TRATAMENTO DE FERIDAS Leila Blanes* HISTÓRICO Durante séculos, o tratamento de feridas variou com o objetivo de melhores resultados cicatriciais

em menor tempo possível. Em uma revisão de literatura, Andra de1 descreve que já na pré-história vários agentes como extratos de plantas, água, neve, gelo, frutas e lama eram aplicados sobre as feridas. Na Mesopotâmia, elas eram lavadas c om água ou leite e o curativo era realizado com mel ou resina. Lã de carneiro, folhas e cascas de árvore eram utilizados para sua cobertura. Os egípcios concluíram que uma ferida fechada cicatrizava mais rápido do que aberta, por isso, utilizavam tiras de pano para manter unidas as margens da lesão. Hipócrates sugeria que as feridas contusas fossem tratadas com calor e pomadas para promover a supuração, remover material necrótico e reduzir a inflamação. No início da era cristã, Celsus preconizava o fechamento primário da s feridas recentes e desbridamento das contaminadas para posteriormente poderem se r suturadas. Além disso, classificou os diferentes tipos de lesões de pele e deu detal hes do tratamento de cada uma delas. A introdução das armas de fogo nas guerras européias no século 14 levou ao surgimento de um novo tipo de ferida de cura mais difícil, e Ambr oise Paré, na Renascença reformulou seu tratamento. O avanço da química levou a descoberta de compostos de cloro e iodo que foram utilizados para limpeza do material e da pele nos séculos 18 e 19. Atualmente se pretende interferir na biologia molecular, abordand o a síntese de substâncias envolvidas nos fenômenos cicatriciais 1,2.

Figura 1 Histórico, detalhe de uma taça de Sosias (aprox. 50 a.C.), que mostra Aquil es fazendo curativo nas feridas de Pátroclo, cena típica dos campos de batalha, onde os guerrei ros tratavam mutuamente de suas feridas (Staatliche Museen, Berlim). Guillen DC et al. Histor ia del medicamento, fascículo 2, 1987. ANATOMIA E FISIOLOGIA DA PELE A pele recobre toda a superfície do corpo e é o seu maior órgão. Continua-se com as membranas mucosas que revestem os sistemas digestório, respiratório e urogenital, no s locais onde estes se abrem para a superfície. É dividida em duas camadas distintas, a epiderme e a derme, firmemente unidas entre si. A epiderme é a camada mais externa , composta por três diferentes linhagens celulares: os queratinócitos, os melanócitos e as células de Langerhans. A derme é a camada mais profunda e é formada por tecido conjuntivo3,4. A epiderme organiza-se em camadas e, a medida que as mais superficiais são eliminadas, as camadas mais profundas são restauradas por divisão celular. É constituída

Nursing Management 2001. cheias de queratina. mais externa. Pode ser dividida em camada papilar. As várias camadas de queratinócitos intimamente unidos uns aos outros.nursingcenter. A camada córnea.por cinco camadas: germinativa. A derme contém muitos tipos diferentes de células. eosinófilos. e ca mada reticular. O pigmento melanina na epiderme. proporciona proteção contra traumas físicos e químicos. mais interna. muitos vasos sangüíneos . lúcida e córnea. mastócitos e leucócitos sangüíneos. Figua 2 .Anatomia da Pele . O co ntrole realizado pelo hipotálamo e pelas fibras nervosas simpáticas sobre o fluxo sangüíneo na derme proporcionam um mecanismo de termorregulação. fornecem barreira contra a invasão de microorganismos e água. A derme é uma espessa camada de tecido conjuntivo que se estende da epiderme até o tecido subcutâneo.com Baranoski S. 32(8):25-32. linfócitos e monócitos4. Esta camada fornece uma base firme para a epiderme e para os anexos cutâneos. Nesta camada situam-se os anexos da pele. . granulosa. protege os tecidos subjac entes dos efeitos nocivos da luz ultravioleta4. sem penetrá-la. constituída por células escamosas. As terminações nervosas sensoriais da derme mantém o indivíduo em contato com o meio ambiente4 . espinhosa. e a camada córnea é a mais superficial. macrófagos. A camada germinativa é a mais profunda.extraído do site: www. e faz limite com a derme. incluind o fibroblastos e fibrócitos. Os plexos vasculares fornecem sangue para a epiderme. particularmente neutrófilos. vasos linfáticos e nervos. As fibras colágenas proporcionam grande força de tensão e as fibras elásticas dão flexibilida de a pele.

