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capa A A g g r r a a n n d d e e

capa

AA ggrraannddee mmuullhheerr nnuuaa

Luís Fernando Veríssimo

CÍRCULO DO LIVRO

Digitalizado, revisado e formatado por SusanaCap

Ir até o Sumário no fim do livro.

OO ccrroonniissttaa ee aass aarraannhhaass

Me dou conta que a Anita e a Arabela morreram

e eu não comentei nada! A gente aqui catando

assunto este dá, este não dá, este ninguém entenderia, este não passa, este seria presunçoso, este daria cadeia, meu Deus, já são quase oito e eu ainda não escrevi nada! e o assunto aí, pedindo. Vamos lá, então. Duas laudas e meia sobre Anita e Arabela, as aranhas espaciais já falecidas.

considerações preliminares

Primeiro, sobre forma.

Deve ser uma crônica tecida. Isso. Deve sair como uma teia, feita com cuspe e paciência. Mas ligeiro, que o jornal não pode esperar.

algumas

Quem

sabe

apressar?

uma

linha

de

cada

vez,

para

Linhas soltas, pendentes, diáfanas, para pegar

as idéias no ar, como insetos?

Linhas repetidas, para simetria?

Linhas repetidas, para simetria?

Linhas

Não. Preciosismo gráfico. A diferença entre a aranha e o cronista é que a aranha não tem nenhuma angústia estilística. A aranha não entende de forma. A forma, na sua vida, é apenas uma correta disposição da saliva, não peça para ela explicar. A Anita, por exemplo, diria apenas:

Eu não sei explicar, entende? Não há nada

pegar inseto,

entende? Pra matar a fome e sobreviver, entende? Eu não quero dizer nada com a minha teia, não há nenhuma mensagem, entende?

Já o cronista se esforça para provar o contrário, que o seu estilo é a desfiação final das dezessete mil maneiras de dizer qualquer coisa, e que se ele escolheu esta maneira de dizê-la, então a sua escolha, a sua forma, tem tanta importância quanto

o que ela a linguagem, entende? representa, ou

então, deixa ver, acho que me enredei um pouco, é

melhor deixar. Olha aí, peguei uma idéia no ar mas ela caiu. O que o cronista quer dizer é que a sua teia

é um engenho da imaginação, uma decisão sobre o

mundo, alguma coisa além de uma armadilha para o almoço. Ao contrário da aranha, eu posso explicar todas as minhas metáforas. Com metáforas, é claro.

Digamos que, junto com a Anita e a Arabela, levassem um cronista para o espaço. Com objetivos puramente científicos. Como se comportaria um esteta no vácuo? Dentro da nave pressurizada, o cronista seria instruído a fazer literatura enquanto as aranhas fizessem suas teias. Uma comparação. O cronista hesitaria. O cronista teria dúvida no espaço. Sem falar em enjôo de estômago e surtos de melancolia.

Vamos, comece diria o amerirusso no comando da expedição.

pra

explicar.

É

tudo

pra

Pera um pouquinho!

Como, esperar? começaram.

Olha

ali,

as aranhas

Peraí, pô. As aranhas não pensam. Eu penso,

logo pera um pouquinho. Não tem nada pra beber aí?

Deixa ver. Uma crônica.

favor ou contra? Como é que eu posso escrever de cabeça para baixo? Com esse papel não dá! Ai, meu saco. Eu não me ajeito com máquina elétrica Escrever o quê?

Quantas laudas? A

Escreva duas laudas e meia sobre as aranhas no espaço.

algumas

considerações preliminares sobre forma.

Bom,

bem,

mas

primeiro

e meia sobre as aranhas no espaço. algumas considerações preliminares sobre forma. Bom, tá — bem,

OO lloouuvvaa--aa--ddeeuuss

Imagine chegar no Céu e só encontrar louva-a- deus. Pisar em louva-a-deus, respirar louva-a-deus, tentar enxergar o Velho e só ver uma nuvem de louva-a-deus. Solícitos, ocupados, donos das melhores posições, brigando em torno do Todo- Poderoso pela oportunidade de lhe ajeitar um fio de cabelo. Suas preces foram atendidas! A auréola do Senhor é uma coroa de sicofantas.

Como é o plural de louva-a-deus? Ninguém jamais viu mais de um louva-a-deus na terra de cada vez. O homem comum vê um louva-a-deus de sete em sete anos, em média. Sempre de mãos postas, os olhos virados para o Céu, e um absoluto desprezo pela proximidade do seu pé. O louva-a-deus desafia que alguém o esmague e arrisque a danação eterna. Na África, até os reis, que arredam montanhas para passar em linha reta, desviam-se do seu caminho para não pisar num louva-a-deus. O imperador Selassié certa vez pisou num louva-a-deus no quintal e no mesmo instante todo um lado do Himalaia desmoronou, soterrando dezessete civilizações antigas. A Sra. Pavita Pinchas, da Colômbia, aprisionou um louva-a-deus gigante e há vinte e oito anos o mantém sob uma redoma de vidro, alimentado com um picado de moscas e orquídeas. O desgosto infligido a este louva-a-deus tem sido o responsável por todas as catástrofes do continente desde o grande terremoto do Chile, em 1946. Os índios macapauas do Peru resolveram um dia que pó de louva-a-deus era afrodisíaco, mataram e esfarelaram um monte, e alguém tem visto algum

macapaua ultimamente?

O louva-a-deus é o inseto mais antigo que existe. Não tem corpo, é uma haste verde com uma cabeça na ponta. Examinado sob um microscópio por um estudante aventuroso que minutos depois bebeu um copo de ácido, por engano, em vez de água o louva-a-deus revelou algumas

particularidades interessantes. É o único bicho que tem mãos, minúsculos dedinhos entrelaçados com um fio de ínfimas contas um rosário de átomos

e entrelaçados entre si. Seus olhos são suplicantes,

rodeados por olheiras de um tom verde-púrpura, como as de velhas beatas. Um único nervo capilar atravessa a haste do louva-a-deus, da cabeça ao rabo, e, ao ser acossada pelo macho na hora do acoplamento, a fêmea sofre um espasmo nervoso e decepa a cabeça do seu par com as mandíbulas, sem interromper a sua prece. Só com a morte do macho há a impregnação. O parto de um louva-a-deus é agoniante, dura doze dias, durante os quais a louva-

a-deus mãe, de olhos baixos, emite um silvo ininterrupto de dor que os instrumentos da NASA registraram na Lua e certamente passa ao ouvido de Deus, que os perdoa. O louva-a-deus é como Deus pretendia a espécie, uma haste de louvor à sua Glória. Uma planta com senso bastante para sentir dor e devoção e nada mais. O louva-a-deus é o universo descarnado, seco, duro e frio e reverente com que sonhava o Espírito, até que algum demônio

inventou o sangue e tudo desandou. O louva-a-deus só não desistiu e ascendeu ao Céu para sempre, e ainda atura na Terra as ignomínias da reprodução e de uma dieta de capim e vespas, porque a sua função é a de representar, entre os homens, com a sua postura e o seu exemplo, a reprovação de Deus.

O louva-a-deus roga por nós.

O O g g e e s s t t o o s s u

OO ggeessttoo ssuupprreemmoo

A baleia é um animal de poucos recursos. Mal

pode se virar, quanto mais elaborar um conceito. A baleia leva dois anos para decifrar um sentimento. Às

vezes confunde gases no estômago com a neces- sidade de definir uma cosmogonia, e aí vem para a tona, aflita. A baleia não se conhece.

A baleia é um mamífero que preferiu continuar

no mar. Quer dizer, é uma sentimental. A baleia não

tem mais ambiente no mar, falta-lhe o oxigênio,

condições de

sobrevivência, mas ela preferiu não evoluir. É um animal conservador.

A família é tudo para a baleia. Os velhos valores.

Honra e serviço. Respeito e tradição. A baleia prefere

não discutir o assunto.

A baleia não se conhece. A baleia sabe que tem

uma cauda como você e eu sabemos que existe a Antártica. A cauda é um vasto território inexplorado para a baleia, remoto e misterioso como um pólo. O

corpo é a angústia da baleia. A baleia vive atormentada pelo próprio tamanho. Estou sendo seguida!A baleia às vezes se pergunta, se eu não sou o meu corpo, o que é que eu sou? A baleia tem outra por dentro, bem menor.

alimenta de

calor, faltam-lhe

as

mínimas

Não é verdade

que

a baleia

se

profetas. A baleia tem a maior boca do mundo e fome de canibal, mas uma garganta em que só passam canapés e as azeitonas menores. A baleia seria um desastre social.

A baleia é uma série de equívocos. Deus tinha

acabado de fazer o elefante, estava numa fase de grandes projetos, mas se desinteressou na metade. A baleia era para ser recolhida para reajustes. Mas aí veio a Idade do Gelo, depois Sodoma e Gomorra, depois o problema com o guri, e Deus não teve mais tempo.

A

baleia

leva

anos

para

decifrar

um

ressentimento. O

que

começa

como

revolta no

estômago chega ao cérebro

como

lamento

e

memória. Eu devia ter sido um monstro marinho, meu Deus, o flagelo da criação, Moby Dick só para vingar meu tamanho e meu destino. Mas a baleia mal

pode se virar, quanto mais dominar o mundo. A baleia é uma desistência.

Os velhos valores. A rigidez moral. Como um adventista do sétimo dia que também não come carne a baleia está convicta da corrupção do mundo e da sua própria indignidade. (Todo vegetariano é um canibal contrito.)

A baleia conhece a humanidade pelos seus náufragos e pelo que lê nos jornais. Seu único contato com o homem é o arpão nas costas e notícias de escândalos. A baleia sabe histórias, de transatlânticos afundados, de alta luxúria em camarotes, de tráfico de ossos em sombrios porões da segunda, de inomináveis congressos entre caveiras e polvos, de capitães bêbados e gentis- homens piratas. A baleia às vezes se pergunta, se eu não sou digna, quem pode ser?

Houve o caso de uma baleia que se apaixonou por um submarino alemão e até hoje carrega as marcas do escândalo, um cauda torta e o olhar perdido. A baleia tem uma visão trágica do mundo.

Um grupo de baleias soube das fotos da Jacqueline e, sem pensar o que levaria muito tempo decidiu-se pelo gesto supremo. A baleia é uma personalidade suicida, a intransigência moral só agravou o processo. Mataram-se para nos salvar. Na costa do Rio Grande do Sul para sensibilizar o Correio do Povo.

A A p p r r e e g g u u i i ç

AA pprreegguuiiççaa

Tenho uma simpatia visceral pela preguiça. Aquele bicho que passa a vida pendurado pelo rabo, de cabeça para baixo, e se dedica à contemplação das coisas pelo inverso. Há outros animais contemplativos na natureza mas nenhum com tanta convicção da própria inutilidade. O boi, por exemplo, é lento e filosófico mas há uma certa empáfia na sua ponderação. O boi tem o ar de quem está só esperando que lhe peçam uma opinião. O boi tem teses sobre a vida, é que até hoje ninguém se interessou em saber. O hipopótamo é outro falso acomodado. Só o fato de ser anfíbio denuncia uma inquietação secreta. O hipopótamo tinha outros planos. O elefante? Um megalomaníaco. Depressivo.

Não passou da fase anal retentiva, o que se manifesta em excessivos cuidados com a higiene e em certos pudores irracionais. Um elefante nunca morre na frente dos outros, e o que é mais íntimo do que a morte? A vida é uma provação para o elefante.

A preguiça não quer nem saber. A preguiça é um macaco que deu errado, um equívoco da evolução, e ela se esforça para não chamar a atenção para o erro. Se me descobrirem, me extinguem. Uma vez perguntaram a Darwin sobre a preguiça e ele fingiu que procurava um lápis embaixo da mesa. Todo animal tem uma função no universo. Pode ser a mais prosaica, como comer formiga, mas tem. Menos a preguiça. A preguiça não serve para nada. É uma espectadora do drama da criação. E mesmo como espectadora é incompetente, pois vê tudo de cabeça para baixo. Ao contrário. O sol não se levanta para a preguiça, ele cai do horizonte como um ovo da

galinha. O céu é o chão e o chão é o céu da preguiça.

O espantoso é que com tanto sangue lhe subindo à

cabeça a preguiça não tivesse desenvolvido o melhor cérebro do mundo animal. Há quem diga que desenvolveu, que a preguiça já pensou em tudo e resolveu que não valia a pena. Com duas semanas de existência, com o sangue fazendo o cérebro crescer duas vezes mais depressa do que o de qualquer outra espécie, a preguiça já tinha esquematizado toda a progressão da vida na terra, desde o homem-macaco até o Clovis Bornay, desde a

roda até o foguete e desde o tambor tribal até a ONU. E desistiu, antes de começar. Hoje o sangue lhe sobe

à cauda, a preguiça não quer nem saber. Alguns

frutos que estiverem à mão, pensamentos Para a preguiça nenhuma crise é novidade: o mundo está de pernas para o ar há muito tempo.

CChhiinneesseess ((II))

Você já pensou, seriamente, nos chineses? No tempo que levou para escrever esta frase, nasceram dezessete chineses. Até o fim desta crônica nascerão mais mil. Quando você chegar no fim do jornal, serão cinqüenta mil chineses novos no mundo, esperneando e exigindo leite. E não há nada que você possa fazer a respeito. (Ler o jornal mais ligeiro não adianta.) Pense nas conseqüências. Os problemas de fronteira entre a China e a União Soviética aumentarão, pois bastará um chinês respirar mais fundo e a China invade a Mongólia. Os hindus também estão se reproduzindo geometricamente isto é, em escala geométrica, o método ainda é o mesmo de sempre mas na índia, pelo menos, o governo se esforça para conter o pessoal. Na China a procriação é estimulada. Vamo lá! Vamo lá! Quando o velho disse que todo o poder sai da ponta de um fuzil ele estava sendo mais metafórico do que de costume. A China não vai precisar da bomba para derrotar o Ocidente. Eles vão nos ganhar no empurrão. Quando, no Pentágono, se derem conta da coisa e correrem para disparar os foguetes, será tarde demais. Haverá uma comunidade chinesa acampada na Sala de Guerra, no caminho do botão. Eles vão nos derrubar no calço!

