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RESENHA

História das
teorias da
comunicação NOS ÚLTIMOS ANOS, Armand Mattelart vem rea-
lizando um audacioso projeto: escrever a his-
tória das mídias, das teorias que as envolvem
e dos processos de comunicação sob os mais
diferentes aspectos. Do ponto de vista do lei-
tor brasileiro, primeiro foi a vez de Comunica-
ção-Mundo (Petrópolis, Vozes. 1994). Agora, a
Loyola lança este História das teorias da comuni-
cação. Está ainda faltando La mondialization de
la communication, de 1996, que já recebeu tra-
dução espanhola mas encontra-se inédito en-
tre nós.
Se Comunicação-Mundo organizava-se
em três grandes blocos, a guerra, o progresso
tecnológico e a cultura, este novo trabalho é
mais fragmentário mas, ao mesmo tempo,
mais definido. Ele se desdobra em sete gran-
des capítulos que vai abrangendo as diferen-
tes fontes teóricas, espalhadas pelas diferen-
tes disciplinas que, ao longo dos dois últi-
mos séculos, e às vezes até bem antes, termi-
naram por influenciar a maneira de conceber,
discutir e pensar os processos de informação
(consequentemente, de comunicação) exis-
tentes hoje em dia no mundo. Por isso mes-
mo, a mesma característica do livro anterior,
ainda que em percentuais menores, a reitera-
ção de alguns enfoques, ainda que sob novas
perspectivas, ocorre também neste trabalho.
Partindo do reconhecimento de que “a
noção de comunicação recobre uma multipli-
cidade de sentidos” (p. 9), Mattelart eviden-
cia que a ciência da informação, por ser disci-
plina nova, dependeu de outras muitas disci-
plinas para formar seu corpus conceitual. As-
sim, a partir das sociologia, da antropologia e
dessas áreas afins, Mattelart recupera, dentre
outros, o contemporâneo conceito de rede de
comunicação (p. 15 e ss.), que reencontrará no
último capítulo (p. 157 e ss.), quando sinteti-
za: “a sociedade é definida em termos de co-
municação, que é definida em termos de re-
Antonio Hohlfeldt des”. Assim, retoma a perspectiva da ciber-
Prof. Coordenador do PPGC–FAMECOS/PUCRS nética, sublinhando que a mesma “ substitui

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a teoria matemática da informação” na con- mento ainda novo mas porque, justamente,
temporaneidade. lida com um fenômeno que, por si só, é uma
Reunindo os princípios da Escola de mescla de diferentes fenômenos porque, na
Chicago, e depois destacando a importância verdade, se encontra, se cruza, enriquece e é
da Escola de Palo Alto, recuperando a con- enriquecido por todos eles. Esta lição de
tribuição vanguardista de Harold Lasswell e grandeza e, ao mesmo tempo, de humildade,
os princípios da mass communication research deve ser o grande saldo da leitura deste novo
(p. 36 e ss.), Mattelart chega ao modelo mate- livro de Mattelart que, como sempre, é fasci-
mático de Shannon, que cruza com o conceito nante, e tão mais fascinante tem se tornado à
cibernético de Wiener, para depois enveredar medida em que o autor, como já frisei a res-
pela indústria cultural e as perspectivas des- peito do trabalho anterior publicado em lín-
dobradas, a partir das matrizes marxistas, gua portuguesa, distancia-se da camisa-de-for-
pela Escola de Frankfurt e, complementar- ça da análise marxista ortodoxa.
mente, pelo estruturalismo francês e norte- MATTELART, Armand – História das te-
americano, bem como pelos cultural studies de orias da comunicação, S. Paulo, Loyola, 1999,
Birmingham, até o conceito de sociedade global 220 páginas.
que, afirma ele, tem sua origem no conhecido
mas nem sempre justamente valorizado en-
saio de Marshall McLuhan War and peace in Tópicos de Teoria da Comunicação
the global village de 1969.
