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PDL – Projeto Democratização da Leitura

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PDL – Projeto Democratização da Leitura

Agradeço à amiga Martha Argel pelas dicas de impacto ambiental. Grande garota! Agradeço também a todos os leitores que entraram em contato via e-mail cobrando um novo livro. (Aqui está, gente!) Agradeço a todos que vêm lendo e comentando sobre os livros deste escritor para os amigos, parentes, professores e todo ser que anda e lê sobre a terra.

Beijão e abraços para todos. Este livro é dedicado aos meus tios: Negão (Zélio) e Del (Vandélio). Olhando de perto... nossa vida é bem feia.

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Capítulo 1
Abriu os olhos. O lugar estava escuro. Só isso sabia. Que estava num lugar escuro. Flexionou os dedos, sentindo e ouvindo-os estralar. Os braços estavam estendidos, rentes ao corpo. A garganta seca. As costas doloridas, como se tivesse dormido mais do que de costume. Precisava levantar e tomar água. Quis erguer os braços, mas estava fraco. Dor. Confusão mental. Onde estava? O estômago ardia e a garganta seca incomodava mais uma vez. Não estava em sua casa... Uma sensação estranha. Como aquelas de infância quando vamos dormir no sítio do tio e acordamos assustados de manhã, olhando para o teto, encontrando um cenário tão diferente do nosso habitual. Nessas horas a gente leva um instante para lembrar... Lembranças. Sentiu medo. Tentou levantar-se novamente, mas a fraqueza impedia. Sentiu espasmos musculares nas pernas e braços. Cãibras. Dor. Soltou um gemido entre dentes. Tentou pedir ajuda, mas a voz não saiu. O estômago queimava. Tinha alguma coisa espetada no braço. Uma agulha! Não podia ver, mas sabia que tinha uma agulha enfiada no braço. O medo novamente. Os olhos arregalaram e os globos dançaram nervosamente. Onde estava? Não era seu quarto! Sabia que não era! Não estava em sua casa! Respirou fundo repetidas vezes, com o peito subindo e descendo, parando de retorcer-se de dor e desespero por um momento. Tentava lembrar-se... mas não conseguia. Como eram os móveis em seu quarto? Não conseguia se lembrar de sua casa, mas sabia que estava longe de lá. Em sua casa não estaria com uma agulha espetada no braço! A mente clamou por calma. Tentava recuperar o controle da respiração. O coração batia disparado. Talvez estivesse amarrado. Por isso não conseguia mexer-se. Estava amarrado. Respirou fundo. Onde estava? Deus do céu! O que tinha acontecido com sua casa? O que tinha acontecido consigo? — perguntava-se atropeladamente. — Seqüestro? Doença? Onde estava a luz? Desespero. Os olhos começaram a lacrimejar intensamente, a ponto de ter lágrimas escorrendo pelos cantos dos olhos, descendo em direção dos ouvidos, posto que se encontrava deitado. Não conseguia nada além de flexionar os dedos doloridos das mãos. Os artelhos estralaram e também doeram na primeira flexão. Fechou os olhos. Abertos ou cerrados era indiferente. Nada tinha além da escuridão absoluta e do desprazer da consciência. Uma única coisa diferia com os olhos fechados. Uma ponta de segurança. O medo diminuía. Era como mergulhar num canto seguro. Imaginar proteção. Voltava a um lugar conhecido. Voltava para dentro de sua cabeça. O peito doía. Tentou lembrar-se da noite passada. O que tinha feito antes de dormir? O que tinha comido? Pizza da Tomanik? Um Tchê Filet? O medo voltava a crescer. Desespero. Não conseguia lembrar. Não conseguia. Não tinha memória! Não tinha vida!

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Despertou depois de algumas horas. Tinha tido um pesadelo horrível. Tentou levar a mão à testa. Realidade terrível. As mãos continuavam atadas à cama. E aquela dor aguda no braço. Algo na vena... vena? Não. Confusão. A palavra certa era veia, não vena. Dor de cabeça. Tossiu. Garganta seca e dolorida. Fome. Uma fome do cão. Uma fome dos infernos. Sede. Precisava de água. Puta merda! Dor nos músculos. Queria ficar de pé. Chacoalhou-se na cama. Um barulho. Passos. Um facho de luz. Fez um barulho. Um som gutural escapou da garganta... o que deveria ser um pedido de socorro soara como um resmungo. Precisava de ajuda. Calou-se. Conteve a saliva na garganta, evitou engolir. Pensou. E se aqueles passos não viessem de um amigo? Poderia ter sido seqüestrado. Podiam ser os pés do inimigo. O responsável por estar preso e com uma coisa espetada no braço. Os músculos doíam tanto. Não devia ter se chacoalhado. Agora tudo doía. Virou a cabeça e apurou os ouvidos. Passos e vozes. Eram dois ao menos. Fechou os olhos. Fingiria dormir. Talvez passassem por ele sem incomodá-lo. Precisava descobrir onde estava e o que fizera na noite anterior. Relembrar os últimos passos. Mas aí o medo voltava. O pavor. Não se lembrava de nada. Nada! Onde morava? O que fazia? Deus! Amnésia. Só podia ser isso. Não conseguia lembrar . Lembrava a droga do termo médico, mas não lembrava o nome do modelo de seu carro. Carro... Aquietou-se. Fuxicavam. Podia ter sido um acidente de carro. Falavam baixo para que ele nada ouvisse. Quem seriam? Aproximavam-se. Fechou OS olhos. Sabia que estavam parados ao seu lado. Fingir-se-ia de morto. Mas e se fossem a salvação? A resposta para as perguntas? Sentiu dedos forçando sua pálpebra. Abriam-lhe os olhos contra a vontade. Um facho de luz cegante. Explodiu num grito. — Falei que este aqui também tava. A mão forçou o olho mais uma vez. A luz encheu e queimou o globo. Um gemido em protesto. Um pigarro seco. Abriu os olhos. Dois homens com aventais brancos. O mais baixo anotava numa prancheta. O mais alto, de bigode, ajustava um estetoscópio na orelha e colocava o espelho frio em seu peito; na outra mão trazia uma lanterna. — Me ajudem... — gemeu a voz fraca do homem deitado e amarrado. Os homens pareciam ignorá-lo. Nenhuma palavra de amparo. — O que você acha que ele é? — Como vou saber? Ele acabou de acordar. Demora uns dias. — Ah... — exclamou o outro, como se fosse novo no serviço. O de bigode estalou os dedos junto ao tímpano do examinado. O homem assustou-se e virou os olhos para ele rapidamente. — Reflexos bons. Está ouvindo, pelo menos. Tem cada um. — disse, enfadonho. — Anota aí. O mais baixo obedeceu. O de bigodes olhou para o examinado. Fitou-o por uns segundos.

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— Sabe teu nome? Lembra-se de alguma coisa? O paciente meneou a cabeça negativamente. Engoliu a seco, semicerrando os olhos, atordoado pela luz. Deus do céu! Não lembrava nem de seu próprio nome. — Anota aí. — Me ajuda. — clamou o recém-desperto. — Onde estou? — Eles vêm te buscar em algumas horas. Tu e o outro. Vão explicar tudo pra ti. Tenta relaxar. Boa sorte. Quis reclamar, mas a voz não saiu. Os homens deixaram o lugar. O facho de luz desapareceu. Escuridão. "Eles vêm te buscar em algumas horas." Fechou os olhos. Respirava profundamente. Deixando o peito magro encher completamente e depois esvaziar até o último litro. O que estava acontecendo? Sufocou-se com um engasgo involuntário. Lágrimas descendo pelo rosto. Droga! Não lembrava do próprio nome.

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Capítulo 2
Acordou com barulho novamente. Passos aproximando-se. Fachos de luz dançando no seu campo de visão. Luz de lanterna. Fatores de risco. Pensava em fatores de risco. Tentou manter os olhos abertos. Alcoolismo? Ninguém era trouxa de preencher esse campo com um sim. Ano da habilitação? Família? Apertou os olhos. As luzes perto. Moveu a cabeça, estirando-a completamente para trás. A pele do pescoço tesa. O gogó saliente. O cabelo crispado contra o leito. Tentava ver quem vinha. Pareciam dois. Dois homens. Podia ver, de ponta-cabeça, a luz batendo nas paredes. Pareciam recobertas por azulejos brancos. Do chão ao teto. Um hospital? Só podia ser. Não ouvia vozes desta vez. Eles vinham em silêncio. Seriam os mesmos homens de antes? Possivelmente. Lembrou-se que o modelo era importante. O ano. As vezes, o modelo diferia do ano, então alterava o valor. Apertou os olhos. Por que pensava nisso agora? Modelo? Ano? Tinha que se concentrar nos homens chegando. Tinha que se concentrar. Duas lanternas em seu rosto. Não conseguiu manter os olhos abertos. A claridade incomodava absurdamente. Não eram os mesmos homens. Usavam os mesmos aventais, mas não eram os de antes. Eram mais altos e mais fortes. Usavam óculos grossos... óculos de segurança, todo feito em acrílico. E tinham máscaras para respirar. O paciente voltou a respirar rapidamente, aflito. Estavam tão protegidos, tomavam tantos cuidados... logo, só podia estar doente. Só podia ser isso. Tinham os olhos diferentes. Olhos verdes. Sentiu a cama ser deslocada. Era uma maca com rodas. Passou a deslizar pela sala. Podia ver outras macas. Deus! Sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Apesar da penumbra... podia estar certo. Pouca luz vazando do foco das lanternas, mas podia ver outros corpos! Mais gente... parecia gente morta. Quantas camas existiriam? Passou por dezenas. Dezenas. E a luz das lanternas era tão fraca, não conseguia ver muito, não conseguia ter certeza de muita coisa. Os olhos voltaram-se para o teto. Nenhuma lâmpada. As luminárias estavam vazias. Não estavam apagadas. Estavam vazias. A luz nunca chegava ali. Só por aquelas lanternas daqueles homens estranhos. Para onde estava sendo levado? Pigarreou, preparando a garganta seca e teimosamente dolorida. — Onde estou? Os homens olharam ligeiramente para o recém-desperto. Voltaram a prestar atenção no caminho. — Pelo amor de Deus, não me ignorem. — reclamou o homem, pigarreando novamente. — Onde estou? O que aconteceu comigo? — Não podemos falar. Ainda não é hora. — Só queria saber onde estou... por que não podem me dizer? — Você não está preparado. Calou-se.

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. O mascarado escolheu um deles. Dor de cabeça. Mais uma vez a maca trafegou por um corredor. Girou os olhos. Uma das paredes comportava um vidro grosso. Dali em diante havia luz. Se estava doente. sem aviso ou preparo. Os olhos 9 . mas tentando ver tudo. O corpo fraco. Estava indignado com o tratamento. Gemeu. Barulho escapando detrás da porta. A maca foi conduzida até o centro do ambiente.. Agora era com ele. Um elevador. Sabia o nome daquilo.. Entraram com a maca. Fechou os olhos. Depois a gente fala.Continuou sendo conduzido por um extenso corredor. Pararam. Luz. visivelmente doente. Quando passava pela iluminação mais abundante era obrigado a espremer as pálpebras. Respirou fundo. Sede.. Viram o paciente girar os globos oculares em todas as direções. Apertaram um botão. Surgiram intercaladas uma luminária acesa e duas sem lâmpadas. puxou a extensa agulha do braço do desperto. — Preciso de água. Havia luz na sala toda. Ele tentou levantar-se. Um painel com oito círculos numerados. O homem acordado soltou um gemido breve. não. Vigorosamente iluminado. elevador. Estranhou. Estava doente. Os homens ignoraram. A porta dividiu-se. — Eu vou morrer? Os dois riram. A cabeça parecia que ia explodir. Por que tinham parado? O que era aquele botão luminoso. com paredes de cinco metros em cada face. Pelo amor de Deus! Só um gole. Simples. O quarto de azulejos brancos de cima a baixo era amplo. Um pouco de sangue vazou na dobra interna do cotovelo esquerdo. Estava agitado. com a cabeça girando para lá e para cá. Por que não lhe explicavam as coisas? Por que era assim? Piscou. se precisavam de máscaras lá embaixo. Que raio de hospital era aquele? Que doença ele tinha? Por que não se lembrava direito das coisas? Os homens de avental e máscaras cirúrgicas penduradas no queixo saíram. O outro libertava seus braços e pernas das cintas de couro que o mantinha imobilizado. Podia ver seus ossos! — O que eu tenho? Estou doente? — Fica quieto que é melhor. O cômodo balançou. formando uma espécie de janela larga.. Sentiu a agulha sair do braço. Um dos condutores. Sede e dor. por que estavam tirando agora? O elevador abriu a porta novamente. sem parar de conduzir a maca. abrindo passagem.. com os olhos apertados por causa da claridade.. O estômago queimando. igualmente recoberto por azulejos brancos. elevativo. Elevação. Impressionou-se com a magreza dos braços e a brancura da derme. Não falaram mais com o desperto.. deixando o recém-desperto a sós. Pôde ver sua pele pela primeira vez. Uma porta foi aberta. Os olhos arredios rejeitavam a claridade. O barulho aumentou atrás da porta. Um cômodo apertado esperava do outro lado. não responderam as perguntas. Os homens tiraram as máscaras. Sensação estranha na barriga.

Engatinhou até a parede. Exceto se não estivesse naquele hospital por um dia apenas. Exceto se. Pelo menos a boca fora umedecida. Alterou o ritmo da respiração. Viu adiante um catre preso por correntes finas à parede. As costas doeram. As unhas pareciam grossas e estavam mais compridas do que costumava deixar. juntando-se à pélvis. mas o nome. 10 . quem era? Lágrimas molharam a face do homem. Forçou a cabeça para frente. da AVC. Talvez. principalmente. Apoiou-se no catre acolchoado e sentou-se à beira. As unhas dos pés também estavam compridas e arroxeadas. Sentiu até mesmo o saco escrotal retrair-se abruptamente. Horrível. esperando que o quarto parasse de girar e que os espasmos estomacais abandonassem seu corpo. Choques nos nervos. Fazia tempo que não as cortava. azedando-lhe o paladar e deixando a boca ácida. A mão era pele e osso. Ia vomitar. Ao menos três cortes em cada lábio. Sentiu tontura. Talvez. Veio o enjôo. Via bolinhas flutuando diante dos olhos. Muita tontura. Tinha se lembrando de amnésia. Conseguiu apoiar-se nos cotovelos. Não conseguia se lembrar do próprio nome. Os lábios tinham rachado com o esforço. Não conteve o suco gástrico que verteu ralo.. Olhou para a grande janela. um calafrio ao imaginar uma terrível possibilidade. Não estava bem. Impressionantemente empalidecida.. Tontura. Sentia-se fraco. A pele estava estranha. sentando-se no fino colchonete da maca hospitalar. Tocou o chão com a planta dos pés. Estendeu as mãos diante dos olhos. Estava nu. Alguma reação do corpo por colocar-se subitamente de pé. Podia estar ali há uma semana.acostumavam-se paulatinamente com a luz. O corpo todo gelou. Um frio intenso subiu pelas pernas. A vista turvou. Palavrão lembrava. Teria sido envenenado? Como podia ter ficado tão mal de um dia para o outro? Como podia ter passado uma noite tão mal dormida? Não fazia sentido. Um mês! Teria acontecido algo com sua cabeça? Acidente.. Ele não se lembrava da própria identidade e isso lhe desesperava. Não queria mais vomitar. onde mais pêlos negros brigavam com a alvura cutânea. Acidente vascular cerebral. Cambaleou e não se conteve. A barriga afundava. Que doença havia lhe acometido? Onde estava e.. Mal estar. Deitou-se um instante na cama. mas não lembrava a porra do nome. Não em um ponto apenas. Queria entender o que se passava. Sorriu nervoso. mas o lençol que cobria a parte baixa de seu corpo tinha sido levado com os carregadores de maca. Não tinha percebido por causa da claridade. Os pêlos negros sobre o peito pálido destacavam-se. Estava zonzo. não. caindo no piso branco de lajotas azulejadas. inspirou fundo. deixando o tronco elevado.

Nuvens cruzavam baixas e velozes. Um menino que queria aprender a andar de skate como o irmão mais velho. Adriano vestiu uma jaqueta jeans. Mesmo assim não dispensava armamento pesado deixado ao lado do leito. Olhos abertos. Adriano era um moleque na ocasião. Teriam todo o dia para cruzar a estrada até a próxima cidade. Essa era a vantagem de ser um soldado importante. O pai caíra em um sono profundo e a mãe tornara-se uma espécie de louca. Passou a mão pelo curto cavanhaque. Crescera como muitos da sua idade. eles corriam pelas florestas. Beijou a mulher que dormia e deixou a casa. Aprendendo a se virar com os sobreviventes. porque sabia o que acontecia quando as coisas saíam errado na estrada. como ficara conhecida a noite daquele funesto evento. Apesar do ar morno àquela hora da madrugada. Não eram todos que as tinham hoje em dia. Fechavam-se em comunidades como aquela. pelas 11 . durante as horas de sol. às vezes. A saída alternativa para derrubar os malditos da noite. Temia. Vida: só experimentavam durante o dia. fechavam-se. Durante a noite. A esposa. Estavam chegando perto de uma nova arma para combater o mal noturno. O céu já não estava mais tão escuro. Informações para o plano. era difícil de acreditar que se vivia no mesmo planeta. Carina. O mundo era outro desde a Noite Maldita. Pegou a mochila colocada em cima da cama. Mas sempre tinha medo. Uma jaqueta sempre era proteção a mais. Durante as horas noturnas. podia dormir a noite toda em paz. Era um dos escolhidos. As coisas tinham que seguir em frente. Armas de fogo carregadas. Trinta anos passaram-se desde então. Precisava deixar Nova Luz naquele alvorecer. Só relaxavam quando o sol nascia. Faltavam poucos minutos para o nascer do sol. com esse luxo. Já tinha feito muitas cruzadas. protegiam-se como podiam. Tinha informações novas a levar. Tinha a casa constantemente vigiada e. Sabiam que a luz era a única defesa inabalável. Crescera um soldado. O mundo estava tão diferente que. O irmão que se tornara um daqueles malditos. independente de seus temores. Muitas empreitadas como aquela. O próximo forte. Um soldado bravo. Mas tremiam quando o astro rei deitava no horizonte. Muito medo. o trajeto até São Vítor seria feito em motos. Defendiam-se dos malditos noturnos. Uma claridade fraca tornava-o roxo-alaranjado. Cercadas por muros altos e vigias noturnos. O irmão que nunca mais fora visto. Munição era um artigo valioso.Capítulo 3 Adriano retirou o capacete de cima da poltrona. ainda dormia. Olhou-se no espelho e benzeu-se. Um dos poucos soldados a conhecer o plano. Outro luxo. Dos monstros das trevas. Agora era peça importante na luta contra os noturnos. A escuridão era a chave que libertava o mal sobre a Terra. Arrastando a mãe para as fortificações e fugindo dos malditos durante a noite. Deus! Sabia que a próxima missão não seria fácil.

Eram bons homens. comiam a tecnologia conquistada. Impediam que os sobreviventes se unissem. Tomavam sangue. Os grandes centros não existiam mais. Atacavam em bandos. Buscavam os adormecidos. Continuar a comunicação. Tinham medo. tinham medo de acordar feito malditos. Não havia mais eletricidade. em cima da moto. Tramavam. Menos nuvens cobrindo o céu. A cada anoitecer muitos sucumbiam à loucura. Choravam desesperados. Adriano olhou para a moto à direita. O asfalto esperava. por essa razão. ampliavam a separação. Adriano olhou para seu time. esperando por seus cavaleiros. Ligar as cidades. Lá os noturnos tinham se instalado. Ao menos para a humanidade. com os dedos pressionando as pálpebras. Rodeou os companheiros e olhou para Paraná.. Apenas um novato. A cada alvorecer oravam agradecidos ao céu por estarem vivos. Um soldado em formação. Chamavam-se assim. As estrelas perdendo o brilho com a chegada da manhã. A rodovia começava imediatamente após o portão. com mensagens e alguns presentes de pessoas da fortificação para o velho Bispo. lado a lado. Oito motos estavam em pé. loucos pela escuridão c com medo do sol. com presas afiadas e compridas. Com medo ou das criaturas noturnas ou de que caíssem no sono e não mais se levantassem.. Durante as noites. por estarem sãos. Adriano fez um sinal ao homem em cima do muro. Sabiam que daqui para o fim dos dias era assim que se sentiriam. concentrado e movendo os lábios. Meros sobreviventes. enquanto prendia o capacete. atravessando os muros fortificados. Poucos tinham coragem de se unir à missão dos cavaleiros. Era difícil acreditar naquele mundo. Queriam os adormecidos. Não havia mais rede de computadores. A chegada da noite era o terror dos sobreviventes. formando gigantescos e perigosos covis. aceitavam o alistamento tanto de homens quanto de mulheres. Eram agora como ratos acuados com medo de gatos gigantes. Gatos insanos. sobreviventes. com sede de sangue. Gaspar estava de cabeça baixa. Tomavam vidas. E eram tão poucos os que se dispunham a cruzar as estradas que. Não importava quão estúpido parecesse o iniciado. Ia também com ele a lista de nomes de parentes e conhecidos adormecidos nos porões do Hospital Geral de São Vítor (HGSV). Paraná acionou a partida elétrica da moto. o místico de São Vítor. Gente que escapou do grande mal que dizimou o mundo conhecido. O chão de terra batida exalava um cheiro agradável produzido pelo evaporar do orvalho. dificultavam estratégias conjuntas. Vinham para as comunidades e invadiam os recantos. buscando os vivos para deles tomarem a vida ou criarem novos escravos. olhos fechados. A força das criaturas noturnas crescia. Raros eram os lugares seguros. eles destruíam estradas. O soldado de Nova Luz trazia um saco de lona. uma fantasia tirada dc livros antigos. Adriano 12 . pois era o que eram. do lado esquerdo. Adriano adentrou o pátio. Para ser cavaleiro era preciso ter coragem.matas que tomavam as cidades antigas. Estava rezando. Caçavam. de filmes perversos. Não havia mais telefonia. Selvagens. Uma tarefa perigosa. K se essa noite se repetisse. Eles destruíam hidrelétricas. era sempre recebido como um irmão. Minavam as forças dos sobreviventes.

Checou o posto de vigia. trezentos metros a frente. O portão começou a deslizar. Ao menos durante as horas de sol não precisavam se preocupar com os malditos noturnos. uma hora e meia de intensa concentração. antes de dormir. A adrenalina sempre ia às alturas quando deixava Nova Luz para uma missão. Era um viciado nas estradas. Guardou o rifle no coldre especialmente preso à moto. Adriano soltou a embreagem e disparou pelo asfalto umedecido pelo orvalho. poderiam chegar a outros abrigos. Um viciado na aventura. todos potentes. A vermelhidão persistia no horizonte. Com o sol recém-desperto. tinham durado.. Era um soldado. Sabia que contra isso nada podia fazer. a estrada estava livre. escondidos pela curva. O vigia acenou. Diacho de posto isolado o que foram escolher para morar! Não poderiam parar. Mas sempre vinha aquela energia. Suas orações. Oitocentos e noventa quilômetros até São Vítor. iriam atrás. Apertou a presilha da mochila que vinha nas costas e checou a bainha do facão preso à cintura. em fazer o sangue ser bombeado mais rápido nas veias. Saindo da estrada. pedindo uma coisa: estrada segura. A estrada estendia-se sob as sombras das árvores abundantes. Tinham que comer chão e chegar na cidade destino. Os demais vinham mais atrás. Montou na moto e deu partida. mil e duzentas cilindradas. Uma gratidão expressa pelos hormônios quando colocava o corpo. Uma moto esportiva. o ar ainda estava fresco e agradável. Adriano olhava fixamente para o soldado do muro. Aquela energia que o fazia sorrir. Os motores roncaram e. Sorriu-lhes. Somente depois que ele cruzasse o portão. Adriano era o "puxador". Lá do alto. O medo sempre o colocava alerta. ao menos. um a um. As paradas seriam escassas. cruzando a floresta. o colega observava a mata com um binóculo. Mantinham a embreagem puxada para que as motos não saíssem antes do motor esquentar um segundo. Uma satisfação quase masoquista em colocar-se em perigo. mais quatro de seus acompanhantes. São Vítor. Só assim para cobrir todo o trajeto sem cair no risco de ficarem na estrada durante as horas de escuridão. mas motos não cruzavam florestas. pelo menos. e a vida em risco.respirou fundo. Luz do sol. Do alto do muro o soldado fez um sinal positivo para o motoqueiro líder. O coração do "puxador" estava acelerado. Um cavaleiro. Nova Luz era cercada por Mata Atlântica. formando uma fila. Pelo retrovisor Adriano contou. Os faróis das máquinas ainda eram mantidos acesos. mas precisavam de caminho livre para chegar em São Vítor. não existia outra fortificação naquela rota. antes do anoitecer. Adriano colocou o capacete e repetiu o aceno ao guarda postado em cima do muro da fortificação. Os soldados também ligaram os motores. Era sempre uma aventura incerta percorrer a gigantesca distância que separava o lar fortificado da próxima vila protegida. 13 . correram atrás do puxador. Folhas secas valsavam conforme a passagem feroz das máquinas velozes. O tempo era tudo. Os oito cavaleiros aceleravam de maneira agressiva. tão cerrada e repleta de altas árvores que a luz tardava a penetrar e chegar ao asfalto negro.. Olhou para os sete acompanhantes. dando aos homens a visão tão costumeira que tinham do terreno imediato à cidade.

Cruzou o quarto. Ainda nu. Estavam se revezando para vigiá-lo. O homem que anotava ainda estava lá.. onde tinha vomitado. se ainda não estivesse. tinha desaparecido. O endereço. Mas não se lembrava de muitas coisas. Quando lhe dariam algo para vestir? Mais que cobertura. vinham da porta de frente ao catre. Esperava sair dali logo. mais lúcido. mas não se lembrava do nome da bendita rua.. Sentia-se engaiolado como um rato de laboratório. Levantou-se. Respirou fundo. Sentou-se no catre. Então. Tentava lembrar. Flutuava nas frações de lembranças quando notou batidas na porta. Uma televisão de 21 polegadas. Mal havia acordado e a sede transtornava-o. Esfregou os músculos doloridos das coxas e dos braços e sentiu fisgadas nas costas enquanto olhava para o maldito colchão fino. Parecia uma jaula de hospício. mas não conseguia se lembrar do primeiro nome. A boca estava seca e ainda recendia o gosto azedo do vômito.Capítulo 4 Acordou. depois de uma revista. O homem pareceu anotar mais alguma coisa. Se ficasse ali mais um dia. Novas batidas. que fora deixada no meio do cômodo. Olhou com atenção. existiam três portas. morava em São Paulo. mas não se lembrava do nome da rua. de orelhões públicos. Lembrava-se de algumas coisas. Parecia que o problema era esse. enquanto uma ardência chata lembrava que tinha estourado os lábios ressecados. mas não se lembrava dos nomes de todas as coisas.. Eram todas brancas.. Não na porta de frente para a janela. Anotando coisas em papéis. mimetizando-se às paredes.. Qual era o nome daquele modelo? Esforçava-se. Parou de divagar e voltou a examinar as portas. Era outro. acabaria louco. Reparou em outra coisa. Encarou o homem que olhava atrás do vidro. culpado de tanto desconforto. O chão. Procurou acalmar-se. Há quantas horas estava sendo vigiado ali? Mais de um dia? O estômago queimava. Além da ampla janela de vidro. Uma ao lado do catre e a outra na parede oposta. Lembrava-se da sala de sua casa. passando aquela porta. Pensava. A luz forte. Já a palidez mórbida não o assustava. Primeiro. Lembrava de árvores em frente ao prédio. vinda do teto. Lembrou-se de um comercial da Casa do Pão de Queijo. Sentia-se um experimento. analisava melhor o quarto. Agora... A última ficava de frente para a janela de vidro. chegaria ao corredor por onde viera. não se enojava tanto pela própria aparência. os nomes. Sentia frio. Achava que tinha entrado por ali. centralizada na parede. de frente para a primeira. O engaiolado sorria porque se lembrava da expressão "rato de laboratório". 14 . estava limpo A maca.. Um tapete azul. parecia refletir em todo o ambiente. como os azulejos. Revista Veja. Colocou a mão na boca. atrás da grande janela. queria água. Um carro cinza veio-lhe à mente. A sala de azulejos brancos continuava a fazer parte de sua realidade. estava se acostumando com a pele branca. três batidas curtas. Pela primeira vez um sorriso brotou na face.

. Novas batidas. agora em ritmo.. — disse a mulher. A garra apertou e puxou seu pescoço e deixou-o colado ao azulejo frio em suas costas nuas. ouviu um chiado vindo do teto. De repente. Sua suposição era certa.. num espelho. — Vim colher sangue para alguns exames. — Levante-se.Voltou ao catre e sentou-se. Afastou-se do vidro. Voltou para sua cama. Ninguém entrou. Quando acabava de se deitar. O homem anotava. fazendo apertar as pálpebras. Um irmão na condição. Ele sorriu.. entre a cama e a porta branca. Levantou-se.. Assustou-se. O que era aquilo? Mais barulho e dois grilhões envolveram seus punhos. viu seu rosto refletido no vidro. e foi até a porta. iguais aos dos homens que o trouxeram daquele lugar escuro. Ele viu que a médica usava óculos de proteção. Ele olhou para o homem do outro lado do vidro. Ele a viu com o canto dos olhos. como se fizesse um esforço. no entanto não se lembrava do nome daquele produto. tinha um nome. Foi até o grande vidro e encostou o rosto na peça transparente. Depois de "vestir-se". Respondeu batendo com o punho contra a porta. a porta de frente ao espelho abriu-se. gradativamente. Olhava curioso para o teto. ficando de frente para o homem.. pigarreou e pediu que a pessoa entrasse... 15 .. Aquele plástico. achou-a bonita. tinha lembrado quando viu aquilo pela primeira vez. Não poderia ficar excitado. Havia alguma porta de outra cor? Falador idiota. Desses que escapam de alto-falantes.. Estava preso. Silêncio.. Ele obedeceu. — Lembrou teu nome? — repetiu a doutora. então. Uma garra metálica enrodilhou seu pescoço.. Um barulho atrás da cabeça. Viu outro homem de avental branco do outro lado. Ela era feita de metal. A luz fluorescente incomodava. Obedeceu. O mesmo lhe observava. Depois de minutos intermináveis... Procurava por outro homem observador. Se não ficasse imóvel e encostado à parede sufocaria. respondendo aos batuques do outro lado. Você já lembrou seu nome? O homem olhou nos olhos da doutora. Era uma médica? — Bom dia. Fechou os olhos por um instante. Estava pelado. mais uma vez. Ana. mas agora.. A janela tinha se transformado. Microfonia. Que era um vizinho. Uma mulher de bata branca entrou. encostando-se à parede. Só tinham portas brancas naquela droga de gaiola de merda.. Isso significaria que a pessoa que batia ao lado também era analisada. silencioso. Ela trazia uma bandeja metálica. Que vergonha. Sou a Dra.. Parecia oca. Por que não abriam aquela porta? Olhou para o observador. Novas batidas. um material plástico. Uma voz metálica. quase pôde perceber certa curiosidade no olhar do espectador. tentando ver mais à direita. Um chiado agudo. Bateu mais algumas vezes. Sorriu. cobrindo o sexo com as mãos. De onde vinha a voz? Seria o observador? — Encoste-se na parede.. A boca da mulher.

Lucas. olhando-a.. já. 16 . doutora? — Falta de sol. A médica retirou a agulha. Já tenho o suficiente... Depois examinou os olhos. Você tem que ficar nesse quarto por mais alguns dias até poder sair e saber toda a história. Doeu? — perguntou com um sorriso. Realmente tinha um vizinho. Aquilo confirmava suas suspeitas. — Por que estou tão pálido. O homem ficou estranhamente quieto.. — Bem. virou a cabeça do rapaz. — Não.. A doutora sorriu enquanto amarrava uma tripa de borracha no braço do paciente. viu outro tubo. Lembrei do meu carro. — O que eu tenho. nem do meu. Lembro do nome de algumas coisas. Manipulou o tubo. Ele identificou alguma coisa naquele olhar. examinou a garganta jogando luz pela cavidade bucal. Não lembro dos nomes. Volto amanhã para te ver. Vamos ver esses exames primeiro. Ana examinou os dentes do paciente. — Ainda não é hora de falar disso. O homem ficou quieto por um instante... então tornou: — Quanto tempo estou internado aqui? Ana olhou-o demoradamente nos olhos. Ele sentiu uma fisgada no braço. — São Vítor? Não me lembro desse hospital. — É assim mesmo.. Tem muito fogo e fumaça pela frente. Lembrei do nome do que são feitos os óculos que vocês usam.. — Você teve enjôos? O homem limitou-se a confirmar com a cabeça. mas não lembro o nome do modelo. eu vou indo. Uma etiqueta numerada envolvia o tubo. já cheio de sangue e também etiquetado. — Você me chamou de Lucas. Parecia que aquela mulher estava com pena dele. — Esta cidade. com o canto dos olhos. senhora. — Que hospital é esse? — Hospital Geral de São Vítor. quase nada. — Pronto. mas agora eu esqueci. Seu sangue enchia um tubo de ensaio. Ana notou quando os olhos dele encheram-se de lágrimas. — Abra a boca. Sobre a cama. segurando-o pelo queixo com a mão enluvada e examinou também os canais auriculares.. — balbuciou o homem. já. ruminando hipóteses. nem de nada. doutora? — Vamos descobrir.— Não. A doutora colocava agora um estetoscópio em seu peito. Um calafrio percorreu seu corpo. colocando-o junto com o outro na bandeja.

Lucas. Lucas. Depois de alguns segundos. A porta abriu-se. Você vai acabar entendendo. Ouvia agora o nome na boca de vários rostos. Sua própria voz soando no arquivo de lembranças: "Prazer. O homem prendeu os lábios e passou a língua na pele fina. Olhou de volta para o paciente preso. — Estou com sede. — Posso perguntar uma última coisa. Ana? A médica ficou quieta por um breve momento. — Não. Os grilhões libertaram Lucas. tentando afundar nas lembranças. Mulheres falando "Oi. Bateu duas vezes. luz para um homem que não se lembrava do próprio nome. O nome repetido e repetido. O homem. Alguma simpatia pela palavra. Ela olhou sem graça para o grande espelho. Não posso ficar aqui o dia todo. do tipo que a faria ser chamada à sala do diretor. como querendo umedecê-los. Ana tornou: — Pergunte. Não foi um acidente. — Não é medo. ainda emocionado pela revelação do nome. Não dos graves. As palavras saíram incertas. tampouco como uma afirmação.Ana ficou sem graça. Gente apertando sua mão e dizendo "Lucas". Tinha cometido um engano. como se estivesse buscando no interior de sua mente alguma intimidade com o nome revelado. Não era hora de ter lhe dito o nome. Os olhos dançavam nas órbitas. como se fossem amigos de longa data. A médica saiu com a bandeja e a porta fechou-se automaticamente pelas suas costas. Silêncio nos alto-falantes. Repetia infinitamente o próprio nome. porra! — falou mais baixo.. O empurrãozinho viria depois.. Olhou para o espelho. Quem era Lucas? Apertou os olhos. ainda perseguindo a intimidade com a alcunha. Sabia que o observador estava lá. E prevenção. aquele homem a tratava pelo nome. Lucas foi até o catre e deitou-se no colchão fino. Diferente dos outros. mas tinha pisado na bola.. Ficou em silêncio. O homem cambaleou para frente. com lágrimas descendo pelo rosto. Uma confirmação. Lucas". — Por que vocês têm medo de mim. — Se eu puder responder. Suspirou. com intimidade. Estava quase certa de que ele não era um deles." 17 . Lucas.. Os olhos varreram o teto branco. Era bom quando eles lembravam sozinhos das coisas mais básicas. olhou profundamente para a mulher. — Foi um acidente que me deixou assim? Ana já estava na porta de frente ao vidro.. — É esse o meu nome. — Estou com sede! — gritou. Ela procurava palavras. com a porta aberta. Aquilo não soou como uma interrogação. Ana? A mulher sorriu.. Mas desembuche.

18 . finalmente. Tinha que aceitar. Lucas."Qual é sua graça?" Tinha que se acostumar. De uma identidade a se apegar na beira daquele precipício que o conduziria à loucura. voltara a ser dono de um nome. Mas.

Nem os homens. Sim. Queriam que os incautos viajantes ficassem desprotegidos na noite. afinal de contas. Apesar de pequeno. começava a desfiar seu repertório exclusivo de flashbacks para os parceiros de estrada. lutando exclusivamente contra seus predadores silvestres. Sinatra. dos Titãs. Tudo para prender na estrada os que se aventuravam de uma fortificação a outra. Excluindo aquelas que serviam de caça para fins de alimentação. Adriano também tomou água gelada da fonte natural e abasteceu seu cantil. Os soldados tomavam água numa bica natural.. O planeta todo sofrera gigantesca alteração nas últimas décadas. Alguém que tivesse vivido há trinta anos estranharia imensamente aquelas novas paisagens. distraindo um pouco o medo. onde existia uma grama rasteira que. As aves voltavam a reinar no céu. Todos gostavam da voz do cantor do grupo que embalara muitos acampamentos na estrada. a Terra respirava aliviada e retomava sua exuberância com o passar dos anos. que fossem presas fáceis longe dos conglomerados cercados por muros altos e vigiados por soldados acostumados a suas artimanhas. avançava para a pista. o que consumiria quatro horas. Restavam cerca de trezentos quilômetros. Não raro viam-se animais silvestres pulando entre as árvores. Sem a interferência maciça da raça humana. o que consumiu mais tempo para transpor o obstáculo. interessavam-se pelas criaturas das florestas. em virtude das condições da estrada. Um grupo de oito soldados servia de exercício. As matas e florestas voltavam com força. mas não chamavam tanta atenção quanto a Mata Atlântica ao redor. As pedras ao fundo podiam ser vistas. donas das maldades. Adriano enxugou o suor da testa. A voz de Sinatra era acompanhada pelo guincho dos macacos e o piar de vários tipos de aves. As motos estavam estacionadas no acostamento. As novas e de tronco fino eram ceifadas e davam passagem para as motocicletas. Tinha mais sabor. sentado numa rocha lisa. nem os malditos noturnos..Capítulo 5 Já tinham ultrapassado a metade do caminho. Todas pareciam ter ido ao chão. mas eles bem seriam capazes de plantar aqueles percalços no trajeto. Quitutes para jogos noturnos. que transbordava à beira do asfalto. gradativamente. Sabiam que os noturnos curtiam sangue dos acordados. caçando frutas que eram encontradas com fartura naquela época do ano. em mais de um sentido. Ainda tinham muito asfalto para comer até São Vítor. o lago era imensamente lindo. Eram lindas demais. 19 . perversas. A bica formava ali um tanque cristalino. Os animais cresciam e espalhavam-se naturalmente. em razão de tempestades com ventos avassaladores. Até ali já haviam se deparado com cinco árvores na pista. um grupo de oito soldados não servia para o caçador ganhar prestígio no covil. destruidora. Nenhuma parecia ter sido derrubada pelos noturnos. com uma circunferência de quatro metros. três delas eram imensas. aproximadamente. Eram criaturas astutas. Mas. ouvindo Sonífera Ilha. Capazes de truques como aqueles ou piores.

lugares abandonados onde ainda existiam adormecidos aos montes.mais buquê. Os papéis continham instruções para o chamado "Grande Plano B". Adriano pouco sabia dele. sorrateiramente. Parecia calmo. Sim. Vou colocar meu galão sobressalente. Dormiriam algumas noites juntos. Apenas que crescera na Nova São Paulo e que há três anos tinha se mudado para Nova Luz. os adormecidos eram o alvo principal dos noturnos. Adriano olhou para o novato. Lutavam. com oito integrantes. O rapaz lavava as mãos na água fria. caso as predições do velho Bispo um dia falhassem. quando tinha dez anos de idade. Adormecera na Noite Maldita. tentando crescer sem o conhecimento tanto dos noturnos quanto dos sobreviventes. Sair e rezar para que não haja mais obstáculos pela frente. Os demais eram velhacos da estrada. Poucos recebiam detalhes ou sequer imaginavam que um time trabalhava em busca de uma solução definitiva. Raul era um deles. compondo o time básico de saída. Que graça tinha em beber dos adormecidos? Mas. Os caçadores da escuridão buscavam Rios de Sangue. sabia que era boa gente e também pouco perguntava quando encontrava alguém disposto ao alistamento. encontrando o mundo de pernas pro ar. Talvez fosse bom na luta. Já vai dar uma hora. Dali para diante ficariam muitas horas juntos. fazendo barulho e salpicando a rodovia deserta como folhas que se desprendiam das copas. Uma "inteligência" formara-se na última década e. Talvez viesse a ser um bom soldado. buscava criar uma estratégia para eliminar os noturnos em seus ninhos. tornavam o sangue mais apetitoso. Um vento constante murmurava entre os galhos das árvores. Conhecia os papéis que Adriano carregava junto ao peito. durante as viagens. Adriano aproximou-se deste último. não podemos deixar de parar no quarto posto. vinham mais cinco soldados. Seu rosto de feições juvenis e cheias de vida fazia com que aparentasse por volta de vinte anos. Além de Gaspar e Marcel. — Já estou na reserva. ou buscavam invadir fortificações que serviam de postos de armazenamento e monitoração dessa gente inanimada. Haveria tempo mais que suficiente para entender se o novato dava ou não para o serviço de soldado. atiravam. — disse Raul. Despertara dez anos atrás. Apesar de velhos cavaleiros. E não eram fáceis de agarrar. — Temos que ir ligeiro. Muito amigo de Adriano e também um soldado extremamente experiente. Gaspar sabia a razão da viagem. buscando um lugar menor. Mais demora e corremos o risco de ficar para fora. Aquelas árvores no caminho tomaram muito tempo. 20 . O novato chamava-se Marcel. — Vamos sair agora. só mais um sabia do plano. Eram duros na queda. uma arma letal. Apesar de não saber muito do rapaz. disposto a colocar o pescoço em perigo em prol do grupo. Estamos com o horário justo. Procurava saber mais do sujeito durante as missões. dando uma cuspida na grama e secando a boca nos pêlos do braço.

benzeu-se e agradeceu a Deus por ter lhe dado olhos e faro de guerreiro. puxando a fila de motoqueiros. Uma revoada de araras-azuis decolou do arvoredo próximo à piscina de água natural. portanto mais pesadas do que a média. — Vamos parar. Tinham que estar em São Vítor antes do sol baixar. não chego. — Se não pararmos no posto. Não era uma árvore de caule muito espesso. sabia que era necessário chegar com folga de luz à fortificação. Logo depois da curva havia um galho estendido no meio da pista. Adriano freou bruscamente. mesmo assim. Acabaram todos concordando. assustando o grupo. Temos que parar no posto quatro. Se estivesse distraído. Cada obstáculo daquele colocava cada vez mais a travessia em risco. Por ter soprado em seu ouvido que precisava frear. em duas horas estariam no posto quatro e as motocicletas e seus reservatórios sobressalentes seriam. não tem jeito. 21 . fazendo a moto disparar na reta. mas. reabastecidos. não sentir a urgência queimando sua cabeça. — disse Adriano. Adriano já tinha retirado seu facão da guarnição quando Marcel. Por isso. mais uma vez. retirando nervosamente o capacete da cabeça. como soldado experiente e vivido. Vocês também devem estar ficando sem combustível. chocar-se-ia contra os galhos e o acidente poderia ser fatal. — O meu tá no fim. entregar os papéis e dormir o sono dos justos. O sol ainda estava longe do horizonte. Adriano apeou da moto irritado. mas. onde ficava mais baixo num determinado ponto. Tinham muito chão para comer e muita reza para entoar. Os homens montaram nas motos e deram partida. O puxador enrolou o cabo na manopla até o limite. Depois era só chegar à fortificação. As máquinas eram potentes. quebrando o mágico silêncio da mata.— Valha-me Deus! — retrucou o amigo. Não podiam perder tempo. Queria ter tempo de sobra. chamou-lhe. A árvore tinha galhos espalhando-se por toda a pista e acostamento. Não podia se dar ao luxo de morrer antes de entregar os papéis e assegurar que mais um passo fora dado para acabar com aquelas criaturas que cultuavam a escuridão. Adriano tomou a liderança. Uma armadilha. Adriano assobiou. E tinham de fazer o serviço com cuidado para não danificar nenhuma das motocicletas e prosseguirem viagem sem mais nenhum percalço. a tarefa requeria tempo e despenderia esforço do grupo. o novato. — juntou Paraná. Se Deus quisesse. benzendo-se. ele já circulava o obstáculo procurando uma passagem. Dizia que podiam passar as motocicletas por cima do caule. chamando a atenção do resto do grupo. Desejava do fundo do seu ser acabar com aqueles demônios sanguinários. Enquanto os outros estacionavam. mas demasiadamente frondosa. — Vamos agora. Teriam que parti-la.

Viveram fugindo. Mas alguém disposto a montar guarda nos postos externos. Trazia na cintura uma pistola. Depois. Perdera a mãe e duas irmãs. A reta pela frente era longa. já do outro lado da estrada. Sabia que aquilo era veneno contra os Funestos caçadores noturnos e também servia muito bem contra os nulos. diria que estava fazendo reconhecimento de área. Marcel. de tirar o fôlego. sem paradas. Os homens passariam por ela a todo vapor. Sua bota estalava contra os pedriscos da estrada. As horas de luz. Motor irradiando calor. sem poderem desfrutar das agradáveis paisagens e locais de imensurável beleza e encantamento. para São Vítor. portanto a floresta tapava completamente o restante do cenário. O esplendor com que a Mata Atlântica desenvolvia-se chegava a invadir-lhe com o louco desejo de deixar a fortificação e fazer morada numa daquelas magníficas clareiras. mais quinze minutos até atravessarem os outros veículos. ávidos por alcançarem o posto quatro e zarparem. Chegavam a uma região elevada do planalto. O sol atravessando a folhagem das copas e chegando em graciosos fachos ao chão negro montava uma imagem calma e preguiçosa. Sorte que todos usavam luvas de couro. como sempre. A curva em que haviam entrado continuava. algum maluco disposto a entrar na boca do leão. Conseguir vaga numa fortificação nem sempre era fácil. mas estava fora de cogitação aguardar que os motores resfriassem para fazer a operação. Não perder o precioso tempo. Tinham que se virar. veio a moto de Gaspar.Os homens juntaram-se para erguer as motocicletas e atravessá-las por cima dos galhos. buscando fortificações onde o trabalho da família fosse útil. diga-se. resolveu caminhar. Marcel sentiu o sangue gelar nas veias. Escapamento pelando de quente. ao menos. Continuou a caminhar. O equipamento extremamente quente dificultava tremendamente o manuseio. Como eram pesadas aquelas coisas! Muito pesadas. evitar queimaduras. Mas Marcel sabia que aquilo seria impossível. era sempre bem-vindo e acolhido. Então. Estava no meio da pista. A paisagem. Primeiro passaram a moto do novato. viu que muita gente lidava com uma moto por vez e percebeu que mais atrapalhava do que ajudava. mas trabalhar. Pena ela estar tão distante. Marcel divisou o que seria o começo de uma ponte. Correu em direção 22 . não teria tempo de chegar até ela e debruçar-se para observar o rio lá de cima. curioso com a paisagem. principalmente faltava espaço. Comida e água não abundavam. Crescera fugindo daquela raça sanguinária. Marcel terminou a curva. Certamente por causa das árvores no caminho. É pena que tinham que correr o trajeto todo. Decidira alistar-se voluntariamente para ajudar o time que um dia daria um basta naquela situação. Todo cuidado era pouco. E. Balas banhadas em prata. O que era aquilo no meio da ponte? Seus olhos estariam lhe pregando uma peça? Só podia ser. Perdera incontáveis amigos em ataques sofridos pelos miseráveis sanguessugas da escuridão. Sabia que os homens perderiam. onde passariam a ver a imensidão daquele mar verde estendendo-se até o horizonte. afastou sua moto para o meio do asfalto e. Caso alguém questionasse.

Mas. vamos ver a coisa de perto. era um homem negro e forte. Adriano? É meu primeiro trabalho. Marcel falava com dificuldade. colocaram-se de frente para a curva e sacaram suas armas. Os homens partiram.à plataforma. A população de onças tinha explodido sem a intervenção humana. Problemas.. Marcel? Se acalma! — A ponte. oriundos de zoológicos abandonados após a Noite Maldita. se fosse o caso. mas a cara de Marcel preocupava. Eles destruíram a ponte. Nunca chegariam a São Vítor antes do anoitecer. Adriano. — Foram eles. Sua pele negra ainda estava arrepiada. Um bolo formou-se no estômago. atravessá-lo com as motos seria impossível. Os homens trocaram olhares de apreensão. Adriano estacionou na entrada da ponte. escutando-o rolar no chão. outro dos soldados. um excelente guerreiro nas horas de aperto. Viram o novato surgir na estrada. Adriano. — Calma. Assim que conseguiram pôr a motocicleta no chão. — O que vamos fazer. Seu rosto personificava a apreensão em pessoa. O silêncio da mata permitia ouvir longe. Seu rosto refletia todo o desânimo que era possível demonstrar. Marcel estaria com a pistola pronta para atirar.. Pode não estar tão ruim como você pensa. Sem a ponte. O rapaz passou a mão pelo cabelo encaracolado. Não vamos chegar a tempo em São Vítor. — Que horas são? — perguntou Joel. — Puta que o pariu! Cambada de filhos de uma puta! — gritou Paraná. Raul estava estacionado no meio da ponte. Deixou o capacete cair de sua mão. na borda da seção destruída.. Joel. Deus! Adriano precisava ver aquilo. deixando-o sozinho na estrada. Os homens mantiveram as armas nas mãos até o rapaz aproximar-se. Marcel. Não quero morrer na floresta. Raul montou em sua máquina e disparou pelo asfalto negro. Até mesmo gorilas eram encontrados nas matas brasileiras. — Calma. arfando. Os malditos noturnos. A diferença residia na idade. pois conhecia a estrada de cor e salteado. moleque.. O homem estava escondido pelas árvores que se erguiam na beira do asfalto. Entendia que Adriano só estava falando daquele jeito para acalmá-lo. eclipsado pela curva que se estendia por mais de cinqüenta metros. estava assustado. Novatos assustavam-se facilmente. Os soldados entendiam a gravidade da situação. por causa do susto. 23 . sabia que a ponte logo à frente passava por cima de um rio volumoso. em virtude da corrida. — O que foi. Passavam a última motocicleta pelo tronco da árvore quando ouviram o som das botas de Marcel vindo pela estrada. Marcel ficou parado. no escuro. Era coisa séria. como Marcel. pálido como um maldito noturno. Talvez alguma fera selvagem em seu encalço. A ponte não está lá.

para facilitar um pouco. — Não dá tempo. E além dos papéis era responsável pela vida de mais sete homens. mas nosso grupo também é. — respondeu Gaspar. Gaspar. foi até à beira da parte destruída. Há anos não dormia fora de uma fortificação. Adriano ainda estava agitado. olhando para o rio. Não vamos chegar em São Vítor nem a pau. — Cinco para uma. não ia ser nada bom. Também não chegamos em casa antes do pôr-do-sol. Caso fossem pegos. enchendo o ar com o característico ronco surdo. tendo cerca de trinta e cinco anos. Joel e Raul. Os malditos são espertos. Esta é uma ponte estratégica. Marcel arregalou os olhos. Eles virão nos pegar. — Como vamos atravessar? Como vamos descer? — perguntou Marcel.sendo o primeiro mais velho. — Vamos voltar para Nova Luz então. Vamos ver o que encontramos lá embaixo. desçam comigo. debruçouse sobre o parapeito da ponte.. a pele negra voltava a se arrepiar. — Cinco para uma. quantos metros são? Adriano. — retrucou Raul. — Qualquer deslize.. na mata. Isso aqui é uma armadilha! Ouvindo as palavras de Raul. preocupado. Dava mais de trinta metros. Santo Deus! Era melhor que enfiassem uma bala na cabeça do que ficar a mercê daquelas criaturas. 24 . Tem também aquelas árvores na estrada. E a queda é bem grande para arriscar. — explicou Adriano. Adriano também estimava muito esse soldado pois era o que ficava mais calmo nas horas de maior pressão. Gaspar. pelo menos. cuide dos outros. Já estamos pra lá da metade do caminho. — E se colocarmos uns galhos aqui? As motos passam por cima. Só de aventar aquela hipótese. também debruçando-se sobre a ponte e vendo a descida escarpada. A moto de Marcel chegava. — Mas se a gente ficar aqui à noite. A descida era bem íngreme. Há anos não se deparava com um faminto noturno. Gaspar. Temos que atravessar o rio. — Esperem aqui. Eram feitas de barro vermelho e moitas de mato. Ficar com os papéis na floresta. Agitado. Raul. Raul voltou à seção quebrada. já era. mas. vinte metros abaixo. não havia árvores nas ribanceiras. — disse. já era do mesmo jeito. acompanhado da turma. — Não dá tempo de construir essa ponte. durante a noite. Temos que dar outro jeito.

serigrafadas em letras grossas num tom de azul-marinho. O visitante vestia uma calça azulclara e uma camisa da mesma cor com as iniciais HGSV. agora olhando-o diretamente. Deveria estar no hospital nas mesmas condições. O cabeludo meneou a cabeça. Além da refeição. Fome e sede. demorou a desviar o olhar e baixar a cabeça para conferir embaixo de seu catre. — E o teu nome? 25 . Lucas notou que o homem também estava excessivamente pálido. foi pego de surpresa quando a porta de frente para a sua cama abriu-se. Era bem mais velho. continuava a saborear seu nome. — Você ainda está com fome? O cabeludo voltou a olhá-lo. Mas até que o estômago parecia bem cheio. Buscava insistentemente a familiaridade que haveria naquelas cinco letras. — Tem uma pra você. Talvez fosse também um protesto mudo. Sobre o chão branco encontrou duas peças iguais as que o "vizinho" envergava. o fato da mulher representar o ofício de médica fizesse soar mais natural a nudez. — disse o homem. As unhas tinham as mesmas cores horrorosas que as suas. assentando os fios com as mãos. — Você comeu tudo? — Comi. Lembrou-se imediatamente das batidas naquela porta de metal. Pôde ver pela abertura entre as duas salas um catre igual ao seu do outro lado da nova sala. Deduziu que o homem sofria do mesmo mal que lhe afligia. Comido? Bem. Absorto nesses pensamentos. — Tô morrendo de fome. Aí debaixo da cama. — Qual o teu nome? — quis saber o vizinho. tinha se servido daquela sopa rala e insípida. — disse. Tinha alguém na sala vizinha. apontando para o estômago. Parece que está faltando alguma coisa aqui dentro. — Lucas. tentando colocá-lo no lugar. Lucas não tinha se sentido tão nu quando Ana fizera-lhe a visita. Lucas sentou-se e cobriu o pênis nu. Andou até o espelho e mexeu no cabelo despenteando. Talvez tivesse uns cinqüenta anos. expor o corpo nu. na tentativa de diminuir o desconforto da situação. Agora parecia sofrer os efeitos do desjejum. exibindo as costelas. para os que o mantinham cativo naquela cela de hospital. O homem aquiesceu novamente. Assustou-se quando viu surgir um homem de cabelos longos e grisalhos pela passagem. Lucas. Tinha bebido toda a água também. ressabiado. Vestiu a calça enquanto o homem de cabelos brancos e ondulados desviava o olhar. Talvez porque tivesse comido rápido demais. Estava magro. Talvez. Um copo.Capítulo 6 Lucas sentiu uma leve tontura.

— Não sei. — Eu lembrei do meu nome. mostrando o esparadrapo prendendo um pedaço de algodão. — Sabe como veio parar aqui? — Não lembro de nada que fiz ontem. morena jambo. Medo. Pinçou o lábio inferior com os dedos. Isso.. — Eu nunca ouvi falar nessa cidade. Outras pessoas. Estou preso. Preso numa maca. — balbuciou. esticando-o e puxando-o para frente repetidas vezes. — disse Lucas. nem anteontem. com os olhos cerrados.. continuando a ouvi-lo. como forçando a cabeça para lembrar. O que estariam anotando agora aqueles observadores? Por que tinham juntado eles dois? — Você também está doente? — Doente? Não sei se estou doente. pensando. Acho que não era casado. — lamentou o cabeludo. Não sabia se era casado. — Lucas estendeu o braço.. Alguém que cuidava de mim.. Havia uma mulher em sua lembrança. — A médica veio tirar seu sangue? — Veio. Lucas também se calou por um instante. Acho que como você. Depois... — Eu não estou doente.. — Sem contar essa falta de memória. — respirou fundo e meneou a cabeça negativamente. — Você não acha isso estranho? Gabriel não respondeu. digerindo a última revelação. São Vítor. ela virá me buscar. — Você era casado? Lucas ficou quieto. puxando o beiço novamente. Mais rostos. apesar da situação estranha em que estava envolvido. acordei aqui. mas eu tinha alguém. Ergueu os ombros. viu-se entrando em casa e abraçando a mulher. com os braços e pés amarrados e somos tratados feitos ratos de laboratório. 26 . Mas não consigo lembrar do nome da minha esposa. sim. Sentiu um calafrio. Uma mulher. fazendo uma pausa e encarando mais uma vez o interlocutor. — Eles devem ligar pra casa. simplesmente. Um rosto surgiu em sua mente. Mulher bonita. Não consigo lembrar de nada. — Você lembrou teu nome? O homem balançou a cabeça afirmativamente..— Gabriel. — A gente dormiu em casa e acordou aqui. acho que estou maluco ou tendo o sonho mais estranho da minha vida. Gabriel sentou-se no chão de frente para Lucas... — Ana me disse que estamos no Hospital Geral de São Vítor. Parecia calmo. olhando para o espelho. Gabriel ficou silencioso.

O homem estava com a cabeça abaixada e os cabelos caindo por cima do rosto.. tanto tempo.. Uma vez um cunhado meu teve um derrame. mas eu não tinha pensado nisso. sabia? Gabriel meneou a cabeça negativamente.... Depois de algum tempo Gabriel acabou levantando-se. Ergueu os ombros... Pra eu não me lembrar dos meus últimos dias fora daqui. Estamos brancos. — É. Foi até o vidro espelhado... os músculos estão menores. mas eles têm medo da gente. Olhou para o vizinho. Remédios as deixam dessa cor. — Estou ficando com medo. — Não sei o porquê. Acho que estamos aqui há mais tempo do que imaginamos.. passando a mão no pescoço. eles me prenderam antes dela entrar. Os nossos estariam também. Gabriel olhava para as unhas dos pés. Será que a gente está maluco? Lucas sorriu para o vizinho. Estão amarelas e compridas. — Tem outra. ficou quatro meses de coma. vendo no espelho que existia ali um fino hematoma. A gente está há muito tempo aqui. Parecia um bicho. — queixou-se Lucas. por que não estamos barbudos? Lucas encolheu os ombros. tempo que parece interminável numa situação como aquela. cara. sem colocar sua camisa azul. isso se estivéssemos há meses numa cama. — Medo dos loucos. e podem fazer crescer mais rápido.. — E as unhas? — Remédios.Ficaram quietos por mais de dois minutos. mas funcionam. Lucas calou-se.. Olha para suas unhas. Uma boa observação. Não sabia responder. Nossos músculos. Não tomamos sol há muito tempo. — Apertaram minha garganta. — Comigo também. Lucas também se levantou. acho que é alguma doença mesmo. — Por que amarram os animais? Amarram quando têm medo. meus braços. a gente não conseguiria andar sem fisioterapia. Deu uma volta pela cela de Lucas. Quanto tempo leva para ficarem desse tamanho? Meses. — Mas. Estamos magros e fracos. Que homem estranho! 27 . reclamando de dormência na perna e dizendo que estava louco para voltar para casa e rever sua família. Sentiu um calafrio. Acho que no máximo estamos aqui há alguns dias. Muito medo. — Medo? — Quando a médica veio... — Pode ser. se fosse assim. Olha a cor da nossa pele.. os músculos estavam atrofiados.. Quando ele acordou precisou de fisioterapia.

as vidraças eram grandes espelhos. Papéis. Precisava dar o fora dali antes de terminar louco como aquele vizinho cabeludo.. O sono veio. Levantou-se do catre e caminhou até a porta da cela do vizinho. Lucas não se lembrava de ter uma família para rever. Apertou os olhos. Não sabia o porquê. pelas conversas que faziam lembrar o mundo lá fora. Em ambas as salas. ver o que estava passando. Gostava de cinema. mas uma crescente antipatia por aquele sujeito ia enraizando-se em seu coração. Gabriel cochilava na cama. Não se lembrava exatamente o que fazia ou qual cargo ocupava. O homem inspirava repulsa. Comer uma cocada. Uma imagem. talvez. seus prediletos. mas tinha amigos. sem respostas. importado. nada de fast-food. acentuado. mas esse era o fato. fazia perder a noção do tempo. O homem exalava um cheiro ruim. As lembranças só aumentavam a ansiedade. Lembrava-se que trabalhava.. Nenhuma pessoa apareceu. Um carro bonito. Lembrar de sua vida. 28 . e aquele ambiente branco. tinha seu apartamento. mas ganhava bem. Queria ir ao shopping. O desejo de sair daquela sala branca crescia. O rosto encoberto pelos cabelos. de norte a sul do Brasil". Ele precisava de respostas.As horas avançaram e eles preencheram o tempo com conversas que traziam lembranças à tona. Fogo e fumaça. A ansiedade aumentava em cada um deles. O slogan da nova campanha da rede era: "Slow food and Relax. pois voltava a sentir fome e sede e a lembrar de lanchonetes. Queria ver suas coisas... Sanduíche da rede Tchê's. Propostas. Rezava para que a doutora Ana aparecesse. Antipatia nata. Abriu os olhos e afastou-se dois passos. Terno e gravata. Não lhe tinha feito nada. Depois cada um deitou em sua cela. Seu emprego. Sabia que muito tempo tinha se passado desde a última refeição. Lembrava-se do carro.

Adriano procurava uma embarcação. mas é fundo demais pras motos. Assim.. mesmo em menor proporção que uma fortificação. Talvez uma balsa. Apesar do problema que encaravam. Afundou até a cintura. Eu não sei nadar. — explicou. Vez ou outra podia ouvir as vozes dos homens lá em cima. um pouco mais de estrutura para um combate. o barulho de alguém caindo na água tinha lhe chamado a atenção. Um rio soberbo. Com ajuda de Joel vasculhou todo o mato na base da ponte e na margem do rio. seria tarefa de risco levar as máquinas. elas afundariam no leito. — Raul. Mesmo com a correnteza suave. Viu-o cerca de duzentos metros. Não queria nem pensar na possibilidade de ficar na mata durante a noite. Era largo. Não encontrou nada. destruindo pontes e produzindo crateras no asfalto. a região exalava uma serenidade envolvente. O soldado continuava buscando uma passagem possível para as motos. A região era rica em cavernas. soltando um gemido em protesto contra a água fria. Veja se há alguma chance de passarmos as bichonas por aqui. deixavam material para o contra-ataque em alguns trechos. Ainda estavam longe demais de algum posto de observação. a calça e a jaqueta jeans. é muito lamacento aqui embaixo. sentindo certo asco por causa da impressão que o fundo barrento do rio lhe passava. Adriano arriscou: — Acho que não é fundo. Tirou as botas. — Acho que perdi minhas bolas! Que gelo! Joel riu. o que aumentava as chances de um encontro com os noturnos durante a noite. — Vai você. E com o peso. conseguiriam atravessar as motocicletas a tempo de chegarem em São Vítor com luz do dia. Saltou de camiseta dentro da água.Capítulo 7 Adriano chegou primeiro à base da ponte.. Apesar da água barrenta e de não poder ver o fundo. 29 . rio acima. veja a profundidade do rio na área. Ouvia o barulho produzido por Joel e Raul. ao menos. Adriano examinou a margem. A natureza tinha um poder impressionante. estalando os galhos das poucas árvores que se erguiam ao pé do morro. — Vamos atravessar o rio. Raul voltava. — Não é fundo pra gente. teriam. Revirou o mato em busca de alguma pista. Como os soldados sabiam que os noturnos costumavam atacar certos pontos estratégicos das estradas. onde. Procurou Raul com os olhos. Adriano caminhou até o barranco. O rio descia tão vagaroso que suas águas pardacentas quase não faziam barulho. Adriano. Uma travessia de quarenta metros. com algum esforço. descendo o barranco.

tirando dela parte da água fria. Soltaram ao mesmo tempo. Ainda mais com a terrível possibilidade de ter de organizar o pernoite na mata. no escuro contra os noturnos. Já estava examinando com os olhos o achado. Vamos dormir pra fora. longe de uma fortificação. obrigando-o a passar as mãos nos braços. Com a ajuda do amigo. procurando manter-se aquecido. Uma jangada. — Puta merda. Raul vinha para ajudá-lo. Com o peso da queda. Ali havia mais grama e pedras no chão. Raul fez força de um lado. Um facho de luz escorria pela seção destruída da ponte. Ferido. olhou para trás. as vigas. Uma das cordas tinha rompido. — Merda! — protestou Adriano. — Você achou? — perguntou Raul. As cordas pareciam velhas. O vento que desceu pelo cânion esculpido pelo rio bateu em seu corpo. Adriano debruçou-se sobre a parte danificada da balsa. soltaram-se e as ripas transversais desarranjaram-se. Olhou para cima... Adriano tentou mover o outro lado. Tirou a camiseta e torceu. obrigando os bíceps dos homens intumescerem. a água não dava pé. que estavam na lateral da balsa. Chances reduzidas de assistir a próxima alvorada. Chegou à outra margem. — Vamos tirá-la daqui e colocá-la no sol. Ao ouvir braçadas. Preciso ver se agüenta. Raul. Não podia se ferir. Adriano conseguiu remover uma rede coberta por mato e galhos que servia para esconder um amontoado de tábuas. — Estamos fodidos. vindo colorir o rio logo abaixo. — As cordas estão podres. arfante. Passou a revirar o terreno do lado oposto da ponte. — Achei. Adriano vasculhou uma touceira e um sorriso acendeu sua face. — Não sei. Era grande e pesada. Um quadro sombrio. — Não vai dar para arrastar! É muito pesada! — reclamou Raul. sangrando. O cheiro do sangue atraía aquelas criaturas como as fêmeas no cio atraem os machos na mata. Arquejantes. Adriano voltou a ficar sério. Quanta munição você trouxe? 30 .Levou quatro minutos para atravessar. Não vai dar tempo de substituir essa corda e chegar a tempo em São Vítor. conseguiram erguer um lado da embarcação. pois tinham que atravessar. Joel teria de superar seu medo. Algumas eram pontiagudas e obrigavam a caminhar com mais cuidado. — É uma jangada! Vamos conseguir atravessar! — vibrou Raul. — Precisa de mais gente. aproximando-se. — Dá tempo de chegar ao posto pelo menos? Adriano balançou a cabeça. A água gelada quase o petrificou. Apenas em um trecho de dez metros.

até os mais valentes oravam fervorosamente. Cada qual remoendo seus temores. — Deus do céu! A gente na mata. Três caixas para a doze. Ouvindo a resposta. Marcel olhou para os amigos que já avançavam morro abaixo. — A gente pode cortar cipós também. Sabia que já tinham perdido tempo demais com árvores caídas no caminho. A água parecia ainda mais fria. Os homens apanharam as coisas e começaram a descida. Agora aquela enrascada.. — Não pode pirar. Ele vai pirar. Caso fossem farejados pelos noturnos nunca mais veriam o sol nascer. o terreno era instável. ficar desprotegido durante a noite nunca era tarefa fácil. tem o novato. Apesar da escalada não ser tão íngreme. Levaram mais de cinco minutos para subir. Vai dar trabalho. — Vamos prosseguir então? — perguntou Gaspar. Joel ajudou os companheiros a saírem da água. — juntou Sinatra.— O de sempre. Vamos arrumar essa jangada. Torcia para que Adriano surgisse com uma solução. Tem que ser homem. dá pra quebrar um galho. — Vou precisar de todo mundo lá embaixo. Seria muito azar passar a primeira noite em missão fora de uma fortificação. Até os mais valentes calavam-se. Sem contar que a distância até o topo era longa e o esforço tremendo. — Primeiro temos que consertar uma balsa que encontrei. As cordas parecem estragadas. o soldado cantor. Fizeram uma roda em torno do líder.. passando a mão na testa. Depois a gente desce as motocicletas. que conversavam animadamente. mais dois municiadores de dezoito tiros. Fizeram a travessia em silêncio. Quem trouxe corda pode trazer. Raul concordou com o líder e os dois voltaram para o rio. Sabia que as coisas não estavam indo bem. Três caixas para a pistola. Ele sabia onde estava se metendo. Quando o líder ficava calado era sinal de problemas muito sérios pela frente. Adriano girou em torno de si mesmo. Por mais experientes que fossem nas coisas da estrada. Tem que encarar. porra. Os pés escorregavam ou a terra cedia... foi quem percebeu Adriano aproximando-se. Sinatra. Tragam suas mochilas. ainda é mais rápido que providenciar a ponte que você falou. Pela cara de Adriano sabia que a situação não era a das melhores. — Prata? — Só a munição da pistola. vamos precisar. — Vamos chamar os outros para ajudar. Chamou a atenção dos demais. 31 . cara.

Um clássico "pré Noite Maldita". Depois que terminaram as amarras. Sabiam que as mãos deviam superar o desespero e fixar as madeiras umas nas outras. O sol não sabia ser o que regia a hora da vida e a hora da morte na face da Terra. Era fã daquela banda antes do evento. Mesmo com sete homens lhe ajudando. Uma corda prendeu o barco. ao menos. O destacamento de Nova Luz voltou a subir o morro. Ia permitir a escuridão. — Tragamos as motos agora. Todos sabiam que o sol trasladava inexorável. as madeiras. com isso chegavam perto das três da tarde.Juntos. Olhavam-se e em todos os olhos encontravam a mesma coisa. Implacável. começaram a trabalhar nos reparos. Os braços trabalhavam rápido. Os assassinos cruéis. sabiam que. pois a balsa e o bom senso não permitiam mais que isso. Rezando para escaparem do olfato apurado das criaturas. Dos noturnos. Parecia firme o suficiente. Joel. E continuar rezando. Só trabalhavam. O cuidado com as amarras já tinha comido quase duas horas de sol. por causa do medo da água. tinham conseguido colocar a balsa na água. Ia embora em sua marcha contínua e inabalável. Sinatra cantava Infinita Highway. Uma banda que fizera 32 . era dificultoso o transporte. Devolveram o amontoado de madeiras ao rio. Ia libertar os noturnos. Que teriam de correr na estrada. Joel sorriu quando a música lhe chegou aos ouvidos. Sinatra fez valer seu apelido e começou uma canção. Rezavam para que aquelas velhas madeiras suportassem as motocicletas de mil e duzentas cilindradas. era o único seco. Tiveram de substituir as cordas dos dois bordos da jangada improvisada. Caso colocassem uma motocicleta em cima das ripas soltas. As criaturas donas da noite. uma a uma? Uma por vez. Os caçadores de sangue. apesar da tensão geral. Que teriam de providenciar abrigo. Talvez. alheio às súplicas e à necessidade de mais tempo por parte daqueles bravos guerreiros. Sinatra conseguisse um bom contrato com uma daquelas imponentes gravadoras ou seria figurinha fácil no programa do Raul Gil. Ele ia embora sem sequer notar a existência de oito soldados na margem do rio. Enquanto subiam. Medo. ignorados. com cuidado. Pediu que erguessem a balsa. Apesar das péssimas condições das amarras. Estavam todos calados. Quanto tempo mais perderiam para descer as motos? Quanto tempo levariam para atravessá-las. O salvador tornava-se carrasco. O sol não se abalava por nada. por mais que orassem. o sol continuaria a mover-se. se o velho mundo ainda existisse. Os homens. firmes e longe da podridão. Pregando aflição aos homens que lidavam com as cordas numa frágil balsa na superfície iluminada do planeta. executando coordenadamente as instruções de Adriano. Alguma sorte no final das contas. Adriano comandou o teste. Pressa. corriam o risco de ficar sem o veículo. pareciam secas. dos Engenheiros do Havaí. Com a balsa do outro lado do rio. Circunstância.

Era um vôo. — sugeriu Marcel. Era uma idéia. Subir e descer aquele morro desafiador mais sete vezes. Minutos depois. a profundidade não seria suficiente para absorver todo o impacto. ele era escorregadio e as motocicletas. Gaspar. Se quiser arriscar me deixa as suas coisas. Mas era uma hora de desespero. chegando à beira do abismo produzido pelos inimigos. — E se fizéssemos uma rampa antes do buraco na ponte? Estas motos são esportivas. passava a mão no queixo. daquela altura. Gaspar meneou a cabeça. Loucura. Mas talvez o recordista mundial não tivesse tido a mesma motivação que eles tinham com o sol descendo. De quanto seria o recorde mundial de salto com motos? Quarenta metros era muita coisa. Oito motos. Oito viagens. no primeiro instante. o que facilitaria enormemente a descida. Tudo tinha que ser considerado. Pensaram que em três seria possível começar a descida. ou um amigo. Quando o corpo batesse na água. suas armas. quando atingiram o topo. a coragem diminuía. fazendo força contra a descida para manter a moto equilibrada e fazendo descer sobre as rodas.. olhando para os amigos que desciam vagarosamente metros abaixo. Marcel. a água lá embaixo não seria exatamente um colchão macio. Poderiam perder uma moto. Apesar de ser possível descerem com segurança. Tinham que achar um jeito de fazer aquilo mais rápido. E. começaram a estudar a melhor forma de descer os monstros metálicos. Apesar da maior parte do terreno não ser tão íngreme. com o suor escorrendo em bicas e sem tempo para descansar. Em três não era possível. seria como cair numa tábua. Mas as motos continuariam inteiras quando batessem do outro lado? E se alguém falhasse? O rio não era fundo o suficiente para se salvar. Dois de cada lado e mais um atrás. mas nem tenta para economizar tempo e vida. a gente podia saltar para o outro lado. Cerca de quarenta metros. 33 . — Impossível. Isso ia consumir muito tempo. Vou fazer bom proveito delas quando os noturnos chegarem.. Você é um cabra muito macho se tentar. Gaspar. Um deles ia controlando o freio dianteiro para que não fosse perdido o controle da operação. Vendo o hiato de perto. muitíssimo tempo. Precisariam de cinco homens para descer cada moto com segurança. Depois. — Cê acha que eles vão encontrar a gente escondido? — Você acha que não? — Vai ser uma noite só. Seria muito azar. Caminhou até a pista e olhou para a ponte. a apreensão só fazia aumentar. Era isso que ia na cabeça de todos. Sua munição. Logo.sucesso no Brasil inteiro e em outros rincões do mundo. consideravelmente pesadas. Gaspar caminhou pela ponte. Até mesmo uma maluquice sugerida por um novato. Não era um salto. Depois atravessá-las no rio. Saltar pela vida. juntou-se ao amigo nos trechos mais conhecidos.

— Azar e sorte se aplicam à gente. filho. depois teriam que subi-las do outro lado. mas ou é ela. — Por quê? — Porque ela poderia estar "nos dias". um esconderijo seguro. Mas. Tinha ficado verdadeiramente feliz em poder ajudar o restante da Inteligência montada para combater os noturnos. Só os primeiros dez metros eram escarpados. Cultivava alguma esperança em encontrar um posto de observação. é cem por cento de chance deles nos acharem. mas. No fundo do peito achava que conseguiriam chegar em São Vítor. Mas agora sentia medo. Mas eu não preciso dizer como esses bichos são. Estava apreensivo. Era bom de equilíbrio. Marcel calou-se. Se ficarmos na rua. É de partir o coração. Coçou o rosto com a barba por fazer. uma dezena de vezes. Se ela conseguisse. para manteremse longe dos noturnos. filho. difíceis. Pela salvação dos sobreviventes. Impossível! Tinham quase trezentos quilômetros pela frente. Inquietação. Gaspar voltava para o acostamento. Outro calafrio. Ainda bem que não veio nenhuma mulher. da pista para o acostamento. filho. Andou do acostamento para a pista. A rampa era loucura. Todo aquele trabalho para descer aquelas motos. A chave da moto em cima do peito. mas. Tinha assumido uma responsabilidade quando se alistara. oitenta por cento de chance de sermos encontrados antes do sol raiar. Aflição. Marcel continuou calado. Deus! Suor descendo na testa. Marcel. Tinha que arriscar. Fechou os olhos. Escutava o som dos pedriscos prensados pela bota. Tinha descido e subido aquele morro. Julgava-se um bom motoqueiro. O cagaço é de morrer nas garras desses perversos. Impaciência.. de onde podia acompanhar o progresso da descida da primeira motocicleta. Talvez fosse o melhor do bando. presa à uma corrente 34 . Ainda estavam descendo a primeira moto! Deus! A noite chegaria e ainda estariam no pé da ponte. Quando tem sangue na parada. Mesmo com estrada boa acabariam chegando depois do pôr-do-sol. Estava lutando por uma causa. ainda na metade do caminho. Cê é novo no negócio. Olhou para o extremo oposto da ponte. então. Eles sentem nosso cheiro. Gaspar sentiu um calafrio quando viu os homens descendo com dificuldade. Morrer todo mundo morre um dia. Teríamos que nos esconder uns dez quilômetros longe da mulher "de chico" e deixá-la sozinha. Depois a descida melhorava. ganhariam muito tempo. sorte a dela.. Trilhava a estrada com homens capazes de tudo para manterem-se vivos. ou é a gente. filho. em compensação. — Sério? — Já tive que enfiar bala na cabeça de mulher chorando. era o terreno mais firme. Já ouvi cada coisa. Você os conhece tão bem quanto eu. talvez. Vai demorar. filho. como? Já eram três da tarde. se conseguisse o que pensava. — Não é medo de morrer.

Sabia disso também. Desequilíbrio. A poeira assentou.. Suas costas estavam ardendo Dor. montou no couro quente de sua motocicleta. Gaspar arremessado sobre o guidão. Obstáculos. arfantes. — Cê tá legal? — Quebrei alguma coisa. buscando equilíbrio depois de uma inclinação. Ouviu cascalhos deslizando quando o amigo eclipsou o sol e parou sobre ele. Corajoso. só de cuecas. Puta que o pariu! Tomara que não estivesse sangrando. Tinham que chegar com a máquina inteira.. O ronco crescia e diminuía repetidas vezes conforme a manopla era impulsionada. Alguém lá em cima estava impaciente. Ganharia tempo precioso. A água já tinha secado completamente. atropelando o condutor. Adriano crispou os lábios. Uma moto em disparada. Bravo. Os cavaleiros desciam em marcha lenta. Cuidadosos. Ouvia Adriano gritando. Raul também soltou a traseira. Merda! Tinha quase conseguido. Freou. Avançava. Gaspar. Pedras. Doía quando respirava. dominou a motocicleta. o trecho mais inclinado. Estacaram. descia Gaspar. Poeira chovia do céu. velho. Os pés descalços buscando o chão. Olhos ardendo. A nuvem de poeira descendo. 35 . Ouviram o motor gritar quando a roda traseira girou em falso no ar. Estava cometendo um ato extremado em nome do grupo. com as pernas estendidas. Tinha quebrado alguma coisa. Dava esperança. Tudo menos isso. Gaspar abriu os olhos. Adriano largou a moto e desceu aos saltos para socorrer o parceiro. Puta que o pariu! Que merda! Quase tinha conseguido.prateada. Depois ouviram um ronco contínuo e crescente. A moto desceu rolando. num ato impensado. Sabia que tinha quebrado! Não estava bem. Gaspar! O que te deu. Mais pedras. Gaspar gritou e desceu o resto do barranco rolando. homem? — Estou sangrando? — Você é esperto. lutando por equilíbrio. Estavam compenetrados quando ouviram o ronco do motor poderoso. atirando-se no ar e vindo bater no barranco. A moto arrastou-se sobre o barro levantando uma nuvem de poeira vermelha. Gaspar desviou. Gaspar venceu os primeiros dez metros. obrigando os três restantes a agarrarem a máquina com maior firmeza. Problemas. Montado na máquina. Sempre correndo para ajudar algum dos soldados. O mundo estava de ponta cabeça. O mais esperto. — Puta merda. Ouviam o motor acelerando. viram uma moto cruzar a borda do abismo. como um vaqueiro no couro de um cavalo chucro. O que pretendia o motoqueiro? Boquiabertos. Aquilo era loucura. Faltava metade da descida. Por que fez isso? — Fala logo! Estou sangrando. Não era à toa que o amigo era o líder do grupo. Gaspar bufou. Descia rápido. O pneu dianteiro travado por uma rocha. tenho certeza. dominando a moto reluzente.

Não iriam escapar daquele buraco com luz do dia na cabeça nem a pau. Gaspar tinha ferrado tudo. Olhou para o morro. Cê ta todo fodido. — Desculpa. Foder com tudo! Puto duma figa! Não encontrava jeito melhor para definir a circunstância. o novato tinha empalidecido. irmão. O que o novato faria para deter Gaspar? Teria tomado um murro no meio da boca se tivesse tentado.. — Merda. Ia ganhar tempo pra gente. Gaspar soergueu a cabeça. Tô fodido.. — Eu não pude fazer nada. Mas Gaspar tinha terminado de foder tudo! Não tinha expressão polida para extravasar. Raul voltava para ajudá-los. — Fica quieto um pouco. 36 . Marcel chegava ao pé do morro agora. Respirava com dificuldade.. Os olhos viram os gravetos enfiados na barriga. Vamos ver se quebrou alguma coisa. Apesar da pele negra. Mais essa agora. Começou a bufar de dor e ansiedade. aquela pedra. O companheiro que compartilhava o segredo do plano. cara. Mais essa agora! Queria esganar o amigo. Adriano afastou-se. Ninguém era culpado em tentar salvar-se dos noturnos. O cara é louco. aquele inferno de pedra.Adriano deixou os olhos pairarem sobre os dois gravetos espetados na barriga do amigo. Três e meia da tarde. Adriano aquiesceu. passo a passo.. A cabeça do líder estava a mil.. Adriano respirou fundo e olhou para os homens. O amigo mais velho do grupo. Juro que conseguia. Merda. chutando os pedriscos no chão. Sabia que o desespero motivara aquela ação. Vou ver o que a gente faz. Estavam condenados. — Dois buracos. — Fica deitado. cara. Recupera o fôlego. Os três agarrados à motocicleta desciam metro a metro.. foi azar. porra. Descansa. Não podia culpá-lo de todo.

Um rosto. levantavam-se como loucos e saíam estrangulando meio mundo. principalmente. Algo como rojões. sendo ali um hospital. suas 37 . Recapitulou suas últimas concatenações. Só de olhar para aquele amontoado de cabelos dormindo crescia uma irritação desconcertante. toda aquela maçaroca de maus pensamentos. A sede era o que mais incomodava. mas. Mas alguma coisa tinha. Podia ser um daqueles psicopatas. Ligar para aquela mulher que aparecera em sua cabeça. Se aquele doente mental viesse para sua cela. Um ex-colega de escola. sem dar trela ao prato de comida. se visse suas coisas. Quem era ela? Se fosse para casa. Estava cheio de dúvidas e. Se chegasse muito perto tomaria um safanão. Talvez devesse acordá-lo. Tentava ver uma igreja. veria o que era bom para tosse. A refeição resumia-se a um pedaço daquela espécie de broa. Lucas meneou a cabeça. Antipatia imediata. Às vezes. Queria ver uma janela. Lucas sorriu dos pensamentos. Aquele cabeludo só podia ser um maluco. Esfriou o fluxo de pensamentos. Só não entendia por que. Devia seguir alguma religião. Fogo e fumaça. Ver onde estava. Ver o mundo. Ana. Terminou a sopa. Desentendimentos além vida. Para que se importar com aquele desconhecido? Nem sabia quem era o vizinho de cela. Foda-se. Tinha chegado em boa hora. Talvez um maluco qualquer. Talvez conseguisse retorcer a colher. Explosões. Por que ainda não lembrava das coisas? Tinha que falar de novo com a Dra. Ficam quietos na cama. antes de levantar-se.. Só podia.. dc repente. o homem tinha comentado que estava com sede e fome também. como o amontoado de cabelos estava agora. Como se tivéssemos vivido vidas passadas ao lado daqueles supostos estranhos. Ainda mais ter de compartilhar o tempo com aquele cabeludo estranho. Ibirapuera? Moema? Piqueri? Queria voltar para casa. ou o disparo fora em sua cabeça? Lucas fechou os olhos e inspirou barulhenta e longamente.Capítulo 8 Lucas mordeu o meio pão que lhe fora servido. seus móveis. Ouviu um barulho. Precisava saber. Caramuru? O que significaria isso? Os rojões. de vontade de sumir daquele quarto de loucos. Por um segundo não se reconheceu. O homem não tinha lhe feito nada. A mesma impressão. Um daqueles de seis tiros de canhão. Caramuru. tinha ouvido mesmo. Feito um bicho. Lembrar-se da bíblia. mais um prato da mesma sopa rala e um copo de água. Onde estaria? Onde ficava o Hospital Geral de São Vítor? Em São Paulo? Qual bairro? E o que mais atormentava era não descobrir quanto tempo estava ali. Estranhou. Porém. Estava faminto e sedento. torná-la pontiaguda. Era religioso? Não se lembrava. Por que tanta repulsa? Lembrou de uma sala de aula. Olhando através da porta aberta viu que Gabriel continuava dormindo. Gabriel não perdia por esperar. somos acometidos dessas coisas. Talvez fosse um ex-presidiário. Fechou os olhos engolindo mais um pedaço de pão. Por que a antipatia crescia tanto contra o vizinho? Não conseguia entender. desistiu. Olhou para a colher de metal. Vontade de ver uma janela. era tratado daquela forma.

Seria ela sua irmã? Seria ela sua namorada? Casado não era. como se merecesse estar ali. — Aqui só tem porta branca. Vamos ajudá-lo. Não era casado. Foi para perto do vidro espelhado. Lucas bateu contra a folha metálica. O desgraçado dormia despreocupadamente. senhor. com uma colher e uma faca na mão. Teria alguém do outro lado? — Quero uma janela! — gritou. Os remédios fazem isso. batendo no vidro.fotografias. lembraria de mais coisas. Ela podia ser sua irmã. — Por favor. E Gabriel dormindo. Era um hospício. nem mesmo a marca natural que se desenvolve com o uso da aliança. Como podia dormir?! A sala estava tão quente. Passou a mão na cabeça. Alienado. Caiu no chão. lembrar-se-ia dela.. Quero ver lá fora. Devia ser isso. — Fique de pé. Merecia estar trancafiado. fechou os olhos mais uma vez e tocou a testa no joelho. Ficou segurando a mão esquerda. Estava ali há muito tempo. Um manicômio para desequilibrados. Não tinha anel nenhum. senhor. Quero olhar por uma janela. — Quero ir embora! Vocês estão me deixando louco! Lucas apanhou o prato metálico e arremessou contra o vidro espelhado. Estava fora de controle. Devia estar vivendo à base de remédios. Lucas resistiu. Olhou para o dedo anular esquerdo. um barulho surgiu atrás de sua cabeça. Lucas levantou-se. Estava agitado. pois quando decidiu ir até o catre de Gabriel a porta que unia as celas foi fechada rapidamente.. Um doido varrido. Iria acordá-lo! Os malditos homens atrás do vidro pareciam ler seus pensamentos. Sentado na cama. Gabriel não acordou com o grito. Levantou-se irritado. Tremia. Estava chorando.. — Fique de pé. Frio na espinha.. Encostou-se nos azulejos brancos. obedeceu. Por que queria matar Gabriel? Era isso. Uma amiga. Matar o desgraçado. Estava agora tendo um surto de lucidez. seu escroto redundante! Só tem porta branca! Filho da puta! — Encoste-se na parede. Homem idiota.. parecendo normal. senhor. Estava doente da mente. fazendo estardalhaço. Assustou-se quando a voz metálica invadiu a sala. Uma garra fechou-se no pescoço. Queria matar o vizinho! Estava louco! Aquilo não era um hospital comum. afastado da sociedade. Devia estar de pé para poderem unir forças para escapar dali.. Queria acordar Gabriel. como um zumbi. Era isso. Queria espancar o vizinho. Como da primeira vez. Lucas sentiu 38 . Como ele conseguia? Lucas deixou um olhar insano abater-se sobre o vizinho. entre a cama e a porta branca. relembrando coisas. Encoste-se na parede. — Quero sair daqui. entre a cama e a porta branca. Lucas voltou ao vidro. — murmurou. passando o dedo sobre a falange do anular. Lucas. Fique em pé e encoste-se na parede. com as costas nuas tocando a parede. Queimam nossas lembranças. Deu uma volta pelo quarto.

Lucas reparou nos olhos da médica. mas essa fase precisa passar. por favor. Lucas. fala. Não sei onde estou.. Quatro da tarde. doutora? Por que eu estou aqui? Ana pareceu compadecerse. Viu a Dra.. Assim que o paciente obedeceu viu uma veia intumescer. Era um escravo da instituição. A médica parou na frente do paciente. Está passando por uma fase. doutora? Quero entender minha condição. como o de uma máquina. me dá uma informação. — Tudo o quê. — Que fase. Injeções. Você não vai comer mais nada. A gente vai te contar um monte de coisas. Ana passou um algodão embebido em álcool no braço direito de Lucas.. Daqui a pouco anoitece. Por isso que seu quarto está tão quente.. — Eu quero olhar por uma janela.medo. — Não me mate. É uma fase que está acabando. Encare dessa forma. Grilhões prendendo os punhos. Seus olhos pareceram ausentes. Por isso que você está tão agitado. — Durma um pouco. Me diz uma coisa. Só vai beber mais um copo de água. Ela aproximou-se com a bandeja metálica. Depois passou uma borracha pouco abaixo da axila. Sempre gostara daquele tom de olhos. Eu não sou um lunático. Lucas. — Já está terminando. Vocês dois precisam passar por isso. Tinha lágrimas descendo pelo rosto. A porta principal foi aberta. Lucas. prendendo a circulação. Tudo vai ser explicado. 39 . sou um homem perdido. Ela era linda. Estou em São Paulo? — É dia. Seus olhos e gestos perderam o ar mecânico com o qual entrou na sala. Não me mate. Lucas. é noite? Preciso me situar. Sua mão vacilou sobre a bandeja. Tenha calma. Ana surgindo. Como fora tolo em encostar-se na parede. — Quatro da tarde? Por que o Gabriel está dormindo? Como ele consegue? Está um calor. Eram cinzas. O que o sangue lhe mostrou? O que é que eu tenho? — Nada. enquanto a agulha despejava a medicação dentro do corpo do paciente. — O que estão fazendo comigo. — A senhora fala. doutora? O que está terminando? — O processo. Que dia é hoje? Que horas são? É dia. Já servimos água e sopa. Ela tinha os cabelos em tom de areia. mas não diz nada. cumprindo mecanicamente seu trabalho. Por que fiquei louco? — Você não está louco. A médica ficou muda um instante. Quero saber onde estou. quase loiros. Passou o algodão em outro lugar. Iam matá-lo.. Soltou a seringa que a mão em luvas brancas de borracha tinha apanhado. Eu não queria matar o Gabriel. Precisa passar essa fase primeiro. Só o tempo vai lhe dar respostas. Você precisa descansar. doutora. — Feche a mão. Iriam matá-lo. Lucas. Não tem nada..

— ordenou a voz metálica. Não diga mais nada. — Quem são eles. — Doutora. por favor. Com a calça azul e sem camisa. A garra apertada sobre o pomo de adão lhe engasgava. doutora? Por que têm medo de mim? Eu sou um psicopata? — Não Lucas. Tinha o olhar triste. 40 . Estava zonzo. sufocava. A droga que circulava em suas veias era poderosa. Cada um reage de um jeito a essa fase. Lucas aquiesceu. Tenha calma. deixe o quarto. — Você vai ter as respostas em breve. não conseguiu se manter de pé.— Ele está cansado. Precisou inspirar fundo. Durma um pouco. Deixe a sala imediatamente. Ana afastou-se do paciente. Apagou no chão frio. Lucas tentava olhar para o espelho. Lucas. Quando os grilhões foram soltos. Não alcançou a cama. — Doutora.

Pediu que levantassem Gaspar e o apoiassem pelas axilas. Tinha que pensar nisso agora. Gaspar ainda arquejava. mas pareciam profundos. parecia não estar pronto para ficar de pé sem ajuda. Estaria sofrendo uma hemorragia? Passava uma artéria importante próximo ao umbigo? Não conseguia lembrar. ia doer. Nenhum médico no grupo. Não traziam anestésicos. O sangue jorrou abundante. Não era médico. Novamente lembrando do tempo. Sabia que Adriano ia tentar minimizar os ferimentos. Olhou para os homens. Adriano balançou a cabeça. Mais sangue escorrendo pela barriga. Estava fazendo a coisa certa? Era bom quando tinham um médico no grupo ou alguém que entendesse de medicina. Enrolou as bandagens com firmeza. Adriano tirou um pano da mochila e limpou as feridas do amigo. Com a mesma frieza arrancou o segundo. 41 . Provavelmente tinha atravessado a pele. os músculos abdominais e afundado para dentro. Rezar para que parasse de sangrar. Com um golpe só arrancou o primeiro pedaço de galho. Dois pontos em cada abertura. Os homens estavam em volta. Gaspar contorceu-se. Os buracos eram pequenos. Estavam com os semblantes preocupados. Vasculhou a mochila e apanhou gazes. O amigo gemeu e protestou. Tinha que dar abrigo para os guerreiros.. pois o corpo de Gaspar estava coberto por bastante poeira. Deixe-o tentar andar sozinho. afastando os braços de seu tronco. Adriano via dois gravetos cravados no abdome firme de Gaspar. Costurou os pequenos cortes para bloquear o sangramento. — Vamos levá-lo ao rio. Levar um homem ferido não era fácil. Olhou para os soldados. O único barulho existente era o som da água descendo e dos gemidos intermitentes do velho soldado ferido. o sangue esvaía pelas bordas das lacerações. Lavar essa sujeira toda. Os fios de sangue estavam marrons. — Eu consigo. do corpo humano. Aos poucos. Adriano notou que o ombro direito do soldado estava bastante inchado e que filetes de sangue também corriam nas costas esfoladas. Todos silenciosos. Retirou um estojo. Agulha e linha.Capítulo 9 Adriano deu um graveto para Gaspar. formando uma faixa de um palmo. Rezar para que Gaspar não morresse até o nascer do sol.. Pode deixar. Tinha que se preocupar em construir um abrigo para a noite. Só tô um pouco tonto. mordendo-o firmemente. Se Francis estivesse com ele. o ferido tivesse melhores chances. Ainda mais com esse novo contratempo. O subir e descer da barriga bombeava sangue para fora. soltaram Gaspar. Gaspar colocou o graveto entre os dentes. A cada respiração. O tempo correndo. esmagando o máximo que podia o graveto nos dentes. Aquilo não era bom. talvez.

Me descola um trago. mancando. Agora estava com aqueles buracos na barriga. Adriano o acompanhava. com dificuldade. Gaspar tinha a perna. caindo na parte mais rasa do rio. — Vou ter que tomar um trago. me larga aqui. entre gemidos e arrastamento de perna. Correu até onde tinham juntado as mochilas procurando pelas bandagens oferecidas pelos companheiros. O corpo doía. — Quem você está querendo enganar? — resmungou o ferido. bem no joelho. Temos que ver se esse sangue pára de vazar. É melhor do que ficar sangrando e virar isca de noturnos. cara. Não dava. — reclamou.. — advertiu Adriano. Um rasgo. cara. — Mmm. Chegaram ao gramado e Adriano deitou o amigo. Que besteira! Droga de pedra! Tinha quase conseguido. senão não sei como vai ser a noite. Procure descansar um pouco e ver como reage. Gaspar. Gaspar. que não emmm. Eu não agüento mais. apontando para o corte aberto no joelho. Procurou pelo graveto mordido. quando Adriano assustou-se mais uma vez ao olhar para o soldado..Gaspar curvou-se e. Dava repugnância. — Lave os braços e vá deitar no sol. tentou aproximar-se do rio. não chegando a molhar as bandagens. Adriano limpou a ferida com uma gaze. colocando o graveto na boca. — Só mais essa. — Não molhe o curativo. Toca o barco com os caras. Pegou o estojo mais uma vez. Precisava fechar aquela ferida. — O que é esse treco branco? — Acho que é sua rótula. Ele tinha batido aquilo numa pedra e a pele não tinha suportado. — A gente não trouxe cachaça. — Porra. — Morde isto aqui. A seco não vai dar. velho. cara. da altura do joelho para baixo. porra. Eu sei.. Estavam no meio do caminho. Olha o tamanho desta merda. — Seu joelho. — Não vou conseguir. não pinga. Olhou para trás. lavada de sangue. limpou e refez a corrida até o parceiro.. — Merda! Puta merda! Sabia que tava doendo demais. Você não pode ficar sangrando.. deixou o corpo escorregar pela beira do barranco. Adriano. Os outros começavam a subir o morro para trazer mais uma das motocicletas. Tinha que trazer gasolina. Sei até no que você está pensando. — Eu sei. A gente toma um bagulho quando chegarmos em São Vítor. já tá doendo pra caralho. Adriano olhou calado para a ferida. Apoiou-o pelo braço para conduzi-lo até um gramado banhado pelo sol. Um corte extenso e também profundo. Começou a 42 . O líder estendeu a mão para trazer o soldado para fora da água. Era melhor poupá-lo de esforços. Vou ter que costurar isto também.. Gaspar fechou os olhos e respirou fundo. Gaspar parou para olhar.

costurar, com o joelho semi flexionado e tendo de forçar para a pele se juntar. Gaspar gemia, mas evitava mexer no ferimento. Estava agüentando. Adriano não podia esquecer de pedir um novo suprimento de analgésicos injetáveis para a Dra. Ana no Geral de São Vítor. Depois de dar os pontos, cortou a linha do carretel e enrolou faixas na altura do joelho. Gaspar parecia estar mais calmo ou ter desmaiado, uma vez que estava extremamente quieto e de olhos fechados. Como o homem respirava, Adriano não o fez acordar. Deixou Gaspar para trás. Não podia parar também. Um homem a menos já era muita coisa, que dizer dois... Colocou-se morro acima. Os homens desciam com mais uma motocicleta. Só vinte minutos mais tarde, com seis homens descendo a motocicleta é que parou para examinar a de Gaspar. Ela estava com os retrovisores quebrados, a carenagem danificada e mais uns tantos arranhões. Colocou-a de pé e deu partida. Pegou na primeira. Ao menos parecia boa para rodar. Baixou o apoio e deixou-a de pé junto às outras duas. Faltavam cinco. Olhou para o céu. O sol descendo, já próximo das árvores. Olhou ao redor. O vento frio se intensificando. A noite não tardaria chegar. A voz de Sinatra puxando mais um hit do passado chegou aos ouvidos. Era impressionante como aquele cara conseguia manter a calma nas horas mais complicadas. Por que Gaspar não estava ajudando a descer a primeira moto ao invés do Sinatra? Sinatra não teria pulado como um louco lá de cima? Não teria. Teria cantando mais um sucesso das bandas desaparecidas após a catástrofe, uma do Barão Vermelho, do Aerosmith ou do Plantação. Não teria descido aquele morro e acabado todo estropiado feito o Gaspar. Enxugou o suor da testa com os pêlos do braço. — Não subam ainda. Vamos encontrar um lugar para passar a noite. Os homens encararam-no silenciosos, como que recebendo a confirmação dura do que não queriam ouvir. Passariam a noite na estrada. Passariam a noite expostos aos vampiros. Os malditos noturnos. — Vocês três, procurem deste lado do rio. — disse, Adriano, referindo-se a Joel, Raul e Paraná. — Vou com o novato e os outros procurar do outro lado. Estejam aqui, impreterivelmente, em quarenta minutos. Sinatra, Marcel e Zacarias atravessaram o largo rio a braçadas rápidas. O líder Adriano era o que demorava mais, pois levava o facão amarrado na cintura e também tomava cuidado com duas armas de fogo. Essas expedições inesperadas invariavelmente eram entremeadas por surpresas, quase sempre desagradáveis. Os últimos anos tinham dado vigor à mata. Não era difícil deparar-se com onças ou matilhas de cães famintos e raivosos, oriundos dos grandes centros urbanos abandonados. Perigo era o que não faltava. Até mesmo o novato sabia o que estavam procurando. Um abrigo... isso significava que tinham pouco mais de vinte minutos para localizar uma pequena gruta, ou algo que os mantivesse protegidos e cercados, para tentarem sobreviver aquela noite. Uma manilha larga, um cômodo escavado por sobreviventes, qualquer coisa. Sobreviventes do passado faziam aquilo.

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Escavavam cômodos nos morros. Faziam paredes de pedra com uma pequena abertura para o interior. Em geral, esses cômodos perdidos nas florestas tinham uma única entrada, um único caminho para serem atacados e defenderem-se durante a noite. Caso um noturno encontrasse o abrigo, dificilmente você escaparia vivo. Mas, se quisesse tentar, teria de estar acordado. Por isso convinha que uma sentinela passasse a noite toda acordada e, se você estivesse no relento sozinho, nem pensar em cochilar. Os vampiros eram ardilosos. Chegavam sem barulho. Eram caçadores eficientes. Assassinos rápidos. Vinham do céu, pelas árvores. Macacos do inferno. Pisavam nas folhas secas sem que elas estalassem. Muita gente morria sem se dar conta de que caía nas garras das criaturas. Zás... uma garganta cortada. E os bichos da noite alimentavam-se daquilo que jorrava das artérias. Sangue vivo. Sangue humano. Diziam que podiam até subsistir com sangue de outras espécies, mas também diziam que não era a mesma coisa para eles. O sangue humano era mais saboroso. Mais poderoso. Farejavam no ar, a centenas de metros de distância. Um sangramento durante a noite e pronto. Estavam ferrados. Eles viriam. Tão certo quanto o pio da coruja. Diziam também que os vampiros caçadores, os que saiam para as florestas durante a noite em busca de sangue fresco, eram os piores. Os caçadores eram mais fortes. Mais violentos. Eram os noturnos mais preparados. Conheciam as matas. Conheciam os esconderijos. Eram os que derrubavam árvores na estrada. Colocavam explosivos nos caminhos. Sem contar as armadilhas. Armadilhas perfurantes, que faziam a vítima sangrar. Faziam a vítima deixar um rastro. Caso o azarado tivesse que dormir na estrada, estava acabado. Diziam que os vampiros mais fracos ficavam nas tocas, nas cavernas, nos túneis gigantescos, que abrigavam uma população daquelas criaturas. Os noturnos tomavam as velhas cidades desabitadas. Contavam que a extinta cidade de São Paulo abrigava um sem número de tocas e tribos, pois os noturnos dividiam-se em tribos. Ocupavam prédios inteiros. Selavam as janelas, impedindo a entrada do sol. Escravizavam seres humanos para fazer deles sentinelas diurnos. Humanos traidores, que abriam fogo contra as tropas que buscavam desinfetar a Terra daquela raça maldita, surgida do dia para noite, sem mais nem menos. Criaturas que apareceram depois da Noite Maldita, do Evento. Zacarias, o soldado mais baixo e mais gordo do grupo, foi quem lembrou: — Depois dessa ponte não tem aquela lanchonete abandonada? Adriano refletiu um instante: — É, tem. — Por que a gente não procura abrigo por lá? A gente fortifica uma sala. Fica todo mundo junto. Se aparecer alguém durante a noite, a gente manda bala. — Na mata é mais seguro. — replicou o líder.

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— Claro que é mais seguro, mas se a gente não achar nada em meia hora, acho melhor não perdermos mais tempo e começarmos a preparar nosso acampamento lá na lanchonete. Como é mesmo o nome daquele lugar? Rei da Pamonha? — Rancho. — consertou Sinatra. — Rancho da Pamonha. Zacarias sorriu. Uma imagem de infância. O pai sempre parava na estrada para fazerem um lanche no Rancho da Pamonha. Tinha um playground imenso, era muito divertido. O sorriso sumiu. Outra imagem. A casa invadida por vampiros. O pai atirando contra as criaturas. A mãe escapando com ele pelas escadas. Gritaria. Estavam invadindo o prédio todo. Zacarias apertou os olhos. Adriano, que ia à frente atento ao caminho, divisou uma picada dentre o mato alto. Chamou a atenção dos companheiros. Podia ser uma isca. Uma armadilha. Os noturnos eram foda. O facão ampliava a abertura. Talvez terminasse num cômodo de concreto, criado pelos soldados em passagens anteriores. Aquela luta era antiga. Uma guerra sem trégua. Sinatra começou a cantar o maior sucesso de Armstrong. What a Wonderfull World encheu a mata. Adriano arrependeu-se de não ter trazido seu par de botas. Entrar na floresta descalço era coisa de amador. Aquela região era rica em serpentes. Marcel era o que tinha a expressão mais tensa. Era a primeira que vez que se preparava para passar a noite na floresta. Desde que ele, ainda criança recém-desperta, e a mãe foram aceitos na fortificação de Nova São Paulo nunca precisara passar um dia fora dos muros. Já tinha entrado em confronto dezenas de vezes contra os noturnos, mas dentro dos muros de Nova Luz a coisa era diferente. Apesar de cercado por mais sete amigos, ali fora, sentia-se sozinho, desprotegido. Tinha ouvido muita história sobre Adriano e seu grupo, sabia que o líder era um guerreiro experiente, mas isso não estava fazendo diferença naquele exato minuto. Com o coração acelerado, rezava por um milagre. Torcia para acordar sobressaltado e descobrir-se na cama, respirando aliviado por despertar de um pesadelo ultra desconfortável. Adriano chegou ao final da trilha. Acabava numa rocha. Praguejou. Picou mais um pouco para a direita, depois para a esquerda. Balançou a cabeça. O expedicionário que estivera ali antes dele tinha desistido quando chegou naquela rocha. A picada não chegava em lugar algum. Nenhuma gruta. Nenhum cômodo preparado com uma passagem estreita. Nada. — Vamos voltar. Estamos perdendo tempo aqui. — Vamos tentar o Rancho? Adriano só resmungou, o que bastava para os veteranos saberem que a resposta era positiva. Em cinco minutos chegaram à beira do rio mais uma vez. Subiram em direção a ponte. Devia aproximar-se das quatro da tarde. O sol, insistente, dava um aspecto rajado à folhagem atlântica, intercalando o verde com luz e sombra.

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Chegando à ponte, Adriano foi informado que faltavam cinco minutos para completar os trinta. Tinham descido bastante. Talvez fosse precipitado decidir pelo Rancho da Pamonha, pois nem tinha vasculhado rio acima. Mas a incerteza de encontrar abrigo na mata ditava a alternativa. Não podiam arriscar perder mais tempo. Caso arriscassem, quando se dessem conta de que não tinham um canto mais seguro para pernoitar, já estariam perto das cinco da tarde, não tardaria o coaxar dos sapos e a imersão na sombra. Teriam de esconder-se na mata, tendo como proteção as árvores e a fé em Deus. Por outro lado, talvez a outra equipe tivesse tido mais sorte e viesse com a boa nova de um abrigo perfeito, impossível de ser penetrado por um noturno. Partilhou os pensamentos com os acompanhantes. Deixaram as armas de fogo e o facão na margem do rio e voltaram nadando para a outra margem. Enquanto os homens aqueciam-se com os braços, Adriano foi até o gramado onde Gaspar permanecia adormecido. Secou a mão nas próprias pernas e, depois, tocou a testa do amigo. Estava frio. Olhou para as ataduras. Estavam limpas. Livres de sangue. Era bom que fosse assim. Gaspar era seu segundo homem. Não queria deixá-lo para trás. Era, além de um bom soldado, um amigo. Além de um amigo, era o segundo no grupo que conhecia a missão. Conhecia os planos da Inteligência do grupo superior que lutava para construir a estratégia definitiva contra os noturnos. Gaspar não poderia ser deixado para trás. Era valioso demais. Infelizmente tinha sofrido um surto de desespero aquela tarde. Depois de dez minutos, avistaram o grupo de Raul descendo o rio. Vinham em silêncio. Cabisbaixos. Ao que parecia tinham tido a mesma sorte. Nenhum abrigo inexpugnável, nenhum combustível para a esperança que minguava à medida que o sol descia. — Encontramos uma gruta escavada em pedra... — começou Raul. Marcel deu um tapa ligeiro no braço de Sinatra. Esperança. — ... mas é muito pequena. Bastante para um homem, dois, se apertar... não vai dar para todo mundo. O sorriso que enfeitava o rosto negro do novato desapareceu. — O Zacarias lembrou que depois da ponte tem aquele Rancho da Pamonha. Acho que podemos adaptar uma sala para passar a noite. — Dá uns seis quilômetros até lá, uns três minutos de estrada. — emendou Joel. — Se não tiver nenhuma árvore no caminho... — resmungou Marcel. — Mas tô com Adriano e não abro. Se ficarmos aqui discutindo, anoitece. Vamos mexer o esqueleto e correr para o Rancho da Pamonha. — Temos que atravessar duas motos. Temos três aqui embaixo. Vamos esconder as outras no mato. Vampiro fareja sangue, não fareja óleo. A gente dorme no Rancho e amanhã volta para buscar o resto. Vamos subir logo essas máquinas e arrumar um canto para dormir, organizou o líder.

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Uma hora e vinte minutos depois estavam em cima do morro, do outro lado da ponte, com duas motocicletas de motores ligados. Marcel olhou para barranco vermelho que terminava em árvores novas e touceiras altas. Tinham demorado para subir com as motocicletas, pesadas demais e difíceis de elevar. Podia ver do outro lado do rio um corpo estirado numa parte gramada da depressão. Gaspar ficaria para trás. Tinha uma arma ao seu lado. Um reflexo luzia no metal da pistola devido a incidência do sol. Estavam em sete homens no topo do morro. O asfalto negro guardando o destino do pelotão. Raul e Joel tomaram o guidão das motos. — Zacarias e Marcel, vão primeiro. Dêem uma olhada no lugar. Verifiquem se vai ter como montarmos um quarto para o pernoite. Estando tudo ok, voltem para pegar a gente. Acomodaram o máximo de bagagens com o primeiro quarteto. Se a estrada estivesse limpa, chegariam em poucos minutos, três, quatro no máximo, ao velho e abandonado Rancho da Pamonha. Ficaram na beira do morro o líder Adriano, o cantor Sinatra e também Paraná. Paraná era o homem mais velho do grupo. Um senhor na casa dos cinqüenta anos, mas de compleição invejável. Tinha o cabelo cortado à máquina e olhos vivos. Apesar da idade era soldado há apenas quatro anos e estava no grupo de Adriano há menos de dois anos. Tinha servido em outro pelotão, que fora exterminado pelos noturnos numa batalha no front. Diziam que Paraná se alistara depois de ter visto a família dizimada após a invasão dos noturnos à uma fortificação. Foram pegos de noite. As sentinelas não tiveram tempo de dar aviso com rojões. Um massacre. Adriano cofiava o cavanhaque, olhando para o corpo estirado de Gaspar. Os motoqueiros não poderiam demorar, pois planejava ir até a lanchonete abandonada para inspecioná-la com os próprios olhos e depois retornar para levar Gaspar até a gruta encontrada pelo grupo de Raul. Sinatra cantarolava qualquer coisa, enquanto Paraná estava debruçado na amurada da ponte, olhando para a paisagem rio abaixo. O sol continuava sua marcha cadente trazendo o inferno. Depois que Sinatra calou-se, um silêncio avassalador abateu-se sobre o trio. Cada um capturado por seus pensamentos. Minutos escorreram para o passado quando foram despertos pelo som grandioso de uma revoada de araras-azuis e tucanos que cruzaram a ponte, descendo o rio. Quando o som dos pássaros afastou-se, o som dos motores chegou. Meio minuto até que avistassem as motos na rodovia. Marcel e Joel traziam as motocicletas. Capacetes reluzentes rebatendo o pouco do sol que chegava ao asfalto. O astro rei tocava a copa das árvores e o tom azul do céu começava a transformar-se. Quando os homens chegaram e retiraram os capacetes puderam ver os sorrisos.

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— O Raul achou o lugar perfeito! Disse que vamos sobreviver esta noite! — explodiu o jovem Marcel. Adriano resmungou, montando na garupa e pedindo a Marcel que ficasse o mais para frente possível para que Sinatra pudesse subir. A moto deles iria levar três passageiros. Joel e o corpulento Paraná dividiram o segundo veículo e carregaram o resto das mochilas. Dispararam no asfalto. Quatro minutos depois, as máquinas reduziam a velocidade. Adriano ergueu os olhos. O grande complexo da lanchonete estava coberto por um tipo de trepadeira, feito um cobertor herbal. Gastou um minuto olhando para o lugar. Jamais consideraria aquele lugar sombrio um abrigo, mas a ocasião não lhe permitia muito critério. Entrou no Rancho da Pamonha. Caixas registradoras, balcões, displays com o logotipo da empresa espalhavam-se pelo amplo salão, igualmente recoberto por aquela hera. Ouvia as vozes de Raul e Zacarias vindas do fundo do salão. Estavam rindo. Ao menos a tensão do grupo parecia dissolver-se. Confiantes, venceriam aquela noite. Adriano percorreu o salão. Lembranças furtando-lhe a atenção. Via seu pai retirando um litro de suco de milho de uma das geladeiras. Sua mãe costumava pedir curau. Ele detestava. O irmão mais velho... ele pedia sorvete de milho ou gritava por moedas em frente as vending-machines. Sorriu. Voltou à realidade com Paraná pedindo que fosse até a porta de onde Raul surgira. — Venha ver, Adriano. Acho que vamos nos virar bem por aqui. Dá até para morar aqui. Adriano seguiu o amigo. Passaram por uma cozinha industrial, um labirinto de corredores, velhas salas frigoríficas. Chegaram a um corredor bem estreito. Perfeito. Só passava um homem por vez. Depois uma sala com espaço suficiente para passarem uma noite. Uns quinze metros quadrados. Não era nenhuma suíte, mas serviria. Raul mostrou-lhe a grande vantagem. A sala era selada por uma espessa porta metálica que corria sobre trilhos, sem mais nenhum acesso, Era resistente. — Para uma noite, basta. — disse Raul. Adriano meneou a cabeça positivamente. — Limpem isso aqui. Vamos nos alojar por aqui mesmo. Já são mais de cinco da tarde, logo escurece, não temos mais escolha. Vamos orar. Seja o que Deus quiser! Eu vou cuidar do Gaspar. Os homens olharam para o líder. — Vou levá-lo para a gruta que vocês encontraram. Não vou largar ele naquele gramado. Também preciso que dois de vocês vão para lá e escondam as motocicletas. Marcel e Raul ofereceram-se.

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— Vocês, depois de limpar este canto, vasculhem este lugar, de cabo a rabo, vão aos fundos, procurem indícios. Não quero dormir na boca do leão. Se isto for um ninho de noturnos, não vamos durar dois minutos depois do sol cair.

Joel tinha explicado bem para Adriano como chegar até a diminuta gruta. O líder dos soldados respirava com dificuldade. Trazia, apoiado em seu ombro, o soldado ferido. Gaspar estava lúcido, mas gemia a cada passo avançado. Tinha piorado. Talvez estivesse com algum osso quebrado, uma hemorragia interna. Adriano trazia ainda nas costas a espingarda do soldado e sua mochila. Os voluntários encarregavam-se de esconder as motocicletas e tinham ordens expressas de não esperá-lo. Adriano dissera que poderia até mesmo passar a noite junto de Gaspar, para não deixá-lo completamente desamparado, sozinho na mata. A decisão de deixar Gaspar separado dos demais surgira no fato das ataduras, tanto abdominais quanto as do joelho, apresentarem grandes manchas de sangue. Gaspar representava um perigo potencial ao grupo e sabia que era medida básica de sobrevivência separar do grupo os soldados feridos nas horas escuras. Os noturnos viriam em busca do sangue. Alguém sangrando era isca para tubarões. Adriano rangeu os dentes, içando o corpo de Gaspar para o topo de uma rocha. Um tronco de árvore ajudava na subida. Segundo Joel, logo depois daquele ponto, na continuação da rocha, escondido pelo mato alto, encontraria um buraco escavado no duro mineral. Um abrigo improvisado, meia boca. Realmente constatava que mal dava para duas pessoas. Tinha que se esgueirar até o fundo e torcer para que os vampiros não encontrassem aquele buraco. Sem sangue até que seria possível. Estava no meio da mata. Seria muito azar ser encontrado. Adriano empurrou Gaspar pela abertura. Já estava escuro no fundo da gruta. O céu também perdia rapidamente a claridade. Mosquitos notívagos começavam a dar o ar da graça. Adriano estava preocupado. Será que os outros dois já tinham terminado a tarefa de esconder as motos? Tomara que sim. Tomara que já tivessem zarpado rumo a lanchonete-abrigo. Olhou para Gaspar. As faixas enroladas no abdome e no joelho já não bastavam para o sangue. Do joelho escorria um fino filete escarlate, descendo até a bota do soldado. Ele seria achado. Seria pego pelos malditos noturnos. Adriano recuou um passo. Apanhou a espingarda calibre doze e colocou-a no chão, fora da gruta. Gaspar não ia precisar daquilo. Seria pego pelos vampiros. Na melhor das hipóteses, seria morto. Num contexto mais sombrio, poderia ser feito escravo, poderia ser torturado e obrigado a dizer tudo o que sabia sobre o Plano B, sobre a trama para o extermínio dos noturnos, para o remédio. Adriano abaixou-se e abriu a mochila de Gaspar. Retirou documentos do homem e enfiou nos bolsos de sua jaqueta. Retirou a munição. Balas banhadas em prata. A coisa mais eficiente na luta contra os vampiros depois dos bentos. Quando atingiam a cabeça do inimigo,

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colocavam-no fora de combate. Se atingissem um inimigo fraco, podiam até matá-lo definitivamente. Bastante munição. Seria mais útil no Rancho da Pamonha do que ali, naquele buraco escavado na pedra. Adriano tirou sua pistola da cintura. Transpirava pela testa. O coração batia rápido. Os olhos ardiam. Era um líder. Líderes tomavam decisões difíceis como aquela. Tinha que matar Gaspar. Matar seu melhor soldado. Seu amigo. Gaspar sangrava muito. Jamais passaria incólume aquela noite. Se tivesse tempo e certeza de que alcançaria São Vítor no dia seguinte, enterraria o amigo, não o largaria ali, naquele buraco de pedra. Mas o sol já descia no horizonte. A luz começava a faltar e logo aqueles malditos estariam soltos na terra mais uma vez. Adriano ergueu o braço. Gaspar respirava com dificuldade e, apesar do silêncio, estava acordado. Cerrou os lábios. Sabia o que Adriano queria. Sabia por que Adriano fazia aquilo. Sabia que não adiantava protestar. Era a lei. Teria de fazer o mesmo se estivesse do outro lado da pistola. Mas não queria morrer. Não queria morrer naquele dia. Daquele jeito. Morrer por causa de uma decisão precipitada. Por um erro idiota. Tinha sobrevivido a tantas batalhas. Sorriu. Lembrava quando tinha enfiado um escopeta carregada de prata no rabo de um vampiro. Tinha feito o desgraçado cagar prata. Tinha dado cabo de tantos deles. Não era justo. Ele e Adriano eram unidos. Não era justo. Não queria morrer. Tinha acordado aquele dia sem suspeitar que seria o último dia dc sua vida. Tinha acordado sem receber aviso. Um dia comum. Ordinário. Um azar na estrada. A cabeça cansada. Medo da noite. Dos noturnos. Mas sabia que o amigo não podia arriscar. O homem ferido poderia ser pego. Ser obrigado a abrir o bico. Era melhor que fosse assim. Certeza de estar calado quando os sanguessugas chegassem. Certeza de que o segredo não seria proferido ao inimigo. Deus! Mesmo sabendo de tudo isso, não era fácil. Não era fácil despedir-se da vida. Faltou ar no peito. Ergueu a mão, como se pedisse um momento. Talvez tivesse como contornar aquilo. Mundo maldito! Mundo das trevas! Por que Deus tinha deixado aquilo acontecer? Os demônios escaparem pela porta do inferno e tomarem conta do planeta! Não era fácil morrer, droga! Não era fácil! Lágrimas descendo no rosto. Encostou-se o mais ao fundo que pôde, arrastando-se, fodidamente machucado. A porra do joelho doendo. Sangrando. Fodidamente sangrando. Sangrando e condenando. Maldito sangue! Gaspar respirou fundo. Via os olhos do amigo também cheios de água. — Até mais parceiro. — disse Gaspar, com a voz embargada. Adriano passou rapidamente as costas da mão que segurava a pistola sobre os olhos. Não podia fraquejar agora. Santo Deus! Como era difícil fazer aquilo com um amigo... um parceiro. Merda de inferno! — Atira logo, porra! Atira, filho da puta! Adriano voltou a fazer pontaria. Coração ou cabeça? Porra... — Eu não quero morrer... não tô pronto. Me leva com você, cara. Me leva... — choramingou o soldado.

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A luz. Sem tempo de parar para juntá-las. O tempo acabando. O peso da munição de Gaspar batendo no peito. Adriano.. Tirou as botas e as meias. Entrou no rio. Ao menos a munição tinha que passar incólume. seu amigo. Dor de cabeça. Mesmo os mais bravos fechavam os olhos e oravam do fundo do coração. A camiseta ainda estava úmida. Escuro. Terminou a escalada com o pulmão parecendo querer sair pela garganta. O motor falhou. Frio. rente ao rio.. Medo. Tirou a jaqueta. O céu ficando mais escuro. marionetes aparvalhadas. Frio.. Por que os noturnos faziam isso com os homens? Bastava escurecer para que todos se tornassem arremedos dc sobreviventes. A moto parada na beira da estrada. Agulhas.. os mais destemidos.. muita tristeza tomando o coração. Ligou. se chegasse.. O coaxar dos sapos chegando em seu ouvido. O céu vermelho. Torceu o cabo. A pior parte já tinha passado. Lusco fusco. Lágrimas descendo pelo rosto.. Os noturnos deveriam estar abrindo os olhos em suas tocas fedorentas naquele exato momento. Deus! Que a gasolina não acabasse até estar lá! Acelerou. Tristeza. 51 .... puxando mais uma vez o gatilho. A gasolina! Não podia ter acabado. Tudo escuro. Não conseguiu falar. Não podia se mexer. levando e trazendo as boas e más notícias. Seria bem mais de uma hora de caminhada. perdida no meio das árvores. Uma explosão. O escuro ganhando força. A calça ensopada. Sentia milhares de agulhas perfurando o peito. Urgência.. mas o ar não veio. balas caíram. O sol escondido pelas montanhas. resistiu. Vestiu a jaqueta às pressas.. A pressa atrapalhava tudo. O ar não entrava mais.Gaspar prendeu a respiração. Puta que o pariu! Crepúsculo. O motor funcionou. Deixou o rio. Silêncio. um homem caminha cerca de três quilômetros por hora. Os mais bravos. O peito pesado. O céu estaria totalmente escuro quando chegasse. Subiu o mais rápido que pôde o morro rente ao pé da ponte. Segurou a espingarda com a outra. procurando os pontos mais rasos. difusa. anunciando o anoitecer. Parou no meio do caminho ofegante. Enxugava pela terceira vez as lágrimas do rosto. agora morrendo como um rato. tinha implorado pela vida.. Fora tão bravo em tantas lutas. Pensou em largar a arma mais pesada. A garganta ardendo. também se rendiam à falta de sol. Deus! Essa não. Tentou.. Para que se tornassem criancinhas com medo do bicho papão. esperando que a luz do astro incandescente voltasse e tornasse a terra imune àquela praga mortal. dor e solidão. Chegou na altura da ponte. Seis quilômetros até a lanchonete. Quanto tempo a pé? Andando rápido. Queria não ter implorado pela vida. acabado. Pensava no sol. A merda da balsa do outro lado. Correu mais um pouco e montou na motocicleta. Tinha que ir rápido. Expirou. O sol danando sua vida. Acendeu os faróis. O sol sumindo. O cricrilar dos insetos vindo da mata. Corria mais. como os soldados que rodavam de cidade em cidade. Estava difícil manter as armas e as roupas secas. Enfiou a pistola na cintura. A luz da reserva acesa. Um barulho desconexo escapou pela boca. Adriano descia correndo. Apertou o botão de start mais uma vez.

Uma descida longa. So darling. Marcel ouviu primeiro o som do motor. A escuridão avançando. O roxo sucumbindo à noite. oh. todos liam: Danação. stand. and the land is dark. stand by me. Fumaça chamava a atenção dos noturnos. A lua minguante clamando sua parte. A noite instalando-se. oh. Não poderiam acender fogo para fazer carne. A perna estava gelada. Crepúsculo. Olhavam para Adriano aproximando-se. O salão em silêncio. jantar frio. — pediu Joel. Caso fossem encontrados. Ficaram preocupados vendo o sol descer no horizonte e o líder não retornar. No. No. um filhote feito uma aberração que tinha uma palavra grafada a ferro quente em seu couro descarnado. A noite trazendo pela mão um filhote. stand by me. Canta alguma coisa para espantar o medo. O último rastro de sol que enfeitava o salão esmaeceu lentamente até desaparecer por completo. A noite chegando. I won't be afraid. O sol desaparecido atrás da serra. A espingarda vinha na coronha ajustada à carenagem. stand by me. darling. Sinatra pigarreou. Paraná tirou de sua bolsa de lona três garrafas de água benta e depositou-as no canto que reservara para cochilar. viram o farol surgir na estrada. Os homens tinham ajeitado o cômodo escolhido.... com o frio catalisado pelo jeans molhado. I won't be afraid. Estavam famintos e com medo. Marcel benzeu-se. Stand by me. Talvez ele tivesse decidido mesmo ficar junto de Gaspar e encarar a escuridão. logo todos estavam fazendo o sinal-da-cruz. apesar da sujeira grossa que resistira a tentativa de limpeza.. Estrelas infinitas tomando conta do firmamento. 52 . Quando aquele bicho passava. trazido pela velocidade da máquina.. Todos viraram-se para o imenso vidro da frente e. — Canta alguma coisa. Tiraram o amontoado de bagunças empoeiradas abandonadas naquela sala e providenciaram escoras para a porta corrediça. quando a voz do amigo cantor encheu o salão com uma deliciosa canção antiga: — When the night has come... Just as long as you stand. Uns trezentos metros. Reuniram-se no salão principal da velha lanchonete. Raul repetiu o gesto. teriam que dificultar a passagem de qualquer invasor. stand by me.Adriano gritou emocionado quando divisou os contornos do Rancho da Pamonha. exposto ao vento... Teriam que se virar com os enlatados. and the moon is the only light we 'll see. Sinatra..

Onde costumava se recostar para ser preso pela garganta e braços. o que deveria ser efeito da medicação. Ouviu uma risada vinda do quarto ao lado. senão eu te furo com a minha. Ana veio à sua cabeça. A porta que separava o quarto vizinho continuava aberta. — Não pega essa faca. Ele está louco! — gritou para o espelho. como os alarmes emitidos nos corredores das escolas na troca de aulas. Ouviu um ranger. Deitou-se no colchão. Onde estava Gabriel? Já teria sido libertado daquela gaiola de loucos? Provavelmente.Capítulo 10 Lucas acordou no piso frio. Impressão. O cabelo desgrenhado do vizinho parecia formar uma auréola no topo da cabeça de Gabriel. A imagem de Gabriel vindo na sua cabeça. como um dispositivo mecânico acionado. Ele não estava lá. Estava perdido sensorialmente. Que porra era aquela agora? Uma espada?! Para quê? O mecanismo parou de ranger. Lucas levantou. Lucas olhava compenetrado para aquele novo personagem em sua louca aventura naquela cela de hospício. Aquela voz. Assombrada. O suor descendo pelo rosto. Ficou deitado um tempo. Não viu nada. Lucas engatinhou até seu catre. Vinha da parede. mantendo a espada de pé. O suor escorria em bicas. O que seria aquilo? Outro efeito da droga? Apanhou a camisa hospitalar debaixo da cama e passou sobre o peito. Olhou para a espada presa na garra. sabia? Seu maluco! — gritava o vizinho. Lucas parou. esperando a tontura passar. Uma risada macabra. O que estava acontecendo? A voz de Gabriel chegou ao seu ouvido. Tomou tamanho susto que quase caiu da cama. Lucas apertou os olhos. O vizinho estúpido. Ana? Esse homem precisa de remédio. A impressão de ouvir um sinal sonoro. Seria dia ou seria noite? Sentia muito sono. Estava todo suado. Estava no chão por causa de uma injeção. Lucas rilhou os dentes. presa num encaixe de borracha. As espáduas retas e tesas. — Não pega essa faca. Um santo. Ergueu a cabeça. Ameaça. Sentou-se e olhou para o grande vidro. 53 . Por causa de um ataque. — Cadê a Dra. — advertiu o vizinho. Não estava em seu campo visual. O ranger continuou. Piscando os olhos podia ver a cama de Gabriel. — Eles deram uma para você também? Há!Há!Há! Eles estão deixando a gente louco. São Gabriel. Uma garra que sustentava uma espada curta. ao lado do catre. Estava sentado. Viria de trás daquele espelho? Não. Lucas continuou imóvel. O pescoço dolorido. A imagem da Dra. Olhou para o vidro espelhado. Trazia uma espada curta. Havia surgido ali um braço mecânico. Cara idiota. O ódio queimando no peito. Um sinal sonoro contínuo. Gabriel surgiu na porta. Notou que a calça azul estava empapada de suor. Não vinha.

