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CONTEMPLAÇÃO INACIANA

“... como se eu estivesse presente, com todo acatamento e reverência


possível” (EE)

A CONTEMPLAÇÃO nos Exercícios é uma forma de oração através da qual


deixamos que o Mistério da Vida de Cristo nos penetre e nos vá permeando
como por osmose (por “conaturalidade afetiva”) e ao mesmo tempo vamos
“conhecendo intimamente” esse mistério insondável.
“Contemplar” não é especular sobre um texto evangélico, nem tirar conclusões, nem sequer examinar
minha vida a partir da atuação de Jesus. Trata-se de fazer-me presente à cena evangéli-
ca, esquecer-me de mim e estabelecer uma relação de presença, de intimidade... que
faça possível com que a Pessoa de Jesus vá se “adentrando” em mim.
Na contemplação o ponto de partida não é uma recordação, senão a tomada de
consciência de meu estar presente diante de Alguém. Estabelece-se uma
relação interpessoal que suscita a atração, a sedução...
A contemplação é uma ajuda concreta para centrar o AFETO e liberar o DESEJO
numa só direção;
é um apoio para que a pessoa inteira se deixe “afectar” pela cena e permita
que Deus lhe interpele desde o “acontecimento salvífico”. Então Deus tem a
iniciativa e a pessoa cala.
Contemplam-se mistérios de Cristo e isso contagia e configura interiormente
a pessoa.
A REVELAÇÃO são fatos e ditos: é necessário olhar, escutar e observar as
pessoas da cena.
Não se trata de algo estático, mas em movimento, dramático,
presente... Não se trata de reproduzir
arqueologicamente uma cena; é necessário carregá-la de sentido:
é encontro com Alguém.

Aquele que contempla também não é uma pessoa abstrata. Sou eu, carregado
com minha vida, minha história, meu temperamento, meus sonhos, minhas
capacidades...
A contemplação põe juntas a pessoa (e sua história) e o mistério, para que
haja interação e assimilação.
A contemplação lentamente vai transformando a pessoa sem que ela o
percebe.
“Nós nos tornamos aquilo que contemplamos”.
A contemplação não deve ser força, mas “deixar-se levar, interpelar...”
A contemplação ajuda a evangelizar os nossos sentidos, reações, sentimento,
impulsos...
“Trata-se de cristificar o nosso olhar, escutar, falar, sentir, agir...”
A contemplação abre-nos o caminho para penetrarmos profundamente na vida,
obra, missão, opções,
atitudes, valores... de Cristo.
A contemplação de Cristo não é uma simples “maneira de orar”; significa
consentir ser introduzido no
“mistério” que é Jesus Cristo; significa deixar-se
“impregnar” pelo modo de ser de
Cristo: suas palavras, gestos, atitudes... é confrontar-se com
Alguém que chama.
Para conformar-se à imagem do Filho é necessário que se entre na
contemplação não como turista, mas como amante; não com o coração
dividido, mas como pessoa que fez uma escolha de vida pelo Senhor.
Em si mesma, a CONTEMPLAÇÃO é viva, criadora, dinâmica e continuamente
renova nossas opções e atitudes profundas. Não
se trata de uma atividade nossa sobre a cena, mas da atividade da cena sobre nós;
vai nos modelando. Através da cena con-
templada o PAI nos conforma ao FILHO, esculpe em nós com o dedo do ESPÍRITO
SANTO
aquela imagem única de “filhos no Filho” que somos chamados a ser.
Progressivamente, a contemplação vai criando um “sexto sentido”: o “sen-
sus Christi”, ou seja, a assimilação progressiva do modo de ser de Cristo.
A contemplação inaciana termina na união com Deus na ação. Contempla-
se um Cristo dinâmico, que realiza o Projeto do Pai e nos convida a trabalhar
com Ele. A contemplação inaciana desemboca na “prática”; ela não é neu-
tra, mas comprometedora. Como o verdadeiro contemplativo deve “participar
da cena evangélica”, assim também aquele que participa da realidade e nela
se encontra inserido deve experimentar um verdadeiro “encontro” com Deus.
Quem faz a experiência da contemplação na oração deverá ser um
contemplativo na ação, isto é, no engajamento e no serviço.
Tal como fazemos na oração, devemos fazer na ação; dar os passos
próprios de toda contemplação, isto é:
- OLHAR as pessoas... e nelas descobrir a Pessoa do Senhor;
- ESCUTAR o que dizem...: entre todas as vozes que escutamos,
perceber e discernir qual é a do Senhor e o que Ele tem e me dizer.
- OBSERVAR o que fazem...: participar, me fazer presente... optando, colaborando de modo
e-
vangélico numa tarefa... querendo construir a história dos homens com os valores do
Evangelho.