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O DISCURSO NO EDITORIAL: uma análise da construção dos editoriais das revistas Veja e Carta Capital acerca dos governos da China, Cuba e Venezuela

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06/03/2013

Conforme o estudo e objeto proposto, partiremos para uma análise sistemática dos editoriais

com base na metodologia já descrita. Para tanto, tomemos de início a verificação das

características dos textos editoriais publicados pelas revistas Veja e Carta Capital, cuja

classificação obedece à concepção de Beltrão (1980).

Editoriais da revista Veja

N° Editorial/País

Conteúdo

Estilo

Natureza

China 1

Ilustrativo

Emocional Circunstancial/promocional

China 2

Ilustrativo

Emocional Promocional

China 3

Normativo

Emocional Circunstancial/promocional

Cuba 1

Normativo

Emocional Polêmico/promocional

Cuba 2

Informativo/normativo Emocional Circunstancial/promocional

Cuba 3

Ilustrativo

Emocional Circunstancial/promocional

Venezuela 1

Normativo

Emocional Promocional

Venezuela 2

Informativo/ilustrativo Emocional Promocional

Venezuela 3

Normativo

Emocional Promocional

Tabela 1 – Análise das características dos editoriais da revista Veja

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Gráfico 1: Análise quantitativa acerca do conteúdo dos editoriais da revista Veja

No recorte apresentado, é possível observar, de forma geral, que o veículo Veja tem como

diretriz a elaboração de editoriais normativos (45%) e circunstanciais (44,4%), que busquem

apresentar suas opiniões acerca dos acontecimentos com escassa presença de elementos

informacionais (dados, levantamentos etc.), além de ilustrativos (33%), quando, na maioria

das vezes o faz por meio da autopromoção (44,4).

Gráfico 2: Análise quantitativa acerca da natureza dos editoriais da revista Veja

Como exemplo do caráter promocional, podemos citar o trecho da edição China 2 (Anexo II)

―... a troca de dados e mensagem não dispensa o trabalho de captura, tratamento e edição de

notícias desempenhado por jornalistas profissionais como os que VEJA mandou à China e ao

México...‖ (VEJA, edição de 06 de maio de 2009, p. 12) ou, ainda, a edição de Venezuela 1

(Anexo VII) que trata da crise em Honduras envolvendo Zelaya ―...VEJA destacou a editora

Thaís Oyama para cobrir a crise [...] Incansável pela busca por reportagem surpreendentes e

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exclusivas [...] Thaís a vem cumprindo com o brilhantismo habitual‖ (VEJA, edição de 01 de

outubro de 2008, p. 12).

O estilo adotado por Veja foca o emocional, já que todos os editoriais analisados apresentam

esta característica, utilizando-se de argumentos que remetam a visões estereotipadas ao leitor

como o trecho do editorial da edição China 1 (Anexo I) que aborda um fórum no qual Roberto

Civita, diretor editorial do Grupo Abril, ao qual Veja pertence, foi agraciado. ―O fórum serviu

sobretudo para reafirmar a noção de que valores liberais como a democracia, a liberdade

econômica e de imprensa foram justamente a única plataforma possível para restauração da

prosperidade mundial‖ (VEJA, edição de 15 de abril de 2009, p. 12). Ou seja, ela evoca a

sensação de prosperidade para defender determinado sistema econômico ou de governo.

Editoriais de Carta Capital

Editoriais da revista Carta Capital

N° Editorial/País

Conteúdo

Estilo

Natureza

China 1

Informativo

Intelectual

Circunstancial

China 2

Informativo

Emocional

Circunstancial/polêmico

China 3

Ilustrativo

Intelectual

Circunstancial

Cuba 1

Normativo

Emocional

Circunstancial/polêmico

Cuba 2

Informativo

Intelectual

Circunstancial

Cuba 3

Normativo

Intelectual/emocional Circunstancial

Venezuela 1

Ilustrativo/normativo Intelectual

Polêmico

Venezuela 2

Informativo

Intelectual

Circunstancial

Venezuela 3

Informativo

Intelectual

Circunstancial

Tabela 2 – Análise das características dos editoriais da revista Carta Capital

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Gráfico 3: Análise quantitativa acerca do conteúdo dos editoriais da revista Carta Capital

Quanto à revista Carta Capital, há textos editoriais que têm o viés normativo, emitindo

opiniões e se aproximando dos publicados por Veja, porém, em 62% dos textos analisados a

substância do conteúdo é a informação. Como exemplo, podemos citar a edição China 1

(Anexo X). ―O Tribunal Penal Internacional, criado em 2002 pelo Estatuto de Roma, emitiu

ordem de prisão contra Omar Hassan AL Bashir, presidente do Sudão desde 1993, acusado de

crimes contra a humanidade...‖ (CARTA CAPITAL, edição de 11 de março de 2009, p. 25),

que traz informações e datas para esclarecer o leitor.

