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A NARRAÇÃO ESPORTIVA E A FIDELIDADE DO OUVINTE DE RÁDIO: Uma análise sobre a estratégia utilizada pelos narradores esportivos da Itatiaia para a fidelização do ouvinte Belo Horizonte

A NARRAÇÃO ESPORTIVA E A FIDELIDADE DO OUVINTE DE RÁDIO: Uma análise sobre a estratégia utilizada pelos narradores esportivos da Itatiaia para a fidelização do ouvinte Belo Horizonte

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1 INTRODUÇÃO

Com o avanço da tecnologia digital, na área da comunicação, os diversos meios midiáticos precisaram passar por relevantes mudanças. Com a chegada da televisão e da internet os veículos de comunicação remotos, como o rádio, tiveram que se adequar às novas tecnologias, como forma de sobrevivência.

A televisão relata aquilo que se vê, e, talvez por isso, sua mensagem pareça redundante. Isto se torna um desafio a ser explorado. Desafios também fizeram parte das transmissões esportivas pelo rádio que, ao longo de sua história, precisou contratar profissionais competentes e capazes de, com sua criatividade, suprirem a falta da imagem oferecida pela partida ao vivo e, depois, enfrentaram a concorrência com a TV.

Para não perder o seu espaço, o rádio veio, ao longo dos anos, aperfeiçoando o processo de produção das mensagens e, hoje, é considerado um veículo extremamente respeitado nas transmissões das partidas de futebol. A maioria dos torcedores que vai ao campo ou acompanha os jogos pela televisão, continua ouvindo, simultaneamente, pelo rádio, as narrações e os comentários de seus locutores esportivos.

Para cumprir, com maior rigor, esse caráter informativo, o rádio passou a fazer uso de descrições cada vez mais objetivas das partidas de futebol. Ao longo do tempo, foram construídas formas peculiares para a transmissão dos gols, dos fatos importantes das partidas, das expectativas dos jogadores e torcedores, ou seja, de toda a emoção que envolve cada espetáculo. O narrador esportivo aprendeu a cativar o receptor e, por meio de uma locução carregada de emoção e sentimento, tornou-se capaz de mantê-lo conectado à transmissão e fiel à rádio.

A Rádio Itatiaia possui, hoje, uma audiência fiel e unânime, em comparação às demais transmissões esportivas realizadas na capital mineira.

Ortriwano (1985) define o rádio como principal veículo de comunicação de massa do mundo e Thompson (1998) ressalta que a comunicação de massa não está na quantidade de

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indivíduos que recebem os produtos, mas no fato de que estes produtos estão disponíveis, em princípio, para uma grande pluralidade de destinatários. Hoje, em plena era da tecnologia digital, é importante destacar esta permanência do rádio na vida do ouvinte esportivo, desafiando a imagem, em tempo real, alcançada pela TV.

A relevância deste trabalho refere-se à comprovação de que, mesmo com o advento das novas tecnologias digitais, o rádio ainda permanece vivo no dia a dia da população, seja no carro, em casa ou até mesmo no trabalho.

Segundo Prata (2000), alguns ouvintes tornam-se fiéis a uma determinada rádio, por causa da admiração que nutrem pelos seus locutores esportivos, o que propicia o crescimento desta junto às pesquisas de opinião. Segundo a autora, o ouvinte fiel torna-se um seguidor da emissora em toda a sua programação, conhecendo os nomes de todos os comunicadores, participando das enquetes e sentindo-se, realmente, parte da rádio.

A investigação do processo de fidelização do ouvinte de rádio à locução esportiva, em que a imagem é dada pela emoção com que o narrador transmite a partida, é o tema de estudo deste trabalho.

Para isso, foi desenvolvido o seguinte problema de pesquisa: Qual a estratégia de narração utilizada pelos locutores esportivos da Itatiaia para a fidelização do ouvinte?, além dos seguintes objetivos: 1- analisar os estilos de narrações de Alberto Rodrigues e Mário

Henrique, ambos locutores da Rádio Itatiaia; 2- analisar a rivalidade regional pelo esporte como fidelização do ouvinte de rádio; 3- analisar o processo através do qual os narradores de rádio conseguem a lealdade do ouvinte; e, 4- analisar a permanência do rádio na vida do ouvinte esportivo em plena era da tecnologia digital.

Nesta pesquisa, a busca por esse entendimento passará pelas marcas da locução, suas técnicas, chavões e inspirações, bem como pela tentativa de se desvendar qual processo discursivo é capaz de mexer com o imaginário do ouvinte de futebol, fidelizando-o ao narrador e, conseqüentemente, a rádio a que este pertence. Serão feitas análises de trechos de jogos de futebol, narrados por Alberto Rodrigues e Mário Henrique.

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A Rádio Itatiaia será abordada em sua relação com o futebol, por intermédio de suas mais diversas histórias, do estilo inconfundível de seus narradores e das estratégias que utilizou e, ainda utiliza, para a fidelização do ouvinte esportivo. Por meio desta pesquisa, será identificado o processo pelo qual os narradores de rádio conseguem esta lealdade do ouvinte, exposto a inúmeras possibilidades narrativas dentro do grande universo das transmissões esportivas.

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2 O FUTEBOL

2.1. História do Futebol O rádio chegou ao Brasil no início do século XX, período em que o futebol consolidou-se no país, quando Charles Miller trouxe as primeiras bolas e uniformes. A partir de então o esporte era apresentado ao brasileiro, e tornou-se, em pouco tempo uma paixão nacional (WITTER, 1996). No entanto, a Inglaterra foi o país responsável pela regulamentação do esporte e foram os ingleses que criaram as regras para o jogo. “O objetivo é fazer gol; só o goleiro pode pegar a bola com a mão; o que é pênalti; impedimento; bola lateral; linha de fundo; escanteio e falta” (WITTER, 1996, p.34). Segundo o autor, os primeiros torneios futebolísticos iniciaram-se no Brasil nos últimos anos do século XIX. Eram desorganizados e não havia regularidades nas disputas. Foi em 1919, o primeiro torneio internacional, envolvendo, a seleção brasileira.

Em 1925, o futebol já era um esporte nacional. O Brasil já havia sido bi-campeão sulamericano em 1919 e em 1922, faltavam apenas cinco anos para o início da primeira Copa do Mundo, mas o profissionalismo só chegaria ao país oito anos mais tarde (COELHO, 2003, p. 10).

Na década de 30 o futebol tornou-se definitivamente um esporte profissional e popularizado. Antes deste período, os times eram formados por empregados do comércio, estivadores, soldados, funcionários públicos, operários e pequenos comerciantes, principalmente nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo (ALMEIDA E MICELLI, 2004).

Witter (1996) relata que o futebol nasceu entre as elites e o preconceito racial foi uma característica marcante do começo desse esporte no Brasil. Mas não demorou muito para se tornar conhecido.
“O futebol ganhou rapidamente uma grande popularidade no Brasil e alguns estados criaram os seus próprios clubes. Fluminense em 1902, Grêmio em 1903, Flamengo em 1911, entre outros. Dentre os mais antigos está o Ro grande F.C, fundado exclusivamente para a prática de futebol, com estatutos e regulamentos” (WITTER, 1996, p.13).

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Com a chegada da televisão, já na década de 50, os estilos das diferentes equipes foram reconhecidos nacionalmente e o espectador passou a conhecer os jeitos de cada jogador e as táticas adotadas pelos times (WITTER, 1996).

No entanto os jornais dedicavam espaços mínimos para o que parecia ser uma grande paixão popular. O Correio Brasiliense, por exemplo, liberava apenas uma coluna para as matérias que incluíam futebol. E duas colunas para o surfe. Os jornais dedicavam ao esporte o espaço que lhes era possível (COELHO, p.11, 2003).

No início do ano 2000, os espaços dedicados ao futebol na mídia se tornaram mais promissores. Com a chegada da Internet, os diversos sites publicavam matérias e notas sobre os principais jogos (WITTER, 1996).

2.2 O futebol como “paixão brasileira”

A Teoria Crítica, formulada pela Escola de Frankfurt, vê a indústria cultural como um sistema que domina e aliena o indivíduo. E foi com base nesta teoria que, até 1980, os intelectuais definiam o futebol como “o ópio do povo” (LOVISOLO, 2002).

