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I.

Introdução

Após a revolução de 25 de Abril de 1974, o país entrou numa fase de mudança

e de adaptação à realidade democrática. Nos Açores, a causa independentista, que

sempre morou nas mentes de alguns açorianos, renasceu e foi tomando forma nos meses

subsequentes à revolução.

Ocorrida ainda em plena de Guerra Fria, a revolução de Abril dividiu,

abertamente, o país também de acordo com a bipolarização que assistia a nível mundial.

A tendência pró norte-americana ou pró soviética foi, aos poucos, agravando a situação,

de tal modo que no começo de 1975 havia uma clara hipótese de Portugal vir a cair na

órbita soviética.

É, portanto, totalmente compreensível que os norte-americanos comecem a

olhar com outros olhos para toda a problemática associada à revolução de Abril,

também com o nascer do ano de 1975. Assim, o experiente Frank Carlucci chega a

Embaixador norte-americano em Portugal logo em Janeiro daquele ano. Também nos

Açores regista-se uma mudança no consulado, saindo Parris e entrando a Linda Pfeifle,

já durante o mês de Abril.

Aquilo que se pretende analisar neste trabalho é a correspondência norte-

americana, até ao mês de Junho de 1975 (dada a grande quantidade de documentos e

uma vez que outro colega vai analisar exclusivamente aquele importante mês), entre o

consulado em Ponta Delgada, a Embaixada em Lisboa e o Departamento de Estado em

Washington. Tentaremos, portanto, dissecar o acompanhamento diplomático que foi

feito por parte das autoridades norte-americanas, relativamente ao processo de intenções

indepentista nos Açores.

1
1974

Os registos nos arquivos diplomáticos norte-americanos da primeira parte de

1974, sobre os Açores, referem-se quase todos aos avanços e recuos da renogaciação do

acordo da Base das Lajes, que estava então a decorrer. Só depois do dia 25 de Abril de

1974 começam a surgir documentos relativos a tensões políticas nas ilhas açorianas.

Primeiro, surgem documentos dando conta da calma que se registou nos Açores nos

dias logo após o golpe, para no dia 25 de Maio daquele ano surgir o primeiro

documento1 sobre o Movimento de Independência para os Açores. O Cônsul afirma no

primeiro ponto que espera que o Movimento se torne oficial nos dias seguintes. Além de

afirmar ser um grupo ainda pequeno e mal organizado, afirma também haver um

manifesto a suportá-lo. O Cônsul informa depois que foi contactado por Nuno Vaz

Cabral da Câmara “agrónomo retirado e membro de uma das mais antigas e ricas

famílias de São Miguel, para ter o apoio dos EUA para a independência”. As razões

avançadas por Câmara foram, segundo o Cônsul, “a longa negligência a que Lisboa

votou os Açores e a dúvida que o novo Governo de Portugal, mergulhado nas questões

africanas e na desmultiplicação de partidos políticos, possa dar a atenção devida às

ilhas”. Câmara previa para os Açores, ainda segundo este documento, uma economia

baseada nas rendas dos EUA (nas Lajes) e dos franceses (nas Flores), além de portos

livres, casinos, o aproveitamento da geotermia, lavoura e pescas. Câmara afirma ainda

que pretende viajar para os EUA, de forma a reunir apoio monetário dos emigrantes. O

Cônsul afirma que terá respondido a Câmara que os EUA poderiam apoiar os Açores

após estarem independentes, mas dificilmente o fariam numa luta contra Portugal, um

país que consideram amigo, Câmara terá respondido que os Açores precisam de ajuda

antes e não depois. O Cônsul conclui que há uma boa possibilidade do movimento

1
Ponta Delgada, 0090, 25 May, 1974,
http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=65902&dt=1572&dl=823

2
independentista açoriano ter sucesso, se os próprios açorianos conseguirem quebrarem a

contínua desunião que há entre as ilhas e a inércia política. A 31 de Maio, Kissinger

envia um telegrama2 ao Consulado de Ponta Delgada dizendo que os independentistas

açorianos não devem fazer qualquer tipo de plano para golpe, contando com o apoio

americano, porque estes não o darão.

No dia 4 de Junho, novo telegrama 3 de Washington a dar as indicações de

resposta aos açorianos. Assinado pelo próprio Kissinger, o documento está dividido em

três pontos; no 1º Kissinger deixa bem claro que não se deve dar apoio a Câmara ou ao

seu grupo, no 2º ponto informa que Câmara não será recebido oficialmente pelo

governo americano, na sua visita ao país, mas que se insistir, poderá haver contactos ao

mais baixo nível apenas para dar as linhas gerais da posição americana de não

envolvimento.