Não era! Dodecaedro. com espada ou sem espada e arrancar sangue da sua pele. E agora aquele maluco estava lhe apontando uma espada e aproximando-se de outra. mas sabia que não era um louco. Que merda era aquela agora? Dodecaedro.. Ou melhor.Nenhuma resposta. tentava manter o controle. O Lucas maior pouco importava-se. Um Lucas menor ainda lutava para manter a sanidade do ser. Abriu os olhos. quase rindo. Fazer o vizinho cair morto. tamanha a tensão que se apoderara de seu corpo. porque o Lucas menor não tinha certeza de estar louco. Odiava Gabriel. vendo o sangue sumir do corpo. Por que tinha tanto ódio daquele homem que nem conhecia?. O adversário. A que deveria ser a sua. um pinel. Talvez fosse domingo e agora estavam sozinhos. Só o Lucas prevalecente era que queria matar o vizinho.. o velho cabeludo.. O Lucas menor ficava questionando-se. Lucas apertou mais uma vez os dentes.. Lucas recuou até encostar-se na parede oposta ao espelho. Lucas piscou. Tomar a espada e cortálo. Por que matar um desconhecido? E talvez o desconhecido passasse pela mesma experiência. Lucas sorriu. Gabriel. Deixá-lo debater-se numa hemorragia letal. Matá-lo naquele instante. Lucas não queria arriscar-se. Estava doido. Gabriel avançava em direção à espada da cela de Lucas com sua lâmina em riste. A cabeça esvaziou a loucura que o 54 .. Estava doido. Quem era louco? Ele próprio? Gabriel? Ou os homens atrás do espelho? Aquilo era um reallity show? Big Crazy Brother? O ódio de Lucas triplicou.. O pequeno Lucas achava que se saísse daquele doentio quarto branco poderia tornarse soberano e tornar-se o Lucas maior e acabar com aquele Lucas demente. Um Lucas tentando encontrar a razão. O sorriso doente voltou sem avisar. Lucas sorriu. As drogas colocavam os Lucas para brigar. Ele não se lembrava de sua vida antes daquele hospital. O suor descendo pelo rosto... torturá-lo. Odiava aquele maldito quarto branco. Estava louco. O maxilar parecia que ia estourar e os dentes voarem da boca. Gabriel estava pegando a segunda espada... consumindo um resquício de lógica. O Lucas menor dizia isso. Será que as pessoas conseguem ver em nossa cara nossa loucura? Lucas escondeu o sorriso. A sua espada para cortar a garganta daquele lunático. As drogas criavam aquela dicotomia interna. Ou talvez o desconhecido estivesse com medo dele. E se ele percebesse que ele estava louco? Não queria que os outros soubessem. O Lucas maior queria agarrar aquele homem pela garganta. com duas espadas. Fechou os olhos. A sua espada para defender-se. pronta para atacá-lo. O que aquilo significava? Um desenho geométrico formando-se em sua mente. Só podia ser isso. Gabriel iria matá-lo. Estava louco. A espada para arrancar as tripas daquele cabeludo irritante. Mantinha uma distância segura daquele maluco. Lucas cerrou os dentes e manteve os olhos abertos. mas o Lucas maior e louco era mais forte. Um sorriso sarcástico tomou seus lábios finos. As drogas estavam fazendo aquilo. Lucas sem espada. Era isso. Será que tinha alguém lá atrás do vidro? Talvez estivessem de folga. o verdadeiro Lucas. O Lucas menor. atentos.

. vizinho. Uma vontade de agarrar o oponente pelo couro e arrancar-lhe a carne. Lucas passou pela guarda de Gabriel e agarrou sua garganta.. Era um monstro. Cheiro de fera pedindo para ser abatida. Gabriel debruçava-se sobre uma das espadas. Antes que Gabriel esboçasse reação. jogando a cabeça da criatura contra o vidro da parede. Gabriel. Bateu a cabeça no piso. Lucas sentia algo mudando em seu medo. Só via Gabriel e as espadas. feito pulga. Era irresistível. Aquilo na sua frente não era Gabriel. praticamente encostado na parede com o vidro. Estava com medo do tempo. Não havia mais dicotomia. Ansioso para ter um bom motivo para tomar aquelas espadas do oponente e arrancar-lhe a cabeça. Estava ansioso para começar. Estava defendendo-se. O Lucas menor tinha ido embora.atordoava. E aquele cheiro era atraente. dançando na frente do peito do oponente. Gabriel rugiu mais uma vez. Lucas chutou cada uma das lâminas em direção a um canto do quarto. que abriu a boca ameaçadoramente também. Lucas foi ao chão com o peso do corpo de Gabriel. Abriu a boca e soltou um rugido. não seria culpado. Atirou-se contra o vizinho. Lucas levantouse com agilidade e partiu com gana ao encontro do oponente. Algo mudava em sua natureza. Procurou o adversário. Acidente de percurso. Com medo do combate demorar muito. mas foi impossível. As narinas eram aprisionadas por aquela essência. Gabriel grunhiu. Gabriel até tentou atingir o vizinho com uma das lâminas. preocupado em recuperar as espadas. Lucas teve certeza de estar diante de um monstro. Lucas correu em sua direção. de costas e debruçado 55 . — Vamos brincar sem essas faquinhas. Seu coração pareceu pegar fogo. Não estava com medo de Gabriel. que precisava ser eliminado a qualquer custo. Um bicho que soltava um cheiro. pronto para o combate. Os olhos brilharam de novo e os caninos pareceram alongarem-se ainda mais. Ia atacar. Só havia o Lucas louco. Tinha que agarrar aquele bicho e estrangulá-lo. O impacto fez com que Gabriel soltasse as espadas e que o espelho fosse trincado. Cheiro do mal. Nem das lâminas. Lucas não podia resistir. Vermelho-sangue. Gritou. Um monstro com dentes pontiagudos e olhos vermelhos. Um monstro que queria lhe atacar. virando-o do avesso com as unhas. Fechou as mãos sobre as orelhas de Lucas que. Foi sua vez de atacar. Se fizesse aquilo depois de um ataque. Uma vontade de pintar aquelas paredes de vermelho. Gabriel. Ergueu as espadas. O homem tinha rugido. Estava louco ou via dentes pontiagudos escapando pelos lábios de Gabriel? Gabriel escancarou a boca mais ainda e seus olhos negros brilharam. surpreso. Uma em cada mão. sua mente entrava a dois mil por hora num terreno novo. Lucas assustou-se. mas manteve-se em posição de defesa. Ninguém lhe acusaria. tornando-se vermelhos cintilantes. soltou-o. arfava cada vez mais rápido. Parecia um bicho. Apertá-lo contra as unhas. Era um só.

Gabriel foi empurrado pela camisa e pelas ancas até bater com o topo da cabeça na parede. Sua pele 56 . Um passo para trás a tempo de desviar-se da cabeça de Gabriel que se descolava do pescoço e ia ao chão. Algo dizia que devia fazer aquilo. sua calma parecia voltar ao corpo e à mente. Desenhou um arco no ar que foi seguido por um barulho grave. Retomava o controle da respiração. ao mesmo tempo. Enterrou a espada no coração da criatura. Socou até não agüentar mais erguer o braço. Queria acabar com ele. Uma criatura que resistia a uma espada no peito! Lucas gritou e não deu tempo ao monstro de dentes longos refazer-se. Respirou fundo. Isso servia para acalmar um pouco. Afastou a testa uns dez centímetros e abriu os olhos. — Morre. Não merecia viver. Lucas ouviu um "crac" depois de jogar o adversário contra o obstáculo. bicho dos infernos! Lucas deu as costas para Gabriel e foi até a cama. Gabriel parecia atordoado. Viu um azulejo rachado. Aquilo não era humano. Passou o tecido grosso na testa e no peito. Foi até o catre e apanhou sua camisa azul. Virou-se imediatamente. Um vulto repetido nas frações do espelho. Transpirava em bicas. Caminhou até o corpo inerte. Começou uma série de socos certeiros contra o rosto da criatura. não uma pessoa. Uma ameaça.para apanhar o objeto do chão. Achava que um ferimento daquele faria uma cascata escarlate banhar o chão. Nunca tinha feito aquilo. Tinha matado uma coisa. O que estavam fazendo ali em São Vítor? Criando assassinos? Levantou-se e foi ao encontro do vidro espelhado. pois Gabriel já não exibia vigor nos músculos e mal se mantinha de pé. Era um bicho. Estranhamente. Abaixou-se e repetiu uma série de golpes. — O que vocês querem de mim?! O que querem?! Deixem-me sair daqui!!! Filhos da puta!!! Lucas calou-se e tocou o vidro trincado com a testa. não viu Lucas chegando. Respirou fundo. Só então Gabriel grunhiu e um fio de sangue quase negro escapou-lhe da camisa do hospital. Continuar. Aproveitou para cair com os joelhos em torno do pescoço do oponente para imobilizá-lo. Por mero reflexo desferiu um chute potente contra a barriga de Gabriel e. Saiu de cima do corpo com o rosto deformado. mas o tinha debilitado enormemente. Um pouco de sangue escapou pelo pescoço aberto. agarrou o cabo da espada e a retirou do coração da criatura. não tinha sangue escorrendo dos cortes. Agora que tinha acabado com o adversário. Olhou para Gabriel. cambaleou e tombou para trás feito um tronco de árvore decepado caindo de uma vez só. Era um monstro esquisito. Lucas olhou para aquele corpo bizarro. O golpe no coração não o tinha matado. Queria matá-lo. decapitado. O ódio consumia seus pensamentos. Queria sair dali. O suor ainda escorria. Era uma peste. O corpo. Tinha alguma coisa de errado com o corpo de Gabriel. Lucas deixou para entender mais tarde. Mirou o peito. Tinha que acabar com ele. Foi até o canto oposto e pegou sua espada. Avançou com a lâmina pronta para o golpe.

que tinha que descansar. Lucas foi até o catre e usou a camisa azul para sua higiene. 57 . deixando-a originalmente reluzente. Não tinha entendido nada. Fechou os olhos. Nenhum bicho daqueles poria as mãos nele novamente. Tinha sido retalhado de forma selvagem. Só tinha entendido uma coisa. que acabou se espalhando pelas paredes. Não sabia se aquilo fora um pesadelo ou uma alucinação causada pela droga administrada pela Dra. Mais uma vez. pois se voltasse a sentir aquele cheiro iria perder o controle de novo. Deitou-se. Ana. colocando-as ao seu lado. A calma voltava à medida que o cheiro daquele bicho desaparecia.sujou-se daquele sangue escuro.. Eram suas. Queria descansar um pouco. Procurou a segunda espada e juntou-as. Limpou também a espada curta. Quando se levantou o corpo não tinha mais braços ou pernas presas ao corpo.. Iria acabar com a raça daquele bicho dos infernos.

Hora de caçar na mata.. Adorava seus poderes sobrenaturais. Buscar alimento para a sociedade. Não estavam vivos. muitos dos seus ainda mantinham os olhos fechados.. muitos dos sãos começaram a juntar os adormecidos. o ópio dos vampiros. Cantarzo sorriu. Vinha o cheiro do sangue de animais silvestres. saltando antes que o galho arrebentasse. Alguém passando distraído por ali assustar-se-ia com o brilho emitido pelos olhos vermelhos da criatura. em salões de igreja. A noite instalada. Correu. temidos como o demo. Iria até a 58 . os noturnos. Ergueu a narina e inspirou demoradamente. Aproximando-se da boca da toca. A toca tinha plantado armadilhas nos últimos dias. Estava no fundo de sua toca. Tinham sido colocados em modo de espera. Um bicho sem peso. Eles é que eram eternos. Parecia voar. Depois da Noite Maldita. O som da noite. Parecia voar. Buscava o cheiro. Seu trabalho era perseguir velhos centros rurais onde pudesse haver adormecidos. No momento. Os malditos bebedores de sangue. Alguns humanos sobreviventes chamavam os adormecidos de "os sortudos". A toca era uma confusa sucessão de corredores e galerias escavadas na rocha. despertando do transe. voando dentre a folhagem. Procurava por Rios de Sangue no interior das florestas. grunhiu irritado. do torpor. Cheiro de sangue. Tentavam descobrir o que acontecia com aquelas pessoas. Uma pista.Capítulo 11 Escuridão. Cantarzo habitava uma toca distante dos grandes centros vampíricos. Sangue humano. preferia assim. os filhos da noite. Combater os noturnos. quando a humanidade afundara-se no desespero tentando entender o que acontecia. O vampiro adorava aquilo. os adormecidos ainda eram a fonte de sangue mais cobiçada pelas cidades de vampiros. dirigindo-se à superfície. Seu ambiente. Hibernavam. Aquela tumba fétida era sua casa. Era amedrontador. Noite abençoada. Saltou para a árvore seguinte. Caminhou por mais três corredores íngremes. tomando velocidade. Sortudos eram eles. Cantarzo não demorava. Incrustados nas paredes. qual a doença que devastara a população. No topo da cadeia alimentar. O par de brasas vermelhas percorrendo a mata. faltava o aroma favorito. Viviam do sangue dos humanos e eram temidos. A criatura pálida abriu os olhos. Os adormecidos não estavam mortos. ainda tomados pelo transe que os libertava. Subiu mais alguns metros. sem envelhecer um único dia. Saiu sozinho. Cantarzo conhecia o labirinto. Os galhos finos começavam a ficar suscetíveis à carga da criatura. Chegavam a estocar milhares de corpos empilhados em prédios abandonados. Eles é que tinham força sobre-humana e graça. Hora de sair. Conhecia os cheiros. Cantarzo parava eventualmente. Os animais. tirando-lhes o ânimo e a consciência. Adorava ser um vampiro. Pois os acordados tinham que lutar contra eles. Alimento para o organismo. aos poucos. Cantarzo saltou. temidos como pragas. Belas adormecidas. Seu corpo agarrou-se ao tronco de uma frondosa árvore. Esgueirou-se para cima até alcançar um galho. Um predador perigoso. Farejava o ar.

A direção sugerida pelo odor dizia que. donas de unhas pontiagudas e afiadas. Cantarzo saltou para um imponente jequitibá. Mas a mulher adorava cercar-se de bajuladores.estrada. um escravo de vampiros. finalmente. Uma das melhores caçadoras da região. Era uma criatura tão sutil e perigosa que nem mesmo seus semelhantes notaram a aproximação. Não caía no jogo de disputar a liderança. Hora de recreação. Poderosa. O grupo de Raquel avançava rápido. Pousou no galho áspero de uma mangueira. Um grupo de caçadores saídos de uma toca vizinha. Não permitia que a folhagem fizesse barulho. esvoaçando. Eles também tinham sentido. Alternava entre as árvores e o chão. interrompendo a vida. perdendo tempo e ganhando burrice à medida que o desespero consumia-lhes a sanidade. Forte. Agarrou-se mais firme ao tronco da árvore. Era um caçador solitário. Olhos de vampiro. colocando-se de pé sobre o galho forte. olhos cegos. Os olhos do bicho brilharam num vermelho mais intenso. Chamava o grupo de noturnos somente na hora necessária. Cantarzo grunhiu. cedo ou tarde. fechavam-se sobre suas gargantas. Um vento forte bateu contra seu corpo. tornando-se um vulto não detectável para olhos humanos. O cheiro. Com alguma sorte teriam se acidentado. Trinta anos sem interferência humana na mata tinham feito bem à floresta. O grupo de Raquel. Cantarzo saltou do galho. esgueirando-se como lontra na água. Dias atrás tinha explodido a ponte. visitar a estrada e a ponte era obrigação de toda noite. Dois mulos convertidos e uma vampira desperta no fundo do covil. Cantarzo rumou para galhos mais altos. Vinha de longe. gente viva que se arriscava a cruzar o interior durante a noite. Gente que antes de morrer oferecia-se para tornar-se um mulo. Por isso. Acelerou a marcha. arrebentando-se contra o rio. Raquel trazia alguns novatos. Gente que se enganava e que esperneava quando as mãos. tremulava com a passagem do vento. Sabia que. Cantarzo achava que o bom caçador deveria sair sozinho. Ou quando encontrava muita gente escondida. Grunhiu. Gente que chorava e clamava por perdão por desafiar os noturnos. Olhou para baixo. Guerreira. veloz. Alguém poderia ter se cortado atravessando os morros. O vampiro continuou. Cerca de quatrocentos metros à frente. Sua roupa. os soldados teriam de passar por ali. Um teria despencado da ponte. Gente que apostava que a mãe sorte não os deixaria e faria dos olhos experientes do caçador. Passou a língua pelos caninos afiados. pois sempre iam ou vinham do centro que chamavam de São Vítor. Queria observar. contudo dificilmente perderiam a pista. trazido pelo vento. 59 . Quantos quilômetros? Difícil precisar. Vinte metros. Cantarzo tinha deixado o grupo de Raquel passar. viu um grupo de brasas ardendo. Teriam sofrido com as árvores tombadas. descendo em queda livre. Quando encontrava um Rio de Sangue. Avançava em direção ao rio. Farejou. O vampiro escalou a árvore gigantesca que se erguia além das demais. O vampiro continuou contra o vento. Odiava cortejar vampiros antigos. O grupo de Raquel também tinha parado. a armadilha da ponte surtira efeito.

Sangue eterno. Durante os primeiros meses pós-Noite Maldita. Vampiros não podiam transpor os muros das fortificações. dotada de caninos pontiagudos. Procurava levar o maior número de humanos para os covis. Atendia aos da sua espécie. Alegria. ou tudo na luz. tentando entender o que acontecia e o porquê de não poderem mais com o sol ou o porquê de não terem direito à tumba. tinham se tornado doentes. verdadeiros 60 . Tornava-se um ser bizarro. Gente que vagava pelos cemitérios. Droga. teimavam buscar os seus parentes vampiros. adquirindo aversão terrível ao sol. tinham que caçar durante a noite e esconder-se nas horas de luz. Um vampiro. Depois que ele próprio falecera como mortal. enganados pela sensação de sede. Depois tornara impossível os encontros com os "vivos" amados. ao menos enquanto durasse aquele sono mágico. Os vampiros aprendiam a não confiar em si mesmos. Gente que vomitava tudo quando. Uma confusão danada. Pessoas que.. depois de um tempo. Os adormecidos eram disputados. Ao menos a família permaneceria unida. por mais sentimental que fosse. Quando a sede invadia a lucidez. por vezes. Os originais eram vampiros surgidos na Noite Maldita. dando cobertura à graciosa criatura e às três crianças até uma primeira fortificação. Entregam ao divino a realização de algo tão poderoso e inexplicável. pais que se tornavam bestas. e guardava-os feito rebanho. Seu irmão. apesar da busca louca nos primeiros meses. nunca mais pudera juntar-se aos que amava. Andarilhos da noite. nunca buscavam a família. Bichos das trevas.. nem humanos arriscavam-se nas trevas. só ele tornara-se um vampiro. As feras eram numerosas e a loucura tremenda. Cantarzo era um original. Assassinos. era como se a criatura entrasse em sintonia com o lado perverso de sua comunidade.. paras as tocas. Talvez fosse até melhor assim. para quem a vida e a morte eram proibidas. Quando a sede instaurava-se no vampiro. jamais vira novamente.. virando um nada. Morriam em poucos dias. jamais conseguiria manter vivo os laços humanos fora das fortificações. Uma série de suicídios. Logo uma legião desses monstros começou a organizar-se e entender que. Gente que achava consolo no sangue pulsante das veias humanas.. vinham dois vampiros originais. Os humanos. Força. Uma ditadura. para sobreviver. tinha visto famílias inteiras sucumbirem às trevas. Ninguém entendia o que tinha acontecido e.. Filhos que viravam feras. Gente que se escondia de noite e combatia os vampiros. tentavam alimentar o estômago morto com pão e carne. humanos lá. formiga gigante. atribuindo aquela loucura pelo sangue à uma doença passageira. pronto! O sangue tornava-se tudo e o passado esfarelava-se. perguntas para as razões da Noite Maldita continuam sem respostas. teimavam querer retorná-los ao seio familiar. Ajudara a mulher e filhos. fraqueza e uma melancolia devastadora.Além destes três. Histórias heróicas e apaixonadas. vidas separadas. ou tudo na escuridão.. o que não chegava a ser raro. mas a doença não passava e os vampiros. de uma hora para outra. Vampiros cá.. vampiros que fugiam na hora do sol e que combatiam as pessoas "comuns". até boje. Famílias separadas. No começo havia muito choro. Cantarzo vira histórias maravilhosas desenrolarem-se. Mas. abrindo os olhos tristes depois da morte. De sua família.

as árvores eram abundantes. Só podia ser. Gabando-se. Muitos.. Só podia estar ensinando as trilhas e os segredos aos novatos. Era mais seguro. Novamente. os olhos ardiam feito brasas e os dentes surgiam.. Alguns. Eles ainda tinham essa mania. Mais nada. Avistou o reflexo da lua batendo nas águas do rio. Talvez devido àquele inchaço em seu joelho sangrento. Assim sendo. O filho deixava de ser filho e passava a ser comida. aquela gente era outra. Cheiro forte. Os vampiros. Dizendo que muita coisa mudava depois que os olhos mudavam. Vampiros para cá. Sabia que irmão não tinha se tornado um noturno. Uma refeição ligeira. por certo. Cantarzo ergueu o nariz. estava de botas. Um homem apenas.. Nunca. Contando causos. Era repugnante para os humanos. Apressou seus saltos aéreos. como a mulher e as crianças que ajudara. mas o grupo numeroso da vampira levou duas. Os olhos de vampiro viam as coisas com mais clareza. Pousou num galho firme. A noite não era mais a mesma. com o cheiro tão forte trazido pelo vento. O cadáver vestia uma jaqueta. Cantarzo teria percorrido aquela distância em meia hora. Então. Subiu o máximo. Uma gruta escavada na pedra. Cantarzo cruzou o ar em direção à outra árvore. Pelo cheiro sabia que a caça já estava morta. Era estranho adaptar-se ao mundo da noite sem escuridão. Os grupos de soldados costumavam sair em oito. talvez o adjetivo explicasse também sua busca pelo irmão desaparecido.romances. com a roupa negra esvoaçando. Gente que não queria deixar seus parentes e amigos vampiros para trás e vampiros que tentavam permanecer junto dos seus ao redor das fortificações. Desceu até a abertura. Era melhor assim. tinha ido para sempre. Quando tinham os filhos enrolados nos braços. Só aquele sangue. Quando queriam sangue. O estômago queimava. ao menos. poucos na verdade. Teria o encontrado. podiam ver até os espíritos da floresta. mas o sangue ainda estava fresco. como dito. Era perigoso. Quantos pais haviam matado os filhos? Quantos filhos tinham afugentado os pais? Cantarzo perdera a conta. amarrados em tiras de couro.. mais sete homens próximos ao corpo. O grupo de Raquel andava devagar. mas sem calça. encontraria. quentes e cheios de sangue nas veias. andava devagar. Mas não era o lanche que interessava. O cheiro ficava mais forte à medida que se aproximava da ponte. Raquel deveria estar explicando coisas aos novatos. Desespero. épicos. Estava numa área rochosa. O cadáver estava logo abaixo. Olhou a trilha aberta 61 . Nunca terminavam bem esses casos. o vento lambendo seus cabelos longos. Ergueu as narinas e farejou. caso assim fosse. mesmo àquela distância. suscetíveis à loucura do sangue. Desgraça. Realmente os novatos tinham muito que aprender. O irmão estava perdido. Precisavam do sangue para continuar a viver. muitos perdiam a cabeça. Talvez fosse mais um daqueles que dormiam sem nunca saber o que acontecia. Cantarzo desceu. perdiam a razão. Viam as sutilezas escondidas na matéria. Era difícil resistir. Desesperado. Amigos tentando guardar o cadáver para os rituais fúnebres. ao lado de uma coruja que demorou em notar a presença do vampiro. humanos para lá. Mesmo assim. Talvez houvesse outros com ele.

pois os lábios espichavam-se e deixavam escapar os pontiagudos caninos. irresistível. Tinha traços delicados e femininos. um mortal notaria um corte costurado com linha preta brotando e escondendo-se logo abaixo do tapa-olho. uma caixa de munição caída no chão. com a tira superior passando por cima da orelha esquerda e a inferior abaixo da orelha direita. Um ferimento no passado. Os novatos estavam silenciosos. Chegando perigosamente perto de seu rosto. Um tipo. A bela Raquel era uma criatura vil. E ela era rápida. Olhando de perto notariam que eram estranhamente grossas. Ela parecia pronta a pular na garganta de um e acabar com sua existência. O rosto do defunto tornou-se vermelho devido ao espectro luminoso que escapava dos olhos da fera. Raquel aproximava-se. Aninhou-se no topo da rocha escondido na folhagem. Quando percebiam. lutando com veias escuras e repugnantes. Voltou até a boca da gruta artificial. Sangue vivo era mais envolvente. Raquel tinha explicado que aquele cheiro diferente vinha do sangue de um morto. fatais. Sumia-lhes das vistas num piscar de olhos. O cheiro do sangue era forte. Balas de prata. O corpo seria sedutor a um homem. Pareciam unhas de bicho. Tinham medo quando ela demorava com o sinistro olho vermelho em cima de um deles. muito mais grossas que unhas comuns. negras e pontiagudas. calafrios percorriam os novatos. Deixou os olhos brasis abrandarem até desaparecer o brilho vermelho completamente. cortantes. Esbelta. Cantarzo viu as bandagens molhadas pelo sangue morto. com pernas grossas e seios deliciosamente delicados. Quando sorria. Gostava de observar a vampira. Afiadas... Os vampiros aproximaram-se em silêncio. emprestando-lhe aquele manjado ar de pirata psicopata. como a de qualquer vampiro veterano. Poucos metros para frente avistou algo de suma importância. ferramenta letal quando posta em uso. A noite tornou-se escura para a criatura. suas peculiaridades. Raquel era muito rápida. Era uma mulher de quase um metro e oitenta. Um tapa-olho de couro preso ao crânio. cheia de sortilégios. ela estava no topo de uma árvore e no instante seguinte já tinha voltado ao 62 . obrigava que usasse aquele tampão sobre o olho direito. Tinha a pele excessivamente branca. Até os dois veteranos que escoltavam o grupo de novatos tratavam-na com deferência. decididamente. Animais da noite. Cantarzo virou-se repentinamente. Apanhou o objeto. Talvez o medo começasse quando observassem bem as unhas daquela criatura. que semeava discórdia. limitando-se a acompanhar a veterana. Longos cabelos ruivos e lisos cobriam-lhe os ombros e parte das costas e revoavam com os movimentos ágeis da dona. Um barulho. Esperaria Raquel incógnito. seus métodos canhestros. um ser que criava situações. Retirou uma e devolveu a caixa ao seu lugar didático na trilha. Raquel tinha uma aparência sinistra. como de feras rapineiras.pelos soldados. perigoso. Um buraco no peito e outro na cabeça. resultado de uma contenda raivosa. Mas a atração física dos mais tolos acabaria quando encarassem o rosto de Raquel. A vampira tinha unhas longas.

Muitos inspiravam rapidamente e de maneira afetada. Viu as bandagens molhadas de sangue estagnado. Demorariam a se acostumar. A vampira de cabelos vermelhos e tapa-olho virouse e gesticulou para o grupo. Tinham visto ela esmigalhar a cabeça de um fugitivo num golpe só. junto com Anaquias. tocando o chão com um joelho. que se aproximou. Ergueu as narinas. aquele ali no buraco. Caso fosse um soldado qualquer. mas o do sangue do morto sobrepunha-se a tudo naquele instante. Muitos cheiros estranhos. Aquilo não seria preciso para determinar a posição do cadáver. servi-lo-ia de um copo cheio. Novatos eram assim. Tempos atrás eram sobreviventes refugiados em algum centro fortificado e. Talvez o comandante do grupo tivesse dado cabo da vida dele ou. um humano não faria aquilo. Gerson. Um caminho curto. Tatiana. 63 . Gerson abaixou-se. Percebeu a presença de Cantarzo. Raquel aproximou-se da gruta escavada na rocha. Raquel saltou e alcançou o topo sem esforço. eram feitos vampiros. Selvagem. Um buraco na testa e outro no peito deixava claro que a causa mortis não havia sido hemorrágica. Assustadora. e que. empurrando o crânio do humano contra a rocha da caverna. O grupo saía da floresta e aproximava-se da margem do rio. Olhou para as árvores. invariavelmente. mas nada disse aos outros. Se aquele abelhudo estava ali para arranjar confusão. fosse o próprio comandante do grupo e tivesse pedido que fosse abatido e largado para trás. — ordenou Raquel. Os vampiros novatos acotovelaram-se para poder enxergar através da boca daquela diminuta gruta. Tinham liquidado ele. Franziu o cenho. — Era um soldado importante. A coleção de adjetivos para cercá-la. — disse a vampira encarando o grupo. Uma rocha. cheios de medos e agonias. A pele do homem estava cinza. Subiram a trilha. Os dois mulos sabiam o que aquilo queria dizer. Raspou o dedo numa porção do sangue estagnado e levou até à boca. aproximou-se do rio primeiro. — Vai. Eram mais cinco vampiros. Deu passagem a Anaquias. Um soldado. Seus olhos observaram o corpo despojado de vida. A única pessoa que fez cara de pouco entender foi Tatiana. até mesmo os novatos. darem com ele. Entra no buraco e toma um pouco do sangue. Tinha que ser calado. um dos vampiros originais. Sabiam que aquele soldado era um dos que conheciam o plano. arriscasse a pele sangrenta cruzando a noite e rezando para que o sol viesse. expondo os caninos. talvez ainda estivesse vivo naquele buraco.chão forrado de folhas úmidas. A vampira tinha os braços fortes. Mortal. Bastaria aquele cheiro para. a vampira recém-desperta. Entraram numa picada. Aquele cara sabia demais para arriscar ser pego vivo pelos vampiros. Olhou para o chão. depois de tantos anos como escravos. Os olhos vermelhos intensificaram o brilho e o vampiro pôde ver com maior clareza. seguiria esses moldes. sempre escoltava Raquel nas saídas. Estalou a língua. Gesticulou para Raquel. por isso foi morto e abandonado pelos colegas. Os companheiros permitiriam que ele tentasse a sorte. somente agora. Um rastro de sangue.

agarrando-a também na altura do peito e arremessando-a brutalmente contra a rocha. Passou a mão pelo rosto cinza de Gaspar e subiu levemente os dedos até a ferida na cabeça. Fez um sinal para que entrassem. mas o desejo de sugar até a última gota era poderoso.. Gerson puxou com mais força e suspendeu a garota. Gerson cansou da brincadeira e. drenando-lhes a coragem. O vampiro aproximou-se do buraco e estendeu o braço para agarrar o calcanhar da novata. Os olhos apagaram-se. Raquel fez outro sinal e seu soldado agarrou os pés dos vampiros novatos. Arranhavam-se e empurravam-se. soltando grunhidos. Olhou para Gerson e mostrou-lhe os caninos. Ficava imaginando um jeito de ir à forra. Tatiana ouviu a voz da vampira vindo pela boca da gruta. a vampira encarou-os.A vampira novata deixou os olhos chamejarem e grunhiu levemente. nem tão cheiroso. ora tentando libertar o pé. Tatiana avançou as unhas pontudas para a mão do vampiro.. Rasgou as ataduras abdominais e aproximou os lábios dos ferimentos do morto. não que lhe faltasse ar. Como faria para aquele vampiro dobrar os joelhos e beijar o chão? Iria descobrir. O sangue morto não era tão saboroso quanto ao dos corpos vivos. Tatiana caiu sobre os braços. A cabeça doía. Raquel meneou a cabeça para Gerson. procurando uma posição melhor para tomar o sangue morto. Queriam logo pousar a boca no sangue do maldito cadáver e fazer aquele ardor no estômago abandonar o corpo. mas estava agitada. Arrastou-a para fora. Tatiana era pequena e de aparência frágil. desviando o olhar e encarando os dois mulos. cedo ou tarde. antes de darem outro. O cheiro do sangue diminuía em suas narinas. Tatiana limpou os lábios sujos com as costas das mãos. 64 . num movimento rápido. feito cães raivosos. ouvindo grunhidos de protesto. Estava mais calma. tentando feri-lo. Precisou sugar com vontade para fazer o sangue coagulado verter para sua boca. ergueu Tatiana. debatia-se ferozmente. A passagem era estreita. Ajoelhou-se respirando rapidamente. mas os dois espremeram-se enlouquecidos. não poderia atendê-la. mas servia para alimentação. O ardor estomacal arrefeceu. Os mulos recém-convertidos agitaram-se e também grunhiram dando um passo em direção à gruta. mas sempre que percebia Gerson olhando para outro lugar media o soldado grandalhão. Tatiana aproximou-se do corpo frio. Gerson era alto e forte. colocando-os para fora abruptamente. deixando-a de ponta-cabeça. ora tentando alcançar o agressor. trazendo a mão suja de sangue até a boca. — Saia. Era a primeira vez que tomava sangue de um defunto. porém. Gerson riu. Contudo.

ao lado da entrada da gruta. O sangue caçado. 65 . o fato é que sangue de gente viva e escondida era melhor do que o dos mortos e adormecidos. talvez porque a caça permitia que exercitassem seus poderes vampíricos. mas sabia que depois de três novatos terem visitado aquele corpo não existiria sangue o bastante para ela. Poderiam voltar para a toca e abastecerem-se com sangue dos adormecidos. esse cara não estava sozinho. abaixando-se para colher algo no chão. Raquel grunhiu nervosamente e balbuciou: — Cantarzo. Os novatos viam um homem parado em frente da gruta. não pode deixá-los sair daqui com um "talvez". batia em seu rosto. — Talvez estejam por. — Vamos andar. — grunhiu a mulher. em cima de uma pedra. Mas. sabia que na frente dos novatos seria mais difícil de Raquel querer esquartejá-lo. Não sentia cheiro de mais sangue. O olho bom da vampira parecia querer queimá-lo como um raio de sol vermelho. Olhou para o grupo.. de gente escondida. — disse a líder.. — Já que incumbiram você de ensinar os novatos. agora leve. Raquel tinha se posicionado num ponto mais alto que os demais. Só os mais velhos conheciam a ferocidade escondida por trás das garras da vampira ruiva caolha. A vampira era vaidosa demais para perder a pose na frente de iniciantes. Diferente de Tatiana conheciam a fama de Gerson. Um vento entrando pela gruta. nem mesmo atracar-se contra o vampiro poderoso. parecendo que abandonaria o grupo sem maiores explicações ou interrupções. Logo. Também tinha fome. O vampiro impertinente passou pelos novatos e também por Gerson. A mata estava limpa por quilômetros. Farejou profundamente. mas não tentaram voltar para a gruta. tendo o cadáver seminu pelas costas. era mais saboroso. O vampiro abriu caminho empurrando os dois pelo peito.. Raquel. saltando para a trilha. — Não se intrometa. Talvez porque o medo da morte iminente injetava hormônios na corrente sangüínea. Via Gerson atrás dos novatos. Cantarzo. rugindo ameaçadoramente. Sorriu rapidamente para o grandalhão.Ambos protestaram. Cantarzo saltou para a trilha também. o que temperava a "comida". ficando próximo à Raquel e Anaquias. — disse subitamente. os olhos apagaram-se e os caninos foram recolhidos.. voltando a encarar os dois na sua frente. mas não era a mesma coisa. Estava seguro. virando-se repentinamente para a boca da caverna. — Talvez? Os vampiros assustaram-se. — Ensine-os a observar melhor.

Se fosse vocês botava esses narizes para fungar. Era uma caixa com balas de prata.. Ela pensa mais rápido que vocês três juntos! — gritou o intruso. Queria permissão para atacar o intruso. Tatiana estremeceu da cabeça aos pés. — Vocês são cegos? O soldado foi assassinado. Não poderia atacá-lo na frente dos novatos. Gerson olhou de volta para a vampira. Gerson ergueu os ombros olhando para Raquel. — O que há com você. Cantarzo? Só porque a toca não quer você com novatos resolveu desmoralizar os que estão aqui para ensinar. — A munição.. — tornou a voz de Cantarzo. O vampiro não estava mais lá. sabiam que Cantarzo era páreo duro na hora da contenda.. O assassino deixou o local depois da execução. — Bravo! — berrou o caçador. Gerson abriu a boca exibindo os dentes pontiagudos e voltou a olhar para Cantarzo. Munição. Os novatos procuravam-no com os olhos sem encontrar. Anaquias tomou a munição da mão do mulo. vinda do alto das árvores. Raquel fulminou a vampira com o olho bom. Raquel negou com um rápido meneio. Não existem armas com o defunto. Grunhiu nervoso quando Raquel negou mais uma vez. brutamontes idiota. Raquel sorriu. com a voz forte vindo de outra direção. Jogou-a para um dos mulos. — murmurou Tatiana. Raquel! Deixe a novata assumir a liderança.. — Como sabe? — perguntou Gerson. Eles não estão longe daqui. Raquel identificou imediatamente a caixa e o tilintar característico. espantouse. explodindo numa gargalhada provocativa. arranco seus braços. — Ensinem direito. o vampiro era importante para a toca. Levando em consideração as dimensões. Sabia que Raquel não estava brincando. — Os soldados estão por perto. queria a autorização. — A munição é do morto! — gritou a líder. — Ei. Não tinha tempo para voltar e apanhá-la. que produzia um som metálico em resposta a movimentos bruscos. Cantarzo sorriu. Aproximou-se e murmurou: — Se der mais um pio... Sabia que estava ganhando mais um aliado para ajudá-la a acabar com a raça de Cantarzo. Era ágil e fazia uso letal de seus atributos vampíricos. Devido ao insulto. o objeto era bem pesado. pois não..Cantarzo exibiu uma caixa. O rapaz agarrou a pequena caixa... 66 .. Apesar de odiar Cantarzo. Apesar do jeito falastrão e esquivo do caçador. Por que deixaria munição para trás? — Estava com pressa. tinha que aguardar um momento melhor.

você não nos diz onde os soldados estão. no bom sentido. Anaquias continuava caminhando pela trilha. — Por que ao invés de ficar gritando asneiras. Para tudo existe um limite. A ponta da árvore balançava suavemente. — Anaquias. Conhecia como ninguém aquelas matas... Prata é o único material que nos cria feridas.Raquel via o vampiro no topo de uma árvore. Vá. Anaquias? — perguntou Natan. Cantarzo estava esgueirando para um terreno perigoso. Antes que dissessem outra coisa. Ele estava falando sério?! Os veteranos também trocaram um ligeiro olhar. ele desapareceria em segundos. mostre o seu machucadinho para eles. acabamos com sua raça. Raquel. — Ótimo! — gritou de volta o vampiro de cima das árvores. — continuou Cantarzo. no instante seguinte. — Deixe Anaquias brincar com os novatos. Se tentasse alcançá-lo. 67 . os veteranos puderam ver Cantarzo evadindo o local e começando sua caçada. — Vamos realmente fazer esse jogo? — perguntou Anaquias surpreso. — Vimos procurar os soldados. logo abaixo. saltou para outro tronco de árvore. Anaquias. soltando lascas quando saltou mais para cima. E garanto que estão por perto. Num segundo. Assim que ele encontrar o esconderijo dos soldados. Balas de prata são preciosas demais para estarem soltas no barro. movida pelo vento. é claro. Com dois movimentos ligeiros estava no topo de um eucalipto com cerca de vinte metros de altura.. — Vamos fazer um joguinho! Uma brincadeira fora da toca. quem achar primeiro toma mais sangue e ganha o coração dos novatos. reverenciando a líder. Era um bravateiro. e saiu com os aprendizes de vampiro. — Onde vamos começar a procurar. Raquel aquiesceu. erguendo as mãos. Gritava insultos de uma distância segura. Gerson. Anaquias curvou-se. Raquel. não conseguiam ver o vampiro. Já os novatos. Olhou para Gerson. lentos demais.. Nem um segundo passou para que Gerson estivesse ao seu lado. você vai com os novatos. Vamos jogar com Cantarzo. Cravou suas unhas afiadas no tronco. Raquel grunhiu baixinho. Nós vamos atrás de Cantarzo. saltou para o tronco de uma árvore. que salivava aguardando um sim. um dos mulos. caçador? — Porque é preciso encontrá-los. Sabia que o vampiro era rápido e competente. Enquanto isso. Vou com Gerson para ganhar tempo. Os novatos entreolharam-se. — Vamos. Explique isso aos novatos. Raquel olhou para Gerson e. Esse maldito vai pagar pela falta de respeito.

— apontou para a construção que cruzava bem acima do leito do rio. — Por quê? — Porque aquele soldado estava com roupa. — Depois vamos para a estrada. Para a estrada. Anaquias respondeu: — Vamos terminar essa trilha. Esses aí só andam nas estradas e não conhecem a mata.Depois de alguns passos em silêncio. — Estrada? — É. é perto da estrada. Morrem de medo da floresta durante a noite. 68 . Quando se escondem. Vamos para o asfalto. jaqueta e botas de motoqueiro. Acho que dá naquela ponte.

Lucas passou a mão no cabelo ondulado. Prometo. Teria sofrido uma alucinação? — Cadê o Gabriel? A doutora Ana abaixou as mãos. parecendo deixá-los mais verdeacinzentados. Os olhos agitados vagaram pelo cômodo branco. Abriu mais os olhos. Só estava fazendo uns exames. — Morto? Ana aquiesceu. Respiração rápida. — Não foi. já não ia com a cara dele mesmo. segurou-a firme entre os braços. Parecia relutar em falar.. Por fim soergueu os ombros. Nenhum corpo. aproximando-se e voltando a examinar os olhos do paciente. — Você vai sair daqui. de pé.. — Doutora? A médica reteve-se já no corredor. passou a encará-la com os olhos arregalados. — Você. Ana olhou nos olhos de Lucas. Você teve alta. 69 .. — Diga. Lucas manteve-se em silêncio um instante. — Quando vou te ver de novo? — ele perguntou. Não sei. Cheirou os cabelos e a pele da médica. Ana abriu ainda mais o sorriso. Lucas. — Vista as roupas limpas que estão debaixo da cama. Tudo limpo... dando passos desequilibrados para trás. — Não sei. Lucas. — respondeu. eles já o tiraram daqui. Ana sorriu. Lucas levantou-se agitado. nenhum sangue no chão. hoje ainda. ofegante.. indo em direção a porta. Eles virão te buscar para falar com o doutor. — Eu mato um cara e tenho alta? Por que não me disseram antes? Tinha acabado com ele no primeiro encontro. — Doutora.. Ana sorriu para o rapaz.Capítulo 12 Uma luz forte nos olhos... Sem cheiro. Lucas. — Eu quero uma janela.. — Alta? Ana não respondeu. Tão repentinamente que a doutora assustou-se. Aproximou-se repentinamente da médica. recuperando-se do susto. — Pensei que aquilo tivesse sido um pesadelo. voltando-se para olhar o paciente.

Os olhos procuravam nos azulejos indícios do combate com aquele bicho que se apossara do vizinho. Meia hora mais tarde. Não era à toa que Lucas era o que era. separando médica e paciente.. a escuridão foi dissolvendo-se e os olhos adaptandose à luz. Um formigamento delicioso cobriu seu braço à medida que era esquentado pela luz do astro-rei. Alguma coisa diferente. mas era diferente de todas que tinha visto! Nunca tinha olhado para um horizonte tão verde e exuberante. Sorriu ao lembrar que tinha deixado a médica sem graça. Os dois trocaram um olhar curioso. Um sorriso largo. No entanto. cabelos maltratados. O chão estava frio para os pés descalços do paciente. Lucas afastou-se. Notou que os enfermeiros aproximavam-se. Lucas colocou-se de pé.A porta deslizou.. Tantas árvores! O lugar era realmente impressionante. um furor. Pássaros! Inúmeros deles revoando em bandos. Os olhos analisavam e tentavam estabelecer uma lógica. assim que a médica saiu. Em São Paulo o céu era cinza e marrom. Um hospital imenso. E nem no Jardim Botânico encontraria árvores tão belas. Percebeu que estava numa espécie de passarela. Lindo! Um azul tão magnífico que assustava. Não encontrou nem sangue. Só então pôde contemplar a paisagem. Lucas sentiu o coração acelerar. O sorriso desfez-se. em conseqüência da inanição. Que lugar lindo! Estava numa cidade.. esperando que se pronunciassem. Ana mordiscou o lábio e caminhou pelo corredor. De repente. O corredor logo à frente. Sorriu. Conduziram Lucas para o corredor. Onde estavam os carros? Continuaria minutos 70 . unhas horrorosas. Talvez só estivesse impressionada. Olhando para o asfalto percebia que faltava algo.. Instintivamente aproximou-se e farejou o ar ao redor dos homens. dois homens de aventais brancos entraram no quarto. Magro. Aos poucos. trocando a roupa suja pela roupa limpa. Seriam celas habitadas como a sua estivera há pouco? Subiram e desceram escadas. Estava no interior? Deveria estar bem longe de São Paulo. Lucas obedeceu. Uma janela! Adiantou-se e correu até o meio do corredor. Não interromperam sua contemplação. Estranhamente diferente. nem espadas. Era a conexão entre dois grandes prédios. Dentro da cela branca. os olhos teimavam em dizer que estava numa legítima área rural. recebendo o sol na pele. mas tinha um brilho nos olhos. Como nunca ouvira falar de São Vítor? Uma cidade com um complexo daquele tamanho deveria ser bastante avançada. O céu limpo como nunca vira. Balançou a cabeça negando aquele frio na barriga. tirando os pés do chão e abraçando os joelhos. — Vamos ver o doutor. sangue cobrindo sua calça e tórax. O paciente estava com uma aparência horrível. Lucas sentou-se na cama. Um labirinto de azulejos brancos. A luz forte ofuscou seus olhos por um breve momento. Heróis sempre impressionam. O senhor teve alta.. havia uma faixa de luz solar cobrindo parcialmente o chão. Lucas continuou observando. Aquilo só podia significar uma coisa. senhor Lucas. Alguma coisa estranha. Lucas passou em frente a incontáveis portas.. Terminando de vestir-se.

correndo lateralmente sobre rodízios. Penumbra. um senhor que aparentava mais de oitenta anos. como se fosse continuação daquele pelo que viera. Um charuto. Lucas arregalou os olhos numa caricatura e estalou os lábios. Persianas fechadas. Lucas olhou-o por um instante. outro à esquerda e o último à direita. Quadros nas paredes. Um logo em frente. não fossem as bromélias que brotavam em xaxins alojados em quatro grandes vasos. — ruminou o médico. — Se quiser um trago é só se servir. Sentou-se numa poltrona confortabilíssima. O que ele tinha a ver com aquelas armas? Por que o sorridente homem das armas tinha trocado o seu nome? Bateu na porta de madeira ao final do corredor. Madeira clara. — convidou a voz rouca. com papadas imensas e uma respeitável coleção de rugas. — Venha rapaz. derramando um bocado no próprio copo. Uma escotilha foi aberta para que alguém do outro lado pudesse observar.a fio contemplando e arregimentando perguntas. Bastante barulho. As paredes eram marrom-claro. Sente-se. Sobre o tampo havia apenas um bloco de notas e uma caneta. Dava para passar uma vida inteira com a bunda naquele assento. Imagino que você ainda esteja um pouco confuso com toda esta confusão. bento. Um ambiente totalmente monocromático. Atrás de tudo isso. Os enfermeiros ficaram para trás. De outra gaveta tirou uma garrafa oval. Havia inalado forte. o que aconteceu comigo? Que doença eu tenho? — Tinha. — ofereceu o médico. Afastou-se. A mesa estava limpa. tentando entender o contentamento do soldado. A porta foi fechada e Lucas viu-se deixado com dois soldados. você terá tudo o que quiser. no azulejo branco. Bata na porta. Ao final do corredor havia uma porta de ferro. O chão tinha um carpete fino e marrom.. 71 . contudo os homens fizeram um sinal para prosseguir. Acendeu um isqueiro. O médico tirou algo da gaveta. Estava numa sala ampla que dava acesso a três corredores. mas a informação não se consolidava em sua mente. Escutou uma voz rouca do outro lado ordenando que entrasse.. Ficou quieto. Abriu vagarosamente a folha de madeira maciça e pesada. dando uma longa baforada e enchendo o ambiente ao redor de fumaça. — Doutor. Estavam limpos. Diplomas fixados nas paredes. Dois copos. — Estamos contentes por você ter despertado. Ali não havia a ditadura do branco. — O doutor te espera no final do corredor. Um médico experiente. — Seja bem-vindo a São Vítor. Deduziu que eram soldados. Parecia mais um escritório do que um consultório. pois portavam rifles e vestiam um uniforme escuro.. A porta foi destrancada e abriu. Eles não tinham o cheiro. Tinha. Bateram.. — disse o soldado da direita apontando o respectivo corredor. Lucas tentou lembrar-se do nome daquele tipo de madeira. O carpete marrom continuava sala adentro. filho. Lucas notou também as rugas na mão do interlocutor.

ficando espremido como sardinha. filho.. — Você tem idéia de quanto tempo está aqui ? Você se lembra do seu último dia acordado.O médico fez uma pausa. rezando para que trânsito andasse e que chegasse em casa antes da Voz do Brasil. — O que aconteceu. A vida.. — Aposto que você está totalmente confuso. Você sofreu do mal da Noite Maldita. Ficou encurvando o pescoço para aliviar a tensão do dia. A Terra. — disse. O céu estava tão bonito. O mundo mudou muito desde que você adoeceu. — E quando chegou ao seu apartamento? O que você fez. — Lucas. Colocou um congelado no microondas aguardando pelo jantar instantâneo. não parou? Não percebeu nada de estranho? — O céu. Cada par de olhos que confronto aqui é a mesma situação.. filho. Lucas via-se nas circunstâncias descritas. Como se o médico tivesse assistido seu passado. relaxar a musculatura do pescoço. como se o médico pudesse ler sua mente. — Tudo. antes de acordar naquele hospital. antes de abrir os olhos neste hospital? Lucas repetiu o gesto negativo. fazendo dois pilares de fumaça escaparem das narinas ao final da frase. suas últimas horas de lucidez. irmão Lucas? Ligou o computador. filho? Lucas meneou negativamente a cabeça. Teve uma jornada cansativa naquele fatídico dia. fez um sinal para que esperasse enquanto puxava mais fumaça para a boca. — Tudo o quê? — Como pode perceber.. Livrou-se daquele terno barato comprado na Colombo. ou pegou o metrô lotado para casa.. Nem faz idéia de quanto tempo passou aqui. Lembra. — Não conhece este lugar. 72 . Você viu algum carro. certo? Lucas balançou a cabeça negativamente. ou ficou mofando no banco do carro.. Estas pessoas. sintonizado na Jovem Pan. Tomou um banho quente. Enquanto o médico falava. verificou os e-mails. — O que eu tenho? — Teve. Quando você olhou por aquela janela. Tenho certeza que não conhecia nem mesmo este hospital. preso num congestionamento recorde e ouvindo o tamborilar da chuva no capô. desertas. doutor? O que mudou? — insistiu Lucas.... Mudou muito. você deveria trabalhar num escritório ordinário como a maioria das milhões de pessoas fazia. À noite em que tudo começou a mudar. — Só isso? — As ruas.. tenho certeza que parou lá por uns instantes. — Vamos por partes. Percebendo que Lucas inquietava-se na poltrona. Ao final do trabalho. Provavelmente. Heitor Villa Lobos? — o médico fez uma pausa para uma nova tragada e baforada. respostas simples não cabem nesta sala. limpas. Teve. — Sem carros.

Mas.. prosseguiu: — Vocês não envelheceram. arrepiou-se. procurando rugas ou alguma imperfeição. Vocês. Como um milagre. Ligou com o controle remoto. dando continuidade às descrições — Aí veio o sono. adormecidos sortudos. Veio a Noite Maldita e te apanhou no meio do sono. um oásis. Estava.. Trinta anos sem ver o que acontecia ao seu redor.. diria que estava com o mesmo rosto de quando adormeceu. que escondeu seu rosto por um instante. Dormiam enquanto nós reconstruíamos o mundo. Trinta anos em suspensão. Tomou água. normal. — Você dormiu trinta anos. vocês estivessem vendo um dos jogos do torneio Rio . Protegido contra os vampiros dentro dos muros de São Vítor. inexplicavelmente. Muita gente desapareceu. Tirando a palidez e as unhas. Famílias se desfizeram e vocês. você deve ter assistido o Ratinho. Escovou os dentes. os adormecidos. Colocou o prato na pia. O que estava passando? O que passava na sua época? Lucas. foi para frente da TV de vinte e nove polegadas.. com o prato feito. no meio de tanta tragédia. — Quanto tempo? O médico puxou fumaça para a boca e soltou uma nuvem condensada. uma novela da Glória Perez. Mas havia passado boa parte dos últimos tempos de frente para um grande espelho. como batizamos aquele dia. vocês foram poupados. Ele deveria estar com quase sessenta anos agora. Lucas. Trinta anos era muito tempo.. Não havia.— . olhando para a parede ao lado.. Procurava entender... dentro do possível. Juntou as costas das mãos olhando-as demoradamente. sem olhar nos olhos de Lucas. — Dormiu trinta anos. Os noturnos. deixando Lucas digerir as últimas palavras. O doutor fez uma pausa grave. Dormiu como nunca havia dormido antes. Em alguns os cabelos crescem bastante também. O médico. O evento.. Todos sofremos.São Paulo. À noite em que o mundo mudou. Perdiam horas na frente da TV Se fosse uma quarta-feira. Foi para a cama e dormiu. erguendo os ombros. Sem enlouquecer como enlouquecemos. mudo. Amarrou um pano de prato no pescoço para que o molho não sujasse a camisa. O que ele queria dizer com "na sua época"? — Naquela época vocês costumavam assistir o quê? Com um prato de lasanha preparado no microondas. Não dava para acreditar.. Os malditos. Suas unhas crescem lentamente. foram poupados. Sem envelhecer como envelhecemos. Que time você torce? — perguntou o médico. Todos. divagando. Os seus músculos 73 . talvez. os olhos grudados na TV. Lucas ficou calado por um bom tempo também. são parte do fenômeno da Noite Maldita. Lucas sentiu a pele arrepiar. criatura. Não viram o desespero quando. Dia cansativo. após a Noite Maldita. — Todo mundo gostava dessas coisas. Deus deixou nossa terra e libertou as feras da noite. a Grande Família. — jogou. num tom retórico. vendo o auto-exame do rapaz.

buscando complementação para um trabalho literário. chacoalhado. Os garotos tinham cerca de dezoito anos. bilhões entraram nesse sono misterioso. Ela não respondeu. que noite! O doutor abaixou a cabeça e pôs o dedão na testa. muitos. Ninguém sabe. Deus. Dormiam. — Sim. Lucas. filho. Disse que teria de levar todos para o hospital. Chamei minha esposa para avisá-la do ocorrido. Os tecidos. batido e nada. O gás estava desligado. Tornaram-se monstros. — Naquela noite. batidas na minha porta. Tentei o telefone do hospital.. Você é nossa salvação. Este pobre médico não sabe. tinham batimentos cardíacos. e pode apostar que eu me lembro muito bem como foram aquelas horas de terror.. Eu estava navegando na extinta internet. durante a noite... gritava. Chamava-me porque sou médico. — Salvação?! — o espanto não abandonava Lucas. O despertador tocando estridente. Voltou até a mesa e tomou mais uma dose de seu bourbon. Ninguém tomava narcóticos. — Gabriel. Perguntei o que tinham jantado. O telefone estava ocupado. acompanhando a voz rouca do médico. Veio o desespero. batatas. como você. Ligamos para o 190 para chamar uma ambulância. se tornaram algo pior. para internação e exames clínicos. Uma pessoa comum que acordasse de um coma vinte anos depois precisaria de muita fisioterapia para voltar a andar normalmente. E.. Não 74 . — Nossa salvação. O doutor levantou-se e andou pela sala. Mas quero que tenha uma idéia do mundo que vai encontrar fora desse hospital. Atendi a velha amiga entrando em sua casa e indo para o quarto de seus filhos. Ocupado. Um milagre. Naquela noite. Ele também era um deles. parecia sofrer ao reviver a situação. Pedi um minuto e voltei ao meu apartamento. despenteada. — Decidi levá-los pessoalmente. Depois. De camisola. Apesar de não ter sentido cheiro de nada diferente no ar eu corri até a cozinha. tudo num estado de suspensão. Como? Não sei. dizendo que sua família estava morta. Seu sistema nervoso entrou em pausa. filho. sem saber. O motivo de você estar na minha sala agora é ser uma peça importante para nossa salvação. A luz intermitente entrando pelas frestas das persianas emprestava um ar sombrio àquele escritório de tons marrons. com aquele "béééé-béééé" repetido. Quando dei por mim a manhã já vinha chegando. a mãe tentava acordá-los para irem à faculdade. Acalmei a mulher quando constatei que os três estavam com a pressão regular. Mas o milagre não pára por aí. Ouvi gritos no apartamento do vizinho. O marido estava na mesma condição. Quando acordam conseguem até caminhar. A certeza de que estavam mortos. Lucas ergueu os olhos. se é que conseguisse um dia.não atrofiam. Bilhões. Frango.. mas o coração funcionava. Nosso libertador. abaixo da média. filho. Tinha gritado. A mulher estava desesperada. para que não se assustasse. Logo chegaremos nele. minha esposa e filhas já estavam dormindo.

Para meu assombro. Perdido. Senti um alívio momentâneo enquanto a abraçava. todos tomados por aquele mal. Gente jogada pelo corredor. Ninguém queria se tornar mais um adormecido. Os casos. O trânsito estava um inferno. Ela. De noite. Ela nunca mais falou comigo. — Fomos para o hospital. — O mundo acabou. bombeiros. foi levada para o mundo da escuridão. Coloquei-os no meu carro. Me senti impotente. junto com a vizinha que se uniu a nós. aos poucos. Os olhos dela se tornaram vermelhos e ela não parava de chorar. Ela também estava tomada pelo sono. Ela ficava descontrolada quando exposta à luz. Com a ajuda da vizinha e de minha filha fomos descendo os adormecidos até o subsolo.. Mas o que imperava naquele momento era o pânico. ainda. Quem teria atacado nosso Brasil com armas químicas? O médico parou para outro trago e mais uma baforada. Mas como uma arma química ia escolher um e deixar o outro? É verdade que tem gente que é mais suscetível que outra.respondeu. Sabíamos que a doença estava se espalhando pelo planeta porque algumas pessoas conseguiam ligações de telefone fixo para fora do país. Acabou naquela maldita noite. uma Grand Silverado. Gente dormindo com aquela doença por todo o planeta. Não fora um efeito regional. Os adormecidos estavam por todos os lugares. notando que havia muita confusão nas ruas. o pânico. Na manhã seguinte. Quando dormiam. E realmente isso veio a acontecer com uns poucos. Os colegas me diziam que um tipo de epidemia tinha tomado conta da cidade durante a madruga. Falavam em armas químicas. Entender que mal se abatera sobre minha menina. Balancei minha mulher. Em nosso apartamento. — o médico chupou o charuto mais uma vez. Lembro até hoje do arrepio percorrendo meu corpo. — Seguro caro. sem tragar a fumaça. Lucas. só chiado. cuidávamos de nossos adormecidos. Do outro lado da linha.. na hora. — Fui até o quarto de minha filha adolescente. Era um bicho. Havia fogo em alguns prédios. Nunca mais voltou a ser minha pequena Júlia. A pele queimava. Júlia começou com uma estranha sensibilidade ao sol.. Chacoalhei-a pelos ombros e ela despertou assustada. como milhares dos acordados. ambulâncias. uma aberração. o coração dela não pulsava. Com a chegada do anoitecer ninguém queria dormir. Lucas. profundamente. Não desconfiávamos do quadro geral. os olhos ardiam. 75 . Confusão. desespero. Não vimos relação até chegarmos ao hospital. Um caos.. ligamos o rádio em busca de notícias na CBN. Sem vagas. minha filha morreu. Depois a lembrança de minha esposa. enquanto eu tentava cuidar também de Júlia. nunca mais abriam os olhos. A TV não funcionava. No dia. Júlia estava dormindo. Um alvoroço na entrada. Com a chegada do amanhecer percebemos que as surpresas não acabavam naquele fenômeno. Lucas. eriçando os cabelos que eu ainda tinha. — interrompeu Lucas. Júlia abriu os olhos e não era a mesma. Muníamo-nos de drogas que bloqueavam o sono. dos meus vizinhos. foram sendo contados de todo o mundo.

. Nenhum telefone. Eles destruíram nossas redes de comunicação. tentam acabar com nossas vidas. As noites passaram a ser horas terríveis. vê algum telefone em minha mesa. — Não viu e nem verá.Minha filha estava tremendamente doente e minha medicina não valia de nada.. Tentam vencer nossas cidades. — Vê algum telefone nessa sala? Algum telefone nesse prédio? Lucas balançou a cabeça. mais enfraqueceremos o inimigo. nunca foi possível quantificar com precisão quantos adoeceram.. pois não tivemos tempo de saber nem quantos sobreviveram ao sono. Caçam os hospitais.. Lucas. Acabaram com praticamente tudo o que nossa ciência ergueu. segurava firme nos encostos para os braços da confortável poltrona. Tomam nosso sangue.. Destruíram nossas estradas. essa loucura que acometeu metade da população livre do sono bizarro. Sorveu mais um gole do bourbon. Bloqueiam os caminhos. Eles pareciam ser consumidos por um tipo de loucura. um dos maiores centros brasileiros da atualidade. Lucas? O homem olhou para o tampo liso de madeira. O que o doutor lhe dizia era algo inacreditável. Com os adormecidos confinados em suas tocas eles têm sangue garantido por muito tempo. Essas bestas que caminham no escuro tentam. ninguém ousa ficar nas ruas. Durante a noite é novamente a vez deles. ninguém fica fora da fortificação. Tornou-se tão perigosa que foi impossível mantê-la comigo. Quando a noite chega.. Acabar com o que resta de nossa organização. Quando a noite chega... — Essa doença. Quando a noite chega.. Têm dentes malditos. Estavam todos loucos. essas pessoas infectas. Demorou algumas semanas até entendermos o que estava acontecendo com os nossos filhos. Júlia. é um dos alvos preferidos dos exércitos mais organizados 76 . — Vampiros. Querem nos ver loucos. São Vítor. liquidar com nossa existência. Mas morrem no sol. viraram nosso maior tormento. nosso algoz. Vândalos começaram a destruir a cidade. elas passaram a nos caçar. nosso salvador. noite após noite. Quanto menos sangue deixarmos para trás. — Isso mesmo. Os olhos baços. O médico fez uma nova pausa enquanto era visitado pelo passado. apesar de meu carinho. A hora em que tivemos que nos separar.. O que evitou nossa completa extinção foi o horror que estes seres têm do sol... Nos caçam durante a noite. Noite após noite. tudo o que fazemos é orar antes de fechar os olhos.. quando Júlia era tomada por uma espécie de demência. Evitam que nos reagrupemos. As ruas ficaram perigosas. tentava me atacar com objetos cortantes ou com dentes pontiagudos e afiados. Orar e esperar pelo nascer do sol. Lucas. caçamos nas velhas cidades por depósitos de gente que ainda existem por aí. tenso com o desenrolar da narrativa.. Vampiros. Acho que essa foi a hora mais triste. Tentam tomar os adormecidos. Durante o dia é o nosso turno de jogo.

— É melhor você tomar um gole.desses malditos. vitória após vitória. Mas mesmo assim somos nós quem teme mais. noite após noite. em sua marcha de salvação. Um libertador. outra lembrança veio-lhe à mente. — Não. Sabem que essa será a chave para nossa liberdade. 77 . Será muito bem-vindo. A boca abriu sem conseguir dizer nada. A história incrível que o médico lhe contara convergia para um ponto escuro. Lucas balançou a cabeça. o trigésimo. Eles têm medo de nossa união. como será chamado por muitos. Um escolhido. Livrarão a gente do medo da escuridão. É o que completa o número. — Um vendedor de seguros? O médico da voz rouca sorriu. Gabriel era um vampiro! — Você é um dos bentos.. E.. e acordou como um messias! Nem eu acreditaria. sem compreender. Tudo isso já era esperado. o que ele pessoalmente tinha a ver com toda aquela calamidade que tomara o planeta? Lembrou-se de Gabriel morto no chão branco. eu. Irão trazer o dedo de Deus para a Terra e varrerão os noturnos do planeta. Eles têm medo. o mais especial deles. Lucas arqueou as sobrancelhas.. O estômago oco. Estão em todas as florestas. O médico completou o copo com a bebida de cor escura e encheu um segundo copo.. Lucas permanecia tenso.. segundo a profecia. Os dentes pontiagudos. eu só não esperava viver o suficiente para vê-lo acordar. filho. O que um homicida maluco podia trazer de bom? Então.. A cabeça estava confusa. O doutor colocou o charuto na boca.. Um Salvador.. Criaturas demoníacas. Lucas. — Bentos? — Sim. é um enviado. Fome.. arrastando-o na direção do rapaz... Somos nós que não podemos andar livres durante a noite. Não querem que juntemos vocês. os abençoados. — Você. Lucas. Lucas. Serão celebrados vila após vila. — Você dormiu como um vendedor de seguros.. Atacam nossas muralhas. Os olhos sinistros de Gabriel. — Você é um homem especial. eu. Um Messias... — Não entendo. Mais um instante de silêncio. um homem bento. Um messias. Levarão os números. O pelotão dos bentos. mas é isso que você é. Eles estão por todos os cantos. É o mais aguardado dos libertadores. Eles conhecem a profecia.

Não havia cheiro. Só passariam destruindo aquela porta. Seriam picados um a um.. Talvez o intruso fosse embora.. Antes de dormir já tinham substituído a munição comum por balas de prata. Os homens preparam as armas. assustado. O líder dos soldados sentiu o coração bombeando freneticamente. Ela tremeu. Porra! Tinha cochilado! Zacarias olhou para o resto do cômodo.. a respiração pesada. Talvez tivessem encontrado as motocicletas escondidas pelo mato e desconfiassem que estariam escondidos ali. Um golpe mais forte contra o metal fez os outros colocarem-se de pé. A porta estremeceu. só dava para um maldito por vez. Raul anuiu. mas continuava dormindo.. Adriano abriu os olhos. e ergueu os ombros como uma interrogação. Zacarias continuou nervosamente pedindo silêncio para Raul. Passos no corredor. fossem quantos fossem do outro lado. Sinatra roncava. Balançou a cabeça duas vezes no sentido da porta e apontou para o ouvido. Todos dormiam. Sinatra parou de roncar.Capítulo 13 Zacarias foi quem ouviu primeiro. estacou. ouvidos atentos. tocando os lábios e pedindo silêncio. Estava bem presa e uma porção de caibros firmemente encaixados impediria que a porta deslizasse com facilidade. Zacarias repetiu o gesto com o dedo no nariz pedindo silêncio. embalado em sono pesado. mas o medo era impossível de controlar. Olhou para Raul que estava de sentinela. assustado. Também ouviu o barulho. Antes que o líder acordasse. Segurou com firmeza o rifle nas mãos. Alguém mais fraco 78 . o sangue gelou nas veias. Sabia que. sobressaltados. Adorava o combate. Ficaram mudos. A porra do sentinela estava cochilando! — Raul! — sussurrou com urgência na voz. olhando Raul nos olhos. Levou a mão até a trava da arma. cutucou o ombro de Adriano. virando de lado. Ficou calado. Zacarias levou o dedo erguido para a frente do nariz. Com o pé. Talvez a coisa fosse embora. Santo Deus! Tinha escutado passos no corredor! Que não fossem os vampiros! Ficou quieto. A pressão arterial deveria ter subido ao ser invadida por uma dose generosa de adrenalina. Raul abriu os olhos. Insistiu na porta. olhos bem abertos. Os três acordados anteriormente gesticulavam pedindo calma e silêncio. Ninguém ali dentro estava sangrando. O esconderijo era bom e antes daquela porta havia um corredor por demais estreito. O barulho indesejado repetiu-se. Adriano colocou-se sentado. Alguém andando do lado de fora. sem sair de seu canto. somente um vampiro investia contra a porta. Raul acabava de engolir um bocado de saliva. Adriano empunhou seu facão prateado e manteve os olhos na porta metálica.

Tentavam sempre capturar o líder. os soldados engoliram a seco quando perceberam o ferro envergando e a parede começando a rachar. Parou no topo de uma árvore e farejou. ora parecendo uma ave de rapina. Às vezes. Nada.poderia borrar as calças numa situação dessas. Faziam parte do time dos poucos que ousavam resistir. Se entrassem em combate e se atracassem com um vampiro. tornavam-se mais saborosos e mais valiosos. Soldados eram especiais. sobre o peito. mas temia. Bastava pegar as garrafas de água benta e encharcar a roupa. Estavam tensos. Nenhum deles estava sangrando. com pedaços de cimento despregando no contorno do batente. Os golpes aumentaram de intensidade. facilitava as coisas. Adriano passou os olhos sobre os homens. eram os inimigos mais perigosos nesse jogo de gato e rato. lembrouse da velha lanchonete. mas não ousava soltar um pio. quando os encontravam em bando.. Não conheciam a mata. A boca salivava. Talvez. Os homens benzeram-se e em seguida destravaram as armas. poderiam produzir um falso bento. Paraná sacou do peito o crucifixo e beijou a peça com ternura. há alguns minutos. Bastava abraçar o monstro e vê-lo se debater ao contato com a água venenosa. valia alguma revelação interessante. Os soldados buscariam esconderijos perto da estrada. Grunhiu baixinho escalando árvores e cruzando o ar de galho em galho. uma nuvem de poeira despencava do teto. 79 . após vasculhar as pequenas grutas conhecidas na região.. Mais poeira descia do teto a cada batida tornando o ar espesso e difícil de respirar. A porta de ferro resistia corajosamente. Além de serem cheios de sangue como qualquer ser humano vivo. ou talvez o vento noturno não estivesse ajudando. após liquidar com a maioria. Tinham fugido próximo ao pôr-do-sol. Olhos arregalados. descobriam os passos dos humanos em busca de uma solução final para a ameaça vampírica. ora parecendo um macaco ágil. Deixou-a para fora. Depois de três minutos de golpes ininterruptos. Foi Cantarzo que. próxima ao pé da ponte. Queriam saber do líder o que fazer. carregando para longe o cheiro da caça. Era torturado. Nem sangue. guardavam um ou dois vivos para tortura. Algumas vezes. Sabia que chegaria ao local antes de Raquel e seu bando. nem nada. Cantarzo tinha encontrado mais uma caixa de munição na outra margem do rio. A cada pancada contra o obstáculo. às vezes. por isso. Este sabia mais segredos. A preocupação cresceu e os olhares convergiram para Adriano. Valiosos porque era sempre bem visto pelo ninho a captura de soldados. cair nas garras daqueles monstros e servir de comida para os dentes afiados dos vampiros. deixando as cabeças dos soldados cobertas por um pó esbranquiçado. cedo ou tarde. estando com a roupa encharcada de água benta. Por que não tinham um bento no grupo? Tinham água benta nas mochilas. Teriam medo de arriscar. Aquilo só tinha confirmado que a caça estava nas cercanias. senão não teriam deixado tantas balas de prata para trás. Gostava de decepar aqueles malditos. Marcel tinha lágrimas descendo pelo rosto. Isto.

Nem sinal dos vampiros. Poderia regular a pressão do corpo. Raquel. Só depois de perceber não haver nenhum indício externo dos soldados e decidir entrar no salão da lanchonete é que se concentrou em tornar-se uma criatura silenciosa. mesmo de longe. tudo que pudesse permitir a união de informações. Cantarzo desceu ao solo. Por outro lado. Foi depois de sucessivas sessões de torturas. Grunhiu demoradamente. torturado e morto. Olhou para trás. rodou sobre os próprios pés voltando ao chão arenoso do lado de fora. Destruir os cabos telefônicos restantes. Gostava de caçar assim.levado ao extremo do sofrimento. vampiros como Cantarzo eram treinados para procurar Rios de Sangue para manter o ninho abastecido de sangue fresco e também para vigiar as florestas e estradas em busca de soldados impetuosos. tinham experiência na caçada de motoqueiros. Levou algum tempo até aproximar-se da lanchonete abandonada. não se preocupando de imediato com o ruído. compondo excelente reforço. Poderiam capturar um número maior de soldados vivos e levá-los ao ninho para a obtenção de segredos. Achava que as mãos nuas causavam ainda mais medo à caça. Derrubar linhas elétricas. 80 . vigiando. a comunicação rápida. Caminhou até o asfalto. mas ainda mais prudente. mas poderia aproveitar a oportunidade e esperar os outros. Mas estavam escondidos ali dentro. mas estava concentrando em olhar tudo. que perceberam ser necessário começar a destruir todas as ligações das vilas. de sua capacidade superior de assimilar o sangue ingerido. Anaquias e Gerson. Cantarzo pensava em tirar partido de seu poder pessoal. Estava desarmado. muitos anos atrás. Nem sinal de fumaça ou fogo. Se houvesse ali um líder. Cantarzo apurou o olfato. mas não pôde ver dali os olhos vermelhos dos concorrentes. Destruir estradas. As botas Timberland começaram a estalar contra os pedriscos do acostamento. para as árvores. Os olhos da criatura cintilaram. Talvez fosse melhor aguardar os outros. Subiu o primeiro degrau e já pôde vislumbrar parte do salão do que fora o Rancho da Pamonha. conseguiu ver algumas trilhas de motocicleta saindo do acostamento em direção ao local recoberto de plantas. Os soldados estavam ali. sabiam que os humanos logo conseguiriam construir alguma estratégia para combater mais habilmente os vampiros. Contudo. vasculhando o ambiente com os olhos. esperando o primeiro vampiro surgir na porta. para que não fizesse barulho algum. Se os deixassem tramar e conspirar livremente. do topo daquela árvore. Depois era degolado e servido aos mais antigos do ninho de vampiros. Atravessou a rodovia. antenas. Não conseguia ver as motos utilizadas pelos humanos. Olhou de novo para a estrada e depois para a mata. que pudessem carregar mensagens de uma fortificação a outra. Sabia que Raquel e Gerson vinham atrás.. Qualquer soldado fora dos muros deveria ser encontrado e atacado. mas não conseguiu sentir cheiro de sangue. isso era certo. poderia tomar seu sangue e absorver dele as habilidades. Envolto nessas ponderações. Quantos seriam? Talvez estivessem acordados. Cantarzo era valente. Por isso.. um motoqueiro veterano. além de trazer armas de fogo no grupo. Sabia que poderia lançar mão de sua velocidade de vampiro e das garras afiadas para fazer sangrar as vítimas.

arremessando-o contra os degraus da lanchonete.. fazendo-a ir de rosto ao chão. — Ora. refeito. Tenho meus próprios trunfos. Raquel deu um passo em direção ao vampiro de cabelos longos e presos por aquelas ridículas tiras de couro. Cantarzo tinha parado de debater-se. Será que ele vai garantir que você saia com o pescoço inteiro lá de dentro? 81 . diminuindo assim sua força e capacidade de reação. — Você chega e me humilha na frente dos novatos. preso pelo pescoço. antes de ser novamente agarrado. Ela foi hábil ao tirar-lhe o centro de equilíbrio. os olhos pareciam duas brasas prontas para incendiar o inimigo.. água benta. Quando ergueu os olhos. ora. analisando as pegadas de botas deixadas no chão. pelo menos. mas não é tão rápido quanto nos.. Raquel voou em direção ao vampiro. Cantarzo. — Não sabia que vampira também sofria de TPM. Guardava energia para uma oportunidade concreta de livrar-se do braço forte de Raquel e ter tempo ainda de atingir Gerson.. — TPM. espadas. sete soldados. Cantarzo? Acha que já capturou soldados o suficiente para agradar aos velhos vampiros? Você sabe que o respeito é tudo que nos resta nesta vida maldita. mas não era tão rápido quanto ele. Por que você não engole esse orgulho besta e não me ajuda a levar um bom número deles vivos para o ninho? Se conseguirmos arrancar bons segredos. pôde ver dois vampiros parados no acostamento. indo até a escadaria frontal. Balas de prata. Cantarzo abaixou-se e agarrou o oponente pelas costas. — grunhiu a vampira no ouvido do inimigo. — São.. o vampiro. Sabe que o seu amigão aí é forte.. Gerson. Estava furioso. Precisava ganhar tempo.Desceu de cabeça baixa.. Cantarzo. Recolocou-se em guarda e procurava Raquel com os olhos quando sentiu o braço da vampira agarrá-lo pelas costas. aproximou-se dos vampiros. Raquel grunhiu irritada com a provocação. imobilizando-o pelo pescoço. Cantarzo desviou e desferiu uma cotovelada na nuca da vampira. — Este lugar está cheio de soldados. — Se eu fosse você. sentiu a oponente vacilar. — balbuciou Cantarzo. — Do que você está falando. ora.. estou farta de seu jeito desrespeitoso comigo. quem sabe vocês dois também não gozem de alguns privilégios e tornam-se os novos queridinhos do covil? — Não preciso de seus conselhos para ser bem-vista pelos velhos. Apesar do tom ríspido que soou a frase. Grunhiu nervosa e mostrou-lhe os dentes. O grandalhão era forte. — murmurou Gerson. Não é que o bom Cantarzo venceu a aposta. Acha que é o queridinho do ninho. cara? — perguntou Gerson. Gerson investiu. pararia enquanto ainda tem um olho bom.

Cantarzo grunhiu de dor. Raquel. Ela estava ponderando.. acabaria com a raça do vampiro. tomou um golpe poderoso no tórax e foi arremessando contra o peito largo de Gerson. Um vacilo e pronto! Você estaria liquidado. Gerson grunhiu e olhou para a vampira. O dedo em riste de Raquel tocou-lhe o nariz. não vou cair mais na sua conversinha de. — Vamos entrar e acabar com a raça deles. Primeiro os soldados. Fechou a boca numa expressão amarga.Sentiu o braço afrouxar mais um pouco. sem terem tido a oportunidade de observar o grupo antes de abordá-lo. certamente Cantarzo ouviria. Raquel não estava autorizando o ataque. Os humanos eram cheios de artimanhas e armas carregadas com a maldita prata. desprevenido. mas daquela distância. As unhas de Gerson pareciam atravessar o couro de seu sobretudo negro e a pressão parecia a ponto de esmigalhar seus ossos. Cantarzo... afastando o dedo do nariz do oponente e dirigindo a unha afiada ao rosto do vampiro.. Raquel afastou-se de Cantarzo e usou sua velocidade vampírica. não retornaria à caverna para colher os louros da captura daqueles soldados.. mas eu juro que esta foi sua última chance. O orgulho da vampira falava mais alto e ainda mostrava-se muito machucado. você não é indestrutível e tem que se lembrar disso. vampiro agonizante. um exemplo.. Cerco-te. surgiu na sua frente e apontou-lhe ameaçadora-mente o dedo indicador. Sabia que ambos estavam com o orgulho ferido e só o tinham libertado para terem um par de garras a mais dentro daquela lanchonete. quero ser tratada da mesma forma. — Raquel disse com a voz rouca e sensual. A maldita estava dando ouvidos à ladainha daquele vampiro imbecil. Raquel queria dizer suas reais intenções para o parceiro. vampiro. menos deixá-los seguir impunes pela estrada. não quero falar com você e nem cruzar com seus olhos. Era isso que Cantarzo mais gostava. que o agarrou pelos ombros. Se Gerson chegasse um pouco mais perto.. O vampiro foi na frente. com um. Do perigo. depois a vingança. Queria desfiar Cantarzo com as unhas. Num ambiente fechado como aquele. Raquel. Precisaria tomar mais cuidado com aqueles dois dessa noite em diante. assim que tivessem dominado alguns dos soldados. mas. 82 . Antes que pudesse localizar a vampira. Calado por um instante. abrindo-lhe um rasgo no lado esquerdo da face. Falo muito bem de você aos iniciantes. a mulher ruiva com o tapa-olho negro. mas exijo respeito e edificação diante dos meus pupilos. levou a mão ao ferimento. Você é uma lenda dentre nossa raça. com dez vampiros.. Cantarzo não sairia inteiro daquela caçada. Cantarzo ficou livre das mãos de Gerson. sabiam que podiam esperar de tudo dos soldados.. Se fizer gracinhas na frente de meus soldados. Vingança. Raquel fez outro sinal para Gerson. Não quero ser sua amiga e nem busco sua consideração. Cantarzo virou-se rapidamente.. Raquel deixaria Cantarzo ajudá-los.

Adormecidos em número suficiente para nunca mais precisarem lutar pelo sangue da alimentação. O prazer da matança. Os olhos vermelhos intensificaram o brilho. As trepadeiras acabavam ali. Os soldados poderiam até ter passado por ali. Deu lugar a Gerson que era o mais forte. Por meio dos humanos capturados e torturados sabiam que lá ficava o maior Rio de Sangue da atualidade. Chamou com a mão os outros dois. Apenas dois deles pareciam ter sido limpos muito recentemente. não encontrariam Rios de Sangue dentro daquela fortaleza. chamando silenciosamente os outros dois. Os amplos vidros que davam para a estrada estavam cobertos de poeira. o caule grosso em alguns ramos havia sido decepado. Passou para a segunda parte do salão. Contava os dias para ser chamado para o ataque a São Vítor. dotados de capacidade auditiva muito superior a dos humanos. Daí para frente seria apenas questão de tempo até a extinção dos humanos rebeldes. Cheiro de seiva fresca. mas um verdadeiro Mar de Sangue. Os vampiros vasculhavam o salão procurando por indícios dos soldados. Era uma porta de deslizar. Naquela parte havia uma grande área do chão sem vegetação. mas não se moveu. Gerson chegou a um corredor estreito depois de atravessar a cozinha.. Estava emperrada ou. O vampiro golpeou o metal. O exército de vampiros não lograra êxito nas tentativas de invasão anteriores. Nenhum cheiro de sangue. Para lá destinavam a maioria dos adormecidos. Recuou. Afastou-se. Uma encenação gigante de João e Maria. Rente a porta. O corredor era apertado e não dava para dois vampiros tentarem juntos vencer o obstáculo. Diacho de corredor estreito! Abaixou-se rente a porta. velhos expositores refrigerados. Dali para frente lutaria pelo sangue do prazer. bloqueada. Os escravos seriam marcados feito gado. O prazer dos gritos de horror.Gerson vasculhou com os olhos o primeiro salão. Os ouvidos do trio vampiro ouviram nitidamente o engatilhar de várias armas. Talvez o presunçoso Cantarzo estivesse errado. só isso. Gerson chegou ao final do corredor. Não. displays da ElmaChips. mas Gerson tinha certeza que faria a diferença. Raquel aproximou-se. O chão e o teto cobertos por um tipo de trepadeira de caule grosso. Terminava em uma porta metálica de cor bege. mas podiam estar a quilômetros de distância. Continuou em frente. Humanos eram patéticos e cometiam burrices como aquela. Raquel e Cantarzo surgiram na cozinha. Nada ouviu. Caixas registradoras. Botas. As botas estalando contra pedriscos. Gerson gesticulou. Inspirou profundamente. Se alguém estivesse olhando o salão naquele instante teria a impressão de ver cinco brasas vermelhas flutuando fantasmagoricamente. Talvez uma pista falsa. Empurrou-a cuidadosamente da primeira vez. onde seriam presos em jaulas e alimentados para um estoque de volume nunca visto de sangue pulsante. As pegadas deixadas ali eram muitas e indicavam trânsito recente. Pegadas no piso empoeirado. Uma confirmação afinal! Os vampiros 83 . Cantarzo presumia que os soldados estariam por perto por culpa de uma caixa de balas de prata.. revelando a desconfiança. Olhou para o teto. Apurou os ouvidos. Empregou mais força na segunda tentativa. passou por seu parceiro com certa dificuldade. Talvez o homem tivesse sido descuidado. São Vítor era um centro estratégico.

Assim que os viu desaparecer no salão. Cantarzo disparou para o outro lado da rua e saltou para cima de um eucalipto. Olhava fixamente para a porta que era esmurrada e empurrada pelo enlouquecido vampiro Gerson. na 84 . O alpendre do estabelecimento era decorado de modo rústico. Apesar de serem humanos. Vim procurar um outro acesso. Que fizessem bom proveito da investida. Vá lá para dentro e mostre aos novatos uma manobra de invasão. correndo contra o tempo. Quando se preparava para disparar com velocidade vampírica para dentro da mata do outro lado da estrada. o sol despontaria no horizonte. Anaquias e seu grupo de novatos aproximaram-se.. com muita madeira e enfeites de milho de modo a combinar com o nome da marca. Não seria ele que daria o alerta. Parou na entrada da casa. Sabia que. — Você tem granadas. ou algo para arrombar aquela passagem. Quantos soldados seriam? Se o morto fosse membro dessa expedição estariam em sete no mínimo. golpeando incessantemente a porta. Eles estavam excitados. Raquel e Gerson estavam muito ocupados para lembrarem-se disso. — Se assim quer. em um par de horas. Gerson aumentou a investida. Mesmo com sua habilidade sobrenatural. — Encontramos? — estranhou o parceiro de Raquel.. Cantarzo foi até o acostamento da estrada.grunhiram. Raquel mal deu atenção ao vampiro. todo cuidado é pouco. Perguntou o que Cantarzo fazia ali. Cantarzo acalmou-se. Estavam longe de um abrigo seguro. onde as nuvens bailavam ligeiras ao sabor do vento. Cantarzo atravessou novamente a cozinha e. depois do confronto. A lua já havia descido e. Raquel salivava e não via hora de atravessar aquela porta. Por que não usa? — Queremos pegá-los vivos. Um número irrisório para três vampiros experientes. Lembrarem-se que estavam longe do covil. era uma ótima oportunidade para aprenderem algo de útil. depois de algumas portas. Cantarzo recolheu às presas. talvez fosse alvo da fúria da dupla Raquel e Gerson. — Vou procurar alguma coisa para arrombar essa porcaria. Anaquias não perdeu mais tempo com o vampiro. estava mais uma vez no salão principal. Derrubaria se fosse preciso.. Tocou novamente a ferida. — Encontramos os soldados. conduzindo para dentro do Rancho da Pamonha os seguidores. Em segundos estava a mais de vinte metros de altura. Estavam doentes de sede. aproximou-se de Raquel. viajando como o vento. O corredor era estreito e nada poderia fazer até aquela porta ir abaixo. mas colocaria as mãos naqueles malditos soldados. Sem sombra de dúvidas. Raquel e Gerson estão tentando arrombar uma porta fortificada. depois de acabarem com os soldados e capturarem alguns para levarem ao covil. Olhou para o céu. com soldados motoqueiros. — Sim. Cantarzo sorriu mais uma vez.. buscando o covil. Cantarzo sorriu.

Cantarzo sabia que isso seria sorte demais. só perceberia o erro tarde demais. que por mais novatos que pudessem ser.. cheio das virtudes e dos defeitos reservados às criaturas da noite. Raquel. defeitos como aquele. — Ele fugiu. Com alguma sorte morreria tostada pelos primeiros raios de sol. cercada de novatos e dois capangas bobocas. A vampira notou que a parede trincava ao redor do batente. — Não tem "mas". Raquel soltou Anaquias no chão de terra. vão viver. — Chame Gerson. jamais escapariam daquele beco vivos.. levaria. Correu pelo telhado até alcançar o ponto mais alto. ao menos. Saltou do telhado.. deixando o salão principal. Gerson golpeava a porta há mais de dez minutos. Raquel olhou para Anaquias e procurou Cantarzo com o olho bom. A prontidão dos soldados seria um problema. seguida por Anaquias. — E os soldados? — Vão viver. Raquel percebera a aproximação de Anaquias e pediu silêncio. Cantarzo nos largou aqui! — Mas.. O corredor estava tomado por uma nuvem de poeira que descia do teto. a tarefa levaria tempo e o barulho havia terminado com qualquer chance de surpresas. Urrou nervosa.. Na retaguarda ainda existiam os veteranos. pois contavam com três novatos.. mas entenderia o recado. Temos que voltar para a toca agora. Os vampiros estavam em franca superioridade agora. deslealdade suficiente para abandonar os semelhantes à própria sorte sem peso algum sobre o peito. mas criassem as artimanhas que fossem. O vampiro não estava mais lá. eram vampiros. Farejou nervosamente.. Entenderia que Cantarzo era um vampiro dos melhores.melhor da hipóteses. Mesmo assim. — Não há outra entrada. Anaquias! Ele nos deixou aqui para morrer! Os mulos convertidos em vampiros surgiram no alpendre. Raquel agarrou Anaquias pelo pescoço e suspendeu-o no ar. A novata esparramou-se no chão da cozinha com as presas expostas. Graças a Cantarzo. 85 . Entenderia que jamais deveria ter rasgado sua face. pousando nos pedriscos de frente do alpendre sem fazer barulho algum.. Anaquias! Você conhece este lugar melhor que eu! Raquel agarrou-se às trepadeiras que subiam pela fachada da casa comercial. pois Raquel encontraria algum canto escuro para salvar seu rabo. Raquel alcançou o salão. como se não tivesse peso. Tirou Tatiana de seu caminho com um empurrão enraivecido. — Onde está Cantarzo? — vociferou a vampira. uma hora e meia para chegar à boca da caverna. Urrou mais uma vez com a boca voltada para o céu. — Ele saiu para procurar outra entrada para encurralar os soldados. Anaquias.

Anaquias? — perguntou a mulher. O único som no momento era o choro descontrolado de Marcel. com graça e agilidade. Cantarzo havia gorado seu plano. — insistiu Anaquias. Usaremos o esconderijo deles durante as horas de sol. ainda tivesse chance de deitar os braços no vampiro. agarrando-se no galho mais alto e voando para o seguinte. e se ele não a levou abaixo..— Podemos destruir aquela porta. mas isso vai levar tempo. Quero mais aquele vampiro do que esse bando de humanos. tomado o sangue desses andarilhos. olhando para cima para encarar a líder. Se eles eram esperados com data marcada na próxima cidade. Anaquias obedeceu a líder e foi buscar Gerson. — Podemos vencer aquela porta. O prêmio? Encontrar o covil e esconder-se do sol e. — Raquel olhou para a mata na tentativa vã de encontrar rastros de Cantarzo ou até mesmo seus olhos vermelhos. ainda sentado no chão de terra. estendendo a mão para tirá-lo do chão. vampiro. Minutos intermináveis tinham se arrastado. acabam com nossa raça em dois tempos. Grunhiu irritada. Brigar contra o poderoso deus Chronos. assim. zelar pelo dom dos malditos noturnos. se chegarem aqui nas horas de sol. — Se não tivermos tempo.. tirá-lo daquela posição humilhante diante dos novatos. Em instantes. Estava arisca.... talvez. Sem essa possibilidade não lhe interessava aqueles desgraçados. o bando de Raquel estava embrenhado na mata e os novatos aprendiam com urgência uma importante lição. Cantarzo pagaria. — Vai levar tempo. teremos. Gerson esmurrou aquilo. ao menos.. ainda mais servindo de ama seca para aqueles novatos. Raquel. Queria que o vampiro os ajudasse a capturar os soldados com vida. o dom da vida eterna. — Podemos até conseguir derrubar a porta que aqueles homens bloquearam. Já falei. — Você está com algum problema. Como sugere tamanha asneira? Esse lugar é rota de soldados. A poeira não mais caía do teto. Raquel andou pelo pátio. Se saíssem agora. Se ficarmos. O som das pancadas tinha cessado. nosso abrigo para as horas de sol. Poderemos fazer desse abrigo. — Você é um dos mais espertos do covil. O coração parecendo que ia explodir parecia atrapalhar a audição. — Cantarzo evadiu porque sabia que depois dos soldados seria sua vez. e talvez não tenhamos tempo de voltar ao covil. teremos que nos esforçar mais.. fazendo seu traje negro esvoaçar.. Sabia que seria difícil. cega pela raiva. provavelmente teremos uma patrulha buscando esses infelizes amanhã. perco Cantarzo. metros adiante. Os homens viram-se obrigados a controlar as emoções. Tempo que não temos. Saltar com velocidade e força vampírica. O novato estava sentando no canto da sala e tinha abandonado a arma 86 . Tempo. Raquel. Pagaria caro por aquela humilhação.

simplesmente. O lenço que trazia amarrado na cabeça estava agora na boca. A maioria estava a um triz de cair no mesmo descontrole. Os homens entreolhavam-se nervosamente. Zacarias voltou a estender o dedo indicador diante do nariz. nem mesmo de fazer graça com o desespero do outro. 87 . Adriano fez um sinal para Paraná. tentando aplacar o pranto. A maioria deles não chorava. Sabiam o que os aguardava do outro lado daquela porta. que mantinham os dedos instáveis longe dos sensíveis gatilhos.aos pés de Paraná. Como o rapaz não conseguia conter as lágrimas nem o soluço. clamando por silêncio. Todos eles. Paraná acabou esbofeteando-o até fazê-lo calar-se. Estavam com medo. mas a maioria das armas era sustentada por mãos trêmulas. que se voltou para o novato descontrolado. Paraná curvou-se e pediu silêncio duas vezes. Ninguém pensou em conter a selvageria do parceiro. entre os dentes. Estavam com medo. Sabiam como rasgavam a carne humana com facilidade. Conheciam a maldade encerrada nos corpos gelados dos malditos noturnos. passando-lhes as unhas.

no máximo haviam sentado. era o mais calado. Raul atravessou a cozinha sem problemas. a porta não tinha corrido pelo trilho e dado passagem aos assassinos noturnos. Não sabia por que os monstros tinham ido embora antes de derrubar aquela bendita porta. nem depreciativa. Atravessou o salão principal. O que faria então? Voltaria a ser horteiro? Horteiro era o jeito que chamavam os homens incumbidos das plantações para o abastecimento do povoado. surgiu atrás de Raul. A função de horteiro não era ruim. Sua estrutura havia sido completamente comprometida. precisou da ajuda do grandalhão Paraná para fazer a porta deslizar. O soldado foi retirando os caibros colocados antes do anoitecer. Podia ver a claridade batendo fracamente no salão. A luz do sol entrava timidamente pelo salão principal. o mais baixo e gordo do grupo (só não era o mais velho por causa do Paraná). os soldados. Fez um sinal para o seu amigo com traços de índio. A arma pronta para o disparo acompanhava seus olhos. Raul soltou a arma e foi até a porta. Saiu para o alpendre e desceu os degraus. Um passo de cada vez. Tinham sobrevivido a um ataque. de modo algum. Passou pelo corredor estreito com os olhos arregalados. 88 . que mandavam. Não haveria ali nenhum vampiro. Entretanto. Não havia dúvidas de que a luz solar já cobria as matas. A folha metálica estava completamente distorcida por causa das pancadas recebidas..Capítulo 14 Há algumas horas as investidas contra a porta de ferro já tinham cessado. mas o susto passado durante a madrugada pedia cautela. o novato. com balas de prata. Temia que fosse largado em São Vítor e destituído do posto de soldado que tanto almejara. Marcel. Graças àqueles caibros. Zacarias. Também empunhava uma espingarda calibre doze. Precisou de um bastão para servir de alavanca e conseguir retirar os mais resistentes. mas graças a Deus tomaram aquela decisão. Dificilmente o Rancho da Pamonha serviria como esconderijo de pernoite no futuro. Agora. mas ele queria ser soldado. Adriano olhou para o relógio. Com certeza muito envergonhado por causa de seu descontrole no primeiro encontro com os vampiros. mas ali na cozinha existia escuridão suficiente para manter um vampiro vivo. não sabia o que fariam com um soldado chorão. Após retirar o último. Dez para as sete da manhã.. Raul ajeitou seu cabelo liso que lhe caía nos olhos. Nem sinal dos noturnos. Tinham conseguido. O resto do pessoal continuou no cômodo apertado. Até que seria bom encontrar com os bastardos malditos que fizeram a visita da madrugada. Com um movimento rápido da mão. eram eles. O sol banhava o asfalto e o dia começava a esquentar. num esforço hercúleo de relaxar. disse que o caminho estava livre. Os soldados. Tomavam coragem para sair. com o sol forte brilhando lá fora.

de forma incomum.. pelo menos quatro dos soldados. Sinatra resolveu colaborar para a elevação dos ânimos e a descontração entoando a versão brasileira de Patches.. olhando para Adriano que se aproximava do grupo do lado de fora pela primeira vez.. contudo assistiam a um guia atípico. Vamos pôr o comboio na estrada. — Não precisam se apressar por causa de Gaspar. de cor". enchiam a mata com o refrão: "Marvin. — sugeriu o grandalhão. agora é pra valer. — Além das motos temos que ver como vai nosso parceiro. de Clarence Carter. mesmo que mal alambreada. — Adriano passou a mão no cavanhaque louro e deu as costas ao grupo voltando ao Rancho da Pamonha. que trouxe as chaves. Vocês decidem o que querem fazer. Logo a apropriada voz de barítono de Joel uniu-se à do cantor e. levou as motocicletas para a frente do rancho. Deu graças por encontrá-las intactas. pois estava faminto. Suspirou.— Manda todo mundo sair. — . Se quiserem fazer a refeição na beira do rio será mais vantajoso porque o novato prepara o rango e a gente desce as motos que estão faltando. Alguma coisa tinha perturbado os visitantes noturnos. Quando Raul sugeriu que acendessem o fogo para preparem um café da manhã.. Os demais olharam para o líder que. Só me avisem o que decidirem porque quero ir na primeira moto. Com a ajuda de Marcel. o sol do meio-dia 89 . Tinham ali outro problema. Secou o suor da testa. do contrário encontrariam os veículos inutilizados. Raul. A cruz. foi Paraná quem elevou a voz. fiquem à vontade. Tinha conseguido arame suficiente. calado e sem demonstrar o entusiasmo costumeiro quando obtinham sucesso mesmo nas menores vitórias. pedindo que se apressassem nos preparativos para voltar à margem do rio. Tinha lido em algum lugar na infância que o ser humano era o único animal no planeta que sepultava o semelhante. não. Acho melhor prepararmos o café da manhã lá no rio. Falta de combustível.. ele não vai tomar café da manhã com a gente. serviria para o cumprimento dos ritos. Sobreviver ao ataque de um bando de vampiros era uma vitória e tanto. mas não precisam se apressar por causa do Gaspar.. Gaspar foi deixado naquele buraco e deve estar com fome como todos nós. Se quiserem acender o fogo agora. não tô muito legal hoje. em instantes. noturnos não costumavam dar esse boi. com um ar desmotivado e olhos entristecidos. Zacarias foi até o esconderijo das motocicletas. na voz dos imbatíveis Titãs. puseram a mesa do velho Gaspar em outro lugar essa manhã. não quero ficar mais uma noite me borrando nas calças.. Trouxeram uma mangueira para passarem um pouco de gasolina para o tanque quase vazio da moto de Adriano. estava deixando as decisões nas mãos dos soldados. Fez uma pausa nas palavras com notória emoção. eu fiz o meu melhor e o seu destino eu sei. A barra tá mais do que limpa..

Nos primeiros trinta segundos seguiu em baixa velocidade. não colocaria em xeque sua certeza na luta contra as feras noturnas. Os bentos eram duros na queda. encoberta por mata e galhos frondosos. enrolando o cabo do acelerador e rasgando o asfalto em alta velocidade. Despediram-se de Gaspar e desceram a margem do rio até onde aguardava a balsa. demarcando o sepulcro. no topo do morro. Chegando à outra margem repetiram o que tinham feito os últimos soldados que estiveram ali. quase vinte e quatro horas sem alimento. principalmente. mas decidira não comer nada. Teria de unir-se para reforçar o time de libertação. Não poderiam esperar eternamente pela vinda de mais um bento. Os sete homens cercaram a cova uma última vez e puxaram um pai-nosso e uma ave-maria. Tanto sacrifício para isso: acabar dando um tiro no peito de um amigo em nome de um segredo. depois soltou um grito e reassumiu sua função de puxador. O estômago queimava de fome. não poderiam esperar pela concretização da profecia. A gasolina havia sido retirada e seria repartida entre as máquinas restantes. Acenou um tchau para o amigo e montou em sua moto. Apesar de abalado. Eram selvagens e destemidos. 90 . Adriano levantou-se e ficou calado olhando para a cova. do lado da mulher que amava. fazendo parte do grupo que tentava pôr o plano de libertação em andamento. na beira daquele rio. Adriano. em nome de um plano suicida. Para fazer valer a pena teria que deixar toda a tristeza e incerteza para trás. não um mal. seria mais um dia de horário apertado. Deu partida e assumiu a ponta. Retiraram a jangada da água e a esconderam ao pé da ponte. olhou para baixo fixando na cruz de madeira. as notícias indo e vindo e. Davam cabo de mais vampiros em uma única batalha do que um simples soldados daria em toda sua carreira. Faltavam quatro horas de estrada até São Vítor. levando a vida de um bento ou dois.castigava o cocuruto. ocupando-se de algo diferente do que cruzar as estradas e tentar manter os centros unidos. Demorava meses sem fim para um bento despertar e sempre quando se aproximavam da concretização da profecia. comungar com o irmão que não tinha tido direito a uma última refeição. Estava valendo a pena toda essa abnegação? Poderia estar em Nova Luz neste exato momento. Para que o sacrifício do amigo não fosse em vão sabia exatamente o que teria de fazer. Decididamente. Chamou os soldados. mas valeria a pena? E se jogasse tudo para o alto e aceitasse as palavras do Bispo? O velho dizia que o que havia acontecido ao mundo era uma benção. Tinha carregado bastantes pedras. um ataque avassalador dos malditos noturnos acabava por azedar o andamento da carruagem. O som do rio descendo moroso e o sol batendo no gramado seriam a companhia do parceiro de agora para todo o sempre. Baixou a cabeça. A motocicleta de Gaspar também foi escondida debaixo da ponte.

Não podia duvidar sobre vampiros. A luz do sol chegava ao chão vermelho e cobria sua pele. O dormitório ficava num pequeno prédio de três andares e localizava-se. Dentro de um roteiro de filme de ficção. torcia para não ser outro médico. justamente. Instintivamente.Capítulo 15 Lucas tinha sido conduzido até um dormitório. Coçou a cabeça. Lucas ergueu as narinas e começou a inspirar rapidamente. Barulho de crianças brincando. mas suficiente para bloquear os detalhes cruciais para uma lembrança clara da vida.. A luz do sol entrando pela janela e desenhando um trapézio no chão de madeira enchia o ambiente abstrato com uma sensação de realidade. depois de desperto. Sem conseguir.. Mas e todo o resto? Seria também verdade? Encostou a testa no vidro da janela. Viu duas crianças brincando num pátio. As duas crianças tinham sumido do seu campo de visão. principalmente. Usara uma palavra que não se lembrava agora. afinal de contas. Parecia um daqueles nomes eslovacos. Tinha lido o nome do doutor num dos diplomas. O passado. Deixando-se guiar pelo barulho dos passos. Não sabia exatamente o que fazer. Mas não tinha como negar aquela realidade. Dar-lhe-iam um terno? O doutor dissera que ele seria preparado para conhecer alguém. pôde divisar algumas cabeças subindo a escada. Lucas apoiou-se no balaústre. A Dra. Ouviu vozes. Nostalgia. chão. O que seria habitual agora? Seria comum encontrar uma onça-pintada no meio da rua? E aquela história de vampiros? Mais uma vez passou a mão pela cabeça. Tentou enxergar quem vinha pelo vidro. O céu estava limpo e vestido num azul nunca visto. foi até a porta e saiu para o corredor. O peito apertou-se. no último deles. A cabeça girava com as informações recentemente adquiridas. Lindo. não vinha sozinho. Lucas aproximou-se da janela. Seu ex-companheiro de cela tinha lhe saltado para cima com dentes compridos e rugidos monstruosos. Apesar de três andares. móveis.. Sua cabeça estava uma merda. Olhou a cama com o lençol desarrumado apenas onde estivera repousando o traseiro. Gabriel tinha transformado-se num bicho. Ah! Como queria acordar daquele sonho ruim! A cabeça doía toda vez que a voz do doutor repetia a história em seu cérebro. Parecia dentro de um sonho ruim. só havia conhecido médicos. num vampiro. mas a luz quase cegava. O passado estava submerso numa névoa tênue. Ouviu passos no corredor. muito mais do que o habitual. Os olhos teimavam em procurar gente. Não tinha como duvidar. Ana e o "doutor". Sorriu. causando um repentino formigamento. que não se lembrava agora. Alguma coisa por dentro lhe dizia que não 91 . o complexo de dormitórios era baixo. Diferente da cela branca azulejada. Tristeza. Não conseguia se lembrar de muita coisa. O doutor comentara que ele fora corretor de seguros de automóveis. o dormitório lhe parecia um tanto mais aconchegante. O doutor dissera apenas que teria de esperar o alfaiate. Quem vinha. Mesmo assim não pôde deixar de sentir aconchego naquele quarto médio. Lucas ficou de pé. Podia ver muitos pássaros. Sol..

Os que me seguem são meus auxiliares. Os homens puseram-se de pé. 92 . Os visitantes atingiram seu andar e logo estavam vindo em sua direção. Os homens olharam para o rapaz parado no corredor. trazida no baú. lidando com dedais. senhor. e que parecia ser o líder dos visitantes. aproximou-se ainda mais de Lucas.. Quando um deles viu Lucas. com passos estudados. não é? Lucas? — insistiu o homem. Os homens benzeram-se e o líder. senhor. O homem levantou a cabeça para Lucas. — Não precisa ajoelhar-se para falar comigo.. Viemos prepará-lo para o encontro com o Bispo. — Vamos para dentro. mas se o senhor é quem dizem ser.. — Você é o recém-desperto. Não temos tempo a perder. talvez por isso não o tivessem notado parado ali. Não estava acostumado com a alcunha. Notou que eram seis homens e que se ajudavam carregando alguns baús de madeira que pareciam pesados. O alfaiate era realmente forte. um dos auxiliares pediu que Lucas sentasse numa cadeira dobrável. no piso vermelho encerado do corredor. isso é o mínimo que posso fazer para agradecer tua vinda. mais alto que ele. O Bispo lhe espera e seu aparato é um tanto demorado de ajustar. — Desculpe. Assim que se acomodou. como aqueles usados em salões de cabeleireiros. estava visivelmente emocionado. Você veio para unir os bentos para a libertação dos humanos. Não entendeu por que o homem não usou a que estava em seu quarto. estacou. imbecil! Quer assustar o salvador?! Ele será preparado pelo Bispo. Chegou bem perto e colocou-se de joelhos. seria mais natural vê-lo como um soldado do que como um costureiro. senhor. um outro auxiliar cobriu seu peito nu com um avental branco. — Dizem que sou quem? Um dos auxiliares aproximou-se ajoelhando-se enquanto falava: — Você é o salvador. Dentro do quarto. O alfaiate virou-se e deu uma vigorosa bofetada no rosto do auxiliar. — Levantem-se! Não fiquem conversando comigo de joelhos. eles não tinham "o cheiro". A parada brusca fez com que um dos baús fosse ao chão. Sou eu. — Eu sou o alfaiate. Fez uma reverência com a cabeça. — Sim. — Não diga nada. aproximou-se primeiro. senhor.precisava preocupar-se com aqueles que chegavam. Nesse instante Lucas pôde ter uma impressão melhor do tamanho do líder. — Você é o bento? Lucas franziu a testa. O mais alto e forte.. depois em direção ao quarto do recém-acordado. agulhas e linhas delicadas.

negando-se a cortá-las. Ela dizia o mesmo ditado: "a primeira impressão é a que fica". com um sorriso nos lábios. — disse o auxiliar. tentando desembaraçar a situação. As unhas compridas como as de mulher e amareladas como se estivesse doente lhe causava asco. as coisas vão voltando a funcionar. Não queremos que o Bispo tenha uma má impressão. mas os velhos ditados continuavam lá. cada vez mais velhos. constrangido. mas até agora estava gostando. senhor. o auxiliar fez um leve meneio. Peças de couro.. passou a peça para Lucas. O cabelo volta a crescer e a barba também.. O alfaiate olhou com reprovação para o auxiliar. Tudo realizado com muita habilidade e cuidado. — O que é isso? Vão me dar banho também. O alfaiate olhou-o da cabeça aos pés. sem ser advertido. Depressa! O auxiliar abriu um baú que estava no chão e estendeu-lhe uma peça branca. mesmo sem entender o que o desperto queria dizer. Agora alguém cuidava das unhas de seus pés. — Por isso vou fazer sua barba. bah! Essa é boa! Lucas sentiu um lampejo na cabeça. 93 . — Onde já se viu dizer uma coisa dessas? Como o Bispo poderia ter uma má impressão com nosso salvador? Vamos ajudá-lo a se arruinar porque essa é nossa função. O alfaiate. Lucas estendeu as mãos para o auxiliar. O tempo poderia ter passado.. — Tudo de volume dois. Parem de falar asneira! "A primeira impressão é a que fica". voltando aos afazeres. responderam ao sorriso do bento.— Depois que um adormecido acorda. a primeira impressão é a que fica.. um dos auxiliares baixou suas calças. senhor. por sua vez. Tinha dormido um "Zé Ninguém" e acordado como um rei. Lucas viu o alfaiate abrir alguns dos baús. Contudo. Peças reluzentes de metal. Uma mulher ajustando sua gravata e passando a mão carinhosamente sobre a lapela de seu terno. — Não convém apará-las. Que diacho estavam preparando? Em poucos minutos Lucas viu-se de barba feita e cabelos castanhos ondulados aparados. deixando-o completamente nu. Não sabia se isso era bom. — explicou o assistente que prendia o avental no pescoço de Lucas. Foi colocado de pé e. Depois de ter as unhas dos pés aparadas. Depois de uns segundos. vão? — perguntou. Estava até que gostando daquele cuidado todo. Uma lembrança. — Cada macaco no seu galho! — berrou Lucas. Realmente podia sentir a pele áspera por causa da barba começando a despontar. Lucas passou a mão pelo rosto. sabe como é. Estendeu a mão direita para um auxiliar. Os homens entreolharam-se.

que por sua vez fulminava com os olhos o assistente linguarudo. A blusa de metal acabava em seus punhos e. — O que é isso? — Acho que é uma das peças mais importante de sua veste. Pelos orifícios passavam tiras resistentes feitas do mesmo material e. quase preto. parecia também ser de algodão. Veio então um saiote escuro. — É para não ser ferido em combate pelos vampiros. Vestiu. Lucas soltou o ar dos pulmões com o aperto e sentiu o tórax enrijecer. aquela fantasia estava impagável. O alfaiate observou-a sem tocá-la. O próximo item era um colete de couro cru e de grossa espessura. ao vestir o colete. Um terceiro auxiliar fez com que Lucas se curvasse para receber a nova parte da vestimenta. inquieto. Era uma cueca de algodão. — interveio o assistente que tentava alcançar seu braço para adicionar mais alguma coisa ao traje. Um segundo ajudante abaixou-se e colocou-as no lugar. Vestiu o primeiro item e logo recebia uma nova peça. o auxiliar tirou uma peça escura. É uma cota de prata. mas parecia que não estava ali para escolher. Até onde aqueles malucos iriam? Estavam aprontando-o para um baile a fantasia? Seria aquele Bispo interno de algum manicômio? Um barulho como o de correntes sendo levantadas rapidamente tirou o sorriso do seu lábio. que iam presas aos calcanhares. Colocaram-lhe meias grossas e calçaram seus pés com um par de coturnos negros. Cheiro de roupa nova. Lucas lamentou não ter um espelho para olhar-se. mas era de tecido bem grosso. Detestava cuecas brancas. Quando recebeu em suas mãos. senhor. ou como nos santinhos de Santo Expedito. senhor. e sim para ser vestido. as tiras foram puxadas e ajustadas pelos assistentes. Diferente do colete. Parecia uma daquelas meiascalças de mulher. sentiu o metal frio em sua testa. abandonando os braços e enchendo o quarto de barulho ao mover-se com a roupa de metal. e cheio de ilhoses nas costas. Era largo e parecia com aquelas peças que via nos filmes épicos de soldados romanos. Lucas sorriu. mas causava certo desconforto ao roçar seu queixo. demorou examinando-a. Certamente. O alfaiate deu passagem a dois assistentes que lhe traziam uma cota prateada. Lucas ficou quieto. 94 . recoberto por pêlos curtos. O cheiro era bom. Do terceiro baú. pardacentos. essa peça era bastante pesada. — Mas o que é tudo isso? Tudo isso para quê? — repetiu o recém-desperto. que lhe pareceu de cor preta na primeira olhadela. após um dos assistentes cobrir-lhe a cabeça. Essa gola não apertava. — respondeu o alfaiate. O colete tinha golas altas. olhando para o alfaiate. Vai proteger seu pescoço. Uma camiseta branca de mangas longas. que foram abotoadas na frente.Lucas desdobrou o pedaço de pano. A peça terminava em alças. logo aquiescendo. primeiro lugar em qualquer baile de carnaval. provida de mangas longas e uma espécie de touca feita do mesmo metal. seus braços e seu coração. mas depois notou ter a tintura puxada para o verde-escuro. quente.

— Tragam o peito. Era impressionante o polimento do artefato que reluzia vigorosamente ao mais tímido contato com luz solar. havia dois enfeites dourados. Lucas precisava erguer um pouco o rosto para encarar o alfaiate. Agora era um "barulhinho". Depois do líder aprovar. admirando a cruz dourada fixada em relevo no centro da peça. enquanto os auxiliares exibiam a peça ao alfaiate. encerrando o tórax do guerreiro dentro da proteção. Não seria possível que todos fossem malucos. senhor. senhor. Pelo formato. Funcionaria como um cinto aparentemente também para conter o barulho. O alfaiate parou de frente para Lucas olhando-o nos olhos. Ao contrário de quando foi apertado o colete de couro. perto do que fazia instantes atrás. — Fiz o meu melhor. presa por seis travas de pressão. Os homens afastaram-se do bento e abriram o baú maior. A peça parecia ter sido forjada sob encomenda para seu corpo magricelo. A essa altura os braços de Lucas tinham sido capturados pelos assistentes e dois deles enrolavam tiras de couro em seus punhos. O senhor transpira paz e tranqüilidade. Notou que a cota descia até sua virilha e agora um terceiro assistente passava uma nova tira de couro em alguns elos maiores presos ao extremo da peça. em conseqüência da atrofia originada pelo sono prolongado. posterior e anterior. — Vocês mataram quantas vacas para colocar tanto couro em mim? Alguns dos assistentes riram. Lucas percebeu que aquelas tiras reduziam bastante o incômodo barulho que era produzido pela cota de prata ao mexer os braços. Estava justa e firme.. Restava apenas um lacrado. Lucas teve a impressão de que conseguiria tirar e recolocar a peça sem precisar da ajuda de terceiros. dirigiram-se ao homem. Estavam falando a verdade. O alfaiate rodeou Lucas. não houve desconforto algum. Era o mais comprido e estreito de todos. Quando terminaram a tarefa. — Perfeito! Parece que foi feita para você! Os assistentes fechavam os baús. Notou também que nos cantos superiores. É certo que será um bom guerreiro. — o homem tinha agora os olhos marejados.. O alfaiate estalou os dedos. e sobre a benção da prata em seu uniforme de batalha.— O Bispo falará sobre os vampiros. parecendo duas cabeças de animal. O mundo todo tinha 95 . olhando a indumentária de cima a baixo. Vendo o senhor nas vestes de um bento estou certo de que as profecias são de fé. Estava quieto e tenso. Ficou em silêncio. dividindo a peça em duas partes. Puseram de pé uma armadura prateada. onde seriam os ombros. uma espécie de colete rígido. Lucas entendeu que a peça destinava-se a cobrir exclusivamente o tórax. Nas costas do guerreiro agarrou a armadura pelas aberturas axilares e chacoalhou a prata. nosso salvador. A armadura torácica era unida com facilidade.

Paulo olhou para a mão de Lucas em seu ombro. eu sei que é difícil... Eu. eu sou só um homem que esteve doente... Defendera-se instintivamente. — Não precisa se preocupar.. Todos os que eu vesti estavam confusos antes de falar com o Bispo. Seremos salvos. O senhor vai ficar pronto para a batalha. Como pudemos esquecer? — bateu palmas fazendo com que seus auxiliares aprumassem-se.. Um ato que mais parecia lembrança de um pesadelo do que lembrança de um momento.. eu.. para que ninguém percebesse. no cinema. eu. senhor. Nossa. Eu nunca disparei com uma arma de fogo. mas o senhor é um bento. Deus do céu! E ele era um dos guerreiros! Nunca tinha servido nas Forças Armadas.. senhor. Estava encarcerado na cela branca do hospital. Mas.... Sei que está confuso. enxugou uma lágrima que descia. Quase fui comido pelos malditos noturnos.. Mas. Aqueles chupadores de sangue que moravam na Transilvânia. Eu. O único homem que tinha matado até hoje fora aquele Gabriel. 96 . O senhor conhecerá o bento Francis. Lucas pousou a mão no ombro do forte Paulo. Rapidamente. É assim mesmo. Imagine o senhor que quis até fugir da fortificação! Que tolice a minha. não sei o que andaram dizendo por aí. mas eu nunca lutei.. senhor. Aqueles vampiros que estava acostumado a ver na televisão. graças ao bento Francis. Sentiu o estômago embrulhar. Lucas murmurou algo. não sei como vou salvar vocês dessa enrascada. — Olhe para mim.. — Desculpe. mas não teve tempo de responder. Estava desesperado. — o alfaiate deu um tapa nos ombros de Lucas ao terminar de ajustar as luvas. que horror! Eu não queria aceitar.. um ato de loucura. senhor. Lucas abria e fechava as mãos ajustando as luvas. sabia? Quando a gente acorda tem um choque. fui salvo. Paulo apressou-se em ajudar Lucas a calçá-las..mudado e agora buscavam um jeito de vencer a guerra contra os vampiros. Não era um guerreiro. Paulo sinalizou para o assistente que guardava o último baú.. — Qual é seu nome.. alfaiate? — Meu nome é Paulo. Sua vocação vai se revelar e a profecia irá se cumprir.. — Eu acordei faz doze anos.. Eu também fui adormecido. acordar e encontrar o mundo assim.... Paulo... uma lembrança que ocupava um canto escuro de seu cérebro. Nunca tinha dado um tiro em ninguém. senhor. depois de falar com o homem santo. — Não se preocupe. estou sendo honesto com vocês porque vejo que depositam uma confiança exagerada em mim. — Tragam-me as luvas do senhor Lucas.. Vai entender o que eu estou dizendo. e Gabriel é quem tinha lhe atacado em primeiro lugar. o senhor vai entender e a confiança irá voltar. Estendeu ao alfaiate.. Um dos assistentes já tinha o par de luvas nas mãos. senhor Lucas.

o toque final. por sua vez. Estalou o dedo mais uma vez e um dos baús foi reaberto. O bento ergueu-a e mirou seu reflexo na lâmina. a capa foi presa à vestimenta. Ergueu-a e baixou-a seguidas vezes. Lucas admirou não ter percebido esse item quando o cinto foi atado. — disse. soltando a imagem e deixando-a guarnecer seu peito. antes de começar a lâmina. senhor. espalhando-o uniformemente e encobrindo parcialmente a frente da figura do guerreiro. Retirou uma corrente do próprio pescoço. Lucas. Paulo. o pesado manto vermelho onde a espada viera enrolada. Em seguida. mas reconheceu prontamente na figura do cavaleiro subjugando o dragão a imagem de São Jorge. Todos os bentos faziam aquilo quando deitavam a mão em sua espada pela primeira vez. Lucas aparou a medalhinha na palma da mão enluvada. O senhor não vai atirar em ninguém. este lhe indicou a bainha presa ao cinto recém adicionado à cintura. A espada deslizou suavemente pela abertura e repousou na proteção. O alfaiate aproximou-se de Lucas mais uma vez. fazendo a espada formar uma espécie de letra "T". Passou-o ao alfaiate que. Era incrível! Assim que Lucas encarou o alfaiate novamente. Agradeço de coração. Podia ver-se quase que com perfeição. prendeu a capa vermelha sobre as costas do cavaleiro e as pontas do tecido foram engolidas pelos dois dragonetes que enfeitavam a armadura. no máximo. — Agora. — Para que o senhor não tema o bom combate. era grossa e dotada de uma ponta aguda. viu o alfaiate desenrolar um tecido que acabou por revelar uma espada reluzente. que permanecia calado. O alfaiate tomou da mão do assistente. curioso.O rapaz abriu e ele tirou um cinto de couro negro. Não era tão pesada quanto supusera. que aguardava. O alfaiate ofereceu-a ao guerreiro estendendo-a em sua palma para que Lucas a apanhasse pelo cabo. Leva contigo a imagem do bento dos bentos. Com a ajuda de mais dois. Os assistentes em volta sorriram para o alfaiate. Paulo ajeitou o tecido. havia uma haste de ferro negro cruzando a espada. donde os auxiliares 97 . um em cada ombro. atou-o na cintura de Lucas. — Obrigado. Era linda! Não era muito comprida. como imaginava as espadas de cavaleiros medievais. Não fora um católico fervoroso. A empunhadura era revestida em couro e. Dessa forma. O senhor vai usar isto. E passou-a pela cabeça do guerreiro. A lâmina teria. como descrevendo golpes e defesas imaginárias. — O senhor não precisa se preocupar com armas de fogo. com uns dez centímetros para cada lado e suavemente inclinada para cima em direção aos gumes afiados. sessenta centímetros. Paulo foi até o baú e retirou um bastão envolto em tecido vermelho.

com certa dificuldade. No meio do peito destacava-se a cruz dourada em relevo e a pequena medalha de São Jorge. Na extremidade inferior. desaparecendo dentro da couraça prateada. Passou até a respirar de modo diferente.tiraram três pedaços vítreos que. 98 . A cabeça estava encoberta pela touca de prata que emoldurava seu rosto e descia pelo pescoço. não sentia calor ou desconforto dentro do inusitado uniforme. compunham um espelho quase de igual altura ao recém-desperto. uma vez que parecia dentro do contexto. — Vamos. senhor? Lucas assentiu. No queixo via uma ponta do colete de couro. Lucas fitou demoradamente o homem desconhecido que se apresentava no reflexo de sua imagem. Ele era um vendedor de seguros de carro. quase negro. chegando a arrastar no chão. O espelho foi desmontado e recolhido e os baús empilhados no dormitório. Os braços estavam igualmente protegidos pela cota de metal. que protegia suas pernas e estava longe de criar constrangimento. terminando nas luvas de couro. O saiote verde-escuro. Aquele não era ele. A capa vermelha cobria todo seu corpo. o tecido vermelho era revestido por uma faixa marrom. Era por inteiro feita de um tecido grosso e pesado. confundia-se com a grossa malha escura. juntos. não um guerreiro bento. Apesar do sol que brilhava do lado de fora.

Nada de fumaça. Sem perceber. Florianópolis. Os passos dos homens ecoando. Presidente Prudente. medianos. já eram. Ao redor dos prédios havia bastante gramado. Lucas acostumava-se ao aspecto imposto pelo traje. altiva. Praticamente não dá para passar uma noite com vida nesses lugares. obrigando-o a assumir uma postura ereta. Você era dc São Paulo. Ribeirão Preto. podia ver um borrão escuro subindo ao céu. Lucas estava impressionado com a pureza do ar. perguntar tudo. tudo o que havia se passado enquanto dormia. viraram redutos de malucos e de vampiros. Ouvir da boca de um amigo.. — O que é aquele prédio no final da rua? 99 . Sorocaba. em meados do século XXI. Lucas percebeu que a alameda estendia-se por centenas de metros e. A capa vermelha ocultava ambos os braços.Capítulo 16 Lucas desceu os três andares do prédio de dormitórios acompanhado pelo alfaiate e seus assistentes. nada daqueles prédios empilhados. Teriam que caminhar um bocado até chegar à residência do Bispo.. São Paulo. Ao chegarem ao pátio. O colete de couro dificultava que as costas fossem arqueadas. Rio de Janeiro.. Como os sobreviventes tinham se virado até então? Queria era ter a sorte de encontrar com um conhecido e sentar num bar para tomar chope a madrugada inteira. Viraram cidades fantasmas. na distância onde seus olhos começavam a falhar. Paulo vinha à sua esquerda e indicava o caminho. como lendo o pensamento do guerreiro. Ao que parecia. Campo Grande. os homens trataram de cercar o guerreiro. certamente. não era? — Hum-hum. recoberto por granito. todo o conceito arquitetônico conhecido tinha sido abolido após o traumático evento que o doutor lhe descrevera. Observou que caminhavam sobre uma alameda larga e prédios de poucos andares. alguém em quem pudesse acreditar. — As principais metrópoles foram abandonadas. fazendo com que a bainha não chacoalhasse tanto. nenhum traço do céu marrom-cinzento de São Paulo. Aracaju.. — A maioria dos grandes centros foram abandonados. — comentou o alfaiate. O que seria aquele prédio maior que os outros? — Isso aqui era o campus de uma universidade federal décadas atrás. a mão direita foi ao cabo da espada. Uma história fabulosa. Campinas. poucas pessoas cruzavam os caminhos cimentados. Silêncio. como no centro urbano. Com o colapso da sociedade. a superpopulação planetária havia desaparecido e agora espaço não parecia ser grande problema. ocupavam a paisagem espaçadamente. um colado ao outro. Niterói. Salvador. Belo Horizonte. todos esses lugares e tantos nomes quanto você possa lembrar.

. não ficamos todos claustrofóbicos. esvaziarmos a mente. Lucas olhou para Paulo. só nos resta rezar. estranhando o volume de gente passando por ali. Iríamos viver enjaulados em pequenos espaços? Ficaríamos doidos. Aquilo é um muro. Tem gente traumatizada até hoje. o muro está tão afastado que até podemos esquecer dele um pouco.. Os sobreviventes foram empurrados para pequenos povoados. com impressionante agilidade e pressa. pondo a mão no ombro do guerreiro e fazendo-o voltar a andar.. a impressão de estarmos em liberdade. murado. levantando o tronco. A gente se juntava em lugares menores que as grandes cidades. Não demorou um minuto até que uma senhora parasse no meio da praça e. Ao menos. não é? — perguntou insistente tornando os olhos para o alfaiate. como esses. senhor. 100 . graças a Deus. mesmo? Por que não. alcançou o homem de capa vermelha e prostrou-se aos seus pés. Bem aventurado os que tiveram a inspiração de buscar centros afastados. Se olhar ao redor do campus. e essa luta é eterna. calou-se por um segundo e molhou os lábios com a língua. senhor? — Não é isso. — Bendito seja Deus que te enviou para nos salvar! — gritou a mulher. senhor... Tinha habituado-se ao caminho quase deserto. dentro desses muros. A mulher soltou duas sacolas pesadas de nylon colorido e correu em sua direção. é assim.. mesmo atrapalhada por um grupo de rapazes que empurravam um carroção repleto de hortaliças. Se ficarmos quietos. escolas por lá mesmo? — Aqueles dias eram pesadelos vivos.. — Como iríamos passar um muro em volta de Sorocaba inteira. Lucas pôde ver o que parecia ser uma grande praça com chão de concreto queimado. por que não fortificaram hospitais. Paulo respondeu: — Não é um prédio. quis dizer. — O que foi profetizado? — Isso o Bispo é quem lhe dirá. querendo entender. Os primeiros meses foram difíceis de acostumar. Pôde ouvir a voz aguda da mulher crescer em euforia fazendo com que dezenas dos passantes parassem para olhar. Mas. o senhor veio e há de se cumprir o que foi profetizado.. mas nem acredito que estou diante do senhor. Tivemos que aprender a combatê-los. Agora.. Os vampiros acabaram com tudo. — Por que não ficaram nas cidades. Antes que o alfaiate pudesse dizer alguma coisa. — rebateu o alfaiate. até temos. — Orei dia e noite para que esse dia chegasse. É ele. Depois de cinco minutos de caminhada.Os homens olharam adiante. para sobreviver. Quando o sol vai caindo no horizonte. permanecendo de joelhos e tomando a mão de Lucas para beijá-la. a senhora. verá que ele é completamente cercado. — Paulo parou e colocou a mão em concha na altura da sobrancelha.. Vê. apontasse em sua direção. senhor. tomaram uma rua à direita. bento Lucas. — Mas basta passar das três da tarde para essa fantasia de liberdade ir por água abaixo. senhor. e erguíamos muros.