Pense nas conseqüências. O mundo cheio de chineses. Toca o despertador na casa de uma típica família classe média em algum subúrbio do Ocidente.

Querida

Sim?

Pede

para o

chinês do

despertador. Está na hora de licença, com

teu lado desligar o Com

Mais tarde:

Olha,

os

chineses

do

começando a reclamar.

O que foi?

chuveiro

estão

Dizem que um banho por dia por pessoa da

família é demais. Eles estão se molhando quatro

vezes por dia, não conseguem secar a Onde estão as minhas calças?

guarda-roupa, atrás do chinês da

esquerda.

No

O baixinho?

Não,

o

outro. O

baixinho nós botamos no

armário das crianças, você não se lembra?

E os meus sapatos?

Embaixo da cama.

Deixa ver. Ah! Te peguei! Adúltera!

Como?

Há um homem estranho embaixo da cama!

São os quatro chineses de sempre

Hoje são cinco. E um não é chinês!

Em outras chinês palavras chinês os chineses estarão por toda a chinês parte chinês chinês chinês. Você chinês chinês não chinês poderá chinês dar um passo chinês chinês sem esbarrar num chinês chinês

chinês chinês esbarrando em outro chinês chinês chinês chinês ou num hindu.

CChhiinneesseess ((IIII))

chinês,

chinês, chinês, chinês

Atendendo a

inúmeros pedidos que eu mesmo fiz diante do espelho, continuo hoje as terríveis considerações sobre o que será do mundo quando houver dois

chineses por cada metro quadrado de terra seca, e dois chineses pela cintura por metro quadrado de terreno alagadiço.

Em primeiro lugar, desaparecerão todas as nossas noções atuais de vida privada. Tudo terá que ser feito na frente dos chineses. O que não será tão ruim, a não ser que os chineses que ocuparem, por exemplo, nossos quartos de dormir se revelarem críticos com alguma ironia. Que desempenho conjugai será possível entre comentários sarcásticos sobre estilo, duração, dimensões, freqüência, etc.?

Já?!

Ainda bem que terminou. Se continuasse assim por mais um minuto eu ia começar a vaiar

Ele não é mais o mesmo.

Talvez porque ela seja sempre a mesma

Ri, ri, ri

Mas nem todas as perspectivas são terríveis. Os chineses tornarão desnecessários todos os modernos e caros meios de telecomunicação. Em vez de passar um telegrama, você só terá que abrir a janela

e dizer para o chinês mais próximo:

Telegrama para o Rio de Janeiro. Rua tal, número tal. Consegui um lugar na lista de espera do Super Jumbo pt Estarei no Rio dentro de dois anos pt Abraços.Passe adiante.

O chinês da janela passará a mensagem para o

chinês do seu lado, este a passará para o chinês do seu lado, este para outro, o outro para outro e assim por diante até ela chegar ao Rio de Janeiro. É claro que o último chinês da corrente dará o recado

trocado sempre haverá um safado entre Registro e São Paulo que mudará tudo mas pelo menos será bem mais barato.

visita, uma votação decidirá o

programa de TV a ser visto cada noite.

Aqui estão os resultados. Atenção: a favor do

Fantástico, oitenta votos. A favor do Jogo Aberto, setenta e dois. Os donos da casa, ridiculamente,

votaram no Flávio Cavalcanti. Cinco votos.

Nas

salas de

Ri, ri, ri

E

as filas? Você receberá um telefonema no

meio da noite. Quer dizer, o chinês da janela baterá

na vidraça e transmitirá um recado urgente. Morreu um chinês na sua frente na fila do cinema. A vaga é sua, mas corra!

O filme é Kung Fu contra o bisneto do chefão.

Há oito anos que você espera para entrar no cinema. Você já subornou oitocentos chineses para chegar mais perto da bilheteria. E agora há uma vaga na sua frente. Você sai correndo, pisando em chineses. Só para descobrir que o chinês que guardava o seu lugar na fila casou com a chinesa da frente, teve sete filhos

enquanto esperava e pegou a vaga para o seu pri- mogênito.

Haverá filas para entrar em filas. Os trens urbanos serão tão compridos que se estenderão do princípio ao fim da linha, sem se mexer. Você correrá por dentro do trem, por cima de chineses, para chegar onde quer ir e entrar na fila. As crianças serão colocadas nas filas do INPS logo depois de nascerem para chegarem ao guichê a tempo de reclamar aposentadoria. Cada dois chineses plantarão um pé de soja no seu metro quadrado de campo. A atenção ao pé de soja será total. O método de cultivo será tão artesanal que o pulgão morrerá por estrangulamento, ouvindo insultos pessoais o tempo todo.

E o pior não é isto. Imagine a luta para arranjar lugar em restaurante no sábado!

insultos pessoais o tempo todo. E o pior não é isto. Imagine a luta para arranjar

OOss áárraabbeess

Nada mais importante, hoje em dia, do que saber tratar com um árabe. Tem gente que, numa precavida revisão de expectativas, deixou de estudar japonês e passou a estudar a cultura árabe e as principais frases no idioma do Alcorão, tais como e os juros?ou o amigo não tem uma filha em idade de casar com brasileiro?ou ainda Me adota! Me adota!Uma advertência no entanto. Os árabes dão grande importância à formalidade. Nós nos acostumamos mal com os descendentes de árabes no Brasil, pois estes, na sua maioria, não ligam para essas coisas. Você pode chegar para o Mafuz e reclamar — “Como é, aquele quibe sai ou não sai?” — que nada lhe acontecerá, eu espero. Num país árabe, isto seria uma afronta. Tudo deve seguir o seu ritual. Às vezes, um gesto menos estudado pode ter conseqüências terríveis, para você e para a sua família, por várias gerações. Há o caso de um europeu que ousou tirar um fio de cabelo da lapela de um árabe, durante uma conversa, e até hoje não passa dia sem que um filho ou neto seu sofra uma tentativa de atropelamento por uma Mercedes preta, onde quer que esteja. Para o empresário gaúcho que pretende entrar em contato com os árabes, aqui vão algumas recomendações.

Lembre-se de que tudo é simbólico. Se você botar o dedo no nariz, na frente de um árabe, não se espante se ele se atirar no chão e começar a rolar e a gemer, pois o que você insinuou sobre a mãe dele, francamente! Seja sutil. Não diga, de cara: Preciso tantos milhões com prazo de tantos meses. Diga, por exemplo: A tamareira não é uma tamareira

antes de dar tâmaras. Ele olhará no fundo dos seus olhos durante quinze minutos, em silêncio, e depois dirá alguma coisa como:

O Profeta disse que o fruto está na semente, e não a semente no fruto.

Aí você diz (cuidado para não piscar, pois isso

significará que você desconfia que ele não tomou

banho aquele dia):

O Profeta comeria a abelha em vez do mel?

areia são iguais, mas o

deserto é diferente a cada manhã. Será porque o vento é cego?

Todos os grãos de

Você pensa durante meia hora e responde:

Se cada grão fosse diferente, não existiria o

vento.

Aí ele massageará a orelha esquerda e dirá:

Nem o Profeta se alimenta de sementes. Você conseguiu! Agora só resta perguntar:

E os juros?

Só cuide para não tocar no joelho dele, senão o seu carro explodirá na saída.

PPaarraa vveerr

São as seguintes as estréias da semana:

O ventre negro da tarântula Comédia. Um

cientista coleciona aranhas para fins inomináveis.

Também gosta de perseguir mulheres com uma faca para estripá-las, o que o torna um fracasso social. Cansadas da sua dieta interminável de pâncreas de mulher, as aranhas se revoltam e marcham contra o Palácio do Governo, mas esta cena a Censura cortou. Há vários doses de desmembramentos, uma decapitação, uma ânsia de vômito e dezessete extirpações de calo pelo método Scholl. Neste filme, Drácula é o mocinho!

Sartana, o matador Drama psicológico. Sartana chega numa cidade do oeste americano, na Sardenha, e mata todo mundo. Menos quatro, para completar a mesa de pôquer. Mas aí dá briga no pôquer e ele mata os quatro também. Neste filme é empregado pela primeira vez o processo Blood-O- Bath, uma invenção italiana que faz o sangue esguichar quatro metros a cada perfuração de bala. A Censura cortou uma cena que mostra duas crianças se beijando na face, pelas possíveis implicações políticas.

Django e Sartana até o último sangue Drama social. Sartana não gosta da cara de uma velhinha e lhe dá um pontapé na barriga. Acontece que a velhinha é a mãe de Django. Django reclama: Na minha mãe, bato eu!Sartana, só por birra, degola a velhinha. Django não gosta. Pega o cadáver da mãe pelos pés, correndo atrás de Sartana, para atirar na sua cabeça. Sartana se refugia num matadouro. Caem os dois num barril de sangue de porco e começam a rir. Tudo acaba bem. A Censura cortou uma alusão à democracia liberal.

O justiceiro cego Musical. Co-produção tcheco-boliviana, feita na Espanha. O filho de Al

Capone resolve vingar a morte do pai. No

filme descobre

natural e

fim do

que

o

pai teve morte

produção é o

bombardeio, com napalm, de um asilo de órfãos cegos mas este é o único momento de leveza do filme. A Censura cortou a palavra puxa!da trilha sonora e uma sugestiva piscadela da heroína Sonja Henie.

Assassinato no 17.° andar Comédia romântica. Uma mulher é atacada sexualmente pelo cabineiro do elevador do seu prédio. O marido vai vingá-la e é atacado também. Vem a polícia e também marcha. Chamam a Guarda Nacional. O cabineiro entreabre a porta do elevador e desafia:

Venham dois a dois sem baioneta que vocês vão ver!No fim, os condôminos do prédio tomam uma atitude drástica: passam a usar a escada. A trilha sonora é de Michel Legrand e inclui o sucesso:

Lotação máxima, seis pessoas ou 480 quilos. A Censura proibiu toda referência a eleições diretas e sodomia.

Sangue no sarcófago da múmia Infantil. Um grupo empresarial abre um bordel para necrófilos na Transilvânia. Há cadáveres para todos os gostos. A caftina (Sir John Gieguld) recebe clientes especiais com cochichos: Há uma recém desenterrada no 19, novinha!e os clientes em vez de perguntarem Como é que você caiu na vida?perguntam Como é que você morreu?Etc, etc. As crianças vão adorar. As cenas da cesariana e do atropelamento, além de excitantes, são educativas. A Censura so cortou a cena de dois adultos normais se beijando (na boca!) por ser atentatória aos bons costumes Este filme ficou retido em Brasília até que decidissem se ele insultava ou não o povo da Transilvânia, pais com o qual o Brasil mantém relações diplomáticas. Aí a Censura descobriu que a Transilvânia não existe

desiste. O

de

ponto

alto

toda

a

mais. Aí

mais. Aí E E u u f f o o r r i i a a

EEuuffoorriiaa

O ambiente, dentro do avião, é de malcontida euforia. As aeromoças já desistiram de manter a ordem e se refugiaram na cauda do aparelho. (Mais tarde, quando descerem em Buenos Aires, o fato de uma das saídas do Boeing ser pela traseira será motivo de gritos e gargalhadas.) A única preocupação dos passageiros é o avião fretado que decolou do Aeroporto Salgado Filho quinze minutos antes deste. E se quando chegarem lá o cinema já estiver lotado de porto-alegrenses?

Estou torrando o dinheiro do aluguel nesta excursão confidencia orgulhosamente uma senhora para o seu vizinho de banco. Que, devido à

algazarra, não ouve bem e responde:

Pois eu tenho que dar um jeito de voltar a Porto Alegre esta noite mesmo. Disse pra minha mulher que ia na farmácia e já voltava!

Noutro ponto do avião, um gerente de banco declara para o seu vizinho, um balconista de fiambreria, com a voz embargada: Este é um dos momentos mais emocionantes da minha vida. O outro engole em seco e faz que sim com a cabeça. Eu também nunca pensei que um dia estaria indo ver esse filme. Já vou ter o que contar para os meus netos. Parece um sonho.

Improvisa-se um cordão de carnaval pelo corredor do avião. Alguém grita: Olha a manteiga!

e tem gente que rola no chão de tanto rir. Súbito,

pelos alto-falantes, vem uma notícia da cabina de

comando:

Atenção, senhores passageiros, acabamos de

descobrir que há passageiros clandestinos presos ao nosso trem de aterrissagem. Teremos que voltar ao Aeroporto Salgado Filho.

quer

voltar.

Ouvem-se

urros

de

protesto.

Ninguém

Sacode as asas! Sacode as asas!

Um grupo de contabilistas seqüestra uma das aeromoças e consegue entrar na cabina de comando. Exigem que o piloto siga até Buenos Aires. O piloto dá de ombros e concorda. Afinal, falta só meia hora de viagem.

A euforia aumenta. Uma senhora que ganhou

a viagem numa rifa beneficente do seu grupo de chá

começa a se erguer para aderir ao cordão de carnaval e de repente mergulha outra vez na poltrona. Avistou seu marido, que lhe tinha dito que só ia até a farmácia, o safado!

No dia seguinte, metade dos passageiros está de volta a Porto Alegre. A outra metade não conseguiu entrar no cinema na noite anterior e está acampada em frente à bilheteria, esperando a primeira sessão da tarde. Um senhor lamenta-se na fila da alfândega.

Foi uma loucura o que eu fiz. Tirei todas as minhas economias do banco, entrei num avião pela primeira vez na vida, tive que entrar no cinema a cotovelaços, acabei assistindo ao filme ajoelhado no Uma loucura. Mas valeu a pena. Pelo menos, agora eu posso dizer com certeza que o filme é mesmo uma pouca-vergonha. A Censura fez muito bem em proibir aqui!

Os passageiros clandestinos três escriturários fogem de um hospital de Buenos Aires e entram, furando a fila e sem pagar, no cinema. De volta a Porto Alegre, um deles é entrevistado no seu leito de hospital perdeu todo o lado esquerdo na engrenagem do avião, na volta e faz considerações sobre o filme. Fraco. Atuação displicente de Marlon Brando, que nem tira as calças.

