo. 277 . seguidores fiéis e fanáticos. Fosse o que fosse estava ganhando adeptos.Anaquias pretendia.

cumprimentando os soldados que adentravam a cidade. Via soldados balançando as mãos. Por culpa da noite avançada e da escuridão não pôde contemplar a beleza daquele pedaço de praia do litoral brasileiro.. — Não. colados às docas graças a amarras grossas. um ou outro cidadão aventurou-se no meio da rua. Disse que era a terra dele. — Vicente. Aqui tem pouco ataque de vampiros. já distante.. riscando o negro do céu. Nem estava com espírito para isso. Vamos fazer o que com o cara? Dar porrada e obrigar ele ficar onde queremos? Balançou a cabeça negativamente. Quando despertou como bento. no meio da noite. Contando com este novo e com bento Duque. Lucas percebeu tochas sendo acesas aos poucos no alto de alguns prédios. teriam já alcançado doze bentos. quando seus olhos fecharam-se na Noite Maldita. Lucas ainda não conhecia aquele lugar. — Angra é assim. Não para ficar escondido onde não haja perigo. cumpria a missão sabiamente pensada por bento Francis. Lucas também considerou a baixa dos seis bentos precipitados. de onde vinha o barulho calmo do mar. Queria encontrar logo o próximo bento e juntá-lo ao bando. a noite ia alta quando se aproximaram da cidade litorânea de Angra dos Reis. parando o cavalo.. 278 . Bento Teodoro. Olhou ao redor. Um rojão de tiro único estourou na noite. quase a metade do número pedido pela profecia para o desenlace dos quatro milagres. — Teodoro? — É.Capítulo 39 Como previsto. Lucas estranhou. já teriam agrupado seis bentos. quis voltar pra cá. Cavalgaram mais cinco minutos até escutarem um espoco seco. Um cais. Ele era daqui. lá em São Vítor. Seriam antigas mesmo para quem tivesse estado ali trinta anos antes. Contando com os irmãos derrubados na última batalha. — E por que um bento fica aqui e não numa cidade onde tenha mais chances de defender o povo? — Ele quis ficar aqui. Mas ele deveria saber que foi abençoado por um motivo. Pôde ver mais de um barco balançando sobre a água. Depois de poucos minutos. Eram construções antigas. Lucas olhou para Vicente que vinha ao seu lado. Mais luzes acenderam-se à sua direita.. que ia a frente. a cidade. Uma brasa serpenteante subia cerca de trinta metros. Já estavam no meio da comunidade remanescente de Angra dos Reis. O valoroso Duque. ela não tem muros? O bento grandalhão aquiesceu.

Já era o sangue. Teriam que esperar até o amanhecer para cruzar o mar. Rio fundo. — O cara é o bento mais xarope que eu conheço. os noturnos não encaram não. com correnteza e mar aberto. Começam a se contorcer feito minhoca. Do contrário a gente tava frito. Sem chance. Lucas olhou para os prédios velhos. apontando para o mar. Ficam debaixo da água esperando um trouxa passar perto e záz! Já era o pescoço. Aos poucos ia vencendo a casca dura do anti-social de São Vítor. ressoando longe. — Ah! Os malditos noturnos não gostam de tomar nosso sangue. — Água corrente. Agora. Um é mais fácil que dois. Não encaram nosso bando nem a pau. com um sorriso no canto da boca. se topam com um dos nossos sozinhos. — É que no pântano. — respondeu Vicente. — O que tem lá? — A uma hora da costa fica Ilha Grande. Mais e mais tochas acendiam-se para clarear a chegada dos inesperados visitantes. — Vejo doze barcos daqui. Um deles deve ser capaz de chegar à ilha. se enchem de coragem.. O soldado Elton e o bento Edgar voltaram de uma das casas. Lucas sorriu. Não botam uma gota na boca. Os vampiros não gostam muito de água do mar. Não se aventuram além das ondas.. — Anda bem que eles não gostam de sangue de bento também. — O grosso do pessoal da vila fica lá. sim. pra você ter uma noção. Os cascos dos cavalos batiam no chão de paralelepípedos. Deve ter mais a ver com o sal da água. mantendo um sorriso sarcástico na boca.. além dos barcos. mas gostam sim de abrir nossas jugulares. Lucas soergueu as sobrancelhas. — Não gostam? Quem disse que não gostam? — Em São Vítor me disseram que nosso sangue é ácido para eles. Bento Teodoro estava na ilha. mas gostam de ver ele esparramado por aí. — Mais ou menos. — comentou Vicente. cada qual com um jogo de chamas a iluminar o convés e tingir de reflexos laranjas a água do mar.. — Não. esses dentuços folgados entram na boa. Olhando para o lado do mar via agora mais de dez barcos presos ao atracadouro. — É que quando a gente tá em bando eles perdem os culhões. Vicente tagarelando ao seu lado. — disse o gigante. 279 . O pessoal da vila se protege na ilha. Não sai daqui nem a pau. — discordou Lucas.— Diz isso pra ele. — Quantos barcos! Vicente acompanhou o olhar de Lucas.

um pesqueiro com quinze metros de comprimento. desmontando o cavalo. Discussão contigo é o que não quero. Lucas estava louco. Lucas. — Você não gosta de barco? — perguntou Francis. Era um barco pequeno. sim. que pelas feições chegava aos cinqüenta anos. Me arranje um marujo que me leve até a ilha. Lucas olhou para o homem barbudo. Lucas recostara-se no mastro e fechara os olhos. Francis e Vicente trocaram um sorriso. agarrado às correias de couro. Não vim aqui a passeio. As tochas flamejantes tremulavam ao sabor do vento. Vicente e Edgar iam na cabine do capitão. Lucas girou no cavalo. Devemos pegar Teodoro e partir antes do amanhecer. olhando para o mar escuro à frente. Puxou com maior firmeza. — Como quiser. um soldado local. não estamos numa excursão de veraneio. senhor. Puxou a rédea para imobilizar a montaria. Não tenho esse tempo. Bernardo ergueu os ombros. Procurava por alguém que não sabia quem pudesse ser. senhor. pois enquanto mantinha-os abertos a visão procurava por fantasmas na água. — disse Bernardo. Deixem os soldados em terra. O motor a diesel do barco batia cadenciado. Lucas não conhecia a rabugice de Teodoro. Ele não gosta de ser incomodado. 280 . Os soldados e os bentos entreolharam-se. Lucas e Francis iam no convés. Procurava manter os olhos fechados. — Sorridente ou grunhindo. assim que o sol nascer. Alguém que gostava do mar e aguardava ser buscado. — Teodoro não vai querer sair no meio da noite. Sua capa revoou com o movimento brusco do eqüino e sua cota de ferro tilintou ao redor do seu pescoço. Vão nos levar com o maior prazer. Mais uma vez seu peito era assaltado por sentimentos encobertos pelas lembranças perdidas no passado. esse Teodoro vem comigo. senhor. Precisam dar descanso aos cavalos e ao próprio esqueleto. Mal tinham chegado. — Ah. O cavalo empinou uma vez. — respondeu Lucas. Precisamos comer estrada ainda hoje. bento. Lucas olhou novamente para o mar negro.— Os marujos não gostam de cruzar o mar de Angra durante a noite. O senhor é nosso salvador. aproximando-se com um cigarro caseiro entre os dedos. Não sabia o porquê. — Não vou esperar o sol nascer. Queriam uma noite dormida num colchão. — Então tá. ele vem comigo. Arranjo um barco pra ti e pros outros. não se assustou. O cavalo parou. — Ele não gosta de levantar no meio da noite. mas não se sentia bem dentro daquele barco. Estava contrafeito com a negativa e seu nervosismo era transmitido ao animal que ficava arisco e inquieto. — Não vou ficar em Angra. Fica com um mal-humor terrível. Venham os bentos.

— Tinha esquecido. Só que tem hora que bate uma puta vontade. — Você está falando dos milagres? 281 .. A lua nova derramava um pouco de luz sobre suas cabeças. agitada por uma marola. mas por conta daquela aflição diuturna queimando em seu peito e sua mente e também por causa daqueles pesadelos desgraçadamente premonitórios. não conseguia apreciar quase nada. Juntar os bentos vivos. Já foi a São Vítor.. Corretor de seguros de automóvel não tem muito a ver com mar. — Arrebentava. Esse Bernardo é gente boa. Lucas olhou para o alto. Lucas sorriu. — Roubei do Bernardo. — Isso o quê? — Navegar em barcos. Mesmo sem o risco do câncer de pulmão. Acho que é a segunda vez que falo com ele. Parece que fiz muito isso na minha vida. Francis fez um cara de estranheza. — Você tá com uma cara. fumem até o talo. Francis continuava entretido com o cigarro.. para conhecer o novo mundo melhor antes de tacarem aquela espada em sua cintura e revelarem que era ele o tal. absorto em seus próprios pensamentos quando Lucas interveio. continuo um não-fumante convicto. Navegar à noite.— Não. A embarcação chacoalhou. mas não é medo. — Quer dar um pega? — Não. — Você tem certeza que quer que isso aconteça? Francis soltou a fumaça presa no peito. Às vezes queria ter tido um dias de folga.. Nada como uma boa tragada. Não teria descanso enquanto não fizesse o que lhe fora proposto. Caminhou até a tocha acesa na ponta do navio e acendeu o cigarro. O salvador do novo mundo. — Engraçado ouvir isso de um médico. sentando-se recostado à amurada da embarcação. liberar os milagres. Francis sorriu. — Se eu conseguisse lembrar das coisas da minha vida passada. Essa desgrama arrebenta com o pulmão. As coisas estavam tão bonitas à sua volta. O Ministério da Saúde adverte: as doenças não existem mais. Francis deu uma tragada longa. Não é isso. É que esse balanço do barco não me é estranho. Não teria descanso enquanto não fizesse o que tinha que fazer. Tentava decifrar a pergunta do parceiro de jornada. O espetáculo de estrelas era de tirar o fôlego. Exibiu o cilindro enrolado a mão para Lucas. — Não sou de fumar.

— Um fantoche. — E isso que eu estou tentando montar aqui na cuca. Tô falando disso tudo. Francis tragou mais uma vez. Ter medo de andar na rua de noite por causa do seu semelhante. deixando o ar escapar mais pelo nariz que pela boca. onde faltam algumas peças ou que sobram outras. Depois de acabarmos com essas criaturas. — Essa conversa esta ficando filosófica demais. Medo do passado. 282 . Medo de tudo ser como era antes. peças que não encaixam ou que não quero encaixar. — Aqui dentro desse barco. — É. Vamos acabar com essa raça de sanguessugas. Eventualmente.. vamos derrotar os vampiros. — Acho que a vida vai voltar ao normal. quero recuar. Pra colocar os músculos para trabalhar. Quero que isso aconteça. se lutarmos firmes. Deus do céu! Parecia um pesadelo. — murmurou o bento médico. Lucas suspirou. — Quando acordei aqui. — falou. fingindo encontrar ali fios que subiam e desapareciam no céu negro. Lucas. Do medo do próximo. E como um quebra-cabeça. Sinto-me como uma marionete. É isso que vai acontecer. Às vezes.. Foi a vez de Lucas manter-se calado por um instante. — Viver em paz é uma bênção. das mudanças. — Se você está falando disso. até os quatro milagres. — Sei. todos. Quando puxava o ar a ponta do cigarro tornava-se mais viva. — Segundo Bispo.— É. mas esses fios não deixam ir para trás. muita coisa vai acontecer depois dos milagres. Não está aqui por causa de sua cuca. — expôs o trigésimo. Se acabar com os vampiros do mundo. aos pés de Lucas. Sinto o hálito do bicho na minha cara. Não sabia quem eu era. poderemos voltar a viver em paz. passando as mãos pelos cotovelos. — E. se tudo se encaixar. para esticar as pernas e olhar Lucas nos olhos. nesse novo mundo. olhando para essa água escura e procurando no mar alguma coisa do meu passado.. Ainda não sei direito como foi minha vida. Ficou olhando para a tocha que iluminava a proa. Mas eu lembro do sentimento do velho mundo. Sim. uma fagulha desprendia-se e vinha morrer no convés. entre um crepitar e outro. Lucas.. colocando-se de pé. E sei que vou levá-los. — Onde você quer chegar com essa conversa? — perguntou Francis. por alguma razão. O que temo é voltarmos a viver como antes. — continuou Lucas. Só não sei se é isso que eu quero. — Libertação. Tenho medo do que virá a acontecer. tirando o cigarro da boca e olhando-o entre os dedos. Vicente riu em baixo volume. empurrado para a boca de um dragão. a porta do medo foi aberta no meu coração. Dos milagres. Você está aqui pra lutar. — Estava me perguntando o que vai acontecer depois.

Todos trabalham para o bem comum. meu amigo. Vamos esquecer que estivemos juntos. restabelecer os confortos e tecnologias. — Mas esses são poucos. O motor continuou com o "toc-toc" grave. vai ser aí. — Qual é o ponto. Bernardo já estava a postos e. percebo o povo unido. vamos relaxar. Éramos tão egoístas! E o terror instaurado pela violência nos moldava assim. E talvez seja este tipo de pessoa que irá reacender os vícios do passado. — Só estava pensando. prendendo o barco 283 . De dia vocês se organizaram de uma forma impressionante. — Francis arremessou a bituca do cigarro ao convés e espremeua com a sola da bota. com os malditos mulos. o medo do vizinho. — brincou Francis. — Também temos os problemas com os que não se ajustam. — Acho que eu preciso de um trago. heim. batendo levemente as fileiras de pneus que serviam de amortecedores amarrados em sua amurada. Infelizes e assustados. Uma hora e meia depois de deixar o porto de Angra dos Reis. quando começarmos a nos achar diferentes e separarmos os que merecem mais dos que merecem menos. assim economizo tempo. Foi a vez de Lucas rir baixinho. Tem gente que vela o sono dos que dormem. avisando os habitantes de Ilha Grande que amigos chegavam ao porto. batendo suavemente na praia. exatamente? — Acho que depois que nos vermos livres do mal dos vampiros.Da maldade que tomava o coração de todos. que o caldo vai entornar. atrás de muros. cuidando uns dos outros. arremessou uma corda a um estaca de madeira. Só estava pensando. O capitão. que preferem viver entre os vampiros e servirem de escravos do que viver em comunidade. cara. encostou a embarcação junto à doca. Vamos esquecer a igualdade. — Qual é a grande diferença hoje. Nós estaremos livres para começar mais uma vez a corrida do progresso. Vamos nos voltar para os próprios umbigos. juntando-se ao murmúrio das águas. O pesqueiro tocou o concreto do atracadouro. aproximando-se vagarosamente. procurar ver o que temos ao nosso redor e como tirar o melhor proveito disso em causa própria. um senhor com mais de sessenta anos. Quando voltarmos a achar que uns são mais que os outros. Não existe medo entre os semelhantes. Lucas percebeu o barco alinhando-se à uma fileira de tochas que foram acesas uma na uma. O medo do próximo. Um rojão de explosão única espocou no céu. — Aí que você se engana. — Porra! Você vai longe. quando o pesqueiro juntou-se ao cais. Só existe medo dos noturnos. o medo vai voltar. Lucas? — A grande diferença é que em cada vila que chegamos. cara? Acho que vou pular do barco e me afogar por aqui. Um cuidando do outro. o pequeno pesqueiro aproximou-se do cais da praia do Abraão.

Preciso continuar meu caminho. seguido por Francis e. — Lucas. 284 . Sobretudo paciente. Lucas foi o seguinte. Os bentos sorriam e trocavam gracejos uns com os outros. apontando para Lucas. — respondeu o acompanhante barbudo. A mulher pousou os olhos no bento. Joana. Os olhos cor de mel foram mostrados pela luz do lampião a querosene que vinha em sua mão. — Ele. por fim. queimada de sol. — completou o morador de Angra. Bernardo riu do comentário da mulher. Ajudou Vicente a firmar-se na tábua. franzindo a testa. — Bonito nome para um salvador. Joana. — Pra que a pressa? — perguntou a mulher. — Paciente. — Ele? — perguntou a mulher.à ilha. — Bento Vicente! Que bons ventos os trazem pra esse canto esquecido do Brasil? A entusiasmada cidadã era Joana. Atravessaram o pátio. Qual é sua graça? — perguntou a mulher. deixando o cais. puxou uma tábua estreita. sendo esse o primeiro bento a deixar a embarcação. Bernardo também chegou ao cais. vindo para a luz do lampião. Lucas sentiu um frio na barriga. corpo magro e pele morena. Depois. Alguns dos moradores da ilha chegaram ao cais. — Não. As primeiras pessoas começavam a chegar. — Os marujos não gostam de cruzar o mar a essa hora. educadamente. Lucas buscou os olhos de Francis e Vicente. — O capitão? Não vem? — perguntou Francis. — Espero que além de predestinado. como a grande maioria dos cidadãos daquele pedaço. — Levem-me até bento Teodoro. Foi ele que o destino nos deu para a libertação. Lucas aproximou-se. bento. ainda com as sobrancelhas erguidas. abrindo um sorriso. — Ele é o trigésimo bento. você seja sortudo e paciente. Não gosta de deixar o barco. A mulher sorriu abertamente. Vai cuidar dele pra nós. Como era bonita! — Viemos atrás de bento Teodoro. — Seja bem-vindo. a líder dos soldados de Ilha Grande. A luz do lampião juntou-se a outras que iluminavam um pátio de chão batido em frente uma pequena igreja. riam e conversavam alto. — Tá vendo aquele magrelo ali? — perguntou. Lucas retribuiu o sorriso. Joana guiou os visitantes. Tinha um metro e setenta. com uma dúzia de ripas horizontais pregadas que fariam as vezes de degraus.

. Uma grande cruz de madeira com Cristo crucificado estava fixada no alto. delegada? Joana não respondeu e empurrou a porta. Surpresa. — Teodoro. A nave estava cheia de fumaça.. Joana parou na frente da igreja e bateu na grossa porta de madeira. — sussurrou Francis em seu ouvido. no chão. — chamou Joana. impedindo que os curiosos não entrassem e parassem de esfregarse no trigésimo bento. O comum burburinho começou e muitos soldados que estavam ali correram pelas vielas atrás da igreja. todos souberam quem era Lucas e o que fazia ali. Não existia mais oratório.Bernardo deixou o grupo e foi ter com os soldados da vila. garota? A menina loira coçou a cabeça. A porta rangeu e abriu. mas aquele cheiro adocicado. Tinha um grande colchão jogado no chão onde repousava um homem. O festejado trigésimo bento tentava agradar aos impressionados e felizes moradores da ilha. nem balcão. Lucas inspirou fundo. Lucas levantou um sorriso de canto de boca. Que horas são. aquilo não era incenso. — Maconha. — Acho que ele está dormindo. 285 . Vicente ficou na porta. Lucas olhou para a garota que se recostara num velho e inutilizável banco de igreja. Uma garota aparentando menos de vinte anos surgiu no estreito vão. Ela esfregou os olhos vermelhos pesados de sono e encarou Joana. cobertos por um tecido leve e translúcido. — Teodoro! — chamou mais alto. — Cadê o Teodoro. portanto a luz da lamparina iluminava boa parte do ambiente. querendo tocá-lo. Não sabia dizer que espécie de roupa era aquela. a garota cambaleou pra trás. Alguém deveria estar queimando um incenso. encostado contra a parede externa da igreja. querendo cumprimentá-lo. A igreja não era grande. Vicente começou a empertigar-se ao perceber o guerreiro incomodado e acuado. Joana insistiu. Lucas começou a ser rodeado por pessoas sorridentes que lhe estendiam a mão. Joana caminhou até o altar. de onde o padre haveria de ter dado suas missas enquanto a igreja funcionou. O homem resmungou. Joana caminhou até o meio do salão. batendo com mais violência contra a entrada da igreja. na parede dos fundos do salão existia meia dúzia de velas de sete dias acesas. Tinha o corpo magro e seios pequenos. Se era uma camisola ou algo imitando uma batina. Retornava sorrisos e apertos de mão. Logo. nada. Lucas e Francis entraram atrás da líder dos soldados. Nenhum barulho vindo de dentro... Nenhuma resposta. Iam dar a boa nova aos moradores da vila.

O trigésimo bento. Lucas abanou a mão livrando o rosto daquela nuvem. — Vivi! — berrou o bento. só não gostava da situação. Encarou os visitantes mais um segundo e. levou o bastão até a boca. O cheiro da erva ficou mais forte. Fumaça de maconha. Sobre cobertores surpreendentemente limpos. Era um baseado gigante! — Pára de fumar essa merda. — Partir? Partir pra onde? Eu fumo e você é que fica maluco? — Esse aqui do meu lado é bento Lucas. Duas garrafas de bebida ao lado da cama e um cheiro azedo vindo do colchão. com feições de quem já passava dos quarenta anos. 286 . Teodoro. viram o homem desencaracolar-se e colocar-se de joelhos. em seguida. Seus olhos tomados por um vermelho sangüíneo saíram de Joana e fitaram os dois guerreiros por um momento. três degraus acima de Lucas e Francis. Eles vieram buscar você. O bento segurou a fumaça no peito um instante.Lucas aproximou-se. — Pra que a pressa? Esse barato me dá uma fome do cão. Os olhos de Teodoro ficaram estáticos um segundo. levando o baseado mais uma vez a boca. Teodoro. uma barba cheia e ruiva. um corpo encaracolado. Teodoro encarou Francis um instante. Parecia até mesmo que um resto de fumaça pairava no ar. A ponta tornou-se incandescente enquanto o bento puxava o ar. com pontas desiguais. A fumaça atingiu Lucas e Francis em cheio. Teodoro tinha os cabelos vermelhos enrolados ao estilo rastafari. parecia mais alto ainda por estar na parte elevada do salão. — Caralho! — exclamou por fim. mas gostava daquele cheiro. — Que é que vocês estão fazendo aqui? — perguntou. Partimos antes do amanhecer. A luz da lamparina revela uma série de pontas de cigarros no chão. — Ponha seus trajes. de repente. com cerca de um metro e noventa. Abriu a boca e deixou uma grossa cortina de fumaça escapar pela boca. Tinham que voltar logo. Para surpresa dos três visitantes que julgavam que Teodoro estivesse adormecido. — Precisamos de você no nosso grupo. O peito nu revelava uma série de curtas cicatrizes. Não era um adepto da erva. em vez da espada. Na mão esquerda. vamos partir. segurava um bastão pardo. — Que zona é essa na minha casa? — perguntou o bento após exalar a tragada. Do indumento dos bentos trajava apenas a calça negra e o saiote verde escuro. Era alto. Teodoro colocou-se de pé. formando uma nuvem rala. Era um homem magro. Lucas olhou impaciente para Francis. O bento que viera buscar lhe parecia um viciado. Um barco espera para sermos levados de volta a Angra. Soltou mais uma vez a coluna de fumaça na direção do rosto dos dois. Arregalaram-se aos poucos.

— Vai até o cozinheiro e peça que me faça um bife a cavalo. — Pode. — Vamos juntar os trinta bentos. mas. são? — perguntou Joana. Você vai comigo e vai agora. olhando abobada para o bento. Lucas desembainhou a espada sob os olhares nervosos de Joana e Francis. — Hum. — Posso levar bagagem? — perguntou Teodoro. Ergueu a mão para outra tragada. a lâmina da espada de Lucas cruzou o ar e atingiu o cigarro em sua mão. balançando negativamente a cabeça. Eu tenho todo o tempo do mundo. — Joana? A soldada de Ilha Grande saiu detrás de Francis. — juntou Francis. antes que o baseado chegasse à boca. Isso não é uma opção. Lucas mais uma vez olhou para Francis. precisamos que colabore. — Tenho vinte e três soldados famintos e cansados esperando em Angra pra continuarmos viagem. — falou Lucas. mulher. — Encarnado ou desencarnado. Teodoro continuou rindo. jogando-as para trás dos ombros. — Tô me lixando pra hora. Tornou a olhar para Lucas. Hum. — Pode trazer o resto pra cá. ajeitando as tranças vermelhas. Desceu os três degraus que os separavam. Não vou te dar o luxo de fazê-los esperar seu bife a cavalo. — Não saio daqui nem a pau. — Sabe que horas. Teodoro. Olhou seriamente para Lucas. Teodoro começou a gargalhar. — Pede pra cancelar meu bife. Há! Há! Há! — riu o bento ruivo. A loura ficou imóvel. Sentou-se e olhou serenamente para o trigésimo bento. — Não temos tempo pra bife. bicho.A garota loura aproximou-se. Manda fazer meu bife. — Aqui tem espaço pra juntar trinta bentos. Teodoro girou lentamente sobre o próprio corpo. — Vai sair. você vem comigo. — disse secamente. colocando-se no campo de visão do bento ruivo. Teodoro tirou os olhos do rebolado de Vivi que saía da igreja e encarou Lucas. — bento Teodoro deu outra tragada no baseado. deitando-se nos degraus. com a voz assustada. — Você não tem tempo. — Quantas mochilas posso levar? — Uma. Há! Há!. Lucas. Vivi. Vai. Tem espaço mais que suficiente. — grunhiu o bento. Eu espero enquanto como meu bife a cavalo e fumo meu bagulho. 287 . sentando-se esparramado nos degraus da escada para o altar. O bento viu sobrar um naco do que fora seu baseado. — Teodoro inspirou fundo.

Ergueu a tampa presa com dobradiças e. 288 . puxou um cordão de lona e espremeu a boca da mochila para que nada caísse para fora. Voltou com uma mochila velha de lona. Prensou o quanto pôde o conteúdo. a fim de fazer caber ainda mais alguns punhados. Sem cerimônia alguma abriu a boca da mochila e despejou seu conteúdo empoeirado no chão. Repetiu as mãozadas até que a mochila estivesse estufada. sem exclamar uma palavra. Prendeu o fecho de lona com uma fivela e jogou a mochila nas costas diante dos estupefatos visitantes. dirigiu-se até uma porta que levaria ao que teria sido a sacristia da pequena igreja. mané.Teodoro andou para o altar. Os bentos acompanharam a atitude com os olhos. cheia até a boca. — Tô pronto. começou a retirar tufos e tufos de erva emaranhada. No fim. do interior. Vambora. Teodoro encarou a todos por um instante e caminhou até um caixote de tábuas pregadas. acondicionando-as na mochila de lona.

Com a mão direita tirou de dentro do forro da luva esquerda um pedaço de papel. Teodoro abriu a mochila presa do lado direito da cela. notou o dedo do soldado. absorto nesses pensamentos quando ouviu um chamado. Continuavam marchando. Na segunda vez. que buscavam humanos para tomarem-lhe o sangue. Não era a voz de nenhum deles. O bento parou. Agora era abrigo de malditos. Rio de Janeiro não era mais linda. para serem levadas às tocas e estocadas feito gado morto. Sangue para sempre. tinham desviado da capital do estado. Voltou os olhos para os homens do bando. O Cristo Redentor abria os braços sobre outra metrópole túmulo. você ouviu essa voz? — perguntou o guerreiro. nem cheia de graça. Os veículos motorizados ganhavam velocidade. Depois de apanhar o malcriado e metido a besta Teodoro Bob Marley Fuma-Tudo. Lucas encarou Vicente. bento Vicente. Conduziu seu cavalo até bento Edgar. Teodoro apanhou um pequeno punhado e voltou a fechar a mochila. A Afonso Pena não contavam mais com a noite borbulhante e cheia de agito dos bares e das casas da noite. O próximo da lista era bento Dimas. Teodoro. onde acomodou a erva e passou a enrolar um cigarro. guerreiro que guardava uma fortificação a dois dias ao norte de Belo Horizonte. Era um ponto distante mata adentro. gente adormecida. Lucas voltou a cavalgar lentamente. nas velhas casas. abandonada pelos mortais depois da grande mudança. em busca de mais irmãos bentos. Era a voz de uma mulher. O grupo estava cansado. Lucas olhou para a coluna negra empurrada suavemente pelo vento. Foi ele quem reparou primeiro a nova parada de Lucas. que buscavam nas velhas cidades. Há quatro dias tinham deixado Angra dos Reis. emburrado. Lucas já tinha percorrido cerca de cem metros. Colocou a mão em concha sobre os olhos protegendo a visão do sol. era a voz de uma garotinha. apontando para o sinal de fumaça. — O quê? 289 . fazendo com que toda a comitiva parasse na estrada. As metrópoles eram habitadas por seres sombrios que caçavam Rios de Sangue. guardando o trigésimo. formando um ângulo de 50 graus da linha do horizonte. Lucas ouviu novamente. — Vicente.Capítulo 40 Elton notou primeiro a coluna de fumaça subindo no meio da floresta. O sinal de fumaça negra indicava um incêndio. rumando ao norte. Também não haveriam de aproximarem-se muito da velha Belo Horizonte. Lucas foi ficando para trás. Ao seu lado. Os homens avançavam. Da boca da mochila escapou um tufo de erva.

— Kongs? — repetiu. sem descanso. ouvindo o pedido de socorro mais uma vez.. Olhou para a coluna de fumaça negra. — Nessa terra.. não lembro o nome. — Ouvi alguém chamando. — Esquece. É por isso que você tá ouvindo voz na cabeça. Desencana desse negócio de salvar tudo. dando uma tragada no cigarro. Tem uma faixa de três quilômetros de mata até chegarmos a uma campina vasta. Uma menina. colocando a mão em concha sobre os olhos. Tem alguém em perigo. Lá tem alguém em apuros. Lucas nada disse. — Não vou deixar ninguém entrar atrás de você nesse pedaço. — Deus do céu! Ninguém falou pra esse otário o que os kongs são? 290 . Desmontou. Alguém me chamando. — Lá. Lucas agitou-se sobre o cavalo. Estava cansado. Vicente. O ruivo Teodoro juntou-se à dupla. Tem alguém em apuros. ô salvador. Estão precisando de nossa ajuda. de onde vem a fumaça. sem entender o que ele queria dizer com aquela palavra. — murmurou Lucas. qualquer um que tiver pra fora dos muros está em perigo. velho. ouvindo a última frase do trigésimo bento. Olhou para Francis que se aproximava. logo a frente. os homens pararam mais uma vez para aguardar Lucas. Lucas sentiu os pelos arrepiarem-se da cabeça aos pés. Lucas. Alertados. confuso. Vem da direção daquele incêndio. Aqui é território dos kongs. declarando que não tinha ouvido nada. Aquele pedaço é tomado pelos kongs. — Cê tá maluco achando que vamos entrar nessa mata. sem parar nem pra comer. Francis estava com os olhos fundos da marcha incessante. — Você ouviu agora? Vicente ergueu os ombros. Depois volta mata novamente. Tem uma cidade lá. que continuou falando alto. toda hora. Lucas continuou olhando para Teodoro. — exclamou. Lucas olhou para Teodoro. Estamos rumando para a próxima cidade. Vicente. — É. tentando enxergar para dentro da floresta que cercava a rodovia. bem perto de onde você vê aquela fumaça subindo. — Ouvi alguém. deve ter sido uma floresta ou sei lá o quê. — Vamos até lá.— Uma voz. — Corta essa. puxando suavemente a rédea do cavalo e fazendo o animal girar no mesmo lugar.

confuso. te arranco o saco fora. não. esperando alguma decisão do trigésimo. porque nem desencarnado eu entro nessa porra de mata cheia de pé de kong. E dobre a língua pra falar do trigésimo. fez que sim com um rápido movimento de cabeça. pouco se importando se tinha machucado seriamente ou não o bento fumador. é o jeito que chamamos os gorilas que vivem nas matas. fazendo o baseado cair da boca do agredido. meu irmão. Viram o bento descer o acostamento para dentro da floresta. Vicente soltou o bento ruivo. Aquele insolente tinha que parar. — Quem foi que botou esse maluco no comando? — perguntou aos berros. Mas outros. buscando ar para o pulmão. O jeito assoberbado daquele ruivo esculachado falar com Lucas lhe fervia o sangue. — Escuta aqui. Quando o negócio espirocou de vez. até juntarmos o resto dos bentos. Os soldados tinham se amontoado na beira da estrada. — Dos zoológicos. o maconheiro duma figa.— Não. salvador. Mais uma vez ouviu uma voz chorosa. quero que você fique com a boca limpa e sem chupar mais dessas merdas. porque ninguém é otário pra entrar no território desses bichos. — Gorilas? — É. Desembainhou a espada. Vicente também mantinha os olhos sobre Teodoro. Lucas não deu ouvidos a Teodoro. — Kongs. Teodoro gemeu. cabeção. feitos os kongs. mas perdeu as forças com a falta de ar. Vicente aproximou-se. se deram bem nas matas e se espalharam feito praga. pálido. Vicente desceu atrás dos demais. Teodoro deu dois passos para trás. Lucas olhou para a fumaça. — Agora não adianta essa sua tática psicopata. Teodoro ergueu os olhos para o céu. Gorilas. 291 . Graças a Deus. Se eu pegar você bem louco mais uma vez ou pegar você com falta de respeito para com o irmão Lucas. sem olhar para Teodoro. que foi ao chão. — De onde surgiu isso? — insistiu Lucas. — interferiu Francis. uns malucos foram até os zoológicos libertar a bicharada que tava morrendo enjaulada. tentou desvencilhar-se do aperto de Vicente. E só chamamos de kongs os bandos assassinos. tossindo. uma par de espécies acabou se fudendo mesmo fora do xadrez. — Ninguém falou pro otário. à marteladas! Entendeu? Teodoro. O bento grandalhão agarrou a garganta do ruivo e apertou-a.

O Bispo. Estava desviando aqueles quarenta e nove homens do caminho. Carlos e Alicate. Os soldados que tinham escutado o gracejo riram alto. Contudo. A caminhada ainda seria longa. a floresta recomeçava. voltar para trás e não xeretar no terreno daqueles bichos. depois. Nunca tinham visto os gorilas. lembrava-se da voz de Bispo num sonho que agora lhe parecia distante. caminhando junto do soldado Elton. O terreno era curvo e contava com uma pastagem verde e exuberante. A vegetação era rasteira. não conseguiu conter o comentário: — Tá vendo? Minha mãe sempre dizia que fumar essas porcarias faz um mal danado pra saúde. Não ouviu mais nenhum vez a voz da mulher. feito um maluco. Raios! Desgraça de mundo maldito! Por que tinha que existir aquilo? Por que tinha que ser pego por aquelas coisas? Vozes na cabeça. Resistente. colocando a mão no pescoço. Vozes surgidas em sua cabeça. Diziam que eles reuniam-se em bandos numerosos e defendiam o território atacando os visitantes incautos. carregando sua espada na mão. Lucas e seus homens tinham transposto a extensa faixa de árvores. subindo inclinada e girando com o vento ia tornando-se mais larga à medida que se aproximavam. Os soldados e os bentos acompanhando sua marcha atrás de algo desconhecido. Vozes vindas no ar. que se sentava. desceu o morro juntando-se à marcha mata adentro. procurando aliviar a dor na pele esmagada. Alicate estava satisfeito. bem mais perto da assombrosa coluna de fumaça. que tinham se agarrado ao tecido. teriam tempo de abatê-lo ou. Teodoro ruminou uma série de impropérios. passando ao lado de Teodoro. lembrando uma fazenda de pasto bem tratado. A coluna de fumaça negra. Mulher? Parecera uma criança também. quando cruzavam aquela região tinham de temer também os kongs soltos na mata. De onde estavam. Os soldados tinham deixado as armas a postos. mas as histórias que tinham ouvido eram de arrepiar. Por hora.Os soldados que haviam assistido à cena. Olhou para trás. ressonando debaixo de uma árvore. nem ouvido nada de diferente. o que seria melhor. chegando a uma imensa campina. não conseguindo conter uma série de risadas e comentários engraçados. Era o último da fila. Lucas estava intrigado. Tinha escutado alguma mulher ou criança 292 . que assombravam aquelas matas na porção sudeste de Minas Gerais. caso avistassem qualquer gorila. ficando de pé. traziam seus fuzis prontos para disparar. tinha falado alguma coisa sobre sua espada não negar ajuda. Bateu as mãos enluvadas na capa vermelha. Alicate. Mordiscou o lábio. tirando as folhas secas. apesar de ter certeza que havia sonhado poucos dias atrás. Não tinha visto. desceram o barranco do acostamento em direção a floresta. O tapete verde estendia-se centenas de metros a frente. com rosto jovem. Não bastava o medo das criaturas da escuridão.

lembrando-se dos bentos derrubados na emboscada da Teodoro Sampaio. A coluna negra parecia tombar sobre suas cabeças. Lucas 293 . A crista da vegetação balançava suavemente. formando uma sombra fresca sobre o caminho. a temperatura estava bem mais fria e o ar mais úmido. Lucas acabou dando numa estrada de terra. tomada nas beiradas pelo mato alto. Perseguindo o trilho negro de fumaça. Ali. empurrada pelo vento leve. O mato passava folgado acima da cabeça de Vicente. Por isso fazia questão daquelas botas altas. fazendo as botas afundarem no pasto. A maioria das picadas ofídicas ocorriam abaixo do joelho. Fora precipitado. Os soldados caminhavam atentos. Detestava pensar em cobras rasteiras espreitando o próximo passo. na batata de perna. com as armas erguidas. Tinha vindo como um sopro. Alguma coisa grande tinha se incendiado. chateados com a invasão de seu território. Tinha também uma faca na cintura. eclipsando uma porção do sol. Qualquer barulho mais suspeito. O mormaço fazia o corpo cozinhar dentro daquela armadura. olhando atentamente para o caminho. Detestava aquele tipo de vegetação. Gabriel ergueu os olhos. Kongs. Levaram vinte minutos para reentrar na floresta. Poderiam topar com tudo. Lucas guiava-se corretamente olhando para cima. O guerreiro ergueu os olhos para o céu. O soldado Gabriel andava com firmeza. Mas seu peito de prata refletindo a luz do sol era igualmente hipnotizante. mas talvez preferissem permanecer com o astro dourado queimando o coco do que ficar com a visibilidade tão reduzida. Aquela estrada deveria servir de ligação do povoado mencionado por Teodoro com a grande rodovia deixada para trás. Olhou pra trás encarando os homens que se enfileiravam no estreito leito do caminho. Lucas olhou pra trás mais uma vez. O cheiro de queimado entrava pelas narinas. debaixo das árvores. Nem ouvia mais a voz. O sol não ardia sobre suas cabeças. A largura da coluna de fumaça era surpreendente. levava os olhos arregalados dos soldados por entre as árvores. O trigésimo guerreiro enxugou o suor da testa. fazendo pássaros agitaremse e piarem e amassando folhas sob os pés a cada passo à frente. funcionando quase como um túnel verde. Se soubesse daquela estrada de terra teria vindo com o cavalo. Suspirou.pedindo ajuda. não trazia capa na sua indumentária. Os quarenta e nove homens provocavam barulho com o avanço. empurradas pelo vento. A capa vermelha dos quatro bentos tremulavam. bento Francis. da direção da fumaça. na canela. Se alguma peçonhenta pensasse em qualquer gracinha terminaria sem cabeça. só não queriam bater os olhos num amontoado de pêlos negros. de braços longos e fortes. A visão passava pelas copas das árvores e seguia o trilho cada vez mais grosso de fumaça. O quinto deles.

