Martha Mariana de Almeida Santos

Interpretação do Hemograma: Série Branca
Leucócitos: Células incolores do sangue circulante, e seus precursores no tecido hematopoético. Papel essencial nos mecanismos imunológicos do organismo. São as únicas células nucleadas no sangue dos mamíferos, perfazendo no adulto de 5.000 a 9.000 células/mm³ ou mais, no 1º ano de vida. Elementos mielóides: Que se desenvolvem na medula óssea - Granulócitos ou Polimorfonucleares: células com numerosos grânulos específicos e núcleo com considerável alteração de forma. o Neutrófilos: leucócitos mais numerosos, entre 45 e 70% ou seja, 3.200 e 6.000/mm³, com núcleo multilobulado e grânulos neutros. Fagócitos, agem nas agressões microbianas, podendo conter granulações grosseiras (tóxicas) em infecções graves. Seus precursores incluem neutrófilos de núcleo em bastão, metamielócitos ou formas jovens (formas mais jovens vistas no sangue periférico normalmente), mielócitos, promielócitos, mieloblastos. o Eosinófilos: entre 2 a 4% do total (60 e 320/mm³), possuem grânulos eosinofílicos. o Basófilos: entre 0 e 1% do total (0 a 100%), com grânulos basofílicos. Relacionados estreitamente com os mastócitos (basófilos teciduais). Desempenham papel importante nas reações alérgicas e anafiláticas, relacionadas à ação da IgE, histamina e outras aminas vasoativas. - Eritrócitos. Cinética Neutrofílica: Os neutrófilos se dispõem de duas maneiras nos vasos: às margens, junto às paredes de vênulas e arteríolas, e em livre circulação no interior dos vasos. O compartimento marginal contém o mesmo número de neutrófilos que o compartimento circulante, mas apenas este é considerado na contagem de células do leucograma. A sobrevida de 6,8 horas dos neutrófilos indica que a população total é renovada duas vezes e meia por dia. São três os mecanismos capazes de alterar a concentração de neutrófilos no sangue: - Alteração na proporção de células entre os compartimentos: passagem da marginal para a circulante, após adrenalina, exercícios extenuantes. FALSA neutrofilia. - Modificação no provimento pela medula óssea: aumento da produção, sem perda correspondente, em infecções. Neutrofilia VERDADEIRA. - Modificação da migração para os tecidos: diminuição da passagem, maior mobilização da MO, desvio do marginal para o circulante, na administração de glicocorticóides. Neutrofilia ineficiente, com aumento da produção porém aumento do armazenamento intravascular. Neutropenia: diminuição do fornecimento pela MO, aumento da destruição, alteração da distribuição. Alterações Morfológicas nos Neutrófilos: 1. Granulações tóxicas grandes, grosseiras, quase negras em neutrófilos: indicam processo tóxico ou infeccioso gravíssimo, supurativo ou não. 2. Granulações tóxicas róseas, pequenas, uniformes: indicam supuração. 3. Vacúolos citoplasmáticos e nucleares: degeneração neutrofílica, indicando processos supurativos ou tóxicos graves. Septicemias, febre tifóide, meningites, etc. Elementos linfóides: Desenvolvem-se principalmente nos tecidos linfóides - Linfócitos: ausência de grânulos, núcleo esférico grande, representam 20 a 35% do total (1.300 e 3.400/mm³). Originam-se do ancestral da MO “célula reticular primitiva” (indiferenciada), que também origina granulócitos e plaquetas. Surge o imunoblasto (célula pironófila), que dá origem às duas classes de linfócitos, B (imunidade humoral → plasmócitos, 35%) e T (imunidade celular, 65%). - Monócitos: células grandes, sem grânulos, com núcleo em grão de feijão, que perfazem 4 a 8% do total (160 a 640/mm³). Migram através da parede dos vasos e dão origem aos macrófagos (histiócitos).

