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Mediunidade
Temas indispensáveis para os
Espíritas
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LUIZ GONZAGA PINHEIRO

Janelas

A minha alma tem sede de janelas


Para ver o mar, o riso em meio a velas,
A luz refletida pelos cristais das rochas
deslizar em meio a plumas dançantes,
volitar sobre rios e elefantes
e adormecer entre tangos e tochas.

Ainda espero o dia em que o sangue


correrá apenas nas veias.

Luiz Gonzaga Pinheiro


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DEDICATÓRIA

Este livro é para minha grande amiga Ednir.


Leva até ela as lembranças das coisas que deixou
entre nós enquanto trabalha no país dos Espíritos:
Um fusca com a porta travada, uma mediunidade que
lhe permitia entrar e sair do transe na mesma comunicação,
filhas amadas, um Projeto Sementinha, amizade sincera, pirulitos,
aulas de evangelização infantil, músicas, poesias, preces, cores, parábolas,
sol, mar, estrelas, chuva, arco-íris, pipoca, sorvete, algodão doce, lápis coloridos,
amor, ternura, honestidade, persistência, uma leve tristeza quando em vez, lágrimas,
rosas, fotografias, abraços, bons conselhos, a busca da verdade, passarinhos, metáforas,
óculos de grau, perfumes, saudade, muita saudade.... Ah, minha velha amiga! Se houvesse
um correio espiritual eu te mandaria tudo isso e mais o nosso grande amor que continua
intacto.

Luiz Gonzaga Pinheiro


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PROJETO: JANELAS PARA A OUTRA VIDA

PROJETO: JANELAS PARA A OUTRA VIDA

Provável tempo de duração: 4 anos

Objetivos:

Evolução moral-intelectual do Grupo de Aprofundamento Doutrinário


Resgate de enfermos
Divulgação doutrinária

Dia de reunião: Quinzenalmente, a partir de 11 de agosto de 2002.

Roteiro de estudos ou janelas a serem abertas

1. ADESTRAMENTO MENTAL
2. OS FLUIDOS
3. O MAGNETISMO
4. FETICEIROS E TALISMÃS
5. HIPNOTISMO
6. VAMPIRISMO
7. REGRESSÃO DE MEMÓRIA
8. TECNOLOGIA
9. SOMBRAS
10. LUZ

INTRODUÇÃO

Nós, do Grupo de Aprofundamento Doutrinário do Centro Espírita Grão de


Mostarda, sentíamos há muito a necessidade de um projeto que nos impulsionasse não
somente à pesquisa bibliográfica ou às discussões demoradas sobre temas polêmicos.
Queríamos algo que nos sacudisse intimamente, nos mostrasse com mais profundidade
a nossa realidade interior, nos traçasse uma radiografia mental, perispiritual e
localizasse na infinita linha da evolução o ponto no qual nos debatíamos e nos
arrastávamos.
Passados anos estudando aspectos exteriores da criação, queríamos ver a nós
próprios, a extensão das nossas fragilidades, o quanto construíramos de bom, não para
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ostentarmos uma angelitude da qual nos reconhecemos distantes, mas para impor um
rumo mais dinâmico às nossas vidas e trabalhos desobsessivos.
Na verdade, queríamos uma avaliação, pois toda avaliação faz parte do processo
ensino-aprendizagem que é a vida de todos. Tal diagnóstico nos enviaria para os
devidos reparos que, quem sabe, precisaríamos fazer em nosso grupo.
Escolhemos então os temas com o cuidado de quem leva um passarinho ferido para
dar abrigo e os submetemos à equipe que nos orienta, que os aprovaram de imediato.
Aliás, não sei com certeza se os escolhemos ou nossos instrutores nos induziram a tal
escolha. Falando por mim, depois de tantos anos de estudo e convivência com esses
amigos, não consigo distinguir, às vezes, o que me é próprio daquilo que me é intuído.
Resolvemos começar pelo estudo da mente, até então foco de dúvidas e de
controvérsias em nossas pesquisas. Tenho uma mente ou sou uma mente, deveria ser
nosso ponto de partida. Em seguida, envidaríamos esforços em adestrá-la, exercício que
certamente exigiria anos de treinamento. Foi por este motivo que um dos componentes
do grupo, meu velho amigo Alexandre Diógenes, sugeriu como prazo para o término do
Projeto que veio a chamar-se Janelas Para a Outra Vida: Só Deus sabe.
O título nos fornece uma idéia diferente do desejo do conhecimento interior que
acalentávamos obter. Todavia, olhando para fora, à proporção que fôssemos percebendo
e entendendo o exterior, tentaríamos ver através das janelas que abriríamos para nossa
alma as imensas fronteiras que mais cedo ou mais tarde teríamos que cruzar.
Bem sabemos que na maioria das almas que habitam esse vasto mundo há planícies
verdejantes e terrenos pantanosos. Não somos anjos nem demônios. Somos
simplesmente humanos em busca da luz. Surge daí a necessidade imperiosa de abrir um
espaço na alma para que a luz nela se manifeste.
Como cada componente do grupo construiria essa janela, grande ou pequena, com
vitrais ou sem eles, opaca ou transparente, ou mesmo ficasse na periferia sem desejos de
aprofundamento, dependeria de cada um. Somos mais poetas que psiquiatras, mais
cientistas que místicos, mais jardineiros que bandeirantes, por isso concordamos que
cada coração escolhesse seu caminho e pulsasse segundo as suas aspirações.
O Projeto Janelas, como ficou conhecido entre nós, deveria cumprir exatamente o
que lembra a sua imagem: abrir espaços para o conhecimento, as descobertas, a quebra
de limitações, os saltos de qualidade, as emoções novas, o inusitado que ronda as portas
dos porões e o telhado dos templos da alma.
Diante de uma janela, há sempre algo de novo a ser olhado. As janelas são feitas
para novos descobrimentos, para que um sopro de vida penetre no espaço que lhe
abriga, renovando-o. Somente quem está impossibilitado de deslocamento fica inerte
diante de uma janela. Ela atrai, causa admiração, renova, surpreende, embeleza,
ilumina, encanta.
Foi com essa intenção de nos conhecermos melhor, que prometemos trabalhar no
limite de nossas forças. Todavia, a candeia deve estar ao alcance de todos. Todo saber
deve ser socializado a benefício do progresso geral. Pouco adianta abrir uma janela e
impedir que as pessoas a ela tenham acesso. Os estudos serão resumidos e ordenados de
maneira didática, transformados em linguagem acessível e, qual fonte de água pura,
serão divulgados para que outros grupos ou pessoas deles se beneficiem.
Assim forçamos uma fresta para nossa alma e ousadamente a chamamos de janela.
Neste volume há quatro delas. Aproxime-se, quem sabe você não vê aquela estrela que
procura há tantos anos? Encoste-se ao parapeito de uma. Não são tantas as flores
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silvestres aquém da linha do horizonte e as gaivotas parecem chamar os navegantes


mais além? Nele a utopia não parece tão palpável que quase a tocamos?

Uma janela não é apenas um retângulo na parede. É poesia em linguagem


matemática, uma moldura com o azul do céu ao fundo onde você pinta o seu sonho
mais secreto. Aprenda mais sobre janelas e sobre almas. O projeto Janelas Para a
Outra Vida é um espaço onde se pode ler um pouco do pensamento de Deus. Até onde
pudemos chegar no estudo que comporá o primeiro volume, tentamos elaborar um texto
claro e simples sobre a mente, os fluidos, o magnetismo e os feiticeiros, intitulando-o
de: Temas obrigatórios para Doutrinadores.
Não seja tímido! Não tenha medo, marujo! A janela dá para o tranqüilo mar da
caridade, senha para um encontro com Deus.

Luiz Gonzaga Pinheiro

A equipe desencarnada

Quando ingressei no Espiritismo, na Mocidade Espírita Mário Rocha, há mais de


trinta anos atrás, já os videntes me viam, uma vez ou outra, acompanhado por um frade.
Ele me guiava o pensamento nas discussões evangélicas e, posteriormente, passou a
intuir-me nas primeiras palestras que fiz. Quando adentrei o Grupo de Educação da
Mediunidade, através de uma comunicação psicofônica ele disse chamar-se Francisco e
ser meu companheiro há muitos séculos. Não sei com detalhes, quantas existências já
estive com ele, mas, em nossas longas conversas, ele me revelou que esse tempo é
longo e fértil.
Francisco parece supervisionar o que escrevo, pois sinto-o ao meu lado quando
desenvolvo um tema qualquer. Seu olhar agudo de psicólogo, seu coração doce de pai
amoroso, sua maneira suave de me repreender deixa-me, não raro, envergonhado pela
rebeldia que me é peculiar. Cuidando de crianças autistas e de outras com síndrome de
Down, de Espíritos enlouquecidos pelo medo, pelos traumas que tiram a razão, é amado
e respeitado por todos pela extremada dedicação com que desempenha esse trabalho.
Professor de almas, Francisco é antes de tudo um poeta, um amante das lições de seus
mestres, Jesus e Francisco de Assis, a quem serve com desvelado apreço.
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Sei, e afirmo com a maior sinceridade, que não mereço a sua proteção nem as mãos de
jardineiro com as quais me trata. Há dias em que penso sobre isso, ocasião em que se
apodera de mim uma energia que me faz amar o trabalho e a terra onde piso. E há dias

em que pareço um dos autistas tratados por ele que tudo quanto almeja é voltar para
casa na qual deixei alguns amigos para adentrar no denso nevoeiro terreno.
Francisco é um personagem forte em todos os Projetos que já elaborei.
Ao criar o Grupo de Aprofundamento Doutrinário, composto por uma equipe multi-
disciplinar, médiuns e pesquisadores, tive a grata satisfação de reencontrar outro grande
amigo que me acompanha, segundo depoimento seu, desde os tempos da antiga
Alemanha, onde éramos pesquisadores. Kröller me orienta quando o assunto é ciência.
No Projeto Modelações, no qual estudamos por dez anos seguidos o perispírito, ele foi
de uma dedicação à toda prova. O resultado desse Projeto foi a elaboração do livro O
Perispírito e suas Modelações, obra bastante apreciada pelos estudiosos do assunto. Em
um outro trabalho o qual chamei de “Projeto Evocações”, com ele trabalhei por quatro
anos, período em que entrevistamos importantes personalidades do mundo da Ciência,
da Filosofia, da Religião e das Artes, no que resultaram os livros Muito Além da Vida e
Viajantes da Eternidade.
Agora iniciamos o Projeto Janelas Para Outra Vida e, como sempre, seu apoio
firme e vigoro está presente. Kröller é bonachão, disciplinado, pesquisador dedicado, o
tipo de avô que todo neto gostaria de ter. Nossas conversas invariavelmente deságuam
no grande oceano da ciência onde ele é excelente navegador. É o meu socorro nas
cruciantes dúvidas que me atormentam. Excelente amigo e professor, parece ser o
Espírito que planeja comigo os projetos a serem desenvolvidos e transformados em
livros, pois todos surgem nítidos e completos em minha mente logo que acordo pela
manhã.
O apoio de Kröller é fundamental na elaboração dos projetos aos quais me dedico.

Quando o assunto é disciplina, o mestre é Mário Rocha, tratado por nós como Dr.
Mário. Acredito que ele prefira ser chamado apenas de Mário, mas nos acostumamos a
tratá-lo assim, formalmente, desde quando estava entre nós, encarnado e dirigindo o
Centro Espírita Círculo de Renovação Espiritual.
Dr. Mário era professor da Universidade Federal do Ceará, lecionando na Escola de
Agronomia. Espírita convicto, palestrante, doutrinador, dirigente de reuniões públicas,
foi dedicado e fiel à Doutrina que abraçou como referencial de vida até que o
desencarne o impediu momentaneamente de ensiná-la, de proferir nas reuniões públicas
que a regra básica para qualquer ação espírita é a caridade. Alguns dias depois do
desencarne retomou suas atividades espíritas orientando-nos nas mais variadas questões
doutrinárias, o que ainda hoje faz com a mais rígida disciplina.
Dr. Mário jamais esteve ausente nas reuniões de desobsessão, de estudos e de
aprofundamento doutrinário em que trabalhei. Tenho a mais absoluta confiança em sua
ação, pois aprendi a amá-lo e a respeitá-lo observando a sua dedicação e a sua
disciplina. Foi ele quem me pôs ainda bem jovem para doutrinar Espíritos em reuniões
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de desobsessão, após ensinar-me a regra áurea da doutrinação: utilizar a disciplina e a


caridade, com o cuidado para que a caridade não amoleça a disciplina nem a
disciplina atropele a caridade.
Muito devo a este grande amigo que jamais me deixou em apuros diante de uma
tempestade qualquer. Quando é necessário dizer que estamos errados, que
extrapolamos, que negligenciamos, ele é o escolhido para tão espinhosa missão.
Acredito que sofra ao nos dizer palavras duras, embora absolutamente verdadeiras e
necessárias, mas um pai não agiria de maneira diferente. A palavra que mais ouvi de
sua extensa lavra foi disciplina. É de sua autoria os três mandamentos do médium
espírita, a serem seguidos por todos que pedissem uma oportunidade de serviço no
Círculo de Renovação Espiritual: disciplina, disciplina e disciplina.
A presença desse grande amigo em minha vida é outra bênção de valor inestimável.

Ednir é outra personagem atuante em minhas obras. Ainda jovem ela começou a
trabalhar comigo nas reuniões de desobsessão. Existia uma particularidade em sua
atuação mediúnica como jamais vi em outras. Ela “incorporava”, e eu começa a
doutrinação, mas quando julgava falar com o Espírito comunicante, falava com a
médium. Ela entrava e saía do transe mediúnico com facilidade, dando-me ciência das
intenções do companheiro a quem emprestava as cordas vocais. Isso acontecia em casos
especiais quando o comunicante mentia, mistificava, e ela, sabedora das suas intenções,
não aguardava que eu, o doutrinador, descobrisse a fraude. Revelava, de imediato, a
tentativa de embuste, cortando pela raiz a intenção do engodo, deixando furioso o
falsário, que não contava com aquele estilo. Minha afinidade com ela nessa
“impaciência”, pois ela queria ver de pronto o mistificador desmascarado, sempre foi
muito grande. Um dia ela se achegou a mim e revelou que estava com um tumor no
cérebro e que iria no dia seguinte à mesa de operação. À noite fomos visitá-la no
hospital, lemos sob intensa emoção o “Evangelho Segundo o Espiritismo”, ministramo-
lhe passes reconfortantes e, quase sentimos, a nos tocar, os amigos espirituais presentes,
os mesmos citados nesta equipe. Foi a última vez que a vi encarnada. Um mês depois
ela já estava trabalhando conosco novamente, fazendo o papel de “repórter”, como
costumamos chamá-la, pois é a personagem que mais auxilia diretamente nas dúvidas
atrozes que temos em pesquisas. Para este Projeto, são suas as advertências: analise
meticulosamente cada informação sobre magia negra que lhe chegar às mãos. Tenha o
extremo cuidado ao repassar o texto para que este não venha a servir como um manual
sobre feitiçaria a ser utilizado por quem queira praticá-la. Devido a complexidade do
tema e a desinformação reinante entre espíritas que não entendem a realidade
existente na manipulação de energias e na execução de trabalhos de magia negra, seu
texto pode parecer bizarro ou grotesco. Escreva de maneira simples enfatizando a
supremacia dos bons Espíritos e a bondade de Deus sobre qualquer fenômeno ou
situação, mesmo aparentemente injusta. Evite chocar os leitores com descrições que,
embora verossímeis, estejam impregnadas do característico terror que impera entre as
vítimas desse flagelo ainda atuante no planeta. Lembre-se, e deixe isso bastante claro,
de que toda a magia é regida por leis naturais e que o poder da mente realiza tarefas
que a muitos parecem excepcionais ou mágicas. A capacidade de imaginação e de
realização de cada um nesse campo é diretamente proporcional a sua evolução
intelecto-moral. Simplifique ao máximo o seu texto e continue fiel à verdade dos fatos.
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Ednir é um dos anjos bons que Deus me colocou no caminho para que pudéssemos
errar menos.

Existe um trabalhador nessa equipe, que raramente manda notícia, mas que
invariavelmente está por perto auxiliando-nos seja qual for a situação. Sua timidez e
humildade não o incentivam a aparecer à nossa frente, mas sabemos que, ao nosso lado,
trabalha sem cessar tentando aplanar o terreno onde operamos.
Francisco Lopes, o Chico Lopes, esse é o seu nome. Ele foi o doutrinador da
reunião de educação mediúnica onde iniciei os estudos sobre a mediunidade prática.
Quando foi acometido de um câncer no fígado, desencarnando em seguida, o substituí
na reunião, tornando-me doutrinador, ofício que desempenho ainda hoje. Chico era
calado e observador. Caridoso e carinhoso para com todos os Espíritos com os quais
falava, fez inúmeros amigos entre os desencarnados, iniciando a trabalhar com eles logo
que chegou ao plano espiritual. Nas minhas dificuldades sinto-o ao meu lado. Sei que
ele está ali, embora, na maioria das vezes, não diga uma única palavra. Chico é uma
rocha firme, um abrigo seguro, alguém a quem se pode confiar todos os valores que
possui sem que a dúvida o atormente. Esse velho amigo também tem grande mérito nas
obras que, juntos, pois sinto-lhe a inspiração contínua, escrevemos.

Mas o trabalhador que mais é visto em ação entre nós, até porque trabalhamos na
área da desobsessão, é o índio Luiz Tibiriçá. Porte de guerreiro, armas e ânimo em
batalha, Tibiriçá, juntamente com seus guerreiros, é o encarregado da defesa do Centro
Espírita. Quando a ordem é trazer alguém, ele traz. Se é para invadir um reduto onde
existem prisioneiros, ele o invade e os resgata. Quando o problema é “varrer” uma
cidadela de malfeitores, podemos ficar certos de que ela não mais constará no mapa
após o seu ataque. Tibiriçá é um guerreiro que impõe respeito não somente pelo seu
porte físico, mas, sobretudo, por sua nobreza de caráter, sua fé em Deus, sua caridade
para com os frágeis e indefesos. Por centenas de vezes já o vi capturar vampiros,
obsessores, feiticeiros, utilizando variadas táticas de guerra. Ora são redes, armadilhas,
iscas preparadas com os médiuns; de outras vezes é a batalha crua, o arrancar a unha o
inimigo em barricadas, o encostar a lança no pescoço ou nos órgãos sexuais de
vampiros com fixação no sexo, órgão que mais temem perder.
Tibiriçá tem a voz dura para quem ofende a lei. É um guerreiro de olhar severo,
penetrante, corpo ágil como o raio prateado das tempestades. Difícil é encará-lo sem
baixar o olhar. Aprendeu com os bons Espíritos a dominar inimigos através do
hipnotismo e do magnetismo, utilizando estes métodos nas reuniões mediúnicas junto a
obsessores, que se sentem amarrados, com enormes pedras nas costas, cegos, corpo em
chamas. Tenho a honra de trabalhar ao seu lado há muitos anos e, espero, continuar em
sua equipe quando for chamado à luta no plano espiritual.
Faço esse pequeno relato sobre os amigos que me acompanham para que os leitores
compreendam melhor o contexto onde atuo. Às vezes falo em um desses personagens e
não aprofundo nosso relacionamento nem a missão que cada um desempenha junto ao
grupo e a mim, em particular. Fica pois, registrado, em linhas simples o quanto somos
auxiliados pelos amigos espirituais e o quanto devemos a eles pelas vitórias que
obtemos enquanto encarnados. É deles a parte mais difícil na tarefa e nem sequer lhe
atribuímos, às vezes, os méritos merecidos. Ao esclarecer este ponto apenas faço justiça
a tão dedicados companheiros. Que Deus nos ampare sempre e nos una cada vez mais.
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A MENTE E SEUS RECURSOS

O Projeto “Janelas Para a Outra Vida” deu prosseguimento ao “Projeto Evocações”,


aprofundando seus objetivos, solidificando ainda mais o intercâmbio com a
espiritualidade. O grupo de aprofundamento doutrinário, qual locomotiva carregada,
continuava a todo vapor com seu maquinista e foguista célebres, Jesus e Kardec.
Espalhando ao seu redor a fumaça do conhecimento e as brasas da paixão pelo saber,
seu apito lembrava a disciplina para não se desviar dos trilhos da razão, mantendo
intacta a sede por novas fronteiras e horizontes, razão pela qual ajuntávamos mais
lenha.
Não quis utilizar para nosso grupo a imagem do trem bala, por nos considerarmos
uma velha locomotiva, tentando perseguir a luz cuja velocidade assusta e desnorteia.
Quem adentra o mundo espiritual tem exatamente essa sensação de impotência e de
ignorância frente ao grandioso, desconhecido e belo espetáculo que a ciência oferece
aos viajantes ousados que a espreitam. Para se entregar, ela exige, além do respeito, a
perseverança, a dedicação e amor ao conhecimento.
O trem não podia parar. Sua fornalha estava cheia, seus dirigentes e ajudantes a
postos. Se a estrada de ferro é infinita e o desejo de desbravar e ultrapassar limites é o
sonho dominante, pernas para que vos quero, ou melhor, rodas para que vos quero, pois
se o limite da viagem é o conhecimento, este não tem limites.
Preparamos mais um roteiro de estudos, baseado em nossas necessidades de
aprofundamento doutrinário, e o iniciamos pela mente. Verificamos no decorrer dos
estudos que dezenas de escritores, espíritas ou não, fazem dela um emaranhado de
teorias confusas e contraditórias. O que é mesmo a mente? Esta pergunta nos
atormentou algumas semanas. Para alguns, mente e Espírito são sinônimos. Para outros,
a mente é material. Há quem diga que ela se encontra no perispírito, no corpo mental,
que é a sede da memória, um fulcro energético, um imã de elevadíssimo potencial, a
força ou o movimento dominante do universo, um gerador de força magnética, a fonte
dos princípio bons ou maus, um centro psíquico de atração e repulsão, um núcleo de
forças inteligentes, uma entidade colocada entre as forças inferiores e superiores, dentre
muitas outras definições.
Indagado a respeito, velho amigo, após pesquisar alguns dias em seus compêndios,
enviou-me uma carta, dizendo: Estou inclinado a acreditar que magnetismo e mente
são assuntos que muitos abordam, mas ninguém sabe o que é.
Allan Kardec, André Luiz, Yvonne Pereira, Hermínio Miranda, Philomeno de
Miranda, Hernani Guimarães foram consultados possibilitando-nos avançar no acúmulo
de informações, sem contudo, nos fornecer uma interpretação definitiva sobre o tema
que nos atormentava. Quando pensávamos estar no caminho certo, fatos ou conceitos
nos empurravam para o marco inicial. Livros da área de Psicologia e de Parapsicologia
igualmente foram devassados, sem fornecer pistas seguras. Resolvemos simplificar o
enigma em três pontos:
Mente é o mesmo que Espírito?
A mente é apenas um veículo de manifestação da vontade do Espírito?
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No presente estágio da inteligência humana, a mente não pode ser definida?


A terceira opção não nos agradou, pela sensação de impotência que ela traduz.
Nunca fomos de nos render facilmente. Além do mais, ela induz a uma acomodação
perniciosa. Se a mente não pode ser definida no presente estágio da inteligência humana,
nosso caminho termina ali, não havendo mais nada a fazer. Se todos pensassem assim, o
progresso entraria em colapso. Por tais motivos, a descartamos de imediato de nossas
preocupações.
Feita a nossa parte, neurônios esquentados ao máximo, passamos o problema para
nossos instrutores. A candidata natural para nos auxiliar era Ednir, velha amiga psicóloga
que pertencera ao grupo mediúnico da Casa, o Centro Espírita Grão de Mostarda, e que
agora, desencarnada, prosseguia seus estudos sobre os problemas mentais. Aliás, o seu
afastamento por seis meses das nossas reuniões mediúnicas tivera como causa a realização
de um curso sobre a mente, visando a nos auxiliar em estudos e trabalhos desobsessivos.
A fiel companheira de tantos anos de batalhas espíritas iniciou a sua comunicação
com a seguinte observação:
- Como é difícil dizer o que somos! Queria adverti-los para não me julgarem a
salvação de seus problemas. Em parte, estou tão confusa quanto vocês. Esse tratado que é
a mente ainda exigirá de todos nós dezenas de anos de pesquisa e muita paciência.
- Sentiu a enrascada em que estamos?
- Disse bem. Em que estamos. Não consigo ficar calma com toda essa confusão que
vocês conseguem fazer quando querem, porque querem, definir uma coisa impalpável. O
pior, ou melhor, não sei, é que a convivência me deixou com igual comportamento e aqui
tenho que importunar a todos para extrair alguns miligramas de conhecimento, a fim de
repassá-lo para o grupo. A técnica de obtenção de conhecimentos, aqui, é semelhante a
retirada do caldo da cana. A moenda aperta o quanto pode para liberar o caldo e formar
o mel. Já aprendi que no plano espiritual o conhecimento se adquire com muito esforço e
perseverança e que o preguiçoso tem a dieta bem amarga.
- Você poderia nos dizer se Espírito e mente são a mesma coisa?
- Primeiramente, preciso lhe dizer que não existe uma mente igual a outra. Eu sou
a expressão da minha vontade materializada pela mente. Como as vontades são diferentes,
as mentes também o são. Eu sou Espírito, essência divina, e através da mente eu expresso
a vontade do Criador em minha vida. Eu sou um Espírito e uma mente.
- Então eu não posso dizer: eu tenho uma mente!
- Não! Eu sou uma mente é a forma correta de se expressar.
- Você não poderia aprofundar, com um exemplo prático, este tema, a fim de nos
esclarecer melhor?
- Assim como o corpo tem o sangue mas este não é propriamente o corpo, apenas
uma parte sua, também o Espírito tem a mente, que lhe possibilita manifestar a vontade
através dos corpos que utiliza. Tal como o sangue é um veículo de manifestação do corpo
a lhe traduzir a ordem de abastecimento e limpeza das células, a mente é um veículo de
manifestação da vontade do Espírito a lhe satisfazer as exigências. A célula do sangue
isolada, livre da influência reguladora do Espírito, que se manifesta através da mente,
perde a sua função e se degenera. De igual maneira, não existe a mente sem o Espírito.
Quando Deus criou o Espírito, deu-lhe também uma mente para que ele pudesse
materializar a sua vontade, sem a qual não poderia modelar o seu envoltório perispirítico
e apropriá-lo às suas necessidades. Como o sangue atinge a extensão de todo o corpo,
atendendo a bilhões de células, a mente, parte integrante do Espírito, sem a qual ele
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estaria impossibilitado de se manifestar, sendo adimensional, não estando circunscrita a


uma região específica, interliga todos os corpos utilizados pelo Espírito.
- Podemos resumir este assunto desta maneira? A mente, parte integrante do
Espírito, não é mais um corpo ou invólucro que ele utiliza para se manifestar no plano
material ou espiritual. É o veículo que põe seus corpos em funcionamento através dela,
acionando-os segundo a sua vontade. Sem dimensão ou forma fixa, sendo única para cada
Espírito, qual impressão digital que o individualiza, interliga os corpos que o revestem,
qual fio condutor que conecta a fonte elétrica ao aparelho que se quer fazer funcionar. A
energia da fonte é manifestada através do fio condutor que faz funcionar o aparelho,
produzindo o efeito esperado. Assim também o desejo e a vontade do Espírito são
expressos através dos corpos que o revestem. Resumindo: a mente pode ser definida como
veículo de manifestação da vontade do Espírito.
- O resumo parece razoável e a definição pode ser utilizada nos estudos a que nos
propomos aprofundar.
- Visto assim, pronta, a coisa parece bem simples, mas quase nos manda para o
hospício.
- Exageros à parte, foi um bom começo. Que Deus nos conceda outras batalhas.

A partir do nosso encontro com Ednir fomos estruturando um corpo de


conhecimentos sobre a mente que, por fim, nos possibilitou vislumbrar como seria esse
veículo de “exteriorização do Espírito”: A mente é uma parte integrante do Espírito que
transmite ao cérebro os seus desejos. Este os recebe em forma de idéia materializando-a
em ação. A vibração mental, diferente para cada Espírito, é o resultado do seu estado
evolutivo, o que lhe permite, através da semelhança vibratória, comunicar-se com uma
outra mente através de processos telepáticos; a mente age na construção do mundo físico
modelando-o segundo seus valores morais e intelectuais; vícios degradantes e virtudes
angelicais, estados mentais que caracterizam determinados Espíritos, são exteriorizados
pela mente em forma de energias que inundam e cruzam o espaço, expandindo-se em
busca de plugs para se conectarem; ondas mentais de teor vibratório nefasto podem,
quando direcionadas para um objetivo específico ou absorvida por afinidade, gerar
estados patológicos tais como tensão, angústia, estresse, depressão, ira, mágoas, dentre
outros. No sentido inverso, quando as ondas mentais expressam sentimentos elevados,
geram igualmente emoções sublimadas e estados físicos harmoniosos naqueles que as
emitem ou absorvem; O Espírito que acalenta idéias de ódio, vingança, egoísmo, dentre
outros vícios corrosivos aos tecidos perispirituais, acaba por baixar a vibração da sua
mente, intoxicando-a com fluidos densos e pegajosos que, fatalmente, terão que ser
liberados através de uma somatização, ou seja, de uma doença física. Não é possível
anular a interação mente-corpo. Os bons sentimentos que chegam ao cérebro através de
mensagens da mente são por ele interpretados como mensagens de liberação de
endorfinas, interferon, interleucinas, dentre outras substâncias reguladoras da saúde
física, ocorrendo o contrário quando os sentimentos são maléficos. Quanto mais a mente
vibra no sentido da harmonia universal, de aproximar-se da mente divina, mais poderes e
proteção ela tem contra os desequilíbrios do meio em que se encontra.
Esse foi o recado deixado por Jesus. Ele nos trouxe um roteiro para passarmos pelo
mundo com menos sofrimento e mais velocidade de elevação. Felizmente as ciências,
sobretudo as psíquicas, começam a entender a profundidade e o valor das mensagens do
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Mestre, notadamente no que se refere ao capítulo da lei de causa e efeito, ou seja: A cada
um é dado segundo as obras.

Mas que recursos tem a mente para se tornar criadora, modelando a matéria,
forçando-a a obedecer a vontade do Espírito? Diríamos que infinitos, desde que o Espírito,
foco de inteligência e de vontade, a adestre e a manipule com disciplina e tenacidade.
Uma mente adestrada é a única arma que concede poder ao Espírito para impor a
sua vontade. Quando falamos em poder, não o direcionamos apenas para o bem, pois é
sabido que há inteligências notáveis que se demoram no mal por largos períodos de tempo,
utilizando suas conquistas no campo da inteligência, equivocadamente. Tais Espíritos,
detentores de técnicas e de conhecimentos científicos de vulto, formam verdadeiras
cidadelas no espaço, cercando-se de exércitos que os servem como escravos.
Sabe-se que apenas uma mente treinada e disciplinada pode dominar uma outra. Em
um confronto de tal magnitude, podemos ver apenas o resultado final daquilo que foi
pensado e ordenado pelos litigantes, ou seja, a materialização das vontades das duas
inteligências, tornada possível através da mente de ambos. Esse duelo de vontades é algo
difícil de descrever, pois não se vêem os movimentos interiores que fazem dobrar e render a
mente mais frágil. O Espírito parece estar imóvel, desligado de tudo à sua volta, apenas
concentrado na vontade de materializar o que pensa. Todavia, seu interior, disciplinado ao
longo dos séculos para impor sua vontade às demais, reúne forças e, qual vórtice arrasador,
tornado irresistível, que se agiganta e tudo leva à sua frente, impõe modificações tanto no
exterior, ambiente em que o seu rival se encontra, quanto no interior, na mente que quer
dominar, fazendo-a curvar-se à sua vontade.
Os duelos entre chefes trevosos pela conquista de comandos baseiam-se no
conhecimento da mente, do magnetismo, do hipnotismo e, sobretudo, na crueldade, frieza e
insensibilidade diante do sofrimento.
Como a mente é capaz de modelar a “matéria” no mundo espiritual, de invadir uma
outra mente e de lá retirar informações ou depositá-las, pode-se deduzir que mais poder
detém aquele que maior conhecimento e adestramento mental apresenta.
Urge, portanto, que nos conheçamos e nos adestremos mentalmente, a fim de nos
resguardarmos de invasões perniciosas.
Se algum Espírito pretende nos dominar, buscará primeiramente nossos pontos
vulneráveis, obtendo pleno sucesso se conseguir “ler” nas nossas mentes aquilo que nos
irrita, comove, fragiliza; nossos medos, desejos, enfim, o que nos tira a calma e a paz. Com
esses conhecimentos, ele arma suas estratégias de dominação e, se não encontrar resistência
à altura, não terá pudor nem piedade de acrescentar mais uma possessão às inúmeras que o
mundo já suporta.
Trabalhadores das reuniões de desobsessão conhecem de perto esses dramas. Ao
mesmo instante em que estudávamos a mente e tentávamos encontrar maneiras de adestrá-
la, veio ao nosso encontro uma solicitação para auxiliarmos, através de reuniões de
desobsessão em horário extra, um jovem que já estava perdendo a visão. Devido ao
agravamento do caso, este não seria tratado nas reuniões tradicionais, já que estas,
geralmente, lidam com casos de menor complexidade. O drama apresentado tinha raízes
profundas, exigindo alguns meses de entendimento com os desencarnados que o
administravam. Além do mais, o ódio secular não se extingue com meias palavras ou meios
exemplos. Deveríamos conviver com eles, pois nos vigiariam incessantemente, aprender
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com seus métodos, suportar suas agressões, perdoar suas ofensas, reconhecer que sabiam
muito mais que nós e até mesmo que alguns de nossos instrutores. Teríamos que a tudo
resistir com coragem e abnegação, sem fugir da coerência doutrinária, referencial que
escolhêramos para palmilhar nossos caminhos. Desnecessário dizer que a humildade, a
vigilância e a oração deveriam acompanhar o ar que respirássemos, pois sem estas virtudes
seria loucura aventurar-se em tão perigosa empreitada.
Por outro lado, nos foi prometida ajuda compatível com o nosso esforço, o incentivo
e a proteção de que nos fizéssemos credores, a certeza de que quem trabalha para o bem
jamais estará sozinho ou abandonado. Que fôssemos valentes com humildade,
disciplinados, confiantes, passando pelo crivo da razão tudo quanto nos dissessem.

O JOVEM OBSIDIADO

O jovem que nos pedia ajuda enfrentava há muito tempo longa batalha contra a
obsessão. Médium em potencial, jamais se animara a educar a mediunidade tormentosa que
pedira como missão, a fim de auxiliar seus próprios perseguidores. Quando melhorava de
uma crise, deixava de freqüentar o centro espírita, retornando quando a dor o enxotava para
outras rogativas. Como seus perseguidores eram persistentes e a ajuda prestada pelos bons
Espíritos depende da boa vontade do obsidiado em curar-se, daquela vez o cerco parecia
difícil de romper. Ele estava ficando cego. Gastara tudo quanto possuía com tratamento
médico, inclusive fora do Estado e, estranhamente, nada de revelador fora encontrado que
justificasse a causa da progressiva cegueira. Instalada a crise generalizada na família,
pálpebras levantadas, deixando à mostra quase a totalidade dos globos oculares, sem
conseguir fechar os olhos para dormir, a menos que utilizasse tampões, fragilizado e
acossado por cruéis inimigos, que o acusavam de havê-los cegado séculos atrás durante o
período da Inquisição, sofrendo o desespero de quem pressente a saúde, a dignidade, os
haveres e os amores escorrerem pela mão, auto-estima em baixa, chegou ao “Grão de
Mostarda” para mais uma tentativa de erguer-se.
Com a primeira reunião mediúnica, ficamos sabendo da extensão e profundidade do
problema. Os instrutores iniciaram fazendo o que se pode chamar de “limpeza” do lar. O
desfile de loucos, hipnotizados, mentes cristalizadas na idéia da cegueira, parecia
interminável. Como acontece em casos dessa natureza, os instrutores começam libertando
tais Espíritos, que em verdade são mais vítimas que algozes. Essa leva de sofredores é
utilizada em sua loucura para transmitir suas aflições ao obsidiado, bem como para tornar o
ambiente em que se encontra saturado de vibrações doentias, onde a paz e a saúde não
tenham acesso por absoluta incompatibilidade vibracional.
Dentre os sofredores, um se destacava pelo seu desespero. Tentava a todo custo
colocar os olhos nas órbitas e não conseguia, pois os via, após colocados, saltarem para
suas mãos. Por trás de uma aberração de tal natureza só pode estar uma mente treinada, sem
compaixão, e disposta a tudo para executar seus planos. Quando consegui convencê-lo,
após acordá-lo do pesadelo em que se encontrava, de que seus olhos estavam nas órbitas,
pedi-lhe que abrisse os olhos devagar e olhasse para meu rosto. Quando abriu os olhos, deu
tremendo grito: Não! Elas vão me pegar! Não! Prefiro ficar cego a ser picado pelas
serpentes. E voltou ao movimento de colocar os olhos nas órbitas e a apará-los em seus
saltos.
Dominado mentalmente, via-se atacado por dezenas de serpentes, a menos que
permanecesse cego. Um outro, que fora submetido a igual ordem hipnótica, contou-nos:
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Eles me colocaram em um quarto escuro cheio de serpentes, tiraram meus olhos e os


lançaram entre elas para que eu os procurasse. Esse Espírito estava enlouquecido, fazendo
gestos de quem procurava algo pelo chão, pedindo a todos que não pisassem em seus olhos.
O que se denominava guardião, cuja função era barrar a passagem de qualquer
intruso que tivesse a intenção de auxiliar o jovem, ao tentar se render, pois já se dizia
cansado daquele trabalho, teve seus braços transformados em garras.
Desdobrada, uma das médiuns foi até o quarto do jovem e descreveu o cenário.
Havia uma espécie de luz suspensa no teto, que mudava de cor constantemente, fazendo
incidir seus raios sobre sua nuca. Todo o ambiente estava transformado e dominado por um
Espírito com grande adestramento mental, que de pronto registrou a presença da médium.
Todavia, não demonstrou nenhuma perturbação com este fato, passando a fazer exibições
de seus poderes. Fazendo dois hologramas de si mesmo, tentou confundir a vidente sobre
sua real localização. De onde estava, provocou intensas dores, esgares, contorções,
taquicardia e falta de ar em todas as médiuns sob o nosso comando. Literalmente dominou
a reunião por breve tempo, impedindo-nos a doutrinação, de vez que todas se sentiram mal
ao mesmo tempo. Aconselhou-nos a que desistíssemos enquanto estávamos com saúde,
pois poderia acelerar nossos corações até fazê-los explodir, dentre outras ameaças.
Quando conseguimos falar com alguém mais lúcido, obtivemos as seguintes
informações sobre este Espírito: Vocês não são páreo para ele. O velho foi treinado na
Índia durante séculos. Sua mente é poderosa e abaterá a todos como fez com os seus
oponentes.
De repente, uma das médiuns recebe uma orientação de nossos instrutores. Todos
deveríamos mentalizar uma muralha de luz de cor azul turquesa. O Espírito que
administrava o processo obsessivo viria “conversar” conosco.
Não é difícil imaginar a raiva, o orgulho ferido, a turbulência que ele causou no
organismo da médium, quando foi forçado a vir.
- Estou momentaneamente tolhido por este mestre que aí está. Apenas ele foi capaz
de deter-me por alguns instantes. Mas não pensem que ficarei aqui. Tenho recursos para
evadir-me e para enfrentar qualquer um que ouse afrontar-me.
- Por que persegue aquele jovem?
- Porque tenho vontade. Não pense que lhe direi algo que o favoreça. Sua
mediocridade tornará meu trabalho mais fácil. Abaterei a todos vocês, cujas mentes são
frágeis como papel. Saiba apenas que ele me pertence. Sou o seu senhor e a minha vontade
é lei.
Dito isto evadiu-se, deixando a médium exausta e caída sobre a mesa. Nossa amiga
Ednir veio ao final da reunião com novas instruções: Meus amigos, não se deixem
fragilizar com este início de luta aparentemente desfavorável. Ele, o mago, está fora da lei,
e ninguém é forte fora da lei. Mesmo com o seu poder, teve que vir, subjugado por uma
mente mais forte, e agora lamenta o golpe que recebeu com ódio redobrado. Quero
adverti-los de que estamos lidando com um Espírito de uma mente muito adestrada, com
grande poder de manipulação de fluidos, conhecedor profundo de técnicas de magnetismo
e de hipnotismo, um caldeu que há séculos fez sua iniciação e que não tem o menor pudor
de utilizar todo o seu potencial para materializar o seu desejo insano. Entre nós, somente
nosso instrutor, igualmente conhecedor de suas técnicas, foi capaz de forçá-lo a
comparecer à reunião, retirando-o por momentos do quarto do jovem.
Vocês queriam estudar a mente. Pois bem, a aula prática já começou. Não se
armem de idéias preconcebidas, não se algemem ao convencional. Todavia, jamais se
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afastem da codificação espírita, pois os mestres que a organizaram são técnicos com
profundos conhecimentos sobre a mente humana. A equipe formada para nos auxiliar
estará sempre a postos. Serão orientadores deste Projeto: Kröller, Tagore, e suas equipes.
No apoio direto às reuniões de desobsessão estarão integrados Dr. Mário Rocha,
auxiliado pela equipe do Dr. Bezerra de Menezes, alguns índios brasileiros e orientais
amigos. Como percebem, não estamos em desvantagem. Toda essa ajuda deve-se à
fidelidade e ao esforço que temos feito na busca da verdade e na defesa do bem.
Disciplina, humildade, vigilância, oração deverão estar conosco como se fosse nossa pele.
E que Deus nos conceda sempre novas oportunidades de serviço como esta.

