A Mulher Nua

Desmond Morris

Índice
AGRADECIMENTOS CONTRA-CAPA ORELHA INTRODUÇÃO 1. A EVOLUÇÃO 2. CABELOS 3. TESTA 4. ORELHAS 5. OLHOS 6. NARIZ 7. BOCHECHAS 8. LÁBIOS 9. BOCA 10. PESCOÇO 11. OMBROS 12. BRAÇOS 13. MÃOS 14. SEIOS 15. CINTURA 16. QUADRIS 17. BARRIGA 18. COSTAS 19. PÊLOS PÚBICOS 20. GENITAIS 21. NÁDEGAS 22. PERNAS 23. PÉS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 3 4 5 6 10 14 34 49 61 80 92 100 117 126 135 143 154 171 192 202 207 217 226 238 257 273 288 298

Agradecimentos
Quero expressar meu especial agradecimento à minha mulher, Ramona, por seu incansável encorajamento e suas críticas construtivas; a meu colega Clive Bromhall, por muitas e valiosas discussões; à Random House e a Marcella Edwards, Caroline Michael, Dan Franklin e Ellah Allfrey por sua competência editorial; a Nadine Bazar, por sua cuidadosa pesquisa iconográfica; e a Davi d Fordham, pelo projeto para o caderno de fotos.

Contra-capa
Há 5 mil anos, senhoras da elite do antigo Egito faziam questão de raspar a cabeça para ostentar perucas com cabelos femininos de povos subjugados. Na região hoje conhecida como Alemanha, durante as tempestades, mulheres exibiam as nádegas nuas à porta de casa. para afastar desgraças: exclusivos da raça humana, os hemisférios glúteos seriam uma visão capaz de repelir os demônios, desprovidos desse detalhe anatômico. Já na Inglaterra vitoriana, a barriga tinha conotação sexual tão forte que seu nome nem sequer podia ser pronunciado, dai a criação do eufemismo dor de estômago". O escritor e zoólogo inglês Desmond Morris — autor do bestseller mundial O macaco nu - reúne essas e muitas outras observações curiosas em A mulher nua. Neste revelador estudo sobre o corpo feminino, o autor descreve, dos cabelos aos pés, cada parte da anatomia, suas funções e sua evolução, explicando como certas características foram valorizadas ou desprezadas, conforme os costumes de cada época. Trafegando na fronteira da zoologia com a história e a sociologia, Morris desnuda, enfim, os processos que levaram a mulher a se transformar naquilo que ele define como "o mais extraordinário organismo existente no planeta".

Orelha
Toda mulher tem um corpo belo. Brilhante fruto de milhões de anos de evolução, de surpreendentes ajustes e refinamentos sutis, ele é o organismo mais extraordinário existente sobre o planeta. Em diferentes épocas e lugares, as sociedades humanas tentaram melhorar a natureza, modificando e embelezando o corpo feminino de muitas maneiras. Neste novo estudo, Desmond Morris dirige seu talento e sua atenção para a forma feminina e conduz o leitor numa excursão "da cabeça aos pés". Esclarecendo as funções evolutivas das características biológicas da mulher, Morris explora os avanços e limitações criados pelas sociedades humanas no intuito de atingir o controle e a perfeição do corpo feminino. Escrito a partir da perspectiva de um zoólogo e apoiado na inigualável experiência de Desmond Morris como observador do animal humano, A mulher nua apresenta fatos científicos, histórias interessantes e conclusões instigantes que provocam reflexão.

Introdução
Este livro conduz o leitor numa viagem pelo corpo feminino, explicando muitos de seus aspectos pouco conhecidos. Não se trata de um texto médico, nem de uma análise psicológica, mas de uma abordagem zoológica, que celebra a mulher na forma como ela existia no mundo real, em seu ambiente natural. Muito mais do que o macho, a fêmea humana passou por mudanças drásticas no curso de sua evolução. Perdeu muitas dos atributos femininos de outros primatas e, na forma da mulher moderna, tornou-se um ser único de uma espécie extraordinária. Toda mulher tem um corpo belo — belo porque é o brilhante coroamento de milhões de anos de evolução, fruto de surpreendentes ajustes e sutis refinamentos que o tornam o mais extraordinário organismo existente no planeta. Apesar disso, em diferentes épocas c lugares, as sociedades humanas tentaram melhorara natureza, modificando ou embelezando o corpo feminino de muitas maneiras- Algumas dessas elaborações culturais foram agradáveis, outras foram dolorosas, mas todas buscaram tornar a fêmea humana ainda mais bonita do que já era. O conceito de beleza tem variado muito, e cada sociedade humana desenvolveu idéias próprias sobre o que considera atraente. Algumas culturas apreciam figuras esguias, outras preferem as formas mais arredondadas; algumas gostam de seios pequenos, outras os apreciam vastos; algumas apreciam cabeças raspadas, outras valorizam longas e luxuriantes cabeleiras. Mesmo na cultura ocidental, o instável mundo da moda continua criando novas prioridades. Por isso, à medida que viaja da cabeça aos pés da mulher, este livro explica os interessantes atributos

biológicos que todas as fêmeas humanas partilham, mas também discute as muitas maneiras pelas quais esses atributos foram exagerados ou suprimidos, aumentados ou reduzidos. Dessa forma, tenta oferecer um quadro completo do mais fascinante tema do mundo: a mulher nua. No aspecto pessoal, este livro reflete o fascínio que me motivou durante toda a vida pela evolução e pela condição da fêmea humana. Há alguns anos, isso me levou a criar uma série para a televisão americana chamada The Human Sexes, na qual analisei detalhadamente a natureza do relacionamento entre machos e fêmeas da espécie humana ao redor do mundo. Quanto mais eu viajava, mais aborrecido e furioso ficava com a maneira como as mulheres eram tratadas em muitos países. Apesar dos avanços conquistados pelo movimento feminista no Ocidente, em outras partes do mundo milhões de mulheres ainda são consideradas "propriedade" do homem e membros inferiores da sociedade. Para elas, o movimento feminista simplesmente não existiu. Para mim, um zoólogo que estudou a evolução humana, essa tendência à dominação masculina não tem coerência com o modo como o como sapiens se desenvolveu ao longo de milhões de anos. Nosso sucesso como espécie se deveu à divisão do trabalho entre machos e fêmeas, em que os machos se especializaram na função de caçadores. Como viviam em pequenas tribos, isso significava que, com os machos longe, caçando, as fêmeas ocupavam o centro da vida social, coletando e preparando o alimento, criando os filhos e organizando a tribo. Enquanto os homens se concentravam em sua tarefa crucial, as mulheres aprenderam a lidar com vários problemas ao mesmo tempo. (Essa diferença de personalidade ainda persiste.) Nunca houve a pretensão de um sexo

dominar o outro. Um confiava totalmente no outro para a sobrevivência. Havia um equilíbrio primevo entre homens e mulheres. Eles eram diferentes, mas iguais. Esse equilíbrio se perdeu quando a população humana cresceu, vilas e cidades foram construídas e os habitantes das tribos se tornaram cidadãos. Ocupando o centro das sociedades humanas, a religião desempenhou um papel fundamental nesse processo. Em tempos antigos, a grande deidade era sempre uma mulher, mas, quando a urbanização se espalhou, a Grande Deusa passou por uma desastrosa mudança de sexo e se transformou num autoritário Deus Pai. Ao longo das eras, com um Deus vingativo dando-lhes apoio, homens rudes passaram a garantir sua segurança e sua condição social superior às custas das mulheres, que foram empurradas para uma condição social inferior que nada tinha a ver com sua herança evolutiva. Foi essa origem que as sufragistas e, mais tarde, as feministas quiseram recuperar. Pode-se imaginar que essas mulheres estivessem exigindo um novo respeito social e novos direitos. Mas, na verdade, simplesmente estavam buscando recuperar seu primitivo papel. Na maior parte do Ocidente, elas conseguiram, mas em outras regiões do planeta a subordinação feminina ainda é uma realidade. Depois da serie The Humam Sexes, essa questão passou a me preocupar cada vez mais, e, por ocasião de uma nova edição de meu livro Bodywatching, de 1985, decidi que, em vez de seguir o origina! e tratar de ambos os sexos, dedicaria o novo livro exclusivamente ao corpo feminino. Em Bodywatching, examinei cada parte do corpo humano. Mantive esse esquema neste livro, levando 0 leitor por uma viagem de inspeção anatômica da cabeça aos pés, ou, para ser mais exato, dos cabelos aos pés. Parte do texto original de Bodywatching foi aproveitada,

mas muito pouco. Embora tenha partido de um livro anterior, A mulher nua acabou se revelando uma obra inteiramente nova. Apresento em cada capítulo o aspecto biológico de uma determinada parte do corpo feminino e então passo a examinar as várias maneiras como diferentes sociedades modificaram esses atributos biológicos. Foi uma absorvente viagem de descobrimento, e quem me dera que, aos 18 anos, eu soubesse tudo o que sei agora — depois de escrever este livro — sobre a complexidade do corpo feminino.

1. A Evolução
Para o zoólogo, o ser humano é um macaco sem cauda com um cérebro enorme. O que mais surpreende nele é seu incrível sucesso como espécie. Enquanto outros macacos se escondem em seus últimos refúgios, aguardando a chegada das correntes que irão aprisioná-los, 6 bilhões de humanos ocupam quase todo o globo, espalhando-se tanto e com tal velocidade a ponto de mudar drasticamente a paisagem como uma praga de gafanhotos gigantes. O segredo desse sucesso é sua capacidade de viver em agrupamentos cada vez maiores, onde, mesmo na mais alta densidade populacional, são capazes de se adaptar às tensões da vida e continuar procriando sob condições que qualquer outro macaco acharia insuportáveis. Além dessa capacidade, existe ainda uma curiosidade insaciável que os faz buscar sempre novos desafios. Essa combinação mágica de sociabilidade e curiosidade foi possível graças a um processo evolucionário chamado neotenia, que permite aos humanos manter caracteres juvenis na vida adulta. Outros animais brincam quando são jovens, mas perdem essa qualidade quando amadurecem. O homem continua brincando e se divertindo por toda a vida — é um Peter Pan que nunca cresce. Naturalmente, quando se tornam adultos, os homens dão nomes diferentes a essa brincadeira: chamam-na de arte ou pesquisa, esporte ou filosofia, música ou poesia, viagem ou divertimento. Como as brincadeiras infantis, todas essas atividades envolvem inovação, risco, exploração e criatividade. E são elas que nos tornam verdadeiramente humanos. Homens e mulheres não seguiram essa tendência evolutiva da mesma maneira. Ambos percorreram esse longo caminho em direção ao "adulto infantil", mas

avançaram num ritmo um tanto diferente e com diferentes características. Os homens são ligeiramente mais infantis em seu comportamento; as mulheres, em sua anatomia. Eis alguns exemplos; Aos 30 anos, os homens têm quinze vezes mais chances de sofrer um acidente que as mulheres. Isso ocorre porque eles conservam mais que as mulheres 0 elemento de risco da brincadeira infantil. Embora freqüentemente crie problemas para os homens, esse era um atributo valioso nos tempos primitivos, quando, para ter sucesso na caça, os machos eram obrigados a correr riscos. Além disso, as mulheres primitivas eram valiosas demais para serem expostas ao risco da caçada, ao passo que os machos eram menos necessários, e por isso se especializaram em atividades arriscadas. Se alguns deles morressem em ação, isso não reduziria a capacidade de procriação das pequenas tribos. Mas, se algumas mulheres morressem, a taxa de natalidade ficaria imediatamente ameaçada. É importante lembrar que, em tempos primitivos, havia tão poucos seres humanos no planeta que a taxa de natalidade era extremamente importante. Existem mais homens inventores do que mulheres. A disposição para o risco não é apenas física, mas mental. A inovação sempre envolve risco: o de experimentar algo desconhecido em vez de se apegar a tradições testadas e confiáveis. As mulheres precisavam ter cuidado. No papel de centro da sociedade tribal, com responsabilidade sobre quase tudo exceto a caça, as mulheres não podiam cometer erros graves. No curso da evolução, elas se especializaram em fazer várias coisas ao mesmo tempo, tornaram-se ótimas na comunicação verbal e desenvolveram mais o olfato, a audição, o tato e a visão das cores. E ficaram mais resistentes às doenças — como mães, sua saúde é de vital importância.

Tudo isso se deve a uma diferença entre o cérebro da mulher e o do homem: eles conservam mais aspectos "infantis" que elas. Os homens tornaram-se mais imaginativos e, às vezes, mais perversos. As mulheres tornaram-se mais sensíveis e carinhosas. Essas diferenças se adaptam ao seu papel na sociedade. Eles se complementam, e a combinação resultou cm sucesso. Fisicamente, a história foi bem diferente. Por causa da divisão de trabalho durante a evolução, os homens precisavam ser mais fortes e mais atléticos para a caça. O corpo masculino contém em média 28 quilos de músculos, enquanto o feminino tem 15 quilos. O corpo do homem é 30% mais forte, 10% mais pesado e 7% mais alto que o da mulher. Devido à sua importância para a reprodução, o corpo feminino tinha que ser mais protegido da fome. Por isso, o corpo arredondado da mulher contém em média 25% de gordura, enquanto o masculino tem apenas 12,5%. Essa grande retenção de gordura na fêmea era uma característica fortemente infantil, e com ela vieram muitos outros úteis atributos juvenis. O homem adulto foi programado pela evolução para proteger seus filhos. Para vingar, a prole tinha que ser protegida durante seu lento crescimento, e para isso precisava da atenção de ambos os pais. A reação paterna ao corpinho gordinho de seus bebês era tão forte que podia ser explorada pela fêmea adulta. Quanto mais características de bebê apresentasse, mais proteção ela conseguia receber de seu macho, O resultado foi que a voz da mulher permaneceu num tom mais agudo que a do homem. A voz grave masculina opera a 130 - 145 vibrações por segundo, enquanto a voz aguda da mulher opera a 230-255 vibrações por segundo. Em outras palavras, a mulher manteve uma voz semelhante à das crianças. A mulher também conservou características faciais juvenis e cabelos de aspecto evidentemente infantil. Enquanto o homem adulto de-

senvolveu uma fronte, um queixo e um nariz mais marcantes, além de bigode, barba e pêlos no peito, a mulher conservou sua face lisa e delicada de bebê. Portanto, para resumir, à medida que o homem e a mulher percorriam seu trajeto evolutivo em direção a uma neotenia cada vez maior, o homem se comportava de uma maneira cada vez mais infantil e mostrava menos mudanças físicas, enquanto a mulher desenvolvia mais atributos físicos e menos qualidades mentais infantis. É importante ressaltar o grau de diferenciação entre homens e mulheres. Tenho me dedicado a listar as várias diferenças entre os sexos, mas é fundamental lembrar que tanto homens quanto mulheres são cem vezes mais neotênicos em todos os aspectos que machos e fêmeas de outras espécies. As diferenças entre homens e mulheres são verdadeiras e muito interessantes, mas muito leves. Vou tratar delas neste livro apenas porque é importante deixar claro desde o início, que o corpo feminino é mais avançado — ou seja, mais neotênico — que o masculino em muitos aspectos. Entender isso nos ajudará a esclarecer muitos atributos da anatomia feminina que vamos encontrar nesta viagem da cabeça aos pés. Não explica tudo, porque muitos desenvolvimentos evolutivos especializados ocorridos na anatomia feminina, em especial nas características sexuais e reprodutivas, tornaram o corpo da mulher um organismo altamente evoluído e maravilhosamente refinado. Como veremos.

2. Cabelos
Hoje não existe praticamente nenhuma mulher que deixe os cabelos crescerem como a natureza queria. Se alguma delas fizesse isso, acabaria com uma cabeleira na altura dos joelhos ou, se tivesse pele escura, com uma imensa floresta cobrindo-lhe a cabeça. Como nossos ancestrais remotos lidavam com esses extravagantes penteados antes de inventarem as facas, tesouras, pentes e outros utensílios é uma questão que nunca é discutida pelos antropólogos, talvez porque não tenham resposta para ela. Muitas vezes, quando seres pré-históricos são descritos nos livros, as ilustrações mostram, em sua imaginativa reconstrução, mulheres que parecem ter feito uma misteriosa visita ao cabeleireiro antes de posar. Seus cabelos são sempre curtos demais. A menos que o cabeleireiro, e não a prostituição, seja a profissão mais antiga do mundo, há algo de errado nisso, e o erro esconde um dos maiores mistérios da anatomia feminina: por que a fêmea humana desenvolveu essas madeixas ridiculamente longas? No antigo mundo tribal, essa exagerada cobertura capilar seria um estorvo enorme, assim como uma cauda de pavão. Qual foi a vantagem evolutiva desse desenvolvimento excessivo? Ainda mais estranho é que, exceto pelo topo da cabeça, pelas axilas e pelos genitais, a fêmea humana quase não tem pêlos. É verdade que, sob uma lente de aumento, é possível ver minúsculos pêlos cobrindo-lhe toda a pele, mas à distância eles são invisíveis, e sua pele é funcionalmente nua. Isso torna seus cabelos longos ainda mais extraordinários. Não é muito difícil traçar a origem desse padrão capilar. Quando um feto de chimpanzé tem cerca de 26 semanas de idade, exibe uma distribuição capilar muito semelhante à de um adulto humano. O fato de que nos

humanos, esse padrão tenha sobrevivido na vida adulta é outro exemplo de neotenia. Ao contrário dos macacos, que desenvolvem um pelame antes de nascer, nós preservamos o padrão capilar fetal durante toda a vida. Os homens são menos evoluídos que as mulheres nesse aspecto, pois possuem um corpo mais peludo, além de bigode e barba, mas ambos os sexos se mantêm funcionalmente nus na maior parte da superfície corporal. Mesmo ao mais peludo dos homens, os pêlos do peito não dariam qualquer conforto numa noite gelada nem evitariam uma insolação em dias de intenso calor. Portanto, parece que a natureza nos dotou de um padrão capilar muito estranho se comparado ao de outros animais. A explicação fetal pode nos dizer onde o adquirimos, mas não é capaz de explicar que vantagem ele nos deu em termos da sobrevivência da espécie. Como sempre, quando não existe uma explicação óbvia, abundam especulações. Os defensores da teoria aquática da origem humana acreditam que perdemos nossa pelagem porque precisávamos nos adaptar à natação, mas conservamos nossos cabelos para proteger o topo da cabeça dos raios do sol. Eles também sugerem que os longos cabelos femininos tiveram outra uti1idade: os bebês podiam agarrar-se a eles quando nadavam com as mães. Os críticos da teoria aquática a julgam infundada. Se a mãe mergulhasse em busca de comida, era pouco provável que permitisse que os filhos a acompanhassem. Além disso, se nossos ancestrais evoluíram num tórrido clima africano, é provável que não mantivessem os cabelos compridos e flutuantes, mas muito mais curtos e eretos — mais semelhantes aos penteados que vemos hoje em cabeças africanas. Entretanto, a idéia de manter a cabeleira, como proteção tem algum mérito, em ambientes aquáticos ou

não. Se os humanos primitivos se dedicavam à caça e à coleta nas savanas africanas durante o dia, precisavam proteger-se contra o forte calor do sol tropical. Uma vasta cabeleira lhes proporcionaria essa proteção, e o resto do corpo pelado aumentaria drasticamente o resfriamento proporcionado pelo suor. (O suor refresca cinco vezes mais a pele nua do que um corpo peludo.) Se outros animais africanos conservaram a pelagem, foi provavelmente porque eram mais ativos ao amanhecer e ao anoitecer, quando o sol não é tão forte. Os primitivos humanos eram animais tipicamente diurnos, como outros macacos. Isso pode explicar o penteado de estilo africano — uma cabeleira espessa que cobre o crânio, protegendo o cérebro do superaquecimento —, mas não esclarece o mistério da existência de longos cabelos flutuantes nas regiões frias do norte. Alguns antropólogos afirmam que os cabelos compridos ajudavam a manter o corpo dos habitantes das regiões frias aquecido durante o inverno — como uma capa natural pendente dos ombros. À noite, quando dormiam, a longa cabeleira pode ter funcionado como um cobertor. Isso pode até lhes ter dado a idéia para suas primeiras roupas, feitos de peles de animais enroladas no corpo. Mas, se isso fosse verdade, por que os humanos dos paises frios não fabricaram um casaco de peles para proteger-se? A explicação mais provável é que o bizarro padrão capilar humano funcionasse como uma bandeira da espécie — um sinal que nos diferenciaria de todos os nossos parentes próximos (parentes que desde então eliminamos). Se tentarmos imaginar um pequeno grupo de nossos remotos ancestrais antes que eles fabricassem roupas ou qualquer tipo de instrumento cortante, é claro que eles deviam parecer muito diferentes de tudo o que existia no planeta. Com corpos pelados, encimados por longas capas de cabelos ou jubas eriçadas, eles seriam imediatamente identificados como membros daquela nova

espécie que caminhava sobre as patas posteriores. Talvez essa seja uma maneira singular de classificar uma espécie, mas um rápido exame dos outros macacos pode nos mostrar com que freqüência estranhos padrões capilares surgiram como sinais de identificação das espécies. Há uma rica variedade de crinas, penachos, jubas, barbas, bigodes e tufos de cores brilhantes. Os primatas são animais predominantemente visuais, de modo que exibir evidentes sinais visuais seria a maneira mais rápida e eficiente de se distinguirem das outras espécies. Com seus corpos pelados e cabelos longos, nossos ancestrais humanos podiam ser avistados à distância e facilmente diferenciados dos primos de corpo coberto de pêlos. De mais perto, seria então possível fazer a distinção entre os sexos. Os machos, com suas faces peludas, jamais seriam confundidos com as fêmeas imberbes. Mas existe outra razão para o padrão capilar dos humanos, além de servir para identificar a espécie e o gênero. À medida que começaram a sair de sua terra natal na África e foram obrigados a se adaptar a diferentes ambientes, esses humanos passaram a diferir cada vez mais dos que ficavam em terras tropicais. A necessidade de adaptar-se a diferentes climas os colocou num caminho evolucionário que levou ao desenvolvimento de vários e diferentes tipos raciais. Lutando pela sobrevivência em desertos áridos e quentes, em zonas de clima moderado ou nas geladas cerras do norte, seu corpo precisava mudar para sobreviver. E, uma vez conquistadas essas mudanças, era importante que elas não se perdessem. Como ocorre com qualquer outra tendência evolutiva, era necessário impor barreiras que reduzissem os cruzamentos interraciais. As raças tinham que se diferenciar o mais possível. Uma das maneiras mais rápidas de fazer isso era variar o padrão capilar humano. Cabelos crespos, cabelos encaracolados, cabelos ondulados, cabelos lisos, cabelos

loiros — variações desse tipo podiam rapidamente um grupo humano dos outros.

diferenciar

Esse processo começou a ganhar impulso desde um estágio muito primitivo, à medida que os humanos foram se espalhando pelo globo. Não resta dúvida de que estávamos evoluindo para constituir um novo grupo de espécies intimamente relacionadas — humanos tropicais, humanos desérticos, humanos temperados, humanos polares e assim por diante. Nossos diferentes estilos de penteado foram o primeiro sinal de que esse processo estava ocorrendo. Mas, antes que ele chegasse muito longe, a história humana sofreu uma reviravolta. Graças à nossa inteligência avançada, tornamo-nos incrivelmente móveis. Inventamos barcos e navios, domamos cavalos e os montamos, inventamos a roda e construímos carruagens, fabricamos trens e carros, ferrovias e rodovias, e depois aeroplanos. As diferenças raciais estavam ainda num estágio muito preliminar de desenvolvimento. Apenas duas delas tinham feito progresso: as relacionadas ao calor e à umidade (diferenças na pigmentação da pele, na densidade das glândulas sudoríparas e aspectos semelhantes) e as relativas ao sinais visuais: os padrões capilares. As populações modernas praticamente não precisam adaptar o corpo ao clima. Essas adaptações se tornaram quase obsoletas. Aprendemos a controlar o ambiente com roupas, lareiras e aquecimento central, com refrigeração e ar condicionado. As diferenças que sobreviveram entre as raças não são mais importantes. Quanto aos diferentes formatos de cabelos que surgiram como mecanismos isolantes, ajudando a manter os diferentes tipos afastados, hoje não passam de uma chateação. Como não nos mantemos mais afastados, mas nos misturamos em todas as partes do mundo, eles só levam à desarmonia. No futuro, quando as populações estiverem ainda mais misturadas, esses mecanismos de isolamento deverão desaparecer totalmente. Mas, enquanto isso, precisam ser

compreendidos. Se continuarmos imaginando — erroneamente — que os cabelos refletem profundas diferenças raciais, eles continuarão a nos causar problemas. Podem chamar a atenção, mas, apesar disso, são comuns e superficiais, e como tal devem ser vistos. Tratando agora especificamente dos cabelos das mulheres, é claro que suas longas madeixas e sua face lisa devem ter criado um atraente contraste visual. Se, como discutimos, o crescimento excessivo dos cabelos evoluiu originalmente como um sinal visual, não deve nos causar surpresa que, ao longo dos séculos, eles tenham sido alvo de tanta atenção, positiva e negativa. Os cabelos foram exibidos, escondidos, penteados, cortados, alisados, ondulados, presos, soltos, coloridos e enfeitados de milhares de maneiras diferences. Representaram um pouco de tudo: de glória da feminilidade a motivo de tabus religiosos. Nenhuma outra parte do corpo feminino passou por tantas e incríveis mudanças culturais. Antes de analisar essas mudanças mais detalhadamente, convém dizer que existem cerca de 100 mil fios de cabelo numa cabeça humana. As loiras têm cabelos mais finos e, como compensação, um número de fios ligeiramente superior à média — geralmente cerca de 140 mil. As morenas têm cerca de 108 mil fios, enquanto as ruivas, que possuem cabelos mais espessos, têm apenas 90 mil. De modo geral, cada fio cresce durante cerca de seis anos. Então, passa por uma fase de repouso de três meses antes de começar a cair. Em qualquer tempo, 90% dos fios estão crescendo, enquanto 10% estão descansando. No período de uma vida humana, cada papila capilar produz cerca de doze fios, um depois do outro. Ao contrário de muitos outros mamíferos, os humanos não têm trocas de pêlo. Nossos cabelos se mantêm no mesmo volume em todas as estações.

Na média, cada fio cresce 13 cm por ano, mas, entre adultos jovens e saudáveis, pode chegar a 18 cm por ano. Então, nesses jovens, se não forem cortados, os fios podem atingir mais de 1 metro antes de começar a cair. Nenhum outro primata apresenta tal crescimento, e essa é uma das características únicas da espécie humana. Há uma curiosa exceção a essa regra: em alguns casos, em vez de cair depois de seis anos, os cabelos simplesmente continuam crescendo cada vez mais, até chegarem ao chão. Em alguns casos, crescem além disso. Em uma americana, os cabelos atingiram 4 metros de comprimento, mas o recorde mundial pertence a uma chinesa cujos cabelos chegaram a 5 metros. É como se o impulso genético para desenvolver cabelos humanos mais longos tivesse escapado de controle, criando indivíduos supercabeludos. Mesmo sem considerar esses casos extremos, era natural que, com tanto cabelo a seu dispor, o ser humano, sempre inventivo, se sentisse tentado a experimentar diferentes formas e estilos. Sabemos, por algumas das mais antigas imagens de Vênus, que isso ocorre há pelos menos 20 mil anos. Algumas gravuras rupestres mostram claramente diferences penteados, inclusive cabelos elaboradamente repartidos no meio da cabeça e. em um caso, uma trança caída sobre o ombro direito. Analisando os primeiros períodos históricos, é possível ver como os estilos foram mudando devagar, com penteados bem característicos de cada época. Na era moderna, com a chegada dos salões profissionais de cabeleireiros e dos sistemas de comunicação global, a velocidade dessas mudanças se acelerou drasticamente. Hoje, no século XXI, são tantas as influências, que não existe mais um único modelo predominante. Com a individualidade na ordem do dia, existem mais penteados c cortes do que nunca. A ânsia de imitar celebridades

ainda cria tendências de curto prazo, mas são tantos os modelos a copiar que ninguém mais pode afirmar que um estilo predomine. Os cabelos curtos e práticos da executiva, as longas madeixas flutuantes da pop star, os cabelos cuidadosamente desarrumados das atrizes de Hollywood, os cabelos espetados do rebelde — são todos modelos que encontramos lado a lado nos jornais e revistas. E dar um nome a todos esse estilos é criar estereótipos injustificados, porque dentro de cada estilo existem incontáveis e sutis variantes. Este não é o lugar para listar todas essas criativas variações, mas é importante registrar que, ao longo dos séculos, ocorreram poucas "estratégias de penteados femininos". Elas não dependem dos caprichos da moda, mas das possibilidades básicas do que pode ser feito com os cabelos femininos. Algumas dessas estratégias se desvaneceram na história e hoje parecem muito estranhas. Outras ainda estão em uso. A estratégia mais simples é optar por um ar natural. Quando a adota, a mulher usa os cabelos soltos e naturais o tempo todo, em casa ou na rua, nas ocasiões especiais e no dia-a-dia. Ela lava, escova e penteia os cabelos, mas não tenra modelá-los ou dar-lhes alguma forma especial. Embora seja a mais básica das estratégias, ela é hoje relativamente rara. Ainda pode ser encontrada em sociedades pouco sofisticadas ou em culturas em que a simplicidade se tornou uma doutrina social. A pobreza seria um fator para a sua adoção, mas, mesmo quando não têm dinheiro para comprar produtos para os cabelos ou freqüentar um salão de cabeleireiro, as mulheres não deixam de arrumar os cabelos. Enrolar, frisar e trançar não custa quase nada e ajuda a matar o tempo. Para mulheres que têm um trabalho físico extenuante — nos campos ou nas fábricas, por exemplo —, um estilo prático é o ideal. Os cabelos são presos por

razões de conveniência, para que não caiam sobre os olhos ou se embaracem. Quando não estão trabalhando, elas soltam os cabelos e os deixam cair naturalmente. Essa foi uma estratégia muito usada pelas camponesas no passado e ainda hoje é adotada por muitas mulheres, que, mesmo não se dedicando a trabalhos físicos, acham que prender os cabelos num rabo-de-cavalo pode ser uma forma de controlar cabelos rebeldes, tanto no trabalho quando em casa. Mas, em sua grande maioria, as mulheres, especialmente as que vivem em sociedades urbanas, nunca se contentaram com soluções práticas e naturais. Há séculos, têm optado por alguma forma de penteado, prendendo, cortando, modelando, tingindo, ondulando, alisando, mechando ou enfeitando os cabelos. Essa é a estratégia mais comum, principalmente em países onde há muitos salões de cabeleireiro, mas proibida em países em que há estritas normas religiosas ou onde a beleza feminina é tabu. Duas das principais estratégias no cuidado dos cabelos são o corte e o alongamento. Os cabelos longos mostram mais as mudanças escolhidas e fazem a mulher parecer mais alta. Uma maneira de ter cabelos longos é usar uma peruca. Essa é uma estratégia que tem no mínimo 5 mil anos. No antigo Egito, as mulheres da classe superior raspavam a cabeça e usavam uma peruca ornamentada em público. As damas romanas não raspavam a cabeça, mas também gostavam de usar perucas como demonstração de status. Essa predileção criou moda: a de que os cabelos com os quais as perucas eram feitas tinham que ser de mulheres de povos conquistados em batalha — uma versão romana do costume de escalpelar os inimigos.

As perucas foram banidas pela Igreja na Idade Média, mas reapareceram na era elisabetana. Isso aconteceu em grande parte porque os primeiros cosméticos danificavam tanto os cabelos e a pele que era necessária uma espessa cobertura. Mas a moda da peruca só atingiria seu ápice no século XVIII, quando, com um exagero atrás do outro, surgiram penteados nunca vistos. Algumas dessas perucas, sempre primorosamente decoradas, chegavam a ter 75 cm de altura. A altura das portas teve que ser aumentada para permitir que as damas passassem por elas. O assento das carruagens teve que ser rebaixado. Cabeceiras especiais foram criadas nas camas para que a mulher pudesse deitar-se e descansar sem tirar a enorme peruca. Na Ópera de Paris, as perucas só eram permitidas nos camarotes, porque sua presença na platéia impediria a visão do palco. Nenhum outro estilo de penteado teve tal impacto sobre a sociedade. Como o custo de fabricar e manter uma peruca era muito alto, os maridos tinham que ser extremamente generosos para financiá-las. Por isso, as perucas passaram a ser uma demonstração de riqueza. A única mulher que podia pôr um fim a essa moda extravagante era Madame Guilhotina, que decepou as cabeças aristocráticas sobre as quais se exibiam as enormes perucas. Depois da Revolução Francesa, a peruca nunca se recuperou totalmente. Houve momentos em que ela ressurgiu brevemente sob uma forma ou outra — como as divertidas perucas da década de 1960, fabricadas de material sintético e em cores brilhantes e artificiais —, mas seus dias de glória tinham ficado para trás. Em tempos mais recentes, quando são usadas, as perucas devem ser tão semelhantes aos cabelos naturais a ponto de passarem despercebidas. Há mulheres (especialmente aquelas cujos cabelos ficam mais ralos com a idade) que nunca aparecem em público sem uma boa peruca. Algumas celebridades também adotam essa estratégia, não porque tenham

problemas com os cabelos, mas por conveniência. Mesmo que os cabelos estejam em bom estado, às vezes é mais fácil usar uma peruca do que perder tempo arrumando os cabelos. A grande vantagem disso é que as elegantes perucas podem ser cuidadas e penteadas sem a presença da dona. Voltando à estratégia dos cabelos compridos, um notável exemplo do passado recente é um penteado que ficou popular na década de 1980. Em lugar da peruca, o cabelo natural era penteado de forma a parecer o mais volumoso possível. Pura obter essa exuberante cabeleira, era preciso "secar os cabelos de baixo para cima com a cabeça abaixada, modelá-los com mousse e por fim pulverizá-los com muito spray fixador". O resultado, que desafiava a gravidade, foi maldosamente descrito por um crítico como "uma das maravilhas arquitetônicas de nossa época". Às vezes batizado de "estilo Dolly Parton" (uma famosa cantora country americana), o penteado ficou muito popular nas pequenas cidades norte-americanas e nos Estados do sul do país, onde com freqüência se ouvia dizer que, "quanto mais alto o cabelo, mais perto de Deus". Uma das razões dessa popularidade era que esse volume todo fazia as feições parecerem mais delicadas, e portanto mais atraentes. Era também um penteado extrovertido e afirmativo, dando à mulher um ar mais confiante. Para seus críticos, porém, era chamativo e vulgar, nada mais do que uma maneira de compensar as imperfeições. E tinha um grave defeito: podia ser uma inegável propaganda de feminilidade, mas também era anti-sexual, porque os homens hão podiam correr os dedos pelos cabelos, nem desmanchá-los carinhosamente. Mais recentemente, surgiu uma forma mais sofisticada de alongamento: mechas que são coladas aos cabelos naturais para fazê-los parecer mais longos. Esse recurso é utilizado quando a mulher se cansou dos cabelos curtos ou quando os cabelos naturais não crescem tanto quanto ela desejaria. Técnicas modernas tornaram

praticamente impossível detectar a presença dessas mechas, embora algumas delas sejam visíveis, propositalmente falsas e funcionem quase como uma meia peruca. A segunda estratégia importante é diminuir o tamanho ou o volume dos cabelos naturais, seja por meio de um corte, seja usando-os rigorosamente presos. Algumas mulheres usam os cabelos presos num penteado sóbrio em ocasiões sociais, mas soltos e naturais na vida cotidiana. Nas últimas décadas, muitas mulheres querem parecer "livres e naturais" a maior parte do tempo, mas gostam de se arrumar para ocasiões especiais, como casamentos, enterros e grandes eventos e celebrações. No intuito de criar uma aparência de pessoas de alta classe e disciplinadas, prendem os cabelos, querendo dizer: "Sou importante, sou séria e não permito familiaridades". Algumas mulheres vão ainda mais longe e nunca usam os cabelos soltos em público. Mantêm-nos presos num coque o tempo todo, a não ser na privacidade do lar. É o que se pode chamar de estilo "governanta" ou "diretora de escola". Mulheres que precisam impor sua autoridade costumam amplificar esse ar de controle e poder mantendo os cabelos colados ao crânio. Isso as torna menos femininas e evita passar a impressão de relaxamento ou liberdade. Sem um fio fora do lugar, os cabelos não podem ser despenteados ou acariciados. Isso as faz parecer literal e metaforicamente impecáveis, inacessíveis c intocáveis. Há mulheres que optam por usar os cabelos tão curtos que não é possível prendê-los nem soltá-los. O pouco cabelo que resta fica solto, e não precisa ser preso para facilitar o trabalho físico, nem pode ser mudado em diferentes contextos sociais. As melindrosas da década de 1920 foram as primeiras a adotar essa moda, que reapareceu nos anos de 1960 no trabalho do cabeleireiro Vidal Sassoon.

Evidentemente, a mensagem que se quer passar com o estilo curto é a de uma mulher ativa e independente, que faz dos cabelos uma demonstração de molecagem elegante, e não uma exibição de futilidade feminina. A desvantagem porém é que na prática esses cortes dos anos 1920 e 1960 se revelaram mais difíceis de cuidar fora do salão de cabeleireiro. O penteado curto ressurgiu novamente na década de 1970, quando, numa forma mais austera, tornou-se uma estratégia feminista, uma demonstração de assertividade nos locais de trabalho, onde as mulheres queriam ser tratadas com mais respeito por seus colegas homens. Na década de 1990, os penteados curtos suavizaram-se e ganharam um toque mais feminino. O estilo da mulher executiva pós-feminista está comunicando: "Continuo disciplinada, mas não preciso abrir mão da minha feminilidade para ocupar um lugar de destaque no mundo". A moda dos anos 1990 caminhou na corda bamba, oscilando entre o estilo agressivo e masculinizado e o modelo ornamentado. O objetivo era combinar um controle refinado com uma sensual liberdade. Esse é o novo desafio para o profissional cabeleireiro do Ocidente no início do século XXI. Numa forma mais drástica de redução dos cabelos, algumas mulheres se aventuram a cortar o cabelo rente à cabeça, o que elimina a "soltura natural" mesmo na privacidade. Para mulheres bonitas, esse estilo pode parecer uma provocação, como se ela dissesse; "Veja, não preciso de cabelos bonitos para ser atraente", o que pode ser visto como uma demonstração de vaidade. Mas também de rebeldia, manifestação de alguém que ignora as convenções e se recusa a seguir a moda, como as conformistas. As mulheres que não gostam desse corte o vêem como uma tentativa de se exibir com táticas de choque. E os homens podem se sentir ameaçados e frustrados no desejo de acariciar suaves madeixas flutuantes.

Algumas mulheres adotam um corte ainda mais drástico e raspam completamente a cabeça. Em algumas culturas, isso era um castigo. Em outras, um sinal de escravidão ou de submissão voluntária a uma divindade. Em outras ainda, uma imposição a todas as mulheres em cerimônias fúnebres especiais. Entre os fenícios, a mulher que se recusasse a raspar a cabeça em sinal de luto tinha que se oferecer como prostituta no templo. Recentemente, na França, um estilista convenceu todas as suas modelos a raspar a cabeça para mostrar que uma mulher moderna não precisa ser "prisioneira de seus cabelos". Para os homens, esse corte raspado (de Joana D'Arc a roqueiras punk) não tem quase ou nenhum sex appeal, uma vez que nega totalmente a sensualidade dos longos cabelos femininos. Devido ao seu poder de seduzir os homens, a exposição dos cabelos femininos — em qualquer estilo — tem sido proibida em algumas culturas. Exige-se que a mulher cubra ou esconda os cabelos para eliminar seu potencial erótico. A forma mais branda dessa "cobertura" puritana é usar algum tipo de chapéu. A exigência de que a mulher cubra a cabeça ao entrar numa igreja católica é uma reminiscência da época em que ela era obrigada a esconder os cabelos durante qualquer cerimônia religiosa cristã. Um resquício moderno desse antigo costume é a convenção social de usar chapéus em ocasiões formais, como casamentos e funerais. Em comunidades religiosas, passadas e presentes, exige-se que as mulheres cubram a cabeça completamente quando estiverem em público e só soltem os cabelos na privacidade do lar, quando não haja estranhos presentes. Em sociedades que praticam rigidamente o islamismo, por exemplo, isso é uma lei. Se, por descuido, a mulher permitir que uma pequena parte dos cabelos seja exposta sob o tradicional véu, pode ser açoitada pelos homens da igreja. As comunidades cristãs também impuseram

normas relativas à exposição dos cabelos. No passado, essas regras quase sempre se aplicavam às esposas devotas, cujos cabelos não podiam ser vistos em púbico, e ainda hoje são seguidas pelas freiras. Um extraordinário exemplo desse costume de ocultar os cabelos por razões religiosas ainda sobrevive hoje em Nova York. nas comunidades de judeus ortodoxos. Nelas, a mulher deve cobrir totalmente os cabelos, que só podem ser vistos pelo marido, na privacidade do quarto de dormir. Apesar disso, as mulheres dessas comunidades desejam se integrar à vida nova-iorquina e resolvem esse dilema de uma maneira engenhosa. Usam perucas caríssimas, praticamente iguais a seus cabelos naturais. Quando usam essa peruca, que chamam de sheitel, sua aparência não muda. Qualquer observador com certeza acharia difícil dizer que elas estão usando uma peruca. Dessa forma, a regra religiosa é obedecida sem sacrifício da imagem. É evidente que os cabelos convidam à experimentação mais do que qualquer outra parte do corpo feminino. Isso ocorre porque é fácil mudá-los; essas mudanças podem ser feitas rapidamente, e não são definitivas. Quando os cabelos crescem, pode-se tentar um novo estilo. Acima de tudo, os cabelos são muito visíveis, e a menor alteração é imediatamente percebida. No simbolismo dos cabelos femininos existe uma simples dicotomia: o contraste entre os cabelos naturais, longos, soltos e acessíveis e os cabelos curtos, sóbrios e rigidamente penteados. Os cabelos longos podem ser vistos como símbolo de sensualidade, liberdade de espírito, rebeldia pacífica e criatividade. Os cabelos curtos têm sido associados a disciplina, autocontrole, eficiência, capacidade de adaptação e assertividade. Evidentemente, são generalizações, mas é surpreendente como elas correspondem aos fatos em muitos casos. O maior prazer

da mulher em relação aos cabelos, porém, é que eles estão sempre disponíveis, permitindo-lhe expressar seu estilo pessoal e sua individualidade, assim como seu estado de espírito. Desde que o mundo obscuro das práticas religiosas sexistas não interfira, a mulher pode usar os cabelos como um maravilhoso meio de se expressar e se apresentar ao mundo. Além das inúmeras opções de corte e penteado, há ainda a questão da modificação da cor dos cabelos. As cores naturais, que vão do preto ao loiro-claro, são, como os tons de pele, fruto de uma adaptação às condições climáticas do ambiente. Cada cor — preto, castanho, ruivo ou louro — tem um significado que reflete essa adaptação e um encanto próprio. Portanto, é surpreendente descobrir que, quando as mulheres decidem mudar a cor dos cabelos, exista uma cor que predomine sobre todas as outras. De cada cem mulheres que tomam a decisão de mudar radicalmente a cor dos cabelos, mais de 90% decidem ficar loiras. Mas por que tantas mulheres de cabelos escuros querem parecer escandinavas, quando tão poucas escandinavas querem tingir seus cabelos de preto ou castanho? É claro que isso nada tem a ver com o clima. Nem com raça, já que a maioria das caucasianas têm cabelos escuros. Então, qual é a atração dos cabelos loiros, um apelo tão forte a ponto de criar a bizarra situação de termos no mundo mais loiras artificiais do que verdadeiras? Parte do poder de atração dos cabelos loiros reside no fato de eles serem finos e leves, mais suaves ao toque e portanto mais sensuais nos momentos de íntimo contato corporal. Por entre os dedos ou no contato com o peito do homem, a suavidade dos cabelos evoca a maciez da carne feminina. Assim nesse aspecto, as loiras são mais femininas que as ruivas ou as morenas. Na verdade a feminilidade das loiras se estende a todo o corpo. A mulher loira tem uma penugem fina e suave

nas partes em que a morena precisa usar uma lâmina de barbear ou creme depilatório. As axilas e o púbis das loiras são cobertos por pêlos mais delicados. A sedosidade de seus pêlos púbicos é muito diferente da aspereza dos pelos das morenas. Em momentos de extrema intimidade, portanto, a loira leva uma ligeira vantagem sobre as morenas. Diante do argumento de que é a suavidade dos cabelos loiros que leva tantas morenas a clarear os cabelos, alguém poderia contrapor que qualquer vantagem que se obtenha será apenas por associação. O clareamento não torna o cabelo mais fino nem mais macio. Ele apenas parece mais fino. Eis portanto outra vantagem de ser loira, e ela é apenas visual: a mulher loira passa uma imagem mais juvenil do que a morena. E essa imagem projetada por uma mulher adulta, aumenta seu poder de sedução, transmitindo fortes sinais de que ela deseja ser cuidada. As loiras passam uma idéia de juventude porque, em grande parte da humanidade, os bebês são mais loiros que os pais, de modo que a combinação entre "olhos azuis" e "madeixas loiras" ficou indelevelmente associada à infância. Nem é preciso dizer que isso é bom para cabeleireiros e fabricantes de perucas. Dos impérios do mundo antigo aos salões da Europa barroca, gerações de mulheres de cabelos escuros acorreram a seus estabelecimentos em busca dos mais modernos estilos e produtos, com a pretensão de se tornarem um pouco — ou muito — mais loiras do que a natureza as fez. Praticamente desde o amanhecer da história, o clareamento dos cabelos femininos foi uma indústria importante. Alguns dos recursos utilizados para satisfazer as exigências sociais e alourar os cabelos eram perigosos e até mesmo letais. Os antigos gregos usavam uma pomada de pétalas de flores amarelas, uma solução de potássio e pós colorantes que deixava os cabelos opacos na tentativa

de dar-lhes a sensual aparência alourada. As damas romanas tingiam os cabelos com um sabão germânico especialmente importado do norte, mas era mais provável que escolhessem o caminho mais fácil de usar uma peruca loira. Essas perucas primitivas eram feitas de cabelos naturais dos europeus do norte que os romanos conquistavam em sua expansão. A moda se espalhou tanto que o poeta romano Marcial zombou dela nos seguintes versos: Os cabelos dourados que Gala usa São dela — quem imaginaria? Ela jura que são dela, e eu juro que é verdade Porque sei onde ela os comprou. À medida que os séculos foram passando, cada vez mais truques eram usados para clarear os cabelos. Cascas de plantas, sementes, sabugos e resíduos do vinagre foram muito populares nos primeiros tempos. Uma das receitas mandava esfregar os cabelos vigorosamente com açafrão. Outra recomendava gemas de ovos cozidos com mel, seguidas de uma longa exposição ao sol forte. As mulheres elisabetanas polvilhavam os cabelos com pó de ouro ou quando precisavam ser mais econômicas, aplicavam neles raspas de ruibarbo diluídas em vinho branco. Algumas vezes, corriam o risco de embeber os cabelos com ácido sulfúrico ou alumina. Para algumas mulheres, esses tratamentos químicos resolviam o problema dos indesejáveis cabelos escuros: ficavam completamente carecas e eram obrigadas a usar uma peruca loira pelo resto da vida. As receitas foram se tornando cada vez mais complexas. Em 1825, um tratado denominado A arte da

beleza ensinava a suas leitoras a fórmula para obter cabelos da cor do linho: Ferva 1/4 de galão de lixívia; adicione 1/2 onça de raízes de celidônia e gengibredourado, 2 dracmas de açafrão e raízes de lírio, e 1 dracma de cada uma das seguintes flores verbasco, giesta e hipérico. A solução obtida deve ser aplicada regularmente nos cabelos . É claro que, ano após ano, século apos século, a mulher foi se preparando para superar qualquer obstáculo que a impedisse de adquirir as desejáveis tonalidades douradas. Mas, como acontece com muitos conceitos de moda, foi inevitável que o clareamento dos cabelos adquirisse um sentido colateral de exagero e exibição. Mesmo na época romana, a aparência que ele proporcionava nem sempre era a de uma virgem imaculada. A artificialidade das perucas e tinturas reduziu o valor simbólico da coloração. Num dado momento, tornou-se sinônimo não de inocente feminilidade, mas de sensualidade profissional: a marca da prostituta. As prostitutas romanas eram muito organizadas. Tinham que obter uma licença para trabalhar, pagavam impostos e, por exigência da lei, usavam cabelos loiros. A terceira esposa do imperador Cláudio, a ninfomaníaca Messalina, ficava tão excitada com a possibilidade de fazer um sexo brutal e repentino com estranhos que saía para a sua caçada noturna usando uma peruca de prostituta. Corriam boatos de que tal era a violência com que fazia sexo que muitas vezes perdia a peruca loira e retornava ao palácio real totalmente reconhecível. Outras damas romanas logo passaram a imitá-la na cor dos cabelos, e os legisladores foram incapazes de reprimir a nova moda. A obrigatoriedade do uso da peruca loira para as prostitutas caiu por terra, mas um elemento de fraqueza e abandono hoje associado às loiras sobreviveu ao longo de séculos, ressurgindo repetidamente

como o reverso da imagem de virginal inocência. Geralmente, a diferença que se. estabelecia era a seguinte: loiras verdadeiras são anjos e loiras falsas são promíscuas. O fato de as loiras artificiais terem tido muito trabalho para parecer atraentes significava que o sexo ocupava sua mente por muito tempo, e a loira falsa se reproduziu em diferentes arquétipos: garota fácil, bomba sensual, prostituta, bonequinha de luxo, loira burra. Cada geração tem um nome para ela, e cada geração tem suas superloiras. No início da Primeira Guerra Mundial, a loira platinada entrou em cena. Em 1937, quando Jean Harlow morreu, aos 26 anos, deixou uma longa sucessão de estrelas de cinema loiras, que continuam dominando a tela até hoje. A grande maioria das personalidades femininas surgidas em Hollywood foram louras — geralmente, mais por força da cosmética do que da genética. Algumas passaram por sacrifícios para aperfeiçoar o visual: Marilyn Monroe chegou a clarear os pêlos púbicos para fazê-los combinar com suas madeixas platinadas. Muitas se mantiveram fiéis à velha associação entre o sol e o dourado de seus cabelos — eram mulheres alegres e calorosas, vitais e intensas. Freqüentemente elas se dão mal, mas isso também faz parte de seu natural poder de sedução: sua loira vulnerabilidade. Em defesa das morenas, um comentarista do final da década de 1960 afirmou: "Se um homem tem boas intenções em relação a uma garota, deseja que ela seja natural. Nada artificial atrai um homem sério. De modo geral, ele prefere uma loira como amante e uma morena como esposa. Morenas têm mais integridade".

3. Testa
A testa é uma região da face que desempenha um importante papel na linguagem corporal. Como afirmou um especialista cm expressões faciais no século XVIII, "de todas as partes da face, a testa é a mais importante e mais característica". Hoje, essa afirmação pode parecer surpreendente, porque, como se dá muita atenção à maquiagem dos olhos e dos lábios, eles tendem a dominar o rosto feminino e ofuscar as outras partes. No entanto, é pouco provável que alguém tenha travado uma conversa cara a cara sem transmitir sinais inconscientes na testa, na forma de um mover das sobrancelhas ou de um franzir da pele — movimentos indicativos de mudanças de humor. Antes de examinar esses sinais e descobrir de que forma a testa feminina difere da masculina, convém perguntar por que afinal temos testa. Se observarmos atentamente a face de um chimpanzé e a compararmos com o rosto humano, a diferença na fronte é surpreendente. Nos macacos, a testa quase não existe. Nos humanos, ela se eleva verticalmente acima das sobrancelhas. No chimpanzé, ao contrário, a linha dos cabelos se junta às sobrancelhas, que quase não têm pêlos. Na verdade, a região frontal do macaco é totalmente diferente da dos humanos. Quando olhamos a face de um chimpanzé ou de qualquer outro macaco, a impressão que se tem é que eles possuem imensos e proeminentes ossos superciliares que os protegem de danos, enquanto nós, humanos, perdemos essa proteção. Isso é uma ilusão. Se tocarmos o osso imediatamente acima dos olhos, sentiremos a proeminência do crânio, que continua lá para nos proteger. Nossos supercílios são menos evidentes, não porque desapareceram, mas porque nossa fronte se estendeu para abrigar um cérebro muito maior. O cérebro de um

chimpanzé tem um volume de cerca de 400 cm3, enquanto o cérebro humano ocupa um volume mais de três vezes maior: 1.350 cm3. Foi a expansão do cérebro humano, principalmente na região frontal, que nos deu uma testa. Essa área de pele exclusivamente humana acima dos olhos deu a nossos ancestrais uma região a mais para a transmissão de sinais visuais. Por isso a pele da fronte, embora bem esticada sobre o osso, não é totalmente imóvel. Ela é capaz de leves movimentos — sutis, mas claramente perceptíveis. É fácil detectar esses movimentos porque, quando se mexe, a pele cria rugas. Além disso, a face humana conservou duas tiras de pelos na fronte. Conhecidas tecnicamente como supercílios, mas chamadas comumente de sobrancelhas, funcionam como sinalizadores que ajudam a tornar os movimentos da pele ainda mais visíveis à distância. Já se disse que a principal função das sobrancelhas é reter o suor e a chuva, impedindo que eles escorram para dentro dos olhos. E embora elas tenham alguma utilidade nesse aspecto, funcionando como calhas , sua principal função é sem dúvida transmitir as aceleradas mudanças do nosso estado de espírito. Estudando todos os sinais de mudança de humor no rosto, fica evidente que existem seis movimentos da testa, cada um ligado a um determinado estado emocional. São eles: Baixar as sobrancelhas. Esse movimento não é estritamente vertical, e sim um franzimento. À medida que baixam, as sobrancelhas também se movem ligeiramente para dentro, aproximando-se. Isso enruga a pele entre elas e forma pequenas dobras verticais. O número dessas dobras varia de indivíduo para indivíduo, e cada adulto tem um franzido característico de uma, duas, três ou

quatro linhas. Quase sempre elas se formam simetricamente de cada lado do espaço entre as sobrancelhas (conhecido como glabela), cada uma mais longa ou mais forte que a anterior. As marcas horizontais da testa tendem a se suavizar quando as sobrancelhas baixam, mas podem não desaparecer completamente. O processo de envelhecimento envolve uma fixação cada vez maior das linhas de expressão temporárias. Os vincos da pele, que na juventude aparecem e desaparecem a cada mudança de humor, se gravam permanentemente na pele à medida que os anos passam. Um forte vinco num rosto que não está franzido é o resultado de inúmeros movimentos desse tipo realizados pelo indivíduo ao longo da vida. Esse franzir das sobrancelhas ocorre em duas diferentes situações, que podem ser grosseiramente rotuladas como de agressão e de proteção. Num contexto agressivo, o movimento se processa em diferentes graus de intensidade, que vão da simples desaprovação ou determinação até o aborrecimento e a raiva violenta. Num contexto de proteção, o movimento ocorre sempre que existe uma ameaça para os olhos. Entretanto, em momentos de perigo, franzir as sobrancelhas não é proteção suficiente. Nessas ocasiões, as bochechas também se elevam. Juntos, esses dois movimentos oferecem a máxima proteção possível aos olhos, que se mantêm abertos e atentos. É um movimento típico de um rosto tenso, que prevê um ataque físico, ou exposto à forte iluminação, da qual os olhos se protegem. Essa contração também ocorre freqüentemente quando o indivíduo ri, chora e em momento de forte repulsa, o que sugere que essas situações talvez devam ser consideradas uma espécie de superexposição. È a função de proteção ocular que explica a origem desse franzimento da testa. Sua utilização cm contextos

agressivos parece ser secundária, surgida da necessidade de defender os olhos de contra-ataques que uma atitude agressiva poderia provocar. Costumamos ver num rosto franzido a imagem de ferocidade, e não de autopreservação, mas isso é um erro. Pode ser feroz, mas não tão intrepidamente feroz a ponto de não levar em conta a necessidade de proteger órgãos tão vitais como os olhos. A verdadeira face de agressão, ao contrário, exibe um par de olhos fixos e bem abertos, mas essa é uma ocorrência relativamente rara, uma vez que atos de franca hostilidade raramente escapam de uma retaliação. Erguer as sobrancelhas. Como o movimento anterior, esse não é estritamente perpendicular. Quando se erguem, as sobrancelhas se movem ligeiramente para fora, afastando-se. Isso estica a pele entre elas e faz desaparecer as rugas verticais que ali se formaram. Ao mesmo tempo, porém, toda a pele da testa se estica para cima, criando longas marcas horizontais. Essas linhas, em número de quatro ou cinco na maioria dos casos, são mais ou menos paralelas. Às vezes, dez rugas chegam a se formar, mas é difícil precisar seu número porque as linhas superiores e inferiores em geral são fragmentárias. Na maioria dos casos, apenas as linhas do meio se estendem de lado a lado da testa. É isso que se costuma chamar de "testa franzida", geralmente atribuída a pessoas "preocupadas". Seus significados, porém, vão muito além disso. Vários autores as descreveram como sinal de surpresa, encantamento, felicidade, ceticismo, negação, ignorância, arrogância, pressentimento, dúvida, incompreensão, ansiedade e medo. Um crítico musical fez um comentário que ficou famoso: o de que uma certa cantora de ópera "tinha que pegar qualquer nota acima de lá com as sobrancelhas". Com

todas essas interpretações, a única maneira de entender o significado desse movimento é buscar sua origem. Erguer as sobrancelhas é um movimento que partilhamos com outros primatas. Para eles, como para nós, a expressão parece ter se originado da necessidade de melhorar a visão. Esticando a pele da testa e erguendo as sobrancelhas, aumentamos imediatamente nosso campo de visão. Para usar uma expressão conhecida, trata-se de um "abridor de olhos". Entre os macacos, parece ser uma reação a situações de emergência, utilizada sempre que o animal é confrontado com algo que o faz querer fugir. Mas ela só ocorre se, ao mesmo tempo, algo o impede de escapar. Esse "algo mais" pode ser muita coisa: uma conflituosa necessidade de atacar, uma incontrolável curiosidade de ficar e ver o que é essa coisa tão assustadora ou qualquer outro impulso de ficar em condito com a urgência de fugir. Veremos que esse conceito de "fuga frustrada" se aplica perfeitamente ao contexto humano. Homens e macacos se comportam de maneiras muito parecidas. Uma pessoa preocupada, com a testa franzida, é essencialmente alguém que gostaria de escapar, mas por alguma razão não pode fazer isso. O indivíduo sorridente que mostra essas marcas na testa também está levemente assustado. Existem elementos de retraimento corporal nessa postura. A risada pode ser verdadeira, mas aquilo de que se ri é algo muito perturbador. Isso não é raro. O humor pode nos levar ao limiar do medo e a um riso nervoso. A pessoa arrogante que ergue as sobrancelhas também gostaria de escapar ao desagradável ambiente circundante. Quando comparamos essa expressão com o movimento de baixar as sobrancelhas, surge um problema. Vamos supor que estamos diante de algo ameaçador: podemos baixar as sobrancelhas para proteger os olhos ou erguê-las para aumentar nosso campo de visão. Ambos os

movimentos serão úteis, mas temos que escolher um deles. O cérebro precisa perceber qual a necessidade mais importante e passar a instrução para o rosto. Observando os macacos, vemos que numa situação de agressividade as sobrancelhas se franzem; em momentos de medo, elas se erguem; e em momentos de submissão, voltam a se franzir. Algo semelhante ocorre com os humanos. Quando os seres humanos estão muito agressivos e podem provocar uma retaliação imediata, ou quando estão cansados e com medo de um ataque iminente, sacrificam a visão e protegem os olhos baixando as sobrancelhas. Quando estão dominados por uma leve agressividade, mas com muito medo, ou numa situação em que não parece haver perigo iminente de um ataque físico, eles sacrificam a proteção pela vantagem tática de enxergar mais claramente o que está acontecendo. Então, erguem as sobrancelhas, Além dessas funções principais, estes dois movimentos podem ser usados deliberadamente em contextos menos graves. Podemos erguer as sobrancelhas mesmo quando não estamos apreensivos simplesmente para mostrar a outra pessoa que estamos preocupados com ela. Mas tais refinamentos e modificações não seriam possíveis se não fosse o significado original do movimento. Como ocorre com os vincos provocados por uma fronte franzida, as marcas arqueadas causadas pelo movimento de erguer as sobrancelhas também podem ficar indelevelmente gravadas quando a pessoa envelhece. A pele de nossa fronte revela as marcas de todas as caretas que fizemos ao longo dos anos. Se vivemos nervosos ou ansiosos, a pele da testa vai ficando marcada por finas linhas em arco. A elasticidade da pele diminui à medida que envelhecemos, e, como uma folha de papel enrugado que tentamos alisar, nossa fronte também se recusa a

recuperar o aspecto liso que tinha na juventude, mesmo em momentos de relaxamento e calma. Essas marcas na testa de uma mulher são um sinal de que ela não é mais jovem. Indica também uma personalidade excessivamente ansiosa. "Velha e nervosa" não é uma imagem que uma mulher queira passar. Portanto, precisa fazer alguma coisa para corrigir o dano, ou pelo menos disfarçá-lo. Uma maquiagem pesada pode ajudar, mas não resolve o problema. Uma franja espessa pode servir de cobertura, mas só até que uma rajada de vento a tire do lugar. Para mulheres que dependem da aparência. é necessária uma ação mais drástica. Má muitos anos, a opção cirúrgica tem sido o lifting da face É drástica, mas eficiente, porque a pele é tão esticada que nunca mais será capaz de exibir a menor ruga. Desde a década de 1990, uma alternativa mais moderna para eliminar rugas é a injeção de Botox. Ela paralisa a fronte, que se torna incapaz de qualquer movimento, por mais forte que seja o estado emocional. O Botox é na verdade um veneno, uma neurotoxina gerada pela bactéria que produz o botulismo. É injetada diretamente nos músculos que causam as rugas, desativando-os por um período de três a cinco meses. Nesse tratamento cosmético, a substância é usada em quantidades tão pequenas que praticamente eliminam o risco. Embora ainda não tenha sido aprovada pelas organizações médicas oficiais, parece que é a forma mais popular de tratamento cosmético no momento. O problema dessa solução é que ela deixa a testa lisa demais, incapaz de mostrar qualquer emoção. Isso pode criar uma aparência de máscara -um rosto jovem, mas rígido. Ainda será preciso encontrar uma solução médica mais perfeita.