FM-UnB: Monitoria de Clínica Médica – 1/2003

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A. geralmente indica início do processo.L (ed): Harrison`s Principles of Internal Medicine. Aparece principalmente nos processos infecciosos agudos.. Leucopenia: redução dos leucócitos abaixo de 5. D. até três tipos de células. O desvio será mais intenso quanto maior o número desses elementos imaturos no sangue periférico. porém sem nova entidade nosológica. na maioria das vezes. duas. LONGO. Ed. 15th edição. .S.Número normal de neutrófilos com desvio: a medula está sendo ativamente solicitada. linfócitos e eosinófilos. E.Agravamento de leucocitose e de desvio já presentes: agravamento de infecção aguda ou complicação. . formas imaturas. Desvio para a Esquerda Consiste no aparecimento de elementos situados à esquerda dos bastonetes.Martha Mariana de Almeida Santos Redesenhado de HOLLAND. J.Agravamento de leucocitose e aparecimento de desvio: complicação de caráter agudo sobre uma infecção de caráter relativamente benigno . crônicas ou reativadas não há desvio. McGraw-Hill. S... 2001.L..000/mm³. . .I. uma vez que a redução do desvio indica evolução favorável do processo. JAMESON. FM-UnB: Monitoria de Clínica Médica – 1/2003 2 . Além de indicar cronicidade. com destruição neutrofílica em massa ou infecção aguda que normalmente cursa com neutropenia (ex: febre tifóide).L. o que se deve.. S. Interpretação dos Desvios do Leucograma Leucocitose: elevação do número total de leucócitos acima de 9.M. GALLIN. sendo as mais importantes neutrófilos. Pode ser devida ao aumento de uma. Nas infecções subagudas.000/mm³.L. e observa-se aumento dos neutrófilos multisegmentados apenas. A ausência de neutrofilia pode indicar processo extremamente grave. J. pode definir prognóstico. FAUCI.Agravamento de leucocitose sem ocorrência de desvio: processo em progressão. New York.. HAUSER.Leucopenia seguida de leucocitose: complicação de uma infecção leucopenizante. KASPER. bastões e metamielócitos.: Disorders of Granulocytes and Monocytes in BRAUNWALD. D. à baixa dos neutrófilos.

empiemas. . sarcomas do sistema linfático e o SRE . metaplasia mielóide.. mielose hipoplásica. otite média aguda. poliomielite. como os da triquinose. abcessos. etc).. malária. . anemia ferropriva crônica. Neutropenia: redução dos neutrófilos abaixo de 2. busulfan. lúpus eritematoso sistêmico. Atingem graus máximos nas coleções purulentas sob tensão. hepatites virais. o Infecções: TB. tranqüilizantes. dermatite herpetiforme. .Síndrome da infiltração pulmonar ou eosinofilia (PIE syndrome): Síndrome de Loeffler.500/mm³ . . queimaduras extensas. processos alérgicos.Destruição de tecido: infarto do miocárdio e pulmonar. artrite reumatóide. raiva. sulfonamidas). 5-flucitosina). granuloma eosinofílico. antibióticos (cloranfenicol.. etc. ascaridíase. alfa-metildopa.Complicações supuradas de infecções leucopenizantes: otite ou pneumonia no sarampo. anticonvulsivantes (carbamazepina.Dermatoses: pênfigos. sarampo.Infecções parasitárias: principalmente por helmintos que invadem os tecidos. após esplenectomia. estrongiloidíase. periarterite nodosa. escarlatina. varíola. equinococose. . febre tifóide. diuréticos com mercúrio. .Neoplasias: necrose do tecido neoplásico.Eosinofilia familiar FM-UnB: Monitoria de Clínica Médica – 1/2003 3 . filariose. helmintíases.. Causas patológicas: . clorambucil. artrite supurada.. . cloranfenicol. o Iatrogenia: aminopirina. perda de sangue ou hemólise extravascular. doença de Hodgkin. etc. leucemias. policitemia vera. anemias hemolíticas crônicas. mielopetrose. liberação de adrenalina. ósseos. injeção de proteína heteróloga. o Inibição da MO: esplenomegalias esclerocongestivas (síndrome de Banti). eosinofilia tropical. sarampo. osteomielite aguda. etc). etc. etc. doenças de armazenamento (Gaucher. reabsorção do sangue extravasado. meningite. eclampsia. tularemia. irradiação pelos raios X. fenotiazinas.Infecções viróticas: algumas. o Doenças auto-imunes: Síndrome de Felty. sarcoidose. propiltiouracil. tóxicos. irradiações. .Fase de cura de processos infecciosos agudos . inflamação perifocal. fase inicial das viroses em geral.Doenças alérgicas .000/mm³. doença de Hodgkin. tumores do ovário. .Período pós-operatório. exercícios físicos. penicilinas. mononucleose infecciosa.Distribuição alterada: febre tifóide. perfuração intestinal. ciclofosfamida). peritonite na febre tifóide.Outros: escarlatina.Tumores: carcinoma brônquico. esgotamento da medula (infecções protraídas. ancilostomose. . o Lesões químicas ou físicas da MO: intoxicações químicas. invasão da MO ou substituição por tecidos estranhos (mielofibrose. surto agudo de malária. cirrose hepática. eritema multiforme. antimetabólitos (metotrexato.Leucocitoses transitórias: estresse. síndrome de Felty. o Parada carencial na maturação dos granulócitos: anemia perniciosa. uremia o Doenças da MO: mielose aplástica. gripe. anti-tireotóxicos. sulfamidas.. tesaurismoses. AINEs. esquistossomose. .. leucemia mielóide. leishmaniose.Aumento da destruição: o Infecções graves ou protraídas o Anticorpos antineutrófilos ou retenção pulmonar e esplênica. 6-mercaptopurina. fenotiazidas.. choque..Hemopatias: leucemia mielóide aguda ou crônica. hemorragias prolongadas). reticuloendotelioses. Eosinofilia: eosinófilos acima de 4% ou 400/mm³. apendicites. Causas: . diuréticos. neutrófilos > 6.Intoxicações endógenas ou exógenas: uremia. anemia perniciosa.. oxicarbazepina).Infecções piogênicas: septicemia.Martha Mariana de Almeida Santos Neutrofilia: leucócitos > 9. antipsicóticos (clozapina). . fenilbutazona. cisticercose. brucelose. varicela. carência de vitamina A. acidose.000. Basofilia: pode aparecer na leucemia mielóide crônica.Diminuição da produção: o Drogas: agentes alquilantes (mostarda nitrogenada. glicocorticóides. pósesplenectomia. Niemann-Pick. . . AIDS. especialmente as neurotrópicas como encefalite. fase inicial de infecção bacteriana de grande monta (endotoxemia aguda).