Gostei da fotografia. Quanto à música

O O ú ú l l t t i i m m o o t

OO úúllttiimmoo ttaannggoo nnaa CCaavvaallhhaaddaa

A história é a seguinte. Um homem, quarentão, amargurado (sua mulher fugiu com um fiscal da prefeitura), vai ver um apartamento do BNH na Cavalhada. Da cintura para cima ainda é um homem bonito, mas da cintura para baixo mal pôde agüentar os três lances de escada. Encontra uma jovem, de calça justa Lee, e lá também, e aqui então nem se fala, e Frente de Libertação Nacional, que é a Frente Única mal-intencionada. Amam-se apaixonadamente, rolam pelo chão, ele beija todo o corpo dela enquanto ela apara as unhas do pé dele com os dentes. Aí os dois se levantam e entram no

apartamento.

Não quero que o senhor pense que eu sou dessas diz ela.

A frase, segundo os críticos brasileiros que ainda não viram o filme, revela a ambigüidade moral da herança judaico-cristão no Ocidente, e vice-versa, mas Sérgio Augusto, na Veja, lembra que é uma citação direta do que Myrna Loy disse para Walter Pidgeon, no set da Paramount em 1944, durante um intervalo de filmagem. A câmara se fixa durante cinco minutos no zíper das calças do homem. Surpreendido com a atenção, o zíper desce e sobe sozinho duas vezes. A Censura não gosta e toma notas. Na trilha sonora toca Manteca, um prenuncio de coisas por vir. Dezessete espectadores sentem os primeiros sintomas de dissolução moral e correm para o banheiro.

Dentro do apartamento o homem e a moça tiram toda a roupa de novo e amam-se apaixonadamente. Rolam pelo chão. Desta vez ela beija todo o corpo dele enquanto ele apara as unhas do pé dela, mas com um pequeno alicate que traz sempre no bolso para estas ocasiões. (O engenho masculino e a barbárie feminina!, sugere parte da crítica. Bobagem, diz a outra parte. A Censura limita-se a sorrir.) No clímax do ato, fotografado por Manchete, Realidade, Fatos & Fotos, Vida Mecânica e A Razão de Santa Maria, ele geme:

calça e

Enfia os dedos no bolso

da minha

pega um maço de Minister.

Os dois descobrem que não estão sozinhos. Estão cercados pelo inquilino do apartamento e sua família, que acabavam de almoçar. O inquilino é um

funcionário público aposentado que não pode mais pagar as mensalidades do BNH doze milhões por mês, com a correção monetária e quer saber, desconfiado, se eles vieram ali para despejá-lo. O homem põe as calças, mas não consegue fechar o zíper que, enlouquecido pela súbita celebridade, insiste em atuar sozinho. A menina, com a pressa, veste sua frente-única de trás para diante, o que irrita profundamente a Censura. (Perversão, não!) Os fotógrafos são expulsos do apartamento. Quatro quintos da platéia já estão decadentes, o resto sucumbirá logo. E o mezanino não escapa.

A ação torna-se confusa. A nudez frontal aparece pela primeira vez no cinema mas o porteiro não deixa entrar. Finalmente fica esclarecido que o homem e a moça entraram no apartamento errado, o

de cima é que tem a manteiga. Sobem a escada. Na

metade da subida, tiram toda a roupa de novo e amam-se apaixonadamente. Rolam escada abaixo, machucando-se sem gravidade. Como é seu nome?, quer saber a moça. João, diz o homem, inventando um nome na hora. E o seu?Ela pensa rapidamente. Finalmente diz Ludmila Patachou, mas sente que ele não acredita. (Parte da crítica prepara-se para propor que o anonimato dos dois simboliza o ser enquanto arquétipo pré-culturalde que nos fala Bazin, quando não tem nada melhor para dizer, mas desiste diante do olhar irônico da outra parte. A Censura sai para uma média com pão

Meu Deus! Suspende o pão! Suspende o

pão!) Dentro do apartamento os dois tiram toda a

roupa de novo a esta altura ele é que está usando

a frente-única e amam-se apaixonadamente.

e

Rolam pelo chão. As editoras reúnem-se com a Censura e fica decidido que o filme jamais passará no

Brasil, para qualquer idade, mas poderá ser descrito

e mostrado em detalhes em todas as revistas da

família brasileira. A moça levanta-se, veste as calças do homem e vai até a geladeira, onde descobre que

a manteiga está muito dura. Volta para avisar o

homem e descobre que só da cintura para cima ele ainda se move. (A morte do instinto numa sociedade mecanizada!, exclama parte da crítica. Acho que não, diz a outra parte.) Aí

HHeerróóii jjuuvveenniill

Que fim levou o Roger Vadim? Não é uma preocupação trivial. É que aquela geração que ficou adulta, ou coisa parecida, no mesmo momento em que Brigitte Bardot revelava o seu popô ao mundo viveu, desde então, uma certa confusão intelectual. Sabíamos que alguma coisa importante tinha nos acontecido no novo cinema francês, mas sempre imaginamos que fosse algo sério, uma proposta de engajamento pela arte, a idéia de que a segunda sessão do Ópera era, não uma perda de tempo, mas um aprendizado para a luta possível. Resnais, Godard, talvez Chabrol, mas jamais Vadim, um juvenil e um inconseqüente. E hoje, mais velhos e safados, descobrimos que o que estava nos acontecendo de importante era mesmo o popô da Brigitte. Vadim é que era o cara. Levamos quinze anos para reconhecer esta admiração secreta. E hoje nos perguntamos, com remorso acumulado: que fim levou o nosso herói?

A Brigitte era virgem quando casou com o Vadim. Dado histórico. E Vadim transformou a sua esguia virgem provinciana no símbolo mundial do sexo sem culpa. Brigitte foi a primeira magrinha.

Com ela, Vadim deflorou todas as convenções do

erotismo no cinema. A tradição literária de Candide,

da ingenuidade solta num mundo pecaminoso, Vadim

substituiu pelo ideal juvenil da sensualidade sem pecado e sem castigo. Com Brigitte, ao contrário de

Candide, a inocência vencia porque atacava primeiro.

A inocência predatória, com o popô de fora,

irresistível. Nenhum filme político teve tanta influência nos costumes do mundo, ou foi mais divertido.

Jane Fonda também era virgem quando encontrou Vadim, pelo menos simbolicamente. Jovem americana, poucas idéias mas grandes pernas, tentando a Europa. Saiu do casamento com Vadim com uma filha e uma consciência social, mas aposto que ele, hoje, quando pensa nela, deve se lembrar só das pernas. Quem mais? Meu Deus, Catherine Deneuve. A que, segundo o José Onofre, está sempre com ar de gripada mas que mesmo assim nenhum intelectual de esquerda jogaria fora.

Ele a teve também. E a Annette Stroyberg. E ouço

a platéia do Ópera exultando no escuro, lá se vão quinze anos de respeito e inveja nenhuma jamais

se queixou!

Que fim levou esse cara? Retirou-se para a vida contemplativa, o campo, alguns cachorros e suas memórias? Ficou impotente e agora só tem prazer flagelando velhas camponesas? Trabalha para a televisão? Ou nós estamos só mal informados e ele continua fazendo filmes que nunca chegam ao Brasil? Vadim nunca foi um grande diretor. É um herói cultural reabilitado porque sabia, muito antes do que qualquer um de nós, que para ser um intelectual, hoje em dia, basta parecer um intelectual. Duas ou três idéias e uma gola rulê, se tanto. Ninguém vai

checar as suas credenciais. Todas as veleidades intelectuais de Vadim ele satisfez em alguns filmes profundos na superfície e, no fundo, superficiais, mas redimidos pelo seu vigor juvenil, pelo seu gosto em fazer cinema. Tinham a aparência de algo muito im- portante, não era preciso mais nada. Há quinze anos nós exigíamos mais do cinema do que uma superfície atraente. Hoje sabemos que o cinema de Vadim era só um pretexto para dormir com a atriz, e isso nos parece uma grande conquista cultural, e um consolo. Pois se não mudamos o mundo nem com luta nem com arte pois se nem saímos de Porto Alegre podemos dizer que não queríamos mudar nada mesmo. Queríamos é dormir com a Brigitte. Vadim nos realizou a todos.

— podemos dizer que não queríamos mudar nada mesmo. Queríamos é dormir com a Brigitte. Vadim

RReettrriibbuuiiççããoo

Não faz muito, as pessoas culpavam a bomba atômica pela inconstância do tempo e pelas catástrofes naturais. Os testes atômicos de americanos e russos, na superfície da Terra, supostamente abalavam o esquema pré-ordenado de ventos e nuvens do planeta e os resultados eram

acessos tropicais na Patagônia e súbitos invernos no

Piauí. Estão mexendo com a natureza

pessoas, em tom sombrio e ominoso. Não demorava e as detonações atômicas desprenderiam de alguma remota geleira polar a Besta Final que espalharia o terror pelos continentes como retribuição do mundo natural às ofensas da ciência.

Ninguém discute que os testes atômicos eram criminosos, por outras razões, mas sempre achei muita graça das pessoas que pregam a inviolabilidade da natureza. Na maioria das vezes, são pessoas que desfrutam, dos pés aos cabelos, todos os benefícios na natureza violada. A civilização é um ultraje à natureza. Quase todo conforto material é antinatural. A medicina, nem se fala. Existe violação mais radical da natureza do que uma intervenção cirúrgica, por exemplo, ou o controle bacteriológico, ou todas as formas de imunização? Isto não tem nada a ver com ecologia, pois o desequilíbrio ecológico, um perigo real, ameaça o ambiente humano, não uma vaga e reverenciável pureza geográfica.

Ultimamente, como só os franceses, em esparsos exercícios de grandeur, fazem testes atômicos acima da superfície, começou a renascer a

, diziam as

idéia do cataclismo como retribuição divina ao mau comportamento humano. Há pouco, na coluna do Dr. Corção, li a sugestão de que o terremoto da Nicarágua era um aviso à humanidade pelos seus desatinos. E ninguém estava sorrindo nem fazendo

literatura, era sério. O terremoto foi contra a tanga e

o topless. E, como todo apelo ao primitivo, a

formulação não deixa de ter uma certa simplicidade lógica e atraente. Me digam uma coisa, aquele vulcão não explodiu na Islândia logo depois da estréia do Último tango em Paris? Hein? Hein?

Lembro uma versão antiga de Os quatro cavaleiros do Apocalipse em que a dissolução final da sociedade era simbolizada por uma multidão enlouquecida dançando o boogie-woogie. É que antigamente era mais fácil identificar o pecado. Qualquer coisa mais ligeira do que uma valsa era uma capitulação ao Demônio. Hoje, com a Igreja dividida, a nudez triunfante, a nossa vida sexual totalmente exposta ao escrutínio científico, a pílula aí mesmo, o Demônio em desuso, o difícil é saber quando se está pecando ou apenas seguindo a moda. E então é fácil imaginar um diálogo mudo entre Deus

e o Homem, o Homem experimentando e Deus

sinalizando com tremores de terra, furacões, avalanchas, raios o que pode e o que não pode.

Querida,

Não, isso não. Nunca mais.

O que qui tem, meu bem? Ninguém vai ficar sabendo.

É

que

da última vez

oriental do Paquistão!

inundou toda a costa

Por exemplo. Diz que na manhã em que os

jornais publicaram toda a extensão das enchentes catastróficas no interior do Estado, teve um cara que abriu de um golpe uma janela de segundo andar da Marli e gritou para a rua, compungido: Culpa minha! Culpa minha!

para a rua, compungido: — Culpa minha! Culpa minha! G G ê ê n n e

GGêênneerroo

Tem uma coisa que as pessoas dizem fulano faz este ou aquele gênero” — que eu acho muito bom. A mulher que faz o gênero sentimental, o

homem que faz o gênero distraído. É uma maneira de dizer que boa parte da nossa personalidade pública é simulada, ou pelo menos escolhida e cultivada como um tipo entre outros tipos. É uma maneira menos empolada de dizer que a existência precede a essência, que você é o que parece ser. No fim, nós só existimos na retina dos outros. Robinson Crusoé não descobriu, nas pegadas do índio na praia, a promessa de companhia e de um fim para a sua solidão, descobriu uma chance de voltar a existir. A gente não vive, convive.

Albert Camus escreveu que a única questão filosófica é o suicídio. Eu acho que há outra, menos dramática mas tão angustiante: um homem na frente do espelho. Uma pessoa sozinha com a própria imagem. Não sozinha com ela mesma mas sozinha com um falso outro. O encontro da pessoa com o seu tipo. Você reage à própria imagem, pensa, lembra, lamenta, imagina, mas o tipo no espelho não reflete nada disso. O seu gêneronão tem vida interior. Vida interior é uma coisa que não existe. Ninguém tem outro por dentro. A idéia de que você, o verdadeiro você, é um refúgio secreto para o qual você volta todas as noites e deixa a fantasia do dia num cabide enfim, sós! é pena mas é um engano. Você é a fantasia.

Mas o que eu queria falar era sobre as batas de gravidez. Até há pouco tempo a moda a fantasia refletia alguma coisa. Um status, uma convicção, um pudor, alguma coisa da sua vida interior ou da sua ambição. A roupa era uma informação que você dava aos outros sobre o você secreto ou o seu tipo público. E o seu gênero” — sóbrio, alegre, deslei- xado, não me importo o que pensem, exótico, conservador era para sempre. De repente, tudo

mudou. Não foi tão de repente assim mas eu não tenho tempo de ficar lembrando a evolução das coisas. A moda passou a não informar mais nada. Hoje, a minissaia é tanto um convite à luxúria quanto a calça comprida é um problema de recato, e experimenta chamar o próximo cidadão de calça furta-cor e camisa rosa-bumbum que passar por você de bicha, é capaz até de ser o Valdomiro. A revolução proletária ainda encontra dificuldades, mas a linha Mao conquistou o Ocidente em algumas semanas e acabou antes que você pudesse dizer chamem os fuzileiros!

