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A Mulher e o Pagode da Bahia

A Mulher e o Pagode da Bahia

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Mulher e o Pagode da Bahia

Joiciane dos Santos Gomes¹ Tiago Santos Silva² Resumo A Bahia é berço de uma infinidade de arte, expressada das mais variadas formas, sendo o Pagode uma delas. Esse ritmo é uma expressão cultural que atrai pessoas de diversas classes sociais. É sabido que estar no mundo é produzir e vivenciar cultura. O pagode é um produto cultural legitimado que constrói identidades sociais, crenças e valores, criando uma demarcação cultural. Neste artigo buscou-se compreender no universo das letras de pagode, qual o discurso predominante, identificando como a “figura” feminina é descrita e traçar um perfil das mulheres que estão inseridas no movimento, compreendendo os estereótipos e sua influência no cotidiano das mesmas. Notou-se que o discurso produzido é genuinamente masculino e que as mulheres são a representação do desejado e símbolo do pecaminoso. Considerando que a sua sexualidade é objeto de apreciação das letras de pagode, o que pensam as mulheres inseridas neste movimento? Obter esta resposta foi uma das motivações desse estudo. Palavras-Chave: Bahia; Pagode; Mulher; Estereótipos. Abstract Bahia is home to a infinity of art, expressed in more different forms, and the “Pagode” of them. This rhythm is a cultural expression that attracts people from different social classes. It is known being in the world is produce and to live culture. “Pagode” is a legitimate cultural product that builds social identities, beliefs and values, creating a cultural demarcation. This article sought to understand the universe of “pagode” lyrics, which identifies the dominant speech as the "figure" of women is described, drawing a profile of women who are embedded in the movement, including stereotypes and their influence on the daily lives of these people. It was noted that the speech is genuinely produced by men and women are a representation of the desired, but also a symbol of sinful. Their sexuality is the object of appreciation on “pagode” lyrics, but what do women inserted in this movement think about? Get this answer was one of the motivations for this study. Keywords: Bahia; “Pagode”; Women; Stereotypes.

1. Introdução A música na Bahia sempre esteve presente no cotidiano da população como já dizia Nizan Guanães (2010) na sua música: We Are Carnaval “... o baiano é: um povo a mais de mil ele tem Deus no seu coração e o diabo no quadril”. Atualmente temos uma diversidade de ritmos descendentes principalmente da música negra, do samba, da chula, dos tambores africanos. A Bahia é sinônima de ritmos, cores, movimentos e através da música encontra¹ Graduada em Contabilidade pela UNEB, MBA em Planejamento Tributário pela UNIFACS, Auditora, e-mail: joicy_anne@yahoo.com.br ² Graduado em Administração pela FSLF, MBA em Recursos Humanos pela UNIFACS, Analista de Recursos Humanos, e-mail: tiago.adm.rh@gmail.com

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músicas eletrônicas.. rap e hip hop. Nesse período a música oriunda da periferia começa a ocupar destaque na sociedade baiana. tornando-se elemento marcante da cultura social.]”. auto-afirmações. baixa estima e dominação do gênero masculino. O pagode foi criado nos bairros 2 . “o pagode baiano é um gênero híbrido oriundo do samba que mescla a tradição do Recôncavo baiano [. nasceu na periferia de Salvador e é instrumento de entretenimento e lazer da camada empobrecida além de representar para aqueles envolvidos no movimento uma forma de inserção na sociedade elitista. desejos. p. mescla inovação tecnológica. Referencial Teórico A partir da década de 1980 surgiu uma nova “onda” que invadiu a periferia de Salvador. os novos baianos. A percussão começa a ascender na música baiana. seja pelo Olodum. Para Clebemilton Nascimento (2009. Com o crescimento da representação baiana no espaço fonográfico as mais variadas classes brasileiras passaram a “curtir”. que com o carnaval transcende do Brasil para o mundo. A forma de viver e se relacionar dizem muito sobre quem somos e no que acreditamos. 2. Sonhos. Sabe-se que o pagode como expressão de massa está presente na vida de boa parte da sociedade baiana. expressão genuinamente popular. além disso. dançar e se divertir com esse novo som. Nesse sentido acredita-se que exista uma inversão de valores. trazendo novos ritmos e sons. pensamentos estão presentes também nas letras de pagode que é uma expressão do modo que vivemos refletindo sobre nossas crenças. Compreendemos o pagode como gênero musical oriundo do samba tradicional misturado a cantigas de rodas e cantos de terreiros de candomblé. As músicas de origem baiana são denominadas axé music nos demais estados brasileiros contrariando a cultura local. Esse contexto leva-nos a questionar: Como a “figura” feminina é descrita nas letras de música de pagode? O objetivo desse estudo é compreender o universo das letras de pagode. 50). funk. o universo chamado de axé music e recentemente a explosão do pagode baiano. valores e ideais. bandas de axé music e bandas de pagodes. qual o discurso predominante identificando como a “figura” feminina é descrita. Analisando as letras de música de pagode nota-se a presença constante da “figura” da mulher seja com palavras de duplo sentido e/ou afirmações que denigrem a sua imagem. traçar um perfil das mulheres que estão inseridas no movimento popularmente conhecido como pagodão e compreender os estereótipos e sua influência no cotidiano dessas pessoas. sons regionais. O pagode na Bahia..se a forma de estabelecer relação com outras culturas e de difundir pensamentos e ideologias. foi assim com a tropicália.

