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Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

LLP(PNLEM)-Manual v.2.OK
1
MANUAL

6/10/05, 10:47 AM
DO PROFESSOR

1
A Língua Portuguesa no Ensino Médio
Orientação para o professor
A estrutura da obra
“… Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à mar-
gem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e
enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de
nome para mencioná-las e se precisava apontar com o dedo…”
MÁRQUEZ, Gabriel Garcia. Cem anos de solidão.
45. ed. Rio de Janeiro: Record, 1998.

Ao organizar a estrutura da obra que ora propomos, achamos interessante resgatar um aspecto da lingua-
gem que, se bem compreendido, facilitará ao professor demonstrar a seus alunos a importância da compreen-
são dos fenômenos lingüísticos, dos gêneros textuais e das estéticas literárias com que trabalharão ao longo do
ensino médio: por meio da linguagem, construímos nossa relação com o mundo em que nos inserimos.

“Foi Aureliano quem concebeu a fórmula que havia de defendê-los, durante vários meses, das evasões
da memória. Descobriu-a por acaso. […] Um dia, estava procurando a pequena bigorna que utilizava para
laminar os metais, e não se lembrou do seu nome. Seu pai lhe disse: ‘tás’. Aureliano escreveu o nome num
papel que pregou com cola na base da bigorninha: tás. Assim ficou certo de não esquecê-lo no futuro. Não
lhe ocorreu que fosse aquela a primeira manifestação do esquecimento, porque o objeto tinha um nome
difícil de lembrar. Mas, poucos dias depois, descobriu que tinha dificuldade de se lembrar de quase todas as
coisas do laboratório. Então, marcou-as com o nome respectivo, de modo que bastava ler a instrução para

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identificá-las. Quando seu pai lhe comunicou seu pavor por ter-se esquecido até dos fatos mais impressio-
nantes da sua infância, Aureliano lhe explicou o seu método, e José Arcádio Buendía o pôs em prática para
toda a casa e mais tarde o impôs a todo o povoado. Com um pincel cheio de tinta, marcou cada coisa com
o seu nome: mesa, cadeira, relógio, porta, parede, cama, panela. Foi ao curral e marcou os animais e as
plantas: vaca, cabrito, porco, galinha, aipim, taioba, bananeira. Pouco a pouco, estudando as infinitas pos-
sibilidades do esquecimento, percebeu que podia chegar um dia em que se reconhecessem as coisas pelas
suas inscrições, mas não se recordasse a sua utilidade. Então foi mais explícito. O letreiro que pendurou no
cachaço da vaca era uma amostra exemplar da forma pela qual os habitantes de Macondo estavam dispos-
tos a lutar contra o esquecimento: Esta é a vaca, tem-se que ordenhá-la todas as manhãs para que produza
o leite e o leite é preciso ferver para misturá-lo com o café e fazer café com leite. Assim, continuaram
vivendo numa realidade escorregadia, momentaneamente capturada pelas palavras, mas que haveria de
fugir sem remédio quando esquecessem os valores da letra escrita.”
MÁRQUEZ, Gabriel Garcia. Cem anos de solidão.

As palavras memoráveis de Gabriel Garcia Márquez nos auxiliam a compreender como a linguagem, de
várias maneiras, atravessa a nossa existência, conferindo-nos humanidade, permitindo que olhemos para o
nosso passado e, por meio de sua análise, transformemos o nosso presente e determinemos um futuro diferente.
Foi pensando nisso que resolvemos explicitar, no título escolhido para cada uma das partes do livro, o
papel da linguagem na estruturação do mundo. É essa estrutura que passamos a explicitar.
Este livro é composto por três partes distintas:
Parte 1 — Literatura: A arte como representação do mundo
Parte 2 — Língua: Da análise da forma à construção do sentido
Parte 3 — Prática de leitura e produção de textos

Uma prática freqüente nas coleções voltadas para o ensino médio é a de montar capítulos dos quais
façam parte conteúdos de Literatura, Gramática e Redação, estabelecendo para o professor em que ordem
tais conteúdos devem ser abordados em sala de aula.
Achamos ser essa uma organização que compromete a liberdade de escolha do professor, que limita
suas possibilidades de selecionar determinados conteúdos em função de outros que, naquele momento,
estão sendo estudados. Por esse motivo, optamos por propor que, uma vez estabelecidos os conteúdos a
serem desenvolvidos no período de um ano letivo, eles sejam organizados em blocos relativamente fechados
(funcionando quase como “módulos”) e que, se for da vontade do professor, podem ser estudados em dife-
rentes momentos, de acordo com sua conveniência.
Caso o professor sinta-se mais à vontade com um material que organize, mês a mês, os conteúdos a
serem trabalhados, montamos um quadro em que relacionamos, para cada um dos bimestres do ano letivo,
os capítulos e seções a serem desenvolvidos. Essa relação deve ser entendida, naturalmente, como uma
sugestão que fazemos para facilitar o planejamento do professor. Pode, e deve, ser submetida a ajustes que
a tornem mais adequada à realidade vivida em sala de aula (número de aulas semanais de Língua Portugue-
sa, divisão de “frentes” com outros colegas etc.).

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Literatura: A arte como Língua: Da análise da forma Prática de leitura
representação do mundo à construção do sentido e produção de textos

Capítulo 1: Capítulo 5: Capítulo 9:


Romantismo Classes de palavras (I) A exposição
• Da revolução política às transfor- • Substantivo • Um olhar objetivo para o mundo
mações estéticas • O texto instrucional
1º MÊS
• O Romantismo português (*) • A apresentação de informações
1º BIMESTRE

• A descrição
• A definição
• A enumeração

• O Romantismo português (*) • Adjetivo • A comparação


• Do romance histórico ao exagero • Artigo • O contraste
2º MÊS
sentimentalista • Numeral • Por que dissertar?
• A terceira geração romântica • Interjeição

Capítulo 2: Capítulo 6: Capítulo 10:


O romantismo no Brasil Classes de palavras (II) A elaboração da dissertação
1º MÊS • A corte portuguesa chega ao Brasil • Pronome • Projeto de texto: um planejamento
• A temática do amor e da morte orientado
2º BIMESTRE

• Da teoria à prática

• A riqueza do café e a exploração • Colocação pronominal • Encontrando o caminho por meio


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dos escravos • Preposição de perguntas


2º MÊS • Das páginas dos livros nasce um • Conjunção
país
• O romance urbano

Capítulo 3: Capítulo 7: • O difícil começo


Realismo e Naturalismo Classes de palavras (III) • O encaminhamento da conclusão
1º MÊS • Capitalismo e pobreza: um novo • Verbo
cenário social
• O Realismo em Portugal
3º BIMESTRE

• A obra de Machado de Assis • Tempos compostos Capítulo 11:


• Os romances românticos • Advérbio Argumentação e persuasão
• Romances realistas: fruto da • A argumentação
melancolia e do sarcasmo
2º MÊS
• Os contos: o exercício crítico em
narrativas curtas
• Naturalismo: princípios gerais
• O Naturalismo no Brasil

Capítulo 4: Capítulo 8: • Qualquer argumento é válido?


Parnasianismo e Simbolismo Sintaxe: o estudo das relações • Argumentação falaciosa
• A estética parnasiana entre as palavras • Juízo de fato e juízo de valor
1º MÊS
4º BIMESTRE

• O Parnasianismo brasileiro • As estruturas da língua


• A estrutura sintática do período
simples
• Termos essenciais

• A estética simbolista • Termos integrantes • O contexto da persuasão


2º MÊS • O Simbolismo em Portugal • O que são termos acessórios?
• O Simbolismo no Brasil

(*) Indica que o desenvolvimento deste conteúdo continua no 2o mês do bimestre.

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Linha pedagógica e procedimentos metodológicos

Passaremos, agora, a explicitar a perspectiva pedagógica que norteou a elaboração deste livro, consideradas cada uma de suas partes: o
trabalho com textos literários, a análise das estruturas da língua e a prática de leitura e produção de textos.

Literatura: A arte como representação do mundo médio. Por outro lado, os alunos devem tomar conhecimento de tais
conteúdos de forma a atribuir-lhes um significado prático. Assim,
Entendemos que o estudo da Literatura não pode resumir-se à apre- para que as aulas façam sentido tanto para os alunos como para
sentação de uma lista de autores, obras e datas. O aluno precisa perce- seus professores, é necessário que as discussões gramaticais sejam
ber que através dos textos literários ele tem acesso a uma manifestação feitas tomando sempre por base um quadro teórico no âmbito do
cultural insubstituível, porque, ao mesmo tempo em que os textos lhe qual a linguagem seja entendida como uma atividade que modifica
dão acesso a uma visão de uma época historicamente determinada — e constitui os interlocutores, e que é por eles constantemente mo-
aquela do momento em que foram escritos —, constituem também uma dificada e manipulada. Somente assim, estudando-se a linguagem
manifestação particularizada, porque traduzem a visão de seu autor. em relação ao uso efetivo que dela fazem os falantes, podem adqui-
Esse contato com a experiência humana ao longo dos séculos é rir sentido as discussões sobre a língua, em todos os níveis de aná-
insubstituível. lise, e a metalinguagem necessária para a condução dessas
Por este motivo, procuramos, na introdução das diferentes tendên- discussões.
cias estéticas e escolas literárias, apresentar para o aluno o contexto Em termos pedagógicos, o que se propõe, em suma, é que a Gra-
histórico a elas subjacente. No trabalho com o texto literário, tivemos mática seja ensinada de tal forma que os alunos possam perceber que a
o cuidado de abordá-lo a partir de duas perspectivas: (1) as impressões linguagem é parte integrante de suas vidas, dentro e sobretudo fora da
provocadas por sua leitura e (2) a análise dos sentidos construídos pela escola; que ela é instrumento indispensável, tanto para a aquisição de
relação entre seus diversos componentes (forma, conteúdo, contexto conhecimento em quaisquer áreas do saber, como para a participação
etc.). Preocupamo-nos, assim, com o reconhecimento de aspectos re- dos indivíduos nos mais diversos contextos sociais de interlocução. E

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ferentes à sua construção e com a identificação das características que os estudos gramaticais devem ser vistos, nesse contexto, como instru-
assumem os elementos que o constituem. A função desempenhada por mento que facilita a obtenção de um conhecimento sobre a linguagem
tais elementos é objeto de discussão e análise, sempre que possível. e seus usos em situações reais, e não como objetivo final das aulas,
Acreditamos que, dessa maneira, o aluno terá melhores condições que não se deverão transformar, em hipótese alguma, na apresentação
de fruir alguns dos textos literários mais representativos, de formar interminável e maçante de definições, termos “estranhos” e listas a
uma idéia adequada do que foram as escolas literárias e de como cada serem memorizadas.
uma delas se caracterizou esteticamente. Em termos metodológicos, a orientação geral que subjaz à obra
Em termos pedagógicos, o que se pretende, portanto, é manter no tocante aos estudos gramaticais é a de, sempre que possível,
presente a relação entre o texto e seu contexto (histórico, social, eco- relacionar os tópicos tematizados em cada volume a situações efeti-
nômico e cultural), para que o estudo da Literatura adquira um signifi- vas de uso da linguagem. Para isso, lançamos mão de textos os mais
cado formativo para os alunos, uma vez que, por meio desse estudo, variados, representativos da linguagem da propaganda, das tiras hu-
tem-se a oportunidade de refletir sobre a trajetória humana e de discu- morísticas, de matérias jornalísticas, enfim, de contextos que, da-
tir por que determinados valores éticos, sociais e até mesmo estéticos das as suas especificidades, tornam mais salientes alguns aspectos
foram associados à produção literária de um determinado período. temáticos abordados, o que resulta em uma exemplificação mais
Em termos metodológicos, optou-se por introduzir o texto literá- eficaz. Espera-se, portanto, que ao preparar suas aulas, os profes-
rio (reprodução integral ou de excertos significativos) de duas manei- sores sejam capazes de contribuir com exemplos semelhantes, o que
ras diferentes no material: acompanhado de comentários analíticos que tornará a situação de ensino da Língua Portuguesa mais significati-
podem orientar a leitura/discussão a ser feita em sala de aula, e sem va para os alunos.
comentários, quando a relação entre o texto e a característica/postura
que ele pretende ilustrar é mais direta. Espera-se que, nesse segundo
caso, o aluno seja desafiado a explicitar qual é a relação entre o texto Prática de leitura e produção de textos
transcrito e a discussão teórica que o precedeu. Quanto à prática de leitura e produção de textos, nossos pressupos-
Pressupõe-se, assim, que é o envolvimento do aluno com os textos tos pedagógicos baseiam-se na crença de que ela também não se deve
que vai permitir que acompanhe as discussões realizadas. resumir a uma prática de produção de textos que se esgote nela mesma.
O professor irá constatar, na análise mais detalhada deste livro, Com isso quer-se dizer que, para que os alunos efetivamente desenvol-
que procuramos sempre trazer, na ilustração dos capítulos, a reprodu- vam uma competência específica em leitura e produção de textos narra-
ção de obras de arte que contribuam para o reconhecimento das carac-
tivos, expositivos e persuasivos, não bastam os exercícios práticos e as
terísticas estéticas predominantes em um determinado período. Além
correções holísticas e por vezes impressionísticas dos textos que eles
de contribuírem para a expansão do universo cultural dos alunos, essas
escrevem em casa ou em sala de aula.
obras permitem que se desenvolva uma perspectiva mais abrangente
A leitura deve ser vista como uma habilidade indispensável à
sobre as próprias características estéticas associadas às diferentes es-
vida social. Essa habilidade pode (e deve!) ser construída com base
colas literárias. Por meio de sua análise, o professor poderá consolidar
em práticas específicas. Nesse sentido, os capítulos trarão não ape-
melhor a noção de que, em função da constituição de uma nova manei-
nas orientações específicas sobre procedimentos de leitura a serem
ra de ver o mundo, a produção artística daquele período se modifica e
adotados pelos alunos, mas inúmeras atividades em que, por meio de
assume o desafio de representar, por meio de suas estruturas, essa nova
uma série de perguntas, eles serão levados a observar aspectos estru-
perspectiva. Conclui-se, portanto, que o diálogo entre as diversas ma-
turais dos textos, relacionar suas partes e, desse modo, construir, na
nifestações artísticas é constante.
prática, a habilidade de ler, compreender e analisar textos de diferen-
Seria interessante discutir com os alunos, sempre que possível,
como diferentes formas de arte (pintura, música, escultura, literatura, tes gêneros.
cinema etc.) encontram maneiras de representar o mundo, traduzindo A escrita também merecerá atenção especial. Entendida como
os ideais estéticos do momento em que foram produzidas. processo por meio do qual o aluno elabora significados e os organiza
em estruturas textuais definidas, a escrita surge como desafio a ser
enfrentado por meio de diferentes estratégias.
Língua: Da análise da forma à construção do sentido Em termos teóricos, acreditamos que um trabalho inovador com
Nossa experiência de sala de aula nos levou a constatar que o a linguagem deve partir de sua dimensão discursiva. Para explicitar
estudo de Gramática não se pode limitar a uma apresentação siste- melhor o que entendemos por dimensão discursiva, julgamos inte-
mática dos conteúdos previstos nos programas das séries do ensino ressante partir da seguinte reflexão feita por Bakhtin:

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Assim, sem negar a importância da criatividade na vida das pessoas,
“Todas as esferas da atividade humana, por mais variadas que
sejam, estão relacionadas com a utilização da língua. Não é de surpre- não se parte do princípio de que basta “ser criativo” para escrever bem.
ender que o caráter e os modos dessa utilização sejam tão variados Pelo contrário, desenvolver uma competência específica em escrita e lei-
como as próprias esferas da atividade humana [...]. O enunciado refle- tura implica conduzir atividades específicas voltadas para aspectos tam-
te as condições específicas e as finalidades de cada uma dessas esfe- bém específicos da produção textual, que merecem ser tematizados de
ras, não só por seu conteúdo temático e por seu estilo verbal, ou seja, maneira organizada ao longo das três séries do ensino médio.
pela seleção operada nos recursos da língua –– recursos lexicais,
fraseológicos e gramaticais ––, mas também, e sobretudo, por sua
construção gramatical. Esses três elementos (conteúdo temático, esti-
lo e construção composicional) fundem-se indissoluvelmente no todo Volume 2
do enunciado, e todos eles são marcados pela especificidade de uma
esfera de comunicação. Qualquer enunciado considerado isoladamente
é, claro, individual, mas cada esfera de utilização da língua elabora
seus tipos relativamente estáveis de enunciados, sendo isso que
A organização dos capítulos do livro
denominamos gêneros do discurso.”
Literatura: A arte como representação do mundo
BAKHTIN, Mikhail. Os gêneros do discurso. In: Estética da
criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1992. Ao organizar os conteúdos de Literatura, procuramos estabele-
cer um eixo em torno do qual se agrupam os tópicos de modo a per-
Adotar a dimensão discursiva da linguagem como eixo desta obra mitir que o aluno perceba, à medida que os capítulos vão sendo
não significará, porém, tentar estabelecer uma tipologia exaustiva trabalhados, como se deu a evolução das estéticas e estilos literários.
dos inúmeros gêneros identificáveis nos textos orais e escritos pre- É preciso que o aluno compreenda que o estudo da Literatura
sentes em nossa sociedade. Essa tentativa, além de fadada ao fracas- pressupõe a leitura de diferentes textos escritos por diferentes auto-
so, tende a esvaziar o conceito de gênero discursivo. res em diferentes épocas. E que ele deve, ainda, procurar compreen-
Como explica Bakhtin, os gêneros definem-se como “tipos rela- der a relação existente entre uma determinada obra e o contexto
tivamente estáveis”, portanto reconhecíveis pelo usuário da língua. histórico, econômico, social e cultural em que foi produzida. Vistos
Outro aspecto que dá identidade aos gêneros é o fato de serem soci- dessa maneira, os padrões estéticos tornam-se fruto de uma socieda-
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almente constituídos, o que pressupõe a interação por meio da lin- de em permanente mudança, razão pela qual também se transformam,
guagem (dimensão discursiva). dando origem a novos períodos literários.
A relativa estabilidade dos gêneros do discurso não os torna imu- Neste volume, o estudo da Literatura será dedicado ao século
nes à passagem do tempo. Por essa razão, a tentativa de elaborar uma XIX. Nesse momento, as revoluções burguesas mudam o perfil da
tipologia exaustiva de gêneros está fadada ao fracasso. Há, hoje, gê- sociedade européia, por meio de transformações econômicas e polí-
neros que emergiram em contextos interacionais específicos (os blogs, ticas. A chegada da burguesia ao poder faz com que seja necessária a
da Internet, por exemplo) e que não existiam há 5 anos. Outros que, construção de um novo referencial artístico, que dê representação ao
com o passar do tempo e o surgimento de novas tecnologias, foram novo personagem que passa a protagonizar a História: o povo.
transformados (um exemplo evidente é a retomada das cartas pesso- Ao longo do século XIX, o que se vê é uma busca incessante de
ais na forma de mensagens eletrônicas). parâmetros capazes de auxiliar o ser humano a compreender qual é o
Como, então, trabalhar a partir de uma perspectiva discursiva, seu lugar na nova ordem da sociedade. O estudo da produção literá-
sem buscar a particularização dos inúmeros gêneros textuais? Acre- ria, que compreende o Romantismo, o Realismo, o Naturalismo, o
ditamos que a saída esteja na reflexão sobre os tipos de textos (uni- Parnasianismo e o Simbolismo, irá refletir os diferentes caminhos
dades composicionais) estruturantes dos diferentes gêneros. Esses trilhados nessa busca.
tipos de texto estão presentes, em maior ou menor grau, nos diferen-
tes gêneros discursivos identificáveis nos textos orais e escritos.
Dentre as unidades composicionais identif icadas por Bakhtin,
Língua: Da análise da forma à construção do sentido
priorizaremos o estudo das seguintes: Ao organizar os conteúdos gramaticais, procuramos estabelecer um
a) Narração eixo em torno do qual se agrupam os tópicos de modo a permitir que o
b) Exposição aluno perceba, à medida que os capítulos e seções vão sendo trabalha-
c) Argumentação dos, como se dá o uso da linguagem no processo de construção da co-
Optamos por considerar a descrição e a injunção –– também uni- municação (oral e escrita).
dades composicionais, segundo Bakhtin –– como constitutivas da nar- Começamos pelo estudo do sintagma nominal, com a apresentação
ração, da exposição e da argumentação. O falante precisa reconhecer das características estruturais do substantivo e das classes de palavra a
e dominar cada um desses tipos de texto porque deles deverá se utili- ele associadas. Essa parte está compreendida nos capítulos 5 e 6. O estu-
zar nas diferentes situações de interlocução: do do sintagma verbal, feito no capítulo 7, conclui o trabalho com as
a) Para ler e compreender o trabalho do autor com os tipos de classes de palavras.
texto de modo a alcançar um objetivo específico; Encerrado o trabalho com as classes de palavras e seu papel na cons-
b) Para deles se valer, no momento de produção de seus textos, trução dos sintagmas, passamos ao estudo da sintaxe do período sim-
de modo a alcançar um objetivo específico. ples, no capítulo 8. É importante que o aluno compreenda ser este mais
Nessa perspectiva, a situação de interlocução é, realmente, o pon- um nível de avaliação da relação entre as palavras. Por esse motivo, o
to de encontro do autor de um texto com o seu leitor/ouvinte. capítulo traz uma seção em que se discutem as estruturas da Língua
É necessário discutir com os alunos, em aulas especificamente Portuguesa, procurando explicitar as relações que entre elas se estabele-
voltadas para este fim, os tópicos relevantes para a compreensão das cem e a funcionalidade de tais relações.
características formais e de conteúdo referentes aos tipos de texto,
de forma que eles possam levar em conta esse conhecimento no mo-
Prática de leitura e produção de textos
mento da leitura e da produção de seus próprios textos.
É necessário, ainda, que a correção dos textos se faça com base Neste volume, o trabalho com leitura e produção de textos irá focalizar
em parâmetros objetivos, de conhecimento também dos alunos, de aspectos específicos da exposição e da argumentação. No capítulo 9, va-
modo a possibilitar a identificação dos problemas que estão a exigir mos tratar dos textos expositivos, procurando levar o aluno a refletir sobre o
maior atenção, tanto do professor, em suas aulas, como dos alunos, significado dos procedimentos analíticos que emprega no momento de cons-
na reelaboração dos seus textos (esses critérios serão discutidos na truir a reflexão que embasará o desenvolvimento de tais textos. São apresen-
seção Os critérios de correção: uma proposta específica). tados os diversos mecanismos de exposição (descrição, definição,
Metodologicamente, a orientação geral seguida ao longo deste enumeração, comparação, contraste) como um pré-requisito para a introdu-
material, no tocante à produção de textos, é a de que escrever bem ção da dissertação, na qual desempenharão importante papel.
implica trabalhar, investir no próprio texto, que deverá ser produzido No capítulo 10, abordamos especificamente a dissertação. Sua
tendo em vista leitores e contextos específicos. estrutura básica será apresentada e analisada, para que o aluno, no

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momento de produção de texto (e também no de leitura), reconheça a Na apresentação da produção literária da primeira geração ro-
função a ser desempenhada pelas partes constitutivas desse gênero mântica portuguesa, o destaque será dado para a recuperação do pas-
textual. Preocupamo-nos, ainda, em sugerir procedimentos que pos- sado como referência para a construção de uma identidade nacional.
sam ser adotados no momento de análise de uma determinada ques- Além disso, é fundamental que o aluno compreenda a mudança na
tão, para que o aluno compreenda como pode construir uma visão da natureza (decorativa, para os árcades, e funcional, para os
perspectiva analítica a partir da qual deverá escolher argumentos para românticos). A idealização da figura feminina e do sentimento amo-
sustentar o ponto de vista que pretende defender. roso será exemplificada por meio de um poema de Almeida Garrett,
Para complementar o trabalho com a construção de uma argumen- o introdutor da estética romântica em Portugal. As dicotomias amor
tação consistente, o capítulo 11 introduz as noções de argumentação x desejo e mulher angelical x mulher demoníaca precisam ficar
e persuasão. São apresentados diferentes recursos argumentativos e bem claras para os alunos, porque serão retomadas na produção de
discutidos procedimentos que comprometem o desenvolvimento de um diversos autores do período.
raciocínio lógico (condição necessária para a identificação de bons Veremos, na seqüência, as transformações sofridas pela estética
argumentos): a argumentação falaciosa e o uso de juízos de valor romântica na segunda geração portuguesa. Será discutida a noção de
preconceituosos. ultra-romantismo e o exagero sentimentalista que marcam a produ-
ção dos autores da época. Fala-se, ainda, da terceira geração român-
tica como um momento de preparação para a estética realista, uma
Sugestões para o desenvolvimento dos capítulos vez que, na obra de autores como Júlio Dinis, podem ser observados
e trabalho com as atividades neles propostas traços menos idealizados, principalmente no tratamento da realidade
rural portuguesa.
Literatura: A arte como representação do mundo As Atividades propostas retomam o trabalho com as característi-
cas apontadas que, agora, devem ser reconhecidas a partir da leitura
Considerando os objetivos a serem alcançados com o desenvol- de um fragmento do romance Eurico, o presbítero e da análise de um
vimento dos capítulos (explicitados anteriormente) gostaríamos, ago- poema de Almeida Garrett (“Este inferno de amar”). Trouxe-se, tam-
ra, de fazer algumas considerações gerais sobre o desenvolvimento bém, para reflexão do aluno, um excerto de texto de Camilo Castelo
do conteúdo teórico abordado em cada capítulo, bem como apresen-

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Branco em que o autor ridiculariza a postura ultra-romântica por meio
tar algumas sugestões sobre as atividades adicionais a serem realiza- de uma personagem, Silvestre Silva, que procura reproduzir artifici-
das com os alunos. almente as características de um jovem que padecesse das dores do
Este volume encontra-se dividido em onze capítulos, cada um amor não correspondido.
dos quais segmentado em seções. Pontuando a divisão das seções Nos Exercícios complementares achamos por bem pedir, mais
(sempre que isso se mostrou necessário para o andamento do conteú- uma vez, que o aluno analise comparativamente duas imagens, uma
do), há uma seqüência de exercícios que recebeu o nome de Ativida- romântica e uma renascentista. O objetivo é levá-lo a reconhecer,
des. Essa parte procura aplicar, de forma mais imediata, os conceitos também nas obras de arte, as características marcantes da estética
apresentados na teoria das seções que a precedem. No final de cada romântica, por oposição ao modelo clássico de beleza. Há, também,
capítulo, há mais um conjunto de atividades, intitulado Exercícios um trecho do romance As pupilas do senhor reitor, cuja leitura analí-
complementares. Nessa parte, procuramos permitir que o aluno: 1) tica aborda, no texto literário, a mesma mudança de perspectiva esté-
retome conceitos trabalhados; 2) seja desafiado a ler novos textos tica trabalhada pelo exercício com as imagens. São propostos, além
característicos da escola estudada no momento; e 3) entre em conta- disso, alguns outros exercícios de leitura de textos representativos do
to com questões propostas em exames vestibulares. Em geral, os exer- período.
cícios presentes nessa seção apresentam um grau de dificuldade maior
do que aqueles propostos nas Atividades. Capítulo 2 – O Romantismo no Brasil
Capítulo 1 – Romantismo A apresentação do Romantismo no Brasil deve assumir, como
ponto de partida, a discussão da razão de renomados críticos, como o
O ponto de partida para a contextualização do momento de nas- professor Antonio Candido, afirmarem que apenas com o advento do
cimento da estética romântica foi, naturalmente, a apresentação das Romantismo podemos falar de uma Literatura Brasileira, porque so-
referências históricas e culturais necessárias para que o aluno possa mente neste momento vamos encontrar presentes todas as condições
compreender a importância do Romantismo como movimento estéti- para a existência de uma literatura nacional (autores — obras — lei-
co. Merece grande atenção a criação de uma estética burguesa para tores). Compreendida a importância do Romantismo para a literatura
substituir os modelos aristocráticos em voga até então. nacional, pode-se passar à apresentação das características que mar-
Na abertura do capítulo, trouxemos duas obras de arte bastante cam a produção de cada uma das três gerações românticas no Brasil.
representativas da mudança de perspectiva estética que acontecerá Em conformidade com o momento histórico, o fervor naciona-
neste momento. Na comparação entre os quadros de Canaletto, artis- lista será o traço mais importante das obras dos nossos primeiros
ta neoclássico, e Turner, mestre romântico, o professor pode auxiliar românticos. O aluno precisa perceber o significado da opção feita
o aluno a compreender como a visão neoclássica, fortemente marcada pelos poetas românticos de apresentar, em suas obras, um país ide-
pela razão, será substituída pelo arrebatamento das paixões românti- alizado, cujas maravilhas naturais eram exaltadas. Na tentativa de
cas. O subjetivismo emerge e indefine contornos, tornando menos constituir uma imagem de Brasil independente, o índio acaba sen-
precisa a representação romântica de mundo. Outros quadros de do escolhido como legítimo representante da raça original, habi-
Turner podem ser apresentados para que essa evolução da perspecti- tante da América antes da chegada dos colonizadores portugueses.
va subjetiva torne-se mais visível para o aluno. Deve-se destacar o caráter idealizado atribuído ao índio, que apare-
Feita a contextualização necessária, são apresentadas as princi- ce nos poemas como se fosse uma espécie de “cavaleiro andante”
pais características do Romantismo literário. O fundamental é que o tupiniquim.
aluno perceba a origem e a explicação de cada uma das característi- Como os alunos já conhecem a estética ultra-romântica (vista
cas, para que o estudo dos estilos de época não seja sinônimo da anteriormente), o interessante é chamar sua atenção para a importân-
elaboração de listas de autores, obras e características. Procuramos, cia que a associação entre amor e morte assumiu para os autores bra-
também nessa passagem, reproduzir obras de arte que ilustrem um sileiros da segunda geração romântica, com destaque para a obra de
outro desdobramento da característica romântica explicada. Isso, por Álvares de Azevedo.
exemplo, é evidente no quadro O pesadelo, de Henry Fuseli (página A terceira geração romântica terá, como marca registrada, o tra-
11), em que o escapismo romântico para o mundo dos sonhos assu- tamento de alguns temas de ordem social, embora a abordagem feita
me uma forma mais “concreta” por meio da recriação dos seres que ainda seja caracterizada pela idealização. A apresentação da obra de
atormentam, em pesadelo, uma donzela adormecida. Castro Alves permitirá que se destaque, em comparação com o exa-
Concluída a apresentação geral das características românticas, é gero ultra-romântico, um tratamento mais próximo da realidade do
hora de conhecer os desdobramentos que essa escola teve em Portugal. relacionamento amoroso. No campo social, questões relevantes como

