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Mata Atlântica Fragmentos Cap. 1 port

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história da mata atlântica 11

capítulo 1

Opulência Vegetal, Cobiça Insaciável e a Entronização da Entropia: Uma Visão da História Socioambiental da Mata Atlântica
Clóvis Cavalcanti

O
2. Bolsista da Conservação Internacional do Brasil, Projeto Corredor de Biodiversidade Projeto do Nordeste. Ao lado: Nome vulgar e científico da Bromélia Local e data da observação

presente capítulo destina-se a oferecer uma visão compreensiva – salientando alguns traços marcantes – da história social do processo de destruição da Mata Atlântica, abordando também aspectos econômicos do problema. Mas de que Mata Atlântica exatamente se está falando? O espaço geográfico desse ecossistema aqui considerado corresponde, em princípio, ao seu setor nordestino na parte ao norte do Rio São Francisco (11o lat. S na foz). Na verdade, ao sul do rio, a cobertura original da Mata Atlântica, em 1500, era escassa no Estado de Sergipe, alargando-se e encorpando-se substancialmente à medida que se desce para o sul da Bahia (Dean, 2004, mapa 1). No seu segmento ao norte do São Francisco é que, no período decisivo da formação brasileira, desenvolveu-se parte substancial da civilização do açúcar. Lembra Freyre (1985), a propósito, que “a primeira grande expressão de civilização brasileira – a baseada no açúcar – foi particular ao Nordeste, isto é, ao Brasil agrário que se estendia do Recôncavo da Bahia ao Maranhão”. A história do Brasil se traduz então na história do próprio açúcar (Freyre, 1985). É o segmento da Mata Atlântica que ocupava quase toda a zona litorânea de Alagoas e Pernambuco (estados que constituíam uma capitania só no século xvi), cobrindo área maior neste do que naquele estado, que nos interessa. A presença do bioma em questão na Paraíba e no Rio Grande do Norte, por outro lado, era bem menos expressiva, menos mesmo do que em Sergipe. Foi sua

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Frans Post. Serinhaim. Do livro Rerum per Octennium in Brasilien, de Gaspar Barléu, 1647.

existência como bioma rico em vegetação de floresta que levou a designar como Zona da Mata a estreita faixa de terra que acompanha a costa nordestina oriental, onde se concentram atualmente – menos, porém, em termos relativos, do que no passado – a população e atividades econômicas da região. Zona da Mata é um nome que, de pronto, remete à antiga “opulência vegetal” que vicejava na Mata Atlântica do Nordeste, especialmente em Pernambuco (Silva, 1993). Opulência que vicejava. Não viceja mais, porque o que existe hoje, o que sobrou de uma atividade de destruição de 500 anos, são pobres vestígios dessa riqueza inigualável, o que faz a denominação Zona da Mata possuir conotações de cruel ironia (cf. Freyre, 1985). O estudo que aqui se elabora não pretende ser exaustivo ou original nos fatos que oferece. Se originalidade existe é no que toca à interpretação de certos fenômenos. Muito daquilo que diz respeito à Mata Atlântica, com efeito, já foi pesquisado e analisado competentemente por autores diversos, a exemplo de Gilberto Freyre (1985) e Warren Dean (2004). Este último tem seu foco, é certo, no espaço abaixo do paralelo 13o S e acima da floresta de coníferas. Porém, Dean (2004) faz a ressalva, correta, de que a seção da Mata Atlântica por ele investigada constitui o corpo central da floresta, representando mais de 70% do conjunto inteiro e onde quase todos os aspectos da história dos assentamentos humanos aí estabelecidos seriam típicos também das áreas restantes. De qualquer forma, o que se pretende aqui é, à semelhança do que fez Paulo Prado em Retrato do Brasil (1931), e para chegar à essência das coisas, apresentar aspectos, situações típicas, representações da realidade e dos acontecimentos, “resultantes estes mais da dedução especulativa do que da seqüência concatenada de fatos” (Prado, 1931). Vale notar que o historiador John L. Myers recorda que “extensões imensas do planeta não têm literatura histórica”, faltando assim uma minuciosa descrição do ambiente biogeográfico que aí determinou a evolução e a existência dos humanos. Essa é a situação da Mata Atlântica, da qual se sabe alguma coisa, a partir do século xvi, por intermédio de documentação esparsa e dos relatos dos primeiros cronistas, a exemplo de Antonil (1997) e Gandavo (1980). Um assunto que será objeto da segunda seção deste trabalho. Uma idéia do processo destruidor por que passou a Mata Atlântica – a ser oferecida nas terceira, quarta e quinta seções do presente capítulo, no tocante aos objetivos da conquista colonial, do processo de exploração e emprego de escravos, respectiva-

mente – se retira da eloqüente constatação de Freyre (1985) de que o que sobrou dessa floresta são “restos de mata”, “sobejos da coivara”. Ela foi ocupada pelo canavial e o engenho “sem outra consideração que a de espaço para a sua forma brutal de explorar a terra virgem” (Freyre, 1985), devastando-se simplesmente a mata a fogo. Como, na observação de Dean (2004), tal resto da riqueza original da floresta se mostra (ainda) “indescritível em termos práticos e imensamente complexo”, pode-se avaliar a dimensão do impacto que são quinhentos anos de avanço do mundo moderno sobre a herança biológica contida na complexidade e beleza da Mata Atlântica que existia no país em 1500. É certo que todo regime agrícola, como o que se estabeleceu na Mata Atlântica, causa transtornos aos sistemas naturais. As ações humanas, retirando recursos da natureza e nela eliminando matéria e energia degradadas, sempre causaram e causarão impactos ambientais negativos. Por outro lado, como observa Pádua (2002) aludindo a Simon Schama, o trabalho dos historiadores da natureza tende a fazer sobressaírem as intervenções destrutivas nas relações homem-ecossistema. Isso não quer dizer que os humanos só tenham destruído. O problema é que processos de aniquilamento natural como os da história do Brasil, ao longo de séculos, destacam-se de uma forma tão contundente que ações possivelmente benignas dos colonizadores terminam ofuscadas. Essa, certamente, é a saga da Mata Atlântica – e também a que se tem tornado símbolo, nos anos recentes, da Caatinga, do Cerrado e da Amazônia. Interessante é que a devastação acompanha a civilização – veio com ela no caso da colonização lusitana –, enquanto o trabalho dos “selvagens” que aqui havia, como se verá na seção seguinte, dela conheceu tão-somente formas atenuadas (cf. Brunhes, 1955). Certamente, o registro da destruição de sistemas naturais como a Mata Atlântica evidencia fatos vergonhosos. Mas isso não pode, nem deve, ser omitido. Pode ser útil (Dean, 2004) para evidenciar o grau de loucura ou ignorância da espécie humana. No caso nordestino, o que se revela a esse propósito é uma situação de “economia de rapina”: um trabalho contra a natureza. Mais do que a simples economia de feitoria ou de exploração – que extrai sem pretender destruir ou causar dano permanente ao meio –, a economia de rapina encerra a idéia de explorar destruindo ou causando dano permanente (Castro Herrera, 1996). A expressão foi empregada em 1910 pelo geógrafo francês Jean Brunhes (1955). Ela “designa uma modalidade peculiar de ‘ocupação destrutiva’ do espaço por parte da espécie humana, que ‘tende a arrancar-lhe matérias-primas minerais, vegetais ou animais, sem idéia nem meios de restituição’” (Castro Herrera, 1996). É ação semelhante à de um garimpo como o de Serra Pelada, no Pará. Ou da extração de manganês da Serra do Navio, no Amapá (Brito, 1994). Ou ainda da destruição física de um pequeno país-ilha do Pacífico, Nauru, literalmente devastado em 80 % de seu território pela exploração

do fosfato que dele saiu no período 1920-2000. Tal modelo define um dos traços mais característicos da relação sociedade-meio ambiente na América Latina a partir do século xvi. Trata-se de uma forma particular de coleta, que agride a natureza com grande violência. Desse ataque violento, como concebia Brunhes, pode “resultar a miséria, e então é a devastação generalizada” (Castro Herrera, 1996). A modalidade de economia de ocupação destrutiva que possui um “caráter normal, metódico” (colônias de exploração) não se compara à economia de rapina. Esta última modalidade se distingue por possuir uma intensidade imoderada que lhe faz por merecer a designação de rapina econômica, ou ainda, mais simplesmente, devastação. Os grupos humanos que existiam no Brasil pré-conquista eram sociedades de circuito fechado (cf. Castro Herrera, 1996), auto-sustentadas, auto-suficientes. Não possuíam propósitos comerciais. Não efetuavam trocas com sociedades no seu exterior. Tinham como propósito fundamental reproduzir-se: promover o atendimento de suas próprias necessidades, sem intentos de acumulação. Suas relações com o meio ambiente eram diversificadas e, satisfeitos os fins de sustentação do grupo, permitiam desenvolvimentos culturais que incluíam conhecimento íntimo da ecologia dos sistemas naturais ao redor. Daí a tendência a um inevitável convívio harmonioso (e reverente) com a natureza, trabalhando antes com ela do que contra ela. A chegada dos colonizadores rompeu com esse modelo, pondo fim ao sistema de circuito fechado. Sociedades de circuito aberto, não mais auto-suficientes e sem capacidade de auto-determinação quanto aos fins e termos de sua existência, irão surgir. As novas relações de intercâmbio com o exterior – desvantajosas para o nativo e para o ambiente natural da colônia – introduzem o paradigma do desenvolvimento exógeno, de caráter predatório, especializado, simplificador. Novos agentes do processo, por sua vez, desconhecem completamente o ecossistema original do novo território e, alimentados por sua ignorância, lançam-se à empreitada de extrair dele o maior retorno possível, cometendo o crime da devastação. Trata-se de um processo de incorporação violenta das terras recém-encontradas ao espaço da economia-mundo. O que se faz a custos altíssimos para o território que se mantivera fechado até então. Sobre isso se fala nas sexta e sétima seções deste estudo, as quais tratam, respectivamente, de uma avaliação do processo e das características do modelo de ocupação européia da Mata Atlântica. O estudo se encerra, na oitava seção, com algumas conclusões. Acho importante dizer que sou da Zona da Mata de Pernambuco. Nasci entre canaviais numa usina de açúcar (a Frei Caneca, hoje Colônia), no então Município de Maraial, atualmente parte do Município de Jaqueira. Meu pai era contador da empresa, onde trabalhou no período 1934-1990. Em ambos os lados de minha família há relações com propriedades rurais, com antepassados produtores de cana-de-açúcar, açúcar mascavo, rapadura e