derme. como as úlceras por pressão e as queimaduras. . manifesta através de edema e formação de exsudato seroso. Do ponto de v ista morfológico. que são descritos em fases.3. As células epidérmicas. tendões e ossos) 3.5. causada por qualquer tipo de trauma físico. mecânico ou desencadeada por uma afecção clínica. necessária para o processo de avaliação e registro. havendo um dinamismo com sobreposição entre elas3. e consiste na descrição anatômica da profundidade da ferida. PROCESSO DE REPARAÇÃO TISSULAR O processo de reparação tissular compreende dois mecanismos de restauração dos tecidos: a regeneração e a cicatrização. As feridas agudas. Este sistema é adotado para estadiar alguns tip os de feridas crônicas. das margen s da ferida e das invaginações epidérmicas dos folículos pilosos e glândulas sudoríparas e sebáceas começam a proliferar e migrar no leito da ferida. Sua classificação constitui importante forma de sistematização. podendo invadir músculos. que cessa em menos de 24 horas. interdependentes e simultâneos. A regeneração ocorre com reposição tissular "original". que aciona as frentes de defesa orgânica para o contra ataque5. identificam-se três fases consecutivas. O sistema de classific ação por extensão do dano tissular completa o anterior. em maior ou em menor extensão. tecido subcutâneo. as feridas podem ser classificadas. Engloba a ferida superficial (l imitada à epiderme). ferida com perda parcial (limitada à epiderme e porção superior da derme) e a perda total (existe destruição da epiderme. rico em leucócitos.FERIDAS Uma ferida é representada pela interrupção da continuidade de um tecido corpóreo. são originadas d e cirurgias ou traumas e a reparação ocorre em tempo adequado. O processo de cicatrização de feridas é composto de uma série de estágios complexos. Assim. são aquelas que não são reparadas em tempo esperado e apresentam complicações3. em agudas e crônicas. sem complicações. químico. de acor do com o tempo de reparação tissular. O trauma inicial gera uma resposta inflamatória aguda. se refere às estruturas comprometidas. As feridas crônicas. ocluindo rapidamente sua superfície 2. Outra classificação.6.

plasma. clinicamente apresentando-se com aspecto granuloso e avermelhado. prostaglandinas e tromboxanes. substância s produzidas por eles e vasos sangüíneos é denominado tecido de granulação. Fase de Fibroplasia ou Proliferativa . Este tecido formado por fibroblastos. existe uma resposta celular. Juntamente com todas estas alterações. Em se guida. O fibroblasto surge por volta do segundo e terceiro dia após o trauma. produzindo componentes da substância fundamental e colágeno. Estes passam a secretar as proteínas presentes no te cido de granulação. cuja intensidade correlaciona-se com o tipo e grau de agressão. eletrólitos e glicosaminoglicanos. sendo uma célula fusiforme. os quais estimulam a elaboração de substâncias. as células endoteliais retraem-se e perdem suas conexões. interleucina 1 e 2). Esta vasodilatação com extravasamento de elementos para o exterior do vaso forma um exsudato. tem aspecto semelha nte a um gel e está distribuído entre fibras do tecido conjuntivo. de origem controversa. calor. formando uma rede. O miofibroblasto é uma célula q ue está presente no tecido de granulação e confere capacidade contrátil. Algumas células são importantes nesta fase: o s neutrófilos são responsáveis pela digestão de bactérias e tecidos desvitalizados e os monócitos transformam-se em macrófagos e auxiliam na fagocitose de bactérias e restos celulares. Inúmeros fatores de crescimento e mediadores têm sido estudados e sua influência na cicatrização de feridas2 . com proliferação endotelial e fibroblastos. inicialmente reflexa. Após o trauma. aumentando a permeabilidade vascular e permitindo a passagem dos elementos sangüíneos para a ferida. A substância fundamental é formada por água. O fibrinogênio do exsudato inflamatório transforma-se em fibrina . A formação do epitélio é out o . Concomitante a esta fibro plasia. traduzido clinicamente por tumor. são liberados mediadores celulares. O fator de crescimento é liberado pelas células epidérmicas e plaquetas. ocorre intensa proliferação vascular. com núcleo oval. que desenvolvem o fenômeno inflamatório (histamina. linfocinas. Na reparação do tecido conjuntivo ocorre a formação do tecido de granulação. propiciando o fechamento dos vasos lesados. onde os fibroblastos depositam-se e passam a multiplicar-se e a secretar os componentes protéicos do tecido cicatricial.Fase inflamatória -imediatamente após a lesão há vasoconstrição por 5 a 10 minutos. rubor e dor. eritrócitos e leucócitos através do fenômeno de diapedese. que correspondem a resposta vascular. serotonina. reduzindo a área cruenta e facilitando a epitelização. bradicinina.Nesta fase ocorrem a reparação do tecido conjuntivo e do epitélio. A atividade mitótica do fibroblasto praticamente desaparece em torno do 15º dia.