Hoje tem menininha de doze anos fazendo o gênero mãe solteira. Parece que vendem até uma almofadinha para pôr embaixo da bata e simular a vida interior. É claro que a moda desaparecerá antes de nove meses, mas o que eu quero dizer é isto: o que é mesmo que eu quero dizer? Que estamos finalmente descobrindo que as leis do convívio é que regem a conduta. Ou coisa parecida. Que aquele ser secreto que a gente procura em vão no espelho e não encontra porque tem sempre aquele tipo vazio nos olhando nos olhos é tão falso, e tão dispen- sável para o convívio, quanto a gravidez para a moda das batas. Nos Estados Unidos já estão vendendo plantas de maconha artificiais, para você botar num pote no meio da sala e fazer o gênero devasso. Plantas de plástico! Não sei se faço o gênero cronista desencantado da vida e termino com uma reflexão sobre a Transitoriedade da Moral ou faço o gênero descompromissado com tudo, eu estou no mundo a passeio, e termino com reticências. Vá lá, reticências.

C C o o r r r r e e n n t t e

CCoorrrreennttee ddee SSaannttoo EEuurriiddeess

foi escrita por

Benevides de Obregon y Obregon para percorrer o mundo e trazer a fortuna e a felicidade para quem

não interrompê-la.

Faça sete cópias e mande para sete pessoas. Dentro de sete dias você será recompensado por Santo Eurides. Um dentista da Patagônia deu prosseguimento imediato à corrente e foi recompensado uma semana depois, quando atingiu o nervo exposto de um paciente, este lhe deu um pontapé que o fez cair de costas pela janela na frente de uma bicicleta em alta velocidade. Por interferência de Santo Eurides a bicicleta capotou antes de atingir

Esta corrente

vem do

Peru

e

o dentista, que nada sofreu. O ciclista morreu.

Já uma manicura em Manágua, Nicarágua, recebeu a corrente e a amassou com gestos nervosos antes de atirar-se sobre um sofá aos prantos, decepcionada, pois pensava tratar-se de uma carta de seu amante, um sargento da Guarda Nacional supostamente envolvido na importação clandestina de chiclé-balão. Sete dias depois a manicura foi rezar na igreja no momento exato em que dois colecionadores americanos fugiam pela porta com metade do altar, da época colonial, perseguidos pelo padre com um castiçal de bronze. O padre tropeçou na manicura, que foi presa por engano como cúmplice dos americanos. O sargento recusou-se a intervir. Houve um terremoto.

O Sr. Brício Fazetão, de Teresina, acreditou na

corrente e mandou para sete parentes. Na mesma semana sua cadela Trajana deu cria, o Sr. Brício fez doze pontos na Esportiva e uma sobrinha da sua mulher encontrou os restos calcinados de um satélite meteorológico dos Estados Unidos, onde o clima melhorou e as safras não se perderão por completo, segundo os jornais.

O escrivão Manolo Pinchas, de Antofagasta, não

ligou para a carta, prendeu fogo nela, atirou-a no chão, pisou em cima, começou a gritar como um louco e foi recolhido na mesma hora.

O informante do FBI, Roy M. Boy, da Califórnia,

recebeu a corrente num momento decisivo da sua vida, quando precisava decidir se entrava definitivamente para o Partido Comunista que ele

freqüentara para o FBI, como informante, durante vinte anos, e ao qual se afeiçoara e casava com Lívia, uma anã contorcionista, ou emigrava para o

norte do Paraná depois de casar com Moira, uma analista de sistemas gigante. Não deu bola para a carta e sete dias depois foi atacado, estranhamente, pela lagarta da soja. Lívia prendeu um pé no pescoço e não conseguiu tirar. O Partido Comunista não o aceitou e pediu que Roy fosse um informante deles dentro do FBI. Roy lembrou-se então da carta, mandou sete cópias, e hoje tem uma lancheria em Londrina, dois filhos Roy Júnior e Itapiru e dinheiro no banco.

Não interrompa a corrente. Faça sete cópias desta carta e mande junto com um cruzeiro para sete pessoas, sendo seis da sua escolha e a sétima Luís Fernando Veríssimo de Porto Alegre, Brasil, que precisa ir à Europa, por Santo Eurides. Amém.

escolha e a sétima Luís Fernando Veríssimo de Porto Alegre, Brasil, que precisa ir à Europa,

AArrtteess mmaarrcciiaaiiss

As artes marciais do Oriente caratê, kung-fu, etcétera estão em grande evidência em toda parte, mas poucos conhecem o mais antigo sistema de defesa pessoal do mundo, o milenar borra-dô. Introduzido no Brasil há pouco, o borra-dô já tem uma academia montada em Porto Alegre, e foi lá que conversamos com seu diretor, o nipo-paulista Imajina Antonino Imajina sobre o insólito método. Imajina começou com um breve relato histórico do borra-dô, que é a arte de evitar a briga. Seu inventor foi o monge budista Tsetsuo Tofora, conhecido como O Pulha de Osaka, que viveu até os cento e oitenta anos e desenvolveu os principais golpes e preceitos desta mistura de religião, filosofia e instrução marcial.

O borra-dô se divide em quatro fases, cada uma identificada com um animal explicou-nos Imajina. A primeira fase é a da Mulher (que O Pulha classificava, como animal, entre a lesma e o tubarão) e consiste em falar sem parar diante do adversário que nos ataca.

O que deve ser dito?

O Pulha, nos seus Ensinamentos, nos dá alguns exemplos. Minha mulher está grávida, minha casa queimou, eu sustento dezessete tios e o médico recomendou que não era para eu apanhar antes de se passarem dez dias da operação no crânio!Ou então: E se a gente se sentasse em algum lugar para discutir isto civilizadamente, digamos sem ser nesta segunda-feira, a outra?Ou, ainda: Meu primo é general!

Qual é a segunda fase?

É a da Cobra. Se o adversário se convence

com nossas palavras e cessa o seu ataque, devemos

então dizer alguma coisa como Olha atrás!e no momento em que ele se vira dar-lhe um soco na nuca e ao mesmo tempo gritar a frase ritual Ha, caiu!

E a terceira?

A da Galinha. Quando o adversário se vira,

furioso com o Golpe da Cobra, devemos berrar e pular como uma galinha assustada, de modo a con- fundi-lo e comprometer a seriedade da situação. Esta é a fase que requer maior concentração, e portanto é a mais difícil. Aliás, só damos o título de Mestre Borra-dô a quem conseguir imitar uma galinha histérica com perfeição. O próprio Pulha, segundo a lenda, passou quarenta anos em meditação dentro de um galinheiro budista, alimentando-se de milho e ovo cru, até conseguir dominar a fase da Galinha. Claro que, com os métodos audiovisuais modernos, nós conseguimos isto com o aluno em muito menos tempo.

Qual é a quarta fase?

Vou demonstrar.

E Imajina saiu correndo. Voltou pouco depois para explicar:

É a fase do Rato, a fase final, a culminância

de toda a arte borra-dô. A Fuga. O Pulha só morreu, aos cento e oitenta anos, porque no seu último

encontro, depois de completar com perfeição todas as fases do borra-dô, falhou na fase fundamental do Rato, tropeçando na própria barba e caindo de cara

no chão, onde foi desmembrado pelos adversários furiosos. Nós aconselhamos nossos alunos a nunca deixarem crescer a barba.

Imajina completou suas explicações: Claro que existem variações nas diversas fases. Na da Cobra, por exemplo, quando o adversário for adepto do caratê podemos esperar até que ele se prepare para quebrar uma pilha de telhas com a mão para nos intimidar, e quebrar uma telha na cabeça dele bem na hora do golpe. Ou

quebrar uma pilha de telhas com a mão para nos intimidar, e quebrar uma telha na

EErrrraattaa

Na página 12, linha 16, onde está Beije-me, desgraçado, leia-se Deixe-me, desgraçado.

.da tia de

Heidegger, leia-se

Na página 13, linha 39, onde está

.da teoria de Heidegger.

Na página 28, o trecho que começa com a frase Na água-furtada da mansãoe termina em riso incontrolávelestá completamente truncado. A segunda linha do trecho — “quando Melissa e Rudy

surpreenderam Athos abrindo a barriga do gato” — deve ser a quarta. A quarta linha — “não posso, não posso me controlar! Quando a lua entra no quarto

crescente eu começo a minguar

terceira. E a terceira — “uma linha de lanceiros se estendia por todo o horizonte” — deve ser de outro livro. No mesmo trecho, onde está açudeleia-se açoitee onde está reumatismoleia-se pragmatismo. O autor não pode garantir que a ortografia da palavra em sânscrito esteja exata. E o ponto e vírgula depois de bolor dos séculos, claro, é ridículo.

“ — deve ser a

Página 111, terceira linha: onde está com pé lindoleia-se compelindo.

Página 118. O autor não conseguiu localizar exatamente onde está o erro, mas é evidente que ele existe. O Dr. Robão não poderia ter participado do encontro com os conspiradores já que como o leitor mais atento certamente percebeu o Dr. Robão morreu de uma embolia no terceiro capítulo. É melhor pular esta parte.

Página 200, da linha 20 até o fim da página.

Totalmente ininteligível. Num esforço de memória

(pois nem os originais tinha à mão, visto terem sido

perdidos ou jogados fora? pelo revisor

autor conseguiu repor alguma ordem na narrativa. Ludmila não aceita a proposta do príncipe. Declara

que prefere morrer a trair seu marido (e não prefiro Momo a traíra no mar, como saiu). Expulsa o príncipe da sua cama e o chama de ignóbil (em vez,

o

)

é

claro, de Igor). Nas linhas seguintes, como saiu,

o

leitor terá a impressão de que o príncipe tropeça

num anão e cai de ponta-cabeça, pela janela, num canteiro, onde passa a ser cheirado, com interesse,

por um unicórnio. Nada disso desnecessário dizê- lo acontece. O príncipe veste-se com calma

dignidade, acena com a mão e sai (pela porta!) para

o corredor, e só então começa a ser cheirado, com

interesse, por um unicórnio. Pelo menos, o autor acha que é isto. Aquela frase no final do parágrafo — “Zé, telefona para o Duda” — não tem nada a ver com a história e deve ter sido acrescentada pelo revisor, Deus sabe em que circunstâncias.

Página 301, linhas 3, 12 e 29. Onde está babaluleia-se cabelo. Onde está lontra malucaleia-se lenta meleca” — quer dizer, até o autor já está ficando confuso, lentamente” — e onde está despiu-se alegremente no hallleia-se despediu-se alegremente no hall.

Página 324, da linha 4 até o fim. É Ludmila e não, como parece, o Dr. Robão que está morto que diz O que está em julgamento hoje, senhores, é nada mais, nada menos, do que a tradição moral do Ocidente, a Ética Cristã e a minha massa de empada. Ela sabe que todos sorrirão, menos o cri- minoso. Onde saiu o motor pifouleia-se o promotor piscou. A frase final de Athos, que deveria

ser Eu sou canhoto” — eliminando-o, portanto, como um dos suspeitos saiu Eu não sou canhoto, o que modifica todo o sentido da história. O leitor pode muito bem deduzir que Athos acionou o interruptor, matando Miller e os três cientistas. O que tornará pouco convincente a confissão do príncipe, ainda mais que a sua frase, que encerra o livro — “Cavalheiros, fui eu” — saiu cavalo fuinha.

No final é ponto e não vírgula.

“ cavalo fuinha ” . No final é ponto e não vírgula. D D e e

DDee ppaassssaaggeemm

Na vida, você precisa ser ocidental, oriental ou

mediterrâneo. Estas não são classificações geográficas. Há ocidentais em Tóquio, orientais em Dallas e mediterrâneos que nunca viram mar, quanto mais o Mediterrâneo. Falamos de uma geografia do espírito.

Os ocidentais são construtores. Os orientais amam o terreno virgem e resistem passivamente à construção. Os mediterrâneos aproveitam a confusão e pegam os melhores andares. Ocidental é proprietário, oriental é inquilino, mediterrâneo só está de passagem.

Os ocidentais são civilizadores. Derrubam o mato, erguem cidades, cobram os impostos, controlam os correios e os transportes e mantêm um exército. Os orientais vivem em permanente pânico na cidade, pagam os impostos errados, não entendem os serviços públicos, são atropelados na rua e morrem na primeira batalha. Têm a nostalgia do mato e um certo raciocínio lento que confundem com superioridade moral. Esperam para qualquer hora a tempestade de enxofre que vai acabar com a orgia nos templos da perdição. Os mediterrâneos organizaram a orgia.

Os ocidentais acreditam que há vida depois da morte. Vida, e uma justa retribuição para o esforço de cada um em aumentar o PNB. OS orientais crêem vagamente numa reciclagem divina, pois não é o fóssil de hoje o petróleo de amanhã? Os mediter- râneos preferem não pensar nessas coisas.

Tolstói era oriental, Dostoiévski era ocidental. O primeiro mediterrâneo da literatura russa foi Nabokov, que saiu cedo.

Os ocidentais organizam-se em clubes fechados.

Têm a volúpia do estatuto. Os orientais acreditam na fraternidade universal, o que é quase a apologia do fratricídio. Os mediterrâneos acham que qualquer compromisso com a humanidade não deve ir além de uma roda de chope. E em lugar público.

No amor, os ocidentais acham que duas vezes por semana, para manter o equilíbrio hormonal, chega. Os orientais fazem de cada conjunção um rito à natureza e ao mistério do instinto. Os mediterrâneos estão atrás da cortina, filmando tudo.

Os grandes empresários são ocidentais. Os grandes artistas são orientais. Os primeiros lutam para alcançar o estilo de aproveitar a vida do mediterrâneo. Os outros sonham com a sabedoria natural do mediterrâneo. Mas o mediterrâneo não é nem um grande empresário nem um grande artista. Os mediterrâneos nunca chegam a grande coisa na vida, e este é o segredo do seu sucesso.