Segundo Lovisolo (2002), o futebol, desde esta época, vem passando por importantes transformações. Considerado como arte popular pela crítica atual, o esporte passou a ser colocado ao lado do samba e do carnaval.

Ramos (1984) relata que o carnaval desabilita o conflito de classes durante quatro dias. Já o futebol, é bem mais eficiente. “Extingue as relações de produções capitalistas diariamente. Dispõe de um discurso competitivo interminável, engendrando conceitos de identificação e divergência clubística” (RAMOS, 1984, p.34). Se antes representava alienação e controle, hoje é visto como sinônimo de singularidade, identidade, emoção, criatividade, estilo, imaginação, etc. Comentaristas, poetas e artistas passaram a adotar o futebol como “paixão nacional” (LOVISOLO, 2002).

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Lovisolo (2002) chega a considerar o fato como uma romantização do esporte e destaca a importância de se trabalhar o lado iluminista desta modalidade, ou seja, o seu lado socialmente construído.

Segundo o autor, o futebol pode ser um dos meios para se trabalhar o processo civilizatório. O incentivo ao convívio pacífico entre os jogadores e torcedores de clubes diferentes poderia ser o pilar deste processo socializador. O ideal romântico do futebol está posto e emerge da capacidade de cada um recriá-lo enquanto obra de arte.
O ideal romântico emerge na junção das categorias românticas com o reconhecimento da paixão e gostos positivos do observador em relação ao esporte que fundamentam o entendimento interior que, no caso da estética romântica, significa usufruir, sentir prazer com a obra de arte e recriá-la, ou seja, ser também o artista (LOVISOLO, 2002, p.6).

Quem ama o futebol, torna-se parte dele, pois busca conhecê-lo profundamente. Torcedores, jornalistas e críticos esportivos passam a pertencer a este esporte, tanto no aspecto de pesquisa, quanto da emoção.

É necessário sentir o pertencimento ao campo de suas práticas e sentidos. A epistemologia que professam afirma que apenas se pode falar desde dentro. Acreditam que a perspectiva dos de dentro, dos que amam ou gostam, é superior àquela dos de fora, os distanciados ou indiferentes (LOVISOLO, 2002, p.7).

Antigamente, as emoções pelo futebol eram reprimidas pela simples afirmação de que este era alienante: “o futebol é o ópio do povo”. No entanto, é preciso penetrá-lo e vivenciá-lo para conseguir perceber seu valor. Muito pode ser feito para melhorar o campo do esporte, de modo a torná-lo cada vez mais útil no processo civilizatório do povo (LOVISOLO, 2002).

É no saudosismo que se podem buscar inspiração para as intervenções e melhorias do esportepaixão, o futebol. Pensar como Lovisolo (2002), no futebol “de várzea”, remete-nos a um passado mais simples e natural, que se perdeu. Ali aconteciam a criatividade e a recreação, livres da elitização do esporte.

O sentimento nostálgico ou saudosista, rodeado da aura da melancolia, provocado pela evocação da „várzea‟ é, no entanto, muito mais forte entre os narradores da história e dos significados do futebol do que entre os praticantes, que não parecem ter grandes dificuldades em utilizar campos demarcados e tratados com grama natural ou sintética e

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mesmo quadras com piso de cimento ou madeira, entre outras possibilidades (LOVISOLO, 2002, p.10).

Segundo Lovisolo (2002), os campos de várzeas eram terrenos baldios e irregulares, que acolhiam pessoas da periferia, em seus momentos de puro deleite e lazer. O autor comenta que as adversidades teriam desenvolvido um futebol criativo e imaginativo capaz de superar as dificuldades, “[...] superar pela arte as reações inesperadas da interação entre jogadores, terreno e bola” (LOVISOLO, 2002, p.87). No entanto, o crescimento imobiliário invadiu estes espaços, acabando com a alegria das camadas mais populares de nossa sociedade

2.3 O futebol e a fidelização do brasileiro pelo esporte

Lovisolo (2002) afirma que o futebol tem um espaço relevante na paixão popular. O indivíduo pode mudar de religião ou de opinião política, mas jamais de time de futebol. Segundo ele, é devido à paixão do brasileiro pelo esporte que ele se torna, a cada dia, diferente, criativo e original. O futebol brasileiro é magia... Mas, antes de tudo, é paixão.... Paixão de brasileiro!

“O futebol, de modo geral o esporte, tornou-se espaço de formação de identidades e de expressão do nacional ou regional, de participação e pertencimento, de emoção e prazer, de recreação e criação e imaginação” (LOVISOLO, 2002, p.69).

Desde criança, somos levados a fazer uma escolha que se torna um pacto eterno. A opção por outra camisa é motivo de crítica e desconfiança por parte dos amigos, que exigem fidelidade ao time. Vem, desde esta época, o amor por este esporte que leva o torcedor a vestir a camisa do time e a ela ser leal.

Baseamos nossa lealdade e fidelidade, valores importantíssimos no campo da identidade política e religiosa, em coisa tão pouco séria como o esporte. Mais uma manifestação de nossa originalidade, autenticidade, criatividade, singularidade, particularidade, valores românticos dos quais fazemos parte. Se o futebol é tão importante para nós, como não termos um futebol diferente, original, criativo, enfim, propriamente nosso? (LOVISOLO, 2002, p.13).

Segundo Lovisolo (2002), a falta de emoção é uma morte antecipada, suspensão de um tempo de difícil passagem. Um tempo difícil de digerir, de passar. O autor completa dizendo que o

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futebol brasileiro é uma forma de indústria antitédio, considerado, por ele, como o vetor principal do esporte.

Devido a esta paixão, a maioria das emissoras de rádio atuais opta por transmissões emocionantes, mas, ainda existem aquelas que preferem aderir a uma técnica mais jornalística (LOVISOLO, 2002).

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3 O RÁDIO

3.1 História do Rádio

Walter Sampaio, em Jornalismo Audiovisual, afirma que o nascimento do rádio ocorreu exatamente no dia 6 de abril de 1919, no Recife, quando foi fundada a Rádio Clube de Pernambuco, por Oscar Moreira Pinto. Naquela época, a programação da emissora já incluía boletins meteorológicos, preços de gêneros alimentícios, informações comerciais, cotação da bolsa de valores, noticiário telegráfico nacional e estrangeiro, programas teatrais e cinematográficos, esportes, contos infantis e atividades sociais (CAMPELO, 2001).

Já Ortriwano (1985), afirma que o dia 7 de setembro de 1922 marcou a estréia oficial do rádio no Brasil. Em comemoração ao ano do centenário da independência do país, o maior veículo de comunicação transmitiu, além do discurso do presidente Epitácio Pessoa, a apresentação da ópera O Guarani, de Carlos Gomes, diretamente do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Para ela, em 1923, a radiodifusão foi definitivamente instalada no país. Roquette Pinto e Henry Morize fundaram a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, que privilegiava a camada intelectual, por meio de sua elitizada programação artística. Nesta mesma época, Roquette Pinto fundou também o radiojornalismo (ORTRIWANO, 1985).

Existe muita controvérsia sobre qual foi a primeira emissora de rádio no Brasil. Oficialmente divulga-se que este título pertence à Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, mais tarde Ministério da Educação. Acontece que, nessa época, não havia nenhuma legislação que regulamentasse o tema, e assim é possível mesmo que as primeiras transmissões tenham sido feitas na Rádio Clube de Pernambuco (ARAÚJO, 2001, p. 96).

Somente em 1927, o rádio passou a conquistar o Brasil como um todo, mas não como um veículo de massa, visto que os aparelhos precisavam ser importados. Além disso, as funções das rádios eram basicamente voltadas para um público mais culto (ARAÚJO, 2001).

Como qualquer descoberta decorrente de evolução científica, a radiodifusão só se concretizou a partir de uma série de contribuições de diversos estudiosos, aliada a centenas de aprimoramentos tecnológicos, durante um largo espaço de tempo. De acordo com o presidente do Conselho de Administração da Rede Brasil Sul de Comunicações e da

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Associação Mundial de Jornais, Jayme Sirotsky, a história do rádio teve início a partir de uma faísca. (CAMPELO, 2001).

As rádios nasceram por iniciativa dos clubes ou associações formadas por idealistas que viam nessa nova mídia o futuro da comunicação. Ortriwano (1985) relata que, no início, os possuidores de aparelhos receptores dos rádios ainda tinham de pagar uma mensalidade para acessarem à programação. Além deste fator mantenedor, doações eram feitas por entidades privadas ou públicas, mas não de forma regular.

