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O DISCURSO NO EDITORIAL: uma análise da construção dos editoriais das revistas Veja e Carta Capital acerca dos governos da China, Cuba e Venezuela

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06/03/2013

Em uma análise qualitativa, foi verificada como são retratados os regimes de governo e seus

líderes nos editoriais das revistas Veja e Carta Capital. Na investigação observou-se se os

termos definidos na metodologia são citados em textos com viés positivo ou negativo, se

aparecem para ser elementos de contraposição e quais os adjetivos são referenciados a eles ao

longo da enunciação.

Nos editoriais que tratam de Cuba e Venezuela, as comparações da revista Veja, de forma

geral, buscam evidenciar a incompatibilidade entre as situações desses países, e ações de seus

governos, com as conjunturas de demais países que se regem pelo capitalismo. Nas

ocorrências, as citações indicam um exemplo a não ser seguido, vezes por outra, sendo

estigmatizando os regimes.

Em Cuba 3 (Anexo VI), de forma direta, ao final do texto, o regime cubano é descrito pela

publicação da Editora Abril como uma farsa comunista, onde não há desenvolvimento e

prosperidade. Já de forma indireta, do primeiro ao penúltimo parágrafo, as experiências com o

comunismo no mundo são descritas como ―surreais‖, ―equivocadas‖ e ―contrárias à evolução

da sociedade‖. Assim, quando Veja cita no último parágrafo Cuba como defensora do

comunismo, acaba por vincular todo o texto à experiência cubana.

Situação semelhante ocorre em Cuba 1 (Anexo IV). No editorial, a publicação aborda o

sucesso da diplomacia brasileira no cenário político internacional. Mencionando que a

assessoria técnica de membros do PT ao presidente de El Savador, tendo como base o modelo

político adotado por Lula, os argumentos defendem a posição democrática e a

responsabilidade econômica nos governos de esquerda, como do Brasil. Durante todo o texto,

essas características são valorizadas. Ao final, a revista ressalta como importante a iniciativa

do novo presidente salvadorenho, Mauricio Funes, de se aproximar do modelo brasileiro,

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contudo, valendo-se da comparação para expor seu posicionamento acerca dos líderes de

Cuba e Venezuela.

―... Funes indicou para comandar o Banco Central um economista respeitado nos
grandes centros financeiros e contratou técnicos ligados à oposição. Ajudou muito
no processo, é claro, o fato de Funes ser casado com a advogada brasileira Vanda
Pignato, uma petista militante. Mas, com Fidel Castro e Hugo Chávez tão perto, é
uma sorte para os salvadorenhos e para o continente que seu presidente esquerdista
tenha se espelhado em Lula‖ (VEJA, edição de 03 de junho de 2009, p. 12)

No exemplo acima, o texto utiliza as técnicas de comparação e tautologia, com base em

argumentos que fundam o real em uma relação de modelo, para expor a incompatibilidade

entre o desenvolvimento socioeconômico e os regimes de governo estabelecidos por Fidel

Castro (e seu sucessor e irmão Raul Castro), e Hugo Chávez.

Já quando se trata da China, quase sempre os editoriais de Veja registram os progressos e

colocam seu desenvolvimento econômico como um modelo a ser seguidos pelos demais

países. ―Com base no que viu e ouviu de especialistas, Lauro Jardim sugere na reportagem

que a China vai emergir da crise ainda mais confiante e consciente de seu novo papel no

mundo‖ (VEJA, edição de 06 de maio de 2009, p. 12). ―Agora, enquanto o mundo ainda

convalesce da crise, o país [Brasil] colhe os resultados de seus esforços e desfruta ao lado da

China a condição de pólo referencial de atração de investimentos‖ (VEJA, edição de 09 de

setembro de 2009, p. 12). ―Afinal, é forçoso reconhecer que a aplicação delas [ideias liberais]

em escala planetária na década de 90 foi a fonte da imensa prosperidade que tirou da miséria

centenas de milhões de seres humanos n o Brasil, na China e na Índia‖ (VEJA, edição de 15

de abril de 2009, p. 12).

Uma exceção foi identificada em Cuba 2 (Anexo V). Embora o editorial esteja como objeto

de análise do regime cubano, o governo chinês é também citado de forma pejorativa, quando a

publicação critica, juntamente com cubanos, iranianos, as medidas de censura à Internet

adotadas pelos governos.

