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ESPÍRI

ESPÍRI TO SAN
PÍRITO TO D
SANTO A IIT
DA TAPECERI
APE CA
CERICA
Flávio Flora

Intro
Intro dução
trodução

O tema que coloco à apreciação dos ilustres participantes


j1 e assistentes refere-se às origens de Divinópolis – um pon-
to estratégico no meio do sertão, sobre o qual as informa-
ções são escassas e incompletas.

Para tentar suprir parte dessa lacuna, entre 1989 e 2002, rea-
lizamos investigação e levantamentos documentais sobre a
presença do gentio caiapó no sertão dos rios Itapecerica e
Pará. Os resultados foram publicados pela revista A Prova,
j2 patrocinada pela Câmara Municipal de Divinópolis. O relatório
final – apresentado à Comissão de Educação, Ciência e Cul-
tura, em 2002, e publicado na última edição – sugeriu a exis-
tência dos selvagens Candidés, tribo da nação Caiapó, com a
singularidade da cabeça depilada, reluzente.

Paralelamente às buscas por esses primeiros habitantes e


aproveitando a oportunidade da pesquisa no Arquivo Público
Mineiro (APM), Instituto Histórico de Pitangui e Arquivo da Cúria
Diocesana de Mariana, encontramos vários documentos so-
bre a formação e o desenvolvimento do arraial. Narrar os even-
tos políticos e sociais documentados, incluindo o que foi es-
crito por historiadores locais é o objetivo deste ensaio.

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A passagem de pedras escorregadias (Itapecerica) ou po-


j3 pularmente Pecerica (passagem escorregadia, em tupi) –
formada por grandes pedras roliças dispostas de margem
a margem, no meio da correnteza – deu nome ao local e,
depois, à paragem, à capela, ao curato (arraial), à paróquia
e à comarca, que aqui se sucederam e se desenvolveram.!

Referência geográfica limítrofe dos termos da Vila Pitangui


com a Vila São José del-Rey (depois da criação do arraial
do Tamanduá, em 1744), tornou-se cenário de agressões e
disputas violentas entre as duas Câmaras, especialmente
depois da ereção da capela, em 1770.!

j4 Singulares acontecimentos documentados em leis, relató-


rios e correspondências oficiais e particulares, dos perío-
dos colonial e imperial, fornecem dados e informações da
trajetória histórica de Divinópolis, cuja autonomia começou
com o fazendeiro João Pimenta Ferreira e prosseguiu com
o farmacêutico Pedro X. Gontijo.!

O estudo desse material pode oferecer uma explicação plau-


sível para a importância do arraial na vida política de cinco
vilas coloniais e revelar algumas qualidades dos antigos
moradores que passaram à identidade social dos
divinopolitanos. Coragem? Perseverança? Senso de opor-
tunidade? Solidariedade? Caridade? Ainda não se sabe.

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Levan
Levante d
ante e Pitangui
de

Antes da abertura da Picada, nossa região era habitada ape-


nas pelos caiapó, que dominavam o Alto São Francisco, de
lado a lado, e não facilitavam as coisas para os estranhos.
j5 Mas, mesmo assim, depois de 1709 (com fim da guerra dos
emboabas), a região do rio Pitangui (Pará), foi penetrada por
vários mineradores paulistas de Sabará, Mariana e São João.
Entravam pelas trilhas de Itatiaiuçu, Brumado e Passa Tempo
e desciam pela margem direita dos rios Pará e São João.1

Outra entrada pode ter ocorrido no Levante de Pitangui,2 a


partir de 1715, criação da vila. Diante do clima de guerra
instalado na localidade, por conta de excessivos impostos
cobrados dos mineradores, muitos fazendeiros deixaram a
vila entregue à milícia do capitão-mor Domingos Rodrigues
j6 do Prado e enveredaram rio acima. Era iminente um con-
fronto com as tropas do Conde de Assumar, o que acabou
acontecendo em 1719, com o massacre dos milicianos lo-
cais, atacados de surpresa em várias frentes.3

Depois desse acontecimento, Pitangui (apenas um novo ar-


raial desabitado nos confins da Capitania de São Paulo e Mi-
nas do Ouro) passou a pertencer à Comarca do Rio das Ve-
lhas (Sabará), estabelecendo-se os limites territoriais do seu
j7 termo. Essa medida fez com que muitos voltassem e reto-
massem os antigos lares e propriedades. A vila tornou-se o
maior centro urbano do oeste de Minas, no séc. XVIII.4