Sobrancelhas enviesadas. Esse movimento é uma mistura dos dois anteriores: uma sobrancelha é abaixada enquanto a outra é erguida. Não é uma expressão muito comum, porque muitas pessoas têm dificuldade de executar o movimento. A mensagem que ela transmite é tão conflitante quanto a própria expressão. Metade do rosto parece agressivo, enquanto a outra metade passa a impressão de medo. Por alguma razão, essa reação contraditória é mais freqüente nas mulheres do que nos homens. O estado de espírito que ela traduz é geralmente o ceticismo. A sobrancelha erguida funciona como um ponto de interrogação em relação ao olhar feroz. Rugas entrelaçadas. As sobrancelhas são erguidas e ao mesmo tempo apertadas uma contra a outra. Como o anterior, esse é um movimento complexo, composto de dois elementos: erguer e baixar. A contração é semelhante ao movimento de sobrancelhas abaixadas e produz curtos vincos verticais no espaço estreito entre as sobrancelhas. O movimento para cima é semelhante ao das sobrancelhas erguidas, produzindo rugas horizontais ao longo da testa. O entrelaçamento das duas expressões produz um cruzamento de rugas. Essa expressão está relacionada à forte ansiedade e à dor. Também é observada em alguns casos de dor crônica. Uma dor forte e aguda produz uma contração, com as sobrancelhas abaixadas, mas uma dor constante provavelmente produzirá essas rugas entrelaçadas. Um bom exemplo desse movimento é a expressão utilizada nos anúncios de remédio para dor de cabeça. Na origem, esse movimento parece ser uma tentativa de as sobrancelhas responderem a um duplo sinal do cérebro. Uma mensagem ordena "Erga as sobrancelhas", enquanto outra diz "Abaixe-as". Diferentes grupos de

músculos começam a pressionar em direções opostas. O primeiro grupo consegue empurrar as sobrancelhas um pouco para cima, mas o segundo grupo, embora tente forçá-las para baixo, só consegue pressioná-las uma contra a outra. Em alguns casos, mas não em todos, as extremidades internas das sobrancelhas são empurradas mais para cima que as extremidades externas, o que resulta numa "expressão oblíqua de sofrimento". Essa forma exagerada de movimento cruzado é mais marcante em pessoas que tiveram experiências trágicas. Se mulheres com histórias menos trágicas tentam forçar as sobrancelhas para cima, numa posição oblíqua, talvez não tenham sucesso, mesmo que as sintam tentando mover-se. Teoricamente, seria possível dizer quanto infortúnio há na vida passada de uma mulher simplesmente pela facilidade com que ela adota a posição das sobrancelhas oblíquas. Piscar as sobrancelhas. As sobrancelhas sobem e descem numa fração de segundo. Esse breve piscar é um sinal aparentemente universal de comprimento. Foi registrado não apenas em europeus, mas também cm populações de regiões que não tiveram influência européia, como Bali, Nova Guiné e Amazônia. Tem sempre o mesmo significado: o reconhecimento amigável da presença do outro. O movimento geralmente é executado a uma certa distância, no momento do encontro, e não durante demonstrações de maior intimidade, como o aperto de mão, o abraço ou o beijo. Quase sempre, acompanha um aceno de cabeça e um sorriso, mas também pode ocorrer sozinho. Na origem, foi uma adoção momentânea da postura de sobrancelhas erguidas numa situação de surpresa. Combinada com o sorriso, torna-se um sinal de surpresa agradável. A extrema brevidade do movimento, não mais

do que uma fração de segundo, indica que a surpresa desaparece rapidamente, deixando que o sorriso amigável domine a cena. Como já dissemos, o erguer de sobrancelhas contém um elemento de medo, e pode parecer estranho que ele participe de uma saudação entre amigos. Entretanto, todo cumprimento, por mais amigável que seja, tem um caráter social de imprevisibilidade. Não sabemos como o outro vai se comportar, nem se ele mudou desde a última vez que o vimos. Isso inevitavelmente dá ao encontro um leve e efêmero elemento de medo. Além de ser uma saudação, esse leve movimento de sobrancelhas é freqüentemente usado durante uma conversa para enfatizar algum ponto. Cada vez que uma palavra é enfatizada, as sobrancelhas piscam. Para a maioria de nós, isso não é muito comum, mas em algumas pessoas esse movimento se torna freqüente e exagerado. E como se elas ressaltassem as surpresas da comunicação verbal. Erguer e baixar as sobrancelhas com uma pausa. As sobrancelhas sobem, param momentaneamente nessa posição e depois descem. É essa breve pausa que distingue esse movimento do piscar rápido que indica saudação e ênfase. Esse movimento é parte de uma reação mais complexa, que envolve movimentos da boca, da cabeça, dos ombros, braços c mãos. Cada um desses elementos também pode ocorrer separadamente, ou em grupos de dois ou três. Embora possa ocorrer isoladamente, o movimento que contém uma pausa na posição das sobrancelhas em geral se faz acompanhar de um esgar, em que os cantos da boca baixam momentaneamente. Essa combinação costuma ocorrer na ausência de outros elementos.

Ao contrário da piscadela das sobrancelhas, portanto, esse é um movimento associado a uma expressão triste, e não alegre. Na maioria das vezes, significa uma surpresa medianamente desagradável. Se duas pessoas que se conhecem estão sentadas uma ao lado da outra e uma terceira pessoa se aproxima e faz alguma coisa que causa desconforto, uma das duas primeiras pode fazer esse movimento com as sobrancelhas para indicar desaprovação e surpresa. Ele também costuma acompanhar a fala de certos indivíduos. Quase todos nós, quando falamos animadamente, fazemos repetidos movimentos corporais para enfatizar o que dizemos. A cada ênfase verba!, acrescentamos uma ênfase visual. A maioria das pessoas usa as mãos ou a cabeça, mas outras se servem das sobrancelhas para essa ênfase. Esse é um movimento típico do queixoso contumaz, que parece perpetuamente surpreso pelas vicissitudes da vida, mas não é exclusivo dessa personalidade. Abandonando a questão dos movimentos e passando à anatomia das sobrancelhas, existe uma importante diferença entre os sexos: as sobrancelhas femininas são mais finas e menos densas que as masculinas. Essa diferença provocou muitas "melhorias", e as sobrancelhas das mulheres tornaram-se artificialmente ainda mais finas e menores. Isso vem sendo feito há séculos mediante várias técnicas, como raspar, depilar e pintar. No princípio, a desculpa era que esses procedimentos ajudavam a espancar o mal; depois, dizia-se que eles protegiam o corpo das doenças e, em particular, evitavam a cegueira; mais tarde, alegava-se que coroavam a mulher mais bela. Em todos os casos, a intenção era fazer as sobrancelhas parecerem exageradamente femininas.

No século XX, o auge do costume de depilar as sobrancelhas ocorreu no entre-guerras, nas décadas de 1920 e 30, quando "o lápis de sobrancelhas estava presente em qualquer nécessaire, disponível em cinco fascinantes tonalidades". Depois de reduzir a espessura das sobrancelhas, utilizava-se o lápis para enfatizar o fino arco de pêlos que sobrevivera. Para algumas mulheres, o uso de uma pinça era considerado muito grosseiro. A ponta de metal da pinça poderia quebrar o fio, que com isso cresceria mais rápido. Para elas, o método preferido é amarrar um fio fino ao redor de cada pêlo antes de arrancá-lo, o que garante a remoção da raiz. Esse método é popular na Ásia e no Oriente Médio. Se uma mulher achasse que suas sobrancelhas ocupavam uma posição feia na testa, poderia removê-las e pintá-las em outro formado. Quando fazia isso, as novas sobrancelhas quase sempre eram desenhadas acima das verdadeiras. No final do século XVIII, dizia-se que "sobrancelhas levemente arqueadas combinam com a modéstia de uma virgem". De fato, sobrancelhas artificialmente alteadas dão à mulher uma aparência de criança inocente de olhos bem abertos. Sobrancelhas muito baixas podem dar à mulher uma aparência tão sinistra que se diz que ela tem "sobrancelhas de bruxa". A forma artificial das sobrancelhas tem variado muito ao longo dos séculos e de pessoa para pessoa. Desenhar as sobrancelhas de acordo com a moda da época e, ao mesmo tempo, fazer com que elas se harmonizem com o rosto tem exigido muito cuidado. Um especialista no desenho de sobrancelhas afirma que "o desenho ideal é o que tem dois terços do comprimento numa curva ascendente e um terço numa curva descendente". Mas é claro que ele deve ser adaptado às características de cada rosto, obedecendo a sutilezas estéticas.

O exemplo mais bizarro de sobrancelhas falsas talvez venha da Inglaterra do século XVIII. Na época, a moda ordenava que as sobrancelhas fossem raspadas e substituídas, e a extravagância estava justamente na natureza dessa substituição: as sobrancelhas falsas eram feitas de pele de rato. Com tanta preocupação em melhorar a aparência feminina, a decisão de não depilar as sobrancelhas e deixá-las na forma natural era vista como um sinal de pouca sensualidade. Esperava-se que as mulheres que trabalhavam em condições impróprias a manifestações de sensualidade deixassem as sobrancelhas intocadas. Na década de 1930, um caso polêmico envolveu um hospital londrino, cuja diretora não permitiu que uma enfermeira depilasse as sobrancelhas. A jovem apresentou queixa, alegando que a proibição era um cerceamento à sua liberdade, mas a decisão da diretora foi mantida pelo conselho do condado. Assim, os pacientes do hospital foram protegidos do estímulo erótico que representaria um par de sobrancelhas delicadamente depiladas. (Quem adoraria essa decisão é o profeta Maomé, que afirmou: "Maldita seja a mulher que [...] depilar as sobrancelhas".) Finalmente, convém mencionar as sobrancelhas tão unidas que criam uma linha ininterrupta de pêlos. Não são muito comuns, e, quando existem, raramente deixam de ser depiladas. Qualquer mulher que nasça com essa forma de sobrancelhas prefere sofrer para depilar os indesejáveis pêlos que cobrem o espaço acima do nariz. Há várias razões para isso. Primeiro, esse excesso de pêlos na testa é uma característica masculina. Segundo, há algo de "animal" em ter pêlos onde não devia haver nenhum. Terceiro, se os pêlos permanecerem ali, darão a impressão de um rosto permanentemente fechado. E, quarto, uma antiqüíssima superstição afirma que a mulher que tiver sobrancelhas unidas deve ser uma vampira.

Juntas, essas maldições fazem qualquer mulher correr em busca de uma pinça. Para manter suas sinistras sobrancelhas unidas, ela teria que estar "acima da moda". Essa mulher existiu no século XX: a famosa pintora mexicana bissexual Frida Kahlo. Para ela, as sobrancelhas unidas e espessas se tornaram uma marca pessoal, que ela reproduziu fielmente em seus auto-retratos. "Pairando acima de seus penetrantes olhos negros como um pássaro no vôo", assim elas foram descritas. Como afirmou um crítico: "Frida Kahlo pode ter sido uma mulher interessante e criativa, mas tinha apenas uma sobrancelha, que se estendia de um lado a outro do rosto como a Grande Muralha da China, e, como tal muralha, provavelmente era avistada da Lua". É incrível que essas reações sejam causadas pela simples presença de uns poucos pêlos pretos acima do nariz. As sobrancelhas costumam passar tão despercebidas que só paramos para prestar atenção nelas quando algo estranho acontece. Nos anos recentes, excetuadas as idiossincrasias de Frida Kahlo, só numa ocasião pesadas sobrancelhas femininas foram consideradas aceitáveis e, por um período, até mesmo populares. Isso aconteceu na década de 1980, quando o movimento feminista entrou numa fase em que as mulheres passaram a acreditar que parecer um homem era uma boa maneira de competir com eles. Foi nessa época que a jovem atriz Brooke Shields apareceu nas telas exibido sobrancelhas que foram descritas como "lagartas". Elas não se uniam no meio, como as da Kahlo, mas eram tão espessas quanto as de um homem, o que lhe dava um olhar feroz e determinado. Desde então, à medida que as mulheres foram fazendo mais sucesso como mulheres, e não como pseudomachos, suas sobrancelhas voltaram à forma arqueada e fina que foi preferida durante séculos. Como Shakespeare afirmou em Conto do inverno: "Não é por terdes sobrancelhas negras. Dizem até que

sobrancelhas escuras são as que melhor assentam nas mulheres, desde que não sejam muito espessas, mas apenas um semicírculo ou meia-lua traçados a pena".

4. Orelhas
As orelhas femininas nunca foram bem tratadas: têm sido ignoradas ou mutiladas. Os pós e pinturas que costumam ser aplicados ao rosto as ignoram. Enquanto um rosto meticulosamente enfeitado ocupa o centro do palco, as orelhas são esquecidas c muitas vezes escondidas sob os cabelos. E, quando se revelam, têm servido apenas como campo de testes para a criação de jóias. Nas raras ocasiões em que as orelhas são objeto de cirurgia plástica, a solução é torná-las ainda mais imperceptíveis. É o que ocorre quando orelhas proeminentes são coladas à cabeça. Mas, antes de analisar mais detalhadamente os abusos culturais perpetrados contra as sofridas orelhas femininas, convém examinar a biologia e a anatomia dessa parte do corpo. A parte visível da orelha é bastante modesta. No curso do processo evolutivo, ela perdeu as extremidades pontiagudas e a mobilidade. As extremidades sensíveis desapareceram, curvadas numa borda roliça. Mas nem por isso ela deve ser tratada como um resíduo inútil. A principal função do ouvido externo — uma trompa de carne e sangue — é coletar o som. Não somos capazes de eriçar as orelhas como outros animais, nem de torcê-las para descobrir de onde vem um barulho repentino, mas ainda podemos detectar uma fonte sonora. O que os humanos perderam em flexibilidade da orelha ganharam em mobilidade da cabeça. Quando um cervo ou um antílope ouvem um som alarmante, erguem a cabeça e torcem as orelhas em todas as direções. Quando ouvimos um som desse tipo, giramos a cabeça, o que funciona quase da mesma maneira. Embora nossas orelhas pareçam rígidas, ainda conservam um mínimo dos movimentos que originalmente possuíam. Se retesar os músculos da região auricular e se

olhar num espelho, você terá um vislumbre desse movimento de proteção: suas orelhas tentarão se colar ao crânio. Animais que possuem orelhas grandes e móveis quase sempre as achatam quando estão lutando, na tentativa de mantê-las a salvo de um ataque. Nós, humanos, ainda fazemos isso automaticamente: a pele da cabeça se retesa em momentos de pânico, mesmo que nossas orelhas permaneçam em sua habitual posição de repouso. A forma da orelha é importante para a perfeita transmissão dos sons ao tímpano. Uma pessoa que teve a infelicidade de ter as orelhas decepadas com certeza possui uma audição bem menos eficiente. Os canais auditivos e o tímpano constituem um "sistema ressonante", no qual alguns sons são enfatizados à custa de outros. A forma aparentemente aleatória da orelha — suas dobras e curvas — na verdade foi especialmente criada para evitar distorções desse tipo. Uma função menos importante da orelha é o controle da temperatura. Os elefantes balançam suas enormes orelhas quando estão com muito calor. o que os ajuda a resfriar o corpo. Há uma profusão de vasos sangüíneos próximos à superfície da pele, e o calor que se perde desse jeito pode ser importante para muitas espécies. Para nós, a quentura das orelhas desempenha um papel secundário na regulação térmica, mas tornou-se um sinal social. Se uma mulher sente um forte calor num momento de conflito emocional, suas orelhas podem ficar vermelhas. Esse rubor tem sido objeto de comentários desde tempos muito remotos. Há quase 2 mil anos, Plínio escreveu: "Quando nossas orelhas se avermelham e queimam, alguém está falando de nós na nossa ausência". E Shakespeare faz Beatriz perguntar, quando outros estão falando dela: "Que fogo é esse em minhas orelhas?"

Finalmente, nossas orelhas parecem ter adquirido uma função erótica com o desenvolvimento de macios lóbulos carnosos. É uma função que não está presente em nossos parentes mais próximos e parece ser uma característica exclusivamente humana, decorrente do aumento de nossa sexualidade. Os primeiros estudiosos da anatomia humana viam na orelha um apêndice inútil", "uma parte da face aparentemente sem utilidade, a não ser a de poder ser furada para carregar ornamentos". Mas estudos recentes sobre o comportamento sexual revelaram que, um momentos de forte excitação, os lóbulos das orelhas se intumescem e se enchem de sangue, o que os torna mais sensíveis ao toque. Ter os lóbulos das orelhas acariciados, sugados e beijados durante o ato sexual é uma forte estimulação para muitas mulheres. Segundo Kinsey e seus colegas do Instituto de pesquisas Sexuais de Indiana, há alguns casos raros de mulheres que conseguem atingir o orgasmo em conseqüência da estimulação das orelhas. No centro da orelha abre-se o canal auditivo, um conduto estreito de cerca de 2,5 cm, ligeiramente curvo, o que o ajuda a manter aquecido o ar existente no seu interior. Esse aquecimento é importante para o funcionamento adequado do tímpano, que se situa na extremidade do canal e é um órgão extremamente delicado. Além de manter o tímpano aquecido, o canal também o protege de danos físicos. O preço que pagamos por essa proteção, porém, é a presença em nosso corpo de um recesso profundo, que não conseguimos limpar com os dedos. Podemos limpar todo o nosso corpo com relativa facilidade, livrando-o da sujeira e de pequenos parasitas, mas, se um objeto invadir nosso canal auditivo, teremos problemas. A tentativa de remover a sujeira com bastonetes pode danificar o tímpano. Por isso, precisamos de uma proteção especial contra intrusões desse tipo. A evolução nos proporcionou a resposta para isso na forma

de pêlos que impedem a entrada de insetos maiores e da cera que repele criaturas menores. A cera cor de laranja, com um gosto amargo que repele os insetos, é produzida por 4 mil minúsculas glândulas ceruminosas, que na verdade são glândulas apócrinas altamente modificadas — do tipo que produz o suor de cheiro forte nas axilas e no interior das pernas. Não cabe aqui detalhar o funcionamento do ouvido. Resumidamente, diremos que as vibrações sonoras atingem o tímpano e se convertem em impulsos nervosos que são transmitidos ao cérebro. O tímpano é incrivelmente sensível, capaz de detectar a menor vibração. Essas vibrações são então transmitidas ao ouvido médio através de três pequenos ossos de formas estranhas (martelo, bigorna e estribo), que amplificam a pressão das ondas sonoras 22 vezes. O sinal amplificado então passa ao ouvido interno, onde entra em ação um estranho órgão em forma de caracol e cheio de fluido. As vibrações produzidas nesse fluido ativam milhares de células ciliadas — cada uma sintonizada com uma determinada vibração —, que identificam as freqüências que compõem um som e transmitem essa informação ao cérebro por intermédio do nervo auditivo. O ouvido interno também contém órgãos vitais para o equilíbrio. São três canais semicirculares, cada um relacionado a um tipo de movimento: os movimentos para cima e para baixo, os movimentos para a frente e os movimentos laterais. A importância desses órgãos cresceu radicalmente quando nossos ancestrais começaram a se pôr de pé e adotaram a forma de locomoção bipedal. Um animal que se apóia sobre quatro patas é relativamente estável, mas a posição ereta exige constantes e sutis adaptações do equilíbrio. Esses órgãos do equilíbrio são de fato mais vitais para a nossa sobrevivência do que as partes do ouvido que lidam com os sons. Uma pessoa

surda pode sobreviver com maior facilidade do que a que perde o sentido do equilíbrio. Um dos aspectos desagradáveis da nossa audição é que ela começa a declinar desde que nascemos. Um bebê pode detectar freqüências de ondas sonoras de 16 a 30 mil ciclos por segundo. Na adolescência, o alcance máximo cai para 20 mil ciclos por segundo. Aos 60 anos, declina para cerca de 12 mil, e continua caindo cada vez mais à medida que os anos passam Para os muito idosos, é um problema ouvir uma conversa numa sala cheia de gente, embora eles sejam capazes de ouvir uma única voz num local silencioso. Isso ocorre porque, com o alcance cada vez menor da adição, é difícil distinguir diferentes vozes quando várias pessoas falam ao mesmo tempo. Os modernos sistemas de som funcionam a freqüências superiores a 20 mil ciclos por segundo. Por isso, uma mulher de meia-idade que tenha pagado uma fortuna para instalar um sistema desse tipo deve ficar chateada ao descobrir que os únicos membros da família capazes de apreciar tudo isso são seus filhos mais jovens. Ela já terá sorte se conseguir detectar qualquer freqüência acima de 15 mil ciclos por segundo. Nossos ouvidos têm uma grande sensibilidade ao volume do som. Como outras espécies, evoluímos num mundo relativamente silencioso quando os sons mais altos eram roncos e gritos. Não havia nada mais alto para ferir nossos sensíveis tímpanos, e por isso não criamos nenhuma proteção especial contra sons muito altos. Hoje, graças a nossa infinita engenhosidade, temos explosivos de alto poder e uma enorme variedade de equipamentos de som poderosíssimos, capazes de danificar nossa audição. Nossos ouvidos servem como um lembrete de que vivemos num mundo muito diferente daquele do qual nos originamos.

Voltando ao ouvido externo, há muito tempo se afirma que é possível identificar um indivíduo pela forma da orelha. No último século, chegou-se a pensar em utilizar essa propriedade para identificar criminosos, mas um método concorrente — o das impressões digitais — prevaleceu, e a identificação auricular foi esquecida. Entretanto, é verdade que não existem duas pessoas com orelhas precisamente iguais. Treze regiões da orelha foram classificadas, das quais duas merecem especial menção. A primeira é o lóbulo. Além das variações de tamanho, ele tem uma característica importante. As pessoas têm lóbulos "soltos" ou lóbulos "colados". A diferença entre eles é que os lóbulos soltos pendem do ponto de contato com a cabeça. Um médico que se deu o trabalho de examinar 1.171 orelhas de europeus descobriu que 64% delas tinham lóbulos soltos e 36%, lóbulos colados. A segunda parte que merece menção é a pequena saliência na borda da orelha, chamada tubérculo de Darwin. Ele está presente na maioria das orelhas, mas quase sempre é tão pequeno que mal se consegue percebêlo. Se apalpar a parte interna da borda partindo de cima, você o encontrará a mais ou menos um terço do caminho. E uma protuberância minúscula, mas Darwin estava convencido de que é remanescente de nossos primórdios, quando tínhamos orelhas pontiagudas que podiam se mover à procura dos sons mais fracos. Em outras palavras, esses "pontos são vestígios de orelhas que um dia foram eretas e pontudas". Cuidadosas pesquisas revelaram que eles estão presentes de uma forma mais evidente em cerca de 26% dos europeus. São detalhes como esses que tornam possível a identificação de criminosos, mas o uso de impressões digitais alcançou tal avanço que é difícil dizer se as formas da orelha teriam alguma utilidade. Infelizmente, os únicos a realizar estudos detalhados sobre as partes da orelha

são os modernos fisionomistas, com suas alegações românticas de que é possível determinar o caráter e a personalidade de uma pessoa pela leitura de suas proporções faciais. Seus comentários fantasiosos, que perderam qualquer credibilidade no início do século XX, surpreendentemente ressurgiram na década de 1980, quando foi possível ler que uma orelha grande é sinal de um indivíduo realizador; que uma orelha pequena e bemformada pertence a um conformista; e que uma orelha pontiaguda revela um oportunista. Essas e centenas de outras "leituras", às vezes detalhadas, são um insulto à inteligência humana, e sua popularidade no final do século XX é difícil de entender. Criminologistas que estudam detalhes faciais afirmam que o formato da orelha não pode ser previsto pelas feições do rosto. Diante de um rosto redondo ou de um rosto anguloso, é impossível prever se ele possui orelhas arredondadas ou angulosas. Os somatologistas discordam. Alegam que os endomorfos (os mais rechonchudos) e os ectomorfos (Os mais ossudos) possuem diferentes tipos de orelhas. As orelhas dos endomorfos seriam coladas à cabeça., com lóbulo e aurícula (a concha da orelha) igualmente bem desenvolvidos. As orelhas dos ectomorfos, ao contrário, teriam a aurícula projetada lateralmente e mais desenvolvida que o lóbulo. A explicação para essa controvérsia talvez seja o fato de que os criminologistas consideram apenas a cabeça, enquanto os somatologistas levam em conta todo o corpo. Simbolicamente, vários significados têm sido atribuídos à orelha. Por ser uma aba de pele ao redor de um orifício, tem sido considerada símbolo dos genitais femininos. Na Iugoslávia, por exemplo, uma expressão de gíria para a vulva é "a orelha entre as pernas". Em algumas culturas, a mutilação das orelhas foi usada para substituir a circuncisão feminina. Em regiões do Oriente, jovens púberes eram obrigadas a passar por um ritual de

iniciação em que buracos eram perfurados em suas orelhas. No antigo Egito, a mulher adúltera tinha as orelhas decepadas com uma faca afiada — outro exemplo de sua relação com os genitais. Pelo fato de as orelhas serem vistas como genitais femininos em muitas diferentes culturas, não surpreende que algumas divindades tenham nascido pela orelha. Karna, filho do rei-sol hindu, Suria, teria nascido dessa forma. Acredita-se que isso significa que sua mãe, Kunti, tinha parido virgem. Algumas lendas também afirmam que Buda nasceu da orelha de sua mãe. Na obra satírica de François Rabelais Gargantua e Pantagruel, publicada cm 1653, Gargantua também vem ao mundo dessa maneira incomum. Quando Gargamelle está prestes a dar à luz, "a criança salta e, entrando pela veia cava, vai subindo, passando pelo diafragma e pelos ombros, onde essa veia se divide em duas, e daí toma a direção esquerda, saindo pela sua orelha esquerda". O autor admite que é difícil acreditar em tal fato, mas se defende afirmando que não há na Bíblia nada que contradiga essa forma de nascimento, e que, se Deus quisesse, "todas as mulheres poderiam parir seus filhos pela orelha". Um simbolismo completamente diferente atribui à orelha o significado de sabedoria — porque é ela que ouve a palavra de Deus. Isso tem sido apresentado como desculpa para puxar as orelhas das crianças quando elas desobedecem. Por trás do castigo está a idéia de que essa ativação da orelha é capaz de despertar a inteligência que ali dorme. Algumas dessas estranhas superstições explicam o antigo costume de furar as orelhas para nelas colocar brincos. Essa forma primitiva de mutilação tem se mostrado persistente e é um dos poucos tipos de deformidade artificial que se mantém populares no mundo

moderno. Hoje, a maioria das mulheres que furam as orelhas o fazem com propósitos puramente estéticos, sem saber o que isso significou no passado. Em tempos remotos, isso tinha diversas explicações. Como o demônio e outros espíritos malignos estão sempre tentando entrar no corpo humano para dominá-lo, é necessário proteger todos os orifícios pelos quais eles possam ter acesso. Acreditava-se que o uso de amuletos da sorte nas orelhas era a melhor proteção contra os demônios. Como as orelhas são a sede da sabedoria, acreditavase que os sábios têm orelhas muito grandes, especialmente os lóbulos. Brincos pesados, que empurrem os lóbulos para baixo e os façam parecer mais longos, aumentariam a sabedoria e a inteligência. Um estudo de primitivas esculturas hindus, budistas e chinesas revelou que reis e rainhas sempre possuíam lóbulos alongados. Outras crenças primitivas diziam que usar brincos curava defeitos de visão ou protegia contra afogamentos. Durante um longo período, essas diferentes e originais razões para o uso de brincos foram esquecidas. Na era moderna, quase todos os brincos, tribais e urbanos, são puramente decorativos e usados apenas por motivos estéticos. Nas culturas tribais nas quais lóbulos longos estiveram na moda a mutilação geralmente começava na infância: os bebês já tinham as orelhas perfuradas. Esses pequenos furos eram posteriormente alargados, ano após ano, de modo que as orelhas pendessem cada vez mais para baixo. Na puberdade, só as meninas de longas orelhas eram consideradas belas. As realmente bonitas tinham que apresentar orelhas na altura dos seios. Se, nesse processo, a longa alça de carne se rompesse ao peso dos ornamentos, a beleza da jovem estaria imediatamente perdida. Em algumas culturas, ela era considerada feia demais para se casar.

Surpreendentemente, encontramos exemplos desse extremo alongamento das orelhas femininas em todo o mundo. O costume parece ter nascido independentemente, em lugares tão distantes quanto Bornéu e Brasil, África e Camboja. Nas ilhas da Nova Guiné, se uma menina ousasse ignorar esse costume, seria ridicularizada por "ter orelhas de porca". Em algumas tribos, uma festa é dedicada ao ritual de furar as orelhas das jovens. Em certas culturas, os pesados brincos que pendem das orelhas das mulheres casadas só podem ser retirados quando o marido morre. Então, durante o funeral, são removidos em sinal de luto. O tamanho dos ornamentos chega a ser assustador. Numa tribo, cinqüenta argolas de bronze de 10 cm de diâmetro são penduradas em cada orelha. Em outra, pesadas argolas de cobre vão sendo acrescentadas até que seu peso atinja 1 quilo. Em outra ainda, potes de geléia ou latas de alimento, que as nativas imploram aos ocidentais, são inseridos no lóbulo da orelha. Em séculos passados, o mundo ocidental se chocou e se horrorizou com essas formas excessivas de mutilação. Em 1654, John Bulwer dedicou todo um capítulo de seu livro A View of lhe People of the Whole World (Uma visão dos povos de todo o mundo) para atacar "as modas ou certas estranhas invenções dos povos para remodelar as orelhas". Nele, acusava as mulheres que "julgam muito atraente ter as orelhas vergonhosamente perfuradas", que fazem nelas furos e neles "colocam um chumbo, cujo peso as estende, a ponto de fazê-las pender à altura dos ombros, um buraco tão grande que um braço poderia passar por ele". Para Bulwer e sua época, qualquer tentativa de melhorar ou modificar a forma humana era uma ofensa a Deus. Essa desaprovação em nada alterou esses costumes tribais. Eram uma parte muito importante da sua história

cultural para serem abandonados. Em alguns casos, influências externas podem ter posto fim a formas mais extremas de mutilação, mas em muitas outras sociedades remotas eles ainda sobrevivem intocáveis no século XXI. Apesar da extravagância de sua moda, o mundo ocidental nunca apresentou nada capaz de competir com os lóbulos estendidos dessas sociedades tribais. Os exemplos mais extremos que podemos oferecer são encontrados no breve florescimento do rock punk da década de 1970. Querendo chocar, os punks enfiavam objetos bizarros nos lóbulos das orelhas grosseiramente perfurados. Grandes alfinetes de fralda eram os ornamentos preferidos, mas correntes onde penduravam um pouco de tudo, de lâminas de barbear a lâmpadas elétricas, também eram usadas pelas tropas de choque da nova onda. Mas eles eram impacientes demais para esperar o lento e gradual alongamento dos lóbulos praticado nas outras tribos. Mais tarde, no final do século XX, com o drástico aumento dos piercings, as orelhas das mulheres ocidentais passaram a carregar múltiplos brincos. Em vez de um só furo, a orelha era perfurada várias vezes, em toda a borda, para que uma série de brincos pudessem ser atarraxados a ela. Hoje, porém, a maioria das mulheres usa ornamentos simples, facilmente removíveis: são brincos de pressão ou pingentes presos a um único furo pequeno. Ao contrário dos brincos tribais, não são usados o tempo todo, mas substituídos diariamente para combinar com outros ornamentos. Algumas mulheres possuem apenas uns poucos pares, mas outras são viciadas em adquirir grandes quantidades de brincos. A detentora do recorde (segundo o Guinness Book) é uma americana da Pensilvânia que reuniu uma coleção de 17.122 pares. Se

usasse um por dia, levaria quase meio século para usar todos.

5. Olhos
Há muitos séculos os olhos femininos tem sido foco de grande atenção. Sabe-se que há mais de 6 mil anos usa-se maquiagem nos olhos. No antigo Egito, cosméticos negros cobriam as pálpebras, e, no primeiro ano da era cristã, o satirista romano Marcial fez o seguinte comentário mordaz: "Você pisca para os homens com pálpebras que tirou de uma gaveta pela manhã". Em praticamente todas as civilizações importantes na história do mundo, inúmeras e sutis variações de sombras coloridas têm sido aplicadas às pálpebras, aos cílios e à pele ao redor dos olhos. Sombras, delineadores, aparelhos para curvar os cílios, cílios postiços e lentes de contato coloridas — todos esses recursos são usados para embelezar os olhos femininos. Mas, antes de analisar todas essas melhorias, que tal examinarmos o olho em seu estado natural? Os olhos são os mais importantes órgãos dos sentidos. Calcula-se que 80% das informações que recebemos do mundo exterior entrem por essas notáveis estruturas. Apesar de tudo o que falamos e ouvimos, continuamos sendo animais essencialmente visuais. Nisso não diferimos muito de nossos parentes próximos, os macacos. Toda a ordem dos primatas é predominantemente visual, com os dois olhos colocados na frente da cabeça, proporcionando uma visão binocular do mundo. O olho humano tem apenas cerca de 2,5 cm de diâmetro, e no entanto faz a mais sofisticada câmera de tevê parecer um utensílio da Idade da Pedra. A retina, que é sensível à luz e se situa no fundo do olho, contém 137 milhões de células que enviam mensagens ao cérebro, dizendo-lhe o que está vendo. Dessas, 130 milhões são células arredondadas responsáveis pela visão em branco e preto; os restantes 7 milhões são células cônicas que

permitem a visão em cores. A todo momento, essas células sensíveis à luz podem processar 1,5 milhão de mensagens simultâneas. Sendo tão complexo, não surpreende que o olho seja a parte do corpo a apresentar o menor crescimento entre o nascimento e a idade adulta. Até o cérebro cresce mais que o olho. No centro do olho situa-se a pupila negra — a abertura através da qual a luz penetra para chegar à retina. A pupila aumenta de tamanho com a luz fraca e diminui com a luz forte, e com isso controla a quantidade de luz levada à retina. Sob esse aspecto, o olho funciona como uma câmera de diafragma ajustável, mas também possui uma outra curiosa função. Se o olho vê alguma coisa de que gosta muito, a pupila se expande mais que o normal, mas, quando vê algo desagradável, contrai-se ao tamanho de uma cabeça de alfinete. É fácil entender essa segunda reação, porque a maior contração da abertura da pupila reduz a iluminação da retina e "apaga" a imagem repugnante. Difícil é explicar a dilatação da pupila que ocorre diante de uma visão atraente. Isso deve interferir na precisão de nossa visão, deixando que luz demais flua para a retina. É provável que o resultado seja um brilho ofuscante, em vez de uma imagem precisa e nítida. Entretanto, isso pode ser uma vantagem para os jovens amantes quando olham no fundo das pupilas do ser amado. Podem ver uma imagem vaga banhada em um halo de luz — muito diferente da imagem nua e crua. Em séculos passados, as cortesãs da Itália pingavam gotas de beladona nos olhos antes de receber um visitante. Isso dilatava muito as pupilas e as tornava mais atraentes, porque dava aos homens que as olhavam a falsa impressão de que eram amados (mesmo que eles estivessem diante do rosto devastado e envelhecido de uma libertina).

Ao redor da pupila fica a íris colorida, o disco contrátil responsável pelas mudanças de tamanho da pupila. Essa função é desempenhada por músculos involuntários, de modo que nunca conseguimos controlar deliberadamente o tamanho da pupila. É isso que faz. da expansão e da contração da pupila um sinal confiável de nossas reações emocionais às imagens visuais. Nossas pupilas não mentem. A cor da íris varia consideravelmente de pessoa a pessoa, mas isso não se deve à variedade de pigmentos. Pessoas de olhos azuis não têm um pigmento azul: simplesmente possuem menos pigmento que outras, o que cria a tonalidade azulada. Quem exibe um anel castanho escuro ao redor das pupilas tem uma quantidade generosa de melanina nas camadas frontais da íris. Se a melanina ali presente é menor e o pigmento fica quase todo confinado às camadas mais profundas da íris, os olhos serão mais claros, variando do verde ao cinza ou azul ã medida que o pigmento diminui. A coloração violeta se deve ao sangue que corre por entre a íris. Olhos claros são portanto quase uma ilusão óptica. Indicam uma perda de melanina e parecem ser parte da palidez gerai do corpo que ocorre à medida que a pessoa se move da zona equatorial em direção a regiões menos ensolaradas. Esse efeito é mais intenso quando comparamos os bebês da raça branca com os da raça negra. Quase todos os bebês brancos têm olhos azuis quando nascem, ao passo que os de pele morena e negra têm olhos escuros. Mas, à medida que eles crescem, os brancos desenvolvem a melanina na parte frontal da íris, e seus olhos escurecem pouco a pouco. Apenas numa porcentagem muito pequena isso não ocorre e os olhos permanecem azuis. Cobrindo a pupila e a íris existe uma camada transparente, a córnea, e ao redor dela a parte que

chamamos de "branco do olho", que tecnicamente tem o nome de esclerótica. Essa parte não-óptica do olho é uma característica exclusivamente humana. Só no homem a parte branca do olho é visível. A maioria dos animais tem olhos redondos e "fundos". O mesmo ocorre nos primatas inferiores, mas alguns macacos já apresentam a pele ao redor dos olhos ligeiramente esticada para trás e para os lados, o que cria "cantos". Esses olhos ainda estão mais próximos da forma circular do que da oval, mas nos primatas superiores os olhos são mais elípticos, mais próximos da forma humana. Entretanto, não existem partes brancas visíveis, e a área exposta de cada lado da íris é marrom-escura. Nos humanos, a brancura dos olhos os torna mais evidentes. O efeito dessa pequena mudança evolutiva é que, em situações de sociabilidade, pequenas mudanças de direção são facilmente detectadas, mesmo ã distância. Circundando a parte visível dos olhos, as pálpebras são margeadas por cílios curvos e têm bordas oleosas. Essa oleosidade é fruto de secreções de diminutas glândulas, visíveis na forma de minúsculos folículos na raiz dos cílios. É o ato de piscar que umedece e limpa a córnea. O processo é auxiliado pela secreção das lágrimas, produzidas pelas glândulas lacrimais, que ficam embutidas sob as pálpebras. As lágrimas são drenadas através de dois canais lacrimais — também visíveis como pontos um pouco maiores nas bordas das pálpebras. Esse canais se situam na extremidade interna das pálpebras, um na pálpebra superior e outro na pálpebra inferior. Os dois canais se unem num único cubo que transporta as lágrimas "usadas" para o interior do nariz. Quando uma irritação dos olhos ou uma forte emoção fazem a glândula lacrimal produzir mais lágrimas do que os canais são capazes de drenar, nós choramos, e o excesso de lágrimas se espalha pelas faces. Essa é uma segunda característica

exclusiva dos olhos humanos, porque somos o único animal que chora quando está emocionado. No canto interno do olho, entre os dois canais lacrimais, existe uma pequena protuberância rosada. É o vestígio de nossa terceira pálpebra, hoje totalmente inútil. Em muitas espécies, porém, são órgãos de alguma funcionalidade. Alguns animais os usam como um "limpador de pára-brisa" que pisca para limpar o olho; em outros, são coloridos e piscam para dar algum sinal; em outros ainda, são totalmente transparentes e usados como óculos de sol naturais. Os patos mergulhadores têm esses órgãos transparentes e espessos, e os empurram para fora da córnea quando estão nadando debaixo d'água. Se nossos ancestrais fossem mais aquáticos, ou subaquáticos, desfrutaríamos hoje de outros prazeres. As pestanas, que nos proporcionam uma franja de proteção acima e abaixo dos olhos, têm uma característica excepcional: não embranquecem com a idade como os cabelos e os pêlos do corpo. Cada olho tem cerca de duzentos cílios, em maior quantidade na pálpebra superior do que na inferior, e cada cílio dura entre três e cinco meses antes de cair e ser substituído. Os cílios têm o mesmo tempo de vida que os pêlos das sobrancelhas. Os orientais possuem uma proteção adicional para os olhos: o epicanto, uma prega cutânea sobre a pálpebra superior que dá aos olhos o formato oblíquo. Essa prega está presente no feto humano em todas as raças, mas só entre os orientais se conserva na idade adulta. Alguns bebês ocidentais nascem com olhos puxados, mas esse formato muda gradualmente à medida que o nariz se afina e toma outra forma com a idade. Entre os povos orientais, o epicanto parece ter se conservado como adaptação ao frio. Neles, todo o rosto é mais gordo, mais achatado e mais adequado às baixas temperaturas, e essa prega

cutânea ajuda a proteger a delicada região dos olhos contra um ambiente hostil. A forma dos olhos orientais é indiscutivelmente atraente, mas muitas mulheres no Extremo Oriente não têm essa opinião, e hoje os hospitais estão cheios de jovens com os olhos cobertos de bandagens depois de se submeterem ao bisturi do cirurgião para ter olhos ocidentais. Quase não há diferença entre os olhos de homens e mulheres. O olho feminino é ligeiramente menor e mostra uma proporção maior da parte branca. Em muitas culturas, as glândulas lacrimais são mais ativas em mulheres emotivas do que em homens igualmente emotivos, mas é difícil dizer se isso se deve a uma diferença biológica ou a uma educação que exige que os homens não demonstrem suas emoções. Entretanto, parece ser uma diferença mundialmente disseminada para ser apenas produto da cultura. Uma informação sobre as lágrimas: além de lubrificantes para a superfície exposta do olho, elas são também bactericidas. Contêm uma enzima chamada lisozima, que mata as bactérias e protege o olho de infecções. A visão deficiente deve ter sido uma calamidade para muitos de nossos remotos ancestrais, não só devido à imprecisão na obtenção de informações visuais mas também porque a constante tensão de tentar enxergar causa fortes dores de cabeça. O infortúnio persistiu nas primeiras civilizações, e, com a invenção da escrita, tornou-se ainda mais agudo. Muitos velhos mestres precisavam que os mais jovens lessem para eles. Sêneca, mestre na arte da retórica que viveu em Roma na época de Cristo parece ter sido a primeira pessoa a tentar resolver esse terrível problema. Conta-se que, apesar da vista fraca, conseguia ler tudo o que encontrava

nas bibliotecas de Roma usando um "globo de água" como lente de aumento. Essa engenhosa solução deveria ter levado à invenção dos óculos, mas não foi isso o que aconteceu. Só no século XIII o filósofo inglês Roger Bacon registra a seguinte observação: "Se alguém examinar letras ou outros objetos diminutos por meio de um cristal ou vidro [...] e se ele for cortado como o menor segmento de uma esfera, com o lado convexo voltado para o olho, será capaz de ler muito melhor as letras, e elas lhe parecerão maiores". Em seguida, afirma que tal vidro poderia ser útil para os que tivessem vista fraca. No final do século, na Itália, surgiram finalmente verdadeiros óculos de leitura, embora não se saiba se essa invenção foi influenciada por Bacon. Em 1306, um monge em Florença fez um sermão que incluía a seguinte frase: "Não faz ainda vinte anos que a arte de fabricar óculos, uma das artes mais úteis do mundo, foi descoberta...". Mais ou menos na mesma época, Marco Pólo conta ter visto velhos chineses usando lentes para ler, de modo que fica claro que, no século XIV, o uso de óculos se disseminou. No século XV, surgiram as lentes para corrigir miopia, e, no século XVIII, Benjamin Franklin inventou as lentes bifocais. As primeiras lentes de contato a dar bons resultados foram fabricadas na Suíça em 1887. Essa breve história dos óculos não tem apenas interesse médico, mas estético, porque mudou a aparência dos nossos olhos. Os óculos tornaram-se parte da expressão facial. Aros superiores pesados davam a impressão de uma fronte cerrada, fazendo a pessoa parecer mais feroz e dominadora. Aros circulares produziam um olhar amplo, como se a curva do aro substituísse sobrancelhas arqueadas. Não havia disfarce, como numa maquiagem sutil. Os óculos não faziam parte do rosto, e no entanto era impossível não notar a influência de suas linhas, da mesma forma que uma máscara altera toda a expressão de quem a usa.

O efeito dos óculos escuros é especialmente forte. Num contexto social, os movimentos oculares, visíveis em contraste com o branco dos olhos, são uma constante fonte de informações, bloqueadas com o uso de lentes escuras. Olhos penetrantes, olhos instáveis, olhos atentos ou desatentos, dilatados ou contraídos — tudo isso fica oculto, e o interlocutor pode apenas imaginar o que está acontecendo por trás da máscara dos óculos. O que eles escondem? Suponhamos uma reunião social. O que nos dizem exatamente os movimentos oculares? Em tais reuniões, os subordinados tendem a observar os superiores, e os superiores tendem a ignorar os subordinados, exceto em circunstâncias especiais. Se uma pessoa submissa e agradável entra numa sala, seus olhos vão oscilar de um lado para outro, observando todos os presentes. Se ela avistar um indivíduo de condição superior, lançará sobre ele um olhar atento e observador. Sempre que alguém contar uma piada, fizer uma afirmação controversa ou manifestar uma opinião pessoal, os olhos do subordinado vão procurar o superior para observar sua reação. A figura dominante geralmente se mantém indiferente a essas trocas e dificilmente se dá o trabalho de olhar para o subordinado durante uma conversa generalizada. Mas, quando lança uma pergunta a alguém, o faz com um olhar direto. A pessoa em quem esse olhar se fixa não consegue sustentá-lo e, enquanto responde, olha para outro lado. Essa é claramente uma situação em que cerros indivíduos têm poder sobre outros e querem exercê-lo. Quando amigos de igual condição se encontram, os movimentos dos olhos são bem diferentes. Nesse caso, todos usam movimentos oculares de "subordinados", embota não o sejam. Isso acontece porque a melhor maneira de demonstrar amizade com a linguagem corporal é evitar uma atitude hostil e dominadora. Por isso, ficamos atentos a nossos amigos, acompanhando-os com o olhar

como se eles fossem superiores. Quando eles falam ou se movem, olhamos para eles; quando falamos e eles nos observam, olhamos para eles de vez em quando, para checar suas reações ao que dizemos. Dessa maneira, um amigo trata o outro como um poderoso, e, com isso, o faz sentir-se bem. Se uma mulher dominadora deseja agradar a alguém, pode fazer isso adotando deliberadamente a linguagem corporal amistosa de um igual. Quando se dirige a um empregado ou serviçal com a intenção de manipulá-lo, pode acionar deliberadamente um olhar atento. Esses truques raramente são usados por indivíduos superiores, a não ser em situação especiais (como uma campanha eleitoral). Um olhar fixo e prolongado, do tipo olhos nos olhos, só ocorre em momentos de intenso amor ou ódio. Para a maioria de nós, um olhar direto sustentado por mais de alguns segundos é muito ameaçador, e logo desviamos os olhos. Entre amantes, a confiança é tanta que eles se olham sem o menor temor. Quando olham nos olhos do ser amado, estão verificando inconscientemente o grau de dilatação da pupila. Se enxergam profundos poços escuros, sabem intuitivamente que seus sentimentos são correspondidos. Se vêem uma pupila diminuta, podem se sentir intranqüilos ao perceber que nem tudo vai bem no relacionamento. Passando do amor ao ódio, o olhar fixo de uma pessoa furiosa é intimidador. Em tempos remotos, quando as superstições eram comuns, acreditava-se que seres sobrenaturais vigiavam os atos humanos e influenciavam seus resultados. Se essas divindades vigiavam os homens, é porque deviam ter olhos, e, como tinham muito o que vigiar, era provável que tivessem muitos olhos e fossem onividentes. Quando os deuses eram bons, os humanos sentiam-se protegidos, mas também havia deuses maus e

demônios — espíritos do mal com olhos malignos — cujo olhar podia causar um desastre. A crença no poder dos olhos maléficos se espalhou e ainda hoje sobrevive em algumas partes do mundo. O olhar maldoso transformou-se na figura do Olho do Diabo, um poder maligno e até mortal que podia atingir a vítima sem aviso. Se caísse sobre alguém, algo terrível acontecia. Às vezes, uma mulher comum era possuída pelo Olho do Diabo contra sua vontade. Desde então, todos sobre os quais seu olhar recaía seriam vítimas de alguma desgraça. Muitos amuletos e talismãs eram utilizados para proteger as pessoas dessas ameaças. Alguns desses objetos protetores funcionavam segundo o princípio de que uma imagem fortemente sexual podia distrair o Olho do Diabo e mantê-lo ocupado. Surpreendentemente, com essa idéia em mente, muitas igrejas cristãs da Europa medieval exibiam imagens de genitais femininos sobre as portas, para evitar que os demônios entrassem no edifício. Para intensificar a proteção, os genitais eram geralmente representados abertos por duas mãos. Logicamente, a maioria dessas imagens foram removidas ou escondidas durante a era vitoriana, mas algumas ainda sobrevivem. Um amuleto que sobreviveu é a ferradura, que também é colocada numa casa para trazer boa sorte. Se todo mundo soubesse que, como amuleto de proteção, a ferradura era símbolo dos genitais femininos, ela também já teria desaparecido. Como se acreditava que os piores efeitos do Olho do Diabo eram causados pela inveja, era importante não prodigalizar elogios a alguém que pudesse ser vulnerável. Uma mãe ficava horrorizada se um estranho elogiasse seu bebê, e teria que pendurar um amuleto da sorte no berço da criança ou executar algum outro ritual de proteção. Mesmo hoje, principalmente nas regiões mediterrâneas, essas precauções supersticiosas ainda são levadas a sério.

Abandonando os olhos fantásticos dos espíritos do mal e chegando aos olhos verdadeiros de uma mulher, muitas mensagens podem ser lidas em suas várias expressões. Baixar os olhos. Olhos baixos são às vezes sinal de modéstia. É o comportamento natural dos subordinados que não ousam encarar seus superiores. Uma pessoa verdadeiramente modesta não move os olhos para a esquerda e para a direita, mas baixa-os para o chão. Há nesse ato, assim como no gesto de baixar a cabeça, a idéia de reverência e submissão. Erguer os olhos para o céu. Esse é outro movimento usado deliberadamente como um sinal. Se os olhos se mantêm um segundo nessa posição, expressam uma "alegação de inocência". Usado hoje só de brincadeira, esse movimento dos olhos baseia-se na idéia de olhar para o céu em busca de que o divino seja testemunha da inocência. Olhar feroz. Esse é um olhar usado freqüentemente pela mãe que tenta dominar os filhos sem dizer uma palavra. O olhar feroz é uma versão mais complexa do olhar fixo. Os olhos encaram a "vítima" bem abertos, mas o cenho se mantém franzido. Trata-se de uma contradição, e duas partes do rosto precisam opor forças, porque olhos arregalados geralmente são acompanhados de sobrancelhas erguidas. Por essa razão, não é uma expressão que se mantenha por muito tempo. Durante o olhar feroz, as pálpebras superiores são fortemente pressionadas para cima e quase desaparecem sob as sobrancelhas abaixadas. Isso dá ao olhar uma expressão

inconfundível. A mensagem do olhar feroz é de raiva e surpresa. Olhar de soslaio. Esse é um movimento usado para olhar alguém sem se dar a perceber. Também é um sinal de timidez ou de reserva. "Estou muito assustado para encarar você, mas não consigo deixar de olhá-lo" é a mensagem que ele contém. A expressão "olhar de esguelha" descreve perfeitamente esse gesto. Olhar desfocado. Isso ocorre quando estamos muito cansados ou sonhando acordados. Alguém que queira mostrar que está sonhando com algo especial (um novo amor, por exemplo) pode ficar olhando por uma janela com um olhar desfocado para impressionar os presentes. Olhos arregalados. Abrir os olhos a ponto de mostrar o branco acima e/ou abaixo da íris costuma ser uma reação a uma surpresa moderada. Esse movimento aumenta o campo de visão e abre caminho para uma maior receptividade a estímulos visuais. Como ocorre com muitas reações automáticas dos olhos, uma versão "representada" é às vezes usada como sinal de falsa surpresa. Olhos apertados. Basicamente uma proteção contra o excesso de luz ou possíveis danos, o movimento voluntário de apertar os olhos também tem uma versão deliberada. Trata-se de uma forma arrogante, na qual fica evidente que a pessoa não está sofrendo com a exposição à luz ou temendo uma ameaça. Essa expressão de dor artificial implica que os presentes são a causa de uma angústia mais ou menos permanente. É uma expressão de desgosto,

de desprezo pelo mundo ao redor. A prega de pele dos olhos orientais às vezes cria uma falsa impressão de arrogância, porque parece que a pessoa está apertando os olhos deliberadamente. Olhos brilhantes. O brilho dos olhos transmite uma mensagem inteiramente diference e é algo difícil de imitar (a não ser para atores profissionais). A superfície luminosa e cintilante dos olhos fica levemente umedecida por uma secreção das glândulas lacrimais causadas por uma forte emoção, mas não suficientemente forte para produzir lágrimas. Esse é o olhar dos apaixonados, dos fãs, da mãe orgulhosa e do atleta triunfante, mas também o olhar da angústia, da aflição e da tristeza — em resumo, de qualquer forte emoção que seja reprimida pouco antes do choro. Olhos úmidos. Chorar é um forte sinal social. O fato de sermos capazes de chorar enquanto outros primatas não choram tem despertado considerável interesse. Há quem afirme que isso se deve ao fato de nossos ancestrais terem passado por uma fase aquática há milhões de anos. As baleias choram quando sofrem, e há relatos de que as lontras também choram quando perdem os filhotes. Afirma-se ainda que as lágrimas são um produto da evolução da função de limpeza dos olhos em mamíferos que voltaram ao mar. Essa explicação aquática parece lógica. Se há milhões de anos o homem passou por uma fase aquática, quando produzia lágrimas como uma reação à longa exposição à água do mar, é possível que tenha conservado esses olhos lacrimosos quando voltou à terra firme como caçador. Isso explicaria por que ele é o único primata a ter essa capacidade. Uma outra possibilidade é que o clima seco das savanas tenha aumentado a produção de lágrimas, e

que o choro seja resultado da função de limpeza. Contra o argumento de que os outros mamíferos que habitam regiões secas não choram quando estão tristes, pode-se dizer que todos eles possuem faces peludas, nas quais as lágrimas se perderiam. Só no rosto sem pêlos da espécie humana as lágrimas brilhantes funcionariam como um forte sinal visual, Uma explicação completamente diferente parte da idéia de que as lágrimas, como a urina, têm uma função excretora. A análise química das lágrimas produzidas pela tristeza e das lágrimas produzidas pela irritação dos olhos revelou que os dois líquidos contém diferentes proteínas. Isso indicaria que o choro emocional é primordialmente uma maneira de limpar o corpo do excesso de substâncias químicas produzidas pelo estresse, o que explicaria por que "chorar faz bem": a melhora de humor seria fruto de uma mudança química. A visão de faces banhadas de lágrimas, que estimularia as pessoas a abraçar e confortar o sofredor, seria então uma exploração secundária desse mecanismo de excreção. Mais uma vez, é difícil conciliar essa teoria com a ausência de lágrimas em animais como os chimpanzés, que passam por momentos de forte tensão em disputas no mundo selvagem. Piscar os olhos. Deixando o tema dramático do choro e abordando o tema mais mundano da piscadela, hoje existem várias maneiras diferentes de piscar. A piscadela normal, o movimento das pálpebras que limpa e umedece a superfície da córnea a freqüentes intervalos durante o dia, leva mais ou menos 1/40 de segundo. Em estados emocionais, quando a produção de lágrimas aumenta, as piscadelas também se tornam mais freqüentes. É por isso que a freqüência das piscadas pode ser usada como um indício do estado de espírito. Eis algumas das diferentes maneiras de piscar:

Piscar repetidamente. Isso ocorre quando alguém está à beira das lágrimas. Trata-se de uma tentativa desesperada de prender as lágrimas antes que elas comecem a rolar. Por causa disso, também é usado como um sinal de tristeza. Piscar exageradamente. É uma piscadela mais lenta e maior em amplitude que a piscadela normal. É um sinal melodramático de falsa surpresa, usado apenas com um gesto "teatral". A mensagem que ele passa é a seguinte: "Não creio no que meus olhos vêem, e por isso estou limpando-os com uma imensa piscadela para ter certeza de que é isso mesmo que estou vendo". Adejar as pestanas. Os olhos se abrem e fecham numa fração de segundo, num tremor semelhante ao que tenta evitar o choro. A diferença é a abertura dos olhos, que são arregalados numa expressão de falsa inocência. É outro gesto teatral. Piscar para alguém. Esse é um gesto deliberado que significa cumplicidade entre duas pessoas. A mensagem que ele transmite é: "Eu e você partilhamos momentaneamente um segredo que exclui os demais". Entre amigos, significa que ambos estão de acordo sobre alguma questão, ou que desfrutam de uma intimidade maior do que a que têm com as outras pessoas presentes. Entre estranhos, o gesto geralmente implica um convite sexual, entre pessoas de sexos diferences ou do mesmo sexo. Como sugere um entendimento particular entre duas pessoas, a piscadela pode ser usada abertamente para "provocar" um terceiro e fazê-lo sentir-se excluído. Usado em segredo ou abertamente, o gesto é condenado pelas

regras de etiqueta. Uma autoridade no assunto declarou que, na Europa, isso não é coisa de uma mulher de classe. Muitas mulheres acham difícil piscar de uma maneira convincente e se sentem desajeitadas quando o tentam. Por alguma razão ainda desconhecida (a menos que a dificuldade esteja na maquiagem dos olhos), é muito mais fácil para os homens piscar de uma maneira convincente. Piscar para alguém talvez signifique que desejamos partilhar um segredo apenas com uma pessoa, enquanto o outro olho se mantém aberto para o resto do mundo, que fica de fora da troca pessoal. Como os olhos femininos transmitem muitas mensagens, não surpreende que toda uma cosmética tenha se desenvolvido para embelezá-los. No Egito, a pintura dos olhos já era bastante sofisticada 5 mil anos antes de Cristo. A galena, um minério de chumbo, era utilizada para pintar traços pretos que exageravam a forma das pálpebras. A malaquita, um óxido de cobre, foi usada para fabricar a famosa maquiagem verde que era aplicada na região dos olhos na forma de uma pasta. Além de decorativa, funcionava como uma proteção contra o brilho do sol. Um produto puramente decorativo para maquiar os olhos era preparado com ovos de formigas. É claro que, para as mulheres egípcias daquele tempo, a maquiagem dos olhos era cara e consumia muito tempo. Novas pesquisas revelaram que, 2 mil anos antes de Cristo, a fabricação de cosméticos era um processo muito mais complexo do que se acreditava. Além das cores preto e verde, já conhecidas, hoje se sabe que há 4 mil anos, graças a uma química bastante avançada, as damas egípcias tinham a seu dispor o púrpura, o amarelo, o azul e três tipos de branco. Dois dos brancos também agiam como antibióticos. Além disso, o preto era encontrado em duas tonalidades, uma fosca e outra brilhante.