O volume incursiona ainda pela valori- HÁ UMA ABSOLUTA escassez de manuais que
zação das práticas cotidianas, revalorizando abordem a Teoria da Comunicação ou mes-
a contribuição da etnometodologia, do agir mo a Teoria da Informação. De modo geral,
comunicativo de Jürgen Habermas – que dava contamos apenas com alguns livros traduzi-
um passo além da teoria crítica frankfurtiana – dos, a partir de autores norte-americanos.
para chegar aos estudos dos usos e gratificações Em, conseqüência, boa parte dos currículos
dos funcionalistas norte-americanos, conclu- desenvolvidos em nossos Cursos de Comu-
indo pela potencialidade híbrida dos proces- nicação obrigam os professores a constituir
sos de comunicação como parte de sua natu- eles mesmos os seus conteúdos, catando, da-
reza. qui e dali, o material que transmitirão aos
A lição mais genérica e universalizado- alunos. não se precisa dizer que, concomitan-
ra que se pode tirar desta nova obra de Mat- temente, o aluno, recém-saído dos bancos do
telart é que, na verdade, tanto uma história II Grau, enfrenta dificuldades porque não
dos meios de comunicação quanto dos pro- tem a tradição da pesquisa acadêmica.
cessos, suas tecnologias ou teorias a respeito Por tudo isso, sempre serão bem-vin-
da comunicação, podem variar infinitamente dos os livros de Teoria da Comunicação,
segundo os diferentes pontos de partida que mesmo quando parciais, como este Tópicos de
se tomem. Ou seja, se é verdade que não Teoria da Comunicação, que não se pretende
existe uma única teoria da comunicação, como um livro abrangente, e isto, desde o título.
quer Sandra Reimão (“Teoria ou Teorias da Escrito por Pedro Gilberto Gomes, ain-
Comunicação” in INTERCOM-Revista Brasilei- da recentemente homenageado com o Prê-
ra de Comunicação, S. Paulo, INTERCOM, Vol. mio Luís Beltrão, Tópicos de Teoria da Comuni-
XVII, n. 2, julho-dezembro de 1994, pp. 146- cação é um livro de militante, aliás, de dupla
170), não menos verdade é que inexiste uma militância, aquela do professor universitário
única história, quer dos meios, quer dos pro- e a outra, da perspectiva religiosa da comu-
cessos ou das tecnologias da informação. O nicação.
desafio mais provocante, pois, é justamente A obra começa por desenvolver a ques-
esta abertura imensa que a área nos concede, tão dos modelos teóricos, abordando em se-
não apenas porque é um campo de conheci- guida o conceito do que seja uma teoria e as

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relações entre informação e comunicação. Poste- em alguns casos faz-se a citação completa, e
riormente, vai-se para um panorama mundi- em outros não. Tal fato é uma lástima, por-
al, e especialmente latino-americano da teoria que o livro é extremamente útil, graças inclu-
da comunicação, o que é sobretudo impor- sive, por certo, à experiência de cátedra do
tante, se seguirmos a lição de José Marques professor, de maneira que ele é recomendá-
de Melo, para quem a chamada escola latino- vel a alunos e professores. Mas é, quanto à
americana, com seu hibridismo, tem contribuí- forma, um discutível exemplo de como não
do com perspectivas inovadoras para este se deve escrever um livro acadêmico.
campo de conhecimento. GOMES, Pedro Gilberto – Tópicos de teo-
Depois de discutir questões mais gerais ria da comunicação, São Leopoldo, Editora da
como a comunicação de massa e a sociedade, Unisinos, 1997, 126 páginas.
sob uma perspectiva anticapitalista que o
aproxima necessariamente da Escola de Fran-
cfurt e seus pressupostos teóricos marxistas, Trem e cinema - Buster Keaton on the
Pedro Gilberto Gomes, que é professor da railroad
UNISINOS, aborda os mais conhecidos mo-
delos da Teoria da Comunicação, desde Ha- NO II FESTIVAL UNIVERSITÁRIO DE LITERATURA –
rold Lasswell, os engenheiros da matemática Categoria Ensaio, que a Xerox patrocinou no
de informação Shannon e Weaver, até o funci- ano passado, sagrou-se vencedor o professor
onalismo integrativo de Wilbur Schramm, Mestre em Comunicação Fernando Fábio Fio-
dando especial ênfase a alguns conceitos rese Furtado, que leciona na Universidade
como a redundância e a retroalimentação (ou Federal de Juiz de Fora. Seu trabalho é um
feed- back), o código e a mensagem. livro intitulado Trem e cinema - Buster Keaton
O livro dedica dois extensos capítulos on the railroad , que está agora recebendo pu-
às questões da semiótica, para depois abor- blicação em livro.
dar algumas perspectivas recentes como o O trabalho divide-se em dois blocos.
