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Arquitetura e narratividade

Paul Ricoeur, in: Urbanisme, n.303, nov/dez 1998, pp. 44-51.

A cidade e a arquitetura são narrativas que se conjugam no passado, presente e futuro. Quem mais
do que Paul Ricoeur, filósofo atento ao “trabalho da memória”, poderia abrir este debate; “abrir”, isto
é, nos acompanhar nesse caminho que leva a uma clareira, como diria Heidegger. Mas a narrativa
subentende a narração, a qual exige, ela própria, a interpretação. A memória das pedras fala tanto
quanto a dos textos? Paul Ricoeur nos propõe sua leitura dessas memórias, que vivificam para
sempre o passado de nosso presente.

Como o tema que me foi atribuído é a memória, vou começar explicando como relaciono
memória e narratividade. Adoto a definição mais geral de memória – a que se encontra em
um pequeno texto de Aristóteles intitulado precisamente Da memória e da reminiscência, e
que retoma, aliás, notas, e em especial do Teeteto de Platão, sobre o êikon, a imagem:
“tornar presente a ausência”, “tornar presente o ausente”; assim como a nota que distingue
dois ausentes; o ausente que como simples irreal, que seria, portanto, o imaginário, e o
ausente-que-foi, o precedente, o anterior, o proteron. Esse último é, para Aristóteles, a
marca distintiva da memória quanto à ausência. Trata-se, pois, de tornar presente a
ausência-que-foi. Eu encontrei uma grande cumplicidade de pensamento nos dois extremos
de nossa história do Ocidente, entre os Antigos – com essa idéia da ausência tornada
presente e da anterioridade – e uma proposição de Heidegger que me é cara, não
importando minha distância de seu pensamento sobre o “ser-para-a-morte”: a idéia que diz
que devemos desdobrar nosso conceito do passado naquilo em que ele chama de
“completado” (“realizado”), o Vergangen, e o-que-foi, o Gewissen. Ao mesmo tempo, faz-se
justiça com a definição dos Antigos, pois o anterior-feito-presente é duplamente marcado
gramaticalmente: ele não é mais, mas ele foi. E me parece que a glória da arquitetura é
tornar presente não aquilo que não é mais, mas aquilo que foi através do que não é mais.

A narratividade
O que ocorre com a narratividade? Havia-me parecido, em trabalhos de uma década atrás,
em Temps et Récit, que a memória era levada ao mesmo tempo à linguagem e a obras pela
narrativa, pelo pôr-em-narrativa. A passagem da memória à narrativa impõe-se assim:
lembrar-se, de forma privada assim como de forma pública, é declarar que “eu estava lá”. O
testemunho diz: “eu estava lá”. E esse caráter declarativo da memória vai se inscrever nos
testemunhos, nas atestações, mas também numa narrativa pela qual eu digo aos outros o
que eu vivi.
Adoto, pois, dois pressupostos em minha reflexão: por um lado, tornar presente a
anterioridade que foi e, por outro, estabelecê-la pelo discurso, mas também por uma
operação fundamental de narrativa que identifico como “configuração”.
Inicialmente, gostaria de estabelecer uma analogia, ou melhor, o que parece ser, à primeira
vista, nada mais do que uma analogia: um paralelismo estreito entre arquitetura e
narratividade, no qual a arquitetura seria para o espaço o que a narrativa é para o tempo, a
saber, uma operação “configurante”; um paralelismo entre, por um lado, construir, portanto,
edificar no espaço e, por outro, contar, criar uma intriga no tempo.
Ao longo dessa análise eu me perguntarei se não é necessário levar a analogia muito mais
longe, até um verdadeiro entrecruzamento, um embaralhamento entre a “configuração”
arquitetural do tempo e a “configuração” narrativa do tempo. Em outras palavras, trata-se de
cruzar espaço e tempo através do construir e do contar. Tal é o horizonte dessa
investigação: embaralhar a espacialidade da narrativa e a temporalidade do ato arquitetural
pelo intercâmbio, de certa forma, entre espaço-tempo nas duas direções. Poder-se-á assim
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encontrar, ao final, sob a condução da temporalidade do ato arquitetural, a dialética da


memória e do projeto no próprio seio dessa atividade. E mostrarei, sobretudo na última parte
de minha apresentação, quanto a narrativa projeta no futuro o passado rememorado.