Para aplicar esses cosméticos nos olhos, a mulher usava um bastonete de ponta arrendada, feito de madeira, bronze, hematita, obsidiana ou vidro. Muitos desses bastonetes, assim como potes de cosméticos lindamente decorados, foram encontrados em salas de maquiagem e de banho de mais de 3 mil anos atrás. A maquiagem dos olhos da mulher egípcia incluía um estranho elemento: uma linha negra horizontal que partia do canto externo do olho até a orelha. Esse elemento altamente decorativo tinha um significado mágico porque era a imitação das linhas do olho do gato, um animal sagrado para os antigos egípcios. Essa obsessão pela maquiagem dos olhos no Egito durou milhares de anos. Mesmo no período em que a grande civilização já declinava, a rainha Cleópatra ainda experimentava novas combinações de cores, pintando as pálpebras superiores de azul-escuro e as inferiores de um verde brilhante. As coisas eram bastante diferentes na antiga Grécia, onde as mulheres respeitáveis deviam exibir a pureza e a graça de suas formas naturais. Embora tenha sido a língua grega que nos legou a palavra "cosmético (de "kosmetikos", que significa "elaborada decoração"), apenas as cortesãs gregas desfrutavam dos prazeres da maquiagem. Nelas, era aceitável realçar as pálpebras com um pincel mergulhado em incenso preto e delinear os olhos com kohl. Embora muitos homens gregos usufruíssem da companhia dessas mulheres, as cortesãs eram desprezadas pelos autores puritanos da época, um dos quais afirmou que, ao acordar pela manhã, "uma mulher dessas pareceria ainda menos atraente que um macaco . Os antigos romanos eram menos austeros a esse respeito. Ovídio, que escreveu a primeira obra sobre cosméticos, registra o uso de sombras pretas para os olhos, feitas de cinzas de madeira, e sombras douradas produ-

zidas a partir do açafrão. O dramaturgo romano Plauto afirmou que "uma mulher sem pintura é como comida sem sal". Depois da queda de Roma, a maquiagem praticamente desapareceu dos olhos femininos na Europa e só ressurgiria muitos séculos depois. Quando isso aconteceu, era uma prerrogativa das mulheres de vida fácil. A Europa seguia a tradição grega. A maquiagem dos olhos só ressurgiu inteiramente no início do século XX, quando uma forte reação ao puritanismo vitoriano começou a ganhar impulso. O ano de 1910 assistiu à publicação de um notável pequeno volume intitulado The Daily Mirror Beauty Book, um manual de beleza que aconselhava traçar uma linha a lápis para alongar os olhos e descrevia um aparelho para curvar os cílios, para fazê-los "parecer estrelas". Depois da Primeira Grande Guerra, as décadas de 1920 e 30 viram esse comércio de cosméticos florescer numa indústria de massa. As mulheres, recentemente emancipadas, estavam decididas a se embelezar segundo seu próprio gosto e a rejeitar qualquer interferência de figuras autoritárias masculinas. Essas jovens foram fortemente influenciadas pelo cinema, que dava seus primeiros passos. As atrizes dos primeiros filmes em preto e branco eram obrigadas a enfatizar os traços faciais para torná-los mais visíveis para a platéia. Uma atriz em particular, Theda Bara, influenciou a indústria de cosméticos ao lançar a moda dos olhos pesadamente maquiados. Helena Rubinstein, pioneira da moderna cosmética, tirou a idéia das sombras coloridas do teatro francês e, com seu conhecimento do antigo Egito, experimentou o kohl para criar a dramática máscara de Theda Bara para o papel de Cleópatra. Foi o começo de uma revolução na cosmética. Em poucas décadas, o inusitado de Hollywood tornou-se lugar-

comum em todo o mundo. No início da década de 1960, o Egito serviu novamente de inspiração para a maquiagem dos olhos. Dessa vez, foi Elizabeth Taylor a fazer o papel de Cleópatra. No épico de 1963, seus olhos pesadamente maquiados inspiraram jovens de todo o mundo — e sombras, delineadores e cílios postiços entraram na moda. No final da década, o olhar desafiador de Cleópatra deu lugar a uma aparência mais natural, mas os cosméticos para os olhos não desapareceram. Na verdade, essa suposta aparência natural era totalmente artificial. A maquiagem ostensiva do início da década foi substituída por uma sutil ingenuidade, criando um ar de "inocência infantil". Um anúncio proclamava que "Para olho nu, uma face nua". O truque era que essa face nua se conquistava com o mais demorado e mais cuidadoso procedimento cosmético na história da maquiagem. Desde então, a maquiagem dos olhos sempre esteve presente — às vezes sutil, outras vezes nem tanto —, com as pálpebras, a linha dos olhos e os cílios recebendo maior ou menor atenção de acordo com os ditames da moda. No mundo ocidental, pelo menos, não parece haver limites para essa área da "modificação" feminina. Mesmo em países onde dogmas religiosos impõem a sujeição das mulheres, obrigando-as a cobrir o rosto em público, a maquiagem dos olhos recebe a mesma atenção de sempre — ainda que só possa ser apreciada na privacidade do lar. Como escreveu uma autora iraniana, "as mulheres podem ser obrigadas a parecer feias pelos chefes de Estado islâmicos, mas, ironicamente, a indústria cosmética cresce cada vez mais". É evidente que o desejo feminino de realçar a beleza dos olhos continua tão forte hoje como era nas antigas civilizações.

6. Nariz
O nariz é uma parte muito pequena da anatomia feminina, mas tem uma importância desproporcional ao seu tamanho. É uma parte do rosto que não é capaz de expressar-se, a não ser franzindo-se em sinal de repugnância. Apesar disso, sempre despertou muita atenção. Seu formato tem sido referência de beleza, e por isso a cirurgia plástica para modificar o nariz feminino tem tido muita procura há mais de meio século. Por que isso acontece? O que há de tão especial nessa parte da anatomia feminina? É evidente que, na evolução da espécie, características como quadris amplos, pele saudável e fartos seios ganharam muita importância como sinais de beleza feminina, mas que vantagem evolutiva pode haver na forma exata de um nariz feminino? Para entender isso, é preciso primeiro examinar a biologia básica do nariz. Se compararmos o nariz humano com os de nossos parentes próximos do mundo animal, fica evidente que nosso nariz, com a ponte saliente, a ponta alongada e as narinas voltadas para baixo, é único. Os macacos não possuem nada parecido. Os que têm o focinho mais longo também possuem uma face alongada. Nós temos um nariz protuberante num rosto achatado, uma característica estranha que exige uma explicação. Alguns anatomistas apresentaram um argumento pouco convincente: no curso da evolução, à medida que o rosto humano foi se achatando, o nariz permaneceu onde estava, como uma rocha que fica exposta quando a maré baixa. É difícil aceitar essa suposição. Há algo tão positivo na independência do nariz em relação às feições que o cercam, que o "órgão proeminente", como ele é chamado, deve nos proporcionar alguma vantagem biológica. Várias hipóteses foram levantadas.

A primeira teoria vê a probóscide humana como um ressonador. Seu crescimento é interpretado como um movimento de apoio cada vez maior da vocalização humana. O nariz teria se desenvolvido à medida que a voz e a fala evoluíram. Para ilustrar essa propriedade, ê preciso falar tapando o nariz. A perda da qualidade vocal é drástica. É por isso que os cantores têm tanto pavor de pegar um resfriado. Mas talvez a voz clara dos humanos só precise dos grandes seios nasais — as cavidades nasais ocultas — para ressoar com clareza. Se for esse o caso, precisamos de outra explicação para a protuberância do nariz. Uma segunda teoria vê o nariz humano como um escudo: uma armadura óssea que ajuda a proteger os olhos. Se apoiarmos a ponta do polegar no osso malar, um dedo no supercílio e outro na ponte do nariz, vamos sentir a mão pressionando as três procrusões defensivas do olho. Esse triângulo ósseo protege o olho, que é mole e vulnerável, de um golpe frontal. Uma terceira teoria, bastante fantasiosa, vê o nariz como uma defesa contra a água. Há quem afirme que nossos ancestrais passaram por uma fase aquática há milhões de anos. Durante esse período, nosso corpo teria sofrido diversas adaptações. O nariz seria uma proteção contra o influxo de água quando mergulhávamos. Vale lembrar que, quando pulamos na água, apertamos o nariz, mas não precisamos fazer isso quando mergulhamos de cabeça. Isso é verdade, mas seria muito mais provável que tivéssemos desenvolvido válvulas nasais, como as baleias. Apenas um pequeno passo evolucionário seria necessário para que o homem tivesse um nariz capaz de se fechar debaixo d'água. Se isso tivesse ocorrido, não teríamos necessidade de desenvolver um nariz alongado com narinas voltadas para baixo. Válvulas nasais seriam muito mais úteis a um macaco aquático.

Mas talvez o formato do nariz humano o ajude a funcionar como uma proteção diferente: contra a poeira e os resíduos carregados pelo vento. Ao abandonar a tranqüilidade das árvores e se aventurar por planícies descampadas e outros ambientes mais hostis, nossos ancestrais devem ter encontrado um ambiente adverso e cheio de ventos, onde um nariz seria de grande utilidade. Essa teoria vê o nariz como um aparelho de ar condicionado obrigado a suportar uma carga cada vez maior à medida que nossos ancestrais se deslocavam para regiões mais frias e secas do planeta. Para entender isso é necessário dar uma olhada dentro do nariz. Quando o ar é inalado pelas narinas, dificilmente está nas condições ideais para passar aos pulmões. Os pulmões são exigentes quanto à qualidade ideal do ar que gostariam de receber: 35º de temperatura, 95% de umidade e livre de poeira. Em outras palavra, deve ser um ar temperado, úmido e limpo, para evitar que o delicado revestimento dos pulmões se resseque ou se danifique. O nariz consegue isso de uma maneira notável: fornecendo mais de 14m3 de ar condicionado a cada 24 horas. Se um paciente de um hospital perder o uso do nariz por qualquer motivo, seus pulmões estarão, gravemente prejudicados em um ou dois dias. Tentativas de criar um nariz artificial enfrentaram muitas dificuldades, o que prova a extraordinária eficiência da engenharia do nariz humano. A superfície interna das complexas cavidades nasais é coberta por uma membrana mucosa que segrega cerca de 1 litro de água por dia. Essa superfície úmida está sempre em movimento, porque incrustados nela existem milhões de minúsculos pêlos chamados cílios, que oscilam 250 vezes por minuto, renovando metade da cobertura mucosa a cada minuto. Por força da gravidade, essa mucosa desliza pela garganta, onde é engolida. Enquanto isso

acontece, o ar que passa pelas cavidades nasais vai se aquecendo e tornando-se mais úmido. O pó e os resíduos de sujeira aderem à mucosa e são eliminados com ela. Assim os pulmões estão seguros para a próxima inspiração. Daí podemos concluir que, à medida que nossos ancestrais abandonaram seu habitat tropical e úmido e se aventuraram por outras terras em busca da caça, seu nariz passou a ser mais exigido. Num clima quente e úmido, por exemplo, 76% da umidade são provenientes do exterior, e o nariz só contribui com 24% Num clima quente e seco, porém, apenas 27% da umidade vêm do ar, ao passo que 73% precisam ser produzidos pela mucosa nasal. Isso significa que, para se manter eficiente nas savanas áridas ou desertos, o nariz precisa ser mais alto e mais proeminente do que numa floresta úmida. Um cuidadoso mapeamento revela que é possível classificar as pessoas segundo um índice nasal, dividindoas em grupos correspondentes à temperatura e à umidade do local onde vivem. Isso não significa classificá-las por "raças". Pessoas de pele escura que vivem em regiões quentes na África ocidental, por exemplo — apresentarão um nariz mais achatado que as pessoas de pele escura que vivem nas regiões mais secas da África oriental. A forma do nariz é apenas uma indicação do tipo de ar que nossos ancestrais respiraram e de nada mais. Resumindo, portanto, o nariz humano é um aparelho ressonador e um escudo ósseo que se tornou mais protuberante e mais longo à medida que nossa espécie abandonou o quente e úmido Jardim do Éden, conservando sua função de condicionamento do ar. Mas não é só para isso que serve o nariz: ele é o principal órgão do olfato e do paladar. A função olfativa é realizada por dois pequenos conjuntos de células capazes de detectar os cheiros. Do tamanho de uma pequena moeda, situam-se acima das fossas nasais. Cada um deles é constituído por

5 milhões de células que nos dão uma sensibilidade muito maior aos odores do que em geral imaginamos. Somos capazes de detectar substâncias diluídas numa proporção de uma parte da substância para bilhões de partes de ar. O nariz feminino tem uma extraordinária sensibilidade aos odores masculinos. Pesquisas realizadas na década de 1970 identificaram mais de duzentos diferentes compostos químicos que podem ser encontrados no suor, na saliva, nos óleos da pele e nos fluidos genitais. Surpreendentemente, descobriu-se que as mulheres que apreciam relações sexuais freqüentes, durante as quais, inevitavelmente, aspiram diversos cheiros masculinos, possuem uma fisiologia mais equilibrada. Apresentam ciclos sexuais mais regulares e menos problemas de fertilidade — tal é o poder do nariz. As mães também são capazes de reconhecer seus bebês pelo cheiro corporal. Se, numa experiência simples, diversas mães forem colocadas em linha com os olhos vendados, e seus bebês transportados diante da fila um por um, cada mãe será capaz de distinguir seu filho entre todos os outros. As mulheres jovens geralmente se surpreendem ao descobrir que possuem essa sensibilidade. Mais uma vez, é uma demonstração de quanto a capacidade do nariz humano tem sido subestimada. (Apenas para registro: só metade dos jovens pais foram capazes do mesmo feito.) Não temos consciência dessa alta eficiência do nariz porque ignoramos e anulamos cada vez mais suas funções. Vivemos em cidades onde os odores naturais tornam-se imperceptíveis, usamos roupas que eliminam nossos cheiros corporais e enchemos o ar de aerossóis capazes de eliminar cheiros e disfarçar odores. Ainda pensamos no olfato como algo primitivo e bárbaro — uma capacidade antiga que é melhor esquecer e abandonar.

Apenas em algumas áreas especializadas — a dos provadores de vinhos e perfumes, por exemplo — existe um esforço de educar o nariz a desenvolver plenamente seu potencial. Convém agora explicar por que dissemos que o nariz é também um órgão do paladar. A língua é o principal órgão do paladar, mas tem uma capacidade muito limitada. Só é capaz de distinguir quatro sabores: doce, salgado, amargo e ácido. À medida que mordemos, mastigamos e engolimos os alimentos, todos os outros sabores de nossa variadíssima culinária na verdade são detectados não na superfície da língua salivante, mas pelas células olfativas situadas acima das fossas nasais. Quando levamos o alimento à boca, as partículas odoríficas chegam a essas células diretamente pelas cavidades nasais, ou indiretamente pela própria boca. Um alimento pode ter um sabor desagradável (na língua) e um cheiro delicioso (no nariz). Essa é portanto a biologia do nariz, mas como ela pode nos ajudar a entender a forte ligação entre a forma do nariz e a beleza feminina? Uma resposta pode ser encontrada na protrusão óssea do nariz humano. Se, como dissemos, ele protege os olhos de golpes violentos, então os homens primitivos, que eram caçadores, precisariam de uma proteção maior que as mulheres primitivas, que coletavam alimentos. Nas tribos primitivas, as mulheres adultas eram valiosas demais para serem expostas numa caçada. Os homens adultos eram mais dispensáveis, mas, ainda assim, se tinham que enfrentar os perigos de uma caçada, precisavam da maior proteção possível. Essa proteção podia ser adquirida se eles desenvolvessem um crânio mais pesado, sobrancelhas mais espessas, fortes ossos malares e um nariz mais protuberante. Por isso, em média, o nariz dos homens acabou se tornando maior que o das mulheres.

Além disso, a capacidade atlética dos homens, desenvolvida na perseguição das presas, aumentou a importância do nariz como condicionador do ar. Mais uma vez, houve uma pressão evolutiva para que o nariz dos homens se tornasse maior que o das mulheres. Essas diferenças criaram uma equação: nariz menor = nariz feminino. A partir daí, qualquer mulher que nascesse com um nariz muito delicado era considerada superfeminina, e qualquer mulher que nascesse com um nariz muito grande se sentiria feia. Isso não foi tudo. Outro fator favoreceu a pequenez do nariz feminino. Quando bebês, todos nós temos o nariz na forma de um minúsculo botão. Durante a infância, esse botão cresce proporcionalmente ao resto da lace e atinge seu tamanho máximo na idade adulta. Daí se conclui que um nariz pequeno é um nariz infantil. Acrescente-se a isso um "culto à juventude" e o resultado é óbvio: quanto menor o nariz, mais bela é a mulher. Portanto, para parecer jovem e feminina é preciso ter um nariz pequeno. Para a maioria das mulheres, isso não é problema — a natureza lhes foi favorável. Outras, porém, sentem-se desfavorecidas pela genética por terem que viver com um nariz grande e masculino. Há duas razões possíveis para isso. Elas podem ter sido desfavorecidas simplesmente em conseqüência das variações individuais que ocorrem em todas as populações. Mas também é possível que seus ancestrais recentes tenham vindo de uma parte do mundo onde um nariz grande era uma adaptação valiosa ao clima. Narizes provenientes de regiões desérticas, como o Oriente Médio e o norte da África, são maiores que a média; os das regiões úmidas, como de certas partes da África tropical, são mais largos que a média. Se forem viver em outras partes do mundo, onde o clima seja mais temperado, algumas dessas mulheres podem achar que seu nariz não é bastante

feminino e desejarão tê-lo menor. Até o século XIX, elas pouco podiam fazer, mas o aparecimento de técnicas avançadas de cirurgia plástica vieram em seu socorro. A cirurgia plástica surgiu da necessidade de reconstruir o rosto dos soltados feridos durante as duas grandes guerras do século XX. Com os avanços técnicos, percebeu-se que os mesmos procedimentos podiam ser utilizados por razões puramente estéticas, sempre que alguém estivesse infeliz com o rosto que a natureza lhe dera. Reduzir o tamanho do nariz feminino tornou-se a mais popular das cirurgias plásticas. O termo técnico para essa cirurgia é rinoplastia — que vem de rhino, o termo grego para nariz. A cirurgia é realizada dentro do nariz, para que não haja cicatrizes externas. O procedimento mais comum implica a remoção da saliência óssea que torna o nariz muito protuberante e adunco. Uma serra cirúrgica especial remove essa saliência, e o perfil nasal se reduz drasticamente. Mas existem cirurgias menos comuns, como a redução da batata do nariz, o estreitamento das narinas e a elevação da ponta do nariz. Como quase sempre acontece com essas "melhorias" corporais, as primeiras clientes da cirurgia plástica do nariz foram as estrelas do show business. Em 1923, a famosa atriz de teatro Fanny Brice convocou um renomado cirurgião plástico a seu apartamento no Ritz, onde ele realizou uma rinoplastia que reduziu seu nariz proeminente a dimensões diminutas. Seu produtor ficou horrorizado. Segundo ele, Fanny perdera "um nariz de 1 milhão de dólares". Dorothy Parker, famosa por seus comentários cáusticos sobre as celebridades da época, afirmou que Brice (que era judia) tinha "cortado fora o nariz por ódio à sua raça", contra o que a atriz se defendeu energicamente. Mais tarde, na década de 1960, quando fez o papel de Fanny Brice em Funny Girl, Barbra Srreisand se

recusou bravamente a operar seu imponente nariz, e o incidente sobre a cirurgia plástica de Fanny foi omitido no roteiro do filme. Mas Streisand, dona de uma forte personalidade, foi uma exceção. Na segunda metade do século XX, a rinoplastia se tornou cada vez mais popular no mundo ocidental porque um número cada vez maior de atrizes modelos e mulheres de todas as condições sociais passaram por uma plástica para reduzir o nariz. No início do século XXI, o número de rinoplastias já ultrapassava centenas de milhares. Mesmo em países onde o nariz grande é uma característica comum, a moda pegou. Em Israel, por exemplo, cirurgiões plásticos são cada vez mais requisitados para a rinoplastia. Além das mulheres israelenses, jovens do Egito, da Jordânia, da Arábia Saudita e dos países do Golfo acorrem às clínicas israelenses em busca da operação. O procedimento popularizou-se nos lugares mais inesperados. No Irã, onde por imposição do rigoroso regime islâmico as mulheres cobrem os cabelos em público e expõem apenas o rosto, ou parte dele, o número de rinoplastias está crescendo em proporções assustadoras. No início do século XXI, a redução do nariz se tornou tal obsessão para as jovens iranianas que mais de cem cirurgiões plásticos chegavam a realizar 35 mil rinoplastias por ano. Uma adolescente de Teerã afirmou: "A moda chegou a tal ponto que as pessoas que não operam o nariz usam um curativo para chamar a atenção". A desculpa das adolescentes é que, de acordo com a lei islâmica, "Deus ama os belos". Mas é claro que, com quase todo o resto do corpo coberto, o nariz se tornou um foco de atenção. Em algumas regiões da África tropical, uma operação diferente está ganhando popularidade. Depois dela, o nariz

largo e chato das mulheres nativas se estreita e recebe uma ponte mais firme. É o equivalente nasal do alisamento dos cabelos, uma cirurgia com a qual as jovens africanas tentam parecer mais européias. Uma tendência semelhante foi relatada recentemente no Extremo Oriente. No Vietnã e na China, as cirurgias que ocidentalizam o nariz estão sendo realizadas em grande número. Para o uso de jóias, o nariz nunca foi tão popular quanto as orelhas, o pescoço, o pulso ou os dedos. Em algumas sociedades tribais, o septo nasal era perfurado para que nele se pudesse pendurar um ornamento, mas esse costume nunca se generalizou. O piercing nas narinas tem uma longa história, que começa no Oriente Médio cerca de 4 mil anos atrás. Ainda é prática corrente entre os berberes e beduínos nômades do Norte da África e do Oriente Médio, onde o marido costuma presentear a esposa com uma argola de ouro que ela deverá usar no nariz no dia do casamento. O tamanho da argola indica a riqueza da família, e, se mais tarde ocorrer o divórcio, a mulher rejeitada pode usar o aro de ouro no nariz para garantir sua segurança. A tradição de usar argola no nariz foi levada do Oriente Médio para a Índia durante o período mongol, no século XVII, quando o costume era perfurar a narina esquerda, escolhida porque esse lado estava relacionado à procriação e ao nascimento. Acreditava-se que, se usasse uma argola na narina esquerda (muitas vezes ligada à orelha esquerda por uma corrente de ouro), a mulher teria um parto menos doloroso. Na década de 1960, os hippies do Ocidente gostavam de viajar para o Oriente "em busca de si mesmos", e, ao ver as mulheres nativas com argolas no nariz, decidiram adotar essa maneira exótica de mutilação. Na Inglaterra, a moda foi adotada pelos punks dos anos 1970, mas ainda era vista como uma tendência

exótica. Mais tarde, por volta do final do século XX, talvez devido à influência cada vez maior dos filmes de Hollywood, os pequenos piercings ganharam popularidade. Em muitos lugares houve reações violentas de patrões contra empregados que usavam esse novo tipo de ornamento feminino, mas com o tempo o costume foi perdendo seu caráter de rebeldia, e hoje, já no século XXI, começa a declinar. Quanto à maneira de cumprimentar com um toque de nariz contra nariz, tem sido rara socialmente. Na Europa, o contato entre duas pessoas pelo nariz sempre foi considerado grosseiro e incivilizado. O melhor que um nariz pode esperar é um puxão ou um soco. E o pior foi uma punição particularmente brutal, na qual uma faca era inserida nas narinas, o que fazia o nariz se partir ao meio. Esse castigo era aplicado, no século IX, àqueles que não pagassem impostos. Hoje, embora os coletores de impostos tenham aposentado as facas, ainda mostramos uma relíquia desse método primitivo quando dizemos que o fisco "nos deu uma facada". No mundo ocidental, o nariz só recebe toques gentis na vida privada. No ato sexual, os amantes esfregam o nariz do parceiro contra o próprio nariz, uma carícia que entretanto nunca saiu do âmbito da intimidade Em certas ilhas do Pacífico, esse toque também ocorre num contexto social. Eis, segundo Malinowski, a maneira como um nativo de Trobriand descreve o ato sexual: "Eu a abraço com todo o meu corpo, esfrego meu nariz no dela, sugo o seu lábio inferior e ela suga o meu. Então, tensos de paixão, misturamos nossas línguas, nos mordemos no nariz, nos mordemos nas bochechas, nos mordemos no queixo, acariciamos as axilas e as virilhas...". Num contexto social, os povos do Pacífico utilizavam o contato nariz a nariz quase da mesma maneira que

usamos o beijo. Costuma-se descrever esse contato como "esfregar um nariz contra o outro", o que é um erro. O movimento de esfregar geralmente se reserva aos encontros eróticos do tipo descrito por Malinowski. Em público, o que ocorre é um toque na ponta do nariz, um gesto que se baseia na idéia de inalar a fragrância do corpo do outro. Como cumprimento formal, o toque no nariz às vezes obedece a um rígido código de comportamento. Em uma tribo das ilhas Salomão, no sul do Pacífico, existe uma lista das partes do corpo que podem ou não ser tocadas pelo nariz. O contato de nariz com nariz, assim como de nariz com bochecha, só é permitido entre pessoas da mesma condição social. Quando um jovem encontra uma pessoa mais velha, o contato deve ser de nariz com pulso. Quando um cidadão cumprimenta um grande chefe, deve tocar os seus joelhos com o nariz. Esses cumprimentos estão em declínio. O modo de vida mais cosmopolita, a mistura de culturas, o crescimento do turismo e do comércio internacional — tudo isso contribuiu para uma uniformidade dos gestos de cumprimento, c o onipresente aperto de mãos se espalhou por todo o planeta. Hoje, quando maoris de alta casta de encontram, combinam um vigoroso aperto de mãos com um leve toque no nariz. O novo ocupa o lugar da tradição.

7. Bochechas
Desde épocas muito remotas a parte macia e lisa do rosto feminino tem sido considerada sede de beleza, inocência e modéstia. Isso ocorreu em parte porque a forma arredondada do rosto de um bebê — uma característica exclusivamente humana — sempre despertou forte amor paternal. Essa antiga ligação entre bochechas macias e amor intenso deixou uma marca em nossos relacionamentos adultos. Em momentos de ternura, tocamos, beliscamos ou beijamos as faces do ser amado, numa reminiscência do amor puro entre pais e filhos. Assim como a mãe pressiona levemente as bochechas do bebê contra o rosto, os namorados dançam de rosto colado e velhos amigos se beijam na face. Simbolicamente, a bochecha é a parte mais suave de todo o corpo feminino. A bochecha é também a parte do corpo que revela mais claramente as emoções. É nas faces que as mudanças emocionais são mais evidentes. O rubor da vergonha ou do constrangimento sexual se inicia no centro das bochechas — em dois pontos que ganham uma cor vermelho-escura — e só então se irradia pela superfície do rosto. Depois, se o rubor se intensifica ainda mais, espalha-se para outras áreas, como o pescoço, o nariz, os lóbulos das orelhas e o colo. Mark Twain certa vez declarou que "O homem é o único animal que se ruboriza. Ou deveria..." — como se fossem os terríveis pecados do ser humano que o fizessem ruborizar-se de vergonha. Na verdade, é em outros contextos que o rubor ocorre. A pessoa que enrubesce costuma ser jovem, tímida em sociedade, e geralmente não tem do que se envergonhar, a não ser de sua inexperiência e indesejada inocência. Como ocorre muitas vezes num clima de erotismo, o rubor é visto como uma demonstração de inocência virginal. A "noiva ruborizada" é um clichê nas cerimônias

de casamento — e nesse caso o rubor resulta de um constrangimento pelo fato de todos os presentes estarem imaginando a iminente perda da virgindade. Como o rubor está (ou estava, antes que a educação sexual moderna trouxesse uma maior abertura e franqueza sobre o assunto) intimamente ligado a uma situação de namoro ou flerte entre pessoas jovens, criou-se uma conexão entre ele e a atração sexual. A mulher que não cora não tem consciência de sua sexualidade ou já perdeu a vergonha. A mulher que cora diante de um comentário de conotação sexual obviamente tem consciência de sua sexualidade, mas ainda preserva uma certa ignorância. Portanto, poderse-ia dizer que o rubor é basicamente um sinal de virgindade. Nesse contexto, era significativo que as jovens oferecidas nos mercados de escravos corassem quando enfileiradas diante de potenciais compradores. A vermelhidão do rosto também é um sinal de raiva. A tonalidade que se instala é diferente, um rubor difuso que se espalha por todo o rosto. A disposição da mulher enfurecida é de ataque. Ela pode lançar ameaças terríveis, mas é a vermelhidão da pele que indica sua frustração. As faces de uma mulher verdadeiramente irada se tornam muito pálidas à medida que o sangue foge e ela se prepara para a ação. Esse é o rosto de uma mulher pronta para atacar a qualquer momento. Mas se ela está com medo, suas faces também empalidecem, porque ela está prestes a fugir — ou reagir, se for encurralada. Modernamente, o rosto bronzeado de uma mulher caucasiana é sinal de status, porque indica que ela tem condições de passar férias numa praia. Essa é uma situação relativamente recente. Antigamente, nenhuma jovem da alta classe seria vista com a pele bronzeada. Naquela época, o bronzeado significava apenas uma coisa: a labuta no campo. Moças das classes superiores consideravam a pele bronzeada repugnante, c tomavam todo o cuidado para evitar o sol mesmo num simples

passeio pelo parque, quando usavam um chapéu de abas largas ou uma sombrinha. Em alguns períodos da história, essa repulsa ao sol levou as mulheres a usar maquiagem para empalidecer o rosto. Em casos extremos, elas se sangravam para chegar à palidez. Todas essas práticas acarretavam riscos. A maquiagem branca usada no século XVI era especialmente danosa, porque continha óxido de chumbo. O repetido uso dessa pintura ocasionava um acúmulo de veneno no corpo, que mais tarde podia causar paralisia muscular ou até mesmo a morte. Em outras épocas, quando um rosto rosado era um sinal de vigor e boa saúde, as faces eram pintadas com ruge. Quando não usavam ruge, as jovens beliscavam as bochechas antes de um importante acontecimento social para fazer o sangue afluir a elas. O blush ainda é um cosmético muito usado hoje, embora essa seja uma tendência que vai e vem ao sabor da moda, à medida que os fabricantes de cosméticos lançam novidades no mercado. Além da aparência de saúde, esse tipo de maquiagem traz também a lembrança do rubor inocente da adolescência, o que lhe dá uma dupla vantagem num contexto sexual. No século XXI, depois de uma forte campanha contra o excesso de sol devido ao risco de câncer de pele, o bronzeado voltou a ser um mal. As jovens hoje evitam se torrar ao sol e, quando se expõem, usam um bom protetor solar. Mais uma vez, a face pálida volta a ser um símbolo — dessa vez de consciência e preocupação com a saúde. Mas ainda há quem se recuse a abandonar o culto ao sol, e assim as mulheres se dividem entre as cautelosas pálidas e as bronzeadas despreocupadas. Veremos que grupo prevalecerá. Os problemas de pele que o sol pode acarretar não são nada comparados com um creme que, na Itália do

século XVII, era vendido com o nome de "Aqua Toffana" ou "Manna de San Nicola di Bari". Uma certa senhora Giulia Toffana oferecia esse especial tratamento de pele, que se tornou particularmente popular entre as esposas que queriam se livrar de seus maridos. Vendido em pó ou em creme, era uma fórmula venenosa que continha arsênico e outros ingredientes letais. A senhora Toffana sempre visitava suas clientes para lhes explicar o uso adequado do produto. Recomendava que nunca ingerissem o cosmético e que o aplicassem nas faces pouco antes de uma relação amorosa. Com isso, a boca do marido, pressionada contra as faces, absorveria uma quantidade do veneno suficiente para matá-lo. Depois, o motivo do óbito era sempre "excesso sexual". O ardil funcionou por muito tempo. A senhora Toffana foi responsável por mais de seiscentas mortes e a criação de mesmo número de viúvas saudáveis, o que fez dela a maior envenenadora de todos os tempos. Seus crimes só foram descobertos em 1709, quando ela foi presa, torturada e estrangulada na prisão. Assim como a cor, a forma das bochechas também é importante. Um rosto com covinhas sempre foi considerado atraente na Europa, onde se dizia que elas eram marcas do dedo de Deus. As covinhas não são muito comuns hoje, e parece que sempre foram bastante raras. Entre os gregos antigos, a forma das bochechas também era importante como padrão de beleza. Havia até um gesto especial para indicar isso. Consistia em colocar o polegar sobre uma bochecha e o indicador sobre a outra e descer suavemente a mão em direção ao queixo.Durante o movimento, os dedos se aproximam, sugerindo uma forma atilada para o rosto. Era esse rosto ovalado que os gregos consideravam ideal de beleza feminina. Os gregos modernos ainda interpretam o gesto da mesma maneira. Pressionar a língua contra a bochecha a ponto de distorcê-la é um gesto que significa descrença. A idéia que

lhe deu origem é a de que essa seria a única maneira de a pessoa evitar uma crítica que estaria "na ponta da língua". Fazer esse gesto era uma grosseria, proibida principalmente às crianças. Com isso, durante o primeiro período vitoriano, a palavra inglesa "cheek" (bochecha) ganhou nova acepção e passou a significar também "atrevimento", "desfaçatez". Outro gesto, quase restrito à Itália, é pressionar o indicador na bochecha e girá-lo como se fosse uma chave de fenda. Na Itália todos o conhecem. De Turim, no norte, à Sicília e à Sardenha, no sul, tem sempre o mesmo significado: "Bom!" Na origem, era um cumprimento ao cozinheiro, a indicar que a massa estava al dente, mas com o tempo seu significado se ampliou e passou a incluir qualquer coisa boa. Juntar as palmas das mãos e apoiar a face sobre elas é um gesto que todo mundo entende. Nasceu do fato de que o momento que caracteriza o sono é aquele cm que o rosto toca o travesseiro. É interessante notar que, quando alguém está cansado ou entediado, mas tem que permanecer sentado a uma mesa, apóia a face sobre a mão como se tentasse segurar o peso da cabeça. Se um professor ou conferencista constatar essa postura em seus ouvintes, pode contar que não está agradando. Uma demonstração ainda mais evidente de aborrecimento ou tédio é contrair os cantos da boca com força. Ele também significa descrença e é essencialmente um gesto de forte sarcasmo. Em algumas regiões mediterrâneas, beliscar a própria bochecha é sinal de algo excelente ou delicioso. Quase em toda parte, o mesmo gesto, só que na face de outra pessoa, é um sinal de afeição que vem sendo usado há mais do 2 mil anos, tendo sido muito popular na Roma antiga, Normalmente, é um adulto que belisca a bochecha de uma criança (que quase sempre odeia isso), mas o beliscão

também pode ser usado como uma brincadeira entre adultos. O tapinha na bochecha é uma brincadeira um pouco mais irritante, que pode desagradar quando praticado com demasiado vigor. Quando não existe afeto, o gesto pode se transformar facilmente numa verdadeira bofetada, deixando a vítima atônita, sabendo que foi insultada, mas sem poder fazer nada diante de um gesto que poderia ser amigável. O tapa no rosto tem uma longa tradição. Era a maneira clássica de uma dama responder à atenção indesejada de um cavalheiro. Na essência, não passa de uma tempestade em copo d'água — um estalo que faz barulho, mas causa tão pouco dano físico que não chega a provocar uma reação imediata ou um ato agressivo da parte da vítima. Embora provoque um choque, ele se dilui logo depois. Na outra ponta da escala emocional estão o beijo e o toque na face. O beijo é um ato recíproco, adequado apenas a pessoas de igual condição. É uma versão mais leve do beijo na boca, e generalizou-se em muitos países como parte do ritual de cumprimentos nas reuniões sociais. Quando a mulher usa batom, o gesto se resume à pressão de bochecha contra bochecha, combinada com o estalar de um beijo, sem contato do lábio com a face. A freqüência do cumprimento obedece a variáveis culturais. No meio teatral e em ambientes sociais mais festivos, sua freqüência é quase excessiva, mas em ambientes de baixa renda ele é extremamente raro, a não ser entre membros de uma mesma família. Esses usos variam de um país para outro. Em certas regiões, como a Europa oriental, por exemplo, o tradicional beijo leve na boca continua vigorando. Mutilações nas bochechas nunca foram muito comuns devido à necessidade de mobilidade facial. Em

tempos remotos, as mulheres que perdiam um ente querido arranhavam as faces ate fazê-las sangrar, com a intenção de demonstrar seu sofrimento. John Bulwer relata que esse costume deu origem a uma lei: "As damas romanas tinham o hábito de arranhar as faces em sinal de luto [...] de modo que, ao tomar conhecimento do fato, o Senado publicou um edito, ordenando que, dali em diante, nenhuma mulher podia arranhar o rosto em sinal de luto ou tristeza, já que as faces são a sede da modéstia e da vergonha". As decorações tribais para o rosto incluem uma variedade de pinturas, tatuagens, incisões e perfurações. A não ser pelo uso rotineiro de pó e ruge, quase não se vêem adornos faciais no mundo ocidental, embora um breve ressurgimento deles tenha ocorrido nos anos 1970 com o movimento punk rock em Londres, quando era possível ver mocinhas com um alfinete de segurança enfiado na bochecha, quase sempre próximo à boca. Essas mutilações selvagens dos primeiros punks foram desaparecendo aos poucos, e mais tarde foram postos à venda falsos alfinetes de segurança, que davam a impressão de estar enterrados na carne sem realmente feri-la. A única outra forma de decoração facial é a pinta, ou "sinal de beleza", que se tornou moda nos séculos XVII e XVIII. Tudo começou com a necessidade de ocultar pequenas imperfeições, mas a pinta logo ganhou vida própria como decoração cosmética. Conta-se que Vênus nasceu com uma pinta natural na face, e qualquer mulher da moda que a imitasse só teria a ganhar em beleza. Essa foi a desculpa de que as mulheres precisavam para cobrir manchas, verrugas ou marcas de varíola com um círculo preto, ou disfarçar a imperfeição com um lápis preto. Esse tipo de decoração tornou-se tão popular que mesmo as mulheres que possuíam uma pele perfeita a adotaram, até que a pinta passou a ser um elemento

puramente decorativo. Com o tempo, tornou-se tão essencial nos meios cortesãos a ponto de se dizer que "toda mulher moderna devia usá-la sempre, a menos que estivesse de luto". No final do século XVI, um francês de língua afiada em visita a Londres afirmou: "Na Inglaterra, as jovens, as velhas e as feias estão todas remendadas, a menos que estejam acamadas. Cheguei a contar mais de quinze remendos sobre uma face enrugada e escura de bruxa..." No início do século XVIII a moda tinha adquirido tal complexidade que a posição das pintas ganhou significado político: as damas do Partido Whig (ala direita) decoravam a face direita, enquanto as damas do Partido Tory (então ala esquerda) decoravam a face esquerda. Com o tempo, os sinais de beleza deixaram de ser pintas e se transformaram em estrelas, crescentes, coroas, losangos c corações. Esses excessos logo desapareceram, mas uma ocasional e única pinta ainda se vê de tempos em tempos — sobrevivente solitária de um passado de exagero. Modernamente, com algumas notáveis exceções, essa moda desapareceu, e hoje. as marcas do tosto feminino recebem outro tratamento. Como uma face lisa passa a imagem de juventude e saúde, é importante para uma jovem que quer se manter atraente esconder espinhos, cravos, asperezas, rugas ou outros defeitos de pele. Se a maquiagem não disfarçar o problema, faz-se necessário algo mais drástico. Com essa finalidade, novos procedimentos foram desenvolvidos pela cirurgia plástica. Um deles é a abrasão da pele, ou, em termos técnicos, microdermoabrasão. Por esse método, a pele do rosto é praticamente queimada. Um jato de cristais de dióxido de alumínio é aplicado ao rosto, removendo as camadas externas da pele. Depois de cicatrizada, a pele torna-se muito fina — se o tratamento foi um sucesso.

Outro procedimento é o peeling químico. Uma fina camada de um gel esfoliante é aplicada no rosto e, cinco minutos depois, cuidadosamente removida. Esse gel ácido remove as camadas externas da pele que está danificada. Um terceiro método emprega uma combinação altamente tecnológica de ultra-som, microcorrentes e tratamento com laser. Em todos esses casos, é preciso repetir o procedimento algumas vezes, e os resultados nem sempre são perfeitos, mas novos avanços no tratamento estão surgindo o tempo todo, e logo chegará o dia em que qualquer mulher poderá ter uma face perfeitamente lisa — por um certo preço.

8. Lábios
Existe algo muito estranho nos lábios humanos. No mundo animal, o homem é o único a ter lábios curvados para fora. Não percebemos isso porque não nos damos o trabalho de compará-los com os lábios de nossos ancestrais primatas, mas, se observarmos atentamente a boca de um chimpanzé ou de um gorila, logo veremos que a superfície macia e brilhante fica escondida. Por que os humanos têm os lábios virados do avesso? Mais uma vez, a resposta está na nossa evolução. À medida que nossa anatomia e nosso comportamento tornaram-se progressivamente mais infantis, preservamos cada vez mais as características de bebê. Nossos lábios carnudos e visíveis faziam parte dessa tendência. Como a fêmea humana é um pouco mais evoluída anatomicamente — ou seja, mais juvenil — que o homem nesse aspecto, seus lábios são, em média, mais protuberantes. E por isso acabaram se tornando alvo de muita atenção.

Mas, antes, vamos analisar como se desenvolveram esses superlábios. Sua origem não está no bebê humano, nem no bebê chimpanzé, mas no minúsculo embrião do chimpanzé. Quando o feto tem apenas dezesseis semanas, possui uma boca humanóide, com lábios grandes e carnudos. Dois meses depois, por volta de 26 semanas, os lábios já desapareceram. A boca do chimpanzé tomou a forma em que permanecerá pelo resto da vida. Portanto, para sermos precisos, devemos dizer que os lábios humanos não são apenas infantis: são embrionários. Ao contrário do bebê chimpanzé, o bebê humano não se desvia do projeto fetal e, assim que nasce, aponta um par de lábios recurvos para o mamilo da mãe, por onde suga o leite de seus fartos seios. O bebê chimpanzé, por sua vez, prende sua boca muscular de lábios finos à longa teta da mãe e suga o leite como um fazendeiro ordenha uma vaca. Portanto, os lábios do avesso, uma exclusividade da espécie humana, são perfeitamente adequados à sua primeira tarefa de sugar os seios também únicos da fêmea humana. Mas a história não termina aqui. Se terminasse, os lábios do bebê virariam sozinhos para dentro quando ele começasse a ingerir alimentos sólidos, e assim ele exibiria os lábios finos típicos dos primatas quando chegasse à idade adulta. No homem adulto, eles se tornam de fato um pouco mais esticados e finos, e, em condições primitivas, podem até desaparecer sob uma barba hirsuta. A fêmea humana, porém, exibe um par de lábios fartos e macios por toda a vida adulta — ou pelo menos até ficar bem velha, quando os lábios se afinam. Enquanto for jovem e o sexo lhe ocupar a mente, ela tratará de cuidar dos lábios como um símbolo sexual. Ela os umedece, os cobre de batom, faz biquinho, sopra beijos. Antes mesmo de seu primeiro beijo de amor, eles já

desempenharam um papel apresentação como mulher.

fundamental

na

sua

O que torna os lábios tão sensuais visualmente? Em sua forma, em sua textura e em sua coloração, eles imitam os outros lábios femininos, os lábios vaginais. Quando a mulher se excita sexualmente, os lábios vaginais se intumescem e se tornam mais vermelhos. Ao mesmo tempo, no rosto, seus lábios ficam mais túrgidos, mais vermelhos e mais sensíveis. Essas mudanças ocorrem em uníssono, como parte da revolução fisiológica que acompanha uma forte excitação sexual. Um dos principais fatores desse processo é o fluxo do sangue em direção à superfície da pele. A pele dos indivíduos sexualmente ativos brilha quando os vasos capilares se distendem em função do maior suprimento de sangue. Esse sangue extra aflora mais rapidamente do que pode refluir, e, com isso, a superfície da pele se torna cada vez mais sensível ao toque. Isso é particularmente verdade nos lábios. Os vasos sangüíneos tornam os lábios mais intumescidos e mais visíveis graças ao contraste entre sua tonalidade cada vez mais vermelha e a carne branca ao seu redor. Intuitivamente, as mulheres das sociedades primitivas começaram a usar esse mimetismo. As prostitutas do antigo Egito usavam um ocre vermelho para realçar os lábios. Um desenho em papiro que data de 1150 a. C. mostra uma cena num bordel tebano, na qual uma mulher seminua segura um espelho e aplica uma pintura nos lábios com um longo bastão. Ao lado, um cliente inteiramente nu, exibindo uma enorme ereção, estende a mão na direção dos genitais da mulher. A relação entre o rubor dos lábios femininos e a atividade erótica tem portanto mais de 3 mil anos. O uso de algum tipo de pintura labial é mais antigo que isso, pois existem evidências de que ela já existia 4 mil

anos atrás, na cidade de Ur, hoje sul do Iraque, onde uma soberana, a rainha Puabi, foi enterrada com um grande suprimento de maquiagem para ser usado na outra vida. Seus cosméticos — tintas vermelhas para os lábios, assim como verdes, brancas e pretas, presumivelmente para os olhos — foram armazenados em grandes conchas, ou em imitações de conchas feitas de ouro ou prata. Os primeiros batons eram fabricados triturando-se o óxido de ferro vermelho até obter um pó, que era então misturado com gordura animal. Mais tarde, no século IV a.C, os gregos realizaram experiências que parecem ter resultado na adição de tinturas vegetais, saliva humana, suor de carneiro e até mesmo fezes de crocodilo. No século II, a tecnologia já tinha avançado, e as mulheres palestinas podiam escolher entre o laranja-brilhante e o cereja-escuro. Desde então, a coloração artificial dos lábios foi um popular recurso de beleza feminina, embora algumas vezes tenha sido condenada por autoridades puritanas. Sob regimes ditatoriais que tentaram reprimir os prazeres sexuais, a pintura dos lábios foi proibida. Em casos extremos, mesmo sem pintura, os lábios foram considerados excitantes demais para serem vistos em público, e as infelizes mulheres foram obrigadas a escondê-los por trás de véus. Acredita-se que a ocultação dos lábios das mulheres seja uma prescrição da fé islâmica, mas não é. Esse é sem dúvida um costume nos países muçulmanos, mas não tem nada a ver com os ensinamentos de Maomé. Na verdade, foi imposto às mulheres por uma sociedade machista. Não se trata de um preceito religioso, mas de uma proibição sexista, fruto de uma sociedade em que a mulher é tratada como propriedade do homem. As igrejas cristãs têm tido uma atitude ambivalente em relação aos lábios femininos. Em algumas épocas, elas se mostraram liberais, mas também houve períodos de

repressão, quando lábios artificialmente coloridos eram vistos como obra do demônio e uma ofensa à obra de Deus, o corpo humano em seu estado natural. Um clérigo do século XVII condenou os lábios pintados por considerá-los "um sinal de prostituição", uma armadilha capaz de propagar o fogo da luxúria no coração dos homens que tivessem a infelicidade de pousar os olhos sobre eles. Os políticos geralmente se mantiveram afastados dessas questões, mas, num determinado momento do século XVIII, na Inglaterra, viram-se na obrigação de aprovar uma lei proibindo o USO do batom, porque certos homens ansiosos temiam ser ardilosamente atraídos para o casamento pela visão dos lábios femininos pintados. Essa proibição absurda criou um problema para as damas da época. A solução que elas encontraram foi chupar um picolé de groselha ou beliscar os lábios pouco antes de entrar numa festa. Apesar de sucessivas proibições da Igreja e do Estado, os cosméticos para os lábios se recusaram a desaparecer e, ao longo da história, sumiram ou ressurgiram ao sabor da moda. Num exemplar da Ladys Magazine do final dos anos 1820, verifica-se que um novo desenho labial foi adotado: o arco de cupido. Para obtê-lo, os lábios eram aumentados verticalmente em vez de crescerem no sentido longitudinal, com uma profunda fenda no lábio superior, bem abaixo do nariz. Isso dava à boca da mulher uma aparência infantil e transmitia aos galantes cavalheiros da época a atraente mensagem de que aquelas belas senhoritas precisavam de proteção. Nos tempos atuais, o uso do batom sustenta uma importante indústria, que cresceu ininterruptamente durante o século XX. No fim da era vitoriana, os lábios pintados de vermelho foram confinados às infamantes casas de prazeres em função da pudicícia e da hipocrisia da

época. Inúmeros clientes eram atraídos por suas cores convidativas e depois voltavam para suas pálidas esposas. Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, o batom iniciou sua lenta escalada social, passando dos bordéis aos teatros e daí para as bocas das mais ousadas freqüentadoras da sociedade boêmia. Depois da guerra, nos agitados anos 1920, os lábios pintados de vermelho se popularizaram nos salões de baile. Nos anos 1920 e 1930, o batom era usado pelas estrelas da florescente arte do cinema e logo se tornou uma norma social. Uma das primeiras estrelas do cinema, Clara Bow, reintroduziu os lábios de cupido, mas de uma forma mais audaciosa, quase um coração. Em 1925, Bow chegou a estrelar um filme intitulado My Lady's Lips (Os lábios de minha mulher). Na década de 1930, mulheres de personalidade mais forte entraram em cena e impuseram um novo estilo: a boca rasgada. Depois disso, a boquinha de coração desapareceu. Com o advento da Segunda Guerra Mundial, pelo menos entre as jovens, usar um batom vermelho-brilhante era um sinal de patriotismo, porque alegrava os bravos soldados. Cartazes de recrutamento exibiam lábios de um vermelho vivo, uma promessa de apoio feminino a qualquer um que estivesse disposto a defender seu país. Em 1945, com o fim da guerra, iniciou-se um período de austeridade. A paz retornara, e o batom era então um acessório trivial, apresentado apenas em uns poucos tons de vermelho. Nunca se tinha ouvido falar de batom de outra cor. Na década de 1950 tudo isso mudou. Na França e na Itália, os fabricantes de cosméticos introduziram o titânio branco na fórmula do batom para produzir cores mais pálidas, e com isso ampliaram enormemente o espectro de cores. As revistas de moda da época gozavam de grande influência e tinham o poder de lançar uma nova cor a cada ano — a cor que se tornava a coqueluche da

estação e depois desaparecia, substituída pela "ultima novidade". Nos anos 1960, com a chegada da pílula anticoncepcional e uma mentalidade mais aberta para a sexualidade, as mulheres puderam se expressar melhor como indivíduos. Em lugar de uma única cor dominante, uma enorme variedade de cores foi posta à sua disposição, inclusive diversas tonalidade pálidas. Com o surgimento do feminismo, na década de 1970, isso mudou rapidamente. Por algum tempo, pintar os lábios era o mesmo que ceder ao desejo masculino, e uma nova forma de puritanismo veio à tona. Os lábios das feministas eram naturais. Ao mesmo tempo, as mulheres protestavam violentamente contra a Guerra do Vietnã, e, quando não pertenciam ao movimento feminista, às vezes adotavam cores proibidas, como o azul, o púrpura ou mesmo o gótico preto. Quando a Guerra do Vietnã terminou e as jovens conquistaram uma maior igualdade social, os austeros modelos que lembravam uniformes foram abandonados, e as mulheres se sentiram livres para voltar a parecer mulheres. Durante os anos 1980 e 1990, o batom vermelho retornou mais uma vez. No início do século XXI, as mulheres passaram a expressar seu desejo sexual com uma franqueza nunca vista, e com essa confiança sexual e essa liberalidade cresceu a exploração erótica dos cosméticos para os lábios. Foram criadas três estratégias básicas: lábios mais vermelhos do que nunca, lábios de cor natural com o brilho do gloss ou uma combinação dos dois — muito vermelhos e muito brilhantes. Agora, a tônica era a individualidade. As mulheres deixaram de ser escravas de uma única moda. Uma cantora pop pode se apresentar com os lábios pintados de vermelho-vivo e, no próximo

show, subir ao palco com os lábios rosa-pálidos brilhantes ou sem nenhum batom. Os publicitários lançam mão de estimulantes descrições: lábios ultra-brilhantes, lábios suculentos, lábios deliciosos, lábios molhados. As fotos mostram lábios femininos tão úmidos que é impossível evitar a mensagem biológica subliminar: se a forte excitação sexual gera secreções genitais, os novos batons devem sugerir essa mudança fisiológica. Os fabricantes de batons criaram superlábios. A mensagem está clara para quem quiser ver: as mulheres estão mostrando que gostam de sexo e não se importam que saibam disso. Por mais impressionante que seja, toda essa tecnologia ocidental para embelezamento dos lábios femininos torna-se insignificante diante das mutilações labiais de certas sociedades tribais. Entre o povo surma, que habita o sudoeste da Etiópia, a mulher adulta é conhecida como "mulher-prato". Pouco depois que ela completa 20 anos, seis meses antes de se casar, um dos lábios é cortado e um pequeno prato, chamado labret, é inserido na boca. Isso estica o lábio para fora num anel de carne avermelhada. Assim que for possível, a jovem retira o prato e o substitui por outro ligeiramente maior, depois por um maior ainda, até ser capaz de exibir um lábio quase do tamanho de um prato de jantar. Nos primeiros tempos, o prato tinha a forma de cunha e era esculpido em madeira, mas mais recentemente a moda determina que ele seja circular e de cerâmica. Quando a mulher está sozinha, comendo, dormindo ou na companhia de outras mulheres, tem permissão para tirar o labret, e, quando faz isso, o lábio cortado e esticado fica pendurado. Quando os homens estão presentes, porém, o prato deve estar no lugar, e seu tamanho denota o valor da mulher. O tamanho do prato que uma jovem consegue tolerar será a medida de sua beleza e irá determinar quantas cabeças de gado ela vale quando sua mão for oferecida em casamento.

Essa forma bizarra de alargamento dos lábios existiu em muitas tribos africanas, não apenas entre os surmas, mas também entre os macondes do Quênia, os lobis de Gana e os sara-kabas e os ubândgis da bacia do Congo. Surpreendentemente, essa forma extrema de ornamento corporal foi descoberta por antigos exploradores numa parte completamente diferente do mundo, a costa ocidental do Canadá, onde as mulheres dos tliguites, na Colúmbia Britânica, exibiam grandes discos labiais. Mais uma vez, as mulheres que tinham os maiores discos eram as que desfrutavam de mais status. A técnica varia de uma tribo para outra. Algumas esticam apenas um lábio, outras os dois, enquanto outras pregam um pino de madeira acima e abaixo dos lábios. Em todos os casos, a intenção é alargar os lábios e chamar a atenção para eles. Entre os ubândgis, foi levantada a hipótese de que os chefes da tribo instigassem o procedimento para deter os mercadores de escravos árabes, que achavam as mulheres com esse ornamento feias e iam buscar escravas em outra tribo. Embora tenha sido amplamente divulgada, essa história parece não ter muito fundamento. O mais provável é que, como outras tribos que adotavam esse costume, os ubândgis achassem os lábios esticados um sinal de beleza, e que a repulsa dos mercadores de escravos fosse apenas um bônus. Outras tribos usavam técnicas diferentes. Os shilluks do Sudão preferem os lábios tingidos de azul e os ainus do Japão gostam de lábios tatuados. As tatuagens de estrelas na infância e as tatuagens em preto e azul quando as mulheres atingem a idade adulta se espalham da boca em direção às orelhas. Em algumas tribos das Filipinas, uma goma de mascar feita de nozes de bétele era usada para tornar os lábios encarnados. Quando os primeiros exploradores puseram os olhos nesses extravagantes lábios, acharam difícil creditar que

eles resultassem de sacrifícios que as mulheres dessas tribos infligissem a si mesmas: "...elas nascem com os lábios inferiores desse tamanho, que caem até o peito e mostram aquela chaga do lado que pende para fora e que, quando o calor do sol é extremo, apodrece, de modo que elas não têm outra maneira de se curar senão jogando sal continuamente sobre ela!" Esse relato foi feito por John Bulwer em 1654, em um dos primeiros livros antropológicos já publicados. É evidente que não lhe ocorreu que os problemas de saúde decorrentes desses imensos lábios resultavam do corte do lábio para a colocação de grandes discos. A cirurgia plástica dos lábios, que já foi tão comum nas tribos africanas, não seria vista nas sociedades urbanas por muitos séculos, mas recentemente reapareceu na Califórnia, numa nova forma. Atrizes de Hollywood, cientes do apelo sensual de lábios grossos e suculentos, começaram a procurar diferentes procedimentos cirúrgicos para "melhorar" seus lábios. Sem entrar em detalhes técnicos, os pontos principais desse tipo de cirurgia plástica podem ser resumidos nos seguintes (embora novos procedimentos estejam sendo introduzidos o tempo todo): O procedimento menos drástico é a aplicação de uma série de injeções de colágeno ou gel hialurônico cm vários pontos do contorno dos lábios. O efeito dura de três a seis meses, o que permite a uma atriz, por exemplo, usar os novos lábios para um determinado papel. Uma intervenção mais duradoura requer uma intervenção cirúrgica, com a abertura de um canal que atravessa os lábios de um canto ao outro. Esse espaço oco que é preenchido com um material capaz de ser absorvido pelo tecido labial. Esse preenchimento pode ser feito com materiais sintéticos, com Alloderm, implante sólido retirado da pele desidratada de pessoas mortas, e com a

própria gordura da paciente, que é extraída das nádegas, purificada e depois injetada nos lábios. Finalmente, a forma mais extrema de intervenção: a cirurgia plástica dos lábios. Trata-se de uma remodelação permanente e precisa ser realizada num centro cirúrgico. Leva cerca de uma hora e tem a desvantagem de deixar cicatrizes, que, embora fiquem escondidas dentro da boca, são sentidas. "Todas essas intervenções têm um dos seguintes objetivos: preencher os lábios ou projetá-los para fora. A obtenção de um ou outro resultado dependerá da colocação precisa das substâncias. Às vezes, um procedimento para preenchimento dos lábios tem o efeito de eliminar a forma de arco de cupido do lábio superior. Em lugar da fenda natural, a linha superior se curva ligeiramente sob o nariz, dando ao lábio uma aparência artificial. O risco desses procedimentos cirúrgicos é que, depois de modificados os lábios, eles podem não se harmonizar com o rosto. Certas atrizes adquirem lábios tão protuberantes que ofuscam todas as outras feições do rosto (e que algumas vezes são chamados com sarcasmo de "beiços de truta"). Os que criticam essas intervenções acham que, a não ser no caso de lábios excessivamente finos, as mulheres deviam pensar duas vezes antes de se submeter a uma cirurgia desse tipo. Mas essa é uma opinião que não parecer estar sendo levada em conta, porque o século XXI está testemunhando uma rápido crescimento dessas cirurgias, que começaram na Califórnia e se espalharam pelo mundo todo. Não há dúvida de que, se os cirurgiões e dermatologistas executarem bem o seu trabalho e evitarem armadilhas como as mencionadas, o rosto feminino pode se tornar muito mais sensual, tal é o impacto erótico da forma dos lábios.