A 6 de Junho, telegrama 4 do Consulado em Ponta Delgada a informar da

oficialização do MAPA através da publicação do manifesto. Além de informar sobre as

já conhecidas linhas gerais esperadas para a economia dos Açores, o telegrama revela

algum desconforto do Cônsul relativamente a Victor Cruz, que trabalhando no

Consulado e sendo um dos activos independentistas, poderia fazer crer que o governo

norte-americano apoiava o movimento.

Também a 6 de Junho, a Embaixada em Lisboa envia um telegrama5 a informar

que contactou João Bosco Mota Amaral sobre a independência dos Açores. Mota

Amaral terá recebido uma cópia do manifesto e disse, “em tom de brincadeira, se São

Tomé pode ser independente, porque não os Açores?”. Mais a sério, Amaral terá dito

que será necessário esperar para ver o que passará em Portugal e que, ao contrário dos

2
Washignton, 02075, 31 May 1974, http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=65167&dt=1572&dl=823
3
Washigton, 11670, 4 June, 1974, http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=87896&dt=1572&dl=823
4
Ponta Delgada, 00104, 6 June 1974, http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=87024&dt=1572&dl=823
5
Lisbon, 002300, 6 June 1974, http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=86838&dt=1572&dl=823

3
territórios africanos, os habitantes dos Açores sentem-se portugueses. Parece que Mota

Amaral, neste documento, está a descartar, apenas naquele momento, a independência

dos Açores e pretende pensar no seu partido no continente ao lado de Balsemão e Sá

Carneiro.

Regista-se depois que durante todo o Verão de ’74 não há documentação sobre o

assunto “independência dos Açores” e só no dia 1 de Novembro surge um documento6

de Washington sobre a recepção a Nuno Câmara. O açoriano foi recebido por membro

da Secretaria de Estado e informou que o Movimento que representa é semi-clandestino,

baseado em São Miguel, mas com contactos com grupo semelhantes nas outras ilhas. A

direcção do Movimento é composta por 7 membros (Câmara incluído) que depois

lideram pequenas células. Ao todo são 91 membros. Segundo Câmara, os Açores têm

sido negligenciados por Lisboa, dando como exemplo as receitas fiscais, onde os

Açores enviam anualmente 1.5 milhões de contos e recebem 500 mil contos, na forma

de programas financiados. Além disso, Câmara afirma estar receoso da viragem ao

comunismo no continente e que preferiria uns Açores independentes, mas próximos dos

EUA e pediu o apoio do governo norte-americano. Os americanos terão respondido o

mesmo: que não estão dispostos a apoiar o Movimento e que não vêem a possibilidade

de comunismo em Portugal. No entanto, o representante americano assegurou

confidencialidade sobre o encontro e manifestou a sua convicção que a questão deveria

ser resolvida entre Portugal e os Açores. Por fim, o telegrama assinado por Ingersoll,

informa que os EUA não devem estar ligados ao movimento, mas que seria bom manter

contactos com Câmara para saber da dinâmica política nas ilhas.

6
Washington, 240373, 1 November 1974,
http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=175538&dt=1572&dl=823

4
No dia 7 de Novembro, o Consulado envia informação7 sobre um encontro com

outros líderes independentistas açorianos, no caso: Francisco Costa Matos, Francisco

Gomes de Menezes e outro não identificado (fica a dúvida, devido à tradução do nome

do movimento que representam, pois surge como GAPA “Movimento para

Autonomiado Povo Açoriano”. Menezes informa que dias antes, o Governador Civil

terá chamado os representantes dos movimentos políticos para fazerem uma

comunicação conjunta de denunciar a dimensão fascista do MAPA, segundo Menezes o

representante do PPD recusou e informou o MAPA do plano. Menezes pediu aos EUA

para pressionarem Lisboa para não se suspender o MAPA, sob pena de haverem

reacções pró-direita nas ilhas. O Cônsul quis saber da força do MAPA ao que Menezes

não soube responder. Costa Matos depois informou que o MAPA ia tentar influenciar os

emigrantes açorianos nos EUA para estes escrevem aos seus congressistas e senadores,

de forma a estes incitarem ao apoio à causa independentista açoriana. No último ponto,

o Cônsul informa que o MAPA é bem conhecido nas ilhas e tem algum apoio e que

apesar de estar em funcionamento desde a Revolução, só nos últimos tempos tem tido

actividade, com artigos nos jornais. O Cônsul informa ainda que a ideia de Autonomia é

bem aceite pela generalidade dos açorianos e tanto os socialistas como o PPD a apoiam.

