Mulher e o Pagode da Bahia

Joiciane dos Santos Gomes¹ Tiago Santos Silva² Resumo A Bahia é berço de uma infinidade de arte, expressada das mais variadas formas, sendo o Pagode uma delas. Esse ritmo é uma expressão cultural que atrai pessoas de diversas classes sociais. É sabido que estar no mundo é produzir e vivenciar cultura. O pagode é um produto cultural legitimado que constrói identidades sociais, crenças e valores, criando uma demarcação cultural. Neste artigo buscou-se compreender no universo das letras de pagode, qual o discurso predominante, identificando como a “figura” feminina é descrita e traçar um perfil das mulheres que estão inseridas no movimento, compreendendo os estereótipos e sua influência no cotidiano das mesmas. Notou-se que o discurso produzido é genuinamente masculino e que as mulheres são a representação do desejado e símbolo do pecaminoso. Considerando que a sua sexualidade é objeto de apreciação das letras de pagode, o que pensam as mulheres inseridas neste movimento? Obter esta resposta foi uma das motivações desse estudo. Palavras-Chave: Bahia; Pagode; Mulher; Estereótipos. Abstract Bahia is home to a infinity of art, expressed in more different forms, and the “Pagode” of them. This rhythm is a cultural expression that attracts people from different social classes. It is known being in the world is produce and to live culture. “Pagode” is a legitimate cultural product that builds social identities, beliefs and values, creating a cultural demarcation. This article sought to understand the universe of “pagode” lyrics, which identifies the dominant speech as the "figure" of women is described, drawing a profile of women who are embedded in the movement, including stereotypes and their influence on the daily lives of these people. It was noted that the speech is genuinely produced by men and women are a representation of the desired, but also a symbol of sinful. Their sexuality is the object of appreciation on “pagode” lyrics, but what do women inserted in this movement think about? Get this answer was one of the motivations for this study. Keywords: Bahia; “Pagode”; Women; Stereotypes.

1. Introdução A música na Bahia sempre esteve presente no cotidiano da população como já dizia Nizan Guanães (2010) na sua música: We Are Carnaval “... o baiano é: um povo a mais de mil ele tem Deus no seu coração e o diabo no quadril”. Atualmente temos uma diversidade de ritmos descendentes principalmente da música negra, do samba, da chula, dos tambores africanos. A Bahia é sinônima de ritmos, cores, movimentos e através da música encontra¹ Graduada em Contabilidade pela UNEB, MBA em Planejamento Tributário pela UNIFACS, Auditora, e-mail: joicy_anne@yahoo.com.br ² Graduado em Administração pela FSLF, MBA em Recursos Humanos pela UNIFACS, Analista de Recursos Humanos, e-mail: tiago.adm.rh@gmail.com

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nasceu na periferia de Salvador e é instrumento de entretenimento e lazer da camada empobrecida além de representar para aqueles envolvidos no movimento uma forma de inserção na sociedade elitista. p. o universo chamado de axé music e recentemente a explosão do pagode baiano. que com o carnaval transcende do Brasil para o mundo. seja pelo Olodum. trazendo novos ritmos e sons. além disso. 50). A percussão começa a ascender na música baiana. bandas de axé music e bandas de pagodes.. O pagode foi criado nos bairros 2 . foi assim com a tropicália. Nesse período a música oriunda da periferia começa a ocupar destaque na sociedade baiana. Analisando as letras de música de pagode nota-se a presença constante da “figura” da mulher seja com palavras de duplo sentido e/ou afirmações que denigrem a sua imagem.se a forma de estabelecer relação com outras culturas e de difundir pensamentos e ideologias. baixa estima e dominação do gênero masculino. tornando-se elemento marcante da cultura social. qual o discurso predominante identificando como a “figura” feminina é descrita. expressão genuinamente popular. músicas eletrônicas. Sonhos. mescla inovação tecnológica. O pagode na Bahia. rap e hip hop.]”. As músicas de origem baiana são denominadas axé music nos demais estados brasileiros contrariando a cultura local. A forma de viver e se relacionar dizem muito sobre quem somos e no que acreditamos. Esse contexto leva-nos a questionar: Como a “figura” feminina é descrita nas letras de música de pagode? O objetivo desse estudo é compreender o universo das letras de pagode. funk. os novos baianos. Referencial Teórico A partir da década de 1980 surgiu uma nova “onda” que invadiu a periferia de Salvador. Com o crescimento da representação baiana no espaço fonográfico as mais variadas classes brasileiras passaram a “curtir”. dançar e se divertir com esse novo som.. valores e ideais. Compreendemos o pagode como gênero musical oriundo do samba tradicional misturado a cantigas de rodas e cantos de terreiros de candomblé. sons regionais. pensamentos estão presentes também nas letras de pagode que é uma expressão do modo que vivemos refletindo sobre nossas crenças. desejos. Para Clebemilton Nascimento (2009. Nesse sentido acredita-se que exista uma inversão de valores. traçar um perfil das mulheres que estão inseridas no movimento popularmente conhecido como pagodão e compreender os estereótipos e sua influência no cotidiano dessas pessoas. “o pagode baiano é um gênero híbrido oriundo do samba que mescla a tradição do Recôncavo baiano [. Sabe-se que o pagode como expressão de massa está presente na vida de boa parte da sociedade baiana. 2. auto-afirmações.

