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planejamento - historia

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O PLANEJAMENTO FAMILIAR NO BRASIL NO CONTEXTO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE SAÚDE: DETERMINANTES HISTÓRICOS

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FAMILY PLANNING IN BRAZIL IN THE CONTEXT OF PUBLIC HEALTH POLICIES: IMPORTANT HISTORICAL FACTORS

Edméia de Almeida Cardoso Coelho** Maria de Fátima Gomes de Lucena*** Ana Tereza de Medeiros Silva****

COELHO, E. A. C. et al. O planejamento familiar no Brasil contexto das políticas de saúde: determinantes históricos. Rev.Esc.Enf.USP, v. 34, n. 1, p. 37-44, mar. 2000.

RESUMO
O presente estudo faz um resgate histórico da formulação e implementação das políticas públicas de saúde no Brasil, com ênfase na política de planejamento familiar. Conclui que, esta, em seu início, atendeu a interesses controlistas internacionais e hoje, o planejamento familiar, embora oficialmente reconhecido como direito de cidadania, ainda reflete interesses contraditórios das instâncias políticas, econômicas e ideológicas de poder.

PALAVRAS-CHAVE: Planejamento familiar. Políticas de saúde. Saúde da mulher.

ABSTRACT
This study searches historical records for the formulation and implementation of public health policies in Brazil, focusing on those referent to family planning. Initial conclusions show that the policies were geared toward international controlling interests. Family planning today, though officially recognized as an inalienable right of every citizen, still reflects the contradictory political, economic and ideological interests of the ruling power.

KEYWORDS: Family planning. Public health policies. Women's health.

INTRODUÇÃO
A idéia de uma medicina social surgiu durante a Revolução Francesa, no século XVIII, porém, foi a Inglaterra que criou os primeiros mecanismos para transformá-la em uma política de Estado. No Brasil, a saúde como questão social surgiu na década de 20 durante a expansão da economia cafeeira, período de formação da sociedade capitalista. Nessa época, o aumento da população era necessário para expansão da e c on om ia m as , c om o a ins er çã o n o me rc ad o d e trabalho não era garantida a todos economicamente ativos e como as cidades cresceram sem uma política
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s a n itá r ia b á s ic a , e xp a nd ir a m -s e a p ob r e za , a s doenças e a marginalização, e a questão populacional foi se constituindo como um problema político. Nas primeiras décadas do século XX, surgiram na Europa e nos Estados Unidos movimentos de caráter malthusiano que associavam a miséria ao crescimento populacional. Ao longo do processo de consolidação da sociedade capitalista o Estado brasileiro adotou uma postura pró-natalista, mas, principalmente, a partir dos anos 60, pressões americanas forçaram a entrada de entidades internacionais no Brasil, que tinham como

** *** ****

Artigo produzido a partir da Dissertação de Mestrado:COELHO, E. de A C. Política de planejamento familiar em João Pessoa PB: análise das contradições existentes entre o discurso oficial e a prática, João Pessoa, 245 p. Dissertação (Mestrado), Universidade Federal da Paraíba, 1996. Enfermeira, Mestra em Enfermagem de Saúde Pública, Professora Assistente III do Departamento de Enfermagem de Saúde Pública e Psiquiatria da Universidade Federal da Paraíba, aluna do Programa Interunidades de Doutoramento em Enfermagem da Escola de Enfermagem da USP. Assistente Social, Doutora em Ciências Sociológicas, Professora adjunto do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal de Pernambuco. Enfermeira, Mestre em Enfermagem, Professora adjunto IV do Departamento de Enfermagem de Saúde Pública e Psiquiatria da Universidade Federal da Paraíba.