Se a multidão tentasse alguma coisa seriam poucos para ajudá-lo. Uma delas foi acelerada naquele instante. levantando-se com rapidez e abraçando inadvertidamente a armadura do guerreiro. Era coisa demais para um dia só. Estamos levando-o para ser visto e abençoado pelo Bispo. muitos queriam tocá-lo e. Como se não pudesse ouvir a voz de trovão do alfaiate. Estava zonzo. Perguntou a Paulo do que se tratava e lhe foi explicado que aquele prédio sediava a base militar de São Vítor. Lucas permaneceu calado. abandonado suas coisas e vinham cercar o grupo de Paulo. Lucas admirou a beleza da criança. abram passagem. o grupo pôde caminhar com mais folga. cada vez mais. mas os danados eram bons em esconder qual era o objetivo. Olhou para a praça. foi preciso a intervenção enérgica do gigante Paulo. uma criança teimosa venceu a barreira e puxou repetidamente a capa do cavaleiro. Paulo gesticulou para que voltassem a caminhar. Sorriu e pousou a mão enluvada na cabeça da menina. voltou a cabeça por causa dos puxões. Sorriu ao falar a palavra "secreto". Diziam que o alvo deveria ser mantido em sigilo. Todo mundo sabia que os soldados buscavam uma solução. senhora. ela é novinha. mas não deixou de ser seguido por um bom número de pessoas que queriam ver mais um pouco se era verdade o que corria de boca em boca. — Nem posso acreditar que o trigésimo despertou aqui! Em nossa cidade! Em São Vítor! — continuou a velha. A garota de pele morena abriu também um sorriso. curiosos surgiam e engrossavam a multidão da praça. Soube também que um bom número de soldados estava fora naquela hora. Não toquem na capa. Quanto menos gente soubesse o 101 . que o bento salvador tinha chegado. quando passavam junto a um prédio cercado e protegido por um grosso muro de pedra e mais duas sentinelas em extremidades diferentes. Todos tinham parado seus afazeres. — Por favor. que mirava um pouco além da praça e observava uma nova face da muralha que protegia o povoado. Paulo comentou também que os soldados estavam muito empenhados numa espécie de plano secreto para tentar pôr fim à ameaça dos vampiros antes mesmo que os bentos o fizessem.— É ele. Lucas apanhou a flor e agradeceu a menina que se retirou em desabalada carreira. Lucas. Lucas soprou gentilmente o dente-de-leão fazendo com que os corpúsculos desprendessem da extremidade da planta e esvoaçassem ao sabor da brisa. Pelo amor de Deus. provavelmente muito envergonhada de estar sendo observada por tanta gente. um bom número de motocicletas. procurando indícios de atividade vampírica na redondeza e um outro tanto estava fora em missões em outras cidades. As pessoas chegavam com sorrisos e olhos brilhantes. Parecia ter uns onze anos. Ao terminar a praça. como se um mecânico operasse algum tipo de teste. — Precisamos levá-lo ao Bispo agora! — gritou. fazendo patrulhas de rotina. A menina estendeu-lhe um dente-de-leão. Lucas notou. eufórica. não estraguem meu serviço. Um corredor formou-se com a passagem do grupo e. realmente.

Paulo? E a garotinha que me deu aquela flor? Também vi crianças brincando no pátio do prédio dormitório. É um pesadelo. Ao que tudo indicava. mas a corporação contava com um ou dois carrancudos. Depois ergueu a mão que ainda trazia entre os dedos a haste do que fora um dente-de-leão. pareciam agir com "mau caratismo". senhor. Paulo explicou que. Crianças que nasceram depois do começo de tudo. às vezes. Só de lembrar daquelas primeiras noites. não foi? — interferiu Lucas. — Como não.. Sombras. Lucas parou de caminhar mais uma vez.segredo. mas suava. senhor. Não sentia calor excessivo. em geral. Lucas olhou para o chão.. parecia que caminhavam para algum avanço. senhor. Suspirou ainda mais entristecido. — Não existem mais crianças nascendo. Tinha pré-concebido uma imagem diferente do local de encontro com o tão reverenciado Bispo. — Ao menos. que. Passou a luva na testa. — Como disse. menos chance os vampiros teriam de gorar o intento. — Lucas ficou parado no meio da sala. — Crianças que vieram? — Sim. — Desde aquela noite maldita.. Imaginava-se recebido no átrio luminoso de uma imponente catedral.. Sentia-se estranho. dos piores dias. Eram adormecidos que despertaram e damos graças ao céu por isso ainda ser possível. mas tenho a impressão de que a sessão de más notícias não está nem na metade. Que ficaria admirando a nave da igreja e pudesse rezar de frente a uma cruz bem-feita apropriadamente 102 . Que ficaria encarando os clássicos vitrais com a paixão de Cristo enquanto aguardava o homem santo ser apresentado. temos traumas até hoje. senhor. Baixou a touca de metal que cobria sua cabeça. compadecido do tom de voz do amigo. — Eram como você. — Vocês sofreram demais no começo. as mulheres não engravidam mais. os soldados eram homens de boa índole. Parece que a vontade de Deus é que não nasçam mais crianças. depois conduzido pelo corredor central de um salão luxuoso. senhor.. Cortinas pesadas encerravam as janelas de modo que um mirrado fio de luz invadia o ambiente. as crianças que vieram estão livres desses pesadelos.. parado em cima daquele tapete vermelho. Paulo. — Não sei o porquê. por isso buscavam uma alternativa. tenho calafrios. Os soldados diziam que estavam fartos de esperar pela solução divina. A caminhada estava fazendo-o transpirar demais.

.. Jornal Nacional. O diacho do doutor adivinhara. Sorriu. como muitas outras coisas dentro daquela velha casa. Ganhava de qualquer um. também ao alcance de sua mão. Pulp Fiction e Coração Valente.. Era até feia na verdade. Era vendedor de seguros. Gostava de cinema. infinitas quinquilharias.. ele gostava de assistir o Programa do Ratinho.. E ele diria: Você é o escolhido.. do "Bispo". assistira dúzias de vezes: Sábado. hatch. Piratas do Tietê. a caminhada parou em frente a uma casa pequena e sem nada de imponente. Star Wars. estava recoberta por uma visível camada de poeira. Achava esse tipo de argumento e diálogos uma porcaria. A estante tinha tanta coisa que parecia incapaz de conter um alfinete a mais... tipo King Kong. caminhoneiro. do Angeli.. Só poderia ser um pesadelo. mas essa parada de armadura e espada. oprimido pela espera.. não tinha como recusar. Não sabia nem se seria capaz de erguer a espada para lutar. Cara! Onde tinha uma vídeo-locadora naquela cidade? Bufou. Como poderia ser santo?! Tinha algo errado. garimpar nas bancas de revistas usadas os velhos números da Chiclete com Banana. Era mais natural visualizar-se sendo o primeiro a borrar-se todo na hora da luta e sair correndo sem olhar para trás do que sendo o bravo guerreiro que todos supunham. Tinha também aquele do Belline.. A mesa à sua esquerda.. popular. tinha os brasileiros também.elevada no altar. Provavelmente o tal do Bispo não vivia ali. sedã. estava a porta fechada que lacrara os ajudantes do alfaiate do lado de fora. Esportivo.. Belline e a Esfinge. Lucas via-se vivendo a mesma situação. que poderia tocar se estendesse a mão. do Laerte. um oráculo. Lucas tentava entender se a sala era muito pequena ou atulhada demais com móveis e bugigangas a ponto de tudo parecer espremido naquele cômodo. A pintura em tom de areia descascada e o piso da diminuta varanda mostrava-se já bem gasto. Isso sabia fazer bem. Era um cara comum! Não era herói! Nem religioso era.. Salvador? Enviado? Deus! Gostava de cinema e odiava aqueles filminhos que vinham com esse papinho de que fulano era o "escolhido". Essa fala era sempre proferida por um cara. À sua direita. Você é o "escolhido". brinquedos. A Casa. Você irá nos guiar até a vitória. A imobilidade do lugar e do ar causava desconforto e o tique-taque monótono de um relógio de pêndulo encoberto em algum canto fazia a ansiedade aumentar. Torcia para o Santos. sabia fechar o negócio. As paredes eram forradas com tapeçaria de gosto duvidoso e mais um tanto de enfeites típicos dos estados do Ceará. Central do Brasil e O Xangô de Baker Street. justamente o cara que parecia ser o oposto de tudo aquilo que a personagem e a platéia buscavam. Começou a imaginar onde se encaixaria naquele jogo abstrato que o destino havia armado. não desistia até arrancar um sim. taxista. Bufou de novo. motociclista.. No entanto. sem chance. Seria ele realmente o salvador daquela gente? Impossível que fosse! Era um cara comum. Os Normais. Era comum. como pôde notar o guerreiro. peças de artesanato nordestino. estava diante do profeta. O ponto é que não conseguia 103 .. Gostava de comprar a Playboy quando saía uma gostosa.. Retratos.. Alugar filme repetido. Odiava literatura. Pernambuco e região.

. Lucas sorriu e pediu desculpas. Gostei. notou que a mesma não estava de frente para ele. Foi aberta vagarosamente. — Gostou da roupa. Perto do Bispo. o doutor de oitenta anos parecia um garotão na flor da idade.. onde deveria sentar-se. esbarrando o mínimo possível nos obstáculos no caminho. estava agora no mesmo nível do seu possível interlocutor. — disse o alfaiate antes de retirar-se. Fique calmo e fique em paz. Você está aqui por uma razão. ergueu o braço e indicou o sofá. Era magro. ao menos. Das sombras surgiu a figura de um senhor muito velho. Achou engraçado o jeito do velho. filho? — Gostei. sim. com certa dificuldade. O velho balançou o queixo fazendo a papada tremer. Um segundo depois.sentir-se especial. é claro. Estava desconfortável. Achou curioso. Olhou para o rosto do Bispo. a cadeira estava de frente para o sofá. como se estivesse com a saúde extremamente comprometida. Ao olhar para o homem na cadeira de rodas. O sofá era coberto com um tipo de tapete de trançadinhos e estava inteiramente empoeirado.. recobertos de certa viscosidade. fazendo-o verdadeiramente relembrar de sua vida passada. Apesar da aparência. sempre ereto em virtude da armadura. Chegou a temer que o velho principiasse um acesso de tosse. "Bichinho"?! — Sua mãe nunca lhe disse que é feio ficar encarando os mais velhos? Lucas riu um pouco. senhor. Soltou a cadeira e contornou-a com cuidado. Não era mais nem menos que ninguém. — Vai dar tudo certo. nas quinquilharias decorativas. Lucas ouvia a porta da sala emitir um "clique" ao ser fechada por Paulo. Pode limpar seu coração de qualquer dúvida. senhor Bispo. Por que agora via-se no centro das atenções? Isso o deixava assustado. mas. a voz ganhava força e firmeza e era carregada de um sotaque nordestino. O homem tinha os olhos fundos nas órbitas e os globos oculares pareciam demasiadamente amarelados. rosto encovado. A porta na sua frente rangeu. sendo trazido em cadeira de rodas por Paulo. — Não se impressione tanto com a minha aparência. Lucas procurou relaxar diante dos olhos do velho. O alfaiate ajeitou a cadeira da forma que certamente o homem gostava. Parou de frente para Lucas e ajeitou sua capa. Lucas sentiu-se burro. bichinho. não por um acidente.. 104 . A pele chegava a impressionar de tantos sulcos e acreditava nunca ter visto antes alguém tão velho. Postou-se diante do velho. sentando-se com cuidado. eu já estive bem pior. — disse o velho no meio de uma sucessão de pigarros. Segurou nos ombros do rapaz e olhou-o nos olhos. o sotaque nordestino era tão presente no dia-adia paulistano. O velho. Não estava certo se o homem podia vê-lo.

filho.Os olhos baços do velho ficaram movimentando-se nas órbitas como se analisassem o jovem sentado na sua frente. No couro de um predestinado. É porreta. Eu vi cada um dos predestinados passar aqui nessa sala." "Quero não. mas cale essa boca. — Olha pro rosto desse velho aqui. Não precisa ter cagaço. Nunca ouviu aquela história de que Deus não dá asas pra cobra? — Eu nunca fui de ir à igreja. É abençoado. deixa eu tentar te explicar. com pompa e circunstância." Todos vieram com a mesma ladainha. — Eu não entendi.. Nem padre eu sou. O povo é que me chama assim. seu Bispo. Todos eles quando acordavam resmungavam a mesma coisa. rapaz! Quem foi que disse que tu é um enviado de Nosso Senhor Jesus Cristo? Tu não é enviado nem de Deus nem do Diabo. Seja ele um iluminado feito tu. Meu nome é Bispo. deve ser pior ainda estar no seu couro. Tu foi ungido. E olha que eu já vi muita coisa nesta vida. Lucas não encontrou sentido no que o velho disse. — Olhe. senhor Bispo. — Bispo.. — Se tão dizendo por aí que você é bento. A cabeça e o corpo continuavam imóveis. filho. Assuma isso. — Todo mundo fica confuso. — Mas eu não sei se sou mesmo o que dizem que sou.. meu filho. menino.. como dizia meu painho. ou um desgraçado feito eu. É assim quando todo mundo acorda. Como é que posso ter tamanha responsabilidade? Ser um enviado de Deus? — Ôche. mas num foi trazido. não conhecia? — Conhecia. — o velho tossiu duas vezes e fez um gesto com a mão enrugada pedindo que Lucas aproximasse o rosto. Só Bispo. Eu só passei muito tempo pensando e andei tendo muitos sonhos que diziam coisas que iam acontecer.. tu não ia muito à igreja. — Essa sensação vai passar logo. ser possuidor dessa armadura. Lucas sentiu-se um tanto constrangido. não. não. filho. Não sabia o que fazer. O senhor mesmo disse que Deus não dá asas para cobra. mas não retrucou dessa vez. "Bispo". como se eu fosse capaz de fazer o fogo cair do céu ou dividir o mar feito Moisés. senhor Bispo.. É difícil abrir os olhos num lugar diferente do lugar que tu dormiu noite passada. "Quero não. ser um guerreiro da luz. Não é fácil. eu não. mas não é um enviado. rodeado de rostos familiares. cabra. Não estava mais em sua cidade. eu estou confuso. menino. — Pára de me chamar de "senhor Bispo".. mas conhecia a Bíblia. Mas já que o povo 105 . Não sabia o que dizer para aquele homem. homem. é porque é. somente as pupilas dançavam na figura do interlocutor. Agora.... — Tu é um bento. Sentia-se perdido. "O pai do céu tá enganado. ao ser obedecido continuou num tom mais baixo de voz. Até agora só havia escutado os outros.

Se juntar dez. vai dormir fora do muro. E em canto nenhum do Livro Sagrado dizia que metade dos homens iam cair em sono misterioso e dos que sobrasse. Ninguém dá tiro na cabeça do irmão por causa de droga. Sempre tem alguém pensando maldade. dando uma risada rouca no final. — Agora não é mais assim. Aqui cada um escolhe o que vai ser. O mundo mudou depois daquela Noite Maldita. filho. passar bem. misturada a mais um tanto de tosse engasgada. Tu. Todo mundo junto. Fica lá por cinco dias. Se achar outro caminho. Todo mundo acha sua serventia na atualidade. Não existe morro ocupado pelo tráfico. sem responder. se endireita. antes de cair naquele sono misterioso. Hoje há união. Me tratam bem. Dentro desses muros agora só existe gente de bem. — concluiu o velho. Lucas achou sentido em parte do que o velho dizia. Lucas riu. tu lembra de como era a vida nas grandes cidades? Lembra de como São Paulo e Rio de Janeiro estavam se acabando na violência? Era centenas de vezes pior do que hoje em dia. bichinho. — Mas vamos tentar manter o fio da meada.. Pra mim tá bom até demais. Ninguém é obrigado a ser certinho. Quem erra. porque não existem mais presídios. não. Se não entra no ciclo da comunidade. filho. metade ia virar aqueles malignos e o outro tanto sofrer na Terra. Não existe mais fome assolando um país inteiro. eu te juro que em canto algum da Bíblia fala que o inundo ia acabar desse jeito. cabra. Nos povoados de hoje em dia ninguém faz seqüestro relâmpago. Se voltar. — Mas a violência é da natureza humana. Tá tudo mais igual. eu tava dizendo que quando tu lia a Bíblia... mas ninguém agradece pelas veredas que o destino nos apresentou.. Esse papo de Deus sempre rendeu pano para muita manga. — Cabra. todo mundo maldiz o dia em que essa desgraça começou. as portas do muro são serventia da casa. — Filho. boa sorte. você não encontra gente passando fome debaixo de ponte. sai confusão. seu menino. E é por isso que te digo que não vai acabar. — Em que lugar da Bíblia tava escrito que o mundo ia acabar assim? Lucas deu de ombros. correto? — Certo. Então também não fala de vocês. Bom ou mau. E não é ditadura. azar. não é verdade? — É verdade. Bispo. — Aprendia o que tinha se assucedido. Cuidam deste esqueleto cansado. esquece umas coisas. o que estava se assucedendo e o que ainda ia se assuceder. É opção do coração. eu deixo. porque essa minha cabeça cansada. os bentos. senhor. não existe rebelião em presídio. Ninguém quer 106 . Ninguém vai para a forca ou para a guilhotina. Se for comido pelos dito cujos. mas um outro tanto de palavras soavam vazias. vai se juntar com teus iguais. aprendia as histórias do velho e do novo testamento.me dá tanta trela e me trata com tanto respeito. às vezes. unido.

imóvel. nem políticos feito os daqueles tempos existe mais... Não existem mais traficantes. estelionatários. Essa brincadeira que a energia fez foi para separar o joio do trigo.ficar lá fora. Vai ficar claro como água. pelo pouco que essa cabeça velha pôde compreender. Tu não arrancou o couro de um cabra lá no hospital? Lucas aquiesceu. Quando essa guerra acabar. com essa capa vermelha. filho. soprando no meu ouvido. E tu é nosso campeão. — O quê? — Parece que dormi e vim parar num episódio de A Caverna do Dragão.. bichinho. É confuso demais. Bispo. — Sem ela saber o que está fazendo.. Para acabar com essa briga do bem contra o mal. está favorecendo esse velho. Quem é do bem é atraído pelos benignos. tá me dizendo como fazer os cabra da molesta do lado bom acabar com os cabra malvado. Bondade e maldade não se misturam. me lembrou algo da minha infância.. O velho Bispo parou de falar.. O guia da batalha.. e. só vai sobrar gente de boa fé. Bendita noite... Isso não é o fim do mundo. Gente de coração puro. — Eu entendi parte da sua argumentação. Agora é só gente e vampiro. Vai açoitar os malditos e preparar a terra para o recomeço. filho. Acabou aquela violência descabida que dominava o mundo antes daquela noite. Tu vai buscar a verdade. — Bispo mexeu a boca enrugada e piscou os olhos amarelados. Isso é sim um recomeço. Quem é mau acaba sendo atraído pelos malignos. 107 . não existem mais estupradores. E vai lutar pela nossa liberdade. Não precisam ficar chorando pelos cantos. A água do vinho. mas não pude conter o riso. no meu sangue. — Desculpe. Teria sido o outro. — Foi. somente os olhos úmidos e amarelados movimentavam-se. — Deixa teu coração em paz que a resposta vai chegar. Ficou com aquele rosto enrugado. Lucas começou a rir. eu digo. É isso que a gente tardou a notar. Tu será o cavaleiro da justiça. Estou me sentindo o próprio Eric. essa energia não escolhe o lado. não teria acordado bento. Se fosse. É um guerreiro da gota serena. não foi? Então não precisa duvidar. Uma piscada do Pai lá de cima. Tá aqui.. estaria nas escrituras. sentado de frente para. Pelo que eu sonhei. ela simplesmente está aqui... Isso é o que eu sempre digo.. — O outro? — É. Gente ruim está pra fora dos muros e correndo atrás de gente boa para tomar o sangue ou de gente ruim igual a eles que adoram aquelas criaturas da escuridão.. mas essa coisa de bento? Por que dizem que sou bento? Sou salvador? Sou um messias? Mas aí o senhor me diz que não sou enviado de Deus coisa nenhuma. novamente. Se tu fosse ruim. Ele fechou os olhos e deixou a energia que rege tudo tomar conta de nosso destino. Tu é um cabra da molesta. Essa coisa de falar sem dizer com clareza. Desculpe. Bispo.

o destino soprava no meu ouvido ventos que a vida ainda não tinha soprado. pra mim não é..... de alguma forma. no princípio não ligava.— O mestre dos magos? — É. he. Disse ao homem onde o jegue estava e pimba! O bichinho estava lá. Tá tudo diferente.. — Eu comecei a sonhar com essas coisas.. por que me chama de bento? 108 . Se você vacilar. Poderia até brincar com você. se não sou enviado de Deus. coisa que no meu sonho só se daria na semana seguinte. — Não.. Fazendo tais notas comecei a montar um quebra-cabeça. Ela me contou o futuro e. — O senhor mencionou uma profecia. — E quando o senhor acordava. então. vai virar uma rocha. — Mas. eu comecei a anotar os sonhos que eu me lembrava. O auto do homem que lideraria esse grupo até a vitória.. Via vocês cruzando os pastos nessas roupas maravilhosas. É que demora pra tu se posicionar nessa nova realidade. sonhar e antever a queda de uma mulher na feira.. A energia me escolheu. A história dos trinta cavaleiros de coração guerreiro. com as peças desse quebra-cabeça doido eu escrevi uma profecia mais doida ainda. nem tudo tão ruim. — o velho fez uma pausa e passou a língua pelos lábios. cabra. como a cena de um jegue fugindo do dono e indo se esconder em tal lugar até coisas mais complexas. — Isso aqui não é A Caverna do Dragão. depois. — Sim. Eu escrevi o romance que todos queriam ler. algumas coisas com que eu sonhava começaram a acontecer. filho. Lucas e Bispo riram juntos. num canto da floresta. O velho voltou a tossir e ficar em silêncio. Eu percebi que. via vocês montando tordilhos e arrancando a cabeça dos malditos vampiros. assombrado. filho bento. certinho. mas não tá tudo perdido.. molhando a pele fina. achava que era só o meu desejo de ver essa sombra maldita sumir do céu e nos deixar em paz. filho. a rocha mais dura do planeta. O que mais o senhor sonhava? — É o que eu ia dizê. derrubar alguma coisa para desviar tua atenção e depois desaparecer diante de seus olhos. mas essa cadeira de rodas é um tanto lenta e barulhenta.. É simples. É o bem contra mal.. O destino deixava vazar para cabeça deste pobre velho o que estava por vir. mas. Lucas respirou fundo. vai passar pela provação e seremos Vitoriosos. Eu via vocês. num sabe? Sonhava desde coisas simples. encontrava o jegue? — perguntou Lucas. — Não tem confusão. nosso lado perde. a invasão dos vampiros pelo muro três. A história dos salvadores. Quando comecei a perceber essas pequenas coisas. Lucas. filho. a hora e o lugar. sem eu a escolher. Você tem sempre que lembrar que agora só existe em e mal e que agora é a hora da verdade. — Encontrei. se você se firmar. Isto é só um exemplo bobo. A sua história. ter fé no teu poder. he. he.

aí. O universo tá limpando a sujeira espalhada por aí. que quando trinta de vocês fossem reunidos. Abençoado seja o homem que nos livrará do medo da escuridão. filho. Só querem reduzir a bagunça esparramada por aí. Bispo? O velho balançou a cabeça negativamente. balela. Não é abençoado por Deus.. Contudo. Sem os milagres. filho. Abençoado seja o homem que varrerá os malditos das terras escuras. dentro de vocês. misturar as coisas com jeitinho. bichinho..— Lá vem você de novo com essa pergunta. Não é só aqui na Terra que isso tá acontecendo. — E onde eu me encaixo nessa profecia. guerreiros da gota serena. meu filho. Não sonhei com glória nem com derrota. filho.. decifrar o que essa força cósmica tá me soprando no ouvido. Lucas notou que o Bispo parecia cansado. — Como vamos vencer. quatro milagres iriam acontecer. menino. tá bem claro que quatro milagres vão acontecer. Apesar de estarmos no meio de uma piscadela de Deus. — Bispo sorriu e balançou a cabeça. fizessem uma limpeza.. Sonhei com isso também. estamos fadados a terminarmos escravos desses peçonhentos. não me dá o bolo pronto. caso essas receitas tivessem sendo sopradas nos ouvidos de nossos inimigos. senhor Bispo? — Eu sonhei. Deus está de férias e deixou que as energias do universo tomassem conta da casa. filho. só foram com a cara do amarelo.. cabra. o que eu tenho que fazer? Onde estão esses homens bentos agora? 109 ... Elas não tão escolhendo amarelo ou vermelho por lógica.. Ô diacho! Parece fixação! Tu é bento porque vai nos salvar. E a soma desses milagres fará com que a vitória sobre os vampiros seja possível. a energia me dá as receitas. É abençoado pelo coração. Sem os milagres.. Esse dom é uma tortura. — E por que o senhor diz que Deus não tem nada a ver com o que está acontecendo aqui na Terra? — Porque esse período de trevas não tá lá nas escrituras. Não foi revelado.. vencê-los será impossível. não. — Sorte a nossa essa energia ter procurado o nosso lado. Respirava com maior dificuldade do que quando entrou na sala.. — Não foi dito. restaria a nós cavar um buraco bem fundo para tentar escapar de uma sobremesa bem das amargas. tu é uma benção. As energias do universo são as faxineiras mais esquisitas que eu já vi. — Mas. — Isso não foi revelado a esse pobre velho. sonhei com o caminho para a entrada do horizonte dos acontecimentos.. — Quais? O velho suspirou e deixou os olhos passearem pela face do bento. Nos sonhos. tenho que tatear no escuro.

dando apertos no encosto da cadeira de rodas. sonhar o que estava prestes a acontecer. Não tive essa sorte. Lucas crispou as sobrancelhas. comia por meio de sonda.. eu sofri um derrame. acordo gritando "Sai de retro Satanás". tudo me fazia sofrer muito. as lamentações. Não conseguia ir para longe do meu corpo. era um vegetal. ninguém sabia que eu podia ouvir tudo. cabra. ficava preso ao meu sangue. Vocês tem que ganhar. Iria levar as trinta espadas dos guerreiros ao norte e que os milagres se apresentariam onde repousa o coração do deus Tupã. Aquele negócio de túnel de luz. Nos meus sonhos são como o capeta. Encarcerado numa cabeça viva. atirado numa cama de hospital com o futuro incerto. Bispo inspirou tentando encher completamente o peito. — Rezarei por você. Naqueles dias estávamos a poucos meses da grande transformação. Mal saio dessa casinha... Não movia minhas pernas. estava com a vida perdida. Apesar de ter perdido a visão. A vida corria normal. mas por muitas vezes estive fora do meu corpo. não vi túnel nenhum.. doidinho. Tome cuidado com ela. além disso nada sei. Vão e lutem o bom combate.. Comecei a sonhar com a grande tragédia. O pior era ouvir o que os médicos falavam. uma assombração no corredor daquele andar de hospital.. sentado ao lado do meu leito hospitalar. Eu era um espectro. minha audição funcionava. de verdade. Milhares de pessoas mortas. não movia meus lábios. Não movia nada. Podia ouvir o drama de ter um marido inválido. Os prantos. Doidinho. uns meses antes dessa benção de mudança começar. Às vezes. Desespero.— Nos sonhos me foi dito que quando trinta bentos estivessem despertos. principalmente quando sonho com aquela de tapa-olho. não fui um adormecido como você. o trigésimo iria guiar os demais. Aquelas criaturas medonhas. Foi nesse período macabro que meus sonhos começaram. olhando para a minha casca inválida.. Ter consciência de tudo o que estava acontecendo com você.. Podia ouvir o sofrimento dos meus filhos. depois. Acho que estive à beira da morte por dezenas e dezenas de vezes. É bem perigosa.. mexeu rapidamente as mãos. os prognósticos eram sombrios. Ninguém podia imaginar. E pensar. da minha esposa. Nunca saí dessa cadeira de rodas desde que acordei. amontoado num corpo morto. tenho uns arrepios. Recostou a cabeça no 110 . o desespero. Que a guerra será dura e muito sangue será derramado até esse dia. Tem que vencer os malditos. nunca vi. Ver na minha frente. Eu nunca botei os olhos num dos bichos. exceto eu. — Não. tudo voltava a ser escuridão e sabia que minha parte fantasma estava de volta ao corpo. Os médicos não acreditavam na minha recuperação e não davam muitas esperanças para meus familiares. Lucas. Pensar.. — O velho fez nova pausa. Fiquei em coma por semanas. Respirava por meio de aparelhos.. Uns irmãos teus já viram essa peçonhenta na floresta. É que. Achei que já estava completamente doido. O pior era isso. a raiva. as piadinhas na UTI. mas dizem que são feios. quando acordei.. amigo. pediam que ficassem preparados. Ouvia e via os médicos. Que os números serão importantes.

— Que pacote? — Eu tinha 46 anos quando tive o derrame. As pessoas não morrem. — O senhor realmente acha que esse evento trouxe algum bem? O velho meneou a cabeça afirmativamente. Leia-se: confronto com os malditos. Sua pele enrugada parecia mais seca e os olhos mais cansados. — Tá perguntando o que eu estou fazendo aqui. O pacote de benefícios é muito mais cheio que o das mazelas. talvez parte do pacote ruim. por causa da antiga doença. Tô mais acabado que qualquer senhor de 76 anos que tu conhece. Isso não é motivo para festejar? Não basta para chamar o evento de bendito? Quem tinha câncer.. talvez tenha ficado tanto tempo me olhado que ela se engraçou com o meu charme e resolveu dar uma colher de chá para esse esqueleto cansado. vivendo de favores de loucos que ainda perambulavam pela cidade.. Finalmente voltava a ver e ouvir com os meus órgãos de carne.apoio da nuca. à perda de pessoas para a escuridão. fiquei muito debilitado.... Lucas alterou a expressão. não é? Precisava ver como eu tava naquela noite. — Tenho certeza. filho. e talvez tenha sido isso que chamou a atenção da energia. O ser humano tem essa mania de exaltar muito mais as perdas do que os benefícios de uma grande mudança.. Lucas pensou em levantar e chamar o alfaiate. Meses depois. Mas agora tu tá diante de um homem de 76. — As pessoas não morrem mais de doenças. As pessoas morrem de velhice ou por causa de um trauma. Reparou como têm muitos velhinhos andando por aí? Lucas anuiu.... Eu fiquei anos melhorando lentamente. as abandonou. fechou os olhos e respirou em silêncio por alguns segundos. Quem sofria de Alzheimer voltou a desenvolver suas funções com normalidade. Realmente tinha notado isso. Muita dor. isso quando o evento tá ligado a mortes dos entes queridos. Ela deve ter se mordido de curiosidade com o fato de um morto agarrado na beira do precipício da morte ainda estar respirando. pois. bento.. Muitos tiveram perdas. Quem andava de cadeiras de roda. Choro. O primeiro dos sentidos que voltou foi a visão. Mas eu sabia que aquilo viera para um bem. Já te disse que estive morto por alguns minutos? Pois te digo que estive morto por horas. A bendita noite em que tudo mudou.. A maioria das pessoas da vila pareciam ter mais de cinqüenta anos. mas ainda tava ligado naqueles aparelhos. as mulheres não puderam mais ter filhos. e acho que bastou para o sopro do destino me manter do lado de cá. quando os sobreviventes começaram a ser 111 . Tava à beira da morte. mas antes que o fizesse o velho voltou a abrir os olhos. Tava largado num hospital. — Daí chegou o dia.. curou. Desde aquela noite.

Vilas inteiras são engolidas nos ataques. Não precisamos mais temer andar na rua. Sentia-se afundando 112 . para São Vítor. Bispo? — Acho que esse velho já falou demais por um dia. Não há mais a agonia e o desespero do dinheiro. O alfaiate e os demais já sabem de cor e salteado o que devem fazer. Os homens têm muito medo da morte e. fui trazido por uma equipe de resgate para cá. a gente dá bola pra altura do muro e para o pôr-do-sol. é verdade.. vou te contar mais dessas coisas incríveis que tu perdeu. Suspirou fundo. Venha me visitar uma hora dessas. Os olhos de globos amarelados continuaram em cima do jovem salvador sentado na sua frente. Eles fazem a parte deles. — mais uma vez o velho interrompeu o discurso inflamado para tomar fôlego. nada de ruim aconteceu. Chame o Paulo. lamentam tanto o acontecido. repito pela milésima vez. Lucas viu-se sozinho diante da sala atulhada de objetos. até dar alguns passos. por isso. boquiaberto com a história que chegava ao seu conhecimento. Esse tempo todo de clausura me serviu para meditar. nessa lonjura que Deus me deu. É uma gritaria da gota serena quando os bichos conseguem passar as muralhas. — De cor e salteado. Seja um bento da moléstia. mas tenho fé que voltarei a caminhar e a conhecer melhor esse novo mundo. daquelas bem caprichadas. Pra entender. Não dê descanso àqueles malditos noturnos. em sermos unidos e irmãos. — murmurou Lucas.reorganizar. Ninguém dá bola pra gerente de banco e contas pra pagar. O velho fez nova pausa na revelação. E esses benditos sonhos trouxeram de novo a esperança aos meus irmãos. Agora temos urgência é em conversar uns com os outros. Mas. num dia bom. Vou instruir o Paulo pra te levar aos outros meninos. ao menos temos medo com hora marcada. Agora sabemos quem é nosso inimigo. agora. três. Nada mau pra um cabra que já teve morto... — o velho fez uma pausa. Os sonhos voltaram e começaram a me explicar sobre as forças do espaço negro. O universo é cheio dessas coisas estranhas. quatro. nos dias de hoje. Eu tava doido pra comer uma buchada. A cabeça cheia de informação. porque os vampiros vêm com toda sua fúria e selvageria.. parecia esgotado. São tantos. Percebendo que o rapaz continuava calado. — Posso ajudar. por favor. continuou. E acho que foi muito bom o que me aconteceu. com um sorriso bobo no rosto por reconhecer mais uma expressão de sua época em uso. Assim que o alfaiate levou a cadeira de rodas através da porta. A angústia tios tementes tem hora. das faxineiras do Senhor nosso Deus. Mas. Pra pensar. sorrindo e continuou. Coisa boa. — Já consigo. É a hora em que o sol se põe. montado no lombo de um bom jegue. Também buscam a vitória e vão fazer de tudo para que vocês falhem. Não precisamos mais desconfiar de um semelhante que cruza nosso caminho. Agora quem é bom é bom e quem é mau é mau. bichinho. — Ao final de quatro anos podia falar e começar a comer coisas sólidas. bichinho.

O encontro com Bispo servira mais para confundi-lo do que para esclarecê-lo. Era muita responsabilidade. Impossível crer naquilo tudo. Ao menos soubera da boca do velho que de infarto não morreria. 113 . Queria virar fumaça e desaparecer. Era muita fantasia. Paulo voltou e indicou a saída ao guerreiro. O velhinho falante parecia tirado de uma fábula incrível. Vou apresentá-lo aos seus parceiros de batalha. de uma produção da Pixar. bento Lucas.numa realidade que não queria aceitar de pronto. Não sabia se isso era bom ou ruim. — Vamos. Era muita informação. Não estava preparado.

Mesmo sem aquela árvore.. os soldados mostravam-se contentes pois. Estavam a duas horas de São Vítor e chegavam agora às quatro horas da tarde. chegariam com a noite começando. agora. foram retirando seus capacetes. teriam que rezar para chegar com vida. indicava a proximidade do local. apesar da gasolina de Marcel ter acabado bem antes do posto de abastecimento. que terminaria num encerado camuflado por galhos.. os demais alcançaram a meta e puderam socorrer o novato com rapidez. Zacarias e Paraná não puderam conter o riso. Não havia outra palavra melhor para descrevê-los naquele instante do que decepcionados.. mostrando existir ali muito mais do que um par de árvores frondosas cruzando a pista. O novato correu até a muralha e começou a chutar os galhos mais próximos. que era reposta periodicamente. bem escondida. Ao menos para isso serviu o desatino do novato. sem abrir passagem com facão para não denunciar o sítio estratégico. Guiando-se ainda pela rocha e por algumas árvores características do lugar encontrariam a picada já aberta. tão desnorteado. — Merda! Merda! Malditos filhos de umas putas! — O Chorão vai começar de novo. — brincou Joel. A confiança dos motoqueiros desfez-se quando viram a moto do puxador parada em frente a uma muralha de folhas verdes. Marcel parou de atracar-se com os galhos e com os inúteis xingamentos. O posto de reabastecimento era um lugar conhecido apenas dos soldados mais experientes. um após o outro. — Cala a boca. espantados com o nervosismo. Marcel saltou da moto. 114 .Capítulo 17 O sol mostrava claramente seu perigoso movimento descendente e cadente para os que estavam fora do portão. venceriam a descida do sol. por causa do seu inusitado formato. Não precisava ser um expert em matemática para concluir que a sorte não estava do lado daquele grupo naquela missão. Parando alinhado com a rocha. Depois de reabastecidas as máquinas e recuperado o soldado. Continuando nessa velocidade. os motoqueiros rasgavam pela rodovia. novato! — berrou energicamente o líder. três folhas de madeirite tapavam a entrada para o buraco escavado. Debaixo do encerado. que a mil e cem foi ao chão. era ainda preciso caminhar cerca de cento e cinqüenta metros em mata fechada. Todos olharam para Adriano. onde eram acondicionados dezenas de galões somando centenas de litros de gasolina.. Ao encostarem ao lado do líder. Uma rocha apelidada de "O Grande Sofá". Mesmo assim. Um obstáculo plantado no meio do caminho. A camada verde era compacta.

os malditos poderiam ter ordenado que um grupo de mulos fosse até aquele ponto da estrada e improvisasse aquele obstáculo. em geral.Adriano repetiu o sinal de silêncio. não eram muito habilidosos com armas. distribuindo abraços efusivos. Sinatra atingiu primeiro o topo do muro de árvores. Os homens gritaram vivas e. Eram motosserras. dando as boas novas ao sofrido grupo de Adriano. — Cuidado com isso. seja empoleirando-se em galhos altos à beira da estrada com rifles de longo alcance ou fazendo serviços como aquele: derrubar árvores para encurralar motoqueiros às portas da escuridão. Engatilharam as pistolas. Os soldados pararam com as serras. Um barulho bem alto. escalando o obstáculo. — Como sabiam? — perguntou o líder de Nova Luz. Os soldados trocaram nervosos. erguendo os óculos de proteção. O jovem negro também era magro e de reconhecida agilidade em escaladas. Os que estavam apenas vigiando o trabalho dos companheiros dirigiram-se ao grupo de Adriano. Todos entenderam. Quatro para a esquerda da pista. No flanco direito. Do grupo de Adriano. — Estamos salvos! — berrou. — Bendito Bispo! — celebrou Zacarias. Ele sonhou que teu grupo precisava de ajuda. Paraná gesticulou para Sinatra. — esclareceu Társio. — São soldados de São Vítor! Tem um bento com eles! — juntou Joel caindo ao lado do amigo. As motosserras trabalhando deveriam estar partindo mais troncos de árvores antigas e fazendo-as cair no meio do asfalto. Reconheciam aquele ronco. Apesar do ronco ensurdecedor das motosserras. Os vampiros que haviam deixado o Rancho da Pamonha sabiam que tinham deixado para trás um grupo de soldados vivos. tomava cuidado para não partir os galhos e não chamar a atenção. ampliando a dificuldade do obstáculo. líder daquele grupo de São Vítor. até formar um ronco possante. Tentariam a todo custo emboscá-los uma segunda vez. que era o mais leve do grupo. Um zumbido de um pequeno motor. O ruído aumentou de volume como se outra máquina se unisse à primeira. Sinatra aquiesceu e começou a escalar galhos e troncos das grossas árvores que compunham a muralha verde. quase que ao mesmo tempo. o escolhido foi o Joel. 115 . porque a gente tá descendo! — alertou o grandalhão Paraná. mas eram um risco surpresa nas horas de luz. depois mais outra e mais outra. Os escravos de vampiros. três para a direita. Apesar do sol ainda iluminar fartamente o céu e impedir qualquer ação dos noturnos. Adriano sinalizou de novo e o grupo se dividiu. — O velho Bispo. que saltava os ramos e toras. atiraram-se contra a barreira. Uma máquina. Quando chegou ao cume e identificou o grupo que cortava árvores abriu um sorriso e praticamente saltou lá do alto de volta ao asfalto. seja plantando explosivos em pontos estratégicos das muralhas pouco antes do sol cair.

Tem uns dez minutos. a rodovia era muito estreita. — explicou. com bigode estilo espanhol e um filete de barba que descia do lábio inferior até o fim do queixo.. mas você conhece o Bispo e a mania dele de sonhar pela metade. Da indumentária cabida ao combatente. amigos de longa data. soltando a primeira baforada do cigarro caseiro. O sol 116 . ferramentas para áreas de trabalho distantes. de altura suficiente para que as motos cruzassem os troncos primeiro. Até livrar a pista vai mais de hora e já são quatro e cinco. o que havia permitido construir ali aquela armadilha perfeita. já que o sol da tarde incidia na rodovia. para bento só faltava a capa vermelha. Adriano riu e deu tapinhas cordiais nas costas do amigo. naquele trecho. É muito tronco! Se ele tivesse dito que era isso. ouviu alguém explicando para Paraná que... apontando para o guerreiro que também ria e confraternizava com os amigos. reluzia abundante. Francis era um dos bentos mais antigos. com a cruz dourada incrustada ao centro. mesmo que escureça no meio do caminho. mas a gente nada pôde fazer quando chegamos aqui mais cedo. de pele bronzeada. O que poderiam fazer era revezarem-se na operação das motosserras e irem retirando o entulho de galhos e folhas do meio do asfalto. caso a gente não chegue até às cinco. — resmungou Társio. — Metade do nosso grupo teve que voltar até São Vítor para buscar as motosserras. tirando um cigarro caseiro do bolso. Concluiu que deixariam para amanhã a remoção definitiva do obstáculo. Aquele acessório era muito usado quando precisam transportar mantimentos a mais ou. Engenhosamente. — Com o bento Francis com a gente. ainda trocavam apertos de mãos e abraços com os companheiros. Ainda observando Francis andar dentre os homens.Os soldados. Começamos a cortar agora. — concluiu o líder de São Vítor. como naquele caso. Adriano reuniu os homens para ver em que poderiam ajudar. O peito de prata. Tinha altura mediana. rosto másculo. As motosserras eram cinco e aproximar-se da área de trabalho com outras ferramentas de corte mais iria atrapalhar do que ajudar. parte pela ocupação desenfreada da mata. os soldados esculpiam uma passagem em "v" invertido. despertado sete anos depois do evento. E duvido que o quartel não mande mais uma patrulha.. junto com as ferramentas alguém teve a brilhante idéia de trazer o bento Francis. — Realmente vocês encontrariam problemas com esse amontoado de madeira na pista. Adriano notou que uma das motos tinha uma carreta atrelada. parte por culpa do traçado. Felizmente. — O velho nos avisou às oito da manhã. o presságio. O tilintar característico da cota de malha de prata seguia os movimentos do guerreiro. Chegaram há pouco. Terminado os cumprimentos. Olhou para o obstáculo de madeira e ficou contente ao perceber que o equipamento partia galhos e troncos com rapidez. estaremos muito bem reforçados. Tivemos que esperar um montão até ele "montar" o sonho.

mas certamente a presença do bento manteria o grupo calmo e seguro. 117 .baixava rápido. ao menos com ele por ali seu novato não cairia naquele ridículo berreiro novamente. Sorriu sozinho ao agradecer a presença do bento.

um bocado de arroz e um generoso bife de vaca bastante acebolado. Comera batatas e vagens cozidas. doces e suculentas completara a deliciosa refeição. Junta gente pra caramba. a pelada é da boa. Sorriu. A maior parte da vila que fora um campus universitário. Quando eles aparecerem. Podia-se ver longe. mas que. aparece aqui o time do Caranguejeira. Depois de recebidas as informações é que caminharam até o refeitório. àquela hora. É incrível. eu sou apenas um alfaiate. Comera com Paulo e os alfaiates num refeitório coletivo. Ouviu Paulo perguntar por um outro nome. mas. às vezes. Acontecesse o que acontecesse o brasileiro seria um eterno apaixonado por futebol. 118 . Frutas frescas. bem como as tonturas. mas. Lucas estava contente. com traves desprovidas de redes. Feita a refeição. Sem dúvida um lugar pitoresco. estava praticamente vazio. que à primeira vista parecia bem próximo. Notou. a existência de diversos canteiros com todo o sortimento de hortaliças e legumes. o alfaiate e seus auxiliares levaram Lucas pela cidade em direção a um dos muros. — Quando vai ser a próxima pelada? — perguntou Lucas. É difícil. dotado de gramado baixo e verdejante. A pessoa procurada também não estava ali. Lucas não cansava de observar o comportamento dos moradores de São Vítor. Podia ver também um campo de futebol de boas dimensões. Tinham tentado localizar um bento chamado Francis. junto ao muro para o qual se dirigiam alguns barracões rústicos e muitos trabalhadores. — Bento Vicente está no muro da frente. O refeitório não havia sido o destino imediato após saírem da casa de Bispo. Quando estamos em tempos de calmaria até organizamos umas partidas externas ou trazemos visitantes para cá. O Caranguejeira é líder de um grupo de malucos que ficam perambulando de cidade em cidade. Souberam que ele tinha partido com o grupo de Társio para a estrada. Paulo sorriu. apontando para o campo. A sede súbita desaparecera. Chamamos de Copa. Talvez a grande parte da comunidade fizesse a refeição um pouco mais cedo. Eles é que sabem o que vão fazer daqui para adiante. pois o estômago não estranhava mais a comida sólida e o organismo parecia ter entrado num funcionamento aproximado do regular. — Temos campeonatos disputadíssimos por aqui. O grande clássico é Horteiros versus Vaqueiros. exigia uma boa caminhada para ser alcançado. que só podiam ser agricultores.Capítulo 18 Lucas tivera seu primeiro almoço farto desde que despertara no hospital de São Vítor. Você escuta os rojões a quilômetros de distância. todo mundo quer assistir. Uma zuada que não acaba. Vou apresentá-lo e ficará com os seus. um dia mostrava-se de topologia plana. O muro. rodando pelas estradas em um comboio de carros-fortes.

Aposto que foi duro para ele aceitar a realidade. se já não tivesse passado. aos poucos. vigorosas. ter reconhecido o nome e a pessoa. de que as pessoas não ficavam doentes. chamada Esperança. Realmente tinha visto pessoas de faces coradas e a grande maioria de aparência excelente.por motivos de segurança. — continuou o alfaiate.. Correntes de extensão indeterminada. Tem uma fortificação perto de onde foi a cidade de São Paulo. erguendo o caneco para bilhões de pessoas.. Sou palmeirense fanático. é raro. mas já aconteceu. achando impossível adivinhar. Lucas continuou com o sorriso no rosto quando voltaram a caminhar. falando feito criança. acorda um jogador de futebol conhecido.. Talvez a constituição física espetacular devesse ao fato mencionado por Bispo. forte como um touro. agora era um soldado! — Nas horas vagas dizem que ele ensina a garotada de Esperança a jogar futebol. Ao que se lembrasse somente o velho Bispo tinha parecido tão fraco. Um homem daquele tamanho. — O Cafú do penta?! — perguntou admirado. Foi um dia divertido. Ele já veio jogar aqui com a seleção de Esperança. Lucas percebia saudosismo na fala do alfaiate. imediatamente.. Lembrava-se perfeitamente do Cafú.. Daquela distância era obrigado a erguer a cabeça para alcançar o topo. faltando cerca de cinqüenta metros para alcançarem o muro. Rosto de homem experiente e vivido. Perto deles observou um imenso portão de madeira e ferro.. Cada jogo. O guerreiro olhou para o muro na sua frente. — E um bom Corinthians e Palmeiras? — perguntou Lucas. nunca mais.. uma pena. Sabe quem é soldado lá? Lucas encolheu os ombros. — O Cafú.. essas copas não tem data para acontecer. enroladas em rodas de ferro. O sorriso insistia no rosto não só pela satisfação em saber que mais um rosto conhecido e familiar habitava aquela terra dos dias de hoje. seu cérebro também ia voltando a funcionar. Jogador brasileiro que fora uma grande estrela para o tricolor São Paulo e depois fizera carreira exemplar no exterior. Quem diria. — Ele despertou dez anos depois do evento. fazendo graça. a ponto de interromper a marcha. estava bem perto dos cinqüenta anos. As fortificações montam verdadeiras seleções. — Ah! Bons tempos aqueles.. Estava contente também por. — O Cafú do penta. Indicava que. — Grande capitão. Chegou até a ficar emocionado. — É. tão débil. Parecia diante de uma obra 119 . Lembrar do Cafú no final da copa de 2002. Estavam chegando. como o restante do organismo. não? — Às vezes.. O rosto sulcado do alfaiate mostrava que.. mas isso a gente não viu mais.

— Vem ver. Lucas aproximou-se. aqueles demônios subiam isso como se fosse uma escada. Pareciam duas árvores secas. Logo entendeu a razão de ser daquela desertificação. Havia soldados no topo do muro. de rosto rude. uma no extremo esquerdo do campo visual e outra no canto direito. só pelo fato de termos alisado as paredes com essa massa. Lucas passou a mão. — chamou o alfaiate. debruçado sobre a parte externa do muro. Eles têm umas unhas duras. olhavam. Quando sobra a gente passa pelo muro nos pontos estratégicos. cravam em tudo. Paulo conversava com esse soldado. Vê como as faces do muro são lisas? Vamos subir para você ver melhor. provavelmente na iminência de uma invasão. Enxergou dois pontos negros a longa distância. pulavam com facilidade para dentro. algumas vezes para ele e o grupo do alfaiate.. Por cerca de um quilômetro a visão era de um Saara. pela qual subira. Era impossível detê-los. Tome cuidado com as unhas deles quando estiver em batalha. forte. Mas demorou um pouquinho para chegarmos a esse resultado. quando a gente tinha deixado no tijolo cru. A areia branca refletia a luz do sol e provocava aquela sensação de calor. Os olhos doíam com tanta luz. Não haveria como não perceber a aproximação de alguém bem antes que este estivesse próximo o suficiente para oferecer risco. Subiram por um corredor estreitíssimo. mas era muito baixo e os vampiros. Olhando para a direita. — Olhe como esta parede é lisa. Antes. Nesse instante. Muito além delas começava uma linha verde que deveria ser uma floresta. Sentiu um arrepio percorrer o corpo quando bateu os olhos na armadura prateada com a cruz dourada no meio do 120 . depois continuavam andando.. Ao final da escada. que serviria para selá-la. Lucas viu um outro homem. olhavam. vigias. Lucas encontrou um corredor de três metros de largura. Lucas viu uma parte coberta da muralha que serviria para proteger os soldados do sol. saindo das sombras. prateada. — Que altura tem isso aí? — Primeiro foi construído com sete metros. Lucas ergueu-se. Aquele deserto era uma proteção. quando alcançavam o muro. passando por degraus rudes.medieval ou de um cenário de Tolkien. Mas. Realmente era lisa e a julgar pela viscosidade aderida em sua mão. já prejudicou bastante para o lado dos noturnos. Ficou escuro por alguns metros e logo voltou a clarear com a luz do sol atravessando na boca de saída. — Isto é óleo vegetal. havia um homem apenas. Andavam um pouco e paravam. Já não pulam com facilidade. Depois aumentamos para doze metros. notou uma porta metálica. porque é difícil cobrir o muro inteiro. No topo da muralha. Lucas estava mais impressionado com o baque quente que tinha tomado no rosto quando se debruçou sobre a muralha do que propriamente com o obstáculo de pedra. Próximo a eles. deixando o abrigo. olhando-o fixamente.

— Fale quando eu perguntar. Lucas queria sumir dali. medindo-o com evidente desdém. longe de ser um baixinho. Um bento de verdade! Lucas sentia-se prestes a ser desmascarado. Paulo aproximou-se com um sorriso nos olhos e com as mãos juntas. bento? — perguntou o grandalhão. onde sentia-se bem melhor do que ali. — o bento fez uma pausa e sorriu. a do bento dava a impressão de ser uma peça bem menor do que a que Lucas carregava no traje. Um campeão. bento Lucas. O bento enxugou as lágrimas nos olhos. — Então. A confusão mental aumentava conforme as passadas do homem traziam-no em sua direção. — interrompeu secamente o bento. voltando para seus ajudantes. bem mais alto e forte do que ele. Tinha acordado numa terra estranha. que vai te explicar como serão as coisas daqui para frente. — Deixo-te com teu irmão. parou em sua frente e cruzou os braços. Ficou olhando para Lucas. na presença de bento Vicente. Bento Vicente é como me chamam. media dois palmos a menos que o brutamontes encapado.. Se na presença de um deles já se sentia impostor e incapaz. como seria quando os outros viessem para vê-lo? Queria virar fumaça e desaparecer. — Essa eu quero ver de perto. O bento contornou Lucas.peito. nervoso. — começou uma risada. Que vai tornar certa nossa vitória. que apesar de portar altura mediana. por culpa das proporções corpóreas diferentes. 121 . mas estou surpreso. Lucas inclinou a cabeça. Não tinha ouvido falar em cadeia. — Eu já vou indo. — apresentou-se o grandalhão. Com alguma sorte. — despediu-se Paulo. Esperava um colosso. — Ah. — Meu nome é Vicente. que só foi acompanhada pelo soldado próximo. Tinha uma espada na cintura. O homem. — Você já viu um vampiro. com a voz desanimada. esse é o tal? O bento que vai nos guiar contra os vampiros. Lucas percebeu no peito do guerreiro uma imagem de São Jorge igual a sua que. Paulo precisou abaixar-se para sumir pela passagem que dava nas escadas. Mais uma gracinha e iria tirar a arma da bainha. Desculpe minha sinceridade. seria esquartejado na primeira briga. — Calado. — Esse é. A capa vermelha daquele homem estava bem desbotada e as bordas inferiores com a proteção marrom de couro já bem gastas.. — Eu matei um vampiro. lugar onde não era hostilizado pelos semelhantes.. Mas você é tão pequeno que chega a ser engraçado. essa coisa de profecia me mata. Assim acabaria logo com aquilo.. Era um bento! Lucas sentiu um suor frio brotar da testa.

resto de bento. parece uma bailarina. — Quer saber um segredo? Vicente olhou para o soldado que estava próximo e gesticulou para que o homem se afastasse. um vampiro da floresta. — Eu também estou perdido. — Acho que aquele velho tá caducando. — Mas. criado no mundo. Bailarina? Você já se olhou no espelho? Vicente fechou o rosto e aproximou-se ainda mais de Lucas. São o bicho. Fui falar com o Bispo e. você ainda não viu. — Escuta aqui. Onde já se viu mandar alguém do teu tamanho para guiar um bando de soldados? Ninguém vai te obedecer. Antes de acordar naquela droga de hospital nunca tinha matado um mosquito sem pedir desculpas.. te quebro a cara. — O cheiro ruim é o mesmo? Vicente encarou Lucas por alguns segundos sem responder. Não quero nem ver. Não sei nem se agüenta com essa espada. Mas sonhar errado nunca tinha sonhado. Sabem que atrasam nosso lado quando matam um dos nossos. Estamos perdidos. sem chance. Um vampiro antigo. é um filho da mãe dum caça-vampiros. Cê nem tem jeito de casca-grossa.. Quando os vampiros descobrem um bento.. Lá na floresta. Tô falando que você não pode ser o cara. afastando-se alguns passos.. Agora ferrou. Às vezes eles erram sabe. mas não precisa ofender. Esses são de verdade. — Os vampiros do hospital não contam. vamos ter que viajar de dia e de noite. — disse Vicente. juntam um bando cem vezes maior que o nosso. Logo você? Você é muito pequeno. Não sei o que vim fazer aqui ou por que me meteram nessa roupa. Acho que com você é a primeira vez. Olhou fundo nos olhos do bento. Ele nunca errou nessas paradas de sonho. e pra reunir essa galera toda que fala a profecia do velho Bispo. Quando o bicho pegar quero ter do meu lado alguém que saiba fatiar vampiro. Eles são novos. Você precisa ver um vampiro da floresta. lógico. O que acontece é que ele sonha pela metade direto. Se você é especial vai ter que mostrar a que veio. O bento Francis tá fora numa missão e quando ele chegar vamos começar a arrumar as coisas para ir atrás dos outros.. 122 . — Então você é um irmão. — Você pode ter até razão. Se me chamar de bailarina de novo. de noite. meu. não vem com graça pro meu lado que você não me conhece. Só assim para dizerem que você é um bento.— No hospital. não pode nem piscar.. Fez um aceno com o queixo para que Lucas desembuchasse. ninguém vai botar fé. mesmo? Se sentiu o cheiro. Sonha pela metade. Nossa carne vale ouro. O que eu tô falando é coisa séria. Não sabem usar as armas que têm. Hoje é o meu primeiro dia do lado de fora. não é? — Não.

os rostos pareciam embaçados e os que se revelavam não sabia se eram fisionomias reais ou coadjuvantes emprestados pela imaginação. Odiava o trânsito. gostava da empresa. Apesar da breve passagem no meio do povo. O sol estava bem mais baixo e supôs aproximar-se das três da tarde. É tanta pergunta que a gente fica tonto. Ao longe viu o que parecia um rebanho de vacas movimentando-se. meu trabalho é furar quem chega. Depois do pôr-do-sol. estaria voltando do almoço. Recolocou a touca da cota de prata sobre a cabeça. de onde surgira anteriormente. Não sei brigar essa briga. Poderia estar dando uma volta no Parque Trianon ou mesmo estar passando pelo vão livre do Masp. A cabeça dizendo que ali era sua casa agora. Delicioso. Apesar do metrô a uma quadra do prédio. pacatas. Eu não tenho. Ao tentar lembrar-se do pessoal do escritório. esse parecia muito mais fraterno. Nada parecido com as movimentadas e congestionadas ruas de São Paulo. porém ininterrupto dos agricultores. se parasse na rua para cumprimentar desconhecidos. não preciso nem perguntar. Voltou para a face interior. Em São Paulo de sua época. mas vocês têm que me ensinar. Talvez a impressão viesse do fato de Lucas ser uma celebridade. contribuindo com o crescente volume de emissão de poluentes. O escritório ficava na Pamplona. Rostos felizes nas pessoas. Se eu sou um bento vim para somar. A rodovia não terminava! A alameda 123 . A uma hora dessas. Meu negócio é ficar nesse muro e ficar de olho em quem chega e em quem vai. Só podia ser o complexo do Hospital de São Vítor. — Aqui não tem professor. é melhor ficar longe dos muros. para alcançar outro corredor da muralha. Reparando no trabalho monótono. dos amigos. Debruçado sobre aquele muro. Voltou-se para o lado da cidade. se estivesse no trabalho. Tem nego que não tem. Por que era tão grande e cheio de médicos se as doenças haviam sido erradicadas com o advento da Noite Maldita? Sem doenças não precisariam de médicos! Voltou a olhar para a face desértica. O asfalto terminava justamente nos portões de São Vítor. Nada daquela nuvem cinza-amarronzada no horizonte. Isso também era outra diferença gritante. Lucas observou São Vítor mais uma vez. preferia dirigir o próprio carro. pois deixava para almoçar sempre um pouco mais tarde. Tudo estava diferente de fato. Apesar do estresse diário. É só essa lição que vou te ensinar. olhou para o céu. Espera outro bento chegar pra tu ficar na bota dele. Se for depois do pôr-do-sol. Tem nego que tem paciência. Lucas preferiu ficar ali onde estava. Ar puro. Sentimento estranho. velho. mas sabia que gostava muito do pessoal do trabalho. era capaz de ser tachado de louco.— Foi você quem me xingou primeiro. Viu um prédio imenso que passara despercebido em suas andanças com o alfaiate. Reparou na estrada que cortava a areia branca. Como reflexo dos pensamentos. Bento Vicente deu as costas para o novato e atravessou a parte coberta. eu não gosto de ficar pajeando recém-acordado. Lembrou-se da menção que Paulo fizera ao time dos vaqueiros. Qualquer lugar longe do bento Vicente seria melhor do que em sua companhia. passou mais de meia hora observando a paisagem.

Com os postos avançados podemos ver tudo que se mexe sobre a areia. — Lucas. Sabemos onde é. — Vocês pensam em tudo. — Dia de escala é sempre assim. E os adormecidos valem ouro para os sanguinolentos. pois luta contra os vampiros como ninguém. Lucas acompanhava interessado a explicação do soldado. apontando para o par de espigões negros que Lucas julgara serem duas árvores secas. Olharam pelo muro. Entendemos que ele é especial. da sua altura. Trabalho com Amaro. Um mediano. Lucas ia responder quando foram interrompidos por um burburinho vindo do portão. — Escala? — É. Havia um grupo de trinta pessoas mais ou menos. era rodovia. vendo Amaro descer pela escada. — A fortificação é intransponível? — Quê? Esses bastardos têm o estoque deles num lugar que não é fortificado. Toda terça-feira sai a escala semanal das torres. Arnaldo? 124 . Ele é assim com todo mundo. Vêm de todo canto. Já teve muita briga aqui em São Vítor? — Pô! Essa fortificação é um dos centros estratégicos dos sobreviventes. E mais duas na parte sul. Engenhoso. líder de um grupo de soldados daqui de São Vítor. — Meu nome é Carlos. Abrimos essa faixa de mil metros ao redor da fortificação toda. Duas desse lado. duro é ter de engolir essa arrogância. Quase todo dia chega um carregamento. Mais algum tempo passou até que dois homens se aproximassem. — Não ligue para o jeito idiota do bento Vicente. São trazidos para o hospital. e outro mais baixo e magro. Sorriu com a descoberta. É aqui que concentramos boa parte dos adormecidos. Mais duas no muro dois. Um homem surgiu ao final da escada e chamou Amaro. Satisfação em conhecê-lo. que aparentava cerca de sessenta anos e tinha os cabelos completamente grisalhos. — Tá vendo as torres? — perguntou. — Hã?! No HC? Na Dr.principal de São Vítor. por onde andara com o grupo do alfaiate e passara pela praça principal. de dia e de noite. Eles também caçam os adormecidos e têm um estoque como o nosso. — Temos seis no total. O mais baixo era o que estivera no muro e fora afastado por Vicente. na parte interior da fortificação. Sabe onde os desgraçados guardam os adormecidos? — Não tenho idéia. — Sou Amaro. Estavam com expressões de bons amigos e logo estenderam a mão para Lucas. — No antigo Hospital das Clínicas. destemido que só. — disse Carlos. mas é impossível de invadir. — explicou com a voz calma o líder Amaro.

— Cara. Piraram. Os que são bons no gatilho vão para as armas de longa distância. Tem noção de quantos prédios têm em São Paulo? Cada um deles tomado por trepadeiras e verdadeiros ninhos de vampiros. aliás. ironicamente. E esses mulos. O que aconteceu com os bichos? — Piraram. Graças a Deus estamos bem longe daquela tumba a céu aberto. É gente do mal. Quando vêm nossas motocicletas ou tropas aproximando-se. — Escravos de vampiros. abrem fogo sem dó. escravos. Eu já tive numa emboscada dessa. Quando cai a escuridão você só escapa por milagre. São Paulo virou um ninho de vampiros. Cê já parou pra se perguntar quantos cachorros viviam na Grande São Paulo naquela época? — Milhares? — Milhões. Deve ser que nem droga. tornaram-se selvagens. — É. Não tinha ninguém para cuidar deles e. Pegam bem no olho. — Mas. Eles viram snipers. Se você entra naquela arapuca. Como diria o bento Vicente. são doidos para virar vampiro. Os mulos ficam em posições estratégicas. As matilhas de cães urbanos. Mas de dia o HC é vigiado pelos mulos. deixaram para trás os cães. — Pode crer. Não dava para acreditar.. Esses são os venenosos.. As balas passavam zunindo. e se formos de dia? Não conseguimos acabar com eles. Comiam o que encontravam pela frente. — Mas de dia eles não atacam. não dá pra acreditar. Vampiros e loucos dominando as cidades. atacam tudo que se mexe. É medonho. manja aquele lance de sniper? Pois é. Eles querem mais é ver o circo pegar fogo. — O que pode ser pior que isso? — Quando as pessoas fugiram das cidades. Lucas balançou a cabeça. — Isso.. quando escurece tu não tem para onde escapar. — Meu.— É. E tem mais. Eles tomaram as ruas. 125 . todos ocupados por vampiros.. tu não sai mais. atacam? — Não. Dá pra acreditar num treco desses? Cê tem noção? Viver de tomar sangue de gente. mas tudo longe. Tu olha para aqueles arranha-céus. bento. organizaram-se em matilhas gigantescas. Vicia. Depois que a baderna começa. com sniper é sem chance. O lugar tá dominado. tentam acertar a gente só nas pernas. apesar de viverem nas cidades. fazendo surgir um novo tipo de flagelo ambulante. E a maioria dos mulos é um perigo porque a maioria deles foi banida de alguma fortificação por andar fora da conduta. A sorte é que a maioria é grossa na pontaria.

quando o combate parte para o corpo a corpo. A profecia falava trinta. se eu fosse te atualizar de tudo.. — É um trabalho ingrato. Depende da vontade dos vampiros. Já chegou a demorar mais de um ano. É tipo um ácido para os caras. Se não é em São Vítor é em Éden Novo. — Vampiro e bento são iguais a gato e cachorro. Aí vocês são as feras da guerra. — Sempre que sai a escala alguém discorda e vem ter com o chefe. ninguém quer ir para as torres. Tem hora que é pior topar com uma matilha de cães urbanos do que topar com os malditos. Tem que ficar de olho aberto. Nossos snipers tentam salvar o pessoal da torre que deu o alerta. cara. você pirava antes de sair daqui. Os bentos são nossa última defesa. Eles estão longe demais para a gente ajudar com eficiência. É por isso que tá essa confusão aí embaixo. Os vampiros têm o maior cagaço de bater de frente com vocês. Eles são ardilosos. De vocês nunca tomam o sangue. Lucas olhou pelo muro. Porque demora para acordar um bento. — Sério? — Sério. E toda vez que morre um bento. — De dia cães e mulos. a vila fica ruim por semanas. Uma verdadeira guerra. são poucos que escapam nessa situação. Você tá indo para o sacrifício. Vocês só param depois de mortos. Já era. — resmungou o soldado. A profecia cumpriu-se.. Nunca vi um bento bater em retirada. Conosco voam na jugular na hora. — E os bentos? Não ficam com medo? Não fogem da briga? — Como se vocês pudessem. com a comida e as pessoas rareando nos arredores. Ninguém. Você vigia os muros para a coletividade e quando vê o bando dos vampiros chegando tem que dar o sinal. cara. Que fauna! — Ih. vêm todo mundo pro muro. Tramam. o resto manda bala nos invasores.— Com o tempo. Graças a Deus você acordou. mas é raríssimo. Acabam com a dupla que tiver lá em cima. Pronto. os bichos começaram a atacar até mesmo os vampiros ou até mesmo as matilhas rivais. porque é ele que organiza a programação. cara. Sorte suas. Não sobra nem o pó. A noite são os vampiros que não dão descanso. Já vi nego aqui dando a vida no combate para que os bentos não levassem a pior. É foda. Demora meses. Todo dia tem ataque. E nunca chegávamos no número. é em Nova Luz. Agora é com vocês. bento. Amaro conversava com a delegação nervosa. Teve semana que surgiram dois. Quando recebemos o sinal disparamos o alarme. não da nossa. bento. 126 . São trinta bentos. É uma guerra. — É um trabalho de responsabilidade. É quase certeza que vão te apagar. os vampiros sabem que na torre tem gente e já era para quem está vigiando. É por isso que a gente tem medo quando os vampiros vêm em grande número. Se não é no Éden. Porque quando dá o sinal e dispara os foguetes. Vocês querem mais é ver o oco.

Por isso é melhor fazer um pouquinho por dia. eu não durmo direito. Serve para jogar na cabeça dos vampiros. Era um mundo cheio de sangue e batalhas. Você que tem que saber. Apesar de ser democrático. Desviou o assunto quando viu uma série de garrafas de vidro cheias de água empilhadas e amparadas num canto. particularmente. — Água que vocês benzem. vão para as torres. Explico: a gente não sabe quem vai estar vivo amanhã. Lucas entendeu o problema. ela fica fraca e vai ficando fraquinha até que não funciona mais. Procurava a torre de onde o sino retinia. Tem gente que é menos preocupada. não.Pouco a pouco. bento. A maioria vai para casa. Um sino soou repetidas vezes. tranca tudo e esconde-se debaixo da cama. ao notar que algumas das pessoas haviam parado os afazeres e passavam a andar apressadas. Você que é bento! Não eu. Com isso você fica três meses tensos. cedo ou tarde.. Todo mundo. Lucas sentia-se montando o quadro real do mundo em que se encontrava. ninguém quer substituir o cara. Carlos continuou. O planeta havia submergido novamente na idade das trevas. Então. seis meses tranqüilos e assim vamos tocando o barco. — O que é aquilo? — Água benta. Diante do silêncio do bento que andara até perto das garrafas. É o sino das cinco da tarde. — Quanta água um bento faz? — Por dia? Dá um barril de quarenta litros.. durante três meses você tá na lista e. Depois do bater do sino. tranca tudo e dorme em paz. Dá o maior azar puxar guarita no lugar de morto. claro. E o bento que força a água fica uns dias sem conseguir fazer. Anuncia que falta pouco para anoitecer. — O Amaro dividiu a vila em três grupos. acaba indo para a torre. passa o trimestre inteirinho sem ser agraciado. — Como é que eles fazem essa água? — Vou lá saber. conversa a conversa. — Por que o Amaro não prepara a lista do trimestre inteiro? — Porque já é arriscado pra caramba fazer com uma semana de antecipação. os cidadãos. Às vezes. Durmo bem 127 . Pena que vocês façam tão pouca água benta. estão liberados das tarefas. menos os soldados. Eles derretem que é uma beleza. sempre tem discussão quando sai a lista da semana. Esses três grupos correspondem a um rodízio trimestral. Quando alguém morre numa invasão. Lucas sorriu e recolocou a garrafa de água benta no lugar. — Onde vai ser a missa? — perguntou. Mulher só se for voluntária. Esse modelo é copiado na maioria das fortificações. mas pode ter certeza que no próximo turno do seu grupo você vai estar no topo da lista. — Não é missa. Se fizer mais. Lucas colocou as mãos em concha acima das sobrancelhas para diminuir a luz e melhorar a visão. menos as mulheres e os bentos.

flutuando feito capetas alados. olhando demoradamente para ambas as faces do muro. Lucas olhou para o horizonte. Quando você dá o tiro de prontidão. Tem que deixar as armas prontas pra mandar fogo. enquanto o outro vai preparando as bichonas. Não sei se é sorte ou azar. mas às vezes dá errado. bento. Começa as dezessete e trinta de um dia e termina as dezessete e trinta do dia seguinte. Passam dez. prontos para o combate final se tudo der errado. a maioria vai para lá. o camarada que caiu com você no sorteio é meio dorminhoco.. por vinte quatro horas. é raro. dá tempo da vila inteira preparar-se. 128 . Se não tem remédio. O problema é que a vigília é feita em dupla. Rojão de três tiros coloca os guardas de prontidão no muro. Você não sabe o que vai acontecer. Você vê aquele mar de olhos em brasa queimando o escuro da mata. Você está entre a cruz e a espada. Armam as fileiras no limiar da floresta. Até soldado já deu pra trás.. debaixo da cama. É difícil agradar a gregos e troianos. é a pior coisa do mundo. Os soldados nos muros e nos postos estratégicos e os cidadãos todos trancados. Querem tomar o controle do hospital por causa dos adormecidos. É um deus-nos-acuda. chegam aqui irritados. literalmente. Por conta dessas diferenças. passam cem. O sol caía rápido. Mesmo assim. porque aqui dentro fica todo mundo de sobreaviso. — E ao mesmo tempo em que o vigia salva a vida dos que estão na vila. os malditos ficam naquela pressão psicológica. A luz do dia ia mudando gradualmente. porque nunca passa um sozinho. Com o aviso do sino os reclamantes afastaram-se e deixaram livre o comandante. A nossa sorte é que os ataques desses vampiros são muito desorganizados. porque se fossem bem comandados. Amaro subiu as escadas. É feio. Seriam imbatíveis e tu teria acordado um dia desses dentro de uma caverna escura. — o líder Amaro fez uma pausa. coloca a própria em risco. filho. mas como aqui tem o hospital. — E quanto a vocês. Às vezes. soldados? — Sabemos contra o que estamos lutando. Como você mesmo disse. quando estamos lá na vigia e justamente no nosso turno vemos a mancha de olhos vermelhos chegando. salvo pelo gongo. — Carlos estava me explicando sobre o rodízio nas torres.. vou te contar. Rojão de seis tiros avisa que a mancha está indo para a cidade. dá um frio no espinhaço.depois que amanhece. Os homens reclamam muito dos parceiros. Já deixa também os fogos no esquema. não tem remédio. por que reclamam tanto? — A queixa não é tanto pela responsabilidade. ninguém ia tá aqui para contar a história. passam mil. Mas aí é que tem homem que vacila lá em cima. Às vezes. Aí um dos vigias fica olhando. não ajuda muito ou morre de medo. Esses veados nunca vão me pegar sem luta.. Depois do aviso é segurar o cano e rezar. mas vamos levando. Lucas e os soldados fitaram demoradamente a torre à esquerda. Quando eles passam o muro.

. debaixo do telhadinho. uma tortura psicológica. Quando soa o alarme já vem com o rifle e munição. Cruz eles não encostam. — Ela é que ajuda a deitar a maioria dos vampiros no areião. Lucas viu uma parede com duas dúzias de rifles pendurados. Apontou para o artefato. Uma arma maior chamou a atenção. Uma caixa com grande quantidade de pentes de munição prontos para uso. No tempo de vacas gordas. Cada soldado é responsável por sua arma.— Como eu disse. Vem ver. Quatro balas comuns.. Decapitá-los com uma lâmina de prata. os malditos fazem só uma pressão. prata. porque ele não está morto ainda. depois. uma de prata. prata. — Aqui. mas não tem 129 . Tiros de bala de prata também apavoram bem as feras. — É o nosso trunfo. levamos as outras para fortificações menos guarnecidas. Quando decidem atacar. às vezes. Mas logo que você arranca a cabeça dele tem que tomar cuidado com o corpo. Já era. talvez porque internamente eles sejam mais moles que a gente. — Como é que se mata um vampiro. Parecia uma metralhadora. a gente deixa o municiador inteiro com pontas de prata. Já assisti coisa que até Deus duvida. Como agora estamos na lei da sobrevivência e da solidariedade. não tem jeito. O cano de disparo tinha mais de um metro e meio. a gente garante daqui o pessoal da vigia. recua e some na escuridão. Mantenha-se longe das garras do vampiro decapitado. alho e estaca? — Estaca no peito funciona. — A mancha fica na beira da floresta e depois de minutos. mas quando os noturnos são muitos. mas elas não surtem o mesmo efeito que em nós. — Essa é nossa "deita-corno". Temos três em São Vítor. matam os vigias. Uma metralhadora ponto sessenta. As balas são só banhadas no metal. Mas. — E aquela história de cruz. vão passar pela torre e em retaliação ao aviso dado. Por alguma razão. fica o armamento extra. — Mas se não morrem. Uma vez ou outra. como vocês fazem? — Tem algumas formas de destruí-los. às vezes. aquelas lendas que ouvíamos. Lucas sorriu. — continuou o líder de voz mansa. — continuou o líder veterano.. até água benta se for necessário. É como na lenda mesmo. tem que decapitar com espada de prata porque se alguém tira a estaca do peito do bicho ele acorda de novo. chumbo. O bicho tá acabado.. Um arregaço. nem ela basta.? — Vampiros não morrem. Derruba até avião. danam bem menos os safados. No período de vacas magras os municiadores são intercalados. horas. humanos. Temos que dividir tudo. não carece de ser maciço em prata. Eram dezessete. Usamos balas que se fragmentam quando entram no corpo dos malditos. são destruídos. Mas. pode ser fatal. chumbo. ferimentos feitos com a prata no corpo do vampiro não cicatrizam. Lucas seguiu o líder até a cobertura sobre a muralha. — convidou Amaro.

medo, não. Alho não funciona. Não bebem é sangue de bento. Parece que é ácido para eles. O melhor remédio mesmo é o sol. A profecia diz que quando os trinta bentos se juntarem, vamos vencer os malditos. Acho que vamos ter sol dia e noite ou melhor, dia e dia. Deve ser isso. Lucas mirou o horizonte. Uma assombrosa quantidade de pássaros voava em grupos distintos, embelezando o disco rubro que se escondia atrás das árvores. O céu estava vermelho e carregado de nuvens que refletiam ainda mais lindamente a luz minguante. Emocionou-se com a força da natureza. Não se lembrava ter visto pôr-do-sol mais belo em toda sua vida. Contudo, um misto de confusão e ansiedade não o deixava aproveitar o cenário. Era a primeira vez que via o sol mergulhando no horizonte e a noite começando a chegar. Nem mesmo a variedade de aves passando, a visão de grupos imensos de tucanos, garças e mais um sortimento impressionante de aves aplacavam aquela sensação de desalento. Estaria ele aos pés do bento Vicente? Seria mesmo ele um salvador? Difícil de acreditar.

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Capítulo 19
Mal o sol caiu no horizonte deixando um rastro de luz vermelho arroxeada, a temperatura começou a baixar. O vento de morno passou a frio. Lucas ficou contente por estar dentro daquela roupa quente. Podia ver, de tempos em tempos, o bento Vicente na outra seção da muralha, que chamavam de muro dois, com permanente cara de poucos amigos e jeito nervoso. Lucas fixou o olhar no areião. Tinha visto, cinco minutos atrás, dois homens chegarem na torre da parte esquerda, quase simultaneamente com a dupla que se conduziu para a torre da direita. A guarda rendida encontrava-se agora a caminho da cidade fortificada. Vinham caminhando rapidamente, decididos, em menos de dez minutos estariam dentro de São Vítor. Amaro e Carlos estavam ao lado do bento e pareciam calmos, sentados em banquetas pequenas, peças rústicas feitas de duas partes de madeira, semelhantes a uma letra "T". Um terceiro soldado veio do muro dois com uma tocha acesa e começou a acender outras tochas espetadas em lanças altas acima do muro. Lucas voltou-se para a cidade e viu o ritual sendo repetido nas residências distantes do muro e notou luz em algumas ruas. — No hospital havia luz elétrica. Não usam aqui? — A gente usa luz onde é mais necessário. Temos um holofote no topo da cobertura, que serve aos dois muros, mas não usamos muito. A luz é reservada para o hospital, para a escola, para o refeitório e para o quartel. Atendemos alguns pedidos especiais. Perto da fortificação, subindo o rio, mantemos uma pequena barragem onde geramos energia, mas não seria o suficiente para a vila toda. — explicou o líder Amaro. Neste instante, alguns soldados começaram a aparecer pela boca da escada. Estavam sorridentes e aproximaram-se em silêncio. — Sou Matias, líder do terceiro grupo de São Vítor. Vim assim que pude para conhecer o novo bento. — apresentou-se o homem simpático, de olhos puxados e traços indígenas. Matias não era muito alto, mas bastante forte, como a maioria dos soldados que Lucas tinha observado. Ao menos, confortava saber que lutaria ao lado de homens bem-feitos e que, certamente, seriam habilidosos em combate. Mais dois líderes apresentaram-se. Um mulato chamado Willian e um oriental apresentado como Chen. Todos foram simpáticos e mostraram-se contentes em finalmente verem desperto o trigésimo bento e de descobrirem, de uma vez por todas, até onde ia a veracidade da profecia. De acordo com as histórias proclamadas pelo velho Bispo, de agora em diante, os vampiros estariam com os dias contados. A conversa continuou animada. Os soldados explicavam para o incrédulo bento como eram os vampiros e tentavam imbuir-lhe de coragem, dizendo artimanhas e pontos

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fracos para derrubar o maior número de feras possível. O clima descontraído por parte dos soldados só foi quebrado quando ouviram o estalar de um rojão de tiro único. Como cães de caça, em um segundo estavam todos juntos ao muro, olhando em direção à floresta. Lucas olhava para a torre de onde viera o disparo, vendo a fumaça de pólvora desfazer-se no ar. — Um só, bento sortudo. Ainda não era hora de mostrar a que veio. — bradou a voz forte de Vicente, vinda do muro dois. Lucas espantou-se mais com a possibilidade de ouvir tão bem Vicente, mesmo estando ele tão longe, do que propriamente com a mensagem carregada de maldade. — Finalmente. — disse Amaro, debruçando-se sobre o muro e sinalizando para os soldados que haviam descido correndo. — O quê? — quis saber o bento novo. — Um tiro só diz que o vigia está vendo gente nossa chegando. É a patrulha de Társio. Já não era sem tempo. Willian já estava organizando o grupo para sair atrás do Társio. — explicou Carlos. Não demorou muito para que o rugido das motos enchesse o ar. Amaro fez novo sinal para os soldados postados ao lado do grande portão. Os homens começaram a girar uma roda de ferro que estendia um cabo de aço que, por sua vez, tracionava o portão. A imensa peça de madeira e ferro começou a deslizar, deixando o asfalto livre para quem quisesse entrar. Notou que os soldados em cima do muro estavam tensos e seguravam as armas de prontidão. Até mesmo um deles preparava a potente metralhadora, baixando uma portinhola de madeira debaixo da cobertura. Dessa forma, o cano da metralhadora tinha na sua frente todo o deserto branco sob a mira. Olhando para a estrada, o bento viu o surgimento de luzes de faróis. Um comboio com mais de quinze motocicletas aproximava-se em alta velocidade. Duas vinham um tanto mais para trás, mesmo assim desenvolvendo mais que oitenta quilômetros por hora. Lucas não tinha calculado, mas desde que apontaram saindo da floresta, até cruzarem os portões, não havia se passado um minuto. Carlos conversou rapidamente com Amaro e retornou para o lado de Lucas. — Vamos até o quartel. Você vai ser apresentado ao bento Francis. Lucas engoliu a seco. A última apresentação a um bento não havia sido uma boa experiência. Não sabia o que o futuro lhe guardava, mas sabia que se aceitasse aquela missão, se aceitasse aquela realidade, deveria travar bom relacionamento com os bentos. Chegando ao prédio vigiado, retangular e cinzento, passaram pelo portão principal, que dava imediatamente na garagem. As motos estavam desligadas e as unidades mais próximas ao portão irradiavam calor, indicando que pertenciam ao comboio recém-chegado. Numa delas, uma

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Harley, vinha atrelada a um carrinho de eixo duplo e cercado de madeira. Dentro dele, em cima de um cobertor velho, viram um homem maltrapilho, desacordado. Carlos empurrou uma porta dupla de vaivém e conduziu Lucas pelo corredor. Os soldados que cruzavam com o novo guerreiro cumprimentavam com a cabeça. Alguns, mais animados, demonstrando simpatia, outros meramente formais, dando pouca atenção. Mais uma porta de vaivém e chegaram a um novo salão tão amplo quanto a garagem da entrada. Vários soldados conversavam e riam alto, mas a figura que capturou a atenção de Lucas foi a do homem que trazia uma armadura prateada, semelhante à sua, no peito. Diferindo de seu traje, no outro não existia a capa vermelha, nem mesmo desbotada como estava a de Vicente, e também não havia a touca. Quando o homem de peito prateado viu Lucas também parou com a conversa. Abriu um sorriso largo, de dentes bem cuidados e brilhantes, e caminhou decidido com a mão enluvada estendida para Lucas. — Então você é o tal? O trigésimo bento? Que satisfação! — Esse é o bento Francis. — juntou Carlos. Lucas não poderia ter melhor recepção por parte de um semelhante. Teve uma boa impressão a respeito daquele sujeito. Não era um brutamontes como Vicente, nem malhumorado. Apesar desse bom sentimento, mais uma vez ficou intimidado pelo vigor físico demonstrado pelos veteranos. Lucas sentia-se raquítico, doente. Talvez, por isso, alguns dos soldados olhassem enviesado para sua figura franzina, pensava. Todos, sem exceções, pareciam bem mais fortes que ele. Depois do cumprimento de mão, bento Francis emendou um abraço fraterno no recémdesperto, fazendo seus peitos de metal baterem um contra o outro. — Qual é o seu nome? — perguntou, afastando o trigésimo do peito. — Lucas. — Lucas. — repetiu o bento, olhando firme nos olhos do novo bento e colocando as mãos nos ombros do rapaz. — Seja bem-vindo. O novo bento ficou mudo. — Com sua chegada, tudo muda. Esta noite, que seria comum como outra, ganha importância histórica. Vamos falar com Vicente mais tarde, temos muitos preparativos para realizar. Amanhã, ao amanhecer, partiremos em nossa missão profetizada. Temos agora que reunir os trinta abençoados para que tenha início a salvação de nossa terra. — Não sei se estou preparado... — A preparação é na raça, nenhum bento tem escolha. Antigamente, antes das universidades, os engenheiros, médicos, mecânicos se faziam na prática. Ninguém chega preparado para esse mundo, Lucas. Você será um bento prático. Vai aprender a dominar sua força. Medo não existe, acredite em mim... essa é nossa sina. Bater com os vampiros até a morte,

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a mente fica leve e vazia de temores, você fica selado na espada e a única coisa que interessa é arrancar cabeças de malditos noturnos, esquivar dos ataques e arrancar mais cabeças de vampiros, exatamente nessa ordem. — Não sei se sou o tal salvador... Os soldados presentes a essa altura já haviam rodeado os dois guerreiros. Francis colocou as mãos nos ombros de Lucas mais uma vez. — Você é nosso salvador. Você é o trigésimo bento. Isso nunca aconteceu antes, então é você, não tem erro. Está escrito na sua testa: "Eu sou o cara". Você é o salvador, não duvide disso. — Diga isso para o seu amigo grandalhão, o Vicente. — Nosso amigo grandalhão, Lucas. Nosso. — destacou Francis, rindo ao final da afirmação, mantendo as mãos nos ombros de Lucas. — Vicente tem aquele jeito mas não pode fugir de nossa sina. Pode até não querer participar, mas quando chegam os vampiros, não tem jeito. Vicente tem muito para te ensinar, já matou mais vampiros que qualquer outro bento. Temos uma contagem para incentivar. Um score. Aquele grandalhão carrancudo já abateu mais de seiscentos vampiros nesses anos. É um Pelé da espada. Lucas sorriu. — Fique tranqüilo. Todos nós vamos te ajudar. Só precisamos reunir os outros. Os soldados juntaram-se a Francis em exclamações coletivas de incentivo. A vida de todos estava em jogo. — Estou indo ao hospital agora. Encontramos um ex-morador de São Vítor no caminho para cá, na beira da estrada. Eu não lembrava do sujeito, mas um dos soldados o reconheceu. Parece que foi mandado embora porque roubava coisas das casas dos outros moradores, isso não é tolerado por aqui... mas como está desacordado, e parece que vinha buscar ajuda em São Vítor, para mim não é correto largar um moribundo na estrada. Fiz votos para tratar os necessitados, não posso negar o que vai no meu caráter. Deve ter passado fome e estar desacordado de fraqueza. Por que não vem comigo? Assim conversamos mais. Lucas atendeu prontamente e, juntos, mais Carlos, seguiram para o pátio de entrada do quartel. É claro que estava curioso em conhecer mais daquele mundo ao lado daquele que diziam ser seu semelhante. Mas o que logo veio a cabeça de Lucas foram um par de olhos verdeacinzentados e lábios largos e sensuais. Talvez tivesse sorte de encontrar com a sua linda doutora Ana. Francis pediu que Carlos conduzisse a motocicleta com a carroceria até o HGSV, enquanto caminhava ao lado do novato. No trajeto que levou quinze minutos de caminhada pelas ruas mal iluminadas por luz que escapavam das frestas de algumas janelas ou por tochas chamejantes espalhadas

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aleatoriamente, Francis explicou que sete anos depois da Noite Maldita ter desencadeado os fatos ele despertou num pequeno hospital na região de Cabo Frio, Rio de Janeiro. Naquela época, os sobreviventes já viviam em pequenos povoados fortificados que começavam a montar-se em São Vítor, a dias de viagem dali. Pouco sabia-se sobre os bentos, mas já existiam seis. Os homens viravam lendas vivas por conta de atos destemidos e combates memoráveis contra as investidas vampíricas em suas vilas. Logo Francis ganhou fama igual e da germinal São Vítor chegou uma mensagem. Estavam reunindo os bentos em São Vítor e era imprescindível que estivesse lá em poucos dias. Explicou que foi nessa ocasião que o velho Bispo também começara a ganhar fama por conta de suas previsões certeiras e por conta do esboço da profecia. Começava a acender esperança entre os sobreviventes. Francis falava pausadamente e, muitas vezes, parava para olhar nos olhos do novato e passar algo com mais emoção ou então ajeitar os bigodes finos e bem aparados, que pareciam dois triângulos com as bases unidas abaixo das narinas do homem de pele morena. Francis revelou também que foi em São Vítor que começou a lembrar-se de sua vida passada. Parecia que o destino estava colocando-o no lugar certo. Participar da organização do Hospital Geral foi fundamental para reavivar sua memória. Francis tinha sido médico do Hospital das Clínicas, na São Paulo viva. Com o passar de mais alguns meses, lembrava-se quase de tudo. Explicou para Lucas que não deveria ter pressa em recuperar a memória. Era como mágica. Você está amarrando uma pamonha, quando de repente, záz! Vai voltando tudo. O bento veterano explicou também que, em pouco tempo, Lucas poderia ter acesso ao seu prontuário no HGSV Alguns adormecidos contavam com essa vantagem, graças a um trabalho heróico desenvolvido por uma gangue de motoqueiros, que vivia próxima à distante Osasco. O relato curioso e vivo de alguém que presenciou e protagonizou passagens sombrias e cruciais na recente história humana foi cortado quando chegaram ao hospital. Contrastando com as ruas escuras o salão era bem iluminado por lâmpadas fluorescentes c o ambiente dotado de limpeza e harmonia exemplar. Lucas viu o homem desacordado deitado numa maca. Carlos apontou para Francis quando entraram. Uma moça de roupas coloridas deu a volta no balcão e começou a fazer perguntas. Precisava saber onde tinham encontrado o homem, em que condições, nome, coisa que ninguém sabia. Francis explicou o que pôde e disse que, pela manhã, deveriam chamar o pessoal mais velho da vila para reconhecer o ex-morador e, inclusive, fazer chegar ao conhecimento do líder Amaro o exato porquê daquele homem ter sido expulso da fortificação. Disse inclusive que o homem deveria ficar sob vigilância de um guarda o tempo todo, até que o conselho decidisse o que seria feito dele após a recuperação. Francis destacou Carlos para a vigília inicial. O soldado pareceu contrafeito a princípio, pois estava escalado para o muro e não tinha falado com ninguém sobre ficar no hospital escoltando um maluco achado na estrada. Francis disse que precisava resolver coisas com Lucas e que, assim

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que retornasse ao quartel, pediria para alguém vir imediatamente substituí-lo. Carlos resmungou qualquer coisa e acabaram chegando num acordo. Quando um enfermeiro levou a maca para dentro, Carlos desapareceu pelo corredor, seguindo a maca. Não deveria desgrudar os olhos do paciente. Francis virou-se para Lucas. — Vem. Vou te mostrar o depósito. — Depósito? — É. O lugar onde guardamos os adormecidos. Lucas aquiesceu. Acompanhou por intermináveis corredores o novo companheiro. Alguns trechos menos iluminados que outros. Logo estavam em corredores cobertos do chão ao teto pelos conhecidos azulejos brancos. Um elevador. Lucas ouviu a máquina funcionar e sentiu uma leve brisa escapar pela fresta central da porta. Quase um minuto até que a luz do carro surgisse do outro lado da porta. Entraram. O novo bento notou que no painel havia oito botões. Sensação de dejavu. Oito número diferentes... estranho. Não havia oito andares no prédio. Francis apertou o último abaixo. A máquina começou A descer, pareceu acelerar. O elevador era largo e fundo. O suficiente para carregar duas macas. Parou abruptamente, forçando a flexão dos joelhos do homem surpreso. As portas abriram. Ao invés de um caminho livre, uma nova porta de metal. Um painel com um visor de cristal líquido. Francis digitou rapidamente no painel numérico. Um alarme rápido e seco soou. A porta deslizou de cima para baixo. Lucas seguiu o parceiro. As botas estalavam contra um piso metálico. — Cuidado! — avisou Francis. — Qualquer coisa, segure no corrimão. Lucas não entendeu a advertência, de toda forma andou com mais cautela. Esperava uma escada perigosa ou uma descida íngreme. Nada disso encontrou. Via só uma luz fraca quinze metros adiante e um vento forte cortante vindo dos pés, que parecia atravessar o piso metálico. — Aqui é o depósito. Todos os adormecidos recolhidos nessa região são trazidos para cá, para centralizarmos a operação. Como você mesmo viu, não é só gente normal e bentos que despertam do sono. Tem também os malditos. Mesmo desorientados e fracos pelo acordar recente, são bem perigosos... se conseguirem tomar a primeira dose de sangue, então. Chegaram no fraco ponto de luz. Francis girou um botão. Lucas ouviu um zumbido demorado, como de um flash carregando e, de repente, as luzes começaram a acender. Lucas agarrou-se ao corrimão como aconselhara o amigo. Sentiu uma vertigem inesperada. Estavam numa passarela metálica suspensa no topo de um imenso vão. Não podia mensurar a distância até o chão porque a vista não alcançava. Na sua frente, distante uns dez metros da passarela suspensa, um piso repleto de macas e sobre cada uma delas um corpo coberto por um lençol branco, deixando apenas a cabeça descoberta. Eram tantos! Não podia contar e estava olhando

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para um andar apenas! O piso repleto de macas repetia-se à sua direita e sua esquerda. Só não existia acesso na parede terminada no elevador, que era lisa até onde a vista alcançava. — Quantos andares? — Sessenta andares subterrâneos. — Sessenta?! — Sessenta. Aqui vocês são hidratados e monitorados. Capacidade de mil e seiscentos adormecidos por andar. Até o vigésimo subsolo todos estão em macas. Dali para baixo todos estão em cima de colchonetes produzidos aqui mesmo. Somos responsáveis por oitenta e três mil vidas humanas aqui. Tem muito, muito mais gente aí fora ou em poder dos malditos. — São mortos pelos vampiros? — Mortos? Você não tem noção... Os adormecidos tratados pelos vampiros são até melhor preservados do que aqui. — Cê tá brincando? — Nada. Os adormecidos são fonte de sangue inesgotável aos malditos. Sangue vivo. Credo. — Francis fez um sinal da cruz sobre o peito metálico. — Nossa! Tem mais gente aqui embaixo do que lá em cima. — Tem. Lucas olhou para o teto. Grandes hélices giravam lentamente provocando a corrente de ar. — Mantemos um eficiente sistema de ventilação que garante oxigênio abundante dia e noite.. — Nossa... é impressionante. — murmurou o novato, debruçado sobre a grade e olhando para as intermináveis fileiras de corpos deitados. — Com não morrem? — Ninguém sabe. Ninguém nem quer mais pesquisar. Com certeza está ligado ao fato de não adoecermos mais. Ninguém morre de gripe, de câncer ou derrame. Os corpos definham um pouco, mas você vai ver, logo vai ganhar força como nós, seus músculos voltarão à forma antiga ou até melhor. Os adormecidos não têm escaras, feridas que se formam em razão da imobilidade. Não sofrem infecções hospitalares, não têm infarto, falência múltipla, nada. Só morrem se for por falta de oxigênio. De fome só morrem os despertos. Por isso, contamos com um avançado sistema de vigilância. Luxo destinado ao subsolo apenas, pois não temos abundância em energia elétrica. Usamos câmeras com visão noturna que trafegam em trilhos fixos no teto de cada andar. Voluntários também cuidam da patrulha diária para monitorar esse exército de gente em estado de hibernação. Ao menor sinal de movimento, vêm os enfermeiros remover os recém-acordados para cima. — É impressionante. — Você ainda não viu nada, Lucas. É impossível absorver todas as novidades no primeiro dia. Você vai ficar com essa cara de espanto por mais uns seis meses ainda. Estou até estudando

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Estou até tonto. Esse espanto não pára. em que condições. É muita coisa. agendas. — balbuciou Lucas. documentos. Temos que chamar um guarda para render o Carlos. Lucas sorriu e apressou o passo para acompanhar o veterano. Uma vez a cada dois meses. eram montadas tropas para escoltar os adormecidos que tinham família até as fortificações onde seus parentes deveriam residir. Estavam a meio caminho do quartel quando ouviram em alto e bom som três explosões repetidas. com os olhos demonstrando surpresa. E o pior é acordar e saber que você é o cara que tem que pôr um ponto final nessa desgraça. Vai ser um "Nossa!" atrás do outro. Todos se sentem perdidos. Quero que os vampiros acabem. Diziam onde foram encontrados. achava difícil que alguém realmente sentisse falta daquela vida. muita informação. contendo fotografias. Francis explicou mais alguma coisa a respeito do estoque..com o conselho formar uma espécie de cartilha para o recém-desperto estudar. Todos os adormecidos possuíam um prontuário anexo à maca e uma etiqueta no dedão. Dali para frente deveriam se arranjar com o pessoal da cidade destino. Tinham direito a uma tentativa. meu amigo. DVDs. Em instantes voltaram para as ruas mal iluminadas.. — Rojão de três tiros. Em muitos casos. sem os dentes deles. as pessoas conseguiam reencontrar a família. Lucas. Lucas balançou a cabeça anuindo. — Vampiros! — bradou Francis. Ele tem que voltar para o muro. mas sim um histórico a respeito do paciente. CDs com arquivos de programas.. — Nem tudo é desgraça nessa nova vida. Em cerca de seis minutos estavam fora do hospital. Alguns desses prontuários eram mais recheados. Estacaram. o possível endereço residencial e informações de onde estavam os familiares. A escala não pode ser quebrada. Esses prontuários "bônus" eram conseguidos por gangues fora das muralhas. Tinha esfriado bastante. — Vamos. Nossa vida vai bem assim. sem os confortos de outrora. coisas que poderiam ser úteis para a memória do recém-desperto. — Põe perdido nisso. começando uma corrida em direção ao muro. Talvez eu sinta até saudades quando esse inferno todo passar. Os prontuários tinham quase nada de informações médicas. 138 . — Nossa! — Falei. mas. Lucas ergueu os olhos para o céu. como corpos no IML. Tem muita coisa boa acontecendo também. pessoalmente. só isso. como a mencionada anteriormente pelo bento veterano.. Já tinha escurecido completamente e o firmamento encheu gloriosamente a visão do novato.

Feijão. A torre. remexeu a mochila. O almoço do dia seguinte seria trazido por alguma boa alma pela manhã. Feijão também tirou da mochila duas marmitas. Ivan. A prática fazia com que os vinte metros de altura não intimidassem mais os homens. E a alegria só veio a esquentar um pouquinho o coração da mulher quando o filho. A nova dupla sempre chegava quando sol já estava tocando a mata. era montada no alto de um corpulento tronco de jequitibá. bem estreita. Dentro dos refratários o jantar da dupla. uma moranga de barro para a água fresca e uma rústica peça de ferro fundido. também foi até a mochila. Cida. Dela retirou a munição. mas de uma cidade muito a noroeste de Cuiabá. corpulento. O posto era relativamente espaçoso. pouco papo e muita reza. pois os muros do lado sul eram mais baixos. Retirou embornais com frutas. Ivan compadecera-se da mulher que tinha perdido uma criança para o lado das trevas. um mato-grossense. A dupla rendida descia rapidamente a escada vertical de madeira. cabendo os dois homens de plantão. as primeiras horas na torre eram tensas. Um com mangas rosas e outro trazendo um bom tanto de jabuticabas negras e roliças como o horteiro e algumas mexericas cheirosas. Introspectivo. caladão. terminada na extremidade superior por uma caixinha ventilada. Olhou para o canto onde o equipamento de trabalho na torre jazia. gozava de boa fama com os amigos de trabalho.O horteiro Feijão e o mecânico Ivan tinham chegado ao pé da torre esquerda religiosamente às dezessete e trinta. sua esposa. costumava falar somente quando lhe perguntavam. viera também do Mato Grosso. Eram burros os vampiros. Ou iam em direção ao muro um ou corriam para o muro dois. Voltou-se para o braseiro e reavivou as chamas. o outro ficava sentado no chão de tábuas. Balas não faltariam. mesmo assim. mesmo assim. Tinha à disposição uma potente luneta. Enquanto um descansava sobre um colchão fino. Feijão sequer lembrava de ter ouvido falar de morte nas torres sul. era tido como pessoa agradável e gentil. Ela acordara doze anos atrás. os vampiros idiotas preferiam esse caminho. Um menino de nove anos tornara-se vampiro na grande mudança. de um metro de altura. Traziam uma mochila com mantimentos para as vinte e quatro horas de vigília. atento. Ivan tinha casado ali mesmo em São Vítor. Uma boca fechada faz muitos amigos. Cida e o filho caçula adormeceram naquela maldita noite. Primeiro passaria um café do jeito que gostava. no entanto eram desprezados pelas criaturas. o 139 . onde tentavam manter brasas acessas para a feitura do café ou qualquer coisa quente para ingerir. pensava ele. Dificilmente também atacavam as duas ao mesmo tempo. Ser vigia da torre três ou da quatro despertava alívio. Os últimos dias haviam transcorrido com relativa calma nos postos de observação. em pouco menos de uma hora já seria noite fechada e os vampiros poderiam atacar a qualquer momento. Por último puxou um potinho com pó de café. Por razões desconhecidas. feita uma casa na árvore. fazendo quase divisa com Rondônia. Dois rifles e duas dúzias de municiadores cheios. habilidoso mecânico que fora acolhido em São Vítor junto com o pai e a mãe há dez anos. Pior ainda era essa sensação para as duplas que cuidavam das torres um e dois. Os malditos sempre vinham pela um ou pela dois.

matava o tempo limpando os rifles. Como não era muito de conversa. O cruzeiro de tochas no areião tinha sido aceso pela dupla rendida. esse cuidado durante a noite não convinha. O negro parecia ter retomado parcialmente o controle. uma vez que os malditos vampiros possuíam olhos que ardiam feito brasas quando se preparavam para o ataque. Não demorou muito até entender que não conseguiria mais viver sem aquelas duas pessoas em sua vida e o casamento veio como conseqüência natural. Ivan. Esses bichos eram assassinos empoleirados. tentar lograr os soldados e invadir o hospital de São Vítor. Ivan sentiu o sangue esfriar nas veias. mas que de macaco não tinha nada. desanuviando. acordou do sono inexplicável. repetia a tarefa três vezes durante a espera. O coração disparou e um suor frio brotou na testa. Fazia parte do seu "fazer hora". colocou a caneca de ferro esmaltado e de pintura gasta pelo uso em cima de um banquinho à sua direita. Eram quatro latões cheios de óleo que queimavam e emitiam uma luz flamejante que dançava e variava de alcance de acordo com o vento. Existia uma espécie de varanda que contornava a torre quase que inteira. os olhos treinados na tarefa detectavam até mesmo um único par de olhos chamejantes correndo pelos galhos. Mas a luz das tochas acabava muito antes da floresta. sentado no chão de tábua. Olhou para a torre dois. Por hora. Espalhou um produto de cheiro forte num paninho velho e começou a limpeza superficial da arma. procurando um momento de distração ou de fraqueza da cidade para. bastava um lustro para começar a matar o tempo. A caneca não parava quieta. O cruzeiro da dois também ardia e permitia boa visão do areião. Era impossível não vê-los. Deixaria para desmontá-los depois do amanhecer. mais uma vez. trezentos metros à frente. o que não chegava exatamente a ser um problema para o trabalho. Feijão estendeu um copo com café fumegante para o vizinho. Muitas vezes. Feijão olhava pela estreita janela de vigilância. O beiço proeminente do camarada subia e descia sem controle. com respingos do líquido preto indo ao chão. Esfregava a coronha da arma para tirar a gordura aderida pelo contato com os parceiros menos prendados. Feijão também era uma figura quieta e dava-se bem com o parceiro de cabelos ruivos e pele sardenta. Tinha estado no movimento monótono de vaivém com o pano por um bom tempo. quando seus olhos bateram de relance na caneca do amigo negro. viu-se contagiado pela felicidade da mulher. mas depois do pôr-do-sol a porta de acesso à área interna ficava sempre fechada. Às vezes. posto que só a caneca 140 . Não no plantão deles! Não podia ser! Engoliu a seco e trocou um olhar com Feijão. Desmontava e limpava minuciosamente. Era seu equipamento de limpeza. que havia consolado por conversas seguidas o coração de Cida. Feijão estava tremendo dos pés à cabeça.caçula. que terminava de checar as armas. Olhou para a floresta. Como tinha que ficar vinte e quatro horas enfurnado na torre. Ivan tirou da mochila um estojo de madeira. Ivan. A luz minguava rapidamente. Colocou-se de joelhos e espiou pela janela. Sentia-se bem ao lado dela e do filho caçula. investir contra os muros. feito macaco esperto.

Nunca vi tanto vampiro. — Santo Deus! Faz o que tem que fazer. e melhora para o nosso lado também. Os olhos não paravam. Umas saltavam ao chão. O crucifixo dançava de lá para cá denunciando o tremor da arma. Feijão. Se a gente dá o aviso antes pelo menos a vila tem alguma chance. O número de brasas crescendo. Nunca tinham visto tantos vampiros. irmão. O coração batia acelerado e agora os olhos estavam fixos na mancha. — É agora. — pediu Ivan. Sentiu o característico embrulho no estômago que antecedia o combate. o crescente movimento dos malditos na mata adiante. O alerta estava dado. meu Deus. a floresta em frente a torre um parecia estar em chamas. mas ciente do dever. Dispara logo essa merda! Ai. acompanhando. Feijão.chacoalhava. Enquanto ouvia o pavio consumir-se. Ivan. senhor? — Calma. Mais um minuto que pareceu levar um ano. Retirou a corrente com um crucifixo do pescoço e enroscou na ponta do cano da arma. Três disparos. O horteiro tirou os olhos escancarados da janela e fixou-os em Ivan. Estremeceu quando ouviu a explosão do disparo seguida de três explosões. — Eles vão acabar com a gente. — pediu Ivan. — Deus do céu! Cuida do meu filho e da minha mulher. — Nunca vi tanto vampiro. Pode ser que eles se vão. — O que a gente faz. ainda trêmulo. Pares de brasas rubras dançavam inquietas entre os galhos das árvores.. O alvoroço começou no muro. Feijão. arregalados. Ivan recolheu o rifle rapidamente.. homem. voltando os olhos para a floresta. Feijão apanhou seu rifle também. apanhou o rojão de três tiros. Pai do céu! Nós estamos fritos! — praguejou o mecânico. mas larga na horizontal. — Eles vão invadir. porque vão começar a atirar neles antes de alcançarem a torre. Espera. Estava pronto para o uso. derrubando o café pelo assoalho. Os olhos negros do horteiro refletiam a floresta envolta em chamas espectrais. Ivan já tinha deixado o equipamento no jeito. que já procurava a trava no teto do cômodo para disparar o alarme. colocando o cano do rifle através da janela. Feijão espetou uma brasa do braseiro e levou até o pavio do rojão. Voltou a colocar o cano do rifle através da janela estreita em altura. Ivan. Retirou do saco na parede o rojão de seis tiros. segurando o braço do parceiro. Em poucos segundos. Vampiros. — balbuciou Feijão. — Espera. os olhos não desgrudavam da floresta. Vicente ergueu os olhos para o céu. o número dobrou e. irmão. no final de um minuto. Não precisava 141 . outras pareciam voar. Feijão engoliu saliva. fazendo o sinal da cruz.

A argumentação foi quebrada quando ouviram seis tiros espocando. Isso faz parte de nosso ritual de iniciação. — A profecia diz que você vai salvar o mundo dos vampiros. — Hora da verdade. De saber se aquele magricela realmente era quem diziam ser. bento Francis apanhou uma motocicleta. 142 . disse que sim. — Eu não sei lutar contra vampiros. rindo no final. que se aproximou com sua capa desbotada esvoaçando. Mais um minuto até que todos estivessem em posição.gritar ordens. Francis colocou-se de joelho e começou a orar. Lucas. desorientado. Enquanto saltava da moto. Vicente já tinha deixado o muro e procurava pelo bento novato. Era o aviso final. mocinha. Os líderes de tropa é que comandavam os homens. — Rojão de seis tiros. Vicente aproximou-se de Lucas e agarrou-lhe brutamente o rosto pelo queixo. Foi arrastado até o meio de duas toras de árvore enterradas na areia. — A profecia diz que você é especial. — Não se preocupe. — Se fosse para o seu mal eu não estaria fazendo isso. todos sabiam mecanicamente o que tinham de fazer. Lucas viu os braços agarrados pelos bentos. Lucas teve um braço agarrado por Vicente. Lucas vinha na garupa. enquanto via os pulsos serem atados em algemas de ferro. — Eu não posso lutar assim. mas depois de tantos anos de confronto. Estava preso. Grossas correntes davam a volta nos troncos de madeira e agora terminavam em seus punhos. — respondeu o novato a Vicente. Não se passaram três minutos até que um caminhão parasse perto do muro e de lá descessem os guardas extras de muralha. Snipers nas posições mais altas e dois soldados montando a metralhadora "deita-corno". Ao passarem em frente ao quartel. — juntou Francis. Lucas! Hoje é seu dia de sorte! Lembra o que isso significa? — Significa que eles estão vindo. bento. — O que é isso? — Relaxa. Você não confia em mim? Lucas. Pararam bem antes do muro. Agora era a hora da verdade. Como queriam que lutasse assim? — Não posso lutar assim! — bradou Lucas. — Um bento de verdade pode! — respondeu Vicente. Lucas! — gritou Francis. É uma brincadeira entre iguais. Se você é especial vai tirar esse batizado de letra. Então vai ter que nos mostrar porquê. Vocês têm que me ensinar! — Pára de chorar. Uma espécie de prova final.

Ouvia os gritos dos soldados e das feras. refletindo a chama das tochas ao redor. Um brilho no céu. Os tons mais claros tornaram-se amarelados. por causa da luz bruxuleante emanada pelas tochas nos muros e nas casas. desapareceu. Vampiros duma figa! Tudo culpa deles! Por que tinham que estar ali? Tinha arrancado a cabeça de Gabriel. escapando da touca de prata. enchendo todo o peito e depois soltando o ar lentamente. Aquele fedor horrendo tomando as narinas. Francis parecia começar também a sentir a aproximação dos vampiros. Quando começar a ouvir a artilharia pesada do muro é porque eles estão por perto. Maldição! 143 . de costas para Lucas. Lucas fechou os olhos e o céu amarelo. — Se prepara. Duas flechas cravadas no peito. eles estão chegando! Vicente fez um sinal da cruz e desembainhou a espada. O fedor horrível que Gabriel exalava no hospital. Aposto que você não agüenta nem erguer essa espada. Os olhos acompanhando os homens do muro que gesticulavam. Lucas dobrou os joelhos e também grunhiu. Para sua sorte esses noturnos são rápidos. — E se eu não for o tal? Como vou me salvar. A escuridão mudou. Um suor frio descendo da testa. Queria sair dali. fazendo sinais. Os ouvidos captando as explosões sucessivas. Os olhos ardendo como se pegassem fogo. Um soldado caiu do muro para a parte interna da fortificação.— Todo mundo fala que você vai dar um jeito nesse inferno. Lucas abaixou a cabeça. andando em direção ao muro. Aí vamos nos engalfinhar e só vamos parar quando todos estiverem mortos. — E vocês. Ia fazer o mesmo com aqueles desgraçados! Deu um puxão na corrente. Os guinchos e grunhidos das feras. Vicente afastou-se. Era como se tivesse perdendo os sentidos. preso nessas algemas? — Se você não é o tal por que deveria se salvar? Se a profecia for uma farsa. Francis terminou a oração e ficou de pé. Dor de cabeça. Lucas passou a respirar pesado. Chacoalhou as correntes. Lucas. Sorriu para o bento agitado. mas o cérebro do novato não queria ouvi-lo. é melhor que você seja morto pelos vampiros para pagar a derrota do povo. Francis estava falando alguma coisa para Vicente. O muro todo começou a atirar. — São os snipers. Quero só ver. Eles ou nós. O cheiro. quando vão ajudar? — Só quando os vampiros cruzarem o portão e o cheiro dos malditos seqüestrar nossa sanidade. O bento veterano deu alguns passos para frente. Lucas. Os tiros espocando. Se os snipers pararem de atirar é porque os caras das torres já eram. Tinha colocado as tripas do homem para fora. Estava sentindo aquele maldito cheiro. Sentiu os olhos arderem. erguendo as armas. Disparos esparsos eram ouvidos do muro. Francis olhou para trás. O peito de prata luzia.

tentando. sumindo pela abertura. saber mesmo. A cabeça pálida de uma vampira demoníaca surgiu pela fresta. O peito queimava. Todas as portas travadas. alcançando o topo sem entrar na sua mira. O corpo de Feijão parecia vivo de tanto que chacoalhavam as tábuas da escotilha do chão. Tampou a escotilha do chão. Ivan notou que as criaturas estavam muito perto. Por precaução Ivan tinha descido a proteção de madeira da janela estreita. rodeando a pequena casa da árvore. Recostou-se no fundo da guarita. Os malditos não usavam necessariamente a escada e muitos escalavam enfiando as unhas no tronco do jequitibá. Ia morrer! O terceiro vampiro. Puxou a caixa de municiadores para perto. Vinham rápido. Enxugou o suor da testa. caído no chão. morreriam definitivamente com a chegada da manhã. Novo disparo. Uma pilha de corpos de vampiros jazia imóvel no areião. Recolocou um pente no fuzil. isso fazia com que não se levantassem mais e. em vão. O coração quase parava quando a munição acabava e perdia segundos preciosos na substituição do cartucho vazio pelo carregado. A zoada no telhado só crescia e as batidas 144 . impedir a aproximação das criaturas. Quando a munição terminou pela enésima vez. que a passagem para o outro mundo seria em questão de minutos. se não fossem salvos pelos amigos de presas longas e arrastados para as tocas. Tinha ouvido ainda meia dúzia de flechas baterem na tábua. Feijão estava imóvel. Os olhos vermelhos brilharam enchendo a guarita daquela luz maldita. Se ao menos Feijão pudesse ajudar. Ouviu pancadas no teto da guarita. Um homem. A arma vacilou. A preocupação estampada no rosto. Disparou algumas vezes contra o telhado de madeira. praticamente sem ar. A dedo do homem tremeu.Ivan não parava de atirar. Uma menina. Aquilo só servia para atiçar ainda mais a sede daqueles malditos. O sangue cruzava as tábuas e escorria pelos sulcos entre as madeiras. tentando descascar a proteção do humano. Respiração entrecortada. Era mais fácil acertar aqueles que tentavam subir do que se preocupar com os que já tinham conseguido e agora saltavam no telhado e no corredor da vigia distribuindo unhadas contra as tábuas. Era duro confrontar a morte e saber. vítima de enfarto. Ivan superou o bloqueio momentâneo e fez o topo do crânio da menina desaparecer. com uma flecha atravessada na garganta. Os malditos estavam lá em cima. Ossos ensangüentados cravaram-se na parede oposta. Estavam batendo no teto e na porta de acesso à varanda de observação. Estava com escotilha da escada aberta e metia bala para baixo. Por baixo não iriam entrar. Ivan ergueu a arma e a cápsula explodiu. Ivan gritou desesperado dessa vez. Com os rostos voltados para cima. Não estava fácil. encarando Ivan. como marimbondos rodeando a colméia. A cabeça da maldita se desfez em pedaços. talvez até de segundos. O mecânico procurava enfiar a bala de prata bem no meio dos olhos das criaturas. Uma criança. quase forçando o homem a disparar novamente. Arrastou o pesado corpo de Feijão para cima dela. Atirava e rezava. O negro sem vida rolou. com as bocas escancaradas e sorrisos malditos contrastando contra as presas pontiagudas. que servia de torre. Parecia a um instante de cair. Três segundos e outra criatura tomou o lugar da primeira. Dessa vez o corpo da criatura demorou a cair.

Dor infernal! Ivan puxou o gatilho na direção do que vinha pela porta. Fumaça saía do ferimento aberto no pescoço do vampiro. Ergueu o fuzil na direção do vampiro resistente que entrava pela porta lateral. ferindo a cabeça ao batê-la contra o teto. quando puxava outra vez o gatilho. anunciando seu final. Nenhuma explosão. não para recarregar. sendo arrancada lentamente pela criatura. Um vampiro entrou pela porta lateral. Perderia a consciência. não porque quisesse. Sem chance de eles entrarem por ali. mas para retirar a correntinha com o crucifixo do cano quente do fuzil. que tinha entrado por baixo do abrigo. Outra cabeça. Uma nova cabeça pálida e peçonhenta surgiu pelo buraco da escada. atingindo o inimigo repetidas vezes. Fechou os olhos. Quando achou que desmaiaria de dor. O ar faltando no peito. pois foi agarrado e erguido pelo pescoço. Os vampiros franziram o cenho e fixaram o olhar no bravo sentinela. O sangue abandonava o corpo com 145 . buscando explicação. mas mataria o maior número possível de noturnos. A cabeça latejando e o sofrimento causado pela flecha aumentando terrivelmente. a sentinela inspirou fundo. E com razão. Era estranho demais. O sangue brotando do pescoço ferido pelas garras afiadas da criatura que penetravam sua carne. o agressor chegou a afrouxar a garra e soltar Ivan no chão. De tanto estranhamento. A explosão de dor atrapalhou a visão. Ainda conseguiu atingir o novo vampiro que entrava pelo buraco debaixo. Ia morrer. atravessado seus ossos. Ivan não errou o disparo. No instante seguinte. Ivan apertou o crucifixo. O vampiro forte que lhe mantinha preso pelo pescoço exibia-lhe os dentes. prendendo-o à parede. mas as batidas no teto tinham parado e parecia ser isso que os vampiros estranhavam. Disparou.contra a porta lateral da guarita aumentavam. A haste da flecha rompida ainda estava cravada no tórax. A dor aumentando. Uma flecha tinha perfurado sua carne. mas o vampiro não caiu. que grunhia enraivecido e injetava-lhe um olhar amedrontador. Mais um tiro. A mão inimiga apertando ainda mais a traquéia. mandando oxigênio para a circulação. vindos da muralha. pois não havia mais tempo. O vampiro. O humano percebeu que o barulho do lado de fora tinha cessado. como corpos caindo. Mal teve tempo de desenroscar a peça a segurá-la contra a palma da mão. Ouvia os tiros ao longe. Os vampiros tentavam escutar algo. notou que os malditos estavam estáticos. Ivan fechou os olhos seguidas vezes. Um novo vampiro surgiu pelo buraco da escotilha e um segundo pela porta lateral. uma dor lancinante no peito. mas faltava-lhe forças para manter-se acordado. Deitou-se. fazendo-o tombar bem na porta. Ivan gritou. Ao cair. Ivan puxou a arma. embebedando-se do aroma hipnótico do sangue fresco derramado. Nenhum deles mexia-se. com a cabeça para fora. Os olhos dos vampiros iam daqui para ali. A casa da árvore estava tomada por vampiros enlouquecidos pelo cheiro do sangue. Ouviram seguidos baques. quase na base do pescoço. Ivan mantinha os olhos fixos no buraco. Entendia agora. Mais um entrava pelo buraco do chão. A flechada tinha provocado uma ferida fatal. lambia o sangue de Feijão. Pareciam esperar alguma coisa. derrubando o braseiro. grunhindo e erguendo as narinas. asfixia. Um estalo seco. A porta lateral voou para dentro da guarita.

como aqueles usados pela marinha. Alguma coisa anormal estava acontecendo. estando o grandalhão mais próximo do muro. Ouviu mais três baques. Desviou o olhar da espada e olhou para o chão. Era sempre assim. Também segurava e espada e a balançava com ansiedade. Para ele era como estar a bordo de um carrinho da montanha-russa e aquela era a hora em que o carrinho desprendia-se do cabo do elevador e entrava no trilho para o primeiro mergulho. Dependia daquele confronto colocarem em prática a seqüência do plano. Teria sido questão de poucos minutos. Os soldados eram bravos e derrubavam um bom número de criaturas.rapidez. Guardou a arma cortante na bainha e olhou para os braços feridos. Sentiu o suor brotar na testa. logo os malditos ganhariam os muros de São Vítor. Os foguetes sinalizadores subiam até quase perder de vista. O combate avizinhava-se. Corpos indo ao chão. Sabia que. pelo volume de gritos e movimentos. Logo os malditos estariam pulando o muro e seria a vez dos bentos baterem com as espadas.. Nem Dante desenharia cenário igual. Instantes atrás. A luz amarelada do céu tinha desaparecido. fedorento e podre.. O trigésimo bento não estava mais lá! As correntes balançavam soltas diante dos olhos espantados dos dois veteranos. Francis. Francis estranhou mais. Francis via Vicente poucos metros na sua frente. Reunir os trinta bentos. O que via agora eram pontos de luz vermelha. Não podia ser! Lucas parou retomando o controle sobre a respiração e sobre o próprio corpo. banhando de luz o deserto e permitindo maior sucesso contra as criaturas. estavam tão agitados e gritaram tantas vezes que a mancha era gigante. O bento estava parado. depois desciam vagarosamente. O cheiro das criaturas era inconfundível. agora que a haste de fibra de carbono repousava na mão de seu algoz. Era formidável assistir o trabalho do muro. Buscou os olhos de Vicente. Sinalizadores. O odor intensificando-se. descendo lentamente do céu. Frio na barriga. Uma mancha vermelha movimentando-se na guarita. Os tiros explodindo. Cada um tinha uma reação. Ergueu a mão com o crucifixo pendurado para o santo salvador. dessa vez. Francis conhecia esse ritual. mas. As 146 . incandescentes.. Ivan forçou a visão uma última vez antes de mergulhar nas trevas. Fatiariam os invasores e lutariam com gana. Estava frio. Saberiam enfim porque a profecia dizia que Lucas seria especial em combate. Depois veio uma explosão de vivas e festa por parte dos soldados. Os tiros reduziram. Os disparos foram diminuindo de intensidade.. — Bento. — murmurou ao desmaiar. seus olhos encheram-se de uma visão que só poderia ser a do próprio inferno. Muitas vezes os soldados conseguiam impedir a passagem dos malditos sem a interferência dos bentos. Francis controlou a respiração. com os olhos esbugalhados em direção aos pilares onde Lucas fora acorrentado. mesmo os malditos usando a velocidade sobrenatural da qual eram dotados. Fato estranho. lentamente virou a cabeça. Mais três disparos de sinalizador para o céu. de costas para o muro. Olhou enojado para a espada suja de sangue negro.

Salvando a 147 . Lembrava-se de subir aquela escada vertical. Os vampiros gritando. Tinha que tomar cuidado com as cápsulas espalhadas pelo chão. balançando como pêndulos. Aos seus pés. O velho Bispo estava certo.. Sua capa esvoaçando. O trigésimo bento chegaria ao mundo para acabar com os vampiros. mas sentia-se bem. podia ver um homem com capa vermelha. Não tinha bem certeza do que tinha feito. Lucas ainda conservava um ar de embaraço.. Ele é o cara. oportunamente. tirou a espada da bainha e traçou o primeiro arco no ar. Nunca tinham visto aquilo. cercado por corpos decapitados amontoados. Deitados no areião deveria existir mais de dois mil corpos. trazendo um corpo sobre o ombro direito. — juntou outro. belíssima. Ao cruzar o portão. Lembravase do momento. dando um tapinha no ombro do guerreiro incrédulo. Francis chegou ao topo do muro um. Ivan foi prontamente socorrido e levado com vida pelo caminhão até o hospital. que também chegara ao muro.argolas da algema ainda estavam presas em seus punhos e. Estivera de fato no areião. incrédulo. A cabeça gritante rolou para cima e tombou na areia. Colocou as mãos na borda da muralha e olhou para o areião. de ambas. Pedaços de corpos caindo. um bento. Francis trocou mais um olhar silencioso com Vicente.. assistindo o bento aproximar-se pela areia. perdido no meio da situação. Os soldados nunca tinham visto nada igual. tinha abandonado o céu. seriam recarregadas. o corpo moribundo de um sentinela agonizante. Lucas foi recebido com vivas e muita excitação. Via-se parando no topo da casa da árvore. Lucas tinha acabado com metade do exército que viera com carga total.. Imagens ocupavam sua cabeça. O bento estava tonto. O metal silvou e perpassou o pescoço de uma das criaturas. Aquele mundo onde doenças não existiam estava livre de infecções. Tinham que agir rápido se quisessem salvar o pobre homem. — Ele é o cara. Sentia-se muito bem. Queria salvar o soldado e vampiro nenhum impediria isso. investido de puro ódio. bento Francis. Segundo os soldados. E já tinha começado bem. que assumira uma estranha coloração amarelada. As luzes vermelhas dos sinalizadores desciam sobre um mar de corpos de vampiros aniquilados. Mataria todos aqueles fedorentos. pedaços das correntes que lhe aprisionaram momentos atrás pendiam com seus elos encadeados. de madeira. Bastava estancar o sangue e repor o volume perdido. De subir destroçando o que encontrava pela frente. o novato. A meio quilômetro dali. — Eu parei de atirar só para assistir. inflamações e tormentos que acompanhavam ferimentos daquela proporção. A escuridão. Os homens do muro ficaram estáticos. — disse um dos soldados.