funcionalismo norte-americano, a teoria críti- No primeiro deles, intitulado “Trem e cine-
ca da Escola de Frankfurt, os estudos cultu- ma”, o autor desenvolve a perspectiva teóri-
rais de Marshall McLuhan e, enfim, alguns ca que aproxima o desenvolvimento tecnoló-
teóricos latino-americanos de maior influên- gico do trem do desenvolvimento do cinema,
cia hoje, como Josés Martin-Barbero e Luís visualizados ambos enquanto tecnologia de
Beltrán. semelhanças, em especial pela nova maneira
A parte final da obra está dedicada à de ver que possibilitam e a que obrigam seus
discuissão das relações entre ética e comuni- passageiros (no trem, colocados no vagão; no
cação e termina por fazer uma mistura com- cinema, colocados na sala fechada). No se-
plicada entre a doutrina católica e a tradição gundo bloco, o autor faz a aplicação prática
marxista, na perspectiva da teologia da libertação. dessa perspectiva para uma leitura das obras
Escrito em linguagem acessível, com de Buster Keaton, especialmente para o as-
boa quantidade de informações e referencia- pecto de valorização e humanização da tec-
ção bibliográfica, o livro peca apenas pela au- nologia então nascente, numa leitura que,
sência constante de citações bibliográficas sem perder o lado até certo ponto ufanista da
confiáveis. Parece que faltou uma revisão conquista, alerta para os riscos que a mesma
cuidadosa e crítica, capaz de fazer com que a pode produzir na humanidade.
toda a citação ou conceito emitido se incluís- Mobilizando um corpus teórico tão am-
se necessariamente a fonte, capaz de possibi- plo quanto inusitado, por sua combinação, o
litar ao eventual leitor a consulta à matriz da que vale sobretudo pela revalorização das hi-
qual aquela idéia foi retirada. Então, o que póteses de Marshal McLuhan, combinadas
temos é que, em alguns casos, faz-se a citação com as leituras de Walter Benjamin e Paul
bibliográfica, e em outros não. Mais que isso, Virilio, Furtado propõe uma leitura extrema-

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mente instigante, que se inicia praticamente “modo natural” de ser e estar no mundo:
em 3500 a. C., com a invenção da roda, “ferra- “Sob os efeitos da velocidade tecnológica, a
menta que prologa o movimento rotatório ou Weltanschauung do homem moderno conhece
seqüencial dos pés”(p.15) que “fundamenta a os fenômenos da instabilidade cronológica e
ess6encia da mecanização (p. 16). Utilizando da relativização da realidade espacial” (p.
a periodização de Lewis Mumford, Furtado 37), sintetiza ele.
mostra que esse mesmo princípio serviu Na segunda parte do ensaio, o autor
para inventar a locomotiva a vapor e depois aborda a produção cinematográfica de Buster
os primitivos aparelhos cinematográficos. Keaton que foi, simultaneamente, produtor,
Para evidenciar esta proposta, repassa as di- diretor, ator e cinegrafista de suas obras, dan-
ferentes invenções que, desde a camara oscura do especial relevo a Bancando o águia, Nossa
de Giovanni Battista della Porta, em 1588 (p. hospitalidade e A General, que lhe permitem
19 e ss), marcaram a história da humanidade: aplicar os princípios teóricos levantados na
prática da criação artística.
“A analogia entre as mecânicas do trem Neste caso, Furtado mostra que desde
e do aparelho cinematográfico explicita- logo o elemento cômico foi pressentido pelos
se aqui, pois que o sistema de roda den- movimentos de vanguarda como o movi-
tada solucionou também o problema de mento dadaísta e surrealista, que o incluíram
tração das primeiras locomotivas cons- em seu discurso, destacando, dentre outros,
truídas pelo engenheiro inglês Richard os primeiros filmes de René Clair, Fernand
Trevithcik: Uncle Dick’s Puffer (1804) e Leger e, muito especialmente, Louis Buñuel.
