Apostila de Farmacotécnica

Professor: José Higidio de Lima Neto

Introdução a Farmacotécnica Definições Michaelis: sf (fármaco+tecno+ia1) Tratado das preparações farmacêuticas. as interações físicas e químicas entre os princípios ativos e entre os princípios ativos e os excipientes e veiculos. 1 – A farmacotécnica é um ramo da farmácia. as formas farmacêuticas. doses. mas na antiga Roma começou a separação daqueles que diagnosticavam a doença. EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA FARMACOTÉCNICA • • • • China 2. Grécia: Hipócrates. • Hipócrates (Pai da Medicina) Patologia geral apepsia (desequilíbrio) Pepsis (febre. . Esta transformação visa à administração. estabilidade. inflamação e pus) Crisis ou lysis (eliminação) • Galeno (Pai da Farmácia). técnicas de manipulação. como hipopótamo. Na Antiguidade a Medicina e a Farmácia eram uma só profissão. 2 . diagnóstico e cura das doenças. cobre e ungüentos feitos com a gordura de vários animais. e tem como objeto a manipulação dos princípios ativos para a fabricação de medicamentos. Egito mil anos depois: utilizavam sais de chumbo.C. a preparação. daqueles que misturavam matérias para produzir porções de cura. era a época de Hipócrates e de Galeno.Farmacotécnica é a área do conhecimento que estuda as formulações. Nesta área estuda-se o desenvolvimento de novos produtos e sua relação com o meio biológico. transformando-se nas várias formas farmacêuticas utilizadas na prevenção. 3 . crocodilo e cobra. assegurando uma perfeita eficácia terapêutica e conservação. • • Combatia as doenças por meio de substâncias ou compostos que se opunham diretamente aos sinais e sintomas das enfermidades. praticada por profissionais farmacêuticos. ao sistematizar os grupos de medicamentos .inaugura uma nova era para a cura O primeiro documento farmacêutico data de cerca de 2500 a. dispensação e eficácia das formas farmacêuticas.600 anos atrás: preparavam remédios extraídos de plantas.Trata-se de uma parte da Farmacologia que cuida das drogas.narcóticos febrífugos e purgantes . É precursor da alopatia.

vindos de Portugal ou preparados pelos próprios jesuítas. criadas as primeiras boticas ou apotecas . Nos locais distantes eram vendidos por mascates Foram os primeiros a instituir enfermarias e boticas em seus colégios. HISTÓRIA DA FARMÁCIA NO BRASIL • • • • • Governador geral Thomé de Souza trouxe de Portugal o 1° Boticário Diogo de Castro. foram surgindo outros componentes de remédios. em velocidade espantosa. criando inclusive uma legislação para o exercício da profissão. • Observador e metódico classificou e usou magistralmente as ervas. e para o exercício da profissão deviam cumprir uma série de requisitos e ter local e equipamentos adequados para a feitura e guarda dos remédios. Constatada a existência de microorganismos úteis e nocivos. com ela. Fazia preparações denominadas "teriagas" feitas com vinho e ervas. No Brasil colônia. tornando-se especialistas em preparo de remédios. medicamentos e outros produtos com fins terapêuticos podiam ser comprados em boticas. Com o tempo. os árabes fundaram a primeira escola de farmácia de que se tem notícia. conhecidos como "galênicos". Cabia aos boticários conhecer e curar as doenças. Era nos colégios que a população encontrava os medicamentos. arsênico e ópio. principalmente os feitos à base de plantas medicinais. Em 1640. as boticas foram autorizadas a funcionar como comércio e se multiplicaram em toda a colônia. • • • . Século XVI: o estudo dos remédios ganha impulso notável.) • Escreveu bastante sobre farmácia e medicamentos.eram as precursoras das farmácias atuais. • • • • • • Arábia: século II. e em suas obras se encontraram cerca de quatro centenas e meia de referências a fármacos. de acordo com a farmacopéia e a prescrição dos médicos.C. novos medicamentos são criados e estudos realizados. O boticário em frente ao doente manipulava e produzia medicamentos.Galeno (200 – 131 a. Espanha e França: século X. Com o tempo. a maioria dos quais era composta com vinho. • Elaborou uma lista de remédios vegetais. foi implantada no mundo a indústria farmacêutica e. com a pesquisa sistemática dos princípios ativos das plantas e dos minerais capazes de curar doenças. como mercúrio.

