P. 1
DESCARTES - principios da filosofia tradução - parte 01

DESCARTES - principios da filosofia tradução - parte 01

|Views: 2.967|Likes:
Publicado porHumberto Yassuo

More info:

Published by: Humberto Yassuo on Feb 20, 2011
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

10/18/2014

pdf

text

original

PRINCIPIORUM PHILOSOPHIAE PARS PRIMA

Nota preliminar dos tradutores

volume 2 número 1 1997

40

A tradução do primeiro livro dos Principia Philosophiae de R. Descartes é um trabalho coletivo do Seminário Filosofia da Linguagem. Dele participaram os seguintes membros do SFL: Raul Landim Filho, Ethel Menezes Rocha, Marcos Gleizer e Guido Antônio de Almeida (coordenador da tradução). Também deram sua contribuição os pesquisadores Ulysses Pinheiro e Simone Brantes. Agradecemos aos professores Jean-Marie Beyssade, Michelle Beyssade e Marco Zingano, que foram consultados sobre algumas dificuldades de interpretação e tradução do texto cartesiano. A publicação na revista Analytica de uma parte dessa tradução (§§ 1-24) tem um objetivo exprimental, que é o de colher sugestões e críticas antes da publicação do texto definitivo. Não há, para a maioria das expressões de uma língua, uma maneira de traduzir que possa ser considerada a única possível. Isso acarreta que nenhuma tradução pode atingir aquele ideal de perfeição que lhe permitiria ser considerada a tradução. Por esmerada que seja, uma tradução não passa de uma aproximação mais ou menos bem sucedida desse ideal. No caso de um texto filosófico, acreditamos que a melhor aproximação é a tradução tão literal quanto possível, isto é, tanto quanto o permita o bom estilo e a facilidade de compreensão. Numa palavra: um português castiço e fluente. Com efeito, uma tradução literal, ou tão literal quanto possível, diminui ao mínimo as decisões interpretativas e assegura assim ao leitor que não conhece a língua do autor não só a compreensão do que ele quis dizer, mas também - e isso tem sua importância na Filosofia - do modo como ele quis dizê-lo. Além disso, acreditamos que uma tradução literal (nos limites indicados) também aproveita a quem já possui um certo domínio da língua do autor, mas que ainda precisa de uma tradução confiável para guiá-lo nos passos de sua leitura, e isso não só no que toca à compreensão das palavras isoladas, mas sobretudo no que respeita à estrutura das frases. Para esse fim, de resto, achamos útil pôr entre colchetes [ ] em nossa tradução as palavras que não correspondem diretamente a nenhuma expressão

PRIMEIRA PARTE DOS PRINCÍPIOS DA FILOSOFIA

usada no original, mas que acreditamos estarem implícitas e ser útil explicitar, seja para facilitar a compreensão, seja por razões meramente estilísticas. Em conseqüência dessa opção pela literalidade, a tradução que aqui apresentamos está mais próxima do espírito com que o Duque de Luynes pôs em francês as Meditationes de Prima Philosophia, do que da tradução francesa dos Principia pelo padre Picot. Esta é, muitas vezes uma bela paráfrase que não hesita diante de interpolações para aclarar ou completar o sentido do texto original. Nem por isso, é verdade, a tradução do padre Picot deixa de ser uma boa tradução, a qual, aliás, foi feita, como se sabe, com o conhecimento senão com a aprovação de Descartes. Acreditamos, porém, que um leitor, interessado em encontrar por si mesmo o sentido da filosofia cartesiana a partir das palavras mesmas de seu autor, também há de considerar proveitosa uma tradução mais literal, como a que nos propusemos fazer. O texto latino aqui reproduzido é o da primeira edição (1644), segundo a edição fac-símile de J.R. Armogathe e G. Belgioioso, publicada na Itália em 1994 por Conte Editore. A ortografia foi atualizada, embora a pontuação tenha sido mantida.

volume 2 número 1 1997

41

PRINCIPIORUM PHILOSOPHIAE PARS PRIMA

volume 2 número 1 1997

I Veritatem inquirenti, semel in vita de omnibus, quantum fieri potest, esse dubitandum. Quoniam infantes nati sumus, & varia de rebus sensibilibus judicia prius tulimus, quam integrum nostrae rationis usum haberemus, multis praejudiciis a veri cognitione avertimur; quibus non aliter videmur posse liberari, quam si semel in vita, de iis omnibus studeamus dubitare, in quibus vel minimam incertitudinis suspicionem reperiemus. II Dubia etiam pro falsis habenda. Quin & illa etiam, de quibus dubitabimus, utile erit habere pro falsis, ut tanto clarius, quidnam certissimum & cognitu facillimum sit, inveniamus.

III Hanc interim dubitationem ad usum vitae non esse referendam. Sed haec interim dubitatio ad solam contemplationem veritatis est restringenda. Nam quantum ad usum vitae, quia persaepe rerum agendarum occasio praeteriret, antequam nos dubiis nostris exsolvere possemus; non raro

42

para quem investiga a verdade. neste ínterim.PRIMEIRA PARTE DOS PRINCÍPIOS DA FILOSOFIA I Que é preciso. vemo-nos desviados por muitos prejuízos do conhecimento da verdade. volume 2 número 1 1997 (1) Ver no Glossário nota (1) sobre a tradução da palavra “infans”. a fim de descobrirmos com tanto maior clareza o que afinal é o mais certo e o mais fácil de conhecer. não raro somos forçados a adotar o que é apenas verossímil. Pois. essa dúvida deve ser restringida tão somente à contemplação da verdade. Visto que nascemos ingênuos1 e fizemos vários juízos acerca das coisas sensíveis antes de ter o uso pleno de nossa razão. Mas. não se deve transferir essa dúvida à prática da vida. duvidar de todas as coisas. II Que é preciso até mesmo ter por falsas as coisas duvidosas. neste ínterim. uma vez na vida. será mesmo útil ter por falsas as coisas de que duvidarmos. dos quais parece que não podemos ser liberados de outra maneira senão aplicando-nos uma vez na vida a duvidar de todas as coisas nas quais encontremos a menor suspeita de incerteza. tanto quanto possível. ou até mesmo. III Que. visto que muitíssimas vezes a ocasião de agir passaria antes que pudéssemos nos desvencilhar de nossas dúvidas. quanto à prática da vida. Mais ainda. 43 .