Tempo narrado e espaço construído


Voltemos ao ponto da simples analogia. Nada é evidente, pois um abismo parece separar o
projeto arquitetural inscrito na pedra, ou em qualquer outro material duro, da narratividade
literária inscrita na linguagem: um se situaria no espaço, o outro no tempo. De um lado, a
narrativa oferecida à leitura, de outro, a construção entre o céu e a terra e oferecida à
visibilidade, dada a ser vista. No início, a distância ou o “abismo lógico” parece ser entre
espaço narrado e espaço construído. Mas nós podemos progressivamente reduzi-lo,
permanecendo ainda no paralelismo, notando que o tempo da narrativa e o espaço da
arquitetura não se limitam a simples frações do tempo universal e do espaço dos
geometristas.
O tempo da narrativa se estende ao ponto de ruptura e de sutura entre o tempo físico e o
tempo psíquico, esse último descrito por Agostinho nas Confissões com “distendido”,
estiramento da alma entre o que ele chamava o presente do passado – a memória -, o
presente do futuro – a espera -, e o presente do presente – a atenção. O tempo da narrativa
é, portanto, um misto desse tempo vivido e daquele dos relógios, tempo cronológico
enquadrado pelo tempo do calendário com, atrás de si, toda a astronomia. Na base desse
tempo narrativo, há esse misto do simples instante, que é um corte no tempo universal, e do
presente vivo onde não há senão um presente: agora.
Da mesma forma, o espaço construído é uma espécie de misto entre lugares de vida que
rodeiam o corpo vivo e um espaço geométrico de três dimensões, no qual todos os pontos
são lugares quaisquer. Ele também é, poder-se-ia dizer, ao mesmo tempo talhado no
espaço cartesiano, no espaço geométrico, onde todos os pontos podem ser, graças às
coordenadas cartesianas, deduzidas de outros pontos, e lugar de vida, sítio. À semelhança
do presente, que é o centro do tempo narrativo, o sítio é o centro do espaço que se cria, que
se constrói.
É nesse duplo enraizamento, nessa inscrição paralela em um tempo misto e num espaço
misto que eu gostaria de me basear. Situo toda minha análise sob as três rubricas
sucessivas que percorri em Temps et Récit, o que eu havia posto sob o título muito antigo
de mimesis – portanto, de re-criação, de representação criadora – partindo de um estágio
que nomeio “prefiguração”, aquele em que a narrativa está engajada na vida cotidiana, na
conversa, ainda sem se separar dela para produzir formas literárias. Passarei, em seguida,
ao estágio de um tempo realmente construído, de um tempo narrado, que será o segundo
momento lógico: a “configuração”. E terminarei por aquilo que chamei, na situação de leitura
e de releitura, a “refiguração”.
Seguirei um movimento paralelo pelo lado do construir, para mostrar que podemos também
passar de um momento, de um estágio da “prefiguração” – que vai ligado à idéia, ao ato de
habitar – há aí uma ressonância heideggeriana (habitar e construir) – a um segundo estágio,
mais manifestadamente intervencionista, do ato de construir, para reservar, finalmente, um
terceiro estágio de “refiguração”: a releitura de nossas cidades e de todos nossos lugares de
habitação.

A “prefiguração”
A narrativa, no estágio da prefiguração, é praticada muito antes de ser posta em forma
literária, seja pela história dos historiadores, seja pela ficção literária, desde a epopéia, a
tragédia, até o romance moderno. A prefiguração é, portanto, a “intromissão” na narrativa na
vida, sob a forma da conversação ordinária. Nesse estágio, a narrativa está realmente
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implicada em nossa própria tomada de consciência mais imediata. Hannah Arendt propunha
uma definição em a Condição do Homem Moderno que diz que: a narrativa tem por função
dizer o “quem da ação”. De fato, quando você quer se apresentar a um amigo, você começa
contando-lhe uma pequena história: “eu vivi dessa forma, eu vivi daquela forma”, como uma
maneira de se identificar, no sentido de fazer-se conhecer como você é ou pensa ser. Em
suma, o contato do viver-junto começa pelas narrativas de vida que trocamos. Essas
narrativas somente ganham sentido no intercâmbio das memórias, das vivências e dos
projetos.
O paralelismo, nesse nível de pré-compreensão entre a prática do tempo e a do espaço, é
notável. Antes de realizar qualquer projeto arquitetônico, o homem construiu porque ele
habitou.