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cachaça. A avó paterna de meu pai, que conheci, Maria Luíza Bandeira de Melo Cavalcanti (1862-1947), era senhora do Engenho Taquarinha, em Maraial. Meu bisavô, João Pereira de Aguiar (1865-1932), avô materno de minha mãe, também foi senhor de engenho e fornecia cana para a Usina Catende – a maior do Brasil na época. Convivi desde cedo com relatos, uns tristes, como os da escravidão, outros mais edificantes, como os da história da monocultura canavieira de Pernambuco, sobre a qual meu pai fazia muitos comentários críticos, especialmente no tocante à devastação das matas. De minha casa, contemplei durante a infância e nos períodos de férias escolares da adolescência, nos anos 1940 e 1950, pedaços significativos – não “sobejos de coivara”, no dizer de Gilberto Freyre (1985) – da esplendorosa Mata Atlântica. Um deles, o da bela Serra do Espelho, ainda hoje uma reminiscência magnífica do que era a floresta original, se bem que reduzida a 630 hectares, com espécies endêmicas de bromélias, por exemplo. Essa serra, um maciço rochoso, sempre me despertou o maior interesse. Nela, com irmãos, primos e amigos, fiz passeios, piqueniques, caminhadas, o primeiro deles com meus pais, quando tinha apenas seis anos de idade. Viajando de trem, meio de transporte da época para longas distâncias na Zona da Mata pernambucana e alagoana, inclusive no pequeno vagão de passageiros (“bondezinho”) da Usina Frei Caneca – um de seus herdeiros, Gustavo Duarte da Silveira Barros, a propósito, preserva admiravelmente o que resta da Serra do Espelho –, a Mata Atlântica era uma presença constante na paisagem. É que a cana-de-açúcar ainda não ocupara de forma absoluta a região. Os morros da Zona da Mata Sul de Pernambuco tinham cultivos da gramínea em suas encostas; mas, nos seus topos, conservavam preciosas ilhas razoavelmente grandes de floresta. Em algumas áreas dessas manchas, plantava-se café. Havia ali tatus, macacos, sagüis, cutias, tamanduás, gatos-do-mato, capivaras, preguiças, cobras e uma diversidade de aves. O grande poeta – inclusive no físico – Ascenso Ferreira (1895-1965), amigo de infância de minha avó materna (nascida em 1894) e, como ela, natural de Palmares, na Zona da Mata Sul de Pernambuco, que freqüentava minha casa e recitava com sua voz ímpar deliciosos poemas seus, menciona a mata vista do trem da Great Western em seu inspirado canto “Trem de Alagoas”, também conhecido pelo verso inicial: “Vou danado pra Catende”. Toda essa introdução acima é para dizer que possuo uma ligação ancestral e visceral com a Mata Atlântica, parte de cuja opulência biológica consegui registrar indelevelmente na memória a partir do que vi com meus próprios olhos. A ligação ainda hoje se manifesta no meu mundo privado de proprietário de 23 hectares de terras do brejo de altitude do município pernambucano de Gravatá, onde trechos da floresta são por mim conservados. Pertenço à estirpe dos Cavalcanti – surgida em Olinda nos meados do século xvi, bem próximo do local onde resido

hoje –, a qual ajudou a perpetrar o saque e a destruição da Mata Atlântica. Mas descendo igualmente da tribo tabajara, inimiga dos caetés que habitavam Olinda quando os portugueses aqui chegaram. Depois de algumas lutas, lusos e tabajaras se aliaram contra os caetés e os venceram. O primeiro Cavalcanti, Filippo, de Florença (Itália) – único, na verdade, a chegar aqui com esse sobrenome – casou-se com uma mameluca, Catarina de Albuquerque Arcoverde, filha do português Jerônimo de Albuquerque, chamado o Adão pernambucano, e da índia tabajara Muira Ubi, que após o batismo cristão passou desnecessariamente a se chamar Maria do Espírito Santo Arcoverde. Por uma razão que não sei explicar, sobre a qual já me manifestei anteriormente (Cavalcanti, 1992), identifico-me mais como ameríndio do que como europeu ou africano. Isso me leva à posição de tender mais a interpretar os fenômenos daquilo que foi a brutal destruição – a “ferro e tição” (Couto, 1849; Dean), “a machado e fogo” (Freyre, 1980), “a ferro e fogo” (Dean, 2004) – da Mata Atlântica na ótica das populações que a haviam habitado por dez, 12 mil anos antes dos europeus. É dessa perspectiva que elaboro as observações, os comentários e as conclusões da presente seção e, na verdade, do restante do capítulo. Sem que por isso me sinta menos fiel ou menos objetivo, na minha condição de pesquisador, em minha interpretação e minhas especulações, como também não me sentiria se me inclinasse a assumir a ótica do colonizador europeu ou do escravo africano.

Opulência vegetal: uma visão do ecossistema da Mata Atlântica na chegada dos portugueses
Quem primeiro viu a Mata Atlântica e descreveu ao mesmo tempo a visão que teve, tal como a floresta deveria ser em 1500, foi o escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral, Pero Vaz de Caminha, em sua famosa carta ao Rei D. Manuel i, de Portugal. Evidentemente, tal missiva constitui um relato impressionista, sem detalhes ou pretensão de registro científico. Mas é sugestivo o tom dominante da descrição, especialmente da riqueza vegetal encontrada, com expressões como “os arvoredos são mui muitos e grandes, e de infinitas espécies, não duvido que por esse sertão haja muitas aves!”. Ou ainda: “esse arvoredo que é tanto e tamanho e tão basto e de tanta qualidade de folhagem que não se pode calcular”. Impressão que foi também, em 1817 – muito depois, portanto – a de Casal (1996), ao se admirar da “terra chão coberta de arvoredo”. Terra que, pela aparência, segundo Casal (1996), levava à admissão de que não houvesse país que pudesse “competir com o Brasil na multiplicidade de vegetais”. Na biodiversidade, dir-se-ia agora. Na Mata Atlântica, conforme o mesmo autor, abundavam em variedade “excelentes madeiras de construção, paus de tinturaria e plantas medicinais” (Casal, 1996). Ora, nada mais natural, assim, que

Caminha se maravilhasse, enfatizando: “Esta terra (...) de ponta a ponta é toda praia (...) muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande; porque a estender olhos, não podíamos ver senão terra e arvoredos”. A carta de Caminha, como sugere Prado (1931), embora de “idílica ingenuidade, é o primeiro hino consagrado ao esplendor, à força e ao mistério da natureza brasileira”. Pero de Magalhães Gandavo retoma o assunto em 1576, expondo o que testemunhara: “Esta terra é mui fértil e viçosa, toda coberta de altíssimos e frondosos arvoredos, permanece sempre a verdura nela inverno e verão” (Gandavo, 1980); a terra “é à vista mui deliciosa e fresca em grã maneira: toda está vestida de mui alto e espesso arvoredo” (Gandavo, 1980). São descrições, impressões, desenhos da paisagem contemplada que nos remetem a especulações sobre o que o cenário esconderia. Gandavo ainda dá depoimento sobre outras coisas que o impressionaram: “Há por baixo destes arvoredos grande mato e mui basto e de tal maneira está escuro e serrado em partes que nunca participa o chão da quentura nem da claridade do Sol, e assim está sempre úmido e manando água de si” (Gandavo, 1980). Chama sua atenção a existência de “muito pau-brasil nestas Capitanias (Bahia, Pernambuco) de que os mesmos moradores al-

Frans Post. Serinhaim. Do livro Rerum per Octennium in Brasilien, de Gaspar Barléu, 1647.

Página 13: Frans Post. O carro de bois. Óleo sobre tela, 61 x 88 cm, 1638.

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Frans Post. Alagoa Ad Austrum. Gravura em metal do livro Rerum per Octennium in Brasilien, de Gaspar Barléu, 1647.

Abaixo: Tamanduá-guaçu. Do livro de Georg Marcgraf, Historiae Rerum Naturalium, 1648.

cançam grande proveito” (Gandavo, 1980). Interessante era a verificação de que “certo gênero de árvores há também pelo mato dentro da Capitania de Pernambuco a que chamam Copaíbas” (Gandavo, 1980). Isso foi no século xvi, pois no xxi a espécie, também conhecida como pau d’óleo, está praticamente extinta em território pernambucano. No novo mundo da descoberta dos portugueses, impressionava a opulência vegetal. Do mesmo modo a riqueza das águas, de que dá conta, por exemplo, o huguenote francês Jean de Léry (1972), que morou na Baía de Guanabara durante quase um ano, junto aos tamoios, em 1557-1558. Nas suas palavras, “quanto à água das fontes e rios, incomparavelmente melhor e mais sadia que a nossa, nós a bebíamos sem mistura” (Léry, 1972). Sobre isso também se manifestou Gandavo: “As águas que há na terra se bebem, são mui sadias e saborosas, por muita que se beba não prejudica a saúde da pessoa, a mais dela se torna logo a suar e fica o corpo desaliviado e são” (Gandavo, 1980); a terra é “regada com as águas de muitas e mui preciosas ribeiras de que abundantemente participa” (Gandavo, 1980). Suas fontes, no entender dele, seriam infinitas e suas águas faziam “crescer a muitos e mui grandes rios (...) que entram no Oceano” (Gandavo, 1980). Gandavo ainda deu conta da abundância de marisco e de peixe no âmbito da Mata Atlântica, com a qual “se

sustentam os moradores do Brasil sem fazerem gastos nem diminuírem nada em suas fazendas” (Gandavo, 1980). E aludiu à “muita caça”, segundo ele, “(u)ma das coisas que sustenta e abasta muito os moradores desta terra do Brasil – caça de muitos gêneros e de diversas maneiras, a qual os mesmos índios da terra matam” (Gandavo, 1980). Warren Dean, que tão minuciosamente – ainda que com interpretações discutíveis – estudou a história ambiental da Mata Atlântica, indaga se, “quando avistada pela primeira vez pelos navegadores europeus, (a floresta) era exatamente como seria se eles tivessem chegado a uma praia despovoada, ou já estava alterada pela primeira onda de invasão humana” (Dean, 2004). Não se pode dar uma resposta taxativa a pergunta tão vasta, até porque, em muitas partes da floresta, a presença humana talvez nunca tivesse chegado. Ela existia, claro, em Porto Seguro – e em muitos outros sítios –, quando os portugueses ali ancoraram em 22 de abril de 1500. E era, apesar da significativa população ali encontrada, mata densa, oferecendo ao longo da costa “um obstáculo formidável” para quem a quisesse “penetrar e atravessar, como que exprimindo a opressiva tirania da natureza” (Prado, 1931). Os portugueses a ela se referiam como uma “muralha verde”, indicação clara da vitalidade do ecossistema que ela continha. Dean (2004) levanta a hipótese de que as trilhas existentes – usadas já mesmo por integrantes da frota de Cabral na chegada em 1500, levados através delas pelos indígenas – fossem “passagens por uma paisagem natural já muito modificada”. Diante, porém, de registros como os de Caminha, Gandavo e Léry, não se pode concluir que a paisagem natural tivesse sido objeto de intervenções maiores. Nela, chamava atenção, como assinala Gandavo (1980), “a fertilidade e abundância da terra”, o que só teria sido possível constatar na hipótese de um uso pouco agressivo dos recursos naturais pelos habitantes originais do país. Depois de comentar que “os relatos europeus sobre a relação dos (tupis) com o ambiente são dispersos, imprecisos e preconceituosos”, Dean (2004), em sintonia com estudiosos como Ruttan (1998) e Burke (2001), afirma que os índios “não eram conservacionistas no sentido de poupar os recursos naturais para as gerações vindouras” – isso, não por descuido, e sim por conta da “certeza razoável sobre a adequação de seus recursos e sua capacidade de defendê-los contra os competidores” que possuiriam (Dean, 2004). Ou porque, por fatalismo, acreditassem numa vontade divina determinando o que existia e o que desaparecia no ecossistema. Caminha, com outro raciocínio em mente, já dizia: “Deduzo que (os índios são) gente bestial e de pouco saber, e por isso tão esquiva. Mas apesar de tudo isso andam bem curados, e muito limpos”. Uma gente que se apresentava com aspecto saudável, impressionando os portugueses – a ponto de Caminha sublinhar que “os seus corpos são tão limpos e tão gordos e tão formosos que não pode ser mais!” –, deveria saber cuidar do recurso básico