Preparamo-nos para a segunda reunião com as devidas reservas. Ainda não


tínhamos enfrentado Espíritos daquela magnitude, embora que equivocados em suas
aspirações. Iniciada a reunião, uma das videntes confidenciou-me que estava presente no
salão de conferência do Centro um dos Espíritos comandados pelo mago que dirigia o
processo obsessivo. Ele estava observando todo o movimento, próximo ao teto, pois
levitava com grande facilidade. Tomando o corpo da primeira médium, a fez sentir-se
perfurada por enormes espinhos que saíam de suas costas e de seu ventre, ao mesmo tempo
em que acelerava os batimentos do seu coração, de tal maneira que ela temeu enfartar.
“Apossava-se” e “saía” do corpo da médium como um pêndulo, repetindo que iria matá-la.
Veja como seu coração galopa. Eu sinto a adrenalina correndo pelo sangue. Ela não vai
agüentar. Atento à doutrinação, eu emitia contra-ordens, chamava a médium pelo seu
nome, a fim de mantê-la acesa na batalha, incentivava-a a não render-se às sugestões nem
ao medo, lembrava que todos estávamos reunidos em nome de Jesus e que nossos
instrutores estavam ao nosso lado, que cada pensamento emitido pelo invasor deveria ser
bloqueado por um outro antagônico, a fim de neutralizá-lo. Se ele pensasse em fogo, os
médiuns deveriam pensar em água, ao preto deveriam sobrepor o branco, ou seja, deveriam
oferecer resistência, cientes de que o pouco com Deus é muito e o muito sem Deus é nada.
Ninguém deveria se deixar paralisar pelo medo, pois este é uma porta aberta à
dominação. Como o Espírito trouxera auxiliares, tomei a providência de permitir apenas
uma comunicação por vez, mantendo sempre os outros médiuns em alerta, de olhos abertos,
vigilantes e em auxílio mental àquele que estava em comunicação. Isso estragou parte do
plano que haviam traçado, qual seja, tomar de assalto os médiuns, de tal maneira que todos
permanecessem em comunicação ao mesmo tempo, ocasião em que virariam mesas e se
agrediriam mutuamente. Por outro lado, advertia que cada médium mantivesse as pernas
cruzadas, a fim de dificultar a tarefa de levantar-se, como era desejo do comunicante.
Mesmo assim, cada médium sofreu conseqüências físicas resultantes da reunião. Uma
delas, que sofre de dores musculares crônicas, começou a se contorcer como que submetida
a fortes alongamentos, padecendo dores intensas. Uma outra sentia a sensação e, mais que
isso, via sair de sua boca em jatos de vômitos, cobras e lagartos, mas advertida de que tudo
não passava de sugestão mental, suportou a tortura, capitulando apenas quando se viu
atacada por dezenas de ratos, entrando em pânico pela forte realidade das cenas plasmadas.
Aliás, todas disseram que as imagens impressionavam muito mais que as palavras. A
técnica utilizada pelos invasores foi a de procurar na mente das médiuns aquilo que lhes
causasse pavor, sentimento de culpa, mágoa, qualquer coisa que as desequilibrassem
emocionalmente. Com uma médium cuja visão de cadáveres não a impressionava, pois a
fizeram ver cadáveres insepultos levantando-se de covas, tentaram seduzi-la, hipnotizando-
a através do olhar. Um deles assumiu a fisionomia de alguém muito belo, de olhos azuis,
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profundos, que a convidava para mergulhar nos seus mistérios: Venha! Mergulhe nesse
lago. Você terá a paz que tanto busca! Por minha vez, insistia: Não vá! Você é dona da sua
vontade. Ele não é um deus, é apenas um Espírito como qualquer outro. Segure na minha
mão e lembre-se de que estamos todos ao seu lado. A uma outra foram expostas cenas da
vida passada. Mostraram uma corda e disseram que ela iria repetir o gesto que a infelicitara.
Como ela mentalizou a corda pegando fogo, eles não se deram por vencidos e plasmaram
cenas do seu filho em situações aflitivas. Sem nenhuma trégua, uma das videntes me
advertiu que a sala estava sendo invadida por répteis enormes, serpentes e escorpiões que se
fixavam aos pescoços das médiuns. Novamente vi todas as médiuns em contorções e
gemidos como se realmente estivessem, e estavam, em terrível luta contra répteis, invisíveis
para mim, mas de efeitos reais nos corpos que se debatiam. A voz de um Espírito amigo
nos advertiu: É necessário o contato das criações mentais com os médiuns para que elas se
desfaçam. Nada de pânico! Tudo está sob controle. Passados alguns minutos que
pareceram intermináveis, tudo voltou à normalidade. Resumindo, passamos por um teste de
fogo.
Nossos instrutores permaneceram toda a reunião imóveis, em posição de oração.
Disseram os videntes que eles se assemelhavam a potentes refletores, todos mentalizando o
paredão azul-turquesa que envolvia o grupo. Ao final, o Espírito que comandava os
invasores, através de psicofonia, começou a implorar: Não, por favor, não invada a minha
mente! Você está queimando os meus neurônios! Não! Não me faça esquecer o que eu sei!
Passados alguns instantes, ele voltou a falar: Quem sou eu? Que dia é hoje? Quem são
vocês? Aquilo foi uma demonstração de que, pelo menos temporariamente, o conhecimento
de uma mente pode ser encoberto, ficando o Espírito com uma espécie de amnésia,
completamente perdido, sem os referenciais que o norteavam.
A verdade é que jamais falei tanto em uma reunião. Era necessário que as médiuns
sentissem a minha presença, a minha voz, o meu comando para se manterem alertas. Ao
terminar, estávamos exaustos, mas felizes pela resistência que oferecemos para não nos
rendermos.

Esperamos o domingo para nos reunirmos. O Grupo de Aprofundamento


Doutrinário teria que digerir todo aquele material e decidir qual técnica de adestramento
mental escolher para exercitar-se. Em nosso socorro veio Dr. Mário, com seus costumeiros
conselhos sobre a aquisição da disciplina. Eis o resumo da sua comunicação:
Meus amigos, durante toda a reunião passada estivemos atentos e com o domínio
da situação. O teste foi permitido pela espiritualidade em caráter de estudo, para que
vocês pudessem avaliar o quanto necessitam evoluir no campo da mediunidade. Ficou
provado que um Espírito pode neutralizar completamente o consciente do médium,
evitando assim qualquer interferência da sua parte durante a comunicação; que é urgente
a necessidade de disciplinar pensamentos, hábitos e atitudes, a fim de que não se tornem
joguetes de mentes mais adestradas; que não existe ainda o condicionamento, por parte
dos médiuns, de rejeitar “ordens mentais”, induções e interferências, havendo a
necessidade de um treinamento diário nesse sentido; que não há poder que não seja
dominado por um outro mais disciplinado. Sempre existirá um Espírito superior que a um
simples levantar de mão dominará o rebelde que ouse desafiar a luz. Esse irmão que
administra o processo obsessivo terá um encontro com alguém que muito o ama e que já
habita uma esfera superior à Terra. Quanto a nós, devemos iniciar o dia com pensamentos
de alegria, louvor e agradecimento. Durante o dia, quando a mente for invadida por
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pensamentos negativos, enxotá-los. Observar o pôr ou o nascer do sol pelo menos uma vez
por semana, meditar, aprender técnicas de respiração, pois tudo isso ajuda a disciplinar
os desejos. Se querem um roteiro para o equilíbrio emocional, posso aconselhar o óbvio,
ou seja, o mais simples, o ponto de partida daqueles que hoje são Espíritos luminosos:

1. Acreditar em seu potencial;


2. Fazer da caridade a diretriz de suas ações;
3. Disciplinar pensamentos, palavras e atitudes;
4. Saber ouvir o silêncio, sobretudo, o silêncio interior;
5. Procurar conhecer a si próprio;
6. Respeitar a si, o próximo, a natureza;
7. Pedir inspiração a Deus para seus trabalhos consagrando a Ele os resultados
obtidos.

Em seguida, passamos ao estudo de algumas técnicas de adestramento mental,


procurando uma que nos unisse em torno de nossos objetivos. Havíamos sido aconselhados
a não nos aferrarmos apenas ao senso comum, ou seja, às técnicas espíritas, geralmente
mais voltadas para a renovação espiritual. Queríamos algo que pudéssemos treinar no dia-a-
dia, que fosse exeqüível, que nos disciplinasse progressivamente, permitindo maior
conhecimento da nossa intimidade, que fizesse desabrochar nossas potencialidades, ao
mesmo tempo que nos capacitasse a enfrentar situações como as que enfrentávamos.
Buscamos também subsídios na China e na Índia, dois celeiros de conhecimentos
acerca da mente, reconhecidamente tidos como eficientes e disciplinadores.

MAIS AFLIÇÃO

As reuniões de desobsessão que se seguiram à primeira foram motivos de grande


preocupação para nós. Nef-ther, o caldeu que há séculos lida com magia negra, indignado
com a nossa intromissão e ousadia, tomara providências para nos excluir do processo
obsessivo que promovia, sobrecarregando nossas vidas de contratempos que muito nos
afligiram. Familiares doentes, discussões no trabalho, cansaço físico, dores aqui e ali
testaram nossa persistência.
Logo no início da segunda reunião, uma das médiuns entrou em transe e passou
longo tempo sem sair dele, muda, como se estivesse ausente, inabordável aos nossos
chamados. Poder-se-ia dizer que havia sido raptada. Enquanto isso, uma outra, sem
conseguir controlar a pressão a que era submetida, igualmente entrou em transe, ordenando-
lhe o comunicante que se jogasse contra a mesa, havendo a necessidade de segurá-la e, a
todo custo, fazê-la retornar ao domínio do corpo. A técnica desta vez era dominar o
consciente do médium, desdobrá-lo e apossar-se do seu corpo, estabelecendo assim o caos
na reunião. Quando o caldeu “tomou” o corpo de uma das médiuns disse: Ela agora é
minha prisioneira. Está em uma furna, gritando por socorro, e não há quem a socorra.
Este corpo agora me pertence e vou mostrar o que posso fazer com ele.
Dito isso, levantou-se, e foi segurado fortemente por dois médiuns.
- Este corpo agora vai pesar duzentos quilos
O corpo da médium ficou duro como pedra, com força descomunal, sendo
impossível sentá-la novamente.
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- Seus métodos são vulgares. Desta vez não há quem o proteja da minha força.
Comecei a fazer movimentos circulares e a soprar sobre a testa da médium a
intervalos regulares. Fui notando que a cada sopro seu corpo se projetava para trás como
que atingido por grande impacto. Se é que ela estava prisioneira em alguma furna como o
caldeu dissera, e posteriormente, ao final da reunião, foi confirmado o que ele dissera, o
comunicante, na posse do corpo naquele momento, é que estava recebendo o impacto.
Aquilo o enfureceu mais ainda, pois não o deixava concluir nem o pensamento nem as
ações. Um último sopro mais forte e a médium caiu sobre a mesa desnorteada e aflita. Disse
que estava em uma furna cheia de ratos e que gritava por socorro insistentemente. Tibiriçá,
o índio que nos auxilia em resgates dessa natureza, a retirou de lá.
Não havia tempo para respirações suaves, pois já uma outra médium descrevia que
estava em lugar horrível, um fosso com muita lama, cheio de restos de cadáveres e, nele
submersos três Espíritos que precisavam ser resgatados. Nesse local havia uma espécie de
rocha com alguns olhos, de onde escorriam um fluido negro como o piche. O resgate desses
Espíritos causou grande vexação nos médiuns, pois comportaram-se como loucos,
agarrando-se às nossas vestes, como se fossem náufragos, tossindo, vomitando lama,
gritando em total desespero. Após o resgate uma das médiuns disse estar diante de um
abismo recebendo uma ordem para pular. Mais uma vez, foi um pula, não pula, que nos
causou intenso cansaço até que a médium se viu em terra firme.
Não foi uma reunião comum. Médiuns treinados no exercício mediúnico por
décadas, renderam-se às emoções desordenadas dos loucos e às ordens mentais do caldeu.
Resgatados os primeiros, uma das médiuns entrou em crise de choro, vendo a todos nós
deformados pela lepra, aleijados, olhos vazados, inchados pelo suicídio, dentre outros
quadros mentais criados para nos perturbar. Outra argumentava: Deixe meu filho, seu
maldito! Ele nada tem a ver com nossa briga.
Pareceu mais uma sessão de tortura que uma reunião de desobsessão, desabafou
uma das médiuns. Todavia, nem tudo foi desespero ou afobação naquela noite abençoada.
Houve reação e aprendizagem. Quando uma das médiuns sentiu gosto de lama na boca,
imaginou-se tomando um copo com água fluidificada. A melhora foi imediata. Uma outra,
diante da sensação de queima em seu crânio, disse mentalmente a seu agressor: Eu sei que
você aprendeu a fazer isso, mas sei também que está utilizando o que aprendeu de maneira
errada. Em seguida, mentalizou um mergulho em águas calmas e refrescantes.
Estávamos aprendendo a reagir e aquilo não era apenas instinto de sobrevivência.
Eram ações planejadas, emissão de forças em sentido contrário às que nos atingiam.
Estávamos ultrapassando a fase da passividade e ingressando na era da reação mental.
Satisfeita com essa nova maneira de conduzir a mediunidade, a médium que ficou
prisioneira na furna comentou em tom de brincadeira: Já que eles descobriram o meu ponto
fraco, medo de ratos, vou treinar minha mente para criar gatos. A lógica é justamente esta,
concluímos.
Ao final da terceira reunião, uma notícia boa. O Espírito que fora quando encarnado
filha de Nef-ter e que agora se encontra encarnado em algum país não revelado por nossos
instrutores já fora contatado. Tentava nos instantes de desprendimento do corpo físico, com
o auxílio dos mentores espirituais e utilizando como argumento maior o seu amor filial,
chama-lo à responsabilidade para com as leis divinas. Igualmente, um Espírito amigo,
habitante de uma outra esfera, com poder mental superior ao do citado mago já estava entre
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nós. Como primeira providência formara ao redor do persistente agressor um campo


magnético que limitara a sua atuação, impedindo-o de aliciar novos combatentes. Com a
perda da maior parte dos seus auxiliares e com a nossa “teimosia” em não desistir da luta, o
caldeu já dava sinais de impaciência. Estava perdendo a calma e descobrindo a
vulnerabilidade que julgava não possuir. Mostrava-se terrivelmente irritado e, nesse estado,
não conseguia engendrar um plano para nos afastar do caminho. Por nossa vez,
permanecíamos calmos e confiantes, tanto nos amigos espirituais quanto em nós próprios,
principalmente agora que estávamos aprendendo a nos defender. E foi nessa condição de
vigilância e de determinação que aguardamos o desfecho do drama.
Como sempre acontece aos domingos, reunimo-nos para estudar. Em determinado
instante do estudo, duas das médiuns presentes começaram a sentir inquietante mal estar.
Uma terceira disse-nos: Ele está presente.
De imediato, Nef-ter tomou o corpo de uma das médiuns e vociferou: Então é nessa
reunião maldita que vocês tramam contra mim? Pois vou acabar com ela agora mesmo.
Ninguém aqui é capaz de me dominar.
Em seguida, levantou a médium, mesmo estando ela com os pés cruzados, pois
assim permanecera a pedido nosso, logo que notáramos o desenrolar do transe mediúnico,
deixando seu corpo esticado e duro como uma rocha. Por mais esforços que fizéssemos, ela
só sentou quando ele apontou para cada um de nós, lançando sobre nossos rostos culpas
passadas, taxando-nos de suicidas, prostitutas, tiranos, orgulhosos, dentre outros insultos.
Uma boa parte do que ele disse, pelo que conhecemos do nosso passado, reconhecemos
como verdadeira. Mas aquilo não nos intimidou. Passado é passado. Já não somos mais os
mesmos. Hoje lutamos para fazer luz em nós, sem sentimentos de culpa ou auto-piedade.
- Eu já me neutralizei da sua técnica. Pode soprar a testa dela o quanto quiser.
De repente veio em nosso auxílio um Espírito de voz suave, que interrompeu as
agressões dele.
- Pai! Pai! Sou eu, Lari. Não perca essa oportunidade. Venha comigo!
- Eu não tenho filha! Eu me basto!
- Você só tem duas saídas. Ou segue com a sua filha ou foge. Mas fugir não me
parece uma boa tática. Fugir para onde? Em que direção, se ninguém foge de si mesmo?
Você sabe que ninguém escapa da Lei. Que ninguém é forte fora da Lei. Portanto, aceite a
mão estendida de sua filha, pois ninguém sabe quando você terá outra oportunidade de estar
com ela novamente.
- Já disse que não tenho filha! Não tenho ninguém! Eu sozinho me basto!
E dizendo isso deixou bruscamente a médium, que caiu desfalecida sobre a mesa, no
que foi imediatamente socorrida pelos passistas.
Da leitura mental que ele fez em nós, confirmamos nossa tese de que era hábil leitor
de mentes, pois penetrara facilmente em nossas vidas passadas, de lá retirando material
para nos intimidar. Ele não suportava a idéia de obtermos bons frutos no confronto com ele,
mas a razão da limitada atuação dele em nossa reunião era justamente para que
aprendêssemos a nos defender e que crescêssemos enquanto grupo.
Partimos, então, em busca de uma técnica que nos possibilitasse fechar as portas da
mente, impedindo qualquer intruso de invadi-la.
Em nossas pesquisas, chegamos às artes marciais interiores, uma espécie de união
entre o Ch’i Kung e os movimentos das artes marciais. O Ch’i Kung é uma técnica derivada
dos exercícios de cura feitos na China, na qual o praticante, mantendo o corpo imóvel,
controla a sua respiração, associando-a ao deslocamento da energia através do corpo. O
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Ch’i Kung, utilizando a técnica respiratória para controlar a quantidade do Ch’i, ou seja, da
energia que flui através do corpo, bem como para manter o seu fluxo desobstruído, veio a
fazer parte de um modelo de “arte marcial interior”, quando se aliou à meditação e aos
movimentos físicos, surgindo desta união o T’ai Chi, praticado na autodefesa com grande
eficiência.
Não sei se apropriadamente, associamos o ch’i ao fluido. Deveríamos ser capazes de
manipular e projetar o fluido com nossas mentes, formando com ele barreiras protetoras,
quando tivéssemos intenção de nos proteger, e possantes armas de ataque, quando fosse
impossível não revidar. Tal manipulação fluídica começaria com o adestramento da mente,
ponto central do nosso interesse.
Quem observa os movimentos do T’ai Chi Ch’uan, nota que cada um deles tem
início na mente, que o dirige de maneira consciente, visando a atingir determinados fins.
Em tais movimentos, a mente exerce a dupla ação de conduzir a intenção do Espírito,
controlando e dirigindo o movimento, ao mesmo tempo em que se detém na atenção,
regulando os efeitos desejados por ele. O praticante desses exercícios não faz apenas um
bailado lento e mecânico. Exercita-se em um adestramento, no qual a mente está
concentrada em conduzir uma corrente energética, modelada segundo suas intenções.
Ficamos mais impressionados quanto a estes exercícios, quando lemos a experiência
de projeção dessa energia feita pelo Dr. Yu, mestre de artes marciais e praticante de Ch’i
Kung, contada por um seu aluno, Dr. Martin Lee, no livro: T’ai Chi Ch’uan Para a Saúde.
Minha primeira experiência com a capacidade do Dr. Yu de projetar o Ch’i foi
inesquecível. Estávamos realizando um experimento no estudo do Ch’i e havíamos reunido
um grupo de artes marciais, pois o Dr. Yu ensinava Ch’i Kung a muitos dos alunos de
artes marciais e professores da área da baía de San Francisco. No experimento, ele
colocou uma xícara de plástico no chão e eu pedi aos alunos que tentassem pegá-la
enquanto o Dr. Yu projetava o seu Ch’i na xícara. Foi uma cena singular. Um aluno se
aproximava da xícara, tentava pegá-la e de repente era repelido. Um dos mais avançados
praticantes de artes marciais do grupo pôde apenas chegar a uma distância de sessenta
centímetros da xícara. Chegou também a minha vez. O Dr. Yu permanecia a um metro e
meio de mim. Com grande determinação, caminhei em direção à xícara e tentei pegá-la
com ambas as mãos. Eu tinha certeza de que poderia segurá-la. Mas, quando minhas mãos
estavam a uns quinze centímetros da xícara, senti repentinamente como se estivesse
segurando dois imãs muito potentes e tentasse aproximá-los. Minhas mãos foram
empurradas a partir de dentro, quase como se tivessem sido dispersadas por uma força
explosiva. A força era tão forte e tão surpreendente que me tirou o equilíbrio e, como com
os outros, me fez retroceder vários passos.
Aprofundamos os passos na velha China e encontramos o Qigong, técnica milenar
de curar com as mãos. Para se tornar um mestre em tal ciência deve-se encarar a
necessidade de treinar no mínimo duas horas por dia fazendo movimentos circulares com
os braços, mantendo-os rígidos como pedra a fim de armazenar a energia captada a ser
utilizada posteriormente na cura de enfermos. Tudo esse trabalho é exercido sob severa
administração da mente que, antes de tudo, deve adquirir a disciplina peculiar aos antigos
samurais. Depois de alguns anos de treinamento poderíamos nos considerar aprendizes em
tal medicina. Em qualquer arte chinesa a disciplina deve ser férrea, pois um mestre de
Qigong não pode fumar nem beber, deve dormir no mínimo oito horas por dia e ter o moral
elevado sob pena de transmitir uma energia não saudável para seus pacientes. Ótima
técnica, mas muito lento para a nossa pressa.
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A bem da verdade, todos os métodos examinados pareciam bons, mas sem um


professor que nos auxiliasse e sem o tempo disponível para tais exercícios, pouco
conseguiríamos. Nossa mente neurótica de ocidentais gosta de coisas rápidas e, assim
pensando, deixamos a velha China e partimos para a Índia. Aliás, se há hindus na equipe
desencarnada que nos orienta, por que não recorrer a eles?
Nef-ter havia encontrado em nossa mente farto material para usar contra nós. Como
proceder para fechar as portas da mente? Visitando a Índia, através de livros, descobrimos
que talvez fechar não fosse a palavra adequada para aquele momento. Uma mente superior
sempre dominará e penetrará em outra que lhe esteja abaixo na escala evolutiva, retirando
dela ou nela introduzindo o que desejar. Pode ocorrer também que uma mente adestrada,
mesmo não sendo moralmente superior a que quer dominar, venha a extrair dela as
informações que deseje, desde que esta não tenha condições de se resguardar. Examinamos
casos de encarnados que liam informações de outras mentes e que davam ordens mentais
sempre obedecidas, tal como fazia Wolf Messing, o homem que trabalhava para Stálin.
Para ser admitido junto ao tirano russo, Messing teve que passar por dois testes bastante
convincentes. No primeiro, Stálin determinou que ele assaltasse um banco, de onde deveria
roubar 100 mil rublos. Messing simplesmente sacou de uma folha em branco de um
caderno escolar, abriu uma maleta de mão e deu a ordem mental para que o caixa
interpretasse o papel como sendo um cheque com o citado valor. Tudo foi feito como o
planejado. O caixa olhou para o papel, abriu o cofre, acondicionou o dinheiro na maleta,
sendo esta entregue ao falso cliente, que saiu tranqüilamente, indo juntar-se às testemunhas
que a tudo assistiam. Pretendendo obter um teste conclusivo, uma prova de fogo, Stálin
determinou que Messing chegasse até a sua residência particular, sem nenhum documento
de identificação ou salvo-conduto, superando a barreira de guardas e agentes secretos que o
rodeavam diuturnamente. Após alguns dias, quando Stálin trabalhava em sua casa de
campo, Messing entrou calmamente, sem sinais de ter sido molestado por ninguém. Diante
daquele espantoso fato, a pergunta mais óbvia seria: Como conseguiu isso? E Stálin a fez.
Muito simples, respondeu Messing: Disse mentalmente a cada pessoa que encontrava: Eu
sou Beria... Eu sou Beria... e todos iam se afastando da minha frente, com saudações e
boas vindas.
Laurenti Beria era nada menos que o chefe da polícia secreta russa. Homens como
Messing devem ser contabilizados na lista das exceções. Nossas ambições não chegam a
tanto. Atento às limitações que fragilizam, nos contentaríamos em exercitar alguma técnica
que nos possibilite uma reação contra os invasores de mentes. E nisso nos fixamos.
Quem sabe poderíamos, no lugar de fechar a mente, limpá-la, de tal modo que, ao
ser invadida, nada possam retirar de lá que nos envergonhe ou nos intimide? Como isto nos
pareceu mais adaptável às nossas condições naquele estágio de aprendizagem, optamos pela
busca de um método de assepsia no lugar de um método de bloqueio, ou seja, um
detergente no lugar de um cadeado. E foi com este pensamento que chegamos à técnica da
“purgação mental”. O texto que se segue foi adaptado do livro Yoga Para Nervosos, de
autoria de José Hermógenes Andrade.
Para a psicanálise, o nível consciente da mente inibe e reprime a manifestação de
determinadas tendências, impulsos instintivos e certos conteúdos dos níveis ocultos. A
psicologia hindu, precursora da psicanálise, faz a mesma afirmação. Desejos,
necessidades, motivações profundas, impressões e conteúdos representativos jazem
operantes e potentes no inconsciente. Somos assim a expressão do nosso inconsciente, já
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que este influi no que pensamos e no que somos, projetando sobre o tecido da nossa vida,
mesmo à revelia do nosso consciente, o bordado a que chamam de destino.
Os componentes do nosso ser profundo ali foram acumulados por nossas
experiências passadas. Conforme eles sejam puros ou impuros, positivos ou negativos, por
nós ou contra nós, construtivos ou destrutivos, haverá em nós paz, saúde, felicidade,
alegria, doença, desventura, ansiedade, dentre outros estados saudáveis ou patológicos. Se
no passado vivemos de maneira inconseqüente, acumulando conteúdo nefasto, hoje
padecemos as conseqüências dessa insensatez, pois, como está escrito na Lei, e ninguém
consegue subtrair-se de sua essência, a cada um é dado segundo as suas obras. Assim é
que somos o resultado de nossas ações passadas e seremos amanhã o que fazemos agora.
Podemos extrair deste raciocínio que o melhor antídoto para o sofrimento é a
anulação das sementes nefastas que se encontram na mente, razão de traumas, fobias,
culpas, vergonha e outros sentimentos que nos fragilizam e nos tornam alvos fáceis do
assédio dos Espíritos obsessores. Em resumo, esta é a psicanálise hindu.
Um dos métodos para esterilizar a mente de tais sementes, evitando que elas
proliferem, transformando-se em ervas daninhas, é praticado na Raja Yoga. Seu objetivo é
tornar tais sementes infecundas, possibilitando o êxtase transcendente.
A tática militar considera fator de vitória o conhecimento do inimigo. A ciência
médica acha que uma exata diagnose, isto é, o conhecimento da enfermidade e do enfermo,
já são em si meio caminho andado na terapêutica. A psicanálise, por sua vez, fundamenta
seu tratamento na identificação dos motivos profundos e ignotos, escondidos desde os dias
esquecidos da infância. É com este descortinar das regiões abissais da mente que
chegamos a conhecer nossas tendências, impulsos, necessidades, impressões, registros e
clichês inconscientes e, deste conhecimento, advém a libertação.
A purgação mental é uma técnica que facilita o reconhecimento dos conteúdos e
comportamentos da mente. Por outro lado, como qualquer forma de catarse, alivia, liberta
e melhora as condições opressoras que castigam a alma. Tumor fechado é doença
estagnada. Tumor aberto é saúde em andamento. A mente, em seu estado dito normal,
pode ser comparada a um tumor cheio. Por medo ou por conveniência, assim permanece,
sem que o Espírito se anime a esvaziá-la da purulência lá contida. Temos até receio de
abrir as comportas do nosso mundo mental. Achamos que é mais seguro conservar seu
conteúdo em segredo, em esconderijo ao qual não queremos chegar. E assim, do fundo,
dos planos escondidos, somos perturbados comumente pelo conteúdo comprimido em seu
interior, e o que é pior, devassados por mentes que dele se apropriam para nos prejudicar.
As pressões, no entanto, não param de crescer, aumentando assim a sensação de
desconforto. Qualquer dreno que alivie as pressões e dê saída àquilo que nos cria
problema, constitui uma cura verdadeira. E esta é também uma opinião da auto-análise e
da psicanálise. A medicina prescreve laxantes para que os intestinos eliminem substâncias
putrefatas que intoxicam o corpo. Quando a enchente do rio é desastrosa, é a sangria da
represa que alivia a situação. A técnica da “purgação mental” tem o efeito do bisturi que
saja o tumor, do laxativo que limpa os intestinos e da sangria que protege a represa. É
portanto de alta conveniência que se pratique, diariamente, tal exercício.
Técnica: Em lugar onde não venha a ser incomodado, sente-se confortavelmente,
de maneira a que não precise mudar de posição. Olhos fechados, fique inteiramente imóvel
e dê ordens mentais de relaxamento a todo o corpo, até chegar a sentir-se como se não
tivesse corpo. Entregue-se a Deus, onipresente, oferecendo a Ele o resultado de sua
prática.
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Transforme-se em mero espectador dos movimentos da mente. Deixe-a vagar, ir


para onde entender. Seja um observador atento, mas sem inquietações, sem desejos, sem se
sentir envergonhado ou orgulhoso do que for presenciado. Não reprima o que lhe
desagrada. Também não alimente nem estimule o que lhe convém. Não deseje não ver algo
que lhe desgosta nem anseie por ver o que lhe interessa. Nada de fazer “cortes”, como se
fosse um censor do filme que sua mente apresenta. Quanto maior for sua isenção; quanto
mais se sentir “desidentificado” com aquilo que está percebendo, mais à vontade, mais
espontaneamente a mente se revelará, mostrando como é e o que tem.
Resultados que podem ser alcançados:
Alívio de cargas enfermiças, perturbadoras, indesejáveis e mórbidas.
Afrouxamento das tensões emocionais.
Purificação da mente.
Desidentificação com a mente e conseqüente identificação com Aquilo que a
transcende.
Desenvolvimento da coragem de defrontar-se com a parte de sua natureza que você
sempre temeu.
Fortalecimento da mente contra o assédio de Espíritos obsessores.
Nas primeiras tentativas, duas coisas podem ocorrer:
a) A mente não se sente confiante nem à vontade e, por isso, se mantém inibida. É o
caso mais raro.
b) Os processos mentais se desenrolam febris, demasiadamente agitados, o que
pode levar o praticante a duvidar se está fazendo certo ou suspeitar da conveniência do
método.
Prossiga inquebrantavelmente, todos os dias, a deixar a mente escorrer livre de
seus subterrâneos. Faça-o com a certeza de que, pouco a pouco, a ganga impura vai
deixando um vazio, que virá algum dia a ser preenchido pelo bem-aventurado silêncio dos
santos. A mente não pode vencer a inquietude, se não se livrar de suas causas. Não
superará o estado de conflito, se os conteúdos conflitantes continuam lá, em luta. Não
vencerá a ansiedade, se esta se alimenta de materiais profundos e insondáveis.
Dê rédeas ao fluxo de sua mente. Faça como quem, sentado na margem, observa o
rio correndo. Quem não mergulha no rio não é arrastado e, só assim, do lado de fora, em
segurança, sem identificar-se com ele, pode se aperceber do que ele é e como age. Sinta-se
como sentado na margem, sem mergulhar na mente, sem se deixar envolver nem empolgar.
Tome conhecimento, sem julgar, sem criticar, sem lutar, sem pretender subjugar
ou reprimir, estimular ou melhorar. Esqueça-se dos resultados que pretende. Esqueça-se
de que está querendo conquistar a mente, limpá-la ou libertá-la de imperfeições.
A concentração correta só será possível depois de algum tempo de “purgação
mental”. Chega mesmo a ser uma sua conseqüência. É de resultado desalentador tentar a
sujeição da mente, fixando-a sobre um objeto. Ela se defende como um peixe capturado
por um anzol. Usará de todos os seus recursos, e não são poucos, para não se deixar
vencer. Se você utilizar a técnica do bom pescador, por algum tempo soltar a linha,
permitindo que o peixe se movimente à vontade, até que, por fim, de tanto debater-se, já
estafado, não resiste à captura, acabará domando a instabilidade mental.
O ato da “purificação mental” eqüivale a “dar linha” à mente, que acabará por
ser submetida, sem esforço, sem luta e sem violência.
Este método nos pareceu exeqüível e perfeitamente adaptável à nossa condição de
impacientes, que preferem métodos mais práticos, ignorando verdades alheias.
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Acostumados ao imediatismo e a postergar conquistas interiores, já enfrentáramos centenas


de Espíritos cuja disciplina mental só não nos mandara à lona devido à proteção dos amigos
espirituais. De certa forma, aquilo nos envergonhava e sentíamos que era urgente uma
tomada de decisão. Não é justo ficar na dependência dos amigos (não que quiséssemos
descartá-los), sem ajudá-los naquilo que é mais premente: a disciplina mental. Chega de
passividade. O médium precisa ser o primeiro enfermeiro do comunicante debilitado e
proceder a imediata reação contra aquele que pretenda dominá-lo. Foi a conclusão a que
chegamos. Como sempre, tivemos a clareza de encarar nossos erros como tentativas de
acertos. Chegamos mesmo a agradecer a presença daquele professor às avessas, que nos
humilhava com a sua disciplina.
Perseguidos, nos tornamos rápidos. Dali para adiante, prometemos: venha quem
vier, de onde vier, de oponente palácio ou da repugnante sarjeta, seja um grande mago ou
um simples capeta, não nos encontrará desprevenidos. Com tal determinação, preparamo-
nos para outro encontro com o caldeu.
E ele veio com a força redobrada de quem se afoga. Para não cansar a você, leitor,
apenas resumiremos, sem detalhes, alguns acontecimentos da reunião: primeiramente, ele
fez um duplo de cada um dos componentes do grupo, postando-os ao seu lado. Em
determinado momento, fundiu os duplos em um só bloco e o transformou no símbolo
esculpido no medalhão que usa. Esse medalhão traz a figura de uma grande serpente. O
réptil tentava sufocar os médiuns, pois estes é que sentiam os efeitos produzidos pelos
monstros que ele criava. Passado o sufoco, ele emitiu uma poderosa ordem mental a uma
das médiuns para que ela se transformasse em serpente. A médium reagiu prontamente,
repetindo sem cessar: Eu sou um ser humano! Você não vai me transformar em serpente!
Mesmo assim, fez movimentos corporais, como se ziguezagueasse pela sala, sem sair da
cadeira. Ele conseguiu também utilizar o corpo de três médiuns, um de cada vez, deixando-
as prisioneiras em algum lugar, de onde gritavam desesperadas. Nessas ocasiões, tínhamos
que segurar seus corpos pois, no domínio do mago, tudo tentavam para tumultuar a reunião.
Promoveu regressões de memória nas médiuns, para que estas se sentissem culpadas, e as
“levou ao futuro”, plasmando quadros trágicos para os filhos e outros familiares das
mesmas. Utilizou também a sedução, fazendo-se passar por alguém muito amado por uma
das médiuns, trazendo à tona turbilhões de emoções que a paralisou por minutos. Por fim,
compareceu à reunião um dos Espíritos por ele recrutado para assediar o jovem a quem
perseguia. O relato desse Espírito foi dramático: Fui colocado ao lado de uma pessoa que
me cegou no passado. Eu estava nas furnas, quando uma voz interior me disse: Você vai
ficar de frente para a pessoa que o cegou. É a sua oportunidade de fazer justiça. Então eu
me vi diante de um jovem que não tinha o mesmo rosto do meu agressor, embora eu
soubesse tratar-se da mesma pessoa que me cegara naquela maldita cela. Ele abria os
meus olhos e, lentamente, deixava cair areia dentro deles. Fez isso por três dias. De
repente, todo o passado volta à mente do comunicante e o que se ouve são gritos
desesperados: Não! Por favor, me liberte! Eu confesso o que você quiser! Eu sou cristão!
Diga, o que você quer que eu confesse? Eu já disse tudo! Não me cegue! Quando
estávamos convencendo o comunicante a aceitar uma pausa que lhe trouxesse um pouco de
paz, ele foi subjugado pelo caldeu. Sentiu que algo penetrava em sua nuca e gritava de dor
procurando arrancá-lo. Viu-se com o corpo coberto de sanguessugas e agitava-se como um
louco, querendo livrar-se delas. Começou a ouvir a voz interior, que outra não era senão a
ordem mental do caldeu, pressionando-o a fazer “justiça”, cegando o seu oponente do
passado.
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Pelo que deduzimos, o jovem fora inquisidor e abusara da prática de tortura,


cegando com ferro em brasa, como foi observado pelos videntes, aqueles que lhe
desagradavam. Nef-ter, resgatou os que ainda permaneciam enlouquecidos e cristalizados
no ódio, manipulando-os e forçando-os a um revide.
Através de passes, o comunicante adormeceu e foi retirado pelos amigos espirituais.
Finalizada a doutrinação, Nef-ter já tomara o corpo de uma das médiuns e dera tremendo
soco sobre a mesa, sendo segurado de imediato. O esforço para detê-lo custou-me uma forte
pancada na perna, que bateu violentamente contra uma cadeira, marcando-me com uma
pequena cicatriz, a qual associo ao dever retamente cumprido. Após alguns insultos,
evadiu-se.
Ficamos um pouco apreensivos. Será que ninguém segura este Espírito? Foi a nossa
pergunta . A resposta veio de imediato, na voz de um dos nossos instrutores: Em nenhum
instante vocês estiveram sozinhos. A espiritualidade jamais permaneceria impotente ou
passiva frente a um aluno rebelde que utiliza seus conhecimentos para agredir a seus
irmãos. A hora do basta já soou para ele, que se debate nos últimos estertores. A ilusão
acerca do seu poder já se desfaz e os irmãos maiores ainda esperam um breve instante, a
fim de que os brandos chamados do amor toquem o seu coração endurecido. Rechaçados
os apelos do amor, ignorada a caridade com a qual está sendo tratado, menosprezado o
carinho filial, ultrapassadas as reservas de paciência para com a sua demência pelo
poder, recusada a mão que poderia retirar-lhe do fosso em que se encontra, o peso da Lei
recairá sobre ele com o mesmo rigor com o qual ele agride e fere. Não nos esqueçamos de
que a cada um é dado segundo as suas obras e de que Deus, poder infinito, não negocia
nem distorce a Sua lei para favorecer ou prejudicar a quem quer que seja. Tudo que
aconteceu hoje estava previsto, dentro dos limites suportáveis pelos médiuns e de acordo
com as necessidades de aprendizagem do grupo. Agradecemos a paciência e a boa vontade
de todos e reafirmamos: estamos juntos; em nenhum instante, os acontecimentos
estiveram fora do controle da equipe que dirige esta casa. Fé em Deus, fé em si próprio. O
ferro é corrompido pela ferrugem; a pedra é transformada em pó pelo açoite do vento; por
maior que seja a árvore, o machado a derruba. Ninguém pode se arvorar de poderoso,
quando está na alça de mira da Lei. O maior no reino dos céus é o que mais ama.
Portanto, a sorte de qualquer combate é selada pelo amor. O lado em que o amor está é o
vencedor. Amem! Ninguém consegue vencer um coração que ama e que tem fé, excelência
do seu amor. Muita paz a todos.
A última reunião de desobsessão, a dos estertores finais de Nef-ter, foi ainda
angustiante para os médiuns. Quase três meses haviam se passado e ele agora estava
sozinho. Algo me dizia ser aquela a última conversa com ele, por isso preparei-me para
qualquer emergência. Quem está acuado pode reagir de forma inesperada, na tentativa de
furar o cerco que o comprime e, provocar danos a si ou aos circunstantes.
Primeiramente, ele pôs uma das três médiuns presentes fora de combate. Silenciosa
e imóvel, ela falava baixinho sobre problemas atinentes a uma vida passada com um
personagem a quem muito ama. De repente, decidiu ficar onde estava, repetindo de maneira
categórica que não queria retornar para o mundo miserável onde vivia: Não quero voltar!
Prefiro ficar aqui! Por favor, não me tirem daqui! A muito custo, lembrando seus
compromissos com a família, seus afazeres profissionais, sua religião, apelei para o
sentimento materno, para a missão mediúnica, para a promessa feita no altar de seu coração
de caminhar sempre para a frente e para o alto, a trouxemos de volta. Nessa ocasião, não
falei manso nem sereno, pois a ocasião não o permitia. Eu a sacudi pelos ombros, bati em
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seu rosto como se faz quando se quer acordar alguém, chamei pelo seu nome com energia,
pedindo que mostrasse a fibra de mulher guerreira que jamais havia se rendido a um
inimigo. Ela, em lágrimas e bastante comovida, foi retornando como se desvencilhando de
inúmeras amarras, reassumindo seu posto de médium e de trabalhadora de Jesus.
Frustrada a tentativa de deixar a companheira ausente da reunião, sem demora ele
partiu para mais uma intimidação. Prendeu uma das médiuns em uma cela infecta e disse:
Vou lhe mostrar como você não consegue sair daí! Na realidade, ele a levara a uma
existência passada, na qual fora cigana, perseguida e encarcerada por motivos que só dizem
respeito a ela mesma. Todavia, a reação foi à altura. Não houve desespero como das outras
vezes. A médium conseguiu dialogar, argumentando: Eu não temo esta cela. Passei muitos
anos aqui e sei que estou em outro tempo. Estou certa de que tenho amigos que de pronto
me resgatarão. A cela em que você se encontra é mais potente e à prova de fuga, já que
ninguém foge de si mesmo. Breve sairei daqui, mas você continuará em prisão pelos
crimes que está cometendo. Despertada do transe a que fora submetida, já a convidávamos
para velar pela terceira companheira, que se contorcia com dores lancinantes no estômago e
na cabeça. Dizia sentir forte gosto de sangue na boca e temia estar vomitando sangue.
O jovem obsidiado passara os últimos dias também sentindo o gosto de sangue na
boca e, o que é pior, estava sangrando realmente, como ficou constatado pela família, pois
ele a chamara para averiguar o fato inexplicável, liberando sangue sem nenhuma causa
aparente.
De repente, ele ficou calmo e disse: Calma! Eu também sei ser cavalheiro, quando
quero. Estou aqui para conversar. Você já notou que posso deixar seus médiuns fora de
combate a hora que quiser. Frágeis como são, não têm nenhum poder sobre mim. Não
precisa segurar o instrumento, eu não vou reagir. Agora, diga-me: o que você quer se
metendo em meu caminho?
- Não estamos no seu caminho. Estamos em trabalho para o Senhor da vida. Ao
lado dos nossos amigos espirituais, estamos tentando amenizar os sofrimentos de jovem
irmão que nos pediu ajuda. Como é costume nesta casa, aquele que bate à porta pedindo
auxílio em nome de Jesus, será sempre atendido.
- Um criminoso que precisa ser justiçado. Eu represento a justiça! Eu sou o braço
da lei que alcança o infrator! Mesmo sendo um aprendiz, você deve saber que seu Deus
autoriza a nossa atuação para punir os transgressores. Sou um auxiliar desse Deus que
vocês seguem. Então, por que estão contra mim?
- Não estamos contra ninguém. Estamos a favor da justiça mas de braços dados
com a caridade. Deus não precisa de malfeitores para fazer com que Sua lei se cumpra.
Ela se opera através de mil maneiras, sem necessidade de falsos magistrados que se
arvoram em juizes em causa própria. Seus métodos são reprováveis pelo excesso de
truculência e crueldade e geram mais mal e violência que arrependimento e recuperação.
Deve-se renegar o pecado e acolher o pecador. Tal deveria ser a sua atuação, se quisesse
cooperar com a Lei.
- Seus discursos melodramáticos não penetram em mim, pois eu faço a lei. Sou
persistente. Não estou interessado em seus discursos sobre lei de causa e efeito,
reencarnação, muito menos sobre caridade. Como você disse, vou ter que pagar pelos
meus crimes, mas isso é futuro. O futuro também pode ser adiado, segundo a nossa
vontade.
- Daqui a um segundo já é futuro. Este é de propriedade divina cabendo a
divindade seu desenho. Se pensa que poderá ficar indefinidamente fora do alcance da Lei é
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apenas um ingênuo, que pode ser abatido por um sopro, quando soar a hora do ajuste de
contas. Se fosse mais sábio, deporia as armas, que já são poucas, e poria seu destino nas
mãos de Deus, do qual tenta zombar.
- Pois bem! Querem que eu me afaste? O seu protegido está livre da minha
presença daqui para adiante. Ficarei de longe, observando. A vida dá muitas voltas e
tenho certeza de que nos encontraremos em uma delas. Saio daqui como entrei. Nenhuma
palavra sua ou desses seus amigos que estão aí em oração fez uma ranhura sequer na
minha pele. Como disse, eu me basto.
Dito isto, “apossou-se” do corpo de outra médium, que ficou altamente perturbada
com as cenas as quais assistia e vivenciava, vinculadas a uma de suas existências passadas.
Não restam dúvidas de que ele, apesar de utilizar de maneira equivocada seus
conhecimentos, era um mestre nessas questões de transportar os médiuns a pontos
cruciantes de suas existências passadas. Vencida mais esta etapa, uma das médiuns adverte:
Nossos amigos estão dizendo que ele vai ruir. Preparemo-nos com humildade para o
triunfo da justiça.
Tive a impressão de que ele foi lançado de encontro a uma das médiuns e
rapidamente a seguramos, pois já tentava levantar-se. Deu uma risada de zombaria e iniciou
seus acordes finais: Não precisa segurar-me. Não vou promover nenhuma violência.
- De maneira nenhuma! Seguraremos firmes, mesmo porque este é o instante da sua
queda. Além do mais, como mentiu há alguns minutos, não existem razões para
acreditarmos em sua sinceridade agora.
Certamente deve ter sido uma grande humilhação para ele ter que mentir, ficar
manietado, escutar acusações sem poder calar-nos nem ter argumentos para responder.
Senti profundo sentimento de piedade por aquele Espírito, que poderia ter sido um grande
auxiliar de Jesus em seus propósitos de elevação do bem. Mas o momento era de firmeza e
de gravidade. Surpreso, comecei a ouvir suas perguntas e pedidos, interferindo um mínimo
possível no diálogo que ele encetava com alguém invisível para mim.
- O que é isso? Quem é você? Que luzes são essas? Afaste-se de mim, não me
toque! O que é isso? O que você está fazendo comigo? Eu nunca vi uma coisa dessas. Eu
nunca senti isso. Você está me tocando e seu toque está me queimando! Sinto meu corpo
queimando, mas há algo de doce no toque. Você me cegou! Há uma película em meus
olhos que eu não posso retirar. Como você fez isso? Que palavras são essas que você diz?
E essas cenas, de que lugar são?
Ele foi adormecendo e caiu sobre a mesa, permanecendo imobilizado. Então o ser
de luz que o tocara no ombro e literalmente o nocauteara, pois em nenhum instante ele deu
sinal de arrependimento ou de desistência de seus propósitos, o tomou nos braços como se
faz com uma criança que dorme e partiu como um asteróide, cortando o céu e iluminando a
noite com seu caminho prateado. Ficamos emocionados e silenciosos, até que uma das
videntes quebrou aquele instante mágico: Vejo descer do espaço glóbulos de luz que
atingem todo o ambiente. Nossos instrutores recolhem estes glóbulos e os despejam sobre
nós, no que são absorvidos. Dizem que nos comportamos muito bem, apesar de nossas
deficiências, plenamente justificáveis para nosso estágio evolutivo. Abraçam respeitosos a
cada um de nós e dizem que contribuímos corajosamente para a vitória do bem.
Agradecem a Deus pela oportunidade de serviço e reafirmam que sempre estaremos juntos
no trabalho de Jesus.
Caberia ao jovem seguir adiante, organizando severo roteiro de vida, onde o estudo,
a disciplina e a educação da sua mediunidade fossem pontos prioritários. Certamente ficaria
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com seqüelas, devido ao demorado processo obsessivo pelo qual passara, mas a pior parte
fora superada. Muitas vezes lembrei-me dele, ocasião em que projetava forças, paz e
motivação para o desempenho da sua tarefa mediúnica. Todavia, somente ele poderia traçar
o rumo da sua vida. O Centro Espírita lhe dera o compasso, a régua e o lápis, mas o
desenho seria inevitavelmente dele.