por segunda int enção. bem como dos elementos do tecido co njuntivo. As colagenases e outras proteases produzidas por macrófagos e células epidérmicas dão direção correta às fibras colágenas difusas. clinicamente a cicatriz se torna menos espessa. a prese nça de infecção. quando não há perda de tecido e as extremidades da pele ficam justapostas uma à outra. a imobilidade. tecido desvitalizado entre outros. principalmente as drogas imunossupressoras. funcionando como cicatrização por segunda intenção. FATORES QUE INFLUENCIAM NO PROCESSO DE REPARAÇÃO TISSULAR Alguns fatores podem afetar o processo de reparação tissular. pois não há anexos cutâneos remanescentes 2. A regressão endotelial ocorre através da diminuição progressiva de vasos neoformados.fenômeno que ocorre na fase de fibroplasia. são chamados de sistêmicos e locais. que ocorre em feridas onde houve perda de tecido e as extremidades da pele ficam distantes umas das outras. a epitelização se faz apenas das margens da mesma. sendo necessário formação de tecido de granulação até que a contração e epitelização aconteçam. o estado nutricional. Esta epitelização faz-se pelo aumento de tamanho. . como cicatrização por primeira intenção. A cicatrização de feridas pode ocorrer por primeira intenção. doenças associadas e o uso de medicamentos contínuos.6. agrupamento e remodelação do colágeno e regressão endotelial. mas devem ser controlados. Há diminuição de todos elementos celulares. A remodelação do colágeno inicia-se na formação do tecido de granulação e mantém-se por meses após a reepitelização. em que a ferida é deixada aberta por um determinado período. Os fatores locais são: a localização anatômica da ferida. ou por terceira intenção.8. Nas feridas com perda total da derm e. Esses fatores muitas vezes não podem ser eliminados. Fase de maturação -Nesta fase ocorrem dois eventos importantes: deposição.9. passando de uma coloração rosada par a esbranquiçada2. sendo suturada posteriormente. e são fundamentais na escolha do trata mento local 3. inclusive fibroblastos. Este procedimento é empregado geralmente nas feridas cirúrgicas com infecção7. Entre os fatores sistêmicos destaca-se: a idade. da divisão e da migração das células da camada basal da epiderme por sobre a área de reparação do tecido conjuntivo subjacente.

13 .14. neurológica. que por mecanismos diretos ou indiretos. cobre e manganês. Vascularização: A oxigenação e perfusão tissular são condições essenciais para a manutenção da integridade e sucesso na reparação tissular.12 . Os oligoelementos como o zinco. A insuficiência renal interfere na manutenção da pressão arterial. as doença s crônicas. É também importante para a produção de fibroblastos e integridade capilar. O fumo também é um componente importante na ocorrência da hipóxia. . quimioterapia.15 . influenciam negativamente no processo de reparação tissular ou predispõe o indivíduo a riscos maiores de desenvolvimento de lesões. ferro. que tornam o indivíduo mais suscetível ao trauma e à infecção3. esteróides e drogas antiinflamatórias 3. tais como a radioterapi a. Condições Sistêmicas: uma das mais importantes é o diabetes mellitus. equilíbrio hidroeletrolítico e processo de coagulação. intestinal. etc. A idade avançada está associada a uma série de alterações nutricionais. são necessários para a formação do colágeno. Existem outras condições sistêmicas como doença reumatológica. Além disso. Alguns estudos afirmam existir maior incidência de feridas crônicas em pacientes na faixa etária acim a de 60 anos 10. ao gerar um impacto no funcionamento de todos os sistemas fisiológicos corporais. vasculares e imunológicas e. proliferação epidérmica. como co-fator de risco tanto para a lesão como para a sua manutenção. é essencial à formação e manutenção da integridade do tecido epitelial. que se destaca pela redução na resposta inflamatória e gera maior risco de infecção. neovascularização. aumentando o risco para desenvolvimento de lesões. a neuropatia reduz a percepção sensorial. uma vez que corresponde a cerca de 55% do peso corpor al e compõe todas as atividades celulares e funções fisiológicas3. devido a ação vasoconstritora da nicotina 3. As vitaminas do complexo B são necessárias para a efetiva ligação cruzada entre as fibras colágenas. metabólicas. Indivíduos portadores de insuficiência arterial ou venosa podem desenvolver ulcerações distais que tendem à cronificação. hematológica. A vitamina A.Idade: é um dos aspectos sistêmicos mais importantes. hepática.11. A água é o mais importante nutriente. A vitamina C é essencial para a hidroxilação da lisina e prolina no processo de síntese de colágeno. Estado Nutricional: as proteínas são fundamentais para todos os aspectos da cicatrização. Desde a síntese de colágeno. para função linfocitária e produção de anticorpos. Alguns tratamento s sistêmicos podem comprometer o processo de reparação tissular. muitas vezes.