Administração de ACTH. Há perturbação acentuada da série vermelha.000 a 20. fazer a contagem com mais de 400 células e percorrer os bordos da lâmina.Choque.Diversas infecções por protozoários: malária. encontrando-se freqüentemente 2. Quadro Leucêmico: a cifra de leucócitos pode estar aumentada.Infecções agudas com intensa leucocitose e linfocitose: coqueluche (leucócitos = 15. fase aguda da febre tifóide e da gripe (sem significar mau prognóstico nesses 2 últimos casos). radiações ionizantes (raios X.Fase aguda de processos infecciosos . .Caquexia. adrenalina. Neste caso. que com esses valores ainda não são encontrados. doença de Hodgkin.ou policromáticos. sem formas intermediárias. tripanossomíase . Linfocitose: aumento dos linfócitos acima de 35% ou 3. febre tifóide (raramente) .Esforço físico extenuante.Estados de imunodeficiência (aplasia tímica congênita) . linfocitose relativa. Observa-se geralmente trombocitopenia. mieloblastos. .Comprometimento de órgãos ricos em elementos do SRE Monocitopenia: monócitos abaixo de 4% ou 150/mm³. inclusive agranulocitose .000/mm³. rádio. uremia. Causas: . etc. Linfocitopenia: só tem valor a absoluta. sífilis.Fase inicial dos processos infecciosos agudos ou reagudização de processo crônico: eosinófilos em leucograma infeccioso sugere infecção benigna ou em vias de cura. aminopirina. Causas: tóxicos industriais. em geral. Causas: . dinitrofenol.Martha Mariana de Almeida Santos Eosinopenia: abaixo de 60/mm³ ou mesmo desaparecem do sangue periférico.Estados tóxicos: coma diabético. metamielócitos.Fase defensiva das infecções agudas: fase de melhora da agranulocitose . porfiria .Leucemia monocítica . tifo exantemático. corticóides.Fisiológica: na criança até 5 anos. Observam-se formas imaturas em todos os graus. raramente ultrapassando 250.Leucemia mielóide crônica: os leucócitos podem atingir 200.000/mm³. Causas: . normal ou francamente leucopênica (até “agranulocitósica”). inclusive trabalho de parto .Doença de Hodgkin. queimaduras.000 a 3. brucelose. ou linfócitos e monócitos reduzidos em números absolutos. etc). fase inicial das neoplasias. endocardite bacteriana subaguda. hemólise aguda. com numerosos linfócitos atípicos). especialmente na leucemia aguda. já com eritroblastos orto. com poucas formas jovens e leucocitose.Convalescença de infecções agudas: linfocitose pós-infecciosa . tolueno. linfocitose infecciosa.Leucemia linfóide crônica: típico encontrar 90% de linfócitos adultos. na qual também aparece o hiatus leucemicus. aparecimento de formas muito imaturas ao lado de formas plenamente maduras. antimoniais.500/mm³ no adulto ou acima de 45% em crianças até 3 anos de idade. caquexia. etiologia desconhecida.000 na criança até 3 anos. . Causas: . desnutrição (ausência de reação do SRE).000/mm³ e ainda mais. medicamentos (benzol.Leucemia linfocítica e linfomas . . Monocitose: elevação dos monócitos acima de 8% (650/mm³). anóxia (reação “de alarme”) . Intensa granulocitopenia. As hemáceas e plaquetas praticamente não se alteram. sendo excepcionais as formas subleucêmicas ou aleucêmicas. doença de Gaucher . este último ocorrendo principalmente na leucemia aguda.Linfocitose relativa dos processos acompanhados de neutropenia.Certas infecções bacterianas: TB. processos infecciosos graves.Cirrose hepática. mielócitos. menos de 1. . Denota. etc).000 a 500. porém com menos células que na mielóide. FM-UnB: Monitoria de Clínica Médica – 1/2003 4 .200/mm³ e 2. com 60 a 80%). calazar.000/mm³ no início da doença.000. linfomas administração de drogas citostáticas. mal prognóstico.000. Síndrome de Cushing Agranulocitose: quadro febril agudo com lesões necróticas em boca e faringe. mononucleose infecciosa (após a primeira semana. TB ganglionar. brucelose .Infecções crônicas: TB.