Alguns editoriais de Carta Capital também mesclam o normativo com o ilustrativo. Como

exemplos, temos a comparação realizada na edição de Venezuela 1 (Anexo XVI) entre

Chávez, Lula e Robinson Crusoe (herói da obra literária de Daniel Defoe baseada em fatos

reais). ―Brasil e Venezuela são mares de desigualdades e Lula e Chávez são Robinsons
resgatados pelo povo...‖ (CARTA CAPITAL, edição de 25 de fevereiro de 2009, p. 14).

Entretanto, diferentemente de Veja, não há o aspecto promocional. Aliás, em nenhum dos

editoriais analisados, Carta Capital cita a própria publicação ou seus jornalistas.

No que se refere ao estilo, a maioria dos textos analisados tem uma argumentação que procura

interligar os fatos de forma racional, consequência do próprio conteúdo informativo.

Entretanto, há sim, em alguns textos, elementos que procuram cativar o leitor por meio do

sensacionalismo, como nas edições China 2 (Anexo XI) ―Já no resto do mundo, a

preocupação cresceu‖ (CARTA CAPITAL, edição de 13 de maio de 2009, p. 17) e Cuba 3

(Anexo XV) ―Já Battisti carrega no lombo quatro assassinatos, entre eles o de um açougueiro

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e o de um joalheiro de periferia, fundamentais, como sabemos, à grande causa‖ (CARTA

CAPITAL, edição de 17 de março de 2010, p. 19). Neste último, o apelo para o leitor usa,

inclusive, da ironia para colocar que os assassinatos cometidos pelo italiano Cesare Battisti,

refugiado no Brasil, foram de pessoas inocentes e não com engajamento político.

Gráfico 4: Análise quantitativa acerca do estilo dos editoriais da revista Carta Capital

Quanto à natureza dos editoriais, a Carta Capital se pauta mais pelo circunstancial, embora,

vez ou outra, aborde de forma polêmica questões não-factuais.

Gráfico 5: Análise quantitativa acerca da natureza dos editoriais da revista Carta Capital

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Não apresentada no quadro, a estrutura da linguagem empregada é uma variável diretamente

ligada ao público a que se destina o texto, uma vez que uma não adequação pode afugentar o

leitor devido à difícil decodificação ou simplicidade lingüística. Segundo os autores, como

Koch (1996), Wolf (1999) e Charaudeau (2006), no processo de comunicação a adequação da

mensagem deve ater-se às características e bagagem cultural do interlocutor. Assim, essa

característica pode ser analisada sob a construção formal e informal da linguagem.

Utilizando essa classificação, trataremos primeiramente dos editoriais da revista Veja. Com

uma linguagem formal, na ordem direta, com palavras de conhecimento geral, a publicação

possui um texto mais universalizado, que tem como principal objetivo ser de fácil

entendimento para o maior número de pessoas de diferentes status intelectual. Predominam,

na publicação, os textos que procuram apresentar ou descrever ao leitor uma história. O que

pode ser evidenciado na edição Cuba 3 (Anexo VI), quando é remontada a vivência de seu

jornalista na época da Guerra Fria.

―O jornalista Diogo Schelp, quando criança morou com os pais na Alemanha,

lembra-se de um colega de escola apontando com temor as torres dos guardas
armados na fronteira entre a Alemanha Ocidental e a Oriental‖. (VEJA, edição de 11
de novembro de 2009, p. 14)

Há, também, a construção do sentido por meio de argumentos, visto o aspecto normativo dos

editoriais, citado anteriormente.

Já Carta Capital se utiliza da linguagem formal, mas com características mais restritivas

quanto ao interlocutor. Lançando mão de frases e períodos mais complexos, do uso da ordem

indireta e de palavras e conceitos pouco usuais, ela exige maior erudição do leitor, que

necessariamente deve ser mais bem instruído. Como exemplo, tem-se o trecho da edição

China 3 (Anexo XII). ―Do ponto de vista da diplomacia e da realpolitik, será preciso não

escantear a Europa e a Rússia, ou relegar ao papel de corista os emergentes. Não é cabível,

contudo, que o G-2 se permita esse gênero de ratas grosseiras‖. (CARTA CAPITAL, edição

de 05 de agosto de 2009, p. 14).

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Outras elementos podem ser observados em outro trecho de China 3 (Anexo XII).

―Recordo do meu pai, agudo analista da política internacional. No fim dos anos 40

vaticinava: soviéticos e maoístas nunca se darão bem, porque, antes de tudo, são
russos e chineses. Quanto à atração que a China sempre exerceu sobre o Ocidente,
ocorre-me Ludovico Ariosto, e seu transcendente Orlando Furioso, o paladino de
Carlos Magno louco de amor vão por Angélica, princesa de Catai‖ (CARTA
CAPITAL, edição de 05 de agosto de 2009, p. 14).

Na passagem supracitada, há a presença da intertextualidade, que exige uma maior bagagem

cultural do leitor, e de termos incomuns, usados para construir uma erudição no texto.

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