extensão e profundidade da lesão. características da pele ao redor e exsudato. favorecendo a infecção 16 . as características do lei to da ferida. como do próprio organismo. Presença de corpos estranhos: são massas anômalas presentes nos tecidos provenientes não só do exterior.15. situam-se nos pontos de maior repouso.Infecção: A simples presença de bactérias não caracteriza a infecção. Kraissl as identifico u como rugas naturais. causa. podem estar relacionadas com as demais úlceras crônicas. As feridas. apesar do tratam ento adequado 3. materiais de sutura. Como exemplo destaca-se os fragmentos de tecidos desvitalizados. acúmulo de sangue ou de linfa. quando dispostas de acordo com as linhas de tensão d a pele. e de feridas que não cicatrizam. aumenta a formação de tecido cicatricial. qu e poderá comprometer a função.7. presença ou não de infecção. Estas linhas são perpendiculares à direção da contração muscular. A presença de infecção prolonga a fase inflamatória. mas também em casos de comprometimento ósseo. a estética ou ambos16. Embora associadas às úlceras po r pressão. deve ser avaliado a dor. Rubbin considerou as linhas de tensão da pele como decorrentes da atividade dos músculos subjacentes e em 1951. . especialmente as vasculogênicas ou neuropáticas2. edema. Assim. Fatores mecânicos: A pressão. absorvidos ou retidos. Além disso. processando-se a sua cicatrização nas melhores condições possíveis 16. numa determinada região. e é de fundamental importância acompanhar a evolução do processo cicatricial e a cobertura utilizada6.6. Segue abaixo um quadro indicador para avaliação de úlceras ven osas e arteriais. Ao determinar maior destruição de tecidos e retardar o processo de reparação. entre outros. Linhas de tensão: Em 1948. Os corpos estranhos podem ser eliminados. ou seja. as culturas devem estar indicadas não só quando há indícios clínicos de infecção local ou sistêmica. A avaliação da ferida deve ser pe riódica. que deve ser diferenciada da colonização. AVALIAÇÃO DA FERIDA A definição de uma conduta terapêutica sofre influência direta da "história da ferida". constituindo-se sempre um fator irritante para os tecidos. tempo de existência. fricção e cisalhamento são forças mecânicas que podem contribuir para romper a integridade tissular. A infecção é o maior inimigo da cura de uma ferida.

margens irregulares Grande Moderado. margens Tamanho Exsudato Edema Dor Pulsos Terço inferior da perna / maléolo medial Lenta Superficial. pálido.Indicador Venosa Arterial Localização Evolução Profundidade leito. ou presente devido estase Extrema Diminuídos ou ausente Figura 3-Realização de medidas da ferida com uso de régua . leito vermelho vivo. pé. margens definidas Pequena Mínimo Ausente. excessivo Presente Pouca ou moderada Presente Dedos. calcâneo/lateral da perna Rápida Profundo.