Rev. Esc. Enf. USP, v.34, n.1, p. 26-36, mar. 2000

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essa reivindicação feminista foi atendida oficialmente através do Programa de Assistência Integral da Saúde da Mulher (PAISM). a segunda etapa consiste no trabalho de campo. principal objetivo controlar o crescimento populacional dos países pobres. se assim o desejarem." (BRASIL. atuação de ONGs (Organizações-Não –Governamentais). Com a aceleração da urbanização e do desenvolvimento industrial. sendo o poder central assumido por Getúlio Vargas na década seguinte. mar. para garantir a subsistência da família. Em 1903. o Presidente Rodrigues Alves lançou um programa de obras públicas para saneamento do Rio de Janeiro.. atuando no serviço de pré-natal e maternidade de um hospital público em João Pessoa . Para atingir o objetivo nos propomos a responder às seguintes questões: * a .PB. No final da década de 70. visando conhecer os determinantes históricos das políticas de planejamento familiar no Brasil. pelo espaçamento e número de gestações e pelo método anticoncepcional mais adequado aos seus desejos e condições orgânicas. a saúde cresceu como questão social e a cobertura da assistência foi ampliada com a Reforma Carlos Chagas. que estão grávidas de filhos indesejados. 2000 . uma vez conseguindo dissociar sexualidade de procriação.34. com a qual se contava na velhice e na doença. rompendo-se a estrutura de poder da Neste estudo. decidimos realizar a revisão bibliográfica como etapa anterior à pesquisa de campo. No nosso cotidiano profissional. por razões de ordem política.O planejamento familiar no Brasil no contexto das políticas públicas Edméia de Almeida Cardoso Coelho et al. para separar o exercício da sexualidade da função reprodutiva e. no momento em que esta política de saúde. em seu sub-programa planejamento familiar*. optamos por desenvolver uma pesquisa. que manteve o título da Dissertação.Qual o contexto sócio-político do Brasil por ocasião da elaboração das políticas de planejamento familiar? b . BRAGA. v. interesses elleitoreiros. sem assistência adequada. oficialmente. "aceitando" a condição de gestantes ou de mães. Em 1983. O final dos anos 20 foi marcado por uma crise política que culminou com a derrubada do governo por uma junta militar. 1985). 37-44. Este tem como pressuposto básico o reconhecimento de que "todas as pessoas têm o direito à livre escolha dos padrões de reprodução que lhes convenham como indivíduos ou casais" (BRASIL. Tendo em vista ser a regulação da fecundidade uma questão enfrentada por forças sociais divergentes. a política de imigração. porém. nos anos 30. tais como: interferência externa por pressões políticas. posteriormente. os índices de morbi-mortalidade eram altos e. sem coação de qualquer origem. o qual resultou em outro artigo. aderem principalmente à contracepção hormonal mas. quer por mecanismos indiretos. o Estado passou a ser