que os sustentava e lhes dava saúde: seu sistema ecológico. O próprio Dean (2004), reproduzindo um dado da antropologia cultural, registra que os nativos da Mata Atlântica “consideravam as florestas como pertencentes aos espíritos e animais que as habitavam, ou pelo menos como pertencentes tanto àqueles seres como a si mesmos”. Tinham, pois, motivos suficientes para zelar por sua riqueza natural. Até por medo das divindades. Assim, é de se imaginar que o ecossistema original da Mata Atlântica, nos primórdios da colonização portuguesa, luzia como uma organização complexa, respeitada pelos nativos basicamente na sua inteireza. Pode-se admitir, todavia, que intervenções humanas, algumas até de maior porte, houvessem acontecido. Mesmo porque, para viver no meio da floresta, como faziam os índios, seus moradores teriam necessidade de executar algumas derrubadas, modificando o ambiente. Por outro lado, os indígenas conheciam a agricultura, que era “muito mais viável” para eles, como assinala Dean (2004), nos solos da floresta. E os índios realizaram sempre atividades de lavoura com o uso do fogo. Sua condição de saúde de modo geral, porém, um indício da saúde do entorno ambiental – como se sabe, não existe organismo são em um ambiente enfermo –, sugere boa gestão dos recursos da natureza na Mata Atlântica antes de 1500. Jean de Léry, testemunha ocular do que falava, é enfático a respeito: “Os selvagens do Brasil, habitantes da América, chamados Tupinambás, entre os quais residi durante quase um ano e com os quais tratei familiarmente, não são maiores nem mais gordos do que os europeus; são porém mais fortes, mais robustos, mais entroncados, mais bem dispostos e menos sujeitos a moléstias, havendo entre eles muito pouco coxos, disformes, aleijados ou doentios. Apesar de chegarem muitos a 120 anos (sabem contar a idade pela lunação), poucos são os que na velhice têm os cabelos brancos ou grisalhos, o que demonstra não só o bom clima da terra, sem geadas nem frios excessivos que perturbem o verdejar permanente dos campos e da vegetação, mas ainda que pouco se preocupam com as coisas deste mundo” (Léry, 1972). Caminha, aliás, já notara que os selvagens “não comem senão deste inhame, de que aqui há muito, e dessas sementes e frutos que a terra e as árvores de si deitam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos”. É claro que o escrivão de Cabral não fazia uma avaliação rigorosa de coisa alguma. Mas são dois depoimentos coincidentes, o dele e o de Léry, em épocas distintas e em locais diversos. E que têm muito em comum, por exemplo, com o tratado descritivo de Gabriel Soares de Souza (2001), de 1572, que retrata a exuberância da natureza, a qualidade dos paus, a pureza das águas, a diversidade biológica da Mata Atlântica, seu estado prístino. Sem visar a uma economia comercial, especializada, as atividades de subsistência dos índios na Mata Atlântica teriam inevi-

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tavelmente que causar muito menor impacto ambiental do que as dos colonizadores. Dean (2004) insiste, sem dúvida, na improbabilidade de que alguma parte das baixadas da Mata Atlântica, com sítios adequados à lavoura, tenha escapado de ser derrubada pelo menos uma vez durante a fase de desenvolvimento cultural da agricultura itinerante. Esta forma de cultivo, de fato, exerce pressão sobre o ecossistema. No caso dos povos da Mata Atlântica, sem embargo, pela extensão do território e a presença humana relativamente pequena, não se pode imaginar grandes e irreversíveis impactos ambientais – muito menos, em toda a vasta área das baixadas da floresta. Em dez mil anos de ocupação da selva, seus habitantes podem tê-la modificado aqui e acolá, como sempre fizeram os indígenas. Mantiveram, não obstante, o equilíbrio ambiental. O próprio Dean (2004) reconhece que em 1500 os tupis eram capazes de se expandir mais “e ainda não haviam exaurido o potencial produtivo de seu habitat”. Pelo contrário, deveriam estar longe disso. Vivendo no nível da subsistência, mas sem ser pobres no sentido socioeconômico moderno (Cavalcanti, 1992), os indígenas não sabiam o que era acumulação. Plantavam, colhiam, pescavam, caçavam segundo suas necessidades, tal como se pode observar ainda hoje nas aldeias que vivem à margem da civilização branca no interior da Amazônia (Reichel-Dolmatoff, 1976). Dessa forma é que dispunham de tempo livre. Léry (1972) acusa:“Bebam pouco ou muito porém, como não sofrem de melancolia congregam-se todos os dias para dançar e folgar em sua aldeia”. Essa é a realidade de um povo são e alegre, o que se pode atribuir em parte a uma convivência em relativa harmonia com uma natureza aparentemente saudável. Caminha, a propósito, oferece um depoimento, jornalístico, é verdade, mas autêntico no que o escriba percebe: “Parece-me gente de tal inocência que, se nós entendêssemos a sua fala e eles a nossa, seriam logo cristãos”. Dispondo de tempo, os índios aumentavam naturalmente sua comunicação, inclusive no plano sobrenatural, com o ecossistema. Atribuíam “nomes a centenas de espécies para as quais encontraram algum uso e sobre as quais conheceram os habitats, estações, hábitos e, ainda, relações com outras espécies” (Dean, 2004). Dessa forma, e pela própria diversidade de povos ocupando a Mata Atlântica, milhares de espécies da floresta foram catalogados na memória de seus nativos. A complexidade da floresta como ecossistema, certamente, não teria passado despercebida aos seus moradores originais. Com toda essa riqueza de informação, os indígenas acumularam conhecimentos de volume considerável, um patrimônio único que, lamentavelmente, não foi no momento certo aproveitado pelos colonizadores portugueses, tendo-se perdido, ao contrário e para sempre, na penumbra do tempo. Pode-se concluir dizendo que a atividade agrícola pré-descobrimento, a despeito de problemas que terá enfrentado, conseguiu sustentar a sociedade que dela dependia sem graves alterações

ambientais. A paisagem que os portugueses aqui encontraram, não há nenhuma dúvida, exibia uma selva luxuriante, com impressionante diversidade de fauna e flora e uma população humana de boa aparência. Se não era assim – mas a evidência faz supor que era –, Pero Vaz de Caminha, no mínimo, teria sido de precisão muito infeliz. Pelo mesmo processo teriam passado Jean de Léry (um rigoroso missionário da teocracia democrática de Calvino), Gabriel Soares de Souza e outros cronistas dos começos do Brasil, a exemplo de Cardim (1939). É certo que há quem, como o geógrafo William M. Denevan (1992), sugira algo distinto: uma paisagem com alterações mais expressivas. Isto parece mais cabível, porém, nas regiões em que predominava a presença dos povos asteca e inca; perde força aparentemente como argumento em relação aos nativos da Mata Atlântica. Pelo menos, é assim que se pode pensar a partir de quem esteve aqui no século xvi. O que não significa dizer que, se a população nativa do Brasil fosse dez vezes maior em 1500, por exemplo, não fosse haver uma destruição perigosa da base biofísica em que ela repousava. Mas isso é pura especulação. Pode mesmo ter havido uma população numerosa em partes do território brasileiro, sem devastação ambiental de relevo (v.g. Roosevelt et al., 1996).

Cobiça insaciável: propósitos da “conquista” e interesses dos colonizadores
Para entender o que se passou na Mata Atlântica depois do fatal episódio do “descobrimento”, é preciso questionar o que levaria uma enorme armada portuguesa, enfrentando todas as dificuldades das viagens marítimas do findante século xv, a cruzar o oceano e ancorar em Porto Seguro. Esse assunto já foi por demais discutido e explorado, não sendo o caso de repetir aqui tudo o que se sabe. Apenas convém lembrar a permanente (e cada vez mais intensa) disputa na sociedade, já então, pelo uso e controle dos recursos da natureza (cf. Castro Herrera, 1996; Crosby, 1993), seja em escala nacional, seja mundial. Portugal se expandia e, na busca de acumulação, era levado a incorporar novos territórios a seu diminuto espaço geográfico. A frota de Cabral chegou à Terra de Vera Cruz confiante de que iria encontrar aqui muito mais do que a parte que lhe cabia segundo a divisão territorial do Novo Mundo acertada com a Espanha no Tratado de Tordesilhas (de 1494). De fato, o que interessava à Coroa portuguesa não eram tesouros arqueológicos ou a biodiversidade. O que tinha em mente eram metais preciosos e outros recursos minerais. Caminha revela isso quando em sua carta, dez dias depois da chegada da frota, observa: “Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata (na nova terra), ou outra coisa de metal, ou ferro”. Antes, referindose a um dos interlocutores que os portugueses procuraram para saber o que existia em Vera Cruz, escrevera: “ninguém o enten-

dia, nem ele a nós, por mais coisas que a gente lhe perguntava com respeito a ouro, porque desejávamos saber se o havia na terra”. A armada de Cabral partiu sem levar notícias a tal respeito, apesar de Caminha referir que, no primeiro contato com os nativos, na nau capitânea, um destes “fitou o colar (de ouro) do Capitão, e começou a fazer acenos com a mão em direção à terra, e depois para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra. E também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como se lá também houvesse prata!”. Setenta anos depois, na mesma linha da esperança de enriquecimento de Portugal, Gandavo (1980) ainda especulava: “é certo ser em si a terra mui rica e haver nela muitos metais”. O mesmo Gandavo falava também: “além de ser tão fértil como digo, e abastada de todos os mantimentos necessários para a vida do homem, é certo (a terra) ser também mui rica, e haver nela muito ouro e pedraria, de que se têm grandes esperanças” (Gandavo, 1980). Com base nessa ânsia, um analista da psicologia da descoberta sublinha que dois grandes impulsos dominavam a idéia que os lusos alimentavam do Brasil: “a ambição do ouro e a sensualidade livre e infrene” (Prado, 1931). Mas era, segundo o mesmo autor, a “cobiça insaciável, na loucura do enriquecimento rápido” (Prado, 1931) que movia os colonizadores após a “conquista”. Havia, por outro lado, a necessidade prática de Portugal viabilizar a ocupação de terra tão vasta, procurando dar-lhe uma utilização econômica antes que os metais preciosos fossem encontrados. Afinal, a Coroa precisava, como diz Furtado (1967), “cobrir os gastos de defesa” das terras. Se não se dispusesse de uma fonte que provesse o financiamento da empreitada, o ônus da proteção ao território conquistado excederia a capacidade portuguesa de cobri-lo. Não se achando o ouro sonhado, e sem se tentar a saída da exploração do capital vegetal da Mata Atlântica, “dificilmente Portugal teria perdurado como grande potência colonial na América” (Furtado, 1967). Na aguda interpretação de Sérgio Buarque de Holanda, com sua diferenciação dos dois princípios que regulariam as atividades humanas, simbolizados pelos tipos do “aventureiro” e do “trabalhador” (Holanda, 1976), o colonizador brasileiro foi da classe do primeiro. A empreitada que ele levou a cabo, efetivamente, não constituiu um empreendimento pensado e sistematizado. “Seu ideal (foi) colher o fruto sem plantar a árvore” (Holanda, 1976), com um empenho concentrado não na construção de uma sociedade forte, mas na recompensa imediata do esforço. Encontrar ouro abundante era só uma das manifestações do espírito de aventura. Outras foram muito daquilo que ficou como herança na personalidade brasileira: um espírito antiecológico, a ânsia de prosperidade a todo custo (para a sociedade, e não para o indivíduo), a busca oca de títulos honoríficos, de posições e riqueza fáceis. Paulo Prado já havia abordado o assunto, apontando o desamor à terra que caracterizava o lusitano, com o que chamou de

Frans Post. Alagoa Ad Austrum. Gravura em metal do livro Rerum per Octennium in Brasilien, de Gaspar Barléu, 1647.

Abaixo: Tamanduá-guaçu. Do livro de Georg Marcgraf, Historiae Rerum Naturalium, 1648.