Largando-o no areião. Ossos e restos de vampiro batendo contra seu peito de prata. querem nos pegar. — Quando amanhecer. suficiente para passar um homem por vez. Depois de entregar a sentinela para os soldados. Lucas voltou para o portão. Não restam dúvidas. moribundos. enquanto descia a espada no pescoço de uma vampira. protegendo o agressor. — O sol vai dar cabo desses corpos fedorentos. Aparava mais golpes. cercado pelos homens que lhe rendiam exclamações de surpresa e imediata devoção. Mexeu o braço. Contragolpe. por que não estamos daquele jeito. Opressores vendo-se oprimidos.. Sabia exatamente qual caminho traçar com a lâmina. Mais soldados passaram pelos bentos. já protegido na fortificação. Respirava fundo. — Sei que quando estão assim. Onde estavam. A capa vermelha dançando. Girava e a capa vermelha voava. — Se ainda existem alguns vivos. concentrando-os junto ao muro. Uma ferida muito pequena para quem havia enfrentado e vencido um exército de demônios. que sofregamente levantou a mão tentando evitar o golpe. como se fosse algo que brotara na palma de sua mão. no meio dos soldados. Outros soldados também se adiantaram e puxavam pelas pernas alguns dos corpos. rasgando carne pálida. separando as cabeças dos vampiros que ainda se mexiam. A maioria. Francis abriu um sorriso. Viram pó. Uma espada em seu braço. Dentes cerrados.sentinela. poucos dos vampiros estavam decapitados.. que agonizava. A articulação funcionava bem. havia caído vítima das balas dos exímios atiradores de muralha. Atravessou novamente a pequena abertura. removendo cabeças do lugar. — respondeu Francis.. já era. Precisão. quando era o mais rápido. Alguns atiravam flechas. confundindo o inimigo. Lucas olhou para o braço atingido. sentia um frio na barriga. Corpos tombando. Olhos injetados. — tornou Francis. Desespero nos olhos das criaturas. Fio afiado. Fúria. Nessa hora. Descendo com o homem nos ombros.. Medo. Os homens puxavam os corpos espalhados. A maioria dos vampiros parecia congelada no tempo e ele. não ficamos descontrolados. — Você é especial. 148 . batendo contra a malha de metal. Viu Vicente e Francis a vinte metros de distância. uma extensão que fizesse parte de seu corpo. Fúria. — Então? O que achou? Lucas encolheu os ombros sem dizer nada. Lembrava-se de ser melhor e mais rápido. cercado. Manejava a espada como se a tivesse usado a vida toda. Doía próximo ao cotovelo. — explicou Vicente. A medalha de São Jorge sacudindo no peito. Aparava um golpe com a espada. Estavam calados. como saindo de um transe. Nesses momentos. Andavam entre os corpos. Mas basta começarem a atacar. Sabia como deslizar sobre o osso. feroz. — Não sei. Lucas alcançou os bentos. Destruição. Abaixava-se e levava pernas e joelhos. parecendo malucos? — perguntou Lucas. Vampiros vindo de todos os lados. Enchia o peito. Certeza.

pronto! Parece que o cão atiça a cabeça da gente e viramos marionetes assassinas de vampiro. Eram como as brasas que queimavam os olhos dos malditos noturnos. Sinistro. Viram Lucas olhar para os lados. um par de braços brancos e de veias roxas levantou-se do amontoado de corpos. Lucas franziu a testa com repugnância. quando deram as costas. Mas. — Sairemos ao amanhecer. Vicente tirava a espada do peito de um vampiro e abria-lhe um talho na barriga. revestido por uma película brilhosa. Grandão. Trocaram um olhar demorado. — Você acha que com ele conseguimos invadir o Hospital das Clínicas? — Com ele conseguiremos invadir até a casa do capeta. Contudo. ameaçador. nem no céu nem no inferno. Lucas recuou dois passos. misturou-se com a areia. Ele vai ser a peça chave da luta contra os vampiros. não ficamos loucos. Sabemos que estão por perto. Vicente espetou essa bolha negra e um líquido espesso. Lucas tinha desaparecido diante de seus olhos e ressurgia duzentos metros a frente. se um deles pensar em levantar o dedo para nos pegar.. você vai ter que dar o braço a torcer. Era assustador. Num piscar de olhos. — Sangue podre. removia um vampiro decapitado de cima de um grupo que ele havia atacado. vi isso na minha vida. colocando uma flecha no arco que trazia. — Nunca. 149 . Um vampiro vivo e armando o ataque! Bento Vicente e Francis pararam com o trabalho quando ouviram o grunhido escapando da boca de Lucas. bento. a tempo de evitar que a flecha armada por um maldito fosse disparada contra os trabalhadores. Esse cara é o presente de Natal que estava faltando. Olhou para o grupo de soldados que. A profecia diz que agora é hora de juntar os trinta bentos. A espada zuniu com tamanha agressividade que a cabeça do vampiro subiu dez metros antes de cair ao chão. com cautela. Vicente grunhiu qualquer coisa inaudível. grunhindo como uma fera da escuridão. A profecia não tem erro. — É. Estáticos e espantados viram os olhos do trigésimo bento mudar de cor. O vampiro era um homem gordo e da ferida escapou um bolo negro e mal cheiroso. mas em vez de vermelho maléfico. e duas vezes mais fedorento. — murmurou o soldado. Se os vampiros não atacam. — comunicou Francis.— É isso mesmo. um tanto contrariado. — completou Vicente. Vicente. os olhos emanavam uma luminosidade amarela viva. Mas essa história de HC é melhor deixar para mais tarde. Retiraram outro corpo e. — murmurou Vicente. Sentimos o cheiro.. as estranhezas não terminaram. enojado. Quando o corpo do vampiro desfaleceu sobre a pilha viram os olhos amarelos apagarem-se lentamente.

contente com a perfeita execução da segunda fase de seu plano. Todos pagariam. não haveria volta. Seria imortal também. Amaro pagaria. Seria uma criatura da noite também. Talvez já tivessem dado por seu sumiço no hospital. Fosse a hora que fosse. mesmo driblando o guarda do muro. Aquele punhado de sangue lhe compraria a eternidade. mas. O líquido ainda estava morno. Enquanto não ouvisse a explosão. Tinha sido expulso de São Vítor por culpa de um mal-entendido. agora daria o troco. um cidadão a mais perambulando no areião não chamaria tanto a atenção das sentinelas. chegasse perto de seu leito. O velho não tinha dado trabalho. BUMMM! Poderia ouvir o barulho a quilômetros de distância. depois das oito da manhã. seria erigido um barracão para ferramentas ou qualquer tipo de depósito. por ser noite. desejando tornar-se invisível. Seria o vilão que todos achavam que era. pediriam uma patrulha comum. onde. sabia que as coisas estavam dentro do controle e poderia esperar pelo amanhecer para tentar escapar com maior naturalidade. procurando um doente enlouquecido. Retirou do saco de pano.Capítulo 20 O mais difícil tinha sido esperar a desatenção do guarda do muro para embrenhar-se num amontoado de caibros e tábuas de madeira. quando desse pela falta do homem. o pote de vidro. contudo não sabiam exatamente quem ele era. Sabiam que ele era um degredado. dificilmente passaria despercebido no areião. andando de lá para cá. A sentinela da torre. quando quase todos na vila já estariam metidos com seus afazeres. Os malditos soldados não demorariam dois minutos para ligar seu sumiço à explosão na casa do velho. A vila de São Vítor lhe pagaria. Ainda ouvia os disparos na muralha um. Recostou-se ainda mais na madeira. pronto. o assassino retornou o pote ao saco de pano. Depois desse alarme. oportunamente não fora identificado. futuramente. teria de transpor o muro e cruzar o areião. O coração batia rápido. pelo que tinha entendido nos diálogos que tinha escutado. Torcia para que a casa não explodisse antes do raiar do sol. O vampiro tinha lhe prometido a conversão. Morrera sem dar um pio. Daria razão às línguas e julgamentos daqueles cidadãos. por estarem sob ataque de vampiros. Com alguma sorte. Tinha plantado um explosivo com detector de aproximação no quarto do velho. Assim que algum curioso. Sorrindo. poderia até mesmo matá-lo antes que conseguisse esconder-se na floresta. Caso dessem por sua falta. pois. 150 .

— alertou Francis.. distante do muro. Lucas voltou a debruçar-se e olhar para baixo. puxando o ombro de Lucas para trás. Ficamos mais ariscos. Subiram a escada interna da muralha. se no meio da mata. Lucas sentiu um cutucão no ombro. pedindo para que os malditos cruzem nosso caminho. Não entendia bem por que não estava enlouquecido naquele instante. Três grupos de cinco soldados caminhavam pelo areião. uma extensa chapa metálica.. Lembrava-se do homemaranha.. os soldados puxando as chapas. afastaram-se cem metros do muro um. — Você já vai ver.. Quando estão vindo contra as muralhas. em razão do ângulo da incidência da luz. eles também nos vêem e vêm pra cima. Virou a cabeça e viu bento Francis. a muralha de doze metros de altura produzia uma extensa sombra sobre o areião. Francis apontou para o pé do muro. mas conseguimos nos controlar. mas podemos raciocinar.. os soldados ergueram as chapas metálicas. No entanto. Era fétida e densa. Caminharam pelo corredor de manobras. cada um dos grupos arrastando atrás de si.. sai da frente! Ninguém segura a gente. — Por que o cheiro deles queimando não tira a gente do sério? — Como estávamos explicando à noite. nervosos. na escuridão. porém a fumaça fazia os olhos arderem e nada podia ver. que deveriam medir dez metros de largura por dois de altura.Capítulo 21 A vermelhidão no horizonte denunciava a chegada do sol. 151 . a luz do sol tocava o topo das árvores e avançava. protegendo o amontoado de corpos de vampiros ao seu pé. — O que é aquilo? — perguntou Lucas. — É mais ou menos como um "sentido aranha". Uma fumaça branca subiu e foi levada para o alto pelo vento. atado por cordas. Limparam a areia de cima das peças. Se cruzarmos no meio da floresta com um deles. O sol ganhou altura e os benéficos raios de luz cruzaram acima da muralha. Em poucos minutos. O cheiro era o mesmo que o tirava do sério quando os vampiros aproximavam-se. o disco amarelo levantar-se-ia trazendo luz ao novo dia. — Venha. Veja o que acontece quando chega o sol. Francis riu. sentimos o cheiro. Na face oposta da cidade. Mas. fazendo com que a luz fosse refletida para o pé do muro. só saímos do sério quando eles querem nos atacar. Estivera calado por mais de meia hora. Assim que a luz do sol tocou a areia. Lucas debruçou-se e vislumbrou o amontoado de corpos de vampiros decapitados. Fora da cidade. — Afaste-se.

Soldados preparando armas. virou-se para o novato. — Quantos soldados vão conosco? — Dez. Só não podemos perder muito mais tempo. Serão muitas horas de viagem e muitos dias se passarão até que os trinta bentos estejam juntos. 152 . no entanto. — Você sabe montar? — perguntou Francis. Amaro está preparando nossos cavalos. Os vampiros tinham praticamente virado pó. — respondeu. — Já é hora! — bradou o fortão. Francis pareceu avaliar o número. Depois de um breve momento. Uma pilha de estátuas ressequidas. Lucas. Sentia apenas um pouco de fome. Ao chegarem ao quartel. nada de motos. — Não me lembro. Vai ter que lembrar. Ao que pôde perceber contariam com a escolta de vários soldados. — Tudo bem. — Vai ter que lembrar. Depois de um longo hiato. anuiu. Temos que juntar os nossos amigos. nada muito urgente. que está falando com Társio. como se os músculos não se cansassem da carga constante do traje e do fato de estar alerta há mais de vinte e quatro horas.— Deve ser. Talvez o descanso acumulado de trinta anos causasse agora uma in-sônia permanente. Havia bastante movimentação. essa montanha horrorosa vira areia. Quero descobrir de uma vez por todas que raios de milagres são esses que nos libertarão dos malditos. Cada hora perdida nos põe longe da vitória. bento Vicente e sua capa vermelha desbotada estavam no pátio. Não podemos nos deter muito mais tempo. — Vamos embora. lembrando o formato de braços e pernas esqueléticos. Não podemos mais perder tempo. Os soldados vão nas monta-rias também. Mochilas sendo carregadas com alimento. a fumaça dissolveu-se e então Lucas conseguiu enxergar a rés do muro. — Estou aguardando Adriano. Depois de alguns minutos. Lucas não havia dormido aquela noite. Lucas. Francis ficou com o olhar perdido no horizonte por um instante. — Assim que bater um vento mais forte. — explicou o companheiro. contudo sentia-se muito disposto.

Falava a verdade. Unidos no propósito de lutar contra aquela raça maligna. A natureza poderosa recuperava cada vez mais seu lugar de direito. facilmente confundida com negro. Ainda sorria quando um barulho surdo e distante chegou aos ouvidos. 153 . O soldado parecia não ser alguém muito instruído. Sem o homem destruindo tudo. O jeito simples do homem falar fez Lucas refletir. A palavra "mundo" ganhava um novo significado em sua cabeça. — São Vítor! — exclamou Francis. Os animais também tinham se agitado. — Esta terra tá linda demais. Parece que a gente só fazia maltratar esta natureza que nos cerca. parece que o mundo está até mais feliz. Como estariam os outros países? Todos viveriam assim? Entocados. os três bentos. Algo como uma explosão vinda de muito longe. Escondidos durante a escuridão. Pelagem marrom escura. empurrado pelo vento. Bento Vicente segurava a rédea do cavalo. — Vamos voltar? — perguntou Adriano. espalhando vida e beleza pelos quatro cantos do mundo. Os animais tinham quase a mesma cor. com árvores garbosas espalhadas aqui e ali pelo terreno coberto por um tapete verde de tirar o fôlego. chegavam ao topo de um aclive. Olhou para a paisagem que se estendia morro abaixo. Um segundo depois. tingindo o céu em multicores. ouviu a reação dos animais. Pararam na beira do morro. — Nossa! — exclamou Lucas. Tentou colocá-la em seu dedo recoberto pela grossa luva. O verde espalhava-se e tomava os rincões. Essa palavra fez Lucas suspirar. andando para frente e para trás. Em seguida adentraram uma planície imensa. Olhou para os outros dois bentos e depois para os soldados. Um bando de pombos brancos veio em sua direção. impressionado com a beleza do lugar. O planeta parecia feliz pelo fato do homem ter reduzido seus domínios. fazendo Lucas curvar-se sobre o torso do tordilho. Era como se a floresta morro abaixo ganhasse vida. reduzido sua agressão. — acrescentou o soldado que vinha ao seu lado. Avançando montados em cavalos tordilhos. acompanhados por um grupo de dez soldados. Lucas puxou a rédea de sua montaria e fez o cavalo dar meia-volta. Estavam silenciosos. empertigados. Como estariam os outros lugares? Os lugares que nunca tinha estado. Mundo. O inseto passou para a mão do bento por breves segundos e retomou vôo. Animais belos. bento Lucas. — O senhor ainda não viu nada.Capítulo 22 Três horas depois de terem deixado a fortificação de São Vítor. Lucas fez uma pausa nos pensamentos e abriu um sorriso quando uma grande borboleta pousou na crina de seu cavalo. Pelas suas costas ouviu o galopar dos bentos e dos soldados voltando. com medo de ser atingido. sua saúde de direito. mas era sincero. Bandos de pássaros em revoada deixavam a copa das árvores. tentando mantê-lo parado.

O sol radiante produzia um brilho encantador sobre a água. Mas era um soldado. atendia pelo nome de Raul. olhava para o horizonte. Não sabiam o que ele queria dizer. Vicente. como de costume nas última horas. com o azul assustador do céu. — O Bispo me preveniu. Lucas foi o último a descer do tordilho. Carina. Percebeu que os soldados que chamavam de Paraná e Joel descarregavam parte dos cavalos. Os soldados retiraram os calçados e lavavam os pés no lago. Um fio de fumaça subia ao encontro das nuvens. antes de disparar em perseguição ao grupo. mas. Os homens apearam. Nossa primeira distração. no máximo. Uma hora dessas estaria voltando para Nova Luz. O tal Joel era um rapaz negro. Temos que unir os trintas bentos. Isto já é o começo. Mais um amigo juntou-se a eles. magro e bem mais jovem. Lucas continuou a corrida. Não estava em seus planos estar ali. com o número de pássaros piando nas matas e o tanto de bichos cruzando o caminho. aproximando-se da manada em disparada. Adriano enxugou o cavanhaque amarelo com o braço. Não podemos voltar. encaixou-se na sela e encontrou equilíbrio. pareciam discutir um assunto tenso. Seu lugar era a estrada e as 154 . Tinha lá seus afazeres. em disparada. pegando o bento novato desprevenido. Um homem. Lucas agarrou-se às rédeas. — Lutar contra o que não existia? Que merda isso quer dizer? — perguntou o bento mais truculento. Francis e Vicente conversavam. Achava que deveriam voltar. exalava vigor e juventude. Vamos continuar. Só sei que temos de ser velozes. ficou encantado com a paisagem. dominando o animal. os trinta guerreiros. Ao que pôde entender. Vicente ficara para trás. provavelmente assustadas com a aproximação dos cavaleiros. Lucas. o comboio parou na beira de um lago. Não era dono de seu destino. levando notícias de volta ao lar. este tinha as feições de índio. Bento Vicente aproximou-se de Lucas e golpeou a anca do cavalo. Voltando para sua mulher. que apesar da feição madura. Às onze da manhã. que disparou sobre o gramado. Não sei. Fitou demoradamente o lago. prendendo-o junto aos outros. estavam preparando um acampamento. Só assim a vitória contra o mal prevalecerá. Os soldados acompanharam o cavaleiro em seu galope. ondulando somente sob os pés nervosos dos animais silvestres. Os soldados olharam para Francis. Um enorme bando de capivaras correndo na margem. Um líder de pelotão. para surpresa do veterano. Vinte e dois. — Não sei. muito forte.— Não. vinte e quatro anos. Faltava muito para acostumar-se com a paleta do mundo novo. com a pele morena e cabelos escorridos. Francis bateu com a rédea nas ancas de seu cavalo e disparou. na f a i x a dos quarenta anos. Lucas demorou um instante com os olhos na paisagem. Que lutaríamos contra o que não existia antes. Paraná era alto e. igualmente a bento Vicente. Logo um soldado aproximou-se tomou a rédea do animal. Disse que seriam muitas as armadilhas no caminho. O bento. São Vítor corria perigo.

Alvos ambulantes. arriscando o pescoço por um grupo de esquisitos que andavam para lá e para cá com capas vermelhas. ajudando Marcel e Paraná a prepararem a bóia. longe de Vicente e Francis. uma briga. quando eram detectados pelo lado do mal. mas teve que apertar os olhos que estavam ficando vermelhos. Era isso que cada um deles repetia-se. Abaixou-se e encheu o cantil com água. repetiria a operação.. Antes de partir. Olhou para o lado e viu Gaspar ali com eles.aventuras. Olhou de novo para o bento. Lucas estava afastado. Tudo para fazer com que a profecia não se cumprisse. Balançou a cabeça. Aproveitavam ao máximo as primeiras paradas. A briga árdua contra os vampiros. Adriano não era um cara de coração mole. Pensou em Carina. Adriano baixou a cabeça um instante. Mesmo que não cruzassem com vampiros durante a primeira noite. Seus soldados teriam de lutar com toda a gana para manter aquele magrelo vivo. Um dia a mais e Gaspar teria vivido para ver aquilo. não tivesse que ter dado um jeito em Gaspar. Era o que vinha depois. entremeado por grama e terra seca. Cumpriam uma espécie de ritual de início de toda jornada. Os outros homens também estavam livres das botas e procuravam relaxar. Um encontro.. perdido no meio dos soldados. Tirou o lenço da cabeça e esfregou-o no cano de sua arma. Um grupo que. Se não tivesse visto o estrago que aquele magricela tinha produzido ontem no areião. O problema não era a primeira briga. desencadearia os quatro milagres. Troféus ambulantes. talvez não tivesse que ter dado aquele tiro no meio da testa do amigo. Um rapaz magrelo. durante o dia ou noite. não acreditaria que ele fosse capaz de empunhar a espada que carregava. Era por isso que correr risco valia a pena. O trigésimo bento acordado. Delatava a posição do grupo e era particularmente perigoso quando carregavam bentos consigo. servia de alerta.. contra mulos ou vampiros. Fariam de tudo para derrubá-los. Poderia significar proteção ou morte. Marcel tinha desembalado todo o equipamento da cozinha. Caminhou sem botas pelo solo marcado. quando fosse posto junto. Salvação. mas. Só assim manteriam a cabeça no lugar. quando ainda estavam incógnitos e em área segura. parecendo com medo até de pisar na bosta dos cavalos. tornavam-se troféus cobiçados. poderiam cruzar com mulos pela manhã ou com banidos que viviam na mata e agora serviam aos noturnos. O soldado líder de Nova Luz fechou os olhos. 155 . Sentou-se no chão e recostou-se em um largo tronco. Talvez os soldados que conheciam o plano desistissem e finalmente se rendessem à profecia. Era por isso que aquela jornada valia a pena. Paraná assoprava os gravetos empilhados. Precisavam juntar os trinta bentos. atiçando fogo. Gostava de carregar água fresca. Tinha que manter o rifle sempre limpo e pronto para a ação. feito um mantra.. O soldado virou-se e olhou para o bento novato. Os bentos eram temidos pelos vampiros. A partir do pôr-do-sol estariam andando em terreno inimigo. Se duas noites atrás o maldito plano não fosse mais a coisa importante que era. Estar junto aos bentos era um coringa. Que ironia! Um dia. que discutiam alguma coisa. Para que os bentos não fossem trinta.

o bento médico. Mexeu com uma colher de pau para as ervas e temperos misturarem-se à carne e ao óleo. A comida era racionada em função do volume a ser transportado. mas a maior parte da carga era reservada ao armamento. Como poderiam ficar vários dias na mata antes de alcançar a próxima fortificação. exibindo o bíceps do braço magro. Gostava da voz do amigo. Mas com sortudos como você. Tomara que você não perca o controle numa próxima vez. A comida não era abundante.. Um rádio ambulante. aproximando-se. Tem gente que lembra a vida toda. bento. Os cavalos carregavam um bom peso. Paraná. Conhecia aquela canção. que dormiram tempo demais. Lucas. sem chamar a atenção dos outros. sentindo-se deslocado. Uma panelada de legumes completaria a refeição.. talvez demore um pouco ou até nunca volte tudo. Lucas olhou para o soldado que cantava. E o cantor? Era o. Sorriu quando Sinatra começou a cantar. Fazer o quê? Eu estava fora de controle. Paraná riu de volta. Como era o nome? Não lembrava. por isso fazia questão de caprichar no sabor. — Então deixa pra lá. caindo na risada com a própria brincadeira. Lulu Santos! — Quem disse que o rádio não funciona mais? — perguntou Francis. — É por isso que a gente gosta de andar com o Sinatra. O suficiente para fazer saber que batiam boca. — Você vai lembrar um monte de coisas. — Desculpe o mau jeito lá no Rancho da Pamonha. mas foi o único jeito de fazer você parar.. Mexeu mais uma vez na panela da carne. — emendou o soldado. acho que você não vai sobreviver.O grandalhão Paraná jogou um punhado de carne seca dentro da panela e pendurou acima das chamas. era preciso economizar nas refeições. balançando repetidamente a cabeça. Lulu. — Eu lembrei o nome do cantor dessa música. juntou-se aos bentos. O aroma dos temperos começava a espalharse e a abrir o apetite dos companheiros de jornada. Despejou grãos de arroz numa outra peça. O rapaz negro olhou para o grandalhão. Ao aproximar-se notou que ainda discutiam calorosamente. — Ô. — É assim mesmo.. sempre presente nas andanças de soldados. — Quando acordei não lembrava nem do meu nome. Se eu tiver que te esbofetear com esse meu muque. não estava? Paraná anuiu. — Minha cabeça tá doendo até agora. 156 . o rapaz ainda esfregava a arma com o lenço que usava na cabeça. Paraná olhou para Marcel. Marcel. mas tudo bem. comedidos para não inflar o grupo. mas ríspidos. O bento sorriu e passou a mão na cabeça. Não estavam exatamente aos berros. mas pareciam nervosos. Aproximou-se calado. o que chamavam de Sinatra.

Pediu que se sentasse em um dos troncos ao redor do fogo. empurrada pelo vento calmo que cruzava sobre as águas do lago. carregamos espadas. — respondeu Francis. Se conseguirmos manter uma boa marcha. Era também o que Lucas conhecia melhor dentre todos os soldados. Temos muito chão para cruzar até Esperança. certamente tentava convencer Francis a empurrar Lucas em direção à concretização do plano desenvolvido por um grupo de soldados inconformados. depois da interrupção da discussão. Francis voltou até onde o novato estava. E ainda contra o plano pesava o fato de não terem certeza de que a máquina ainda funcionaria. um dos poucos bentos a engajar-se na causa dos soldados. Francis andava sem capa. Lucas. bentos. Só nós. Bento Vicente. Fora os sete soldados do grupo de Adriano. deixamos o sul e começamos a rumar para o norte. Vamos refazer parte desse caminho de hoje depois de passar por Esperança. tinha distanciado-se. Ainda não é da sua conta. Tinha pouca informação. — Temos que comer rápido! — gritou Francis. levantamos acampamento e tchau e benção. Carlos era o mais falante dos três. 157 . até mesmo para discutir. o plano alternativo. compunham o comboio mais três soldados oriundos de São Vítor. a armadura cobrindo o tronco refulgia com a luz do sol. é norte mesmo. trinta e dois dias. mas nos desviaremos de São Vítor. A imagem de São Jorge balançava presa ao cordão encardido enquanto o bento gesticulava e falava com o grupo. As trinta espadas. rumo a Bahia. caso quisessem botar as mãos na máquina. mas não insistiu. — As trinta espadas. A capa desbotada balançava levemente. com um linguajar de malandro e sotaque fluminense. — Depois que chegarmos a Esperança e apanharmos a primeira dupla de bentos. Mas. Pra chegar lá vamos passar duas noites na floresta. O líder Willian e os soldados Carlos e Alicate. Era um novato. — Engulam a bóia. Pediu para reunirmos os trinta bentos. O crucifixo encravado no peito fazia relembrar cavaleiros das cruzadas. acelerada. Adriano olhou para o bento mais velho. Encontraremos mais dois companheiros: bento Edgar e bento Duque. o líder dos soldados de Nova Luz sabia que o bento Francis não colocaria em risco a conclusão da profecia em troca da ação ousada que teriam de encenar. E quando eu digo norte.— O que vocês estavam discutindo tanto? — Um pouco demais para você. Sabia que os dois veteranos discutiam por causa do plano secreto. Lucas ficou surpreso com a resposta atravessada. — O quê? — Como o Bispo falou. Bento Vicente. nada de soneca. Vamos ter de subir. Lá nosso grupo aumenta. Temos bentos espalhados pelo Brasil. teremos todos os bentos reunidos. acho que no máximo em trinta.

Os ataques 158 . Francis olhou para Lucas. não é? — Você vive uma vida diferente agora. todas as pessoas de bem vivem em função do próximo. Os cavalos soltos na planície foram reagrupados. Esse seria um milagre premium. Acho que não temos direito a esse pacote. — Quatro milagres que salvarão o mundo. Não sei até quando você continuará favorecido. — Quatro milagres. Lucas passou a mão na cabeça e suspirou. não precisa fazer mais nada. em todos os anos de bento. Você derrubou trezentos e sessenta vampiros em um único ataque. Concordava. Agora. mas continuava achando que a missão de salvar o mundo era muita responsabilidade para trinta homens. Todos querem proteger o irmão. Trezentos e sessenta! — Isso é coisa pra caramba! Nunca tinha visto isso. você alcança o placar do bento mais produtivo na sua segunda batalha. Bispo disse que. Lucas aquiesceu. enquanto Joel e Marcel carregaram os cavalos. Não se exponha a riscos desnecessários. Quero você vivo até juntarmos os trinta bentos. Os milagres. Seja bento ou não. bento Lucas. — Lucas. — Talvez assim que nos juntemos. quero que preste muita atenção. Cuida do próximo que estará cuidando de ti mesmo. Um remédio definitivo contra o mal vampiro. eu vi o que você fez ontem. — Não. Isso é tudo o que precisávamos. mas estou preocupado. — É muita responsabilidade para nós. com nossos corações cobertos pela poluição e pelo dinheiro. Para você ter uma idéia. Carlos me disse que contaram por alto. É tudo o que precisamos. Sinatra e Zacarias cuidaram da parafernália do almoço. Então. No passado. Precisamos de você vivo. Vicente já abateu seiscentas criaturas. mesmo depois dos milagres. viver em comunhão. — proferiu o bento veterano. Os quatro milagres. os vampiros peguem fogo e desapareçam. — Não sei se isso será uma constante em suas lutas. acho que em um mês estaremos os trinta reunidos e teremos o início do prometido. Como eu dizia. nossos valores estavam também confusos e sepultados.— É. — Quatro milagres. Francis sorriu. Era hora de deixar para trás o acampamento do almoço e voltar para a floresta. ainda teremos muita luta. Precisamos descobrir quais são os milagres que irão nos libertar dos malditos. Se você repetir a façanha. A vitória não estará garantida. naquela terra perdida. mas o caminho será sinalizado. ajudar o irmão. O que você fez ontem já te confere o status de herói. Isso é fantástico. Teriam de encontrar um lugar seguro para o acampamento noturno. — Francis baixou mais a voz. E é isso que estamos buscando. cruzando essas florestas. a verdade e o propósito são claros. Sabiam que estavam numa região que os favorecia. — balbuciou Lucas.

Uma explosão. garoto. — Como isso aconteceu? — perguntou Willian. Um cavalo aproximava-se. — Ninguém vai voltar. senhor. Francis encarou o novato. Sabia que aquela explosão que tinham escutado significava problema. O rapaz olhou espantado para bento Francis. Willian! Uma desgraça. baixando o binóculo. Estavam quase todos montados quando ouviram o galopar. O cavaleiro precisou de mais um minuto para vencer a distância. O que preocupava os mais experientes era a noite seguinte. senhor? Estamos em apuros. Precisamos de vocês lá. rapaz. Estava agitado. Era o responsável pelo renascimento da esperança. — Desembuche logo. senhor. A fé seria abalada. mas em todo o país. — disse o líder Willian. — repetiu. Pouco provável que fosse um desconhecido. Sua face. quando o trigésimo bento caminhava ao encontro do cumprimento da profecia. Os dois morreram. Aquilo só podia ser brincadeira do bento Francis. 159 .durante a noite a grupos de soldados eram menores naquela parte do trajeto. justamente agora. Todos estão em pânico. mas o seguro morreu de velho. O mensageiro de São Vítor permaneceu encarando o bento. — O que aconteceu. E. O que aconteceu? — A casa do Bispo. O fogo comeu tudo. O homem gesticulava. Mesmo estando com os bentos que arrebentavam com as criaturas. O seu Fernando entrou na casa e nunca mais saiu. Não só em São Vítor. — Por que não voltou. — Ouvimos a explosão. mensageiro? — Uma desgraça. — Ninguém vai voltar. Estão tentando descobrir o que aconteceu na casa do seu Bispo. O garoto procurou sustentação no olhar de Vicente e do líder Willian. Os soldados sabiam que a morte de Bispo pesaria enormemente. graças a Deus. quando estariam em zona de grande risco. alcancei os senhores. Mordeu os lábios. — É um mensageiro de São Vítor. Alguém que conhecia o que os olhos humanos não viam. Todos os olhares convergiram para Francis. rompendo o silêncio. Bispo era uma espécie de guia. — disse Lucas. Carlos tirou sua pistola da cintura e deixou-a pronta. Queria que esperassem. Ela explodiu. acabando com o fio de vida em sua esperança. Os soldados ficaram quietos. de boca aberta. não escondia a surpresa e a decepção. — Devíamos voltar. Da distância que estava não podia identificar o cavaleiro. trazendo alguém em suas costas. — Graças a Deus! Graças a Deus encontrei vocês! Vicente circulou o cavaleiro. Tudo virou fogo. mensageiro. Uma luz. Estão todos em pânico. Mas. como se o guerreiro lhe cravasse um golpe de misericórdia. — Ainda não sabemos. os olhos de Bispo iam-se embora. o medo insistia em suas veias. lançando sombras sobre o futuro.

Lucas lançou um olhar para trás. Nosso destino está na nossa frente. Francis guiou o grupo. Estava acostumando-se com a montaria. — Vá para São Vítor e diga que nada podemos fazer. O cavalo de Vicente empinou. Peça que levem o corpo do Bispo ao hospital antes de ser enterrado. circulando na margem do rio. Ao encontro dos dois bentos em Esperança. — Deus te ouça. — Já discutimos isso. — retrucou Adriano. deve ser enterrado. Francis olhou com reprovação para Adriano. Isso é só o começo. retornando a São Vítor. vacilante. depois se dirigiu ao mensageiro. O despertar de Lucas não é a garantia da vitória. — resmungou Vicente. Bento Francis está certo. — Sem precedentes em nossa História. agitando os demais. O mensageiro também galopava. Dobrem a segurança. como se quisesse decorar cada palavra do líder Willian. mostrando-se preparado para situações de emergência. Ouvia o tilintar de sua touca metálica. Em busca de milagres e salvação. Não conseguiremos fazer o velho Bispo levantar da cova. Vamos! — bradou o bento. — Não podemos acordar os mortos. Vicente. deixaremos o caminho para o cumprimento do que foi visto. De que serviremos em São Vítor? Somos abençoados.— Não. — repetiu o mensageiro. Se Bispo está morto. Era um escolhido. Só depois disso veremos qual será nosso caminho. Os trinta bentos têm que se juntar. — Não percamos mais tempo. Ia no sentido oposto. Se deixarmos o caminho para Esperança. — Coloque os soldados em alerta. Não devemos voltar. Em busca de uma profecia. Lucas. Descubram o que aconteceu. cobrindo seus ouvidos. Não precisaremos da máquina se formos rápido. — Peça que Amaro explique ao povo por que motivo não voltamos. O bento olhou para frente e agarrou-se firme à rédea. Esses malditos vampiros e seus mulos plantarão mais armadilhas. A capa vermelha esvoaçava e a espada batia em sua perna ao sabor do galope. Em busca de outros bentos. Agora temos o trigésimo bento. aproximando-se do grupo mais uma vez. mas não levantamos mortos. Devemos continuar rumando para o sul. — orientou o líder Willian. a cota de malha. Peça que Amaro investigue pessoalmente o ocorrido. 160 . Temos uma missão de importância sem precedentes em nossa História. galopando rapidamente. Seria um sonho? Aquele novo mundo assustava. no dorso de um cavalo numa cruzada inimaginável. — Devíamos é aproveitar a força desse desengonçado e tentar colocar as mãos na máquina. O próprio Bispo havia me prevenido.

Só os soldados andavam em bandos naquela região. Saltou do cume da árvore para outro. Rastros frescos. balançando ao sabor de sua passagem. Era como se. Homens que não se enquadravam nas regras dos acuados. Estavam longe. há muito. Seduzindo. deixando o vento noturno invadir seus pulmões. Era sua natureza. como fizera seu lacaio. dando pistas sobre o paradeiro de um novo Rio de Sangue? Cantarzo saltou. Banidos. O mais poderoso e delicioso dentre os animais. Os olhos de vampiro perscrutando a escuridão. Queria a floresta. A criatura. Os parasitas que sugavam somente os adormecidos. não importava. Ele não queria aquilo. Curioso. Seu "paumandado". Em algum lugar distante. Queria cravar os dentes no pescoço dos desavisados. talvez mais. assustar. impingindo medo e dominação. talvez fizesse uma visita. Das pessoas envoltas nos muros. Tomar energia direto da fonte. Quem sabe os viajantes pudessem ajudar. Nada queria com eles essa noite. Cavalos. cruzando o ar e parando no topo de um eucalipto. Queria apenas encontrar seu soldado. Nenhuma pista adicional. Cheiro de fumaça. Vivia em prol daqueles parasitas que temiam a mata. Andou pelo gramado. pendurada feito um animal silvestre. em conjunto. banidos. Um bicho da noite. As copas das árvores agitavam-se com sua presença. Provavelmente soldados. Fazendo-os falar. Raquel cortejava e gostava de ser cortejada. Do sangue humano. dissessem: cuidado. ora ensinando novatos. Agitavam outras criaturas. Caçar. Gostava disso. Cantarzo balançava no topo da árvore. Gostava de sua função. era um vampiro. Eram a escória errante. Talvez seis. Queria vento mexendo com as tiras de couro que prendiam seus cabelos. Cantarzo desceu pelo tronco largo do flamboyant florido. é o vampiro que passa. Talvez depois de tratar com lacaio. Soldados. Um trecho do chão ficava sem a cobertura verde e tornava-se de barro. não poderia ser denominada de homem. Acelerou os saltos. Cavalos tinham passado por ali. Era outra coisa. na floresta. Uma coisa encantada. O galho fino no cume não agüentaria o peso de um homem daquele tamanho. Os pássaros desavisados disparavam em vôo quando o vampiro batia nos galhos onde faziam ninho. queria a noite. A sombra do vampiro cruzou o topo de doze árvores na floresta. Doce e maldita vida eterna. em geral.Capítulo 23 Cantarzo ergueu as narinas. Eles sempre chegavam com o mesmo pedido. O esplendoroso firmamento refletindo luz branda para a Terra. ora lambendo as botas dos mais antigos dos moradores das sombras. Muito melhor do que viver como Raquel. mas logo estaria sobre eles. Os cheiro dos viajantes convergia para o ponto de encontro. Era um vampiro caçador. 161 . viajantes acampavam. mas a criatura. Um vampiro caçador da melhor qualidade. Pegadas. Colocando suas unhas afiadas sobre a jugular da caça.. eram homens solitários. pedindo pelo apadrinhamento de um vampiro. Seguiu o cheiro.. beber vida.

notando a indagação no olhar dos soldados. Correu e saltou para o tronco de outra árvore frondosa. Cantarzo saltou para outra árvore. Depois de ter abandonado Raquel e seus estúpidos seguidores à própria sorte no esconderijo dos soldados na beira da estrada. Cantarzo rasgaria o segundo olho da vampira. diacho! Estou falando daquela fogueira! 162 . Olhou para a floresta. Um plano que traria a ele a proteção absoluta dos vampiros mais velhos e lhe daria poder fundamental para subjugar de uma vez por todas a raça humana. Tinha ouvido um dos vampiros comentar que Raquel havia sido chamada num dos grandes centros vampíricos. Estaria louco? Francis. com a raça inferior humana subjugada. Sabia que a vampira viria como raio atrás de vingança. escalando com agilidade seus primeiros galhos. que mostraria aos mais antigos o quanto ele. Deixaria cega e perdida nas sombras. Francis ouviu o som dos pássaros em revoada. Raquel estava ocupada. Talvez um engano. um pouco de ação para exercitar não seria de todo o mal. Aquele som queria dizer uma coisa: perigo. Um exército de irmãos da noite. Vasculhou as redondezas. Assim que tivesse a chance. Gostava de irritar a guerreira. atento. Alguma coisa importante incomodava os mais velhos. tinha que colocar um olho nas costas. Caso o maldito lacaio ainda não estivesse no ponto de encontro. Caso seu plano surtisse o efeito vislumbrado. O lugar dos vampiros era na superfície. Os olhos arregalaram. Achava-se protegida. Poder para dar-lhes a vitória contra a resistência e lhes garantir o domínio sobre todos os Rios de Sangue da Terra. Joel e Carlos estavam vigiando o acampamento e não tinham acendido fogueira alguma. O cheiro de fumaça estava mais forte. O que era esperteza. Cantarzo sorriu. estava certo. Fugindo de vampiros! O bento deixou sua tenda. Cantarzo não se interessava. Mostraria a ela o que era agilidade na caçada. Aproximou-se dos soldados de sentinela e perguntou: — Quem acendeu essa droga de fogueira? Raul. Um estalido. sempre cercada por aqueles vampiros grandalhões. Nem mesmo Raquel conseguiria esconder-se tão bem. Dar-lhe-ia poder suficiente para erigir um exército de noturnos. Cantarzo. Cantarzo ergueu mais uma vez o nariz. Ela e aquele vampiro Gerson pagariam caro pela arrogância que carregavam. Nada. completou: — Não estou falando desta fogueira. Olharam para as cinzas mortas do fogo que usaram para preparar o jantar e voltaram os olhos para o bento. Achava-a petulante. ganharia poder inimaginável. Tinha uma direção segura. Os pássaros estavam fugindo. Alguma coisa grande acontecia. Ainda mais se seu plano concretizasse-se.Cantarzo ergueu os olhos. Poder para açoitar as fortificações de forma contundente. Era madrugada. ganhando altura.

Os homens tiveram que esforçar a visão. Queria o sangue. Olhou para a fogueira. Não parecia um acampamento. Um cheiro familiar tomando as narinas. Seus instintos falavam alto. Exibiu os dentes pontiagudos e grunhiu mais alto. Alguns passando em frente à lua. Os homens ficaram em silêncio. O homem dormia. — Você! — grunhiu o vampiro. Suas unhas afiadas dançaram no ar. erguendo-o de uma vez e colocando-o contra a parede de pedra. Uma árvore balançou. Raul e Carlos deitaram a mão em seus rifles. eu já estaria louco. Joel apanhou sua arma. Seu corpo cruzou o ar com rapidez e bateu no chão sem fazer barulho. não era a hora certa de cruzar com um bando de vampiros. colocando o dedo na frente da boca. Finalmente.. Estaria correndo ao encontro daquela árvore agora. que não virão. Cantarzo agarrou-se ao galho fino. — Ssshhhhh! — fez o bento. — Eles vão nos pegar. Emitiu involuntariamente um ligeiro grunhido. Raul deu de ombros. abrigo para um homem só. O homem mexeu-se no seu sono. tomado. Estão atrás daquele fio de fumaça que algum idiota acendeu.. — Silêncio. com uma pequena parte passando ao largo do halo de luz provocado pela lua. os bentos seriam mortos! Joel olhou para o bento. A árvore balançou mais uma vez e a criatura passou para o outro galho. Mais pássaros deixaram os galhos. — Fiquem quietos. fazendo o ramo vergar. — pediu o bento. O homem gritou aterrorizado. Cheiro de sangue. Ouviram. — Não tínhamos nota.. Os homens no acampamento não conseguiam ver o vampiro. Mesmo com três bentos. enxergaram um fio de fumaça subindo ao céu. Cantarzo deixou os olhos vermelhos brilharem. Cantarzo viu seu rosto. Havia uma grande pedra debaixo dela. Pendeu o corpo até a ponta. Cantarzo aproximou-se e agarrou-lhe pelo pescoço. Caminhou ao encontro do homem. Eles não nos viram. Joel. — Como sabe que não viram a gente? — Se tivessem visto. Saltou da árvore. 163 .. Se eles fossem muitos. Não sabiam dizer se era um ou mais. virando o corpo. O homem remexeu-se. O cheiro tomava todo o seu ser e começava a drenar-lhe a razão. Carlos fez o sinal-da-cruz. depois de localizarem-se com a indicação do bento.

cobrar de mim alguma coisa? Não tem medo de mim. Era a primeira vez que o ouvia da boca do vampiro. Será o fim de sua raça.— O que faz aqui tão cedo? Por que acampa no mato. — Eles são tolos. Cantarzo grunhiu nervoso e soltou a garganta do homem.. Não sei como vocês não conseguem tomar aquela porcaria de cidade. — Não tomamos porque não é nossa hora. Cantarzo estendeu a mão para apanhar o pote. será nosso round. Lúcio apanhou um saco de couro e. ainda. — Tão fácil? Não vejo feridas. — Você conseguiu. evitando sua queda. — Você prometeu me transformar num vampiro. Vocês são tantos. Tinha medo daquela face espectral. — Primeiro cumpra suas tarefas. Chegará o momento de nossa raça jogar. vampiro. — Jogar? — Um dia será nossa vez nesse jogo. de dentro dele. Lúcio? O lacaio arrepiou-se ao ser chamado pelo nome pela criatura.. Não! — Por que não foi ao ponto de encontro? — Ainda estava longe! Gasp! Está me enforcando. mas antes que o alcançasse o humano recolheu o jarro. Ainda tremia quando virou-se e encarou o vampiro. criatura? 164 . Serei o homem mais caçado nesse mundo todo por culpa do meu crime.. mortal. — Aqui está. — Passei por maus bocados. com fogo aceso? Quer ser morto por outro vampiro?! — Não. Cantarzo urrou e ergueu o mortal mais uma vez pelo pescoço. Jogar para valer. retirou um jarro de vidro. Não ouse me abandonar. O vampiro grunhiu. vampiro.. Cantarzo não deu ouvidos. O homem passava a mão no pescoço. vampiro. deixando-o no chão. abraçando-o. mortal. daqueles olhos que banhavam ao redor com luz vermelha. — murmurou o vampiro com os olhos brilhando. — Eu consegui! Eu consegui! Trouxe o que me pediu. Cantarzo. buscando aliviar a dor do estrangulamento sofrido. Não ouse quebrar sua promessa. continuando a segurar o lacaio pelo pescoço. Tomou o cuidado de amparar o jarro de vidro. Disse que eram. — Como ousa tu. — Onde está meu tesouro.

Cantarzo soltou a vítima. — De manhã. Ele engoliu. vampiro.. Foi fácil passar pelo muro. — Eu temo. Sei como as coisas funcionam. porque o velho não tinha muita força. Apanhei um explosivo. Uma bomba com detector de movimento. Cantarzo. eu me esgueirei do hospital. Ajoelhou-se. Incrédulo. com a logomarca da Cica suja de sangue humano. Tinha que tomar o sangue conseguido e descobrir se sua trama teria efeito. só esperando o que eu ia fazer.O homem engoliu a seco. O sangue do feiticeiro está nas suas mãos agora. quando a casa do velho explodiu. Con. era só um velho indefeso. Mais valioso que a cabeça de um bento. E alguma coisa me dizia que eu saberia a hora em que encontrariam o corpo do Bispo. Encostou o nariz no jarro. Ouvi uma certa explosão. O Bispo. Confio em você. Plantei a bomba de aproximação e me mocozei num monte de madeira junto do muro. Quando vai me tornar vampiro? — Silêncio. Cantarzo era um vampiro terrível. Como você acha que ia conseguir degolar um bento? Os caras são fogo. Depois degolei. Um troféu. querendo ser engraçado e exibindo um sorriso sádico. sabe. degolei o velho e enchi o jarro com o sangue. Ergueu o jarro até a altura dos olhos. pobrezinho. Foi mais fácil do que eu esperava. Juro por Deus que é o sangue do Bispo. Os olhos vermelhos da criatura pareciam cuspir fogo. Eles só me maltratam. Mas. — Se isso for o sangue de um bento. eu também maltratei o velho. Entrei na casa do Bispo. A sentinela do areião me viu. — comentou ironicamente o assassino. Cantarzo.. — Como conseguiu? — Eu fingi que estava desmaiado na beira da estrada quando ouvi as motos. 165 . São fortes. sem perguntas. Com todo mundo em alerta. Eu temo. envolvia o vidro. sabe. Quando vi já estava dentro da cidade. Eu acabo com você. Mas quero ter certeza de que me tornará um vampiro. a uma hora dessas já devem estar atrás de mim. Como os homens me maltrataram pra caramba. Falei que foi a caldeira do refeitório que tinha ido pro saco. ali. como a gente combinou. Estava apavorado na verdade. Espetei ele aqui. — Fica calmo. humano. Como você conseguiu incitar um ataque a fortaleza. Conhecia a fama do caçador. Essa parte foi fácil. Cantarzo abaixou-se e colocou a jarra no chão. a confusão foi armada toda de novo. — Conta. Sabia que ninguém ia até a casa do velho. segurando o recipiente com as mãos espalmadas.. Isso não importa. assim que dispararam o alarme e todo mundo ficou louco e preocupado em se esconder dos vampiros. mas estava tão atônito com a explosão que só perguntou se eu sabia o que tinha acontecido. Não gosto dos homens. incógnito. Era uma lenda na floresta. os soldados deixaram o quartel e tive tempo de visitar o arsenal.. Ficou com aquele olhão arregalado. Cantarzo olhou mais uma vez para o jarro. Uma velha etiqueta de papel.

como se tivesse sangue bombeando nas veias! Como se tivesse um coração pulsando! Abriu os olhos e estendeu as garras para Lúcio. vampiro duma figa! Me torne um imortal também. mas havia algo diferente ali. Cantarzo sentiu seu corpo esquentar subitamente.Lúcio não ousou abrir a boca novamente. Era o primeiro presente do dom maldito. senhor. Um aroma adocicado. manchando sua pele alva com o vermelho-sangue. Cantarzo contorceu-se. Vá. Uma face. Cantarzo aproximou o pote da boca. A mulher abriu a boca. Só conseguirei continuar depois que a bruxa me curar. senhor? — Vá para o norte. — Para onde. Apertou os olhos e mais uma vez viu a bruxa. filho-da-mãe. Eu vejo a serpente comendo a tartaruga. O cheiro do sangue de Bispo infestou suas narinas. amedrontado. Sentiu a cabeça doer. Uma mulher de cabelos brancos e olhos mortos.. Lúcio? — O sangue do velho. Um rio. Urrou. Só o cheiro já dizia. — Não morra. Lúcio. fechando os olhos. tentando erguê-lo. Baixou o vidro só depois de saborear a última gota. — Para onde. — disse o humano. Ela mostrava alguma coisa. Sangue especial. Cantarzo apertou os olhos. O sangue do velho penetrando sua carne de vampiro. Não era uma vampira. enovelandose no chão.. Lúcio permaneceu estático. — Onde ela está? — Eu não vejo tudo. — Onde ela está? Cantarzo urrou de dor e contorceu-se mais uma vez. lacaio. Lúcio puxou a mão de Cantarzo. Havia algo de bizarro na voz da criatura. Arremessou o jarro contra o paredão de pedra. Cantarzo desrosqueou o pote. Vá para o norte. — Primeiro vá e me traga Tereza. O sangue do velho estava em seu estômago. Infiltrava em seu ser.. articulando os lábios. Vá para o norte! 166 . assombrado pelo espetáculo diante de seus olhos.. Não era uma vampira. sem conseguir levantar-se. — Vá para onde a serpente engole a tartaruga. Safra rara. O sangue do velho queimava seu órgão. Inspirou fundo. — O que me deste. O lacaio debruçou-se sobre o vampiro e aproximou-se. Sorveu o conteúdo todo a grandes goles. Mostrava um lugar. sentindo dor. sentindo o cheiro da noite. Passou a mão pela boca.. Era um cheiro bom.. Dei o sangue do velho. Uma mulher surgiu diante de seus olhos. senhor? — Traga Tereza. — Vá. como se cem baionetas cruzassem seu crânio.

o vampiro estacou. morto.. inerte. Seu corpo estremeceu sobremaneira que Lúcio afastou-se. 167 .Cantarzo gritou mais uma vez e entrou em convulsão. O vampiro parecia um peixe jogado para fora d'água.. agonizando. um pedaço de carne amaldiçoada sob a luz da lua. De repente. tão súbito como começou. assustado. debatendo-se.

— Aquela cidade agora é um túmulo. afinal de contas você é o salvador anunciado pelo falecido Bispo. Um tiro de rojão espocou. Os soldados de Adriano desciam o morro com cautela. Cada. Conforme a luz do sol ganhava força. a segunda alternativa. Perguntou alto para Vicente: — O que é aquilo? Vicente olhou para o horizonte. Lucas sentiu a pele arrepiar ao lembrar que ali conheceria mais dois dos homens bentos. tomavam forma. Carlos e Alicate desciam com mais ímpeto. Ainda era recente na memória do grupo o acidente fatal vivido por Gaspar. Lucas desceu calado. 168 . De noite e de dia. — Era a porra de Campinas. prédio é um covil. Vicente. Ao contrário do grupo de Nova Luz. bento novo. Prédios. — Aqueles prédios? — É.Capítulo 24 Os cavalos chegaram à beira de uma depressão. sendo os primeiros a atingir o descampado que circundava a fortificação. Provavelmente. percebendo a expressão preocupada do bento escolhido. um perigo. tirou os olhos dos muros e mirou o horizonte. uma terra tomada pelos vampiros. pois Vicente fazia pouco dele e parecia ter ciúmes. os trinta homens bentos. Cada bairro uma armadilha. Ainda teriam de correr atrás de mais vinte e cinco para juntar as trinta espadas. Uma infinidade deles erguendo-se no horizonte. anunciando à cidade a aproximação dos soldados. formando uma paisagem conhecida. Lucas bateu com os calcanhares no tordilho e colocou-se a descer o morro. Lucas viu os muros altos e largos fechando completamente o povoado. Lucas demorou um pouco mais olhando para a fortificação de cima do morro. A visão do dia raiando e a vida começando a mover-se em Esperança era privilegiada. Não sabia se o veterano estava lhe incentivando ou espicaçando. sentindo um novo arrepio percorrer os braços. Mais dois juntar-se-iam ao comboio. confundidas com as árvores apontadas para o céu. para conseguir os profetizados milagres. continuou: — Você não devia se importar com a situação da cidade. ruminando as palavras do bento. Francis apontou para frente. Depois de alguns segundos. Quatro milagres. Os malditos noturnos. as sombras. aumentando o número para cinco. Lucas engoliu a seco. Quatro milagres para libertar a humanidade das garras das criaturas das trevas. Lucas olhou para Vicente.

Duque. revelando um traço da experiência contida na vida daqueles homens. com braços mais finos. Bastou cruzar os portões para que fosse de ouvido em ouvido a boa nova de que o trigésimo bento havia despertado e que. Vicente mantinha a cara fechada. Ambos guerreiros abriram um sorriso largo ao pararem os olhos sobre o novo irmão. O primeiro sorria para a multidão e para Lucas. a vitória contra os malditos seria questão de tempo. O novo bento foi invadido novamente por aquela sensação de intrusão. As pessoas cochichavam e apontavam para Lucas. tinha olhos verdes. era da estatura de Lucas. Vicente parou e desceu do cavalo. Era uma espécie de tradição. Sentia-se um farsante. contagiado pela emoção.Uma parte dos cavaleiros ao pé do morro disparou em cavalgada em direção ao portão de Esperança. de pele muito negra. Vicente aproximou-se e deu um tapa nas costas de Lucas. quando abatera com a espada que trazia na cintura mais de trezentos vampiros. que cambaleou dois passos para frente. contrastando com a do abençoado colega. A capa presa aos dragonetes era desbotada e mostrava um reforço na barra. Francis e Vicente ladeavam o novato. portando aparência menos truculenta que os demais guerreiros. de pele pálida. pousando a mão nos ombros de Lucas. Duque tinha a armadura amassada na parte lateral esquerda e a prata riscada. Lucas notou no peito de ambos a medalha de São Jorge. Apesar do revelador e impressionante episódio perpetrado em São Vítor. um presente do alfaiate a todos os escolhidos pela profecia. mantendo o cavalo emparelhado ao do novato. empolgado com o momento. Os cavaleiros foram recebidos com muita curiosidade. com o grande crucifixo em relevo ao centro e os belos dragonetes dourados nos ombros prendendo a conhecida capa vermelha. Auxiliou Lucas. Edgar. mas seu sorriso aberto revelava a simpatia pelo novo irmão. 169 . — É este o homem? — perguntou Duque. Os dois bentos que guardavam Esperança. A indumentária de Edgar era igualmente "batida". saudando o trigésimo bento. Juntos com Vicente foram ao encontro dos bentos Duque e Edgar. Sorrisos foram pipocando aqui e ali e logo o povo junto à muralha gritava extasiado. Edgar olhou Lucas de cima a baixo e também pousou a mão no ombro do novato por um segundo. Lucas viu dois homens trajando as armaduras torácicas. tinha os braços fortes e o peito largo. Vieram em direção aos bentos e abriram os braços para Francis. Não disse uma palavra. não se sentia ainda igual aos outros guerreiros. desconfortável. de agora em diante. provavelmente arrastada por quilômetros e quilômetros atrás dos malditos vampiros.

ao que parece. — Vocês devem nos acompanhar. — Nenhum por enquanto. — resmungou Vicente. — O Adriano. como reza a profecia. — Esperança ficará desprotegida. Dizem que vai me passar fácil. É melhor isso não ser divulgado prontamente.— Este magrelo é o nosso salvador. É isso mesmo. o bento de olhos verdes e serenos. O bichinho é rápido na espada. Quantos homens vão precisar? — perguntou Duque. Edgar aquiesceu. — Você diz que o Bispo morreu? — É irmão. 170 . como se quisesse colocar panos quentes no assunto. ainda mais agora com a morte do Bispo. Temos um número reduzido de soldados e armamento. — O que tem o Gaspar? — quis saber Edgar. — E estão certos. Edgar e Francis riram. — Como aconteceu? — Não sabemos ao certo. de Nova Luz e mais três de São Vítor. Um descanso rápido e partiremos. Trouxemos dez conosco. Não reclamou em ajudar os bentos? Francis olhou para o líder de Nova Luz. — Sabemos que houve uma explosão e que o velho Bispo foi vítima desse acidente. concordando prontamente. — Ele é metido naquele plano.. — Viemos para reunir os bentos. O grupo de Adriano. Até onde sei não tem nada garantido nessa história. fácil no placar. Adriano descia do cavalo e confraternizava com os soldados de Esperança. caso nosso trigésimo bento nunca aparecesse. — comentou Francis. passando a mão por seus bigodes afilados. Está estranho. Vamos fazer uma refeição e dar de beber aos cavalos. Duque. — completou Duque. — revelou Francis. Disseram-me no acampamento que é por causa do Gaspar.. deixe a gente sofrida saborear a chegada de Lucas. — Sofreu um daqueles acidentes estranhos. agora sem o sorriso enfeitando a face. se não morrer antes. Quem irá guiar nosso caminho de agora em diante? Quem vai nos dizer se estamos indo para o lado certo ou não? Os olhos calmos de Edgar transformaram-se e pararam sobre Vicente. Aqueles acidentes que só os soldados que estão metidos nesse raio de plano sofrem. Duque olhou mais uma vez para o novo bento. Não se baseie pelo tamanho e pelos braços murchos deste rapaz. eu vi o que ele fez em São Vítor. — Os soldados que conhecem o plano só estavam buscando uma garantia. estava analisando o novato. — intrometeu-se Francis. — Ele não fez nenhuma objeção.

voltou ao refeitório. Lucas piscou os olhos e depois deixou a visão vagar pelo refeitório. Uma mulher? Uma paixão? Não sabia. como se discordasse. Depois de uma xícara. cavalgando com uma capa vermelha por terras desconhecidas? Lucas sorveu mais café. Estava. A voz do soldado foi desaparecendo gradativamente e o que chegava em sua cabeça. Todos que acordavam para o trabalho. Talvez a memória se refrescasse. Mexeu mais uma vez o café-com-leite. O que fazia perto do mar.. Nada mais formava em sua cabeça. era o grasnar coletivo de um bando de gaivotas. Estava procurando alguma coisa. Estava sozinho. O dia na fortificação ganhou ares de feriado. Adicionou açúcar e mexeu com uma colherinha. O bento sentiu o encorpado cheiro vindo do bule de café. chegavam a pedir benção ao herói aguardado. trazido pelos ouvidos. Logo depois ao desjejum. davam com o burburinho. Ninguém queria ir aos afazeres. A voz de Carlos. Os soldados em missão mais os bentos foram levados ao refeitório comunitário de Esperança. Todos teriam chance de ver o trigésimo bento. Estava em um mundo onde lutava contra criaturas da noite. Todos diziam palavras de incentivo e. nada daquela sensação de proximidade do mar. 171 . recuperar aquela sensação. Estava de novo em Esperança. Sorveu do líquido morno. Uma fila começou a formar-se na porta do refeitório e os soldados de Esperança tiveram trabalho para conter os curiosos. a pedido do soldado líder da cidade. antes de chegarem ao destino. Aquela pontinha de lembrança lhe dizia. Nada de gaivotas. Ficou estático por um tempo. ecoava sem sentido em sua cabeça.. deitou também um pouco de leite no recipiente. gastando conversa com Alicate. dariam tempo para o recém-desperto fazer a primeira refeição do dia. mas. Lucas fechou os olhos.. Para eles. tornando-se grave e pastosa. Lucas sentou-se ao lado do soldado Carlos. Ondas arrebentando. sem mais nada voltar a mente. Sabia disso. Tinha era tristeza. Lucas sentiuse angustiado. Tão repentinamente quanto havia mergulhado naquela vaga lembrança. tocar o recém-desperto. estar com Lucas já parecia um milagre realizado. o sabor do líquido negro era tão agradável quanto o aroma. Alguma coisa querida. uma cidade fortificada próxima a Campinas. no fito de ganhar mais lembranças. o brucutu nojento tinha percebido sua súbita mudança de estado de espírito. Provavelmente. que atacava as fatias de pão caseiro e bolo de cenoura com cobertura de chocolate. Bá! Que bobagem! — resmungou. antes de ser atirado aos olhos dos aldeões. — Deixar o povo saborear a chegada de Lucas. Sozinho e triste. um ou outro. O perfume não enganava. Estava procurando alguma coisa perdida. Som de mar. Vicente estava lhe encarando.Vicente balançou a cabeça.. Queriam apenas ver o trigésimo bento. com as risadas de Carlos e Alicate nos ouvidos. Lucas permaneceu no refeitório e recebeu a visita das centenas de aldeões que estavam acotovelando-se na porta do galpão. Aquelas pessoas? Por que iria lutar junto daqueles homens? Por que estava vestindo aquela roupa estranha. tomando café-com-leite? Quando teria feito aquilo? Estava angustiado naquela manhã longínqua.

Lucas manteve-se calado boa parte da visita. Era um costume. deixando Esperança com o reforço dos bentos Edgar e Duque. Lucas pressionou os dragonetes sobre a armadura. Com exceção de Francis. tirando-o do refeitório. Símbolos. os outros quatro bentos faziam as capas tremularem ao sabor do vento e da cavalgada. A gola alta tinha deixado um hematoma abaixo do seu queixo e a pele tinha ficado dolorida. liberando as mangas da cota de malha de ferro. depois soltaram os fechos nos ombros. Providencialmente. Não sabia o que dizer àquela gente. colocando-a a seus pés. Tirou as luvas marrons e apertou os dedos um instante. estavam rumando para áreas de 172 . jogado numa maca. As janelas tinham cortinas pesadas. mesmo assim. Foi a vez da tira de couro das costas ser desatada. dormindo profundamente. Lucas sentou-se na cama forrada assim que Duque deixou o alojamento. Como podia saber que aquilo era um costume? Tinha dormido trinta anos no subsolo de um hospital. O que aquele símbolo significava? Por que carregavam cruzes de ouro no peito se Bispo havia lhe dito que estavam vivendo no meio de um cochilo de Deus? Lucas passou a luva de couro sobre a cruz. Soltou também a tira que percorria a barra da cota e puxou a peça pela cabeça. Essa deu um pouco mais de trabalho. Soltou as tiras de couro do punho. Como poderia ter certeza de como é que dormia em seu apartamento? Não poderia. Deitou-se e cobriu-se com o cobertor marrom. descoberto. olhando demoradamente para a cruz dourada que dividia a peça em quatro partes prateadas. Assim que Lucas deu um jeito no obstáculo sentiu o colete de couro afrouxar. Estariam cada vez mais expostos aos vampiros e era improvável não toparem com o exército das criaturas nas próximas noites. o grupo de cavaleiros cruzava novamente o portão. com a parte traseira caindo no colchão da cama de solteiro e a frontal sendo amparada pelas mãos de Lucas. Mas sentia-se muito bem. Não sentia frio. na altura das clavículas. Dois soldados que o acompanhavam na jornada já roncavam. Teria que se habituar com aquela desconfortável vestimenta. tentando não demonstrar o desconforto que sentia. Distribuía sorrisos. encoberto numa manhã quente. Enrolou-a. Jogou o colete por cima da cota metálica e por último livrou-se do ridículo saiote verde-escuro. O tórax dividiu-se em dois. pela posição incomoda e pela largura do couro. liberando sua capa. Sugeriu que o novato descansasse o esqueleto junto com os demais enquanto os preparativos para seguir adiante eram providenciados. Juntou a parte de trás da couraça e colocou-a sobre a capa vermelha. O trigésimo desvirou a couraça. debaixo dos protestos dos remanescentes que aguardavam sua vez. O tilintar dos elos de prata ganharam volume. Sempre dormia coberto. bento Duque aproximou-se de Lucas. Estavam agora indo para as fortificações ao norte. Por volta das onze da manhã. independente do clima. só isso. Seus dedos soltaram as travas laterais do peito de ferro. Fechou os olhos enquanto refletia. O negro conduziu Lucas até os aposentos da soldadesca. Lucas contou doze camas. sentia-se mais confortável.

As espadas de prata não descansariam na bainha todo o tempo.atividade intensa durante as horas de escuridão. Seriam caçados. 173 . Cedo ou tarde. seriam detectados.

Os bentos permaneciam agrupados no centro. O primeiro combate poderia ser vencido. Era um karaokê.. apesar do longo cochilo da manhã. ainda amarelo e vivo. avançava rapidamente de encontro ao horizonte. desapareceram na mata que se erguia na frente. Paraná tinha improvisado um vassourão com folhas secas e tirava o que conseguia de pó do interior da decrépita construção. Fechou os olhos. Não temiam tanto um primeiro embate. quando os vampiros organizarse-iam e viriam em número impressionante para cima da tropa. O sol. Risadas. Vicente e Adriano ressurgiram. Os cavalos rodearam o casebre e. erguendo um copo de chope. protegidos pelos soldados que iam ao redor. sentia-se cansado. Lucas. Afagou a crina de seu tordilho marrom escuro antes de apear. — respondeu Vicente. Não se lembrava de ter sentido tanto cansaço algum dia em sua vida. disparou na frente do grupo. Os soldados fazendo coro para Sinatra. O problema seria a noite seguinte. os homens foram desmontando.Capítulo 25 Aproximava-se das cinco da tarde. Bento Vicente conversava com Adriano. acompanhando a dupla pela mata. Olhou 174 . Sinatra entoava mais uma canção antiga. — O que é isso? — perguntou bento Francis. Quarenta minutos mais tarde. Um bar. Cerca de trezentos metros adiante. Os olhos pesavam. Essa música. seguido por Adriano e Paraná. — Um amontoado de tijolos que o Adriano encontrou. Lucas sentiu novamente o passado inundando sua mente. Estavam em território perigoso e um confronto prematuro com as criaturas da noite deveria ser evitado a todo custo. quando suas figuras tinham transformado-se em pontos galopantes. quando o sol já batia na linha do horizonte. tingindo o céu de púrpura. de Caymmi! Lucas viu-se numa mesa. As botas afundaram no mato alto que ladeava o casebre. O campo aberto e de vegetação rasteira permitiu que fossem vistos pelo grupo por um bom tempo. fazendo mais cinco cantar o refrão em conjunto. aos poucos. Não podiam pôr em risco a missão de juntar os trinta bentos. Conversavam sobre o acampamento noturno. Vicente afastou-se de Carlos e veio ter com Francis. mas a lamentável situação de ter a posição do grupo delatada. era Andança. ao aproximarem-se. Tinham que zelar pela realização dos quatro milagres. Vicente.. chegando ao local escolhido com o céu escuro. Tinham encontrado um lugar apropriado para o acampamento noturno. Os cavalos aceleraram. Duas moças num microfone. De um casebre colado a um riacho escapava luz tremeluzente. Teriam de encontrar um abrigo.

com sua couraça surrada por batalhas. sem paredes ou qualquer tipo de divisão. O trigésimo bento. Certamente usavam a força da água para a moagem de algum produto agrícola. vendo uma sombra fraca de sua figura ser projetada para a terra de pedriscos na frente. O teto. Duas mesas grandes. Ouvindo o comentário de Francis. Olhou para o seu cavalo no meio do mato alto. pastando tranqüilo. como de costume. Pobres animais! Deveriam também estar cansados da corrida constante. Duque levantou o dedo. Na parede mais próxima ao riacho. apanhou o rifle recostado na parede do casebre. Aquilo não passava de um amontoado de tijolos. projetavam sombras fantasmagóricas na parede. parecia aguardar o sopro do lobo mau para desabar sobre os pobres porquinhos. Lucas afagava o pescoço de sua montaria quando ouviu aquilo. Quantas estrelas! lira impressionante. O casebre era dotado de cômodo único. mais podero SO e mais próximo dessa vez. mas vai servir de abrigo para o pernoite. tingidas de negro pelo pó acumulado. compunham toda a mobília existente. viraram para a floresta. prontos a desabar. Sinatra. ainda parado no batente da porta. para que tomassem água fresca. Sinatra. — advertiu o soldado. Lucas voltou ao batente da porta. Comam pães. e destravando a arma. enquanto Sinatra parou com a música para uma risada. Já estavam no que consideravam área de risco. Lucas caminhou em direção ao tordilho. O soldado apanhou as rédeas de dois cavalos e levou-os para perto do riacho. Alicate. pedindo silêncio. colocando-se de pé.. Ergueu os olhos para o céu. Contudo. Não quero fogueira chamando a atenção de ninguém. descalço. de dentro. Surgiram alguns muxoxos depois da ordem de Vicente. — O que foi isso? — perguntou Lucas ao bento negro. 175 . A maioria dos homens estava faminta. Pela primeira vez concordava com o grandalhão mal encarado. igual às paredes. Velhas teias de areia. torcendo por um bom pedaço de carne no bucho antes de pregar os olhos.. Um vacilo e pronto! Estariam na mira dos vampiros. também cobertas pelo pó dos anos. Os olhos de Duque. — Quem está com fome? — perguntou Paraná. Lucas sorriu. demonstrando surpresa. surgiu do lado de fora. senão vocês não me deixarão dormir aí dentro. estava calado.com mais atenção a construção. Bento Duque. ainda no riacho com os cavalos. cantarolava alguma coisa. enquanto Alicate livrava-se da bota do lado de fora da casa. colocando-o na frente do nariz. — É melhor eu tirar isso aqui fora e ir lavar os pés no riacho. tinham que concordar com o bento. O rugido vigoroso ecoou mais uma vez na noite. um engenho estendia uma haste de cobre através de um buraco pela parede. — Vai ser bóia fria. Lucas adentrou o ambiente iluminado por um lampião a querosene. — Não é uma suíte do Luxor. olhou ao redor.

exibindo sua dentição perfeita. Os homens voltaram-se para o riacho. Podiam ouvir a grande onça movimentar-se na mata. Pássaros despertos pela fera voavam em disparada. um vulto saltou do meio das árvores vindo para o leito do riacho. trazendo suas armas prontas para disparar. O belíssimo animal parou na beira da mata. macacada. Ouviram o rugido da fera mais uma vez. A inesperada visita tinha espantado o sono. com mira pronta.— Uma onça. — lembrou Vicente. — Vamos descansar o esqueleto. cofiando o cavanhaque. Estava nas árvores. Os homens riram. em voz baixa. — orientou o líder Adriano. voltando a correr. — sugeriu Alicate.. Amanhã temos um dia cheio. — É o que tem de monte por aqui. Estava correndo. — Onça é o menor dos nossos problemas. junto ao riacho. para trás do casebre. — Pelo menos a bóia de amanhã tá garantida. uma onça-pintada imensa surgiu das árvores. E das grandes. Lucas. Francis negou com a cabeça.. Para surpresa de todos. disparou. mas o cansaço ainda pesava sobre os ombros. Depois revezam com Alicate e Sinatra. Levantou-se mais uma vez. — Onça. Zacarias e Joel surgiram na porta do casebre. O bento grandalhão desembainhou sua espada. — Vocês nunca descansam. Vicente também deixou o casebre c foi para o lado de Sinatra. O bicho alcançou o "soldado-cantor". próximo de Lucas. correndo na direção de Sinatra. Alicate avançou até a capivara abatida e encostou o cano do fuzil no animal. Quando o grupo descongelou. com os olhos varrendo o escuro. derrubando-o na margem do rio. — murmurou Lucas. Uma capivara. Cinco da manhã: cavalgar. Lucas recolheu a espada. Escorem bem a porta e fiquem de ouvidos atentos. Repentinamente. — Zacarias e Marcel pegam o primeiro turno. Lucas tirou a mão do cavalo e desembainhou a espada. depois do riacho. Nove da manhã: cavalgar. escorreria para a terra dos sonhos. — E se acendermos uma fogueira? Ela não vai chegar perto da gente com uma fogueira acesa. Sete da manhã: cavalgar. Um segundo disparo do rifle de Alicate fez a criatura tombar. enchendo a noite de barulhos. — Sshhh! — repetiu Duque. 176 . Assim que deitasse. Alicate. desanuviando um pouco. Estava morto. não? Duque sorriu. — revelou bento Duque. olhou para os soldados por um momento e esgueirou sua pelagem pintada de volta à escuridão. — rebateu Duque.

Claridade. Olhou ao redor. o que estava 177 . O coração disparou. Limbo. As pedras úmidas. A criatura flexionou o tronco e farejou no ar. Eucaliptos ao redor. vindo de mais adiante. Um "mortovivo". Um vento suave farfalhando os galhos. sentindo a cruz em relevo. Sentouse sobressaltado. Eram vampiros! Posou a mão na espada. O bento levantou-se. Saltou do topo da árvore e bateu em cima da pedra ao lado da qual estava caído. Alguém chamando. Tinha os lábios ressequidos e olhos vermelhos. que. Achou um corredor entre os corpos. quase seco. Caninos longos. sentindo conforto. Os galhos das árvores agitaram-se mais ariscos. Lucas. Lucas. O último deles. um novo canal de pedras. Musgo nas reentrâncias. Atingiu a boca da caverna. Folhas caindo. de modo selvagem. por alguma razão. Tocou o peito. escondendo seus olhos de brasas ardentes na boca da caverna. Criaturas leves. Respiração entrecortada. o chão liso e viscoso. — Onde você está? — perguntou Lucas. Abriu os olhos tentando enxergar na escuridão. Em tantos galhos. O chamado tornou a acontecer. despertando de fato. Lucas ergueu os olhos. Não estava no casebre. Estava chegando ao final. Caminhou por todo o corredor. Estava amanhecendo. Olhos afundados nas órbitas. Em vez de seu nome. Uma delas aproximou-se. Como uma tribo silvestre. Grunhiu. Por fim. Lucas olhou fixamente para a horrenda criatura. Pisou sobre corpos para aproximar-se do homem que lhe chamava. Lucas tateou as paredes de pedra. Gotas desprendendo do teto. Um terreno acidentado. A pele do trigésimo bento arrepiou-se. Som de goteiras. Ficou imóvel. Arrancaria a arma da bainha. Seres leves como plumas. Um sussurro. A voz chamando. Lucas desequilibrou-se e caiu junto a uma pedra. Alguém chamando seu nome mais uma vez. balbuciava algo ininteligível. mas. Lucas arregalou os olhos. como se tivesse chovido muito sobre o teto do casebre. feitos para rasgar a carne da presa. que transitavam com graça. Eram tantos. o monstro. Escalou três metros para abandonar o buraco. onde havia adormecido. cadavéricos. — Venha. A floresta plena de árvores. Era por isso que tinha aberto os olhos. Lucas passou a enxergar o chão. Um ser cadavérico estendeu o braço em sua direção. sentia-se petrificado de medo. Mais pedras. preferiam caminhar sobre as árvores do que sobre o chão. Lucas ouviu a voz repetindo. Sede de sangue. O monstro tinha a pela branca e as veias azuis destacavam-se de maneira gritante. Corpos ressequidos. Criaturas. Procurou pela voz. Estava cercado por corpos empilhados. Uma claridade fraca. uma tribo antiga e primitiva. Um ar frio percorrendo o corredor. Ouvia gotas caindo do teto e estalando nas poças. Talvez pedisse ajuda. Uma sombra ao seu lado.Lucas acordou suavemente. O vampiro em cima da pedra ergueu o tronco e urrou. As criaturas saltaram das árvores. Criaturas saltando nos galhos. Pedras negras. Um pano vermelho sujo e desbotado amarrado ao redor de um tronco. Aqueles seres.

. Bispo. tenho certeza de que isso não vai durar. Caminhou ao encontro da visão. — Meu corpo tá morto. — São nossos irmãos. — murmurou Lucas aproximando-se. Lucas levantou-se. Agora que tu tá aqui. a imagem de um homem.. Tudo arde e a luta é constante. Lucas estava com os olhos arregalados. — revelou o fantasma. filho. também deu seu salto e desapareceu pela boca da toca. O fantasma.. — Você. confuso. — Você está morto! — espantou-se o bento. Comer minha consciência. De uma trama maldita. cabra. 178 . Lucas. Lucas abaixou a cabeça.cravado no topo da rocha feito uma gárgula maldita. Escondem-nos para servirem-se de sangue. bichinho. — Eu estou com medo. com voz calma e baixa. Não acreditando no que via. — Não sei por quanto tempo estarei por aqui. Bispo afastou-se antes de ser tocado. Éa guerra. — Tá vendo. — É aí que eles moram. O coração ainda disparado. só tu. A boca da caverna morta. — disse a voz. Lucas. — Rios de Sangue. isso vai ter um fim. Lucas sobressaltou-se e virou.. E são nesses buracos que escondem nossos irmãos. Lucas engoliu a seco. não. O corpo espectral abandonou sua posição também chegando mais perto do interlocutor. O fantasma andou entre as árvores. No meio das árvores. A mão no cabo da espada. Mas. O corpo translúcido do velho Bispo estava na sua frente! — Bispo! — exclamou. Lucas. Tua força. Caminhou em direção à boca da caverna e apontou para o buraco. fitou longamente o bento. bichinho? E aqui que os cabras se escondem. A floresta voltou ao silêncio e as árvores ao movimento calmo proporcionado pela brisa suave. Lucas andou novamente ao encontro do fantasma. Fui vítima de uma cilada. Isso não te diz alguma coisa? — Acho que estou sonhando. — Ainda tá com medo? Mesmo depois de ter dado conta de uma legião do capeta nos muros de São Vítor? Ôche! Deixa de ser besta. Ninguém mais tá. De dia a gente roda para salvar o povo adormecido. Viu aquela gente seca lá embaixo? Lucas aquiesceu. com olhos serenos. tua energia é tão poderosa que tu tá até aqui comigo. deve ser isso. São o que os malditos sanguinolentos chamam de "Rios de Sangue". de noite eles varrem a escuridão para prender mais gente. Tá tentando me digerir. menino.

se ele sobreviver. Os milagres. Bispo? O fantasma falava. Tome cuidado. Só agora o bento notava que o velho "andava".. Lucas sentiu um embrulho no estômago. Vai melar. Bento Duque o balançava pelos ombros. O pano vermelho ao redor do tronco. a boca movia-se rapidamente. — Lucas! — um grito. Põe gana nesses homens. O fantasma apontou na direção de um eucalipto. Não é bom isso? Lucas aquiesceu. interrompendo o espectro.— O mundo dos sonhos rege o mundo dos vivos.. Lucas. Lucas abriu os olhos fitando as teias e as ripas do teto. Lucas caminhou até a boca da caverna. Tu é o escolhido. — Você viu? Você viu os milagres? — perguntou Lucas. vai começar a ver o que eu vejo também. — Aqui eu ando. Mas. menino. 179 . Fogo e fumaça. Bispo sorriu. — Aqui eu continuo vendo coisas. O velho bispo andou mais um pouco. estampado o medo. — Você está andando. cabra da peste! Mas pra juntar os trinta. filho. Não sei até quando. Um fio de luminosidade entrava por frestas nas telhas de barro. E se apressa. — Nós vamos conseguir juntar os trinta bentos? Bispo não respondeu. Lucas engoliu a seco. O mundo dos sonhos rege o mundo dos vivos. O Lucas que procura sem cansar. mas som nenhum saía. — O que você viu. tem que despertar aquela tua teimosia.. filho. bento. O inferno. bento Lucas. Lucas. — O que são os milagres. Olhou para onde o velho apontava. — Vim para te dar um aviso. É um guerreiro danado de bom. deixando o ar leve. Bispo? Diga. O bento notou que a expressão do velho mudou. filho. — repetiu o velho. — Tu tem que tomar cuidado. Minha essência escorreu pela garganta de um maldito e eu temo que. Vai melar. vai começar a ver o que é bom pra ele. No semblante de Bispo. — Eu te vejo lutando contra o Demônio. E eles também vão aprender a lutar. impaciência. têm que ter pressa. Um vento forte farfalhando as folhas das árvores. Vai querer estragar nossa vitória. — Tu vai lutar contra a fera. — Tudo que é sonhado é colocado em prática. — O que vai acontecer quando juntarmos os trinta bentos? O fantasma do Bispo mudou o rosto. menino. Tu vai pegar a pior parte do trabalho. chegando a escurecer de seriedade. Lucas. Não sei.. É desse Lucas que teus bentos precisam. afoito. Vocês têm que correr. Lembra da teimosia? Obstinação.

agitando sua capa vermelha e caminhando até desaparecer pela porta iluminada. — Eu tive um sonho. quieto. que caminhava para fora. Duque parou de frente para Lucas. Ninguém sonha desde o dia que os malditos infestaram a terra. Com o velho Bispo. prendendo-a ao cordão de couro. Vamos partir. Lucas. apanhou sua espada embainhada. Passou a mão na cabeça. Lucas. 180 . calado.— Sono pesado. Lucas olhou ao redor. Era o último dentro do cômodo. irmão. — Coloque sua capa. Os malditos podem atacar a qualquer instante. estacou e virou-se. — Ninguém tem sonhos. Lucas levantou-se. Bento Duque. Não pode ser assim. — Teve o quê? — Tive um sonho. Bento Duque virou-se.

Para tornar o esconderijo ainda melhor. agora o maldito estava daquele jeito. Afinal tinha ingerido sangue. Sabia disso. Demorou para recuperar o fôlego da exaustiva tarefa. mais mata. provavelmente haveria comida. contendo o corpo de Cantarzo. Seria morto. mas. 181 . Hibernando. Teria que tomar cuidado para não perder o vampiro. Não conhecia muito bem aquela região. o maldito não tinha tomado sangue qualquer. Queria um pedaço de pão. Iria procurar água e fumaça. Lúcio raspou as unhas na barba. assim evitaria o sol direto sob o caixão. Tinha feito o que o vampiro havia pedido em troca da imortalidade. Tinha conseguido o caixão e a corda para puxar o maldito. Estava com fome. Para cima. se encontrasse a casa de algum banido. uma serpente e uma tartaruga. mais mata. já tinha espaço suficiente. Onde houvesse fumaça. Continuavam feito cães urbanos atrás da caça sangrenta. Cantarzo era pesado. Sangue mais especial que aquele no meio dos humanos não haveria. Mas sabia que eles não caíam mortos depois de tomar o líquido da vida. E se não estivesse morto? Poderia estar em uma espécie de transe. Andou entre as árvores e chegou na beira do barranco. Algumas espécies de bromélias jaziam logo abaixo. Por mais quanto tempo o vampiro permaneceria daquele jeito? Acordaria algum dia? Estaria morto? Não podia ir até algum covil devolvê-lo. ainda assim o corpo do noturno era pesado. Demônios. Lúcio passou o braço pela testa. apagado. Arrastou a caixa de madeira. Sentou-se em uma pedra para descansar mais e aproveitar para memorizar as particularidades da paisagem. Depois colocaria o coco para pensar. Curioso algum descobriria o esconderijo. Apesar da lama fazer o caixote deslizar mais fácil. Não sabia se voltaria. Tomaria essa decisão depois. O sol vinha chegando e nada do maldito acordar. Fora o sangue de Bispo. Por outro lado. talvez conseguisse comer alguma coisa. Começou a descer o morro. Apanhou a casca de árvore e cavou mais entre as raízes. alargando a reentrância. Depois de suar mais de meia hora na tarefa de tirar o barro úmido debaixo do raizame da velha árvore. Teria de esconder o corpo inanimado de Cantarzo ou carregá-lo consigo. limpando o suor. Não ia conseguir arrastá-lo por muito tempo. Iria por baixo das copas mais frondosas. Tinha que encontrar uma bruxa. Para baixo. Não sabia o que fazer. Nunca tinha visto antes um vampiro alimentando-se de perto.Capítulo 26 Lúcio olhou para o caixote de madeira. Não tinha garantias de que voltaria a ver Cantarzo andando pela mata novamente. Não sabia o que fazer. adornando todo o pé do barranco. Lúcio passou o braço sujo de barro debaixo do nariz. Onde encontraria a cobra engolindo a tartaruga? Teria de abandoná-lo à própria sorte. para o fundo e começou a recobrir com o barro revolvido. puxou as velhas raízes para cima e cobriu tudo com uma boa quantidade de folhas velhas. Sol nenhum atingiria a caixa.

Via uma valise. — disse Vicente. Que fosse o homem com quem Bispo sonhara. O fim do velho mundo fora necessário para lembrar aos homens da real missão dos irmãos na Terra. Viver uns com os outros. 182 . Ninguém lhe havia pedido dinheiro algum. Lucas suspirou. Proteger uns aos outros. Seu passado perdido. O sorriso sumiu. Entendia cada vez mais as palavras que Bispo havia lhe dito. cavalo. Dinheiro. Dinheiro. restavam dois sentimentos a que os sobreviventes agarravam-se: o medo e a união. Mais três bentos se juntarão à nossa cruzada. Os grandes bancos. Bispo tinha dito que o dia fatídico. Todos sob o mesmo sol. o mundo cinza de aparência e atitude. Nem uma vez ouvira alguém falar de dinheiro. Aquele dinheiro representava vida. que havia separado os vivos dos mortos. Uma lembrança vaga. Sua casa. O mundo aglomerado de gente que se trombava na rua sem acenar a cabeça ou dar um bom dia. mas aquelas escutadas dentro da casa do velho. espada. Uma aflição crescente. estaremos cruzando os portões de São Pedro. arrancando Lucas de suas divagações. — adicionou Edgar. ocupados pelos vampiros amaldiçoados pela escuridão e sedentos de sangue. Pássaros em abundância trocavam de lado nos arvoredos que ladeavam a estrada. O deus dinheiro não era mais importante. O libertador que bateria os malditos vampiros para os confins do inferno e baniria o medo da noite. Não cansava de notar a exuberância da natureza. com suas sedes erigidas e encravadas nos corações das metrópoles. As pessoas estavam mudadas. Os cascos dos cavalos produziam um som oco contra o asfalto. Lucas olhou para o céu azul e límpido. Pediam só que fosse de fato o salvador. sob o mesmo céu. Abriu os olhos.Capítulo 27 — Amanhã. Os homens falavam em esperança e salvação. Não conseguia se lembrar de amigos ou parentes. — disse bento Francis. a uma hora dessas. — Vamos cortar caminho por ali. Todos colocando em primeiro lugar o bem-estar do grupo e não a cobiça privada. Daquela noite assombrada em diante. Recebera roupas de guerreiro. O libertador dos humanos. agora. Bem diferente do mundo que havia conhecido. Apertou os olhos. A maior parte do dia tinham cavalgado sobre a pista negra. havia sido um dia de benção e não de tragédia. Uma pilha de contas em sua casa. Uma valise cheia de notas. Falavam em irmandade e união. varrendo para baixo do tapete da consciência seu fiapo de memória. os grandes ícones do homem iam ao chão e. Havia sido um divisor de águas. Sorriu novamente rememorando os últimos dias. Lucas. Muito dinheiro. não no pesadelo bizarro da noite passada. Lucas sorriu com seus pensamentos recentes. Tinha tido diante de si muito dinheiro. — Menos três bentos até os milagres. deveriam agora ser ninho dos malditos. Dinheiro. A luz do sol inundou sua cabeça.

183 . as pessoas más que são colocadas para fora das fortificações. Assim os noturnos sabem onde guardamos os adormecidos. Lucas apanhou uma peça de pano da mão do soldado. Eles poderiam criar encrenca durante as horas de sol. As peças eram grandes capas de cor marrom com capuzes na extremidade. Evitamos armadilhas por parte dos malditos noturnos. Conhecem. provavelmente. Eles não podem nos atacar no sol. — argumentou Lucas. Estamos em terreno perigoso. — Eles devem conhecer a profecia. Os cinco bentos puseram as capas e mais três soldados. com chão de barro úmido.. — Mas os mulos podem.O bento olhou para onde o colega apontava. sim. Olhou para o caminho para o qual se dirigiam. — Se algum mulo vê nossas capas vermelhas e armaduras reluzentes. — Assim não damos tanto na vista que somos bentos. compactuam com os malditos. Lucas fez o mesmo. Lucas. Um caminho largo. averiguando a passagem. Alguns dos soldados iam na frente. Bentos são perigosos. mesmo sabendo que. O som seco dos cascos de cavalo ia dando lugar ao barulho da lama. Poderiam detectar um grupo de soldados em missão e delatar a posição ao inimigo noturno assim que o sol baixasse. dão com a língua nos dentes. O bento mais antigo suspirou fundo. Lucas olhou para Francis. — Por que não descobrem onde ficam esses mulos e não acabam com eles? Francis puxou a rédea do cavalo e parou o animal. Outros cercavam os guerreiros armados. quando chegar a noite os malditos estarão em cima da gente. Selam amizade. aberto na floresta. Viu Adriano distribuir peças iguais aos outros. Vendem informações. — Mas a essa hora. ainda tem sol. — Conhecem. os escravos dos vampiros. Valemos muita coisa para esses desgraçados pularem feito loucos em cima do nosso couro. Adriano aproximou-se com um volume nas mãos. Lembrou-se dos mulos. O caminho escurecia na medida que as árvores intensificavam-se. — Vista isto. mas são peças importantes no jogo dos noturnos. Esses banidos. Por que atacam tanto São Vítor? Porque sabem que lá se concentra o maior número de adormecidos de todo o Brasil. Os banidos viviam nas matas e usavam desses expedientes para gozarem de bom relacionamento com os monstros da noite e terem seus pescoços poupados. serão picados e moídos por nossas espadas de prata. Sentiu um mal-estar..

não é? Edgar concordou com a cabeça. Continuou calado. Essa vida já é tão desgraçada. Temos que percorrer muito chão até São Pedro. juntarão tantos noturnos quantos for possível para arrancar nosso couro. Depois de cinco minutos ao lado do trigésimo. Os cavaleiros balançando sobre as selas. Edgar levantou o rosto. alertando aos incautos: fiquem longe de mim. que vivem fora dos muros. esses banidos são uns coitados. 184 . Dos malditos vampiros empoleirados nas árvores feitos pássaros do inferno. que fizemos um voto de não matar os irmãos. não matamos gente.. Bento Edgar aproximou-se com sua montaria. exalando pelos poros uma névoa de perigo. o caminho revelara-se calmo e harmonioso ao bento novato.. As copas. altíssimas. E vamos orar também.. — Mas se eles prejudicam tanto a missão. permanecendo ao lado de Lucas. Dá um embrulho no estômago. O grupo de cavaleiros afastava-se. olhando para as árvores ao redor. a atividade dos noturnos é constante. — É estranho. A voz dos soldados conversando na frente e o barulho dos cavalos passando pelo chão úmido. lembrando-se da visão em seu pesadelo. — Já. São vítimas de suas atitudes. pois estamos em terreno inimigo. A pele branca com as veias negras e azuladas realçando a aparência demoníaca e asquerosa. Lucas arrepiou-se. abriu a boca: — E aí? Como é ser o tal? Lucas sorriu. Lucas. Os noturnos são bestas sem escrúpulos e sem coração.. peneiravam os raios de sol. Uma brisa constante refrescava a pele. Lucas. e até mesmo seus protetores da noite acabam se virando contra eles. acompanhando o movimento dorsal da montaria.. soltando ar pelo nariz. — Que nem você. — Sei. Um dia acordei. tão terrível. Esquecem de pactos e de relacionamento. já vai escurecer. Mesmo com os pactos que tecem com os malditos noturnos. Se descobrem um grupo de cinco bentos na mata. — Vamos andando. cerca de vinte metros acima de suas cabeças. aliviando o calor proporcionado pela farda de guerreiro. lá. Nessa região. Mesmo dando vontade.— Não matamos gente. Apesar do ar sombrio que sentira a princípio. — Viver fora da fortificação já é castigo suficiente.. Apenas Alicate aguardava a dupla que conversava. Quando querem sangue só buscam um corpo quente e de coração pulsante. — Como é que você chegou aqui? — quis saber Lucas. Lucas. Fui colocado numa sala e fiquei esperando o que ia acontecer. mesmo os maus. Cavalgaram vagarosamente por cerca de uma hora.

Carros de TV — Não tenho certeza. de uma hora pra outra. — Ubatuba. Um rapaz conhecido.acho que eu estava lá. Edgar abriu um sorriso largo. A Globo deu o maior apoio pra nossa causa. Tinha um folheto na mão. preferia ficar desmemoriado. — Lembra do caso do asilo? Passou no Fantástico. lembra? — Lembro. — O que foi que aconteceu? Eu não lembro bem. Eu comecei uma campanha. acordei como salvador do mundo. ouvindo os gritos desesperados de uma mulher... Edgar também parou seu animal. às vezes. — Sei. Morava em Ubatuba e trabalhava em Caraguatatuba.. Lucas riu da expressão. — Não acredito! — "Desespero que Salva". demora pras coisas voltarem pra cachola. Continuaram em silêncio mais um instante. mas voltam. daí a prefeitura cortou a verba que sustentava o pouco que restara da casa de velhinhos. mas nas horas vagas eu dava uma de professor de Educação Física voluntário no maior asilo de Ubatuba. — Eu era policial rodoviário... Eu era policial rodoviário. Lucas tinha a expressão estranha. — E você? Lembra da sua vida antes de adormecer? — Ah.— Dormi como corretor de seguros.. — O caso Roberto. — . sem explicação. A ação "Desespero que Salva". — Ubatuba? — É. pedindo uma contribuição mensal 185 . O policial maluco... Às vezes. Já lembrei de tudo. Nem do meu nome eu lembrava. Baixou a cabeça.. — repetiu Lucas. O som das ondas. Um flash. — Lucas puxou a rédea.. fazendo o cavalo parar. Foi esse o slogan idiota que eu bolei. — É. — Tá difícil. — É o que eu ia falar. — concordou Lucas. Era eu. mas que deu certo.. Lembra? Lucas apertou os olhos. Olhando para o lado. — Teve uma época que aquele asilo só funcionava na base de voluntários. Faz tempo. Ela tirava a filha de uma multidão de famintos. As praias mais lindas do litoral paulista.. Não sei se isso é bom.. o louco do asilo. A foto de um rapaz. lembra? — Ubatuba.... Assim o peito não ia doer tanto na hora de lembrar da minha preta e dos meus dois bacuris. — Eu lembrei tudo. pedindo aos empresários de Ubatuba e região.

— Chegou uma ordem de despejo. Minha mulher já tava querendo me largar. mas a gente tava unido. Quando chegou o dia de tirar os velhinhos do asilo. que nem eu.. Em dois dias tava todo mundo sabendo e indo lá pra frente do asilo ver os quatro malucos que não comiam nada. Começamos uma greve de fome. tinha criado três. porque quando eu não tava no trabalho. nem tinha mais sentido eu continuar tentando dar aulas de educação física. Faxineiro. De tanto que eu enchi o saco no fórum. consegui duas semanas de prazo. Juntei eu e mais três malucos e ficamos sentados na frente do asilo. que seriam postos no olho da rua. Acabou com o ânimo de todo mundo. tava no asilo. Mais dez pessoas se juntaram a mim.. Não deixamos passar disso pois queríamos que cada um de nós representasse um velhinho. — E ninguém tava cagando pros coitados. No nono dia a coisa engrossou. não tinha água. Não deixei ninguém fraquejar até onde agüentei. vinha hidratar e tudo o mais.. Tinha médico voluntário que vinha atender a gente. Tinha nego que trazia bolacha pra gente. — Nossa. passamos a quatorze. quatro filhos e nenhum filho-da-puta aparecia pra ajudar. tinha um monte de gente lá que tinha sido pai e mãe de família. eu simplesmente não conseguia largar aquela gente ali. — E deu certo? — Não era pra dar. mas tudo gente pobre. Não tinha luz. eu já não tava vendo mais nada. mas isso não ia adiantar.. — Que merda? Bento Edgar deu um toque de calcanhar na barriga de seu cavalo. — Putz. Cara. Do sétimo dia em diante. Sabe. Eu sei lá. mas chegou uma hora que não dava mais. — O que você fez? — O que eu fiz? Comecei com a ação "Desespero que Salva". mas no terceiro dia começou a acontecer. Você não pirou? O que aconteceu? — Se eu não pirei? Acho que não pirei porque Deus mandou um monte de anjos pra segurar minha cabeça. Cento e cinqüenta velhinhos. mas a gente ia levando. não passou um. o SBT. Não dava pra eu colocar cento e cinqüenta velhinhos dentro de um apê de dois dormitórios. foi demais. Não dava pra fazer milagres. Trazia frango.para manter o asilo. em uma semana éramos cento e cinqüenta grevistas do desespero. fazendo-o voltar a andar. Até o dia da merda maior. De quatro. quem disse que tiveram coragem de tirar a gente da frente? Com a televisão lá. Lucas acompanhou o bento. a Rede TV. Um monte de grevistas foi 186 . todo mundo querendo mostrar os cento e cinqüenta malucos. tinham cortado tudo. Virei enfermeiro na raça. Mas só assim pra esses cornos aparecerem. só na base da água. Veio o Fantástico. Tinha muito nego que ajudava. Os coitados estavam morrendo à míngua. Mandamos avisar jornais e rádios da região. Graças a Deus mais voluntários apareceram.

Um semblante preocupado. Uma floresta de eucalipto. Os soldados que iam na frente já tinham descido e buscavam amarrar os animais próximos a um córrego de água limpa e fundo de pedras. como saindo de um transe.. de Cazuza. Mas tive que fazer o maior auê. essa gana por dentro. Lucas. não é? — É. Dizia que morria se ninguém desse um jeito na situação do asilo. sem saber o porquê. Estava perturbado. Cara! Lucas sorriu. é só encontrar a chave. Uma bela noite eu dormi e alakazan! Aqui estou eu. Continuaram atrás do grupo. Lucas. Todos nós temos essa teimosia. — Tá vendo? Tinha gente boa ainda no mundo. As pernas e a virilha já não incomodavam tanto e não se sentia tão desengonçado sentado ao dorso do cavalo. Eu voltei a ser um simples guarda de estrada. Bento Lucas parou o animal. descontraindo os parceiros de viagem. deixando a crina encobrir-lhes parcialmente enquanto bebiam água. inquieto. cantando Exagerado. — Legal. pagaram AS contas nos hospitais dos grevistas. — Tinha. 187 . — Depois de um tempo. O soldado Carlos aproximou-se para auxiliá-lo a descer do tordilho. Eu não. eu lembro. Uma construtora. Até ganhei uma medalha do comando por isso. Depois de completar a curva.. Contrataram médico e enfermeira para os velhinhos de Ubatuba. Pagaram as contas atrasadas. as coisas voltaram ao normal. sentiu outro calafrio. igualmente aberto por baixo da copa das altas árvores. descendo rapidamente e sem embaraço algum. As criaturas sedentas baixavam elegantemente a cabeça. Encontrou neles algo diferente. — Todos nós somos. O bento olhava para todos os lados. Voltou a olhar para o caminho de barro na frente. — Acho que agora.levado para os hospitais. no entanto o bento já havia se acostumado ao transporte. você falando. — O que foi? Que cara é essa? Lucas encarou o soldado por um breve segundo. Carlos notou os olhos de Lucas. Não deixava. como tantas outras que haviam cruzado. — Que história! Você é um cara bastante obstinado. Dizia que aquilo não podia e que eu sozinho não podia nada. Por que aquela sensação crescente de desconforto? Aquele pressentimento de perigo? Sinatra encheu a floresta com sua voz aveludada. — Não sei quanto tempo passou. Lucas viu bento Vicente e bento Duque apeando os cavalos. Teve uma empresa que assumiu o asilo. A luz no céu minguando. O novato suspirou mais uma vez.

O grandalhão Paraná acendia fogo para esquentar água para um café. — disse. Quando livrou-se do apetrecho. Vampiro nenhum vai se meter a besta conosco.— Nada. levando seu pé e o resto do corpo ao fundo da água. Uma refeição ligeira não cairia mal. não gritem meu nome. Os amigos que escarneciam não tinham culpa de seu acidente. livrou-se daquele aperto no peito. Carlos olhou em volta também. Duque ainda ria com alguns dos soldados. Conhecemos pouco estes cantos. Marcel auxiliava e já tinha estendido uma toalha no chão onde havia deposto duas broas salpicadas de farinha. — Na escuridão? Sem chance. Não vou ajudar nenhum de vocês. arrancou a capa marrom. O sol já vai embora e não encontramos um esconderijo decente para esta noite. Pode deixar. Sei. irritado. Francis. faltava pouco para o sol esconder-se no horizonte. — Quando tiverem um vampiro nas suas costas. Só não estou me sentindo bem. — brincava o negro grandalhão. Sinatra voltava a cantar. Os cavalos estão mortos. Uma sensação de perigo. Carlos. depois das risadas junto ao riacho. apertando as luvas. — Vamos descansar mais um segundo. Ainda estava junto do bento novo quando ouviram um barulho e em seguida risadas. viu quando bento Duque levantou-se da água. É só uma sensação esquisita. Vamos encontrar um abrigo. balançando a cabeça. 188 . Infelizmente. Vicente olhava para o morro na frente. Lucas. Onde já se viu? Rirem de um pobre bento que cai no rio! Os soldados riram ainda mais alto e fizeram também suas graças. Duque. Vicente resmungou qualquer coisa e começou a andar sozinho pela estrada de barro. Carlos correu até o meio dos colegas. Faltava pouco para o pôr-do-sol. Vicente. Tinha pisado em falso ao aproximar-se do córrego e uma pequena pedra tinha rolado. Sentou-se junto com os soldados para descansar um pouco da jornada no lombo do cavalo. Lucas. — respondeu o soldado. também sorriu. Os cavalos relincharam e ergueram as patas. Com certeza encontraremos abrigo adiante. Somos cinco bentos. Os outros bentos e os soldados faziam gozação. irmão. — Vai chegar o dia de vocês. Estendeu a capa do capuz em cima de uma pedra. vindo atrás. — Huum. Os homens estavam na beira do regato. A quentura da rocha talvez tirasse a umidade do tecido. — Andamos demais. empapada pela água. onde a hóstia rubra começava a tocar. Bento Duque torceu a capa marrom com a ajuda de Alicate. ajudando a distrair os rapazes. — Não assuste os homens. Ao que parecia procuraria um esconderijo por conta própria.

Não estava estendida sobre pedra alguma. onde as sombras da noite já tomavam seu lugar. Tentava descobrir que tipo de pessoa existia por trás de cada rosto. O disco vermelho já tinha caído para trás do morro. apanhado em Esperança. Baixou os olhos vendo o caminho abaixo das copas das árvores. Olhou para as árvores. Caiu da pedra em que se encontrava sentado. Derrubou a caneca e sentiu o coração disparar. Ganhavam gratidão. caminhando somente com a elegante armadura torácica de prata. enrodilhando o tronco de um eucalipto. A caneca na boca. eram excelentes para o novato descobrir mais sobre a sociedade atual. causando desconforto. Não ganhavam dinheiro em troca. Sobre uma grande pedra. O bento sorria ao aproximar-se. Não que o sofrimento as enobrecesse. Gente sofrida que lutava pela sobrevivência. Olhou para o bento. tingindo o céu de tons vermelhos e violáceos. Ganhavam irmandade e companheirismo. cuidado com a capa! — escarneceu Vicente. Estavam na estrada porque queriam trazer mais conforto para os irmãos. — Encontrei uma gruta segura! Lucas olhou para o córrego. Com a ajuda de outro soldado. Olhou em volta. O pão macio. Cada vez mais convencia-se que eram pessoas do bem. Mas sofriam porque queriam sofrer. Retirou a capa e depois os coturnos. As reuniões. Livrar o mundo daquelas pestes da escuridão. atabalhoado. trazendo nela as marcas de combates antigos. Abriu os braços ainda desequilibrado. Descobrir palavras e integrar-se ao novo vocabulário. sorvendo mais café quente. Analisava também o jeito de cada soldado. Esperavam encontrar um monstro empoleirado na árvore. observando. De cada bento. A peça também estava molhada e ficava colada nas costas de sua armadura e também nas batatas das pernas. confortava o estômago. Lucas estava descontraído. Lucas apontou para as árvores. à beira do fogo. com a caneca de café quente na boca. Vinte minutos passaram-se e todos sorviam em pequenos goles o café fumegante e saboroso preparado pelo cuca Paraná. como Edgar mostrara-se. também torceu bem o manto. Lucas mais ouvia do que falava. Traziam cicatrizes nos braços e faces porque estavam na estrada. Olhou em volta à procura de um lugar seguro para secar o tecido. Procurou pela capa. Conversavam despreocupados. Seu coração batendo tão rápido e tão forte que poderia arrancar a armadura. batendose contra o perigo. Vicente vinha pela estradinha de barro. Esses valores pareciam a Lucas a moeda corrente do mundo novo. mais segurança. a capa marrom de bento Duque parecia quase seca. mas tudo que viam era a capa vermelha do bento Duque amarrada no alto. Engasgou-se com o líquido fumegante.Duque pressionou os dragonetes que vinham nos ombros e liberou a capa vermelha. 189 . Risadas dos soldados. Lucas levantou-se. Bento Francis o encarou com seriedade. quando se voltou mais uma vez para o horizonte. — Uhhh. Estava sem a capa. Olharam na direção que o dedo indicava.

— Meu sonho! — gritou. Pensava nisso quando ouviram uma explosão. — Está vendo aquela touceira logo ali? Francis levantou-se e olhou rapidamente. Teriam sorte se houvesse apenas um atirador. Os soldados do grupo de Adriano não questionaram. pois o amigo bento havia lhe contado em detalhes o pesadelo e lembrava-se do bento comentar alguma coisa sobre um pano vermelho. — O que tem a gruta. Bento Francis aproximou-se.. gente seca. — De adormecidos? — Gente. Pode apostar. a gruta que Vicente encontrou. — E vampiros. Se o maldito desse mais um tiro revelaria sua posição. mas uma explosão bem ao lado deles interrompeu a conversa. Lucas? — Ela está cheia de gente. — Eu acertei! — gritou Raul. Outro tiro. — Certeza. quando estava com aquele rifle. Sabiam que Raul era o melhor de mira do grupo e. Lucas levantou a cabeça. tinha visto um tecido vermelho enrolado num tronco de árvore. O soldado destravou a arma e apoiou-se em uma rocha fazendo mira na floresta. Tinham o riacho às costas e somente as pedras como barreira. lembrando-se do sonho na gruta. 190 . O tiro parecia ter vindo do lado esquerdo da clareira. — A gruta. — Mulo desgraçado! — urrou o grandalhão. Os soldados buscaram a proteção das pedras. — Sorte nossa que esses mulos são ruins de tiro.. — Ali é a boca de uma gruta. dificilmente perdia um tiro. Lucas? Tem vampiros nela.. Durante a visão com o velho Bispo. Precisamos ajudá-los.. Tem alguns vivos. Francis ia dizer alguma coisa. Uma lasca de árvore saltou próxima à cabeça de bento Vicente. — completou Lucas. mas não tinha garantia nenhuma de estarem no meio de um cerco. cara. — Todo mundo pro chão! — gritou o líder Adriano. — balbuciou Francis ao ouvido de Lucas.. Ninguém sonhava desde a Noite Maldita. — Certeza? — perguntou o líder Willian. Adriano rastejou até os cavalos. Adriano arremessou um fuzil para Paraná. Também sentira um calafrio percorrer a espinha. Raul ergueu o rifle com mira telescópica em sinal de vitória e voltou a se proteger contra a pedra..

Aquela tinha passado raspando. Trinta. Partiram para os cavalos.Vicente olhou para a árvore lascada e mediu um palmo até sua cabeça. Fez o sinal-da-cruz. eles vão ficar loucos. — Vamos nos esconder na gruta! Lá estaremos protegidos. olhavam a outra margem do riacho. — pediu Francis ao bento Edgar. Um azarado. Sonhou com as criaturas. buscando o corpo do atirador na direção indicada por Raul. fazendo graça com a expressão. Edgar. Nós vamos sair dessa. Os soldados ouriçaram-se. entregando o céu à noite. Não podemos perder nenhum. — disse Adriano. Os homens continuaram um instante atrás das pedras. — Precisamos juntar trinta bentos. Joel atravessou a estrada de barro e embrenhou-se na mata. Um vento frio agitou a copa das árvores. sinais de inimigos nas proximidades. Água benta. bau bau profecia. O silêncio pesou sobre o grupo. — Você vai ficar prestando atenção em tudo que esse merda fala? 191 . — O pesadelo de Lucas. — gritou Raul. Alicate e Carlos. — Ele sonhou com esse lugar. — Defendam os bentos. — Nenhum. saiu atrás do soldado. tem vampiros. — Acho que era um só. — Como sabem que tem vampiros naquela gruta? — questionou Vicente. — Por quê? — quis saber bento Edgar. — Quanto tempo temos? — perguntou Alicate. preparando as armas. Quando os malditos chegarem. Marcel retirou três garrafas do meio de suas coisas. — Ele sonhou com esse lugar. Vicente olhou para o horizonte. — Traga Joel. Raul olhava para a mata com a mira telescópica. Os soldados levantaram-se e iam em direção a Vicente. levantando-se também. — Na gruta. Os soldados aquiesceram. Preparem as armas. Um fino fio vermelho perdia a força. Os bentos também pareciam empertigados.. procurando indícios de movimentação. não teremos que nos preocupar com a retaguarda. — repetiu Vicente. Lembra? O bento balançou a cabeça positivamente. Balas de prata. o magricela de músculos definidos. Se um morre. sua amiga inseparável.. Ouviram? Nenhum. poderemos nos defender melhor. Custe o que custar. — Tudo limpo. — Se tiver mais gente por perto os tiros vão chamar a atenção. Repetiu o sinal-da-cruz e pousou a mão no cabo da espada. Willian e seus soldados. — Na gruta não! — gritou Francis. mudando a voz para um tom mais agudo.

Parou e examinou melhor o grupo. Bento Francis sacou a espada. exibindo seus dentes pontiagudos e descendo para mais perto do chão. cercando perigosamente o grupo de soldados junto ao córrego. Uma sombra sinistra escapou pela boca da gruta e saltou para cima de uma árvore. Os demais vampiros grunhiram. Bento Duque estralou os dedos e desembainhou a espada prateada. a luta seria infernal. Ao invés de ficar fazendo pouco. Edgar cuspiu na luva de couro e sacou sua arma também. — Fogo! — gritou Adriano. A touceira de mato alto agitou-se. apontando para Duque. fazendo graça na sua vez. as criaturas saltaram das árvores. O líder foi o primeiro a abandonar o galho frondoso e cruzar o ar em direção ao grupo de humanos. movendo-se com grande velocidade e agilidade. Um homem negro trazia o tórax protegido pela armadura de prata. Morra no lugar dele. — Você vai ficar prestando atenção em tudo que esse merda fala? — repetiu bento Francis. É o único caminho. As capas marrons com capuz confundiriam por um instante as criaturas. Lutar por um pouco de sangue quente no começo da noite seria um bom exercício. Relinchos de cavalo encheram a mata. deixando uma árvore e partindo para outra. Ele veio para nos salvar.Um vento mais forte bateu na estrada. Bastou o grito ameaçador da fera para que os bentos fossem tomados pela força estranha que os empurrava de encontro àqueles monstros. Seus olhos vermelhos varreram a mata. Abriu um sorriso ao avistar quarenta metros adiante o grupo de soldados. Um bento! Dezenas de vampiros saíam pela boca da gruta. Bento Vicente sacou a espada. As roupas negras da criatura esvoaçaram quando cruzou o ar. — Sangue bento! — bradou o líder dos vampiros. O vampiro agarrou-se firme ao galho. ponha sua espada ao lado dele. Grunhiu chamando a atenção dos irmãos noturnos. indo na direção do vampiro líder. Bento Duque gritou e ergueu sua lâmina. Assim que o líder tocou o solo. Eram muitos inimigos chegando. 192 . você tem que aceitar que Lucas é o homem! Ele veio para nos ajudar. A maioria saltava direto da abertura para um galho de árvore. O vampiro parou empoleirado no galho firme do eucalipto. — Vicente. formando uma perigosa nuvem de criaturas da escuridão ao redor dos poucos soldados.

A mão segurou firme o cabo da espada. Lucas continuou a corrida. sugando-lhe o auto-controle. colocando para fora seus órgãos podres. ficaram tensos quando perceberam o vampiro líder cair decapitado. tombando aos gritos. de encontro aos malditos. Os vampiros que gargalhavam em cima das árvores. seu corpo vampírico perdia as forças e sua cabeça escapava do pescoço. a prata sempre exercia essa maldita reação. Mais um segundo e a lâmina passava em seu abdome. No instante seguinte. Lucas. Abriu a capa marrom e retirou o capuz. abaixou a cabeça. Quando flexionou o corpo. Notaram que. com suor escorrendo da testa. cruzando o espaço com a espada acima da cabeça. o golpe poderoso da lâmina atravessou 193 . Mais um desgraçado saía do caminho. vindo de encontro à espada de Duque. O vampiro líder parou o ataque antes de encontrar-se com a espada de Duque. Tentariam a todo custo salvar aqueles homens sagrados e manter a concretização da profecia em curso. O cheiro fétido das criaturas entrava por suas narinas. O líder dos soldados de São Vítor fez nova mira. Assim que o vampiro líder gritou e tocou no chão. Risos partiram da boca das feras. alcançando um a um. Os soldados tentariam abater o maior número possível de criaturas. A fera não teve mais forças e despencou das alturas com os olhos vermelhos fixos num par de gemas amarelas espectrais. Adriano deu mais um tiro. surpreso. antes delas tocarem nos bentos. No instante seguinte.Disparos começaram a espocar ao redor dos bentos. quando o bento disparou em desabalada carreira. Lucas arrancou a espada da bainha provocando um chiado metálico. ignorando os vampiros que surgiam ao seu lado. Outro vampiro sentiu a carne penetrada pelas balas de prata. percebeu uma sombra prateada e vermelha cruzando seu caminho. Mais um bom número ainda empoleirado nas árvores. Os olhos do bento encheram-se de luz. surgiam cada vez mais bentos. O vampiro urrou de dor. igual aos malditos. Saltou de cima da árvore. um deles notou aquele homem de capa vermelha subindo rapidamente na árvore. parou para observar Lucas. fazendo sua capa vermelha esvoaçar ao girar o corpo. Viu sua perna rodopiando no ar e indo ao chão. ferido gravemente. Não teve tempo de dar o alerta. Queria alcançar as árvores. a espada afiada do bento já o tinha atingido na altura do joelho. debaixo daquelas capas marrons. O vampiro. teve que voltar ao chão ao notar a massa crescente de atacantes fechando-se sobre os companheiros. Lucas começou a sentir uma queimação interna. queimando a carne e comendo os nervos. Marcel que. observando a batalha. No entanto. Ao tocar o solo. saltando. de galho em galho. emanando um espectro amarelado. Um grunhido gutural formando-se em sua garganta. O círculo de vampiros em torno deles pareceu aguardar um segundo ao perceber mais um bento revelado. sentiu a pele arrepiar. evitando a fuga das criaturas. Os olhos do bento estavam amarelos! Marcel chamava a atenção de Raul. Dezenas delas estavam no chão. Lucas partiu para o seguinte. apesar da tensão do momento.

alcançando um bom número e fazendo seus corpos caírem retalhados. que permanecia empoleirado nas árvores. Os agonizantes. entocados em buracos e grupamentos de árvores. um a um. largados ao chão. Edgar abaixou. Mas creio que levarão. por conta do odor horrendo que escapava das criaturas. no mínimo. dividindo-a ao meio. Voltou para o acampamento. juntando-se aos amigos. Por outro lado. repartindo ao meio mais uma criatura. Queria estrangulá-los. — Alguns se foram. Eles terão tempo de sobra para uma segunda investida. — Maldição! — protestou bento Vicente. Aos poucos.de cima a baixo uma vampira. mutilados. com sangue esvaindo por cortes abertos pelas afiadas garras dos monstros da escuridão. Miravam principalmente na cabeça do inimigo. Vendo os semelhantes caindo um a um com grande velocidade. — Quanto tempo temos? — perguntou Lucas. Não consegui acabar com todos. Voltou a correr e atirar-se árvore acima. Não vão querer se bater com nosso grupo sem uma preparação. contar o ocorrido. Os tiros dos soldados estavam sendo de grande valia. acaba de escurecer. Terão de juntar outros bandos. Assim que o fedor desapareceu. Lucas não teve mais como perseguir os vampiros em fuga. Usava o cotovelo e as pernas para afastálos e a lâmina afiada para exterminá-los. Empenhava toda sua força e raiva contra as criaturas. que os corpos dos "mortos-vivos" permanecessem seguramente inanimados. garantindo. o número gigante de criaturas noturnas impedia uma tortura mais severa. Mas. — juntou Duque. O bento cruzou a espada horizontalmente. bentos e soldados perceberam as brasas circundantes em cima das árvores irem desaparecendo. dessa forma. Não tinha medo. Os malditos estavam fugindo! Lucas. respondeu: — Não dá pra saber. O cheiro horrendo que exalava dos malditos o deixava cego. Os malditos noturnos conheciam bem a floresta e seus esconderijos. adotou nova estratégia. Por que quer saber? 194 . bailando pelos galhos tal qual faziam os malditos. tentando derrubar os guerreiros. — Eles voltarão com mais. mais quatro horas para se reorganizar. percebendo que os bentos estavam investindo pesado contra o ataque em terra. voltou a sua fúria para os vampiros que tentavam fugir. Francis. onde os companheiros tinham dado cabo do numeroso bando de inimigos. encontrou mais meia dúzia deles. Mesmo assim. Os bentos olharam para Lucas. Impedindo muitas vezes que os guerreiros espadachins fossem agarrados pelas costas. Tinha que ser breve nos golpes. Três soldados estavam feridos. Seus olhos voltaram à coloração normal. Lucas apertou o cabo da espada e com maior ferocidade bateu contra as criaturas que o cercavam. Eram tantos ao redor. Em poucos minutos havia se afastado cerca de um quilômetro do acampamento. eventualmente lançavam seus braços. voltar até aqui. Muitos deles morreram aqui. o número reduzido de vampiros. acovardados.

como transportaríamos eles para São Pedro? Como levaríamos essa gente para lá? Nos Rios de Sangue não encontramos uma ou duas dúzias de pessoas. Socorrer os feridos. Vi gente viva lá dentro! Bispo não deve ter me mostrado isso à toa! — Seguramente não mostrou à toa. Raul e Willian feridos. — Caso fossemos para o fundo da gruta salvar gente. com a ajuda dos quatro milagres. como vamos detê-los? Esse primeiro ataque deixou Zacarias. não poderemos deixar uma sequer para trás.. 195 . com certeza poderemos voltar a essa gruta e a salvar essa gente. consternado. Mas. — Vou cuidar dos feridos. — É isso mesmo. meu bravo irmão. Seremos esmagados. E se perdermos um bento que seja. Não estava certo. Um ex-médico ainda sabe dar jeito numas feridas... Temos que levantar acampamento. — Temos uma missão a cumprir. essa gruta será o primeiro lugar que visitaremos. Ajude os demais a preparem as coisas para nossa partida. — Prometo que depois que os trinta bentos estiverem juntos. Não poderemos contar com os braços deles. Lucas. Não podemos ficar aqui e essa noite ainda será longa. A noite é deles. Lucas aquiesceu... — murmurou o soldado Sinatra. a noite é deles. adeus quatro milagres. Andar por esses caminhos com três homens sangrando é chamar confusão. Não é isso que eu quero. no meu sonho.. Eles matarão todos os restantes e mudarão para outra toca. Tinha gente viva lá embaixo. — continuou Francis. Eles estocam centenas.— Dentro daquela gruta. referindo-se aos vampiros. — impôs um fim à discussão. Se esses malditos voltam em número dobrado. — Mas não podemos nos deter por causa disso. — Rios de Sangue. praticamente nossos melhores atiradores. Lucas! Centenas! Depois de entrar lá. Lucas baixou a cabeça.. tem gente viva lá embaixo. Lucas não discutiu mais. Não é isso que você quer. se nos mantivermos firmes em nossa meta. — Vamos abandoná-los? Eu vi esse lugar antes.. É isso que eu vi no meu sonho. certo? — Não. Lucas.

Anaquias foi o último a surgir. Não era natural. Não gostava de mulos. um círculo que revelava que aquele monte de pedaços já fora um pote. aproximando-se. Alguma coisa estava acontecendo. Gerson andava vagarosamente. vigorosa. E a ela deviam respeito. Raquel era a senhora da toca. Sangue seco. Sentia o cheiro de alguma coisa. Sangue de gente. a floresta. havia mais daquele sangue estranho. Anaquias cheirou mais uma vez. ela mesma. Era engraçado. Anaquias caminhou até uma grande rocha que marcava o fim do descampado. Depois dela. Arremessou o vidro ao chão. Não via nem ouvia notícias de Cantarzo há duas noites. Reviraria aquela floresta de cima a baixo para encontrá-lo. A fera. Anaquias lambeu o sangue. em companhia de um humano? O que estava tramando? Cantarzo não era de travar amizade com humanos.Capítulo 28 Raquel ergueu mais o nariz. — murmurou a vampira. buscando no chão por pistas que levassem ao vampiro. O maldito tinha desaparecido. Um humano. farejando. Até gostava do velho Cantarzo. mas queria. Não se incomodaria com o sumiço do vampiro. partindo-o em dois pedaços.. sua mestra da noite. Uma mancha na pedra. Feriu a língua no vidro afiado. A "caçadora-líder" continuava sem entender. Algo estranho.. Era um caçador puro. até mesmo Cantarzo. Olhou para o chão com barro ressequido. O que o vampiro tinha feito ali. No fundo do círculo. chamando a atenção de seus dois escudeiros. Seus olhos acenderam. como ela. Raspou com a unha. Encontrou sobras de uma fogueira na clareira. O maldito pagaria pela traição. Um par de brasas vermelhas saiu da mata. Vidro estilhaçado. Era dele o cheiro esquisito. Um odor estranho. Cantarzo sofreria o pior castigo impingido a vampiros inimigos. se fosse pedido. Mas era fiel a Raquel. Raquel estava debruçada sobre a fogueira... Cheiro de vampiro. Aquela porção ainda estava úmida. com mais gana. Raquel grunhiu e gesticulou. Era o único não obcecado pela idéia de estrangular Cantarzo. Raquel agachou-se ao lado da fogueira. dar cabo do vampiro. Pegadas. O "caçador-vampiro" não era de todo ruim. Seria estaqueado e enterrado. Seu olho bom vasculhou o caminho. Não havia sangue ali. cheirando o barro. Anaquias baixou os olhos. Não cheirava sangue de gente. Abaixou a cabeça até o chão. Buscavam pistas que pudessem levá-los a Cantarzo. Definharia até que seu corpo vampírico não pudesse mais ser 196 . mas era. Encontrou marcas no barro ressequido. Por ela arrancaria a garganta de sua mãe. iniciava. permitindo que enxergasse ainda melhor na noite. Encontrou uma peça menor. — emendou Gerson. — Ele esteve aqui. — Também posso sentir o cheiro do filho-da-mãe. Cantarzo tinha deitado-se ali. Cantarzo. Lambeu novamente. Saboroso. Gerson também olhava para todos os lados.

Se tivesse um coração humano funcionando.. Teria o humano dado cabo do caçador? Impossível. Merda! Como tinha sido dolorido! Gerson percebeu o amigo dobrado. — resmungou Gerson. Como se algo mexesse em sua cabeça. engolindo uma tartaruga. Subiu e saltou para a árvore vizinha. Iria atrás daquele humano. como se outros olhos mostrassem. A dor. com um pedaço de madeira enterrado no peito. Apertou os olhos. de boca aberta. Uma serpente. quase caindo para frente. O vampiro desencostou da árvore e buscou Raquel com o olhar. Anaquias buscou equilíbrio. Percebeu as marcas ao redor de onde Cantarzo teria se deitado. A maioria das pegadas do humano estavam sobrepostas por um sulco largo. O vampiro grandalhão acompanhou a "vampira-líder". cambaleando. que estivera molhado tempos atrás. da cabeça aos pés. Anaquias caminhava em direção a Raquel quando sentiu uma contração no estômago. Seria ferido e desfiado à unha. Não sabia o que aquilo significava.. Curvou-se. Uma sensação que nunca tinha experimentado antes. Sentiu um tremor.. Raquel ergueu o olho bom para o caminho. algo sendo arrastado. O que fora aquilo? — Está tudo bem? — perguntou Gerson. Fumaça. fora. o músculo cardíaco estaria disparado.animado. Só ele lhe daria as respostas do que teria acontecido com Cantarzo. — Vamos. Anaquias correu para não ficar para trás. Tinha visto uma coisa. 197 . Pereceria. Não sentia mais nada. desapareceu. mas as marcas diziam isso. Estranho. Como se algo cutucasse seu corpo. aproximando-se. Mas que fora estranho. igual veio. O chão. Anaquias recolocou-se de pé. nunca mais lhe diminuiria perante os velhos vampiros. A vampira correu e saltou para o tronco espinhoso de uma jaqueira. ciente de sua danação. Nunca mais Cantarzo lhe faria de idiota na frente dos demais.. Encostou numa árvore. deixava claro. Raquel agachou-se sobre as pegadas do humano. de sua incapacidade.

Talvez fosse o caso de mandar um soldado na frente. Esse era seu trabalho. Tirou a faca afiada da cintura e rasgou o bucho do bicho. dormindo no meio da "marmanjada". o soldado queria descanso para os cavalos com um pouco de sombra e água fresca. habilidoso. Willian. Adriano sentia-se ansioso. Queria sua moto. Aquele negócio de cavalo estava acabando com suas costas e com sua paciência. de forma alguma. Se tivessem indo pela estrada. ao menos. carregou-a para junto do riacho. 0 líder Adriano também tirou a camiseta. Zacarias. Ainda mais agora. a saudade de Carina falava alto no peito. Esse era seu dever. mas precisariam. Com o sol a pino. Pouco do sangue que tinha sobrado no corpo da criatura tingiu a água do regato. Além de água para o bando. o sangramento poderia voltar e a hemorragia levar embora a vida do soldado. Mas. a todo galope. finalmente. Provavelmente não alcançariam São Pedro até o poente. refrescando-se um pouco do sol ardido. tirando a pele do bicho. Joel. Não tinha raiva por acompanhar os bentos. Desceu para junto de Zacarias e molhou os braços. Paraná tirou a capivara do lombo de seu cavalo e. Francis estava certo de que os três feridos não morreriam. mas. De noite. numa missão tão importante. torcendo o cabo. Em outros tempos. com a ajuda de Marcel. Do contrário.Capítulo 29 A noite angustiante passou lenta. sentia-se muito melhor. Francis concordou e em menos de cinco minutos estavam todos com os pés na água. Dos 198 . passou a faca por baixo do couro da capivara. apesar dos cortes no corpo. Paraná pediu uma parada quando alcançaram um regato. Tirou a camisa e a calça e desceu a margem do riacho para banhar-se. mergulhando a comitiva em ladrilhos de sombras e luz. As árvores altas filtravam os raios intensos. Estavam perto de chegar na estrada novamente. Paraná. principalmente. de descanso. Com os três machucados. já estariam em São Pedro a uma hora dessas. sentia falta do corpo macio e quente da esposa. Em mais alguns instantes aquele pernil gordo estaria servindo de almoço para o grupo. para buscar ajuda na próxima fortificação e preparar a chegada dos bentos e dos homens feridos. começou a juntar pedras de bom tamanho para demarcar o fogo. Por volta das oito horas da manhã levantaram acampamento para que os soldados feridos tivessem os curativos revistos por Francis e para que descansassem um pouco da jornada. a marcha seria mais lenta aquele dia. sem que os bentos e soldados experimentassem novas surpresas. o sol levantou-se. a preocupação maior do médico seria controlar a inflamação e debelar uma provável infecção que se instalaria na ferida. O líder dos soldados de São Vítor tinha um extenso corte abdominal e não poderia fazer esforços até que a cicatrização estivesse avançada. vendo os preparativos.

monta teu cavalo e corre sem parar até São Pedro. Se acelerarmos no lombo dos cavalos vão sofrer demais. Quantos dias ainda levariam naquele caminho. Não abriam 0 bico. Tinham era pouca fé na profecia do velho Bispo. deitados junto à raiz de uma grande goiabeira. Temiam que seu segredo salvador caísse nas garras dos vampiros. Alicate olhou para Willian e Raul. O soldado tinha uma marca no peito. que acomodava Raul e Willian. Vá direto a São Pedro e peça transporte aos feridos. Vá buscar ajuda. 199 . fitou o líder de Nova Luz por um instante. Baixou as mãos em concha e jogou água no rosto.. — Depois da bóia. Zacarias contava alguma piada e fazia graça com os colegas. — Você deve dar dois do Paraná. depois. Vamos continuar nessa marcha lenta até o fim do dia. Apesar do calor. — Posso ajudar. começaram a rir.. Lucas tirou a capa vermelha e. Francis duvidava. mas esses analgésicos de São Vítor não são para isso. Quanto tempo levaria para juntar os trinta bentos? Francis. Aqueles homens envolvidos com o plano tinham marcas mesmo. Bando de doidos. senhor? Francis olhou para o céu. como boi marcado. era uma cicatriz. vamos acabar dormindo fora da fortificação. Então era verdade. o sol brilhava acima das árvores. Francis sorriu. Entregou água fria nos músculos dos braços. que se queixavam de dor nos cortes. — Como? — Você monta bem? — Só não sou chamado de vaqueiro porque já me chamam de Alicate. — Isso. Abriu seu embornal e retirou um frasco com comprimidos feitos no HGSV Deu Um comprimido a cada um e estendeu o cantil. — retrucou Lucas. Bento Vicente aproximou-se e estendeu duas goiabas grandes para o colega. vai enganando a barriga enquanto o grandão prepara a bóia. a vestimenta já não incomodava tanto. — Olha quem fala. Os soldados estavam com os olhos fechados.. Alicate.beijos quentes. Francis desviou o olhar. Mas nessa velocidade. Os soldados. Uma porção da água fresca reteve-se em seu cavanhaque loiro. mas não revelavam os detalhes a ninguém que fosse de fora do círculo. eu costurei as feridas dos homens. O soldado Alicate aproximou-se.. Deveria ser quase meio-dia. mas não podemos abusar. Lucas apanhou as frutas e acenou agradecido. Não era uma tatuagem. o peito de prata para descansar o esqueleto. — Estão mal assim? — Não vão morrer. Todos sabiam que tramavam alguma ação ousada. na beira do rio. — Pode. até mesmo. Voltou a olhar para Adriano. que Vicente conhecesse tudo.