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a abolição da escravatura passam a ser alvo de discussão e vão, aos tas românticos, Antônio Feliciano de Castilho, e um jovem idealista
poucos, encontrando espaço nos textos literários. disposto a impor novos rumos para a cultura portuguesa: Antero de
Resta, ainda, abordar os aspectos essenciais do romance românti- Quental. A polêmica, conhecida como Questão Coimbrã, ou Bom-
co. É importante destacar o papel desempenhado pelos primeiros ro- Senso e Bom-Gosto, consistiu da troca de provocações e acusações
mânticos a escrever romances, como Joaquim Manuel de Macedo, que por meio de textos tornados célebres. Transcrevemos, a seguir, as
conseguiram, com suas obras, conquistar um público leitor “fiel” en- principais partes do texto de Antero de Quental, para que se possa
tre os brasileiros e, principalmente, brasileiras. Uma interessante su- compreender melhor qual era a razão para a profunda divergência
gestão é traçar um paralelo entre a produção poética dos primeiros estética entre ele e Castilho.
românticos e os romances indianistas. Talvez possa até ser sugerida a
leitura integral de uma obra (O guarani, por exemplo). A partir deste Bom-Senso e Bom-Gosto *
paralelo o aluno terá condições de perceber que a mesma idealização
Carta ao excellentissimo senhor Antonio Feliciano de Castilho por
do índio como legítimo representante da raça brasileira vista na poesia
Anthero de Quental
ocorre também na prosa. Nesse sentido, o contato com os textos é fun-
damental. “Ex.mo Senhor:
Dando continuidade ao trabalho com o romance indianista, deve- Acabo de ler um escrito de V. Ex.a, onde, a propósito de faltas de
bom senso e de bom gosto, se fala com áspera censura da chamada
se partir para a caracterização do desenvolvimento do romance urbano
escola literária de Coimbra, e entre dois nomes ilustres se cita o meu,
que, em alguns casos, assumiu a função de realizar uma espécie de
quase desconhecido e sobretudo desambicioso.
crônica dos costumes observados na vida na corte. Merece destaque a Esta minha obscuridade faz com que a parte de censura que
apresentação do projeto literário desenvolvido por José de Alencar, me cabe seja sobremaneira diminuta; enquanto que, por outro lado,
nosso maior romancista romântico. a minha despreocupação de fama literária, os meus hábitos de es-
As Atividades que permeiam as seções deste capítulo trazem uma pírito e o meu modo de vida, me tornam essa mesma pequena par-
variada gama de textos para a análise do aluno. Começa-se com a te que me resta tão indiferente, que é como que se a nada a
transcrição de parte do prólogo de Gonçalves Dias para seu livro de reduzíssemos.
poesias, Primeiros cantos. Espera-se que, por meio da leitura do tex- Estas circunstâncias pareceriam suficiente para me imporem um
silêncio, ou modesto ou desdenhoso. Não o são, todavia. Eu tenho
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to, o aluno compreenda quão profunda era a crença do artista român-


para falar dois fortes motivos. Um é a liberdade absoluta que a minha
tico em alguns princípios (subjetividade, liberdade criativa, expressão
posição independentíssima de homem sem pretensões literárias me
sincera de sentimento etc.). Há, além disso, um poema de Álvares de dá para julgar desassombradamente, com justiça, com frieza, com
Azevedo a partir do qual devem ser identificadas as principais carac- boa fé. Como não pretendo lugar algum, mesmo ínfimo, na brilhante
terísticas da poesia da segunda geração romântica. A poesia de Cas- falange das reputações contemporâneas, é por isso que, estando de
tro Alves aparece tematizada em exercícios que buscam levar o aluno fora, posso como ninguém avaliar a figura, a destreza e o garbo ain-
a reconhecer importantes marcas da poesia condoreira. Quanto ao da dos mais luzidos chefes do glorioso esquadrão. Posso também
romance, excertos de O guarani e Senhora, além de ilustrarem a falar livremente. E não é esta uma pequena superioridade neste tem-
maestria de José de Alencar, permitem que se desenvolvam ativida- po de conveniências, de precauções, de reticências — ou, digamos a
coisa pelo seu nome, de hipocrisia e falsidade. Livre das vaidades,
des de identificação das características da prosa indianista e do ro-
das ambições, das misérias duma posição, que não pretendo, posso
mance urbano.
falar nas misérias, nas ambições, nas vaidades desse mundo tão
Nos Exercícios complementares, merece atenção a leitura do po- estranho para mim, atravessando por meio delas e saindo puro, lim-
ema “Meu anjo”, de Álvares de Azevedo, que permite resgatar a opo- po e inocente.
sição, tão cara aos românticos, entre amor real e amor idealizado. A este primeiro motivo, que é um direito, uma faculdade só, acres-
Além disso, a comparação entre a litografia de Rugendas (Negros no ce um outro, e mais grave e mais obrigatório, porque é um dever,
porão do navio) e o quadro de Lasar Segall (Navio de emigrantes) uma necessidade moral. É esta força desconhecida que nos leva
pode dar início a uma importante discussão sobre as formas de ex- muitas vezes, ainda contra a vontade, ainda contra o gosto, ainda
ploração do trabalho nos séculos XIX e XX. Uma aproximação entre contra o interesse, a erguer a voz pelo que julgamos a verdade, a
erguer a mão pelo que acreditamos a justiça. É ela que me manda
as duas imagens e o poema de Castro Alves, “Navio negreiro”, pode
falar. Não que a justiça e a verdade se ofendessem com V. Ex.a ou
ser uma interessante estratégia para trabalhar as formas de diferentes
com as suas apreciações. Verdade e justiça estão tão altas, que não
linguagens artísticas abordarem um mesmo tema. têm olhos com que vejam as pequenas coisas e os pequenos ho-
mens das ínfimas questiúnculas literárias dum ignorado canto de ter-
Capítulo 3 – Realismo e Naturalismo ra, a que ainda se chama Portugal.
Não é isso o que as ofende. Mas as ideias que estão por detrás
Como este capítulo trata do Realismo (e de seus desdobramen-
dos homens; o mal profundo que as coisas apenas miseráveis re-
tos em Portugal e no Brasil) e do Naturalismo, faremos uma separa-
presentam; uma grande doença moral acusada por uma pequenez
ção nas sugestões, para permitir que o professor localize mais intelectual; as desgraças, tanto para reflexões lamentosas, desta
rapidamente as passagens de seu interesse. terra, reveladas pelas misérias, tão merecedoras de desprezo, dos
Na abertura deste capítulo, procuramos demonstrar quais fo- que cuidam dominá-la; isso é que aflige excessivamente a razão e
ram as causas históricas para o surgimento da estética realista, o sentimento, o que prende o olhar ainda o mais desdenhoso a es-
vinculando-a a um momento de importantes transformações tecno- tas baças intrigas; isso é que levanta esta questão do raso das per-
lógicas e sociais por que passou a Europa no século XIX. É essen- sonalidades para a elevar até à altura duma questão de princípios,
cial permitir que o aluno compreenda as características literárias e que dá às ridículas chufas, que entre si trocam uns tristes litera-
tos, todo o valor duma discussão de filosofia e de história. […]
definidoras do Realismo como resultado da construção de uma nova
As grandes, as belas, as boas coisas só se fazem quando se é
visão de mundo que faz com que o foco das atenções artísticas saia
bom, belo e grande. Mas a condição da grandeza, da beleza, da
do indivíduo — marca da estética romântica confessional — para a bondade, a primeira e indispensável condição, não é o talento, nem
sociedade. a ciência, nem a experiência: é a elevação moral, a virtude da alti-
A transcrição de um excerto do romance Madame Bovary, de vez interior, a independência da alma e a dignidade do pensamento
Gustave Flaubert, nessa parte inicial, permite não apenas que sejam e do carácter. Nem aos mestres, aos que a maioria boçal aponta
levantadas as origens do Realismo literário, mas também que se iden- como ilustres, nem à opinião, à crítica sem ciência nem consciência
tifiquem alguns “motivos” futuramente revisitados por escritores de das turbas, do maior número, deve pedir conselhos e aprovação,
língua portuguesa, como é o caso de Eça de Queirós com a sua per- mas só ao seu entendimento, à sua meditação, às suas crenças.
Nesta escola do trabalho, da dignidade, das altas convicções, se
sonagem Luísa, cujos devaneios românticos foram evidentemente ins-
formam os homens em cujos peitos a humanidade encontra sempre
pirados pela Emma Bovary de Flaubert.
um vasto lago onde farte a sede de verdade, de consolações, de
ensinos para a inteligência e confortos para o coração. […]
O Realismo português Não é traduzindo os velhos poetas sensualistas da Grécia e
O início da estética realista em Portugal foi associado a uma im- Roma; requentando fábulas insossas diluídas em milhares de ver-
portante polêmica literária travada entre um dos mais respeitados poe-

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sos sensabores; não é com idílios grotescos sem expressão nem gem como Shakespeare, nem um mau poeta como Victor Hugo.
originalidade, com alusões mitológicas que já faziam bocejar nos- Não é Dante, nem Shakespeare, nem Hugo — mas é amigo do Sr.
sos avós; com frases e sentimentos postiços de académico e retórico; Viale, que fala latim como Mévio e Bávio.
com visualidades infantis e puerilidades vãs; com prosas imitadas Mas, Ex.mo Sr., será possível viver sem ideias? Esta é que é a
das algaravias místicas de frades estonteados; com banalidades; grande questão. Em Lisboa, no curso de letras, na academia, no
com ninharias; não é, sobretudo, lisonjeando o mau gosto e as pés- conselho superior, no grémio, nos saraus de V. Ex.ª, dizem-me que
simas ideias das maiorias, indo atrás delas, tomando por guia a sim, e que é mesmo uma condição para viver bem. Fora de Lisboa,
ignorância e a vulgaridade, que se hão-de produzir as ideias, as isto é, no resto do mundo, em Paris, Berlim, Londres, Turim,
ciências, as crenças, os sentimentos de que a humanidade contem- Goettingue, New York, Boston, países mais desfavorecidos da sor-
porânea precisa para se reformar como uma fogueira a que a lenha te, na velha Grécia também e mesmo na Roma antiga, é que nunca
vai faltando. puderam passar sem essas magníficas inutilidades. Elas o muito
Mas fora de tudo isto, destas necedades tradicionais, é o nevo- que têm feito é servirem de entretenimento aos visionários como
eiro, é o metafísico, e o imaginário — diz V. Ex.a. Cristo (um metafísico bem nebuloso), como Sócrates, como Çakia-
Todavia, quem pensa e sabe hoje na Europa não é Portugal, Mouni, como Maomé, como Confúcio e outros sujeitos de nenhuma
não é Lisboa, cuido eu: é Paris, é Londres, é Berlim. Não é a nossa consideração social, que se entretinham fazendo sistemas com elas,
divertida Academia das Ciências que resolve, decompõe, classifica e com os sistemas religiões, e com as religiões povos, e com os
e explica o mundo dos factos e das ideias. É o Instituto de França, é povos civilizações, e com as civilizações códigos, leis, sentimentos,
a Academia Científica de Berlim, são as escolas de Filosofia, de amores, paixões, crenças, a alma enfim da humanidade, coisa que
História, de Matemática, de Física, de Biologia, de todas as ciên- se não vê nem rende, e é também inútil e incompreensível. Eis aí o
cias e de todas as artes, em França, em Inglaterra, em Alemanha. mais a que as ideias têm chegado. Creio que pouco mais ou nada
Pois bem: a Alemanha, a Inglaterra, a França, comprazem-se no mais têm feito do que isto. […]
nevoeiro, são incompreensíveis e ridículas, são metafísicas tam- Paro aqui, Ex.mo Senhor. Muito tinha eu ainda que dizer: mas
bém. As três grandes nações pensantes são risíveis diante da críti- temo, no ardor do discurso, faltar ao respeito a V. Ex. a, aos seus
ca fradesca do Sr. Castilho. Os grandes génios modernos são cabelos brancos. Cuido mesmo que já me escapou uma ou outra
grotescos e desprezíveis aos olhos baços do banal metrificador frase não tão reverente e tão lisonjeira como eu desejara. Mas é
português. […] que realmente não sei como hei-de dizer, sem parecer ensinar,
O metrificador das Cartas d’Eco diz ao pensador da Filosofia certas coisas elementares a um homem de sessenta anos; dizê-

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da Natureza — tira-te do meu sol! — O mitólogo do dicionário da las eu com os meus vinte e cinco! V. Ex. a aturou-me em tempo no
fábula diz ao profundo descobridor da Simbólica — és um ignoran- seu colégio do Pórtico, tinha eu ainda dez anos, e confesso que
te! — A retórica portuguesa diz à ciência, ao espírito moderno — devo à sua muita paciência o pouco francês que ainda hoje sei.
cala-te daí, papelão! Lembra-se, pois, da minha docilidade e adivinha quanto eu dese-
É que tudo isto não passa de ideias. Ora há uma coisa que o jaria agora podê-lo seguir humildemente nos seus preceitos e nos
Sr. Castilho tomou à sua conta, que não deixa em paz, que nos seus exemplos, em poesia e filosofia como outrora em gramática
prometeu destruir… é a metafísica… é o ideal… […] francesa, na compreensão das verdades eternas como em outro
O ideal quer dizer isto: desprezo das vaidades; amor desinte- tempo no entendimento das fábulas de La Fontaine. Vejo, porém,
ressado da verdade; preocupação exclusiva do grande e do bom; com desgosto, que temos muitas vezes de renegar aos vinte e
desdém do fútil, do convencional; boa fé; desinteresse; grandeza cinco anos do culto das autoridades dos dez; e que saber explicar
de alma; simplicidade; nobreza; soberano bom gosto e bem Telémaco a crianças não é precisamente quanto basta para
soberaníssimo bom senso… tudo isto quer dizer esta palavra de dar o direito de ensinar a homens o que sejam razão e gosto. Con-
cinco letras — ideal. cluo daqui que a idade não a fazem os cabelos brancos, mas a
Por todos estes motivos ela é sobremaneira odiável; ela é des- madureza das ideias, o tino e a seriedade: e, neste ponto, os meus
prezível por todas estas causas; e V. Ex.a tem toda a razão, chaco- vinte e cinco anos têm-me as verduras de V. Ex.a convencido vale-
teando, bigodiando, pulverizando esse miserável ideal. rem pelo menos os seus sessenta. Posso pois falar sem desaca-
Ele, com efeito, nada do que ele é ou do que vem dele, serve to. Levanto-me quando os cabelos brancos de V. Ex. a passam
ou pode servir jamais para alguma coisa do que se procura na vida, diante de mim. Mas o travesso cérebro que está debaixo e as gar-
do que nela procuram os homens graves, os homens sérios, os ridas e pequeninas coisas, que saem dele, confesso não me me-
homens de senso e gosto como V. Ex.a, que nada querem com ide- recerem nem admiração nem respeito, nem ainda estima. A
ais ou com ideias, mas só com realidades e com factos; para captar futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa
a admiração das turbas; o aplauso das multidões; para formar um criança. V. Ex. a precisa menos cinquenta anos de idade, ou então
grande nome composto de pequeninas letras; para merecer os mais cinquenta de reflexão.
encómios dos gramaticões e o assombro dos burgueses; para ser É por estes motivos todos que lamento do fundo da alma não me
das academias; das arcádias; comendador; citado pelos brasileiros poder confessar, como desejava, de V. Ex.a.
retirados do comércio; decorado pelos directores de colégio; o Tirteu Nem admirador nem respeitador
dos merceeiros e um Homero constitucional. Antero de Quental
Para isto é que não serve o ideal. E é por isso, pela sua absur- Coimbra, 2 de Novembro de 1865.
da inutilidade, que V. Ex.a o apeia com tanta sem-cerimónia do pe- Coimbra: Imprensa da universidade, 1865.
destal onde, para o adorarem, o têm posto os loucos que nunca
foram nada neste mundo, nem das academias nem do conselho de
instrução pública, um Cristo, um Sócrates, um Homero…
Como se pode constatar, da leitura do texto, as críticas de Castilho
Por isso é que V. Ex.a faz muito bem em o destruir, a esse desencadearam a fúria argumentativa de Antero que, colocando-se
pobre diabo do ideal; de o pôr fora de casa a bofetões; de o banir ao lado do ideal, dele nomeou-se defensor. De toda essa polêmica,
das suas obras, que não há ver por lá nem a mais leve sombra deve ficar claro para o aluno que se trata, na verdade, de decidir qual
dele. Agradam a todos assim. Os versos de V. Ex. a não têm ideal definição de arte deve ser adotada pelos escritores e poetas. Castilho
— mas começam por letra pequena. As suas críticas não têm ideias defende a arte clássica, tradicional, voltada para o que ele chama de
— mas têm palavras quantas bastem para um dicionário de culto do belo e do bom. Antero revolta-se com a postura do velho
sinónimos. Os seus poemas líricos não são metafísicos, não pre- romântico, porque acredita ser ela uma das mais fortes razões para o
cisam duma excessiva atenção, de esforços de pensamento para
atraso cultural português.
se compreenderem — e têm a vantagem de não deixarem ver nem
um só ideal. Nas suas obras todas há uma falta tão completa des-
Após a caracterização cuidadosa do momento inicial do Realis-
sas incompreensibilidades, que deve pôr muito à sua vontade os mo português, cumpre tratar da obra do seu principal romancista:
leitores que V. Ex.a tem no Brasil. V. Ex.a diz tudo quanto se pode Eça de Queirós. Acreditamos ser importante privilegiar a apresenta-
dizer sem ideias — boa, excelente receita para não cair nas nebu- ção de seu projeto literário, desenvolvido nos romances que consti-
losidades do ideal. Os seus escritos são óptimos escritos — me- tuem as Cenas portuguesas, para que os alunos percebam como uma
nos as ideias: e é V. Ex.a um grande homem — menos o ideal. nova visão de sociedade passa a definir os rumos da prosa literária
Dante, que era um bárbaro, e Shakespeare, que era um selva- durante o Realismo.
gem, é que rechearam as suas obras de ideal. Victor Hugo também Seria muito interessante que fosse feita a leitura integral de
cai muito nesse defeito. V. Ex.a é que o tem sempre evitado cautelo-
uma obra de Eça (a sugestão óbvia é O primo Basílio), para que os
samente, e por isso não é um bárbaro como Dante, nem um selva-
alunos possam perceber como o olhar realista busca, na sociedade

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e no indivíduo (muitas vezes reduzido a um tipo social), o elemen- Capítulo 4 – Parnasianismo e Simbolismo
to negativo, a corrupção, o erro, impiedosamente condenando as
Como este capítulo aborda o Parnasianismo e o Simbolismo (e seus
falhas de caráter e a futilidade que se tornaram marcas da elite so-
desdobramentos em Portugal e no Brasil), faremos uma separação nas
cial da época.
sugestões, para permitir que o professor localize mais rapidamente as
As Atividades referentes ao Realismo português desenvolvem-
passagens de seu interesse.
se a partir da leitura de um soneto de Antero de Quental (“O palácio
da Ventura”). Achamos interessante que o aluno tome contato com a Parnasianismo
produção poética portuguesa porque, no Brasil, não tivemos mani- O choque representado pela opção estética realizada por autores
festações do Realismo na poesia. parnasianos deve ser aproveitado pelo professor para reforçar a iden-
tificação de duas posturas antagônicas que marcam a produção artís-
A obra de Machado de Assis
tica humana: a oposição entre maestria formal e expressão sincera de
Falar sobre o Realismo no Brasil significa falar sobre a incom- sentimentos. Os poetas parnasianos incorporam bem a perspectiva
parável obra de Machado de Assis. Assim como fizemos para Eça de de que a construção do belo precisa estar livre das influências inde-
Queirós, recomendamos a leitura integral de um romance machadiano sejáveis do “eu”.
(Dom Casmurro seria uma escolha muito boa), para que o aluno pos- É importante que o professor deixe claro para o aluno que, mais
sa tomar contato com sua verve irônica, com o seu olhar crítico, e do que uma visão estereotipada de poetas preocupados apenas com a
compreenda como se constrói a sua perspectiva realista. Texto imor- utilização de preciosismos lingüísticos, os parnasianos tinham um pro-
tal da Literatura Brasileira, Dom Casmurro permite a apresentação jeto estético claro, que buscava responder de modo explícito aos ex-
daquela que talvez seja a característica mais marcante de Machado cessos românticos e às liberdades tomadas em relação ao trabalho com
de Assis como autor literário: um olhar que disseca as relações hu- a forma literária.
manas e desnuda o comportamento dos indivíduos naquilo que eles As Atividades referentes a essa parte da teoria propõem para o
têm de mais mesquinho, como é o caso do ciúme doentio de Bento aluno a leitura analítica de um dos mais belos poemas de Olavo Bilac,
Santiago e de sua necessidade de condenar Capitu pela destruição de “Inania verba”. Espera-se que, da reflexão motivada pelas perguntas,
sua família. o aluno conclua ser necessário questionar os limites “rígidos” entre as
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Sugere-se que, caso o professor deseje diversificar um pouco o escolas e as tendências estéticas. Autor de vários poemas claramente
trabalho com as obras de Machado de Assis, assista com os alunos ao parnasianos, Bilac mantém vivas, em sua poesia, características da es-
filme Memórias póstumas, de André Klotzel, adaptação para o cine- tética romântica. Essa relativização é interessante porque reforça a idéia
ma do romance de Machado de Assis. Podem ser discutidas, a partir de que, no estudo da Literatura, importante mesmo é a leitura das obras
do filme, as diferenças narrativas entre um texto literário e uma nar- literárias.
rativa visual, bem como as alterações necessárias para que um ro-
mance desse tipo possa ser adaptado para o cinema. O Simbolismo
As Atividades referentes às seções que tratam do Realismo bra- O próximo grande momento de transformações ocorre com a che-
sileiro apóiam-se na leitura de um trecho do romance Memórias pós- gada do fim do século. A exposição deverá deixar claro, para o alu-
tumas de Brás Cubas e buscam levar o aluno a analisar aspectos no, quais foram as circunstâncias culturais e históricas que
desencadearam uma postura decadentista e, no meio artístico, acaba-
estruturais da prosa machadiana. Trechos do romance Dom Casmur-
ram por dar origem à estética simbolista. É essencial que ele perce-
ro permitem que se discuta o caráter do narrador (muito pouco
ba, portanto, o clima de desilusão com as promessas de desenvolvimento
confiável) e a imagem de leitor construída por Machado de Assis em
e maior justiça social identificadas na aurora do século XIX; pro-
seus romances.
messas que foram, uma a uma, derrotadas pela força da sociedade de
Naturalismo enriquecimento capitalista. A postura decadentista que surge é, en-
tão, perfeitamente compreensível dentro de tal contexto histórico-
Para facilitar a compreensão das diferenças estéticas entre Rea- social, deixando como saída estética o abandono do racionalismo e a
lismo e Naturalismo, optamos por tratar separadamente das duas cor- busca de realidades alternativas.
rentes, embora esse seja apenas um recurso didático. Procuramos, no As obras de arte reproduzidas nesta seção também permitem
texto da teoria, explicitar para o aluno as diferenças fundamentais esclarecedoras discussões sobre o desdobramento das características
entre o Realismo e o Naturalismo, enfatizando que o segundo pode, assumidas por essa visão de mundo finissecular. Os quadros de Claude
sob muitos aspectos, ser visto como um desenvolvimento mais parti- Monet (Boulevard des Capucines), Edgar Degas (O ensaio de balé) e
cularizado e radical de posturas associadas ao primeiro. Vincent Van Gogh (Campo de trigo com corvos) dão a dimensão da
A análise do quadro de Giuseppe Pelizza de Volpedo (O quarto grandiosidade da arte produzida no período, em que o desafio da
estado), reproduzido na página 67, pode levar os alunos a refletirem sugestão leva os artistas a desenvolverem novas técnicas.
sobre uma das características marcantes da estética naturalista: a perda Na seção em que apresentamos as características básicas assu-
das características individualizadoras (tão presentes na estética ro- midas pela escola simbolista em Portugal, damos destaque para a
mântica e, em alguma medida, também reconhecível nos perfis psi- poesia de Camilo Pessanha. Gostaríamos que o professor baseasse
cológicos das personagens realistas) dos seres humanos. Retratados sua apresentação teórica na leitura e análise dos textos transcritos no
como bloco, os trabalhadores ganham a dimensão de uma classe, quase livro, para o aluno perceber, na leitura dos poemas, o verdadeiro sig-
um organismo vivo, que se movimenta e desloca unida. Interessante nificado da busca de novas formas de percepção da realidade experi-
paralelo pode ser traçado com as personagens do romance O cortiço, mentada pelos simbolistas.
de Aluísio Azevedo. Do mesmo modo como fizemos com os autores simbolistas por-
Para tratar do desenvolvimento da estética naturalista no Brasil, tugueses, concentramos a apresentação do desenvolvimento dessa es-
optamos por focalizar a obra de Aluísio Azevedo. Seria muito inte- tética literária no Brasil no estudo da obra de Cruz e Souza e
ressante que os alunos lessem, por exemplo, O cortiço, para que com- Alphonsus de Guimaraens, seus maiores expoentes. O procedimento
preendessem como se concretiza, literariamente, a visão determinista adotado pelo professor deve ser o mesmo: partir da leitura e análise
marcante dessa postura estética. dos poemas transcritos na teoria para levar o aluno a identificar as
Nas Atividades, dois trechos do romance O cortiço foram trans- características formais da estética simbolista.
critos no livro. A partir do reconhecimento de características da esté- Os exercícios referentes à estética simbolista procuram desafiar
tica naturalista, presentes no trecho, propõe-se a discussão da o aluno a: 1) ler poemas de autores significativos dessa escola (ativi-
“fundamentação científ ica” para a validação de perspectivas dade complexa, dado o vocabulário mais rebuscado e estruturas sin-
preconceituosas. O professor pode aproveitar esse “gancho” para tra- táticas mais elaboradas) e 2) reconhecer, nos poemas lidos,
zer a discussão sobre comportamentos semelhantes observáveis na características desse movimento literário.
nossa sociedade (teorias “científicas” para justificar a superioridade Como se viu, pela orientação apresentada para o trabalho com os
de uma raça sobre as outras etc.). exercícios propostos em cada um dos capítulos, seguiram-se, no de-