Nef-ter e seus poderes

A atuação de Nef-ter havia produzido em nós imensa curiosidade. Certamente


gostaríamos de conversar amistosamente com ele e poder saber como atingira tão alto grau
de domínio e de manipulação das forças da natureza. O capítulo sobre a mente, concluímos,
ficaria pobre sem essas informações. Assim julgando, concentramos o pensamento na
obtenção de tais respostas na reunião de estudos próxima.
Ednir veio em nosso auxílio com algumas folhas de papel escritas, resultado da
entrevista que fizera com os Espíritos que dirigiram o processo desobsessivo que culminara
com a derrota do mago. Saudando-nos à sua maneira, iniciou a conversa:
- Queridos amigos. Muito aprendi com os estudos que efetuamos sobre este caso.
Pelo nosso lado, mais de vinte alunos, em sua maioria orientais, estiveram trabalhando
arduamente com o propósito de elucidar alguns enigmas da mente. A falta de hábito
existente entre os ocidentais, que não praticam a meditação nem dão crédito aos métodos e
estudos elaborados nessa área, é o motivo de sua inferioridade numérica entre nós. Não
pude participar das reuniões com nossos instrutores. Segundo eles, ainda não atingi o nível
de graduação que me permita entendê-las. Todavia, o resultado de tais encontros nos foi
passado por instrutores menores. Temo que vocês considerem fantasia algumas
observações que ouvi acerca da mente, devido ao inusitado dos fatos. Mas creiam, apesar
de parecerem fantasiosos, os relatos representam a mais pura realidade.
Aqui estou para falar desse senhor chamado Nef-ter. Ele é um Espírito exilado de
um mundo muito superior à Terra. Seu comportamento entrou em desarmonia com a
evolução alcançada pelo planeta e ele foi naturalmente excluído do convívio de seus
irmãos, por incompatibilidade com as leis vigentes naquele orbe. Conhecemos uma história
parecida, a dos exilados de Capela, mas nossos instrutores garantem que ele não veio de lá.
Esse companheiro chegou aqui há cerca de cinco mil anos e morou em cidades que já não
existem, restando delas apenas vestígios arqueológicos. Sua encarnação mais notável
ocorreu na Caldéia, onde foi sumo sacerdote. Data desta época o seu notável
desenvolvimento mediúnico e psíquico. Falo mediúnico, relacionando-o ao contato com os
Espíritos, e psíquico, com os poderes relativos à sua mente. Seu treinamento foi bastante
doloroso, mas muito eficiente. Aos sete anos de idade foi recolhido ao templo, onde viveu
isolado em constante treinamento, dirigido por grandes mestres. Passou longo tempo sem
dormir. Quando exausto procurava fechar os olhos, seus instrutores, que mantinham severa
vigilância sobre ele, o forçavam a abri-los. Quando ele dominou a capacidade de estar
sempre alerta, permitiram-no dormir, mas de cabeça para baixo, a fim de abrir os canais da
mente para o mundo oculto. Seus chacras foram “abertos” um a um, do básico ao coronário,
através de métodos que desconheço. Apesar de tornar-se sumo sacerdote da seita que o
abrigara, aos vinte e um anos de idade exercendo grande poder sobre as massas, jamais
prendeu-se a laços religiosos. Voltou-se totalmente para o desenvolvimento dos seus
poderes psíquicos, iniciados secretamente na mais rígida disciplina.
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Posteriormente, veio a reencarnar na Grécia, sempre evoluindo em seus poderes


mediúnicos e psíquicos, pois estes jamais estiveram inativos. Também teve uma
reencarnação de destaque na região da Palestina, uma década antes de Jesus, mas jamais
teve um encontro com Ele. Nessa época, foi um rebelde com grande poder sobre as massas.
- Não pode nos dizer o seu nome?
- Não tenho permissão para isso. Aliás, dizem os instrutores que não é missão do
Projeto revelar nomes e datas, e sim a aprendizagem sobre os temas propostos. Em sua
peregrinação pelo orbe, esteve na Itália, onde foi uma figura apagada, em razão do seu
corpo enfermiço e defeituoso. É marcante também a sua participação na Inquisição italiana,
onde esteve em contato com o jovem obsidiado a quem perseguia. Sempre que
desencarnava, voltava à condição de sacerdote caldeu, período mais marcante de sua
existência. Seu treinamento foi muito além do que lhe falei. Ele era obrigado a passar
vários dias sem alimentação, no que era orientado para retirar o alimento do ar que
respirava. Enterrado vivo, aprendeu a controlar a respiração, a desacelerar seus órgãos, bem
como a alimentar-se de determinados fluidos contidos no ar. De tudo que citei, resultou um
adestramento mental de vulto, aliado a uma disciplina férrea que ele utiliza com maestria.
Ao longo de muitas existências acumulou conhecimentos sobre magnetismo, hipnotismo,
manipulação de fluidos, leitura mental e outros temas de que nem desconfiamos. Pena que
não tenha sabido utilizar seus conhecimentos para o bem.
- Você sabe nos informar se ele prestava assistência a grupos trevosos que o
buscavam?
- Sim. Ele criou para seu domínio uma região tão extensa quanto o Saara, onde era
venerado como um deus. Todos o reverenciavam. Mesmo aqueles que a isso se recusavam,
eram forçados a fazê-lo pelo seu poder mental. Quem ousasse lá chegar sem tratá-lo como a
um ser supremo, era transformado perispiritualmente em um animal qualquer. Todos o
respeitavam pelo temor que sentiam de seus poderes.
- Você sabe detalhes dessa cidade?
- Pelo relato que ouvi, é uma grande cidade com torres quebradas e descoloridas.
Somente o lugar que ele habitava tem perfeição de formas e cores, de um castelo medieval.
Pode-se dizer que é um castelo rodeado por escombros, ou um palacete cercado por favelas.
E isso era ainda mais uma demonstração do poder, orgulho e egoísmo que o caracterizava.
- Quem era esse Espírito que o dominou?
- Seu antigo mestre, que veio gentilmente do planeta em que ele vivia,
especialmente para tentar ajudá-lo. Ele o tem como a um filho amado que, transviando-se,
retardou-se na caminhada. Quando soubemos que esse mestre estava entre nós, quisemos
vê-lo, mas não tivemos permissão para contemplá-lo. Tivemos uma idéia da sua evolução,
pela visita que fez a nossa colônia. Não chegamos a vê-lo mas sentimos, por ocasião de sua
visita, uma emoção muito boa, um enternecimento que nos fez chorar, uma sensação de
felicidade que nos tornava mais bonitos, o pensamento de que nada nos atrapalhava ou nos
era impossível.
- As cenas que ele plasmou são do planeta onde Nef-ter habitava?
- Sim. O mestre as retirou da mente do seu ex-aluno e as mostrou em uma tela
luminosa.
- Sem a presença desse mestre, nossos amigos conseguiriam impedir a ação de
Nef-ter?
- Eles nos disseram que sim. Mas seria necessário um tempo mais prolongado, mais
planejamento, uma união de forças e de vontades muito mais disciplinada para superar a
31

atuação do caldeu. Além do mais, o bem é solidário, e outros Espíritos se juntariam ao


grupo para fortalecê-lo. A espiritualidade, na maioria das vezes, evita confrontos diretos,
preferindo que o amor e a caridade provoquem o derretimento do gelo que cobre os
corações chumbados pelo ódio e pela indiferença. Ele não cedeu ao amor da filha, que no
momento se encontra encarnada e fora desdobrada para comparecer à reunião e sensibilizá-
lo, por puro egoísmo. Como esse mestre prontificou-se a vir em nosso auxílio, tudo ficou
mais fácil. Reafirmamos, disse nosso instrutor, que a espiritualidade superior não costuma
tomar reinos, mesmo sendo das sombras, pela força bruta. Considera mais produtivo
invadi-los através do amor, instalando em seu interior a paz e a concórdia. Contudo, quando
a energia se faz necessária, não existem vacilações em seu uso.
- Como Nef-ter está agora?
- Em uma espécie de coma provocado. Seu mestre continua retirando de sua mente
os miasmas lá deixados por sua prolongada atuação no mal. Encontra-se incomunicável
para qualquer mente que subjugava ou comandava. Seu estado é cataléptico e a atuação do
seu mestre sobre sua mente assemelha-se a uma lavagem cerebral.
- Ele vai esquecer de tudo que ocorreu e ficar como alguém com amnésia?
- Não. Suas conquistas serão todas preservadas. Sua mente está sendo esvaziada de
qualquer sugestão maléfica e, mais serena, compreenderá que a única saída que lhe resta é o
caminho da renovação. Ao mesmo tempo em que será incentivado através de imagens e
induções positivas, sem contudo nada alterar do que se refere às suas dívidas para com a lei,
terá os traços marcantes da sua conduta equivocada soterrados na memória dando ensejo a
que hábitos e atitudes novos venham a conduzi-lo a portos mais calmos. Sua mente será
serenada e receberá incentivo para que, através de vontade própria, propicie a si mesmo um
novo projeto de educação visando a encaminhar-se a novos roteiros de libertação. Quando
acordar, sua mente terá uma outra vibração, condicionada por seu mestre, um dinamismo
novo, capaz de formar sintonia com pensamentos positivos referendados por seu educador.
Não sei como ele está fazendo isso. Quando alguém nos diz: esvazie sua mente, sentimos
imensa dificuldade em executar a ordem. Mas se fixamos o pensamento em um único
ponto, conseguimos evitar que outros pensamentos invadam nossa mente. Penso que o
mestre está atuando nesse sentido, ou seja, forçando a mente do seu aprendiz a se fixar em
objetivo nobre.
- E quando esse mestre sair de junto dele, tudo não voltará a ser como antes?
- Recuso-me a acreditar que um mestre venha de tão longe, tenha tanto trabalho e
esmero em sua técnica, sendo portador de conhecimentos e de moral elevadíssimos, venha
a obter resultados frustrantes. Sou levada a crer, pelos meus estudos e experiências, que o
mal é apenas uma enfermidade passageira. Erradicado os entraves de sua mente, ela
prosseguirá no sentido oposto ao que percorria. Como já foi dito, quando ele se reabilitar
com a lei, o que fará através de reencarnações dolorosas, estará livre para voltar ao seu
antigo mundo.
- Qual a sua ligação com o jovem obsidiado?
- O jovem foi seu discípulo em uma encarnação passada. Entre eles não existe
nenhum laço afetivo. O jovem, ao querer sair do seu domínio, recebeu o recado de que nada
deveria ser feito sem a vontade expressa do seu mestre e senhor. Ao ignorar a ordem,
passou a ser tratado como prisioneiro. O restante você já sabe.
- Você nos afirmou que Nef-ter, neste momento, se encontra em uma colônia
próxima à região da Palestina. A escolha desse local está relacionada com a encarnação
dele naquela área?
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- Sim. É uma colônia muito luminosa, formada depois da passagem de Jesus pelo
planeta. Chama-se “Deus Conosco”, e dizem que de lá muita luz é enviada para os recantos
onde a paz tem dificuldades de sobrevivência.
- Nef-ter formava monstros que atacavam os médiuns, provocando pavor e dores
nos mesmos. Como ele fazia isso?
- Criação mental dele, formada com material extraído da mente dos médiuns. Ele
buscava na mente dos médiuns aquilo que lhes provocassem pavor e com essas
informações criava os monstros. Assisti aqui a uma aula ministrada por um monge tibetano
sobre essas criações mentais. Ele nos pediu para mentalizarmos um animal, um monstro, e
fez surgir na sala um réptil, uma espécie de lagarto pavoroso, de cerca de um metro e meio
de comprimento, que partiu para atacar-nos. Ele nos disse: Vejam como é possível criar um
monstro com o material retirado da mente de vocês. Quando perguntei como ele retirava
esse material de nossa mente, ele respondeu: Eu poderia criar o lagarto com a minha
própria vontade, mas talvez ele não parecesse tão horripilante para vocês. Preferi recolher
de suas mentes informações sobre seus medos, traumas, fobias, e com esse material criar o
monstro que vocês viram. Assim fazem os Espíritos maldosos que querem enlouquecer
suas vítimas.
- Mas esse monstro poderia ter avançado e ferido o perispírito de alguém?
- Sim. Criado e vitalizado por uma mente adestrada, transforma-se em uma possante
arma viva, que permanecerá enquanto o seu criador mantiver o pensamento e a vontade
fixos nela. Isso só é possível devido a imperfeições e fragilidades que ainda temos, e que se
constituem em verdadeiras portas abertas à invasão de nossa intimidade.
- Ainda tem algo a nos dizer sobre Nef-ter?
- Sua técnica era desgastar as energias mediúnicas e psíquicas dos médiuns para
mais facilmente dominá-los. Como ao final da reunião nossos instrutores faziam a
reposição dessas energias, a queda de braço iria durar mais tempo, se não viesse em nosso
auxílio esse Espírito iluminado. Às vezes nos preocupávamos, principalmente nós,
estudantes, com o sofrimento dos médiuns. Isso é uma verdadeira invasão de privacidade
dos médiuns, dizíamos. Como pode um trabalhador ter suas vidas passadas devassadas e
usadas contra ele? Mas acorriam ao nosso encontro os instrutores, que comentavam: isso
ocorre devido às imperfeições que ainda temos. Ainda não somos invulneráveis nem nos
mostramos totalmente inteiros; usamos máscaras, o que não permite sermos nós mesmos;
não aprendemos ainda a estabelecer prioridades para a nossa vida; não temos disciplina que
nos permita fechar a porta mental ao acesso de salteadores; não somos ainda capazes de
formar uma barreira invisível que bloqueie a presença de intrusos. Quando formos capazes
de sermos nós próprios, despidos de qualquer camuflagem, seremos invencíveis.
- Notamos que somente os médiuns é que sofriam mais intensamente os ataques de
Nef-ter. Por que ele não teve acesso aos passistas e ao doutrinador que, aparentemente,
ficaram imunes?
- Os instrutores colocaram uma barreira em suas mentes, para que eles pudessem ter
a lucidez e a disciplina de conduzir o processo desobsessivo. Estou falando de técnica, pois
méritos para bloquear o acesso por conta própria eles não têm. Era necessário que a reunião
tivesse uma diretriz firme e equilibrada e isso só seria possível tornando-os “invulneráveis”.
Quanto aos médiuns, terminada a reunião, igualmente eram envoltos na mesma barreira
protetora. Não sei se vocês notaram que ao final da reunião todos se sentiam bem e até riam
bastante do sufoco pelo qual haviam passado. É que eram imediatamente envolvidos em
fluidos revigorantes e calmantes.
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- Que acontecerá com a cidade construída por Nef-ter?


- Já existe um substituto que se auto-elegeu o novo imperador. Bem, amigos, hoje
eu matei parte da saudade que sinto de vocês. Gostaria de ficar muito mais tempo, mas me
dizem que a festa acabou. Que Deus nos proteja e faça da nossa mente um relicário de luz e
de alegria.
Quando Ednir partiu, concordamos que o estudo da mente prosseguiria, mas em fase
de exercícios práticos, pois aquele capítulo estava terminado. Quanto a mim, coordenador
do Projeto, estava animadíssimo com o primeiro capítulo do livro.
Em algum lugar estava Nef-ter adormecido, talvez ainda preso aos seus dilemas e à
sua fixação pelo poder.
Fechei o portão do Centro Espírita naquela noite com saudade da próxima reunião.
Que outras surpresas nos esperam? Fiz a pergunta a mim mesmo e um secreto aviso
confidenciou-me: luminosas.

Os fluidos

Fluido é o nome genérico atribuído pela Física a qualquer líquido ou gás. Todavia,
no estudo do Espiritismo ele adquire um significado bem mais elástico, sendo, inclusive,
sinônimo de matéria universal que preenche os vazios entre os astros, estendendo-se pelo
infinito.
Desse fluido universal, dizem os nossos mentores, deriva tudo quanto os Espíritos
utilizam e imaginam para as suas necessidades evolutivas. Mentes poderosas o manipulam
e dele fazem surgir galáxias e protozoários, medicamentos e venenos, a depender do
operador e de seus conhecimentos.
Do fluido universal derivam-se outros fluidos não menos importantes, através de
diferentes arranjos moleculares, sendo os mais urgentes para o nosso estudo, o vital, o
espiritual, o magnético e o ectoplasma. Na verdade, a variação fluídica que o Espírito pode
obter dessa fonte inesgotável é imensa, surgindo daí toda a gama de medicamentos, objetos,
alimentos e utensílios a serem utilizados em seu cotidiano.
O estudo dos fluidos perpassa uma grande parcela das atividades espíritas, que dele
se beneficia em suas atividades. A água fluidificada, o passe, as reuniões de cunho
mediúnico, o atendimento a enfermos, os grupos de estudos doutrinários, são atividades que
exigem daqueles que as desempenham conhecimento aprofundado desse tema.
Todo o estudo do perispírito encontra-se embasado nos fluidos, de vez que ele é um
envoltório fluídico retirado do ambiente em que se encontra. Resulta daí que este corpo
plástico e maleável varia conforme o mundo que habita. Sendo fluídico, deixa-se alterar por
outros fluidos, tendo essência e densidade relacionadas ao adiantamento moral do Espírito.
Basta este simples fato para mostrar a importância do estudo dos fluidos e o quanto
depende o entendimento da teoria doutrinária do conhecimento desta realidade.
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Não nos enganemos. Tudo, com exceção de Deus e do Espírito, potências que
desconhecemos, é fluido ou derivação dele.

Fluido universal ( enfoque espírita )

Fluido, segundo a ciência acadêmica, é um corpo ou substância que, pela frágil


adesão entre suas moléculas, escorre ou se expande em obediência ao formato do recipiente
que o contenha, ou seja, não tem uma forma própria. A Física chama de fluido qualquer
líquido ou gás, independente de suas propriedades.
No meio espírita, existe uma certa confusão quanto a palavra fluido, de vez que a
encontramos associada a inúmeros fenômenos, e os espíritas atribuem a esta palavra um
desempenho quase mágico. Às vezes, quando os médicos não conseguem diagnosticar
corretamente uma doença, costumam dizer para o paciente: é uma virose. Igualmente, se
médiuns, passistas, curadores de uma maneira geral, não conseguem detalhar com
profundidade uma enfermidade de origem espiritual, atribuem a um fluido manipulado pelo
obsessor a origem do mal que atormenta o enfermo.
São muitas as designações para fluido atribuídas por estudiosos independentes, que
acabam por estabelecer uma confusão quanto ao seu uso e especificidade, havendo a
necessidade de uma nomenclatura única que reúna os já conhecidos, à semelhança dos
elementos químicos que se agrupam através de uma tabela, facilitando o estudo e a
organização desta disciplina.
Vejamos quantos nomes a nos confundir, quando iniciamos um estudo sobre
fluidos: Fluido Cósmico, Éter, Fluido Ectoplásmico, Fluido Medianímico, Fluido Animal,
Fluido Elétrico Animalizado, Fluido Vital, Fluido Elementar, Força Psíquica, Força
Nêurica Radiante, Força Bio-dinâmica, Força Ecténica, Força Nervosa, Força Fluídica
Vital, Força Cerebral Irradiante, Energia Nervosa, Energia Bioplásmica, Energia
Biorradiante, Alavanca Psíquica, Ectoplasma, Luz da Alma, Fogo Gerador,
Substancialidade, Mana, Prana, Ch’i, dentre outros.
Como temos a trindade Deus, Espírito e fluido universal como síntese da realidade
universal, poderíamos, ao lado deste, abrir uma longa chave para que, aos poucos, se
preencha seu espaço com os fluidos já conhecidos, em uma linguagem universal. Não é
desta maneira que a ciência trata os seus assuntos? A Araucaria angustifolia, gimnosperma
comum nas terras do Brasil, conhecida como pinheiro-do-Paraná, não possui este mesmo
nome em qualquer parte do planeta? Fico no aguardo do espírita que queira iniciar este
urgente e necessário trabalho.
Por nossa vez, estudaremos o fluido universal, abordado por Kardec e citado em sua
obra como Fluido Cósmico Universal, do qual retiramos a palavra cósmico, por nos parecer
redundante.
Afirmam os Espíritos que trouxeram a lume a codificação que o fluido universal é a
argamassa de tudo quanto existe à nossa volta, ou seja, o responsável pelo surgimento da
matéria, que se resume em energia condensada.
Segundo nossos padrões científicos, torna-se difícil a obtenção de uma imagem real
ou aproximada do fluido universal, por absoluta falta de analogia. Podemos, contudo,
considerá-lo como elemento que permeia todo o cosmo, constituindo-se na ambiência
propagadora da energia e a fonte de tudo que se materializa no universo.
35

Nossa ciência acadêmica tem dificuldade em detectá-lo e estudá-lo, porque em seus


planos e pesquisas admite o fluido universal ( éter ou algum tipo de fluido que ocupa o
espaço, de vez que não há vazio) como forma de matéria palpável ou mensurável, quando,
na realidade, nossos instrumentos se apresentam adequados apenas para vibrações
grosseiras, escapando-lhes as de natureza etérea.
O fluido universal é uma espécie de substância primitiva originada sob o comando
divino, que dá nascimento a todos os elementos constituintes dos mundos através de
diferentes arranjos atômicos e moleculares. As propriedades desse fluido propiciam à
matéria estabilidade na forma e na essência, evitando a sua contínua transformação.
É através da ação do pensamento sobre o fluido universal que resulta a criação dos
mais simples aparelhos usados no cotidiano dos Espíritos, bem como a formação dos vastos
aglomerados estrelantes. A capacidade criativa e de utilização desse fluido está diretamente
relacionada com o estado intelectual e moral dos Espíritos. Assim, imprimindo-se o
pensamento, unido à vontade criativa sobre ele, este é modelado em formas desejadas,
disperso, direcionado, assume colorações e finalidades específicas, é dotado de poderes
dulcificantes, tóxicos, enfermiços, terapêuticos, manipulado enfim, conforme o desejo e o
poder de quem nele atua.
Imprimindo-se ao fluido universal diferentes padrões de vibração, os Espíritos
podem obter a partir dele diferentes tipos de substâncias. Partindo do princípio de que a
velocidade em que ele vibra determina a sua densidade enquanto matéria, afirmamos que
quanto mais a freqüência é lenta, mais “material” é a substância, e, no sentido inverso,
quanto maior a vibração, mais sutil ou menos “material” é a substância.
Servem-se desse fluido não somente os Espíritos superiores, mas todos os Espíritos,
que com ele fabricam os objetos que lhes são íntimos e habituais, por vezes até sem se
aperceberem, dando-lhes existência enquanto perdure o pensamento, agente materializante
de tais objetos.
Dessa maneira, os Espíritos trazem à realidade presente suas próprias recordações,
externando das lembranças mentais residências, mobiliários, vestimentas, adornos e até
frutas e iguarias. Aqui, reforçamos o princípio da proporcionalidade do estado evolutivo de
cada Espírito, ou seja, perfeito faz quem perfeito é.
Encontra-se em estado latente nesse fluido o princípio vital, que animará as futuras
formas de vida dos inumeráveis seres que preencherão os mundos. Igualmente, as
características a serem gravadas nos planetas formados, as suas especificidades, quais
pressão, atmosfera, gravidade, dentre outras que nele têm sua gênese. Esse fluido dará
ensejo ainda ao surgimento de uma força gravítica, suportável pela vida orgânica a
manifestar-se no mundo ainda em formação, que aguarda o momento de palpitar, refletindo
as vibrações que lhe serão próprias.
Assim falando, temos um fluido com poderes quase divinos. Mas importa saber que
foi Deus quem criou o fluido com essas atribuições, o que reflete a sua suprema
inteligência.
Sob o comando imperioso das mentes superiores, o fluido universal se aglutina,
toma movimento e é regulado em seus espaços atômicos e moleculares, para que nele se
definam as rotações e movimentos adequados ao determinismo necessário e formador dos
elementos físicos e químicos, materiais e orgânicos, os quais a tempo certo afloram, isolam-
se ou permutam-se em avanço, sem anteparo para a vida.
Os mundos nascem do fluido universal por condensação e a ele voltam por
desagregação. Essa parece ser a versão admitida pelos Espíritos como a que mais se
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aproxima da verdade. Por tal motivo, o colocamos como marco inicial da “árvore
genealógica” dos fluidos, a partir do qual iniciamos a nossa classificação.

Fluido universal ( enfoque científico )

Explicar o surgimento do plano material a partir de um fluido não parece ser a


tendência científica moderna, atualmente caminhando a passos largos rumo ao
infinitamente pequeno. De descoberta em descoberta, ela chegou ao berço das partículas
ínfimas e prossegue admirada a colecionar subpartículas, esperando desvendar o processo
da “fecundação”, da “gestação” e, conseqüentemente, do nascimento da matéria. Quanto
mais a ciência avança na intimidade do átomo, mais descobre que não há um limite
demarcado entre matéria e energia. A matéria parece diluir-se em subpartículas que, por sua
vez, se subdividem, desafiando mentes e aparelhos na busca de grânulos elementares.
O desbravamento do átomo começou de maneira mais ostensiva em 1911 com
Rutherford e a sua famosa experiência de bombardear uma lâmina de ouro com partículas
alfa. Como conclusão de tal experiência, tivemos que o átomo é composto por um núcleo,
onde se concentram os prótons e, ao seu redor, giram os elétrons. Assim, toda a massa do
átomo está concentrada em seu núcleo, possuindo os elétrons massa praticamente
desprezível. Em 1932, Chadwick descobriu outra partícula no núcleo do átomo, o nêutron,
já prevista por Rutherford. A partir de então, o número de partículas descobertas pelos
cientistas vem se avolumando, atingindo hoje mais de duzentas, sem todavia encontrarem a
partícula final, o “sêmen” que fecundaria o espaço, dando origem à matéria.
Sabe-se hoje que a massa não possui nenhuma relação com a substância, pois aquela
é apenas uma modalidade de energia, mais precisamente, energia “coagulada”. Uma
partícula atômica qualquer deve ser encarada como um pequeno pacote de energia que se
manifesta em forma de massa, podendo comportar-se como partícula ou onda, permitindo-
se, inclusive, voltar ao seu estado natural de energia.
Paul Dirac promoveu verdadeira revolução no campo científico ao formular uma
equação para descrever o movimento dos elétrons. Decorre de seus estudos a descoberta de
uma simetria entre a matéria e a antimatéria. Ao adiantar que para cada partícula existe uma
antipartícula, concebeu a existência de “dois universos”, um positivo e outro negativo,
formados por partículas e antipartículas, de vez que para cada partícula existente
corresponderá sempre uma outra com igual massa e carga oposta. Dois anos após, Dirac
prevê a existência do anti-elétron, este foi descoberto e batizado de pósitron. Para este
cientista não existe o vazio, pois todo o espaço é preenchido por um oceano de partículas
livres. Hoje, já é possível a criação de partículas e antipartículas, bem como as suas
transformações em energia, efetuada em aceleradores de partículas, que demonstram como
da energia pura podemos fazer surgir a matéria e vice-versa.
A partir dos estudos de Dirac foram criados em laboratórios, antiprótons e
antinêutrons. Juntando-os podem ser formados anti-átomos. Se existem anti-átomos,
podemos especular acerca da existência no universo, de anti-estrelas, antiplanetas,
antihomens e até de um anti-universo inteiro de antimatéria.
Chegamos à conclusão de que dificilmente encontraremos as tais partículas
elementares da matéria, pois da colisão entre elas, provocada na tentativa de encontrar em
seus destroços subpartículas, surgem fragmentos que nunca são menores que as partículas
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originais. A partir da energia envolvida na colisão, surgem novas partículas, filhas da


energia pura de onde tudo se materializa.
Não seria essa energia pura, ou esse oceano de partículas livres, ou o nome que se
queira dar, o fluido universal?
Mas a ciência não avançou apenas na demonstração de que matéria e energia são
faces de uma mesma realidade. Einstein, ao associar o campo gravitacional à geometria do
espaço por ela ocupado, combinou a teoria quântica com a teoria da relatividade, na
tentativa de descrever os campos de força das partículas subatômicas. Campos são espaços
que apresentam condições especiais, devido à presença de uma grandeza física. Assim,
temos campo de força, aquele em que a grandeza física é a força; campo de onda, gerado
por uma onda eletromagnética; campo eletromagnético, resultante da superposição de um
campo elétrico e de um campo magnético, dentre outros. André Luiz, em sua obra
“Mecanismos da Mediunidade”, assim define e exemplifica: Campo desse modo passou a
designar o espaço dominado pela influência de uma partícula de massa. Para guardarmos
uma idéia do princípio estabelecido, imaginemos uma chama em atividade. A zona por ela
iluminada é-lhe o campo peculiar. A intensidade de sua influência diminui com a distância
do seu fulcro, de acordo com certas proporções, isto é, tornando-se 1/2, 1/4, 1/8, 1/16 ... a
revelar o valor de fração cada vez menor, sem nunca atingir a zero, porque, em teoria, o
campo ou região de influência alcançará o infinito.
A introdução do conceito de campo à ciência, levada a efeito por Faraday e
Maxwell, acabaram com o conceito de vazio, ao afirmar que associado a cada partícula
existe um campo em que ela exerce influência. Todavia, os campos são considerados
entidades físicas primárias que podem ser estudadas sem qualquer referência a corpos
materiais, podendo, inclusive, deslocar-se através do espaço sob a forma de ondas.
Se na escala macroscópica a matéria influencia o espaço ao seu redor, inclusive
deformando-o, como já se encontra provado pela observação dos estudos da gravidade, na
escala microscópica o comportamento não é diferente.
A surpreendente nova característica da Eletrodinâmica quântica deriva da
combinação de dois conceitos, ou seja, o de campo eletromagnético e o de fótons como
manifestações, sob a forma de partículas, das ondas eletromagnéticas. Uma vez que os
fótons também são ondas eletromagnéticas, e uma vez que essas ondas são campos
vibratórios, os fótons devem ser manifestações de campos eletromagnéticos. Resulta daí o
conceito de “campo quantizado”, isto é, de um campo que pode assumir a forma de quanta
ou de partículas. Trata-se, de fato, de um conceito inteiramente novo que foi ampliado de
modo a descrever todas as partículas subatômicas e suas interações, sendo que cada tipo
de partícula corresponde a um campo diferente. Nessas “teorias quânticas dos campos”, o
contraste clássico entre as partículas sólidas e o espaço circunvizinho é completamente
superado. O campo quantizado é concebido como entidade física fundamental, um meio
contínuo que está sempre presente em todos os pontos do espaço. As partículas não
passam de condensações locais do campo, concentrações de energia que vêm e vão,
perdendo dessa forma seu caráter individual e se dissolvendo no campo subjacente. Nas
palavras de Albert Einstein: Podemos então considerar a matéria como constituída por
regiões do espaço nas quais o campo é extremamente intenso... Não há lugar nesse novo
tipo de Física para campo e matéria, pois campo é a única realidade. ( O Tao da Física –
Fritjof Capra.)
Averiguemos o que diz André Luiz em seu livro “Mecanismos da Mediunidade”,
psicografado por Chico Xavier: Conhecemos a gama das ondas, sabemos que a luz se
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desloca em feixes corpusculares que denominamos fótons, não ignoramos que o átomo é
um redemoinho de forças positivas e negativas, cujos potenciais variam com o número de
elétrons ou partículas de força em torno do núcleo, informando-nos de que a energia, ao
condensar-se, surge como massa para transformar-se, depois, em energia; entretanto, o
meio sutil em que os sistemas atômicos oscilam não pode ser equacionado com os nossos
conhecimentos. Até agora, temos nomeado esse “terreno indefinível” como sendo o éter;
contudo, Einstein, quando buscou imaginar-lhe as propriedades indispensáveis para poder
transmitir ondas características de bilhões de oscilações, com a velocidade de 300.000
quilômetros por segundo, não conseguiu acomodar as necessárias grandezas matemáticas
numa fórmula, porquanto as qualidades de que essa matéria devia estar revestida não são
combináveis, e concluiu que ela não existe, propondo abolir-se o conceito de éter,
substituindo-o pelo conceito de campo.
... A proposição de Einstein, no entanto, não resolve o problema, porque a
indagação quanto à matéria base para o campo continua desafiando o raciocínio, motivo
pelo qual, escrevendo da esfera extrafísica, na tentativa de analisar, mais acuradamente, o
fenômeno de transmissão mediúnica, definiremos o meio sutil em que o Universo se
equilibra como sendo o Fluido Cósmico ou Hálito Divino, a força para nós inabordável
que sustenta a criação.
Para André Luiz, o conceito de campo ainda não explica nem encerra essa
discussão. O conceito de Fluido Cósmico seria o que mais se aproxima da realidade
observada no universo conhecido.
Hoje, a ciência avança na elaboração de uma teoria unificada, a que os cientistas
chamam de TOE ( theory of everything ) a teoria de tudo, a fim de explicar através da união
das quatro forças existentes no planeta, a força da gravidade, a eletromagnética, a nuclear
fraca e a nuclear forte, todas com seus respectivos campos, a dinâmica do universo. A
gravitação, mesmo sendo a mais fraca, possui alcance infinito. Para a ciência, ela ainda é
uma incógnita, pois mesmo a existência de sua suposta partícula, o gráviton, ainda não foi
demonstrada experimentalmente. As forças forte e fraca fazem parte do intrincado sistema
atômico, permitindo-lhe o equilíbrio.
Julgam os cientistas que as partículas interagem umas com as outras para
produzirem os efeitos que observamos. Um elétron pode enviar um fóton a outro, que o
absorve. O fóton enviado faz o papel de mensageiro transmitindo a força eletromagnética.
A cada uma das forças corresponderia uma classe especial de partículas mensageiras. Com
base nesse raciocínio, para a gravitação teríamos os grávitons, para o eletromagnetismo os
fótons, para a força forte os oito glúons e para a força fraca os bósons W e Z.
A força eletromagnética, agindo através dos prótons, tendo também um alcance
infinito, produz, através das oscilações dos átomos, a luz, o calor, raios X, raio gama, raio
cósmico.
No pensamento dos cientistas, deve existir uma única força e seu respectivo campo,
capaz de movimentar e dá organização a tudo quanto se refere à matéria ou à energia. Não
seria a busca do TOE, um encontro com o fluido universal? Quanto às forças interativas
fraca e forte, responsáveis pela harmonia atômica entre o núcleo e os elétrons, dando
estabilidade à matéria, podemos relacioná-las com a resposta dada à pergunta de número 27
de “O Livro dos Espíritos”, quando assim expressa: ... Esse fluido universal, ou primitivo,
ou elementar, sendo o agente que o Espírito utiliza, é o princípio sem o qual a matéria
estaria em perpétuo estado de divisão e jamais adquiriria as propriedades que a gravidade
lhe dá.
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Vejamos como a ciência se reporta à estabilidade da matéria: Sempre que uma


partícula é confinada a uma pequena região do espaço, essa partícula reage a esse
confinamento movendo-se circularmente; quanto menor é a região de confinamento, tanto
mais rápido é o movimento da partícula. No átomo há duas forças que concorrem entre si.
Por um lado, os elétrons são ligados ao núcleo por forças elétricas que buscam conservá-
los tão próximo a ele quanto possível. Por outro, respondem a esse confinamento girando
em torno do núcleo, e sua velocidade será tanto maior quanto mais firmemente estiverem
ligados a ele. De fato, o confinamento dos elétrons num átomo resulta em enormes
velocidades, da ordem de 960 km por segundo! Essas elevadas velocidades fazem com que
o átomo aparente ser uma esfera rígida, da mesma forma que uma hélice girando a alta
velocidade aparece-nos como um disco. É extremamente difícil comprimir mais os átomos
e, dessa forma, eles conferem à matéria seu aspecto sólido que nos é tão familiar. (O Tao
da Física – Fritjof Capra).
O que faz com que uma substância mantenha suas características próprias é
justamente a estabilidade dos átomos que a compõem. Esta estabilidade se deve às forças
interativas fraca e forte acima mencionadas. Quando os Espíritos dizem ser o fluido
universal o princípio sem o qual tudo estaria em perpétua divisão, visivelmente estabelecem
uma correspondência entre essas forças e o fluido.
Com tais especulações, estamos querendo dizer que os Espíritos responsáveis pela
codificação não puderam avançar nesse raciocínio devido à limitação científica da época, à
falta de terminologia adequada e até mesmo não retirar dos estudiosos seus méritos na
pesquisa. Reforçamos também nessa oportunidade a necessidade do estudo das leis naturais
para a compreensão dos postulados espíritas. Não foi sem motivo que o Espírito de
Verdade nos legou o lema: amai-vos e instruí-vos, nem apresentou didaticamente a
Doutrina nas partes científica, filosófica e moral.

A teoria das cordas

Mas a ciência avança sempre. Essa é a sua missão: esclarecer dúvidas; buscar
incansavelmente a verdade; revelar o pensamento de Deus. Tentando penetrar nos
meandros da energia, físicos e matemáticos intuitivos trabalham atualmente em uma teoria,
a que chamam de supercordas, na tentativa de mostrar o universo como manifestação de
um único elemento, as chamadas supercordas. Segundo esses pesquisadores, tudo que
compõe o universo resulta da existência dessas cordas que vibram e giram, resultando de tal
fato diferentes partículas, à semelhança das cordas de um instrumento musical que, ao
vibrarem, emitem diferentes sons. Essas cordas teriam dimensões diminutas, bilhões de
vezes menores que as partículas do núcleo do átomo e foram pensadas a partir do fato de os
quarks, partículas que compõem os prótons, mostrarem-se ligados como pertencentes à
extremidade de um elástico.
Essa teoria recebe hoje especial atenção dos cientistas devido ao fato de unificar a
Mecânica Quântica com a Relatividade Geral, problema que atormenta os físicos desde a
década de cinqüenta. O seu ponto positivo a favor do Espiritismo é o de que tudo que existe
no universo resulta de vibrações. O que diferencia um plano de outro é apenas a maior ou
menor vibração existente nas partículas que o compõem. Se fixarmos uma corda de um
certo comprimento e a ela atribuirmos determinada pressão, ela, ao vibrar, oscila somente
em determinadas freqüências. Este é o princípio através do qual se obtém diferentes notas
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musicais que, ordenadas, fazem a música. Assim também funciona o universo, segundo
essa teoria. As supercordas vibram e, a depender de como elas vibram, dão origem a uma
gama imensa de partículas. Dessa maneira, o elétron pode ser entendido como uma nota
musical emitida pela vibração de uma supercorda e o próton pela união de mais de uma
vibração, ou seja, três ou mais notas musicais, formando pequeno trecho de uma canção.
Como no manuseio das cordas de um violino do qual podemos obter infinitas vibrações
diferentes entre si, as vibrações de uma supercorda podem igualmente criar infinitas
partículas, sendo que a maioria delas nos escapa à percepção devido à grosseria de nossos
registros materiais e espirituais.
Isso quer dizer que, devido à nossa inferioridade moral-científica, estamos
habilitados a registrar apenas partículas originadas de vibrações compatíveis com esse
estágio que nos caracteriza, ficando as demais fora do nosso campo de percepção.
Dessa maneira, a teoria das supercordas estabelece hoje para o universo, dez ou
vinte e seis dimensões, mostrando-o unido como uma malha multidimensional, fazendo
ressurgir a antiga teoria dos universos paralelos, perpendiculares, transversais..., com
possibilidades teóricas de comunicações entre eles e de, inclusive, a realização de viagens
ao passado ou ao futuro. Todavia, se as vibrações podem ocorrer de infinitas maneiras,
gerando infinitas partículas, há de se especular se as dimensões não podem ser igualmente
infinitas.
Se a teoria das cordas vier a confirmar-se como a teoria definitiva, o universo
poderá ser definido como um tecido microscópico multidimensional sofisticadamente
urdido, formando um labirinto, no qual as cordas do universo retorcem-se e vibram sem
cessar, dando ritmo às leis do cosmo.
Desaguará o estudo das supercordas na teoria final que explicará todos os
fenômenos, unificando todo o conhecimento? Isso não sabemos. Cabe a todos os terráqueos
a glória da busca, sempre tentando superar os obstáculos, por mais intransponíveis que
pareçam. Somos ainda como a lesma que, devido à lentidão do seu sistema nervoso, deixa
de perceber inúmeros eventos ocorridos ao seu redor. Exemplificando: se uma lesma estiver
olhando para um inseto e num período de tempo menor que três segundos esse inseto for
engolido por um sapo, tal fato não será percebido por ela. Tudo ocorrerá como se o inseto
desaparecesse misteriosamente da sua frente. Dessa maneira, ela é iludida pela velocidade
do evento e, sem poder abstrair ou aprofundar o pensamento sobre as variáveis envolvidas
no fenômeno, aceita como verdade o desaparecimento do inseto. Segundo Zölnner,
professor de Física e de Astronomia da Universidade de Leipzig, na Alemanha, estudioso
do mecanismo de transporte de objetos levado a efeito pelos Espíritos, estes carregam tais
objetos através da quarta dimensão, ou seja, retiram o objeto da terceira dimensão, a nossa,
e o transportam por uma outra inacessível aos nossos instrumentos comuns, largando-o
entre nós quando o desejam, ocasião em que se torna visível. Como ocorre com a lesma que
admite ter o inseto desaparecido misteriosamente, para os humanos também o objeto sumiu
da sua frente sem deixar vestígios. Se na lesma o desaparecimento se deve à lentidão do seu
sistema nervoso, entre nós, humanos, este ocorre por nossa incapacidade de percepção na
quarta dimensão. Se a nossa limitação é uma realidade, a nossa busca deve sempre incluí-
la, sem jamais torná-la obstáculo intransponível.
De igual modo, somos iludidos pelo truque do cinema. Um filme, que para nós
traduz a vida real, nada mais é que a seqüência de vinte e quatro fotos imóveis, intercaladas
por vinte e quatro intervalos de escuridão, à medida que cada imagem é substituída por
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outra. Como o cérebro humano é incapaz de perceber quarenta e oito pausas por segundo,
somos iludidos com esse truque genial.
Da mesma forma, não percebemos as velocidades das partículas e subpartículas que
nascem da energia, pois elas são infinitamente superiores aos intervalos do cinema. Esse é o
truque da vida real. Tudo é energia, ou fluido, ou campo, como queiram, e a velocidade
com que ele(a) se move dá a impressão de solidez à matéria. Vemos um mundo sólido e
não nos apercebemos de que ele é 99,99% vazio, dizem os cientistas. Esse vazio não estaria
preenchido pelo fluido universal, sendo a parte que percebemos, ( 0,01% ) a parte lenta, ou
seja, a parcela do fluido que foi aprisionado e transformado em matéria, percebida apenas
por estar compatível com a velocidade e capacidade de percepção do nosso cérebro?
Não restam dúvidas de que Deus não é apenas um excelente cientista, mas também
um poeta, um artista, um filósofo. Se quisermos compreender o Seu pensamento, tornemo-
nos urgentemente cientistas, artistas e poetas. A ciência parece ter começado a entender
essa mensagem tão simples, ministrada pela natureza.
A maneira poética de encarar o universo como uma sinfonia produzida por cordas,
representando diferentes instrumentos, e Deus como o maestro, nos dá uma visão de
unidade harmoniosa. Através dela, pode-se entender que Ele está em tudo e tudo tem
origem Nele. Que Sua vontade pode operar-se eternamente, através do Seu pensamento,
que se estende da queda da folha de um crisântemo à formação de mais uma estrela no
universo.
Não seriam as supercordas uma visão científica do fluido universal? Aqui vale
ressaltar a essência da idéia e não a maneira como ela é apresentada. É pois com alegria que
vemos a ciência caminhar incansavelmente e, a cada passo, mais aproximar-se das teorias
espíritas.