. nessa missão dos infernos. — Você é magrelo feito um grilo. Lucas mordeu novamente a goiaba... Lucas quase engasgou com a goiaba. — Esse é um mundo louco. não sou bajulador. em vez de vermelho. — Do que você está falando. — Nunca vi gente com o olho daquele jeito. Lucas terminou o sorriso. Voltar a ser que nem antes.. — Você me elogiando? — Elogiando o escambau! Não sou viado pra ficar agradando homem. pareciam duas brasas amarelas. Só tô dizendo que você é diferente. Lucas sorriu. parado. mas ferroa como um zangão. Vicente tirou a capa surrada e soltou também o peito de prata.. — Se a gente vivesse no mundo de antes... mas. — Eu não tenho muito jeito pra falar com os outros. Lucas. tu parece frágil feito borboleta. — De tudo voltar a ser como era. e agora que os milagres virão. sim. sem dúvida você é especial.. — Não quer que os vampiros desapareçam? — Isso eu quero. mas não quero que as pessoas voltem a agir como agiam antes dos vampiros. no meio de mais uma mordida.. Coçou a barba. Não sei o porquê que fui escolhido para estar com vocês. Lucas parou um instante. Mas depois que eles desaparecerem? O que vai ser da gente? Pra que vamos existir? 200 . colocando-o no chão. sobre o tecido. pareciam com as janelas dos malditos.. só tenho medo de uma coisa.Vicente sorriu. O velho Bispo devia tá certo. — O que você fez ontem. É que nem o Ali falava. estavam amarelos.. A fruta de interior vermelho estava doce e saborosa. arrebentando cabeça de capetas.... Lucas mordeu a goiaba. duvido que um de vocês estivesse aqui. Lucas não entendeu.. — Mas isso não ia ser bom? Vicente bufou e balançou a cabeça negativamente. — Que jeito? — Seus olhos. só queria dizer que pode contar comigo. mas é rápido. Vicente? — Tô falando que rezo sempre para o mundo não voltar a ser o que era antes. falando comigo. — Do quê? — perguntou o trigésimo bento..

Sua vida era o presente. Mas aí veio a Noite Maldita. Saio retalhando tudo. Em cerca de um minuto os faróis surgiram na escuridão e mais alguns segundos até os veículos cercarem os cavaleiros. — Será visto como um guerreiro. Já roubei. — retribuiu Lucas. Depois de alguns segundos abriu um sorriso. Faltavam cinqüenta quilômetros quando ouviram o ronco dos motores rasgando a estrada. Se você parar pra falar com cada nego aqui nesse acampamento. Vicente tirou o colete de couro. Minha pena era de trinta e dois. Bento Vicente riu alto. ainda não tinha tempo de sentar debaixo de uma goiabeira para meditar sobre o futuro... Vicente.. fitou Lucas demoradamente. O bento era coberto por tatuagens. Escuta cada coisa. você. velho. tirou sua camisa de mangas longas. Lucas ficou imóvel. você é um cara bom. Lucas sorriu. Lucas estava impressionando. Todo mundo ficou louco.. Um dos veículos era uma pickup Ford. bento Vicente. trazendo o reforço de São Pedro para escoltar os cavaleiros até a fortificação. com 201 . Cada coisa. não tá? Lucas aquiesceu. de juntar jóias. Puxei cadeia em tudo que é canto. — Sete anos no xadrez. já cortei rola de estuprador. nas costas. boquiaberto. Quando os vampiros vêm pra cima eu não tenho escolha.. Era pra eu ter ficado mais.. no peito. Dá até vontade de chorar. — Firmeza. Lucas olhou demoradamente para Vicente. Até as trancas do xadrez os doidos abriram. A noite há muito tinha chegado quando os cavaleiros aproximaram-se de São Pedro. calado. Foi assim que eu saí de lá.. — Firmeza. Já matei. — Mas você.. sem chance. pousando a mão no ombro do colega de jornada. O gigante virou de costas. velho. E depois? Depois que os vampiros forem exterminados? Vou ser visto como um bento ou vou ser visto como um ex-presidiário? Lucas levantou-se e ergueu o braço. deixando o peito largo e pálido nu. De roubar apartamento. Algum bom samaritano tirou esse sangue ruim do buraco. Alicate vinha em cima de uma das motos. — balbuciou Lucas. Que arriscou o pescoço e voltou pro xadrez pra tirar os adormecidos do buraco. Isso eu garanto. nos braços. — Fiquei sete anos guardado. Por fim. sorrindo de volta. — Deve estar perguntado onde eu descolei esse barato. Mas eu me pergunto. Tanta novidade na cabeça. — Como eu arranco cabeça de vampiro. — Teve cada história. — Cara bom? Há! Há! Há! Sou um cara bom porque acordei bento. Mas também teve nego que foi sangue bom. depois a cota de malha de metal.Lucas deu de ombros. Já fiz de tudo. Teve nego que entrou numa de saquear tudo. Já taquei fogo em malandro folgado. — Cara. todo mundo gosta de mim.

o prometido. Demorou até atinar o quê. 202 . Ao adentrarem os portões de São Pedro. em especial a do trigésimo. apesar de passar das nove horas da noite.uma "deita-corno" ponto 50 acoplada a um tripé. Os demais chegaram hoje de manhã e. recebendo um jantar adequado. a multidão que aguardava para saudar os bentos entrou em alvoroço. Francis demorou em juntar-se aos demais. Raul e Zacarias já se encontravam sentados à mesa para o jantar àquela altura. ao que pude perceber. Explicou bem a situação de Willian. Ninguém vai conseguir dormir esta noite. A fortificação contava com um refeitório comunitário. senhor. Apesar das felicitações calorosas ao encontro. — Normalmente conhecemos as missões importantes com antecedência. — insistiu. o guerreiro salvador. A escolta decorreu sem aborrecimentos. Era como um jogo dos sete erros. As pessoas contentes. Queriam um pouco de descanso. Elton. notou algo de estranho. para onde os cavaleiros foram conduzidos. aproximou-se: — Ele partiu esta tarde. Partiu em missão. bento Francis dirigiu-se ao refeitório. Os rostos felizes davam vivas e queriam tocar as capas vermelhas dos guerreiros.. É por isso que a população está tão efusiva. A mesa foi colocada com fartura. algo sutil. ainda saudando e festejando a presença dos bentos e dos soldados. — Espera um pouco. Mas se Arthur tivesse uma missão. Olhou para Duque. Faltava algo no cenário que não era para estar faltando. que notava a preocupação no semblante do amigo.. a maior parte do caminho foi feita em silêncio. senhor. Os cavaleiros estavam cansados do esforço depreendido e acumulado nos últimos dias de viagem. muito semelhante ao de São Vítor. Depois do breve relatório médico. Mas algo estava errado naquela cena. Juntou os outros? Não estou entendendo. No meio da algazarra. chegaram de surpresa. Juntou os outros e partiu em missão de libertação. pois deixava o médico da fortificação a par da situação dos três feridos. um dos líderes dos soldados de São Pedro. Vicente gargalhando e brincando no colo com um bebê. bento Lucas. — Missão? Que tipo de missão? — Acho que a mesma de vocês. logo ao raiar do sol voltariam para a estrada. o único que precisou ficar no alojamento médico em separado. Também sentia o estômago queimar e os músculos reclamarem da jornada. Francis aproximou-se: — Onde está o bento de São Pedro? A fortificação era guardada pelo bento Arthur e sua presença não era percebida no salão. — Acho que não teve tempo. com um caprichado sortimento de carnes e vegetais a fim de aplacar a fome dos guerreiros. teria mandado um mensageiro. senhor. Apenas esta jornada que começamos hoje não era conhecida e começou de sopetão. recebendo atenção de uma enfermeira.

soerguendo as sobrancelhas e farejando desgraça. senhor. Francis buscou Adriano com os olhos. Mal terminou de pronunciar a frase. tentando mantê-la em baixo volume para não despertar a atenção dos camaradas dentro do refeitório. descrentes de nossa missão. trinta de São Joaquim e trinta da Nova São Paulo. Tinham notado seriedade na voz do bento. senhor. no entanto permanecia aliado ao grupo que buscava cumprir o que fora profetizado pelo velho Bispo. esta tarde e eu preciso saber que merda de plano é esse. O fio da espada do bento pressionava perigosamente sua garganta. Lançou um rápido olhar para o bento que ainda brincava com o bebê. Francis empalideceu. 203 . os seis bentos estavam desviando da rota traçada pela profecia.. — Quem eram esses "demais"? — quis saber Francis. foi abordado pelo bento. senhor. — murmurou o bento negro. Pessoas que não tinham fé nas palavras de Bispo. Assim que pisou no calçamento externo do refeitório. Eram os bentos descrentes. O bento caminhou rápido até o soldado e bateu-lhe nas costas. Adriano soltou o pedaço de cordeiro no prato. de Nova São Paulo e também de São Joaquim. com o dedo em riste. Zacarias e Marcel olharam para o líder de Nova Luz. falava com a voz carregada. mesmo sabendo que tramavam às nossas costas. Encontrou o líder de São Vítor de costas. ao menos era no que acreditava. — Cinco bentos e mais um grande grupo de soldados. Francis. Vicente também simpatizava pela idéia desses fracos de espírito. — Se você acha que vai me intimidar com esse seu tom de voz. Saíram em missão. — Vinte daqui. — Quantos soldados? — insistiu Duque. — Precisamos conversar agora. servindo-se de um pedaço de cordeiro assado. propositadamente. você está enganado. rumando para a Velha São Paulo. Pessoas que estavam colocando naquele exato momento o futuro de todos os sobreviventes dentro de um barril de merda. fortemente armados. visivelmente nervoso. Adriano fazia parte dos desesperados que tinham um "plano". banhado apenas pela luz oscilante de um trio de tochas pendurado rente à parede.. Aconteceu algo aqui. — Claro. Francis deu as costas ao soldado e partiu para a porta do refeitório sem esperar resposta. — Nunca pressionei vocês. Soldados daqui de São Pedro. Plano bolado pelos bentos descrentes e por líderes da soldadesca descrente. Sabia o que aquilo significava. — Oitenta soldados. Sabia que. Levantou-se e seguiu pela mesma porta pela qual Francis saíra.— Você preencheu um relatório sobre essa saída extraordinária? — perguntou Duque. Preciso saber agora! Adriano soltou um risinho baixo. soldados. ouviu o retinir de metal e um reflexo ligeiro cruzou o ar.

Não posso permitir isso. esperança enfim. O Hospital das Clínicas. — O quê? — Que nunca mais vai colocar a porra dessa espada no meu pescoço. recolhendo a espada. Adriano. Adriano passou a mão no cavanhaque. A máquina está lá.— Não quero intimidar.. se soubesse de Lucas. Salvou mais gente nas matas do que eu decepei vampiros com minha espada. — Mesmo que partamos agora. — A máquina. Estava cansado e estressado. Eu estou do seu lado. ainda mais até o Hospital das Clínicas. até mesmo encher um cemitério de mártires. Você não consegue enxergar isso? Vamos dar uma chance à profecia. — Então vão tentar entrar ao amanhecer. poderia ter tentado salvar o amigo. A marca em seu peito. — Deus! Deus! Temos que partir agora. — Precisamos de trinta bentos. Depois que Lucas acordou. quer dizer que podem não voltar. Se por um acaso eles foram para a velha São Paulo. como sabiam. — Eles foram para o HC. — Por que acha que eu sei de alguma coisa? — Todo mundo sabe que você é envolvido com esse tal plano. Uma espada no seu pescoço não tinha ajudado em nada. o plano de vocês perdeu o sentido. que maldita máquina é essa? O que é que ela faz de tão importante para valer a vida de seis bentos e oitenta soldados numa missão suicida? — Quando eles partiram? — Elton disse que partiram esta tarde. mas o momento é delicado e estou disposto a tudo para fazer com que os trinta bentos se juntem. Era no HC que os vampiros estocavam sua comida. nenhum a menos. O fantasma de Gaspar morto por sua pistola aparecia em sua mente. Não haveria pior lugar para se ir na Velha São Paulo. se for necessário. Voltou a encarar Adriano. com a lâmina ainda encostada em seu pescoço. conhecem os detalhes. E a morte em vão de um irmão. Francis apertou os lábios. Mas tem que me prometer uma coisa. Só os soldados envolvidos com esse plano desesperado.. Rios de Sangue.. havia se convertido no maior covil que se tinha notícia. valoroso soldado. Tua vida é mais preciosa que a minha. — Não. permaneceu calado. Engoliu a seco. não chegaremos até a alvorada em São Paulo. com essa marca. — Eu vou. 204 . Eu ajudo vocês. corpos adormecidos. ninguém. — Preciso saber para onde foram. Francis baixou a lâmina. Foram a São Paulo para quê? Para que se arriscar? Que máquina é essa que Vicente tanto fala? — os olhos faiscantes de Francis queimavam os de Adriano. Nenhum a mais. Chegaremos de tarde. Adriano. Balançou a cabeça negativamente e passou a mão no cabelo.. Com o despertar de Lucas.

mais oitenta soldados. 205 . estavam prestes a entrar no sepulcro gigante formado pela velha São Paulo. Deu pra perceber. De volta à salvação. encontrá-los e trazê-los de volta a São Pedro. Tinham uma missão das mais duras pela frente. sem descanso. Seis bentos. Depois de falar com Elton. — retrucou Adriano. De volta ao curso da profecia. que o descanso havia sido suspenso. passando a mão no vergão formado na altura de seu pomo de Adão. — É. exceto aos três feridos. Teriam de correr. em uma missão desesperada de resgate. bento Francis avisou aos demais. as piores surpresas aparecem daqueles que cavalgam ao seu lado.— Às vezes. Teriam que partir de São Pedro. dia e noite. na próxima hora.

uma vez que seis bentos estavam a caminho de enterrar-se naquele inferno infestado de perigos. E se morressem? Francis soube de Elton que os guerreiros recrutados por bento Arthur foram os bentos Eliseu. Mesmo tendo agido com pressa e urgência. a maioria dos nossos irmãos está agora no norte e nordeste do país. Tarso. Restavam agora os bentos do norte e nordeste do Brasil. poupando tempo precioso da jornada. soldados dos noturnos e.. Bento Lucas ficava à margem dessa tarefa. isso vai facilitar a coisa pra nós.. Francis juntara-se com Elton. mas insuficientes para saírem vivos de uma incursão ao Hospital das Clínicas. nas horas escuras. Vamos alcançá-los a tempo. — Quer que eu vá na frente? 206 . Duque? O bento negro olhou para o amigo. dos cavalos e da agitação da soldadesca. Estão juntos e vão nos poupar um tempo precioso. Francis gritava. Sabia que a jornada corria um risco imenso..Capítulo 30 O líder Elton. Sabia que ir à velha São Paulo estava longe do plano dos bentos. que andavam para lá e para cá. Guerreiros da pesada. mas a jornada até a velha São Paulo não costuma trazer boas lembranças. — Tirando o grupo de malucos que foi à velha capital. fazendo os ajustes finais para a partida. Francis estacou no meio do pátio. — Francis fez uma pausa. Francis. Traziam munição. — O que você acha de fazer um passeio diferente do nosso. se os revermos com vida. Duque.. Edgar e Vicente. Duque. — O que você tem em mente. sem conhecer o cenário do novo mundo era difícil ajudar. coordenando o regimento. Murilo. o destacamento só ficou pronto três horas depois do pedido de bento Francis. — Aprecio sua fé. O bento passou os dedos por seu bigode afilado aproximando-se de bento Duque. Não eram todos soldados. André e Cosme. conseguiu reunir trinta homens para a missão de Bento Francis. pois uma boa parte do contingente especializado havia seguido com bento Arthur e não convinha deixar a cidade sem a cobertura de homens mais treinados. contando com ele próprio. Uma incursão à velha São Paulo era o pior que poderia acontecer a essa altura do jogo. Se havia alguma sorte naquilo era o fato dos bentos recrutados pertencerem a fortificações da região leste e noroeste.. era o maior playground de vampiros do mundo. A velha metrópole era infestada por mulos atiradores. Carregavam os cavalos. xará? — Os bentos que estão com Arthur são do leste e noroeste. Lucas andava perdido no meio da agitação. Traçavam estratégias. voltando ao assunto. — Vira essa boca pra lá..

ao menos. — E se eu chegar primeiro. depois do evento. Lucas estava sonolento. Se chegarmos primeiro. Francis pousou a mão no ombro do guerreiro. Que sonhe uma coisa boa. teriam que ter a atenção redobrada de agora em diante. onde. Quanto a Lucas e os cavaleiros. outras vezes 207 . aumentando brutalmente o percurso até a velha São Paulo. Ali o perigo era constante. Mas. trazendo o que havia restado de armamento pesado deixado pela missão suicida de bento Arthur. espero você lá. tomara os arredores da gigante metrópole. Fugiriam do terreno pantanoso. dividindo o grupo de soldados. que sonhe comigo. A história do alagado remontava tantas batalhas sanguinárias. como dizia o velho Bispo. A região que. ferindo a montaria e os soldados com crueldade e devorando grupamentos inteiros em questão de minutos. os cavalos realmente pareciam diminuir. longe disso. a profundidade do alagado eventualmente variava. Os cavalos moviam-se habilmente pelo terreno pantanoso. o atalho que bento Edgar lhe falara horas atrás. Vamos nos reunir ao norte da velha Salvador.— Isso. sorrindo. Vinte e cinco soldados embarcados em veículos motorizados iriam pela estrada. Somente em circunstâncias extremas. Baixou sua tocha. Estavam entrando na região pantanosa. — Vá! Que Deus lhe acompanhe! — Se ele ainda estiver cochilando. — respondeu o negro. Dois dias ou três. — concluiu Duque. fortificação de bento Dimas. uma vez que não precisavam de oxigênio no organismo. como experimentavam agora. os vampiros sempre tinham vantagem. Esse desvio inesperado para a Nova São Paulo vai nos tomar tempo demais. Como previsto. ao cair do sol. Percebeu os cavalos na frente reduzirem de tamanho abruptamente. ainda era vigiada pelos mulos durante o dia. apertando os olhos para ver se não estava sendo vítima de alucinação por causa da fadiga. podiam submergir por tempo indeterminado. com trechos onde a água não alcançava a sola dos calçados. Os animais afundavam parcialmente. Parte do grupamento tinha vindo em veículos motorizados. Era a primeira vez que se sentia verdadeiramente exausto depois de ter despertado no hospital de São Vítor. Vamos ganhar tempo. As criaturas medonhas da noite. esperamos vocês lá. deixando a água muitas vezes cobrir o bota dos cavaleiros. em Santa Maria. — Sei. — Junte um grupo de soldados e busque os cinco bentos do norte. os bentos cruzavam a região pantanosa durante a noite. os veículos não teriam condições de fazer o caminho mais rápido e perigoso. criando as mais terríveis armadilhas no meio do pântano.

devem estar à margem da cidade. Precisava dormir. para que os bentos não ficassem francamente expostos. carregada pelo vento frio da noite. Boa parte dos cavaleiros vinha trajando o manto marrom encapuzado. Caminhou. eventualmente. só esperando o raiar do sol para irem ao Hospital da Clínicas. — Mas e se eles conseguirem o que querem? Se conseguirem a máquina e derem o fora? — Você não tem idéia no que se transformou nossa cidade natal. Eles estão marchando e. Isso não bastaria para descansar. desaparecendo na neblina cerrada.. Lucas desceu com facilidade de seu cavalo. O clarão traiçoeiro das tochas era um mal necessário. com os olhos pesando de sono. Tinha esperança que tivessem montado acampamento nessa clareira e que pudéssemos evitar uma desgraça. O rosto aborrecido. o líder Elton. — murmurou o bento. com a voz abatida. Estrategicamente. Estava exausto. exclamações de satisfação e um bom tanto de insatisfeitos também. Lucas bateu com os calcanhares na barriga de seu cavalo e aproximou-se de bento Edgar e Francis. Os vampiros conheciam aquele artifício. puxava a tropa. virando-se de costas. mas a utilização da manobra mantinha incógnito o número preciso de guerreiros abençoados. para evitar chamar a atenção. dificultando a visão dos soldados e impedindo que a luz da lua ajudasse. Este lugar é o ponto de descanso. intimidar o ataque de um grupo reduzido de malditos noturnos. Como. A marcha prosseguiu monótona madrugada adentro. O chão era coberto por grama verde e uma neblina intensa varria o terreno seco. a uma hora dessas. Balançou a cabeça negativamente. os tordilhos avançavam. podendo. cavalgavam cerca de um quilômetro por cima de mata alta. Francis estava com a cabeça baixa. Depois das três da manhã. Em alguns trechos conduzia os amigos soldados por áreas secas. Demorou dois minutos até voltar. Caminhou até uma árvore e enrolou a rédea do animal num galho.chegando quase aos joelhos. Lucas. era difícil enxergar o grupo todo. Mesmo assim. Os olhos também fundos. sendo circundados novamente pelo líquido gelado e pela névoa esvoaçante. Não tem idéia. uma nuvem de vapor escapou com a respiração. depois voltavam para a água. uma névoa constante varria a região. 208 . O cavalo de Elton foi adiante. mas Francis dissera meia hora. — Por que ficou tão desanimado? — perguntou Lucas. melhor conhecedor da região. fortes. Depois de alguns murmúrios. Árvores desfolhadas cercavam a paisagem. Ambos os bentos olhavam para frente. alcançaram uma campina seca. Depois continuamos. Árvores tortas e agourentas lançavam seus ramos encurvados sobre a cabeça dos soldados. Francis inspirou e soltou fundo.. Além da escuridão. Quando exalou o ar. até o bento médico. — Esperava encontrá-los aqui. — Vamos descansar meia hora. traziam poucas tochas. os homens desmontaram. — disse Francis.

Desesperados. Paraná começou a preparar o fogo para o bóia. Queria ser um guerreiro. Não dormiria. Francis. Queria tirar um pouco a couraça reluzente que cobria seu peito e tomar um banho. porque estão desesperados. Mais uma vez. Não usava capa. Francis queria seus bentos e seus quinze soldados descansados. Queria ser igual a eles. Pensaria. como ouvindo as súplicas mentais dos cavaleiros. Deite um pouco. Ninguém conversava muito sobre a missão adiante. Levaria mais tempo tirando e recolocando a vestimenta do que dando um descanso aos olhos e ao esqueleto. Pela primeira vez não desejava que tudo fosse resolvido apenas com um passe de mágica. cedo ou tarde. ao menos não ousava colocar obstáculo contra a marcha. do que fora o coração econômico da América Latina. Lucas. Não sabiam. Lucas aquiesceu e voltou vagarosamente para junto de seu cavalo. mas sentimentos ambíguos crivavam seus pensamentos. Dez horas da manhã. Como poderia ele. mas. Lucas queria ser um bento. Tirou também o manto marrom e dobrou-o. Eles foram à velha São Paulo. um soldado. Deveria haver alguma coisa dentro dele que justificasse aquele acaso. Medo. Virou-se para encarar Lucas. Suas costas prateadas refulgiam a luz lúgubre das chamas alaranjadas. Estava feliz pelo trigésimo bento ter acordado. O descanso de meia hora no meio da madrugada não tinha aliviado muita coisa. há 209 . um medroso. Francis explicara bem a situação e cada minuto ganho seria decisivo. por que eles arriscariam? Francis baixou o capuz e tirou o manto marrom. Sentiu uma lufada de medo gelando seu peito. arremessando-o ao chão. Meia hora passa voando. Apesar de Lucas desejar parar para uma hora de cochilo. Adriano sabia que esse dia chegaria. Se a cidade está tão ruim assim. de quebra. fazendo dele um travesseiro. Sua capa marrom esvoaçou com a descida da montaria e sua touca de metais rilhou. Lucas. mas parecia impossível. Os soldados de Adriano juntaram-se para ajudar e bater papo. escoltar os bentos e. Estavam cada vez mais próximos dos escombros. Baixou a cabeça envergonhado. não um covarde.— Eles devem ter alguma chance. cada vez mais acostumado ao mundo novo. alertas e prontos para passar fogo nos malditos mulos que perambulavam pela ex-capital. Talvez. Alguma coisa nele o faria útil para aquele grupo de guerreiros. Lucas desmontou ágil. dar uma passadinha na velha São Paulo para resgatar um grupo de malucos. Lucas calou-se e engoliu a seco. — Porque eles não sabiam que você despertou. O sol tinha afugentado a neblina. ser o salvador? — Vá descansar. O cansaço geral havia aumentado após as oito horas da manhã. para aquela merda de HC. o que mais prevalecesse fosse o de frustração. Francis ofereceu uma pausa para que os animais se refizessem e que os homens comessem e tivessem um breve repouso. subindo rapidamente e ardendo contra o grupamento. Não estava nos planos de nenhum deles deixar Nova Luz.

servirem de cortejo fúnebre. —. Matias? — Do quanto o senhor era esperado. Cara. Talvez. A maioria dos soldados calou-se. Bastaria um disparo para chamar a atenção de todo filho-da-mãe armado que habitasse a região. que já não cria ser possível um dia juntar trinta santos enviados por Deus para livrar a terra daquele mal. O senhor não tem idéia. A voz do soldado Sinatra tomou o acampamento. que maneiro. tinha deixado de acreditar naquela profecia. enquanto pensava naquilo. teria de invadir a velha São Paulo com. Um jovem aproximou-se de Lucas com bastante cerimônia. os bentos. Um calafrio percorreu os braços do líder Adriano. — o rapaz fez uma pausa e sentou-se ao lado de Lucas. Tantas vezes tinha ouvido das batalhas sangrentas em que os bentos acabavam estraçalhados pelos vampiros. Talvez estivessem agora descobrindo demônios pelos corredores. Desde então não deixei de rezar um dia sequer para o senhor despertar. mas aquilo era burrice. O rapaz abriu um sorriso e estendeu o braço para cumprimentar o guerreiro. Lucas balançou a cabeça negativamente. Para tomar o HC de assalto e conseguir tirar dali alguma coisa. Tudo sendo jogado fora. Uma vez dentro do HC. Balançou a cabeça consternado. senhor. Eram tantas as mortes nas fortalezas. percebendo que o rapaz queria achegar-se. Frustração. Na lógica. Os mulos já estariam despertos. Teriam de lutar contra os lacaios dos vampiros. pelo menos. vivo em São Pedro. Não dava para acreditar que o mundo que eu vivia tinha virado isso aqui. não na mágica. mesmo uma agulha. Seis bentos e oitenta soldados não dariam cabo daquilo. Nem imagina o desespero que foi para eu aceitar. — Aí eu conheci vocês. é um prazer conhecer você. não sabia predizer quantos perigos aguardariam a comitiva. fez um sinal com a mão. Teriam de extraí-la do maior covil do mundo. três mil homens.. Queriam deitar às mãos na máquina de alteração genética. — Meu nome é Matias.. levariam algumas horas até alcançar o abandonado e sombrio Hospital das Clínicas.muito. Apertou os olhos e benzeu-se. Uma ação tresloucada seguida de outra.Acordei há nove anos. O bento desviou os olhos de Sinatra. 210 . Respeitava bento Arthur. de traslado de corpos. buscando uma estratégia para os comandantes. Acreditava naquilo que bento Arthur estava fazendo. Mas não daquele jeito! Tinha lutado todos esses anos nas estradas. Ficaram em silêncio um instante. demônios que passam dentes afiados nos pescoços dos soldados e capturam os bentos para preparar-lhes uma morte lenta e dolorosa. Mesmo Arthur e seu pequeno Exército entrando na velha São Paulo no alvorecer. Lucas fez um meneio e retribui com um sorriso. Sabia que estavam indo para a velha São Paulo para. trocando informações. Isso seria inevitável. senhor. no máximo. os bentos e soldados estivessem entrando no HC neste exato momento. carregando soldados para lá e para cá. ouvindo a aveludada voz afinada do homem cantar Crying ao estilo do bom e velho Roy Orbison. apertando a mão do rapaz. não é? — Do quê.

às vezes. Vamos até o lugar onde encontraram as pessoas. sim. Hoje em dia.. — Ah. Tentamos deixar alguma coisa pra que ele refresque a memória. — o rapaz fez nova pausa e cuspiu na grama ao seus pés. praticamente. Lucas pegou-se num flash de memória naquele exato instante. Quando a coisa aperta. Ao lado do nosso salvador. O bom é que esses malditos. Sua mão percorrendo o espelho do banheiro. Time da memória. Assim. senhor. às vezes uma ou duas pessoas. — Se você não é soldado. — Tinha ouvido falar desse trabalho. não. O líder Elton falou no refeitório que estavam precisando de ajuda. eu também ia torcer pra caramba para uma coisa dessas acontecer. Queria conversar com o senhor. quando acordam. É verdade.. um milagre. o que faz em sua cidade? — interessou-se Lucas. — continuou o Matias. senhor. às vezes uma família inteira. na tentativa de livrar o vidro do vapor que aderira a superfície e dificultava a visão. tem a chance de relembrar algo mais. — O que é isso? — Nosso grupo trabalha depois dos soldados encontrarem adormecidos por aí. quando querem entrar numa fortificação. — Pegamos documentos.. — Serão quatro.. Demora demais e. sim.. alguns dos adormecidos. — Ainda fazemos. — Sei. a gente nem lembra de tudo.. É ruim lembrar tudo sozinho. eu não sou soldado.— Faço idéia. Isso tudo em questão de dois ou três segundos. — Hã. Lucas olhou para o rifle preso por uma cinta de couro no ombro do rapaz. — Então você não sabe usar isso aí. defender a cidade. todo mundo sabe. soldado. mas não achei que ainda faziam isso. Só vim ajudar nessa missão porque esperei isso a minha vida toda. como os malditos chamam: Rios de Sangue. outras vezes um aglomerado. senhor. — O quê? — Estar ao lado do libertador. — É. Ajudá-lo. senhor Lucas. — Nós vamos até esses lugares e tentamos resgatar a identidade daquele adormecido. todo mundo tem que defender o muro. 211 . Depois. Quatro milagres. — continuou Lucas.. parecem que ficam burros. toda informação que pudermos encontrar no local e vamos colocando dentro de computadores.. fotografias. Entendi que isso era feito logo após a Noite Maldita. viu-se fazendo a barba. — Na verdade eu trabalho no time da memória. vêm sempre pelo mesmo caminho. — Time da memória? — É.

. Tinha carro. Não sabia o que responder. — Não se incomode. Matias. Depois. às vezes.. lenta. Sou um escolhido. 212 . Os olhos do jovem brilhavam de excitação.. Com prestação do carro atrasada. eu ia de metrô. Tem hora que sinto um fogo inflamar meu peito. Eu vou lembrar das coisas.. Não sei quem eu sou ao certo.. dissimulando: — Assusta. Com contas de água e luz. Aos poucos.— O senhor viu seus pertences? As anotações em sua prancheta? O bento meneou a cabeça negativamente. continuando. Aceito isso. Com fatura do cartão de crédito vencida. — Lucas baixou a cabeça e fez uma pausa. Ufa! — Lucas bufou. — . impotência. comprar presentes para uma mulher.. neste mundo. Eu era. não te assusta? Lucas encarou o rapaz. Mas. Eu não sou assim.. Quando farejo esses vampiros desgraçados eu viro outra pessoa.. impossibilitando viver.. uma espada na cintura. sinto um vazio. me dá força. eu era mais um na multidão. Comprar presentes para. mas quando precisava economizar combustível ou quando tinha rodízio. Não lembro do meu passado. — Agora. Me põem essa couraça no peito. me chamam de herói. estava prestes a dizer um nome. — Esse fardo. Não sou eu mesmo. senhor. Minha preocupação era com meu emprego e minha aparência.. Comprar roupas novas. Que fardo eu carrego? O de salvador. Um escolhido é forjado pela fortuna e torna-se o que os outros querem. impostos sufocando.. O que eu sou? Você disse bem. Um farsante. tudo mudou.. — completou o adolescente. nesta nova realidade. A noite a gente tinha medo uns dos outros... cercado por certezas recheadas de incertezas? Com medo de não trazer droga de milagre nenhum para humanidade? Não se dê utilidade alguma. é um contexto novo. Trombava com milhares de rostos todos os dias a caminho do trabalho. Mais um imbecil com contas para pagar todo mês. Saco a espada da bainha e faço coisas indizíveis. se me focalizo aqui. como se uma nova lembrança chegasse. como se ainda estivesse sob efeito de lembranças. Fico inseguro.. — Eu me misturava na multidão. às vezes.. Matias.. arregalando os olhos. Mas o que é um escolhido? O rapaz deu de ombros. — Isso. Estalou a língua e passou a mão no cabelo. acabava indo de metrô.. — Lucas baixou a cabeça.. às vezes. quando estou sozinho e pensando nas coisas e em mim mesmo. — Então acho que não tinha nada. mas vou lembrar. Eu não paro para pensar. Alguém disse que eu serei o salvador desse novo mundo e que levarei a humanidade aos milagres que nos libertarão dos vampiros. de libertador. — um frio no estômago. Que resposta aquele menino queria ouvir? Que estava se borrando nas calças com medo de não ser o tal? Que estava afundando num mar de antagonismos. eu lembro disso.. — É verdade.. uma certeza. Eles sempre mostram as coisas quando a pessoa acorda. — Um escolhido é uma marionete na mão do destino. Lucas sorriu..

Gente trabalhando junta. Matias. não tenho mais medo dos semelhantes. novamente. fez dele um travesseiro. tem suas vantagens. Talvez seja até mais apropriado dizer que o sol separou os bons dos maus. o destino separou os bons dos maus. — Mas este mundo novo. pode me chamar só de Lucas. — O senhor tem razão. Ia deixar o bento descansar. — Lucas olhou para bento Vicente por um instante. bento Lucas. Matias sorriu e afastou-se carregando o rifle. mas estava ali para estar com ele. — Tudo é bem diferente do mundo antigo. Que Deus os ajudasse a vencer aquele mal! Que os ajudasse a unir os trinta bentos e desencadear o fim daquelas criaturas! O bento retirou o manto marrom encapuzado que envolvia sua couraça e. Acho que é uma benção o dinheiro não existir mais. quando olho ao redor. O bento benzeu-se fazendo o sinal-da-cruz. O menino não tinha medo de lutar. Eu vejo agora gente se ajudando. Sabia que estava se engajando numa missão difícil e perigosa. Lucas. Sei que aqui estão as pessoas de bom coração e que. Deitou-se um pouco e cerrou os olhos. Ao menos. na luta contra os noturnos.Matias levantou-se. 213 . Lucas reteve o olhar um instante sobre a figura do rapaz. de alguma forma macabra. onde trabalhávamos para sustentar nossas contas correntes. Não precisa dessa coisa de senhor e de bento. — Ei.

Sensação de déjàvú. cavalgava com os olhos arregalados e surpresos com o cenário. perecendo. Talvez tivesse feito um curso de idiomas ali ou comprado um sanduíche tropical. o mato selvagem vencia as brechas e erguia verdadeiras touceiras no meio do caminho. Talvez aquelas logomarcas trouxessem aquela sensação. preferiam a companhia das criaturas da noite que dos semelhantes. Continuaram cavalgando. ao passar ao seu lado. um apartamento ou outro ocupado pelos serviçais dos vampiros. Os soldados tinham que desviar. — resmungou bento Vicente. Apesar da aparente solidão. agora eram elevações assombradas em concreto armado. O que antes eram prédios comerciais e moradias. em mais da metade de sua altura. tentando "ouvir" adiante. Estavam a poucas quadras da Avenida Nova Faria Lima. Nesse momento. por trepadeiras verdejantes. por alguma razão bizarra. Os carros abandonados há décadas tinham perdido a cor original. Era como se vultos malditos assomassem eventualmente as janelas dos prédios fantasmas. abandonados na fuga para as fortificações. o primeiro disparo de arma seria dado e o inferno se instalaria ao redor da tropa. estava coberto por uma camada negra de fuligem. devorados pela 214 . Em diversos pontos do chão escuro. Lucas reteve o cavalo um momento. Por cima da camada negra queimada crescera vegetação. O prédio na sua frente era mais um no meio de centenas naquele bairro. Estavam atentos. mostrando que se consumira em chamas sem que os bombeiros viessem em seu socorro. Lucas voltou a observar o cenário caótico e inacreditável da cidade morta há trinta anos. Um tiro talvez. Francis e Edgar iam na frente. Edgar parecia ter escutado alguma coisa.Capítulo 31 Eram mais de duas horas da tarde. mas a maioria dos homens. Pressentiam que a qualquer segundo. todos carregam a estranha sensação de olhos colados nas costas. por humanos degredados dos novos centros ou que. Lucas ergueu a rédea do cavalo e cutucou-o levemente com o calcanhar. As ruas da gigantesca capital do estado estavam desertas e a maioria dos prédios era coberta. Os cascos dos cavalos estalando contra o asfalto rachado. A velha cidade era rica em pássaros. Bandos imensos cruzavam dentre as torres de concreto. Vai saber. Dentro daqueles prédios jaziam milhares de corpos adormecidos. uma loja da Casa do Pão de Queijo e uma unidade do CCAA. Numa loja do piso térreo tinha sobrado a fachada de alguns pontos comerciais. Fora os adormecidos. Podia ver restos do que fora uma Drogasil. Não fique pra trás. não só o novato Lucas. — Anda. Como a maioria deles. Há pouco haviam penetrado na velha cidade de São Paulo e viam-se cercados por incontáveis esqueletos negroacinzentados que subiam verticalmente.

enquanto Edgar erguia seu binóculo. Tomavam o caminho liderado por Francis quando ouviram claramente uma explosão. No meio do encontro da Avenida Rebouças com a Avenida Faria Lima. — Espere. Quando Lucas também atiçou o cavalo. ao ver o bento aproximado-se. Apertou os olhos. Puxaram as rédeas freando os cavalos. Um barulho absurdo entrou pelos ouvidos. Lucas parou o cavalo novamente. — pediu Francis. Não fora um disparo. hoje pareciam um cenário de algum filme surrealista. O soldado Carlos ergueu seu rifle. deixando os escombros queimados do que fora um tradicional restaurando japonês da Rebouças. Ao ouvir bento Edgar. Os pneus murchos deixavam o que restara das rodas ao nível do chão. Das sacadas dos prédios desciam samambaias gigantes e toda sorte de vegetação era encontrada. Aquelas ruas. Fixou o olhar num poste de sinalização de trânsito. O ferido. quando as olhou pela última vez. Um homem cambaleando em direção ao meio da pista que descia. Lucas olhou ao redor. caiu no asfalto da Rebouças. — gritou Francis. uma granada. Estavam no meio de um dos mais tradicionais cruzamentos da cidade. — o soldado. Tontura. estavam abarrotadas de gente no vaivém frenético do dia a dia.. Sentiu um calor súbito subindo-lhe pelo corpo. — Não atire. quando viram a estranha figura. Via os dois luminosos que auxiliavam os pedestres na travessia. Buzinas. O bento voltou a si quando Francis gritou. — Eu derrubo daqui. — Estamos nos aproximando do HC! Cuidado redobrado! Lucas sorriu. O sinal vinha de longe. A capa vermelha do guerreiro gigante farfalhava presa aos dragonetes. — Iaaá. Vicente alcançou o soldado. erguendo uma mão 215 . Continuaram avançando em silêncio. cobradores de lotações berrando itinerários. O homem estava vazando sangue. risadas altas. Um minuto depois. tudo isso vinha aos seus ouvidos. viram uma grossa coluna de fumaça negra subindo o céu. batendo os calcanhares em seu cavalo e perseguindo o amigo Vicente. camelôs anunciando produtos pirateados. uma coisa à Jonh Carpenter. Olhando para a Rebouças acima.. Como se fosse preciso pedir. morro acima. Está ferido. como ferro atraído por um imã poderoso. Era algo maior. É um dos nossos. fazendo mira. mal podendo manter-se de pé. Ainda admiravam a trilha escura. os soldados de escolta dispararam atrás do trigésimo bento. Vicente disparou em sua montaria. que ascendia além dos prédios. não viam nada de anormal ou imediatamente preocupante. como uma bomba. chamando a atenção da tropa.ferrugem ou pelo fogo.

Vão acabar com todos. O sangue esvaía vagarosamente. — Quem foi morto? — quis saber Francis. Apanhou um pano limpo e tentou remover a maior quantidade possível de sangue. Não podiam crer no que ouviam. Percebeu outra perfuração no braço esquerdo. — O que aconteceu? Como ficou assim? — perguntou. Quando nos 216 . eles estavam esperando por nós. A atitude precipitada daquele sexteto de bentos havia colocado a profecia abaixo. O abdome estava bastante inchado e extremamente dolorido ao toque. Mas eu não consegui voltar. eles colocaram preparávamos para entrar. — Sabiam o quê? Francis baixou-se ao lado do soldado ferido. — O que disse? — Eles estavam esperando por nós. — Estamos lá. Eles nos emboscaram. eles estão nos prédios. Só deixaram passagem pela Teodoro Sampaio. Apanhou seu cantil e ajoelhou-se junto ao homem.. — E quanto aos bentos? O soldado fez uma expressão de dor. só esperando a gente se mexer. — Eles.. Vicente desmontou rapidamente e abaixou-se. Vicente precisou baixar mais para ouvir a voz fraca do soldado.. desde de manhã. Não poderia ser verdade. eles os mataram. Estão acabando com todos nós. Mordeu os lábios... Com o som dos cascos de cavalos ao redor. O desespero e a decepção não tardariam a tomar aquele grupo e. mas de maneira contínua. levando a esperança e a salvação embora.. contorceu-se nos braços de Vicente. — balbuciou o ferido.. acho que não vou conseguir.. fiquei encoberto por entulho.. Providenciou um curativo e pressionou o ferimento maior.. Francis levantou transtornado... Francis e Vicente trocaram um olhar grave. consternado. Ergueu a camiseta do soldado e espalhou água sobre as feridas da região abdominal. — Só eu consegui fugir.. interrompendo o relato. Olhou para o soldado ferido. meu cavalo.. — Eles estavam esperando por nós. Pelo ferimento do braço também perdia sangue.. A roupa rasgada e chamuscada em vários pontos. esses sentimentos seriam multiplicados. alguma coisa explodiu. Eles sabiam.. desvirando o homem e encarando-o enquanto os demais também chegavam e cercavam. terminando por soltar um gemido. bento Vicente.. Todos os bentos. A hemorragia era importante. foi morto. Afunilaram o caminho. Eu.. snipers lá. Os rostos dos bentos e dos soldados em volta do sobrevivente esmoreceram. Havia bastante sangue descendo da cabeça e uns ferimentos abdominais.. Estava tudo acabado. — Todos eles.. Eu estou ferido. quando a notícia chegasse aos povoados.para o alto.

Toda vez que tentam abandonar os esconderijos. não vão conseguir fugir. — E quando a noite chegar.— Eles estão lá. às vezes. Lucas engoliu a seco. Os vampiros vão acabar com todos nós.. estavam em quatro bentos e mais quinze homens. Não estava ali para disseminar medo. coberto por pedriscos. Tentava formar uma estratégia. apertando o manto que cobria Vicente. A provação. Sentiu o peito apertar. um bolo dolorido formava-se na boca do estômago. senhor. Estão na Teodoro Sampaio. Sentia-se perdido e afundando. Olhou para sua tropa. Como. as incertezas represadas há muito começavam a vazar por essas novas frestas. pois com os veículos motorizados não conseguiriam vir pelo atalho alagado. morto e apático por trinta anos.. quando descobrira que não era mais o médico chefe do 217 . Estão sendo arrasados. — o soldado contorceu-se mais uma vez. Sentia-se refém de um pesadelo horrendo e sem fim. Nessas horas. Vão mantêlos naquela ratoeira até o anoitecer. Às vezes. olhando ao redor. Muitos pensamentos ao mesmo tempo. Como ele. — Onde eles estão? — perguntou novamente bento Francis. tinham se separado. O bento médico derrubou água nas mãos limpando o sangue. E essa era a hora. Tinha vontade de voltar ao Hospital Geral de São Vítor e voltar a dormir. nem aflição. que o fazia saltar feito uma besta louca para cima dos vampiros. perdia a certeza. Tinha baixado a cabeça sem perceber. Tinha que ser o oposto disso. vinte e cinco deles. talvez pelo fato de acabarem de saber que seis bentos estavam mortos e tinham acabado de voltar a estaca zero com a profecia. mas a pressa era demais. Daqui a algumas horas vai cair a noite. talvez pela marcha acelerada e cansativa que tinham enfrentado nas últimas horas. O restante dos soldados. secou-as apressadamente e recolocou as luvas de couro. Não adiantava ser apenas uma espada afiada. tomam uma rajada de fogo. mato em pontos rachados e escombros de alguma coisa que já fora um prédio. Algo do passado soprava em seu peito. Ergueu os olhos mais uma vez e olhou novamente para os homens. provações desdobravam-se diante de seus olhos e sua fé rachara. cercados. estarão liquidados. tinha vontade de sair correndo. Olhando para o asfalto antigo. Tinha sido despertado como trigésimo bento para ser um líder. Já estivera quieto. Nada tinha a temer. cada vez mais. os que conseguem escapar da metralhadora são pegos pelos snipers. Ruminava pensamentos. Sabia qual combustível precisava queimar no peito daqueles homens. para guiá-los. Não juntariam mais os trinta bentos. a convicção de viver num mundo real. — Já disse. Como Duque havia partido em missão. a grande maioria tinha o semblante abatido. Esperança. Fechou os olhos e inspirou fundo. como quando despertara sete anos atrás e descobrira que tinha perdido sua esposa e seu filho de cinco anos. Quantas daquelas criaturas malditas existiriam naquela cidade-fantasma? Quantos vampiros se esconderiam dentro daquele sem número de prédios abandonados? Mesmo sendo empossado de uma força que desconhecia.

bento Lucas? — perguntou bento Edgar. Era para isso que existia. contudo poderosas. seu sangue gelava nas veias. A cada espoco que escutava. Uma vez li um livro de Szun Tsu. Traçariam rapidamente uma estratégia e partiriam para dar fim ao cerco que trucidava os soldados. se divertindo em matá-los. metido a besta. com a notícia da morte dos seis bentos precipitados. palavras que Lucas proferira. caminhando decidido e com um brilho diferente nos olhos. que não dava o braço a torcer. do meio dos homens. mas talvez fosse justamente aquilo. Não creio que tenham visto esse soldado fugir. Vamos fazê-los se arrepender de terem mexido com a turma errada. esses mulos. feito castelo de areia. Os homens começaram a gritar. Estavam embriagados pelas poucas. como que ingressando no mundo dos fanáticos. Quantos soldados tinham caído? A metade do grupo formado por bento Arthur? Talvez já fossem mais. O que aquele recém-acordado. onde bastava a fala de um líder militar e religioso para entregar a vida por um ideal. Bento Vicente. O cumprimento da profecia. iria fazer agora? — Esses atiradores. Era isso. notou uma mudança até mesmo no olhar do truculento bento Vicente. diariamente. acreditem. com inimigos escondidos em todos os cantos prontos para massacrá-los. Francis não sabia o que Lucas pretendia de fato com aquele teatrinho. E isso era tudo o que precisavam para entrar em terreno hostil. chamando a atenção do grupo. e. na beira da praia. Gabriel tinha a respiração rápida e entrecortada. Eu sou o trigésimo bento e nunca mais se esqueçam disso. — Eu sei exatamente o que temos que fazer. Lucas estava mexendo com a cabeça deles. — Levar vocês até lá e acabarmos com aquele bando de assassinos. Apesar de ser um sujeito invejoso. tudo se dissolvia. Aqueles mulos malditos! Estavam só 218 . Para estar próximo de Bispo e ouvir de sua boca. Por isso tinha escolhido defender São Vítor. virou-se para Lucas. — O que você tem em mente. erguendo as armas que traziam. — disse Lucas. Estava acabado. Estavam inundados de confiança.. estão atacando os homens encurralados. Temos a vantagem da surpresa do nosso lado. sempre carrancudo. Estava lhes dando esperança. Lucas pediu que bento Francis e o soldado Elton mostrassem o que haviam trazido de explosivos.. pois o bento havia transformado o semblante daqueles dezoito homens. Foi nesse momento de aflição que seus olhos viram surgir bento Lucas. Era por isso que respirava. Seu mundo estava se perdendo novamente. surpresa é meio caminho andado para se vencer uma batalha.departamento de queimados onde trabalhara. Estão preocupados. que havia uma esperança. Com Bispo morto. — Eu vou levar vocês até lá e vou trazer cada soldado que ainda estiver vivo de volta para casa.

Torturando-os. com a perna recolhida para não sujar a calça no sangue de outro soldado. Quando partiram de São Joaquim para São Pedro. Mantendo-os apavorados e acuados. Diziam que os mulos eram ruins de tiro. um reles soldado? Seria morto também. voltando Vitorioso para casa. o que seria dele. Não houve tempo para reação. Quando se abaixou. com a missão cumprida. descrevendo um arco escarlate no 219 . Só tinham que deitar a mão na bendita máquina. Enquanto discutiam com os bentos o plano. mais seis bentos.. sabia de todas aquelas possibilidades. mas para ele. Eram oitenta soldados. Tinham que sair dali. O plano era bom. o sangue jorrando do pescoço. Estariam com a máquina a essa hora do dia e ela seria enviada ao hospital Geral de São Vítor. era um tiro no pescoço porra! Não tinha sido um arranhão no cotovelo. sabia para onde estava indo. Olhos arregalados. Os outros estavam correndo. no meio da desértica Teodoro Sampaio. O bento não falava. Gabriel sentiu medo. com os joelhos flexionados. abraçando seu fuzil. Os mulos desgraçados queriam que os soldados remanescentes ficassem vivos. Não precisavam ser melhor que aquilo para matar gente. Gabriel apertou os olhos. Quando fechava os olhos via o espectro de bento André tombando ao seu lado. mas parecia não acreditar que terminaria daquele jeito. Estava ao lado dele na hora do primeiro tiro. vermelhos. A surpresa ajudaria. Tirou as mãos do pescoço do bento caído. acuado. Via mais cinco soldados na sala. estendido na sua frente. Desespero. Era isso que via no rosto dos colegas. dariam uma dor de cabeça nervosa naqueles vampiros filhos de uma puta. aquele disparo lhe parecera perfeito. acuado. Não via sorriso.. dias atrás. Apenas tinha virado os olhos em sua direção e os mantinha horripilantemente arregalados. nem ouvia vivas. ouviu o segundo tiro. no interior do que fora uma loja de instrumentos musicais. com a boca aberta e um buraco no meio da testa. Olhou ao redor. A fé era farelo. os malditos despertariam do sono hipnótico e viriam sobre eles. Gabriel tentara abaixar para ajudá-lo. Os técnicos veriam se ela estava de lato funcionando e. tudo parecia favorável. Um tiro no meio dos olhos. Em algumas horas anoiteceria e estariam liquidados. Via-se agora como um rato. Pressionou com ambas as mãos a ferida no pescoço de André. conseguindo colocá-la em atividade. Há anos nenhum humano maluco tentava nada contra o Hospital das Clínicas. Quando o sol caísse no horizonte. O sangue insistia espirrar entre os dedos. Há anos os mulos não temiam invasão à velha São Paulo. e estavam correndo rua abaixo. Um tiro no pescoço! Aflição. Gabriel era soldado de São Joaquim. Era entrar e sair do covil. Liquidados. Bento André no chão. Não era médico. Estavam despreparados. Não soubera o que fazer na hora. Estava no chão. Em sua mente tinha se visto centena de vezes. Desespero. Um esguicho de sangue voou longe. Tudo estava acabado. Gabriel sentiu os olhos marejarem. Conhecia o plano. Estavam preparando o terreno para os vampiros. Mesmo assim não o deixaria morrer ali. particularmente. O soldado estava sentado. não que não acreditasse nos amigos. Se o lendário bento André afundava nas garras da morte diante de seus olhos. Mas não era isso que acontecia.brincando com eles. igualmente assustados. Sangue vivo era mais saboroso. rendidos.

Podia ouvir os gritos dos soldados feridos. Mais um segundo. Desesperado. Deu dois passos. faziam parte de um plano maldito para exterminá-los? Depois. Queria ver Agnes pelo menos mais uma vez. um a um. Os bentos. Gabriel passou a mão sobre o rosto dos dois. chegaria a escuridão. Os homens começaram a atirar contra os snipers. mas sempre perdiam mais homens batendo de frente com o mesmo problema. começara a escutar berros dos soldados. Mais um jorro de sangue escapando da ferida. que gritavam ordens tentando organizar o batalhão e iniciar um revide. Deu dois passos para trás e tropeçou. Gabriel assustou-se com o jato de sangue acertando em cheio o lado de seu rosto. Não sabiam onde atirar! Depois de cinco minutos. O sangue entrou por seu ouvido. tentando reger uma reação. Escutou uma segunda explosão. os tiros diminuíram de quantidade. caído de cara no meio da rua. Não sabiam ao certo para onde direcionar a rajada de fogo. Apertou os olhos e inspirou fundo. livrando-se dos cacos e sujando os dedos com o sangue de algum colega. Sabiam que viriam. os snipers eram muitos e estavam bem escondidos. a salvo. colou a testa no chão. fazendo cacos de vidro e sangue colarem na sua pele. seriam pegos pelas garras das criaturas da noite. Estavam fritos. Gabriel balbuciou algo inteligível. Do bolso interno do seu colete. diante de seus olhos. Não era medo o que sentia agora. Ouviu mais tiros. Mordeu os lábios. Gabriel soltou-a assustado com o barulho de ricochetear da bala na couraça. Os malditos mulos tinham preparado a cilada e obtido êxito. não sabiam quantos eram os inimigos. Jamais voltaria a ver a esposa. como ele. Essa certeza ia se solidificando cada vez mais e uma angústia sufocante entalava a garganta. Aquele segundo jato hemorrágico pareceu tirar o horrorizado soldado do transe. Barulho de vidro quebrando. Seus olhos pousaram no legendário bento André. Os malditos mulos sabiam. Ela segurando Júnior. mais um arco de sangue escapando do pescoço do bento agonizante. caídos no meio do asfalto da Teodoro Sampaio. Passou a mão na testa. Em mais algumas horas. o qual atingiu a armadura prateada de André. Respingos choveram em seu rosto. foram tombando. Um bando de pássaros voando a curta distância. Como os bentos não perceberam que as ruas bloqueadas com carros destruídos. formando verdadeiras paredes de ferro. mas não sabiam de onde os tiros dos mulos vinham. retirou a foto de Agnes. Voltou a colar-se na parede. Gabriel ficou hipnotizado por um segundo com aquela cena terrível. Estavam encurralados. Gabriel lembrava-se. Um calor 220 . Por fim. Era um segundo tiro. Se não fossem pegos pelas balas dos mulos. O tiro potente ecoando entre os prédios. o tempo nunca parava de correr e o sol ia mudando perigosamente de lugar. Com isso perderam munição e mais vidas. sobraram os soldados amedrontados demais para arquitetar um estratagema e colocar todos fora dali.céu. Em seu pranto. Para complicar. largou o rifle e entregou-se às lágrimas. Outro espoco vindo dos prédios. Ouviu o farfalhar de asas. Gabriel ergueu o bento para tentar a fuga. Estranhou. O filho perdido. empilhados. Eles gritavam. Sentia algo estranho no peito. Como se a rápida e repentina crise tivesse aliviado seu peito. escondidos em outros estabelecimentos abandonados. mais um batimento cardíaco.

disparando rajadas contra o chão. ao menos. Não poderia afirmar cem por cento que o inimigo estava morto. onde vira o par de mulos rindo segundos atrás. A estratégia era uma ação de assalto. Não conseguiria acabar com todos. Puxou o gatilho e o rifle expeliu uma seqüência de disparos. Um novo disparo escapou daquele maldito sniper. estourando os corpos no calçamento. E assim fariam. Não havia mais vestígios de fumaça no ar. O cano do sniper ainda estava lá. Outro assassino. Vinha de outra posição. os soldados acuados foram deixando seus esconderijos e auxiliando os que acabaram de chegar. provavelmente já estaria estirado na calçada. Dos corpos. Gabriel fez mira na veneziana quebrada. Evitar o confronto com os mulos e localizar o mais rápido possível os sobreviventes. Os soldados de São Pedro perguntavam pelos corpos dos bentos. Dessa vez. Olhou em direção de onde viera o tiro. Com sorte seria um a menos. assim que a grande quantidade de fumaça foi se dissolvendo. Sentia conforto. coragem! Inspirou fundo e colocou-se melhor na porta do estabelecimento. Uma janela quebrada. Sexto andar. Um buraco largo surgiu dentro os veículos que foram ao chão. Gabriel puxou o gatilho mais uma vez. Restos do que fora um Ford Ka jaziam junto ao calçamento. Estavam simplesmente mantendo-os ali. Quando colocou o dedo no gatilho. Serviria de distração e protegeria alguns deles durante a ação. gritando e mostrando onde estavam os homens sobreviventes. Cinco caíram. Olhou fixamente. Uma densa cortina de fumaça formou-se. a qualquer preço. deveriam recolher somente os seis bentos. Agora eram sete homens. A parede de veículos ruiu. indo parar no meio da rua. Gabriel. do contrário. Buscou a direção com os olhos. mas o cano do rifle desapareceu da fresta. cravou o joelho direito no chão e voltou a fazer mira na veneziana. Outro tiro. tinha certeza que um deles ria ao conversar com os demais. os soldados foram invadindo o perímetro. Em poucos segundos. Era isso. Ergueu mais a cabeça. um cano entre as venezianas retorcidas. Coragem. um deles seria morto por sua arma. mas. no topo de dois prédios via os malditos descontraídos. aproveitando a cortina de fumaça. Um explosivo abriu a parede de veículos improvisada pelo inimigo na altura da praça Benedito Calixto. Poderia ter localizado o maldito sniper dessa forma. Gabriel recostou-se no carro que lhe servia de abrigo e. uma explosão nas suas costas. O disparo do agressor passara longe. Rápidos e objetivos. Dois 221 . Não apontava em sua direção. encontrou uma trilha de fumaça subindo para o céu. Capas vermelhas esvoaçantes! Bentos! Mais soldados! Reforços! Elton disparou com uma arma de cano largo. abriu um sorriso. Da calçada. naquele beco construído com carros destruídos e empilhados nos cruzamentos da Teodoro. Voltou o cano de sua arma para o topo do prédio mais próximo. Cilindros fumegantes voaram cento e cinqüenta metros adiante. o soldado Gabriel orientava. com os pés no beirai do telhado. naquela jaula. Setenta metros de distância. Ele não era o alvo desta vez. Bento Lucas havia sido preciso em sua orientação.alentador.

mas algo em sua cabeça dizia que aquilo não era tão singular em sua vida. Nenhum sinal de mulos. Bento Murilo tinha tentado avançar. As saraivadas de tiros aumentavam e surgiam de forma mais organizada. Lucas estava ocupando-se do resgate dos bentos mortos. Lucas jamais estivera no meio de uma guerra. Olhou para o asfalto. Os mulos pareciam se refazer do susto. os soldados teriam partido e seria mais difícil escapar com vida daquela batalha. mas. Recostaram-se atrás de uma pickup. O rosto inanimado de bento André passou diante de seus olhos. tocando os primeiros degraus da escada de mármore. Não contavam com um segundo regimento. Como aquelas lembranças sem hora marcada. Subiram um quarteirão.desapareceram. mais perigosa. Os mulos estavam recuando. um homem de capa vermelha. Fez mira no prédio seguinte. Lucas sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo. Três dos bentos abatidos na operação desciam a Teodoro nas costas de soldados de São Pedro. descendo a Teodoro Sampaio. Lucas desvirou-o. Correu até o corpo. Lucas comandava parte do pelotão. buscando proteção dentro de um sobrado comercial. Arrastou o corpo do bento para perto de um carro. Estavam quase na esquina. Havia distribuído os soldados em três quintetos. Lucas foi obrigado a abaixar-se próximo à esquina. ora arrancavam pedaços das paredes. a sensação de já ter estado rodeado por fuzis e disparos não lhe era estranha. O homem de capa vermelha e couraça metálica no peito estava de bruços. Olhou para cima. Os mulos foram surpreendidos e tomavam cuidado. Sua posição era como se sua última atitude fora rastejar. Gabriel sentou-se na calçada e recostou-se no Ka. quase ao final da nova quadra. Lucas colocou o homem no ombro e refez o caminho sentido à Rua Teodoro Sampaio. Tiros vindo na direção do grupo. para o lado oposto da rua. onde pretendia buscar abrigo. Bento Lucas chamou oito soldados. 222 . fazendo nova vítima. O som dos rifles em conjunto era ensurdecedor. seguido por sua escolta. se demorassem. perdendo o equilíbrio e derrubando Murilo. Isso significava que estavam com medo. Dois soldados mortos do seu lado esquerdo. Gabriel puxou o gatilho mais uma vez. mas terminara a vida em suas escadarias. Bento Murilo. pois a presença dos soldados e da fumaça distrairia os inimigos. — disse um dos soldados. Faltava um corpo. Estavam com medo! Agora. Os tiros ora ricocheteavam. — Bento Murilo. Adentrou o quarteirão. Os soldados começaram a revidar. Interrogavam os soldados que escapavam. com a mão estendida. dando cobertura um ao outro. vendo os inimigos. imóvel. Revidavam tiro. Na rua transversal. Teriam de ser rápidos. Os soldados dando cobertura. de Nova São Paulo. faltando poucos metros para encontrarem-se com o grupo principal e empreender escapada. Ouvia tiros na rua principal. os soldados conseguiam revidar os disparos. fazendo um sinal-da-cruz. Da esquina oposta vinham rajadas de projéteis. buscando proteção para efetuar disparos.

tentando conter os adversários. Chamou a atenção de seus homens. O soldado disparava repetidamente com o fuzil. Mandem bala em tudo que se mexer. Buscaram posições onde houvesse o mínimo de proteção. os soldados escutaram uma retumbante explosão. mas não parecia suficiente. espantados. — Tenha fé! Tenha fé. Lucas olhou para os soldados. temporariamente. — Vamos esperar os nossos amigos abrirem caminho. Continuavam debaixo de fogo cerrado e. Elton disparou mais granadas de fumaça. As línguas de fumaça providenciadas pelo soldado bloquearam temporariamente a visão dos inimigos que disparavam do alto dos edifícios. Havia soldados na esquina à esquerda e podia ouvir mais disparos sendo efetuados da rua onde estava Lucas. bloqueando as balas inimigas. Teriam de subir dois quarteirões. Abriram fogo. Percebeu o tiroteio intensificando-se duas quadras acima. A lataria do carro que lhe servia de cobertura tilintava a cada novo projétil recebido. Diante de seus olhos. em busca de Murilo. um dos soldados que o escoltava. Lucas olhou para Domingos. sim! Tenho que juntar os trinta bentos! — Como vamos passar por eles. Bento Francis estava de volta à passagem aberta na parede de carros empilhados.Lucas ordenou que permanecessem naquela posição mais uns instantes. mas o fato é que agora não contariam mais com o efeito surpresa. Eles sabem que estamos aqui e sabem o que têm que fazer. bento Lucas? — perguntou Domingos. estavam. incrédulo. protegidos. — Eles são demais! — gritou outro dos soldados ao seu lado. a cada segundo. Só faltava seu grupo. Eventualmente um disparo ou outro varava o chassi do veículo. — O que vamos fazer. Temos que garantir a saída de Lucas! — gritou bento Francis. soldado! Eu vou tirar vocês daqui com vida! Continuem atirando. fazendo lascas do cimento da calçada voar para todos os lados. — Procurem proteção e disparem contra os prédios. — Ele precisa escapar com vida! Os soldados deixaram os corpos dos bentos mortos abaixo da linha de carros empilhados e voltaram para atender a ordem de Francis. Pedaços de 223 . Olhou para cima dos prédios. A cada instante mais e mais mulos surgiam nas janelas e não demorou mais de um minuto para que o primeiro deles fosse atingido. Recostados aos veículos. — Nunca vamos sair com vida! — Vamos viver. senhor? — retornou o soldado. Mal terminada a frase de Lucas. As balas arrancavam pedaços da fachada dos prédios em frente ao grupo. Não se deixem apanhar. Lucas estava lá. os disparos adversários pareciam aumentar. parte do topo do prédio na esquina oposta virou fumaça. Atiravam contra o prédio de esquina do outro lado do quarteirão. lançando dejetos sobre suas cabeças e enchendo o ar de poeira.

tinham vindo armas de grande poder destrutivo e uma espécie de canhão ainda fumegante deveria ter sido o responsável pelo estrondoso incidente assistido há pouco. Era um pedaço do prédio! Sabia que aquele destroço não cairia em cima dele e dos soldados. Os corpos dos bentos foram acondicionados nos veículos e. seriam atacados por um número inimaginável de criaturas da noite. Lucas colocou Murilo nas costas novamente e abandonaram a proteção dos carros. não sentir medo. Viam Lucas e os soldados. Nos veículos motorizados. Sobravam poucas horas de sol e. Do meio da nuvem de fumaça viu surgir um pedaço enorme de concreto. Desta vez não se escondiam de balas. gritaram eufóricos. se não tivessem longe do centro de São Paulo e daqueles prédios malditos. — Vamos embora! Vamos sair daqui. — Corram! — gritou. 224 . Vendo Lucas se aproximando com o corpo morto de bento Murilo. Tinha um inimigo gigante. tampando a visão. que descia em sentido ao horizonte. agora! Francis tinha pressa. sabiam que a batalha ainda não tinha terminado. Lucas e os soldados tinham entendido o que acontecia. tendo recuperado os corpos dos bentos e salvo doze soldados sobreviventes ao massacre. Lucas lançou um olhar para cima. Lucas e a escolta foram encobertos pela nuvem de dejetos. como que hipnotizados pela explosão. retomaram seus cavalos. nem mulos disparavam. a artilharia pesada também surgira para salvar o restante dos soldados. Francis regeu a retirada dos soldados. O choque do concreto contra o asfalto foi tremendo. buscando proteção atrás de outro veículo abandonado pelo tempo. com ela. Seguindo a ordem de Vicente. Assim que dobraram a esquina. Lucas e os soldados abaixaram-se. Os tiros teriam mais efeito moral que fatal. O acidente seria o despiste ideal. — É a nossa deixa! Vamos correr. marrons. Apesar de terem escapado daquela emboscada com sucesso. em instantes. Os mulos. Nem soldados. voltaram a atirar na direção dos edifícios. Num relance pôde ver três ou quatro mulos ainda agarrados no que sobrara de janelas do edifício. os soldados gritaram rua abaixo. vivos. mas de uma furiosa nuvem de poeira que varreu o cruzamento da Teodoro Sampaio. mesmo assim era difícil não se impressionar. descendo pelo calçamento.concreto atingiam a calçada com um barulho ensurdecedor e uma nuvem imensa de poeira tomou a avenida. ainda cegos pela poeira. mesmo ainda sem poderem enxergar claramente por causa da nuvem de poeira que ainda valsava. A tropa motorizada tinha acabado de chegar e. Um silêncio nervoso instaurou-se momentaneamente. voltavam a efetuar perigosos disparos que cortavam o ar sobre suas cabeças.

Cavalos e veículos começaram a descer os cruzamentos mortos da Teodoro Sampaio. de alguma forma. Uma grande mudança havia acontecido e Francis não fazia idéia por qual estrada o destino os conduziria dali em diante. 225 . posto que carregavam na frente o corpo de seis de seus amigos. Eventualmente deparavam-se com novos disparos. Alguém que devolvera esperança ao rosto da tropa que descia a rua naquele momento. cheio de ansiedade e medo. Alguém que os conduziria. uma chama queimava sua alma. Não havia traço daquele rapaz franzino. Era outro homem que estava montado no cavalo. Francis olhou para o novato. Mesmo que seu peito lutasse com a amargura e certeza de que os trinta bentos jamais seriam unidos. Bento Francis cavalgava ao lado de Lucas. Quem cavalgava ao seu lado era um herói altivo. para a libertação. Sorte dos soldados e bentos que os snipers competentes muito provavelmente haviam sido chamados para a armadilha. Alguém que tomara o comando daquela tropa e salvara a vida de um punhado de soldados apanhados numa ratoeira. afastando-se rapidamente da aglomeração inimiga. Mulos escondidos nos apartamentos pelo caminho atentavam contra os fugitivos.

Quando Lucas avançou contra os mulos estavam em dezenove homens.. algo muito bom. Seus braços fortes vinham na rédea do cavalo. era esquisito. Imponente. Como um código secreto. Vicente sentia-se estranho. estariam dispostos a morrer para levar Lucas adiante. nem para si próprio. feito um joalheiro. O fantasma da escuridão penetrava no pensamento dos combatentes. como ele. Lucas vinha ao lado de Francis. conduzindo a montaria. Crescera entre bandidinhos. Estavam 226 . Nunca tivera heróis na vida. perturbado. Seu tordilho de pelagem negra era um dos mais belos animais do comboio. Lembrando desse ponto da missão.. que a princípio fizera pouco da figura franzina e frágil de Lucas e fizera questão de exibir sua arrogância nata e brutalidade forjada pela mão de padrastos bêbados e marmanjos aproveitadores. indo para o horizonte. Tinham tido a notícia prévia de que os seis bentos que organizaram a expedição haviam sido mortos. Um líder. A infância pobre colocara-o no trabalho aos nove anos de idade. caído de quatro em admiração. Os olhos do guerreiro vagavam de rosto em rosto. feito um ourives. cada qual. Era essa a palavra: admiração. Vicente experimentava outra sensação. rumo à concretização da profecia. Isso atrapalhava a sua cabeça. mas todos ao seu redor. sim. E ele próprio. Encher o peito dos homens ao redor com esperança e bravura. toda aquela adversidade não foi capaz de ofuscar o brilho e a energia que emanavam daquele bento novato. Preciosa e perigosa. Mesmo olhando agora para o veículo que metros a frente transportava os corpos dos bentos mortos. Estavam cansados e preocupados. que estava seduzido. por esse novo homem. O sol descia. sabia que podia contar com Lucas. Vicente mordeu os lábios e voltou a olhar para frente. deixando a sua marca na pedra bruta que era a cabeça de Vicente. E. Como aquele homem conseguia aquilo? Transbordar determinação e atitude. Aquela admiração crescente. Lutava contra aquilo. fazendo o papel da cavalaria. Gostar de um homem. atraído por essa nova energia. que não afetara apenas o bento novo. os vinte e cinco motorizados chegaram depois. Nunca tivera um pai presente. Nunca antes admirara um homem. todos partilhavam sem falar daquela sensação. Algo tinha acontecido com Lucas. que era espada. Nunca vira aquele bando atirar-se tão cegamente contra os inimigos. Vicente conhecera também companhias erradas. nunca admitiria. A violência doméstica esculpira uma jóia rara.Capítulo 32 O truculento bento Vicente cavalgava mudo. no seu eterno curso natural. Sentia-se envergonhado por estar atraído por um homem. nesse caso. Mas. Observava os soldados. mas não havia outra forma de definir aquilo. Algo que escapara à ele na primeira impressão. Os parceiros da mãe iam e vinham. Algo que o velho e falecido Bispo tinha visto antes de todos eles com aquele olho mágico que enxergava o futuro. marginais pé-de-chinelo. Lucas atraía a todos e todos. Isso. os inimigos estavam em vertiginosa vantagem numérica. Não tinha heróis. Sabia que era macho. sentia-se envolvido. Olhou para trás.

libertando as feras malditas. Vicente olhou para o horizonte. e desceu do cavalo. Somente os cavalos conseguiriam avançar naquele terreno traiçoeiro e brumoso. Não queria que os demais vissem o seu sorriso. Edgar aguardou até todos se reunirem. Vampiros não tomavam sangue de bentos. novamente na ponta do grupo. Os veículos motorizados aproximaram-se lentamente. Vicente. trazendo com a noite o desespero. A velha São Paulo desaparecia nas sombras. Ergueu sua touca de malha de ferro. irmão. Tomou a dianteira da marcha. de repente. Exalava uma sensação que os fazia crer que tudo se arranjaria. Depois olhou para os veículos motorizados. por fim. mas procuravam suas jugulares para abrir um talho e tirar-lhes a vida. — interferiu Lucas. Sabiam que não teriam muito tempo até o anoitecer. Não queria que percebessem que também tinha gostado da batalha e que se simpatizava com a atitude do novo bento. Francis desmontou do cavalo com agilidade e cruzou o meio do grupo a pé. — Acho melhor desistirmos do atalho e avançarmos pela estrada. Somente com o auxílio dos quatro milagres colocaremos fim a essa situação. Fim a esse medo da escuridão. Os olhares convergiram para o novato. bento Lucas emanava um elixir calmante. sendo dragada rapidamente pelas trevas. mas de alguma forma. ali seria novamente o ponto de separação. parou o cavalo puxando fortemente a rédea. não um babão que se encantava com outro macho. Era a primeira vez que paravam desde que debandaram da armadilha. O sol derramava a luz derradeira sobre os morros. que lhe protegeria o pescoço. — disse. Sabiam que Lucas resolveria aquele impasse. Agora não duvidava nem de que o bento novo fosse capaz de ressuscitar os mortos. postando-se metros na frente de bento Edgar. mais uma hora de luz. Se os cavaleiros decidissem ir pelo pântano. viu-se reprimindo um sorriso no rosto duro. Precisamos unir os trinta bentos o mais rápido possível. Tinham que definir uma estratégia de escapada. Levou a mão à testa e fez o sinal-da-cruz. Queria preservar seu ar marrudo e mal-encarado.abatidos pelo fato dos bentos terem morrido. equipados com a artilharia pesada. Era um homem. O atalho nos dará horas de vantagem. — Não. Bateu com os calcanhares no tordilho e fêlo disparar. Parou na margem do terreno pantanoso. 227 . talvez. Edgar. Sentiu um arrepio cruzar o peito. Ao menos teremos a proteção das armas pesadas. Os cavaleiros que seguiam Edgar também pararam. coberto por uma barba rala. Olhou demoradamente para o atalho e respirou fundo. A visão da região pantanosa na frente provocou-lhe um calafrio. Marcharam mais duas horas até chegar à entrada do vale pantanoso. — Não temos tempo. Horas preciosas. A temível região pantanosa teria de ser transposta na escuridão.

— Sepultá-los? — perguntou.. algo dizia que tinham que ganhar as horas. — Os bentos morreram. Lucas. mas te garanto que essas horas serão cruciais. — Sei que está preocupado e que preza pela vida de seus companheiros de jornada. vamos nos atrasar. nossos dias estarão contados. Se nos mantivermos unidos. De fato não poderia ressuscitar os mortos. Temos que ganhar tempo.. precisamos reunir os bentos faltantes. Vim para as horas amargas e não para as alegrias. Caminhou até a pickup que levava os corpos dos bentos no compartimento traseiro. A luz enviesada do poente criava sombras extensas que anunciavam a chegada da noite. incrédulo e com nítida decepção na voz. A inexistência de energia elétrica não permitia que as luzes dos postes públicos fossem acesas. Os vampiros precisam de uma lição. Sinto essa urgência queimando o meu peito. algo que não vou ignorar. — O que serão três ou quatro horas a mais? — Serão tudo. seis bentos não acordarão. Gabriel. Temos que ir por esse caminho. Temos que cruzar o pântano. Você é poderoso. o mais rápido possível. Durante as horas que economizarmos cruzando esse pântano. Perdemos seis irmãos. e era isso que fariam. podemos perder muito mais. É um palpite. Os carros estarão levando os feridos. Se cruzarmos o pântano. — Posso estar enganado. soldado. mas perdemos seis bentos esta tarde.Lucas também olhou para São Paulo e seu amontoado de prédios negros. Lucas. agravando ainda mais a má impressão que aquele mausoléu gigantesco podia proporcionar. Temos que ir por este caminho. apontando para o pântano e depois olhando para os veículos. Os vampiros ganharão uma arma poderosa essa noite. quiçá anos até que seis novos bentos despertem do sono. Mas. bento Lucas. posso te garantir. Cada minuto é precioso. — Não. mas não ressuscita os mortos. mas escute bento Francis. — Desculpe a intromissão. teremos mais chance. — Os seis estão mortos e nosso dever agora é sepultá-los. Esse risco é desnecessário. Por que tanta urgência se os trinta bentos não serão postos juntos tão cedo? Teremos que aguardar meses. Não serão tão ágeis. — Sei que não devemos estar juntos essa noite. Indo com os veículos. A voz preocupada de Francis cortou o silêncio. Lucas olhou para o soldado Adriano. — disse.. pelo asfalto. Lucas encarou Elton. Se não agirmos com presteza e caminharmos de encontro à profecia.. Precisam temer algo além do sol. Eu sou o trigésimo bento e fui escolhido para levá-los de encontro ao que foi profetizado. Não vamos esperar tanto. que tinham que seguir por aquele pântano. 228 . o soldado salvo da emboscada por bento Lucas.

Os corpos foram depositados no fundo das covas e cobertos com pressa. — Lucas aproximou-se do veículo com os corpos. meia dúzia de pás surgiu dos veículos. Segurando as seis imagens. Entregou o primeiro par de espadas para bento Francis. No cume de cada cova. o ritual deveria ser abreviado. — Vamos enterrá-los. mediante as circunstâncias e urgência.— Como Francis disse. Vicente fixou o peito de prata com firmeza no cajado. No entanto. fechou-as na mão e fez uma longa e silenciosa oração. Com o mesmo cuidado uniu o segundo par e entregou-o a bento Edgar. enrolava-as. Lucas. Lucas assistia mudo à ação. criando uma atmosfera sombria ao redor das sepulturas. — Tirem as couraças. os soldados olharam para Francis buscando confirmação. com cuidado. Quando as covas ficaram prontas. Apontou para os três soldados que ocupavam o veículo. com cerimônia. as capas e as espadas desses homens. naquela região. apanhava as armas embainhadas de duas em duas. que jazia ao pé da cova de Murilo. um segundo depois. Francis aquiesceu e. Apesar da liderança súbita e arrebatadora que Lucas havia adquirido. À medida que as couraças e espadas eram depostas. De noite. O último par de espadas conduziu até bento Vicente. Tinham que correr se não quisessem virar comida de vampiros. fechava firmemente o embrulho. Unindo o par de espadas. Havia um cerimonioso ritual a ser cumprido antes do sepultamento de um bento. dando instruções e confirmando que não cumpririam a risca o rito de sepultamento. Diante do grupo silencioso o trio cumpriu a ordem de Lucas. Vicente surgiu com cajados feitos de galhos das árvores próximas. Francis passou a Vicente a primeira couraça torácica. Fez o mesmo com as demais. As lanternas dos veículos foram acesas. que tinha o corpo tratado como um santo. Um silêncio respeitoso cresceu até que só o som dos pássaros na mata e das pás contra o solo tomaram conta do ambiente. era um perigo. unin-do-o à madeira com uma fita de couro. mantendo-os firmes. A escuridão tomava a mata. Com as tiras de couro que escapavam das bainhas. Minutos mais tarde. Isso vai conosco. Vamos enterrá-los e continuar nossa jornada. Ao final da operação. O bento juntou-se aos homens que começaram a cavar o solo. aproximouse dos cadáveres e retirou do pescoço de cada um deles o cordão com a figura de São Jorge. os seis estão mortos e nada há para se fazer a esse respeito. até que a cova de cada bento estivesse representada pela respectiva armadura. — Cuidem dessas armas com a vida. usando um par de capas vermelhas. Francis. que permanecia montado em seu cavalo. cravados na terra. Ao terminar olhou para os 229 . Lucas voltou-se com serenidade e olhou para os corpos enfileirados. suado com o esforço empreendido. o sol já havia se deitado. enterrou metade do cabo improvisado.

era urgente retomar a marcha. todos perceberam a emoção na expressão daquele gigante. Do contrário. Que isto te traga proteção. O líder de Nova Luz fechou os dedos. chamando todos para a marcha. Apesar do bento estar calado. entrava em seus ouvidos. Meia dúzia de soldados reclamou do cansaço. molhando a face. soldado. A maioria dos cavaleiros benzeu-se antes de adentrar o terreno pantanoso. enquanto a voz de Francis. guardando um exército sem fim de criaturas da escuridão. comprimindo contra a palma da mão a pequena imagem do guerreiro São Jorge. mais uma vez buscando confundir a visão de possíveis inimigos. 230 . tochas foram acesas para que o caminho no pântano fosse iluminado. Se aquela névoa se adensasse não seria nada bom.. Matias olhou para o céu. Fechou os olhos. — Tome. Adriano apanhou a peça e olhou-a demoradamente. Cavalgar no pântano. Tinham a impressão de saltarem do fogo para a frigideira.soldados. enquanto os bentos e alguns dos soldados vestiam as túnicas marrons.. Francis aproximou-se de Adriano e estendeu-lhe a corrente de bento André. Enquanto os carros manobravam para voltar à estrada e dividir o grupo. os soldados montavam os cavalos. uma garoa leve balançava ao sabor do vento. apressaram-se em reduzir a fogueira em cinzas. ficariam sozinhos na beira do pântano. com a velha São Paulo na suas costas. Lucas benzeu-se em frente aos túmulos e acenou para Francis. Nela. Os motores dos veículos roncaram e as luzes dos faróis vibraram. Pelo menos. os que adentravam aquele temido terreno. Os soldados improvisaram uma fogueira com rapidez. Com as tochas prontas. — Fogo! — bradou Vicente. estariam acompanhados dos bentos. mas não tinham outro remédio. com chuva. que poucas vezes na vida tinha o rosto livre da carranca.

Capítulo 33 Anaquias abriu os olhos abandonando o transe. É por isso que estou aqui. Anaquias desviou-se com habilidade. Virou-se para encarar Anaquias. Aproximou-se da sacada do prédio. — Fui eu quem ensinou isso a ele. não para ser trucidado. você sabe de muitas coisas. não conseguindo manter-se de pé. Você não pode com todos nós. Estava cercado e seu instinto fê-lo preparar-se para o combate. Quando o terceiro inimigo atacou. Renda-se. com os braços acorrentados nas costas e presos firmemente pelas mãos de dezenas de outros vampiros. deixando os atacantes escutarem uma seqüência de "claques" e "crecs". César tirou o vampiro com os ossos moídos do chão. — disse um vampiro cinzento e de face cadavérica. cessando o ataque. Um vampiro voou em sua direção. deixando o agressor chocar-se contra parede. — Como eu disse. O vampiro de face cadavérica andou pelo assoalho de madeira da sala. Não atacariam até que o líder novamente ordenasse. O vampiro urrava de dor. — murmurou sorridente a líder Raquel. mas sabia que não poderia fazer aquilo a noite toda. O vampiro de face sulcada encarou Anaquias. Suas botas estalavam a cada passo. Anaquias empurrou o inimigo para o meio da sala. Anaquias saltou sobre o agressor e o agarrou pelo pescoço. Viu Gerson e Raquel. Iniciou uma série de golpes. — Pare. Anaquias. Vim aqui para ajudar. — Sei o seu nome. Acendeu-os feito brasas e exibiu as presas afiadas. Gerson sorriu. — Você é o vampiro chamado César. — Peça você que seus lacaios cessem os ataques. Ergueu-o como se não possuísse peso. — Eles vieram? Vocês conseguiram? As perguntas de Anaquias quase não foram ouvidas em razão dos gemidos de dor do vampiro ferido. Anaquias desviou-se do segundo agressor. Metade do ambiente estava tomado por vampiros com ares de poucos amigos. — disse Anaquias. 231 . — Você sabe de muitas coisas. Tinha os ossos das pernas e dos braços literalmente moídos. O semicírculo de vampiros frente a Anaquias manteve-se imóvel. Estavam na sala do que fora um imenso apartamento em bairro chique de São Paulo.

César. César agarrou Anaquias pelas costas e. César simplesmente meneou positivamente a cabeça. Construímos o corredor.. a voz na minha cabeça. O vampiro voou junto com os cacos. impaciente. Preparamos a tocaia. fechamos a Teodoro Sampaio. resolvi vir pessoalmente lhe perguntar se realmente você está do nosso lado. — Eles vieram? — insistiu o vampiro. olhando para os vampiros amarrados e depois de volta para Anaquias. — Que outros? — Como você disse. levaria meses até que pudesse ficar de pé.César ergueu o ferido sobre a cabeça e virou-se para a sacada. Anaquias. caso ainda estivesse inteiro. — Você não fede a traidor. embebedado pela vitória.... A parede estava afundada onde havia recebido o choque de seu corpo. César caminhou até Anaquias. antes que o grito da vampira pudesse ajudar. Provavelmente sobreviveria a tal atrocidade.. Disse que viriam seis bentos. mas. Anaquias tombou. tentando erguer-se. através da vidraça. retorcendo-se de dor. — Então. César andou para a frente e para trás.. arremessando-o metros a frente. Não falou de outros. Fechou as mãos e ajoelhou-se. — Acontece que convidados inesperados surgiram na festa. — Ele me disse. A risada de César sobrepôs o murmúrio de Anaquias. Anaquias fez nova careta de dor. — Quem lhe falou? — repetiu. caindo quinze andares até a rua. — Por que não nos contou que os outros viriam? Anaquias ajoelhou-se novamente. — Duvida? — Quem lhe falou que eles viriam.. — Foi a voz. Anaquias abriu um sorriso e virou-se de costas. vampiro? Anaquias passou a mão pelo peito. pela confirmação. encarando-o demoradamente. tirando o cabelo de sua testa. Vocês os pegaram? 232 . — Eu sabia! — berrou. como sou o responsável pela segurança dessa parte de São Paulo. Seus olhos apagaram. Usando velocidade sobrenatural. parte do reboco da parede ruiu. disse que eles viriam. — Sabia? — perguntou César. Nas suas costas. arremessou o suspeito contra a parede. Está? Anaquias grunhiu..

César parou de rir. disse que vocês viriam. César deu uma bofetada com as costas das mãos no rosto de Anaquias. com ar de deboche.. 233 . Os corpos foram levados com os outros. incertos. é a voz. Anaquias dobrou-se perante o golpe. — Durante meu sono o vampiro-rei disse mais coisas.. Os seis... mesmo que tivessem vindo outros... O vacilo de um instante foi suficiente para dar mais solidez ainda à impressão causada pelo vampiro vidente.. Anaquias arremessou-o de encontro ao teto e agarrou-o novamente pelo pescoço. — Ele? Bruxa? — perguntou César. Todos olhavam estáticos para o vampiro franzino. Ele vai precisar.. Quando o primeiro dos vampiros pensou em avançar contra Anaquias. Baixou a testa no chão. — Guardem o sangue. virando-se rapidamente e agarrando César primeiro. — Quem é ele? — insistiu César. Anaquias virou-se para o bando de soldados vampiros que mantinham Raquel e Gerson amarrados. O vampiro. — Acalmem-se! Nem pensem em me atacar! O brado foi tão poderoso e cheio de razão que os vampiros sentiram-se minados. — Foram mortos. No entanto. Os vampiros se entreolharam. — A voz. — . — Mas como? Vocês prepararam o caminho. — Impossível. Viu a bruxa pedindo o sangue dos bentos. teve a iniciativa contida por um brado do inimigo... César abaixou-se para agarrar o vampiro pelo pescoço. esmagando o crânio do vampiro inimigo. arregalou os olhos.. Os outros que "ele" esqueceu de dizer. — . Ele viu isso. Viriam e junto a mim haveriam de preparar. Colocou César sobre os ombros e deu passos decididos em direção à janela arremessando o vampiro pela sacada. Os olhos de Anaquias acenderam-se mais uma vez.. na minha cabeça. Anaquias segurou a cabeça de César e empurrou-a contra uma coluna no meio da sala.. surpreso. Anaquias foi mais ágil. — Guardem o sangue deles. é a voz do vampiro-rei..

— disse um deles. Vamos dar o fora daqui. Tinha o cabelo raspado e uma tatuagem tribal subia do pescoço. Não devemos voltar de mãos vazias ao covil. O do soldado arremessado por César ladeado pelo próprio carrasco. Uma coleção de trepadeiras tomava a lateral do prédio e ramos grossos espalhavam-se para todos os lados. De alguma forma Anaquias estava controlando aqueles vampiros. A voz diz coisas que estão por vir. César tinha armado um esquema para capturá-los. Os lacaios de César afastaram-se de Gerson e Raquel. — Libertem Raquel e Gerson. A voz nos guiará. Gerson e Raquel sentiram as mãos soltas. Raquel aproximou-se do companheiro magro e transformado e sussurrou-lhe. de nosso trabalho. que estava armando alguma tramóia para entregar o covil do Hospital das Clínicas aos bentos. Esse era alto e forte. — retrucou Anaquias.. tomando o queixo.. Anaquias. — Obedeçam a mim de agora em diante.— O vampiro-rei precisará de nossos braços. 234 . A discussão tomou mais de um minuto. Esta noite fui visitado novamente pelas imagens. olhavam incrédulos para a figura transformada do pacato Anaquias. tão forte quanto Gerson. — Devemos obediência aos anciãos daqui. ainda confusos. cortando o vampiro. — Obedeçam a mim e a voz dirá o que devem fazer. Estava desconfiando que Anaquias tinha contato com os humanos. Anaquias caminhou pelo assoalho de madeira.. — Jamais arremessarei um de vocês janela abaixo. — Não estou com brincadeiras. começaram uma discussão em voz baixa. O grupo de soldados-vampiros. — Pára com esse teatro. Não deveriam confiar naquele vampiro estranho. Olhou para baixo. Mais uma vez os vampiros ficaram sem reação.. Raquel e Gerson. Você deu sorte com César. Tampouco podemos deixar que vão embora. mas não abuse. Trocaram olhares. pouco mais de vinte deles. mulher. adiantando-se. como se nada tivesse acontecido aqui. Não é assim que um líder impõe respeito. Sabe que ainda quero arrancar o couro de Cantarzo. — Tu acabastes com nosso líder. — Libertem-nos! — urrou Anaquias. encarando o vampiro que lhe dirigira a palavra. Na rua encontrou dois corpos. ainda ajoelhados e acorrentados. Ainda boquiabertos. Anaquias caminhou de volta à sacada do apartamento. Anaquias olhou friamente para o olho bom de Raquel. Os vampiros se entreolharam. Pareciam conferenciar acerca do pedido de Anaquias.

o topo da cadeia alimentar. que discutiam. O futuro. A quem devemos obedecer? A ti ou aos anciãos? Raquel bufou e meneou negativamente a cabeça. contrariados. O vampiro tatuado deu dois passos para a frente do grupo. Os vampiros voltaram a cochichar.. — respondeu Anaquias.. todo vampiro que rasteja pela terra deverá obedecer ao vampiro-rei! — bradou Anaquias. para fincarmos nossas garras na terra e tomarmos. Os vampiros. de uma vez por todas. Mas sentimos fé no que disse. encarando Anaquias. — O que você viu? — Vi o futuro. debochada.. — Nem a mim nem aos anciãos. — Eu escutei a voz. seremos destroçados pelos anciãos.Raquel sorriu com o canto da boca. Anaquias.. Gerson também ladeou Anaquias. Gerson. 235 . cessaram o barulho.. O que está acontecendo com você? Anaquias baixou a cabeça pela primeira vez. — Deixa disso. — De agora em diante. eu vi o futuro. Vi um caminho para acabarmos com os humanos. — Se deixarmos vocês partirem.. como se o velho Anaquias ressurgisse naquele rosto duro.

defender e arrancar a vida do inimigo. Ao lado do braseiro tinha uma penca de bananas. Respirou fundo. Uma fotografia. Era o sentinela de plantão daquela noite. Acabou sentando-se. Enfiou a mão num dos bolsos da calça de tecido grosso. servindo a pessoas que tiravam a vida por um punhado de químicos e muito dinheiro. sentindo o metal suavemente aquecido tocar a pele do peito. Valdo espiou pela vigia. protegendo o povoado de Santa Rita contra os miseráveis noturnos. Tinha dois metros e cinco de altura. Fora jogador de Basquete. Fazia vinte minutos que tinham chegado na torre. ao redor da torre de madeira. Enfiou-o de novo dentro da blusa. a floresta erguendo-se depois do areião. puxando a correntinha de dentro da fina blusa de lã. A tarde tinha esfriado consideravelmente e agora. mas. Começou a se lembrar. Coçou a 236 . Graças a Deus. contudo estavam sendo usadas dentro das novas fortalezas. Para trás. não queria que o parceiro de vigília achasse que estava ao lado de um cagão. Precisou dar uma boa lida nos arquivos feitos em seu nome. Ficou olhando pela vigia por uns dois minutos. Tinha jogado profissionalmente para a equipe de Suzano. roubando-Ihe a cor clara. Apertou o crucifixo na palma da mão. confortavelmente. As armas continuam servindo para o mesmo fim. pelos humanos sobreviventes. Tinha ficado muito tempo acocorado. Demorou também para lembrar do seu passado. O abrigo no topo da torre era baixo e não dava para ficar em pé. quem não tinha cagaço de ficar nas torres? Isso não seria vergonha nenhuma. O formigamento ia diminuindo aos poucos. Acionou um interruptor vermelho. aquele calorzinho viria a calhar. Também. Lembrando disso. produzira um sorriso de canto de boca. Há semanas que os escalados para a estressante tarefa de ficar plantado em cima da torre voltavam ilesos. Valdo olhou pela janelinha. com a chegada da noite e o princípio de garoa. a culpa não era do abrigo. que eram tão comuns nas fortalezas de traficantes na virada do milênio. O areião banhou-se de luz. pensando consigo mesmo. Respirou fundo de novo. para frente. Sacou um maço de cigarros caseiros e uma caixa de munição. Aquelas armas. um pote com pó de café e um fuzil russo. com poderosos refletores. Há semanas não viam sequer um par de olhos na floresta. Quando abriu os olhos naquele novo mundo custou a acreditar em tanta mudança. calado. uns duzentos metros adiante. Mas isso não era garantia de nada e sua angústia só aumentava. Élcio coçou o nariz e voltou a massagear a coxa. Via a garoa salpicando a areia. enchendo-a de manchas escuras. Trouxeram uma caixa. Tentava não fazer transparecer pelas suas feições. nesse exato momento. era de sua herança genética. iluminando. só olhando para os remoinhos de garoa agitada pelo vento.Capítulo 34 Élcio aconchegou-se junto ao braseiro. Élcio espichou a perna que formigava. Há semanas que não tinham problemas com os malditos noturnos. escorado na parede. os muros da fortificação.

— Ah. Havia morrido em combate. a substituição dos projéteis estaria completa. Gustavo apoiara Sabrina e não desistira dela nunca. Vivia de vila em vila. — Passa aí sua pistola. Sabia que o gigante era esquisitão. O cheiro da carne assada encheu a casa. onde o 237 . lançando a fumaça para o outro lado do cômodo. Separada da filha. Sabrina jamais vira o marido após a Noite Maldita. Parte desse ânimo vinha de Gustavo.barba por fazer e envergou-se sobre o braseiro para acender o cigarro. — Olha o que eu descolei pra gente. — Você não trouxe uma blusa. Passara por maus bocados depois de acordada. — Peguei com o Negão. foi a primeira a entrar na cozinha. O rapaz só balançou a cabeça negativamente. seu novo marido. Eloísa. marido de Sabrina. por favor? — reclamou. Vou colocar umas balas revestidas de prata na sua munição. havia morrido nos primeiros anos após a Noite Maldita. Sabrina colocou a mesa. — no meio de mais uma tragada longa. lendo à luz de vela as cartas deixadas pelo marido. O grandalhão magrelo voltou os olhos para o livro. estendendo a arma para o parceiro. Tudo o que sabia do marido fora dito por quem cuidara dela. não? — perguntou para Élcio. Élcio fechou os olhos. Expirou fazendo bico. Levou anos até que retomasse o gosto pelo céu azul e pelo sorriso após as piadas. Pra quebrar um galho. desperta há poucos meses. depois. Era hábil e. vagava sem ânimo pelas comunidades da detestável realidade. Valdo apanhou a caixa de munição. O pai biológico de Eloísa. pelo sono eterno dos mortos. — Sou calorento. e do marido. sem tirar os olhos do livro. Deu duas tragadas rápidas e.. Não ligava quando encontrava a mulher com os olhos cheios de lágrimas. Élcio ergueu os olhos. uma longa. substituindo todas por balas banhadas em prata. a filha de nove anos. O gigante magrelo estava lendo uma brochura. — Vai esfriar mais. Olhou para Élcio. em poucos minutos. Valdo sorriu.. pelo sono incerto dos adormecidos. Era a primeira vez que fazia vigília com Élcio. Valdo arrancou o municiador das pistolas e retirou as balas comuns. — Você se importa em deixar eu ler em paz por uns vinte minutos. Deixava de ser uma bela adormecida para encarar o novo mundo. Sabrina passara adormecida ao lado da filha por dezoito anos. — O que você está lendo? — João Ubaldo Ribeiro. Apanhou a pistola no assoalho ao seu lado. da caridade de outras boas almas.

Ia toda noite acariciar a face pálida e encovada de Eloísa. O novo casal. Aquela manobra. A comemoração poderia até ser na praça. Os adormecidos ocupavam cinco dos seis galpões de um velho parque industrial. Mais dois casais viriam até a casa e. Bolo de cenoura com cobertura de chocolate. era um dia especial. Estaria mil vezes mais contente. deitados lado a lado. O único inconveniente naquela vila prazerosa era o fato de. Maldito rodízio! Eloísa rodeou a mesa com os olhos compridos para cima da travessa. como ela fazia. atrapalhasse qualquer celebração naquela noite. Não eram poucas as lágrimas que desciam em algumas visitas. um dia que merecia um bom pedaço de caça e o melhor tempero e dedicação. era permitido que cada casa preparasse sua refeição. Gustavo respeitava as lembranças de Sabrina e não sofria de ciúmes por um homem morto. Dado esse fato. E. servia para evitar desidratação demasiada. apesar de fria. Como amava aquela mulher! Sabrina sempre ficava com o coração apertado quando Gustavo tinha que se empoleirar naquela torre de madeira. e as aventuras perseguindo o fio de esperança na organização da sociedade na nova situação. Fazia tempo que os malditos noturnos não tentavam nada em Santa Rita. O prato com a sobremesa. hoje. a não ser o dos soldados. hortelãos. Numa vigília sem data para terminar. como se fosse possível. Tinha saído de casa dando um beijo apaixonado em sua Sabrina. como em outras fortificações. Adorava o assado da mãe. num interminável sono encantado. Todos aqueles corpos guardados. mas a virada do tempo não permitiria. nas incontáveis visitas à sua filha adormecida. Santa Rita não contava com um refeitório central. Mas os olhos buscam um outro prato. Pedira permissão para sempre renovar o soro da menina. contribuindo para com a vida na vila. Era melhor hidratá-los. transformando o corpo num amontoado de pele e osso. provavelmente. sabiam disso. mas assumiam uma aparência horrível. com direito a músicos no coreto. Sabrina abriu mais o sorriso. Sabiam a importância de cada par de braços no atual método de vida. Havia lhe apertado a cintura e terminado com um abraço terno e demorado. A mulher sentia calafrios quando cruzava aqueles corredores. antes da vila dormir. Santa Rita manter um estoque de adormecidos. haveria algum tipo de comemoração no galpão de festas. trabalhava junto nos canteiros da fortificação. os corpos não morriam. A pequena bela adormecida. Muitas vezes a 238 . Até um ano atrás era comum encontrá-la cruzando as fileiras de intermináveis rostos pálidos e corpos magros conectados a bolsas de soro. Assim seria mais fácil para a procissão de pessoas que tinham que caminhar entre os corpos. apesar de pequena. diziam os médicos. Adorava os legumes fresquinhos e coloridos que guarneciam a carne saborosa. Sentia-se mais mãe quando o fazia. sem dúvida. Sentia-se cuidando da menina. caso Gustavo estivesse em casa. tornando-os caveiras recobertas por couro. um ano atrás.pobre homem contava parte de seu desespero ao vê-las dormentes como mortas. duvidava que aquela garoa. no novo mundo. Gustavo não jantaria em casa esta noite pois tinha caído na inevitável escala de sentinela. Mesmo desidratados.

tinha prestado concurso e trabalhava como professor na Universidade Federal de Cuiabá. O pessoal do atendimento do Hospital e Maternidade São Luiz era muito simpático. Sabrina já tinha fugido para a casa de Francisco. não seriam lembrados depois de tantos anos e tantos fatos bizarros já decorridos. Francisco tornou-se preparador físico dos funcionários dessa empresa. Casaram-se no civil contando com os amigos de padrinhos e da família. As duras discussões com a mãe racista. resistiu o quanto pôde.. Nunca mais tinha tido notícias do velho querido. que não cedia nem aos panos quentes que o pai colocava. formado em educação física. Não adiantou advogado. deliciosa e cheia de energia. para evitar mais atrito em casa. Mas. olhar para o rosto sereno de Eloísa trazia boas lembranças de seu antigo marido. Francisco era forte e inteligente. Tinha gravado na memória o nome da mulher que digitava seus dados e os do marido 239 . Deus! Como Ele deixara isso acontecer com a gente? Era um fim de mundo inimaginável. Sabrina era aluna de Francisco. porém viva da filha. em situações normais. A pele negra e empalidecida. Francisco arranjou tudo com bons amigos.cabeça ficava bagunçada. quando acariciava interminavelmente o rosto doce de Eloísa. O pai tinha sumido depois da Noite Maldita. Sabrina dava entrada no hospital. naturalmente atraída por homens negros. como mexer uns pauzinhos meses depois da união e acontecer de Francisco ser demitido da faculdade federal acusado de algum crime contra a moral. não demorou a paixão a chegar. Depois do desespero. Sabrina relembrava o início do romance. tão cheio dos traços firme e belos do pai. servia-lhe de conforto. dado o fato de que Sabrina sentia contrações que davam a ela um novo significado a palavra dor. exalunos. apenas a presença secreta do pai de Sabrina. só tinha pedido para que Sabrina não contasse à mãe que ele estivera lá. Depois da fuga de casa e do casamento secreto. A primeira e única vez que entrara feliz num hospital para ser internada.. O salário era melhor que o de professor e via-se rodeado de amigos. Sabrina era aquele tipo de garota que não se consegue resistir por muitas horas. Sabrina agradeceria-lhe a vida toda por aquele gesto. na maioria vigias e seguranças. mas a mãe. levava horas para se acalmar. não adiantou "caras pintadas" ocupando a reitoria. Ainda que convivesse com outro homem. O coração duro e sem propósito impelia a fazer coisas estúpidas. que dureza! Mal completara um ano de namoro. tanto que por alguma razão incompreensível. Muitas vezes Sabrina deixava os olhos vagarem pelas pilhas de corpos. O pai tinha se simpatizado de pronto com Francisco. a mãe aumentara o amargor. Francisco tinha lhe sido um deus negro. que moravam em São Paulo e haviam fundado uma importante empresa de segurança patrimonial. nascido e criado em Fortaleza. que a encontrara no Mato Grosso e fizera dela uma princesa. Enchia-se de perguntas. na posição de professor. Novas lágrimas brotavam sempre que vinha a lembrança do dia do casamento civil. Francisco. Meses mais tarde. Orgulhoso. O pai. Encantadora. tinha gravado dois detalhes que. tão bacana. Naqueles momentos de vigília ao lado da filha adormecida. Como era triste aquilo. uma vez que tirara uma aluna de casa.

chamada carinhosamente de "minha neguinha". empunhando apenas uma espada. enquanto estava no depósito de adormecidos. Mas. Fez uma anotação mental naquele instante de que no futuro iria comprar aquele livro e que iria mandar uma caixa de bombons para a tal da agradável Sueli. quando os vampiros eram meramente ficção gravada em páginas amontoadas. Mas. Uma outra funcionária do hospital retirou sua cadeira de rodas do elevador. Uma massa pálida. Sabrina entrara no elevador com o nome da mulher e a capa do livro negro. Com aquele jeito de criança e que só abrisse os olhos quando os malditos tivessem sumido da face da Terra.. Que ficasse para sempre com aquele rostinho infantil. Às vezes. ao norte da Velha Salvador. Às vezes. perdendo a vida. livro de vampiros. E os bentos. Suas predições eram certeiras. de maneira insana. com um olho vermelho queimando e chamando a atenção. às vezes. Agora o mal era um só. Tanta gente. Um mensageiro chegara trazendo uma mensagem para bento Célio. gravados no fundo do seu cérebro. jamais enviou a caixa de bombons de agradecimento para a bendita Sueli. como todas as 240 .no computador com a finalidade de preparar sua entrada e lhe garantir um bom quarto. encapadas e vendidas pelas livrarias do mundo ou alugados em forma de DVDs nas prateleiras das vídeo locadoras. sempre houvera a esperança. Existiam outros males. Nunca se juntavam os trinta. acariciando a face de sua pequena Eloísa. hoje era dia para festejar. mas eram humanos.. Sempre apertava o coração saber que o mundo fora diferente daquilo. E se a profecia estivesse certa. Jamais comprou o tal livro de vampiros. com o creme alaranjado borbulhando e começando a queimar no fundo do tacho. Mas daí seus ditos vinham e aconteciam. criaturas com dentes afiados e sedentas por sangue humano. Forçou um sorriso e remexeu o tacho mais uma vez. O doce de abóbora estava demorando para dar ponto. batendo-se contra centenas de vampiros. Como ignorar o poder dos bentos? Aqueles homens que surgiam de tempos em tempos e defendiam as fortificações com bravura. Sem aquelas pestes noturnas rondando as casas. e juntar-se aos bentos. O segundo fato estranho era o de ter visto sobre a mesa de trabalho de Sueli um atraente livro de capa negra. Mexeu rápido com a colher de pau. A história espalhada pelo velho Bispo. Tanto passado. Havia a profecia. Uma contração mais forte a fez soltar um forte gemido e a mão forte de Francisco apertou seu braço. Célio deveria seguir até Santa Maria. Era dia para jogar todos os medos num buraco e dar de ombros para as dificuldades. Apertou os olhos antes que começasse a chorar novamente. Agora não. conduzindo Sabrina para o atendimento obstétrico. Era sempre triste lembrar-se do antes. Em certas ocasiões achava que aquilo era tudo invencionice daquele velho. Sabrina desejava que ela não despertasse. O trigésimo bento havia despertado e os trinta deveriam se agrupar para que vencessem os vampiros.. O nome da mulher era Sueli. A história de que trinta bentos se juntariam para dar fim àquela raça maldita. Sabrina encontrou-se hipnotizada diante do fogão a lenha.. Secou as lágrimas em um pano de prato e tomou cuidado para que Eloísa não percebesse que tinha chorado.

Gustavo levantou-se e ergueu a portinhola de novo. Queria estar em casa. — Mas. — Ouvi. é? — perguntou a mulher.. O pedaço de madeira bateu seco contra a parede. A mãe apertou a bochecha da filha e afagou-lhe o cabelo. Se aquelas histórias fossem verdade. Voltou para o outro lado e espiou mais uma vez. apenas distraía-se. Floresta negra. Gustavo anuiu. Thais respirou fundo. Estava escuro e o muro distava mais de duzentos metros. Atravessou o cômodo e espiou do outro lado. Thais o estava encarando.previsões do velho Bispo estavam. Garoa dançando no facho de luz projetado pelos holofotes no topo da vigia. Logo os vizinhos chegariam. reunido com eles.. fazer o quê? Estamos na escala. Queria tanto que Gustavo estivesse ali. o mundo se livraria dos malditos. Gustavo fechou os olhos. — disse. Era um dia para se comemorar. passando o fio afiado na madeira.. Gustavo espiou pela vigia. cara. Só estavam longe demais para seus olhos negros alcançarem algum sinal na escuridão. Eloísa desenhava com lápis coloridos num pedaço de papel. Sabrina afastou-se do fogão. fechando a vigia. Bufou prolongadamente. — Relaxa. Com certeza os soldados estavam lá. dando de ombros. quando os trinta estivessem juntos.. Quanto tempo não atacam nossa cidade? Dois meses? — Acho que mais. Quando olhou para o outro canto do cômodo. Raspou mais uma vez o canivete arrancando outro filete do toco. Parece que esses malditos esqueceram dos adormecidos de Santa Rita. — Tá de saco cheio. ia surgindo uma ponta longa e uniforme. Não estava esculpindo uma obra de arte.. preocupado. Um pouco de garoa fria passou pela vigia aberta. 241 . A floresta negra e calma.. Será que os soldados tinham ido para casa para celebrar a notícia da chegada do trigésimo bento? Olhou demoradamente. Um vento mais forte balançou a torre. Era assim que queria passar a noite. Estamos no perigo.. Ergueu o braço e arrancou o graveto do lugar que sustentava a portinhola.. Sentou no chão de madeira recostando-se nas tábuas que formavam a parede. mais uma lasca de madeira escapuliu da escultura da mulher. Tudo calmo. talvez esse fosse o último "plantão" que daria em cima da torre de vigia. O muro de Santa Puta parecia deserto. — Por quê? — Você não ouviu a história? — Do trigésimo bento? — flap. — Queria estar em casa hoje. Aos poucos.

— Pensei que você é maluca. Se tivessem atacado Santa Rita ontem. desviando do sorriso hipnótico que emanava da boca bem feita da mulher.. meu amigo machista.. mas via o facho de luz projetado dela batendo no areião molhado. A pele morena e. Tinha pouco mais de vinte e dois anos.. Vão dançar. num lugar quentinho e a salvo. Voltou a sentar-se. Dessa vez foi Gustavo que arqueou as sobrancelhas..Thais passou a lâmina na madeira. estamos felizes. todo mundo vai comemorar. mas ao inferno com as esqueléticas! Aquilo é que era mulher! Chuchu beleza. o que fazia Thais a segunda colocada no Miss Universo Fodido. 242 .. Acho que é isso. — Você ri. putz! Como cheirava gostoso! Pesava mais do que uma modelo de moda do tempo que o mundo era mundo pesaria. duvidaria que aparecessem hoje. Thais arqueou as sobrancelhas e abriu a boca. difícil dizer. Pela vigia não estava conseguindo ver a torre vizinha. Que sou maluca por ser uma voluntária. Gustavo sorriu para Thais. — Por que apareceriam hoje? Gustavo deu de ombros. Gustavo fechou os olhos. onde estariam Élcio e Valdo. tirando dessa vez uma pele bem fina que encaracolou enquanto desprendia-se do que fora um galho.. — O que foi? — Nada.. Riu sozinho e balançou a cabeça. um gordurinha ali. Thais era uma garota bonita. — reclamou a mulher... Baixou a portinhola mais uma vez. e é isso que me preocupa. sim. traços orientais ou índios. E voluntários não eram descartados. Tinha os olhos amendoados. O sorriso sumiu do rosto da mulher. As pessoas na vila.. da escala. Sabrina era só duas vezes mais bonita. E era a única mulher de Santa Rita que participava do rodízio. fazendo justiça.. independente do gênero.. E. — A salvo? Foi a vez de Thais levantar e espiar pela vigia. — Enquanto esses malditos existirem. — Sabe aquela história de que alegria de pobre dura pouco? Então. Gustavo! Vai dizer o que pensou. minha mulher. Recebemos a notícia de que o trigésimo bento despertou. Diacho! Era casado! Tinha a Sabrina que era mil vezes mais bonita que a Thais. mas olhar não era trair. Vão fazer assado.. — Machista? — Machista. ninguém vai estar a salvo. Tinha um pneuzinho aqui. Aposto que estava pensando que sou uma mulher bonitinha demais para estar encarrapitada aqui em cima com soldados. olhando pra mim e diz: nada! Faz favor. Poderia estar na vila. — Pára de falar de comida que eu estou com fome. Era voluntária. — ..

estaria fazendo o mesmo que eles: um apetitoso banquete para marcar a chegada do trigésimo bento.. Maria Alice sorriu encabulada. enquanto Eloísa. Todos conversavam animados na sala. A garota exibiu uma garrafa de vinho e abriu um sorriso. convidei-a para celebrar conosco a chegada do trigésimo bento. Estavam felizes. Uma batida na porta chamou a atenção dos adultos. — Oi. despejando vinho nas canecas. na garoa.. Todos lamentaram a falta do animado e engraçado Gustavo. — Pára de graça. menina! — convidou Fátima. Depois das risadas.. puxando a moça pela mão. afastouse do quarteto de amigos e foi atender. tinha organizado um bar e servia sem cessar a todos os amigos reunidos. Estavam todos contentes demais para se preocuparem com o frio repentino. Ela é nova em nossa vila. depois de muita insistência. — brincou Luiz Antônio. Sabrina. — O Élcio é uma torre avançada. como dona da casa. Sabrina sorriu e abraçou-a. Dois casais de amigos tinham chegado na casa de Sabrina. Sabrina soergueu as sobrancelhas. Deixa-me explicar antes que a menina fique roxa de vergonha. Pode entrar. marido de Fátima. quem normalmente puxava as primeiras piadas e lembranças cômicas dos acontecidos. Negão. — Esta aqui é Maria Alice. Fátima chegou à porta e estendeu a mão para a garota.O galpão de festas estava efervescendo em agitação. ainda não estava tão à vontade. Luiz Antônio. — Fátima fez uma pausa e apertou os ombros de Maria Alice. pessoal. vocês conhecem. Uma banda tocava clássicos do rock brasileiro conhecidos por todos. É namorada do Élcio. 243 . o líder dos soldados de Santa Rita.. fazendo a massa juntar-se em coro. Os dias de medo estavam chegando ao fim. Todos acenaram. Fátima continuou. — Como o Élcio também está de plantão nas torres avançadas. A mesa estava cheia. contando com mais duas travessas de assado com legumes. Maria Alice. enquanto Luiz Antônio apanha a garrafa de vinho. — Ah! O poste ambulante. mas ninguém parecia querer perder tempo no refeitório preparando a beberagem. — Como ela ia ficar sozinha pela primeira noite aqui em Santa Rita. já mastigava um pedacinho de bolo de cenoura com cobertura de chocolate falso. Alguém tinha sugerido preparem vinho quente. avançada e ambulante! Mais risadas pela insistente piada de Luiz Antônio. Tônico. comentava a respeito da fumaça que subia de uma boa quantidade de chaminés mostrando que quem não havia atendido a celebração no galpão de festas. Uma adolescente aparentando não mais que dezoito anos estava parada do lado de fora. com frutas.

como se aquele procedimento parecesse o mais correto no momento. caso encontrasse o bendito saca-rolhas. Fátima e Maria Alice silenciaram as risadas. junto com um gemido de Sabrina.. — Vai. 244 . era um boato.— Seja bem-vinda na nossa vila e na minha casa. Sabrina desistiu do utensílio e apanhou uma faca afiada para primeiro romper o lacre de alumínio que protegia a rolha. — Deixa disso. Estavam felizes demais para pensar em um combate. Fátima fez mais alguma piada e as três riram na cozinha. Instantes atrás. Sabrina e Fátima riam enquanto a primeira buscava um saca-rolhas na gaveta. abrindo estrelas escarlates no piso. Sabrina. então eu só trouxe esse vinho. Boato. Foi mal! — Há! Há! Há! Escapou?! Graças a Deus! Imagine como seria se você tivesse soltado um de propósito. A faca havia vencido com facilidade o alumínio e também boa parte do dedo da mulher. O que fazia daquela garrafa dos raros vinhos industrializados restantes na face do planeta um presente de elevada estima. Seria uma delícia saboreá-lo. Vinho novo.. nenhum pronunciamento oficial fora feito até o anoitecer. Era nisso que pensavam enquanto uma lágrima descia pelo rosto de Sabrina.. — Se você aparecesse com outro assado com legumes. No galpão deveriam estar tomando vinho produzido em Santa Rita mesmo. — Eu não sei cozinhar direito. — Escapou. lá no galpão de festas. Negão tivesse encarregando-se disso agora. Assim que Maria Alice viu os três assados sobre a toalha. abra logo o vinho que estou morrendo de sede. Valdo. — Sabrina estendeu a mão para um novo cumprimento. o segundo casal que participava do jantar. pois. Ainda mantinha o ferimento junto à língua quando todos na casa silenciaram-se ouvindo o ecoar do disparo de um rojão de três tiros. dando um passo para trás. enquanto uma nova gota de sangue ia ao chão da cozinha. como se acabassem de escutar a piada mais engraçada do mundo. a Sabrina nem teria onde colocar outra travessa na mesa. Sabrina gemeu novamente levando o dedão à boca. — queixou-se Mauro. surpresas e aflitas com o ferimento da amiga. Maria Alice. Ficaram parados como estátuas. Talvez. Vinho industrializado. Valdo e Élcio riam alto. Três gotas gordas de sangue pingaram no chão. petrificados pelo medo. Aquilo mostrava o quanto o pessoal estava dando importância ao mero boato. abriu um sorriso. Tudo o que precisar é só pedir ou apanhar. marido de Betânia. apesar do bento Célio ter partido para tal missão de encontro.. Olhou para a garrafa de vinho. O lacre saltou da boca da garrafa. Estavam felizes demais para acreditar que eles viriam. até agora. — acalmou Fátima. conduzindo a menina atrás da anfitriã para a cozinha. mas.

acompanhado de salada de ovos cozidos. A garoa.. Dizendo que fora culpa do almoço preparado por Maria Alice. — Foi sem querer! — Ainda bem que não foi motoquinha. Revirou os olhos com o fedor invadindo as narinas. — Sei que o negócio tá brabo. Élcio ficou com os olhos paralisados nas mãos trêmulas do parceiro de vigília. — Credo. Estava tão escuro que mal poderia divisá-lo se quisesse. — Ai meu Deus do céu! — repetiu Valdo. achando que Valdo ainda fazia graça. Ergueu a portinhola na esperança de criar uma corrente de ar fresco que banisse de vez aquele cheiro. a temperatura baixa incomodava o corpo. Valdo encarou o muro escuro de Santa Rita por um instante. dirigindo-se à vigia oposta ao muro. Ele não estava brincando. dançando sob o facho de luz dos holofotes. — Parece até que você comeu pão com rato podre! Vai feder assim no inferno! Estava ventando bastante. — Me passa o rojão. abrindo a vigia que dava para a face do muro distante. Ninguém brincava com um treco daqueles. Mas. No entanto. pelo amor de Deus! 245 . — brincou Valdo. Valdo olhou para Élcio. tô perdido. — Ai meu Deus! Élcio continuava rindo. fazendo com que a garoa gelada apanhasse o corpo do vigilante. Élcio! Nunca fui vítima de um peido tão fedorento! Deus me livre! Élcio ria. — Que horror! — continuou reclamando Valdo. contorcendo-se.. a que dava para a floresta escura. Ainda ria da situação inusitada quando fixou os olhos na floresta trezentos metros adiante. Deixa-me abrir essas vigias senão você me mata asfixiado. pois foi tão alto que a vila teria confundido seus traques com um rojão de alerta ou invasão! Há! Há! Há! Valdo abriu a porta dupla que dava para a estreita varanda exterior da torre. — Me passa o rojão de três tiros.— Há! Há! Há! — ria Élcio. A floresta parecia arder em chamas. Vão me gozar por dois anos seguidos. amigo. Não estavam caindo raios do céu para iniciar um incêndio florestal. Olha que fedentina. não traria um resfriado. mas também não precisa exagerar. indo para o exterior da torre de vigia em busca de ar fresco. Um refogado de repolhos. Mas. Se eu tiver que te levar pro pronto-socorro da vila. estendendo a mão trêmula. qualquer incomodo relacionado ao tempo seria melhor do que suportar o fedor da bufa sonora de seu colega Élcio. O frio. — Porra. atrapalhou num primeiro momento. Chamas aglomeradas. sem conseguir argumentar mais. Valdo sabia que aquilo não era fogo. Desde a Noite Maldita ninguém ficava doente. Me passa o rojão. Entrou novamente e cruzou o abrigo. certamente.

de joelhos (e já quase tocando o teto da guarnição). o peito do homem contra sua nuca. Um rolou para perto da cabeça de Valdo. Aquela rajada tinha sido das perigosas. 246 . — Olha! — disse Gustavo. Já tinha ouvido falar tantas vezes. podiam ver uma porção de fumaça escapando do telhado da casa de vigia. Apesar da distância... A garoa estava se transformado numa tempestade de vento. Acende no braseiro. Um espoco seco. jogada pelo vento. Élcio. dificilmente as torres passariam de pé por aquela provação. O que tinha o anel verde era o de três tiros. enchendo o ar de cinzas. — Vai logo! Élcio soprou o braseiro. Ainda não tinha olhado pela vigia. ergueu a cabeça e encarou o olhar de Gustavo. — Passa a porra do rojão. Outra rajada de vento sacudiu a torre e fez bater as portas duplas. a porta soltou-se de sua mão e bateu contra o batente. Estavam longe da outra torre. Ergueu-o em direção ao buraco da vigia. O homem apanhou o rojão. Gustavo surgiu nas suas costas. com os braços cruzados e sentada no chão. mas não acendia. — Levanta! — berrou Élcio. Um calafrio percorreu sua espinha. tocando o corpo inteiro até a bunda. quando o vento tinha balançado a torre. Se não fossem os quatro cabos de aço tensos e fixos no chão. junto com a explosão. Élcio! O semi-gigante abriu a caixa de ferro ao seu lado e retirou um rojão de três tiros.. O pavio amarronzado do rojão Caramuru tocava uma brasa. graças aos holofotes providencialmente instalados no topo das torres. Ela levantou-se agilmente e foi até a porta dupla. O pavio ia sumindo dentro do cartucho de papelão. estendendo o braço.Um vento mais forte balançou a torre. Não podia. Valdo tropeçou e caiu no outro canto. Ergueu perigosamente o rojão apontado para a cabeça de Valdo. Outra rajada de vento balançou a torre. O rojão dançou na mão. que balançava de forma medonha. Os projéteis queimando no chão de madeira. cortando a corrente de ar. ricocheteando no telhado simples da guarnição no topo da torre. O som da pólvora queimando e correndo pelo pavio chegou aos ouvidos. — Você ouviu isso? — perguntou o homem. Voltou a mão na maçaneta e puxou. o verde. a portinhola tinha descido. Mas. Valdo teve que se segurar para não cair. — O verde? — É. Élcio. Thais. estendeu os braços apoiando-se nas paredes.. Élcio tinha começado a tremer. Élcio gritou quando os três projéteis incandescentes voaram pela boca do papelão. mas sabia que não podia ser brincadeira.

Certamente. E ela veio. Sabrina respirou fundo e olhou para cima. Eloísa desequilibrou-se e só não foi ao chão porque foi amparada por Maria Alice. Achava que seria só mais uma noite longa na beira do muro de Santa Rita. Arrancou mais duas gavetas. Não com palavras. sinal de perigo. a moça nova na vila. A cabeça de Thais tampava completamente o buraco de observação. 247 . vibrando com uma boa notícia. deixando livre um quadrado aberto diante de seus olhos por onde Gustavo via uma linha vermelha agrupada onde começava a floresta. Sabrina olhava aflita para o ferimento. Antes que a porta batesse contra o batente. mas pelo som estarrecedor da tripla explosão de um rojão. Justo hoje que a vila estava em paz. correu para a mãe e tentou abraçá-la. — Meu Deus! O que vou fazer? O sino tocando. reconhecendo o perigo alardeado pelo sino insistente badalando na torre não muito longe dali. bem agora! Maldição! Azar! Os malditos farejariam o sangue. mais soldados acudindo ao chamado do badalo. como que fazendo uma prece. Sabrina repeliu a menina com um empurrão. Betânia. Sabrina vasculhou as gavetas da cozinha de móveis rústicos. segundos intermináveis depois. havia outras vigias daquele lado. A cabeça de Thais saiu da vigia. Justo na noite em que não contariam com a ajuda de bento Célio para defendê-los dos sugadores de sangue. choramingando. Do caminho de barro entre as casas da vila olhou para dentro da casa de Sabrina e partiu. Tremia. mas esperava por uma resposta. Thais atravessou a guarnição e espiou pela vigia em direção à floresta. gotas vivas de sangue deixavam uma trilha perigosa. Eloísa. trazendo consigo sua esposa. Correu até o sino preso à torre e começou a badalar. Um corte sangrento. Merda de vampiros! Parecia que podiam ler pensamentos! Justo hoje. Por onde passava. Será que foi um acidente? Para responder a pergunta do parceiro de rodízio.— Estão com problemas? — Acho que foi um rojão. Uma latinha vermelho-alaranjada de chá-mate Leão. Apanhou quatro e começou o curativo. Os malditos! Os malditos estavam lá! O soldado ergueu os olhos. talvez pela aflição da mãe tentando estancar o sangue com a mão boa ou ainda no medo estampado nos olhos dos homens que tinham arrastado e fugido com suas mulheres dali. Gustavo engoliu a seco e olhou para a mulher. Três tiros. O barulho de mais gente correndo entre as casas. Montículos de gaze. Luiz Antônio abriu a porta e puxou Fátima pelo braço. Abriu-a com a mão boa. foi a vez de Mauro puxá-la.