Tudo isto, associado às raridades dos anúncios e publicidades, levou as rádios a passarem por sérias dificuldades financeiras. Somente a partir de 1930, é que o veículo começou a se profissionalizar, contratando pessoal especializado para suas transmissões (ORTRIWANO, 1985).

No início dos anos 30, com várias emissoras radiofônicas instaladas e funcionando no País, o rádio começou a se transformar baseado, especialmente, em um decreto do governo, que passou a permitir a veiculação da publicidade. A autorização fez com que o erudito, o educativo e o cultural se transformassem em popular, voltado também ao lazer. (CAMPELO, 2001, p.31)

Até 1952, conforme relata Ortriwano (1985), o rádio era um meio de recepção coletiva. Somente a partir do advento do transistor é que os receptores passaram a ser contemplados de forma individualizada.

Em meio a este avanço, surgiu também a televisão, obrigando o rádio a se adaptar e a recriar o seu formato de produção. Segundo Ortriwano (1985), o rádio foi obrigado a abrir mão de astros e estrelas e introduzir os discos e as fitas gravadas, trocou as radionovelas pelas notícias, as brincadeiras de auditório pelos serviços de utilidade pública e privilegiou a informação. Desde então, percebe-se que os aparelhos de rádio estão em todos os cômodos das casas dos milhares de ouvintes espalhados por todo o mundo.

Segundo Araújo (2001) mesmo com outros meios à disposição da sociedade, o rádio sempre se manteve de pé, garantindo a fidelidade do seu ouvinte.

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O rádio parece desses bichinhos de praia que por mais que você os amasse com as forças dos pés, encontram sempre um modo de botar a cabeça para fora. Quantas vezes já ouvi que “o rádio está morrendo”, e encontrá-lo no dia seguinte mais forte e mais ágil, saltando obstáculos, encontrando novos caminhos e sempre na esteira de prestar serviços, divertir, nem sempre educar – é bem verdade – mas sempre abrindo novas formas de comunicação (ARAÚJO, 2001, p. 92).

Segundo Ortriwano (1985), o rádio é um dos principais meios de comunicação de massa no mundo e tal fato se explica pela capacidade físico-psicológica do homem de reter e captar a mensagem falada e sonora simultaneamente.

Entre os meios de comunicação de massa, o rádio é, sem dúvida, o mais popular e o de maior alcance público, não só no Brasil como em todo o mundo, constituindo-se, muitas vezes, no único a levar a informação para populações de vastas regiões que não têm acesso a outros meios, seja por motivos geográficos, econômicos ou culturais (ORTRIWANO, 1985, p.78).

Ao longo de todos estes anos, o rádio tentou desvencilhar-se do compromisso exclusivo com seu patrocinador para atender, também, o desejo do seu ouvinte. Como veículo de comunicação de massa precisa falar a linguagem de seu anunciante e fazer uma interação agradável com o ouvinte, visto que o locutor fala diretamente com o seu público, particularizando cada um. Ortriwano (1985) cita que o “diálogo mental” entre o emissor e o ouvinte produz um forte laço emocional, evidenciando a sensorialidade, característica intrínseca do rádio.

3.2. Radiojornalismo Esportivo

Ortriwano (1985) elucida que o rádio, por ser portátil, livre de fios e com peso insignificante propicia, ao ouvinte, conforto e liberdade para utilizá-lo em qualquer ambiente.
O ouvinte de rádio está livre de fios e tomadas e não precisa ficar em casa, ao lado do aparelho. O rádio hoje está em todo lugar: na sala, na cozinha, no banheiro, no quarto, no escritório, nas fábricas, no automóvel, eliminando também o hiato da audiência durante o tempo de locomoção de um lugar para o outro. Seu tamanho diminuto torna-o facilmente transportável, permitindo inclusive, recepção individualizada nos lugares públicos (ORTRIWANO, 1985, p. 79).

Campelo (2008), afirma que o radiojornalismo proliferou-se por todo o Brasil trazendo em seu rastro a valorização das transmissões esportivas, surgidas ainda na década de 30. Além de

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ter sido um dos primeiros gêneros a se firmar nos meios radiofônicos, o esporte continua ocupando grande parte do tempo nas principais emissoras brasileiras, com programas permanentes de notícias e comentários durante a semana, culminando na longa jornada nos dias de jogos.

A primeira irradiação detalhada de uma partida de futebol aconteceu em 19 de julho de 1931. No campo da Chácara do Floresta enfrentaram-se as seleções de São Paulo e do Paraná pelo VIII Campeonato Brasileiro, sendo que coube ao locutor Nicolau Tuma, conhecido como speaker-metralhadora, da Rádio Educadora Paulista, a transmissão do jogo. Às 15 horas e 20 minutos surgem os paulistas no gramado. Pouco depois vêm os paranaenses. Há troca de flores e às 15 horas e 25 minutos, se alinham as turmas (CAMPELO, 2001).

Nos eventos esportivos, o rádio se torna companheiro constante daqueles que vibram, não apenas com o jogo, mas com a fala do próprio narrador (ORTRIWANO, 1985).

O torcedor vai ao campo, mas leva o seu radinho para saber o que está acontecendo, ou assiste à imagem da televisão ouvindo a narração do rádio. A presença do repórter acompanhando todos os movimentos – e até, pretensamente, os pensamentos – das equipes durante a disputa, é também uma conquista do rádio esportivo, informando e prestando serviço (CAMPELO, 2001).

O radiojornalismo esportivo gera polêmica, pois usa das palavras para transmitir a vibração do jogo e provocar a emoção no ouvinte. Ortriwano (1985) destaca-o como sendo “[...] participante, vibrante e um dos setores mais opinativos de toda a programação” (ORTRIWANO, 1985, p.26).
A criação de “imagens mentais” é tão poderosa, a ponto de ser muito mais emocionante ouvir uma partida pelo rádio do que assisti-la no próprio estádio. O torcedor vai ao estádio, mas leva seu “radinho” para saber que está acontecendo... Ou assiste a imagem na televisão, ouvindo a narração do rádio (ORTRIWANO, 1985, p.27).

O rádio incita a imaginação por intermédio da capacidade de narrativa de seus experientes locutores, que acabam fidelizando os ouvintes. Neste meio, a utilização de recursos fantasiosos não quer dizer que o que está sendo transmitido é algo inverídico. O ouvinte de rádio, nesta situação, é capaz de sintonizar não somente para desfrutar de uma mera transmissão, mas, puramente por gostar (ORTRIWANO, 1985).

O rádio é o melhor meio para estimular a imaginação. O ouvinte é sempre levado a imaginar o que ouve e o que está sendo descrito. As imagens são emocionais, como a voz

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de uma mãe suplicando informações sobre sua filha adolescente desaparecida. São imagens que, no rádio, não se limitam ao tamanho da tela. Elas têm o tamanho que você quiser (CHANTLER e HARRIS, 1998, p. 21).

O radiojornalismo esportivo caracteriza-se por construir a realidade de forma objetiva, mantendo a neutralidade e a imparcialidade. Tais características, no entanto, geram polêmicas, como por exemplo, a especularização acerca da preferência do locutor por determinado time. Para Paulo Vinicius Coelho (2003), “não existe jornalista de esportes, especialmente os que trabalham com futebol, que não tenha um time de infância”. (COELHO, 2003).

Um radiojornalista competente deve combinar o talento tradicional do repórter com as habilidades exigidas pelo rádio. Talento tradicional quer dizer escrever claramente, ter uma compreensão fácil do idioma, sair-se bem de situações complicadas e – o mais difícil de tudo – “faro para as notícias” ou competência para saber o que pode render uma boa história (CHANTLER e HARRIS, 1998, p. 22).

Os conhecimentos apreendidos após a opção pelo jornalismo, não elimina os conhecimentos aprendidos na infância, quando o interesse pela modalidade ocasionava as pesquisas apaixonadas, a preferência declarada e uma dedicação quase exclusiva ao clube do coração (CHANTLER e HARRIS, 1998).

No caso do jornalismo, o menino deixa uma história muito mais bem formada do que a revelada pelo menino que se transforma em jornalista político ou da área econômica. Este aprende com o garoto de 12 anos os segredos do bom texto. Aprende com a leitura de livro bem escrito, com relato bem contado por algum parente paciente (COELHO 2004, p. 40).