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correr do livro, alguns parâmetros básicos no momento de sua elabo- Observação muito importante: as atividades associadas às leitu-
ração: a necessidade de aproximar o aluno do texto literário, propor- ras complementares não são resolvidas porque não foram pensadas
cionando-lhe um contato sensível com a literatura; a necessidade de como meros exercícios, mas sim como elementos instigadores da re-
levar o aluno a identificar elementos, tanto formais quanto temáticos, flexão dos alunos sobre os textos lidos e os temas a que se relacio-
no interior de um texto; a necessidade de o aluno aprender a tratar o nam. Nesse sentido, não têm uma única resposta, ou respostas certas
texto como um objeto sócio-historicamente construído; a necessida- e erradas. Seu objetivo é permitir a discussão e, nesse espaço, o pro-
de de levar o aluno a elaborar hipóteses sobre efeitos de sentido pre- fessor deve estar preparado para ouvir opiniões conflitantes, contra-
tendidos; e a necessidade de levar o aluno a comparar textos de épocas ditórias ou, por vezes, preconceituosas por parte dos alunos. Criado
diferentes ou da mesma época. o contexto ideal, todas essas opiniões devem ser motivo de discussão
Acreditamos que o texto literário deve ser abordado levando-se e avaliação, com o objetivo final de levar os alunos ao exercício cons-
em conta suas características individuais (daí a importância dada à tante da leitura crítica e de uma postura tolerante, que saiba lidar
leitura e interpretação) e coletivas (por meio da verificação de suas com as diferenças de modo respeitoso.
relações com outros textos e com o período histórico em que se inse-
re). Desse modo é possível construir uma leitura mais crítica e rele- Capítulos 5, 6 e 7 – Classes de palavras (I, II e III)
vante na compreensão do mundo em que vivemos e do mundo em Qual a necessidade de dividirmos as palavras em diferentes clas-
que os textos foram escritos. ses? Será que essa categorização é útil apenas para os apaixonados pela
Gramática? Uma interessante resposta foi dada pelo lingüista Mario A.
Língua: Da análise da forma à construção do sentido Perini, em um texto intitulado “O adjetivo e o ornitorrinco — o dilema
da classificação das palavras”:
Considerando os objetivos a serem alcançados com o desenvol-
vimento dos capítulos (explicitados anteriormente), gostaríamos,
agora, de fazer algumas considerações gerais sobre desenvolvimento “Grande parte do labor científico consiste em classificar entidades
do conteúdo teórico abordado em cada capítulo, bem como apresen- e elaborar justificativas para essa classificação. A ciência não se limita
a isso, evidentemente: uma ciência é muito mais do que uma classifi-
tar algumas sugestões sobre as atividades adicionais a serem realiza-
cação de objetos. Mas, em geral, depende de classificações, até mes-

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das com os alunos.
mo para possibilitar o diálogo entre os cientistas.
Os exercícios das Atividades visam verificar a assimilação e a com- Por exemplo, os zoólogos dividem os animais em diversas cate-
preensão dos conteúdos apresentados em cada unidade do capítulo, bem gorias: mamíferos, répteis, peixes, insetos, aves, anfíbios, e assim por
como estimular o desenvolvimento e a aplicação das habilidades exigidas diante. Sem essas categorias seria muito difícil fazer Zoologia, ou mes-
para refletir sobre o aspecto trabalhado na seção a que se referem. mo falar de Zoologia, pois elas permitem ao cientista referir-se a tipos
Os Exercícios complementares foram elaborados e organizados de animais, em vez de referir-se a cada animal (ou a cada espécie)
de modo a permitir que, ao resolvê-los, o aluno seja levado a integrar individualmente. Assim, podemos encontrar trabalhos descritivos so-
os diferentes aspectos tratados nas seções do capítulo. Por esse moti- bre os mamíferos da América do Sul, ou sobre a evolução dos répteis,
ou sobre a fisiologia dos insetos etc. Esses trabalhos, e muitíssimos
vo, seu grau de complexidade é maior.
outros, dependem da classificação prévia dos animais (em classes,
Os exercícios oriundos de exames vestibulares foram selecionados
ordens, famílias, gêneros e espécies) para a definição de seu campo
de modo a permitir que o aluno se familiarize com a visão de língua de interesse; nesse sentido, todo o trabalho da Zoologia repousa so-
presente nas principais provas do país. Procuramos privilegiar, no mo- bre classificações.
mento de seleção dos mesmos, aqueles que dão margem à reflexão so- É preciso, naturalmente, dispor de critérios objetivos para colocar
bre as estruturas gramaticais a partir da construção do sentido de textos um animal nesta ou naquela classe. Assim, os mamíferos se distin-
em que se verifique o uso efetivo da língua por seus falantes. guem dos répteis graças a diversos traços de sua estrutura e funciona-
Procuramos inserir nos capítulos, sempre que julgamos pertinente mento: a temperatura do corpo dos mamíferos é constante, a dos répteis
e dispusemos de um texto interessante, leituras complementares re- depende da temperatura ambiente; os mamíferos dão à luz filhotes
vivos, os répteis põem ovos; os mamíferos amamentam os filhotes, os
lacionadas aos temas transversais. Os textos citados — de diferentes
répteis não; os mamíferos têm pêlos, os répteis têm a pele nua ou
fontes (jornais, revistas, livros, cartuns etc.) — visam a permitir que
coberta de escamas. Com esses quatro critérios é possível, em geral,
o aluno, por meio de sua leitura, reflita sobre questões mais gerais decidir rapidamente se um animal é um mamífero ou réptil: lagartixas e
relacionadas a aspectos abordados na teoria do capítulo. As leituras vacas não apresentam dificuldades a esse respeito. […]
foram agrupadas em quatro grandes temas, estabelecidos de modo a Bom, eu não comecei este ensaio para falar de animais. Meu cam-
permitir/incentivar o trabalho interdisciplinar: po de estudo é o da linguagem — mas este tem um ponto importante
em comum com a Zoologia: depende muito de classificações. Em Lin-
• Ética e cidadania;
güística, não falamos de mamíferos nem de répteis; falamos de adjeti-
• Pluralidade cultural; vos, verbos, preposições, orações e sintagmas nominais: todos esses
• Saúde e qualidade de vida; nomes designam classes de formas lingüísticas. […]
• Sociedade, trabalho e consumo. Há muitos tipos de classes em Gramática; aqui vou falar apenas
de classes de palavras — substantivos, adjetivos e verbos, velhos co-
É importante que o professor perceba que, na seleção dos textos, nhecidos nossos (e às vezes inimigos) desde os tempos de escola.
utilizamos como base os aspectos gramaticais estudados no capítulo e Uma coisa que nos poderiam ter dito na escola (mas, em geral,
sua importância para a construção do sentido geral do texto. O que não disseram) é para quê a gente precisa separar as palavras em clas-
pretendemos é permitir que o aluno reconheça como determinada estru- ses. Ora, a razão é semelhante à que nos obriga a separar os animais
em classes, ordens, espécies etc.: classificamos as palavras para po-
tura lingüística pode ser manipulada pelo autor de um texto para criar
dermos tratar delas com um mínimo de economia. Vamos supor que
um significado específico ou, em outros casos, como inúmeras vezes o
não se definisse a classe dos verbos, por exemplo. Nesse caso, tería-
uso da língua revela preconceito por parte dos falantes. mos de tratar na Gramática das palavras que variam em pessoa; como
Como dissemos, toda leitura complementar proposta está relaci- não haveria classes, seria necessário dar a lista completa delas: co-
onada a um dos temas transversais identificados acima. No topo do meçaríamos por abanar e iríamos até zumbir (uma lista de umas boas
box em que o texto foi transcrito é feita a identificação do tema den- dez mil palavras). Depois, seria preciso tratar das palavras que têm
tro do qual uma dada leitura foi proposta. tempos (presente, pretérito, futuro) — e aí teríamos de dar a mesma
Para que o professor perceba como pensamos a relação entre o lista de dez mil palavras. É evidente que, desse modo, a nossa Gra-
texto transcrito e o tema a que foi relacionado, sugerimos, na maior mática seria um pouco difícil de manusear. E também é pouco prová-
vel que as pessoas aprendessem uma língua desse jeito, decorando
parte dos casos, alguma(s) atividade(s) a ser(em) desenvolvida(s) com
listas imensas várias vezes. O que as pessoas fazem é reconhecer
os alunos. Nossa intenção, com tal proposta, é a de orientar o proces-
uma palavra como pertencente a determinada classe, e aí atribuir à
so de discussão do texto lido. Evidentemente, o professor pode va- classe as propriedades relevantes.”
ler-se da(s) atividade(s) proposta(s) como uma referência para a
PERINI, Mario A. O adjetivo e o ornitorrinco. In: Sofrendo a
proposição de projetos pedagógicos mais amplos que envolvam seus Gramática. São Paulo: Ática, 2000.
alunos em trabalhos realmente interdisciplinares.

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A discussão feita por Perini é interessante porque permite que se
‘Núbil’, que quer dizer mais ou menos ‘esposável’, mais parece
atribua sentido a uma prática que costuma ser meramente
um xingamento.
classificatória: o estudo das classes de palavras. Como argumenta — Sai da minha casa, seu sujeitinho núbil, ou arrebento a sua
Perini, os alunos têm o direito de entender por que precisamos sepa- cara!
rar as palavras em diferentes classes e estudar as características e Já ‘vândalo’, ao contrário, é palavra que ecoa agradavelmente,
funções de cada uma delas. Sugerimos, portanto, que essa discussão rima com ‘sândalo’. Por que não dizer ‘Robertinho é um gentleman,
seja o ponto de partida para o trabalho com as diferentes classes de um homem absolutamente vândalo’?
palavras, que se estende por três capítulos deste livro. Lançando as bases de uma nova Gramática atrapalhada, feita para
O conteúdo apresentado nesses capítulos é em geral de conheci- confundir de vez os já bastante zuretados usuários da Língua Portu-
guesa, por que não trocar o sentido de ‘cínico’ pelo de ‘cortês’? Exem-
mento dos alunos, que já devem ter estudado as classes de palavras
plo:
ao longo do ensino fundamental. O importante, agora, é que o pro-
— Deixa de ser cortês, Eduardo! Conheço muito bem a sua laia!
fessor retome os conceitos e os exemplos relevantes, tomando como Ou então:
contexto os pressupostos gerais sobre a linguagem nos quais se ba- — Mariazinha é uma pessoa adorável, cínica como poucos.
seia todo o material desta obra. ‘Sinistro’ já foi incorporado pela gíria da malandragem. Agora é a
Caso o professor deseje dar um caráter mais dinâmico ao reco- vez de ‘estóico’. Onde já se viu ‘estóico’ querer dizer ‘austero’? Um
nhecimento das diferentes funções desempenhadas pelas classes de cara estóico tinha de ser um sujeito meio malandro.
palavras, pode realizar com os alunos atividades semelhantes ao pri- — Nilzinho tá estóico, largou a gente e tá andando com uma ga-
meiro exercício proposto nas Atividades p. 100-101. O que fizemos lera sinistra.
Todo mundo já pecou pela orelhada. Por exemplo: coda. Sabem
ali foi retirar todos os substantivos de um texto informativo. Ao ten-
do que se trata? Eu não. Poderia ser muito bem uma bata de gala
tar “ler” esse texto todo cheio de lacunas, o aluno deve ser capaz de
usada por juízes do Supremo Tribunal. Olha como soa bem:
concluir que as palavras eliminadas desempenham todas uma mesma — Senhor juiz, sua coda está elegantíssima.
função: nomear, identificar seres. É evidente que a compreensão do Mas o Houaiss está aí pra botar os pingos nos is.
texto fica inteiramente prejudicada se dele retiramos os substanti- Coda: parte final de um movimento musical.”
vos. É evidente, também, que não se tem como saber qual o assunto CARNEIRO, João Emanuel. Veja/RJ, 19 fev. 2003.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

do texto, porque precisamos primeiro da identificação dos seres para


depois compreender sobre o que eles nos falam. Assim, o choque Gostaríamos que o professor percebesse, com essas sugestões,
provocado pela eliminação dos substantivos pode facilitar a compre- que o texto é o “cenário” privilegiado para a discussão e análise das
ensão de sua função na língua. diferentes classes de palavras, porque ele permite que se observe a
Um exercício semelhante pode ser feito no caso dos adjetivos. interação entre as palavras e o papel de cada uma das classes na cons-
O professor pode escolher um texto em que haja adjetivação farta e trução de sentido.
substituir os adjetivos por outros que, naquele contexto, não se apli- Utilizar textos curtos para analisar a função referencial dos pro-
cam. Depois, no momento de leitura do texto com os alunos, pedir nomes, por exemplo, é uma atividade bastante útil, uma vez que,
que eles identifiquem a razão da dificuldade de se compreender o além de trabalhar com essa classe de palavras, permite apresentar
texto. para o aluno mecanismos essenciais para o estabelecimento da co-
Além de esse exercício evidenciar a função dos adjetivos, per- esão textual.
mite também que se faça uma discussão muito pertinente sobre o que Na apresentação da seção referente à colocação pronominal, o pro-
significa escrever “bem” ou falar “bonito”. Parece haver, entre os fessor deve ter claro que a discussão em torno dessa questão, tema obri-
falantes do Português, uma crença bastante arraigada de que, para gatório nas gramáticas da Língua Portuguesa, baseia-se, sobretudo, na
falar e escrever bem, é necessário fazer uso de termos pouco conhe- identificação das tendências que se vêm manifestando no Português usado
cidos. Um exercício como esse ajudaria a desfazer esse equívoco ao no Brasil, ao longo dos tempos. Assim, para que os alunos possam me-
mesmo tempo em que permitiria uma reflexão mais prática sobre a lhor acompanhar a discussão, é interessante fazer com eles um levanta-
função dos adjetivos na língua. mento dos casos de colocação pronominal conforme ocorrem em textos
Transcrevemos, à guisa de exemplo, uma crônica em que se de escritores modernos e em artigos e editoriais de jornais e revistas de
tematiza exatamente como a escolha de termos inadequados provoca grande circulação, procurando verificar em que medida o uso atual da
a incoerência de um texto e/ou uma fala: língua escrita culta conforma-se às orientações da Gramática no tocante
à colocação dos pronomes oblíquos átonos.
Com relação ao trabalho com a classe dos verbos, não se deve
Palavras cruzadas
exigir memorização pura e simples das formas apresentadas, mas sim
“Outro dia ouvi do porteiro querendo impressionar com a palavra
que os alunos atentem para os contextos de uso dessas formas e para
difícil:
— Sua avó está tão nítida, doutor!
as diferenças de sentido relacionadas ao uso das formas verbais sim-
Preferi não corrigir. Até porque achei divertido. Passei a imaginar ples e das formas verbais compostas. Nesse sentido, uma atividade
o contrário, ou seja, que ele deve dizer que a TV dele está lúcida. interessante a ser desenvolvida com os alunos pode ser a análise de
De translúcido, evidentemente, só podemos esperar que se trate textos previamente selecionados com o objetivo de identificar as ocor-
de alguém com uma visão mais que brilhante, quase visionária do rências das formas verbais simples e das formas compostas, bem como
mundo: a ocorrência de locuções verbais, e também com o objetivo de explo-
— Freud era definitivamente translúcido para a época. rar as nuances de significação, freqüentemente relacionadas a no-
De um sujeito bem sujo, imundo, podia-se dizer: ções aspectuais, traduzidas pelos tempos compostos.
— Leonardo, você está cáustico. Vai tomar banho!
Como são cada vez mais freqüentes os “tropeços” dos usuários
E de uma cozinha bem limpinha, impecável, caberia o adjetivo:
— Sua cozinha está lívida, um brinco!
da língua com relação ao uso de determinadas formas verbais irregu-
Simetricamente, se meu porteiro me visse depois de tomar um lares, não é difícil encontrar ocorrências, em textos escritos, de for-
susto, não hesitaria em dizer: mas inadequadas, que o professor poderá identificar e comentar com
— Que foi que houve, doutor? O senhor está com uma cara os alunos, em sala de aula, para enriquecer e dinamizar a apresenta-
límpida! ção dos aspectos teóricos envolvendo estas formas verbais.
E ‘álacre’? Isso pouca gente sabe o que é. Adianto: vivo, anima- Para o trabalho com os advérbios, sugerimos que o professor
do, alegre. No entanto, não acho que a sonoridade da palavra caiba no dedique particular atenção à identificação, juntamente com os alu-
significado. ‘Álacre’ devia ser sinônimo de ‘árduo’. A palavra é dura nos, do chamado escopo dos advérbios, ou seja, das palavras ou cons-
de dizer, sai rascante da boca. Olha só como cai bem:
tituintes sintáticos maiores que estão sob o seu domínio de ação, sendo
— Hoje tive um dia álacre! Trabalhei doze horas.
‘Árduo’, a meu ver, podia ser reescalado para significar ‘belo,
por eles modificados ou caracterizados.
imponente’: O trabalho com preposições e conjunções pode ser feito de modo
— Essa pia de mármore ficou absolutamente árdua! a explicitar a importância dessas classes de palavras no estabeleci-
mento e manutenção da coesão seqüencial.

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É essencial que o professor faça a relação entre o que se estuda sa seção, além de permitir que os alunos produzam textos, é familiarizá-
nas aulas de Gramática e o que se busca alcançar no momento da los com a escrita que surge em função de uma proposta determinada e
produção de texto, para que os alunos se dêem conta de que a articu- que deve atender a algumas exigências preestabelecidas.
lação das palavras, na construção do texto, é algo que depende do Gostaríamos, aqui, de recomendar que toda proposta de produ-
conhecimento que têm do uso e da função de cada uma das classes ção de texto sugerida no material tenha uma etapa de discussão oral,
estudadas. durante a qual os alunos se manifestem. É importante que os temas
sejam discutidos pela classe, para que, além de aprenderem a ouvir e
Capítulo 8 – Sintaxe: o estudo das relações entre as palavras considerar opiniões diferentes da sua, os alunos também se sintam
desafiados a organizar sua fala de modo a se fazerem entender pelos
Para introduzir a discussão sobre a sintaxe do período simples,
colegas. Esse tipo de exercício favorece o trabalho com a expressão
aspecto abordado nas seções deste capítulo, o professor deverá base-
oral e permite que o aluno tome consciência de que deve considerar
ar-se nas considerações feitas na teoria. Além disso, deve procurar
os leitores no momento de produzir seus textos. Como as situações
ter bem claro (e deixar bem claro para os alunos!) que o mais impor-
de interlocução serão muito mais evidentes na discussão, essa práti-
tante, no tocante aos estudos de sintaxe, é que se busquem compre-
ca pode auxiliar o aluno a lembrar-se de considerar seus interlocutores
ender as relações que se estabelecem entre os constituintes das
também no momento em que estiver escrevendo seus textos.
unidades sintáticas. A terminologia empregada para designar as ora-
Em alguns casos também oferecemos para o aluno a oportunida-
ções e os seus termos deve necessariamente decorrer dessa compre-
de de realizar tarefas de produção de texto propostas em exames ves-
ensão, não se transformando jamais em um objetivo em si. Afinal, a
tibulares ou avaliações oficiais (Enem). Acreditamos ser importante
metalinguagem, nos estudos gramaticais, nos deve ajudar a fazer re-
que ele conheça como a escrita é solicitada em exames como esse,
ferência a aspectos da linguagem cuja compreensão já se pressupõe!
caso queira participar de um deles.
Após a introdução dos conceitos de frase, oração e período, po-
O propósito deste volume, porém, não é preparar o aluno para
dem ser introduzidos alguns dados que permitam uma análise por parte
escrever em situações de seleção. Queremos que a escrita e a leitura,
dos alunos, que deverão, a partir dos critérios apresentados, identificar
ao fim do curso, surjam para ele como atividades tão naturais quanto
frases, orações e períodos, justificando a classificação feita, em cada
a fala; que ele seja capaz de se expressar de modo claro e coerente;
caso. Essa é uma atividade que pode ser conduzida com vários tipos de

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
que a leitura seja um instrumento poderoso de obtenção de informa-
textos, e poderá ser realizada, a critério do professor.
ções e orientação social.
Seria interessante, por exemplo, que os alunos examinassem
“manchetes” de jornais e revistas para verificar qual tipo de estrutu-
ra predomina nessas ocorrências e por quê.
Capítulo 9 – A exposição
A principal observação a ser feita, com relação ao conteúdo das Este capítulo marca o início do trabalho com os textos de nature-
seções que tratam dos termos essenciais, integrantes e acessórios, za analítico-expositiva. Começamos por apresentar ao aluno diferen-
é a que já fizemos no primeiro parágrafo: de nada adianta ensinar tes gêneros que se filiam à exposição.
terminologia e conceitos, ou seja, definir genericamente sujeito, As seções seguintes trarão, para discussão e análise, os diferen-
predicado, predicativo, complementos verbais e adjuntos, se não se tes recursos expositivos de que lançamos mão quando falamos ou
garante que os alunos estejam de fato compreendendo as relações escrevemos. Além de apresentar os conceitos de descrição, defini-
sintáticas que se estabelecem entre esses termos das orações. Se o ção, enumeração, comparação e contraste, a partir da leitura e dis-
professor conseguir tornar interessantes suas aulas de sintaxe, pode- cussão dos textos transcritos na teoria, o professor pode promover a
rá interessar os alunos por atividades de análise sintática. Assim, além discussão, junto aos alunos, dos contextos nos quais recorremos a
de valer-se dos exercícios apresentados (que poderão ser feitos à cada um desses recursos.
medida que os termos da oração forem sendo introduzidos), poderá O aluno deve se dar conta de que poderá lançar mão dos recursos
também trabalhar, ao longo das duas aulas, com material suplemen- expositivos no momento de escrever dissertações, como elementos
tar, cuja seleção ficará a seu critério. que o auxiliem a construir uma boa argumentação. É importante, por-
tanto, que o trabalho com esses recursos não se dedique à conceituação
Prática de leitura e produção de textos de cada um deles como objetivo final, mas que sejam vistos como
instrumentos valiosos no momento da produção de texto.
A construção das habilidades de leitura e escrita talvez seja o A última seção deste capítulo introduz a dissertação. Começa-
principal objetivo a ser alcançado pelo trabalho com Língua Portu- mos por sugerir que o aluno reflita sobre uma questão: “por que dis-
guesa ao longo do ensino médio. Se pensarmos que, ao saírem da sertar?”. Ele deve concluir que as diferentes unidades composicionais
escola, os alunos deverão demonstrar, socialmente, proficiência nes- estão associadas a funções específicas e perceber que a estrutura
sas duas práticas (e dificilmente terão de fazer a análise de estruturas dissertativa é mais adequada para uma exposição de caráter
lingüísticas e/ou de textos literários), certamente concordaremos que argumentativo mais genérico. Deve, também, reconhecer que, ao lon-
o grande desafio para os professores de Língua Portuguesa é encon- go da vida, há momentos em que temos de produzir textos com essas
trar as estratégias mais adequadas para, ao mesmo tempo em que características, razão pela qual devemos conhecer sua estrutura e ser
conquistam o envolvimento dos alunos com a leitura e escrita, garan- capazes de reproduzi-la ao escrevermos nossos próprios textos.
tir que esse aprendizado dê bons resultados. Um editorial de jornal foi o texto que escolhemos para analisar a
Considerando os objetivos a serem alcançados com o desenvol- estrutura da dissertação por tratar-se de gênero de circulação social
vimento dos capítulos (explicitados anteriormente), gostaríamos, bastante ampla.
agora, de fazer algumas considerações gerais sobre desenvolvimento
do conteúdo teórico abordado em cada capítulo, bem como apresen-
Capítulo 10 – A elaboração da dissertação
tar algumas sugestões sobre as atividades adicionais a serem realiza-
das com os alunos. O objetivo deste capítulo é desenvolver um trabalho prático em
Os exercícios das Atividades procuram oferecer meios para que torno da escrita de dissertações, o que pressupõe a elaboração prévia
a leitura de textos seja sistematicamente realizada e também avaliada de um projeto de texto. Para conduzir o trabalho com os alunos, o
pelo professor. Nesses exercícios, o aluno será solicitado a ler textos professor deverá, nas duas primeiras aulas, fazer uma exposição teó-
(verbais e não-verbais) de diferentes gêneros, e desafiado a reconhe- rica sobre os procedimentos envolvidos na elaboração de um projeto
cer e analisar sua estrutura. Ao discutir as respostas dadas pelos alu- de texto, ilustrando-a com a discussão pormenorizada do tema “O
nos para cada uma das questões, o professor terá condições de “medir” culto à forma: saúde, vaidade ou escravidão?”, analisado na teoria.
seu desempenho, de observar quais são aqueles alunos para quem, Reforçamos aqui a sugestão feita no início da apresentação des-
por exemplo, o estabelecimento de relações entre partes do texto per- ta unidade: os alunos devem ser incentivados a expressarem sua opi-
manece uma habilidade a ser desenvolvida. nião sobre os temas propostos para discussão e análise. Nesse caso,
A escrita será posta em prática por meio das Propostas de produção trata-se não apenas da leitura do tema, mas também da discussão de
de textos presentes nos capítulos desta terceira unidade. O objetivo des- um conjunto de informações sobre a questão tematizada, em outras