l. Primeiro. 41 . no entanto. 16. Agora. l. a ordem das palavras admite uma outra tradução. sobretudo. porque ouvimos dizer que (2) “. “vimos às vezes que alguns erraram”. uma ou outra.”...” (AT. porque constatamos que os sentidos às vezes erram e é de prudência nunca confiar em demasia naqueles que nos iludiram uma vez sequer. porque todos os dias.vidimus aliquando nonnulos errasse in talibus. Livre de Poche.PRINCIPIORUM PHILOSOPHIAE PARS PRIMA volume 2 número 1 1997 ainda que de duas coisas nenhuma pareça mais verossímil do que a outra. ligando “aliquando” a “vidimus” e não a “errasse”. IV Por que podemos duvidar das coisas sensíveis..”(AT. a escolher. VII.” Descartes.....je juge quelquefois que les autres se méprennnent. p.. às vezes.. p. a saber. v. Duvidaremos também das demais coisas que tivemos antes como as mais certas. de que existam quaisquer coisas sensíveis ou imagináveis. V Por que [podemos duvidar] até mesmo das demonstrações matemáticas. v... [somos forçados] por vezes. p. e nenhum sinal se mostra a quem assim duvida que sirva para distinguir ao certo o sono da vigília. Beyssade por “. A passagem correspondente na Primeira Meditação “. como estamos empenhados tão somente na busca da verdade.. 1990. parece que sentimos ou imaginamos inúmeras coisas que não existem em lugar algum.) também pode ser construída de duas maneiras: assim. Paris. nos sonhos. não só porque vimos que alguns erraram.. duvidaremos. até mesmo dos princípios que até agora pretendemos ser por si conhecidos. 7-8. 21) foi retraduzido por M. je juge que d’autres quelquefois s’égarent. Beyssade. antes de mais nada. tradução M. Méditations Métaphysiques.. mesmo das demonstrações matemáticas.judico interdum alios errare. pois. IX. o que o duc de Luynes traduzira por “. Depois... 21. 44 . mas. em tais coisas2 e admitiram como certíssimas e por si conhecidas coisas que a nós pareciam falsas.

Nunc itaque cum tantum veritati quaerendae incumbamus. qui potest volume 2 número 1 1997 45 . quia quotidie in somnis innumera videmur sentire aut imaginari. etiam de iis principiis. quae hactenus putavimus esse per se nota. Dubitabimus etiam de reliquis. vel etiam interdum. quibus somnum a vigilia certo dignoscat. ac prudentiae est nunquam nimis fidere iis. quae nobis falsa videbantur.PRIMEIRA PARTE DOS PRINCÍPIOS DA FILOSOFIA quod tantum est verisimile cogimur amplecti. & quaedam pro certissimis ac per se notis admisisse. tum maxime quia audivimus esse Deum. V Cur etiam de Mathematicis demonstrationibus. quae antea pro maxime certis habuimus. etiam de Mathematicis demonstrationibus. dubitabimus inprimis. nullaque sic dubitanti signa apparent. etsi e duobus unum altero verisimilius non appareat. an ullae res sensibiles aut imaginabiles existant: Primo. IV Cur possimus dubitare de rebus sensibilibus. qui nos vel semel deceperunt: Deinde. tum quia vidimus aliquando nonnullos errasse in talibus. quia deprehendimus interdum sensus errare. quae nusquam sunt. alterutrum tamen eligere.

nec pedes. non 46 . ac etiam falsa esse fingentes. nec denique ullum corpus. VII Non posse a nobis dubitari. sicque ad errorem vitandum. sed vel a nobis ipsis. VI Nos habere liberum arbitrium. nosque etiam ipsos non habere manus. ut semper fallamur. hanc nihilominus in nobis libertatem esse experimur. vel a quovis alio nos esse fingamus. etiam in iis quae nobis quam notissima apparent. ut putemus id quod cogitat. ut semper ab iis credendis. Sic autem rejicientes illa omnia.PRINCIPIORUM PHILOSOPHIAE PARS PRIMA volume 2 número 1 1997 omnia. Ignoramus enim. non autem ideo nos qui talia cogitamus nihil esse: repugnat enim. quae non plane certa sunt & explorata. quia non minus hoc videtur fieri potuisse. nos tam imperfectos esse. possimus abstinere. nullum coelum. quod contingere ante advertimus. nulla corpora. quantumvis fallax. quam ut interdum fallamur. Atque si non a Deo potentissimo. quod ordine philosophando cognoscimus. facile quidem supponimus nullum esse Deum. ne unquam erremus. de quibus aliquo modo possumus dubitare. eo ipso tempore quo cogitat. quin existamus dum dubitamus: atque hoc esse primum. Sed interim a quocunque tandem simus. atque ita cavere. & quantumvis ille sit potens. quo minus potentem originis nostrae authorem assignabimus. an forte nos tales creare voluerit ut semper fallamur. & a quo sumus creati. tanto magis erit credibile. ad cohibendum assensum in dubiis.