reação monocitária. etc): monocitose indica processo em evolução e linfocitose nas fases crônicas indica boa resistência e tendência para a cura. 1996..000/mm³). Causas: . J. JAMESON. etc. 2001. havendo possibilidade de uma observação clínica mais prolongada. 1999. McGraw-Hill.. Degeneração acentuada de neutrófilos + granulações tóxicas abundantes = processo supurativo. Monocitopenia relativa. HARDMAN. 1995. LIMBIRD. queimaduras. acidose diabética.L (ed): Harrison`s Principles of Internal Medicine.Infecções: pneumonia. New York .S.. etc. 5. Ed.. (ed): Goodman`s and Gilman`s The Pharmacological basis of Therapeutics. Guanabara Koogan.. Presença de monocitose absoluta pode indicar reação inflamatória local. Permanência de desvio por vários dias = infecção grave com destruição de muitos neutrófilos. Desvio ausente ou muito discreto. porém monocitose absoluta.. S. 3. por aumento de linfócitos e neutrófilos.E. O. Infecções no Leucograma Infecções agudas por cocos piogênicos: leucocitose + neutrofilia. Infecções crônicas inespecíficas: leucocitose variável.: Patologia Estrutural e Funcional. mononucleose infecciosa. M. ausência de desvio e presença de escassos neutrófilos degenerados ou exibindo granulações tóxicas sugere. ROBBINS. J. especialmente quando há eosinófilos.000/mm³).. desaparecimento do desvio. 4. COTRAN.Martha Mariana de Almeida Santos Reação Leucemóide: elevação muito acentuada dos leucócitos (mais de 30.R. espiroquetas. 1996.S.. Três fases de Schilling: o Luta ou Neutrófila: leucocitose + neutrofilia + desvio nuclear para esquerda + aneosinofilia + linfocitopenia relativa o Defensiva ou Monocitária: leucocitose menos acentuada. reação mielóide.Doenças malignas: metástases ósseas. Rio de Janeiro. diminuição do desvio. 15th edição. D. L..Outros: eclampsia. A série vermelha não apresenta anormalidades.. LONGO. linfócipenia ou linfócitos normais.L. Ed.L. Quadro leucocitário com desvio. E. D. alterações degenerativas na maioria dos neutrófilos e ausência de eosinófilos = infecções muito graves 2.. 8ª edição. FM-UnB: Monitoria de Clínica Médica – 1/2003 5 . . Editora Revinter. 5ª edição. GONÇALVES. a ponto de suscitar confusão com leucemia. LÓPEZ. meningococcemias. - - Dicas: 1. monócitos normais ou aumentados. paralinfoblastos). R. Ed. reaparecimento dos eosinófilos. Processos específicos: Germes com cápsula lipoídica (TB.L. 4ª edição. KUMAR. J. diminuição da neutrofilia. que não se trata de um caso cirúrgico urgente. Podem provocar reação linfóide. mieloma múltiplo. Neutrófilos multisegmentados (desvio para direita) = benignidade e cronicidade do processo.: Laboratório para o clínico.. Ausência de monocitose e linfocitose após muitos dias de evolução = falta de reação defensiva do organismo.G. MILLER. New York. São Paulo. R. 9th edition. Editora Ateneu. A. V. 7. por neutrofilia e/ou linfocitose. seu aparecimento indicando reagudização ou complicação.. num quadro abdominal agudo. McGraw-Hill. HAUSER. difteria. linfocitose. Leucocitose moderada (12.. coqueluche. etc. em graus crescentes de força de infecção. LAURENTYS-MEDEIROS. porém nunca paraformas (paramieloblastos. S. 2. A diferenciação se dá porque a reação leucemóide pode mostrar formas jovens... eosinofilia. FAUCI. Referências Bibliográficas: 1. Rio de Janeiro. Hansem. 6. doença de Hodgkin. 4. KASPER. período hemorrágico ou pós-hemolítico. BRAUNWALD.L.: Semiologia Médica. 5. neutropenia. o Cura ou Linfocitária: leucócitos normais ou ligeiramente aumentados. . 3. monocitose.

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