mais autônomo. enfrentando as complicações de abortamentos provocados e.PB: análise das contradições existentes entre o discurso oficial e a prática". à assistência especializada e ao acesso a todos os recursos que lhes permitam a opção livre e consciente por ter ou não ter filhos. E. o entendemos como a interferência do Estado sobre a vida da mulher ou da família induzindo-a a controlar a sua capacidade reprodutiva pela diminuição da prole. econômica ou demográfica.obrigatória e vigilância sanitária. PAULA (1986) afirmam que. Esc. por estarem cumprindo a função feminina da reprodução. com o objetivo de analisar as contradições existentes entre o discurso oficial e a prática concreta no que se refere à política de planejamento familiar em João Pessoa – PB. social. o entendemos como o exercício do direito da mulher ou do casal à informação. Assim.1. assistimos a um número significativo de mulheres. n. 1987). no período posterior à criação do PAISM. "para que esse direito possa ser efetivamente exercido. completava 10 anos. outras vezes. vacinação. REPRODUÇÃO HUMANA E AS POLÍTICAS DE SAÚDE NO BRASIL NO INÍCIO DO SÉCULO A organização social brasileira desde a Colônia foi estruturada a partir do setor agrícola. impondo-se notificação de doenças. Ao nos referirmos a controle da natalidade.. quer através de uma política oficial de população. ao nos referirmos ao planejamento famililar. BRAGA. Em virtude do desacordo entre a proposta teórica do PAISM e a realidade concreta das mulheres referidas. exercer na plenitude o planejamento de sua prole . em conseqüência. bem como manter a insatisfação popular sob controle. comprometem a sua saúde e tornam-se cada vez mais dependentes do sistema médico. passam a defender a regulação da fecundidade como direito de cidadania reivindicando o controle sobre o corpo e contestando os interesses controlistas. os anticoncepcionais entram no mercado e as mulheres. Enf. diante da precariedade das condições de saúde.Quais as forças e os determinantes políticos que motivaram a formulação do PAISM? Este artigo refere-se à primeira etapa da Dissertação de Mestrado : "Política de planejamento familiar em João Pessoa . foram lançadas medidas de combate à malária e a obrigatoriedade da vacina contra a varíola As medidas sanitárias dessa época ocorriam sob a forma de campanhas e tinham caráter jurídico. é necessário que os indivíduos tenham conhecimento das possibilidades de influir no ritmo da procriação e tenham acesso às informações e aos meios para que possam intervir. PAULA (1986) informam que. nesse início de século. Oswaldo Cruz iniciou o combate à febre amarela urbana e. Tinham como objetivo diminuir a mortalidade geral para manter o processo de acumulação cafeeira. p. Nos minifúndios também era nítida essa necessidade. necessitando-se de famílias numerosas nos latifúndios para aumentar a produção. 38 Rev. USP. que não passavam de soluções imediatistas.