A esse respeito, nada adiante se perguntar se habitar precede o construir. Há inicialmente
um construir, pode-se dizer, que está colado à necessidade vital de habitar. É, portanto, do
complexo habitar-construir que se deve partir, pronto a se dar, mais tarde, prioridade ao
construir, ao plano da “configuração”, e, talvez de novo, ao habitar, ao plano da
“refiguração”. Pois é justamente o habitar que o projeto arquitetônico redesenha e que nós
vamos reler.
Certos autores marcados pela psicanálise vêem no “envolvimento” a origem do ato
arquitetural e no “englobamento”, a função original do espaço arquitetônico: paraíso perdido.
Do berço ao quarto, ao bairro, à cidade, poder-se-ia seguir o cordão umbilical rompido pelo
arrancamento que é o nascimento. Mas é apenas a nostalgia que impediria de viver.
Aberturas e distâncias romperam o charme, desde o instante do acesso ao ar livre, e é com
esse ar livre que se deve negociar a partir de agora. No entanto, não se abandona o nível
vital e, nesse sentido, pré-arquitetural que caracteriza o habitar-construir como estando
marcado pelo mundo da vida – o Lebenswelt – por uma diversidade de operações que
exigem o artifício arquitetural: proteger o habitat com um teto, delimita-lo com paredes,
regular as relações entre o dentro e o fora com um jogo de aberturas e fechaduras, significar
com uma entrada a transposição dos limites, esboçar com uma especialização das partes
do habitat, em superfície e em elevação, a designação dos distintos lugares de vida,
portanto, de atividades diferenciadas da vida cotidiana, e em primeiro lugar o ritmo da vigília
e do sono com um tratamento apropriado, embora sumário, do jogo de sombra e luz.
Isso não é tudo. Ainda não se sublinhou em nada as operações do construir que cercam o
ato de permanecer, de parar e de se fixar, que os próprios nômades não ignoram, ato de ser
vivo já nascido, longe da matriz e em busca de um sítio ao ar livre. Ainda não foram
nomeadas as operações de circulação, de ir e vir, que exigem realizações complementares
às que visam fixar o abrigo: o caminho, a estrada, a rua, a praça também contêm construir,
na medida em que os atos que eles guiam fazem parte e eles também do ato de habitar.
Habitar implica ritmos de paradas e de movimentos, de fixação e de deslocamentos. O lugar
não é somente a cavidade onde se fixar, como o definia Aristóteles (a superfície interior do
envelope), mas também o intervalo a percorrer. A cidade é o primeiro envelope dessa
dialética do abrigo e do deslocamento.
Vê-se, assim, nascer simultaneamente a demanda de arquitetura e a demanda de
urbanismo, pois a casa e a cidade soam contemporâneas no habitar-construir primordial.
Assim, como o espaço interior da residência tende a se diferenciar, o espaço exterior do ir-e-
vir tende a se especializar em função das atividades sociais diferenciadas; nesse sentido,
um estado “natural” do homem não pode ser encontrado: está sempre sobre a linha de
fratura e de sutura da natureza e da cultura que o homem considerado “primitivo” se deixa
encontrar.
O que ocorre com o paralelismo entre narratividade e arquitetura, nesse plano da
prefiguração? Quais sinais de referência da narrativa preliterária ao espaço habitado se
pode discernir? Inicialmente, toda história de vida se desenrola em um espaço de vida. A
inscrição da ação no curso das coisas consiste em marcar o espaço com eventos que
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afetam a disposição espacial das coisas. Em seguida, e principalmente, a narrativa de


conversação não se limita a uma troca de memórias, mas é co-extensiva a percursos de
lugar em lugar. Invocou-se, anteriormente, a Proust: a igreja de Combray e´, de algum
modo, o monumento de memória. O que Hannah Arendt chamava “espaço público de
aparição” não é apenas o espaço metafórico de palavras trocadas, mas o espaço material e
terreno. Inversamente, sela ele espaço de fixação ou espaço de circulação, o espaço
construído consiste em um sistema de gestos, de ritos para as interações maiores da vida.