Catch me who can (1808)” (p. 23). Depois, ele dirige sua atenção para a
“máquina de rir” em que se constitui o cine-
Furtado mostra haver “semelhanças for- ma de Buster Keaton, afirmando que
mais e funcionais da janela do trem e da tela
de cinema, o alinhamento do tandem dos va- “sem desconsiderar as heranças do es-
gões e dos fotogramas e a analogia visual en- petáculo circense, da commedia dell’arte,
tre a película e a estrada de ferro” (p. 27), do vaudeville e do music-hall, um princí-
afirmando ainda que, a partir dessas inven- pio mecânico inspira a reconstrução
ções, houve a necessidade e a obrigação de paródica do mundo pela comédia
uma reeducação dos sentidos: burlesca. A aparência de espontaneida-
de e mproviso das gags resulta de um
“Os novos ambientes criados pela ace- minucioso planejamento técnico que in-
leração mecânica submetem os habitan- clui a análise e racionalização dos meca-
tes dos centros urbanos a um complexo nismos do efeito cômico e da estrutura
treinamento sensorial, alteranto tanto os da narrativa cinematográfica” (p. 77).
comportamentos individuais e sociais
quanto as estruturas do pensamento e Tudo isso é possível pelo pleno domí-
da sensibi-lidade” (p. 31). nio técnico e os amplos conhecimentos cientí-
ficos que o realizador possui, permitindo-
Para Furtado, “uniformidade, continui- lhe, ao mesmo tempo, demonstrar “uma
dade, fragmentação e repetição, colonização crença inarredável na relação harmoniosa en-
mecanicista da vida humana individual e so- tre homem e tecnologia” (p.92) mas, igual-
cial, [e] mitologização da máquina e da mente, denunciar os excessos e extremos em
velocidade”(p. 34), são as novas característi- que facilmente se pode cair. Assim, dois pro-
cas do ambiente mecânico atingido na passa- cedimentos técnicos são utilizados pelo cine-
gem do século XIX para o XX. Houve um asta, um deles, a “complexa assimilação de
alargamento de percepção que, por sua vez, elementos tecnomórficos pelo aparelho mo-
resultou em alterações profundas quanto ao tor humano”(p. 88) e depois a “metamorfose

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do corpo em máquina [que se refere] aos en- pequenino mas objetivo volume se quer
gates do personagem nas próteses de deslo- como um texto didático e como tal se organi-
camento” (p. 96). za. Ele é claro, tem uma estrutura claramente
Assim, a conseqüência é que, identificável e, além de fazer uma revisão
dos principais conceitos e da bibliografia bá-
“apropriando-se do espaço urbano da sica sobre o tema, aponta para os múltiplos
civilização tecnológica, a comédia desdobramentos que o assunto – análise de
burlesca desempenhou papel relevante discurso – não apenas no campo da comuni-
na produção das grandes configurações cação social, quanto em outros campos do
do imaginário coletivo do século XX, conhecimento, permite.
notadamente no que se refere aos ar- Milton José Pinto integra o corpo do-
quétipos da condição tragicômica do cente da Universidade Federal do Rio de Ja-
homem moderno”(p. 99). neiro. Gaúcho de nascimento, carioca por
adoção, vem desenvolvendo atividades em
Mais do que simples divertimentos, os classe há muitos anos. Tem experiência com
filmes de Buster Keaton, assim, transforma- a área que escolheu como tema deste livro, e
ram-se em obras privilegiadamente pioneiras isso fica evidente desde as primeiras páginas.
na análise crítica do novo contexto. Por isso, Dividindo o pequeno e útil volume em
seus personagens, “errantes, transitivos e de- três grandes blocos, no primeiro deles, inti-
senraizados [...] trabalham sobre o enigma da tulado “Uma síntese difícil”, busca historiar o
tecnologia”(p. 108). nascimento desta área de estudos no campo
A leitura do texto de Fernando Fábio da comunicação, mostrando as diferentes
Fiorese Furtado é tão fascinante quanto o ci- análises possíveis, ligando-as as vários cam-
nema de Keaton e o horizonte analítico que pos de conhecimento e, enfim, delimitando,
ele propõe. Não se conhecendo os demais com clareza, o campo por ele escolhido:
textos concorrentes nem a comissão que esco-
lheu este, que o vencedor, não podemos, de “O modelo de análise de discursos que
qualquer modo, deixar de nos parabenizar privilegio neste trabalho é (1) depen-
pela sua edição. É um excelente pretexto dente do contexto, (2) crítico nos dois
para que se possa refletir, com maior profun- sentidos definidos, (3) não confia na le-
didade, a respeito da grande aventura do ci- tra do texto relacionado-o às forças soci-
nema, do significado das conquistas tecnoló- ais que o moldaram, (4) não procura in-
gicas do século passado, dentre os quais um terpretar conteúdos, (5) usa um conceito
dos mais importantes foi a locomotiva a va- de ideologia ao lado do de discurso, (6)
por, e todos os seus desdobramentos, ao lon- trabalha comparativamente, (7) não usa
go do século XX. técnicas estatísticas no sentido acima, e
FURTADO, Fernando Fábio Fiorese – (8) trabalha com as marcas formais da
Trem e cinema - Buster Keaton on the railroad, São superfície textual”(p. 10).