p.periféricos de Salvador. dança e teatralidade e a intensa participação do público em apresentações e festas.. a saber: Harmonia do Samba (1993). Oz Bambaz (2001). (NASCIMENTO. 2000). duas dançarinas e um dançarino que transformaram o samba em um produto de grande repercussão pela mídia. Guig Ghetto (2001). programas de televisão e shows. Buscou-se as letras de música tendo como temática a mulher e por isso focou-se nas bandas: Oz Bambaz. Nesse sentido: As letras do É o tchan chamavam a atenção pelo apelo explícito à sensualidade. Com a abertura mercadológica para esse gênero musical surgiram inúmeras bandas. Uma banda formada por dois vocalistas. Black Style e O Troco. Para Guerreiro (2000) o sucesso do “É o Tchan” está ligado ao jogo coreográfico. O Troco (2008) e Caldeirão (2010). A música do “É o Tchan” não é apenas um produto de massa. Além disso.. nos tradicionais ensaios geralmente nos finais de semana e que com o crescimento do público foi aderido por outras classes. no desfrute corporal das danças. a banda mantém a mesma linha sonora do Pagodart e Parangolé. Para Ari Lima (1999) o pagode é uma decorrência do samba que ganhou autonomia do estilo há pouco tempo. loura e dançava como uma negra. 1988). quebrando assim alguns paradigmas sociais. O grupo gerou uma série de polêmicas. Psirico (2003). idealizada pelo ex-jogador de futebol Edilson Ferreira. Parangolé (1998) Saiddy Bamba (1998). criando assim o que Jesús Martin-Barbero (2008) denominou demarcações culturais. O grupo Oz Bambaz foi formado por parte da antiga banda Raça Pura e alguns músicos do bairro do Engenho Velho da Federação em Salvador. mas foi uma “explosão” que ultrapassou as fronteiras brasileiras invadindo o mercado internacional. 3 . 2010). Pagodart (1998). o pagode encontrou espaço em emissoras rádios que em sua maioria aluga sua programação aos empresários de bandas e as produtoras (VELOSO. Como estratégia investiu-se em grande produção de eventos buscando a máxima união do público e grupos diferentes abrindo espaço para outros artistas e bandas de expressões regionais (DIAS. 57). onde essa matriz africana é incorporada a esse som. mas sim o resultado de processos diálogos de negociação da cultura e da sociedade (BAKHTIN. Black Style (2006). 2009. criadas nas ruas e festas populares. Fantasmão (2007). Podemos dizer também que o pagode é uma evolução das músicas dos terreiros de candomblé. A grande explosão do pagode baiano se deu com o sucesso do grupo É o tchan na década de 90. com base no próprio samba de roda do Recôncavo. Carla Perez foi uma das grandes revelações da banda em virtude de ter aparência branca. com batuques e danças. suas performances envolviam música.