Os lugares são locais onde algo se passa, onde algo chega, onde mudanças temporais
seguem trajetos efetivos ao longo dos intervalos que separam e ligam os lugares. Guardei
em mente a idéia de chronotope, construída por Bakhtin, com o topos – o lugar, o sítio e,
chronos, o tempo. Com isso, eu gostaria de mostrar que aquilo que se constrói em minha
exposição e em nossa história é justamente esse espaço-tempo contado e construído. A
idéia desenvolvida por Evelina Calvi em seu ensaio Tempo e Progetto: L’Architettura comme
narrazione é a que adotei aqui.

A configuração
O segundo estágio da narrativa, que chamo de configuração, é aquele em que o ato de
contar liberta-se do contexto da vida cotidiana e invade a esfera da literatura. Há
inicialmente uma inscrição pela escrita, depois pela técnica narrativa. Vamos ver qual
libertação corresponde, pelo lado de construir, a essa elevação da narrativa da vida
cotidiana ao nível da literatura. Mas eu me deterei, em primeiro lugar, nos traços principais
da narrativa literária, cujo equivalente procurarei.
Retive três idéias, que constituem, aliás, uma progressão no ato de contar. A primeira, que
eu havia situado no centro de uma análise precedente, é a colocação-em-intriga (aquilo que
Aristóteles nomeou como mythos, onde o aspecto ordenado é mais acentuado que o
aspecto fabuloso). Ela consiste em fazer uma história com eventos, portanto em reunir em
uma trama – em italiano se usa uma palavra muito correta: intreccio, a trança. Essa trança,
essa intriga, permite não apenas reunir eventos, mas também aspectos da ação e, em
particular, maneiras de produzi-la, com causas, motivos para agir e também acasos. É Paul
Veyne quem, em sua descrição da história, reúne essas três noções: causa, motivo ou
razão, e acaso. Tudo isso está contido no ato de fazer-narrativa. Trata-se, portanto, de
transformações reguladas. De fato, pode-se dizer que uma narrativa vai transformar uma
situação inicial em uma situação final através de episódios. Ocorre aí uma dialética – cujo
paralelismo interessante com o construir veremos em breve – entre a descontinuidade de
algo que acontece de repente e a continuidade da história que se segue através dessa
descontinuidade. Adotei, então, a idéia da relação entre concordância-discordância. Toda
narrativa contém uma espécie de concordância-discordância, a narrativa moderna
acentuando talvez a discordância às custas da concordância, mas sempre no interior de
uma certa unidade – seja unicamente o fato de haver uma primeira e uma última página no
romance, mesmo que ele seja tão desconstruído quanto o romance moderno; sempre há
uma primeira e uma última palavra.
Segunda idéia depois da colocação-em-intriga: a inteligibilidade, a conquista da
inteligibilidade, pois as narrativas de vida são naturalmente confusas. Retive as análises de
um juiz alemão constatando, quando confrontado a clientes, a acusadores, a acusados, o
caráter inextricável das histórias. Ele havia dado ao seu livro o título de Embaralhados nas
histórias, que meu amigo Jean Gresch traduziu por Enrolados nas histórias.
A narratividade é, pois, uma tentativa de esclarecimento do inextricável; está aí toda a
função dos modos narrativos, dos tipos de intriga. Como resultado, tudo o que será relativo
ao procedimento, ao artifício do contado, é objeto da narratologia. Essa ciência da narrativa
só é possível na medida me que é realizado um primeiro trabalho reflexivo sobre o que
acontece, sobre os eventos, pela colocação-em-intriga, mas também pelos arquétipos que
são os modelos narrativos. A terceira idéia que retenho é a de intertextualidade. A literatura
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consiste justamente em pôr lado a lado, em confrontar textos que são distintos uns dos
outros, mas que mantêm relações que podem ser muito complicadas com o tempo – de
influências, entre outras, mas também de distanciamento -, em uma genealogia da escrita
assim como na contemporaneidade. Sobre as prateleiras de uma biblioteca, o mais
chamativo na classificação por ordem alfabética é o caráter gritante da vizinhança de dois
livros. Veremos que a cidade é freqüentemente dessa natureza: de uma grande
intertextualidade, que pode às vezes tornar-se um grito de oposição.
Penso que é sobre essa intertextualidade que se estabelece todo tipo de operações cada
vez mais sofisticadas na narrativa moderna. a introdução do que se chama as tropes – ou
seja, as figuras de estilo, a ironia, o insignificante, a provocação e, portanto, a possibilidade
não apenas de construir, mas de desconstruir – é, mo limite, um tipo de uso puramente
lúdico da linguagem que se celebra a si mesma, distante das coisas. Em especial, o novo
romance, espécie de laboratório de experimentação, ao se afastar – talvez demais – das
constantes reputadas da narrativa, foi exploratório.