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Dos que permaneceram nos sertões do rio Pará, quase nada


se sabe. Temos apenas a notícia de que os pais de Bento
da Costa de Oliveira lhe deixaram de herança uma fazenda
de engenhos e mato, no Macuco (rio Pará), formada nos
idos de 1719, da qual só obteve escritura em 1759.5

Em 1735, o guarda-mor Feliciano Cardozo de Camargo e


seu grupo foram os primeiros a descer o ribeirão Tamanduá
até a Itapecerica “na diligência de achar ouro”. Mas um ata-
que dos caiapó matou cinco dos seus companheiros (que
foram assados e comidos), e espantou os aventureiros.6

A Pica
Pica da d
cada e Go
de iás
Goiás

O ano de 1736 foi importante para a colonização de Minas, en-


tão sob governo interino do Comissário Real Martinho de Men-
donça de Pina e Proença. No seu rápido mandato, além de
reestruturar o governo e regulamentar os impostos, combateu
amotinados do rio São Francisco e promoveu o povoamento do
oeste mineiro, autorizando a formação de duas bandeiras parti-
culares para devassar o Campo Grande.7

A Picada de Goiás foi aberta pelo coronel Matias Barbosa


da Silva, o cabeça-de-ferro (desde São João del-Rey); e o
caminho de Pitangui-Paracatu pelo bandeirante Domingos
de Brito, que tinha ao seu lado o jovem sertanista Manoel
Fernandes Teixeira, nosso conhecido.8

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j8 O traçado da Picada de Goiás saía de S. João, pela nova


estrada de Mariana e, depois, entrava pelas cabeceiras do
ribeirão Boa Vista (na altura de Oliveira), descendo pelo
seu lado direito até a Itapecerica. Daqui seguia em direção
da Serra Negra e depois, pelas nascentes do rio Lambari,
em direção da Piraquara (Bom Despacho). A Picada con-
tornava o termo de Pitangui, até chegar a Paracatu.9

Dois participantes dessa bandeira montaram acampamentos


para exploração das vizinhanças da passagem: o guarda-mor
Feliciano Cardozo de Camargo, que (pela segunda vez) en-
trou no sertão do rio da Itapecerica, vindo a descobrir, final-
mente, as jazidas de Tamanduá (só comunicadas três anos
depois à Câmara de São José); e o sertanista Tomás Teixeira,
que preferiu fixar-se no Picão (Bom Despacho), e só a partir
de 1748, vir estabelecer-se na Itapecerica, como contratador,
sócio do capitão-de-entradas Francisco de Araujo e Sá.!

Esse primeiro caminho foi abandonado um ano depois de-


vido à perigosa presença dos caiapó e os ataques de es-
cravos que se agrupavam em mocambos pela rota recém-
aberta. Apesar da proibição de seu uso, a picada contribuiu
muito para a expansão da temida e combatida confedera-
ção do Quilombo do Ambrósio, que dominava a maior parte
do Campo Grande. E mesmo com a mortandade provocada
pelas expedições militares de extermínio de quilombolas e
caiapó, a rota preferida pelos escravos em fuga, contra-
bandistas e aventureiros ainda era esta.10

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Ponto estratégi
estratégi co
tégic

Em 1744, na retificação do território de São José del-Rey, em


virtude da posse das minas do Tamanduá, a Câmara de
Pitangui sentiu-se prejudicada pela ousadia daquelas autori-
dades. Elas haviam descido o ribeirão Tamanduá, depois o rio
da Itapecerica e avançaram até sua barra no Pará, plantando
ali um marco da Câmara de São José, com todas as cerimôni-
j9 as, quase três léguas abaixo da referência oficial.11

Foi um desrespeito às jurisdições de Pitangui e da Comarca


do Rio das Velhas, estabelecidas em 1719, cuja linha divisó-
ria passava pelo Calhau de Lima (Cajurú), pela Serra Negra e
pelas Minas do Tamandoá. O ato foi motivo de reclamação ao
governador Gomes Freire de Andrade, que reconheceu os do-
mínios de Pitangui sobre as paragens da Itapecerica, Serra
Negra e Piraquara, mas confirmou o novo marco de São José
j 10 na confluência dos ribeirões Boa Vista e Tamanduá, começo
do rio da Itapecerica (Lat: -20.220 Lon: -44.913), deixando
Pitangui sem as minas.12, 13, 14, 15

