Mulher e o Pagode da Bahia

Joiciane dos Santos Gomes¹ Tiago Santos Silva² Resumo A Bahia é berço de uma infinidade de arte, expressada das mais variadas formas, sendo o Pagode uma delas. Esse ritmo é uma expressão cultural que atrai pessoas de diversas classes sociais. É sabido que estar no mundo é produzir e vivenciar cultura. O pagode é um produto cultural legitimado que constrói identidades sociais, crenças e valores, criando uma demarcação cultural. Neste artigo buscou-se compreender no universo das letras de pagode, qual o discurso predominante, identificando como a “figura” feminina é descrita e traçar um perfil das mulheres que estão inseridas no movimento, compreendendo os estereótipos e sua influência no cotidiano das mesmas. Notou-se que o discurso produzido é genuinamente masculino e que as mulheres são a representação do desejado e símbolo do pecaminoso. Considerando que a sua sexualidade é objeto de apreciação das letras de pagode, o que pensam as mulheres inseridas neste movimento? Obter esta resposta foi uma das motivações desse estudo. Palavras-Chave: Bahia; Pagode; Mulher; Estereótipos. Abstract Bahia is home to a infinity of art, expressed in more different forms, and the “Pagode” of them. This rhythm is a cultural expression that attracts people from different social classes. It is known being in the world is produce and to live culture. “Pagode” is a legitimate cultural product that builds social identities, beliefs and values, creating a cultural demarcation. This article sought to understand the universe of “pagode” lyrics, which identifies the dominant speech as the "figure" of women is described, drawing a profile of women who are embedded in the movement, including stereotypes and their influence on the daily lives of these people. It was noted that the speech is genuinely produced by men and women are a representation of the desired, but also a symbol of sinful. Their sexuality is the object of appreciation on “pagode” lyrics, but what do women inserted in this movement think about? Get this answer was one of the motivations for this study. Keywords: Bahia; “Pagode”; Women; Stereotypes.

1. Introdução A música na Bahia sempre esteve presente no cotidiano da população como já dizia Nizan Guanães (2010) na sua música: We Are Carnaval “... o baiano é: um povo a mais de mil ele tem Deus no seu coração e o diabo no quadril”. Atualmente temos uma diversidade de ritmos descendentes principalmente da música negra, do samba, da chula, dos tambores africanos. A Bahia é sinônima de ritmos, cores, movimentos e através da música encontra¹ Graduada em Contabilidade pela UNEB, MBA em Planejamento Tributário pela UNIFACS, Auditora, e-mail: joicy_anne@yahoo.com.br ² Graduado em Administração pela FSLF, MBA em Recursos Humanos pela UNIFACS, Analista de Recursos Humanos, e-mail: tiago.adm.rh@gmail.com

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se a forma de estabelecer relação com outras culturas e de difundir pensamentos e ideologias. “o pagode baiano é um gênero híbrido oriundo do samba que mescla a tradição do Recôncavo baiano [. A percussão começa a ascender na música baiana. traçar um perfil das mulheres que estão inseridas no movimento popularmente conhecido como pagodão e compreender os estereótipos e sua influência no cotidiano dessas pessoas. A forma de viver e se relacionar dizem muito sobre quem somos e no que acreditamos. nasceu na periferia de Salvador e é instrumento de entretenimento e lazer da camada empobrecida além de representar para aqueles envolvidos no movimento uma forma de inserção na sociedade elitista. desejos. rap e hip hop. Referencial Teórico A partir da década de 1980 surgiu uma nova “onda” que invadiu a periferia de Salvador. bandas de axé music e bandas de pagodes. Esse contexto leva-nos a questionar: Como a “figura” feminina é descrita nas letras de música de pagode? O objetivo desse estudo é compreender o universo das letras de pagode. pensamentos estão presentes também nas letras de pagode que é uma expressão do modo que vivemos refletindo sobre nossas crenças. trazendo novos ritmos e sons. Compreendemos o pagode como gênero musical oriundo do samba tradicional misturado a cantigas de rodas e cantos de terreiros de candomblé. músicas eletrônicas. Sonhos. qual o discurso predominante identificando como a “figura” feminina é descrita. p. Para Clebemilton Nascimento (2009.. Analisando as letras de música de pagode nota-se a presença constante da “figura” da mulher seja com palavras de duplo sentido e/ou afirmações que denigrem a sua imagem. além disso. o universo chamado de axé music e recentemente a explosão do pagode baiano. foi assim com a tropicália. sons regionais. mescla inovação tecnológica. seja pelo Olodum. baixa estima e dominação do gênero masculino.]”.. 2. que com o carnaval transcende do Brasil para o mundo. Nesse período a música oriunda da periferia começa a ocupar destaque na sociedade baiana. funk. valores e ideais. expressão genuinamente popular. 50). auto-afirmações. Nesse sentido acredita-se que exista uma inversão de valores. tornando-se elemento marcante da cultura social. As músicas de origem baiana são denominadas axé music nos demais estados brasileiros contrariando a cultura local. dançar e se divertir com esse novo som. os novos baianos. O pagode na Bahia. O pagode foi criado nos bairros 2 . Sabe-se que o pagode como expressão de massa está presente na vida de boa parte da sociedade baiana. Com o crescimento da representação baiana no espaço fonográfico as mais variadas classes brasileiras passaram a “curtir”.