Alguns locutores esportivos assumem sua paixão por determinado time, sem perder a credibilidade diante dos torcedores do time rival. Coelho (2003) cita, como exemplo, os jornalistas Milton Neves (santista) e Juca Kfouri (corintiano).

“Milton Neves sempre deixou claro ser torcedor do Santos e que sonhava com o dia em que trabalharia com futebol para mostrar o conhecimento que adquiriu nos tempos em que era apenas ouvinte atento”. (COELHO, 2003).

Juca Kfouri jamais comprometeu a isenção por causa da paixão clubística. Ao contrário, até escreveu livros sobre os tempos de torcedor, em que relembrou cada detalhe de cada viagem realizada, especialmente no Torneio Roberto Gomes Pedrosa de 1969, quando o Corinthians foi eliminado pelo Cruzeiro nas semifinais (COELHO, 2003, p.58).

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3.3 Primeiras transmissões esportivas em rádio

Entre 1929 e 1930, o rádio começou a transmitir, de forma muito fria e sem nenhuma emoção, informações sobre as partidas de futebol realizadas no Rio de Janeiro e em São Paulo. Estas eram conseguidas com extrema dificuldade, visto que as linhas telefônicas eram precárias (ORTRIWANO, 1985).

Shinner (2004) relata que o profissional transmitia o jogo todo, mas sem ter a certeza de que o trabalho teria dado certo, ou seja, se o ouvinte receberia, realmente, a mensagem.

O locutor contava até dez e recebia uma ordem para iniciar a irradiação, como se falava na época. E como não havia o retorno de áudio, o jeito era sair do estádio após o jogo e ir correndo para o hotel para esperar a mensagem telegráfica confirmando a recepção. (SCHINNER, 2004, p. 22).

Nas manhãs dos jogos, a imprensa escrita publicava esquemas do campo de futebol, contendo as localizações dos jogadores em campo. Assim, propiciavam, para o ouvinte de rádio, o acompanhamento dos jogadores na hora das partidas (ORTRIWANO, 1985).

A falta de recursos básicos, como o replay, colocavam e ainda colocam o jornalista esportivo, muitas vezes, em situações embaraçosas. O narrador Milton Neves noticiou, certa vez, a autoria de um gol do São Paulo, de forma equivocada. “Olha a falta batida... Gol do São Paulo. Gooool, Jorge Wagner, na batida de falta, confesso que pegando todo mundo de surpresa. A falta muito bem batida, Jorge Wagner no ângulo” (COELHO, 2003, p.67).

O gol atribuído a Jorge Wagner, na verdade, foi de autoria de Jancarlos. Seu erro não foi ratificado na hora do lance embora o repórter, que o acompanhava na cobertura tivesse tentado intervir. Mais tarde, para desgosto de Milton Neves o erro foi corrigido no ar (COELHO, 2003).

Coelho (2003) acredita que cabe aos narradores conduzir a partida, levando emoção ao narrar o jogo. A correção das falhas fica para os comentaristas e repórteres habituados a analisarem o que acontece na partida.

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Ele [ouvinte] se irrita mais pela superexposição dele [narrador] do que pelos supostos erros que comete. Ele [narrador] está lá para levar o torcedor ao delírio. O comentarista e o repórter é que tem obrigação de analisar friamente o que está ali, na cara do espectador. (COELHO, 2003, p. 64).

O advento da TV propiciou as narrações com erros mínimos, visto que o narrador possui diversos monitores em sua cabine, cada um focado em um ângulo diferente da partida. No entanto, apesar da TV, que oferece imagem e técnica, o rádio permanece nos estádios de futebol ou diante das TVs, dividindo as emoções com os seus locutores preferidos (COELHO, 2003).

Se hoje os jornalistas esportivos, escolhidos com critérios, têm fã clube e fidelizam os ouvintes à rádio em que atuam, no passado, eram representados pelos “iniciantes”, dos quais nenhuma experiência era exigida (COELHO, 2003).

Em 1925, segundo, Coelho (2003), o futebol começou a prosperar e com ele, o jornalismo esportivo. A partir daí, os jornais especializados começaram a enfeitar as bancas de revistas, sendo disputados até o último exemplar. O primeiro deles foi o Jornal dos Sports (1930), do Rio de Janeiro.

Segundo o autor, a editoria de esporte foi e ainda é, um celeiro de jovens talentos, que se misturam aos nomes consagrados dos veículos de publicações esportivas. As revistas especializadas, no entanto, não têm a mesma sorte dos jornais, visto que são mais caras e exigem de seu público-alvo de baixo poder aquisitivo em sua maioria, a necessidade de escolher entre sua compra e a ida ao estádio de futebol.

Uma das dificuldades de investir em uma publicação especializada, por exemplo, é o baixo poder econômico do público-alvo, que, às vezes, tem que escolher entre a ida ao estádio ou ginásio e a compra do jornal ou revista. Neste caso, acompanhar o clube de coração in loco costuma ser a opção escolhida. O jornal Lance! e a revista Placar são exemplos dos altos e baixos enfrentados pela mídia especializada, pois alternaram bons e maus momentos no cenário esportivo nacional. A Placar teve sua periodicidade alterada diversas vezes, além de várias mudanças na linha editorial, enquanto o Lance! investiu na Internet como solução para a baixa de vendas no impresso, mas, no entanto, seus idealizadores viram que as bancas de jornais não poderiam ser deixadas de lado. (COELHO, 2004, p. 26)

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A década de 1970 exigiu do rádio e dos jornais uma mudança no enfoque das coberturas esportivas, tendo em vista as transmissões, ao vivo, dos grandes campeonatos. Obviamente estas transmissões privilegiavam o futebol e, como afirma Coelho (2003), as demais modalidades esportivas ficaram relegadas a um espaço irrisório.

Atualmente, poucos são os jornais e rádios que destacam esportes como judô, natação, etc. Somente na época das olimpíadas estas modalidades ganham destaque, deixando o futebol, modalidade pouco popular nestes eventos, em situação de menor destaque (COELHO, 2003).

Segundo Coelho (2003), o profissional do jornalismo que opta pela área esportiva precisa estar atento, não somente ao futebol, mas a todas as modalidades esportivas do planeta, embora este não seja seu maior filão. O dia a dia do jornalista esportivo pede “pauta”, mas é necessário cuidado para o não engessamento e sim, a criatividade jornalística.

Mesmo com a chegada da televisão e a possibilidade do ouvinte não só ouvir a narração, mas ver as partidas, até o final da década de 1970, as rádios ainda dominavam os espaços de transmissões esportivas. Eles tinham um público maior e faturavam mais comercialmente. Já com relação à transmissão do futebol na TV, Schinner (2004) explica:
[...] para que houvesse a consolidação de grandes projetos e a garantia das conquistas das fatias de audiência e de mercado, as emissoras se apoiaram em nomes consagrados do rádio. Isso porque eles carregam milhares de fãs, além, é claro, dos preciosos patrocinadores. [...] Da mesma maneira que os torcedores querem nomes famosos em seus clubes, as emissoras também apostam em nomes consagrados em seu elenco. (SCHINNER, 2004, p. 27).

Hoje, a TV envia imagens em tempo real de todo o evento esportivo, mas, ainda assim, o ouvinte de rádio não abandona seu aparelho. Diante da televisão ou nos estádios, a grande maioria dos torcedores está conectada às transmissões feitas pelas rádios esportivas (ORTRIWANO, 1985).

3.4 A fidelidade do ouvinte de rádio

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Como uma rádio pode garantir uma audiência fiel? Prata (2000) procurou analisar, quais os motivos que levam o ouvinte de rádio a ser tão fiel a uma determinada emissora. A

pesquisadora percebeu que, por muitas décadas, somente o emissor era foco de atenção, mas hoje há uma grande preocupação com o que pensa o receptor, o que ele deseja, como age, ou seja, entendê-lo como parte do processo de comunicação.