Esse parece ser um dos principais motivos de Pitangui esta-


belecer na paragem o capitão-de-entradas Francisco de Ara-
újo e Sá e o capitão-do-mato Francisco Ferreira Fontes (ca-
çador de escravos fugidos) que são os dois primeiros mora-
dores do lugar (com familiares, escravos e camaradas). Ao
assumir a contratação da passagem (1748), o sertanista To-
más Teixeira tornou-se o terceiro morador, aqui vivendo com
sua segunda família.16

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Com a morte de Tomás, em 1754, Francisco Ferreira Fon-


tes assumiu a contratação da passagem, mantendo discre-
tas relações com quilombolas num novo acordo de traba-
lho, que transformou um pequeno mocambo em rentável
fazenda de negócios de mantimentos, criação de gado e
cavalariças, para a qual se mudou anos mais tarde, quan-
do sua sesmaria foi ali concedida. Em 1754 ainda, um com-
padre do capitão Francisco de Araújo e Sá, o sargento-mor
Gabriel da Silva Pereira, também veio morar na Pecerica,
obtendo uma sesmaria no rio Pará pelos serviços de Orde-
nanças na região.17, 18

Outro oficial superior de Ordenanças de Pitangui que tinha


morada no sertão do rio Pará, próximo à Itapecerica, era o
capitão-mor Francisco da Costa Ribeiro, que aparece na es-
critura de Bento da Costa Oliveira como vizinho, em 1759.17

A forte presença policial na região é um indício da impor-


tância que Pitangui dava ao lugar. Na Itapecerica, mora-
vam, além do capitão-mor, do sargento-mor e do capitão-
de-entradas, um capitão-do-mato (que se tornou contratador
da passagem e depois almotacé) e um Juiz de Vintena.!

O que justificaria toda essa força oficial de terceira linha no


lugar? Seria o funcionamento de uma “fortaleza” para apri-
sionamento de escravos fugitivos e guarda do confisco de
ouro em pó e diamantes ou uma força regional para pôr
ordem e sossego público nas paragens e adjacências, em
vista da expansão do arraial de Tamanduá?

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A ffo
omação do arraial
do

Com o passar dos anos e o ir e vir pelo sertão, a passagem


transformou-se na conhecida “paragem da Itapecerica”, ad-
quirindo ares de povoado. Ali perto, a sudeste, ficava o en-
troncamento de Itatiaiuçu que levava a todas as vilas cen-
trais; a oeste (noroeste e sudoeste), grandes áreas de ma-
tos e ribeiros sendo explorados (e por explorar) e paragens.!

A Itapecerica abria-se para uma vasta região habitada pelos


caiapó – antropófagos, curiosos, barulhentos e ferozes na de-
fesa de suas aldeias e territórios de caça, mas pacíficos, se
j 11 não incomodados. Essa característica facilitava a formação
de pequenos mocambos e sítios isolados nos campos e nos
vales dos rios Lambari, Itapecerica e Pará.!

Em 1764, haviam dezenas de fazendas localizadas em tor-


no das duas referências principais: a da Itapecerica, com
mais moradores, e a da Serra Negra, que se formava com
gente de São João, São José e Tamanduá.17

j 12 Nesse ano, provavelmente por algum motivo familiar, um


dos mais antigos fazendeiros do Sertão da Itapecerica João
Pimenta Ferreira mudou-se com seus familiares para Onça
do Pitangui, abandonando (de certa forma) uma larga faixa
de terras que ia da Itapecerica à Serra Negra, a qual, cinco
anos depois, converteu-se em devoluta.!