Até aqui, consideramos os lábios apenas do ponto de vista estético, mas, naturalmente, essa não é sua única função. Numa recente pesquisa sobre os dez pontos de contato mais importantes do corpo da mulher, os lábios foram considerados a zona mais erógena. Não os seios ou os genitais, mas os lábios. É verdade que, em estágios mais avançados da relação sexual, a estimulação do clitóris tem maior probabilidade de conduzir ao orgasmo, mas, na fase das preliminares, é o contato com o lábio o fator de maior excitação, segundo as mulheres entrevistadas para a pesquisa. Isso pode explicar por que, tradicionalmente, as prostitutas dizem ''nada de beijo", embora permitam todo tipo de contato genital. Indagadas sobre esse tabu, elas respondem que não permitem o beijo na boca não por razões de higiene, mas porque ele é "muito pessoal", uma afirmação que diz muito sobre o significado dos lábios femininos. Isso também talvez explique por que, em alguns países, como o Japão, a tradição não recomenda beijar em público. O beijo na boca tem uma origem curiosa. Quando os amantes unem os lábios com a boca aberta e um começa a explorar o interior da boca do outro com a língua, estão realizando um ato que remonta a épocas primevas. Quando as mulheres das tribos precisavam desmamar os filhos e introduzir alimentos sólidos, costumavam mastigar o alimento até torná-lo macio e liquefeito. Então, colocavam a boca aberta sobre a boquinha do bebê e, usando a língua, transferiam para ele o alimento. Quando cresciam, os bebês passavam a experimentar o alimento com sua própria língua assim que o contato boca a boca era feito. Dessa forma, esse movimento exploratório da língua se ligou indelevelmente ao ato de amor. Deste longínquo início nasceu o beijo de amor entre adultos. Esquecemos como chegamos até aqui porque hoje é extremamente raro encontrar exemplos sobreviventes desse ritual primitivo de alimentação. Ele ainda ocorre em

algumas tribos remotas, mas é desconhecido ou foi esquecido cm quase toda parte. Vale lembrar que, devido à grande sensibilidade dos lábios femininos, seu contato com diferentes partes do corpo masculino durante a relação sexual é menos altruísta do que pode parecer. De acordo com o estudo clássico sobre a sexualidade feminina realizado por Kinsey e seus colegas, publicado há mais de meio século, algumas mulheres são capazes de chegar ao orgasmo durante prolongados beijos na boca, e isso pode ocorrer mesmo sem qualquer contato genital. Umas poucas mulheres também são capazes de atingir o orgasmo aplicando os lábios ao falo masculino. Pode parecer que elas estejam apenas excitando o homem, mas as terminações nervosas da mucosa dos lábios femininos são tão refinadas que cada toque no corpo do amado envia de volta um forte estimulo sexual. Nesse aspecto, como em muitos outros, a fêmea humana é a mais desenvolvida de todos os primatas. O contato oral-genital — que hoje sabemos não é uma invenção da sociedade ocidental "decadente", mas desempenhou um importante papel nas atividades sexuais de muitas culturas por milhares de anos — está fortemente relacionado ao prazer oral do bebê ao sugar os seios maternos. Quando uma amante suga o pênis do parceiro, os movimentos de sua boca lhe recordam o prazer que sentia ao sugar os seios da mãe. A impressão deixada pela primeira fase oral permanece com ela de alguma forma por grande parte de sua vida adulta. Vale acrescentar que, para Freud, o prazer oral adulto reflete uma privação infantil. Segundo essa teoria, um bebê ao qual tenha sido negada a recompensa normalmente oferecida pela mãe passará o resto da vida tentando compensar essa perda. Em casos extremos, talvez isso seja verdade, mas o que Freud não considerou

foi que os prazeres experimentados em qualquer fase da vida são capazes de estabelecer padrões de comportamento para o futuro. Um indivíduo que sugou o seio materno, como faz a maioria dos bebês, dificilmente perderá a chance de experimentar maneiras adultas de recapturar esse prazer — simplesmente porque não houve nenhuma privação infantil. A atitude negativa de Freud em relação a adultos que gostam de beijar, fumar, comer doces e tomar bebidas quentes não é difícil de entender, porque sua boca era fonte de interminável sofrimento. Ele tinha câncer do palato, que precisou ser removido em grande parte em trinta e três cirurgias. Portanto, ele deve ser perdoado por essa postura contra esses adultos que ele considerava "oralmente dependentes, com fixação em seios e infantilizados" simplesmente porque, ao contrário dele, eram capazes de desfrutar dos prazeres orais. Finalmente, é importante examinar os lábios femininos como emissores de sinais faciais. As mudanças de humor provocam quatro diferentes movimentos dos lábios: abertos e fechados, para a frente e para trás, para cima e para baixo, tensos e frouxos. Combinadas de diferentes maneiras, essas quatro mudanças nos dão um enorme espectro de expressões. As mudanças são efetuadas por um conjunto complexo de músculos que funcionam basicamente da seguinte maneira: Ao redor dos lábios existe um forte músculo circular, o orbicularis oris, que se contrai para fechá-los. É esse músculo que trabalha quando os lábios estão apertados ou adotam qualquer outra expressão contraída. Costuma-se vê-lo como um simples esfíncter, mas isso seria subestimá-lo. Se o músculo todo se contrai, os lábios se mantêm fechados, mas se suas fibras mais profundas são fortemente ativadas, a contração pressiona os lábios fechados contra os dentes. Por outro lado, se suas fibras superficiais são ativadas, os lábios se fecham e se projetam para a frente. Portanto, o mesmo músculo,

operando de maneiras diferentes, pode gerar os lábios suavemente contraídos que convidam a um beijo ou os lábios tensos de quem espera levar um tapa na cara. A maioria dos outros músculos da boca trabalha contra esse músculo circular central, lutando para manter a boca aberta em outra direção. Simplificando muito, o músculo levator ergue o lábio superior e ajuda a criar expressões de dor e desdém. O músculo zygomaticus empurra a boca para cima e para baixo em expressões alegres, no sorriso e na gargalhada. O músculo triangularis empurra a boca para baixo e para trás, gerando a expressão de tristeza. O músculo depressor empurra o lábio inferior para baixo, ajudando a formar a expressão de aversão ou de ironia. Existem ainda o músculo levator menti, que ergue o queixo e projeta o lábio inferior para fora em expressões de desafio, e o buccinator, ou músculo do trompete, que comprime as bochechas contra os dentes. Ele é usado não apenas para soprar instrumentos musicais, mas também ajuda na mastigação dos alimentos. Quando sente uma dor aguda, pavor ou raiva, o ser humano usa outro músculo, o platysma da região do pescoço, que puxa a boca para baixo e para os lados em função da tensão do pescoço que antecipa um ferimento físico. Para complicar ainda mais as coisas, diversas vocalizações acompanham as expressões da boca. Elas provocam uma abertura maior ou menor da boca, o que introduz um novo elemento nas sutis expressões faciais. Tomemos como exemplo as expressões contrastantes de raiva e medo. A principal diferença está no movimento dos cantos da boca. Na raiva, eles são empurrados para a frente, como se avançassem sobre o inimigo; no medo, eles se retraem, como se fugissem de um ataque. Mas esses movimentos opostos dos cantos da boca podem existir com a boca aberta emitindo um som ou com a boca fechada e em silêncio. Na raiva silenciosa, os lábios são pressionados

um contra o outro, com os cantos da boca para a frente; na raiva ruidosa, acompanhada de um berro ou de um ronco, a boca se abre, expondo os dentes superiores e inferiores, mas ainda com os cantos da boca para a frente, gerando uma abertura quase quadrada. No medo silencioso, os lábios se retraem e se retesam ate formar uma fissura horizontal, com os cantos da boca puxados o máximo para trás; no medo ruidoso, acompanhado de um grito ou de uma arfada, a boca se abre inteiramente, esticando os lábios para cima e para trás ao mesmo tempo. Como o medo retrai os lábios, a pessoa que grita expõe menos os dentes do que a que rosna. As expressões de felicidade também têm versões abertas e fechadas. Quando são empurrados para trás e para cima, os lábios podem se manter em contato, o que resulta num sorriso silencioso. Mas eles também podem se separar e produzir o amplo sorriso no qual os dentes superiores são expostos. Quando se acrescenta o som da risada, a boca se mantém aberta e os dentes inferiores também podem se revelar, mas, devido à curva para cima dos lábios esticados, os dentes inferiores nunca são inteiramente expostos como os superiores, por maior que seja a gargalhada. Se uma mulher ri e expõe totalmente os dentes inferiores, podemos duvidar da sinceridade de sua expressão vocal. Outra característica da expressão alegre é a prega de pele que aparece entre os lábios e a bochechas. Essas linhas diagonais, causadas pela elevação dos cantos da boca, são dobras nasolabiais que variam consideravelmente de indivíduo para indivíduo. Elas "personalizam" o sorriso, um importante fator para o fortalecimento dos laços de amizade. O sorriso triste ilustra outra sutileza das expressões femininas, qual seja, a capacidade de combinar elementos aparentemente incompatíveis para transmitir estados de

espírito complexos. No sorriso triste, todo o rosto se compõe numa aparência de olhos brilhantes e de bom humor, a não ser pelos cantos da boca, que se recusam a se erguer na posição adequada. Em vez disso, caem para criar o "sorriso heróico" da mulher que está sendo assediada ou o sorriso irônico da professora que recusa um pedido. Existem muitas outras expressões mistas, que oferecem ao rosto feminino um rico repertório de sinais visuais.

9. Boca
A boca feminina funciona o tempo todo. Outros animais usam a boca para morder, lamber, sugar, mastigar, engolir, tossir, bocejar, rosnar, gritar e grunhir, mas a fêmea humana acrescenta a essa lista outras funções. Ela usa a boca também para falar, sorrir, rir, beijar, assobiar e fumar. Por isso, não surpreende que a boca tenha sido definida como o campo de batalha do rosto". Dentro dos lábios, a boca contém um elemento essencial: a língua. Sem ela, as mulheres não poderiam falar e perderiam uma de suas grandes qualidades, que é a capacidade de se comunicar verbalmente melhor do que qualquer outro animal no mundo, melhor ainda do que o homem. Pesquisas sobre o cérebro confirmaram algo de que muitos já suspeitavam: as mulheres são, por natureza, mais fluentes que os homens. Essa é uma afirmação evolucionária, e não cultural. Quando diante de uma tarefa verbal, uma parte maior do cérebro da mulher é empregada em registrar uma solução. As mulheres primitivas foram as comunicadoras da vida tribal (enquanto os homens ficavam fora da tribo, abatendo as presas com pouco mais do que um grunhido a romper o silêncio), e as mulheres atuais herdaram essa qualidade, o que lhes dá uma grande vantagem. O papel da língua na fala às vezes é subestimado. A laringe recebe o crédito, mas esse erro é rapidamente corrigido quando se tenta falar com a língua presa no assoalho bucal. Qualquer pessoa que tenha visitado um dentista sabe disso. Naturalmente, a língua também desempenha um papel primordial na alimentação, estando envolvida nos atos de experimentar, mastigar e engolir. Sua superfície rugosa é coberta de papilas que contêm entre 9 e 10 mil

receptores gustativos, que são capazes de distinguir quatro sabores: doce e salgado na ponta da língua; azedo dos lados da língua; e amargo na parte posterior da língua. Costumava-se pensar que todos os sabores são percebidos na parte superior da língua, mas hoje se sabe que não é isso que ocorre. Existem receptores dos sabores doce e salgado em outras partes da boca, em especial na parte superior da garganta, enquanto os receptores do azedo e do amargo estão no céu da boca, no ponto onde o palato duro se junta ao palato mole. Acredita-se que essas sensações de paladar existem porque era importante para nossos ancestrais reconhecer quando uma fruta estava doce e madura, manter um equilíbrio correto do sal e evitar certos alimentos perigosos — que apresentariam um sabor excessivamente amargo ou ácido. Todos os sutis sabores de nossos alimentos derivam de uma mistura desses quatro sabores básicos, com a ajuda dos aromas que percebemos com o olfato. Além dos sabores, a superfície da língua também reage à textura dos alimentos, ao calor e à dor. Durante a mastigação, a língua rola o alimento na boca, em busca de caroços ou pedaços maiores. Quando julga que todos os pedaços foram devidamente triturados ou rejeitados, ela participa da função crucial de engolir. Para fazer isso, a ponta da língua pressiona o céu da boca e sua parte posterior se arqueia para catapultar a mistura de alimento e saliva para dentro da garganta em direção ao estômago. Não reparamos nesse complexo movimento muscular porque ele é automático, tão elementar, de fato, que os bebês são capazes de executá-lo antes mesmo que ele seja necessário, quando ainda estão no ventre da mãe. um Quando a refeição termina, a língua funciona como palito gigante, tentando desalojar partículas

indesejáveis de alimento que possam ter ficado presas entre os dentes. Por estar protegida dentro da boca, a língua raramente foi alvo de alguma "melhoria" cosmética. Entretanto, no final do século XX, a boca das mulheres sofreu uma estranha e nova intrusão, na forma dos piercings. Tentando encontrar novas maneiras de obter a desaprovação dos adultos, os jovens se submetem à dor de ter a língua perfurada para a inserção de piercings de metal. Embora prejudique a clareza da dicção, essa forma de mutilação tem sido adotada até por cantoras pop. Além de seu papel como símbolo de revolta social, o piercing na língua parece oferecer apenas uma vantagem. De acordo com o parceiro de uma usuária, o beijo na boca sem piercing é como um filé sem mostarda. Uma desvantagem ainda não percebida foi descoberta no verão de 2003, quando uma inglesa de férias em Corfu foi atingida por um raio atraído pelo piercing de metal na língua. A corrente percorreu todo o corpo e ela quase morreu. A língua ficou gravemente ferida, e a jovem ficou temporariamente cega e incapaz de falar durante três dias. Mais tarde ela declarou que precisava de férias para recarregar as baterias, mas o piercing tinha levado isso ao pé da letra. Dentro da boca ficam os dentes, que na espécie humana são utilizados quase exclusivamente para a alimentação. A mulher pode usá-los uma vez ou outra para cortar um fio, mas, ao contrário de outras espécies, praticamente só os utiliza para se alimentar. Dê a um macaco um objeto estranho e ele quase de imediato o levará à boca para explorá-lo com os lábios, a língua e os dentes. Depois ele vai manipulá-lo com seus dedos hábeis, mas há uma dependência entre o contato digital e o oral, em que a oralidade desempenha o principal papel. Isso também ocorre nos bebês humanos, cujos pais precisam

estar sempre atentos para que eles não enfiem objetos perigosos na boca. À medida que amadurecemos, porém, a boca vai perdendo seu "papel exploratório", que é realizado quase exclusivamente pelas mãos. Essa mudança também ocorre quando ê preciso lutar. O macaco, quando está furioso, agarra o adversário e o morde. O homem ataca o inimigo na cabeça, soca, chuta e o agarra num corpo-a-corpo. Só morde como um último recurso. O mesmo ocorre na hora de matar uma presa. Mais uma vez — com a ajuda das armas —, as mãos assumiram a tarefa da mordida letal tão comum entre os carnívoros. Com essa passagem da boca para a mão, os dentes humanos se tornaram bastante modestos comparados com os das outras espécies. Nossos caninos não são mais presas de pontas afiadas. São apenas ligeiramente mais longos que os outros dentes, com a ponta rombuda a lembrar nossos ancestrais. A mulher adulta possui 32 dentes, 28 dos quais já estão estabelecidos na puberdade, depois de substituir gradualmente os pequenos dentes de leite da infância. Os últimos quatro dentes, os dentes do siso, só nascem quando nos tornamos adultos. Em muitos casos, alguns deles — ou mesmo todos — não aparecem, de modo que a boca de um adulto pode ter de 28 a 32 dentes. Existem leves diferenças entre os dentes do homem e da mulher, principalmente nos incisivos superiores. Os dentes masculinos geralmente são mais angulosos e rombudos. Como as mulheres possuem uma arcada menor que a dos homens, seus dentes tendem a ser levemente menores. Além da função de partir e mastigar os alimentos, os dentes também são capazes de agarrar, apertar, triturar, roer, ranger, rilhar e bater com o frio. Os dentes se apertam em momentos de intenso esforço físico ou quando

a pessoa antecipa uma dor. Essa é uma expressão que podemos ver no rosto de um lutador e na criança que está prestes a receber uma injeção. É uma reação primitiva a uma possível dor física. Se um soco atingir o rosto de uma pessoa que está de boca aberta, com certeza causará mais dano, fazendo os dentes se chocarem, com o risco de quebrá-los ou deslocar a arcada inferior. Ranger, ringir e rilhar os dentes é praticamente a mesma coisa, o que nos leva a pensar por que a língua precisa de três palavras para definir uma ação que é tão raramente usada na vida real. Entretanto, muitos indivíduos rangem os dentes quando dormem, o que indica uma raiva reprimida. Mais uma vez, trata-se de uma reação primitiva que ressurge como uma espécie de "sonho muscular", no qual o indivíduo frustrado morde simbolicamente o inimigo na segurança do sono. Embora o esmalte dos dentes seja a substância mais dura de todo o corpo humano, a queda de dentes é muito comum no mundo atual. As causas parecem bastante óbvias. Uma bactéria que sobrevive na boca, o Lactobacillus acidophilus, adora carboidratos, e, se partículas de alimentos açucarados ou farináceos ficam presas aos dentes ou às gengivas, rapidamente fermentam em ácido lático. A bactéria adora esse ácido ainda mais e começa a se reproduzir, acelerando muito o processo, até que a saliva se torne anormalmente ácida. A acidez corrói a superfície do dente, fazendo pequenos furos no esmalte. Todo esse processo foi confirmado de várias maneiras. As crianças que cresceram no tempo da guerra na Europa, quando quase não havia açúcar refinado ou farinha, apresentaram menos cáries. Animais alimentados com uma dieta rica em açúcar não perdiam dentes quando o alimento era ingerido por um tubo, sem contato com os dentes. Além disso, chimpanzés que vivem soltos na floresta têm excelentes dentes, ao passo que aqueles que

recolhem alimentos perto de apresentam dentes estragados.

povoados

humanos

No entanto, existem alguns fatos estranhos sobre a resistência dos dentes. Alguns indivíduos parecem ser quase imunes à queda mesmo quando tem uma dieta excessivamente doce, enquanto outros perdem dentes apesar de todo o cuidado tanto com a alimentação quanto com a higiene. A lógica indica que os dentes incisivos centrais inferiores estariam mais sujeitos a reter alimentos e, portanto, a sofrer um ataque maior de ácido lático. Surpreendentemente, são eles os mais resistentes à queda. No mundo ocidental, quase 90% das pessoas possuem incisivos centrais inferiores sadios. Por outro lado, mais de 60% perderam os molares superiores. Apesar dos grandes avanços da odontologia, os dentes continuam guardando alguns mistérios. O olhar ocidental sempre considerou uma dentadura branca e saudável uma marca de beleza, mas muitas culturas têm outra visão. Alguns povos costumavam remover os incisivos centrais para enfatizar os caninos, o que tornava a boca mais ameaçadora e feroz — quase um rosto de Drácula. Essa técnica foi utilizada em regiões da África, da Ásia e da América do Norte. Outro método para fazer os dentes parecerem selvagens é dar-lhes pontas afiadas. Isso também ocorreu em muitas partes, da África ao Sudeste Asiático e às Américas. Pedras preciosas ou metais eram entalhados no dente como demonstração de status. Muitas dessas operações e mutilações eram executadas em épocas especiais da vida na tribo, especialmente na puberdade e no casamento, o que implica que a boca era usada simbolicamente como "genitais deslocados". Em algumas regiões, o impacto dos dentes foi reduzido em vez de exagerado. Em Bali, por exemplo, os jovens eram submetidos a um doloroso lixamento para

arredondar a ponta dos caninos e fazer a boca parecer menos animal. Em outras culturas orientais, as mulheres enegreciam os dentes ou os tingiam de vermelho-escuro, fazendo-os desaparecer da vista e criando uma expressão infantil, como se de repente tivessem regressado ã fase desdentada da infância. Dessa forma, conseguiam parecer mais submissas a seus machos. Como no Ocidente ter dentes cada vez mais brancos e brilhantes é um fator essencial de beleza (uma beleza que hoje pode ser favorecida por modernas técnicas de branqueamento), é difícil para um ocidental aceitar que dentes pretos sejam atraentes. Afinal, se o branco é a cor dos dentes jovens e saudáveis, como o escurecimento pode ser considerado uma marca de beleza? A resposta, na época de Elizabeth I da Inglaterra, estava no preço do açúcar. Só os muito ricos podiam se dar o luxo de comer doces, fazendo com que os dentes ficassem cariados e descoloridos. Portanto, se a pessoa era pobre demais para estragar os dentes dessa maneira, tinha que fingir o contrário. Daí surgiu a idéia bizarra de que escurecer os dentes proporcionava uma aparência de alta classe e fazia a mulher mais bela perante a sociedade. Afinal, a própria rainha tinha dentes escuros de tanto comer confeitos açucarados. Dentes pretos também foram moda no antigo Japão. Eles eram tingidos dessa cor como parte de uma elaborada maquiagem usada pelas mulheres de alta casta. Dizia-se que dentes pretos (chamados ohaguro) tornavam uma dama especialmente bela. A tinta era obtida pela diluição de limalha de ferro em saquê ou chá. Essa moda atingiu o auge no século XVII e entrou pelo século XIX, até que, em 1873, a imperatriz passou a exibir dentes brancos. Desde então, a moda de dentes pretos entrou em rápido declínio. Em outras partes do Oriente, mascar bétele também causava o escurecimento dos dentes. Folhas de bétele,

nozes de palmeiras e uma pasta obtida a partir das conchas do mar eram misturadas até constituir uma massa que era mascada como o tabaco. Pedaços de nozes eram cobertos com a pasta e depois embrulhados nas folhas de bétele. Mascado repetidamente, esse pacote funcionava como um estimulante que também avermelhava os lábios e escurecia os dentes. Seu uso se disseminou tanto no Sudeste Asiático que as mulheres nativas diziam: "Só os cães, os fantasmas e os europeus têm dentes brancos". Sua popularidade começou a declinar no século XIX, primeiro nas cidades e depois nas áreas rurais. Como o bétele geralmente só deixava os dentes marrons, em alguns países — o Vietnã, por exemplo — as mulheres que queriam ter dentes pretos para ficar ainda mais belas precisavam se submeter a alguns procedimentos. Pintar os dentes com verniz preto era a solução, mas não tão simples, porque a saliva removia o verniz. Por causa disso, a aplicação do verniz tinha que obedecei a um ritual que envolvia vários tratamentos e restrições, entre elas a de não comer nenhum alimento sólido por uma semana e tomar líquidos apenas por um canudinho. Para as adolescentes, havia um ritual de puberdade, depois do qual a jovem era considerada suficientemente bela para se casar. Se alguém lhes perguntasse qual a razão disso, elas respondiam que dentes brancos só serviam para selvagens e animais. No fim do século XX, as mulheres modernas do Ocidente mostraram os primeiros sinais de interferência na superfície branca dos dentes. Não havia nenhum dente preto à vista, mas a nova moda pedia "jóias dentais". As pioneiras dessa moda chegaram a ponto de fazer pequenos furos nos dentes para incrustar neles minúsculos diamantes. O sorriso brilhante se transformou num sorriso ofuscante. Mas esse procedimento era drástico demais para a maioria das mulheres, e a moda não pegou. Então, algumas celebridades, entre elas uma

das Spice Girls, ousaram exibir um dente de ouro. Logo foi possível ter uma capa dental provisória de ouro. Depois, a moda de incrustar pequenas jóias nas unhas passou para a boca, e as jóias nos dentes de repente se tornaram populares. Seu sucesso se deve ao fato de que a colocação, feita com cola dental, leva apenas três minutos, e a pedra pode ser facilmente removida. Minúsculos cristais na forma de corações, flores, círculos ou estrelas, de 2 a 4 mm de tamanho, são exibidos por um dia ou por um ano. Algumas jóias são ostentosas, outras são discretas, dependendo do dente em que foram aplicadas. Embora sejam decorativas, o fato de terem maculado o sorriso branco provavelmente faz delas não mais que uma moda passageira. Os dois principais elementos da boca — os dentes e a língua são mantidos úmidos pelas secreções de três pares de glândulas salivares. As duas que estão embutidas nas bochechas são conhecidas como glândulas parótidas e produzem cerca de 25% da saliva; as duas situadas sob a mandíbula, abaixo dos dentes molares — as glândulas submandibulares —, são as mais produtivas, responsáveis por cerca de 70% da saliva; e as duas situadas sob a língua — as glândulas sublinguais — contribuem com os restantes 5%. A produção diária de saliva varia entre 600 e 1.500 ml. Mais alimento significa mais saliva, e medo e uma forte excitação significam menos saliva. Quando sai dos condutos das glândulas salivares, a saliva está livre de bactérias, mas depois de circular pela boca algumas vezes ela terá coletado entre 10 milhões e 1 bilhão de bactérias por centímetro cúbico. Ela as adquire dos minúsculos fragmentos de "caspa úmida" que estão sempre presentes na boca à medida que velhas camadas de pele se desprendem e são substituídas por novos tecidos.

A saliva tem várias funções. Ela umedece o alimento e torna-o acessível aos receptores gustativos, uma vez que não se pode sentir o sabor do alimento seco. Ela também lubrifica o bolo alimentar antes que ele seja engolido, e dessa forma facilita sua passagem pelo esôfago. Seu poder lubrificante é aumentado pela presença de uma proteína chamada mucina. Depois que o alimento é mastigado por algum tempo, uma enzima da saliva chamada ptialina começa a quebrar o amido em maltose. A ptialina também funciona como um antigermicida oral, assim como outras lisozimas que ajudam a limpar a boca e os dentes. A saliva também contém elementos químicos que criam um meio levemente alcalino, ajudando a reduzir o ataque ácido ao esmalte dos dentes. Finalmente, a ação lubrificante da saliva melhora a qualidade da voz, como sabe qualquer pessoa que tenha tentado falar com a boca seca.

10. Pescoço
No Ocidente, os homens costumam olhar o pescoço da mulher simplesmente como algo que segura a cabeça. Eles sabem que a pele do pescoço é sensível a carícias e que beijá-lo suavemente pode excitar a parceira durante as preliminares do sexo, mas, além disso, quase não lhe dão atenção. Com certeza o pescoço não é considerado uma zona erógena importante. A situação é muito diferente no Japão, onde a exposição da parte posterior do pescoço é* vista como um forte estímulo sexual — equivalente a expor os seios no Ocidente. É uma ação que se espera de uma gueixa, mas que é rejeitada pelas esposas respeitáveis. Tradicionalmente, toda gueixa era treinada na arte de expor elegantemente a nuca, e ainda hoje podemos constatar isso entre as poucas gueixas remanescentes de Quioto. Suas roupas têm uma gola alta na frente e baixa atrás, expondo a nuca e as costas. Como afirmou um

comentarista, homens de todo o mundo parecem apreciar a linha ondeada da nuca feminina, mas no Japão ela mergulha nas costas. Quando aplica sua maquiagem branca (que inclui um ingrediente vital: excrementos de rouxinol), a gueixa deixa uma margem de pele aparecendo junto à linha dos cabelos. Isso enfatiza a artificialidade da maquiagem e excita o homem, porque chama a atenção para a pele sob a máscara branca. Segundo um observador, o significado erótico desse costume é aumentado pela forma especial da nuca, "um V perfeito de pele nua que lembra as partes íntimas da mulher". Existe uma frase em japonês para descrever a beleza da linha da nuca feminina — komata no kmagatta hito —, mas seu significado mudou. Como a maquiagem é deliberadamente aplicada de modo a imitar a forma dos genitais, a frase hoje significa "uma gueixa com adoráveis genitais". Uma curiosa teoria tenta explicar o desvio da atenção erótica dos japoneses dos seios para a nuca. Afirma que, tradicionalmente, as crianças japonesas passam mais tempo agarradas às costas da mãe do que acarinhadas em seus seios. Essa, além do fato de que os seios das mulheres japonesas são relativamente pequenos, seria a razão para a fixação masculina na nuca. Anatomicamente, o pescoço tem sido descrito como a parte mais sutil do corpo humano. Além de conter conexões vitais entre boca e estômago, nariz e pulmões, cérebro e coluna, o pescoço abriga os principais vasos sangüíneos que ligam coração e cérebro. Cercando essas conexões existem complexos grupos de músculos que permitem que a cabeça execute toda uma gama de movimentos que transmitem importantes mensagens nas interações sociais.

Tradicionalmente, a figura feminina é dotada de uma gracioso "pescoço de cisne", enquanto a figura masculina exibe um "pescoço de touro". Essas diferenças são bastante reais. O pescoço feminino é mais longo e mais delgado, enquanto o masculino é mais curto e mais grosso. Isso ocorre em parte porque a mulher tem um tórax mais curto — e seu osso esterno é mais baixo em relação à coluna que o do homem — e em parte porque a musculatura do homem é mais forte. Não há dúvida de que essa diferença se estabeleceu durante a longa fase caçadora da evolução humana, quando os machos, que possuíam um pescoço mais forte, levavam vantagem em situações de violência física. Outra diferença de gênero em relação ao pescoço é a presença do pomo-de-adão, que é muito mais evidente nos homens que seu correspondente no pescoço das Evas. Isso ocorre porque as mulheres têm cordas vocais menores — o que lhes dá uma voz mais aguda e exige uma caixa vocal menor. As cordas vocais femininas têm cerca de 13 mm, enquanto as masculinas chegam a 18 mm. A laringe da mulher é cerca de 30% menor que a do homem, e fica colocada mais alto na garganta, o que a faz menos proeminente. Essa diferença laríngea não surge até a puberdade, quando a voz masculina "'engrossa". A voz da mulher adulta é mais infantil, mantendo uma freqüência entre 230 e 255 ciclos por segundo, enquanto a voz masculina adulta atinge entre 130 e 145 ciclos por segundo. Por alguma razão, as prostitutas experientes têm uma laringe maior e um registro vocal mais grave que outras mulheres. Por que sua profissão as tornaria mais masculinas vocalmente? Não se sabe ao certo, mas há quem tenha levantado a hipótese de que sua vida sexual mais ativa seria capaz de provocar algum desequilíbrio hormonal.

Como o pescoço feminino é mais delgado que o dos homens, os artistas têm exagerado essa diferença criando imagens superfemininas. Desenhistas que retratam mulheres atraentes quase sempre estreitam e alongam o pescoço mais do que a anatomia permitiria. As agências de modelos também selecionam moças que tenham o pescoço mais longo e mais fino que a média. Em uma cultura esse interesse por mulheres de longos pescoços foi levado a extremos. A tribo padaung, da Birmânia, se orgulha de ser conhecida na Europa por suas "mulheres-girafas". Na língua nativa, a palavra padaung significa "aquela que usa aros de bronze". O costume da tribo exige que as mulheres comecem a usar anéis de bronze no pescoço desde tenra idade. Para começar, cinco anéis são colocados ao redor do pescoço, um número que vai crescendo ano a ano. A mulher adulta chega a exibir entre vinte e trinta colares, mas o objetivo é atingir 32 — um feito raramente realizado. Os aros de bronze também são usados nos braços e pernas, de modo que uma mulher adulta pode carregar de 20 a 30 quilos de bronze. Apesar dessa carga, as mulheres da tribo caminham por longas distâncias e trabalham no campo. O aspecto mais surpreendente desse costume é o comprimento que o pescoço feminino pode atingir artificialmente. O recorde documentado é de 40 cm. Os músculos do pescoço são distendidos com tal força que as vértebras cervicais se afastam de uma maneira totalmente anormal. A crença é que, se os pesados aros de bronze forem removidos, o pescoço não será capaz de suportar o peso da cabeça. Os europeus, fascinados por essa distorção cultural do corpo humano, exibiam essas mulheres-girafas em espetáculos de circo — até que exibições desse tipo deixaram de ser consideradas socialmente aceitáveis.

Para as mulheres da tribo padaung, a principal preocupação não é, como se poderia imaginar, a distorção corporal ou a restrição de movimentos provocada por esse bizarro ornamento, mas a dificuldade de encontrar dinheiro para pagar os caros anéis de bronze. Uma solução encontrada recentemente foi escapar para a Tailândia, onde elas podem cobrar 10 dólares para tirar uma foto ao lado de um turista. Para alguns observadores, isso representa um deplorável retorno aos espetáculos circenses de antigamente, mas também se pode argumentar que, dado o alto custo dos anéis, isso pelo menos mantém vivo um antigo costume tribal. Se perguntarmos aos historiadores da tribo como esse costume começou, eles nos dirão que, em tempos remotos, as mulheres corriam o risco de serem atacadas por tigres, o que as obrigava a usar grossos anéis no pescoço para se proteger. Atualmente, as mulheres da tribo ignoram essa lenda e afirmam que chegam a esses extremos simplesmente parque esses ornamentos as deixam mais belas. Quem somos nós, ocidentais, com nossos piercings na língua, no umbigo e nos genitais, para criticá-las? Em círculos ocultistas, o pescoço sempre foi uma parte do corpo de grande importância. Não é por acaso que, na mitologia vampiresca, a mordida se dá sempre na lateral do pescoço. Em alguns cultos, como o dos vodus do Haiti, acreditava-se que a alma humana reside na nuca, e foi o significado místico do pescoço que gerou o uso de colares nos primeiros tempos. Eles eram mais que meros ornamentos, tendo a especial função de proteger essa parte vital do corpo humano de influências hostis, como o mau-olhado. O mais antigo colar conhecido não foi usado por nenhuma mulher moderna, mas por uma neandertalense. De fato, o colar é uma forma muito antiga de ornamento

corporal. Dois colares pré-históricos foram encontrados na França: o de La Quina, feito de dentes e ossos de animais, foi datado de 38.000 a.C, e o da Grotte du Renne, feito de dentes entalhados de animais, foi datado de 31.000 a.C. No oeste da Austrália, no sítio arqueológico de Mandu Mandu, foi encontrado outro extraordinário colar primitivo de 30.000 a.C. Finalmente, em Patnia, na região de Maharashtra, na Índia, foi descoberto um colar datado de 23.000 a.C., feito de contas circulares, manufaturadas com conchas de ostras. Esse poucos exemplos mostram claramente que usar um colar não era um traço cultural isolado, mas um costume que já estava bem disseminado há trinta milênios. Alguns dos primeiros colares eram feitos de objetos simples, como espinhas de peixe, mas um exemplar excepcional encontrado na França e fabricado há mais 11 mil anos, na Idade da Pedra Lascada, era feito de dezenove fragmentos de ossos lindamente entalhados, dezoito deles na forma de uma cabeça de cabra e um na forma de uma cabeça de bisão. Isso prova o cuidado que mereciam os. artefatos usados no pescoço. O pescoço também se tornou foco de certos rituais de ocultismo. Descobriu-se que, pressionando a artéria carótida, que passa pelo lado do pescoço e transporta o sangue para o cérebro, a pessoa ficava tonta e confusa — uma presa fácil à sugestão. O que acontecia, na verdade, era que o cérebro estava sendo privado de oxigênio, mas, para os iniciados nos rituais religiosos, essa condição podia ser convenientemente atribuída a forças sobrenaturais. Uma forma muito mais saudável de manipulação do pescoço foi desenvolvida por Matthias Alexander, que criou uma terapia corporal hoje conhecida como "técnica de Alexander". Baseia-se na idéia de que, modificando a postura do pescoço em relação aos ombros, é possível

curar não apenas certos sintomas físicos, mas também vários distúrbios psicológicos. Alguns críticos argumentam que esse conceito dá ao pescoço um poder quase místico sobre o resto do corpo, mas existe uma explicação simples para os resultados que a técnica obtém. Como no mundo urbano as pessoas passam muito tempo curvadas sobre uma mesa ou sentadas numa cadeira, o pescoço vai perdendo sua posição natural ereta. Se, com a técnica de Alexander, essa postura for restabelecida, o resto do corpo recupera automaticamente o equilíbrio. Está então estabelecida a base pata a restauração de um tônus muscular sadio, que por sua vez pode produzir um estado mental mais saudável. Na realidade, não é nada mais místico do que o treinamento postural que um bailarino recebe. Em ambos os casos, o pescoço parece ser a chave para a correta postura corporal. Quanto aos gestos, são relativamente poucos os que se concentram no pescoço. O mais conhecido é a mímica em que a pessoa usa a mão como uma faca prestes a cortar a garganta. Esse gesto tem dois significados intimamente relacionados. Se praticado com raiva, indica o que a pessoa gostaria de fazer com o outro. Se apresentado tomo um pedido de desculpas, mostra o que a pessoa deveria fazer a si mesma. Num outro contexto, executado por uma atriz quando percebe que a cena não está boa, significa simplesmente: "Corta!" Igualmente comum é o gesto que finge um estrangulamento, em que a pessoa agarra o próprio pescoço com as duas mãos e finge sufocar. Como o gesto anterior, esse também tem dois significados: pode significar "Quero esganar você" ou "Quero me esganar". Outro gesto popular é o que significa "Estou por aqui". Com a palma da mão virada para baixo, a pessoa bate o indicador várias vezes contra a garganta, tentando dizer que está tão cheia de alguma coisa que não a suporta mais.

Mais importantes do que esses gestos localizados são os muitos movimentos do pescoço que determinam diferentes posições da cabeça. Alguns deles buscam adaptar o corpo ao ambiente. É o que acontece quando a pessoa vira a cabeça para olhar alguma coisa, apruma-a para ouvir um som ou empina-a para cheirar o ar. Mas outros têm a função de transmitir sinais visuais; é o que acontece quando a pessoa faz um sinal positivo ou negativo com a cabeça, sacode-a, inclina-a, arremessa-a para trás ou aponta alguma coisa com ela. Nesses e em muitos outros movimentos do pescoço, não há diferenças entre homens e mulheres, mas existem três casos em que uma mensagem especificamente feminina é transmitida. O primeiro é o aceno da cabeça, com o qual a mulher diz "Venha comigo" ou "Venha aqui", substituindo o chamamento com o dedo indicador. Ele ocorre geralmente quando a mulher deseja fazer um sinal sem ser muito explícita. É o movimento de cabeça usado tradicionalmente pelas prostitutas a um possível cliente que hesita em se aproximar. Hoje, é usado às vezes entre um casal como um convite brincalhão ao sexo, no qual a mulher provoca o parceiro "bancando a prostituta". Outro gesto é aquele em que a mulher abaixa a cabeça e a mantém nessa posição. É uma maneira de alhear-se ao mundo exterior, mas, como provoca uma diminuição da altura, tem um quê de subordinação. Quando a mulher baixa repentinamente a cabeça para esconder o rosto, passa a imagem de modéstia e timidez., mas quando baixa a cabeça e ergue o olhar, passa a impressão de falso pudor. Um terceiro movimento, que costuma ser observado quando a mulher está num estado de espírito amigável ou amoroso, é aquele em que ela pende a cabeça para um lado e a mantém nessa posição, enquanto encara o companheiro a curta distância. É um movimento que tem

origem na infância, quando ela apoiava a cabeça no corpo da mãe ou do pai em busca de conforto e proteção. Quando ela faz isso na vida adulta, é como se estivesse apoiando a cabeça no ombro de um protetor imaginário. Mas a postura corporal madura e sensual contradiz esse gesto infantil, dando a ele uma conotação de falsa timidez. Se o movimento surge num clima de flerte, tem um ar de falsa inocência e coquetismo. A mensagem é: " Sou apenas uma menina em suas mãos e gostaria de descansar a cabeça em seu ombro". Num contexto de submissão, pode ser lido como: "Perto de você, me sinto uma criança, tão dependente como eu era quando descansava a cabeça no colo de meu pai". Entretanto, não é um gesto explícito, mas apenas sugestivo. Existem muitos outros movimentos e posturas produzidos pelos músculos do pescoço como sinais sociais específicos, mas os poucos mencionados aqui são suficientes para ilustrar sua sutileza e complexidade. Qualquer um que tenha sido obrigado a usar um colarinho de gesso depois de um ferimento sabe como a pessoa se sente limitada quando não pode se expressar com essa parte do corpo.

11. Ombros
Os ombros femininos são mais estreitos, mais arredondados e mais macios que os masculinos. Podem não ser tão fortes quanto os largos ombros dos homens, mas sua forma suavemente arredondada — resultante de uma camada subcutânea de gordura — lhes dá uma qualidade erótica sempre que aparecem despidos. E a moda das roupas de ombros descobertos contém a promessa de, a qualquer momento, deslizarem pelos ombros e revelar os seios. Os cantos arredondados dos ombros femininos — poeticamente descritos como "duas pérolas eróticas, uma de cada lado" — são dois pedaços de carne quase hemisféricos, e por isso evocam o apelo sexual primitivo contido na forma das nádegas. Esses pares de hemisférios, que exercem uma forte atração sobre os homens, se repetem não apenas nos seios, mas também nos joelhos e ombros quando a mulher adota determinadas posturas. Quando a mulher dobra as pernas e abraça-as firmemente junto ao peito, os joelhos, se expostos, formam um par de suaves hemisférios aos olhos masculinos. Da mesma forma, quando ombros nus são arqueados, também evocam o par esférico, atraindo ainda mais o olhar dos homens. Além disso, uma típica pose glamorosa, na qual a mulher apóia o queixo num ombro nu, enfatiza e chama a atenção para a curva e a maciez dos ombros. Dessa forma, os ombros, embora não exerçam uma função sexual primária, podem transmitir leves sinais eróticos. Antes de examinar como diversas culturas modificaram a linha natural dos ombros femininos, vale a pena fazer uma breve descrição da biologia dessa parte da anatomia humana. A principal função dos ombros é oferecer uma forre base para os múltiplos movimentos dos braços. Antes

mesmo que nossos ancestrais adotassem a postura ereta, nossas "patas dianteiras" já tinham se tornado muito versáteis. Os ossos do ombro são capazes de movimentos de cerca de 40 graus, e, com a ajuda de seus músculos complexos, ajudam os braços a balançar, se erguer, se torcer e girar de um surpreendente número de maneiras. O ombro da mulher corresponde em média a 7/8 do masculino. Mais importante é sua espessura. Nesse sentido, a diferença é maior, o que reflete a fraqueza relativa da musculatura dos ombros femininos. É claro que essa diferença de gênero gerou muitas especulações culturais. Se os ombros femininos são estreitos, estreitá-los ainda mais deveria aumentar a feminilidade. Entretanto, embora esse exagero seja possível em outras partes da anatomia feminina, é difícil aplicá-lo à região do ombro, e isso raramente foi tentado. Uma exceção aparece na obra antropológica de Jonn Bulwer, escrita no século XVII e intitulada A View of the People of the Whole World (Uma visão dos povos de todo o mundo), na qual ele mostra uma jovem com ombros anormalmente pequenos. "Ombros estreitos e contraídos eram tão apreciados pelas mulheres de antigamente que elas interferiam na posição deles e os adotavam diligentemente como um sinal de grande elegância e beleza. [...] Uma bela mulher esbelta era aquela [com] ombros atrofiados." Por outro lado, mulheres que queriam se afirmar adotaram ombros artificialmente largos, o que aconteceu em vários momentos de nosso passado recente. O artifício era visível nas roupas da mulher emancipada da década de 1890, que mostrava seu anseio de igualdade sexual e seu desejo de "ombrear" com os homens. Os historiadores da moda registraram essa mudança: "Os ombros ligeiramente estofados evoluíram para as ombreiras e daí para enchimentos que pareciam pequenos sacos, até que,

por volta de 1895, se transformaram em grandes balões tremulando acima dos ombros". Essas mulheres de ombros largos competiam com os homens graduando-se em universidades, trabalhando fora de casa e praticando esportes até então vedados a elas. Sob esse vestuário masculinizado, porém, elas continuavam usando espartilhos e anáguas.. Eram masculinas em público e femininas na vida privada. A segunda onda de ombros largos surgiu na década de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, quando modelos de estilo militar eram adotados mesmo por civis. Eles exibiam uma linha que se estendia além dos ombros. Era um modelo adequado para um tempo de guerra, na qual as mulheres desempenhavam um importante papel. A terceira onda chegou nos anos 1970, com o movimento de liberação feminina, inicialmente, assumiu um estilo "terrorista chique". Eram pseudo uniformes com ombreiras, nos quais, mais uma vez, os ombros quadrados davam à mulher um ar de força masculina. Também foi possível detectar uma mudança nos modelos de glamour. A estrelas do cinema não mostravam mais afetação ou meneios, mas passos firmes. Garotas de ombros largos passaram a ter oportunidades que lhes teriam sido negadas dos anos 1960 para trás. Como resultado dessa tendência, o fisiculturismo surgiu e ganhou adeptas. Algumas décadas antes, uma mulher musculosa seria vista como um mico de circo, mas no clima feminista ela se tornou símbolo da nova força das mulheres, que tinham ombros fortes para prová-la. Foi na década de 1980 que o uniforme feminista deu lugar ao terninho preto. Escritores do período descrevem esses ternos com "ombros à Joan Crawford", uma volta às rígidas ombreiras dos anos 1940. Mas esses enchimentos ficaram ainda mais exagerados à medida que uma nova geração de executivas começou a ganhar assento nas salas

de diretoria. Os ombros da década tiveram tal impacto que os jornalistas competiam na criação de novas frases. "A ombromania está tornando difícil achar espaço num elevador", disse um deles. "As fábricas de ombreiras do Bronx estão abrindo novas linhas de montagem depois de anos de inatividade"; "As mulheres estão tão agressivas que voltaram aos ombros definidos do tempo de guerra"; "Modelos de ombros naturalmente largos são as preferidas"; "Mulheres de ombros largos são duronas que exigem seu espaço"; "As mulheres nunca mais vão poder voltar para casa, porque os ombros não passam pela porta" — eram comentários ouvidos em meados dos anos 1980. Quando se iniciou a nova década, os ombros femininos se suavizaram novamente. O movimento feminista (pelo menos no Ocidente) tinha caminhado bastante para que a mulher pudesse desfrutar sua condição de fêmea, em vez de bancar o macho. A forma do ombro agora dependia do corte de um determinado modelo, e não mais de um ditame social. Curiosamente, embora nos anos 1990 as mulheres fossem livres para vestir o que quisessem, o conceito dos ombros largos sobreviveu como um rótulo verbal, embora não fosse mais uma realidade. Ainda em 1994 um artigo sobre o crescente domínio das mulheres executivas no mundo da publicidade intitulava-se "Por que as ombreiras estão de volta ao poder?". "Nessa época, as ombreiras estavam fora de moda, mas o conceito sobrevivia como uma metáfora do triunfo das mulheres num mundo masculino. Um aspecto dos ombros masculinos que as mulheres têm dificuldade de imitar é sua altura em relação ao chão. O ombro do homem é em média 13 cm mais alto que o feminino. Por isso, os homens sempre foram capazes de oferecer um ombro amigo a uma mulher que quisesse

chorar suas mágoas. Com as lágrimas e a vulnerabilidade fora de moda, a mulher moderna ainda enfrenta o poder dos ombros masculinos. Como esses ombros foram evolutivamente conquistados com a atividade da caça, parece-lhes injusto que o homem sedentário de hoje ainda exiba essa superioridade física. Infelizmente, a evolução atua num ritmo muito lento. Mais l milhão de anos será necessário para corrigir as coisas, e enquanto isso os ombros dos homens continuarão oferecendo um travesseiro para as mulheres. A única esperança de igualdade está no uso de saltos altos. O problema é que saltos muito altos criam instabilidade e a necessidade de uma mão masculina como apoio, o que anula a pretensão. Por enquanto, pelo menos fisicamente, as mulheres serão obrigadas a olhar para cima para falar com um homem, embora mentalmente tenham adotado uma postura bastante diferente. A mobilidade dos ombros é extraordinária. Mesmo quando não estão envolvidos no movimento dos braços, são capazes de subir, descer, girar e encolher. Alguns desses movimentos são eloqüentes na linguagem corporal, mas para entende-los é preciso examinar as razões pelas quais a mulher primitiva adotava uma ou outra postura. De forma geral, os ombros ficam abaixados e para trás quando o estado de espírito é de calma e atenção, e levados para o alto e pura a frente em momentos de ansiedade, alarme ou hostilidade. A mulher resoluta e controlada mantém os ombros baixos e retos. Mulheres que se sentem dominadas, com medo ou com raiva tendem a subir os ombros num ato de defesa. Se alguém ameaça atacar uma mulher na cabeça, ela automaticamente tenta proteger-se enfiando a cabeça nos ombros, uma postura que se tornou sinônimo de qualquer situação desagradável. Daí decorre que, quando a mulher tem um dia estressante, cheio de decepções ou irritações, costuma

manter os ombros erguidos e tensos. Essa postura pode ser útil se ela for atacada com um bastão, mas não terá qualquer utilidade se ela estiver sendo agredida com palavras. No final de um desses dias, ela terá os ombros ligeiramente mais curvos do que pela manhã, quando começou o dia. Se essa situação se repete dia após dia, semana após semana, ela poderá adquirir uma postura curvada, com os ombros permanentemente erguidos e contraídos. O pescoço alongado que ela possuía quando criança lentamente se encolhe e afunda nos ombros até desaparecer. Na velhice, o queixo chegará a tocar o peito. Mulheres de sucesso (o que significa ter sucesso não só para o mundo exterior, mas para elas mesmas) não passam por esse gradual declínio e são capazes de exibir uma postura ereta aos 90 anos. Cheias de confiança e otimismo, tiveram poucos golpes na vida capazes de fazê-las adquirir uma corcunda. Para outras — e são a maioria —, as ansiedades da vida foram tantas que elas não conseguiram evitar a permanente tensão dos ombros. Dois principais movimentos dos ombros tem origem nessa postura defensiva. Um deles é o movimento com que sacudimos os ombros quando rimos. Se estamos no domínio de nossas emoções e algo nos faz rir, deixamos escapar uma risada sem acrescentar a ela qualquer movimento corporal. Esse é um gesto que guardamos para as ocasiões sociais, quando, além de nos divertirmos, queremos mostrar nossa alegria aos que nos cercam. Como ocorre uma leve elevação dos ombros quando rimos, podemos exibir melhor nosso bom humor exagerando esse gesto, fazendo os ombros subirem e descerem rapidamente no ritmo da risada. A razão pela qual as pessoas "se sacodem" quando riem é que a base do humor é o medo. O humor nos choca de uma maneira segura, e revelamos nossa surpresa e nosso simultâneo alívio com uma risada. A elevação dos

ombros que acompanha a risada é parte do primitivo elemento de medo. Na verdade, essa sacudida dos ombros está denunciando a presença do medo. Mas nada grave. Se fosse grave, os ombros permaneceriam erguidos. A contração dos ombros tem uma origem semelhante. Nesse gesto, os ombros se erguem e se curvam para a frente por um momento antes de voltar à posição anterior. As palmas das mãos viram para cima, como se implorassem, e os cantos da boca descem. Às vezes, os olhos se voltam para cima, evitando o olhar do interlocutor. Essa combinação de movimentos indica uma perda momentânea de poder, uma impotência simbólica, a aceitação de uma incapacidade. Na maioria das vezes, encolher os ombros significa ignorância ("Não sei"), Indiferença ("Pouco me importa"), impotência ou resignação ("Não posso fazer nada"). São todos sinais negativos, uma admissão de incapacidade, e com ela uma perda momentânea de poder. No momento em que o poder diminui, os ombros se elevam. Essa adoção formal de uma postura tensa não significa que a pessoa esteja seriamente estressada ou se sinta inferior ou ameaçada pelo interlocutor. Significa apenas que ela não sabe lidar com aquela questão específica. O uso desse gesto varia de uma cultura para outra. Em alguns países mediterrâneos, esse movimento de ombros é muito comum. A menção passageira a uma restrição governamental, à imposição de um imposto ou a um congestionamento do trânsito basta para provocar a imediata elevação dos ombros, prolongada e silenciosa — o que expressa a total impotência da pessoa diante de uma loucura inconcebível. Seu gesto está dizendo: "Esses golpes não param de cair sobre meus pobres ombros, e eu os ergo dessa maneira para me proteger. Mas de que adianta?". Nos países setentrionais, dar de ombros, assim como outras reações gestuais, é considerado um gesto

indelicado e bastante raro. Mas, quando ocorre, tem raízes semelhantes. Entretanto, nem sempre a elevação dos ombros é uma postura defensiva. Elevar e curvar os ombros para a frente, com os braços envolvendo o corpo, é uma forma de "abraçar o vazio". É o gesto pelo qual a pessoa abraça a si mesma na ausência de alguém para abraçar. Nesse caso, os ombros estão mostrando a postura que adorariam se o ser amado fosse abraçado de verdade. Outra versão do movimento ocorre quando a pessoa ergue os ombros para fazê-los tocar o queixo ou a bochecha. A cabeça descansa sobre o ombro, na tentativa de demonstrar ternura pelo ser amado.

12. Braços
Os braços são a parte menos erótica do corpo feminino. Se um homem pensa em tocar uma mulher sem qualquer desejo sexual — para chamar sua atenção, por exemplo, ou guiá-la numa direção —, o melhor ponto é o braço. Qualquer outro ponto seria demasiado íntimo. Vale lembrar que, em termos evolucionários, os braços humanos são nossas pernas dianteiras. De fato, para qualquer criatura de quatro patas, eles devem parecer um par de pernas inúteis penduradas. Mas, quando nossos ancestrais assumiram a postura ereta apoiados nas pernas traseiras, as pernas dianteiras foram drasticamente aliviadas do peso que carregavam e puderam se especializar em múltiplos propósitos manipulativos. Nossas patas dianteiras transformaram-se em sofisticadas garras, e nossas pernas dianteiras tornaram-se seus criados, dotados de uma incrível mobilidade. Os braços têm dupla qualidade: força e precisão. Se as mãos precisam agir com força — para trepar, atirar, golpear, socar —, os fortes músculos do braços, como o bíceps e o tríceps, entram em ação. Se o polegar e os dedos estão trabalhando com delicada precisão, o braço opera como um guindaste móvel, colocando a mão na posição ideal para que a tarefa seja executada. O braço conta com três ossos: o pesado úmero do braço e o rádio e a ulna (ou cúbito) do antebraço. Esses ossos são visíveis no ombro, no cotovelo e no pulso, mas no resto do braço ficam cobertos pelos músculos. Os dois ossos do antebraço se cruzam quando a mão gira, virando a palma para cima, o que significa que sua posição mais relaxada é a da palma voltada para baixo. Para quem não sabe qual é o rádio e qual é a ulna, vale dizer que a ulna é

ligeiramente mais delgada e alinha-se com o mindinho, enquanto o rádio é mais espesso e alinha-se com o polegar. Os principais músculos do braço e os movimentos que eles produzem são os seguintes: O deltóide é o grande músculo que recobre a articulação do ombro, e sua função é erguer o braço e afastá-lo do corpo lateralmente. O bíceps é o músculo que se situa na parte anterior do braço, e sua função é flexioná-lo. O triceps é o forte músculo que se situa na parte posterior do braço, e sua função é estendê-lo. O trabalho muscular permite fortificar esses músculos a um grau surpreendente, como mostram os braços malhados exibidos em competições de fisiculturismo feminino, que dão a impressão de imensa força. Muitos homens afirmam que não os acham atraentes, e a razão disso parece ser o excesso de esforço necessário para desenvolver essa musculatura, o que implicaria uma obsessão que beira o narcisismo. Uma campeã de fisiculturismo parece estar mais interessada no que vê no espelho do que no corpo de um companheiro masculino. Outro problema com o braço super-desenvolvido é que ele parece muito masculino. Os braços da mulher são mais curtos, mais fracos e mais finos que os do homem, e é inevitável que braços excessivamente desenvolvidos percam suas qualidades femininas. O antebraço masculino mais longo é o reflexo de um papel evolutivo: o de atirador c lançador. Por isso, os homens são melhores arremessadores de dardos que as mulheres. O recorde masculino nesse esporte é de 96,72 metros, e o feminino, de 72,40 metros, uma diferença de 33%, muito superior à média em eventos desse tipo, que é de 10%,

Outra diferença de gênero diz respeito à articulação do cotovelo. Na mulher, o braço fica naturalmente mais próximo ao tronco. Devido aos ombros mais largos, os braços do homem pendem mais afastados do corpo. Quando oscilam soltos no espaço, têm um ar muito masculino, mas se um homem prende os braços junto ao corpo, afetando os antebraços, seu corpo parece afeminado. Isso ocorre porque, nas mulheres, o ângulo do cotovelo é 6 graus maior que o do homem. Portanto, a postura dos braços nos oferece significativos sinais sexuais que não podem ser atribuídos a um condicionamento social. Se o cotovelo se choca com um objeto duro, ocorre uma ferroada, seguida de uma dor considerável por algum tempo. É o nervo ulnário, que passa pela articulação do cotovelo, que causa a aguilhoada dolorosa e, por um momento, incapacita o braço. Outro detalhe anatômico do braço que merece menção são as muito amaldiçoadas, muito depiladas e muito desodorizadas axilas. Essa pequena zona pilosa desempenha um papel químico importante e reflete uma grande mudança nos hábitos sexuais da espécie humana. Quando nossos ancestrais se acasalavam, com a fêmea sobre as quatro patas, as axilas ficavam afastadas do rosto do parceiro. Quando mais tarde assumimos a postura ereta, e homem e mulher passaram a adotar predominantemente a posição sexual frontal, o nariz ficava próximo à região dos ombros. E ali se situavam as axilas, o lugar ideal para o desenvolvimento de glândulas sudoríparas. Sua presença é exclusiva da espécie humana, em ambos os sexos. A mulher possui mais glândulas sudoríparas que o homem, e os odores produzidos por um e outro diferem, o que indica que elas atuam como sinais sexuais entre parceiros amorosos. De fato, recentes pesquisas revelaram que, tendo os olhos vendados, os homens se excitavam

mais sexualmente cheirando o suor da axila da mulher do que com qualquer caro perfume produzido comercialmente. Essas glândulas sudoríparas são glândulas apócrinas, e sua secreção é levemente mais oleosa do que o suor comum. Elas só se desenvolvem na puberdade, quando o surgimento dos hormônios sexuais ativa-as e ao mesmo tempo provoca o crescimento de pêlos nas axilas. A função dos pêlos é manter as secreções glandulares na região axilar, o que intensifica o sinal que elas transmitem. Um velho costume inglês, transmitido de geração a geração, determinava que o homem que quisesse seduzir uma mulher usasse um lenço limpo junto à axila, por baixo da camisa, antes de iniciar a dança. Depois, devia tirar o lenço e acenar com ele para refrescá-la. Na verdade, o que ele fazia era espalhar o odor de sua glândulas apócrinas na esperança de que ela fosse seduzida por ele. Na Áustria rural o truque funcionava de maneira diferente. A mulher colocava uma fatia de maçã sob as axilas enquanto dançava e, quando a música parava, a oferecia ao parceiro. Quando ele comia a maçã, expunhase automaticamente ao aroma sexual da mulher Esse truque também era conhecido na Inglaterra elisabetana, quando uma maçã inteira descascada (conhecida como "maçã do amor") era colocada na axila da mulher até se embeber de seu suor, quando então seria oferecida ao amado, que inalaria sua fragrância. Mais tarde, no século XVI, o impacto sexual da fragrância das axilas femininas parece ter-se feito sentir na corte francesa. Uma linda princesa, Marie de Clèves, esposa do horroroso príncipe de Condé, sentindo-se acalorada depois de uma vigorosa dança na corte, retirou-se para uma das salas adjacentes ao salão de baile do Louvre para trocar a camisa molhada de suor. O duque d'Anjou (que logo se tornaria o rei Henrique III da França), que também sofria com o calor, entrou nessa sala e, julgando

que a camisa de Marie fosse um guardanapo, usou-a para enxugar o rosto suado. De acordo com um cronista da época, seus sentidos foram profundamente afetados por esse ato. No momento em que inalou sua fragrância, o duque, que já era admirador secreto da princesa adolescente, foi tomado por uma incontrolável paixão. Com isso, ganhou coragem para quebrar seu silêncio e confessar a ela seu amor. Nascia uma paixão maldita, que lhe causaria muito infortúnio nos anos seguintes. Considerando a forte indústria que se alimenta da venda de desodorantes, essas histórias parecem muito estranhas. Se o ser humano carrega um estímulo sexual tão forte sob os braços, por que se daria tanto trabalho para eliminá-lo lavando, esfregando e desodorizando as axilas e, no caso das mulheres, depilando-as? A resposta está no vestuário. O homem da história do folclore inglês, banhado e usando uma camisa limpa para a dança, produz secreções frescas das glândulas sudoríparas. Embebido nelas, seu lenço limpo carrega realmente um forte odor sexual. É o sistema primitivo em ação. Infelizmente, hoje, com o corpo coberto de camadas de roupas, nossa pele suada pode se transformar facilmente numa estufa para a propagação de milhões de bactérias. O odor natural do corpo se torna mau cheiro. A sensação desagradável que isso nos causa nos faz preferir usar desodorantes do que correr o risco de transformar o que seria um estímulo sexual numa catinga corporal. Desde o século 1 a.C., o poeta romano Ovídio, em seu livro sobre a sedução, A arte do amor, advertia as damas de que "carregavam um bode nas axilas". Pesquisas recentes mostraram que as secreções axilares de homens e mulheres diferem quimicamente e têm um odor que atrai o sexo oposto. Diz-se que a secreção masculina tem um odor almiscarado, resultado do hormônio masculino. Entretanto, em sua forma pura e

fresca, as secreções masculinas e femininas não são conscientemente detectadas pelo olfato humano. Elas parecem atuar num nível inconsciente, fazendo-nos sentir o estímulo sem saber bem por quê. Nem todos os orientais possuem esse sistema glandular. Entre os coreanos, no mínimo metade da população não tem glândulas sudoríparas. Elas também são raras no Japão, onde não se consegue detectar nenhum odor axilar em 90% da população. Na verdade, entre os japoneses, o forte cheiro nas axilas é visto como uma doença, a osmidrosis axillae. Houve um tempo em que indivíduos que sofriam dessa "doença" eram dispensados do serviço militar. Na China, apenas 2 ou 3% da população têm algum odor debaixo dos braços. Devido às diferenças raciais, os orientais geralmente acham o odor natural dos europeus e africanos muito forte e até mesmo ofensivo. A remoção dos pêlos nas axilas é uma prática relativamente recente, introduzida no Ocidente na década de 1920 pela florescente indústria cosmética. Anúncios diziam às mulheres que, se quisessem ser mais perfumadas e atraentes, deviam se livrar das "armadilhas de cheiro" que eram os pêlos nas axilas. Em pouco tempo, as mulheres ocidentais aderiram em massa. Hoje, calcula-se que menos de 1% das mulheres rejeite a depilação como um procedimento rotineiro. De vez cm quando ocorre uma fraca rebelião contra esse tipo de "mutilação". O famoso guia dos amantes, The Joy of Sex (A alegria do sexo), publicado em 1972, opunhase fortemente à depilação: "As axilas — um local clássico para beijos. Não devem ser depiladas sob nenhum pretexto". A depilação "podia ser perdoada em locais de clima quente, onde não havia água encanada, mas hoje é simplesmente vandalismo ignorante". E acrescentava um curioso conselho: "A axila pode ser usada no lugar da pal-

ma da mão para silenciar o parceiro no momento do clímax" — talvez para que o odor das axilas fosse plenamente apreciado. Não se sabe quantas mulheres podem ter abandonado a depilação depois desse conselho, mas parece que o guia sexual acreditava haver uma tendência nesse sentido no início dos anos 1970: "Uma nova geração começou a perceber que é sexy manter os pêlos nas axilas". A julgar pelos filmes e pelas fotos publicadas em revistas a partir dessa década, a moda mundial ignorou essa suposta tendência. Recentemente, quando uma famosa atriz de Hollywood ergueu o braço para acenar para a multidão e exibiu uma axila peluda, o fato foi comentado em todas as colunas de fofoca, que o consideraram repulsivo. Apesar disso, os últimos anos do século XX assistiram à chegada de uma revista intitulada Hair to Stay (Pêlos para ficar), que se definia como "a única revista do mundo para os que amam as mulheres naturalmente peludas". Entretanto, tinha que admitir que lutava uma batalha difícil: "Nos anos 90, as mulheres que decidem não depilar as axilas são ridicularizadas e submetidas a situações constrangedoras. São vistas como lésbicas, feministas radicais ou hippies que não saíram dos anos 60". Tudo isso era um erro, afirmava a revista, porque, "de um ponto de vista psicossocial, a remoção dos pêlos é uma revolta contra a sexualidade". Os pêlos das axilas, dizia, "funcionam como uma antena transmissora, enviando sinais que convidam ao ato sexual". Para pôr mais lenha na fogueira, chegou a afirmar que, ao exibir uma axila depilada, uma mulher adulta se oferece simbolicamente como uma criança e portanto encoraja uma perversão sexual. Convenientemente, a revista não percebia que, com esse argumento, acusava os homens que se mantêm bem barbeados de estimular a pedofilia — já que meninos não têm barba.