Tendo foco da análise os editoriais de Carta Capital, verifica-se que, diferentemente de Veja

que somente aborda uma vertente da conjuntura, há uma ponderação de prós e contras, mas

sempre com a defesa de um dos lados. Também em contraponto à Veja, tem-se no periódico

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de Mino carta posicionamentos díspares em relação a Cuba e Venezuela. Nos textos em

referência ao primeiro país, a tendência foi de defesa.

―A festa [reunião da cúpula do Grupo do Rio, realizada no México] foi perturbada por mais

um bate-boca entra Álvaro Uribe e Hugo Chávez. Durante o almoço, o primeiro queixou-se

de agressões verbais anteriores do venezuelano e de restrições ao comércio com a Colômbia e

o segundo cedeu à provocação até ambos trocarem insultos. Raúl Castro, nada menos,

acalmou os ânimos‖ (CARTA CAPITAL, edição de 03 de março de 2010, p. 17).

Mesmo em textos em que a publicação criticava medidas do regime cubano, é perceptível

uma simpatia. É o caso de Cuba 3 (Anexo XV), que discorre contra a posição de Lula em

defender Cuba criticando dissidentes que fazem greve de fome. Apesar de combater

abertamente o cárcere de presos políticos na ilha de Fidel Castro, a ponderação e

recomendação ao presidente Lula na última frase do editorial expõe o posicionamento da

revista. ―Há maneiras melhores de defender Cuba e o legado da revolução castrista‖ (CARTA

CAPITAL, edição de 17 de março de 2010, p. 19).

Cabe ressaltar que a palavra ―legado‖, nesta construção, assume um caráter de herança

positiva e válida, diferentemente de posição de Veja.

Já em relação à Venezuela, o teor dos enunciados apresenta oposição. Em Venezuela 3

(Anexo XVIII), por exemplo, de forma direta, a publicação critica a alteração de gestão feita,

seguindo os trâmites legais do país, pelo governante. ―O oposicionista Antonio Ledezma,

prefeito metropolitano de Caracas, queixa-se, com certa razão, de ter sido vítima de um

―golpe de Estado‖ (CARTA CAPITAL, edição de 14 de outubro de 2009, p. 29). No mesmo

editorial, a revista se utiliza de fala do prefeito, que cita o presidente de forma pejorativa, para

expor seu posicionamento. Em determinado trecho, Carta Capital abre aspas para o político

de oposição, que declara: ―É preciso que o Brasil aceite a Venezuela no Mercosul. Chávez é

muito mais perigoso isolado...‖ (CARTA CAPITAL, edição de 14 de outubro de 2009, p. 29).

Em outro texto, Venezuela 1 (Anexo XVI), a ilustração que faz de Chávez com a personagem

Robinson Crusoe, usa, de certa forma, uma referência ao ridículo. Isso além de também expor

uma previsão sobre as intenções de Chávez. ―Com o apoio popular, vai lançar ao mar uma
ditadura de fato‖ (CARTA CAPITAL, edição de 25 de fevereiro de 2009, p. 14).

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Quanto aos chineses, dos três editoriais analisados, dois tinham referências desfavoráveis,

ambos tratando de temas ligados à política, e um de maneira favorável, este abordando

aspectos econômicos. Em China 2 (Anexo XI), a revista constroi uma frase com o intuito de

valorizar a palavra ―obrigatória‖ e inferir um juízo de valor acerca das condutas e medidas do

governo chinês. ―Escaldada pela Sars e pela gripe aviária, a China, ao descobrir um mexicano

doente, pôs em sete dias de quarentena obrigatória todas as 350 pessoas presentes no hotel e

todos os 70 mexicanos no país‖ (CARTA CAPITAL, edição de 13 de maio de 2009, p. 17).

Já em China 1 (Anexo X), o texto expõe a posição contrária da China, juntamente com EUA e

Rússia, em relação ao Tribunal Penal Internacional e suas sentenças. No enunciado, a revista

lamenta que as decisões do Tribunal não sejam reconhecidas pelo Conselho de Segurança da

ONU, cujos países acima exercem o seu poder de veto. Neste caso específico, cabe aqui

retomar o entendimento Melo (2003), já descrito na seção 2.1.1 do presente estudo. Para o

autor, mais que expor a opinião, o principal instrumento de um veículo demonstrar seu

posicionamento é a seleção das informações que serão veiculadas. Desta forma, como em

China 1 (Anexo X), a publicação pode apresentar um conteúdo informativo com a intenção de

persuadir o leitor para uma causa.

Somente em China 3 (Anexo XII), o tratamento dado ao país não possui uma crítica negativa

explicita. Neste texto, é feita uma explanação, de certo ponto neutra, acerca da aproximação

político-econômica entre EUA e China.

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