Os fluidos

Como existem milhares de fluidos derivados do fluido universal, tantos quantos


forem as qualidades positivas ou negativas que os Espíritos lhes transmitam, consciente ou
inconscientemente, faremos apenas um breve estudo daqueles de maior importância para o
nosso trabalho mediúnico e doutrinário.
Classificaremos, para efeito didático, os fluidos em três grandes grupos: materiais,
espirituais e mistos, com a ressalva de que, a rigor, não existem fluidos espirituais, pois de
espiritual reconhecemos apenas o Espírito. No mais, considerando-se que a trindade
universal é composta por Deus, Espírito e Fluido Universal, se incluirmos o Espírito na
categoria fluídica, ou seja, oriundo do fluido universal, já não teríamos uma trindade. Neste
estudo, fluido material será aquele que é passivo, neutro, não alterado desde a sua
transformação a partir do fluido universal pelos Espíritos; fluido espiritual, o que de alguma
maneira foi modificado pelo Espírito encarnado ou desencarnado; fluidos mistos, aqueles
que contêm alguma coisa a mais que a parte puramente material, ou seja, é o produto de
uma interação entre os fluidos material e espiritual, promovida pelo Espírito, levada a
efeito de maneira consciente ou inconsciente.
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Segundo a trindade acima exposta, com exceção de Deus e do Espírito, tudo o mais
teve gênese no fluido universal. Tomemos como exemplo para bem fixar o que é um fluido
material, uma floresta inexplorada, onde o homem jamais haja colocado os pés. As leis
naturais, que são divinas, agem independente da presença dos encarnados, comandando a
seleção e a evolução das espécies. Lá as laranjeiras crescem e dão frutos repletos de fluidos
materiais. Como na floresta, o homem, Espírito encarnado, ainda não penetrou, podemos
considerar, para efeitos didáticos, tais fluidos como sendo puramente materiais. As fontes
dessa floresta igualmente são compostas por fluidos materiais. Caso o homem nela penetre,
recolha um pouco de água em um recipiente e a manuseie, nela deixando fluidos emanados
do seu perispírito, teremos nesse recipiente um fluido misto.
Sabe-se que o pensamento age sobre os fluidos, imprimindo nestes as qualidades
inerentes ao Espírito que o emitiu. Segundo esta lei, o ambiente habitado pelos Espíritos
pode apresentar beleza e perfeição ou degradação e agressividade, atraindo por sintonia as
mentes que se afinam com o que nele existe. Conclui-se de tal raciocínio que Espíritos
evoluídos moralmente modificam os fluidos materiais do ambiente, imprimindo-lhes
vibrações harmoniosas, calmantes, amorosas, formas leves, alegres e carregadas de beleza.
Espíritos inferiores criam favelas, rodeadas por fluidos repulsivos, irritantes, tóxicos,
corrosivos, que nada mais são que a exteriorização dos sentimentos que os caracterizam.
Neste exemplo, falamos de fluidos espirituais. Portanto, repetindo para ficar bem gravado,
para este estudo, fluido material será aquele não alterado pelos Espíritos, fluido espiritual o
que, de alguma maneira, foi modificado pelos Espíritos e fluido misto aquele que, além da
parte material que o compõe, acompanha-lhe alguma porção, ínfima que seja, do fluido
espiritual. Note o leitor que fluidos puramente materiais são raros, devido ao fato de o
Espírito encarnado ou desencarnado deixar naquilo que manuseia ou com que entra em
contato, expressões de suas qualidades mentais. Perceba igualmente que fluido espiritual
propriamente dito não existe, razão pela qual se assim o batizamos, é porque de alguma
maneira ele foi modificado pela ação do Espírito, mesmo à sua revelia.
Abordaremos, embora superficialmente, os seguintes fluidos: vital, espiritual, da
natureza e, em particular, o ectoplasma.

FLUIDO VITAL

Seja qual for o corpo material a que nos referirmos na Terra, mineral, vegetal ou
animal ele terá em sua constituição física elementos químicos naturais já catalogados na
Tabela Periódica dos elementos químicos. Esta tabela contém elementos que vão do
Hidrogênio ao Urânio, considerados naturais, sendo os que se seguem a estes, artificiais.
Sendo seres vivos e corpos brutos formados da mesma argamassa, o que os
diferencia?
Segundo informações dos Espíritos contidas em “O Livro dos Espíritos”, Cap. IV,
Princípio Vital, nos seres vivos a matéria encontra-se vitalizada devido à sua união com o
princípio vital. Após esta união, este princípio, intermediário entre a matéria e o Espírito,
oriundo do fluido universal, modificado e adaptado a cada espécie, é capaz de desenvolver-
se através do funcionamento dos órgãos, alimentando-os e sendo por estes alimentado.
Eis como Emmanuel, através da psicografia de Chico Xavier, nos descreve o fluido
vital: Há uma força inerente aos corpos organizados, que mantém coesas as
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personalidades celulares, sustentando-as dentro das particularidades de cada órgão,


presidindo aos fenômenos partenogenéticos de sua evolução, substituindo, através da
segmentação, quantas delas se consomem nas secreções glandulares, no trabalho
mantenedor da atividade orgânica. Essa força é o que denominais princípio vital, essência
fundamental que regula a existência das células vivas, e no qual elas se banham
constantemente, encontrando assim a sua necessária nutrição, força que se encontra
esparsa por todos os escaninhos do universo, combinada às substâncias minerais,
azotadas e ternárias, operando os atos nutritivos de todas as moléculas. O princípio vital é
o agente entre o corpo espiritual e a matéria passiva, inerentes às faculdades superiores
do Espírito, que o adapta segundo as forças cósmicas que constituem as leis físicas de
cada plano de existência, proporcionando essa adaptação às suas necessidades
intrínsecas. Essa força ativa e regeneradora, de cujo enfraquecimento decorre a ausência
de tônus vital, precursor da destruição orgânica, é simplesmente a ação criadora e
plasmadora do corpo espiritual sobre os elementos físicos.
Como no iogurte, que é preparado adicionando-se fermento lácteo a uma porção de
leite e, uma vez pronto, é retirado, deixando-se apenas a vasilha com mínima fração desse
produto para que se opere novamente a transformação, o princípio vital, unindo-se à
matéria, produz a sua vitalização, permanecendo nesta qual fermento que se multiplica
enquanto houver reabastecimento do organismo. À proporção que o iogurte vai sendo
utilizado, mais leite precisa ser colocado no vaso para manter o processo que alimenta a
produção. Em outras palavras, a luta do dia-a-dia vai consumindo energias vitais que
necessitam ser repostas. Desse intercâmbio, resulta o movimento e o funcionamento
orgânico, até que a matéria, desgastada, não tenha mais condições de manter o processo,
extinguindo-se a interação entre ambos.
Os seres vivos são, portanto, segundo essa teoria, quais lâmpadas alimentadas pela
eletricidade gerada pelo funcionamento dos órgãos. Estes, agindo qual pequenos dínamos,
movimentam o fluido vital ( espécie de eletricidade biológica ), até que a vida útil de cada
um venha a alterar a produção e, portanto, diminuir ou fazer cessar a eletricidade que
alimenta a lâmpada. Como a lâmpada necessita da força externa da usina que a alimenta,
igualmente nosso corpo exige combustível, no que é atendido através dos alimentos.
Ligando-se uma lâmpada a outra, ambas se abastecem do mesmo fluido, embora que, no
caso de a fonte ser uma pilha, as lâmpadas iluminem com menor intensidade. Temos nessa
imagem a doação fluídica, que pode ser ministrada de uma pessoa para outra que a socorre
com sua “luminosidade”. Obtém-se ainda como reflexão nesse quadro, que uma vez
esgotado o fluido elétrico, a lâmpada se apaga. Como existem lâmpadas de diferentes
potenciais ( 20, 40, 60 W, ... ), existem corpos de diferentes volumes fluídicos, o que vem a
determinar um tempo de vida útil para cada um deles.
As pessoas já nascem com um organismo com capacidade de desenvolver e
aproveitar um volume de fluidos vitais proporcional ao tempo de vida estipulado para
cumprir suas tarefas enquanto encarnadas. Algumas possuem um vigor incomum, que as
permitem realizar tarefas que exigem grande quantidade de energia. Nestas, o “fermento” é
abundante. Outras, por mais que se esforcem na aplicação de medidas visando revigorar
seus corpos, predomina uma espécie de apatia e inanição que as tornam desvitalizadas. A
estas aconselham-se transmissões fluídicas, através de passes e água fluidificada, à
semelhança das transfusões sangüíneas, que restabelecem a harmonia orgânica nos
indivíduos anêmicos.
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Se o indivíduo abusa da sua capacidade de trabalho, perde sono por motivos fúteis,
maltrata o corpo através de vícios, deixa-se consumir pelo orgulho, vaidade, ciúme ou
atitudes semelhantes, desperdiça fluidos vitais que são drenados e contabilizados a favor da
sua atitude equivocada frente à vida. O resultado desse comprometimento é uma redução do
tempo de vida útil, com conseqüências negativas imediatas no corpo físico e,
posteriormente, ajuste de contas com a Lei. Todavia, aquele que é obrigado a trabalhar em
demasia para sustentar seus filhos, que passa fome, frio, tem seu corpo maltratado e
espoliado em seus fluidos vitais, tem seu débito contabilizado na economia dos usurpadores
que o escravizam. Vale salientar que toda energia gasta em benefício do bem-estar do
próximo é suprida ou, quando não reposta, não traz prejuízos para o trabalhador. Casos há
em que este recebe uma cota extra de fluidos, uma sobrevida de alguns anos, para que
termine suas tarefas enquanto na carne. Vejamos como descreve este fato Philomeno de
Miranda, em seu livro Painéis da Obsessão: Iremos retirar o tônus vital, que já degenera
em Argos, predispondo-o à desencarnação e o faremos ser absorvido pelo pulmotor onde
já depositamos regular quantidade de maaprana ou energia superior e de vitalidade
extraída dos vegetais terrestres. Na parte superior interna e transparente da máquina
serão misturadas, sob a ação de uma pequena bomba encarregada de fazer a oxigenação
da substância fluídica. ... Providenciaremos um doador encarnado que, consultado em
encontro conosco, em reunião especializada, prontificou-se a cooperar. Isso porque, no
caso em tela, faz-se necessário também o fluido humano e, como sói acontecer nos
trabalhos de transfusão de sangue, em que a identidade de tipos é condição indispensável
para os resultados que se almejam, aqui encontramos algo semelhante.
... De imediato, o Dr. Froebel solicitou a irmã Angélica que se encarregasse de
orar, suplicando o divino beneplácito para o trabalho a iniciar-se. ... Foram introduzidos
dois cateteres no braço direito de Argos, que se ligavam ao pulmotor. Vimos, de imediato,
que saía uma substância pardo-acinzentada para o interior da máquina. O médico fechou
pequena válvula, interrompendo o fluxo. Um outro catéter foi ligado do aparelho ao braço
esquerdo do enfermo, por onde deveria retornar a energia purificada. Imediatamente
vimos uma das enfermeiras fazer uma terceira ligação, desta vez era um catéter que se
fixava à artéria do braço esquerdo de Venceslau, que deveria doar determinada dose de
tônus vital. ... A um sinal do chefe cirúrgico, foram abertas as pequenas válvulas. Vimos a
energia de Argos, que já se encontrava em grande parte do catéter, penetrar no depósito
de maaprana e clorofila, ao mesmo tempo em que do médium Venceslau o tono vital
chegava à parte inferior do pulmotor, que uma pequena bomba impelia para cima de modo
a confundir-se com a substância em renovação e fosse transferida para o paciente pelo
catéter do braço esquerdo. A operação transcorreu em um prazo de trinta minutos
aproximadamente.
Acreditamos, explicou o cirurgião, que ele disporá de energias para um
qüinqüênio, aproximadamente, quando, segundo as suas conquistas, poderá receber nova
dose ou interromper-se-lhe a estada no domicílio carnal.
Digno de nota neste estudo é a exigência de similitude entre o fluido do doador e do
receptor utilizados na transferência, como a ressaltar a sintonia como uma das leis básicas
da vida.

FLUIDO ESPIRITUAL
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Consideramos fluido espiritual aquele que, oriundo do plano espiritual, foi


manipulado consciente ou inconscientemente por Espíritos encarnados ou desencarnados. A
rigor, não existe uma linha demarcatória para separar os planos de existência habitados por
encarnados ou desencarnados. Poderíamos até dizer que existe no universo infinito,
vibrações diferentes, caracterizando espaços diferentes, assim denominados devido ao grau
de materialidade maior ou menor que possuem. Se fizéssemos uma escala para graduar as
vibrações, diríamos que as superiores tanto podem atravessar como coexistir com as
inferiores, dando gênese a mundos independentes que se interpenetram, às vezes, formando
pequenas ilhas resultantes da similitude de gostos e de tendências de seus habitantes.
O plano divino, devido à onipresença de Deus, alcança a todos os outros,
imprimindo referenciais que, fatalmente, são tomados como diretriz para a felicidade.
O fluido espiritual é largamente utilizado no cotidiano dos Espíritos. É com ele que
surgem as construções de cidades, vestimentas, objetos, alimentos, instrumentos de toda
espécie e tudo quanto, consciente ou inconscientemente, os Espíritos queiram materializar.
A capacidade de criar ou de modificar o ambiente através da vontade é inerente ao
Espírito. Este manipula o fluido através do pensamento, como o artesão manuseia o barro,
dando-lhe formato e utilidade compatíveis às suas necessidades. Logicamente, as criações
mentais serão sempre proporcionais à evolução moral e intelectual de quem modela o
fluido, resultando daí uma escala de valores para um mesmo objeto tão extensa quantos
sejam os estágios em que os modeladores se encontrem.
Muitas das modificações fluídicas ocorridas no ambiente são efetuadas à revelia dos
circunstantes, ou seja, daqueles que ocupam ou transitam por determinado espaço. Essa
regra vale para encarnados e desencarnados. Nas zonas inferiores, a utilização dos fluidos,
geralmente de maneira inconsciente, gera figuras aberrantes, formas compactas e pegajosas,
pântanos apodrecidos, natureza agressiva e raquítica, atmosfera irrespirável por parte dos
bons Espíritos.
Tomemos como exemplo de modificação fluídica a água. Um litro de água pura,
levada ao Centro Espírita e sendo magnetizada, age como medicamento salutar. Nas mãos
de uma pessoa com pensamentos de vingança, absorve seus fluidos, tornando-se
“venenosa”; na mesa de pessoas que oram, recebe vibrações amorosas, revestindo-se de
poderes calmantes; na presença de uma disputa entre desafetos, incorpora o ódio ali
reinante; manuseada por médico caridoso, é bálsamo para úlceras diversas. A água absorve
o teor vibratório do ambiente em que se encontra, modificando-se em sua estrutura íntima,
apresentando-se quando cristalizada, segundo a cristalografia, com cristais nublados,
escuros, deformados ou diáfanos, translúcidos, harmoniosos, conforme sejam os fluidos do
ambiente. As nascentes próximas aos campos de guerra possuem águas contaminadas pelo
ódio. Contrariamente, em templos e santuários onde a prece e a meditação elevada ocorrem
com freqüência, os cristais da água ali recolhida apresentam-se com simetria e cores
harmoniosas. No plano dos desencarnados ocorre o mesmo. O Bosque das Águas, em
Nosso Lar ( colônia espiritual descrita por André Luiz), onde os namorados fazem suas
juras de amor, possuem águas leves e perfumadas, fluidificadas pelo sentimento dos
amantes. Se quisermos saber as “qualidades” dos Espíritos que residem próximo à fonte de
onde foi retirada a amostra de água, é só colocá-la a congelar e observar a forma dos seus
cristais.
A água tem a propriedade de se deixar alterar pelas peculiaridades do ambiente,
prestando-se como excelente fluido para promover bem ou mal-estar. Sendo em si mesma
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um fluido material, pode ser alterada em seus espaços intermoleculares por fluidos
espirituais, resultando em um fluido misto.
Nossa preocupação não deve ser a de catalogar rigorosamente fluidos materiais,
espirituais ou mistos, tarefa extremamente difícil de realizar, mas sondar-lhes a intimidade,
a fim de determinar, senão suas origens, pelo menos suas qualidades, visando sua aplicação
ou neutralização.
Os fluidos merecem destacada atenção no universo material. Quando dizemos meus
fluidos não casam com os dele(a), estamos revelando uma das leis mais gerais do universo,
ou seja, de acordo com o que pensamos e agimos, agregamos ao nosso perispírito camadas
de fluidos que nos revelam o caráter através de vibração e densidade específicas. Alguém
que pense e aja diversamente de nós não encontrará sintonia fluídica, tendendo ao
afastamento, em virtude da lei de repulsão de fluidos, que não permite “encaixe” físico ou
psicológico para que se estabeleça uma amizade sólida.
Ninguém escapa dos fluidos. Somos nós próprios seres fluídicos, pois nossa
constituição celular é composta por três quartos de água. Não seria nenhum sinal de loucura
especular sobre a atração dos astros sobre tão grande quantidade de água em nossos corpos,
à semelhança da atração que exercem sobre as águas dos oceanos, provocando as marés.
Não haveria em nós uma maré fluídica? Não é costume dos madeireiros cortarem as árvores
destinadas à fabricação de móveis segundo a posição da lua, pois esta influencia na maior
ou menor quantidade de seiva na madeira, que por sua vez afeta a durabilidade da mesma?
Toda essa água contida em nosso corpo não teria o poder de absorver as influências
positivas ou negativas do meio, provocando assim estados saudáveis ou patológicos?
A chamada água fluidificada, ou seja, a água na qual foi introduzida fluidos
salutares, é largamente empregada como medicamento nos Centros Espíritas, prestando-se
como excelente agente na conquista da saúde. Igualmente o passe, de efeito já comprovado
nos Centros Espíritas e agora em hospitais, como terapia de energização em qualquer tipo
de paciente, o qual recebe fluidos geralmente mistos, do passista e do Espírito que o auxilia,
reveste-se de grande valor terapêutico nas mais variadas patologias.
Os efeitos positivos ou negativos que os fluidos podem causar nos seres vivos
começa a despertar na ciência um olhar de curiosidade sobre esta realidade conhecida há
milênios pelos magos, feiticeiros e iniciados nas ciências ocultas de maneira geral. As
experiências científicas são ainda insignificantes, diante do imenso campo de atuação e de
conhecimento que ela terá que enfrentar para deles tirar proveito. Todavia, é um começo
sem volta, pois constatada a veracidade dos efeitos cuja origem é o fluido, a corrida a este
tema será inevitável.

A prece

Reconhecidamente a prece movimenta fluidos salutares a favor de quem a profere.


Aquele que ora procede a uma invocação, entrando em contato através do pensamento com
o ser ao qual se dirige. Seu pensamento, qual faísca elétrica, viaja através do fluido
universal, transportando a sua solicitação, louvação ou agradecimento, formando uma
corrente fluídica que, fatalmente, atinge o Espírito solicitado.
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Se a luz viaja a uma velocidade de trezentos mil quilômetros por segundo, o


pensamento, dotado de energia e de vontade, ultrapassa em muito o raio de luz, sendo
praticamente instantâneo. O fluido universal é pois o veículo do pensamento na
comunicação entre os Espíritos que, separados por milhões de quilômetros de distância,
emitem ordens, atendem solicitações e fazem valer suas vontades na geração de fenômenos
e eventos voltados para o benefício de quem ora.
Em 1998, pesquisadores da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, provaram a
eficácia da prece através de uma experiência científica, na qual separaram 150 pacientes,
controlando durante o período em teste todas as variáveis possíveis, inclusive a freqüência
cardíaca. Nenhum dos pacientes sabia que era alvo de orações. Os cientistas solicitaram a
sete grupos religiosos espalhados pelo mundo que orassem pelos pacientes. Budistas,
freiras carmelitas, judeus que deixam preces no muro de Jerusalém, dentre outros, foram
acionados para fazerem parte da estranha experiência. O resultado obtido depois do tempo
aprazado foi o seguinte: a recuperação cirúrgica dos pacientes alvo de orações foi entre
50% a 100% superior a de outros pacientes submetidos a iguais condições de tratamento,
mas não lembrados em orações. A conclusão não deixou qualquer traço de dúvida. A
oração é altamente relevante na recuperação de qualquer paciente.
Mesmo que os médicos, em sua grande maioria, não entendam como se opera na
prática essa alteração no estado de saúde do paciente apressando-lhe a melhora, não têm
mais razão para descrer da eficácia da prece, até porque os pacientes não se condicionaram
interiormente, ou seja, não se motivaram psiquicamente para a cura, pois desconheciam ser
objeto de orações, o que poderia, caso soubessem, elevar a auto-estima e a capacidade de
superação de seus estados patológicos, podendo ser relacionado a este fator a mudança
psíquica do paciente, a cura operada.
Opostamente, pode-se deduzir, embora em sã consciência ninguém faria tal
experiência, que se fosse solicitado a grupos trevosos para enviar aos mesmos pacientes
pensamentos de ódio, de vingança, de agravamento de seus males, desejando-lhes a morte,
obteríamos, mesmo com a proteção espiritual dispensada a alguns, um quadro matemático
indicativo de agravamento da doença e, certamente, alguns óbitos.
Penso que a oração, em seu efeito fluídico, é capaz de produzir no perispírito um
realinhamento nas partículas e subpartículas, fazendo-as retornar à sua ordenação natural,
de vez que a doença é apenas uma desarrumação nas mesmas. Os Espíritos que estudam e
dominam a realidade quântica que rege a matéria são capazes de promover tais mudanças a
níveis físico e perispiritual, provocando curas instantâneas como as promovia Jesus.
Se a cada estado, patológico ou de saúde, corresponde uma arrumação específica de
partículas e subpartículas, nada mais lógico pensar que, imprimindo-se a estas uma
quantidade de energia calculada para que mudem de posição e assumam outros desenhos
correspondentes ao estado que se queira imprimir, isso venha a concretizar-se. Na
linguagem espírita, diríamos: se a doença é causada por um mau fluido, torna-se necessário
expulsá-lo do corpo ou neutralizá-lo com a ajuda de um bom fluido. E isso poderá ser feito
através de passes, água fluidificada e, sobretudo, com o auxílio da prece sincera.
Vejamos o pensamento de André Luiz, expresso em sua obra “Mecanismos da
Mediunidade”, quanto à atuação dos Espíritos na matéria: Os Espíritos aperfeiçoados, que
conhecemos sob a designação de potências angélicas do Amor Divino, operam no micro e
no macrocosmo, em nome da Sabedoria Excelsa, formando condições adequadas e
multiformes à expansão, sustentação e projeção da vida, nas variadas esferas da Natureza,
no encalço de aquisições celestiais que, por enquanto, estamos longe de perceber. Em
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outra obra do mesmo autor, “Evolução em Dois Mundos”, novamente ele se reporta a esta
questão: Sob a orientação das Inteligências Superiores, congregam-se os átomos em
colmeias imensas, e, sob a pressão, espiritualmente dirigida, de ondas eletromagnéticas,
são controladamente reduzidas as áreas espaciais intra-atômicas, sem perda de
movimento, para se transformarem na massa nuclear adensada, de que se esculpem os
planetas, em cujo seio as mônadas celestes encontrarão adequado berço ao
desenvolvimento.
Do pequeno relato exposto, podemos concluir que o Espírito, a depender da sua
condição evolutiva, tem o poder de atuar junto à matéria, modificando-lhe as características
através de rearrumações nas partículas que a compõem. As curas instantâneas praticadas
por Jesus não seriam produto dessa visão e atuação quânticas? Não veria Ele a condição
físico-perispiritual desorganizada e, a depender de sua vontade, promovia uma
rearrumação nas partículas em desalinho, fazendo-as retornar à condição anterior, quando
ainda não se estabelecera a enfermidade? Deixemos com o leitor tal reflexão e prossigamos
em nosso estudo.

Doença e fluido

O que é a doença? Podemos dizer, genericamente, que a doença é um desequilíbrio


energético nos corpos que revestem o Espírito, provocado pela conduta equivocada deste
em encarnações passadas ou no presente, frente às leis de harmonia que regem o cosmo.
Atitudes negativas tais quais o ciúme, a inveja, o orgulho, o egoísmo e outras
similares, exigem vastas cotas de energia vital do corpo para se manterem vivas e, para que
isso ocorra, o corpo físico vai morrendo aos poucos, ceifado em suas energias mais puras
pelos monstros predadores que cria e abriga.
Tal qual um tumor cancerígeno que se alimenta da vitalidade orgânica, as atitudes e
pensamentos negativos geram, devido ao acúmulo de fluidos densos ou energias negativas
ao sistema orgânico, verdadeiros bolsões ou cistos fluídicos, que impedem o fluxo normal
da energia vitalizante. Surge diante desse desequilíbrio orgânico a necessidade urgente de
uma retirada ou de uma neutralização desses bloqueios antes que eles aflorem através de
diferentes patologias.
Nossa hipótese sobre a doença é a de que ela resulta de um desequilíbrio ou de uma
desarmonia vibratória, quebrando a estabilidade dos elementos que constituem os diferentes
corpos que abrigam o Espírito. Tudo na natureza trabalha em favor da estabilidade. Os
elementos químicos doam ou recebem elétrons com a função de se tornarem estáveis. Outra
não é a causa das ligações iônicas que possibilitam a formação de diferentes substâncias.
Por outro lado, no fenômeno das radiações químicas ou radioatividade, constata-se que o
núcleo instável de um átomo emite espontaneamente partículas e ondas com a função de se
tornar estável. É dessa maneira que alguns elementos químicos podem dar origem a outros.
A natureza, notadamente os átomos, possui sua própria dinâmica para permanecer
estável. Tomemos simbolicamente a instabilidade como a doença e a estabilidade como a
saúde e veremos que se o Espírito se desarmoniza com a lei, ou seja, fica instável,
igualmente necessita de uma terapia que o faça retornar à estabilidade. Se o Espírito traz a
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si a doença, através de mecanismos de cura terá que se harmonizar com a lei que violou.
Necessita para isso da vontade, sua e de outros, e dos fluidos que o curem. Todavia,
dependerá de terceiros que o auxiliem através de uma terapia. Mais evoluído, adquirindo o
conhecimento sobre manipulação de fluidos, terá, ele mesmo, a condição de preparar o seu
próprio medicamento. Contudo, só caminhará na direção da prevenção e da autocura
quando, através da disciplina, requisito prioritário para qualquer realização de cunho
espiritual, evitar o mal que pode causar a si através dos desregramentos.
Pelo conhecimento, ele compreenderá que pensamentos e atitudes equivocadas
geram, devido ao acúmulo de fluidos danosos ao sistema orgânico, “nódulos gangrenosos”
que precisam ser extirpados antes que se somatizem. A somatização é a maneira natural que
o organismo utiliza para eliminar energias ou fluidos danosos a si mesmo. Uma terapia
preventiva à base de fluidos pode “dissolver” ou eliminar tais nódulos, antes mesmo que
eles se materializem no corpo denso.
A medicina preventiva reveste-se neste caso de especial valor, agindo sobre a causa
antes que o efeito apareça. Em socorro a esta infecção fluídica destacam-se as terapias ditas
vibracionais, aquelas que funcionam como catalisadores, auxiliando no realinhamento de
padrões emocionais, mentais e espirituais, através da rearmonização vibratória dos campos
energéticos do ser humano, potencializando o processo de transformação da consciência
para objetivos em consonância com as leis divinas.
As terapias vibracionais baseiam-se na transformação de padrões de vibração
nocivos em padrões característicos de saúde, obtidos pela erradicação ou neutralização de
campos energéticos intrusos, ou seja, os fluidos acumulados pelo mau hábito do Espírito.
Destacam-se neste campo os passes, a água fluidificada, a homeopatia, os florais,
dentre outros.
Se para qualquer tratamento o estado psíquico do paciente é fator preponderante, a
sua vontade dinâmica jamais deve estar ausente. Se a doença é uma força de resultante
negativa criada pela mente e por esta desativada, a saúde, igualmente, surge de uma
resultante de valor positivo na qual a vontade exerce um peso especial. A vontade direciona
o fluido e este desarticula os bolsões fluídicos gangrenados, fazendo o corpo voltar à
normalidade energética.

Fluidos da natureza

A teoria de Empédocles, grego que nasceu por volta de 490 a. C., apontando os
corpos e as substâncias que nos cercam como componentes de quatro elementos naturais,
água, terra, fogo e ar, teve o respaldo de Aristóteles, que lhe deu validade e continuidade,
permitindo-a chegar intacta aos alquimistas. Estes, através da pesquisa e do
aprofundamento, proporcionaram grande impulso ao desenvolvimento da Química.
Os eleatas, participantes da escola a qual Empédocles se filiara, viviam em conflitos
devido às suas teorias, notadamente o gerado pelo confronto entre a negação do movimento
por eles defendida e a realidade observada no universo onde tudo se move. Para lograr uma
conciliação entre a razão e os sentidos, pois estes contrariavam a razão em sua visão
cotidiana, Empédocles propôs a substituição do monismo corporalista, defendido pela
escola, por um pluralismo em que o universo seria composto por seis elementos: água,
terra, fogo, ar, amor e ódio. Os quatro primeiros, mais ligados à natureza, sendo
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governados pelas mesmas leis e tendo importância e primitividade iguais, seriam eternos e
imutáveis, permanecendo substancialmente idênticos a si mesmo. A diversidade das coisas
resultaria da mistura em proporções diferentes desses elementos, colocados em movimento
pelo amor, que a tudo une e pelo ódio que a tudo separa.
Os eleatas defendiam a inexistência do vazio e é esta a razão pela qual eles fazem
parte do grupo que defende a existência de um éter, energia, campo, ou qualquer outro
nome que tenha a mesma tradução dos demais citados, qual seja, preencher o vazio espacial
situado entre os corpos.
O declínio desse sistema veio a ocorrer com a definição de elemento químico e a
distinção entre mistura e combinação, estabelecida por Robert Boyle, após estudos em
combustões, cujas observações o levaram à conclusão de que o ar não era um elemento
simples, mas uma mistura de gases. A partir de então, Henry Cavendish, Lavoisier e John
Dalton, demonstrando a existência de outros elementos químicos, soterram de vez o
romântico sistema dos quatro elementos primitivos como gerador de tudo quanto existe no
universo. Todavia, em homenagem a seus idealizadores, o tomaremos para um ligeiro
estudo sobre os fluidos da natureza.
A água, sendo um excelente catalisador e um solvente universal, presta-se de
maneira fácil à agregação de outros fluidos à sua intimidade, tornando-se um medicamento
ou um veneno. A sua associação com ervas, raízes, minerais e drogas outras das quais a
alopatia e a homeopatia fazem uso constante, a tornam elemento indispensável à saúde na
Terra. Aliás, a vida orgânica surgiu e saiu vitoriosa da água para habitar todo o planeta.
Falar do emprego da água como medicamento e alimento para os seres vivos daria
origem a um tratado científico que nenhum ser humano ousaria concluir em uma única
encarnação, pois este estudo encontra-se em franco aprofundamento nos dias atuais. Isso
sem falar do seu poder higienizador do ambiente, de vez que ela acolhe para si os fluidos
desagradáveis gerados por populações inteiras, ao mesmo tempo em que modifica o clima
ao seu redor absorvendo calor do ambiente. Onde existe água, forma-se um microclima
agradável para os habitantes que a margeiam, que dela também retiram alimento e outros
benefícios. Os comentários feitos acima sobre tão importante elemento não deixam dúvidas
quanto à sua importância, utilidade e o respeito que devemos ter para com a sua aplicação e
conservação.
A Terra, antes vista como mãe generosa e hoje interpretada como máquina a ser
explorada e espoliada em seus recursos, vem perdendo o seu caráter sagrado há séculos.
Apesar de ser dotada de minerais indispensáveis à sobrevivência de todas as espécies que
nela se abrigam e de estabelecer com elas interações vitais, vem sofrendo sucessivas
agressões por grupos de gananciosos que a maltratam e desnudam. Há de se lembrar aqui as
fontes de água mineral, termal, as argilas terapêuticas, os adubos naturais, a água
subterrânea, os inumeráveis medicamentos dela provenientes aproveitados pelo homem. Há
uma interação perfeita entre a terra e a água a favor das espécies, que dela retiram os
recursos necessários à sua evolução.
Os seres vivos trazem em seus corpos minerais que compõem a terra. As trocas
energéticas entre a humanidade e o chão que ela pisa são tão intensas e variadas que
ninguém as citaria com fidelidade devido ao desconhecimento que ainda grassa neste
campo. O homem veio do pó, cita a Bíblia, e ao pó voltará. Na verdade, em último gesto,
embora involuntário, sobre a terra, o Espírito devolve o que a ela pertence, os componentes
do seu corpo material, para que sejam decompostos e reaproveitados em outros corpos. O
ferro do seu sangue, o cálcio de seus ossos, o carbono de suas enzimas, que em forma de
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átomos podem ter pertencido até mesmo a outros mundos, voltarão a compor a humanidade
do futuro, num atestado de perenidade a serviço da evolução espiritual.
Igualmente o ar, representando os gases, notadamente o oxigênio do qual se servem
animais e vegetais, constituem fluidos indispensáveis à vida orgânica terrestre. A água é
composta por hidrogênio e oxigênio, dois fluidos que se unem para gerar um terceiro. A
terra acolhe a água que acolhe o ar. Graças ao oxigênio dissolvido na água, vivem os peixes
e outros animais marinhos.
Tudo que existe no planeta interage com esses elementos, sendo seus corpos
subproduto de seus desdobramentos. A água, a terra e o ar mantêm entre si uma relação de
dependência tão vital como as três semi-retas que formam os lados de um triângulo. Os
vegetais superiores retiram a água do solo através das raízes, o gás carbônico do ar através
das folhas e com o auxílio da luz solar e da clorofila existente em suas folhas realizam a
fotossíntese. Esta libera para a atmosfera o oxigênio a ser utilizado na respiração animal e
vegetal. No interior dos vegetais corre a seiva através de seus vasos lenhosos, um fluido tão
vital para a sua sobrevivência quanto o sangue para os animais.
Se colocarmos a água a ferver, ela entra em ebulição. Se a congelarmos, ela se
solidifica. A temperatura, simbolizada pelo fogo, é o quarto elemento essencial para a vida
planetária. Com seu poder construtivo e destrutivo, a depender de como é utilizado,
contribui para as transformações necessárias que afetam toda a natureza. O fogo iluminou
as cavernas antes escuras, aquecendo os homens primitivos em seus medos e superstições,
foi e é utilizado junto aos metais, alimentos e na erradicação de fluidos pestilenciais. Libera
na queima de incensos e defumadores as energias que estes armazenam durante os meses
em que se abrigam na terra, formando ao seu redor uma atmosfera impregnada de fluidos
específicos que agem sobre a emotividade, induzindo e predispondo a mente para a
meditação e a inspiração, ao mesmo tempo em que faculta a aproximação ou a repulsão de
Espíritos que sintonizam com a atmosfera reinante. Nos chás e banhos de ervas, o fogo
auxilia na liberação de fluidos contidos nos vegetais, que atuam diretamente no organismo
físico e perispiritual, amenizando dores e serenando o Espírito.
No plano espiritual, quando a atmosfera de determinadas regiões inferiores está
saturada de fluidos perniciosos, acontecem as tempestades de fogo, com a finalidade de
sanear o ambiente. No livro “Obreiros da Vida Eterna”, escrito por André Luiz e
psicografado por Chico Xavier, tal fato é descrito detalhadamente, em capítulo que leva o
título Fogo Purificador.
Na verdade, o homem chegou e apropriou-se da terra quando ela estava pronta para
servi-lo. A água, qual mãe generosa, servindo-lhe como solvente de líquidos corpóreos,
meio de transporte de íons e moléculas, regulador térmico, agente lubrificante, componente
nas reações de hidrólise, dentre outras funções, juntava esforços aos dos fosfatos de cálcio
de seus ossos, dos sais de ferro de suas hemáceas e do iodo de sua tireóide harmonizando-
lhe o corpo. O oxigênio, componente da respiração celular, permitia que suas células
retirassem a energia acumulada nas substâncias orgânicas. Pode-se dizer que todos os
elementos do planeta foram estruturados para a convivência harmoniosa do homem com o
meio em que se encontra, a depender de como tais elementos sejam utilizados. Os fluidos
ao seu redor interagem diretamente na sua harmonização psíquica e tal efeito benéfico se
estende através dos corpos que o revestem.
Os fluidos da natureza estão contidos nesses quatro elementos primitivos citados
pelos filósofos antigos. Cada um deles tem papel preponderante na harmonia do conjunto,
sendo ao mesmo tempo gerador e transformador de fluidos que ora se atraem e ora se
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repelem, aqui se complementam, ali se neutralizam e alhures se harmonizam, tomando o


seu lugar no conjunto sob a diretriz maior dos instrutores espirituais.