A verdade é que a remoção dos pêlos faz com que homens e mulheres pareçam mais limpos e mais jovens, ajudando-os a eliminar o cheiro corporal. Como a vida moderna, principalmente nos centros urbanos, nos obriga a manter uma excessiva proximidade em situações que nada têm de sensuais, existem motivos de sobra pata eliminar os primitivos sinais sexuais. Por isso, parece provável que a depilação corporal continue a prosperar, não importa o que digam os rebeldes. Apenas se pudéssemos voltar a uma vida tribal de seminudez seu argumento seria válido. Voltando à postura dos braços, existem quatro movimentos principais: para baixo, para cima, para o lado e para a frente. A postura de braços abaixados é neutra, e os músculos ficam totalmente relaxados e inativos. Como parte da locomoção bipedal, balançamos os braços quando caminhamos, mas, a menos que estejamos participando de um desfile militar, não colocamos nenhum esforço nesse ato. Mesmo depois de uma longa caminhada, quando os pés doem e os músculos das pernas estão exaustos, os braços continuam oscilando levemente, descansados e relaxados. Só quando os afastamos do corpo eles sentem a tensão do esforço. A postura de braços erguidos é mais difícil de sustentar por qualquer período de tempo. É um gesto de triunfo e vitória, muito apreciado por políticos e astros do esporte. Com os braços erguidos, eles cumprimentam seus fãs e comemoram uma alta posição com uma postura elevada. Levantar os braços os faz parecer mais altos e mais fortes, e também os torna mais visíveis nos momentos em que eles mais desejam ser vistos. Entretanto, a posição não se mantém por mais do que alguns segundos. Se tentarem manter essa postura por horas — ou mesmo por minutos —, logo serão vencidos pelo cansaço.

O gesto ganha um significado totalmente diferente quando um assaltante com uma arma na mão ordena: "Mãos ao alto!". Nesse caso, os braços se erguem num gesto de defesa, e não de vitória. Entretanto, existe uma sutil diferença na angulação dos braços. Na postura de vitória, os braços em geral se mantêm esticados e, quando se dobram, angulam-se ligeiramente para a frente. Na reação a uma ameaça, os braços se flexionam ligeiramente nos cotovelos c se mantêm na posição vertical. A essência dessa postura defensiva é que ela deve mostrar mãos vazias e desarmadas, postadas o mais longe possível do corpo, onde alguma arma pode estar escondida. A postura de braços abertos é um convite distante ao abraço. Uma mulher que aviste um amigo querido a alguns passos de distância abre os braços até poder fechálos num abraço emocionado. Essa mesma postura é vista depois que uma artista de circo completa um número de grande dificuldade. Ele abre os braços, e a platéia imediatamente responde com aplausos. O artista revela o desejo de abraçar o público, que responde com o único gesto que é capaz de realizar de seu lugar na platéia. O gesto de bater palmas é uma forma muito modificada do "abraço no vazio", na qual o sentimento se converte no som de um abraço simbólico. A postura de braços para a frente é mais complexa. Pode significar rejeição se as palmas das mãos estiverem empurrando para fora; ou agressão, se os punhos estiverem cerrados; ou um pedido de esmola, se as palmas estiverem voltadas para cima. Como a posição de braços abertos, pode ser também um convite ao abraço, além de transmitir muitos outros sinais, de acordo com a posição das mãos. Os sinais que envolvem os braços incluem ainda diversas formas de aceno e saudações. Quando uma importante figura feminina acena de um balcão, seu gesto

pode ser visto de grande distância. Sua forma exata indica algo de seu estado de espírito. O aceno de uma rainha é um gesto de poder pacífico. A saudação de punho cerrado de uma líder rebelde, ao contrário, é sinal de poder revolucionário. A saudação nazista era um gesto de rígida lealdade. A saudação militar — com os cotovelos flexionados e a mão tocando o quepe — é um gesto que estiliza a intenção de remover o elmo, um movimento de paz que visa cancelar o sinal de hostilidade. E por aí vai. Os braços são usados para transmitir sinais de longa distância, com menos precisão do que a que se pode transmitir com os dedos ou expressões faciais. Nesse sentido, os braços femininos funcionam como inestimáveis bandeiras corporais. No contato pessoal, o braço é quase sempre foco de ações amigáveis e assexuadas. Se quisermos ajudar uma pessoa idosa a atravessar a rua, nós a pegaremos pelo braço para guiá-la. Se orientamos alguém a passar por uma porta, nós a conduzimos com um leve toque no cotovelo. Se queremos chamar a atenção de alguém, tocamos seu braço. Se em qualquer desses casos tocássemos a cintura, o peito ou a cabeça, nosso gesto estaria imediatamente sob suspeita. Os braços são a parte mais neutra do corpo, sem qualquer significado íntimo. Sejam homens ou mulheres, amigos podem dar os braços quando caminham juntos, mas se houver qualquer outro toque durante a caminhada, o gesto prontamente transmitirá um sinal de intimidade. As tatuagens nos braços não têm sido raras, mas a forma mais comum de adorno sempre foi o bracelete. Como esse é um ornamento que sempre foi usado por mulheres, há quem acredite que esse costume teve origem como uma maneira de exagerar a forma delgada do braço feminino. Outra explicação seria que os braceletes e pulseiras atraem os homens porque são algemas simbólicas, sugerindo a escravidão da mulher pelo homem.

13. MÃOS
As mãos femininas são superiores às masculinas num aspecto: são mais flexíveis. Podem ser menores e não ter a mesma força que as mãos do homem, mas possuem maior delicadeza* quando se trata de manejar objetos pequenos. Sempre que um trabalho preciso dos dedos se faz necessário, as mãos femininas são imbatíveis. Um exemplo: o teclado do piano foi concebido para mãos masculinas, colocando as mulheres em imediata desvantagem. O resultado é que a maioria dos grandes pianistas são homens. Mas, num teclado ligeiramente menor, mais adequado ao tamanho da mão feminina, a maior flexibilidade dos dedos faria as mulheres pianistas suplantarem facilmente os homens. Da mesma forma, os alpinistas relatam que a flexibilidade feminina se equipara à força masculina, dando a ambos os sexos o mesmo potencial para escalar paredes rochosas. Mas como isso aconteceu? Qual é a história evolutiva das mãos femininas? O que aconteceu quando, milhões de anos atrás, nossos ancestrais se puseram de pé sobre as patas traseiras e libertaram as patas dianteiras? O principal elemento dessa história — o segredo do sucesso das mãos humanas — foi o desenvolvimento dos polegares opostos. Livres da tarefa de locomoção, tanto no solo quanto nas árvores —, as mãos puderam se dedicar unicamente à manipulação. Esse foi um dos principais passos na evolução da espécie. A espécie humana ganhou destreza — e transpôs o limiar para um mundo onde nada estava a salvo de seus dedos. No aspecto físico, os homens têm uma força manual cerca de duas vezes maior que a das mulheres. Essa é uma das maiores diferenças de gênero, e reflete quanto mãos fortes eram importantes para o caçador primitivo.

Em média, o homem tem uma força manual de cerca de 40 kg, que com treinamento pode chegar a 54 kg ou mais. A força manual era particularmente importante para fabricar armas e outros implementos primitivos, para atirar objetos longe e para outras atividades como martelar, rasgar, prender e carregar. Mesmo hoje, tarefas que dependem de mãos grandes e fortes são predominantemente masculinas. Quase não há mulheres trabalhando em carpintaria. A força é apenas metade da história de sucesso das mãos. A outra metade, igualmente importante, é a precisão. A força se adquire opondo-se o polegar contra todos os dedos. A precisão se conquista opondo-se apenas as pontas dos dois dedos. Nessa tarefa, a mulher é superior ao homem. As mãos masculinas, embora capazes de grande precisão se comparadas às mãos de polegares curtos de outras espécies, não podem competir com as mãos delicadas, ágeis e frágeis da fêmea humana. Por isso, no passado, as mulheres sempre foram excelentes em tarefas de costura, tecelagem e em todas as formas de trabalho decorativo. Antes da invenção do torno, elas dominavam a arte cerâmica, na qual dedos ágeis eram importantes para modelar e decorar os potes. Como a olaria era a principal forma de arte na pré-história, durante todo esse longo período da história humana as mulheres, e não os homens, foram artistas dotadas de grande criatividade — um fato geralmente desconsiderado por arqueólogos e historiadores da arte. A situação não mudou muito, embora hoje a natureza das tarefas tenha se atualizado. Basta olhar para o interior de uma fábrica de equipamentos eletrônicos para ver centenas de ágeis mãos femininas manipulando minúsculas peças. Costurar e tecer talvez estejam menos em evidência, mas a destreza feminina continua sendo um talento.

Essa diferença de precisão não se dá apenas pelo fato de a mulher ter dedos mais leves e finos. As juntas dos dedos femininos são mais flexíveis, uma característica que pode resultar de fatores hormonais. Argumenta-se que essa destreza foi uma adaptação adquirida na coleta de alimentos, uma especialidade feminina. A coleta de alimentos exigia arrancar raízes, escolher sementes, colher nozes e frutos, tarefas mais adequadas aos dedos rápidos e flexíveis das mulheres do que às mãos fortes e musculosas dos homens. Com a divisão de trabalho ocorrida durante nossa evolução, essa especialização nunca mais foi tão acentuada. As mãos femininas ficaram razoavelmente fortes e as mãos masculinas tornaram-se capazes de tarefas bastante precisas. A mulher mais forte de um grupo sempre foi mais capaz de partir uma peça de carne ou (hoje) destampar uma garrafa que o homem mais fraco. Por outro lado, os marinheiros se mostraram capazes de manejar bem uma agulha quando estão em alto-mar. E existem alguns exímios harpistas. Mas, na Idade da Pedra Lascada, a diferença era significativa: força para os homens e precisão para as mulheres. De todas as partes do corpo humano, as mãos talvez sejam as mais ativas. Como peças de um mecanismo complexo, elas são insuperáveis. Calcula-se que, durante uma vida, os dedos se flexionam e se esticam no mínimo 23 milhões de vezes. Mesmo os recém-nascidos possuem uma notável força nos dedos, e as mãos raramente param quietas. Ainda no berço, eles dobram e contorcem os dedinhos, como se antecipando o futuro prazer da manipulação. Mais tarde, as mãos revelam outras capacidades: digitar cem palavras por minuto, executar músicas num teclado a uma velocidade incrível, pintar obras-primas, ler em braile e até recitar poemas na linguagem dos surdos. Comparadas ao Rolls Royce que é a

mão humana, as patas das demais espécies não chegam a ser uma bicicleta. O par de mãos humanas contém nada menos do que 54 ossos. Em cada mão, são 14 ossos digitais, 5 ossos palmares e 8 ossos no pulso. A sensibilidade da mão ao calor, à dor e ao toque é grande, porque existem milhares de terminações nervosas por centímetro quadrado. A força muscular das mãos e dos dedos não vem apenas da musculatura da mão, mas também dos músculos do antebraço. Na superfície da mão existem três tipos de linhas: as linhas de flexão, as linhas de tensão e os sulcos papilares. As primeiras, as linhas de flexão, são marcas que refletem os movimentos da mão. Elas variam ligeiramente de um indivíduo para outro, o que há séculos tem garantido a sobrevivência dos quiromantes. Como outras práticas artificiosas como a frenologia e a astrologia, a quiromancia perdeu terreno no século XX, e hoje nada mais é que a exibição de feira que merece ser. Um legado da quiromancia que tem alguma utilidade é a denominação das várias linhas da mão. As quatro principais linhas são: a linha da cabeça e a linha do coração, que atravessam a palma, e a linha da vida e a linha do destino, que correm ao redor da base do polegar. Nos macacos, a linha da cabeça e a linha do coração são uma só, mas nos humanos a independência do indicador é tal que partiu a linha em duas. Entretanto, uma em cada 25 pessoas ainda exibe uma única linha, chamada "linha dos símios". O suor das mãos não é comum. Quando a pessoa dorme, as glândulas sudoríparas da palma cessam sua atividade, por mais quente que esteja a cama. Na verdade, elas não reagem ao calor como as glândulas sudoríparas de outras partes do corpo. Só reagem a um aumento de tensão. Se as palmas estão completamente secas, a pessoa está relaxada. À medida que a pessoa se torna mais

ansiosa, as palmas se umedecem cada vez mais, preparando-se para a ação física que o organismo prevê. Infelizmente, o corpo humano desenvolveu essa reação numa época em que a tensão era principalmente de natureza física, mas hoje as tensões são em sua maioria psicológicas, o que faz as palmas umedecerem sem ter o que agarrar. Mãos suadas são portanto remanescentes de um passado remoto que o moderno homem urbano pode perfeitamente dispensar. Durante a famosa crise dos mísseis de Cuba nos anos 1960, quando o mundo ocidental ficou em suspenso, temendo uma guerra nuclear, todas as pesquisas de laboratório sobre o suor das palmas das mãos tiveram que ser temporariamente suspensas. O aumento generalizado de tensão fez com que as taxas de sudorese crescessem tanto que era impossível conseguir que algum dos sujeitos da pesquisa relaxasse. Tal é a sensibilidade das palmas das mãos. As impressões digitais apresentam três padrões básicos: curvas (muito comuns), espirais (medianamente comuns) e arcos (bastante raros). Não existem dois seres humanos com impressões digitais idênticas. Contrariando a crença popular, mesmo gêmeos têm impressões digitais diferentes. As impressões digitais são usadas para identificar indivíduos há séculos. Há mais de 2 mil anos os chineses usavam os dedos como molde para seus selos de autoridade. Como uma assinatura pode ser falsificada, não sei por que não seguimos esse antigo costume chinês. Modernamente, a classificação das impressões digitais para a detecção de crimes se tornou altamente sofisticada, com a técnica de "contagem das cristas" e a atenção a minúsculos desenhos chamados de "lagos", "ilhas", "esporas" e "cruzamentos". Um criminoso não tem como evitar a identificação tentando alterar as impressões digitais. Mesmo que sejam raspadas, elas voltam a aparecer, e não se alteram com a idade.

Há diferenças raciais nas impressões digitais. Os caucasianos, por exemplo, têm menos espirais e mais curvas que os orientais, mas as diferenças são muito pequenas. Quanto à coloração das mãos, três aspectos despertam interesse. Quando pessoas de pele clara se expõem ao sol, as costas das mãos ficam bronzeadas, mas as palmas se recusam a escurecer. Acredita-se que isso se deva à necessidade de manter os gestos altamente visíveis. Mesmo indivíduos da raça negra têm palmas claras. Qualquer pessoa que já tenha feito bolas de neve sabe que, depois de certo tempo, as palmas ficam vermelhas. Esse parece ser um mecanismo destinado a evitar que a pele sensível das palmas congele. Devido ao frio prolongado, um aumento drástico do fluxo sangüíneo aquece as mãos. É uma reação notável e complexa. A reação inicial das mãos à neve fria é a vasoconstrição, que reduz o fluxo de sangue na superfície da pele. Esse é o comportamento normal do corpo como um todo, que evita que o sangue quente dissipe o calor vital. Ela é a mesma em todo o corpo, não importa quanto dure a exposição ao frio, mas as mãos atuam de maneira diferente. Depois de cerca de 5 minutos, elas passam da vasoconstrição a uma forte vasodilatação. Os vasos sangüíneos da palma e dos dedos de repente se expandem, colorindo a mão de vermelho. Depois de mais 5 minutos, o processo se reverte. Se a pessoa conseguir suportar as bolas de neve por uma hora, vaí perceber que as mãos passam do azul ao vermelho a cada 5 minutos. Trata-se de um sistema defensivo emergencial que provavelmente desenvolvemos na Idade do Gelo, quando mãos congeladas podiam significar desastre. Aquecendo as mãos a cada 5 minutos, o sistema evita o congelamento, que poderia causar danos irrecuperáveis, e conserva o precioso calor do corpo.

Uma das crenças mais extraordinárias sobre as mãos é o suposto aparecimento espontâneo de chagas nas palmas, um sofrimento com que pessoas santas repetiriam o sacrifício de Cristo na cruz. A grande maioria das 330 pessoas registradas que exibiram feridas sanguinolentas pertencia à Igreja Católica, entre elas algumas freiras. Curiosamente, nesse aspecto as mulheres superam os homens numa proporção de 7 por 1. O fenômeno vem de manifestando há mais de setecentos anos, desde o século XIII. As autoridades da Igreja sempre se mostraram intranqüilas com relação a essas alegações. O que se coloca cm dúvida não é a existência das feridas, mas a natureza milagrosa do fenômeno. Na maioria dos casos, as feridas começam a sangrar, depois secam e em seguida voltam a sangrar. O fenômeno obedece a um horário rígido: o sangramento se dá entre 1 e 2 horas da tarde e se repete entre 4 e 5 horas, todas as sextas-feiras. Excluída a possibilidade de mutilação deliberada, a explicação mais provável para essas chagas é uma infecção virótica localizada. Crianças que usam piscinas públicas costumam pegar verrugas — pequenos tumores epidérmicos de origem virótica que precisam ser removidos cirurgicamente. Verrugas semelhantes podem aparecer nas palmas das mãos, embora sejam menos comuns. Quando ocorrem, porém, geralmente provocam coceira e sangram. A pessoa que tem a ferida pode não se lembrar de tê-la coçado. Depois a ferida se fecha, mas o processo é muito mais lento que o de um corte normal. Devido à presença do vírus, a cura não é perfeita, e mais cedo ou mais tarde a ferida volta a sangrar, tornando-se cada vez maior. Uma cirurgia faz-se necessária para removê-la permanentemente. Assim, é fácil perceber que um ferimento de menor importância pode incendiar a imaginação de uma devota e se transformar na milagrosa repetição do sacrifício de Cristo. — Mas há uma falha

quase fatal: as chagas surgem no centro da palma, ao passo que na crucifixão de Cristo os pregos perfuraram os pulsos. Desde o século IX artistas religiosos alimentam esse erro, produzindo pinturas e esculturas que mostram pregos enterrados no centro das palmas de Cristo. parece que o erro — que para eles não passa de licença artística. — tem sido ampla e dolorosamente copiado pelos supostos santos. É bastante significativo que os poucos que sangraram nos pulsos tenham aparecido muito recentemente, depois que se tornou conhecida a verdadeira localização das chagas de Cristo. Voltando aos dedos, devemos dizer que cada um tem características próprias. O primeiro é o polegar, sem dúvida o mais importante dos dedos, já que permite o movimento de agarrar. Seu papel fundamental é reconhecido desde a Idade Média, quando a indenização pela perda de um polegar era quatro vezes maior que o valor pago pela perda de um mindinho. Hoje, se alguém perde o polegar, a cirurgia moderna pode ajustar o indicador para que ele funcione em oposição aos outros dedos, restaurando em parte o movimento de preensão. Em tempos antigos, o polegar — pollex em latim — era dedicado a Vênus, presumivelmente devido a seu significado fálico. No Islã, era dedicado a Maomé. O polegar tem três significados gestuais: aponta uma direção, expressa um insulto fálico e indica, que tudo está. bem. O segundo dedo, o indicador, é o mais independente e importante dos outros quatro dedos. É o mais usado em oposição ao polegar em atos de delicada precisão. É o dedo que puxa o gatilho, que aponta o caminho, que disca o telefone, que chama, que pede atenção, que aperta o botão. Graças à sua função indicativa, o indicador também recebe o nome de índex, índice e mostrador. Houve época em que ele foi chamado de "dedo napoleônico" ou "dedo da

ambição", mas sua denominação mais estanha é a de "dedo do veneno". Em tempos antigos, era proibido usar o indicador para qualquer tipo de medicação, porque se acreditava que ele era venenoso. Os católicos dedicam o indicador ao Espírito Santo; os islâmicos, a Fátima. Apesar de sua importância, o indicador é um dos menores dedos, superado em muitos casos pelo médio e pelo anular. Em 45% das mulheres, porém, é o segundo dedo mais longo, relegando o anular para o terceiro lugar. Surpreendentemente, isso ocorre apenas com 22% dos homens. A razão dessa significativa diferença de gênero é um mistério. O médio, terceiro e mais longo dos dedos, tinha vários nomes antigamente, sendo conhecido como "o famoso", "o impudico", "o infame" e "o obsceno". A razão para a maioria desses nomes é sua utilização no mais famoso dos gestos grosseiros de Roma. Nesse gesto, os outros dedos se dobram e apenas o médio permanece esticado e ereto. Os dois dedos dobrados de cada lado simbolizam os testículos, e o médio, o falo ereto. Esse gesto sobreviveu durante 2 mil anos desde que surgiu nas ruas da antiga Roma. Seu uso por mulheres, pelo menos no mundo ocidental, cresceu muito nos últimos anos, porque a maior igualdade sexual trouxe consigo uma maior igualdade gestual. No passado, gestos obscenos eram uma exclusividade dos homens, mas hoje as mulheres mais assertivas não se sentem constrangidas de se expressar dessa maneira. No ambiente religioso, o dedo médio tem significados bastante diferentes. No catolicismo, é o dedo dedicado a Cristo e à salvação; no islamismo, dedicado a Ali, marido de Fátima. O quarto dedo, o anular, vem sendo usado há mais de 2 mil anos em cerimônias de cura. Nas civilizações do mar Egeu, era encapsulado numa dedeira de ferro magnético e

usado em rituais de cura. Mais tarde, essa idéia foi adotada pelos romanos, que o chamavam de digitus medicus. Eles acreditavam que por esse dedo corria um nervo que ia direto ao coração, e sempre o usavam para fazer misturas porque achavam que nenhum veneno poderia tocá-lo sem dar aviso ao coração. Essa superstição durou séculos, com o nervo que se ligava ao coração ora sendo substituído por uma veia, ora por uma artéria. Na Idade Média, os boticários ainda usavam religiosamente esse dedo para misturar suas poções, e insistiam que todos os ungüentos deviam ser esfregados no corpo com ele. O indicador devia ser evitado a todo custo. Para alguns, simplesmente passar o anular por cima de uma ferida era suficiente para curá-la. Por isso, ele acabou sendo conhecido como o "dedo da cura". Em algumas partes da Europa, ele ainda ê visto como o único dedo adequado a coçar a pele. Se existe algum valor prático nessa superstição é que, por ser o menos usado, o anular é provavelmente o dedo mais limpo. A razão de sua relativa inatividade é que sua musculatura o torna o menos independente dos dedos. Se alguém fechar o punho e tentar esticar um dedo de cada vez, perceberá que o anular é o único que se recusa a se esticar totalmente — ou faz isso com grande dificuldade. Se algum dos dedos que o ladeiam se esticar ao mesmo tempo, não há problema, mas sozinho ele se sente fraco demais para fazer o movimento. Por isso, tem menos probabilidade de tocar algo perigoso e, portanto, seria o mais seguro para uso médico. Além disso, é difícil usá-lo para mexer alguma coisa sem manter os outros dedos presos pelo polegar. Foi por essa falta de independência que o anular foi escolhido como o dedo que carrega a aliança de casamento. Esse costume originou-se na idéia de que a esposa se comprometia a ser menos independente como o dedo simbolicamente escolhido. A escolha da mão esquerda teve

origem semelhante: essa seria a mão mais fraca e submissa, adequada ao que era então considerado o papel da esposa. Só porque esses fatos foram esquecidos é que esse dedo ainda é escolhido no ritual do matrimônio. Se o verdadeiro significado machista fosse mais conhecido, criaria um conflito para muitas noivas modernas. Devido a essa função de levar a aliança, ele foi chamado pelos romanos de digitus annularis. No islamismo, foi dedicado a Hassan, e para os cristãos ele é o "dedo do amém", porque as bênçãos são feitas com o polegar (o Pai), o indicador (o Filho), e o médio (o Espírito Santo), seguidos pelo anular (amém). O quinto dedo, o miudinho, é chamado em latim de minimus ou aurícularis: mínimo porque ele é o menor de todos, e auricular devido à sua ligação com a orelha. Alega-se que ele foi chamado de "dedo auricular" pelo fato de ser suficientemente pequeno para ser usado para limpar a orelha, mas existe um argumento mais moderno. Antigamente, acreditava-se que, fechando os ouvidos com os dedos mínimos, era possível aumentar as chances de uma experiência mediúnica, de uma visão profética ou de algum outro evento sobrenatural. Qualquer pessoa que tenha estado numa sessão espírita provavelmente participou de uma versão moderna dessa superstição, na qual os participantes se dão as mãos formando um círculo. Nesse momento, o médium geralmente avisa que o contato deve ser feito com os dedos mindinhos, porque essa era a maneira antiga de criar uma ligação mediúnica. Nos Estados Unidos, o nome usado popularmente para identificar o dedo mínimo é "pinkie". Usado primeiramente pelas crianças de Nova York, mais tarde foi adotado por adultos de outras cidades. Acredita-se que a denominação teve origem na Escócia, onde as crianças se referem a qualquer coisa pequena como "pinkie", e transportada para Nova York pelos colonizadores

escoceses. Entretanto, o nome original de Nova York era Nova Amsterdã, e também pode ser significativo que a palavra holandesa para "pequeno" seja "pinkie". As crianças costumam usar a palavra numa rima que utilizam para firmar uma promessa solene. Quando fazem disso, entrelaçam os dedos mindinhos para materializar o ato. Esse é outro costume que se originou da antiga ligação do mindinho com o sobrenatural. Em alguns países da Europa, quando duas pessoas acidentalmente pronunciam a mesma palavra ao mesmo tempo, de imediato gritam "Snap!" e entrelaçam os mindinhos, fazendo um voto silencioso, que se realizará se nada for dito antes que os dedos se soltem. Mais uma vez, a superstição reflete a crença no poder sobrenatural do mindinho. A palavra "Snap!" também tem relação com os dedos, porque é o substituto verbal para a ação de estalar os dedos, outra ação que tem origem supersticiosa. Acreditava-se que o estalo do indicador contra o polegar tivesse o poder de espantar os maus espíritos (é por isso que não é de bom tom estalar os dedos para chamar alguém), e isso seria necessário quando duas pessoas pronunciavam a mesma palavra simultaneamente. Num contexto que nada tem de mágico, o costume de curvar o dedo mindinho quando a pessoa está bebendo de uma xícara ou de um copo há muito é considerado símbolo de afetação. Na origem, nada poderia estar mais longe da verdade. As primeiras pinturas religiosas mostram o dedo mínimo curvado e afastado dos demais, mesmo quando a figura feminina em questão não está bebendo. Alega-se que esse era um sinal de que as mulheres que serviam de modelo para as imagens religiosas desfrutavam de uma incomum independência sexual. Essa crença de que um mindinho "independente" simboliza a liberdade sexual deu origem a uma nova moda lançada pelas primeiras feministas do final do século XIX. Elas curvavam deliberadamente o dedo mindinho quando bebiam para

mostrar que apoiavam a idéia de direitos iguais em questões sexuais. Disseminado como moda, esse gesto foi perdendo seu significado original de igualdade sexual, tornando-se meramente o gesto adequado a fazer na presença de outras pessoas. Daí passou a ser símbolo de gentileza e acabou adquirindo um significado quase oposto ao original. Juntos, os cinco dedos são capazes de uma imensa gama de gestos e sinais, alguns deliberados e simbólicos, outros inconscientes e expressivos. Em todo o mundo, mesmo hoje, as mulheres usam menos os gestos simbólicos que os homens, mas empregam mais os gestos que acompanham a conversação e enfatizam as palavras. Além disso, a mão feminina pode se transformar numa garra, numa lâmina, numa agulha, num punho cerrado ou num leque, de acordo com as emoções do momento. Depois que uma conversa acaba, é difícil lembrar precisamente o que os dedos andaram fazendo, mas a mensagem dos gestos chega ao interlocutor num nível subliminar. O uso de adorno nos dedos femininos é popular pelo menos há 6 mil anos — talvez muito mais. Por volta de 2.500 a.C, os ourives do Oriente Médio já tinham atingido um alto estágio na manufatura de anéis, que desde então sempre gozaram de grande prestígio. Originalmente, os anéis eram usados não apenas como elementos decorativos. Acreditava-se que eles tinham poderes de proteção, trazendo boa sorte, protegendo contra os maus espíritos e propiciando saúde e até mesmo imortalidade (já que um anel não tem começo nem fim). Uma vantagem dos antigos anéis que não levamos cm consideração hoje é que, antes da invenção do espelho, eles eram mais apreciados do que qualquer ornamento para a cabeça ou o pescoço porque ficavam claramente visíveis para quem os usava. Mais tarde, trouxeram outra vantagem para as mulheres que queriam se livrar de

maridos indesejáveis: podiam conter pequenas câmaras cheias de venenos letais. A pele das mãos femininas tem recebido relativamente pouca atenção, com a interessante exceção da aplicação de desenhos de hena. Parte importante das cerimônias de casamento, essas pinturas foram muito populares no Norte da África, no Oriente Médio e em algumas regiões da Ásia durante séculos. A hena é uma tintura castanhoavermelhada extraída das folhas de um pequeno arbusto. Os intricados desenhos pintados nas mãos da noiva tinham a finalidade de espantar o Olho do Diabo, um espírito maligno que gostava de aparecer nas ocasiões felizes com a intenção de destruí-las. Acreditava-se que a hena tinha a virtude de purificar a noiva de qualquer contaminação mundana e imunizá-la contra os ataques do demônio e de seus agentes. Na noite anterior ao casamento, a noiva, cercada pelas amigas mais íntimas, entregava as mãos a uma artista chamada hennaria, que passava horas pintando os desenhos tradicionais. Depois, enfaixava as mãos da noiva e colocava-as dentro de dois sacos bordados para que a pintura secasse sem borrar. Para a cerimônia, as mãos eram desenfaixadas, exibindo os belos desenhos. A pintura durava cerca de quatro semanas, depois das quais podia desbotar ou ser renovada. Hoje, o costume sobrevive por motivos puramente decorativos em algumas partes da Europa e da América, mas a dificuldade na elaboração dos desenhos evitou que a moda pegasse. A pele das costas das mãos femininas pode acarretar um sério problema às mulheres mais velhas. Se a mulher rejuvenesceu o rosto com cremes firmadores ou com uma cirurgia plástica, que a fazem parecer vinte anos mais nova, sua verdadeira idade pode ser revelada por mãos enrugadas e manchadas. Antigamente, ela podia usar luvas, mas esse acessório não está mais em moda.

Medidas mais severas se fazem necessárias para adequar a aparência das mãos à sua jovem figura, e hoje ela tem à sua disposição uma infinidade de caros procedimentos, alguns de efeito bastante duvidoso, como a microdermoabrasão, o peeling ácido, infusão de vitaminas, aumento da absorção de oxigênio, cera quente e tratamento a laser. O tratamento mais radical é o equivalente do lifting da face. O lifting das mãos é um procedimento que retira gordura das coxas e injeta-a nas costas das mãos, o que as faz estufar e parecer muito mais jovens, mas tem que ser repetido várias vezes, e, mesmo assim, só dura mais ou menos um ano. Finalmente, existem as unhas das mãos, tecido morto que cresce em média 1mm a cada dez dias — quatro vezes mais rápido que as unhas dos pés. Essa taxa de crescimento significa que, se não fossem cortadas, as unhas atingiriam 1 cm em cem dias. Em épocas primitivas, esse comprimento seria desgastado pelo uso. Modernamente, é preciso cortá-las e lixá-las para mantêlas num comprimento conveniente. Em diferentes épocas e culturas, muitas mulheres têm ignorado as conveniências, permitindo que as unhas cresçam para mostrar que não precisam fazer nenhum trabalho manual. Essa demonstração de status é valorizada pela aplicação de esmaltes coloridos, que chamam mais atenção para o fato de que aquelas mãos nunca pegaram no batente. Na China antiga, as mulheres da nobreza deixavam as unhas crescer e as pintavam de ouro. Mais tarde, como isso prejudicava os movimentos da mãos, elas limitaram a demonstração aos dedos mindinhos, mantendo as unhas dos demais dedos muito mais curtas. Outra solução foi usar unhas curtas para o uso cotidiano e aplicar unhas postiças exageradamente longas em ocasiões especiais. Esses dois costumes sobrevivem ainda hoje na Europa. Muitas mulheres usam unhas postiças em eventos sociais e depois as removem para trabalhar.

Alguns indivíduos excêntricos permitiram que as unhas crescessem assustadoramente, tornando os movimentos corriqueiros com as mãos extremamente difíceis. Discar um número de telefone, por exemplo, torna-se uma tarefa impossível. Uma mulher de Dallas se orgulhava de exibir um total de 380 cm de unhas, das quais a mais impressionante media 71 cm. Suas preciosas unhas custavam-lhe de oito a dez horas na tarefa de pintálas. Depois de carregá-las por 24 anos, ela finalmente decidiu cortá-las. Em seguida entregou-se ao prazer de poder coçar-se e de dar um abraço em alguém. As unhas femininas não crescem retas, mas se curvam, e é isso que pode causar problemas. Uma mulher da Geórgia, nos Estados Unidos, cometeu uma contravenção e precisou tirar as impressões digitais na delegacia. Quando o policial descobriu que isso seria impossível com aquelas unhas de 15 cm de comprimento, ordenou que elas fossem cortadas. A mulher se recusou a cortar as unhas e teve que passar quatro noites na cadeia enquanto a polícia tentava descobrir outra maneira de obter suas impressões digitais. Longas unhas podem facilmente se transformar em armas de destruição. Uma mulher de Connecticut, sentindo-se ultrajada ao descobrir seu parceiro na cama com outra mulher, usou as unhas para se vingar. Foram necessários 24 pontos para fechar a ferida na bolsa escrotal. Nos últimos anos, a pintura artística incrementou a moda de longas unhas pintadas. Surpreendentemente, existem hoje mais de 60 mil sites na internet dedicados a esse assunto, e até mesmo uma enciclopédia de pintura artística das unhas para quem quiser levar o assunto a sério. Existem vários estilos de pintura, assim como unhas de gel, unhas marmorizadas, unhas acrílicas, piercings de pedras semipreciosas para unhas... A lista é infinita.

Muitas mulheres acham a pintura artística muito exótica e adotaram um novo estilo: as unhas manicuradas à francesa, que têm a aparência das naturais, mas com as pontas destacadas por uma faixa branca. Outra moda é usá-las curtas e pintadas de um esmalte quase negro. E assim a moda continua criando novidades. É fácil rir desses exageros decorativos das unhas femininas, mas uma tradição que permanece há mais de 6 mil anos de uma forma ou de outra dificilmente desaparecerá do dia para a noite. Desde que a mudança não interfira na mobilidade e flexibilidade das mãos, não há mal algum. E mesmo quando a moda prejudica os movimentos manuais, o impacto social da decoração pode ser tão gratificante para as mulheres que a adotam, que compensa a perda de destreza. (Desde que não tenham a sorte de uma mulher de Massachusetts, que teve a longa unha presa na bilheteria automática de um estacionamento e precisou esperar que a polícia viesse libertá-la.)

14. Seios
Os seios tem despertado maior interesse erótico por parte dos homens do que qualquer outra parte do corpo feminino. Concentrar a atenção diretamente nos genitais seria demais. Os seios são um meio-termo — uma região proibida, mas não muito chocante. Inúmeros nomes têm sido criados para os seios em muitas línguas, mas em português eles costumam ser chamados de mamas, peitos, pomos ou tetas. Os seios femininos tem duas funções biológicas, uma parental e outra sexual. Para a primeira função, eles funcionam como duas gigantescas glândulas sudoríparas que produzem um suor modificado que chamamos de leite. Os tecidos glandulares que produzem leite incham durante a gravidez, tornando os seios maiores e os vasos sangüíneos que irrigam esses tecidos mais evidentes na superfície da pele. À medida que vai se formando, o leite passa por canais que levam a um reservatório chamado seio lactífero, situado no centro da mama, por trás da aréola amarronzada que circunda os mamilos. De cada seio lactífero partem de quinze a vinte tubos, os ductos lactíferos, em direção a cada mamilo. Quando o bebê mama, pega o mamilo e a aréola na boca apertando a pele escura com as gengivas e fazendo o leite brotar do mamilo. Se espremer apenas o mamilo, não produzirá o leite desejado, e pode reagir a essa frustração mordendo o mamilo, o que não faz bem nem para a mãe nem para o filho. Uma mãe experiente logo descobre que pode evitar a dor causada pela mordida enfiando uma parte maior do seio na boca do bebê. A aréola que circunda o mamilo é um detalhe anatômico curioso da espécie humana. Nas mulheres virgens e naquelas que ainda não são mães, a aréola tem

uma coloração rosada que muda na gravidez. Cerca de dois meses após a concepção, ela começa a se alargar e escurecer. Na época do aleitamento, já exibe uma cor marrom-escura, e mesmo quando o bebê é desmamado não volta a apresentar o tom rosado virginal. A função das aréolas parece ser de proteção. Elas contêm pequenas glândulas, chamadas glândulas ou tubérculos de Montgomery, que crescem durante a gravidez e segregam uma substância oleosa. A olho nu, essas glândulas têm a aparência de pele de galinha. A secreção das glândulas de Montgomery protege o mamilo e a pele circundante — um cuidado muito necessário à superfície dos seios. O leite produzido pelos seios contém proteínas, carboidratos, gordura, colesterol, cálcio, fósforo, potássio, sódio, magnésio, ferro e vitaminas. Contém também anticorpos que aumentam a resistência do bebê a doenças. O leite de vaca é o substituto adequado ao leite materno, mas tem um nível de fósforo bastante alto, o que pode interferir na ingestão de cálcio e magnésio. Alguns bebês apresentam reações alérgicas às proteínas bovinas. Sabiamente, um maior número de mulheres estão alimentando seus filhos no seio — o que tem a vantagem extra fortalecer os laços emocionais entre a mãe e o bebê. O leite materno é ideal para o desenvolvimento do bebê, mas a forma dos seios está longe de ser perfeita para a amamentação. O bico de uma mamadeira tem um formato mais adequado à sucção do que o mamilo. Se isso parece ser uma falha evolucionária, convém lembrar que os seios femininos têm uma dupla função — parental e sexual —, e é a função sexual que causa o problema. Para entender como os seios deveriam ser, vamos dar uma olhada nos seios de nossos parentes mais próximos, macacos e chimpanzés. Em todos os outros primatas, as fêmeas que não são lactantes têm peitos chatos. Quando são lactantes, a

região ao redor dos mamilos se intumesce um pouco devido à produção de leite, mas raramente toma a forma hemisférica dos seios humanos. Nos peitos que se aproximam da forma humana durante o período em que contém um generoso suprimento de leite, o intumescimento desaparece assim que termina a lactação. Os "seios" das fêmeas primatas são unicamente parentais. A espécie humana é diferente. Embora aumentem de tamanho quando estão cheios de leite, os seios femininos continuam protuberantes durante a vida adulta mesmo que não exerçam sua função alimentar. Até uma freira tem seios protuberantes, mesmo que eles não sejam usados durante toda a vida. Um exame da anatomia dos seios revela que a maior parte de seu volume é constituída de tecido gorduroso, enquanto apenas uma pequena parte é de tecido glandular ligado à produção de leite A forma arredondada dos seios, resultado do tecido gorduroso, exige uma explicação que ultrapassa sua função de aleitamento. Embora seja claro para um biólogo que essa explicação tem a ver com a sexualidade, muitas mulheres recusam essa interpretação, julgam ofensiva a idéia de que alguns aspectos do corpo feminino possam ter evoluído até sua forma atual para atrair o macho. Ignorando o fato de que a atração física está envolvida em sua concepção, elas insistem que os seios têm apenas a função parental e usam sua engenhosidade para encontrar explicações não-sexuais para a forma arredondada dos seios. Assim surgiram sete sugestões: O tecido gorduroso protege as glândulas mamárias. Isso pode ser verdade durante a lactação, mas não explica o persistente arredondamento dos seios em outros períodos. E também não explica por que as fêmeas de outras espécies primatas não precisam dessa ajuda.

O tecido gorduroso mantém o leite morno. Mais uma vez, isso só é necessário durante a amamentação. A forma arredondada dos sãos os torna mais confortáveis para a alimentação do bebê. Simplesmente não é verdade. Basta pensar no formato de uma mamadeira. A forma arredondada funciona como um sinal visual que informa aos homens que aquela mulher será uma boa fonte de alimento para a prole. Mais uma vez, não é verdade. Mulheres de seios pequenos podem amamentar com mais facilidade que as de seios enormes. O tecido gorduroso é uma importante maneira de estocar gordura para quando o alimento for escasso. Sim, é verdade, mas por que concentrar esse estoque no peito, já que seios fartos fazem com que a mulher tenha mais dificuldade para correr? O corpo feminino tem uma generosa camada de gordura na maior parte de sua superfície, e essa reserva de gordura dispersa é a maneira mais eficiente de ela se proteger contra a eventualidade de uma fome. Além do mais, a gordura do seios representa apenas 4% da gordura total do corpo, eéa que diminui menos quando a mulher perde peso. O tecido gorduroso compensa a falta de uma capa maternal de pêlos à qual o bebê possa se agarrar quando se alimenta. Não é verdade. Como qualquer mãe sabe, o bebê tem que ser segurado junto ao seio, e, de qualquer forma, um macio hemisfério de carne dificilmente ajudaria a tornar o mamilo mais acessível.

A forma hemisférica dos seios é, de acordo com um autor, "não-funcional, a ponto de ser antifuncional". Quando todas as outras justificativas parentais falham, esta é a última saída para aqueles que se recusam a aceitar que a forma dos seios femininos é sexual. A inevitável conclusão é que a forma hemisférica dos seios não é parental, mas um sinal sexual. Isso significa que teorias que consideram o interesse masculino pelos seios femininos como "infantil" ou "regressivo" não têm fundamento. O homem que reage aos seios de uma virgem ou de uma não-lactante está respondendo a um primitivo sinal sexual da espécie humana. Não é difícil traçar a origem do par de seios como símbolo sexual. As fêmeas das outras espécies primatas emitem sinais sexuais com o traseiro enquanto caminham sobre quatro patas. Seu traseiro protuberante excita os machos. Os sinais traseiros emitidos pela fêmea humana partem de outro par de hemisférios, as nádegas. Elas são capazes de enviar fortes sinais eróticos quando a mulher é vista de costas, mas ela não anda de quatro como as outras espécies, com a região frontal escondida da vista. Ela caminha ereta e é vista de frente na maioria das situações sociais. Quando se coloca frente a frente com um homem, as nádegas estão fora de seu campo de visão, mas o par de falsas nádegas que ela traz no peito lhe permite continuar transmitindo o primitivo sinal sexual sem dar as costas ao interlocutor. Essa função sexual dos seios tornou-se tão importante que começou a Interferir na função parental primordial. Os seios cresceram tanto em seu esforço para imitar as nádegas que ficou difícil para um bebê abocanhar o mamilo, Em outras espécies, os mamilos são alongados, de modo que o bebê macaco não tem

dificuldade para levar a longa teta à boca e sugar o leite. Mas o bebê humano pode se sufocar na montanha de carne que circunda o modesto mamilo, e as mães precisam tomar certas precauções que não são necessárias em outras espécies. O dr. Spock aconselha: "Às vezes, você pode precisar apertar o seio com um dedo para dar espaço para o nariz do bebê respirar". Outro livro sobre bebês comenta: "Pode surpreendê-la que o bebê pegue na boca também o círculo amarronzado ao redor do mamilo. Tudo o que você precisa fazer é ter certeza de que ele consegue respirar. Em sua ansiedade, ele pode obstruir as narinas com o tecido do seio ou com seu próprio lábio superior". Cuidados como esses não deixam dúvida sobre o duplo papel dos seios humanos. Mulheres que têm seios pequenos costumam temer não serem capazes de amamentar. Na verdade, elas podem ser mais capazes de amamentar do que as mulheres de seios fartos. Isso ocorre porque elas possuem menos tecido gorduroso, que dá aos seios a sensual forma arredondada, mas que pouco tem a ver com o suprimento de leite. Quando a mulher engravida, o tecido glandular aumenta mesmo na futura mamãe de seios pequenos, e seus bebês terão mais facilidade de sugar e menos probabilidade de sufocar. Em seu papel sexual, os seios femininos atuam primeiro visualmente, depois como estímulo ao tato. Mesmo à distância, os seios permitem distinguir a silhueta de uma mulher adulta da de um homem. De mais perto, os seios são um sutil indício de idade. A forma dos seios muda gradualmente da puberdade à velhice, e essa lenta alteração no perfil dos seios pode ser resumida nas "sete idades do seio feminino: Os mamilos da infância. Só o mamilo se destaca nesse estágio pré-pubere.

Os botões da puberdade. No início da fase reprodutiva, quando a menstruação começa e os genitais já apresentam pêlos púbicos, a região ao redor do mamilo começa a inchar. Os seios pontudos da adolescência. À medida que os anos adolescentes passam, aumenta o tamanho dos seios. Nessa fase, tanto o mamilo quando a aréola se projetam, criando uma forma mais cônica. Os seios firmes da juventude. A idade ideal do animal humano do ponto de vista físico é de 25 anos. Nessa fase, o corpo atinge sua melhor condição, e todos os processos de crescimento estão completos. Durante essa década, os seios femininos assumem uma forma mais arredondada e, apesar do tamanho e do peso, ainda não começaram a cair. Os seios fartos da maternidade. Com a maternidade e o repentino aumento de tecido glandular, os seios fartos de leite começam a pender para baixo, em direção ao peito. A margem inferior do seio forma uma prega oculta. Os seios caídos da meia-idade. À medida que a fase reprodutiva se aproxima do fim, os seios caem um pouco mais sobre o peito, mesmo tendo perdido o peso da fase de lactação. Os seios pendulares da velhice. Com a idade avançada, o encolhimento geral do corpo leva a um achatamento dos seios, que continuam caídos sobre o peito, mas com a pele cada vez mais enrugada.

Esses estágios de envelhecimento dos seios podem variar muito. Em mulheres mais magras, o processo tende a ser mais lento, enquanto nas mais gordas ele se acelera. A cirurgia plástica pode erguer os seios e deixá-los artificialmente firmes depois da juventude. Os sutiãs podem dar a mesma impressão, desde que os seios não estejam visíveis. Ao longo dos anos, as mulheres encontraram diversas maneiras de prolongar a impressão de seios firmes e protuberantes com o intuito de estender a fase na qual são capazes de transmitir o sinal sexual primitivo da espécie humana. Às vezes, a sociedade exigiu que a sexualidade feminina fosse suprimida. Os puritanos conseguiam isso obrigando as mulheres a usar coletes apertados que achatavam os seios e davam um contorno infantil ao corpo adulto. Na Espanha do século XVII, as jovens foram vítimas do uma indignidade ainda maior, tendo os seios achatados por placas de chumbo pressionadas contra o peito, numa tentativa de impedir que a natureza seguisse o seu curso. Essas cruéis imposições só serviram para reforçar o significado sexual da forma arredondada dos seios. Para que a sociedade chegasse a tais extremos para negá-la, é porque ela devia ser de fato poderosa. Felizmente, a maioria das sociedades prefere cobrir os seios em vez de esmagá-los, aceitando isso como suficiente sinal de modéstia. Nesse caso, a simples remoção da cobertura tem funcionado como forte estímulo erótico, fato que tem sido explorado por artistas e fotógrafos de várias e diferentes maneiras. Para um pintor, é fácil criar um seio perfeito: pode inventar a forma que quiser. Mas se a forma se afastar muito da natural, o sinal sexual fica distorcido e o impacto se perde. Mas se a forma hemisférica for ligeiramente acentuada, será possível criar seios ainda mais estimulantes que os reais.

Para o fotógrafo a tarefa já não é tão fácil. Limitado aos seios reais, sua única esperança é criar a impressão de maior volume com uma iluminação especial ou colocando as modelos em posturas adequadas. Para captar a imagem de seios volumosos, ele precisa ter como modelo uma jovem cujos seios tenham alcançado seu ponto máximo de desenvolvimento, pouco antes que o aumento de peso comece a fazê-los cair. Existe um conflito de forças, porque o aumento de tamanho que produz a forma esférica plena também acarreta um peso que começa a empurrar os seios para baixo. Só existe um momento na vida da mulher em que os seios têm um máximo de protuberância com um mínimo de flacidez, e é nesse momento que a câmara pode captar as imagens mais eróticas. Curiosamente, fotógrafos que trabalham para revistas especializadas em fotos eróticas descobriram que só existe um tipo de jovem com os seios perfeitos que eles buscam. Ela é um pouco mais jovem do que poderíamos esperar, porque ainda não chegou aos 20 anos, e seus seios atingiram o tamanho máximo um pouco antes que a média das mulheres: eles exibem a perfeita forma arredondada, mas ainda mostram a firmeza da extrema juventude. Essa especial combinação oferece as imagens que fazem a fortuna das revistas masculinas. Depois que os seios da mulher — e seus outros encantos físicos e mentais — atraíram um parceiro e o contato sexual começa, as qualidade táteis dos seios entram em jogo. Nas preliminares do sexo, o homem acaricia oral e manualmente os seios. Isso o excita muito mais do que à mulher, e é" possível que um estímulo adicional esteja ocorrendo nesse momento. Já mencionamos que os círculos amarronzados ao redor dos mamilos contêm glândulas que secretam uma substância oleosa durante a lactação. Essa substância parece ser um suave lubrificante para a pele da região do mamilo, e não há razão para duvidar disso. Mas o fato de as glândulas da

aréola serem, originalmente, glândulas apócrinas sugere que, durante a atividade sexual, essa região dos seios talvez seja capaz de transmitir sinais odoríferos ao nariz do homem. As glândulas apócrinas são as responsáveis pelos odores sexuais das axilas e dos genitais, e, embora os homens não tenham consciência dos aromas eróticos que elas produzem, suas secreções causam um forte impacto inconsciente que aumenta a excitação sexual. As glândulas da aréola podem muito bem fazer parte desse sistema primitivo de sinais aromáticos sexuais, e podem explicar por que o homem, ao explorar o corpo da parceira, passa tanto tempo cheirando a pele ao redor dos mamilos. À medida que a excitação cresce, os seios da mulher passam por várias mudanças marcantes. Os mamilos ficam eretos, chegando a crescer 1 cm. Os seios se intumescem de sangue, e seu tamanho aumenta cerca de 25%. Essa turgidez tem o efeito de tornar a pele mais sensível ao contato corpo-a-corpo do parceiro. Com a aproximação do orgasmo, duas importantes mudanças ocorrem. As aréolas se intumescem e incham tanto que começam a ocultar o mamilo, dando a falsa impressão de que uma mulher muito excitada perde a ereção do mamilo. Ocorre também uma erupção da pele semelhante à rubéola na superfície dos seios e em rodo o peito. Essa "erupção sexual" foi observada em 75% das mulheres submetidas a uma detalhada pesquisa sexual. É bem menos comum em homens, mas apareceu em 25% dos homens que participaram da mesma investigação. Sua ocorrência é mais provável, em ambos os sexos, no momento imediatamente anterior ao orgasmo. Nas mulheres, porém, às vezes aparece um pouco antes dele, enquanto nos homens ela nunca surge antes do último momento. Embora essa erupção não seja possível sem uma forte excitação sexual, o contrário não é verdade. Muitas pessoas de ambos os sexos nunca exibiram essa erupção apesar de uma vida de intensa atividade sexual e

orgasmos plenos. Não se sabe a razão dessa diferença. Um fator que favorece a erupção é um clima quente. No frio, indivíduos que costumam apresentar a erupção não a têm. Quando está muito quente, porém, a erupção pode se estender além do peito, cobrindo da testa às coxas. Um dos fatos que temos como certo é que as fêmeas humanas possuem apenas dois seios, mas nem sempre isso é verdade. Uma em cada duzentas mulheres possui mais que dois. Esse fenômeno e chamado de polimastia. Não há nada de sinistro nisso, e os seios adicionais geralmente não são funcionais. Às vezes, nada mais são do que mamilos adicionais; outras, pequenos botões sem mamilos. Muito raramente se vê uma mulher com mais de dois seios produzindo leite. O caso mais extraordinário é o de uma francesa apresentada à Academia Francesa de Medicina cm 1886 por um professor. Ela tinha nada menos que cinco pares de seios plenamente lactantes. Alguns meses depois, em uma das mais estranhas disputas médicas, um acadêmico rival foi capaz de apresentar uma mulher polonesa que tinha dez seios funcionais. Esses seios extras são vestígios de nossa ancestralidade: como a maioria dos outros mamíferos, nossas remotas ancestrais possuíam vários pares de seios, com os quais amamentavam toda a ninhada. Quando as ninhadas humanas se reduziram a um filho, ocasionalmente dois, os número de mamilos diminuiu. Muitas mulheres famosas tinham mais de dois seios. Júlia, mãe do imperador romano Alexandre, tinha vários seios e por isso foi chamada de Júlia Mamaea. Surpreendentemente, uma observação mais detalhada revela que a famosa estátua da Vênus de Milo, que está exposta no Louvre, exibe três seios. Esse fato costuma passar despercebido porque o terceiro seio não tem mamilo e não passa de uma pequena protuberância

situada acima do seio direito, próxima à axila. Dizia-se que a infeliz esposa de Henrique VIII, Ana Bolena, também tinha um terceiro seio — um fato fielmente registrado em livros sobre anormalidades médicas. Nesse caso, porém, o suposto terceiro seio bem podia ser uma mácula de "bruxaria". Houve um tempo em que se acreditava que as bruxas tinham mamilos extras com os quais alimentavam seus seguidores. Mulheres suspeitas de bruxaria eram às vezes examinadas em busca de sinais de seus métodos malignos. Os caçadores de bruxas cristãos examinavam as mais recônditas fendas de uma suspeita em busca de um mamilo oculto. Uma verruga, uma mancha um pouco maior ou mesmo um clitóris ligeiramente mais volumoso podia ser suficiente para levar a mulher à morte da fogueira. Os rumores sobre o terceiro seio de Ana Bolena podem ter sido propositalmente espalhados depois de sua morte para justificar que ela era má e merecia morrer. A figura polimástica mais famosa da historia é Diana — ou Ártemis — de Éfeso. Sua grande escultura mostra várias fileiras de seios. Algumas versões da estátua chegam a mostrar mais de vinte. Serão mesmo seios? Um olhar mais atento revela que nenhum desses seios tem mamilo ou aréola. Recentemente, o culto dessa deusa da Anatólia foi estudado com mais cuidado, fazendo surgir uma interpretação inteiramente nova. Para resumir o caso, o peito de Diana seria um lugar muito menos aconchegante do que há tanto tempo se supõe. Parece que os sacerdotes da deusa deviam ser eunucos: para servi-la, tinham que se castrar e enterrar os testículos perto do altar. Foram encontradas inscrições que revelam que, depois de algum tempo, testículos de touro substituíram os testículos dos sacerdotes nas cerimônias de castração. Seus imensos testículos eram extraídos e preservados em óleos aromáticos, e depois cerimoniosamente pendurados no peito da sagrada estátua. A estátua original era de madeira, mas foram feitas cópias em pedra, com a penca

de testículos colocada em seu devido lugar. Foram cópias imprecisas da estátua que deram origem ao erro de que a Grande Mãe possuía muitos seios. A razão pela qual o peito da deusa é coberto de testículos era a crença de que os milhões de espermatozóides neles contidos seriam capazes de fertilizá-la. Isso permitia que ela se tornasse mãe sem perder a virgindade, um tema que seria repetido em relação ao nascimento de Cristo. Um mito inteiramente diferente envolve a antiga nação de mulheres guerreiras conhecidas como amazonas. Não se sabe se elas existiram realmente, mas, segundo antigos escritores, existiu uma comunidade feminina muito temida pela forma como suas guerreiras atacavam as povoações vizinhas munidas de arco e flecha. Conta-se que, para tornar mais fácil o uso do arco, o seio direito de todas as jovens púberes era queimado. Apesar da lenda, todas as obras de arte representam essas guerreiras com dois seios. Se as amazonas existiram mesmo, é mais provável que, para a batalha, usassem um colete de couro que achatasse o seio direito. A palavra "amazona" vem do grego amazôn, que significa a (sem) e mazós (seios). Curiosamente, em anos recentes as mulheres ocidentais começaram a mutilar os seios com propósitos eróticos e decorativos. São casos raros, mas suficientemente disseminados para alarmar os sociólogos, um dos quais declarou que a nova moda de "inserir piercings nos mamilos, no umbigo e nos lábios, assim como o uso de correntes e jóias", poderia facilmente estimular uma legislação que proibisse o costume africano de circuncisão feminina. O uso de piercings faz parte da síndrome de aprisionamento do mundo das práticas sexuais exóticas. Nas sociedades tribais, a mutilação do seio é extremamente rara, pelo motivo óbvio de que ela prejudica a amamentação.

Menos danosas eram as decorações eróticas dos mamilos de tempos primitivos. Há 3 mil anos, oo Egito, as mulheres das castas superiores cobriam os seios com pinturas em ouro. Na Roma de 2 mil anos atrás, as mulheres preferiam pintar os mamilos de vermelho para apimentar os encontros eróticos. A ninfomaníaca imperatriz Messalina, esposa do imperador Cláudio, era famosa por seus mamilos pintados de vermelho, como comentou o satirista Juvenal: "Todas as noites ela se encapuzava e, na companhia da criada, o deixava para representar sua desavergonhada mascarada. [...] Desnudava os mamilos pintados e abria aquelas coxas que assistiram ao nascimento do nobre Britannicus". Entre as deliberadas ações destinadas a chamar a atenção para os seios femininos estão as posturas que projetam os seios para a frente e movimentos de dança que sacodem ou enfatizam a sua forma. A mais extrema delas foi uma dança praticada nos antigos espetáculos de burlesco em que as dançarinas giravam ambos os seios na mesma direção e depois na direção oposta. A forma mais simples de exploração sexual dos seios é, naturalmente, sua exposição em lugares onde eles deveriam estar cobertos. Isso ocorre nas sociedades urbanas de todo o mundo. "Fazer topless" é um ato provocativo que sempre atraiu muita atenção masculina. Às vezes, os homens em questão eram policiais uniformizados, como acontecia nas praias do sul da França nos anos 1960, onde muitas jovens, decididas a obter um bronzeado mais uniforme, resolveram ir à praia num traje de banho que tinha apenas a parte de baixo do maiô e suspensórios que passavam pelos bicos dos seios, os chamados monoquínis. No início, travaram-se batalhas entre constrangidos policiais e mulheres seminuas, mas em pouco tempo as autoridades perderam a guerra, e o topless acabou sendo permitido.

O primeiro maiô topless foi introduzido pelo controverso estilista austríaco Rudi Gernreich em 1964. Nos Estados Unidos, um desses trajes foi usado por uma dançarina de cabaré em seu número de dança, lançando a primeira performance topless. Outras casas noturnas logo seguiram o exemplo, mas no ano seguinte a oposição religiosa cresceu, e a polícia percorria os cabarés, prendendo as dançarinas topless por "conduta indecorosa". Elas eram então libertadas e voltavam ao trabalho. Em 1966, alguns restaurantes de Nova York lançaram garçonetes topless, mas em poucos dias a Prefeitura da cidade as colocou fora da lei. Em 1969, Ronald Reagan tomou uma atitude semelhante na Califórnia. Só na década de 1970 a resistência ao topless começou a decair. Mesmo então, foram estabelecidos limites sobre como, quando e onde ele podia ser usado. Curiosamente, um ato tão natural e assexuado como a amamentação às vezes cria um escândalo em ambientes urbanos. Em 1975, três mulheres americanas foram presas por amamentar seus bebês num parque de Miami. Seu crime foi classificado como "atentado ao pudor". As objeções a essas prisões aumentaram nos anos seguintes, c hoje amamentar em público é legalmente permitido em quase toda a América do Norte. Na década de 1980, observou-se uma outra forma de exposição pública dos seios. Exigindo igualdade sexual, grupos de mulheres expunham deliberadamente os seios em locais públicos, insistindo em serem tratadas como os homens, que podiam tirar a camisa sem problemas. (Por outro lado, alguns homens se recusavam a usar colarinho e gravata nos restaurantes de alto padrão porque as mulheres não eram obrigadas a isso.) Essa extrema reivindicação de igualdade sexual não era exatamente o que os reformadores sociais tinham em mente quando tentaram abolir as desigualdades de gênero.

Quando o século XX se aproximava do final, seios nus já eram exibidos em jornais, revistas, filmes e, mais tarde, também na televisão. Nos shows de strip-tease, eles eram literalmente esfregados no nariz dos clientes. Com tudo isso, embora os seios nus ainda causem um certo impacto, parte de seu misterioso poder de sedução se perdeu. Convém enfatizar que essa atitude mais permissiva em relação ao topless se restringe ao mundo ocidental. Mesmo no século XXI, mulheres ocidentais em férias se viram em apuros por ignorar esse fato. Recentemente, em 2003, uma adolescente inglesa foi condenada a oito meses de prisão, ou uma multa de 2.800 euros, por expor os seios numa boate na ilha grega de Rodes. Ela foi acusada de "desrespeitar os valores morais locais", o que prova que o tabu sobrevive. Antes de abandonar o tema da exposição dos seios femininos, um fato extraordinário merece menção. Diz respeito à aprovação de uma lei que determinava que os seios fossem exibidos em público — o extremo oposto de todas as outras medidas legais sobre o assunto. Essa lei foi aprovada em Veneza no século XV e aplicada às prostitutas que se punham à janela tentando atrair clientes. As práticas homossexuais eram tão comuns na época que algumas mulheres se travestiam com a intenção de atrair os homens que buscavam parceiros masculinos. Isso ofendeu de tal forma as autoridades que tentavam abolir a sodomia (punida com a morte), que as prostitutas foram obrigadas a exibir totalmente os seios para provar a que sexo pertenciam. Quando saíam de casa, havia uma ponte onde elas se punham de pé, desnudando o corpo da cintura para cima. A ponte ficou tão famosa que ganhou o nome de Fonte delle Tette. Uma breve referência se faz necessária para esclarecer o mal-entendido sobre antigas imagens da Deusa Mãe representadas apertando os seios com as mãos.