decerto que facilmente supomos que nenhum Deus exista. nem enfim corpo algum. E. VII Que não podemos duvidar de que existimos enquanto duvidamos.PRIMEIRA PARTE DOS PRINCÍPIOS DA FILOSOFIA existe um Deus. bem como nos acautelar de tal maneira que jamais erremos. E mesmo se fingirmos que existimos. nada sejamos. o que antes notamos acontecer. Ignoramos. VI Que temos um livre arbítrio para coibir o assentimento no que for duvidoso e assim evitar o erro. por conseguinte. pois. mas ou por nós mesmos. não por Deus todo-poderoso. quão enganador ele seja. tanto mais se poderá acreditar que somos imperfeitos a ponto de nos enganarmos sempre. ao rejeitar assim tudo aquilo de que podemos de algum modo duvidar e ao fingir que [o duvidoso] é até mesmo falso. não importa por quem afinal existimos nem quão poderoso. e por quem fomos criados. no momento mesmo em que pensa. volume 2 número 1 1997 47 . Mas. porque não parece menos possível que isso tenha ocorrido do que [ter-nos criado tais que] nos enganemos às vezes. e que esta é a primeira coisa que conhecemos filosofando com ordem. nem pés. mas nem por isso [supomos] que nós. não existe. nenhum corpo e que nós próprios não tenhamos mãos. Pois é contraditório julgar que o que pensa. ou por qualquer outro [ente]. quanto menos poderoso for o autor a quem atribuirmos nossa origem. Apesar disso. Mas. que pensamos tais coisas. neste ínterim. nenhum céu. experimentamos haver em nós esta liberdade [que é tal] que podemos sempre nos abster de crer nas coisas que não são inteiramente certas e averiguadas. se ele acaso quis criar-nos tais que sempre nos enganemos. que pode tudo. até mesmo naquelas coisas que nos aparecem como as mais conhecidas de todas.

& hoc intelligam de visione. de aliis autem adhuc dubitamus. atque etiam forte. 48 . aut ambulatione. agnoscendam: Examinantes enim quinam simus nos. Nam si dicam. vel ambulare. idem est hic quod cogitare. est plane certa. quia. nec figuram. quamvis oculos non aperiam. est omnium prima & certissima. sive inter rem cogitantem & corpoream. possum putare me videre. ut saepe fit in somnis. vel ego ambulo. quae cuilibet ordine philosophanti occurrat. quatenus eorum in nobis conscientia est: Atque ita non modo intelligere. conclusio non est absolute certa. VIII Distinctionem inter animam & corpus. imaginari. qui omnia quae a nobis diversa sunt supponimus falsa esse. quae proinde prius & certius quam ulla res corporea cognoscitur. nec quid simile. quae nobis consciis in nobis fiunt. ejusque a corpore distinctionem. Haecque optima via est ad mentis naturam. quod corpori sit tribuendum. sed etiam sentire. quae sola sentit. Cogitationis nomine. quia tunc refertur ad mentem. quamvis nullum habeam corpus. ego cogito. ergo sum. nec motum localem. sed cogitationem solam. ego video. nullam extensionem. velle. ergo sum. intelligo illa omnia.PRINCIPIORUM PHILOSOPHIAE PARS PRIMA volume 2 número 1 1997 existere. IX Quid sit cogitatio. Ac proinde haec cognitio. Sed si intelligam de ipso sensu sive conscientia videndi aut ambulandi. quae corpore peragitur. sive cogitat se videre aut ambulare. & loco non movear. hinc agnosci. ad naturam nostram pertinere. hanc enim jam percepimus. perspicue videmus.

E assim. o primeiro e o mais certo a ocorrer a quem quer que filosofe com ordem. IX O que é o pensamento. querer. logo existo” e entender isso da visão ou do andar. estando nós conscientes. ao examinar quem afinal somos nós. figura. imaginar.PRIMEIRA PARTE DOS PRINCÍPIOS DA FILOSOFIA este conhecimento: eu penso. E este é o melhor caminho para vir a conhecer a natureza da mente e a sua distinção do corpo. pois este já percebemos. Pois. ela é inteiramente certa. porém. até mesmo. na medida em que há em nós uma consciência delas. a conclusão não é absolutamente certa. logo existo é. Mas. que supomos serem falsas todas as coisas que são diversas de nós. de todos. porque se refere neste caso à mente. ocorrem em nós. posso pretender que estou vendo ou andando. talvez. volume 2 número 1 1997 49 . se eu entender isso do próprio sentido ou da consciência de ver ou de andar. das outras coisas. como muitas vezes ocorre nos sonhos. Pois. que é a única a sentir ou pensar que está vendo ou andando. ainda duvidamos. vemos nitidamente que nenhuma extensão. ainda que não abra os olhos e não saia do lugar e. se eu disser: “eu vejo” ou “eu ando. posto que. ainda que não tenha um corpo. mas também sentir é aqui o mesmo que pensar. não apenas entender. ou algo semelhante a se atribuir ao corpo pertence à nossa natureza. Pelo termo “pensamento” entendo todas aquelas coisas que. que se realizam com o corpo. mas só o pensamento. que por isso é conhecido antes e com maior certeza do que qualquer coisa corpórea. VIII Que a distinção entre a alma e o corpo ou entre a coisa pensante e a corpórea vem a ser conhecida a partir daí. movimento local.

ex hoc manifestum est. necessario inveniri. ita enim ipsa obscuriora reddebant. quam corpus. item quod fieri non possit. sed quia hae sunt simplicissimae notiones. Plura vero in mente nostra. XI Quomodo mens nostra notior sit. & talia. cujus illae sint. quid existentia. Atque ubi dixi hanc propositionem. & quae solae nullius rei existentis notitiam praebent. esse omnium primam & certissimam. ego cogito. atque ideo ubicunque aliquas deprehendimus. definitionibus Logicis obscuriora reddi. mentem nostram non modo prius & certius. idcirco non censui esse numerandas. ut aliquid aliud 50 . Non hic explico alia multa nomina. nihili nullas esse affectiones sive qualitates. quid sit cogitatio. ut id quod cogitet non existat. ergo sum. quia per se satis nota mihi videntur. quae simplicissima erant ac per se nota. ibi rem sive substantiam. & talia inter cognitiones studio acquisitas non esse numeranda. lumine naturali esse notissimum. quae cuilibet ordine philosophanti occurrat. Et saepe adverti Philosophos in hoc errare. notandum est. quod ea. non ideo negavi. quin ante ipsam scire oporteat. quam in ulla alia re a nobis deprehendi. tanto clarius nos illam cognoscere. & quo plures in eadem re sive substantia deprehendimus. Logicis definitionibus explicare conarentur. sed etiam evidentius quam corpus cognosci. quid certitudo. Jam vero ut sciatur. vel utar in sequentibus. quibus jam usus sum.PRINCIPIORUM PHILOSOPHIAE PARS PRIMA volume 2 número 1 1997 X Quae simplicissima sunt & per se nota. quod nihil plane efficiat.