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Dos pioneiros que vieram morar no Sertão do rio Itapeceri-


ca, João Pimenta Ferreira, sem sombra de dúvida, se des-
j 13 taca como principal protagonista da fundação do arraial. Ho-
mem de visão futurista, religioso, solidário, foi ele quem teve
a iniciativa de “fabricar” a capela, visitar os fazendeiros da
região em busca de apoio financeiro e tomar as providênci-
as legais.!

j 14 Na primeira Súplica ao Ordinário do Bispado de Mariana, João


Pimenta Ferreira relatou ao escrivão o desconforto da falta de
cemitério, que obrigava os moradores a deixarem seus mor-
tos “para sustento dos bichos do mato” quando não se obti-
nham os efeitos da “Guaxyma” (espécie de arbusto utilizado
como remédio caseiro contra diversos males e outros usos).19

Também destacava os problemas com a transposição dos rios


Pará e Itapecerica, “invasiáveis”, que permitiam ser atraves-
sados “só no rigor da seca”. E ressaltava que para se chegar
à Matriz mais próxima, que era a de São Bento do Tamanduá,
era preciso enfrentar “rigoroso trabalho de os selvagens pa-
gãos”, que vadeavam pela região.19

A Súplica registra ainda que todos foram visitados, apoiavam


e pediam a Provisão. A comunidade de mais de “sincoenta
fogos”, constantes do “rol” anexado, comprometia-se a orna-
mentar, adquirir imagens e custear as despesas da “capella”.19

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A Provisão foi dada em 13 de janeiro de 1767, constando


de um despacho, no canto superior esquerdo da própria
Súplica, autorizando a ereção da capela do Divino Espírito
Santo e São Francisco de Paula.19

Ao final do documento, uma anotação do vistoriador confirma


a existência da capela e terreno para o adro e atesta sua per-
feita condição para servir aos ofícios religiosos. Esse teste-
munho indica que ele esteve na paragem, no ano anterior,
para verificar as condições da localidade e encontrou a cape-
la pronta.19

Nos três anos seguintes, os mesmos 50 moradores – ani-


mados por João Pimenta Ferreira com a possibilidade do
lugar tornar-se arraial, ter um pároco residente e mais au-
tonomia em relação às Vilas rivais – decidiram prosseguir
com os trâmites e obter esses benefícios do curato.!

Nessa época, o conhecido sertanista Manoel Fernandes


Teixeira, então viúvo, em Pitangui, às voltas com quatro filhos
menores e com sérias dificuldades financeiras, conheceu a
jovem Maria Alves Ferreira e com ela se casou.17, 20 Vieram
morar na Itapecerica, ele se assenhoreando de terras devolutas
deixadas pelo sogro João Pimenta Ferreira, reservando 40
alqueires para a capela, um sítio para si na paragem e ven-
dendo outras partes para novos moradores. O sogro era seu
avalista em alguns negócios levados à cobrança judicial.!

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Em 24 de março de 1770, João Pimenta Ferreira voltou ao


Bispado, em Mariana, desta vez acompanhado do genro
Manoel e de outros cinco moradores, para fazer nova Súplica
j 15 (requerendo o curato) e providenciar a ampliação do patrimônio
da capela, já fabricada e erigida, segundo informa. Agora se-
ria o caso de acrescentar uma morada de casas, para abrigar
e receber os párocos e missionários religiosos, um capão de
40 alqueires de mato e a garantia de uma renda anual de 20
oitavas de ouro (70 gramas) para as despesas litúrgicas.21

Nessa mesma manhã (era um sábado), Manoel Fernandes


Teixeira, no Cartório de Francisco do Rego Andrade, com-
provou a posse das terras devolutas e passou a escritura
de doação do patrimônio à capela. Enquanto isso, seu so-
j 16 gro e os outros moradores foram prestavar depoimentos
junto ao Ordinário, comprovando as informações fornecidas
nas Súplicas e recebendo as determinações eclesiásticas;
tudo reduzido a termos e publicado.22

j 17 À tarde, a comitiva da Itapecerica entregou a escritura de


doação do patrimônio à Cúria Diocesana, comprometendo-
se a pagar os procedimentos cartoriais.23

Na segunda-feira 26, foram publicadas as duas Súplicas,


todos os depoimentos e a escritura de doação, esperando-
se mais três dias para finalização do processo, que culmi-
j 18 naria com o pagamento das custas finais. Na quarta-feira
28, a comitiva pagou as despesas processuais, no valor de
11$455 contos de réis.25

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Com as Provisões para colocação do símbolo do Divino


Espírito Santo e a imagem benta de São Francisco de Paula
e para ser benzida e aberta à visitação, estavam termina-
dos os processos de ereção e curato da capela: 29 de mar-
ço de 1770. Agora, a paragem da Itapecerica, passara a se
chamar “arraial do Espírito Santo da Itapecerica”, nome ofi-
cializado pela Câmara de Pitangui, na sede da Comarca de
Sabará, no mesmo ano.!