Para resumir, o ato de configuração possui uma tripla estrutura: de um lado, a colocação-
em-intriga, que chamei de “síntese do heterogêneo”; de outro, a inteligibilidade, a tentativa
de esclarecer o inextricável; por último, a confrontação de diversas narrativas, lado a lado,
contra ou umas depois das outras, ou seja, intertextualidade.
Essa “configuração” do tempo pela narrativa literária é um bom guia para interpretar a
“configuração” do espaço pelo projeto arquitetônico. Muito mais do que um simples
paralelismo entre dois atos poéticos, trata-se de uma exibição da dimensão temporal e
narrativa do projeto arquitetônico. No horizonte dessa investigação encontra-se, como
sugerido acima, a manifestação de um espaço-tempo no qual intercambiam-se os valores
narrativos e arquiteturais. Para a clareza dialética, conservei a progressão da análise
precedente, desde o primeiro nível do fazer-narrativo pela intriga até o nível reflexivo de sua
celebração do logos, do ato poético no lúdico, passando pelos níveis da intertextualidade e
da racionalidade narratológica. Ao longo desse eixo vertical, veremos o paralelismo se
estreitar, a ponto de se tornar legitimo falar de narratividade arquitetural.
No primeiro nível, o do fazer arquitetural, portanto paralelo à colocação-em-intriga, a
característica principal do ato “configurador”, a saber, a síntese temporal do heterogêneo,
tem seu equivalente naquilo que eu proporia chamar de uma síntese espacial do
heterogêneo. Observou-se que a plasticidade da construção compõe diversas variáveis
relativamente independentes: as células de espaço, as formas massas, as superfícies
limites. O projeto arquitetônico visa, assim, a criar objetos em que esses diversos aspectos
encontram uma unidade suficiente. Ele não vai até a idéia de concordância discordante, que
não tem sua réplica nas regularidades irregulares que fazem, de algum modo, hesitar a
ordem. Uma obra arquitetônica é, dessa forma, uma mensagem polifônica oferecida a uma
leitura ao mesmo tempo englobadora e analítica. O mesmo vale para a colocação-em-intriga
que, como vimos, não reúne apenas eventos, mas também pontos de vista, a título de
causa, de motivos e de acasos. A colocação-em-intriga estava assim a caminho de sua
transposição do tempo ao espaço pela produção de uma quase-simultaneidade de seus
componentes. A reciprocidade entre o todo e a parte e a circularidade hermenêutica da
interpretação que dela resultava tem sua contrapartida exata nas implicações mútuas dos
componentes da arquitetura.
Por outro lado, a narrativa fornece sua temporalidade exemplar ao ato de construir, de
configurar o espaço. Significa pouco dizer que operação de construir leva tempo. Deve-se
acrescentar que cada prédio novo apresenta em sua construção (ao mesmo tempo ato e
resultado do ato) a memória petrificada do edifício se construindo. O espaço construído é
tempo condensado.
Essa incorporação do tempo ao espaço torna-se ainda mais manifesta se considerarmos o
trabalho simultâneo de “configuração” do ato de construir e aquele do ato de habitar: as
funções de habitação são continuamente “inventadas”, nos dois sentidos da palavra
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(encontrar e criar), ao mesmo tempo que as operações de construção inscritas na


plasticidade do espaço arquitetônico. Pode-se dizer que, ao mesmo tempo, modelam-se o
ato de habitar e a construção resultantes do ato de construir. A referência de umas às outras
das funções de habitação e das formações construtivas consiste em um movimento e em
uma cadeia de movimentos da inteligência arquitetural investida na mobilidade do olhar que
percorre a obra. Da narrativa ao edifício, é a mesma intenção de coerência discordante que
habita a inteligência do narrador e a do construtor, a qual – diremos mais adiante – recorda
a do leitor de signos inscritos. Segundo paralelo no nível da “configuração”: o que eu havia
chamado a inteligibilidade, a passagem do inextricável ao compreensível. É a mesma
inscrição que transporta o ato “configurador” da narrativa em direção ao espaço, a inscrição
em um objeto que dura em virtude de sua coesão, de sua coerência (narrativa, arquitetural).