Mas não se deve pensar que os mediterrâneos encontraram a felicidade. Um mediterrâneo jamais sentirá o arrebatamento de um ocidental que completa a sua obra. O peito cheio com algum sólido empreendimento, a placa descerrada, o nome na história, a pátria agradecida. Nem compartilhará da certeza do oriental de que o seu caminho é o único certo e que por algumas coisas se deve morrer, sim. O mediterrâneo é o que fica de lado, fazendo frases de divertida ironia enquanto o essencial do mundo passa do lado. Ninguém escolhe um vinho como o mediterrâneo. Mas são os construtores que movem o mundo. E a consciência. O mediterrâneo prefere não pensar nestas coisas.

Os ocidentais apostam no cavalo com o melhor retrospecto e cotação. Os orientais apostam no ca-

valo que desfilar melhor. Os mediterrâneos conversam com o jóquei.

desfilar melhor. Os mediterrâneos conversam com o jóquei. C C o o n n h h

CCoonnhheeççaa oo sseeuu ccaannddiiddaattoo

Malomar Aluvião foi coroinha, propagandista, alcagüete e formou-se em direito estudando à noite. Tudo isto antes de entrar para o jardim da infância, onde se revelou um líder na pintura com dedão. Durante a adolescência dedicou-se a fenômenos parapsicológicos, sendo encontrado, certa madrugada, saindo em levitação da janela de uma fiambreria. Eleito vereador pelos seus colegas da penitenciária, destacou-se na Câmara pela sua intransigente defesa das filas do INPS, segundo ele a única vida social acessível aos pobres. Na

Assembléia, diz que permanecerá fiel ao seu lema, do qual não conseguiu se lembrar no momento.

Rex Harrison da Silva Jogou futebol profissionalmente pelo Internacional e pelo Grêmio, com o nome de Troncudo, embora não haja registro do seu nome em nenhum clube do Estado. Em Brasília, se eleito, lutará pela humanização da columbofilia e mais divulgação da cinegética nas escolas. Seu sonho, diz ele, é ver os bosques do Brasil cheios de crianças com suas espingardas de caça. Rex sobressaiu-se na Câmara Municipal pelo grito que deu, certo dia, ao bater com o joelho violentamente na quina da tribuna.

Cascão Terra Tornou-se um nome maldito nas regiões agrícolas do Estado devido a sua corajosa defesa do pulgão, um incompreendido e um injustiçado, nas suas palavras. Certa vez, deitou-se num trigal para receber o inseticida junto com um grupo de pulgões e teve que ser retirado à força. Não espera ser eleito mas declara que estou falando para a posteridade, que redimirá o pulgão e condenará o trigo.

Franz Fritz Frutz Também conhecido como TutiFrutz na região colonial. É o campeão de arremesso de vaca no município de Tu Me Paga, ex- Tripa Grossa. No Congresso vai batalhar pelo divórcio (porque não agüento mais o Frida!) e pela suinocultura.

Morgadinho Pipi Cedo na sua vida escolar ficou famoso pelas suas atuações em concursos de oratória e por ser meio bicha. Na juventude foi co- munista e integralista simultaneamente, para não perder tempo. Como advogado, ganhou notoriedade nacional ao defender um ourives acusado de matar e

devorar a própria mãe, argumentando com sucesso que comer a mãe era o sonho secreto de todos os jurados. Na Assembléia, lutará pela semana de oito dias.

Porciúncula Croarê Médico de renome. Filho de fazendeiro rico, renunciou à confortável vida do campo pela confortável vida da cidade. Em cartas semanais, pedia dinheiro para pagar dívidas de jogo, farras e mulher ao pai, que mandava com entusias- mo, mal desconfiando que o dinheiro ia todo para pagar os estudos de medicina do filho. Considera-se um liberal. Acha que a pena de morte, a censura, a repressão policial e os atos de exceção devem ser usados liberalmente. Na Assembléia, proporá a volta do feudalismo. Adaptado, logicamente, às condições atuais. Hoje, seria difícil encontrar um bom garrote, por exemplo. Ou uma ponte levadiça.

OO aannttiiccaarrnnêê

Ainda não examinei bem esse decreto do governo que regulamenta a venda de carnes. Não sei ainda se ele favorece ou acaba para sempre com uma idéia que eu tinha. A de lançar, em todo o território nacional, o anticarnê.

A primeira e revolucionária novidade do meu carne é que o primeiro prêmio não seria um automóvel. Aliás, uma das grandes atrações do anticarnê é que ele não daria prêmio de espécie alguma. O comprador saberia, na hora de dar a entrada, que todo o dinheiro do carnê reverteria em favor dos lançadores (i.e., eu) e que ele não teria direito a absolutamente nada, nem a uma cadeira na

chuva.

Os atrativos do plano, como se vê, são infinitos. Em primeiro lugar, sabendo que o carnê não serviria para nada, o comprador se veria desobrigado a pagar as prestações mensais, sem arriscar qualquer sanção. Melhor: o comprador teria o direito de juntar todos os talões de cobrança e rasgá-los, às gargalhadas, na frente de qualquer caixa de banco. Só essa possibilidade terapêutica, num país onde metade da população sofre de um nó na garganta chamado Data do Vencimento, já valeria o preço da entrada.

Segundo: anunciado francamente como uma refinada picaretagem (Faça um brasileiro independente!) o anticarnê apelaria para um dos mais simpáticos traços do brasileiro, que é a sua incontida admiração pela imaginação criminosa. O brasileiro perdoa tudo, desde que seja bem bolado. Terminada a promoção eu emigraria com os meus milhões e, no exílio, escreveria um livro intitulado Como enganar o brasileiro. As pessoas pagariam, digamos, vinte e cinco cruzeiros pelo livro, abririam e descobririam que todas as páginas estavam em branco. Achariam genial e comprariam às dúzias, para dar de presente. (Uma edição de luxo, com papel gessado em branco, custaria cem cruzeiros.)

E tem mais: o comprador do anticarnê não teria que se preocupar com datas de sorteio, nem em abrir os jornais sempre um empreendimento aborrecido para descobrir os resultados de extração. O anticarnê se comprometeria com cada comprador a nunca patrocinar qualquer show de televisão, poupando assim ao feliz portador a necessidade de aguardar diante da TV ligada a possibilidade de ver o seu número sorteado. Ele não precisaria nem ter TV

em casa, e poderia ficar tranqüilo porque jamais ganharia uma a cores.

Finalmente, o dono de um anticarnê nunca sofreria a frustração de ver um número parecidíssimocom o seu ganhar o primeiro prêmio. Seria um homem em paz com o próximo, livre de invejas e ódios. E se algum dia, na improvável hipótese de me prenderem (a impunidade é outra constante simpática do país), eu fosse compelido a defender meu plano, protestaria, indignado, minha inocência. Afinal, com um mínimo de entrada e zero por mês, sem sorteio e sem mais nada, eu estaria assegurando a cada portador do anticarnê um prêmio mais valioso do que dezessete Opalas: o sossego. E com exemplar honestidade, o que é mais do que qualquer outro carnê oferece.

do que dezessete Opalas: o sossego. E com exemplar honestidade, o que é mais do que

DDiissccrriimmiinnaaççããoo

Acho uma odiosa discriminação nós motoristas sermos obrigados a preencher requisitos cada vez mais complicados para ganhar uma licença de dirigir enquanto que nada sequer parecido é exigido do pedestre. E é um fato comprovado que, por exemplo, em cerca de oitenta por cento dos atropelamentos há um pedestre envolvido. (Cachorros vêm em segundo lugar.) Por que esse privilégio? O pedestre é parte atuante do trânsito de uma cidade, existe em muito maior quantidade do que carros, e no entanto não há uma única lei regulando a sua movimentação e as suas obrigações. Qualquer pessoa, literalmente, pode ser pedestre! Basta sair na rua. Até quando as autoridades fecharão os olhos a esse inexplicável favoritismo?

Agora mesmo, formam-se filas intermináveis de automóveis esperando sua vez de serem vistoriados no Departamento de Trânsito, para poderem renovar suas licenças. É um espetáculo doloroso. Seus motoristas, não raro, são alvo de cruéis manifestações de desprezo por parte de pedestres insensíveis, que passam arrogantemente, certos dos seus privilégios. E por que não exigir vistoria de pedestres, também? Tem gente circulando por aí sem as mínimas condições para tal, com problemas que vão desde o calo e o pé chato até o daltonismo e a ausência de um ou mais membros. A falta de uma minúscula lâmpada pode ser fatal para o motorista na vistoria, mas o pedestre vai onde quer, impunemente, às escuras, sem qualquer tipo de sinalização. E até de uma carroça se exige, no mínimo, uma lanterna! Um automóvel, para passar

na vistoria, precisa ter pneu sobressalente em bom estado, extintor de incêndio regulamentar, o diabo. Que equipamento precisa ter um pedestre? Nem sequer um par de sapatos de reserva. Nem cordão sobressalente para o sapato! É intolerável isto.

Um exame psicotécnico bem aplicado eliminaria, seguramente, metade dos pedestres das nossas ruas. E cada pedestre, para ser licenciado, deveria passar por um exame de habilidade igual ao que é feito para o aspirante a motorista. O exame consistiria de testes de rapidez, flexibilidade, jogo de pernas e travessia da Farrapos (os feridos tentariam de novo depois da convalescença, os mortos seriam automaticamente desclassificados). Grande parte dos atropelamentos se deve à imperícia ou à falta de preparo físico do pedestre. Quanta valiosa lataria de automóvel ainda precisará ser sacrificada contra o corpo de maus pedestres até que as autoridades se movimentem contra esta iniqüidade?

Uma campanha publicitária para conscientizar o pedestre do perigo que ele representa (Não faça do seu corpo uma arma, a vítima pode ser um Mercedes) não estaria fora de propósito. O fato é que severas providências se impõem. Surgem cada vez mais pedestres no mercado, consumindo cada vez mais oxigênio, e nossas cidades simplesmente não estão preparadas para recebê-los. Qualquer dia não haverá mais lugar para um automóvel se mexer!

C C u u r r s s i i n n h h o

CCuurrssiinnhhoo

Você certamente acompanha mesmo que não queira a guerra dos cursinhos. Pelos jornais e pelas rádios, os pré-vestibulares lutam por cada candidato como se fosse o último, e se xingam mutuamente com igual vigor. A julgar pela qualidade da sua propaganda, a maioria dos cursinhos parece pouco capaz de manter a razão, quanto mais ensinar qualquer coisa a alguém, mas isto não vem ao caso.

O que eu quero contar é que bolei um novo curso pré-vestibular.

É um curso para quem não quer passar no vestibular. Um curso para quem não tem o mínimo interesse em entrar na faculdade mas precisa dar uma satisfação aos pais, à namorada etc. O cara se inscreve, paga, freqüenta, estuda, tudo como num cursinho normal, só que não aprende absolutamente nada. Ou melhor: aprende tudo errado e não tem a mínima chance nem em caso de recaída, de

chegar na hora e pensar em se regenerar de ser classificado no vestibular. E, é claro, volta no ano seguinte, com a bênção dos pais (Coitado, se

esforçou tanto, vai tentar de novo

Como os cursinhos costumam vender o nome e a qualidade dos seus professores, pensei em lançar a campanha do meu com um anúncio de página inteira, em todos os jornais, figurando a equipe.

Estude física e química com a ex-Glamour Girl Tânia ('Tatá') Tenerife, autora da célebre frase: Todas as minhas experiências, meu Deus, fazem PUM!' Português e letras com Valdomiro. Matemática (só

até dez)

cursinho, um ponto importante, seriam enaltecidas em anúncios posteriores. Sauna, boate com chão de vidro, bilhar, pequena biblioteca com toda a coleção Tio Patinhas, bar, playground, churrasqueira. E bre- ve, uma sala de aula!E não faltariam os mais atua- lizados recursos didáticos eletrônicos: Gigantesco

estéreo com fones individuais! Discoteca própria, com orientador. Em duas aulas você saberá tudo sobre a influência de John Lee Hooker em Eric Clapton!

O meu cursinho teria projetos especiais de gran- de alcance cultural. Palestras. A empada, história e

).

.Etc. As instalações do meu

fenomenologia, por dona Mimi Moro.” “Cento e dezessete maneiras de vencer o soluço.” “Tatata Pimentel, um novo Rimbaud?” “A febre aftosa na lite- ratura.” “Tudo que você sempre quis saber sobre a Beki Klabin mas tinha medo de perguntar.E excursões sócio-culturais. A Montevidéu para ver O último tango em Paris. A Paris para ver se é verdade. À Alemanha com a Seleção!

Não faltariam os empreendimentos cívicos. Uma vez por ano, todos os alunos assinariam um abaixo- assinado dirigido ao ministro da Educação pedindo menos vagas na universidade.

Mas o nosso grande momento, em matéria de promoção, seria no fim do ano. Com os outros cursinhos reivindicando o maior número de aprovados nos vestibulares, nós proclamaríamos em grandes manchetes: Só o Pró-Vagal pode se gabar, nenhum aprovado no vestibular!E se alguma ovelha branca, por distração ou acaso, conseguisse chegar à classificação, seria execrada em público, exemplarmente. Em página inteira.

MMááxxiimmaass uurrbbaannaass

Existe todo um folclore em torno da rude sabedoria do homem do campo de regras e princípios nascidos da observação das coisas e da natureza e passados de geração a geração. Por exemplo:

Nevoeiro no baixio, dia de sol e frio, ou Cavalo que corre de cobra, nem o dono manobraou Tem mulher que é como pitanga, só dá no mato. (Estas eu inventei agora, mas você sabe o que eu quero dizer.) Não sei por que não se poderia desenvolver

uma coleção parecida de ditos urbanos. Não apenas no campo das comparações (Mais desligado do que a Voz do Brasil'' ou Mais farto do que material subversivo, etc.) mas também no terreno das máximas, igualmente nascidas da experiência de gerações. Por exemplo:

Chofer de táxi com muito cabelo? Cuidado com o pêlo.

Poente cor poluição.

de

carvão

chuva,

geada ou

A uísque dado não se olha o selo.

Em matéria de mulher, há um tipo

cem por

cento: desquitada, analisada e com apartamento.

Nunca pergunte o que é, por uma questão de ética: operação de mulher e cibernética.

Entre as coisas chatas da vida, tirando-se uma

de

média,

enciclopédia.