é preciso notar que é extremamente bem conhecido pela luz natural que o nada não tem afecções ou qualidades. e que. Mas. Com efeito. nem por isso neguei que seja necessário saber antes dela o que é pensamento. por isso. que mais afecções ou (3) A expressão“ prius et certius” também foi utilizada no §8 e foi traduzida como “antes e com maior certeza” porque aí “prius” e “ certius” são advérbios e no §11 são adjetivos. mas também com maior evidência do que o corpo. onde quer que constatemos algumas. de fato. por isso mesmo. não estimei que devessem ser enumeradas.PRIMEIRA PARTE DOS PRINCÍPIOS DA FILOSOFIA X Que as coisas que são as mais simples e por si conhecidas são tornadas mais obscuras pelas definições lógicas e que tais coisas não devem ser enumeradas entre os conhecimentos adquiridos com estudo. certeza. Ora. E. pois assim as tornavam mais obscuras. e que quanto mais [afecções ou qualidades] constatamos na mesma coisa ou substância. existência. e coisas que tais. XI De que modo nossa mente é melhor conhecida do que o corpo. quando disse que esta proposição: eu penso. aí se encontra necessariamente uma coisa ou substância à qual pertençam. E muitas vezes notei que os filósofos erravam quando se esforçavam por explicar através de definições lógicas coisas que eram as mais simples e por si conhecidas. do mesmo modo que é impossível que o que pensa não exista. tanto mais claramente nós a conhecemos. porque estas são noções simplicíssimas e as únicas que não proporcionam conhecimento de qualquer coisa existente. volume 2 número 1 1997 51 . para que se saiba que nossa mente é conhecida não apenas antes e com maior certeza3. porque me parecem por si bastante conhecidos. logo existo é. Não explico aqui muitos outros termos que já usei ou usarei em seguida. de todas. a primeira e a mais certa que ocorra a quem quer que filosofe com ordem.

Cum autem mens. Ut si terram judico existere. non tamen adverterunt. quam quia mentem a corpore nunquam satis accurate distinxerunt. ut judicem me terram tangere. certe ex hoc ipso adhuc magis mihi judicandum est mentem meam existere. XII Cur non omnibus aeque innotescat. & manibus palpabant. quas quamdiu tantum contemplatur. ut id judicem. undiquaque circumspicit. XIII Quo sensu reliquarum rerum cognitio a Dei cognitione dependeat. quae se ipsam novit. ex eo quod illam tangam vel videam. mentes solas hoc in loco fuisse intelligendas. se ipsos existere. non autem. quibusque vim sentiendi perperam tribuebant. & de aliis omnibus rebus adhuc dubitat. primo quidem invenit apud se multarum rerum ideas.PRINCIPIORUM PHILOSOPHIAE PARS PRIMA volume 2 número 1 1997 cognoscamus. ut cognitionem suam ulterius extendat. hocque ipsos a mentis natura percipienda avocavit. quin idem etiam multo certius in mentis nostrae cognitionem nos adducat. sed contra potius intellexerunt sola sua corpora. fieri enim forsan potest. & mea mens quae id judicat nihil sit. quamvis terra nulla existat. Nec aliam ob causam aliter visum est iis. qui non ordine philosophati sunt. atque ita de caeteris. Et quamvis sibi certius esse putarint. quae oculis videbant. quam quidquam aliud. falli non 52 . per se ipsos. nihilque ipsis simile extra se esse affirmat nec negat.

que julga isso. não notaram. que se conhece a si mesma e ainda duvida de todas as outras coisas. Pois. mesmo que não exista terra alguma. mas não que eu julgue que também a minha mente. senão porque jamais distinguiram a mente do corpo com bastante cuidado. mas. dentro de si as idéias de muitas coisas [e] não pode se enganar durante todo o tempo em que se restringe a volume 2 número 1 1997 53 . decerto. entenderam antes somente seus corpos. por si mesmos. nada seja. talvez possa ocorrer que eu julgue estar tocando a terra. olha em redor em todas as direções para estender ainda mais seu conhecimento. que se devia entender. que viam com os olhos e apalpavam com as mãos e aos quais atribuíam incorretamente o poder de sentir. só as mentes. e foi isso que os desviou de perceber a natureza da mente. Nem por outra razão foram de parecer diverso os que não filosofaram com ordem. no entanto. Mas. E ainda que tenham considerado mais certo do que qualquer outra coisa que eles próprios existiam. e assim de outras coisas. Assim. por exemplo.PRIMEIRA PARTE DOS PRINCÍPIOS DA FILOSOFIA qualidades sejam constatados por nós em nossa mente do que em qualquer outra coisa. ela primeiro encontra. certamente por isso mesmo devo julgar tanto mais que a minha mente existe. quando a mente. neste ponto. pelo contrário. se julgo que a terra existe a partir do fato de que a toco ou de que a vejo. XII Por que isso não vem a ser conhecido por todos igualmente. XIII Em que sentido o conhecimento das demais coisas depende do conhecimento de Deus. fica manifesto a partir do seguinte fato: absolutamente nada faz com que conheçamos uma outra coisa sem que este conhecimento também nos leve de uma maneira muito mais certa ao conhecimento de nossa mente.

quod si aequalibus aequalia addas. summe potentis & summe perfecti. quas distincte percipit. an forte talis natura1 creata sit. quae omnium longe praecipua est. sed omnino necessariam & aeternam. ex quibus facile demonstratur. Atque ut ex eo quod. quae inde exfurgent erunt aequalia. Sic. habetque etiam inter communes notiones. ex quibus ea deduxit. exempli causa. XIV Ex eo quod existentia necessaria. ac proinde haec & talia sibi persuadet vera esse quamdiu ad praemissas. quemadmodum in ideis aliarum omnium rerum. attendit. . unam esse entis summe intelligentis. Invenit etiam communes quasdam notiones. cum postea recordatur se nondum scire. non possibilem & contingentem tantum. duobus rectis. omnino sibi persuadet esse veras. quas apud se habet. videt se merito de talibus dubitare. Sed quia non potest semper ad illas attendere. recte concludi Deum existere. exempli causa. tres angulos trianguli aequales esse. &c. ad quas quamdiu attendit. numerorum & figurarum ideas in se habet. Confiderans deinde inter diversas ideas. 54 (1) Correção de Adam-Tanéry: naturae. agnoscit in ipsa existentiam.PRINCIPIORUM PHILOSOPHIAE PARS PRIMA volume 2 número 1 1997 potest. in nostro de Deo conceptu contineatur. priusquam suae authorem originis agnoverit. ut fallatur etiam in iis quae ipsi evidentissima apparent. & ex his varias demonstrationes componit. & similes. nec ullam habere posse certam scientiam.