Acreditava-se que elas estariam chamando a atenção para os seios. Hoje sabemos que não era isso. Essas figuras, geralmente encontradas em túmulos, eram imagens de luto. Em tempos primitivos, as mulheres realizavam um ritual de luto que incluía bater no peito e apertar os seios. Um efeito colateral disso era que, se elas estivessem amamentando, um jato de leite jorrava dos seios. É possível que esse ato tenha sido incorporado a certos rituais. Antropólogos descobriram, surpresos, que em certas sociedades tribais, as mulheres lactantes reagiam de maneira semelhante a um súbito choque, agarrando os seios e fazendo-os jorrar leite. Finalmente, resta uma inevitável questão: o que as mulheres fazem em relação aos seios para passar uma imagem mais jovem e mais sexy. Durante séculos, elas usaram espartilhos apertados para realçá-los. Entretanto, embora esses corpetes melhorassem a forma dos seios, também restringiam os movimentos. Quando as mulheres começaram a reivindicar um papel mais ativo na sociedade, exigiram também roupas que permitissem maior liberdade de movimentos. Um dos primeiros passos nessa direção foi dado no início do século XX, quando o sufocante corpete foi separado em duas partes: uma superior, o sutiã, e outra inferior, a cinta. Mais tarde, a cinta também desapareceu, mas o sutiã veio para ficar. Hoje, o sutiã e as calcinhas são as peças favoritas da roupa de baixo feminina. Há divergências entre os historiadores da moda sobre quem inventou o sutiã. Mary Phelps Jacob (uma mulher da sociedade nova-iorquina conhecida profissionalmente como Caresse Crosby) insistia que foi ela a autora da invenção, da qual obteve a patente em 1914. A idéia lhe teria surgido no ano anterior, quando se vestia para ir a uma festa e descobriu que o espartilho era incompatível com o decote de seu belo vestido de noite. Num rasgo de

criatividade, usando dois guardanapos e alguns cordões, uniu as duas peças no que seria o primeiro sutiã. Na verdade, ela estava apenas reinventando a peça, porque suportes para os seios já tinham aparecido na França desde o final do século XIX, e desde 1907 eram chamados de "brassière". O costureiro francês Paul Pioret reivindica a honra de ter inventado o sutiã: "Em nome da Liberdade, proclamei a queda do espartilho e a adoção da brassière. [...] Libertei o busto". E ele não foi o único. A estilista inglesa Lucile (Lady Duff-Gordon), que introduziu o termo "chic" no mundo da moda, alega que foi ela que, em 1911, "inventou a brassière em oposição ao odioso espartilho". A verdade é que todos eles participaram de uma tendência geral que assistiu à libertação gradual do corpo feminino das antigas limitações. E receberam estímulo de uma fonte improvável. Durante a Primeira Guerra Mundial, a indústria de guerra, alarmada com a quantidade de metal que estava sendo desperdiçada na fabricação de espartilhos, iniciou uma campanha para abolir o seu uso e, dessa forma, estimulou a adoção do sutiã. Mais tarde, foi divulgado que 28 mil toneladas de metal haviam sido economizadas, "o suficiente para construir dois navios de guerra". O novo sutiã tinha duas funções bastante distintas. Protegia os seios, evitando que eles balançassem nos movimentos rápidos do corpo, e também os fazia parecer mais firmes e redondos, e portanto mais sexy. Quando algumas feministas queimaram sutiãs no fim da década de 1960, protestavam contra essa segunda função. Algumas historiadoras do feminismo alegam que a queima de sutiãs nada mais foi do que um golpe de publicidade dos antifeministas para ridicularizar o movimento. Essa afirmação causa estranheza, porque, embora a queima tenha sido exagerada pela imprensa, no

final dos anos 1960 e início da década de 1970 houve de fato um movimento contra o uso do sutiã, lado a lado com a revolta contra o excesso de maquiagem, o uso de batom e outras formas de feminilidade explícita. Nessa época, quando as feministas lutavam para que as mulheres fossem tratadas como iguais, havia o sentimento de que os homens deviam aceitar as mulheres como eram, sem embelezamentos. Como o uso do sutiã era parte desse embelezamento, tinha que ser abolido. Essa fase não durou muito, porque o desconforto de dispensar o sutiã foi inaceitável para a maioria das mulheres, e, com isso, a queima de sutiãs foi rapidamente esquecida. Em sua função erótica, o design do sutiã sempre buscou criar uma forma hemisférica, mas houve um curioso período na década de 1950 em que os estilistas substituíram a forma arredonda por um busto pontiagudo, obtido com "um bojo na forma de torpedo, que desafiava a natureza e a gravidade", ainda mais aumentado com o uso de enchimentos. Mas esses seios agressivamente pontiagudos logo deram lugar ao suave arredondado dos seios dos anos 1960 e nunca mais reapareceram no guarda-roupa comum. Só voltaríamos a vê-los de novo em 1994, num show de Madonna, onde ressurgiram como um par de ogivas de foguete. Segundo uma lenda de Hollywood, um dos sutiãs mais sofisticados foi criado pelo bilionário Howard Hughes para a atriz Jane Russell. Para um determinado papel num filme, ele queria que ela exibisse seios de forte apelo erótico sem recorrer ao topless. Para obter esse efeito, contratou os serviços de um engenheiro especializado no projeto de pontes, que inventou um protótipo de sutiã que erguia e ao mesmo tempo separava os seios. O resultado foi tão impressionante que provocou sérias tentativas de proibir o filme por obscenidade. (Essa é a história que vem sendo repetida, mas recentemente uma idosa Jane Russell declarou que, na verdade, nunca usou o famoso sutiã.)

Tanto os antigos espartilhos quanto os modernos sutiãs podem realçar os seios, mas, quando a mulher tira a roupa, um recurso mais drástico pode ser necessário. E aí entra em cena o cirurgião plástico. A colocação de implantes para fazer os seios permanecerem redondos e firmes começou nos anos 1960. O primeiro implante de uma prótese de silicone foi realizada por um cirurgião plástico do Texas em 1963. A cirurgia se tornou cada vez mais popular nas décadas de 1970 e 1980, até que na década de 1990 houve um boom desse procedimento, com mais de 100 mil cirurgias por ano. Calcula-se que, no ano de 2002, mais de 1 milhão de americanas tiveram os seios aumentados pela cirurgia. É um número assustador para qualquer tipo de cirurgia plástica, o que revela a força dos seios como símbolo sexual. Infelizmente, os seios obtidos por cirurgia nunca são totalmente convincentes ao olhar ou ao tato. Às vezes, são perfeitos demais e não possuem o movimento e a suavidade que deveriam ter. Por isso, o século XXI está assistindo ao início de uma tendência contrária. Em 2001, nada menos que 4 mil mulheres americanas se submeteram a uma nova cirurgia para remover os implantes de silicone. Isso alarmou alguns cirurgiões plásticos que enriqueceram como criadores de superseios, mas parece estar havendo uma volta aos seios naturais, ainda que eles sejam menores. Espera-se que, neste período pós-feminista, os homens estejam começando a escolher suas parceiras mais pela personalidade do que pelo tamanho do busto, mas infelizmente nem sempre isso acontece. Algumas mulheres admitem que estão removendo seus implantes simplesmente porque eles já cumpriram sua função. Adquiridos para conseguir um marido de alta condição social, eles se tornam desnecessários quando a mulher se acomoda na vida de casada.

Algumas mulheres lamentam ter se submetido a esse tipo de cirurgia para agradar a um marido potencial. Uma advogada resumiu o motivo da "reversão" cirúrgica dizendo que, depois do divórcio "a primeira coisa de que me livrei, depois de seu cão malcheiroso, foi do maldito busto. [...] Senti que meu QI saltou vinte pontos".

15. Cintura
Um dos sinais mais claros que identificam o corpo feminino é a forma de ampulheta de seu tronco. Essa cintura fina parece ainda mais delgada pelo volume dos seios e dos quadris, mas, mesmo sem esse contraste, a cintura feminina é mais fina que a masculina. A maneira mais comum de expressar a curva da cintura é medi-la em proporção aos quadris. Os resultados são interessantes. Para uma mulher adulta, a proporção é de 7:10, enquanto para o homem adulto é de 9:10, uma diferença que se mantém apesar das diversidades culturais. Se uma determinada sociedade acha uma figura mais volumosa atraente e outra prefere figuras mais delgadas, isso não afeta a proporção entre cintura e quadris. Homens e mulheres, gorduchos ou magrelas, continuam apresentando uma acentuada diferença no tamanho da cintura. Livre do aperto das cintas e dos espartilhos, a cintura das mulheres de hoje tem em média 71cm. Jovens de corpo delgado, como as modelos e misses, têm em média 61 cm de cintura, enquanto as atletas de esportes que exigem força muscular apresentam uma cintura um pouco mais larga, de cerca de 74 cm. Naturalmente, para que o corpo feminino revele um belo contorno, esses números precisam ter uma relação harmoniosa com as medidas de busto e de quadril. É a proporção entre essas três medidas que gera o contorno típico do corpo feminino. Uma jovem eleita num concurso de beleza costuma ter uma figura perfeitamente equilibrada, com medidas idênticas de busto e quadril. Geralmente, a típica rainha de beleza mede 91-61-91 cm. Uma modelo preferida pelos estilistas atuais provavelmente medirá 76-61-84 cm. Essa

modelo pode ter um rosto belíssimo e saber vestir uma roupa, mas não terá o contorno de ampulheta que atrai o olho primitivo do macho. A típica mulher inglesa tem um problema um pouco diferente, já que suas medidas são 94-71-99 cm. Seu quadril, sendo 5 cm mais largo que o busto, apresenta o que chamamos de "2 polegadas a mais". Essa diferença é ainda maior em outros países europeus. Na Alemanha e na Suíça, é de 6 cm, e na Suécia e na França, de 8 cm. A situação se inverte nas garotas que ilustram as revistas americanas. As medidas de uma típica pin-up são 94-61-89. Em lugar do excesso de quadris, são 2 polegadas a mais no busto. Seus seios são do mesmo tamanho que os das européias, mas parecem maiores porque a cintura e os quadris são menores. Geralmente, são consideradas "peitudas", mas isso é só uma ilusão criada pelo tamanho da cintura e dos quadris. Pode-se argumentar que "estatísticas" como essas são desatualizadas e irrelevantes. Os organizadores dos concursos de beleza não ousam mencioná-las na nossa sociedade pós-feminista, mas a verdade é que elas continuam a desempenhar um papel fundamental nas relações humanas. Numa recente pesquisa, várias silhuetas femininas de proporções variadas e em tamanho natural foram expostas em fila num shopping center, e os homens que passavam por ali eram solicitados a dizer de qual delas eles mais gostavam. A grande maioria escolheu a figura curvilínea de cintura fina e proporções equilibradas. O veredicto desses homens selecionados aleatoriamente reforça a opinião de que a imagem da mulher curvilínea de cintura fina está demasiadamente arraigada na psique masculina para ser varrida por uma postura cultural moderna. Como aconteceu com outras partes do corpo feminino, houve exageros. Acreditava-se que, se uma cintura fina era

feminina, então uma cintura finíssima devia ser superfeminina, e no passado muitas jovens sofreram para conseguir essa condição. A razão para a cintura fina despertar tanto interesse é simples e biológica. Depois que a mulher tem seu primeiro parto, a cintura sempre se alarga um pouco. Mesmo que ela consiga, com um regime alimentar rigoroso, recuperar o corpo esbelto que tinha antes da gravidez, a cintura nunca mais vai ser tão fina como era. Isso acontece devido às irreversíveis mudanças que ocorrem na região abdominal quando ela se torna mãe. Calcula-se que, depois de vários partos, a cintura da mulher aumente de 15 a 20 cm em média. Por isso, a cinturinha fina tem sido há séculos símbolo de virgindade — de uma mulher que já está preparada para o sexo mas ainda não o experimentou. Essa condição exerce tal atração sobre o macho reprodutor da espécie que muitas mulheres, mesmo aquelas que já não a possuem, anseiam recuperá-la, mesmo que de uma maneira simbólica. Para conseguir isso, há séculos a mulher espreme a cintura com cintas apertadas e espartilhos, dando margem a acaloradas discussões. Os argumentos não são nada simples. Não se trata de um debate entre puritanos e hedonistas, como ocorre em relação a tantos aspectos da moda feminina. Entre os que se opunham radicalmente ao culto da cintura fina obtida por esses acessórios havia religiosos e liberados. Voltando ao século XVII, foram os puritanos os primeiros a atacar. Defendiam vigorosamente a teoria de que qualquer tentativa de mudar a obra da natureza no corpo feminino era uma ofensa a Deus. Em 1654, John Bulwer vociferava contra "os perigosos modismos e desesperados artifícios em relação à cintura". Descrevia um espartilho como "uma moda perniciosa inimaginável" e lançava ameaças às mulheres que "se apertavam para

conseguir uma cintura fina, e não se contentavam enquanto não pudessem rodeá-la [com as próprias mãos]". Se ignorassem seus conselhos, elas estariam "abrindo a porta para a tuberculose e para uma putrefata decadência". Essa idéia foi repetida inúmeras vezes nos anos seguintes. O subtítulo de um livro sobre os perigos de apertar a cintura, publicado em 1846 pelo escritor americano Orson Fowler, referia-se "aos males infligidos à mente e ao corpo quando se comprimem os órgãos, retardando e enfraquecendo dessa forma as funções vitais". No lugar da putrefata decadência de Bulwer, Fowler prometia a insanidade e a degeneração. Outros críticos menos extremados também revelaram seu temor de complicações médicas provocadas pelo aperto dos espartilhos. Entre as doenças relacionadas escavam dores de cabeça, desmaios, hérnia, mau funcionamento do fígado, aborto, dificuldades respiratórias e problemas circulatórios. Alguns chegavam a ponto de incluir deformidades ósseas, câncer, insuficiência renal, malformações fetais, epilepsia e esterilidade. Um autor vitoriano listou nada menos que 97 doenças que, segundo ele, podiam ser causadas pelo uso de corpetes apertados. Todas essas advertências em relação à saúde eram desnecessárias, porque a maioria das jovens que usavam espartilhos eram suficientemente sensatas para não apertá-los demais ou usá-los por longos períodos de tempo. Era óbvio que o espartilho muito apertado podia prejudicar a respiração e a circulação, além de causar dores de cabeça, desmaios e falta de ar. O uso prolongado também podia enfraquecer os músculos das costas, de modo a provocar dor quando o espartilho era removido, Mas um espartilho não muito apertado, usado apenas em ocasiões especiais, podia criar a cintura fina desejada sem causar doenças, e era isso que a maioria das jovens fazia, apesar das histórias de horror.

Um ataque completamente diferente veio das liberadas dos tempos modernos. Para elas, a idéia de usar qualquer roupa apertada era um insulto a liberdade feminina. A limitação física não era apenas prejudicial ao corpo, mas também símbolo de uma prisão mental em relação ao macho. O espartilho apertado seria um instrumento de tortura imposto às mulheres submissas como parte da opressão masculina. Se a mulher moderna queria ondular o corpo de maneira provocante numa pista de danças, não podia tolerar nenhuma roupa apertada. Se queria ter igualdade sexual durante as preliminares, tinha que ser tão flexível e solta quando seu parceiro. Se queria ter uma cinturinha fina, tinha que consegui-la correndo ou fazendo exercícios, em vez de recorrer à solução passiva de se prender dentro de um corpete apertado. Em sua busca de admiração masculina, tinha que substituir a disciplina inativa da roupa pela disciplina ativa da atividade física. A feminista inteligente também queria liberdade para o corpo, mas por uma razão diferente. Para ela, o objetivo era desviar a atenção masculina do corpo e dirigi-la para as qualidades do cérebro. Para impressionar o parceiro, ela usaria sua capacidade intelectual, e não seu potencial reprodutivo. Portanto, qualquer tentativa de exagerar sua silhueta feminina era proibida. Essas eram as vozes que se erguiam contra o desejo de melhorar o natural contorno curvilíneo do corpo feminino. Contra elas, alinhavam-se os defensores do espartilho e seus vários pontos de vista. Primeiro, alegavam que o uso de um espartilho apertado mostrava disciplina e representava simbolicamente uma louvável contenção. Em segundo lugar, diziam que o espartilho era sinal de respeitabilidade e altos princípios morais, porque ajudava a tornar a mulher inacessível. Ele seria uma armadura contra a

atenção masculina. A cintura fina podia excitar os olhos dos homens, mas o corpete apertado por um complexo entrelaçamento de cordões deixava o corpo desnudo muito mais distante. Nos primeiros tempos, o espartilho também era importante para exibir uma postura aristocrática. A mulher apertada dentro de um corpete era obrigada a adotar uma postura ereta que lhe dava um ar de graciosa altivez. O que a ajudava a manter o tronco ereto era uma barbatana enfiada verticalmente na parte da frente do espartilho. (Dizia-se que ela servia também como arma com a qual a mulher podia se defender de algum admirador que perdesse o controle e tentasse soltar os cordões.) Dentro de um espartilho, a mulher também dava a impressão de estar vulnerável (apesar da barbatana) como um animal preso numa armadilha. O corpo enjaulado restringia sua capacidade de fugir a alta velocidade. Era inevitável que isso atraísse o macho, que inconscientemente vivia a fantasia de que seria fácil capturá-la se decidisse persegui-la. Para alguns homens, esse aprisionamento dentro do espartilho funcionava como um apelo fetichista. A atração do corpete não estava apenas na silhueta que ele criava, mas também no conhecimento tácito de que a mulher admirada estava sofrendo uma tortura física para agradar a seu admirador. Por isso, é fácil entender por que os corpetes se tornaram um elemento da encenação sadomasoquista. Para resumir, diremos que tanto os puritanos quanto os libertinos tomam partido pró e contra os espartilhos. A presença do corpete pode ser vista como uma prisão ou como um estímulo à sensualidade; sua ausência pode construir a imagem de uma mulher natural e liberada ou de uma libertina.

Tal é o interesse na espessura reduzida da cintura feminina que dois mitos surgiram nos tempos modernos. O primeiro é que, antigamente, em conseqüência do uso de corpetes apertados, a preocupação com as medidas era generalizada. Na época vitoriana, por volta do fim do século XIX, uma jovem atraente era aquela cuja cintura medisse em polegadas o número exato de sua idade. Um provérbio espanhol recomendava que a mulher tivesse uma cintura tão fina quanto a de um galgo. E um velho provérbio dizia que a mulher ideal era aquela cuja cintura fosse "tão fina que o sol não pudesse captar sua sombra". Acreditava-se que cinturas que mediam entre 38 a 41 cm eram comuns e podiam ser alcançadas se a mulher começasse a usar espartilhos apertados desde muito cedo, antes da puberdade. Caricaturas dos séculos XVIII e XIX mostram mulheres sendo brutalmente apertadas dentro de um espartilho até a cintura desaparecer. Recentemente, porém, cuidadosas pesquisas desmentiram essa crença. O primeiro golpe foi dado em 1949, quando um detalhado estudo sobre a indumentária de séculos anteriores descobriu que a menor medida de cintura encontrada numa imensa coleção de roupas era de 61 cm. Em 2001, uma nova pesquisa confirmou esse fato. A menor medida de cintura encontrada no vestuário do século XVIII foi de 61 cm. É verdade que as coisas pioraram um pouco no século XIX, graças à invenção dos ilhoses de metal, que permitiam uma amarração mais firme, mas ainda assim a menor medida registrada foi de 46 cm. Na época vitoriana, no auge da moda dos espartilhos com ilhoses, as medidas variavam de 46 a 76 cm. Isso não significa que cinturas diminutas não tenham existido, mas que, se elas existiram, eram casos isolados. Mesmo no século XX, exemplos extremos foram registrados: o Guinnes Book of Records menciona uma

inglesa que conseguiu reduzir sua cintura de 56 cm em 1929, quando tinha 24 anos, a surpreendentes 33 cm em 1939. Depois disso, ela viveu mais 43 anos, o que prova que, pelo menos no seu caso, o brutal aperto não causou nenhum dano aos órgãos internos. Vale ressaltar que essa mulher foi uma excêntrica exceção à regra, e não representava uma tendência social. As mulheres podem desejar uma cintura mais fina devido aos sinais primitivos que ela transmite, mas não devem ir longe demais para consegui-la, caso contrário isso pode se transformar numa obsessão capaz de transtornar o equilíbrio da vida. As poucas mulheres que foram longe demais em séculos passados têm suas equivalentes modernas nas fanáticas por regime de hoje. Mas a grande maioria das mulheres nunca chegou a esses extremos, e afirmações em contrário constituem um dos maiores mitos da história da moda. O segundo mito é que, na busca da cintura perfeita, as mulheres vitorianas chegavam a se sujeitar a perigosas operações para remoção de costelas. Livros de história da moda afirmaram categoricamente que, no fim do século XIX, algumas mulheres estavam obtendo a perfeita figura de ampulheta depois de terem as costelas inferiores removidas cirurgicamente. Os autores não davam detalhes, mas incluíam algumas fotos para ilustrar as cinturas assustadoramente finas obtidas por esse meio. Muitos autores posteriores (inclusive eu, em O macaco nu, e Germaine Greer, em A mulher eunuco) aceitamos e repetimos essa declaração, usando-a como exemplo dos exageros a que as mulheres chegavam para melhorar a natureza. Parece que nos enganamos. Uma detalhada pesquisa realizada por Valerie Steel, do New York Fashion Instituto, chegou a uma clara conclusão; "Não há nenhuma evidência de que essa prática tenha existido...". Ela afirma que não há menção à remoção de costelas em nenhuma história da cirurgia plástica e que, no fim do século XIX,

essa seria uma operação muito arriscada. A técnica médica da época não estava suficientemente desenvolvida para que o cirurgião corresse esse risco. Olhando de novo as fotos das mulheres que supostamente teriam removido as costelas, parece provável que as imagens tenham sido retocadas para fazer a cintura parecer menor. Apesar disso, a necessidade de acreditar na cirurgia de remoção de costelas é tão grande que fez nascer uma nova lenda. Há anos correm boatos de que famosas estrelas de Hollywood se submeteram recentemente à operação. Afirma-se que, agora que temos uma tecnologia cirúrgica avançada, a operação tem sido realizada. No mínimo sete famosas atrizes têm sido mencionadas entre as que teriam sacrificado as costelas inferiores na ânsia de ter um corpo mais bonito. A verdade é que não há evidências de que esses difíceis procedimentos cirúrgicos tenham se realizado, e a maioria das estrelas que são vítimas dos boatos simplesmente os ignoram por considerá-los ridículos. No caso da cantora Cher, porém, os rumores foram tão persistentes que ela foi obrigada a publicar um desmentido, submetendo-se a um exame medico e processando uma famosa revista francesa por repetir a história. Embora hoje esteja claro que nem as damas vitorianas nem as atrizes atuais se submeteram a essa medida extrema, resta uma dúvida: será que alguma cirurgia desse tipo chegou a ser realizada? Não se pode afirmar com certeza, mas há evidências de que ela pode ter sido feita em alguns poucos casos raros. Numa descrição de procedimentos cirúrgicos oferecidos a transexuais que desejam parecer mais femininos pode-se ler o seguinte: "A remoção das costelas é ocasionalmente realizada para obter uma curva da cintura mais pronunciada". Mas segue-se uma advertência: "Não é aconselhável". São citados também os nomes de vários cirurgiões plásticos

preparados para realizar a cirurgia, assim como o preço de US$ 4.500. Em Hamburgo, uma jovem alega ter reduzido as medidas da cintura de 51 para 36 cm com cintas, espartilhos e uma operação de remoção de costelas. Conta que esteve hospitalizada durante três dias depois da cirurgia, que foi um sucesso, levando-a a aparecer na televisão da Alemanha, da Austrália e da América para exibir sua extraordinária figura. Suas declarações podem ser verdadeiras, mas com certeza esse seria um caso isolado. Afirmações de que "cirurgias de costelas eram relativamente comuns nos anos 1950" e outras semelhantes continuam sem fundamento. A remoção rotineira de costelas parece não ser senão um mito surgido de repetidas fofocas. Essa persistência reflete não uma verdade cirúrgica, mas a tenacidade de uma fantasia masculina. A imagem de uma cintura fina parece estar indelevelmente impressa no cérebro do macho humano.

16. Quadris
Os amplos quadris da fêmea humana constituem um dos principais símbolos da silhueta feminina. Independentemente de a cintura ser estreita ou não, uma bacia larga emite a mensagem primitiva de que a mulher é capaz de gerar descendência. Só quando entra numa fase em que prefere a juvenilidade à fecundidade uma sociedade abandona o interesse pelos quadris largos e passa a valorizar uma aparência mais delgada e mais masculina. Como a bacia da mulher é mais larga que a do homem, a largura dos quadris é um dos principais sinais de diferenciação entre os sexos. Para ser preciso, a pelve feminina mede em média 39 cm, enquanto a masculina só chega a 36 cm. Essa diferença biológica levou a muitos exageros. Hoje, a maioria das mulheres está satisfeita com o tamanho natural dos seus quadris, mas no passado muitas vezes se tornaram escravas do desejo de possuir um quadril avantajado e vítimas da tecnologia capaz de produzi-lo. Até que ponto as fanáticas foram capazes de chegar é inacreditável. No século XVI, os ateliês europeus vendiam desajeitadas "almofadas" que pareciam pneus de automóveis. Esses travesseiros eram amarrados por baixo das amplas saias para dobrar o tamanho dos quadris, mas acabavam deixando os vestidos tão pesados que as damas da época eram incapazes de qualquer atividade mais vigorosa. O século XVIII assistiu ao aparecimento das "anquinhas", uma armação de arame usada sob a saia para criar a impressão de ancas largas. Deixavam as saias tão amplas que a mulher era obrigada a passar pelas portas de lado.

Passando da forma aos movimentos e posturas, não surpreende que quase todos os movimentos dos quadris tenham uma marca feminina. Maneiras de andar que envolvem um evidente balanço dos quadris são tão femininas que são utilizadas como caricaturas em performances cômicas. Só homens representando mulheres ou homossexuais afetados se permitiriam movimentos ondulantes desse tipo. Muitos passos de dança incluem vigorosos movimentos dos quadris, e esses também pertencem mais ao repertório da mulher que do homem. Na famosa dança hula-hula, jovens executam movimentos ritmados em que giram, sacodem e ondulam os quadris. Dois movimentos especiais da dança são o ami e o "rodeando a ilha". O ami é um movimento de rotação. A dançarina levanta uma mão, enquanto a outra descansa no quadril, que então se movimenta num círculo, primeiro no sentido horário e depois no sentido anti-horário. O segundo movimento é semelhante, com a diferença de que o quadril completa um quarto de círculo, "rodeando a ilha" em quatro movimentos. Dos gestos que envolvem a pelve, o mais importante talvez seja a postura de mãos nos quadris, também chamada de akimbo. Costuma-se dizer que ela indica autoridade ou desafio, mas é mais que isso. É essencialmente uma postura anti-social, o oposto de abrir os braços para convidar a um abraço. Na verdade, é muito difícil abraçar alguém que esteja na postura akimbo. Quando a pessoa apóia as mãos nos quadris projetados para a frente, os cotovelos apontam para fora como se dissessem: "Mantenha a distância ou vou acertar você!" Muitas vezes, a pessoa assume automática e inconscientemente essa postura de acordo com seu estado de espírito. A postura akimbo ocorre sempre que a pessoa quer afastar alguém. É por isso que ela é vista como uma

atitude de desafio. A mulher que pára à porta de sua casa com as mãos nos quadris está dizendo: "Afaste-se. Não ouse entrar". Isso é porque essa postura também transmite uma disposição autoritária. A pessoa que tem autoridade e gosta de exibi-la não quer partilhar o espaço com os outros. No chefe de um grupo, a postura akimbo avisa aos demais que se mantenham em seus lugares. Essa postura também é usada por indivíduos que acabaram de sofrer um revés. Eles podem não estar numa posição de autoridade, mas com certeza não estão buscando conforto nos outros. Uma esportista que acaba de perder uma competição imediatamente coloca as mãos nos quadris, em geral com a cabeça ligeiramente abaixada, refletindo o sentimento de derrota. A mensagem que ela comunica é: "Fique longe de mim. Estou tão irritada que não quero ninguém perto de mim". Se uma mulher quer se afastar de um grupo que está, digamos, à sua esquerda, apóia apenas o braço esquerdo no quadril. Se houver à sua direita um grupo com o qual ela tenha afinidade, o braço desse lado permanece abaixado. Essa postura pela metade, muito observada em festas e outras reuniões sociais, revela as relações entre os presentes. Uma curiosidade dessa postura é que, apesar de ser usada mundialmente, não parece ter um nome em outras línguas. É geralmente descrita como "mãos nos quadris", mas não há uma palavra que a defina. Entretanto, é um dos mais comuns padrões de comportamento humano, que vemos todos os dias e ao qual reagimos subliminarmente sem analisar a mensagem corporal que estamos recebendo. Se fosse um gesto mais consciente, como um cumprimento, todas as línguas teriam uma palavra para defini-lo. Finalmente, existe um contato pessoal que envolve o quadril. Jovens amantes costumam caminhar lado a lado

com os flancos se tocando e as mãos cruzadas nas costas e apoiadas no quadril do parceiro. Querendo se abraçar plenamente e caminhar ao mesmo tempo, esse abraço do quadril é um meio-termo. É uma postura que atrapalha um pouco o movimento, mas nessas situações a mobilidade do casal é menos importante do que a demonstração de intimidade — que é feita para eles mesmos e para os outros. Funciona como um gesto de exclusão em relação a qualquer pessoa que os acompanhe ou os observe. Como sinal, esse tipo de abraço transmite uma mensagem mais forte do que o abraço em que uma pessoa toca o ombro da outra, e que é muito comum. Dois homens podem se abraçar desse jeito quando estão parados ou caminhando juntos. É um gesto de amizade, e não há nada nessa intimidade que indique uma ligação sexual. Mas quando uma pessoa abraça o quadril de outra a posição da mão dá ao ato um peso sexual. Por essa razão, um homem só abraça assim uma mulher, a menos, é claro, que queira exibir sua homossexualidade em público. Um estudo tentou analisar as diferenças de gênero em relação a esse tipo de abraço no quadril. Foi contatado que, na maioria dos casos, só um parceiro abraça, enquanto o outro apenas recebe o abraço. Em 77% dos casos o homem abraça a mulher; em 14% a mulher abraça o homem; e em 9% uma mulher abraça outra. (O abraço entre pais e filhos pequenos foi excluído da pesquisa.) Como se previa, não houve abraço entre homens, mas parece que o tabu é menor entre mulheres — o que ocorre, aliás, com outras trocas de intimidade em público, como os beijos de comprimento. A porcentagem muito maior de homens que abraçam mulheres do que de mulheres que abraçam homens reflete uma atitude geral dos adultos em relação a essa região do corpo. Evidentemente, os homens se interessam muito mais pelos quadris das mulheres do que o contrário. Do ponto de vista social, está claro que os

quadris são atributos essencialmente femininos. Devido à sua ligação com a procriação, eles carregam quase tanta feminilidade quando os seios.

17. Barriga
A barriga da mulher sempre foi uma região tabu, não apenas por ser uma zona erótica por si só, mas pelo fato de estar intimamente relacionada com os genitais. Roupas que expõem a barriga atraem o olhar para a região genital. No mundo ocidental, as roupas de uso diário sempre cobriram a barriga, mas nos últimos anos (desde 1998, para ser preciso) a moda de jeans de cintura baixa combinados com uma blusa muito curta colocou a barriga feminina no foco das atenções. A razão para essa exposição é interessante e tem muito a ver com uma importante mudança no vestuário feminino: de uns anos para cá, as mulheres, que só usavam saias, passaram a adotar as calças compridas. Hoje, mais de 80% das mulheres que são vistas nas ruas das cidades usam jeans ou outro tipo de calças. Em conseqüência disso, as pernas deixaram de ser expostas e alguma outra parte do corpo precisou ocupar o seu lugar. Blusas que expõem os ombros e o sulco dos seios foram muito usadas no passado, mas essa solução se tornou muito familiar. Era necessário algo novo, e alguém teve a brilhante idéia de usar uma blusa bem curta, que não alcançasse a cintura das calças. De repente, nasceu uma nova zona erógena, e a moda se espalhou rapidamente. As pernas podiam estar inteiramente cobertas, mas em compensação os umbigos femininos podiam ser admirados pelos homens (por enquanto, pelo menos até que o ciclo da moda se mova de novo). A idéia que está por trás dessa mudança foi lançada pelos críticos de moda alemães nos anos 1920, que explicaram que a moda feminina obedece a uma lei de troca das zonas erógenas. Segundo essa lei, as mulheres sempre vão querer mostrar uma determinada parte do corpo, mas essa exposição vaí sempre mudar de uma zona

para outra. À medida que uma é coberta, outra é exposta. Existem duas razões para isso. A primeira é o desejo de novidade: cada nova exposição é excitante porque mostra algo que não tem sido visto nos últimos tempos. A segunda é que, se mais de uma parte do corpo for exposta ao mesmo tempo, a imagem será de vulgaridade. Assim, para manter sempre alguma exposição sem exagerar, uma parte vai sendo exposta depois da outra ao sabor da moda. Agora, no início do século XXI, a ênfase recai sobre a barriga. Uma vantagem disso é que a nova moda de piercings no umbigo pôde vir à luz. Um dos problemas com o uso de piercings abaixo do pescoço é que só pessoas muito íntimas ficam sabendo de sua existência. Com a nova moda, eles deixaram de ser usados apenas por uma minoria para serem adotados por um público muito maior. Os piercings de umbigo têm um evidente apelo decorativo, mas surpreende que mulheres sexualmente ativas queiram usar uma jóia num lugar tão vulnerável. Uma relação sexual papai-e-mamãe pode causar problemas, com alto risco de o umbigo se rasgar quando um corpo se esfrega no outro. Alguns escritores deram a isso o nome de "vandalismo umbilical", mas apesar disso, no início do século XXI, o piercing no umbigo era o segundo na preferência das mulheres, superado apenas pelos piercings na orelha. Mas que atitude nossos antepassados tinham em relação a essa parte da anatomia feminina? Na época vitoriana, como não era de bom tom usar a palavra "barriga", foi preciso encontrar um termo substituto. Como a região da barriga contém o estômago, e como o estômago está posicionado mais alto, bem longe dos "impronunciáveis" genitais, os vitorianos decretaram que uma dor de barriga se tornasse uma dor de estômago. Essa imprecisão anatômica ficou tão arraigada no

vocabulário que sobreviveu nos tempos modernos, muito depois de a pudicícia vitoriana ter deixado de existir. Enquanto uma classe educada empurrava a barriga para a região do estômago, outra classe a empurrava para baixo, para a região genital. Com igual imprecisão, essa classe se referia à barriga como se ela fosse a região abaixo da linha dos pêlos púbicos. Uma terceira imprecisão era usar a palavra "barriga" como sinônimo de "útero". Numa época em que as mulheres eram condenadas à morte pela prática de certos crimes, havia uma conhecida estratégia que se chamava "apelo da barriga''. Baseava-se numa lei que não permitia que a pena capital fosse aplicada à mulher grávida. Na maioria das prisões havia homens cuja tarefa era garantir que as internas tivessem condições de pleitear esse direito. "Barriga" é o termo popular para "abdome", que é a parte do corpo situada entre o tórax e a pelve, contendo o estômago, os intestinos e, na mulher, o útero. Essa região do corpo tem poucas marcas superficiais. Além do umbigo, há uma depressão chamada linea alba. Num indivíduo adulto, essa linha corre verticalmente do umbigo até o peito. Se observarmos um corpo jovem e atlético, a linea alba é vista como uma estreita mas nítida depressão da carne, que assinala o ponto onde os músculos do lado esquerdo do corpo se encontram com os músculos do lado direito. Entretanto, numa pessoa gorda (de qualquer idade), é difícil perceber essa linha. O ventre da mulher é mais arredondado na parte inferior que o do homem. Ele também é proporcionalmente mais longo, com uma distância maior entre o umbigo e os genitais. O umbigo da mulher também é mais profundo que o do homem, considerando-se que os dois indivíduos tenham uma compleição semelhante. Podemos resumir essas diferenças dizendo que a mulher tem um abdome

maior e mais curvo que o homem, um aspecto que muitas vezes é exagerado pelos artistas. À medida que a mulher fica mais velha, seu corpo ganha peso, e sua barriga, mais volume. E se ela cai na tentação de comer demais, logo se torna lamentavelmente — ou orgulhosamente — barriguda. Em períodos de escassez de alimentos, uma barriga grande era ostentada com orgulho, e as jovens das tribos eram engordadas para o casamento. O novo puritanismo corporal, com sua obsessão pela eterna juventude, mudou tudo isso. Hoje, uma barriga chata, sem sinal de gordura, é um sonho feminino em qualquer idade. Essa mudança na visão da barriga teve um estranho efeito colateral: alterou a forma do umbigo feminino. Em corpos mais cheios o umbigo é circular, mas num corpo delgado ele parece mais um talho vertical. Uma pesquisa sobre obras de arte que mostravam as mulheres carnudas de antigamente revelou que a grande maioria (92%) exibia um umbigo circular. Numa pesquisa semelhante sobre as modelos fotográficas de hoje essa porcentagem caiu para 54%. Portanto, as mulheres magras de hoje têm seis vezes mais probabilidade de ter um umbigo na forma de uma fenda vertical do que suas voluptuosas predecessoras. Mas existe algo mais do que apenas a perda de peso nessa mudança. Um corpo esbelto, por mais magro que seja, só cria a possibilidade de um umbigo vertical. Se ele será exibido ou não, vai depender da postura da modelo. A mais magra das mulheres pode apresentar um umbigo circular se jogar o corpo para a frente. Assim, consciente ou inconscientemente, as poses modernas parecem enfatizar o umbigo vertical. Não é difícil imaginar a razão disso. Como o umbigo parece um orifício, sua presença no meio do ventre não pode deixar de lembrar os verdadeiros orifícios que se situam abaixo dele. O orifício genital feminino está por trás de uma fenda vertical, enquanto o

orifício anal é muito mais circular. Segue-se que essa mudança para a exibição de um umbigo vertical fortalece o simbolismo genital. Em fotos sensuais em que a fenda genital fica oculta, o fotógrafo e sua modelo podem se unir para oferecer subliminarmente um falso orifício como substituto do real. Se isso parece muito fantasioso, basta observar o que aconteceu com o umbigo nos períodos mais puritanos do século XX. Nas primeiras fotos, ele era simplesmente suprimido. As fotos eram retocadas para dar a ridícula impressão de que o ventre da mulher era completamente liso. Fazia-se isso porque, segundo se dizia, o umbigo era sugestivo demais. Sugestivo do quê, nunca foi dito. Os primeiros filmes provocaram choque e horror diante da exposição dessa parte da anatomia das dançarinas. Uma carta oficial do censor aos produtores do filme Mil e uma noites dizia: "Aprovado para adultos desde que sejam cortadas todas as cenas de dança que mostram o umbigo das dançarinas". Uma segunda onda de censura, nos anos 1930 e 1940, voltou a suprimir o umbigo. O conhecido código moralista de Hollywood dizia que os umbigos estavam proibidos. Se não pudessem ser cobertos pela roupa, deviam ser preenchidos com jóias ou qualquer outro ornamento. O que parecia ofender os puritanos espectadores era o fato de as dançarinas serem capazes de mexer o umbigo enquanto ondulavam o corpo seminu. Isso aprofundou o simbolismo do umbigo, que tinha que ser omitido para evitar a histeria sexual da platéia. Mal o mundo ocidental tinha relaxado a censura cinematográfica do umbigo e ele já sofria um novo ataque. Dessa vez, vinha da terra da dança do ventre, o Oriente Médio. Com os preceitos religiosos e culturais que dominavam o mundo árabe, as dançarinas das casas noturnas foram instruídas a cobrir a barriga quando dançassem.

Essas restrições deixam claro que o umbigo tem força erótica, mesmo que hoje, para a maioria de nós, ele pareça um detalhe relativamente inócuo da anatomia humana. Os manuais de sexo perceberam esse poder e enfatizam seu fascínio aos amantes que exploram o corpo do parceiro. Em The Joy of Sex, por exemplo, pode-se ler: "Ele pode proporcionar muitas sensações sexuais cultiváveis; ele se adapta ao dedo, à glande ou ao dedão do pé, e merece cuidadosa atenção quando você o beijar ou tocar". Uma pose muito popular nos manuais sexuais ilustrados mostra o homem explorando o umbigo da parceira com a língua — um pseudo pênis inserido numa pseudo vagina. Para alguns, o interesse nas possibilidades eróticas do umbigo feminino tomou proporções fetichistas. Uma organização que se intitula US Navel Observatory (Observatório do Umbigo dos Estados Unidos) concebeu uma classificação para esse pequeno detalhe da anatomia feminina. Num relatório denominado Navel Architecture (Arquitetura do umbigo), eles reconhecem nada menos do que nove formas de umbigo: Fenda vertical - um tipo raro; gracioso, feminino e erótico. Umbigo navette - mostra um forte alongamento vertical, porém mais largo na parte central. Recebe esse nome porque tem a forma semelhante a uma navette (pequena nau). Umbigo triangular - um tipo comum, mas considerado de grande beleza. Tem a forma de um triângulo invertido com lados convexos. Geralmente apresenta uma profunda depressão. Umbigo em forma de amêndoa - considerado pelos japoneses o supra-sumo da beleza umbilical. Umbigo circular - um tipo raro hoje em dia, é perfeitamente redondo.

Umbigo oval - uma das formas mais comuns. Umbigo olho de gato - mais horizontal que vertical, tem a aparência de um olho. Umbigo grão de café — um umbigo côncavo em cujo interior há duas protuberâncias de carne; uma mistura do umbigo côncavo com o umbigo protuberante. Umbigo perfurado - o umbigo moderno no qual foi inserido um piercing. Embora esse relatório não pretenda ser mais do que uma análise superficial do umbigo feminino, revela o interesse sexual que um simples botão umbilical pode despertar. Na verdade, essa não é a única classificação de umbigos que existe. Um psicólogo alemão organizou sua própria lista de formatos, alegando que uma pessoa "pode se conhecer através do umbigo". Ele relaciona os seguintes tipos: umbigo horizontal, umbigo vertical, umbigo protuberante, umbigo côncavo, umbigo descentralizado e umbigo redondo. Fora da esfera sexual, o umbigo causou vários problemas nos círculos religiosos. Para os que acreditam na verdade literal dos textos religiosos, é um problema espinhoso decidir se os primeiros seres humanos tinham ou não umbigo. Se esse seres foram criados pela divindade, e não nasceram de uma mulher, não havia cordão umbilical, e portanto não havia umbigo. Os artistas enfrentavam o dilema de incluir ou não umbigos em suas pinturas de Adão e Eva no Jardim do Éden. A maioria optou por registrá-los, e cada um inventou sua razão para a existência desses primeiros umbigos, mas essa decisão gerou um problema ainda maior: se Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, então ele devia ter umbigo. Naturalmente, isso provocou uma nova e intrigante pergunta: Quem gerou Deus?

Os turcos descobriram uma solução incomum para o problema do primeiro umbigo. Uma antiga lenda conta que, depois que Alá criou o primeiro ser humano, o Demônio ficou tão furioso que cuspiu no corpo do recém-chegado. O cuspe foi aterrizar bem no cento da barriga. Para evitar a contaminação, Deus imediatamente arrancou o pingo poluído, mas seu gesto deixou um pequeno furo no lugar onde o cuspe caíra. Esse furo foi o primeiro umbigo. Um simbolismo totalmente diferente vê o umbigo como centro do universo. É assim que os budistas o consideram. A expressão "olhar para o próprio umbigo" costuma significar uma ação autocentrada, assim como uma forma de meditação voltada para o interior. Na verdade, é o contrário: uma tentativa de anular o ego, focalizando todo o universo através de seu ponto central. Voltando à barriga de forma geral, resta ver como surgiu a famosa dança do ventre. Hoje ela é comumente considerada uma "dança tradicional", mas, embora isso tivesse agradado aos puritanos, a origem dessa tradição não se perdeu na poeira do tempo. A dança do ventre tem três movimentos principais: movimento da pelve para a frente, movimento de rotação do quadril e ondulações dos músculos da barriga. Os dois primeiros são de fácil execução e muito comuns. Já as ondulações exigem um alto controle muscular e só são executadas pelas dançarinas mais experimentadas. Os três são movimentos sensuais. Surgiram no harém, onde o sultão era geralmente muito gordo, nada atlético e sexualmente desinteressado. Para excitá-lo sexualmente, as jovens tinham que se acocorar sobre o corpo deitado, inserir seu pênis e contorcer-se provocativamente até leválo ao orgasmo. Elas foram se especializando nessas contorções, com movimentos da pelve e contrações dos músculos abdominais para massagear o pênis do grande

senhor. Como um ato de cópula, ele tem sido chamado de "masturbação fértil". Com o tempo, os movimentos pélvicos eram exibidos para excitar o senhor do harém antes da cópula. Livres do contato com o corpo indolente, as mulheres do harém foram capazes de exagerar os movimentos e torná-los mais ritmados. Com o acompanhamento musical, a exibição logo foi estilizada numa dança que foi chamada de dança do ventre. Algumas fontes alegam que os movimentos representam não a cópula, mas o nascimento. Em muitas culturas, quando ainda não contava com ajuda médica, a parturiente não deitava para dar à luz, mas colocava-se de cócoras, usando a força da gravidade para empurrar o bebê. A mulher ajudava o parto movendo o abdome em movimentos de rotação, que com o decorrer dos séculos teriam sido incorporados à dança do ventre. Ela deixou de ser meramente uma dança que imitava a cópula de uma jovem vigorosa sobre um homem indolente e corpulento e tornou-se símbolo da concepção e do nascimento — todo o ciclo reprodutivo em uma única performance. Se essa interpretação da dança do ventre é correta, ou se ela só pretende esterilizar uma dança puramente erótica e alinhá-la entre outras atividades "folclóricas", é difícil dizer. De qualquer forma, o processo de purificação foi mais longe nos últimos anos. Na década de 1980, um manual que pretendia ensinar a dança introduz o tema com a seguintes palavras: "Em seu novo papel como forma de arte física e saudável, a ênfase recai sobre o preparo físico". A dançarina do harém tornou-se uma atleta. Embora a dança do ventre esteja sendo promovida como "uma ótima terapia para a tensão e a depressão", os nomes que definem os movimentos ainda preservam uma conotação erótica. Portanto, nem tudo se perdeu.

Fora do campo sexual, a barriga, assim como o umbigo, tem vários simbolismos. O mais conhecido é sua ligação com o lado mais animal e terreno da vida humana. Como a barriga está relacionada com o apetite por comida, acabou se ligando a outros apetites animais. Um provérbio grego afirma que " a barriga é a mais vil das bestas". Vem também da Grécia antiga outro pronunciamento: " Ó Deus, olhai com ódio o ventre e os alimentos; é através deles que se perde a castidade". Esse simbolismo ocidental nada elogioso está em completa oposição com o simbolismo oriental, que vê o ventre como sede da vida. No Japão, o ventre é considerado o centro do corpo. Na vida cotidiana, os gestos que envolvem a barriga são raros. Devido à sua proximidade com os genitais, o ventre quase nunca participa dos contatos pessoais. Quando uma pessoa toca outra na barriga, geralmente ambas pertencem à mesma família, são amantes ou velhos amigos. Os pais às vezes dão um tapinha na barriga dos filhos quando eles comem bem; um marido orgulhoso pode passar a mão pela barriga da esposa grávida; e um dos amantes pode descansar a cabeça na barriga do outro. Além desses gestos e de um raro soco na barriga de um inimigo, só existe outro contato pessoal, que é o contato dos ventres durante o ato sexual. Estranhamente, essa postura é tema de uma das mais antigas piadas da humanidade. Um dos textos sumérios mais antigos, datados do terceiro milênio da era cristã, registra com um humor triste: "Com tijolo sobre tijolo esta casa foi construída; com ventre sobre ventre ela foi destruída".

18. Costas
As costas femininas têm sido ignoradas tanto pela própria mulher quanto pelos observadores. Outras partes do corpo — especialmente a cabeça, os seios e as pernas — recebem maior atenção e despertam mais interesse. Entretanto, as costas femininas têm uma beleza inegável. Mesmo em repouso, elas são naturalmente mais arqueadas que as costas do homem, e se a curva da coluna é deliberadamente acentuada com a projeção do quadril para trás, a linha das costas torna-se mais sensual. Visto por trás, o contorno das costas é notavelmente diferente no homem e na mulher: nela, a parte inferior é mais larga; nele, a parte mais larga é a superior. Portanto, o contraste é grande tanto de lado quanto de costas. De vez em quando, as costas femininas têm figurado no mundo das imagens eróticas. Como mencionamos quando tratamos da nuca, os japoneses valorizam muito essa parte do corpo. A gola do quimono é cortada de acordo com a condição da mulher que o usa. Se ela é uma mulher casada, a linha da nuca é apenas sugerida, mas se ela é uma gueixa, a gola se afasta da nuca, e, quando ela se ajoelha diante do homem, lhe oferece uma excitante visão do dorso por dentro da roupa. No Ocidente, os estilistas de moda de vez em quando enfatizam as costas. Se o vestido é fechado na frente, então a atenção pode ser desviada para as costas. Hollywood lançou essa moda em 1932, quando a atriz Tallulah Bankhead apareceu em público com um decote nas costas que logo foi copiado pelas admiradoras. Versões mais radicais desse modelo, que revelam inteiramente as costas, aparecem de quando em quando, sempre que o costureiro encontra uma cliente corajosa, disposta a escandalizar em alguma aparição pública. Um

desses modelos foi o famoso macacão lançado em 1967 por Ungaro, que expunha as costas até o limite do sulco das nádegas, dando à mulher a possibilidade de exibir as "covinhas" do sacro, assim como o "losango de Michaelis". As covinhas são um detalhe das costas femininas que em outros tempos despertou no homem tal excitação a ponto de tornar-se uma obsessão. Um escritor escreveu sobre "essa região sedosa, carnuda, de dar água na boca, exatamente onde se situam as duas pequenas covas..." As covinhas são menos evidentes em mulheres magras, hoje as preferidas, mas, quando as formas voluptuosas estavam na moda, eram tema de conversa entre os mais sofisticados libertinos. As duas pequenas depressões situadas de cada lado da base da coluna., bem acima dos glúteos, estão presentes em ambos os sexos, mas são mais perceptíveis nas mulheres devido à gordura depositada nessa região. Nos homens, só são visíveis no máximo em 25% dos casos. O mundo clássico tinha verdadeira fascinação pelas covinhas femininas. Poetas e escultores gregos as admiravam. E possível que o apelo sexual das covinhas que se formam nas bochechas se deva em parte à sua semelhança com essas outras covinhas próximas às nádegas. O losango de Michaelis, uma região em forma de diamante situada entre as covinhas, também já despertou grande interesse erótico. Seu nome é referência ao ginecologista alemão Gustav Michaelis, que passou muito tempo estudando-o. O losango às vezes é rodeado e definido por quatro depressões, uma em cada vértice da figura. Mas a exposição das costas nem sempre é um sucesso. Ao ver bailarinas vestidas com um collant sem costas, um crítico comentou que "suas costas parecem entorpecidas e apavoradas com a exposição, como lesmas fora da concha". Naturalmente, o corpo magro e

musculoso das modernas bailarinas não é o mais adequado à exibição total das costas. Sem as curvas suaves proporcionadas pela camada subjacente de gordura, as costas correm o risco de parecer demasiado rígidas e "fibrosas". Parece que costas nuas caem melhor em mulheres mais cheias e roliças. Passando à biologia, as costas são a parte do corpo menos conhecida, mas a que mais trabalha. Desde que nossos ancestrais assumiram a posição ereta, os músculos das costas foram obrigados a trabalhar o tempo todo. Rara é a pessoa que, em alguma fase da vida, não tenha sofrido de dor nas costas. Na maioria dos casos, só quando sente dor a mulher pára para pensar em suas costas como uma parte de sua anatomia. A maior parte do tempo, elas não passam de algo que está longe da vista e da mente. Se alguma mulher se desse o trabalho de observar suas sofridas costas, descobriria um conjunto brilhantemente entrosado de músculos e ossos com a dupla função de sustentar e proteger a medula espinhal. A medula, que tem cerca de 46 cm de comprimento e pouco mais de 1 cm de diâmetro, certamente precisa de proteção. Se alguma coisa grave lhe acontecer, a solução é comprar uma cadeira de rodas. E ela está bem protegida: primeiro, por três membranas protetoras; segundo, pelo líquido cérebro-espinhal, que tem a função de absorver os choques; e terceiro, por uma cobertura dura e resistente que chamamos coluna vertebral. Na verdade, não existe propriamente uma coluna, mas 33 vértebras alinhadas. São cinco os tipos de vértebras. As cervicais são sete e têm uma surpreendente mobilidade, permitindo todos os movimentos da cabeça, vitais para a observação do mundo e proteção do rosto. As doze vértebras torácicas são muito menos móveis, porque sua principal função é atuar como uma âncora para as costelas. As cinco vértebras lombares, as mais pesadas e espessas, têm a função de sustentar a

maior parte do peso do corpo. É nessa região que as piores dores costumam se instalar. As vértebras sacrais se unem para formar o osso sacro. São cinco vértebras que atuam como uma só. Pode parecer estranho que esse osso triangular na base da coluna seja chamado de "sagrado", mas em círculos ocultistas ele é considerado o osso mais importante do corpo, ao qual é atribuído um papel especial nos rituais divinatórios. Acredita-se que o sacro contenha o espírito imortal. Para a maioria das pessoas, porém, existe algo estranhamente perverso em idealizar a "alma" no ponto mais baixo das costas. Talvez a escolha se explique pelo fato de ser o osso sacro beijado cerimoniosamente nos conciliábulos das bruxas. As vértebras coccígeas são os últimos e os menores ossos da coluna. Elas também se fundem para formar o cóccix — tudo o que restou da cauda dos primatas. A denominação desse pequeno osso pontudo é ainda mais estranha do que a do sacro, porque a palavra "cóccix" vem do latim coccyx, que significa "cuco". Podemos nos perguntar que ligação pode haver entre nossa cauda remanescente e um pássaro como o cuco. A resposta está na forma do osso, que os primeiros anatomistas julgavam semelhante ao bico de um cuco. Algumas partes do nosso corpo adquiriram seu nome de maneiras bastante excêntricas. O sistema muscular das costas é extremamente complexo, mas consiste em três principais grupos: o trapézio, situado na parte superior das costas; os músculos dorsais, na parte central; e os glúteos, na parte inferior. As dores nas costas são geralmente causadas pelo desgaste desses músculos. Excetuado algum problema médico específico, as mulheres sentem dor nas costas por uma principal razão: falta de exercício em decorrência de uma vida urbana sedentária. Os músculos das costas se

enfraquecem por falta de uso ou são prejudicados por uma postura errada, por algum esforço repentino e por tensões. A má postura decorre de certos hábitos de trabalho, nos quais o corpo é obrigado a manter uma determinada posição durante horas. Ela também pode ser adquirida durante as horas de lazer, cada vez mais numerosas no mundo ocidental, onde todo lar dispõe de móveis macios. Durante as muitas horas que passamos vendo televisão, conversando ou lendo, o corpo sedentário se enfia na poltrona ou na cama macia em busca de conforto, como um bebê que busca a segurança do corpo da mãe. Esses móveis aconchegantes criam uma sensação de segurança e calma, mas fisicamente impõem um esforço descomunal aos músculos das costas, que lutam para manter a coluna — literalmente — em boa forma. A coisa piora muito quando a criatura que se esparrama ou se enrosca na superfície macia está acima do peso. E quase inevitável que mulheres grávidas sofram dores nas costas devido ao peso do bebê, mas indivíduos muito gordos, que carregam quase o mesmo peso na mesma região, costumam se surpreender quando começam a sentir os mesmos sintomas. Pegar objetos pesados curvando o corpo para a frente e usando as costas como um guindaste é outro mau costume que quase sempre sobrecarrega as costas. Se para uma mulher que tem atividade física essa manobra representa pouco risco, para a mulher que leva uma vida sedentária o perigo é maior. A tensão mental é outra maneira de submeter as costas a uma sobrecarga. As tensões corporais causadas por angústia ou ansiedade podem provocar uma duradoura tensão dos músculos das costas. Em pouco tempo, as costas começam a doer, o que pode aumentar a angústia... e assim por diante, até que seja necessário buscar ajuda médica. Esse processo quase sempre passa

despercebido, e pode ser desencadeado por problemas emocionais que preocupam tanto o cérebro que a pessoa só percebi os efeitos quando é tarde demais. Alega-se que outra causa para a dor nas costas é a frustração sexual, e o aumento de atividade sexual tem sido sugerido como tratamento. No mundo do simbolismo, as costas desempenham um papel menor, exceto como guardiãs da medula. A própria medula era vista como uma réplica da árvore cósmica que alcança o paraíso que é o cérebro. Os macedônios acreditavam que, quando um cadáver apodrecia, sua coluna vertebral se transformava numa serpente. Outras interpretações da medula espinhal a vêem como uma estrada, uma escada ou um bastão. Na Idade Média, a "essência" da medula era considerada muito benéfica, e acreditava-se que qualquer pessoa que tivesse uma parte a mais da coluna vertebral tinha sido agraciada pela sorte. Por essa razão, pensava-se que dava sorte tocar a corcova de um corcunda. Essa crença ainda sobrevive em algumas regiões mediterrâneas, onde se podem comprar pequenos talismãs de plástico representando um corcunda sorridente. As costas não são uma das partes mais expressivas do corpo feminino, Entretanto, podemos curvar, esticar, dobrar ou ondular as costas de acordo com as mudanças de humor. Curvar as costas para a frente, o que em algumas mulheres idosas se torna uma postura crônica e permanente ao caminhar, é parte essencial de uma série de ações coordenadas como curvar-se, ajoelhar, tocar a testa no chão e prostrar-se. O elemento comum de todas essas ações é o rebaixamento do corpo para simbolizar a baixa condição de quem o executa. Em tempos remotos, o movimento tinha que ser bastante acentuado para expor inteiramente as costas ao superior. Essa era, de fato, a

única situação em que o inferior podia mostrar as costas sem ofender o superior. Dar as costas a alguém na posição ereta era uma grosseria imperdoável, porque significava rejeição. Por essa razão, os subordinados tinham que se afastar da presença do Grande Senhor caminhando de costas para fora do salão real. Esse procedimento formal ainda sobrevive e pode ser observado numa sala apinhada, quando alguém gira a cabeça e diz a um amigo: "Desculpe as costas". E dar as costas a alguém a quem acabamos de ser apresentados continua sendo um insulto. Se voltar as costas a alguém é uma grosseria por ignorar deliberadamente o outro, esticá-las é um gesto ameaçador, porque indica que o corpo está se preparando para um ato violento. Os militares são treinados para mantê-las eretas mesmo quando estão relaxados, e é por isso que eles parecem mais agressivos que os cidadãos comuns. Aprumar as costas também tem o efeito de aumentar ligeiramente a altura do corpo, uma mudança que ajuda a demonstrar poder. Deixá-las cair passa uma mensagem de impotência, porque a altura diminui ligeiramente — quase como uma incipiente curvatura de subordinação. Existem várias posturas com as quais uma pessoa entra cm contato com suas costas. A mais simples é aquela em que a pessoa fica de pé ou caminha com os braços atrás delas, com as mãos presas uma à outra. É uma postura comum em pessoas de alta condição, especialmente em membros da realeza e líderes políticos em ocasiões formais de inspeção. Demonstra extrema superioridade, porque opõe-se à postura de braços cruzados, na qual estes se unem diante do corpo como uma espécie de barreira de proteção. A postura com as mãos atrás das costas diz que a pessoa está tão confiante que não precisa de nenhuma proteção frontal. Os professores usam o mesmo gesto quando caminham pela

sala de aula, demonstrando sua superioridade naquele território. Outros gestos que envolvem as costas são gestos secretos e ocultos, como quando uma menina esconde a mão atrás das costas para cruzar os dedos quando diz uma mentira. Outra maneira de contato nessa região é o proverbial "tapinha nas costas". Trata-se de uma maneira quase universal de confortar, cumprimentar e demonstrar amizade. A motivação desse gesto é sempre a mesma, no sentido de que é uma versão reduzida do mais fundamental contato interpessoal, o abraço. Quando pequena, a criança adora o abraço da mãe, que lhe transmite total segurança e amor, e a pressão carinhosa das mãos em suas costas se torna um sinal de cuidado e amizade. Quando adulta, a pessoa pode se entregar num abraço apaixonado, mas em momentos de menor envolvimento emocional adota uma versão em miniatura — o tapa nas costas —, que lembra o corpo do gesto maior. Mesmo um tapinha breve e suave nas costas de alguém que está sofrendo traz um enorme conforto, desproporcional à simplicidade e brevidade do contato físico, porque ecoa uma sensação de infância. Outra forma comum de contato é o gesto em que uma pessoa pressiona a mão nas costas de outra para guiá-la, em vez de tocar o braço ou o cotovelo. É um gesto um pouco mais íntimo, porque os corpos ficam mais próximos enquanto caminham. Ou o leve contato da mão nas costas quando duas pessoas estão juntas, olhando na mesma direção, e que quer dizer: "Estou aqui se você precisar". Devido à sua grande extensão, as costas são uma parte do corpo muito tatuada. Magníficas demonstrações da arte da tatuagem podem ser vistas nas costas de mulheres corajosas em todo o mundo. Entre os motivos, existe uma tatuagem que mostra uma cena de caçada,

com cavalos e cães perseguindo uma raposa por todo o comprimento das costas, e a cauda da raposa prestes a desaparecer entre as nádegas.