Gustavo olhou para Thais.— Mamãe. — Eu também não. zonzo. — murmurou a voz da mulher nas suas costas. As faíscas desapareceram dentro do cilindro de papelão. A única que não lhe abandonara repentinamente. assustado. talvez porque estivesse apavorada demais para fazê-lo ou talvez nem soubesse o que fazer. — disse. Só estou congelada de medo. cara. Somos a primeira defesa. Seis brasas riscaram o céu negro e explodiram. — Santo Deus. Provavelmente Valdo perderia a audição daquele lado. em Santa Rita. — choramingava Eloísa. em seguida. Gustavo estendeu o rifle para Thais. — Somos a primeira defesa. se fizesse menos de dois meses. Gustavo abriu as vigias. Eram centenas. Eu nunca encarei esses malditos aqui na torre. escutou o espoco surdo com o ouvido bom. Thais puxava a correntinha de dentro da blusinha vermelha por baixo da blusa de moletom que recobria os braços.. Thais estava atabalhoada.. — Vocês têm um abrigo em casa? — Temos sim. Só isso. deslizando a trava e provocando um barulho característico. correndo feito loucos. — Sabe atirar com esse aqui? — Também fui treinada. Beijou o crucifixo e recolocou-o no lugar. Thais olhou para Gustavo. e bateu contra a parede. nunca teria assistido a um ataque de vampiros. Gustavo destravou o rifle. Ouviram um disparo. O homem engoliu a seco. Vinham em grupos desiguais. Santo Deus! Nunca tinha visto tantos! O 248 ... — Há quanto tempo você está desperta. senhora. — Deixa o medo pra depois. Talvez fosse uma recém-desperta e. pôde ver o ouvido direito do parceiro sangrando.. Maria Alice? — Um ano. Valdo virou-se. Valdo segurou firme o rojão e. O primeiro disparo. Fátima tinha dito que ela era nova na vila. Na torre vizinha. A respiração da mulher soltava nuvens de vapor diante de seu rosto. Thais meneou a cabeça concordando. manheeeê. O número de pontos vermelhos vagando pelo areião tinha triplicado.. — Não toque no sangue! Não toque! — berrou a mãe. Pontos vermelhos desgarravam-se da escuridão da floresta e avançavam em alta velocidade pelo areião. Élcio. não se mexia. Sabrina enrolou o primeira gaze no dedo ferido e olhou para a filha agarrada à cintura de Maria Alice. O coração batia disparado. Gustavo abriu a porta dupla de face para a floresta. senhora.

todas essas pistas formavam uma garra que apertava o coração daqueles que interpretavam corretamente os sinais. Somente os bentos tinham coragem de enfrentálos e. Santa Rita não contava com nenhum protetor. Negão havia negligenciado sua função de líder da soldadesca. estacados nos seus. cagando nas calças quando chegava a escuridão e aquele maldito sino rompia o silêncio. naquela noite. Nem Negão tinha escutado o primeiro rojão de alerta. todas as pessoas. Tinha o direito a uma noite feliz no galpão de festas. sem pensar em passar em visita as sentinelas no muro. mas aqueles olhos atormentados. Com força total. E essa noite. O resto do salão ainda ria alto e era envolvido pelos instrumentos da banda. Soldados. Havia negligenciado de propósito. Não seria hora de ajudar os convivas a varrer o galpão e apanhar as sobras de comida. Uma dúzia de pessoas notou o soldado que tinha empurrado a porta com tanta energia. Mas a voluntária sabia que a vantagem evaporaria assim que os primeiros estivessem perto demais. esconderem-se nos buracos. Logo estariam rodeados por aqueles vampiros medonhos e seriam vítimas dos dentes e das garras afiadas dos assassinos da noite. dentro do galpão de festas. As que quisessem lutar deveriam munir-se e aguardar um par de olhos em brasas surgir na sua frente e queimar a testa do maldito com um disparo a queima roupa. Um som tímido. festejavam a boa nova. O rosto pálido e assustado do soldado na porta. Queria uma única noite para embebedar-se e simular prazer em viver atrás daqueles muros. como nunca teriam vindo.escalado fez mira e puxou o gatilho.. a banda tocava alto. O som que evocava a atenção e as armas. Um pecado que poderia custar muitas vidas. E pior que isso. Sabiam que a festa tinha acabado. Essa dúzia de pessoas mais próximas da porta de entrada e saída permaneceu estática tal qual o soldado com um pé dentro e outro fora do salão. Sorte que os malditos sempre atacavam daquela forma. Pouco antes do rojão de seis tiros tonitruar no céu. Teriam de lutar pela vida. caçadores. Puta merda. Os mais próximos da porta podiam ouvir o sino retinindo. 249 . o rifle com a coronha apoiada na cintura e o cano de descarga para cima. Aqueles sinais diziam de pronto que era hora de apanhar as armas e correr para o muro. De vinho e sorrisos. com os olhos em brasa. Na escuridão tornavam-se alvos visíveis. Teriam de detê-los à bala. De perto os vampiros eram imbatíveis. Para eles a noite ainda era de alegria e dança. Havia o feito de propósito. os olhos do soldado encontraram-se com os do líder. As mulheres deveriam se proteger em casa. mas era o som do badalo do muro. horteiros. o sino lá longe. a luta seria mais feroz. queria apenas uma única noite de paz e de tranqüilidade. Santa Rita estava desprotegida e os malditos viriam atrás dos adormecidos. Sem se preocupar com os quatro cidadãos nas torres avançadas. sua forma estática. O tiro único cruzou a distância e um dos malditos foi ao chão. os olhos aflitos. engolido pelo ritmo musical que embalava a festa.. Estavam despreparados e os malditos viriam. Finalmente. Até que a porta foi escancarada. diziam que ele havia cometido um pecado. Thais também começou a disparar.

com exceção dos músicos que pareciam congelados ao seu lado. 250 . e entrou com a menina. Negão cruzou o salão. Milhares de adormecidos aguardando o despertar. enquanto roia a unha de nervoso. Um quarto delas começava um zum-zum-zum. Negão deu a notícia desagradável e pediu o apoio dos homens para defenderem a cidade e os galpões dos adormecidos com unhas e balas. A garoa fria cobriu-lhe a cabeça e o espaço sem banda tocando alto provou-lhe uma sensação estranha nos ouvidos. Maria Alice apertava tanto a mão da menina Eloísa que poderia deixá-la roxa. Logo o som do badalo chegou aos tímpanos. não pelo aperto na mão. Negão olhou para os galpões nas suas costas.Era sempre assim. Maria Alice afrouxou a mão da garota enquanto tateava próxima à janela em busca de uma vela. Depois de uma eternidade. antes que o líder negro de Santa Rita terminasse suas orientações. Nada de céu estrelado. Avançou para o palco e tomou o microfone da mão do vocalista bêbado que protestou. A garota chorava. quase em concha. Metade das pessoas ainda não tinham caído em si e ainda gargalhavam. nada de noite clara. brincando. o soldado à porta se mexeu. mas pela mãe que ficara para trás. mas isso não tinha mais importância. Foi até o quarto e acendeu outra vela. coisa comum naquelas residências que não contavam com energia elétrica. O líder militar correu para dentro do galpão e cruzou o salão de novo. Não tinham tempo para os adormecidos. indo e vindo vagarosamente. A eletricidade em Santa Rita era reservada aos galpões de conservação dos adormecidos e ao aparato dos soldados defensores. Um pouco de desespero e urgência não faria nada mal. O líder dos soldados passou pela porta chegando à calçada cimentada ao redor dos galpões. que estava destrancada. A chama bruxuleante espalhou luz no quarto. de preocupação. Não queria apavorar os festivos cidadãos dentro do galpão. nem coragem para ficarem fora de casa com Santa Rita sob ataque sem a proteção de bento Célio. O soldado não queria gritar que estava acontecendo uma puta duma merda lá fora. as roupas tinham molhado o suficiente para causar desconforto. grossa e larga que tinha o propósito de sempre manter uma chama acesa dentro de casa. E o último quarto de gente esgueirava-se pela porta. junto com uma rajada de vento. Entretanto. A jovem companheira de Élcio abriu a porta de casa. A mão do soldado. Só pensavam numa coisa: ficarem vivos por mais uma noite. sentou a pequena Eloísa na cama de casal. de temor. chamando-o para fora. Sujaram todo o piso com a lama que ficara grudada nos calçados. Os convivas tinham urgência em retornar à suas casas e tentar dar proteção às mulheres e crianças. o salão tornou-se deserto. Maria Alice. Eles estavam vindo. ganhando a rua. Fez um movimento que lhe pareceu em câmera lenta. O céu era só nuvens e garoa. uma de sete dias. tentando tomar de volta o aparelho. Era isso que os malditos vinham buscar. balançou duas vezes pela porta. Apesar do trajeto curto.

se eles quisessem mesmo entrar. — choramingou novamente a menina. Debaixo dele havia uma tampa de madeira. Aquilo não deteria os malditos. logo atrás. Não agüentaria mantê-la erguida muito mais. Eloísa. olhou para cima. Por fim. eu já vou atrás.. selando-as no buraco. Normal. De uma explicação do namorado. Mais bloqueio. a tia já vai. mas ao menos lhes daria trabalho. — Legal! — exclamou. De volta ao quarto deslizou três travas da porta no batente do cômodo. e quanto a cama? Ela ficaria naquela posição. parecendo fazer uma prece.. Se ela se jogasse agora. encarando a mulher. Mas. conseguiu erguer o móvel.Pediu que ela esperasse e voltou para a sala. — Eu quero a minha mãeeeee.. — Tô com medo. Se a gente ficar pra fora a gente vai morrer. — Que historinha? — A de quando eu operei de apendicite. fechando os olhos. levantada a noventa graus ao lado da tampa de tábuas? Que raio de esconderijo seria aquele? Maria Alice deu uma gingada no corpo e deixou a tampa cair sobre o buraco. abraçando a cintura da mulher. Eloísa gritou com medo. ocupou-se da tampa. Maria Alice. — Louvado seja Deus! — respondeu Maria Alice. menina. A tampa de madeira era pesada.. Eloísa. a tampa cairia sobre elas. A jovem já pensava numa maneira de se jogar no fosso quando se lembrou de um detalhe. Puxou a menina da cama e. — Pula logo. Eloísa. Maria Alice bufou. trancando a porta da casa e passando uma trave grossa de madeira que dificultava ainda mais a passagem. antes de pular dentro do esconderijo. Eloísa ficou muda. Eloísa enxugou um olho e fungou. Deixando a cama em ângulo de noventa graus ao chão. não suportando mais o peso das tábuas. — Vai logo. — começou a choramingar a menina. — Pula. — É muito escuro. abriu um sorriso largo e abaixou-se na beira do buraco. — Pula aí. — Tia! 251 . — Entra que a tia conta uma historinha. Eloísa espiou o buraco escuro.. ouvindo o baque do corpo da criança caindo ao fundo do buraco. com muito esforço. suspendendo as pesadas tábuas pregadas nas duas vigas e mantendo um buraco escavado no barro aberto. Fiquei no hospital quinze dias e quase morri na mesa de cirurgia. — Tenho medo.

tentando encontrar o barbante. Os olhos em brasa montavam uma cena maravilhosa. A garoa fina amolecia a floresta. enquanto. querida. uma centena de irmãos da noite. — Pronto. desesperada. A cama tinha vindo abaixo. Três segundos depois ouviu um sonoro "blam" acima de suas cabeças. Estavam prontos para atacar.Maria Alice acalmou a pequena. Puxou com força. escondendo sob sua forma a tampa do fosso. A organização daquele ataque tinha vindo de forma diferente. Procurou um vão na tampa de tábuas e foi descendo o fio. Laura saltou para o galho mais alto do jequitibá. Nunca tinham juntado 252 . — Tia. abraçou-a forte e acocorou-se no chão. Maria Alice voltou a buscar Eloísa. vasculhava o estrado da cama erguido. preso com um laço no meio. não podia? — Caralho! — Credo. Devia ter pegado a vela.. dizendo que era rápido. exjogador de basquete. Um emaranhado de barbante grosso. Quando já não havia mais o que jogar ao fundo. Era bem comprido. — Tinham duas velas lá em cima. um enxame de morte. Pronto. — Fica quieta. Tateou as paredes úmidas de barro e numa extremidade encontrou um caibro atravessado na diagonal. Encontrou o fio grosso e soltou a menina. O abraço demoraria a desfazer-se. — reverberou a voz melosa da menininha. voltou a erguer a tampa de tábuas e esgueirou-se buraco adentro. Élcio tinha mostrado. O artifício serviria para escalarem de volta à superfície. escutavam tiros disparados do muro de contenção. Instruiu Eloísa a ficar longe daquele barbante. fixo na ponta superior do estrado. Abraçadas. Ao seu lado. voltou a esticar a mão diante da escuridão completa. Eventualmente. o papai do céu manda um vampiro bem grandão morder sua língua. A garota desfez o laço e esticou o fio de barbante. Seguiu-se um longe silêncio brutal. outra centena. — Se a senhora falar palavrão de novo. Eloísa. Maria Alice bufou enervada. do outro. Estendeu a mão e abraçou a menina. As duas respiravam mais calmas. Ouvia a respiração de Eloísa. A mão tateou as ripas até que encontrou. tia. A escuridão era assustadora. O peso das tábuas machucou suas mãos. — Desculpe. — Que foi. O fundo do esconderijo era frio.. Eloísa? — A senhora podia ter me dado a vela. Sentiase uma cabeça de vento. O buraco era profundo por culpa da estatura magnífica do namorado. formando uma coluna de fogo. mas conseguiu pular no fundo do esconderijo. que já estava indo. Abraçou mais a menina.

As duas torres de colunas finas. empoleirados em galhos. Apertou firme a empunhadura do fuzil que trazia nas 253 . Pobres vigias. forçando os homens mantê-los semi-cerrados. aguardando a presa morrer para lançarem-se sobre a carniça. tensionando os cabos de aço que as sustinham. Dois espigões.tantos vampiros. Ficavam balançando nos galhos das árvores mais altas. Negão benzeu-se. que ficassem apenas querendo apavorar o pessoal de Santa Rita. Os irmãos da escuridão eram tantos naquela noite. Negão chegou ao muro. poderiam matar tudo o que entrasse no caminho. Vencer os muros da fortificação. De quebra. Provar que era a vez dos vampiros jogarem. Ludymila ergueu os braços. A ventania também fazia o fogo nas tochas formarem ângulo nas hastes incandescentes. prontas para engoli-lo. Vampiros feito urubus ariscos. Ah! Como queria que bento Célio estivesse com eles! Nunca tinha visto tantos vampiros num ataque só. fazendo barulho. feitos macacos do inferno. Aguardavam o sinal da vampira l. Ela andava. As torres balançavam perigosamente. com os pés na areia molhada. O soldado no ponto cinqüenta estava pronto. Não bastasse o terror de terem diante de si a floresta tomada pelos monstros horrendos da noite. O vento forte trazia gotículas aos olhos. feito um general de infantaria. Os olhos da vampira detiveram-se sobre as torres. Que espetáculo! Estava envolta por brasas vermelhas que balançavam nos galhos das árvores. Nunca tinham sentido tanta urgência num ataque. A garoa insistente dificultava a visão. empertigada. semi flexionando as pernas. Torcia para que aqueles desgraçados permanecessem no limiar da mata. Olhou para os dois lados. tinham ainda que lidar com o temor dos troncos vergando-se a cada rajada de vento. Sorriu. engoliu a seco. Olhando para a floresta. Um tal de Anaquias tinha vindo de um covil do interior das florestas. Garrafas e garrafões cheios d'água benta estavam prontos. Nem o bento protetor daria conta daquela invasão. Havia um boato. ficando agora na última árvore antes da areia. beijou o crucifixo de prata que vinha na corrente. alcançar o depósito de adormecidos e trazê-los para o covil. a vampira de cabelos longos remexeu-se. Quando a vampira baixou os braços. responsável pelo ataque daquela noite. feitas cada qual do tronco de uma árvore. expondo a ponta dos caninos longos. para lá e para cá. balançavam ao sabor da ventania. Centenas de vampiros começaram a corrida. O número de malditos guerreiros da noite estava próximo de mil. Olhou para trás e ergueu os olhos. uma onda furiosa de assassinos sobrenaturais voou das árvores ao chão de areia. Era a vez dos vampiros receberem o guerreiro. caindo mais de dez metros. Uma vitória para provar aos anciãos. Podia vê-la vinte metros abaixo. como já haviam feito tantas vezes. Era a vez dos vampiros obedecerem a voz.udymila. Para reforçar. Inquieta. Laura saltou para a árvore da frente. prontas para o ataque. Esse Anaquias havia prometido uma retumbante vitória esta noite. Os homens com fuzis estavam prontos. Urros ensurdecedores encheram a noite. com homens armados à sua espera. E era isso que ela era naquele instante. riscando o céu.

Eram vampiros demais. Um estalo. Olhou para os homens ao seu lado. olhos fixos na mesma direção. Forçou a visão. Alguma coisa em seu olho. Os malditos estavam atirando. Pareciam brasas sopradas pela ventania. Filhos duma puta! Valdo rastejou até um canto do abrigo. Blam-blam-blam. Não demorou muito para o primeiro tiro ecoar no muro de Santa Rita. Seis tiros de rojão espocando no céu. Velocidade. caindo ao chão. Todos quietos. Valdo. — Protejam as torres! Protejam as torres! — gritou para os snipers. a estratégia era fatal. Valdo recostou-se na madeira do abrigo. Outro estalo. Assim economizaria munição. Élcio fez mira. Voltou a vigia aberta. O dedo pressionava o gatilho e pronto! Mais um desgraçado fora do jogo. Plac! Fim da munição..mãos. Foi nesse momento que escutou tudo o que não queria. a pistola presa ao coldre da cintura. Valdo foi ao chão com o empurrão de Élcio. Blamblam-blam. Eram treinados para isso. Não comemorou. pensamento concreto. Os vampiros tombavam e cessavam o ataque letal. Blam! Derrubou outro. O cano do fuzil procurou o próximo alvo. Se tivesse de ir ao inferno. Madeira. Outra rajada tripla. Abriu um garrafão de cinco litros e despejou a água sobre a tampa do alçapão. Valdo sentia sua arma vibrar a cada novo disparo. A respiração parava por um segundo. arrebentaria com um bom número daqueles desgraçados primeiro. Afundou no orifício de alimentação o novo. Tiros certeiros na cabeça. Calculava a velocidade. Quantos deles já teriam passado? Sessenta? Setenta? Talvez mais. Uma vampira com cabelos cor de fogo e olhos em brasa corria em direção a torre. que valsavam sobre a areia. — Abaixa! — gritou o parceiro. Farpas de madeira voando. Entrava em sintonia com ritmo da criatura. mais seguro. Mais farpas voando. Olhos capturados pelo medo. Apanhou outro municiador do fuzil russo. Um tranco seco. terminariam as cargas dos fuzis mais eficientes e contaria com sua última defesa. Os olhos buscavam a nova vítima. Mais um vampiro fora do jogo.. Blam! Desgraça! Tiro errado. Outro vampiro tombado na areia. Com balas de prata recheando a munição. deixando as árvores e ganhando o areião. a visão periférica via a enxurrada de malditos passando pela areia. Pontinhos vermelhos dançando. Ritmo. Santo Deus! O cano correu para o seguinte. Só instinto. vencendo a garoa insistente. Os disparos triplos do fuzil de Élcio ensurdeciam. O primeiro disparo triplo estourou a cabeça de um vampiro. Eram tantos dessa vez. Os olhos concentravam-se no alvo. Não vibrou. Plá! Plá! Destravado. 254 . Brasas do inferno que viriam incendiar Santa Rita. Blam! Não corria mais. a pistola com projéteis encapsulados em prata. Sabia que as balas existentes eram poucas para aquela situação. Descartou o vazio. Não houve tempo nem. Mesmo mantendo os olhos no alvo selecionado. Um tiro de cada vez. Um desgraçado a menos tentando trepar no muro de Santa Rita. Logo. não usava o recurso de disparo triplo.

voltando a cair e perder a vida efêmera que a física lhe emprestara. agudo e prolongado.. Os corpos tremelicavam. Não eram os vampiros. Enfiou o fuzil e retomou seus disparos. As tábuas molhadas tornavam-se cada vez mais escorregadias. Os malditos não pareciam se importar com as construções. Normalmente (isso a mulher não sabia se era sorte ou azar). Azar do caralho! Diferente deles. Um bando deles investindo contra o telhado do abrigo e tentando varar as madeiras. Fixaram os olhos uns nos outros por segundos longuíssimos. Respiração curta. Quase nada do incêndio encenado pelos olhos em brasa das feras da noite restava nos galhos das árvores limítrofes. mas por causa do novo balanço do abrigo e pelo som agudo que escutaram. Não pela trovoada provocada por Thais nem pelas telhas que ainda caiam aqui e ali. os tiros das defesas dos muros de Santa Rita. Um ou outro macaco do diabo pulando de cá para lá. Élcio levantou-se e foi à vigia. Sua arma tombou de lado e disparou uma rajada acidental. A esteira feita de monstros passava. pareciam ignorar. As torres estavam cercadas de vampiros. Os vampiros estavam ignorando a sua torre! Mas era um dos cabos de aço que cedera. 255 . Farpas de madeira e estilhaços de telha encheram o abrigo após a rajada perigosa provocada pela parceira. Entre o intervalo de seus tiros e do parceiro. Gustavo também foi ao chão. a torre vizinha via-se às voltas com um bom número de vampiros subindo os degraus. Thais perdeu o equilíbrio e foi ao chão. Ao largo do halo de luz podia ver um amontoado que talvez contasse com cerca de trinta vampiros abatidos. No areião. correndo feito loucos em direção ao muro. Perceberam algo passando pela janela. partira-se e balançava no ar. depois de ter sido entendido ao máximo. os malditos já estariam encarapitados nos degraus de acesso ao abrigo superior ou desfiando os cabos de aço com as unhas demoníacas. mais longe. Gustavo disparava repetidamente. Olhou para a floresta. mas estavam fora do jogo. não se importando com os disparos vindos da torre. Bateu forte contra alguma coisa. Passavam a toda velocidade. Arriscou colocar a cabeça pela vigia e olhar para a torre vizinha. Acertava tudo que entrava no rastro dos poderosos holofotes fixos no telhado do abrigo. Thais recarregava pela primeira vez sua arma. as bestas corriam como formigas ocupadas. passando direto pela torre. Thais ouvia as armas da torre vizinha e de armas que deveriam ser inimigas. Thais arrepiou-se. Gustavo ajeitou-se na vigia e voltou aos disparos. Retomou a carga de disparos. A torre balançou perigosamente. sentindo uma fisgada na costela. Azar.. Os tiros inimigos tinham cessado. Olhou para a floresta. Ouvia também. Gustavo colocou-se de pé e foi até a vigia.— Por aqui não vão entrar. O ronco potente da ponto 50 que deveria estar deitando cornos. próximas.

Mais vampiros subindo pela escada. Sabia que seria difícil escapar com vida. Quantos seriam? A munição seria suficiente? Ouvia o colega gritar e atirar. ainda sangrando. o cheiro saboroso que vinha da torre era hipnótico. Um buraco na altura do peito. mas para a torre vizinha. O esquerdo. Gustavo segurou o dedo. parado no meio do abrigo. nem mesmo com essas torres idiotas. exibindo seus dentes pontiagudos. Puxou o gatilho. Gustavo bambeou. junto ao vento. Tinha que dar um jeito de livrar a cara do garoto. Levá-los para o covil e garantir sustento de sangue por anos. Preparava-se para subir quando a boa garoa. O homem mantinha uma mão diante dos olhos. O cheiro de sangue era forte. Os irmãos da noite saltavam para dentro de Santa Rita. trouxe-lhe uma notícia. três vezes seguidas. Atrás do sangue. Notou o silêncio acima de sua cabeça.Percebendo a pausa na arma da parceira. Sangue! Valdo inspirou e expirou rapidamente. Abriu o alçapão e enfiou o fuzil. Imaginou um quadro macabro. A missão era clara. tirava-lhe a razão. Alcançou a varanda externa e olhou para a torre vizinha. Thais correu até a porta dupla de frente para o muro. Alguém também sangrava naquele lugar. Laura estava ao pé da torre. a pele morena empalidecida. — Eles estão com problemas. Mas. arranhando as paredes de madeira. Estalou a língua. Sabia que os malditos estavam vindo atrás dele. Cravava as balas na testa e via-os despencar. Olhou para a muralha vencida. Levou a coronha metálica do fuzil ao encaixe do ombro. tomando a cidade. Olhou para o lado. Haveria um maldito com as garras cravadas no rosto da amiga. Mais uns oito vampiros haviam 256 . Estavam descascando o abrigo com as unhas. acertando dois a queima-roupa e um terceiro maldito cinco metros abaixo. Assustou-se quando a colega de vigília voltou com a cabeça intacta para dentro do abrigo. Élcio podia ouvi-los andando no telhado. Thais olhou para a blusa do colega. Logo conseguiriam arrancar as telhas e invadir. Os som dos tiros entravam pelo ouvido direito. Olhou novamente para a torre vizinha. mantendo-a com a cabeça para fora? Fazendo-a sangrar até a morte? Gustavo foi até Thais. Fazia mira quando percebeu Gustavo lívido. na parte mais externa. Gotas grossas indo ao chão. não deveriam perder tempo. Dor na costela. com a cabeça para fora da janela. Uma mancha tomando os dedos. Podia ouvi-los andando pela varanda. tentando evitar a invasão pela escada de acesso. parecia surdo. afastada cerca de cem metros. Deveria ir direto ao rio de sangue e roubar os adormecidos. Continuou disparando contra aqueles que tentavam escalar os degraus enquanto o palito gigante humano tomava conta do telhado. Ergueu os olhos. O tal Anaquias sabia das coisas. Thais estava estática. Não para a torre acima de sua cabeça. Deveria abandoná-las e completar sua parte na missão.

Os vampiros pulavam livremente para dentro da cidade. Continuavam investindo contra o abrigo dos miseráveis atiradores. isso responde a minha pergunta. um olho nos degraus. Tinha que proteger Sabrina e Eloísa. escondidas na areia.. Thais descia esbaforida. outro nos vampiros na torre vizinha. — Sabrina. livrando-se do feitiço do sangue e só então mirou o muro de Santa Rita. mas mais por não saber o que fazer. Tirava essa conclusão pela quantidade de sangue deixada nas ripas arredondadas que faziam os degraus daquela escada vertical. a agonia dos colegas tinha virado ruído branco. pregada ao tronco liso de um ipê roxo. próximo a um apagão geral. quando faziam ataques suicidas. face a urgência em salvar sua família. mas continuava sem parar. Os que estavam mais para o alto não tinham ganhado a lufada de vento com o cheiro agradável do alimento dos mortos-vivos. Ela ficou parada um instante diante da abertura.recebido o recado. Para a fuga. Ás vezes. Não era o caso naquela noite. — Bem. Gustavo não ouviu Thais. começou a descer atrás de Gustavo.. Esse pequeno contratempo na frente dos vampiros rendia minutos preciosos de preparação nos muros e na vila. Em seguida ele atirou o corpo pelo buraco e começou a descer rapidamente. Thais apoiou o homem. Gustavo estava fora de controle e. Mais cautelosa. — Você. Mas. como naquela noite. quando a coisa degringolava. os vigias venciam a batalha sozinhos. num momento de ataque organizado. os vigias vinham em motos preparadas para as condições do terreno. contudo. Tinha que chegar a Santa Rita. Negão deixava os vigias abandonarem as torres e tentarem a sorte no areião. Mantinham-nas cobertas por lonas. Era obrigação do vigia escalado ser a primeira defesa da cidade. — murmurou. O som dos tiros e do desespero na torre vizinha existia em seus ouvidos. Ainda estava parado. Bastava distanciar-se das torres e dos muros. Não parecia que ele ia desabar. Negão tinha instituído um modus operandi que talvez salvasse o couro dos vigias em situações como aquela. passando de contratempo a heróis.. A descida era longa e exigia esforço.. perplexo. deixavam de seguir (estranhamente) a trilha habitual. você atirou em mim. Isso acontecia quando o número de malditos era reduzido. julgava.. Pararam a escalada e olhavam igualmente hipnotizados para a torre vizinha. Os vampiros. Gustavo sentia fisgadas a cada degrau descido. Eles haviam perpetrado um ataque maciço como nunca visto. O disparo acidental fizera uma vítima mais importante que o telhado do abrigo. quando os vampiros alcançavam o muro e o grosso da batalha passava a ser as portas de Santa Rita. raramente. — Eu tenho que te tirar daqui. Thais viu Gustavo livrar-se de suas mãos e erguer o alçapão. — Você consegue descer? Gustavo ergueu os olhos. que teve os 257 ..

o disparo que acertara o amigo escapara da sua arma. Para ela ainda faltavam dez metros e não tinha coragem de pular. ainda existiam os acidentes. Fez mira. Desespero. Não tinham mais preocupação com germes. Estava a dois palmos de distância. com aquele esforço. Bufou caindo no chão. Iria priorizar seu colega de vigia. Viriam feito cães atrás de gato. Errou! Não porque o disparo passou longe. na areia.. Thais gritou desesperada. Merda. Viu os primeiros vampiros abandonando a torre vizinha. Gustavo estava chegando ao chão. Um hospital. Por cima dela viu o vulto de mais cinco ou seis malditos aproximando-se. procurando pela lona. De cauterização. A maldita tinha os dentes mais longos que já tinha visto. enchendo a boca de areia. A vampira estava sugando seu sangue pela ferida. ou melhor. Escuridão. Ergueu o rifle. Mesmo com a claridade dada pelos holofotes. Gustavo colocou o pé no areião.. Parecia ter participado involuntariamente de uma maratona dupla. A coisa fria e áspera roçando sua pele. O golpe pareceu atingir sem força a vampira. Agarrou sua mão e girou seu punho. emitindo um rosnar.galhos da copa decepados para acomodar o posto de vigília. evitando uma segunda investida. Sentia-se culpada. O que era aquela coisa gelada? O maldito. Soltou-se da escada. ferino. Girou. involuntariamente. de vampiros atrás de sangue! Não precisava de metáforas àquela altura. Não tinha problema de areia entrar no buraco. A criatura apenas agarrou seu punho.. Tiros de merda de acidentes. a maldita vampira estava passando a língua em seu tórax. agora. Era tudo muito explícito e rápido. Ergueu-a pelos cabelos. Tinha que salvar a mulher amada. mas não puxou o gatilho. Gustavo gemeu. Não levava o menor pique para ironman. graças a Deus! Mas. Seu sangue! Desferiu um soco no nariz da criatura. mas de sua arma. Tinha que socorrer Sabrina. Não podia morrer ali. Os desgraçados já tinham farejado a generosa hemorragia. A vampira moveu-se rápido e enterrou os dentes em seu pulso. Não queria abrir outro rombo no amigo. Um vampiro. difícil fazer mira. Sentiu um baque nas costas. Era um deles. graças aos idiotas.. Gritos vindo da torre vizinha. Não existiam mais doenças. Não podia socorrer todos ao mesmo tempo... o vento e a garoa eram arrastados naquela direção. Quase gritou de horror. Dor. O rosto branco e raiado de veias verdes estava manchado de sangue. Interrompeu a descida. certamente ficaria bem mais fraco. Caindo era mais rápido. Afinal de contas. Malditos demônios! Eles podiam fazer isso. Infelizmente. Prendeu-o como pôde e puxou o gatilho. Ele já estava pálido quando se deram conta do ferimento. Com uma mão apenas era difícil firmá-lo. mas não tinha forças para se arrastar. Sentia-se tonto. Tinha que levá-lo a um hospital. Pensou nisso porque viu uma vampira chegando perto demais. Tentou alcançar o fuzil. Lambendo seu sangue. Ele só precisava de uma atadura. a garoa e o vento (e a porra da hemorragia!) deixavam mais difícil a procura. Ofegante. passando a sorver o sangue da artéria 258 . Maldita branquela dos infernos. Olhou para o chão. Sem forças. procurando pela moto. mas porque a vampira desapareceu diante de seus olhos.

A outra dúzia de vampiros saltava da escada a poucos metros do chão e começava a correr sobre o areião. Os vampiros saltitavam. Fora vencido pela exaustão. Estaria morto? Aproximou-se. Girou o pedal com um novo coice. Nada. Os vampiros tinham entrado e. Gritos e tiros vindo lá de cima. Cinco vampiros para o chão. ameaçando pegar. Olhou para o muro de Santa Rita. Thais aproximou-se. — Não! — gritou Thais. como um bêbado. Uma explosão. Nada. Os tiros na torre tinham parado. Deus do céu! O vampiro morto tinha a cara do Oswaldo. entre as casas. Morrer a dentadas não era seu destino. A cabeça da vampira desfez-se e o corpo decapitado tombou. 259 . Mais uma vez ouviu o motor e nada de pegar. No treinamento repetiam até cansar. Ergueu o fuzil e fez mira. Mais três rajadas para frente. Olhou para trás. Branco feito as criaturas da noite. O primeiro vampiro chegava perto. Não precisava fazer mira. Ele tossiu. Puxou a lona e ergueu a motocicleta. Um saltou do topo da torre. Os malditos sabiam matar. mas não pegou. mas morreu de novo. Os vampiros estavam na metade da descida. Era dor? Thais ergueu o fuzil e disparou. Os homens resistiam. Olhou para a torre vizinha. Correu até o volume fora dos fachos de luz. Viu uma dúzia de vampiros descendo pela escada pregada ao tronco de jequitibá. Criaturas horríveis! Deteve-se um instante sobre o último. O vampiro que tinha saltado corria em sua direção. Gustavo tombou a cabeça. Girou sobre os calcanhares. de desespero e dor. Brigavam na vila. Nada. Era como diziam. Thais benzeu-se. pousou os olhos em Gustavo. Expressão familiar. Mudou a chave do fuzil para tiro único. O que era aquilo que experimentava? Algo que não sentia há anos. buscando apoio no fuzil. O motor girou.pulsante. Sentou-se e tentou a partida elétrica. agarravam-se aos degraus tentando vencer o alçapão e entrar por baixo no abrigo. Por fim. Estavam perto demais. Encontrou. Estava sentando e bambeando o tronco. Interromper a ação. O motor girou. contorcendo-se. Deu o primeiro tranco. Carga tripla. Estava lívido. Rolou. A luz dos holofotes apagando-se. Outros arrancavam telhas do reto. Olhou para Gustavo. O amigo estava tentando levantar-se. a briga deixara de ser travada nos limites da cidade. Podia jurar que era ele. O segundo. A última coisa que captou nas retinas foi a sombra de um anjo descendo do céu. Bala de prata na cabeça. Uma chance. vindo perigosamente ao chão. Laura sentiu um baque nas costas. Bateu na partida de novo. com fúria e urgência. olhando para o chão. Ela deu novo tranco no pedal de ignição. Pelo cansaço. Escuridão. Bateu as mãos no bolso da calça. Vinham rápido. Tinha que dar o fora dali. O fuzil de Gustavo abatera o inimigo. A moto. Eram perigosos. Thais sorriu. Plac! Sem munição. Não havia dor no novo ferimento. Preparou o pedal para a partida mecânica. atirando lajotas ao chão. o pastor batista da igreja que a mãe freqüentava. Nenhum municiador novo. Foi até o meio do grupo de vampiros que se contorcia em razão das balas prateadas correndo o corpo. Os disparos não tinham ido contra a cabeça. Um a um foi abatendo com um tiro na testa. há alguns minutos. vencido. Lágrimas começaram a molhar seu rosto.

raspando a canela no ferro. Com a cabeçada no painel. achou que tinham tantas balas. Fitou um instante aqueles cartuchos. o motor nunca funcionaria. — Vambora. No afã de empreender escapada.. Girou a manopla e disparou na direção de Gustavo. Sorte saber pilotar a motocicleta. — murmurou o homem no ouvido da garota. que tinha atingido a fronte na extremidade da chave. Élcio continuava disparando contra o telhado. confiando em sua audição. Rolou sobre as tábuas molhadas de garoa e água benta e apanhou mais dois municiadores cheios. que nunca acabariam. Quando entrara na vigia e inspecionara a munição. pois sabia que a munição de Gustavo também chegaria ao fim. Derrapou ao lado do amigo e estendeu-lhe a mão para que se pusesse de pé. o desfecho para a dupla Valdo e Élcio foi sombrio.— Meu Deus. Logo estariam cercados. Valdo cuspiu fora o cartucho de munição vazio. Você consegue subir e se segurar? Gustavo ergueu a perna com dificuldade. me ajuda! — suplicou a mulher batendo a testa no painel. Soltou uma bufada. Incomodando-se com a dor na testa olhou para a chave. Sua boca abriu-se.. Os poucos segundos perdidos permitiram um avanço assustador dos atacantes. Burra! O motor roncou e funcionou perfeitamente. — Já eram. — E os dois lá em cima? Gustavo lançou um olhar para a vigia silenciosa. ao menos por enquanto. A gafe da chave devia-se aos vampiros correndo para sua garganta. seu pé havia escapado do pedal. Rolou novamente e abriu o alçapão. fazendo o pneu traseiro erguer um arco de areia. Não tinham tido tempo de pensar em munição extra... Mulher idiota! Pensou dela mesma. Gustavo falava a verdade.. Aquela operação tinha lhe tomado poucos segundos. doía também a testa. ouvindo um segundo e um terceiro disparo.. Enfiou pelo encaixe e deixou a arma pronta para novos disparos. Estava lutando para manter-se aceso. 260 . Minutos atrás. Thais levantou a cabeça. Eram os últimos dois. não tinha virado a chave para a posição de "liga". Ouvia os malditos puxando as telhas e mandava bala na direção do ruído. agora achava-as tão poucas. — Eu é que pergunto. satisfeita e aliviada.? — quis perguntar o homem. Estavam perdidos. Sempre gostara de motos e não fora uma das meninas relegadas à garupa. Estava cansado e com sede. Burra! Girou a chave e voltou a bater no pedal. — Você consegue.. No último coice. Sem a parte elétrica ativada.. abrindo um ferimento dolorido. Segundos tensos passavam-se até a detecção de novos ruídos no telhado e um novo invasor. Era rápido e gostava das armas.

exibindo veias esverdeadas subindo pelo pescoço e tomando parte da face e a pele de aparência repugnante. fumegando em contato com a água abençoada. Chegou a sentir os dedos doerem dentro da bota. Mais uma vez surgiu um buraco na parede. pior. explodindo a cabeça da criatura. gelando o ar. As unhas afiadas balançando para lá e para cá. Tinham lhe apertado o pescoço com tanta força que achara que aquela seria sua hora derradeira. ficou imóvel por um instante. — Venta mais! Venta mais! — gritou. Atirou contra a vigia fechada. Um odor de podridão esparramou-se pelo abrigo. A madeira estourou. Eram tantos! Ouviu um grito nas suas costas. então voltou a encarar sua vítima. a tampa voou do encaixe. — Você está perdido. Faça bom uso. Enfiou o cano de descarga pelo buraco aberto pela fera e disparou. — Estou ficando sem balas. cara. O ouvido ferido apitando. Valdo desferiu um chute poderoso. mantinha-se encurvado. tão alto que bateria a cabeça no telhado. Valdo ergueu o cano de disparo. Quando se preparava para erguê-lo. A água benta desceu pela madeira e os braços malditos. Agachou-se e retomou seu fuzil. Grunhiu demoradamente. O guri estava ficando doido. Voltou para o alçapão. Escutou pancadas na madeira. abrindo uma fenda perigosa. Agarrou uma garrafa com água benta e arrebentou-a contra as tábuas. Uma cabeça pálida e de olhos vermelhos como sangue vivo surgiram pelo buraco. Braços vampiros surgiram pelas frestas abertas na parede pelo palito humano. Élcio foi ao chão. estourando as dobradiças. — É o último. fazendo pedaços de braços voarem para a parede. Puxou o gatilho mais uma vez. abrir ainda mais os buracos feitos. cravando-lhe garras pontudas e fazendo seu sangue escapar da pele. enquanto o corpo desmembrado do vampiro escorregava pela boca do alçapão e despencava para o areião vinte e cinco metros abaixo. Élcio viu dois vampiros despencando do abrigo com o empurrão do vento. A garoa entrava em remoinhos. passando a mão em volta do pescoço. Os braços de vampiros invadiam a choupana e tinham feito Élcio de refém. Um urro ferino encheu o abrigo. Viu o vulto de três ou quatro deles. Uma garra de vampiro surgiu no teto. Valdo disparava sem cessar. Poderia ferir o amigo ou. — Deus do Céu! Que fedor! — exclamou Élcio. 261 . soltaram o grandão. Valdo ignorou a ameaça do vampiro e baixou o fuzil. O vampiro pendeu a cabeça.Élcio. puxando o ar para o pulmão. Valdo arremessou um pente cheio. Valdo disparava para baixo. A pilha ao pé da torre aumentando. Élcio foi preciso dessa vez. batendo contra as telhas do cômodo. Valdo ergueu a cabeça. Um vento forte sacudiu o abrigo.

A coronha seria a arma agora. Élcio não conseguiria dar conta de todos. O vento balançou o abrigo novamente. enfiando a mão para dentro do abrigo. Quando o vampiro alcançou a boca do alçapão. subindo leito formigas num espeto e eles. Fim das balas. — Descer? Só se você conseguir limpar o caminho. seriam o torrão de açúcar na ponta. Começou a golpear a cabeça dos invasores. — Isso aqui não chega nem aos pés daquele seu traque nojento! Se não estivesse com a corda no pescoço. Logo abaixo vinham mais. — O quê? — perguntou. Só o "plec-plec" seco. — Valdo! — berrou o rapaz.. Tirou a pistola do coldre.. Ouviram um silvo distante. Ficou 262 . — Estamos sozinhos. como o de uma corda de violão arrebentando. onde quase não havia mais telhado. Eles subiam aos montes. Tentando afastar o perigo. Mesmo ouvindo os gritos e súplicas do amigo. Os braços das criaturas invadindo pelo teto e as pancadas na madeira ao redor da varanda aumentavam velozmente.. Valdo derrubou mais dois. Temos que descer e pegar a moto. Valdo retomou os disparos pela abertura. os vigias. Não resistiriam tanto. enquanto o peito era agarrado por tentáculos pálidos que nascidos na parede de tábuas. — Estamos por nossa conta! — berrou. Valdo girou o fuzil agilmente e agarrou o cano ainda quente. Não existiam mais soldados defendendo o muro nem snipers defendendo as torres. Valdo olhou para a escada. Sua cabeça e pescoço eram apertados por braços que vinham do teto e procuravam içar a vítima. primeiro cuidou dos que avançavam pelo alçapão. Valdo sacou seu último recurso. Queriam bebê-los a todo custo. O homem. Escuridão. Élcio continuava atirando contra os barulhos no teto. Não demorou muito até o "plec-plec" começar no fuzil do jogador de basquete. Estavam obstinados.. conseguindo bons resultados.— Fedor?! — espantou-se Valdo. às voltas com as cabeças vampíricas assomando pela entrada do alçapão. deixando a garoa entrar generosamente. o tufo de algodão doce como prêmio. Dezoito balas. Mais um vampiro surgiu pelo buraco. Recostou-se na parede e ergueu rapidamente a vigia de face ao muro de Santa Rita. Era tudo. olhou para o parceiro. Um amontoado de corpos. Mas. Não havia munição suficiente. Élcio teria rido da graça do parceiro. sem disparo. Élcio estava sendo envolvido por um emaranhado de braços. Fez mira e puxou o gatilho. até quando agüentaria? Quando seus braços se extenuariam e parariam de colaborar? Faltava mais de oito horas até o nascer do sol. voltando o fuzil ao alçapão. Nada de tranco. Será que serviriam para amortecer a queda caso pulasse? Descer pela escada não parecia boa idéia. Queriam entrar.

entrando pelo alçapão. Desmoronou sem perceber. Não sentia nada. Valdo disparou. deu dois passos para trás.. — Vai lá. nem ouvia nada. Logo viriam os dentes. Logo seria sua vez.. Vai lá que eu já estou indo. Recuou a pistola. As garras penetrando seu parceiro. tomando cuidado com os braços que pareciam dezenas de lustres fantasmas. Expirou. encostou o cano na própria cabeça. No flasb seguinte viu o abrigo desgraçado encher-se de bolinhas de luz. Na verdade não precisava ver. amigão. Valdo aproximou-se de Élcio. Puxou o gatilho. cada vez mais. Atirou contra os vampiros nas escadas. Sabia. As balas acabando. nem milagre. 263 .. gritando feito louco. Viu num flash os vampiros aproximando-se. extinguindo com a vida do vigia. Fechou os olhos e. Estava tudo acabado. Mirou o peito de Élcio. Procurou os olhos do vigia. Nem bento.. até um clarão total tomar conta de sua visão. Sabia que eles entrariam.de pé. antes de ser abraçado pelos vampiros que tomavam o abrigo nas suas costas. Élcio gritando. sem ver que uma sombra esgueirava-se nas suas costas. esgueirando-se para longe daquelas criaturas perturbadoras que agora bebiam seu sangue. era como se toda sua existência escapasse pela boca.

Não conseguia enxergar bem o caminho pela frente. ainda com as mãos em frangalhos por conta do peso que trazia consigo. O som só não se sobrepunha ao barulho da chuva. É verdade que já estava arrependido de ter tirado o caixão do esconderijo. o vampiro tinha falado alguma coisa de cura. viu-se novamente seduzido pela ambição da imortalidade. Cantarzo não poderia lhe causar mal algum. Não teria forças. Tinha voltado atrás. Por conta disso tinha avançado pouco. carregando somente o seu próprio esqueleto.Capítulo 35 Lúcio estava exausto. Há um par de horas a garoa tinha virado aquele aguaceiro. produzidas pela fricção da pele contra as cordas que rodeavam a caixa de madeira e serviam para o homem trazer consigo o fardo. As mãos estavam cheias de bolhas d'água. Ela tinha chamado Cantarzo. Carregando aquele caixão não conseguira manter sua tocha acesa. mas tinha medo de jamais revê-lo e perder o tesouro da vida imortal. Tinha tido sorte e apanhado um filhote de porco do mato. Se o abandonasse para buscá-lo mais tarde. antes de bater com a caçoleta. a carne tinha rendido um jantar saboroso e. Não conseguiria ir muito longe com aquele cadáver maldito. Depois de decidir pegar. Se ele tinha dito. no embornal. Primeiro. Encontraria a bruxa mais cedo. Mas se esquecesse onde o tinha deixado? E quando encontrasse a bruxa. voltou ao esconderijo do caixão e. O caixão com o noturno ficava cada vez mais pesado. então. perdida há uma hora e meia. Somente se Cantarzo fosse refeito isso seria possível e. Para ser também um imortal sanguessuga. Lúcio agarrou o sisal e voltou a puxar. pensara em abandonar a missão dada pelo demônio. Era por conta desse medo que estava mais uma vez arrastando aquele peso morto. Tinha que encontrar um esconderijo seguro e seguir para o norte sozinho. antes de escurecer. Lúcio riu da expressão literal. O lacaio de Cantarzo coçou a barba grossa. ajudava mantendo o caminho enlameado e propício a deslizar mais facilmente o caixão. Riu sozinho em alto e bom som. Por outro lado. Lutava contra o medo de perder o caixão e a incerteza. ela acreditaria num homem de mãos feridas e abanando? Não acreditaria. ela. trazia um bom pedaço de caça para o café da manhã. mais uma vez. Mesmo alimentado.. A chuva ajudava a manter o corpo resfriado. Tinha descansado um bocado no final da tarde. certamente encontraria a tartaruga engolida pela serpente mais cedo. Precisava manter o corpo de Cantarzo debaixo dos olhos. Morto daquele jeito. haveria de curar. Por que tinha se arriscado em São Vítor? Por que tinha acabado com o velho Bispo? Para barganhar com o vampiro. Era pegar ou largar. Era uma carta fora do baralho. Ela daria um jeito nas coisas. Maçãs envenenadas. depois de refletir um pouco. via-se arrastando aquele esquife provisório pela floresta.. Bruxas faziam essas coisas. A bruxa cura. Lúcio perdia as forças. Trazendo Cantarzo nas costas a missão poderia levar anos. 264 . Mas sabia que o destino estava muito longe. Ainda sem sal. aprisionamento de fidalgos. "Peso morto". ressurreição de vampiros bestas.

Algum outro espertalhão poderia querê-lo para si. Lúcio fechou a boca para não engolir barro. O peso de Lúcio escorregando puxou-a pela borda e a física se encarregou do resto. Francis pensou em organizar um acampamento quando alcançassem alguma proteção segura. Já tinha aberto um sorriso agradecido ao acaso quando percebeu a caixa passando ao seu lado. Ergueu os braços para o céu. Cantarzo seria eternamente grato. Serviria para ajudá-lo. Lúcio caiu de lado. Alcançou. provocando desequilíbrio. mas viu seus pés fixarem-se cada qual num caule de árvore nova. O conjunto. Perdera o controle da respiração. Arranjou uma posição menos dolorida para agarrar-se à corda. empurrada pela lama e pela água da chuva. Tomara que o pedaço de carne ainda estivesse lá. um barranco enlameado. Lúcio desceu tão repentinamente que o pé não encontrou a pedra que servira de apoio centímetros abaixo. quando a caixa começou a escorregar. Seu pé dançante pisou em falso no barro. quando as queixas começaram. para sua surpresa. Lucas foi quem ergueu a voz e pediu que pros- 265 . sentindo uma pontada nas costelas. tendo o corpo todo a tremer. caso o pé escapasse daquele apoio. Lucas e seus seguidores há muito tinham deixado o pântano. A cabeça voltara para cima. Seu pé tinha firmado-se numa pedra. Lúcio gritou palavrões e firmou os dedos no sisal. Puxou o corpo para cima. A escuridão não deixou que percebesse a armadilha. As bolhas estavam deixando suas palmas das mãos em carne-viva. escaparia daquela enrascada. Não conseguiu ver para a frente. preso à seu ombro. aflito. Olhou para o embornal. Lúcio soltou a corda novamente. A água descia vertiginosamente pela beira do barranco. Estava quase conseguindo. mas não podia perder o vampiro. A ponta da caixa surgiu na beira do barranco. Olhou para baixo. O tranco foi forte e os gritos de dor estouraram junto com as bolhas doloridas na escuridão. A mão tinha pegado a corda do caixão. Lúcio manteve-se firme. Daria um jeito. rodopiando sobre a lama. A dor nas mãos era gigantesca. Cantarzo era pesado o suficiente. Ia precisar de um bom desjejum depois daquilo. Quando Cantarzo voltasse a abrir os olhos. Não podia ver quão alta seria a queda. Os braços do homem giraram procurando um ponto de apoio. A chuva apertou. festejando antecipadamente sua vitória. tendo escapado com êxito da região pantanosa e conduzido com boa velocidade o grupo de cavaleiros pelos caminhos na mata. Depois que a garoa virou aguaceiro. Gritou. deslizando barranco abaixo. Elton continuava liderando os soldados. havia pedido descanso. Tão feliz estava com suas conclusões que não percebia que se aproximava da beira de um barranco. A corda de tração. cansado. Se conseguisse alguma coisa para içar o corpo. O chão molhado estava escorregadio. Lúcio foi girando para a ponta. Faria dele um imortal. Não perderia o vampiro. Cantarzo faria dele um vampiro eterno. O que era a dor perante a chance da vida eterna? Segurou firme. ainda enrodilhada em suas mãos. mas. O atrapalhado lacaio perdeu a pedra de apoio. uma tocha ou outra continuou acessa. inspirando e expirando alucinadamente. A despeito da tortura.

O som de pequenas enxurradas formando-se e descendo e escapando da clareira e descendo o morro. Uma certeza de que não poderiam parar. O cavalo moveu-se lentamente. Só a chuva e a noite. não agora. Bateu levemente com os calcanhares na barriga do tordilho. Agora aquela merda de terem seis bentos mortos! Lucas olhou ao redor. Não sabia como. O trigésimo guerreiro olhou ao redor. o bicho baixava a cabeça. Tinham passado por lugares tão melhores para aguardar a chuva parar. insistia em deixar os olhos vasculhando ao redor. Sabia que o esgotamento era geral. Talvez até fosse agradável. toda aquela aflição em deixar a Velha São Paulo e recusar o caminho mais longo e seguro desembocava naquela clareira. em dias de sol e estiagem. Não era uma premonição. Tinham que ter deixado a Velha São Paulo e vindo naquela direção por um propósito. Angústia queimando no peito. mas não ali. repentinamente. Era somente um sentimento de ansiedade. tentando alcançar uma poça d'água mais profunda e tomar um pouco do líquido fresco vindo do céu. Aquela clareira era desprovida de abrigo. Enquanto Lucas teimava em examinar ao redor. O som da água descendo das árvores. Os dois ainda riam. Lucas ergueu o braço e a comitiva parou. em cima de seu cavalo imponente. um propósito que não sabia explicar. Seus olhos estavam cansados e pregando. Era como se soubesse que tinham que passar por ali. Praticamente não tinham tido descanso desde que deixaram o acampamento onde haviam deparado-se com a onça. Mal tinham descansado e os problemas na jornada tinham começado.seguissem. O bento fez o cavalo ir para a frente. Os que estavam mais perto das chamas viam os respingos da chuva contínua sobre as poças d'água. Mas não tinha nada diante de seus olhos. altivo. parando entre Joel e Adriano. O trigésimo bento. O animal também estava exausto. A clareira terminava num barranco à sua direita e o caminho cortado no meio das árvores seguia à frente. sem perceber que bento Vicente estava nas suas costas. Não era uma coisa clara. A luz lúgubre das tochas atingiram a clareira. paravam ali. Não tinha nada na clareira. — comentou Joel para Adriano... Não entendiam o porquê. — Acho que esse cara pirou. Por que fora trazido até ali com tanta urgência? O que isso teria a ver com a profecia? O que teria a ver com seu destino? Talvez tivesse que encontrar alguma coisa naquele pedaço do caminho. Os soldados de Nova Luz riram baixinho. Tinha tido um palpite e não fora à toa. Joel continuou espirituoso: 266 . observando Lucas. Lucas remoia seus pensamentos e seus instintos. algo que não deslindava aos seus olhos. A escuridão e a chuva não deixavam a floresta mostrar muita coisa. mas sabia que toda aquela pressa. Não poderiam parar até aquele momento. Os homens permaneceram em silêncio e mantiveram os cavalos imóveis.

Precisamos de soldados. Tá parado aqui no meio da chuva depois de fazer a gente correr feito cachorro. E se fizessem perguntas? Poderiam querer saber o que tinha no caixão. Quando pensou no caixão.. Virou-se novamente. Não. — Foi mau. — Hoje você tirou a confiança de dois homens no trigésimo bento. Os soldados de Nova Luz voltaram às risadas. — repetiu Joel. Vicente olhou para o líder de Nova Luz. girando o cavalo e indo juntar-se à Lucas. — Cuide de seus soldados. embainhando a espada. — Ô! Pera lá. É certo que descobririam que era um vampiro. Não entenderiam sua relação com a caixa. Para surpresa dos soldados. Os soldados trocaram olhares indignados. O moleque entendeu o recado. — Bento Vicente. — interferiu Adriano. Nunca mais faça pouco de nossa missão. num movimento ágil. Poderiam querer tomar-lhe o tesouro. dessa vez um pouco mais alto. Talvez fosse melhor não clamar socorro. — Desculpa. Lúcio chegou a abrir um sorriso. — Guarde suas brincadeiras pros seus amigos de estrada. Vicente. chamando a atenção do resto do grupo. pra você. Vicente fechou a expressão. transformando-se numa tempestade.. tirou a espada da bainha. Pirou o cara. Eu só tava brincando. Lúcio vencia a dor. Amanhã pode tirar a confiança do grupo inteiro. cara. Foi aí que ouviu um "crec". No barranco. — Pode guardar isso. Vicentão. Acho que o cara não tá botando uma fé. Iriam querer tomá-lo. não de comediantes ou inimigos. Poderia pedir ajuda e tirar seu rabo dali. Adriano. ainda aferrado à corda que sustinha o caixão e com os pés apoiados nos caules das pequenas árvores. Vicentão. Não quero ver o nome de Lucas diminuído por nenhum deles. Lúcio não escutou os cavalos. Vicente! — espantou-se Joel. — retrucou o guerreiro. Só foi dar conta de que tinha gente na clareira por conta do clarão provocado pelas tochas. cara. com as gotas arrebentado na folhagem das árvores. o cara tá louquinho. Com barulho da água que descia pelo barranco e da chuva que aumentava. A chuva parecia ter aumentado ainda mais de intensidade e ia juntando-se com relâmpagos e trovoada.— Acho que tá sendo demais para o novato. junto com o caixão. Por fim. O caule não suportou mais o peso 267 . Vicentão. sem parar pra dar um barro se quer. Lucas permanecia andando em círculos pela clareira. Foi mau. seu sorriso desapareceu. permanecendo recostado à lama. olharam para bento Edgar que estava ao lado e parecia ter assistido tudo. Não coloque em risco nosso trabalho. Edgar sorriu e ergueu os ombros. Seu pé deslizou.

A luz alaranjada correu pelas árvores e por cinco metros barranco abaixo. Sentiu o golpe duro quando as costas bateram na superfície. Iria esborrachar-se sobre rochas e seria o fim da aventura. Não havia nada naquela clareira. Lucas chegou à beira do barranco. Estava muito escuro. O barranco tinha terminado. A correnteza era poderosa. Seu corpo foi carregado e bateu forte contra uma nova pedra. O tranco machucou sua mão pela enésima vez. Não era uma pedra. Baixou a cabeça. No entanto. esta encheu-se de água. — Vão se foder! — berrou para a noite. mas a queda continuava em ar livre. Precisavam buscar um abrigo. Não era isso. e ninguém e nem nada o faria mudar de idéia. Quando abriu a boca. Frio na barriga. Buscar um abrigo para descansar dois pares de hora e retomar à jornada. estava envolto pela chuva. Subiu à superfície e puxou o ar. soltando um gemido de dor. Lúcio via-se perseguindo involuntariamente seu mestre morro abaixo. Agarrou-se. custasse o que custasse. O peito doendo. no instante seguinte. Só conseguiu enxergar alguma coisa quando Edgar aproximou-se com a tocha flamejante. a corda escapou entre os dedos e o caixão deslizou morro abaixo. Finalmente. escurecendo rapidamente. Estaria tendo alucinações após a morte? Não.e cedeu. Nada que explicasse a aflição. Estava cansado demais para continuar cavalgando e continuar acordado. Se ao menos não estivesse chovendo. Depois sentiu o corpo flutuando. Seu corpo afundava na escuridão. vencido. Era o caixão! Deus! Tinha encontrado o caixão na escuridão! O destino queria que o esquife permanecesse em suas mãos! O caixão flutuava! Não morreria afogado! Lúcio riu alto. Bateu as costas numa pedra. Juntaria o restante dos bentos. 268 . no segundo seguinte. O caule cedeu mais e.

Capítulo 36
Tinham acampado às seis da manhã, quando a chuva voltou a ser uma garoa fina e quase imperceptível. Estavam cansados demais para preparar comida quente. Pães e bolachas foram divididos em pequenas cotas entre os viajantes. Alguns soldados foram para a mata apanhar frutas frescas. Apenas uma distração para o estômago deixá-los em paz para um cochilo. Adriano e Paraná ficaram responsáveis pelo primeiro turno de vigília. Era manhã e os vampiros não tinham conseguido encontrá-los depois do Vitorioso resgate na Teodoro Sampaio. Contudo, mesmo o sol tendo raiado timidamente, deixando uma suave luz passar por entre as grossas nuvens, tomar cuidado com eventuais mulos não seria precaução demais. O grupo motorizado havia chegado por volta das dez horas ao ponto de encontro, precisando também de descanso e uma refeição. Às onze da manhã, as nuvens deram trégua e um sol generoso e revigorante deu vida ao céu, deixando-o azul e esplendoroso. Os pássaros resolveram dar o ar da graça, enchendo de chilreados a mata. Os soldados que já tinham despertado do descanso trataram de tirar as roupas molhadas, cobertores e todo sortimento de coisa ensopada pela chuva insistente e botá-las sob os raios de sol. Lucas caminhou até o meio da floresta. Tinha a sensação de ter visto um reflexo ali. Olhou para trás e chamou bento Francis. O amigo não escutou seu chamado. Berrou por Vicente. Vicente estava mexendo um caldeirão sobre as brasas. Paraná e Sinatra estavam preparando o rango do almoço. Ninguém escutou seu chamado. Olhou mais uma vez para a floresta. Novamente viu o reflexo movendo-se. Entrou na mata e desembainhou sua espada prateada. Tinha alguma coisa ali. Aquela sensação de urgência crescendo. A luz do sol penetrava dentre as copas das árvores. Lucas escutou um barulho nas árvores. Olhou para cima. Viu quatro macacos pequenos, saltitando nos galhos altos. Eles começaram a gritar, parecendo comunicarem* se. O bento voltou com os olhos para frente. Novamente viu o reflexo. Alguém se afastando. Começou a correr. O terreno tornava-se inclinado na frente, obrigando Lucas a subir em troncos caídos e tomar cuidado onde pisava, evitando a lama para não escorregar. Quando chegou ao topo do morro, descobriu que ainda estava envolto pela floresta. Tinha que descer. Saltou sobre um monte de folhas molhadas. No segundo passo desequilibrou-se e rolou morro abaixo. A cabeça estava latejando. Quando abriu os olhos, a luz do sol incidiu direto sobre seu rosto, dificultando a visão. Um brilho maior veio de cima das árvores. Sentiu a luz do dia mudar. Apertou os olhos e levantou-se. Devia ter batido a cabeça com muita força, pois um zumbido tinha tomado seus ouvidos e a floresta parecia estranha. Parecia que o céu e as árvores tinham

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assumido uma coloração monocromática, acinzentada. Viu mais uma vez o reflexo. Ele agora aproximava-se, não se afastava. Lucas apertou os olhos mais uma vez. O que era aquilo? O primeiro ficou nitidamente visível quando estava a cerca de dez metros de distância. Lucas engoliu saliva, com a espada erguida, imóvel. Era um dos bentos. Um dos bentos mortos. Aquele pelo qual arriscara o pescoço numa das ruas transversais da Teodoro Sampaio. Bento Murilo. O peito de metal do bento era o responsável pelos reflexos que o atraíram até ali. Lucas estava tenso. O segundo estava chegando. Outro homem com os trajes de bento. Um que tinha um rombo na cota de malha de ferro, que revelava um ferimento no pescoço. Bento André. Lucas assustou-se e quase caiu quando outro espectro surgiu ao seu lado. A capa vermelha do novo bento agitou-se com o vento cortante que tomou aquela depressão no meio da floresta. Ficou de olhos arregalados, os seis bentos mortos estavam ali, na floresta, acompanhando o bando. Estavam unidos em espírito. Era isso que significava aquela visão. Bento Arthur continuou andando até parar a um passo de bento Lucas. Lucas manteve-se imóvel. A espada abaixada. Respirava com dificuldade. O coração estava disparado. Bento Arthur ergueu a mão em sua direção até tocar sua cabeça. Os dedos espectrais envoltos na luva de couro perpassaram sua pele, afundando em sua cabeça. Lucas sentiu o corpo estremecer e apertou os olhos. Soltou um grito quando caiu novamente. O trigésimo bento manteve os olhos fechados por um segundo. Escutava tiros ao seu redor. Tiros de fuzil. Tiros de pistola. Uma guerra. Abriu os olhos. Escuridão. Era noite. Não estava na mata. Via dois casebres à sua frente. Gritos. Gritos de gente. Aquele cheiro maldito. Cheiro de vampiros. Lucas caminhou entre os casebres. Mais casa simples pela sua frente. Um homem acocorado, com o rosto abaixado, escondido entre os braços. Tremia. Parecia chorar. Lucas caminhou até ele. Agora era sua capa que balançava, jogada pelo vento. O trigésimo bento flexionou o joelho da frente e tocou no ombro do estranho. O homem agachado ergueu os olhos para o bento. Lucas arrepiou-se dos pés a cabeça. Conhecia aqueles olhos. Conhecia aquele rosto. Deu passo para trás, assustado. Era o velho Bispo. O trigésimo levou a mão ao cabelo. Era e não era o velho. Era Bispo, mas com o rosto dezenas de anos mais moço. — Lucas... — disse a voz chorosa do vidente. O bento, refeito da surpresa, reaproximou-se de Bispo. — Eu não quero mais ver, Lucas. — Onde estamos? — Mande Adriano voltar. Tá vendo esse inferno? Eles virão pra cá, Lucas. Esse é o futuro de Nova Luz. O bento ergueu Bispo. — Nova Luz?

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— Sim, Lucas. Esse é o futuro. Eu vi mais coisas. Fogo e inferno, Lucas. Tu terás de ser forte. Eu não vou conseguir... mas tu não pode titubear. Os demônios de bocas maiores virão... eu não posso evitar. — Eu pressenti uma coisa, Bispo. Eu corri da Velha São Paulo em busca de uma pista... eu sei que perdi... não sei se conseguirei. Bispo enxugou as lágrimas do rosto. Envergonhava-se de ser visto daquela forma, vulnerável. — O vampiro está falando coisas pra mim, Lucas. Está corroendo minha fé. Eu tentei te mandar, te mandar para o túmulo do maldito. Ele está num caixão. Está enterrado. Eu não vejo tudo, Lucas. Só vejo o que ele deixa escapar. Ele está vendo as coisas também, Lucas. Você tem que correr. Correr mais do nunca. Tem que juntar os trinta bentos. — Seis morreram. — Eu sei, bichinho. Mas não se incomode com a carne deles, pois como viu lá no mato, eles seguirão seus homens. Lucas reviu num flash a face dos seis bentos espectrais ao seu redor. Espíritos. — O próximo que encontrarão será bento Teodoro. Dois dias de viagem. Vá para o litoral. Nas Minas tua ajuda será clamada e sua espada não deve ser negada.

Mais tiros. Lucas chegou a baixar-se, temendo ser atingido. — O mundo dos sonhos rege o mundo dos vivos, bichinho. Não esqueça. Lucas tentava digerir as palavras quando se sentiu caindo. Estremeceu o corpo, procurando equilíbrio. Um clarão atingiu seus olhos. Não era uma lanterna na noite trágica e barulhenta de Nova Luz. Era o sol a pino descendo do céu e penetrando suas pálpebras. Mais uma vez fora visitado por sonhos sobrenaturais. O som dos gritos e dos disparos de armas de fogo foram substituídos pelo gorjear dos pássaros e a relinchar dos cavalos e a conversa animada dos soldados refeitos pelo sono. Lucas levantou-se. Estava seminu. O corpo fedia a suor e o estômago roncava de fome. Passou a mão pelo rosto áspero, enegrecido por um pouco de barro e pela barba rala que cobria sua porção inferior. Francis aproximou-se sorridente. — Revigorado, Lucas? — Acho que sim. — Quando partimos? — Imediatamente. — Um ou outro ainda almoça. — Apresse-os.

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Francis calou-se um instante. Sentiu a voz do trigésimo alterada. Faltava aquele jeito curioso e surpreso do rapaz acordado há poucos dias. Falava com pressa e autoridade. Parecia querer bancar o chefão de agora em diante. — Tive outro daqueles sonhos estranhos. — O quê? — Adriano. Chame Adriano. Ele e os seus soldados devem partir. — O que diz? O grupo do cara é o melhor. Vamos precisar deles. Vamos para... — O litoral. — É. Elton achou que esse será o melhor caminho para o norte. Apesar da região ainda ser uma das mais belas do Brasil, após a Noite Maldita tornou-se quase desabitada, exceto por pequenas fortificações. Vamos para Angra. Lucas passou os olhos pelo bando. Procurava Adriano com os olhos enquanto Francis continuava. — Em Angra encontraremos bento... — Teodoro. — completou Lucas. Francis calou-se. Não se enganara. Aquele Lucas amedrontado e de habilidades duvidosas tinha desaparecido. O Lucas na sua frente era uma massa em constante transformação, sendo moldado hora a hora por forças mágicas. — Chame Adriano e peça que Vicente e Edgar levantem acampamento imediatamente. Apresse as coisas. Não temos tempo a perder. Vou me lavar e colocar minha tralha. É um minuto. Lucas afastou-se, deixando o bento médico mudo e parado às suas costas. Francis levantou o dedo, fazendo menção de dizer alguma coisa, mas acabou desistindo. Foi Lucas quem se virou e acrescentou: — Quanto aos bentos mortos, Francis, acalme os homens. Tudo será arranjado. Ainda estamos no jogo.

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Capítulo 37
Lucas sentiu alívio quando os primeiros raios de luz chegaram ao céu naquele novo dia. Nada de confrontos com vampiros. Tinham tido sorte. Há pouco tinham deixado o estado de São Paulo e cruzavam agora ao litoral sul do Rio de Janeiro. Segundo bento Francis e Edgar, para continuar seguindo ao norte, a melhor rota seria cruzar a Rio-Santos. Segundo os mais experientes, aquela rodovia registrava um baixo índice de atividade vampírica. Lucas avistou alguns dos cavaleiros parados na subida, junto a uma curva. Havia uma construção pequena ali. Balaústres de cimento formando um mirante. Lá embaixo, envolta pelas brumas da manhã, descansava a antiga Parati. Podia ver a espuma branca formada pelas ondas, avançando para a costa, mas estava longe demais para escutar a arrebentação. Com a partida de Adriano e seus soldados, o grupo parecia incompleto. A voz de Sinatra não acompanhava mais a comitiva, deixando a marcha um tanto mais triste. Lucas lembrou do rosto do homem. O soldado experiente não duvidara um instante de suas palavras, mesmo sabendo que os homens não sonhavam mais, não perdeu tempo perguntando-se se o trigésimo era um charlatão ou coisa parecida. Adriano tinha dado atenção era para o fato de Lucas ter dito que vira vampiros invadindo Nova Luz. Vampiros promovendo terror e desgraça. Lucas tinha dito que vira o futuro e que ainda haveria tempo de socorrer seus companheiros deixados na fortificação antes da tragédia. Adriano apanhara suas coisas e, junto com seus soldados, tomara o rumo de São Vítor, onde reaveriam suas motos velozes. Que Deus permitisse que chegassem antes dos vampiros! Despertando das lembranças recentes, o trigésimo bento tornou ao cavalo, cavalgando lentamente em meio ao grupo. Os homens estavam abatidos física e psicologicamente. Sabia que a morte dos seis bentos tinha minado a confiança da maioria deles. E também o fato de ter insistido para cruzarem o pântano perigoso nas cercanias da Velha São Paulo sem que houvesse razão aparente. Dirigindo-se para esses pensamentos, Lucas voltava a encher o peito com aquele sentimento pujante. Naquela noite, naquela chuva, naquela clareira, alguma coisa poderosa tinha escapado a seus olhos. Alguma coisa importante tinha se escondido. Ele tinha sido enviado até ali por um motivo. Ele tinha seguido seus instintos por uma razão. Mas nada havia no barro. Nada havia na lama. O dia tinha passado rapidamente. Lucas e a comitiva tinham atravessado cerca de duzentos quilômetros de rodovia, fartamente ladeada por Mata Atlântica. Lucas, muito mais adaptado à nova vida, espantava-se menos com a exuberância da natureza, o que achava uma pena. Tinha ficado alguns minutos parados em dois momentos. Primeiro quando cruzaram o que foram cabinas de pedágio. Os cavalos e veículos passaram

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vagarosamente pelas cancelas. Lucas deteve-se quando passou. Mais uma vez um flasb passando por sua cabeça. Uma sensação de déjàvú. Parou ao lado da cabine. Sobre o caixa repousava um esqueleto humano. Os dedos abraçando a máquina de recolher dinheiro. Um amontoado de ossos escondendo-se por baixo de um uniforme de uma empresa privada que cuidava da rodovia. O bento parou novamente enquanto passavam frente a um posto da policia rodoviária federal. Uma pickup, uma viatura da corporação jazia à beira da pista, abandonada no tempo. Os pneus tinham se fundido com o asfalto e grossos ramos de trepadeira subiam pela lataria, invadindo o veículo e atravessando as janelas, que não contavam com vidros. O pára-brisa estava inteiro, coberto por uma camada grossa de poeira. Suspirou fundo e continuou cavalgando. Quantas histórias curiosas não deveriam ter existido com a chegada da Noite Maldita. Bento Edgar aproximou-se, avisando que parariam para um descanso e para alimentar os homens e os animais. Edgar também exibiu preocupação acerca da minguante gasolina disponível. Se no próximo ponto de parada não encontrassem reservas de combustível, previa a necessidade de alguns veículos terem de ser abandonados e a gasolina restante no tanque de cada um ser transportada para os carros que continuariam a viagem. Lucas não objetou quanto ao descanso. Sabia que os homens precisavam parar. Sua vontade pessoal era de continuar. Continuar sem descanso até juntarem os trinta bentos. Não dormiria se fosse necessário. Alguma coisa imprimia urgência em seu coração. Depois de meia hora de cavalgada e bastante conversa com bento Edgar, chegaram ao ponto onde fariam acampamento. Lucas admirava a construção costeira. Um complexo encravado na rocha, chegando ao mar. Atravessaram uma espécie de alameda, tomada por vegetação rasteira que cobria todo o chão pavimentado. — Que lugar é esse? — perguntou o trigésimo, curioso. — Aqui é onde funcionava a Usina Nuclear de Angra dos Reis. — Huum. — resmungou Lucas. Chegaram até um prédio baixo e redondo. Os cavaleiros pararam ao lado dessa construção e desmontaram dos animais. Tinham reabastecido os cantis e dado de beber aos cavalos numa mina d'água quilômetros atrás. — O povoado de bento Teodoro fica há quatro horas daqui, em Angra dos Reis. Chegaremos lá com a noite avançada. — explicou Edgar. — Não é melhor esperarmos amanhecer? — perguntou o jovem soldado Matias, aproximando-se.

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— Não. — respondeu Lucas. — Vamos descansar e continuar viagem. Temos que alcançar Teodoro e seguir viagem. Faltam muitos irmãos para termos a primeira parte da profecia concluída. Vicente aproximou-se de Lucas. O bento truculento e de cara amarrada nada disse, apenas juntou-se ao grupo que conversava. Os soldados acenderam fogo para prepararem a bóia. Uma dúzia procurava um canto para descansar à sombra. Francis juntou seis soldados e aproximou-se de Lucas. — Aguarde aqui com os demais, Lucas. Vou com esses soldados procurar por um depósito de gasolina. A coisa tá feia.

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Capítulo 38
Anaquias despertou do sono vampírico. Durante o transe sua mente havia sido transportada novamente para o mundo do vampiro-rei. O vampiro adormecido. Não via o ser mágico. Apenas ouvia a voz em sua cabeça. A voz que ordenava. O vampiro demandava preparação. Anaquias devia juntar seguidores. Preparar o caminho para sua chegada. A vitória sobre os humanos seria retumbante. O vampiro-rei via o futuro. Reclamava que o futuro era um quebra-cabeça. Que alguma coisa lhe soprava as coisas, dava-lhe peças que compunham uma figura... mas algumas peças não encaixavam e outras não eram fornecidas. O quadro ficava cheio de buracos, mas as visões davam uma boa idéia do que ia acontecer. O que quer que estivesse ajudando o vampiro-rei mostrava coisas, mas não mostrava tudo. Era como um jogo, uma brincadeira. Entretanto o fiel da balança pendia para a escuridão. O vampiro-rei tinha chamado a atenção dos regentes do destino. E Anaquias participava dessa trama. De alguma forma desconhecida, Anaquias fora arremessado para o olho do furacão, onde a calmaria permitia que assistisse de camarote a desgraça. O vento soprou uma peça enorme daquele quebra-cabeça para os olhos de Anaquias. Um pedaço de um mapa. O norte apontado. O vampiro-líder do novo exército caminhou entre os vampiros que despertavam aos poucos. Havia organizado cem deles ao seu redor. Cem vampiros que propagavam a nova notícia. Pregavam a chegada do vampiro-rei. Os olhos de Anaquias acenderam-se. Seus dentes tornaramse mais proeminentes ainda. Estava faminto. Há dias não caçava. Caça fresca. Caminhou até a sacada do salão, que fora o escritório central de uma multinacional. Pisou sobre a folhagem da vegetação irritante que insistia em vencer o concreto e devorar os prédios da Velha São Paulo. O céu estava limpo. Nuvens rarefeitas cruzavam o halo de luz rebatida pela lua. Anaquias olhou para trás. — Vamos ao norte. Vamos acabar com os bentos. O vampiro com o pescoço tatuado aproximou-se. — E o exército, senhor? Anaquias sorriu. — Tudo será arranjado, Daniel. Tudo na sua hora. Todo vampiro que cruzar nosso caminho será recrutado. Raquel, no meio dos vampiros enlouquecidos que pareciam hipnotizados pela presença do novo Anaquias, permaneceu calada. Dissera para Gerson que acompanharia Anaquias e abandonaria aqueles malucos em hora propícia. Tomaria aquele estranho levante a seu favor. A caçada interrompida a Cantarzo seria retomada. Agora queria ver e entender o que o sonso do

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Fosse o que fosse estava ganhando adeptos. 277 .Anaquias pretendia. Aquela lengalenga de vampiro-rei estava dando certo. seguidores fiéis e fanáticos.

. quis voltar pra cá. Queria encontrar logo o próximo bento e juntá-lo ao bando. Não para ficar escondido onde não haja perigo. Um rojão de tiro único estourou na noite. Aqui tem pouco ataque de vampiros. Eram construções antigas. a noite ia alta quando se aproximaram da cidade litorânea de Angra dos Reis. a cidade. — E por que um bento fica aqui e não numa cidade onde tenha mais chances de defender o povo? — Ele quis ficar aqui. — Vicente. Já estavam no meio da comunidade remanescente de Angra dos Reis. Lucas ainda não conhecia aquele lugar. quando seus olhos fecharam-se na Noite Maldita. Um cais. Bento Teodoro. Quando despertou como bento. — Não. parando o cavalo. O valoroso Duque. Ele era daqui. 278 . Contando com os irmãos derrubados na última batalha. Cavalgaram mais cinco minutos até escutarem um espoco seco. Mas ele deveria saber que foi abençoado por um motivo. Olhou ao redor. Uma brasa serpenteante subia cerca de trinta metros. um ou outro cidadão aventurou-se no meio da rua. cumprimentando os soldados que adentravam a cidade.. — Teodoro? — É. no meio da noite.Capítulo 39 Como previsto. Vamos fazer o que com o cara? Dar porrada e obrigar ele ficar onde queremos? Balançou a cabeça negativamente.. teriam já alcançado doze bentos. Lucas também considerou a baixa dos seis bentos precipitados. Contando com este novo e com bento Duque. Lucas estranhou. já teriam agrupado seis bentos. riscando o negro do céu. Disse que era a terra dele. lá em São Vítor. ela não tem muros? O bento grandalhão aquiesceu. Mais luzes acenderam-se à sua direita. de onde vinha o barulho calmo do mar. cumpria a missão sabiamente pensada por bento Francis.. Pôde ver mais de um barco balançando sobre a água. Via soldados balançando as mãos. já distante. colados às docas graças a amarras grossas. que ia a frente. Seriam antigas mesmo para quem tivesse estado ali trinta anos antes. — Angra é assim. quase a metade do número pedido pela profecia para o desenlace dos quatro milagres. Lucas percebeu tochas sendo acesas aos poucos no alto de alguns prédios. Nem estava com espírito para isso. Lucas olhou para Vicente que vinha ao seu lado. Por culpa da noite avançada e da escuridão não pôde contemplar a beleza daquele pedaço de praia do litoral brasileiro. Depois de poucos minutos.

Aos poucos ia vencendo a casca dura do anti-social de São Vítor. além dos barcos. — Quantos barcos! Vicente acompanhou o olhar de Lucas. Começam a se contorcer feito minhoca. Os vampiros não gostam muito de água do mar. mantendo um sorriso sarcástico na boca. 279 . Agora.. Não sai daqui nem a pau. — comentou Vicente. — disse o gigante. — Vejo doze barcos daqui. com um sorriso no canto da boca. Teriam que esperar até o amanhecer para cruzar o mar. os noturnos não encaram não. Mais e mais tochas acendiam-se para clarear a chegada dos inesperados visitantes. — Não gostam? Quem disse que não gostam? — Em São Vítor me disseram que nosso sangue é ácido para eles. — respondeu Vicente. Sem chance. Os cascos dos cavalos batiam no chão de paralelepípedos. Não encaram nosso bando nem a pau. O soldado Elton e o bento Edgar voltaram de uma das casas. Não botam uma gota na boca. — Anda bem que eles não gostam de sangue de bento também. Já era o sangue. — Não. mas gostam sim de abrir nossas jugulares. Um é mais fácil que dois. apontando para o mar. Vicente tagarelando ao seu lado. esses dentuços folgados entram na boa. Bento Teodoro estava na ilha. Do contrário a gente tava frito. ressoando longe.— Diz isso pra ele. Deve ter mais a ver com o sal da água. mas gostam de ver ele esparramado por aí. — O que tem lá? — A uma hora da costa fica Ilha Grande. — discordou Lucas. — É que quando a gente tá em bando eles perdem os culhões. — O cara é o bento mais xarope que eu conheço.. — O grosso do pessoal da vila fica lá. Lucas soergueu as sobrancelhas. sim.. — Ah! Os malditos noturnos não gostam de tomar nosso sangue. Ficam debaixo da água esperando um trouxa passar perto e záz! Já era o pescoço.. Um deles deve ser capaz de chegar à ilha. com correnteza e mar aberto. Olhando para o lado do mar via agora mais de dez barcos presos ao atracadouro. Rio fundo. — Água corrente. se topam com um dos nossos sozinhos. Lucas olhou para os prédios velhos. O pessoal da vila se protege na ilha. — É que no pântano. Não se aventuram além das ondas. Lucas sorriu. cada qual com um jogo de chamas a iluminar o convés e tingir de reflexos laranjas a água do mar. — Mais ou menos. se enchem de coragem. pra você ter uma noção.

Vicente e Edgar iam na cabine do capitão. O motor a diesel do barco batia cadenciado. — Não vou ficar em Angra. bento. Lucas. Lucas não conhecia a rabugice de Teodoro. Era um barco pequeno. — Teodoro não vai querer sair no meio da noite. senhor. um soldado local. agarrado às correias de couro. senhor. um pesqueiro com quinze metros de comprimento. Me arranje um marujo que me leve até a ilha. que pelas feições chegava aos cinqüenta anos. assim que o sol nascer. Não tenho esse tempo. não se assustou. olhando para o mar escuro à frente. Mais uma vez seu peito era assaltado por sentimentos encobertos pelas lembranças perdidas no passado. Bernardo ergueu os ombros. — Ah.— Os marujos não gostam de cruzar o mar de Angra durante a noite. Puxou com maior firmeza. Puxou a rédea para imobilizar a montaria. Os soldados e os bentos entreolharam-se. Não vim aqui a passeio. aproximando-se com um cigarro caseiro entre os dedos. Lucas e Francis iam no convés. — respondeu Lucas. Lucas olhou novamente para o mar negro. Francis e Vicente trocaram um sorriso. Precisam dar descanso aos cavalos e ao próprio esqueleto. O senhor é nosso salvador. esse Teodoro vem comigo. mas não se sentia bem dentro daquele barco. Queriam uma noite dormida num colchão. não estamos numa excursão de veraneio. Lucas olhou para o homem barbudo. O cavalo parou. Lucas recostara-se no mastro e fechara os olhos. Procurava por alguém que não sabia quem pudesse ser. Vão nos levar com o maior prazer. 280 . Mal tinham chegado. Fica com um mal-humor terrível. Precisamos comer estrada ainda hoje. Lucas girou no cavalo. desmontando o cavalo. — Então tá. — Você não gosta de barco? — perguntou Francis. Não sabia o porquê. As tochas flamejantes tremulavam ao sabor do vento. Alguém que gostava do mar e aguardava ser buscado. — Não vou esperar o sol nascer. Estava contrafeito com a negativa e seu nervosismo era transmitido ao animal que ficava arisco e inquieto. senhor. — Como quiser. Ele não gosta de ser incomodado. — Sorridente ou grunhindo. — Ele não gosta de levantar no meio da noite. Sua capa revoou com o movimento brusco do eqüino e sua cota de ferro tilintou ao redor do seu pescoço. Lucas estava louco. Discussão contigo é o que não quero. ele vem comigo. Procurava manter os olhos fechados. pois enquanto mantinha-os abertos a visão procurava por fantasmas na água. O cavalo empinou uma vez. Venham os bentos. — disse Bernardo. Deixem os soldados em terra. Arranjo um barco pra ti e pros outros. sim. Devemos pegar Teodoro e partir antes do amanhecer.

Juntar os bentos vivos. sentando-se recostado à amurada da embarcação. mas não é medo. absorto em seus próprios pensamentos quando Lucas interveio. Caminhou até a tocha acesa na ponta do navio e acendeu o cigarro. — Não sou de fumar. — Se eu conseguisse lembrar das coisas da minha vida passada. Nada como uma boa tragada. Mesmo sem o risco do câncer de pulmão. — Engraçado ouvir isso de um médico. Lucas olhou para o alto. O salvador do novo mundo. continuo um não-fumante convicto. mas por conta daquela aflição diuturna queimando em seu peito e sua mente e também por causa daqueles pesadelos desgraçadamente premonitórios. A embarcação chacoalhou. — Roubei do Bernardo.. O espetáculo de estrelas era de tirar o fôlego. liberar os milagres. Já foi a São Vítor.. Às vezes queria ter tido um dias de folga. Só que tem hora que bate uma puta vontade. Francis sorriu. — Arrebentava. para conhecer o novo mundo melhor antes de tacarem aquela espada em sua cintura e revelarem que era ele o tal.. Tentava decifrar a pergunta do parceiro de jornada. — Você tá com uma cara. Navegar à noite. — Tinha esquecido. As coisas estavam tão bonitas à sua volta. Francis deu uma tragada longa. Lucas sorriu. É que esse balanço do barco não me é estranho. não conseguia apreciar quase nada. Esse Bernardo é gente boa. Parece que fiz muito isso na minha vida. — Isso o quê? — Navegar em barcos. — Quer dar um pega? — Não. Francis fez um cara de estranheza. Corretor de seguros de automóvel não tem muito a ver com mar. agitada por uma marola.. Essa desgrama arrebenta com o pulmão. Não teria descanso enquanto não fizesse o que tinha que fazer. A lua nova derramava um pouco de luz sobre suas cabeças. Acho que é a segunda vez que falo com ele. Não é isso. — Você tem certeza que quer que isso aconteça? Francis soltou a fumaça presa no peito. Francis continuava entretido com o cigarro.— Não. Não teria descanso enquanto não fizesse o que lhe fora proposto. O Ministério da Saúde adverte: as doenças não existem mais. fumem até o talo. — Você está falando dos milagres? 281 . Exibiu o cilindro enrolado a mão para Lucas.

— expôs o trigésimo. — Libertação. por alguma razão. Lucas. Dos milagres.. É isso que vai acontecer. poderemos voltar a viver em paz. para esticar as pernas e olhar Lucas nos olhos. — murmurou o bento médico. — Estava me perguntando o que vai acontecer depois. deixando o ar escapar mais pelo nariz que pela boca. — continuou Lucas. Não está aqui por causa de sua cuca. Medo do passado. muita coisa vai acontecer depois dos milagres. a porta do medo foi aberta no meu coração. Se acabar com os vampiros do mundo. Quando puxava o ar a ponta do cigarro tornava-se mais viva. — Um fantoche. Ficou olhando para a tocha que iluminava a proa. aos pés de Lucas. — Segundo Bispo. se lutarmos firmes. Só não sei se é isso que eu quero.. Francis tragou mais uma vez. nesse novo mundo. empurrado para a boca de um dragão.— É. — Viver em paz é uma bênção.. Não sabia quem eu era. Às vezes. 282 . até os quatro milagres. entre um crepitar e outro. E sei que vou levá-los. — É. Pra colocar os músculos para trabalhar. Ter medo de andar na rua de noite por causa do seu semelhante. das mudanças. Deus do céu! Parecia um pesadelo. Tenho medo do que virá a acontecer. Foi a vez de Lucas manter-se calado por um instante. — Se você está falando disso. tirando o cigarro da boca e olhando-o entre os dedos. Tô falando disso tudo. Quero que isso aconteça. O que temo é voltarmos a viver como antes. colocando-se de pé. Sim. passando as mãos pelos cotovelos. onde faltam algumas peças ou que sobram outras. todos. Vamos acabar com essa raça de sanguessugas. Ainda não sei direito como foi minha vida. Lucas suspirou. Mas eu lembro do sentimento do velho mundo. — falou. Depois de acabarmos com essas criaturas. Do medo do próximo. quero recuar. — Essa conversa esta ficando filosófica demais. Sinto-me como uma marionete. mas esses fios não deixam ir para trás. fingindo encontrar ali fios que subiam e desapareciam no céu negro. — Aqui dentro desse barco. — Onde você quer chegar com essa conversa? — perguntou Francis. peças que não encaixam ou que não quero encaixar. vamos derrotar os vampiros. Lucas. uma fagulha desprendia-se e vinha morrer no convés. Sinto o hálito do bicho na minha cara. Você está aqui pra lutar.. — Quando acordei aqui. E como um quebra-cabeça. Vicente riu em baixo volume. — Acho que a vida vai voltar ao normal. Eventualmente. — E. — E isso que eu estou tentando montar aqui na cuca. se tudo se encaixar. olhando para essa água escura e procurando no mar alguma coisa do meu passado. Medo de tudo ser como era antes. — Sei.

De dia vocês se organizaram de uma forma impressionante. com os malditos mulos. O medo do próximo. cara? Acho que vou pular do barco e me afogar por aqui. Infelizes e assustados. O motor continuou com o "toc-toc" grave. atrás de muros. vai ser aí. — Aí que você se engana. batendo levemente as fileiras de pneus que serviam de amortecedores amarrados em sua amurada. heim. O pesqueiro tocou o concreto do atracadouro. prendendo o barco 283 . vamos relaxar. Tem gente que vela o sono dos que dormem. Uma hora e meia depois de deixar o porto de Angra dos Reis. avisando os habitantes de Ilha Grande que amigos chegavam ao porto. — Mas esses são poucos. encostou a embarcação junto à doca. Éramos tão egoístas! E o terror instaurado pela violência nos moldava assim. batendo suavemente na praia. Um rojão de explosão única espocou no céu. o medo do vizinho. — Só estava pensando. Não existe medo entre os semelhantes. — Francis arremessou a bituca do cigarro ao convés e espremeua com a sola da bota. o medo vai voltar. Quando voltarmos a achar que uns são mais que os outros. Vamos esquecer que estivemos juntos. Todos trabalham para o bem comum. Lucas percebeu o barco alinhando-se à uma fileira de tochas que foram acesas uma na uma. aproximando-se vagarosamente. — Acho que eu preciso de um trago.Da maldade que tomava o coração de todos. — Porra! Você vai longe. — Qual é a grande diferença hoje. cara. arremessou uma corda a um estaca de madeira. juntando-se ao murmúrio das águas. Um cuidando do outro. — Qual é o ponto. Bernardo já estava a postos e. Lucas? — A grande diferença é que em cada vila que chegamos. Nós estaremos livres para começar mais uma vez a corrida do progresso. o pequeno pesqueiro aproximou-se do cais da praia do Abraão. cuidando uns dos outros. Vamos esquecer a igualdade. Só estava pensando. E talvez seja este tipo de pessoa que irá reacender os vícios do passado. que preferem viver entre os vampiros e servirem de escravos do que viver em comunidade. quando começarmos a nos achar diferentes e separarmos os que merecem mais dos que merecem menos. percebo o povo unido. O capitão. meu amigo. Vamos nos voltar para os próprios umbigos. — brincou Francis. assim economizo tempo. procurar ver o que temos ao nosso redor e como tirar o melhor proveito disso em causa própria. quando o pesqueiro juntou-se ao cais. — Também temos os problemas com os que não se ajustam. restabelecer os confortos e tecnologias. exatamente? — Acho que depois que nos vermos livres do mal dos vampiros. Foi a vez de Lucas rir baixinho. que o caldo vai entornar. um senhor com mais de sessenta anos. Só existe medo dos noturnos.

— respondeu o acompanhante barbudo. — Paciente. — completou o morador de Angra. abrindo um sorriso. — Seja bem-vindo. sendo esse o primeiro bento a deixar a embarcação. — Não. Joana guiou os visitantes. Vai cuidar dele pra nós. Os olhos cor de mel foram mostrados pela luz do lampião a querosene que vinha em sua mão. Joana. apontando para Lucas. As primeiras pessoas começavam a chegar. Lucas aproximou-se. — Os marujos não gostam de cruzar o mar a essa hora. Lucas retribuiu o sorriso. — Espero que além de predestinado. você seja sortudo e paciente. queimada de sol. ainda com as sobrancelhas erguidas. — Tá vendo aquele magrelo ali? — perguntou. Lucas buscou os olhos de Francis e Vicente. — Levem-me até bento Teodoro. Ajudou Vicente a firmar-se na tábua. Sobretudo paciente. — Bento Vicente! Que bons ventos os trazem pra esse canto esquecido do Brasil? A entusiasmada cidadã era Joana. deixando o cais. Depois. — O capitão? Não vem? — perguntou Francis. corpo magro e pele morena. Atravessaram o pátio. Lucas sentiu um frio na barriga. — Ele. — Ele? — perguntou a mulher. Qual é sua graça? — perguntou a mulher. educadamente. A mulher pousou os olhos no bento. Os bentos sorriam e trocavam gracejos uns com os outros. por fim. Preciso continuar meu caminho. — Pra que a pressa? — perguntou a mulher. Bernardo riu do comentário da mulher. seguido por Francis e. Alguns dos moradores da ilha chegaram ao cais. Não gosta de deixar o barco. Tinha um metro e setenta. franzindo a testa. — Bonito nome para um salvador. — Lucas.à ilha. Joana. Foi ele que o destino nos deu para a libertação. Bernardo também chegou ao cais. com uma dúzia de ripas horizontais pregadas que fariam as vezes de degraus. — Ele é o trigésimo bento. bento. puxou uma tábua estreita. A luz do lampião juntou-se a outras que iluminavam um pátio de chão batido em frente uma pequena igreja. como a grande maioria dos cidadãos daquele pedaço. Como era bonita! — Viemos atrás de bento Teodoro. Lucas foi o seguinte. riam e conversavam alto. a líder dos soldados de Ilha Grande. A mulher sorriu abertamente. vindo para a luz do lampião. 284 .

delegada? Joana não respondeu e empurrou a porta. a garota cambaleou pra trás. Uma garota aparentando menos de vinte anos surgiu no estreito vão.. impedindo que os curiosos não entrassem e parassem de esfregarse no trigésimo bento. Joana insistiu. Lucas olhou para a garota que se recostara num velho e inutilizável banco de igreja. — Teodoro. portanto a luz da lamparina iluminava boa parte do ambiente. nem balcão. O festejado trigésimo bento tentava agradar aos impressionados e felizes moradores da ilha. — Maconha. Lucas inspirou fundo. Nenhuma resposta. Tinha o corpo magro e seios pequenos. A nave estava cheia de fumaça. — Cadê o Teodoro. O homem resmungou. A porta rangeu e abriu. — Teodoro! — chamou mais alto. O comum burburinho começou e muitos soldados que estavam ali correram pelas vielas atrás da igreja. A igreja não era grande.. encostado contra a parede externa da igreja. Que horas são. Uma grande cruz de madeira com Cristo crucificado estava fixada no alto. aquilo não era incenso. 285 . Joana parou na frente da igreja e bateu na grossa porta de madeira. cobertos por um tecido leve e translúcido. todos souberam quem era Lucas e o que fazia ali. Joana caminhou até o meio do salão. nada. — Acho que ele está dormindo. Alguém deveria estar queimando um incenso. no chão. Retornava sorrisos e apertos de mão. Lucas e Francis entraram atrás da líder dos soldados. querendo cumprimentá-lo. — sussurrou Francis em seu ouvido. Lucas levantou um sorriso de canto de boca. Não sabia dizer que espécie de roupa era aquela. garota? A menina loira coçou a cabeça. Lucas começou a ser rodeado por pessoas sorridentes que lhe estendiam a mão. Se era uma camisola ou algo imitando uma batina.. Surpresa.. Logo.Bernardo deixou o grupo e foi ter com os soldados da vila. Nenhum barulho vindo de dentro. querendo tocá-lo. Vicente começou a empertigar-se ao perceber o guerreiro incomodado e acuado. Tinha um grande colchão jogado no chão onde repousava um homem. Vicente ficou na porta. na parede dos fundos do salão existia meia dúzia de velas de sete dias acesas. batendo com mais violência contra a entrada da igreja. Iam dar a boa nova aos moradores da vila. Joana caminhou até o altar. mas aquele cheiro adocicado. de onde o padre haveria de ter dado suas missas enquanto a igreja funcionou. Não existia mais oratório. Ela esfregou os olhos vermelhos pesados de sono e encarou Joana. — chamou Joana.

com cerca de um metro e noventa. Teodoro. — Pra que a pressa? Esse barato me dá uma fome do cão. — Partir? Partir pra onde? Eu fumo e você é que fica maluco? — Esse aqui do meu lado é bento Lucas. Um barco espera para sermos levados de volta a Angra. Soltou mais uma vez a coluna de fumaça na direção do rosto dos dois. — Que zona é essa na minha casa? — perguntou o bento após exalar a tragada. Era um homem magro. A fumaça atingiu Lucas e Francis em cheio. O cheiro da erva ficou mais forte. — Caralho! — exclamou por fim. Teodoro.Lucas aproximou-se. em vez da espada. Teodoro colocou-se de pé. só não gostava da situação. Lucas abanou a mão livrando o rosto daquela nuvem. Não era um adepto da erva. Teodoro encarou Francis um instante. Era alto. um corpo encaracolado. — Ponha seus trajes. vamos partir. mas gostava daquele cheiro. Abriu a boca e deixou uma grossa cortina de fumaça escapar pela boca. viram o homem desencaracolar-se e colocar-se de joelhos. Tinham que voltar logo. 286 . Para surpresa dos três visitantes que julgavam que Teodoro estivesse adormecido. Partimos antes do amanhecer. — Vivi! — berrou o bento. — Precisamos de você no nosso grupo. O trigésimo bento. levando o baseado mais uma vez a boca. O bento que viera buscar lhe parecia um viciado. Arregalaram-se aos poucos. Era um baseado gigante! — Pára de fumar essa merda. Eles vieram buscar você. Teodoro tinha os cabelos vermelhos enrolados ao estilo rastafari. uma barba cheia e ruiva. Os olhos de Teodoro ficaram estáticos um segundo. Parecia até mesmo que um resto de fumaça pairava no ar. Lucas olhou impaciente para Francis. de repente. com feições de quem já passava dos quarenta anos. parecia mais alto ainda por estar na parte elevada do salão. segurava um bastão pardo. Seus olhos tomados por um vermelho sangüíneo saíram de Joana e fitaram os dois guerreiros por um momento. levou o bastão até a boca. Do indumento dos bentos trajava apenas a calça negra e o saiote verde escuro. em seguida. O peito nu revelava uma série de curtas cicatrizes. três degraus acima de Lucas e Francis. A luz da lamparina revela uma série de pontas de cigarros no chão. Encarou os visitantes mais um segundo e. Fumaça de maconha. O bento segurou a fumaça no peito um instante. Duas garrafas de bebida ao lado da cama e um cheiro azedo vindo do colchão. formando uma nuvem rala. — Que é que vocês estão fazendo aqui? — perguntou. com pontas desiguais. Sobre cobertores surpreendentemente limpos. A ponta tornou-se incandescente enquanto o bento puxava o ar. Na mão esquerda.

Eu tenho todo o tempo do mundo. — Pede pra cancelar meu bife. Tem espaço mais que suficiente. Ergueu a mão para outra tragada. Lucas desembainhou a espada sob os olhares nervosos de Joana e Francis. — Pode. — Posso levar bagagem? — perguntou Teodoro. — Quantas mochilas posso levar? — Uma. mas. Você vai comigo e vai agora. — Não saio daqui nem a pau. — juntou Francis. Vivi. — Pode trazer o resto pra cá. a lâmina da espada de Lucas cruzou o ar e atingiu o cigarro em sua mão. sentando-se esparramado nos degraus da escada para o altar. Teodoro continuou rindo. Manda fazer meu bife. antes que o baseado chegasse à boca. Teodoro tirou os olhos do rebolado de Vivi que saía da igreja e encarou Lucas.A garota loura aproximou-se. Lucas. Desceu os três degraus que os separavam. — Vai até o cozinheiro e peça que me faça um bife a cavalo. 287 . com a voz assustada. são? — perguntou Joana. — Tô me lixando pra hora. — Não temos tempo pra bife. Isso não é uma opção. — Aqui tem espaço pra juntar trinta bentos. bicho. mulher. — Vamos juntar os trinta bentos. — Hum. precisamos que colabore. ajeitando as tranças vermelhas. colocando-se no campo de visão do bento ruivo. Vai. balançando negativamente a cabeça. deitando-se nos degraus. — Você não tem tempo. Eu espero enquanto como meu bife a cavalo e fumo meu bagulho. — Joana? A soldada de Ilha Grande saiu detrás de Francis. Teodoro começou a gargalhar. Tornou a olhar para Lucas. você vem comigo. Teodoro girou lentamente sobre o próprio corpo. Olhou seriamente para Lucas. — disse secamente. Há! Há!. olhando abobada para o bento. Lucas mais uma vez olhou para Francis. — Teodoro inspirou fundo. Sentou-se e olhou serenamente para o trigésimo bento. Há! Há! Há! — riu o bento ruivo. Hum. — bento Teodoro deu outra tragada no baseado. — Sabe que horas. jogando-as para trás dos ombros. O bento viu sobrar um naco do que fora seu baseado. — falou Lucas. Teodoro. — Encarnado ou desencarnado. — Vai sair. — grunhiu o bento. — Tenho vinte e três soldados famintos e cansados esperando em Angra pra continuarmos viagem. Não vou te dar o luxo de fazê-los esperar seu bife a cavalo. A loura ficou imóvel.

Ergueu a tampa presa com dobradiças e. Vambora. cheia até a boca. Prendeu o fecho de lona com uma fivela e jogou a mochila nas costas diante dos estupefatos visitantes. puxou um cordão de lona e espremeu a boca da mochila para que nada caísse para fora. começou a retirar tufos e tufos de erva emaranhada. dirigiu-se até uma porta que levaria ao que teria sido a sacristia da pequena igreja. 288 . a fim de fazer caber ainda mais alguns punhados. mané.Teodoro andou para o altar. No fim. acondicionando-as na mochila de lona. Os bentos acompanharam a atitude com os olhos. Prensou o quanto pôde o conteúdo. Teodoro encarou a todos por um instante e caminhou até um caixote de tábuas pregadas. — Tô pronto. sem exclamar uma palavra. Sem cerimônia alguma abriu a boca da mochila e despejou seu conteúdo empoeirado no chão. do interior. Voltou com uma mochila velha de lona. Repetiu as mãozadas até que a mochila estivesse estufada.

Foi ele quem reparou primeiro a nova parada de Lucas. A Afonso Pena não contavam mais com a noite borbulhante e cheia de agito dos bares e das casas da noite. guerreiro que guardava uma fortificação a dois dias ao norte de Belo Horizonte. As metrópoles eram habitadas por seres sombrios que caçavam Rios de Sangue. Teodoro. O grupo estava cansado. — O quê? 289 . Ao seu lado. nem cheia de graça.Capítulo 40 Elton notou primeiro a coluna de fumaça subindo no meio da floresta. notou o dedo do soldado. abandonada pelos mortais depois da grande mudança. para serem levadas às tocas e estocadas feito gado morto. Da boca da mochila escapou um tufo de erva. Continuavam marchando. nas velhas casas. Lucas já tinha percorrido cerca de cem metros. tinham desviado da capital do estado. Os homens avançavam. Sangue para sempre. você ouviu essa voz? — perguntou o guerreiro. O próximo da lista era bento Dimas. bento Vicente. Lucas olhou para a coluna negra empurrada suavemente pelo vento. Não era a voz de nenhum deles. Lucas voltou a cavalgar lentamente. era a voz de uma garotinha. em busca de mais irmãos bentos. Na segunda vez. Era um ponto distante mata adentro. que buscavam humanos para tomarem-lhe o sangue. Agora era abrigo de malditos. Lucas foi ficando para trás. rumando ao norte. Voltou os olhos para os homens do bando. Era a voz de uma mulher. fazendo com que toda a comitiva parasse na estrada. onde acomodou a erva e passou a enrolar um cigarro. O bento parou. Conduziu seu cavalo até bento Edgar. O sinal de fumaça negra indicava um incêndio. absorto nesses pensamentos quando ouviu um chamado. Os veículos motorizados ganhavam velocidade. Há quatro dias tinham deixado Angra dos Reis. gente adormecida. que buscavam nas velhas cidades. — Vicente. O Cristo Redentor abria os braços sobre outra metrópole túmulo. apontando para o sinal de fumaça. Depois de apanhar o malcriado e metido a besta Teodoro Bob Marley Fuma-Tudo. Lucas ouviu novamente. formando um ângulo de 50 graus da linha do horizonte. Colocou a mão em concha sobre os olhos protegendo a visão do sol. Também não haveriam de aproximarem-se muito da velha Belo Horizonte. Rio de Janeiro não era mais linda. Lucas encarou Vicente. Teodoro abriu a mochila presa do lado direito da cela. Teodoro apanhou um pequeno punhado e voltou a fechar a mochila. emburrado. Com a mão direita tirou de dentro do forro da luva esquerda um pedaço de papel. guardando o trigésimo.

Desmontou. O ruivo Teodoro juntou-se à dupla. Estamos rumando para a próxima cidade. logo a frente. — Vamos até lá. Lucas. Tem alguém em perigo.— Uma voz. confuso. Alertados. Lucas continuou olhando para Teodoro. puxando suavemente a rédea do cavalo e fazendo o animal girar no mesmo lugar. Lucas olhou para Teodoro. deve ter sido uma floresta ou sei lá o quê. tentando enxergar para dentro da floresta que cercava a rodovia. colocando a mão em concha sobre os olhos. — Kongs? — repetiu. — Ouvi alguém chamando. Vem da direção daquele incêndio. — Nessa terra. — Não vou deixar ninguém entrar atrás de você nesse pedaço. Desencana desse negócio de salvar tudo. — Corta essa. Alguém me chamando. Tem uma faixa de três quilômetros de mata até chegarmos a uma campina vasta. ô salvador. bem perto de onde você vê aquela fumaça subindo. — Cê tá maluco achando que vamos entrar nessa mata. — exclamou. Depois volta mata novamente. dando uma tragada no cigarro. sem descanso. Tem alguém em apuros. Olhou para Francis que se aproximava. Lucas sentiu os pelos arrepiarem-se da cabeça aos pés.. — Esquece. Francis estava com os olhos fundos da marcha incessante. que continuou falando alto. qualquer um que tiver pra fora dos muros está em perigo. velho. — Lá. Vicente. É por isso que você tá ouvindo voz na cabeça. Tem uma cidade lá. ouvindo a última frase do trigésimo bento. Vicente. declarando que não tinha ouvido nada. — É. de onde vem a fumaça. os homens pararam mais uma vez para aguardar Lucas. — Ouvi alguém. — Você ouviu agora? Vicente ergueu os ombros. Estão precisando de nossa ajuda. toda hora. sem parar nem pra comer. — murmurou Lucas. Lucas agitou-se sobre o cavalo. Aquele pedaço é tomado pelos kongs. Lucas nada disse. Olhou para a coluna de fumaça negra. ouvindo o pedido de socorro mais uma vez. não lembro o nome. Lá tem alguém em apuros. Aqui é território dos kongs. Estava cansado. Uma menina. sem entender o que ele queria dizer com aquela palavra. — Deus do céu! Ninguém falou pra esse otário o que os kongs são? 290 ..

fez que sim com um rápido movimento de cabeça. Vicente soltou o bento ruivo. sem olhar para Teodoro. — Gorilas? — É. — interferiu Francis. tentou desvencilhar-se do aperto de Vicente. E só chamamos de kongs os bandos assassinos. O jeito assoberbado daquele ruivo esculachado falar com Lucas lhe fervia o sangue. te arranco o saco fora. cabeção. fazendo o baseado cair da boca do agredido. Se eu pegar você bem louco mais uma vez ou pegar você com falta de respeito para com o irmão Lucas. pouco se importando se tinha machucado seriamente ou não o bento fumador. buscando ar para o pulmão. Vicente aproximou-se. uma par de espécies acabou se fudendo mesmo fora do xadrez. porque nem desencarnado eu entro nessa porra de mata cheia de pé de kong. salvador. — De onde surgiu isso? — insistiu Lucas. Vicente também mantinha os olhos sobre Teodoro. — Escuta aqui. Teodoro gemeu. se deram bem nas matas e se espalharam feito praga. não.— Não. Lucas não deu ouvidos a Teodoro. feitos os kongs. Teodoro ergueu os olhos para o céu. esperando alguma decisão do trigésimo. tossindo. Quando o negócio espirocou de vez. Gorilas. — Dos zoológicos. Teodoro deu dois passos para trás. até juntarmos o resto dos bentos. porque ninguém é otário pra entrar no território desses bichos. Mas outros. E dobre a língua pra falar do trigésimo. o maconheiro duma figa. 291 . — Ninguém falou pro otário. uns malucos foram até os zoológicos libertar a bicharada que tava morrendo enjaulada. que foi ao chão. Desembainhou a espada. é o jeito que chamamos os gorilas que vivem nas matas. O bento grandalhão agarrou a garganta do ruivo e apertou-a. Os soldados tinham se amontoado na beira da estrada. Graças a Deus. à marteladas! Entendeu? Teodoro. pálido. Aquele insolente tinha que parar. — Kongs. Vicente desceu atrás dos demais. meu irmão. Mais uma vez ouviu uma voz chorosa. Lucas olhou para a fumaça. mas perdeu as forças com a falta de ar. Viram o bento descer o acostamento para dentro da floresta. quero que você fique com a boca limpa e sem chupar mais dessas merdas. — Quem foi que botou esse maluco no comando? — perguntou aos berros. confuso. — Agora não adianta essa sua tática psicopata.

ressonando debaixo de uma árvore. O tapete verde estendia-se centenas de metros a frente. Lucas estava intrigado. caso avistassem qualquer gorila.Os soldados que haviam assistido à cena. Raios! Desgraça de mundo maldito! Por que tinha que existir aquilo? Por que tinha que ser pego por aquelas coisas? Vozes na cabeça. Não tinha visto. Alicate estava satisfeito. tinha falado alguma coisa sobre sua espada não negar ajuda. a floresta recomeçava. Lucas e seus homens tinham transposto a extensa faixa de árvores. Os soldados que tinham escutado o gracejo riram alto. não conseguiu conter o comentário: — Tá vendo? Minha mãe sempre dizia que fumar essas porcarias faz um mal danado pra saúde. que se sentava. Vozes surgidas em sua cabeça. Diziam que eles reuniam-se em bandos numerosos e defendiam o território atacando os visitantes incautos. procurando aliviar a dor na pele esmagada. Era o último da fila. teriam tempo de abatê-lo ou. Bateu as mãos enluvadas na capa vermelha. que assombravam aquelas matas na porção sudeste de Minas Gerais. Não bastava o medo das criaturas da escuridão. feito um maluco. Olhou para trás. depois. bem mais perto da assombrosa coluna de fumaça. que tinham se agarrado ao tecido. lembrava-se da voz de Bispo num sonho que agora lhe parecia distante. carregando sua espada na mão. Vozes vindas no ar. Alicate. Os soldados tinham deixado as armas a postos. A caminhada ainda seria longa. tirando as folhas secas. subindo inclinada e girando com o vento ia tornando-se mais larga à medida que se aproximavam. mas as histórias que tinham ouvido eram de arrepiar. ficando de pé. voltar para trás e não xeretar no terreno daqueles bichos. o que seria melhor. com rosto jovem. Mulher? Parecera uma criança também. caminhando junto do soldado Elton. Estava desviando aqueles quarenta e nove homens do caminho. Contudo. nem ouvido nada de diferente. Teodoro ruminou uma série de impropérios. não conseguindo conter uma série de risadas e comentários engraçados. lembrando uma fazenda de pasto bem tratado. O terreno era curvo e contava com uma pastagem verde e exuberante. passando ao lado de Teodoro. quando cruzavam aquela região tinham de temer também os kongs soltos na mata. A coluna de fumaça negra. desceu o morro juntando-se à marcha mata adentro. Não ouviu mais nenhum vez a voz da mulher. O Bispo. Resistente. Nunca tinham visto os gorilas. Tinha escutado alguma mulher ou criança 292 . chegando a uma imensa campina. colocando a mão no pescoço. Os soldados e os bentos acompanhando sua marcha atrás de algo desconhecido. apesar de ter certeza que havia sonhado poucos dias atrás. Mordiscou o lábio. traziam seus fuzis prontos para disparar. Carlos e Alicate. De onde estavam. desceram o barranco do acostamento em direção a floresta. Por hora. A vegetação era rasteira.

Kongs. Gabriel ergueu os olhos. Se soubesse daquela estrada de terra teria vindo com o cavalo. Suspirou. empurrada pelo vento leve. Detestava pensar em cobras rasteiras espreitando o próximo passo. Os quarenta e nove homens provocavam barulho com o avanço. empurradas pelo vento. Lucas acabou dando numa estrada de terra. A coluna negra parecia tombar sobre suas cabeças. Alguma coisa grande tinha se incendiado. Aquela estrada deveria servir de ligação do povoado mencionado por Teodoro com a grande rodovia deixada para trás. Levaram vinte minutos para reentrar na floresta. debaixo das árvores. Lucas guiava-se corretamente olhando para cima. chateados com a invasão de seu território. A capa vermelha dos quatro bentos tremulavam. Mas seu peito de prata refletindo a luz do sol era igualmente hipnotizante. O mato passava folgado acima da cabeça de Vicente. na canela. Tinha também uma faca na cintura. Poderiam topar com tudo. Ali. A maioria das picadas ofídicas ocorriam abaixo do joelho. Lucas 293 . Detestava aquele tipo de vegetação. eclipsando uma porção do sol. Tinha vindo como um sopro. Nem ouvia mais a voz. Se alguma peçonhenta pensasse em qualquer gracinha terminaria sem cabeça. com as armas erguidas. O quinto deles. O mormaço fazia o corpo cozinhar dentro daquela armadura. a temperatura estava bem mais fria e o ar mais úmido. formando uma sombra fresca sobre o caminho. funcionando quase como um túnel verde. O trigésimo guerreiro enxugou o suor da testa. Fora precipitado. Olhou pra trás encarando os homens que se enfileiravam no estreito leito do caminho. levava os olhos arregalados dos soldados por entre as árvores.pedindo ajuda. mas talvez preferissem permanecer com o astro dourado queimando o coco do que ficar com a visibilidade tão reduzida. não trazia capa na sua indumentária. Lucas olhou pra trás mais uma vez. olhando atentamente para o caminho. Os soldados caminhavam atentos. lembrando-se dos bentos derrubados na emboscada da Teodoro Sampaio. A visão passava pelas copas das árvores e seguia o trilho cada vez mais grosso de fumaça. Qualquer barulho mais suspeito. fazendo as botas afundarem no pasto. tomada nas beiradas pelo mato alto. O sol não ardia sobre suas cabeças. A largura da coluna de fumaça era surpreendente. da direção da fumaça. A crista da vegetação balançava suavemente. O cheiro de queimado entrava pelas narinas. só não queriam bater os olhos num amontoado de pêlos negros. na batata de perna. O guerreiro ergueu os olhos para o céu. bento Francis. de braços longos e fortes. O soldado Gabriel andava com firmeza. Por isso fazia questão daquelas botas altas. Perseguindo o trilho negro de fumaça. fazendo pássaros agitaremse e piarem e amassando folhas sob os pés a cada passo à frente.

atrapalhando a visão cada vez mais conforme iam adentrando o território. a fumaça cruzava ao nível do chão. A coisa mais feia. mantendo o cano da espingarda apontado para onde olhava. Tinha dito uma coisa ruim. seguindo Lucas. Lucas procurava o foco do incêndio. Não se questionava por que diacho estava ali. Não queriam topar com gorila algum a essa altura do campeonato. Falavam para espantar o nervosismo e falavam baixo para não chamarem a atenção. pedindo socorro. lembrando um imenso campo de futebol de várzea. sendo carregada por cima de suas cabeças. Tinha que avisar bento Vicente. surgiam as primeiras construções abandonadas do que fora uma pequena cidade do interior da Zona da Mata dc Minas Gerais. deixando os olhos pousarem na cidadezinha. Nas ruas do vilarejo. Lucas avançou para o descampado. O Jorge tinha dito que dois soldados sobreviventes a um desses rendevouz tinham dado em sua cidade. Os soldados foram saindo da trilha. Talvez um corpo tivesse sido achado naquela estrada de terra. 294 . Já tinha escutado mais de uma história de soldados apanhados pelas feras. pronto para defendê-lo. Os filetes verdes caíram no chão. era o último da fila.olhou pra frente e prosseguiu com a marcha. abrindo espaço no mato com sua espada. Um braço aqui. O mato abrandava e a estrada acabava num descampado de terra vermelha. pouco tinha sobrado para resgatar. Arrepiou-se da cabeça aos pés. alguém cruzando de uma fortificação para outra tivesse se perdido e tivesse dado ali. Oswaldo estacou. Idéia besta de terem soltado esses bichos do zoológico. um soldado baixo e encorpado. olhando para trás mais uma vez. O falatório dos soldados caminhando para frente era intenso. cheio de cochichos. Virou-se para trás abruptamente. Tinha ouvido Jorge contar a história numa festa de São João. Talvez. Armaram logo uma equipe de resgate. Oswaldo não se lembrava direito. Oswaldo. Perscrutou o mato. dando visão do caminho. Tinham tido piedade dos animais encarcerados e esquecidos nas jaulas. Jorge dissera que os pedaços dos soldados foram encontrados espalhados por mais de três quilômetros. empunhando uma espingarda calibre doze. no meio do mato. Vicente estava bem nas suas costas. Depois desse descampado. encabeçando o grupo. Um largo poeirento. procurando saber de onde vinha tanta fumaça. Estava era impressionado com aquela coluna de fumaça girando lentamente no ar. Os soldados estavam ganhando distância. mas agora os escrotos não pareciam estar a fim de retribuir a gentileza. mas quando chegaram. Tinha tido a impressão de ouvir passos atrás. Uma cabeça ali. É mesmo. mas Jorge tinha dito alguma coisa sobre aquela estrada de terra. O que teria acontecido? Essa região era abandonada. Lucas cortou mais um tufo de mato à sua frente. quando ouviu mais uma vez uma voz feminina gritando. Aquela estrada de terra não era o melhor lugar para estar.

atravessando a praça e enegrecendo o chão. Desde a estrada de terra cercada de mato não via o colega de jornada. A fumaça escura não saía do canavial. Lucas ouviu mais uma vez a voz. formando uma linha nas laterais do trigésimo bento. Mais uma vez.Lucas olhou surpreso para Vicente. era impressionante. Algum material estranho ardia junto com a cana-deaçúcar. Era de lá que vinha o chamado de socorro. As cinzas caíam sobre suas cabeças feito flocos de neve. assim. uma grande praça. Em frente à igreja. Tinha uma torre atrás dos galpões. Lucas andou mais para a frente. Lucas começou a correr para contornar o imenso galpão. — Dessa vez eu ouvi. Deveria haver uma forma de chegar à caixa-d'água evitando as brasas e o fogo. O último a entrar na praça foi Matias. Os soldados agruparam-se. Um prédio grande para um vilarejo daquele tamanho. Estava com a pulga atrás da orelha. Depois da praça. apertando o passo para seguir de perto o guerreiro. Entre o primeiro e o segundo. Os soldados agitaram-se. Subiu de volta até o fim da rua. Avançou em direção aos galpões incinerados. num dos rebuliços da fumaça. Vinha do meio da fumaça. Uma caixa-d'água. deveria estar vindo. Nem tinha visto Lucas começar a afastar-se. o local do incêndio. só havia sobrado o imponente esqueleto de concreto. Chegou à igreja matriz da cidade. esturricada. Matias voltou alguns passos pela rua lateral à igreja. revelando sua veneração pelo Bento. Três galpões imensos. o resto negro e incinerado de um canavial. Cinzas revoavam pelo céu. Se Oswaldo não estava logo atrás. viu alguma coisa. Olhou para trás. Correu na direção do chamado. desproporcionais se comparados ao que seriam os prédios comerciais que um dia funcionaram naquele lugar desabitado. que vinha por último no pelotão. Percorreu os outros com os olhos. levando os soldados consigo. Lucas cruzou duas ruas de terra em direção à base da coluna de fumaça. para a rua por onde vieram. Um cheiro peculiar tomava toda a área. Oswaldo estava faltando. que também tinha os olhos arregalados. Pareciam antigas embalagens. Lucas. A coluna de fumaça. agarrado por aquele pedido de socorro desesperado. tão de perto. Corria apressado. Dos três gigantes. Sob o esqueleto dos galpões. Tirando o barulho dos soldados e dos bentos correndo pela praça e o crepitar distante das brasas 295 . Cheiro de melado. Virou-se para comentar com Oswaldo. plásticos e lixo. Talvez tivesse torcido o pé. Franziu a testa. o rapaz que trabalhava no Time da Memória e trocara um dedo de prosa com Lucas. O trigésimo guerreiro apurou os ouvidos. Caminhou determinado para a beira da cana negra. ouviu a voz feminina. Matias também estava impressionado com a quantidade e com o cheiro da fumaça.

encobrindo a igreja e as casas. Matias virou-se para olhar para os colegas. Não era um homem! Era um gorila! Lucas chegou aos fundos do primeiro galpão. O vento voltou ao curso normal. Tossia. quando ouviu a gritaria. livre do lixo e dos restos queimados de cana-de-açúcar. Quando o vento soprava mais forte ou de cima para baixo. Os bentos Vicente e Francis corriam logo atrás. Aproximou-se da base da torre. O amigo era pequeno e magro. jogando fumaça negra pela praça. desaparecendo no nevoeiro. mas sabia que o chamado tinha vindo de lá. Lucas olhou de novo para a torre da caixa-d'água.e do fogo. A nuvem escura diminuíra sua visibilidade a pouco mais de cinco metros. Não parou para olhar para trás para ver quão perto o bicho estava. A fumaça foi sendo arrastada para o céu. desfazendo a cortina diante de seus olhos. Matias correu de volta à praça da igreja. como fizera há pouco. Caralho! Era um kong dos grandes! O animal começou a emitir guinchos nas suas costas. Bento Francis aproximou-se. fazendo a comitiva entrar em acessos de tosse e falta de ar. ligado ao solo por um cabo de aço.. Mas não era Oswaldo. queria era sumir dali o mais rápido possível. Voltou-se no sentido da estrada de terra. Não via Oswaldo. No topo. incomodado com a fumaça. Lucas? Não tem nada no meio dessa brasa toda. — O que você quer aqui. Via algo.. então disparou a correr em direção à torre. o vulto de um homem. do meio de uma lufada de fumaça. Estava quente. O homem que caminhava em sua direção era gordo. subia a haste longa de um pára-raios. Lucas chegou ao pé da escada de ferro. Começou a subi-la. Não ouvia mais voz alguma. é que a fumaceira encobria a torre e a todos. Lucas embainhou a espada e esperou a fumaça ser arrastada para cima novamente. A cisterna também parecia feita de ferro. Recuou dois passos. Os amigos eram espectros distantes. Chegou ao meio da praça e já podia ver os companheiros quando. Seu coração acelerou. A coisa corria em sua direção. e os olhos começavam a arder. A sola dos pés esmagava as brasas e na metade do caminho sentiu a sola da bota esquentar. A estrutura era feita de cimento e uma escada de metal subia pela lateral. O grosso da fumaça vinha de trás da caixa-d'água. Pôde ver com clareza. não ouvia nada de anormal. outro gorila surgiu no seu 296 . — Vamos sair daqui antes que acabemos sufocados. Alcançou uma passarela de concreto. O vento soprou de cima para baixo. afastada uns vinte metros. Uma coisa mexendo-se. — Você não ouviu a voz? Francis fez que não com a cabeça e curvou-se num acesso dc tosse. gordo e forte.

talvez o suficiente para que os gorilas não trepassem atrás deles. Quando contornaram o primeiro esqueleto de galpão viram a capa vermelha de Lucas tremulando. A cada instante. chegavam mais. Ouviu um urro de dor quando o macaco tombou. Os gorilas não subiram nas brasas e mantiveram-se na rua de terra. vindo do seu lado direito. Do meio da fumaça. — Os gorilas! Os gorilas estão vindo! — gritou Matias. só isso. na intenção de proteger Matias. gingando o corpo e avançando com velocidade. correram na direção pela qual os bentos tinham ido. enquanto Francis e Teodoro ajudavam os que ainda estavam no chão a alcançar a escada de ferro. encontrou outra escada. com Vicente logo atrás. jogada de lado pelo vento. Viram Matias saltando sobre o braço peludo de um gorila. Mirou o ombro da fera. A escada dava num cercado que corria ao redor da caixa-d'água. — Só macacos assassinos. que lambia o chão da praça. — Kongs! — gritou Alicate. juntando-se aos demais. Formaram um semicírculo junto ao trilho de concreto e começaram a bater com os punhos nos peitos. Assim que Matias e os homens restantes alcançaram o trilho de concreto. — São só macacos! Teodoro tirou sua espada da bainha. Estava nervoso. logo atrás. batendo no peito e andando nervosamente na beira da estrada de terra. Na face oposta. querendo tirá-la do caminho. Matias alcançou o pé da escada. Os soldados foram subindo a escada de ferro. — Não atirem! Corram! — gritava Matias. tinha que chegar ao 297 . que subia até o topo do reservatório. de onde saiu o bento. — murmurou. Os soldados e os bentos olharam para trás. Os últimos soldados pararam e olharam para trás. Os soldados. Lucas tinha chegado ao final da primeira escada. aproximando-se do grupo. para a rua de terra. Matias ergueu o fuzil e deu um disparo único. Teodoro viu o número de feras crescer. ouvindo os homens engatilhando as armas..campo de visão. foram surgindo cada vez mais silhuetas escuras.. Os soldados empunharam suas armas. Alguns soldados subiam. viram surgir na rua um bando de macacos. Mordeu a unha do dedo mindinho. A escada era estreita. Já devia passar de trinta gorilas. Os gorilas pararam quando viram os homens. Ouviam os urros das feras vindo rapidamente. surpresos com os disparos. — Não atirem! — gritou mais uma vez Matias. que esperaram o rapaz em apuros. Apesar de ter escutado os disparos lá de baixo. urrando nervosos. Estava na metade da escada.

velho. Abaixa essa espada. — Espera aqui. A escada terminava num tipo de portinhola. colocando-o mais próximo de onde acreditava ter ouvido aqueles chamados de socorro. adotando uma postura intimidadora. iluminado pelo halo de sol. — Se acalma. se não tivesse visto aquilo. hora ou outra. Assim que ela passou e virou-se. confirmou sua suspeita. No halo de luz aparecia um pedaço do cadarço do tênis calçado pela menina. Um pé. Teria fechado a escotilha. antes que chegasse à borda do buraco aberto. Subiu a nova escada. deixando um facho de sol invadir a imensa cisterna. — disse Matias. cara. teria conseguido ouvir? Com certeza. Vicente colocou a cabeça pela abertura e viu Lucas caído na parte inferior do reservatório. Só podia ser uma fêmea. Só assim para eu acalmar. Mesmo que houvesse alguém gritando ali de cima. ouviu o grito de Lucas e depois o som de um estrondoso impacto no fundo da cisterna. Lucas não perdeu um segundo. Olhou para o horizonte. guiado por uma urgência sobre-humana. Eles vão achar que você tá chamando eles pra briga.topo da caixa-d'água o mais rápido possível. vento e barulho de tiros. Teodoro jogou os cachos ruivos para trás da cabeça e manteve a espada erguida. deixando ver dentes e presas pontiagudas. semelhante a uma escotilha. Bento Francis percebeu que um deles possuía peitos proeminentes. mamas redondas. A maioria absoluta era de machos que. não. Parecia vazia. Já deviam somar oitenta. — Eles só querem dizer que mandam no pedaço. Matias e os demais estavam ao pé da torre. — disse Lucas à Vicente. — Tô precisando fumar mais um bagulho. Suas mãos agarravam cada novo degrau. erguiam o dorso. Ali. o vento soprava com mais força. — Não tô nem azul no barato desses kongs. Urravam. produzindo um zumbido em seus ouvidos. — resmungou o bento de cabelos vermelhos. antes de pendurar-se para o lado de dentro da caixa-d'água. só não quero ver esses loquis tirando pedaço do meu couro. Podem mandar no pedaço que quiserem. Estavam tão longe. Vicente não teve tempo de advertir o protegido. Mesmo com fumaça. vendo um filhote agarrado às costas da mãe. 298 . Teodoro. A luz do dia projetou uma círculo de claridade no fundo seco da caixa-d'água. A fumaça veio em sua direção fazendo os olhos arderem novamente. Lucas ergueu a portinhola. Chegou ao teto de zinco da caixa-d'água. tentando enxergar a rodovia onde haviam deixado os veículos. Os gorilas continuavam juntando-se na beira da rua de terra. Um pé de criança quase engolido pela escuridão. deixando de apoiar as mãos no chão e batiam com os punhos fechados no peito largo.