OBJETIVO: Preparar.A. com o isolamento dos princípios ativos. supositórios. Fixou-se em Roma no Império de Marco Aurélio a fim de controlar a peste. forma de administração e os efeitos biológicos observados. Claudius Galenus. colírios.S. designava-se medicamento químico. Posteriormente. que viveu em Roma no século II de nossa era. FARMÁCIA GALÊNICA: Termo introduzido no século XVI. BIOFARMÁCIA: Determina as relações entre as propriedades físico-químicas dos fármacos. mascarar os caracteres organolépticos e assegurar a ação desejada. Porém se esta transformação originasse uma substância quimicamente definida. comprimidos. dosados com exatidão e apresentados sob uma forma que facilite a sua administração. CONCEITOS EM FAMACOTÉCNICA F. Durante muitos anos as substâncias medicamentosas existentes eram exclusivamente de natureza animal. acondicionar e dispensar medicamentos. Iremos estudar todas as formas em farmacotécnica II. que pretendia se opor ao termo “Farmácia Química” ou ”Ramo Farmacêutico” que se ocupava da preparação de medicamentos contendo substâncias quimicamente definidas. na medida do possível. maior eficácia terapêutica e segurança podemos citar a Biofarmácia e a Farmácia Clínica.FORMAS FARMACÊUTICAS São também designadas por formas galênicas ou formas medicamentosas. Razões de ordem econômica e a facilidade de preparação têm levado à substituição quase que sistemática das antigas fórmulas pelos seus componentes principais isolados ou por síntese. conservar. etc. . MEDICAMENTO COMPLEXO: Resultado da transformação dos produtos naturais em preparações farmacêuticas com possibilidade de administração. O termo “Farmácia Galênica” representa uma homenagem ao médico-farmacêutico. vegetal ou mineral. administração.: Fiat Seumdem Artem – Faça Segundo a Arte nestas três letras está à síntese da manipulação farmacêutica e a arte e a ciência de manipular medicamentos para pacientes com necessidades especiais. Exemplos: pós. o seu período de utilização. o homem teve a tentação de começar a substituí-los. É o resultado de várias operações a que se submetem as substâncias medicamentosas a fim de facilitarem a sua posologia. que significava a “farmácia dos medicamentos complexos”. xaropes. pomadas. Compete à Farmacotécnica estudar a forma farmacêutica mais adequada e o melhor meio de se conservar os medicamentos. As tendências mais recentes da Farmacotécnica a serviço da preparação. de modo a prolongar.

cada vez mais potentes. a obtenção e a difusão de informação sobre medicamentos e a educação permanente dos profissionais de saúde. passou a ciência complexa e multifacetada.FARMÁCIA CLÍNICA: Com o aparecimento de novos fármacos. em que a preparação do medicamento nunca pode ser apreciada independentemente do fim a que se pretende. do paciente e da comunidade para assegurar o uso racional de medicamentos. Área . começando a ser encarada e orientada em bases completamente novas. (OMS. o acompanhamento e a avaliação da utilização. A farmacovigilância atua a nível ambulatorial ou hospitalar. MEDICAMENTO E REMÉDIO A palavra remédio é empregada num sentido amplo e geral. são remédios não só os medicamentos. de arte servindo-se do empirismo. Deste modo. radioterapia. já que esta palavra implica as idéias de profilaxia ou de cura. utilizando-se como referência um padrão de trabalho (padrão de controle). MEDICAMENTO. Assistência farmacêutica: conjunto de ações e serviços relacionados com o medicamento destinados a apoiar as ações de saúde demandadas por uma comunidade. a conservação e controle de qualidade. “competindo-lhe toda a atividade tendente a obter indicações sistemáticas sobre ligações de causalidade provável entre medicamentos e reações adversas”. Observação: Medicamentos utilizados com fins diagnósticos não podem ser considerados REMÉDIOS. sem paredes em uma ou mais de uma das faces. cinesisterapia. Exemplos de agentes físicos: climatoterapia. Exemplos de agentes psíquicos: ação psicológica desempenhada pelo método ou pelo psicólogo junto ao paciente. Um ambiente pode se constituir de uma sala ou de uma área. ALIMENTO e VENENO . Pode ir desde a simples confiança que lhe traz calma e bem estar até mesmo à psicanálise. Ambiente . Área de dispensação: área de atendimento ao usuário. Ajuste: operação destinada a fazer com que um instrumento de medida tenha desempenho compatível com o seu uso.espaço fisicamente determinado e especializado para o desenvolvimento de determinada(s) atividade(s). Envolve o abastecimento de medicamentos em todas e em cada uma de suas etapas constitutivas. a segurança e a eficácia terapêutica dos medicamentos. caracterizado por dimensões e instalações diferenciadas. mas também os agentes de natureza física ou psíquica a que se recorre na terapêutica. destinada especificamente para a entrega dos produtos e orientação farmacêutica. químicas e biológicas a que podem dar origem. obriga a cuidados particulares no que diz respeito às incompatibilidades físicas. sendo aplicada a todos os meios utilizados com o fim de prevenir ou de curar as doenças. CONCEITOS SEGUNDO A RDC 67/2007 – (serão vistos posteriormente). eletroterapia. Água purificada: é aquela que atende às especificações farmacopéicas para este tipo de água. termoterapia. Observa-se assim a evolução natural da Farmácia Galênica.ambiente aberto. que. 1972).