prom over isolamento térmico e proteger a ferida de traumas e invasão bacteriana. de maneira a não danificar o tecido neoformado. As soluções utilizadas variam. exsudato. enquanto limpeza refere-se ao uso de fluidos para.9. em feridas granuladas e limpas. usando técnicas mecânica e/ou química. Dealey7 cita estud o19 que descreve aumento significativo na atividade mitótica em feridas cujo curativo mant inha a temperatura próxima da temperatura corporal. No Brasil.17. manter o leito da ferida úmido. fragmentos. Uma temperatura constante d e 37 graus estimula a mitose durante a granulação e epitelização6. LIMPEZA E DESBRIDAMENTO Entre os diversos princípios da terapia tópica. A limpeza da ferida deve ser realizada com uso de técnica e fluido que minimize trauma mecânico e químico. A limpeza e cobertura caracterizam as etapas da terapia tópica 7. estreitas ou com espaço morto. e irrigado. podendo ser água. a limpeza é eficaz com o uso de um cateter conectado a uma seringa.TERAPIA TÓPICA DE FERIDAS Embora a reparação tecidual seja um processo sistêmico. é necessário favorecer condições locais através de terapia tópica adequada para viabilizar o processo fisiológico . identificar e eliminar processos infeccioso s. corpos estranhos. o qual deve ser introduzido com cuidado no local. preferencialmente aquecidas para evitar a redução da temperatura no leito da ferida. De acordo com 17 Yamada . o desbridamento consiste na remoção de tecidos necrosados aderidos ou de corpos estran hos do leito da ferida. absorver o excesso de exsudato.7. solução fisiológica ou solução de papaína. resíduos de agentes tópicos. ou frasco de soro perfurado de diferentes maneiras.17. obliterar espaços mortos. e norteado pelos seguintes princípios: remover tecidos necróticos e corpos estranhos do leito da ferida. para essa irrigação é utilizado agulha de calibre 12 e s eringa de 20ml.20. Em feridas profunda s. As soluções utilizadas devem ser. A Agency for Health Care Policy and Research (AHCPR) 18 preconiza o uso de irrigação suave da solução.17.18. suavemente remover bactérias. desde que seja de qualidade e livre de contaminantes 3. a remoção não somente da necrose como também de corpos estranhos do leito da ferida constitui um dos primeiros e ma is importantes componentes a serem considerados no tratamento da ferida. Rodeheaver21 afirma que não ex iste . A terapia tópica de feridas é fundamentada em estudos científicos sobre a fisiologia de reparação tecidual.

e esta colonização não retarda o processo de cicatrização. As feridas crônicas como as úlceras de membros inferiores e por pressão. são colonizadas. a presença de tecido necrótico predispõe à infecção22. 3. a eficácia da irrigação pode decrescer. É importante observar que a medida que a ferida cronifica.21.necessidade de uso de soluções isotônicas na limpeza de feridas em função do reduzido tempo de contato com a superfície da lesão. sendo nece ssário utilizar medidas mais agressivas. Figura 4 -Irrigação de solução fisiológica em ferida profunda com uso de catéter conectado uma seringa Santos3 ressalta os efeitos nocivos dos anti-sépticos em feridas. como desbridamento e antibióticoterapia. contribuindo para o retardo na cicatrização. . como também por não consist ir no mecanismo mais eficiente de reduzir a contagem bacteriana nas lesões. não só pela citotoxicidade. já que as bactérias aprofundam-se e fixam-se nos tecidos. Contudo.

17 . dependendo da lesão e condições do paciente pode ser feita a beira do leito. ambulatório ou centro cirúrgico. pode ter complicações como dor ou sangramento) 3.17. não disporá de tempo e condições para a cicatrização17. desbridamento mecânico (consiste na remoção dos tecidos desvitalizados com o uso da força física como na fricção com gazes ou esponja. Existem algumas situações em que não é recomendado o desbridamento de tecido desvitalizado. como em feridas isquêmicas com necrose seca. desbridamento enzimático ou químico (envolve a utilização de enzimas proteolíticas que estimulam a degradação do tecido desvitalizado. é seletivo.23. deixando em condições adequada s para a cicatrização 3. é seletivo e pouco agressivo. porém previamente aderidas na lesão) e desbridamento cirúrgico / instrumental (realizado com tesoura ou lâmina de bisturi. é necessário a manutenção do meio úmido). Neste caso. ou remoção de gazes secas. Destaca-se o desbridamento autolítico (processo que uti liza os próprios leucócitos e enzimas para a degradação do tecido necrótico.9. desde que a intervenção seja consistente com os objetivos globais do tratamento e condições clínicas do paciente. e para que ele ocorra é necessário a manutenção do meio úmido).17.24. que ao desbridar pode promov er desconforto.O desbridamento é o processo de remoção de corpos estranhos e tecidos desvitalizados ou necróticos com o objetivo de limpeza. porém lento. A AHCPR18 recomenda que qualquer tecido necrótico observado durante a avaliação inicial ou subsequente deverá ser desbridada. Outra exceção se faz em pacientes fora de possibilidades terapêuticas que possuem úlceras com presença de escaras. Estas necessitam que s ua condição vascular seja melhorada antes de ser desbridada. Existem diversos métodos de desbridamento.7.6. cujas indicações. é considerado o método mais eficaz por remover extensas áreas em curto tempo. As coberturas também são denominada s de . COBERTURAS ("CURATIVOS") Além da limpeza e desbridamento. confortável. vantagens e desvantagens devem ser conhecidas para ser tomada a decisão mais adequ ada às necessidades do paciente. outro princípio importante da terapia tópica de feridas é a oclusão com as coberturas3. dor. e devido as condições clínicas. a escara promo ve uma barreira contra infecção. contra indicações.