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“transoceanismo”: “desejo de ganhar fortuna o mais depressa possível para a desfrutar no além-mar” (Prado, 1931). A própria invasão holandesa teria contribuído para o reforço do espírito aventureiro, uma vez que a espécie de colono por ela trazida para Pernambuco era recrutada em todos os países da Europa entre aventureiros: geralmente “homens cansados de perseguições (que) vinham apenas em busca de fortunas impossíveis, sem imaginar criar fortes raízes na terra” (Holanda, 1976). Já em 1552, o Padre Manuel da Nóbrega, em uma das inúmeras cartas que escreveu do Brasil, salientava: “De quantos lá vieram, nenhum tem amor a esta terra (...) todos querem fazer em seu proveito, ainda que seja a custa da terra, porque esperam de se ir”. Algo semelhante é dito em outra carta desse religioso: “Não querem bem à terra, pois têm sua afeição em Portugal; nem trabalham tanto para a favorecer, como por se aproveitarem de qualquer maneira que puderem”. Frei Vicente do Salvador (1918) é até jocoso na constatação, em 1627, do mesmo atributo dos colonizadores: “Os povoadores, os quais, por mais arraigados que na terra estejam e mais ricos que sejam, tudo pretendem levar a Portugal e, se as fazendas e bem que possuem souberem falar, também lhes houveram de ensinar a dizer como os papagaios, aos quais a primeira cousa que ensinam é: papagaio real para Portugal, porque tudo querem para lá. E isto não têm só os que de lá vieram, mas ainda os que cá nasceram, que uns e outros usam da terra, não como senhores, mas como usufrutuários, só para a desfrutarem e a deixarem destruída”. Era “normal”, portanto, nesse contexto, que, nos propósitos da colonização, a Mata Atlântica, com toda sua exuberância indicadora de fertilidade, figurasse como nada mais do que uma muralha, um obstáculo enorme, de verdade, para o avanço da cobiça insaciável dos portugueses (cf. Freyre, 1985; Dean, 2004). E disso os colonizadores logo se deram conta. Eles teriam que se satisfazer na sua ânsia de prosperidade sem custo, na sua busca de riqueza fácil, com a exploração direta da natureza. Romper a muralha vegetal que bloqueava seu caminho era o grande desafio a ser enfrentado (cf. Pádua, 2002), e a saída mais óbvia para o avanço da conquista. Sobre o tema, o agrônomo Miguel Antônio da Silva, citado por Pádua (2002), oferece eloqüente testemunho: “Os primeiros colonos portugueses que aportaram a esse abençoado torrão da América depararam com mateiros de fertilidade incrível, verdadeiros tesouros acumulados por séculos e séculos em solos virgens; esta fertilidade fascinou-os, julgando-a inexaurível, e tal foi a causa primordial do fatalíssimo sistema que iniciaram de espoliação das terras, verdadeiro roubo; sistema que desde os tempos coloniais ficou profundamente arraigado nas nossas práticas agrárias”. De outra parte, convém lembrar que a “conquista”, ou invasão sem resistência do nativo, conferia aos europeus e seus apetites insaciáveis o que eles supunham serem direitos absolutos

sobre os conquistados. Nessa percepção, a floresta era apenas mais um troféu do saque (cf. Dean, 2004). Ambição, desejo de enriquecimento imoderado, sede de metais preciosos: tudo isso conduzia a busca de ouro, a qual, impossibilitada de materializar-se pela aparente inexistência do metal na nova terra, terminou levando os europeus à apropriação do precioso capital contido na opulência da floresta. Somando-se a isso sua experiência anterior com situações que não eram de natureza selvagem, mas de uma natureza domada, concebe-se a alternativa do ataque mortífero para submissão da Mata Atlântica aos fins da colonização. Nesse esforço, a virulência do apetite dos conquistadores será maior até do que o poder de suas armas, como lembra Dean (2004). Ingenuamente, Caminha, em sua carta, indicava a D. Manuel i que “o melhor fruto que (da nova terra) se pode tirar parece-me que será salvar esta gente”. Salvar como, pois se ela não parecia à mercê de um desastre (salvo o que os portugueses tramavam)? Nas palavras do escrivão da frota de Cabral, “para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa fé!”. Fé, sim, mas no enriquecimento movido a concupiscência irrefreável.

O processo de exploração da Mata Atlântica
Sem nenhuma dúvida, o processo de exploração da Mata Atlântica em seu segmento de Alagoas e Pernambuco (e no mesmo diapasão do restante do país) encerra uma história de inequívoco barbarismo: um confisco posto em prática por representantes do imperialismo ecológico europeu. O início do processo se dá com o corte do pau-brasil – conhecido também, em princípios, como “pau-de-pernambuco”. No século xvi, estima-se que cerca de oito mil toneladas de madeira foram do Brasil para Portugal, volume que corresponde a uns dois milhões de árvores (Dean, 2004). O número é chocante e pode ser até corrigido para mais. Seguese, pouco a pouco, a fórmula do saque da biota pela expansão das plantações de cana-de-açúcar. Nesse cenário, como indica Pádua, a cana avançava segundo um padrão, o normal nas circunstâncias, “horizontal predatório, adaptado à realidade específica de cada região” (Pádua, 2002). O fogo se usava como parte inescapável do padrão, reproduzindo um fenômeno, a propósito, que ocorria como meio de moldar e controlar o meio natural e que fora, e continuava sendo, do mesmo modo, empregado pelos primeiros povoadores da América. Os portugueses seguiram a mesma técnica dos indígenas, porém em escala muito maior, sem dúvida, e mais impiedosamente, adotando a solução da queima e derrubada como método preferido sobre qualquer outro (Dean, 2004). E o fizeram no afã de um enriquecimento veloz, como já se explicou, cometendo “todos os crimes que os homens dessa época praticavam para satisfação de suas paixões” (Prado, 1931: 84).

Frans Post. Alagoa Ad Austrum. Gravura em metal do livro Rerum per Octennium in Brasilien, de Gaspar Barléu, 1647.

Página anterior: Tamanduá-guaçu. Do livro de Georg Marcgraf, Historiae Rerum Naturalium, 1648.

Página 22: Tamanduá-guaçu. Do livro de Georg Marcgraf, Historiae Rerum Naturalium, 1648.

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Crimes, é claro, não são ações inocentes. Eles foram perpetrados amplamente na Terra de Santa Cruz, a começar do fato de que, como lembra Furtado (1967), “a primeira atividade comercial a que se dedicaram os colonos foi a caça do índio”. Caça de gente, ou preação, como diz Andrade (1998), é o que se pode imaginar de mais doloroso e desumano como negócio. Mas no início do século xvi, isso era facilitado pela própria Igreja Católica, que considerava que os índios não possuíam direitos (sequer tinham alma). A coisa só foi remediada, ainda que relutantemente, quando o Papa Paulo iii, em 1537, mudou a posição religiosa oficial com a encíclica Sublimis Deus. Vale lembrar que as bandeiras paulistas tiveram como principal título de glória “a luta contra a natureza de que fazia parte o índio indefeso” (Prado, 1931). Por outro lado, como mostra Crosby (1993), a história florestal é, em todo o planeta, uma narrativa de situações de exploração e destruição (cf. também Dean, 2004). No caso da captura de indígenas, tudo se processou para vantagem do colono. Os invasores tinham armas de fogo, experiência bélica e estavam organizados para a conquista. Os nativos, completamente desarmados, exceto por seus arcos-e-flechas para caçar bichos, não possuíam nenhum sistema de defesa sólido e tinham suas tradições sagradas, suas famílias e uma rotina complexa de vida de que cuidar (cf. Crosby, 1993). Além disso, a troca totalmente desigual de elementos patogênicos entre europeus e brasileiros autóctones, como resultado de fatores biogeográficos e em prejuízo do último dos dois grupos, aumentava o poder de dominação do primeiro. Na descrição de Couto (1849), o colono português, em seu ímpeto de conquistador, ao qual não era oposta nenhuma resistência séria, tratava o meio ambiente “com um machado em uma das mãos e um tição na outra”. Praticava assim “uma agricultura bárbara”, como alguém que “olha para duas ou mais léguas de florestas como se elas não fossem nada, e ele mal as reduziu a cinzas e já lança seu olhar ainda mais adiante para levar a destruição a outras partes” (Couto, 1849). Foi dessa forma que a “cana começou a reinar sozinha sobre léguas e léguas de terras avermelhadas pela coivara. Devastadas pelo fogo” (Freyre, 1985). A forma de fazer isso já fora registrada por Antonil (1997), que indica: depois da escolha da melhor terra para a cana, “roça-se, queima-se e alimpa-se, tirando-lhe tudo que podia servir de embaraço”. Tirar tudo que podia servir de embaraço, a destruição, pois, constitui marca firme do primeiro século da colonização e que vai se reproduzir sintomaticamente daí por diante até os nossos dias. No começo do século xvii, D. Diogo de Menezes, governador da repartição do Norte, escrevia ao rei de Portugal: “Creia v. m. que as verdadeiras minas do Brasil são açúcar e pau-brasil de que v. m. tem tanto proveito, sem lhe custar de sua fazenda um só vintém” (apud Prado, 1931). Era gratuito – não custava nada para a Coroa – o patrimônio que se dilapidava. Daí por diante, a Mata Atlân-

tica continuaria a propiciar lucros fáceis, ganhos sem custos, e uma transferência real de recursos para a Metrópole. Bem no estilo do espírito ou princípio do aventureiro. Com a queima e devastação da floresta, ficava “uma camada imensamente fértil de cinzas que possibilitavam uma agricultura passiva, imprudente e insustentável” (Dean, 2004). O recurso às queimadas deveria, lembra Buarque de Holanda (1976), “parecer aos colonos estabelecidos em mata virgem, de uma tão patente necessidade que não lhes ocorre, sequer, a lembrança de outros métodos de desbravamento. Parece-lhes que a produtividade do solo desbravado e destocado sem auxílio do fogo não é tão grande que compense o trabalho gasto em seu arroteio, tanto mais quanto são quase sempre mínimas as perspectivas de mercado próximo para a madeira cortada”. Simultaneamente a esse processo de avanço pela queimada, aumentava a população de modo persistente na região, o capital se acumulava opulentamente, e a Mata Atlântica sucumbia à ganância da colonização. Nenhuma restrição se antepunha ao processo em curso, o que iria ser uma constante, como observa Dean (2004), durante meio milênio de gula. Ao findar o século xvi, nas estimativas de Furtado (1967), a produção de açúcar na colônia deveria superar 2 milhões de arrobas (13,3 mil toneladas), uma cifra apreciável. Talvez menos que isso, pois Antonil (1997) sugere em 1710 um total de 1,3 milhão de arrobas. Mas Antonil não deveria ter os dados mais completos da economia açucareira da época. Pernambuco, de qualquer forma, possuía então 246 engenhos, o que indica uma atividade bastante ampla e difusa. Em realidade, a informação disponível mostra que o açúcar havia se tornado a única atividade econômica de porte, sendo a razão de uma ligação estreita entre a Mata Atlântica e a Metrópole lusitana. O pau-brasil aparecia também aí, mas com menor intensidade. O exclusivismo da cana, por outro lado, fez com que muitos outros produtos silvestres – a exemplo do índigo – que poderiam ter sido coletados, caso os colonos procurassem conhecê-los, ficassem à margem do processo. O índigo (anil) era um recurso nativo domesticado, um corante azul familiar aos índios, que o usavam, extraído de numerosas espécies nativas de Indigofera. Apresentava vantagens sobre outras formas de utilização da mata. Era mais simples de explorar e muito menos destrutivo do meio ambiente do que a cana. Conceição Velloso tratou disso, salientando “a grande vantagem do comércio de índigo, comparado a culturas de plantation como a do açúcar”. De qualquer modo, entre todos os produtos plantados para render um excedente exportável para a Metrópole, a cana-deaçúcar era insuperável, razão por que a história do Brasil nos primeiros séculos da colonização foi a história do açúcar. Como resultado, o avanço do canavial “desvirginou”, no dizer de Gilberto Freyre (1985), o mato grosso da floresta, e “do modo mais cru: pela queimada. A fogo é que foram se abrindo no mato virgem os