vários serviços de atenção primária foram criados. foi promulgada a Nova Constituição.1. somando-se a essas necessidades. 1986). Apesar da organização estrutural do setor saúde e das medidas adotadas nessas primeiras décadas do século XX. os índices de mortalidade. e o Serviço Especial de Saúde Pública (SESP) que. organizada em dois subsetores . transformações resultantes da industrialização e da urbanização que as despertaram para reivindicar o direito à educação. A mortalidade geral diminuiu em relação às décadas anteriores. Consideravam haver nos países ricos uma estabilidade no crescimento Rev. PAULA. decorrente da industrialização e da urbanização. que já tinham os países pobres sob sua dependência. que passou a ser objeto de luta e mobilização dos trabalhadores (FALEIROS. pressionou o governo a ampliar as políticas sociais. Na primeira década deste século. a dos neomalthusianos que a defendiam como meio para melhorar a situação da pobreza. diante da postura prónatalista. Para FALEIROS (1992) Vargas praticava o clientelismo pela subvenção às instituições de assistência. passaram a pressionar governos do Terceiro Mundo para adotar uma política de população. em 1953. os países ricos.o da Saúde Pública e o da Medicina Previdenciária. O PÓS-GUERRA E A QUESTÃO POPULACIONAL No Brasil. Nos anos 30 iniciou-se a centralização da política de saúde. Enquanto no Brasil buscava-se preservar a natalidade. econômica ou de saúde. Três linhas de pensamento foram formadas nesse período: a das feministas.34. esta já . mas a natalidade continuou alta. 1990). inspirando-se seus defensores na Teoria de Malthus. v. 37-44. Governos e estudiosos começaram a se preocupar com o crescimento populacional. "nos períodos compreendidos entre 1870 e 1940. constituindo elementos importantes no processo de centralização da política nacional de saúde (BRAGA. Segundo SOUZA (1978). juntamente com socialistas e anarquistas americanos. que. em especial. 1991). especialmente os Estados Unidos. em 1953. Margareth Sanger. sem considerar as circunstâncias em que esta ocorria. realização de obras sociais e apoio a organizações religiosas e sua política levou o país a uma crise econômica que o governo tentou a todo custo controlar.O planejamento familiar no Brasil no contexto das políticas públicas Edméia de Almeida Cardoso Coelho et al. n. principalmente até os anos 40. o Ministério da Educação começou a investir na formação de técnicos de saúde pública. que viam no controle da natalidade um caminho para melhorar a qualidade genética (AVILA. Primeira República. No Brasil. 1994). especialmente na Inglaterra. foram instituídas as Conferências Nacionais de Saúde pela Lei n. no final do século XIX surgiram na Europa e nos Estados Unidos os primeiros movimentos de controle da natalidade. Nesse período. p. Estas medidas constituíram as bases para a criação do Ministério da Saúde. tal política fez surgir um surto inflacionário. Enf. a morbi-mortalidade infantil e materna continuaram altos. Apesar da expansão e modernização da indústria. 1992). saúde e habitação. as taxas de mortalidade eram de tal magnitude que. USP. o capital estrangeiro passou a entrar maciçamente no país com o fim de fornecer tecnologia avançada e ampliar mercados consumidores. No governo Juscelino Kubistchek. inspirados nas idéias de Malthus. que consideravam a contracepção um direito fundamental da mulher. caso continuasse a c re sce r no me s mo ri t mo" ( S EMP RE VI VA ORGANIZAÇÃO FEMINISTA-SOF.o crescimento da população mostrou-se menos acentuado do que nas duas décadas sucessivas de 40 e 50". Esc. mais pobre ela seria. Malthus baseou-se no crescimento da pobreza a partir da Revolução Industrial. segundo FALEIROS (1992) teve apoio americano. o pós guerra foi marcado por grande expansão industrial e. Na década de 40. sendo criado o Ministério da Educação e Saúde. 2000 39 . o movimento foi liderado por Marie Stopes (RODRIGUES. e. 378 de 13 de janeiro (NASCIMENTO. argumentando que "os recursos existentes no mundo não seriam suficientes para manter a população global. pois esta crescia em progressão geométrica e os alimentos em progressão aritmética.ultrapassava em 50% o crescimento da agricultura. ao voto e à regulação da fecundidade. como o de combate à febre amarela. passando o governo americano a ter estreita relação com o governo brasileiro. Na Europa. ajudando-o nas questões cruciais em relação à saúde. a distribuição de renda continuou perversa e desigual e. O au men to da massa trabal hado ra e m precárias condições de higiene. para o autor citado. A propaganda contraceptiva tinha conotação política. líder feminista. resultando em uma política de saúde. e a dos eugenistas. iniciou nos Estados Unidos um movimento pelo direito à regulação da fecundidade. em 1937. os movimentos internacionais não ecoaram nessas primeiras décadas do desenvolvimento capitalista. 1992). Em torno de 1960. segundo a qual quanto mais crescesse a população. teve como razão principal o interesse dos Estados Unidos em vencer a resistência de Vargas e fazer o Brasil entrar na Segunda Guerra Mundial. chamado "birth control". mar. por interesses na produção de borracha na Amazônia e do manganês no Vale do Rio Doce. foram retomadas as campanhas sanitárias como ações coordenadas centralmente. apesar de mantido o padrão da família numerosa especialmente nas áreas rurais . Sanger mostrava-se sensível às queixas das mulheres por razões social.