Segundo Prata (2000) quatro tipos de emissoras de rádio possuem uma tendência à audiência fiel. São elas:

Emissoras voltadas para um público adulto que possui característica conservadora, que gosta do que ouve e, por isso, se torna fiel; Emissoras altamente segmentadas compostas por um público específico e fiel; Emissoras que mantêm os mesmos programas durante muitos anos fazendo com que os ouvintes se acostumem com os horários, com os comunicadores, com os formatos e não anseiam, assim, por grandes mudanças; Emissoras evangélicas que, atualmente, têm os mais altos índices de fidelidade do mercado radiofônico, possuem um público que não faz a opção pela rádio de forma livre, mas estimulado por um terceiro.

Prata (2000) define o ouvinte fiel como sendo aquele indivíduo que gosta da emissora, conhece a programação e que se identifica com os locutores.

Aquele que ouve determinada emissora ontem e anteontem. Do ângulo da observação, o ouvinte fiel pode ser definido como sendo um seguidor da emissora, aquela pessoa que acompanha parte ou toda programação, sabe os nomes dos comunicadores, conhece os horários dos programas, participa com sugestões e até com críticas e sentem-se (SIC), de alguma forma, parte da vida da rádio. Além disso, recusam-se (SIC) a ouvir qualquer outra emissora que não seja aquela de sua preferência absoluta. (PRATA, 2000, p.139)

Prata (2000) optou por estudar a Rádio Itatiaia, já que, de acordo com dados apontados pelo Ibope, ela possui uma alta porcentagem de audiência. Para isto, foi realizada uma pesquisa interna com os funcionários mais antigos da emissora questionando-os sobre o que poderia determinar a fidelidade de um ouvinte.

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Após este levantamento, Prata (2000) aplicou um questionário em um público voluntário formado por ouvintes da Rádio Itatiaia. Primeiramente, ela mapeou o perfil destes ouvintes para, em seguida, sugerir a eles a apresentação de idéias sobre fatores de muita, média ou pouca importância no que diz respeito a fidelização. Após esta coleta de dados, a pesquisadora descobriu que existem cinco pilares para garantia da fidelização de um ouvinte: tradicionalidade, interatividade, credibilidade, qualidade e seriedade.

A tradicionalidade aparece em primeiro lugar na pesquisa de Prata (2000) e é definida como sendo o amor e o apego às tradições. Uma emissora tradicional, como a Rádio Itatiaia, por exemplo, utiliza desta característica a fim de gerar no ouvinte uma segurança perante as informações divulgadas. O conhecimento da programação, dos comunicadores e da rádio como um todo desperta, no ouvinte, uma segurança de que, todos os dias, toda a programação estará lá como ele espera.

Conceituada como uma ação exercida entre duas ou mais pessoas, a Interatividade é considerada, por Prata (2000) como o segundo pilar da fidelidade. Na Rádio Itatiaia, a participação do ouvinte nos programas caracteriza esta forma de interação. Além disso, o ouvinte, muitas vezes, se transforma em “repórter” sempre pronto a ajudar e informar.

Credibilidade é o terceiro pilar descrito por Prata (2000) de uma audiência fiel e é conceituado como a qualidade daquilo que é crível. Em uma emissora de rádio este pilar se mostra como um dos mais relevantes, pois é através da credibilidade que o ouvinte tem a certeza de que o que está ouvindo seja, de fato, verdade. Também, são corriqueiras as situações em que o próprio ouvinte procura a emissora para dar a sua opinião final sobre um determinado assunto em foco.

Prata (2000) conceitua o quarto pilar, Qualidade, como um dom, uma virtude. Segundo ela, a rádio só consegue cobrir um espaço de sucesso garantindo-se neste pilar. A pesquisadora desdobrou a qualidade em três subcategorias principais:

Divulgação dos fatos em primeira mão, ou antes, do concorrente; No mínimo, três entradas de repórteres nos locais dos acontecimentos, por dia;

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Pedido formal de desculpas ao ouvinte por parte do apresentador caso alguma informação tenha sido divulgada anteriormente de forma incorreta.

“A Rádio Itatiaia, como um todo, poderia ser resumida neste pilar de qualidade: esporte e jornalismo distribuídos numa programação feita por profissionais competentes, todo isso transmitido num som de primeira linha” (PRATA, 2000, p.23).

O quinto e último pilar encontrado por Prata (2000) é o da Seriedade, considerada por ela como algo que é feito com cuidado, desvelo e diligência. Este pilar foi desdobrado em cinco subcategorias:

Elaboração das pautas dos repórteres de forma a abordar o assunto da maneira mais completa dentro do tempo permitido; Desenvolvimento do trabalho dos produtores: como eles produzem e quantas matérias por dia cada produtor transmite ao repórter; Checagem da informação: quantas vezes ela é feita e de que forma ela é feita. Prestações de serviços públicos aos ouvintes tais como: temperatura, clima, hora certa, trânsito, etc. Coincidência das informações divulgadas com o fato verídico, considerando dados como: número de envolvidos, horário e local.

A fidelidade dos ouvintes está ligada a todos estes cinco pilares e que, um único pilar jamais pode ser analisado separadamente (PRATA, 2000).

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4 A NARRAÇÃO

4.1 As narrações esportivas em rádio

Por meio do apelo à imaginação, o rádio buscou levar, ao ouvinte, a magia do espetáculo radiofônico. As vozes, as músicas, as vinhetas e as sonoras foram alguns dos recursos utilizados pelo rádio para seduzir este público. O objetivo era levar, ao ouvinte, um jogo mais vibrante e interativo capaz de prendê-lo ao rádio durante os 90 minutos (GUERRA, 2000).

Guerra (2000) afirma que, por ser o primeiro veículo de comunicação a transmitir as partidas de futebol, ao vivo, os profissionais do rádio criaram bordões e, ao lado de comentaristas e repórteres de campo, introduziram uma nova dinâmica nas partidas de futebol.

Um estilo extremamente emotivo e contagiante foi então criado e, a partir daí, todos os jogos se tornaram superpartidas, com superatletas e uma furiosa bola, que corria rapidamente pelo gramado (GUERRA, 2000).

Para o autor, um simples passe entre jogadores é descrito com grande energia possibilitando, ao ouvinte, adentrar em uma alucinante partida. Assim que o jogador se aproxima do gol, a voz do narrador é aumentada de volume e conseqüentemente a vibração e entusiasmo. Para o ouvinte, a sensação é de que os jogadores estejam enlouquecidos em campo e jogando de forma inacreditável.

A transmissão pelo rádio, a opinião e a descrição do lance é no momento do fato. Não há replay, até porque o torcedor, ao ouvir o lance, já o idealizou, já tirou suas conclusões. É esse imediatismo, característica principal do veículo, que o faz ainda tão forte. Muito mais do que a facilidade de deslocamento para o estádio ou para outro canto da casa, no carro ou na rua, o rádio utilizou e despertou algo fundamental para narrar um jogo, que é imprevisível - a imaginação. Se o resultado da partida não pode ser previsto, quem dirá o efeito da imagem dela como estímulo passado do narrador ao ouvinte. (GUERRA, 2000, p.57).

Como o locutor não pode ver o ouvinte e o ouvinte não pode ver o locutor, a comunicação, no rádio demanda, de ambas às partes, um conhecimento prévio da identidade do ouvinte. Com isso, ele sente-se próximo ao locutor, confiando nele a paixão pelo seu time (GUERRA, 2000).

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Prado (2006) ressalta que, a maioria dos ouvintes de rádio prefere a cobertura de um jogo de forma emocionante. Contudo, relata que esse novo tipo de narração começou há pouco tempo e que com ou sem emoção, toda rádio precisa de uma equipe especializada em esporte.

Não adianta inventar muito, o forte do esporte no Brasil é o futebol mesmo. Você até pode introduzir dropes (boletins curtinhos, de dois a três minutos) de informações sobre as demais modalidades de esporte, como basquete, tênis ou automobilismo. É uma boa idéia que enriquece a programação esportiva. Não espere, porém, retorno retumbante. O que dá audiência é a bola no pé (PRADO, 2006, p.42).

Essa relação tão “próxima” entre locutor e ouvinte fez com que as transmissões futebolísticas se tornassem cada vez mais populares e acessíveis, sejam nas classes baixas, médias ou altas (GUERRA, 2000). Segundo o autor, a partir daí, os narradores puderam utilizar uma linguagem mais coloquial.