neste ato sua necessidade fisiológica foi satisfeita. a banda O Troco vem crescendo a cada dia. A música referida acima foi aquela divulgada através do youtube onde além de levar o nome da banda. ou a posição superior no ato sexual” (BOURDIEU.” (OS HAWAIANOS. que como conseqüência foi demitida. o macho é governante. É formada por Mário Brasil (ex-Swing do p) que vem como cantor e outros músicos de bandas conhecidas como: Thimbahia. tendo sua “explosão” com a famosa música: Todo Enfiado. moradores da Fazenda Grande (subúrbio de Salvador) começou a ganhar popularidade em 2006. estando o homem no comando. quer é pirraçar/ É de cima pra baixo. expressando movimentos eróticos que repercutiu principalmente na população baiana pelo papel social exercido de educadora. a fêmea. 2001. Formada por jovens negro-mestiços. p. expôs a professora de ensino infantil. p. calma/ Que eu encaixo. Percebe-se que “a relação do macho face à fêmea é naturalmente. Para Moura (1996). por exemplo. O discurso é produção e reprodução da visão masculina e nota-se na primeira frase da música a mulher sendo descrita como objeto do desejo masculino. 1989. o Rodo. Nascida em setembro de 2008. os atuais compositores de pagode aproveitaram a brecha da sociedade e através das ondas do rádio nos reapresentaram evidentemente reformatadas. 2010). Nesse sentido pode-se dizer que as letras das músicas de pagode retratam a cultura da qual fazem parte seus compositores como autores ou participantes. as vilas do Recôncavo e os quintais de Salvador. O vídeo apresentava a mesma dançando ao lado da banda. etc. as relações sociais e os sistemas de conhecimento e crenças” (MAGALHAES. que se confirma na expressão “fique quieta”. 1989. Ruth Sabat (2005. é de cima pra baixo/ Relaxa/ Fique quieta/ Calma. ela não tá. “é de cima pra baixo” é a materialização da submissão da mulher frente o poder de dominação masculina.A banda Black Style foi influenciada pelo funk e hip hop carioca e mistura esses sons com o pagode baiano produzindo o denominado pagofunk. fonte de satisfação sexual. 16). p. p. 93) define que: “estar no mundo é estar produzindo cultura e estar sendo produzida por ela”. como a ereção. associado ao masculino. Desse modo pode o movimento ser visto 4 . constituindo e ajudando a construir as identidades sociais. Existe: “uma prática tanto de representação quanto de significação do mundo. 17). não dá pra mim. Em seguida fica evidente a posição que os personagens assumem.97). Nesse contexto pode-se citar a mais recente música lançada pela banda Black Style que diz: “Eu tô afim. O discurso produzido da imagem da mulher na análise das letras das bandas acima citada é predominantemente expressada por um olhar masculino. Observa-se um “movimento para o alto sendo. O refrão termina com a realização sexual do homem. a do superior para o inferior. o súdito” (VIEZZER.

Nessa canção percebe-se o que Moura (1996. no cinema.2). Mas se deixar levar pela batida é gostoso demais! (SANTANA. pois “a linguagem não apenas reflete o que existe.. 2009 p. pra ela não é problema/ no carro. Muitos admiradores do movimento dizem que a empolgação é com o ritmo (a batida) sendo o discurso insignificante. de informação e de expressão entre indivíduos da espécie humana”. ela fica de quatro/ ela é dog (dog. em pleno século XXI. mas ela própria cria o existente” (GOELLNER. Se isso é bom? Sei lá.. pois torna nacionalmente conhecido o universo da periferia.. com ataques constantes à figura feminina. significações que os sujeitos começam a comungar trazendo novas identidades coletivas. (LEIRO. onde as expressões tornam-se inseridas na cultura. p. há muito que se conquistar. p. Não que eu ache as letras super interessantes.. 2007. O fato é que. dog) / she is dog [. A letra da música Ela é Dog cantada pelos Oz Bambaz diz: “toda noite ela quer fazer esquema/ pega um. declara: “As letras trazem gozações [. é um som que mexe com a libido.positivamente como instrumento de inserção da população empobrecida. Para Tarallo (1997. p. “a vivência livre da sexualidade ainda não é vista”. 2009.. 2010). Por isso essa mulher aparece desejada e desqualificada ao mesmo tempo. p.1). ela é depreciada por também representar aquilo que não pode ser pertencido e que também expõe fragilidade e limitações humanas sexuais.]. Sou apaixonada pela batida forte que me leva e envolve.. pega geral. Pode-se pensar que: Ao mesmo em que a "mulher fatal" é desejada e ostensivamente representada em diversos meios pelo homem. 7) “podem ser chamados de sociolingüistas todos aqueles que entendem por língua um veículo de comunicação. incita desejos e é pura sensualidade. para sustentar uma masculinidade forjada (que ele sequer percebe). Existe uma função social nessas letras que dialoga com valores. Nesse sentido pode-se dizer que há relação entre letra e sociedade.. ganham salários inferiores aos dos homens e sua sexualidade ainda é questionada. A seguir traz-se o depoimento de uma jovem a respeito do pagode que neste ato ela define como swingueira: Swingueira. ou no meio do mato/ estilo cachorra. Para Veloso (2010) a música baiana que está sendo produzida atualmente revela uma completa inversão de valores musicais e morais. os cantores super inteligentes e o som acalentador. 58). envolvendo ideologias.8). A mulher ainda ocupa poucos cargos de liderança nas organizações e muitas vezes para alcançar o topo incorporam um personagem masculinizado. Cultua-se a mulher gostosa e escarnece-se da mulher por demais oferecida”. 2003 apud LOPES. Confesso que sou apaixonada por ela.]” (OZ BAMBAZ. MATOS.. Não há como ficar parado. dog. 5 .