64. incluindo-se o tema da municipalização. o Estado utilizou a força militar para reprimir organizações populares e os comunistas. mais precisamente. A década de 60 foi marcada pela maior inserção da mulher no mercado de trabalho. o governo americano passou a pressionar o Brasil para que adotasse uma política demográfica como critério para empréstimo (PACHECO. o governo reconheceu formalmente a crise previdenciária e criou o Sistema Nacional de Previdência e Assistência Social (SINPAS). Nessa época. ampliando-se a exploração da mão-de-obra pelo aumento das horas de trabalho e pelo processo de acumulação do capital. agravou-se a recessão econômica com a expansão da dívida externa (FALEIROS. no contexto de uma grave crise econômica e política. através de um setor empresarial de proprietários de hospitais. No governo do seu sucessor. no início dos anos 80. Enfraqueceu e foi derrubado pelos militares em 1964. Durante o Milagre Econômico. a medicina tornouse mais especializada e sofisticada. pela pobreza. que estabeleceu para o Ministério da Saúde ações voltadas ao atendimento de interesse coletivo e para o Ministério da Previdência e Assistência Social. Em 1965. Criaram-se clínicas e hospitais particulares financiados pela Previdência Social. populacional e nos pobres uma explosão populacional. As políticas de assistência à mulher no contexto do estado militarista Uma vez dependente do capital internacional. p. 1991). principalmente. argumentando serem as conquistas sociais das mulheres e o desenvolvimento econômico do Primeiro Mundo condicionantes da diminuição da natalidade e não a relação inversa. mar. Financiada por entidades internacionais e de interesses nitidamente controlistas facilitou o acesso das mulheres aos métodos contraceptivos. e tecnificada entre médico e paciente e entre serviço de saúde e população". A Medicina Previdenciária foi unificada em 1966 com a criação do Instituto Nacional de Previdência Social (INPS). através da distribuição gratuita. sendo que alguns indicadores de saúde pioraram. ressurgiram os movimentos sociais que forçaram o processo de redemocratização do país. que participavam diretamente do processo de acumulação capitalista. 37-44. Em se tratando das questões de saúde. Esc. Nos anos 70 houve um desaquecimento da economia pela crise do petróleo e. o atendimento médico-assistencial individualizado No final da década. constituindo as principais orientações da política sanitária da conjuntura do Milagre Brasileiro (LUZ. foi criada a BEMFAM (Sociedade Civil de Bem-Estar Familiar no Brasil). sem garantia de acompanhamento médico (RODRIGUES. João Goulart. os movimentos sociais organizados contestaram. Somente ao final da década de 70. 1992). pela degradação do meio ambiente e. atribuindo a ela a responsabilidade pela fome. Nesse início de década. Consolidou-se "uma relação autoritária. na década seguinte. não conseguiu melhorar a saúde nem o padrão de vida da população carente. 1986). o contexto sócio-político e econômico do país refletia as exigências do Fundo Monetário Internacional (FMI) e o governo de Jânio Quadros foi conduzido segundo estas. da Igreja e do próprio governo. situação sanitária nacional e a Política Nacional de Saúde que se reverteriam em conquistas sociais (NASCIMENTO. n. o Brasil se rendeu às entidades americanas consideradas de planejamento familiar. que exigia quantias cada vez maiores de dinheiro para cobrir os serviços prestados pela rede privada. possibilitando o Milagre Brasileiro. esta basicamente foi centrada em campanhas e medidas sanitárias dirigidas a grupos isolados. apesar de até 1960 ter predominado a ênfase na Saúde Pública. João Goulart não conseguiu organizar e unir as forças progressistas e enfrentar as insatisfações militares. 1991). Enf. a redução do crescimento populacional deveria ser a principal prioridade para os planos de desenvolvimento (SOF. organizou-se o Movimento Sanitário exigindo soluções para os graves problemas sociais existentes. como pílula e DIU. Coincide com A CONJUNTURA NACIONAL DURANTE A DITADURA MILITAR E O IMPACTO NO SETOR SAÚDE Durante a ditadura. sendo assim. Todavia.34. que justificavam a importância de uma grande população. as manifestações de rua e as greves. v. devido à mudança no caráter da prestação de serviços. Mas. a perspectiva controlista ampliou-se. criando o Sistema Nacional de Saúde. foram propostas reformas de base. Todo o conjunto de medidas proposto para a assistência à saúde no período pós . agravada pela capitalização da medicina. apesar da resistência de militares. O pouco investimento na rede pública de saúde refletia a crise na Previdência. PAULA. No início dos anos 60. 1994). 1990). Em 17 de Julho de 1975 foi promulgada a Lei 6229.1. 2000 . quando enfrentava grave crise econômico-financeira. tanto do ponto de vista estratégico como econômico. expansão da consciência feminista e chegada maciça dos métodos anticoncepcionais. No âmbito da saúde. marcado por conquistas importantes. objetivando reorganizar o Sistema (BRAGA. 1981). USP. principalmente à pílula. Os trabalhadores tiveram seus salários reduzidos. expandiram-se as faculdades particulares de Medicina e surgiu a medicina de grupos. mercantilizada 40 Rev.O planejamento familiar no Brasil no contexto das políticas públicas Edméia de Almeida Cardoso Coelho et al.