Os filetes verdes caíram no chão. Perscrutou o mato. deixando os olhos pousarem na cidadezinha. lembrando um imenso campo de futebol de várzea. sendo carregada por cima de suas cabeças.olhou pra frente e prosseguiu com a marcha. mas agora os escrotos não pareciam estar a fim de retribuir a gentileza. surgiam as primeiras construções abandonadas do que fora uma pequena cidade do interior da Zona da Mata dc Minas Gerais. Falavam para espantar o nervosismo e falavam baixo para não chamarem a atenção. a fumaça cruzava ao nível do chão. mantendo o cano da espingarda apontado para onde olhava. Jorge dissera que os pedaços dos soldados foram encontrados espalhados por mais de três quilômetros. alguém cruzando de uma fortificação para outra tivesse se perdido e tivesse dado ali. procurando saber de onde vinha tanta fumaça. Os soldados estavam ganhando distância. A coisa mais feia. pronto para defendê-lo. empunhando uma espingarda calibre doze. Arrepiou-se da cabeça aos pés. É mesmo. Oswaldo estacou. pedindo socorro. Oswaldo não se lembrava direito. 294 . Tinham tido piedade dos animais encarcerados e esquecidos nas jaulas. Não queriam topar com gorila algum a essa altura do campeonato. Talvez. Estava era impressionado com aquela coluna de fumaça girando lentamente no ar. Tinha ouvido Jorge contar a história numa festa de São João. O falatório dos soldados caminhando para frente era intenso. Lucas avançou para o descampado. dando visão do caminho. mas Jorge tinha dito alguma coisa sobre aquela estrada de terra. atrapalhando a visão cada vez mais conforme iam adentrando o território. O Jorge tinha dito que dois soldados sobreviventes a um desses rendevouz tinham dado em sua cidade. Um largo poeirento. olhando para trás mais uma vez. Lucas cortou mais um tufo de mato à sua frente. O mato abrandava e a estrada acabava num descampado de terra vermelha. Aquela estrada de terra não era o melhor lugar para estar. Uma cabeça ali. Tinha tido a impressão de ouvir passos atrás. cheio de cochichos. no meio do mato. O que teria acontecido? Essa região era abandonada. abrindo espaço no mato com sua espada. Armaram logo uma equipe de resgate. quando ouviu mais uma vez uma voz feminina gritando. Já tinha escutado mais de uma história de soldados apanhados pelas feras. Um braço aqui. Tinha que avisar bento Vicente. Oswaldo. seguindo Lucas. Tinha dito uma coisa ruim. encabeçando o grupo. Não se questionava por que diacho estava ali. Depois desse descampado. Idéia besta de terem soltado esses bichos do zoológico. Talvez um corpo tivesse sido achado naquela estrada de terra. Vicente estava bem nas suas costas. Virou-se para trás abruptamente. Nas ruas do vilarejo. mas quando chegaram. Os soldados foram saindo da trilha. pouco tinha sobrado para resgatar. era o último da fila. um soldado baixo e encorpado. Lucas procurava o foco do incêndio.

Desde a estrada de terra cercada de mato não via o colega de jornada. Tirando o barulho dos soldados e dos bentos correndo pela praça e o crepitar distante das brasas 295 . que vinha por último no pelotão. Tinha uma torre atrás dos galpões. tão de perto. Se Oswaldo não estava logo atrás. o rapaz que trabalhava no Time da Memória e trocara um dedo de prosa com Lucas. Correu na direção do chamado. Depois da praça. o local do incêndio. Franziu a testa. Mais uma vez. Cheiro de melado. Os soldados agruparam-se. Um prédio grande para um vilarejo daquele tamanho. assim. Três galpões imensos. Os soldados agitaram-se. Chegou à igreja matriz da cidade. Um cheiro peculiar tomava toda a área. só havia sobrado o imponente esqueleto de concreto. Cinzas revoavam pelo céu. A coluna de fumaça. A fumaça escura não saía do canavial. atravessando a praça e enegrecendo o chão. num dos rebuliços da fumaça. Talvez tivesse torcido o pé. Pareciam antigas embalagens. Lucas andou mais para a frente. formando uma linha nas laterais do trigésimo bento. plásticos e lixo. Lucas ouviu mais uma vez a voz. Subiu de volta até o fim da rua. Avançou em direção aos galpões incinerados. Era de lá que vinha o chamado de socorro. Nem tinha visto Lucas começar a afastar-se. O trigésimo guerreiro apurou os ouvidos. desproporcionais se comparados ao que seriam os prédios comerciais que um dia funcionaram naquele lugar desabitado. viu alguma coisa. Estava com a pulga atrás da orelha. Deveria haver uma forma de chegar à caixa-d'água evitando as brasas e o fogo. agarrado por aquele pedido de socorro desesperado. deveria estar vindo. Matias também estava impressionado com a quantidade e com o cheiro da fumaça. Olhou para trás. Caminhou determinado para a beira da cana negra. o resto negro e incinerado de um canavial. uma grande praça. Lucas começou a correr para contornar o imenso galpão. Dos três gigantes. revelando sua veneração pelo Bento. Entre o primeiro e o segundo. apertando o passo para seguir de perto o guerreiro. As cinzas caíam sobre suas cabeças feito flocos de neve. Virou-se para comentar com Oswaldo. Corria apressado.Lucas olhou surpreso para Vicente. Oswaldo estava faltando. Algum material estranho ardia junto com a cana-deaçúcar. Lucas. Uma caixa-d'água. para a rua por onde vieram. — Dessa vez eu ouvi. Matias voltou alguns passos pela rua lateral à igreja. Vinha do meio da fumaça. Percorreu os outros com os olhos. Lucas cruzou duas ruas de terra em direção à base da coluna de fumaça. Sob o esqueleto dos galpões. levando os soldados consigo. O último a entrar na praça foi Matias. era impressionante. que também tinha os olhos arregalados. Em frente à igreja. ouviu a voz feminina. esturricada.

jogando fumaça negra pela praça.. outro gorila surgiu no seu 296 . Os bentos Vicente e Francis corriam logo atrás. incomodado com a fumaça. A estrutura era feita de cimento e uma escada de metal subia pela lateral. afastada uns vinte metros. Lucas embainhou a espada e esperou a fumaça ser arrastada para cima novamente. quando ouviu a gritaria. Aproximou-se da base da torre. Lucas? Não tem nada no meio dessa brasa toda. então disparou a correr em direção à torre. — Vamos sair daqui antes que acabemos sufocados. O vento voltou ao curso normal. Os amigos eram espectros distantes. Não ouvia mais voz alguma. Matias virou-se para olhar para os colegas. Lucas olhou de novo para a torre da caixa-d'água. fazendo a comitiva entrar em acessos de tosse e falta de ar. A sola dos pés esmagava as brasas e na metade do caminho sentiu a sola da bota esquentar. A coisa corria em sua direção. A nuvem escura diminuíra sua visibilidade a pouco mais de cinco metros. No topo.e do fogo. Não era um homem! Era um gorila! Lucas chegou aos fundos do primeiro galpão. Lucas chegou ao pé da escada de ferro. do meio de uma lufada de fumaça. Alcançou uma passarela de concreto. Matias correu de volta à praça da igreja. Mas não era Oswaldo. ligado ao solo por um cabo de aço. Quando o vento soprava mais forte ou de cima para baixo. O vento soprou de cima para baixo. queria era sumir dali o mais rápido possível. Seu coração acelerou. desfazendo a cortina diante de seus olhos. e os olhos começavam a arder. Chegou ao meio da praça e já podia ver os companheiros quando. O grosso da fumaça vinha de trás da caixa-d'água. como fizera há pouco. Voltou-se no sentido da estrada de terra. Não parou para olhar para trás para ver quão perto o bicho estava. A fumaça foi sendo arrastada para o céu. não ouvia nada de anormal. mas sabia que o chamado tinha vindo de lá. Bento Francis aproximou-se. gordo e forte. O homem que caminhava em sua direção era gordo.. Não via Oswaldo. o vulto de um homem. desaparecendo no nevoeiro. subia a haste longa de um pára-raios. Tossia. é que a fumaceira encobria a torre e a todos. Caralho! Era um kong dos grandes! O animal começou a emitir guinchos nas suas costas. Via algo. O amigo era pequeno e magro. Pôde ver com clareza. — O que você quer aqui. A cisterna também parecia feita de ferro. — Você não ouviu a voz? Francis fez que não com a cabeça e curvou-se num acesso dc tosse. Recuou dois passos. Estava quente. livre do lixo e dos restos queimados de cana-de-açúcar. Começou a subi-la. Uma coisa mexendo-se. encobrindo a igreja e as casas.

que subia até o topo do reservatório. viram surgir na rua um bando de macacos. gingando o corpo e avançando com velocidade. chegavam mais. foram surgindo cada vez mais silhuetas escuras. tinha que chegar ao 297 . Ouviu um urro de dor quando o macaco tombou. juntando-se aos demais. vindo do seu lado direito. — murmurou... Os soldados. A escada era estreita. Na face oposta. Teodoro viu o número de feras crescer. que esperaram o rapaz em apuros. batendo no peito e andando nervosamente na beira da estrada de terra. Lucas tinha chegado ao final da primeira escada. urrando nervosos. A escada dava num cercado que corria ao redor da caixa-d'água. Estava na metade da escada. Assim que Matias e os homens restantes alcançaram o trilho de concreto. Os gorilas pararam quando viram os homens. para a rua de terra. Ouviam os urros das feras vindo rapidamente. — São só macacos! Teodoro tirou sua espada da bainha. de onde saiu o bento. Apesar de ter escutado os disparos lá de baixo. A cada instante. surpresos com os disparos. Mordeu a unha do dedo mindinho. Viram Matias saltando sobre o braço peludo de um gorila. encontrou outra escada. — Só macacos assassinos. correram na direção pela qual os bentos tinham ido. Os soldados empunharam suas armas. — Kongs! — gritou Alicate. Matias alcançou o pé da escada.campo de visão. Quando contornaram o primeiro esqueleto de galpão viram a capa vermelha de Lucas tremulando. Já devia passar de trinta gorilas. Os últimos soldados pararam e olharam para trás. Os gorilas não subiram nas brasas e mantiveram-se na rua de terra. Os soldados e os bentos olharam para trás. talvez o suficiente para que os gorilas não trepassem atrás deles. — Não atirem! — gritou mais uma vez Matias. enquanto Francis e Teodoro ajudavam os que ainda estavam no chão a alcançar a escada de ferro. — Não atirem! Corram! — gritava Matias. — Os gorilas! Os gorilas estão vindo! — gritou Matias. que lambia o chão da praça. querendo tirá-la do caminho. Estava nervoso. logo atrás. com Vicente logo atrás. ouvindo os homens engatilhando as armas. na intenção de proteger Matias. aproximando-se do grupo. Mirou o ombro da fera. só isso. Os soldados foram subindo a escada de ferro. Matias ergueu o fuzil e deu um disparo único. jogada de lado pelo vento. Alguns soldados subiam. Formaram um semicírculo junto ao trilho de concreto e começaram a bater com os punhos nos peitos. Do meio da fumaça.

hora ou outra. Suas mãos agarravam cada novo degrau. Vicente não teve tempo de advertir o protegido. — resmungou o bento de cabelos vermelhos. — Espera aqui. — Não tô nem azul no barato desses kongs. antes que chegasse à borda do buraco aberto. Um pé. só não quero ver esses loquis tirando pedaço do meu couro. vento e barulho de tiros. A luz do dia projetou uma círculo de claridade no fundo seco da caixa-d'água. Urravam. colocando-o mais próximo de onde acreditava ter ouvido aqueles chamados de socorro. — Se acalma. erguiam o dorso. A maioria absoluta era de machos que. Mesmo que houvesse alguém gritando ali de cima.topo da caixa-d'água o mais rápido possível. Abaixa essa espada. — Tô precisando fumar mais um bagulho. 298 . produzindo um zumbido em seus ouvidos. deixando um facho de sol invadir a imensa cisterna. vendo um filhote agarrado às costas da mãe. Só podia ser uma fêmea. confirmou sua suspeita. adotando uma postura intimidadora. Teodoro jogou os cachos ruivos para trás da cabeça e manteve a espada erguida. se não tivesse visto aquilo. velho. Vicente colocou a cabeça pela abertura e viu Lucas caído na parte inferior do reservatório. Ali. No halo de luz aparecia um pedaço do cadarço do tênis calçado pela menina. Estavam tão longe. semelhante a uma escotilha. — disse Lucas à Vicente. Só assim para eu acalmar. tentando enxergar a rodovia onde haviam deixado os veículos. cara. não. A escada terminava num tipo de portinhola. Parecia vazia. Matias e os demais estavam ao pé da torre. Podem mandar no pedaço que quiserem. o vento soprava com mais força. Assim que ela passou e virou-se. Chegou ao teto de zinco da caixa-d'água. — Eles só querem dizer que mandam no pedaço. Os gorilas continuavam juntando-se na beira da rua de terra. guiado por uma urgência sobre-humana. antes de pendurar-se para o lado de dentro da caixa-d'água. deixando de apoiar as mãos no chão e batiam com os punhos fechados no peito largo. ouviu o grito de Lucas e depois o som de um estrondoso impacto no fundo da cisterna. Mesmo com fumaça. A fumaça veio em sua direção fazendo os olhos arderem novamente. Lucas ergueu a portinhola. Eles vão achar que você tá chamando eles pra briga. Teodoro. mamas redondas. teria conseguido ouvir? Com certeza. Olhou para o horizonte. deixando ver dentes e presas pontiagudas. iluminado pelo halo de sol. Teria fechado a escotilha. — disse Matias. Bento Francis percebeu que um deles possuía peitos proeminentes. Já deviam somar oitenta. Lucas não perdeu um segundo. Subiu a nova escada. Um pé de criança quase engolido pela escuridão.

debaixo do halo de luz. O trigésimo olhou ao redor. trazendo a garotinha pela mão. Podia ter sido só um pé de tênis velho. — afirmou. — balbuciou Lucas.— Lucas! — bradou o guerreiro. — Eu vi o pé de uma menina aqui embaixo.. — Viemos dar aqui. Percebi esse povoado e achei que ia achar gente. Eram passos sobre a tinta seca. inseguro. Lucas notou que a mais velha também era uma garota. Lucas abriu os olhos e ergueu as mãos para proteger dos raios que vinham direto em seu rosto. tia. Pensou ter captado um barulho. Achar comida pra Eloísa. Uma mulher alta e uma garotinha caminhavam em sua direção. — Você está maluco? O que está procurando aí? — perguntou Vicente. A voz de uma menina. Mas não via tênis nem cadarço. — Estou bem! — gritou de volta. — Ele é um bento? — É. Escutou um crepitar. Estava escuro... — Eu fugi de Santa Rita com ela.. A garotinha e a mulher entraram no facho de luz.. Levantou-se.. aos berros. Mas está escuro! Não estou vendo nada! — berrou de volta. ou daquela tinta cheia de bolhas. A caixa-d'água seca em todos os pontos. Os olhos acos-tumando-se com a escuridão pareciam captar duas sombras ao fundo. — Eu sabia. recoberto por algum tipo de tinta especial. colocando a espada na bainha. Vozes. — Os vampiros acabaram com nossa cidade. tia. Ficou em silêncio. Só encontramos cana. não parecia ter mais que dezoito anos. Lucas virou-se. como de pés pisando sobre folhas secas. sentindo uma fisgada no joelho. — Sou. — disse a mulher. — Você é um bento? Lucas forçou a visão. Desembainhou a espada rapidamente. Lucas girou sobre o corpo. toda lascada e descarnada.. 299 .. Lucas girou sobre o próprio corpo. Lucas imobilizou-se. — O que aconteceu com vocês? — perguntou Lucas. — Céus. Procurou pela garota que tinha visto. Ouviu aquele crepitar de folhas ressequidas. Sua capa raspou no chão de ferro. É bem verdade que não tinha visto uma garota por inteiro.

. calma. lançando um olhar para a corrente amontoada. — . mas só juntava mais macacos. Mas não acho certo dispararmos contra esses gorilas indefesos. — Daí eu trouxe ela cá pra cima. Matias. homem! Olha pros dentes deles! De que lado você está? — perguntou Teodoro. — Sempre trago para as emergências. Lucas acenou para o amigo. acender o fogo de novo e fazer o maior churrasco de bento da terra! — Eu tenho uma idéia. — E você. Achei que íamos morrer de fome aqui dentro. — Calma. 300 . — disse Carlos. continuou abraçada a Lucas. como se chama? — Maria Alice. — Tá tudo bem aí? — perguntou a voz poderosa de Vicente. Estão agindo por instinto. senhor. — São gorilas. — Como é seu nome? — Lucas. Só quando a fumaça tomou tudo eles começaram a ir embora. Sei que é um bando de macaco selvagem. Vamos dar um jeito de sair daqui. Bento Lucas é como me chamam. — reclamou Edgar. para afastá-los. — Massacre? Jesus Cristo. — O quê? O soldado tirou um amontoado de tubos de papelão atados por um elástico de sua mochila. — revelou o azar a garota. A garotinha abraçou a protetora que. por sua vez. Se passarmos fogo vai ser um massacre.. Mas eles vieram atrás. Tem uma porção de amigos meus lá fora. enfiando o rosto no peito metálico de Lucas. Queriam nos matar. A garota abriu um sorriso. — Só estão defendendo o território deles. Lucas passou a mão na cabeça da menininha. bento. Lucas passou a mão na cabeça da moça mais uma vez. mas vão acabar com nossa raça..— Mas aí aqueles macacos apareceram. — Eles estão é esperando as brasas esfriarem para poderem nos apanhar. — Tô do nosso lado. — Não vai dar pra ficar olhando pra eles sem fazer nada. indignado. tio. mas ela arrebentou quando eu estava descendo. — disse. No desespero eu ateei fogo nas canas. começando a chorar. usando aquela corrente. não é maldade.. apontando para um amontoado de metais. Eu tive a péssima idéia de entrar aqui.

A gente nunca sabe quando vai se deparar com uma turba enfurecida de gorilas soltos de zoológicos. 301 . O sol ia alto no céu. indo em direção onde as árvores invadiam a cidade. — pediu Teodoro. Tentariam dispersar os gorilas. Também serviram para dar explicação a respeito dos disparos feitos há pouco e dos rojões que espocavam ao pé da torre. trazendo Maria Alice nos braços. — disse o soldado. o recente fundador da infame ONG "Salvem os Gorilas Loucos da Zona da Mata". Os soldados. Ouviu o primeiro rojão de três tiros. Só tenta não acertar em nenhum deles. olharam para Matias. — Agora pergunta ai pro dono do Greenpeace se poderemos afugentar essa turba enfurecida com os rojões. dolorido. No entanto. Providencialmente. — disse Vicente. entraram numa crise de choro e gritos. enquanto soltava os rojões. Matias viu duas fêmeas correrem com as crias encarapitadas nas costas. Carlos riu da graça de Teodoro. Vampiros! Olhou para trás. A portinhola estava a seis metros de altura e a distância tinha dado trabalho ao bento no fundo do reservatório. Depois veio Maria Alice. Vicente conseguiu apanhar a ponta da corrente arremessada por Lucas. mas tinha dado um mau jeito na junta da perna. Desceram as escadas trazendo com cuidado a garota mais velha e a criança. Estavam fracas e assustadas e. A queda não tinha sido tão grande assim. Não podia ser. quando viram os gorilas na beira da estrada de terra. Carlos sabia que nenhum deles colocariam a vida dos bentos e os próprios pescoços em risco por causa do coração mole de Matias. — Lá embaixo a saída está cercada pelos gorilas que o Teodoro falou. Pediu para que ambas aguardassem no teto do reservatório. chegaram dois soldados que ajudaram içar Lucas do fundo da caixa-d'água. Voltou-se para a boca da escotilha. rindo. quando começou a descer a corrente. as feras não foram embora. Lucas sentia o joelho queimando. — Manda ver. Vicente trouxe a pequena Eloísa com facilidade. Depois da oitava tentativa. — Precisamos passar. — Com licença. apenas afastando-se alguns metros e aumentando a quantidade de gritos e batuques no peito. Os três primeiros rojões disparados serviram para espalhar os gorilas.— Pode crer. Tentariam. Lucas surgiu na abertura e foi puxado pelo braço pelo segundo soldado. abrindo caminho. Carlos distribuiu os rojões entre os companheiros.

Carlos já tinha acendido o seu. justamente. Mais um segundo para o disparo. atentos. tornaria-se um incêndio de proporções dantescas assim que atingisse a floresta. O mato alto beirando a estrada gerava insegurança. Correram rua acima. com os bentos vindo em seu encalço. teriam que apelar paras as balas. formando uma coluna. Os soldados começaram a avançar. em pouco tempo era possível que aquela queimada no canavial se prolongasse por dias e. O macaco fugia assustado quando os projéteis explodiram nas usas costas. Apesar dos chamados e da espera. Teodoro apontou o tubo de papelão para o maior gorila do grupo. Chispas começaram a cair do pavio incandescente. Eloísa devorava a refeição improvisada como se não comesse há dias. Oswaldo era mais um nome que entrava para a lista de baixas durante a jornada. Serviram as garotas com mais água e pães e um resto de assado. Alicate tinha orientado para que abrissem fogo. A impressionante coluna de fumaça negra continuava subindo ao céu. Matias tinha sido o último a vê-lo com vida e relatara ao grupo que deparara com o primeiro gorila. aproximando-se perigosamente da rua de terra. em direção à praça central e à igreja abandonada.O bento de barbas e cabelos vermelhos andou até a ponta da passarela de concreto. Tragou profundamente o cigarro pendurado nos lábios e levou o pavio marrom do rojão até a brasa viva. afastando-se do rojão. provavelmente. Entraram na estrada de terra. Os símios aumentaram os urros e começaram a pular. olhavam ao redor. girando ao sabor do vento. Era muito branca e parecia extremamente magra. o que aumentava sua aparência abatida. para garantir que teria espaço para começar a correr na rua de terra. 302 . caso a estiagem durasse. quando voltou alguns metros do caminho em busca do amigo. caso os gorilas se animassem a persegui-los pelo longo caminho de volta à rodovia. retomaram os cavalos e acomodaram as resgatadas em um dos veículos. Tinham sobrado meia dúzia de rojões. Os soldados. Três cartuchos recheados de pólvora voaram para cima do gorila maior. Depois desses. Só assim manteriam-se inteiros e viveriam para contar aquela passagem surreal dentro dos muros das fortificações. Quando finalmente alcançaram a estrada. Maria Alice tinha a pele do rosto arranhada e um rasgo na calça jeans na altura do joelho. caso o plano de distração desse errado. Se não chovesse. Oswaldo jamais apareceu.

onde encontrar-se-iam com o último bento de sua lista de cinco nomes. só botando seus músculos para trabalhar quando os malditos noturnos batiam à porta. haviam encontrado um pequeno centro comercial abandonado na beira da estrada. bem colada à rodovia. que dentre o grupo era de se supor conhecer melhor a região. Duque sabia que Augusto já passara por maus bocados. trepadeiras de ramos grossos e nostalgia. portanto estava longe demais de Belém para ser um guia cem por cento confiável. passara a viver nas cercanias de Palmas. Justamente este último bento era o que nunca tinha botado os olhos antes. longos. Amintas era um senhor aparentando cerca de sessenta anos. Ao que parecia. Era dado a boa conversa. mesmo que não tivesse acordado bento. Bento Augusto destacava-se pela bravura e desprendimento. Pediu a Amintas. recheando a imaginação da soldadesca e das crianças. veio animar as horas de descanso com seus causos pitorescos e lembranças pré-Noite Maldita. caídos nos ombros. Mas já o conhecia. Era carioca. Dirigiam-se para Nova Natal. Achavam até que. Duque via-se forçado a interromper o progresso daquele dia e buscar abrigo para a noite. Amintas argumentou que já tinham entrado no Rio Grande de Norte. tomada por mato alto. A rua começava imediatamente colada à velha rodovia. Ulisses era homem inteligente e relacionava-se bem com todos à sua volta. Esse lugar de descanso foi avistado por Amintas uma hora e meia mais tarde. os restos de um posto de combustível com um restaurante amplo anexo. com cabelos grisalhos. Era temido pelos vampiros. formando um ângulo de noventa graus em relação ao asfalto. Nada mais era do que uma rua com cerca de quatrocentos metros. Era um guerreiro genuíno. Do lado esquerdo. Duque era guarnecido pelos bentos Amintas e Justo. uma fachada amarela com letras em azul-marinho identificavam o 303 . contador de causos e. bento defensor da região de Belém do Pará. Ulisses era mulato. fora devorado pelo tempo e pela mata. com olhos cor de mel adornando a face longa e bem feita. Do outro lado da rua. Prestativo dentro da fortificação. como tantos outros. Bento Ulisses e Bento Célio cavalgavam à sua direita. sem descanso. Tocantins. Reunia uma dúzia de prédios comerciais.Capítulo 41 Bento Duque vinha ladeado por mais quatro bentos. O quinteto tinha galopado desde a manhã. fazendo da fortificação de Nova Natal uma das mais bem guardadas do Brasil Novo. Na esquina da entrada. quando se juntou ao grupo galopante de Duque. em direção a Natal. seria um soldado destacado e que suas histórias e casos rodariam de povoado em povoado. mas sem nunca maldizer sua sina. não se refestelava na condição de bento. Com a aproximação do sol do horizonte. Disse que teriam de confiar em seu faro para descobrir uma boa pousada. Queriam alcançar a fortificação no alvorecer do dia seguinte. Agradava qualquer mulher com aqueles olhos serenos e sua fala macia. O lugar. mas por conta do desenrolar dos fatos após a Noite Maldita.

todos com cerca de dez metros de altura e carregados do fruto de odor forte e característico. só pensava em chegar no apartamento. passando das cinco da manhã. Trabalhava de madrugada naquela época. tomar um banho e seguir com Graça até o banco para assinar toda a papelada. parando o cavalo e apontando aos amigos um estabelecimento. Bateu com a rédea suavemente no pescoço do cavalo e seguiu adiante. Ao fundo. Tinha vibrado e festejado. O sorriso do bento mais velho fechou-se no instante em que lembrou que no último dia da vida convencional tinha estado numa agência daquelas. com direito a um beijo estalado no rosto da gerente da agência quando soube que seu financiamento para a casa própria tinha sido aprovado pelo banco. olhando para o outro lado da rua. Amintas também sorriu enquanto passava em frente ao banco. Tão entusiasmado com história do financiamento aprovado. foi direto para o apartamento alugado onde vivia com Graça. atrás dos abricós. seguindo de cabeça baixa e calado por um momento. contagiado por emoções sentidas trinta anos atrás. Quando largou seu posto de leão de chácara. tem em toda esquina. — comentou bento Justo. apanharia um bom punhado para a feitura de licor quando retornasse a Esperança. uma disputada boate de Belém. Chamou a atenção de todo mundo dentro do estabelecimento. Se tivesse tempo e disposição. vendo uma agência bancária adornada pelas letras vermelhas garrafais e o logotipo estilizado lembrando uma árvore. sua adorada segunda esposa. A felicidade que inundava sua cabeça era tamanha que não deixava os olhos estranharem a fila imensa na frente do pronto-socorro municipal ou perder mais de dois segundos de atenção com o caminhão de bombeiros passando 304 . O fim da rua encontrava-se belamente adornado por abricós de macaco em flor. Nunca tivera tempo de comprar sua casa de fato. Até aqui. — balbuciou bento Duque. antes da mata fechada começar. tamanha a euforia e alegria exalada com a notícia. Voltara correndo para casa no seu chevette marrom. — Casas Bahia é igual a Bradesco.que fora uma agência de correios. fazendo os cascos baterem no pavimento de paralelepípedo que compusera aquela rua singular no meio do nada do Rio Grande do Norte. Os cinco cavalos adentraram a rua. — Huum. descendo um tapete branco de pequeníssimas pétalas brancas caídas das árvores. onde homens caçavam mulheres de corpo bem feito e mulheres davam bola para caras com bastante dinheiro no bolso. Duque contou cerca de vinte pés dc jenipapo. trajando seu característico short azul. Amintas pegou-se sorrindo novamente. não tivera um segundo de sossego na porta da Coração. e com sua mãe. camiseta amarela e chapéu de couro típico dos vaqueiros nordestinos. Os bentos sorriram vendo o garoto-propaganda-logotipo da rede de lojas. cavalgando lentamente. examinando os estabelecimentos seguintes para depois decidir qual seria tratado para o repouso nas horas escuras. Duque sorriu. Naquela noite. Tocou a barriga do cavalo com os calcanhares enquanto apagava o sorriso pela segunda vez. com sua voz estridente.

era alguma coisa com "a". Durante a noite. bem parecido com aquele abandonado. Vampiros eram coisa do cinema e da ficção. O que restara do Corpo de Bombeiros não fora o suficiente para controlar o colapso. nem imaginavam que tais criaturas pudessem existir. talvez por causa do sono avassalador que crescia em seu corpo.. Prestava atenção na idéia de um dos retirantes quando de dentro do carro de um deles desceu uma mulher. Todos viram o que suas palavras 305 . O marido soltava algumas palavras lamentando o estado da esposa e maldizendo a terrível situação em que todos se encontravam.. Um segundo homem apontou para o seu veículo debaixo de um ponto de luz. A velha falava na casa perdida sem parar. choro e incompreensão. correr para o banco e depois correr para a imobiliária. Estava feliz demais para tudo isso. Amintas lembrava-se de como sua velha mãe ficara apavorada com tudo aquilo. Agenor. Naquela manhã de terror metade da população do mundo estava sendo arrastada sob o caos para pronto-socorros e hospitais tomados por filas imensas e corredores abarrotados de corpos adormecidos.. A mulher escorou-se numa coluna. Não entrava na cabeça que o mundo tinha mudado. Não percebia a aflição estampada no rosto da maioria das pessoas que estacionavam o carro ao seu lado no sinal vermelho. As mulheres dormiam no chevette. No entanto. fazer amor com a esposa. mas.. atrás de gente para beber o sangue. não lembrava. naquela manhã não havia ninguém na imobiliária. pálida feito papel. Não via que os carros levavam gente parecendo morta aos hospitais. havia mantido a sanidade e a capacidade de ajudá-lo. Na noite seguinte. Sua esposa estava longe de aceitar aquela nova realidade. Nem os médicos sabiam o que fazer e. Era a esposa de um dos rapazes. dentro de seu velho chevette. O tal do "a" alguma coisa berrou com a mulher. parecendo cansada demais para prosseguir ou voltar ao carro. Mal sabiam eles naquele instante que o inferno e o pior pesadelo de suas vidas estavam apenas começando. Alfredo. Queria chegar no apartamento. Ele conversava na porta de um bar com um grupo de oito ou nove homens. isso te assusta. Amintas. não havia ninguém na agência bancária nem nas Casas Bahia. não lembrava o nome dele agora. sem que tivesse pregado os olhos. ao menos. Lembrava-se de terem pegado a estrada. num posto à beira da estrada. quando essa raça de branco que se julga superior a todo ser que rasteja sobre a terra não sabe o que te dizer. ordenando que ela voltasse ao carro. Os olhos pareciam cheios de areia e começava a não achar má idéia voltar para o carro e juntar-se ao cochilo das mulheres. não perambulavam pelas ruas. sua esposa e a mãe tiveram o primeiro encontro com um dos vampiros. Mesmo a ele era difícil crer que o velho mundo tinha acabado da noite para o dia. Naquela noite.à toda e tirando uma fina do chevettinho. Como muitas pessoas aquela moça tinha contraído a chamada doença. Estava feliz demais para notar os problemas dos outros. Tiveram que abandonar Belém. vendo pelo retrovisor gigantescas colunas de fumaça escura cobrindo o céu de Belém feito as asas negras do anjo da morte. A mulher veio cambaleado. Amintas não acreditava no que via. incêndios tinham começado e consumiam prédios residenciais e comerciais inteiros. Amintas era o mais calado.

Cada um deles trazia uma história para contar. Amintas abriu a boca e olhou para o lado. No primeiro instante os demais permaneceram imóveis. surpresos com a situação. pois era certo que. Na sua memória. Apesar da pele morena estar sendo consumida pela palidez assombrosa. foi quando os homens discutiam acaloradamente qual seria a melhor rota para o sul. voltando ao que discutiam antes. que somente ele bateu os olhos na mulher. parecendo um bicho e pulou em cima do marido. pois não sabiam que o mundo todo tinha pirado. sobre que destino tomar. junto com aqueles homens. então parou de novo e levou as mãos à ponta da blusinha vermelha que trajava. pois olhava para ele. Tinham ouvido histórias horrendas de gente que enlouquecera durante a noite e partira com faca para cima de parentes. Lembrou-se da tristeza no coração ao constatarem. A emissoras AM e FM também estavam fora do ar. Foi quando Amintas viu aquelas sinistras brasas vermelhas queimando os olhos de um vampiro pela primeira vez. a mulher soltou um rosnado. que a desgraça estava instalada por todo canto que iam. Parecia um pouco melhor. pois haviam concordado em formar um comboio para seguir ao sul. Tinham assistido a muitos saques e tiroteios nas ruas de Belém. Criam que a programação fora suspendida por falta de funcionários. cidade após cidade. Telefone celular não funcionava e as companhias telefônicas tinham entrado em sobrecarga. viajar em grupo seria mais seguro. Puxou a peça para cima. achavam que apenas o Pará estava daquele jeito. correu até a esposa. O mundo todo tinha pirado.explicavam. marido da perturbada. Amintas sabia que eles não tinham visto os olhos vermelhos e satânicos daquela mulher. sua esposa adormecida presa pelo cinto de segurança no bando da frente do veículo e uma criança de dois anos inconsciente ajustada no cadeirão no banco de trás. abandonando de vez o aluguel. agarrando-a pelo braço e abaixando ao mesmo tempo. Ia começar a falar. Bem. passando-a pela cabeça e ficando nua da cintura para cima. Tudo parecia ter parado. as emissoras de TV estavam fora do ar. a mulher tinha um ar sensual. Já tinha encostado o chevette atrás de caminhoneiros pedindo informações de lugares distantes. firme e livre da coluna.. para apanhar a blusinha do chão. A moça tinha dentes 306 . Os homens tinham virado nesse instante e ficaram calados. uma parcela deles teria também sucumbido àquele estranho sono. Assim que o homem abaixou-se. Só foram escapar da imobilidade quando viram sangue escapando do ombro mordido do rapaz. esquecida escorada na coluna. Ali no posto de combustível. quando os homens atropelaram a conversa. Amintas lembrou-se que tinham esperança de fugir daquela loucura simplesmente indo para outro estado. A morena-pálida andou uns quatro passos. mas nem o rádio PX. companheiro inseparável desses profissionais do asfalto dava sinal de vida. pensando que fosse uma briga na lama de casais. A de Amintas seria a infelicidade de aquilo tudo acontecer bem no dia em que iria pôr as mãos na chave de sua tão sonhada casa própria. Dada as circunstâncias.. de curvas cheias e bem feitas. O rapaz. Desde a noite passada. tinha esperança de fugir de tudo aquilo. àquela estranha doença. ao menos. de pé. deixando-os cegos e mudos.

dando uma segunda olhada pelo local. recusando-se a deixá-los à própria sorte. Nem gente. Amintas. — A gente vê se tá tudo limpeza por aqui. — Está escurecendo rápido. O amanhecer do segundo dia chegou com eles na estrada e aquele dia foi ainda pior. Voltavam vagarosos.ferinos. Foi preciso amarrá-la para que fosse recolocada dentro do carro. Duque apeou do cavalo e andou até a porta de um estabelecimento sem placa alguma. Justo agarrou a rédea do cavalo do bento negro. olhando para os prédios vazios tentando justificar qual seria o melhor para o abrigo. não quero ter nenhuma surpresa depois que o sol se for. A cada hora passada. Ulisses apeou ao terminar a frase e juntou-se a Duque. dizendo que ia esperar a mulher que xingava e debatia-se no banco da pickup acalmar-se para desamarrá-la e procurar um hospital que não estivesse entupido para socorrê-la. Devem estar morrendo de sede. Acho que agüenta por uma noitada. Com a chegada da noite. Mesmo com cinco caras dos fortes agarrando seus braços ela debatia-se feito louca. Não pôde determinar que tipo de negócio aquilo tinha sido no passado. Envergonhado. Vamos dar uma olhada na redondeza rapidinho. Amintas tentava imaginar qual fora a sorte daquele pobre coitado. Justo e Célio desapareciam na estrada. Ulisses e Duque. livrá-la daquela doença. enquanto o trio. Os demais tinham avançado até o final da rua comercial. Amintas estacionou o carro num galpão afastado e parou para dormir. Provavelmente teria morrido. o rapaz havia separado-se do grupo. com o sangue drenado do corpo antes que tivesse conseguido curar a esposa. levando os animais. Outros casos falavam de gente ficando alérgica ao sol. — Será que é seguro? — perguntou em voz alta bento Célio. Amintas relembrou que também tinha passado aquela noite em claro. Suspirou fundo. — Vou levar os bichos para beberem água. correndo para todos os cantos com os corpos inanimados dos entes queridos. Aquela doença era maldita e não existia cura na face da Terra. — juntou bento Célio. 307 . O cavalo avançou e Amintas retornou ao presente. nem vampiro. — Aqui parece tudo abandonado. O bento mais velho do grupo bateu com os calcanhares na barriga do animal. Foi naquele dia que ouviram as primeiras histórias de gente que desenvolvera um tipo de loucura. Gente que pulava no pescoço das outras querendo sangue. permaneceu parado no meio da rua de terra. a população descontrolava-se mais. vencido pelo sono e cansaço. lembrando que depois de fechar os olhos só tornou a abri-los dez anos mais tarde. — Eu ajudo. gente que sentia a pele queimar e os olhos pegarem fogo ao saírem sob sua luz.