.. A música do “É o Tchan” não é apenas um produto de massa.periféricos de Salvador. O grupo Oz Bambaz foi formado por parte da antiga banda Raça Pura e alguns músicos do bairro do Engenho Velho da Federação em Salvador. 1988). Nesse sentido: As letras do É o tchan chamavam a atenção pelo apelo explícito à sensualidade. Uma banda formada por dois vocalistas. Oz Bambaz (2001). quebrando assim alguns paradigmas sociais. p. Com a abertura mercadológica para esse gênero musical surgiram inúmeras bandas. Para Ari Lima (1999) o pagode é uma decorrência do samba que ganhou autonomia do estilo há pouco tempo. (NASCIMENTO. onde essa matriz africana é incorporada a esse som. o pagode encontrou espaço em emissoras rádios que em sua maioria aluga sua programação aos empresários de bandas e as produtoras (VELOSO. Carla Perez foi uma das grandes revelações da banda em virtude de ter aparência branca. O grupo gerou uma série de polêmicas. loura e dançava como uma negra. idealizada pelo ex-jogador de futebol Edilson Ferreira. nos tradicionais ensaios geralmente nos finais de semana e que com o crescimento do público foi aderido por outras classes. programas de televisão e shows. a saber: Harmonia do Samba (1993). duas dançarinas e um dançarino que transformaram o samba em um produto de grande repercussão pela mídia. Além disso. O Troco (2008) e Caldeirão (2010). Buscou-se as letras de música tendo como temática a mulher e por isso focou-se nas bandas: Oz Bambaz. 57). Guig Ghetto (2001). mas foi uma “explosão” que ultrapassou as fronteiras brasileiras invadindo o mercado internacional. no desfrute corporal das danças. Podemos dizer também que o pagode é uma evolução das músicas dos terreiros de candomblé. 2010). 2009. 3 . 2000). dança e teatralidade e a intensa participação do público em apresentações e festas. mas sim o resultado de processos diálogos de negociação da cultura e da sociedade (BAKHTIN. criando assim o que Jesús Martin-Barbero (2008) denominou demarcações culturais. a banda mantém a mesma linha sonora do Pagodart e Parangolé. Fantasmão (2007). Black Style (2006). Parangolé (1998) Saiddy Bamba (1998). Pagodart (1998). com base no próprio samba de roda do Recôncavo. A grande explosão do pagode baiano se deu com o sucesso do grupo É o tchan na década de 90. com batuques e danças. Psirico (2003). Como estratégia investiu-se em grande produção de eventos buscando a máxima união do público e grupos diferentes abrindo espaço para outros artistas e bandas de expressões regionais (DIAS. Para Guerreiro (2000) o sucesso do “É o Tchan” está ligado ao jogo coreográfico. criadas nas ruas e festas populares. suas performances envolviam música. Black Style e O Troco.