havia manifestações de ru a re i vi n d i c an do po l í ti c as so ci ai s qu e assegurassem direitos de cidadania. OS CAMINHOS DO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE (SUS) A redemocratização do país permitiu que a idéia da criação de um Sistema Único de Saúde fosse discutida publicamente. que já era defendido e praticado por um Programa anterior. em 1983. tinha reconhecido que as situações vividas ao longo do seu ciclo vital as tornavam merecedoras de atenção especial. O país inteiro se mobilizou em torno da campanha para eleições diretas para presidência da República. a política demográfica do Brasil foi anunciada oficialmente na Conferência Mundial de População em Bucareste. comprometendo a sua saúde. A BEMFAM foi considerada de utilidade pública pelo governo Médici. o planejamento familiar foi contemplado pelo Prev-Saúde com ênfase à educação para a paternidade responsável. o controle das doenças transmitidas sexualmente. No PMI apresentavam-se também as possibilidades de orientação sobre o planejamento familiar. 1978). Esc. o grupo materno-infantil. ao lado de conquistas políticas como a anistia e a eleição direta para governadores em 1982. persuadindo a população pobre a modificar seu modo de vida. principalmente da pílula. mas não se efetivou por encontrar resistência entre proprietários de hospitais. o que na prática não se efetivou. sanitaristas. a abordagem dos problemas presentes desde a adolescência até a terceira idade. como o de mulheres. v. cientistas sociais e militantes de partidos políticos. p. a multiplicidade de empregos e uma prática médica curativa em detrimento da preventiva (MARQUES. USP.O planejamento familiar no Brasil no contexto das políticas públicas Edméia de Almeida Cardoso Coelho et al. voltadas para o aprimoramento do controle pré-natal. a oferta sempre foi limitada. sendo os contraceptivos divulgados como instrumentos eficazes e imprescindíveis para a liberação feminina. a mulher que já possuía número elevado de filhos e dispunha de escassos recursos para manter sua família. o PMI também tinha um componente educativo e sendo dirigido à gestante. 1978). re presentados pela Federação Brasilei ra de Hospitais. A 7a Conferência Nacional de Saúde (CNS) caminhou nessa direção. a impessoalidade. Naquela ocasião. criado após seis anos da recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS). do parto e do puerpério. 1992). finalmente. o que resultou na formulação do PAISM (Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher). Neste. sendo fortalecida no governo Figueiredo. como afirma NASCIMENTO (1991). com o Programa Nacional de Saúde Materno-Infantil (PMI). a tecnificação. adotado como política de assistência à saúde da mulher. podia ter acesso à discreta orientação sobre o uso de contraceptivos (SOUZA. Enf. considerando a importância biológica. 1992). onde o governo brasileiro declarou ser um direito social. sócio-econômica e numérica do grupo. O PMI acelerou as especializações. a prática hospitalar. Até a década de 80 o debate sobre a reprodução humana era centrado no natalismo tradicional e no neomalthusianismo. "através de atividades de assistência integral clínico-ginecológica e educativa. em 1983. acreditando num país que.34. 2000 41 . o movimento de mulheres interveio no debate nacional sobre o planejamento familiar. saúde. decidir quanto à composição da família. tem como objetivo: atender a mulher. o poder público deveria se ocupar da divulgação de informação sobre a contracepção. dos comportamentos. o PEP (Programa Especial de Pediatria ). Para efeito de determinação da população alvo. n. passando a questão reprodutiva a ser vista como decisão ética individual e um direito social" (CORREA. Nessa década. mais carente. mais marginalizado. habitação e educação estavam em crise e. Com o PAISM as mulheres chegam à Nova República. disputando. Nos anos 80. os métodos estiveram cada vez mais sob controle médico. As políticas de assistência à mulher passaram a ser melhor delineadas a partir de 1975. que tinha nos comícios a prova da vontade popular. Esta visão era consenso entre os diferentes movimentos sociais. demógrafos. criança e adolescente. Para MARQUES (1978). "instituindo-se a noção de que a assistência à contracepção deveria compor uma política ampla de saúde reprodutiva. pretendia a transformação das atitudes. Assumiu um caráter de Rev. do câncer cérvicouterino e mamário e a assistência para a concepção e a contracepção" (BRASIL. Para tanto. à obrigação do Estado quanto às informações sobre os métodos anticoncepcionais e à revisão da legislação sobre a fecundidade.1. Em 1974. 1991). mar. uma cena política de contestação cultural. e na Associação Brasileira de Medicina de Grupo (NASCIMENTO. precária e sem assistência adequada. O Prev-Saúde representava um projeto com grande investimento em assistência primária. permitindo dissociar a sexualidade da procriação. O PAISM. 37-44. a concentração médica nos grandes centros urbanos. as mulheres logo constataram que o acesso aos contraceptivos não conseguiu fazer com que deixassem de ser consideradas cidadãs e trabalhadoras de segunda categoria. o que facilitou a aceitação pelas mulheres. um verdadeiro campeonato cívico. fazendo-a reconhecer que ela própria é responsável por seus problemas de saúde. a OMS orientou o critério da relação risco/classe social. Segundo XAVIER et al (1989). identificando claramente uma classe social. sendo prioritário o mais pobre.