Politicamente, informa o Cônsul, o MAPA está à direita do PPD. Além disso, o MAPA

está a lançar uma campanha de recrutamento de apoiantes, através de fichas de inscrição

e que, dependendo do número de assinantes, pretendem pedir a Lisboa um referendo

sobre Autonomia. No entanto, o Cônsul não está confiante nem da campanha de

recrutamento, muito menos da possibilidade de referendo.

7
Ponta Delgada, 00191, 7 November 1974,
http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=169608&dt=1572&dl=823

5
1975

O primeiro registo do ano de 1975 relativamente à situação política no

arquipélago é de 27 de Janeiro. Informa o Cônsul em Ponta Delgada que a “tensão

política levou a violência em São Miguel” 8. Diz o telegrama que “desde o dia 1 de

Janeiro que a tensão tem vindo a aumentar entre a esquerda de São Miguel, por um lado

(PCP, MDP, PS e MÊS) e o PPD e o MAPA por outro lado e que pela primeira vez

ocorreu violência”. Este telegrama é, de certa forma, exaustivo na informação que é

dada, reportando incidentes em diversas localidades de São Miguel, como Vila Franca

do Campo e Ribeira Grande. Ou seja, nota-se, desde logo, que os norte-americanos

estavam a levar bem a sério o desenrolar da situação política nos Açores. Será

importante alertar para o facto do acordo da base das Lajes estar a ser re-negociado

nesta altura, de forma até que muitos dos telegramas registados abordam exactamente

esse assunto.

A necessidade de mais informação sobre os movimentos independentistas e

sobre os indivíduos que estavam a apoiá-los terá levado os serviços norte-americanos a

solicitar mais detalhes sobre eles. Deste modo, a 26 de Fevereiro é enviado novo

telegrama 9 do Consulado de Ponta Delgada para o Secretário de Estado. Neste

documento, o Consulado informa que oficiais seus estabeleceram contactos com Nuno

Câmara e José de Almeida, de forma a saber das suas posições. Ambos esperam que

Portugal caia nas malhas do comunismo, mas que os Açores devem ser independentes,

independentemente dessa possibilidade. Ambos também afirmam estar convencidos que

“virtualmente todos os açorianos são a favor da independência” uma vez que o

continente explorou e votou as ilhas ao abandono.

8
“Ponta Delgada, 0024, 27 January 1975”,
http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=414&dt=1822&dl=823, visto a 14 Abril 2009
9
Ponta Delgada, 0045, 26 February 1975”,
http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=22202&dt=1822&dl=823

6
Ambos os entrevistados ainda são unânimes em dizer que a maioria dos

elementos do movimento separatista desejam acções imediatas ao estilo de “campanha

terrorista contra as propriedades (não pessoas) dos continentais. Deste modo, afirmam

que prefeririam contar com o apoio técnico e financeiro dos EUA antes de partir para

esse tipo de acção.

Como comentário e tendo por base as entrevistas e outras fontes, o Consulado

adianta estar convencido da existência de um grupo organizado preparado para avançar

com acções que levarão à independência dos Açores, principalmente se o comunismo

triunfar no continente. O vice-consul Daniels adianta ainda estar plenamente

convencido que Almeida e Câmara estavam bem a sério quando falaram em acções

terroristas, avançado que tais acções se traduziriam certamente em actos de vandalismo

contra as propriedades de continentais activos à esquerda. Por fim, Daniels diz acreditar,

neste telegrama, que o governador civil dos Açores mandará prender os líderes do

MAPA e que está seguro que muitos elementos “esquerdistas” nos Açores acreditam

que os EUA já apoiam o MAPA, alertando para a possibilidade de acções de contra-

terrorismo contra as instalações do Consulado.

Seguem-se dois telegramas10 (um assinado por Carlucci originário da Embaixada

de Lisboa, outro assinado por Daniels, originário de Ponta Delgada) sobre a estadia de

um jornalista suíço (Walter Deuber) nos Açores durante Janeiro de 1975 e que escreveu

um artigo sobre os movimentos independentistas açorianos no jornal Tages-Auzeiger.