expôs a professora de ensino infantil. O discurso produzido da imagem da mulher na análise das letras das bandas acima citada é predominantemente expressada por um olhar masculino. a fêmea. é de cima pra baixo/ Relaxa/ Fique quieta/ Calma. O discurso é produção e reprodução da visão masculina e nota-se na primeira frase da música a mulher sendo descrita como objeto do desejo masculino. p. por exemplo. associado ao masculino.97). as relações sociais e os sistemas de conhecimento e crenças” (MAGALHAES. fonte de satisfação sexual. É formada por Mário Brasil (ex-Swing do p) que vem como cantor e outros músicos de bandas conhecidas como: Thimbahia. Em seguida fica evidente a posição que os personagens assumem. as vilas do Recôncavo e os quintais de Salvador. a banda O Troco vem crescendo a cada dia. 1989. 16). calma/ Que eu encaixo. “é de cima pra baixo” é a materialização da submissão da mulher frente o poder de dominação masculina. Percebe-se que “a relação do macho face à fêmea é naturalmente. Nesse contexto pode-se citar a mais recente música lançada pela banda Black Style que diz: “Eu tô afim. moradores da Fazenda Grande (subúrbio de Salvador) começou a ganhar popularidade em 2006. 17). Existe: “uma prática tanto de representação quanto de significação do mundo. Ruth Sabat (2005. que se confirma na expressão “fique quieta”. quer é pirraçar/ É de cima pra baixo. 2001. os atuais compositores de pagode aproveitaram a brecha da sociedade e através das ondas do rádio nos reapresentaram evidentemente reformatadas. como a ereção. o Rodo. p. Nesse sentido pode-se dizer que as letras das músicas de pagode retratam a cultura da qual fazem parte seus compositores como autores ou participantes. 2010). o macho é governante. constituindo e ajudando a construir as identidades sociais. etc. não dá pra mim. a do superior para o inferior. neste ato sua necessidade fisiológica foi satisfeita. ou a posição superior no ato sexual” (BOURDIEU. ela não tá. 93) define que: “estar no mundo é estar produzindo cultura e estar sendo produzida por ela”. Para Moura (1996). A música referida acima foi aquela divulgada através do youtube onde além de levar o nome da banda. estando o homem no comando. Observa-se um “movimento para o alto sendo. p. O refrão termina com a realização sexual do homem.” (OS HAWAIANOS. p. Nascida em setembro de 2008. O vídeo apresentava a mesma dançando ao lado da banda. expressando movimentos eróticos que repercutiu principalmente na população baiana pelo papel social exercido de educadora. o súdito” (VIEZZER. tendo sua “explosão” com a famosa música: Todo Enfiado.A banda Black Style foi influenciada pelo funk e hip hop carioca e mistura esses sons com o pagode baiano produzindo o denominado pagofunk. 1989. Desse modo pode o movimento ser visto 4 . Formada por jovens negro-mestiços. que como conseqüência foi demitida.

2009.. envolvendo ideologias. Nessa canção percebe-se o que Moura (1996. com ataques constantes à figura feminina.. mas ela própria cria o existente” (GOELLNER. significações que os sujeitos começam a comungar trazendo novas identidades coletivas. em pleno século XXI. Não que eu ache as letras super interessantes. declara: “As letras trazem gozações [. Confesso que sou apaixonada por ela. p. A letra da música Ela é Dog cantada pelos Oz Bambaz diz: “toda noite ela quer fazer esquema/ pega um. é um som que mexe com a libido. de informação e de expressão entre indivíduos da espécie humana”.. 5 . Muitos admiradores do movimento dizem que a empolgação é com o ritmo (a batida) sendo o discurso insignificante. Por isso essa mulher aparece desejada e desqualificada ao mesmo tempo. Para Veloso (2010) a música baiana que está sendo produzida atualmente revela uma completa inversão de valores musicais e morais. pois “a linguagem não apenas reflete o que existe. ou no meio do mato/ estilo cachorra.]... pra ela não é problema/ no carro. dog) / she is dog [. Para Tarallo (1997. há muito que se conquistar.1). 58).]” (OZ BAMBAZ. pega geral. pois torna nacionalmente conhecido o universo da periferia. dog. 2009 p. MATOS. para sustentar uma masculinidade forjada (que ele sequer percebe).. Pode-se pensar que: Ao mesmo em que a "mulher fatal" é desejada e ostensivamente representada em diversos meios pelo homem. os cantores super inteligentes e o som acalentador. Existe uma função social nessas letras que dialoga com valores. ganham salários inferiores aos dos homens e sua sexualidade ainda é questionada. Sou apaixonada pela batida forte que me leva e envolve. (LEIRO. 2003 apud LOPES. “a vivência livre da sexualidade ainda não é vista”. no cinema. 2010). p. Nesse sentido pode-se dizer que há relação entre letra e sociedade. 2007.positivamente como instrumento de inserção da população empobrecida.2). Não há como ficar parado. A mulher ainda ocupa poucos cargos de liderança nas organizações e muitas vezes para alcançar o topo incorporam um personagem masculinizado. p. Cultua-se a mulher gostosa e escarnece-se da mulher por demais oferecida”. incita desejos e é pura sensualidade. Se isso é bom? Sei lá.. Mas se deixar levar pela batida é gostoso demais! (SANTANA. ela fica de quatro/ ela é dog (dog.. p. 7) “podem ser chamados de sociolingüistas todos aqueles que entendem por língua um veículo de comunicação. onde as expressões tornam-se inseridas na cultura. ela é depreciada por também representar aquilo que não pode ser pertencido e que também expõe fragilidade e limitações humanas sexuais. O fato é que. A seguir traz-se o depoimento de uma jovem a respeito do pagode que neste ato ela define como swingueira: Swingueira.8).