Pior que calo e saúva é hotel de praia em dia de chuva.

Moral de lado tem mulher perdida que é um achado.

nenhuma

é

pior

que

vendedor

Não existem patriotas em filas do INPS.

Análise em grupo é sensacional: uma espécie de suruba mental.

Um teto para todos, diz o BNH, exultando. O que

a

segurando.

não

tem que ficar

explicam

é

que

gente

Etcétera, etcétera, etcétera.

C C o o n n v v e e r r s s a

CCoonnvveerrssaa

Como vai?

Por alto, tirando uma média, especificamente ou considerando as circunstâncias?

De uma maneira geral.

De uma maneira geral, bem. E você?

De uma maneira geral dentro do contexto vou mais ou menos.

O contexto que você fala é global?

 

Global,

por

certo.

Englobando

toda

a

problemática.

Não excluindo a defasagem natural, espero.

Claro que não. Tenho plena consciência da defasagem, mas é lógico que conceituo em termos ótimos.

Conceituar é importantíssimo.

Digo

mais, é

vital.

Partindo-se de uma

conscientização, como direi, equacionai, a

conceituação advém per se.

Ah, mas

Não vá me dizer que você parte do princípio!

Em absoluto. Tenho por norma.

A longo prazo ou a curto prazo?

A médio prazo. Levando-se em conta.

É válido. Ou não?

Hein?

Digo: eu norteio todas as minhas decisões.

Eu também. Você parte do pressuposto?

Sempre que posso.

Eu, a mesma coisa. E chego à conclusão.

Eu peso todas as alternativas.

Eu examino todos os ângulos.

Me recuso a aceitar. Terminantemente.

Afirmo. Peremptoriamente.

Sustento. Tranqüilamente.

Mantenho. Desassombradamente.

Argumento. Friamente.

Mas há sempre o perigo do desvirtuamento.

Bom, mas então chegaremos às amor de Deus.

Chegaremos às raias!

Por

Pois então! Estamos no limiar e chegaremos às raias. Paulatinamente. Na premissa.

A recíproca é verdadeira.

Pois sim, numa reversão cibernética, com o

extravasamento da dicotomia básica, a codificação extrapola extemporaneamente para um feed- back antiestrutural. Entende?

Isso numa sistemática.

Evidente. E num apanhado geral.

De onde se

Eu nunca abstraio.

Eu também não. E a reificação do mítico?

Há anos que não vejo.

No mais, então, tudo bem.

Bem. Dentro do contexto, é claro.

Claro. Fora do contexto, nem é bom pensar.

Fora

do contexto, nós nem poderíamos

conversar!

CCuullttuurraa

como o primeiro

suave susto de Julieta quando, das sombras perfumadas do jardim sob a sua janela insone, Romeu deu voz ao sublime Bardo e a própria noite aguçou os ouvidos.

Ele disse:

O teu

sorriso

é

E

ela disse: Corta essa.

E

ele disse: A tua modéstia é como o rubor que

assoma à face de rústicas campônias acossadas num quadro de Bruegel, pai, enaltecendo seu rubicundo encanto e derrotando o próprio simular de recato que a natureza, ao deflagrá-lo, quis.

E

ela disse: Cumé que é?

E

ele:

Eu

te amo como jamais um homem

amou, como o Amor mesmo, em seu auto-amor,

jamais se considerou capaz de amar.

E ela: Tô sabendo

Tu és chuva e eu sou terra; tu és ar e eu sou fogo; tu és estrume, eu sou raiz.

Pô!

Desculpe. Esquece este último símile. Minha amada, minha vida. A inspiração é tanta que transborda e me foge, eu estou bêbado de paixão, o estilo tropeça no meio-fio, as frases caem do

bolso

Os teus olhos são dois poços de águas claras

onde brinca a luz da manhã, minha amada. A tua

fronte é

de alabastro do templo de

como o muro

Zamaz-al-Kaad, onde os sábios iam roçar o nariz e pensar na Eternidade. A tua boca é uma tâmara

partida Pera só um

Não, a tua boca é como um .

Tô só te cuidando.

A tua boca, a tua boca, a tua imagem, meu Deus!)

(Uma

Que qui tem a minha boca?

A tua boca, a tua

Bom, vamos pular a

boca. O teu pescoço é como o pescoço de Greta Garbo na famosa cena da nuca em Madame Walewska, com Charles Boyer, dirigido por Clarence

Brown, iluminado

.

Escuta

.

Eu tremo!

Eu

desfaleço! Ela quer que eu a

escute! Como se todo o meu ser não fosse uma

membrana que espera a sua voz para reverberar de amor, como se o céu não fosse a campana e o Sol o

badalo desta sinfonia espacial: uma palavra

.

Tá ficando tarde.

Sim, envelhecemos. O Tempo, soturno cocheiro deste carro fúnebre que é a Vida, como disse Eliot, aliás, Yeats ou foi Lampedusa? o Tempo, esse

surdo-mudo que nos leva às

Vamo logo que hoje eu não posso ficar toda a noite.

Vamos! Para o Congresso Carnal. O monstro de duas costas do Bardo, acima citado. Que nossos espíritos entrelaçados alcem vôo e fujam, e os sentidos libertos ergam o timão e insuflem as velas

.

para a tormentosa viagem ao vórtice da existência humana, onde, que, a, e, o, um, como, quando,

porquê, sei lá

Vem logo.

Palavras,

.

Depressa!

Já vou. Ah, se com estas roupas eu pudesse

despir tudo, civilização, educação, passado, história,

Uma união visceral,

pâncreas a pâncreas, os dois corações se beijando através das grades das caixas torácicas como Glenn

nome, CPF, derme,

Ford e Diana Lynn

.

Vem.

Assim.

Isso.

Acho

que

hoje

vamos

conseguir. Agora fica quieto

Já sei!

O quê? Volta aqui,

.

.

Como um punhado de amoras na neve das estepes. A tua boca é como um punhado de amoras na neve das estepes!

. ” “ Como um punhado de amoras na neve das estepes. A tua boca é

UUmm,, ddooiiss,, ttrrêêss

Eu queria um dia fazer uma crônica como uma valsa antiga. Que rodopiasse pela página como, digamos, um velho comendador de fraque e a sua jovem amiga. Cheia de rimas como quimera e primavera. Com passos e compassos, ah quem me dera. Talco nos decotes, virgens suspirosas e uma sugestão de intriga.

Os parágrafos seriam versos e figurações. No meio um lustre, na tuba um gordo e em cada peito mil palpitações. Os namorados trocariam olhares. As tias e os envergonhados nos seus lugares. E de repente uma frase perderia o fio, soltando sílabas por todos os salões.

A segunda parte me daria um nó.

Os pares param, o maestro espera e ninguém tem dó.

Dou ré, vou lá, já não caibo em mi.

E então decreto vá fá é cada um por si!

Um, dois, três.

Um, dois, três.

A minha orquestra seria toda de professores. Um de desenho, três de latim, cinco de português e todos amadores. O baterista cheiraria coca. O contra- baixista não parece o Loca? E o gordo da tuba um duque da Bavária nos seus últimos estertores.

um

magnata. Pescoço de alabastro, boca de rubi e os

Um

cadete

rouba

o

amor

da

filha

de

olhos de uma gata. O namorado, despeitado, urde sua vingança. É quase meia-noite e segue a contradança. O pai da moça dorme nos seus sete queixos e sonha com uma negociata.

No avarandado branco, onde vão ver a Lua

A moça e o cadete, que a imagina nua

Beijam-se perdidamente a três por quatro.

E o segundo traído sou eu, que não encontro rima para quatro.

Um, dois, três.

Um, dois, três.

Um violinista, de improviso, olha o relógio e perde um bemol. Faltam poucas linhas para acabar meu espaço e surgir o sol. Lá fora, o par apaixonado. De tanto amor nem olha para o lado. Não vê o des- peitado que se aproxima, quieto e encurvado como um caracol.

Eu mesmo me concedi esta valsa e, portanto, tenho a decisão. Que arma usará o traído na sua vil ação? Uma adaga, fina e reluzente? Combina mais com o requintado ambiente. Mas se errar o passo e o alvo o vilão e, abrindo um filão, conspurcar o alvo chão?

Um tiro na nuca é mais ligeiro

Mais prático, moderno e certeiro.

Mas, meu Deus, o que é que eu estou fazendo?

Comecei com uma singela valsa e já tem gente morrendo!

Um, dois, três.

Um, dois, três.

Eu só queria fazer uma crônica como uma valsa antiga. Que rodopiasse pela página como um comen- dador cansado e sua compreensiva amiga. Cheia de rimas sem compromisso aparente. Nem com ouro, nem com prata, nem com a crise do Ocidente. Decotes bocejando. Virgens sonolentas e nem uma sugestão de briga.

Um, dois, três.

Etc.

nem com a crise do Ocidente. Decotes bocejando. Virgens sonolentas e nem uma sugestão de briga.

NNooiittee ee ddiiaa

O Homem que

Acorda Cedo e o Homem que

Dorme Tarde se encontram numa parada de ônibus.

Bom dia.

Boa noite.

O primeiro ônibus não demora.

Você quer dizer o último ônibus.

Parece que vai ser um dia bonito.

É o fim de uma longa noite.

Mas é o começo do dia.

O fim.

Olha o sol aparecendo.

Olha a lua desaparecendo.

Que energia, que ânimo para o trabalho!

Que cansaço.

O primeiro som que ouvi hoje foi o cantar dos passarinhos.

trombonista

fechando o instrumento na maleta.

Ainda sinto na boca o gosto de, deixa ver:

pasta de dente, suco de laranja bem frio; café com

leite, pão novo e, espera aí, manteiga fresca.

Cigarro mofado, uísque ruim e um filé que

último que

O

eu

ouvi foi

o

Ah, aqui está:

sentou mal.

Pretendo ganhar duzentos cruzeiros hoje, com o suor do meu rosto.

Gastei quinhentos, sem suar.

Olha o cheiro dos jardins, da minha loção de barba, do sol queimando a cerração.

O perfume barato que ela usava, álcool na gravata e respingo de vômito.

Olha o sol na nossa cara!

Olha o sol na minha cara, pô.

Respire fundo.

Deus me livre.

Esperança e fé.

Remorso e azia.

Produção.

Dissolução.

Progresso.

Lixo.

Colegiais e trabalhadores.

Prostitutas e vadios.

Passarinhos.

Cansaço.

Jardins.

Vômito.

O sol.

O fim.

Olha o primeiro ônibus!

O último, você quer dizer.

E os dois embarcam. No mesmo ônibus.

VViiddaa eemm mmaanncchheetteess

Viu só? Caiu outro avião.

É. Desta vez foram oitenta e cinco mortos.

Já tomei uma decisão: nunca mais entro em

avião.

Bobagem.

Bobagem é morrer.

Então não entra mais em carro, também.

Proporcionalmente, morrem mais pessoas em acidentes

Mas não entrar em automóvel eu já tinha

decidido há muito tempo! Você não notou que eu ando mais magro? É de tanto caminhar.

Você caminha por onde?

Como, por onde? Pela calçada, ué.

Dá todo dia no jornal. Ônibus desgovernado

sobe na calçada e colhe pedestre. Vítima tinha jurado

nunca mais entrar em qualquer veículo.A chamada ironia do destino.

Quer dizer que

É

O negócio é não sair de casa.

E, é claro, mandar cortar a luz.

Por que cortar a luz?

Pensa num dedo molhado e distraído na

tomada do banheiro. Caiu da escada quando trocava

lâmpada. Fratura na base do crânio.

Está certo. Corto a luz.

— “Tropeça no escuro e bate com a têmpora na

quina da mesa. Morte instantânea.E você vai cozinhar com quê?

Gás.

Escapamento. Vizinhos sentiram cheiro de

gás e forçaram a porta: era tarde.Ou: Explosão de botijão arrasa apartamento.

Fogareiro a querosene.

— “Tocha humana! Morreu antes

Comida enlatada fria.

Botulismo.

Mando comprar comida fora.

.

Espinha de peixe na garganta. Ossinho de

galinha na traquéia. Comida estragada, diarréia

fatal!

Não preciso de comida. Vivo de injeções de

e

oxigênio.

Poluição. Autópsia revela: pulmão tava pior que saco de café.Estrôncio 90 francês.

Vou viver no campo, longe da poluição, do

trânsito

Picada de cobra. Coice de mula. Médico não chega a tempo.

Não saio mais da cama!

Está provado: oitenta e dois por cento das

pessoas que morrem, morrem na cama. Não há como escapar.

Mas eu escapo. A mim eles não pegam. Tenho um jeito infalível de escapar da morte.

Qual é?

Eu vou me suicidar!

AAttiittuuddee ssuussppeeiittaa

Sempre me intriga a notícia de que alguém foi preso em atitude suspeita. É uma frase cheia de significados. Existiriam atitudes inocentes e atitudes duvidosas diante da vida e das coisas e qualquer um de nós estaria sujeito a, distraidamente, assumir uma atitude que dá cadeia!

Delegado, prendemos este cidadão em atitude suspeita.

Ah, um daqueles, é? Como era a sua atitude?

Suspeita.

Compreendo. Bom trabalho, rapazes. E o que é que ele alega?

Diz que não estava fazendo nada e protestou contra a prisão.

Hmm. Suspeitíssimo. Se fosse inocente não teria medo de vir dar explicações.

Mas

eu

não tenho o que explicar! Sou

inocente!

 

É

o

que

todos dizem, meu caro. A sua

situação é preta. Temos ordem de limpar a cidade de

pessoas em atitudes suspeitas.

Mas eu só estava esperando o ônibus!

Ele fingia que estava esperando um ônibus,

delegado. Foi o que despertou a nossa suspeita.

Ah! Aposto que não havia nem uma parada de

ônibus por perto. Como é que ele explicou isso?

Havia uma parada sim, delegado. O que

confirmou a nossa suspeita. Ele obviamente escolheu

uma parada de ônibus para fingir que esperava o ônibus sem despertar suspeita.

E o cara-de-pau ainda se declara inocente!