Se é a escrita que confere duração à coisa literária, é a dureza do material que garante a
duração da coisa construída. Duração, dureza: essa assonância foi muitas vezes percebida
e comentada. A partir daí pode-se passar a um segundo nível, já reflexivo, para se ter a
medida da vitória provisória sobre o efêmero, marcada pelo ato de edificar.
No primeiro nível de reflexividade, temporalidade concerne a história da composição
arquitetônica. Entretanto, eu não vou falar aqui da história escrita sobre arquitetura, mas da
historicidade que o fato de que cada novo edifício surja em meio a prédios já construídos,
que apresentam o mesmo caráter de sedimentação que o “espaço” literário, confere ao ato
“configurativo”. Assim como a narrativa tem seu equivalente no edifício, o fenômeno da
intertextualidade tem o seu na rede dos edifícios que há estão aí que contextualizam o novo
edifício. A historicidade própria dessa contextualização deve ser, uma vez mais, bem
distinguida de uma história científica retrospectiva. Trata-se da historicidade do próprio ato
de inscrever um novo prédio em um espaço já construído que coincide amplamente com o
fenômeno da cidade, a qual revela um ato “configurador” relativamente distinto segundo a
diferenciação entre arquitetura e urbanismo.
É no interior desse ato de inscrição que se dá a relação entre inovação e tradição. Assim
como escritor escreve “depois”, “de acordo” ou “contra”, cada arquitetura se determina em
relação a uma tradição estabelecida. E, na medida que o contexto construído guarda em si o
traço de todas as histórias de vida que forjaram o ato de habitar dos outros citadinos de
outrora, o novo “configurador” projeta novas maneiras de habitar que virão se inserir no
emaranhado dessas histórias de vidas já realizadas. Uma nova dimensão é, assim, dada à
luta contra o efêmero: ela não está mais contida em cada edifício, mas entre suas relações.
Pois é necessário falar de destruir e de reconstruir. Não foi apenas por ódio que se
destruíram símbolos de uma cultura, mas também por negligencia, por desprezo ou
desconhecimento, para substituir o que deixou de agradar por aquilo que o novo gosto
sugere ou impõe. Mas também se reparou, conservou e reconstruiu piamente, às vezes de
forma idêntica, principalmente na Europa do Leste, após as grandes destruições das
guerras do século XX – penso em Dresden. O efêmero não está apenas na natureza, ao
que a arte superpõe sua duração e dureza; ele está também na violência da história, e
ameaça a partir do interior o projeto arquitetônico tomado em sua dimensão “histórica”
própria, especialmente o final deste terrível século XX, com todas suas ruínas que estão
para ser integradas à história em andamento – aliás, encontram-se belas reflexões de
Heidegger, antes da Segunda Guerra Mundial, sobre a ruína, na linha do romantismo
alemão. Outras reflexões feitas sobre o modo menor por alguns intérpretes do projeto
arquitetônico, aproximando-se das idéias de traço, de resíduo, de ruína, podem se autorizar
quanto ao espetáculo da, precariedade nova, oferecido a todos os olhos, o qual a história
acrescenta à vulnerabilidade comum a todas as coisas desse mundo. No nível mais alto de
reflexividade ao qual passamos agora – aquele em que eu havia conduzido a narrativa em
direção ao lúdico -, a arquitetura apresenta um nível de teorização absolutamente
comparável àquele em que, quanto à narrativa, a racionalidade se transforma em jogo
razoável. Pode-se até mesmo dizer que a composição arquitetônica jamais deixou de
estimular a especulação, a história intervindo agora no nível dos valores formais que opõem
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um estilo a outro. O que dá a esses conflitos de escola um contorno particularmente


dramático é o fato de a teorização não dizer respeito unicamente ao ato de construir, mas
também a sua relação presumida com o ato de habitar e com as necessidades
supostamente responsáveis por este último. Pode-se, assim, fazer duas leituras diferentes
das doutrinas em competição.