As lutas traçadas pelo movimento feminista objetivavam a valorização da mulher como ser pensante. prometida em casamento a um homem chamado José. acreditava que a mulher deveria continuar sendo a dona efetiva do lar. Uma das linhas do feminismo. o autor também diz que a moral é definida por homens. p. O anjo disse: Não tenha medo. Maria porque você encontrou graça diante de Deus. As 6 . o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia chamada Nazaré. p. a descoberta da pílula anticoncepcional entre outros. A conquista pelo direito do voto. 2007. as mulheres são adstritas. 1993). 2002. reafirmava a principal função da mulher como mantenedora do lar. Então a mulher viu que a árvore tentava o apetite. Lutando veementemente pelo direito do voto e pela educação. e dará a ele o nome de Jesus. conclamando-a para que tivesse o direito de pensar e concorrer mais diretamente para o aperfeiçoamento moral da sociedade. escrita e feita em virtude do mesmo. Conforme texto da Bíblia (1993) a serpente era mais sagaz que todos os animais que o Senhor Deus tinha feito. no dia em que vocês comerem o fruto.6). em sua essência. (RAMOS. escolhida para gerar o Salvador do mundo (Jesus). é pensada. “subverter o equilíbrio das nações e masculinizar a mulher”. que em determinado momento da história é aquela que descobriu e apresentou o pecado (o proibido). p. Foi a uma virgem. era uma delícia aos olhos e desejável para adquirir discernimento. Ele será grande. Tais discursos. ao homem. Por outro lado o movimento feminista dito anarquista pretendia segundo Bárbara Heller apud Ramos (2002. 15). “como um direito que a mulher conquistou a partir das lutas feministas” (MATSUNAGA. Pegou o fruto e comeu. Rompendo com os pensamentos citados acima e com as grandes transformações sociais surgiram movimentos que buscaram “quebrar” o paradigma instituído. No sexto mês. autônomo e capaz de produzir e participar da história da sociedade como agente ativo. sendo assim. e será chamado Filho do Altíssimo (BÍBLIA. Nesse sentido percebe-se que a mulher brasileira ainda é retratada como sensual por natureza e que convive com representações sociais de sua sexualidade incongruente. Eis que você vai ficar grávida. e também ele comeu. Foucault (1998) discute que em toda reflexão moral sobre o comportamento sexual. das décadas de 1920 e 1930. terá um filho. depois o deu também ao marido que estava com ela. foram grandes vitórias desse movimento. e vocês se tornarão como deuses. Ela disse para a mulher: Deus sabe que. conhecedores do bem e do mal. os olhos de vocês vão se abrir. E em outro é apresentada como a virgem pura e iluminada. contraditórios encontram-se embasados também numa definição religiosa da imagem da mulher. 15).pela sociedade brasileira.