Alex ergueu as narinas procurando farejar. Ficaram mudos. 308 . Célio tinha improvisado um vassourão com ramos e galhos secos e deu um trato no canto onde repousariam. Tinha escutado barulho entre o Bradesco e a loja das Casas Bahia. Fez a fogueira em frente ao salão e preparou uma lamparina para o interior do imóvel. Usou tábuas encontradas nos restos de uma obra inacabada para estreitar a passagem e impedir que escapassem durante noite. Logo depôs duas broas de milho cobertas com fubá. deixava o trilho delator ainda mais nítido. Os animais ficaram parados. para os três bentos que estavam do lado de fora do salão. Nada de sangue.A noite já vinha entrando quando Justo e Célio voltaram com os cavalos. Duque. junto às chamas e rodeou a fogueira com um punhado de pedras. A loba. Tirou uma toalha surrada e estendeu ao lado da fogueira. Se o cheirinho do assado subir e o vento soprar pra cima. por baixo de trepadeiras.. do jeito que minha barriga tá roncando. — Que coisa linda! — disse Justo. Abriu o bornal que trazia na viagem e tirou dele um pedaço de carne salgada. Depois de um instante. — Volta nada. maneiro. Duque agachou-se junto ao fogo. alta e esguia. rompendo o silêncio. Amintas supunha tal coisa pelo fato de ainda existir uma faixa plástica presa na marquise. Dimas pediu silêncio do lado de fora. baixou a cabeça e farejou o chão. Amintas e Duque tinham escolhido um salão que estivera vazio desde a Noite Maldita. — Deve ter ido beber água no ribeirão e agora está voltando pra mata. — É. Depois partiu. apenas para o preparo do alimento. não vai dar tempo nem de sobrar cheiro pro vento levar. O calor que avançava noite adentro permitiu que Duque acendesse uma fogueira pequena. olhando por um tempo que pareceu enorme. acompanhada de dois filhotes. O vampiro viu o trilho de fumaça subindo ao céu.. A noite sem nuvens. trazendo um anúncio de "Aluga-se". não demora nada pra aquela guará voltar. Duque sorriu. desaparecendo entre os prédios do outro lado da rua. Ao menos estava certo que. A luminosidade minguava rapidamente já tendo escurecido quando Justo levou o último cavalo para dentro do salão da agência de Correios. seguida por seu par de filhotes. — Espera um pouco pra queimar essa carne. viram surgir do meio dos imóveis uma grande e bela loba-guará. — balbuciou Ulisses. Foi a vez de Ulisses dar risada. com um banho de estrelas brilhantes brindando o manto negro do firmamento. O salão era amplo e serviria perfeitamente como uma cocheira. Quando essa carne queimar um pouquinho. Cravou uma forquilha no chão.

— Não coloque uma gota do sangue desse maldito na sua boca. Era como chamavam aquela rua. — Não deixem que ele entre em nenhum deles. Muitos viajantes em busca de abrigo para a travessia pensavam na boa idéia de pernoitar naqueles galpões. na direção do sinal de fumaça. Amintas paralisou diante da fogueira. Não estou vendo sua espada. Avançaram. cobrindo o tronco. aquele fedor horrível. Viu o bento voltando para perto do fogo e sentando-se no calçamento. essa luta vai abrir nosso apetite. sem provocar barulho. Aspirou o ar mais profundamente. Alex saltou para o chão. — Somos cinqüenta contra um. Vamos atacar de uma vez só. sentindo frio nos braços. sairemos de novo em busca de sangue. Logo algumas das criaturas também saltaram para os galhos das árvores e alcançaram o líder do bando. O bando vinha voando pelos telhados dos dois lados da rua. encontraria humanos. Conhecia aquele cheiro forte. Com certeza o maluco filho de uma puta vai reagir. não precisou dizer mais nada. Olhou para frente.. Alex apontou para o trilho de fumaça. — Depois de voltarmos com esse troféu pra toca. Apanhou sua malha branca e colocou-a. Fechou os olhos mais uma vez. Vamos desfiá-lo à unha. Vamos precisar. Tinha deixado a droga da espada dentro do salão! Levantou-se e virou. Alex parou no topo da árvore de jenipapo. Tarde demais. em frente à pequena fogueira. A capa vermelha não deixava margem para dúvida. O vampiro aquiesceu. Os vampiros ouviram atentamente o líder do bando. Seus olhos estavam ariscos e acompanhando o caminhar do homem no meio da rua. Fez mais sinais para os vampiros que vinham atrás. saltando de árvore para árvore. Tolos desavisados que se arriscavam em seu terreno de caça. sentiu o golpe pesado do corpo de uma das criaturas. Amintas engalfinhou-se com a criatura. Quando terminou de ficar de pé e de frente para o salão.. Seu bando contava com cinqüenta vampiros.ao redor daquela fogueira. Justo e Ulisses dormiam com os trajes completos. Duque virou-se de lado. Vampiros! Levou a mão à cintura. Trocou olhares com os mais próximos. O maldito bento tinha entrado na arapuca. Estava tão quente antes de deitar-se. Fez um sinal para os companheiros que iam pelo chão. O sangue deles é que nem ácido. — fez uma pausa olhando para um novato. Vamos acabar com a raça desse desgraçado. poderia ter sido uma lufada de vento. Vai te comer por dentro. perigosamente velozes. tomado pelo sono. Vai acabar com você. Seus olhos estavam pesados e pareciam cheios de areia. vendo Amintas sentado no calçamento tomado por mato. sendo levado de costas ao chão e dando duas 309 . Talvez não tivesse necessariamente esfriado. pedindo que se agrupassem logo abaixo. A pele arrepiou-se. Gesticulou para que os demais se aproximassem em silêncio. Despertou do sono. acho que a deixou dentro de um dos salões.

O ar começava a faltar e lágrimas involuntárias surgiam em seus olhos. tento os braços imobilizados. Uma arma de corte. fazendo-o afastar-se um instante. Um terceiro vampiro agarrou seus cabelos grisalhos e longos pelas costas. Agarrou o punho do vampiro e torceu seu braço. Amintas sentiu a garra da fera apertando sua traquéia. Foi o bastante para obedecer a loucura. A loucura consumia sua mente.cambalhotas. que segurava seu braço direito. Assim que Alex afastou a lâmina. Manteve-se agarrado ao bento. Um segundo vampiro aproximou-se pela direita. — disse o líder das criaturas. Amintas conseguiu desferir uma boa cotovelada na fuça do novo agressor. Amintas absorveu a dor e concentrou-se no mais importante. Mais quatro agarraram as pernas do bento. emitindo gritos de dor. Amintas recebeu um chute no estômago. Bastou os gritos e a baderna para que se distraíssem um segundo e Amintas conseguisse livrar braços e pernas num esforço sobre-humano. No entanto. voltando ao sono mais uma vez. O agressor soltou. o vampiro era mais forte e não sofria com a falta de ar. Recuou a mão esquerda e lançou um soco na face do vampiro. fazendo com que perdesse as forças nas pernas por um instante. Amintas emitiu um sonoro grito de dor. inspirando e espirando rapidamente. incomodado. — Vamos ver como vou dar cabo de você. Alex avançou com o facão na direção do bento. Amintas respirou duas vezes e recuperou a força. Soltou o pescoço do maldito e foi erguido pelos braços fortes da fera. O vampiro novato soltou o braço do guerreiro e rolou no chão. fazendo o guerreiro erguer a cabeça. Ulisses levou a mão no nariz. sendo agarrado pela direita e pela esquerda. Mais dois ajudaram aqueles que já prendiam os braços do guerreiro. fez uma breve reza e cuspiu no rosto do vampiro. incomodado. mas completamente dominado. O vampiro que segurava os cabelos do guerreiro deu novo puxão. O líquido acertou em cheio a bochecha do vampiro e a pele da criatura começou a fumegar. Duque virou de lado. Um deles puxou sua capa vermelha. mantendo-o em pé. O vampiro Alex ordenou que mais vampiros agarrassem o velho bento. para querer esfolar aqueles malditos contra o chão. o bento juntou uma quantidade de saliva na boca. tirando um facão da cintura e passando o fio na cruz do peito de prata do guerreiro. Dentro do salão. Era aquilo que Amintas queria ver. sem despertar do sono. escutando um "crec" quando o osso deslocou-se na junta do cotovelo. O bento 310 . puxando-o com violência. Alex parou na frente de Amintas. O golpe acertou seu braço em cheio. Amintas recuou dois passos. jogando-a sobre os próprios ombros. bento idiota. lançando um sorriso ferino para o guerreiro. Amintas baixou a cabeça. agarrado ao corpo do monstro. Agarrou o pescoço daquele que o levara ao chão e afastou-o de seu corpo. Os joelhos dobraram enquanto gemia de dor.

esvaziando a boca de Amintas. do outro lado. Passou o facão no ar.agarrou o facão e firmou a mão na empunhadura. quase fechando. vendo um revoar de capas vermelhas nas costas das criaturas. Levou a mão à pele e descobriu um corte imenso do lado esquerdo. Retirou o facão da garganta do vampiro e passou a arma de lado dessa vez. Olhou para o salão. Não vai ter sorte duas vezes essa noite. puxando sua cabeça para trás. Sentia uma ardência no peito. Ouviram gritos furiosos e o som de espadas rilhando ao serem desembainhadas. O monstro. Até que a arma do vampiro era boa. debatendo-se até o último suspiro. Cruzou o caminho do atacante e parou. os vampiros começavam a se refazer da surpresa e a fechar um círculo perigoso ao redor. Mais bentos! 311 . Os companheiros dormiam. a maioria bem absorvidos pela couraça prateada. Quando o vampiro ergueu a cabeça novamente para encarar o guerreiro. Seu rosto estava roxo e o olho direito inchado. Gostava do fio daquele jeito. Os vampiros tomaram coragem e saltaram. Amintas juntou mais uma porção de saliva na boca. — Acho que vou. esmurrando os que se aproximavam e abrindo tantos cortes quantos fossem possíveis nos inimigos que entravam no alcance do facão. nesse instante. ferido da primeira vez. interrompeu o ataque. Amintas afundou o facão na garganta da criatura. O vampiro que gostara de suas mechas grisalhas voltou a agarrá-lo pelos cabelos. iria morrer feito um gato no saco. sim. Amintas percebeu que. sentindo o sangue brotar no nariz e na boca. A experiência de quase trinta anos como guerreiro bento lhe ensinara um ou dois truques para a hora do aperto. seu filho da puta. Girou o facão no punho enluvado. Contou mais de trinta. — murmurou o bento ferido. de encontro à fera. — Dessa vez não. Amintas soltou um urro mais ferino que o do demônio. mas não parava de contra-atacar. Foi mais uma vez erguido e agarrado firmemente por braços e pernas. bem afiado. O primeiro vampiro destacou-se do grupo. Os vampiros mal tiveram tempo de olhar para trás. uma das criaturas conseguiu arrancar o facão da mão do guerreiro. Amintas foi jogado ao chão e recebeu uma saraivada de chutes. Finalmente. Amintas abriu o olho bom. Tomava golpes duros. dessa vez misturada com seu sangue de bento. fazendo a cabeça do bicho cair no chão de terra. O vampiro. Se iria morrer no meio daquela avalanche de vampiros. Sua primeira vítima ainda rolava e fumegava no chão. Tinha passado pelo pescoço como se a carne do bicho fosse de manteiga. para cima do guerreiro. Não viu Amintas na frente da fogueira. sentiu o fio afiado da própria arma atravessando-lhe o pescoço. Amintas voltou aos berros e ao combate furioso. todos ao mesmo tempo. Amintas inspirava e expirava rapidamente. louco e esbaforido. Justo sentou-se sobressaltado. lançou um violento soco no rosto do guerreiro.

inesperadamente. Os olhos vermelhos vivos do demônio ressurgiram no meio do salão junto com gritos de dor. Sempre antes de iniciar um combate contra os noturnos. tomando impulso para saltar no meio do bolo de criaturas que cercavam bento Amintas. Do abdome aberto das criaturas verteu as entranhas negras e fedorentas. Célio varreu a escuridão com a espada. indo ao chão. perseguindo-as sem descanso. acuados pelo quinteto de bentos enlouquecidos com sua presença. O segundo golpe de espada de prata enterrou a lâmina na barriga do vampiro. Célio foi atingido por dois pés em suas costas. Amintas. Passou a combater os inimigos com as duas lâminas.Ulisses procurou o par de brasas vermelhas mais próxima. Um dos vampiros. tentavam fugir das espadas. separando a cabeça do tronco da criatura. A prata queimou a pele da criatura. com um segundo empurrão. arremessando-o para frente. virou uma estrela. tomado pela loucura. cambaleou para a frente e a espada escapou-lhe da mão. Um companheiro bento assomou a porta do banco. adentraram a agência bancária. guiava-se pelos olhos vermelhos flutuantes das criaturas. 312 . trazendo uma tocha acesa. jogou para dentro do cofre escancarado da agência bancária. dotado de excelente visão mesmo no absoluto breu. Dentro do banco. que deixavam o cerco. Bastou um puxão do braço para que o cabo da espada voltasse para perto de sua mão. mas tentando desviar-se do bento que. Separaram-se e prepararam um ataque covarde ao bento. — Meu braço! Meu braço! — gritava a fera. Nenhum deles suportou o golpe. Não conseguia ver as brasas do agressor. fora de combate. Duque arremessou a espada de Amintas. apanhando o facão caído no chão. Correu atrás do maldito e. Os vampiros. A espada zuniu ligeira. O terceiro e último vampiro iniciou um ataque vacilante. com agilidade impressionante para um homem com mais de sessenta anos. Dentro do salão escuro os vampiros demonstraram súbita retomada de coragem. desesperados. sequer pensou na desvantagem. acovardados. Justo aproveitou o vampiro caído e pisou nas costas do demônio. o bento unia um cordão de couro atado no cabo da espada a uma tira de couro que vinha em seu punho. avançou para a arma do guerreiro. Só não contava que Célio também tinha seus truques. Célio correu no encalço de três vampiros. vinha em sua direção. O guerreiro apanhou a no ar e girou o corpo. Bastou um segundo movimento para que o par de brasas escarlate apagasse. rasgando três vampiros de uma vez. Agarrou o vampiro pela nuca e pela calça. Célio levantou-se quando o segundo demônio pulou em suas costas e cravou um par de dentes em seu pescoço. Célio. contudo ouviu um baque surdo e o som de alguma coisa arrastando-se. Os vampiros. imersa na mais negra escuridão. Célio agarrou o vampiro pelos cabelos e arrancou-o num golpe só de suas costas. A providencial cota de malha de ferro e a gola alta do colete de couro impediram que os dentes chegassem à sua carne. que tombou logo que o bento removeu a espada.

Os corpos dos malditos estavam espalhados por todos os lados. Amintas! Você queria todos pra você?! — exclamou Justo. — Estamos trancados? Sem responder ao parceiro o vampiro virou-se novamente para a porta e desferiu um chute potente. surgiu novamente a mãe loba-guará. por segurança. — murmurou o ferido. tirando-a de seu caminho. cambaleando. Célio. Duque chutou a cabeça de um vampiro. 313 . aproximando-se e batendo nas costas do parceiro. O vampiro. colocou a mão na empunhadura da espada. contemplando a imensa porta. Célio sorriu e meneou a cabeça. A loba veio até perto da fogueira e. Alguém estava fechando a porta do cofre! Ulisses bateu a porta pesada e girou a grande trava. — Eu vi. Ulisses suspirou fundo e deu um tapinha nas costas de Célio. Os vampiros estavam trancados para sempre. Um sonoro "clanc" estalou na sala. Do lado de fora. Não cria no que acontecia. levantou os olhos para os dois bentos no meio do salão. O céu tá muito limpo. Do meio dos jenipapos. parecida com as travas de escotilhas. — Vamos dormir que eu ainda tô cansado. Estava selado dentro da merda da arapuca. Célio pôde ver onde o maldito tentava esconder-se. onde o outro monstro da noite levantava. abocanhou o braço decepado de uma das criaturas batidas no combate. Dentro do cofre o demônio de dentes pontiagudos bateu contra a porta. — retrucou Duque. com pedaços retalhados dos corpos caídos por toda parte. — Acho que amanhã vai chover. Só se você fosse virar o jogo no além. — disse o mulato. Olhou para o final da rua. Já se preparava para saltar para cima de Célio e retornar à contenda quando ouviu a pesada porta de aço recheada de travas deslizar sobre as imensas dobradiças. — Eu já estava quase virando o jogo quando vocês chegaram. Olhou para o parceiro de braço decepado. refeito do golpe duro da cabeça contra o fundo do cofre. Apertou a mandíbula com força e voltou rapidamente para o fim da rua. sob a luz do fogo. Voltaram para a rua de terra. parando de frente à fogueira. — Estamos fodidos. Eles eram tantos e os bentos tão poucos! Como conseguiam fazer aquilo? Novamente olhou para o colega machucado. O animal esguio e de andar elegante veio ligeiro para perto dos bentos. com sua voz estridente. Agarrou-o pelo pé e arrastou-o para dentro do cofre. Amintas embainhou a espada e foi até o meio da rua. Amintas riu antes de responder. Ulisses olhou para o céu estrelado.Com a luz. Arreganhou a boca e exibiu as presas afiadas. — Pô. Baixou a cabeça tomado por um ódio avassalador.

314 . abaixando-se junto a um corpo de vampiro e retirando dele sua capa vermelha tomada no meio da batalha. — Cuidado para não ter dor de barriga. — murmurou Amintas. dona. — Vou dar uma olhada nos cavalos. Vocês podem dormir. — disse Justo. eu vigio daqui pra frente. — Valeu. — retrucou Ulisses.Os bentos foram voltando em silêncio para dentro do galpão. tomando pra si a responsabilidade da vigília.

Carlos era o que parecia mais machucado. Talvez assim fosse melhor. graças à teimosia do bento. Infelizmente. que a visão durante o sono não fora clara. melhor remédio que qualquer química que pudesse entrar em seu corpo por uma agulha. A surpresa desagradável acontecera horas mais tarde. parceiro de Alicate em São Vítor. Alguns pontos fechando os cortes e pronto. A equipe não tivera descanso desde a saída dos portões de São Pedro. Mas. Tinham que confiar no profeta morto. Bastou um cochilo para que o bento tivesse mais um daqueles pesadelos recheados de presságios sombrios. deram no meio de um numeroso grupo de demônios noturnos. Elton sorriu olhando para o companheiro de jornada. ao lado de Lucas. Tinha visto fogo e fumaça. mas não havia clareza dessa vez. graças a Lucas. com um inchaço importante no rosto e dois cortes extensos. E. após dias de jornada ininterrupta. depois de terem deixado Maria Alice e Eloísa a salvo. Três de seus homens estavam se recuperando. sentou-se no meio do leito dos dois soldados e baixou a cabeça — O que aconteceu lá? — perguntou a voz sussurrada de Carlos. sendo um nas costas e outro na barriga. também dormindo de roncar. naquela noite não passaram incógnitos aos vampiros. os soldados e guerreiros bentos voltaram aos cavalos. Foi o único a não expelir um murmúrio de protesto sequer.Capítulo 42 O líder Elton entrou na enfermaria para assistir os soldados feridos no inesperado evento que sucedera na noite anterior. Tinham que deixar a vila imediatamente. Talvez não se restabelecesse até a hora da partida. Do outro lado. Olhou para os soldados finalmente repousando nas camas da enfermaria. 315 . O soldado parecia estar lendo seus pensamentos. com olheiras profundas e cansaço visível seguia na frente. Elton olhou para Carlos. que parecia ter se juntado ao grupo para discordar o tempo todo de tudo que Lucas falava. Quando toda a tropa imaginava que pernoitariam para um merecido descanso. Ironicamente. Bento Vicente. nada grave. O líder dos soldados sentou-se numa poltrona confortável ao lado da cama de Alicate. O rosto inchado e roxo desencorajava uma nova cruzada. Tinha ouvido Bispo ordenando a partida. a voz soprando urgência em seu ouvido tinha estado lá em sonho. Cavalgava calado e determinado a não deixar o trigésimo bento dar um passo sozinho. pois. Cansado. A maioria precisava mais de repouso do que qualquer outra coisa. mesmo sobre protestos furiosos por parte de bento Teodoro. nos muros de uma fortificação. Lucas confessara a Francis (que tentara inutilmente dissuadi-lo da tresloucada e insalubre idéia de continuar a marcha sem algumas horas de sono para todos). Balbuciara algo sobre um deus índio. um deus Tupi. sem a companhia de um semelhante. estava o soldado Carlos. Lucas fora mais uma vez acometido por sua aflição em prosseguir. O homem de braços fortes e um hematoma no olho esquerdo estava dormindo profundamente.

mortos de sono. Tinha algo errado naquela declaração. Já que eu tenho uma platéia. sentiam-se perdidos quando. como estou cansado.... — Da porrada eu lembro e não vou esquecer tão cedo. Os desgraçados eram tantos... graças a Deus. 316 . — Mas. Do que você se lembra? Foi a vez de Carlos tossir. andando ao que parecia em círculos.. Durante a madruga. vou começar. das sombras. — Quantos morreram? — Ninguém. emendando um gemido de dor. ai. fazendo Elton voltar-se um segundo. Carlos. Ninguém morreu. O valente se mexeu no leito. mas não acordou... Tinham entrado em outra região pantanosa. As imagens estavam voltando. — Perdão? Você. Levou a mão ao inchaço do rosto. Carlos suspirou fundo. — Bom. Estão todos costurados e sedados. Alicate tossiu na cama ao lado. — Pode apostar que vou dormir mais oito horas seguidas. franzindo a testa. na cama ao lado. Lucas segue ao amanhecer. Deus. muito parecida com a que cruzaram escapando da Velha São Paulo. os malditos surgiram. em número que jamais viu. — Sem gripe? — Sem gripe. Estrangulados. Durma. — Sem infecção? — Sem infecção. Vamos precisar de você bom e pronto pra outra o mais rápido possível. Se o ferimento não tivesse tomado sua memória podia jurar que foram emboscados de forma tão violenta e imprevisível que tornava quase impossível acreditar na resposta de Elton. Cavalgavam na noite.. mas não prego os olhos enquanto você não me disser como escapamos todos vivos. você pulou alguma parte? Meu cérebro ainda está aqui? Elton sorriu. — gemeu Alicate. — Nem eu. só esperando o corte fechar e a dor passar..— O que aconteceu comigo? — tornou Carlos. — É isso mesmo. Carlos pigarreou. Foram cercados. — Você foi golpeado na cabeça e apagou logo no começo. Tinham deixado as garotas na fortificação ao nordeste de Belo Horizonte e tinham deixado a vila resmungado por conta do cansaço. despertando do sono para acompanhar a conversa. — Durma. Como deixei me pegarem? — Estranho seria você sair sem nenhum arranhão. O líder de São Pedro voltou a encarar Carlos.

Impossível acreditar que. E qual seria o pagamento por aquele comprometimento voluntário? O que esperavam? Esperavam o fim do medo. arriscando. Deus do Céu! Poucos dias e quilômetros longe de ser um simples herói. continuava obstinado. O peso do rifle preso à suas costas. literalmente. queima num ímpeto impensado de coragem. uma dose extra de risco e terror valesse o preço. vinha vivo. tudo isso. Resignado e valente. Acabariam com os vampiros. seus pescoços. José Roberto e Eric. continuava perseguindo cegamente o que Bispo lhe pedira. o barulho dos outros cavalos vencendo o lamaçal. mas dizia que conseguiria cumprir o pedido. Ele. no mesmo tempo e espaço. Quantos soldados haviam caído em cenários semelhantes? Mais do que as histórias. Um era de São Joaquim e outro de São Pedro. Tinha urgência. Mas. cavalgava ao lado de Lucas. Lucas transformara-se num líder. que demonstrara claramente seu desapontamento e sua antipatia para com o novato. sua cidade. shazam. Lucas conduzindo. Um gato Félix da vida. o menino na frente do carro e a bosta do gatinho na merda da árvore. à primeira vista. garbosamente. Iria reunir os trinta bentos. seu cão de guarda. pela segunda vez. Mesmo com os seis corpos enterrados no limite do pântano anterior. a garota do sexto andar. Que precisavam reunir os trinta bentos. Odiava as histórias de pântanos. burrice e reflexo e. Acabariam com as sombras. talvez. antes da baderna começar. recolocando-o lá. Elton fechou os olhos por um segundo. reavivando a memória. O céu fechado e cheio de nuvens sendo carregadas velozmente pelo vendaval acima de suas cabeças. estavam seguindo o "escolhido". Logo voltou a sentir seu corpo balançando sobre o torço do cavalo. parecia enfeitiçado. O que seriam? As quatro armas com as quais acabariam com o medo. Era esse o prêmio de ouro por guardar a trilha de Lucas e garantir que o magricela transformado realizasse seu intento. Os homens seguiam Lucas. a garoa fria sendo jogada pelo vento contra seu rosto e acumulando-se em seu queixo. Tinha ordenado que continuassem. Bento Vicente. que de repente. um sujeito que parecia um banana. querendo evocar as sensações daquela madrugada. Elton notara algo mais importante que isso. o mais marrudo e indigesto bento que cruzara o caminho. O lugar perfeito para ser morto por aqueles demônios do mundo. Grandes corujas com olhos brilhantes girando as cabeças empoleiradas em galhos antigos e livres de folhas. realmente transformara-se num herói. Por isso. um magricela perdido. Não dissera como ressuscitaria os mortos. o grupo. que lhe parecera. Estavam dispostos a cruzar outro pântano durante a noite.Mais dois soldados sentaram-se nas camas ao redor. em poucos dias. um sem sal. odiava estar ali. Ajeitaram-se para escutar a narrativa. dentro de uma única situação. Não precisou esforçar-se demais. parecia agora sua sombra. Elton lembrava de ter notado. Os milagres não revelados. Mais do que um herói. Um herói pode ser simplesmente um cara. Pronto! Ele é o herói. onde a barba descuidada teimava crescer. Lucas estava quilômetros longe daquilo. com medo da cauda do cavalo. Os homens acreditavam no trigésimo. Estavam colados no rabo do trigésimo bento. Fariam voltar o medo tolo do bicho- 317 . Seus nomes. Os quatro milagres. salva a velha gorda.

Medos que não avançavam com a mandíbula arreganhada. Ordenava que ficassem imóveis. enquanto Lucas gritava as primeiras e impressionantes ordens. sozinho. Fariam sobrar apenas os medos de criança. como nunca visto por aqueles seres humanos. Elton chegou a arrepiar-se ao lembrar da cena mais dantesca. providenciou um círculo. Eram centenas. Um silêncio medonho cresceu. Os bentos sentindo o suor descendo pela testa. Pedras começaram a ser lançadas contra os soldados. A garoa. Não existiam mais árvores vazias. Lucas.papão. Os bentos sendo tomados pela loucura. Duas bolas amarelas acesas na noite. usando os cavalos. Como crianças ao redor do vovô. doidas para estraçalhar nossas artérias e sugar seu sangue. Dentro 318 . a cabeça coberta pelo capuz. Ordenava que não atacassem. ora chegando a passar das canelas. Vultos voando no meio das árvores. Os cavalos tinham alcançado um platô mais sólido. feito um banco de areia. do papa-figo. formando uma proteção precária. Outro arrepio percorreu o corpo de Elton quando se lembrou dos olhos de Lucas. não existia mais pântano à vista. deixando os cavaleiros com a água roçando os pés. os homens não deram um pio. Os milagres trazidos nas vísceras do trigésimo bento baniriam o medo das bestas da noite. Era mágico. os cavalos afundando na lama e na água. Os malditos gritavam enquanto mais pedras choviam. Era diferente. cheias de agulhas pontiagudas. balançando ao sabor do vento ou cedendo ao peso das criaturas. havia rompido o círculo. Foram cercados num instante. do homem do saco. Grunhiam e praguejavam. Lucas saltou do cavalo. atraindo a atenção dos vampiros. fazendo novas vítimas. A liderança de Lucas revelou-se mais poderosa do que supunham até então. Estavam cercados pelas brasas rubras. Noturnos vindos de um túnel com ligação direta com o inferno. Em seguida lanças zuniram. Logo. não poupariam suas espadas. Mesmo sabendo que não era necessário. Medos de crianças. sombras negras emergindo. A tensão aumentando como o número de sombras ao redor. os bentos abandonaram a loucura c não se atiraram contra o exército de bestas no primeiro instante. Lucas gritava com os bentos. Vários dos vampiros surgindo da água. Lucas. Um ataque perigoso. Seis deles já estavam mortos e enterrados e agora os vampiros pareciam prestes a aumentar esse placar. por essa razão. não hesitariam em atacar. que Carlos tombara. Era estranho. O líder dos soldados de São Pedro começou o relato. A loucura patente daqueles homens valentes parecia arrefecer com os brados do trigésimo escolhido. Foi nesse momento. espantosamente. lembrou aos ouvintes os detalhes. A maioria dos cavaleiros encontrava-se nesse ponto quando deram conta da aproximação das criaturas. como cadáveres voltando à vida. Algum dos malditos deve ter dado a ordem. deveriam ter hesitado um instante para caírem de uma vez em cima dos soldados. sua armadura encoberta pela manta marrom. Boa parte delas secas e galhadas. Todos cessaram o ataque. Até aí todos recordavam. acompanhando o "causo". que valsavam ao redor. Juntavam-se mais e mais. vítima de uma pedrada certeira na cabeça. Seguindo seu comando. Olhos vermelhos dançando nos galhos. Pareciam farejar no ar a presença dos bentos e.

Tinha se visto no chão! Deus do céu! Parte das lembranças pareciam surgir somente agora. Lucas procurou os olhos do interlocutor. fazendo-a cair na água. tinha desenrolado a capa e tomado a espada nas mãos. Lucas baixou o capuz.do círculo de cavalos. Elton lembrava-se de começar a sentir aquele estranho comichão pelo corpo todo. Os vampiros retrocederam um passo. Era como se seu espírito flutuasse. Suas espadas em riste. irmãos. soldados! — berrou uma voz rouca. que pingava no banco de areia. deixaram o cerco de cavalos e expuseram-se no banco de areia. Algo que deveria ter sido um homem de sessenta e poucos anos quando se tornara vampiro. Lucas encarou o demônio. fazendo o metal prateado retinir. Puxou o cordão que prendia a manta. fechou-se ao redor de Lucas. vítimas das pedradas na cabeça e das lanças a manterem-se temporariamente à salvo. enquanto livravam-se das capas marrons. ser transportado. formando agora um círculo externo. O sangue. deixando o banco de areia. Caminhou lentamente. Um calor infernal percorrendo as veias. assistiu seu corpo. — Entreguem os bentos. desembainharam as espadas. o soldado tem uma espada. Nesse instante. Imitando Lucas. montado no cavalo negro. O medo exalava do grupo. Os quatro bentos. Sem titubear. que contava a façanha para os enfermos. — Há! Há! Há! Ah! Cuidado. rodeado pelos soldados. surgindo somente agora na beira do círculo. cada vez mais numeroso. — Entreguem os bentos e serão libertados! Lucas desembainhou a espada. Urros nervosos cessaram o silêncio. abrindo passagem. como o final daquela peleja se desenrolara. O círculo de vampiros. até que a água chegasse aos seus joelhos. como controlado por um mestre de marionetes. revelando a cota de malha prateada e o par de olhos amarelos lampejantes. levantar-se e tirar do cavalo a capa vermelha que enrolava a espada que pertencera a bento André. devia atiçar ainda mais a gana por morte. Enquanto isso. dentro do cerco. obedientes feito cães treinados. Atravessara o cerco de cavalos e postara-se ao 319 . Chegou a pensar num ataque cardíaco e a amaldiçoar o destino por tão cruel momento. real timel Passara a entender. como uma brasa queimando suas entranhas. — Desembainhar espadas! — berrou o bento. levando sua consciência para fora do corpo. Via agora a cena do pântano como se estivesse a dez metros de altura. ser subtraído daquele lugar. prontas para o ataque. Lembrou-se de ser tomado. Era como se estivesse sendo possuído por algo ruim. do meio dos vampiros. Suas armaduras prateadas refletiam a luz das tochas carregadas pelos soldados. somente agora. os soldados ajudavam os desacordados. — Então és um abençoado! — gritou o vampiro-líder. alimentando a massa inimiga.

no breu e na garoa. aproximando-se perigosamente da linha de frente dos vampiros. Estava confiante. — Que dizes. desse instante em diante. Uma criatura de baixa estatura. Mesmo assim. Aquilo era uma delícia. mas de compleição forte. Os vampiros. com a lâmina erguida. formando um cerco cada vez mais denso. O vampiro-líder ergueu os braços. Só estavam habituados a ver tantos quando os malditos organizavam-se de tempos em tempos para tentar contra os muros das fortificações. o mais comum eram os bandos menores. Abriu caminho entre o bando até estar cara a cara com Lucas. Os vampiros aglomeraram-se mais. no cerco de cavalos. O vampiro-líder exigiu imobilidade de seu bando. Sem luz. irmãos! Essa é nossa noite de sorte! Os vampiros dobraram os urros. em ataques rápidos e letais. ali era seu hábitat. do contrário colocaria tudo a perder. Careca e pálido. Um bicho estranho. 320 . passaram a observar curiosos. deixavam de ser soldados e a figura dos demais bentos mortos chegavam a seus olhos de espírito flutuante. bem distantes dos holofotes dos grandes centros? Logo que ordenasse o ataque. os humanos estariam liquidados em questão de segundos. levantando-se aos poucos. de volta. — Dez bentos. — Hoje é a nossa noite de sorte! — bradou Lucas. quando atravessavam o cerco de cavalos. de pé na areia. número insuficiente para fazer frente àquela descomunal quantidade de vampiros num ataque na floresta. Queria absorver mais daquele medo que emanava do grupo cercado pelos cavalos. sentindo-se insultados pela petulância do bento. Algo tão inebriante quanto o sangue. E era justamente isso que o bento buscava. exigindo silêncio. O medo humano era um sub-alimento. era seu território. Um segundo depois. ao lado dos demais. os vampiros voariam feito zangões para cima das tochas. O que poderiam aqueles dez bentos contra suas centenas de vampiros. rapaz? Que tens sorte de estar aqui? — perguntou a voz rouca e sussurrada do vampiro. com um ferimento aberto no pescoço. Lutou contra sua gana. Nas florestas. Lucas avançou mais cinco passos. Daquele instante místico em diante passaram a ser dez bentos no círculo externo do banco de areia. Lucas teve vontade de lançar sua espada à frente e aparar a cabeça da criatura. O vampiro-líder deixou os olhos correr sobre o grupo. voltaram aos urros. segurando o cabo com as duas mãos. afinal. Lucas observou por um instante o líder dos vampiros. Deleite. Não ordenaria o ataque imediatamente. Elton passou a ver bento André.lado de bento Francis. viu mais cinco novos soldados desembrulhando as espadas do meio das capas vermelhas e. Os soldados. lutando na escuridão. Queria o deleite. Era como se seu corpo tivesse se tornado num mero vasilhame preenchido pelo espírito do bento abatido na Teodoro Sampaio. Aguardou até que boa parte deles saltou das árvores. trajando roupas esfarrapadas e escuras. Então. lutando na mata.

transformando. Depois. o soldado de São Joaquim. — interrompeu. um bento faz uns poucos litros de água benta por dia. — Mas não o trigésimo bento. completando o sinal da cruz. — Mas. ficaram estáticos. praticamente iguais. procurando entender a narrativa. Nesse segundo de distração.. Em seguida. 321 . Um ou outro conseguiu saltar para as árvores adjacentes e os que nelas já se encontravam trataram de fugir em retirada. bento duma figa?! Não vês que não há chance de escapada? — Escapada? Quem quer escapar aqui. sem sequer lançar um olhar para trás. Foram sendo dragados pela água abençoada... Não o bento Lucas. Carlos. Lucas usou de sua velocidade e deixou a espada cruzar o ar. Continuou o impressionante relato. — És cego. derretendo e queimando. dentro desse segundo precioso. caindo um pedaço de cada lado de seu cavalo. dividindo em duas bandas. deixando escapar. toda aquela água lamacenta. Alguma coisa de nervosismo escapou de sua garganta. meu amigo. Lucas girou a lâmina. A cabeça do vampiro-líder rodopiou. quase inaudível um "em nome do Pai.. Elton estava tão emocionado com sua própria narrativa que. Lucas estendeu o indicador e o dedo médio da mão direita de encontro à testa. Uma vez de joelhos. Levaria mais um segundo para que recobrassem a atenção e finalmente fechassem o ataque sobre o insuficiente grupo de soldados e bentos.. produzido um silvo ligeiro. em água benta. sabemos que um bento. que mirava a besta nos olhos. perceber. mas. vampiro do inferno... fazendo-a descer e cortar ao meio. talvez. — Conte a ele o que aconteceu! — pediu empolgado. Sutil o suficiente para apenas o trigésimo bento. mas esse segundo precioso era o que eles não tinham. estupefato. pegos de surpresa. o vampiro-líder abriu os braços.. levando consigo os olhos vermelhos das criaturas para o alto. dono da situação.. os dedos foram de encontro ao ombro direito. assistindo o corpo do líder abrir-se lentamente em dois. imediatamente. Lucas deu dois passos para a frente. transformando-se em tochas ambulantes. Calmo. abandonando o platô seco de areia e afundando o pé na água do pântano. descrevendo com os dedos uma reta no ombro esquerdo. enquanto Lucas começava uma reza ligeira. enquanto colocava-se de joelhos diante das centenas de vampiros boquiabertos. os dedos mergulharam na água do pântano.— Digo que hoje é tua noite de azar. transformando toda a água ao redor em água benta. o corpo decapitado do vampiro. revelando que assim que Lucas tocou a água do pântano. José Roberto. vampiro do inferno? O vampiro-líder soltou um riso. amém". o pântano começou a borbulhar e os malditos vampiros não tiveram tempo de perceber o que estava acontecendo. nem tivesse percebido seus olhos marejados. enquanto Lucas balbuciava o final da prece. terminado por levá-los pouco acima do umbigo. Girou a espada e cravou-a no barro abaixo da água.. Os vampiros.

o que dissera no banco de areia. naquela madrugada. — Quando foi que apaguei? — perguntou Carlos. para ter certeza de que os demônios tinham ido embora. Na pedrada. deixando para trás somente aquele odor acre pútrido no ar. — Logo no começo. — soltou Elton. — repetiu. Grupo ficou em silêncio por quase um minuto. — Fui um bento naquele instante. Alguns deles chegando à beira do banco de areia. ainda com um joelho afundado n'água e os dedos tocando a superfície líquida. 322 . relembrando que. olhando boquiaberto para os bentos rodeando os cavalos e para a figura de Elton e mais cinco desses "possuídos" por sabe-se lá o quê. agora rodeados pelos gritos e pelo odor de morte causado pelos corpos que ardiam era contato com a água benta. mas agora com a voz um tanto mais cansada. — Acho que não precisamos juntar os trinta bentos para começar a ver milagres. — Droga. Os olhos vagando pela água ao redor. erguendo as tochas para a luz ir mais longe. Olharam para Lucas. nesse instante. os soldados foram deixando o cerco de cavalos tordilhos. Alicate. erguendo as espadas de prata feitos bentos legítimos. Em questão de instantes. Incrédulos. os corpos foram sumindo no pântano.abandonando os soldados e bentos. destacou-se do grupo. Alicate interferiu na narrativa emocionada de Elton.