Ambos os telegramas dissecam o artigo de Deuber, confirmando ou desmentindo as

informações por aquele jornalista veiculadas. Deuber falara com um cidadão alemão,

negociante de armas antigas, que se afirmou apoiante da causa açoriana e que

identificou quatro grupos: MAPA, MIA (Mov. Ind. Açores), MIMA (Mov. Ind Açores e

10
Lisbon, 1241, 6 March 1975, http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=36758&dt=1822&dl=823 e
Ponta Delgada, 0059, 11 March 1975 http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=40607&dt=1822&dl=823

7
Madeira) e um outro que não é identificado. O artigo afirma que diariamente acontecem

reuniões de separatistas açorianos no Café Royal, cada vez com maior afluência e que o

Nuno Câmara está a acumular armas e dinamite vindas de Espanha, no entanto Daniels

não acredita em tal informação. Além disso, Deuber diz no artigo que os separatistas

pretendem instaurar nos Açores um modelo semelhante ao suíço, um paraíso para

bancos, negócios e férias, com um governo federal. Carlucci faz referência a Victor

Cruz, funcionário do Consulado, como um dos que vão às reuniões no Royal e a Carlos

Melo Bento “um antigo membro do partido fascista de Caetano”. Há ainda a registar a

opiniões de Daniels relativamente à fraca organização dos grupos separatistas, apesar

“ do sentimento a favor da independência estar a aumentar e a ser alimentado

diariamente com as tendências esquerdistas no continente” e relativamente à certeza que

estes grupos tomariam “acções positivas para garantir a independência, na certeza de

sucesso, mas provavelmente não tentarão sem o apoio do governo americano”.

De facto, estes dois telegramas sobre o artigo de Deuber dão muita informação

relativamente ao movimento independentista açoriano, no entanto, fica a dúvida de

quanto seria verdadeiro. No entanto, será de acreditar nas palavras de Daniels quando

diz que não estão a chegar armas aos Açores vindas de Espanha. Porém, neste momento,

o governo norte-americano está perante a certeza que existe um sentimento

independentista nos Açores e que se a tendência esquerdista no continente seguir, será

de ponderar o apoio.

Entretanto, no dia 11 de Março uma tentativa falhada de golpe de Estado no

continente, torna a Esquerda muito mais forte. A 13 de Março, Carlucci envia uma

análise da situação para o seu governo onde afirma que o “fracasso do 11 de Março vai

desmembrar a extrema-direita e enfraquecer seriamente o centro moderado português”11.

11
cit. Em B. Gomes e Tiago M. Sá, Carlucci vs Kissinger …, P. 157

8
No dia 14 de Março, Daniels informa sobre manifestações ocorridas nos Açores no

seguimento dos acontecimentos de 11 de Março. Diz o telegrama12 de Daniels que na

noite de 13 de Março a esquerda organizou uma manifestação em Ponta Delgada a

apoiar o MFA, onde se ouviram palavras de ordem contra o “imperialismo norte-

americanos” e contra a CIA, à porta do Consulado, seguindo para um “ataque à sede do

MAPA”. Daniels comenta que a demonstração foi fraca, indicativa da força da esquerda

nos Açores e realça o facto do MAPA ter pedido protecção às forças armadas devido a

demonstração, mas estas mostraram-se incapazes, de forma deliberada, segundo Daniels.

No dia 18 de Março, novo telegrama 13 de Ponta Delgada informando que os

partidos à esquerda pedem a suspensão do MAPA e acusam a CIA de estar a apoiar o

Movimento independentista açoriano. Além disso, surgem outras informações sobre

algumas tensões relativas a líderes do MAPA (Carlos Melo Bento é proibido de

embarcar num avião para a Terceira) e de manifestações de esquerda em vários locais.

Fica claro que estamos perante um momento agitado nos Açores, onde a esquerda está a

tomar medidas fortes devido aos acontecimentos no continente a 11 de Março e tendo

em conta as eleições marcadas para o dia 25 de Abril de 75 e que os americanos

pretendem manter a mesma linha: informados, mas oficialmente afastados. O Cônsul

afirma que há, nos Açores, a ideia que a única hipótese de não caírem no comunismo

será os EUA tomarem as ilhas para garantirem a base.

No dia 21 de Março, surge um telegrama 14 informando o fim do MAPA. A

suspensão do Movimento surge em reposta às pressões da esquerda, nomeadamente

uma manifestação do MDP, MÊS, PC e PS no dia 18 que celebravam as

nacionalizações da banca e exigiram a suspensão do MAPA. Parece evidente que nesta

12
Ponta Delgada, 0064, 14 March 1975,
http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=40575&dt=1822&dl=823
13
Ponta Delgada, 0067, 18 March, http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=40552&dt=1822&dl=823
14
Ponta Delgada, 0069, 21 March 1975,
http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=40520&dt=1822&dl=823

9
altura vive-se nos Açores alguma euforia por parte da esquerda mais extrema que

aproveitou para fechar o MAPA. No entanto, o Cônsul afirma que os líderes do MAPA,

mesmo sob pena de terem problemas, seguirão a sua linha.