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palavras: a leitura de uma coletânea de textos sobre a questão do propaganda em nossas vidas: até que ponto, na sociedade contem-
culto à forma. Certamente os alunos já viveram a experiência do des- porânea, somos “vítimas” de um discurso publicitário que procura
contentamento com o próprio corpo, de serem julgados pela aparên- nos convencer de que a felicidade está associada à “compra” de al-
cia, comparados (ou eles próprios compararem-se) a “modelos de gum produto?
beleza”. É importante que eles falem sobre essas experiências, sobre
o desconforto de viver em uma sociedade que julga as aparências, Os critérios de correção: uma proposta específica
sobre a dificuldade de alcançar formas “perfeitas”, sobre a associa-
ção entre beleza e sucesso profissional, porque é dessa discussão que Procurando contribuir para o estabelecimento de avaliações mais
nascerá a perspectiva analítica mais amadurecida, condição necessá- objetivas dos textos produzidos pelos alunos, faremos, agora, a suges-
ria para a elaboração de uma boa argumentação. tão de alguns critérios a serem adotados no momento de avaliação de
Na proposta de produção de texto reproduzimos o tema do Enem/ redações. Eles não são os únicos possíveis, é claro! Gostaríamos, po-
2002. Sua análise permitirá que seja discutida uma questão muito rém, que o professor os considerasse como uma sugestão, porque são
pertinente para o exercício da cidadania: o poder transformador do o resultado de um longo trabalho com a avaliação de milhares de reda-
voto em uma sociedade democrática. O professor pode, inclusive, ções de vestibulandos.
pedir que os alunos preparem-se para discutir essa questão procuran- Esses critérios resumem as indagações que se devem fazer a um
do material em jornais e revistas e trazendo informações adicionais texto com relação aos modos de estruturação e articulação dos elemen-
para a sala de aula. tos formais e de conteúdo.
A próxima seção deste capítulo sugere um conjunto de questões 1. A avaliação do tema proposto
que podem auxiliar os alunos no momento de leitura de propostas de Uma redação escrita em resposta a um tema proposto pelo profes-
produção de texto. Nossa intenção, com essas questões, é orientar sor deve necessariamente considerar alguns elementos básicos que o
um pouco mais o olhar dos alunos para o tema, de modo a garantir definem (orientação geral apresentada, delimitação da questão a ser ana-
que eles vão, pouco a pouco, desenvolvendo uma postura analítica. lisada, presença de informações que motivem a reflexão solicitada etc.).
Associado a essa seção, como proposta de produção de texto, repro- O professor, ao preparar um tema, deve fazê-lo considerando qual(is)
duzimos outro tema do Enem, desta vez propondo a discussão sobre elemento(s) de uma das três unidades composicionais (exposição, argu-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

os direitos da criança e do adolescente. mentação, narração) deseja enfatizar através de sua proposta.
Para finalizar o trabalho com a estruturação da dissertação, tra- Freqüentemente, ao prepararmos uma proposta de produção de
tamos de diferentes estratégias de início de uma dissertação. Nossa texto, temos uma certa expectativa e somos surpreendidos por um
experiência de sala de aula provou ser esse um motivo de angústia desenvolvimento diferente do esperado, por parte dos alunos. Quan-
para os alunos no momento de escreverem. Não raro eles afirmam: do tal fato ocorre, suas conseqüências podem ser muito produtivas
“não sei como começar o meu texto”. Foi pensando nessa dificulda- para a aula. Se a inadequação ao tema for geral, devemos nos per-
de que resolvemos trazer exemplos de diferentes estratégias adequa- guntar, por exemplo, se aquilo que esperávamos estava claro na pro-
das para iniciar um texto. posta feita. Caso o problema não esteja na definição do tema, podemos
O capítulo encerra-se com algumas considerações sobre como detectar uma dificuldade na compreensão de algum aspecto traba-
deve ser feito o encaminhamento de uma conclusão para garantir que lhado em sala e estaremos diante de uma boa oportunidade de retomá-
haja, entre ela e o resto do texto, uma articulação adequada. lo a partir dos exemplos de inadequação identificados nos textos.
Capítulo 11 – Argumentação e persuasão 2. Os elementos da coletânea
Dando prosseguimento ao trabalho com textos de natureza É muito difícil escrever um texto a partir do nada. Se somos so-
argumentativa, este capítulo inicia-se apresentando ao aluno diferen- licitados a produzir um trabalho sobre um determinado tema, o pro-
tes tipos de argumentação. Nossa intenção, além de garantir que ele cedimento natural que adotamos é o de primeiro realizar uma pesquisa
compreenda o que vem a ser um argumento, foi apresentar recursos para, de posse das informações e dados selecionados através da pes-
que pudessem auxiliá-lo no momento da construção de sua própria quisa, escrevermos um texto sobre a questão proposta. Por que não
argumentação, seja ela oral ou escrita. adotarmos o mesmo procedimento com nossos alunos?
A segunda seção introduz uma questão muito importante: “qual- Gostaríamos, nesse momento, de recuperar o conceito de coletâ-
quer argumento é válido?”. Ao tratar das falácias e dos juízos de nea de textos, utilizado nas propostas de redação do Vestibular da
valor, procuramos chamar a atenção do aluno para o tipo de argu- Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Uma coletânea é,
mentação que compromete o sucesso de seu texto. No caso específi- basicamente, um conjunto de textos de naturezas diferentes (extraí-
co dos juízos de valor, evidentemente não se está sugerindo que é dos de jornais, revistas, livros etc.) que acompanham um tema de
possível argumentar sem que se faça algum tipo de juízo de valor, redação, cujo objetivo é colocar à disposição das pessoas que optem
mas sim levar o aluno a perceber que, freqüentemente, juízos de va- por desenvolvê-lo algumas informações, que podem ser utilizadas
lor são apenas a repetição de um discurso preconceituoso que deve no cumprimento da tarefa proposta.
ser evitado. Ao apresentar uma proposta de produção de texto acompanhada
O professor pode explorar, nessa discussão, os exercícios relaci- por um conjunto de informações, o professor estará proporcionando
onados ao texto publicitário reproduzido nas Atividades. Nessa pro- melhores condições para que seus alunos produzam textos mais con-
paganda, vê-se uma infeliz associação de um raciocínio falacioso ao sistentes (em lugar, por exemplo, de apenas dizer que eles precisam
reforço de uma postura preconceituosa. É fundamental que o aluno, melhorar o conteúdo...), e terá, no momento da avaliação, a oportu-
ao ler um texto como esse, reconheça os mecanismos utilizados para nidade de verificar a qualidade de sua leitura. Os alunos, por sua
fazer com que ele se convença de algo que, no fundo, não passa de vez, “obrigados” a utilizar dados extraídos da coletânea, perceberão
um grande preconceito. Ser um leitor competente significa, também, que leitura e escrita são duas atividades interdependentes e, portan-
recusar os sentidos construídos por um texto para nos influenciarem to, concluirão não ser possível produzir boa escrita sem boa leitura.
negativamente. Esses exercícios procuram desafiar o aluno a perce- 3. A estrutura característica do texto a ser desenvolvido
ber isso. Nas aulas “teóricas” certamente explicamos a nossos alunos quais
Após a discussão dos diversos tipos de argumentação, passamos são os elementos característicos do texto que estarão produzindo no
a tratar dos textos de natureza francamente persuasiva, ou seja, os momento. É imperativo, portanto, que a avaliação das redações pro-
textos voltados para o convencimento do leitor. Esta é uma parte do duzidas em resposta aos temas propostos leve em consideração a ma-
material que pode ser ricamente complementada pelo professor. neira como esses elementos foram trabalhados por eles. Para avaliar
Uma sugestão bastante envolvente seria pedir que os alunos co- este item, portanto, estaremos preocupados com as características
letassem textos publicitários e procurassem classificá-los de acordo estruturais que devem ter textos narrativos, expositivos, persuasi-
com seu objetivo: campanhas de conscientização da população, pro- vos, verificando em que medida o aluno se vale dessa estrutura para
pagandas voltadas para o comércio de produtos etc. Outra atividade organizar seu raciocínio e apresentá-lo ao leitor de forma convincen-
interessante seria, de posse desse material, discutir a influência da te (ou verossímil, no caso das narrativas).

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4. Correção gramatical (o uso que o aluno faz da língua escrita) um problema de coesão afetou dramaticamente a coerência do que
A correção gramatical é sem dúvida um elemento importante do está sendo dito. Por outro lado, um problema de concordância, acen-
texto escrito, mas precisamos tomar um imenso cuidado para não tuação ou ortografia muito dificilmente provocaria o mesmo tipo de
valorizá-la excessivamente. conseqüência para o texto escrito. Por esses motivos achamos me-
Para tanto, achamos aconselhável que o professor crie uma es- lhor analisar a coesão separadamente da correção gramatical nos tex-
pécie de hierarquia gramatical, procurando determinar quais são as tos de nossos alunos.
inadequações que realmente comprometem a compreensão do texto,
por um lado, e, por outro, que evidenciam a pouca familiaridade do 6. Coerência
aluno com as estruturas próprias do texto escrito. Todo texto escrito deve apresentar uma unidade lógica, algo a
Poderíamos pensar, só para lembrarmos alguns desses proble- que nos referiremos, a partir dessa definição bastante simplificada,
mas, na utilização dos tempos e modos verbais (com o cuidado de como coerência. A avaliação da coerência de um texto está muito
diferenciar o aluno que usa o acento gráfico de forma equivocada, relacionada ao domínio que o aluno tem da estrutura característica
confundindo, digamos, falara e falará, daquele que realmente optou do tipo de texto solicitado e da qualidade da leitura que é capaz de
por uma flexão de tempo inadequada; ou casos em que o aluno, por fazer do tema e da coletânea.
hipercorreção, evita grafar com dois esses [ss] a desinência própria No caso de textos de natureza argumentativa, avaliar a constru-
do pretérito imperfeito do subjuntivo, obtendo, como resultado, uma ção da coerência do texto significa estar atento à maneira como o
forma pronominal: fala-se, em lugar de falasse, por exemplo), nas aluno desenvolve sua argumentação. Muitas vezes, em lugar de re-
concordâncias verbal e nominal, na escolha lexical (por exemplo, a lacionar fatos, argumentos, dados, ele apenas limita-se a comentá-
substituição sistemática de ter por possuir, ou porque por pois, como los. No caso de temas acompanhados de coletâneas, esse procedimento
se houvesse palavras “melhores” e “piores”...), na interferência ex- prejudica a articulação textual, o que, conseqüentemente, compro-
cessiva de estruturas da linguagem oral no texto escrito. mete a coerência. É comum, também, o aluno utilizar (sem perce-
Avaliar o uso que o aluno faz da modalidade escrita da língua ber) dois elementos da coletânea que são contraditórios, como se
portuguesa não deve significar, no entanto, uma mera contagem de fossem complementares... situações como essas são avaliadas no item
“erros”. O professor precisa reconhecer os casos em que o aluno op-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
coerência.
tou por uma estrutura sintática, ou mesmo por uma determinada pa- Avaliar a coerência nas narrativas implica discutir o conceito de
lavra, e que essa opção contribuiu significativamente para o texto verossimilhança, ou, em outras palavras, a possibilidade de criação
resultante. Estamos tão acostumados a corrigir “erros”, que aban- de um mundo ficcional em que acontecimentos irreais pareçam pos-
donamos por completo a observação dos acertos e essa é uma postu- síveis. O leitor de narrativas é bastante tolerante nesse sentido, es-
ra certamente condenável. Cabe ao professor identificar tanto os erros tando disposto a aceitar as premissas criadas por um narrador para o
quanto os acertos e ponderá-los ao fazer sua avaliação.
comportamento de personagens no interior de um mundo ficcional
(podemos pensar nos contos de fadas como exemplo óbvio), mas
5. Coesão
costuma exigir que tais premissas sejam respeitadas ao longo do tex-
Ainda com relação à organização gramatical e semântica do tex-
to. Soluções apresentadas abruptamente, no fim da narrativa, e que
to, podemos considerar um segundo critério: a coesão. Um texto co-
não foram preparadas ao longo do desenvolvimento do enredo não
eso pode ser definido, de forma bastante simplificada, como aquele
costumam contribuir muito para a construção da coerência desse tipo
que apresenta unidade e uma perfeita relação entre todas as suas par-
de texto, e o professor precisa estar atento para isso ao avaliar produ-
tes. Ora, para que isso ocorra, o aluno precisará valer-se de algumas
ções escritas de seus alunos.
estruturas que, na língua, cumprem exatamente a função de garantir
a coesão dos textos. São elementos coesivos, por exemplo, os prono-
E a criatividade, como é que fica?
mes, as conjunções, a pontuação, apenas para lembrarmos alguns.
Certamente poderíamos verificar a utilização de tais recursos no Podemos, agora, discutir a noção de criatividade no texto es-
momento em que estivéssemos avaliando a correção gramatical, mas crito, “critério” muito freqüentemente proposto para a avaliação da
acreditamos ser mais interessante “separar” os aspectos puramente qualidade de um texto. “Texto bom é texto criativo!”, costumamos
gramaticais da análise dos recursos coesivos. Explicamos por quê. ouvir... Mas, será que isso é verdade?
Em primeiro lugar, essa opção justifica-se pela maior importân- A análise dos diferentes aspectos responsáveis pela estruturação
cia, na construção do texto escrito, dos recursos coesivos. Sempre da redação permite ao professor determinar em qual(is) dele(s) o
seremos capazes de entender o que um aluno quis dizer ao escrever aluno sobressaiu em relação a seus colegas. Um desempenho acima
“assucar”, mesmo que ele tenha usado dois esses em lugar do cê ce- da média, ou mesmo excepcional, no trabalho com o foco narrati-
dilha e tenha esquecido a regra de acentuação das paroxítonas termi- vo, ou com a articulação de argumentos, deverá refletir-se na nota
nadas em r. Mas nem sempre seremos capazes de recuperar, por que o professor atribuirá ao trabalho realizado por aquele aluno
exemplo, o referente de um pronome mal empregado. O caso mais com relação à estrutura da narração ou da dissertação.
dramático talvez seja o dos possessivos de terceira pessoa (seu e sua), Ora, é bem possível que, em uma avaliação holística, essa mes-
que provocam muitos casos de ambigüidade quando utilizados de ma redação fosse considerada “criativa”. No entanto, se forem uti-
forma inadequada. lizados critérios específ icos, em lugar de uma “impressão”, o
Um segundo motivo, ainda mais forte do que o primeiro, é a professor recompensará o aluno, tendo condições de determinar
íntima relação entre alguns problemas de coesão e o que podemos exatamente qual, dentre os vários elementos analisados, ele soube
chamar de problemas de coerência. São freqüentes os casos em que a desenvolver melhor do que seus colegas. Por que recorrer à
escolha inadequada de uma conjunção (recurso coesivo) prejudica a “criatividade”, quando podemos mostrar a nossos alunos que um
compreensão de uma relação entre duas estruturas sintáticas. Pode- bom texto é fruto de um trabalho cuidadoso com cada um dos seus
mos dizer: O ladrão foi preso porque assaltou o banco, ou O ladrão elementos constitutivos?
foi preso quando assaltou o banco, mas certamente não estamos au- Esperamos que o professor, ao considerar os critérios de avali-
torizados, em termos lógicos, a dizer O ladrão foi preso apesar de ação sugeridos, lembre-se de que os exercícios de leitura e produ-
ter assaltado o banco. Trata-se de escolher entre diferentes conjun- ção de textos devem ter como objetivo o aperfeiçoamento da
ções (respectivamente causal, temporal e concessiva), para, através expressão escrita dos alunos. As propostas de redação constituem,
dessa escolha, explicitarmos como deve ser entendida a relação se- assim, espaço privilegiado para que se promova uma reflexão mais
mântica entre diferentes estruturas sintáticas. produtiva sobre o uso da modalidade escrita do Português. Acredi-
Por vezes, algumas relações não são aceitáveis em termos de co- tamos sinceramente que o estabelecimento prévio de critérios ba-
erência, como é o caso da relação de concessão entre o assalto ao seados nos quais o texto será avaliado só pode contribuir para essa
banco e a prisão do ladrão. Em ocorrências como essas, diz-se que reflexão.

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Bosi, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo, Edi-
Sugestões de leitura para o aluno tora Cultrix, 1994.
Brunett, P. et alii. A crítica literária. São Paulo, Martins Fontes, 1988.
Fizemos, ao longo deste livro, uma viagem por diferentes mo-
Cademartori, Lígia. Períodos literários. São Paulo, Ática, 1993. Série
mentos da trajetória humana. Os textos literários foram nosso veícu-
Princípios.
lo. Para ampliar o repertório dos alunos, selecionamos algumas obras
Candido, Antonio e José Aderaldo Castello. Presença da literatura bra-
estrangeiras sugeridas que foram traduzidas para o Português e ou-
sileira. São Paulo, Difel, 1985.
tras, de autores brasileiros e portugueses. Como há, porém, diferen-
tes edições e/ou traduções dessas obras, optamos por não indicar Candido, Antonio. A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo,
nenhuma delas, deixando a escolha final para você. Ática, 1987.
Lembre-se de que toda seleção é pessoal. Portanto, essa é apenas Candido, Antonio. Formação da Literatura Brasileira. 2 volumes. Mi-
uma sugestão de alguns dos muitos autores e títulos possíveis. Use-a nas Gerais, Itatiaia, 1993
como ponto de partida para pensar em outras possibilidades que se- Candido, Antonio. Na sala de aula – Caderno de análise literária. São
jam mais adequadas ao perfil e aos interesses de seus alunos. Paulo, Ática, 1985.
Citelli, Adilson. Romantismo. São Paulo, Ática, 1990. Série Princípios.
Romantismo Coelho, Jacinto do Prado (org.). Dicionário de Literatura Brasileira,
Portuguesa e Galega. Figueirinhas/Porto, Companhia Editora do
Johann Wolfgang von Goethe. Os sofrimentos do jovem Werther. Minho, 1983.
Robert Louis Stevenson. O médico e o monstro. D’Onofrio, Salvatore. Literatura Ocidental – Autores e obras fundamen-
Mary Shelley. Frankenstein. tais. 2. ed. São Paulo, Ática, 2000.
Alexandre Dumas. O conde de Monte Cristo. Dimas, Antônio. Espaço e romance. São Paulo, Ática, 1985. Série Prin-
Alexandre Dumas Filho. A dama das camélias. cípios.
Camilo Castelo Branco. Coração, cabeça, estômago. Filho, Domício Proença. A linguagem literária. São Paulo, Ática, 1997.
Série Princípios.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Camilo Castelo Branco. Amor de perdição.


Forster, Edward M. Aspectos do romance. São Paulo, Globo, 1998.
Honoré de Balzac. Eugênia Grandet.
Gancho, Cândida V. Como analisar narrativas. São Paulo, Ática, 1999.
José de Alencar. Senhora.
Série Princípios.
José de Alencar. O guarani.
Gledson, John. Machado de Assis – Impostura e Realismo. São Paulo,
Manuel Antonio de Almeida. Memórias de um sargento de milícias. Companhia das Letras, 1991.
Álvares de Azevedo. Noite na taverna. Goldstein, Norma. Versos, sons e ritmos. São Paulo, Ática, 1985. Série
Princípios.
Realismo Gomes, Álvaro Cardoso. A Literatura Portuguesa em Perspectiva – Sim-
bolismo/Modernismo. São Paulo, Atlas, 1994.
Gustave Flaubert. Madame Bovary. Gonçalves, Magaly T. et alii (orgs.). Antologia de antologias – 101 poe-
Machado de Assis. Dom Casmurro. tas brasileiros “revisitados”. São Paulo, Musa Editora, 1995.
Machado de Assis. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Gonçalves, Magaly T. et alii (orgs.). Antologia de antologias – Prosado-
Machado de Assis. Várias histórias. res brasileiros “revisitados”. São Paulo, Musa Editora, 1996.
Gonçalves, Magaly T. et alii (orgs.). Antologia escolar de literatura bra-
sileira. São Paulo, Musa Editora, 1998.
Naturalismo
Hauser, Arnold. História social da literatura e da arte. 2 volumes. São
Émile Zola. Germinal. Paulo, Mestre Jou, 1982.
Aluísio Azevedo. O cortiço. Kraube, Anna-Carola. História da Pintura – Do Renascimento aos nos-
sos dias. Könemann, Hong Kong, 2000.
Lajolo, Marisa e Regina Zilberman. A formação da leitura no Brasil.
São Paulo, Ática, 1998.
Bibliografia geral para o professor Lajolo, Marisa. Literatura Comentada – Machado de Assis. São Paulo,
Abril Educação, 1980.
Literatura – A arte como representação do mundo Lyra, Pedro. Conceito de poesia. São Paulo, Ática, 1986. Série Princípios.
Mack, Maynard (ed.). The Norton Anthology – World Masterpieces. New
Os textos a seguir indicados podem ser muito úteis na prepara- York, W.W. Norton Company, 1997.
ção de aulas e na compreensão da linha analítica adotada nesta obra.
Saraiva, Antonio J. e Oscar Lopes. História da Literatura Portuguesa.
Recomendamos, especif icamente, a leitura da obra de Edward
12. ed. Porto, Porto Editora, 1986.
Forster por apresentar, de modo bastante claro, os procedimentos
Saraiva, António José. Iniciação à Literatura Portuguesa. São Paulo,
de leitura a serem adotados no momento de abordagem do texto
Companhia das Letras, 1999.
literário.
Embora as fontes pesquisadas para a preparação desta obra te- Schwarz, Roberto. Que horas são? São Paulo, Companhia das Letras, 1989.
nham sido mais numerosas, optamos por indicar os textos da série Sérgio, Antônio. Nota Preliminar. In: Sonetos. Lisboa, Editora Sá da
Princípios, como referência para uma consulta mais rápida pelo pro- Costa, 1968.
fessor. Dada a natureza dessa série, os livros abordam as diferentes Souza, Roberto A. de. Teoria da Literatura. São Paulo, Ática, 1995. Sé-
estéticas literárias focalizando os seus aspectos essenciais. rie Princípios.
Caso o professor deseje encontrar outros textos literários em Lín- Strickland, Carol. Arte Comentada – Da Pré-História ao Pós-Moderno.
gua Portuguesa, além dos transcritos neste livro, recomendamos a Rio de Janeiro, Ediouro, 1999.
utilização das antologias literárias identificadas a seguir, bem como Vechi, Carlos Alberto et alii. A Literatura Portuguesa em Perspectiva –
o hoje clássico Presença da Literatura Brasileira, do Professor An- Romantismo/Realismo. São Paulo, Atlas, 1994.
tonio Candido. Verissimo, Érico. Breve História da Literatura Brasileira. São Paulo,
Ressaltamos, por fim, que a intenção não foi a de elaborar uma Globo, 1995.
bibliografia extensa, mas sim a de indicar algumas obras de referên- Zola, Émile. O Romance Experimental. São Paulo, Editora Perspec-
cia para o professor consultar no momento de preparar suas aulas. tiva, s/d.

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Língua: Da análise da forma à construção do sentido Perini, Mario A. Gramática descritiva do português. São Paulo, Áti-
ca, 1995.
Os textos abaixo indicados podem ser muito úteis na preparação de
Perini, Mario A. Sofrendo a gramática – Ensaios sobre a linguagem.
aulas e na compreensão de alguns aspectos abordados nesta obra. Reco- São Paulo, Ática, 2000.
mendamos, especialmente, a leitura de Linguagem, Escrita e Poder, do
Possenti, S. Porque (não) ensinar gramática na escola. Campinas,
professor Maurizio Gnerre, para os interessados em entender melhor
Mercado de Letras, 1996.
como diferentes usos da linguagem podem dar margem a discriminação
Possenti, S. Discurso, Estilo e Subjetividade. São Paulo, Martins Fon-
social ou favorecer determinadas relações de poder.
tes. 1988.
Os livros da professora Ingedore Villaça Koch também mere-
cem atenção especial para os interessados em conhecer melhor os Possenti, S. Os Humores da Língua. Campinas, Mercado de Letras,
mecanismos de estabelecimento das relações de coesão e coerência 1988.
textuais. Possenti, S. A cor da língua. Campinas, Mercado de Letras, 2001.
Possenti, S. Mal comportadas línguas. Curitiba, Criar, 2003.
Bechara, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 37. ed. revista
e ampliada. Rio de Janeiro, Lucerna, 1999.
Prática de leitura e produção de textos
Camara Jr., Joaquim Mattoso. Dicionário de Lingüística e Gramáti-
ca. Petrópolis, Vozes, 1984. Sobre a questão da leitura merecem destaque as obras de Alberto
Cegalla, Domingos Paschoal. Dicionário de Dificuldades da Língua Manguel, principalmente Uma história da leitura e de Roger Chartier
Portuguesa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1996. A aventura do livro – Do leitor ao navegador.
Chaui, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo, Ática, 1994. Com relação à estrutura dos textos, recomendamos o já “clássi-
Cunha, Celso e Lindley Cintra. Nova Gramática do Português Con- co” Comunicação em Prosa Moderna, do professor Othon M. Garcia,
temporâneo. 3. ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2001. pelo aspecto prático das orientações por ele oferecidas com relação à
construção das partes do texto.
Duarte, Sérgio Nogueira. Língua Viva – Uma análise simples e bem-
Recentemente têm sido publicadas várias obras que auxiliam a

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
humorada da linguagem do brasileiro. Rio de Janeiro, Rocco,
reflexão sobre o trabalho com os gêneros textuais no contexto esco-
1998. v. I.
lar. Além da referência clássica de Mikhail Bakhtin, recomendamos
Duarte, Sérgio Nogueira. Língua Viva – Uma análise simples e bem- o livro do professor Bernard Schneuwly, que traz um capítulo dedi-
humorada da linguagem do brasileiro. Rio de Janeiro, Rocco, cado à orientação da preparação de seqüências didáticas para o tra-
1999. v. II. balho com gêneros da oralidade e da escrita. Além disso, a coleção
Duarte, Sérgio Nogueira. Língua Viva – Uma análise simples e bem- coordenada pela professora Lygia Chiappini (Aprender e ensinar com
humorada da linguagem do brasileiro. Rio de Janeiro, Rocco, textos) também oferece interessantes sugestões e orientações para o
1999. v. III. estudo dos gêneros textuais baseadas no acompanhamento de pro-
Duarte, Sérgio Nogueira. Língua Viva – Uma análise simples e bem- postas realizadas em escolas brasileiras.
humorada da linguagem do brasileiro. Rio de Janeiro, Rocco, Recomendamos por fim, mais uma vez, a leitura das obras da
2000. v. IV. professora Ingedore Koch, que, com suas reflexões sobre a lingüísti-
Duarte, Sérgio Nogueira. Língua Viva – Uma análise simples e bem- ca textual, contribui de modo muito valioso para a compreensão dos
humorada da linguagem do brasileiro. Rio de Janeiro, Rocco, mecanismos de organização do texto e construção de sua coerência.
2002. v. V.
Ferreira, Vergílio. “Defesa da Língua”. In: Moura, Vasco Graça (org.). Bakthin, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fon-
Estão a assassinar o português! Lisboa, Imprensa Nacional/Casa tes, 2003.
da Moeda, 1983. Blikstein, Izidoro. Técnicas de comunicação escrita. 13. ed. São Paulo,
Garcia, Othon M. Comunicação em Prosa Moderna. 17. ed. Rio de Ática, 1995.
Janeiro, Fundação Getúlio Vargas Editora, 1996. Brandão, Helena e Micheletti, Guaraciaba (coords.). Aprender e en-
Gnerre, Maurizio. Linguagem, Escrita e Poder. 3. ed. São Paulo, sinar com textos didáticos e paradidáticos. 3. ed. São Paulo, Cor-
Martins Fontes, 1994. tez, 2001. Coleção Aprender e ensinar com textos. v. II.
Ilari, R. Introdução à semântica – Brincando com a gramática. São Brandão, Helena Nagamine (coord.). Gêneros do discurso na escola.
Paulo, Contexto, 2001. 4. ed. São Paulo, Cortez, 2003. Coleção Aprender e ensinar com
Ilari, R. Introdução ao estudo do léxico. São Paulo, Contexto, 2002. textos. v. V.
Japiassu, Moacir. Jornal da ImprenÇa – A Notícia Levada Açério. Brooks, Cleanth e Warren, Robert Penn. Modern Rhetoric. 3. ed. New
São Paulo, Jornal dos Jornais Editora, 1997. York, Chicago, San Francisco, Atlanta, Hacourt, Brace & World.
Koch, Ingedore Villaça e Travaglia, Luiz Carlos. A coerência textual. 1970.
7. ed. São Paulo, Contexto, 1996. Carvalho, Nelly de. Publicidade – A linguagem da sedução. São Paulo,
Koch, Ingedore Villaça. A coesão textual. 8. ed. São Paulo, Contexto, Ática, 2000.
1996. Chartier, Roger. A aventura do livro – Do leitor ao navegador. São
Koch, Ingedore Villaça. A inter-ação pela linguagem. 5. ed. São Pau- Paulo, Unesp, 1998.
lo, Contexto, 1995. Chartier, Roger. Práticas da leitura. São Paulo, Estação Liberdade,
Koch, Ingedore Villaça. O texto e a construção dos sentidos. São 2000.
Paulo, Contexto, 1997. Chaui, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo, Ática, 1994.
Kury, Adriano. Novas Lições de Análise Sintática. 2. ed. São Paulo, Citelli, Adilson (coord.). Aprender e ensinar com textos não escola-
Ática, 1986. res. 4. ed. São Paulo, Cortez, 2002. Coleção Aprender e ensinar
Luft, Celso Pedro. Língua e Liberdade. Porto Alegre, L&PM, 1985. com textos. v. III.
Machado, Josué. Manual da Falta de Estilo. São Paulo, Best Seller, Citelli, Adilson (coord.). Outras linguagens na escola. 4. ed. São Paulo,
1994. Cortez, 2004. Coleção Aprender e ensinar com textos. v. VI.
Martins, Eduardo. Manual de Redação e Estilo – O Estado de S. Eco, Umberto. As formas do conteúdo. 7. ed. São Paulo, Perspectiva,
Paulo. 3. ed. São Paulo, Moderna, 1997. 1993.
Neves, Maria Helena de Moura. Gramática de Usos do Português. Fiorim, José Luiz e Francisco Platão Savioli. Lições de Texto: Leitu-
São Paulo, Editora da UNESP, 2000. ra e Redação. São Paulo, Ática, 1996.

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Garcia, Othon M. Comunicação em Prosa Moderna. 17. ed. Rio de Manguel, Alberto. Lendo imagens. São Paulo, Companhia das Le-
Janeiro, Fundação Getúlio Vargas Editora, 1996. tras, 2001.
Geraldi, Wanderley e Beatriz Citelli (coords.). Aprender e ensinar Manguel, Alberto. No bosque do espelho. São Paulo, Companhia das
com textos de alunos. 6. ed. São Paulo, Cortez, 2004. Coleção Letras, 2000.
Aprender e ensinar com textos. v. I. Manguel, Alberto. Uma história da leitura. São Paulo, Companhia
Godoy Ladeira, Julieta. Criação da propaganda. São Paulo, Global, 1987. das Letras, 1997.
Ilari, Rodolfo. Introdução à Semântica – Brincando com a gramáti- Micheletti, Guaraciaba (coord.). Leitura e construção do real – O
ca. São Paulo, Contexto, 2001. lugar da poesia e da ficção. 2. ed. São Paulo, Cortez, 2001. Co-
Koch, Ingedore Villaça e Luiz Carlos Travaglia. A coerência textual. leção Aprender e ensinar com textos. v. IV.
São Paulo, Contexto, 1996. Perelman, Chaïm e Lucie Olbrechts-Tyteca. Tratado da Argumenta-
Koch, Ingedore Villaça. A coesão textual. São Paulo, Contexto, 1996. ção – A Nova Retórica. São Paulo, Martins Fontes, 1996.
Koch, Ingedore Villaça. A inter-ação pela linguagem. 5. ed. São Pau- Schneuwly, Bernard e Dolz, Joaquim et al. Gêneros orais e escritos
lo, Contexto, 1995. na escola. Campinas, Mercado de Letras, 2004. Tradução e or-
Koch, Ingedore Villaça. Argumentação e linguagem. São Paulo, Cortez, 1984. ganização: Roxane Rojo e Glaís Sales Cordeiro.
Koch, Ingedore Villaça. O texto e a construção dos sentidos. São Toscani, Oliviero. A publicidade é um cadáver que nos sorri. Rio de
Paulo, Contexto, 1997. Janeiro, Ediouro, 1996.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

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Respostas
Observação: as respostas, muitas vezes, são apenas sugestões para auxiliar o professor.