Adriano e seus soldados de Nova Luz não retornaram ao grupo. Lucas conduzia a crescente comitiva pelas florestas e rodovias do caminho. agora. impondo a marcha sem trégua. Por isso. à frente daquele destacamento. hora entoando um Tim Maia dos bons. O plano bem pensado por bento Francis. Sabia que era ali que teriam alívio. o que facilitaria a união dos irmãos mais distantes da comitiva de Lucas e. depois de tantos dias. Os soldados. refutando descanso. Logo eles estariam por perto. de encontro ao desconhecido. Bento Vicente ia sempre ao lado de Lucas. sempre ponderado e divertido. sim. por sua vez. nem sempre os conduzindo a um porto seguro. Visões da noite. no estado da Bahia. surtira efeito positivo. na fortificação de Santa Maria. Sabiam que o bento negro estava adiantado e já cavalgava rumo a Santa Maria. hora puxando um Los Hermanos. Estavam agora ao norte de Salvador. comandava. Sabiam que era ali que o trigésimo bento daria folga certa aos cavalos e cavaleiros. Bento Francis. tomando para si o posto de guarda-costas. empertigado e conselheiro estratégico do trigésimo guerreiro no que cabia a escolha das melhores rotas a seguir. nem sempre agradáveis. a comitiva tinha chegado com sorrisos àquelas terras. O sono do abençoado passara a ser velado num misto de receio e curiosidade. empurrado-os de frente ao perigo. era como se sempre tivesse pertencido àquele tempo.Capítulo 43 Os dias passaram nos lombos dos cavalos. ordenava que continuassem. Era como se uma sombra rondasse as horas de sono do iluminado. Tinham. Como se fosse um guerreiro abençoado há mais de trinta anos e não há trinta dias. Os soldados não diziam. A maioria entendia a razão de Lucas insistir em seguir. Não tinha graça tentar. Tinham chegado tomados pelo cansaço. A voz de Sinatra. sendo também o principal consultado pelo bento salvador no que cabia a estratégia e comunicação com as vilas. Os soldados ainda sentiam arrepios quando se lembravam dos olhos amarelos de Lucas e de seus pesadelos. lançado semanas atrás. mas depois do episódio dos gorilas passaram a ter medo das visões do trigésimo bento. Visões do mal. teriam repouso e preparariam-se para o encontro com os cinco bentos trazidos do norte por bento Duque. já demonstravam ótima melhora e a maioria não trazia mais hematomas aparentes. pela viagem sem trégua imposta pelo desejo de Lucas. Ninguém cantava como o soldado. Bradava. feridos na batalha do pântano. mas não entendia o porquê que ele negava descanso até nas horas da noite. Agora. fazia falta na comitiva. Dizia que os dias e as horas estavam contados e que só teriam descanso em Santa Maria. cuidava dos feridos que insistiam em acompanhar o séqüito. sabiam que 323 . nem em sonhos sinistros com notícias da fortificação distante nem por algum mensageiro. sempre acordando com revelações. era o semblante cansado em virtude da marcha sem trégua.

Vicente sabia o que fazer. — Lucas. desencadeando os quatro milagres e libertando os humanos das presas das trevas. conversando com alegres moradores daquela fortificação. ele não está legal. Francis sorriu. Francis cortou o sorriso quando viu Vicente chegando tão depressa. Ao ser visto. não tinha sequer colocado sua malha.. Via de regra. preocupado. Bento Francis debruçou-se sobre o homem e levou a mão à testa. Parecia acometido de uma doença! Pensou em chacoalhar Lucas até que acordasse. conteve o impulso de sacudi-lo e disparou pela porta do dormitório. Nunca tinha visto aquilo. 324 . agora. lembrando que não devia acordar os sonâmbulos. colada aos músculos de sua perna. Nunca tinha visto nada tão forte. mas Lucas não estava andando dormindo. aproximou-se. pedindo. Vicente descobriu-se e aproximou-se. Francis estava no meio do pátio. quando no dormitório onde repousavam os soldados cansados. Já passava do meio-dia. Velas eram acesas na partida. Correu pelo corredor de madeira até chegar ao salão. Gritava coisas desconexas. irmão? — perguntou Francis. com o peito nu. quando Lucas começava a gemer e a debater-se. coisas assombrosas. balançava a cabeça e gotículas de suor começaram a brotar na testa. do fundo da alma. Vicente. Francis tinha conhecimentos o bastante para lidar com essa nova crise de Lucas. Vicente interrompeu a corrida e fez um sinal para que Francis o acompanhasse.. Venha ver. Atravessou o salão. O trigésimo bento apertava as pálpebras. mas temeu desencadear alguma reação ruim. a comitiva era recebida com grande festa nas fortificações. O grandalhão parou um instante. grupos de orações organizavam-se. como o escolhido costumava referir-se ao famigerado e esperado encontro.faltava pouco para a junção das trinta espadas. que os bentos tivessem sucesso na missão e que após a união dos trinta. Não estava propriamente trajado para andar entre os moradores da pacata vila. olhando detidamente para o rosto do amigo. Antes de chegar ao quarto já ouvia a voz de Lucas ecoando pelo corredor. — O que acontece. tinha que chamar Francis. que a profecia revelada pelo finado Bispo concretizasse-se. começando a correr atrás do grandalhão. — O que você está fazendo? — perguntou bento Vicente. andando pelos cômodos apenas com a calça escura... O bento adormecido começou a tremer e ranger os dentes. Francis não perdeu tempo com mais indagações e seguiu Vicente até o alojamento.. Lucas estava em apuros. Lucas. não tinha tempo para colocar as vestes. balançando a cabeça e bufando. como se lutasse contra algo em seus sonhos.. ora bolas! Mesmo assim. Não preocupou-se com isso. bento Vicente acordou com os murmúrios de Lucas. — Inferno! — gritou o bento adormecido.

Lucas apertou os maxilares. Vicente é que parecia estar empregando o remédio certo. ver se estava com febre! Meus instintos médicos falam mais alto que a razão.... mantendo seus braços abaixados e centrando seu corpo na cama. Senta aí.. — . apesar dele ser o médico. — O que vamos fazer? Vamos acordá-lo? — Não. eu nunca ouvi um bento falar do inferno. Francis? O que é isso. — Convulsões? O que está acontecendo? — Francis assustou-se. abrace-o. às vezes. — O pão nosso de cada dia. cacete? — Eu sei lá. — Pai Nosso que estais no Céu. Francis passou a mão pelo cavanhaque. E é um ruim dessa vez.. delirante. Sentaram ao lado de Lucas. — benzeu-se Vicente. — Santo Deus. — O que ele está falando. 325 . — Barreira do Inferno! Temos que ir.— Foi só um reflexo. — começou a rezar bento Vicente. Você que virou o cão de guarda dele é quem deveria ter alguma pista. ergueu os braços. precisamos ir. Era como se tivesse possuído por alguma entidade.. Credo em cruz. — Vamos. Soltou um grito. Os bentos abraçaram Lucas. Francis forçou a pálpebra esquerda de Lucas. Vicente. -Temos que ir para lá! O bento.. Lucas continuou rangendo os dentes e a gritar coisas estranhas até o final do Pai Nosso. pode apostar. velho. Santificado seja o Vosso nome. Fogo! Fogo e fumaça! Temos que ir ao Inferno! Eles estão lá! Eles estão lá! Os dois olharam-se mais uma vez. O que era aquilo? Lucas voltou a tremer.. para que não fossem ao chão. Está até suando.. Francis apertou os lábios por um instante. A Barreira do Inferno.. — Eu não sei o que é isso.. — Ele está tendo um daqueles sonhos de novo. olhando sua pupilas.. Vamos segurá-lo. — Nós temos que ir para lá! — gritou Lucas novamente. Não sabia o que fazer e. — Ninguém mais fica doente. Vicente.. — Está delirando. por algo ruim.. tentando lutar contra algo invisível. antes que se machuque ou machuque alguém.. Diacho! Queria tomar a temperatura dele. Francis e Vicente trocaram um olhar. — balbuciou o bento médico. — juntou Francis a oração. — Inferno! Fogo! Fogo! Vamos queimar! — gritava Lucas.. Inferno.

Francis sorriu. Assim que Lucas passou pela porta. não mais imaculada. — Onde está Lucas? — Seu protegido acaba de sair. Eu vi a Barreira do Inferno. — Do que você está falando. Vicente. Aproximou-se de uma mesa. ao lado esquerdo. 326 . Francis sentiu a pele arrepiando. Temos que ir. — Temos que ir. O som do metal correndo para a bainha encheu o quarto. — Eu sei. enchendo um copo com o líquido cristalino. Francis aproximou-se para ajudá-lo com a couraça de prata. prendendo-a aos dragonetes. — Temos que ir à Barreira do Inferno. O que significa isso? — Estávamos esperando você acordar para nos explicar. Francis apanhou a jarra de barro no criado-mudo e serviu o homem desperto. — O que é isso? — É água. Fechou os olhos. onde estavam seus pertences. Quando abriu os olhos encontrou bento Vicente cochilando na cadeira ao seu lado direito e bento Francis. estou falando desse negócio de Barreira do Inferno. O grandalhão continuava cochilando. Tentou salivar. O bento colocou-se de pé às pressas. sendo rodeado pelos rapazes e pelas crianças que faziam festa pela passagem do trigésimo bento.. olhando-o. Todos.. já batida pela viagem incessante. Francis observou-o calado. Você berrou isso para todo mundo a tarde toda. Francis olhou para Vicente. — Não. Colocou a cota de malha de prata sobre a blusa de mangas longas. mas os olhos ainda assim pareciam cansados. — Eu vi fogo e fumaça. Lucas respirou fundo e colocou-se de pé.Lucas só foi despertar do misterioso sono horas mais tarde. Lucas sentia a garganta seca e dolorida. — Preciso de água. Lucas desembainhou a espada e examinou o fio detidamente. irmão? Que lugar é esse? — Fogo e fumaça. Vamos. Francis. Francis chutou a cadeira onde repousava o brutamontes Vicente. — Temos que ir à Barreira do Inferno. Lucas apanhou a capa vermelha. mas parecia sem líquidos no corpo. Encontraram Lucas no pátio. Tinha dormido tanto.

Aqui em Santa Maria. temos de ir ao Inferno. Tinha visto a criatura no meio das labaredas. perderemos a batalha. — Onde? — Eu vi fogo e fumaça. precisamos partir. — Mas disse que esperaríamos aqui. Tinha escutado a ordem. — Mas para onde vamos? O que esses sonhos desgraçados sopraram no seu ouvido dessa vez? — Desgraçados?! — Ah! Desgraçados. — Se ficarmos.. Lucas emudeceu mais uma vez. sentia a boca seca.. estavam acostumados à aglomeração de curiosos. O bento estacou.. Teodoro. enquanto mantinham os curiosos longe da couraça do bento. Estava de cabeça baixa. 327 . Por culpa desse seu ouvido do além fomos parar no meio de um monte de gorilas. logo um destaca mento de soldados circundou o bento. Lucas? — Um pesadelo. ao norte de Salvador até a chegada de bento Duque com os bentos do Norte e Nordeste. querendo confirmar o que temia. Depois de tantos dias em companhia do legendário "prometido". Precisamos salvar os bentos do Norte. novamente. Reconheciase um louco bradando: Inferno! Inferno! Era natural que não quisessem escutar. — Eu vi. Lucas. — comentou o bento ruivo com um sorriso irônico. A profecia nunca se realizará. — O que acontece. Vamos encontrar fogo e fumaça.. Seremos engolidos. Bento Teodoro foi o primeiro a aproximar-se de Lucas. O que era aquilo agora? A provação final? Tinham acompanhado aquele homem nos rincões mais perigosos do Brasil. incrédulo. logo percebendo o rosto pálido e transtornado do jovem colega. — Para onde? Lucas piscou várias vezes.. Que papo era aquele de nova jornada? Que papo era aquele de inferno? — Inferno! — exclamou. boquiaberto. Haviam juntado tantos bentos quantos foram possíveis. Você me arrancou de Ilha Grande. protegendo-o do alvoroço. olhando para o trigésimo. Todos queriam tocá-lo. Já esqueceu? Dessa vez o trigésimo bento não respondeu ao ruivo. Queriam falar-lhe. Como ir ao inferno? Como aquilo poderia ser verdade? Mas ele tinha visto. Estava tonto e. Era natural que não queriam crer. Os soldados olhavam de Teodoro a Lucas. sim. Ele tinha visto fogo e fumaça. — De fumaça eu entendo. Tinham passado por florestas e pântanos durante a noite.Quando o grupo de cidadãos começou a engrossar. bento Lucas. tinham ouvido da boca de Lucas a promessa de aguardar ali. — Teodoro.. me arrancou do paraíso para ir ao inferno? Essa eu passo. em Santa Maria. tentando acompanhar a conversa.

— Não.. Não poderiam cumprir a promessa. aqui no Brasil que é chamado de Barreira do Inferno.. a Barreira do Inferno fez parte do programa brasileiro aeroespacial. Na Barreira do Inferno.. — Lançamento? Vicente não conseguia ver ligação no que Elton dizia com o pesadelo de Lucas... — É. Tinham de partir. Estava alucinado. Não poderiam ficar e desfrutar da beleza de Santa Maria. indo em direção a Lucas. — Diga. Francis e Vicente pararam e encararam o líder dos soldados espantados. — Barreira do Inferno? — questionou Elton.... — Sim. Pelo contrário. dificultando a aproximação da dupla.. vinte vezes em quantidade e tamanho ao dos vampiros. Mais soldados juntavam-se aos bentos. — Lembre. — Eu lia muito.. cansado. — Eu sei onde fica. — Ele está perdendo o juízo? — perguntou. uma base de lançamento..... o organismo prega peças. Sempre gostei de ler. Há quantas noites nenhum de nós tem um sono decente? — Ele falou em inferno. Bento Francis e Vicente atravessavam o pátio de Santa Maria.. — É um lugar místico? — interrompeu Francis. O sol descia e a sombra do muro da fortificação começava a cobrir as plantações internas e um gramado verde que servia de campo de futebol. daqueles bem ruins.. Tinha dentes. — Ele falou em fogo e fumaça. Elton. Falou em inferno. — Existe um lugar. — Não.. — Você consegue essa informação? Elton ergueu os ombros e olhou para os soldados ao seu redor. Está estafado. Percebiam que algo acontecia. mas não lembro. atormentado. O líder Elton aproximava-se a tempo de ouvir a resposta de Francis.Um monstro terrível. — Onde ficava isso? — Não lembro. O grupo de gente ao redor de Lucas aumentava. As casas mais ao centro gozavam da luz amarelada do poente. Lucas estava aos berros por causa desse lugar.. eu não consigo lembrar exatamente. Os bentos do norte agora estavam em perigo. Vicente. É para lá que Lucas quer nos levar. servia para o lançamento de foguetes que levavam satélites. Um pesadelo. — Era um lugar científico.. 328 . sempre fui curioso com o espaço. será "inferno" mesmo? — insistiu Vicente. de pescoço longo e escamoso. Lia muito "Superinteressante".. É só um mal-estar.

pode estar infestado de vampiros. com os líderes e bentos reunidos numa ampla mesa. respondeu: — Tem a casa da dona Fátima. propício à caça e a ao esconderijo dos seres da noite. mas o grosso dos ex-moradores da capital baiana tinha se dividido. Lucas. As metrópoles transformavam-se num labirinto sem fim. Cerca de uma hora mais tarde. — Leve-o até essa casa. como em tantos outros grandes centros urbanos. 329 . indo esconder-se no interior. — Veja se descobre alguma coisa. O grande salão.. Boa parte dos sobreviventes de Salvador haviam migrado para aquela localidade. sob o olhar de todos. servia de garagem. Lá é um tipo de biblioteca. Veio até junto da mesa. Ela era professora e continua professora. Santa Maria não era um centro pequeno. que ainda não foram alfabetizadas. é um nome do passado.O alvoroço ao redor de Lucas aumentava. soldado local. Lucas levantou-se. — Não sabemos se ainda existe. Tinham voltado ao alojamento dos soldados. Os vampiros tinham dominado Salvador. acho que vamos levantar acampamento essa noite mesmo. — balbuciou Lucas. — Tem alguma biblioteca aqui em Santa Maria? Tem algum astrônomo que vive aqui? Diego. O grupo permaneceu em silêncio. sobre sua inesperada decisão de abandonar Santa Maria.. Eu estava certo. oficina e arsenal à milícia local. — Fica ao sul de Natal. Elton puxou uma caixa de madeira e sentou-se para recuperar o fôlego. — É para lá que vamos. tão igual a tantos outros em outras fortificações. como tantos outros. Centenas de histórias de famílias inteiras devastadas pelas nefastas criaturas circulavam pelos lares dos sobreviventes. Os brados dos cidadãos subiam de volume e os poucos soldados ao redor do trigésimo demonstravam dificuldade em conter a multidão. Ensina uma porção de coisas para a população que freqüenta as aulas e para as crianças despertas. Barreira do Inferno foi uma base de lançamento de foguetes. — pediu Francis. Voltava ofegante. fazendo do centro um covil gigante.. Foi um lugar. — Eu descobri. descobri onde fica a Barreira do Inferno.. em fortificações mais distantes. fugindo das cercanias do velho centro.. formada por diversas tábuas sobrepostas em cavaletes de ferro soldado. — Esse lugar.. Elton surgiu. a população resolveu dar trégua ao trigésimo. Elton disparou com Diego. enquanto Francis tentava vencer a multidão e aproximar-se de Lucas. com o boato de que bento Lucas não passava bem correndo de boca em boca. — Então esse lugar existe. Salvador havia sido palco de grande desgraça. Voando! Já me acostumei com Lucas. Quando os bentos presentes começavam a conversar com Lucas. — interrompeu bento Teodoro. Elton. como se tivesse acabado de disputar os cem metros rasos.

— Quanto mais demorarmos para sair. Não esqueça. — disse Francis. O bicho tá pegando. batendo no tampo da mesa e colocando-se de pé. o último guerreiro recolhido pela comitiva. — Aquele lugar pode estar infestado de vampiros. Lucas. Francis. merda! — irritou-se Lucas. Eu tive esse sonho por alguma razão. Faltam apenas seis de nós para juntarmos todos os bentos. todos nós. — E se eles nunca chegarem? E se Duque o os outros forem mortos por um bando de vampiros? O que você vai falar pra mim. Se não nos movermos agora. Sua barba crescida deixava o rosto enegrecido e acentuava o ar cansado.. sustentando seu olhar acusador.. de algum jeito. Quando o Duque chegar com o resto dos caras. Precisamos ir para a Barreira do Inferno. — Quase nos matou. pra continuar essa andança eu preciso de um aditivo. Não fui eu quem colocou-os no caminho. — Você não ouviu Teodoro? — insistiu bento Francis. — Acalme-se... rapaz.. São dez dias de viagem até Natal. Ninguém é melhor que ninguém.. Quase perdemos tudo por causa desses sonhos. — balbuciou bento Pedro. — A gasolina acabou. Eu vi o inferno. — Colocaremos em risco se sairmos daqui sem uma boa razão. mais vamos demorar para chegar. Precisamos descansar. Lucas. — Eu vi fogo e fumaça. em tom conciliatório. Todos nós combatemos os malditos. Lucas. Temos todos a mesma missão e a mesma vontade. Estamos exaustos. Sei que precisamos estar lá.. Estamos a cavalo. — Só sei que tenho esses sonhos. meu bagulho acabou. Vamos sentar o rabo em Santa Maria. é que. Os malditos estão no nosso caminho. mas não vi vampiros. só sei que tenho que ir. — Eu segui a voz. Seu tórax de prata subia e descia rapidamente. Os veículos a motor estão sem combustível. bento Teodoro? 330 . Por que mudar as coisas agora? — Por quê? Não sei o porquê. Temos que ir. encontramos desgraça. Lucas. Lucas estava nervoso. Andou até Francis e apontou-lhe o dedo. Somos todos irmãos. colocaremos a profecia em risco. — O problema. Nosso futuro está em jogo! — E os últimos dois nos colocaram com a faca no pescoço. Quando abri os olhos nessa minha terra ela já estava assim. — Eu matei mais vampiros que qualquer um de vocês. Assim não dá. encarando Pedro. os desgraçados estão fechando o cerco. Pedro não respondeu. infestada de demônios que perambulam à noite.. Bento Vicente deixou a mesa e postou-se ao lado de Lucas. a gente vai pra esse quinto dos infernos. Lucas olhou para Pedro. eu sou o escolhido. Preciso ouvir um Bob Marley.— Não podemos. — interveio Teodoro. Pra onde essa voz na sua cabeça nos manda.

trocaram olhares rapidamente. Com ou sem vocês. A decisão está tomada. Não só dos bentos. Partiremos assim que a tropa for reabastecida. não é perder tempo com incertezas. — Santos Deus do céu! Que Você nos proteja. Lucas andou pelo salão. — Não fui escolhido como o trigésimo bento à toa. Isso aconteceu por um bom motivo. Os soldados que se mantinham ao redor dos bentos. Bento Francis inspirou fundo. Depois tornou para Vicente. — dessa vez seus olhos ficaram em bento Teodoro. — Lucas. Seguirei meu destino. 331 . — Ninguém foi escolhido bento para viver um mar de rosas. Minha missão é estar onde devo estar.. esperando um baseado.Teodoro ficou mudo. Ficar aqui dormindo enquanto Duque e os outros entram na boca do diabo não é nem de perto nosso objetivo. Veja com Elton o melhor trajeto até essa Barreira do Inferno. Olhou nos olhos daqueles homens. O grandalhão estava com expressão séria.. Sua capa surrada balançando nas suas costas. E o motivo é que eu não pestanejo. Os olhares convergiram para Vicente.. incapaz de responder. Seguirei meus instintos até o fim dos meus dias. que abriu um sorriso malicioso seguido de uma expressão de desconforto quando percebeu o olhar dos demais. Francis. — Muito menos para ficar com a bunda no chão. — Cada um tem que puxar a sua sentença. mudos e atentos.. — Não gaste argumentos. Estamos aqui. dos soldados também. — continuou Lucas. nem com um bando de descrentes. é até o inferno que iremos segui-lo. Eu não paro pra pensar. — Eu parto essa noite. Precisarei de vocês ao meu lado. quando abria a boca costumava ser escutado. — Pegue um mapa. pois esse maluco vai acabar com a gente! Lucas sorriu olhando para Francis. Vou e faço o que tem que ser feito. Se a nossa pena é seguir Lucas até o inferno. reunidos em Santa Maria para uma razão. Quase não falava nos últimos dias.

. como despertando pela segunda vez do transe de repouso. O vampiro-rei tocando sua mente e despejando suas vontades. Uma coisa importante. Agarrou-se ao galho da árvore seguinte. Mas precisava cumprir a vontade do vampiro-rei. fazendo brotar da pele dilacerada gotas negras de sangue viscoso. Desceu mais. Queria sangue vivo. A seus olhos eram novos seguidores prontos para serem agregados ao novo exército. O vampiro fantasma. A criatura soltou-se da parede de rocha e tocou o chão com suavidade. Esqueceu do cheiro da caça e passou a farejar os vampiros. Antes dos humanos encontrou o grupo de caçadores.Capítulo 44 Anaquias abriu os olhos ouvindo um eco em seus ouvidos. O odor da caça desprevenida era forte. Mas o cheiro da caça era o mesmo. O vampiro-rei projetou uma imagem em sua mente. Criaturas da noite ávidas em saciar a fome.. Seus olhos espectrais varreram a floresta. Os confrades ergueram os olhos para o forasteiro. Aquele rosto. Precisava cumprir o desejo do deus da noite. produzindo um estrondoso "creck" ao esmagar os ossos do punho do agressor. ampliando o horizonte. iniciando o vôo de árvore em árvore. Precisava de um exército glorioso para preparar sua chegada. também exibindo seus dentes pontiagudos. Saltou do galho.. A claridade residual fazia arder os olhos. O primeiro e mais arisco dos vampiros atirou-se sobre Anaquias. Com rapidez. Os cheiros da mata eram diferentes. O ar. Escalou vinte metros. Precisava de mais vampiros. revelava que o astro rei deitara-se há poucos minutos. ainda quente. reconheceu a vampira de pele negra. Abriu os olhos vermelhos como brasas. Anaquias correu alguns passos e arremessou-se ao frondoso tronco de um jequitibá. Caçadores no caminho. Estranhamente. O espírito do vampiro-rei. Saltou para os galhos mais altos. Sangue. contar que estava em conexão com o espírito da noite.. Agarrou a mão do terceiro. desviando-se do segundo atacante. Queria o prazer da emboscada. Anaquias expôs seus dentes longos e desceu de encontro ao grupo. de alguma forma lhe parecia familiar. A caverna escura e úmida abrigava centenas dos seus. 332 . No grupo adiante teriam que lhe dizer uma coisa. transpôs os poucos túneis que davam para fora do covil. Estava faminto. O vampiro do sul cravou as garras na face do atacante. como lhe pedira o vampirorei. As árvores eram diferentes. Tinha seguido ao norte. Cheiro de vampiros. Precisava de vampiros e de informação. Seguiu a trilha. O vampiro-rei soprou-lhe um nome. Saltou para o ar. Anaquias fechou os olhos. enebriando-se com a presença de seu deus noturno. mas não impedia o início da caçada. Não queria sangue de adormecidos aquela noite. caindo no centro do círculo formado pelos vampiros. Vozes. o único vampiro com alma. A maldita atendia pelo nome de Santana. Faminto e perigoso. Santana foi a única que se esquivou. Balançou o corpo. Bastaria contar a boa nova.

— respondeu Anaquias. cobrindo ao redor com um espectro rubro. — Sabia. vampira.. não foi. Informação importante. certamente. vampiro? — Briga.. Santana expôs seus dentes ferinos. depois seu rosto abriu-se num sorriso maligno. exibindo as presas mais uma vez. Santana. — Vim atrás de informação. — O que quer saber? — O que é a Barreira do Inferno? A vampira permaneceu calada um instante. A risada de Anaquias alastrou-se pela noite. — O que veio buscar. Anaquias deixou os olhos brilharem num vermelho intenso.— Parem! — bradou a vampira-líder. Sabia. 333 . Santana.

subiriam a costa brasileira. pois o melhor caminho cruzava com a velha Salvador e não seria nada sabido querer incentivar os homens a uma viagem à Barreira do Inferno. Não sabia o que procurava nem o que procurar. mas até que era interessante estar no navio. Nessa ocasião obscura em seu cérebro só sabia que. Fora muita sorte ter encontrado dois navios em condições de prosseguir jornada. tilintar de cotas de malha e capas vermelhas surradas. e o casco 334 . e desembarcariam ao sul de Natal.Capítulo 45 Lucas caminhou entre os homens. Lucas não se lembrava de ter feito um cruzeiro em sua vida pré-adormecida. O segundo navio era mais parrudo e lento.. Não só pela manutenção do equipamento. trazendo os cavalos da tropa. bem apropriado para a emergência. o plano jamais teria dado certo. Cada qual agarrado ao seu tanto de suprimento e à sua arma. razoavelmente próximos à base de Barreira do Inferno. com direito a cruzeiros num "Queen Isso ou Aquilo". tinha a nítida sensação de já ter passado por ali. O avançar do navio era ligeiro. Não havia nada ali na água. pegou-se. enquanto sentia o vento cruzar o convés e balançar seus cabelos. começando com o inferno propriamente dito. por aquelas águas. As vozes das conversas iam e vinham em seu ouvido. formando um aglomerado de couraças prateadas. A maioria dos soldados dormia. Só lhe trazia aperto. A superfície do mar brilhava com o sol forte. impressionado com as dimensões da embarcação e olha que. os bentos haviam se juntado em um canto. Esperariam a luz do sol e cruzariam a velha capital durante a luz do dia. Os mulos seriam obstáculo menos comprometedores que a legião de vampiros soteropolitanos. pois o cargueiro. vinha atrás. a sensação era nova. coisa rara nos dias de hoje. Algo dizia que estivera num barco menor. seguindo um instinto. Mirar aquele mundão de água só lhe trazia tristeza. como agora. numa embarcação ligeira. Caso tivessem que procurar pelo diesel. que tinha o dobro do tamanho. Olhando para o convés do navio. mas. Desviou os olhos do oceano. Apesar do espaço vasto sobre o convés do cargueiro. Levariam dias para juntar tanto combustível. só sabia que nunca havia estado num navio daquele tamanho. Não que aquilo fosse um pacote da CVC. Debruçou-se sobre a amurada e vasculhou as águas cortadas pelo casco.. Junto com Elton e dona Fátima. Decididamente. tinha estado sobre o mar seguindo alguma coisa. mais uma vez. Vicente havia convencido Lucas que descansar seria o melhor antes da partida. Decididamente o mar não era seu lugar.. De navio.. Baixou os olhos para a água. mas pela disponibilidade de combustível a bordo. deixando aumentar gradativamente a distância entre os dois. mantendose afastados dos malditos mesmo durante a noite. Vicente havia descoberto que o caminho mais rápido e seguro seria pelo mar. apesar das lembranças reais serem negadas. como o capitão dissera. Lembrou-se do capitão dizendo diante de seu queixo caído que aquela fragata era uma das pequenas. vinha no menor.

Entretanto. Lucas não queria dar essa chance. que sustenta a erva. sem chance para o erro. Aos olhos da intriga que brotava. mesmo tendo encontrado aquela rota mais segura. Mas o bento estava determinado a não dar ouvidos às conversas. As últimas excursões tinham sido atrapalhadas. o medo germinava e ganhava raízes nos corações acuados da soldadesca. Não queriam os rincões a noite.. Mesmo Lucas tendo prestado tão maravilhosa demonstração de poder místico. Erva daninha. do que morrer no sertão. Sabia que lá encontraria os bentos restantes. mesmo correndo de boca em boca que o líder Elton tinha visto o espírito do seis bentos no banco de areia. ao menos dois Estados. Se poderiam esperar em Santa Maria. O que fariam lá? Lucas havia prometido uma pausa. sua guia e liderança. esquecer as verdades ao redor do trigésimo e colocar em xeque suas virtudes. Durante as horas sem sono e o avanço sem trégua haviam se distraído e engolido a semente da dúvida e em suas entranhas essa merda germinava. para o ponto de encontro. Começavam a afundar num posso de lamúrias. que quando bem calçados.. queriam a segurança do muro. Mantinha sua força de líder. revelando ter a habilidade de transformar a água de um pântano todo em água benta. Sabia que tinha que ir à Barreira do Inferno. sem vacilo. Levar os homens de encontro ao destino. Os bentos viriam a Santa Maria. Que deveria defendê-los. perigosas. Os mensageiros haviam partido há vários dias. Lucas agora parecia afastá-los do motivo principal da jornada. eram capazes de balançar qualquer fundamentalista. Os cochichos funcionavam como esterco. Até mesmo aqueles argumentos. Lucas tinha certeza do que fazia. a mercê das criaturas das trevas. começavam a destruir o mito. queriam descanso. também suas convicções. Era isso que a voz transformada de Bispo lhe soprara no pesadelo. escusas e acusações. bombardeado pelas tempestades dos últimos acontecimentos. Só não tinha certeza do que encontraria. Sabia que estavam com medo. Aquele incêndio cego de fé e devoção que ardia na alma de seus seguidores arrefecia. seguiam contra vontade para o norte da região nordeste do país. Não entendiam a mudança repentina nos planos. Com medo. um descanso. Tinha que ir e levar seus homens à Barreira do Inferno. Pelos cálculos de Elton. Tapava os ouvidos. O respeito e admiração dos homens havia se convertido em medo. nos lombos dos cavalos. por que não o faziam? Seria mais difícil ser morto numa fortificação preparada para a defesa.rasgando a água provocava um barulho ritmado e gostoso. que alimenta a raiz. Estava expondo o grupo a um perigo desnecessário. Mas.. Vicente e de mais dois soldados que haviam sido marujos no passado. Era isso que importava. O desgaste físico dos últimos dias havia corroído além das fibras de seus seguidores. Defendê-los dos malditos. não dar chance aos argumentos. Viriam ao estado da Bahia para a junção das trinta espadas. Tinham medo. capazes de abalar certezas. Por sua vez. a embarcação atracaria no Rio Grande de Norte dentro de um dia e meio. E o medo construía todo o tipo de história. sem chance para os 335 . Indo pelo mar também evitariam novo confronto com os malditos sugadores de sangue. Certamente seria mais rápido do que cruzar o nordeste. mantinha seu olhar.. os bentos e boa parte dos soldados formavam oposição.

Uma peça de quebra-cabeça. os escolhidos abençoados naquele navio. nem dar resposta. Cabia a eles. "Acontecesse" o quê? Isso ainda não sabia. Era como ele havia dito em outra ocasião. Tinha que estar lá quando acontecesse. Isso o danado do Bispo não conseguira revelar. Lucas inspirou fundo e baixou a cabeça. sacar as espadas e juntar as peças. 336 .vampiros.

Essa era a ordem do vampiro-rei. Unia-se com o mundo místico e trazia receitas do espaço oculto. tal qual fazia o maldito trigésimo guerreiro dos humanos. Bispo via com a energia. Enganara o universo.. nenhum conselho de vampiros ousava dizer-lhe não. O vampiro-rei. haveria de fazer delas um bloco unido. Os líderes vampiros estavam rendidos aos pedidos do vampiro profeta. Eram maioria. Por isso Anaquias contemplava abaixo dos seus pés o numeroso exército vampiro marchando a caminho do leste. mas ainda um cego. mas não lia nas entrelinhas.. Anaquias havia visto o espectro maldito. Os olhos humanos não tinham sido abertos. Um vampiro-bruxo. Anaquias deveria organizar um número de criaturas da noite. suas últimas conquistas.. Tinham que vencer. Soprasse-lhe qual passagem diante a bifurcação os vampiros deviam tomar. Esse não era um cego! O vampiro-rei via tudo e lhe dizia tudo. Anaquias não podia parar de recrutar. O vampiro-rei jazia com o sangue escolhido nas veias. um rio de brasas. A energia tornava desigual. tinham que tirar partido da ignorância humana.. preparando-se para o turno de jogo. dentre as árvores. Em razão de seus últimos sucessos. Anaquias havia visto os bentos unindo-se ao sul de Natal. Anaquias deveria estar lá. Ah! Os vampiros aproveitaram a piscadela. Fazia com que ela lhe soprasse a boas novas. Anaquias deveria impedir. Do vampiro desaparecido. Mas o vampirorei era o oposto de cego levado por um Pincher-guia. Um vampiro-bruxo. A notícia de que o vampiro reunia soldados para uma organização suprema do exército da noite corria de ouvido em ouvido. Anaquias teria de liderá-los. marchando. preparar um exército para a chegada do mestre de todos os vampiros. E lá estava. passando abaixo dos seus pés. no fito de liquidar com 337 . Anaquias executava diante de seus olhos algo mágico. ordinários. silenciosos. Anaquias VENCIA.. nem pelo mais sábio e receptivo deles. feito lobo sob a pele de cordeiro. Abriu um sorriso largo quando viu as colunas vermelhas caminhando no solo.Capítulo 46 Anaquias subiu no galho mais alto. O vampiro-rei era o verdadeiro portador da libertação.. Os vampiros tramaram contra o sangue de Bispo! Agora aquele bendito trigésimo! Ainda engatinhava na energia. Era isso. Anaquias SABIA. O trigésimo ouvia os sussurros agonizantes da energia soprando em seus ouvidos por meio das migalhas de Bispo que mantinham-se conscientes no estômago do vampiro-líder. pelo homem chamado Bispo. Deveria organizar o ataque. Enganara as energias. seriam esmagados pela energia apontada aos humanos. Do contrário. Tomara para si o destino e passara ele a ser o escolhido. olhando para um tabuleiro as trinta pecinhas mexendo-se. Um cego com um maravilhoso cão guia. em busca do confronto. seduzindo cada vez mais seres das trevas.. um bloco com propósito. A caminho da Barreira do Inferno. Anaquias VIA. tão mágico quanto seus corpos mortos e ambulantes. A energia tomava partido.. O vampirorei lhe soprara ao ouvido. O velho aguardara mansamente. vindo em sua direção.

Anaquias virou-se para contemplar. assustador. A superioridade daria cabo do destino. marchando. fazendo o cume das árvores oscilarem com suavidade. Tinham que devorá-los feito dragões famintos diante de carne sangrenta. mais uma vez. silencioso. Anaquias saltou veloz dentre os galhos. Tinham que acabar com os bentos antes que se unissem. Para alcançar a vitória. Abriu mais uma vez seu sorriso maléfico. seu maravilhoso exército de trinta mil vampiros. Dizimar em um só ataque a maioria dos guerreiros místicos da luz que defendiam os muros das fortificações contra os guerreiros místicos das trevas. saltando ao ar e descendo até seu cavalo.a estratégia dos bentos. magnífico. A chave para alcançar sem grande perda todos os Rios de Sangue do Brasil Novo. Pouco mais a frente. Anaquias tomou as rédeas para si e bateu com os calcanhares na montaria que disparou. Acabar com a esperança dos humanos. 338 . carregado pela rédea por outro vampiro.