Não se tem notícia de que o capelão de Sant’Ana, seja do Rio


São João Acima ou do Bamboy, tenha vindo benzer a capela,
como determinado pela Cúria. É mais provável que, por estar
mais perto de Tamanduá, ela tenha recebido a bênção do pa-
dre Gaspar Álvares Gondin, da matriz de São Bento (que fa-
zia visitas regulares à paragem). É provável também que ela
fosse assistida, nos primeiros anos, pelos padres que mora-
vam nas proximidades: Pe. José Gomes (morador da Cacho-
eira Grande do Rio Pará), Pe. Luiz Antônio Xavier (morador
da Serra Negra) e Pe. Leonardo Francisco Palhano – que com-
prou terras de Manoel Fernandes Teixeira, no Alto Paranaíba,
em 1738, e agora (1770) viera residir no sertão da Itapeceri-
ca, em terras compradas do mesmo Manoel.17, 18, !

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Violên
Vio cia po
lência líti
política
lítica

A vinda do experiente sertanista Manoel Fernandes Teixeira


para a Itapecerica reforçou a permanência de fazendeiros
mais antigos e atraiu novos moradores, que deixaram raízes
na região. Apenas um deles não conseguiu se dar bem no
arraial: o jovem João Pinto Caldeira, que, apesar da dispo-
sição juvenil, não lhe agradava as custosas atividades ru-
rais, levando-o a contrair muitas dívidas e causar proble-
mas, inclusive aos familiares de Manoel Pinto Caldeira (seus
parentes da Serra Negra). Por assediar as mulheres e jo-
vens escravas com obscenidades e provocar desentendi-
mentos e brigas, foi expulso do arraial pelo Juiz de Vintena
João Ribeiro Valdoz e Francisco Ferreira Fontes, recém no-
meado almotacé de Pitangui.18

Ressentido com o tratamento recebido, dirigiu-se à Câma-


ra de São José, alistando-se em uma das expedições orga-
nizadas pelo Mestre-de-Campo Inácio Correa Pamploma
para dar combate aos caiapó e negros aquilombados, tor-
nando-se capitão, em curto espaço de tempo.!

Em 1772, a Câmara de São José inconformada com o cresci-


mento do arraial fora de sua jurisdição, enviou um Juiz de
Sesmarias, um escrivão e um “piloto” para certificar-se de que
as sesmarias concedidas e aprovadas estavam regularizadas.
Estes foram presos e levados para Pitangui, provocando forte
reação da Câmara rival. Reação que se materializou no ano
seguinte, com “mãos armadas”.13

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No posto de capitão, investido no cargo de almotacé, João


Pinto Caldeira reapareceu na Itapecerica, com uma esqua-
dra de 20 soldados pedestres. Vinha com a missão de pren-
der o Juiz de Vintena João Ribeiro Valdoz e o almotacé Fran-
cisco Ferreira Fontes e quem se opusesse à sua presença
no arraial. E assim foi feito: “espancando-os ferindo-os mal-
tratando-os juizando-os aos pés de negros e mulatos
arracando-lhes as varas e lançando-os [...] com desprezo
de palavras”, segundo descreve a própria rainha D. Maria I,
em carta repreensiva às autoridades de São José, reco-
nhecendo o domínio de Pitangui na região.12

Depois desses eventos, o arraial voltou a ficar relativamen-


te sossegado, durante uns dez anos, com sua capela qua-
se sempre fechada, sem um pároco residente e dependen-
do da boa vontade dos padres-fazendeiros. A convivência
dos moradores com o gentio tornara-se mais tranquila, não
havendo mais tantos caiapó na região.!