Capítulo 1 18. Teresa refere-se a Deus quando pensa se poderia encontrar Simão
após a morte.
1. A subjetividade no tratamento do tema aparece em elementos 19. Podemos perceber que ele iria morrer em breve, o que provoca
lingüísticos que traduzem uma perspectiva mais emocional, tais como o sofrimento incomensurável em Teresa (Simão havia sido condenado à
uso excessivo de adjetivos, a pontuação carregada de exclamações e os morte por matar Baltasar Coutinho).
travessões, que indicam uma pausa dramática na leitura. 20. Ao ultra-romantismo.
2. A imagem de poeta que aparece na primeira estrofe é a do sujeito 21. As passagens são: “e eu mesmo também me parece que cheguei à
solitário, consumido pelo fogo da imaginação, atormentado pelo sofri- persuasão do médico” e “Cheguei a enganar-me comigo mesmo, e a
mento, e delirante. remirar-me a mim próprio com certo compadecimento e simpatia!”.
3. O “refrão” (entre aspas porque não é exatamente um refrão, pois sofre 22. Percebemos essa popularidade em “e aguçasse a curiosidade dum
pequenas alterações) é “cantou, sonhou, amou” e suas variações. Tal mundo já gasto em admirar cabeças não vulgares”.
reiteração de idéias sugere-nos que, para um romântico, a vida resume- 23. A ironia consiste em denunciar a artificialidade da atitude român-
se ao amor, ao canto (a poesia) e ao sonho: amor e sonho, na verdade, tica, que, de alguma forma, havia se tornado mais uma questão de mo-
traduzem-se na poesia. A grande linha temática do Romantismo está aí dismo do que de convicção. O sofrimento, o desespero, a angústia
revelada por esses três verbos. existencial não passariam de artifícios.
4. No poema de Álvares de Azevedo, a mulher aparece como um ser 24. A primeira imagem (O peregrino, de Caspar Davi Friedrich) apre-
desejado, embora inacessível. É angelical, figura por quem o poeta es- senta uma perspectiva artística romântica, sugerindo a idéia da refle-
pera, e responsável pelo seu sofrimento. Essa imagem sugere uma xão. O fato de as formas serem pouco precisas também é revelador da
idealização da figura feminina, assim como do sentimento amoroso. estética romântica, de sua visão incerta, emotiva. A segunda imagem

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
5. A morte, que abrevia a vida do poeta, não é temida (o temor é o da (estátua de Davi, de Michelangelo) pode facilmente ser identificada
loucura). O jovem morre solitário e sem amor: supõe-se, então, que a com a estética clássica: a perfeição física e o corpo escultural sugerem
morte encurta uma existência angustiada e perdida, motivo pelo qual o a valorização do potencial humano de realização e conquista.
poeta não a teme. 25. As estéticas são a clássica e a romântica. O aluno deve transcrever
6. Podemos encontrar traços do Romantismo no cinema a seguinte passagem: “Pedro era, de facto, o tipo da beleza masculina,
“hollywoodiano”: as personagens idealizadas (heróis e vilões), tra- como a compreendiam os Antigos. O gosto moderno tem-se modifica-
mas cheias de peripécias que não correspondem ao cotidiano que do, ao que parece, exigindo nos seus tipos de adopção o que quer que
vivemos, com “ecos românticos” também nas novelas da televisão. seja de franzino e delicado, que não foi por certo o característico dos
Na literatura, o Romantismo aparece no modismo dos romances his- mais perfeitos homens de outras eras”.
tóricos e no sentimentalismo exagerado e piegas dos “romances rosa” 26. a) Pedro é apresentado como um rapaz forte, saudável, um verda-
(romances vendidos em bancas de jornal — “Júlias”, “Sabrinas”, deiro “Hércules escultural”.
“Bárbaras Cartlands” etc.). Além disso, o Romantismo aparece, b) Daniel é caracterizado como um rapaz franzino, alvo e louro, de
contemporaneamente, na música sentimental, ainda definida como compleição efeminada, de mãos estreitas e saúde delicada.
romântica. 27. O narrador espera que o leitor veja, na diferença física entre Pedro
7. Sugestão: “Durante anos dei-a a devorar à desesperação, e a e Daniel, a mudança radical no gosto estético. A estética clássica
desesperação não pode consumi-la”, “O teu amor e a morte; eis para valorizava a força física, característica de Pedro, enquanto a perspec-
mim a única ventura possível, mas que não tem igual na terra”. Observa- tiva romântica enfatiza um físico mais delicado justamente para va-
ção: outros trechos podem ser apresentados como resposta. lorizar o trabalho intelectual. Daniel, nesse sentido, será o típico herói
8. Elaboração pessoal do aluno. Sugestão: “Eu estou vivo. Te amo”. romântico.
9. Eurico ama Hermengarda, que o havia rejeitado em algum momento 28. O poema trata do amor de forma subjetiva: o eu lírico expressa suas
(“O céu guardava-me para te ouvir palavras de amor e arrependimen- próprias sensações, angústias, preocupações acerca desse sentimento. Além
to”). Eurico é dado por morto, por isso explica sua aparição. disso, utiliza uma linguagem carregada de sentimentalismo, o que aponta
10. “Longa noite”, “desesperação”, “campa”, “amor”, “morte”. para essa visão individual do amor, que se apresenta como um paradoxo ao
11. Alexandre Herculano ambienta seus romances na Idade Média, e a eu lírico: apesar de amado, ele sente tristeza, pois “o excesso do gozo é dor”.
primeira fase do Romantismo caracteriza-se pela valorização da história 29. O eu lírico apresenta o sentimento amoroso como algo paradoxal:
nacional. provoca tristeza e angústia, ainda que seja realizado. Parece, no texto,
12. O poema trata do amor de forma subjetiva: o eu lírico expressa suas que o eu lírico idealiza o amor, ao invés de vivenciá-lo realmente — é
próprias sensações, angústias, preocupações acerca desse sentimento. o que poderíamos chamar de “o amor pelo amor”, e não por um objeto
Além disso, utiliza uma linguagem carregada de exclamações e interjei- ou uma pessoa.
ções, que caracterizam uma perspectiva mais emocional e sentimentalista 30. c
sobre o tema. 31. a) O público do Romantismo comovia-se com a obra (“aljofarava
13. O eu lírico define o amor como uma contradição: “Esta chama que com lágrimas românticas”); o público realista considerava a obra cômi-
alenta e consome, / Que é vida — e que a vida destrói”. Seu desespero ca (“barrufando com frouxos de riso realista”).
aparece quando confronta o estado em que se encontra, atormentado, b) Os leitores do Romantismo esperavam do romance um certo tipo
com sua vida pregressa, semelhante a um sonho. de característica que lhes agradava: o sentimentalismo, as persona-
14. Essa visão do amor como uma espécie de turbilhão não corresponde gens idealizadas (heróis e mocinhas), as complicações sentimentais;
exatamente à realidade: há uma idealização do sentimento, que é essas características eram comoventes, na época. Posteriormente, os
supervalorizado. Observação: seria interessante o debate sobre as formas leitores das obras realistas tinham outro tipo de expectativas: queri-
de apresentação do amor no cinema, na televisão e na vida cotidiana — os am um romance que mostrasse a realidade tal qual ela é, sem idealizá-
namoros, o casamento tais quais o aluno pode observar a seu redor. la. Assim, quando um leitor do Realismo se deparava com uma obra
15. O recurso do uso de sinais de pontuação mais expressivos de emo- de estilo romântico, certamente achava graça nas situações mostra-
ção, como reticências, exclamações e travessões — que indicam pausas das, que lhe pareciam inverossímeis ou sentimentais em demasia.
—, além do uso recorrente de interjeições. 32. Camilo Castelo Branco refere-se ao fato de que o Romantismo,
16. “Está conosco a morte”, “estou morrendo hora a hora”, “sonhos de ao contrário do Realismo, apresenta uma visão ingênua da vida, o
felicidade”, “últimas agonias do teu martírio”. que permitiria que senhoras e mocinhas lessem os romances sem
17. A associação entre o amor e a morte constitui o tema básico do Ro- pudor: ali não encontrariam intimidades que as pudessem constran-
mantismo, em especial na segunda fase. ger (não devassava alcovas).

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Capítulo 2 13. O tom grandiloqüente, épico, dado pela construção de um eu lírico
pouco característico, além das interpelações a Deus (apóstrofes acumu-
1. a) Gonçalves Dias diz que as estrofes são irregulares, e que não ladas), e metáforas em seqüência caracterizam a linguagem condoreira.
seguiu convenções de versificação: utilizou metros variados da tra- 14. O lamento da África pela penúria de seus filhos reflete a preocu-
dição portuguesa, de acordo com sua necessidade de expressão. pação abolicionista típica da terceira geração romântica no Brasil.
b) Os românticos rompem com a convenção formal clássica, adotan- 15. Na música, por exemplo, o rap mantém a tradição engajada do
do uma postura de liberdade formal relativa. A métrica e a rima ain- condoreirismo. (Sugestão: trabalhar com os alunos a noção de
da permanecem, mas devem servir para a expressão do indivíduo. Ao engajamento social utilizando músicas desse gênero.)
abandonarem o uso de estrofação, métrica e rima clássicas, os ro- 16. a) No trecho de O guarani, o recurso usado na caracterização da
mânticos passam a apregoar a primazia do sentimento sobre a razão: natureza é a personificação, ou seja, a atribuição de características e
a forma deve servir à emoção. ações de seres animados a seres inanimados (no caso, o rio).
2. a) Os poemas do livro não têm unidade temática, pois foram escri- b) O fato de esse recurso ser utilizado revela uma presença mais
tos em circunstâncias diferentes (“porque foram compostas em épo- humanizada da natureza: ela reflete sentimentos e contracena, de al-
cas diversas — debaixo de céu diverso — e sob a influência de guma forma, com as personagens, como se fosse uma delas.
impressões momentâneas.”). 17. A tendência evidente no texto é a do apego à história ou ao naci-
b) O processo de criação romântico parece envolver a particularida- onalismo, marcado pelo elemento medieval (característico do Ro-
de (ou individualidade) de cada situação. Além disso, é resultado de mantismo europeu), além de se enaltecer a natureza nativa do Brasil.
inspirações momentâneas e não repetíveis (o que as torna únicas), e 18. O Romantismo brasileiro, embora tente constituir-se como um
não de um plano pré-concebido. Nota-se, na afirmação de Gonçal- momento nacionalista, presta tributo ao Romantismo português ao
ves Dias, a preponderância de uma visão de criação poética que par- utilizar-se de dados característicos da história da metrópole, tais como
te de uma inspiração circunstancial. o medievalismo, presente na descrição do rio como vassalo de outro.
3. a) O paradoxo é que Gonçalves Dias afirma que escreveu os poe- Assim, ao mesmo tempo em que o Romantismo no Brasil procura
mas para si mesmo num contexto de divulgação desses poemas: o uma identidade nacional, utiliza elementos europeizantes.
prólogo de seu livro, que, evidentemente, é voltado para os outros 19. Aurélia Camargo é rica e formosa e tem um caráter íntegro, rejei-
(os leitores).
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tando aqueles que a querem por sua fortuna. Apesar de riquíssima,


b) É possível percebermos traços do individualismo característico não cede aos encantos do “vil metal”.
do Romantismo. O autor sugere que seus poemas são uma expressão 20. Plenamente de acordo com os princípios românticos, que preco-
absolutamente individual e que, de certa forma, os leitores estarão nizavam a pureza do sentimento amoroso, o texto revela que amor,
compartilhando de sua intimidade. Essa exposição do “eu” configu- dinheiro e felicidade são elementos incompatíveis.
ra uma perspectiva essencialmente romântica. 21. Ela deveria encontrar alguém que a amasse verdadeiramente, sem
4. a) “Com a vida isolada que vivo, gosto de afastar os olhos de sobre sofrer influência de sua fortuna. O amor deveria estar desvinculado
a nossa arena política para ler em minha alma”, “cobrir tudo isto do dinheiro.
com a imaginação” e “purificar tudo com o sentimento da religião e 22. No último parágrafo, por exemplo, podemos perceber que, ape-
da divindade”. sar do deprezo que nutria pela bajulação, Aurélia vivia cercada de
b) A primeira passagem indica o recolhimento do poeta, que se afas- admiradores interessados em sua fortuna.
ta da “arena política” para voltar-se a si mesmo. A segunda e a ter- 23. “atravessou o firmamento da Corte como brilhante meteoro”,
ceira passagens mostram que a poesia é, de certa forma, um “como a flor em vaso de alabastro”, “dois esplendores que se refle-
mascaramento do real, uma vez que o poeta “purifica” o que vê com tem, como o raio de sol no prisma do diamante.”
a religião e cobre tudo com a imaginação. 24. a
5. a) O elemento presente no texto de Gonçalves Dias é a Natureza. 25. b
b) Considerando-se que os românticos são sentimentais e idealizam a 26. a) O “anjo” apresentado pelo eu lírico é uma bela mulher.
realidade, podemos supor que a Natureza brasileira será apresentada de b) Essa mulher é apresentada, inicialmente, por meio de compara-
forma emocional, ufanista, idealizada como exuberante, exótica, farta, ções: “tem o encanto, a maravilha / da espontânea canção dos passa-
superior à de outros lugares. Através desse elemento, constrói-se uma rinhos”, “tem os seios alvos, tão macios como o pêlo sedoso dos
imagem de país que será explorada vastamente até hoje. arminhos”. Tratando-a como uma “criatura vaporosa”, o eu lírico
6. A expressão é “dor vivente”. revela seus traços angelicais e afirma que seus beijos dão vida, en-
7. a) O eu lírico deseja a morte como um alívio para sua existência quanto seu desprezo causa a morte.
angustiada e entediante. 27. a) A referência que o eu lírico faz à maciez dos seios dessa bela
b) As imagens utilizadas estão principalmente na terceira estrofe. Per- mulher.
cebe-se que, ao comparar a morte à saída do deserto e ao acordar de b) Porque, na terceira estrofe, o eu lírico revela que essa visão sensu-
um pesadelo, o eu lírico dá a ela uma conotação positiva, de algo que al aparece entre seus sonhos.
se deseja alcançar (o fim do deserto e do pesadelo). 28. Podemos identificar o tom ultra-romântico no tratamento dado à
8. “É pela virgem que sonhei!…”, “Ó minha virgem dos errantes mulher: ela é angelical, mas tem o poder de dar vida com seus beijos
sonhos”. ou morte com seu desdém. Essa dualidade associada à figura femini-
9. a) “Foi poeta, sonhou e amou na vida.” na é típica do ultra-romantismo. Outro aspecto é a sensualidade
b) O epitáfio em questão sintetiza os princípios da segunda geração: sugerida e, em seguida, negada. Realidade e sonho misturam-se na
a poesia como expressão dos sentimentos, o sonho como forma de fala do eu lírico. A comparação irônica entre uma mulher angelical e
evasão da realidade, e o amor como fio condutor de tudo. a fumaça do charuto também pode ser apresentada como uma carac-
10. a) A relação é de intimidade. O eu lírico pede para que as som- terística ultra-romântica.
bras do vale e as noites da montanha protejam seu corpo; pede ainda 29. As duas imagens são semelhantes pela insalubridade dos navios
que os arvoredos do bosque abram seus ramos para deixar o luar que traziam trabalhadores ao Brasil: os corpos amontoados, o des-
iluminar seu túmulo. conforto, o abandono em que se encontram as figuras humanas. Os
b) O recurso utilizado é a interlocução direta com os elementos da dois quadros chamam a atenção pelo excesso de pessoas, que, apesar
natureza, pelo uso de vocativos. das situações distintas (a emigração é voluntária), padecem sofri-
11. O “eu” do poema é o continente africano. mento semelhante.
12. A poesia lírica caracteriza-se pela expressão do sentimento do 30. a) O poema de Castro Alves refere-se ao navio negreiro, mas pode
“eu”. Considerando-se que quem fala nesse poema é o próprio conti- também aplicar-se ao navio que trazia imigrantes para o Brasil pelos
nente, que não pode ser considerado um indivíduo, temos uma motivos apresentados na questão anterior: ainda que a vinda de traba-
grandiloqüência característica da poesia épica. O poema não pode lhadores estrangeiros ao Brasil, no final do século XIX, tenha sido vo-
ser lido como lírico, pois não traz o intimismo e o caráter confessional luntária, as péssimas condições de transporte e de trabalho no país
desse gênero poético. acabaram por gerar uma indesejável semelhança com a escravidão.

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b) Pela comparação entre todas essas manifestações, podemos con- dade que o cerca, tendo a razão como seu principal instrumento. Sendo
cluir que a construção da nacionalidade brasileira se faz, de alguma assim, a utilização do soneto, em que há preocupação com a elabora-
forma, pela exploração da tragédia de outros povos: escravos e imi- ção formal mais rígida, reflete, na estrutura do poema, esse
grantes, que tanto contribuíram para a formação do Estado e da cul- racionalismo.
tura brasileira, foram aviltados, esmagados por forças que se 6. a) O eu lírico se dirige à Razão.
acobertavam atrás da bandeira nacional. b) A Razão é caracterizada como a “irmã do Amor e da Justiça”,
31. e como a base da luta por um ideal socialista (“Mãe de filhos robustos,
32. Memórias de um sargento de milícias é narrado em terceira pes- que combatem / Tendo o teu nome escrito em seus escudos!”).
soa, por um narrador observador, que não se contenta em apenas con- 7. No Romantismo, os artistas adotavam uma visão profundamente
tar os fatos: tece comentários, dialoga com o leitor e é, em grande subjetiva e individualista do mundo em que viviam. Nesse poema, o
parte, o responsável pelo tom irônico do texto. Vemos essa interação individualismo e o subjetivismo deixam de existir para dar lugar a
com o leitor, por exemplo, em “O leitor compreende bem…”. uma visão racionalista, como o próprio título do poema indica. O eu
33. No texto transcrito, Leonardo é apresentado como um garoto agi- lírico faz uma prece à Razão, a única coisa à qual a alma livre se
tado, irresponsável; é mau aluno, gazeteia as aulas, vende o seu ma- submete. Nota-se, aqui, a oposição à postura romântica, que se ca-
terial, esconde-se na Igreja para não ser encontrado. Ou seja, é racteriza pela submissão aos sentimentos e à subjetividade. De for-
realmente um malandro, o que contrasta radicalmente com o modelo ma semelhante aos românticos, porém, há no poema a expressão, em
de herói configurado pelo Romantismo. Leonardo é, por isso, cha- tom panfletário, da insatisfação com a sociedade, mas o arrebata-
mado de anti-herói. mento com que Antero fala da Razão traduz sua crença no ideal soci-
alista consolidado a partir da submissão dos homens e das nações a
essa mesma Razão.
Capítulo 3 8. O romance realista apresenta enredos mais lentos, sem o esquema
1. Emma Bovary tinha ideais românticos de amor: esperava, antes de de surpresa presente nas tramas românticas. As personagens realis-
se casar, que o resultado do amor fosse a felicidade extrema, como a tas são complexas, apresentam contradições e conflitos, ao contrário
descrita nos livros que lia. Para ela, o amor deveria trazer à vida co- do Romantismo, que cria heróis e vilões lineares. Os realistas abor-

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tidiana “felicidade, paixão e embriaguez”. Como esses ideais não se dam sua própria época, enquanto os românticos buscaram muitas
concretizam na vida real, a protagonista do romance se frustra. vezes no passado histórico sua fonte de inspiração. A burguesia é
2. A perspectiva do narrador é objetiva, pois se concentra na descri- tema nos dois movimentos: idealizada no Romantismo, criticada pelo
ção dos elementos da educação de Emma, que levam à idealização Realismo.
do amor e, conseqüentemente, à frustração da personagem quando 9. a) O eu lírico está em busca do palácio da Ventura, ou seja, em
não encontra na sua vida as aventuras românticas descritas nos livros busca da felicidade.
que lia. b) Ele se sente esgotado e prestes a desistir, está exausto e vacilante.
3. a) A leitura de romances românticos, como Paul et Virginie, com 10. A palavra é sonho. O eu lírico empreende essa busca em um so-
histórias mirabolantes, grandes amores, grandes aventuras românti- nho.
cas vividas por “senhoras perseguidas que desmaiavam em pavilhões 11. Apresenta-se como um esplendoroso palácio com portas de ouro.
solitários” e “cavalheiros corajosos como leões, doces como cordei- 12. A postura do eu lírico é pessimista, pois descobre que o palácio
ros, virtuosos como ninguém pode ser, sempre bem vestidos e que da felicidade não passava de uma fachada. Dentro dele nada havia
choram como urnas”, é a base da educação de Emma. Além disso, além de silêncio e escuridão.
devemos considerar o fato de, aos treze anos, ter sido enviada para 13. A forma fixa do soneto, a visão pessimista da vida e a descoberta
ser educada em um convento, como cabia às moças de boa família na da realidade por trás da aparência são elementos realistas do texto.
época. Lá, ela toma contato com outros elementos que constroem 14. A metalinguagem consiste na utilização da linguagem para refe-
sua mentalidade romântica: a senhora que emprestava os romances rir-se a ela mesma. No caso, o narrador, dentro do romance, faz refe-
sentimentais e que conhecia as “canções galantes do século passado” rências à própria construção do romance.
e as aulas de música em que cantava “romanças”, “pacíficas compo- 15. De acordo com o texto, podemos perceber uma relação crítica
sições que lhe deixavam entrever, através da tolice do estilo e das entre narrador e leitor. O primeiro comenta com acidez o gosto do
imprudências das notas agudas, a atraente fantasmagoria das reali- segundo.
dades sentimentais”. 16. a) Como se sabe, a partir do título da obra, Brás Cubas narra suas
b) Emma é educada segundo os ideais românticos burgueses. memórias do além-túmulo. Em suas próprias palavras, é um defunto
c) Emma é apresentada como uma moça sonhadora, que idealiza o autor. Esse fato explicaria as referências feitas a sepulcro e a contra-
amor e espera encontrar, na vida real, as aventuras e tramas mirabo- ção cadavérica.
lantes que lê nos romances românticos. b) Ao lermos o restante do trecho, percebemos que Brás Cubas refe-
4. Emma representa a encarnação dos ideais burgueses criticados por re-se a um estilo mais lento, sem peripécias, o que poderia ser
Flaubert: a futilidade, a idealização da vida e do amor. No trecho em metaforizado por um estilo sepulcral.
que se refere às romanças que Emma cantava, o narrador deixa clara 17. O estilo de Memórias póstumas é totalmente atestado pelo frag-
a crítica à mentalidade apresentada pelo Romantismo: “pacíficas com- mento. Brás Cubas compara-o aos bêbados: vai à direita e à esquer-
posições que lhe deixavam entrever, através da tolice do estilo e das da, cai e se levanta, sem jamais ser linear. Dessa forma, o fato de o
imprudências das notas agudas, a atraente fantasmagoria das reali- fragmento ser, ele mesmo, uma digressão metalingüística comprova
dades sentimentais”. A educação de Emma, tendo por base os ideais a característica principal da obra.
românticos burgueses, sela seu destino: a frustração e tédio com a 18. a) Segundo Brás Cubas, o leitor gosta do estilo regular e fluente,
vida que não corresponde àquelas tramas descritas nos livros levam da trama mais rápida (tens pressa de envelhecer), da narração mais
a personagem ao adultério e à morte. “Morte simbólica, porque com linear (narração direta e nutrida).
ela Flaubert indica a morte do próprio Romantismo, ao mesmo tem- b) Esse estilo narrativo foi plenamente adotado pelo Romantismo,
po em que critica, de modo impiedoso, a hipocrisia da sociedade cujas tramas folhetinescas mantinham o leitor atento ao desenvolvi-
burguesa. Em sua obra, toda a intriga melodramática, aventurosa e mento das peripécias e ao resultado final.
sensacional é substituída pelas descrições de uma vida cotidiana ab- 19. Bentinho, no decorrer do romance, assume uma perspectiva mo-
solutamente monótona, uniforme e, não raro, vulgar.” ralista ao acusar Capitu de adultério. Tende a transformá-la em res-
5. a) O soneto, poema composto de 14 versos decassílabos, organiza- ponsável pela sua infelicidade. No entanto, como percebemos no
dos em dois quartetos e dois tercetos. trecho transcrito, Bentinho é tomado por desejos adúlteros por Sancha:
b) O soneto é uma forma fixa característica do Classicismo, que tem deseja a mulher do melhor amigo, quase com naturalidade, o que
como princípio norteador o racionalismo. Também o Realismo se ca- revela uma espécie de moral contraditória.
racteriza pelo racionalismo, isto é, pelo abandono do subjetivismo 20. a) O narrador constrói a imagem de uma leitora fútil, que lê ape-
adotado pelos românticos. O artista realista procura analisar a reali- nas nos intervalos entre as festas que freqüenta e que pode chocar-se