sumamente poderoso e sumamente perfeito. Numa tradução literal. a partir das quais facilmente se demonstra que os três ângulos de um triângulo são iguais a dois retos etc. Mas. Assim. 55 . entre as diversas idéias que tem dentro de si. mas absolutamente necessária e volume 2 número 1 1997 (4) “Appareo/apparere” não significa parecer mas aparecer no sentido de tornar-se visível. [a mente] reconhece na mesma uma existência não meramente possível e contingente. e coisas semelhantes. talvez mais conforme ao sentido desse texto. XIV Que a partir do fato de que a existência necessária está contida em nosso conceito de Deus. e que não pode ter qualquer ciência certa antes de vir a conhecer o autor de sua origem. compõe várias demonstrações. a qual é de longe a mais destacada de todas. durante todo o tempo em que atenta para elas. No sentido figurado significa ser visível. persuade-se de que estas e tais coisas são verdadeiras durante todo o tempo em que atenta para as premissas das quais as deduziu. como nas idéias de todas as outras coisas que percebe distintamente. por conseguinte. Ela encontra também certas noções comuns e. uma é a de um ente sumamente inteligente. mas desrespeitosa da regência gramatical. Ao considerar em seguida que. presente. das quais está totalmente persuadida de serem verdadeiras. a partir destas. as [figuras e números] que daí resultarem serão iguais. A expressão “aparecer como” respeita a norma gramatical. porque não pode sempre atentar para elas. dir-se-ia: “ … aparecer as mais evidentes…”. ou de apresentar-se. E. tem dentro de si idéias de números e figuras. corretamente se conclui que Deus existe. por exemplo. se somarmos iguais a iguais. quando se recorda depois de que ainda não sabe se porventura foi criada provida de tal natureza que se engane também nas coisas que lhe aparecem [como4] as mais evidentes. e também tem entre as noções comuns [a noção de] que. vê que duvida justificadamente de tais coisas.PRIMEIRA PARTE DOS PRINCÍPIOS DA FILOSOFIA contemplá-las e nada afirma ou nega existir fora de si semelhante a elas. ficar claro.

Hoc. in qua eodem modo necessariam existentiam contineri animadvertat. istam ideam entis summe perfecti non esse a se effictam. quod percipiat. aut fuerunt. tres ejus angulos aequales esse duobus rectis. sed contingentem duntaxat contineri. nec exhibere chimaericam quandam. quaeque non potest non existere. 56 . ad arbitrium effingere. ita ex eo solo. plane sibi persuadet triangulum tres angulos habere aequales duobus rectis. XVI Praejudicia impedire. Magisque hoc credet. Ex hoc enim intelliget. facile contingit. ab omnibus clare cognoscatur. XV Non eodem modo in aliarum rerum conceptibus existentiam necessariam. inquam. si se prius omnino praejudiciis liberarit. aut saltem. Sed quia sumus assueti. ad quarum essentiam existentia non pertinet. quominus ista necessitas existentiae Dei.PRINCIPIORUM PHILOSOPHIAE PARS PRIMA volume 2 número 1 1997 percipiat in idea trianguli necessario contineri. atque etiam varias ideas rerum. sed veram & immutabilem naturam. an forte ejus idea una sit ex iis. cum necessaria existentia in ea contineatur. quae nusquam sunt. plane concludere debet. ens summe perfectum existere. existentiam necessariam & aeternam in entis summe perfecti idea contineri. quas ad arbitrium effinximus. cum in entis summe perfecti contemplatione non sumus plane defixi. reliquis omnibus in rebus essentiam ab existentia distinguere. facile credet mens nostra. si attendat nullius alterius rei ideam apud se inveniri. ut dubitemus.

visto que nela está contida uma existência necessária. E. ou pelo menos [uma] a cuja essência não pertence a existência. entenderá a partir disso que essa idéia de um ente sumamente perfeito não é forjada por ela nem exibe alguma natureza quimérica. XVI Que os prejuízos impedem que essa necessidade da existência de Deus seja claramente conhecida por todos. quando não estamos inteiramente fixados na contemplação do ente sumamente perfeito. mas apenas uma existência contingente. que duvidemos se porventura sua idéia não seria uma daquelas que forjamos arbitrariamente. do mesmo modo que. deve concluir cabalmente que existe um ente sumamente perfeito. por exemplo. diria. facilmente acontece. Mas.PRIMEIRA PARTE DOS PRINCÍPIOS DA FILOSOFIA eterna. com facilidade há de crer nossa mente. Nisso. mas uma verdadeira e imutável natureza e que não pode deixar de existir. a partir do simples fato de perceber que na idéia de um triângulo está contido que os três ângulos dele são iguais a dois retos. XV Que uma existência necessária não está contida do mesmo modo nos conceitos das outras coisas. porque estamos acostumados a distinguir em todas as outras coisas a essência da existência e também forjar arbitrariamente várias idéias de coisas que não existem ou existiram em qualquer lugar. E [a mente] há de crer nisso [ainda] mais se atentar para o fato de que nenhuma idéia de outra coisa nela se encontra na qual observe que uma existência necessária está contida do mesmo modo [que na idéia de Deus]. assim também. persuade-se cabalmente de que o triângulo tem três ângulos iguais a dois retos. a partir do simples fato de perceber que uma existência necessária e eterna está contida na idéia de um ente sumamente perfeito. volume 2 número 1 1997 57 . Com efeito. se antes se liberar totalmente dos prejuízos.