Paulo, Cone Sul, 1998, 139 páginas.
Lançando mão das análises tradicionais
da retórica, com a hermenêutica, a filologia, a
Comunicação & Discurso retórica em sentido estrito, e a perspectiva
polifônica de Bakhtin, Milton José Pinto refe-
Lançado durante o 8o Congresso da re especialmente o francês Michel Pêcheux,
COMPÓS, em junho último, em Belo Hori- na análise francesa do discurso, mas valoriza
zonte, Comunicação & Discurso, do experiente a leitura ideológica do discurso, assim como
professor Milton José Pinto é, desde a pri- seus aspectos semióticos.
meira impressão de leitura, um livro de ex- Uma preocupação básica do autor é “li-
trema utilidade. Em primeiro lugar porque o mitar a proliferação de termos técnicos espe-

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cializados, tão comuns em disciplinas de de- nização, torna-se leitura obrigatória para to-
senvolvimento recente” (p. 21), permitindo- dos aqueles que pretendem avançar por este
se, contudo, aprofundar análises em torno do campo de estudo.
que denominará de modos de dizer, modos de PINTO, Milton José – Comunicação & dis-
mostrar, modos de interagir e modos de seduzir (p. curso, São Paulo, Hacker Editores, 1999,105
23). páginas.
Partindo da evidência da heterogenei-
dade dos discursos, Milton José Pinto procu-
ra mostrar a riqueza das relações estabeleci- Os novos cães de guarda
das entre o emissor, o receptor e a mensa-
gem, a tradicional tríade do processo comu- SERGE HALIMI PRETENDE denunciar, em Os novos
nicacional, mostrando as diferentes maneira cães de guarda, o que chama de jornalismo de
pelas quais cada um destes elementos consti- reverência, que seria uma característica do atu-
tutivos do discurso tem sido estudado ao al jornalismo francês. Para ele, existe uma es-
longo das décadas. Seja a capa de revistas, treita relação entre o jornalismo e o poder,
seja a obra pictórica clássica ou a embalagem que se traduz na formação de uma espécie
de produtos cotidianos como um pó para de máfia, integrada por alguns destacados
suco, todo o objeto presente na realidade profissionais que, não apenas ganham fantás-
concreta é passível de uma leitura, na medi- ticas fortunas em sua profissão, quanto se re-
da que porta, em si, um ou mais discursos. partem restritivamente os espaços, os elogios
Na perspectiva sociológica, Milton José Pinto e, evidentemente, os interesses dos diferentes
reconhece a relação entre o ideológico e o po- espaços da mídia francesa.
der (p. 40 e ss.), mas não reduz a análise a Retomando uma expressão de Paul Ni-
esta perspectiva. Sabe que a contextualização é, zan, a respeito de filósofos que, segundo ele,
no fundo, o elemento de certo modo funda- não realizavam bem a sua missão interrogati-
dor da interpretação e compreensão corretas va, Serge Halimi arvora-se numa espécie de
de qualquer discurso e por isso admite a im- corregedor da mídia de seu país, atacando
portância das mediações (p. 47 e ss.). especialmente as práticas de alguns dos no-
Para deixar bem clara a sua proposta de mes de maior referencialidade na mídia fran-
análise, o autor desenvolve algumas análises cesa, como Alain Peyrefite, Alain Touraine,
comparativas, mencionando estudos já clássi- Christine Okrent, André Rousselet, J. Clé-
cos, como os pioneiros de Eliseo Verón, pes- ment, Alain Duhamel, Michel Field, Alain
quisas que ele próprio orientou junto a alu- Minc, Anne Sinclair, Jean-Marie Cavada e ou-
nos seus, no Rio de Janeiro, e, enfim, algu- tros tantos.
mas sugestões mínimas de exercícios que po- Para ele, existe uma relação direta entre
dem ser facilmente retomados pelos leitores - o poder econômico e os jornalistas de grande
alunos em relação ao tema. notoriedade. Como, por outro lado, também
No encerramento do volume, Milton existe uma relação entre o poder econômico e
José Pinto sugere um roteiro de leituras intro- a política, termina Halimi por pretender de-
dutórias. E se apresenta alguns textos apa- nunciar a relação entre o poder econômico, o
rentemente referenciais inexistentes em livro, poder político e a mídia, o que, segundo ele,
na verdade está provocando o leitor a valer- é antiético.