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claros por onde se estendeu o canavial civilizador mas ao mesmo tempo devastador” (Freyre, 1985). A devastação se dava também, embora em escala menor, pelo uso das ferramentas manuais que tanto encantavam os índios, o machado e seu simbolismo à frente. Graças ao escambo com os europeus, com efeito, os indígenas passaram a usar artefatos de ferro, antes desconhecidos. A respeito, lembra Dean (2004): “É difícil imaginar o quanto deve ter sido gratificante” para os índios “seu súbito ingresso na idade do ferro, o quanto isso foi transformador de sua cultura e o quanto foi destrutivo para a floresta”. Sendo cultivada com adubação na Ilha da Madeira e em São Tomé, a cana-de-açúcar terminava sem requerer o mesmo no Brasil. E, em certos lugares, ela podia ser cortada em anos sucessivos com dispensa de replantio. O regime de chuvas do litoral nordestino contribuía para a lucratividade do negócio, descartando a irrigação. A isso se adicionava o fato estimulante de as espécies de cana introduzidas no Nordeste estarem “livres das doenças e parasitas que as empestavam nos locais de onde haviam sido transportadas” (Dean, 2004). Quanto ao uso da irrigação, desnecessária nos primórdios da colonização, ela se torna hoje obrigatória em muitos dos canaviais pernambucanos e alagoanos. Mudança de condições ambientais? Na visão de Antonil (1997), os compradores de engenhos deveriam usar “de toda a diligência para defender os marcos e as águas de que necessite, para moer, o seu engenho”. Ainda segundo ele, para seu sustento, cada engenho deveria dispor, primeiro, de boas terras: “As terras boas ou más são o fundamento principal para ter um engenho real bom ou mau rendimento” (Antonil, 1997; cf. Freyre, 1985). No caso, eram as famosas terras do massapê, “terras de barro gordo” (Freyre, 1985), “terras férteis de cana” (Freyre, 1985). Em segundo lugar, de bastante água para as moendas: como registra Freyre (1985), “No Nordeste da cana-de-açúcar, a água foi e é quase tudo”. Em terceiro, de matas situadas perto do engenho para a extração de lenha: “ter a lenha mais perto que puder ser” (Freyre, 1985). Antonil notava que muitos senhores de engenho vendiam as terras, por cansadas, ou por falta da lenha

que alimentava as fornalhas e da madeira para as construções (Antonil, 1997). Em quarto lugar na lista de fatores favoráveis à atividade canavieira, eram necessárias muitas peças de bons escravos e várias juntas de bois com seus carros. “Terra, água, matas. Negros e bois”, conclui Freyre (1985). Da floresta, em quantidade menor, mas não desprezível, o engenho ainda precisava de madeira para produzir cinzas (usadas na purificação do açúcar), para as caixas de açúcar – de 35 arrobas – em que o artigo era exportado, e para os barris de cachaça. Antonil destaca como a casa da moenda dos engenhos possuía “teto coberto de telha assenta sobre tirantes, frechais e vigas de paus, que chamam de lei, que são dos mais fortes que há no Brasil, a quem nenhuma outra terra leva nesta parte vantagem” (Antonil, 1997). E ajuntava: “Parece-me necessário dar notícia dos paus e madeiras de que se faz a moenda e todo o mais madeiramento do engenho, que no Brasil se pode fazer com escolha, por não haver outra parte do mundo tão rica de paus seletos e fortes, não se admitindo nesta fábrica pau que não seja de lei, porque a experiência tem mostrado ser assim necessário” (Antonil, 1997). Era uma riqueza natural sem conta que permitia escolhas tão exigentes. A situação se tornava possível pelo sistema português de concessão de sesmarias de tamanhos espantosos. Graças a isso, os donos das terras não tinham que se preocupar com um uso parcimonioso de seu recurso principal, a natureza, o que era estimulado pela postura portuguesa de “ser conivente com a expropriação privada sem custo algum para os expropriadores” (Dean, 2004). A técnica de exploração da floresta e de seus solos podia então ser destrutiva, na visão dos colonizadores, pela razão de que o ecossistema parecia uma cornucópia inesgotável. Dispensava-se inclusive o pousio, uma vez que os solos, depois das queimadas, mostravam-se imensamente férteis (Dean, 2004). Na mesma linha de crença na abundância de uma natureza pródiga, o arado pôde ser ignorado na colônia. O solo não necessitava dos elaborados serviços de aragem para render mais. Sua limpeza dependia apenas da queimada, que assim facilitava os

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O beija-flor Phaetornis em Portea leptantha.

Página ao lado: Euglossinae em flor de Cryptanthus.

trabalhos de cultivo. E era abandonado, tão logo desse sinais de desvitalização. Com isso, a economia de mão-de-obra pôde ser marcante. O colono português que não possuísse escravos tinha condições de levar adiante sua lavoura. A terra, por sua vez, era concedida gratuitamente. Não havia incentivo, dessa maneira, para protegê-la, inclusive porque o sistema admitia novas concessões de sesmarias sempre que isso fosse indicado. De fato, havendo “consumido toda a floresta primária mais promissora em dada sesmaria, um donatário costumava vendê-la por uma ninharia e pedia outra, que normalmente obtinha sem dificuldade” (Dean, 2004). Essa forma simplificada de obter terra, possível quando se confisca o patrimônio alheio, levava a que se queimassem os melhores matos, e os mais próximos às povoações. Estas, no meio da abundância de recursos naturais da colônia, terminavam sentindo “a falta das madeiras, das lenhas e dos capins”. A tal respeito, José Gregório M. Navarro (apud Pádua, 2002) assinalava em 1799 que os povoados, cidades grandes, vilas notáveis, etc. fundados pelos colonizadores portugueses encontravam-se na situação de “corpos desanimados. Porque os lavradores circunvizinhos, que por meio da agricultura lhes forneciam os gêneros de primeira necessidade, depois de reduzirem a cinza todas as árvores, depois de privarem a terra da sua mais vigorosa substância, a deixaram coberta de sapé e samambaia (...) e abandonando as suas casas com todos os seus engenhos, oficinas e abegoarias, se foram estabelecer em outros terrenos”. Terra abundante, nomadismo das queimadas, consumo irresponsável de lenha. Florestas desprotegidas. Destruição da Mata Atlântica. Uma agricultura sem responsabilidade ambiental. Pode-se conceber assim o drama da Zona da Mata de Pernambuco e Alagoas. Vale lembrar aqui, com Pádua (2002), que, pela lógica da aventura, do raciocínio de Sérgio Buarque de Holanda (1976), e diante da opulência da biomassa vegetal, as queimadas devem ter constituído o método mais barato e eficaz para a exploração da cana-de-açúcar. Mais eficaz, graças à superabundância de natureza. Mais barato, porque o fator terra tinha custo zero para o empreendedor. A operação de pôr fogo na mata, ademais, exige menos mão-de-obra do que retirar o mato mecanicamente; o tempo gasto em sua realização, de outra parte, é menor, uma vez que o homem incendeia a floresta e vai trabalhar em outra coisa. Daí a inevitabilidade da destruição ambiental, prevalecendo aqui o rationale da economia de rapina, mais certamente do que a lógica da colônia de exploração. O nativo, por sua vez, não opôs resistência à invasão do colonizador. Pelo contrário, foi presa fácil, caçada como anta, onça ou jacaré. As ricas matas, apropriadas alegremente pelo europeu, viravam roçados e logo capoeiras. Seus ecossistemas originais, simplificados pela ambição comercial, mudavam de modo irrecuperável. E quando ocorria de a floresta voltar na forma de floresta secundária, o fenômeno produzia aquilo que Janzen (1971)

chama de “mortos vivos”. Trata-se de um processo biológico nas florestas secundárias, cujas árvores estão lá, mas não são viáveis biologicamente: não se reproduzem por não terem mais polinizadores ou dispersores das sementes. Esperam apenas a morte chegar. Com isso, ocorriam saque e devastação. Simplificação ecossistêmica irreversível. Perda irreparável de capital natural. Prejuízos definitivos para as gerações futuras de brasileiros. Por cima ainda, Baltazar da Silva Lisboa comentava que a agricultura era levada a efeito no Brasil “o mais miseravelmente que é possível imaginar”. E remetia à má confecção das fornalhas nos engenhos, as quais, sem restrições de custos ambientais internalizados, consumiam lenha exageradamente, a ponto de, no final do século xviii, para uma carrada de cana se requerer outra de lenha. Dean (2004), de modo algo surpreendente, supõe que a depredação ambiental por esse motivo teria sido “modesta”. Com essa opinião não concorda, entretanto, o relato de Antonil (1997), ao informar que sendo “grosseiras”, as fornalhas sobre as quais repousavam os tachos de caldo de cana transformavam-se em “bocas verdadeiramente tragadoras de matos”, levando a “horrorosa despesa de lenhas”, nas palavras de Bittencourt e Sá. Essa também é a opinião de José Bonifácio de Andrada e Silva. Antonil (1997), ingenuamente com a imagem de um ecossistema superabundante, não via aí, porém, um problema, pois “só o Brasil, com a imensidade dos matos que tem, podia fartar, como fartou por tantos anos, e fartará nos tempos vindouros, a tantas fornalhas, quantas são as que se contam nos engenhos da Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro, que comumente moem de dia e de noite, seis, sete, oito e nove meses do ano”. O uso do calor gerado por lenha era também malbaratado no fabrico de tijolos e telhas, do mesmo modo que no preparo da cal utilizada em argamassa e no acabamento de paredes. As cidades e vilas representavam igualmente um consumo elevado de madeira e carvão (Dean, 2004), o que implicava mais destruição de arvoredos. Antonil (1997) menciona as fornalhas de olarias como

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O beija-flor Phaetornis em Portea leptantha.