Nas décadas de 80 e 90 intensificaram-se os Nessa década. As políticas neoliberais foram consolidadas inicialmente em economias européias. é nítida a predominância de uma Entretanto... ". como conseqüência a construção de um novo arcabouço institucional da aplicação de fórmulas econômicas de contenção do separando totalmente saúde de previdência.1. iniciadas em 1983. mas de alta eficácia contexto. 42 Rev. contrária aos princípios do SUS. ligadas a interesses da iniciativa privada e por erros medicina que atende à lógica neoliberal. v. as diversos países da América Latina pelo Fundo possibilidades de uma Reforma Sanitária que culminou Monetário Internacional (FMI). através de modalidades discriminatórias. ocorreu durante a mobilização para o "impeachment" do então presidente Fernando Collor. um serviço público que é paradoxalmente universal e A IX Conferência Nacional de Saúde (CNS) excludente da maioria. no país. Esc. principalmente. n. a regionalização e a quase a totalidade da parte da seguridade social hierarquização. industriais e laboratórios. além de O PLANEJAMENTO FAMILIAR obstaculizar a realização da Conferência. especialmente o de mulheres. diminuindo assim as divergências entre o governo e o Movimento Sanitário. apresentou. com o Estado. Embora. o projeto neoliberal que instalou-se no país como política assumida por segmentos dos movimentos um projeto conservador da saúde. através do SUS. Hoje. bem de consumo médico e continuam excluídos da Particular da política de planejamento familiar. hierarquização e regionalização. havia no Brasil um novo arcabouço da classe média. por razões de ordem político-ideológica. os três níveis de governo. principalmente na Inglaterra. desde os princípios da Reforma Sanitária. 1991). o SUDS não atingiu os objetivos aos da assistência à saúde mercantilizada. e a questão da política integrada de recursos atendendo aos interesses dos grupos oligopólicos humanos. AIS (Ações Integradas de Saúde). as políticas reconheceu a necessidade de reestruturação do Sistema neoliberais são definidas por CAMPOS (1990). Este. com expansão estratégicos. ainda é a classe pobre e politicamente jurídico que orientava o Sistema de Saúde. mar. vem assistência. A 8a CNS foi considerada como o "evento mais numa reunião conhecida como Consenso de significativo no processo de construção da estratégia e Washington. fazendo com que a quais se propôs. sendo incorporados ao discurso do governo. Ao iniciaratualmente. o Banco Mundial e com a 8a Conferência Nacional de Saúde (CNS).O planejamento familiar no Brasil no contexto das políticas públicas Edméia de Almeida Cardoso Coelho et al. beneficiando assim. Enf. SUS e neoliberalismo: a difícil convivência .". milhões de brasileiros que financiam as políticas mas não usufruem delas.. da tática pela democratização da saúde em toda sua O projeto neoliberal propõe a diminuição da história" (NASCIMENTO. no governo de Margareth Thatcher. como "o Nacional de Saúde através da criação de um Sistema conjunto de medidas tomadas a partir de 1973 (. 2000 reforma da Política Nacional de Saúde. em 1989 (BEZERRA. anos 70. em 1986. haja uma demanda crescente por parte se o governo Collor. na saúde. O neoliberalismo foi apontado como solução para Surgiram. a universalização. a conjuntura é sociais dos anos 80.. a saúde constitui um O processo de implantação do PAISM e. Hoje. temas como universalização da cobertura.). p. 1992). a democratização das instâncias gestoras trustes hospitalares. atenção primária. população tenha como referência o subsistema privado A Constituição de 1988 reconheceu a saúde como de saúde. 37-44. a partir desta Conferência. NACIONAL DE SAÚDE -CNS (1987).34. os decisório. construía-se também.. foi criado o SUDS (Sistema convênios com as seguradoras ou cooperativas de Único Descentralizado de Saúde) por um decreto profissionais e. nos Único de Saúde (SUS) que "efetivamente representasse países industrializados capitalistas. do Presidente Sarney.. O SUDS incorporou os através do SUS. O SUDS facilitou a implementação das transnacionais e hegemônicos". o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). sem diretrizes claras e sem realizações que DE SAÚDE NO BRASIL pudessem revelar um eixo descentralizante" (DOCUMENTO. enquanto se construía o processo sociais durante a transição democrática conduziu a de redemocratização do país. A forma de encaminhamento das questões Na realidade. "os convênios privados de saúde consomem a integralidade da atenção. negando a saúde como direito. USP. o governo participação do Estado e. propostas consensuais e o PAISM insere-se nesse através de uma dinâmica oculta. 1995). Segundo LUCENA (1996). a descentralização do processo destinada à saúde. Para o subsistema público são destinados "direito de todos e dever do Estado" e contemplou a recursos limitados e a assistência assume caráter descentralização das ações e serviços de saúde entre filantrópico. através de gasto público e congelamento salarial para solucionar a uma ampla Reforma Sanitária" (CONFERENCIA eufemisticamente chamada crise fiscal do Estado".N O CONTEXTO ATUAL DAS POLÍTICAS se ao evento através do ministro Adib Jatene "sem projeto. tendo como menos combativa que mais se submete às mazelas de referência a Constituição Federal. uma vez que é o resultado de uma luta política. A partir dela.