Oz Bambaz (2001). Nesse sentido: As letras do É o tchan chamavam a atenção pelo apelo explícito à sensualidade. idealizada pelo ex-jogador de futebol Edilson Ferreira. suas performances envolviam música. criadas nas ruas e festas populares. Além disso. A música do “É o Tchan” não é apenas um produto de massa. programas de televisão e shows. 2000). (NASCIMENTO. O grupo Oz Bambaz foi formado por parte da antiga banda Raça Pura e alguns músicos do bairro do Engenho Velho da Federação em Salvador. Black Style e O Troco. Carla Perez foi uma das grandes revelações da banda em virtude de ter aparência branca. Buscou-se as letras de música tendo como temática a mulher e por isso focou-se nas bandas: Oz Bambaz. 3 . mas foi uma “explosão” que ultrapassou as fronteiras brasileiras invadindo o mercado internacional. Uma banda formada por dois vocalistas. Como estratégia investiu-se em grande produção de eventos buscando a máxima união do público e grupos diferentes abrindo espaço para outros artistas e bandas de expressões regionais (DIAS. com base no próprio samba de roda do Recôncavo. 57). Parangolé (1998) Saiddy Bamba (1998). Black Style (2006). Com a abertura mercadológica para esse gênero musical surgiram inúmeras bandas.. Para Ari Lima (1999) o pagode é uma decorrência do samba que ganhou autonomia do estilo há pouco tempo. onde essa matriz africana é incorporada a esse som. Guig Ghetto (2001). dança e teatralidade e a intensa participação do público em apresentações e festas. Psirico (2003). 1988). no desfrute corporal das danças. a saber: Harmonia do Samba (1993). a banda mantém a mesma linha sonora do Pagodart e Parangolé. O Troco (2008) e Caldeirão (2010). p. mas sim o resultado de processos diálogos de negociação da cultura e da sociedade (BAKHTIN. Pagodart (1998). quebrando assim alguns paradigmas sociais. duas dançarinas e um dançarino que transformaram o samba em um produto de grande repercussão pela mídia. com batuques e danças. A grande explosão do pagode baiano se deu com o sucesso do grupo É o tchan na década de 90. Podemos dizer também que o pagode é uma evolução das músicas dos terreiros de candomblé. O grupo gerou uma série de polêmicas. nos tradicionais ensaios geralmente nos finais de semana e que com o crescimento do público foi aderido por outras classes. 2009. Fantasmão (2007).. o pagode encontrou espaço em emissoras rádios que em sua maioria aluga sua programação aos empresários de bandas e as produtoras (VELOSO. loura e dançava como uma negra. 2010). Para Guerreiro (2000) o sucesso do “É o Tchan” está ligado ao jogo coreográfico. criando assim o que Jesús Martin-Barbero (2008) denominou demarcações culturais.periféricos de Salvador.