Primeira leitura: as preocupações formais prevalecendo em tal estilo, de tal escola, estão
próximas do estruturalismo em narratologia, portanto do formalismo. O risco, então, é que as
preocupações ideológicas do construtor sejam mais importantes que as expectativas e as
necessidades derivadas do ato de habitar. É principalmente na “configuração” da Cidade
que se pode ler, através de seu espaço organizado de um modo representativo, a história
sedimentada das formas culturais. A monumentalidade assume, então, sua significação
etimológica maior, que aproxima monumento de documento. Ora, essa primeira leitura não
se limita à interpretação das “configurações” sedimentadas do passado. Ela se projeta
também no futuro da arte de construir, naquilo que merece precisamente o título de projeto
arquitetônico. É assim que, em um passado ainda recente, do qual os construtores atuais se
esforçam em se afastar, os membros da escola de Bauhaus, os fiéis a Mies van der Rohe,
os de Le Corbusier pensaram sua arte de construtores em ligação com os valores de
civilização aos quais eles aderiam, em função do lugar que eles conferiam a sua arte dentro
da história da cultura.
Segunda leitura: o formalismo conceitual encontra seu limite nas representações dos
teóricos quanto às necessidades das populações. De certa forma, essa preocupação jamais
esteve ausente; mas, em um passado ainda próximo, eram apenas consideradas as
expectativas de uma categoria de habitantes (príncipes, dignitários religiosos e depois os
grandes burgueses) e as necessidades de visibilidade gloriosa das instituições dominantes.
A época contemporânea é marcada pela atenção às massas humanas, à multidão que tem
acesso, elas também ou por sua vez, à visibilidade, mas sob o signo da dignidade do que
sob o da glória; mas não se deve concluir que essa abordagem do projeto arquitetônico é
menos ideológica que a precedente, na medida em que é muito freqüentemente a
representação que os “competentes” têm da necessidade de habitar de tais massas que
direciona a especulação sobre o destino da arquitetura – e, infelizmente, as grandes torres
são o sinal disso. Isso explica a reação em sentido inverso daqueles que preconizam um
retorno à arquitetura pura, desligada de toda sociologia e de toda psicologia social, ou seja,
de toda ideologia. Encontramo-nos, então, diante de uma reivindicação perfeitamente
comparável àquela que os teóricos do novo romance fizeram – na celebração da linguagem
– para sua própria glória, tendo as “palavras” se dissociado sem volta das “coisas” e a
representação dando lugar ao jogo. Desse modo, narratividade e arquitetura seguem rumos
históricos semelhantes.

A “refiguração”
Terminarei com algumas reflexões sobre o que, em minhas categorias literárias, chamei de
“refiguração”, e da qual eu gostaria de mostrar o paralelo pelo lado da arquitetura. Com esse
terceiro componente (que é leitura, pelo lado da narrativa), a aproximação entre a narrativa
e a arquitetura se torna mais estreito, até o ponto em que o tempo contado e o espaço
construído intercambiam seus significados.
Tomemos primeiro o partido da narrativa. Deve-se dizer que ele não conclui seu trajeto no
interior do texto, mas em seu vis-à-vis: o leitor, esse protagonista esquecido do
estruturalismo. É a estética da recepção, instaurada por H. R. Jauss e a escola de
Constance, que devemos esse deslocamento de acentuação da escrita para a leitura. A
negação de referencialidade pelos teóricos instruídos por Sausurre encontra-se, assim,
compensado pelo reconhecimento da dialética entre escrita e leitura, pois se trata, sim, de
dialética: retomado e assumido no ato de ler, o texto desenvolve sua capacidade de iluminar
ou de esclarecer a vida do leitor; ele tem, ao mesmo tempo, o poder de descobrir, de revelar
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o escondido, o não-dito de uma vida subtraída a exame socrático, mas também aquele de
transformar a interpretação banal que faz o leitor segundo a inclinação do dia-a-dia. Revelar
(em um sentido de verdade ao qual Heidegger nos tornou sensíveis), mas também
transformar, eis o que traz o texto fora de si próprio.
Mas essa dialética possui duas entradas: pois o leitor vem ao texto com suas expectativas
próprias, e essas expectativas são afrontadas, confrontadas às proposições de sentido do
texto na leitura, qual pode percorrer todas as fases, desde a recepção passiva, ou mesmo
cativa (madame Bovary, leitora de romances ruins!), até a leitura reticente, hostil, colérica,
vizinha da rejeição escandalizada, passando pela leitura ativamente cúmplice. Gostaria de
dizer que é a favor dessa leitura agonística que a própria intertextualidade é encarada como
um grande desafio: o que era um problema de posicionamento em relação aos seus pares,
para o criador torna-se um problema de leitura plural, polêmica, para o amador. Vê-se desde
já qual abertura se apresenta pelo lado do possível, na compreensão de si.