considera-se que um medicamento perdeu a sua validade quando foram destruídos mais de 10 ou 15% dos seus princípios ativos. RECEITA MÉDICA Recipe (Latim) . Ex. Se em um ou mais casos ultrapassar as doses consideradas máximas. fármacos utilizados e suas quantidades. não modificam o efeito farmacológico dos princípios ativos.: 1 cápsula. deverá demonstrar que têm plena consciência de fato.: 12 papéis. FÓRMULA OU FORMULAÇÃO Representa o conjunto dos componentes de uma receita prescrita pelo médico. Adjuvantes . . qual o fármaco ou os fármacos constituintes e qual a sua quantidade. 5 supositórios. ou então a composição de uma especialidade farmacêutica.são destituídos de atividade e têm como função dar corpo aos fármacos. que dependente do processo de conservação. indicação quanto à administração do medicamento. forma farmacêutica pretendida. Algumas vezes as quantidades indicadas referem-se a várias unidades galênicas. Na prática. Ex. Usualmente comporta também instruções para o paciente quanto ao modo de administração ou uso do medicamento prescrito. Veículo ou Excipiente . aromatizante. CONTEÚDO DE UMA RECEITA Nome do paciente. Depois de indicar a composição pretendida. COMPONENTES DE UMA FORMULAÇÃO Em uma fórmula complexa o médico pode indicar além dos componentes ativos.conjunto de indicações escritas pelo médico ou veterinário ao farmacêutico.: Veículo (líquido) Excipiente (sólido). PRAZO DE VALIDADE. nome. o número de unidades pretendidas. Por este motivo os medicamentos devem ser verificados de modo a garantir a sua potência inicial e a determinar-se qual o grau de destruição dos seus princípios ativos com o passar do tempo. edulcorante. um dado medicamento pode tornar-se um veneno. onde o medicamento passa a perder progressivamente a sua atividade. escrevendo por extenso e sublinhando as quantidades pretendidas. 6 comprimidos.fármacos auxiliares. endereço e assinatura do médico. para a preparação e entrega de um medicamento. Período de tempo mais ou menos longo. diluindo-os à concentração conveniente ou proporcionando maior facilidade de administração. O médico deverá indicar de forma explícita. Obs.Dependendo das circunstâncias e da quantidade administrada. Outras vezes menciona-se o quantitativo para uma unidade indicando-se depois. ou um alimento pode funcionar como agente de cura. os componentes inertes que devem entrar na formulação (adjuvantes). Em regra geral. conservante. o médico menciona a forma farmacêutica desejada. Pode exercer um efeito solubilizante.