O ectoplasma

A palavra ectoplasma, originária do grego ektós = exterior e plásma = dar uma


forma, foi primeiramente utilizada por Charles Richet, o criador da Metapsíquica que,
referindo-se aos fenômenos de efeitos físicos provocados pela médium Eusápia Paladino,
assim batizou a substância que dela emanava e atuava sobre objetos pesados,
movimentando-os.
Também chamada de teleplasma, psicoplasma, éter vitalizado, fluido perispirítico,
dentre outras denominações, o ectoplasma é um fluido pouco conhecido em sua natureza
íntima e, tudo quanto dele sabemos, devemos aos pesquisadores do passado, notadamente o
Barão Schrenck-Notzing, Charles Richet, Gabriel Delanne, Aksakof, Julieta Bisson,
Ochorowicz, Crawford e, em particular, ao Espírito André Luiz.
O ectoplasma pode aparecer sob a forma oleosa, floculosa, leitosa, líquida, viscosa,
fria, filamentosa, vaporosa, enfim, assume aspectos que vão da invisibilidade à solidez,
formando peças compactas que podem ser pesadas e observadas em seus detalhes
minuciosos.
Se quisermos uma definição mais precisa desse fluido tão útil para as reuniões
mediúnicas e de assistência a enfermos, recorramos a André Luiz, em sua obra “Nos
Domínios da Mediunidade”: O ectoplasma está situado entre a matéria densa e a matéria
perispirítica, assim como um produto de emanações da alma pelo filtro do corpo, e é
recurso peculiar não somente ao homem, mas a todas as formas da natureza. Em certas
organizações fisiológicas especiais da raça humana, comparece em maiores proporções e
em relativa madureza para a manifestação necessária aos efeitos físicos que analisamos. É
um elemento amorfo, mas de grande potência e vitalidade. Pode ser comparado a genuína
massa protoplásmica, sendo extremamente sensível, animado de princípios criativos que
funcionam como condutores de eletricidade e magnetismo, mas se subordinam,
invariavelmente, ao pensamento e à vontade do médium que os exterioriza ou dos Espíritos
desencarnados ou não que sintonizam com a mente mediúnica, senhoreando-lhe o modo de
ser. Infinitamente plástico, dá forma parcial ou total às entidades que se fazem visíveis aos
olhos dos companheiros terrestres ou diante da objetiva fotográfica, dá consistência aos
fios, bastonetes e outros tipos de formações visíveis ou invisíveis nos fenômenos de
levitação, e substancializa as imagens criadas pela imaginação do médium ou dos
companheiros que o assistem mentalmente afinados com ele.
Notzing notou que este fluido, em estado disperso, é influenciado negativamente
pela luz comum, suportando sem prejuízo para sua contextura as radiações pouco
energéticas da luz vermelha e infravermelha. Observou, igualmente, que esta regra é válida
para os médiuns, que se sentem incomodados com a presença da luz comum durante a
produção de ectoplasma.
Qualquer pessoa pode, no caso de necessidade desse fluido em uma reunião
mediúnica, doar pequena porção dele. Aquelas que são dotadas de uma organização fisico-
psíquica particular e liberam em profusão o citado fluido são chamadas de médiuns de
efeitos físicos.
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Eis como André Luiz nos descreve, em sua obra “Nos Domínios da Mediunidade”,
a liberação dessa substância através do médium: O veículo físico, assim prostrado, sob o
domínio dos técnicos do nosso plano, começou a expelir o ectoplasma, qual pasta flexível,
à maneira de uma geléia viscosa e semilíquida, através de todos os poros e, com mais
abundância, pelos orifícios naturais, particularmente da boca, das narinas e dos ouvidos,
com elevada percentagem a exteriorizar-se igualmente do tórax e das extremidades dos
dedos. A substância, caracterizada por um cheiro especialíssimo, que não conseguimos
descrever, escorria em movimentos reptilianos, acumulando-se na parte inferior do
organismo medianímico, onde apresentava o aspecto de grande massa protoplásmica, viva
e tremulante.
K. Müller, em 1931, coletou algumas gotas desse fluido em um vidro e o lacrou
com rolha especial. Constatou-se que as gotas do material assemelhavam-se a água,
modificando-se constantemente através de movimentos semelhantes aos de uma ameba. De
odor ácido, a tal substância mostrava uma rede de filamentos complicados, mesmo após
anos em observação. Crawford chegou a fotografar o ectoplasma em alongamento,
formando uma espécie de alavanca, podendo bater, levantar e deslocar objetos, surgindo
dessa observação o termo “alavanca psíquica”, para caracterizar situações onde o fluido era
utilizado como uma máquina simples.
Ainda na mesma obra, Nos Domínios da Mediunidade, André Luiz escreve sobre a
composição desse fluido: Aí temos o material leve e plástico que necessitamos para a
materialização. Podemos dividi-lo em três elementos essenciais, em nossas rápidas noções
de serviço, a saber: fluidos A, representando as forças superiores e sutis de nossa esfera,
fluidos B, definindo os recursos do médium e dos companheiros que o assistem, e fluidos
C, constituindo energias tomadas à Natureza terrestre. Os fluidos A podem ser os mais
puros e os fluidos C podem ser os mais dóceis; no entanto, os fluidos B nascidos da
atuação dos companheiros encarnados e, muito notadamente, do médium, são capazes de
estragar-nos os mais nobres projetos. Nos círculos, aliás raríssimos, em que os elementos
A encontram segura colaboração das energias B, a materialização de ordem elevada
assume os mais altos característicos, raiando pela sublimidade dos fenômenos; contudo,
onde predominam os elementos B, nosso concurso é consideravelmente reduzido,
porquanto nossas maiores possibilidades passam a ser canalizadas na dependência das
forças inferiores do nosso plano, que, afinadas aos potenciais dos irmãos encarnados,
podem senhorear-lhes os recursos, invadindo-lhes o campo de ação e inclinando-lhes as
experiências psíquicas no rumo de lastimáveis desastres.
Vale salientar que o ectoplasma pode assumir qualquer forma, mas permanece
sempre ligado ao médium por uma espécie de cordão umbilical. Provavelmente, esta é a
causa das sensações dolorosas que ele sente quando essa emanação é tocada. Por outro
lado, devido ao imenso poder de influenciação que ele sofre, pode modificar-se devido a
ocorrência no meio em que é expelido de emanações tóxicas provenientes do abuso da
nicotina, do álcool, da alimentação carnívora, dos temperos picantes e, sobretudo, das
formas-pensamentos projetadas pelos presentes.
Todos os exames feitos em amostras desse fluido jamais definiram a sua verdadeira
composição. Logicamente, devido a adição de fluidos retirados das plantas, das águas e de
outros componentes materiais e espirituais, introduzidos pelos Espíritos ao fluido liberado
pelo médium. Notzing, comentando uma análise laboratorial feita em uma porção de
ectoplasma, assim expõe seu ponto de vista: Trata-se de uma substância albuminóide
unida a um corpo gorduroso e com células análogas às que se encontram no corpo
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humano. Particularmente notável é o grande número de leucócitos; as expectorações, por


exemplo, não contêm jamais tanto. Esta matéria lembra fortemente o líquido linfático e o
quilo ( líquido esbranquiçado a que ficam reduzidos os alimentos na última fase da
digestão nos intestinos – observação do autor ) do corpo humano, sem contudo, ser-lhes
idêntica.
Crawford, em estudos efetuados na senhorita Goligher, verificou a perda de 23
quilos de sua massa, transformados em ectoplasma. Para isso, ele pesava a médium antes e
depois das reuniões. No dia 11 de dezembro de 1893, em sessão realizada pela Sra.
d’Espérance, na Finlândia, ocorreu a desmaterialização parcial do seu corpo, comprovada
pela vista e pelo tato. Eis como ela própria, apesar de sentir intensa dor por ocasião da
constatação do fato pelas testemunhas, chama a atenção dos circunstantes para este fato:
Toque aqui. O Sr. Seiling exclamou: É extraordinário! Eu vejo a Sra, d’Espérance, ouço-a
falar, mas apalpando a cadeira, acho-a vazia; ela não está aqui; apenas cá encontro o seu
vestido. Nessa mesma ocasião, outras quatro pessoas puderam verificar o fenômeno, todas
elas exprimindo assombro e espanto diante do inusitado acontecimento.
Uma experiência digna de nota foi realizada na Inglaterra, pela Associação Britânica
dos Espiritualistas. Pesquisadores instalaram uma cabine mediúnica completa, sobre o
estrado de uma grande balança, ligada a um cilindro registrador. Ficou comprovado que
durante uma sessão o médium perdeu, gradualmente, até 75% do seu peso.
Sabe-se que o ectoplasma cedido pelo médium deve retornar ao seu corpo em
condições higiênicas adequadas, o que exige o máximo de seriedade em reuniões desse
estilo. Em outras, tal qual a de assistência aos enfermos e mesmo a de desobsessão onde
comparecem Espíritos amputados, deformados, paralíticos, dentre outros, o ectoplasma
cedido pelo grupo com a finalidade de harmonizar o perispírito dos enfermos, geralmente
não é devolvido, pelo fato óbvio de ter sido utilizado na modelagem perispiritual da
clientela, sanando-lhes as deficiências.
Em ocasiões onde é exigida a formação de quadros para revelações aos videntes,
exposição de cenas de vidas passadas dos comunicantes, o que é levado a efeito através de
tela especial chamada de condensador ectoplásmico, este fluido também é largamente
empregado. O mesmo se pode dizer do fenômeno de transporte, no qual o Espírito mistura
seu fluido ao do médium, em proporções iguais, envolvendo com essa mistura fluídica o
objeto a ser transportado, largando-o no lugar que deseja.
Como vimos, são diversas as aplicações do ectoplasma, fluido ainda não
completamente conhecido em sua composição, cabendo aos pesquisadores interessados em
aprofundar-se nesse estudo a tarefa de estabelecer sua fórmula química e aplicação.
O fluido, sendo o material manipulado por Deus na gênese planetária, de onde Ele
fez surgir a luz, as águas, as terras e tudo quanto existe neste vasto mundo, ainda será
objeto de estudos por muitos séculos. Precisamos entendê-lo para conhecermos a nós
próprios. Isso justifica a presença desse tema em qualquer estudo acerca da evolução
espiritual. Amai-vos e instruí-vos. Não há outra maneira de crescer espiritualmente senão
através do conhecimento e do amor.
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Magnetismo

Magnetismo é a designação comum às propriedades características dos campos e


das substâncias magnéticas. Todavia, interessa-nos o magnetismo animal, a força vital de
que são dotados, segundo Mesmer, certos indivíduos, e que propicia uma série de
fenômenos paranormais.
Deve-se a Mesmer, criador do Mesmerismo, doutrina que se encontra resumida em
27 proposições da sua primeira memória impressa em 1779, a divulgação mais ostensiva do
magnetismo, de vez que este, sob diferentes denominações era conhecido desde os tempos
mais remotos. São alguns de seus postulados: Os astros exercem influência uns sobre os
outros e sobre os corpos animados; o fluido universal é o agente dessa influência; essa
ação recíproca está submetida a leis mecânicas; os corpos se assemelham aos ímãs,
podendo transmitir a outros corpos animados ou inanimados essa propriedade magnética;
a doença é o resultado do desequilíbrio na distribuição do magnetismo pelo corpo.
Mesmer, mesmo materialista, acreditava na existência do fluido universal e a ele
atribuía a origem do magnetismo, sendo esta a razão principal da não aceitação por parte da
ciência das suas teorias. Os cientistas, em sua maioria eivados de preconceitos, ainda com
enorme fobia ao sobrenatural ou a tudo que traga um rótulo espiritual, tiveram que esperar
que Puységur descobrisse o hipnotismo e que James Braid o aprofundasse e divulgasse,
atribuindo-lhe a explicação científica, abaixo descrita para então acolherem o magnetismo.
O olhar fixo e prolongado, paralisando os centros nervosos nos olhos e suas
dependências, e destruindo o equilíbrio do sistema nervoso, produz os fenômenos em
questão. Este “abre-te sésamo” fez com que os magnetizadores, a partir de então chamados
de hipnotizadores, pudessem continuar com suas estranhas técnicas sem sofrerem o
exorcismo inquisitorial por parte dos “senhores do saber”.
Fornecida à ciência uma teoria materialista, chave para abrir suas portas não tão
confiáveis, passa o magnetismo, com o nome de hipnotismo, a fazer parte da ciência oficial.
Satisfeito o orgulho de casta, aceita a parte como se fosse o todo, aguarda-se o momento em
que a ciência venha a se despir do seu tradicional orgulho científico e admitir o magnetismo
como parte das ciências e das leis naturais. Espera-se que, para que seja feito justiça, da
mesma maneira como trataram Galileu, perseguindo-o e posteriormente reconhecendo-o
como um sábio, que sejam atribuídas as honras devidas aos incompreendidos em sua época,
notadamente Mesmer, não por deméritos seus, mas pela ignorância e pelo orgulho de seus
contemporâneos.
Feito este breve comentário, vejamos o que Kardec, que centralizava energias no
sentido de aprofundar o estudo sobre o magnetismo quando veio a desencarnar, obteve dos
Espíritos sobre este tema: Há entre os seres pensantes laços que não conheceis ainda. O
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magnetismo é o guia desta ciência que compreendereis melhor mais tarde. ( O Livro dos
Espíritos – pergunta 388 ). Esta resposta foi obtida quando Kardec indagava sobre as
simpatias e antipatias terrenas, a qual viria a ser desdobrada em obra posterior intitulada O
Livro dos Médiuns.
No capítulo XIV desta obra, Kardec trata dos médiuns curadores, pois assim
classifica os magnetizadores: A magnetização comum é uma verdadeira forma de
tratamento, com a devida seqüência, regular e metódica. Todos os magnetizadores são
mais ou menos aptos a curar, se souberem cuidar do assunto convenientemente.
Para Kardec, a magnetização é uma terapia e o magnetizador um médium curador,
desde que estude e domine as técnicas de magnetizar positivamente. Partindo deste
raciocínio, ele chegou à seguinte conclusão: É a atuação dos bons Espíritos que, evocados
através de uma prece sincera, vindos em auxílio do médium, que aumenta a eficácia
curadora do magnetismo humano.

Vejamos a opinião dos Espíritos responsáveis pela codificação do Espiritismo a


respeito do tema:

- Podemos considerar as pessoas dotadas de poder magnético como formando uma


variedade mediúnica?
- Não podes ter dúvida alguma.
- Entretanto, o médium é um intermediário entre os Espíritos e os homens, mas o
magnetizador, tirando sua força de si mesmo, não parece servir de intermediário a
nenhuma potência estranha.
- É uma suposição errônea. A força magnética pertence ao homem, mas é
aumentada pela ajuda dos Espíritos a que ele apela. Se magnetizas para curar, por
exemplo, e evocas um bom Espírito que se interessa por ti e pelo teu doente, ele
aumentará a tua força e a tua vontade, dirige os teus fluidos e lhes dá as qualidades
necessárias.
- Algumas pessoas têm realmente o dom de curar por simples toques, sem o
emprego dos passes magnéticos?
- Seguramente. Não tens tantos exemplos?
- Esse poder é transmissível?
- O poder, não, mas sim o conhecimento do que se necessita para exercê-lo, quando
se o possui.
- Existem fórmulas de preces mais eficazes do que outras, para este caso?
- Só a superstição pode atribuir virtudes a certas palavras. E somente os Espíritos
ignorantes ou mentirosos podem entreter essas idéias, prescrevendo fórmulas. Entretanto,
pode acontecer que, para certas pessoas pouco esclarecidas e incapazes de entender as
coisas puramente espirituais, o emprego de uma fórmula contribua para infundir
confiança. Nesse caso, a eficácia não é da fórmula, mas da fé que foi aumentada pela
crença no uso da fórmula.
Posteriormente, no livro A Gênese, Kardec elucida acerca das maneiras segundo as
quais a ação magnética pode operar-se:
a) Pelo próprio fluido do magnetizador; é o magnetismo propriamente dito, ou
magnetismo humano, cuja ação se acha adstrita à força e, sobretudo, à
qualidade do fluido.
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b) Pelo fluido dos Espíritos, atuando diretamente e sem intermediário sobre o


encarnado, seja para o curar ou acalmar um sofrimento, seja para provocar o
sono sonambúlico espontâneo, seja para exercer sobre o indivíduo uma
influência física ou moral qualquer. É o magnetismo espiritual, cuja qualidade
está na razão direta das qualidades do Espírito.
c) Pelos fluidos que os Espíritos derramam sobre o magnetizador, que serve de
veículo para esse derramamento. É o magnetismo misto, semi-espiritual, ou, se
o preferirem, humano-espiritual. Combinado com o fluido humano, o fluido
espiritual lhe imprime qualidades de que ele carece. Em tais circunstâncias, o
concurso dos Espíritos é amiúde espontâneo, porém, as mais das vezes,
provocado por um apelo do magnetizador.

Kardec, ao estudar o magnetismo, reforçou o valor da prece e a atuação dos


Espíritos, aspectos não enfatizados por Mesmer. Este referia-se à atuação do fluido
sobre os corpos, dando-lhe uma origem puramente material: O fluido magnético por si
só, não apresenta nenhuma propriedade terapêutica, mas age principalmente como
elemento de equilíbrio. De sorte que o desequilíbrio das forças, ou digamos melhor,
dos fluidos magnéticos que envolvem todos os órgãos do corpo humano, acarreta a
desordem nas funções desses órgãos e, daí, a caracterização do que chamamos doença.
Todas as vezes, portanto, que se rompe o equilíbrio, quer por excessiva condensação
ou concentração, quer por excessiva dispersão de fluidos, cumpre restabelecê-lo e, daí,
a cura.
O Codificador admite a doença como desequilíbrio energético, mas afirma que
os Espíritos podem imprimir aos fluidos qualidades curativas, auxiliando o
magnetizador na cura dos enfermos: Os Espíritos atuam sobre os fluidos espirituais,
não manipulando-os como os homens manipulam os gases, mas empregando o
pensamento e a vontade. Para os Espíritos, o pensamento e a vontade são o que é a
mão para o homem. Pelo pensamento, eles imprimem àqueles fluidos tal ou qual
direção, os aglomeram, combinam ou dispersam, organizam com ele conjuntos que
apresentam uma aparência, uma forma, uma coloração determinadas; mudam-lhes as
propriedades, como um químico muda a dos gases ou de outros corpos, combinando-os
segundo certas leis.
Kardec enfatiza ainda que os fluidos trazem o cunho do ódio, da inveja, do ciúme,
do orgulho, do egoísmo, da violência, da hipocrisia, da bondade, da benevolência, do amor,
da caridade, da doçura e de tantos outros sentimentos a que estejam vinculados os Espíritos
que os manipulem. Sob o ponto de vista físico, continua o Codificador, são excitantes,
calmantes, penetrantes, adstringentes, irritantes, dulcificantes, narcóticos, tóxicos,
reparadores, expulsivos, dentre outros. O quadro dos fluidos, conclui Kardec, seria, pois, o
de todas as paixões, virtudes e vícios da humanidade e das propriedades da matéria,
correspondentes aos efeitos que eles produzem.
Quanto a este assunto, podemos afirmar que cada magnetizador, em virtude do
estágio moral e intelectual em que se encontra, com predominância do moral, atribui aos
fluidos que maneja qualidades suas, doando não apenas do que tem, mas, sobretudo, do que
é. Lafontaine, em seu livro “A Arte de Magnetizar”, descreve em concordância do que
expomos a seguinte experiência: Apresentei a um sonâmbulo um copo com água
magnetizada por diversos discípulos meus e ele descreveu tantas camadas de fluidos
quantos eram os magnetizadores, distinguindo uns dos outros.
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Como principal conclusão dessa experiência registrou-se o fato de que a água possui
um poder de impregnação diferenciada no que se refere aos fluidos.
Em Obras Póstumas, Kardec reforça as qualidades que deve possuir o magnetizador
para bem efetuar o seu trabalho: A faculdade de curar pela imposição das mãos deriva
evidentemente de uma força excepcional de expansão, mas diversas causas concorrem
para aumentá-la, entre as quais são de colocar-se, na primeira linha: a pureza de
sentimentos, o desinteresse, a benevolência, o desejo ardente de proporcionar alívio, a
prece fervorosa e a confiança em Deus; numa palavra: todas as qualidades morais.
Bezerra de Menezes, em sua obra A Loucura Sob um Novo Prisma, assim se
expressa sobre a transmissão fluídica no magnetismo: Vê-se assim, que a ação magnética
que o Espírito do magnetizador imprime no seu perispírito vai influenciar o perispírito de
quem recebe a ação. Vale dizer que a transfusão do fluido nervoso se opera de perispírito
a perispírito. E, em se chegando a essa conclusão, mais seguramente se compreenderá a
natureza espiritual da ação magnética e as íntimas relações entre Espiritismo e
Magnetismo. É por esse motivo que consideramos o magnetismo como meio, como
processo, e não como ciência especializada.
Graças aos sonâmbulos, que em seus transes não somente vêem mas descrevem com
detalhes o fluido magnético que se desprende dos médiuns através de seus dedos, olhos,
boca, tórax, dentre outras partes, é que chegamos à seguinte síntese, feita por pesquisadores
e editada por Deleuze em sua obra História Crítica do Magnetismo.

1. O fluido magnético, que nos escapa continuamente, forma em torno do nosso corpo
uma atmosfera. Não sendo impulsionado pela nossa vontade, não age sensivelmente
sobre os indivíduos que nos cercam; desde, porém, que nossa vontade o impulsione e o
dirija, ele se move com toda a força que lhe imprimirmos.
2. O fluido penetra todos os corpos animados e inanimados.
3. O fluido possui um odor, que varia segundo o estado de saúde física do indivíduo, dos
seus dotes morais e espirituais, e do seu grau de evolução e pureza. Melhor diríamos
afirmando, em síntese, que o odor e a coloração do fluido estão na razão direta do
estado de evolução da alma ou do Espírito.
4. O fluido é visto pelos sonâmbulos como um vapor luminoso, mais ou menos brilhante, e
que pode tomar outras colorações, azul, vermelha, escura, dentre outras, não só como
já se disse, em razão da evolução de cada um, mas também como resultante de um
estado acidental da alma, em virtude de doença física ou moral.
5. O fluido magnético não é o fluido elétrico; um e outro são modificações do fluido
universal, convindo assinalar que a maior parte dos sonâmbulos têm verdadeira
idiossincrasia pela eletricidade.
6. O fluido se propaga a grandes distâncias, o que depende, entretanto, da qualidade e da
força do magnetizador, e igualmente da maior ou menor sensibilidade magnética do
paciente.
7. O fluido está também sujeito às leis de atração, repulsão e afinidade. Nem todos os
corpos são igualmente bons condutores.
8. Precisamente porque o fluido varia de indivíduo para indivíduo, é de notar-se que
certos magnetizadores têm mais facilidade em curar determinadas moléstias do que
outras. Sob esse aspecto, porém, convém não esquecer que, além do fluido
propriamente humano, outros fluidos dotados de diferentes propriedades, que ainda
não conhecemos, poderão intervir na ação magnética.
59

9. O estado atmosférico pode de certo modo aumentar ou diminuir a intensidade do fluido


e, portanto, a eficácia da magnetização. O tempo seco, principalmente no verão, é mais
favorável à ação magnética. Durante os dias tempestuosos, quando a atmosfera está
carregada de eletricidade, é aconselhável evitar a magnetização.
10. A quantidade de fluidos não é igual em todos os seres orgânicos, variando segundo as
espécies, e não é constante, quer em cada indivíduo, quer nos indivíduos de uma
espécie. Alguns há, que se acham saturados desse fluido, enquanto outros o possuem
em quantidade apenas suficiente.
11. São extremamente variados os efeitos da ação fluídica sobre os doentes, de acordo com
as circunstâncias. Algumas vezes é lenta e reclama tratamento prolongado; doutras
vezes é rápida, como uma corrente elétrica. Há pessoas dotadas de tal poder que
operam curas instantâneas nalguns doentes, apenas por meio da imposição das mãos,
ou, até, exclusivamente por ato da vontade. A cura se opera mediante o fortalecimento
e reequilíbrio das moléculas malsãs. O poder curativo estará, pois, na razão direta da
pureza da substância administrada, mas depende também da energia da vontade que,
quanto maior for, tanto mais abundante emissão fluídica provocará e tanto maior força
de penetração dará ao fluido. Depende ainda das intenções daquele que deseje realizar
a cura, seja homem ou Espírito. Os fluidos que emanam de uma fonte impura são quais
substâncias medicamentosas alteradas.
12. A ligação entre o fluido magnético e os corpos inanimados que o recebem é tão íntima
que nenhuma força física ou química pode destruí-lo. Os reativos químicos e o fogo
nenhum efeito têm sobre ele.
13. O magnetismo apenas ensaia os seus primeiros passos e muito pouco sabemos sobre o
seu principal veículo, o fluido, e somente o estudo e a experimentação poderão um dia
descortinar o vasto e ilimitado caminho a percorrer.

Pelo exposto, podemos concluir que qualquer pessoa pode magnetizar, porque todos
possuem o fluido magnético. Todavia, o resultado que se obtém não é o mesmo para todos
os indivíduos, de vez que apenas as dotadas da faculdade especial, chamada por Kardec de
mediunidade curadora, possuem a força magnética em quantidade suficiente para
magnetizar com eficiência.
Além das observações já registradas acima, cumpre-nos advertir que, sendo o
magnetizador um médium, a sua atuação deve obedecer às mesmas regras e cautelas
aconselhadas aos médiuns em geral. Aqui também o exercício prolongado ocasiona
subtração de fluidos, gerando a fadiga, a ser reparada com o repouso.
Mesmo não escrevendo uma obra específica sobre o tema, Kardec expôs de forma
elegante e didática relevantes aspectos do magnetismo, muito contribuindo para o
entendimento e a aplicação dessa terapia cada vez mais utilizada nos dias atuais.
Entendendo que o ser humano produz, armazena, recebe e doa fluidos, que a depender
da sua afinidade com as potências angélicas mais se tornaria dinâmico no trato com essa
realidade fluídica, o colocou na posição de ímã vivo, a influenciar e receber influência do
meio em que se encontra. Suas linhas de força estabelecem relações de atração ou de
repulsão, formando assim ao seu redor o clima propício ao seu desenvolvimento
harmonioso ou conflituoso.
Todavia, só com o estudo gerador e indutor do conhecimento e da disciplina, que em
sua aplicação promove a superação dos obstáculos que se interpõem ao crescimento
espiritual, o Espírito estará apto a vencer a si próprio e ao mundo.
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Deus nos envia sempre seus bons fluidos, mas nem todos têm a capacidade de retê-los.
Esforcemo-nos. Essa é a lição do dia.

Feiticeiros e talismãs

Como sempre pautamos nossos estudos e pesquisas na Codificação Espírita,


iniciaremos a discussão desse capítulo utilizando as perguntas e respostas contidas em “O
Livro dos Espíritos”, Capítulo IX, a partir da pergunta 551.
No citado capítulo, apreende-se que talismã, segundo a denominação comum, significa
algo que através de um poder mágico seria capaz de afastar desgraças ou malefícios. Para
os feiticeiros, são objetos de formas extremamente variáveis e feitos com substâncias
diversas, contendo em si energias dinamizadas que foram ali acumuladas visando criar uma
aura protetora para envolver o seu possuidor, com a finalidade de amenizar ou neutralizar o
impacto de fluidos perniciosos.
Será que podemos “fluidificar” um objeto qualquer, acumulando sobre ele camadas de
fluidos com funções específicas, tornando-o, quando em contato com o corpo de alguém,
ou nas suas proximidades, uma espécie de campo repulsivo às investidas fluídicas hostis?
Acreditamos que sim, pois teoricamente não existem argumentos científicos que
provem o contrário. Aprendemos com os Espíritos que nos trouxeram a Doutrina Espírita
que um fluido pode atrair um outro ou repeli-lo. Se um talismã estiver revestido por
camadas de fluidos manipulados com finalidade e características próprias para repelir ou
neutralizar outros já esperados, terá chances de fazê-lo. Mas essa proeza só será levada a
efeito por pessoas devidamente treinadas e conhecedoras de tal arte.
Todavia, o talismã, por si mesmo, sem o devido manuseio prévio do feiticeiro, nada
pode contra qualquer agressão do meio. É a mente de quem o prepara que produz a
acumulação e a dinamização fluídicas necessárias ao seu objetivo. Em quem o utiliza, será
sempre um indutor, a influenciar a mente para que ela própria construa essa cortina
protetora à sua integridade física. Assim como determinada pessoa necessita de altares e
figuras de santos para orar, de incensos e mantras para gerar uma sintonia, o que na
realidade é uma “muleta” que a ampara, um indutor do pensamento, também aquele que
quer sentir-se protegido por um sobretudo fluídico ( ter o corpo fechado ) mas que ainda
não percebeu a sutileza e o poder modelador do pensamento, recorre a meios materiais que
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o motivam, na maioria das vezes inconscientemente, a construir, via talismã, a sua proteção
fluídica.
Logicamente que esta proteção é alimentada pela crendice de que ela terá, a partir do
instante em que o use, o “corpo fechado”. Na realidade, o que acontece é que, sob a
imposição da vontade do querer, formar-se-á em torno de si um colete fluídico capaz de
bloquear petardos, igualmente fluídicos, emitidos por pessoas de menor penetração mental
que ela.
Claro que esse talismã não terá o poder de interferir nos acontecimentos a ela atrelados
por força da lei de ação e reação. Seu efeito será mais psicológico que material, pois como
foi dito acima, o pensamento é que rege a vida. Acreditamos que assim como os nichos
que guardam figuras angélicas se encontram impregnados por camadas de fluidos
luminosos ali depositados pelas preces dos adoradores firmando-se como pontos de
repulsão para entidades inferiores, nos talismãs e escapulários, igualmente, acumulam-se
fluidos benéficos que, em última análise, a depender do comportamento moral do seu
portador, podem funcionar como elemento inibidor de investidas espirituais inferiores.
Todos poderão dizer: mas é o comportamento ético que mantém os Espíritos inferiores
afastados dessa pessoa. Concordamos que sim. Falamos em tese e nos fundamentamos na
manipulação dos fluidos, o que nos permite especular sobre a ocorrência dessas reais
possibilidades. O pensamento é essencial. Quem vigia e ora forma ao seu redor uma espécie
de clima psíquico facilmente identificável pelos bons e maus Espíritos, o que promove a
aproximação daqueles e o afastamento destes.
Vejamos o que Kardec indaga aos Espíritos ( pergunta 551 de “O Livro dos Espíritos ) e
o que estes respondem sobre o tema que desenvolvemos:

- Pode um homem mau, com a ajuda de um mau Espírito que lhe é devotado, fazer mal
ao seu próximo?

- Não, Deus não o permitiria.

A pergunta não esclarece se o próximo daquele homem mau era igualmente um homem
mau ou um devedor da lei. A resposta, generalizada, pecou por não levar em consideração
uma lei muito simples, a lei de causa e efeito. Um homem mau pode sofrer o assédio e a
agressão de outro homem mau, que para melhor planejar sua vingança pede auxílio a
Espíritos trevosos. Digo mesmo que é fato comum, devidamente comprovado em reuniões
de desobsessão, encarnados devedores da lei caírem nas malhas de perseguidores,
chamados a ofício por encarnados que lhes querem o mal.
Não menosprezemos a força das trevas, que há milênios provoca quedas entre os
encarnados e retarda a evolução do planeta. Não nos julguemos imunes às suas investidas,
de vez que muitos são os que se comprazem no mal e não possuem escrúpulos em espalhá-
lo até o limite de suas forças.
Feiticeiros se especializam em minar pelas bases empreendimentos valorosos, mas
que não apresentam os devidos cuidados quanto à presença dessa força invisível e atuante,
força esta que está mais na nossa fraqueza em repeli-la com o devido vigor que nos
pretensos poderes de que se outorgam.
Não nos enganemos quanto a essa questão. Um homem bom ( nem Jesus aceitou
este título) tem a sua proteção respaldada por seus próprios atos. Pela lei de afinidade,
possui ele amigos igualmente bons que o auxiliam e o amparam em suas dificuldades. Por
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outro lado, pela mesma lei, repele as companhias más, que ficam a observá-lo de longe,
esperando o momento em que ele cometa um deslize. Mas um homem mau pode ter
parceiros maus aos quais recorre para a realização de suas torpezas. E se aquele que lhe é
alvo não tem a proteção que as boas obras credenciam, tudo de mau pode ser esperado, pois
da aliança entre a vingança e a inferioridade moral só pode surgir dor e degradação.

- Que pensar da crença no poder que teriam certas pessoas de fazer malefícios?

- Certas pessoas têm um poder magnético muito grande, do qual podem fazer mau
uso se seu próprio Espírito é mau e, nesse caso, elas podem ser secundadas por outros
maus Espíritos. Mas não acrediteis nesse pretendido poder mágico que só existe na
imaginação de pessoas supersticiosas, ignorantes das verdadeiras leis da Natureza. Os
fatos que mencionam são fatos naturais mal observados e, sobretudo, mal compreendidos.

Parece-me que esta resposta fortalece o ponto de vista acima exposto, no qual um
homem mau pode praticar o mal contra seu próximo, secundado por um mau Espírito.

- Qual pode ser o efeito das fórmulas e práticas com ajuda das quais certas pessoas
pretendem dispor da vontade dos Espíritos?
- O efeito de torná-las ridículas, se são de boa-fé; caso contrário, são patifes que
merecem um castigo. Todas as fórmulas são enganosas; não há nenhuma palavra
sacramental, nenhum sinal cabalístico, nenhum talismã que tenha uma ação qualquer
sobre os Espíritos, porque estes são atraídos pelo pensamento e não pelas coisas
materiais.
Voltamos aqui ao uso do talismã como indutor do pensamento, atraindo um Espírito
para junto daquele que o evoca. Para situações tais, encontramos em “O Livro dos
Médiuns” um atenuante a favor dos talismãs: Pode acontecer que, para pessoas pouco
esclarecidas e incapazes de entender as coisas puramente espirituais, o emprego de uma
fórmula contribua para lhes infundir confiança. Nesse caso, a eficácia não é da fórmula,
mas da fé que foi aumentada pela crença no uso da fórmula.

Pelo exposto, não restam dúvidas quanto a ação do pensamento como fator de
atração entre os Espíritos. Contudo, a crença de que um talismã é capaz de atraí-los ou
repeli-los pode, através da indução, ajudar determinadas pessoas a realizarem atos para os
quais elas não se julgavam capazes. O talismã, nesse caso, é mais que um catalisador. É o
gatilho que dispara a força do pensamento, acelerando a reação espiritual que mobiliza e
direciona a fé. Sem ele, essas pessoas poderiam, por algum tempo, continuar
desacreditando em seus potenciais, permanecendo inativas, com seus poderes adormecidos,
à espera de conhecerem a si próprias e de quanto são capazes.
Lembramos, fechando esta parte do capítulo, de que não estamos aqui defendendo o
uso de fórmulas ou, o que dá no mesmo, talismãs ou outro adereço qualquer com a
finalidade de atrair Espíritos benfeitores ou não. Estamos afirmando que existem pessoas
que ainda desconhecem o poder do pensamento e a maneira correta de utilizá-lo,
necessitando de algo que funcione como um apêndice que as liguem àquilo que desejam
entrar em contato. Esta parece ser a função dos talismãs.
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Os feiticeiros

Continuemos ainda no capítulo citado a observar como os Espíritos se reportam aos


feiticeiros, tema não aprofundado devidamente como seria desejável devido a sua
importância e constância nas reuniões de desobsessão.

- Que sentido se deve dar à qualificação de feiticeiro?

- Aqueles que chamais feiticeiros são pessoas, quando de boa-fé, dotadas de certas
faculdades, como a força magnética ou a segunda vista. Então, como eles fazem coisas que
não compreendeis, os acreditais dotados de uma força sobrenatural. Vossos sábios,
freqüentemente, não passam por feiticeiros aos olhos das pessoas ignorantes?. ( Pergunta
555 )
A prática da feitiçaria

Nossos amigos espirituais haviam comunicado que no estudo sobre feiticeiros


contaríamos com o auxílio de alunos desencarnados interessados neste tema, de outrora
praticantes da magia negra, que agora aplicavam seus conhecimentos no combate aos seus
antigos hábitos e de Espíritos que na última encarnação haviam ocupado a função de
feiticeiros em tribos da África.
Igualmente, trataríamos em nossas reuniões de desobsessão, de casos ligados
diretamente à feitiçaria, observando através de médiuns desdobrados aos locais onde se
pratica tal malefício, a sua metodologia, bem como algumas características daqueles que a
exercem. O resultado dessa promessa não se fez esperar.
Estávamos no início da reunião de desobsessão, quando, após a leitura de “O
Evangelho Segundo o Espiritismo”, uma das médiuns passou a descrever o que via,
orientada pelos instrutores espirituais. Estou no cemitério. Inútil dizer que não estou com
medo, pois assistindo ao que vejo qualquer pessoa se deixa contaminar por esse
sentimento. A presença de índios comandados pelo chefe guerreiro Luiz Tibiriçá consegue
amenizar o misto de angústia e medo que sinto. Contribui para isso a certeza de que estou
aqui a trabalho do bem e que não devo hesitar seja qual for a ordem que receba. Vejo
vários caixões perfilados, todos com crianças em seu interior. A primeira pergunta que
faço ao instrutor ao meu lado é: por que crianças precisam passar por tamanha agressão?
Não são crianças, responde ele. Não se deixe impressionar pela forma perispiritual desses
Espíritos que são antigos devedores da lei em doloroso resgate, conclui.
A maneira como ele me responde causa-me a impressão de que não devo fazer
perguntas, mas concentrar-me na descrição do que vejo. Algumas dessas crianças, ou
melhor, desses Espíritos, desencarnaram vítimas de aborto e outros por estupro seguido de
morte. O ritual de magia negra que vejo parece ser uma homenagem ao chefe trevoso que
acolhe tais vampiros que se deixaram viciar pelo sexo e pelo sangue. O aspecto de cada
um deles lembra figuras de ficção científica ou de filmes de terror. Possuem deformações
nos órgãos sexuais, que se apresentam desproporcionais, e uma espécie de tromba que
lembra o elefante, embora seja menor. Com essa tromba, eles sugam o fluido vital do
sangue. Quando o sangue dos animais é derramado, observo que a sua vitalidade é
64

sugada, dele desprendendo-se como uma fumaça. Estamos aqui para resgatar uma das
crianças que se encontra em poder deles.
O cenário é de guerra. Tibiriçá se mantém alerta à frente de seus guerreiros. O
cemitério está deserto. Parece ser um desses campos situados no interior. Não sei como
isso aconteceu, mas tenho a impressão de estar menor. Sinto-me como uma criança de
aproximadamente dez anos*. O instrutor coloca uma espécie de proteção na minha parte
sexual, um pouco parecida com aqueles cintos de castidade utilizados na Idade Média.
* Indagamos aos nossos instrutores se a médium teve o seu perispírito reduzido através de uma ação
voluntária deles ou se tudo não passara de um efeito ilusório provocado para impressionar os vampiros.
Ocorreu apenas uma ilusão hipnótica provocada pelos magos da espiritualidade maior. Mesmo assim a
médium se sentiu como se realmente fosse uma criança. Foi a resposta obtida.
A essa altura, a médium já parece incorporada, pois transmite as palavras de um dos
vampiros, o que dirigia o ritual, demonstrando toda a ansiedade ao avistar a criança.
Carne nova! Carne nova!
Não tardou muito e o seu riso nervoso transformou-se em desespero.
É armadilha! É armadilha!
Um dos vampiros tentou levantar a médium da cadeira, gritando impropérios e
ameaças mas, dominado, com lanças em seu pescoço e em seus órgãos sexuais, o que eles
mais temem perder, tentou negociar. Os que partiram contra a médium foram queimados,
liberando gritos e maldições.
- Vocês me queimaram, seus malditos. Onde está a caridade que tanto pregam? Eu
faço um negócio. Você me solta e leva a criança que lhe interessa.
- Você não está em condições de negociar. Vamos levar a criança, queira você ou
não.
A luta foi rápida, mesmo porque vampiros não devem ficar muito tempo junto aos
médiuns, em comunicação prolongada, pois alguns deles se aproveitam dessa proximidade
para subtraírem energias vitais dos mesmos. Os que tentaram reagir se viram em chamas e,
sob gritos de pavor e ameaças que não poderiam cumprir, se dispersaram. O objetivo da
missão àquele cemitério fora plenamente realizada. Mas a “aula” não parou por aí. Mais
alguns segundos e já uma outra médium nos advertia: Estou em um quarto de paredes
rústicas que parece ser uma espécie de altar. Em sua parte elevada, vejo cabeças
sangüinolentas de animais. Distingo muito bem a cabeça de um bode. Há sangue nas
paredes, coágulos parecidos com placentas e, estou até sem jeito de dizer isso, mas como é
ordem do instrutor descrever com a máxima fidelidade possível o que vejo, há também
uma peça íntima de mulher manchada com sangue, provavelmente do seu período
menstrual. Que coisa! Há também um triângulo, em cujos vértices encontram-se velas
negras acessas. O feiticeiro, ajoelhado diante da foto de uma mulher, fixa demorada e
profundamente a sua imagem, enquanto pronuncia impropérios contra ela. Você vai
morrer, sua vagabunda! Você vai morrer!, repete ele. Ao seu redor, encontram-se
desencarnados que com ele se identificam mentalmente. A roupa do feiticeiro é preta, com
símbolos vermelhos na blusa. Ele está descalço e acima de sua cabeça está se formando
uma nuvem negra de onde, não seria exagero dizer, raios se desprendem. Essa nuvem
começa a se ligar à mulher, objeto da feitiçaria que ora se desenvolve. A entidade evocada
comparece.
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A médium, que até então a tudo descrevia sem ser notada, muda de tom, já
traduzindo a voz da figura evocada pelo feiticeiro: Algo está saindo errado! Tem alguma
coisa errada aqui! Inicia-se, então, o diálogo com o doutrinador.
- Da nossa parte está tudo certo, pois Deus está conosco e nos assistem os bons
Espíritos.
- Maldição! Vocês vieram atrapalhar nosso trabalho! Por que não cuidam de suas
vidas medíocres, de suas rezas longe daqui?
- Porque nosso trabalho é ir para onde Deus quer e Ele nos quer aqui.
- Se pensam que vou desfazer o trabalho, estão enganados. Não desfaço nada, nem
debaixo de peia!
- Devia repensar o que disse. Ninguém agüenta três chicotadas e mantém a rebeldia
em alta.
- Seus malditos! Quando é que vão aprender que nossas vidas são diferentes e que
deve ser cada um do seu lado?
- Deus constrói pontes entre os dois lados, para que a sua luz chegue a todos os
lugares.
- Luz! Que luz? Vocês não são diferentes de nós! Se julgam santinhos, mas sem
seus protetores seriam facilmente abatidos.
- Já conversamos mais do que devíamos. Agora comece a desfazer o trabalho!
Então o que se viu foram esgares, vômitos, muitos vômitos, embora que,
materialmente, nada a médium tenha posto para fora do seu estômago. Naturalmente tudo
ocorria no campo fluídico, para que o comunicante tivesse a sensação e a certeza de que
havia eliminado todo o sangue que tomara. Ao terminar o “desmanche”, o comunicante
ainda vociferou algumas ameaças.
- Está acabado! Mas isso não vai ficar barato! Nós não visitamos a sua mesa branca
para lhe atrapalhar os negócios. Espero que passe a agir da mesma maneira.
- Vá em paz, amigo. E que Deus nos inspire a fazermos sempre o trabalho certo.

Em seqüência, uma outra médium iniciava a descrever um pântano ao qual fora


levada pelos instrutores espirituais a fim de que o observássemos, incluindo no Projeto que
ora desenvolvíamos, as anotações feitas: Aqui tudo é distorcido. Tenho a impressão de
estar dentro de uma pintura onde as figuras são deformadas. Nem Picasso faria melhor. As
árvores são recurvadas para um lado e os animais, espécies de touros e cavalos, são
inclinados como se tivessem o centro de gravidade deslocado. Tudo parece envolto por
uma espessa neblina e até mesmo o chão pantanoso não é plano. Tenho a impressão de
estar em um plano inclinado, onde tudo pode rolar a qualquer instante. Vejo somente um
Espírito, cujo porte é ereto. Ele traz uma serpente enrodilhada na sua cabeça e já notou a
minha presença.
- Então você queria conhecer um feiticeiro de verdade, não é assim? Pois está
diante dele e não vai mais sair daqui!
O feiticeiro começou a falar, mas não comigo. Utilizando o instrumento mediúnico,
ameaçava a médium que ousara penetrar em seus domínios e procurava nos intimidar, pois
sabia que o escutávamos.
- Eu a apanhei! Agora você é minha prisioneira. Entrei em sua mente e agora você
verá tudo desfocado. Aqui mando eu! Este é o meu território e tudo aqui tem a marca do
meu poder.
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- Você não tem nenhum poder diante de Deus. Tem alguma força mal direcionada,
como um cavalo ou um boi desgovernado. É melhor comportar-se pacificamente, se não
quiser que nossos amigos arrasem com este local e libertem todos os seus prisioneiros.
- Duvido que tenha coragem de dizer isso na minha frente, sem a ajuda dos seus
amigos.
Iniciou-se uma pequena disputa, cada um tentando subjugar mentalmente o outro.
Como não tenho prática em tais combates, tudo que faço é orar e pedir aos bons Espíritos
que me ajudem. Foi então que me veio a idéia de dizer: você já viu como se forma um
tornado? E mentalizei o rodopio do vento, girando e arrastando tudo ao seu redor. A
mentalização ocorreu com tanta nitidez que cheguei a ver o “funil” se formando e se
alargando, engolindo e fazendo girar tudo à sua volta, inclusive a mim, que senti durante o
transe uma certa tontura. O feiticeiro, surpreendido, blasfemou: Seu imbecil! Você quer
matá-la? No mesmo instante, a médium retornou ao grupo. Ao final da reunião, confessou
que a visão do ambiente em que estivera era capaz de atordoar e mesmo enlouquecer
qualquer pessoa que lá permanecesse por um tempo mais demorado .
Mas a noite estava mesmo destinada à observação de feitiçarias. Encerrado um caso,
já um outro se desenhava. E nesse compasso, fomos transferidos para um cemitério fora do
país. A médium, obediente aos conselhos dos instrutores, iniciou por descrever o local a
que fora enviada: Estou em um cemitério, provavelmente fora do Brasil, pois as lápides
apresentam escritos no idioma inglês. Vejo que três pessoas encarnadas, médiuns, retiram
cadáveres dos túmulos, apresentando-se estes em decomposição. O instrutor nos adverte
de que aqui estamos para resgatar Christian, um jovem de dezenove anos que foi seduzido
por uma seita demoníaca e suicidou-se. Os três médiuns têm grande poder de
concentração, pois vejo que se forma entre eles e os três cadáveres, ligados ainda aos
Espíritos que os habitaram, suicidas todos eles, teias semelhantes às produzidas pelas
aranhas. O odor é insuportável! Vampiros viciados em emanações vitais de desencarnados
encontram-se a postos, ansiosos por exercerem seu nefasto ofício. Possuem aparência de
esqueletos. São zumbis que causam pavor. O prêmio destas entidades é sugar os restos de
fluidos vitais desses infelizes que adentraram a morte pelas portas do suicidio.
Estou muito bem amparada nessa observação. Ao meu redor, Dr. Mário Rocha,
Luiz Tibiriça, índios, caboclos e pretos velhos. É uma operação conjunta e muito bonita de
se ver. Aqui não se fala em rótulos religiosos, mas no exercício da caridade, pois ela
pertence a todas as religiões e a nenhuma delas em particular.
Os instrutores colocaram sobre mim um manto espesso e pesado. E...
A médium não chegou a concluir a frase e já um dos vampiros sacudia o seu corpo
em gritos de indignação.
- Eu quero Christian! Ele foi destinado a mim! Ele é um suicida e não tem direito a
qualquer tipo de auxílio. Vocês não têm o direito de intervir, roubando-o de mim.
Geralmente o suicida, como transgressor da lei, a depender das causas que o
levaram ao gesto de rebeldia, pode ou não ser auxiliado nesses instantes de suprema aflição.
O louco que se mata não sabe o que faz. O jovem inexperiente, talvez sob a influência de
alguma droga, subjugado por mentes e argumentos poderosos que o induziram ao suicídio
afirmando ser este o caminho para a felicidade, certamente tem atenuantes que o
credenciam a ser auxiliado. Nesse particular, o vampiro não estava falando a verdade.
- Quem decide se ele merece ajuda ou não é Deus, Senhor de infinita misericórdia.
Quanto a você, se não sair imediatamente da nossa frente, será aprisionado.
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E de repente, eu nunca havia visto tal prática, a médium colou-se à mesa vergando a
sua coluna como um arco.
- Tire essa fera de cima de mim! Quando eu sair daqui, vou caçar vocês de um por
um!
Não demos crédito às ameaças do vampiro. Ele estava sufocado com um tigre em
suas costas, enquanto os outros se debatiam em redes, capturados como peixes, sem
chances de fuga. Enquanto isso, índios e pretos velhos dançavam ao redor da mesa,
formando um cordão de isolamento que nos protegia.

Nossos instrutores haviam avisado que teríamos uma reunião diferente e que,
segundo o plano de estudos que havíamos traçado, tudo transcorrera como o planejado.
Despedimo-nos, após os comentários acerca dos trabalhos realizados, com a certeza
de que ainda teríamos muitas surpresas pela frente. Um tigre! Quem diria! Um tigre.