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com um tema realista demais, como o adultério. O tratamento que o 39. Nessa passagem, o capítulo segundo do livro, explica-se a moti-
narrador dispensa à leitora é condescendente, como o próprio título vação da escritura do romance. Além disso, no final há referência a
do capítulo indica. Além disso, ele diz que mudará de rumo, para que um capítulo posterior e ainda o diálogo com o leitor.
a leitora não feche o livro. 40. Seu casco é negro, as velas estão encardidas de mofo, atravessa
b) Por essa imagem de leitora e pelo tratamento condescendente dado os mares de forma lenta, pesada.
a ela, o narrador afirma a futilidade e a superficialidade da burgue- 41. Era uma gloriosa corveta; sugestivamente pitoresco, idealmente
sia, interessada apenas na face “cor-de-rosa” das relações amorosas festivo, como uma galera de lenda, branca e leve no mar alto.
descritas nos romances. 42. A comparação entre o passado e o presente ressalta o estado de
21. A passagem em que ocorre a zoomorfização é movimentos de deterioração em que se encontra o navio, acentuando o ambiente de
cobra amaldiçoada, em que a dança sensual de Rita Baiana é compa- degradação.
rada aos movimentos sinuosos de uma serpente. 43. Esquife agourento; morcego apocalíptico.
22. No trecho, a sexualização aparece nos movimentos de dança e 44. A partir da descrição de um cenário decadente, lúgubre e
requebros da mulata, assim como no cheiro que dela emanava, que desolador, podemos inferir que o ser humano, inserido nesse espaço,
contribuem para criar essa imagem sensual da mulher. será, numa visão determinista, também decadente. Será, provavel-
23. a) O determinismo, que afirmava, de forma cientificista, que o mente, um animal cujos atos refletirão apenas o ambiente de que pro-
comportamento humano é irrevogavelmente estabelecido por fatores vém ou em que se encontra.
tais como a raça, o meio e o momento histórico.
b) O narrador afirma que o fato de Bertoleza aceitar amigar-se com
João Romão é instintivo: como toda cafuza procurou por instinto o Capítulo 4
homem numa raça superior à sua. Não é o desejo individual da per-
1. O tema do poema é a dificuldade de expressão de sentimentos
sonagem que explica seu comportamento, mas um dado científico:
através das palavras.
tal qual um animal, Bertoleza age por instinto.
2. a) O Pensamento é um turbilhão de lava e a Forma é um sepulcro
24. O elemento que pode ser considerado preconceituoso é a afirma-
de neve.
ção de que Bertoleza não se submeteria a negros e que ficou feliz por
b) As metáforas, que formam uma antítese entre si, mostram que a
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

encontrar um homem em uma raça superior à sua. A idéia de que há


Forma é uma espécie de prisão do Pensamento: este fervilha, carre-
distinções de raça e que, portanto, é possível estabelecer um critério
gado de emoções, enquanto a Forma encarrega-se de matar essas emo-
de superioridade entre elas foi moda no século XIX, amparando, in-
ções, esfriá-las.
clusive, a ideologia nazista do início do século XX, que apóia os
3. A forma fixa do soneto, os versos alexandrinos, as rimas ricas, a
movimentos neonazistas no final do século.
ausência da primeira pessoa são traços essenciais do Parnasianismo.
25. Resposta livre. Sugestão: propor discussão sobre pesquisas ge-
4. O vocabulário utilizado tende a ser mais exagerado e sentimental.
néticas, que sugerem que determinados comportamentos (tais como
O tema, que aponta as limitações da Forma para a poesia, também
a agressividade, a infidelidade, a homossexualidade) não são opções
afasta o poema do Parnasianismo.
ou decorrências de aspectos culturais e sociais, o que pode, certa-
5. Do Romantismo, que cultuava a liberdade de expressão sentimen-
mente, levar à conclusão de que são desvios ou aberrações biológi-
tal. Bilac mostra justamente que a Forma limita essa expressão.
cas. Esse tipo de raciocínio causa preconceitos, discriminação e
6. A apreciação do poder sugestivo da música e o gosto pelas coisas
compromete o pleno exercício da cidadania, pois impede as pessoas
vagas.
de se responsabilizarem por suas escolhas. É importante observar
7. O termo canção cinzenta sugere uma poesia mais vaga e impreci-
que as verdades científicas não são absolutas — mas históricas e
sa, porque o cinza é um tom entre o branco e o preto. Assim como a
passíveis de transformação.
cor, a poesia não deve nomear nada com clareza ou objetividade:
26. a
deve situar-se entre o Indeciso e o Preciso.
27. d
8. A poesia simbolista caracteriza-se por tratar de temas vagos em
28. e
uma linguagem precisa, ou seja, o rigor formal não é abandonado. É
29. O narrador não compactua da opinião do Conde. Ao descrever os
essa a precisão citada no poema.
arredores de onde se encontravam as três personagens, denota uma
9. A última estrofe, por exemplo, constitui uma crítica ao
atitude crítica e irônica em relação às palavras do Conde. Tal postura
Parnasianismo, julgado como falso e oco.
crítica é característica do Realismo.
10. O uso das maiúsculas alegorizantes (Virgens, Sol, Lar, Mar...),
30. Que paz, que animação, que prosperidade e nas faces enfezadas
que mostram que a referência não é à coisa em si, mas ao seu concei-
dos operários havia como a personificação das indústrias moribun-
to genérico.
das são trechos em que se evidencia essa contradição.
11. Ele pode ser transportado a seu perdido Lar, através da imagina-
31. Duas vezes na fala do conde: ... A verdade, meus senhores, é que
ção.
os estrangeiros invejam-nos...; ... Meus senhores, não admira real-
12. Das ruínas do meu Lar desterrai. Nota-se a aliteração (r) e a
mente que sejamos a inveja da Europa!...
assonância (a).
32. Segundo o Conde, o Largo era um lugar que mostrava paz, prospe-
13. O sol, o campo, o vinho, a Graça, a formosura e o luar.
ridade e contentamento. No entanto, o que o narrador nos descreve é,
14. O desejo de evasão, a recusa da realidade e a tentativa de retoma-
de fato, um ambiente urbano decrépito, cheio de pessoas cansadas,
da do passado, da terra de origem, são características trabalhadas
alcoolizadas, entediadas. O ambiente parece ser lento e denso; nada há
pelo Romantismo.
de contentamento.
33. Na cena apontada fica evidente o contraste entre o passado heróico 15. As palavras que podem ser associadas à sensualidade são carnes
português, bem sintetizado na figura de Camões, e o presente decadente que amei, volúpias, carnes virgens e tépidas, carnes acerbas e mara-
criticado por Eça. É nesse contraste que reside a ironia da passagem. vilhosas. As expressões que remetem à morte são sangrentamente,
34. b letais, dilaceradas, mortais horrores, luto etc.
35. Diz Bentinho: O mais do tempo é gasto em hortar, jardinar e ler; como 16. Em Carnes virgens e tépidas do Oriente essa afirmação se evi-
bem e não durmo mal. Ou seja, seu cotidiano é gasto com banalidades. dencia. Também podemos apontar a evocação aromática de essên-
36. O tédio o moveu a escrever, como podemos comprovar em como cias de heliotropos e de rosas / de essência morna, tropical,
tudo cansa, esta monotonia acabou por exaurir-me também. dolente…
37. De fato, Bentinho não leva adiante nenhuma de suas idéias inici- 17. A musicalidade, presente em aliterações e assonâncias, o uso de
ais por preguiça de dedicar-se à pesquisa. Obviamente, isso indica maiúsculas alegorizantes, a evocação de uma atmosfera de sonho e
um caráter pouco persistente e talvez fraco. mistério são outras características simbolistas presentes no texto.
38. A referência retórica à fala dos bustos em sua parede indica duas 18. As duas primeiras estrofes constituem um vocativo, em que o eu
coisas: uma certa pretensão intelectual do narrador e sua classe soci- lírico evoca as carnes que amou sangrentamente. Os dois tercetos
al aristocrática. são um apelo a essas carnes para que elas passem por ele.

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19. Os versos são decassílabos. damas) que Percy destina às mulheres. No segundo, a inversão dos
20. O poeta é chamado de beneditino (referência à concentração de substantivos na expressão encerra outro sentido: Zé do Boné dá às
um monge), o que indica que sua atitude deve ser de retiro, de isola- damas um tratamento menos formal e respeitoso, fazendo-as se sen-
mento. tirem bonitas e desejadas, ou seja, “mulheres”.
21. Na estrofe não há sequer uma marca de primeira pessoa, o que 3. O diminutivo usado (“empreguinho”) tem conotação depreciativa,
mostra a tendência a evitar o subjetivismo na poesia, característica isto é, dá a idéia de emprego ruim. O efeito produzido pelo uso do
do Parnasianismo. substantivo flexionado, no contexto (a situação perigosa em que a
22. No último verso, constrói-se a idéia de que a poesia é um traba- personagem se encontra), é o de reversão desse valor pejorativo atri-
lho, que exige dedicação e esforço. buído ao emprego na quitanda. O momento que o personagem vive
23. a) Ao contrário dos realistas e naturalistas, preocupados com a faz com que aquele “empreguinho” seja altamente superior ao atual.
crítica social, o Parnasianismo prega uma literatura distante do coti- 4. a) O efeito de sentido que o texto da propaganda provoca, no con-
diano (Longe do estéril turbilhão da rua). texto, é o de que os velhinhos dos asilos são nossos “velhos amigos”,
b) Tanto os parnasianos quanto os realistas e naturalistas colocavam- ou seja, amigos de longa data, amigos em quem confiamos e de quem
se contra o excesso sentimental e subjetivista romântico. gostamos muito (e, portanto, a quem deveríamos ajudar).
24. d b) Pode-se dizer que esse efeito de sentido é obtido exatamente por-
25. a que inverte-se a forma e a função de “velhos” e “amigos”, nas duas
26. c possíveis leituras do sintagma nominal “velhos amigos”. A primeira
27. A repetição dos versos e as reticências acentuam a atmosfera vaga leitura toma “velhos” como substantivo e “amigos” como adjetivo
e indefinida do poema. que tem a função de modificar esse substantivo, a ele atribuindo uma
28. A imagem do barco de flores parece ser sugerida pelo som da qualidade. Na segunda leitura, a relação forma/função se inverte:
flauta. “velhos” é tomado como adjetivo e “amigos” é tomado como o subs-
29. Festões de sons (visão + audição). tantivo por ele modificado. É precisamente do jogo com essas duas
30. Flauta flébil; Só, incessante, um som de flauta chora. leituras possíveis (baseadas em uma diferente função, em cada caso,
31. Só, viúva, escuridão tranqüila. atribuída à forma empregada como substantivo e àquela empregada

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32. O tema central, típico da poesia de Alphonsus de Guimaraens, é a como adjetivo) que resulta o efeito de sentido do texto da campanha.
morte da mulher amada. 5. a) concessão b) possessão c) mudança/mutação d) isenção
33. No verso E os arcanjos dirão no azul ao vê-la, a religiosidade 6. e
simbolista se evidencia. 7. O autor se vale da substituição dos adjetivos por outras expressões
34. O eu lírico mostra que a dor da perda da amada é sentida por qualificadoras. No texto, há a substituição do adjetivo “bela” por “pes-
todas as coisas: os elementos da natureza (cinamomos, laranjais, es- soa mais-atraente-do-que-a-média” e “menina” por “pré-mulher”.
trelas, lua) lamentam a morte dela assim como o eu lírico. A esse 8. No conto de fadas politicamente correto, a variação na forma e a
recurso damos o nome de personificação. troca dos adjetivos por outras expressões qualificadoras associa ao
35. O primeiro sentido é o de frutos, como substantivo. Usada depois humor a crítica a discursos baseados no pressuposto de que a modifi-
como verbo, ganha o sentido de colocamos. cação da linguagem, por si só, elimina preconceitos.
9. a) A palavra “baratos” é classificada como adjetivo, pois está qua-
lificando o substantivo “perfumes”.
Capítulo 5 b) A opinião do cartunista é a de que “perfumes baratos”, isto é, que
1. a) Não. É difícil saber do que se trata, com tantas lacunas. custam pouco, são de má qualidade e têm odor desagradável.
b) Sim, em algumas passagens, os verbos e adjetivos ajudam a inferir c) Os elementos visuais. O odor desagradável exalado pela Gatinha
que o texto fala de um casal que trabalha na colheita de algum tipo provoca a “queda” de uma mosca, de um pássaro e de um avião.
de alimento. 10. a) “bonitinho”, “pequenininho”, “branquinho”, “gracinha”.
c) As palavras identificam o “assunto” de que trata o texto, dão nome b) Os diminutivos são utilizados com valor pejorativo, sugerindo que,
às coisas. como o carro é para uma mulher, não precisa ser muito bom, além de
d) Os termos devem ser substantivos, dada a função que cumprem no evidenciarem uma visão preconceituosa, comum na sociedade, com
texto. relação à mulher.
A seguir, transcrevemos o texto na íntegra: c) A autora associa o uso do diminutivo à expressão “de mulher”
Em um dia frio e enevoado de meados de setembro, quase todos os (locução adjetiva que se refere às coisas que as pessoas deste sexo
moradores de Thamo estão nos campos colhendo a safra de batata, teriam ou comprariam — um carro “de mulher”, por exemplo). Por
retirando do solo o alimento que os sustentará durante um ano. Em oposição, teríamos também outra expressão qualificadora para de-
uma plantação à margem do rio, conheço Pasang Namgyal Sherpa, signar as coisas que “pertenceriam” ao outro sexo: a locução adjetiva
um senhor pequenino de cabelos brancos eriçados que aqui e ali es- “de homem” (“carro de homem”). Segundo a autora, o “carro de ho-
capam de seu gorro vermelho. Com 74 anos, Pasang me apresenta a mem” deve ser “grandão, bonitão, por aí”, ou seja, quando se refe-
sua mulher, Da Lhamu, um ano mais nova. O casal me convida para rem às “coisas de homem”, os adjetivos vão para o aumentativo,
tomar um chá sherpa, uma bebida preparada em uma batedeira de evidenciando, através dos recursos lingüísticos, a visão preconceitu-
madeira com sal e manteiga de iaque. […] O casal vive em uma tra- osa e sexista presente em nossa sociedade.
dicional casa rural. O sombrio piso térreo é repleto de sacos e cestos 11. a) Todas as palavras no diminutivo são substantivos.
com batatas, nabos, fubá e uma pilha de excrementos secos de iaque, b) Sim. Os diminutivos continuam a ser usados com valor pejorativo,
que são usados como combustível. Subindo por uma íngreme escada indicando que a vida, as roupas e o carro de uma mulher não precisam
de madeira, chegamos a um aposento comprido, com bancos encos- ser tão bons, apenas suficientes, como o seu salário. A idéia precon-
tados nas paredes, que servem para sentar e para dormir, e uma larei- ceituosa presente neste uso dos diminutivos é a de que a mulher não
ra aberta em um dos cantos que proporciona o pouco de calor e luz precisa de muita coisa para viver bem, ela se contentaria com pouco,
que a casa oferece. […] Pasang e Da Lhamu têm, juntos, um total de não teria (ou não poderia ter) as mesmas ambições que um homem.
12 dentes, mas seus sorrisos brilham quando me falam de sua vida 12. a) O valor aqui é positivo, indicando que a felicidade da mulher
— ambos nasceram em Khumbu, casaram-se e sempre cultivaram a virá do reconhecimento da igualdade entre homens e mulheres. Essa
terra em Khumbu — e relacionam orgulhosamente seus bens. Eles igualdade estaria refletida, por exemplo, em um salário igual ao de
possuem quase 2 hectares de lavouras em terraços, além de três va- um homem, coisa que não ocorre hoje, como a autora afirma no pe-
cas e três zopkios, um macho híbrido, resultado do cruzamento de núltimo parágrafo.
um iaque e uma vaca. b) A autora quer indicar a necessidade de se eliminar a visão
2. a) São os substantivos dama e mulher. preconceituosa em relação à mulher e a conseqüente discriminação
b) No primeiro quadrinho, a expressão “tratar uma mulher como uma que ela sofre, principalmente a profissional, que é o que a impediria
dama” traz a idéia do tratamento gentil e respeitoso (dispensado às de ter um “carrão”.

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13. a) Temos de interpretá-lo como numeral (uma só mulher dá à luz pelo gerente daquele banco é diferenciado: quer dizer que não se
a cada cinco minutos). confunde com o tratamento-padrão dispensado à massa dos clientes
b) Ele deveria ter interpretado o termo como pronome indefinido, otários, inclui cafezinho, água gelada e, quem sabe, dicas de investi-
referindo-se aos seres humanos do sexo feminino. mento vazadas diretamente da mesa de operações do Banco Cen-
c) O que evidencia, no texto da piada, a confusão feita por Joaquim é tral”. Já o sentido negativo da palavra “diferente” é comprovado pela
o uso do pronome demonstrativo esta determinando mulher, deixan- afirmação do autor de que “a diferença é tudo aquilo que grupos
do claro que Joaquim acha que é uma mesma mulher que dá à luz a sociais hegemônicos usam para excluir ou subjugar minorias — e ao
cada cinco minutos em Portugal. mesmo tempo reforçar sua identidade. Localizado no corpo ou na
14. A diferença entre a interpretação do termo como numeral ou como alma, real ou imaginário, o anátema da diferença justifica lógicas de
pronome indefinido está na especificidade do primeiro (uma única dominação e até de extermínio. Diferentes foram, através do tempo,
mulher, a mesma mulher, “esta mulher”) e na generalidade do se- cristãos no Império Romano, muçulmanos em países cristãos, ne-
gundo (não é uma mulher específica que dá à luz a cada cinco minu- gros no novo mundo, judeus em quase todo lugar. Ah, sim, e loucos e
tos, mas um ser humano do sexo feminino). homossexuais em qualquer tempo”.
15. a) O autor relaciona uma nova apresentação do alfabeto (com 25. Sérgio Rodrigues pretende dizer que a o estabelecimento da dife-
intenção claramente humorística), em um formato semelhante ao dos rença entre as duas palavras revela o nosso preconceito em toda a
dicionários, com as definições de diferentes interjeições iniciadas sua extensão.
com a letra A, a primeira do alfabeto. 26. a) No primeiro texto, o uso do artigo definido “o”, na expressão
b) O autor vale-se de trechos exemplificativos que provocam o riso. “o Brasileiro”, dá ao substantivo a idéia de especificidade, isto é,
Por exemplo, na definição da interjeição “Ai”, Verissimo usa a repe- Macunaíma representaria o brasileiro típico; ao opor a este o artigo
tição da frase “Ai que bom” para expressar êxtase. indefinido (“um brasileiro”), o sentido se altera, generaliza-se, dan-
16. Nas três últimas definições, Verissimo exemplifica as informa- do a entender que o personagem representaria um dentre tantos bra-
ções apresentadas no segundo texto. Ao repetir o “ai” associando a sileiros existentes. No segundo texto, o efeito é inverso: ao usar a
esta repetição enunciados que “traduziriam” os sentimentos expres- expressão “o gol”, a intenção é de especificar, intensificar o signifi-
sados, o humorista comprova a afirmação de que “uma só interjeição cado e a importância do gol, ou seja, este não seria um gol qualquer,
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pode corresponder a sentimentos variados e, até, opostos. O valor de mas o maior de todos.
cada forma interjectiva depende fundamentalmente do contexto e da b) A expressão, como foi apresentada, significaria que o jogador “in-
entoação”. teiro” fica descontente com a reserva. O que o autor da frase preten-
17. a) Os vocábulos “um” e “uma” são artigos indefinidos. dia dizer, de fato, é que “qualquer jogador” ficaria descontente com
b) O uso de artigos indefinidos para determinar os vocábulos fracas- essa situação.
sado, fiasco, decepção e inútil, substantivando-os, atribui às expres- 27. a) O vocábulo “meio/meia” (meio rio, meia cachoeira etc.) pode
sões a idéia de generalidade. ser interpretado como “metade” ou, na expressão “meio ambiente”,
18. Sim. Os vocábulos “o” e “a” são classificados como artigos defi- como algo do tipo “referente à esfera ambiental, da natureza”.
nidos. Caso fossem utilizados para determinar os termos menciona- b) No primeiro caso, o termo classifica-se como adjetivo e sofre flexão
dos, dariam às expressões um sentido de especificidade, além de de gênero e número; no segundo, é classificado como substantivo.
intensificar o valor negativo de cada uma das expressões caracte- 28. A propaganda procura enfatizar a preocupação que a Companhia
rizadoras. Ou seja, o legionário não seria “apenas” alguém que se Vale do Rio Doce tem com a “qualidade ambiental”, fazendo com que a
inclui no “grupo” de fracassados, fiascos etc.; ele seria o “maior”, o empresa seja uma das “mais respeitadas e competitivas do mundo”. Tal
“principal” fracassado ou fiasco, “a maior decepção”. resultado é obtido, segundo o texto da propaganda, pelo fato de a Com-
19. a) Numerais cardinais representados em algarismos romanos. panhia ter uma “política bem definida e projetos ambientais que totalizam
b) 500 (D), 1.000 (M), 100 (C), 50 (L). perto de R$ 90 milhões por ano”, demonstrando que “proteger o meio
c) Ele fraciona o numeral cardinal 1.000 e multiplica os demais ambiente é um bom negócio para todos”. O “jogo” lingüístico com o
para que sua representação corresponda sempre a uma única letra termo se fundamenta na possibilidade de se ler “meio” como adjetivo
do alfabeto. (metade) ou substantivo, pois a Vale não é “meia empresa” e não tem
20. Segundo Verissimo, o diminutivo pode ser uma maneira afetuosa “meia responsabilidade” ambiental: o que a faz ser uma grande empresa
ou precavida de usar a linguagem. é saber que proteger o meio ambiente é o que garante o futuro e o cres-
21. Para comprovar a conotação afetuosa do diminutivo, o humorista cimento do país. Isto é confirmado mais uma vez na propaganda com o
cita o uso do diminutivo em relação à comida (“comidinha”, uso do meio com valor adjetivo na frase “Pois não existe meio futuro,
“feijãozinho”). Para exemplificar como o uso do diminutivo “desar- nem meio país”.
ma” certas palavras que, no seu grau normal, “são ameaçadoras”,
mostra a alteração de sentido produzida ao se usar “operaçãozinha”
em lugar da forma original (“operação”). A forma diminutiva atenua
Capítulo 6
sensivelmente a idéia de gravidade da situação trazida pelo substan- 1. Na expressão “mundo todo”, o pronome significa “inteiro”, sendo
tivo em seu grau normal. classificado como pronome adjetivo. Em “todo mundo”, o pronome
22. a) Verissimo afirma que é possível fazer uso do diminutivo para indica a totalidade dos seres humanos.
“disfarçar” grandes quantidades (no caso, de comida ou bebida). 2. a) “Outra”: pronome indefinido.
b) Os diminutivos usados como exemplo são “cervejinha” e b) Considerando que todos somos falantes de Português, o sentido
“docinho”. No primeiro caso, o diminutivo dá a sensação de que os que o jornal pretendeu dar à expressão “uma outra língua” é o de um
efeitos da quantidade de álcool ingerida durante um tempo conside- Português culto, diferente daquele que falamos coloquialmente.
rável não seriam sentidos. Caso se optasse por não flexionar o subs- 3. Outros: indefinido; esta: demonstrativo; essa: demonstrativo; ela:
tantivo, o leitor teria outra impressão. No segundo exemplo, fica pessoal; aquilo: demonstrativo.
evidente que uma quantidade exagerada de doce “ganha uma dimen- 4. a) Logo após o casamento, Norberto chama Maria Teresa de
são muito inferior” quando o diminutivo é usado. “Quequinha”. Alguns anos passam e ele começa a chamá-la de “A
23. a) As duas palavras classificam-se como adjetivos. mulher aqui” ou “Esta mulher”. Mais alguns anos se passam e, en-
b) A palavra “diferente” indica, no contexto, uma avaliação negativa, tão, Norberto trata Maria Teresa de “Ela”. Nova passagem de tempo
assumindo um sentido pejorativo; já o vocábulo “diferenciado” as- nos mostra Norberto referindo-se à esposa como “Essa aí”. No mo-
sume uma conotação positiva, indicando, na maioria das vezes, um mento presente, ele se refere a ela como “Aquilo”.
elogio. b) A utilização de pronomes na designação de Maria Teresa indica o
24. Para comprovar o valor positivo atribuído ao vocábulo “diferen- afastamento de Norberto em relação à esposa. Assim, o apelido cari-
ciado”, Rodrigues afirma que Guga é “um tenista diferenciado […] nhoso dos tempos de recém-casados é substituído, aos poucos, por
Isto é, melhor do que os outros, genial” e que o mesmo tipo de uma série de pronomes que “impessoalizam” cada vez mais Maria
conotação ocorre “quando se anuncia que o atendimento prometido Teresa (esta, ela, essa, aquilo).

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5. “Entregue-a para o pastor”. Justificativa: A forma assumida pelo 16. Nessa frase, o e não é aditivo. Tem um valor adversativo, equiva-
pronome deve ser “a” e não “ela” porque na função de objeto direto lente a mas.
do verbo “entregar” deve se empregar o pronome no caso oblíquo (a) 17. a
e não no caso reto (ela). Quanto à colocação, deve-se optar pela ênclise 18. No poema “O mundo é grande”, Drummond emprega reiteradas
da forma pronominal ao verbo, pois não se deve iniciar enunciado vezes a conjunção e para estabelecer uma relação de oposição entre
com pronome oblíquo átono. as frases. Em três instâncias, o poeta opõe dados objetivos a percep-
6. Carlinhos se expressa oralmente de acordo com as regras gramati- ções subjetivas: O mundo é grande x janela sobre o mar; O mar é
cais, numa linguagem mais comumente utilizada na escrita ou em grande x cama e no colchão de amar; O amor é grande x breve espa-
contextos formais. Costuma-se associar a fala, principalmente em ço de beijar.
situações informais, a uma despreocupação maior com o uso da nor- 19. Lá penso em me estabelecer, por isso já entrei em contato com
ma culta. O que Carolina chama de linguagem “certa demais” é o várias imobiliárias para encontrar um local que me agrade.
vocabulário “mais rebuscado” do namorado (soberba, todavia, ou- 20. a) A conjunção pois, na frase, exprime idéia de conclusão.
trossim, vexado) e a correta utilização dos pronomes (usá-los) em b) Ele avisou que poderia se atrasar; devemos, portanto, aguardá-lo
um contexto (um encontro com a turma) em que isso “fica esquisi- mais um pouco.
to”, por ser mais informal. 21. a) … mas/porém/contudo choveu.
7. a) “Não posso usá-los corretamente?” (Combinação do verbo com b) … a situação ou recusar-se …
pronome oblíquo enclítico, seguindo a norma culta.) 22. a) Primeiro quadrinho: me, alguém, que, se, si, mesmo. Segundo
“Não, é que, falando, sentir-me-ia vexado.”(Combinação do verbo quadrinho: eu, lhe, alguém, cujos, essa.
no futuro do pretérito com pronome oblíquo em início de frase, obri- b) Pronome pessoal do caso reto: eu; pronomes pessoais do caso
gando à mesóclise.) oblíquo: me, se, si, lhe. pronome indefinido: alguém; pronomes de-
b) No primeiro caso, como “corrige” a namorada, o esperado seria o monstrativos: mesmo, essa; pronomes relativos: que, cujos.
uso do verbo com o pronome pessoal “eles”: “usar eles”. No segun- c) O pronome que estabelece uma relação entre duas orações é o
do caso, principalmente pelo fato de o uso da mesóclise ser raro no relativo “cujos”. No caso, ele retoma um referente presente na pri-
Português (especialmente na fala), o esperado seria a próclise em meira oração (alguém) e estabelece um vínculo entre ele e um termo

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início de frase — me sentiria — ou o pronome combinado com o que aparece na segunda oração (pais). O sentido da relação é permi-
tempo composto — ia me sentir. tir que, na segunda oração, leia-se que “os pais de alguém não quise-
8. O fato de Carlinhos se expressar oralmente seguindo as regras da ram assumir essa responsabilidade”.
norma culta pode ser visto como manifestação de esnobismo em fun- 23. a) O pronome “essa”, que é anafórico, ou seja, faz referência a
ção de uma imagem equivocada que se faz da fala e da escrita. A um termo anterior.
primeira deve ser mais “solta”, sem a preocupação com a correta b) Possibilidade 1: Seja por falta de vontade, de vocação ou de capa-
utilização das regras gramaticais, enquanto a segunda deve ser a ex- cidade.
pressão da norma culta. Segundo esse raciocínio, Carlinhos “fala Possibilidade 2: Seja por falta de vontade, de vocação ou por incapa-
como se deve escrever”, isto é, seguindo as regras que devem apare- cidade.
cer na escrita. Por isso, pode ser visto como um esnobe. Na verdade, A incoerência ocorre na passagem “falta ... de incapacidade”, por-
tanto a fala quanto a escrita podem se apresentar de forma mais colo- que ela afirma exatamente o oposto do que pretendia o autor do tex-
quial ou de acordo com a norma culta, a depender da situação de to. Se falta “incapacidade”, então não há qualquer problema...
formalidade ou informalidade em que o falante/“escriba” estiver in- c) “está longe do desejado”
serido. O que causa estranhamento no uso que Carlinhos faz da lin- 24. a) O pronome “você” está sendo usado de maneira generalizante,
guagem é o fato de ele parecer incapaz de adequar a sua linguagem a referindo-se a qualquer pessoa (às pessoas em geral). Esse uso é típi-
uma situação informal (a conversa com a turma). co da linguagem oral, coloquial.
9. e b) Sim. O fato de o aluno não prestar atenção é interpretado como
10. a) As preposições são: a e com. algo bastante negativo em relação a uma professora e, ao mesmo tem-
b) A primeira indica uma relação de comparação que estabelece opo- po, como algo comum ou aceitável em relação a uma empregada.
sição entre os complementos do verbo “preferir” (prefere ter amigos Portanto, fica subentendido que a professora acha que a sua fala “vale”
a dinheiro); a segunda estabelece uma relação de posse (amigos que mais do que a de uma empregada, o que é um preconceito.
tenham dinheiro). 25. b
11. a) Hagar entende que a esposa está perguntando se ele gostaria 26. No texto, fica evidente a intenção irônica do autor quando este
de café para “acompanhar” os ovos com bacon. coloca duas pessoas discutindo qual seria a correta colocação prono-
b) Helga interpreta a resposta afirmativa do marido como uma auto- minal, segundo determina a norma culta. Uma delas deixa claro que
rização para despejar o bule de café sobre os ovos com bacon. essa preocupação é uma demonstração de pedantismo da parte de
12. O uso da preposição “com” (sentido de acompanhamento). Helga quem exige, na fala, o uso, segundo as regras gramaticais, da próclise,
faz uma pergunta intencionalmente ambígua para dar uma lição no ma- mesóclise e ênclise.
rido, que chegou tarde em casa na noite anterior. Ela sabe que, no con- 27. a) A regra que determina o uso enclítico do pronome quando em
texto em que foi utilizada, a preposição “com” indica que a bebida (café) início de frase.
deve acompanhar a comida (ovos com bacon). Só que ela se faz de de- b) Não. Embora a gramática normativa classifique como incorreta a
sentendida, optando por entender que o sentido da preposição é de loca- colocação proclítica do pronome, em uma situação de informalidade,
lização (café nos ovos…). É desse gesto absurdo e da possibilidade de como é o caso do diálogo transcrito, ela é mais adequada e usual.
dupla interpretação da preposição que nasce o humor da tira. 28. O interlocutor, ao ser corrigido pelo “amigo”, passa a utilizar
13. a preferencialmente a ênclise como colocação pronominal. Quando faz
14. A troca da preposição de pela preposição na (= em + a) provoca isso, comete equívocos ao ignorar as regras que determinam a próclise,
alterações sintáticas e semânticas no trecho “… não existem meninos como é o caso dos trechos transcritos. No primeiro, a próclise é ne-
DE rua. Existem meninos NA rua”. Em “meninos DE rua”, a expres- cessária, pois o vocábulo se funciona como palavra “atrativa” do pro-
são “De rua” está relacionada a meninos, atribuindo-lhes uma quali- nome me; no segundo, o advérbio “não” exerce essa função atrativa,
dade que os distingue, por exemplo, de “meninos de família”. Ao se exigindo a próclise do pronome o.
utilizar a preposição em, a expressão “NA rua” passa a se relacionar à 29. Na fala, em contextos informais (e mesmo na literatura contemporâ-
forma verbal “existem”, indicando o local em que se situam os meni- nea, como é o caso das crônicas), a preferência do falante é pela próclise,
nos, isto é, acrescentando ao verbo uma circunstância de lugar. que parece ser mais natural que a ênclise. Mas a colocação enclítica ou
15. a) A conjunção e, em geral, expressa uma relação de soma, adição. mesoclítica dos pronomes traz a idéia de sofisticação, de rebuscamento
b) Sem a conjunção, não poderia haver duplas caipiras, já que, em e de adequação à norma culta, que é considerada a variante de prestígio.
geral, são apresentadas por dois nomes ligados pela conjunção e 30. e
(Chitãozinho e Xororó, Bruno e Marrone etc.). 31. a