1996). Pesquisas da BEMFAM (1992) e de Berquó (1993) citadas pela SOF (1994) revelaram que pílula e esterilização juntas representam 74. hoje ocorre entre 13 e 16 anos e os jovens não têm sido preparados para viver a sexualidade sem o risco da procriação.34. que. e um risco crescente de bem-estar de mulheres e homens. sendo marcada mais por retrocessos do que por avanços. que toma impulso com as últimas Conferências Nacionais de Saúde. muitas vezes realizada em idades precoces e forçadas por cesáreas. diante das reações da sociedade civil. busca corrigir as distorções existentes no campo da saúde reprodutiva e. 37-44. os dados sobre aborto controlada por interesses econômicos internacionais. 40% têm o segundo filho num prazo máximo de três anos (GRAVIDEZ. Das adolescentes que engravidam. nem sempre garantem na prática a eficácia do seu conteúdo teórico. para que possam escolher conscientemente entre os diferentes métodos. mar. novamente. A atividade sexual que era iniciada entre 19 e 22 anos. Entre outros problemas apresentados. sem nenhum acompanhamento pelo serviço de saúde. concluiu que ainda existem problemas graves na saúde reprodutiva da mulher brasileira: "informação e escolha de anticoncepcionais extremamente limitada. CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao longo deste estudo constatamos que as políticas públicas resultam de uma luta de classes e. No Brasil. Em 1992. 1994). Enf. em relação aos direitos reprodutivos. por pessoas regulação da fertilidade e considerando o contexto não qualificadas que utilizam procedimentos invasivos. a taxa mais alta do mundo de nascimento por cesariana. determinaram um caótico quadro da situação da assistência" (COSTA. crescem os números de esterilização cirúrgica. em adolescentes quer terminem em aborto ou parto. entre 1985 e 1987. As tentativas de ruptura com os princípios do PAISM. atualmente. por projeção do Ministério da Saúde. USP.. Segundo AVILA (1989). apesar das declarações oficiais favoráveis à sua implantação. a limitação do acesso à informação e à diversidade de métodos contraceptivos faz com que a laqueadura predomine como o método de escolha após um ou dois filhos. devido a doenças sexualmente transmissíveis e outras infecções do trato reprodutivo" (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. prevendo a participação de entidades privadas com experiência na área.O planejamento familiar no Brasil no contexto das políticas públicas Edméia de Almeida Cardoso Coelho et al. p. altas taxas de câncer de colo de útero. das quais. abortamento provocado e cerca de 95 % das mulheres que utilizam a pílula como contraceptivo. Diante desta realidade é notório que as mulheres continuem enfrentando sérias dificuldades no que diz respeito à sua saúde reprodutiva. ou seja. em 1994. o governo teve que recuar. Vimos também que a luta pela sua implantação faz parte do esforço pela implantação do SUS. Em 1990 estimava-se a ocorrência de um aborto de cada oito mulheres brasileiras em idade fértil. sobre os seus desejos e sobre suas possibilidades para intervir no processo reprodutivo. com o agravante da clandestinidade. há quase uma década. a degradação qualitativa dos serviços de saúde agravada na última década. em particular. pesquisa nacional de avaliação do PAISM concluiu que ". o Conselho de Desenvolvimento Social deliberou como ação prioritária para solucionar o problema da pobreza a implantação de um programa de controle da natalidade mas. grande número de mulheres com quase nenhuma atenção pré-natal. de cada 100 abortos. há flagrantes manobras políticas com o propósito de inviabilizá-lo. mais da metade são desnecessárias (OMS. a partir de uma proposta norteada por princípios éticos. faltamlhes também o saber sobre o seu corpo. histórico em que foram elaboradas as políticas de planejamento familiar no Brasil. que eleva de forma significativa a mortalidade materna (ABORTO. altas taxas de aborto de risco. Um anteprojeto de Lei de abril de 1985 estabelecia uma política de população com fixação de taxas de aumento ou diminuição da população. estas não se limitam à falta de acesso aos meios para regular a fertilidade. As gestações Rev. a adquirem diretamente nas farmácias. é possível afirmar com instrumental inadequado. mas retrocede na prática das instâncias responsáveis pela sua concretização. vimos que. mas as pressões contrárias o fizeram sucumbir. praticavam-se 4200000 abortos por ano no Brasil. n. 1992). embora proponham benefícios sociais. perfazendo um total de quase 350 mil abortos mensais no Brasil. a autora informa que continuam altos os coeficientes de morbi-mortalidade materna. demonstram que. A mesma autora também afirma que em 1987. No mundo. Esc.9% no Nordeste.1. 1996). no Brasil não são precisos mas. realizados clandestinamente. 2000 43 .7% da prática contraceptiva em São Paulo e 85. mais de 70 mil mulheres morrem Tr atan do e spe ci fi came n te do di rei to à anualmente em conseqüência de abortos malfeitos (OMS. somada à ausência de priorização da saúde da mulher nas propostas de gestão. 1994). houve uma tentativa de instituir um programa oficial de controle da natalidade no país. Estudo mais recente do Banco Mundial e citado pela OMS. pelo menos 25' ocorrem com adolescentes. Se correta a estimativa. estão entre as cinco primeiras causas de morte no grupo e a gravidez na adolescência triplicou nos anos 90 em relação aos anos 70. Quanto ao PAISM. v. ainda existe uma contracepção Devido à clandestinidade. e quanto ao planejamento familiar. 1990)..

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