a fêmea. Percebe-se que “a relação do macho face à fêmea é naturalmente. “é de cima pra baixo” é a materialização da submissão da mulher frente o poder de dominação masculina. como a ereção. ou a posição superior no ato sexual” (BOURDIEU. O refrão termina com a realização sexual do homem. por exemplo. as vilas do Recôncavo e os quintais de Salvador. o macho é governante.” (OS HAWAIANOS. tendo sua “explosão” com a famosa música: Todo Enfiado. o Rodo. que como conseqüência foi demitida. fonte de satisfação sexual. 93) define que: “estar no mundo é estar produzindo cultura e estar sendo produzida por ela”. A música referida acima foi aquela divulgada através do youtube onde além de levar o nome da banda. O discurso produzido da imagem da mulher na análise das letras das bandas acima citada é predominantemente expressada por um olhar masculino. etc. Nesse contexto pode-se citar a mais recente música lançada pela banda Black Style que diz: “Eu tô afim. moradores da Fazenda Grande (subúrbio de Salvador) começou a ganhar popularidade em 2006. que se confirma na expressão “fique quieta”. expôs a professora de ensino infantil. 2010). Observa-se um “movimento para o alto sendo. O discurso é produção e reprodução da visão masculina e nota-se na primeira frase da música a mulher sendo descrita como objeto do desejo masculino. neste ato sua necessidade fisiológica foi satisfeita.A banda Black Style foi influenciada pelo funk e hip hop carioca e mistura esses sons com o pagode baiano produzindo o denominado pagofunk. Nesse sentido pode-se dizer que as letras das músicas de pagode retratam a cultura da qual fazem parte seus compositores como autores ou participantes. os atuais compositores de pagode aproveitaram a brecha da sociedade e através das ondas do rádio nos reapresentaram evidentemente reformatadas. as relações sociais e os sistemas de conhecimento e crenças” (MAGALHAES. É formada por Mário Brasil (ex-Swing do p) que vem como cantor e outros músicos de bandas conhecidas como: Thimbahia. p. p. estando o homem no comando. Em seguida fica evidente a posição que os personagens assumem. a do superior para o inferior. Desse modo pode o movimento ser visto 4 . a banda O Troco vem crescendo a cada dia. 17). ela não tá. Ruth Sabat (2005. associado ao masculino. p. Existe: “uma prática tanto de representação quanto de significação do mundo. Para Moura (1996). 1989. calma/ Que eu encaixo. constituindo e ajudando a construir as identidades sociais. é de cima pra baixo/ Relaxa/ Fique quieta/ Calma. não dá pra mim. p. Nascida em setembro de 2008. o súdito” (VIEZZER. 1989. O vídeo apresentava a mesma dançando ao lado da banda. 2001. expressando movimentos eróticos que repercutiu principalmente na população baiana pelo papel social exercido de educadora. 16). Formada por jovens negro-mestiços.97). quer é pirraçar/ É de cima pra baixo.

5 .. pois torna nacionalmente conhecido o universo da periferia. pois “a linguagem não apenas reflete o que existe. Nessa canção percebe-se o que Moura (1996. O fato é que.. ela é depreciada por também representar aquilo que não pode ser pertencido e que também expõe fragilidade e limitações humanas sexuais. os cantores super inteligentes e o som acalentador. para sustentar uma masculinidade forjada (que ele sequer percebe). Para Veloso (2010) a música baiana que está sendo produzida atualmente revela uma completa inversão de valores musicais e morais. no cinema. Confesso que sou apaixonada por ela. incita desejos e é pura sensualidade. Por isso essa mulher aparece desejada e desqualificada ao mesmo tempo. Existe uma função social nessas letras que dialoga com valores. MATOS. 2003 apud LOPES. com ataques constantes à figura feminina. significações que os sujeitos começam a comungar trazendo novas identidades coletivas. A seguir traz-se o depoimento de uma jovem a respeito do pagode que neste ato ela define como swingueira: Swingueira. ela fica de quatro/ ela é dog (dog. pra ela não é problema/ no carro.positivamente como instrumento de inserção da população empobrecida. 2010).2). pega geral. A mulher ainda ocupa poucos cargos de liderança nas organizações e muitas vezes para alcançar o topo incorporam um personagem masculinizado. Se isso é bom? Sei lá.]” (OZ BAMBAZ. p. Para Tarallo (1997. p.. declara: “As letras trazem gozações [. p. A letra da música Ela é Dog cantada pelos Oz Bambaz diz: “toda noite ela quer fazer esquema/ pega um. 7) “podem ser chamados de sociolingüistas todos aqueles que entendem por língua um veículo de comunicação. 58). Cultua-se a mulher gostosa e escarnece-se da mulher por demais oferecida”. onde as expressões tornam-se inseridas na cultura. em pleno século XXI. 2009 p. há muito que se conquistar. (LEIRO... mas ela própria cria o existente” (GOELLNER. ganham salários inferiores aos dos homens e sua sexualidade ainda é questionada. 2007.8).. é um som que mexe com a libido. Não que eu ache as letras super interessantes. envolvendo ideologias. de informação e de expressão entre indivíduos da espécie humana”. dog.1). Não há como ficar parado. dog) / she is dog [. “a vivência livre da sexualidade ainda não é vista”. Nesse sentido pode-se dizer que há relação entre letra e sociedade. p. Sou apaixonada pela batida forte que me leva e envolve. Muitos admiradores do movimento dizem que a empolgação é com o ritmo (a batida) sendo o discurso insignificante. ou no meio do mato/ estilo cachorra.].. Pode-se pensar que: Ao mesmo em que a "mulher fatal" é desejada e ostensivamente representada em diversos meios pelo homem. Mas se deixar levar pela batida é gostoso demais! (SANTANA. 2009..