desperdiçadoras de “muita lenha de armar, e muita de caldear, e a de caldear há de ser de mangues, os quais, tirados, são a destruição do marisco, que é o remédio dos negros”. Não há como fugir da constatação de se estar diante de um modelo vorazmente predador da natureza. Com isso, no século xviii, a Mata Atlântica já tinha reduzido consideravelmente sua extensão (Dean, 2004). Não obstante, esforços foram feitos, especialmente a partir do fim do mesmo século, para aproveitamento do bagaço da cana no cozimento do açúcar, poupando-se a mata (Maia, 1985). Mas eram de pouca significação, apesar do empenho de autoridades como o presidente da província de Pernambuco em 1857 (Maia, 1985). Somente em 1810 apareceria alguém realmente preocupado com a possibilidade de extinções da flora e fauna desse ecossistema. Segundo Dean (2004), Manuel Arruda da Câmara, que descreveu inclusive espécies de bromélias endêmicas de Pernambuco e Alagoas, como a Aechmea muricata (A. Camara) Mez., e outras belíssimas, a exemplo da Pseudananas sagenarius (A. Cam.) Camargo, foi o primeiro visionário com tal percepção. A mesma posição é assumida em 1875, de acordo com Pádua (2002), por Nicolau Joaquim Moreira, que reclamava em Indicações agrícolas para os imigrantes que se dirigem ao Brasil: “Há 375 anos que uma cultura rotinei-

ra e esgotadora, arvorando em sistema de produção o machado e o facho, a derrubada e a coivara, arranca das férteis terras brasileiras os elementos de grandeza e prosperidade das futuras gerações”. Esse sentimento irá crescer daí por diante, com as diversas formas de utilização do espaço da Mata Atlântica ao longo da história econômica do país. A introdução do café no Centro-Sul significará a devastação de solos cobertos por florestas primárias que ainda restassem em pé, o mesmo acontecendo em áreas dos brejos de altitude pernambucanos e alagoanos. De igual forma, o desenvolvimento do transporte ferroviário implicará a derrubada de floresta, inclusive pela exigência de grandes quantidades de dormentes pelas linhas férreas. Em Pernambuco e Alagoas, matos densos eram cortados para suprir os trens de lenha para alimentar suas caldeiras – estas seguramente mais eficientes que as dos engenhos do relato de Antonil. Até os anos 1940, quando eu era criança, como pude testemunhar, na Great Western – a ferrovia da Zona da Mata em Pernambuco e Alagoas – só havia locomotivas a lenha. As movidas a petróleo apareceram apenas, como grande novidade, no final da década de 1950, quando a companhia inglesa foi nacionalizada e transformada em Rede Ferroviária do Nordeste (rfn). O crescimento populacional e econômico, sem nenhum cuidado de preservação ambiental, representou no período republicano acelerada perda da opulência vegetal remanescente da Mata Atlântica (Dean, 2004). Reforçando a tendência, o programa do álcool combustível (nos anos 1970) agravou os desmatamentos. Foi com essa iniciativa, considerada ambientalmente saudável – por se evitar a queima de combustíveis fósseis, substituídos pelo etanol da cana-de-açúcar –, que quase todas as últimas ilhas de floresta que cobriam os cumes dos morros da Zona da Mata de Pernambuco, a que fiz referência anteriormente, desapareceram por completo. Com propriedade, Dean refere-se à “nova e terrível ameaça” – aparecida a partir do lançamento da ideologia desenvolvimentista no após-guerra – que se vai abater sobre a Mata Atlântica: “Era uma idéia, na verdade uma obsessão, chamada ‘desenvolvimento econômico’” (Dean, 2004). Na verdade, mais que isso, era a mania do crescimento, ou “growthmania”, de Mishan (1993), pois desenvolvimento e crescimento não são a mesma coisa. O primeiro pode conter crescimento, mas é essencialmente evolução, mudança. O segundo, ao contrário, significa necessariamente expansão, aumento. Tudo isso vai estar muito ligado a fenômenos de extinção da biodiversidade da Mata Atlântica, pois é aí que a maioria das intervenções irá se realizar, com iniciativas como distritos industriais em Pernambuco e Alagoas, o porto de Suape, a construção de hotéis e estradas litorâneas e até projetos como o de uma refinaria de petróleo. Tudo isso explicado como fator de crescimento da economia, de geração de emprego e renda. Uma bela reserva florestal que havia a menos de 50 km ao sul do Recife, de uns 200 ha, na desabitada e, por isso mesmo, paradi-

síaca Praia de Muro Alto, no Município de Ipojuca, vai ceder lugar a projetos hoteleiros de resorts para o turismo. Na matinha próxima, que sobrevive com alguma imponência na Praia do Cupe, os organizadores deste livro acabam de descrever para a ciência uma nova espécie de Cryptanthus (Bromeliaceae) que é revelada na presente obra. Uma ânsia por terras e a exploração destrutiva da floresta, levando-a à condição de recurso não renovável, liquidará em sucessão faixas que sobreviviam relativamente intactas da Mata Atlântica. Ou seja, sem maiores argumentos e de maneira oportunista, impôs-se um crescimento econômico de desfecho sempre incerto contra florestas milenares, ímpares e riquíssimas em diversidade biológica. Essa é a herança de uma história de violências constantes, matizadas de furor antiecologista e de ódio insensato à vida selvagem: a história socioambiental da transformação da Mata Atlântica nos últimos quinhentos anos.

A escravidão e a destruição da Mata Atlântica
Um dos elementos ponderáveis da tragédia da exploração violenta dos recursos naturais na colonização da Mata Atlântica refere-se ao uso indiscriminado do trabalho escravo, fator de agravamento da natureza perdulária com que se levou adiante o projeto de ocupação das terras para o cultivo da cana-de-açúcar. Não se trata de querer entrar aqui no interior do sistema da escravidão no Brasil, examinando suas entranhas, assunto que tem sido objeto no país de tantos estudos preciosos em épocas diversas. Segundo Sérgio Buarque de Holanda, sem braço escravo, não bastaria “a terra farta, terra para gastar e arruinar” de que dispunha o colonizador (Holanda, 1976). De começo, o europeu tentou valer-se do índio para tanto, caçando-o, preando-o, prendendo-o. Todavia, o nativo não estava acostumado ao regime laboral. Andrade (1998) esclarece que o desenvolvimento cultural dos nativos não havia atingido “a fase da agricultura sedentária”. Eles não estavam preparados para a empreitada lusitana. Para levar adiante a lavoura da cana, era preciso mão-de-obra abundante, mão-de-obra para o trabalho de preparação e cuidado da vastidão das terras. Não estava em questão qualquer crença de superioridade racial do elemento luso. Sérgio Buarque a isso se refere quando diz que “outra face bem típica (da) extraordinária plasticidade social (dos portugueses era) a ausência completa, ou praticamente completa, entre eles, de qualquer orgulho de raça” (Holanda, 1976). O fator que influenciava o processo, no caso, era a sede desmedida de riqueza. De que resultava como problema principal para o colonizador a escassez de mãode-obra, necessária para a cultura da cana, para a fabricação e o transporte do açúcar, para os serviços domésticos dos senhores de terra e até para a cultura de mantimentos (Andrade, 1998). Ao europeu a floresta tropical apresentava-se como um inimigo do projeto de realização do enriquecimento rápido. Cum-

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pria vencer tal adversário pela colonização agrária. O colonizador conseguiu isso, como assinala Gilberto Freyre, “destruindo-o” (Freyre, 1985). Não houve tentativa de adaptação do europeu à mata, na qual o braço servil executava as ordens do senhor. Ordens de destruição. Ao contrário, o escravo negro sabia conviver com esse meio natural, daí por que se vai encontrá-lo adaptandose à floresta, em parte adaptando-a às suas necessidades quando na condição de “evadido na monocultura escravocrata e latifundiária” (Freyre, 1985). Dessa maneira, a cana aristocratiza o branco em senhor e degrada “o índio e principalmente o negro, primeiro em escravo, depois em pária” (Freyre, 1985). É o mesmo processo que promove o canavial a rei e atribui valor desprezível à mata. A mercantilização do negro africano, alicerce da obra da colonização, e da natureza selvagem, um tesouro de riqueza que parecia inesgotável, embrutece o sistema, conferindo-lhe o carimbo da devastação dos humanos e dos recursos ecossistêmicos. Esse carimbo é o de uma exploração econômica estigmatizada pela rapina e pela deformação do homem. E pintada com as cores da monocultura, do latifúndio, da escravidão, da coivara, da derrubada, em que a terra se reduz “a um monturo que se explora com nojo” (Freyre, 1985). Com a escravidão e o “colonialismo de exploração intensiva”, tornou-se impossível desenvolver aqui uma economia camponesa como a da Península Ibérica. Com o agravante de que “uma sociedade baseada na mão-de-obra compulsória não (leva) em conta o ambiente” (Dean, 2004). Nessa sociedade, com efeito, na qual o valor da vida humana é irrisório, conservar recursos naturais torna-se irrelevante, algo absolutamente secundário. O florescimento da pujante economia do açúcar se dá, portanto, no âmbito de um sistema que sacrifica a vida de gente (nativos e africanos) a um custo muito alto em termos de destruição da floresta original. Teria valido a pena em termos de resultados? Dean considera que não, que os custos foram espantosamente desproporcionais aos resultados (Dean, 2004). E que os portugueses, “com suas formas extraordinariamente perdulárias de exploração dos recursos naturais, (tiveram ganhos) tão exíguos quanto imensos foram os desperdícios” (Dean, 2004). Restou que o que as práticas devastadoras serviram para fazer foi constituir uma fonte da renda que abastou uma elite senhorial cheia de privilégios, assim como a máquina do Estado (Pádua, 2002). Isso levou a que, por exemplo, no fim do século xviii e começo do século xix, a percepção dos críticos da destruição ambiental (caso de Antônio Veloso de Oliveira, Baltazar Lisboa e José Severiano Maciel da Costa) fosse a de que existia um vínculo entre o fim do escravismo e a superação daquela (Pádua, 2002). Conforme a percuciente análise de Pádua (2002), “o domínio do trabalho servil (era apontado) como uma das principais causas da rudeza e ineficiência da agricultura brasileira, impedindo a emergência de uma classe de agricultores cons-

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ciente, laboriosa e diretamente envolvida com o melhoramento tecnológico e administrativo de sua atividade”. Joaquim Nabuco aborda o assunto, mostrando como a relação do homem com a terra, sob o regime da escravidão, não era a de um “consórcio” de ambos; nem de “habitação permanente” da terra; nem de “posse definitiva do solo”. Era de um “triste espetáculo” de “luta do homem com o território por meio do trabalho escravo”, em razão da qual o solo não adquire vida. Abolida a escravatura, as mesmas práticas de destruição pela combinação do fogo com a monocultura prosseguiram, ampliando-se seu escopo, na verdade, em direção a outras reservas florestais existentes. Mas isso apenas faz lembrar a máxima de Nabuco de que não bastava pôr fim à escravidão: era necessário também “destruir a obra da escravidão” (cf. Pádua, 2002). E essa obra não foi geradora tão-só de uma sociedade perversa e vazia de humanismo. Ela igualmente cumpriu a sina de devastação do meio ambiente.

Balanço do processo: a entronização da entropia
Alfred Crosby (1993), em seu estudo sobre o “imperialismo ecológico”, versa acerca do que ele chama de “Neo-Europas” (“NeoEuropes”, no original) – regiões colonizadas pela imigração européia maciça, como é o caso de Argentina, Uruguai, Austrália, Nova Zelândia, Estados Unidos, Canadá. Nessas áreas, prevaleceu claramente o tipo de colono chamado de “trabalhador”, da sugestiva dicotomia de Sérgio Buarque de Holanda (1976). O espírito desse tipo é nutrido por uma ética que “enxerga primeiro a dificuldade a vencer, não o triunfo a alcançar” (Holanda, 1976). A exploração dos trópicos, a exemplo da Mata Atlântica, pelo contrário, ocorreu

sob a égide do tipo “aventureiro”, com sua concepção “espaçosa” do mundo e suas energias dirigidas para um rápido proveito material. Agindo “com desleixo e certo abandono” (Holanda, 1976), o aventureiro, sem uma vontade construtora, não segue regras de empreendimentos metódicos e racionais. Como notou Frei Vicente do Salvador (1918), tudo o que aqui havia se queria levar para a Metrópole, usando-se a colônia unicamente para propósitos gulosos “e a (deixando) destruída”. Não se pensava em fazer sacrifícios, mas somente em benefícios excessivos. A própria agricultura estabelecida por Duarte Coelho Pereira, primeiro donatário de uma capitania, a de Pernambuco – que ia da Campina dos Marcos, na histórica cidade de Igarassu, ao norte do Recife, até o Rio São Francisco –, “só com alguma reserva” (Holanda, 1976) poderia ser chamada por esse nome. Nela, “a técnica européia serviu apenas para fazer ainda mais devastadores os métodos rudimentares de que se valia o indígena em suas plantações” (Holanda, 1976). A ocupação da terra pela lavoura canavieira, além do faro da ganância lusitana, foi conseqüência da extraordinária qualidade do solo de massapê que havia sob o tapete da Mata Atlântica nordestina, com sua argila, seu húmus, sua extrema fertilidade, completada pela qualidade da atmosfera. Foi isso que condicionou, como talvez nenhum outro elemento, a especialização regional da colonização da América pelos portugueses à base da cana-deaçúcar. “Uma vez desbastada (a floresta) de seu arvoredo mais grosso (...) fazia gosto plantar cana. Foram essas manchas excepcionais que tornaram possível a civilização baseada na cana-deaçúcar que aqui se desenvolveu” (Freyre, 1985). Resultou disso uma dilapidação do patrimônio natural, causada pelo sistema monocultor e caracterizada por paisagens deformadas, empobrecidas, devastadas nas suas florestas. Com águas também degrada-