com indicação de composição qualitativa e quantitativa.são aqueles que promovem uma condição semelhante com o estado patológico a ser tratado. Medicamento de Uso Externo . etc. HISTÓRICO • Farmacopéias regionais nem sempre oficializadas (séc.). Shampoo de Piritionato de Zinco. Ex. Ex. Elixir Paregórico. Medicamento Magistral .: a) Injetável de penicilina G + Estreptomicina. selecionando técnicas e métodos que sirvam de norma legal à preparação. olhos.: Tintura de Iodo.são aqueles preparados na própria farmácia. Medicamento Composto . Ex. da forma farmacêutica e da maneira de administração. ensaio e doseamento das matérias primas empregadas e dos produtos acabados.são aqueles oficializados nas monografias presentes nas Farmacopéias. Medicamentos Homeopáticos . Medicamentos Oficinais .são medicamentos de fórmula conhecida. “Cura provocando uma ação diferente no corpo”. e não a doença em primeiro lugar. caracterização. nariz. Medicamento Placebo .são aqueles que tratam as doenças produzindo uma condição de antagonistas. Medicamentos Especializados de Especialidades Farmacêuticas . “Tratam o indivíduo. Medicamentos de Uso Interno . incompatíveis com o estado patológico a ser tratado. Ex. embalado de modo uniforme e comercializado com um nome convencional.” FARMACOPÉIAS Código Farmacêutico Oficial inscrito com a finalidade de regulamentar e imprimir rigor científico e uniformidade às práticas farmacêuticas.são aqueles que se destinam à administração no interior do organismo por via bucal e pelas cavidades naturais (vagina. Medicamento Simples .são aqueles medicamentos prescritos pelo médico e preparados para cada caso. quando utilizada de acordo com suas indicações e propriedades. de acordo com normas e doses estabelecidas por Farmacopéias ou formulários e com uma designação uniforme. Ex. A especialidade farmacêutica é industrializada e sua fabricação obedece a regulamento de natureza governamental. de ação terapêutica comprovável. ouvido.aqueles preparados a partir de 1 único fármaco.: b) Comprimido de Ácido Salicílico + Cafeína.: xarope de vitamina C. Medicamentos Alopáticos .: Comprimidos de Aspirina. pomada de Cânfora. ânus. XVIII). Medicamentos Oficiais .são substâncias ou preparações inativas administradas para satisfazer a necessidade psicológica do paciente de tomar drogas. em forma farmacêutica estável.são aqueles aplicáveis na superfície do corpo ou nas mucosas facilmente acessíveis ao exterior.CLASSIFICAÇÃO DOS MEDICAMENTOS Como se sabe a palavra MEDICAMENTO indica uma droga ou uma preparação com drogas de ação farmacológica benéfica.: Cremes de Calêndula. .são aqueles preparados a partir de vários fármacos. Ex.

• • • Farmacopéias nacionais oficiais (fim do séc. ou restritos a determinados serviços. pelo menos de interesse médico. Ex. XIX). Edição (1959) 3ª. Medicamento . “Toda a substância ou conjunto de substâncias que se administrem com fins terapêuticos. Nos E. oficializados em muitos países e dotados de caráter nacional. FORMULÁRIOS Ao lado das Farmacopéias existem os formulários de índole galênica. Brasil adotou a Farmacopéia Portuguesa até a Independência. com exemplo o Formulário Homeopático Brasileiro.todas as drogas utilizadas em farmácia e dotadas de ação farmacológica ou. Fármaco . Não possui monografias de matérias primas e especialidades farmacêuticas. Edição que contém apenas as generalidades e métodos gerais de análise. com exceção da 4ª. mineral ou animal.A têm sido publicados.U.são todos os meios utilizados com o fim de prevenir ou de curar as doenças.produto simples ou complexo que poderá ser utilizado como matéria prima para o uso farmacêutico. Adotou a Farmacopéia Francesa até que a brasileira fosse publicada FARMACOPÉIAS BRASILEIRAS 1ª. Droga . beladona.” “Qualquer substância simples ou complexa que aplicada no interior ou no exterior do corpo do homem ou do animal possa produzir efeito curativo ou preventivo”.“Toda a substância que administrada convenientemente ao organismo enfermo possa aliviar ou curar o seu estado patológico. sulfato de cobre. a publicação dos formulários nacionais é acompanhada das respectivas Farmacopéias. Poderíamos dizer então. . Em alguns países da América do Norte e na Grã-Bretanha. Edição (1988) Todas as Farmacopéias possuem “métodos gerais” preconizados e em seguida as monografias. fenol. regularmente diversos formulários nacionais. XVIII e início do séc. Edição (1926) 2ª. No Brasil também têm sido publicados alguns formulários. cera de abelha. que o conceito de droga abrange o de Fármaco ou que o Fármaco é um tipo especial de droga. O último National Formulary XXII foi oficializado juntamente com a revisão da USP XXII.” Remédio . podendo este ser de origem vegetal. Edição (1976) 4ª.: mel.

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