Aos poucos, fomos nos adentrando desordenadamente no campo da feitiçaria e da


magia, até que a experiência nos aconselhou algumas providências. Sem limitar o campo a
ser estudado, correríamos o risco de ficar andando em círculos, sem o resultado prático
esperado. Esquematizamos, então, o tema, montando alguns tópicos.
1. O perfil do feiticeiro
2. Como é feito o feitiço
3. O desmanche do feitiço
4. A proteção contra o feitiço

Não queríamos ficar lidando simultaneamente com dois temas ( magia e feitiço ) e,
com a ajuda dos nossos instrutores, convencionamos chamar de magia, para efeito didático
neste estudo, o ramo do conhecimento que aplica as leis naturais para o progresso da
humanidade, ou seja, o mago seria um estudioso das ciências ocultas ou generalizadas, algo
como os antigos alquimistas, os que manipulam as leis de maneira mais refinada e com
objetivos elevados. Quanto ao feiticeiro, seria aquele que lida com forças mais primitivas e
ligadas ao plano astral. A partir de então, procuramos traçar um perfil do feiticeiro, o que
foi se tornando possível agregando-se, no decorrer dos estudos, os conhecimentos
vinculados à sua personalidade.
O feiticeiro é geralmente um médium que só revela seus conhecimentos a um seu
aprendiz ou iniciado. Na antigüidade, eles se preparavam em escolas, através de rígidas
provas e férrea disciplina. Tão antigo quanto os primeiros habitantes, o feitiço sobrevive até
hoje em todos os quadrantes do planeta, principalmente nas sociedades mais primitivas,
com eficiência e respeito por parte daqueles que o conhecem. Os feiticeiros são consultados
e aliciados para trabalhos que, geralmente, levam a efeito com o auxílio de comparsas
desencarnados. Trabalhando com leis naturais desconhecidas por grande parte dos seres
humanos, o feiticeiro não as altera, posto que as leis naturais são imutáveis. Sabe-se que
tudo na natureza se encaminha para o bem e para o belo, essa é a diretriz traçada por Deus
para o destino da humanidade. Todavia, através do mau uso do livre arbítrio e da dualidade
existente na natureza, o feiticeiro pode manipular o conhecimento dessas leis para fins
desejados, desviando o sentido de algumas delas através de outras, sem com isso derrogar a
ordem estabelecida no universo.
Podemos dizer que o feiticeiro pode retardar, embora momentaneamente, a
velocidade, não o curso, da caminhada evolutiva de alguém, através do feitiço. Isso porque
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aquele que é vítima de tal malefício se permitiu, através de seus desregramentos, a que este
o atingisse. A metodologia do ser humano no presente estágio evolutivo, no que diz
respeito ao seu crescimento espiritual, parece contaminada de incerteza, fazendo-nos crer
que é justo admitir o erro como tentativa de acerto. A queda e o retardo podem ser
encarados dessa maneira, como variáveis comuns no caminho da evolução que, visto
objetivamente, tem sentido único.
É óbvio que isso faz parte da aprendizagem humana. Certamente daqui a cinco mil
anos as leis naturais serão as mesmas, mas ninguém as usará para ferir o seu próximo.
Ainda existirão as mesmas dualidades, os venenos, a mediunidade, o poder da mente, mas
somente o polo positivo das coisas e dos seres serão enfatizados. Até lá, ainda teremos que
curtir muita feitiçaria no planeta, alimentada pelos desmandos de seus próprios habitantes.

Nosso amigo mago

Após demorado estudo sobre feitiçaria, destinamos parte do tempo da reunião de


aprofundamento doutrinário para que nossos amigos espirituais se manifestassem sobre o
tema. O Espírito comunicante, que se identificou como sendo um dos alunos que
acompanhava o curso sob a supervisão dos instrutores da Casa, disse ter sido feiticeiro em
encarnação passada, na África, estando agora destacado para nos auxiliar no esclarecimento
de pontos em que sentíamos dificuldades. Não diria o seu nome, pois este era um detalhe
sem importância. Gostaria de ser lembrado pelo grupo apenas como um ex-feiticeiro,
atualmente dedicado à magia, ou seja, trabalhando arduamente para se tornar um mago,
segundo a definição que adotáramos em nosso estudo. Nos trabalhos de feitiçaria, seu nome
ainda é utilizado, confessou-nos, mas não atende há muito tais evocações.
- Bom dia, amigos. Inicio este diálogo fazendo uma severa advertência àqueles que
pensam em estudar a feitiçaria. Eu não sou um cientista que conquistou um diploma através
de pesquisas em uma universidade. Tenho um título que a vida me outorgou mediante
dedicados estudos, vivências e experiências práticas, nem sempre bem direcionados. Quero
dizer, inicialmente, que a feitiçaria deve ser tratada com respeito e com responsabilidade.
Que nesse campo quem diz conhecer tudo não conhece nada. Aqueles que, por orgulho ou
por se sentirem donos da verdade negam a fenomenologia existente na natureza, não são
nada. Se toda a natureza é constituída de energia, não lhe parece lógico que possamos
manipulá-la? O universo tem leis criadas por Deus, sempre direcionadas para a harmonia
dos seres que nele habitam. Todavia, o caminho reto dessas leis pode ser
momentaneamente desviado, gerando, posteriormente, muita dor para quem ousa desafiá-
las. As experiências com material radioativo empregado na Segunda Grande Guerra
Mundial, manipulado por “feiticeiros modernos”, ainda geram sofrimento e ódio em
milhares de Espíritos. As guerras químicas e bacteriológicas são outros flagelos atuais que
ameaçam a paz na Terra. O homem que ofendeu seus semelhantes através de desvios das
leis naturais desejaria mil vezes ter nascido louco ou que um raio lhe tivesse encurtado a
existência. Essa lição todo feiticeiro aprende, muitas vezes através dos efeitos que sente na
pele ao tentar brincar de Deus. É preciso fazer constar em seu livro que a natureza não
deixa sem resposta nenhuma agressão praticada contra ela. Esse é um ensinamento básico
da feitiçaria.
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Meus caros amigos, estou fazendo esse preâmbulo à guisa de advertência, para que
haja mais respeito para com as leis naturais. Qualquer desvio de rota provocado na mais
modesta dessas leis, mesmo que não determine prejuízo a nenhum ser encarnado, traz para
o infrator o débito e a responsabilidade da reparação. Quando digo reparação, traduza-se
dor, moeda corrente na contabilidade humana por falta de aquisição de méritos maiores
com os quais possa saldar dívidas contraídas. A natureza não se deixa estancar em seus
caminhos, embora, às vezes, se detenha por instantes, mas sem jamais retroagir. Se alguém
a fere, ela se recompõe quase sempre através de desastres e calamidades. Seu papel é
cumprir as determinações de Deus sem se “importar” se está acolhendo ou matando. Como
entidade viva, mas destituída de piedade ou outra emoção qualquer, faz o que o
determinismo da lei lhe impõe. Este é outro ensinamento que o aprendiz de feiticeiro deve
gravar em sua memória.
Minha preocupação, e devo conscientizá-los disso, é quanto à segurança de todos,
ao estudarem um tema tão explosivo quanto a feitiçaria. Saibam que centenas de Espíritos
estão interessados neste conhecimento e que não medirão esforços para dele se apoderarem.
Somente o amor e a oração, dois escudos que feiticeiro algum é capaz de vencer, poderão
resguardá-los nesta luta. Seria útil se perguntarem com qual propósito estão querendo
adentrar-se nas leis da feitiçaria. Já sondaram suas consciências? Seria para adquirir
conhecimento? Conhecimento sem aplicação no bem vale muito pouco. Por vaidade?
Moeda falsa que não vale a pena ser amontoada. Orgulho? Fujam dele como da lepra. Se
estão dispostos a admitirem como regra básica para caminharem por meandros de pântanos
e de armadilhas a advertência de Jesus acerca da vigilância e da oração, acredito que
poderemos colaborar com o objetivo do grupo, qual seja, lançar uma obra espírita que
auxilie pesquisadores e estudiosos a entender, prevenir-se e combater corretamente a
feitiçaria, malefício que tanta dor tem causado aos habitantes terrenos. Caso contrário,
aconselho a que se preparem melhor, se exercitem nas sábias e santas leis da caridade,
amem e se instruam, para que tais portas, as portas da feitiçaria, lhes sejam abertas sem o
perigo de lá permanecerem por um tempo muito além do necessário. Um tempo onde a dor
poderá reger a existência, até que o amor, antídoto de todos os males, venha a apiedar-se de
suas almas, resgatando-as.
Quero iniciar minha participação mantendo os olhos da médium sempre abertos,
impondo a minha vontade sobre a dela durante toda a comunicação, pois a mesma ainda
não se encontra adestrada para o que pretendo realizar. Em um passado remoto, atuei como
feiticeiro, utilizando símbolos e rituais em trabalhos de feitiçaria, modificando o sentido das
energias traçado pela natureza para alguns seres e objetos. Adquiri meus conhecimentos
através de mestres que me passaram suas experiências acerca de energias que emanam das
plantas, dos animais, dos minerais, da natureza, enfim, conhecimento que se torna perigoso
quando desvinculado do desejo de servir ao bem. Didaticamente, poderia dizer que foi a
fase teórica. Em um segundo momento trabalhei com rituais, aprendendo a manipular todas
as energias de um determinado objeto. Utilizava para isso o poder mental, modificando o
sentido dessas energias.
Comecei a me exercitar manipulando as energias dos animais. Aprisionava um sapo
e mentalizava o seu corpo ressequido. Minha mente agia como um aspirador de energia
vital, dispersando-a no ambiente. Com um pouco de treino e muita disciplina, passei a vê-lo
morto e ressequido no período de vinte e quatro horas. Avancei nessa técnica, isolando o
sapo e um outro animal de pequeno porte ao seu lado, ocasião em que mentalizava a
transferência de energias vitais de um animal para o outro. Dentro de um ou dois dias, no
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máximo, ambos morriam. O sapo, exaurido, esvaziado de suas reservas vitais, e o outro
animal, saturado de energias que não eram suas.
- Como exatamente você procedia para retirar a energia de um animal com a sua
mente?
- Direcionava os olhos para os olhos do sapo e ativava a mente como um sugador. O
poder da mente se exterioriza sobretudo através dos olhos. Por esse motivo, quero que a
médium mantenha os olhos abertos. Até aquele momento, apenas treinava a transferência
da energia de um local para outro através da minha mente. Era então um mago, agindo em
busca do conhecimento, procedendo como os estudantes de medicina fazem com seus sapos
e ratos. Meu objetivo era dominar a técnica de manipulação de energias da natureza.
- E como passou a ser um feiticeiro?
- Pela vontade de ser diferente dos demais, orgulho e vaidade do meu saber. Aos
poucos fui me desviando da rota do bem. Um bom feiticeiro é também um excelente
pesquisador. Aprofundei-me nas pesquisas, utilizando os dons mediúnicos que possuía.
Aprendi a materializar objetos, inclusive dentro de pessoas e de animais. Comecei minhas
experiências com o sapo, animal preferido por muitos feiticeiros. Eu o aprisionava e fazia
um projeto em minha mente, no qual me obrigava a mentalizar farpas de madeira em seu
interior. Como efeito da força criadora do meu pensamento, após mentalizar fortemente as
farpas pontiagudas durante algum tempo, elas surgiam e rasgavam o couro do animal,
matando-o . Para materializar algo dentro de um animal ou de um ser humano é necessário
competência e aptidão. Não é qualquer feiticeiro que tem essa habilidade e esse “poder”. Se
ele o possui, pode materializar objetos em qualquer lugar, dentro ou fora do corpo.
Sabemos que o corpo humano é formado de energias. Possui centros de força que as
governam, imprimindo-lhe harmonia ou descontrole. Este contribui para que a aura fluídica
que se forma ao redor do corpo tenha fissuras, brechas por onde o feiticeiro introduz o
objeto que pretende materializar dentro do corpo.
- Quando você fala da introdução de objetos tais como pregos, giletes, grampos
dentro do corpo das vítimas, está se referindo à materialização ou ao fenômeno de
transporte?
- Ao fenômeno de materialização. Desde que haja conhecimento e “poder” por
parte do feiticeiro e vulnerabilidade na aura da vítima, isso é possível. Com exceção dos
Espíritos superiores, que por suas condições de moralidade e de sabedoria já conquistaram
proteção ao redor de si, os outros possuem espaços devassáveis que se mostram como
brechas na aura, utilizadas pelos feiticeiros como caminho natural de entrada para a
materialização de objetos dentro do corpo. A aura humana é como um escudo que tem a
gradação defensiva norteada pelo grau de evangelização de cada ser. A deficiência moral
do indivíduo impõe fissuras à sua aura por onde o feiticeiro introduz o duplo do objeto
mentalizado, fazendo-o surgir mais tarde materializado dentro do corpo, assustando os
incrédulos e fazendo tremer os crédulos.
- Você poderia aprofundar um pouco mais este assunto?
- O homem de bem, devido à sua vida regrada, suas orações, suas meditações,
agrega energias positivas à sua aura, tornando-a mais compacta, dificultando assim a
penetração de objetos em seu corpo material por parte do feiticeiro. Espíritos dedicados ao
bem têm uma proteção energética que eles mesmos constróem ao seu redor, além do
amparo de amigos que com eles simpatizam e os defendem. Mesmo assim, um homem de
bem pode ser vítima de um feitiço se seus débitos o permitirem. Ele pode ter um órgão mais
frágil, o coração, por exemplo, e é por esta porta semi-aberta que o feiticeiro entra. Ao
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penetrar na aura, o feitiço impõe o caos ao delicado metabolismo dos centros de força,
favorecendo a invasão microbiana que não encontra resistência aos seus ímpetos. É fato
constatado que dificilmente se encontra no plano de provas e expiações um Espírito que
não tenha um ponto vulnerável em sua aura. A maioria deles comete ou já cometeu deslizes
no passado, fato que os credencia ao assédio de obsessores. É justamente por isso que o
feitiço é tão eficiente nesse planeta.
- Quando o feiticeiro mentaliza o coração de alguém para enfermá-lo, precisa
conhecer a sua anatomia a fim de bloquear uma artéria, promover um coágulo, por
exemplo?
- Se ele tiver o conhecimento anátomo-fisiológico, tanto mais eficiente será o seu
feitiço. No entanto, o petardo energético atingirá o órgão como um torpedo a uma
embarcação, mesmo sem este conhecimento. Existe a fissura, o órgão está frágil, o débito
clama por pagamento e, neste caso, tudo conspira contra a vítima. Na linguagem da guerra,
diríamos: o caminho está aberto, o alvo na mira, a arma engatilhada, a queda é iminente.
- Como o feiticeiro detecta os pontos frágeis na aura de quem quer prejudicar?
- Através da sensibilidade mediúnica. É uma percepção intuitiva. Mas ele também
estuda e faz um projeto para atuar. Quando ele segura uma foto ou algo que pertença a sua
futura vítima, através da sua sensibilidade e da análise aprofundada do que tem nas mãos,
inicia um contato com ela com a função de obter uma “radiografia” de suas fragilidades e
de suas defesas. Exemplificando: se eu quero introduzir um pedaço de arame dentro do
corpo de alguém cuja aura tenha caminhos de entrada para feitiços, sento diante do arame,
mentalizo o seu formato, dimensões, textura, teor de ferrugem e, posso dizer, domino a sua
forma e a coloco em minha mente. Só então a projeto contra o corpo da vítima. Eu não toco
no arame. O trabalho é todo mental. Alguns dias depois, o arame se materializará dentro da
vítima.
- Se o que surge dentro da vítima é um arame real, e não fluídico, de onde vem o
material que o compõe?
- Pode ser do próprio corpo da vítima. Ensina a Biologia que o corpo tem ferro,
cálcio, zinco, cobre, dentre outros metais. O feiticeiro introduz no corpo do enfeitiçado um
molde, um duplo energético do arame original. Esse duplo, funcionando como um ímã,
atrairá para si o material que o comporá, concretizando a materialização. Alguns feiticeiros
desconhecem essas nuanças, por isso o objeto que materializam é menos denso.
- O sapo não tinha fissuras em sua aura. Como as farpas penetraram em seu corpo?
- Meu caro amigo, os animais são seres que possuem apenas uma aura instintiva,
uma aura de vitalidade. Se não possuem livre arbítrio, não havendo débitos para posteriores
cobranças, igualmente não dispõem de raciocínio para fortalecer suas defesas fluídicas. Os
humanos têm suas preces e suas boas ações que os fortalecem. Posso lhe dizer que é muito
fácil manipular a energia dos animais, justamente porque eles não conseguem esboçar
reações de defesa à sua integridade.
- Por que o sapo é um animal preferido por feiticeiros?
- O sapo possui uma energia diferenciada, prestando-se como excelente
condensador. Ele capta a energia à sua volta e a acumula, mas diante das agressões que o
processo de enfeitiçamento lhe provoca, ele as deteriora. Essa energia degradada é posta em
contato com objetos da vítima estabelecendo uma espécie de sintonia pela qual tais fluidos
densos são canalizados.
- Como essa energia negativa pode ser canalizada para a vítima?
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- Temos técnicas para isso. Todas as técnicas que o feiticeiro usa se resumem
exclusivamente em manipulação de energias. Essa manipulação pode ser direcionada para o
bem ou para o mal. Para prejudicar alguém, o feiticeiro precisa estabelecer uma espécie de
sintonia, não entre ele e a vítima, mas entre esta e o objeto que ele manipula alterando as
energias. Talvez fosse melhor dizer “coordenadas psíquicas”, no lugar de sintonia, fazendo
uma analogia com as coordenadas geográficas. Se estas localizam o indivíduo no espaço,
aquelas o encontram através das emanações do seu psiquismo, únicas em cada pessoa.
Nesse processo não existe o fenômeno de materialização, mas de transporte, com o auxílio
de desencarnados que se deixam aliciar em troca de oferendas. Digamos que o feiticeiro
tenha uma moeda que pertence a quem pretende enfeitiçar. Ele a olha fixamente, condensa
através do seu pensamento energias degradadas em sucessivas camadas sobre ela e pede
aos comparsas desencarnados que a transportem para um local próximo a quem quer
enfermar. A moeda funcionará como uma bomba fluídica que irá drenando fluidos nefastos
para o seu antigo possuidor, facilmente localizado pelas “coordenadas psíquicas”. Enfatizo
aqui que este malefício é muito eficiente, pois duas mentes malévolas se unem para agredir
uma terceira. A mente do feiticeiro e a de quem solicitou seus préstimos alimentam essa
“bomba fluídica”, o que a torna mais potente.
- Pode ocorrer de o feitiço endereçado a alguém ser desviado para outra pessoa?
- Sim, desde que ele entre em contato com terceiros que não tenham suas defesas. O
fluido foi batizado com este nome por sua capacidade de se deslocar de um ponto para
outro. Coordenadas psíquicas semelhantes podem atrair em maior ou menor grau o fluido
que emana do objeto preparado pelo feiticeiro para uma delas. O fluido doentio não tem
moléculas semelhantes tal qual uma substância pura ou homogênea. Ele é composto de
diferentes partes, todas nocivas, de vez que foi manipulado por uma mente em desarmonia
com a lei de justiça, amor e caridade, incapaz de estabelecer na matéria a beleza da simetria
e a harmonia molecular das substâncias puras. Visto dessa maneira, o fluido condensado
pelo feiticeiro é suscetível de atingir variados órgãos e enfermar quem com ele tenha
contato. Podemos dizer que “coordenadas psíquicas” próximas àquela para qual o objeto foi
preparado podem receber parte da carga letal.
- Localizar as coordenadas psíquicas de alguém lhe parece um bom método de
aferição do estado evolutivo a ser “aferido” pelo feiticeiro?
- Desde que se entenda por coordenadas psíquicas um indicativo da posição do
Espírito na carta das virtudes, um diagnóstico intelecto-moral que o situe na escala
evolutiva, um referencial que permita ao feiticeiro preparar com segurança o seu feitiço ou
recusar-se a fazê-lo, sim.
- Trocaríamos assim nos eixos cartesianos longitude e latitude por intelecto e moral
e encontraríamos a posição exata em que o Espírito se encontra. Seria isso?
- Sim. Mas voltemos ao feitiço.
- Poderia nos explicar como o feiticeiro inverte a polaridade de objetos e também de
pessoas? Pesquisamos em obras espíritas e verificamos que feiticeiros do astral inverteram
a polaridade sexual de um jovem encarnado, fazendo com que ele adquirisse hábitos
homossexuais.
- Como é conhecimento comum entre os estudiosos das ciências da natureza, existe
dualidade em tudo. Cada ser ou objeto tem partes positivas e negativas. No ser humano, o
feiticeiro age com o objetivo de modificar o positivo para negativo. Onde há saúde, ele
introduz a doença, onde há equilíbrio ele impõe o desequilíbrio. Essa ação mental de injetar
constantemente fluidos opostos aos existentes em determinadas partes da aura acaba por
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modificar a sua polaridade. Isso é um trabalho mental cujo efeito não é imediato. O
feiticeiro observa a aura de sua vítima e mentaliza uma inversão fluídica com efeitos
danosos para a saúde. Nessa mentalização ele desloca a aura do seu centro de equilíbrio,
fazendo-a assumir uma posição instável, inclinando-a para um lado, fato que leva
desarmonia para todos os centros de força, aumentando, inclusive, as fissuras nela
existentes.
- O feitiço pode voltar-se contra o feiticeiro?
- O feiticeiro sábio não age inadvertidamente. Ele domina os conhecimentos, tem
seu arsenal, é intuitivo. Se a sua intuição lhe diz que alguém tem certa “imunidade” contra
feitiço, ele pode recusar-se a atacá-lo. Ele sabe que ao modificar as energias de um objeto
está provocando um desequilíbrio que pode, inclusive, voltar-se contra ele. Por isso faz
pactos com comparsas que o protegem e que, vibrando na mesma freqüência que ele, criam
um campo magnético que funciona a seu favor. Ao mesmo tempo, cerca-se com objetos
imantados com fluidos repelentes com os quais procura formar uma espécie de cortina
protetora contra o retorno do seu feitiço. Além do mais, como ele se encontra mergulhado
na carapaça de suas próprias construções fluídicas, esta lhe protege, pelo menos enquanto
seu pensamento for forte e sua mente se manifestar com lucidez. Vale lembrar que a velhice
sempre chega para todos e com ela a fragilidade das funções vitais. É então que o feiticeiro
poderá ser alvo do seu próprio feitiço.
- Estamos empenhados em descrever o perfil do feiticeiro. Pode nos ajudar com
uma definição?
- Qualquer definição que tente traduzir a verdadeira imagem do feiticeiro será
sempre incompleta. Todavia, posso dizer que o feiticeiro é um médium que sabe utilizar as
forças da natureza, construir suas próprias defesas e conduzir com sucesso o pensamento na
realização daquilo que planeja. Mas afianço-lhe que Deus tem a sua magia branca que é
soberana. Aquele que não merece um malefício, Deus o protege.
- E quanto ao desmanche? Pode adiantar algumas informações?
- Não é necessária a presença do feiticeiro para que o feitiço seja desmanchado. Os
Espíritos superiores podem, com o seu poder mental, desfazer qualquer trabalho de
feitiçaria. Todavia, o que nós fazemos de mal precisamos desfazer. Por esse motivo, o
feiticeiro é coagido a comparecer à reunião espírita, lá recebendo o choque do desmanche.
Ele assiste à destruição do que fez ou auxilia nessa destruição, saindo convicto de que nada
mais resta de malefício contra a sua vítima. Caso o trabalho não fosse destruído na sua
presença, a sua mente continuaria alimentando o feitiço, que poderia ser reativado. Na
prática, existe um desmanche mental na cabeça do feiticeiro, e é isso que neutraliza o
feitiço. Para que tudo seja mais convincente, ele vomita o sangue ou a cachaça que recebeu
como oferenda, desenterra os bonecos de covas no cemitério, vê sobre a mesa nomes ou
objetos que havia colocado dentro de um sapo cuja boca costurara e põe fogo em tudo. Essa
destruição desatrela em sua mente todas as etapas do processo de feitiçaria que construiu.
- E se ele se recusar a desfazer o trabalho?
- Ele pode, para desfazer o trabalho, exigir as mesmas oferendas, a fim sentir
novamente os “prazeres” que as emanações fluídicas lhe proporcionam. Mas, geralmente,
sabe que uma ordem superior deve ser cumprida. Os técnicos espirituais têm meios de
subjugá-lo. No mais, algumas vezes, os técnicos já se adiantam e promovem o desmanche,
ocasião em que os feiticeiros apenas assistem à destruição do que fizeram. Seria ridículo
pensar que a espiritualidade depende de feiticeiros para destruir feitiços; o mesmo que
atribuir incompetência a quem prima pela competência. Fica aqui o meu lembrete final: há
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feiticeiros no astral com grande poder mental, cujos trabalhos exigem a intervenção de
mentes igualmente poderosas. Ficarei com o grupo até o final do Projeto. Que Deus nos
ampare e nos dê a lucidez necessária para manipularmos as energias sempre a favor do
bem.

Uma parada para resgates

A certa altura do Projeto o assédio contra o grupo foi intensificado de tal sorte que
tivemos que parar as pesquisas e planejar a organização de nossas defesas. Problemas se
avolumavam ao redor de todos deixando-nos confusos com a seqüência de pequenos
desencontros que pareciam atropelar a coragem que sempre mantivemos em situações
conflituosas.
Não nos animamos em descrever o assédio que sofremos durante três meses
seguidos. Tínhamos certeza plena de não estarmos desamparados e isso era suficiente para
não desistirmos. Nesse fogo cerrado, de repente, surgiu uma figura que nos motivou o
aprofundamento da pesquisa nos trabalhos de magia. Velho amigo professor, sentindo-se há
muito importunado por uma severa dor nas costas, havia feito uma visita a uma curandeira
que lhe tirara pedras e folhas do corpo, dizendo ser este material o resultado de um trabalho
de magia negra que lhe fizeram. A princípio não me interessei pelo fato, mas diante da sua
insistência, resolvi acompanhá-lo na segunda visita. Os caminhos que nossos amigos
espirituais utilizam para nos auxiliar são muitos e nem sempre explícitos. Obras do acaso,
tenhamos a certeza, são desconhecidas neste vasto mundo. Tudo tem uma causa, uma
razão, um direcionamento, e foi assim pensando que viajei alguns quilômetros para
observar o fenômeno aludido.
Quando lá cheguei, uma casa simples com um altar ( congá ), velas acessas,
defumadores, perfumes e uma médium que nos recebeu com alegria, mantive-me vigilante
e em oração, solicitando a meus amigos espirituais que, pelo menos, não me permitisse
interferir através de pensamentos de desaprovação para qualquer gesto ou palavra ali
praticados. Não me julgo preconceituoso quando o assunto é religião. Aprendi que todo ato
de boa vontade tem o seu valor e que Deus não se satisfaz com rótulos doutrinários, mas
com o bem deles resultante. Feitas as orações para os orixás, a entidade comunicante,
Tapuia, tratada por todos como Tapuinha, nos saudou em nome de Deus perguntando a meu
amigo se ele estava melhor do cabresto que lhe manietava, a dor.
Após meu amigo relatar pormenores do seu calvário, Tapuinha o fez sentar em um
banco, acendeu seu cachimbo e, voltando-se para mim, falou: Você veio para espiar não
foi?
- Sim. Se a senhora me permitir, gostaria de estudar um pouco do seu trabalho e
discuti-lo com alguns amigos com os quais estudo.
- Não tem nenhum problema, meu filho! Você vai ser meu ajudante nas curas de
hoje.
O que vi nesses trabalhos foi de estarrecer. Acostumado ao estilo espírita, ou seja,
preces, passes, vigilância, disciplina, vi surgir de dentro da pele, da cabeça, das costas, das
pernas blocos de areia ressequida que, se pesados, certamente atingiriam dois quilos ou
mais. Tapuinha entregou-me um prato e orientou-me a recolher as pedras à medida que
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emergissem de dentro da pele, e elas foram surgindo do nada, materializadas na superfície


da pele, como um iceberg puxado das profundezas do mar. Olhava meticulosamente as
mãos da médium, seus gestos, seus braços, suas vestes brancas de mangas curtas, talvez
para neutralizar a desconfiança dos que esperassem “cartas escondidas” e, intimamente,
fazia questionamentos e comparações com o que já aprendera, no borbulhar de idéias em
que me encontrava. Durante três meses a observei, ocasião em que lhe fazia perguntas, as
mais variadas, e não obtinha respostas que me calassem as dúvidas.
A médium, analfabeta, não sabia explicar de maneira clara como o fenômeno
acontecia. Materialização, transporte, perispírito, fluidos, chacras, mente, inútil comentar o
fenômeno utilizando tais palavras, pois a terminologia espírita não era ali utilizada nem
entendida. Todavia ,reinava naquele barraco a fé, o desejo de auxiliar, a vontade de estancar
a dor, máscara torcida que todos traziam. E esse é o passaporte para a chegada da luz.
Não somente vi a retirada de pedras, mas de folhas, charutos, artefatos de
cemitérios, areia, plástico, gosma mal cheirosa dentre outros objetos. Mulheres com dores
lancinates na cabeça eram atendidas e eu via, pegava, recolhia as pedras que as afligiam.
Algumas vezes, quando a ponta da pedra iniciava a sair da região parietal, das costas,
Tapuia me dizia: Pegue! Puxe devagar senão fica um ferimento no local. Então eu puxava o
bloco de areia devagar e sentia que ele estava preso, que crescia sob meus olhos curiosos,
que abria caminho entre os cabelos, a pele, estalando em queda no prato que eu segurava.
Quando a pedra era grande, estava muito presa, Tapuinha utilizava perfume para afrouxá-
la. Seu perfume predileto era alfazema.
Levei o grupo de aprofundamento doutrinário para ver Tapuinha em ação. Todos
ficavam estarrecidos com o que viam. Passaram a levar seus familiares, amigos, iam eles
próprios em busca de cura para suas enfermidades. Quase todos tinham pedras ou outro
material a ser retirado. Tapuia aconselhava banho de raiz de borboleta branca, cuentro do
Maranhão ... e eu fui me sentindo um pouco constrangido com aquele corre-corre em busca
do imediatismo, sem muita ênfase na reforma íntima.
Educado em “Mocidades Espíritas”, cresci escutando que deveríamos buscar em
primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça, que tudo o mais viria como acréscimo. Que a
cada um é dado segundo as obras; que a saúde é a resultante de nossas boas ações; que os
bons Espíritos sempre nos auxiliam quando estamos necessitados e merecemos a ajuda que
solicitamos. Lembrei de Chico Xavier e suas dores nos olhos, angina, dificuldades para
respirar, andar, sem jamais solicitar nem dos Espíritos operadores que agiam através de
médiuns como Arigó e outros, nem do Dr. Bezerra de Menezes, nem de quem quer que
fosse que o curasse. Aceitava a moléstia que o atormentava como disciplinadora de suas
atitudes e apenas orava pedindo alívio para continuar trabalhando.
Nos meses em que observei Tapuinha formulei hipóteses para que nossos amigos
espirituais as confirmassem ou não. Deixei de visitá-la quando senti que já não tinha mais o
que aprender, por não obter dela explicações para minhas dúvidas, por se tornar repetitiva
para mim toda aquela gama de fenômenos que a princípio me atraíra.
Nas reuniões de estudo destinei uma parte do tempo para que os amigos espirituais
se manifestassem sobre o trabalho de “desmanche” que Tapuinha assiduamente promovia.
Eles foram enfáticos: o trabalho de resgate de antigos comparsas do passado e de outros
companheiros com os quais o grupo está comprometido inicia-se agora. Passada esta fase,
traremos praticantes, ex-praticantes e vítimas de magia negra para que se manifestem
tirando dúvidas do grupo e dissertando sobre experiências pessoais.
76

De imediato reuni o grupo, soltamos no ar a música de Chopin e procedemos a uma


prece solicitando o amparo de Jesus para tão delicada tarefa. Alguns minutos após,
blasfemando e proferindo ameaças surgiu o primeiro comunicante:
- Você está mexendo em um vespeiro. O que lhe interessa saber como aquela
mulher remove pedras do corpo das pessoas? Se elas estão lá é porque os doentes merecem
o sofrimento que os atormentam. Aconselho a que volte para suas reuniõezinhas melosas e
fique jogando conversa fora com os marginais seus protegidos. Caso contrário, será a
próxima vítima do nosso feitiço.
- Jesus nos ensinou a buscar alívio diante da dor. Se há uma possibilidade de alívio,
de esclarecimento, de cura, é lícito abraçá-la. Se a dor é uma companhia de difícil
convivência, mas inevitável no estágio em que nos encontramos, resta-nos entendê-la e, se
possível, erradicá-la de nossas vidas com a bênção do médico divino que nos assiste.
- Ora, deixe de melodramas, homem! Você sabe mais do que eu que toda aquela
corja que para lá se dirige tem pesadas dívidas a resgatar. Ninguém vai ali impulsionado
por uma reforma de vida a fim de se tornar um pessoa mais caridosa. Prevalece o “aqui e
agora”, a cura a qualquer preço, seja pela mágica ou pelas ervas, como se uma ferida
pudesse ser removida sem antes tratar das pústulas que a infectam.
- Em alguns casos você pode estar certo, mas isso não invalida o trabalho da
médium nem a busca legítima da cura dos males do corpo e da alma. Os ingratos, os que
não merecem, os que desprezam os conselhos evangélicos, saem de lá com os mesmos
problemas com os quais chegaram. Contudo, acredito que você não esteja aqui para
filosofar a este respeito.
É isso mesmo! Vamos direto ao assunto. Por que nos abandonou traindo-nos tão
despudoradamente passando para o lado dos nossos inimigos? E por que finge desconhecer
todas aquelas técnicas se você as aplicava juntamente conosco em quem nos importunava?
O que fizeram com você? Por que permitiu que esses frades mudassem a sua mente? Por
que não resistiu à lavagem cerebral que lhe impuseram? Você nos guiou, nos ensinou a
conquistar e agora nos abandona? Além de traidor passou a ser tirano, querendo nos forçar
a mudar de lado?
- Calma, amigo. São muitas perguntas em um minuto. Não abandonei nem um de
vocês. Tanto que aqui estou para convidá-los a trabalhar sob a orientação de um mestre
muito mais sábio que qualquer outro que já tivemos. Usei meu livre-arbítrio. Todo homem
tem o direito de escolher o que é melhor para a sua vida. E o que é melhor, o que pacifica a
alma, resgata a sensação de ser útil, de estar fazendo alguma coisa que alegra e gratifica é
trabalhar para o bem de todos.
- Você está falando igual a eles. Em quem se tornou? Como deixou isso acontecer?
Nos ensinou tantas coisas e agora nega tudo quanto é valor para nós.
- Se é que ensinei coisas contrárias ao que hoje penso elas não têm mais valor para
mim. Peço desculpas por todos os ensinamentos errados ou mal direcionados que transmiti
e renovo o convite para trabalharmos juntos sob a direção de um novo mestre. Apelo para
nossos instantes de observação da natureza, a beleza das flores, a água generosa do Nilo
que nos matava a sede e nos enchia de orgulho.
Eu ia falando tais coisas teleguiado por Francisco, meu guia espiritual, e da mente
do comunicante, imagens de um tempo em que fora “feliz” iam sendo captadas e passadas
para uma tela onde podiam ser vistas pelo comunicante. Isso foi causando um certo
“incômodo” à sua posição defensiva, modificando o estado mental em que se encontrava
forçando-o a voltar no tempo, fragilizando a sua disposição de enraizar-se no presente.
77

- Não me fale do Nilo! Pare! Eu devo muito àquela terra. Aquele rio é sagrado para
mim.
O Nilo, e nem sei por qual motivo, foi a fresta encontrada em sua mente para fazê-lo
navegar para águas mais calmas. Como nosso trabalho não tem por objetivo enfatizar a
doutrinação nem os dramas desses velhos amigos, não os descreveremos por inteiro.
Se para este amigo o Nilo foi a rosa do passado resgatada sob os escombros do
presente, para um outro a motivação foi os filhos. ( Como pude esquecê-los em nome de
um ideal que não me rendeu nenhum fruto doce? )
Mas alguns desses Espíritos marcaram profundamente nossas vidas pela
perseguição feroz e duradoura a que fomos submetidos. Vale lembrar que nem todos foram
convencidos pelo diálogo. Alguns desistiram por vontade própria, cansados de uma luta
inglória, no que foram amparados e tratados por nossos amigos espirituais. Outros foram
capturados e enviados a estações de tratamento visando a uma reencarnação futura. Dos
mais persistentes, professores enérgicos a nos forçarem à matrícula nas escolas da
disciplina, da vigilância e da oração, resumiremos três casos:
O homem do trono de ouro: Esse Espírito comandava vasta região composta por
cavernas escuras, pântanos, vegetação ressequida, seres deformados, vampiros, sustentados
pelo poder de sua mente. Dos seus domínios provocava inúmeras tragédias entre
encarnados e desencarnados que tinham a desdita de caírem em suas garras. De uma
caverna protegida por uma porta de ouro executava seus planos e comandava seus
subordinados que, através da magia negra, espalhavam a dor, o medo e o desespero, muito
além dos seus domínios. Incomodado com nossas pesquisas sobre a magia negra, pois era
de seu desejo que a metodologia e a maneira de proteger-se contra ela ficassem em segredo,
por muitas vezes tentou barrar-nos o curso da pesquisa.
Uma manhã, quando reunimos o grupo para dar prosseguimento à fase de resgate,
uma das médiuns desdobrou-se até seus domínios passando a descrevê-los. Atingindo uma
porta de ouro ficou um pouco confusa sobre o que fazer. Mas em determinado instante a
porta foi aberta e ela viu esse Espírito com as deformações perispirituais que já o atingiam,
em seu trono de ouro.
Não ultrapasse essa porta, foi a ordem que ele emitiu. A médium parou bruscamente
e por seus próprios recursos não teve forças para se aproximar, como haviam ordenado os
amigos espirituais. Mesmo sem localizar até aquele momento a figura dos lanceiros e dos
mentores eles estavam ali. Intimamente a médium sabia não estar só e aquilo lhe enchia de
coragem. Passado o instante de surpresa, o homem do trono de ouro tentou intimidá-la.
- Ajoelhe-se! Você está em meus domínios e aqui sou a autoridade a quem todos
devem obedecer.
- Não ligue para o que ele diz. Não olhe em seus olhos. Apenas caminhe em direção
ao trono. Haja o que houver, não pare.
- Ninguém me desafia. Mais um passo e será minha escrava. Vou transformá-la em
um dos meus bichinhos!
- A sua hora é chegada! Tudo aqui vai ruir e seu ouro será transformado em cinzas.
Mas, e isso acontece às vezes, durante a doutrinação, a médium começou a
descrever a atuação de um Espírito com traje franciscano, pés descalços, cuja luminosidade
invadia todo o ambiente e ofuscava o homem do trono de ouro. Este, atordoado com
tamanha luz, argumentava.
78

- Não! Eu não aceito essa manjedoura! Ela representa a fraqueza, a pobreza, a


covardia de um homem que se deixou matar quando poderia ter dominado o mundo. Eu
quero ouro, poder, pessoas curvadas sob a minha vontade.
O franciscano apenas o olhava dominando-o com sua mente poderosa.
- Jamais me curvarei a essa manjedoura! Ela representa para mim a decadência e a
covardia. Um homem que não foi capaz de salvar a si próprio. Onde estão meus guardas
que não lhe arrastam daqui?
Foi então que, subjugado por uma força irresistível, ele começou a curvar-se ante a
manjedoura, malgrado todos os esforços para permanecer afastado dela.
- Minhas pernas! Não consigo controlá-las.
- Inútil resistir. A luz não é somente um capítulo da Física. Faz parte de uma lei
moral. Quando ela chega as trevas batem em retirada.
Então apossou-se do adorador do ouro um misto de raiva e dor produzindo lágrimas
e impropérios até que uma calmaria quase mágica invadiu o ambiente. A médium
continuava a descrever a cena entre atônica e encantada. Chorando, o Espírito agora sem
trono e sem escravos, confidenciou: houve um tempo em que eu amava as catedrais. Um
tempo em que eu defendi a cruz. Mas fui me deixando fascinar pelo brilho do ouro que
acabou por cegar-me. A sede de poder me transformou em um verme escondido em uma
caverna tentando fabricar um casulo de ouro.
O franciscano não se identificou. Aliás, esse é um hábito bem peculiar deles. Por
uma técnica desconhecida para nós, esvaziou a mente do homem do trono de ouro
deixando-o sem referenciais de tempo e de espaço. Ele nem sequer sabia mais o seu nome
ou o que estava fazendo ali. Indaguei do Fransciscano quem fora aquele homem que tanto
nos combatera e ele apenas respondeu. Um dia foi um dos nossos. No futuro voltará a sê-lo.
Velhas amizades: Por mais de vinte anos um Espírito me perseguiu tenazmente
rotulando-me de traidor.
Seu interesse era resgatar minha filha e levá-la de volta ao grupo de iniciados no
qual, segundo ele, ela era a sacerdotisa. Durante a infância de minha filha ela foi muito
assediada por este perseguidor implacável que lhe perturbava o sono e lhe aparecia sob
formas variadas causando-lhe medos inexplicáveis e inquietação. Em uma de suas crises de
medo tivemos que mudar de residência, pois mesmo com seus frágeis quatro anos de idade,
por todos os meios de que dispunha, negou-se a adentrar à morada. Para atenuar as
investidas desse Espírito eu realizava reuniões de desobsessão, onde Espíritos
“oportunistas” eram afastados e ele era obrigado a comparecer para dialogar comigo, sem
jamais dar-nos a chance de uma paz duradoura. Muito agradeço ao Dr. Bezerra de Menezes
o seu amparo em horas cruciais, restituindo a calma ao Espírito de minha filha. De tanto
conversar com esse Espírito em reuniões de desobsessão acabei por saber com detalhes a
história de nossas vidas, passadas num tumultuado período do Egito, onde entre nós,
iniciados, admitíramos uma única mulher no grupo, a quem, por seus poderes psíquicos,
eleváramos ao estágio de sacerdotisa.
Não sei por qual motivo, ele nunca me revelou a razão, retirei a sacerdotisa do
grupo e a escondi, fugindo deles por toda aquela encarnação. A batalha tem se desenrolado
entre períodos de calmaria e de tempestade, ora sob o manto do esquecimento enquanto
encarnados, ora sob o assédio sem tréguas quando livres da prisão carnal, pois o Espírito é
senhor do tempo, retém na memória a sua história de vida e luta pelos sonhos que acalenta,
sejam eles de poder, de grandeza espiritual ou de decadência moral.
79