Quer dizer que passava ônibus, passava ônibus e ele ali fingindo que o próximo é que era o dele? A gente vê cada

Não senhor, delegado. No primeiro ônibus que apareceu ele ia subir, mas nós agarramos ele primeiro.

eu pego

todos os dias para ir pra casa! Sou inocente!

que o senhor se declara

inocente, o que é muito suspeito. Se é mesmo inocente, por que insistir tanto que é?

E se eu me declarar culpado, o senhor vai me considerar inocente?

Claro que não. Nenhum inocente se declara

culpado, mas todo culpado se declara inocente. Se o senhor é tão inocente assim, por que estava

tentando fugir?

Era

É

a

o meu

ônibus, o

ônibus que

segunda vez

Fugir, como?

Fugir no ônibus. Quando foi preso.

Mas

eu

não

tentava

fugir.

Era

o

meu

ônibus, o que eu tomo sempre!

Ora, meu amigo. O senhor pensa que alguém

aqui é criança? O senhor estava fingindo que esperava um ônibus, em atitude suspeita, quando suspeitou destes dois agentes da lei ao seu lado. Tentou fugir

Foi isso mesmo. Isso mesmo! Tentei fugir

deles.

Ah, uma confissão!

Porque eles estavam em atitude suspeita, como o delegado acaba de dizer.

O quê? Pense bem no que o senhor está

dizendo. O senhor acusa estes dois agentes da lei de

estarem em atitude suspeita?

Acuso. Estavam fingindo que esperavam um

ônibus e na verdade estavam me vigiando. Suspeitei da atitude deles e tentei fugir!

Calem-se! A conversa agora é outra. Como é

que vocês querem que o público nos respeite se nós

também andamos por aí em atitude suspeita? Temos que dar o exemplo. O cidadão pode ir embora. Está solto. Quanto a

Delegado, com todo o respeito, achamos que

esta atitude, mandando soltar um suspeito que confessou estar em atitude suspeita é um pouco

Um pouco? Um pouco?

Suspeita.

mandando soltar um suspeito que confessou estar em atitude suspeita é um pouco — Um pouco?

DDeezzeesssseeiiss cchhooppeess

A conversa já passara por todas as etapas que normalmente passa uma conversa de bar. Começara chocha, preguiçosa. O mais importante, no princípio, são os primeiros chopes. A primeira etapa vai até o terceiro chope.

Do terceiro ao quarto chope, inclusive, contam- se anedotas. Quase todos já conhecem as anedotas, mas todos riem muito. A anedota é só pretexto para rir. A mesa está ficando animada, isso é o que importa. São cinco amigos.

Eu disse que eram cinco à mesa? Pois eram cinco à mesa. Dois casados, dois solteiros e um com a mulher na praia quer dizer, nem uma coisa nem outra. E entram na terceira etapa.

Durante o quinto e o sexto chope, discutem futebol. O que nos vai sair esse tal de Minelli? Olha, estou gostando do jeito do cara. E digo mais, o Grêmio não agüenta o roldão nesta fase do campeonato. Quer apostar? Não agüenta. Porque isto e aquilo, que venha outra rodada. E escuta, ó chapa pode vir também outro sanduíche aberto e mais uns queijinhos.

O sétimo chope inaugura a etapa das graves ponderações. Chega a Crise e senta na mesa. O negócio não está fácil, minha gente. Vocês viram a história dos foguetes? Na Europa, anda terrorista com foguete dentro da mala. Em plena rua! O negro entra num hotel, pede um quarto, sobe, abre a mala, vai até a janela e derruba um avião. Derruba um avião assim como quem cospe na calçada!

São homens feitos, homens de sucesso, amigos há muitos anos. Nenhum melhor do que o outro. A etapa das graves ponderações deságua, junto com o

nono chope, na etapa confidencial. Pois eu ouvi dizer

Agora todos

gritam, as confidencias reverberam pelo bar. Os cinco estão muito animados.

Um deles ameaça ir embora mas é retido à força. Outra rodada! Hoje ninguém vai pra casa. Começa a etapa inteligente. Todos dizem frases definitivas que nenhum ouve, pois cada um grita a sua ao mesmo tempo. Doze chopes. Treze. Começa

que quem está por trás de

uma discussão, ninguém sabe muito bem se sobre palitos ou petróleo. A discussão termina quando um deles salta da cadeira, dá um murro na mesa e berra: E digo mais!Faz-se silêncio. O quê? O quê?

Eu vou fazer

Com quinze chopes começa a fase da nostalgia. Reminiscências, auto-reprimendas, os podres na mesa. As grandes revelações. Eu sou uma besta

Besta sou eu. Tenho que mudar de vida. Eu também.

de não

ter

fechando, diz:

sinto

sei lá! E então um deles, os olhos quase se

Cada vez me arrependo mais de não ter

.

Sabe

o

que

é

que

eu

sinto,

mas

mesmo?

Ninguém sabe.

Sabe qual é a coisa que eu mais sinto?

Diz qual é.

Sabe qual é o vazio que eu mais sinto aqui?

Diz, pô!

É que eu nunca tive um canivete decente. O

silêncio que se segue a esta revelação é mal

compreendido pelo garçom, que vem ver se querem a conta. Encontra os cinco subitamente sóbrios, olhando para o centro da mesa com o ressentimento de anos. É isso, é isso. Um homem precisa de um canivete. Não de qualquer canivete, não desses que dão de brinde. Um verdadeiro canivete. Pesado, de fazer volume na mão, com muitas lâminas. Um canivete decente.

Eu tive diz, finalmente, um dos cinco. É uma confissão.

E os outros olham para ele como se olha para um homem completo. Ali está o melhor deles, e eles não sabiam.

confissão. E os outros olham para ele como se olha para um homem completo. Ali está

AA CCooiissaa

E as coisas? Como vão as coisas? As coisas estão malparadas. Que coisa? Coisa,

Como vai a coisa, tchê?

O que quer dizer, exatamente, a Coisa? Não é a

vida em geral. A Coisa é ao mesmo tempo mais específica e mais abrangente do que a Vida. Experimente trocar uma expressão pela outra. Em vez de Como é que te trata a Vida, o que é comum, diga Como é que te trata a Coisa?Não dá, a Coisa tem um mistério que a Vida não tem. A Vida é a pulsação que te traz de pé, são as tuas funções hepáticas, as intempéries, os parentes, as tuas contas por pagar, aquele possível emprego em São Paulo, o câncer, o fundo dos teus bolsos e quem sabe um cineminha. A Vida é tudo que tu tocas e que te toca. Já a Coisa é outra coisa.

A Coisa é o que está embaixo da tua cama e não te ataca. A Coisa é o que te olhou pelo vidro do berçário e resolveu te poupar, e tu nem sabias. A Vida é a prova de que a Coisa te trata bem. Porque cada batida do teu coração é uma deferência especial da Coisa. A Coisa é o teu gentil patrocinador. Quando tu deliravas, a Coisa te pegou no colo. Quando tu te encheste de ti mesmo e te sentiste o primeiro imortal da raça, a Coisa te deu azia. Quando alguém diz que está sentindo uma coisa estranha, está cometendo uma redundância. Pois a Coisa é tudo o que em ti e em tua volta tu estranhas. A Coisa é aquilo que tu tens sempre na ponta da língua e não consegues lembrar. É o sonho que tu esqueces no ato de acordar. É a impressão que tu tens de que tudo isto

já aconteceu uma vez, que coisa estranha!

Como vai a coisa?

Como é que eu vou saber como vai a Coisa? A Coisa é que pode dizer como eu vou. E para onde, e por quê. A Vida, é fácil responder. Vai-se .ou Bueno, no másou Lindoou Não posso me

Mas a Coisa? A Vida é o que a Coisa usa

para distrair nossa atenção. A Coisa está refletida numa vitrina e quando tu te voltas para vê-la, passa um ônibus ou derrubam o governo ou entra um cisco no teu olho, é a vida. O universo é a mise en scène da Coisa. A Coisa é o que está por trás de tudo. Deus é só um testa-de-ferro.

queixar

Como vai a coisa?

Que coisa? Que coisa?!

Como, que coisa? A coisa.

Você quer saber como é que eu vou, certo?

Como é que a vida me trata. Aí eu respondo Muito beme a conversa continua. Mas por que envolver a Coisa nisto? Eu recém saí do Pinel!

É impossível conversar sobre a Coisa, sobre a Coisa só se desconversa. Certos místicos orientais perambulam pelo mundo inteiro durante anos atrás da Coisa, e a Coisa vai atrás. Há pessoas que simulam uma falsa intimidade com a Coisa. Vez por outra, nos dão informações confidenciais sobre o seu estado.

A coisa está feia.

Ou, um mistério ainda maior:

A coisa está preta.

A Coisa não está feia nem bonita, a Coisa não está. A Coisa não tem cor, ela é a luz e a sombra. Ela é o espectro das cores. Ela é o ponto onde as paralelas não se encontram. Onde a tua visão alcança, a Coisa está um pouco mais pra lá. Do teu lado. A Coisa é o que detém o quase suicida mas também é o que torce o pé do arrependido e o faz cair contra a vontade. Porque a Coisa não está para brincadeiras, não está sopa e não é mole. Na hora da tua morte, a Coisa te revelará tudo, e aí não adiantará mais nada.

a Coisa te revelará tudo, e aí não adiantará mais nada. C C â â n

CCâânnttiiccoo

Como um tubo de imagem, amada minha, é o

fulgor da tua face. Os teus cílios são como antenas internas. Altiva é a tua cabeça como a antena direcional sobre os telhados, que o vento não abate. Meus dedos procuram os teus botões como a polícia americana cerca o culpado, e desfaleço de amor. A tua imagem não rola, és vertical como uma torre de microondas ao sol da tarde. A minha amada tem as cores do Cid Moreira no Jornal Nacional, os seus olhos são como os da Sandra Bréa, seus dentes são como os rebanhos de ovelhas que sobem do lavadouro num comercial de alvejante. Confortai-me com sprays, recuperai-me com super kings, pois eis que desfaleço. Ajusto a horizontal da minha amada e

é fantástico.

A tua fronte é um luminoso de acrílico, amada minha, irmã minha. A curva do teu pescoço é como a traseira de um Maverick que reflete a luz do mercúrio. Os teus dois seios são como as turbinas de um jato. És um DC-10, amada minha. A minha mão percorre teus corredores como uma aeromoça, portando lentos prazeres. O teu ventre é como uma pista de asfalto sob a chuva, teu umbigo é como um poço de edifício. Como viadutos são as tuas coxas. Teus pés são pequenos e ágeis como táxis. Vem ao meu leito, amada minha, irmã minha. Deita-te sobre

a fuligem. A minha mão sobre o teu ventre é como a

fumaça das fábricas que cobre os montes. O teu hálito é como o monóxido de carbono que sobe das ruas, e eis que desfaleço. A minha amada é para mim como um sistema integrado, os seus transistores me animam e o meu leito se cobre de print-outs. Eu programo a minha amada e a minha amada me programa. Ela é um túnel vitrificado que o

metrô percorre em silêncio. A minha amada é binária

e digital, a minha amada não perde o vinco. A minha amada é como o tape-deck que recebe o cartucho e

zune com doçura, é como a guitarra quando o pé espreme o pedal. A sua penugem é como a grama artificial depois do orvalho. Os refletores se ofuscam com minha amada. A sua inocência desarma o cimento. Sua volúpia faz até o sinal ficar vermelho. As ruas de mão única desmunhecam diante das suas formas. As perimetrais desviam para o centro. Vem ao meu leito, irmã minha, quando as sirenas cortam a noite. A minha amada é como a rachadura onde o terrorista esconde a bomba. A minha amada é um estouro.

Quão deliciosos são os teus aromas, amada mi- nha. Os teus cabelos cobrem uma fonte de olores. A tua nuca é como uma lanchonete, irmã minha. A fragrância do cheeseburger, e eis que desfaleço. O pastel, a Fanta uva, a gasolina queimada, o lixo. Como uma cidade de incensos é o corpo da minha amada. A minha amada partiu as cortinas da minha tenda de oxigênio e me atraiu para o deserto.

RRéé--ppeennssaarr

O mar entra terra adentro pelos rios, espalha-se

pelos continentes em braços de água, perfura fontes

no chão para alimentar lençóis subterrâneos que sobem à superfície pelos poros da terra e são vaporizados pelo sol, formando nuvens, que despejam a água no mar, que entra terra adentro pelos rios, e assim ao contrário por diante, que a geografia convencional precisa ser repensada. Que tudo precisa ser pensado em ré.

A primeira ameba, aquela primeira coisa viva do

planeta, quando tudo era uma sopa borbulhante de

amônia e vagas transparências, era o ser perfeito. Daí, começou a involução da espécie. Que foi degenerando, degenerando, até chegar no homem, um pouco pior do que o macaco que nos precedeu e pouco melhor do que o monstro que nos substituirá, classe. A ameba era uma célula só, não tinha nem um apêndice o que dirá uma família, nem um nervo o que dirá uma inquietação filosófica. Era eterna, era puro prazer boiando na lava. E então inventou de crescer e se multiplicar e aí está, a civilização, o câncer do mundo. Depois do recreio repassaremos a história, classe.