Bento Justo deixava o dedo dançar no ar. que eram conduzidos para os caminhões. Era bento Augusto. 339 . irmãos! — disse Augusto. notaram uma agitação tremenda dentro dos portões. Alguns moradores aproximaram-se da comitiva de guerreiros abençoados. Augusto caminhava rapidamente. talvez por isso tivesse se impressionado tanto com a vivacidade dos olhos azuis escuros do guerreiro. Andaram de encontro ao sexto e último bento. mas antes tenho que terminar o que comecei. Os vampiros estão mais perigosos a cada lua. Logo que adentraram os portões. apontando para cada caminhão para não perder a conta. Augusto olhou para os caminhões e de volta para os amigos. — Sim. Nunca tinha visto Augusto. Vieram rápido. Azuis feito duas bolas de gude.. — Satisfação em vê-los. Viram uma fila interminável de caminhões estacionados no meio da rodovia que cruzava a fortificação de fora a fora. Esperavam que Augusto partisse prontamente. acreditava que vocês chegariam dias mais tarde.. num entra-e-sai sem fim de um complexo de cerca de dez galpões altos. Vinham tocar suas capas e pedir proteção. A brisa marinha invadia os muros do forte. As macas traziam adormecidos. Finalmente havia concluído sua parte. Duque notou uma extensa cicatriz no lado esquerdo do rosto pálido do bento.Capítulo 47 Duque e seus guerreiros chegaram a Nova Natal por volta do meio dia. Os bentos olharam para Duque. — Bem. — Sigo com vocês. — Quarenta caminhões. trazendo um cheiro agradável ao olfato. para o encontro final. Amintas foi o primeiro a desmontar e pousar a mão enluvada na cabeça de uma garotinha que aparentava seis anos. Duque abriu um sorriso largo. Não imaginam minha alegria em saber que viriam. que o trigésimo bento estava desperto. com a capa vermelha esvoaçando para trás junto com seus longuíssimos cabelos negros e lisos. Amintas apontou para os amigos. e mais. — Seu mensageiro chegou há poucos dias me avisando do encontro. não contendo a satisfação. O desfecho da profecia chega em boa hora. Agora conduziria todos a Santa Maria. como é sua vontade. Ao que parecia os corpos em suspensão estavam de mudança. Nossa! O que estão fazendo? Duque e os demais sabiam que Nova Natal possuía um gigantesco depósito de adormecidos. Sinalizou para bento Duque. Tenho urgência em entregar vocês a bento Lucas. Os guerreiros trocaram abraços fraternos fazendo as couraças repicar ao contato. Viram homens carregando macas. O negro ergueu o braço e acenou. aproximando-se e estendendo a mão. Célio viu um rapaz encapado deixando um dos galpões.

irmão. formando corredores por onde os homens andavam. irmão? São os caminhões? — Exatamente. Duque achava impressionante a quantidade de adormecidos que passavam nas macas e eram levados às carrocerias dos veículos. As preparações terminam hoje e esta noite partiremos com o comboio para a nova casa. Mesmo assim precisavam de ar circulando nos pulmões. Tivemos também sucesso na destruição de um covil de vampiros que mantinha um Rio de Sangue. O interior havia sido tomado por estruturas de madeira montadas de formas geométricas lembrando colméias. Os corpos eram empilhados em grande quantidade. De ouvir os médicos em outras ocasiões sabia que aqueles corpos consumiam uma taxa muito diferente do que eles. as fiações. mas depois de trinta anos é um monte de ferro-velho. Até a conservação dos jardins e as pinturas dos edifícios é mantida em dia pelo Franjinha. Nossos grupos de busca têm encontrado muitos adormecidos recentemente. exigindo pouco oxigênio no organismo para manterem-se vivos. Estamos voltando das cidades mais distantes cheios de pessoas com sono. abandonado pós-Noite Maldita.. Tudo funciona na Barreira do Inferno. parece que foi construída ontem.— O que te prende aqui. — Vive lá um carinha singular. Vive inventando coisas. Provavelmente Duque sofria de claustrofobia. Só falta foguete pra lançar. Os adormecidos queimavam o mínimo de energia. — Nova? — Sim. Cada adormecido era separado por uma distância mínima do corpo seguinte. — Como a base pode estar tão conservada assim? — perguntou Célio. Montou um gerador de energia elétrica para abastecer o centro. Olhou para um dos compartimentos. Concordei com o líder de Nova Natal a trasladar boa parte dos adormecidos desta fortificação para uma nova. a base. Até tem um lá. Seguramente contariam com ventiladores ou algo similar para garantir a ventilação adequada para os corpos. sozinho. Agora. Chegaram ao fim do primeiro caminhão. — Esse lugar teve uma imensa instalação adequada às necessidades dos médicos em manterem os adormecidos em condições minimamente humanas. os despertos. não era? — Era não. — Onde fica esse lugar? — Barreira do Inferno. — continuou Augusto. Já ouviram falar? — Era uma base de lançamento de foguetes ao sul de Natal. É. Parece cientista. 340 . Olhando novamente para as estruturas onde eram empilhados chegava a sentir ansiedade. meus amigos. — Esse comboio irá levar os adormecidos para nossa nova fortificação. Estamos ficando sem espaço por aqui.. Começaram a andar em direção aos caminhões. Vocês verão que figura. Apelidamos o sujeito de Franjinha. Os computadores.

341 . faltando pouco para o amanhecer? — O caminho está limpo. — insistiu o bento negro. Amanhã pela manhã. — Partimos agora? — quis confirmar Duque. O cara nunca viu um vampiro na vida dele. desculpe Duque. — O quê? — Segundo Franjinha. Faz meses que nenhum ataque acontece por essas bandas. Nossos cavalos serão levados num dos caminhões. bento. A viagem dura cerca de quatro horas. Nós partiremos agora. — É seguro. pois sou o responsável pela segurança na Barreira do Inferno. passando a mão na cabeça. A temperatura vai subir tanto que eles morrerão no meio do caminho. Duque. Só não partiremos em uma hora por causa do sol. E tem outra coisa. — refletia Duque. Seremos piores que os vampiros. — Acho arriscado.— O que você quer dizer com "verão" ? Nosso destino é Santa Maria. no máximo. Chegamos na metade do tempo do comboio. — Não vou abandonar meus homens na reta final. Augusto encarou Duque. Tem um veículo à minha disposição. Se cruzar com um na mata é capaz de dar boa noite e passar batido. Só poderemos viajar quando anoitecer. Faremos o percurso em duas horas. Duque estendeu a mão para o bento de olhos azuis. ao norte de Salvador. Os soldados vão fortemente armados nos caminhões. — Veja. cara. — Agora. como é seu desejo. Vão carregados em excesso. — Fechado. a Barreira do Inferno nunca foi atacada. Vamos em um carro rápido. Por que não vamos de madrugada. no máximo. nem em povoado nenhum ao redor. — Temos que nos juntar a Lucas. — Justo no anoitecer. nem aqui. Eu partiria agora mesmo. Se fecharmos essas carrocerias com toda essa gente ai dentro. Temos monitorado a estrada há semanas. Os caminhões estão quase cheios. será um massacre. partiremos para Santa Maria. — Não sei.

Via uma extensa faixa branca. estivessem perdendo a força. estamos a quarenta minutos da costa. Passou a mão pela barba cheia e fitou mais uma vez o céu rubro. os bentos. — Devemos estar perto do destino. Pensamos em ancorar e repousar em alto-mar. apontando o continente. O turno do jogo mudava de lado. que imaginam ver um muro de fogo. 342 . — Está vendo aquelas falésias? — perguntou. Caso algo saísse errado.Capítulo 48 Lucas segurava firme a amurada do navio. Alguma coisa estava favorecendo as criaturas. — Barreira do Inferno. Mais e mais fatais. Ao adentrarem o estado do Rio Grande do Norte.. que pareciam mais e mais organizados a cada noite... Será mais seguro para o descanso dos soldados. Soltou-se da amurada e caminhou para o meio do convés. O sol descia de encontro ao horizonte. Essa listra de areia branca reflete com intensidade a luz do sol nascente. Por onde passavam recebiam notícias de ataques de vampiros. jogando o barco para cima e para baixo. Uma muralha de areia. — De acordo com o que eu li na biblioteca da Fátima. o mar mostrara-se mais bravio. na grande maioria. sabia que muitas vidas seriam perdidas. — emendou o soldado. Alguma coisa estava acontecendo. O trigésimo aquiesceu em silêncio. Lucas mirou na direção apontada. Os motores potentes faziam a embarcação singrar o mar. cortando velozmente as águas. Elton alcançou Lucas e parou ao seu lado. Era como se eles. num sobe e desce incessante que custou a tripa de muitos dos soldados. Era a vez dos vampiros moverem-se no tabuleiro. tirando da terra a luz protetora que manteria os homens livres das bestas. ao extremo da fé no invisível? Os milagres estavam em xeque. A visão de fogo e fumaça tomou-lhe os olhos. Lucas sentiu um arrepio percorrendo-lhe a espinha. o apelido de "Barreira do Inferno" vem dessa areia. Por que tinham sido carregados para lá? Por que os sonhos lhe imbuíam de tanta urgência e faziam com que arrastassem aqueles homens ao extremo da capacidade. enganando os olhos dos marujos. por soldados que faziam sua escolta.. Lucas sorriu. observando por um longo instante a tripulação composta. não um muro de areia. Podiam sentir o cheiro de algo mudando. O segundo barco levará mais de seis horas até aqui. — fazia sentido. Bento Vicente aproximou-se. Está escurecendo. — Lucas. Chegava a hora de descobrir o significado de tão estranho pesadelo.

Não faz. Uma situação atrás da outra. Depois de quase um minuto foi a voz de bento Teodoro que ergueu protesto. certamente não para ficar nesse barco enquanto os outros vão de encontro ao destino. busquei a estrada. A lógica. bento Teodoro. Primeiro o tirara da ilha no meio da noite. mas. — Nada. Muito menos sonhar com o nome e com um lugar que eu nunca vi e agora tê-lo a minha frente. Nada tema. devemos continuar nossa jornada. pela segurança do sol. Fui feito um bento por algum motivo. e agora quer nos tirar do barco com a noite entrando. Tinha tido também a travessia do rio. Foi escolhido por alguma razão. Teodoro emudeceu. onde 343 . O destino nos reserva um episódio inadiável nas terras do Rio Grande do Norte. Tinha medo. Não estou com medo. Lucas era o trigésimo bento. mas nós. Nem mesmo arrancar a espada da bainha e destroçar trezentos e sessenta vampiros no meu primeiro combate fez sentido. depois os outros ao redor. Engoliu a saliva que se juntava na boca. não busquei sentido. Tinha medo sim. Essa correria de nego na larica não faz sentido. homem? A noite está chegando. os escolhidos para o combate. tema. — Não. Os homens mantiveram silêncio. às cegas. se meu pedido é demais. bento Teodoro. Ajeitou seu cabelo vermelho rastafari. esta noite. do contrário não portaria esse peito de prata. Era firme e resoluto. quando ele havia prevenido sobre o perigo... Depois aquele encontro com os gorilas. por isso não ficarei aqui mais nenhum instante. Não poderia argumentar contra o líder. — Estou num barco. Fará parte do meu grupo. mirando a figura incansável de bento Lucas. os dezoito bentos. — Não é medo. erguendo os braços. Quando o velho Bispo me disse que eu guiaria essa gente até o desenlace dos prometidos milagres. não desperte o temor nos restantes. Você já nos arrastou até este fim de mundo. Lucas agia estranhamente. — Está louco. Deixe os soldados aguardarem pela luz do dia. Os homens mantiveram o silêncio. bento Vicente. Deixe-nos descansar. Não sabemos o que nos aguarda no litoral. Era uma chama que ardia diante de seus olhos. cercado por irmãos. — É só a razão..— Assim pode ser. devemos avançar. Quanto a nós. apresentados pouco mais de um mês atrás. Teodoro. pois nos últimos dias havia visto mais coisa estranha acontecendo do que em toda sua vida. Deixe os homens descansar. Não podemos ir. agora. colocava a todos em perigo e em situações que pareciam desnecessárias. Nem mesmo acordar preso à uma maca.. com um tubo de soro hidratante na veia me fez sentido. Lucas. Lucas encarou Teodoro. por favor. Alguma coisa me diz que tenho que chegar lá o quanto antes. bravura e uma espada afiada na cintura. — respondeu Teodoro. Vão de encontro ao que foi visto pelo velho Bispo.

cada vez mais cegamente.dois soldados foram devorados pela correnteza. com o vento farfalhando seus cabelos e capas. serpenteando em direção ao convés. caso uma daquelas marolas fosse mais violenta. passou a descer lentamente. — Bento Vicente. Não lhe cabia duvidar do destino. Ele recebia comandos. Perdera o ar inocente e também a leveza. Vicente foi até a ponte de comando. Os bentos iam calados. Sob orientação destes conseguiu embarcar os dezoito bentos numa embarcação menor. em seguida. Assim que conseguiram afastar-se cerca de cinco metros. Acionou a bateria e injetou gasolina para. Os bentos agarraram-se às cordas que rodeavam a lancha de borracha. Com o sol baixando do outro lado da embarcação. criando coragem para seguir Lucas. Tinha escutado atentamente os ex-marujos e não teve dificuldade para encontrar a partida do motor. A lancha verdeoliva. o motor roncou e impulsionou a lancha num coice inesperado. Vicente soltou os cabos. não cabia a eles julgar a urgência do trigésimo bento. dando a impressão que seria engolida para baixo da água. tal qual seguidores fanáticos de um deus que caminhava na terra. guiasse a embarcação inflável até o litoral. Tudo por culpa de uma marcha sem paradas. de alguma forma. com total senso. Na terceira puxada. puxar o cordão que girava o motor de arranque. a qual apanharia a todos em menos de meia hora. Estava duro e inconseqüente. atada a cabos de aço. providencie nosso transporte. Cada qual imerso em seus pensamentos. Lucas ia ao encontro dos milagres. Parecia mais um ditador do que um salvador. diante do mutismo do bento discordante. atrelados a um mecanismo controlado do convés. — ordenou o trigésimo. os bentos afundaram precocemente na escuridão. Alguns chegavam a achar que Lucas. Mas cabia-lhe obedecer. Fosse todo bento agir igual. por meio da manopla atada ao leme e ao acelerador. Não seria um covarde. Deram espaço para que Vicente sentasse junto ao motor e. submetendo-os às mais duras provações de fé. razão e previsibilidade. assim marcharia. ainda tinha contato com o 344 . Lucas tinha dito bem. Vicente atravessou com dificuldade o bote cheio e chegou ao motor de popa. retornando instantes depois com soldados que tinham tido experiências náuticas antes da Noite Maldita. Os semblantes estavam longe de mostrar paz de espírito e contemplação da bela paisagem que cada vez crescia mais no litoral. feita de borracha inflada. que foram recolhidos mecanicamente. Os primeiros quinze minutos correram bem. Ele ouvia coisas. A embarcação menor ondulava ao lado do casco do grande navio. Ele sonhava coisas. buscando firmeza. qualquer um deles poderia ser o eleito. Se o grupo marchava com Lucas. Lucas era diferente. Teodoro tinha medo e razões para tanto. O bento apanhou um remo e afastou a lancha do velho casco. Não lhe cabia duvidar da escolha. manchado e tomado por crustáceos que há muito aderiram ao metal fazendo do navio sua moradia. contando com um possante motor.

na razão de tanto espanto. Lucas era poderoso. Ele era o escolhido para banir os sugadores de sangue da face da terra. Temiam a direção. Temiam o caminho. — Olhem! — gritou bento Dimas. — Deus. vidas e mortes seriam contadas às gerações vindouras. Os bentos fizeram mira na praia. em diversos pontos.. — Olhem! Aqui! Na água! — repetiu o bento assustado. diante do espanto. Não há grande vitória sem grandes heróis. O ronco do motor começou a ser engolido pelo ronco dos vagalhões estourando na praia. — murmurou bento Francis. Aferraram-se as amarras para não serem atirados na água. Leriam num grande livro seus feitos e sua luta contra os demônios das trevas. os peões que desenhariam aquela aventura. Eram eles. retirando a espada da bainha. 345 . tentando adivinhar qual deles cairia. cada homem ali sabia qual era o seu papel. apontando agora para baixo do bote. Muitos deles ali no bote entreolhavam-se. Depois dos quinze minutos iniciais e do total silêncio da tripulação. Eram eles que dariam nome e forma às fábulas vindouras que seriam eternizadas pelos letrados da ocasião. E assim ele faria. Além das imensas falésias diante de seus olhos. Não cobriria as costas de todo mundo. apesar de tudo. O bote. motorizado. O mar agitava-se mais a cada dezena de metros avançado. Mas. Suas vitórias. Pois não eram meros expectadores. aquele conjunto de quase vinte cabeças. Praias. reduziu a aceleração. viam agora. o mar começou a ficar mais revolto com a aproximação quase completa do litoral. o protetor de Santa Maria.falecido Bispo. a grandiosidade da missão e a preocupação demonstrada por Lucas em alcançar quanto antes os bentos na Barreira do Inferno davam uma dimensão do perigo pela frente. As gerações vindouras honrariam seus nomes. não era um deus na terra. estreitas faixas de areia. que ouviriam esses causos da boca de outrem.. situação bem semelhante a das predições do velho Bispo. Mais um chacoalhar perigoso da embarcação. ao contrário disso. Suas mortes. fazendo o bote deslizar mais devagar. E. Vicente. Haveriam de depositar sobre os mausoléus imponentes onde seus restos mortais descansariam. estava cercado por centenas de barbatanas! — Tubarões! — gritou Teodoro. Era uma fera no combate aos vampiros. oferendas e graças pelo sangue dado na luta pelos quatro milagres. Não era aguardar que Lucas surgisse gloriosamente e salvasse seu couro. Era ele a chave para a salvação. — Vejam! — repetiu Dimas. Só assim para explicar as visões e os pesadelos premonitórios. Vicente escolheria uma onde aportariam. sabiam que parte deles morreria. Era ele o salvador do novo mundo. Os olhos correram agora na direção correta. Estavam ali justamente para salvar o couro do trigésimo bento. custasse o sangue de quem custasse. Não há grande história sem mártires. Não se juntam heróis sem um punhado de cadáveres.

— disse.. Ninguém vai pescar seu bichinho. não. observando detidamente a água. tornando por vezes perigosa a distribuição de peso do bote. Tá parecendo o molenga do Matias Greenpeace... ô entusiasmado. — É um cachalote! Só pode ser. Os bentos obedeceram. Atrás do filhote formou-se um trilho de sangue. — Nossa. — balbuciou Dimas. quase inaudível. — É imenso. — Rápido com isso. Lucas ergueu o dorso tentando olhar mais longe. Não viemos aqui para virar comida de peixe. um filhote de baleia surgiu à tona. ágeis caçadores do mar. Os bentos pendiam o corpo de um lado para o outro. lá. Agora centenas de barbatanas cortavam a superfície em movimentos circulares. Virou a cabeça para a esquerda. — Acho que estão atrás daquilo. facilitando que adernasse. O sol minguava e com ele a claridade ia embora. aproximaram-se em alta velocidade. Estava ferido. — É linda! Deus do céu! — exclamou bento Ramiro. abrindo um sorriso e colocando metade do corpo para fora do bote. Barbatanas. — Uma baleia! — berrou Vicente. tomando cuidado. logo voltando a afundar. Afastem-se da borda do barco. Vicente. mantendo-o na embarcação. A mancha negra moveu-se rapidamente. retomando a rapidez da embarcação. — Calma. — brincou o ruivo. Os tubarões. Teodoro perdeu o sorriso enquanto olhava para os olhos do colega.. Em questão de instantes a mancha negra foi tornando-se mais e mais difícil de detectar por conta do déficit luminoso. Para surpresa dos bentos. 346 . novamente acometido por espanto. A lancha oscilou com o movimento dos homens mais o jogar do oceano. Teodoro segurou o bento pelo ombro. Mais uma marola apanhou o bote motorizado. Podia ver.Os olhos dos bentos encontraram uma imensa sombra movendo-se logo abaixo da embarcação. Vicente voltou a girar a toda a manopla. Tinham aumentado de número. mantendo-se sentados. Os tubarões aproximaram-se da lancha. — disse bento Ramiro. — Calma! Calma! — berrou Francis. facilitando a sua percepção por parte dos homens. — Não estão atrás da gente. pelo menos. Fingiram calma. — disse Lucas. preciso de todo mundo inteiro na praia. apontando mais uma vez para a água. vinte deles aproximando-se do bote. Barbatanas de tubarões.

buscando a superfície. Sua mão ainda estava agarrada à corda do bote. Os demais ainda lutavam na água. erguendo a popa ao céu. Vicente manteve-se aferrado ao leme e. A sombra abaixo do bote moveu-se para a direita e começou a ganhar volume. Colocou-se de pé num instante. Ao entrar na primeira onda. quase a noventa graus. Lucas engoliu água salina. O peito de metal pesava demais para conseguir boiar. Sua cabeça subiu à tona por dois segundos. o barco afundou o bico. no instante seguinte. Rastejou para fora da água. Os olhos ardiam. pela água do mar e pela areia. Estava de costas na areia. Quatro passos para frente. sendo pego pela segunda onda. divisando apenas sombras ao redor. soltou-se do bote de borracha e bateu as pernas. Lucas pensou que morreria naquele instante. puxando. Os que puderam. Tossiu. agarraram-se ainda mais forte às cordas laterais. mas ainda flutuando sobre a água. A baleia cachalote provocou uma onda imensa. Em questão de segundos. Foi jogado pelo mar para cima e quando abriu a boca para buscar mais ar foi surpreendido por uma nova onda. Dessa vez. magnífica e assustadoramente. Puxou mais uma lufada de ar para o pulmão castigado com água salgada. Vicente não contou tanto com a sorte. A água agora vinha pouco acima dos joelhos. pelo nariz dessa vez. só ouvia a tosse em coro dos demais. Não conseguiu muito. Afundou com o peso da armadura. Dessa vez. que atingiu o bote dos bentos a bom-bordo. Bateu braços e pernas. posto que ainda estava engasgado. totalmente tombado. Parte dos mantimentos trazidos foi à água e. sentindo a garganta doer. chegaram à arrebentação. — Vamos salvá-los! — gritou aos demais enquanto desatava o peito de prata. Gotículas lançadas ao ar molharam a face dos homens feito chuva. A água já estava escura pela falta do sol. tossindo. os bentos deixaram o queixo cair. O joelho dolorido desde a queda na caixa-d'água foi machucado outra vez quando bateu na areia do fundo. temeroso de serem atirados ao mar e terem a missão encerrada antes de começar. Sentiu a água salgada arder nas narinas quando engoliu mais. Os primeiros gritos começaram. Sem ar. Contou dez bentos na areia. voltando a água com estardalhaço indescritível. aumentando ainda mais a aflição. na tentativa vã de salvar sua cria dos caçadores. O grupo de homens gritou em uníssono. 347 . pois nunca havia conduzido um barco e não fazia idéia de como vencer a arrebentação sem colocar todos em perigo. mas parecia não parar de afundar. Sentiu um empuxo quando a força e o som de outra onda imensa puxou o bote inflável. em mais alguns minutos. Virou-se e ficou de pé. mais mantimentos foram para a água. o gigante do mar atirou-se ao ar. Novo tombo com uma onda ainda forte. Impulsionou-se para cima. O som das ondas era furioso. Firmou a visão. A capa de um bento ao seu lado enrolou em seu rosto.Em seguida. tal e qual o mar. nesse tempo curto. Quando voltou a si. Bateu as mãos na areia e depois o rosto raspou no fundo. Por sorte o pior não aconteceu. todo o ar que pôde. Nova onda na cabeça jogando-o ao fundo e fazendo seu corpo rolar. o barco consertou a inclinação.

vomitando pequenas quantidades de água salgada. Boa parte dos homens ficou prostrada na areia. Vicente chegou arrastado por uma onda. parte das mochilas de lona havia aberto no fundo do mar revolto soltando seus pertences que surgiam como presentes de Iemanjá. Abriu o galão vermelho e despejou parte do conteúdo. Bento Dimas e bento Edgar já voltavam para a água. Lucas tirava os coturnos. apareciam. o corpo imóvel prenunciava a desgraça. só movendo-se quando atingido pela água. os dezoito bentos estavam vivos. Junto ao motor tombado. Agora somente os objetos mais leves. fazendo-a prender-se à areia. puxou a embarcação o máximo que pôde. Sabiam que boa parte das provisões desembarcadas estavam perdidas. trazendo para a terra os pertences de alguns deles. Tinham acima a abençoada luz da lua cheia. Correu até sua espada. sem condições de levantar-se e ajudar a recompor o grupo. ouviu a tosse misturada aos palavrões que o bento começou a proferir.A noite ganhava o céu e a última luminescência do poente desaparecia. Ouviam gritos desesperados na arrebentação. longe de estarem todos bem. O mar bravio estava puxando. Vicente ficou de pé. com a maré alterada. provavelmente pela lua. Dimas. mas estavam vivos. Como trazendo um cardume desorientado. Para a sorte de Lucas e de seu desejo. Lucas ajudava Edgar e Teodoro e juntava as coisas que vinham com as ondas. de ponta cabeça. com as hélices para o ar. que boiavam. voltava com cascas secas de palmeiras e galhos encontrados no chão. que permitia enxergar metros adiante. e voltou com o fio afiado para o empecilho. deslizava rente a areia. que pesavam uma tonelada cheios de água. Aproveitando o empurrão de uma nova onda rasteira. mas assim que Dimas aproximou-se. que tinha corrido até a vegetação rasteira. deixando-os encalhados na areia. Edgar e Teodoro ocupavam-se recolhendo os sacos de lona que vinham com as ondas. Provavelmente. deixada na areia. com as pernas bambas. O sol já tinha descido e o vento do litoral açoitava os homens molhados que começavam a tremer de frio. Dimas correu até o bote que ameaçava voltar ao mar. O barbante soltou-se e Dimas apanhou o galão. caminhando vacilante. Juntou-os perto do grupo maior que ainda tossia e tiritava com a baixa temperatura. Uma nova onda trouxe mais homens de capa vermelha para a praia. Correu até Teodoro e 348 . Dimas. O bote. encontrou um galão vermelho atado por um grosso barbante.

Lucas aproximou-se da fogueira e parou um instante. Passou a mão novamente na região. Lucas respirou fundo ao sentar-se ao lado de Teodoro. Passou a mão pelo joelho direito e sentiu-o inchado e bastante dolorido. Muito provavelmente estavam cansados não só fisicamente. Era só isso que as águas lhe transmitiam. quase afogados. mas nunca parava de procurar. Eles tinham escapado do oceano. Para os animais terrestres. O desconforto que permeou todos minutos infinitos que ficou a bordo daquela pequena lancha. Sentiu mais uma fisgada no joelho. Imenso e poderoso. É certo que queria levantar dali. Cansados de terem o pescoço em risco. buscando algo que não sabia o que era e algo que nunca encontrara. Não por estar na água. Não tinha dúvida. Perda. Lucas notou que o sangramento não era um privilégio seu. Mas os outros não poderiam. Seu olhar sobre as águas. Algo do passado. Instantes. A areia corria pela ampulheta. seguir atrás de um trigésimo maluco. Vendo que todos pareciam remediados. Estavam todos cansados. Aos poucos. um devorador de vida. O mar não lhe dava medo. Sentia dores pelo corpo. Não entendia isso. Quando se batiam contra as criaturas das trevas. e continuar rumo a Barreira do Inferno. Não queria encontrar o que procurava. Seu joelho estava sangrando. O sofrimento físico não era o que mais incomodava. Lucas deitou-se na areia e fitou o céu prolongadamente. cansados. depois labaredas firmes e a madeira crepitante ofereciam calor aos náufragos. agarrando-se aos ossos. O mar lhe dava raiva. Inspirou fundo e relaxou os músculos mais uma vez. Sentia urgência. Daria um descanso de vinte minutos para que os bentos recuperassem o fôlego. latejando. Olhou para os dedos da luva e aproximou-se da luz do fogo. o calor foi confortando os músculos e aliviando o castigo. Um cara que os colocava à prova a cada dia. talvez. Para aumentar ainda mais sua preocupação. O que incomodava agora era recordar o desconforto ao embarcar no bote. Desespero. especialmente no joelho. Os braços também gemiam. Instinto. Sentia desespero. O frio incrustava em sua carne. E esse sentimento só fazia crescer olhando para seus homens estirados. isso cansava e dava medo. Bento Ramiro sangrava na testa. Era um ato involuntário. Tinham escapado de alguma coisa. um ato reflexo. O rosto arranhado pela areia ardia.pediu-lhe o isqueiro de metal ladeado por bandeiras da antiga Jamaica. Tinham que alcançar a Barreira do Inferno o quanto antes. faziam isso sem pensar. enquanto bento Edgar punha um filete de sangue pelo nariz. Mas teriam escapado de quê? Lucas fechou os olhos e apertou as pálpebras. O mar era daquele jeito. Agora. batido contra uma pedra. mas cansados de segui-lo.. Não entendia porque não gostava de pequenos barcos. 349 . daquele jeito. Todos haviam sofrido um bocado.. Falta. Havia sido jogado para o fundo do mar e. Lucas arfou ao mexer o joelho machucado.

Seria como gado. Anaquias farejou o ar. agora que a jornada estreitava-se e a visão alcançava a reta final. mas sabia que estavam lá. Fariam dos humanos escravos. A fome. O vampiro-rei havia visto isto. mas sendo ouvido. Os comandantes pediam um Rio de Sangue para saciar os vinte mil enlouquecidos. Seriam Vitoriosos. amparando-se na sacada do sexto. Cultivariam e engordariam seus corpos. Estava sentado num barril de pólvora e não estava nem um pouco a fim de ver seu rabo de vampiro ir pelos ares. seriam devorados agora. Iriam vencer e subjugar os seres humanos. Apenas isso tirava a concentração. Para sempre. teria de controlar o exército da noite. sem ser visto. A cidade fora tomada pelos vampiros. Os mulos e exilados que perambulavam pelas ruas foram feitos prisioneiros e tomados como alimento. As feras estavam famintas. Tomariam de vez seu lugar no topo da cadeia alimentar. para ver concretizado a visão do espectro. Tinha que impedir o incêndio. Anaquias saltou do décimo andar. O vampiro-rei havia estado em seu transe. O espectro perambulava ao seu redor. Para sempre. mantendo-o fixo à batente. O desejo de sangue. E era isso que trazia instabilidade ao seu comando. O vampiro-rei havia dito. Uma assombração.Capítulo 49 Anaquias saltou para a janela do apartamento. Nenhum sinal deles. Juntaria caçadores e iriam em busca de Rios de Sangue. Queriam uma boa refeição. Teria de alimentá-los. Tomariam deles o sangue. 350 . semi-mortos. Os que ainda estavam presos. Eles estavam lá. Seu exército buscara abrigo na velha Natal. por hora. Mas. Queriam sangue. Anaquias via fogo e fumaça. Suas garras pontiagudas deram firmeza quando inclinou o corpo para frente. Cada um deles seria como uma fazenda. Dariam fim à resistência agonizante daquela raça menor. Mesmo assim não bastavam. Era isso que o espectro lhe soprava. com o anoitecer. O vampiro-rei o impulsionava para o sul. Seriam donos da terra.

consertando as coisas. Disse também que o CLBI nunca 351 . O chafariz funcionando no pátio de entrada do prédio da administração dava o toque final. O nome Marco. realmente. somando à cena aquele rosto de expressões jovens e o cabelo loiro e escorrido caindo pela testa. um maluco excêntrico. Que estranha paixão aquela! Por que um homem que poderia ser de utilidade gigante em qualquer uma das fortificações espalhadas pelo Brasil ficava ali? Sozinho. graças a sua extravagante fixação pela Barreira do Inferno. como se a base de lançamento estivesse sempre pronta para a subida de um foguete ou a chegada de um major ou brigadeiro para inspeção. ao chegar a sala de controle e encontrar computadores funcionando naquele lugar que julgara deserto. tomando abrigo dentro dos muros recém-erguidos ao redor do terreno. cuidando de uma unidade militar desativada. Esse cenário inusitado devia-se a peculiar e incansável mania de Franjinha em manter tudo em perfeita ordem. Graças à claridade refletida pelo satélite natural e a altura da torre de vigia. Vasculhou ao redor. mantinha um vasto campo aberto e conservado. Mas. Situada em região belíssima. Apesar de ter sido avisado e ter toda a situação explicada antes de partir de Nova Natal. Notaram a grama aparada e as árvores cuidadas. lembrando da chegada.. Duque baixou a luneta e sorriu. Ele e seus companheiros de jornada souberam que estavam enganados assim que adentraram os limites da base. Marco Franjinha era um excêntrico. como se de um dia para o outro. Aquele cuidado com a base era resultado de uma devoção inexplicável de Franjinha. E aquele zelador? O que era aquilo? Uma figura. Todo aquele zelo nada tinha a ver com os soldados de Nova Natal. ia sendo esquecido com o passar dos dias. Sem dúvida. Logo um grandioso contingente de adormecidos chegaria. Um lugar cheio de computadores inúteis e prédios vazios. A noite ia adentro com a lua cheia brilhando alto no céu.Capítulo 50 Bento Duque apanhou a luneta. fazendo soldas. aquela base militar tornaria-se uma fortificação importante no jogo. um lugar distante dos humanos. O destino não poderia ter reservado zelador melhor para o Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI). Mesmo com aviso de bento Augusto. mantendo a fiação elétrica e os computadores da sala de controle em ordem.. Duque conseguia enxergar longe. O queixo caiu de novo quando viu com os próprios olhos o sofisticado sistema de geração dc energia elétrica desenvolvido pelo cientista maluco. Boa parte dos prédios contava com pintura recente e impecável. todos os seus ex-colegas aeronautas e astrônomos fossem voltar ao trabalho. Honrava o apelido de "Franjinha". como se a obra acabasse de ser entregue. Metido no meio daqueles fios. não haveria alcunha melhor que a do pequeno cientista das histórias de Maurício de Souza. Um ponto crucial na luta contra os noturnos.. A Barreira do Inferno estava calma. de nascença. Franjinha dissera aos líderes de Nova Natal como adaptar um dos silos de foguetes inativos transformando-o num reservatório de adormecidos. Duque havia ficado impressionado ao adentrar a Barreira do Inferno.. não esperava aquilo.

Os novos muros. Pontos de luz movendo-se na mata. o prometido ponto de encontro.tinha sido visitado pelas criaturas da noite. o que facilitava sua operação. percorrendo o trajeto de trinta quilômetros a pé. Melhorou o foco. Desejando que os caminhões com os adormecidos cruzassem logo o portão. O zelador tarado havia dito algo sobre isso quando o soldado Cássio perguntou. Olhando melhor percebeu que marchavam pelo veio de asfalto. Franjinha chegara a dizer que não raro caminhava pelos arredores. Em anos que habitava aquele centro inativo jamais topara com um vampiro durante a madrugada. Observou a mata além do muro com a luneta. transbordante de calma e marasmo. Duque ergueu a luneta e ajustou para a distância desejada. Sem soro antiofídico disponível. Levou a imagem de São Jorge até a boca e deulhe um beijo. Sentiu alívio por um instante. Desejou que o padroeiro dos cavaleiros olhasse por ele e que aquele paraíso de nome tão antagônico continuasse assim por muitos e muitos anos. Agora. Divertia-se com o poderoso alcance que as lentes de aumento proporcionavam quando sentiu a pele dos braços arrepiar-se tomado pela surpresa. O pior percalço encontrado nos anos de convivência harmônica com o CLBI e os seres viventes ao redor fora uma picada de cobra. Gente boa aquele rapaz. mesmo durante a noite e. girando o controle da luneta. a única coisa que sobrara do infeliz evento fora a pele marcada por uma crosta grossa que brotara ao redor da picada e uma natural e sadia paura a cobra. Duque sorriu lembrando do jeito de Franjinha contar o caso. mas continuou a investigação. Duque moveu o instrumento de observação para a esquerda. o que tornava o local altamente qualificado para esconder dos vampiros um Rio de Sangue. trazendo para a Terra e para os homens os quatro milagres da libertação. cercavam totalmente a base. Assim que os quarenta caminhões estivessem dentro dos limites do CLBI reuniria seus cinco bentos e partiriam imediatamente para Santa Maria. então. Via pouca gente movimentando-se do prédio da administração até um canteiro de obras iluminado por energia elétrica. O fogo vermelho vinha na ponta de tochas em marcha. usando capas vermelhas 352 . A poderosa luneta estava fixa num tripé alto. Melhorou a luneta e conseguiu contar cerca de quinze homens. Não eram vampiros. Era um terreno que fora até então desprezado por homens e demônios. amargara sete dias de febrões e alucinações. nas poucas vezes que decidira visitar sua praia favorita dos tempos pré-Noite Maldita.. Na Barreira do Inferno a noite era sempre serena. ficando manco mais de um ano. quando. sem jamais ser incomodado por criatura alguma. Vampiros! Olhos queimando no meio das árvores! Duque aproximou vagarosamente a imagem.. O bento negro limpou a lente da luneta com a beira de sua capa surrada. em sua maior parte ainda formado por tábuas e troncos de árvores e em fase inicial de construção. chegara a pernoitar na areia. provocariam o desenlace da profecia. tanto tempo depois. que vinha em direção ao CLBI. Sentia urgência queimando no peito. Contou cinco hastes flamejantes movendo-se num caminho da floresta. à beira das ondas. A floresta estava tranqüila.

descendo perigosamente a velha escada de ferro. Cruzou os dedos. estariam chegando ao fim da jornada e começando uma nova página na história da humanidade. Os quatro milagres surgiriam para libertar todos os povos das criaturas da noite. Pouparia uma caminhada e tanto aos parceiros. torcendo para que Lucas estivesse com eles e para que aquelas tochas não fossem uma miragem. 353 . Correu até o canteiro de obras. Escolheria um dos soldados para apanhar os companheiros e trazê-los o mais rápido possível para a Barreira do Inferno.e couraças de prata! Eram os bentos! Saltou da torre da vigia. Se o grupo de Lucas estivesse completo. tamanha excitação.

destroçariam a muralha e liquidariam com todos naquele lugar.. 354 . ninguém estava sabendo que estaríamos nesse fim de mundo. pondo a mão no cabo da espada e afastando Lucas do meio da estrada. o vento frio deixara de ser um problema e servia para refrescar. mais conhecido como Centro de Lançamento Barreira do Inferno. a marcha prosseguia e o cansaço aumentava sem que tivessem novas pistas. e dizendo que por ali chegaria-se ao CLBI. Liquidar com a esperança humana por uma resistência superior. Cada qual carregando sua dor.. contava com a surpresa. Vicente deveria ter errado nos cálculos. naquele cenário. Mas. Vou descobrir quem é. além disso. colocando o corpo do protegido atrás do seu. Depois de mais de três horas de caminhada sobre o asfalto. As coisas importantes aconteceriam lá. a nova arma que o vampiro-rei mostrara seria colocada em uso esta noite. Sabiam que estavam na direção certa. Destruir a Barreira do Inferno e os trinta bentos. Ao menos.Capítulo 51 Anaquias observou o Centro de Lançamento da Barreira do Inferno.— comandou Vicente. Preparem as espadas que o bicho vai pegar. — Acho difícil ser amigo. deixando-os longe demais da base de lançamento.. E já era hora. parece um caminhão. Uma imensa muralha cercava o centro de lançamento.. Era para lá que o vampiro-rei conduziria seu exército. Suas tochas ajudavam a lua a clarear o caminho. — atiçou bento Teodoro. Não importava se encontrariam um ou cem bentos. um barulho alcançou os ouvidos dos bentos. Cerca de uma hora atrás encontraram uma placa na estrada indicando a direção para Natal — A Cidade do Sol. atentos aos barulhos na floresta. — Para a floresta. adquirida no recente acidente ao chegarem a praia. Retornou com seu cavalo até a concentração do exército numeroso. — Será amigo ou um mulo? — perguntou Teodoro. Anaquias confiava na superioridade numérica. — O que será? — perguntou Vicente. todos vocês. — Um caminhão. Sua missão era destruir. Lucas e o seu grupo de bentos exaustos continuavam a jornada em busca da Barreira do Inferno. — murmurou bento Francis. com a caminhada. Iam em silêncio. Marchariam até o CLBI. E. O que queriam os homens ali? Não cabia a ele entender. Confiava no desejo de morte que reinava entre os seus. tomando pra si o encargo. Um motor. atentos ao caminho.

com camuflagem típica do Exército. — Vá. não podem ficar só. observando a bela fotografia proporcionada pela luz alaranjada vinda da tocha de Vicente banhando tudo ao redor. 355 . Eu me garanto. quem é? — Sou Odair. O caminhão verde freou. Apesar da luminosidade poderosa vinda dos faróis. O motor batendo cadente. filho. — Bento! — Bento Vicente. não estou mais em Nova Natal. senhor Vicente. escondendo-se mais a frente. — Bento! — berrou uma voz. Na verdade. que sorria. Nova Natal está longe daqui? — Bem longe. destacando ainda mais a figura imponente do guerreiro ex-presidiário. Com um caminhão chegaremos mais rápido à Barreira do Inferno. Abaixou-se. Em cinco minutos os faróis do caminhão surgiram ao longe. Viu surgir e crescer na sua frente um grande caminhão Mercedes-Benz verde-oliva. Os bentos deixaram o leito de asfalto. cobrindo-se com a vegetação. — Rio de Sangue. Não quero passar a noite toda na mata.. Lucas. olhando para cada rosto. diante de um soldado atônito. junto com o vento passando pelas árvores. E você. Vicente levou a mão ao cabo da espada. Soldado de Nova Natal. jogando a capa para o lado. Lucas acabou concordando com Vicente e distanciou-se do grupo. Os bentos cercaram o jovem Odair. Os bentos começaram a sair do mato.. escondendo-se na margem da estrada. — Se forem mulos. Vicente viu um rapaz com roupa de sargento do Exército Brasileiro descer ao asfalto. — São todos bentos. Talvez um pouco de ação em terra firme recuperasse a moral dos homens. Acabamos de fortificar a base e estamos trazendo adormecidos para cá. jogando luz no chão negro. senhor. — preocupou-se o trigésimo. — murmurou Lucas. apenas inclinou um pouco a cabeça para baixo e continuou encarando o veículo.. eu os distraio e vocês caem em cima dos caras.— Se forem mulos armados. Um estalido acompanhou o ranger da porta do veículo. deixando o cabo da espada livre para ser desembainhada com rapidez. Vicente apertou a empunhadura da arma. era tudo que se ouvia na estrada. apagando as tochas e procurando extinguir até mesmo as brasas na ponta dos paus. — identificou-se o rapaz prestando continência ao guerreiro. vendo Vicente sozinho no meio da estrada. Estamos montando uma nova base aqui no Centro de Lançamento da Barreira do Inferno. Bento Vicente postou-se no meio da pista..

começaram a gritar. A eles fora pedido obediência. temos que ser duros feito rocha e afiados como uma navalha. Viram um clarão na estrada e pela velocidade de deslocamento ele deduziu que eram pessoas marchando. dificultando o abraço. Assim eu vi a vitória. Vamos destruir essa fortificação. enquanto Lucas foi atrás. Odair foi para a traseira do caminhão e desceu a porta horizontal. E se os vampiros anciãos pediam obediência era porque Anaquias tinha razão. as cavernas. — Vamos cercar Barreira do Inferno e vamos lançar sobre eles fogo e fumaça. O sangue desses assassinos será guardado ao vampiro-rei. — comentou bento Francis. Eles vão deixar a Barreira do Inferno ao amanhecer. O bento médico não agüentou a emoção e abraçou o colega. Francis e Vicente foram a frente. se quisesse vencer os humanos. Vamos cercá-los e liquidá-los. é o troféu de batalha exigido pelo mestre dos vampiros. O vampiro-rei não tinha rosto... Quero que matem a todos e capturem apenas os bentos. — Os outros bentos?! — exclamou Teodoro. Anaquias deveria ser ouvido. junto de Odair. — Vamos atacar em sincronia! Não quero nenhum vampiro agindo isolado! Temos que ser um bloco. finalmente. — Só estão aguardando os caminhões que vêm do oeste para partirem. — Os outros bentos estão lá. Contamos quatro bentos dentro dos muros.. Os bentos subiram apressados. À sua frente tinha os comandantes das cento e vinte unidades que compunham seu exército de vinte mil vampiros. 356 . Lucas sorriu para Francis. — continuou Odair. empolgados com a proximidade da grande batalha. — Nossas tochas. As armaduras encontraram-se. loucos por descanso para as pernas.. Percorrer os quilômetros finais daquela jornada a bordo de um motorizado valeria mais que um bom prato de comida àquela altura. uma boa nova ao final de uma jornada iniciada com um daqueles rompantes pós-pesadelo do trigésimo bento. — Leve-nos até eles! — ordenou Lucas. — Eles estão aqui! — gritou bento Edgar. A lenda do vampiro-rei ganhava os covis. Os vampiros ouviam o líder Anaquias. Os demais soldados saltarão os muros. Quero o grupo de arqueiros à frente. O vampiro-rei era um deus da noite que soprava aos ouvidos de Anaquias. ninguém precisa mais delas. alastrava-se dentre as criaturas da noite. Anaquias postou-se adiante do grupo. Os noturnos.— O líder Mariano me mandou até aqui. com os holofotes desse Mercedão. Deveriam existir mais. a figura assemelhada a de um general. junto com os demais colegas fazendo festa com. Vampiros não precisam de luz pra andar. Agora.