(RAMOS. acreditava que a mulher deveria continuar sendo a dona efetiva do lar. Por outro lado o movimento feminista dito anarquista pretendia segundo Bárbara Heller apud Ramos (2002. O anjo disse: Não tenha medo. sendo assim. “subverter o equilíbrio das nações e masculinizar a mulher”. Lutando veementemente pelo direito do voto e pela educação.6). 15). escolhida para gerar o Salvador do mundo (Jesus). Nesse sentido percebe-se que a mulher brasileira ainda é retratada como sensual por natureza e que convive com representações sociais de sua sexualidade incongruente. terá um filho. Pegou o fruto e comeu. a descoberta da pílula anticoncepcional entre outros. Ele será grande. que em determinado momento da história é aquela que descobriu e apresentou o pecado (o proibido). A conquista pelo direito do voto. E em outro é apresentada como a virgem pura e iluminada. p. depois o deu também ao marido que estava com ela. autônomo e capaz de produzir e participar da história da sociedade como agente ativo. As lutas traçadas pelo movimento feminista objetivavam a valorização da mulher como ser pensante. em sua essência. Conforme texto da Bíblia (1993) a serpente era mais sagaz que todos os animais que o Senhor Deus tinha feito. 15). reafirmava a principal função da mulher como mantenedora do lar. Rompendo com os pensamentos citados acima e com as grandes transformações sociais surgiram movimentos que buscaram “quebrar” o paradigma instituído. prometida em casamento a um homem chamado José. o autor também diz que a moral é definida por homens. ao homem. conhecedores do bem e do mal. e vocês se tornarão como deuses. das décadas de 1920 e 1930. as mulheres são adstritas. Eis que você vai ficar grávida. era uma delícia aos olhos e desejável para adquirir discernimento. No sexto mês. escrita e feita em virtude do mesmo. os olhos de vocês vão se abrir. Então a mulher viu que a árvore tentava o apetite.pela sociedade brasileira. “como um direito que a mulher conquistou a partir das lutas feministas” (MATSUNAGA. 2002. Maria porque você encontrou graça diante de Deus. p. contraditórios encontram-se embasados também numa definição religiosa da imagem da mulher. Ela disse para a mulher: Deus sabe que. e dará a ele o nome de Jesus. Foucault (1998) discute que em toda reflexão moral sobre o comportamento sexual. e também ele comeu. Foi a uma virgem. é pensada. Uma das linhas do feminismo. Tais discursos. p. 2007. 1993). As 6 . conclamando-a para que tivesse o direito de pensar e concorrer mais diretamente para o aperfeiçoamento moral da sociedade. o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia chamada Nazaré. no dia em que vocês comerem o fruto. e será chamado Filho do Altíssimo (BÍBLIA. foram grandes vitórias desse movimento.