Mesmo assim, em 1782, uma divisão da Legião da Conquis-


ta, sediada em São Bento do Tamanduá e comandada pelo
capitão João Pinto Caldeira (nomeado Comandante do Cam-
po Grande), lançou forte ofensiva contra os negros
aquilombados no centro-oeste. Nessa investida, além das
centenas de negros, muitos caiapó da cabeça-limpa também
foram mortos. Os sobreviventes, assustados, finalmente aban-
donaram suas terras, propiciando novas ocupações.10, 26, 27

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Após a expulsão definitiva dos quilombolas e caiapó, em 1785,


surgiu o primeiro pároco dedicado. Era um professor de For-
miga, José Carvalho Trindade, que, após ter ficado viúvo, or-
denou-se padre, vindo à capela da Itapecerica iniciar seu sa-
cerdócio e criar sua família. Viveu aqui durante quinze anos.28

Nesse tempo, o sossego no arraial e nas redondezas só foi


quebrado quando autoridades e fazendeiros do distrito de
Tamanduá começaram a trabalhar pela criação da Vila de
São Bento, em 1789, estabelecendo novos limites para seu
território. Com os novos marcos, surgiram as divergências
e os confrontos, porém, agora, envolvendo moradores anti-
gos e novos e autoridades de ambos os lados.!

A situação ficou tão tensa que o governo do Visconde de


Barbacena não teve outra saída a não ser promover uma
conferência entre os almotacéis de Pitangui, São José e
Tamanduá e os fazendeiros. Estes deveriam comprovar
suas propriedades e decidir por voto, a qual termo perten-
cer. Nesta conferência também assistiam enviados das
Comarcas do Rio das Velhas (Sabará) e do Rio das Mortes
(São João del-Rey).18

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Durante três dias, o evento movimentou o arraial, consta-


tando-se que o Espírito Santo da Itapecerica continuaria no
termo de Pitangui (e Comarca de Sabará), por decisão dos
fazendeiros, mas não o povoado da Serra Negra da Itape-
cerica, que passaria a pertencer a São Bento do Tamanduá,
como queriam seus moradores. É o que constou do relató-
rio escrito em 12/09/1790, pelo alferes comandante Bento
Garcez de Almeida Grant, que presidiu as audiências e con-
cluiu que, pelos documentos e mapas apresentados, as de-
marcações foram feitas sem “retas intenções”.18

Violên
Vio cia rreligi
lência eligiosa
eligiosa

Depois dessa pacificação das Vilas rivais, junto das cinquenta


famílias originais – ao tempo da fundação do arraial, soman-
do pouco mais de 600 pessoas, incluindo familiares, escravos
e camaradas contratados – fixaram-se novos moradores defi-
nitivos. Lentamente, a Itapecerica transformou-se num atra-
ente arraial, com uma população estimada em 1.154 habitan-
tes (censo de 1813), de maioria negra e livre.18

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No ano em que o arraial seria, finalmente, beneficiado pelo


curato (1830), o antigo símbolo da união das cinquenta fa-
mílias do Sertão do Rio Itapecerica – a capela do Divino
Espírito Santo e São Francisco de Paula – foi destruída por
estrepitoso incêndio.28, !

Esse ato de terror pôs fim a muitos registros de atividades


religiosas dos primeiros moradores e marcou profundamente
a sociedade local. Foi o reinício das disputas políticas pela
posse do arraial, que culminaram com a sua transferência,
em 1839, para o município de São Bento do Tamanduá,
sob grave crise político-religiosa.!

j 19 Com o incêndio da capela, terminamos este ensaio sobre


os fundadores de Divinópolis e os eventos que marcaram
época, na segunda metade do século XVIII, não só na his-
tória local, mas na história da capitania de Minas – no capí-
tulo do povoamento do centro-oeste.

j 20 Espírito comunitário, solidariedade, religiosidade e coragem


parecem ter sido as qualidades conferidas a Divinópolis,
em seu nascimento.

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ESPÍRITO SANTO DA ITAPECERICA Flávio Flora 4/11/2010 Seminário “História e Memória” de Divinópolis, MG
REFERÊNCIAS
1 Carta do governador D. Brás Baltasar da Silveira, de 01/09/1713, informando de sua
AP
visita ao arraial de Pitangui e dos estranhamentos entre paulistas e reinóis (AP
APMM,
Cod. 4, fl. 325).

2 DINIZ, Sílvio Gabriel. Pesquisan


esquisanddo a história d
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Pitangui. Belo Horizonte: Edição
Comemorativa do 250o aniversário de Pitangui, 1965.

3 AQUINO, Rubens Santos Leão de et al. So ci


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eira: uma história através
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de movimentos sociais. 5 . ed. Rio de janeiro: Ed. Record, 2007.

4 ANASTASIA, Carla Maria Junho. Vassal os R


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na primeira metade do século XVIII. Belo Horizonte: C/Arte, 1998, p.88.