reafirmava a principal função da mulher como mantenedora do lar. As 6 . acreditava que a mulher deveria continuar sendo a dona efetiva do lar. Rompendo com os pensamentos citados acima e com as grandes transformações sociais surgiram movimentos que buscaram “quebrar” o paradigma instituído. Nesse sentido percebe-se que a mulher brasileira ainda é retratada como sensual por natureza e que convive com representações sociais de sua sexualidade incongruente. conhecedores do bem e do mal. “como um direito que a mulher conquistou a partir das lutas feministas” (MATSUNAGA. as mulheres são adstritas. Por outro lado o movimento feminista dito anarquista pretendia segundo Bárbara Heller apud Ramos (2002. depois o deu também ao marido que estava com ela. p. “subverter o equilíbrio das nações e masculinizar a mulher”. era uma delícia aos olhos e desejável para adquirir discernimento. que em determinado momento da história é aquela que descobriu e apresentou o pecado (o proibido). p. o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia chamada Nazaré. Então a mulher viu que a árvore tentava o apetite. autônomo e capaz de produzir e participar da história da sociedade como agente ativo. escrita e feita em virtude do mesmo. das décadas de 1920 e 1930. o autor também diz que a moral é definida por homens. a descoberta da pílula anticoncepcional entre outros. Lutando veementemente pelo direito do voto e pela educação. e dará a ele o nome de Jesus. 1993). Tais discursos.6). O anjo disse: Não tenha medo. (RAMOS. 15). Pegou o fruto e comeu. e vocês se tornarão como deuses. Ela disse para a mulher: Deus sabe que. Eis que você vai ficar grávida. Uma das linhas do feminismo. os olhos de vocês vão se abrir.pela sociedade brasileira. Conforme texto da Bíblia (1993) a serpente era mais sagaz que todos os animais que o Senhor Deus tinha feito. escolhida para gerar o Salvador do mundo (Jesus). terá um filho. Ele será grande. E em outro é apresentada como a virgem pura e iluminada. contraditórios encontram-se embasados também numa definição religiosa da imagem da mulher. foram grandes vitórias desse movimento. No sexto mês. e também ele comeu. Foucault (1998) discute que em toda reflexão moral sobre o comportamento sexual. prometida em casamento a um homem chamado José. 2002. e será chamado Filho do Altíssimo (BÍBLIA. em sua essência. A conquista pelo direito do voto. 2007. Maria porque você encontrou graça diante de Deus. As lutas traçadas pelo movimento feminista objetivavam a valorização da mulher como ser pensante. é pensada. no dia em que vocês comerem o fruto. ao homem. 15). Foi a uma virgem. p. sendo assim. conclamando-a para que tivesse o direito de pensar e concorrer mais diretamente para o aperfeiçoamento moral da sociedade.