Com relação ao construído, encontramos, ao mesmo tempo, a possibilidade de ler e reler
nossos lugares de vida a partir de nossa maneira de habitar. Direi imediatamente que a
força do modelo de leitura é grande para reavaliar o ato de habitar. Sob o título de
“prefiguração”, habitar e construir ficaram empatados, sem que se possa dizer qual precede
ao outro. Sob o título de “configuração”, é o ato de construir que teve vantagem sob forma
de projeto arquitetônico, ao qual se pode criticar de ser inclinado a não reconhecer as
necessidades dos habitantes ou a projetar essas necessidades acima de suas cabeças.
A partir de agora se deve falar do habitar como resposta ou, até mesmo, como contestação,
ao construir, sobre o modelo do ato agonístico de leitura, pois não basta que um projeto
arquitetônico seja bem pensado, ou mesmo tido como racional, para que ele sela
compreendido e aceito. Todos os planejadores deveriam aprender que um abismo pode
separar as regras de racionalidade de um projeto – aliás, isso vale para toda a política – das
regras de recepção por um público. Deve-se, portanto, aprender a considerar o ato de
habitar como um centro não apenas de necessidades, mas também de expectativas. E a
mesma gama de respostas que podem ser percorridas daqui a pouco: da recepção passiva,
indiferente, sofrida, indiferente à recepção hostil e indignada – mesmo a da torre Eiffel, a sua
época!
Habitar como réplica de construir. E da mesma forma que a recepção do texto literário
inaugura o experimento de uma leitura plural, de uma acolhida paciente feita à
intertextualidade, também o habitar receptivo e ativo implica uma releitura atenta do
ambiente urbano, uma nova reaprendizagem contínua da sobreposição dos estilos e,
portanto, também das histórias de vida das quais todos os edifícios e monumentos carregam
traços. Fazer com que esses traços não sejam apenas resíduos, mas testemunhos
reatualizados do passado que não é mais, mas que foi, fazer com que o ter-sido do passado
seja salvo a despeito de seu não-ser-mais; isto é o que pode a “pedra” que dura.
Enfim, diria que o que reconstruímos é a idéia, que se tornou banal, de “lugar de memória”,
mas como composição pensada, refletida, do espaço e do tempo. Trata-se, na verdade, de
memórias de épocas diferentes que são recapituladas e mantidas em reserva nos lugares
onde elas estão inscritas. E esses lugares de memória exigem um trabalho de memória, no
sentido em que Freud opõe tal trabalho à repetição obsessiva, a qual chama compulsão de
repetição, onde a leitura plural do passado é aniquilada e o equivalente espacial da
intertextualidade é tornado impossível.
O mesmo ocorre tanto com a coisa construída quanto com a literária. Nos dois casos há
competição entre os dois tipos de memória. Para a memória-repetição, nada vale mais do
que o conhecido; o novo é odioso. Para a memória-reconstrução, o novo deve ser acolhido
com curiosidade e com o cuidado de reorganizar o antigo a fim de dar espaço a esse novo.
Trata-se, nada menos, de desfamiliarizar o familiar e de familiarizar o não-familiar. É com
essa leitura plural de nossas cidades que gostaria de terminar, mas não sem antes ter dito
que o trabalho de memória – prefiro, de longe, a expressão “trabalho de memória” à “dever
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de memória”, pois não vejo por que a memória seria um dever, enquanto que o trabalho de
memória é uma exigência de vida – não é possível sem um trabalho de luto.
Fiz alusão às grandes ruínas da Europa da metade do século; não são simplesmente
monumentos perdidos, nem mesmo vidas perdidas, são também épocas; e o que está
perdido é o modo de compreender de outrora. É necessário, portanto, fazer o luto da
compreensão total e admitir que há o inextricável na leitura de nossas cidades. Elas
alternam a glória e a humilhação, a vida e a morte, os eventos fundadores mais violentos e a
doçura de viver. É essa grande recapitulação que realizamos ao fazer sua leitura.
Deixo uma última palavra a um pensador que admiro profundamente, Walter Benjamin. Em
Paris, capital do século XX, ele escreve que: ”o flâneur procura um refúgio em meio à
multidão. A multidão é o véu através do qual a cidade familiar se transforma em
fantasmagoria”. Sejamos os flâneurs dos lugares da memória.

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