esse valde diversas. quatenus sunt quidam modi cogitandi. ut plane ex eo simus certi. a quanam causa illam habeamus. an nempe viderit alicubi talem machinam ab alio factam. ut a causa 58 . sive entis summi ideam habemus in nobis. Ulterius vero considerantes ideas. quaenam sit causa a quae illam habet. alia aliam repraesentat. quas in nobis habemus. & quo plus perfectionis objectivae in se continent. nec id quod est perfectius ab eo quod est minus perfectum. tantamque in ea immensitatem inveniemus. saltem in prima & praecipua. an mechanicas scientias tam accurate didicerit. quia Dei. sed reipsa formaliter aut eminenter contineri. non posse illam nobis fuisse inditam. Est enim lumine naturali notissimum. sed quatenus una unam rem. non modo a nihilo nihil fieri. Nam quemadmodum. anve tanta sit in eo ingenii vis. hoc est. ut ipsam nullibi unquam visam per se excogitare potuerit ? Totum enim artificium quod in idea illa objective tantum. eo perfectiorem ipsarum causam esse debere. XVIII Hinc rursus concludi Deum existere. jure possumus examinare. debet in ejus causa. merito quaeri potest.PRINCIPIORUM PHILOSOPHIAE PARS PRIMA volume 2 número 1 1997 XVII Quo cujusque ex nostris ideis objectiva perfectio major est. Sic. si quis in se habet ideam alicujus machinae valde artificiosae. sive tanquam in imagine continetur. videmus quidem illas. eo ejus causam esse debere majorem. qualiscunque tandem sit. nisi a re in qua sit revera omnium perfectionum complementum. non multum a se mutuo differre. nisi a Deo realiter existente. non tantum objective sive repraesentative.

e que. que essas. ou de um ente supremo. isto é. Pois. tanto mais perfeita deve ser a sua causa. porque temos em nós a idéia de Deus. ou se aprendeu tão acuradamente as ciências mecânicas. tendo em si a idéia de uma máquina muito artificiosa. ou se a força do talento é tão grande nele que pôde por si [só] inventá-la sem a ter visto jamais em qualquer lugar)? Pois. afinal. a tradução seria “tanto maior deve ser sua causa” 59 . ou representativa. qualquer que ela seja afinal. vemos. quanto mais perfeição objetiva contém em si. é extremamente bem conhecido pela luz natu- volume 2 número 1 1997 (5) Literalmente. senão por um Deus realmente existente. não apenas de maneira objetiva. Com efeito. mas são muito diversas na medida em que uma representa uma coisa e outra. como é que alguém. Além disso. mais uma vez. podemos com razão examinar mediante que causa. se ele viu em algum lugar semelhante máquina feita por outro. não diferem muito uma das outras. afinal. e nela encontraremos tamanha imensidão que isso nos dará a certeza absoluta de que ela não poderia ter sido posta em nós senão pela coisa na qual houvesse verdadeiramente uma completude de todas as perfeições. a causa por que a tem (a saber. na medida em que são certos modos de pensar. pode corretamente perguntar qual é. ao considerar as idéias que temos em nós. de fato. se conclui que Deus existe. ao menos na [causa] primeira e principal. tanto maior deve ser [a perfeição de] sua causa5. Assim. mas na coisa mesma formal ou eminentemente. todo o artifício que está contido naquela idéia apenas de maneira objetiva ou como que em imagem deve estar contido em sua causa. outra coisa. XVIII Que daí.PRIMEIRA PARTE DOS PRINCÍPIOS DA FILOSOFIA XVII Que quanto maior é a perfeição objetiva de cada uma de nossas idéias. temos essa idéia.

nihilominus tamen ipsas clarius & distinctius quam ullas res corporeas intelligere possumus. sive extra nos. vel certe aliquando fuisse. atque etiam quia non. quia scilicet est de natura infiniti. Quamvis enim illas non comprehendamus. Quia vero non omnes hoc advertunt. nullo modo in nobis reperimus. XIX Etsi Dei naturam non comprehendamus. eumque proinde existere. sed neque etiam in nobis ideam sive imaginem ullius rei esse posse. quarum ideam habemus. ut a nobis. a 60 . quia cogitationem nostram magis implent. suntque simpliciores. sive in nobis ipsis. Et quia summas illas perfectiones. scire solent undenam illam acceperint. existat. quaerendum adhuc est. XX Nos non a nobis ipsis. non comprehendatur. ex quo evidentissime sequitur. sed a Deo factos. ipsas adhuc esse. esse.PRINCIPIORUM PHILOSOPHIAE PARS PRIMA volume 2 número 1 1997 efficiente & totali produci. ita etiam recordamur ideam Dei nobis aliquando a Deo advenisse. Archetypus aliquis omnes ejus perfectiones reipsa continens. summasque ejus perfectiones advertere sunt assueti. iis qui Dei ideam contemplari. quemadmodum habentes ideam artificiosae alicujus machinae. nec limitationibus ullis obscurantur. cujus non alicubi. ex hoc ipso recte concludimus eas in aliquo a nobis diverso. Hocque satis certum est & manifestum. ejus tamen perfectiones omni alia re clarius a nobis cognosci. nempe in Deo. qui sumus finiti. utpote quam semper habuimus.

