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“RECOMENDAÇÃO DOS DEZ MIL SERES”

“Uma sentença do patriarca Dogen: “Para chegar à Porta você tem de ser recomendado pelos
dez mil seres”.
Parece um pouco misterioso. Embora de perto já não seja tanto.
“Chegar à Porta” é, evidentemente, “chegar” onde devíamos chegar como fruto de
nossa vida e destino de nosso ser.
A meta é chamada, alegoricamente, de “Porta” porque chegar é passar, é
aproximar-se, é entrar.
A questão é como chegar lá. E para isso precisamos de recomendação.
E não uma recomendação qualquer, mas nada menos que a de “dez mil seres”.
Quem são esses “dez mil seres”? Por que dez mil? Dez mil é a cifra universal para
incluir a todos, isto é, a todos aqueles seres que entraram em contato conosco ao
longo de nossa vida. E são eles que devem nos recomendar.
Sem sua intercessão cumulativa não podemos chegar.
A mulher tem de ser recomendada pelo marido, e o marido pela mulher. Pais por
filhos e filhos por pais.
Conhecidos, amigos, parentes, empregados, companheiros, mestres, discípulos.
Todos aqueles que conhecemos e que nos conhecem ainda que apenas por um
encontro casual.
Todos tem de testemunhar em nosso favor para que possamos chegar.
E não apenas as pessoas, mas todos os seres. Cães e gatos, pássaros e cavalos,
plantas e árvores, flores e campos.
A casa em que vivo, o quarto que ocupo, o ar que respiro, a terra e os astros, a
lua e o sol.
Todos eles tem de ser testemunhas favoráveis e recomendar minha causa, se
hei de chegar à Porta.
E qual recomendação que deles espero.
Não se trata de dizer se fui bom ou mau, pois a Criação não julga homens e
mulheres, mas apenas de testificar que estive lá, que me viram, que entraram
em contato comigo, e que eu também os vi, saudei, sorri ao passar leve e
alegremente junto a eles em minha caminhada pela vida.
Têm de declarar que vivi, ou seja, que me dei conta deles, que não passei pela
vida como um cego, surdo e desorientado, que vi cores e escutei vozes, que
estive onde estava com consciência presente e atenção alerta, que sabia onde
estava e que toquei, senti, amei e vivi.
Essas são as minhas testemunhas diante da grande Porta.
Em algumas corridas de barcos, carros, motos ou esqui, o corredor
necessariamente tem de passar por certos postos fixos e se saltar alguns deles é
desclassificado. E há controles para verificar a passagem.
Os “dez mil seres” têm de fazer algo assim por mim.
Eles não está lá para dizer que eu ganhei a corrida, mas que passei por eles. Não
saltei os controles.
Não ignorei a dor nem o prazer, não escapei da companhia nem da solidão, não
fechei os olhos diante da beleza ou da feiúra, não tapei os ouvidos à música ou
ao barulho.
Passei por cada posto com plena consciência do momento vivido.
Quando os “dez mil seres” disserem isso de mim, chegarei à Porta.
Viver em contato. Estar onde estou. Fazer o que faço. Ver o que vejo. Dia após
dia e hora após hora.
Essa é a disciplina da vida. Não se trata de acontecimentos grandes ou pequenos.
Vale tudo.
O importante é dar valor a cada um com a presença atenta no momento dado.
Não fazem falta ações heróicas, mas sim vivência constante.
Se há maior mérito, ele está em valorizar as ações comuns e os momentos
triviais.
Se estivermos plenamente presentes neles, o estaremos ainda mais facilmente
nos da transcendência.
Dez mil seres pareciam muitos. Agora são poucos. Se eu aprender a viver com os
olhos abertos, logo chegarei à Porta.”
(Carlos Vallés – Elogio da vida cotidiana)

No número 60 dos Exercícios Espirituais, S. Inácio nos oferece o texto mais


transbordante de todo o livro dos Exercícios. Trata-se da “exclamação de
admiração com intenso afeto”, ou seja, um grito cheio de assombro que escapa do
coração da pessoa contrita e arrependida; grito de admiração que, ao brotar do
mais profundo de seu ser, faz sentir-se em comunhão com toda a Criação, que,
na sua paciência e solidariedade, abre nova possibilidade de vida ao pecador.
Embora tenha sido afetada pelo pecado, a Criação não é hostil ao pecador
É a Criação inteira, expressão da misericórdia divina, que “recomenda” e abre
novo futuro ao pecador.
Textos bíblicos: Dan. 3,51-90 Sl 104(103) Ne. 9 Tb. 13