permite a inspeção contínua da ferida ou a visualização da inserção de catéteres. demonstrou que a reepitelização em ferida s em meio úmido é mais rápida do que as que permanecem em meio seco. ou seja. São eles: manter umidade na interface ferida/cobertura. porém este termo não é o mais adequado. facilidade de manuseio e custo-eficácia . desbridamento e colocação da nova cobertura. possui permeabilidade à gases como o O2. permitir a troca gaso sa. As coberturas podem ser classificadas como primária (aquelas que permanecem em contato direto com a lesão) e secundária (aquelas que ficam sobre a cobertura primária . os procedimentos que vão da remoção da cobertura anterior. Além destas. permitindo aderência somente à pele íntegra e não aderindo à superfície úmida. Filme de Poliuretano Cobertura estéril. angiogênese acelerada. Essas coberturas mantém as células viáveis e permitem que elas liberem fatores de crescimento estimulando sua proliferação25. ou seja. Deve ser colocado 1 a 2 cm além da margem da ferida 3. composta por filme transparente de poliuretano com espessura de 0. entre outros). engloba a técnica de "curar". Será descrito a seguir alguns produtos disponíveis. pois eles retém as enz imas e água que ajudam na fibrinólise. atribuída a proteção que o meio úmido fornece as terminações nervosas do ressecamento e exposição. evitando o trauma durante a sua retirada. CO2 e vapor de água e é impermeável à líquidos e bactérias. Os filmes transparentes são versáteis. remover o excesso de exsudato. A película possui propriedad elastomérica e distensível. limpeza.2mm. portanto facilmente adaptável a áreas de contorno do corpo. Devido a sua transparência.27. Estudo realizado por Winter26. Estas coberturas são indicadas para tratamento de ferida s . proporcionar proteção contra infecção. podendo ser utilizados tanto como coberturas primárias quanto secundárias. É constituído de adesivo acrílico hipoalergênico. e redução da dor. Dealey7 acrescenta disponibilidade. semi-permeável. pois segundo Santos3. podendo ser gazes. Turner definiu algumas características para a escolha da cobertura mais apropriada para manter o ambiente propício para a reparação tissular.28. chumaços. sendo. ser isento de partículas e contaminantes e permitir a remoção sem causar traumas. promover isolamento térmico. desbridamento autolítico.curativos. flexibilidade. Os efeitos benéficos do meio úmido incluem: prevenção de desidratação do tecido e morte celular.

curativo secundário. sendo mais comumente a carboximetilcelulo se. composta por espuma externa ou filme de poliuretano (permeável ao vapor) unida a um material interno. podem aderir a si próprios23. Os filmes de poliuretano reduzem a dor e promovem a epitelização das feridas.Filme de poliuretano sobre úlcera por pressão estágio I em Hidrocolóide Cobertura estéril.24. gelatina e pectina27. A cobertura deve ser avaliada diariamente. e deve ser trocada quando houver acumulo de exsudato ou descolamento do mesmo. podendo permanecer no local por tempo indeterminado quando em uso profilático de lesões de pele. prevenção de lesões de pele por umidade excessiva ou atrito (ex: úlcera por pressão e lacerações). sendo benéfico para áreas doadoras de enxertos cutâneos com baixa exsudação.28. a fim de evitar acumulo de umidade nos mes mos27. Figura 5 .27. Se manipulado de maneira incorreta. Algumas contra-indicações são feridas infectadas ou exsudativas e a presença de sinus. fixação de catéteres. .superficiais minimamente exsudativas. proteção de feridas cirúrgicas sem complicações. Para catéteres deve-se utilizar os desenvolv idos especificamente para essa finalidade.