das, configurando o que Freyre (1985) apropriadamente chamou de “patologia social da monocultura”. O processo de devastação verificado foi avassalador, com “o arvoredo mais nobre e mais grosso da terra (...) sendo destruído não aos poucos, mas em grandes massas” (Freyre, 1985). Pior: muitas das madeiras derrubadas não eram utilmente aproveitadas. “Grande parte foi desmanchada em monturos pela coivara, foi engolida pelas fornalhas dos engenhos” (Freyre, 1985). Outra parte foi levada para se transformar em navio e porta de convento no além-mar: “O que Portugal retirou de madeira do Nordeste – madeira gorda e de lei, que a outra lhe dava até repugnância – para (...) toda a sua arquitetura voluptuosa (...) forma um capítulo da história da exploração econômica do Brasil pela Metrópole, na sua fase já parasitária, que um dia precisa ser escrito com vagar” (Freyre, 1985). Vale salientar que, nos documentos da Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco, encontra-se carta do Marquês de Pombal, de 6 de dezembro de 1775, “exigindo que do Brasil só fosse para Portugal pau-brasil do melhor e ‘em toros grossos’: nada de paus ‘miúdos’ ou ‘bastardos’” (Freyre, 1985). Nos engenhos, como sinal de verdadeiro esbanjamento, de um luxo imoderado, faziam-se cercas com madeira de lei, aquela que Antonil (1997) descreveu com tanto entusiasmo. Ou seja, como sintoma de um modelo desperdiçador, dispôs-se da floresta com a maior desenvoltura. E a floresta “forneceu coisas demais com facilidade demais” (Stuart B. Schwartz, Prefácio, in Dean, 2004). Ladrão de terras, o monocultor não somente acabava com a opulência vegetal da floresta. Empobrecia também o solo, favorecendo pelo desmatamento a erosão causada pelas chuvas, cujas águas passavam a correr para o mar levando a camada fértil dos terrenos, sua gordura. Devastando-se as matas e utilizando-se o

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terreno para uma cultura única, possibilitava-se que as outras riquezas se dissolvessem na água, se perdessem nos rios. “Desapareceu assim aquela vegetação como que adstringente, das margens dos rios, que resistia às águas, no tempo de chuva, não deixando que elas levassem o tutano da terra: conservando o húmus e a seiva do solo” (Freyre, 1985). Com sua expansão imperial, os canaviais uniformizadores da paisagem enfraqueciam sobremodo o ecossistema, simplificando-o ao extremo na moldura da monocultura. Extinguiam a biodiversidade, assoreavam os rios, conspurcavam suas águas. Ficavam na paisagem, entretanto, de uma forma que lhes conferia o perfil simpático, de algo estético e que parecia ter sido sempre nosso. O já citado Ascenso Ferreira sugere isso no poema “Trem de Alagoas”: “Meu Deus! Já deixamos / a praia tão longe… / No entanto avistamos / bem perto outro mar... // Danou-se! Se move, / se arqueia, faz onda... / Que nada! É um partido / já bom de cortar...” A essência da história é que a cana “entrou aqui como um conquistador em terra inimiga: matando as árvores, secando o mato, afugentando e destruindo os animais e até os índios, querendo para si toda a força da terra. Só a cana deveria rebentar gorda e triunfante do meio de toda essa ruína de vegetação virgem e de vida nativa esmagada pelo monocultor” (Freyre, 1985). Destruídas as matas para a cana, a natureza do Nordeste – e a riqueza de vida que ela encerrava – perdeu a harmonia daquele todo que se constituía a partir dos complexos elos de seus componentes. O que ficou foram, nas palavras magistrais e inigualáveis de Gilberto Freyre (1985). “relações de extrema ou exagerada subordinação: de umas pessoas a outras, de umas plantas a outras, de uns animais a outros; da massa inteira da vegetação à cana imperial e todo-poderosa; de toda a variedade de vida humana e animal ao pequeno grupo de homens brancos – ou oficialmente brancos – donos dos canaviais, das terras gordas, das mulheres bonitas, dos cavalos de raça”. Quando se pensa que, diferentemente das florestas temperadas, a destruição das florestas tropicais, com seus “mortos vivos” (Janzen, 1971), é muito mais irreversível, no âmbito de qualquer escala histórica, pode-se avaliar o prejuízo que o sistema colonizador da Mata Atlântica provocou em termos de perda de diversidade, complexidade e originalidade. Como enfatiza Dean (2004), o desaparecimento de uma floresta tropical significa uma tragédia cujas proporções estão além de qualquer compreensão ou concepção humana. Trata-se de uma tragédia cuja brutalidade se agravava pelo desinteresse do colonizador europeu em qualquer prática preservacionista, com árvores nobres servindo para estacas de cercas de engenhos, para portas, para lenha de caldeiras, para vigas de casas, para a construção naval. Simultaneamente, com a caça ao índio, os portugueses “imprevidentemente (destruíam) a capacidade dos habitantes nativos de sobreviver em seu meio”, algo que constituía enorme realização cultural

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(com uma base de 12 mil anos de estoque de informação), de que não tinham a menor consciência e a que “não conseguiram dar nenhum valor” (Dean, 2004). Thomas Lindley, citado por Dean (2004) em Narrative of a Voyage to Brazil (Londres, 1805), visitando Porto Seguro em 1802, comentava: “Em um país que, com o cultivo e a indústria, chegaria à fartura com as bênçãos excessivas da natureza, a maior parte do povo sobrevive em necessidade e pobreza, enquanto mesmo a minoria restante não conhece os desfrutes que fazem a vida desejável”. Nesse início do século da independência do Brasil, os desmatamentos haviam empobrecido o ecossistema, terminando por pauperizar ainda mais as classes desvalidas. Como resultado, o país apresentava uma “população sem nome, exausta pela verminose, pelo impaludismo e pela sífilis, tocando dois ou três quilômetros quadrados a cada indivíduo, sem nenhum ou pouco apego ao solo nutridor; país pobre sem o auxílio humano, ou arruinado pela exploração apressada, tumultuária e incompetente de suas riquezas minerais; cultura agrícola e pastoril limitada e atrasada, não suspeitando das formidáveis possibilidades das suas águas, das suas matas, dos seus campos e praias” (Prado, 1931). Alfred Crosby (1993) demonstrou que a colonização tem o caráter de um fenômeno essencialmente ecológico. No caso brasileiro, o impacto ambiental da conquista “só agora começa a ser avaliado em toda a sua extensão” (Pádua, 2002). E a conclusão a que se chega é de que a história natural do processo configura aquilo que se poderia chamar de “conquista biótica do Brasil” (Dean, 2004). Conquista biótica essa que implica o aniquilamento da rica base biofísica do ecossistema da Mata Atlântica, permitindo a dolorosa constatação, no dizer preciso de Dean (2004), de que “as hostes ignorantes derrotaram totalmente o poder da evolução, entronizando, em seu lugar, a entropia”. Vale sublinhar que o que aconteceu na Mata Atlântica não foi só a degradação ambiental, mas também uma “catástrofe demográfica”, especialmente do século xvi à primeira metade do século xvii. Semelhantemente, no espaço das Américas ocorreu o mesmo fenômeno, talvez o maior desastre populacional que já houve no planeta (Denevan, 1992). Sinal eloqüente de que o processo de colonização foi mesmo de destruição humana, além de ecológica, no território de domínio ibérico. Denevan comenta até que o despovoamento indígena em virtude das doenças trazidas pelos europeus fez com que o meio ambiente, mais vazio agora, e onde supostamente houvera deterioração no período pré-colombiano, se recuperasse em muitas áreas. Mas isso deve dizer respeito a territórios com populações mais densas, como os do México, Peru e Guatemala; talvez mesmo em partes da América do Norte. O mesmo autor, de qualquer forma, faz a ressalva de que os índios não mudaram a paisagem original na “extensão dos europeus pós-coloniais” (Denevan, 1992). Pela contagem por ele feita, a

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população das Américas estaria entre 43 e 65 milhões de pessoas em 1492, com cerca de 8 milhões na zona não andina da América do Sul (mais de 17 milhões no México e 15 milhões nos Andes). Esse é um dado capaz de justificar a suposição da existência de um meio ambiente pouco modificado na região baixa do continente sul-americano, a qual inclui o Brasil (e a Mata Atlântica). Foi nesse sistema ecológico, com muito de prístino em 1500, que se derrotaram tristemente as forças da evolução da vida, instalando em seu lugar a desordem entrópica.

Algumas características do modelo de exploração da Mata Atlântica
Se uma coisa pode ser salientada de imediato no sistema de exploração da Mata Atlântica usado pelos portugueses, trata-se da “intrusão do homem no mecanismo da natureza” (Freyre, 1985) que aí se efetuou. Foi uma intrusão brutal, que impôs com rapidez a civilização do açúcar e sua monocultura: uma rapidez avassaladora, sem peias que contivessem o crime que se estava cometendo. Violentados morbidamente os princípios da evolução biológica, seguiu-se uma furiosa simplificação do ecossistema original, retirando-lhe sua extraordinária diversidade e originalidade. Como sentenciou, sempre brilhantemente, Freyre (1985), “O drama que se passou (...) não veio do fato da introdução da cana, mas do exclusivismo brutal” implantado. Exclusivismo imposto pelo espírito aventureiro que presidiu à conquista, estabelecendo uma economia de rapina para benefício de uma casta. A marca dessa economia é ter sido ela uma iniciativa de trabalho contra a natureza – e não, como no caso dos tupis que habitavam a Mata Atlântica, por necessidade até de ordem sobrenatural, em sintonia com o mundo vivo, com suas regras, seus ritmos, sua complexidade. A característica do tempo econômico acelerado, envolvido na empreitada lusitana, em oposição ao tempo ecológico lento e ao ritmo das po-

pulações nativas criou conflitos ecológicos monumentais. E um prejuízo totalmente irrecuperável para as gerações futuras, manifesto no desajustamento de relações entre a cana e a natureza, “por ela degradada aos últimos extremos” (Freyre, 1985). Outra face do sistema foi a colônia representar para Portugal “simples lugar de passagem, para o governo como para os súditos” (Holanda, 1976). A obra de colonização lusa do trópico brasileiro, de fato, sugere um cunho de feitorização, bem mais do que de colônia de povoamento (Holanda, 1976). A Mata Atlântica, nesse cenário, representava um meio para o projeto de enriquecimento do invasor. Para tomá-la, não lhe custava nada em temos da forma de aquisição adotada, completamente contrária à noção jurídica moderna. Comparado ao dos castelhanos em suas conquistas – que também foram conduzidas com enorme brutalidade, ressalte-se –, o esforço dos portugueses distinguiu-se principalmente pela predominância de seu caráter de exploração e rapina. Os hispânicos desejavam, ao contrário, “fazer do país ocupado um prolongamento orgânico do seu. Se não é tão verdadeiro dizer-se que Castela seguiu até ao fim semelhante rota, o indiscutível é que ao menos a intenção e a direção inicial foram essas” (Holanda, 1976). As colônias de exploração – com seu extremo da economia de rapina – têm como atributo, em toda parte, um saque bestial e rápido dos recursos naturais aí existentes. A devastação acompanha o processo, produzindo alterações no meio natural. Conforme adverte Pádua (2002): “Isso ocorreu, em primeiro lugar, pelo impacto direto das atividades coloniais sobre os ecossistemas previamente existentes, através de movimentos perturbadores ou francamente destrutivos. Em segundo lugar, pela introdução de espécies exóticas (animais e vegetais de maior porte, ervas daninhas, microorganismos patológicos, disseminados de forma voluntária ou não), que no contexto desses ambientes perturbados reproduziram-se de forma intensa e descontrolada”. Se a Mata Atlântica não representa caso único de destruição ambiental na complexa história da colonização européia dos