Entretanto, surge na cena política com cada vez mais influência, José de

Almeida. Há documentos da Embaixada em Londres que dizem que Almeida esteve nas

ilhas britânicas no mês de Março. Assim sendo, a Embaixada de Lisboa pede

informação biográfica sobre Almeida ao Consulado de Ponta Delgada que responde a

28 de Março15 dizendo aquele nasceu na Bretanha em 1935 numa família pobre, foi

protegido de Marcelo Caetano e foi eleito ao Parlamento por Viana do Castelo em 1973.

Viveu no continente até ao Outono de 1974, altura em que regressou aos Açores e

passou a professor de História no Liceu em Ponta Delgada.

Ora, e a 31 de Março 16 surge um documento relatando conversações entre o

Cônsul e José de Almeida. Apesar da suspensão do MAPA, dias antes, o Cônsul afirma

que a ideia da independência segue nas mentes da maioria dos açorianos,

principalmente em São Miguel. O Cônsul afirma não crer haver vontade de lutar pela

independência pelos açorianos, excepto em pequenos grupos como o que Câmara lidera

e afirma não haver nenhum líder realmente popular nos Açores, pois Câmara está ligado

a grandes proprietários e José de Almeida ao Antigo Regime. O Cônsul aconselha a

Secretaria de Estado a não apoiar Almeida ou Câmara numa possível tentativa de golpe,

pois não têm o apoio da população. A única forma, para o Cônsul Daniels, de haver

sucesso numa tentativa de golpe seria através do surgimento de um novo líder, com “as

mãos limpas” e de preferência de outra ilha que não São Miguel, para ter o apoio das

restantes ilhas.

15
Ponta Delgada, 0079, 28 March 1075,
http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=40476&dt=1822&dl=823
16
Ponta Delgada, 0082, 31 March 1975,
http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=40460&dt=1822&dl=823

10
Entretanto, no dia 25 de Abril acontece o acto eleitoral para a Assembleia

Constituinte portuguesa que dão a uma vitória ao PS, seguido do PPD e só depois o PCP.

Nos Açores, vence o PPD que elege dois deputados, seguido do PS que elege apenas um.

Um sinal dado pela população.17

A 14 de Maio, o Consulado de Ponta Delgada envia telegrama 18 informando

sobre novos movimentos a favor da independência dos Açores. Parris informa sobre

dois movimentos: a FLA (Frente para a Libertação dos Açores) e o MIRA (Movimento

para a Independência da Republica dos Açores). Os sinais são escritos nas paredes e

folhetos que vão surgindo reafirmando que o continente negligenciou os Açores e a

instigar Lisboa a permitir que os Açorianos tenham o “direito à independência”.

Segundo o telegrama, o surgimento dos movimentos devem-se aos episódios dos dias

anteriores, nomeadamente os incêndios do automóvel de um radialista continental

reconhecido da extrema esquerda e de barracas abandonadas da artilharia costeira. Diz o

Cônsul que se especula que tenham sido os independentistas por trás dos incêndios.

Além disso, Parris afirma que a FLA é, de certeza, o movimento de Câmara/Almeida e

que conta agora com o francês Bletierre. Diz o telegrama de Parris que Câmara e

Almeida afirmaram ser contra actividades terroristas, se não contassem com o apoio

americano, mas que havia partes do grupo que queriam ir em frente com essas

actividades. O Cônsul em Ponta Delgada conclui que essa franja do Movimento levou a

sua avante e os incêndios dos passados dias, são disso prova. Quanto ao MIRA, o

Cônsul não tem a certeza se se trata de apenas outro nome da FLA, se um pequeno

grupo de membros do PPD. Parris conclui afirmando que se abriu uma nova fase no

debate independentista nos Açores e que a FLA parece ter maiores possibilidades que

17
Comissão Nacional de Eleições,
http://eleicoes.cne.pt/vector/index.cfm?dia=25&mes=04&ano=1975&eleicao=ar
18
Ponta Delgada, 00134, 14 May 1975,
http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=91989&dt=1822&dl=823

11
teve o MAPA, pois identifica-se mais com os comuns açorianos. No entanto, à FLA

apresenta-se o mesmo problema que se apresentou ao MAPA, pois ainda não é um

grupo popular e tem que se desligar da imagem de grande proprietários de terras. Para

Parris, se a FLA conseguir esse apoio, Lisboa ficará perante uma situação difícil.