— Cada um de vocês conhece seu papel nesse jogo. Vamos destruí-los! Agora! — tornou Anaquias. Os vampiros começaram a se dispersar, cada um indo em direção à sua unidade. — Ao ataque! O caminhão aproximava-se em alta velocidade. Os vidros abertos da cabine permitiam que o vento da noite entrasse. Vicente e Francis não continham a satisfação em saber que Lucas, mais uma vez, estava certo. Os bentos estavam na Barreira do Inferno. O destino punha Lucas no caminho certo. O trigésimo guerreiro, tal qual um cão perdigueiro, não importando o obstáculo, seguia o caminho. Lucas levava os bentos ao encontro da consumação da profecia. Não se abatia, não se importava com o preço. Não se importava que o chamassem de louco. Não se importava com gorilas. Não temia a noite, nem a desvantagem. Lucas era obstinado... beirava a inconseqüência, a loucura. Ele não dava tempo para dúvida e corpo-mole. Ele era o escolhido. Fosse outro, fosse Francis, jamais teriam chegado ali. Francis pensava demais. Pesava prós e contras demais. Lucas não pensava em contras. Lucas enaltecia "prós". Lucas não pensava. Lucas apenas escutava. Escutava a voz da energia. A energia lhe soprava aos ouvidos. A energia corria em suas veias... não sabia por quanto tempo, mas corria em suas veias. Era como se ainda estivesse em contato com o velho Bispo. Como se tivesse os sonhos de Bispo. E graças a cegueira e a surdez de Lucas para as outras vozes, estavam lá. Dezoito bentos, mais seis espadas enroladas nas capas dos bentos mortos na emboscada da Teodoro Sampaio, dentro de um caminhão verde-oliva, sendo conduzidos para o esperado encontro. A união dos trinta bentos. A união das trinta espadas. O desencadeamento da profecia e dos quatro milagres.

Bento Duque ergueu a luneta. Odair estava demorando a regressar. Talvez não tivesse sido boa idéia Mariano ter enviado o rapaz sozinho. Odair era bom no gatilho, mas sozinho... se tivesse topado com algum imprevisto... Duque vasculhou a estrada à frente com a luneta. Nada via. Correu com o instrumento para a direita, buscaria no outro extremo da fortificação, onde continuava a estrada, sinal do comboio que vinha de Nova Natal, com os caminhões repletos de adormecidos. Nada. No entanto, um pouco mais à direita, viu algo que fez seu sangue gelar nas veias. Via brasas queimando na floresta. Via vampiros. Milhares deles. Tantos como nunca vira. Era um exército de vampiros, marchando, marchando de encontro aos muros da Barreira do Inferno. Mariano conversava com Franjinha na sala de comando do CLBI. Levava uma xícara de café quente e forte à boca quando ouviu três tiros de rojão espocando no céu. Franjinha, que nunca morara numa fortificação, franziu a testa.

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— O que é isso, Mariano? Mariano, branco feito papel, levantou e apanhou o rifle que descansava sobre um balcão nas suas costas. — Vampiros!

O sorriso de Francis foi apagando gradualmente. Vicente aproximou-se do pára-brisa para tentar enxergar melhor. — Vocês ouviram isso? — perguntou o bento. Odair assentiu. Tinha ouvido um disparo triplo de rojão. Vampiros à vista — Pisa fundo, rapaz. Pisa fundo. Temos que chegar antes do ataque. — pediu bento Vicente. Odair não pensou duas vezes. Desceu o pé no acelerador, tirando do motor o máximo em velocidade. Atrás, talvez por causa da conversa, os bentos não haviam escutado os estouros, entretanto quando a velocidade aumentou inesperadamente, entreolharam-se com expressões de estranhamento. Na primeira curva Odair deu um toque no freio antes de entrar, descendo para a quarta marcha, ouvindo o ronco do Mercedes. Quando estava no meio da curva, voltou a carga no acelerador, sentindo a traseira do caminhão jogar. — Segura! — gritou Teodoro lá atrás. Lucas levantou-se, agarrando as madeiras que passavam na lateral do compartimento. A lona verde-oliva que recobria toda a traseira impedia que pudessem ver o que se passava. — Uooou! — gritou bento Elias. — Cuidado com essa merda ai, o rapa. A gente tem que chegar inteiro! — gritou novamente bento Teodoro. No meio da indignação geral, uma portinhola abriu-se na frente, dando acesso à cabine do caminhão. Viram o rosto de Francis assomar e dar o alerta: — Vampiros!

Bento Duque assumiu o muro oeste, por onde chegaria o comboio com os adormecidos. Bento Ulisses foi dar cobertura ao muro sul. Não poderiam assumir o papel de sempre, fazendo as vezes de última defesa, entrando em ação somente quando os vampiros ganhassem os muros. Duque sentiu um arrepio percorrer o corpo. Sabia que aquela batalha não seria uma das corriqueiras. O número de brasas juntando-se nas árvores, o número de criaturas malditas não

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parava de crescer, aumentando perigosamente o cerco a semi-deserta Barreira do Inferno. Isso era o que intrigava bento Duque. O que queriam tantos vampiros naquele lugar? Era uma bizarra coincidência estar ali no único ataque maciço de vampiros ao CLBI? Provavelmente não. Segundo Marco Maluco Franjinha, que dissera ter vivido ali desde que despertara dez anos antes em Nova Natal, nunca tinha visto um só vampiro dentro do Centro de Lançamento da Barreira do Inferno. Péssimo momento para estar ali. Péssimo! Lucas contava com a união dos bentos em Santa Maria, ao norte da velha Salvador... haviam tido baixas pesadíssimas na batalha da Teodoro Sampaio... e agora aquele novo episódio. O cenário que se montava ao redor da muralha sugeria um prognóstico sombrio. Nada de vitórias. Nada de viagens ao amanhecer. Caso aquele oceano de olhos vermelhos viesse contra os muros, as pedras romperiam e o muro cederia, tal qual um mar maldito estourando uma barragem. Bento Duque começou suas preces, rezando para que aqueles demônios ficassem na floresta e que o espocar do rojão de seis tiros jamais soasse em seus ouvidos. Rezou para que os companheiros chegassem antes da maré de demônios. Com os milagres, talvez tivessem uma chance. Segurou cuidadosamente a imagem de São Jorge e beijou-a esperançosamente. — Conto contigo, amigão. — balbuciou. No centro da base de lançamento, bento Augusto mantinha a mão no cabo da espada. Seus cabelos longos, lisos e negros, balançavam ao sabor do vento. Seus olhos azuis miravam a lua. Que noite gloriosa aquela! Sabia que o destino os colocava no meio da contenda das contendas. Sabia que aquilo não era o acaso. O trigésimo bento fora despertado e não seria estranho que as criaturas das trevas tramassem para impedir o desencadear dos quatro milagres. Teria de lutar como nunca para que esse dia chegasse. Lutaria até o fim, sem medo, sem soberba. Seria um peão de batalha. Um robô destruidor de vampiros. Seria certeiro e letal. A maioria dos soldados, que deveria estar cobrindo aquele novo centro de adormecidos, estava fora, vindo nos comboios que trariam as pessoas para seu novo lar subterrâneo. Torcia para que os adormecidos não chegassem em má hora. Pelo que sabia talvez já estivessem com mais de meio caminho andado. Talvez aquele bando de vampiros estivesse ali por isso... pelos adormecidos. Talvez algum linguarudo tivesse dado com a língua nos dentes. Alguma pessoa banida de Nova Natal poderia conhecer o plano e ter soprado o segredo nos ouvidos dos vampiros antes de morrer com o sangue completamente drenado das veias. Talvez, os malditos não estivessem atrás de seu couro e do de seus colegas bentos. Respirou fundo e apertou mais o cabo da espada. Que os seis tiros não ecoassem naquela noite. Cássio e Frederico, soldados de Nova Natal permaneciam sempre juntos, nas boas e nas más horas. Postavam-se agora ao lado de bento Duque por ordem do líder Mariano. Traziam os

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olhos esbugalhados e colados no crescente clarão rubro que rodeava a fortificação. A eles parecia que a Barreira do Inferno fora transferida de dentro dos muros para a floresta duzentos metros adiante. Aquele muro flamejante... aquilo sim era uma Barreira do Inferno. Os vampiros moviam-se ágeis, tomando as árvores, como chamas vindas da casa de Satã, varrendo os arredores. A visão era tão impressionante que chegavam a sentir o calor, como se estivessem de frente a um incêndio real. Cássio baixou os olhos até a caixa de munição aos seus pés. Estava repleta até a boca, com remuniciadores de fuzil. Não sabia quantos deles traziam projéteis revestidos em prata, mas sabia que nem que houvesse duas mil caixas como aquela conseguiriam deter aquele oceano de vampiros. Torcia para que os malditos permanecessem onde estavam, apenas observando, como dezenas de vezes faziam. Apenas mostrando-se, para intimidar. Coisa que tinham conseguido com eficiência brutal naquela noite. Torcia para que logo dessem as costas e sumissem da mesma forma como apareceram, como mágica. Empunhou o fuzil, fazendo mira na muralha em brasa, torcendo para que os seis tiros de rojão não ecoassem naquela noite. Débora sentou atrás da deita-corno e destravou a arma. A cinta de munição ponto 50 saía da lateral da arma e estendia-se pelo chão. A mancha de vampiros terminava de contornar a floresta na face norte da fortificação. A mulher-soldado era uma amante do bom combate. Mas o bom combate envolvia equilíbrio e, equilíbrio é o que não via ali. Quantos vampiros estariam envolvidos no cerco? Como haveriam acordado da noite para o dia... organizando-se de uma forma nunca antes assistida. Formaram um verdadeiro exército e, de forma assustadoramente ordenada, fechavam a Barreira do Inferno. Os malditos pareciam ter acordado de um sono letárgico. Não haveria como escapar caso viessem de encontro ao muro de uma vez só. Escapar... desejo primitivo e automático numa contenda perdida. Mas não haveria escapatória e, como quem está na chuva é para se molhar, Débora estava decidida a acabar com a raça dos malditos que cruzassem seu caminho. Até o último sopro de vida seria um espinho na sola do pé daqueles putos sanguessugas. Provavelmente a avalanche não encontraria resistência perceptível no conjunto, mas a soldado, certamente, deixaria perceptível para as unidades que entrassem na frente da sua metralhadora. Buracos enormes, fragmentos de crânio bem perceptíveis. Era esse mantra que repetia em sua cabeça ao mesmo tempo que seu inconsciente orava para que os seis rojões não fossem ouvidos naquela noite.

Bento Amintas, postado no ponto mais alto da fortificação, no topo da vigia de observação, varreu com a luneta ao redor. Seus pensamentos afundavam em suposições nebulosas, perdendo praticamente o foco. Estava impressionado demais para ordenar os pensamentos. Foi quando o som da buzina veio ao seu ouvido. Voltou a luneta para o sul. Longe, na tripa de asfalto, viu brotar os fachos de luz do caminhão do Exército. O rapaz estava voltando, voando

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como bala. Provavelmente tinha escutado o rojão de instantes atrás, comendo o asfalto com medo de estar na mata escura quando o combate começasse. Talvez, permanecer lá fora fosse o melhor no momento. Ao mesmo tempo que Amintas, os bentos Justo e Célio ouviram as buzinas do caminhão. Os soldados olharam com expressão de indagação. O muro sul guardava um dos portões. De um lado da estrada a mata via-se tomada por brasas vermelhas e vampiros movendo-se lentamente, chegando mais e mais perto da estrada, em questão de minutos bloqueariam o asfalto e completariam definitivamente o cerco à fortificação. Os soldados sustentaram os olhares sobre os bentos. Deveriam dar passagem ao caminhão? Em resposta, ouviram o brado enérgico de bento Célio. — Abram os portões! Abram os portões! O soldado está voltando com nossos companheiros! Bento Francis e bento Vicente debruçaram-se sobre o painel do caminhão. Já divisavam os contornos da Barreira do Inferno e também enxergavam a gigantesca massa de pares de olhos em brasa tomando o chão e os galhos na porção à direita da floresta. A quantidade de vampiros era impressionante. Os bentos ainda não tinham saído da razão em função dos vampiros não terem aberto um ataque franco contra nenhum dos seus. Inesperadamente, Lucas desembainhou a espada e rompeu a lona que envolvia a traseira do caminhão. Assim que deu a segunda passada com o fio da espada, o tecido rasgou com a força do vento que invadiu o compartimento, deixando uma boa porção do céu à mostra. A luz da lua invadiu o interior e, assim que o vento encarregou-se de rasgar a lona à direita, um espectro de luz rubra iluminou os olhos dos bentos. Vampiros. Tantos que nem poderiam imaginar. Vampiros tomando a mata. Lucas, com os olhos arregalados e a capa farfalhando por conta da ventania, chegou a abaixar-se quando uma boa quantidade daquelas brasas passou a riscar o céu. Os vampiros estavam saltando da margem esquerda para a margem direita da estrada. A operação que começou com uma quantidade impressionante, elevou-se de forma inenarrável, a tal ponto de, em certo momento, os bentos terem a lua cheia eclipsada pelos corpos voadores das criaturas, que formaram um sombrio e monstruoso túnel rubro-negro. — Deus nos proteja... — murmurou bento Ramiro, tomando nos dedos a imagem de São Jorge e beijando a figura. Uma das criaturas agarrou-se à estrutura metálica da traseira do caminhão, seus olhos vermelhos cintilantes fitaram os bentos no compartimento semi coberto e sua boca escancarada emitiu um rugido, exibindo dentes afiados e pontiagudos. O caminhão cruzou os portões da Barreira do Inferno em alta velocidade, levantando uma nuvem de poeira ao passar por um trecho de terra.

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— Sangue! — berrou a criatura aferrada ao topo do caminhão, emendando um grunhido selvagem. O som metálico das espadas desembainhando foi uníssono. Antes que a fera terminasse o grunhido, cerca de seis lâminas fatiavam seu corpo morto, animado pelo espírito do demônio. A cabeça do vampiro, arremessada ao ar, caiu a metros de distância, quicando e rolando pelo chão de terra. Odair, ainda com o pé no acelerador, procurando afastar-se o máximo possível do muro, não teve tempo de desviar do canteiro com chafariz. Puxou todo o volante para a direita, mas a roda dianteira bateu na guia, fazendo o rapaz perder o controle da direção. Os bentos agarraramse na traseira. Gritos e medo fazendo os corações dos guerreiros dispararem. Não podia perecer agora que tantas vidas dependiam das suas. Odair puxou mais uma vez o volante e enfiou o pé no freio. A parte direita da frente do caminhão bateu contra um amontoado de tonéis de água, amontoados no meio do pátio de frente para a administração. Parte da água entrou pelo párabrisa esmigalhado, deixando o motorista e os bentos Vicente e Francis ainda mais atordoados com o acidente. Os bentos no compartimento de cargas foram jogados para frente, amontoando-se, perigosamente, com as espadas desembainhadas. Lucas sentiu a pressão da lâmina em seu braço direito, só não ganhou um extenso corte, graças à sua cota de malha, que chegava aos punhos, juntando-se à luva de couro. Bento Teodoro girou sua capa vermelha, adiantando-se e chutando a porta horizontal, que caiu, batendo no pára-choque do caminhão. O ruivo foi o primeiro a saltar. Duque sentiu pela enésima vez um arrepio percorrer o corpo naquela noite. Via diante de seus olhos, ao menos, uma dúzia de bentos saltar da traseira do caminhão de Odair. Então era verdade! Eles tinha conseguido! Era bento Lucas! A surpresa repetiu-se nos quatro muros. Bento Ulisses não cria no que via. Os bentos estavam lá! Os bentos estavam reunidos! Não eram cinco, eram dezenove. Eram todos eles! Amintas desceu velozmente a escadaria da vigia. Arfava. Estava cansado, mas não pararia de correr. O futuro do mundo dependia daquela corrida. Seus sessenta anos não impediriam suas pernas. Deveria unir-se ao grupo. Bendito Lucas! Bendito Lucas! A profecia estava certa. Lucas conseguira. Reunira os trinta bentos. Não houve tempo de graças nem de vivas. Enquanto Dimas e Célio corriam em direção a Augusto e os demais bentos, ouviram o tonitroar surdo de instrumentos de sopro. Não pararam de correr. Não sabiam o que aquilo era, mas sabiam o que significava. Dimas ouvia a respiração difícil de Célio. Célio ouvia os pedriscos sob seus pés. O som das cotas de prata tilintando. Então

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veio. O som cadenciado. O alerta maldito. Um rojão de seis tiros rasgou o céu da Barreira do Inferno. Agora, junto com a respiração difícil, dos pedriscos e do tilintar das cotas de prata, os bentos Dimas e Célio tinham o som dos disparos de metralhadoras acompanhando a corrida. Bento Augusto e os demais ficavam cada vez mais próximos. Lucas percebeu a noite clarear num lampejo. Seus olhos foram tomados pela cor amarela, preenchendo toda a órbita do globo ocular. Iniciou os brados e o comando: — Contenham-se! Contenham-se! Todos aqui! Todos aqui! Agora!

Débora estava com o coração disparado. Nunca tinha assistido nada igual. Tal qual um dique rompido, ao soar daquela cornucópia fantasmagórica, a enxurrada de brasas de vampiro desprendeu-se da floresta, inundando o espaço entre a mata e o muro. Avançavam em velocidade vertiginosa. O ra-tá-tá da deita-corno começou junto com o disparo de rojão. Débora tinha certeza de que seus tiros eram precisos, varrendo a cabeça dos malditos vampiros a cerca de duzentos metros de distância. Mas, quando os corpos caíam eram engolidos pela onda vermelha e aterrorizante de malditos. Estavam perdidos. Sabia que aquela noite seria a noite dos vampiros! Os soldados cumpriram seu papel. Os dedos não pouparam os gatilhos. Contudo, por melhor que atirassem, pareciam incompetentes frente a tamanha grandiosidade do ataque vampiro. Os tiros pareciam furar apenas o ar... eles continuavam avançando, na mesma velocidade, com a mesma superioridade. Os soldados da face norte visualizaram um espetáculo mais tenebroso. Assim que o som surdo do instrumento de sopro ganhou a noite, um bloco assimétrico e coordenado deixou a floresta. Incontáveis vampiros, formando brasas triplas, adiantaram-se alguns metros. O que estavam fazendo? Os bentos reuniram-se junto ao caminhão. Estavam atônitos, surpresos. Nunca tinha visto tantos vampiros. Precisavam reunir-se. Duque olhou aflito para os lados. Onde estava bento Ulisses? — Você nos trouxe para a morte! — berrou bento Teodoro, histérico. — Contenham-se! Não partam para o confronto! Temos que cumprir nosso destino! Mesmo que custe nossas vidas! Bento Francis uniu-se à Lucas. Vicente já tinha assumido seu posto de guarda-costas, com olhar de perdigueiro ao redor. A voz de Lucas bradando para que se mantivessem calmos parecia um elixir contra a loucura, impedindo que suas consciências lhe abandonassem em momento tão crucial.

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Ainda estavam embaralhados, alguém gritou e apontou. Lucas identificou pela indumentária mais dois bentos aproximando-se. O gigante negro, bento Duque estava quase junto do caminhão. Os dois que acabara de ver vinham do norte, corriam desenfreadamente. Soldados empunhando fuzis corriam em direção aos muros. Viu um terceiro bento surgir na porta de um prédio. O novo bento deveria ser o último a faltar para o encontro. Bento Ulisses olhou para o caminhão e para os bentos sobre o chão enlameado, tomado pela água que vertia dos tonéis esmagados pela frente do veículo verde-oliva. Ulisses tinha estado com Franjinha no centro de controle. Pediu que o rapaz permanecesse escondido até o último minuto. — Corre! — bradou bento Duque para Ulisses. O colega obedeceu, começando a corrida de encontro ao caminhão. Repentinamente, para desespero de todos, o céu foi tomado por chamas vermelhas. Uma nuvem assustadora cobriu o muro norte, vindo em direção aos bentos, enchendo a noite com um silvo agudo e crescente. — Protejam-se! — gritou bento Vicente, atirando seu protegido para baixo do caminhão. Lucas foi empurrado para o chão, seu corpo coberto por outros bentos. Não conseguia ver nada. Começou a ouvir estalos. Num instante começaram os gritos. Bento Vicente aliviou quando os silvos cessaram. Lucas arrastou-se para fora. Flechas. Os vampiros estavam atirando flechas incandescentes! Lucas levantou-se. No tempo em que olhou em direção dos bentos ouviu um novo silvo crescer. O céu cobriu-se de vermelho novamente. Bento Ulisses, desviando-se das flechas flamejantes cravadas no chão, continuava a corrida, faltando poucos passos para chegar ao caminhão. A nuvem de flechas começou a descer. — Agora vem para cima de nós! — bradou, voltando a se jogar debaixo do veículo. Uma nova série de baques surdos e estalos. As chamas muito mais próximas dessa vez. Se os malditos estavam atirando aleatoriamente, estavam com uma sorte dos diabos! Lucas e mais um bom número de bentos deixou o abrigo após a saraivada. Sabiam que teriam alguns segundos para observação antes da próxima avalanche. O barulho nas muralhas era ensurdecedor. As armas disparavam incessantemente. Lucas deu a mão para Duque, ajudando o gigante a se levantar. Buscou com os olhos os três bentos que se aproximavam. Seu coração quase parou quando viu a cena. O bento maior arrastava o menor, tentando apagar a flecha flamejante que atravessara sua couraça. O bento menor gritava de dor. Mesmo ouvindo o silvo da próxima leva de flechas, Lucas correu na direção dos irmãos. Tinha de socorrê-los.

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as capas vermelhas onde repousavam as espadas dos bentos mortos na batalha da Teodoro Sampaio. depois desceu com a ponta em direção ao chão. — Devemos juntar as trinta espadas. — O que fazemos. o grupo de flechas teve outro destino dessa vez. 365 . Vicente chegou. Vicente disparou atrás de Lucas. passando as pernas do bento uma para cada lado de sua cintura. O bento ferido tinha lágrimas nos olhos e gritava de dor. — Malditos! — bradou Dimas. Ulisses colocou-se a frente de Célio. Elias. — Bispo disse que bastaria unirmos as trinta espadas. Unir os trinta bentos. Levantou-se. atingido pelas flechas de fogo. provavelmente atravessando a clavícula direita. Os bentos levantaram-se. olhou para bento Elias. por sua vez. como que hipnotizado. Chegaram ao caminhão. — Estamos todos aqui! — berrou Ramiro. Dimas fazia o mesmo sob o braço direito. Devemos juntar nossa fé. que gritava de dor. A flecha havia entrado por cima da couraça. Lucas ergueu sua espada acima da cabeça. Lucas? — insistiu Francis. A lâmina trepidou. — As espadas. Os bentos repetiram o gesto. o sangue descia pela couraça de prata e a flecha em brasa fazia subir um terrível odor de carne queimada. ajudando a carregar bento Célio. Labaredas monumentais subiam do que restara do imenso cilindro negro. quebrando a concentração momentaneamente. com exceção do ferido. Uma explosão feroz iluminou todo o Centro de Lançamento. Por sorte. Continuaram correndo em direção ao caminhão. Elias e Edgar desenrolaram cada um seu volume. As hastes incendiadas fincaram num imenso cilindro colado ao muro oeste. com a ponta flamejante surgindo no peito do bento. balançando e vibrando. Lucas deixou os olhos sobre o imenso incêndio. fincando sua arma. Lucas passou o braço esquerdo de bento Célio sobre seu ombro.. Dê-me..Bento Ulisses alcançou Dimas primeiro. Lucas voltou os olhos sobre os bentos. obrigando os bentos a deitarem-se mais uma vez. O som assustador da nuvem de flechas chegou aos ouvidos. — Fogo e fumaça. Ajudou o companheiro a carregar Célio. Lucas maluco! O céu foi coberto mais uma vez por chamas voadoras. — O que fazemos agora? Os olhares converteram-se para bento Lucas que. formando uma roda.

Os soldados foram estraçalhados em poucos segundos. Lucas pôde ver. Tu que devia explicar pra gente. A pele eriçou-se toda. junto com bento Edgar e bento Elias. Os trinta bentos formavam uma figura oval. caindo a poucos metros de distância do grupo. mas antes que entrassem em combate. diante dos olhos dos bentos. Não demorou um minuto para que os bentos se vissem cercados pelo implacável exército de vampiros. — murmurou Lucas. Contudo. O tiroteio nos muros era intenso.. — Agora. Duque caiu de joelhos. Lucas conclamou a todos. na esperança de serem salvos. Ao mesmo tempo que o bento pronunciava sua frase. — E agora? — perguntou Dimas. pois até mesmo os fantasmas dos bentos desencarnados moviam as cabeças e levavam as mãos aos ouvidos. Cerca de vinte soldados que escaparam ao primeiro instante da invasão. — rebateu Teodoro. André. fechando uma figura oval. Diante dos vinte quatro presentes em corpo. Um zumbido poderoso principiou em seu ouvido. — O que foi isso? — perguntou Francis.Lucas encarregou-se das seis espadas dos bentos mortos. os espectros dos bentos Arthur. um zumbido agudo e incômodo. Amintas aproximou-se de Lucas com olhos arregalados. Cada bento ficou de frente com sua espada. Lucas sentiu uma pressão nos olhos. rapa. seus olhos brilharam amarelos e vivos. sem que um guerreiro olhasse para o lado ou se preocupasse com a segurança. Eliseu. — Não toquem nas espadas! Não toquem! — Vamos pegá-los! — urrou Augusto. Os trinta bentos ficaram livres do estranho fenômeno. — E agora? — perguntou Edgar. Mais uma chuva de flechas incandescentes cruzou o ar. Tarso e Cosme. A loucura invadiu o grupo de bentos mais uma vez. 366 .. a onda de vampiros venceu simultaneamente os quatro muros da Barreira do Inferno. corriam em direção aos bentos unidos. o zumbido simplesmente desapareceu. Os encarnados pareciam sofrer muito mais com o incômodo e repentino zumbido. Lucas sentiu um frio sobrenatural cruzar o corpo. Tão repentino quanto começou. Pedaços de carne humana voaram pelo ar junto a intensos borrifos de sangue. esses homens foram engolidos pela onda de vampiros. olhando para as espadas vazias. nesse instante. já levando a mão na luva de couro ao cabo da arma afiada. — Você que é médico. — Não toquem nas espadas! — tornou Lucas. — Agora esperamos pelos milagres. agitando o dedo indicador no orifício auricular direito. Murilo. A intensidade dos tiros foi reduzindo gradativamente até extinguir-se completamente. Percebeu que o mesmo ocorria com todos os outros guerreiros.

. cobertos pela água e pelo barro. que 367 .. Os demais uniram-se à oração do irmão. vinda de todos os lados. Servi ao meu propósito.. entredentes. Depois. passou a mão em sua testa. ajoelhando-se também. Uma gota de suor desprendeu-se de sua testa e respingou sobre a água. onde estão os milagres? — questionou bento Célio. não temerei mal algum.. Assim repetiu bento Duque. gritando palavrões e sentenças de morte. Um brilho amarelo cintilante percorreu a água enlameada rapidamente. Bento Vicente agarrou-o pelo pescoço. queimando o irmão com os olhos. santificado seja o Vosso nome. Lucas..Bento Teodoro lançou a mão ao cabo da espada.. Iriam capturar os bentos. Lucas foi o último a abaixar-se. tantos. Os vampiros já rodeavam completamente os trinta bentos e vinham aproximando-se. deixando Lucas guarnecido pelos dois maiores homens do grupo. Poderia repetir o feito. olhava fixamente para o chão. — Não toque na espada! — disse.. Poderia ganhar tempo. Uma idéia ocorreu-lhe. A avalanche de vampiros.. entre gemidos de dor. Lucas respirou fundo. irmãos. Juntei as espadas. — começaram em coro.. ouvindo a prece conjunta. Mesmo que não estejamos mais na terra para assisti-los. bentos. esse mesmo brilho tomou com intensidade as espadas prateadas. afastando-os suavemente com a mão espalmada.. — Pai nosso que estais no Céu. — balbuciou Ramiro. — começou a recitar bento Elias.. são. refletindo raios amarelados. O sangue dos malditos guerreiros do sol seria ofertado ao vampiro-rei para selar e eternizar a grande vitória. — disse baixo. fechando o cerco perigosamente. Da sua mão afundada na lama quase não via os dedos. Francis. Teremos todos o mesmo destino. — Te abençôo. Lucas. Confiem. Agora somos todos iguais. — São. — Ainda que caminhe no vale da sombra e da morte. abaixado ao lado do companheiro ferido. O bento fez um sinal-da-cruz com a mão direita e desceu-a até a água enlameada.. — Os milagres.. Eles virão. Avançou até Lucas e postou o trigésimo nas suas costas. como ordenado por Anaquias. tirando-o do chão. Vicente já tinha baixado bento Teodoro. os quatro milagres salvarão a humanidade. ajoelhando-se sobre o chão enlameado.. Lucas afastou os grandalhões. tocando a testa no fio de sua espada encravada. — Eles virão. — Agora somos todos iguais. parecia já ter detectado a presença dos bentos inertes e avançava a toda.

. Um vampiro montado num cavalo negro aproximou-se da borda do campo enlameado. circundando os vinte e quatro bentos. forçando um recuo na leva de trás. Lucas continuava encarando as criaturas. composta de demônios pálidos. respirando com dificuldade faziam as armaduras prateadas subir e descer no peito. os vampiros abriram um corredor naquele mar vermelho. Lucas permanecia ajoelhado. a mercê do destino. caso fosse o desejo dos comandantes. Depois de alguns instantes. inflamava imediatamente. Os olhos colados nas feras queimavam igual ao dos monstros. Lucas. incineraram imediatamente. ficando à margem do terreno bento. Os vampiros não sabiam o que acontecia... O desejo do grupo era arrancar a espada do chão e atacar aquela parede. Um círculo de fumaça subia ao céu. fitando a cerca viva. animais selvagens. A seguir. 368 .. Estavam encurralados. Sabiam que enquanto a água benta se mantivesse sobre o solo. com caninos terrivelmente afiados extravasando seus lábios. Os bentos mudos. Qualquer minuto a mais fazia diferença. cercados e subjugados. notaram que. mas a pergunta que habitava a cabeça de muitos deles é se tal hora existiria aquela noite. Se fosse vontade de Deus que saíssem livres daquela enrascada.acertaram cada um dos bentos. Anaquias olhou para os bentos ajoelhados. sem alma. sem consciência. — Vocês viram isso? — murmurou bento Francis. veriam o sol nascer mais um dia. os guerreiros juntaram-se ainda mais ao centro. O vampiro parecia ser alguma espécie de líder. Levaram um tempo para conter os empurrões e cerca de duas centenas deles foram cremados instantaneamente até que controlassem o cerco. de olhos vermelhos cintilantes. No leito aberto surgiu a figura de uma das criaturas. A maioria dos homens gritou ao sentir espasmos elétricos repuxar os músculos. Suas cinzas e ossos esturricados passaram a formar uma espécie de tapete que anulava naqueles centímetros o efeito da água benta. Os corpos carbonizados dos vampiros tinham comido uma fatia de barro santo. os malditos não conseguiriam deitar as garras sobre eles. — balbuciou bento Teodoro. iniciando uma série de gritos de dor e carbonizando em questão de segundos. mas a voz de Lucas tinha o dom de amansá-Ios e fazer com que aguardassem pela hora certa.. Era como observar animais carniceiros. Pareceram não escutar a pergunta do bento médico. Perigosamente. trajando roupas esfarrapadas e negras. bastava empurrar centenas deles próprios sobre o barro envenenado pelo bento que as cinzas cuidariam de estreitar o caminho.. pois a sua simples passagem fez a massa de criaturas calar. traga-nos os milagres. — Os milagres. Os vampiros que iam na frente do cerco e que já se encontravam sobre a lama benta. Cada um deles que tocava a terra misturada com a água abençoada.

Depois de alguns instantes voltou-se para o bento. Sei onde encontrá-lo. Soltou um gemido. Os bentos assistiram o guerreiro vampiro avançar triunfante pelo campo abençoado. — Estão vendo? Meu cavalo não é vampiro. O vampiro sentiu algo queimar em seu interior. O vampiro-rei havia sentido algo ao ver aquele homem. Seu olhar queimou sobre o arqueiro impertinente. Vicente levou a mão à espada. mas foi inútil. 369 . A criatura tentou levantar-se. Anaquias lutava para manter-se ali. Seus olhos pararam sobre Lucas. por sua vez. Poupe meus homens que lhe darei um Rio de Sangue. Faço o que quero. voltando-se ao Exército Vampiro. — Do que falas? — Há um Rio de Sangue próximo daqui. Anaquias sorriu. no segundo seguinte todo o seu corpo entrou em combustão. tornando o ser animado em um monte de cinzas. Esse é o desejo do vampiro-rei. O vampiro. fazendo dar alguns passos para a frente. segurando o braço do gigante. Assim que o vampiro bateu na água. voltou os olhos para o grupo de bentos. Serás aprisionado e levado a seu encontro. — Não! — gritou Lucas. a parte molhada de seu peito e rosto pegaram fogo. Lucas conteve o guerreiro. — Se você quer sangue. protegendo Lucas. Anaquias fez um sinal com a cabeça. Anaquias virou o tronco sobre o cavalo. Os bentos silenciaram. — Tu serás o mais precioso troféu. Lucas era seu nome. Ele caminha por onde quiser. — disse Anaquias. te digo onde encontrar. guerreiros? Vicente colocou-se de pé. — Vê o que vejo. Lucas manteve-se de pé. fincando no peito de Vicente e fazendo-o ir ao chão. — Lucas. Fez o cavalo rodar. Anaquias bateu com os calcanhares na barriga do cavalo. Uma flecha zuniu.— Acabaram seus truques. Seus olhos viram a imensidão de seu poderio. enquanto Francis e os demais buscavam assistir a Vicente. O vampiro-rei soprando algo em seu ouvido. humano? Vê? Creio que não está em condição de barganhar. Poupe meus homens que lhe darei o que mais desejam. o que bastou para que um de seus comandantes arremessa-se o arqueiro ao campo bento. Os olhos dos bentos convergiram para Lucas. O bento levou os olhos para o vampiro montado. Sentiu algo ruim. olhando para os vampiros atrás de si. Queria aquele homem vivo. Os vampiros ocupavam totalmente o território interno da Barreira do Inferno. voltando os olhos para Anaquias. O vampiro-rei queria aquele homem.

aguardaram instrução. — Vê. Para que fugissem. Parte dos bentos foi ao chão. Um segundo corredor abriu-se e um número impressionante de vampiros surgiu atrás dele. Logo eles estarão aqui. Lucas. O destino de seu grupo está selado. — pediu bento Augusto. O que dizia Lucas. — Vos digo que o sangue de teus preciosos guerreiros me vale mais que dez Rios de Sangue. bento Vicente via parte dos demônios ser 370 . — Arremessem! Os vampiros arremessaram os corpos sobre a lama. como se confidenciasse um segredo.— Se deitar o braço sobre meus homens. creio que nem precisarei procurar. puxou a rédea e fez o cavalo recuar alguns passos. — Você vai morrer! Imediatamente após o brado guerreiro um tremor de solo tomou de assalto todos presentes na Barreira do Inferno. — Não faça isso. Os bentos engoliram a seco. Diante de seus olhos amarelados e incrédulos. surpreso por singular reação. Começou uma risada. encarando a face de Lucas. — Mesmo que o que diz seja verdade.. Levantou-se enfurecido e apontou o dedo para Anaquias. prosseguindo com nossa conquista. estendendo-a até uma gargalhada. Lucas nada respondeu. em voz baixa. Anaquias interrompeu a gargalhada. nem tempo extra. não direi onde encontrar o Rio de Sangue. Não haveria barganha. Quando pararam à margem da lama abençoada. criando um tapete de cadáveres. Lucas baixou os olhos amarelos para o rosto dos soldados mortos. Te darei sangue suficiente para alimentar teu bando. — Poupe-os. — Nosso sangue não presta aos da tua raça. Os órbitas dos olhos do trigésimo guerreiro voltaram a transformar-se em brasas amarelas vivas. estes traziam no topo da cabeça os corpos dos soldados mortos nos muros e no território da fortificação. — Não! — bradou Lucas. A intensidade do tremor aumentou junto com os gritos dos vampiros. É para lá que marcharemos. Debruçou-se sobre o dorso nu do cavalo e falou diretamente para Lucas. Anaquias primeiro sorriu. — Se fala do grupo que vem do norte. — Tragam os corpos! — bradou Anaquias. Tantas vidas tiradas por aqueles bárbaros da noite.. Não há razão para barganha. vampiro. Estavam perdidos. Anaquias. vampiro. Os bentos trocaram olhares aflitos. possesso. — Não estarão. bento. ao norte daqui só encontraremos Nova Natal. Enviamos um soldado para que não chegassem aqui.