por conseguinte. Com efeito. mas por Deus. ele existe. não por nós mesmos. E isso é bastante certo e manifesto para aqueles que estão acostumados a contemplar a idéia de Deus e a notar suas perfeições supremas. ainda assim suas perfeições são mais claramente conhecidas por nós do que toda outra coisa. diversamente daqueles que têm a idéia de alguma máquina artificiosa [e que] soem saber de onde a receberam. concluímos corretamente disso mesmo que elas existem em algo diverso de nós. Mas porque nem todos se dão conta disso e também porque. E porque essas supremas perfeições das quais temos uma idéia. muito embora não as compreendamos.PRIMEIRA PARTE DOS PRINCÍPIOS DA FILOSOFIA ral que não só pelo nada nada se faz. de nenhum modo as encontramos em nós. XX Que fomos feitos. de qualquer coisa. não obstante isso. XIX Que. porque enchem mais o nosso pensamento e são mais simples. deve-se investigar volume 2 número 1 1997 61 . em Deus. ou imagem. porque obviamente é da natureza do infinito que não seja compreendido por nós. seja fora de nós. que somos finitos. ou certamente existiram alguma vez. embora não compreendamos a natureza de Deus. seja em nós mesmos. da qual não exista algures. podemos entendê-las com mais clareza e distinção do que quaisquer coisas corpóreas. algum Arquétipo que contenha em sua própria realidade todas as perfeições dela. não nos recordamos de que a idéia de Deus nos tenha advindo em algum momento de Deus (visto que sempre a tivemos). nem se produz o que é mais perfeito por aquilo que é menos perfeito (enquanto causa eficiente e total). do que se segue da maneira a mais evidente que elas ainda existem. e que. nem se deixam obscurecer por quaisquer limitações. contudo. a saber. mas também que em nós não pode haver idéia.

ut nos a se diversos conservet. ac denique Deum esse. quae novit aliquid se perfectius. nisi aliqua causa. tanto magis etiam se ipsum conservare. XXI Existentiae nostrae durationem sufficere. conservet. illumque in quo tanta est vis. per ejus scilicet ideam. qui non sit Deus. nec unquam simul existant. a se non esse: dedisset enim ipsa sibi omnes perfectiones. 62 . atque ideo ex hoc quod jam simus. qui summarum Dei perfectionum ideam in nobis habemus. Nam certe est lumine naturali notissimum eam rem. omnia ejus attributa naturali ingenii vi cognoscibilia simul cognosci. Facile enim intelligimus nullam vim esse in nobis. nempe eadem illa quae nos primum produxit. vel potius nulla ullius conservatione indigere. modo attendamus ad temporis sive rerum durationis naturam.PRINCIPIORUM PHILOSOPHIAE PARS PRIMA volume 2 número 1 1997 quonam simus nos ipsi. hoc est. XXII Ex nostro modo existentiam Dei cognoscendi. per quam nos ipsos conservemus. continuo veluti reproducat. Nihilque hujus demonstrationis evidentiam potest obscurare. ad existentiam Dei demonstrandam. hoc est. nec proinde etiam posse ab ullo esse. qui non habeat in se omnes illas perfectiones. quarum ideam in se habet. quae talis est. ut ejus partes a se mutuo non pendeant. non sequitur nos in tempore proxime sequenti etiam futuros. quantum naturae nostrae fert infirmitas agnoscamus: Nempe ad ejus ideam nobis ingenitam respicientes. est praerogativa: quod simul quisnam sit. Magna autem in hoc existentiam Dei probandi modo.

a saber. do fato que existimos agora não se segue que também haveremos de existir no tempo imediatamente seqüente. e. por sua idéia: que ao mesmo tempo venhamos a conhecer. isto é. porém. contanto que atentemos para a natureza do tempo ou da duração das coisas. não carece de conservação alguma [da parte] de quem quer que seja e. como que [nos] reproduza continuamente. E nada pode obscurecer a evidência dessa demonstração. Pois facilmente entendemos que não há força alguma em nós pela qual nos conservemos a nós mesmos. por conseguinte. a não ser que alguma causa. se conhecem ao mesmo tempo todos os seus atributos cognoscíveis pela força do talento natural. Há. aquela mesma que primeiro nos produziu. a partir de nosso modo de conhecer a existência de Deus. a saber. que é tal que suas partes não dependem de si mutuamente.PRIMEIRA PARTE DOS PRINCÍPIOS DA FILOSOFIA ainda por quem afinal existimos nós mesmos. [nos] conserve. no qual a força é tão grande que nos conserva diversos dele. que não seja Deus. XXII Que. por conseguinte. por isso. e que aquele. é. XXI Que a duração de nossa existência é suficiente para demonstrar a existência de Deus. uma grande vantagem nesse modo de provar a existência de Deus. tanto mais se conserva também a si mesmo. ou melhor. extremamente bem conhecido pela luz natural que a coisa que conhece algo mais perfeito do que ela não existe por si (pois ela própria ter-se-ia dado todas as perfeições cuja idéia tem dentro de si) nem tampouco. decerto. é Deus. pode existir por qualquer um que não tenha em si todas aquelas perfeições. tanto volume 2 número 1 1997 63 . Com efeito. que temos em nós a idéia das supremas perfeições de Deus. nem jamais existem simultaneamente. isto é.

ut ita scientiam perfectissimam. inquam. si ex ipsius Dei cognitione rerum ab eo creatarum explicationem deducere conemur. quod sentiamus. quia tamen in omni sensu passio est. Ita in natura corporea. nec sentire ut nos. estque imperfectione esse divisibilem. XXIV A Dei cognitione ad creaturarum cognitionem perveniri. quae sunt aut esse possunt. semperque eandem & simplicissimam actionem. Nam sane multa sunt. sive nulla imperfectione terminatam. in quibus etsi nonnihil perfectionis agnoscamus. quia simul cum locali extensione divisibilitas includitur. ut per unicam. quia Deus solus omnium. ac denique illa omnia in se habentem. Et quamvis in nobis perfectio quaedam sit. in quibus aliquam perfectionem infinitam. omnia simul intelligat. omniscium. ac proinde competere Deo non possunt. omnis bonitatis veritatisque fontem. rerum omnium creatorem. certum est. Omnia. omnipotentem. & pati est ab aliquo pendere. quae est effectuum per causas. XXIII Deum non esse corporeum. sed ita. res omnes: neque enim vult malitiam peccati. perspicuum est optimam philosophandi viam nos sequuturos.PRINCIPIORUM PHILOSOPHIAE PARS PRIMA volume 2 número 1 1997 videmus illum esse aeternum. hoc est. per operationes quodammodo distinctas. & nos finitos. aliquid tamen etiam imperfectionis sive limitationis deprehendimus. clare possumus advertere. recordando eum esse infinitum. 64 . Jam vero. Deum non esse corpus. nullo modo Deum sentire putandum est. quia non est res. velit & operetur. nec velle malitiam peccati. vera est causa. sed tantummodo intelligere & velle: Neque hoc ipsum ut nos.