No dia 19 de Maio, novo telegrama19 do Consulado de Ponta Delgada para a

Secretaria de Estado. O telegrama relata um encontro entre Parris e o “engenheiro civil,

António Manuel Gomes de Menezes”, onde este mostrou a sua intenção de vir a fazer

um pedido oficial ao governo norte-americano para apoiar o movimento separatista

açoriano. Apesar de receber de bom grado qualquer apoio, Menezes prefere que os EUA

dêem apoio diplomático nas Nações Unidas, a favor dos Açores, para forçar Portugal a

fazer um referendo sobre a independência das ilhas. Menezes disse acreditar que mais

de 80% dos açorianos votariam a favor da independência. Gomes de Menezes avisou

ainda que, caso o referendo não fosse em frente com alguma brevidade, “moderados”,

como o próprio, não poderiam segurar mais os “extremistas”, que já pediam medidas

violentas. Confirmou ainda que a FLA e o MIRA são a mesma organização e que foram

responsáveis por alguns incêndios ocorridos anteriormente.

No dia seguinte, a 20 de Maio, Ingersoll responde20 de Washington dizendo que,

apesar de interessado em qualquer informação relativa aos movimentos separatistas

açorianos, a política americana segue sendo de total neutralidade. Mais informa

Ingersoll que os contactos com os responsáveis açorianos devem ser feitos em

Washington, ou Lisboa, mas não em Ponta Delgada, pois poderá levantar a suspeita que

os EUA estão a apoiar a independência dos Açores.

19
Ponta Delgada, 00138, 19 May 1975,
http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=92481&dt=1822&dl=823
20
Washington, 117449, 20 May 1975,
http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=80899&dt=1822&dl=823

12
Do dia 20 de Maio data outro relatório21 enviado de Ponta Delgada que informa

incêndios ocorridos em São Miguel, nomeadamente no carro do recentemente eleito

“presidente do secretariado do Partido Socialista”. O relatório informa que a FLA

deverá ter sido responsável por tal incêndio e de outros. Além disso, informa que a FLA

distribuiu panfletos onde tenta demonstrar as “diferenças étnicas e culturais” entre os

açorianos e os portugueses do continente.

No dia 23 de Maio, o consulado envia novo relatório22 a Washington informando

que o governo de Portugal estava a tomar medidas anti-separatismo. Essas medidas

começaram no dia 19 de Maio e são tropas armadas patrulhando Ponta Delgada, ruas

bloqueadas e revistas a carros. Também teriam chegado a Ponta Delgada, uns dias antes,

dois navios que transportaram muito material militar.

A 29 de Maio, o Consulado envia um relatório23 onde informa que um golpe dos

separatistas está para muito breve. Líderes da FLA informaram agentes do Consulado

que “forças militares, por todos os Açores, estão preparadas para executar um golpe

para desanexar os Açores do continente”. Gomes de Menezes e “José Franco, um

criador de gado”, informaram Parris que no dia anterior, 28 de Maio, o Coronel Renato

Gil Botelho Miranda, comandante do 18º batalhão independente de infantaria em São

Miguel, contactou Franco para pedir o apoio da FLA num golpe que seria executado

pelas unidades militares portuguesas estacionadas nos Açores. Segundo o Coronel, a

unidade estacionada no Faial já teria concordado aderir ao golpe e esperava que o 17º

batalhão de infantaria, estacionado na Terceira seguisse o mesmo caminho. O Botelho

Miranda terá dito ainda a Franco que o Comandante da Polícia em São Miguel e um alto

21
Ponta Delgada, 000141, 20 May 1975,
http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=92583&dt=1822&dl=823
22
Ponta Delgada, 000143, 23 May, 1975,
http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=92669&dt=1822&dl=823
23
Ponta Delgada, 000138, 29 May, 1975,
http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=90465&dt=1822&dl=823

13
oficial do exército também estariam a seu lado. José Franco informou o Cônsul que

Botelho Miranda é açoriano e um membro do MFA e esperava-se que fosse expulso do

exército.

No mesmo relatório, informa-se que Franco e Miranda entendem que aquele era

o momento ideal para avançar com o golpe, devido à instabilidade política que se vivia

em Lisboa que poderia dificultar o reunir duma força capaz de fazer frente aos

separatistas açorianos. Embora hesitantes, os golpistas estariam, ainda assim, dispostos

a ir em frente com o golpe, mesmo sem a garantia dos americanos de reconhecimento

dos Açores como estado soberano e de ajuda económica, após o golpe, uma vez que

bens como petróleo chegavam às ilhas do continente. Franco pediu, assim, ajuda

económica ao governo americano, mas apenas para o período imediatamente a seguir ao

golpe e que necessitava duma resposta até ao meio-dia do dia 1 de Junho seguinte.