19. Pêlos púbicos
Durante toda a infância, as meninas não têm pêlos no corpo, exceto, naturalmente, os da cabeça. Com a chegada da puberdade, as coisas se tornam mais complexas. Quando os ovários começam a aumentar de tamanho e se inicia a produção de hormônios, muitas mudanças são notadas, inclusive o nascimento dos pêlos nos genitais externos. Geralmente, isso ocorre entre 11 e 12 anos, embora haja exceções em que os pêlos surgem precocemente, por volta dos 8 anos, ou com atraso, perto dos 14. Na média, porém, entre 12 e 13 anos nascem os primeiros pêlos. Depois, entre 13 e 14, a quantidade de pêlos aumenta e começa a surgir a forma triangular. Aos 15 anos, o crescimento dos pêlos já esta praticamente completo, e eles adquirem o padrão adulto. Muitas meninas não gostam dessa mudança. Ter pêlos na região genital as assusta, porque os julgam "animalescos" ou "masculinos". Na infância, seu corpo era liso e limpo, e agora, de repente, está "sujo" e "peludo". Talvez elas nunca tenham visto pêlos púbicos, que costumam ser escondidos por pais recatados e pela censura do cinema. Outra coisa que pode deixá-las inseguras é o fato de só terem visto pêlos no corpo dos homens. Essas dúvidas podem parecer exageradas para alguém que tenha sido criado numa família liberal, mas continuam perturbando um grande número de adolescentes. A constatação surgiu inesperadamente durante uma pesquisa sobre os animais mais amados e odiados. Descobriu-se que, entre crianças pré-púberes inglesas, o ódio às aranhas aumentava muito entre as meninas, mas não entre os meninos. Por volta dos 14 anos, a época exata em que os pêlos púbicos atingem a maior

velocidade de crescimento, o ódio às aranhas aumenta drasticamente e se torna duas vezes mais forte nas meninas que nos meninos. À primeira vista, isso parecia não ter nenhuma ligação com os pêlos púbicos, mas quando as meninas em questão foram solicitadas a explicar por que odiavam tanto as aranhas, quase sempre respondiam que elas eram "umas coisas sujas e peludas". Os meninos, que já esperam adquirir pêlos no corpo como seus pais, se preocupam muito menos com isso. Se lhes perguntassem por que não gostavam das aranhas, era mais provável que tivessem respondido que elas "eram venenosas". A aversão pelas aranhas peludas é mais simbólica do que real. O que uma menina de 14 anos vê, quando uma aranha atravessa seu caminho, é o movimento das longas pernas que se irradiam de seu corpo mole. São essas pernas que são vistas como "pêlos", e com isso a aranha é inconscientemente definida como "um tufo peludo e móvel". O fato de esse medo dobrar na fase em que as meninas constatam que um "tufo peludo" está crescendo entre suas pernas é significativo. Assim, para cada menina que se sente orgulhosa dos pêlos que começam a despontar, existe outra que está perturbada com esse fato. Em diferentes partes do mundo, os pêlos púbicos variam muito: são curtos ou longos, esparsos ou densos, lisos e macios ou espessos e crespos. Em cor e textura, os pêlos púbicos nem sempre acompanham os cabelos. Muitas mulheres de cabelos escuros têm pêlos púbicos mais claros, em geral com uma tonalidade avermelhada. A maioria das mulheres tem pêlos púbicos crespos, mesmo quando os cabelos são lisos. A principal exceção é encontrada no Extremo Oriente, onde os cabelos pretos e lisos coexistem com pêlos púbicos "pretos, curtos e lisos; espessos mas bastante esparsos [...] formando um triângulo invertido".

As primeiras perguntas que a menina púbere costuma fazer sobre seus pêlos púbicos é: "Por que tenho isso? Para que isso serve?". Existem três respostas. Antes de mais nada, os pêlos púbicos são um sinal visual. Numa época primitiva em que os humanos andavam nus, eles devem ter funcionado como um sinal de que a menina havia se tornado uma mulher adulta. Seu pleno aparecimento aos 15 anos coincide com o início da ovulação e da capacidade biológica de procriar. Para o macho pré-histórico, a ausência de pêlos púbicos nas meninas era um aviso de que elas ainda eram jovens demais para procriar. A presença de pêlos púbicos ajudava a desencadear a reação sexual do macho, enquanto sua ausência a inibia. (Essa inibição tão natural e que está ausente nos pedófilos.) A segunda função dos pêlos púbicos é atrair pelo odor. As glândulas da região genital secretam feromônios — um aroma natural que os machos inconscientemente acham sexualmente atraente —, cuja fragrância persiste mais tempo nos pêlos densos e crespos que na pele nua e macia. Mas esse sinal primitivo tem uma desvantagem. No período pré-histórico, quando a pele ficava exposta ao ar, as fragrâncias naturais permaneciam frescas. Hoje, porém, com roupas apertadas cobrindo o púbis, existe maior probabilidade de as secreções glandulares sofrerem o ataque de bactérias. O resultado é um odor corporal desagradável. É por isso que, se quiserem que seu odor natural não perca o poder de atração, os humanos modernos, que andam vestidos, precisam se banhar com mais freqüência que os primitivos, que andavam nus. Uma terceira função dos pêlos púbicos é que eles atuam como um amortecedor no contato da pele do homem e da mulher durante o vigoroso contato sexual, protegendo o mons pubis da mulher da abrasão. Essa função protetora é muitas vezes mencionada, e parece haver

um elemento de verdade nisso, mas a mulher adulta dos tempos modernos, que remove os pêlos púbicos, não parece sentir falta disso quando o corpo está em contato com a pelve do homem. Além dessas três funções, várias outras, muito improváveis, foram propostas no passado. Entre elas inclui-se a idéia de que os pêlos púbicos funcionam como uma "recatada dissimulação" dos genitais. Por outro lado, há quem os considere um véu erótico que "inflama a imaginação". Também já se disse que eles protegem os genitais do frio e de acidentes, que absorvem o suor que escorre pela frente do corpo, e que "facilitam a acumulação e a troca de eletricidade entre dois pólos opostos durante a cópula", seja lá o que isso signifique. Talvez a observação mais estranha sobre a utilidade dos pêlos púbicos tenha sido registrada por um antropólogo alemão que visitou uma tribo que vivia no arquipélago de Bismarck, no Pacífico sul, onde "as mulheres limpavam as mãos nos pêlos púbicos sempre que elas estavam sujas ou molhadas, da mesma forma que nós usamos toalhas". Como muitas outras partes do corpo humano, os pêlos púbicos não têm permanecido no seu estado natural. Em todos os tempos, sempre houve muito interesse em tingi-los, cortá-los, decorá-los ou removê-los, e também muita oposição a essas intervenções. Entre os que são a favor de deixar os pêlos púbicos em seu estado natural não há só puritanos. Os pudicos acham que modificar essa parte do corpo indica uma obsessão doentia pela anatomia sexual. Cortá-los ou tingilos revela a intenção de expor uma parte do corpo que devia permanecer estritamente privada. Além do mais, vêem na depilação dos pêlos púbicos a remoção de algo que ajuda a esconder a fenda genital. Sem os pêlos, o sexo da mulher fica excessivamente exposto.

As primeiras feministas rejeitavam toda modificação nos pêlos púbicos, assim como condenavam qualquer forma de maquiagem ou de melhoramento cosmético, por acharem que com isso a mulher estaria se vendendo ao homem. Por outro lado, os hedonistas acham os pêlos púbicos naturais altamente eróticos, porque oferecem ao homem um sinal visual da prontidão da mulher para copular. Em sua função de atrair pelo odor, eles também prometem ao homem a retenção das flagrâncias eróticas das glândulas femininas. A depilação dos pêlos púbicos provoca duas reações completamente contraditórias. Em apoio aos puritanos, há o argumento de que os pêlos púbicos são potencialmente sujos e malcheirosos, e que sua remoção é portanto uma medida de higiene. Mas também há os que acham que "não ter nada entre as pernas", como uma boneca, não é nada erótico. No passado, essa visão fez com que muitas estátuas femininas exibissem um púbis sem pêlos. Também levou as modelos dos artistas a raspar os pêlos púbicos supostamente para revelar os detalhes dos contornos pélvicos, mas na verdade para conseguir uma semelhança com a aparência limpa das estátuas clássicas. Existe um caso famoso de um professor de arte vitoriano muito ingênuo e muito romântico que teria sofrido terrivelmente por causa dessa aparência artificial das estátuas clássicas. John Ruskin tinha 28 anos e não sabia quase nada sobre sexo quando começou a cortejar sua futura esposa. No ano seguinte, eles se casaram, e ela ficou surpresa ao descobrir que ele não conseguia fazer sexo com ela. Depois de anos de evasivas, ele finalmente admitiu que achava seus pêlos púbicos repulsivos. Apaixonado admirador da escultura clássica, conhecia as formas íntimas da mulher e apreciava-as esteticamente, mas nunca vira pêlos púbicos em nenhuma delas e

aparentemente nem sabia que eles existiam. (As estátuas clássicas masculinas mostram pêlos púbicos crespos, mas as femininas não.) Seu horror ao descobrir que sua amada tinha um tufo de pêlos entre as pernas foi tal que ele nunca foi capaz de consumar o casamento, o que obrigou a esposa a pedir sua anulação, apesar do constrangimento de ter que provar, através de um exame médico, que continuava virgem. Alguns homens puritanos revelam uma acentuada preferência por uma vulva higienicamente depilada, mas o que surpreende é que muitos libertinos tenham a mesma preferência. Assim como um púbis peludo atrai puros e impuros, o mesmo acontece com a vulva depilada. O apelo sexual da depilação dos pêlos púbicos tem três fontes. A primeira é que ela põe a nu a fenda genital. Nas estátuas clássicas, esse detalhe era omitido em nome do bom gosto; nos quadros, os artistas geralmente disfarçavam a fenda de suas modelos fazendo-as assumir poses que a escondiam. Na vida real, porém, esse detalhe íntimo é totalmente exposto e transmite ao homem que o vê uma imagem ainda mais forte do que o tufo de pêlos. A segunda razão para a preferência pela vulva depilada é que ela passa uma imagem de virginal inocência. É a imagem corporal de uma menina jovem demais para fazer sexo, e portanto simbolicamente jovem demais para ter feito sexo. Os homens que reagem favoravelmente a um púbis depilado costumam dizer coisas como: "É uma suavidade de bebê", ou "É como se realizasse uma fantasia com uma estudante", ou ""Tem um ar de Lolita". Os críticos contestam afirmando que isso "é um passo em direção à pornografia infantil", mas não levam em consideração o fato de que muitos homens que se sentem excitados pela visão de um púbis depilado têm consciência de que o resto do corpo de sua parceira é de uma mulher adulta. O fato de gostarem de um aspecto "virginal" não

significa que eles reagiriam sexualmente a uma menina pre-púbere. Defendendo sua opção, uma mulher observou que "qualquer mulher que ache que o homem que aprecia uma vulva depilada está perto de ser um pedófilo corre o risco de ver o argumento voltar-se contra ela, a. menos que todos os seus amantes tenham fartas barbas". Se ninguém condena as mulheres que gostam que seus amantes tenham um rosto imberbe de menino, por que um púbis depilado tem que ser visto dessa maneira? Além de seu aspecto inocente, a depilação dos pêlos púbicos apresenta outras vantagens. A região genital se torna muito mais sensível à estimulação tátil. O prazer do sexo oral aumenta muito para ambos os parceiros. Algumas mulheres alegam que uma simples caminhada fica mais erótica: "O simples ato de caminhar é divertido porque você desliza". Outros apreciam a excitação de "ter um segredo sexual que só os dois parceiros conhecem". Vamos resumir as atitudes contraditórias em relação aos pêlos púbicos. Há quem, puritanamente, ache que deixar os pêlos púbicos naturais é sinal de recato. Mas também existem aqueles que, licenciosamente, os consideram eróticos e dotados de uma fragrância sensual. Por outro lado, há quem, puritanamente, considere a remoção dos pêlos púbicos uma medida de higiene. Mas também existem os que, licenciosamente, consideram a vulva depilada mais excitante e sensível. Como ocorre com outros aspectos do corpo feminino, existem pontos de vista altamente conflitantes. Voltando à história da remoção dos pêlos púbicos, ela está longe de ser um capricho transitório da moda. Há registros de que a depilação já existia no antigo Egito. As mulheres egípcias detestavam ter pêlos no corpo, e os removiam sem deixar o menor traço. Faziam isso com uma cera feita de mel e óleo.

Conta-se que o rei Salomão não gostava de pêlos púbicos. Quando a rainha de Sabá o visitou no século X a.C., parece que ele lhe pediu que se depilasse antes de fazerem amor, dizendo-lhe que o recebesse depois de remover o "véu da natureza". Pouco mais tarde, na Grécia, há registros de que os homens preferiam que suas mulheres "removessem os pêlos de suas partes intimas". Isso se devia ao fato de que "o forte crescimento dos pêlos das mulheres setentrionais impedia que suas partes íntimas fossem vistas...". Por isso, para a mulher grega, a depilação era a regra, que se fazia através de três técnicas: pela primeira, os pêlos eram extraídos um a um com uma pinça; pela segunda, queimados com uma vela; e pela terceira, queimados com brasas. A remoção dos pêlos púbicos também era comum na antiga Roma, mas as técnicas das mulheres romanas eram um pouco diferentes. Como as gregas, elas usavam uma pinça especial denominada volsella. Ao contrário das gregas, porém, substituíam a arriscada técnica de queimar os pêlos pela aplicação de cremes depilatórios, entre eles uma espécie de cera preparada com piche ou resina. Na classe alta, as jovens começavam a se depilar assim que os pêlos púbicos nasciam. Quando os cruzados chegaram à Terra Santa, descobriram que as mulheres árabes depilavam a região pubiana. Impressionados com o que viram lá, levaram o costume para a Europa, onde algumas mulheres da aristocracia o adotaram durante a Idade Média. A moda floresceu por um tempo, mas logo desapareceu. Mais tarde, no século XVI, sabe-se que as mulheres turcas se aplicavam tanto em depilar o púbis que salas especiais eram destinadas a esse propósito nos banhos públicos. Acreditava-se que era pecado permitir que os pêlos púbicos crescessem naturalmente.

Na época vitoriana, na Europa, nunca se ouviu falar de remoção dos pêlos púbicos, exceto talvez entre as "damas da noite". O costume só ressurgiu muito mais tarde, com a liberação dos anos 1960. Então, de repente, tudo era possível, e certas figuras proeminentes se rebelaram contra costumes considerados muito pudicos ou tradicionais. Uma rebelde famosa foi a estilista Mary Quant, que chocou o mundo ao anunciar publicamente que o marido tinha depilado seus pêlos púbicos na forma de um coração. Outras logo a seguiram. Durante a década de 1970, o nascimento do movimento feminista assistiu a uma volta à natureza, e a depilação dos pêlos púbicos mais uma vez caiu em desuso. No fim do século XX, porém, ela voltou com tudo, com uma grande variedade de estilos. A nova tendência começou por causa de uma mudança nas roupas de banho. A cava dos maiôs foi subindo cada vez mais (para fazer as pernas parecerem mais longas), o que fez os pêlos púbicos aparecerem de cada lado da estreita faixa de tecido. Esses pêlos pareciam feios e foram rapidamente removidos. Isso pôs em ação uma redução cada vez mais drástica dos pêlos púbicos. Estilos cada vez mais radicais iam surgindo, até que, no início do século XXI, a depilação total se tornou a última moda, uma tendência desafiadora que, paradoxalmente, significou um retorno ao estilo das antigas civilizações. Em decorrência dessa mania, uma nova terminologia foi criada, e cada salão de beleza inventa termos para definir os diferente graus de nudez púbica. Eis alguns deles: Linha do biquíni: É a forma menos radical. Todos os pêlos cobertos pelo biquíni são poupados. Apenas os pêlos que escapam de cada lado são removidos.

Biquíni cheio: Apenas uma pequena quantidade de pêlos é deixada no monte de Vênus. Estilo europeu: Todos os pêlos púbicos são removidos, "exceto uma pequena quantidade no meio". Triângulo: Todos os pêlos púbicos são removidos, deixando apenas um pequeno triângulo com o vértice para baixo. Este estilo tem sido descrito como "uma flecha apontando o caminho do prazer". Bigode: Todos os pêlos são removidos, exceto um retângulo largo que cobre a fenda da vulva. Esse estilo é às vezes chamado de "bigode de Hitler" ou "bigode de Chaplin". Coração: O tufo de pêlos é depilado na forma de coração, que pode ser tingido de vermelho. É um corte muito procurado no Dia dos Namorados, como uma surpresa erótica para o parceiro sexual. Pista de pouso: Uma estreita faixa vertical é deixada, e todos os outros pêlos são removidos. Esse estilo é adotado pelas modelos que precisam usar biquínis e maiôs muito estreitos na região púbica. Estilo Playboy: Todos os pêlos são removidos, exceto uma faixa retangular de 4 cm. Essa medida exata pode parecer estranha, mas tem uma história legal. No estado americano da Geórgia, as dançarinas de strip-tease foram obrigadas a deixar uma faixa de pêlos de "dois dedos" de largura quando se exibissem nuas. Segundo os legisladores de Atlanta, isso seria suficiente para cobrir a fenda genital. Uma faixa de apenas "um dedo" era considerada obscena e proibida por lei. Os policiais locais foram obrigados a executar a árdua tarefa noturna de checar as faixas de pêlos e enviar para casa qualquer garota desobediente. Depois de algum tempo, a novidade desse estranho dever cansou, e a lei foi relaxada. Estilo brasileiro: É o mais famoso dos novos estilos, mas existe alguma confusão sobre sua forma exata. Para

alguns, ela é igual à da "pista de pouso"; para outros, uma forma mais radical da "pista de pouso". Para outros ainda, significa a depilação total dos pêlos. A moda começou na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, onde surgiram os menores biquínis. Então, sete irmãs brasileiras (conhecidas como as J. Sisters) se mudaram para Nova York, onde abriram um salão de beleza e começaram a oferecer o serviço de depilação dos pêlos púbicos a suas clientes. Estrelas de cinema e top models começaram a visitar o salão, que logo se tornou a meca da depilação. Foi graças à fama conquistada pelas J. Sisters que esse estilo passou a ser conhecido como "brasileiro". Quando outros salões passaram a copiá-lo, nem sempre obedeciam ao mesmo grau de remoção, daí a confusão. Mas as J. Sisters deixaram bem claro o que fazem, descrevendo o seu estilo como "tudo fora, menos uma mínima faixa". Esfinge: Esse é sem dúvida o estilo mais radical, que deixa a região pubiana completamente nua. O nome deriva de um filhote de gato do Canadá, que nasce completamente pelado. Alguns salões também dão a esse estilo o nome de "Hollywood". Esses são os estilos mais populares no início do século XXI. Além deles, há estilos especiais. Alguns estilistas extravagantes oferecem variantes que levam nomes como "olhos de touro", "estrelas e listras", "alvo", "surpresa de lua-de-mel", "rainha de diamantes", "chácháchá", "botão de flor" etc. Outros prometem formas exóticas de ponto de exclamação, coroa, estrela e até mesmo as iniciais do parceiro. Para obter essas formas, são usados cremes depilatórios, ceras, pinças, navalhas, tinturas e eletrólise. A técnica mais usada hoje é a remoção com cera, que retarda mais o crescimento de novos pêlos.

Um recurso totalmente oposto à depilação é o curioso hábito de perucas pubianas feitas de cabelo humano, fios de náilon ou pêlos de animais. A peruca é presa no lugar com a ajuda de um tapa-sexo invisível ou colada sobre os pêlos verdadeiros. As perucas pubianas tem uma longa história. Já existiam há centenas de anos, e ainda hoje estão à venda. Originalmente, sua função era mascarar os danos provocados pela sífilis e outras doenças venéreas que desfiguravam os genitais externos. Mais tarde, foram usadas por prostitutas para agradar a clientes que se sentiam atraídos por um púbis bastante peludo. Mais recentemente, no mundo do cinema, elas têm sido usadas como "máscara de recato" por atrizes que precisam aparecer nuas em cenas de sexo. As perucas também têm sido usadas como um adesivo temporário para quem quer mudar o estilo do corte dos pêlos púbicos. A peruca recebe um corte e uma tintura para uma ocasião especial, e depois é removida — uma solução mais conveniente para mulheres que não querem chegar ao extremo de submeterse a um corte verdadeiro. Algumas perucas são decoradas com pedras, flores ou fitas coloridas, três tipos de decoração que são conhecidos há séculos. Registros comprovam que as perucas pubianas eram muito populares desde o século XVII. O fato veio ao conhecimento público de uma maneira pouco comum. O cadáver de uma marquesa francesa foi abandonado na rua com os genitais deliberadamente expostos. Alí, para quem quisesse ver, havia uma peruca de pêlos púbicos "adornados com fitas plissadas de diferentes cores". Parece que, quando o rei da França pediu às damas da corte que diminuíssem o esplendor de seu vestuário, elas obedeceram ao monarca, mas compensaram a restrição transferindo a ostentação para baixo da roupa. Publicamente, elas obedeciam ao desejo do rei, mas secretamente se entregavam aos excessos ornamentais,

competindo umas com as outras para criar os púbis mais glamorosos, enfeitados com fitas, flores e pedras preciosas. As pedras preciosas usadas como adorno às vezes tornavam a região pubiana a mais valiosa do corpo feminino, o que gerou uma expressão popular pela qual a vulva era considerada o "cofre do tesouro" da mulher, ou apenas seu "tesouro".

20. Genitais
De todas as partes do corpo feminino, está é verdadeiramente um tabu. Fonte de grande prazer sexual, os genitais deviam ser celebrados. No entanto, raramente são mencionados em sociedade (a brilhante peça Os monólogos da Vagina é uma única exceção a essa regra.) Por que isso acontece? Por que as pessoas se sentem tão constrangidas em falar dessa parte tão importante da anatomia feminina? Para encontrar a resposta, precisamos voltar a tempos primitivos. Quando começaram a andar sobre as pernas traseiras, nossos primeiros ancestrais perceberam que não podiam deixar de exibir a parte frontal do corpo sempre que se aproximavam de outro membro da espécie. Antes, quando caminhavam sobre quatro patas, os genitais ficavam totalmente escondidos e bem protegidos. Agora eram expostos cada vez que um animal humano se voltava para outro. Isso significava que era impossível um adulto se aproximar de outro sem uma conotação sexual. Para resolver isso, tanto machos quanto fêmeas resolveram cobrir a região genital: nascia a tanga. A tanga tinha três vantagens. Além de reduzir a força da exposição genital em situações públicas, também intensificava a sexualidade nos momentos de privacidade, quando ela era removida. Em terceiro lugar, ajudava a

proteger a delicada região genital dos desconfortos do ambiente natural. Hoje, quando as pessoas se livram das roupas por causa do calor, é sempre o equivalente moderno da tanga a última peça a ser retirada. A menos que sejamos praticantes do nudismo, só expomos nossos genitais a nossos parceiros sexuais. Apenas quando se trata de crianças muito pequenas essa regra é relaxada. Na maioria dos países, expor os genitais em público é proibido por lei. Gerações de puritanos religiosos responderam aos apelos que vinham do púlpito: "O nudismo é tão desavergonhado quanto o próprio Demônio, o máximo da rebelião humana contra Deus". O que ê exatamente isso que tanto queremos esconder? No caso da mulher adulta, quase não há o que ver. Por baixo dos pêlos púbicos, e parcialmente escondida por eles, existe uma pequena fenda vertical criada pelos dois grandes lábios — dobras de carne que protegem os pequenos lábios, mais delicados, que flanqueiam a abertura vaginal. No alto da fenda existe um pequeno capuz de carne que cobre parcialmente o clitóris, um pequeno botão de carne extremamente sensível situado bem acima do canal urinário, a uretra. E é só. Comparados com o equipamento masculino, os genitais femininos podem ser descritos como visualmente simples. No entanto, a atenção que eles atraem é enorme, e para ocultá-los as pessoas chegam a cometer extravagâncias, para dizer o mínimo. O motivo para a excitação que essa parte do corpo produz não está em seus atributos visuais, mas em suas qualidades táteis. Nenhuma outra parte do corpo feminino é tão sensível ao toque, seja dos dedos, dos lábios, da língua ou do pênis. O formato do pênis masculino é significativo nesse aspecto. Comparado ao pênis de outros primatas, o órgão humano é muito diferente. Falta-lhe o os

penis — o pequeno osso que dá aos macacos uma rápida ereção. O sistema humano depende da congestão do sangue nos vasos sangüíneos. Quando ocorre a excitação sexual, o sangue entra no pênis muito mais rapidamente do que pode sair. Isso não só torna o pênis ereto, como aumenta seu comprimento e especialmente sua espessura. O resultado é que, quando ele é inserido na vagina da mulher, pressiona os lábios e as paredes vaginais. Essa pressão cria uma forte reação erótica na mulher, permitindo-lhe partilhar a excitação com o homem à medida que a cópula prossegue. Isso pode ser visto como um evidente e inevitável mecanismo de acasalamento, mas difere acentuadamente do que ocorre com outros primatas. A fêmea do macaco recebe algumas estocadas do pênis fino e ossudo do macho e num instante o coito termina. Nos babuínos, por exemplo, um típico coito leva apenas 8 segundos, e a ejaculação ocorre, em média, depois de apenas seis movimentos pélvicos. O ato sexual mais demorado não leva mais do que 20 segundos. Por isso, as macacas não desfrutam do aumento progressivo da excitação sexual e do orgasmo explosivo da fêmea humana. O espesso pênis humano causa fortes sensações à medida que se move contra as superfícies internas dos genitais femininos durante os prolongados movimentos pélvicos de nossa espécie. O orifício da vagina, cercado por camadas de pele extremamente sensíveis, é submetido a uma repetida e ritmada massagem do pênis. À medida que a excitação da mulher aumenta, os grandes e pequenos lábios se intumescem de sangue, atingindo o dobro do seu tamanho normal e desenvolvendo uma sensibilidade cada vez maior ao toque. Depois de uma prolongada estimulação, a mulher experimenta um clímax orgástico fisiologicamente muito semelhante ao do homem. Isso significa que ambos os parceiros recebem uma grande recompensa pelo esforço sexual, e o encontro, ao contrário do que acontece com os

macacos, pode produzir fortes laços emocionais entre os parceiros. O fato de a fêmea humana (ao contrário da fêmea do macaco) não transmitir um sinal claro ao macho quando está ovulando também significa que a maior parte dos atos sexuais não são de procriação, mas servem para estreitar ainda mais os laços emocionais entre os amantes. Os seres humanos literalmente fazem amor. Em conjunto, os genitais externos são conhecidos como vulva. Vale a pena analisar separadamente cada uma de suas partes. Monte de Vênus. Também conhecido pelos nomes latinos de mons veneris ou mons pubis, o monte de Vênus é uma pequena almofada de tecido gorduroso coberta de pêlos púbicos, que funciona como um amortecedor para o osso do púbis. Situa-se logo acima dos lábios, e sua função é proteger o osso púbico do impacto do corpo do homem durante os momentos mais vigorosos do ato sexual. Ele também tem um papel na excitação sexual, porque é bem suprido de terminações nervosas. Qualquer massagem acidental ou deliberada nessa região tem um efeito erótico, e algumas mulheres alegam que isso é suficiente para levá-las ao orgasmo. Ele é mais sensível à estimulação quando os pêlos púbicos foram removidos, o que pode explicar em parte o sucesso da depilação da região pubiana. O monte de Vênus só aparece na puberdade, quando o súbito aumento dos níveis de estrógeno provoca sua formação. Entretanto, jovens modelos excessivamente magras não desenvolvem esse tecido gorduroso, e por isso seu púbis parece mais projetado para a frente que o normal. Grandes lábios. Também conhecidos como lábia majora, os carnudos lábios externos normalmente cobrem os pequenos lábios internos, a menos que as pernas estejam totalmente abertas. Quando elas se fecham, criam

uma fenda vertical. Um monte de pêlos cobre essa superfície, dotada de glândulas que secretam odor. A pele é semelhante à do resto do corpo, às vezes um pouco mais escura. Durante a intensa excitação sexual, os grandes lábios podem ficar mais vermelhos. O equivalente no homem é a bolsa escrotal. O tamanho dos grandes lábios varia de uma mulher para outra. Algumas acumulam mais tecido gorduroso, o que faz os lábios mais arredondados e proeminentes. Pequenos lábios. São conhecidos como labia minora ou nymphae. Posicionados dentro dos grandes lábios, esses pequenos lábios chatos (sem gordura) são duas membranas cutâneo-mucosas altamente sensíveis, que se mantêm úmidas graças ao muco vaginal. Durante a penetração, com a prolongada estimulação do pênis ereto, os pequenos lábios se intumescem de sangue, adquirindo uma coloração avermelhada. (A ausência dessa coloração é um sinal de falso orgasmo.) Os pequenos lábios têm formas e tamanhos variados: alguns são pequenos e lisos, enquanto outros podem mostrar dobras, ondulações ou grânulos. Nas mulheres do povo san, nômades da África do Sul, os pequenos lábios são às vezes muito alongados e pendem entre as pernas ''como dois dedos de carne pendurados". De acordo com certos relatos, chegam a medir 11 cm e podem ser enfiados na vagina. Uma autoridade insiste que eles podem chegar a 20 cm, e existe um relato da década de 1860, não muito confiável, de que uma mulher "foi capaz de desdobrar seus nymphae e fazê-los encontrar-se atrás das nádegas". De qualquer modo, seu comprimento anormal tem provocado muitas dúvidas: serão eles uma característica racial ou resultado de um costume cultural de distendê-los artificialmente?

O estiramento dos lábios ressurgiu recentemente no mundo ocidental, e existem até cursos que ensinam essa técnica para aumentar o prazer sexual. Entretanto, não há consenso sobre esse fato, e há quem afirme que lábios maiores provocam dor no contato com a roupa. Além disso, lábios maiores são considerados feios por alguns escritores, que afirmam que "mulheres perfeitas sempre têm lábia minora simétricos, sem muitas dobras ou fissuras e que não se projetam além dos grandes lábios". Os cirurgiões plásticos certamente concordarão com essa opinião; muitas cirurgias genitais são realizadas para reduzir o tamanho dos pequenos lábios ou restaurar a simetria quando um lábio cresce mais que o outro. A labioplastia, como é chamada essa cirurgia, tem sido a mais procurada entre as "cirurgia íntimas". Vagina. A vagina é um tubo de cerca de 8-10 cm de comprimento quando a mulher não está excitada. Nessa condição, suas paredes se tocam. Com a excitação sexual, ela se expande e chega a 10-15 cm. Na idade adulta, entre a puberdade e a menopausa, o revestimento da vagina é levemente rugoso. Antes e depois desse período, o tecido é liso. Nas virgens, a extremidade externa da vagina é protegida por uma membrana que fecha parcialmente sua entrada. A presença desse hímen foi de grande importância historicamente, quando os noivos exigiam noivas intocadas. Geralmente, na primeira vez que o pênis é inserido na vagina o hímen se rompe e há um pequeno sangramento. Algumas culturas tinham o costume de exibir a mancha de sangue no lençol do casamento como prova da virgindade da noiva. Conta-se que mulheres experientes conseguiam simular castidade na lua-de-mel inserindo na vagina uma esponja embebida em sangue de pombo ou escondendo sob o travesseiro um pequeno

frasco com sangue de algum animal, que derramavam no lençol no momento oportuno. No tempos atuais, em que muitas jovens se dedicam a esportes vigorosos, para não falar do uso de tampões e diversos modos de masturbação, muitos hímens se rompem antes da primeira penetração. Em conseqüência disso, só 50% das mulheres modernas sangram no primeiro intercurso. É por isso que alguém já disse que, na sociedade atual, "a virgindade não é mais um atributo físico, mas espiritual". Em termos evolucionários, a existência do hímen é enigmática. Se sua função é tornar a primeira relação sexual difícil e dolorosa, que valor pode ter isso para a sobrevivência da espécie? Só parece haver uma única explicação possível: trata-se de um passo evolutivo destinado a colocar um leve freio ao contato sexual precoce. Deflorar uma jovem tornou-se um limite que todo menino tem que ultrapassar, e a primeira relação sexual entre um casal de jovens amantes se tornou um momento mais sério e significativo. Para a formação de um par da espécie isso tem algum sentido. A região inferior da vagina, mais próxima da abertura, é cercada de tecido muscular. Esse tecido controla o tamanho da abertura vaginal, que é menor em mulheres jovens. Em mulheres mais velhas, que já tiveram filhos, esses músculos se enfraquecem e a tensão muscular diminui. Como uma vagina estreita atrai o homem, uma nova cirurgia plástica está sendo realizada para recuperar a tensão muscular. A região superior da vagina, sua porção interna, é menos muscular e se expande com maior facilidade para acomodar o pênis. Na extremidade superior da vagina fica a cérvix uterina, também chamada de colo do útero. Durante o ato sexual, a forte excitação aumenta as dimensões da vagina, permitindo que o pênis alcance sua

extremidade, onde o esperma pode ser ejaculado através da cérvix. Passando por ela, os espermatozóides iniciam sua grande jornada através do útero em direção às trompas de Falópio, onde encontrarão um óvulo descendo. Um deles vai se unir ao óvulo para iniciar uma nova vida. Embora o ovário contenha literalmente milhares de óvulos, a mulher não libera mais de quatrocentos durante sua vida reprodutiva. Uma vez por mês, um óvulo amadurece e se torna fértil em sua passagem pelas trompas de Falópio, o que leva vários dias. Além da passagem vaginal e dos lábios que a cercam, os órgãos genitais também contêm quatro pontos extremamente excitáveis. São pequenas regiões de alta sensibilidade, cuja estimulação durante a relação sexual cria condições para o orgasmo. São eles: o clitóris, o ponto U, o ponto G e o ponto A. Os dois primeiros situam-se fora da vagina; os outros dois, na parte interna. Clitóris. É o mais conhecido dos pontos eróticos. Localiza-se na parte superior da vulva, no ponto onde os pequenos lábios juntam suas extremidades superiores. Sua parte visível é um botão do tamanho de um mamilo, parcialmente coberto por um capuz protetor. Trata-se de um feixe de 8 mil fibras nervosas, o que o torna o ponto mais sensível do corpo feminino. Dotado de uma função apenas sexual, o clitóris cresce (torna-se mais longo, mais grosso e mais erétil) e torna-se ainda mais sensível durante a cópula. Durante as preliminares, geralmente ele é estimulado manualmente, e muitas mulheres que têm dificuldade para chegar ao orgasmo pela estimulação vaginal atingem mais facilmente o clímax com o estimulação oral, digital ou mecânica do clitóris. Recentemente, um cirurgião australiano descobriu que o clitóris na verdade é maior do que se julgava. A parte visível é simplesmente a ponta, sendo que a maior parte fica sob a superfície, descendo ao redor do orifício vaginal.

Isso significa que, durante a penetração, a parte oculta é vigorosamente massageada com os movimentos do pênis. Portanto, mesmo quando a ponta não é estimulada diretamente, sempre haveria alguma estimulação clitoridiana. Entretanto, como essa parte oculta não tem a mesma sensibilidade, a estimulação direta da ponta do clitóris será sempre importante para a excitação da mulher. Algumas mulheres afirmam que, com uma rotação ritmada da pelve, podem friccionar diretamente o clitóris durante os movimentos de penetração do pênis, o que lhes permite uma maior excitação. Entretanto, isso exige um papel mais dominante da mulher, que nem sempre é aceito pelo homem. Ponto U. Trata-se de uma pequena porção de tecido erétil e sensível localizado de cada lado do orifício da uretra. Ele não está presente abaixo da uretra, entre ela e a vagina. Menos conhecido que o clitóris, esse ponto só recentemente foi investigado por pesquisadores clínicos americanos, que descobriram que, se essa região for suavemente acariciada com o dedo, a língua ou a cabeça do pênis, haverá uma forte e inesperada reação erótica. Ainda sobre o tema da uretra feminina, é importante mencionar a "ejaculação feminina". No homem, a uretra libera a urina e o líquido seminal que contém esperma. Na mulher, acredita-se que ela libere apenas urina, mas não é verdade. Quando ocorre um orgasmo extraordinariamente forte, algumas mulheres podem expelir pela uretra um líquido que não é urina. Ao redor da uretra, existem glândulas especializadas, chamadas glândulas de Skene, semelhantes à próstata no homem, que sob forte excitação produzem um líquido alcalino quimicamente semelhante ao sêmen. As mulheres que experimentam essa ejaculação (cuja quantidade varia de algumas gotas a algumas colheres de sopa) pensam que o forte exercício muscular as levou a urinar involuntariamente, mas isso só ocorre porque elas não conhecem a própria fisiologia. Por falar

nisso, alguns médicos também julgam que a mulher está sofrendo de "incontinência urinária causada por estresse" e indicam um cirurgia para curá-la. (Recentemente, um homem pediu o divórcio porque acreditava que a mulher urinava nele, tal sua ignorância sobre a atividade genital feminina.) Não se sabe ao certo a razão de ser dessa ejaculação, já que ela ocorre um pouco tarde demais para ter função lubrificante. A lubrificação vaginal, na verdade, é realizada pelas próprias paredes da vagina, que rapidamente se cobrem de um muco quando a excitação começa. Ponto G ou ponto Grafenberg, Trata-se de uma pequena área altamente sensível, localizada de 8 a 11 cm dentro da vagina, na sua parede anterior. Recebeu o nome de seu descobridor, o ginecologista alemão Ernst Grafenberg. Pesquisas sobre a natureza do orgasmo feminino realizadas na década de 1940 descobriram que a uretra da mulher, que se situa acima da vagina, é cercada por um tecido erétil semelhante ao do pênis. Quando a mulher se excita, esse tecido começa a inchar. Na zona do ponto G, essa expansão resulta numa pequena protuberância da parede vaginal para dentro do canal vaginal. Segundo Grafenberg, essa zona protuberante "é uma zona erógena, talvez mais importante que o clitóris". Ele explica que esse efeito se perdeu quando a "posição missionária", também chamada de "papai-e-mamãe", se tornou predominante no comportamento sexual humano. Outras posições sexuais são muito mais eficientes para estimular essa zona erógena e, portanto, provocar o orgasmo. Convém destacar que o termo "ponto G" nunca foi usado pelo próprio Grafenberg. Como mencionamos, ele o chamou de "zona erógena", que é uma descrição muito mais adequada. Infelizmente, o uso do termo "ponto G" se tornou popular e gerou alguns mal-entendidos. Algumas mulheres passaram a acreditar que existe um "botão do

sexo" que pode ser apertado a qualquer momento para causar uma explosão orgásmica. Decepcionadas, elas chegaram à conclusão de que não existe ponto G. A verdade, como já explicamos, é que o ponto G é uma zona sexualmente sensível da parede vaginal, que se torna levemente protuberante quando as glândulas que circundam a uretra se incham. Vários destacados ginecologistas negaram sua existência quando o assunto começou a ser discutido em congressos, provocando forte controvérsia. Mais tarde, porém, diante de uma convincente argumentação, eles mudaram de opinião. A questão também entrou no debate político, quando campanhas contra o machismo rejeitaram de cara a possibilidade de um orgasmo vaginal. Para essas mulheres, o orgasmo clitoridiano era o único politicamente correto. Não se sabe como elas reagiram à recente comercialização de vibradores capazes de atingir o ponto G. O que é assustador é que algumas mulheres têm se submetido a injeções de colágeno para aumentar o ponto G. Eis um relato: "Um dos mais modernos procedimentos é a injeção no ponto G. Substâncias semelhantes às que são injetadas nos lábios para aumentar seu volume podem agora ser injetadas no ponto G. A idéia é que isso irá aumentar sua sensibilidade e proporcionar melhores orgasmos". Parece mais um mito que uma realidade cirúrgica, mas no que se refere à busca do prazer sexual., nada é impossível. Ponto A, zona BFA ou Zona Erógena do Fórnix Anterior. Esta é uma zona de tecido sensível situada na extremidade do tubo vaginal, entre a cérvix e a bexiga, descrita tecnicamente como "a próstata degenerada da mulher". (Em outras palavras, é o equivalente feminino da próstata, assim como o clitóris é o equivalente feminino do pênis.) A estimulação direta desse ponto pode produzir fortes contrações orgásticas. Ao contrário do clitóris, ele não parece sofrer de supersensibilidade depois do orgasmo.

Sua existência foi relatada recentemente, na década de 1990, por um médico malaio em Kuala Lumpur. Houve certa confusão sobre seu posicionamento, que tem sido incorretamente descrito. Sua verdadeira localização é acima da cérvix, no ponto mais alto da vagina. A cérvix é o estreitamento do útero que se projeta ligeiramente para dentro da vagina, criando um recesso circular ao seu redor, que é o fórnix. A parte frontal desse recesso é chamada fórnix anterior. A pressão sobre esse ponto produz uma rápida lubrificação da vagina, mesmo em mulheres que normalmente não são sexualmente receptivas. Hoje é possível adquirir um vibrador especial para a zona EFA — longo, estreito e curvo na parte superior, para tocar essa zona. Estudiosos da fisiologia sexual feminina alegam (talvez com excessivo entusiasmo) que, se os quatro pontos erógenos forem estimulados um depois do outro, a mulher poderá alcançar muitos orgasmos numa só noite. Acrescentam, porém, que isso exige um parceiro extremamente sensível e experiente. Tem sido dito que duas em cada três mulheres não conseguem atingir o orgasmo com a simples penetração. A maioria delas descobre que só a estimulação digital ou oral do clitóris pode conduzir ao clímax. Isso deve significar que, para elas, os dois pontos erógenos localizados dentro da vagina não fazem jus à fama. A razão disso parece ser a monotonia das posições sexuais. Uma pesquisa realizada com 27 casais solicitou que eles variassem as posições durante a relação sexual, adotando posturas que permitissem maior estimulação dos dois pontos erógenos vaginais. O resultado foi que três quartas partes da mulheres foram capazes de alcançar um orgasmo vaginal. Finalmente, as mudanças pelas quais os genitais femininos passam durante a excitação sexual podem ser resumidas da seguinte maneira:

Fase 1: início da excitação sexual No primeiro minuto, a lubrificação vaginal começa. Os dois terços superiores do tubo vaginal começam a se expandir. A cérvix e o útero são empurrados para cima. Os grandes lábios começam a se separar. Os pequenos lábios começam a se intumescer. O clitóris começa a aumentar de tamanho. Fase 2: aceitação plena A lubrificação cessa. Os dois terços superiores da vagina agora estão totalmente expandidos. As paredes do terço inferior da vagina intumescem em decorrência da congestão dos vasos sangüíneos. O tamanho da entrada da vagina diminuí 30% devido ao intumescimento das paredes vaginais. Os grandes lábios se separam a ponto de deixar a vagina mais visível. Os pequenos lábios estão no mínimo duas vezes mais espessos. Os pequenos lábios mudam de cor, passando de rosados a vermelhos. O clitóris está plenamente ereto. Fase 3: clímax orgástico

O terço exterior da musculares ritmadas.

vagina

apresenta

contrações

As primeiras contrações, mais fortes, ocorrem a cada 8/10 de segundo. O número de contrações por orgasmo varia de três a quinze. As contrações musculares ocorrem cm toda a região pélvica (e além dela). Pode ocorrer a ejaculação de um líquido (que não é urina). Uma mulher pode atingir o orgasmo em 5 minutos, mas o tempo médio, com base num escudo de 20 mil orgasmos, é de cerca de 20 minutos. Depois do orgasmo, o clitóris, os lábios, a vagina e o útero voltam ao normal. Algumas mulheres conseguem desfrutar de orgasmos múltiplos em rápida sucessão, enquanto outras têm um primeiro clímax tão intenso que não sentem necessidade de repeti-lo por algum tempo. De acordo com uma pesquisa realizada em 2003 na Inglaterra, 25% das mulheres sempre atingem o orgasmo quando fazem sexo; 50% geralmente conseguem; 12,5% raramente conseguem; e 5% nunca conseguem. Números como esses foram usados no passado para tentar provar que as mulheres são biologicamente menos orgásticas que os homens. O mais provável, porém, é que homens e mulheres tenham o mesmo potencial orgástico, e que, devido a pressões culturais c tradições puritanas, os homens tenham se tornado ineptos pura excitar totalmente suas parceiras. O fato de, segundo a mesma pesquisa, 60% das mulheres terem mencionado que também alcançam o orgasmo através da masturbação indica que a incapacidade não está no impulso sexual, mas na técnica sexual dos parceiros.

Considerando a grande delicadeza, complexidade e sensibilidade dos genitais femininos, pode-se imaginar que uma espécie inteligente como a nossa os trataria com carinho. Infelizmente, nem sempre isso acontece. Durante milhares de anos, em muitas diferentes culturas, os genitais femininos têm sido vítimas de uma surpreendente variedade de mutilações e restrições. Para órgãos que são capazes de dar muito prazer, eles têm sofrido uma quantidade anormal de dor. A forma mais comum de agressão é a circuncisão. Essa mutilação tem sido rara no Ocidente, embora recentemente, cm 1937, um médico do Texas tenha defendido a remoção do clitóris para curar a frigidez. Na América, esse é um caso isolado, mas em algumas regiões da África, do Oriente Médio e da Ásia, a circuncisão tem sido uma prática comum há séculos. O mais assustador é que, longe de ser um costume esquecido, a circuncisão feminina ainda é praticada em mais de vinte países. Muitas justificativas são apresentadas para a operação. Se o pênis toca o clitóris, o homem pode se contaminar, pode ficar impotente ou até morrer. Se o bebê tocar o clitóris da mãe quando está nascendo, pode morrer. O leite da mãe que tem clitóris pode estar envenenado. Ter genitais externos faz a mulher cheirar mal. Na tentativa de satisfazer as necessidades sexuais da mulher, muitos maridos usam drogas ilegais. A remoção dos genitais externos evita muitos "problemas femininos", entre eles nervosismo, feiúra, neurose e câncer vaginal. Naturalmente, a verdadeira razão é que, reduzindo o prazer sexual da mulher, o homem tem mais facilidade de subordiná-la a seus padrões machistas. Como a operação é realizada? Na maioria dos casos, os grandes lábios e o clitóris são cortados, e a entrada da vagina é suturada, deixando apenas uma minúscula abertura para a passagem da urina e do fluxo menstrual.

Depois, as pernas da jovem são atadas para garantir a cicatrização e a permanência da operação. Mais tarde, quando elas se casam, as jovens tem que passar pelo sofrimento de ter seu orifício artificialmente reduzido rompido pelo marido. (Como se isso não fosse suficiente, se o marido sair numa longa viagem, as costuras podem ser refeitas.) Essa forma extrema de mutilação genital chama-se infibulação e, às vezes, circuncisão faraônica. Uma forma um pouco menos monstruosa envolve apenas a remoção do clitóris e dos lábios. E uma forma mais moderada, às vezes chamada de circuncisão sunita (porque alega-se que ela teria sido recomendada pelo profeta Maomé), exige apenas o corte da ponta do clitóris e/ou do capuz clitoridiano. A natureza anti-sexual dessas operações ficou clara na opinião de um "especialista": "Primeiro eu as examino intimamente. Se o clitóris sai para fora e as excita sexualmente ao roçar contra a roupa, então é a hora de cortá-lo". Todos os anos, nada menos de 2 milhões de meninas são submetidas, aos gritos e sem anestesia, a essa brutal operação. Os instrumentos utilizados são toscos (navalhas, facas ou tesouras), não há condições de assepsia e as mortes são freqüentes, mas escondidas. E ainda há quem defenda a operação: "A circuncisão feminina é sagrada, e a vida sem ela não teria sentido". A escala em que essa infâmia é praticada contra as mulheres é enorme. Calcula-se que existam hoje mais de 100 milhões de mulheres vivas que foram submetidas a essa mutilação. Eis alguns números, país por país: Nigéria, 33 milhões; Etiópia, 24 milhões; Egito, 24 milhões; Sudão, 10 milhões; Quênia, 7 milhões; Somália, 4,5 milhões. Além disso, 90% das meninas que vivem em Djibuti, Eritréia e Serra Leoa, e 50% em Benin, Burkina Fasso, República Centro-Africana, Chade, Costa do Marfim, Gâmbia, Guiné-

Bissau, Libéria, Mali e Togo tiveram os genitais mutilados. E a lista não pára por aí. Embora a África pareça ser a fonte original desse tipo de operação, ela se disseminou pelo Oriente Médio, onde é praticada em Bahreim, Oman, Iêmen e Emirados Árabes Unidos, e pela Ásia, onde é comum nas populações muçulmanas da Malásia e da Indonésia. Mesmo em países onde ela foi oficialmente proibida, a prática sobrevive. No Egito, onde foi proibida (em vão), a lei foi revogada em 1997 por um fundamentalista muçulmano que impetrou uma ação contra o governo e ganhou. Diante dessa situação, diplomatas e políticos das Nações Unidas e de outras organizações importantes se escondem por trás de justificativas convenientes como "mostrar respeito às tradições locais". Não admira que eles próprios mereçam tão pouco respeito. Devido às recentes condenações públicas, os mutiladores (que ganham muito dinheiro realizando a operação) se uniram e formaram uma sociedade para se proteger. Insistem em que a circuncisão das jovens é "uma maneira simples de reduzir a promiscuidade sexual que causaria discórdia no lar entre marido e mulher". E exigiram que seus governos imponham uma multa de US$ 1 milhão a quem ousar discutir a questão na imprensa local. Nem é preciso dizer que as autoridades médicas estão advogando em causa própria. No Egito, onde 3 mil meninas são circuncidadas todos os dias, um líder muçulmano publicou uma fatwa contra qualquer pessoa que se oponha à operação, afirmando que ela merece morrer e referindo-se à operação como uma "prática louvável que respeita as mulheres". Como apenas 15% da população do mundo são muçulmanos, e quase todos os que não pertencem ao Islã (para não mencionar muitos islamitas) se recusam a tolerar a prática, esse homem, o xeque Al Azhar, ordenou a pena de morte de, no

mínimo, 85% da raça humana. Esse religioso não tem a menor autoridade para fazer essa declaração, já que não há menção à circuncisão feminina no Alcorão, e a autenticidade da alegação de Maomé — "É permitido [mas] se cortar, não exagere" — tem sido contestada por muitos estudiosos do islamismo. Os seguidores do xeque apóiam sua postura violenta. Quando uma repórter egípcia lhe fez perguntas embaraçosas, foi ameaçada: "Cortarei sua língua e a língua de toda a sua ascendência". E, numa explosão grotesca, ele ainda lhe disse que, se seu clitóris tivesse sido removido, ela seria mais bonita. (Uma das alegações espúrias em favor da circuncisão feminina é a de que ela "deixa o rosto da mulher mais bonito".) Finalmente, convém uma breve menção à recente moda dos piercings genitais. Ela é bem diferente da mutilação genital que tem sido chamada de circuncisão feminina. Primeiro, é voluntária e realizada apenas por mulheres adultas. Em segundo lugar, seu objetivo declarado é "decorar, estimular e provocar o interesse sexual nos genitais femininos", e não destruí-los. É difícil entender por que razão alguém quer ter uma barra ou uma argola de metal inserida em partes sensíveis da vulva, mas para uma minoria trata-se de uma nova moda na longa história da ornamentação corporal. Os principais piercings genitais são os seguintes: Piercing vertical no capuz clitoridiano. É o mais popular. Consiste numa pequena barra fina inserida verticalmente no capuz clitoridiano, que se situa bem acima do clitóris, com uma tacha esférica presa a cada extremidade. Portanto, a tacha inferior fica em contato com o clitóris e pode estimulá-lo durante certos

movimentos. Também pode ser uma simples argola de metal inserida verticalmente no capuz. Piercing horizontal no capuz clitoridiano. Nesse caso, o capuz é atravessado de um lado a outro. Mais uma vez, pode ter a forma de barra ou de argola. O efeito parece mais decorativo e menos estimulante. Piercing clitoridiano. É extremamente raro, por motivos óbvios. O clitóris é muito sensível e, na maioria dos casos, pequeno demais para ser perfurado. Piercing triangular. Trata-se de um piercing horizontal colocado na base do capuz clitoridiano. Enquanto o vertical pode estimular a parte anterior do clitóris, o triangular estimula a parte posterior. Piercing labial. Os pequenos lábios são perfurados com um par de barras ou de argolas de cada lado do clitóris ou da abertura da vagina. Embora o fascínio por essa mutilação decorativa dos genitais seja provavelmente uma moda passageira, é lamentável numa época em que tanto esforço está sendo feito para desestimular a circuncisão forçada de milhões de meninas. Se algumas mulheres modernas são capazes de deixar que seus genitais sejam dolorosamente perfurados apenas para obedecer a um capricho da moda, fica muito mais difícil queixar-se de outras graves mutilações. Entretanto, embora as duas mutilações representem uma agressão cirúrgica à sensível vulva, não se poder esquecer que, em um caso, a agressão é feita para aumentar o prazer sexual, enquanto a outra tem a finalidade de destruí-lo.

21. Nádegas
As nádegas têm sido injustamente a parte do corpo feminina mais desconsiderada. Elas fazem rir ou são objeto de piadas sujas. Assento, traseiro, bozó, bunda, holofote, padaria, popa, poupança, rabo, rabisteco, tralalá são alguns dos nomes pelos quais elas têm sido chamadas em português, sem falar em várias outras denominações pejorativas recebidas em outras línguas ao longo dos séculos. Mas seja qual for a denominação, existe sempre uma conotação ridícula ou obscena. Mesmo quando são consideradas uma zona erótica, devido à sua proximidade com os genitais, são mais beliscadas e estapeadas do que acariciadas. Uma busca cuidadosa na literatura se faz necessária para encontrar palavras de elogio a essa parte da anatomia feminina. Em O amante de Lady Chatterley, D. H. Lawrence faz uma referência lírica à "indolente e redonda calmaria das nádegas", e Rimbaud as admira como "dois arcos salientes", enquanto Byron admite que o traseiro da mulher é "uma coisa estranha e bela de se olhar". Autores mais recentes têm declarado, de maneira um tanto ambígua, que "a bunda é a face da alma do sexo", que oferece "um amortecedor de delícias". O cineasta italiano Federico Fellini comentou, também de forma equívoca, que "a mulher bunduda é um épico molecular de feminilidade" — uma frase que parece ter perdido algo na tradução. O artista espanhol Salvador Dali foi mais longe ao insistir que "é através da bunda que os maiores mistérios da vida podem ser entendidos". Entretanto, esses são exemplos isolados, e muito mais comuns são os comentários que tratam as nádegas como algo cômico ou vulgar. Essa atitude negativa persiste apesar de as nádegas serem um atributo exclusivamente humano. Elas foram adquiridas quando nossos ancestrais

deram um passo gigantesco e se puseram de pé sobre as pernas traseiras. Os fortes músculos glúteos se expandiram, permitindo ao corpo manter-se permanentemente ereto, e são esses músculos que nos dão o par de hemisférios que hoje são tão injustamente ridicularizados. É fácil ver como isso aconteceu. As nádegas não são sozinhas. Entre elas fica o ânus, através do qual passam, dia após dia, todos os nossos resíduos sólidos e — ainda mais notória — uma ocasional emissão de gases. Além disso, quando nos curvamos para a frente, os genitais ficam à vista, emoldurados pelas curvas fêmeas das nádegas. Portanto, existem associações excretórias e sexuais. Portanto, a exposição das nádegas é interpretada como um insulto grosseiro — um ato simbólico de defecar sobre o inimigo — ou uma grande obscenidade — uma desavergonhada exibição dos órgãos sexuais. Na sociedade moderna, exibir o traseiro nu em público provoca reações variadas, que vão do riso constrangido a queixas, insultos e até um processo judicial. Recentemente, na Suíça, a Suprema Corte debateu se uma determinada exibição de nádegas era "ofensiva" ou "indecente". Dessa sutil distinção dependia uma decisão que podia significar condenação. Durante uma violenta discussão com uma vizinha, uma mulher suíça tinha "exposto o traseiro nu". Como havia crianças presentes, ela foi presa, acusada de atentado ao pudor e condenada pelo tribunal de primeira instância. Depois das devidas deliberações, a Suprema Corte anulou a condenação e até liberou a ré do pagamento de custas. Fez isso porque chegou à conclusão de que "o gesto era com certeza um comportamento insultuoso e punível como tal, mas não podia ser considerado indecente, porque não envolveu nenhum órgão de procriação". Provavelmente, se ela tivesse se

curvado para a frente ao fazer seu gesto de desafio, a condenação teria sido mantida. Essa reações extremas à exposição das nádegas hoje são raras no Ocidente. Pessoas que se expõem dessa maneira em eventos esportivos geralmente só provocam risadas, assim como os estudantes de universidades que exibem as nádegas nas janelas dos dormitórios. Como forma de protesto, a nudez não é mais o que era. A exposição das nádegas se torna abusiva quando acompanhada de frases como "Beije o meu rabo". Aí é um insulto, porque propõe uma subordinação humilhante. Mas não é só isso. Embora nem quem insulta nem quem é insultado percebam, ambos estão envolvidos numa antiqüíssima prática de ocultismo. Para entender do que se trata, precisamos voltar à Grécia clássica. A atua! visão das nádegas como motivo de chacota não era a dos antigos gregos. Para eles, as nádegas eram uma parte bela da anatomia, em parte devido à sua agradável curvatura, mas também por seu contraste com o traseiro dos macacos e chimpanzés. Os dois hemisférios humanos eram tão diferentes dos dois pedaços de carne dura (as calosidades dos ísquios) do macaco, que os gregos consideravam as nádegas um sinal da suprema condição humana. Segundo os gregos, a curvilínea deusa da amor, Afrodite Calipígia — literalmente, "que tem belas nádegas" —, tinha nas nádegas a parte esteticamente mais agradável de toda a sua anatomia. Eram tão veneradas que um templo foi erguido em sua honra — fazendo das nádegas a única parte do corpo humano objeto de culto. Essa visão primitiva das nádegas como peculiaridade humana deu origem a outra crença. Se as nádegas arredondadas eram a marca que distinguia o ser humano dos animais, então os monstros das trevas não deviam ter essa característica anatômica. Foi assim que o Demônio ganhou a reputação de ser "desbundado". Os primitivos

europeus estavam convencidos de que, embora pudesse assumir a forma humana, o Demônio nunca conseguia simular as nádegas arredondadas, que estariam além de seus poderes diabólicos. Acreditavam que essa impotência era fonte de grande angústia para o Demônio, e uma grande oportunidade de atormentá-lo. Para aumentar sua inveja, bastava mostrar a ele as nádegas nuas. Como essa súbita exposição lhe lembrava sua deficiência, ele se via obrigado a olhar para longe, desviando o olhar maléfico. Isso protegia o humanos do temido "Olho do Demônio" e tornou-se um gesto muito utilizado para afastar as forças do mal. Usada dessa forma, a exposição das nádegas não era considerada vulgar nem indecente. Nos fortes e nas igrejas, esculturas de mulheres exibiam suas nádegas arredondadas para afastar os maus espíritos, já que as nádegas estavam sempre voltadas para fora da porta principal. Na Alemanha, se havia uma tempestade terrível durante a noite, as mulheres exibiam as nádegas na porta das casas na esperança de rechaçar os poderes malignos e evitar que a tempestade causasse mortes. Provavelmente, foi assim que a exposição das nádegas começou, e hoje os que a expõem praticam a antiga tradição cristã sem o saber. Com o Demônio fora de moda como grande inimigo, a exibição é vista hoje como um gesto grosseiro. De um gesto de desafio religioso, tornou-se um gesto obsceno. Mas como isso pode explicar as frases grosseiras que acompanham o gesto? Para entendê-las, é preciso observar as primitivas representações do Demônio. Se ele não tem nádegas, o que tem então nos quartos traseiros? A resposta é: no lugar onde deviam estar as nádegas ele tem outra face. E essa segunda face é que supostamente era beijada pelas bruxas no ritual do sabá. Acusadas do ato vil

de beijar o traseiro do Demônio, elas se defendiam dizendo que beijavam a boca de sua segunda face. Tudo isso, naturalmente, é fruto da fértil imaginação medieval, o que não vem ao caso. A verdade é que lendas e crenças transmitidas de geração a geração deixam claro que "beijar o traseiro" era o gesto de um seguidor de Satã e, como tal, um ato abominável. Quando as superstições desapareceram, essas ligações se perderam, mas, como quase sempre acontece, a frase popular sobreviveu e foi incorporada ao insulto moderno. Até aqui, a exposição das nádegas foi analisada unicamente como um ato hostil, mas a questão tem outro lado. Em contextos totalmente diferentes, a exibição das nádegas tem forte apelo sexual. As fêmeas de muitas espécies de macacos têm o traseiro colorido. Quando se aproxima a época da ovulação, ele vai se tornando mais evidente e inchado, mas depois volta ao estado normal. Isso significa que, com um olhar, o macho pode saber se a fêmea está sexualmente ativa. O acasalamento geralmente só ocorre quando o traseiro da fêmea atinge seu ponto mais protuberante. Com a mulher é diferente. Seu traseiro não aumenta ou diminui com o ciclo menstrual. Ele se mantém protuberante o tempo todo, assim como sua sexualidade permanece alta. A fêmea humana expandiu sua sensualidade a ponto de estar sempre potencialmente receptiva ao macho. Ela se envolve numa relação sexual mesmo quando não pode conceber, porque a função do acasalamento humano não é apenas a procriação. Como um sistema compensatório, ele ajuda a fortalecer os laços emocionais entre homem e mulher, mantendo a unidade familiar. Para os humanos, a cópula é literalmente fazer amor, e é importante que o corpo da mulher seja capaz de transmitir sinais eróticos o tempo todo.

Pode-se argumentar que, se os músculos glúteos se destinam a manter a postura ereta, a mulher não poderia deixar de ter as nádegas permanentemente empinadas. Mas as nádegas femininas são mais do que simples mecanismos para manter a postura ereta. Em relação ao tamanho do corpo, são maiores que as dos homens, não porque sejam mais musculosas, mas porque têm maior quantidade de tecido gorduroso. Essa gordura extra tem sido considerada um estoque de alimento para as emergências — quase como a corcova do camelo. Verdade ou não, o simples fato de essa gordura extra nas nádegas ser um atributo do sexo feminino faz delas um sinal sexual. Esse sinal é acentuado por dois outros atributos femininos: a capacidade de rotação da pelve e a ondulação dos quadris ao caminhar. Como já dissemos, a mulher comum (que não deve ser confundida com a atleta cujo corpo se masculinizou com o treinamento) tem as costas mais arqueadas que o homem. Em posição normal de repouso, o traseiro se projeta mais para fora que o do homem, não importa seu tamanho. Quando ela caminha, a estrutura óssea das pernas e dos quadris provoca uma ondulação maior da região glútea. Em curtas palavras: ela rebola ao andar. Quando esses três atributos — mais gordura, maior protrusão e mais ondulação — se combinam, o resultado é um forte apelo erótico. Não é que a mulher empurre deliberadamente o traseiro para trás e conscientemente rebole para chamar a atenção dos homens, mas isso ocorre devido à conformação do seu corpo. É claro que ela pode exagerar esses atributos naturais e correr o risco de se transformar numa caricatura. (Recentemente, um espectador atento relatou que, durante um show, a cantora Kylie Minogue rebolou os quadris 251 vezes.) Mas mesmo que a mulher não faça nada, sua anatomia estará sempre transmitindo os sinais característicos do seu sexo.

Hoje já não se vêem tantos quadris protuberantes e ondulantes como antes. Parece que as mulheres de hoje não são tão avantajadas quanto nossas ancestrais. Naturalmente, não se pode ter uma prova disso pelos esqueletos, mas, quando observamos pinturas e esculturas da Idade da Pedra, vemos imensas nádegas por toda parte. Mesmo depois da Idade da Pedra elas persistem na arte pré-histórica de muitas culturas, mas depois começam a desaparecer até atingir as proporções atuais, que, embora ainda sejam bem maiores que as dos homens, são consideravelmente menores. Esses fartos traseiros primitivos deram lugar a muita especulação. Uma hipótese é a seguinte. Nossos ancestrais copulavam por trás, como outros primatas, de modo que os sinais sexuais pré-humanos da fêmea vinham do traseiro. Quando evoluímos para a postura ereta e os músculos traseiros formaram as nádegas, a forma arredondada se tornou o novo sinal sexual. As mulheres que tinham grandes traseiros enviavam fortes sinais sexuais, e com isso as nádegas foram crescendo. As mais sensuais tinham a vantagem de enviar supersinais com suas supernádegas, mas elas ficaram tão grandes que começaram a atrapalhar o ato sexual. Então os homens resolveram o problema adotando a cópula frontal. Em razão desse acasalamento frontal, os seios cresceram para imitar os grandes hemisférios posteriores. A partir de então esses superseios também eram capazes de enviar fortes sinais sexuais, dividindo o fardo, por assim dizer, com as nádegas, que agora podiam começar a diminuir de tamanho. Essa última versão da fêmea humana, mais equilibrada e mais ágil, tinha uma considerável vantagem sobre o modelo antigo, que foi sendo gradualmente substituído. Se essa especulação estiver correta, teremos que encontrar vestígios de sua evidência. Esses vestígios podem ser encontrados hoje nos desertos do sudoeste da

África, onde as mulheres do povo san ainda exibem as imensas nádegas das figuras da Idade da Pedra. Em algumas mulheres, as dimensões do traseiro atingem proporções assustadoras e nos mostram como deviam ser todas as nossas ancestrais há muitos milhares de anos. Há quem diga que comparar européias da Idade da Pedra — prováveis modelos das figuras rupestres — com mulheres que vivem atualmente no sul da África é absurdo, mas essa objeção ignora a verdadeira história do povo san. Esse povo não vive hoje no deserto porque esse seja seu ambiente favorito. Esse foi o último canto da Terra onde eles puderam se manter unidos, já que são um ramo da família humana em extinção. Seus ancestrais dominavam grandes extensões da África e deixaram belas pinturas rupestres como prova disso. Mas eles representavam a Idade da Pedra Lascada, período em que a caça e a coleta eram os meios de vida. Com a chegada dos povos da Idade da Pedra Polida — os primeiros fazendeiros —, eles foram sendo expulsos de quase todos os seus territórios, e hoje são cerca de 50 mil indivíduos, quase insuficientes para povoar uma pequena cidade. No passado, porém, foram um dos povos dominantes da nossa espécie, e não há razão para supor que suas imensas nádegas (uma condição que se denomina "esteatopigia") fossem uma raridade. É mais que provável que, na Idade da Pedra, elas fossem um atributo feminino comum, e que os artistas rupestres tenham se inspirado em mulheres reais, e não em figuras de suas fantasias eróticas. Quando as mulheres mais ágeis e magras dominaram a cena, a velha imagem de grandes glúteos não desapareceu completamente do inconsciente humano. Ela ainda ressurge de tempos em tempos de maneiras inesperadas. Muitas roupas exageram o tamanho das nádegas. Mesmo na época vitoriana, o olhar do homem pôde apreciar uma nova forma artificial de esteatopigia com a introdução das anquinhas. Arames, enchimentos e cor-

dões entraram em cena para reproduzir a perdida adiposidade da região glútea. As elegantes que usavam suas anquinhas nas reuniões da sociedade vitoriana com certeza ficariam horrorizadas com essa interpretação, mas hoje a comparação é inevitável. No século XVII, o principal artifício para exagerar o traseiro feminino eram os sapatos de salto alto. Esse tipo de calçado distorcia o andar da mulher de tal maneira que as nádegas eram empurradas para cima e para fora e obrigadas a ondular mais ainda. Mesmo sem indevidos exageros, as nádegas continuam a ser um foco erótico no corpo da mulher moderna. Longos vestidos que escondem as pernas em geral são cortados de maneira a exibir o contorno das costas e delinear os movimentos. Peças como as minissaias dos anos 1960 exibiam o traseiro, e calças justas, embora escondam a carne, não deixam dúvida quanto à forma exata dos hemisférios posteriores. No início da década de 1980, a moda criou uma linha de calças jeans bem apertadas, deliberadamente desenhadas para exibir essa região do corpo como um símbolo sexual da mulher recém-liberada. O autor de um livro chamado Rear View (Visão traseira), publicado na época e exclusivamente dedicado ao impacto erótico das nádegas femininas, saudou a nova era com as seguintes palavras: "A Butt Blitz (Investida das Bundas) começou em 1979 quando uma de suas porta-vozes enfiou sua vibrante, giratória e bem-cortada derrière na cara assustada do público de uma rede de televisão. [...] Foi o início de um fenômeno cultural conhecido como jeans de marca". Em poucos anos, os jeans de marca competiam com as calças mais largas, e os dois estilos conseguiram conviver durante um certo tempo. À medida que as calças compridas passaram a dominar a moda feminina e as saias caíram na preferência das mulheres mais jovens, as velhas e malcortadas calças jeans no estilo trabalhador

foram substituídas por modelos glamorizavam a região glútea.

que

delineavam

e

Uma forma extrema dessa tendência surgiu em 1992, quando uma jovem estilista inglesa lançou um modelo que tinha a cintura tão baixa que deixava ver o sulco entre as nádegas. Embora nem todos no mundo da moda tenham aprovado o novo modelo, as nádegas femininas estavam numa fase de grande valorização. À medida que o século XX se aproximava do fim, cada vez mais pessoas prestavam atenção a essa parte do corpo. Um comentarista chegou a dizer que "as nádegas eram os novos seios". Nos Estados Unidos, tornou-se popular um estilo de música chamado booty rap. O termo "booty" era um novo eufemismo para "buttocks" (nádegas). Originalmente restrito à gíria dos negros americanos, o termo foi dicionarizado pela primeira vez em 2002, junto com seu adjetivo "bootylicious", definido como "sexualmente atraente, em especial com nádegas voluptuosas". A atriz e cantora Jennifer Lopez chamou a atenção cm 1999, quando os jornais da Europa e da América anunciaram que ela havia segurado seu admirado traseiro por US$ 1 bilhão. Embora ela tenha publicado um desmentido, o fato de que tal notícia possa ter sido inventada e chegado às manchetes é um sinal do grande interesse por essa parte da anatomia feminina no fim do século XX. No Brasil, foi inventada até uma nova palavra para descrever a mulher que possui um traseiro farto: "poposuda", e o cenário musical brasileiro assistiu a um culto por dançarinas poposudas. As modelos esqueléticas, dotadas de um traseiro diminuto perto do dessas mulheres, saíram de moda. Na Inglaterra, um concurso que elege "O Traseiro do Ano" se tornou muito popular. Começou na década de

1980, mas ganhou maior publicidade com a chegada do novo milênio. Dos dois lados do Atlântico, cresce a demanda por produtos e procedimentos cosméticos destinados às nádegas. Enchimentos e peças elásticas destinadas a levantar as nádegas já vinham sendo usados, mas agora os cirurgiões plásticos relatam uma enorme procura por nádegas mais voluptuosas, tanto através de injeções de gordura quanto de implantes. Essa cirurgia custa cerca de US$ 10 mil, mas o alto custo parece não ser um obstáculo. Além do aumento das nádegas, as mulheres também querem tê-las mais firmes, para criar uma aparência mais jovem e mais voluptuosa. Um dos maiores centros desse tipo de cirurgia é o Brasil, onde calcula-se que existam no mínimo 1.600 cirurgiões plásticos em atividade. Aparentemente, esse tipo de cirurgia é tão comum no país que, quando alguém se hospeda num hotel no Rio, pode encontrar folhetos de propaganda de clínicas de cirurgia plástica ao lado do inevitável exemplar da Bíblia. É difícil dizer quanto tempo vai durar essa moda de nádegas firmes e generosas, mas não há dúvida de que o mundo da moda e da cultura popular esté sempre voltando à região glútea como foco de erotismo. Há muito nossa espécie abandonou a locomoção sobre quatro patas, mas o traseiro feminino se recusa a desaparecer do inconsciente masculino. Já se disse que o símbolo universal do amor, a forma estilizada do coração, na realidade se baseia nas nádegas. De fato, ela se parece muito pouco com o verdadeiro coração e tem uma estranha semelhança com as nádegas femininas vistas por trás. Novamente, uma imagem humana primitiva pode estar em ação. Até aqui, analisamos os aspectos ofensivos e sexuais das nádegas, mas existe uma terceira maneira pela qual essa parte do corpo pode ser exposta, que é a da

submissão. A exposição das nádegas numa humilhante postura curvada teve um papel duradouro como gesto de submissão. Nesse aspecto, não há diferença entre o ser humano submisso e o macaco submisso. Em ambos os casos, aquele que expõe as nádegas está dizendo: "Eu me ofereço no papel passivo feminino. Por favor, mostre-me sua superioridade montando-me em vez de me atacar". Os macacos submissos de qualquer sexo mostram o traseiro ao superior de qualquer sexo. Os indivíduos dominantes raramente atacam esses subordinados: ou o ignoram ou o montam brevemente, com alguns movimentos pélvicos. Como demonstração de submissão, o gesto é importante, porque permite ao fraco subordinado permanecer perto do poderoso dominante sem ser atacado. Em algumas sociedades tribais, a curvatura, praticada como uma cerimônia de agradecimento, é feita dando as costas para a pessoa homenageada. Parece tanto o gesto de submissão dos primatas que é difícil não relacioná-los. Uma forma mais comum de exposição das nádegas é aquela em que a criança é espancada como castigo. A vítima deve primeiro curvar-se para a frente na postura submissa dos primatas, e então, uma vez nessa posição que, se ela fosse um macaco, a livraria do ataque, é injustamente espancada com a mão, com uma cinta ou uma vara. Parece que, para certos humanos dominadores, a postura humilhante não é suficiente. Devido às suas implicações sexuais, o contato com as nádegas é proibido. Fora do âmbito de um casal de amantes, uma palmada no traseiro só pode ser usada com segurança como sinal de amizade quando não existe perigo de envolvimento sexual. Entre amigos numa reunião social, o gesto pode ser mal interpretado, e o tapinha nas costas é preferível, a não ser que exista uma intenção sexual oculta. O tapa no traseiro restringe-se portanto a certos contextos, como entre pais e uma criança muito pequena, ou entre esportistas durante uma competição acirrada. Em ambos

os casos, os pensamentos sexuais são tão remotos que não há possibilidade de um mal-entendido. Por outro lado, parentes idosos ou "amigos da família" que exploram a diferença de idade batendo nas nádegas de adolescentes e desfrutando o contato sexual disfarçado em castigo parental podem criar muitos problemas. Entre amantes, um tapinha no traseiro é comum. E um acompanhamento freqüente dos beijos e abraços. As mãos que abraçam as costas facilmente passam às nádegas à medida que a excitação cresce. Nos bailes de antigamente, quando estranhos podiam se abraçar enquanto dançavam, o cavalheiro podia explorar a situação deixando a mão descer pelas costas da dama em direção às nádegas. A continuação dessa estratégia, como mostram os filmes, é o atrevido ver sua mão rapidamente devolvida à posição original. Nos estágios avançados do ato sexual, os tapinhas muitas vezes são substituídos pelo gesto de agarrar as nádegas para acompanhar as vigorosas estocadas da pelve. É durante essa fase de contato físico que a forma arredondada das nádegas se liga intimamente, na mente dos amantes, a fortes emoções sexuais. É essa ligação sexual que causa uma reação ultrajada diante de um gesto que outrora foi um costume dos italianos: beliscar as nádegas da mulher em público. Qualquer mulher atraente que caminhasse por uma cidade italiana corria o risco de ter as nádegas beliscadas por um admirador desconhecido. De acordo com sua educação, ela podia se sentir orgulhosa, levemente irritada ou ofendida. O autor de uma obra satírica intitulada Como ser italiano relata os três beliscões fundamentais: Pizzicato: um rápido beliscão executado com o polegar e o dedo médio. Recomendado para iniciantes. Vivace: um beliscão mais vigoroso, executado com vários dedos e várias vezes em rápida sucessão.

Sostenuto: um beliscão bem apertado e prolongado, adequado no caso de "cintas resistentes". As feministas não acham a menor graça nisso, e uma ocasião chegaram a revidar, procurando nas ruas nádegas masculinas que pudessem ser beliscadas. Como área destinada à decoração, as nádegas não têm grande utilidade. São muito íntimas para exibir obras de arte e muito inadequadas para carregar ornamentos, já que destinadas ao ato de sentar. Nádegas tatuadas não são comuns, exceto entre os fanáticos. Encontramos o único exemplo de nádegas ornamentadas numa obra de John Bulwer escrita no século XVII, Man Transformed (Homem transformado), na qual ele mostra uma nativa de aparência infeliz com jóias penduradas nas nádegas. Bulwer comenta: "Entre outras asquerosas invenções de algumas nações, lembro-me [...] de um certo povo que, num gesto absurdo de coragem, fazia furos nas nádegas, onde eram penduradas pedras preciosas. O que se revelava uma moda inconveniente e desconfortável, e muito prejudicial a uma vida sedentária". Finalmente, existe a questão do uso do ânus feminino como orifício sexual. Calcula-se que cerca de 50% das mulheres ocidentais tenham experimentado o sexo anal em algum período de sua vida. Apenas 10% o julgaram bastante satisfatório para ser adotado como atividade regular. Em algumas partes do mundo, a porcentagem de adeptos é muito maior. Uma pesquisa com 5 mil donas-decasa do Brasil revelou que 40% dos casais que viviam no campo e 50% dos que viviam nas cidades "consideravam o coito anal uma parte normal da sexualidade". Anatomicamente, o ânus é rico em terminações nervosas, e portanto pode ser fonte de prazer. Funcionalmente, porém, ele é uma saída, e não uma entrada, e a evolução não o preparou para receber a penetração. Do ponto de vista biológico, o sexo anal não é

uma atividade "natural", e não conta com a ajuda da hibrificação automática de glândulas especializadas ou das outras mudanças que facilitam a penetração vaginal. Apesar disso, no curso da história, o ânus tem sido coagido a desempenhar o papel de uma vagina simbólica. Parece haver quatro razões para isso: Há séculos, antes que existissem preservativos, o sexo anal era usado como uma forma primitiva, mas eficiente, de controle da natalidade. Isso está explicitamente demonstrado na cerâmica pré-colombiana do Peru, por exemplo. Sempre que um casal aparece fazendo sexo, a penetração vaginal só é mostrada se não existe um bebê dormindo ao lado deles. Quando há um bebê presente — a maneira de o artista mostrar que eles formam uma família —, a penetração é evidentemente anal. Essa forma de contracepção sobrevive ainda hoje em muitas partes do mundo, principalmente na América Latina, em partes da África e no Oriente. Onde não há preservativos disponíveis por qualquer razão — pobreza, ignorância ou convicções religiosas —, é provável que, apesar dos riscos para a saúde, a penetração anal seja utilizada como forma de controle da natalidade. Uma segunda razão é que ela permite aos jovens casais se entregarem ao sexo antes do casamento sem que a mulher perca a virgindade. Isso é particularmente verdade em certas culturas mediterrâneas, nas quais a exibição dos lençóis manchados de sangue depois da noite de núpcias ainda é exigida como prova da virgindade da noiva. Uma terceira razão é a aversão masculina ao sangue menstrual. Como a mulher continua sexualmente receptiva quando está menstruada, os homens muitas vezes desejam fazer sexo nesse período, mas sentem-se inibidos pelo sangramento. O sexo anal lhes oferece uma solução para o problema.

Finalmente, além de evitar a gravidez, a perfuração do hímen antes do casamento ou o contato com o sangue menstrual, o sexo anal também é utilizado como uma variante erótica para casais que buscam novidade. Juntas, essas razões explicam a ocorrência generalizada de uma atividade que tem sido um assunto tabu.

22. Pernas
O poder erótico das pernas sempre foi valorizado. Quando, aos 15 anos, a princesa austríaca Mariana estava para se casar com Felipe IV da Espanha, um dos presentes de casamento foi um par de meias, que foi enviado de volta por um mensageiro com as seguintes palavras: "A rainha da Espanha não tem pernas". Ao ouvir isso, a princesinha caiu no choro, pensando que quando se casasse teria as pernas amputadas. O que o mensageiro quis dizer é que, como não se podia ver as pernas da rainha, não havia por que enfeitá-las com meias decorativas. Naquela época, mostrar as pernas era sinônimo de convite sexual. O que existe nas pernas femininas que as torna sexualmente atraentes? Sua função primordial é nos manter de pé e nos fazer caminhar. É evidente que as pernas evoluíram como estruturas de locomoção, e no entanto os homens são obcecados por elas sexualmente. Uma pergunta presente em qualquer vestiário esportivo masculino é a seguinte: "O que você prefere: seios ou pernas?" A fixação pelas pernas é tão grande que existe uma publicação exclusivamente dedicada a essa obsessão masculina: Leg World (Mundo das Pernas). Em alguns homens, a adoração atinge o grau de fetiche. Eles não se interessam por nenhuma outra parte do corpo feminino e conseguem obter satisfação sexual, por exemplo, acariciando um par de meias de náilon. Esse comportamento é relativamente raro, mas, mesmo entre heterossexuais normais, que se interessam por todas as partes do corpo da mulher, parece haver uma inexplicável preferência pelas pernas. Assim, antes de examinar as pernas como meio de locomoção, vale a pena investigar os motivos dessa forte atração.

A primeira e mais óbvia explicação talvez esteja na forma como as pernas se juntam. Cada vez que uma mulher abre, fecha ou cruza as pernas, chama a atenção para o ponto onde elas se encontram — que é, claro, o foco principal do interesse sexual masculino. É quase como se, no recesso da mente do homem, o par de pernas funcionasse como uma flecha que indicasse a "terra prometida". Nesse aspecto, abrir as pernas sempre foi um gesto carregado de significado sexual, mesmo em momentos em que a mulher está apenas procurando uma postura mais confortável. Como na posição papai-e-mamãe a mulher mantém as pernas abertas, o homem costuma identificar essa postura com uma mulher sexualmente ativa (por exemplo, em comentários como "Ela teve que ser enterrada num caixão em forma de Y"). Os livros de etiqueta ensinam as jovens a não se sentarem de pernas abertas. Em 1972, Amy Vanderbilt achou necessário informar às mulheres americanas que "é gracioso sentar-se com o polegar de um pé posicionado ao lado do polegar do outro e com os joelhos unidos". Todas as posições em que as pernas ficam fechadas, esteja a mulher de pé ou sentada, passam uma imagem de formalidade, polidez ou subordinação. Uma moça bemcomportada, que se senta com os joelhos juntos, mostra uma neutralidade que lhe dá um ar de correta inibição. A única outra alternativa adequada é a postura de pernas cruzadas, que tem um quê de informalidade. No século XIX, as mulheres da alta sociedade eram proibidas de adotar essa postura em público, e mesmo hoje os livros de etiqueta mais conservadores ainda a desaprovam. Eis o que diz Amy Vanderbilt, a maior autoridade moderna em boas maneiras: "Cruzar as pernas hoje não é mais uma atitude masculina, mas existem boas razões para evitar ao máximo essa postura. Primeiro, ela cria uma

protuberância nas coxas que se sobrepõem. Em segundo lugar, com saias curtas, pode ser indecente ou no mínimo um sinal de descompostura. Em terceiro lugar, parece que prejudica a circulação, causando varizes". Ela alerta para o perigo de cruzar as pernas durante uma entrevista de emprego, argumentando que a informalidade da postura pode dar uma impressão de pretensão ou de excessiva descontração. A diferença entre a postura comportada de pernas juntas e a postura de pernas cruzadas está no fato de que a primeira mostra uma prontidão da mulher para se levantar, enquanto a segunda mostra sua disposição de permanecer confortavelmente sentada. As pernas juntam revelam uma disposição para a ação. As pernas cruzadas indicam que a mulher está instalada e não pretende se levantar de repente. Analisando mais detalhadamente essa postura, percebe-se que existem nove maneiras de cruzar as pernas. Posição calcanhar-com-calcanhar. É a postura mais comportada de todas. A parte das pernas que se cruzam é muito pequena, e a posição quase não difere da postura de pernas fechadas. Posição panturrilha-com-panturrilha. Não é uma postura muito comum. Passa uma imagem formal e "correta". Assim como a primeira postura, só é demonstrada por mulheres de alta condição social em ocasiões públicas. A rainha da Inglaterra, por exemplo, nunca foi fotografada com as pernas cruzadas acima da panturrilha. Posição joelho-com-joelho. Essa é a primeira das posturas verdadeiramente informais e costuma ser vista em situações sociais comuns. Se a mulher está usando saias, pode expor inadvertidamente as coxas. Portanto, essa postura pode ser usada (consciente ou inconscientemente) com intenções sexuais.

Posição coxa-com-coxa. É uma versão mais radical da última postura, na qual uma coxa se aperta contra a outra. Devido a conformação da pelve feminina, essa é uma postura facilmente adotada por mulheres, mas raramente praticada por homens. Posição panturrilha-com-joelho, posição calcanhar-comjoelho e posição calcanhar-com-coxa. Estas três posturas são obtidas com uma perna erguida acima da outra. São maneiras de cruzar as pernas que, se a mulher estiver de saia, vão expor não só as coxas, mas a região pubiana. Portanto, são adotadas apenas por homens, e ocasionalmente por mulheres que estejam usando calças. É a preferida dos homens que gostam de afirmar sua masculinidade (ou das mulheres que querem mostrar que são iguais aos homens). Posição de pernas entrelaçadas. Nesta postura, as pernas se enroscam e se mantêm nessa posição com a ajuda do pé flexionado. É uma posição muito feminina, porque a maioria dos homens não consegue executá-la. Mais uma vez, é a pelve mais larga da mulher a responsável pela diferença. Posição pé-com-panturrilha. Nesta postura, um pé descansa sobre a panturrilha da outra perna. É outra postura predominantemente feminina, já que é muito desconfortável para o homem, mais uma vez por causa da conformação pélvica. Essas maneiras de cruzar as pernas são vistas em quase todas as reuniões sociais. São formas de linguagem corporal que transmitem sinais subliminares sobre o estado de espírito da pessoa. Além das diferenças de gênero já apontadas, a maneira de cruzar as pernas também pode indicar identidade entre duas mulheres. Se duas amigas têm uma visão semelhante sobre determinado assunto, é muito provável que cruzem as pernas de maneira semelhante quando se sentam para conversar.

Entretanto, se uma é superior à outra e quer afirmar sua condição, provavelmente adotará uma maneira de cruzar as pernas diferente da de sua subordinada. Suas pernas transmitem uma mensagem tácita: "Sou diferente de você". Quando duas mulheres sentam-se lado a lado, a direção em que cruzam as pernas também é significativa. Se são amigas, os joelhos de uma ficam voltados para a outra. Se existe uma animosidade entre elas, os joelhos apontam para fora e ajudam a desviar o corpo nessa direção. Existe ainda outro elemento na maneira como uma mulher cruza as pernas. Pode-se afirmar com uma certa segurança que, quanto mais apertadas as pernas, mais defensiva é a postura interior da mulher. A postura de pernas afastadas revela autoconfiança. Em certo sentido, pernas cruzadas são o oposto de pernas afastadas. Por causa disso, houve quem chegasse a afirmar que todas as pessoas estão na defensiva quando cruzam as pernas. Isso é uma simplificação, porque muitas pessoas se sentem mais confortáveis com as pernas cruzadas e adotam essa postura mesmo quando estão sozinhas. Mas é verdade que quando alguém não se sente à vontade diante de outras pessoas tem maior probabilidade de manter as pernas cruzadas do que quando está relaxada, e essa postura não passa despercebida, mesmo que as pessoas ao seu redor não se dêem conta disso. Se uma mulher exagera nessa postura de defesa sexual e aperta demais as pernas, o gesto deixa de ser defensivo e começa a ter um certo sabor sexual, porque "a dama protesta demais". Na verdade, são tão fortes os sinais sexuais transmitidos pelas pernas femininas que só uma postura descontraída entre os dois extremos pode ser adotada sem atrair atenção sexual. Outro aspecto sexual das pernas é a maneira como elas são escondidas pelas roupas. Ao longo da história, a

maioria das religiões preferiu ver as pernas das mulheres totalmente cobertas — outra admissão de seu potencial erótico. Todas as vezes que as mulheres se rebelaram contra isso, encurtaram as saias. Cada centímetro que as saias subiam provocava protestos e acusações de licenciosidade das autoridades puritanas. Entretanto, pouco depois, o novo comprimento era aceito como norma. Para chocar, a exposição tinha então que ser maior, até que toda a perna estivesse à mostra, e apenas a região pubiana coberta por uma estreita faixa de tecido. Em diferentes períodos da história ocidental, a proporção visível das pernas femininas variou consideravelmente. No último século, as pernas desapareceram por completo de vista por longos períodos, e a simples visão de um calcanhar era chocante. Tão forte e total foi essa supressão que até a palavra foi proibida nos círculos educados. Nos Estados Unidos, eram usados eufemismos como "extremidades", "apêndices", etc. À mesa, uma coxa de galinha tornou-se apenas "carne escura". Hoje, é difícil compreender o ambiente social que tornava possíveis tais extremos de pudicícia, mas a verdade é que as pernas foram um tabu durante muito tempo. Só depois da Primeira Guerra Mundial elas saíram do esconderijo, e mesmo então ainda causaram muito assombro. As jovens rebeldes dos anos 1920 ousavam expor as panturrilhas e até os joelhos, e isso era demais para alguns homens. Diziam que a nova moda estava corrompendo os padrões morais, e que aquelas moças "modernas" se comportavam como prostitutas. Muitas jovens foram proibidas de usar as novas saias curtas no trabalho. Um proeminente advogado se queixou de que "a provocação de pernas cobertas de seda e coxas seminuas [...] era devastadora e insuportável". O que comentários como esse revelam, mais uma vez, é o forte apelo erótico das pernas femininas. O motivo é

óbvio. Quanto maior a parte das pernas à mostra, mais fácil é imaginar o ponto onde elas se encontram. Entretanto, seria um erro concluir que as mudanças no comprimento das saias durante o século XX refletem apenas as flutuações do vigor sexual da sociedade. Se acompanharmos o sobe-e-desce das saias década após década, constataremos que as saias curtas foram adotadas em períodos de florescimento econômico, e as longas reapareciam em períodos de depressão econômica. As saias curtas dos agitados anos 1920 foram substituídas pelas saias longas dos anos 1930 pós-depressão; as longas do pós-guerra, no fim da década de 1940, foram substituídas pelas minissaias dos liberais anos 1960, que por sua vez deram lugar às saias longas dos recessivos anos 1970. Era como se as mulheres, influenciadas pelas mudanças de humor da sociedade, revelassem seu otimismo e confiança pelo comprimento das bainhas. E, se uma atitude otimista vai bem com uma ativa sexualidade, pode-se dizer que as saias mais curtas refletem uma sociedade dotada de maior energia sexual, mas isso é apenas parte da história. As saias longas dos anos 1970, por exemplo, não resultaram de uma onda moralista. A verdade é que tanto as saias curtas quanto as longas têm potencial sexual. A curta tem a vantagem de expor as pernas o tempo todo aos olhares masculinos, mas a desvantagem de que a familiaridade gera desinteresse. Qualquer dançarina de strip-tease sabe que precisa começar totalmente vestida, e que é o ato de tirar a roupa que produz um estímulo sexual. Portanto, a saia longa tem a vantagem de provocar um forte impacto quando é erguida ou removida, mas tem a desvantagem de ficar a maior parte do tempo bloqueando os sinais sexuais emitidos pelas pernas. Mais do que qualquer fator sexual, o que as minissaias proporcionaram foi uma sensação de liberdade. Com saias curtas, as mulheres podem caminhar

vigorosamente, saltar e correr. As que usam longas saias com muito pano ou afuniladas perdem mobilidade. A explosão de minissaias nos anos 1960 resultou de uma liberdade recém-conquistada com a invenção da pílula anticoncepcional e com o forte crescimento econômico. As longas pernas transmitiam uma mensagem social: "Nós, jovens, estamos caminhando para a frente". Com a chegada dos anos 1980, ficou claro para onde elas estavam caminhando — para o movimento feminista e uma nova luta por igualdade sexual. Com esse último passo veio outra mudança. Enquanto o confuso quadro econômico dava origem a uma mistura de tendências — saias longas, médias e curtas —, a vanguarda da população feminina propunha a igualdade das pernas, adotando a peça característica do vestuário masculino: as calças. As calças, que, como as saias curtas, causaram tumulto quando apareceram e fizeram muitas mulheres serem expulsas de ambientes elitistas, logo foram aceitas. (No início do século XXI, 84% das mulheres de Londres preferiam as calças às saias.) Como as saias, as calças também mostraram vantagens e desvantagens. Revelaram pela primeira vez a forma exata da região onde as pernas se encontram, o que lhes deu um enorme potencial erótico, mas ao mesmo tempo não deixavam ver a suave curvatura das pernas, dando-lhes dobras e rugas anti-estéticas. Elas também davam a impressão de uma armadura protetora, roubando das pernas a vulnerabilidade diante da abordagem masculina. Na mente do homem, levantar uma saia é fácil, tirar um par de jeans é uma luta. Se o mundo ocidental se tornou cada vez mais liberal em relação à exposição das pernas, de modo que as mulheres podem usar saias curtas e longas ou calças largas e justas sem a pressão de rígidas normais sociais,

em outras partes do mundo as restrições ainda são muitas. Nos países muçulmanos tiranizados por líderes religiosos conservadores, as mulheres não podem expor nenhuma parte das pernas em público. A China comunista também impôs graves restrições às mulheres durante quase todo o século XX, mas agora está mudando graças à chamada "abertura" da economia chinesa. Um sinal dessa mudança foi a aparição de pernas femininas nas telas de tevê. Entretanto, embora no século XXI um ar de modernização tenha varrido a sociedade chinesa, as mudanças não foram aceitas sem resistência. Em 1998, por exemplo, um grupo de estudantes apresentou uma queixa formal exigindo "uma tela [de tevê] livre desse lixo comercial que expõe o corpo feminino para vender produtos de beleza". As autoridades ficaram suficientemente sensibilizadas e proibiram a exposição inadequada das pernas femininas na tevê, mas em poucas semanas as belas pernas estavam de volta. Hoje, a bemvinda liberalização da moderna China parece ser irreversível. Outro aspecto da sensualidade das pernas é sua suavidade. Um poeta do século XVII cantou em versos as pernas de sua amada: "Pudera eu beijar as deliciosas pernas de minha Julia, brancas e lisas como um ovo". A pele lisa e suave das pernas femininas (às vezes aperfeiçoadas com uma pequena ajuda no banheiro) contrasta com a pele peluda das pernas masculinas, uma diferença que funciona como um forte sinal de gênero. O uso de meias de seda ou náilon se popularizou também como uma maneira de aumentar a aparência de suavidade das pernas. Uma alternativa moderna é a aplicação de um spray sedoso que adere à pele e produz um efeito muito semelhante ao das meias. Tem várias vantagens: é mais fresco, à prova d'água e nunca enruga. No Japão, por exemplo, onde mais de 12 milhões de

mulheres trabalhadoras são proibidas pelas empresas de expor as pernas nuas, a solução do spray é ideal. Dá às pernas a suave aparência "vestida" adequada ao local de trabalho sem nenhuma das desvantagens das meias. Outra diferença de gênero é a forma curvilínea das pernas femininas em comparação com as musculosas pernas masculinas. As suaves curvas ascendentes atraem o olhar dos homens, não só porque são diferentes, mas também porque são sinal de um corpo vigoroso e saudável. Pernas muito finas, tão populares no mundo da moda, assim como pernas muito gordas e grossas, não são atraentes para o homem. Pernas curvilíneas — nem finas demais, nem muito gordas — estão associadas (na mente primitiva do macho) a uma condição física ideal para a procriação. Está provado que, em todas as culturas humanas, a condição física adequada à procriação é um atributo que desperta grande interesse sexual. Finalmente, existe uma vantagem em ter pernas longas. Numa recente pesquisa em que mil homens foram solicitados a dizer que atriz tinha as mais belas pernas, a mais votada (Nicole Kidman) é famosa por suas longas pernas. Não é difícil descobrir por que pernas compridas são tão atraentes. Na mulher adulta, as pernas são maiores que as da criança tanto em termos relativos quanto em termos absolutos. Como na puberdade ocorre um rápido crescimento das pernas, ter pernas mais compridas acabou sendo sinal da chegada da maturidade sexual. Portanto, uma mulher de pernas anormalmente longas transmite sinais de extrema feminilidade. Na década de 1940, os cartunistas começaram a explorar esse aspecto, desenhando figuras de pernas muito mais longas que as das modelos reais. É claro que se eles tivessem exagerado demais os desenhos ficariam grotescos, mas o alongamento na medida certa deu às mulheres retratadas uma maior sensualidade.

Desde então, durante toda a segunda metade do século XX e início do XXI, as mulheres reais pareciam ter pernas cada vez mais longas. Evidentemente, isso resultava do fato de estilistas de moda, fotógrafos e diretores de cinema preferirem mulheres de pernas longas. A tendência continuou ano após ano, até que hoje é impossível para uma modelo que tenha pernas curtas encontrar emprego. Para resumir, as pernas são sexualmente excitantes porque (1) o ponto onde elas se encontram é foco da atenção erótica masculina, (2) suas diversas posturas indicam preocupações eróticas, (3) a roupa mais curta permite a exposição de porções de carne que em geral permanecem escondidas, (4) suas curvas enfatizam as formas do corpo feminino, e (5) seu acelerado crescimento na puberdade faz com que pernas longas passem uma mensagem de prontidão sexual. Deixando de lado o sex appeal das pernas, vamos analisar sua anatomia. As pernas correspondem à metade da altura do corpo. Quando um pintor faz um esboço acurado do corpo humano, divide-o em quatro partes praticamente iguais: do chão aos joelhos, dos joelhos ao púbis, do púbis aos mamilos e dos mamilos ao topo da cabeça. Em outras palavras, as pernas são metade do comprimento do corpo. As pernas mais longas do mundo pertencem a uma adolescente e medem 124 de seus 190 cm. São pernas proporcionalmente 30,5 cm mais compridas que a média — o que mostra a grande variação existente nas medidas das pernas femininas adultas. A base esquelética das pernas compreende quatro ossos: o fêmur, o osso mais comprido do corpo humano; a patela, que protege a parte frontal da articulação do joelho;

a tíbia, que se articula com o fêmur; e a fíbula, que se situa ao lado da tíbia. Impulsionada por pernas fortes e bem-moldadas, a mulher já saltou mais de 2 metros no ar e conseguiu dar um salto em distância de 7,5 metros. Uma maratona de dança que levou os participantes à exaustão durou 214 dias. Tais feitos de força e resistência testemunham a evolução das pernas femininas ao longo de 1 milhão de anos. Muito já se escreveu sobre o andar. A maneira de caminhar de diferentes indivíduos e de diferentes culturas há muito fascina os observadores. Normalmente, o passo da mulher é mais curto que o do homem, mas existem enormes diferenças pessoais, e muitas mulheres famosas tém um andar tão característico que é fácil imitá-las. Para ilustrar o que estou dizendo, basta-me citar os nomes de Mae West e Marilyn Monroe. No aspecto cultural, existem imensas diferenças entre, por exemplo, mulheres japonesas e americanas. As japonesas são perfeitas quando se trata de um andar mais formal, enquanto as americanas são melhores em tipos de locomoção mais casuais. Foram identificadas 36 maneiras de andar na espécie humana — do andar lento de cerca de um passo por segundo ao caminhar normal de dois passos por segundo até o andar rápido de quatro passos por segundo —, mas apenas nove delas são predominantemente femininas e merecem uma breve menção: 0 vacilante é o andar das pessoas cujas pernas não são capazes de percorrer longas distâncias com conforto. A pessoa caminha com passos muito curtos. É o andar típico das mulheres quando estão usando saias muito justas ou sapatos apertados. O miudinho é um andar de passos rápidos mas curtos. Na verdade, é um exagero do andar característico das mulheres, só que os passos curtos ficam ainda menores.

Pode ser descrito como um andar que demonstra "afetada precisão". O deslizante é uma versão elegante do miudinho. Com movimentos curtos e delicados dos pés, o corpo parece deslizar para a frente como se sobre rodas. Outrora comum entre mulheres da alta sociedade em algumas partes da Europa, hoje restringe-se praticamente ao Japão. Para criar o efeito desejado, a mulher precisa usar saias bem longas, que ocultem o movimento dos pés. O pulado é o andar típico da adolescente quando caminha com um movimento flexível que faz o corpo saltar a cada passo. É um andar alegre, que revela saúde e otimismo. O passo largo é usado pelas mulheres que imitam o vigor do andar masculino. O gingado é o andar erótico da mulher que quer atrair atenção. O peso passa de uma perna para a outra, fazendo os quadris oscilarem. Se exagerado, torna-se uma caricatura sexual. Marilyn Monroe realçava seu famoso gingado usando sapatos de salto alto que tinham um salto ligeiramente menor que o outro. O disparado é um andar ansioso, cheio de movimentos curtos, rápidos e indecisos, com muitas idas e vindas e súbitas mudanças de direção. O saltitante é um andar alegre e rápido, com pequenos saltos desnecessários. É uma versão mais rápida do pulado, com uma ação mais vigorosa das pernas. A corrida nos interessa particularmente porque a conformação corporal da mulher a obriga a executá-la de uma maneira ligeiramente diferente da do homem. Isso se deve à maneira como as pernas femininas estão presas à bacia. Essa mesma conformação anatômica que permite à mulher cruzar as pernas entrelaçadas lhe dá uma diferente maneira de correr, com um elemento de rotação

que não existe na corrida do homem. Essa diferença quase não é percebida porque é mais comum vermos atletas correndo, mas, para chegar a ser uma atleta de ponta, a mulher é escolhida entre milhões de outras por seu andar masculino. O corpo das atletas não exibe as usuais curvas e seios fartos, sua camada de gordura é muito reduzida, e na corrida suas pernas executam um movimento frontal, sem nenhum traço da rotação da perna tipicamente feminina. Essas são as corredoras que vemos nas telas da tevê, mas, se observarmos uma mulher menos musculosa e mais voluptuosa correndo para pegar um ônibus, ficará evidente a típica rotação da perna. Essa corrida desajeitada sugere que, em sua especialização para a procriação, o corpo feminino sacrificou algumas de suas capacidades atléticas adequadas à corrida, que acabou sendo uma especialização do homem (caçador primitivo). Algumas formas de locomoção são provocadas por estados emocionais, enquanto outras resultam de normas sociais. Essas regras variam de uma época para outra. Em tempos mais formais, havia leis estritas determinando como uma dama devia caminhar num local público. Um século atrás, ela devia evitar o "caminhar atlético", o "passeio despreocupado", o trote, o passo arrastado e a corrida. Um antigo livro de etiqueta descreve uma mulher cujo andar era socialmente aceitável: "Seu corpo se mantém ereto em perfeito equilíbrio, e no entanto não há o menor sinal de rigidez. Ela dá passos médios e caminha a partir dos quadris, e não dos joelhos. Em hipótese alguma balança os braços, nem tampouco gesticula enquanto caminha". Essas normas de "bom comportamento" parecem estranhas nos dias de hoje, quando uma mulher simplesmente sai de casa e caminha pela rua sem pensar que está colocando um pé diante do outro. Essa nova informalidade permitiu o aparecimento de maneiras muito pessoais de caminhar, livres das imposições da etiqueta.

Finalmente, um movimento das pernas que merece menção, embora esteja desaparecendo rapidamente na sociedade moderna, é a reverência — uma saudação na qual um pé é colocado atrás do outro e as duas pernas se dobram ligeiramente. Hoje, a reverência praticamente só é usada quando uma dama cumprimenta um membro da realeza, mas antigamente era muito comum como gesto de agradecimento, quase sempre acompanhado de uma curvatura da cabeça. No século XVII, esses dois elementos — a flexão das pernas e a curvatura da cabeça — se separaram: a reverência tornou-se exclusivamente feminina, e a curvatura, exclusivamente masculina. Essa divisão por sexo só não ocorre no teatro, onde as atrizes tendem a copiar os atores e agradecem à platéia com uma curvatura. A única exceção a essa norma ocorre quando a peça que foi representada se passa numa época em que a forma correta de saudação era a combinação entre reverência e curvatura.

23. PÉS
Os pés são outra parte da anatomia humana que mostra as diferenças entre homens e mulheres. Os pés da mulher são menores e mais estreitos que os do homem. Nos homens, o comprimento médio é de 26,8 cm; nas mulheres, de 24,4 cm. Especificamente, o calcanhar da mulher é mais estreito em relação à planta do pé. Como ocorre com outras partes do corpo, essa diferença de tamanho tem sido explorada e exagerada. Se um pé pequeno é uma característica feminina, então um pé muito pequeno será superfeminino, o que fez muitas mulheres sofrerem ao longo da história. Elas tiveram os pés apertados, espremidos, esmagados e imobilizados em nome da beleza. Mas, antes de tratar desses dolorosos procedimentos, vamos analisar a anatomia do pé. Consideramos a postura ereta algo natural, e no entanto ela é extremamente rara entre os mamíferos. O que torna isso possível é o pé humano — uma obra-prima de engenharia, como afirmou Leonardo da Vinci. Estruturalmente, o pé contém 26 ossos, 114 ligamentos e 20 músculos, com os quais mantém nosso equilíbrio e nos permite caminhar, correr, saltar, dançar e chutar. Calculase que, numa mulher ativa, o pé toca o chão mais de 270 milhões de vezes durante a vida. É uma tarefa formidável, e no entanto raramente merece um pensamento. Obedecendo às indicações dos olhos, os pés nos servem sem esforço e nos transportam por ambientes mutáveis. Um dos únicos momentos em que nos lembramos de seu maravilhoso trabalho é quando os olhos nos faltam e, na semi-escuridão, somos obrigados a dar um passo após outro para subir ou descer uma escada. Quando não encontramos uma superfície que julgávamos estar ali, ou quando nos deparamos com algo inesperado, levamos um choque e perdemos o equilíbrio. Nesses raros momentos

nos lembramos da brilhante tarefa que nossos pés executam o tempo todo. Quando caminhamos, os pés realizam três funções. A primeira é a absorção do choque quando o pé toca o chão; a segunda é a sustentação do peso do corpo; e a terceira é a propulsão que nos empurra para a frente. Essas três funções são executadas a cada passo. Para que elas sejam eficientes, fomos obrigados, no curso da evolução, a fazer um pequeno sacrifício: deixamos de ter polegares opostos como os outros primatas. O polegar se alinhou com os outros dedos e não pode mais ser usado para agarrar objetos como as mãos. Por isso não somos tão acrobáticos quando se trata de subir numa árvore, mas essa é uma perda pequena comparada com o imenso ganho que obtivemos em velocidade para caminhar e correr. Na especialização do macho da espécie humana como caçador cooperativo, ter pés maiores representou uma vantagem. Eles eram necessários para a caçada. Essa pressão evolucionária não se exerceu sobre os pés das mulheres, que permaneceram menores e mais ágeis. Na tentativa de exagerar esse atributo feminino, durante séculos as mulheres tentaram comprimi-los em sapatos desconfortáveis. Três recursos têm sido utilizados pelos fabricantes de sapatos para que os pés de suas clientes pareçam menores do que são na realidade. O primeiro é fabricar sapatos apertados demais; o segundo, fazê-los muito pontudos; e o terceiro, dotá-los de saltos altos. O primeiro recurso aperta os pés, o segundo os torna mais estreitos, e o terceiro os faz parecer menores por elevar a posição do calcanhar. Juntas, essas três mudanças na estrutura natural podem produzir pés mais "atraentes", mas também os submetem a enormes pressões. Não é por acaso que 80% das cirurgias de pé são realizadas em mulheres.

O equilíbrio do corpo é perturbado pelo formato dos sapatos, provocando dores nas pernas, nas costas e até dores de cabeça. Mas o horror que ter pés grandes representa não deixa a mulher desistir. A mulher que tenha a infelicidade de possuir pés grandes e masculinos será considerada anormal — tão estranha que o pianista de jazz Fats Waller lhe dedicou uma canção. Na verdade, é uma rejeição direta que a expõe ao ridículo com as seguintes palavras: "No Harlem, numa mesa para dois, somos quatro: eu, seus pés grandes e você. Dos calcanhares para cima você com certeza é delicada, mas daí para baixo há pés demais. Sim, seus pés são grandes demais. [...] Oh! suas extremidades são colossais. Para mim você parece um fóssil..." Portanto, não admira que muitas mulheres cheguem a absurdos para reduzir o tamanho dos pés. Essa paixão por pés pequenos atingiu tal intensidade em outros séculos que algumas damas da sociedade ficaram famosas por terem amputado os dedos mindinhos para que seus pés coubessem em sapatos ainda mais pontudos. A menção à amputação nos traz inevitavelmente à mente a cruel história de Cinderela. A versão atual de Disney é leve, mas a história original é selvagem e sangrenta. Um príncipe procurava uma esposa, mas, para satisfazer sua exigência de feminilidade, ela precisava ter pés muito pequenos. Um minúsculo sapatinho de pele era usado para testar as noivas em perspectiva. Duas irmãs estavam desesperadas para ser escolhidas. A mais velha tentou enfiar o pé no sapatinho, mas não conseguiu. Então a mãe a aconselhou a cortar o dedão, explicando-lhe que, depois que se cassasse com o príncipe, nunca mais precisaria caminhar. Por isso, não tinha nada a perder. A moça amputou o dedão e apertou o pé sangrando dentro do sapatinho, mas, quando partiu com o príncipe, ele percebeu o sangue manchando as meias. Ele então a

devolveu para a mãe, que lhe ofereceu a outra filha. Essa pobre moça teve o calcanhar cortado para que o pé pudesse caber no sapatinho. Mais uma vez, jatos de sangue puseram fim à farsa e ela também foi rejeitada. Só então o príncipe encontrou Cinderela, cujos pequeninos pés cabiam perfeitamente nos sapatinhos e que se tornou esposa do fetichista. A estranha premissa da história — a de que um homem de alta condição social procure uma mulher de pés pequenos sem levar em conta suas outras qualidades — parece ter passado despercebida pelas platéias modernas. Isso ocorreu porque a versão moderna de Cinderela converteu as duas irmãs em moças horrorosas, enquanto Cinderela era bela. Mas isso é um engodo. O príncipe só tinha uma exigência: que os pés da noiva coubessem em minúsculos sapatinhos de pele — não de cristal, que parece ter entrado na história por um erro de tradução, que confundiu vair (uma pele rara como a zibelina) com verre (vidro). Para entender o motivo de tal ênfase nos pés, precisamos saber que essa história nasceu na China, onde durante séculos amarrar os pés das meninas foi uma prática comum nas famílias da casta superior. Lá, a pequenez dos pés de uma moça era um sinal fundamental de beleza. Na China, o costume de amarrar os pés das jovens começou no século X e durou mais de mil anos. Surpreendentemente, mesmo sendo um costume bárbaro, só foi proibido no início do século XX. Vamos acompanhar esse processo. Quando era pequena, a menina tinha permissão para correr livremente, mas entre 6 e 8 anos passava pela agonia de ter os pés amarrados. Primeiro, os pés eram lavados em água quente e massageados. Então, com uma bandagem de 5 cm de largura e 3 metros de comprimento, os quatro dedos menores eram cruelmente curvados para trás e amarrados. Depois a faixa rodeava o tornozelo, fazendo com que os dedos curvados se

juntassem ao tornozelo. O resto da bandagem era enrolado várias vezes em volta do pé, para que ele não pudesse voltar à posição normal. Só o polegar escapava ao castigo. Se a menina chorasse, apanhava. Apesar da dor, era obrigada a caminhar para que o pé se acostumasse à nova forma. A cada quinze dias, usava um sapato 0,25 cm menor que o anterior. Por incrível que pareça, o objetivo era reduzir o comprimento do pé a 1/3 do seu tamanho normal. Quando atingiam a idade adulta, essas meninas estavam aleijadas para sempre, incapazes de caminhar normalmente e limitadas a umas poucas atividades físicas que conseguiam realizar. Essa era a vantagem social da deformidade. As esposas eram literalmente incapazes de se afastar do marido, mas ofereciam uma permanente demonstração de status, já que não podiam fazer nenhum trabalho manual. Só com a modernização da China no século XX e o fim da sociedade dos mandarins essa forma de mutilação foi abolida. Um dos motivos para a atadura dos pés era sexual. Os Lótus Dourados, como eram chamados os delicados pezinhos pelos seus admiradores, tinham um significado erótico. Dizia-se que, além de beijar os pés das amadas durante as preliminares do sexo, o amante podia colocar todo o pé na boca e chupá-lo com avidez. Os mais sádicos apreciavam a facilidade com que podiam fazer a mulher gritar durante o ato sexual simplesmente apertando o pé mutilado. Além disso, juntando os pés, sua forma arredondada oferecia um falso orifício que podia ser usado como uma vagina simbólica. Dizia-se que a vagina verdadeira também se beneficiava com a maneira restrita de andar causada pelos pés atados: "Quanto menor o pé da mulher, mais maravilhosa a concavidade da vagina". Alem disso e de outras idéias eróticas ainda mais grotescas sobre o Lótus Dourado, o desamparo de uma

mulher que tinha os pés atados provocava uma excitação geral. Ela estava à mercê do homem e sofreu nas mãos dele durante séculos. Não só na China, mas em outras partes do mundo, o simbolismo dos pés é sexual. Acredita-se que, se o homem com pés muito grandes, tem também um pênis grande, e se a mulher tem pés muito pequenos, tem uma vagina estreita. Mas isso nada mais é do que uma simplificação das diferenças de gênero em relação ao tamanho dos pés. O sapato tem sido utilizado como símbolo dos genitais femininos, e é por isso que, como diz um conto popular, "Era uma vez uma velha que morava num sapato" (em outras palavras, cuja vida se concentrava nos genitais) "e que tinha tantos filhos que não sabia o que fazer". E é por isso que sapatos são amarrados à traseira do carro dos recém-casados e que um homem romântico bebe champanha no sapato da amada. Uma velha tradição francesa exige que a noiva guarde os sapatos que usou no casamento e nunca se desfaça deles se quiser ser feliz para sempre. E as moças sicilianas que procuram marido sempre dormem com um sapato sob o travesseiro. Esses e muitos outros costumes populares confirmam a ligação simbólica entre os sapatos e o sexo. Tanto os sapatos quanto os pés figuram no estranho mundo dos fetichistas. Para esses homens que têm uma fixação erótica em pés, os sapatos preferidos são sempre os de saltos muito altos e finos. No mundo bizarro das fantasias sexuais, esse modelo de sapatos torna-se uma arma brutal de tortura para o homem masoquista no momento em que a parceira sobe em seu corpo e o perfura com seus saltos pontiagudos. Já o pé descalço desempenha um papel diferente. É beijado, acariciado, lambido e sugado. O homem pode ou não assumir um papel de subordinação. Pode se curvar aos pés de uma parceira dominadora e obedecer às suas

ordens. Mas também pode assumir um papel dominante, torturando gentilmente a parceira com a boca até levá-la ao prazer. E também pode não haver nenhum elemento sadomasoquista, caso em que o pé é massageado e beijado como parte da excitação normal. Para a maioria das pessoas, toda essa atenção dedicada aos humildes pés parece decididamente esquisita. Afinal, os pés ficam a maior parte do tempo enfiados num invólucro de couro que estimula o desenvolvimento de bactérias e até fungos. O mau cheiro dos pés é tão comum que vários produtos são vendidos para combatê-lo. Tudo isso devia tirar muito do poder erótico dos pés. Então, por que certos indivíduos ainda acham essa parte do corpo nada sensual tão estimulante? Por que um libertino experiente como Casanova chegou a afirmar que "homens dotados de grande apetite sexual sentem uma forte atração pelos pés femininos"? Existem duas respostas para essas perguntas. Uma está ligada às glândulas e outra ao simbolismo sexual. Existem na pele dos pés glândulas especializadas que transmitem sinais pessoais sobre o indivíduo. Se andássemos descalços, deixaríamos um rastro de nossa fragrância pessoal por onde passássemos. Ainda hoje, algumas tribos são capazes de detectar essa fragrância e dizer quem passou por um determinado caminho e quando. Se isso parece improvável, basta lembrar que um cão de caça é capaz de seguir a pista de um homem depois de 24 horas. Em apenas 18 minutos, ele consegue percorrer 5 quilômetros, ignorando todos os outros fortes odores que podem cruzar seu caminho. No nosso passado remoto, quando o homem andava nu, esse sinal odorífico dos pés tinha uma utilidade, mas na vida urbana atual tudo isso mudou. Dentro de nossos sapatos onde o ar não circula, as bactérias proliferam rapidamente e as secreções odoríferas logo desaparecem.

Se não trocamos de sapatos e lavamos os pés todos os dias, a natural fragrância agradável se deteriora rapidamente, e os pés começam a cheirar mal. Em momentos de tensão e agitação da vida moderna, às vezes percebemos que as palmas da mão suam, mas não percebemos que nossos pés transpiram dentro dos sapatos. Essa umidade não pode evaporar como a natureza desejaria, e nossos pés sofrem. Não surpreende, portanto, que para tantas pessoas a idéia de beijar os pés seja repugnante e não tenha nada de erótica. Elas pensam no pé como ele quase sempre é atualmente, e não como ele deveria ser. Quando libertado da prisão dos sapatos, banhado, limpo e pronto para ser acariciado pelo amante, a proposta sexual é totalmente diferente. De repente, ele se transforma no pé cheiroso que a natureza criou, e o contato com ele pode ser excitante para ambos os parceiros. Além desse elemento primitivo também existe uma atração simbólica. Sugar o dedo do pé de uma mulher dá ao amante a sensação de estar tocando um mamilo gigante, um imenso clitóris ou mesmo a língua. Mais uma vez, para algumas pessoas, essas ilações simbólicas podem parecer improváveis, mas estudos psiquiátricos provaram que, em momentos de excitação sexual, certas partes do corpo se tornam "ecos anatômicos" de outros órgãos. No cérebro tomado de excitação, os lábios da boca se tornam os lábios vaginais, a cavidade da boca lembra a vagina, um dedo esticado torna-se um pênis e seios lembram nádegas. Além disso, durante as preliminares do sexo, os pés femininos não são insensíveis às carícias. Livres dos sapatos, eles reagem ao toque, que pode se tornar intensamente erótico. No momento do orgasmo, os dedos se separam e se curvam, como se os pés quisessem acompanhar os espasmos que dominam o corpo no clímax.

Resumindo, podemos dizer que, apesar da maneira como são tratados, os pés continuam sendo uma forte zona erógena para os dois parceiros. Deixando de lado os aspectos eróticos, os pés femininos têm sido explorados como foco de demonstrações de poder que assumem várias formas, entre elas sapatos absurdamente caros, cordões de ouro nos tornozelos, anéis para os dedos e elaboradas pinturas das unhas. Algumas mulheres demonstraram seu poder e riqueza pelo tamanho de sua coleção de sapatos. Recentemente, Imelda Marcos, ex-primeira dama das Filipinas, foi um exemplo, viajando o mundo todo para comprar sapatos. Dizia-se que ela chegou a ter mais de 3 mil pares, uma coleção que ocupava cinco salas do palácio presidencial de Manila. Depois que ela e o marido foram afastados do poder, Imelda foi acusada de "colocar o prazer dos seus pés" acima das necessidades de seu povo. Ela retrucou que os havia colecionado como "símbolo de amor e gratidão", e que, de qualquer modo, só possuía 1.060 pares. Curiosamente, desses 1.060 pares, 1.220 estão expostos no recém-inaugurado Museu do Calçado das Filipinas, e calcula-se que hoje a sra. Marcos já tenha conseguido criar uma nova coleção de mais 2 mil pares. Ainda mais extremo foi o caso da princesa Eugênia, esposa de Napoleão III, que se recusava a usar um par de sapatos mais do que uma vez. Felizmente, ela tinha pés pequenos, de modo que os sapatos descartados podiam ser enviados a orfanatos e servir às pequenas órfãs. Talvez o exemplo mais extraordinário de excentricidade em sapatos seja o par que foi exposto na Harrods de Londres na primavera de 2003. Era um par de sandálias criadas pelo estilista Stuart Weitzman que exibiam 642 rubis incrustados em platina. O modelo, inspirado nos sapatinhos mágicos de rubi usados pela

menina Dorothy em O mágico de Oz, foi colocado à venda por 1 milhão de libras esterlinas (aproximadamente US$ 1,5 milhão). Finalmente, precisamos admitir que o anseio por pés anormalmente pequenos é uma dolorosa tradição que ainda sobrevive. Os atuais estilistas de sapatos impõem torturas cruéis a suas clientes. Os sapatos estão se tornando cada vez mais estreitos e pontudos, e previa-se que os modelos futuros seriam 20% mais estreitos e pontiagudos. Isso levou algumas mulheres nos Estados Unidos a solicitar a remoção cirúrgica do dedo mindinho. Os podólogos (ortopedistas especializados no tratamento dos pés) têm se recusado a fazer essa cirurgia, mas alguns concordam com a opção menos drástica de encurtar o segundo e o terceiro dedos, removendo uma pequena parte do osso. Isso permite à mulher espremer os pés recém-esculpidos nos sapatos criados pelos estilistas modernos. Cinderela está viva.

Referências Bibliográficas
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