Antes, a gaitinha de Ary Barroso sinalizava para o torcedor o gol. Hoje, por exemplo, o narrador Édson Mauro, do Rio de Janeiro, anuncia o gol gritando "bingo, bingo" e conclui dizendo: “Essa aí passou, essa aí passou" (referência à música de sucesso do Grupo É o Tchan). Maurício Menezes, da Rádio Globo, descreve para o torcedor a ida de um time para o ataque, definindo o espaço do meio-campo como "lá vai fulano, todo alegrinho, entrou na casa do vizinho"... O resultado é o "ficou mais feliz do que pinto no lixo", introduzido por Washington Rodrigues, que também lançou "briga de cachorro grande". A bola, para José Cabral, era "maricota", para Raul Longras, "Leonor". Uma jogada errada e lá saíam os narradores dizendo que o jogador "tratou a menina por Vossa Excelência": o futebolês é um idioma com tantas palavras e frases, que já merece um dicionário especial... Será difícil, no entanto, explicar a frase dos narradores do rádio "a bola espirra e sai”. (GUERRA, 2000, p.44).

4.2 Estilos de narração esportiva em rádio Shinner (2004) descreve que o modo de narrar uma partida de futebol, pelo rádio, foi mudando ao longo do tempo. Novos estilos precisaram ser recriados por locutores que aprenderam a enriquecer, cada vez mais, o imaginário dos torcedores.

A descrição do uniforme e do posicionamento dos adversários no campo, sobretudo em relação às cabines de locução, é feita de modo a propiciar, ao ouvinte, a sensação de estar dentro do estádio. Já a linguagem, rica em sinônimo e redundâncias, serve para agilizar a narração. Além disso, os adjetivos hiperbólicos são utilizados pelos narradores, como forma de explorar as qualidades dos jogadores - “paredões” para os goleiros excepcionais; “becões” para os zagueiros, etc (SHINNER, 2004).

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A linguagem bélica ganhou espaço no jornalismo esportivo, atuando metaforicamente no sentido de enaltecer os jogadores, os lances e as vitórias. Como “artilheiro” o futebol conhece o goleador, que lança uma “bomba” (bola forte) em direção à trave, propiciando o “massacre” do time rival (RAMOS, 1984).

No jargão futebolístico, “clássico” é o confronto direto de dois clubes rivais. São partidas, cercadas de intensa competitividade, bem ao gosto do paladar capitalista. No Brasil, existe uma coleção deles. A enumeração de todos seria um despropósito. De passagem, vale lembrar que há 20 grandes clubes nacionais (RAMOS, p. 94, 1984)

O narrador esportivo pode criar neologismos e fórmulas diferentes para narrar o jogo, mas não pode, entretanto, deixar de usar uma linguagem simples, direta e objetiva, ou seja, de fácil entendimento público: “[...] a mensagem se perde no ar no momento em que é transmitida. Ou seja, se não conseguir entendê-la, o receptor talvez não dê a você uma segunda oportunidade.” (SCHINNER, 2004, p.103); ainda mais quando se trata de uma transmissão ao vivo.

César (1996) retrata que o locutor esportivo deve ser vibrante, pois tem a função de repassar a energia, garra e emoção ao ouvinte. Geralmente, ele narra os eventos esportivos diretamente do local das partidas tendo a oportunidade de repassar todos os detalhes do evento.

Schinner (2004) destaca como os maiores narradores esportivos do Brasil, os seguintes nomes: Pedro Luiz, Edson Leite, Mário Morais, Jorge Curi, Fiori Gigliotti, Willy Gonser. “Extremamente técnico, voz clara, estilo sóbrio e impecável, Pedro não ousava errar; segurava tudo no gogó, numa época que não existiam as famosas vinhetas que dão um colorido especial às transmissões” (SCHINNER, 2004).

4.3 Narrações esportivas de rádio x televisão A linguagem usada na transmissão esportiva pela TV é diferente daquela usada pelo rádio. No rádio, a vibração precisa ser tônica, visto que o narrador da partida precisa atingir o imaginário do ouvinte. Na TV, o narrador, muitas vezes, deixa a partida rolar sem descrição. Ela utiliza sinais sonoros, vinhetas, e arte gráfica para manter o telespectador atento à partida (SHINNER, 2004).

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Na televisão o locutor fica em uma cabine onde recebe os textos da produção para fazer a leitura ao vivo. Normalmente o locutor de cabine também grava as chamadas da programação dos filmes, novelas, especiais e noticiários. Sua voz será posteriormente montada com as imagens (CÉSAR, p. 80, 1996).

Nas duas modalidades de transmissão, entretanto, a presença dos repórteres de campo e dos comentaristas torna-se imprescindível. Os primeiros colocam os jogadores em contato direto com o público e os outros fazem, com precisão, uma análise estatística da partida (SHINNER, 2004).

Os comentaristas sempre desfrutaram de enorme credibilidade junto ao público, unindo técnica, precisão, análise estatística e carisma. Os craques dos microfones usam estas características como matéria-prima. Outros aspectos inseparáveis da análise futebolística são o passionalismo (uso exagerado da emoção, da paixão clubística e do bairrismo) e o achismo (ato de se supor algo sem embasamento técnico). Ambos são capazes de tornar um torcedor comum um sujeito absolutamente míope diante de fatos sólidos e concretos. Mas, quando tratamos de discussão futebolística, não há fatos concretos, mesmo que você reveja o replay da jogada 300 vezes. Ainda assim há de pairar "certa dúvida". (SCHINNER, 2004, p.62).

Seja por intermédio do rádio, que detalha a partida, causando impacto e emoção, seja por meio da TV, que apenas descreve e relata o que a imagem mostra, o que torna o narrador muito apreciado é, antes de tudo, a forma como coloca no ar, o ponto máximo e mais esperado de todo jogo: o gol. Através da locução do gol, a emoção percorre as veias e bombardeia o coração do torcedor com uma grande emoção (SHINNER, 2004).
O grito de gol não é um susto. O narrador vai construindo a jogada a partir da defesa, passando pelo meio-de-campo e chegando ao ataque. A partir do momento em que surge a possibilidade do gol, tudo está devidamente articulado, sem tropeços. (SCHINNER, 2004, p. 188).

4.4 A narração como fidelização do ouvinte de rádio

Construindo seus modos e fidelizando, com suas performances, o ouvinte de sua rádio, as narrativas esportivas seguem dois tipos de estilos: o do profissional ou aquele que foi adotado pela emissora, mais comumente, as conservadoras. Nos dois casos, ele capitaliza a audiência e, com isto, garante os melhores anunciantes (SHINNER, 2004).

O estilo livre depende exclusivamente do carisma e das possibilidades do profissional do microfone, e pode ser ouvido nas emissoras de rádio e em TVs abertas. Por características

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próprias, este narrador costuma ser ousado, irreverente, criativo e sedutor nas palavras, além de possuir um arsenal ilimitado de bordões. O narrador carismático é uma espécie de mestre-de-cerimônias (MC) e usa sempre a emoção extremada e vibrante para atrair seu público. Em geral, por todas as qualidades e defeitos, este locutor tem um altíssimo grau de simpatia (aceitação), mas também um considerável grau de rejeição por parte do ouvinte. Não há meio-termo (SCHINNER, 2004, p.194).

Uma narrativa veloz e cheia de emoção vem conseguindo conquistar o povo que, mesmo no campo ou diante da TV, não abandona o fiel aparelho de rádio (SHINNER, 2004).

A emoção é o fator principal do evento que está sendo transmitido. Este narrador capitaliza audiência e garante bons anunciantes à sua emissora. É um animador de estádios. Já o estilo orientado segue os padrões estipulados pelo formato da emissora, que define uma linha de transmissão em que todos os locutores costumam seguir a mesma cartilha. É mais usado por emissoras que têm uma linha editorial mais conservadora e pela maioria dos canais esportivos por assinatura. A narração orientada é mais discreta e a emoção é parte natural do evento que está sendo transmitido. Tem como fórmula o sistema DDD, ou seja, deve ser descritiva, discreta, porém dinâmica, dentro das possibilidades que o evento oferece. As principais características são a técnica, a ponderação, a assertividade, junto com a emoção contextual, nada, além disso. o dispensa o velho rádio (SCHINNER, 2004, p.194).