O Troco e Saiddy Bamba. Como fonte de dados buscou-se 7 . onde tivemos um mediador que fez as perguntas e obteve todas as respostas requeridas. pela “religião”. 2007. Nesse sentido confrontamos os dados para obtenção da análise. Entendemos que a sexualidade ainda continua sendo um forte “tabu”. Desejou-se produzir uma idéia concreta dessa população tendo ênfase na análise da “figura” feminina no universo do pagode. Já os dados secundários foram: vídeos e documentos sobre o assunto. 6). Após décadas de luta do movimento feminista percebe-se ainda hoje uma visão tradicional e machista quando o assunto é liberdade sexual da mulher. As letras de pagodes muitas vezes remontam uma imagem deturpada da mulher e criando assim uma nova forma de viver (cultura). que não sabiam direito o que queriam” (p. Buscamos através deste feito. A amostra foi composta por 150 questionários aplicados no mês de outubro de 2010 nos movimentos (ensaios e shows) das bandas de pagode: Oz Bambaz.divergências entre as diferentes linhas de pensamento do movimento. Procedimentos Metodológicos Utilizou-se como estratégia metodológica a pesquisa de levantamento survey que tem como objetivo estabelecer a incidência de determinadas características e sua distribuição. da batida e o que ele representa enquanto difusor da cultura baiana. captar a opinião desse público para identificar um possível perfil. Caldeirão. Portanto observa-se que mesmo com toda luta a mulher ainda vive em um modelo social representado pela dominação do gênero masculino. conformando a construção da representação da mulher e sua identidade “sexual” em aspectos conservadores de uma ordem social estabelecida pelo: “patriarcalismo”. 3. (MATSUNAGA. Através dessa abordagem busca-se compreender o discurso por traz do ritmo. Black Style. seja o precursor da “imagem que se tornou pública de que o movimento feminista seria de uma minoria de mulheres masculinizadas e estéreis. Dentre as citadas constatou-se uma maior incidência de músicas fazendo referência depredatória a imagem da mulher na análise das letras das bandas OZ Bambaz. talvez. e a vivência desta sexualidade sendo regida pelos valores tradicionais. Como dados primários utilizaram-se: questionários e observação direta. 16). Black Style e o Troco. seja de forma direta ou com palavras em duplo-sentido. O survey foi supervisionado. De acordo com Babbie (1999) o levantamento survey examina uma amostra de população. p.

4. Foi constatado também que 61% das entrevistadas trabalham com carteira assinada. conforme demonstrado na figura 01 acima.34% possuem filhos. Construída Pelos Autores.o nível de escolaridade mudará. Determinou-se (figura 07) que 6% ganhavam 8 . O nível fundamental representou-se por 14% e o nível superior 7%. A figura 02 comprova que o nível médio (antigo segundo grau) é o mais dominante com 58% de representação da amostra. Residentes de Brotas constatou-se 28. Figura 03.67%. Identifica-se claramente conforme discutido no referencial teórico que o pagode conquista não apenas a periferia de Salvador. Constata-se uma maior incidência da faixa etária de 20 até 29 anos. nutrição e pedagogia. A figura 03 apresenta os bairros ou municípios onde residem as entrevistadas. enfermagem. Nesse universo 94% são solteiras e apenas 6% são casadas. sendo 8 com apenas 1 filho. expressaram serem “livres para curtição”. 14 com 2 filhos e 8 com 3 filhos. Construída Pelos Autores.além da revisão na literatura. letras de músicas.67% das entrevistadas. Figura 02. gerou-se os seguintes resultados: Figura 01. 11% informalmente e 28% não trabalham (figura 6). Para tratamento dos dados realizou-se análise de estatística. seguido da Federação com 16. Construída Pelos Autores. Esses dois bairros foram as maiores representações na amostra. visto que 21% das entrevistadas estão estudando algum curso superior. Analisou-se também que em quatro e/ou cinco anos – se concluírem no tempo pré-determinado para o curso . Resultados A aplicação do questionário a 150 mulheres em ensaios e shows das bandas descritas acima. e as próprias festas (ensaios e shows) de pagode e onde tivemos como foco mulheres entre 17 e 30 anos. As solteiras por sua vez. mas pessoas dos mais variados bairros e classes sociais. No quesito idade observou-se que as mulheres que freqüentam esses ambientes têm geralmente entre 17 e 39 anos. Apenas 21. Os cursos citados com maior freqüência foram: administração.

6% entre R$ 701. 9 . Figura 07. Construída Pelos Autores. Construída Pelos Autores. Figura 06.00 até R$ 700.até R$ 509. 55% declararam ter renda entre R$ 510.00.00 até 900.00.00.00 e 5% acima de R$ 901.