5 BARRETO, Lázaro. Memorial d


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6 Carta da Câmara de São Bento do Tamanduá, de 20 de julho de 1793, à rainha D.


Matia I, descrevendo a abragência do seu Termo e fazendo referências à “descober-
tas das Minas do Tamanduá” (RRevista AP
APMM . Ouro Preto: 1897, Ano II, fasc. 2, p. 378)

7 CAVALCANTI, Irenilda Reinalda Barreto de Rangel Moreira. O Co Comissári


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8 BARBOSA, Waldemar de Almeida. Picada de Goiás. In: Di Dici


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co-g eo-
gráfic
gráfi co d
dee Min as Ge
Minas rais
Gerais
rais. Edição Comemorativa dos Dois Séculos e Meio da Capita-
nia de Minas Gerais. Belo Horizonte: Promoção-da-Família Editora,1971, 549p.

9 BARBOSA, Waldemar de Almeida. A Picada de Goiás. Revista de História e Arte


de Arte,
Belo Horizonte, n. 2, pp 35-43, s/d.

10 BARBOSA, Waldemar de Almeida. A d deca


ecadên
eca dência
dên as e a fuga da min
minas
cia das min era
mine ra--
ção. Belo Horizonte: UFMG, Centro de Estudos Mineiros, s/d, 230 p.
ção

11 Carta da Câmara de Pitangui, de 31 de dezembro de 1775, à Rainha D. Maria Isobre


as “Terras de Itapesserica e Serra Negra” violadas pelos oficiais da Câmara de São
José del-Rey. (Reproduzida parcialmente por BARRETO, Lázaro. Mem orial d
emo dee Di vi
vi--
Divi
nópo lis
nópolis
lis, Divinópolis: Prefeitura Municipal, 1992)

12 Carta-resposta da rainha D. Maria I, em 6 de agosto de 1779, repropduz o conteúdo


principal da queixa da Câmara de Pitangui e repreende a “cobissa” de São José
del-Rey. (Reproduzida parcialmente por BARRETO, Lázaro. Mem emoorial d
dee Di vinópo-
Divinópo-
lis
lis, Divinópolis: Prefeitura Municipal, 1992)

ESPÍRITO SANTO DA ITAPECERICA Flávio Flora 4/11/2010 Seminário “História e Memória” de Divinópolis, MG
13 Carta-resposta da Câmara de São José del-Rey à rainha D. Maria I, [s/d], justifi-
cando o rompimento dos limites, referindo-se ao “escandalozo caso” da prisão de
autoridades de São Jose. (Reproduzida parcialmente por BARRETO, Lázaro.
Mem orial d
emo dee Di vinópo
Divinópo lis
vinópolis
lis, Divinópolis: Prefeitura Municipal, 1992)

14 Mapa da região da Itapecerica, com demarcações de vários arraiais e capelas.


Encarte do livro "Cadernos de Arquivo-1 - A Escravidão em Minas", APM, 1988.

15 Mapa da Comarca de Sabará. Levantamento de Bernardo José da Gama. Situa-


ção até 17/05/1813. Pontos de latitude segundo observação do Jezuita Padre Capacy.
Possível autoria "B.R. Baker Lithg. The writing by J. Netherclift" - Contém legenda.

16 DIOMAR, Oswaldo. Do inventário de Tomás Teixeira. Arqui


Arqui vo Ju
quiv di
Judi ciári
diciári od
ciário e Pitangui
de
(XXII, 466). Carta de 8 de junho de 2002 (em mãos). Divinópolis.

17 BARRETO, Lázaro. Memorial d


emo e Di
de vinópo
Divinópo lis
vinópolis
lis. Divinópolis: Gráfica Serfor, 1992, 268p.

18 BARBOSA, Waldemar de Almeida. Divinópolis. In: Dici


Dici onári
cio o históri
nário históricco-geográfi
o-geográfi co
eográfic
de Min as Ge
Minas rais
Gerais
rais. Edição Comemorativa dos Dois Séculos e Meio da Capitania de
Minas Gerais. Belo Horizonte: Promoção-da-Família Editora,1971, 549p.

19 Súplica de João Pimenta Ferreira, em nome de 50 moradores, para ereção da


capela ao Espirito Santo e São Francisco de Paula, na Itapecerica. 13/01/1767, em
Mariana. 2 fls. [C/ parecer do vistoriador e despacho frontal autorizativo].