Reencontramo-nos nesta página da vida para um desfecho final. A oportunidade


surgiu quando iniciamos o estudo da magia negra. Os iniciados dominavam muitas técnicas
de “magia” e ele aproveitou a ocasião em que estávamos sob fogo cerrado, para invadir
nossas linhas de defesa visando acabar de vez com o “grupinho” que ousara penetrar nos
mistérios dessa ciência.
Depois de algumas conversas nas quais pela primeira vez ele deu sinais de cansaço,
falei, e nem sei o real motivo, provavelmente inspirado pelos amigos espirituais, da honra
de se ter um amigo a quem possa dar as costas sem o medo de ser apunhalado. A amizade,
esse sentimento doce que permanece quando tudo vai embora, talvez pudesse por um fim
àquele conflito tão duradouro.
- Houve um tempo em que fomos amigos. Em que gostávamos de estudar sobre a
vida e a morte. Por que nos abandonou? Por que nos feriu e traiu daquela maneira
ultrajando nossos valores?
- Porque estavam mal direcionados. Havia sacrifícios, imposições e o homem tem
direito de escolher o seu caminho. Chamamos a isso de livre arbítrio. Não há necessidade
de reviver um tempo que já não satisfaz às nossas aspirações. A paz de espírito, fruto do
livre arbítrio bem orientado, pode nos tornar dignos do maior de todos os mestres, Jesus.
- Já estivemos juntos muitas vezes. Lutamos e morremos por causas justas, mas
quando retorno a este plano não consigo perdoá-lo. Você ainda está com ela. Por que não a
liberta para que possamos refazer a nossa escola novamente?
- Ela nunca foi minha prisioneira. Tenho tentado mostrá-la que há ensinamentos
superiores àqueles que ministrávamos. Quando conheci o Espiritismo identifiquei-me com
ele de maneira tão exata que jamais passei um dia sem meditar em seus ensinamentos. Ele
representa tudo aquilo que ensinávamos, mas com ênfase na moral, na ética, na caridade
para com o próximo. Não somos, nunca fomos inimigos. Somos amigos com opiniões
diferentes. Há espaço em nossa Doutrina para uma amizade com essas características, desde
que sob a orientação da ética. Se quiser ficar conosco, e falo em nome dos amigos que ora
nos orientam, para que possamos discutir amigavelmente nossos pontos de vista sob a luz
dessa Doutrina, acredito que poderemos restabelecer uma velha amizade. Conheço o seu
valor e a sua perseverança. Quando estiver do nosso lado será um guerreiro fiel e dedicado
as causas de Jesus.
- Agradeço o convite mas ainda tenho tarefas a realizar deste lado em que me
encontro. Pensei muito nesses últimos dias na utilidade dos ideais a que me encontro
vinculado. Conversei com o frade que lhe orienta e, na ocasião, aprofundamos alguns
questionamentos sobre a amizade. O seu convite tem o aval dele e isso de certa forma me
emociona. Estou aqui para dizer que não o odeio embora não entenda por completo a sua
atitude passada. Tínhamos um pacto, leis, e eles foram quebrados. Todavia, dou-lhe minha
palavra de que não mais o importunarei nem a sua protegida. Você não mais ouvirá falar de
mim em assuntos relacionados a este drama que agora soterramos. Quanto aos que
convivem comigo na condição de subordinados e de superiores, assumo e sustento junto a
eles a posição que ora determino. Ainda estamos em caminhos diferentes. Quem sabe um
dia nos encontraremos sob a égide da amizade para outras batalhas.
E dizendo tais palavras retirou-se deixando-me emocionado e surpreso por aquela
decisão digna de um guerreiro.
O vampiro das presas de sabre: iniciamos a reunião de desobsessão com o
desdobramento de uma das médiuns a uma região onde se encontravam várias pessoas as
quais chamou de seu povo.
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- O que meu povo faz aqui? Por que está tão revoltado? Sinto que algo grave está
acontecendo mas não consigo identificar o problema.
- O que você chama de “meu povo” ?
- São ciganos. É a minha gente. Jamais deixei minhas raízes. Mas não sei o motivo
da revolta deles. Agora vejo Tibiriçá que adverte para não me deixar aprisionar no passado.
Saia daí, diz ele. ... Estou confusa. Sinto-me como se estivesse vivendo duas realidades
simultâneas. Agora estou lembrando... Durante essas três últimas semanas estivemos
praticando a fim de capturarmos um vampiro. Mas por que isso está mexendo tanto
comigo? Já fiz isso outras vezes e nunca senti tanta dificuldade quanto hoje.
- Você está em um cenário de guerra e deve ter uma missão específica na batalha
que vai iniciar. Coordene suas emoções e faça exatamente o que Tibiriçá mandar.
- Há guerreiros por todos os lados. Devo ser a isca para o vampiro. Ele vai surgir a
qualquer momento. Sei que estou fortemente amparada mas nunca me senti assim
fragilizada. Meu Deus! Seja lá o que venha a surgir na minha frente que não me falte a
coragem para enfrentar. Deus! É ele! Eu o conheço. É um negro com cerca de dois metros
de altura. Tem presas enormes que parecem sabres. O Senhor é o meu pastor...
Então a médium, interrompendo a prece, iniciou baixinho uma contagem regressiva:
7, 6, 5, 4, 3, 2, 1. Após a contagem, tentou levantar-se bruscamente, lançando sobre nós
impropérios e maldições, no que a seguramos, na verdade o vampiro, que tentava evadir-se
ao descobrir-se cercado e dominado pelos guardas de Tibiriçá.
- Malditos! Sua cigana vagabunda! Você não tinha tanta coragem quando a
aprisionei! Você vai pagar muito caro por essa humilhação. Vou corta-la em tiras com
meus dentes de sabre!
O vampiro esperneou, insultou, mas estava seguro. Tratei de colar minhas mãos
sobre os olhos da médium sugestionando-o e dizendo que ele perderia a visão a partir
daquele instante. Mentalizei um redemoinho envolvendo-o e fazendo-o girar para que não
pudesse coordenar os pensamentos e esboçar defesa. Ele capitulou.
- Tire-me desse furacão seu índio maldito! Vocês não me dominarão por muito
tempo!
- Hoje é o dia do basta para você. Seu corpo vai se tornar deformado e doente como
realmente é. Não mais poderá sustentar com a mente o porte com o qual chegou.
O vampiro passou a se ver tal qual seus crimes o modelaram: velho, alquebrado,
deformado, corpo gelatinoso e sanguinolento.
- Não! Eu não sou isso! Por que tanto sangue? Tire-me desse sangue! Eu não sou
esse monstro!
E gritando, uivando, chorando, enlouquecido, foi levado pelos guerreiros de Tibiriçá
para o ajuste com a lei. Perguntei a médium em conversa ao final da reunião a razão pela
qual ela se sentira emocionalmente fragilizada naquele resgate.
- Esse Espírito tem uma forte vinculação com o meu passado. Ele escravizava
ciganas virgens e as matava retirando-lhes útero e ovários. É um louco que tinha uma
fixação por esses órgãos. No momento em que me desdobrei fiquei fortemente influenciada
por esse passado que tanto me marcou. Ao vê-lo o reconheci e ele a mim. Nesse instante ele
sentiu que havia caído em uma armadilha. Mas já era tarde para retroceder.
- Por que você fez aquela contagem regressiva?
- Tibiriçá me treinou assim. A contagem não é necessária, mas enquanto contava,
acumulava forças para o momento preciso. Gosto desse método pois aproveito os
momentos que antecedem a ação para exteriorizar todas as energias que acumulo. Sem a
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contagem poderia sentir-me jogada no campo de batalha bruscamente, nele adentrando


estonteada e indecisa. Sei que a contagem não é importante mas prefiro assim.
- E quanto às presas que pareciam sabres?
- Eram o orgulho dele. Assemelhavam-se àquelas que os tigres dentes de sabre
possuíam. Mas ele as perdeu com a transformação que sofreu e que o reduziu a um
molambo humano. Quanto a meu povo, não estava presente na batalha. Vivendo as duas
realidades, sentia-me transportada ao passado, ocasião em que o vampiro perseguia nossas
mulheres e, ao mesmo tempo, no cenário da batalha para capturá-lo. Tibiriçá, com sua voz
firme retirou-me daquela situação delicada fazendo-me retornar à realidade da guerra.
Kröller, que participou dos treinamentos, disse que o vampiro se viu como realmente era.
Deformado e envelhecido, modelação perspiritual que seus crimes lhe impuseram. Disse-
me também que esse foi o último resgate vinculado ao nosso passado, no caso, meu
passado. Já respiro melhor com essa revelação.
A reunião de desobsessão que se seguiu a esta foi dedicada às mulheres que esse
vampiro mantinha prisioneiras. Apresentaram-se com o costumeiro pavor de quem é
torturada, algumas amarradas, outras de abdomes abertos, não permitindo, à princípio, que
o doutrinador se aproximasse, temendo-lhe o contato. O depoimento de uma delas, uma
cigana, deu-nos uma idéia do que essas vítimas sofreram:
- Por favor, não deixe que ele me pegue novamente! Ele é um louco, escraviza
mulheres e as tortura. Acenda a luz, abra as portas, por que esse lugar é tão escuro?
- Há luz no ambiente. Se conseguir acalmar-se um pouco vai notar que há uma
música no ar, uma luz suave e enfermeiros que tratam de doentes. É por este motivo que
você está aqui.
- Eu quero uma garantia de que aquele louco não mais me prenderá. Ele me
desgraçou na noite do meu casamento.
- Sei que está cansada e que as recordações são dolorosas. Mas posso garantir que o
homem que lhe desgraçou está preso, incomunicável, enfermo, e nunca mais porá as mãos
em você.
- Verdade? Não está dizendo isso para me enganar? Meu Deus! Já não sei em quem
acreditar.
- Acredite no que vê. Está em nossa casa. Aqui abrigamos outras mulheres do seu
povo. Não vê que outras ciganas aguardavam pela sua chegada?
Então o rosto dela, antes contraído e lacrimoso, se iluminou em suave sorriso,
seguido de calma em seu diálogo.
- Acredito em você. Aquele monstro escravizou muitas mulheres. Na noite do meu
casamento ele me raptou e matou o meu noivo. Rasgou o meu ventre para fazer
experiências com meu útero e ovários. Em sua loucura ele queria conseguir uma maneira de
conceber um filho. Como um monstro daqueles poderia ter um filho? A índia limpou o
sangue que não parava de jorrar e costurou meu abdome recuperando o meu corpo. Veja!
Não estou mais com o abdome aberto. Agora sou uma infeliz. Não tenho mais honra e meu
noivo não vai mais me querer. Mesmo que eu o encontre ele não mais me acolherá.
- Você está enganada. Seu noivo ainda a ama e a aguarda para a celebração do
casamento.
- Você não entende. Não é um dos nossos. É da nossa lei que mulher desonrada não
seja recebida pelo noivo. Mesmo que ele me perdoe e me queira de volta nossa lei não
permitirá a união.
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- Nesse período de tempo em que você esteve ausente as leis do seu povo mudaram.
A cigana que está ao seu lado pode confirmar isso.
Ela abriu novo sorriso e continuou.
- Ela está dizendo que Juan está à minha espera. Que haverá uma nova festa de
casamento. Que junto às fogueiras vamos festejar nossa união com danças, cantos... Mas eu
não quero encontrar com ele agora. Quero primeiro me arrumar. Vestir uma roupa alegre,
colocar minhas pulseiras, uma grinalda...
Era novamente a mulher alegre diante da perspectiva de ser feliz. A doutrinação tem
desses instantes nos quais a felicidade se achega, e de tão próxima que fica de todos, quase
é tocada. O rosto da médium deixava transparecer a alegria que a jovem sentia com os
acontecimentos que se desdobravam. Chorava e sorria já esquecida de todo o drama
pungente que passara.
- Agora nada mais atrapalhará a sua felicidade.
- Não. Nada! Você é meu convidado para a festa. Não faz parte do meu povo mas é
meu convidado. Todos vocês são meus convidados.
E foi levada pelos ciganos para que os preparativos fossem iniciados. Ao final da
reunião o vampiro das presas de sabre, agora sem elas, em comunicação psicofônica disse-
nos:
- Por que me trouxe para cá? Para tripudiar sobre a minha carcaça? Não preciso da
piedade de ninguém. Preciso apenas das minhas escravas. Exijo que me sejam devolvidas.
Elas me pertencem. São minhas!
- Não estamos aqui para julgá-lo ou humilhá-lo. Quanto às mulheres que mantinha
prisioneiras agora são livres e você é que ficará prisioneiro dos seus crimes.
- Ela são minhas. Eles me entregavam as mulheres em troca de dívidas e de favores.
Outras eu raptei. Mas são minhas.

O difícil caminho do retorno

Passado o período de resgate centralizamos esforços para entender o fenômeno


Tapuia, ainda sem uma teoria conclusiva sobre o caso. Vale aqui ressaltar uma controvérsia
entre os ensinamentos de Erasto e de André Luiz sobre a materialização, fenômeno
exaustivamente estudado por nosso grupo. Eis o que afirma o primeiro: - Um objeto pode
ser transportado para um lugar completamente fechado; numa palavra, o Espírito pode
espiritualizar um objeto material de maneira que ele possa penetrar a matéria?
- Esta questão é muito complexa. O Espírito pode tornar invisíveis os objetos
transportados, mas não penetráveis. Não pode desfazer a agregação da matéria, o que
seria a destruição do objeto. ( Livro dos Médiuns, Cap. V, item 20 )
André Luiz informa que no plano espiritual existem técnicos de materialização e
desmaterialização de objetos, ou seja, para que um objeto possa ser introduzido em um
cofre fechado, por exemplo, pode ser desmaterializado fora do cofre e rematerializado
dentro dele. Essa é também a opinião de Bozzano, diferentemente de Zöllner que admite o
transporte de um local para outro através da quarta dimensão. Mas este não é o núcleo de
nossa problemática. Fizemos tais observações devido as hipóteses que havíamos formulado
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para explicar o surgimento de pedras e outros objetos dentro do corpo das pessoas tratadas
por Tapuinha.
Se optarmos pela desmaterialização seguida de materialização para explicar o
surgimento de plantas, animais, objetos, dentro de recintos fechados, esbarramos com a
cota de energia exigida para a realização do fenômeno e com o aquecimento gerado pelo
mesmo, que pode ser letal para pequenos seres vivos e metais delicados. Realmente
estávamos caminhando em círculo tentando selecionar a hipótese mais viável, quando veio
em nosso socorro, um Espírito que já fora um feiticeiro e que teve permissão para nos
auxiliar na enrascada em que nos encontrávamos. Seu nome, ou melhor, pseudônimo, como
viemos a saber: Califa
Tudo começou com o desdobramento de uma das médiuns a um hospital que
abrigava Espíritos que haviam trabalhado com magia negra.
- Estou em uma espécie de hospital situado aqui no plano espiritual, e Kröller me
explica que a grande maioria dos que aqui são tratados utilizaram-se da magia negra para
prejudicar a seus irmãos. Caminhamos para uma área onde os enfermos apresentam
deformações de vulto, fruto do demorado estágio na arte da feitiçaria. Sinto-me pressionada
como se estivesse no fundo de algum rio ou piscina profunda, tamanha é a pressão fluídica
que impera no ambiente. Nesta ala, explica o instrutor, encontram-se os casos de maior
gravidade. O cenário lembra um filme de terror no qual desfilam criaturas sem olhos,
corpos sem braços, membros disformes, cabeças enormes ou atrofiadas.
Kröller os compara a lagartas dentro de casulos, que um dia sairão para vôos mais
altos. Por enquanto os casulos os prendem com firmeza, demorando bastante até que o
tempo e a vontade de superar tal estágio os ajudem na confecção da chave que os libertarão.
Todos passam por tratamentos psicológicos e cirúrgicos, levados a efeito por técnicos
especializados em anomalias desse gênero. Estes trabalham com inversão de polaridades e
educação do psiquismo, visando, em futuro próximo proporcionar ao enfermo a condição
de modelar seu corpo conforme os padrões biológicos do planeta. Muitos reencarnam
seguidamente utilizando-se da gestação como modelagem para atingirem novamente tal
objetivo.
- Um feiticeiro que se especialize em determinado tipo de magia negra pode vir a
gerar um tipo específico de deformação em seu perispírito?
- Não existe um ponto específico no perispírito do feiticeiro que seja atingido por
ele praticar este ou aquele ato lesivo a alguém através da magia negra. Não há, e se existe
eu desconheço, regras determinantes para deformações localizadas. Quando um feiticeiro
emite um pensamento maléfico, de provocar um ataque cardíaco em sua vítima, por
exemplo, não será obrigatoriamente o seu coração a sofrer o choque de retorno. Quando
alguém pratica o mal compromete todo o seu sistema perispirítico, ou seja, o mal e o bem
têm a propriedade de se disseminarem fludicamente através desse corpo atingindo-o por
inteiro, embelezando-o ou deformando-o. A Biologia afirma sabiamente que um órgão não
age isolado e que a saúde depende do desempenho do conjunto. O Espírito, modelador do
seu corpo espiritual, ao perturbar-se e perder o controle das forças que agregam suas células
em complexos anatômicos definidos, não domina mais a forma humana, permanecendo
impotente para neutralizar as deformações que lentamente vão surgindo em seu complexo
perispiritual
- Há somente homens nesse hospital?
- Não! Mulheres também se especializam em magia negra. Digno de nota, pois é
invulgar, vejo um Espírito em forma de criança. Agora vamos a uma outra ala onde os
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pacientes lá se encontram por mais tempo. Kröller afirma que podemos classificar suas
condições de “medianas”, pois já avançaram no tratamento. Aqui, pois já me transportei à
citada ala, os fluidos não são tão pesados quanto os que lá me pressionavam. As
deformações são mais amenas e os pacientes não têm mais o desejo de praticar feitiçaria
como na ala anterior. O instrutor diz para não me impressionar com a forma infantil que
observei. É um Espírito astuto que procurava manter essa forma para não despertar
suspeitas ao praticar a magia. Muitos têm um certo pudor em atribuir culpas a uma criança.
Julgam que o maquiavelismo e a maldade que caracterizam alguns adultos, não podem
existir nesses corpos frágeis. Sabedor disso ele agia com mais desenvoltura e livre dos
cuidados defensivos que poderiam ser mobilizados contra ele.
Estamos na terceira ala. O espaço dos arrependidos, afirma o instrutor. Vários já
reencarnaram e voltaram para este recanto a fim de continuar o tratamento. Alguns deles
solicitaram a permissão para acompanhar e contribuir com o Projeto, vendo nele uma
oportunidade de crescimento espiritual. Um deles, Califa, está a nossa espera. Ele não
falará de técnicas, diz Kröller. Isso perturbaria sua mente e divulgaria informações que
poderiam ser mal utilizadas. Além do mais, continua, este não é o objetivo do nosso
trabalho. Pergunto porque ele, Kröller, não nos explica o que queremos saber livrando-nos
das dúvidas que nos atormentam. Ele responde que é preciso dar oportunidades a eles para
que se sintam úteis. Enfatiza que conhecemos os objetivos do Projeto e que não é seu papel
citar toda uma obra através da psicografia ou da psicofonia, pois isso não nos traria nenhum
mérito. Califa está próximo a mim. A entrevista vai começar:
- Bom dia, amigo. Seja bem-vindo ao emaranhado de dúvidas em que nos metemos.
- Bom dia. Peço desculpas pela sensação de peso que a médium está sentindo e
sentirá durante a comunicação, sendo o mesmo a resultante dos fluidos densos que ainda
me caracterizam o corpo espiritual. Sinto-me como se minhas células estivessem um pouco
chumbadas pelo demorado uso da magia utilizada em prejuízo à saúde de meus irmão.
- Poderia falar um pouco sobre suas experiências com a magia negra?
- Pois não. Minha iniciação se deu no Egito. Você sabe que lá havia muitas
facções. Os que se especializavam na “medicina” porque queriam curar, na leitura dos
astros, na ciência dos mortos... Eu recebi um conhecimento neutro, uma ciência pura, e os
direcionei para meus interesses pessoais, apesar do juramento que fiz para utilizá-los
apenas no bem. Escolhi o caminho do mal porque me proporcionava mais poder.
Posteriormente vivi na África por alguns séculos e, ultimamente, na Índia, sempre
utilizando a magia para fins escusos. Por fim, cansado, perseguido por inimigos e de
corpo deformado pelo mau uso de minhas faculdades, entreguei-me aos benfeitores
espirituais implorando auxílio para minhas dores. Eles me ocultaram em local de difícil
acesso, bem guardado, para que eu tivesse uma pausa nas perseguições que sofria. Essas
perseguições se deviam ao pacto que fizera com muitos comparsas que me auxiliavam e
aos inúmeros inimigos que me caçavam de maneira implacável em busca de vingança.
- Esses esconderijos podem ser revelados?
- Genericamente. A descrição de locais específicos prejudicaria o trabalho de
assistência a sofredores que, como eu, dependem da bondade dos benfeitores para se
erguerem. Todavia, posso revelar que eles se situam em locais ermos. Crosta da terra,
geleiras inóspitas, desertos áridos, montanhas escarpadas e, nunca fui lá, mas me
disseram que até no fundo do mar existem tais esconderijos.
- Queria lhe perguntar sobre algumas observações que fiz sobre um Espírito
chamado Tapuia...
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- Eu sei. Estava lá com você nas observações. Pedi aos instrutores do grupo que me
permitissem participar do Projeto. Isso vai valer “alguns pontos” na minha recuperação.
- O que quer dizer com “alguns pontos” na sua recuperação?
- Que ajudando serei ajudado. Entre os franciscanos o antigo poema de Francisco
de Assis é uma lei.
- Já que estava comigo, por que tanta areia em forma de pedra nas materializações
de Tapuinha?
- Quero iniciar dizendo que entre vocês existem dúvidas se podemos ou não
materializar e desmaterializar algo. Entre nós materializar e desmaterializar é uma
realidade incontestável. Existem muitas linhas de trabalho na magia. Tapuia e sua equipe,
seguem a linha naturalista, ou seja, trabalham diretamente com a natureza. Utilizam-se de
folhas e raízes para banhos e chás e materializam sob a forma de pedras, areia, folhas,
lama pútrida, os fluidos grosseiros que causam as dores e as doenças. Isso só é possível
devido a possante médium que a serve, cuja faculdade é rara e de inegável eficiência.
Tapuia concentra o fluido doentio espalhado pelo perispírito e o faz emergir,
materializando-o na imediata superfície da pele, à flor da pele, como se diz, fazendo com
que surja diante dos olhos atônitos de quem observa o fenômeno, pedras e folhas, charutos
e gosmas.
- Por que Tapuia faz perguntas tais quais, há quanto tempo sofre disso ou onde é
que dói, se ela pode ver no perispírito os agregados fluídicos, bastando retirá-los para que
a pessoa fique curada?
- Você observou bem e viu que nem todos são curados. Sem merecimento e reforma
íntima consegue-se, e já é muito, um alívio para continuar a marcha. A equipe de Tapuia
precisa saber dados sobre o feitiço. Há quanto tempo foi efetuado, os objetos utilizados, o
local onde foi praticado, o que foi utilizado como “endereço vibratório”, dentre outros. A
terapia ali praticada não se restringe apenas ao paciente ou impaciente que se senta
diante do congá. A equipe vai atrás do feiticeiro responsável pelo trabalho. Você não
ignora que tudo quanto se faz em uma encruzilhada, um cemitério ou entre quatro paredes,
fica gravado no ambiente e pode ser lido por terceiros. As energias maléficas emitidas
pelo feiticeiro precisam ser desviadas da vítima ( desmanche do trabalho ). Esses dados
auxiliam no trabalho, sendo que a maior porção dele é feito, fora da vista do paciente.
- Existe uma vida útil para o feitiço ou ele, uma vez lançado, pode persistir durante
toda a existência de um encarnado ou até mesmo ultrapassar o túmulo junto a ele?
- Tudo tem o seu tempo ou o seu ciclo. Todo feitiço, para ser duradouro, precisa ser
revitalizado. Nas enfermidades mais demoradas cuja causa foi o feitiço, pode ocorrer que
o feiticeiro haja firmado um pacto com outros, visando renová-lo, caso seja capturado.
Não existe um feitiço eterno pois tudo está submetido a leis naturais.
- Um feitiço endereçado a uma pessoa pode atingir outra?
- Sim. O poder que os feiticeiros têm sobre nós é diretamente proporcional as
nossas falhas. Aprendemos que a doença é a degeneração da energia, gerada pela
perversão do pensamento. Bons pensamentos produzem boas energias que se agregam ao
perispírito formando uma espécie de roupão protetor. Maus pensamentos geram energias
negativas que, ao longo do tempo, acabam por “infectar” por completo esse corpo. É
sabido que nem sempre nosso estado imunológico está em alta, por isso vírus e bactérias
nos atacam e vencem. Ocorre o mesmo com nosso estado psíquico. Há fissuras em nossa
aura, conforme já foi estudado pelo grupo. Não somos vigilantes nem caridosos vinte e
quatro horas por dia. Numa queda vibratória proveniente de um estado mental depressivo,
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colérico, uma descarga negativa pode nos atingir. Naturalmente, tudo ocorre conforme
nossos méritos e deméritos. Pode acontecer também que um terceiro seja atingido com
menos intensidade. Nesse caso há de se verificar a vida pregressa do atingido. Tapuia já
retirou pedras de pessoas que são conhecidas como detentoras de inquestionáveis virtudes.
É que suas ações menos dignas do passado fazem com que ainda persistam em seus
perispíritos, agregados fluídicos que são verdadeiros quistos a exigirem drenagem tais
quais as que ela executa.
- Existem, neste planeta, pessoas imunes ao feitiço?
- Se elas são evangelizadas e por seus méritos possuem auras sem fissuras,
rechaçam o feitiço a elas endereçadas. Todavia, ninguém está isento do sofrimento neste
mundo pois restam as agressões comuns dos habitantes do planeta tais como, a fome, o
frio o cansaço a má vontade, a má educação de seus semelhantes, dentre outras. Os
trabalhos de magia negra só obtêm sucesso devido o acolhimento que recebem por parte
daqueles para os quais foram feitos. A consciência culpada, a ociosidade mental, o
egoísmo desenfreado, o orgulho desmedido, a indisciplina generalizada constituem o
passaporte para o sucesso do feitiço. Nossos vícios favorecem a formação de uma sintonia
com os Espíritos que se comprazem no mal e, através dela, lhes fornecemos guarida
através da afinidade vibratória de que necessitam para as imantações fluídicas a nós
próprios.
- Os elementais podem ser utilizados nos trabalhos de magia negra?
- Elementais, devas, silfos, elfos, são seres que estão no caminho evolutivo para se
tornarem senhor de suas ações através do uso correto do livre-arbítrio. Nesse período de
transição entre o primata e o humano não possuem ainda o discernimento necessário para
agir com segurança, devido a ingenuidade de que são portadores. Pelo que sei e vi, eles
podem ser utilizados por encarnados e desencarnados para auxiliá-los em seus trabalhos
de magia.
- Em uma das vezes que observei Tapuia vi a materialização de um saco plástico
com o logotipo do mercado de onde viera. Também notei em um charuto materializado,
retirado do joelho de um amigo, uma espécie de anel dourado indicativo da marca. Tais
coisas são comuns em operações desse gênero?
- Sim. Os índios são especialistas nesse tipo de materialização. Eles materializam o
material utilizado na feitiçaria. Poderia ser pregos, um absorvente, cabelos, material
putrefato.
- Em nossas pesquisas encontrei alguns casos cujas pessoas enfeitiçadas portavam
pregos, agulhas, alfinetes, botões e outros objetos dentro do corpo. Como isso ocorre?
- Através da energia do pensamento. A vibração disciplinada e persistente do
pensamento sobre a energia faz com que ela se torne palpável. Não importa o tipo de
matéria. Ela surge sob o comando do pensamento vigoroso do feiticeiro que a direciona e
aglutina em local por ele determinado. Todos sabem que cada objeto tem um duplo ou
matriz. Esse duplo, que é a sua “contra-parte” existente em plano menos denso é
movimentado para dentro do corpo e preenchido com matéria aglutinada pela força
mental do feiticeiro. Como Tapuia materializa no limiar da pele, o feiticeiro materializa
dentro da pele. Insisto: seja qual for o tipo de material, desde que seja inerte ( não vivo), o
feiticeiro pode introduzi-lo dentro do corpo de alguém que esteja em débito com a lei.
Alguém pode argumentar: mas Deus permite isso? Deus faz das tragédias oportunidades
de crescimento para uns, aprendizagem para outros, pagamento de dívidas para terceiros.
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Não estou justificando as ações do feiticeiro. Apenas enfatizando a sabedoria divina que
faz do agressivo, do grotesco, algo aproveitável para os que têm olhos de ver.
- O que o fez parar e mudar de atitude?
- O sofrimento, o cansaço, a deformação do meu corpo, a falta de paz gerada pela
pressão de muitos inimigos. Um feiticeiro não pode ficar desafiando a lei eternamente.
Como você diz, sempre chega o instante do basta. Esse instante pode ser determinado pelo
avanço nas deformações que ele vai sofrendo, cuja gênese são seus atos nefastos. Isso é
artigo da lei. O corpo espiritual vai se adensando, tornando-se grosseiro, petrificado, com
crostas e torções que, gradativamente, tolhem a liberdade de manifestação. Cada
pensamento maléfico que eu emitia, parecia, após atingir o alvo, fazer uma curva e voltar-
se contra mim. A princípio, protegia-me utilizando fluido vital de recém-desencarnados
que capturava. Não sei se você sabe mas isso é comum aqui entre os que querem
revitalizar o perispírito...
- Um instante. Você está dizendo que o fluido vital de desencarnados é utilizado
para atenuar as deformações perispirituais?
- Exatamente! Utilizamos essa técnica que atenua as deformações mas não
podemos eternizar esse procedimento. É como uma droga. Momentaneamente nos torna
mais fortes, mas precisamos aumentar a dosagem a cada aplicação pois a quantidade
anterior já não nos satisfaz. Sugamos o fluido vital como vampiros, nos tornamos
dependentes, desgraçados.
- Como você armava o seu sistema defensivo a fim de se esquivar dos inimigos?
- Fazia pactos, criava proteções com a minha magia. Contudo, não podia ficar a
todo instante preocupado em defender-me. Quando afrouxava o pensamento nessas
defesas elas se desfaziam.
- Poderia nos dizer algumas técnicas utilizadas em seus feitiços?
- Não. Muitos querem o domínio dessas técnicas e os instrutores que me orientam
não me permitem revelá-las. Kröller, que é o instrutor do grupo e o meu bom Espírito,
avisa-me que meu tempo esgotou. Quero pedir ainda que não deixe de registrar para seus
leitores a inestimável ajuda que índios, pretos-velhos e caboclos prestam aos infortunados
do mundo. Eles fazem o bem desinteressadamente, sem preconceitos ou exclusões. No afã
de auxiliarem em nome do bem, não perguntam por rótulos doutrinários nem impõem
condições para estancar a dor ou a lágrima. Por favor, não deixe de registrar esse recado
em seu livro, e que Deus nos ajude a sempre honrar o Seu nome através de boas obras.
Obrigado por tudo e disponham do amigo que ora se despede.
- Agradecemos a ajuda e nos colocamos à disposição do amigo para qualquer
ajuda que possamos prestar nesse difícil caminho de retorno. Que Deus nos ampare a
todos.

A recaída de Califa

Após a nossa conversa com Califa continuamos com muitas dúvidas: como um
prego surge dentro de uma pessoa sem que ela o tenha introduzido dentro do seu corpo?
Como funciona a magia através dos bonecos do vodu? Uma forma-pensamento, ou seja,
uma criação fluídica de um animal ou mesmo de um ser humano criada por um feiticeiro
pode perseguir uma pessoa por quanto tempo? Qual a real necessidade do ritual na
feitiçaria, já que tudo é comandado pela mente? Nossas pesquisas nos deixavam cada vez
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mais curiosos, o que é natural, pois quanto mais se estuda mais questionamentos aparecem.
Só não tem dúvidas quem não estuda, diz velho ditado. Após a leitura de alguns livros que,
da feitiçaria exercida no plano espiritual pouca coisa apresentavam, já que seus autores não
vivenciam o dia-a-dia da desobsessão limitando-se a teorias bizarras e ingênuas,
resolvemos dialogar com Califa novamente.
Para a surpresa de todos, surgiu através da psicofonia, Kröller, dando-nos ciência de
que Califa, devido as recordações do passado, geradas pela entrevista que nos dera, estava
em tratamento. Recordar é viver, disse-nos o instrutor. Tapuia nesse instante está com ele,
como a médium pode observar.
A médium observava o quadro aludido, descrevendo-nos Tapuia como uma índia
jovem e bela. Califa mostrava-se um pouco debilitado, mas não abatido. Em seguida
Kröller colocou-se à disposição do grupo para responder ao que fosse permitido divulgar,
incentivando-nos à pesquisa e à perseverança no bem.
- Como está nosso amigo Califa?
- Em breve estará bem e virá complementar o diálogo interrompido. Pede desculpas
pela recaída e lembra que continua paciente neste hospital. Apesar dos esforços, ainda não
domina a emoção de reviver o passado sem transportar-se a ele, fato comum em Espíritos
arrependidos e com boa vontade de fazer o bem. Ocorre que muitos devedores da lei
sofrem com sentimentos de culpa e remorso pelo que fizeram. Quando tais Espíritos
lembram do passado revivem acontecimentos negativos com repercussão imediata em seus
perispíritos. Em respeito a sua condição de paciente o substituo, o que me proporciona grata
satisfação por estar com todos do grupo
- Poderia nos falar um pouco sobre os fenômenos que presenciamos junto a Tapuia?
- Quero lhe confirmar que existem restrições em nossas respostas. Você assistiu a
fenômenos de materializações, transportes e outros que nem imagina. Sei que aquele saco
plástico com rótulo, endereço, dentre outras informações o deixou confuso. O saco plástico
foi transportado do local do feitiço porque havia a necessidade de queimá-lo já que era
uma espécie de acumulador de energias negativas vinculadas à enfeitiçada.
- Mas, digamos que o feitiço já tivesse dez anos e que o saco plástico estivesse
longe, levado pelo vento. Como encontrá-lo e materializá-lo?
- Se o encontrassem ele seria transportado. Caso não o encontrem usariam seu duplo
para materializá-lo. Creio que os componentes do grupo sabem que todo ato de feitiçaria
fica gravado no éter o que dá margem a que se obtenha informações sobre o mesmo. Por
outro lado, o material utilizado na feitiçaria ( charutos, pregos, bonecos, objetos
pertencentes a vítima.... ) e seus duplos também permanecem no local. A parte material do
feitiço, ou seja, o material utilizado, pode ser retirado no dia seguinte mas seus duplos e as
imagens gravadas no éter que ali permanecem possibilitam a recomposição do que foi
retirado. No caso do transporte o saco surgiria aos olhos de quem assistisse ao fenômeno
nas condições atuais em que se encontra. Se tiver sido gasto pelo tempo, rasgado,
empoeirado, enfim, se tiver sofrido qualquer dano este será exposto. No caso da
materialização ele se apresentaria no estado em que foi utilizado no dia da prática do
feitiço, ou seja, novo ou velho, com danos ou sem eles.
Digamos que em um feitiço sejam utilizados dez tipos de materiais diferentes, inclusive
areia de cemitério e charutos. Por que apenas a areia e o charuto são materializados?
Entre os materiais utilizados na prática do feitiço muitos são acessórios que não se
prestam como acumuladores de energias negativas nem formam um vínculo estreito com a
vítima. É materializado apenas aquilo que se vincula fortemente através de fluidos nocivos
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com o enfeitiçado. No que é chamado de desmanche são utilizados, geralmente queimados,


apenas os materiais trabalhados diretamente pelo feiticeiro e que estão impregnados com as
energias oriundas do seu pensamento maléfico, o que faz “ponte” e enferma o enfeitiçado, o
que alguns chamam de “endereço vibratório” e você, de “coordenadas psíquicas”. Materiais
secundários são desprezados.
- Existe realmente desmaterialização e rematerialização de um objeto?
- Vejo que este é o ponto nevrálgico da questão para você. Entendo que a sua
condição de encarnado limita o entendimento de questões que para nós, Espíritos
desencarnados, são simples. Não podemos revelar essa técnica por motivos já expostos.
Tudo quanto posso revelar é que ela existe e é largamente utilizada por quem a detém e a
emprega a serviço do bem ou do mal. Os técnicos das trevas que a dominam a empregam
sob a severa vigilância da lei. Não que existam fiscais a espioná-los noite e dia. São as
limitações impostas pelas sábias leis criadas por Deus que os tolhem em suas atitudes.
Aferrado a Kardec como você é, e o felicito por isso, prende-se ao ensinamento de Erasto
que afirma ser impossível a desmaterialização seguida de materialização do mesmo objeto.
No início do Projeto o advertimos para estudar sem preconceitos obras e teorias ditas não
espíritas. Aliás, escolhi o Espiritismo como referencial de vida porque traz as melhores
interpretações para os ensinamentos de Jesus, não é excludente e segue ao lado da ciência.
Em ciência não existe a última palavra. Só utilizamos as palavras nunca e sempre com
extremo cuidado. Por mais fantástico que isso lhe pareça, um objeto pode ser
desmaterializado e em seguida, materializado. Isso responde as suas dúvidas sobre como
pregos, giletes, agulhas e outros objetos pequenos surgem dentro do corpo de pessoas
enfeitiçadas sem que elas os tenham introduzido em si próprias. Em casos tais o duplo do
objeto é transplantado para dentro do corpo e preenchido materialmente pela condensação
da energia livre utilizada pelo feiticeiro. Naturalmente a vítima é devedora da lei. Sei da sua
impaciência em saber mais. Todavia, como dissemos, o tema exige restrições.
- O ferro utilizado na materialização do prego poderia ser o mesmo existente no
corpo do enfeitiçado?
- Em um caso particular, para um objeto muito pequeno, poderia. A quantidade de
ferro existente no corpo é muito pequena para ser utilizada em materializações de vulto,
aproximadamente 0,005%. Geralmente o feiticeiro não opta por este processo pela sua
demora e ineficiência. O ferro do corpo seria retirado lentamente, como que sugado por um
ímã, no caso, o duplo do prego já preparado com esta finalidade. Isso demanda tempo,
esforço, concentração e alimentação do processo por parte do feiticeiro, que ficaria preso a
este procedimento durante semanas ou meses. Como ele pode agir sobre a energia livre
aglutinando-a em torno do duplo do prego tornando-o um “objeto material” em tempo
menor e com menos esforço, é lógico que prefira este método. Em processos tais, onde o
duplo funciona como um ímã dentro do organismo humano, ele pode atuar como “sugador”
de impurezas, aglutinador de bactérias inofensivas quando dispersas mas letais quando
unidas, fluidos nocivos que se transformam em doenças variadas quando se somatizam.
- Se o livro deve conter tantas restrições em que poderá auxiliar aqueles que o leiam
visando a combater a magia negra?
- No início do Projeto esta questão ficou estabelecida. Resgatar Espíritos vinculados
ao grupo, avanço intelectual e moral dos membros que o compõem, servir de alerta para
que pessoas menos avisadas não busquem os caminhos tortuosos da magia negra, auxiliar
aos espíritas que pouco conhecem sobre este método agressivo de intimidar e ferir. Este foi
o objetivo traçado para o grupo.
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- Se um Espírito pode materializar um prego pode fazer o mesmo com uma lâmina e
ferir alguém encarnado?
- Claro que não! O mundo seria um campo de batalha repleto de cadáveres se isso
fosse permitido pela lei. Repetimos que as leis de Deus são sábias e têm como limitar
qualquer excesso. O poder dos Espíritos superiores é irresistível e suas ordens são sempre
obedecidas. Nenhum feiticeiro pode desobedecer a elas.
- E quanto aos bonecos do vodu? Quando espetados fazem o enfeitiçado sofrer
profunda dor no local correspondente a agressão ocorrida no boneco. Qual a mecânica
desse processo?
- Toda prática do feiticeiro é mental. As leis que regem o pensamento são as
mesmas que regem os fenômenos da Física. O pensamento emitido atinge o receptor, que
lhe dá guarida através da sintonia encontrada. A carga nefasta que o pensamento traz é
capaz de aglutinar fluidos nocivos no perispírito, impregnando chacras, provocando
intoxicações, doenças e desencarnes. Isso é eqüivalente a fabricar uma lâmina e desferir
com ela certeiro golpe contra um adversário. A lei de causa e efeito, no capítulo das
cobranças, permite este “escândalo” pois faz parte de procedimentos naturais previstos no
mau uso das leis. Aglutinar fluidos doentios que se casam com um perispírito enfermo que
os acolhe e incorpora como se fossem seus é algo previsto e permitido pela lei. Materializar
uma arma e utilizá-la em prejuízo de terceiros não é capítulo da lei. Se o feiticeiro crava um
espinho sobre a parte referente ao estômago da vítima e deseja fortemente que ela sinta dor
naquele local, as ondas do seu pensamento atingirão o receptor e ele, a depender do seu
merecimento, a sentirá ou não. É algo semelhante as ondas de rádio que se propagam e são
traduzidas em som quando uma estação receptora as acolhe. O pensamento do feiticeiro
tem um endereço certo e uma mensagem específica. Acolhido, transforma-se em
enfermidade. Lembremo-nos de que não há mágica nesse processo. A vítima poderá ser
atingida se estiver vulnerável, desenergizada, se for devedora da lei. O feiticeiro poderá
alimentar esse processo durante dias, até que o efeito, o surgimento da doença, seja
realidade.
- E quanto as formas-pensamento? Como o feiticeiro trabalha com elas?
- Ela é criada pelo pensamento vigoroso do feiticeiro e tem a duração que este
determina. É como um obsessor, embora sua forma nem sempre seja humana, a perseguir a
vítima implacavelmente com o objetivo de prejudicá-la. A dificuldade que se enfrenta em
destruir tal forma se deve ao fato de a mesma alimentar-se do medo, sofrimento, remorso,
ódio ou paixões negativas da vítima.
- Lemos em um romance de Philomeno de Miranda, “Painéis da Obsessão”, o caso
de Marcondes, um tirano que fez muitos inimigos e que, quando mais jovem, não era
atingido pelos petardos mentais daqueles que o odiavam devido estar mergulhado em suas
próprias construções psíquicas que formavam uma espécie de couraça que o protegeu
durante algum tempo. Posteriormente, com a velhice, as sucessivas ondas prejudiciais
alcançaram-lhe os equipamentos orgânicos, desarticulando suas defesas imunológicas que
foram vencidas, surgindo a tuberculose que o levou ao desencarne. Pode um feiticeiro
profundamente mau formar uma espécie de couraça, à semelhança de Marcondes, que o
proteja de outros menos maus?
- Já lhe falamos que há um limite na lei que jamais é ultrapassado. O tempo, senhor
que faz dobrar os joelhos dos maus, se encarrega de tolher toda ação nefasta. Califa
explicou que com o tempo as más ações vão deformando o perispírito do feiticeiro e ele
geralmente se rende, é tolhido por benfeitores que o acolhem ou por malfeitores que o
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subjugam. Isso descarta a idéia de um “corpo fechado”, mito que o feiticeiro cria para se
tornar mais temido e poderoso. Corpo fechado, aura sem frestas, tem quem ama
incondicionalmente, coisa raríssima neste planeta. Nenhum feiticeiro fica livre para desafiar
a lei indefinidamente. Existe o determinismo da lei. Chegado o dia, ele é capturado, tolhido,
impedido, como aconteceu com o nosso companheiro de presas de sabre. Aquele foi o seu
dia e ele se viu como realmente era. Uma carcaça sobre geléia sanguinolenta. O choque que
ele recebeu com a captura desarticulou suas defesas e quebrou sua “couraça”. Ele agora
será enviado às estações de reeducação e reencarnação.
- Um trabalho semelhante ao que vimos praticado por Tapuia pode ser feito em um
Centro Espírita?
- Certamente. Nossos métodos são outros, mas não menos eficientes. Através de
passes podemos concentrar o fluido doentio em uma região qualquer do perispírito e retirá-
lo, dispersá-lo, neutralizá-lo. A diferença é que o enfermo não vê o que extraímos pois não
o materializamos. O trabalho espírita é mais silencioso, não se baseia na divulgação de
fenômenos para que as casas espíritas fiquem superlotadas. Enfatizando a necessidade da
reforma íntima que previne e cura os males do corpo e da alma, incentiva o enfermo à auto-
cura, a dominar suas paixões negativas, que são, na realidade, os agentes causadores de
todas as doenças. Dizendo isso não estou invalidando o trabalho de Tapuia. Ela auxilia
enfermos e alivia a dor naquele recanto onde, na maioria das vezes, é a única medicina
disponível. Seu trabalho é de grande valor e tem o mérito de despertar a fé em alguns
enfermos que se sentem beneficiados.
- Em nossas reuniões são desfeitos muitos trabalhos de magia negra. Como vocês
fazem isso?
- Através da manipulação fluídica quando conhecemos a constituição do fluido em
questão. É sabido que um fluido neutraliza ou expulsa outro. Utilizamos plantas e
alimentos magnetizados para atrair Espíritos que necessitam dessas energias grosseiras que
os encarnados oferecem em rituais. Aqueles que estão “imantados” a esses materiais são
como que “sugados” e, logicamente, convencidos a cooperar. Em alguns casos os
aprisionamos e ordenamos que desfaçam os trabalhos dos quais participaram. Quando são
mais dóceis os educamos para que se tornem livres do vício a que foram sugestionados ou
acostumados, mudando-lhes o hábito alimentar. Os que são rebeldes à metodologia que
praticamos são liberados posteriormente com os devidos avisos e conselhos. Não
trabalhamos com sangue. O vampiro que é viciado neste material é capturado e, como
prisioneiro, tratado com bondade mas com energia, é levado à reunião de desobsessão para
que seja doutrinado. Em todo o trabalho somos auxiliados por médiuns e doutrinadores
encarnados em suas reuniões de desobsessão.
Acredito que Califa estará restabelecido na próxima reunião e que poderá, como é o
seu desejo, participar do Projeto com respostas às suas dúvidas. Continuem estudando e
lembrem-se de que sempre estaremos com todos, intuindo-os e auxiliando-os no limite de
nossas possibilidades. Que Deus ampare a todos.