Construída Pelos Autores. Figura 09. porém com o consentimento da mesma.. 31%. denigre a imagem e o machismo. que de uma maneira ou de outra relatam a mulher seja: definindo-a. piriguetes” que na verdade “é apenas uma música”. causa baixa estima. 25% e 14% respectivamente: não incomoda. por outro lado 33% das entrevistadas disseram que “a música diz tudo” e é sim apologia à violência e 27% relataram 10 . Para as mulheres inseridas no movimento. denigre a imagem (mulher) e o machismo.” nesse sentido de 15 mulheres entrevistadas estabeleceu-se que: 40% acreditam que a música não tem poder de influenciar a violência contra a mulher. Verificou-se. onde a mulher é definida como cachorra. pois elas não assumem incorporar o estereótipo da piriguete – presença constante nas letras de pagode – este fato confirma-se em pequenas amostras quando declarou-se que: “curtem e não sentem-se cachorras. essa posição se inverte quando elas escutam a letra dissociada do ritmo. Podemos dizer que 14% que declararam a existência do machismo concordam com o que Viezzer (1989) e Bourdieu (1989) expressaram como a idéia de macho governante (posição superior) e fêmea súdita. as letras em sua maioria não causam constrangimento ou qualquer tipo de desconforto. ditando padrões de beleza. não dando ênfase ao que se canta.Aplicando questões relativas às letras de pagode. sintetizou-se o seguinte percentual: 36%. Verificou-se que algumas letras descrevem uma relação de violência do homem para com a mulher. Construída Pelos Autores. neste momento. Porém. causa baixa estima. ver: “mas você só pede porradinha e dor. Comparando os gráficos acima sobre análise das letras. as palavras provocam o que elas descrevem como baixa estima. Já 36% que declararam não se incomodar com as expressos relaciona-se com o discurso de Santana (2009) que diz que a batida que envolve e leva. conforme figuras 08. conforme afirma Leiro (2009) que a mulher aparece desejada (para satisfazer a sexualidade masculina) e desqualificada ao mesmo tempo e é esse aviltamento que causa baixa estima. Construída Pelos Autores. seus movimentos. Figura 10. nota-se que as respostas mais freqüentes em relação ao discurso presente nas músicas: não incomoda. machismo e é instrumento para denegrir as mulheres.. descrevendo suas ações. A baixa estima provocada pela letra das músicas está visivelmente retratada no resultado da pergunta representada pela figura 09. 09 e 10 apresentadas abaixo: Figura 08.

A letra das músicas é expressão do pensamento. o ato estar relacionando principalmente a postura que a mulher assume. depreciam a mulher para sustentar uma masculinidade forjada. piriguetes. canhão são palavras difamatórias que denigrem a imagem da mulher. pois representa e demonstra o viver de um determinado grupo social. outras 40% afirmaram que as mulheres não precisam dessas definições para obterem liberdade e 20% acreditam que com as músicas. como elemento de curtição. 5.que mesmo que a música incentive a violência. ou seja. Observa-se a inexistência de bandas formadas pelas mesmas. isso porque a mulher torna-se foco para muitas bandas. Em contra-ponto vê-se que sociedade cria estereótipos sobre esse público que é fruto do desconhecimento sobre essa cultura. Através do resultado do questionário aplicado pode-se traçar um perfil das mulheres que curtem o pagodão. O pagode hoje é um produto cultural legitimado. ela (pagodeira) empresta seu corpo para reproduzir as ações ordenadas nas músicas. de entretenimento. mais liberais. são agentes passivos nessa cultura. as mulheres sentem-se mais soltas. A participação torna-se ativa apenas nas danças quando é explorado o sensualismo feminino. qual o discurso predominante identificando como a “figura” feminina é descrita. de 10 entrevistadas constatou-se que: 40% disseram que as expressões cachorra. Em relação as expressões utilizadas nas músicas para referir-se ás mulheres. em sua maioria. 11 . traçar um perfil das mulheres que estão inseridas no movimento popularmente conhecido como pagodão e compreender os estereótipos e sua influência no cotidiano dessas pessoas. Antagonicamente um percentual muito pequeno acredita que o pagode proporciona mais liberdade. enfim. Notou-se que a mulher está presente no pagode. bem como compositoras. Considerações Finais O presente estudo teve como objetivo de compreender o universo das letras de pagode. espaço da paquera e do encontro. seja por sua super valorização ou degradação. tornando-as mais desejadas pelo homem e mais “poderosas”. ou seja. apanhar ou não “depende da mulher” e/ou como uma entrevistada descreveu “se bater apanha”. a batida. valor e ideais dos que comungam com movimento. ao ouvirem as letras em companhia do ritmo esquecem o que ele representa e assumem o swing. Notou-se neste contexto o que Leiro (2009) defende ao citar que as músicas de pagode. Percebe-se que as mesmas mulheres que afirmam sentirem-se execrada pelo discurso. crença. contudo as mesmas não o constroem. Constatou-se que a maioria das entrevistadas não se incomoda com o descrito nas músicas. isso é.

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