20 DIOMAR, Oswaldo. Sobre o casamento de Manoel Fernandes Teixeira e sua mor-


te. Ar qui
Arqui
quivvo Ju di
Judi ciári
diciári od
ciário e Pitangui (XXII, 237). Carta de 8 de junho de 2002 (em mãos).
de
Divinópolis.

21 Súplica de João Pimenta Ferreira, em nome de 50 moradores, para elevação da


capela do Espirito Santo e São Francisco de Paula a curato, primeira condição de
arraial. 24/03/1770, em Mariana. [C/ parecer do promotor e despacho autorizativo]

22 Relatório circunstanciado da audiência com moradores da Itapecerica, sobre a


edificação da igreja, e instruções canônicas sobre o Ritual Romano a ser praticado
na capela. 24/03/1770.

23 Escritura de doação do “Patrimônio da Capela do Divino Espírito Santo e São


Francisco de Paula”, situada na Itapecerica, freguesia de Pitangui, 24/03/1770.

24 Certidões de publicação do escrivão e do promotor, confirmando a situação da


capela, seu patrimônio, a disposição dos moradores de fazê-la funcionar e os cus-
tos processuais totais a serem pagos.

25 Recibo detalhado das despesas pagas com o processo de transformação da pa-


ragem em arraial, ereção e curato da capela do Divino Espírito Santo e São Fran-
cisco de Paula. 28/03/1770.

ESPÍRITO SANTO DA ITAPECERICA Flávio Flora 4/11/2010 Seminário “História e Memória” de Divinópolis, MG
26 SOUZA, Laura de Melo e. Violência e práticas culturais no cotidiano de uma
expedição contra quilombolas – Minas Gerais, 1769. In: REIS, João José. Liberdade
por um fio. São Paulo: Companhia das Letras, s/d, pp. 192-212.

27 Correspondência de Luís da Cunha Meneses, Governador de Minas Gerais, para


Martinho de Melo e Castro, 21/12/1783, encaminhando carta de José Pinto da Fonse-
ca, sobre os resultados da campanha de Pamplona, em 1782. [APM, Arquivo Históri-
co Ultramarino - Conselho Ultramarino - Brasilç/MG cx. 120. Doc. 57]

28 AZEVEDO, Francisco Gontijo de; AZEVEDO, Antônio Gontijo de. Da história d


dee
Di vinópo
Divinópo lis
vinópolis
lis. Belo Horizonte: Graphilivros Editores, 1988, 156p.

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ESPÍRITO SANTO DA ITAPECERICA Flávio Flora 4/11/2010 Seminário “História e Memória” de Divinópolis, MG
A revista A Prova, em sua segunda fase, a partir de 1989,
vem expondo à crítica e ao debate as lendas, as notícias e
os fatos históricos, proporcionando uma achega mais pró-
xima da verdade sobre as origens de Divinópolis. A Prova
foi a publicação que deu início à pesquisa da história da
Itapecerica, do padroeiro esquecido São Francisco de Paula
e da presença dos candidés. Os eventos históricos desco-
bertos foram evoluindo com as reiteradas pesquisas em bus-
ca dos primeiros moradores, os verdadeiros fundadores do
arraial, as atrocuidades cometidas no lugar, a sua impor-
tância geográfica estratégica, a evidenciação da grave cri-
se religiosa, no séc. XIX, a mudança do nome etc.

Por falta de informações concretas ou mesmo falta delas,


alguns nomes e datas sairam incorretas, que o prossegui-
mento das pesquisas e os novos estudos vieram corrigir.

A monografia que hoje apresento, vem para corrigir de cer-


ta forma esses desacertos não intencionais, porque acredi-
to que verdade vencerá, apesar destes tempos nada frater-
nos. Sem esses pequeninos enganos, não teríamos avan-
çado nesse campo e a revista A Prova, não teria cumprido
seus objetvos, sendo a primeira publicação a desvendar os
acontecimentos do século XVIII.

Também vejo a história como limão. É preciso espremê-lo


para se lhe tirar o caldo, que deve ser usado pelos vivos,
não pelos mortos. E não há estudo algum, por mais abstra-
to que pareça, que não traga resultados práticos.

ESPÍRITO SANTO DA ITAPECERICA Flávio Flora 4/11/2010 Seminário “História e Memória” de Divinópolis, MG

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