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32. a) “… continuará quando/toda vez que tiver de…” 15. a) O verbo ver deveria estar conjugado no futuro do subjuntivo.
b) “… abandonar as pistas a não ser que arrume…” b) “E se tu a vires por aí,…”/ “E se você a vir por aí,…”
c) “… distribuída entre ricos e pobres, apesar de as cadeias/ ainda 16. a) Mantiam; ir.
que as cadeias/ embora as cadeias…” b) Mantinham; for.
33. d c) Mantiam: formada como se o verbo fosse regular. Ir: confusão
34. O segundo período (“mas os americanos são arrogantes e entre o infinitivo e o futuro do subjuntivo do verbo anômalo ir.
prepotentes”). A direção argumentativa desse período justifica os ata- 17. Segundo Josué Machado, os advérbios em –mente costumam in-
ques terroristas (ocorridos nos EUA, em 11 de setembro de 2001) char a frase e engordar o estilo, ou seja, são dispensáveis, como no
porque deixa implícita a idéia de que os americanos teriam “mereci- caso da expressão inteiramente nu. O advérbio, nesse caso, é desne-
do” o que lhes aconteceu em virtude de sua arrogância e prepotência. cessário (além de não corresponder à verdade, já que há a ressalva de
que o deputado inglês usava um par de meias femininas e ligas de
Capítulo 7 couro). Bastava que o redator da notícia afirmasse que o deputado
estava nu, exceto por um par de meias femininas e ligas de couro.
1. As formas verbais adequadas são: espremeu, ouviu, retornarem, 18. O autor faz tal afirmação com base no fato de que estes advérbi-
darem, pulou, pare (você) ou pára (tu), atira, estava, despencando, os costumam ser aplicados para reforçar idéias, enfatizar. Fernando
saltou, ficou, amplificava. Pessoa, ao escrever que o poeta finge tão completamente, faz uso do
2. Um falante entenderia que o dono da venda só venderia algum de advérbio para enfatizar a idéia de que o fingimento do poeta é tão
seus produtos se pudesse ver o dinheiro do comprador; caso contrá- completo que o poeta finge a dor que sente de fato.
rio, não venderia. 19. Às cegas: locução adverbial de modo; realmente: advérbio de
3. A forma lingüística, na primeira e última ocorrências, é uma flexão afirmação; normalmente: advérbio de modo; sempre: advérbio de
do verbo vender; nas outras duas ocorrências, do verbo ver. Embora tempo.
haja dois signif icados para o vocábulo, a sua classif icação 20. a) Sim. Tanto Overman quanto Ésquilo usam as palavras como
morfológica permanece a mesma: o termo funciona como verbo. advérbios e não como adjetivos.
4. a) A indignação da Gatinha decorre do sentido do verbo possuir b) A observação de Ésquilo não é pertinente, porque não há, na fala,
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

(posse, propriedade). O Gato estaria dizendo, ao fazer uso desse ver- qualquer distinção entre o uso das palavras em questão como adjeti-
bo, que ela pertence a ele, que é sua propriedade. vo ou advérbio. A diferença seria ortográfica (mal/mau) e isso não é
b) O verbo ter, pois, embora essa forma verbal esteja relacionada à perceptível na fala.
idéia de posse, ela não sugere que seres vivos sejam proprietários 21. As formas verbais que preenchem corretamente as lacunas são:
uns dos outros. chegou, fizesse, vinha, era, mumificavam.
c) A Gatinha é contraditória: faz um discurso de independência fe-
22. a) O uso desnecessário do gerúndio em algumas locuções ver-
minina (característica marcante da personagem) e no último quadri-
bais, como vamos estar creditando, vão estar sendo enviados, vai
nho revela ao seu diário que gostara da declaração de amor recebida.
estar sendo debitado. O autor chama esse tipo de construção de futu-
Fica evidente, então, que o romantismo supera seu discurso de inde-
ro do gerúndio.
pendência.
b) O gerúndio é uma forma verbal que dá a idéia de continuidade, de
5. Cony atribui a andar o sentido de verbo intransitivo em um con-
ação em processo. Nesses casos, está usado inadequadamente por-
texto no qual deveria ser interpretado como verbo de ligação (ando
que o sentido que se pretende é o de ação futura, que será realizada.
escrevendo).
c) O correto seria usar o futuro do presente simples (creditaremos)
6. Dinamicidade do cenário.
ou composto (serão enviados, será debitado).
7. A palavra verbificada é esquisita. No caso, o verbo formado por Calvin,
23. Ricardo Freire, ao manifestar sua preocupação, se vale da re-
esquisitar, teria o sentido de tornar alguma coisa esquisita, refletindo
justamente o efeito que o ato de verbificar palavras tem na língua. produção irônica da estrutura que está criticando: vamos estar sen-
8. a) O narrador refere-se à humildade da voz passiva porque, se o do submetidos, temos que estar obrigados a estar tendo que ouvir,
sujeito sofre a ação verbal nessa estrutura sintática, ele estará em vão estar contaminando, vamos estar demorando para passar a estar
posição de inferioridade. falando.
b) O narrador empregaria a voz ativa. Como nessa estrutura sintática 24. a) No exame a que João Ubaldo foi submetido, exigia-se um co-
o sujeito pratica a ação verbal, ele estaria em uma posição de superi- nhecimento gramatical mais sofisticado. O autor precisou identifi-
oridade. car o sujeito de uma oração na ordem indireta e justificar a sua resposta
9. Deite; levante; apóie; dê. com seus conhecimentos de análise sintática. Na prova oral em que
10. Todos os verbos estão no imperativo afirmativo, pois, como se foi o examinador, exigia-se o mínimo do candidato: leitura em voz
trata de dar instruções para socorrer uma pessoa, o modo a ser utili- alta, vocabulário básico e noções de flexão.
zado deve expressar uma atitude de mando ou de conselho. b) O autor, a partir da demonstração da diferença de “qualidade”
11. a) Na primeira: tem havido, até agora, tem arrojado. Na segunda: exigida nas duas provas, critica a decadência dos exames que têm
destruiu, anteontem, rompeu, levantou, retorceu, foram arrancadas, por objetivo avaliar candidatos que desejam ingressar no ensino su-
arremessaram. perior. Isso fica evidenciado pela ironia do trecho “Mandava-se o
b) Houve no Mar Negro grande tempestade, causando o naufrágio de candidato ler umas dez linhas em voz alta (sim, porque alguns não
grande número de embarcações. Até agora, o mar arrojou à praia sabiam ler)”.
mais de 80 cadáveres, que estão sendo recolhidos. 25. O candidato afirma a existência do verbo for, quando, na verda-
c) Tem havido no Mar Negro, também, seguidas tempestades, provo- de, trata-se de uma flexão do verbo ser ou do verbo ir.
cando muitos naufrágios. 26. a) O verbo pôr, classificado como anômalo.
12. a) O trecho em questão indica tempo futuro e, nesse caso, não é b) Gerúndio: fondo; presente do indicativo: fões tu.
correto usar o verbo haver, pois essa forma verbal só pode ser utili- 27. É necessário que tanto o verbo ser quanto o verbo ir sejam conju-
zada para indicar tempo decorrido, passado. A passagem que justifi- gados no futuro do subjuntivo. Sugestão: “Quando eu for candidato,
ca a resposta é: “Assim, com ‘há’, referindo-se ao futuro.” responderei a todas as questões”. “Quando for à Bahia, visitarei a
b) Quando se trata de indicar tempo futuro, o correto é utilizar a universidade.”
preposição a: “daqui a algum tempo”. 28. O candidato trata o suposto verbo for como semelhante ao verbo pôr.
13. a) O verbo conter (“contermos”) está conjugado inadequadamente. Assim, cria as formas para a 1a, 2a e 3a pessoas do singular e do plural do
b) O adequado é: se contivermos. O verbo conter (derivado de ter) é presente do indicativo (fonho, fões, fõe, fomos, fondes, fõem).
irregular; na tira, a personagem conjuga-o como verbo regular. 29. a) Porque, da maneira como está grafada, a palavra mau classifica-se
14. A gerente da loja usou a primeira pessoa do singular do pretérito como adjetivo e significa ruim, maldoso. Por isso, o autor pergunta se o
perfeito do indicativo (vim) em lugar da terceira pessoa do singular mau das pesquisas é um sujeito que poderia estar agindo de maneira
do futuro do subjuntivo (vier). fraudulenta, isto é, se ele não seria um sujeito mau.

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b) O adequado, de acordo com o contexto, seria utilizar o substantivo b) Considerando a classificação dos verbos, temos, respectivamente,
mal, que significaria, nesse caso, algo como malefício. um predicado nominal (ando muito distraída ultimamente) e um
30. Josué Machado cria no título um jogo de palavras para ilustrar o uso predicado verbal (nunca andei tanto).
adequado do adjetivo mau, que determina o substantivo uso e do advér- 11. a) Todo movimento é fácil e os obstáculos são intransponíveis.
bio mal que, no caso, está substantivado. O título do texto poderia ser b) fácil e intransponíveis.
traduzido como algo do tipo o malefício causado pelo uso inadequado, 12. a) Nas duas frases, a expressão as crianças exerce função de su-
ruim, no caso, dos termos mau e mal. jeito. Colocando a primeira frase na ordem direta, teríamos: As cri-
31. a) Só o jornal de maior número de assinantes do sul do país pode anças cantavam harmoniosamente, apresentando, assim, uma
oferecer o maior e melhor cartão de desconto. estrutura sintática semelhante à da segunda frase. Nos dois casos, a
b) O jornal de maior número de assinantes do sul do país só pode ofere- expressão destacada concorda com o verbo em número e pessoa.
cer o maior e melhor cartão de desconto. b) Na primeira frase, temos um predicado verbal, pois o seu núcleo é o
verbo intransitivo cantavam; na segunda, temos um predicado verbo-
nominal, pois apresenta dois núcleos: um verbal, com o verbo intransitivo
Capítulo 8 brincavam; outro, nominal, com o predicativo do sujeito felizes.
1. a) Sim. A manchete publicada pelo jornal campineiro apresenta 13. a) Verbo transitivo direto e indireto.
duas possibilidades de interpretação: 1) a operação de apendicite do b) Sérgio Nogueira Duarte, em sua explicação, reproduz a estrutura sin-
papa foi bem-sucedida (um sucesso); 2) a apendicite teve sucesso, tática da voz ativa. A estrutura sintática apresentada nas frases do texto
isto é, a operação não foi bem-sucedida e a apendicite “venceu”. As transcrito é a da voz passiva. Nessa estrutura, o objeto direto (o crime/o
variações sugeridas pelo colunista eliminam a segunda possibilidade incidente) da voz ativa passa a sujeito paciente da voz passiva.
de leitura apresentada pela manchete. c) Comunicaram o crime à polícia ou Não comunicaram o incidente/
b) O que leva o leitor a implicar com a manchete publicada é justamente o problema ao presidente, na voz ativa. O crime foi comunicado à
a possibilidade de dupla interpretação derivada da organização sintática polícia e O incidente/o problema não foi comunicado ao presidente,
da manchete do Correio Popular, que permite associar a expressão com na voz passiva.
sucesso tanto ao termo operação quanto à expressão de apendicite. 14. Na voz ativa, temos as seguintes possibilidades: a) Informaram o

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2. O colunista sugere as variações para evitar a ambigüidade provocada crime à polícia/Informaram a polícia do crime/sobre o crime; b) In-
pela organização sintática da manchete. Nas duas primeiras suges- formaram o incidente ao presidente/Informaram o presidente do in-
tões de enunciados, fica claro que a expressão com sucesso refere-se cidente/sobre o incidente.
ao êxito obtido na operação e não a uma vitória da apendicite. Na Na voz passiva: a) O crime foi informado à polícia/A polícia foi in-
terceira sugestão, por outro lado, cria-se nova ambigüidade, como formada do crime; b) O incidente foi informado ao presidente/O pre-
apontado na resposta dada para a questão 1. sidente foi informado do incidente.
3. O falante da língua é capaz de perceber as relações de sentido 15. a) A ausência do objeto direto na construção com os verbos inva-
pretendidas pelo autor. Dado o contexto apresentado pelo título, o dir e depredar. O trecho que justifica essa resposta é: os verbos inva-
falante é capaz de compreender que aumentar relaciona-se ao preço dir e depredar são transitivos diretos e só se equilibram no sentido
do pão e que diminuir refere-se às dimensões do produto. O fato de acompanhados pelo objeto direto.
ser capaz de estabelecer as relações semânticas adequadas é que pos- b) O trecho em que o jornalista utiliza adequadamente o verbo inva-
sibilita ao usuário da língua compreender o enunciado. dir é: invadiram a Volkswagen. Nesse trecho, a expressão a Volkswagen
4. a) A interpretação que o jornalista faz é a de que se deve, antes de exerce a função de objeto direto do verbo invadir. No último período
dormir, tomar um banho que dure de uma hora e meia a duas. do texto, o autor utiliza os dois verbos, os quais têm, exercendo a
b) A estruturação sintática do enunciado. Não teria o redator ou o função de objeto direto, a mesma expressão: alguma coisa.
computador feito uma mexida estrambótica na ordem das palavras 16. a) Usualmente, a expressão quem deseja é uma versão abreviada
para produzir coisa tão criativa? de algo como quem deseja falar com o Sr. ou a Sra. Fulana de Tal?
5. Considerando que não parece razoável alguém sugerir que se deva, b) Nesse caso, o verbo desejar é transitivo direto e a oração suben-
para dormir melhor, tomar um banho que dure de uma hora e meia a tendida (falar com…) é uma oração reduzida de infinitivo, que exer-
duas, o jornalista afirma que a interpretação mais racional para a ce a função sintática de objeto direto da oração principal.
dica seria a de que se deve, de uma hora e meia a duas antes de 17. a) O verbo assume o significado de querer, ter desejo por.
dormir, tomar um banho quente. b) O verbo é classificado como transitivo direto e a expressão a Vera
6. a) Não. Não se podem dispor as palavras de maneira aleatória para Fisher exerce a função de objeto direto.
produzir um enunciado que faça sentido. A estruturação sintática de 18. Porque atribui à pessoa com quem se deseja falar um certo grau
uma língua depende das relações estabelecidas entre forma e função. de superioridade, de importância e dá a quem ligou a esperança de
Não é possível propor uma combinação qualquer de palavras, pois o ser atendido.
resultado é um enunciado incoerente em função da atribuição de fun- 19. a) O primeiro enunciado significa que a pessoa que faz caridade
ções sintáticas inadequadas a determinadas palavras. aos pobres está angariando créditos com Deus. O segundo pode ser
b) Duas das três frases resultantes do joguinho não constituem uma interpretado como: quem dá ou empresta dinheiro a alguém não deve
possibilidade de estruturação sintática, na língua: 1) Antes de um ba- esperar receber de volta. No último, verificamos o mesmo significa-
nho quente de uma hora e meia a duas horas tome dormir.; 2) Antes do do segundo, mas com a especificação de que não se deve esperar
de dormir um banho quente, tome de uma hora e meia a duas horas. receber o dinheiro doado ou emprestado.
7. A organização sintática da frase leva à interpretação de que se b) Nas duas variações, o recurso utilizado é o de produzir novos sen-
deve tomar um banho quente antes de dormir apenas uma hora e meia tidos a partir do jogo com palavras semelhantes: cobres x pobres;
ou duas horas. Daí a constatação de que seria pouco sono. Deus x deu-os ou adeus. Além disso, novas estruturações sintáticas,
8. A organização sintática de uma língua depende das relações entre com alteração das funções exercidas pelos termos nos enunciados,
estrutura e função das formas lingüísticas, o que implica que a or- contribuem para os sentidos diversos que cada enunciado adquire.
dem das palavras pode alterar o sentido que se pretende dar a um 20. No primeiro enunciado, o objeto direto (dinheiro) está subenten-
enunciado e também que há ordens melhores e piores (no sentido de dido; o objeto indireto é aos pobres. No segundo, na primeira ocor-
serem menos ou mais claras com relação ao que se pretende infor- rência do verbo, o objeto direto é os cobres e o objeto indireto, elíptico,
mar) para a formulação de uma frase. pode ser a alguém; na segunda ocorrência, o verbo se classifica ape-
9. É o sujeito que sobra, que não tem função no enunciado em ques- nas como transitivo direto, cujo complemento é o pronome oblíquo
tão, pois já há um outro expresso (Antônio Kandir). Por isso Josué os, que se refere ao vocábulo os cobres. No último enunciado, temos
Machado pergunta para que serve o “ele” na frase. a mesma classificação apresentada na análise do dito popular.
10. a) Não. Na primeira oração, andar classifica-se como verbo de 21. O verbo emprestar classifica-se, também, como transitivo direto
ligação, associado a um predicativo do sujeito (distraída); na segun- e indireto: emprestar alguma coisa a alguém. Sendo assim, exige
da, o verbo é intransitivo, associado a um adjunto adverbial (tanto). objeto direto e indireto.

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22. O termo em destaque exerce a função de adjunto adverbial. 37. a) Adjunto adnominal.
23. A forma adequada é A bola deve chegar rápido ao ataque, pois a b) A finalidade é caracterizar detalhadamente os diversos tipos de
função adverbial exige um advérbio de modo, que é invariável. meninos que representam a infância brasileira.
24. a) O fato de o falecimento do engenheiro ser comunicado com 38. d
prazer.
b) É com pesar que a diretoria…
c) A expressão com prazer exerce a função sintática de adjunto ad- Capítulo 9
verbial de modo.
1. b
25. a) Aposto explicativo.
2. Texto 1: O texto expositivo transcrito caracteriza-se por apresentar
b) A seqüência de explicações sobre si mesmo é o que intensifica a
uma definição. Mônica Teixeira, a partir da enumeração de caracte-
graça do último quadro, quando Hagar manifesta a sua irritação pelo
rísticas específicas, define o significado de genoma. Texto 2: Esse
fato de estar servindo de babá aos patos de sua esposa Helga. Os
texto tem um caráter mais analítico. Cristovam Buarque explicita
apostos colocados seguidamente ressaltam a oposição com a tarefa
como a existência da correção monetária criou “duas moedas” no
desempenhada pela personagem naquele momento.
Brasil e contribuiu para o empobrecimento das classes mais baixas,
26. a) adjunto adverbial b) complemento nominal c) adjunto adverbial
ao mesmo tempo em que contribuía também para o aumento da in-
d) adjunto adnominal
flação. Note que o autor procura sugerir a relação entre a existência
27. a) A estrutura que se repete dá-se pela “fórmula”: Minha Nossa
da correção monetária e o caráter da elite brasileira, por ele qualifi-
Senhora de + X. Nessa estrutura, X é uma espécie de identificação
cada como “cruel”. Texto 3: Esse texto tem um caráter mais informa-
das aflições vividas por quem pede auxílio: Minha Nossa Senhora do
tivo. Observe como a preocupação do autor está voltada para
que Será da Gente, Minha Nossa Senhora da Justiça Seja Feita, Mi-
apresentar o que é o livro que o leitor tem nas mãos, tomando o cui-
nha Nossa Senhora do Assim Tá Impossível, Minha Nossa Senhora
dado de esclarecer que essa é uma obra sobre gente, com histórias e
dos Preços que Sobem. b) A repetição desse tipo de vocativo inusita-
não opiniões. O caráter do texto, portanto, é essencialmente infor-
do acaba por determinar que a leitura do texto vá além da mera iden-
mativo.
tificação do vocativo como um chamamento. c) Nesse caso, ele atua
3. a
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

como um tipo de protesto contra um estado de coisas insuportável


4. A afirmativa II é comprovada com as seguintes passagens: “No antigo
para quem tem de viver em um país onde não há justiça, os preços
Egito, o gato foi honrado e enaltecido”; “Nesta mesma época, a gata
sobem continuamente, e não se tem como “controlar” o próprio futu-
transformou-se…”; “Na Europa, o gato se desenvolveu com as conquis-
ro, dada a indefinição do cenário nacional. O que deveria ser um
tas romanas”; “… apreciado ainda no século XI quando…”; “No século
chamamento ou um apelo, o vocativo, passa, nesse caso, a constituir
XIII desenvolveram-se as superstições…”; “No século XVIII ele vol-
uma espécie de denúncia na qual aquilo que se quer denunciar ganha
tou…”. Como comprovação da afirmativa IV, temos: “No século XIII
caráter permanente por ser integrado ao vocativo. Em outras pala-
desenvolveram-se as superstições e o gato passou de criatura adorada a
vras, o que deveria ser encarado como um estado de coisas
infernal, associada aos cultos pagãos e à feitiçaria. A igreja lhe virou as
(indefinição, injustiça, inflação etc.), passa a ser uma característica
costas”. No caso da afirmativa V, podemos citar os seguintes trechos:
permanente quando é incorporado ao vocativo.
“animal santo”; “a gata transformou-se na representação da deusa Bastet,
28. Porque a combinação das palavras na “canção” não representa
fêmea do deus sol Rá”; “admirado por sua beleza e dupla personalidade
uma possibilidade de estruturação sintática, na língua. Não é possí-
(ora um selvagem independente, ora um animal doce e afável)”; “o gato
vel estabelecer as necessárias relações para a obtenção do sentido
passou de criatura adorada a infernal”; “voltou majestoso e em perfeito
expresso pela canção de aniversário, pois as palavras estão dispostas
acordo com os poetas, pintores e escritores que prestam homenagem à
de maneira aleatória.
sua graça e à beleza de seu corpo”.
29. No primeiro enunciado, –zinha funciona como sufixo que cria
5. a) Segundo o texto, é necessário que a parcela significativa da
palavras na forma diminutiva. A palavra mãezinha, na forma diminu-
população brasileira que vive à margem da sociedade adquira condi-
tiva, encerra um sentido afetivo, carinhoso. No segundo enunciado,
ções mínimas de sobrevivência digna. Isto é evidenciado no trecho:
o sufixo derivacional zinha ocorre isoladamente, o que faz com que
“[…] se não forem alcançados os limites inferiores da sobrevivência
seja interpretado como um substantivo. Esse uso substantivado do
condigna, infelizmente, tão distantes ainda da significativa parcela
sufixo zinha, reforçado pelo pronome esta que o antecede, confere à
da população brasileira”.
afirmação um sentido pejorativo.
b) O argumento é fundamentado no exemplo dado, isto é, as condi-
30. a) Que sorte!
o ções de vida de 56% da população da cidade de São Paulo “vivendo
b) A fala de Níquel Náusea no 2 quadrinho. As orações que o com-
em favelas, cortiços, habitações precárias e até mesmo sob viadutos
põem são: O trevo é o de quatro folhas e que dá sorte.
e nos cemitérios […]”.
31. A frase transcrita não constitui oração porque não apresenta verbo.
32. Quando não se diferenciam criminosos de tiras, tudo pode acon- Proposta de produção de texto – 1
tecer. A tarefa apresentada exige que o aluno redija um texto em que demons-
33. b tre, através de informações e argumentos, a satisfação ou a tristeza pelo
34. c destino reservado ao objeto escolhido por ele do quadro informativo
35. a) Objeto indireto que complementa, com auxílio da preposição apresentado. É importante perceber que a atividade de escrita exige o
de, o verbo transitivo indireto cuidar. posicionamento do autor do texto e as justificativas para esse posiciona-
b) Complemento nominal do substantivo necessidades. Os comple- mento para o cumprimento da tarefa proposta.
mentos nominais são sempre introduzidos por preposição; neste caso,
a preposição de. 6. e
c) Objeto indireto que complementa o verbo referir-se, transitivo in- 7. a) O princípio foi o do contraste ou confronto de idéias.
direto, que exige a preposição a. b) O confronto entre as idéias expressas na encíclica papal e no pensa-
36. a) A expressão exerce função de agente da passiva. Os macacos mento de São Tomás de Aquino deve nos levar a duas conclusões: (1) os
praticam a ação expressa pelo verbo criar. dois tratam da relação entre razão e fé; (2) o tratamento que dão é seme-
b) O elemento sintático alterado é o adjunto adverbial de lugar: na lhante, procurando mostrar como ou por que a fé e a razão não devem
selva é substituído por no shopping. Atenção: O aluno não precisa ser consideradas conceitos mutuamente excludentes. Constatada a se-
classificar a função, basta identificar a substituição. melhança entre os processos de aproximação de razão e fé, chega-se à
c) O comentário irônico de Lucy explica-se pelo fato de que, mesmo alternativa correta.
mudando o referencial de lugar (selva — shopping), a essência da idéia 8. a
de Linus continua a mesma, e ela não é original. Ele não percebe que o 9. b
problema está na manutenção do agente da passiva (os macacos cria- 10. O elemento caracterizado é o choro comum. A ação é a de chorar
rem o homem) e não no lugar em que tal ação teria ocorrido. corretamente.