Desejou-se produzir uma idéia concreta dessa população tendo ênfase na análise da “figura” feminina no universo do pagode. pela “religião”. onde tivemos um mediador que fez as perguntas e obteve todas as respostas requeridas. Nesse sentido confrontamos os dados para obtenção da análise. 16). A amostra foi composta por 150 questionários aplicados no mês de outubro de 2010 nos movimentos (ensaios e shows) das bandas de pagode: Oz Bambaz. Como fonte de dados buscou-se 7 . De acordo com Babbie (1999) o levantamento survey examina uma amostra de população. (MATSUNAGA. Após décadas de luta do movimento feminista percebe-se ainda hoje uma visão tradicional e machista quando o assunto é liberdade sexual da mulher. O Troco e Saiddy Bamba. 3. O survey foi supervisionado. seja o precursor da “imagem que se tornou pública de que o movimento feminista seria de uma minoria de mulheres masculinizadas e estéreis. talvez. conformando a construção da representação da mulher e sua identidade “sexual” em aspectos conservadores de uma ordem social estabelecida pelo: “patriarcalismo”. captar a opinião desse público para identificar um possível perfil. p. da batida e o que ele representa enquanto difusor da cultura baiana. 6). seja de forma direta ou com palavras em duplo-sentido. Como dados primários utilizaram-se: questionários e observação direta. 2007. Entendemos que a sexualidade ainda continua sendo um forte “tabu”. Através dessa abordagem busca-se compreender o discurso por traz do ritmo. que não sabiam direito o que queriam” (p. Black Style. Buscamos através deste feito. Já os dados secundários foram: vídeos e documentos sobre o assunto. Portanto observa-se que mesmo com toda luta a mulher ainda vive em um modelo social representado pela dominação do gênero masculino. Procedimentos Metodológicos Utilizou-se como estratégia metodológica a pesquisa de levantamento survey que tem como objetivo estabelecer a incidência de determinadas características e sua distribuição. As letras de pagodes muitas vezes remontam uma imagem deturpada da mulher e criando assim uma nova forma de viver (cultura). Dentre as citadas constatou-se uma maior incidência de músicas fazendo referência depredatória a imagem da mulher na análise das letras das bandas OZ Bambaz. Caldeirão. e a vivência desta sexualidade sendo regida pelos valores tradicionais. Black Style e o Troco.divergências entre as diferentes linhas de pensamento do movimento.

e as próprias festas (ensaios e shows) de pagode e onde tivemos como foco mulheres entre 17 e 30 anos.34% possuem filhos. Construída Pelos Autores.67% das entrevistadas. Residentes de Brotas constatou-se 28. Identifica-se claramente conforme discutido no referencial teórico que o pagode conquista não apenas a periferia de Salvador. Construída Pelos Autores. seguido da Federação com 16. Construída Pelos Autores. mas pessoas dos mais variados bairros e classes sociais. Para tratamento dos dados realizou-se análise de estatística.67%. Os cursos citados com maior freqüência foram: administração. sendo 8 com apenas 1 filho. As solteiras por sua vez. 14 com 2 filhos e 8 com 3 filhos. expressaram serem “livres para curtição”. O nível fundamental representou-se por 14% e o nível superior 7%. Apenas 21. Nesse universo 94% são solteiras e apenas 6% são casadas. Figura 03. A figura 03 apresenta os bairros ou municípios onde residem as entrevistadas. Determinou-se (figura 07) que 6% ganhavam 8 . nutrição e pedagogia. letras de músicas. visto que 21% das entrevistadas estão estudando algum curso superior. 4.o nível de escolaridade mudará. Figura 02. Analisou-se também que em quatro e/ou cinco anos – se concluírem no tempo pré-determinado para o curso . conforme demonstrado na figura 01 acima. Constata-se uma maior incidência da faixa etária de 20 até 29 anos. Esses dois bairros foram as maiores representações na amostra. A figura 02 comprova que o nível médio (antigo segundo grau) é o mais dominante com 58% de representação da amostra. Resultados A aplicação do questionário a 150 mulheres em ensaios e shows das bandas descritas acima. enfermagem. 11% informalmente e 28% não trabalham (figura 6). gerou-se os seguintes resultados: Figura 01. No quesito idade observou-se que as mulheres que freqüentam esses ambientes têm geralmente entre 17 e 39 anos.além da revisão na literatura. Foi constatado também que 61% das entrevistadas trabalham com carteira assinada.