trópicos – e não representa –, ela é, sem nenhuma dúvida, um exemplo conspícuo de modelo extremamente predatório. Pode-se indicar também como feição do sistema de exploração da Mata Atlântica que a adaptação do colonizador ao meio regional e seu domínio sobre esse mesmo meio “se processaram (...) através de ajustamentos (e) de violências, nem sempre fecundas, antes de um valor todo transitório e este mesmo em benefício de alguns indivíduos, de algumas famílias ou, quando muito, de alguma classe, de um sexo, quase exclusivamente de uma raça, interessada na cultura de uma planta única: a cana-de-açúcar” (Freyre, 1985). Em outras palavras, montou-se uma estrutura exclusivista, constituída de uma única atividade, a monocultura da cana, onde nada mais interessava além dos ganhos que fluíam para uma classe, a dos senhores, e para a Coroa. Onde predominava também o exclusivismo da aristocracia e do patriarcado. Não se estabeleceram laços telúricos do branco colonizador com a natureza aqui encontrada. A ponto de, como salienta Freyre (1985), “O brasileiro das terras de açúcar quase não (saber) os nomes das árvores (...). A cana separouo da mata até esse extremo de ignorância vergonhosa”. Muito diferente da realidade do índio e sua intimidade profunda com o ecossistema. A “distância entre o colono branco e a mata, entre o dono de terra e a floresta, explica nosso quase nenhum amor pela árvore ou pela planta da região” (Freyre, 1985). Nosso antiecologismo. Aqui cabe a pergunta, feita por Dean (2004), sobre a racionalidade de se destruírem os recursos da floresta, especialmente diante dos resultados tão medíocres da empreitada. O problema é que o sistema de exploração da Mata Atlântica, levando à sua des-

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truição, significava acumulação de capital não na colônia, mas, como efeito do capitalismo mercantil incipiente e do colonialismo luso de rapina, na Metrópole distante. Na mentalidade da época, os recursos da natureza não eram interpretados como um capital natural, de que se deveria extrair apenas o fluxo de renda por ele propiciado, conservando-se e repondo-se o principal para benefício de futuros usos. Na verdade, parece que os índios possuíam tal visão, pois conheciam a importância, para si, dos recursos ecológicos de que desfrutavam e dependiam vitalmente. Por isso, respeitavam-nos. Hoje, falta ainda uma percepção generalizada do meio ambiente como capital a ser preservado e que mereça o respeito e a admiração da sociedade. Isso é patente no Brasil, exceto em grupos limitados da população, como alguns do movimento ecologista, que, tal como André Rebouças, pensam que “cada árvore que se corta é um ‘capital’ crescente que se destrói”. No país, continua a prevalecer a mentalidade do enunciado do então senador maranhense José Sarney, em 1975, assim expressado: “Que venha a poluição, desde que as fábricas venham com ela” (Dean, 2004). Para as elites brasileiras, para seus formuladores de política, vale a visão arrogante de que o homem é senhor e dominador da natureza. Essa visão é a de um dirigente do Departamento Nacional de Obras de Saneamento (dnos), Acir Campos, que, em 1976, refletindo o pensamento vigente, cartesiano, revelava todo seu desprezo em relação ao bioma das lagoas do norte fluminense (as quais se incluem na Mata Atlântica, embora não sendo a de Pernambuco e Alagoas): “No ideal de sanear, vencer e corrigir as aberrações da natureza, a comissão (de Saneamento da Baixada Fluminense) criou alma (...) Aquele caos ecológico, aqueles pantanais insalubres, aquele desequilíbrio biológico foi recuperado, graças somente e tão-somente às obras do dnos”. Não pode causar espanto, assim, que, séculos atrás, pessoas vissem a Mata Atlântica como um inimigo a ser derrotado, um obstáculo à conquista e à rapina, uma muralha a ser removida. Apreensões ambientais, é certo, houve no Brasil desde o século xviii – e teriam existido por milênios, antes disso, entre os indígenas, possivelmente, embora não como reflexão ecologista nos moldes atuais. José Augusto de Pádua, em seu elaborado livro, nos dá conta da existência de uma “preocupação intelectual com a degradação do meio ambiente” (Pádua, 2002) no período anterior ao século xx. Motivo: o Brasil estava sendo “reduzido aos páramos e desertos áridos da Líbia”, no dizer de José Bonifácio de Andrada e Silva, em representação à Assembléia Constituinte e Legislativa do Império do Brasil, em 1823 (Pádua, 2002). O botânico iluminista italiano Domenico Vandelli (1735-1816), que se fixou em Coimbra durante o governo do Marquês de Pombal, por exemplo, publicou a partir dos anos 1780 “vários textos onde criticava a forte destruição ambiental que estava ocorrendo em Portugal e nas suas colônias” (Pádua, 2002). Vandelli, que exerceu influência sobre uma geração de brasileiros que se formaram em Coimbra, in-

clusive José Bonifácio, angustiava-se com o fato de os grandes desmatamentos no Brasil estarem destruindo muitas espécies da flora ainda desconhecidas da ciência (Pádua, 2002). Era uma preocupação iluminista, como parte da que existe hoje quanto a não se saber o prejuízo científico que a devastação de florestas acarreta para o Brasil. Nos primórdios do século xix, inclusive, vale notar, havia a percepção de que a destruição do meio ambiente natural não era o “preço do progresso”, como muito se discute hoje, mas antes o “preço do atraso” (Pádua, 2002). A destruição da Mata Atlântica foi o preço do atraso e da ignorância.

À maneira de conclusão
Conseqüência de uma sociedade sem sofisticação mental para elaborar idéias – mais motivada, ao que parece, pelo que Paulo Prado chamou de “ambição do ouro” e “sensualidade livre e infrene” (Prado, 1931) –, o processo de colonização teria que desaguar em alguma forma daquilo que os iluministas brasileiros classificaram como “o preço do atraso”. Essa foi – e é – a realidade de um “país inculto” (Prado, 1931), onde a “facilidade de decorar e loquacidade derramada, simulando cultura” (Prado, 1931) terminam tomando o lugar da inteligência e da reflexão organizada. Do mesmo modo, o que esperar de uma situação do pensamento social brasileiro que, como na América Latina, atribui pouca ou nenhuma importância à história das relações entre a sociedade e seu meio natural (cf. Castro Herrera, 1996)? Raríssimos foram os estudiosos que tiveram a lucidez, por exemplo, de Gilberto Freyre que, em seu belo livro Nordeste (de 1985), segue na análise o “critério ecológico”. Ora, isso foi em 1937, quando pouca gente tratava de assunto tão atual; talvez ninguém mesmo nas ciências sociais, pois se mantém até hoje a lacuna de perspectivas ambientais no estudo da realidade nacional (com as exceções de praxe, inclusive no que se refere, por exemplo, à Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ambiente e Sociedade e à Sociedade Brasileira de Economia Ecológica). É interessante ver como Freyre explica a noção que tinha do critério ecológico por ele introduzido: “Amplo critério geral, não só científico como filosófico e até estético e poético, de estudo e interpretação de uma região; e não um rígido ecologismo geométrico de seita sociológica ou geográfica, segura de poder reduzir problemas de cultura e fatos humanos a fatos de física e de história natural. Ou a problemas de geometria” (Freyre, 1985). Não sem razão, o professor de comunicação da Universidade de Austin (Estados Unidos), o brasileiro Rosenthal Calmon Alves, observava em 1977: “Espero que o Brasil não continue a perseguir seus sábios e celebrar suas mediocridades. As mediocridades detestam a ciência e os interesses econômicos estão destruindo o valor e a riqueza do Brasil”. Como destruíram em meio milênio de exploração bruta da Mata Atlântica.

Um tema que se precisa aprofundar é a resposta à pergunta: a quem pertencia a mata quando chegaram os primeiros “donos” colonizadores? A quem pertencia a terra brasílica do Nordeste tão generosa em massapê? Sem esse barro viscoso, sem o rico húmus da floresta, “a paisagem do Nordeste (...) não teria se alterado tão decisivamente no sentido em que se alterou (...) no sentido da canade-açúcar” (Freyre, 1985). Pois foram os indígenas (quer tivessem ou não consciência preservacionista) que legaram o solo fecundo, permitindo que a partir da Mata Atlântica se aprofundassem raízes agrárias que possibilitaram a transformação de uma feitoria, depois colônia de plantação, em império senhorial de plantadores de cana. A colônia terminou engendrando uma economia de rapina, em que à queimada e à derrubada se juntou a caça e “tudo foi ficando raro, à proporção que o mato grosso foi desaparecendo para a cana imperar sozinha” (Freyre, 1985). Processou-se aí uma troca do patrimônio coletivo e do bem público pelo ganho privado de curto prazo dos senhores da terra e pelo ganho da Coroa. À realidade dessa constatação se sobrepõe o fato de que o tema da apropriação privada do patrimônio comum será “constantemente repetido na história brasileira” (Dean, 2004), sobrevivendo tristemente nos nossos dias. E deixando que se prossiga no mesmo itinerário de devastação ambiental da própria Mata Atlântica, reduzida nos dias correntes a pedaços melancolicamente ameaçados pela obsessão cega do crescimento econômico a todo custo. É surpreendente que a saga de um desastre como o que foi neste capítulo retratado permaneça ainda como um fato de pouco conhecimento por parte da sociedade. É inacreditável, ao mesmo tempo, que uma cadeia de cumplicidade faça com que se permita “aos neo-europeus arrogarem-se herdeiros de uma terra vazia, uma ‘fronteira’ ilimitada” (Dean, 2004), quando nada disso é verdade. A fronteira que aqui havia, e há, era finita e estava habitada de povos adaptados ao Novo Mundo. O Brasil e a Mata Atlântica, igualmente, tinham donos: donos ciosos dos bens que possuíam, não como proprietários egoístas, pois os indígenas não conheciam a propriedade privada, mas como herdeiros do que em inglês se denomina “commons”, o bem comunal. Essa gente também dominava culturalmente o ecossistema, conhecendo-o na sua intimidade, nos seus ritmos; sabendo usar suas plantas, seus animais, seus recursos. Sabendo identificá-los. Tanto que, como diz Dean (2004), “A primeira ou as duas primeiras gerações de invasores portugueses haviam dependido totalmente dos conhecimentos indígenas sobre a Mata Atlântica”. Tal saber indígena pulverizou-se na empreitada colonizadora dos portugueses, empobrecendo o mundo do mesmo modo que o faria um tsunami que levasse de uma vez todos os exemplares de D. Quixote, de Grande sertão: veredas e de Os Lusíadas, todas as obras de Michelangelo, de Da Vinci e de Picasso, todas as coleções de periódicos de biologia existentes no planeta. Destruição ecológica. Destruição demográfica. Destruição cultural. Vitória e entronização da entropia.

O beija-flor Phaetornis em Portea leptantha.

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