Lucas e os demais trocaram olhares assustados. Os gritos de Anaquias nada adiantaram para conter seus homens. do sol na terra.engolida pelo chão. sem soprar mais nada depois de deitar os olhos no bento que atendia pelo nome de Lucas. 371 . O vampiro-rei não estava mais ao seu lado e nem mesmo havia lhe alertado para aquele perigo. Para o perigo da bola de fogo. tirou a cabeça do meio dos joelhos e ergueu os olhos ao ouvir os diversos bips de alarmes quando. inexplicavelmente. abaixando-se e tapando os ouvidos. Lucas caminhou até sua espada. O grupo de Lucas subiu no compartimento traseiro do caminhão. — O primeiro milagre! — bradou Ramiro. — Mas que diacho é isso? Do lado de fora. tomando as espadas na mão. Nova surpresa ao notar que o grupo havia escapado do cerco e desaparecia na traseira do caminhão. e era justamente o que parecia. tomados pelo terror por causa do terremoto inesperado e ainda mais por assistirem parte do exército desaparecer engolidos pela terra. Como mágica o chão se encheu de fogo. Ulisses avançou dois passos junto com bento Augusto. O que acontecia fugia da compreensão dos bentos e dos vampiros. Anaquias. Uma massa de criaturas da noite consumiu-se no meio das chamas vermelho-amareladas. encolhido embaixo de uma das mesas do escritório. Os bentos restantes repetiram o ato. os bentos ajudavam Vicente e Célio a colocarem-se de pé. dando proteção aos dois feridos. Marco Franjinha. grande quantidade deles corria com o corpo em chamas. Se aquilo era um milagre. apontado para a gigante língua de fogo que se esparramava pelo chão. fazendo o terror aumentar proporcionalmente no meio dos seus. O calor e o clarão aumentavam cada vez mais de intensidade. Um estrondo intenso ecoou na Barreira do Inferno. Lucas arrancou sua arma do solo erguendo-a para o ar. perdendo-se no meio de fogo e fumaça. mantendo-se escondido das criaturas que tinham invadido a sala de controle. começaram a afastar-se. a profecia havia se consumado e as espadas estariam livres para a batalha. Assistiam os vampiros debandarem apavorados. tornou a olhar para o grupo de bentos. aumentando o apavoramento geral. Voltou os olhos para a bola de fogo. esboçando um sorriso. os computadores do monitoramento de missão ligaram-se de forma automática. junto com um rugido de mil onças. debandando em direção aos muros. recuperando-se da surpresa e tirando os olhos da bola de fogo que consumia cada vez mais vampiros. O inesperado fenômeno desconcentrou os vampiros que. O vampiro-rei havia calado em sua mente. Era como se o diabo estivesse abrindo a boca embaixo dos pés dos milhares de vampiros e alimentado-se de suas crias.

Lucas saltou da traseira do caminhão. Lucas voou para cima do primeiro adversário. mantendo vivo apenas Lucas. Anaquias chamou os que estavam ao seu redor. O vampirorei tinha lhe alertado sobre aquele perigo. Deveria afastar-se daquele maldito brilho. Era como se uma energia vinda de outro plano. Os vampiros pararam estáticos. enterrando a prata no olho de uma segunda vítima. como que formando uma guarda de salvação. O desejo de fuga foi tomando a mente de um a um dos milhares de soldados que bateram em retirada. permitiam que visse os vampiros. surgiram os demais. Muita fumaça juntava-se na região. mas sabia onde os desgraçados estavam. Os guerreiros estavam diferentes. Uma bruxa. Anaquias girou o cavalo e bateu com os calcanhares na barriga do animal. retornando para as trevas da mata fechada. Garras afiadas 372 . Encaminhava-se para a traseira do caminhão quando a fumaça começou a cobrir todo o terreno. Atrás do trigésimo. Disparou rumo aos portões norte da Barreira do Inferno enquanto aquele sol invocado pela magia dos bentos subia ao céu. sabia que deveria agir com rapidez. Graças aos demônios não precisavam mais de oxigênio. Retirou a espada do crânio do vampiro atingido e cortou o pescoço da criatura. Entretanto. — Atacar! — ordenou Anaquias. Aqueles que batiam os olhos no clarão tornavam-se cegos e corriam desorientados. encontrando pouca resistência ao partir o pescoço do demônio. Aqueles malditos eram perigosos demais para serem aprisionados com vida por míseros cem vampiros. O vampiro-rei havia lhe mostrado algo. Os que não eram incinerados estavam loucos. Antes que a cabeça do vampiro voltasse ao chão. Com brados ensandecidos conseguiu juntar pouco mais que uma centena de vampiros ainda lúcidos e fiéis. Não enxergava bem o terreno. Sua espada afiada silvou. dando vez ao medo e ao desespero. cruzando o ar. Uma serpente engolindo uma tartaruga. do contrário estariam asfixiando e tossindo. inflasse seus corpos. Era o brilho dos olhos do terrível guerreiro. Anaquias sentiu o medo aflorar em seu ser quando notou um brilho amarelo intenso aumentar no meio da fumaça e aproximar-se da saída do compartimento traseiro do caminhão. pulando os muros da Barreira do Inferno. No entanto.Os vampiros debandavam desordenadamente. Quando ainda avançavam em direção ao caminhão. Era vontade de Anaquias preservar o sangue de todos eles. buscando o muro mais próximo para voltar ao abrigo da floresta escura. O fogo aumentou e uma cortina de fumaça começou a tomar o chão. Avançavam decididos a liquidar com a vida daqueles miseráveis. Precisaria do seu exército todo para tarefa tão grandiosa. como pedira o espectro. afastando-se cada vez mais daquele ponto luminoso da Barreira do Inferno. Seus olhos aterrorizados haviam perdido o brilho vermelho e maligno. derramando luz e medo sobre o exército da escuridão. seus olhos iluminados. transformando-os em espectros amarelados. Lucas descrevia outro arco.

seguindo o líder covarde que os abandonara à própria sorte. Ramiro também tinha acabado com três criaturas. dissipando-se e deixando que um bento pudesse enxergar o outro. antes que conseguisse apanhar a quinta vítima. Lucas? Essa base está desativada há milênios. A fumaça começava a reduzir. Lucas saltou sobre o corpo do segundo vampiro destruído e desvencilhouse do terceiro. Os vampiros pareciam mais lentos que o normal e sua fúria contra as criaturas parecia lhe dar mais e mais poder. — Aquilo só pode ser um foguete. fitando o céu e vendo o trilho de fumaça e fogo ganhar mais e mais as alturas com o ronco surdo do foguete diminuindo gradativamente. — Um foguete? Como isso pode ser um foguete. Ninguém consegue lançar foguetes hoje em dia. — O que foi aquilo? — perguntou bento Ulisses. enquanto a outra metade fugia correndo pelo campo da fortificação. Avançou e quando se imobilizou. — Isso aqui é uma base de lançamentos. até desaparecer e a luminosidade expelida pelo veículo espacial transformar-se num brilho assemelhando-se a uma grande estrela. — supôs Lucas. Enxergava os malditos dentre a fumaça e. o corpo do terceiro vampiro ia ao chão.penetraram sua carne. Permaneceram em silêncio por um instante. O milagre que os havia salvado da morte certa. 373 . Os bentos olharam para o céu. Os bentos olharam para o trigésimo. Lucas estava certo. para continuarem a luta e destruir os malditos. A resposta de Lucas calou o grupo. O ponto de luz distanciava-se. não é? — É. Aquilo só poderia ser o primeiro milagre. — tornou Ulisses. Sua bota cravou no chão e foi capaz de sorrir ao erguer a espada mais uma vez. metade do grupo de vampiros que ousaram atacar os bentos havia sido reduzida a pedaços. — Isso só pode ter sido o primeiro milagre. Sentia o corpo ágil e leve e a espada cortava o ar sem que fosse preciso muito esforço. ganhando altura com velocidade impressionante.

procurando por sobreviventes. Via dois prédios em chamas e três muros destruídos pelas criaturas da noite. Bento Amintas e bento Célio olharam para o companheiro que começara uma corrida em direção ao posto de observação. Lucas notou o interior do prédio que era estreito. Já bento Célio apresentava um quadro mais grave. Francis. O exército havia se assustado naquele dia. pálidos como as criaturas das trevas. 374 . Estavam secos e mortos. uma grande baixa para um comandante. e sem sinal de incêndio. Talvez. Teodoro e os demais começaram uma corrida. Bento Ulisses apontou para o prédio do controle. O que sobrara da Barreira do Inferno não era nem sombra do bem cuidado Centro de Lançamento. sem uma gota de sangue. — Vou para a vigia! — bradou Duque. mas assustaria-se na próxima noite? Para onde estariam indo agora? Reorganizando-se? Fariam um novo ataque ainda essa madrugada? Eles já sabiam dos adormecidos vindo na estrada. Ramiro e Augusto estavam rasgando a lona da traseira do caminhão para providenciar macas a fim de transportar o gigante Vicente e o pequeno Célio para um lugar coberto. praticamente intacto. Apesar dos amigos ao redor estarem ainda soltando brados de vitória e abraços entusiasmados. nos escombros encontrados no caminho. ainda de pé. entrando nos prédios incendiados... horrendamente. — A sala de controle fica por ali. mas muito comprido. Lucas caminhava vagarosamente. Mas. Quantos vampiros haviam morrido no fogo milagroso? Dois mil? Três? Três mil no máximo. Apesar de terem visto o exército negro evadir. Bento Duque havia visto os malditos. — indicou Ulisses. cercado de janelas e com o chão coberto por lajotas vermelhas.. Os móveis estavam fora do lugar e algumas lâmpadas não funcionavam bem. eram muito mais que isso. mas ainda sobravam cabeças demais para comandar. com sua espada segurada pelas mãos. Bento Duque baixou a cabeça. Um pavimento de três andares. As sombras e o piscar das lâmpadas frias aumentavam a tensão. Francis havia estancado a hemorragia de Vicente. local pelo qual o Marco Franjinha zelara de forma obsessiva. tudo o que encontravam era corpos drenados. Lucas acompanhou o guerreiro moreno. piscando constantemente. Temia pela vida do amigo.. atrapalhando a visão. Entraram no prédio da sala de controle. com queimaduras profundas na região do ombro e pescoço. que poderia recuperar-se mais rapidamente. sem a mínima chance de sustentar vida. Talvez tivessem perdido dez por cento do poderio.Capítulo 52 Bento Duque olhou ao redor... sabia que aquele exército noturno estava lá fora. fugindo para a mata. mantinham-se alertas.

Ulisses reconheceu a figura de Franjinha. monitorando o progresso da missão. A direita da porta um aparato eletrônico com um teclado. apenas um museu. Sua atividade provocava um brilho que iluminava a face de Lucas e Ulisses. tinha cerca de quatro metros de altura por oito de largura. 375 . Ulisses tinha estado ali horas antes. Bento Lucas aproximou-se. Nesta lia-se: "Entrada Restrita. cheia de equipamentos e propósitos que só serviam ao passado. Depois de uns instantes fitou o bento com um sorriso. Agora eu sei. escutando outro estalo. No corredor do teto pendia uma placa indicando a sala. Lucas virou a cabeça para trás quando ouviu um estalo às costas. ainda hipnotizado pela sala de controle em funcionamento. Parecia sim. Lucas girou a maçaneta. — O que aconteceu aqui. Seus olhos refletiam os gráficos exibidos na tela principal. Apenas pessoal autorizado". cara? Franjinha demorou uns segundos para desviar os olhos da tela imensa. Lucas deu três passos adentro. como muitos prédios. Chegaria esse dia e ela precisaria de mim. Chegou à porta dupla da sala de controle. — os olhos do obstinado zelador da Barreira do Inferno encheram-se de lágrimas. — Calma. Lucas continuou em frente. durante a tarde e aquela sala ampla não lhe parecia tão maravilhosa.Lucas dirigiu-se para a área apontada. ainda boquiaberto. sentados em suas cadeiras de couro negro. Estavam pasmos. buscando explicações. Quase podia ver o espectro dos técnicos atrás de cada uma das telas de computador. Calma. — Agora eu sei por que fiquei aqui na Barreira do Inferno. as pessoas deveriam digitar ali algum código para conseguir seguir adiante. — Um milagre. onde havia um número enorme de fios conectados ao laptop do engenheiro maluco. aproximando-se. de frente para ela. Levantou-se e apontou para uma das mesas. O centro de controle era impressionante. Bento Ulisses e Lucas ficaram imóveis por cerca de meio minuto. olhando para Lucas. homem. no passado. Agora tinha diante dele uma sala iluminada por telas de computadores em perfeito funcionamento. A tela mestre. Provavelmente. Empurrou a porta e entrou. Acima da porta outra placa. De joelhos. bento Ulisses. agora olhando com atenção para a tela principal. um homem permanecia admirando o estranho acontecido. forrando quase totalmente a parede principal da sala de controle. Caminharam mais alguns metros. imensa. Faíscas caíam do teto junto a uma das luminárias onde um curto-circuito acabara de ocorrer. — O que foi aquela bola de fogo lá fora? — Vocês viram? Não foi lindo? Ulisses riu longamente. Um milagre.

— Ele está carregando a peça fundamental do último projeto em curso do CLBI antes da Noite Maldita. estavam destruindo tudo. mas aquela bola de fogo salvou nossos pescoços lá fora. estupefato.. Franjinha caiu sentado na cadeira de couro e bufou. os motores nem seriam carregados. — Desculpe. e que ela ainda funcionasse. — Bento Lucas. Era sua vez de se espantar.. nada. peça de tecnologia de ponta naquela época. O trigésimo sorriu. é o foguete ARIANE-108. — Você quer dizer "o" bento Lucas. — repetiu o engenheiro. procedimentos e manutenção mecânica. — Seria um verdadeiro milagre se o robô conseguisse conectar a célula matriz. era como se a sala de comando ganhasse vida.. Eu não sei o que você fez daqui.. ainda não fomos apresentados. — Eu não fiz. aqueles filhos duma puta estavam pulando em cima das mesas do controle de missão. há ainda a questão da janela. mas já seria impossível imaginar o ARIANE decolando depois de trinta anos de abandono. 376 . Franjinha fez uma cara de espanto. cagando nas calças. assistindo a essa maravilha. — É por isso que é chamado de milagre. — Isso mesmo.. Está carregando a célula de energia matriz do projeto TUPÃ. Franjinha. — Projeto TUPÃ? — interrogou Ulisses.. Acho que por causa da claridade da tela os vampiros picaram a mula daqui e me deixaram em paz. é impossível isso estar acontecendo. — Santo Deus! — balbuciou Lucas.... de repente as luzes se acenderam e pimba! — Pimba!? — É. o combustível não funcionaria. É por isso que é chamado de milagre. senhor. — Isso mesmo... — Aquele traço vermelho.... Ulisses olhou sério para Lucas que se aproximara dos dois. Franjinha parou e fitou o bento..... Foi maravilhoso.— Você foi lindo. Acho que estou sonhando. bento. Eu não pus um dedo nisso aqui. Franjinha levantou-se de trás da tela do laptop e olhou para a tela principal. — completou Lucas.. deslocando-se continuamente. Eu estava escondido debaixo da minha mesa. sozinho. — É. arrumando os óculos num movimento ligeiro. É o que estou dizendo.. — O que significam aquelas coisas? — perguntou a Franjinha. os computadores ligaram sozinhos..... apontando para a tela. A tela principal acendeu e começou o programa de lançamento. — ARIANE? Você está dizendo o ARIANE? — repetiu Lucas.

À esquerda. Para que fosse feito um monitoramento preciso depois que começasse a intervenção do TUPÃ.. — Até onde isso vai? 377 . Não sei para que vai servir agora. Já sei.— Agora tá explicado. fazendo com que a janela exibisse ainda mais próximo o solo do planeta Terra. não foi isso? — Isso. encravado entre o Ceará e a Paraíba. o Atlântico. é o continente. — O que é isso? — perguntou o trigésimo.. — Esse é o nosso glorioso estado do Rio Grande do Norte. Serviam para mapeamento agrícola. Esses satélites integram o projeto Tupã. Lucas e Ulisses viram admirados Franjinha operar o laptop.. — E isso aqui? O que é? Franjinha fitou a tela principal. Ulisses afastou-se e foi sua vez de voltar a examinar a tela principal. marrom-escuro. — disse enquanto digitava rapidamente no teclado. — Vocês estão vendo a esquina do continente. — Nossa! — exclamou Ulisses.. Mais um toque aqui e poderão ver mais próximo ainda.. Se a célula matriz funcionar. o projeto TUPÃ entra em funcionamento. Esse é o litoral do Nordeste.. quase negro. — Estava tão embasbacado com o lançamento do foguete que nem notei isso. dá pra aproximar mais. à direita. A profecia dos trinta bentos se cumpriu. — E o que vai acontecer quando o foguete chegar ao seu destino? — O foguete vai colocar o robô com a célula matriz em órbita. Você chegou aqui com os seus outros bentos. mas isso. — Pra que isso serve ? — Esse projeto foi desenhando com alguns parceiros sul-americanos e europeus como uma ferramenta para a agricultura. Apontou na tela do laptop uma janela onde se via uma figura marrom à esquerda e uma porção de um azul escuro. — Olha. — Meus Deus! O engenheiro olhou para o laptop. — O que é? — Estamos recebendo imagens de dois satélites de observação. Como é possível? Tudo bem que é um milagre. — O resto do pessoal tem que ver isso. — Agora tá explicado! — vibrou o engenheiro. a parte azul-escura é água. Pequenos quadros subdivididos apareciam na parte inferior. que por sua vez vai voar até TUPÃ e irá conectar à célula matriz.

balançando a cabeça... indicando que o fogo avançava.— Eu só estudei isso nos sistemas.. Ulisses aquiesceu.. — Vamos deixar isso mais interessante. que nos salvariam da maldição dos vampiros. Cadê os soldados dos muros e o pessoal que estava trabalhando? Ulisses e Lucas trocaram um olhar rápido. Franjinha calou-se um momento. — Como assim? Franjinha arrumou-se na cadeira para explicar aos bentos. Fiquei adormecido por vinte anos. Estranho. — Isso mesmo. o que são? — Esses são os homens lá fora. A resposta veio seca. — Vejam.. — retrucou Franjinha.. relativamente próximo ao litoral. Ulisses. Mais alguns cliques e nova aproximação.. é o caminhão em. Lucas olhou para o engenheiro. Eu vou mostrar. zanzando próximos aos focos de incêndio. parece um caminhão. — Nossa! Estamos vendo a Barreira do Inferno. os observadores passaram a ver a costa com maior clareza. Ulisses e Lucas viram minúsculos pontos vermelhos surgirem agrupados num determinado território. — E esses pontos rosa-amarelados. Agora podiam discernir pontos pretos e retangulares que compunham o que sobrara das edificações. Vou selecionar o contraste de temperatura.. Esses são os incêndios aí fora. Dito isso. A maioria deles com boa parte tomada pela cor vermelha. — Dois. O operador abriu um menu. — É. Por esse menu posso realçar o que nos interessa. — Estão mortos. Ao menos já vimos um deles concretizado. nos livros do controle.. — O quê? — Tem pouca gente. E podemos ver mais. O projeto nunca decolou. — A profecia dizia que ao nos reunirmos teríamos quatro milagres concedidos. Estamos aqui falando com você só por causa do primeiro milagre. 378 . — Consegue trazer a câmera mais para a esquerda? Franjinha obedeceu. — Tá vendo? Esse retângulo.. — Peraí. que chegamos... — Até o quê? Não faz suspense. — murmurou o engenheiro.. — Temos dois milagres acontecidos. Os vampiros destruíram os muros e devastaram todos.. Depois de alguns cliques. nunca usei de fato. mas acho que dá pra ver até... Franjinha moveu o mouse novamente.

— Continue. As imagens. dos grandes. temos um segundo milagre acontecendo. voltando à sala de controle seguido pelos bentos. São recarregáveis. O rapaz abria armários de madeira. 379 . Repetiram o caminho feito por Franjinha e adentraram a sala seguinte. — Podemos fazer um teste? — Como assim? Que teste? — Esse negócio que você falou. do primeiro pacote. sem que fosse feito nenhum preparo. nem TV nem tecnologia wireless. Isso é demais pra mim.. — Preciso tomar um ar. Nenhum rádio funcionava. vindas de dois satélites que fazem parte do programa TUPÃ. Examinou o primeiro deles.. O engenheiro colocou a caixa no chão e rompeu o lacre. Vamos considerar o projeto TUPÃ em atividade como um milagre único. Em menos de um minuto a segunda bateria entrava no aparelho seguinte. isso é um milagre. das ondas de rádio. bento Lucas.. O rapaz desapareceu da sala. Quando Lucas abriu a boca para perguntar. Tirou dela dois walkie-talkies novinhos em folha.— O ARIANE 108 ter decolado após tanto tempo de inatividade. O engenheiro levantou-se e atravessou apressado a sala de controle. faz sentido. Mas e se somente o rádio ligado ao projeto TUPÃ estiver funcionando? Talvez isso seja parte do primeiro milagre.. A bateria foi cuspida para fora e serviu para ligar o primeiro walkietalkie. bento. as imagens são transmitidas via rádio. O aparelho de som estava na mesa ao lado do laptop. Franjinha tirou o eletrodoméstico do lugar e removeu uma tampinha traseira. com um sorriso Vitorioso. nada que tivesse radio transmissão envolvida. pode acreditar em mim. — Esses satélites deveriam estar desativados também? — arriscou Ulisses. Franjinha ergueu uma caixa... O recarregador de baterias estava embaixo da mesa. — Não. — Segundo. como se tivesse recebido um troféu.. vamos incluir isso no primeiro milagre. Se estamos recebendo ondas de rádio aqui. Desde a Noite Maldita as ondas de rádio foram deletadas das regras da física. buscando alguma coisa. Lucas e Ulisses ouviram o barulho de coisas sendo reviradas e de objetos indo ao chão. como você mesmo disse. Rasgou a embalagem plástica.. creio que as ondas de rádio voltaram a funcionar. Um pacote.. — Ufff! — bufou Ulisses. abrindo uma sala anexa. se estamos vendo essas imagens. — Graças a deus! — O quê? — As baterias destas belezinhas são as mesmas que uso no aparelho de som.. nenhum aquecimento.

Aguardou segundos intermináveis. Baixou o aparelho e bateu a cabeça repetidas vezes contra a parede. — Puta merda! Não dá pra acreditar! Lucas concordou com o rapaz. Franjinha riu. As luzes piscavam alternadamente. Mordeu o lábio. Depois de um breve momento de alegria. Tenho que melhorar os parâmetros para o programa filtrar as imagens que está recebendo. 380 . voltou a olhar para a tela do laptop. Os pontos róseo-amarelados pareciam ter aumentado em uma dúzia. aumentando o campo observado. eufórica. Franjinha soltou o botão de falar e levou o aparelho ao ouvido. — Um. Inspirou fundo e colocou um deles na mão de Ulisses. os contornos da base de lançamento foram perdendo-se. mas estão em movimento. dois. Apenas a sala de controle parecia funcionar em perfeito estado.Franjinha. dando um toque final na tecla enter. Lembrou-se dos vampiros que haviam fugido da luz intensa proporcionada pelo lançamento do foguete. O rádio está funcionando! — explodiu. a voz de bento Ulisses. — A temperatura corpórea desses assassinos selvagens é abaixo da nossa. Afastou um pouco o zoom.. os malditos teriam sido liquidados pela luz do sol. Pode mostrá-los? — quis saber. Os focos de incêndio diminuíram sensivelmente... devem apresentar algo próximo da temperatura ambiente. indo para o corredor. teste. Levou o botão dos aparelhos para a posição de "on" e casou os canais. Os bentos ouviram a porta abrir com estardalhaço. três.. cerimonioso. Vamos descartar o movimento captado de todo corpo que apresente massa com peso inferior a sessenta quilos.. Os vampiros não produzem calor corpóreo. — disse Franjinha. Se fosse dia. Um exército grande talvez possa ser visto. olhou sério para os bentos parados na sua frente. Pressionou o botão de falar e fez sua tentativa. meneando a cabeça e sorrindo também. O engenheiro voltou sorridente. sentou-se na cadeira preta e tornou a clicar. mas não sabemos onde estão. Nada. Os bentos continuavam a observar enquanto Franjinha voltou ao teclado. ansioso pela resposta no rádio.. Franjinha recostou-se na parede. antes de ligar os aparelhos. Responda se estiver me ouvindo. — Alto e claro. percebendo a bobeira que tinha acabado de dizer. — Acho que consigo melhorar o contraste. — E os vampiros? Eles fugiram daqui. — Se fosse dia. — Se fosse dia eles estariam liquidados. Franjinha voltou para frente do computador. Faíscas desprenderam-se de uma luminária a meia distância. Franja. então. Atravessou a sala novamente. — tentou explicar. talvez pudéssemos ver alguma coisa com isso. mas está tudo escuro. acho que teremos nosso Exército.

— murmurou o trigésimo. — tornou. bento! Há um jeito! — Do que você está falando? — Se o robô conectar-se ao TUPÃ. Milhares de pontos azuis surgiram na tela. apreensivo. — Estão indo para a estrada. — Há um jeito. — Não há como. em seguida. — Temos que detê-los. Dentro de poucos minutos o robô desconectaria-se do foguete ARIANE-108 e navegaria até o soberbo e engenhoso TUPÃ. O engenheiro enfiou os dedos na franja loira. mas reagrupandose perigosamente. movendo-se para sudeste. girou rapidamente e. — Para onde estão indo? Franjinha moveu o mouse e reduziu o nível de zoom. — Vão interceptar o comboio. — disse Lucas. deslocando-se vagarosamente. — O que foi? O engenheiro olhou para bento Ulisses. — Como fui tão burro! — explodiu. — Nova Natal. — Estão indo para o norte. a janela de exibição refezse. ficando de pé. Lucas.Uma ampulheta surgiu na tela. — disse o engenheiro. abrindo mais campo na tela. apontando para um grupo de retângulos vermelhos que deslocavam em alta velocidade. Franjinha recuou a cadeira e passou a olhar para a tela principal do controle. teremos uma chance de salvar o comboio! 381 .

Pisou mais fundo no acelerador. repetindo o som grave que tinha assombrado os ouvidos dos soldados da Barreira do Inferno.. Liderava o comboio saído de Nova Natal com destino à Barreira do Inferno. Quando visualizou os faróis brilhando no asfalto. os caminhões na estrada trariam adormecidos. ergueu um dos braços. teriam a força e a disposição dobrada. Bastou o comentário para que o amigo. A cornucópia foi soprada mais uma vez. Anaquias. Nos altofalantes rolava a quarta faixa de um CD gravado por um amigo. Estava indo a oitenta quilômetros por hora.Capítulo 53 O soldado Nivaldo checou o retrovisor. As faixas amarelas na pista passavam velozmente. Não dava tempo de avisar os outros. presas em armações de madeira para o transporte. Carga viva. Os bentos tinham logrado vitória no último embate. Um único vampiro. Tinha que guiar o comboio. parado no meio do asfalto. o que era aquilo na floresta? Um incêndio? Sentiu um arrepio eriçar os pêlos dos braços quando viu brasas voadoras cruzarem o céu. sendo engolidas por seu caminhão. Nivaldo aumentou o som quando Poison Heart começou a tocar. Pessoas adormecidas. Manteve a aceleração. se aumentasse mais a velocidade. mais do que uma vitória. talvez o resto do comboio não acompanhasse. Adorava aquela música. dando ritmo à viagem. Estava distraído. A dupla de faróis do segundo caminhão surgiu assim que terminou a curva. Seus olhos encontraram algo na pista.. Não teria tempo de frear e voltar. Um Rio de Sangue ambulante. no topo de um morro. Tinha que escapar daquele cerco. com a mão estendida. pronto para descer goela abaixo. A "energia" de Palasides Park explodia na boléia do caminhão. saltando de um lado da floresta para o outro. mas depois que seus milhares de soldados reabastecessem os corpos sobrenaturais com o sangue humano. com acesso à sala de computadores de Nova Natal. branco como a lua cheia. Seu caminhão estava cheio de carga. Deus do céu! Não eram brasas! Eram vampiros! Estavam por toda volta. Voltariam aos muros da Barreira do inferno e terminariam o que tinham começado. via a estrada centenas de metros abaixo. reunisse as melhores faixas da banda punk num CD que valia ouro. satisfazer a sede maldita que guiava a mente dos vampiros. Nivaldo tinha comentado com Fernando que era fã do som dos Ramones. E agora. 382 . Mais uma vez os vampiros tinham ordem para atacar. montado no cavalo. segundo tinha sabido dos comandantes.

O projeto TUPÃ procuraria minimizar os problemas climáticos.. Voltou com o volante para a direita. O corpo esguio e pálido voou metros à frente. Ainda com o berro escapando pela garganta. A faixa do Ramones chegando ao fim. obrigando Nivaldo a puxar o volante totalmente para a esquerda. O projeto TUPÃ era um consórcio intercontinental de estudo e apoio ao desenvolvimento agrícola. mas levando os olhos para a estrada. Grande erro. enfiando o pé no freio. Imaginou que o maldito intimidaria-se. Uma maré de olhos vermelhos em brasa tomou o leito do asfalto. voltando a cair na estrada e a ser apanhado uma segunda vez pelo caminhão. não seria possível continuar.. aferrando as mãos no volante.. Mais flechas flamejantes cruzando o céu. Estava perdendo o controle do veículo.. Conseguiu estabilizar. Nem tinha ouvido todo o CD. Um barulho rouco começou assim que o pneu dianteiro direito estourou. O caminhão acertou a criatura em cheio. — O que tem? — Se fosse dia seria perfeito porque a luz do sol acabaria com os desgraçados. tentando neutralizar os efeitos das geadas fora de hora. No entanto. até mesmo países gigantes e ricos como o nosso começariam a sofrer com a escassez de produtos cultivados. Nivaldo puxou ar mais uma vez. Nivaldo soltou um berro de alegria ao ver o primeiro inimigo vencido. Talvez indo em direção aos que vinham atrás.. Um a um os caminhões iam sendo rendidos e cercados por uma avalanche de vampiros. veio a retaliação. caralho. — Quando falei aquela hora.. vendo-se totalmente cercado. Nivaldo chegou a tirar o pé do acelerador como reflexo. Olhou pelo retrovisor. Dessa vez. Com a intervenção humana e a degradação do meio ambiente o clima global estava fugindo do controle. ordenando que parasse. — Não. Flechas flamejantes cortaram a escuridão rumo aos pneus dianteiros do caminhão. todos os pneus passaram sobre a criatura. — Vai pro inferno. moendo seus ossos e seus órgãos mortos e podres. Franja.espalmada. capeta! — berrou. que se fosse dia seria perfeito. arrebentando o vampiro em cinco pedaços. mesmo que quisesse. Era o fim. mas o que isso tem a ver com o seu plano? Vai fazer a terra girar mais rápido? — perguntou Ulisses. Nivaldo prendeu a respiração. Nivaldo tornou a agarrar o volante. mas não tinha condições de continuar. O vampiro viu o monstro de metal crescer diante de seus olhos. Vampiros filhos duma puta! Torceu a direção mais uma vez. impedindo que prosseguisse. não ia parar por causa de um merda de vampiro. manteve-se firme. Talvez mirando os pneus posteriores. Tentava avaliar a condição de prosseguir à toda. Logo. O caminhão guinou brutalmente para a direita. certo? — Certo. Com a velocidade reduzida seria presa fácil. da 383 .

Sérgio foi o primeiro a livrar-se da tampa. O robô vai rastrear automaticamente o receptáculo da matriz e vai conectar-se ao grande TUPÃ. basta apontar e pau! Fogo nos filhos da mãe! — Demorou! — exclamou bento Ulisses. Os vampiros. abraçando os joelhos. mais duas escotilhas saíram e seus colegas assomaram pela abertura. capaz de condensar e direcionar luz do sol para a Terra durante as horas da noite. descendo até o asfalto e cercando o primeiro caminhão. TUPÃ basicamente é um gigantesco refletor solar. Franja. saltou dos galhos da árvores altas. — Do que você está falando. gente. — O projeto TUPÃ. colocando os fuzis para fora. — Trabalha como se fosse um espelho gigante. — Rápido. Bastou a surpresa inicial dissipar-se para que iniciassem o ataque. Nivaldo abriu a janela de comunicação com o compartimento de carga.falta de chuva. Santo Deus Padre Todo Poderoso! O que era aquilo? No instante seguinte. Os vampiros estavam cercando os caminhões. subiram sobre tal estrutura. Abrevie a conversa. Um número assombroso de criaturas. surpreendidos pela resistência. sentou no assoalho na parte frontal da cabina. — Vampiros! — berrou enérgico. Faça o que tiver que fazer. Malditos vampiros! 384 . Os vampiros estão cercando os caminhões. Em quanto tempo consegue bombardear os malditos com luz do sol? O engenheiro ergueu os ombros. O vampiro sorriu. Lucas olhou para a tela do laptop. No entanto. acionando sua metralhadora. — O foguete expeliu o robô agora na órbita de TUPÃ. Puxou o gatilho. — O quê?! — espantou-se Lucas. Quando colocou a cabeça para fora. agarrados às estruturas que empilhavam a carga por causa dos trancos. intensifica a luz solar. afastaram-se do caminhão. também dotadas de armas de fogo. ficou paralisado por alguns segundos. que além de refletir. Sabendo onde esses putos estão. Não sei quanto tempo leva. Os soldados que iam atrás. ganhando as escotilhas superiores do compartimento. desarmado na boléia. Os disparos foram certeiros. Nivaldo. Franja? Dá uma olhada no seu laptop. entre outros tantos truques possíveis com os recursos lançados ao espaço para que fosse otimizada a produção agrícola em todo o Brasil e América Latina. Sérgio acionou sua arma. o número de vampiros era imenso. fazendo mira nos soldados que surgiram no topo do veículo.

sendo a maior parte do corpo um cilindro. Tão inesperadamente quanto acenderam. a tela escureceu e o robô ativou a segunda câmera. em boa resolução. talvez com o raio de três polegadas ou mais. Estampado no casco do grande TUPÃ havia a bandeira do Brasil. Numa fração de segundos. cinco bentos. completando três voltas ao redor da porta. os observadores assistiram um cilindro percorrendo as garras. que agora exibia mais uma vez o casco de TUPÃ. aproximando-se pé ante pé. terminada numa garra cilíndrica. uma haste articulada projetouse até tocar uma espécie de parafuso sextavado. mas a julgar pelas imagens vindas da câmera do robô. 385 . TUPÃ era algo grande. O robô rotacionou o centro de seu corpo 180 graus. A própria haste do robô. trazendo-os para junto da câmera até sumirem do campo de visão. apenas um ponto de luz verde acendeu. permanecendo com as garras fixas ao TUPÃ. mas pela seriedade e mutismo dos três observadores. deixando os oceanos sucumbirem gradativamente à escuridão. muito grande. ao passo que o dispositivo acendia e apagava uma lâmpada de cada vez. O robô percorreu a superfície do objeto e fixou-se onde deveria inserir a célula de energia matriz. encerrando a carga no interior de TUPÃ. Mais um minuto passou-se até que viram o robô tocar o metal do equipamento. Como Lucas não conhecia a escala do projeto. Do robô. provavelmente recolhendo-os a um compartimento em sua unidade. a aproximação do robô espacial do complexo TUPÃ. depois de dois segundos. Nesse instante. A luz do sol aparecia numa das bordas da esfera ovalada. deixando o robô e instalando-se ao receptáculo.Os três homens assistiam. O robô também abriu automaticamente um compartimento em sua extremidade e uma haste com garra semelhante conectou-se à haste do TUPÃ. agoniados em virtude do tempo escasso. Assim que a luzes apagaram-se. Não entendiam o que se passava no grande painel. alternadamente.. O brilho verde pareceu caminhar. Pareciam peças grandes. A garra vinda de TUPÃ pressionou a célula de energia e recolheu-a para seu interior.. na extremidade oposta de seu corpo. A haste girou rapidamente. A câmera da unidade passou a exibir. uma haste robusta. passaram a assistir calados. até que o parafuso subisse cerca de quinze centímetros. A tampa desparafusada correu automaticamente para a direita e do artefato espacial subiu um receptáculo mecânico. apagaram. um círculo de pequenas luzes verdes acendeu-se. A porta deslizou mais uma vez. não ousaram importunar. Ao redor da porta deslizante. Repetiu a operação num segundo parafuso. ao desconectar-se do segundo parafuso. retirou-os do lugar. o nosso planeta azul. TUPÃ parecia-se com um grande satélite. Em seguida. algumas mulheres e soldados remanescentes entraram na sala de controle. não tinha idéia do tamanho do equipamento. um alarme soou no centro de comando. Repentinamente.