00 e 5% acima de R$ 901.00. 9 .00.00 até 900. Construída Pelos Autores. Figura 07. Construída Pelos Autores.00. 55% declararam ter renda entre R$ 510. 6% entre R$ 701.até R$ 509. Figura 06.00 até R$ 700.

” nesse sentido de 15 mulheres entrevistadas estabeleceu-se que: 40% acreditam que a música não tem poder de influenciar a violência contra a mulher. denigre a imagem e o machismo. essa posição se inverte quando elas escutam a letra dissociada do ritmo. machismo e é instrumento para denegrir as mulheres. Comparando os gráficos acima sobre análise das letras. Construída Pelos Autores. Porém. neste momento. ditando padrões de beleza. 31%. nota-se que as respostas mais freqüentes em relação ao discurso presente nas músicas: não incomoda. as letras em sua maioria não causam constrangimento ou qualquer tipo de desconforto. Podemos dizer que 14% que declararam a existência do machismo concordam com o que Viezzer (1989) e Bourdieu (1989) expressaram como a idéia de macho governante (posição superior) e fêmea súdita. não dando ênfase ao que se canta. conforme afirma Leiro (2009) que a mulher aparece desejada (para satisfazer a sexualidade masculina) e desqualificada ao mesmo tempo e é esse aviltamento que causa baixa estima. onde a mulher é definida como cachorra.. denigre a imagem (mulher) e o machismo. 09 e 10 apresentadas abaixo: Figura 08. causa baixa estima. pois elas não assumem incorporar o estereótipo da piriguete – presença constante nas letras de pagode – este fato confirma-se em pequenas amostras quando declarou-se que: “curtem e não sentem-se cachorras. Construída Pelos Autores. por outro lado 33% das entrevistadas disseram que “a música diz tudo” e é sim apologia à violência e 27% relataram 10 . Verificou-se que algumas letras descrevem uma relação de violência do homem para com a mulher. Figura 10. causa baixa estima. Para as mulheres inseridas no movimento. Figura 09. seus movimentos. descrevendo suas ações. as palavras provocam o que elas descrevem como baixa estima.. que de uma maneira ou de outra relatam a mulher seja: definindo-a. piriguetes” que na verdade “é apenas uma música”. ver: “mas você só pede porradinha e dor. sintetizou-se o seguinte percentual: 36%.Aplicando questões relativas às letras de pagode. Verificou-se. Construída Pelos Autores. Já 36% que declararam não se incomodar com as expressos relaciona-se com o discurso de Santana (2009) que diz que a batida que envolve e leva. porém com o consentimento da mesma. 25% e 14% respectivamente: não incomoda. A baixa estima provocada pela letra das músicas está visivelmente retratada no resultado da pergunta representada pela figura 09. conforme figuras 08.

Em relação as expressões utilizadas nas músicas para referir-se ás mulheres. isso porque a mulher torna-se foco para muitas bandas. de 10 entrevistadas constatou-se que: 40% disseram que as expressões cachorra. A participação torna-se ativa apenas nas danças quando é explorado o sensualismo feminino.que mesmo que a música incentive a violência. A letra das músicas é expressão do pensamento. O pagode hoje é um produto cultural legitimado. canhão são palavras difamatórias que denigrem a imagem da mulher. ao ouvirem as letras em companhia do ritmo esquecem o que ele representa e assumem o swing. Notou-se neste contexto o que Leiro (2009) defende ao citar que as músicas de pagode. apanhar ou não “depende da mulher” e/ou como uma entrevistada descreveu “se bater apanha”. pois representa e demonstra o viver de um determinado grupo social. as mulheres sentem-se mais soltas. qual o discurso predominante identificando como a “figura” feminina é descrita. espaço da paquera e do encontro. tornando-as mais desejadas pelo homem e mais “poderosas”. de entretenimento. Percebe-se que as mesmas mulheres que afirmam sentirem-se execrada pelo discurso. isso é. 11 . seja por sua super valorização ou degradação. são agentes passivos nessa cultura. bem como compositoras. outras 40% afirmaram que as mulheres não precisam dessas definições para obterem liberdade e 20% acreditam que com as músicas. Em contra-ponto vê-se que sociedade cria estereótipos sobre esse público que é fruto do desconhecimento sobre essa cultura. Observa-se a inexistência de bandas formadas pelas mesmas. 5. ou seja. Notou-se que a mulher está presente no pagode. Considerações Finais O presente estudo teve como objetivo de compreender o universo das letras de pagode. a batida. contudo as mesmas não o constroem. em sua maioria. Através do resultado do questionário aplicado pode-se traçar um perfil das mulheres que curtem o pagodão. crença. valor e ideais dos que comungam com movimento. Antagonicamente um percentual muito pequeno acredita que o pagode proporciona mais liberdade. piriguetes. como elemento de curtição. ela (pagodeira) empresta seu corpo para reproduzir as ações ordenadas nas músicas. Constatou-se que a maioria das entrevistadas não se incomoda com o descrito nas músicas. depreciam a mulher para sustentar uma masculinidade forjada. enfim. traçar um perfil das mulheres que estão inseridas no movimento popularmente conhecido como pagodão e compreender os estereótipos e sua influência no cotidiano dessas pessoas. o ato estar relacionando principalmente a postura que a mulher assume. mais liberais. ou seja.