Franco adiantou ainda ao consulado que estava num ponto em que não poderia haver

volta, que, com ou sem ajuda militar, iriam em frente com o golpe.

Ainda no mesmo relatório, Parris informa que Franco avisou que os partidos à

esquerda nos Açores estavam também a preparar movimentos contra a NATO e contra a

presença dos americanos nas Lajes e que até poderia ocorrer um ataque ao consulado,

de forma a deixar o governo americano embaraçado e fazer com que o governo de

Portugal tomasse medidas mais duras nas re-negociações de cedência das Lajes, que

entretanto estavam a decorrer. Parris informou Franco da posição de neutralidade do

governo americanos na matéria, mas que iria reportar o assunto a Washignton.

Por fim, o relatório acaba com uma série de comentários de Parris às

informações que tinha recebido. Sobre a possibilidade de Miranda e o Comandante da

Polícia apoiarem o golpe, Parris acha que poderia ser bluff, apesar de haver uma

possibilidade de ser verdadeiro, uma vez que era conhecido que tanto Miranda como o

14
Comandante estavam, efectivamente, descontentes com a situação dos Açores. Parris

ainda informa que, se de facto a FLA e o exército actuarem em conjunto poderá haver

base para sucesso do golpe, ficando apenas alguns focos de possível resistência. Além

disso, Parris acredita que, caso o golpe fosse bem sucedido, a população em geral iriam

apoiar a causa separatista. No entanto, Parris não acha que fosse possível manter a

situação perante uma força militar superior, durante muito tempo. Por fim, Parris afirma

que a situação nos Açores está a caminha para um “clímax”, por essa razão o Consulado

estava a transferir material para as Lajes.

No dia seguinte, dia 30 de Maio, o Cônsul dos EUA nos Açores envia um

relatório24 a Washington informando das actividades da FLA na ilha Terceira. Parris

fica com a impressão que a maior debilidade da FLA para ter sucesso é a sua

incapacidade de ligar todas as ilhas. Parris informa, novamente, que está para muito

breve uma acção separatista nos Açores.

No mesmo dia 30 de Maio, Carlucci elabora um relatório25 sobre a situação nos

Açores, onde fala sobre a possibilidade real que agora havia sobre um golpe nos Açores.

O Embaixador norte-americano em Lisboa afirma que, caso os separatistas açorianos

tenham o apoio militar que afirmam ter, poderá fazer toda a diferença, mas caso não

tenham o resultado será certamente a derrota, com todas as implicações que isso terá

para as relações EUA-Portugal. Carlucci afirma que é usual, nestas situações, que os

conspiradores digam que têm mais meios, do que na verdade têm, de forma a

conseguirem o apoio americano. Por outro lado, Carlucci entende que a população

açoriana apoiará os golpistas, caso haja uma liderança forte. Porém, não acredita que a

população queria se envolver em violência. Carlucci acrescenta um novo elemento à

equação quando levanta a possibilidade de Spínola estar envolvido no golpe açoriano.

24
Ponta Delgada, 00163, 30 May 1975,
http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=80918&dt=1822&dl=823
25
Lisbon, 03046, 30 May 1975, http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=91725&dt=1822&dl=823

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Na verdade, Carlucci entende que a viagem de Spínola aos EUA, no final de Maio,

poderá ser para forçar o apoio americano aos Açores. Carlucci entende que, caso a

possível revolta nos Açores não seja prontamente rebatida, as relações EUA-Portugal

sofrerão um forte abalo, com implicações para as negociações do acordo das Lajes.

A 3 de Junho, Pfeifle, a agora Cônsul dos EUA nos Açores, envia um relatório26

dando conta dum encontro com Gomes de Menezes. Menezes diz que o Coronel

Miranda não aderirá ao golpe, caso os EUA não apoiem o golpe. No entanto, Menezes

afirma que o golpe será para muito breve, que a FLA tem apoio estrangeiro,

possivelmente francês da ITT e da Nestlé. Em comentário, Pfeifle não crê, no entanto,

que o golpe seja para breve, pois a FLA ainda teria que resolver alguns assuntos.

Noutro relatório27, sobre a mesma conversa com Gomes de Menezes, Pfeifel fala

sobre o que Menezes prevê para o futuro dos Açores independentes, onde haveria lugar

a eleições para Assembleia constituinte, mas que não seria aceites partidos comunistas.

Economicamente, os Açores procurariam investimento estrangeiro, desenvolver o

turismo e a produção leiteira e gado. Sobre este assunto, Pfeifel comenta que a intenção

é os principais donos de terra dos Açores aumentarem o seu domínio nas ilhas.