se das novas tecnologias, como a rede Ora, há muito tempo – os teóricos di-
WWW, para a busca desses originais, que zem que pelo menos desde o início do sécu-
podem ser solicitados diretamente às univer- lo XIX – que esta situação existe. Ou seja, a
sidades em que foram produzidos. partir do momento em que a informação se
Por tudo isso, Comunicação & Discurso, tornou uma mercadoria, estreitaram-se os la-
graças a um texto tão cientificamente constru- ços entre o poder econômico e o poder políti-
ído quanto de leitura facilitada, por sua orga- co. Basta ler, dentre outros estudiosos brasi-

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leiros, Ciro Marcondes Filho (Imprensa e capi- gem: mostra o ridículo de certas práticas en-
talismo, S. Paulo, Kairós, 1984), para se ter evi- tre os principais jornalistas franceses, de
denciada esta realidade. Ela pode não ser auto-louvação e entre-citações que, evidente-
a ideal, e por certo não o é. Mas daí a preten- mente, devem ser repudiadas pelos especta-
der o autor deste livro estar a denunciar uma dores e leitores destes profissionais em geral.
determinada realidade, como se ela fosse no- Mas ele próprio acaba por diminuir a força
vidade, chega quase ao ridículo. Das duas de sua denúncia quando reconhece que al-
uma: ou Halimi não se dá conta do mundo guns dos pretensamente denunciados nem
em que vive ou então continua sonhando sempre permanecem com as vantagens con-
com determinadas utopias inexistentes no denadas, bastando citar-se a situação de
mundo capitalista. Christine Okrent, demitida justamente por
Para robustecer sua denúncia, Halimi quebrar algumas das regras vigentes na mí-
pretende fazer comparações entre as práticas dia francesa.
francesas e norte-americanas, concluindo que Bem embasado teoricamente, mas sob
existiria maior autonomia na mídia dos Esta- uma ótica não sei se ingênua ou apenas es-
dos Unidos do que na francesa. É provável candalosa, o livro de Serge Halimi esgota-se
que os administradores da mídia norte-ame- em si mesmo. Sob a capa do discurso acadê-
ricana tenham maior cuidado com as emis- mico, tingido de ética indignada, nada mais
sões e as informações que divulgam. Mas encontramos que um punhado de fofocas en-
não se pode acreditar, de boa fé, que as rela- contráveis até mesmo em publicações como a
ções entre poder econômico e poder político, Caras brasileira. Se se quiser, de fato, discutir
refletindo-se sobre a relação destes com os e aprofundar as questões éticas desta convi-
jornalistas, seja diversa da realidade que vência ou, mesmo, desta conivência, talvez
ocorre na França. Observe-se que a adminis- seja melhor ler o norte-americano John Hul-
tração redacional toma muito cuidado com o teng (Os desafios da comunicação: problemas éti-
que permite ser publicado e a primeira cos, Florianópolis, UFSC, 1990), Claude-Jean
emenda à Constituição norte-americana, se Bertrand (A deontologia das mídias, Bauru,
garante a absoluta liberdade de imprensa, EDUSC, 1999) ou ainda Daniel Cornu (Ética
obriga igualmente a uma responsabilidade da informação, Bauru, EDUSC, 1998), menos
radical dos proprietários de uma empresa de panfletários e mais objetivos em suas análi-
comunicação em relação ao que divulgam. ses.
Observe-se o famoso relato de Bob Woo- HALIMI, Serge – Os novos cães de guarda,
dward e Carl Bernstein a respeito do Caso Petrópolis, Vozes, 1998, 150 páginas ■
Watergate. No entanto, todos conhecemos a
profunda centralização, os oligopólios forma-
dos pela chamada indústria cultural, na antiga
acepção de Adorno-Horkheimer, atualizada
enquanto indústria de consciências, por Enzens-
berger, focalizada em obra muito bem pes-
quisada de Armand Mattelart na década de
70 (As multinacionais da cultura, Rio de Janeiro,
Civilização Brasileira, 1976).
A impressão que se tem é que Serge
Halimi não conseguiu espaço em nenhum
segmento, nem mesmo no socialista, que de-
nuncia veementemente, reduzindo às mes-
mas práticas tanto o direitista Chirac quanto
o socialista Mitterand. Na verdade, o discur-
so trotskista de Halimi só tem uma vanta-

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