— então piscou e alternou. Nivaldo encolheu-se mais. Respiravam pesadamente. A mensagem apagou-se. Todos caminhões estavam cercados e. Nivaldo respirou fundo. Outra mensagem surgiu. permitindo que os espectadores observassem o grande instrumento espacial em sua plenitude. DESEJA ATIVAR A CÉLULA MATRIZ? Dois tiros entraram pela porta do caminhão. — alternando para — TESTES 1. DESEJA ATIVAR A CÉLULA MATRIZ? Abaixo da mensagem existiam dois botões. Dessa vez os olhos não despregaram do monitor. Apanhou a caixinha do CD. fazendo espuma do estofamento subir e depois descer lentamente. assim que os tiros dos soldados acabassem. A tela exibia uma mensagem de alerta. Quando as primeiras batidas de I Belive ln Miracles escaparam. o rapaz clicou em sim mais uma vez. O robô havia se afastado vários metros. 2 E 3 COMPLETOS COM SUCESSO. um SIM e um NÃO. O engenheiro voltou os olhos para a tela do laptop. — Ah! Perfeita! — exclamou ao encontrar na lista uma de suas prediletas. Já que ia morrer. Olhou as faixas descritas numa folha presa no fundo da caixinha do CD. desajeitado em virtude da posição desconfortável. então arriscou olhar pelo vidro dianteiro.Franja correu até seu laptop. tomados pela ansiedade. — FALHA NA COMUNICAÇÃO. Em número jamais visto. O alarme soou novamente. — TESTES 1. Bastaram alguns segundos para o alarme de aviso voltar. seriam aniquilados. 386 . Os olhares convergiram-se para o grande TUPÃ. Eles estavam lá. DESEJA ATIVAR A CÉLULA MATRIZ? Antes que a mensagem desaparecesse. — O que está acontecendo agora? — quis saber Ulisses. fazendo a letra de Dee Dee Ramone e Daniel Rey soarem em alto e bom som nos seus ouvidos. A tensão era tamanha que ninguém emitia um pio sequer. — TESTES 1. Franjinha moveu o mouse até o SIM e clicou. Nivaldo girou o botão de volume até o limite. Aguardou a espuma assentar. Verificou o número e. 2 E 3 COMPLETOS COM SUCESSO. dessa vez piscando e revezando com a anterior. que morresse ouvindo seu som preferido. — FALHA NA COMUNICAÇÃO. levou o dedo ao seletor do toca CD. 2 E 3 COMPLETOS COM SUCESSO. feito neve caindo.

tinha conseguido enviar comandos para os satélites e todos tinham sido executados perfeitamente.— Não estou conseguindo enviar o comando para TUPÃ iniciar. — disse. — Ele nunca desiste? — perguntou Teodoro. brotherzinho. Havia um cômodo construído. A antena de transmissão do projeto TUPÃ era diferente da de transmissão dos satélites de observação. Teodoro.. Eu não consigo enviar a confirmação para iniciar o processo. Tem que ter um jeito. veio em sua direção. Lucas deixou a sala correndo. Quando chegou ao local. diferente do grupo. — Calma. Com ela no chão. — O garoto. abrindo a porta e entrando no cômodo. — Porra! Ela quebrou? — Não. Aqui diz que os testes padrão e de segurança estão ok.. — Ajudem-no a arrumar essa encrenca. cara. O problema é aqui. Franjinha! Pensa rápido! Os vampiros já cercaram os caminhões! — Não vou assistir isso daqui! — explodiu Lucas. — Lucas! Espere! Não há tempo de chegar lá para salvá-los. que abrigava as conexões da antena e seu equipamento de funcionamento e conexões com a sala de controle. Onde estaria o defeito? Se o robô estava enviando as mensagens. A multidão de perseguidores percebeu o desânimo do engenheiro. começando a arfar e revelar o cansaço físico. Levou o lápis novamente à boca e mordeu a ponta. o sangue gelou nas veias. erguendo os ombros e olhando para os demais. Correu até lá. — Com ela no chão não conseguiremos transmitir. onde deveria haver a torre. acho que ele descobriu o defeito. Ulisses perguntou: — Qual é o problema? — A antena. A torre havia sido tombada pelos malditos vampiros. Franjinha voltou ao monitor. a recepção estava boa. — disse apontando para os escombros da torre. Não é isso. Por outro lado. Franjinha olhou para onde ficava a base da torre. Eu clico e a célula matriz não é ativada. não conseguiria transmitir nada. Eu vou até lá. O comboio estava condenado. — Porra. Pensava. Espere. pelo amor de Deus. O engenheiro atravessou quase metade do Centro de Lançamento até chegar onde queria. Verifique as conexões e o funcionamento. Não sai daqui. É só a torre que está no chão. 387 . Bateu na mesa! — Já sei! Lucas chegava ao caminhão quando viu todos que estavam no controle saírem correndo pela porta frontal do prédio.

Um ou outro ponto vermelho indicava que pequenos incêndios tinham começado ao redor dos caminhões. o desespero aumentou. tirando as flechas incrustadas no capô. Idéias. Os faróis quebrados na colisão pareciam em perfeita ordem.Em menos de um minuto o engenheiro deixou o cômodo sob o olhar de Ulisses e os demais. um monte de ferro retorcido. removiam os tambores de água debaixo do caminhão. A aflição só aumentava quando olhava para a janela de imagens transmitidas pelo satélite. Mais uma vez pôs-se a correr. Virou-se para o engenheiro e falou baixo com ele. fazendo caretas de aflição toda vez que o alarme de erro disparava. saltos e armas empunhadas. Minutos mais tarde. — Vá para o comando e transmita. — Vamos pessoal! Vamos ter trabalho! Vamos colocar essa torre de pé. por pura sorte. Deu partida e o motor roncou em perfeito compasso. Nunca duvidara da seriedade da situação. Ulisses olhou para a torre. Virou-se para as pessoas atrás. apoiaram-se nas portas da cabina e foram de carona no suporte externo nas laterais do caminhão. Franjinha meneou a cabeça positivamente. continuando o exame do lado de fora. usando os próprios cabos de aço presos à torre e usando o cômodo de concreto como base de apoio. Foi até a ponta da torre checar os componentes de transmissão que. Os vampiros eram tantos que os espectros azuis tomavam completamente a janela de exibição. ajudados pelo caminhão. Tinha aproximado ainda mais a imagem e podia ver claramente que os vampiros já tinham cercado e imobilizado o comboio. O veículo parecia não ter sofrido dano sério. Vão avançar. Franjinha clicava no SIM de tempos em tempos. haviam caído sobre as ramas de arbustos e. Se eles alimentarem-se do comboio. Não duvido nada que o alvo de amanhã seja Nova Natal ou até mesmo que voltem para cá para acabar com o que começaram. Os vampiros estavam tomando os adormecidos! Estavam apossando-se de um Rio de Sangue! 388 . acumulando uma vitória atrás da outra. Depois de muitos cliques e sonoros alarmes de erro. voltando para o controle. Os bentos. Num instante alcançaram o prédio da torre e juntaram-se ao alvoroço. fazendo a antena subir pouco a pouco. Foi até o amontoado de metal que sobrara da torre conferir a integridade do cabo de transmissão. — Vai dar! Vai funcionar! Precisamos colocar essa joça de pé! — voltou confiante. Com uma aproximação maior conseguia até separar os espectros em indivíduos. pelo amor de Deus! Temos que deter aquele Exército. atropelados na chegada à Barreira do Inferno. Lucas. por favor! — pediu. não tinham sofrido danos sérios. Ele nada disse. foi para a cabine. começaram a tracionar o emaranhado de ferro. com seus cabelos negros e esvoaçantes. Agora assistia alguns pontos róseo-amarelados serem retirados dos caminhões. que aguardavam na porta. Augusto. Bento Ramiro com expressão de nada entender. com isso. estaremos perdidos. Braços de vampiros. cada um de um lado. Teodoro e Augusto.

assistindo o final da interessante metamorfose da máquina espacial. parecia um grande tabuleiro de xadrez e. A objetiva do robô que flutuava junto ao colosso espacial mostrou TUPÃ abrindo oito compartimentos ao seu redor. saindo do walkie-talkie. Os corpos estavam sendo retirados dos caminhões. Abaixo uma contagem regressiva em 28 segundos indicava que logo TUPÃ estaria ativo. segundos depois. bem esticados. carregados pelos vampiros. formando uma fileira. Queriam assistir aquilo. Manteve os olhos fechados até que. Já podia ver alguns pontos róseo-amarelados entrando na floresta. Surpreendeu-se quando a voz de Franjinha surgiu em sua cintura. agora. Teria de reacostumar-se com aquilo. Grandes hastes metálicas foram desdobrando-se. unindo o esqueleto. Ao olhar para a tela do monitor deparou-se com uma nova mensagem: — CARREGANDO SISTEMA. Na tela do laptop. também exibia um gráfico digital com traços verdes do artefato espacial em movimento. — Conseguimos! Conseguimos ativar TUPÃ! — berrava Marco Franjinha. O pedido foi processado e TUPÃ iniciou a preparação. Ulisses indicou para o caminhão parar. uma conectando-se à outra. Automaticamente clicou mais uma vez o mouse. Em outras áreas do campo visual podia ver o pontos róseo-amarelados esmaecerem. estaquear os cabos de aço ao chão. A torre estava quase a noventa graus do chão. trazendo a supremacia sobre os vampiros.O rapaz baixou a cabeça. AGUARDE. Os soldados deveriam ter sido exterminados. feito formigas carregando alimento para o formigueiro. seguindo as instruções na tela. Ulisses olhou para a tela que exibia o cerco ao comboio. Teriam que. com aquela possibilidade. Agora. subconscientemente. havia tornadose a grande esperança da humanidade. algo parecido com um tecido prateado corria de uma ponta a outra. notou que não escutara alarme de erro desta vez. Nos vãos espaçosos entre as hastes. nada deteria o avanço daquele monstruoso exército das trevas. formando uma espécie de grade gigantesca. perdendo sua 389 . miraculosamente. cuidadosamente. Solicitou ao sistema TUPÃ que abrisse o prato de reflexão solar. Parecia-lhe uma grande ironia ter à disposição um colosso feito TUPÃ e não poder fazer uso daquela máquina. no instante seguinte. Franjinha teclava o laptop. daquela tecnologia que fora desenhada para fins de pesquisa e benefício agrícola e. Ulisses respondeu. sentindo-se derrotado. o prato gigantesco encontrava-se completamente forrado por aquele material prateado. imitando a tela principal da sala de controle. Foi nesse momento que Ulisses e Lucas chegaram à sala de controle. Fechou os olhos. Ulisses correu para informar os demais. Chamou Lucas e correram de volta à sala de controle. Saindo do estágio em que toda a estrutura estava descoberta. Apanhou o walkie-talkie ao lado do computador e pressionou o botão para falar. Instruiu bento Ramiro para que os cabos de aço fossem afixados. O caminhão deveria permanecer no mesmo lugar.

Do alto dos caminhões do comboio. tateando o painel mais uma vez. O soldado. na tentativa vã de deter a massa de vampiros que rodeava os adormecidos. Os malditos estavam tomando o sangue dos corpos. Passou a mão no cabelo. Nivaldo afastou o acendedor de cigarro e olhou-o um instante. Deu outra tragada e uma baforada longa. Franjinha! — gritou Lucas. O engenheiro consultou as coordenadas exibidas pelo satélite de observação que mostrava o ataque dos vampiros ao comboio. Os Ramones apavorando. pode acabar com o nosso brinquedão. transferia-se em partes para alguns dos acinzentados. Eram muitos. — Um tempo? Quanto tempo? — urgiu Ulisses. girou o volume do CD-player para o mínimo. Copiou-as para o campo de instrução ao refletor solar e deu enter. Trouxe o cilindro vermelho incandescente para a ponta do cigarro e deu uma tragada longa. nova mensagem. Mais de susto do que de preocupação. Depois de um instante. os soldados continuavam atirando. ali mesmo! — Vai logo com isso. Elevou a mão acima da cabeça. — Não sei.. Fechou os olhos. curvando a mão acima do painel. apenas aguardando. Balas revestidas de prata abriam feridas fatais às criaturas das trevas. Puxou o acendedor de cigarros. Os fuzis explodiam repetidas vezes. — DISPOSITIVO PRONTO. uma peça perdida de algum outro projeto acertar o refletor. — um segundo depois. Agora é com o TUPÃ! Nivaldo estremeceu quando tiros estilhaçaram os vidros da cabine.. Tirou o maço de cigarros do bolso. — disse Franjinha. reduzindo as cabeças dos vampiro a pó. — Não dá pra ir mais rápido. calor e vida. Aumentou o CD para o máximo. — Isso pode levar um tempo. Como é que aquelas coisas funcionavam? Nunca iria descobrir. Gritos. mesmo que estivessem preparados para um ataque. O equipamento vai buscar uma posição segura para o painel de reflexão. — BUSCANDO ÓRBITA SEGURA. nesses momentos. bal. o tom róseo que indicava sangue. O banco de couro preto estava infestado de cacos de vidro. livrando-se de alguns cacos. Ele também precisa se 390 . Eles não estão sozinhos lá em cima. bal. jamais teriam imaginado tantos vampiros. pressionou o acendedor de cigarros. Tem uma porção de lixo. com a tecla do "repeat" acionada começou mais uma vez. de outros satélites orbitando o nosso planeta. Tiros dos soldados. chefe.cor até chegarem ao tom azul-acinzentado. Se um meteorito. igual aos vampiros e. ENTRE COORDENADAS — exibia a tela principal simultânea ao monitor do laptop. Tiros dos vampiros. AGUARDE. A música do Ramones. — PROCESSANDO. A vermelhidão brasil transferiuse para a ponta do fumo. dependendo de onde acertar.

não existiam múmias ambulantes. lutava até o último segundo. Teria dado uma mensagem se estivesse fora do alcance. No meio deles não existiam vampiros. sangrando no piso do compartimento de carga. no Brasil. e acredite. Ajustou a arma. Tinha bastado os segundos para a troca do cartucho para que os malditos tomassem conta do teto do compartimento de carga. sentando na armação de transporte de adormecidos. mas lutaria até o fim. Provavelmente. — E quando ele encontrar o sol e o ângulo? O que vai acontecer? — perguntou Lucas. Alta tecnologia. protegido de qualquer tipo de assombração. O fim chegava. vai arder. adormecer no meio dos dois. Sérgio estava sozinho. Abaixou-se. No meio dos seus pais. deixando o instinto de sobrevivência gritar. Em coro. Seus cinco companheiros já tinham dançado. Voltou a passar a cabeça pela escotilha. 391 . puxou a mola e preparou para recomeçar. de vez em quando. Franjinha olhou para Lucas. sentia-se protegido por dois super-heróis. Nivaldo cantava a plenos pulmões. Preferia quando o medo era só na hora de dormir e seus pais deixavam-no. nem mula-sem-cabeça. observando os caminhões cercados pelos vampiros. Ele sabia disso. no meio de vampiros. depois desviou o olhar para a tela principal. Era o último pente. Sérgio apertou o dispositivo que liberava o municiador vazio e puxou o próximo do colete. caminhando para a morte. a maioria dos humanos agia daquela forma. acompanhando o refrão de sua faixa predileta: — I believe in miracles. Estava cercado e seria fodido em questão de segundos. No meio de seus pais dormiria em paz. Mas por alguma razão. Os malditos ainda não tinham invadido seu caminhão. Projéteis de fuzil arrebentando joelhos e cabeças de vampiros. De sentir os dentes das criaturas cortando sua pele e levando seu sangue embora. Esperando que o último soldado fosse morto para entrarem e tomarem todo aquele sangue aprisionado em corpos inanimados. A corrente de pensamentos do soldado foi cortada quando ouviu novamente o "tlac-tlac" do fuzil descarregado.. nem sacis. — Quando o sol chegar em TUPÃ. brincavam com ele. porém vivos. isso não é fácil. I believe in a better world for me and you. falar mais alto. Da Europa usamos só o veículo ARIANE..colocar numa posição em que possa colher os raios solares e rebatê-los para a coordenada especificada. totalmente desenvolvida aqui. No topo do caminhão líder. com o vocalista do Ramones. Preferia quando vampiros eram só invenção do cinema e de escritores fascinados pelo lado escuro da literatura.. Sérgio não aceitava a idéia de morrer na noite. Basta um pouco de sol para o sistema carregar o intensificador de raios solares.. — E se ele não encontrar raios solares? — Vai encontrar. Começou a disparar.

Cantarzo! Anaquias girou o cavalo mais uma vez. Voltou a olhar para os milhares de soldados. A mão de outro vampiro agarrou o colarinho de sua camisa de tecido grosso. Um facho de luz gigantesco devorava a floresta e aproximava-se perigosamente. Sérgio deu o último disparo. O animal empinou no topo do morro. O soldado ergueu os braços. Teriam homens suficientes para destruir os muros do maior depósito de humanos adormecidos do nordeste. Mesmo descarregado. O vampiro-rei gritando. escorrendo por dentro da vestimenta. Dois deles saltaram pela escotilha. Mantinha no rosto um sorriso sinistro. Mas aquilo era um artefato inventado pelos humanos. afastado da estrada.. Anaquias fez o cavalo girar no lugar. alcançando o fuzil.. O maldito caiu na sua frente. Sabiam que em Nova Natal encontrariam um novo Rio de Sangue. que buscasse abrigo. O vampiro comandante olhou para o horizonte. Um som ensurdecedor encheu o compartimento quando os vampiros começaram a socar agressivamente a carroceria pelo lado de fora. desceriam mais uma vez à Barreira do Inferno. Lembrava um caçador de motoqueiros. O soldado deu um rolamento. não dando espaço para que fechasse a portinhola. O espectro estava gritando em seu ouvido. Evocando a figura do vampiro-rei. O soldado baixou o corpo quando entrava pela escotilha. Não sairia dali! O que o espectro gritava era absurdo! Ouvia o vampiro-rei pedindo que se retirassem.. Conectou a baioneta à ponta da arma e preparou-se 392 . Não existia sol.. Em seguida.. Alguma coisa. Se os bentos fossem estúpidos o suficiente para continuar naquela tumba aberta. Sua voz enlouquecida... assistindo a primeira vitória de seu exército da noite. Anaquias sentiu desconforto mental. permanecia no topo do morro. soava diferente. o sol no meio da noite. — Não! — gritou Anaquias. não era o sol. montado em seu cavalo.Anaquias. O espectro pedia que se escondesse. isso era impossível! Sentiu os ouvidos tremerem. teriam o sangue arrancado dos corpos mortais e o líquido da vida seria ofertado ao novo deus dos vampiros: o vampiro-rei. Lembrava um nome. Não! Não poderia abandonálos! O espectro gritava em seu ouvido. Tinha assistido aquele fenômeno na Barreira do Inferno. atacar com poder total Nova Natal. fazendo pedriscos deslizarem para baixo. Tinha um tom conhecido. Anaquias olhou para seu exército de quase vinte mil vampiros. Viu surgir a cabeça pálida do agressor. Pedindo que saísse dali. Bateu com os coturnos no chão da carroceria. Não! Assistiria a grande vitória até o final. Seus olhos arregalaram-se. A madrugada ia ainda em sua metade. livrando-se da garra da fera. serviria de arma. uma luz. teriam energia para prosseguir. Sabia que após alimentar seus vampiros. soltando o fuzil. Sentiu-se conectado mais uma vez ao espectro. uma luz vinha do céu..

cansado demais para sustentar os braços erguidos. O vampiro urrou e estremeceu na ponta da arma. fazendo os vampiros gargalhantes pararem as risadas e olharem na direção do veículo. logo cerca de vinte deles estavam na sua frente. Em cima do caminhão líder. percebendo a manobra. Caminhou para trás. contra milhares deles e ainda tinha a ousadia de colocar-se em posição de luta. pronto para a luta. A multidão de vampiros atirou-se sobre o soldado. 393 . Gritou de dor. Sangrava. mas não tinha mais idéias para comparar. jogando ao canto. Sérgio tinha um deles espetado em sua arma. sorrindo ao ver um fio de sangue brotar. e caminharam para frente. e empurrando-o contra a estante central. O bolo de agressores voou para fora do caminhão. Sérgio arrancou a faca e chutou-a. que acabasse logo. como gatos do mato. O que vinha atrás passou a garra num dos adormecidos. Um deles rebateu a arma do guerreiro. fazendo-a voar para fora da rodovia. Começaram a rir. gemendo de dor. atacaram. As duas criaturas da frente emitiram um rosnar selvagem. Sérgio também desviou o olhar e caiu de joelhos. O riso chamou a atenção de outros e o coro foi engrossando até que milhares deles estavam assistindo. Afastaram-se dois passos. tomando cuidado com o vampiro ferido pela faca. espetando-lhe a baioneta de prata. junto às portas traseiras. Um deles cravou suas garras no braço do soldado. Sérgio estendeu os braços para frente e ergueu os punhos. Bateu com força no asfalto. Os dois vampiros que tinham entrado pela escotilha da frente. começando a sair fumaça pela ferida. mais um vampiro havia entrado no compartimento por outra escotilha. Tinha arrebentado o ombro. Sérgio girou. Sabia que sair não era uma boa idéia.para a luta. Pelas escotilhas escorriam vampiros. O riso foi interrompido e o sorriso desapareceu gradativamente. de cima das árvores e de cima dos caminhões. Se fosse acabar. Sérgio girou o fuzil e empurrou a criatura. Estava cercado. Estava sozinho. ainda no chão. Os vampiros abriram um círculo. sorvendo-lhe uma quantidade de sangue. O que era aquilo? Um grito de desespero veio de cima do caminhão. um dos vampiros olhou para trás no meio a uma gargalhada. Ouviu um baque nas suas costas. O cheiro do sangue do soldado que lutava entrava em suas narinas. chutando o segundo. carregada de corpos. Colocou-se de pé e girou o fuzil. o soldado solitário e hemorrágico em guarda contra os tantos vampiros. e recostou-se na porta traseira. fazendo o primeiro soltar seu braço. Lambeu o braço da mulher adormecida. Sérgio destravou a porta traseira. Os vampiros ao redor olharam para o valente soldado.

ao menor sinal de ataque. — Que lugar? — Conhece um povoado chamado Nova Luz? Franjinha meneou a cabeça negativamente. tudo. A noite seria agora uma armadilha. — Quero um rádio transmissor em cada fortificação. Um a um. TUPÃ funcionando e o rádio funcionando! Estamos salvos. A floresta. obrigando Sérgio a cair mais uma vez sobre o asfalto e encaracolar-se. O mesmo começou a acontecer com todos ao redor. era dia! O soldado olhou para o vampiro à sua frente. milagrosamente.. Lucas dirigiu-se para o contente engenheiro Franjinha.Sérgio apertou os olhos. o deus indígena que representava a figura do sol. pedindo uma boa acolhida do outro lado. — Você pode direcionar isso para outro ponto? — perguntou o trigésimo. Alguma coisa ofuscou seus olhos. virando um amontoado de cinzas. as idéias começavam a brotar. Um clarão cegante. 394 . — Agora? — É. Na sala de controle. Assim.. Uma armadilha para os malditos vampiros. com a testa colada ao asfalto. tornando-se brasas vivas quando atingidos pela luz do sol. Os guerreiros bentos explodiram em alegria ao ver a retumbante vitória sobre o exército vampiro... A libertação da raça humana viria a galope. cara. Abriu. O rosto pálido do vampiro foi escurecendo.. Nova Luz ficava próxima a que cidade antes da Noite Maldita? O sistema ainda está carregado com as informações pré-Noite Maldita. — Vamos vencê-los. rezava. Seriam torrados. formando um bolsão de várias tonalidade de vermelho num raio de um quilômetro. — É um milagre! É um milagre. todos assistiam boquiabertos à seqüência exibida na tela principal. A floresta em volta tornou-se completamente vermelha. Agora. — Já é! — explodiu Teodoro. deixando escapar fogo da boca e dos olhos. que traria a libertação para o povo da Terra. vamos destruí-los. A noite não seria mais um manto de terror e maldição. Sem você.. Ergueu a cabeça. a estrada. Diante da empolgação após a vitória. — Parabéns.. agora tomada pela maioria dos sobreviventes ao ataque dos vampiros. Viam os pontos azuis converterem-se em pontos vermelhos. até que secou e rachou. TUPÃ funcionava e seria ele. Lucas! Vamos vencê-los! — berrou Francis. O fogo tomou seus olhos. Os vampiros moviam-se freneticamente. procurando proteção contra as labaredas que escapavam das entranhas das criaturas. — Preciso de uma indicação melhor. Todos concordaram com Lucas.. não teríamos conseguido.

Os bentos riram. vamos nos referir aos eventos como antes de Lucas e depois de Lucas. um atrás do outro. — Modesto. iluminando inexplicavelmente. não conseguiria sair dali sozinho. — rebateu Franjinha. formando uma massa de centenas de metros à frente. Será que já tinha sido morto por aqueles monstros e nem tinha percebido? Será que aquela era a luz que todo mundo via quando atravessava o caminho? Sentou-se sobre os cacos de vidro do banco e olhou para fora. Passe com esse facho de luz por cima do maior número de fortificações que for possível. As mesmas brasas entravam floresta adentro. A noite havia virado dia antes da hora. Chega de marcar nosso tempo com essa Noite Maldita. Baixou I Believe in Miracles enquanto examinava a paisagem dantesca. dadas as proporções do ataque. Nivaldo abriu a porta e desceu. bastante sobreviventes. Uma luminosidade vermelha vinda das brasas ao chão e do fogo da floresta refulgia nas laterais dos caminhões. Carvões em brasa estavam deitados na estrada. — Milhares de vampiros! De uma só vez! Nem posso acreditar! — exclamou Vicente. Os demais venham comigo. — Não exagerem. dê as orientações para que Franjinha encontre Nova Luz. afastando-se do comboio. De alguns deles desciam soldados. mostrando que haviam. O comboio de quase quarenta caminhões serpenteava pelo asfalto. descendo a sudeste. salvos. — Francis.— Chega! — gritou Teodoro. com a voz debilitada e um extenso curativo arranjado por Francis. uma peça importante. Nivaldo aproximou-se o máximo que conseguiu de Sérgio. Voltou o dedo no volume e colocou a música no máximo novamente. mas só mais um componente. onde via inúmeros focos de incêndio. Provavelmente. Um calor intenso começava a subir. Temos que trazer aquele comboio pra cá. A luz do sol foi diminuindo de intensidade e os homens assistiram um portentoso e magnífico facho de luz andar pela floresta. o rosto e a expressão surpresa dos sobreviventes. — Sou só uma peça nesse jogo. Estavam. Aquela claridade. trocando um olhar demorado junto com um sorriso. 395 . Nivaldo abriu os olhos. — disse o trigésimo. De agora em diante. — Temos que parar com isso. Olhou para a estrada. Encontrou Sérgio parado no centro de um amontoado de brasas.

esperando uma oportunidade para vazar os muros e atacar os habitantes da pequena Nova Luz. vigiando o muro. desejando que aqueles demônios da noite afastassem-se e os deixassem em paz. querendo que os soldados deixassem os muros e corressem na mata em seu encalço. com a habilidade de seu grupo de soldados. esse desejo parecia impossível de ser alcançado. Ao lado dele Adriano. até perto dos muros. Os soldados viam os demônios saltando para os galhos mais altos. O grande espelho junto à parede dos fundos fora feito em pedaços. com um pano na cabeça. trazendo doutora Ana. Bendito Lucas! Graças ao aviso do bento tinham chegado a tempo para salvar a vila da destruição pelos vampiros. Adriano sabia que era isso que queriam. Sinatra perdera dois dedos da mão esquerda. O médico que ficava atrás. encontrava-se com a mão ferida enfaixada até o punho. Dentro da vila. plantando terror. Mas. Soldados corriam pelos corredores do imenso hospital. O rojão de três tiros tinha sido disparado e os soldados da fortificação estavam de prontidão. Não arredariam o pé. uma vez que os noturnos voltavam crepúsculo após crepúsculo nos últimos dias. Jogariam o jogo. Desde a noite do ataque fracassado os vampiros voltavam. Levou a mão ao peito. estava caído num canto. o alarme de segurança soava no Hospital Geral. Fazia oito noites que haviam chegado até a floresta. o experiente soldado jamais deixaria que seus homens saíssem dos muros. assustada com a cena. Estavam pressionando. havia feito as feras recuarem sem que a vida de um cidadão fosse perdida. ficando sem o mínimo e o anular. Mas. Não sabiam até quando aquele inferno iria durar. e com um preocupante fio de sangue seco do lado esquerdo da cabeça. na sala de observação dos novos pacientes. Pareciam provocar surgindo nas árvores. A briga tinha sido feroz.Capítulo 54 Adriano e Sinatra estavam no muro de Nova Luz. Adriano. A médica entrou na pequena cela de triagem de azulejos brancos até o teto. como aguardando por um instante de fraqueza. Bem longe de Nova Luz. Nas últimas noites. 396 . Queriam que os humanos passassem ao seu hábitat onde seriam dilacerados facilmente. O trilho vermelho descia até o queixo. fazendo orações e rezas. com as brasas vermelhas flutuando fantasmagoricamente. a feras faziam apenas vigia a Nova Luz. dentro dos muros de São Vítor. protegendo um corte. dentro das casas. as pessoas estavam apegadas a imagens e velas. uma vez que Nova Luz não contava com um areião cercando a cidade.

Eles piraram. Peça para o Chen verificar as câmeras do subsolo. Dá medo. — Vamos lavar isso aí e colocar um curativo. — Eles devem estar dentro do hospital. Ana tirou o lenço.. há instantes. porra! Como é que conseguiram? — Não sei. Esse corte foi mais um acidente do que qualquer coisa.. Vampiros dançavam nas árvores além do areião. afastando-se da mão da médica. — Não é nada. Ainda estavam sonolentos. Amarelos.Os soldados estavam duplamente agitados. Vou falar com Amaro também. Começaram a bater contra a porta. quase simultaneamente.. Foi logo depois do rojão. Ai. — Deixa eu ver. depois vieram contra o vidro. Ana deu a mão para que o homem levantasse.. Pediu que os snipers ficassem preparados. Mas eles nem sabem o que isso significa. Além do alarme dentro do hospital. —É. — balbuciou a médica. — Os três enlouqueceram. A culpa é deles. — Só está dolorido. Se precisar de sutura. preparando novo ataque ao HGSV Ana pediu ajuda a um dos soldados e saltou através do vidro quebrado da cela para a sala de observação. um rojão de três tiros havia sido disparado. queria os coitados salvos. mas não foi de propósito. O Chen vai investigar. Amaro estava postado no muro sul. Um caco de vidro teria passado por ali. — Eles piraram. colocando São Vítor em alerta. 397 . parecendo um fogo.. que ele mantinha na testa. Essa merda é blindada. — Eles que fizeram isso com você? — É. Tá ardendo. Caso aquele grupo de noturnos fosse para cima das torres de vigia. Não precisa costurar nada. Pareciam tomados por alguma coisa do mal. Saltou os inúmeros cacos de vidro e aproximou-se do colega para acudi-lo. Ana. Hoje não contariam com a valiosa ajuda de Lucas para que os escalados nas torres saíssem com vida daquele enrosco. por isso tinham três numa sala só. Ai. Ana acocorou-se junto ao amigo e levou a mão ao lenço. Mais estranho que daqueles capetas da escuridão. Já parou de sangrar. — Amarelos. Os olhos dos três ficaram amarelos. Foi um negócio que eu nunca vi.. — gemeu o homem. Tinha sido um corte comprido. — Eles vieram pra cima de você? Eles que te cortaram? — Não.

Társio postou-se na ponto 50. Metralhadoras. soldado. revólveres. Tinha também que providenciar munição. Uma onda invadia sua cabeça. um deles saltou com velocidade incrível. 398 . Soldados chegavam ao seu balcão e apanhavam fuzis e escopetas. Via centenas de malditos infestando a beira da mata com seus olhos espectrais. O primeiro daqueles estranhos passou os olhos na parede atrás do balcão. — Larga meu braço. Flávio abriu as duas folhas de madeira revelando o interior. passando por cima do balcão. levando balas e municiadores onde o bicho estivesse pegando com mais força. Tirou um molho de chaves e levou ao cadeado que fechava a corrente. rifles e mais uma vasta variedade de armas penduradas na parede. ficando de frente para o armário. Antes que tirasse a arma do coldre. tremendo. Os três homens de olhos amarelos abriram um sorriso. olhando para as quatro espadas longas e prateadas. — Acalme-se. evitando qualquer movimento brusco. Estavam nus. A corrente caiu no chão. mas o mais bizarro eram aqueles olhos soltando um brilho amarelo. Flávio permanecera dentro do quartel de São Vítor. Boa parte deles cairia quando começasse a disparar a deita-corno. Era estreito e alto. A pegada era firme e não teve como apontar a pistola na direção do agressor. levou a mão ao bolso. O homem. O segundo agarrou seu punho quando erguia a arma. isso já seria motivo para espanto. Disseram que aqui encontraremos nossas armas. Talvez porque tivesse ouvido que os olhos do trigésimo bento tinham ficado daquela cor na noite em que matara trezentos e sessenta vampiros num combate só. Sempre que o rojão de três tiros era disparado. Uma coisa estranha. fazendo um ruído cadenciado. O homem que agarrava seu punho afrouxou e passou por cima do balcão. jogando-os no chão. Uma sensação de que não corria perigo. O terceiro homem de olhos espectrais também saltou o balcão. vagarosamente. começava o correcorre. O invasor de olhos amarelos tirou a pistola do soldado e um canivete de sua cintura. carabinas e pistolas. a cinta de munição pendia pela lateral da metralhadora. juntando-se a todos do lado de dentro. Flávio encarou os olhos daquele homem. Flávio levantou-se da banqueta. aproximando-se de um armário de madeira preso à parede bem ao lado das armas de foto. percorrendo os muros com uma pickup Ranger. Mesmo acostumado ao corre-corre dessas horas. de costas. vá lá. ficando a meio metro do chão. assustou-se quando aqueles três entraram. Flávio andou devagar. Levou a mão à coronha da pistola. — Não é isso que eu quero. Era sua função cuidar das armas e munição dentro do regimento.

pegos de surpresa. A luminosidade foi ganhando intensidade numa velocidade impressionante. Seus corpos começaram a fumegar e a pele a escurecer de forma assombrosa. Estavam por volta da uma hora da manhã. As criaturas começaram a saltar das árvores. A noite de fria passou a dia de calor escaldante. Hipnotizado por um facho de luz. assustou-se. Paraná. fosse o que fosse. Um incêndio instantâneo principiou-se tomando arbustos e copas de árvores. portas e janelas em seus esconderijos escuros. Em segundos. como hipnotizado. Movia-se suavemente. A mata começou a ganhar cor e os malditos agitaram-se. a escuridão da noite voltou e a temperatura caiu devolvendo o frescor que seria natural naquela hora da madrugada.Sinatra ouviu um barulho. que tinha cruzado o pequeno povoado correndo. rumando e desaparecendo no horizonte. As pessoas assustaram-se quando perceberam tanta luz invadindo as frestas. Deu dois passos para frente. Adriano demorou para tirar os olhos dos vampiros. Os vampiros continuavam empoleirados nas árvores. Sinatra voltou para o lado de Adriano. voltando para a floresta. a grande maioria tinha sido reduzida a estátuas esturricadas donde escapavam labaredas vermelhas. protegendo-os da claridade excessiva. Estava vindo em direção a Nova Luz. Ficou por dez segundos bestificado. O soldado olhou para a direita. descendo do céu negro feito um véu de luz. estava se movendo. Não entendiam o que estava acontecendo. buscando desesperadamente por abrigos à luz repentina. Logo. O raio de luz continuou vindo certeiro. Quando virou-se para Sinatra. Adriano e Sinatra levaram as mãos aos olhos. A luz passou pela floresta. Muitos que estavam dentro de casa começaram a sentir um mal-estar repentino. pulando para os galhos mais baixos. Era algo muito sutil. aproximando-se cada vez mais dos muros. chegou arfante ao muro de Adriano. mirando o horizonte. O facho de luz deveria ter quilômetros de extensão. demoraria até o amanhecer. Tinha algo diferente na mata. Um som estranho. O céu estava azul-celeste e o sol brilhava no meio da madrugada. Lembrava aquelas belíssimas faixas de raios de sol que escapavam das nuvens pesadas quando os dias nublados começavam a mudar de aspecto. apontou e bateu levemente no ombro do amigo. Aquilo. o facho de luz passou por cima de Nova Luz e seguiu caminho. chegando aos muros. talvez causado pela mudança abrupta de temperatura e luminosidade. Não houve tempo de fuga. 399 . Tão rápido quanto veio. transformando a noite de Nova Luz em dia. As pessoas mais corajosas abriram as portas e olharam para fora.

Ana.. Eram os restos fumegantes e incinerados dos vampiros que há tantas noites assombravam Nova Luz. mirando longamente o horizonte. um de cada lado. 400 . mais dois passaram.. Agora. Antes de entrar na sala da enfermaria. Os snipers foram os primeiros a disparar. — Ele conseguiu! — berrou Paraná. mantinha-a erguida. — balbuciou Adriano. as brasas vermelhas vinham do fogo real. chamou dois soldados. Ordenou que fossem para o topo do hospital e que um deles tomasse o posto da deita-corno. ainda mais num momento de ataque igual ao que viviam.— O que foi isso? Os soldados reuniram-se ao lado do líder. Adriano demorou-se olhando nos olhos de cada um. Era um maluco que pulava de dentro para fora da fortificação. carregando espadas. — balbuciou novamente Adriano. Társio empunhou a ponto 50 apontando para a coluna de olhos vermelhos. Sinatra. Tinham sido pegos pelo sol. perguntou: — Onde estão? — Eles não estão no prédio. Ao contrário do que esperava. Não era um vampiro. Todo vampiro que se aproximava da torre um era abatido pelos atiradores de precisão. Não gostava de afastar-se dos muros. não de olhos endemoniados. apoiada na testa.. Raul e Zacarias também admiravam o terreno na frente de Nova Luz. — Como assim? Vocês tem soldados em todas as portas do HGSV! — exclamou a mulher. — Ele juntou os trinta bentos! — É. Joel e Marcel olhavam estáticos e estupefatos para a floresta à frente. correrem feito loucos de encontro a onda de vampiros que se aproximava. Mais dois segundos e os primeiros malditos estariam na sua mira. Antes que pudesse entender o que estava acontecendo. assistiu aqueles três homens nus.. onde a médica cuidava do corte do colega. — Isso foi um milagre. Amaro assustou-se quando o primeiro vulto saltou à sua direita. — Primeiro eu queria saber com