A despedida de Califa

Em O Livro dos Espíritos havíamos aprendido que a mente, manifestando-se através


do pensamento, dispensa rituais para realizar sua construções. Por que a insistência dos
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feiticeiros, pelo menos de alguns, em iniciar seus feitiços através de rituais? Pela conversa
que tivera com ex-praticantes de magia negra eles demostraram não ser ingênuos nem
desconhecedores dessa realidade. O que um operário faz com as mãos quando encarnado,
constrói com o pensamento quando desencarnado. Por que então a insistência na realização
de um ritual? A própria Tapuia só “incorporava” depois que a médium fizesse seus cantos e
preces. Diante disso eu ficava pensando: e se não acendêssemos as velas, os defumadores,
não cantássemos, não orássemos, tudo aconteceria como de costume?
Na reunião seguinte, ainda com dúvidas a elucidar, iniciamos o estudo com longa
discussão sobre os rituais. Chegada a hora de dar vez e voz aos amigos espirituais, eis que
uma das médiuns se desdobra e começa a descrever o cenário a que fora levada a observar:
Vejo o “Grão de Mostarda” ( Centro Espírita em que trabalhamos ) do alto, como se
estivesse em um avião. Ele está cercado por sentinelas e uma rede luminosa impede a
passagem de qualquer estranho ao seu interior. Todavia, tudo está transcorrendo tão
calmamente que dir-se-ia desnecessário tal aparato de segurança. Ocorre, diz o instrutor,
que o assunto ora em estudo atrai muitos Espíritos sequiosos pelo poder, desejosos de
formarem suas próprias quadrilhas, de dominarem pelo terror populações sofridas e
fragilizadas. Bem sabemos que, para realizarem seus desejos, não vacilariam em invadir o
Centro a fim de se apoderarem do conhecimento aí exposto caso não houvesse uma defesa
vigorosa. As normas de segurança são largamente utilizadas em situações como esta.
Adentrando o Centro, eu o percebo ampliado em seu espaço interior. Pelos corredores
hindus, monges, estudantes atentos à nossa discussão. Vejo também todos os nossos
amigos em serviço, Kröller, Francisco que conversa com Califa, Ednir... Califa se
aproxima de mim. A comunicação vai começar.
- Bom dia, companheiros. Quero me desculpar por não ter honrado o meu
compromisso. Francisco, esse terapeuta, psicólogo, psiquiatra, não sei bem que título
atribuir ao seu ofício, já me deixou em forma novamente. Disponham do amigo para o que
for possível elucidar das dúvidas que ainda persistem. Estava ouvindo o comentário
evangélico feito por todos e, embora sejam reais os argumentos que mostram uma visão
caótica de mundo, onde a corrupção, o materialismo, o egoísmo e outros vícios imprimem
lentidão à caminhada do bem, peço permissão para dar a minha opinião, fundamentada na
assistência que tenho tido por parte de todos desta casa. Há guerras materiais e de
interesses, há maldade nas intenções de muitos e o bem parece travado pelo poder dos
maus. Todavia, nunca se falou tanto no amor como na última década. Direitos humanos,
defesa das minorias, luta pela preservação de espécies ameaçadas, da preservação da água,
do solo, do ecumenismo, da reforma agrária, são temas do dia-a-dia. Isso mostra que o bem
caminha. Esta casa é um farol a nortear a justiça e a lembrar que a caridade jamais foi
esquecida. Não são poucos, e entre eles me incluo, os que aqui recebem amor fraterno e
resgatam o sentimento de esperança que, para alguns, parece fenecer a cada dia. Não se
busca a esperança em cemitérios porque ela é imortal. Eu a encontrei como hóspede dessa
casa e é por isso que aqui me demoro. Eu estava sem esperança, sem fé na vida quando me
entreguei. Eu não a matara, disse-me Francisco, apenas a expulsara da minha vida.
Trabalhadores de Jesus, através de seus exemplos de doação, me fizeram crer que, através
da esperança, tudo se encaminha para a bondade e a para beleza. Foi aceitando sem muita
rebeldia o sofrimento que eu mesmo me impus que a acolhi de novo e a convidei para
morar comigo. Que jamais percamos esse sentimento tão valioso em nossa vida que é a
esperança. Poetisa inspirada, seu verso favorito lembra que o amanhã, embora pareça
escuro, sempre será mais claro e melhor. Desculpem o lembrete da parte de quem não tem
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autoridade para falar tais coisas, mas aprendi que a maldade dos homens não é permanente
nem progressiva. Aqui há professores, enfermeiros, militares, advogados cada um atuando
sob a égide do bem e da justiça pode tornar o mundo mais acolhedor. Fui um crítico severo
daqueles que trabalhavam isoladamente, por não encontrarem companhia, semeando
pequenos grãos de amor. Eu sempre duvidei de que uma pessoa isolada pudesse fazer algo
para melhorar o mundo. Eu estava enganado. O pouco de cada um se torna muito para os
que nada têm. Gandhi, Francisco de Assis, Vicente de Paulo, Albert Schweitzer foram
homens, a princípio sozinhos, que encarnaram idéias que se multiplicaram e floresceram
aos milhares gerando abundantes frutos ainda hoje colhidos pelos pomares do mundo. Não
percam jamais a esperança, é isso que queria dizer a todos.
- Bom dia. É grande a nossa alegria em vê-lo restabelecido e esperançoso.
Gostaríamos, primeiramente, que nos falasse sobre a necessidade do ritual no feitiço.
- Ritual é algo que se consagra pela prática e se conserva inalterável sempre que a
mesma situação se repete. Os rituais dos feiticeiros não são sempre os mesmos nem têm
função decorativa. No meu caso, o principal objetivo era fixar o pensamento nas ações do
feitiço. Em cada passo que executava disciplinava o pensamento de tal maneira que, à
proporção que eu pensava, materializa fortemente no plano astral o meu desejo. As etapas
do ritual apenas me auxiliavam a centralizar o pensamento naquilo que eu fazia.
Genericamente, existem outras funções. Quando o feitiço é relevante para o feiticeiro, ele
se empenha em conhecer as fragilidades perispírituais e orgânicas da sua vítima. Tal qual
um médico procede na tomada do estado de saúde de alguém, ele observa, faz uma
varredura na aura, no perispírito, no corpo físico, nas tendências do Espírito, nos méritos e
deméritos da vítima e traça um verdadeiro diagnóstico fisico-moral que lhe servirá de base
para o feitiço que utilizará. Após isto, ele se concentra na atração de forças que serão
utilizadas, nos comparsas que o ajudarão a aglutiná-las em objetos para finalmente projetá-
las segundo o plano já elaborado. Neste plano constam os órgãos a serem afetados e os
caminhos pelos quais a energia maléfica penetrará através da aura, materializando-se
posteriormente com o auxílio de fluidos específicos que seus comparsas ou ele próprio
adicionarão a aura do enfeitiçado. Na realidade, esse procedimento é mais uma seqüência a
ser obedecida para a eficiência do processo do que um ritual. Posso afirmar também que os
odores, os cânticos e pontos traçados auxiliam no início do transe mediúnico e na formação
da sintonia com as entidades que colaboram na execução do feitiço. Insisto na distinção
entre magia e mágica. Na magia trabalhamos com leis naturais, conscientes de que tudo é
energia. Esta é manipulada, vibra e repercute no local ou no ser escolhido como alvo pelo
pensamento.
- Digamos que o objeto a ser utilizado no feitiço seja uma moeda e que o desejo do
feiticeiro é materializá-la dentro do corpo do enfeitiçado. Como ele agirá?
- É sabido por muitos que a doença tem gênese interna, nos corpos que revestem o
Espírito, para então exteriorizar-se no corpo físico. Não podemos pensar o perispírito como
um corpo hermeticamente fechado sem comunicação ou drenagem de fluidos para o corpo
físico. O feiticeiro, de alguma maneira, lança, materializa energias negativas no perispírito
do enfeitiçado e este, na tentativa de expulsá-las ( mecanismo de defesa ), as empurram
para o corpo físico, no que se materializam em doenças variadas.
- E quanto à moeda?
- Nesse caso, a moeda tem um vínculo com seu antigo dono, ou seja, as coordenadas
psíquicas estão determinadas. Como tudo tem uma matriz ou duplo, como queiram, o duplo
é introduzido dentro do corpo da vítima e materializado.
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- Não seria possível ao feiticeiro utilizar a moeda transformada em fluido e


introduzi-la no corpo da vítima?
- Entendo o que quer dizer. Como se em um laboratório químico a moeda fosse
passada para o estado líquido, depois gasoso, fluídico e, desta forma introduzida no corpo,
sendo materializada em seguida através do processo inverso. Mas meu amigo, não
complique o que é fácil de entender. Todo objeto tem a sua matriz e é através dela que se dá
a sua materialização. O que não posso é revelar como isso é feito. O que Tapuia faz, na
maioria das vezes, é simplesmente materializar as matrizes dos objetos utilizados nos
feitiços.
- Mas digamos que o objeto tenha sido destruído. Sua matriz também o seria?
- Sim, mas restaria ainda um registro indestrutível no cosmo, uma espécie de DNA
gravado no éter cujo acesso depende do conhecimento da técnica em localizá-lo, decifrá-lo
e utilizá-lo para clonar o objeto já destruído. Poucos feiticeiros sabem operar tais códigos e
aqueles que os dominam são considerados muito poderosos.
- Entendi o que me disse, mas gostaria de certificar-me desse detalhe: existe no éter
uma espécie de DNA de tudo quanto foi pensado, fabricado, utilizado, e mesmo que tais
objetos sejam destruídos, e com eles seus duplos, essa espécie de código genético é capaz
de reproduzi-los? Indo mais além: será possível ao homem um dia reproduzir fatos
históricos, a história do planeta desde a sua formação, baseado nesses códigos?
- Se for permitido por Deus, sim. É tudo quanto posso revelar. O feitiço não atinge
esses códigos. Tapuia os utiliza quando os objetos do feitiço foram destruídos. Aliás,
Tapuia não é uma índia ignorante, mas um Espírito de ciência superior que desceu aos
charcos para ajudar no alívio dos sofrimentos humanos. A dificuldade que temos em
entender tais aspectos provém de uma educação materialista que nos é ministrada, onde
todos precisam ver, pegar e medir para admitirem a existência de algo. Mas virá o tempo da
ciência vibracional, da Medicina, da Física, da Química vibracionais, que fará ultrapassar a
faixa grosseira da matéria e colocará um ponto final nas discussões sobre matéria e energia.
Mais uma vez chamo a atenção para que a discussão seja centralizada na energia pois não
existe uma outra realidade além dela.
- Tal explicação não seria uma tentativa de tornar o feitiço aceito pela ciência posto
que, explicado cientificamente, teria lugar nas academias científicas?
- Temos insistido em dizer que nada existe fora das leis naturais. Qualquer feitiço
pode ser explicado por leis científicas. A mágica, o sobrenatural, o fantástico só encontram
sustentação em mentes ingênuas de imaturo senso crítico.
- Uma vez introduzido o molde de um objeto no corpo da vítima ela poderá reverter
o feitiço livrando-se dele?
- Não é muito fácil livrar-se de um feitiço. O ideal é prevenir-se contra ele. O molde
carregado de energias enfermiças contamina rapidamente a aura do enfeitiçado tornando-a
viscosa e centro de atração para fluidos que, cada vez mais, a tornam pegajosa. Nessas
condições o enfeitiçado altera o seu estado de humor passando a emitir pensamentos
depressivos, coléricos, desarmonizados, fato que contribui para o fortalecimento da
atmosfera negativa que o circunda. Naturalmente que esse procedimento lhe rouba a
sintonia com seus amigos espirituais, que não encontram meios de comunicação para
inspirá-lo à reação de defesa. Manietado por esse campo que o isola das inspirações
superiores, incurso nas leis de causa e efeito que não lhe permitiram a formação de um
escudo protetor, submetido a leis naturais como qualquer cidadão terreno, ele é vítima de si
mesmo. Não assistimos aí à vitória do feiticeiro, mas à derrota momentânea de um ser
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humano que se descuidou dos mais elementares procedimentos de defesa e se privou das
mais possantes armas manejadas nos campos de batalhas terrenos: a vigilância e a oração.
- Por que determinados feitiços necessitam do sangue de animais sacrificados?
- O sangue é a linfa da vida. Carregado de fluidos vitais, ele se presta ao
abastecimento de desencarnados que se deixam escravizar para obtê-lo. Vulgarmente
chamados de vampiros esses Espíritos tornam-se dependentes do fluido emanado do sangue
da mesma maneira que os viciados se prendem às drogas. A presença desse elemento nos
rituais de magia visa a atrair comparsas que executam parte do trabalho em troca das
emanações fluídicas que extraem do sangue e do álcool. Parece existir no inconsciente
coletivo um traço marcante relacionado com o sangue que inspira medo e pavor. Muitas
pessoas se assustam, se impressionam, perdem o controle diante desse elemento. Isso
parece gravado em nossas mentes desde eras primitivas, dos tempos em que determinadas
religiões praticavam rituais sangrentos, sacrifícios humanos e de animais. Há todo um
passado carregado de dor e de ignorância onde o sangue tem papel de destaque. Sabedor
dessa realidade e atento a tudo que provoca medo e perturba o Espírito, o feiticeiro a
incorpora ao rol de “armas” que afligem suas vítimas. Sem querer assustar seus leitores,
afirmo que o intercâmbio entre encarnados e desencarnados tendo como objeto de
negociação o sangue é muito grande no planeta devido aos hábitos alimentares e as
dificuldades no uso da fraternidade nas relações humanas.
- E quanto à areia de cemitério? É farta a quantidade desse material nas
materializações de Tapuia.
- Penso que seja do conhecimento dos espíritas que a matéria absorve fluidos
tornando-se curativa ou enfermiça, grava eventos, libera cargas energéticas, imagens,
enfim, é manipulada a serviço do bem ou do mal. A areia do cemitério é rica em fluidos
vitais e odores provenientes dos cadáveres que se decompõem ao seu redor. Por outro lado
é bombardeada constantemente por vibrações de dor e de desespero de quem não se
preparou para o instante da separação, ou seja, pessoas que lá comparecem para enterrarem
seus mortos. Restos de ossos humanos também assustam e contêm energias favoráveis aos
intentos dos feiticeiros. Alguns cemitérios são infestados de vampiros e de brutamontes que
buscam Espíritos recém-desencarnados, ainda presos aos cadáveres para escravizá-los. São
alvos dessa coleta, viciados, homicidas, suicidas, devedores contumazes da lei a fim de
serem utilizados em trabalhos de obsessão e de magia negra. Isso torna a areia do cemitério
uma bomba fluídica em potencial que, trabalhada pelo feiticeiro, libera o conteúdo
energético que armazena.
- E quanto ao mau olhado? Faz parte de um capítulo da feitiçaria?
- Apesar de ser tão antigo quanto a feitiçaria, pois mesmo antes da escrita ser
inventada já se falava dele entre os egípcios, sumérios, babilônios e outros povos, o mau
olhado não é próprio da feitiçaria. Se um feiticeiro o portar, mais eficiente será o seu
trabalho. Determinadas pessoas possuem mais que outras a capacidade de projetar, mesmo
involuntariamente, descargas do fluido nocivo que acumulam, sobre pessoas ou objetos que
caem na mira do seu desejo. Tais pessoas, dizemos, são portadoras de um mau olhado. O
portador do mau olhado é como um livre atirador, cuja mente, altamente sensível aos
desejos do Espírito, ativa com facilidade o fluido aglomerado na região dos olhos lançando-
o sobre o objeto que o excita através do desejo. A descarga fluídica será mais agressiva se
emanada de uma mente conturbada cujas vibrações sejam de ódio, vingança, ciúme, inveja
ou similares.
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- Ainda que seja uma pessoa de boa índole a projeção de fluidos levada a efeito por
sua mente pode ser fatal?
- Meu amigo, uma árvore boa não pode dar maus frutos. Prefiro pensar que, se
alguém lança maus fluidos sobre outrem, estes se alojaram em seu perispírito devido a seus
desencontros com a Lei. Assim sendo, mesmo inconscientemente, essa pessoa hoje julgada
boa, tem seus maus fluidos provenientes de um passado que se exterioriza no presente,
independente da sua vontade. Vale ressaltar que não atingimos ainda a santificação e, não
raro, nos decepcionamos conosco por nossas iras, invejas, ciúmes e, em tais ocasiões,
podemos lançar dardos fluídicos que, a depender do estado de quem os recebe, pode causar
prejuízo a sua saúde. Além do mais, as vítimas do mau olhado são geralmente seres
pequenos e indefesos, como aves, plantas de pequeno porte e crianças pequenas. Em casos
de pessoas adultas a quantidade de fluidos movimentada não chega, na maioria das vezes, a
provocar grandes danos.
- Quer dizer que qualquer pessoa pode ser portadora de uma mau olhado?
- Sim. Somos envolvidos por energias. Emitimos e recebemos energias. Todo o
cosmo é energia. Para movimentá-la existem elementos na natureza que chamamos de bons
ou maus condutores. A boa ou má utilização dessas energias depende do uso que fazemos
delas. Uma pessoa muito invejosa pode funcionar como uma estação emissora de uma
energia má. Outra pessoa que esteja em posição vulnerável e que possua o objeto do desejo
do invejoso pode ser a estação receptora que sofre a interferência negativa gerada pelo
desequilíbrio momentâneo que a carga energética lhe causa com repercussões em sua
saúde. Prefiro enfocar este tema generalizando a explicação, retirando dela todo o folclore
existente.
- Insisto ainda nessa questão: digamos que duas pessoas muito más desejem algo
ardentemente. Uma delas pode emitir um mau olhado e outra não?
- Para efeito didático digamos que existem graduações para a maldade. Algumas
pessoas cometem uma maldade e se contentam com ela. Outras vão mais além, querem
dominar mais, impor o medo pela crueldade tal qual o ladrão que invade uma casa e não se
contenta apenas em roubar, estupra e mata. Como tudo está envolvido por energias que se
deslocam sob o comando da mente, o que mais se afina com a maldade está impregnado de
fluidos mais nocivos e, logicamente, tem um mau olhado mais eficiente. Nesse comentário
deixei de fora o anjo guardião, o merecimento da vítima pois, como se sabe, Deus com sua
magia branca tem nas mãos as rédeas do universo.
- Digamos que o portador de mau olhado tenha descarregado o fluido existente entre
os olhos em uma pequena planta. De imediato, em face de novo desejo, ele pode recarregar
a região em torno dos seus olhos e projetar o jato fluídico contra nova vítima?
- Não é bem assim. Quando uma serpente peçonhenta pica uma vítima ela
descarrega o veneno que acumula para ocasiões de ataque. Se imediatamente vier a picar
uma segunda vítima, já não poderá contar com essa arma letal que leva algum tempo para
ser carregada. Ocorre o mesmo com o mau olhado quando o analisamos como arma de
arremesso fluídico. Contudo, é importante ressaltar que, quando o Espírito é mau o seu
olhar é sempre mau, até que venha a progredir. Nesse caso, diante do seu olhar, salve-se
quem puder.
- Existe alguma maneira de se proteger contra o mau olhado?
- A mesma recomendada para todos os males, a vigilância e a oração. Formando um
escudo fluídico protetor em volta do corpo capaz de rechaçar quaisquer petardos fluídicos,
a pessoa evangelizada se imuniza contra o mau olhado e outros ataques do gênero. Os
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ensinamentos de Jesus não fazem parte de uma novela romanesca onde a caridade e o amor
ao próximo devam ser praticados para que se ganhe o céu ou se tenham santos
atormentados pela dor e o pelo sofrimento. Seus ensinamentos se destinam justamente a
evitar a dor e sofrimento fazendo com que a santificação ocorra naturalmente, em clima de
alegria e confiança, mesmo com os tormentos de cada dia. Cada pessoa pode ser uma
estação emissora de boas energias. Quando um pai abençoa o filho, já está movimentando
energias que se direcionam para envolvê-lo. A oração e a vigilância são verdadeiros
escudos contra qualquer magia ou mau olhado.
- Se você já conhece o caminho, por que demorou tanto percorrendo o sentido
oposto a ele?
- Não esqueça de que estou neste hospital há muito tempo e que repito ensinamentos
aqui ministrados. O fato de entender tais verdades não significa que as coloque em prática.
Também não costumamos contar o tempo aferrados a resultados como os encarnados o
fazem. Nossa atenção incide sobre nossos afazeres sem nos acorrentarmos demasiadamente
ao tempo. Se alguém consegue entender que a alegria e a paz decorrem do dever retamente
cumprido, que o não cultivo do orgulho, do egoísmo, da inveja, do ciúme e de tantos outros
vícios é causa de saúde e de bem-estar, entendeu a verdadeira razão da vinda do Mestre ao
nosso planeta. Prevalece nesse pensamento a supremacia do esforço e da perseverança no
bem, fatores que evitam resgates dolorosos, e não o pensamento ingênuo de que a mágica
ou algum feitiço possa nos afastar de todos os males. É esta verdade simples que me faltou
e que agora busco aprender, concentrando esforços para aplicá-la em minha vida.
- Você utilizava ervas ou defumadores em seus trabalhos?
- Nem sempre. O poder das ervas não é somente terapêutico. Quando utilizadas
como defumadores, liberam fluidos que, por seus efeitos, produzem uma atmosfera atrativa
ou repelente para determinados trabalhos de magia. O gás dos pântanos afasta visitantes
pelo odor fétido que exala. Uma casa limpa, cheirando a pinho ou eucalipto, faz a festa de
seus moradores. A ciência do odor é pouco estudada, mas altamente utilizada na atração e
repulsão de Espíritos em um trabalho de magia. É o odor do sangue que atrai os vampiros.
Da mesma maneira, a carne pútrida atrai os abutres, o ar pestilencial provocado pela sujeira
é chamariz para insetos e ratos e o odor das cadelas no cio atraem os machos da mesma
espécie. Pela mesma lei de atração, o odor das flores, dos perfumes, dos defumadores
também exercem atração sobre determinadas clientelas. Tapuia utiliza perfume para
afrouxar as pedras que materializa.
- Existe alguma relação entre os astros e o feitiço?
- Sim. Apesar de ser muito criticada pela ciência, a astrologia tem os seus
fundamentos. Retirando-se as crendices que existem nessa discussão, quando estivermos
suficientemente convictos de que somos dínamos a gerar e a receber energias de outras
fontes, não restarão dúvidas acerca das influências dos astros sobre alguns eventos da nossa
vida. Baseado nessas influências, o feiticeiro escolhe o dia e a hora propícios para lançar o
seu feitiço.
- Ouvi Tapuia dizer diante de tantas pedras extraídas do corpo do meu velho amigo,
que a demora do trabalho se devia à profundidade do feitiço, pois o mesmo atingira as sete
camadas do seu corpo. O que ela quis dizer com isso?
- Que o feitiço atingira os sete corpos. Que o perispírito não é um bloco compacto,
mas formado por outros corpos ainda desconhecidos para a maioria dos estudiosos deste
tema. Se me permite, não gostaria de adentrar este caminho. Os espíritas não utilizam esta
nomenclatura para o perispírito.
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- Como o cidadão comum, vivendo em meio as mais variadas tentações, pode


proteger-se do feitiço?
- Só existe uma maneira já citada no estudo do mau olhado. A velha e eficiente
fórmula aconselhada por Jesus: vigilância e oração. Em tudo que o homem faz, pois ele
precisa ter uma vida produtiva, deve estar atento para não cair nas tentações da matéria
representadas pelo poder, dinheiro, fama ou similares, pois estas podem prende-lo e
transformá-lo em inquilino duradouro e dementado. Não é que ele precise santificar-se em
uma única encarnação, martirizar-se, viver atormentado, julgando ser pecado o conforto
que deve ter ou os prazeres sadios que a condição humana lhe permite usufruir. É agir
conforme a justiça e a caridade determinam, sendo honesto em suas atitudes. Quando ele se
instala nos despenhadeiros do egoísmo, da maledicência, da inveja se deixa enfeitiçar por
suas próprias atitudes, atraindo para si fluidos densos que, internamente, desarticulam suas
defesas fluídicas e o tornam vulnerável à invasão de arremessos externos que não
encontram resistência à sua penetração. O homem terreno ainda é um atormentado pelos
excessos que pratica atraindo para si complexos, culpas e remorsos, maltratando a muitos e
muito maltratando-se. Não raro, elege-se o seu próprio algoz e feiticeiro, pois condena-se a
resgates dolorosos e, não contendo seus ímpetos, arrasta outros que, longe de o ajudarem, o
perseguem, pois seus verdadeiros amigos foram afastados por sua desastrosa atuação.
Quem é capaz de fazer tanto mal a si mesmo não pode ser considerado um praticante de
magia negra contra seus próprios interesses?
Despedi-me de Califa pensando em suas últimas palavras de advertência, talvez
moldadas à custa de seus próprios infortúnios.

Considerações finais

A maior parte das dúvidas sobre o feitiço estava aclarada, o que nos permitiria
enfrentá-lo com maior segurança bem como divulgar nossas conclusões sem transformar o
livro em um manual a serviço de feiticeiros. Segundo nossos instrutores isso era o
suficiente.
Como estávamos próximos do Natal, especulamos sobre a eficiência do feitiço nessa
época, reconhecida como indutora de fraternidade entre as pessoas e geradora de desejos de
mudanças interiores, tais como a autocrítica, o perdão, a tolerância, dentre outra atitudes
positivas. Haveria por conta dessa onda benéfica que invade os corações humanos a
formação de uma espécie de escudo que atenuasse o efeito do feitiço? Em sentido oposto,
no carnaval, por exemplo, a atuação do feitiço seria facilitada?
Perguntei a cada participante do grupo se ainda restava alguma dúvida sobre o tema
e, após a exposição de algumas situações, selecionamos as mais significativas para uma
entrevista final, caso nossos amigos espirituais quisessem participar da reunião.
Concordamos na ocasião que nós próprios tínhamos condições de concluirmos o capítulo,
já que as pequenas dúvidas, pontuais e pessoais, poderiam ser elucidadas sem uma última
consulta aos instrutores. Mas, como é costume, deixamos espaço para que eles se
manifestassem, o que fizeram com o delicado carinho de sempre.
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Após a concentração que antecede tais comunicações mediúnicas, uma das médiuns
iniciou a descrever as cenas que via.
- Percebo um grande salão onde diversos Espíritos estão reunidos. Acho que
poderíamos chamar tal reunião de encontro ecumênico com finalidades de estudo, pois
distingo a presença de budistas, umbandistas, católicos, espíritas, orientais, sendo que cada
um desses mestres tem a seu cargo orientar alguns alunos. O ar que se respira aqui tem o
aroma de flores e a limpeza do ambiente transmite um brilho suave. A sensação que se
destaca das demais é a de paz . Posso resumir as impressões que o ambiente me causa com
a seguinte frase: a palavra estresse parece bem distante do vocabulário aqui utilizado.
Estou acompanhada por Francisco e recebo dele as informações sobre o local que
descrevo. A sensação de bem estar que caracteriza o ambiente não se deve à proximidade
do Natal. É o “clima comum” resultante da confraternização e da troca de informações que
aqui ocorre durante todo o ano. Francisco aponta-me cientistas, psicólogos, filósofos,
artistas, todos eles desapegados de rótulos doutrinários, mas atentos à verdade dos fatos.
Como estamos na última reunião do ano, Francisco quis nos dar este presente, a visão de
um local acessível a todos que tenham méritos para adentrá-lo, pois aqui não há privilégios.
Esses Espíritos não são santos nem missionários. São pessoas comuns, assim como nós,
amantes do estudo, da pesquisa e que foram honestas em suas relações enquanto
encarnadas. Ao se desligarem do corpo físico prosseguiram o que iniciaram na Terra. A
grande maioria delas não vivia encerrada em laboratórios ou bancos universitários. É
composta por cidadãos que, mesmo sem o saberem, adotaram o amai-vos e instruí-vos
como lema de suas vidas e que tiveram a lucidez de honrar os compromissos assumidos
com a espiritualidade antes de reencarnar. O “recreio” acabou. Francisco vai falar através
da minha voz.
- Bom dia a todos. Para mim é sempre uma grata satisfação estar com vocês nesse
esforço contínuo de nos tornarmos instrumentos úteis. O trabalho gerou bons frutos e
trouxe benefícios para muitos.
- Podemos considerar esse volume como concluído ou existe alguma determinação
para prosseguirmos?
- A tarefa de organizar o livro pertence ao grupo. Todavia estamos satisfeitos com o
que foi produzido.
- Poderia nos falar um pouco de algumas considerações finais que selecionamos?
- Com prazer, desde que as domine.
- É comum feiticeiros serem consultados para trabalhos tais como: conquistar o
amor de alguém, conseguir uma promoção no emprego, separar um casal, no que atendem e
oferecem garantias. Que garantia eles podem oferecer?
- A pessoa que vai a um feiticeiro com um pedido que considera vital aos seus
interesses está disposta a conseguir o seu intento a qualquer preço. O feiticeiro, que sonda a
intimidade de quem o busca, procura exacerbar a cobiça do seu “cliente” através da
valorização do objeto desejado. Hábil em jogar com as fraquezas humanas, mostra as
vantagens que a sua magia pode trazer para que o desejo do consulente se realize, conta
casos exitosos resolvidos por ele, faz encenações através de gestos, mostrando possuir um
poder aglutinador de forças, enfim, coloca à disposição de quem chega, um arsenal,
segundo ele, infalível. Pode ocorrer que, no afã de avolumar a cobiça do “cliente”, ele diga
algo que possa funcionar como indução ou sugestão, incutindo na mente do indivíduo que
o “contrata”, que ele é capaz, que o objeto do seu desejo está destinado a ele por mérito,
que com seu esforço a vitória será certa. Se ele percebe esta ocorrência, o “incidente” é
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quase sempre neutralizado pelo feiticeiro, que logo remenda o seu receituário enfatizando
que a vitória será certa, desde que o “cliente” faça o que lhe for sugerido. O feiticeiro quer
sempre algo em troca do seu trabalho. Se alguém sai de sua tenda com a auto-estima
fortalecida não era sua intenção que isso ocorresse pois agrada-lhe a dependência do
consulente para com ele, o consultado.
Quanto a oferecer garantias, faz parte de seu marketing. Jamais ele diria que seu
trabalho não tem eficiência. De ego inflado, orgulhoso, ele oferece garantias, até porque
observa a sua vítima e faz uma projeção dos danos que o seu feitiço causará, montando uma
“radiografia” dos efeitos que surgirão, tomando como base para tal análise as fragilidades
que a vítima apresenta. Suas fórmulas, pontos, rituais, conjuros, são sempre eficientes e o
seu trabalho ninguém desfaz. Esse refrão é comum na música de qualquer feiticeiro.
Todavia, ninguém deve confiar sua sorte a tão malfadado guia. A situação do
consulente, à princípio, pode até melhorar um pouco, devido ao afastamento momentâneo
de algum Espírito que o importunava. Posteriormente, sem o concurso da reforma íntima,
volta o perseguidor a clamar por um ajuste de contas e outros a exigirem benefícios pelo
trabalho executado. A situação é símile a de alguém que faz uma construção irregular e é
surpreendido por um fiscal que se deixa subornar. O que foi subornado manda um outro
para extorquir mais dinheiro. Este, por sua vez, avisa a um terceiro que fortalece a ciranda,
resultando disso mais prejuízo que lucro para o infrator. Como desfecho final ele terá que ir
ao órgão competente e regularizar a sua construção como manda a lei.
O feiticeiro procura fazer daqueles que o buscam eternos dependentes do seu ofício.
Igualmente, algumas seitas e até mesmo algumas religiões, ao não alertarem os seus
seguidores acerca das vantagens de uma reforma interior com base na vigilância e na
oração, os tornam dependentes dos conselhos dos seus “gurus”, de seus rituais, de seus
pretensos poderes libertadores. Como primeiro passo para entravar a marcha evolutiva de
seus adeptos, tais “religiões” os afastam do estudo sério e metódico, do senso crítico, das
indagações e dos questionamentos pertinentes que, se exercidos, aos poucos os tornariam
livres. Espalham em suas reuniões textos escolhidos e tendenciosos, melodramáticos e até
fictícios, subornando pelo conteúdo emotivo a inteligência e a razão. Ao rotularem aqueles
que duvidam do seu receituário de infiéis, promovem o fanatismo e a robotização, sinal
evidente da fraqueza de seus postulados e da inferioridade moral que procuram ocultar
através de rituais inócuos. Para calar evidências claras acerca dos problemas do destino, da
dor, da reencarnação, das leis de causa e efeito, dentre outras, taxam de mistério tudo
quanto não entendem ou querem ocultar, criando dogmas e teorias bizarras, castrativas,
dizendo ser santo aquele que não as questiona. Para tais ignorantes o céu destina-se aos
obedientes, os mansos, os “humildes”, sendo manso e humilde o mesmo que subserviente.
A liberdade, como enfatizou Jesus, vem com o conhecimento da verdade. O homem
pode se autolibertar sem o auxílio de feiticeiros, rituais ou rótulos doutrinários. É destino do
homem ser livre, mesmo que outros lhe ponham antolhos e mordaças por algum tempo.
Louve-se o Espiritismo que tem como lema o amai-vos e instruí-vos, que não foge dos
questionamentos nem das verdades científicas, que não adota rituais para que estes tomem
o lugar central do Espírito, da sua reforma moral, do estudo acerca do quem sou, de onde
vim e para onde vou. O foco de qualquer religião deve ser o Espírito como agente
transformador de si mesmo para identificar-se mais e mais com Deus. Se o foco está em
rituais de magia ou de outra espécie qualquer, o Espírito descuida-se de si próprio e, por
conseguinte, retarda-se no caminho evolutivo. No Espiritismo não há mistérios, apenas
desconhecimento momentâneo daquilo que ainda não veio à tona.
101

Portanto, meus amigos, confiar em Deus, em si próprio, envidar esforços para


realizar seus sonhos, parece ser um bom roteiro de vida para os habitantes terrenos.
- O anjo guardião de um feiticeiro muito mau pode abandoná-lo à sua própria sorte?
- Prefiro chamar a este Espírito que tem como missão auxiliar o encarnado em sua
passagem pela Terra de guia espiritual. Acredito que ele jamais o abandona. Mesmo diante
de muitas tentativas frustradas no sentido de resguardá-lo do sofrimento que poderia ser
evitado por ele fica a observá-lo a uma certa distância. No momento em que nota qualquer
mudança de atitude que demonstre arrependimento do seu pupilo, ele se posiciona ao seu
lado para inspirá-lo a realizar boas obras. Quero afirmar também que jamais o guia
espiritual irá retirá-lo da lama em que se enxovalha. Ele não tem permissão para bloquear o
livre-arbítrio nem para ignorar a lei de causa e efeito. Portanto, se o pupilo errar terá que
pagar pelo seu erro. A inspiração, as rogativas justas aos bons Espíritos, as preces para
fortalecer o ânimo, o incentivo para solidificar a coragem o pupilo terá. Privilégios que o
dispensem de resgatar seus débitos, jamais.
- O Natal é uma boa época para fazer um feitiço?
- O feitiço do bem. O Natal tem a sua magia. Retira do vocabulário palavras
adocicadas que durante todo o ano se mantiveram esquecidas; desvia o olhar para as
lágrimas que estavam ali e ninguém as via; desperta a poesia antes sonolenta; desacelera os
passos da maldade que, envergonhada, desce aos subterrâneos da mente. Em uma época
assim, o escudo protetor formado pela aura das pessoas se fortalece e o feitiço tem mais
trabalho para penetrá-lo. Não sejamos ingênuos a tal ponto de dizermos que o Natal
transforma para sempre homens maus em bons. Também não sejamos insensatos para
afirmar que homens maus não possuem seus instantes de arrependimento, de bondade, e até
de ternura. A resultante de forças positivas que o Natal gera é capaz de sensibilizar milhões
de pessoas, ao menos por alguns dias ou horas, tempo precioso que, às vezes, modifica toda
uma existência.
Abraço a todos e reafirmo o nosso apreço pelo grupo que tantas demonstrações de
fidelidade tem demonstrado. Há uma festa de confraternização natalina esperando por todos
em nossa colônia. Que Deus esteja nesta casa, em nossos lares, em nossos corações. Falo
em nome da equipe a qual pertenço. Que os bons Espíritos nos tornem amantes da vida para
que possamos fortalece-la e defende-la. Que Jesus ilumine a todos.

Enfermos da alma

O estudo sobre o feitiço e sobre o feiticeiro havia terminado. Mas na reunião de


desobsessão, Francisco reservava-nos ainda uma surpresa sobre o assunto.
Uma das médiuns, desdobrada e levada a uma colônia para tratamentos de
enfermos, iniciou pequeno relato que deveria fechar o capítulo. Encontro-me em recanto
muito belo e calmo onde predominam árvores e jardins que mais parecem sentinelas a
velar pelos prédios de bonita e acolhedora arquitetura. Francisco mostra-me um salão
azulado com cadeiras dispostas em círculos onde Espíritos de várias nacionalidades e
religiões se encontram reunidos em meditação. Vejo umbandistas, padres, chineses,
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hindus, todos em reunião de vibração pelos enfermos que aqui se abrigam. A religião
predominante neste abrigo é uma só, diz o amigo que me acompanha, o amor, e o
medicamento mais utilizado, a caridade. O objetivo da reunião que assisto é a
modificação, o fortalecimento da aura perispiritual dos Espíritos que trabalharam com a
feitiçaria. Pergunto-lhe se esses Espíritos em meditação têm o poder de compactar a aura
dos enfermos deixando-a sem fissuras, harmonizar-lhe os polos, retirar de suas mentes as
cristalizações que as levam a monoidéias deprimentes e auto-obsessões. Ele responde que
são trabalhadores de boa vontade, Espíritos de evolução mediana que fazem apenas uma
parte do tratamento. Energizam as auras dos enfermos como se ministrassem passes à
distância, predispondo os Espíritos que se encontram enfermos à renovação e a buscarem
forças em si próprios visando à vitória sobre suas tendências menos dignas. Somente a
mudança psíquica, traduzida em hábitos e atitudes positivas levada a efeito pelo próprio
interessado mais a ajuda de técnicos especializados nesta área, é que permitem, aos
poucos, através de reencarnações quase sempre dolorosas, concretizar este fato. Ninguém
evolui por ninguém, este é o resumo da aula.
Estamos indo para as enfermarias. Beleza e simplicidade são as notas dominantes
em todo o caminho que percorremos. Noto que as cores das enfermarias parecem vibrar.
O amarelo dourado não tem a palidez das paredes terrestres pois possui cintilações como
se fosse vivo. Sob a influência das pessoas que vibram no salão noto que as auras dos
enfermos, ex-feiticeiros, vampiros, praticantes da magia negra, dentre outras más
tendências, se modificam em alguns pontos, tornando-se mais claras.
Percorrendo os corredores, encontro-me com o poeta Manuel Bandeira, que parece
integrado ao trabalho espírita desde que o convidamos para o Projeto Evocações.
( Projeto executado em quatro anos cujo objetivo plenamente realizado foi o de evocar e
dialogar com quarenta personalidades já desencarnadas que foram figuras importantes da
política, da artes, dos esportes, da ciência e da religião, fato que deu origem aos livros
Muito Além da Vida e Viajantes da Eternidade ). Neste local onde me encontro, os
enfermos são mais conscientes e participam de uma espécie de terapia de grupo. Alguns
são portadores de traumas profundos a exigirem dos técnicos dedicação prolongada. Tal é
o caso de um ex-vampiro que não suporta a cor vermelha.
Esse Espírito comunicou-se, ocasião em que mantivemos um pequeno diálogo:
- Você não está com nada vermelho em seu corpo, não é?
- Por que tanta preocupação com este detalhe? Não é o vermelho uma cor como
outra qualquer?
- Anel, batom, roupa, veja se existe algo vermelho e retire, esta cor me faz muito
mal.
- Já verifiquei. Está tudo azul como o céu na primavera.
- O vermelho me lembra o sangue. Fui escravo desse vício por muito tempo. Tenho
medo de recair, de lembrar, de voltar a ser o que fui.
Conversei com alguns Espíritos dessa colônia. Falaram de suas terapias, seus
terapeutas. Pintavam em telas, praticavam a jardinagem, a escultura. Um deles me disse
plantar arroz e trigo. Um fato que me chamou a atenção foi a cor do arroz ser dourada.
Todos já se encontravam em fase de regeneração pois traziam arrependimentos e remorsos
que os atormentavam e ao mesmo tempo os impulsionavam verticalmente. O
arrependimento dói muito, transforma-se em doença, comentou um deles. Mas o
Evangelho praticado gera a saúde e traz a alegria, dissemos.
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Um outro ponto que me despertou a curiosidade foi a presença de frases


evangélicas e de auto-estima nas paredes. Elas são douradas, lilazes, azuis, a depender da
cor dos apartamentos, pois aqui as cores parecem intimamente relacionadas com o que se
faz em cada setor. Hora de voltar, diz Francisco. Que possamos ser instrumentos de paz e
de justiça, são suas palavras finais.

Conclusão

A primeira parte do Projeto Janelas está concluída. Nossa pretensão era esclarecer
melhor o que é a mente, aprofundar um pouco o magnetismo, os fluidos e, sobretudo,
entendermos com mais clareza como funciona o feitiço, tão presente nas reuniões de
desobsessão em que trabalhamos.
Acredito que esta obra, por serem os temas que a compõem objeto de muitos
questionamentos para os trabalhadores espíritas, contribuirá para amenizar-lhes as dúvidas,
mesmo portando as obrigatórias restrições que o feitiço exige. Uma obra que estude o
feitiço e que ensine como fazê-lo não consta nos planos dos Espíritos que se interessam
pelo avanço do planeta.
Pode até parecer frustrante que os Espíritos amigos imponham limitações diante de
um projeto que pretenda mostrar toda a metodologia do feitiço bem como a sua eficiência,
mas, como ficou exposto na obra, os motivos são óbvios: há muitos Espíritos inferiores
interessados em obter esse conhecimento; pessoas invigilantes poderiam se sentir tentadas a
utilizá-lo para objetivos mesquinhos; Centros Espíritas “ecléticos” poderiam introduzir
rituais, práticas estranhas, fórmulas miraculosas para resolver problemas materiais.
Não queremos oferecer uma arma que possa voltar-se contra os espíritas, disse
velho amigo espiritual. A nós, espíritas, interessa-nos sobremaneira, como prevenir-se
contra o feitiço, como efetuar seu desmanche nas reuniões de desobsessão, como
aconselhar seus praticantes visando a desapegarem-se dele.
Tenhamos em mente que o mal tem seus meios de agredir e o bem seus métodos de
o impedir. O mal pode, às vezes, parecer grande e forte pelo alarido que faz. O bem é
unido, eficiente, seguro, convicto de que a vitória sempre será sua. O mal pode vencer aqui
ou alhures, devido as imperfeições daqueles que o combatem, pequenas batalhas, mas
sempre com a permissão do bem. Se o mal tem a sua magia negra o bem tem a sua magia
branca infinitamente mais poderosa e eficiente.
Jesus, ao curar os enfermos, enfatizava o pecado como causa dos males que os
atormentavam. Conseqüentemente ensinou-nos que o poder que o feitiço tem contra nós é
diretamente proporcional ao mal que praticarmos. A magia mais poderosa e de melhores
resultados para o Espírito é a prática do bem. É magia e contra-magia, ou seja, praticando o
bem o homem forma seu escudo protetor e se torna imune aos eventuais ataques da magia
oposta.
Não nos preocupemos em aprender a manipular as leis da magia negra, mesmo
porque, além de todas as restrições que ela sofre como arma ofensiva, tem seus dias
contados no planeta, pois de eterno só o bem.
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Aprendamos a combater o bom combate. Utilizemos o amor contra o ódio, a justiça


contra a injustiça, a disciplina contra a frouxidão moral. A pretexto de sermos fortes não
desprezemos os fracos pois a fortaleza do forte consiste no amparo que presta à fraqueza do
fraco. O que quiser ser o maior, torne-se o que mais serve, o que se entrega sem reservas ao
trabalho incessante de levar luz aos obscuros caminhos do mundo. O que assim age é o
maior feiticeiro, e o seu ofício, a maior magia.
Ao final de toda uma existência só vale a pena ressaltar os nós que nunca atamos, a
luz que acendemos, a sangria que estancamos. A vida por si só é cheia de magia. Que
nunca nos encontrem na busca de outras que venham a nos tornar detratores da beleza e da
verdade.

Luiz Gonzaga Pinheiro