Levantou-se. Os olhos acos-tumando-se com a escuridão pareciam captar duas sombras ao fundo. Mas está escuro! Não estou vendo nada! — berrou de volta. Sua capa raspou no chão de ferro. Lucas girou sobre o corpo. — Ele é um bento? — É. Desembainhou a espada rapidamente. — Eu vi o pé de uma menina aqui embaixo. — Eu sabia... — Eu fugi de Santa Rita com ela. Mas não via tênis nem cadarço. Podia ter sido só um pé de tênis velho. — Sou. não parecia ter mais que dezoito anos. Pensou ter captado um barulho. — Os vampiros acabaram com nossa cidade. sentindo uma fisgada no joelho. colocando a espada na bainha. Eram passos sobre a tinta seca. ou daquela tinta cheia de bolhas. A caixa-d'água seca em todos os pontos. — O que aconteceu com vocês? — perguntou Lucas. Lucas imobilizou-se. toda lascada e descarnada. — disse a mulher. Ficou em silêncio. Percebi esse povoado e achei que ia achar gente. Lucas girou sobre o próprio corpo.— Lucas! — bradou o guerreiro.. É bem verdade que não tinha visto uma garota por inteiro. Vozes.. inseguro.. Lucas abriu os olhos e ergueu as mãos para proteger dos raios que vinham direto em seu rosto. trazendo a garotinha pela mão. Só encontramos cana. — balbuciou Lucas. Lucas notou que a mais velha também era uma garota. — Você é um bento? Lucas forçou a visão. debaixo do halo de luz. Uma mulher alta e uma garotinha caminhavam em sua direção. Procurou pela garota que tinha visto. aos berros.. A garotinha e a mulher entraram no facho de luz. — Céus. — Viemos dar aqui. 299 . como de pés pisando sobre folhas secas. O trigésimo olhou ao redor. A voz de uma menina. Achar comida pra Eloísa. — Você está maluco? O que está procurando aí? — perguntou Vicente. Lucas virou-se. Escutou um crepitar. tia.. tia. Ouviu aquele crepitar de folhas ressequidas. — Estou bem! — gritou de volta.. recoberto por algum tipo de tinta especial. Estava escuro. — afirmou.

lançando um olhar para a corrente amontoada. — Não vai dar pra ficar olhando pra eles sem fazer nada. No desespero eu ateei fogo nas canas. Bento Lucas é como me chamam. Lucas passou a mão na cabeça da moça mais uma vez. não é maldade. Queriam nos matar. Lucas passou a mão na cabeça da menininha. acender o fogo de novo e fazer o maior churrasco de bento da terra! — Eu tenho uma idéia. Mas não acho certo dispararmos contra esses gorilas indefesos. continuou abraçada a Lucas. apontando para um amontoado de metais. — Daí eu trouxe ela cá pra cima. Se passarmos fogo vai ser um massacre. — Eles estão é esperando as brasas esfriarem para poderem nos apanhar. Tem uma porção de amigos meus lá fora. — São gorilas. homem! Olha pros dentes deles! De que lado você está? — perguntou Teodoro. 300 . — Calma. Só quando a fumaça tomou tudo eles começaram a ir embora. A garota abriu um sorriso.. Sei que é um bando de macaco selvagem. mas vão acabar com nossa raça.. — Sempre trago para as emergências. — revelou o azar a garota. começando a chorar. usando aquela corrente. Vamos dar um jeito de sair daqui. para afastá-los. — O quê? O soldado tirou um amontoado de tubos de papelão atados por um elástico de sua mochila. Mas eles vieram atrás. A garotinha abraçou a protetora que.. — Tô do nosso lado. Achei que íamos morrer de fome aqui dentro. — Só estão defendendo o território deles. — Como é seu nome? — Lucas. Estão agindo por instinto. bento. como se chama? — Maria Alice. Eu tive a péssima idéia de entrar aqui.— Mas aí aqueles macacos apareceram. mas só juntava mais macacos. — disse Carlos. calma. Lucas acenou para o amigo. Matias. — disse. por sua vez. mas ela arrebentou quando eu estava descendo. — . enfiando o rosto no peito metálico de Lucas. senhor. tio. — E você. — Tá tudo bem aí? — perguntou a voz poderosa de Vicente. — reclamou Edgar. — Massacre? Jesus Cristo. indignado..

Vampiros! Olhou para trás. Tentariam dispersar os gorilas. dolorido. No entanto. — disse Vicente. quando viram os gorilas na beira da estrada de terra. mas tinha dado um mau jeito na junta da perna. Voltou-se para a boca da escotilha. indo em direção onde as árvores invadiam a cidade. Os três primeiros rojões disparados serviram para espalhar os gorilas. — disse o soldado. Pediu para que ambas aguardassem no teto do reservatório. — pediu Teodoro. abrindo caminho. Ouviu o primeiro rojão de três tiros. Não podia ser. olharam para Matias.— Pode crer. Desceram as escadas trazendo com cuidado a garota mais velha e a criança. Vicente trouxe a pequena Eloísa com facilidade. — Lá embaixo a saída está cercada pelos gorilas que o Teodoro falou. o recente fundador da infame ONG "Salvem os Gorilas Loucos da Zona da Mata". 301 . quando começou a descer a corrente. — Com licença. Só tenta não acertar em nenhum deles. entraram numa crise de choro e gritos. Os soldados. rindo. apenas afastando-se alguns metros e aumentando a quantidade de gritos e batuques no peito. Depois da oitava tentativa. A queda não tinha sido tão grande assim. Carlos distribuiu os rojões entre os companheiros. Lucas sentia o joelho queimando. — Precisamos passar. trazendo Maria Alice nos braços. A gente nunca sabe quando vai se deparar com uma turba enfurecida de gorilas soltos de zoológicos. Vicente conseguiu apanhar a ponta da corrente arremessada por Lucas. — Agora pergunta ai pro dono do Greenpeace se poderemos afugentar essa turba enfurecida com os rojões. Matias viu duas fêmeas correrem com as crias encarapitadas nas costas. A portinhola estava a seis metros de altura e a distância tinha dado trabalho ao bento no fundo do reservatório. — Manda ver. as feras não foram embora. Carlos riu da graça de Teodoro. Estavam fracas e assustadas e. Também serviram para dar explicação a respeito dos disparos feitos há pouco e dos rojões que espocavam ao pé da torre. chegaram dois soldados que ajudaram içar Lucas do fundo da caixa-d'água. O sol ia alto no céu. Tentariam. Carlos sabia que nenhum deles colocariam a vida dos bentos e os próprios pescoços em risco por causa do coração mole de Matias. Providencialmente. Depois veio Maria Alice. enquanto soltava os rojões. Lucas surgiu na abertura e foi puxado pelo braço pelo segundo soldado.

quando voltou alguns metros do caminho em busca do amigo. Só assim manteriam-se inteiros e viveriam para contar aquela passagem surreal dentro dos muros das fortificações. Os símios aumentaram os urros e começaram a pular. para garantir que teria espaço para começar a correr na rua de terra. justamente. Os soldados. Os soldados começaram a avançar. Depois desses. retomaram os cavalos e acomodaram as resgatadas em um dos veículos. caso o plano de distração desse errado. caso a estiagem durasse. formando uma coluna. Eloísa devorava a refeição improvisada como se não comesse há dias. Tragou profundamente o cigarro pendurado nos lábios e levou o pavio marrom do rojão até a brasa viva. caso os gorilas se animassem a persegui-los pelo longo caminho de volta à rodovia. girando ao sabor do vento. 302 . atentos. o que aumentava sua aparência abatida. A impressionante coluna de fumaça negra continuava subindo ao céu. O mato alto beirando a estrada gerava insegurança. Carlos já tinha acendido o seu. Mais um segundo para o disparo. Chispas começaram a cair do pavio incandescente. Apesar dos chamados e da espera. afastando-se do rojão. Entraram na estrada de terra. Matias tinha sido o último a vê-lo com vida e relatara ao grupo que deparara com o primeiro gorila. Teodoro apontou o tubo de papelão para o maior gorila do grupo. Três cartuchos recheados de pólvora voaram para cima do gorila maior. com os bentos vindo em seu encalço.O bento de barbas e cabelos vermelhos andou até a ponta da passarela de concreto. aproximando-se perigosamente da rua de terra. Tinham sobrado meia dúzia de rojões. provavelmente. Era muito branca e parecia extremamente magra. Quando finalmente alcançaram a estrada. olhavam ao redor. O macaco fugia assustado quando os projéteis explodiram nas usas costas. tornaria-se um incêndio de proporções dantescas assim que atingisse a floresta. Maria Alice tinha a pele do rosto arranhada e um rasgo na calça jeans na altura do joelho. Oswaldo jamais apareceu. teriam que apelar paras as balas. em pouco tempo era possível que aquela queimada no canavial se prolongasse por dias e. Correram rua acima. Serviram as garotas com mais água e pães e um resto de assado. Oswaldo era mais um nome que entrava para a lista de baixas durante a jornada. em direção à praça central e à igreja abandonada. Alicate tinha orientado para que abrissem fogo. Se não chovesse.

Mas já o conhecia. Disse que teriam de confiar em seu faro para descobrir uma boa pousada. em direção a Natal. Na esquina da entrada. Bento Augusto destacava-se pela bravura e desprendimento. bento defensor da região de Belém do Pará. seria um soldado destacado e que suas histórias e casos rodariam de povoado em povoado. contador de causos e. O quinteto tinha galopado desde a manhã. não se refestelava na condição de bento. trepadeiras de ramos grossos e nostalgia. bem colada à rodovia. mesmo que não tivesse acordado bento. fazendo da fortificação de Nova Natal uma das mais bem guardadas do Brasil Novo. recheando a imaginação da soldadesca e das crianças. Justamente este último bento era o que nunca tinha botado os olhos antes. Esse lugar de descanso foi avistado por Amintas uma hora e meia mais tarde. tomada por mato alto. Bento Ulisses e Bento Célio cavalgavam à sua direita. mas sem nunca maldizer sua sina. portanto estava longe demais de Belém para ser um guia cem por cento confiável. Era dado a boa conversa. Com a aproximação do sol do horizonte. uma fachada amarela com letras em azul-marinho identificavam o 303 . caídos nos ombros. Ulisses era mulato. Do lado esquerdo. Ao que parecia. só botando seus músculos para trabalhar quando os malditos noturnos batiam à porta. Do outro lado da rua. Achavam até que. fora devorado pelo tempo e pela mata. mas por conta do desenrolar dos fatos após a Noite Maldita. haviam encontrado um pequeno centro comercial abandonado na beira da estrada. Ulisses era homem inteligente e relacionava-se bem com todos à sua volta. Era temido pelos vampiros. sem descanso. Pediu a Amintas. como tantos outros. veio animar as horas de descanso com seus causos pitorescos e lembranças pré-Noite Maldita. Duque sabia que Augusto já passara por maus bocados. passara a viver nas cercanias de Palmas. com olhos cor de mel adornando a face longa e bem feita. com cabelos grisalhos. Reunia uma dúzia de prédios comerciais. O lugar. longos. Nada mais era do que uma rua com cerca de quatrocentos metros. Agradava qualquer mulher com aqueles olhos serenos e sua fala macia. Dirigiam-se para Nova Natal. Tocantins. Era um guerreiro genuíno. Prestativo dentro da fortificação. Amintas era um senhor aparentando cerca de sessenta anos. onde encontrar-se-iam com o último bento de sua lista de cinco nomes. Duque era guarnecido pelos bentos Amintas e Justo. Amintas argumentou que já tinham entrado no Rio Grande de Norte.Capítulo 41 Bento Duque vinha ladeado por mais quatro bentos. quando se juntou ao grupo galopante de Duque. os restos de um posto de combustível com um restaurante amplo anexo. Duque via-se forçado a interromper o progresso daquele dia e buscar abrigo para a noite. Queriam alcançar a fortificação no alvorecer do dia seguinte. formando um ângulo de noventa graus em relação ao asfalto. Era carioca. que dentre o grupo era de se supor conhecer melhor a região. A rua começava imediatamente colada à velha rodovia.

Voltara correndo para casa no seu chevette marrom. O fim da rua encontrava-se belamente adornado por abricós de macaco em flor. todos com cerca de dez metros de altura e carregados do fruto de odor forte e característico. Trabalhava de madrugada naquela época. seguindo de cabeça baixa e calado por um momento. com sua voz estridente. examinando os estabelecimentos seguintes para depois decidir qual seria tratado para o repouso nas horas escuras. sua adorada segunda esposa. Quando largou seu posto de leão de chácara. Duque contou cerca de vinte pés dc jenipapo. olhando para o outro lado da rua. antes da mata fechada começar. Até aqui. Tinha vibrado e festejado. vendo uma agência bancária adornada pelas letras vermelhas garrafais e o logotipo estilizado lembrando uma árvore. — Huum. O sorriso do bento mais velho fechou-se no instante em que lembrou que no último dia da vida convencional tinha estado numa agência daquelas. tamanha a euforia e alegria exalada com a notícia. Amintas pegou-se sorrindo novamente. Bateu com a rédea suavemente no pescoço do cavalo e seguiu adiante. onde homens caçavam mulheres de corpo bem feito e mulheres davam bola para caras com bastante dinheiro no bolso. passando das cinco da manhã. apanharia um bom punhado para a feitura de licor quando retornasse a Esperança. tem em toda esquina. cavalgando lentamente. uma disputada boate de Belém.que fora uma agência de correios. trajando seu característico short azul. Se tivesse tempo e disposição. tomar um banho e seguir com Graça até o banco para assinar toda a papelada. Tão entusiasmado com história do financiamento aprovado. A felicidade que inundava sua cabeça era tamanha que não deixava os olhos estranharem a fila imensa na frente do pronto-socorro municipal ou perder mais de dois segundos de atenção com o caminhão de bombeiros passando 304 . Naquela noite. não tivera um segundo de sossego na porta da Coração. — balbuciou bento Duque. descendo um tapete branco de pequeníssimas pétalas brancas caídas das árvores. Amintas também sorriu enquanto passava em frente ao banco. camiseta amarela e chapéu de couro típico dos vaqueiros nordestinos. Os cinco cavalos adentraram a rua. contagiado por emoções sentidas trinta anos atrás. — Casas Bahia é igual a Bradesco. Tocou a barriga do cavalo com os calcanhares enquanto apagava o sorriso pela segunda vez. Ao fundo. foi direto para o apartamento alugado onde vivia com Graça. parando o cavalo e apontando aos amigos um estabelecimento. Os bentos sorriram vendo o garoto-propaganda-logotipo da rede de lojas. Nunca tivera tempo de comprar sua casa de fato. fazendo os cascos baterem no pavimento de paralelepípedo que compusera aquela rua singular no meio do nada do Rio Grande do Norte. atrás dos abricós. só pensava em chegar no apartamento. — comentou bento Justo. Chamou a atenção de todo mundo dentro do estabelecimento. com direito a um beijo estalado no rosto da gerente da agência quando soube que seu financiamento para a casa própria tinha sido aprovado pelo banco. Duque sorriu. e com sua mãe.

pálida feito papel.à toda e tirando uma fina do chevettinho. vendo pelo retrovisor gigantescas colunas de fumaça escura cobrindo o céu de Belém feito as asas negras do anjo da morte. Lembrava-se de terem pegado a estrada. Era a esposa de um dos rapazes. Estava feliz demais para tudo isso. Estava feliz demais para notar os problemas dos outros. Mesmo a ele era difícil crer que o velho mundo tinha acabado da noite para o dia. Como muitas pessoas aquela moça tinha contraído a chamada doença. Ele conversava na porta de um bar com um grupo de oito ou nove homens. nem imaginavam que tais criaturas pudessem existir. Vampiros eram coisa do cinema e da ficção. Durante a noite. isso te assusta. O que restara do Corpo de Bombeiros não fora o suficiente para controlar o colapso. fazer amor com a esposa. naquela manhã não havia ninguém na imobiliária. Sua esposa estava longe de aceitar aquela nova realidade. Mal sabiam eles naquele instante que o inferno e o pior pesadelo de suas vidas estavam apenas começando. Queria chegar no apartamento. atrás de gente para beber o sangue. talvez por causa do sono avassalador que crescia em seu corpo. No entanto. Tiveram que abandonar Belém. não perambulavam pelas ruas. dentro de seu velho chevette. Na noite seguinte. Não via que os carros levavam gente parecendo morta aos hospitais. num posto à beira da estrada. As mulheres dormiam no chevette. sem que tivesse pregado os olhos.. correr para o banco e depois correr para a imobiliária. Alfredo. não havia ninguém na agência bancária nem nas Casas Bahia. Todos viram o que suas palavras 305 . havia mantido a sanidade e a capacidade de ajudá-lo. Naquela noite. quando essa raça de branco que se julga superior a todo ser que rasteja sobre a terra não sabe o que te dizer. não lembrava o nome dele agora. A mulher veio cambaleado. era alguma coisa com "a". Não entrava na cabeça que o mundo tinha mudado. Naquela manhã de terror metade da população do mundo estava sendo arrastada sob o caos para pronto-socorros e hospitais tomados por filas imensas e corredores abarrotados de corpos adormecidos. Nem os médicos sabiam o que fazer e. Amintas não acreditava no que via. A velha falava na casa perdida sem parar. ao menos.. não lembrava. bem parecido com aquele abandonado. Amintas. Os olhos pareciam cheios de areia e começava a não achar má idéia voltar para o carro e juntar-se ao cochilo das mulheres. Amintas era o mais calado.. ordenando que ela voltasse ao carro. O marido soltava algumas palavras lamentando o estado da esposa e maldizendo a terrível situação em que todos se encontravam.. parecendo cansada demais para prosseguir ou voltar ao carro. sua esposa e a mãe tiveram o primeiro encontro com um dos vampiros. Agenor. choro e incompreensão. incêndios tinham começado e consumiam prédios residenciais e comerciais inteiros. mas. O tal do "a" alguma coisa berrou com a mulher. A mulher escorou-se numa coluna. Não percebia a aflição estampada no rosto da maioria das pessoas que estacionavam o carro ao seu lado no sinal vermelho. Prestava atenção na idéia de um dos retirantes quando de dentro do carro de um deles desceu uma mulher. Amintas lembrava-se de como sua velha mãe ficara apavorada com tudo aquilo. Um segundo homem apontou para o seu veículo debaixo de um ponto de luz.

Parecia um pouco melhor. Tinham ouvido histórias horrendas de gente que enlouquecera durante a noite e partira com faca para cima de parentes. Criam que a programação fora suspendida por falta de funcionários. surpresos com a situação. O rapaz. Puxou a peça para cima. para apanhar a blusinha do chão. que a desgraça estava instalada por todo canto que iam. foi quando os homens discutiam acaloradamente qual seria a melhor rota para o sul. agarrando-a pelo braço e abaixando ao mesmo tempo. Na sua memória. companheiro inseparável desses profissionais do asfalto dava sinal de vida. Só foram escapar da imobilidade quando viram sangue escapando do ombro mordido do rapaz. Assim que o homem abaixou-se. O mundo todo tinha pirado. Tudo parecia ter parado. pois olhava para ele. sobre que destino tomar. deixando-os cegos e mudos. pensando que fosse uma briga na lama de casais. No primeiro instante os demais permaneceram imóveis. cidade após cidade. achavam que apenas o Pará estava daquele jeito. ao menos. Amintas abriu a boca e olhou para o lado. viajar em grupo seria mais seguro. A emissoras AM e FM também estavam fora do ar. junto com aqueles homens. Bem. as emissoras de TV estavam fora do ar. A morena-pálida andou uns quatro passos. pois haviam concordado em formar um comboio para seguir ao sul. Ia começar a falar. àquela estranha doença. quando os homens atropelaram a conversa. marido da perturbada.explicavam. tinha esperança de fugir de tudo aquilo.. de curvas cheias e bem feitas. que somente ele bateu os olhos na mulher. Os homens tinham virado nesse instante e ficaram calados. mas nem o rádio PX. voltando ao que discutiam antes. parecendo um bicho e pulou em cima do marido. a mulher tinha um ar sensual. Ali no posto de combustível. pois era certo que.. A moça tinha dentes 306 . pois não sabiam que o mundo todo tinha pirado. Telefone celular não funcionava e as companhias telefônicas tinham entrado em sobrecarga. esquecida escorada na coluna. Amintas sabia que eles não tinham visto os olhos vermelhos e satânicos daquela mulher. uma parcela deles teria também sucumbido àquele estranho sono. A de Amintas seria a infelicidade de aquilo tudo acontecer bem no dia em que iria pôr as mãos na chave de sua tão sonhada casa própria. abandonando de vez o aluguel. passando-a pela cabeça e ficando nua da cintura para cima. Lembrou-se da tristeza no coração ao constatarem. Amintas lembrou-se que tinham esperança de fugir daquela loucura simplesmente indo para outro estado. Tinham assistido a muitos saques e tiroteios nas ruas de Belém. sua esposa adormecida presa pelo cinto de segurança no bando da frente do veículo e uma criança de dois anos inconsciente ajustada no cadeirão no banco de trás. Foi quando Amintas viu aquelas sinistras brasas vermelhas queimando os olhos de um vampiro pela primeira vez. Desde a noite passada. correu até a esposa. a mulher soltou um rosnado. Cada um deles trazia uma história para contar. Já tinha encostado o chevette atrás de caminhoneiros pedindo informações de lugares distantes. Dada as circunstâncias. Apesar da pele morena estar sendo consumida pela palidez assombrosa. de pé. firme e livre da coluna. então parou de novo e levou as mãos à ponta da blusinha vermelha que trajava.

não quero ter nenhuma surpresa depois que o sol se for. o rapaz havia separado-se do grupo. — Está escurecendo rápido. lembrando que depois de fechar os olhos só tornou a abri-los dez anos mais tarde. Suspirou fundo. Não pôde determinar que tipo de negócio aquilo tinha sido no passado. vencido pelo sono e cansaço. dizendo que ia esperar a mulher que xingava e debatia-se no banco da pickup acalmar-se para desamarrá-la e procurar um hospital que não estivesse entupido para socorrê-la. Aquela doença era maldita e não existia cura na face da Terra. Amintas tentava imaginar qual fora a sorte daquele pobre coitado. enquanto o trio. Amintas estacionou o carro num galpão afastado e parou para dormir. Justo e Célio desapareciam na estrada. Duque apeou do cavalo e andou até a porta de um estabelecimento sem placa alguma. A cada hora passada. — Vou levar os bichos para beberem água. Justo agarrou a rédea do cavalo do bento negro. O bento mais velho do grupo bateu com os calcanhares na barriga do animal. Vamos dar uma olhada na redondeza rapidinho. Com a chegada da noite. 307 . — A gente vê se tá tudo limpeza por aqui. olhando para os prédios vazios tentando justificar qual seria o melhor para o abrigo. permaneceu parado no meio da rua de terra. recusando-se a deixá-los à própria sorte. — Será que é seguro? — perguntou em voz alta bento Célio. Amintas relembrou que também tinha passado aquela noite em claro. Devem estar morrendo de sede. Outros casos falavam de gente ficando alérgica ao sol. Ulisses apeou ao terminar a frase e juntou-se a Duque. correndo para todos os cantos com os corpos inanimados dos entes queridos. — Eu ajudo. dando uma segunda olhada pelo local. levando os animais. Foi preciso amarrá-la para que fosse recolocada dentro do carro. Os demais tinham avançado até o final da rua comercial. — Aqui parece tudo abandonado. Voltavam vagarosos. Gente que pulava no pescoço das outras querendo sangue. Mesmo com cinco caras dos fortes agarrando seus braços ela debatia-se feito louca. a população descontrolava-se mais. nem vampiro. livrá-la daquela doença. — juntou bento Célio. Amintas. Envergonhado. com o sangue drenado do corpo antes que tivesse conseguido curar a esposa.ferinos. O cavalo avançou e Amintas retornou ao presente. O amanhecer do segundo dia chegou com eles na estrada e aquele dia foi ainda pior. Acho que agüenta por uma noitada. Provavelmente teria morrido. Nem gente. Foi naquele dia que ouviram as primeiras histórias de gente que desenvolvera um tipo de loucura. gente que sentia a pele queimar e os olhos pegarem fogo ao saírem sob sua luz. Ulisses e Duque.

com um banho de estrelas brilhantes brindando o manto negro do firmamento. junto às chamas e rodeou a fogueira com um punhado de pedras. Duque. Usou tábuas encontradas nos restos de uma obra inacabada para estreitar a passagem e impedir que escapassem durante noite. — Espera um pouco pra queimar essa carne. Fez a fogueira em frente ao salão e preparou uma lamparina para o interior do imóvel. olhando por um tempo que pareceu enorme. — Volta nada. Alex ergueu as narinas procurando farejar. Duque sorriu. Amintas supunha tal coisa pelo fato de ainda existir uma faixa plástica presa na marquise. acompanhada de dois filhotes. Amintas e Duque tinham escolhido um salão que estivera vazio desde a Noite Maldita. viram surgir do meio dos imóveis uma grande e bela loba-guará. Quando essa carne queimar um pouquinho. Se o cheirinho do assado subir e o vento soprar pra cima. por baixo de trepadeiras. não demora nada pra aquela guará voltar. rompendo o silêncio. A loba. deixava o trilho delator ainda mais nítido. A noite sem nuvens. Os animais ficaram parados. Ficaram mudos. — Deve ter ido beber água no ribeirão e agora está voltando pra mata. Foi a vez de Ulisses dar risada. Ao menos estava certo que. desaparecendo entre os prédios do outro lado da rua. O calor que avançava noite adentro permitiu que Duque acendesse uma fogueira pequena. trazendo um anúncio de "Aluga-se". — É. alta e esguia. Dimas pediu silêncio do lado de fora.. Cravou uma forquilha no chão.A noite já vinha entrando quando Justo e Célio voltaram com os cavalos. O salão era amplo e serviria perfeitamente como uma cocheira.. Logo depôs duas broas de milho cobertas com fubá. Célio tinha improvisado um vassourão com ramos e galhos secos e deu um trato no canto onde repousariam. O vampiro viu o trilho de fumaça subindo ao céu. Nada de sangue. — Que coisa linda! — disse Justo. do jeito que minha barriga tá roncando. apenas para o preparo do alimento. maneiro. para os três bentos que estavam do lado de fora do salão. Depois partiu. Depois de um instante. Tinha escutado barulho entre o Bradesco e a loja das Casas Bahia. — balbuciou Ulisses. seguida por seu par de filhotes. A luminosidade minguava rapidamente já tendo escurecido quando Justo levou o último cavalo para dentro do salão da agência de Correios. Tirou uma toalha surrada e estendeu ao lado da fogueira. Duque agachou-se junto ao fogo. 308 . não vai dar tempo nem de sobrar cheiro pro vento levar. baixou a cabeça e farejou o chão. Abriu o bornal que trazia na viagem e tirou dele um pedaço de carne salgada.

Os vampiros ouviram atentamente o líder do bando. — Somos cinqüenta contra um. O maldito bento tinha entrado na arapuca. Muitos viajantes em busca de abrigo para a travessia pensavam na boa idéia de pernoitar naqueles galpões.. Vampiros! Levou a mão à cintura. — Depois de voltarmos com esse troféu pra toca. Tinha deixado a droga da espada dentro do salão! Levantou-se e virou. Amintas engalfinhou-se com a criatura.. Estava tão quente antes de deitar-se. tomado pelo sono. poderia ter sido uma lufada de vento. — Não coloque uma gota do sangue desse maldito na sua boca. saltando de árvore para árvore. A capa vermelha não deixava margem para dúvida. Gesticulou para que os demais se aproximassem em silêncio.ao redor daquela fogueira. Tarde demais. sairemos de novo em busca de sangue. Logo algumas das criaturas também saltaram para os galhos das árvores e alcançaram o líder do bando. sendo levado de costas ao chão e dando duas 309 . sem provocar barulho. aquele fedor horrível. Vamos atacar de uma vez só. Era como chamavam aquela rua. Apanhou sua malha branca e colocou-a. Vai te comer por dentro. Alex apontou para o trilho de fumaça. Quando terminou de ficar de pé e de frente para o salão. Duque virou-se de lado. acho que a deixou dentro de um dos salões. Despertou do sono. Conhecia aquele cheiro forte. em frente à pequena fogueira. sentiu o golpe pesado do corpo de uma das criaturas. perigosamente velozes. Seus olhos estavam ariscos e acompanhando o caminhar do homem no meio da rua. Tolos desavisados que se arriscavam em seu terreno de caça. Vamos precisar. Seu bando contava com cinqüenta vampiros. Fez mais sinais para os vampiros que vinham atrás. Vai acabar com você. O bando vinha voando pelos telhados dos dois lados da rua. sentindo frio nos braços. Trocou olhares com os mais próximos. A pele arrepiou-se. Vamos desfiá-lo à unha. não precisou dizer mais nada. Avançaram. — Não deixem que ele entre em nenhum deles. Alex saltou para o chão. Não estou vendo sua espada. Amintas paralisou diante da fogueira. Vamos acabar com a raça desse desgraçado. vendo Amintas sentado no calçamento tomado por mato. Seus olhos estavam pesados e pareciam cheios de areia. encontraria humanos. — fez uma pausa olhando para um novato. cobrindo o tronco. Com certeza o maluco filho de uma puta vai reagir. O sangue deles é que nem ácido. O vampiro aquiesceu. Talvez não tivesse necessariamente esfriado. Aspirou o ar mais profundamente. Fechou os olhos mais uma vez. Justo e Ulisses dormiam com os trajes completos. Olhou para frente. Alex parou no topo da árvore de jenipapo. na direção do sinal de fumaça. Fez um sinal para os companheiros que iam pelo chão. essa luta vai abrir nosso apetite. pedindo que se agrupassem logo abaixo. Viu o bento voltando para perto do fogo e sentando-se no calçamento.

Amintas conseguiu desferir uma boa cotovelada na fuça do novo agressor. O golpe acertou seu braço em cheio. Mais dois ajudaram aqueles que já prendiam os braços do guerreiro. Duque virou de lado. Amintas recuou dois passos. para querer esfolar aqueles malditos contra o chão. Alex parou na frente de Amintas. O líquido acertou em cheio a bochecha do vampiro e a pele da criatura começou a fumegar. O ar começava a faltar e lágrimas involuntárias surgiam em seus olhos. Amintas sentiu a garra da fera apertando sua traquéia. Bastou os gritos e a baderna para que se distraíssem um segundo e Amintas conseguisse livrar braços e pernas num esforço sobre-humano. O vampiro que segurava os cabelos do guerreiro deu novo puxão. mas completamente dominado. Manteve-se agarrado ao bento. — disse o líder das criaturas. Amintas respirou duas vezes e recuperou a força. O bento 310 . Um segundo vampiro aproximou-se pela direita. escutando um "crec" quando o osso deslocou-se na junta do cotovelo. Agarrou o punho do vampiro e torceu seu braço. Os joelhos dobraram enquanto gemia de dor. o vampiro era mais forte e não sofria com a falta de ar. incomodado. bento idiota. Uma arma de corte. sem despertar do sono. sendo agarrado pela direita e pela esquerda.cambalhotas. jogando-a sobre os próprios ombros. Amintas baixou a cabeça. Era aquilo que Amintas queria ver. agarrado ao corpo do monstro. Assim que Alex afastou a lâmina. mantendo-o em pé. Ulisses levou a mão no nariz. Dentro do salão. Alex avançou com o facão na direção do bento. O vampiro novato soltou o braço do guerreiro e rolou no chão. fazendo-o afastar-se um instante. que segurava seu braço direito. No entanto. Amintas absorveu a dor e concentrou-se no mais importante. voltando ao sono mais uma vez. O vampiro Alex ordenou que mais vampiros agarrassem o velho bento. O agressor soltou. fazendo com que perdesse as forças nas pernas por um instante. lançando um sorriso ferino para o guerreiro. tirando um facão da cintura e passando o fio na cruz do peito de prata do guerreiro. Agarrou o pescoço daquele que o levara ao chão e afastou-o de seu corpo. Um terceiro vampiro agarrou seus cabelos grisalhos e longos pelas costas. Amintas emitiu um sonoro grito de dor. A loucura consumia sua mente. — Vamos ver como vou dar cabo de você. fez uma breve reza e cuspiu no rosto do vampiro. Amintas recebeu um chute no estômago. o bento juntou uma quantidade de saliva na boca. emitindo gritos de dor. Um deles puxou sua capa vermelha. Mais quatro agarraram as pernas do bento. incomodado. tento os braços imobilizados. fazendo o guerreiro erguer a cabeça. inspirando e espirando rapidamente. Foi o bastante para obedecer a loucura. puxando-o com violência. Soltou o pescoço do maldito e foi erguido pelos braços fortes da fera. Recuou a mão esquerda e lançou um soco na face do vampiro.

— Acho que vou. sentindo o sangue brotar no nariz e na boca. Tomava golpes duros. Retirou o facão da garganta do vampiro e passou a arma de lado dessa vez. Amintas soltou um urro mais ferino que o do demônio. sentiu o fio afiado da própria arma atravessando-lhe o pescoço. do outro lado. de encontro à fera. Amintas abriu o olho bom. interrompeu o ataque. Gostava do fio daquele jeito. Até que a arma do vampiro era boa. Os vampiros mal tiveram tempo de olhar para trás. O primeiro vampiro destacou-se do grupo. Seu rosto estava roxo e o olho direito inchado. a maioria bem absorvidos pela couraça prateada. uma das criaturas conseguiu arrancar o facão da mão do guerreiro. seu filho da puta. — Dessa vez não. A experiência de quase trinta anos como guerreiro bento lhe ensinara um ou dois truques para a hora do aperto. quase fechando. — murmurou o bento ferido. vendo um revoar de capas vermelhas nas costas das criaturas. O monstro. Foi mais uma vez erguido e agarrado firmemente por braços e pernas. Amintas afundou o facão na garganta da criatura. Quando o vampiro ergueu a cabeça novamente para encarar o guerreiro. esvaziando a boca de Amintas. bem afiado. Levou a mão à pele e descobriu um corte imenso do lado esquerdo. Passou o facão no ar. Amintas percebeu que. O vampiro. Amintas foi jogado ao chão e recebeu uma saraivada de chutes. Olhou para o salão. Os vampiros tomaram coragem e saltaram. Justo sentou-se sobressaltado. ferido da primeira vez. todos ao mesmo tempo. Finalmente. Não viu Amintas na frente da fogueira. para cima do guerreiro. puxando sua cabeça para trás. sim. dessa vez misturada com seu sangue de bento. Ouviram gritos furiosos e o som de espadas rilhando ao serem desembainhadas. esmurrando os que se aproximavam e abrindo tantos cortes quantos fossem possíveis nos inimigos que entravam no alcance do facão. Amintas juntou mais uma porção de saliva na boca. O vampiro que gostara de suas mechas grisalhas voltou a agarrá-lo pelos cabelos. Os companheiros dormiam. Mais bentos! 311 . Girou o facão no punho enluvado. Não vai ter sorte duas vezes essa noite. Cruzou o caminho do atacante e parou. louco e esbaforido. Tinha passado pelo pescoço como se a carne do bicho fosse de manteiga.agarrou o facão e firmou a mão na empunhadura. Sentia uma ardência no peito. os vampiros começavam a se refazer da surpresa e a fechar um círculo perigoso ao redor. Amintas inspirava e expirava rapidamente. fazendo a cabeça do bicho cair no chão de terra. Sua primeira vítima ainda rolava e fumegava no chão. iria morrer feito um gato no saco. nesse instante. Se iria morrer no meio daquela avalanche de vampiros. Contou mais de trinta. Amintas voltou aos berros e ao combate furioso. lançou um violento soco no rosto do guerreiro. mas não parava de contra-atacar. debatendo-se até o último suspiro.

Sempre antes de iniciar um combate contra os noturnos. Passou a combater os inimigos com as duas lâminas. — Meu braço! Meu braço! — gritava a fera. imersa na mais negra escuridão. Não conseguia ver as brasas do agressor. A providencial cota de malha de ferro e a gola alta do colete de couro impediram que os dentes chegassem à sua carne. Os vampiros. trazendo uma tocha acesa. Correu atrás do maldito e. O guerreiro apanhou a no ar e girou o corpo. Amintas. indo ao chão. O segundo golpe de espada de prata enterrou a lâmina na barriga do vampiro. fora de combate. Duque arremessou a espada de Amintas. Célio. avançou para a arma do guerreiro. adentraram a agência bancária. Um dos vampiros. Célio foi atingido por dois pés em suas costas. Bastou um segundo movimento para que o par de brasas escarlate apagasse. Célio levantou-se quando o segundo demônio pulou em suas costas e cravou um par de dentes em seu pescoço. inesperadamente. Agarrou o vampiro pela nuca e pela calça. Dentro do banco. mas tentando desviar-se do bento que. tentavam fugir das espadas. virou uma estrela. perseguindo-as sem descanso. Os vampiros. A prata queimou a pele da criatura. Um companheiro bento assomou a porta do banco. Célio correu no encalço de três vampiros. o bento unia um cordão de couro atado no cabo da espada a uma tira de couro que vinha em seu punho. Do abdome aberto das criaturas verteu as entranhas negras e fedorentas. rasgando três vampiros de uma vez. com um segundo empurrão. sequer pensou na desvantagem. 312 . jogou para dentro do cofre escancarado da agência bancária. apanhando o facão caído no chão. Justo aproveitou o vampiro caído e pisou nas costas do demônio. acovardados. dotado de excelente visão mesmo no absoluto breu. cambaleou para a frente e a espada escapou-lhe da mão. vinha em sua direção. desesperados.Ulisses procurou o par de brasas vermelhas mais próxima. arremessando-o para frente. acuados pelo quinteto de bentos enlouquecidos com sua presença. que tombou logo que o bento removeu a espada. contudo ouviu um baque surdo e o som de alguma coisa arrastando-se. com agilidade impressionante para um homem com mais de sessenta anos. Só não contava que Célio também tinha seus truques. tomando impulso para saltar no meio do bolo de criaturas que cercavam bento Amintas. guiava-se pelos olhos vermelhos flutuantes das criaturas. Célio agarrou o vampiro pelos cabelos e arrancou-o num golpe só de suas costas. O terceiro e último vampiro iniciou um ataque vacilante. que deixavam o cerco. Os olhos vermelhos vivos do demônio ressurgiram no meio do salão junto com gritos de dor. Bastou um puxão do braço para que o cabo da espada voltasse para perto de sua mão. Separaram-se e prepararam um ataque covarde ao bento. A espada zuniu ligeira. Nenhum deles suportou o golpe. separando a cabeça do tronco da criatura. tomado pela loucura. Dentro do salão escuro os vampiros demonstraram súbita retomada de coragem. Célio varreu a escuridão com a espada.

Célio pôde ver onde o maldito tentava esconder-se. Só se você fosse virar o jogo no além. — Eu vi. onde o outro monstro da noite levantava. Duque chutou a cabeça de um vampiro. Não cria no que acontecia. Amintas embainhou a espada e foi até o meio da rua. Do lado de fora. Amintas! Você queria todos pra você?! — exclamou Justo. tirando-a de seu caminho. O animal esguio e de andar elegante veio ligeiro para perto dos bentos. Alguém estava fechando a porta do cofre! Ulisses bateu a porta pesada e girou a grande trava. abocanhou o braço decepado de uma das criaturas batidas no combate. parecida com as travas de escotilhas. Os vampiros estavam trancados para sempre. O vampiro. Célio.Com a luz. — Pô. Célio sorriu e meneou a cabeça. cambaleando. Olhou para o final da rua. levantou os olhos para os dois bentos no meio do salão. com pedaços retalhados dos corpos caídos por toda parte. — Vamos dormir que eu ainda tô cansado. Amintas riu antes de responder. Agarrou-o pelo pé e arrastou-o para dentro do cofre. com sua voz estridente. 313 . — Estamos trancados? Sem responder ao parceiro o vampiro virou-se novamente para a porta e desferiu um chute potente. Dentro do cofre o demônio de dentes pontiagudos bateu contra a porta. refeito do golpe duro da cabeça contra o fundo do cofre. sob a luz do fogo. Baixou a cabeça tomado por um ódio avassalador. parando de frente à fogueira. Já se preparava para saltar para cima de Célio e retornar à contenda quando ouviu a pesada porta de aço recheada de travas deslizar sobre as imensas dobradiças. A loba veio até perto da fogueira e. — murmurou o ferido. Arreganhou a boca e exibiu as presas afiadas. surgiu novamente a mãe loba-guará. aproximando-se e batendo nas costas do parceiro. Apertou a mandíbula com força e voltou rapidamente para o fim da rua. O céu tá muito limpo. por segurança. Olhou para o parceiro de braço decepado. Do meio dos jenipapos. — Estamos fodidos. Os corpos dos malditos estavam espalhados por todos os lados. Ulisses suspirou fundo e deu um tapinha nas costas de Célio. Eles eram tantos e os bentos tão poucos! Como conseguiam fazer aquilo? Novamente olhou para o colega machucado. Um sonoro "clanc" estalou na sala. — Acho que amanhã vai chover. Estava selado dentro da merda da arapuca. — disse o mulato. Ulisses olhou para o céu estrelado. — retrucou Duque. Voltaram para a rua de terra. colocou a mão na empunhadura da espada. contemplando a imensa porta. — Eu já estava quase virando o jogo quando vocês chegaram.

Vocês podem dormir. — disse Justo. tomando pra si a responsabilidade da vigília.Os bentos foram voltando em silêncio para dentro do galpão. — Vou dar uma olhada nos cavalos. — retrucou Ulisses. — murmurou Amintas. 314 . eu vigio daqui pra frente. — Cuidado para não ter dor de barriga. — Valeu. dona. abaixando-se junto a um corpo de vampiro e retirando dele sua capa vermelha tomada no meio da batalha.

deram no meio de um numeroso grupo de demônios noturnos. depois de terem deixado Maria Alice e Eloísa a salvo. mas não havia clareza dessa vez. Tinha visto fogo e fumaça. A maioria precisava mais de repouso do que qualquer outra coisa. Olhou para os soldados finalmente repousando nas camas da enfermaria. O rosto inchado e roxo desencorajava uma nova cruzada. Elton olhou para Carlos. O líder dos soldados sentou-se numa poltrona confortável ao lado da cama de Alicate. sem a companhia de um semelhante. mesmo sobre protestos furiosos por parte de bento Teodoro. após dias de jornada ininterrupta. A surpresa desagradável acontecera horas mais tarde. Elton sorriu olhando para o companheiro de jornada. Ironicamente. E. ao lado de Lucas. pois.Capítulo 42 O líder Elton entrou na enfermaria para assistir os soldados feridos no inesperado evento que sucedera na noite anterior. parceiro de Alicate em São Vítor. A equipe não tivera descanso desde a saída dos portões de São Pedro. Lucas confessara a Francis (que tentara inutilmente dissuadi-lo da tresloucada e insalubre idéia de continuar a marcha sem algumas horas de sono para todos). nos muros de uma fortificação. Cavalgava calado e determinado a não deixar o trigésimo bento dar um passo sozinho. melhor remédio que qualquer química que pudesse entrar em seu corpo por uma agulha. Tinham que deixar a vila imediatamente. Lucas fora mais uma vez acometido por sua aflição em prosseguir. Tinham que confiar no profeta morto. O soldado parecia estar lendo seus pensamentos. graças a Lucas. Mas. Tinha ouvido Bispo ordenando a partida. sentou-se no meio do leito dos dois soldados e baixou a cabeça — O que aconteceu lá? — perguntou a voz sussurrada de Carlos. Balbuciara algo sobre um deus índio. Do outro lado. nada grave. também dormindo de roncar. sendo um nas costas e outro na barriga. Foi o único a não expelir um murmúrio de protesto sequer. estava o soldado Carlos. Alguns pontos fechando os cortes e pronto. graças à teimosia do bento. Infelizmente. um deus Tupi. com um inchaço importante no rosto e dois cortes extensos. Cansado. com olheiras profundas e cansaço visível seguia na frente. Bastou um cochilo para que o bento tivesse mais um daqueles pesadelos recheados de presságios sombrios. Três de seus homens estavam se recuperando. os soldados e guerreiros bentos voltaram aos cavalos. Carlos era o que parecia mais machucado. Talvez não se restabelecesse até a hora da partida. Quando toda a tropa imaginava que pernoitariam para um merecido descanso. 315 . O homem de braços fortes e um hematoma no olho esquerdo estava dormindo profundamente. que a visão durante o sono não fora clara. Bento Vicente. naquela noite não passaram incógnitos aos vampiros. Talvez assim fosse melhor. a voz soprando urgência em seu ouvido tinha estado lá em sonho. que parecia ter se juntado ao grupo para discordar o tempo todo de tudo que Lucas falava.

Ninguém morreu. Estrangulados. das sombras. Estão todos costurados e sedados. — Quantos morreram? — Ninguém.. os malditos surgiram. andando ao que parecia em círculos. 316 . sentiam-se perdidos quando. em número que jamais viu. Lucas segue ao amanhecer. vou começar. — Nem eu. você pulou alguma parte? Meu cérebro ainda está aqui? Elton sorriu. — Da porrada eu lembro e não vou esquecer tão cedo. Carlos suspirou fundo. Já que eu tenho uma platéia. Carlos.. despertando do sono para acompanhar a conversa. — Durma.. — Mas. — Você foi golpeado na cabeça e apagou logo no começo.. As imagens estavam voltando. na cama ao lado. Do que você se lembra? Foi a vez de Carlos tossir. mortos de sono. Tinham entrado em outra região pantanosa.. — É isso mesmo. Alicate tossiu na cama ao lado. Vamos precisar de você bom e pronto pra outra o mais rápido possível. como estou cansado. Tinham deixado as garotas na fortificação ao nordeste de Belo Horizonte e tinham deixado a vila resmungado por conta do cansaço. Levou a mão ao inchaço do rosto. Carlos pigarreou. franzindo a testa. mas não acordou. Tinha algo errado naquela declaração. ai. só esperando o corte fechar e a dor passar. O líder de São Pedro voltou a encarar Carlos.. Deus. graças a Deus. — Perdão? Você. Se o ferimento não tivesse tomado sua memória podia jurar que foram emboscados de forma tão violenta e imprevisível que tornava quase impossível acreditar na resposta de Elton.. Cavalgavam na noite... muito parecida com a que cruzaram escapando da Velha São Paulo. Como deixei me pegarem? — Estranho seria você sair sem nenhum arranhão. Foram cercados. Os desgraçados eram tantos. — Sem infecção? — Sem infecção. — gemeu Alicate. — Sem gripe? — Sem gripe. fazendo Elton voltar-se um segundo. emendando um gemido de dor. O valente se mexeu no leito. Durante a madruga. Durma.. mas não prego os olhos enquanto você não me disser como escapamos todos vivos. — Bom.— O que aconteceu comigo? — tornou Carlos. — Pode apostar que vou dormir mais oito horas seguidas.

Grandes corujas com olhos brilhantes girando as cabeças empoleiradas em galhos antigos e livres de folhas. O lugar perfeito para ser morto por aqueles demônios do mundo. queima num ímpeto impensado de coragem. Iria reunir os trinta bentos. Os homens acreditavam no trigésimo. Mais do que um herói. Odiava as histórias de pântanos. seu cão de guarda. um magricela perdido. realmente transformara-se num herói. Não dissera como ressuscitaria os mortos. Deus do Céu! Poucos dias e quilômetros longe de ser um simples herói. Lucas transformara-se num líder. E qual seria o pagamento por aquele comprometimento voluntário? O que esperavam? Esperavam o fim do medo. Estavam dispostos a cruzar outro pântano durante a noite. garbosamente. Fariam voltar o medo tolo do bicho- 317 . Os homens seguiam Lucas. Ele. Estavam colados no rabo do trigésimo bento. Quantos soldados haviam caído em cenários semelhantes? Mais do que as histórias. talvez. seus pescoços. Acabariam com os vampiros. parecia agora sua sombra. mas dizia que conseguiria cumprir o pedido. o grupo. O céu fechado e cheio de nuvens sendo carregadas velozmente pelo vendaval acima de suas cabeças. Tinha urgência. Resignado e valente. no mesmo tempo e espaço. Um gato Félix da vida. Um era de São Joaquim e outro de São Pedro. Tinha ordenado que continuassem. Por isso. com medo da cauda do cavalo. Pronto! Ele é o herói. burrice e reflexo e. dentro de uma única situação. vinha vivo. Lucas conduzindo. Logo voltou a sentir seu corpo balançando sobre o torço do cavalo. continuava obstinado. o mais marrudo e indigesto bento que cruzara o caminho. salva a velha gorda. arriscando. reavivando a memória. pela segunda vez. o menino na frente do carro e a bosta do gatinho na merda da árvore. a garoa fria sendo jogada pelo vento contra seu rosto e acumulando-se em seu queixo. um sujeito que parecia um banana. Os quatro milagres. tudo isso. onde a barba descuidada teimava crescer. Elton notara algo mais importante que isso. em poucos dias. Mesmo com os seis corpos enterrados no limite do pântano anterior. Seus nomes. cavalgava ao lado de Lucas. Bento Vicente. literalmente. Ajeitaram-se para escutar a narrativa. O que seriam? As quatro armas com as quais acabariam com o medo. Elton fechou os olhos por um segundo. que de repente. que demonstrara claramente seu desapontamento e sua antipatia para com o novato. shazam. Lucas estava quilômetros longe daquilo. sua cidade. que lhe parecera. Os milagres não revelados. estavam seguindo o "escolhido". odiava estar ali. Que precisavam reunir os trinta bentos. parecia enfeitiçado. O peso do rifle preso à suas costas. à primeira vista. a garota do sexto andar. Não precisou esforçar-se demais. Um herói pode ser simplesmente um cara. antes da baderna começar. recolocando-o lá.Mais dois soldados sentaram-se nas camas ao redor. um sem sal. Elton lembrava de ter notado. José Roberto e Eric. o barulho dos outros cavalos vencendo o lamaçal. Mas. Impossível acreditar que. Era esse o prêmio de ouro por guardar a trilha de Lucas e garantir que o magricela transformado realizasse seu intento. continuava perseguindo cegamente o que Bispo lhe pedira. uma dose extra de risco e terror valesse o preço. Acabariam com as sombras. querendo evocar as sensações daquela madrugada.

Pareciam farejar no ar a presença dos bentos e. Olhos vermelhos dançando nos galhos. por essa razão. Fariam sobrar apenas os medos de criança. acompanhando o "causo". A garoa. Juntavam-se mais e mais. Boa parte delas secas e galhadas. deveriam ter hesitado um instante para caírem de uma vez em cima dos soldados. A loucura patente daqueles homens valentes parecia arrefecer com os brados do trigésimo escolhido. Como crianças ao redor do vovô. Os bentos sentindo o suor descendo pela testa. Lucas. como nunca visto por aqueles seres humanos. providenciou um círculo. Até aí todos recordavam. Vários dos vampiros surgindo da água. deixando os cavaleiros com a água roçando os pés. Seguindo seu comando. Ordenava que não atacassem. Não existiam mais árvores vazias. Foi nesse momento. os cavalos afundando na lama e na água. a cabeça coberta pelo capuz. usando os cavalos. do papa-figo. Os malditos gritavam enquanto mais pedras choviam. como cadáveres voltando à vida. Ordenava que ficassem imóveis. Outro arrepio percorreu o corpo de Elton quando se lembrou dos olhos de Lucas. Os milagres trazidos nas vísceras do trigésimo bento baniriam o medo das bestas da noite. sua armadura encoberta pela manta marrom. enquanto Lucas gritava as primeiras e impressionantes ordens. Algum dos malditos deve ter dado a ordem. doidas para estraçalhar nossas artérias e sugar seu sangue. do homem do saco. havia rompido o círculo. os bentos abandonaram a loucura c não se atiraram contra o exército de bestas no primeiro instante. não existia mais pântano à vista. Todos cessaram o ataque. Pedras começaram a ser lançadas contra os soldados. Estavam cercados pelas brasas rubras. Noturnos vindos de um túnel com ligação direta com o inferno. sombras negras emergindo. que valsavam ao redor. Lucas gritava com os bentos. balançando ao sabor do vento ou cedendo ao peso das criaturas. atraindo a atenção dos vampiros. Medos que não avançavam com a mandíbula arreganhada. Lucas saltou do cavalo. Um ataque perigoso. sozinho. Grunhiam e praguejavam. Vultos voando no meio das árvores. Os cavalos tinham alcançado um platô mais sólido. vítima de uma pedrada certeira na cabeça. Logo. Foram cercados num instante. feito um banco de areia. Medos de crianças. Dentro 318 . ora chegando a passar das canelas. fazendo novas vítimas. Eram centenas. Era mágico. Seis deles já estavam mortos e enterrados e agora os vampiros pareciam prestes a aumentar esse placar. Em seguida lanças zuniram. Era diferente. Duas bolas amarelas acesas na noite. os homens não deram um pio.papão. Um silêncio medonho cresceu. Os bentos sendo tomados pela loucura. não hesitariam em atacar. Mesmo sabendo que não era necessário. O líder dos soldados de São Pedro começou o relato. A liderança de Lucas revelou-se mais poderosa do que supunham até então. Era estranho. Elton chegou a arrepiar-se ao lembrar da cena mais dantesca. A tensão aumentando como o número de sombras ao redor. cheias de agulhas pontiagudas. A maioria dos cavaleiros encontrava-se nesse ponto quando deram conta da aproximação das criaturas. não poupariam suas espadas. formando uma proteção precária. Lucas. que Carlos tombara. lembrou aos ouvintes os detalhes. espantosamente.

Os quatro bentos. Lucas baixou o capuz. — Entreguem os bentos e serão libertados! Lucas desembainhou a espada. fechou-se ao redor de Lucas. fazendo-a cair na água. Puxou o cordão que prendia a manta. — Então és um abençoado! — gritou o vampiro-líder. do meio dos vampiros. Os vampiros retrocederam um passo. prontas para o ataque. o soldado tem uma espada. deixaram o cerco de cavalos e expuseram-se no banco de areia. que pingava no banco de areia. levando sua consciência para fora do corpo. O medo exalava do grupo. — Entreguem os bentos. cada vez mais numeroso. como controlado por um mestre de marionetes. Um calor infernal percorrendo as veias. obedientes feito cães treinados. irmãos. Tinha se visto no chão! Deus do céu! Parte das lembranças pareciam surgir somente agora. Lembrou-se de ser tomado. real timel Passara a entender. enquanto livravam-se das capas marrons. Sem titubear. Urros nervosos cessaram o silêncio. — Há! Há! Há! Ah! Cuidado. revelando a cota de malha prateada e o par de olhos amarelos lampejantes. Imitando Lucas. soldados! — berrou uma voz rouca. ser transportado. ser subtraído daquele lugar. deixando o banco de areia. montado no cavalo negro. O sangue. — Desembainhar espadas! — berrou o bento. formando agora um círculo externo. Chegou a pensar num ataque cardíaco e a amaldiçoar o destino por tão cruel momento. Elton lembrava-se de começar a sentir aquele estranho comichão pelo corpo todo. surgindo somente agora na beira do círculo. Caminhou lentamente. como uma brasa queimando suas entranhas. assistiu seu corpo. dentro do cerco. como o final daquela peleja se desenrolara. levantar-se e tirar do cavalo a capa vermelha que enrolava a espada que pertencera a bento André. Lucas procurou os olhos do interlocutor. Era como se seu espírito flutuasse. somente agora.do círculo de cavalos. fazendo o metal prateado retinir. Suas espadas em riste. Atravessara o cerco de cavalos e postara-se ao 319 . O círculo de vampiros. Enquanto isso. vítimas das pedradas na cabeça e das lanças a manterem-se temporariamente à salvo. rodeado pelos soldados. tinha desenrolado a capa e tomado a espada nas mãos. Suas armaduras prateadas refletiam a luz das tochas carregadas pelos soldados. alimentando a massa inimiga. abrindo passagem. os soldados ajudavam os desacordados. Via agora a cena do pântano como se estivesse a dez metros de altura. Era como se estivesse sendo possuído por algo ruim. Lucas encarou o demônio. devia atiçar ainda mais a gana por morte. desembainharam as espadas. Algo que deveria ter sido um homem de sessenta e poucos anos quando se tornara vampiro. até que a água chegasse aos seus joelhos. Nesse instante. que contava a façanha para os enfermos.

bem distantes dos holofotes dos grandes centros? Logo que ordenasse o ataque. O vampiro-líder deixou os olhos correr sobre o grupo. O que poderiam aqueles dez bentos contra suas centenas de vampiros. Abriu caminho entre o bando até estar cara a cara com Lucas. os humanos estariam liquidados em questão de segundos. em ataques rápidos e letais. Os vampiros. Estava confiante. Daquele instante místico em diante passaram a ser dez bentos no círculo externo do banco de areia. de volta. E era justamente isso que o bento buscava. Uma criatura de baixa estatura. Lucas teve vontade de lançar sua espada à frente e aparar a cabeça da criatura. Lucas avançou mais cinco passos. exigindo silêncio. número insuficiente para fazer frente àquela descomunal quantidade de vampiros num ataque na floresta. afinal. Algo tão inebriante quanto o sangue. Queria absorver mais daquele medo que emanava do grupo cercado pelos cavalos. levantando-se aos poucos. no cerco de cavalos. Sem luz. Era como se seu corpo tivesse se tornado num mero vasilhame preenchido pelo espírito do bento abatido na Teodoro Sampaio. — Dez bentos. Um bicho estranho. Elton passou a ver bento André. trajando roupas esfarrapadas e escuras. os vampiros voariam feito zangões para cima das tochas. sentindo-se insultados pela petulância do bento. mas de compleição forte. irmãos! Essa é nossa noite de sorte! Os vampiros dobraram os urros. com um ferimento aberto no pescoço. formando um cerco cada vez mais denso. O medo humano era um sub-alimento. viu mais cinco novos soldados desembrulhando as espadas do meio das capas vermelhas e. voltaram aos urros. Então. 320 . Deleite. Nas florestas. Careca e pálido. — Hoje é a nossa noite de sorte! — bradou Lucas. Só estavam habituados a ver tantos quando os malditos organizavam-se de tempos em tempos para tentar contra os muros das fortificações. Queria o deleite. de pé na areia. Os vampiros aglomeraram-se mais. lutando na mata. desse instante em diante.lado de bento Francis. aproximando-se perigosamente da linha de frente dos vampiros. o mais comum eram os bandos menores. Lutou contra sua gana. do contrário colocaria tudo a perder. Mesmo assim. Aguardou até que boa parte deles saltou das árvores. — Que dizes. quando atravessavam o cerco de cavalos. ao lado dos demais. O vampiro-líder exigiu imobilidade de seu bando. era seu território. Aquilo era uma delícia. segurando o cabo com as duas mãos. rapaz? Que tens sorte de estar aqui? — perguntou a voz rouca e sussurrada do vampiro. Lucas observou por um instante o líder dos vampiros. Não ordenaria o ataque imediatamente. ali era seu hábitat. deixavam de ser soldados e a figura dos demais bentos mortos chegavam a seus olhos de espírito flutuante. no breu e na garoa. passaram a observar curiosos. Um segundo depois. lutando na escuridão. com a lâmina erguida. O vampiro-líder ergueu os braços. Os soldados.

Lucas deu dois passos para a frente. Sutil o suficiente para apenas o trigésimo bento. — Mas não o trigésimo bento.. bento duma figa?! Não vês que não há chance de escapada? — Escapada? Quem quer escapar aqui.. assistindo o corpo do líder abrir-se lentamente em dois. os dedos foram de encontro ao ombro direito. — Conte a ele o que aconteceu! — pediu empolgado... pegos de surpresa.. Depois. — És cego. Nesse segundo de distração. dono da situação. dividindo em duas bandas. — Mas. vampiro do inferno? O vampiro-líder soltou um riso. o vampiro-líder abriu os braços. caindo um pedaço de cada lado de seu cavalo. Elton estava tão emocionado com sua própria narrativa que. nem tivesse percebido seus olhos marejados. deixando escapar. José Roberto. Não o bento Lucas. abandonando o platô seco de areia e afundando o pé na água do pântano. um bento faz uns poucos litros de água benta por dia. em água benta. Girou a espada e cravou-a no barro abaixo da água. levando consigo os olhos vermelhos das criaturas para o alto. Um ou outro conseguiu saltar para as árvores adjacentes e os que nelas já se encontravam trataram de fugir em retirada. terminado por levá-los pouco acima do umbigo.. quase inaudível um "em nome do Pai. completando o sinal da cruz. o soldado de São Joaquim. imediatamente. A cabeça do vampiro-líder rodopiou. os dedos mergulharam na água do pântano. dentro desse segundo precioso. Em seguida. Carlos. Continuou o impressionante relato. mas esse segundo precioso era o que eles não tinham. produzido um silvo ligeiro. sem sequer lançar um olhar para trás. ficaram estáticos. sabemos que um bento. Uma vez de joelhos.. transformando-se em tochas ambulantes. estupefato. transformando toda a água ao redor em água benta. amém". o pântano começou a borbulhar e os malditos vampiros não tiveram tempo de perceber o que estava acontecendo. o corpo decapitado do vampiro.. 321 . enquanto Lucas balbuciava o final da prece. Foram sendo dragados pela água abençoada. descrevendo com os dedos uma reta no ombro esquerdo. transformando. procurando entender a narrativa. Alguma coisa de nervosismo escapou de sua garganta. meu amigo. Lucas usou de sua velocidade e deixou a espada cruzar o ar. derretendo e queimando.— Digo que hoje é tua noite de azar. Os vampiros. enquanto colocava-se de joelhos diante das centenas de vampiros boquiabertos. praticamente iguais.. — interrompeu. Lucas girou a lâmina. Levaria mais um segundo para que recobrassem a atenção e finalmente fechassem o ataque sobre o insuficiente grupo de soldados e bentos. Calmo. que mirava a besta nos olhos. fazendo-a descer e cortar ao meio. vampiro do inferno. mas. talvez. enquanto Lucas começava uma reza ligeira. toda aquela água lamacenta. perceber. Lucas estendeu o indicador e o dedo médio da mão direita de encontro à testa. revelando que assim que Lucas tocou a água do pântano..

— soltou Elton. Na pedrada. erguendo as tochas para a luz ir mais longe. os corpos foram sumindo no pântano. — Quando foi que apaguei? — perguntou Carlos. deixando para trás somente aquele odor acre pútrido no ar. — repetiu. mas agora com a voz um tanto mais cansada. Alguns deles chegando à beira do banco de areia. Grupo ficou em silêncio por quase um minuto. 322 . ainda com um joelho afundado n'água e os dedos tocando a superfície líquida. Incrédulos. Os olhos vagando pela água ao redor. os soldados foram deixando o cerco de cavalos tordilhos. olhando boquiaberto para os bentos rodeando os cavalos e para a figura de Elton e mais cinco desses "possuídos" por sabe-se lá o quê. agora rodeados pelos gritos e pelo odor de morte causado pelos corpos que ardiam era contato com a água benta. Alicate. o que dissera no banco de areia. — Logo no começo.abandonando os soldados e bentos. relembrando que. naquela madrugada. Em questão de instantes. Alicate interferiu na narrativa emocionada de Elton. — Acho que não precisamos juntar os trinta bentos para começar a ver milagres. erguendo as espadas de prata feitos bentos legítimos. — Fui um bento naquele instante. — Droga. Olharam para Lucas. nesse instante. destacou-se do grupo. para ter certeza de que os demônios tinham ido embora.

Bradava. refutando descanso. sendo também o principal consultado pelo bento salvador no que cabia a estratégia e comunicação com as vilas. tomando para si o posto de guarda-costas. Logo eles estariam por perto. sim. Sabiam que era ali que o trigésimo bento daria folga certa aos cavalos e cavaleiros. Visões do mal. o que facilitaria a união dos irmãos mais distantes da comitiva de Lucas e. de encontro ao desconhecido. impondo a marcha sem trégua. Lucas conduzia a crescente comitiva pelas florestas e rodovias do caminho. Ninguém cantava como o soldado. ordenava que continuassem. cuidava dos feridos que insistiam em acompanhar o séqüito. surtira efeito positivo. sempre ponderado e divertido. Tinham. comandava. empurrado-os de frente ao perigo. agora. Bento Vicente ia sempre ao lado de Lucas. pela viagem sem trégua imposta pelo desejo de Lucas. Os soldados não diziam. sempre acordando com revelações. Os soldados ainda sentiam arrepios quando se lembravam dos olhos amarelos de Lucas e de seus pesadelos. Adriano e seus soldados de Nova Luz não retornaram ao grupo. Sabia que era ali que teriam alívio. já demonstravam ótima melhora e a maioria não trazia mais hematomas aparentes. sabiam que 323 . Tinham chegado tomados pelo cansaço. a comitiva tinha chegado com sorrisos àquelas terras. Não tinha graça tentar. Por isso. nem sempre agradáveis. hora entoando um Tim Maia dos bons. Estavam agora ao norte de Salvador. nem sempre os conduzindo a um porto seguro. depois de tantos dias. Dizia que os dias e as horas estavam contados e que só teriam descanso em Santa Maria. lançado semanas atrás. no estado da Bahia. Visões da noite. por sua vez. era como se sempre tivesse pertencido àquele tempo. Sabiam que o bento negro estava adiantado e já cavalgava rumo a Santa Maria. O sono do abençoado passara a ser velado num misto de receio e curiosidade. Como se fosse um guerreiro abençoado há mais de trinta anos e não há trinta dias. Agora. A voz de Sinatra. nem em sonhos sinistros com notícias da fortificação distante nem por algum mensageiro. empertigado e conselheiro estratégico do trigésimo guerreiro no que cabia a escolha das melhores rotas a seguir. fazia falta na comitiva. feridos na batalha do pântano. hora puxando um Los Hermanos. à frente daquele destacamento. mas depois do episódio dos gorilas passaram a ter medo das visões do trigésimo bento. na fortificação de Santa Maria. era o semblante cansado em virtude da marcha sem trégua. mas não entendia o porquê que ele negava descanso até nas horas da noite. Era como se uma sombra rondasse as horas de sono do iluminado. Os soldados.Capítulo 43 Os dias passaram nos lombos dos cavalos. teriam repouso e preparariam-se para o encontro com os cinco bentos trazidos do norte por bento Duque. Bento Francis. O plano bem pensado por bento Francis. A maioria entendia a razão de Lucas insistir em seguir.

mas temeu desencadear alguma reação ruim. conteve o impulso de sacudi-lo e disparou pela porta do dormitório. Nunca tinha visto nada tão forte.. O trigésimo bento apertava as pálpebras. Antes de chegar ao quarto já ouvia a voz de Lucas ecoando pelo corredor. pedindo. Via de regra. Francis cortou o sorriso quando viu Vicente chegando tão depressa. andando pelos cômodos apenas com a calça escura. grupos de orações organizavam-se. Atravessou o salão. não tinha tempo para colocar as vestes. Francis sorriu. Vicente sabia o que fazer. balançando a cabeça e bufando. ele não está legal. — O que você está fazendo? — perguntou bento Vicente.faltava pouco para a junção das trinta espadas. lembrando que não devia acordar os sonâmbulos. O bento adormecido começou a tremer e ranger os dentes. do fundo da alma. que a profecia revelada pelo finado Bispo concretizasse-se. Nunca tinha visto aquilo. como se lutasse contra algo em seus sonhos. Lucas estava em apuros. Ao ser visto. desencadeando os quatro milagres e libertando os humanos das presas das trevas. bento Vicente acordou com os murmúrios de Lucas. 324 . Francis tinha conhecimentos o bastante para lidar com essa nova crise de Lucas. quando Lucas começava a gemer e a debater-se. com o peito nu. ora bolas! Mesmo assim. O grandalhão parou um instante. preocupado. não tinha sequer colocado sua malha. a comitiva era recebida com grande festa nas fortificações. Vicente descobriu-se e aproximou-se. Vicente. Bento Francis debruçou-se sobre o homem e levou a mão à testa. tinha que chamar Francis.. — O que acontece. olhando detidamente para o rosto do amigo. Francis não perdeu tempo com mais indagações e seguiu Vicente até o alojamento. quando no dormitório onde repousavam os soldados cansados.. — Inferno! — gritou o bento adormecido. balançava a cabeça e gotículas de suor começaram a brotar na testa. Velas eram acesas na partida. Não estava propriamente trajado para andar entre os moradores da pacata vila. que os bentos tivessem sucesso na missão e que após a união dos trinta. colada aos músculos de sua perna. Francis estava no meio do pátio. Gritava coisas desconexas. conversando com alegres moradores daquela fortificação. Já passava do meio-dia.. coisas assombrosas. Parecia acometido de uma doença! Pensou em chacoalhar Lucas até que acordasse.. como o escolhido costumava referir-se ao famigerado e esperado encontro. aproximou-se.. — Lucas. Vicente interrompeu a corrida e fez um sinal para que Francis o acompanhasse. irmão? — perguntou Francis. começando a correr atrás do grandalhão. Lucas. Não preocupou-se com isso. mas Lucas não estava andando dormindo. Venha ver. agora. Correu pelo corredor de madeira até chegar ao salão.

— Ele está tendo um daqueles sonhos de novo. Francis apertou os lábios por um instante. apesar dele ser o médico. às vezes. A Barreira do Inferno.. — Convulsões? O que está acontecendo? — Francis assustou-se. Lucas apertou os maxilares. eu nunca ouvi um bento falar do inferno. O que era aquilo? Lucas voltou a tremer. — benzeu-se Vicente. — Está delirando.— Foi só um reflexo. pode apostar. Vamos segurá-lo. cacete? — Eu sei lá.... Francis passou a mão pelo cavanhaque. velho. abrace-o. — Pai Nosso que estais no Céu.. para que não fossem ao chão. — Vamos. precisamos ir.... Não sabia o que fazer e. Vicente. Fogo! Fogo e fumaça! Temos que ir ao Inferno! Eles estão lá! Eles estão lá! Os dois olharam-se mais uma vez. — .. Diacho! Queria tomar a temperatura dele. Era como se tivesse possuído por alguma entidade. antes que se machuque ou machuque alguém. E é um ruim dessa vez. -Temos que ir para lá! O bento. Você que virou o cão de guarda dele é quem deveria ter alguma pista. olhando sua pupilas. delirante. — balbuciou o bento médico.. ergueu os braços... 325 . ver se estava com febre! Meus instintos médicos falam mais alto que a razão. Santificado seja o Vosso nome. Inferno.. — O que ele está falando. — Nós temos que ir para lá! — gritou Lucas novamente. — Eu não sei o que é isso.. — O pão nosso de cada dia. Vicente. Francis e Vicente trocaram um olhar. — começou a rezar bento Vicente. Os bentos abraçaram Lucas.. mantendo seus braços abaixados e centrando seu corpo na cama. — Santo Deus. — Barreira do Inferno! Temos que ir. Senta aí. Vicente é que parecia estar empregando o remédio certo. — Inferno! Fogo! Fogo! Vamos queimar! — gritava Lucas. Sentaram ao lado de Lucas. — juntou Francis a oração. tentando lutar contra algo invisível. Francis? O que é isso. Francis forçou a pálpebra esquerda de Lucas. Está até suando. — Ninguém mais fica doente. — O que vamos fazer? Vamos acordá-lo? — Não.. Credo em cruz. Lucas continuou rangendo os dentes e a gritar coisas estranhas até o final do Pai Nosso. Soltou um grito. por algo ruim.

O grandalhão continuava cochilando.Lucas só foi despertar do misterioso sono horas mais tarde. — Do que você está falando. olhando-o. Aproximou-se de uma mesa. Lucas apanhou a capa vermelha. — Eu sei. — Temos que ir à Barreira do Inferno. Assim que Lucas passou pela porta. Francis aproximou-se para ajudá-lo com a couraça de prata. Tinha dormido tanto. mas os olhos ainda assim pareciam cansados. — Onde está Lucas? — Seu protegido acaba de sair. Francis. Lucas sentia a garganta seca e dolorida. Encontraram Lucas no pátio. O que significa isso? — Estávamos esperando você acordar para nos explicar. Fechou os olhos. enchendo um copo com o líquido cristalino. Francis chutou a cadeira onde repousava o brutamontes Vicente. mas parecia sem líquidos no corpo.. — Eu vi fogo e fumaça. Vicente. — Preciso de água. Francis apanhou a jarra de barro no criado-mudo e serviu o homem desperto. Francis sorriu. — Não. já batida pela viagem incessante. sendo rodeado pelos rapazes e pelas crianças que faziam festa pela passagem do trigésimo bento. — Temos que ir à Barreira do Inferno. Eu vi a Barreira do Inferno. O som do metal correndo para a bainha encheu o quarto. Você berrou isso para todo mundo a tarde toda. Todos. Quando abriu os olhos encontrou bento Vicente cochilando na cadeira ao seu lado direito e bento Francis. O bento colocou-se de pé às pressas. Tentou salivar.. não mais imaculada. onde estavam seus pertences. — O que é isso? — É água. Colocou a cota de malha de prata sobre a blusa de mangas longas. Lucas respirou fundo e colocou-se de pé. prendendo-a aos dragonetes. Francis observou-o calado. 326 . — Temos que ir. irmão? Que lugar é esse? — Fogo e fumaça. Francis olhou para Vicente. Vamos. Temos que ir. ao lado esquerdo. Lucas desembainhou a espada e examinou o fio detidamente. estou falando desse negócio de Barreira do Inferno. Francis sentiu a pele arrepiando.

Lucas. Como ir ao inferno? Como aquilo poderia ser verdade? Mas ele tinha visto. Estava tonto e. Haviam juntado tantos bentos quantos foram possíveis. O que era aquilo agora? A provação final? Tinham acompanhado aquele homem nos rincões mais perigosos do Brasil. me arrancou do paraíso para ir ao inferno? Essa eu passo. bento Lucas. Lucas emudeceu mais uma vez. Tinham passado por florestas e pântanos durante a noite. — O que acontece. Vamos encontrar fogo e fumaça.. sentia a boca seca. Teodoro. incrédulo. enquanto mantinham os curiosos longe da couraça do bento. estavam acostumados à aglomeração de curiosos.. logo percebendo o rosto pálido e transtornado do jovem colega. protegendo-o do alvoroço.. temos de ir ao Inferno. A profecia nunca se realizará. Depois de tantos dias em companhia do legendário "prometido". querendo confirmar o que temia. Ele tinha visto fogo e fumaça. Era natural que não queriam crer. Seremos engolidos. Que papo era aquele de nova jornada? Que papo era aquele de inferno? — Inferno! — exclamou. — Eu vi. Estava de cabeça baixa. olhando para o trigésimo. Queriam falar-lhe. ao norte de Salvador até a chegada de bento Duque com os bentos do Norte e Nordeste.. boquiaberto. Tinha escutado a ordem. Você me arrancou de Ilha Grande. perderemos a batalha. precisamos partir. logo um destaca mento de soldados circundou o bento. Bento Teodoro foi o primeiro a aproximar-se de Lucas. tentando acompanhar a conversa.Quando o grupo de cidadãos começou a engrossar. em Santa Maria. novamente. Reconheciase um louco bradando: Inferno! Inferno! Era natural que não quisessem escutar. Por culpa desse seu ouvido do além fomos parar no meio de um monte de gorilas. Os soldados olhavam de Teodoro a Lucas.. — Teodoro. O bento estacou. — De fumaça eu entendo. — Onde? — Eu vi fogo e fumaça. Aqui em Santa Maria. — Se ficarmos. Todos queriam tocá-lo. tinham ouvido da boca de Lucas a promessa de aguardar ali. — Para onde? Lucas piscou várias vezes. 327 . Tinha visto a criatura no meio das labaredas. — Mas para onde vamos? O que esses sonhos desgraçados sopraram no seu ouvido dessa vez? — Desgraçados?! — Ah! Desgraçados. Precisamos salvar os bentos do Norte. Lucas? — Um pesadelo. — Mas disse que esperaríamos aqui. Já esqueceu? Dessa vez o trigésimo bento não respondeu ao ruivo.. sim. — comentou o bento ruivo com um sorriso irônico.

. Percebiam que algo acontecia.. aqui no Brasil que é chamado de Barreira do Inferno. vinte vezes em quantidade e tamanho ao dos vampiros. — Eu lia muito. É para lá que Lucas quer nos levar. — Barreira do Inferno? — questionou Elton.. cansado... daqueles bem ruins. Vicente... — Você consegue essa informação? Elton ergueu os ombros e olhou para os soldados ao seu redor. Os bentos do norte agora estavam em perigo. Sempre gostei de ler. Lucas estava aos berros por causa desse lugar. O líder Elton aproximava-se a tempo de ouvir a resposta de Francis. As casas mais ao centro gozavam da luz amarelada do poente... — Lançamento? Vicente não conseguia ver ligação no que Elton dizia com o pesadelo de Lucas. atormentado. — Sim. eu não consigo lembrar exatamente.Um monstro terrível.. Tinham de partir. Francis e Vicente pararam e encararam o líder dos soldados espantados. Falou em inferno. — Lembre. mas não lembro. 328 . O grupo de gente ao redor de Lucas aumentava.. Não poderiam cumprir a promessa. — Não. servia para o lançamento de foguetes que levavam satélites... — Ele falou em fogo e fumaça. Lia muito "Superinteressante".. sempre fui curioso com o espaço.. Não poderiam ficar e desfrutar da beleza de Santa Maria. Bento Francis e Vicente atravessavam o pátio de Santa Maria. Está estafado.. Na Barreira do Inferno.. de pescoço longo e escamoso. — Não.. Mais soldados juntavam-se aos bentos... Um pesadelo. Elton. Pelo contrário. — É um lugar místico? — interrompeu Francis. — Existe um lugar. Há quantas noites nenhum de nós tem um sono decente? — Ele falou em inferno. a Barreira do Inferno fez parte do programa brasileiro aeroespacial. uma base de lançamento. — Ele está perdendo o juízo? — perguntou. — Era um lugar científico. o organismo prega peças. — Eu sei onde fica. — É. O sol descia e a sombra do muro da fortificação começava a cobrir as plantações internas e um gramado verde que servia de campo de futebol. — Diga. dificultando a aproximação da dupla. É só um mal-estar. Tinha dentes. indo em direção a Lucas. será "inferno" mesmo? — insistiu Vicente. — Onde ficava isso? — Não lembro. Estava alucinado.

O alvoroço ao redor de Lucas aumentava. — Não sabemos se ainda existe. Ensina uma porção de coisas para a população que freqüenta as aulas e para as crianças despertas.. O grupo permaneceu em silêncio. sobre sua inesperada decisão de abandonar Santa Maria. As metrópoles transformavam-se num labirinto sem fim. Elton disparou com Diego. é um nome do passado. fazendo do centro um covil gigante. propício à caça e a ao esconderijo dos seres da noite. Quando os bentos presentes começavam a conversar com Lucas.. O grande salão. Lucas levantou-se. Elton. com os líderes e bentos reunidos numa ampla mesa. Voltava ofegante.. Os vampiros tinham dominado Salvador. Cerca de uma hora mais tarde. enquanto Francis tentava vencer a multidão e aproximar-se de Lucas. servia de garagem. Lucas. a população resolveu dar trégua ao trigésimo. respondeu: — Tem a casa da dona Fátima. soldado local. Boa parte dos sobreviventes de Salvador haviam migrado para aquela localidade. Salvador havia sido palco de grande desgraça. Os brados dos cidadãos subiam de volume e os poucos soldados ao redor do trigésimo demonstravam dificuldade em conter a multidão.. Veio até junto da mesa.. Barreira do Inferno foi uma base de lançamento de foguetes. — Veja se descobre alguma coisa. oficina e arsenal à milícia local. pode estar infestado de vampiros. formada por diversas tábuas sobrepostas em cavaletes de ferro soldado. como em tantos outros grandes centros urbanos. acho que vamos levantar acampamento essa noite mesmo. Santa Maria não era um centro pequeno. Ela era professora e continua professora. sob o olhar de todos. com o boato de que bento Lucas não passava bem correndo de boca em boca. — Tem alguma biblioteca aqui em Santa Maria? Tem algum astrônomo que vive aqui? Diego. Elton surgiu. Eu estava certo. Lá é um tipo de biblioteca. tão igual a tantos outros em outras fortificações. — Então esse lugar existe. — balbuciou Lucas. fugindo das cercanias do velho centro. Voando! Já me acostumei com Lucas. que ainda não foram alfabetizadas. — Esse lugar. descobri onde fica a Barreira do Inferno. 329 . — Fica ao sul de Natal. — pediu Francis. — Eu descobri. — Leve-o até essa casa. como tantos outros. como se tivesse acabado de disputar os cem metros rasos. indo esconder-se no interior. Tinham voltado ao alojamento dos soldados. Foi um lugar.. Centenas de histórias de famílias inteiras devastadas pelas nefastas criaturas circulavam pelos lares dos sobreviventes. — É para lá que vamos. Elton puxou uma caixa de madeira e sentou-se para recuperar o fôlego. — interrompeu bento Teodoro. em fortificações mais distantes. mas o grosso dos ex-moradores da capital baiana tinha se dividido.

— A gasolina acabou. — Aquele lugar pode estar infestado de vampiros.. — Eu matei mais vampiros que qualquer um de vocês. Vamos sentar o rabo em Santa Maria. Somos todos irmãos. Lucas. Andou até Francis e apontou-lhe o dedo. Quando o Duque chegar com o resto dos caras. infestada de demônios que perambulam à noite. Lucas estava nervoso. pra continuar essa andança eu preciso de um aditivo. O bicho tá pegando. todos nós. Quando abri os olhos nessa minha terra ela já estava assim. mais vamos demorar para chegar. o último guerreiro recolhido pela comitiva. Eu vi o inferno. — Só sei que tenho esses sonhos. Lucas olhou para Pedro. encarando Pedro.. — Eu segui a voz. em tom conciliatório..— Não podemos. — Colocaremos em risco se sairmos daqui sem uma boa razão. — Eu vi fogo e fumaça. Pedro não respondeu. Assim não dá. Ninguém é melhor que ninguém. meu bagulho acabou. Seu tórax de prata subia e descia rapidamente. Lucas.. Lucas. os desgraçados estão fechando o cerco. Quase perdemos tudo por causa desses sonhos. de algum jeito. Estamos exaustos. — Quanto mais demorarmos para sair. Sei que precisamos estar lá. Os malditos estão no nosso caminho. Faltam apenas seis de nós para juntarmos todos os bentos. Eu tive esse sonho por alguma razão.. a gente vai pra esse quinto dos infernos. Precisamos ir para a Barreira do Inferno. só sei que tenho que ir. Bento Vicente deixou a mesa e postou-se ao lado de Lucas. Temos todos a mesma missão e a mesma vontade. — balbuciou bento Pedro. — Quase nos matou. Não esqueça.. — O problema. Temos que ir. Sua barba crescida deixava o rosto enegrecido e acentuava o ar cansado. Estamos a cavalo. Preciso ouvir um Bob Marley. Nosso futuro está em jogo! — E os últimos dois nos colocaram com a faca no pescoço. batendo no tampo da mesa e colocando-se de pé. sustentando seu olhar acusador. é que. — disse Francis. bento Teodoro? 330 . Francis. Todos nós combatemos os malditos. Os veículos a motor estão sem combustível. colocaremos a profecia em risco. — Você não ouviu Teodoro? — insistiu bento Francis. São dez dias de viagem até Natal. — Acalme-se. mas não vi vampiros. eu sou o escolhido. — E se eles nunca chegarem? E se Duque o os outros forem mortos por um bando de vampiros? O que você vai falar pra mim. — interveio Teodoro. merda! — irritou-se Lucas.. Lucas. encontramos desgraça.. Se não nos movermos agora. Não fui eu quem colocou-os no caminho. Por que mudar as coisas agora? — Por quê? Não sei o porquê. Pra onde essa voz na sua cabeça nos manda. Precisamos descansar. rapaz.

— continuou Lucas. — Cada um tem que puxar a sua sentença. Olhou nos olhos daqueles homens. esperando um baseado. reunidos em Santa Maria para uma razão. Seguirei meu destino. Estamos aqui. Não só dos bentos. é até o inferno que iremos segui-lo. Vou e faço o que tem que ser feito. Quase não falava nos últimos dias.. Com ou sem vocês. — dessa vez seus olhos ficaram em bento Teodoro. — Eu parto essa noite.. Se a nossa pena é seguir Lucas até o inferno. Depois tornou para Vicente. que abriu um sorriso malicioso seguido de uma expressão de desconforto quando percebeu o olhar dos demais. Ficar aqui dormindo enquanto Duque e os outros entram na boca do diabo não é nem de perto nosso objetivo. — Santos Deus do céu! Que Você nos proteja. quando abria a boca costumava ser escutado. trocaram olhares rapidamente. pois esse maluco vai acabar com a gente! Lucas sorriu olhando para Francis. Seguirei meus instintos até o fim dos meus dias. Os olhares convergiram para Vicente. Francis.. Partiremos assim que a tropa for reabastecida. — Não fui escolhido como o trigésimo bento à toa. Lucas andou pelo salão. — Muito menos para ficar com a bunda no chão. nem com um bando de descrentes. dos soldados também. — Lucas. — Ninguém foi escolhido bento para viver um mar de rosas. Eu não paro pra pensar. A decisão está tomada. Sua capa surrada balançando nas suas costas. — Não gaste argumentos. Precisarei de vocês ao meu lado. Minha missão é estar onde devo estar. E o motivo é que eu não pestanejo. Os soldados que se mantinham ao redor dos bentos. — Pegue um mapa. incapaz de responder.Teodoro ficou mudo. 331 . Veja com Elton o melhor trajeto até essa Barreira do Inferno. Bento Francis inspirou fundo. Isso aconteceu por um bom motivo. O grandalhão estava com expressão séria.. não é perder tempo com incertezas. mudos e atentos.

caindo no centro do círculo formado pelos vampiros. A claridade residual fazia arder os olhos.Capítulo 44 Anaquias abriu os olhos ouvindo um eco em seus ouvidos. Estranhamente. o único vampiro com alma.. Estava faminto. Não queria sangue de adormecidos aquela noite. O ar. O espírito do vampiro-rei. Antes dos humanos encontrou o grupo de caçadores. Escalou vinte metros. ampliando o horizonte. Mas precisava cumprir a vontade do vampiro-rei. A criatura soltou-se da parede de rocha e tocou o chão com suavidade. Faminto e perigoso. contar que estava em conexão com o espírito da noite. O vampiro-rei soprou-lhe um nome. Aquele rosto. Cheiro de vampiros. Queria sangue vivo. 332 . Precisava de mais vampiros. mas não impedia o início da caçada. como despertando pela segunda vez do transe de repouso. Sangue. Vozes. Saltou do galho. Bastaria contar a boa nova. Seguiu a trilha. Desceu mais. reconheceu a vampira de pele negra. Mas o cheiro da caça era o mesmo. O vampiro fantasma. revelava que o astro rei deitara-se há poucos minutos. de alguma forma lhe parecia familiar. Agarrou-se ao galho da árvore seguinte. Tinha seguido ao norte. desviando-se do segundo atacante. A caverna escura e úmida abrigava centenas dos seus. Abriu os olhos vermelhos como brasas. Os cheiros da mata eram diferentes. As árvores eram diferentes. O vampiro-rei tocando sua mente e despejando suas vontades. O vampiro do sul cravou as garras na face do atacante. Precisava cumprir o desejo do deus da noite. transpôs os poucos túneis que davam para fora do covil. também exibindo seus dentes pontiagudos. Anaquias correu alguns passos e arremessou-se ao frondoso tronco de um jequitibá. Saltou para os galhos mais altos. Caçadores no caminho. Anaquias expôs seus dentes longos e desceu de encontro ao grupo. No grupo adiante teriam que lhe dizer uma coisa. como lhe pedira o vampirorei. Criaturas da noite ávidas em saciar a fome. Esqueceu do cheiro da caça e passou a farejar os vampiros. Precisava de um exército glorioso para preparar sua chegada. O odor da caça desprevenida era forte. ainda quente. Balançou o corpo. produzindo um estrondoso "creck" ao esmagar os ossos do punho do agressor. Anaquias fechou os olhos. Os confrades ergueram os olhos para o forasteiro. Precisava de vampiros e de informação. Agarrou a mão do terceiro. enebriando-se com a presença de seu deus noturno. fazendo brotar da pele dilacerada gotas negras de sangue viscoso. iniciando o vôo de árvore em árvore. A seus olhos eram novos seguidores prontos para serem agregados ao novo exército. Queria o prazer da emboscada. O primeiro e mais arisco dos vampiros atirou-se sobre Anaquias.. Uma coisa importante... Com rapidez. O vampiro-rei projetou uma imagem em sua mente. Santana foi a única que se esquivou. Seus olhos espectrais varreram a floresta. A maldita atendia pelo nome de Santana. Saltou para o ar.

vampiro? — Briga. certamente. vampira. A risada de Anaquias alastrou-se pela noite. exibindo as presas mais uma vez. Sabia. Santana expôs seus dentes ferinos. — O que veio buscar. — Vim atrás de informação. cobrindo ao redor com um espectro rubro. — respondeu Anaquias. Informação importante.— Parem! — bradou a vampira-líder. depois seu rosto abriu-se num sorriso maligno.. não foi. 333 . Santana. — O que quer saber? — O que é a Barreira do Inferno? A vampira permaneceu calada um instante. Anaquias deixou os olhos brilharem num vermelho intenso. Santana. — Sabia..

numa embarcação ligeira. por aquelas águas. enquanto sentia o vento cruzar o convés e balançar seus cabelos. pois o melhor caminho cruzava com a velha Salvador e não seria nada sabido querer incentivar os homens a uma viagem à Barreira do Inferno. tinha a nítida sensação de já ter passado por ali. Não havia nada ali na água. deixando aumentar gradativamente a distância entre os dois. Nessa ocasião obscura em seu cérebro só sabia que. bem apropriado para a emergência. Baixou os olhos para a água. Cada qual agarrado ao seu tanto de suprimento e à sua arma. os bentos haviam se juntado em um canto. Só lhe trazia aperto. com direito a cruzeiros num "Queen Isso ou Aquilo". Não sabia o que procurava nem o que procurar. Caso tivessem que procurar pelo diesel. mas até que era interessante estar no navio. mas. Fora muita sorte ter encontrado dois navios em condições de prosseguir jornada. como agora.. tinha estado sobre o mar seguindo alguma coisa. apesar das lembranças reais serem negadas. mantendose afastados dos malditos mesmo durante a noite.. a sensação era nova. Lembrou-se do capitão dizendo diante de seu queixo caído que aquela fragata era uma das pequenas. subiriam a costa brasileira. mas pela disponibilidade de combustível a bordo. vinha no menor. e o casco 334 .. coisa rara nos dias de hoje. De navio. A superfície do mar brilhava com o sol forte. Decididamente. Vicente havia convencido Lucas que descansar seria o melhor antes da partida. Esperariam a luz do sol e cruzariam a velha capital durante a luz do dia. só sabia que nunca havia estado num navio daquele tamanho. Decididamente o mar não era seu lugar. formando um aglomerado de couraças prateadas. que tinha o dobro do tamanho. seguindo um instinto. Apesar do espaço vasto sobre o convés do cargueiro.. vinha atrás. começando com o inferno propriamente dito. O avançar do navio era ligeiro. mais uma vez. e desembarcariam ao sul de Natal. O segundo navio era mais parrudo e lento. Não que aquilo fosse um pacote da CVC. Algo dizia que estivera num barco menor. As vozes das conversas iam e vinham em seu ouvido. trazendo os cavalos da tropa. pegou-se.Capítulo 45 Lucas caminhou entre os homens. Os mulos seriam obstáculo menos comprometedores que a legião de vampiros soteropolitanos. Lucas não se lembrava de ter feito um cruzeiro em sua vida pré-adormecida. Junto com Elton e dona Fátima. impressionado com as dimensões da embarcação e olha que. Debruçou-se sobre a amurada e vasculhou as águas cortadas pelo casco. o plano jamais teria dado certo. A maioria dos soldados dormia. Levariam dias para juntar tanto combustível. Olhando para o convés do navio. tilintar de cotas de malha e capas vermelhas surradas. como o capitão dissera. razoavelmente próximos à base de Barreira do Inferno. Não só pela manutenção do equipamento. pois o cargueiro. Vicente havia descoberto que o caminho mais rápido e seguro seria pelo mar. Mirar aquele mundão de água só lhe trazia tristeza. Desviou os olhos do oceano.

Mas o bento estava determinado a não dar ouvidos às conversas. revelando ter a habilidade de transformar a água de um pântano todo em água benta. Era isso que importava. Os cochichos funcionavam como esterco. Com medo. mesmo correndo de boca em boca que o líder Elton tinha visto o espírito do seis bentos no banco de areia. Se poderiam esperar em Santa Maria. Sabia que tinha que ir à Barreira do Inferno. por que não o faziam? Seria mais difícil ser morto numa fortificação preparada para a defesa. Levar os homens de encontro ao destino. seguiam contra vontade para o norte da região nordeste do país. mantinha seu olhar. Os mensageiros haviam partido há vários dias. a mercê das criaturas das trevas. Só não tinha certeza do que encontraria. Aquele incêndio cego de fé e devoção que ardia na alma de seus seguidores arrefecia. esquecer as verdades ao redor do trigésimo e colocar em xeque suas virtudes. eram capazes de balançar qualquer fundamentalista. Defendê-los dos malditos. que alimenta a raiz.. Os bentos viriam a Santa Maria. escusas e acusações. nos lombos dos cavalos. Lucas não queria dar essa chance. Pelos cálculos de Elton. para o ponto de encontro. Certamente seria mais rápido do que cruzar o nordeste.. Viriam ao estado da Bahia para a junção das trinta espadas. ao menos dois Estados. Durante as horas sem sono e o avanço sem trégua haviam se distraído e engolido a semente da dúvida e em suas entranhas essa merda germinava. Tinham medo.. Até mesmo aqueles argumentos. o medo germinava e ganhava raízes nos corações acuados da soldadesca. Sabia que lá encontraria os bentos restantes. Aos olhos da intriga que brotava. sua guia e liderança. As últimas excursões tinham sido atrapalhadas. Lucas agora parecia afastá-los do motivo principal da jornada. Erva daninha. que sustenta a erva. Mas. bombardeado pelas tempestades dos últimos acontecimentos. que quando bem calçados. a embarcação atracaria no Rio Grande de Norte dentro de um dia e meio. sem chance para os 335 . Vicente e de mais dois soldados que haviam sido marujos no passado. Estava expondo o grupo a um perigo desnecessário. Tapava os ouvidos. Não entendiam a mudança repentina nos planos. queriam a segurança do muro. sem chance para o erro. Tinha que ir e levar seus homens à Barreira do Inferno. Era isso que a voz transformada de Bispo lhe soprara no pesadelo. Por sua vez. perigosas. os bentos e boa parte dos soldados formavam oposição.rasgando a água provocava um barulho ritmado e gostoso. sem vacilo. do que morrer no sertão. Não queriam os rincões a noite. O que fariam lá? Lucas havia prometido uma pausa. Indo pelo mar também evitariam novo confronto com os malditos sugadores de sangue. um descanso. queriam descanso. capazes de abalar certezas. Que deveria defendê-los. não dar chance aos argumentos.. começavam a destruir o mito. mesmo tendo encontrado aquela rota mais segura. O respeito e admiração dos homens havia se convertido em medo. também suas convicções. Começavam a afundar num posso de lamúrias. Entretanto. Mesmo Lucas tendo prestado tão maravilhosa demonstração de poder místico. Sabia que estavam com medo. E o medo construía todo o tipo de história. Lucas tinha certeza do que fazia. O desgaste físico dos últimos dias havia corroído além das fibras de seus seguidores. Mantinha sua força de líder.

sacar as espadas e juntar as peças. Tinha que estar lá quando acontecesse. Uma peça de quebra-cabeça.vampiros. 336 . Lucas inspirou fundo e baixou a cabeça. Cabia a eles. os escolhidos abençoados naquele navio. Isso o danado do Bispo não conseguira revelar. "Acontecesse" o quê? Isso ainda não sabia. nem dar resposta. Era como ele havia dito em outra ocasião.

ordinários.. Os olhos humanos não tinham sido abertos. Anaquias havia visto o espectro maldito. Essa era a ordem do vampiro-rei. A notícia de que o vampiro reunia soldados para uma organização suprema do exército da noite corria de ouvido em ouvido. A energia tornava desigual. O velho aguardara mansamente.. passando abaixo dos seus pés. tal qual fazia o maldito trigésimo guerreiro dos humanos. mas ainda um cego. Um cego com um maravilhoso cão guia. Um vampiro-bruxo. feito lobo sob a pele de cordeiro. Anaquias executava diante de seus olhos algo mágico. Deveria organizar o ataque. Fazia com que ela lhe soprasse a boas novas. Enganara as energias. Anaquias VENCIA.Capítulo 46 Anaquias subiu no galho mais alto. preparar um exército para a chegada do mestre de todos os vampiros. Anaquias havia visto os bentos unindo-se ao sul de Natal. Um vampiro-bruxo. E lá estava. Mas o vampirorei era o oposto de cego levado por um Pincher-guia. Anaquias não podia parar de recrutar. Do contrário. suas últimas conquistas. haveria de fazer delas um bloco unido. Bispo via com a energia. seriam esmagados pela energia apontada aos humanos. Anaquias deveria estar lá. Ah! Os vampiros aproveitaram a piscadela.. em busca do confronto. Em razão de seus últimos sucessos. pelo homem chamado Bispo. Anaquias VIA. Anaquias deveria organizar um número de criaturas da noite. um bloco com propósito. dentre as árvores.. marchando. vindo em sua direção. Eram maioria. nem pelo mais sábio e receptivo deles. um rio de brasas. mas não lia nas entrelinhas. silenciosos. O vampirorei lhe soprara ao ouvido. Esse não era um cego! O vampiro-rei via tudo e lhe dizia tudo. A caminho da Barreira do Inferno. Do vampiro desaparecido. Anaquias teria de liderá-los. O vampiro-rei era o verdadeiro portador da libertação. O trigésimo ouvia os sussurros agonizantes da energia soprando em seus ouvidos por meio das migalhas de Bispo que mantinham-se conscientes no estômago do vampiro-líder. seduzindo cada vez mais seres das trevas. O vampiro-rei jazia com o sangue escolhido nas veias.. Unia-se com o mundo místico e trazia receitas do espaço oculto. Os vampiros tramaram contra o sangue de Bispo! Agora aquele bendito trigésimo! Ainda engatinhava na energia. nenhum conselho de vampiros ousava dizer-lhe não. Por isso Anaquias contemplava abaixo dos seus pés o numeroso exército vampiro marchando a caminho do leste.. tinham que tirar partido da ignorância humana.. Tinham que vencer. O vampiro-rei. Enganara o universo. tão mágico quanto seus corpos mortos e ambulantes. Tomara para si o destino e passara ele a ser o escolhido. no fito de liquidar com 337 . A energia tomava partido. Anaquias SABIA. Abriu um sorriso largo quando viu as colunas vermelhas caminhando no solo.. Os líderes vampiros estavam rendidos aos pedidos do vampiro profeta. olhando para um tabuleiro as trinta pecinhas mexendo-se. Anaquias deveria impedir. preparando-se para o turno de jogo. Era isso. Soprasse-lhe qual passagem diante a bifurcação os vampiros deviam tomar.

Dizimar em um só ataque a maioria dos guerreiros místicos da luz que defendiam os muros das fortificações contra os guerreiros místicos das trevas. Para alcançar a vitória. A superioridade daria cabo do destino. Anaquias virou-se para contemplar. Tinham que devorá-los feito dragões famintos diante de carne sangrenta. Abriu mais uma vez seu sorriso maléfico. 338 . Tinham que acabar com os bentos antes que se unissem. Pouco mais a frente. assustador. Anaquias saltou veloz dentre os galhos. fazendo o cume das árvores oscilarem com suavidade. Anaquias tomou as rédeas para si e bateu com os calcanhares na montaria que disparou. saltando ao ar e descendo até seu cavalo. mais uma vez. marchando. silencioso.a estratégia dos bentos. carregado pela rédea por outro vampiro. seu maravilhoso exército de trinta mil vampiros. magnífico. A chave para alcançar sem grande perda todos os Rios de Sangue do Brasil Novo. Acabar com a esperança dos humanos.

notaram uma agitação tremenda dentro dos portões. Bento Justo deixava o dedo dançar no ar. O negro ergueu o braço e acenou. aproximando-se e estendendo a mão.Capítulo 47 Duque e seus guerreiros chegaram a Nova Natal por volta do meio dia. mas antes tenho que terminar o que comecei. — Bem. para o encontro final. Viram uma fila interminável de caminhões estacionados no meio da rodovia que cruzava a fortificação de fora a fora. Finalmente havia concluído sua parte. Augusto caminhava rapidamente. — Satisfação em vê-los. Azuis feito duas bolas de gude. — Sigo com vocês. As macas traziam adormecidos. talvez por isso tivesse se impressionado tanto com a vivacidade dos olhos azuis escuros do guerreiro. Alguns moradores aproximaram-se da comitiva de guerreiros abençoados. Vieram rápido. acreditava que vocês chegariam dias mais tarde. Célio viu um rapaz encapado deixando um dos galpões. 339 . O desfecho da profecia chega em boa hora. Andaram de encontro ao sexto e último bento. e mais. A brisa marinha invadia os muros do forte. como é sua vontade. Os guerreiros trocaram abraços fraternos fazendo as couraças repicar ao contato. Duque notou uma extensa cicatriz no lado esquerdo do rosto pálido do bento. — Seu mensageiro chegou há poucos dias me avisando do encontro. Agora conduziria todos a Santa Maria. que o trigésimo bento estava desperto. Viram homens carregando macas. — Quarenta caminhões. apontando para cada caminhão para não perder a conta. que eram conduzidos para os caminhões. Não imaginam minha alegria em saber que viriam. num entra-e-sai sem fim de um complexo de cerca de dez galpões altos.. Nossa! O que estão fazendo? Duque e os demais sabiam que Nova Natal possuía um gigantesco depósito de adormecidos. Tenho urgência em entregar vocês a bento Lucas. com a capa vermelha esvoaçando para trás junto com seus longuíssimos cabelos negros e lisos. irmãos! — disse Augusto. trazendo um cheiro agradável ao olfato. Esperavam que Augusto partisse prontamente. — Sim. Augusto olhou para os caminhões e de volta para os amigos. Era bento Augusto. Os bentos olharam para Duque. Nunca tinha visto Augusto. Sinalizou para bento Duque. Duque abriu um sorriso largo. não contendo a satisfação.. Os vampiros estão mais perigosos a cada lua. Logo que adentraram os portões. Amintas apontou para os amigos. Amintas foi o primeiro a desmontar e pousar a mão enluvada na cabeça de uma garotinha que aparentava seis anos. Vinham tocar suas capas e pedir proteção. Ao que parecia os corpos em suspensão estavam de mudança.

Os computadores. irmão. — Esse comboio irá levar os adormecidos para nossa nova fortificação. Nossos grupos de busca têm encontrado muitos adormecidos recentemente. Olhando novamente para as estruturas onde eram empilhados chegava a sentir ansiedade. 340 . a base. Os corpos eram empilhados em grande quantidade.. Concordei com o líder de Nova Natal a trasladar boa parte dos adormecidos desta fortificação para uma nova. abandonado pós-Noite Maldita.— O que te prende aqui. As preparações terminam hoje e esta noite partiremos com o comboio para a nova casa. Vocês verão que figura. Chegaram ao fim do primeiro caminhão. — Onde fica esse lugar? — Barreira do Inferno. Mesmo assim precisavam de ar circulando nos pulmões. — Vive lá um carinha singular. Até a conservação dos jardins e as pinturas dos edifícios é mantida em dia pelo Franjinha. Estamos voltando das cidades mais distantes cheios de pessoas com sono. Parece cientista. as fiações. formando corredores por onde os homens andavam. — Nova? — Sim. Só falta foguete pra lançar. Tudo funciona na Barreira do Inferno. meus amigos. De ouvir os médicos em outras ocasiões sabia que aqueles corpos consumiam uma taxa muito diferente do que eles. Estamos ficando sem espaço por aqui. Vive inventando coisas. sozinho. Os adormecidos queimavam o mínimo de energia. Montou um gerador de energia elétrica para abastecer o centro. — Esse lugar teve uma imensa instalação adequada às necessidades dos médicos em manterem os adormecidos em condições minimamente humanas. Cada adormecido era separado por uma distância mínima do corpo seguinte.. Já ouviram falar? — Era uma base de lançamento de foguetes ao sul de Natal. Até tem um lá. Tivemos também sucesso na destruição de um covil de vampiros que mantinha um Rio de Sangue. Seguramente contariam com ventiladores ou algo similar para garantir a ventilação adequada para os corpos. O interior havia sido tomado por estruturas de madeira montadas de formas geométricas lembrando colméias. parece que foi construída ontem. Provavelmente Duque sofria de claustrofobia. Apelidamos o sujeito de Franjinha. — continuou Augusto. os despertos. É. não era? — Era não. Duque achava impressionante a quantidade de adormecidos que passavam nas macas e eram levados às carrocerias dos veículos. — Como a base pode estar tão conservada assim? — perguntou Célio. irmão? São os caminhões? — Exatamente. Olhou para um dos compartimentos. mas depois de trinta anos é um monte de ferro-velho. Começaram a andar em direção aos caminhões. Agora. exigindo pouco oxigênio no organismo para manterem-se vivos.

— Fechado. Amanhã pela manhã. Vão carregados em excesso. Eu partiria agora mesmo. Duque. — Veja. Por que não vamos de madrugada. desculpe Duque. 341 . — O quê? — Segundo Franjinha. no máximo. Chegamos na metade do tempo do comboio. — Não vou abandonar meus homens na reta final. ao norte de Salvador. Augusto encarou Duque. Seremos piores que os vampiros. A viagem dura cerca de quatro horas. E tem outra coisa. Se fecharmos essas carrocerias com toda essa gente ai dentro. Tem um veículo à minha disposição. será um massacre. — Não sei. A temperatura vai subir tanto que eles morrerão no meio do caminho. — Partimos agora? — quis confirmar Duque. Os caminhões estão quase cheios. nem em povoado nenhum ao redor. — É seguro. — Temos que nos juntar a Lucas.— O que você quer dizer com "verão" ? Nosso destino é Santa Maria. partiremos para Santa Maria. Faz meses que nenhum ataque acontece por essas bandas. Se cruzar com um na mata é capaz de dar boa noite e passar batido. Os soldados vão fortemente armados nos caminhões. — Justo no anoitecer. pois sou o responsável pela segurança na Barreira do Inferno. Só poderemos viajar quando anoitecer. Vamos em um carro rápido. — Acho arriscado. cara. Só não partiremos em uma hora por causa do sol. bento. Nós partiremos agora. Duque estendeu a mão para o bento de olhos azuis. como é seu desejo. O cara nunca viu um vampiro na vida dele. Nossos cavalos serão levados num dos caminhões. a Barreira do Inferno nunca foi atacada. nem aqui. Faremos o percurso em duas horas. — refletia Duque. — insistiu o bento negro. passando a mão na cabeça. Temos monitorado a estrada há semanas. — Agora. faltando pouco para o amanhecer? — O caminho está limpo. no máximo.

Alguma coisa estava favorecendo as criaturas. ao extremo da fé no invisível? Os milagres estavam em xeque. Por que tinham sido carregados para lá? Por que os sonhos lhe imbuíam de tanta urgência e faziam com que arrastassem aqueles homens ao extremo da capacidade. estivessem perdendo a força. num sobe e desce incessante que custou a tripa de muitos dos soldados. jogando o barco para cima e para baixo. Essa listra de areia branca reflete com intensidade a luz do sol nascente. o apelido de "Barreira do Inferno" vem dessa areia.. Uma muralha de areia. Chegava a hora de descobrir o significado de tão estranho pesadelo. O trigésimo aquiesceu em silêncio. Os motores potentes faziam a embarcação singrar o mar. Lucas sentiu um arrepio percorrendo-lhe a espinha. Ao adentrarem o estado do Rio Grande do Norte. apontando o continente. na grande maioria. os bentos. — Está vendo aquelas falésias? — perguntou. estamos a quarenta minutos da costa. Era a vez dos vampiros moverem-se no tabuleiro. Lucas sorriu. Alguma coisa estava acontecendo. 342 .. Soltou-se da amurada e caminhou para o meio do convés. Caso algo saísse errado. Era como se eles. Por onde passavam recebiam notícias de ataques de vampiros. sabia que muitas vidas seriam perdidas. — emendou o soldado. tirando da terra a luz protetora que manteria os homens livres das bestas. não um muro de areia. que pareciam mais e mais organizados a cada noite. cortando velozmente as águas. Via uma extensa faixa branca. — Lucas. O turno do jogo mudava de lado.Capítulo 48 Lucas segurava firme a amurada do navio. A visão de fogo e fumaça tomou-lhe os olhos. O segundo barco levará mais de seis horas até aqui. Bento Vicente aproximou-se. enganando os olhos dos marujos. por soldados que faziam sua escolta. o mar mostrara-se mais bravio. — Devemos estar perto do destino. Passou a mão pela barba cheia e fitou mais uma vez o céu rubro. observando por um longo instante a tripulação composta. que imaginam ver um muro de fogo. Elton alcançou Lucas e parou ao seu lado. Será mais seguro para o descanso dos soldados.. O sol descia de encontro ao horizonte. — fazia sentido. — Barreira do Inferno. Está escurecendo.. Lucas mirou na direção apontada. — De acordo com o que eu li na biblioteca da Fátima. Podiam sentir o cheiro de algo mudando. Pensamos em ancorar e repousar em alto-mar. Mais e mais fatais.

bento Vicente. Lucas agia estranhamente. Tinha medo. Nem mesmo acordar preso à uma maca. certamente não para ficar nesse barco enquanto os outros vão de encontro ao destino. Uma situação atrás da outra. apresentados pouco mais de um mês atrás.. bento Teodoro. Não estou com medo. bento Teodoro. depois os outros ao redor. Ajeitou seu cabelo vermelho rastafari. mas. às cegas. colocava a todos em perigo e em situações que pareciam desnecessárias. — Estou num barco. devemos avançar. cercado por irmãos. onde 343 . A lógica. Fui feito um bento por algum motivo. bravura e uma espada afiada na cintura. Lucas. — É só a razão. os escolhidos para o combate. esta noite.. — Nada. Não sabemos o que nos aguarda no litoral. Lucas era o trigésimo bento. os dezoito bentos. — respondeu Teodoro. Os homens mantiveram silêncio.— Assim pode ser. Alguma coisa me diz que tenho que chegar lá o quanto antes. Nem mesmo arrancar a espada da bainha e destroçar trezentos e sessenta vampiros no meu primeiro combate fez sentido. Vão de encontro ao que foi visto pelo velho Bispo. devemos continuar nossa jornada. e agora quer nos tirar do barco com a noite entrando. Fará parte do meu grupo. agora. quando ele havia prevenido sobre o perigo. Não podemos ir. Era firme e resoluto. erguendo os braços. Lucas encarou Teodoro.. pois nos últimos dias havia visto mais coisa estranha acontecendo do que em toda sua vida. homem? A noite está chegando. pela segurança do sol.. Deixe-nos descansar. busquei a estrada. mas nós. mirando a figura incansável de bento Lucas. Depois de quase um minuto foi a voz de bento Teodoro que ergueu protesto. Muito menos sonhar com o nome e com um lugar que eu nunca vi e agora tê-lo a minha frente. por isso não ficarei aqui mais nenhum instante. não desperte o temor nos restantes. do contrário não portaria esse peito de prata. Nada tema. Os homens mantiveram o silêncio. por favor. O destino nos reserva um episódio inadiável nas terras do Rio Grande do Norte. Depois aquele encontro com os gorilas. com um tubo de soro hidratante na veia me fez sentido. Quanto a nós. Não faz. — Não. — Não é medo. Essa correria de nego na larica não faz sentido. Teodoro emudeceu. Não poderia argumentar contra o líder. Tinha medo sim. Engoliu a saliva que se juntava na boca. Quando o velho Bispo me disse que eu guiaria essa gente até o desenlace dos prometidos milagres. — Está louco. Foi escolhido por alguma razão. Tinha tido também a travessia do rio. Primeiro o tirara da ilha no meio da noite. tema. Era uma chama que ardia diante de seus olhos. não busquei sentido. Deixe os soldados aguardarem pela luz do dia. Teodoro. Você já nos arrastou até este fim de mundo. Deixe os homens descansar. se meu pedido é demais.

Não lhe cabia duvidar da escolha. dando a impressão que seria engolida para baixo da água. Lucas era diferente. providencie nosso transporte. Assim que conseguiram afastar-se cerca de cinco metros. assim marcharia. Não lhe cabia duvidar do destino. Vicente atravessou com dificuldade o bote cheio e chegou ao motor de popa. não cabia a eles julgar a urgência do trigésimo bento. por meio da manopla atada ao leme e ao acelerador. — Bento Vicente. tal qual seguidores fanáticos de um deus que caminhava na terra. qualquer um deles poderia ser o eleito. Deram espaço para que Vicente sentasse junto ao motor e. a qual apanharia a todos em menos de meia hora. de alguma forma. Cada qual imerso em seus pensamentos. diante do mutismo do bento discordante. ainda tinha contato com o 344 . Os semblantes estavam longe de mostrar paz de espírito e contemplação da bela paisagem que cada vez crescia mais no litoral. Tinha escutado atentamente os ex-marujos e não teve dificuldade para encontrar a partida do motor. feita de borracha inflada. Os primeiros quinze minutos correram bem. passou a descer lentamente. Alguns chegavam a achar que Lucas. Fosse todo bento agir igual. atrelados a um mecanismo controlado do convés. os bentos afundaram precocemente na escuridão. manchado e tomado por crustáceos que há muito aderiram ao metal fazendo do navio sua moradia. — ordenou o trigésimo. Não seria um covarde. Perdera o ar inocente e também a leveza. Sob orientação destes conseguiu embarcar os dezoito bentos numa embarcação menor. Os bentos agarraram-se às cordas que rodeavam a lancha de borracha. Vicente foi até a ponte de comando. Com o sol baixando do outro lado da embarcação. Ele ouvia coisas. Se o grupo marchava com Lucas. em seguida. Na terceira puxada. O bento apanhou um remo e afastou a lancha do velho casco. atada a cabos de aço. serpenteando em direção ao convés. Lucas tinha dito bem. Ele recebia comandos. razão e previsibilidade. que foram recolhidos mecanicamente. A embarcação menor ondulava ao lado do casco do grande navio. Teodoro tinha medo e razões para tanto. retornando instantes depois com soldados que tinham tido experiências náuticas antes da Noite Maldita. o motor roncou e impulsionou a lancha num coice inesperado. Os bentos iam calados. Acionou a bateria e injetou gasolina para. puxar o cordão que girava o motor de arranque.dois soldados foram devorados pela correnteza. Vicente soltou os cabos. guiasse a embarcação inflável até o litoral. Lucas ia ao encontro dos milagres. Tudo por culpa de uma marcha sem paradas. Mas cabia-lhe obedecer. buscando firmeza. Estava duro e inconseqüente. com total senso. Ele sonhava coisas. Parecia mais um ditador do que um salvador. submetendo-os às mais duras provações de fé. cada vez mais cegamente. A lancha verdeoliva. criando coragem para seguir Lucas. caso uma daquelas marolas fosse mais violenta. contando com um possante motor. com o vento farfalhando seus cabelos e capas.

Estavam ali justamente para salvar o couro do trigésimo bento. O mar agitava-se mais a cada dezena de metros avançado. Os bentos fizeram mira na praia. 345 . Eram eles que dariam nome e forma às fábulas vindouras que seriam eternizadas pelos letrados da ocasião. Não há grande vitória sem grandes heróis. reduziu a aceleração. apontando agora para baixo do bote. estreitas faixas de areia. O bote. ao contrário disso. E. Mas. Vicente. oferendas e graças pelo sangue dado na luta pelos quatro milagres. Leriam num grande livro seus feitos e sua luta contra os demônios das trevas. Suas mortes. Depois dos quinze minutos iniciais e do total silêncio da tripulação. fazendo o bote deslizar mais devagar. Aferraram-se as amarras para não serem atirados na água. — Vejam! — repetiu Dimas. aquele conjunto de quase vinte cabeças. viam agora. não era um deus na terra. diante do espanto. os peões que desenhariam aquela aventura. Era uma fera no combate aos vampiros. que ouviriam esses causos da boca de outrem. Lucas era poderoso. — Deus. Além das imensas falésias diante de seus olhos. a grandiosidade da missão e a preocupação demonstrada por Lucas em alcançar quanto antes os bentos na Barreira do Inferno davam uma dimensão do perigo pela frente. retirando a espada da bainha. situação bem semelhante a das predições do velho Bispo. Temiam o caminho. o protetor de Santa Maria. Eram eles. apesar de tudo. estava cercado por centenas de barbatanas! — Tubarões! — gritou Teodoro. cada homem ali sabia qual era o seu papel. tentando adivinhar qual deles cairia. Praias. Não era aguardar que Lucas surgisse gloriosamente e salvasse seu couro.. O ronco do motor começou a ser engolido pelo ronco dos vagalhões estourando na praia.falecido Bispo. Não se juntam heróis sem um punhado de cadáveres. Pois não eram meros expectadores. Não há grande história sem mártires. Vicente escolheria uma onde aportariam. na razão de tanto espanto. Era ele a chave para a salvação. Os olhos correram agora na direção correta. Era ele o salvador do novo mundo. Temiam a direção. sabiam que parte deles morreria. Não cobriria as costas de todo mundo. Muitos deles ali no bote entreolhavam-se.. em diversos pontos. motorizado. vidas e mortes seriam contadas às gerações vindouras. — Olhem! — gritou bento Dimas. As gerações vindouras honrariam seus nomes. Mais um chacoalhar perigoso da embarcação. E assim ele faria. Haveriam de depositar sobre os mausoléus imponentes onde seus restos mortais descansariam. Só assim para explicar as visões e os pesadelos premonitórios. — Olhem! Aqui! Na água! — repetiu o bento assustado. custasse o sangue de quem custasse. — murmurou bento Francis. Suas vitórias. Ele era o escolhido para banir os sugadores de sangue da face da terra. o mar começou a ficar mais revolto com a aproximação quase completa do litoral.

— É um cachalote! Só pode ser. — brincou o ruivo. preciso de todo mundo inteiro na praia. Teodoro segurou o bento pelo ombro. vinte deles aproximando-se do bote. Atrás do filhote formou-se um trilho de sangue. tornando por vezes perigosa a distribuição de peso do bote. — Calma. quase inaudível. 346 . ô entusiasmado. Ninguém vai pescar seu bichinho.. Os tubarões aproximaram-se da lancha. — balbuciou Dimas. — Calma! Calma! — berrou Francis. Barbatanas de tubarões. Virou a cabeça para a esquerda. Agora centenas de barbatanas cortavam a superfície em movimentos circulares.. Lucas ergueu o dorso tentando olhar mais longe. — É imenso. Estava ferido. Mais uma marola apanhou o bote motorizado. apontando mais uma vez para a água. logo voltando a afundar. Afastem-se da borda do barco. mantendo-o na embarcação. facilitando a sua percepção por parte dos homens. Fingiram calma. — disse bento Ramiro. um filhote de baleia surgiu à tona. A lancha oscilou com o movimento dos homens mais o jogar do oceano. Barbatanas. — disse Lucas. ágeis caçadores do mar. mantendo-se sentados. Tá parecendo o molenga do Matias Greenpeace. novamente acometido por espanto. Não viemos aqui para virar comida de peixe. abrindo um sorriso e colocando metade do corpo para fora do bote. Teodoro perdeu o sorriso enquanto olhava para os olhos do colega. Os tubarões. Os bentos obedeceram. lá. — Nossa.. Para surpresa dos bentos. Tinham aumentado de número. — Não estão atrás da gente. Os bentos pendiam o corpo de um lado para o outro.Os olhos dos bentos encontraram uma imensa sombra movendo-se logo abaixo da embarcação. aproximaram-se em alta velocidade. A mancha negra moveu-se rapidamente. — Rápido com isso.. facilitando que adernasse. — disse. — É linda! Deus do céu! — exclamou bento Ramiro. pelo menos. não. Vicente. Em questão de instantes a mancha negra foi tornando-se mais e mais difícil de detectar por conta do déficit luminoso. — Acho que estão atrás daquilo. Podia ver. O sol minguava e com ele a claridade ia embora. — Uma baleia! — berrou Vicente. retomando a rapidez da embarcação. tomando cuidado. observando detidamente a água. Vicente voltou a girar a toda a manopla.

pela água do mar e pela areia. — Vamos salvá-los! — gritou aos demais enquanto desatava o peito de prata. Os olhos ardiam. Rastejou para fora da água. chegaram à arrebentação. o gigante do mar atirou-se ao ar. Os que puderam. Por sorte o pior não aconteceu. Bateu braços e pernas. pelo nariz dessa vez. Quando voltou a si. Estava de costas na areia. mas parecia não parar de afundar. A capa de um bento ao seu lado enrolou em seu rosto. Os demais ainda lutavam na água. puxando. voltando a água com estardalhaço indescritível.Em seguida. posto que ainda estava engasgado. tal e qual o mar. Tossiu. Gotículas lançadas ao ar molharam a face dos homens feito chuva. A água já estava escura pela falta do sol. Lucas pensou que morreria naquele instante. na tentativa vã de salvar sua cria dos caçadores. Sentiu a água salgada arder nas narinas quando engoliu mais. Dessa vez. o barco consertou a inclinação. Os primeiros gritos começaram. Sua cabeça subiu à tona por dois segundos. Firmou a visão. só ouvia a tosse em coro dos demais. Virou-se e ficou de pé. O som das ondas era furioso. aumentando ainda mais a aflição. O grupo de homens gritou em uníssono. em mais alguns minutos. sendo pego pela segunda onda. Em questão de segundos. mas ainda flutuando sobre a água. tossindo. Ao entrar na primeira onda. soltou-se do bote de borracha e bateu as pernas. Foi jogado pelo mar para cima e quando abriu a boca para buscar mais ar foi surpreendido por uma nova onda. Quatro passos para frente. divisando apenas sombras ao redor. os bentos deixaram o queixo cair. A água agora vinha pouco acima dos joelhos. Parte dos mantimentos trazidos foi à água e. Vicente manteve-se aferrado ao leme e. sentindo a garganta doer. Não conseguiu muito. Vicente não contou tanto com a sorte. Impulsionou-se para cima. agarraram-se ainda mais forte às cordas laterais. Afundou com o peso da armadura. erguendo a popa ao céu. Nova onda na cabeça jogando-o ao fundo e fazendo seu corpo rolar. magnífica e assustadoramente. A baleia cachalote provocou uma onda imensa. pois nunca havia conduzido um barco e não fazia idéia de como vencer a arrebentação sem colocar todos em perigo. no instante seguinte. Contou dez bentos na areia. Sem ar. Bateu as mãos na areia e depois o rosto raspou no fundo. nesse tempo curto. o barco afundou o bico. buscando a superfície. Sentiu um empuxo quando a força e o som de outra onda imensa puxou o bote inflável. Dessa vez. quase a noventa graus. Colocou-se de pé num instante. Puxou mais uma lufada de ar para o pulmão castigado com água salgada. 347 . todo o ar que pôde. temeroso de serem atirados ao mar e terem a missão encerrada antes de começar. que atingiu o bote dos bentos a bom-bordo. Novo tombo com uma onda ainda forte. totalmente tombado. A sombra abaixo do bote moveu-se para a direita e começou a ganhar volume. O joelho dolorido desde a queda na caixa-d'água foi machucado outra vez quando bateu na areia do fundo. mais mantimentos foram para a água. O peito de metal pesava demais para conseguir boiar. Sua mão ainda estava agarrada à corda do bote. Lucas engoliu água salina.

o corpo imóvel prenunciava a desgraça. Bento Dimas e bento Edgar já voltavam para a água. de ponta cabeça. apareciam. deslizava rente a areia. que boiavam. Lucas tirava os coturnos. O sol já tinha descido e o vento do litoral açoitava os homens molhados que começavam a tremer de frio. com a maré alterada. Vicente chegou arrastado por uma onda. Junto ao motor tombado. Agora somente os objetos mais leves. Provavelmente. Dimas. mas assim que Dimas aproximou-se. fazendo-a prender-se à areia. deixando-os encalhados na areia. que permitia enxergar metros adiante. trazendo para a terra os pertences de alguns deles. Para a sorte de Lucas e de seu desejo. Tinham acima a abençoada luz da lua cheia. com as hélices para o ar. Dimas correu até o bote que ameaçava voltar ao mar. provavelmente pela lua. encontrou um galão vermelho atado por um grosso barbante. que pesavam uma tonelada cheios de água. deixada na areia. parte das mochilas de lona havia aberto no fundo do mar revolto soltando seus pertences que surgiam como presentes de Iemanjá.A noite ganhava o céu e a última luminescência do poente desaparecia. longe de estarem todos bem. os dezoito bentos estavam vivos. O barbante soltou-se e Dimas apanhou o galão. Correu até sua espada. Boa parte dos homens ficou prostrada na areia. O mar bravio estava puxando. Uma nova onda trouxe mais homens de capa vermelha para a praia. Lucas ajudava Edgar e Teodoro e juntava as coisas que vinham com as ondas. Vicente ficou de pé. Edgar e Teodoro ocupavam-se recolhendo os sacos de lona que vinham com as ondas. sem condições de levantar-se e ajudar a recompor o grupo. puxou a embarcação o máximo que pôde. Dimas. Aproveitando o empurrão de uma nova onda rasteira. Juntou-os perto do grupo maior que ainda tossia e tiritava com a baixa temperatura. Ouviam gritos desesperados na arrebentação. que tinha corrido até a vegetação rasteira. só movendo-se quando atingido pela água. e voltou com o fio afiado para o empecilho. O bote. mas estavam vivos. com as pernas bambas. ouviu a tosse misturada aos palavrões que o bento começou a proferir. Sabiam que boa parte das provisões desembarcadas estavam perdidas. voltava com cascas secas de palmeiras e galhos encontrados no chão. caminhando vacilante. Correu até Teodoro e 348 . Abriu o galão vermelho e despejou parte do conteúdo. Como trazendo um cardume desorientado. vomitando pequenas quantidades de água salgada.

Sentia desespero. enquanto bento Edgar punha um filete de sangue pelo nariz.. talvez. o calor foi confortando os músculos e aliviando o castigo. Mas teriam escapado de quê? Lucas fechou os olhos e apertou as pálpebras. Não por estar na água. Sentia urgência. Tinham que alcançar a Barreira do Inferno o quanto antes. Desespero. Passou a mão novamente na região. quase afogados. A areia corria pela ampulheta. Lucas deitou-se na areia e fitou o céu prolongadamente. buscando algo que não sabia o que era e algo que nunca encontrara. Não tinha dúvida. mas nunca parava de procurar. Era um ato involuntário. Algo do passado. Havia sido jogado para o fundo do mar e. seguir atrás de um trigésimo maluco. Tinham escapado de alguma coisa. Muito provavelmente estavam cansados não só fisicamente. isso cansava e dava medo. Sentia dores pelo corpo. depois labaredas firmes e a madeira crepitante ofereciam calor aos náufragos. Inspirou fundo e relaxou os músculos mais uma vez. O frio incrustava em sua carne. batido contra uma pedra. E esse sentimento só fazia crescer olhando para seus homens estirados. Passou a mão pelo joelho direito e sentiu-o inchado e bastante dolorido. O mar era daquele jeito. Perda. especialmente no joelho. agarrando-se aos ossos. Eles tinham escapado do oceano. cansados. Seu olhar sobre as águas. Para aumentar ainda mais sua preocupação. Olhou para os dedos da luva e aproximou-se da luz do fogo. daquele jeito.pediu-lhe o isqueiro de metal ladeado por bandeiras da antiga Jamaica. Seu joelho estava sangrando. Agora. latejando. Lucas aproximou-se da fogueira e parou um instante. Lucas respirou fundo ao sentar-se ao lado de Teodoro. O que incomodava agora era recordar o desconforto ao embarcar no bote. O desconforto que permeou todos minutos infinitos que ficou a bordo daquela pequena lancha. Instinto. Para os animais terrestres. um ato reflexo. Falta. É certo que queria levantar dali. Aos poucos. Não entendia porque não gostava de pequenos barcos. Bento Ramiro sangrava na testa. 349 . Instantes. um devorador de vida. Lucas arfou ao mexer o joelho machucado. Não entendia isso. faziam isso sem pensar. Estavam todos cansados. Os braços também gemiam. Um cara que os colocava à prova a cada dia. mas cansados de segui-lo. Mas os outros não poderiam. Vendo que todos pareciam remediados. O mar não lhe dava medo. Era só isso que as águas lhe transmitiam. Todos haviam sofrido um bocado. O sofrimento físico não era o que mais incomodava. O rosto arranhado pela areia ardia. Cansados de terem o pescoço em risco. Quando se batiam contra as criaturas das trevas.. Imenso e poderoso. Não queria encontrar o que procurava. e continuar rumo a Barreira do Inferno. Lucas notou que o sangramento não era um privilégio seu. Daria um descanso de vinte minutos para que os bentos recuperassem o fôlego. Sentiu mais uma fisgada no joelho. O mar lhe dava raiva.

mantendo-o fixo à batente. Anaquias via fogo e fumaça. Queriam sangue. O vampiro-rei havia estado em seu transe. Tomariam de vez seu lugar no topo da cadeia alimentar. A cidade fora tomada pelos vampiros. O vampiro-rei havia visto isto. Queriam uma boa refeição. Os comandantes pediam um Rio de Sangue para saciar os vinte mil enlouquecidos. Suas garras pontiagudas deram firmeza quando inclinou o corpo para frente. Estava sentado num barril de pólvora e não estava nem um pouco a fim de ver seu rabo de vampiro ir pelos ares. O vampiro-rei o impulsionava para o sul. Seriam donos da terra. Seriam Vitoriosos. Tinha que impedir o incêndio. Os que ainda estavam presos. Dariam fim à resistência agonizante daquela raça menor. As feras estavam famintas. A fome. mas sendo ouvido. Mas. semi-mortos. Cada um deles seria como uma fazenda. para ver concretizado a visão do espectro. sem ser visto. seriam devorados agora. Era isso que o espectro lhe soprava. Apenas isso tirava a concentração. por hora. mas sabia que estavam lá. com o anoitecer. Seu exército buscara abrigo na velha Natal. Uma assombração. Mesmo assim não bastavam. Iriam vencer e subjugar os seres humanos. amparando-se na sacada do sexto. Anaquias farejou o ar. 350 .Capítulo 49 Anaquias saltou para a janela do apartamento. Tomariam deles o sangue. agora que a jornada estreitava-se e a visão alcançava a reta final. Cultivariam e engordariam seus corpos. O vampiro-rei havia dito. Anaquias saltou do décimo andar. Os mulos e exilados que perambulavam pelas ruas foram feitos prisioneiros e tomados como alimento. O espectro perambulava ao seu redor. Para sempre. Juntaria caçadores e iriam em busca de Rios de Sangue. Eles estavam lá. O desejo de sangue. Fariam dos humanos escravos. teria de controlar o exército da noite. Nenhum sinal deles. E era isso que trazia instabilidade ao seu comando. Teria de alimentá-los. Para sempre. Seria como gado.