Acesso em: 11 out. 2001. BOURDIEU. Lúcia. 16. We Are Carnaval. Essa última carrega de pré-conceitos que apesar de vivenciar ou não essa cultura cria estereótipos da mesma.br/jammil-uma-noites/464958/>. MATOS. A Bíblia Sagrada. sabe-se que o perfil estabelecido será modificado em pouco tempo. A trama dos tambores: a música afro-pop de Salvador.61-76. In: MAGALHÃES. em: GUERREIRO.com/2009/01/o-pagode-ou-derrota-das-mulheres. Santa Catarina.blogspot. Referências BABBIE. Belo Horizonte: Editora UFMG. em: LIMA. LEIRO. Earl. Português. Tradução Maria Thereza da C. Célia (Org.com. 2008. LOPES. Revista e atualizada no Brasil. Célia. Revista Estudos Feministas. São Paulo: Boitempo.). Michel.A principal limitação da pesquisa refere-se ao tamanho da amostra. Disponível em: <http://redalyc. Para trabalhos futuros sugere-se que seja feita a mesma pesquisa com o público das bandas citadas com a finalidade de realizar comparações entre as pesquisas realizadas.uaemex. BAKHTIN. Reflexões sobre a análise crítica do discurso. 2000. A experiência do Samba da Bahia. 1988. Disponível <http://midiaemulher. 2010. Albuquerque e J. 1988. Albuquerque e J. Métodos de Pesquisa Survey. 12 . Salvador: UNIFACS. MAGALHÃES. João Ferreira de Almeida. Goli. Márcia Tosta. Belo Horizonte: Faculdade de Letras. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil. Mikhail. São Paulo: Hucitec. 2000. Corpo e gênero: uma análise da revista TRIP Para Mulher. O pagode ou a derrota das mulheres. GUANÃES.pdf>. 1993. 2010. 1999. Ari. Auxiliadôra Aparecida de. Nizan. Marxismo e filosofia da linguagem. A dominação masculina. Acesso em: 11 out. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. v. p. São Paulo: 34. 2010. Rio de Janeiro: Graal. FOUCAULT. DIAS. História da sexualidade I: a vontade e o saber. UFMG. _________________. Vale salientar que os resultados apresentados refletem apenas as percepções da mulher pagodeira faz-se necessário ouvir a versão dos pagodeiros e da sociedade baiana. BÍBLIA. História da sexualidade II: o uso dos prazeres.mx/redalyc/pdf/381/38114359005. 1. 1988. Letra de músicas Disponível <http://letras. Trad. Pelos resultados obtidos. n. Maria de Fátima. Guilhon Albuquerque. Acesso em: 26 set. Guilhon Albuquerque. A análise crítica do discurso enquanto teoria e método de estudo. Rio de Janeiro: Graal. Tradução Maria Thereza da C. Acredita-se também que uma amostra maior pode-se acentuar outras questões não discutidas.terra. 1999. Os donos da voz. Pierre. 10/08/1999 (intervenção oral).html>.

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