De acordo com dados coletados por Prata (2000) existe, hoje, o chamado marketing de lealdade:

Um programa específico formado em empresas para segurar o seu consumidor, prendendoo de todas as formas. Estes projetos específicos de fidelidade começaram com companhias aéreas que, por meio de programas de milhagem, declararam sua vontade de premiar e conservar o cliente. A partir do sucesso da empreitada das companhias aéreas, empresas de todos os setores também deram início ao marketing de lealdade, buscando formas de segurar seus clientes. (PRATA, 2000, p.135)

Segundo Porchat (1989), qualquer contato do ouvinte por telefone, carta ou abordagem nas ruas exige respeito e consideração por parte do veículo de comunicação. A resposta sempre é repassada a fim de garantir a qualidade e a fidelidade.

“Melhorar as condições de vida da comunidade é a meta do jornalista. Toda matéria veiculada tem este objetivo. Para isto, é preciso denunciar e fazer campanhas que tenham por fim a solução dos problemas da sociedade” (PORCHAT, 1989, p.29). Segundo a autora, atender a necessidade do ouvinte por meio de serviços públicos garante ao veículo a fidelidade.

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Entende-se que não existem traços completamente seguros que nos permitam definir o ouvinte fiel. “É a emissora – com sua programação, suas especificidades, seus comunicadores, suas características – que vai definir o caminho pela audiência fiel” (PRATA, 2000, p.21).

No futebol, isto não é diferente. As reclamações, indagações e elogios são transmitidos pelos narradores durante as partidas. Técnicos, jogadores e presidentes de clubes são os mais afetados. “A força do poder do rádio surpreende a todo o momento. A informação repercute de forma instantânea, direta e indiretamente. Um ouve, fala para o outro e todos acompanham o fato, num alcance espantoso” (PORCHAT, 1989).

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5 ANÁLISE DA ESTRATÉGIA DOS NARRADORES FUTEBOLÍSTICOS DA RÁDIO ITATIAIA COMO INSTRUMENTO DE FIDELIZAÇÃO DO OUVINTE

5.1 Metodologia de pesquisa

5.1.1 Pesquisa Bibliográfica

A pesquisa bibliográfica foi elaborada por meio da seleção de livros e artigos científicos relacionados a temas como Futebol, Rádio, Narração Esportiva, Radiojornalismo Esportivo e Fidelidade. Foram analisados, portanto, diversos autores que abordam a temática em estudo, com o objetivo de mostrar a evolução deste campo e as suas contribuições.

Witter (1996) aborda a história do futebol no Brasil relatando os primeiros torneios, as principais regras e a relação do esporte com a mídia. O autor aponta que o esporte começou entre as elites e o preconceito racial foi uma característica marcante de seu começo no Brasil. Já na década de 1930, o futebol tornou-se, definitivamente, um esporte profissional e popularizado.

Almeida e Micelli (2004) apresentam as três primeiras décadas da união entre o rádio e o futebol. Segundo os autores, apesar das dificuldades encontradas pelos radialistas, locutores, repórteres e comentaristas, foi criada uma nova linguagem e uma forma de narração que tornou os jogos um evento de emoção capaz de catalisar a audiência.

Ramos (1984) afirma que o futebol ocupa na vida dos brasileiros um espaço primordial e que ele não se restringe às partidas nos estádios, mas está presente nos meios de comunicação, em conversas de amigos, nas ruas e em bares, discussão em família, etc. Para o autor, o futebol é visto como parte do dia a dia dos brasileiros, ou seja, uma “paixão nacional”.

Já Lovisolo (2002) relata que o futebol pode estar ao lado de outras artes populares e que foram criadas afinidades do futebol com o samba, tango, carnaval. Segundo o autor, o próprio esporte passa a ser considerado como arte, embora qualitativamente denominado popular. O futebol pode ser um dos meios para se trabalhar o processo civilizatório. O incentivo ao

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convívio pacífico entre os jogadores e torcedores de clubes diferentes poderia ser o pilar deste processo socializador. O ideal romântico do futebol está posto e emerge da capacidade de cada um recriá-lo enquanto obra de arte.

Galeano (2004) aborda que, acima do futebol, ainda existe uma lenda, onde um jogo pode se transformar em uma saga que desperta, na multidão, paixões, alegrias e sofrimentos. Os feitos de Pelé, Di Stéfano, Maradona, Zizinho, Didi, Garrincha entre outros craques são relatados em seus momentos de esplendor e deerrota.

Alguns autores discorrem sobre a narração em rádio, entre eles está Schinner (2004) que relata os tipos de locuções e a maneira correta de comunicar com o ouvinte. A construção dos seus modos e a fidelização do ouvinte de rádio com suas performances narrativas seguem o estilo do profissional ou aquele que foi adotado pela emissora, mais comumente, as conservadoras. Nos dois casos, ele capitaliza a audiência e, com isto, garante os melhores anunciantes.

Thompson (1998) descreve que o desenvolvimento da mídia criou novas formas de ação e interação entre os indivíduos. Segundo o autor, por intermédio dos meios de comunicação radiofônicos, por exemplo, o ouvinte pode captar as informações de uma forma muito mais ágil e fácil.

Benjamim (1983) ressalta as informações relevantes sobre: o que é ser um narrador, quais as suas características principais, como ele é visto pelo ouvinte, a função não só de narrar, mas codificar os fatos, gerando narrativas agradáveis de serem ouvidas. Araújo (2001) relata seus 40 anos de experiência em transmissão esportiva, além dos grandes momentos dos atletas que foram referência no esporte brasileiro.

César (1996) retrata a sua grande experiência junto ao microfone, citando métodos modernos de comunicação que, com o decorrer dos tempos, necessitaram de serem inseridos neste meio. Coelho (2003) define questões como: o que atrai excelentes profissionais para a área esportiva; as principais técnicas utilizadas nesta profissão e a fama de “jornalista palpiteiro”.

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Chantler e Harris (1998) apresentam um abrangente manual radiofônico, abordando as informações necessárias para a implantação de uma emissora de rádio, as funções do repórter, dos técnicos, dos editores, dos apresentadores e os tipos de programação jornalística existentes. Porchat (1989) redigiu um manual de radiojornalismo a fim de trazer aos interessados uma eficiente ferramenta inicial para todos aqueles que pretendem atuar em rádio.

Ortriwano (1985) relata que, sem a possibilidade de gerar imagens, o rádio estimula a imaginação do ouvinte por meio da capacidade de narrativa de seus experientes locutores, que acabam fidelizando-os.

Com relação ao radiojornalismo esportivo, Prado (2006) descreve a preferência dos ouvintes por uma cobertura mais emocionante. Segundo o autor, não adianta colocar muito programa novo, recheado de boletins e comentários prolongados, o forte do esporte no Brasil é o futebol mesmo. “O que dá audiência é a bola no pé”.

Por fim, como uma rádio pode garantir uma audiência fiel? Prata (2000) procurou analisar, quais os motivos que levam o ouvinte de rádio a ser tão fiel a uma determinada emissora. A pesquisadora percebeu que, por muitas décadas, somente o emissor era foco de atenção, mas hoje há uma grande preocupação com o que pensa o receptor, o que ele deseja, como age, ou seja, a importância de entendê-lo como parte do processo de comunicação.

5.1.2 Pesquisa Documental

Os documentos aqui referenciados, como materiais empíricos, estão definidos como sendo trechos de jogos narrados por Aberto Rodrigues e Mário Henrique, no período de fevereiro a maio de 2010, especificamente dois jogos do Campeonato Mineiro e dois jogos do Campeonato Brasileiro.

5.1.3 Métodos e Técnicas

5.1.3.1 Análise de conteúdo

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Para fazer a análise dos dados, foram utilizados objetos de tratamento e interpretação, relacionando-os com as informações e suas aplicações no contexto pesquisado, a partir da teoria referenciada pela pesquisa bibliográfica.

Assim, a análise proposta, pretendeu chegar ao seu objetivo primeiro: perceber como a teoria e a prática se correlacionam, valendo-se do levantamento de dados na bibliografia e em documentos.

Para tanto, foram levados em consideração alguns conceitos do jornalismo, do radiojornalismo, das narrações esportivas e do futebol como “paixão brasileira”, tudo isso alinhado à fidelidade do ouvinte da rádio.

Como procedimento metodológico próprio da análise de conteúdo, foi feita a leitura sistemática do material empírico como base da análise da narração como instrumento de fidelização do ouvinte da rádio.

O método utilizado para a realização da pesquisa quantitativa foi o da análise de conteúdo dos trechos de jogos narrados por Alberto Rodrigues e Mário Henrique, ambos locutores esportivos da Rádio Itatiaia.