Capítulo 50 Bento Duque apanhou a luneta. O queixo caiu de novo quando viu com os próprios olhos o sofisticado sistema de geração dc energia elétrica desenvolvido pelo cientista maluco. Honrava o apelido de "Franjinha". mantinha um vasto campo aberto e conservado. cuidando de uma unidade militar desativada. Boa parte dos prédios contava com pintura recente e impecável.... somando à cena aquele rosto de expressões jovens e o cabelo loiro e escorrido caindo pela testa. mantendo a fiação elétrica e os computadores da sala de controle em ordem. O chafariz funcionando no pátio de entrada do prédio da administração dava o toque final. Que estranha paixão aquela! Por que um homem que poderia ser de utilidade gigante em qualquer uma das fortificações espalhadas pelo Brasil ficava ali? Sozinho. um maluco excêntrico. não haveria alcunha melhor que a do pequeno cientista das histórias de Maurício de Souza. O destino não poderia ter reservado zelador melhor para o Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI). Graças à claridade refletida pelo satélite natural e a altura da torre de vigia. Apesar de ter sido avisado e ter toda a situação explicada antes de partir de Nova Natal. Aquele cuidado com a base era resultado de uma devoção inexplicável de Franjinha. Metido no meio daqueles fios. Duque conseguia enxergar longe. Duque baixou a luneta e sorriu. Duque havia ficado impressionado ao adentrar a Barreira do Inferno. consertando as coisas. Marco Franjinha era um excêntrico. de nascença. realmente. O nome Marco. um lugar distante dos humanos. ao chegar a sala de controle e encontrar computadores funcionando naquele lugar que julgara deserto. como se a obra acabasse de ser entregue. tomando abrigo dentro dos muros recém-erguidos ao redor do terreno.. Mesmo com aviso de bento Augusto. Esse cenário inusitado devia-se a peculiar e incansável mania de Franjinha em manter tudo em perfeita ordem. Franjinha dissera aos líderes de Nova Natal como adaptar um dos silos de foguetes inativos transformando-o num reservatório de adormecidos. Sem dúvida. A noite ia adentro com a lua cheia brilhando alto no céu. Um ponto crucial na luta contra os noturnos. não esperava aquilo. A Barreira do Inferno estava calma. Vasculhou ao redor. Um lugar cheio de computadores inúteis e prédios vazios. aquela base militar tornaria-se uma fortificação importante no jogo. E aquele zelador? O que era aquilo? Uma figura. como se a base de lançamento estivesse sempre pronta para a subida de um foguete ou a chegada de um major ou brigadeiro para inspeção. lembrando da chegada. Todo aquele zelo nada tinha a ver com os soldados de Nova Natal. Ele e seus companheiros de jornada souberam que estavam enganados assim que adentraram os limites da base. graças a sua extravagante fixação pela Barreira do Inferno. ia sendo esquecido com o passar dos dias. todos os seus ex-colegas aeronautas e astrônomos fossem voltar ao trabalho. Mas. Logo um grandioso contingente de adormecidos chegaria. Situada em região belíssima. fazendo soldas. Disse também que o CLBI nunca 351 . Notaram a grama aparada e as árvores cuidadas. como se de um dia para o outro.

mas continuou a investigação. Divertia-se com o poderoso alcance que as lentes de aumento proporcionavam quando sentiu a pele dos braços arrepiar-se tomado pela surpresa. Sentia urgência queimando no peito.. o que tornava o local altamente qualificado para esconder dos vampiros um Rio de Sangue. Em anos que habitava aquele centro inativo jamais topara com um vampiro durante a madrugada. Sentiu alívio por um instante. trazendo para a Terra e para os homens os quatro milagres da libertação. Era um terreno que fora até então desprezado por homens e demônios. Observou a mata além do muro com a luneta. Os novos muros. Via pouca gente movimentando-se do prédio da administração até um canteiro de obras iluminado por energia elétrica. usando capas vermelhas 352 . Franjinha chegara a dizer que não raro caminhava pelos arredores. Sem soro antiofídico disponível. transbordante de calma e marasmo. ficando manco mais de um ano. O bento negro limpou a lente da luneta com a beira de sua capa surrada. percorrendo o trajeto de trinta quilômetros a pé. provocariam o desenlace da profecia. à beira das ondas. Pontos de luz movendo-se na mata. Gente boa aquele rapaz. Duque moveu o instrumento de observação para a esquerda. que vinha em direção ao CLBI. A floresta estava tranqüila. chegara a pernoitar na areia. amargara sete dias de febrões e alucinações. O zelador tarado havia dito algo sobre isso quando o soldado Cássio perguntou. Desejando que os caminhões com os adormecidos cruzassem logo o portão. o prometido ponto de encontro. cercavam totalmente a base. então. quando. nas poucas vezes que decidira visitar sua praia favorita dos tempos pré-Noite Maldita. Assim que os quarenta caminhões estivessem dentro dos limites do CLBI reuniria seus cinco bentos e partiriam imediatamente para Santa Maria. Melhorou a luneta e conseguiu contar cerca de quinze homens. A poderosa luneta estava fixa num tripé alto. Levou a imagem de São Jorge até a boca e deulhe um beijo.tinha sido visitado pelas criaturas da noite. Não eram vampiros. girando o controle da luneta. mesmo durante a noite e. Desejou que o padroeiro dos cavaleiros olhasse por ele e que aquele paraíso de nome tão antagônico continuasse assim por muitos e muitos anos.. O fogo vermelho vinha na ponta de tochas em marcha. em sua maior parte ainda formado por tábuas e troncos de árvores e em fase inicial de construção. Melhorou o foco. sem jamais ser incomodado por criatura alguma. O pior percalço encontrado nos anos de convivência harmônica com o CLBI e os seres viventes ao redor fora uma picada de cobra. Duque sorriu lembrando do jeito de Franjinha contar o caso. Duque ergueu a luneta e ajustou para a distância desejada. Na Barreira do Inferno a noite era sempre serena. Agora. Vampiros! Olhos queimando no meio das árvores! Duque aproximou vagarosamente a imagem. a única coisa que sobrara do infeliz evento fora a pele marcada por uma crosta grossa que brotara ao redor da picada e uma natural e sadia paura a cobra. tanto tempo depois. Olhando melhor percebeu que marchavam pelo veio de asfalto. Contou cinco hastes flamejantes movendo-se num caminho da floresta. o que facilitava sua operação.

Os quatro milagres surgiriam para libertar todos os povos das criaturas da noite. estariam chegando ao fim da jornada e começando uma nova página na história da humanidade. 353 . Pouparia uma caminhada e tanto aos parceiros. Correu até o canteiro de obras.e couraças de prata! Eram os bentos! Saltou da torre da vigia. Cruzou os dedos. Escolheria um dos soldados para apanhar os companheiros e trazê-los o mais rápido possível para a Barreira do Inferno. tamanha excitação. torcendo para que Lucas estivesse com eles e para que aquelas tochas não fossem uma miragem. descendo perigosamente a velha escada de ferro. Se o grupo de Lucas estivesse completo.

colocando o corpo do protegido atrás do seu. parece um caminhão. As coisas importantes aconteceriam lá.. mais conhecido como Centro de Lançamento Barreira do Inferno. Liquidar com a esperança humana por uma resistência superior. Suas tochas ajudavam a lua a clarear o caminho. atentos aos barulhos na floresta. Marchariam até o CLBI. Vicente deveria ter errado nos cálculos. um barulho alcançou os ouvidos dos bentos. E.. Lucas e o seu grupo de bentos exaustos continuavam a jornada em busca da Barreira do Inferno. — O que será? — perguntou Vicente. deixando-os longe demais da base de lançamento. Destruir a Barreira do Inferno e os trinta bentos. pondo a mão no cabo da espada e afastando Lucas do meio da estrada. Depois de mais de três horas de caminhada sobre o asfalto. Cada qual carregando sua dor. Ao menos. Um motor. — Será amigo ou um mulo? — perguntou Teodoro. Mas. Era para lá que o vampiro-rei conduziria seu exército. E já era hora. 354 . contava com a surpresa. — Um caminhão. além disso.. Sabiam que estavam na direção certa. — murmurou bento Francis. a nova arma que o vampiro-rei mostrara seria colocada em uso esta noite. Cerca de uma hora atrás encontraram uma placa na estrada indicando a direção para Natal — A Cidade do Sol. Uma imensa muralha cercava o centro de lançamento. Não importava se encontrariam um ou cem bentos. naquele cenário. destroçariam a muralha e liquidariam com todos naquele lugar. adquirida no recente acidente ao chegarem a praia. tomando pra si o encargo. Iam em silêncio. ninguém estava sabendo que estaríamos nesse fim de mundo. e dizendo que por ali chegaria-se ao CLBI.Capítulo 51 Anaquias observou o Centro de Lançamento da Barreira do Inferno. — Acho difícil ser amigo. Retornou com seu cavalo até a concentração do exército numeroso. atentos ao caminho. Sua missão era destruir. todos vocês.. Anaquias confiava na superioridade numérica. com a caminhada.— comandou Vicente. a marcha prosseguia e o cansaço aumentava sem que tivessem novas pistas. Vou descobrir quem é. — Para a floresta. Preparem as espadas que o bicho vai pegar. Confiava no desejo de morte que reinava entre os seus. — atiçou bento Teodoro. O que queriam os homens ali? Não cabia a ele entender. o vento frio deixara de ser um problema e servia para refrescar.

. Acabamos de fortificar a base e estamos trazendo adormecidos para cá. — Se forem mulos. cobrindo-se com a vegetação. O motor batendo cadente. — São todos bentos. Estamos montando uma nova base aqui no Centro de Lançamento da Barreira do Inferno. E você. — Rio de Sangue. destacando ainda mais a figura imponente do guerreiro ex-presidiário. Vicente viu um rapaz com roupa de sargento do Exército Brasileiro descer ao asfalto. senhor. Nova Natal está longe daqui? — Bem longe.. — Bento! — Bento Vicente. Talvez um pouco de ação em terra firme recuperasse a moral dos homens. Lucas acabou concordando com Vicente e distanciou-se do grupo. vendo Vicente sozinho no meio da estrada. — murmurou Lucas. Os bentos cercaram o jovem Odair. escondendo-se na margem da estrada. Com um caminhão chegaremos mais rápido à Barreira do Inferno. senhor Vicente. diante de um soldado atônito. observando a bela fotografia proporcionada pela luz alaranjada vinda da tocha de Vicente banhando tudo ao redor. era tudo que se ouvia na estrada. não podem ficar só. filho. eu os distraio e vocês caem em cima dos caras. Bento Vicente postou-se no meio da pista. 355 . quem é? — Sou Odair. — Vá. Eu me garanto. jogando luz no chão negro. deixando o cabo da espada livre para ser desembainhada com rapidez. Um estalido acompanhou o ranger da porta do veículo. — identificou-se o rapaz prestando continência ao guerreiro. Lucas. — preocupou-se o trigésimo. Não quero passar a noite toda na mata. jogando a capa para o lado. — Bento! — berrou uma voz. Os bentos deixaram o leito de asfalto. Apesar da luminosidade poderosa vinda dos faróis. O caminhão verde freou.— Se forem mulos armados. Viu surgir e crescer na sua frente um grande caminhão Mercedes-Benz verde-oliva. não estou mais em Nova Natal. junto com o vento passando pelas árvores.. olhando para cada rosto. escondendo-se mais a frente. Vicente levou a mão ao cabo da espada. Em cinco minutos os faróis do caminhão surgiram ao longe. Os bentos começaram a sair do mato. Na verdade. com camuflagem típica do Exército.. Vicente apertou a empunhadura da arma. que sorria. Soldado de Nova Natal. apenas inclinou um pouco a cabeça para baixo e continuou encarando o veículo. apagando as tochas e procurando extinguir até mesmo as brasas na ponta dos paus. Abaixou-se.

À sua frente tinha os comandantes das cento e vinte unidades que compunham seu exército de vinte mil vampiros. temos que ser duros feito rocha e afiados como uma navalha.— O líder Mariano me mandou até aqui. As armaduras encontraram-se. Os bentos subiram apressados. — Eles estão aqui! — gritou bento Edgar. Quero que matem a todos e capturem apenas os bentos. junto com os demais colegas fazendo festa com. — comentou bento Francis. ninguém precisa mais delas. as cavernas. — continuou Odair. se quisesse vencer os humanos. O vampiro-rei não tinha rosto. Anaquias postou-se adiante do grupo. empolgados com a proximidade da grande batalha. com os holofotes desse Mercedão. Anaquias deveria ser ouvido. loucos por descanso para as pernas. — Vamos atacar em sincronia! Não quero nenhum vampiro agindo isolado! Temos que ser um bloco. — Vamos cercar Barreira do Inferno e vamos lançar sobre eles fogo e fumaça. enquanto Lucas foi atrás. Percorrer os quilômetros finais daquela jornada a bordo de um motorizado valeria mais que um bom prato de comida àquela altura. Lucas sorriu para Francis. Assim eu vi a vitória. O vampiro-rei era um deus da noite que soprava aos ouvidos de Anaquias. — Nossas tochas. começaram a gritar. Vampiros não precisam de luz pra andar.. alastrava-se dentre as criaturas da noite. junto de Odair.. Viram um clarão na estrada e pela velocidade de deslocamento ele deduziu que eram pessoas marchando. Os vampiros ouviam o líder Anaquias. uma boa nova ao final de uma jornada iniciada com um daqueles rompantes pós-pesadelo do trigésimo bento. dificultando o abraço. A eles fora pedido obediência. Vamos destruir essa fortificação.. — Leve-nos até eles! — ordenou Lucas. E se os vampiros anciãos pediam obediência era porque Anaquias tinha razão. Vamos cercá-los e liquidá-los.. 356 . A lenda do vampiro-rei ganhava os covis. Agora. a figura assemelhada a de um general. Os demais soldados saltarão os muros. — Os outros bentos estão lá. Odair foi para a traseira do caminhão e desceu a porta horizontal. Contamos quatro bentos dentro dos muros. Quero o grupo de arqueiros à frente. Deveriam existir mais. — Só estão aguardando os caminhões que vêm do oeste para partirem. finalmente. O sangue desses assassinos será guardado ao vampiro-rei. Os noturnos. Eles vão deixar a Barreira do Inferno ao amanhecer. O bento médico não agüentou a emoção e abraçou o colega. Francis e Vicente foram a frente. — Os outros bentos?! — exclamou Teodoro. é o troféu de batalha exigido pelo mestre dos vampiros.

— Cada um de vocês conhece seu papel nesse jogo. Vamos destruí-los! Agora! — tornou Anaquias. Os vampiros começaram a se dispersar, cada um indo em direção à sua unidade. — Ao ataque! O caminhão aproximava-se em alta velocidade. Os vidros abertos da cabine permitiam que o vento da noite entrasse. Vicente e Francis não continham a satisfação em saber que Lucas, mais uma vez, estava certo. Os bentos estavam na Barreira do Inferno. O destino punha Lucas no caminho certo. O trigésimo guerreiro, tal qual um cão perdigueiro, não importando o obstáculo, seguia o caminho. Lucas levava os bentos ao encontro da consumação da profecia. Não se abatia, não se importava com o preço. Não se importava que o chamassem de louco. Não se importava com gorilas. Não temia a noite, nem a desvantagem. Lucas era obstinado... beirava a inconseqüência, a loucura. Ele não dava tempo para dúvida e corpo-mole. Ele era o escolhido. Fosse outro, fosse Francis, jamais teriam chegado ali. Francis pensava demais. Pesava prós e contras demais. Lucas não pensava em contras. Lucas enaltecia "prós". Lucas não pensava. Lucas apenas escutava. Escutava a voz da energia. A energia lhe soprava aos ouvidos. A energia corria em suas veias... não sabia por quanto tempo, mas corria em suas veias. Era como se ainda estivesse em contato com o velho Bispo. Como se tivesse os sonhos de Bispo. E graças a cegueira e a surdez de Lucas para as outras vozes, estavam lá. Dezoito bentos, mais seis espadas enroladas nas capas dos bentos mortos na emboscada da Teodoro Sampaio, dentro de um caminhão verde-oliva, sendo conduzidos para o esperado encontro. A união dos trinta bentos. A união das trinta espadas. O desencadeamento da profecia e dos quatro milagres.

Bento Duque ergueu a luneta. Odair estava demorando a regressar. Talvez não tivesse sido boa idéia Mariano ter enviado o rapaz sozinho. Odair era bom no gatilho, mas sozinho... se tivesse topado com algum imprevisto... Duque vasculhou a estrada à frente com a luneta. Nada via. Correu com o instrumento para a direita, buscaria no outro extremo da fortificação, onde continuava a estrada, sinal do comboio que vinha de Nova Natal, com os caminhões repletos de adormecidos. Nada. No entanto, um pouco mais à direita, viu algo que fez seu sangue gelar nas veias. Via brasas queimando na floresta. Via vampiros. Milhares deles. Tantos como nunca vira. Era um exército de vampiros, marchando, marchando de encontro aos muros da Barreira do Inferno. Mariano conversava com Franjinha na sala de comando do CLBI. Levava uma xícara de café quente e forte à boca quando ouviu três tiros de rojão espocando no céu. Franjinha, que nunca morara numa fortificação, franziu a testa.

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— O que é isso, Mariano? Mariano, branco feito papel, levantou e apanhou o rifle que descansava sobre um balcão nas suas costas. — Vampiros!

O sorriso de Francis foi apagando gradualmente. Vicente aproximou-se do pára-brisa para tentar enxergar melhor. — Vocês ouviram isso? — perguntou o bento. Odair assentiu. Tinha ouvido um disparo triplo de rojão. Vampiros à vista — Pisa fundo, rapaz. Pisa fundo. Temos que chegar antes do ataque. — pediu bento Vicente. Odair não pensou duas vezes. Desceu o pé no acelerador, tirando do motor o máximo em velocidade. Atrás, talvez por causa da conversa, os bentos não haviam escutado os estouros, entretanto quando a velocidade aumentou inesperadamente, entreolharam-se com expressões de estranhamento. Na primeira curva Odair deu um toque no freio antes de entrar, descendo para a quarta marcha, ouvindo o ronco do Mercedes. Quando estava no meio da curva, voltou a carga no acelerador, sentindo a traseira do caminhão jogar. — Segura! — gritou Teodoro lá atrás. Lucas levantou-se, agarrando as madeiras que passavam na lateral do compartimento. A lona verde-oliva que recobria toda a traseira impedia que pudessem ver o que se passava. — Uooou! — gritou bento Elias. — Cuidado com essa merda ai, o rapa. A gente tem que chegar inteiro! — gritou novamente bento Teodoro. No meio da indignação geral, uma portinhola abriu-se na frente, dando acesso à cabine do caminhão. Viram o rosto de Francis assomar e dar o alerta: — Vampiros!

Bento Duque assumiu o muro oeste, por onde chegaria o comboio com os adormecidos. Bento Ulisses foi dar cobertura ao muro sul. Não poderiam assumir o papel de sempre, fazendo as vezes de última defesa, entrando em ação somente quando os vampiros ganhassem os muros. Duque sentiu um arrepio percorrer o corpo. Sabia que aquela batalha não seria uma das corriqueiras. O número de brasas juntando-se nas árvores, o número de criaturas malditas não

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parava de crescer, aumentando perigosamente o cerco a semi-deserta Barreira do Inferno. Isso era o que intrigava bento Duque. O que queriam tantos vampiros naquele lugar? Era uma bizarra coincidência estar ali no único ataque maciço de vampiros ao CLBI? Provavelmente não. Segundo Marco Maluco Franjinha, que dissera ter vivido ali desde que despertara dez anos antes em Nova Natal, nunca tinha visto um só vampiro dentro do Centro de Lançamento da Barreira do Inferno. Péssimo momento para estar ali. Péssimo! Lucas contava com a união dos bentos em Santa Maria, ao norte da velha Salvador... haviam tido baixas pesadíssimas na batalha da Teodoro Sampaio... e agora aquele novo episódio. O cenário que se montava ao redor da muralha sugeria um prognóstico sombrio. Nada de vitórias. Nada de viagens ao amanhecer. Caso aquele oceano de olhos vermelhos viesse contra os muros, as pedras romperiam e o muro cederia, tal qual um mar maldito estourando uma barragem. Bento Duque começou suas preces, rezando para que aqueles demônios ficassem na floresta e que o espocar do rojão de seis tiros jamais soasse em seus ouvidos. Rezou para que os companheiros chegassem antes da maré de demônios. Com os milagres, talvez tivessem uma chance. Segurou cuidadosamente a imagem de São Jorge e beijou-a esperançosamente. — Conto contigo, amigão. — balbuciou. No centro da base de lançamento, bento Augusto mantinha a mão no cabo da espada. Seus cabelos longos, lisos e negros, balançavam ao sabor do vento. Seus olhos azuis miravam a lua. Que noite gloriosa aquela! Sabia que o destino os colocava no meio da contenda das contendas. Sabia que aquilo não era o acaso. O trigésimo bento fora despertado e não seria estranho que as criaturas das trevas tramassem para impedir o desencadear dos quatro milagres. Teria de lutar como nunca para que esse dia chegasse. Lutaria até o fim, sem medo, sem soberba. Seria um peão de batalha. Um robô destruidor de vampiros. Seria certeiro e letal. A maioria dos soldados, que deveria estar cobrindo aquele novo centro de adormecidos, estava fora, vindo nos comboios que trariam as pessoas para seu novo lar subterrâneo. Torcia para que os adormecidos não chegassem em má hora. Pelo que sabia talvez já estivessem com mais de meio caminho andado. Talvez aquele bando de vampiros estivesse ali por isso... pelos adormecidos. Talvez algum linguarudo tivesse dado com a língua nos dentes. Alguma pessoa banida de Nova Natal poderia conhecer o plano e ter soprado o segredo nos ouvidos dos vampiros antes de morrer com o sangue completamente drenado das veias. Talvez, os malditos não estivessem atrás de seu couro e do de seus colegas bentos. Respirou fundo e apertou mais o cabo da espada. Que os seis tiros não ecoassem naquela noite. Cássio e Frederico, soldados de Nova Natal permaneciam sempre juntos, nas boas e nas más horas. Postavam-se agora ao lado de bento Duque por ordem do líder Mariano. Traziam os

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olhos esbugalhados e colados no crescente clarão rubro que rodeava a fortificação. A eles parecia que a Barreira do Inferno fora transferida de dentro dos muros para a floresta duzentos metros adiante. Aquele muro flamejante... aquilo sim era uma Barreira do Inferno. Os vampiros moviam-se ágeis, tomando as árvores, como chamas vindas da casa de Satã, varrendo os arredores. A visão era tão impressionante que chegavam a sentir o calor, como se estivessem de frente a um incêndio real. Cássio baixou os olhos até a caixa de munição aos seus pés. Estava repleta até a boca, com remuniciadores de fuzil. Não sabia quantos deles traziam projéteis revestidos em prata, mas sabia que nem que houvesse duas mil caixas como aquela conseguiriam deter aquele oceano de vampiros. Torcia para que os malditos permanecessem onde estavam, apenas observando, como dezenas de vezes faziam. Apenas mostrando-se, para intimidar. Coisa que tinham conseguido com eficiência brutal naquela noite. Torcia para que logo dessem as costas e sumissem da mesma forma como apareceram, como mágica. Empunhou o fuzil, fazendo mira na muralha em brasa, torcendo para que os seis tiros de rojão não ecoassem naquela noite. Débora sentou atrás da deita-corno e destravou a arma. A cinta de munição ponto 50 saía da lateral da arma e estendia-se pelo chão. A mancha de vampiros terminava de contornar a floresta na face norte da fortificação. A mulher-soldado era uma amante do bom combate. Mas o bom combate envolvia equilíbrio e, equilíbrio é o que não via ali. Quantos vampiros estariam envolvidos no cerco? Como haveriam acordado da noite para o dia... organizando-se de uma forma nunca antes assistida. Formaram um verdadeiro exército e, de forma assustadoramente ordenada, fechavam a Barreira do Inferno. Os malditos pareciam ter acordado de um sono letárgico. Não haveria como escapar caso viessem de encontro ao muro de uma vez só. Escapar... desejo primitivo e automático numa contenda perdida. Mas não haveria escapatória e, como quem está na chuva é para se molhar, Débora estava decidida a acabar com a raça dos malditos que cruzassem seu caminho. Até o último sopro de vida seria um espinho na sola do pé daqueles putos sanguessugas. Provavelmente a avalanche não encontraria resistência perceptível no conjunto, mas a soldado, certamente, deixaria perceptível para as unidades que entrassem na frente da sua metralhadora. Buracos enormes, fragmentos de crânio bem perceptíveis. Era esse mantra que repetia em sua cabeça ao mesmo tempo que seu inconsciente orava para que os seis rojões não fossem ouvidos naquela noite.

Bento Amintas, postado no ponto mais alto da fortificação, no topo da vigia de observação, varreu com a luneta ao redor. Seus pensamentos afundavam em suposições nebulosas, perdendo praticamente o foco. Estava impressionado demais para ordenar os pensamentos. Foi quando o som da buzina veio ao seu ouvido. Voltou a luneta para o sul. Longe, na tripa de asfalto, viu brotar os fachos de luz do caminhão do Exército. O rapaz estava voltando, voando

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como bala. Provavelmente tinha escutado o rojão de instantes atrás, comendo o asfalto com medo de estar na mata escura quando o combate começasse. Talvez, permanecer lá fora fosse o melhor no momento. Ao mesmo tempo que Amintas, os bentos Justo e Célio ouviram as buzinas do caminhão. Os soldados olharam com expressão de indagação. O muro sul guardava um dos portões. De um lado da estrada a mata via-se tomada por brasas vermelhas e vampiros movendo-se lentamente, chegando mais e mais perto da estrada, em questão de minutos bloqueariam o asfalto e completariam definitivamente o cerco à fortificação. Os soldados sustentaram os olhares sobre os bentos. Deveriam dar passagem ao caminhão? Em resposta, ouviram o brado enérgico de bento Célio. — Abram os portões! Abram os portões! O soldado está voltando com nossos companheiros! Bento Francis e bento Vicente debruçaram-se sobre o painel do caminhão. Já divisavam os contornos da Barreira do Inferno e também enxergavam a gigantesca massa de pares de olhos em brasa tomando o chão e os galhos na porção à direita da floresta. A quantidade de vampiros era impressionante. Os bentos ainda não tinham saído da razão em função dos vampiros não terem aberto um ataque franco contra nenhum dos seus. Inesperadamente, Lucas desembainhou a espada e rompeu a lona que envolvia a traseira do caminhão. Assim que deu a segunda passada com o fio da espada, o tecido rasgou com a força do vento que invadiu o compartimento, deixando uma boa porção do céu à mostra. A luz da lua invadiu o interior e, assim que o vento encarregou-se de rasgar a lona à direita, um espectro de luz rubra iluminou os olhos dos bentos. Vampiros. Tantos que nem poderiam imaginar. Vampiros tomando a mata. Lucas, com os olhos arregalados e a capa farfalhando por conta da ventania, chegou a abaixar-se quando uma boa quantidade daquelas brasas passou a riscar o céu. Os vampiros estavam saltando da margem esquerda para a margem direita da estrada. A operação que começou com uma quantidade impressionante, elevou-se de forma inenarrável, a tal ponto de, em certo momento, os bentos terem a lua cheia eclipsada pelos corpos voadores das criaturas, que formaram um sombrio e monstruoso túnel rubro-negro. — Deus nos proteja... — murmurou bento Ramiro, tomando nos dedos a imagem de São Jorge e beijando a figura. Uma das criaturas agarrou-se à estrutura metálica da traseira do caminhão, seus olhos vermelhos cintilantes fitaram os bentos no compartimento semi coberto e sua boca escancarada emitiu um rugido, exibindo dentes afiados e pontiagudos. O caminhão cruzou os portões da Barreira do Inferno em alta velocidade, levantando uma nuvem de poeira ao passar por um trecho de terra.

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— Sangue! — berrou a criatura aferrada ao topo do caminhão, emendando um grunhido selvagem. O som metálico das espadas desembainhando foi uníssono. Antes que a fera terminasse o grunhido, cerca de seis lâminas fatiavam seu corpo morto, animado pelo espírito do demônio. A cabeça do vampiro, arremessada ao ar, caiu a metros de distância, quicando e rolando pelo chão de terra. Odair, ainda com o pé no acelerador, procurando afastar-se o máximo possível do muro, não teve tempo de desviar do canteiro com chafariz. Puxou todo o volante para a direita, mas a roda dianteira bateu na guia, fazendo o rapaz perder o controle da direção. Os bentos agarraramse na traseira. Gritos e medo fazendo os corações dos guerreiros dispararem. Não podia perecer agora que tantas vidas dependiam das suas. Odair puxou mais uma vez o volante e enfiou o pé no freio. A parte direita da frente do caminhão bateu contra um amontoado de tonéis de água, amontoados no meio do pátio de frente para a administração. Parte da água entrou pelo párabrisa esmigalhado, deixando o motorista e os bentos Vicente e Francis ainda mais atordoados com o acidente. Os bentos no compartimento de cargas foram jogados para frente, amontoando-se, perigosamente, com as espadas desembainhadas. Lucas sentiu a pressão da lâmina em seu braço direito, só não ganhou um extenso corte, graças à sua cota de malha, que chegava aos punhos, juntando-se à luva de couro. Bento Teodoro girou sua capa vermelha, adiantando-se e chutando a porta horizontal, que caiu, batendo no pára-choque do caminhão. O ruivo foi o primeiro a saltar. Duque sentiu pela enésima vez um arrepio percorrer o corpo naquela noite. Via diante de seus olhos, ao menos, uma dúzia de bentos saltar da traseira do caminhão de Odair. Então era verdade! Eles tinha conseguido! Era bento Lucas! A surpresa repetiu-se nos quatro muros. Bento Ulisses não cria no que via. Os bentos estavam lá! Os bentos estavam reunidos! Não eram cinco, eram dezenove. Eram todos eles! Amintas desceu velozmente a escadaria da vigia. Arfava. Estava cansado, mas não pararia de correr. O futuro do mundo dependia daquela corrida. Seus sessenta anos não impediriam suas pernas. Deveria unir-se ao grupo. Bendito Lucas! Bendito Lucas! A profecia estava certa. Lucas conseguira. Reunira os trinta bentos. Não houve tempo de graças nem de vivas. Enquanto Dimas e Célio corriam em direção a Augusto e os demais bentos, ouviram o tonitroar surdo de instrumentos de sopro. Não pararam de correr. Não sabiam o que aquilo era, mas sabiam o que significava. Dimas ouvia a respiração difícil de Célio. Célio ouvia os pedriscos sob seus pés. O som das cotas de prata tilintando. Então

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veio. O som cadenciado. O alerta maldito. Um rojão de seis tiros rasgou o céu da Barreira do Inferno. Agora, junto com a respiração difícil, dos pedriscos e do tilintar das cotas de prata, os bentos Dimas e Célio tinham o som dos disparos de metralhadoras acompanhando a corrida. Bento Augusto e os demais ficavam cada vez mais próximos. Lucas percebeu a noite clarear num lampejo. Seus olhos foram tomados pela cor amarela, preenchendo toda a órbita do globo ocular. Iniciou os brados e o comando: — Contenham-se! Contenham-se! Todos aqui! Todos aqui! Agora!

Débora estava com o coração disparado. Nunca tinha assistido nada igual. Tal qual um dique rompido, ao soar daquela cornucópia fantasmagórica, a enxurrada de brasas de vampiro desprendeu-se da floresta, inundando o espaço entre a mata e o muro. Avançavam em velocidade vertiginosa. O ra-tá-tá da deita-corno começou junto com o disparo de rojão. Débora tinha certeza de que seus tiros eram precisos, varrendo a cabeça dos malditos vampiros a cerca de duzentos metros de distância. Mas, quando os corpos caíam eram engolidos pela onda vermelha e aterrorizante de malditos. Estavam perdidos. Sabia que aquela noite seria a noite dos vampiros! Os soldados cumpriram seu papel. Os dedos não pouparam os gatilhos. Contudo, por melhor que atirassem, pareciam incompetentes frente a tamanha grandiosidade do ataque vampiro. Os tiros pareciam furar apenas o ar... eles continuavam avançando, na mesma velocidade, com a mesma superioridade. Os soldados da face norte visualizaram um espetáculo mais tenebroso. Assim que o som surdo do instrumento de sopro ganhou a noite, um bloco assimétrico e coordenado deixou a floresta. Incontáveis vampiros, formando brasas triplas, adiantaram-se alguns metros. O que estavam fazendo? Os bentos reuniram-se junto ao caminhão. Estavam atônitos, surpresos. Nunca tinha visto tantos vampiros. Precisavam reunir-se. Duque olhou aflito para os lados. Onde estava bento Ulisses? — Você nos trouxe para a morte! — berrou bento Teodoro, histérico. — Contenham-se! Não partam para o confronto! Temos que cumprir nosso destino! Mesmo que custe nossas vidas! Bento Francis uniu-se à Lucas. Vicente já tinha assumido seu posto de guarda-costas, com olhar de perdigueiro ao redor. A voz de Lucas bradando para que se mantivessem calmos parecia um elixir contra a loucura, impedindo que suas consciências lhe abandonassem em momento tão crucial.

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Ainda estavam embaralhados, alguém gritou e apontou. Lucas identificou pela indumentária mais dois bentos aproximando-se. O gigante negro, bento Duque estava quase junto do caminhão. Os dois que acabara de ver vinham do norte, corriam desenfreadamente. Soldados empunhando fuzis corriam em direção aos muros. Viu um terceiro bento surgir na porta de um prédio. O novo bento deveria ser o último a faltar para o encontro. Bento Ulisses olhou para o caminhão e para os bentos sobre o chão enlameado, tomado pela água que vertia dos tonéis esmagados pela frente do veículo verde-oliva. Ulisses tinha estado com Franjinha no centro de controle. Pediu que o rapaz permanecesse escondido até o último minuto. — Corre! — bradou bento Duque para Ulisses. O colega obedeceu, começando a corrida de encontro ao caminhão. Repentinamente, para desespero de todos, o céu foi tomado por chamas vermelhas. Uma nuvem assustadora cobriu o muro norte, vindo em direção aos bentos, enchendo a noite com um silvo agudo e crescente. — Protejam-se! — gritou bento Vicente, atirando seu protegido para baixo do caminhão. Lucas foi empurrado para o chão, seu corpo coberto por outros bentos. Não conseguia ver nada. Começou a ouvir estalos. Num instante começaram os gritos. Bento Vicente aliviou quando os silvos cessaram. Lucas arrastou-se para fora. Flechas. Os vampiros estavam atirando flechas incandescentes! Lucas levantou-se. No tempo em que olhou em direção dos bentos ouviu um novo silvo crescer. O céu cobriu-se de vermelho novamente. Bento Ulisses, desviando-se das flechas flamejantes cravadas no chão, continuava a corrida, faltando poucos passos para chegar ao caminhão. A nuvem de flechas começou a descer. — Agora vem para cima de nós! — bradou, voltando a se jogar debaixo do veículo. Uma nova série de baques surdos e estalos. As chamas muito mais próximas dessa vez. Se os malditos estavam atirando aleatoriamente, estavam com uma sorte dos diabos! Lucas e mais um bom número de bentos deixou o abrigo após a saraivada. Sabiam que teriam alguns segundos para observação antes da próxima avalanche. O barulho nas muralhas era ensurdecedor. As armas disparavam incessantemente. Lucas deu a mão para Duque, ajudando o gigante a se levantar. Buscou com os olhos os três bentos que se aproximavam. Seu coração quase parou quando viu a cena. O bento maior arrastava o menor, tentando apagar a flecha flamejante que atravessara sua couraça. O bento menor gritava de dor. Mesmo ouvindo o silvo da próxima leva de flechas, Lucas correu na direção dos irmãos. Tinha de socorrê-los.

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como que hipnotizado. A flecha havia entrado por cima da couraça. Dimas fazia o mesmo sob o braço direito. — O que fazemos. — Bispo disse que bastaria unirmos as trinta espadas. Os bentos levantaram-se. Lucas passou o braço esquerdo de bento Célio sobre seu ombro. Os bentos repetiram o gesto. as capas vermelhas onde repousavam as espadas dos bentos mortos na batalha da Teodoro Sampaio. Lucas ergueu sua espada acima da cabeça.Bento Ulisses alcançou Dimas primeiro. depois desceu com a ponta em direção ao chão. O bento ferido tinha lágrimas nos olhos e gritava de dor. Vicente disparou atrás de Lucas. com a ponta flamejante surgindo no peito do bento. Ajudou o companheiro a carregar Célio. — Devemos juntar as trinta espadas. Lucas voltou os olhos sobre os bentos. Chegaram ao caminhão. ajudando a carregar bento Célio. — Malditos! — bradou Dimas. — Estamos todos aqui! — berrou Ramiro. que gritava de dor. por sua vez. olhou para bento Elias. — O que fazemos agora? Os olhares converteram-se para bento Lucas que. Devemos juntar nossa fé. quebrando a concentração momentaneamente. Dê-me. A lâmina trepidou. Lucas maluco! O céu foi coberto mais uma vez por chamas voadoras. balançando e vibrando. Uma explosão feroz iluminou todo o Centro de Lançamento. Ulisses colocou-se a frente de Célio. obrigando os bentos a deitarem-se mais uma vez. Por sorte. passando as pernas do bento uma para cada lado de sua cintura. Continuaram correndo em direção ao caminhão. O som assustador da nuvem de flechas chegou aos ouvidos. fincando sua arma. formando uma roda. — As espadas. o grupo de flechas teve outro destino dessa vez. atingido pelas flechas de fogo. 365 . Levantou-se.. Elias e Edgar desenrolaram cada um seu volume. Labaredas monumentais subiam do que restara do imenso cilindro negro.. Elias. Lucas? — insistiu Francis. Unir os trinta bentos. As hastes incendiadas fincaram num imenso cilindro colado ao muro oeste. Lucas deixou os olhos sobre o imenso incêndio. Vicente chegou. — Fogo e fumaça. provavelmente atravessando a clavícula direita. com exceção do ferido. o sangue descia pela couraça de prata e a flecha em brasa fazia subir um terrível odor de carne queimada.

Os encarnados pareciam sofrer muito mais com o incômodo e repentino zumbido. seus olhos brilharam amarelos e vivos. 366 . — O que foi isso? — perguntou Francis. Percebeu que o mesmo ocorria com todos os outros guerreiros. — murmurou Lucas. Mais uma chuva de flechas incandescentes cruzou o ar. Duque caiu de joelhos. — Você que é médico. mas antes que entrassem em combate. A loucura invadiu o grupo de bentos mais uma vez. Eliseu. Os soldados foram estraçalhados em poucos segundos. esses homens foram engolidos pela onda de vampiros. Lucas conclamou a todos. Não demorou um minuto para que os bentos se vissem cercados pelo implacável exército de vampiros. — Não toquem nas espadas! Não toquem! — Vamos pegá-los! — urrou Augusto. O tiroteio nos muros era intenso. — Agora. Cerca de vinte soldados que escaparam ao primeiro instante da invasão. Os trinta bentos ficaram livres do estranho fenômeno. — Não toquem nas espadas! — tornou Lucas. sem que um guerreiro olhasse para o lado ou se preocupasse com a segurança. A pele eriçou-se toda. Um zumbido poderoso principiou em seu ouvido. Os trinta bentos formavam uma figura oval.Lucas encarregou-se das seis espadas dos bentos mortos. caindo a poucos metros de distância do grupo. pois até mesmo os fantasmas dos bentos desencarnados moviam as cabeças e levavam as mãos aos ouvidos. rapa. A intensidade dos tiros foi reduzindo gradativamente até extinguir-se completamente. nesse instante. Lucas sentiu uma pressão nos olhos. um zumbido agudo e incômodo. junto com bento Edgar e bento Elias. diante dos olhos dos bentos. olhando para as espadas vazias. André. Tão repentino quanto começou. — E agora? — perguntou Dimas. — rebateu Teodoro. Ao mesmo tempo que o bento pronunciava sua frase. Tu que devia explicar pra gente. Contudo. Murilo. Amintas aproximou-se de Lucas com olhos arregalados. Tarso e Cosme. corriam em direção aos bentos unidos. Cada bento ficou de frente com sua espada. agitando o dedo indicador no orifício auricular direito. Pedaços de carne humana voaram pelo ar junto a intensos borrifos de sangue. Lucas pôde ver.. o zumbido simplesmente desapareceu. — Agora esperamos pelos milagres. já levando a mão na luva de couro ao cabo da arma afiada. Lucas sentiu um frio sobrenatural cruzar o corpo.. fechando uma figura oval. os espectros dos bentos Arthur. na esperança de serem salvos. Diante dos vinte quatro presentes em corpo. a onda de vampiros venceu simultaneamente os quatro muros da Barreira do Inferno. — E agora? — perguntou Edgar.

— Os milagres. Depois. Avançou até Lucas e postou o trigésimo nas suas costas. como ordenado por Anaquias. entredentes. tocando a testa no fio de sua espada encravada. tirando-o do chão.. olhava fixamente para o chão. irmãos. ouvindo a prece conjunta. santificado seja o Vosso nome. Bento Vicente agarrou-o pelo pescoço. — Não toque na espada! — disse. Lucas. Lucas. cobertos pela água e pelo barro.... Lucas afastou os grandalhões. Vicente já tinha baixado bento Teodoro. Agora somos todos iguais. — Agora somos todos iguais.. onde estão os milagres? — questionou bento Célio.. Confiem. Servi ao meu propósito. Da sua mão afundada na lama quase não via os dedos.. passou a mão em sua testa... Mesmo que não estejamos mais na terra para assisti-los. — São. — Te abençôo. deixando Lucas guarnecido pelos dois maiores homens do grupo. A avalanche de vampiros. — Ainda que caminhe no vale da sombra e da morte. tantos. afastando-os suavemente com a mão espalmada. O bento fez um sinal-da-cruz com a mão direita e desceu-a até a água enlameada. bentos. os quatro milagres salvarão a humanidade. abaixado ao lado do companheiro ferido.. parecia já ter detectado a presença dos bentos inertes e avançava a toda. gritando palavrões e sentenças de morte. O sangue dos malditos guerreiros do sol seria ofertado ao vampiro-rei para selar e eternizar a grande vitória. não temerei mal algum.. Uma idéia ocorreu-lhe. Poderia ganhar tempo. Lucas respirou fundo. Os demais uniram-se à oração do irmão. Teremos todos o mesmo destino. Eles virão.Bento Teodoro lançou a mão ao cabo da espada. Assim repetiu bento Duque. esse mesmo brilho tomou com intensidade as espadas prateadas. — começou a recitar bento Elias. refletindo raios amarelados. — Pai nosso que estais no Céu. Os vampiros já rodeavam completamente os trinta bentos e vinham aproximando-se. ajoelhando-se também. Uma gota de suor desprendeu-se de sua testa e respingou sobre a água.. que 367 . vinda de todos os lados. — começaram em coro.. — disse baixo. Juntei as espadas. entre gemidos de dor. ajoelhando-se sobre o chão enlameado. Poderia repetir o feito. Iriam capturar os bentos. são. Francis.. — balbuciou Ramiro. — Eles virão. Lucas foi o último a abaixar-se. Um brilho amarelo cintilante percorreu a água enlameada rapidamente. fechando o cerco perigosamente. queimando o irmão com os olhos.

Sabiam que enquanto a água benta se mantivesse sobre o solo.acertaram cada um dos bentos. Os corpos carbonizados dos vampiros tinham comido uma fatia de barro santo. Se fosse vontade de Deus que saíssem livres daquela enrascada. Perigosamente. Os bentos mudos. bastava empurrar centenas deles próprios sobre o barro envenenado pelo bento que as cinzas cuidariam de estreitar o caminho. Era como observar animais carniceiros.. Depois de alguns instantes. trajando roupas esfarrapadas e negras. O vampiro parecia ser alguma espécie de líder. circundando os vinte e quatro bentos. Cada um deles que tocava a terra misturada com a água abençoada. ficando à margem do terreno bento. A seguir. os malditos não conseguiriam deitar as garras sobre eles. forçando um recuo na leva de trás. Lucas permanecia ajoelhado. Um vampiro montado num cavalo negro aproximou-se da borda do campo enlameado. Um círculo de fumaça subia ao céu. — balbuciou bento Teodoro. de olhos vermelhos cintilantes.. — Vocês viram isso? — murmurou bento Francis. veriam o sol nascer mais um dia. iniciando uma série de gritos de dor e carbonizando em questão de segundos. 368 . traga-nos os milagres.. Lucas continuava encarando as criaturas. Os vampiros que iam na frente do cerco e que já se encontravam sobre a lama benta. sem consciência. — Os milagres. com caninos terrivelmente afiados extravasando seus lábios.. Suas cinzas e ossos esturricados passaram a formar uma espécie de tapete que anulava naqueles centímetros o efeito da água benta. inflamava imediatamente. incineraram imediatamente. composta de demônios pálidos. os vampiros abriram um corredor naquele mar vermelho. Os vampiros não sabiam o que acontecia. pois a sua simples passagem fez a massa de criaturas calar. respirando com dificuldade faziam as armaduras prateadas subir e descer no peito. Estavam encurralados. mas a pergunta que habitava a cabeça de muitos deles é se tal hora existiria aquela noite. Levaram um tempo para conter os empurrões e cerca de duas centenas deles foram cremados instantaneamente até que controlassem o cerco. Qualquer minuto a mais fazia diferença. os guerreiros juntaram-se ainda mais ao centro. Anaquias olhou para os bentos ajoelhados. sem alma.. A maioria dos homens gritou ao sentir espasmos elétricos repuxar os músculos. Pareceram não escutar a pergunta do bento médico. animais selvagens. caso fosse o desejo dos comandantes. No leito aberto surgiu a figura de uma das criaturas. notaram que.. cercados e subjugados. mas a voz de Lucas tinha o dom de amansá-Ios e fazer com que aguardassem pela hora certa. O desejo do grupo era arrancar a espada do chão e atacar aquela parede. fitando a cerca viva. a mercê do destino. Lucas. Os olhos colados nas feras queimavam igual ao dos monstros.

Anaquias bateu com os calcanhares na barriga do cavalo. guerreiros? Vicente colocou-se de pé. — disse Anaquias. tornando o ser animado em um monte de cinzas. Sei onde encontrá-lo. Os bentos assistiram o guerreiro vampiro avançar triunfante pelo campo abençoado. Queria aquele homem vivo. Anaquias lutava para manter-se ali. Sentiu algo ruim. Poupe meus homens que lhe darei o que mais desejam. Os olhos dos bentos convergiram para Lucas. voltou os olhos para o grupo de bentos. Anaquias fez um sinal com a cabeça. Soltou um gemido. Anaquias virou o tronco sobre o cavalo. Depois de alguns instantes voltou-se para o bento. O vampiro-rei queria aquele homem. Lucas conteve o guerreiro. — Lucas. Seus olhos pararam sobre Lucas. O vampiro. no segundo seguinte todo o seu corpo entrou em combustão. por sua vez. Fez o cavalo rodar. enquanto Francis e os demais buscavam assistir a Vicente. protegendo Lucas. — Se você quer sangue. — Tu serás o mais precioso troféu. 369 . olhando para os vampiros atrás de si. — Estão vendo? Meu cavalo não é vampiro. O vampiro sentiu algo queimar em seu interior. fazendo dar alguns passos para a frente. O vampiro-rei soprando algo em seu ouvido. segurando o braço do gigante. voltando os olhos para Anaquias. Ele caminha por onde quiser. o que bastou para que um de seus comandantes arremessa-se o arqueiro ao campo bento. mas foi inútil. Os vampiros ocupavam totalmente o território interno da Barreira do Inferno. O bento levou os olhos para o vampiro montado. — Vê o que vejo. Vicente levou a mão à espada.— Acabaram seus truques. Esse é o desejo do vampiro-rei. A criatura tentou levantar-se. Anaquias sorriu. Uma flecha zuniu. Lucas manteve-se de pé. te digo onde encontrar. Serás aprisionado e levado a seu encontro. a parte molhada de seu peito e rosto pegaram fogo. — Não! — gritou Lucas. fincando no peito de Vicente e fazendo-o ir ao chão. voltando-se ao Exército Vampiro. Lucas era seu nome. Assim que o vampiro bateu na água. O vampiro-rei havia sentido algo ao ver aquele homem. Seu olhar queimou sobre o arqueiro impertinente. Faço o que quero. Os bentos silenciaram. Seus olhos viram a imensidão de seu poderio. Poupe meus homens que lhe darei um Rio de Sangue. humano? Vê? Creio que não está em condição de barganhar. — Do que falas? — Há um Rio de Sangue próximo daqui.

como se confidenciasse um segredo. estendendo-a até uma gargalhada. Diante de seus olhos amarelados e incrédulos. bento. aguardaram instrução. Para que fugissem. Lucas. nem tempo extra. Os órbitas dos olhos do trigésimo guerreiro voltaram a transformar-se em brasas amarelas vivas. — Não estarão.— Se deitar o braço sobre meus homens. — Nosso sangue não presta aos da tua raça. — pediu bento Augusto. creio que nem precisarei procurar. — Arremessem! Os vampiros arremessaram os corpos sobre a lama. vampiro. Começou uma risada. Um segundo corredor abriu-se e um número impressionante de vampiros surgiu atrás dele. não direi onde encontrar o Rio de Sangue. O que dizia Lucas. Os bentos engoliram a seco. possesso. Os bentos trocaram olhares aflitos. estes traziam no topo da cabeça os corpos dos soldados mortos nos muros e no território da fortificação. Parte dos bentos foi ao chão. — Se fala do grupo que vem do norte. — Vos digo que o sangue de teus preciosos guerreiros me vale mais que dez Rios de Sangue. — Você vai morrer! Imediatamente após o brado guerreiro um tremor de solo tomou de assalto todos presentes na Barreira do Inferno. Te darei sangue suficiente para alimentar teu bando.. É para lá que marcharemos. surpreso por singular reação. Quando pararam à margem da lama abençoada. Não há razão para barganha.. — Mesmo que o que diz seja verdade. Estavam perdidos. O destino de seu grupo está selado. encarando a face de Lucas. ao norte daqui só encontraremos Nova Natal. prosseguindo com nossa conquista. Tantas vidas tiradas por aqueles bárbaros da noite. — Vê. Debruçou-se sobre o dorso nu do cavalo e falou diretamente para Lucas. vampiro. Não haveria barganha. Enviamos um soldado para que não chegassem aqui. em voz baixa. Anaquias. — Poupe-os. criando um tapete de cadáveres. — Tragam os corpos! — bradou Anaquias. Anaquias interrompeu a gargalhada. Anaquias primeiro sorriu. A intensidade do tremor aumentou junto com os gritos dos vampiros. bento Vicente via parte dos demônios ser 370 . — Não faça isso. Lucas baixou os olhos amarelos para o rosto dos soldados mortos. Levantou-se enfurecido e apontou o dedo para Anaquias. Lucas nada respondeu. — Não! — bradou Lucas. Logo eles estarão aqui. puxou a rédea e fez o cavalo recuar alguns passos.

Um estrondo intenso ecoou na Barreira do Inferno. Nova surpresa ao notar que o grupo havia escapado do cerco e desaparecia na traseira do caminhão. Os bentos restantes repetiram o ato. 371 . mantendo-se escondido das criaturas que tinham invadido a sala de controle. perdendo-se no meio de fogo e fumaça. O que acontecia fugia da compreensão dos bentos e dos vampiros. fazendo o terror aumentar proporcionalmente no meio dos seus. dando proteção aos dois feridos. Uma massa de criaturas da noite consumiu-se no meio das chamas vermelho-amareladas. Anaquias. O inesperado fenômeno desconcentrou os vampiros que. O vampiro-rei havia calado em sua mente. grande quantidade deles corria com o corpo em chamas. tomados pelo terror por causa do terremoto inesperado e ainda mais por assistirem parte do exército desaparecer engolidos pela terra. O calor e o clarão aumentavam cada vez mais de intensidade. O vampiro-rei não estava mais ao seu lado e nem mesmo havia lhe alertado para aquele perigo. encolhido embaixo de uma das mesas do escritório. junto com um rugido de mil onças. aumentando o apavoramento geral. Lucas arrancou sua arma do solo erguendo-a para o ar. abaixando-se e tapando os ouvidos. esboçando um sorriso. a profecia havia se consumado e as espadas estariam livres para a batalha. recuperando-se da surpresa e tirando os olhos da bola de fogo que consumia cada vez mais vampiros. Lucas caminhou até sua espada. tornou a olhar para o grupo de bentos. Como mágica o chão se encheu de fogo.engolida pelo chão. tirou a cabeça do meio dos joelhos e ergueu os olhos ao ouvir os diversos bips de alarmes quando. Para o perigo da bola de fogo. Ulisses avançou dois passos junto com bento Augusto. O grupo de Lucas subiu no compartimento traseiro do caminhão. do sol na terra. — O primeiro milagre! — bradou Ramiro. os computadores do monitoramento de missão ligaram-se de forma automática. tomando as espadas na mão. Era como se o diabo estivesse abrindo a boca embaixo dos pés dos milhares de vampiros e alimentado-se de suas crias. apontado para a gigante língua de fogo que se esparramava pelo chão. Voltou os olhos para a bola de fogo. e era justamente o que parecia. Assistiam os vampiros debandarem apavorados. sem soprar mais nada depois de deitar os olhos no bento que atendia pelo nome de Lucas. os bentos ajudavam Vicente e Célio a colocarem-se de pé. Se aquilo era um milagre. começaram a afastar-se. Os gritos de Anaquias nada adiantaram para conter seus homens. Lucas e os demais trocaram olhares assustados. Marco Franjinha. — Mas que diacho é isso? Do lado de fora. inexplicavelmente. debandando em direção aos muros.

No entanto. sabia que deveria agir com rapidez. permitiam que visse os vampiros. Graças aos demônios não precisavam mais de oxigênio. mas sabia onde os desgraçados estavam. Disparou rumo aos portões norte da Barreira do Inferno enquanto aquele sol invocado pela magia dos bentos subia ao céu. Encaminhava-se para a traseira do caminhão quando a fumaça começou a cobrir todo o terreno. transformando-os em espectros amarelados. Os guerreiros estavam diferentes. Quando ainda avançavam em direção ao caminhão. Anaquias chamou os que estavam ao seu redor. inflasse seus corpos. Aqueles malditos eram perigosos demais para serem aprisionados com vida por míseros cem vampiros. cruzando o ar. Anaquias girou o cavalo e bateu com os calcanhares na barriga do animal. Uma serpente engolindo uma tartaruga. surgiram os demais. Aqueles que batiam os olhos no clarão tornavam-se cegos e corriam desorientados. Não enxergava bem o terreno. afastando-se cada vez mais daquele ponto luminoso da Barreira do Inferno. Seus olhos aterrorizados haviam perdido o brilho vermelho e maligno. dando vez ao medo e ao desespero. Lucas voou para cima do primeiro adversário. como pedira o espectro. derramando luz e medo sobre o exército da escuridão. O vampirorei tinha lhe alertado sobre aquele perigo. Sua espada afiada silvou. do contrário estariam asfixiando e tossindo. Precisaria do seu exército todo para tarefa tão grandiosa. Muita fumaça juntava-se na região. como que formando uma guarda de salvação. O vampiro-rei havia lhe mostrado algo. Os vampiros pararam estáticos. Uma bruxa. Deveria afastar-se daquele maldito brilho. Lucas saltou da traseira do caminhão. mantendo vivo apenas Lucas. retornando para as trevas da mata fechada. seus olhos iluminados. — Atacar! — ordenou Anaquias. Era como se uma energia vinda de outro plano. buscando o muro mais próximo para voltar ao abrigo da floresta escura. encontrando pouca resistência ao partir o pescoço do demônio. Antes que a cabeça do vampiro voltasse ao chão. Avançavam decididos a liquidar com a vida daqueles miseráveis. pulando os muros da Barreira do Inferno. Lucas descrevia outro arco. Com brados ensandecidos conseguiu juntar pouco mais que uma centena de vampiros ainda lúcidos e fiéis. Os que não eram incinerados estavam loucos.Os vampiros debandavam desordenadamente. Garras afiadas 372 . O desejo de fuga foi tomando a mente de um a um dos milhares de soldados que bateram em retirada. Anaquias sentiu o medo aflorar em seu ser quando notou um brilho amarelo intenso aumentar no meio da fumaça e aproximar-se da saída do compartimento traseiro do caminhão. O fogo aumentou e uma cortina de fumaça começou a tomar o chão. Atrás do trigésimo. Era o brilho dos olhos do terrível guerreiro. enterrando a prata no olho de uma segunda vítima. Retirou a espada do crânio do vampiro atingido e cortou o pescoço da criatura. Entretanto. Era vontade de Anaquias preservar o sangue de todos eles.

penetraram sua carne. Os vampiros pareciam mais lentos que o normal e sua fúria contra as criaturas parecia lhe dar mais e mais poder. — tornou Ulisses. — Isso aqui é uma base de lançamentos. Lucas saltou sobre o corpo do segundo vampiro destruído e desvencilhouse do terceiro. — Um foguete? Como isso pode ser um foguete. Sentia o corpo ágil e leve e a espada cortava o ar sem que fosse preciso muito esforço. Os bentos olharam para o trigésimo. Sua bota cravou no chão e foi capaz de sorrir ao erguer a espada mais uma vez. A resposta de Lucas calou o grupo. Avançou e quando se imobilizou. seguindo o líder covarde que os abandonara à própria sorte. Ninguém consegue lançar foguetes hoje em dia. ganhando altura com velocidade impressionante. Aquilo só poderia ser o primeiro milagre. — Aquilo só pode ser um foguete. — O que foi aquilo? — perguntou bento Ulisses. Permaneceram em silêncio por um instante. Enxergava os malditos dentre a fumaça e. antes que conseguisse apanhar a quinta vítima. dissipando-se e deixando que um bento pudesse enxergar o outro. para continuarem a luta e destruir os malditos. até desaparecer e a luminosidade expelida pelo veículo espacial transformar-se num brilho assemelhando-se a uma grande estrela. não é? — É. fitando o céu e vendo o trilho de fumaça e fogo ganhar mais e mais as alturas com o ronco surdo do foguete diminuindo gradativamente. Lucas? Essa base está desativada há milênios. 373 . A fumaça começava a reduzir. — supôs Lucas. enquanto a outra metade fugia correndo pelo campo da fortificação. O milagre que os havia salvado da morte certa. Ramiro também tinha acabado com três criaturas. Lucas estava certo. O ponto de luz distanciava-se. — Isso só pode ter sido o primeiro milagre. Os bentos olharam para o céu. o corpo do terceiro vampiro ia ao chão. metade do grupo de vampiros que ousaram atacar os bentos havia sido reduzida a pedaços.

— A sala de controle fica por ali..Capítulo 52 Bento Duque olhou ao redor. e sem sinal de incêndio. atrapalhando a visão. pálidos como as criaturas das trevas. Um pavimento de três andares. Bento Duque baixou a cabeça. Apesar dos amigos ao redor estarem ainda soltando brados de vitória e abraços entusiasmados. Já bento Célio apresentava um quadro mais grave... com sua espada segurada pelas mãos. Teodoro e os demais começaram uma corrida. Lucas notou o interior do prédio que era estreito. tudo o que encontravam era corpos drenados. O que sobrara da Barreira do Inferno não era nem sombra do bem cuidado Centro de Lançamento. ainda de pé. Entraram no prédio da sala de controle. Lucas caminhava vagarosamente. Bento Ulisses apontou para o prédio do controle. praticamente intacto. procurando por sobreviventes. As sombras e o piscar das lâmpadas frias aumentavam a tensão. local pelo qual o Marco Franjinha zelara de forma obsessiva. nos escombros encontrados no caminho. Apesar de terem visto o exército negro evadir. mas muito comprido. entrando nos prédios incendiados. 374 . Quantos vampiros haviam morrido no fogo milagroso? Dois mil? Três? Três mil no máximo. mas assustaria-se na próxima noite? Para onde estariam indo agora? Reorganizando-se? Fariam um novo ataque ainda essa madrugada? Eles já sabiam dos adormecidos vindo na estrada. eram muito mais que isso.. Lucas acompanhou o guerreiro moreno. Talvez tivessem perdido dez por cento do poderio. Mas. Os móveis estavam fora do lugar e algumas lâmpadas não funcionavam bem. Ramiro e Augusto estavam rasgando a lona da traseira do caminhão para providenciar macas a fim de transportar o gigante Vicente e o pequeno Célio para um lugar coberto. mantinham-se alertas. horrendamente. Estavam secos e mortos. Talvez. Temia pela vida do amigo. piscando constantemente. com queimaduras profundas na região do ombro e pescoço. Francis havia estancado a hemorragia de Vicente.. sabia que aquele exército noturno estava lá fora. — Vou para a vigia! — bradou Duque. sem uma gota de sangue. mas ainda sobravam cabeças demais para comandar. Via dois prédios em chamas e três muros destruídos pelas criaturas da noite. sem a mínima chance de sustentar vida. que poderia recuperar-se mais rapidamente. Bento Amintas e bento Célio olharam para o companheiro que começara uma corrida em direção ao posto de observação. cercado de janelas e com o chão coberto por lajotas vermelhas. fugindo para a mata. uma grande baixa para um comandante. O exército havia se assustado naquele dia.. — indicou Ulisses. Francis. Bento Duque havia visto os malditos.

Calma. agora olhando com atenção para a tela principal. ainda boquiaberto. Quase podia ver o espectro dos técnicos atrás de cada uma das telas de computador. forrando quase totalmente a parede principal da sala de controle. A direita da porta um aparato eletrônico com um teclado. onde havia um número enorme de fios conectados ao laptop do engenheiro maluco. O centro de controle era impressionante. — O que foi aquela bola de fogo lá fora? — Vocês viram? Não foi lindo? Ulisses riu longamente. as pessoas deveriam digitar ali algum código para conseguir seguir adiante. 375 . Empurrou a porta e entrou. Lucas deu três passos adentro. durante a tarde e aquela sala ampla não lhe parecia tão maravilhosa. Acima da porta outra placa. Faíscas caíam do teto junto a uma das luminárias onde um curto-circuito acabara de ocorrer. Parecia sim. ainda hipnotizado pela sala de controle em funcionamento. Lucas continuou em frente. Provavelmente. Estavam pasmos. bento Ulisses. — Agora eu sei por que fiquei aqui na Barreira do Inferno. Depois de uns instantes fitou o bento com um sorriso. Seus olhos refletiam os gráficos exibidos na tela principal. sentados em suas cadeiras de couro negro. De joelhos. Chegaria esse dia e ela precisaria de mim. tinha cerca de quatro metros de altura por oito de largura. Levantou-se e apontou para uma das mesas. Ulisses reconheceu a figura de Franjinha. Agora eu sei. cheia de equipamentos e propósitos que só serviam ao passado. um homem permanecia admirando o estranho acontecido. Agora tinha diante dele uma sala iluminada por telas de computadores em perfeito funcionamento. como muitos prédios. no passado. Chegou à porta dupla da sala de controle. — Calma. Bento Ulisses e Lucas ficaram imóveis por cerca de meio minuto. Sua atividade provocava um brilho que iluminava a face de Lucas e Ulisses. Nesta lia-se: "Entrada Restrita. Caminharam mais alguns metros. buscando explicações. Lucas virou a cabeça para trás quando ouviu um estalo às costas. A tela mestre. olhando para Lucas. Lucas girou a maçaneta. — os olhos do obstinado zelador da Barreira do Inferno encheram-se de lágrimas. cara? Franjinha demorou uns segundos para desviar os olhos da tela imensa. No corredor do teto pendia uma placa indicando a sala. aproximando-se. homem.Lucas dirigiu-se para a área apontada. Ulisses tinha estado ali horas antes. — O que aconteceu aqui. Bento Lucas aproximou-se. Apenas pessoal autorizado". monitorando o progresso da missão. apenas um museu. escutando outro estalo. de frente para ela. — Um milagre. Um milagre. imensa.

. era como se a sala de comando ganhasse vida.. Está carregando a célula de energia matriz do projeto TUPÃ. os motores nem seriam carregados. ainda não fomos apresentados. Acho que estou sonhando... — Ele está carregando a peça fundamental do último projeto em curso do CLBI antes da Noite Maldita.. Franjinha. — O que significam aquelas coisas? — perguntou a Franjinha. — Santo Deus! — balbuciou Lucas. — repetiu o engenheiro... procedimentos e manutenção mecânica.. — Desculpe... Acho que por causa da claridade da tela os vampiros picaram a mula daqui e me deixaram em paz. Ulisses olhou sério para Lucas que se aproximara dos dois. — É por isso que é chamado de milagre. Foi maravilhoso. Franjinha caiu sentado na cadeira de couro e bufou. há ainda a questão da janela.. é o foguete ARIANE-108. — completou Lucas. Franjinha fez uma cara de espanto. mas aquela bola de fogo salvou nossos pescoços lá fora... estupefato. — ARIANE? Você está dizendo o ARIANE? — repetiu Lucas. 376 . bento.. — Projeto TUPÃ? — interrogou Ulisses.. e que ela ainda funcionasse. aqueles filhos duma puta estavam pulando em cima das mesas do controle de missão. Era sua vez de se espantar. A tela principal acendeu e começou o programa de lançamento. — Isso mesmo. — Bento Lucas.... deslocando-se continuamente. Eu estava escondido debaixo da minha mesa.. estavam destruindo tudo. É o que estou dizendo.. nada. assistindo a essa maravilha. arrumando os óculos num movimento ligeiro. O trigésimo sorriu. — Aquele traço vermelho. senhor. mas já seria impossível imaginar o ARIANE decolando depois de trinta anos de abandono. os computadores ligaram sozinhos. apontando para a tela. de repente as luzes se acenderam e pimba! — Pimba!? — É. sozinho. — Eu não fiz. Eu não pus um dedo nisso aqui. — Isso mesmo. — Você quer dizer "o" bento Lucas. o combustível não funcionaria.. Franjinha levantou-se de trás da tela do laptop e olhou para a tela principal. Franjinha parou e fitou o bento. cagando nas calças. Eu não sei o que você fez daqui... — É. peça de tecnologia de ponta naquela época.— Você foi lindo. — Seria um verdadeiro milagre se o robô conseguisse conectar a célula matriz. É por isso que é chamado de milagre. é impossível isso estar acontecendo..

fazendo com que a janela exibisse ainda mais próximo o solo do planeta Terra. — Olha. marrom-escuro. — O que é isso? — perguntou o trigésimo. Pequenos quadros subdivididos apareciam na parte inferior. Esse é o litoral do Nordeste. — Pra que isso serve ? — Esse projeto foi desenhando com alguns parceiros sul-americanos e europeus como uma ferramenta para a agricultura. Já sei. — Esse é o nosso glorioso estado do Rio Grande do Norte. Para que fosse feito um monitoramento preciso depois que começasse a intervenção do TUPÃ. quase negro. encravado entre o Ceará e a Paraíba. — Até onde isso vai? 377 .. — E isso aqui? O que é? Franjinha fitou a tela principal. mas isso. A profecia dos trinta bentos se cumpriu. Não sei para que vai servir agora. Serviam para mapeamento agrícola. — Estava tão embasbacado com o lançamento do foguete que nem notei isso.— Agora tá explicado. Apontou na tela do laptop uma janela onde se via uma figura marrom à esquerda e uma porção de um azul escuro.. — E o que vai acontecer quando o foguete chegar ao seu destino? — O foguete vai colocar o robô com a célula matriz em órbita. Esses satélites integram o projeto Tupã. Mais um toque aqui e poderão ver mais próximo ainda. — Agora tá explicado! — vibrou o engenheiro. Se a célula matriz funcionar. o Atlântico. dá pra aproximar mais. — O resto do pessoal tem que ver isso. a parte azul-escura é água. — Nossa! — exclamou Ulisses. Lucas e Ulisses viram admirados Franjinha operar o laptop. que por sua vez vai voar até TUPÃ e irá conectar à célula matriz. não foi isso? — Isso. — O que é? — Estamos recebendo imagens de dois satélites de observação. é o continente.. Você chegou aqui com os seus outros bentos. o projeto TUPÃ entra em funcionamento. — disse enquanto digitava rapidamente no teclado... — Vocês estão vendo a esquina do continente.. Como é possível? Tudo bem que é um milagre. à direita. — Meus Deus! O engenheiro olhou para o laptop. À esquerda. Ulisses afastou-se e foi sua vez de voltar a examinar a tela principal.

Agora podiam discernir pontos pretos e retangulares que compunham o que sobrara das edificações.. O operador abriu um menu. — Dois.. — Como assim? Franjinha arrumou-se na cadeira para explicar aos bentos. Eu vou mostrar..— Eu só estudei isso nos sistemas.. indicando que o fogo avançava. E podemos ver mais. — retrucou Franjinha.. que chegamos. balançando a cabeça. — Vejam. o que são? — Esses são os homens lá fora. Ulisses.. — Tá vendo? Esse retângulo. Lucas olhou para o engenheiro. zanzando próximos aos focos de incêndio. Fiquei adormecido por vinte anos. Ulisses aquiesceu.. nos livros do controle. — Até o quê? Não faz suspense.. Mais alguns cliques e nova aproximação. — murmurou o engenheiro. Esses são os incêndios aí fora. Estamos aqui falando com você só por causa do primeiro milagre. — Isso mesmo. Franjinha moveu o mouse novamente.. — Temos dois milagres acontecidos. Cadê os soldados dos muros e o pessoal que estava trabalhando? Ulisses e Lucas trocaram um olhar rápido. — Vamos deixar isso mais interessante. A resposta veio seca. — O quê? — Tem pouca gente. — Peraí. A maioria deles com boa parte tomada pela cor vermelha. — Nossa! Estamos vendo a Barreira do Inferno. 378 . Por esse menu posso realçar o que nos interessa.. — E esses pontos rosa-amarelados. Estranho.. os observadores passaram a ver a costa com maior clareza. — Estão mortos. Dito isso. Ao menos já vimos um deles concretizado.. é o caminhão em. Ulisses e Lucas viram minúsculos pontos vermelhos surgirem agrupados num determinado território.. — É. Vou selecionar o contraste de temperatura. Depois de alguns cliques. que nos salvariam da maldição dos vampiros. O projeto nunca decolou... mas acho que dá pra ver até.. — Consegue trazer a câmera mais para a esquerda? Franjinha obedeceu. parece um caminhão. relativamente próximo ao litoral. — A profecia dizia que ao nos reunirmos teríamos quatro milagres concedidos. nunca usei de fato. Os vampiros destruíram os muros e devastaram todos. Franjinha calou-se um momento.

O recarregador de baterias estava embaixo da mesa. creio que as ondas de rádio voltaram a funcionar. temos um segundo milagre acontecendo. nem TV nem tecnologia wireless.. pode acreditar em mim. buscando alguma coisa. — Ufff! — bufou Ulisses. 379 . Um pacote. bento. das ondas de rádio. sem que fosse feito nenhum preparo. isso é um milagre. bento Lucas.. dos grandes. Isso é demais pra mim. do primeiro pacote. vindas de dois satélites que fazem parte do programa TUPÃ.. Repetiram o caminho feito por Franjinha e adentraram a sala seguinte... — Podemos fazer um teste? — Como assim? Que teste? — Esse negócio que você falou. como se tivesse recebido um troféu. O aparelho de som estava na mesa ao lado do laptop. Tirou dela dois walkie-talkies novinhos em folha. O rapaz desapareceu da sala. Em menos de um minuto a segunda bateria entrava no aparelho seguinte. Rasgou a embalagem plástica. — Esses satélites deveriam estar desativados também? — arriscou Ulisses. como você mesmo disse. A bateria foi cuspida para fora e serviu para ligar o primeiro walkietalkie. abrindo uma sala anexa. Desde a Noite Maldita as ondas de rádio foram deletadas das regras da física. O engenheiro levantou-se e atravessou apressado a sala de controle. Franjinha ergueu uma caixa. São recarregáveis. — Preciso tomar um ar. As imagens.. com um sorriso Vitorioso.— O ARIANE 108 ter decolado após tanto tempo de inatividade. — Graças a deus! — O quê? — As baterias destas belezinhas são as mesmas que uso no aparelho de som.. O engenheiro colocou a caixa no chão e rompeu o lacre. Vamos considerar o projeto TUPÃ em atividade como um milagre único. vamos incluir isso no primeiro milagre. Lucas e Ulisses ouviram o barulho de coisas sendo reviradas e de objetos indo ao chão. se estamos vendo essas imagens. faz sentido. nada que tivesse radio transmissão envolvida. Quando Lucas abriu a boca para perguntar. Se estamos recebendo ondas de rádio aqui. Examinou o primeiro deles. as imagens são transmitidas via rádio.. — Segundo. Mas e se somente o rádio ligado ao projeto TUPÃ estiver funcionando? Talvez isso seja parte do primeiro milagre.. Franjinha tirou o eletrodoméstico do lugar e removeu uma tampinha traseira.. — Não. nenhum aquecimento. — Continue. O rapaz abria armários de madeira. voltando à sala de controle seguido pelos bentos. Nenhum rádio funcionava.

Atravessou a sala novamente.. Os focos de incêndio diminuíram sensivelmente. a voz de bento Ulisses. Franjinha riu. dando um toque final na tecla enter. percebendo a bobeira que tinha acabado de dizer. — Puta merda! Não dá pra acreditar! Lucas concordou com o rapaz. cerimonioso. As luzes piscavam alternadamente. Responda se estiver me ouvindo. olhou sério para os bentos parados na sua frente. Tenho que melhorar os parâmetros para o programa filtrar as imagens que está recebendo. Apenas a sala de controle parecia funcionar em perfeito estado. O engenheiro voltou sorridente. Pode mostrá-los? — quis saber. mas não sabemos onde estão. devem apresentar algo próximo da temperatura ambiente. Franjinha voltou para frente do computador. 380 . mas está tudo escuro. — E os vampiros? Eles fugiram daqui. os contornos da base de lançamento foram perdendo-se. Mordeu o lábio. antes de ligar os aparelhos. Pressionou o botão de falar e fez sua tentativa. Os bentos continuavam a observar enquanto Franjinha voltou ao teclado.. — Acho que consigo melhorar o contraste. O rádio está funcionando! — explodiu. Depois de um breve momento de alegria. — Um. meneando a cabeça e sorrindo também. Um exército grande talvez possa ser visto. Afastou um pouco o zoom. sentou-se na cadeira preta e tornou a clicar. três.. Nada. — A temperatura corpórea desses assassinos selvagens é abaixo da nossa. Vamos descartar o movimento captado de todo corpo que apresente massa com peso inferior a sessenta quilos. Franja.Franjinha. — disse Franjinha. indo para o corredor. aumentando o campo observado. eufórica. Os vampiros não produzem calor corpóreo. Faíscas desprenderam-se de uma luminária a meia distância. — tentou explicar. os malditos teriam sido liquidados pela luz do sol. mas estão em movimento. talvez pudéssemos ver alguma coisa com isso. teste. Os bentos ouviram a porta abrir com estardalhaço.. — Alto e claro.. Inspirou fundo e colocou um deles na mão de Ulisses. Levou o botão dos aparelhos para a posição de "on" e casou os canais. Franjinha recostou-se na parede. dois. Os pontos róseo-amarelados pareciam ter aumentado em uma dúzia. Baixou o aparelho e bateu a cabeça repetidas vezes contra a parede.. Franjinha soltou o botão de falar e levou o aparelho ao ouvido. — Se fosse dia eles estariam liquidados. Lembrou-se dos vampiros que haviam fugido da luz intensa proporcionada pelo lançamento do foguete. então. Aguardou segundos intermináveis. — Se fosse dia. ansioso pela resposta no rádio. acho que teremos nosso Exército. Se fosse dia. voltou a olhar para a tela do laptop.

— disse o engenheiro. Franjinha recuou a cadeira e passou a olhar para a tela principal do controle. — Vão interceptar o comboio. mas reagrupandose perigosamente. a janela de exibição refezse. — Temos que detê-los. teremos uma chance de salvar o comboio! 381 . Lucas. deslocando-se vagarosamente. — Estão indo para a estrada. — murmurou o trigésimo. — Nova Natal. bento! Há um jeito! — Do que você está falando? — Se o robô conectar-se ao TUPÃ. em seguida. — O que foi? O engenheiro olhou para bento Ulisses. apreensivo. girou rapidamente e. abrindo mais campo na tela. — Estão indo para o norte.Uma ampulheta surgiu na tela. — Há um jeito. — tornou. apontando para um grupo de retângulos vermelhos que deslocavam em alta velocidade. — Não há como. ficando de pé. — Como fui tão burro! — explodiu. — Para onde estão indo? Franjinha moveu o mouse e reduziu o nível de zoom. movendo-se para sudeste. O engenheiro enfiou os dedos na franja loira. Dentro de poucos minutos o robô desconectaria-se do foguete ARIANE-108 e navegaria até o soberbo e engenhoso TUPÃ. Milhares de pontos azuis surgiram na tela. — disse Lucas.

com acesso à sala de computadores de Nova Natal. teriam a força e a disposição dobrada. reunisse as melhores faixas da banda punk num CD que valia ouro. Tinha que escapar daquele cerco. via a estrada centenas de metros abaixo. talvez o resto do comboio não acompanhasse. A "energia" de Palasides Park explodia na boléia do caminhão. Não teria tempo de frear e voltar. E agora. Não dava tempo de avisar os outros. dando ritmo à viagem. Seus olhos encontraram algo na pista. A dupla de faróis do segundo caminhão surgiu assim que terminou a curva. o que era aquilo na floresta? Um incêndio? Sentiu um arrepio eriçar os pêlos dos braços quando viu brasas voadoras cruzarem o céu. A cornucópia foi soprada mais uma vez. Estava indo a oitenta quilômetros por hora. repetindo o som grave que tinha assombrado os ouvidos dos soldados da Barreira do Inferno. montado no cavalo. mas depois que seus milhares de soldados reabastecessem os corpos sobrenaturais com o sangue humano. Quando visualizou os faróis brilhando no asfalto. Um único vampiro.Capítulo 53 O soldado Nivaldo checou o retrovisor. Nivaldo aumentou o som quando Poison Heart começou a tocar. parado no meio do asfalto. Adorava aquela música. Seu caminhão estava cheio de carga. se aumentasse mais a velocidade. segundo tinha sabido dos comandantes. Nivaldo tinha comentado com Fernando que era fã do som dos Ramones. Deus do céu! Não eram brasas! Eram vampiros! Estavam por toda volta. Carga viva. saltando de um lado da floresta para o outro. Pisou mais fundo no acelerador. no topo de um morro. com a mão estendida. As faixas amarelas na pista passavam velozmente.. presas em armações de madeira para o transporte. Bastou o comentário para que o amigo. 382 . Mais uma vez os vampiros tinham ordem para atacar. sendo engolidas por seu caminhão. branco como a lua cheia. Tinha que guiar o comboio. Manteve a aceleração.. Um Rio de Sangue ambulante. Os bentos tinham logrado vitória no último embate. os caminhões na estrada trariam adormecidos. satisfazer a sede maldita que guiava a mente dos vampiros. ergueu um dos braços. mais do que uma vitória. Liderava o comboio saído de Nova Natal com destino à Barreira do Inferno. Nos altofalantes rolava a quarta faixa de um CD gravado por um amigo. Pessoas adormecidas. pronto para descer goela abaixo. Estava distraído. Voltariam aos muros da Barreira do inferno e terminariam o que tinham começado. Anaquias.

. da 383 . vendo-se totalmente cercado. Com a velocidade reduzida seria presa fácil. O vampiro viu o monstro de metal crescer diante de seus olhos. Nem tinha ouvido todo o CD.. todos os pneus passaram sobre a criatura. obrigando Nivaldo a puxar o volante totalmente para a esquerda. Imaginou que o maldito intimidaria-se. O corpo esguio e pálido voou metros à frente. mas o que isso tem a ver com o seu plano? Vai fazer a terra girar mais rápido? — perguntou Ulisses. mesmo que quisesse. veio a retaliação. não seria possível continuar. A faixa do Ramones chegando ao fim. Nivaldo prendeu a respiração. capeta! — berrou. — Vai pro inferno. Franja. manteve-se firme. Um barulho rouco começou assim que o pneu dianteiro direito estourou. mas levando os olhos para a estrada. não ia parar por causa de um merda de vampiro. certo? — Certo. Talvez indo em direção aos que vinham atrás. moendo seus ossos e seus órgãos mortos e podres. Um a um os caminhões iam sendo rendidos e cercados por uma avalanche de vampiros. arrebentando o vampiro em cinco pedaços. Com a intervenção humana e a degradação do meio ambiente o clima global estava fugindo do controle. — O que tem? — Se fosse dia seria perfeito porque a luz do sol acabaria com os desgraçados. Mais flechas flamejantes cruzando o céu.. Dessa vez. — Quando falei aquela hora. mas não tinha condições de continuar. Conseguiu estabilizar.. Vampiros filhos duma puta! Torceu a direção mais uma vez. O caminhão acertou a criatura em cheio. que se fosse dia seria perfeito. aferrando as mãos no volante. Talvez mirando os pneus posteriores.. tentando neutralizar os efeitos das geadas fora de hora. Nivaldo tornou a agarrar o volante. Tentava avaliar a condição de prosseguir à toda. Grande erro. O projeto TUPÃ procuraria minimizar os problemas climáticos. Olhou pelo retrovisor. Uma maré de olhos vermelhos em brasa tomou o leito do asfalto. ordenando que parasse. Flechas flamejantes cortaram a escuridão rumo aos pneus dianteiros do caminhão.. No entanto. enfiando o pé no freio. — Não. impedindo que prosseguisse. voltando a cair na estrada e a ser apanhado uma segunda vez pelo caminhão. Nivaldo puxou ar mais uma vez. Era o fim. O projeto TUPÃ era um consórcio intercontinental de estudo e apoio ao desenvolvimento agrícola. O caminhão guinou brutalmente para a direita.espalmada. Nivaldo soltou um berro de alegria ao ver o primeiro inimigo vencido. Ainda com o berro escapando pela garganta. Estava perdendo o controle do veículo. Voltou com o volante para a direita. Logo. Nivaldo chegou a tirar o pé do acelerador como reflexo. caralho. até mesmo países gigantes e ricos como o nosso começariam a sofrer com a escassez de produtos cultivados.

No entanto. O vampiro sorriu. — Trabalha como se fosse um espelho gigante. colocando os fuzis para fora. fazendo mira nos soldados que surgiram no topo do veículo. Sérgio foi o primeiro a livrar-se da tampa. O robô vai rastrear automaticamente o receptáculo da matriz e vai conectar-se ao grande TUPÃ. Quando colocou a cabeça para fora. Nivaldo. surpreendidos pela resistência. Os soldados que iam atrás. saltou dos galhos da árvores altas. capaz de condensar e direcionar luz do sol para a Terra durante as horas da noite. abraçando os joelhos. Abrevie a conversa. Faça o que tiver que fazer. afastaram-se do caminhão. desarmado na boléia. acionando sua metralhadora. que além de refletir. Malditos vampiros! 384 . — Vampiros! — berrou enérgico. Santo Deus Padre Todo Poderoso! O que era aquilo? No instante seguinte. ficou paralisado por alguns segundos. Franja? Dá uma olhada no seu laptop. Bastou a surpresa inicial dissipar-se para que iniciassem o ataque.falta de chuva. intensifica a luz solar. descendo até o asfalto e cercando o primeiro caminhão. mais duas escotilhas saíram e seus colegas assomaram pela abertura. TUPÃ basicamente é um gigantesco refletor solar. Os disparos foram certeiros. — Do que você está falando. Um número assombroso de criaturas. Não sei quanto tempo leva. Sabendo onde esses putos estão. Puxou o gatilho. — Rápido. Nivaldo abriu a janela de comunicação com o compartimento de carga. sentou no assoalho na parte frontal da cabina. o número de vampiros era imenso. Os vampiros estão cercando os caminhões. Lucas olhou para a tela do laptop. Os vampiros. gente. — O quê?! — espantou-se Lucas. basta apontar e pau! Fogo nos filhos da mãe! — Demorou! — exclamou bento Ulisses. — O foguete expeliu o robô agora na órbita de TUPÃ. Franja. ganhando as escotilhas superiores do compartimento. entre outros tantos truques possíveis com os recursos lançados ao espaço para que fosse otimizada a produção agrícola em todo o Brasil e América Latina. agarrados às estruturas que empilhavam a carga por causa dos trancos. também dotadas de armas de fogo. Os vampiros estavam cercando os caminhões. subiram sobre tal estrutura. Em quanto tempo consegue bombardear os malditos com luz do sol? O engenheiro ergueu os ombros. Sérgio acionou sua arma. — O projeto TUPÃ.

O robô rotacionou o centro de seu corpo 180 graus. algumas mulheres e soldados remanescentes entraram na sala de controle.. alternadamente. encerrando a carga no interior de TUPÃ.Os três homens assistiam. O robô percorreu a superfície do objeto e fixou-se onde deveria inserir a célula de energia matriz. Ao redor da porta deslizante. A porta deslizou mais uma vez. mas pela seriedade e mutismo dos três observadores. Como Lucas não conhecia a escala do projeto. cinco bentos. Assim que a luzes apagaram-se. A garra vinda de TUPÃ pressionou a célula de energia e recolheu-a para seu interior. permanecendo com as garras fixas ao TUPÃ. deixando o robô e instalando-se ao receptáculo. talvez com o raio de três polegadas ou mais. retirou-os do lugar. um alarme soou no centro de comando. A luz do sol aparecia numa das bordas da esfera ovalada. TUPÃ era algo grande. aproximando-se pé ante pé. TUPÃ parecia-se com um grande satélite. sendo a maior parte do corpo um cilindro. depois de dois segundos. não tinha idéia do tamanho do equipamento. deixando os oceanos sucumbirem gradativamente à escuridão. ao desconectar-se do segundo parafuso. apagaram. completando três voltas ao redor da porta. até que o parafuso subisse cerca de quinze centímetros. Numa fração de segundos. os observadores assistiram um cilindro percorrendo as garras. a aproximação do robô espacial do complexo TUPÃ. terminada numa garra cilíndrica. apenas um ponto de luz verde acendeu. que agora exibia mais uma vez o casco de TUPÃ.. um círculo de pequenas luzes verdes acendeu-se. uma haste robusta. não ousaram importunar. Em seguida. A própria haste do robô. A câmera da unidade passou a exibir. O brilho verde pareceu caminhar. 385 . Repetiu a operação num segundo parafuso. Pareciam peças grandes. Nesse instante. mas a julgar pelas imagens vindas da câmera do robô. a tela escureceu e o robô ativou a segunda câmera. provavelmente recolhendo-os a um compartimento em sua unidade. Mais um minuto passou-se até que viram o robô tocar o metal do equipamento. agoniados em virtude do tempo escasso. Do robô. O robô também abriu automaticamente um compartimento em sua extremidade e uma haste com garra semelhante conectou-se à haste do TUPÃ. A tampa desparafusada correu automaticamente para a direita e do artefato espacial subiu um receptáculo mecânico. ao passo que o dispositivo acendia e apagava uma lâmpada de cada vez. Repentinamente. A haste girou rapidamente. muito grande. Tão inesperadamente quanto acenderam. em boa resolução. uma haste articulada projetouse até tocar uma espécie de parafuso sextavado. passaram a assistir calados. Não entendiam o que se passava no grande painel. Estampado no casco do grande TUPÃ havia a bandeira do Brasil. o nosso planeta azul. trazendo-os para junto da câmera até sumirem do campo de visão. na extremidade oposta de seu corpo.

feito neve caindo. dessa vez piscando e revezando com a anterior. Aguardou a espuma assentar. Respiravam pesadamente. — Ah! Perfeita! — exclamou ao encontrar na lista uma de suas prediletas. um SIM e um NÃO. permitindo que os espectadores observassem o grande instrumento espacial em sua plenitude. seriam aniquilados. — TESTES 1. — O que está acontecendo agora? — quis saber Ulisses.Franja correu até seu laptop. Apanhou a caixinha do CD. Dessa vez os olhos não despregaram do monitor. desajeitado em virtude da posição desconfortável. Eles estavam lá. Verificou o número e. Outra mensagem surgiu. O robô havia se afastado vários metros. Já que ia morrer. — alternando para — TESTES 1. Franjinha moveu o mouse até o SIM e clicou. Nivaldo girou o botão de volume até o limite. o rapaz clicou em sim mais uma vez. DESEJA ATIVAR A CÉLULA MATRIZ? Dois tiros entraram pela porta do caminhão. — então piscou e alternou. 2 E 3 COMPLETOS COM SUCESSO. tomados pela ansiedade. fazendo espuma do estofamento subir e depois descer lentamente. Quando as primeiras batidas de I Belive ln Miracles escaparam. Nivaldo encolheu-se mais. — FALHA NA COMUNICAÇÃO. DESEJA ATIVAR A CÉLULA MATRIZ? Antes que a mensagem desaparecesse. A mensagem apagou-se. Em número jamais visto. que morresse ouvindo seu som preferido. Olhou as faixas descritas numa folha presa no fundo da caixinha do CD. A tensão era tamanha que ninguém emitia um pio sequer. DESEJA ATIVAR A CÉLULA MATRIZ? Abaixo da mensagem existiam dois botões. 2 E 3 COMPLETOS COM SUCESSO. assim que os tiros dos soldados acabassem. levou o dedo ao seletor do toca CD. Nivaldo respirou fundo. então arriscou olhar pelo vidro dianteiro. 2 E 3 COMPLETOS COM SUCESSO. 386 . O engenheiro voltou os olhos para a tela do laptop. A tela exibia uma mensagem de alerta. — TESTES 1. fazendo a letra de Dee Dee Ramone e Daniel Rey soarem em alto e bom som nos seus ouvidos. Bastaram alguns segundos para o alarme de aviso voltar. — FALHA NA COMUNICAÇÃO. Os olhares convergiram-se para o grande TUPÃ. O alarme soou novamente. Todos caminhões estavam cercados e.

— Não estou conseguindo enviar o comando para TUPÃ iniciar. Bateu na mesa! — Já sei! Lucas chegava ao caminhão quando viu todos que estavam no controle saírem correndo pela porta frontal do prédio. o sangue gelou nas veias. erguendo os ombros e olhando para os demais. — Porra! Ela quebrou? — Não. — O garoto. — Lucas! Espere! Não há tempo de chegar lá para salvá-los. Aqui diz que os testes padrão e de segurança estão ok. não conseguiria transmitir nada. diferente do grupo. Pensava. — Porra. O problema é aqui. pelo amor de Deus. Tem que ter um jeito.. — disse. Franjinha olhou para onde ficava a base da torre. Eu clico e a célula matriz não é ativada. O engenheiro atravessou quase metade do Centro de Lançamento até chegar onde queria. Levou o lápis novamente à boca e mordeu a ponta. O comboio estava condenado. Teodoro. — disse apontando para os escombros da torre. começando a arfar e revelar o cansaço físico. Correu até lá. A multidão de perseguidores percebeu o desânimo do engenheiro. brotherzinho. Onde estaria o defeito? Se o robô estava enviando as mensagens. Lucas deixou a sala correndo. Com ela no chão. A torre havia sido tombada pelos malditos vampiros. tinha conseguido enviar comandos para os satélites e todos tinham sido executados perfeitamente. acho que ele descobriu o defeito. Verifique as conexões e o funcionamento. — Ele nunca desiste? — perguntou Teodoro. a recepção estava boa. 387 . Não é isso.. Havia um cômodo construído. — Com ela no chão não conseguiremos transmitir. É só a torre que está no chão. Ulisses perguntou: — Qual é o problema? — A antena. Não sai daqui. Eu vou até lá. veio em sua direção. Por outro lado. Franjinha voltou ao monitor. que abrigava as conexões da antena e seu equipamento de funcionamento e conexões com a sala de controle. — Ajudem-no a arrumar essa encrenca. Quando chegou ao local. onde deveria haver a torre. Franjinha! Pensa rápido! Os vampiros já cercaram os caminhões! — Não vou assistir isso daqui! — explodiu Lucas. cara. — Calma. abrindo a porta e entrando no cômodo. Eu não consigo enviar a confirmação para iniciar o processo. A antena de transmissão do projeto TUPÃ era diferente da de transmissão dos satélites de observação. Espere.

fazendo caretas de aflição toda vez que o alarme de erro disparava. Não duvido nada que o alvo de amanhã seja Nova Natal ou até mesmo que voltem para cá para acabar com o que começaram. não tinham sofrido danos sérios. Os vampiros eram tantos que os espectros azuis tomavam completamente a janela de exibição. Os bentos. Augusto. acumulando uma vitória atrás da outra. Ele nada disse. Mais uma vez pôs-se a correr. por favor! — pediu. fazendo a antena subir pouco a pouco. — Vamos pessoal! Vamos ter trabalho! Vamos colocar essa torre de pé. Num instante alcançaram o prédio da torre e juntaram-se ao alvoroço. Com uma aproximação maior conseguia até separar os espectros em indivíduos. tirando as flechas incrustadas no capô. um monte de ferro retorcido. apoiaram-se nas portas da cabina e foram de carona no suporte externo nas laterais do caminhão.Em menos de um minuto o engenheiro deixou o cômodo sob o olhar de Ulisses e os demais. Ulisses olhou para a torre. cada um de um lado. haviam caído sobre as ramas de arbustos e. Se eles alimentarem-se do comboio. Depois de muitos cliques e sonoros alarmes de erro. Agora assistia alguns pontos róseo-amarelados serem retirados dos caminhões. o desespero aumentou. — Vá para o comando e transmita. pelo amor de Deus! Temos que deter aquele Exército. O veículo parecia não ter sofrido dano sério. usando os próprios cabos de aço presos à torre e usando o cômodo de concreto como base de apoio. Tinha aproximado ainda mais a imagem e podia ver claramente que os vampiros já tinham cercado e imobilizado o comboio. Bento Ramiro com expressão de nada entender. foi para a cabine. A aflição só aumentava quando olhava para a janela de imagens transmitidas pelo satélite. Um ou outro ponto vermelho indicava que pequenos incêndios tinham começado ao redor dos caminhões. Os vampiros estavam tomando os adormecidos! Estavam apossando-se de um Rio de Sangue! 388 . Foi até o amontoado de metal que sobrara da torre conferir a integridade do cabo de transmissão. Franjinha meneou a cabeça positivamente. Teodoro e Augusto. Foi até a ponta da torre checar os componentes de transmissão que. Franjinha clicava no SIM de tempos em tempos. com seus cabelos negros e esvoaçantes. Virou-se para o engenheiro e falou baixo com ele. Braços de vampiros. com isso. Minutos mais tarde. removiam os tambores de água debaixo do caminhão. por pura sorte. Idéias. que aguardavam na porta. saltos e armas empunhadas. Deu partida e o motor roncou em perfeito compasso. Nunca duvidara da seriedade da situação. Virou-se para as pessoas atrás. Vão avançar. estaremos perdidos. ajudados pelo caminhão. voltando para o controle. Os faróis quebrados na colisão pareciam em perfeita ordem. — Vai dar! Vai funcionar! Precisamos colocar essa joça de pé! — voltou confiante. começaram a tracionar o emaranhado de ferro. atropelados na chegada à Barreira do Inferno. continuando o exame do lado de fora. Lucas.

daquela tecnologia que fora desenhada para fins de pesquisa e benefício agrícola e. Ulisses respondeu. parecia um grande tabuleiro de xadrez e. AGUARDE.O rapaz baixou a cabeça. Apanhou o walkie-talkie ao lado do computador e pressionou o botão para falar. Automaticamente clicou mais uma vez o mouse. Foi nesse momento que Ulisses e Lucas chegaram à sala de controle. Teriam que. Ulisses indicou para o caminhão parar. perdendo sua 389 . Já podia ver alguns pontos róseo-amarelados entrando na floresta. no instante seguinte. feito formigas carregando alimento para o formigueiro. trazendo a supremacia sobre os vampiros. Franjinha teclava o laptop. Grandes hastes metálicas foram desdobrando-se. Fechou os olhos. Saindo do estágio em que toda a estrutura estava descoberta. A objetiva do robô que flutuava junto ao colosso espacial mostrou TUPÃ abrindo oito compartimentos ao seu redor. cuidadosamente. A torre estava quase a noventa graus do chão. bem esticados. uma conectando-se à outra. Na tela do laptop. Em outras áreas do campo visual podia ver o pontos róseo-amarelados esmaecerem. Solicitou ao sistema TUPÃ que abrisse o prato de reflexão solar. agora. unindo o esqueleto. Teria de reacostumar-se com aquilo. Parecia-lhe uma grande ironia ter à disposição um colosso feito TUPÃ e não poder fazer uso daquela máquina. Queriam assistir aquilo. sentindo-se derrotado. com aquela possibilidade. Abaixo uma contagem regressiva em 28 segundos indicava que logo TUPÃ estaria ativo. Instruiu bento Ramiro para que os cabos de aço fossem afixados. o prato gigantesco encontrava-se completamente forrado por aquele material prateado. formando uma fileira. notou que não escutara alarme de erro desta vez. O pedido foi processado e TUPÃ iniciou a preparação. Manteve os olhos fechados até que. assistindo o final da interessante metamorfose da máquina espacial. imitando a tela principal da sala de controle. Os corpos estavam sendo retirados dos caminhões. Chamou Lucas e correram de volta à sala de controle. subconscientemente. formando uma espécie de grade gigantesca. havia tornadose a grande esperança da humanidade. estaquear os cabos de aço ao chão. carregados pelos vampiros. seguindo as instruções na tela. Nos vãos espaçosos entre as hastes. — Conseguimos! Conseguimos ativar TUPÃ! — berrava Marco Franjinha. saindo do walkie-talkie. nada deteria o avanço daquele monstruoso exército das trevas. Ao olhar para a tela do monitor deparou-se com uma nova mensagem: — CARREGANDO SISTEMA. algo parecido com um tecido prateado corria de uma ponta a outra. O caminhão deveria permanecer no mesmo lugar. segundos depois. Ulisses correu para informar os demais. Agora. também exibia um gráfico digital com traços verdes do artefato espacial em movimento. Surpreendeu-se quando a voz de Franjinha surgiu em sua cintura. Ulisses olhou para a tela que exibia o cerco ao comboio. miraculosamente. Os soldados deveriam ter sido exterminados.

bal. Tem uma porção de lixo. curvando a mão acima do painel. — DISPOSITIVO PRONTO. — um segundo depois. — BUSCANDO ÓRBITA SEGURA. nesses momentos. bal. Fechou os olhos. Gritos. A música do Ramones. O equipamento vai buscar uma posição segura para o painel de reflexão. Eram muitos. igual aos vampiros e. Eles não estão sozinhos lá em cima. Balas revestidas de prata abriam feridas fatais às criaturas das trevas. AGUARDE. Depois de um instante.. pressionou o acendedor de cigarros. livrando-se de alguns cacos. — Não sei. pode acabar com o nosso brinquedão. ali mesmo! — Vai logo com isso. jamais teriam imaginado tantos vampiros. Aumentou o CD para o máximo. girou o volume do CD-player para o mínimo. na tentativa vã de deter a massa de vampiros que rodeava os adormecidos. calor e vida. O soldado. Tirou o maço de cigarros do bolso. Se um meteorito. Copiou-as para o campo de instrução ao refletor solar e deu enter. Os fuzis explodiam repetidas vezes. dependendo de onde acertar. — Não dá pra ir mais rápido. Ele também precisa se 390 . Tiros dos vampiros. chefe. Os Ramones apavorando. A vermelhidão brasil transferiuse para a ponta do fumo. o tom róseo que indicava sangue. Os malditos estavam tomando o sangue dos corpos. Elevou a mão acima da cabeça. Como é que aquelas coisas funcionavam? Nunca iria descobrir. reduzindo as cabeças dos vampiro a pó. mesmo que estivessem preparados para um ataque. — PROCESSANDO. Trouxe o cilindro vermelho incandescente para a ponta do cigarro e deu uma tragada longa. O banco de couro preto estava infestado de cacos de vidro. com a tecla do "repeat" acionada começou mais uma vez.cor até chegarem ao tom azul-acinzentado. Deu outra tragada e uma baforada longa. Passou a mão no cabelo.. os soldados continuavam atirando. — Isso pode levar um tempo. apenas aguardando. Mais de susto do que de preocupação. Nivaldo afastou o acendedor de cigarro e olhou-o um instante. Do alto dos caminhões do comboio. ENTRE COORDENADAS — exibia a tela principal simultânea ao monitor do laptop. Tiros dos soldados. uma peça perdida de algum outro projeto acertar o refletor. — Um tempo? Quanto tempo? — urgiu Ulisses. Franjinha! — gritou Lucas. O engenheiro consultou as coordenadas exibidas pelo satélite de observação que mostrava o ataque dos vampiros ao comboio. transferia-se em partes para alguns dos acinzentados. nova mensagem. — disse Franjinha. tateando o painel mais uma vez. de outros satélites orbitando o nosso planeta. Puxou o acendedor de cigarros. Agora é com o TUPÃ! Nivaldo estremeceu quando tiros estilhaçaram os vidros da cabine.

depois desviou o olhar para a tela principal. protegido de qualquer tipo de assombração. Sérgio não aceitava a idéia de morrer na noite. No topo do caminhão líder. A corrente de pensamentos do soldado foi cortada quando ouviu novamente o "tlac-tlac" do fuzil descarregado. Preferia quando o medo era só na hora de dormir e seus pais deixavam-no. Sérgio apertou o dispositivo que liberava o municiador vazio e puxou o próximo do colete. deixando o instinto de sobrevivência gritar. Mas por alguma razão. Preferia quando vampiros eram só invenção do cinema e de escritores fascinados pelo lado escuro da literatura. Sérgio estava sozinho. Esperando que o último soldado fosse morto para entrarem e tomarem todo aquele sangue aprisionado em corpos inanimados. brincavam com ele.. Projéteis de fuzil arrebentando joelhos e cabeças de vampiros. Os malditos ainda não tinham invadido seu caminhão. — Quando o sol chegar em TUPÃ. totalmente desenvolvida aqui. Provavelmente. Seus cinco companheiros já tinham dançado. acompanhando o refrão de sua faixa predileta: — I believe in miracles. Começou a disparar. — E se ele não encontrar raios solares? — Vai encontrar. caminhando para a morte. Ajustou a arma. sangrando no piso do compartimento de carga. falar mais alto. No meio deles não existiam vampiros. a maioria dos humanos agia daquela forma. Em coro. vai arder. — E quando ele encontrar o sol e o ângulo? O que vai acontecer? — perguntou Lucas. 391 . no meio de vampiros. porém vivos. de vez em quando.. nem sacis. Da Europa usamos só o veículo ARIANE.. Franjinha olhou para Lucas. Abaixou-se. No meio de seus pais dormiria em paz. Basta um pouco de sol para o sistema carregar o intensificador de raios solares. sentia-se protegido por dois super-heróis. Teria dado uma mensagem se estivesse fora do alcance. I believe in a better world for me and you. lutava até o último segundo. Alta tecnologia. mas lutaria até o fim.. No meio dos seus pais.colocar numa posição em que possa colher os raios solares e rebatê-los para a coordenada especificada. O fim chegava. Ele sabia disso. Voltou a passar a cabeça pela escotilha. puxou a mola e preparou para recomeçar. adormecer no meio dos dois. sentando na armação de transporte de adormecidos. Nivaldo cantava a plenos pulmões. nem mula-sem-cabeça. não existiam múmias ambulantes. no Brasil. e acredite. De sentir os dentes das criaturas cortando sua pele e levando seu sangue embora. com o vocalista do Ramones. isso não é fácil. Tinha bastado os segundos para a troca do cartucho para que os malditos tomassem conta do teto do compartimento de carga. Estava cercado e seria fodido em questão de segundos. observando os caminhões cercados pelos vampiros. Era o último pente.

A mão de outro vampiro agarrou o colarinho de sua camisa de tecido grosso. Voltou a olhar para os milhares de soldados. O espectro estava gritando em seu ouvido. teriam energia para prosseguir. uma luz vinha do céu. Sabia que após alimentar seus vampiros. O vampiro comandante olhou para o horizonte.. Dois deles saltaram pela escotilha. o sol no meio da noite. Sabiam que em Nova Natal encontrariam um novo Rio de Sangue. Sua voz enlouquecida. Em seguida. O soldado ergueu os braços. Tinha assistido aquele fenômeno na Barreira do Inferno. Teriam homens suficientes para destruir os muros do maior depósito de humanos adormecidos do nordeste. Lembrava um caçador de motoqueiros. desceriam mais uma vez à Barreira do Inferno. serviria de arma. montado em seu cavalo. Bateu com os coturnos no chão da carroceria. Um facho de luz gigantesco devorava a floresta e aproximava-se perigosamente. assistindo a primeira vitória de seu exército da noite. permanecia no topo do morro. O espectro pedia que se escondesse. Mantinha no rosto um sorriso sinistro.. Sérgio deu o último disparo. Se os bentos fossem estúpidos o suficiente para continuar naquela tumba aberta. Tinha um tom conhecido. teriam o sangue arrancado dos corpos mortais e o líquido da vida seria ofertado ao novo deus dos vampiros: o vampiro-rei. não era o sol. O vampiro-rei gritando.Anaquias. Anaquias fez o cavalo girar no lugar. afastado da estrada. isso era impossível! Sentiu os ouvidos tremerem. O soldado baixou o corpo quando entrava pela escotilha.. Conectou a baioneta à ponta da arma e preparou-se 392 . soava diferente.. Cantarzo! Anaquias girou o cavalo mais uma vez. Mas aquilo era um artefato inventado pelos humanos. Viu surgir a cabeça pálida do agressor. Seus olhos arregalaram-se.. livrando-se da garra da fera. escorrendo por dentro da vestimenta. atacar com poder total Nova Natal. Um som ensurdecedor encheu o compartimento quando os vampiros começaram a socar agressivamente a carroceria pelo lado de fora. Mesmo descarregado. Anaquias sentiu desconforto mental. Sentiu-se conectado mais uma vez ao espectro. Não! Assistiria a grande vitória até o final.. uma luz. alcançando o fuzil. A madrugada ia ainda em sua metade.. Lembrava um nome. Alguma coisa. Evocando a figura do vampiro-rei. Não sairia dali! O que o espectro gritava era absurdo! Ouvia o vampiro-rei pedindo que se retirassem. soltando o fuzil. O maldito caiu na sua frente. não dando espaço para que fechasse a portinhola. — Não! — gritou Anaquias. O soldado deu um rolamento. que buscasse abrigo. Pedindo que saísse dali.. Não existia sol. Não! Não poderia abandonálos! O espectro gritava em seu ouvido. O animal empinou no topo do morro. Anaquias olhou para seu exército de quase vinte mil vampiros. fazendo pedriscos deslizarem para baixo.

Sérgio girou o fuzil e empurrou a criatura. jogando ao canto. chutando o segundo. Sérgio estendeu os braços para frente e ergueu os punhos. ainda no chão. fazendo os vampiros gargalhantes pararem as risadas e olharem na direção do veículo. contra milhares deles e ainda tinha a ousadia de colocar-se em posição de luta. cansado demais para sustentar os braços erguidos. Estava cercado. e recostou-se na porta traseira. Sérgio destravou a porta traseira. Sérgio arrancou a faca e chutou-a. mas não tinha mais idéias para comparar. O riso chamou a atenção de outros e o coro foi engrossando até que milhares deles estavam assistindo. O que vinha atrás passou a garra num dos adormecidos. espetando-lhe a baioneta de prata. O vampiro urrou e estremeceu na ponta da arma. e empurrando-o contra a estante central. de cima das árvores e de cima dos caminhões. Os dois vampiros que tinham entrado pela escotilha da frente. o soldado solitário e hemorrágico em guarda contra os tantos vampiros. atacaram. Ouviu um baque nas suas costas. junto às portas traseiras. fazendo o primeiro soltar seu braço. Estava sozinho. Caminhou para trás. um dos vampiros olhou para trás no meio a uma gargalhada. As duas criaturas da frente emitiram um rosnar selvagem. Os vampiros abriram um círculo. sorvendo-lhe uma quantidade de sangue. como gatos do mato. Sabia que sair não era uma boa idéia. O bolo de agressores voou para fora do caminhão. Um deles rebateu a arma do guerreiro. O riso foi interrompido e o sorriso desapareceu gradativamente. Sangrava. Os vampiros ao redor olharam para o valente soldado. e caminharam para frente. mais um vampiro havia entrado no compartimento por outra escotilha. tomando cuidado com o vampiro ferido pela faca. Pelas escotilhas escorriam vampiros. O cheiro do sangue do soldado que lutava entrava em suas narinas. Sérgio também desviou o olhar e caiu de joelhos. Bateu com força no asfalto. pronto para a luta. começando a sair fumaça pela ferida. que acabasse logo. Em cima do caminhão líder. carregada de corpos. O que era aquilo? Um grito de desespero veio de cima do caminhão. Começaram a rir. fazendo-a voar para fora da rodovia. A multidão de vampiros atirou-se sobre o soldado. Tinha arrebentado o ombro. percebendo a manobra. Sérgio tinha um deles espetado em sua arma. Se fosse acabar. Colocou-se de pé e girou o fuzil. Lambeu o braço da mulher adormecida. 393 .para a luta. gemendo de dor. Um deles cravou suas garras no braço do soldado. Gritou de dor. Sérgio girou. sorrindo ao ver um fio de sangue brotar. logo cerca de vinte deles estavam na sua frente. Afastaram-se dois passos.

TUPÃ funcionava e seria ele. tudo. Abriu. milagrosamente. formando um bolsão de várias tonalidade de vermelho num raio de um quilômetro. O fogo tomou seus olhos. 394 . pedindo uma boa acolhida do outro lado. Seriam torrados. todos assistiam boquiabertos à seqüência exibida na tela principal. as idéias começavam a brotar. Viam os pontos azuis converterem-se em pontos vermelhos.. com a testa colada ao asfalto. vamos destruí-los. a estrada. cara.. obrigando Sérgio a cair mais uma vez sobre o asfalto e encaracolar-se. Nova Luz ficava próxima a que cidade antes da Noite Maldita? O sistema ainda está carregado com as informações pré-Noite Maldita. virando um amontoado de cinzas.Sérgio apertou os olhos.. A noite seria agora uma armadilha. — Agora? — É. A floresta. — Que lugar? — Conhece um povoado chamado Nova Luz? Franjinha meneou a cabeça negativamente. Agora. era dia! O soldado olhou para o vampiro à sua frente. — Vamos vencê-los. Todos concordaram com Lucas. Um a um. — Você pode direcionar isso para outro ponto? — perguntou o trigésimo. até que secou e rachou. Sem você. O mesmo começou a acontecer com todos ao redor. — Quero um rádio transmissor em cada fortificação. — Parabéns... TUPÃ funcionando e o rádio funcionando! Estamos salvos. Os vampiros moviam-se freneticamente.. O rosto pálido do vampiro foi escurecendo. Lucas! Vamos vencê-los! — berrou Francis.. que traria a libertação para o povo da Terra. ao menor sinal de ataque. rezava. tornando-se brasas vivas quando atingidos pela luz do sol. deixando escapar fogo da boca e dos olhos. Lucas dirigiu-se para o contente engenheiro Franjinha. A floresta em volta tornou-se completamente vermelha. Ergueu a cabeça. procurando proteção contra as labaredas que escapavam das entranhas das criaturas. não teríamos conseguido. — Preciso de uma indicação melhor. Diante da empolgação após a vitória. A libertação da raça humana viria a galope. o deus indígena que representava a figura do sol. Na sala de controle. A noite não seria mais um manto de terror e maldição.. — Já é! — explodiu Teodoro. Alguma coisa ofuscou seus olhos. agora tomada pela maioria dos sobreviventes ao ataque dos vampiros. Os guerreiros bentos explodiram em alegria ao ver a retumbante vitória sobre o exército vampiro. Um clarão cegante. Assim. — É um milagre! É um milagre. Uma armadilha para os malditos vampiros.

trocando um olhar demorado junto com um sorriso. o rosto e a expressão surpresa dos sobreviventes. Baixou I Believe in Miracles enquanto examinava a paisagem dantesca. não conseguiria sair dali sozinho. A luz do sol foi diminuindo de intensidade e os homens assistiram um portentoso e magnífico facho de luz andar pela floresta. De alguns deles desciam soldados. Provavelmente. Nivaldo abriu a porta e desceu. 395 . Uma luminosidade vermelha vinda das brasas ao chão e do fogo da floresta refulgia nas laterais dos caminhões. Nivaldo abriu os olhos. Chega de marcar nosso tempo com essa Noite Maldita. As mesmas brasas entravam floresta adentro. Será que já tinha sido morto por aqueles monstros e nem tinha percebido? Será que aquela era a luz que todo mundo via quando atravessava o caminho? Sentou-se sobre os cacos de vidro do banco e olhou para fora. Passe com esse facho de luz por cima do maior número de fortificações que for possível. uma peça importante. A noite havia virado dia antes da hora. — Temos que parar com isso. — Não exagerem. iluminando inexplicavelmente. onde via inúmeros focos de incêndio. Os bentos riram. descendo a sudeste. Carvões em brasa estavam deitados na estrada. dê as orientações para que Franjinha encontre Nova Luz. bastante sobreviventes. Encontrou Sérgio parado no centro de um amontoado de brasas. — Sou só uma peça nesse jogo. — rebateu Franjinha. Voltou o dedo no volume e colocou a música no máximo novamente. Temos que trazer aquele comboio pra cá. O comboio de quase quarenta caminhões serpenteava pelo asfalto. — Francis.— Chega! — gritou Teodoro. — disse o trigésimo. formando uma massa de centenas de metros à frente. um atrás do outro. salvos. — Modesto. mostrando que haviam. afastando-se do comboio. vamos nos referir aos eventos como antes de Lucas e depois de Lucas. De agora em diante. Aquela claridade. mas só mais um componente. dadas as proporções do ataque. Os demais venham comigo. Estavam. Olhou para a estrada. — Milhares de vampiros! De uma só vez! Nem posso acreditar! — exclamou Vicente. Um calor intenso começava a subir. Nivaldo aproximou-se o máximo que conseguiu de Sérgio. com a voz debilitada e um extenso curativo arranjado por Francis.

Mas. a feras faziam apenas vigia a Nova Luz. ficando sem o mínimo e o anular. plantando terror. com a habilidade de seu grupo de soldados. como aguardando por um instante de fraqueza. com um pano na cabeça. uma vez que Nova Luz não contava com um areião cercando a cidade. havia feito as feras recuarem sem que a vida de um cidadão fosse perdida. Sinatra perdera dois dedos da mão esquerda. A briga tinha sido feroz. dentro dos muros de São Vítor. Adriano sabia que era isso que queriam. com as brasas vermelhas flutuando fantasmagoricamente. trazendo doutora Ana. até perto dos muros. uma vez que os noturnos voltavam crepúsculo após crepúsculo nos últimos dias. Adriano. Não arredariam o pé. esperando uma oportunidade para vazar os muros e atacar os habitantes da pequena Nova Luz. e com um preocupante fio de sangue seco do lado esquerdo da cabeça. Desde a noite do ataque fracassado os vampiros voltavam. 396 . o alarme de segurança soava no Hospital Geral. Fazia oito noites que haviam chegado até a floresta. estava caído num canto. na sala de observação dos novos pacientes. Bendito Lucas! Graças ao aviso do bento tinham chegado a tempo para salvar a vila da destruição pelos vampiros. Soldados corriam pelos corredores do imenso hospital. Os soldados viam os demônios saltando para os galhos mais altos. o experiente soldado jamais deixaria que seus homens saíssem dos muros. desejando que aqueles demônios da noite afastassem-se e os deixassem em paz. Levou a mão ao peito. O trilho vermelho descia até o queixo. Ao lado dele Adriano. Bem longe de Nova Luz. Queriam que os humanos passassem ao seu hábitat onde seriam dilacerados facilmente. Pareciam provocar surgindo nas árvores. dentro das casas. O grande espelho junto à parede dos fundos fora feito em pedaços. esse desejo parecia impossível de ser alcançado. as pessoas estavam apegadas a imagens e velas. Dentro da vila. assustada com a cena. Não sabiam até quando aquele inferno iria durar. encontrava-se com a mão ferida enfaixada até o punho. querendo que os soldados deixassem os muros e corressem na mata em seu encalço. Mas. vigiando o muro. A médica entrou na pequena cela de triagem de azulejos brancos até o teto. O médico que ficava atrás. protegendo um corte. Nas últimas noites. Estavam pressionando. O rojão de três tiros tinha sido disparado e os soldados da fortificação estavam de prontidão. fazendo orações e rezas. Jogariam o jogo.Capítulo 54 Adriano e Sinatra estavam no muro de Nova Luz.

Não precisa costurar nada. Amaro estava postado no muro sul. mas não foi de propósito. — Os três enlouqueceram. — Eles vieram pra cima de você? Eles que te cortaram? — Não. Além do alarme dentro do hospital. depois vieram contra o vidro.. que ele mantinha na testa. Hoje não contariam com a valiosa ajuda de Lucas para que os escalados nas torres saíssem com vida daquele enrosco. — Vamos lavar isso aí e colocar um curativo.. — Eles piraram. Mais estranho que daqueles capetas da escuridão. Ainda estavam sonolentos. 397 . Começaram a bater contra a porta. Essa merda é blindada. Ana. Tinha sido um corte comprido.. — balbuciou a médica. porra! Como é que conseguiram? — Não sei. Os olhos dos três ficaram amarelos. Pareciam tomados por alguma coisa do mal. Saltou os inúmeros cacos de vidro e aproximou-se do colega para acudi-lo. — Eles que fizeram isso com você? — É. — Só está dolorido. Vou falar com Amaro também. — gemeu o homem. Foi logo depois do rojão. Ana deu a mão para que o homem levantasse. Peça para o Chen verificar as câmeras do subsolo. colocando São Vítor em alerta. A culpa é deles. — Deixa eu ver. Foi um negócio que eu nunca vi. Pediu que os snipers ficassem preparados. —É. parecendo um fogo. Esse corte foi mais um acidente do que qualquer coisa. Ai.. preparando novo ataque ao HGSV Ana pediu ajuda a um dos soldados e saltou através do vidro quebrado da cela para a sala de observação. Eles piraram. Ai. — Eles devem estar dentro do hospital. — Amarelos. Um caco de vidro teria passado por ali. Vampiros dançavam nas árvores além do areião. Dá medo.Os soldados estavam duplamente agitados. Ana acocorou-se junto ao amigo e levou a mão ao lenço. há instantes.. Se precisar de sutura. queria os coitados salvos. Ana tirou o lenço. Amarelos. Mas eles nem sabem o que isso significa. afastando-se da mão da médica. quase simultaneamente.. Caso aquele grupo de noturnos fosse para cima das torres de vigia. Já parou de sangrar. Tá ardendo. um rojão de três tiros havia sido disparado. — Não é nada. O Chen vai investigar. por isso tinham três numa sala só.

soldado. um deles saltou com velocidade incrível. levou a mão ao bolso. O terceiro homem de olhos espectrais também saltou o balcão. tremendo. Flávio permanecera dentro do quartel de São Vítor. ficando de frente para o armário. A corrente caiu no chão. levando balas e municiadores onde o bicho estivesse pegando com mais força. Soldados chegavam ao seu balcão e apanhavam fuzis e escopetas. Metralhadoras. — Acalme-se. Flávio andou devagar. fazendo um ruído cadenciado. — Larga meu braço.Társio postou-se na ponto 50. — Não é isso que eu quero. Tinha também que providenciar munição. percorrendo os muros com uma pickup Ranger. rifles e mais uma vasta variedade de armas penduradas na parede. Via centenas de malditos infestando a beira da mata com seus olhos espectrais. isso já seria motivo para espanto. evitando qualquer movimento brusco. O segundo agarrou seu punho quando erguia a arma. Os três homens de olhos amarelos abriram um sorriso. Flávio abriu as duas folhas de madeira revelando o interior. Era estreito e alto. Uma coisa estranha. Disseram que aqui encontraremos nossas armas. mas o mais bizarro eram aqueles olhos soltando um brilho amarelo. ficando a meio metro do chão. olhando para as quatro espadas longas e prateadas. jogando-os no chão. Boa parte deles cairia quando começasse a disparar a deita-corno. Estavam nus. Levou a mão à coronha da pistola. Uma onda invadia sua cabeça. juntando-se a todos do lado de dentro. de costas. Tirou um molho de chaves e levou ao cadeado que fechava a corrente. carabinas e pistolas. O primeiro daqueles estranhos passou os olhos na parede atrás do balcão. vagarosamente. O homem. Flávio encarou os olhos daquele homem. Flávio levantou-se da banqueta. Antes que tirasse a arma do coldre. Mesmo acostumado ao corre-corre dessas horas. começava o correcorre. revólveres. aproximando-se de um armário de madeira preso à parede bem ao lado das armas de foto. Sempre que o rojão de três tiros era disparado. 398 . passando por cima do balcão. O homem que agarrava seu punho afrouxou e passou por cima do balcão. vá lá. assustou-se quando aqueles três entraram. A pegada era firme e não teve como apontar a pistola na direção do agressor. Uma sensação de que não corria perigo. Talvez porque tivesse ouvido que os olhos do trigésimo bento tinham ficado daquela cor na noite em que matara trezentos e sessenta vampiros num combate só. O invasor de olhos amarelos tirou a pistola do soldado e um canivete de sua cintura. a cinta de munição pendia pela lateral da metralhadora. Era sua função cuidar das armas e munição dentro do regimento.

como hipnotizado. Muitos que estavam dentro de casa começaram a sentir um mal-estar repentino. pulando para os galhos mais baixos. estava se movendo. A mata começou a ganhar cor e os malditos agitaram-se. Adriano demorou para tirar os olhos dos vampiros. Paraná. assustou-se. Adriano e Sinatra levaram as mãos aos olhos. a grande maioria tinha sido reduzida a estátuas esturricadas donde escapavam labaredas vermelhas. o facho de luz passou por cima de Nova Luz e seguiu caminho. Quando virou-se para Sinatra. O céu estava azul-celeste e o sol brilhava no meio da madrugada. Estavam por volta da uma hora da manhã. Um incêndio instantâneo principiou-se tomando arbustos e copas de árvores. As pessoas assustaram-se quando perceberam tanta luz invadindo as frestas. pegos de surpresa. voltando para a floresta. Tão rápido quanto veio. Hipnotizado por um facho de luz. Sinatra voltou para o lado de Adriano. Não entendiam o que estava acontecendo. Lembrava aquelas belíssimas faixas de raios de sol que escapavam das nuvens pesadas quando os dias nublados começavam a mudar de aspecto. Não houve tempo de fuga. Os vampiros continuavam empoleirados nas árvores. apontou e bateu levemente no ombro do amigo. buscando desesperadamente por abrigos à luz repentina. Estava vindo em direção a Nova Luz. Um som estranho. A noite de fria passou a dia de calor escaldante. rumando e desaparecendo no horizonte. fosse o que fosse. que tinha cruzado o pequeno povoado correndo. protegendo-os da claridade excessiva. O soldado olhou para a direita. a escuridão da noite voltou e a temperatura caiu devolvendo o frescor que seria natural naquela hora da madrugada. Seus corpos começaram a fumegar e a pele a escurecer de forma assombrosa. A luminosidade foi ganhando intensidade numa velocidade impressionante. mirando o horizonte. talvez causado pela mudança abrupta de temperatura e luminosidade. chegou arfante ao muro de Adriano. Aquilo. Movia-se suavemente. A luz passou pela floresta. O facho de luz deveria ter quilômetros de extensão. transformando a noite de Nova Luz em dia. aproximando-se cada vez mais dos muros. Tinha algo diferente na mata. O raio de luz continuou vindo certeiro. Deu dois passos para frente. 399 . Em segundos. portas e janelas em seus esconderijos escuros. Ficou por dez segundos bestificado. Era algo muito sutil. demoraria até o amanhecer. Logo.Sinatra ouviu um barulho. As pessoas mais corajosas abriram as portas e olharam para fora. chegando aos muros. As criaturas começaram a saltar das árvores. descendo do céu negro feito um véu de luz.

Antes de entrar na sala da enfermaria. — Como assim? Vocês tem soldados em todas as portas do HGSV! — exclamou a mulher. correrem feito loucos de encontro a onda de vampiros que se aproximava. 400 . Joel e Marcel olhavam estáticos e estupefatos para a floresta à frente. Tinham sido pegos pelo sol. carregando espadas. com a mão ferida. assistiu aqueles três homens nus. Raul e Zacarias também admiravam o terreno na frente de Nova Luz. chamou dois soldados. Amaro assustou-se quando o primeiro vulto saltou à sua direita. Adriano demorou-se olhando nos olhos de cada um. O líder dos soldados estava apressado.. Os snipers foram os primeiros a disparar.. Chen encontrou-se com a Dra. — Ele juntou os trinta bentos! — É. como se sentisse algum tipo de tontura. — balbuciou novamente Adriano. achando que quebrariam as pernas após voar doze metros até o areião. Não gostava de afastar-se dos muros. — Primeiro eu queria saber como é que eles deixaram a cela? — perguntou o líder de traços orientais. — Isso foi um milagre. Amaro engatilhou o fuzil quando o rojão de seis tiros estourou.— O que foi isso? Os soldados reuniram-se ao lado do líder. Ana. — Ele conseguiu! — berrou Paraná. Mais dois segundos e os primeiros malditos estariam na sua mira. Agora. Escaparam do hospital. — balbuciou Adriano. Ordenou que fossem para o topo do hospital e que um deles tomasse o posto da deita-corno. Társio empunhou a ponto 50 apontando para a coluna de olhos vermelhos. ainda mais num momento de ataque igual ao que viviam. mirando longamente o horizonte. perguntou: — Onde estão? — Eles não estão no prédio. Todo vampiro que se aproximava da torre um era abatido pelos atiradores de precisão. as brasas vermelhas vinham do fogo real. apoiada na testa. mais dois passaram. Os vampiros não deveriam aproximar-se do HGSV Assim que entrou a doutora. Ao contrário do que esperava.. Eram os restos fumegantes e incinerados dos vampiros que há tantas noites assombravam Nova Luz. Era um maluco que pulava de dentro para fora da fortificação. onde a médica cuidava do corte do colega. Amaro achou que teria de acu