Após décadas de luta do movimento feminista percebe-se ainda hoje uma visão tradicional e machista quando o assunto é liberdade sexual da mulher. pela “religião”. Como dados primários utilizaram-se: questionários e observação direta. Entendemos que a sexualidade ainda continua sendo um forte “tabu”. da batida e o que ele representa enquanto difusor da cultura baiana. 16). A amostra foi composta por 150 questionários aplicados no mês de outubro de 2010 nos movimentos (ensaios e shows) das bandas de pagode: Oz Bambaz. Dentre as citadas constatou-se uma maior incidência de músicas fazendo referência depredatória a imagem da mulher na análise das letras das bandas OZ Bambaz. Black Style. Black Style e o Troco. Desejou-se produzir uma idéia concreta dessa população tendo ênfase na análise da “figura” feminina no universo do pagode. captar a opinião desse público para identificar um possível perfil. conformando a construção da representação da mulher e sua identidade “sexual” em aspectos conservadores de uma ordem social estabelecida pelo: “patriarcalismo”. Portanto observa-se que mesmo com toda luta a mulher ainda vive em um modelo social representado pela dominação do gênero masculino. p. 2007. O survey foi supervisionado. Nesse sentido confrontamos os dados para obtenção da análise. onde tivemos um mediador que fez as perguntas e obteve todas as respostas requeridas. seja de forma direta ou com palavras em duplo-sentido. As letras de pagodes muitas vezes remontam uma imagem deturpada da mulher e criando assim uma nova forma de viver (cultura). Já os dados secundários foram: vídeos e documentos sobre o assunto. De acordo com Babbie (1999) o levantamento survey examina uma amostra de população. 3. Através dessa abordagem busca-se compreender o discurso por traz do ritmo. que não sabiam direito o que queriam” (p. e a vivência desta sexualidade sendo regida pelos valores tradicionais. Como fonte de dados buscou-se 7 . Procedimentos Metodológicos Utilizou-se como estratégia metodológica a pesquisa de levantamento survey que tem como objetivo estabelecer a incidência de determinadas características e sua distribuição. talvez. seja o precursor da “imagem que se tornou pública de que o movimento feminista seria de uma minoria de mulheres masculinizadas e estéreis. 6).divergências entre as diferentes linhas de pensamento do movimento. Buscamos através deste feito. (MATSUNAGA. Caldeirão. O Troco e Saiddy Bamba.

nutrição e pedagogia. mas pessoas dos mais variados bairros e classes sociais. Apenas 21. Esses dois bairros foram as maiores representações na amostra. gerou-se os seguintes resultados: Figura 01.o nível de escolaridade mudará.67%. A figura 03 apresenta os bairros ou municípios onde residem as entrevistadas. O nível fundamental representou-se por 14% e o nível superior 7%. 4. Construída Pelos Autores. Constata-se uma maior incidência da faixa etária de 20 até 29 anos. expressaram serem “livres para curtição”. Figura 02. 14 com 2 filhos e 8 com 3 filhos. Nesse universo 94% são solteiras e apenas 6% são casadas. No quesito idade observou-se que as mulheres que freqüentam esses ambientes têm geralmente entre 17 e 39 anos. sendo 8 com apenas 1 filho. Analisou-se também que em quatro e/ou cinco anos – se concluírem no tempo pré-determinado para o curso . Resultados A aplicação do questionário a 150 mulheres em ensaios e shows das bandas descritas acima.34% possuem filhos. Para tratamento dos dados realizou-se análise de estatística. Construída Pelos Autores. seguido da Federação com 16. Determinou-se (figura 07) que 6% ganhavam 8 . Os cursos citados com maior freqüência foram: administração. Identifica-se claramente conforme discutido no referencial teórico que o pagode conquista não apenas a periferia de Salvador. 11% informalmente e 28% não trabalham (figura 6). Construída Pelos Autores. e as próprias festas (ensaios e shows) de pagode e onde tivemos como foco mulheres entre 17 e 30 anos. letras de músicas. conforme demonstrado na figura 01 acima. visto que 21% das entrevistadas estão estudando algum curso superior. Foi constatado também que 61% das entrevistadas trabalham com carteira assinada.além da revisão na literatura. enfermagem. Figura 03.67% das entrevistadas. A figura 02 comprova que o nível médio (antigo segundo grau) é o mais dominante com 58% de representação da amostra. Residentes de Brotas constatou-se 28. As solteiras por sua vez.