por manter úmida as terminações nervosas. As trocas são simples e relativamente indolores. o hidrocolóide interage com o exsudato para formar um gel. em geral. tanto na aplicação como na remoção sem trauma.28. ampliando sua indicação para feridas mais profundas e com maior exsudato. A camada impermeável à água e gases promove isolamento térmico e meio hipóxico. que estimula a angiogênese. em placa (com diferentes espessuras e tamanhos). Ao aplicar a cobertura. O gel evita a aderên cia à ferida e proporciona alívio da dor. deve ser assegurada margem de aproximadamente 2 cm. o qual deve ser utilizado com ind icação precisa23. para aderir à pele íntegra.28. No entanto foi introd uzido no mercado nacional. dependendo da avaliação diária. o hidrocolóide fino melhorou não só a conformabilidade como a transparência. A inibição do crescimento bacteriano é potencializada pelo microambiente ácido promovido pela oclusão com este polímero3. . pasta ou pó. O meio úmido desencadeia a ação das enzimas que liquefaz o tecido necrótico.24. Não se recomenda a utilização dos hidrocolóides tradicionais em ferida clinicamente infectada.28 . purulento na aparência.27.27. Recente desenvolvimento associou o hidrocolóide ao alginato de cálcio. bem como uma infinidade de indicações. Deve ser indicado para quaisquer fe ridas com volume pequeno ou moderado de exsudação.28. sendo essa versão bem apropriada para a prevenção3. que estimula a síntese do colágeno e acelera o crescimento e a migração das células epiteliais. O gel criado pelo curativo é.27. que facilitam o uso.Em contato com a ferida.23. Além deste. permitindo observação da ferida sem a necessidade de remoção do curativo. e deve ser trocado quando houver extravasamento do gel ou descolamento das bordas. Esse gel cria um meio úmido na superfície da ferida. com odor acentuado e não deve ser confundido com infecção27. atuando na limpeza e desbridamento autolítico. uma modalidade de hidrocolóide associado com prata para ser util izado em feridas altamente colonizadas e infectadas. Os hidrocolóides têm diferentes apresentações. A cobertura pode permanecer por até sete dias.

devido a sua elevada umidade que evita a desidratação das terminações nervosas. formado por redes tridimensionais de polímeros e copolímeros hidrofílicos compostos de água (78 a 96%). queimaduras de primeiro e segundo grau. áreas doadoras de pele. Esse ambiente ajuda na autólise.28. Em feridas livres de tecidos desvitalizados. . São indicadas em feridas com perda tecidual parcial ou profunda. facilitando sua rem oção. uretanos. Está disponível em forma de placa e gel e requer a u tilização de cobertura secundária. propicia o meio ideal para a reparação tec idual. feridas com tecid o necrótico. dando uma sensação refrescante.Figura 6 -Placa de hidrocolóide sobre úlcera por pressão estágio II sacral Hidrogel É um gel transparente. dermoabra sões e úlceras28. polivinil pirrolidona (PVP) e polietileno glicol3. Reduzem significativamente a dor. ou seja amolece e hidrata tecidos desvitalizados.

Figura 7 . com odor forte e característico. Enzima proteolítica. No entanto existem alguns produtos que associam o hidrogel ao algin ato de cálcio.Devido a reduzida capacidade de absorção. desvitalizados e infectados da lesão20.29.30. ampliando seu uso para feridas com moderado exsudato. A papaína vem sendo utilizada há algum tempo em estudos clínicos. com resultados favoráveis20.29. As trocas devem ser realizadas entre 1 a 3 dias.30. é.Hidrogel em úlcera isquêmica de membro inferior Papaína Nos últimos anos tem-se dado muita atenção ao papel desempenhado pelas enzimas proteolíticas no processo de reparação dos tecidos danificados e seu efeito na retirad a de tecidos necróticos. é contra indicada em feridas exsudativas. Sua molécula é . um pó de cor leitosa. de origem vegetal extraída da Carica papaya. após o seu preparo.

a 1-anti-tripsina. Em um estudo experimental de papaína a 2% foi observado o apresentando maior número de controle. envolvido externamente por invólucro de não-tecido poroso feito de fibras de náilon. É uma cobertura primária e requer cobertura secundária. em virtude da ação da antiprotease plasmática. A papaína atuou de eridas tratadas31. diminuindo a contagem bacteriana e. É armazenado em geladeira para maior segura nça da manutenção de sua estabilidade 32. no desbridamento de tecido desvitalizado20. particularmente em pacientes nos quais esses tecidos são produzidos logo após o desbridamento cirúrgico. e a 10%. A solução de papaína a 2% é utilizada para promover a granulação e epitelização da ferida.30. Carvão ativado Cobertura estéril. que impede a ação das proteases nos tecidos saudáveis. ou seja. composta de tecido de carvão ativado impregnado com prata. fibroblastos e fibras colágenas. que são inativadas pela ação da pra ta. Possui um sistema de poros no tecido capaz de reter bactérias.31. derivados do iodo.31 afirmam que a papaína não danifica os tecidos íntegros.29. ou pasta. oxigênio. É produzido pela carbonização de raiom de viscose. consequentemente odores desagradáveis. ventilado e protegido31.constituída de 17 aminoácidos diferentes com massa molecular relativa de 20900.32. s elado em toda sua extensão. É utilizado no amolecimento e remoção de tecido desvitalizado. É solúve l em água e glicerol. Na forma de pó. éter e clorofórmio. não interferindo na integridade do tecido viável.30. é inativada a reagir com reagentes oxidantes como o ferro. mas praticamente insolúvel no álcool. o exsudato da ferida conten do esta substância. deve ser preparada imediatamente antes da realização do curativo em concentrações que variam de acordo com a característica da ferida 26. que de ve . pode ser irritativa sobre a pele íntegra. deve ser mantida em luga r fresco. sendo usualmente com gazes. seco. sendo necessária trocas fre qüentes de curativos. água oxige nada e nitrato de prata.33. porém deve-se ter precaução com o produto da digestão desta enzima. Por ser uma enzima de fácil deterioração. Estudos 20. sendo utilizada em pó. em relação ao grupo forma eficaz nas fases inicial e de fibroplasia das f É adquirida por meio de manipulação. para evitar lesões na pele ao redor da ferida. reparação tecidual de feridas cutâneas utilizando a desenvolvimento de tecido de granulação mais exuberante.