Por volta do ano 3400 AM ou Ano da Mãe (os indígenas contavam o tempo a partir do instante em que a Grande Mãe, a Virgem dos Lábios de Guaraná, impregnada pelo vento, dera à luz Tupãzinho, filho de Tupã, o Pai de Todos, e Redentor da Selva) uma frota de pirogas partiu da costa do Brazil, que então se chamava Brasil, e, encontrando uma calmaria ao longo das Antilhas, desviou sua rota para o leste e depois de cento e vinte dias remando através do Atlântico descobriu Portugal. Terra à vista!gritou o índio Pé-de-Valsa, que tinha a posição de vigia naquele 1.° de abril na proa da primeira piroga (os outros remadores eram Ubirajara, Grapete, Badeco, Ademã e Clodovil). O primeiro ponto avistado foi a Torre de Belém, no que hoje é Lisboa, que os indígenas batizaram de Ponta Manoel. Os primeiros indígenas que desceram a Terra foram cercados a princípio timidamente, depois com mais ousadia e até divertimento pelos nativos, gente selvagem que, na descrição de Peroba Cabeça de Poeta, relator da expedição, cobriam todo o corpo com panos como se dele tivessem vergonha. Para captarem a confiança e a simpatia dos nativos, os brasileiros ofereceram-se para trocar com eles flechas, contas,

colares de concha, agogôs, cuícas e pandeiros pelas pequenas rodelas de metal, chamadas moedas, de nenhum valor, que os selvagens carregavam em curiosas bolsetas, mas as quais se recusavam a entregar. Ali mesmo, no pátio da Torre de Belém, os descobridores celebraram a sua Primeira Cerimônia, sacrificando e comendo o cozinheiro da expedição diante do olhar espantado dos nativos que, de janelas, sacadas e monumentos, tudo acompanhavam e nada compreendiam. Peroba Cabeça de Poeta, no seu relato, contaria que os nativos eram pagãos e, por mais que se esforçassem, não conseguiam assimilar a noção da Trindade de Tupãzinho, Nuvem, Trovão e Chuva numa só Entidade. Seus rituais religiosos” — escreveria Peroba Cabeça de Poeta — “são de um primitivismo bárbaro, realizados dentro de imensas ocas de pedra, em sussurros animalescos, e durante o qual não comem ninguém.

Amanhã, classe, repensaremos a história econômica do mundo que, como se sabe, tem sido uma constante luta de classes, com os ricos lutando para distribuir suas riquezas entre os pobres e estes teimando em gastar tudo no primeiro botequim. Isso explica o aparente paradoxo perfeitamente normal para quem pensa em ré do país cada vez mais rico com uma população cada vez mais pobre. Veremos também

U U m m a a p p r r i i n n c

UUmmaa pprriinncceessaa

À sua Serena Majestade Grace (née Kelly) de Mônaco Mônaco, Capital

Prezada Serena:

Quem tem a ousadia de lhe escrever é um pobre tropical que nem por isto descuida da Civilização e das suas Luzes. Se Sua Majestade se der o trabalho, encontrará nossa pequena cidade em qualquer mapa da América Colonial, entre os pontos de Buenos Aires e Registro, à beira do rio Guaíba (palavra indígena que significa Mas que rio?) e a algumas capotagens do oceano Atlântico. Levamos uma vida simples, criando gado e plantando soja, e trocando tudo com

missionários paulistas por contas de vidro, pentes de plástico e o espírito destilado da cana. Nosso sistema de governo é o deus-dará: Deus é quem elege nossos chefes, acende e apaga nossos incêndios e em geral nos tem em Sua mão, entre o indicador e o polegar, com cara de quem prepara uma. Uma vez por mês chega aqui um vapor com a correspondência e jornais da Europa. E é nesses jornais, Serena, quando a fadiga do meio-dia nos faz deitar à sombra da soja ou de uma vaca, quando só as cigarras têm ânimo para conversa e nem sorveteiro fica de pé, é nesses jornais que temos acompanhado a pequena Caroline e o seu lento desabrochar para a Vida.

Lembramo-nos, como se fosse ontem, do Vosso casamento. Ainda temos em mente a sua serena gravidez, e as especulações que faziam sobre o primogênito: seria simpático, forte, bonachão e de bigode, como o pai? Teria a graciosa beleza da mãe? Com atraso é verdade naquele ano o vapor do Correio encalhou outra vez na barra de Rio Grande ficamos sabendo que era menina, e se chamava Caroline. Vocês, Serenos, souberam poupá-la da Guerra Fria, de John Foster Dulles, do Sputnik, da invasão de Suez, dos primeiros discos do Chubby Checker, das guerras coloniais na África, para não falar da peste e da fome. Certo, a Princesa teve sarampo, mas com o sacrifício de duas ou três aulas de natação apenas. Lembro-me que a Revolução de 64 no Brasil coincidiu com as primeiras aulas de esgrima da Princesinha. Uma aranha colorida subia pela minha perna, ardendo ao sol, e já chegara ao meu joelho em farrapos antes de eu me dar conta e espantá-la com meu facão camponês, tão embevecido estava numa fotografia de Caroline com toda a família em St. Moritz e como ela esquiava! Com que naturalidade ela deslizava pela neve, as

bochechas vermelhas do vento e do frio, enquanto árabes e judeus se matavam no deserto. Como eles riam, ela e o irmão, com grossas xícaras de chocolate quente nas mãos, enquanto o mundo à sua volta envelhecia a cada minuto, ou rachava ao sol das colônias.

Devo dizer que preocupei-me com as suas leitu- ras, Serena. Você e o Príncipe não estariam criando uma adolescente fútil e frívola como tantas? Minhas noites de insônia se revelaram improcedentes. A Princesa soube-o depois lia os clássicos franceses e os melhores ingleses do século XIX. Saint-Exupéry, por certo, e um ou outro best seller que passasse pelo crivo da tutora, mas nada que lhe pesasse no cérebro. Pois uma Civilização só precisa de leituras para manter a conversa acima do banal.

Sim, Serena, via-a de biquíni outro dia, no jor- nal. Ela está uma Moça. Ela está ouso dizê-lo? um mulherão. Pernas melhores do que as suas, perdoe. Um sorriso e um olhar tão abertos que a gente até se constrange de espiar o decote, e o ar de quem espera o melhor do mundo. E isso é o que nos preocupa, Serena. Ela sabe da crise? Já contaram a ela que as pessoas morrem? Já contaram que o sol, mesmo o sol da Europa, e o tempo, mesmo em St. Moritz, enruga as pessoas, e que o petróleo está acabando? Vocês criaram uma princesa do outro mundo, foi o único erro de Vossas Majestades. Sem mais, e na esperança de que esta carta não encalhe na saída, subscrevo-me etc.

T T e e r r r r í í v v e e l

TTeerrrríívveell

Não existe anedota mais terrível do que aquela do sádico que casa com a masoquista, e do diálogo que se trava entre os dois pelo resto da vida.

Me bate.

Não bato.

Me bate!

Não bato.

É uma história assustadora, quem a inventou certamente não sabia o que se passava na própria mente. Pense um pouco na anedota. Pare de rir e pense um pouco. É de dar vertigem. Freud sorriria à primeira vez que a ouvisse, mas naquela noite não dormiria. No dia seguinte fecharia o consultório e andaria pelas sombras de Viena meio torto de angústia (e com olheiras), olhando para as pessoas com um horror quase demente. Onde é que eu fui me meter!

Por favor, me bate!

Não bato.

Só um tabefe.

Nem um beliscão.

O horror prende na garganta. O homem é um

animal que não deu certo. A verdadeira evolução deve estar se processando em outra espécie, a nossa foi um começo falso que esqueceram de cancelar. Como o hipopótamo. Fizeram uma experiência, foi isso. Deixa ver: um bípede, com um dedão opositor, nariz aqui, boca aqui, um cérebro dedutivo, autoconsciência, imaginação para anedotas e um

furor, um furor no

Não, não. Não vai dar

certo. Corta esse. Mas não cortaram! O homem permanece e se procria, iludido de que a Criação é com ele, que ele é o fim e a razão em vez de um

equívoco do processo. Não podia dar certo.

Me bate, pô.

Não quero.

Pisa na minha cabeça!

Que

Para sempre. Imagine os dois já velhos:

Me bate com a tua bengala.

Não bato.

Onde é que nós fomos nos meter? A anedota não tem fim. O casal jamais se separa. Não há esperança. O processo esqueceu de nós. Vai ver a verdadeira evolução já veio e já foi, alguma outra raça já está com o universo. Sobraram na Terra as

tentativas descartadas. O hipopótamo, o homem, a tartaruga, os ciprestes, o rebotalho da grande experiência. Mas só o homem com a danação da autoconsciência. Foi a grande anedota que pregaram no homem, a de lhe darem uma cosmogonia (o hipopótamo não tem uma cosmogonia) e no fim lhe negarem o universo. Aparelharam o homem para compreender a evolução e a razão de todas as coisas e ele se vê condenado a compreender a si mesmo, uma péssima troca. Não é que o hipopótamo não tenha o mesmo furor do homem, é que o hipopótamo simplesmente não faz anedotas a respeito.

Me dá um esbarrão. Pode fingir que foi sem querer, se é o orgulho que te preocupa.

Nunca.

 

Me atira um troço na cabeça. De longe.

Não mesmo.

 

Eu quero um pontapé. Me dá um pontapé.

Se

você

não

ficar

quieta eu lhe

faço um

carinho.

Ahngh!

Eu vou te fazer um carinho.

Não! Isso não! Tudo menos isso!

A A g g r r a a n n d d e e m

AA ggrraannddee mmuullhheerr nnuuaa

Diga-se apenas que ela atravessou o oceano com água pelas canelas. Deitou a cabeça sobre uma cordilheira e com o enorme traseiro branco dizimou dezessete tribos da região central. Grande e nua, os cabelos loiros estendidos por vários quilômetros para o norte, uma das mãos pousadas no litoral, a outra sobre a mata, os pés na zona temperada. Uma das mais antigas civilizações nativas, que já trabalhava em ouro enquanto a Europa andava de quatro, tentou reagir sob uma axila, mas ela se coçou. Lânguida, leitosa, fornida, morna, roliça e com soninho. Ela bocejou, alterando o clima da região por

várias gerações. E dormiu.

A primeira expedição foi liderada por Basculante de Monta, o Aríete de Deus. À frente de oitocentos homens decididos e financiado pela Companhia de Jesus, Basculante escalou o tornozelo esquerdo o mais acessível, pela posição dos pés quando a grande mulher nua adormecera e subiu pela tíbia.

Depois de um mês de viagem, entre ameaçadores pêlos loiros, assolados por aterradoras memórias da infância de amas que sufocavam meninos entre os seios, de megeras que castravam adolescentes com

os dentes, de bruxas e madrastas chegaram ao

joelho sem forças e sem mantimentos. Os Oitocentos da Tíbia, como ficaram conhecidos na história, mataram-se mutuamente, num sangrento suicídio coletivo que terminou com o próprio Basculante o último sobrevivente espetando sua espada, simbolicamente, como uma cruz, na pele da mulher, antes de cortar a própria garganta com uma adaga sarracena, relíquia das Cruzadas. A grande mulher

nua acordou, pensou vagamente em como há mosquitos nos trópicos e dormiu outra vez.

A segunda expedição foi financiada pela Com-

panhia das índias Ocidentais e liderada pelo belga Gross, o Desbravador. Com um punhado de homens escolhidos, Gross decidiu seguir uma veia azul que terminava na mão direita da grande mulher nua, até

a nascente. Sete anos depois, um membro da

segunda expedição foi encontrado entre as pontas dos cabelos da grande mulher nua, nas selvas do norte, faminto, delirando, esfarrapado, e contou a trágica história de Gross e seus mártires do mercantilismo. Metade do grupo morrera na escalada de um seio, levada por uma enxurrada de suor. A outra metade, incluindo o valente Gross, perdera o

rumo e fora tragada por uma narina, desaparecendo para sempre. Só aquele infeliz conseguira escapar pelos cabelos, e durante o resto da sua vida não esqueceria o ruído surdo do sangue latejando sob o escalpo quente e os grossos fios loiros cheios de vida ao seu redor.

Alguns racionalistas perguntaram por que tentar conquistar a grande mulher nua? Ela era pacífica. Às vezes mexia um membro ou tossia levemente, e então havia terremotos, furacões, a morte de milhares, mas não era por gosto. Exatamente, respondiam os homens de ação, atarefados com novas expedições pelos alvos flancos. Ela não faz nada por gosto. Ela não faz nada. E é preciso fazer coisas. Fazer história. Rugir, rugir contra a grande e passiva nudez.

Trovadores suicidas (Dick Farnel, Rosabundo de Parma) subiam com seus alaúdes pelas gigantescas orelhas, e nunca mais eram vistos. Mártires do Romantismo, perdidos nos labirintos sem eco. O grande movimento de Volta ao Ütero do Século XIX levou multidões em peregrinação pelo vale das coxas, para o coração das trevas e a morte certa. Mais recentemente, a notícia de que satélites artificiais haviam detectado a presença de petróleo no umbigo despertou a cobiça das multinacionais, o choque de helicópteros no ar, a luta entre irmãos, o cataclismo nuclear, e uma leve assadura na barriga da grande mulher nua. Etc., etc.

A A t t l l â â n n t t i i d

AAttllâânnttiiddaa

Em

Atlântida

era

assim:

as

ruas

eram

conhecidas pelas suas árvores. E as casas não tinham números, tinham pinturas nas portas. Você morava, por exemplo, na Rua dos Abacateiros, na Casa do Pôr-do-Sol com Javalis.

No Foro, os Sábios se reuniam para dormir depois do almoço. Depois contavam os seus sonhos, que eram transformados em leis. Tudo que os Sábios sonhavam era permitido, o que os Sábios não sonhavam não existia. Um dia, um Sábio sonhou que voava e no mesmo dia foi feita a proclamação: quem quiser, pode voar. Nenhum Sábio jamais sonhou que nadava.

O sistema de governo era um Colegiado de Reis. Havia o Rei dos Burros, o Rei dos Canhotos, o Rei dos Comerciantes de Aveia/o Rei dos Bêbados, o Rei

dos Usurários, todos tinham o seu rei. Mas quem mandava era um General.

As mulheres não tinham direitos e não existia o dinheiro. Trocavam-se produtos por mulheres. Um cântaro de vinho custava dezessete adolescentes. Um boi, três gordas e quatro magras, quem desse quatro gordas recebia duas magras de troco. O Rei dos Usurários tinha as salas da sua casa Rua das Figueiras, Casa das Ninfas com o Bode Azul cheias de mulheres, que ele emprestava a juros. Uma ama-

de-leite rendia quatro moças fornidas e uma anã por lua. Eram comuns as discussões: Duas virgens por um arado? Isso é um roubo!E trocadilhos, como o do invejado ex-dono de uma mulher com olhos como amêndoas (Rua das Acácias, Casa do Vaso de Lírios com Gato) que descrevia assim o seu novo

caramanchão: