P. 1
Apostila Ética Profissional e Bioética

Apostila Ética Profissional e Bioética

|Views: 2.330|Likes:
Publicado porRubens Marques

More info:

Published by: Rubens Marques on Feb 17, 2011
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

04/22/2013

pdf

text

original

Sections

  • CONSIDERAÇÕES INICIAIS
  • BIOÉTICA E SAÚDE PÚBLICA
  • 1.1 Algumas considerações sobre Bioética
  • Profissional e Saúde Pública
  • 2.1 A relação público-privado no Brasil
  • 2.2 Bioética e Política de Saúde Pública no Brasil
  • 3 BIOÉTICA NA ASSISTÊNCIA À SAÚDE
  • 3.1 A Saúde como um Direito Humano
  • 3.2 Por uma Bioética a partir de aspectos filosófico-educacionais
  • EMBRIÕES, FACILITAÇÃO DA PÍLULA DO DIA SEGUINTE
  • 4.1 Algumas perspectivas da Bioética na contemporaneidade
  • 4.2 A importância dos comitês de Bioética
  • 4.3 Texto Complementar
  • CONTEÚDOS DA DISCIPLINA “ÉTICA PROFISSIONAL E BIOÉTICA”
  • REFERÊNCIAS

CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM SAÚDE PÚBLICA

ÉTICA PROFISSIONAL E BIOÉTICA
JOSÉ BELIZARIO NETO

MANAUS – AM MARÇO/2010

2

FACULDADE SALESIANA DOM BOSCO

CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM SAÚDE PÚBLICA

ÉTICA PROFISSIONAL E BIOÉTICA
JOSÉ BELIZARIO NETO

MANAUS – AM MARÇO/2010

3

A todos os seres humanos que são excluídos por qualquer tipo de discriminação DEDICO.

...........................2 A importância dos comitês de Bioética...................07....... Ética Profissional e Saúde Pública.........4 SUMÁRIO CONSIDERAÇÕES INICIAIS.......................................... DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE: CÉLULAS-TRONCO..................................05 1......... EMBRIÕES........1 A relação público-privado no Brasil........ REFLEXÕES SOBRE POLÍTICAS PÚBLICAS BRASILEIRAS DE SAÚDE À LUZ DA BIOÉTICA............27 3..................56..2 Algumas perspectivas de interdisciplinaridade entre Bioética... REFERÊNCIAS.............18 2............ A INTERDISCIPLINARIDADE ENTRE ÉTICA PROFISSIONAL......1 A Saúde como um Direito Humano.............................................. BIOÉTICA E SAÚDE PÚBLICA.........2 Por uma Bioética a partir de aspectos filosófico-educacionais ......30 3...................................................................1 Algumas considerações sobre Bioética.....3 Texto Complementar........45 4..............................................23 2.........................60 .......23 2.............................................................2 Bioética e Política de Saúde Pública no Brasil ... BIOÉTICA NA ASSISTÊNCIA À SAÚDE...........30 3..........................................................................................................1 Algumas perspectivas da Bioética na contemporaneidade ..................45 4...................................50 INDICAÇÃO DE ALGUNS FILMES PARA REFLETIR SOBRE OS CONTEÚDOS DA DISCIPLINA “ÉTICA PROFISSIONAL E BIOÉTICA”.....07 1................... FACILITAÇÃO DA PÍLULA DO DIA SEGUINTE................................................ 1....................................................49 4...............................33 4.

da humanidade. a fauna e a flora são violentadas descomedidamente. pode-se perguntar: Qual é o sentido da vida humana? De que modo o ser humano atual pode chegar à conclusão de que está se destruindo? Como podemos mudar o quadro atual? De que modo podemos refletir temas tão relevantes como Ética Profissional e Bioética num mercado de trabalho competitivo. mas de uma crise de valores. como por exemplo. muitas vezes. pois o caráter interdisciplinar é uma característica fundamental para tal debate. o capitalismo selvagem tem tomado conta de todas as esferas sociais. firmeza. da teologia. E se diz que defender o tema em discussão requer dedicação. vivemos em um mundo em que o ser humano é substituído pelas máquinas. da filosofia. no qual as pessoas. a defesa do meio ambiente. mas realista. Defende-se veementemente que tal discussão não se limita aos profissionais da área de saúde. Diante de uma reflexão tão pessimista. dentre muitas outras que tentaremos refletir neste simples texto de Ética Profissional e Bioética. . este é um momento não só de crise econômica. a pessoa humana está quase sempre num dos últimos planos. mas se diz também que tudo isso gera angústia. não se preocupam com o seu semelhante? De que modo a aquisição do conhecimento da Bioética e da Ética Profissional pode interferir neste quadro tão catastrófico? O fato de conhecer pode gerar mudanças revolucionárias? Ou seria melhor ser alienado? São inquietações como estas. além disso. entre outras. Até porque as primeiras sistematizações do referido tema ocorreram com a participação de profissionais da área de humanas. Este trabalho é dividido em quatro partes que se interligam e se interrelacionam entre si.5 CONSIDERAÇÕES INICIAIS A discussão em torno do tema Ética Profissional e Bioética tem se tornado freqüente nos dias atuais. movido pelo neoliberalismo. impotência diante de um mundo globalizado. dos animais. inquietação.

reflexões sobre políticas públicas brasileiras de saúde à luz da Bioética. aspectos filosófico-educacionais da Bioética. apresentaremos os seguintes temas: a Bioética na contemporaneidade. a importância dos comitês de Bioética. facilitação da pílula do dia seguinte. . Na terceira. Bioética na assistência à saúde. Na última parte. embriões. desenvolvendo os seguintes pontos: algumas considerações sobre Bioética. algumas perspectivas de interdisciplinaridade entre Bioética. Bioética e Saúde Pública. explanaremos os seguintes tópicos: a Saúde como um Direito Humano. discorreremos os seguintes pontos: a relação público-privado no Brasil. Na segunda parte.6 Na primeira. faremos uma análise sobre a interdisciplinaridade entre Ética Profissional. Ética Profissional e Saúde Pública. Bioética e Política de Saúde Pública no Brasil. desafios na contemporaneidade: células-tronco.

Esta publicação de Potter foi considerada um marco histórico importante para a genealogia da disciplina Bioética. em sua vigésima primeira edição. sendo esta segunda um capítulo da primeira. Conforme Fernando Lolas. para um aprofundamento do conhecimento acerca da Ética Profissional. devemos necessariamente fazer referência à Bioética. O Dicionário de la Real Academia Española. p. no livro O que é Bioética. Porém. 13 DINIZ. “Potter era uma cancerologista estadunidense preocupado com a sobrevivência ecológica do planeta e com a democratização do conhecimento científico. 11 . 2008. tornando-se conhecido na bioética como autor de uma única obra”. Neste sentido. em seu livro Bioética: o que é. p. De acordo com Débora Diniz.1 Algumas considerações sobre Bioética A Bioética é a disciplina que estuda a moralidade da conduta humana na perspectiva de estabelecer um diálogo da ciência com a vida. define bioética como a ‘disciplina científica que estuda os aspectos éticos da medicina e da biologia em geral. assim 1 como as relações do homem com os outros seres vivos’ Conforme Lolas. em virtude da publicação de um livro em 1971. com o título Bioethic: Bridge to the Future. BIOÉTICA E SAÚDE PÚBLICA 1. Valores éticos não podem estar separados de 1 2 LOLAS. foi atribuída ao oncologista norte americano Van Rensselear Potter. a Bioética inclui a ética Profissional Médica. 2001. como se faz.7 1 A INTERDISCIPLINARIDADE ENTRE ÉTICA PROFISSIONAL. este não foi o único acontecimento importante em torno da Bioética em 1971.2 Algumas das idéias de Potter estão citadas por Diniz: O que nós temos de enfrentar é o fato de que a ética humana não pode eswtar separada de uma compreensão realista da ecologia em um sentido amplo. Sendo assim. a introdução do termo bioética na literatura científica.

tecnólogos e políticos que esqueceram ou nunca souberam essas verdades elementares. no entanto. em sentido amplo. Essa proposta de Potter de associar biologia (entendida. 14-15 . se mantém como o espírito da bioética.8 fatos bilógicos . Por isso. apud Diniz. este instituto se transformou no Kennedy Institute of Ethics.. Nesta perspectiva. hoje. Não somente os escritos hipocráticos e outros documentos foram decisivos em tal sentido. Sendo assim. p. Em nosso mundo moderno. 13-14 DINIZ. convém 3 4 POTTER. como indivíduos nós não podemos deixar nosso destino nas mãos de cientistas. De acordo com Lolas. sobretudo. engenheiros. Para Potter. Posteriormente. Potter estava preocupado com o respeito aos valores humanos. o movimento bioético ampliou consideravelmente o número de interlocutores válidos nos assuntos éticos e. a maioria deles é especialista que não lida com as ramificações de seu 3 conhecimento limitado. p. A preocupação com o impacto das ciências e da tecnologia é bastante antiga e ao longo do tempo se fez diversos registros históricos aludindo às preocupações éticas com o exercício da medicina. a proposição do termo bioética enfatizava os dois ingredientes considerados os mais importantes para alcançar uma prudência que ele julgava necessária: o conhecimento biológico associado a valores humanos. dos animais não-humanos e do meio ambiente) e a ética é 4 o que. Estados Unidos. A própria fundação do Royal College of Phisicians em 1518 foi acompanhada pelo desejo de proteger a vida e o bem-estar dos enfermos sob o controle ético dos membros da profissão médica. nós temos botânicos que estudam plantas ou zoologistas que estudam animais. deixando de lado uma exigência exacerbada de um conhecimento meramente tecnicista. sob o termo ‘ética médica’ se entendia basicamente um conjunto de normas de conduta para os membros da profissão em suas relações com os que procuravam seus serviços e nas que mantinham entre si. Washington.. 2008. Entre outros fatos temos a fundação de um instituto chamado The Joseph and Rose Kennedy Institute for the Study of Human Reproduction and Bioethics na Universidade de Georgetown. como o bem-estar dos seres humanos. a posição dos profissionais e especialistas no trato com os leigos. 2008. No entanto. Como teremos ocasião de examinar. Convém ressaltar que as preocupações em torno da Bioética surgiram bem antes do ano de 1971 (sem necessariamente fazer-se menção ao termo bioética).

tais como: médicos. se não nociva. psicólogos. como é o caso do aquecimento global e da biopirataria. a Bioética tem orientado e reorientado as mais diversas atividades humanas. embora confundindo a bioética com uma extensão da éica convencional (em medicina. Alfonso Llano. que assim se converteu na disciplina fundamental das chamadas ‘humanidades médicas’. Seu olhar se estende por todas as áreas do conhecimento humano e deve preocupar-se com todos os seres vivos. as antigas cátedras ou institutos de história da medicina e das ciências reorientaram sua atividade com base na bioética. juristas. cujas soluções ou tentativas de solucioná-los. 14 Id. Nesta perspectiva. Colômbia. 14-15 . o trabalho pioneiro de José Alberto Mainetti em La Plata. pois uma extrapolação acrítica para o contexto latino-americano poderia ser 6 inadequada. É importante destacar que a Bioética não está mantida nos limites das Ciências da Saúde. entre outros. por exemplo). economistas. teólogos. ajudaram a aumentar o interesse público nos termos bioéticos. 5 6 LOLAS. Deste modo. 2001. conduziu a diversas formas de institucionalização dentro e fora das universidades tradicionais. Na América Latina. É preciso reiterar que alguns dos atributos mais comumente associados a essa disciplina são produtos de uma gênese numa cultura determinada num momento específico de sua evolução. p. enfermeiros. tornando-se uma disciplina necessária para a formação humana. entre outros. sociólogos. filósofos. Convém manter essa precisão. Hoje se pode considerar a bioética tanto um movimento ou processo social como uma disciplina em busca de reconhecimento acadêmico. em Bogotá.9 considerar a aparição da bioética como um fenômeno típico das 5 últimas décadas. E no século XXI têm surgido alguns fenômenos. Os colégios e associações profissionais. deve refletir sobre as conseqüências causadas pelas atitudes dos seres humanos na contemporaneidade. em Santiago do Chile. Argentina. encontrando várias formas de expressão e inserção nas instituições de pesquisa e ensino. requerem ainda mais uma reflexão bioética. p. Em muitos centros médicos. além de muitos outros. assistentes sociais. A extensão a todos os países do continente americano foi rápida. Armando Roa. através dos mais diversos especialistas.

de autorida da jornalista Shana Alexander. Sendo assim. “essa invasão da medicina pelos estrangeiros ocorreu do devido à crescente um especialização que e despersonalização exercício médico. o que favoreceu inúmeros debates acerca da ética. o feminismo. pontuando alguns fatos ao longo de sua trajetória.10 O surgimento da bioética pode ser considerado como a principal resposta no campo ético às grandes mudanças. na concepção de Rotman. nos Estados Unidos (Comitê de Admissão e Políticas do Centro Renal de Seattle). processo ocorreu paralelamente à perda da confiança em seus médicos”. Ainda nesse período inicial de surgimento. relacionadas às pesquisas científicas com seres humanos. a conquista dos direitos civis nos anos 1960 e 1970. Este 7 8 DINIZ. de uma profissão fechada e autoritária. 2008. passou a dialogar com os que David Rotman adequadamente denominou de estrangeiros em seu livro Estrangeiros à Beira do Leito: uma História de como a Bioética e o Direito transformaram a Medicina: primeiro os filósofos. 17-18 . Um destes fatos ocorreu em 1962: a divulgação de um artigo publicado na revista Life intitulado “Eles decidem quem vive. os teólogos e os advogados e. cada vez mais freqüentes. É importante a partir de agora discorrer um pouco sobre a genealogia e o desenvolvimento da bioética.8 Tudo isso fez com que a ética médica hipocrática se tornasse enfraquecida. porém sob outras 7 perspectivas profissionais. que passaram a opinar sobre a profissão médica. p. tais como. dois outros acontecimentos contribuíram para que a bioética fosse definida como um novo campo disciplinar: as denúncias. o movimento negro. p. um tema fortemente impulsionado pelas histórias de atrocidades cometidas por pesquisadores nos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial. Neste contexto. que. depois. em tal artigo Alexander narrava os procedimentos utilizados por um comitê de ética hospitalar em Washington. entre outros. quem morre”. os sociólogos e os psicólogos. que contribuiu significativamente com o ressurgimento de diversos movimentos sociais. como por exemplo. e a abertura gradual da medicina. 17 Id. o movimento rippie.

o processo de decisão médica passor para o domínio público. então. Convém ressaltar que o público-alvo das pesquisas denunciadas por Beecher em seu artigo. supostamente um conhecimento de domínio exclusivo do 9 profissional de saúde e. e o risco de contrair a febre reumática era altíssimo. mais especificamente. esse. era os denominados “cidadãos de segunda classe”: internos em hospitais de caridade. como o exemplo 2. idosos. uma vez que a demanda de pacientes era superior à das máquinas. recém-nascidos e presidiários. Neste contexto. Sendo assim. ficaram famosos. Journal of American Medical Association.11 comitê (que ficou conhecido como o Comitê de Seattle) era constituído por médicos mas também por muitas pessoas leigas em medicina. O fato é que os homens não sabiam que estavam sendo submetidos a uma experiência. 2008. De uma forma inusitada. No exemplo 16. adultos com deficiências mentais. Beecher publicou 22 relatos de pesquisas envolvendo seres humanos. tais como: New England Journal of Medicine. Para Jonsen. conhecidos na literatura médica pelo ordenamento numérico original de Beecher. Journal of Clinical Investigation. a tal ponto que 25 deles desenvolveram a doença. do médico Em 1966 ocorre outro evento. pacientes psiquiátricos. assinalou a ruptura entre a bioética e a tradicional ética médica. cujos recursos eram fornecidos por instituições governamentais e companhias de medicamentos. mais que qualquer outro evento. as quais faziam uma seleção entre os pacientes renais levando em conta não só a história clínica mas também a história de vida dos doentes) para o uso das máquinas de hemodiálise (cujo programa de hemodiálise fora recém-inaugurado na cidade). crianças com retardos mentais. cujas fontes de pesquisa foram jornais reconhecidos internacionalmente. 19 . p.No artigo mencionado. a partir da divulgação de um artigo intitulado de “Ética e Investigação Clínica” do médico cirurgião anestesista de Harvard Henry Beecher. que consistia na retirada intencional do tratamento à base de penicilina em operários com infecção por estreptococos para permitir o estudo de meios alternativos de prevenir as complicações. Circulation. Alguns exemplos perversos de pesquisas. a pesquisa exigia a inoculação intencional do vírus da hepatite em indivíduos 9 DINIZ.

foram usadas 10 11 DINIZ. S. Foi assim que os números e os dados de Beecher. Na pesquisa em Tuskegee. Trata-se de um caso de pesquisa com seres humanos em Tuskegee. no campo da pesquisa Biomédica. p. em seguida. Public Health Service – PHS). 23 . no estado do Alabama. a análise de Beecher permitiu o desvendamento de outro dado impressionante: dos 50 artigos compilados originalmente para o estudo. a necessidade de obtenção do termo de consentimento informado e. o termo de consentimento dos sujeitos participantes do experimento. 2008. Este é também um caso que serve para mostrar o quanto os Estados unidos. Tais exemplos revelam que as satisfações dos resultados científicos são mais importantes do que manter a integridade dos seres humanos. pois estes últimos estavam muito mais preocupados com as possibilidades dos benefícios gerados pelas pesquisas do que com os prejuízos humanos. tal como os novos cientistas acreditavam Outro exemplo de abuso realizado em nome da ciência e do progresso que merece ser destacado é o que ficou conhecido como O Caso Tuskegee. somente dois apresentavam. É importante destacar também que Além dos maus-tratos com os sujeitos de pesquisa. tiveram um efeito secundário inesperado: demonstraram que a imoralidade não era exclusiva dos médicos 11 nazistas. Mas certamente tudo isso aconteceu por falta do acompanhamento das instituições que patrocinavam tais pesquisas e a desumanidade dos médicos que tinham a função de lutar para salvar vidas.12 institucionalizados por retardo mental. sem comunicá-los que as células eram cancerígenas. médicos pesquisadores injetaram células vivas de câncer em 22 pacientes idosos e senis hospitalizados. 21 DINIZ. primeiramente. pessoas negras portadoras de sífilis. como parte do protocolo de pesquisa. No exemplo 17. com o objetivo de acompanhar as respostas 10 imunológicas do organismo. Diante desse dado. 2008. desrespeitava os tratados humanitários que defendiam os interesses das populações menos favorecidas nos anos 70. p. Beecher propôs que toda e qualquer experimentação com seres humanos deveria respeitar. o compromisso do pesquisador de agir de forma responsável. a qual foi conduzida pelo serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos (U. além do óbvio mérito denunciatório. nos Estados Unidos. para possibilitar o acompanhamento da etiologia da doença.

em 1968 a avaliar os critérios capazes de definir uma morte cerebral. o qual foi realizado pelo cirurgião cardíaco da África do Sul. 24 . questão de compaixão pelos semelhantes. Como recompensa. pois seu autor transplantou o coração de uma pessoa quase morta em um paciente cardíaco em estado terminal. bem como os riscos que corriam. a ‘autoridade social’ que a comunidade delega a seus profissionais não pode ser frustrada por um planejamento defeituoso. Afinal. Tal acontecimento levou a Escola Médica de Harvard. O caso mostra que a ‘ética da pesquisa médica’ não é apenas assunto de ‘consentimento informado’ por parte dos sujeitos que participam (embora seja este um requisito indispensável para qualquer estudo). De 1932 até 1972. ainda que realizados com o intuito de incrementar o 12 conhecimento útil para a humanidade. na perspectiva de evitar que outros casos semelhantes ao de Barnard acontecessem. tal descoberta não foi revelada aos participantes da pesquisa ao mesmo tempo em que os mesmos não sabiam que estavam sendo submetidos a um experimento. mas também. e de um modo a que não se possa renunciar. 2001. Um evento que também repercutiu bastante na comunidade científica é o “caso Barnard”. da tecnologia e da medicina Neste contexto. não fazendo qualquer tipo de tratamento que combatesse a doença. Este fato foi denunciado em 1972 e levou a opinião pública a perceber que nem tudo estava ocorrendo de forma adequada no campo da ciência. para que a história natural da doença fosse identificada. para que o PHS pudesse acompanhar o circulo natural da sífilis. Este transplante foi bastante polêmico. usavam apenas placebo. 12 LOLAS. 400 pessoas negras. Trata-se do primeiro transplante cárdico. Convém ressaltar que a ciência já havia descoberto a penicilina como um tratamento adequado para combater a sífilis. Este epísódio teve grande repercussão na mídia internacional. p. com engano deliberado sobre os riscos e com impropriedade na condução dos estudos. receberam transporte. Christian Barnanrd. pois havia questionamento sobre a origem do coração transplantado e a comunidade médica indagava como Barnard garantiria que o doador estaria realmente morto no momento do transplante. alimentação e funeral gratuitos. porém.13 como cobaias.

religiosos entre outros. supostamente universais. do transplante de um rim ou de uma medula. filósofos. que promoveriam as bases conceituais para a formulação. morre também a pessoa? Questões como estas. o resultado do trabalho da comissão ficou conhecido como Relatório Belmont. lançava perguntas de difícil resposta: quando alguém é considerado morto? A morte é um processo. entre tantas outras. crítica e a interpretação de 15 dilemas morais envolvendo a pesquisa científica. Dois anos após denúncia do caso de Tuskegee. 27 . por exemplo. p. 2008. Por meio desse relatório foi possível identificar a proposta da comissão: articular três princípios éticos. 13 14 DINIZ. terapêutica e salvadora de vidas. “os preceitos foram divulgados somente em 1975. pela prática ou pela lei? A vida consciente é a única forma de vida? Se morre o 14 cérebro. deve ser retirado de um corpo que se encontra num estado paradoxal de morto-vivo. 27 LOLAS. pois um coração para ser transplantado. em 1974. responsável pela ética das pesquisas relacionadas às ciências do comportamento e à biomedicina. p. bem como por juristas. o Congresso dos Estados Unidos criou uma “Comissão Nacional para a Proteção dos Sujeitos Humanos na pesquisa Biomédica e Comportamental”. e nunca se encerraram as discussões em torno das mesmas por especialista na área da saúde. Sendo assim. tem gerado entraves na prática de transplante de órgãos na comunidade mundial. p.14 Neste contexto. 2001. Após quatro anos.13 A discussão em torno do transplante cardíaco foi bastante calorosa. do qual se podem descrever etapas? Há um momento em que esse processo pode ser considerado irreversível? Esse momento é determinado pela ciência. mas ainda hoje são uma referência para o debate internacional sobre morte encefálica”. 2008. Conforme Diniz. Todas as transformações sociais que se deram a partir dos eventos mencionados anteriormente foram fundamentais para a consolidação acadêmica da bioética. 22 15 DINIZ. É evidente que essa técnica. um documento que ainda hoje é um marco histórico e normativo para a bioética. diferentemente.

2) Beneficência: este princípio defende o compromisso do pesquisador. 34-35 . a divulgação do Relatório Belmont representou um verdadeiro divisor de águas para os estudos da ética aplicada. a partir da publicação do relatório que teve início a formalização definitiva da bioética como um 16 novo campo disciplinar. tais como aborto e eutanásia. Sendo assim.. Foi então.. do filósofo Tom Beauchamp e do teólogo James Childress. na perspectiva de assegurar o conforto das pessoas envolvidas direta ou indiretamente com o experimento. representada pela eleição dos três princípios éticos.15 Os três princípios do Relatório Belmont estão assim divididos: 1) Respeito pelas pessoas: este princípio defende a autonomia do indivíduo e deve garantir a proteção de qualquer tipo de abuso com os indivíduos socialmente vulneráveis. Na perspectiva de sistematização da bioética. p.). 2008. em 1979. A estruturação mínima proposta pelo relatório. propondo uma avaliação sistemática e contínua da relação risco/benefício para as pessoas envolvidas. 16 DINIZ. No contexto de incertezas éticas que dominavam a pesquisa científica (. O livro de Gorovitz foi a precursora de uma série de estudos que correlacionavam os estudos éticos às situações médicas conflituosas. Segundo Diniz. foi o pontapé inicial que a bioética necessitava para sua definitiva organização nos centros universitários e acadêmicos. diversas obras foram publicadas. entre elas podemos mencionar o livro Problemas Morais da Medicina. 3) Justiça: Este princípio propõe rigorosidade quanto aos critérios de seleção dos participantes. organizado pelo filósofo Gorovitz e publicado pela primeira vez em 1976 e o livro Princípios da Ética Biomédica.

p. 2008. Quanto ao livro Princípios da Ética Biomédica. gênero ou classe. as situações que impulsionaram seu surgimento. “defendendo a idéia de que os conflitos morais poderiam ser mediados pela referência a algumeas ferraentas morais. alguns anos depois. os chamados princípios éticos”. enfermeiras. foram grosseiramente abandonadas. 2008. 17 DINIZ. 38-39 . como a vulnerabilidade dos indivíduos decorrentes das estruturas sociais de dominação. 37-38 20 DINIZ. a ser considerados campo analítico preferencial da bioética: a relação médico-paciente. este foi responsável pela consolidação teórica da bioética. E a característica interdisciplinar do livro também se revelava no fato de quebrar o tradicionalismo da ética médica e não eleger um agente social para o papel de especialista em decisões éticas.16 A iniciativa desse livro marcou. temos quatro princípios éticos como base de uma teoria bioética consistente: autonomia (o chamado respeito às pessoas). desde muito cedo questões relacionadas aos limites da vida mobilizaram a atenção dos pesquisadores da bioética.18 E continua Diniz: Mas. 2008. p. pela própria composição de autores. a proposta interdisciplinar da bioética: médicos e filósofos foram convidados a expor suas opiniões e argumentações sobre temas clássicos de conflito moral da saúde. 37 DINIZ. 2008. fossem elas de 19 raça. Dentre os autores da coletânea. além dessa postura crítica de vanguarda. p. 35-36 18 19 DINIZ. paternalismo. aborto.20 De acordo com a obra Princípios da Ética Biomédica. ou mesmo outros indivíduos que estivessem juntos com os pacientes estariam aptos a cumprir esse papel”. suicídio assistido. consentimento livre e esclarecimento. p. Infelizmente. alguns se tornaram referência para os estudos da bioética nos anos 1990. eutanásia. especialmente nas universidades estadunidenses. estudantes de medicina ou de enfermagem. Como é possível perceber por essa publicação. não-maleficência e justiça. além de questões relacionadas à justiça social foram exaustivamente discutidos. a opção temática do livro já apontava para os assuntos que viriam. enumerando uma série de possibilidades: “médicos. É importante ressaltar que esta obra seguia a linha que foi traçada pelo Relatório Belmont. beneficência. como foi o caso de Ruth Macklin e Susan Sherwin (ambas 17 filósofas).

Alguns pontos conceituais do Relatório Belmont mereceram críticas por ocasião da publicação de princípios da Ética Biomédica – a definição do principio de respeito ás pessoas foi o de maior importância. 40 . Em nome disso. 21 DINIZ.17 Neste contexto. o princípio de respeito às 21 pessoas transformou-se especificamente no princípio da autonomia. e no intuito de demarcar a fronteira entre os dois preceitos éticos. o relatório teria colocado sob uma mesma referência dois princípios independentes: o principio do respeito à autonomia e o principio de proteção e segurança às pessoas incompetentes. 2008. Segundo os autores. p.

Sua característica fundamental é o aspecto interdisciplinar. em plenitude ética. Não basta as competências científica.. Ética Profissional e Saúde Pública Como falamos no início deste texto. é importante que cada profissional faça as seguintes perguntas para si mesmo: Estou sendo bom profissional? Estou agindo adequadamente? Realizo corretamente minha atividade? Estou colocando a ética do gênero humano acima de meus interesses pessoais ou estou apenas visando ser promovido profissionalmente. seja em equipe. O êxito tende a ser uma natural decorrência de quem trabalha. mas também sobre a Bioética e a Saúde Publica. é imprescindível refletirmos sobre a segunda. Para isso.) O trabalho. uma vez que muitas pessoas defende mais o profissionalismo na perspectiva de seus próprios interesses profissionais. como escolha.. com a pátria. pois para almejar o cuidado devido com este tripé requer atitudes de generosidade e cooperação no trabalho que realizamos. a Bioética não se restringe a área de saúde. uma vez que ao refletirmos sobre a primeira. seja solitariamente em uma sala. é necessária também aquela relativa às virtudes do ser. não é feito só com a exclusiva participação do . Também falamos que a Ética profissional é um capítulo da Bioética. dentistas e enfermeiros. aplicada ao relacionamento com pessoas. (. por conseguinte. uma prática valorosa. de modo eficaz. também exige dele. daí a importãncia de não escolher uma profissão devido ao status social. nos ajudam a refletir não apenas sobre a Ética Profissional. juristas. na discussão que se trava entre médicos. independentemente de qualquer conseqüência negativa ao meu semelhante? Tais questionamentos.2 Algumas perspectivas de interdisciplinaridade entre Bioética. por sua vez. com a classe. entre outros que poderíamos ter mencionado aqui.18 1. entre outros. Se a profissão eleva o nível moral do indivíduo. teólogos. do que o valor da pessoa humana. A reflexão sobre as ações realizadas no exercício de uma profissão deve iniciar anteriormente a prática profissional. tecnológica e artística. pelas vias da virtude. economistas. com a sociedade. filósofos. com o Estado. É importante destacar que são cometidos equívocos em torno da compreensão da Ética Profissional. No contexto da Ética Profissional.

173 DALTON. Mas a transdisciplinaridade pode contribuir na perspectiva do estabelecimento do diálogo entre as áreas e para que a partir deste diálogo. em “transdisciplinar”: que requer uma unificação conceitual entre as disciplinas. p. reformar o pensamento implica reformar os educadores. ou ainda 22 envolve quem o faz e que dele se beneficia. podemos afirmar que há uma ausência de diálogo entre as diferentes áreas do conhecimento. De acordo com o escritor francês Edgar Morin. 22 23 LOPES DE SÁ. mesmo com a existência da tensão. reformar as instituições de ensino significa que já existe um pensamento reformado. muitas outras. 2009. p. haja o despertar para construção dos grandes temas da atualidade. De acordo com Morin. em uma conferência proferida na UNIFESP. na sua obra Os Sete Saberes necessários para a educação do futuro.19 profissional. Conforme Dalton Luiz de Paula Ramos. pois tal processo requer uma reforma total do pensamento. 3 . o tema da ecologia que envolve pensadores das mais diversas áreas. É difícil entender este transdisciplinar dentro da nossa formação cartesiana de disciplinas distintas. de disciplinas totalmente independentes e 23 isoladas. É preciso saber dialogar com o diferente. há uma tensão constante. Segundo ele. reformar os educadores implica reformar as instituições de ensino. que nos causa dificuldade de ultrapassá-la. Falam alguns em um outro termo. é preciso que se mantenha o diálogo. ao egoísmo e muitas vezes desperta o sentimento de auto-suficiência em algumas pessoas. 2001. que mascaram a unidade da ciência. estamos diante de uma contradição lógica. Sendo assim. Neste contexto. há uma dificuldade quanto ao processo trandisciplinar. Esta falta de diálogo entre as diferentes áreas do conhecimento leva os profissionais ao isolamento. A Bioética tem uma proposta interdisciplinar de integração entre as disciplinas. mas envolve o interesse de pessoas diretamente a ele ligadas e. ao individualismo. como por exemplo. indiretamente influenciadas.

O Simpósio intitulava-se Bioética e AIDS. depois que você tiver a sua carteirinha de registro profissional (que é aquele documento que parece representar que o profissional pode tudo e tem que responder por tudo).) forte influência cultural. pode abrir espaço para a solidariedade humana. é difícil de vencer sozinha e o aprender a compartilhar. ser superior. passa por se dar um passo.. E se ensina essa solidão na Universidade. Daí a importância do diálogo interdisciplinar. com estas palavras. você estará sozinho. já te ensinei o que tinha que te ensinar. desculpem a redundância. eu a empreguei recentemente em um fórum promovido pelo Centro de Referência e Treinamento – CRT/AIDS aqui de São Paulo. O professor ensina a solidão: . amadurecer os pontos de vista específicos de cada área. que se confunde com a palavra caridade. A fórmula para enfrentar esta situação é poder contar com uma companhia que nos ajude a viver a 24 nossa vocação e nos ajude a apontar nosso destino. tão escassa nos dias atuais. 2001. (. 11 . porque a palavra solidariedade muitas vezes é confundida com filantropia. nas salas de aulas da Universidade. da cultura. possibilitando cada vez mais o processo de construção e reconstrução do conhecimento humano. O diálogo interdisciplinar pode ampliar o leque de conhecimento de cada área. você tem que tomar decisões. uma Bioética do dia-a-dia. em outras palavras. A palavra solidariedade. passa por se dar um passo de buscar uma solidariedade. Mas não é dessa solidariedade que estou falando. Empreguei essa palavra – solidariedade . enquanto você está aqui como aluno.e fui corrigido. quando você sair da Universidade estará sozinho. O que não significa dizer que cada área do conhecimento não tenha sua própria identidade ou que perca sua autonomia. Urge uma ética do gênero humano capaz de nos sensibilizar para uma ética do dia-a-dia... o trágico é isso.20 Existe (. E me dei conta de que o significado desta palavra precisa ser aprofundado.. quando você for para o seu consultório.Você tem que ser independente. E esta solidariedade deve estar presente principalmente quando se trata do cuidado com o ser humano na relação médico-paciente. você tem que decidir. p. Estou falando de uma outra solidariedade. Além disso. Isto pode não ser dito. é esta a experiência de Universidade que eles estão fazendo. uma Bioética de Decisão. a instituição te dá cobertura mas depois. Insisto nestes dois aspectos: a influência do ambiente. Filantropia pode ter uma conotação de “eu. é caminho para se superar a solidão. agora é contigo. palavra que muitas vezes também as pessoas confundem. Pode ainda ter uma conotação que não é de reconhecimento da pessoa na sua globalidade. te vira cara. ajudando um ser inferior”. some-se a isso a solidão que se vive nas nossas cidades. movidos pelo capitalismo e pelo uso exacerbado da tecnologia. “seja solitário”! Porque depois. Por enquanto. A verdadeira caridade 24 DALTON. mas é isto que é passado aos alunos.) uma das questões que fica para nós em todos os aspectos que envolvem uma Bioética Clínica.

em 1995 publicou um relatório sobre a situação sanitária mundial. p. (vamos pensar na relação profissional.21 só é possível quando dois sujeitos. contribuindo para anos potenciais de vida perdidos e demandando respostas do sistema. ou seja. pois muitas 25 26 DALTON. p. 4 . percorreu-se um caminho circular. como tantas outras que perduram na distribuição da renda mundial. levantou a seguinte pergunta: "quais seriam as prioridades sanitárias mundiais?". Minayo. se reconhecem mutuamente com uma dignidade. Em l993. é capaz de encaminhar de forma satisfatória as decisões que são decorrentes de tantos dilemas éticos que aparecem no nosso dia-a25 dia profissional. enquanto tema. com a mesma proporção que se buscou explicar os diferentes gastos em saúde por habitante/ano em diferentes países. profissional de saúde-paciente. se voltou aos mesmos números para sua formulação. Neste contexto.. o desejo de encontrar uma resposta cabível a pergunta formulada foi frustrante. só encontra espaço na agenda da Saúde Pública no final dos anos 80. basta acompanhar os noticiários ou buscar o atendimento do serviço público de saúde. a preocupação com o tema ganha prioridade nas agendas das organizações internacionais do setor. pois a lacuna continuou. e na tentativa de encontrar as razões para tal situação. da solidariedade.. No que diz respeito à Saúde Pública. para perceber o descaso com a saúde pública. ou seja. 2001. Na busca pela resposta a esta questão. Na década de 90. é possível construir uma Bioética Clínica que no meu ponto de vista (é um ponto de vista meu). 1994. em seu artigo Violência Social sob a perspectiva de Saúde Pública. entre outras situações cotidianas. (. da caridade. de acordo com Maria Cecília S. Só à partir daí. o Dia Mundial da Saúde teve como mote para sua comemoração a "Prevenção de Acidentes e 26 Traumatismos" Neste contexto. revelando o caos na distribuição da saúde mundial. 13 MINAYO. o Fórum Mundial de Saúde. quando não se fala de uma equipe). devemos defender também a urgência de uma ética do gênero humano na Saúde Pública (tão marcada pela falta de compromisso social). Sua inclusão como problema de saúde fundamenta-se no fato de as mortes e traumas ocorridos por causas violentas virem aumentando a passos alarmantes na região das Américas.) a violência.

Conforme o conceito canadense. solidária e constituída sobre bases de justiça social. incluídos a alimentação. o “Cidadão Saudável” deve ter: • uma comunidade forte. o qual serviu como modelo para o desenvolvimento de diversos projetos de saúde que são executados mundialmente. diversificada e inovadora. a partir de sua incorporação pela OMS. sendo promovido o contato com a herança cultural e a participação numa grande variedade de experiências.br/seb/arquivos/pdf/livro092. “Saúde é o estado de completo bem-estar físico. o gasto em saúde por habitante/ano não chega a quatro dólares (é o caso de alguns países africanos).22 vezes não se leva em consideração que cada país tem sua própria especificidade. Conforme o conceito adotado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 1948. É ainda um país predominantemente constituído pela população menos favorecida. • ambiente favorável à qualidade de vida e saúde. limpo e seguro.mec. à educação e à assistência social. sabemos que há uma discrepância gigantesca na distribuição da renda per capta da população. o trabalho. o Canadá na década de 80 originou o conceito de “Cidadão Saudável”. vivemos em um país onde a maioria da população não tem acesso a uma saúde digna.pdf .27 27 http://portal. No contexto especificamente brasileiro. satisfação das necessidades básicas dos cidadãos. na qual ocorre alto grau de participação da população nas decisões do poder público. mental e social e não apenas a ausência de doença. • vida cultural ativa. a moradia.” Nesta perspectiva. • economia forte. Outra revelação feita pelo relatório mencionado é que em alguns países pobres.gov. o acesso a serviços de qualidade em saúde.

23 2 REFLEXÕES SOBRE POLÍTICAS PÚBLICAS BRASILEIRAS DE SAÚDE À LUZ DA BIOÉTICA 2. No contexto atual. como foi mencionado anteriormente. Nesta perspectiva. turismo e trabalho. desporto. De acordo com este documento. Neste contexto. de políticas internacionais de ajuste econômico.periodicos. sem dúvida. a área social. quando os direitos garantidos à esfera pública. A população menos favorecida depende de um sistema de saúde que não oferece as condições mínimas para a dignidade humana.uem. embora após anos de luta. os direitos sociais tenham sido reconhecidos pela Carta Magna de 1988. tais como os direitos à saúde. são transferidos para a esfera privada.br/ojs/index.1 A relação público-privado no Brasil O sistema de saúde brasileiro não oferece a dignidade humana necessária para as pessoas menos favorecida.php/CiencCuidSaude/article/viewPDFInterstitial/3896/2691 . cuja saúde é influenciada pelo neoliberalismo. Vivemos em um país. 28 In: http://www. apenas uma minoria da população pode usufruir de uma saúde razoável. uma das áreas que mais padecem desta influência é. lazer. educação. o retrocesso provocado pelo neoliberalismo ao bemestar social provocado pela transferência das garantias do âmbito público para o privado. Neste contexto. cultura. Sendo assim. é inevitável. o Estado tem a responsabilidade de atender os direitos fundamentais. devido à limitação enfrentada pelo Estado no que diz respeito à capacidade de intervenção e respostas diante das 28 inúmeras demandas sociais.

O papel de regulação atribuído ao Estado é imprescindível para os serviços de saúde. Este fator contribui ainda mais para uma sobrecarga de excluídos e para tentar solucioná-la o governo cria programas sociais emergenciais.. o que prejudicaria. pois não existem condições ideais que fundamentem a perfeita competição na lei de mercado. admitindo.br/ojs/index. Infelizmente. Urge uma maior participação do Estado na defesa dos menos favorecidos. direcionadas aos pobres. é pouco provável.uem. Esse procedimento encaminhou-o para a configuração de um Estado pobre.. Logo.php/CiencCuidSaude/article/viewPDFInterstitial/3896/2691 In: http://www. não há uma evolução do sistema público de saúde no sentido de garantir os direitos sociais a todos os cidadãos com a intervenção dos estados nas questões sociais de forma profícua.uem. entendendo-os como cidadãos de direito. 29 30 In: http://www. aos milhares de indivíduos que não podem pagar por tais serviços resta contar com a benevolência e as ações filantrópicas das Organizações não governamentais (ONGs). Deste modo. nesses casos. voltando a ação apenas para os mais frágeis. no pagamento pela contratação de 29 entidades comunitárias ou ONGs que executariam tais serviços.periodicos. A partir da crise do regime militar e das reivindicações há uma reformulação do Sistema único de saúde (SUS). em especial.periodicos.php/CiencCuidSaude/article/viewPDFInterstitial/3896/2691 . A privatização dos serviços sociais obedece à proposta de mercantilização dos bens sociais.br/ojs/index. o lucro. Os direitos sociais passariam a assumir características de bens de consumo que devem ser adquiridos mediante pagamento.). os programas compensatórios limitam-se a minimizar o impacto da flexibilização do papel do Estado requerida pelas iniciativas neoliberais. na perspectiva de oferecer melhores condições para a população. os mais necessitados Marcado pela estratégia de desestatização (.24 As políticas públicas (. que desenvolve ações 30 sociais pobres (focalizadas). Enquanto as políticas públicas eram pensadas para dar respostas a todos os indivíduos..) são substituídas por programas focais e compensatórios. e sim. uma vez que os serviços serão disponíveis conforme a capacidade de pagamento dos sujeitos. com naturalidade. mas não para ampliação da sua rede de serviços com o intuito de reduzir as iniqüidades. é a ausência de um bom gerenciamento no que diz respeito aos serviços públicos. na perspectiva de incluir a maioria e fazer a economia crescer. O alcance da eqüidade. Mas não podemos nos esquecer que o grande agravante para o processo de exclusão social no que diz respeito à saúde brasileira. O Estado continuaria destinando recursos.. temos um fator agravante que é o desemprego da maioria da população. Além disso.

mas para todas as políticas sociais. Estamos também diante da ausência do diálogo com a sociedade.) As políticas propostas em 1988 não foram só semânticas e fantasiosas. expondo a falta de 32 comprometimento com a transformação da realidade social. a participação e controle social. sem articulá-las com os diferentes setores que contribuem para a garantia da saúde. não apresentam condições para dar conta da integralidade das necessidades de todas as pessoas” (. Essa proposta foi sendo desmanchada ao longo dos anos.php/CiencCuidSaude/article/viewPDFInterstitial/3896/2691 In: http://www. Muitas vezes.) Entretanto.. que previa o acesso universal. cumpre-se ao pé da letra o que a lei recomenda. Estamos diante de uma grandeza inversamente proporcional..br/ojs/index. isto quando o que está no papel recomenda benefícios à população. (.. “os diversos sistemas públicos de saúde. motivada pelos pressupostos neoliberais. quando ocorre o contrário.periodicos.uem. a descentralização dos serviços. A omissão do papel regulador do Estado.25 Apesar de a política pública brasileira para a saúde ter sido motivada pela sociedade. Nesta perspectiva.php/CiencCuidSaude/article/viewPDFInterstitial/3896/2691 .uem. em especial pela tendência neoliberal que previa a modificação da relação do Estado. hoje. representa a redução de uma política de bem-estar social a uma política compensatória. que paga uma quantidade excessiva de imposto. Sendo assim. focando as ações somente no campo da saúde.. Estamos mais uma vez diante do descumprimento das leis em nosso país. a qual foi gerada pelas propostas neoliberais: o pouco investimento nas áreas sociais que tem como conseqüência a acentuação das dificuldades encontradas no cotidiano do setor saúde e o aumento da massa de vulneráveis e necessitados de uma atenção efetiva.br/ojs/index. inclusive o brasileiro. a implementação do SUS encontrou grandes dificuldades.periodicos. uma vez que foi proposto constitucionalmente um orçamento para a Seguridade Social do qual 30% iriam para as ações de saúde. Isso torna explícita a intencionalidade de responder apenas à exigência de racionalização e à diminuição da responsabilidade do Estado ante as necessidades e direitos sociais dos cidadãos. mais que o dobro do orçamento do Ministério da Saúde. 31 32 In: http://www. não apenas para a saúde. Implementar o SUS parcialmente. Com pouco investimento. divergia das reformas progressistas propostas constitucionalmente para o Sistema 31 Único de Saúde (SUS). Isso representaria. entre outros princípios.

26 devemos ter claro que propor a atuação apenas no campo estrutural. e não com foco apenas na doença. no sentido de garantir saúde a população. em curto prazo. sem atuar focalmente nos problemas emergenciais.uem. entendidas como co-necessárias para a 33 garantia do direito Uma saída para a melhoria da saúde brasileira seria a efetivação de ações políticas fundamentadas na equidade e na responsabilidade social.php/CiencCuidSaude/article/viewPDFInterstitial/3896/2691 .periodicos. ou seja. diminui-se a diferença entre as pessoas. pelo mais necessitado. é preciso que se estabeleça um diálogo entre o estado e a sociedade. a partir disso. para reivindicar e defender os direitos de todos. isto requer uma análise das condições sanitárias. Dentre elas podemos citar a formação de recursos humanos que atuem sobre a globalidade da saúde dos indivíduos. Outras tendências para a efetivação do SUS se consolidam a partir de situações eticamente questionáveis. É preciso assegurar verdadeiras políticas públicas sociais para incluir os menos favorecidos. cobrar do Estado que defenda os mais necessitados e se responsabilize com a sociedade. para que estes tenham a possibilidade de atingir as condições de vida e saúde que são de seu direito. Sob o ponto de vista da orientação do sistema. como forma de minimizar e combater as desigualdades sociais predominantes. políticas de formação de pessoal e sobre a relação entre o Estado e a sociedade. é preciso que a população esteja organizada. Urge então uma reflexão ética profunda sobre a organização do SUS. Para isso. deve-se exigir do Estado que assuma rigorosamente uma responsabilidade que é sua. fato que sugere que as intervenções na saúde devem ocorrer em dimensão emergencial e estrutural (política pública). com as iniqüidades existentes. É dever do Estado implantar e implementar políticas públicas que assegurem aos menos favorecidos uma qualidade de vida razoável para que levem adiante seus projetos de vida. Neste contexto. deste modo. deveríamos de fato incorporar ações integralizadoras em substituição às ações 33 In:http://www.br/ojs/index. na perspectiva de superação do neoliberalismo e nortear a responsabilidade social pelo outro. seria concordar. os que não tem condições de trabalho nem a possibilidade de inserir-se no mercado de trabalho. Para isso.

b. CAPÍTULO I (. tais como as crianças..br/ojs/index.2 Bioética e Política de Saúde Pública no Brasil No Brasil. São tomadas medidas especiais relativamente a grupos sujeitos a maiores riscos.) Base II Política de saúde 1. estimulando nos indivíduos e nos grupos sociais a modificação dos comportamentos nocivos à saúde pública ou individual. antes de tudo. de 24 de Agosto). entendemos que. Os serviços de saúde estruturam-se e funcionam de acordo com o interesse dos utentes e articulam-se entre si e ainda com os serviços de segurança e bem-estar social. A política de saúde tem âmbito nacional e obedece às directrizes seguintes: a. e. os toxicodependentes e os trabalhadores cuja profissão o justifique. em concorrência com o sector público. as grávidas. devemos refletir e resgatar o 34 real papel do Estado promulgado na Constituição Federal de 1988. devendo procurar-se envolver os serviços. entretanto. os adolescentes. Neste contexto. É objectivo fundamental obter a igualdade dos cidadãos no acesso aos cuidados de saúde. para consolidarmos efetivamente o Sistema Único de Saúde. É promovida a participação dos indivíduos e da comunidade organizada na definição da política de saúde e planeamento e no controlo do funcionamento dos serviços. h. seja qual for a sua condição econômica e onde quer vivam. 34 In:http://www. d. c. A gestão dos recursos disponíveis deve ser conduzida por forma a obter deles o maior proveito socialmente útil e a evitar o desperdício e a utilização indevida dos serviços. devemos. os profissionais e a comunidade.uem. bem como garantir a equidade na distribuição de recursos e na utilização de serviços.periodicos. as iniciativas das instituições particulares de solidariedade social. a Saúde Pública é um tema que tem sido bastante debatido e foram elaboradas algumas leis na perspectiva de que os gestores públicos assumam com a população um compromisso de forma mais eficaz. 2. f. reconhecer sua história e o contexto que permeou sua promulgação e regulamentação. g. os deficientes. i. Desse modo. É incentivada a educação das populações para a saúde. É estimulada a formação e a investigação para a saúde.. em particular. A promoção da saúde e a prevenção da doença fazem parte das prioridades no planejamento das actividades do Estado. conforme a Lei de Bases da Saúde (Lei nº 48/90.27 segmentadoras. É apoiado o desenvolvimento do sector privado da saúde e. os idosos. “crises” teóricas e práticas são inerentes a processos de construção. Resistências fazem parte do processo de construção social.php/CiencCuidSaude/article/viewPDFInterstitial/3896/2691 .

a promulgação da Constituição de 1988. trata-se de uma deficiência administrativa. Porém. como por exemplo. que prevê a implantação do Sistema Único de Saúde (SUS). a situação de calamidade pública quanto ao uso do SUS é pior do que em outras. na forma como é definido em lei. em alguns estados brasileiros.gov.htm http://portal. prevendo 36 atividades de promoção. Além da escassez de matéria física. às suas necessidades e aos seus recursos. segue a mesma doutrina e os mesmos princípios organizativos em todo o País. Mas certamente. no sentido de não fornecer uma formação adequada a estes profissionais 35 36 In: http://www. pois muitos profissionais que estão inseridos neste sistema atende mal a seus usuários. Convém ressaltar que alguns passos fundamentais foram dados no Brasil. proteção e recuperação da saúde.)Trata-se de uma formulação política e organizacional para o reordenamento dos serviços e ações de saúde.pdf .dhnet. mas sob o controle dos usuários. 35 Sendo assim. • Eqüidade: direito ao atendimento adequado às necessidades de cada indivíduo e coletividade.. há uma ausência do Estado. adaptando-se permanentemente às condições da realidade nacional. adota-se a concepção de que a saúde é um direito de todos e dever do Estado. o nosso sistema de saúde brasileiro tem se demonstrado fracassado pelo mau gerenciamento dos seus recursos. • Integralidade: a pessoa é um todo indivisível inserido numa comunidade. De acordo com a lei de 1988..28 2.br/seb/arquivos/pdf/livro092. baseada em princípios doutrinários que dão valor legal ao exercício de uma prática de saúde ética. há também uma decadência de matéria humana. A política de saúde tem carácter evolutivo. pois além de não atender a demanda social de maneira adequada. (. por meio da participação popular nas Conferências e Conselhos de Saúde Conforme o caráter de legitimidade dos direitos de todos pela constituição.mec. este sistema público de saúde deve ser gerenciado pelo governo. que responda não a relações de mercado mas a direitos humanos: • Universalidade: garantia de atenção à saúde a todo e qualquer cidadão. O SUS.org.br/direitos/cplp/portugal/saude.

) Demonstra que o atendimento de necessidades humanas elementares — dentre as quais destacam-se alimentação. para que haja uma evolução humanitária. Bangladesh. para fins de comparação. acesso à água limpa. neste século. 37 http://portal. É interessante lembrar que. habitação adequada. uma doença milenar como a varíola foi eliminada e a paralisia infantil está prestes a ser 37 erradicada. é preciso que se invista na educação das pessoas em todos os segmentos da sociedade para que elas reivindiquem o atendimento de suas necessidades básicas. O relatório reporta-se ao sucesso obtido no cumprimento de metas.. aos cuidados primários de saúde e à educação básica — é viável em uma década. a um custo extra de US$ 25 bilhões anuais.pdf .br/seb/arquivos/pdf/livro092. como a vacinação de 80% das crianças do mundo até 1990. ampliou a cobertura vacinal de suas crianças de 2 para 62% em apenas cinco anos. “Situação Mundial da Infância — 1993 (. Cita. que essa cifra é inferior ao gasto anual da população dos EUA com o consumo de cerveja. O relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef)..29 Nesta perspectiva.gov. em nível mundial.mec. por exemplo. entre 1985 e 1990.

no mesmo território. transportando-nos aos mais belos lugares. a maioria das pessoas brasileiras não tem a leitura como uma necessidade vital. São 4. p. Essa cisão interna é aprofundada pela forma de inserção na nova configuração da economia como sistema mundial. econômica e culturalmente. Atualmente. uma sociedade moderna. apenas uma parcela minoritária de sua população é incluída.1 A Saúde como um Direito Humano Conforme Oliveira. instabilidade. Suas conseqüências estruturais são pobreza. Nesse contexto. 5-6 . e uma sociedade primitiva. muitas atividades simples que trazem muita vitalidade ficam fora do cotidiano das pessoas. imprescindíveis a vitalidade humana. mas certamente as aprofundou. a impossibilidade do acesso a uma boa educação. desemprego: o desemprego e o emprego instável de milhões de pessoas são o sinal mais visível de um processo de desenvolvimento que está criando pessoas literalmente inúteis à nova ordem mundial. certamente desencadeia a exclusão no que diz respeito a uma saúde digna. os mercados financeiros cada vez mais impõem suas leis ao processo global de configuração da vida humana. A leitura não pode ser considerada como algo obrigatório. que cada vez mais se aproxima. dos países mais ricos do mundo. Tal processo não só não atenuou as desigualdades. como algo que necessariamente leve a escrita. como por exemplo. pois nele. possibilitando-nos a realização dos mais diversos sonhos. capaz de nos levar além da imaginação. 38 OLIVEIRA. com milhões de habitantes vivendo nas cidades e nos campos em condições de vida que humilham a pessoa humana. 2002. Nesta perspectiva. Vivemos em um país estranho. eliminam as possibilidades do acesso a cultura e o lazer. Coexistem. no Brasil oficial. Por sua vez.5 bilhões de pessoas no mundo que vivem na pobreza e 2 bilhões que sobrevivem com 38 menos de um dólar por dia . a prática da leitura que abre portas para novas perspectivas.30 3 BIOÉTICA NA ASSISTÊNCIA À SAÚDE 3. como algo prazeroso. a reflexão de Oliveira nos leva a concluir que no Brasil a grande maioria da população não tem acesso a uma saúde e uma educação de qualidade.

“muito do prazer da leitura de textos (. numa perspectiva de formar leitores. 2006. página 29. na revista Aprende Brasil (fevereiro/março de 2006).17% Preferência por outro tipo de entretenimento--------------------------------------------.) reside na leitura mesma. falemos então de dados estatísticos.31 A leitura de qualquer que seja o texto. sem um compromisso de um fazer posterior”.39% Falta de interesse -------------------------------------------------------------------------------.39 Este prazer que se transforma em necessidade biológica nos conduz ao exercício da cidadania. p.11% 39 MORAES DA COSTA.22% 30 a 39 anos--------------------------------------------------------------------------------------.. E o fio condutor a este exercício é a escola. deve ser antes de tudo prazerosa e para isto é necessário que inicialmente se leia sem um compromisso de um fazer posterior.. . 8.18% 20 a 29 anos--------------------------------------------------------------------------------------. O fazer posterior surge quando a leitura faz parte de nossa vida como qualquer necessidade biológica. formando cidadãos para o trabalho livre e criativo.20% Mais de 40 anos---------------------------------------------------------------------------------.40% PRINCIPAIS BARREIRAS À LEITURA Falta de tempo-----------------------------------------------------------------------------------. A revista supracitada. doutora em literatura brasileira. que é o seguinte retrato da leitura no Brasil: APRECIADORES DA LEITURA POR FAIXA ETÁRIA 14 a 19 anos--------------------------------------------------------------------------------------.18% Preguiça -------------------------------------------------------------------------------------------. De acordo com Marta Morais da Costa. Neste contexto. mostra alguns dados da pesquisa realizada pela Câmera Brasileira do Livro. pesquisadora e crítica literária.17% Falta de dinheiro --------------------------------------------------------------------------------.

uma vez que o cidadão desprovido do conhecimento terá bastante dificuldade de defender seus direitos.10% LEITURA DE LIVRO É MAIS PERCEBIDA COMO UMA NECESSIDADE ATUAL DO QUE COMO FONTE DE PRAZER O livro é uma forma de transmissão de pensamentos--------------------------------.89% O livro é uma importante forma de atualização -----------------------------------------. podemos dizer que grande parte da população brasileira não tem consciência de que devemos lutar pela saúde como um direito humano. antes de tudo. não há uma estatística segura sobre os valores totais investidos em saúde pública. Até porque. principalmente em países com má distribuição de renda. além disso. deve combater a guerra silenciosa da fome. que elimina diversos seres humanos no mundo todo. podemos dizer que no nosso país a escassez de recursos para uma saúde pública de qualidade é uma realidade. ensinando a olhar o mundo e as pessoas de maneira diferenciada. De qualquer forma. educando. o mérito da leitura está em permitir a entrada do aluno no exercício cada vez mais pleno da cidadania . Por fim. nutrindo o imaginário. De acordo com o contexto brasileiro. . Sendo assim. conforme Marta Morais da Costa. no Brasil há apenas um grupo seleto que gosta de ler que é apenas 14% da população.61% Ainda de acordo com dados da Câmara Brasileiras do Livro. tais recursos são mal gerenciados pela irresponsabilidade de alguns gestores públicos. como é o caso do Brasil. instruindo. que se preocupam mais com seus interesses políticos partidários particulares do que com a representação da sociedade que seu cargo exige.82% Ler é algo que me dar prazer ----------------------------------------------------------------.32 Dificuldade para entender palavras e frases --------------------------------------------. instrumentalizando a visão critica e permitindo a pessoa construir melhor sua história e entender a dos outros.

igualmente sujeito do processo. favorecendo assim para o reconhecimento da consciência de si e do outro. na sua prática docente. ser simplesmente transferidos. p. Educador e educando devem ter a pesquisa como uma atividade vital na perspectiva da construção do conhecimento. despertando a curiosidade. Pelo contrário. 1996. instigadores. seja em outros aspectos. a argúcia intelectual. capaz de formar e transformar o indivíduo e o seu contexto social. humildes e persistentes. na constante busca para o despertar da consciência crítica. 28-29. 40 FREIRE. rigorosamente curiosos. os educandos. . sua curiosidade. reforçar a capacidade crítica do educando. nas condições de verdadeira aprendizagem os educadores vão se transformando em reais sujeitos da construção e da reconstrução do saber ensinado. inquietos. É exatamente neste sentido que ensinar não se esgota no ‘tratamento’ do objeto ou do conteúdo. 40 aprendido pelos educandos . seja no processo da aquisição do conhecimento numa relação educador-educando. desenvolvendo assim uma pesquisa séria. A pesquisa ajuda a desenvolver o processo de ensino-aprendizagem de maneira profícua. E essas condições implicam ou exigem a presença de educadores e de educandos criadores. ao lado do educador. Tais aspectos facilitarão no despertar da consciência crítica dos seres humanos. mas se alonga à produção das condições em que aprender criticamente é possível. despertando para novas perspectivas. Uma de suas tarefas primordiais é trabalhar com os educandos a rigorosidade metódica com que devem se ‘aproximar’ dos objetos cognoscíveis. Faz parte das condições em que aprender criticamente é possível e pressupõe por parte dos educandos de que o educador já teve ou continua tendo experiência da produção de certos saberes e que estes não podem a eles. O educador democrático não pode negar-se o dever de.33 3. De acordo com Paulo Freire. Mas tudo isso não será possível estando afastado da pesquisa. em que o objeto ensinado é apreendido na sua razão de ser e. portanto. Sendo assim. E esta rigorosidade metódica não tem nada a ver com o discurso ‘bancário’ meramente transferidor do perfil do objeto ou do conteúdo. em seu livro Pedagogia da Autonomia. superficialmente feito. Só assim podemos falar realmente de saber ensinado.2 Por uma Bioética a partir de aspectos filosófico-educacionais É importante destacar alguns aspectos filosófico-educacionais na perspectiva da Bioética. sua insubmissão.

apropriar-se de suas leis e princípios e dar-lhe uma função: a de buscar bases para a universalização das descobertas do todo do pensamento humano. eis o 43 sonho da filosofia!” Daí a importância de não particularizarmos o indivíduo. Segundo Freire. da humanidade. 28-29. De acordo com este autor. como seres históricos. o nosso conhecimento do mundo tem historicidade. históricos como nós. porque indaguei. Ensinar. aprender e pesquisar lidam com esse dois momentos: o em que se ensina e se aprende o conhecimento já existente e o em que se trabalha a produção do conhecimento ainda não existente. enquanto conhecimento e habilidade humana. nasceu com o propósito de educar o pensamento. A filosofia. intervindo no mundo. José Auri Cunha em se livro Filosofia na Educação Infantil nos leva a refletir sobre o processo de construção e reconstrução do pensar especificamente filosófico. visando pensar filosoficamente.. são assim práticas requeridas por estes momentos 42 do ciclo gnosiológico. Mas. p. O professor que pensa certo deixa transparecer aos educandos que uma das bonitezas de nossa maneira de estar no mundo e com o mundo. 31 43 CUNHA. Ensino porque busco. indicotomizáveis. Neste sentido. 32 Ibid.. reprocurando. 2002. Esses quefazeres se encontram um no corpo do outro. . é a capacidade de. 41 42 Id. Segundo Cunha. o incentivo da busca pelo conhecimento. possa revolucionar o pensamento de forma ousada. deve partir do próprio professor.34 Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino. Pesquiso para constatar o 41 que ainda não conheço e comunicar ou anunciar a novidade .. porque indago e me indago. Daí que seja tão fundamental conhecer que o conhecimento existe quanto saber que estamos abertos e aptos á produção do conhecimento ainda não existente. p. para que este. Neste contexto. o conhecimento do novo supera outro que um dia foi novo e se fez velho e se ‘dispõe’ a ser ultrapassado por outro amanhã. conhecer o mundo.. Ao ser produzido. A ‘do-docência’ – docência-discência – e a pesquisa. o qual deve ser vinculado ao contexto que estamos inseridos.) Tornar os indivíduos cidadãos do mundo. usar e propor modos diferentes de pensar. (. isto não significa dizer que o docente seja o único detentor do conhecimento. com uma visão universal. p. Enquanto ensino continuo buscando.

Id. Cunha menciona três que são consideradas propedêuticas a todo filosofar: aprender a aprender. portanto naturalmente candidatos à felicidade”45. 30-31. Esta busca é à base da educação para a liberdade. p. democraticamente consensuais”48. A felicidade seria atributo de seres livres. 47 CUNHA. Com isto. podemos afirmar que o ser humano está em busca da autonomia frente ao grupo social a que pertence. Nesta definição. capazes de escolherem aquilo que querem ser julgados. Segundo Cunha. 48 Id. 46 id. é necessário que as boas razões e os bons critérios sejam respeitados.. visando uma discussão de regras da convivência democrática. estes dois modos de pensamento tornam a família. E isto só ocorre quando dialogamos para saber quando são boas as razões ou bons os critérios. “democracia é sinônimo de diálogo entre o todo e as partes”. Há diversas atitudes filosóficas que nos conduzem a uma educação para a democracia. .. tão sucinta e direta. criativo e cuidadoso de construir boas razões e bons critérios. id. 44 45 id. para pensar o ainda não pensado. a escola e o Estado diretamente relacionados com a conquista da felicidade das pessoas. p. 30. aprender a automotivar-se para as regras e aprender a dialogar.. o diálogo é o fio condutor de uma educação para a democracia. Para que haja a convivência democrática. p. cultivados pela filosofia: o pensamento crítico. 31. p. enquanto dotados de liberdade são. 134. p. Neste contexto. que significa “o bem comum que é a felicidade de todos.47 Este tipo de diálogo é útil na produção de razões e critérios consensuais.. sobre o que ainda 44 não foi pensado” Segundo Cunha. Dentre elas. visto que a felicidade é o fim a que se destinaria toda a espécie humana. pelo menos do maior número de pessoas em cada contexto”46. 133. De acordo com Cunha. pois “os seres humanos. sobre o que já foi pensado e o criativo. estão propostos dois modos de pensamento.35 O filósofo Heidegger entendeu que pensar filosoficamente corresponde a repensar o já pensado. A educação para a liberdade é o fio Condutor para a democracia. “e o diálogo filosófico é o meio mais crítico.

entre. ou seja. levando em consideração tanto a particularidade quanto a universalidade. formulado 50 em leis gerais. Uma educação para a democracia também se preocupa com a autonomia. um movimento centrífugo. como pensam e para que pensam.. estamos ignorantes dos valores e competências que queremos que nossas crianças. Numa educação para a democracia. 49 50 Id. ou das normas que as sancionam: uma atitude de autonomia – buscar estar motivado para seguir a regra considerada justa. considerando tanto a opinião do outro quanto à de si mesmo e a de si mesmo tanto quanto a do outro. Aprender a dialogar é um passo fundamental de uma educação par a democracia (podemos dizer que é a regra de ouro). 158. independente do prêmio ou castigo que advenha. Caso fujamos. continuamente operando condutas frente ao meio. p. poderá produzir resultados opostos aos próprios interesses que queremos beneficiar. nossos jovens e nossos adultos aprendam ou estamos com medo da liberdade. Devemos falar de autonomia como objetivo educacional e com condições de filosofar com crianças. O princípio básico de uma educação para a democracia é o conflito em negociação sem ruptura. cuja direção é o estabelecimento de um centro regulador. p. . o bem dos outros que convivem conosco e o bem comum geral. jovens. e adultos sobre o que pensam. mesmo motivados pelas melhores intenções. na perspectiva da cuidado recíproco. Caso não tenhamos esta preocupação como educadores. em longo prazo. Id. Outra característica é a atitude diante das regras. e 49 da sinceridade e busca de consenso em bases razoáveis. mas por simples motivação interna. em direção aos interesses particulares de cada envolvido. estamos preocupados com o nosso bem. o diálogo deve ser recíproco. O medo da liberdade pode fazer com nossos alunos não nos aceite como seus educadores. adotamos um comportamento nãodemocrático que.36 uma característica do pensamento filosófico é estar continuamente aprendendo. No contexto de uma educação para a democracia. estamos verdadeiramente preocupados em não fugir deste conflito. de um lado. um movimento de natureza centrípeta. e de outro. 50. Uma terceira característica própria do pensamento filosófico é a predisposição para o diálogo. Neste contexto.

pelo contrário. condicionando os alunos a uma obediência passiva a partir de regras sancionadas severamente.. O que devo fazer? 3.37 Se isto ocorrer. De acordo com Kant. se dá então a partir de um processo contínuo de pensar. poderemos dizer que todas são atribuídas à Antropologia. o ensino dos conteúdos é o meu testemunho ético ao ensiná-los. Esse é um momento apenas de minha atividade pedagógica. Como as três primeiras questões remetem a última. É preciso também que este 51 KANT. a Religião e a Antropologia. o que escrevo e o que faço.. por outro lado reduzir minha prática docente ao puro ensino daqueles conteúdos. É a preparação científica revelada sem arrogância. o domínio da Filosofia neste sentido cosmopolita. Com a perspectiva de um cosmopolitismo. Neste sentido. O que me é lícito esperar? 51 4. Tão importante quanto ele. Freire afirma: (. nosso papel em sala de aula será de mero instrutor. isto é. que transmite apenas conteúdos. a Moral. E como devemos educar nossos alunos sem medo da liberdade? Como educá-los filosoficamente? Devemos educá-los a partir de uma visão cosmopolita: com uma visão ampla de filosofia. . interferindo no mundo em que se vive para transformá-lo com um pensamento ético humano. vendo-a como a ciência da máxima suprema de uso da nossa razão. repensar. A coerência entre o que digo. p. reconstruir. É importante que os alunos percebam o esforço que faz o professor ou a professora procurando sua coerência. a seu saber de ‘experiência feito’ que busco superar com ele. 42. o ato de estudar. O que posso saber? 2. Tão importante quanto o ensino dos conteúdos é a minha coerência na classe. É o respeito jamais negado ao educando. com humildade. reunindo todos os fins numa unidade. como a ciência da relação de todo conhecimento e de todo uso da razão com o fim último da razão humana. que não se desvincula da pesquisa. 2006.) não posso ser professor sem me achar capacitado para ensinar certo e bem os conteúdos de minha disciplina. não posso. O que é o homem? Estas questões respondem consecutivamente. construir. deixa-se reduzir as seguintes questões: 1. a Metafísica. É a decência com que o faço.

Desta forma. a preguiça e a covardia se instalam no homem. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo”. o professor. “Esclarecimento [Aufklärung] é a saída do homem de sua menoridade. um médico para decidir a respeito da dieta. Algo deste tipo. p. mas não usa. com a finalidade de ousar saber. p. As pessoas menores encontram “o perigo se tentarem andar sozinhos”55. 100. é difícil e perigoso sair da menoridade. 116-117 KANT. a única saída para o ser humano da menoridade é seguir o lema do Esclarecimento. 52 53 FREIRE. Segundo Kant. Ás vezes. 1996. Mas para a imensa maioria da humanidade. 1974. Há situações em que a conduta da professora pode parecer aos alunos contraditória. Ibid. enfim. é o próprio professor que não está certo de ter 52 realmente ultrapassado o limite de sua autoridade ou não.53 Na opinião de Kant. porque se encontram sob a supervisão de seus tutores. exorbitou de seu poder. leva a pessoa menor a continuar cada vez mais tímida e não fazer outras tentativas no futuro. o homem precisa de outrem para tomar suas próprias decisões. 102 . para assegurar. tornando-o menor por toda a vida. 100 55 KANT. o advento da autonomia integral e para todos. que diz para o homem ter “coragem de fazer uso de teu próprio entendimento”54. o homem é o próprio culpado de sua menoridade porque tem o conhecimento. Neste contexto. e não por nele existir uma deficiência intelectual. ou seja. da qual ele próprio é culpado. Ibidem. O cosmopolitismo também se preocupa com o Esclarecimento. um livro para fazer a vez do entendimento. mas talvez consigam depois de algumas quedas. um guia espiritual para ter consciência. Segundo Kant. p. como por exemplo. o homem é culpado por essa menoridade. porque nele há uma ausência de decisão e coragem para usar a razão sem a tutela de outrem. p. 54 KANT. Isto se dá quase sempre quando o professor simplesmente exerce sua autoridade na coordenação das atividades na classe e parece aos alunos que ele.38 esforço seja de quando em vez discutido na classe.

enquanto sábio. pelo fato de não o terem permitido fazer tentativas de conhecer a maioridade sozinho. 102. p. a realização do Esclarecimento entre os homens só é possível quando a razão é utilizada livremente para um uso público. ele nos diz que o uso público da razão é permitido ao homem versado no conhecimento de determinado assunto. Neste contexto. para que haja Esclarecimento é exigida a liberdade. O homem passa a ter amor por esta menoridade. . Denomino uso privado aquele que o sábio pode fazer de sua razão em um certo cargo público ou função 59 a ele confiado . De acordo com Kant. apesar de não impedir naturalmente o progresso do Esclarecimento. a saber: a de fazer um uso público de sua razão em todas as questões”58. a liberdade é sempre limitada. faz dela diante do grande público do mundo letrado. como é possível o Esclarecimento? O Esclarecimento é possível a um uso público. Até entre os tutores de grande massa pode ser encontrados homens capazes de pensar por si mesmo apesar dos preconceitos da parte do público que lhe foi transmitida pelo próprio homem que saiu da menoridade como autor de outros preconceitos. Isto pode 56 57 KANT. “e a mais inofensiva entre tudo aquilo que se possa chamar liberdade. Com esta afirmação. principalmente se lhe for dado à liberdade. Ibidem. 59 KANT. Ibidem. 104. Ibidem. Neste contexto. O homem é capaz de pensar por si mesmo. A única limitação que não impede o Esclarecimento e até o favorece é o uso público da razão. p. p. 102. Neste contexto. 104. 58 KANT.39 “É difícil portanto para um homem em particular desvencilhar-se da menoridade que para ele se tornou quase uma natureza”56. Segundo Kant. KANT. Ibidem. quando sacode de sua própria pessoa o jugo da menoridade e transmite a outros homens “uma avaliação racional do próprio valor e da vocação de cada homem em pensar por si mesmo”57. uma vez que o uso privado pode ser estreitamente limitado. o nosso filósofo alemão afirma: Entendo contudo sob o nome de uso público de sua própria razão aquele que qualquer homem. p.

o Esclarecimento kantiano pode ser relacionado com o mito da caverna de Platão. levando a humanidade a se tornar cada vez mais destituída do pensamento crítico e reflexivo. falando em seu próprio nome. ainda está distante de uma concretização no sentido de toda a humanidade fazer o uso próprio da razão. . pois a medida que se avança dando-se novos passos para tal liberdade. que tem a qualidade de sábio e transmite conhecimentos a um público por meio de obras escritas. Neste contexto. e desta forma. a qual é interrompida pelos tutores ainda não esclarecidos. temos que exercitar em fazer de nossa razão um uso livre e não um uso meramente imitativo. e deste modo o homem se encontra numa situação paradoxal diante de um progresso e de um regresso. levando-o a libertar-se de seus intintos animais. A preocupação kantiana com o Esclarecimento é análogo a inquietação que ele mesmo apresenta no livro Sobre a Pedagogia no que diz respeito a disciplina. O próprio Kant reconhece a impossibilidade da liberdade coletiva. No que diz respeito ao Esclarecimento. os tutores do homem o embrutecem. fere não apenas seus direitos. Este sábio que fala em seu próprio nome. Quando o homem renuncia o Esclarecimento. transformando sua humanidade em animalidade. Neste contexto.40 acontecer ao membro de uma comunidade total. mas jamais renunciar a ele. pois filosofamos quando pomos em prática o exercício e o uso próprio da razão e para sermos filósofos. a qual é responsável pela transformação do homem de animalidade em humanidade. o homem dotado de tais qualidades certamente está inserido no mundo intelectual que faz uso do entendimento sem a intervenção de outrem. Por outro lado. representando o deseja da liberdade coletiva. surgem novos obstáculos gerados pelo preconceito. para ele. é um homem que está inserido numa época de Esclarecimento. E quem é capaz de tornar-se educado e de filosofar no contexto do Esclarecimento? O sábio que goza de ilimitada liberdade de fazer uso da sua própria razão e de falar em seu próprio nome é capaz de filosofar. o homem pode adiá-lo. representante constitucional. como também os sagrados direitos da humanidade. censura e agressão.

não usando a razão mecanicamente. onde todas as pessoas possam ter direitos iguais: direito de liberdade. no texto Questão Renovada: estará o gênero o humano em constante progresso para o melhor?. estabelecidos pelo Estado. 106-107 . a liberdade está presente tanto no filosofar quanto no Esclarecimento. sob o 60 nome de iluministas. tem coragem e decisão para usar a razão sem a orientação de tutores. Viver numa época de Esclarecimento é dirigir bem o próprio entendimento. buscando a construção deste último para toda a humanidade. visto que o ser humano é dotado de liberdade. tem a liberdade de raciocinar sem a tutela de outrem. e sejam capazes de desenvolver no gênero humano o progresso universal para o melhor. o ser humano que filosofa desprovido da menoridade é livre. i. da mesma forma que o sábio que faz o uso público da razão capaz de pensamento próprio. ousando saber. É dar plena liberdade a toda humanidade para a construção de um mundo melhor. quando o homem filosofa. pp.e. como gente perigosa para o Estado . direito de raciocinar sem interferências. De acordo com Kant. pois não necessita de interferência de um outro ser. e difamados. É uma busca universal da liberdade para a construção da dignidade humana. abrindo espaço para uma convergência. os respectivos arautos e intérpretes no meio do povo. 1993.. no sentido de que o homem que filosofa deve ser considerado um ser humano que vive numa época de Esclarecimento. Neste sentido. buscando assegurar o advento da autonomia integral e para todos. A partir deste momento. 60 KANT. mas são professores livres. o qual apenas pretende reinar. o progresso universal para o melhor pode acontecer no que diz respeito à ilustração de um povo. A ilustração do povo é a sua instrução pública acerca dos seus deveres e direitos no tocante ao Estado a que pertence. os filósofos que justamente por causa desta liberdade que a si mesmo facultam. não são os oficiais professores de direito. o homem tem coragem de fazer uso do próprio entendimento. exercitando o uso próprio da razão. Portanto. Porque aqui se trata somente de direitos naturais e derivados do bom senso comum. Conforme o nosso filósofo iluminista.41 Desta forma. são objeto de escândalo para o Estado. direito a educação. Este homem é um autêntico filósofo.

o cidadão de um estado tem o direito de não ser tratado com hostilidade em um outro estado e todos os homens têm o direito de ser cidadãos de uma sociedade universal. mas sim do mundo”. Estes recursos são aplicados na guerra. BOBBIO. o que leva à falta de dinheiro para pagar a mestres capazes de transmitir uma educação de boa qualidade aos jovens. isto é. p. após ser recebido em outro território não pode 61 62 KANT. De acordo com as condições de uma hospitalidade universal. avançasse de modo permanente para o melhor”.63 Neste contexto. os cidadãos do mundo. decerto. não a história empírica (mesmo que enriquecida pela história conjetural). “segundo a qual cada homem é potencialmente cidadão não só de um Estado Particular. dando uma resposta à questão de se a humanidade está ou não em constante 62 progresso para o melhor. Norberto Bobbio. de tempos a tempos.61 No que diz respeito o progresso universal para o melhor. encontramos dificuldades para tal formação porque não há uma aplicação de recursos de forma adequada por parte do Estado. Ibidem. Para que houvesse o êxito desejado no sentido da formação da juventude. 1992. deve ser estabelecido nas condições de uma hospitalidade universal. pode desafiar – ou mesmo resolver – a ambigüidade do movimento histórico. o direito cosmopolita estabelece uma relação de reciprocidade. 137. têm como dever permitir ao cidadão estrangeiro ingressar-se no seu território. 111. necessário que o Estado. p. Segundo Kant. O progresso universal ou da humanidade nos abre para a discussão de uma idéia da Cosmópolis. “seria. se reformasse a si mesmo e. afirma que somente a história profética (ou filosófica). e o hóspede. da mesma forma.42 O progresso universal para o melhor pode ser esperado por meio da formação educativa dos jovens. no livro A Era dos Direitos. . não nos proporcionando o êxito desejado. 63 BOBOIO. p. 134. Ibid. tentando a evolução em vez de revolução.

de forma externa. 140. para a construção de uma solução para o maior problema da raça humana que é a construção de uma sociedade única. mas do mundo inteiro. colocou as premissas para transformar também os indivíduos singulares. Ibidem. entre Estados e indivíduos dos outros Estados. 138. p. além disso. 139. capaz de administrar a justiça universal. a que torna esse direito não apenas o direito de todos 65 as gentes.66 Neste contexto. entre Estado e Estado. Conforme Bobio. e não mais apenas os Estados. por conseguinte. em sujeitos jurídicos do direito internacional. a qual representou o fim do regime feudal e a aprovação da 64 65 66 BOBBIO. dos direitos do homem”. p. precisamente como uma Cosmópolis. Ibidem. mas o direito de todos os indivíduos. ou seja. a relação existente na Cosmópolis deve se expandir. Bobbio afirma que Immanuel Kant defendia a Revolução francesa. p. Neste sentido. entre Estado e indivíduo no interior e sim. havia representado toda a terra como uma potencial cidade do 64 mundo. Na opinião de Bobbio.43 aproveitar da hospitalidade. . o direito cosmopolita é uma constante relação recíproca entre os povos da terra. Nessa relação de reciprocidade entre o direito de visita do cidadão estrangeiro e o dever de hospitalidade do Estado visitado. iniciado a passagem para uma nova fase do direito internacional. Kant tinha originariamente prefigurado o direito de todo homem a ser cidadão não só de seu próprio Estado. Neste contexto. BOBBIO. tendo assim. Bobbio afirma que é fato hoje inquestionável que a Declaração Universal dos direitos do Homem. não deve se limitar apenas na relação entre indivíduos. o único presságio seguro que temos acerca de um confiável movimento histórico para o melhor talvez “seja o crescente interesse dos eruditos e das próprias instâncias internacionais por um reconhecimento cada vez maior e por uma garantia cada vez mais segura. Ibidem. de 10 de dezembro de 1948. Segundo Bobbio. para que possa transformar a visita em conquista. BOBBIO. ou seja.

um dos ideais do século que acreditava no progresso.44 Declaração dos Direitos do Homem. nos dias de hoje. 67 BOBBIO. 140. . para a qual foi cunhada. o autor nos expõe a ambigüidade da história da humanidade. a palavra “exterminismo”? Dirige-se para o reino da liberdade. sem ser impedido de tal direito. através de um movimento constante e cada vez mais amplo de emancipação (dos indivíduos. a história da humanidade foi sempre ambígua. Ainda conforme o pensamento de Bobbio. está mais presente do que em outros momentos. em oposição a pacifismo. ou para o reino do Grande Irmão. podemos perceber mais uma vez que os seres humanos se encontram diante de uma situação paradoxal. descrito por Orwell? Sendo assim. Ibidem. dos 67 povos). ele nos apresenta as seguintes indagações: O mundo dos homens dirige-se para a paz universal. no qual o povo pela primeira vez decidiu seu próprio destino. como um ato de exercício do direito. dando a si mesmo uma constiuição civil que acreditava ser boa. das classes. Sendo assim. p. como Kant havia previsto. a qual. ou para a guerra exterminadora. Diante de tudo isto.

células neurais. por um 68 grupo de cientistas italianos liderado por Giuliana Ferrari. A virada do século XXI vai ficar marcada na história da ciências como um período de constituição de um novo paradigma nas ciências médicas. 2006. em 1998. 25 . temos testemunhado fatos que em outros momentos seriam impossíveis.45 4 DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE: CÉLULAS-TRONCO. Nesta descoberta. A primeira descoberta da capacidade de células tronco de medula óssea em se diferenciar em célula mais especializada foi feita. O avanço científico e tecnológico na contemporaneidade tem influenciado para mudanças desde a engenharia mecânica até na biomedicina. p. FACILITAÇÃO DA PÍLULA DO DIA SEGUINTE 4. devido ao avanço da tecnologia e ao desejo do ser humano se autosuperação. EMBRIÕES. outros pesquisadores publicaram evidências de diferenciação de células-tronco de medula óssea de animais adultos em cardiomiócitos. Tais descobertas causaram uma revolução nas pesquisas da área de saúde. hematócitos dentre outras. Ferrari juntamente com sua equipe demonstrou que os precursores miogênicos da medula óssea de animais adultos podiam contribuir com a recuperação de regiões musculares. mas que estão aptas para tais funções. Nos últimos anos. após migrar para as mesmas. Posteriormente. a exemplo da medula óssea. Tecidos antes tidos como incapazes de se regenerar começam a ser reparados com o uso de células-tronco proveniente de fontes variadas. 68 SANTOS. Neste contexto. a Bioética tem se preocupado com questões que vão desde o suporte de vida a pacientes terminais até pesquisas com células-tronco.1 Algumas perspectivas da Bioética na contemporaneidade Na contemporaneidade. na academia e nas instituições de pesquisa que não são necessariamente academias. Muitos dos fatos da atualidade que envolve a relação “homem-máquina” têm gerado bastante polêmica nas religiões. pois tecidos considerados sem capacidade regenerativa poderiam se reparados por células precursoras provenientes possivelmente da medula óssea.

Com diferentes técnicas. 69 SANTOS. do Hospital Santa Izabel. que trabalham em paralelo com equipes européias e norte-americanas. na Alemanha. a exemplo 69 da medula óssea. Bodo Strauer aplicou a primeira injeção de células tronco da medula óssea por via coronariana em uma paciente após infarto agudo do miocárdio (LEITE & DOHMANN. coordenador do Instituto do Milênio de Bioengenharia Tecidual e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz. são considerados os pioneiros nas pesquisas com células-tronco como uma opção para curar ou melhorar a qualidade de vida de pessoas com graves problemas no coração. 2003). conhecida como ponte. Em Salvador. Ricardo Ribeiro dos Santos. em 13 de maio de 2003. Todas estas descobertas representam cada vez mais uma revolução científica das ciência médicas. no Brasil. ou de células utilizadas na recomposição da medula óssea. Ainda são feitos testes em animais utilizando estas células precursoras. célulastronco da medula óssea são injetadas durante a cirurgia de revascularização cardíaca. A equipe da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) publicou. pesquisadores do Rio de Janeiro. em regiões onde é impossível colocar as pontes por razões técnicas. 26 . Até então. atinge de 3% a 6% da população mundial e entre 5 a 10 milhões de brasileiros. os conceitos existentes diziam respeito a substituição de órgãos inteiros. no caso do transplante de medula óssea. nos Estados Unidos e no Brasil têm desenvolvido estudos utilizando células-tronco no tratamento de doenças cardiovasculares em seres humanos. a exemplo dos trabalhos de Borlogan e colaboradores com modelo experimental de acidente vascular cerebral em ratos. um artigo científico no qual descrevem os primeiros transplantes de célulastronco em portadores de insuficiência cardíaca crônica. três grupos de pesquisa. No Brasil. na Alemanha. A doença. cordão umbilical e do sangue periférico. na ‘Circulation’. Dr. No Instituto do Coração da Universidade de São Paulo (USP). França. pois se avançou tanto neste campo de pesquisa. Desde então. Em 2001. obstrução das artérias coronárias e mal de Chagas (ZORZETTO.46 O uso de células-tronco na terapia regenerativa provoca ainda um desdobramento da terapia de transplante de órgãos e células originando uma outra revolução na área das ciências médicas. As célulastronco nestes estudos têm sido obtidas de diversas fontes. que consiste na perda progressiva da capacidade do coração bombear o sangue. p. que alguns países considerados subdesenvolvidos tem investido significativamente para redescobrir novas formas de utilidade das célulastronco. no caso do transplante de órgãos. da Bahia e de São Paulo concluíram que o transplante de célulastronco é uma alternativa promissora contra a insuficiência cardíaca crônica provocada por hipertensão. As célula injetadas contribuem para refazer os vasos sangüíneos dessas áreas. e Fabio Vilas-Boas Pinto. Itália. 2004). vários outros grupos de cientistas no Japão. 2006.

47 utilizaram células-tronco para reverter os danos que a doença de Chagas provoca no coração. para evitar uma gravidez. Outra questão que deve ser tratada pela bioética é a utilização da pílula do dia seguinte que é um método “contraceptivo”. após uma relação sexual não protegida. com o objetivo de 71 prevenir gravidez inoportuna ou indesejada Apesar da eficácia da pílula do dia seguinte. Série Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos . também conhecido por “pílula do dia seguinte”. seus efeitos 70 71 SANTOS. de forma que um pequeno número pode originar uma grande população de células semelhantes e são capazes de se diferenciarem células especializadas e um tecido particular. mantendo-se indiferenciadas. Convém ressaltar que as células-tronco. deve-se levar em consideração a forma como a mesma foi administrada. Secretaria de Atenção à Saúde. infecta 24 milhões de pessoas na América Latina. Por outro lado. com possibilidade de fertilidade. MINISTÉRIO DA SAÚDE. A Anticoncepção de Emergência (AE) é um método anticonceptivo que pode evitar a gravidez após a relação sexual. Brasília – DF. O método. Neste contexto. A doença é provocada pelo protozoário Trypanosoma cruzi. parasita que se aloja nas células do coração. as células-tronco do adulto (que são chamadas de multipotentes) têm um potencial menos. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas Série F. dos quais seis 70 milhões no Brasil. especialmente as embrionárias (que são conhecidas como TE). 2005 . utiliza compostos hormonais concentrados e por curto período de tempo. p. 2006. Além disso. Comunicação e Educação em Saúde. são capazes de se multiplicar por um período extenso. a AE tem indicação reservada a situações especiais ou de exceção. a ser utilizado como uma urgência.Caderno nº 3. nos dias seguintes da relação sexual. após 72 horas do ato sexual consumado. 32 Anticoncepção de Emergência: perguntas e respostas para profissionais de saúde. Diferente de outros métodos anticonceptivos. são diferentes de outras células do organismo. por apresentarem três características: são células indiferenciadas e nãoespecializadas. A maioria dos métodos anticonceptivos atua de forma a prevenir a gravidez antes ou durante a relação sexual.

48 podem ser diferentes, dependendo do organismo de cada pessoa que a utiliza, pois cada organismo tem sua especificidade. Sendo assim,
Pode-se mensurar a efetividade da AE por duas formas diferentes. A primeira, denominada Índice de Pearl (ou Índice de Falha), calcula número de gestações por 100 mulheres que utilizam o método no período de um ano. Estima-se que este índice seja de cerca de 2%, em média, para a AE. A segunda forma mede a eficiência da AE pelo Índice de Efetividade, que calcula o número de gestações prevenidas por cada relação sexual48, 49. A AE apresenta, em média, Índice de Efetividade de 75%. Significa dizer que ela pode evitar três de cada quatro gestações que ocorreriam após uma relação sexual desprotegida45, 34. No entanto, a eficácia da AE pode variar de forma importante em função do tempo entre a relação sexual e sua administração. Segundo a Organização Mundial de Saúde, o método de Yuzpe apresenta taxas de falha de 2% entre 0 e 24 horas, de 4,1% entre 25 e 48 horas e de 4,7% entre 49 e 72 horas. Para os mesmos períodos de tempo, as taxas de falha do levonorgestrel são expressivamente menores, 0,4%, 1,2% e 2,7%, respectivamente. Na média dos três primeiros dias, a taxa é de 3,2% para o método de Yuzpe e de 1,1% para o levonorgestrel57. Entre o 4° e o 5° dia, seguramente a taxa de falha da AE é mais elevada. No entanto, cabe considerar que a taxa de falha do levonorgestrel, mesmo utilizado entre o 4° e o 5° dia (2,7%), é men or que a taxa média de falha do método de Yuzpe entre 0 e 3 dias (3,2%)51, 57. Essas observações fundamentam a recente recomendação de utilizar a AE até o 5° dia da relação sexual desprotegida. O utro dado importante é a constatação de que a administração do levonorgestrel, em dose única ou a cada 12 horas, apresenta eficácia semelhante para prevenir a gestação51. No entanto, é necessário lembrar que o uso repetitivo ou freqüente da AE compromete sua eficácia, que será sempre menor do que aquela obtida com o uso regular do método anticonceptivo de rotina. Em suma, os resultados sobre eficácia são absolutamente claros para que se afirme que a AE deva ser administrada tão rápido quanto possível e, preferentemente em dose única dentro dos cinco dias que sucedem a relação 72 sexual.

72

Anticoncepção de Emergência: perguntas e respostas para profissionais de saúde; MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas Série F. Comunicação e Educação em Saúde. Série Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos - Caderno nº 3. Brasília – DF, 2005

49 4.2 A importância dos comitês de Bioética

Como falamos no capítulo 1 deste texto, um comitê de bioética é constituído por uma equipe interdisciplinar, que tem por objetivo ensinar, pesquisar, sugerir normas institucionais em assuntos éticas. Além disso, tem por função auxiliar as equipes a tomar decisões difíceis.
Hospital de

Ao analisar um caso, o Comitê de Bioética deve seguir os seguintes passos: a) estruturar uma clara apresentação dos fatos médicos envolvidos na situação; b) formular um ou mais dilemas morais e afastar conflitos pessoais ou legais; c) apreciar as implicações médico-morais de cada um dos caminhos que podem ser seguidos; d) dar oportunidade a que todos os membros do grupo se manifestem e tentar buscar uma recomendação que espelhe o parecer consensual do grupo; e) oferecer uma ou mais alternativas de conduta que sejam eticamente aceitáveis e que contemplem o melhor interesse do paciente; f) otimizar o encontro das partes que participam do cuidado do paciente objeto da consultoria, agindo como agente facilitador de soluções médica e eticamente aceitáveis para o 73 caso. Porto Alegre (RS)
147 157

Convém ressaltar que os comitês não se restringem ao âmbito da saúde. Todas as pesquisas, das mais diversas áreas, quando envolve seres humanos, deve necessariamente ter o aval de um comitê; como já foi mencionado ao longo deste trabalho, os comitês são formados interdisciplinarmente. Esta interdisciplinaridade é de bastante relevância, pois é uma oportunidade dos diferentes especialistas debaterem na perspectiva de verificar os impactos ou os benefícios das pesquisas. Neste sentido,
Nas sociedades pluralistas, os Comitês de Bioética buscam as soluções para os dilemas éticos fundamentando-se em normas morais defensáveis. Para isso, necessitam de pessoas que possuam, além de conhecimento, características como sensibilidade moral e 74 equilíbrio, e que não sejam controversas ou dogmáticas.

73 74

http://www.portalmedico.org.br/revista/bio10v2/Simposio6.pdf http://www.portalmedico.org.br/revista/bio10v2/Simposio6.pdf

50 4.3 Texto Complementar CORDEL DO ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE (Autor: Manoel Messias Belizario Neto)75 Vou contar para vocês O que deixou tão contente Todo o nosso país, Porém especialmente A quem é a todo instante Um público tão importante: Criança e adolescente. Quando no ano 90, Julho convém ressaltar, O Governo Federal Resolveu sancionar O Estatuto por lei Que muito serviu, direi Para nos auxiliar. Antes dos anos noventa, Lembram bem as entidades, E toda a população As reais dificuldades Pra criança e adolescente Em especial carente De família de verdade. E após ser sancionada Pouca gente acreditou Que fosse posta em prática, Mas tanto se lutou! Agora temos a lei E então amigos sei Que a espera terminou Só sabe o valor do ECA Quem vivia a perecer À busca de um auxílio Pra poder se defender Sem ele o público em questão Vivia sem solução Sem saber o que fazer.

75

www.cordelparaiba.blogspot.com

Como todo ser humano.” ..vamos ver? ARTIGOS 2 E 4 “Considera-se criança. Assim sem tirar nem pôr. Movimentos sociais. (Essa lei observou). Por isso esse público alvo Tem muito a comemorar Também todo segmento Que esteve a lutar Não só no treze de julho Podemos mostrar orgulho Pois o ECA aqui está. Mas é inútil amigos Se ficarmos todos sós Tentando fazer cumpri-lo. Sempre que alguém precisar Deve o ECA apresentar Pra se desatar os nós.Digo-lhe sem vaidade. A pessoa que tiver A idade inferior A 12 anos de idade.. Temos que juntar a voz. Tem direito à liberdade.51 Mas para firmar o ECA Não fora tão fácil não. Este artigo se completa Dando a seguinte verdade: “É adolescente àquele. ” . A seguir selecionamos Uns artigos pra você Ver a grande importância Que o ECA veio trazer À criança e adolescente E a toda a nossa gente Bora amigo. Que estiver na idade De doze a dezoito anos. Lutando deram-se as mãos E juntos com a sociedade Defendendo tal idade Conseguiram essa ação.

Também esporte e lazer. À creches.” “Criança e adolescente. Além disso tem direito De em família conviver E toda a comunidade (com toda dignidade) Deverá lhes acolher. Tem direito ao ensino Médio e fundamental. à pré-escola. Brincar..” ARTIGO 53-54 “Crianças de zero a seis Têm direito à educação. (o que a lei diz?) Só será executado Na condição de aprendiz Por menores de 14 (Que podem até fazer pose) .” ARTIGO 16 “Compreende (meu amigo) O direito à liberdade: Ter direito à ida e volta. e o respeito (Isso é mais que direito) Do professor”. Seja no campo ou cidade. Sendo uma obrigação Do estado. ter religião.. Como instituto legal. Gratuito. ARTIGO 60 “Quanto à execução De trabalho. moradia.52 “. Alimento. assegurar-lhes (O cuidado e sempre) dar-lhes Toda esta proteção. Expressar opinião Na política e sociedade.Cultura e dignidade. afinal.” “E é dever da família Governo e população Assegurar o direito À saúde e educação. Promoção (e com) harmonia (:) profissionalização.

ARTIGO 62 (Tem-se como) aprendizagem A seguinte formação: A técnico profissional. De exibição de espetáculos.” (Já que em nossa sociedade Com tamanha falsidade Encontramos tal tendência.53 Pra esta idade é o que condiz”. esta empreitada De regular espetáculos E então manter informada.) ARTIGO 74 “Fica a cargo do poder. a idade adequada”. ARTIGO 75 “Só poderão ingressar E permanecer nos locais. Público. educação” ARTIGO 70 “É dever de todo mundo Prevenir a ocorrência De violarem os direitos Da infância e adolescência. (Sem qualquer um retrocesso) A faixa etária de acesso Ou seja. * Acompanhados dos pais Ou por responsável sano As crianças de 10 anos” E a seguir temos mais.” . em vigor. (Que está exposta nas frases) Das diretrizes e bases Da. ARTIGO 76 “As emissoras de rádio E de teledifusão Nos horários reservados Para o publico em questão Só exibirão programas Que venham contribuir Para sua formação. Segundo a legislação.

” “Por ação ou omissão Da sociedade ou Estado. Ou daqueles a quem fora (pais ou responsáveis) Este público confiado. Sem o uso dos partidos.” ARTIGO 98 “Se os direitos nessa lei. Do público-alvo citado. Sofrerem alguma ameaça Ou se forem violados Os meios de proteção Com certeza deverão Logo ser acionados. Pelo voto popular! . Explosivos e bebidas? À criança e adolescentes É a venda proibida! Assim como a hospedagem Só se os pais acompanharem Em toda e qualquer guarida. Composto por cinco membros.54 ARTIGOS 81E 82 “Armas munições e fogos. Ou em razão da conduta. É o Conselho Tutelar. Um Conselho Tutelar Os quais serão escolhidos. ARTIGO 131 “Há um órgão permanente Encarregado de zelar Que se cumpram os direitos Que estamos a falar Que age com autonomia. Implacável todo dia. Reconhecidos citados.” ARTIGO 132 Assim “em cada município Pelo menos haverá.

55 ARTIGO 146 “A autoridade a que Esta lei faz referência É o juiz da infância Juventude (adolescência) É a lei judiciária. . Porém devem entender Que além dos tantos direitos. Quem tiver alguma dúvida Favor é só conferir No ECA a informação Que um simples co-irmão Fizera pra lhe servir. A qual não é arbitrária.” Esta lei aqui exposta Deve assim ser entendida Como algo que chegou Para melhorar a vida De criança e adolescente Daqueles. Há deveres a cumprir Pra no amanhã que vir Ser cidadão pra valer. Este cordel importante. Quem dá tal proveniência. principalmente Que viviam sem saída. Cabe a cada um de nós Exigir seu cumprimento Indo às autoridades Ou até ao parlamento Pra que o ECA não seja Reclames de quem verseja Palavra lançada ao vento. Crianças e adolescentes. Que enumerei pra você. Amigos termino aqui.

Jason Finn. Stacey Sher Richard LaGravenese Jim Denault Mark Isham. escutando-os como adultos que estavam se formando. ou seja. RZA Paramount Pictures Paramount Home Entertainment 123 min / 0 05/01/2007 Hilary Swank. Michael Shamberg. Scott Glenn. os "Freedom Writers" saem em busca de heróis pelo mundo. John Benjamin Hickey. os alunos saem em busca de se tornarem eles mesmo esses heróis. Will Sinopse: O filme se passa em um período em que estourava nas ruas a guerra inter-racional americana. David Goldsmith. Blake Hightower.56 INDICAÇÃO DE ALGUNS FILMES PARA REFLETIR SOBRE OS CONTEÚDOS DA DISCIPLINA “ÉTICA PROFISSIONAL E BIOÉTICA” ESCRITORES DA LIBERDADE ESCRITORES DA LIBERDADE (Freedom Writers) Título Título Original Gênero: Pais/Ano Diretor Produção Roteiro [Poster Cinema] Fotografia Trilha Sonora Estúdio Distribuição Duração/Censura Data Cinema Elenco Ficha Técnica Escritores da Liberdade Freedom Writers Suspense Alemanha. onde para os jovens da classe de Gruwell. EUA / 2006 Richard LaGravenese Danny DeVito. Patrick Dempsey. Kristin Herrera. Cenas: . Enquanto escrevem seus projetos. conseguir sobreviver o dia a dia da guerra entre as raças no meio da rua. já era um feito muito grande. E pela primeira vez eles poderão experimentar a esperança de que talvez eles possuam a chance de mostrar ao mundo que suas vidas também fazem o diferencial e que eles possuem algo a dizer ao mundo. E é a partir do respeito e a forma de tratar os alunos como nenhum outro professor havia tratado. Pat Carroll. que ela conquista um a um. Começando pelo estudo do livro "O Diário de Anne Frank" e o Holocausto.

forçada a se prostituir para sobreviver. 18 de Lançamento: Ago. o filme fala sobre o mundo da prostituição infantil no Brasil por meio da história de Maria (Fernanda Carvalho).choveu.net/cinema/cinema.aspx?keyfilme=MTMyNzk= ANJOS DO SOL Inspirado em diversos artigos publicados na imprensa. enquanto busca um futuro melhor. Gênero: Drama Tempo: 92 min. 2006 Lançamento DVD: Nov de 2006 Downtow n Filmes Classificação: 14 anos Distribuidora: . uma menina de 12 anos vendida pelos pais.57 FONTE: http://www. Ela cruza o Brasil numa longa jornada.

finalmente.br/classificados/cobaias-em-dvd-miss-evers-boys-casotuskegee-raridade-__1569952. Juarez Precioso. Chico Diaz.html . Bianca Comparato. Fernanda Carvalho.yahoo.com. A partir daí.com/filme/13919/sinopse COBAIAS No sul dos Estados Unidos. o tratamento acaba perdendo seu apoio financeiro e é fechado.quebarato. Dirigido por: Rudi Lagemann Produzido por: Luiz Leitão. 600 homens foram submetidos a essa humilhação. o Governo decidiu criar um programa de tratamento no único hospital negro da localidade. até o dia em que. que apenas finge estar realizando um estudo sobre o efeito da sífilis em homens negros.. Preocupados com a rapidez em que a doença se espalhava pela região. Vera Holtz. em 1932. alguém resolveu revelar toda a verdade! Fonte: http://sp.cinema. tem início uma das mais horríveis traições da história da humanidade. Rudi Lagemann Fotos Fonte: http://br. a sífilis havia se tornado uma epidemia entre as comunidades afro-americanas. Darlene Glória. Infelizmente. Otávio Augusto. Um grupo de doutores cria um novo programa médico. para comprovar se eles são biologicamente iguais ou diferentes dos brancos.58 Elenco e créditos Estrelando: Antonio Calloni.. Durante anos. iludidos com uma cura que nunca chegaria.

18:32 Erro! A referência de hiperlink não é válida. realizada entre os dias 5 e 9 de junho. em Natal. entrevistas com pesquisadores e depoimentos de membros e líderes comunitários. o documentário retrata as conseqüências da expansão da soja na região de Santarém. que teve uma audiência de mais de 400 pessoas. Em Nome do Progre$$o”. foram alguns dos outros temas da Mostra. a violência social no Pontal do Paranapanema. Produzido pela Organização NãoGovernamental (ONG) Greenpeace e dirigido por Todd Southgate. narrada pelo ator Marcos Palmeira. A Midcam é uma iniciativa da ONG Baobá e foi realizada em comemoração ao Dia Mundial do Meio Ambiente. Haroldo Mota.globo.59 DOCUMENTÁRIO: A FOME NO BRASIL (uma série de reportagem da Rede Globo que foi ao ar em junho de 2001) FILME: SOJA: EM NOME DO PROGRESSO Filme sobre soja no Pará ganha prêmio Votação do público elege documentário o melhor na Mostra Internacional no Rio Grande do Norte 12/07/2006 . O cultivo do algodão em Burkina Faso. de vários países. O vídeo “Soja. Fonte: http://eptv.com/busca/busca_interna. 55 produções. no Rio Grande do Norte. O documentário foi exibido na noite de abertura e aplaudido de pé pelo público presente no auditório da Assembléia Legislativa. Segundo o organizador da mostra e presidente da Baobá. A produção. conquistou o prêmio de votação popular na II Mostra Internacional de Cinema Ambiental (Midcam). apresenta inúmeros dados sobre o desmatamento na região.aspx?144149 . foram enviadas para concorrer ao festival deste ano. O aumento da violência e a expulsão das comunidades locais também são abordados no vídeo.

Departamento de Ações Programáticas Estratégicas Série F. ________ Conselho Nacional de Saúde (CNS). Conselho Federal de Medicina. A. Deontológicas e Legais. Brasília – DF. 2005. 1998. São Paulo: EPU. de 10 de outubro de 1996 ________ Conselho Nacional de Saúde (CNS). Resolução nº 292. 1998. José Roberto. Secretaria de Atenção à Saúde. G. LOPES.br/Cd01/comum/TextoPosGraduacao/pos- graduacao_texto_18_bontempo_hossne_port. Comunicação e Educação em Saúde. Maria Helena Itaqui. MINISTÉRIO DA SAÚDE. FRANCISCONI. Norberto.anis. José Auri. BERLINGUER. Campinas.pdf . Bioética cotidiana. GOLDIM. Filosofia na Educação Infantil. Estudo de Casos. de 08 de julho de 1999 CUNHA. Resolução nº 196. ÉTICA E SAÚDE Questões Éticas. Sergio Ibiapina. 1992.60 REFERÊNCIAS Anticoncepção de Emergência: perguntas e respostas para profissionais de saúde. Brasília. 311/07. Autonomia e Direitos do Paciente. In: http://www.Caderno nº 3. P. Brasília: UNB. A Era dos Direitos: tradução de Carlos Neison Coutinho – Rio de Janeiro: Campus. FERREIRA. Iniciação à Bioética. SP: Editora Alínea.org. P. 2002. BOBBIO. 317. Resolução COFEn. Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Série Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos . de C. Conselh Federal de Enfermagem (COFEN). Carlos Fernando. FORTES. Tomada de Decisões. 200 BRASIL.

Tradução de Francisco Cokc Fontanella. A. como se faz. São Paulo: Planeta do Brasil. 2006.dhnet. Tradução de Raimundo Vier. Liderança Ética . 2001 MINAYO. O Conflito das Faculdades. FREIRE. São Paulo: Pioneira. ______________. 1994. 1998 KANT. São Paulo: Paz e Terra.htm LOLAS. 1974. 2006. Tradução: Milton Camargo Mota.br/direitos/cplp/portugal/saude. . A importância do ato de ler : em três artigos que se completam. Piracicaba: Editora Unimep. I. São Paulo: Santuário. Textos Seletos. 2004 GÓMEZ. Tradução de Artur Morão: Lisboa. Immanuel.M. Rio de Janeiro.S. GALVÃO. Bioética: o que é. Sobre a Pedagogia. Violência social sob a perspectiva da saúdepública. 1993 Lei de Bases da Saúde (Lei nº 48/90. Resposta à Pergunta: Que é o Esclarecimento? In: Kant. de 24 de Agosto). Bioética – A Ética a serviço da vida. Maria Cecília de S. _____________. Questão Renovada: estará o gênero humano em constante progresso para o melhor? In: Kant.Um Desafio do Nosso Tempo. In: http://www. São Paulo: Edições Loyola. VIEIRA. Fernando.. Uma abordagem multidisciplinar. Cad. – 48. 2005 HOSSNE. – São Paulo: Cortez. 10 (supplement 1): 07-18. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Vozes. 5ª ed.org. ed. 1997. I. S.61 FREIRE. Paulo. A Ética e a Metodologia. Saúde Públ.W. Edições 70. Paulo.. EMILIANO.

S.05. Manfredo Araújo de. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. São Paulo: Paulinas.. . (Conferência proferida em 31. SÓFOCLES. São Paulo: Edições Loyola. RAMOS. Henrique Cláudio de Lima. 2002 SANTOS. – 11. PIÑEIRO. São Paulo: AveMaria. Desafios éticos da globalização. Bioética e Biodireito. 2004.E. Cristina Mascarenhas.M. 2002. Organização e introdução: Cláudio Toledo e Luiz Moreira. – São Paulo: Paz e Terra.(Coleção Leitura).C. 2000 SOARES. SÓFOCLES. . 496-406 A. Antígona de Sófocles. apr. R. tradução do grego. Ética e Direito. Duas realidades: a pesquisa com células tronco para tratar pacientes com doença de chagas nos laboratórios e na mídia. 2002. 2003. REFERÊNCIAS ELETRÔNICAS: . 2 ed. Ética – caminhos da realização humana. Dissertação de Mestrado (PPGEFHC/UFBA/UEFS). A.M. A. A Trilogia Tebana. Rio de Janeiro:FIOCRUZ. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) REGO.2001 na Universidade Federal de São Paulo/Brasil -UNIFESP. Salvador. Tradução de Millôr Fernandes. VAZ. W.C.62 OLIVEIRA. São Paulo: Loyola. 2006. evento promovido pelo Núcleo de Fé e Cultura da UNIFESP e pelo Centro de História e Filosofia das Ciências da Saúde da UNIFESP. 2003 SANTOS. A Formação Ética dos Médicos. apr. 496-406 A. Ed. em parceria com o Núcleo de Fé e Cultura da. Fundamento e Princípios de Bioética. Dalton Luiz de Paula. introdução e notas de Mário da Gama Cury.

pdf .br/seb/arquivos/pdf/livro092.periodicos.br/ojs/index.uem.mec.63 http://www.php/CiencCuidSaude/article/viewPDFInterstitia l/3896/2691 http://portal.gov.

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->