No dia 4 de Junho, Pfeifel informa28 sobre as actividades que irão ocorrer em

Ponta Delgada no dia 6 de Junho. Por um lado, estava marcada uma manifestação de

agricultores contra a política de preços do leite e carne de Lisboa, que iria para o Palácio

do Governador Borges Coutinho. Por outro lado, nesse mesmo dia chegariam aos

Açores cinco navios de guerra da NATO. Pfeifel acaba dizendo que não lhe parece que

26
Ponta Delgada 00171, 3 June 1975,
http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=100597&dt=1822&dl=823
27
Ponta Delgada 00178, 4 June 1975,
http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=100581&dt=1822&dl=823
28
Ponta Delgada 00179, 4 June 1975,
http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=109457&dt=1822&dl=823

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a FLA aproveite a manifestação para fazer o golpe, mas nota que ausência da ilha dos

principais líderes no poder naquele dia, poderá ser ideal para os golpistas avançarem.

No dia 6 de Junho, Pfeifel envia o primeiro relatório29 do dia, com 3 pontos:

1. “Manifestação de separatistas açorianos força a demissão do Governador Civil.

A estação local de rádio foi tomada pelos separatistas.

2. O aeroporto de Ponta Delgada está agora fechado, camiões estão a bloquear a

pista. A pedido das tropas do exército, os condutores de camiões estão a deixar

os seus veículos. Não temos ideia sobre quanto tempo o aeroporto estará fechado.

3. Pormenores seguirão”

Conclusão.

Este trabalho baseou-se numa pesquisa exaustiva aos documentos dos arquivos

NARA, trata-se portando de um trabalho que lida com fontes primárias, onde outras

fontes foram consultadas apenas para contextualizar certos pormenores. Assim, a

interpretação que é aqui feita tem por base apenas os factos que foram registados pelos

norte-americanos durante o período analisado. Não há a intenção de compreender na

totalidade toda a dimensão dos acontecimentos ocorridos nos Açores que levaram ao 6

de Junho de 1975.

Aquilo que concluímos é que, antes de mais, os norte-americanos tinham uma

sistema de informação verdadeiramente eficaz, que lhes permitia estar em cima do

acontecimento e saber, em primeira mão, o que se estava a passar nos Açores.

Além disso, fica-se com a clara ideia que nos Açores houve um escalar do

sentimento anti-Portugal durante o ano de 1975 e que os açorianos foram-se

organizando o melhor possível para tentar conseguir aquilo que achavam ser o melhor

29
Ponta Delgada, 00180, 6 June 1975,
http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=98383&dt=1822&dl=823

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para o seu futuro: a sua independência. Parece-nos que os esforços dos açorianos

envolvidos nessa organização foram dignos de registo, mas não conseguiram aquilo que

seria o elemento chave para o seu sucesso: o apoio do Governo dos EUA. Esse apoio

não aconteceu porque, como se viu, estava em curso na mesma altura a renegociação do

acordo de cedência da base das Lajes por Portugal aos EUA. Na óptica americana não

poderia haver lugar a falhas por parte dos separatistas açorianos, pois se o golpe

falhasse e se Portugal tivesse a menor suspeita que os EUA tinham apoiado os golpistas,

as negociações poderia falhar definitivamente. Assim se compreende a necessidade de

Washington em saber como estava a saúde do movimento independentista açoriano.

Não será descabido afirmar que, caso o movimento açoriano estivesse totalmente

preparado militarmente e com provas que a população iria aderir, os EUA veriam com

agrado a independência açoriana, pois seria melhor para os seus objectivos geopolíticos

de domínio do Atlântico Norte.

Porém, não foi assim que aconteceu. Apesar da entrada de militares franceses na

organização açoriana separatista, apesar das tentativas de reunir apoio estrangeiro, por

parte dos altos dirigentes separatistas açorianos. Apesar do apoio que os militares

açorianos, ao serviço da tropa portuguesa, davam aos separatistas, a verdade é que a

FLA e os outros movimentos não conseguiram nunca ter uma organização que levasse a

acreditar que fosse possível a independência. A descontinuidade geográfica dos Açores,

a distancia que existe entre os açorianos de cada ilha foi, novamente, o maior obstáculo

aos interesses dos próprios Açores.

A História mostra-nos que os esforços desses açorianos que lutaram pela

independência dos Açores acabaram por ser frutíferos, pois Portugal acabou por ceder a

Autonomia e a constituir os Açores como Região Autónoma.

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