de algas marinhas da espécie Laminaria.33. É indicado para feridas infectadas ou não. principalmente nas áreas com tecido de granulação. O sódio do exsudato e o cálcio do . neoplásicas.33. deiscências cirúrgicas.Aplicação do carvão ativado em úlcera de perna Alginatos Os alginatos são polissacarídeos derivados do ácido algínico.28. É contra indicado em feridas secas e recobertas por escara. Figura 8 . o carvão ativado pode aderir e causar sangramento durante sua remoção. úlceras vasculogênicas. É utilizado há algumas décadas devido a suas propriedades hemostáticas. úlceras por pressão e aquelas com drenagem de exsudato moderado ou abundante26. que por sua vez é obtido principalmente. pois tem risco de dispersão de partículas de carbono no leito da ferida que atuarão como corpos estranhos3.7. Não deve ser cortado. porém o carvão deverá ser trocado assim que atingir o ponto de saturação3.28.ser trocada diariamente ou mais de uma vez ao dia. feridas fúngicas. Em lesões com pouco exsudato.

28. Figura 9 . em placa ou fita. É indicado para feridas exsudativas. como deiscência de ferida cirúrgica.Alginato de cálcio em úlcera de calcâneo REFERÊNCIAS . uma vez que o exsudato é necessário para transformar o alginato em gel. Também são utilizados para o tratamento de feridas de espessura total. Pode ser repartido para se moldar ao tamanho da ferida.alginato sofrem troca iônica formando um gel solúvel de alginato de sódio. sendo necessária uma cobertura secundária. porém deve ser bem avaliado quanto sua indicação por ter custo elevado. A geração de íon livre de cálcio amplifica a cascata de coagulação conferindo propriedade hemostática3. O alginato precisa ser trocado apenas quando estiver bem sat urado3. O gel emite um odor forte e tem aparência purulenta que não deve ser confundido com infecção. É classificado como cobertura primária. Esse gel não é aderente à ferida. etc. tem duas apresentações.23. É de fácil aplicação. úlceras.8.

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Disponível em: URL: http://www. Bajay HM.4º andar. CEP 04024-002 São Paulo Fone: +11 5576 4085 / 5576 4070 e-mail: leilablanes@ig. p. In : Jorge SA. Abordagem multiprofissional no tratamento de feridas.8(1):1823.30. 32.com SP . Simões MJ. Estomaterapeuta. Curativos e coberturas para o tratamento de feridas.bapbaptista. Storojuk VT. Efeitos benéficos da papaína no processo terapêutico de lesões de pele. Khirurgiia 1981. 2003. Acta Cirúrgica Brasileira 1993. São Paulo: 2004. Sanchez Neto R. Dantas SRPE. In: Jorge SA. Silva LM. Juliano Y. Aspectos morfológicos e morfométricos da reparação tecidual de feridas cutâneas de ratos com e sem tratamento com solução de papaína a 2%.81-99. Dantas SRPE.(5):99-101. São Paulo: Atheneu. Teves DC. 31. p. Baroni B. Dantas SRPE. Mestre em Ciências da Saúde pela UNIFESP Disciplina de Cirurgia Vascular Rua Napoleão de Barros. Tratamento de feridas.br Como citar este capítulo: Blanes. L. editor. 715 . Abordagem multiprofissional no tratamento de feridas. 2003. Cirurgia vascular: guia ilustrado. Use of papain in treating suppurative postoperative so ft tissue complications and diseases. Jorge SA. 33. Baptista-Silva JCC.com.123-31. Novo NF. Udod VM. Leila Blanes* Enfermeira da Unidade de Cirurgia Vascular do Hospital São Paulo. São Paulo: Atheneu.

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