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11. O texto provoca estranhamento, em primeiro lugar, porque o au- de de um novo modelo de desenvolvimento — o sustentável. Seria
tor descreve um tipo de choro específico: aquele caracterizado por interessante discutir com o aluno cada um dos fragmentos, estabele-
ele como “médio ou comum” e correto. Além disso, as instruções cendo as relações entre eles para que o aluno pudesse desenvolver de
para chorar causam estranhamento porque esta é uma ação espontâ- maneira satisfatória o tema. Além disso, é necessário enfatizar a ne-
nea, sobre a qual, normalmente, não temos controle. No entanto, o cessidade de elaboração de uma proposta de intervenção na realidade,
narrador reveste a ação de uma linguagem técnica que faz com que aspecto de extrema importância nessa prova.
ela pareça complexa e determinada pela vontade, controlável.
12. Apresentamos sugestões de trechos. Outras respostas são possí-
veis e deverão ser analisadas pelo professor. “Deixando de lado os
Capítulo 10
motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo por Proposta de produção de texto – 1
isto um choro que não penetre no escândalo, que não insulte o sorri- 1. A leitura atenta da proposta de redação do Enem deveria fazer com
so com sua semelhança desajeitada e paralela. O choro médio ou que o aluno observasse alguns aspectos fundamentais. O tema pro-
comum consiste numa contração geral do rosto e um som espasmó- posto, a partir de uma coletânea que inclui um texto visual e quatro
dico acompanhado de lágrimas e muco, este no fim, pois o choro textos verbais, é bastante atual. Tem-se discutido com freqüência, no
acaba no momento em que a gente se assoa energicamente”. Brasil, o papel do voto como instrumento de transformação social:
se, ao escolher seus representantes executivos e legislativos, o eleitor
Propostas de produção de texto – 2 interfere nos rumos da política do país e, se interfere, em que medi-
1. O aluno pode desenvolver as tarefas da maneira que melhor desejar. da. É importante, também, que o aluno perceba que o conceito de
O importante é que ele pressuponha que seu leitor não conhece os pro- voto está associado, a partir da coletânea, a um direito conquistado
cedimentos que descreverá, para que o efeito de estranhamento do texto duramente.
de Cortazar seja mantido. 2. Indicamos, a seguir, o sentido básico dos textos de apoio apresenta-
2. Neste exercício o aluno deve redigir um texto de até 10 linhas em dos na coletânea e sua relação com o tema proposto.
que apresente uma crítica aos argumentos utilizados pela Phillip Texto 1: Este texto é do site da deputada federal Iara Bernardi (PT-SP).
Morris em relatório sobre os benefícios econômicos do tabagismo De fato, a sociedade lutou muito para assegurar o direito ao voto. Bas-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
para a República Tcheca. É importante que o aluno perceba o absur- ta lembrar que a maioria das pessoas nascidas na década de 1940 em
do da argumentação da indústria tabagista que afirma, que a morte diante só votou para presidente, pela primeira vez, em 1989. Por isso,
precoce de fumantes na República Tcheca ajudou o governo a econo- podemos dizer que a democracia no Brasil está apenas começando e
mizar em gastos na área de saúde, em cuidados geriátricos, no siste- não devemos desprezar uma conquista que exigiu esforço e exercício
ma previdenciário. de cidadania.
Texto 2 (foto): A imagem do comício da Praça da Sé, completamente
Proposta de produção de texto – 3 lotada, em 1984, reforça as idéias apontadas no texto anterior. É uma
Ao avaliar os textos dos alunos, o professor deverá verificar se eles se demonstração inequívoca da confiança do povo no poder do voto ––
mostraram capazes de, ao longo da discussão a respeito do tema, man- caso contrário, não teria sentido uma adesão tão maciça da população
ter a estrutura dissertativa esperada neste tipo de texto. A respeito do à campanha das “Diretas-Já”, umas das maiores manifestações popu-
tema, é importante que os alunos percebam que se vem formando, en- lares do século XX no Brasil.
tre os jovens moradores de condomínios de luxo, como conseqüência Texto 3: O fragmento escrito pela filósofa Marilena Chaui mostra que a
direta da vida isolada, uma mentalidade preconceituosa e segrega- política se opõe à guerra, pois os homens usam a política para diminuir as
cionista, que os leva a ver pessoas mais pobres como criminosos em eventuais diferenças entre os grupos que compõem a sociedade, fazendo
potencial. com que — a partir de discussões e deliberações coletivas — decidam-se
os caminhos que serão seguidos por todos. O voto seria, pois, uma das
13. A autora vale-se da descrição detalhada da pilha de louça suja na pia maneiras que a sociedade tem para “aprovar ou reiterar ações que dizem
e de todo processo de limpeza dessa louça pela personagem, desde o respeito a todos os seus membros”. Texto 4: O filósofo italiano Norberto
momento em que ela se aproxima da pia até o término no trabalho, com Bobbio, ao propor que “a democracia é subversiva”, pretende dizer que a
a sujeira escorrendo “pelo ralo”, como o título anuncia. democracia destrói, derruba, subverte o autoritarismo, fazendo que o voto
14. A autora, ao tratar da sensação de prazer da personagem ao lavar se torne um instrumento dessa subversão. As eleições seriam assim um
louça, do jato de água “carregando as impurezas” e produzindo na antídoto “contra o abuso do poder”. A frase em latim pode ser traduzida
mulher o efeito de um “bálsamo”, reflete sobre o desejo de se fazer o como “A voz do povo é a voz de Deus”.
mesmo com o mundo: “lavar os erros do mundo, desfazer seus es- Texto 5: O último texto da coletânea é uma provocação feita pelo jor-
combros, apagar-lhe as nódoas, envolver em sabão todos os ódios e nalista André Forastieri, para os jovens votarem “com sangue ferven-
horrores, as misérias e mentiras. Porque, afinal, do jeito que as coi- do nas veias”, isto é, com a mesma intensidade com que costumam
sas andam, é o próprio mundo que vai acabar — ele inteiro descendo viver a vida. Ao dizer que, com o voto, os jovens estão exercendo o
pelo ralo”. direito de exigir o impossível, Forastieri retoma a idéia de Bobbio de
15. O outro recurso utilizado é o da analogia, da comparação simbó- que a democracia tem um quê de subversão. Porém o jornalista mostra
lica entre o ato de lavar louça e seus efeitos (a transformação do sujo que a participação política da juventude não pode se resumir a votar;
em limpo, o escoamento pelo ralo das impurezas) e o desejo de “la- suas exigências devem ser manifestadas “antes e principalmente de-
var o mundo” dos seus erros, ódios e escombros produzidos por eles. pois das eleições”, com paixão e perseverança.
16. b 3. A proposta do tema já tem o pressuposto de que o voto é útil, e a
17. d discussão deve girar em torno de como usá-lo como instrumento de
transformação social. Os textos subsidiários colocam-se em relação
Propostas complementares de produção de texto de acordo com o tema. Obviamente, o esperado é que, na discussão, o
1. Nessa atividade de escrita, o aluno pode desenvolver o texto da ma- estudante interfira com algum argumento de elaboração própria para
neira que desejar, ficando a seu critério determinar a natureza das “su- sugerir gestões ou providências que contribuam para aumentar a efi-
jeiras” a serem lavadas no mundo. Mas deve perceber que o “tom” quase cácia do voto no processo político da democracia. Deve-se alertar o
poético do texto apresentado é o que permite uma reflexão dessa nature- aluno para a inadequação de desenvolvimentos que discutam a
za e, para obter o mesmo efeito do texto “Pelo ralo”, é preciso que faça obrigatoriedade ou não do voto, o cansaço com a política que tem
de sua redação um espaço de reflexão e, quem sabe, de “processamento” desestimulado tantos eleitores, mas que não respondam à questão for-
do caos em que vivemos. mulada: como fazer desse direito um meio de promover a transforma-
2. Para realizar a tarefa proposta pelo tema do Enem/2001, o aluno ção social.
deveria perceber que ele teria condições de responder à questão for- 4. A resposta é evidentemente pessoal, mas é preciso orientar o aluno
mulada na proposta. Na verdade, a referência apresentada no terceiro para evitar desenvolvimentos ingênuos ou inadequados como os que
texto encaminhava o desenvolvimento adequado do tema: a necessida- apontamos na resposta anterior.

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5. Como os fragmentos selecionados deverão estar diretamente relaci- 6. O quarto texto, fragmento do livro O cidadão de papel do jornalista
onados à perspectiva analítica adotada pelo aluno, é importante que se Gilberto Dimenstein, oferece uma visão analítica para o problema das
faça referência à análise dos fragmentos feita no segundo exercício. crianças e adolescentes que perambulam pelas ruas do Brasil: o que
Com base na identificação da relação entre os fragmentos e o tema, o faltaria a elas seria, antes de tudo, é o acesso à educação. Por terem
aluno tem condições de identificar aqueles que servem de sustentação apenas uma cidadania “de papel” (relação evidente entre esse texto e o
para a análise a ser desenvolvida em sua redação. artigo da Constituição), essas crianças estão condenadas a uma exis-
6. Sugerimos que o professor indique outros textos aos alunos e esti- tência à margem da sociedade, assim como o Brasil, por não garantir o
mule-os a procurarem, em outras fontes (a internet, por exemplo), mais acesso de todos os seus cidadãos à educação, também está condenado
informações pertinentes que possam ser integradas à análise que pre- a viver à margem do mundo desenvolvido.
tende fazer. 7. Como já dissemos na resposta ao primeiro exercício, a proposta leva
7. Nesta questão, o aluno deverá organizar o seu projeto de texto, tendo o jovem a se pronunciar sobre um verdadeiro problema social do Bra-
em vista o desenvolvimento que pretende dar à sua análise. É importan- sil (a necessidade de serem tomadas providências para que os direitos
te que ele organize as idéias a serem apresentadas em função da estrutu- da criança e do adolescente possam ser garantidos) e, ao fazê-lo, inici-
ra do texto dissertativo: introdução, desenvolvimento e conclusão. ar-se no exercício da cidadania, propondo soluções para “enfrentar esse
8. Ao avaliar a redação dos alunos, o professor deverá verificar se há desafio nacional”.
indícios, nos textos elaborados, de um planejamento prévio da discus-
são, o que lhe permitirá avaliar o rendimento, para o exercício 1. Texto 1: No trecho transcrito, o autor vale-se de um procedimento muito
dissertativo, de um trabalho em torno do projeto de texto. Presume-se utilizado na introdução de um texto: o recurso de buscar apoio em um
que o trabalho prévio de elaboração de um projeto de texto e a siste- texto de um autor consagrado para, com base na sua citação, dar início ao
matização dos procedimentos para tal levem naturalmente a uma dis- processo de análise da questão central a ser abordada no texto. Observe
cussão mais amadurecida do tema proposto. O professor pode, se que Zuenir Ventura recorre aos versos do heterônimo de Fernando Pessoa
desejar, pedir aos alunos que façam seus projetos de texto, avaliá-los, para propor, como primeira tese de seu texto, que “em matéria de emo-
numa discussão em sala de aula ou individualmente, mostrando os ções, o medo do ridículo nos faz mais ridículos”, como afirma o poeta.
pontos positivos de cada projeto e as eventuais inadequações e só de- Segundo ele, “impomos tantas restrições ao que vem do coração” que
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

pois pedir que os alunos redijam seus textos. somos capazes de enunciar idéias pobres sem nenhum pudor, “mas temos
vergonha de demonstrar até os melhores sentimentos”, principalmente
Proposta de produção de texto – 2 porque, atualmente, propõe-se “a razão cética e a lógica cínica como vi-
1. Como se pode observar, da leitura atenta do tema, solicitou-se que o são de mundo”. Para apresentar seu ponto de vista ao leitor, o autor cons-
participante do Enem refletisse sobre uma questão social de grande truiu o primeiro parágrafo de seu texto em torno dessa referência, citando
relevância para a sociedade brasileira: a necessidade de serem toma- alguns versos do poema de Pessoa e contextualizando-os, para que o leitor
das providências para que os direitos da criança e do adolescente pos- pudesse acompanhar a analogia proposta.
sam ser garantidos. A formulação, sob a forma de uma pergunta Texto 2: Neste texto, o autor usa uma outra estratégia utilizada
(“Direitos da criança e do adolescente: como enfrentar esse desafio comumente na introdução de textos: a construção de imagens ou me-
nacional?”), procura instigar respostas que evidenciem o domínio que táforas que permitam ao leitor “visualizar” uma determinada situação
o participante tem da quinta competência (a capacidade de elaborar que se pretende analisar. Observe como, para falar de um novo livro
propostas solidárias de intervenção na realidade, respeitando a diver- que acabou de escrever, o autor do texto vale-se da imagem de um
sidade cultural). parto, com suas dores e o alívio, como coloca no título. O autor, apesar
2. No cartum de Angeli, vemos o triste retrato das crianças e jovens de questionar, no primeiro parágrafo, a propriedade da comparação,
que vivem pelas ruas brasileiras: meninos assaltando um senhor (ao chega à conclusão de que os dois processos “devem ter mesmo alguma
fundo); outros que reviram o lixo, provavelmente à procura de alimen- coisa a ver”. Então, prossegue na comparação do processo de escrever
to; e, no primeiro plano, um menino que se droga (cheirando cola). O e publicar um livro (objeto de sua análise) a um parto, citando todos os
contexto em que tais cenas aparecem é o do Dia das Mães, anunciado sentimentos e sensações que tal acontecimento mobiliza, demonstran-
pelos outdoors. Em destaque, também no primeiro plano, vemos dois do a semelhança entre os dois processos.
garotos sentados no chão e outros dois em pé e um deles diz aos outros
dois o seguinte: “Papai Noel, Coelhinho da Páscoa… Panaca! Daqui a Propostas de produção de texto – 3
pouco vai dizer que MÃE existe!” 1. Os alunos devem dar continuidade ao texto de Zuenir Ventura de
3. Um destaque maior é dado à fala do garoto que choca pela cruelda- modo coerente. Sendo assim, desde que ele mantenha o ponto de vista
de com que uma realidade da vida dessas crianças é exposta aos leito- defendido pelo autor (o medo do ridículo na manifestação de nossas
res: “mãe” é, para elas, algo tão irreal quanto “Papai Noel” ou emoções e sentimentos nos faz mais ridículos), de forma adequada,
“coelhinho da Páscoa”, e aparece envolvida na mesma perspectiva de seu texto deve ser avaliado como correto.
uma sociedade capitalista que se vale de símbolos criados para incen- 2. Como pedimos que os alunos dessem continuidade de modo coerente
tivar o consumo em datas específicas. Assim, para as crianças e jovens ao texto de Leonardo Boff, optamos por reproduzir, abaixo, o texto com-
de rua, a idéia de uma “mãe” é algo muito mais próximo de uma data pleto. Salientamos que a continuação que o aluno deve redigir, confor-
em que o comércio fatura com a venda de presentes (como o Natal e a me o que pede o exercício, tem de ser coerente (e não a mesma do autor
Páscoa) do que uma pessoa que nos educa com carinho e atenção. do artigo…).
4. O segundo texto, trecho do artigo 227 da Constituição, deve ser lido
como um contraponto à situação real registrada pelo cartum. De um E se o ser humano desaparecer?
lado temos a dura realidade e, do outro, a letra morta da lei, que garan- “Poderia o ser humano desaparecer por causa de seu poder
te a menores e adolescentes o direito a tudo aquilo que, obviamente, destrutivo e de sua falta de sabedoria? Nomes notáveis das ciências
não têm: família, saúde, alimentação, liberdade, dignidade. Como apre- não excluem essa eventualidade. Stephen Hawking, em seu recente
sentação de uma série de intenções, o artigo é perfeito. Resta saber livro O universo numa casca de noz, reconhece que em 2600 a popula-
quais providências podem ser adotadas para torná-las reais. ção mundial ficará ombro a ombro e o consumo de eletricidade deixa-
5. O terceiro texto, uma notícia publicada em um jornal do Espírito rá a Terra incandescente. Ela poderá se destruir a si mesma. O Prêmio
Santo, traz um exemplo do que é a vida real das crianças que estão na Nobel Christian de Duve, em seu conhecido Poeira vital (1997), atesta
rua. No caso, o menor A.J. tenta ganhar a vida vendendo balas em um que ‘nosso tempo lembra uma daquelas importantes rupturas na evo-
sinal de trânsito. Note-se que ele tem plena consciência de que está ali lução, assinaladas por extinções maciças’. E Théodore Monod, talvez
trabalhando (“Não gosto de trabalhar aqui”) e, como futuro, idealiza a o último grande naturalista, deixou como testamento um texto de re-
sua profissionalização, como que concluindo algo evidente: sem qua- flexão com este título: E se a aventura humana vier a falhar? (2000).
lificação, estará destinado a permanecer dependendo da caridade alheia. Assevera: ‘Somos capazes de uma conduta insensata e demente; pode-
Aos 13 anos, em lugar de sonhar com viagens ou presentes, o menino se a partir de agora temer tudo, tudo mesmo, inclusive a aniquilação
gostaria de ser mecânico. da raça humana’.

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Se olharmos a crise social mundial e o crescente alarme ecológico, (argumentação por comprovação) que ele apresenta a partir da sua expe-
esse cenário de horror não é impensável. Edward Wilson atesta em seu riência profissional como médico (argumentação reforçada pelo fato de
último e alarmante livro O futuro da vida: ‘O homem até hoje tem de- o autor se apresentar como autoridade). É importante perceber, ainda,
sempenhado o papel de assassino planetário. A ética da conservação, na que toda a argumentação do médico tem como objetivo a conclusão de
forma de tabu, totemismo ou ciência, quase sempre chegou tarde de- seu texto, apresentada no último parágrafo (argumentação por raciocí-
mais; talvez ainda haja tempo para agir.’ nio lógico): se não permitimos que os comerciantes das chamadas dro-
Lógico, precisamos ter paciência para com o ser humano. Ele não gas ilegais façam propaganda de seus produtos, todas as formas de
está pronto ainda. Tem muito a aprender. Em relação ao tempo cósmico, publicidade do cigarro também deveriam ser proibidas.
possui menos de um minuto de vida. Mas com ele a evolução deu um 3. O fato de o autor se apresentar, em primeiro lugar, como um ex-
salto, de inconsciente se fez consciente. E com a consciência pode deci- dependente de nicotina tem por objetivo associar claramente o cigar-
dir que destino quer para si. Nessa perspectiva, a situação atual repre- ro, cuja venda é legalizada, a uma droga como qualquer outra, que
senta antes um desafio que um desastre possível, a travessia para um produz dependência grave. Isso reforça a idéia de que o cigarro é,
patamar mais alto e não um mergulho na autodestruição. como o título do artigo anuncia, uma droga pesada.
Mas haverá tempo para tal aprendizado? Na hipótese de que o ser 4. O fato de o autor se apresentar, em primeiro lugar, como um ex-
humano venha a desaparecer como espécie, mesmo assim o princípio de dependente de nicotina e, depois, como médico que se contradiz ao
inteligibilidade e de amorização ficaria preservado. Ele está primeiro no orientar seus pacientes a não fumarem, mas fazendo uso dessa droga
universo e depois nos seres humanos. Emergiria, um dia, em algum ser pesada, é uma estratégia que fortalece a sua argumentação. Além
mais complexo. T. Monod tem até um candidato já presente na evolução dessa estratégia, o seu ponto de vista é reforçado, como já dissemos,
atual, os cefalópodes, isto é, os moluscos como os polvos e as lulas. pelos dados estatísticos que ele apresenta a partir da sua experiência
Possuem um aperfeiçoamento anatômico notável, sua cabeça é dotada profissional.
de cápsula cartilaginosa, funcionando como crânio, e têm olhos como 5. O autor inicia seu texto afirmando que começou a fumar na ado-
os vertebrados. Detêm ainda um psiquismo altamente desenvolvido, até lescência, porque não sabia o que fazer com as mãos nas festas que
com dupla memória, quando nós possuímos apenas uma. Evidentemen- freqüentava. Além disso, faz referência ao momento em que se vi-
te, eles não sairão amanhã do mar e entrarão continente adentro. Preci- ciou: os anos 60, uma época em que o contexto sociocultural deter-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
sariam de milhões de anos de evolução. Mas já possuem a base biológica minava que o jovem que não fumasse estava por fora. O médico
para um salto rumo à consciência. procura demonstrar que a necessidade de afirmação do jovem é o
De todas as formas, urge escolher: ou o ser humano e seu futuro ou elemento explorado pela indústria tabagista para obter consumidores
os polvos e as lulas. Somos otimistas: vamos criar juízo e aprender a ser que serão dependentes da nicotina durante muito tempo. Esse racio-
sábios. Mas importa já agora mostrar amor à vida em sua majestática cínio é explicitado no penúltimo parágrafo do texto, onde o médico
diversidade, ter compaixão com todos os que sofrem, realizar rapida- estabelece a relação entre a idade em que a maioria dos fumantes se
mente a justiça social necessária e amar a Grande Mãe, a Terra. Incenti- vicia (25 anos) e o investimento feito pelos fabricantes de cigarro na
vam-nos as Escrituras judaico-cristãs: ‘Escolha a vida e viverás’. promoção do fumo para jovens por meio de propagandas que mos-
Andemos depressa, pois não temos muito tempo a perder.” tram imagens de homens de sucesso, mulheres maravilhosas, espor-
Leonardo Boff, teólogo e filósofo. Jornal do Brasil, 12 abr. 2002. tes radicais e a ânsia de liberdade.

2. e Proposta de produção de texto – 1


3. O aluno precisou perceber que Rui concorda em parte com a afirma- Com base na discussão do texto de Drauzio Varella, apresentado nas
ção, acrescentando que o fato de ter vencido a Olimpíada poderá ser um Atividades, o professor deve explicar as duas tarefas argumentativas
elemento diferenciador no seu futuro profissional, mas que é muito difí- apresentadas como propostas de redação. O aluno deve perceber que
cil fazer previsões sobre o mercado de trabalho, dada a velocidade das o primeiro texto a ser redigido deve apresentar uma postura favorá-
mudanças na atualidade. vel à lei que proíbe a propaganda de cigarros e que o segundo texto
4. a) São dois os fatores que, segundo os cientistas, poderiam ter provo- deve defender uma postura contrária à lei. O objetivo dessas duas
cado a extinção dos dinossauros: 1. os grandes pisavam nos pequenos; atividades de produção de texto é fazer com que o aluno coloque em
2. os pequenos comiam os ovos dos grandes. prática o que aprendeu sobre tipos de argumentação neste capítulo.
b) Porque os cientistas não analisaram todas as questões referentes Por isso, duas tarefas que exigem a adoção de posturas opostas; uma
ao desaparecimento dos dinossauros: esqueceram-se da existência contrária à lei e outra favorável. Para auxiliar o aluno na discussão,
de dinossauros médios cujo desaparecimento não poderia ter sido apresentamos também uma coletânea que fornece argumentos para
explicado por nenhum dos fatores apontados. Ainda que fosse possí- essas duas posturas, mas seria interessante o professor mostrar ao alu-
vel comprovar a veracidade dos dois fatores apresentados, os no que há poucos argumentos convincentes para garantir o direito de
dinossauros não teriam desaparecido da terra, pois os médios ainda fazer propaganda de um produto que, comprovadamente, faz mal à
existiriam. saúde. O argumento que poderia ser utilizado para defender o direito
5. b de fazer propaganda de cigarros seria o de que proibi-la é ser contra a
liberdade de expressão, uma vez que o cigarro é um produto legalmen-
Proposta complementar de produção de texto te comercializado.
Não é raro ouvir alguém dizendo que uma mentirinha não faz mal e
que chega a ser até conveniente dadas as circunstâncias. O aluno deve 6. a) Os anunciantes pretendem que o leitor aceite como argumento que
perceber que, no caso desse tema, é necessário se posicionar a favor ou o mundo nunca vai aceitar pessoas obesas.
contra a validade da mentira e chegar à questão ética da necessidade b) O anúncio é falacioso porque parte da premissa de que todas as pes-
da verdade como matriz de uma sociedade mais confiável, principal- soas podem escolher entre a magreza e a obesidade. Embora a obesida-
mente no que toca à política e ao comportamento de alguns homens de possa ser vista como uma condição perigosa, que ameaça o bem-estar
públicos. Não faltam exemplos para ilustrar a dissertação, bastando, do indivíduo, ela tem muitas causas, algumas das quais requerem trata-
para isso, que o aluno esteja atento às notícias veiculadas pelos meios mento prolongado. Supor que basta tomar um produto “mágico” para
de comunicação e saiba discernir entre o verdadeiro significado de emagrecer é tão falso quanto imaginar que todas as pessoas obesas che-
mentir e de falar a verdade. garam a essa condição apenas por comerem demais.
7. O artigo 19 afirma que a atividade publicitária deve respeitar a digni-
dade humana e o artigo 20 determina que os anúncios não devem favo-
Capítulo 11
recer ou estimular qualquer tipo de atitude preconceituosa. O anúncio
1. O médico defende a proibição das propagandas de cigarros. de Sanavita fere esses dois artigos porque sugere que pessoas obesas
2. Drauzio Varella inicia a sua argumentação comparando o cigarro, cuja não são tão “boas” ou tão “admiráveis” quanto as pessoas magras. Essa
venda é legalizada, a uma droga como qualquer outra, que produz de- visão certamente é preconceituosa e fere a dignidade humana ao sugerir
pendência grave. Essa comparação é reforçada pelos dados e estatísticas que os obesos são “piores” do que os magros.

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8. Resposta pessoal. O importante é que o aluno perceba que, em lugar O texto argumentativo, neste caso, precisa levar em consideração o as-
de sugerir que alguém deve emagrecer para ser aceito pela sociedade, pecto mais pessoal definido nos objetivos da campanha.
deve fazê-lo (ou querer fazê-lo) porque ajudará a prevenir uma série de
problemas de saúde (hipertensão, problemas cardíacos, diabetes etc.) e 17. d
promoverá o seu bem-estar. 18. a) Na primeira propaganda, sugere-se que o uso do xampu será
9. Calvin se baseia em juízos de valor para expressar sua opinião machista correlato à conquista do equilíbrio mental ou psíquico. Na segunda, é
sobre as mulheres. sugerido que o uso do cosmético vai conduzir a um casamento e à ascen-
10. Calvin faz uma avaliação negativa das mulheres baseado em uma são social.
opinião preconceituosa de que as mulheres são inferiores aos homens. O b) O duplo sentido aparece no último período do texto, com a menção à
fato de manifestar uma visão machista que deprecia o sexo feminino palavra equilíbrio ou à expressão uma questão de cabeça. Ambas po-
mostra a sua incapacidade de apresentar argumentos consistentes que dem ser interpretadas no sentido físico ou no sentido psicológico.
comprovem que há superioridade entre os sexos. 19. c
11. A resposta de Susie a Calvin faz rir porque explicita o fato de que 20. a
mesmo (ou principalmente) machistas se sentirão atraídos pelo “sexo 21. c
frágil”. 22. b
12. d 23. A tese exposta é a de que é menos criminoso o abandono de uma
13. b criança do que o ato de um aborto.
14. Como você deve ter notado, o leitor está utilizando sua carta para 24. Na verdade, R. M. tem apenas um argumento: as crianças da Roma
argumentar contra a atuação dos juízes da infância e adolescência, em Antiga que eram abandonadas na Coluna Lactária acabavam sendo
particular de Siro Darlan, por conta das medidas repressoras quanto ao recolhidas por mães abnegadas; então, todas as crianças eram ampa-
consumo de bebidas alcoólicas e à freqüência de adolescentes em luga- radas e nenhuma delas perdia a vida, o que ocorreria caso fossem
res considerados impróprios para menores. Tal manifestação do leitor se abortadas.
deve ao fato ocorrido na semana anterior, quando um pai foi preso por 25. Aceitar a argumentação proposta por R. M. significa aceitar que
permitir que seu filho ingerisse bebida alcoólica em sua companhia. O todas as crianças abandonadas encontrariam um lar, o que não é verda-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

causador da polêmica foi o juiz da primeira Vara da Infância e da Juven- de. Ora, se tal conclusão não procede, certamente todo o seu argumen-
tude, Siro Darlan. Esse leitor, indignado com a atitude do juiz, escreveu to pode ser questionado, porque não há como medir se é, realmente,
para o jornal manifestando sua discordância, defendendo seu ponto de menos criminoso o abandono de uma criança do que o ato de um aborto,
vista e procurando convencer os juízes da infância e da adolescência e como ele alega. Pode-se, dessa maneira, concluir que seu raciocínio é
os demais leitores do Jornal do Brasil de que medidas repressoras como falacioso, uma vez que a sua premissa pode ser questionada.
essa não funcionam.
15. e Proposta complementar de produção de texto
16. a O objetivo específico de tal proposta é fazer um teste prático de como
anda a utilização de juízos de valor, por parte dos alunos, como argu-
Proposta de produção de texto – 2 mento em textos dissertativos. Por se tratar de tema polêmico — o abor-
A proposta de texto argumentativo a ser elaborado está associada a uma to — a tentação de apresentar visões preconcebidas e não fundamentadas
campanha publicitária de tom pessoal (“Se o seu amigo usa drogas e é grande. Como já discutimos os problemas decorrentes da apresenta-
você não fala nada, que droga de amigo é você?”). Portanto, na hora de ção de juízos de valor como argumentos, é bom verificar, na prática, se
avaliar as redações produzidas por seus alunos, o professor deve obser- os alunos perceberam os danos argumentativos que eles podem acarre-
var se eles foram capazes de encontrar argumentos pertinentes a pessoas tar para a sua redação.
de idade e comportamento semelhantes aos deles. Não é adequado, nes- Além disso, achamos importante oferecer aos alunos, por meio de frag-
te caso, utilizar os argumentos clássicos contra o uso de drogas, porque mentos da coletânea, argumentos racionais a partir dos quais a discus-
o objetivo é convencer um jovem, um amigo, a não fazer essa opção. são da questão do aborto pode ser conduzida.

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