Figura 07. 55% declararam ter renda entre R$ 510.00. 9 . Figura 06.até R$ 509.00 até 900.00.00 até R$ 700.00. 6% entre R$ 701.00 e 5% acima de R$ 901. Construída Pelos Autores. Construída Pelos Autores.

não dando ênfase ao que se canta. Comparando os gráficos acima sobre análise das letras. conforme afirma Leiro (2009) que a mulher aparece desejada (para satisfazer a sexualidade masculina) e desqualificada ao mesmo tempo e é esse aviltamento que causa baixa estima. ditando padrões de beleza. Verificou-se que algumas letras descrevem uma relação de violência do homem para com a mulher. pois elas não assumem incorporar o estereótipo da piriguete – presença constante nas letras de pagode – este fato confirma-se em pequenas amostras quando declarou-se que: “curtem e não sentem-se cachorras. causa baixa estima. Construída Pelos Autores. 25% e 14% respectivamente: não incomoda. piriguetes” que na verdade “é apenas uma música”. 09 e 10 apresentadas abaixo: Figura 08. Porém. denigre a imagem (mulher) e o machismo. onde a mulher é definida como cachorra. Podemos dizer que 14% que declararam a existência do machismo concordam com o que Viezzer (1989) e Bourdieu (1989) expressaram como a idéia de macho governante (posição superior) e fêmea súdita. machismo e é instrumento para denegrir as mulheres. Figura 10.” nesse sentido de 15 mulheres entrevistadas estabeleceu-se que: 40% acreditam que a música não tem poder de influenciar a violência contra a mulher. que de uma maneira ou de outra relatam a mulher seja: definindo-a. por outro lado 33% das entrevistadas disseram que “a música diz tudo” e é sim apologia à violência e 27% relataram 10 . Construída Pelos Autores.. essa posição se inverte quando elas escutam a letra dissociada do ritmo. as palavras provocam o que elas descrevem como baixa estima. Verificou-se. neste momento. Figura 09. seus movimentos. 31%.. A baixa estima provocada pela letra das músicas está visivelmente retratada no resultado da pergunta representada pela figura 09. causa baixa estima. sintetizou-se o seguinte percentual: 36%. Já 36% que declararam não se incomodar com as expressos relaciona-se com o discurso de Santana (2009) que diz que a batida que envolve e leva. denigre a imagem e o machismo. descrevendo suas ações.Aplicando questões relativas às letras de pagode. Construída Pelos Autores. conforme figuras 08. nota-se que as respostas mais freqüentes em relação ao discurso presente nas músicas: não incomoda. porém com o consentimento da mesma. ver: “mas você só pede porradinha e dor. Para as mulheres inseridas no movimento. as letras em sua maioria não causam constrangimento ou qualquer tipo de desconforto.

como elemento de curtição. ao ouvirem as letras em companhia do ritmo esquecem o que ele representa e assumem o swing. Notou-se que a mulher está presente no pagode. ou seja. espaço da paquera e do encontro. as mulheres sentem-se mais soltas.que mesmo que a música incentive a violência. outras 40% afirmaram que as mulheres não precisam dessas definições para obterem liberdade e 20% acreditam que com as músicas. ela (pagodeira) empresta seu corpo para reproduzir as ações ordenadas nas músicas. depreciam a mulher para sustentar uma masculinidade forjada. 11 . 5. tornando-as mais desejadas pelo homem e mais “poderosas”. em sua maioria. mais liberais. contudo as mesmas não o constroem. A letra das músicas é expressão do pensamento. Observa-se a inexistência de bandas formadas pelas mesmas. A participação torna-se ativa apenas nas danças quando é explorado o sensualismo feminino. isso é. ou seja. Em contra-ponto vê-se que sociedade cria estereótipos sobre esse público que é fruto do desconhecimento sobre essa cultura. Percebe-se que as mesmas mulheres que afirmam sentirem-se execrada pelo discurso. Constatou-se que a maioria das entrevistadas não se incomoda com o descrito nas músicas. são agentes passivos nessa cultura. Notou-se neste contexto o que Leiro (2009) defende ao citar que as músicas de pagode. enfim. Considerações Finais O presente estudo teve como objetivo de compreender o universo das letras de pagode. Através do resultado do questionário aplicado pode-se traçar um perfil das mulheres que curtem o pagodão. a batida. apanhar ou não “depende da mulher” e/ou como uma entrevistada descreveu “se bater apanha”. piriguetes. bem como compositoras. o ato estar relacionando principalmente a postura que a mulher assume. crença. de 10 entrevistadas constatou-se que: 40% disseram que as expressões cachorra. O pagode hoje é um produto cultural legitimado. traçar um perfil das mulheres que estão inseridas no movimento popularmente conhecido como pagodão e compreender os estereótipos e sua influência no cotidiano dessas pessoas. pois representa e demonstra o viver de um determinado grupo social. isso porque a mulher torna-se foco para muitas bandas. qual o discurso predominante identificando como a “figura” feminina é descrita. seja por sua super valorização ou degradação. Em relação as expressões utilizadas nas músicas para referir-se ás mulheres. de entretenimento. valor e ideais dos que comungam com movimento. canhão são palavras difamatórias que denigrem a imagem da mulher. Antagonicamente um percentual muito pequeno acredita que o pagode proporciona mais liberdade.

Métodos de Pesquisa Survey. Os donos da voz. Acredita-se também que uma amostra maior pode-se acentuar outras questões não discutidas. Célia (Org. Célia. n. Revista Estudos Feministas. Salvador: UNIFACS. MATOS. Tradução Maria Thereza da C. In: MAGALHÃES. Revista e atualizada no Brasil. 12 . UFMG. Santa Catarina.com/2009/01/o-pagode-ou-derrota-das-mulheres.html>. História da sexualidade II: o uso dos prazeres. A dominação masculina. BÍBLIA. 2008. Disponível em: <http://redalyc. _________________. LEIRO. GUANÃES.pdf>. 2000. Vale salientar que os resultados apresentados refletem apenas as percepções da mulher pagodeira faz-se necessário ouvir a versão dos pagodeiros e da sociedade baiana. v. Corpo e gênero: uma análise da revista TRIP Para Mulher. Maria de Fátima. 1999. Tradução Maria Thereza da C. Márcia Tosta. São Paulo: Boitempo. MAGALHÃES. Trad.mx/redalyc/pdf/381/38114359005. 1988. Rio de Janeiro: Graal. em: LIMA.com. A trama dos tambores: a música afro-pop de Salvador. Goli. BAKHTIN. DIAS. BOURDIEU. Marxismo e filosofia da linguagem. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. Rio de Janeiro: Graal. Para trabalhos futuros sugere-se que seja feita a mesma pesquisa com o público das bandas citadas com a finalidade de realizar comparações entre as pesquisas realizadas. Albuquerque e J. em: GUERREIRO. LOPES. We Are Carnaval. 1988. Essa última carrega de pré-conceitos que apesar de vivenciar ou não essa cultura cria estereótipos da mesma. Lúcia. Belo Horizonte: Faculdade de Letras. 1993. São Paulo: Hucitec. João Ferreira de Almeida. FOUCAULT.A principal limitação da pesquisa refere-se ao tamanho da amostra. 2001. Reflexões sobre a análise crítica do discurso. Ari. A Bíblia Sagrada. Disponível <http://midiaemulher. Belo Horizonte: Editora UFMG. 2000. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil. 2010.blogspot. 1999. O pagode ou a derrota das mulheres. Português. A análise crítica do discurso enquanto teoria e método de estudo. Albuquerque e J. 2010. 10/08/1999 (intervenção oral).terra. Acesso em: 26 set. 2010. História da sexualidade I: a vontade e o saber.). p. A experiência do Samba da Bahia. 1. Acesso em: 11 out. sabe-se que o perfil estabelecido será modificado em pouco tempo. Nizan. Acesso em: 11 out. Pierre.61-76. Pelos resultados obtidos. Letra de músicas Disponível <http://letras.uaemex. Auxiliadôra Aparecida de. Referências BABBIE. Mikhail. Guilhon Albuquerque.br/jammil-uma-noites/464958/>. Earl. Michel. Guilhon Albuquerque. 1988. 16. São Paulo: 34.

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