e ser divisível é uma imperfeição. em todo sentido há uma paixão. nem sente como nós. todas as coisas. Assim. omnipotente. eu diria. XXIV Que do conhecimento de Deus se chega ao conhecimento das criaturas. no entanto. mas de tal modo que. por fim. vemos que ele é eterno. por conseguinte. se bem que venhamos a reconhecer nelas alguma perfeição. ou seja. Com efeito. isto é. e [que]. também alguma imperfeição ou limitação. tendo em si todas aquelas coisas nas quais podemos notar claramente alguma perfeição infinita. porque na natureza corpórea está incluída a divisibilidade simultaneamente com a extensão local. não podem convir a Deus. é certo que Deus não é um corpo. XXIII Que Deus não é corpóreo. recordando que ele é infinito e nós. se nos esforçarmos por deduzir do conhecimento de Deus mesmo a explicação das coisas volume 2 número 1 1997 65 . E. “Tudo”. fonte de toda bondade e verdade. a malícia do pecado. pois. constatamos. omnisciente. porque não é coisa. que não é limitada por imperfeição alguma. está claro que haveremos de seguir a melhor via do filosofar. nem quer a malícia do pecado. por operações de certo modo distintas. e [Deus] não quer. ao considerarmos a sua idéia em nós ingênita. porque. quem é ele afinal. e ser passivo é depender de algo. simultaneamente entende. de modo algum deve se considerar que Deus sente. finitos. mas tão-somente que entende e quer: e isso mesmo não como nós. por uma única e sempre a mesma e simplicíssima ação.PRIMEIRA PARTE DOS PRINCÍPIOS DA FILOSOFIA quanto o permite a fraqueza de nossa natureza. Ora. quer e opera tudo. conquanto em nós seja uma certa perfeição o fato de sentirmos. Pois há seguramente muitas coisas nas quais. criador de todas as coisas e. porque só Deus é a verdadeira causa de todas as coisas que são ou podem ser. no entanto.

66 . ut semper quàm maxime recordemur. & Deum autorem rerum esse infinitum. Quod ut satis tuto & sine errandi periculo aggrediamur.PRINCIPIORUM PHILOSOPHIAE PARS PRIMA volume 2 número 1 1997 acquiramus. ea nobis cautela est utendum. & nos omnino finitos.

que é a dos efeitos pelas causas. volume 2 número 1 1997 67 . mas também que nós somos em tudo finitos. devemos usar de uma cautela que seja tal que recordemos sempre [e] o mais que possível não só que Deus. a fim de assim adquirirmos a mais perfeita das ciências. é infinito.PRIMEIRA PARTE DOS PRINCÍPIOS DA FILOSOFIA por ele criadas. autor das coisas. Para empreender isso com bastante segurança e sem perigo de errar.

Assuetus: acostumado (§16). §16). a criança muito pequena que ainda não aprendeu a falar. Fallo. ere: observar (§15). §14). are: considerar (§14. dentro (de si) (§13). quanto como 68 . ere: estimar (§10). nela (§14. quando designa uma criança e. In (se): em (si). ere: atentar (§13. Cognosco. Effingo. (1) Infans. intelligere). §11). §15). Censeo. Decipio. Cognitio: conhecimento (§7. Attendo. em (si). ere: conceber (cf. Exploro. §10). pode ser usado em latim tanto como um substantivo. Deprehendo. ere: enganar (§5. Apud (se): dentro (de si). are: averiguar (§6). ere: constatar (§11). em especial. ere: compreender (cf. ere: vir a conhecer (§8. ere: conhecer (§8). Contingo. §15). Infans: ingênuo (§1)1 . Considero. §13. ere: iludir (§4). Comprehendo. ere: olhar em redor em todas as direções (§13). Fallax: enganador (§6). comprehendere. ere: notar (§5) Agnosco. ere: forjar (§15. intelligere). Concipio. Animadverto. §17). Circumspicio. concipere.PRINCIPIORUM PHILOSOPHIAE PARS PRIMA Glossário volume 2 número 1 1997 Adverto. §16). ere: acontecer (§5.

“tolo”. Vis: poder (§17). comprehendere). Usus vitae: prática da vida (§3). que “fomos crianças uma vez” (“We have once on a time been children”). julgar (§7). Per se notus: conhecido por si2 Praecipua: mais destacada (§14). are: julgar. Nosco. seja de “infantil”. que “fomos crianças antes de ser homens” (“Nous avons été enfants avant que d’être hommes”). Puto. principal (§17). ere: entender (cf. considerar (§ 23). volume 2 número 1 1997 adjetivo. A tradução literal “nascemos crianças” é evitada pelos tradutores de Descartes por razões óbvias: dizer que nascemos crianças não acrescenta nenhuma informação nova além da constatação de que nascemos ou de que já fomos crianças. o abbé Picot. Reipsa: na coisa mesma (§17. §5). quando tem o sentido seja de “incapaz de falar”. sem modificá-lo. preferimos ler “infantes” como um adjetivo. Ingenium: talento Intelligo. Realiter: realmente (§18). concipere. desde a primeira tradução francesa. quando o permita o sentido do texto e a clareza da expressão portuguesa) e visto que é possível dar uma tradução literal do texto. ere: conhecer (§13). “bobo”. termo este que reservamos para o correspondente termo latino evidens (§10. ou como Ross. que “começamos a vida como crianças” (“We have begun life as children”). (2) Embora a tradução usual seja “evidente”.PRIMEIRA PARTE DOS PRINCÍPIOS DA FILOSOFIA Innotesco. 69 . “ingênuo”. assim por exemplo. Visto que é um princípio de nossa tradução dar uma versão tão literal quanto possível (isto é. Notitia: conhecimento (§10). are: pretender (§5). Por isso.. Revera: realmente (§18). os tradutores modificam o texto de Descartes e fazem-no dizer. Judico. “sem eloquência”. “mudo”. ere: vir a ser conhecido (§12). §18). ou ainda como Cottingham et al.

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->