Como norte do planejamento e execução da análise, foram estabelecidos os seguintes conceitos: O Futebol como “paixão brasileira” A Narração Esportiva em Rádio O Rádio e as transmissões esportivas A Fidelidade do Ouvinte de Rádio

A fim de apurar dados que sustentem a argumentação em torno da narração como fidelização do ouvinte de rádio foram estabelecidas as seguintes categorias: - Escuta e análise das narrações esportivas de Mário Henrique e Alberto Rodrigues:

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Estilos de narrações. Utilizações de bordões e/ou adjetivos. Estratégias de locuções em jogos nacionais e regionais. Estratégias de fidelização: o Utilizam a ajuda de comentaristas. o Contam com o auxílio dos repórteres em campo. o Possuem vinhetas alinhadas ao seu nome. o São torcedores do time em que narram os jogos. o Possíveis rivalidades nas narrações. o Formas diferenciadas de narrar os gols. o Repassam aos ouvintes o clima dos jogos dentro e fora do estádio. o Descrevem, detalhadamente, as cenas dos jogos. o Comentam sobre os lances. o Fazem um apanhado geral do jogo no final das partidas.

A narração como potencial informativo: o Privilegiam todos os aspectos dos fatos apresentados. o São objetivos. o São dinâmicos. o Utilizam de narrações populares e acessíveis a todos os públicos.

Abordagem e/ou tratamento das informações: o Espetacularização da informação. o Dão opiniões implícitas ou explicitas dos seus pontos de vista nas narrações.

5.2 A Rádio Itatiaia

5.2.1 A Rádio Itatiaia e a sua relação com o futebol

A Rádio Itatiaia é transmitida, hoje, pelas freqüências 610 AM e 95,7 FM e é a principal emissora radiofônica de Minas Gerais. Foi fundada em 20 de janeiro de 1952, pelo jornalista e

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radialista Januário Laurindo Carneiro e possui, hoje, uma programação voltada para o jornalismo, o esporte e a prestação de serviços, entretendo e informando o povo mineiro.

Atualmente, tem como presidente, Emanuel Soares Carneiro e conta com uma gama de equipamentos de transmissões ultramodernos que atingem toda a região metropolitana de Belo Horizonte e grande parte das cidades do interior de Minas Gerais.

Recentemente, fez uma grande reforma buscando adentrar a era da rádio digital. Possui oito emissoras próprias no interior de Minas Gerais e sua rede de afiliadas aos sistemas de satélites. A “Rádio de Minas”, como é carinhosamente conhecida, vem colecionando conquistas ao longo de sua história. Foi a primeira a manter a programação 24 horas no ar, a utilizar satélite para transmissões internacionais, a transmitir Copas do Mundo e Olimpíadas com equipe própria e canal independente e a colocar sua programação, ao vivo, via internet e celulares. Foi ganhadora, por 12 vezes, do Top of Mind, premiação realizada pela Revista Mercado Comum, em Minas Gerais, sendo a emissora de rádio mais lembrada pelos mineiros.

Além de transmitir jogos ao vivo, mantém em sua grade diária seis programas com destaques para o futebol e os principais clubes de Minas Gerais. “Tiro de meta”, “Rádio Esportes”, “Bastidores”, “Bola Premiada”, “Turma do Bate Bola”, “Grande Resenha Esportiva” e “Apito Final”.

Possui em seu portfólio um renomado time de narradores, entre eles: Alberto Rodrigues, Mário Henrique, Milton Naves e Ênio Lima. Os repórteres de campo são Roberto Abras, que acompanha o Atlético; Artur Moraes, que acompanha o Cruzeiro; João Vitor Xavier, que está na rádio desde 2001; Tiago Reis, que começou na rádio aos 15 anos e hoje é especializado em entrevistar as torcidas dos times com o famoso jargão “Seu nome, seu bairro” e Álvaro Damião.

O time de comentaristas é composto por Marco Antônio Bruck que está na rádio desde 1973 e informa o resultado de outros jogos; Ricardo Júdice que faz as projeções e estatísticas dos campeonatos e tabelas; Junior Brasil que é o coordenador de esporte da Itatiaia e Lélio

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Gustavo, que está na rádio desde 1991. Com essa grande equipe, a Rádio Itatiaia produz, hoje, a transmissão esportiva.

5.3 Os narradores futebolísticos da Rádio Itatiaia

5.3.1 Panorama da narração esportiva na Rádio Itatiaia

Antes de iniciar a partida, a chegada dos jogadores ao estádio, é rodeada de torcedores que se aglomeram nos portões de entrada com a esperança de receber, pelo menos, um aceno de seus ídolos.

As torcidas organizadas e uniformizadas chegam trazendo bandeiras e vibração. O policiamento se faz necessário neste momento em que as discórdias são freqüentes, os insultos uma constante e a força policial algo inevitável para que a paz seja mantida antes, durante e depois da partida.

Os repórteres da Itatiaia transitam do lado de fora do estádio, informando o ouvinte sobre as situações inusitadas, entrevistando os torcedores mais afoitos que escalam o time e premeditam o resultado da partida, como se fossem técnicos de futebol.

O trânsito torna-se caótico e a rádio informa ao ouvinte, que se desloca na região do estádio, sobre as circunstâncias do trânsito, as áreas de congestionamentos e as melhores vias de acesso.

Dentro dos vestiários, os repórteres colhem as últimas informações a respeito das estratégias a serem usadas pelo técnico, verificam a escalação do time e informam sobre a situação dos jogadores contundidos.

O barulho no estádio vai crescendo pouco a pouco, tornando-se pano de fundo característico das falas emocionadas dos radialistas Alberto Rodrigues (Cruzeiro) e Mário Henrique (Atlético), que comandam toda a transmissão.

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Com a entrada dos jogadores, ouve-se uma torcida esperançosa entoar o hino do seu clube, as canções de incentivo aos seus jogadores favoritos e, até mesmo, músicas criadas somente para provocar o time adversário. Foguetes e fogos de artifício completam a festa das bandeiras que dão um forte colorido às torcidas.

Os repórteres de campo anunciam as cores dos uniformes dos dois times e o lado de campo que cada um deverá ocupar para que a partida possa ter início. Os locutores da Rádio Itatiaia são minuciosos em suas descrições e não poupam o ouvinte de detalhes, tanto para aqueles que acompanham a transmissão em casa ou diretamente do estádio.

Em meio a toda esta festa, o repórter de campo, Thiago Reis, ainda conversa com os jogadores, colocando-os bem próximos ao ouvinte, para falar de suas expectativas. Os que estão no banco de reservas também são lembrados pelo repórter, que busca saber sobre as possibilidades de substituição durante a partida.

O ouvinte acompanha a movimentação e o envolvimento dos repórteres, que estão por toda a parte do estádio, trazendo as notícias e novidades sempre em primeira mão.

A partida tem início e a narração passa a ser feita pelos locutores oficiais, descrevendo cada lance, cada passe e cada momento crucial da partida. Para sua entrada no ar a Rádio Itatiaia criou vinhetas exclusivas e personalizadas para cada locutor. Ao som de um sinal eletrônico, os nomes de Alberto Rodrigues e Mário Henrique ecoam nos milhares de radinhos colocados bem junto aos ouvidos daqueles que confiam no trabalho destes dois profissionais.

Durante toda a transmissão da partida, o repórter de campo e o comentarista fazem explanações, conversando com o narrador. Os bordões e adjetivos utilizados por Alberto Rodrigues e Mário Henrique têm o papel de cativar a atenção do ouvinte.

As narrações são objetivas, populares e de fácil atendimento para todos. Ambos gostam de descrever para o ouvinte o posicionamento dos adversários no campo, o desempenho do juiz e do técnico. Somente pela entonação da locução, o ouvinte consegue perceber se há ou não insatisfações.

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No momento em que o primeiro tempo termina e inicia o intervalo, há um comentário sobre os melhores lances, há a repetição dos gols e os placares de jogos concomitantes.

Quando o jogo se reinicia o clima de entusiasmo retorna às cabines de locuções. Thiago Reis anuncia as substituições de ambos os times e aproveita para entrevistar os técnicos. As estratégias são definidas e o ouvinte é informado sobre o caminho a ser tomado pelo time durante o segundo tempo.

A partida chega ao fim e a equipe da Itatiaia prepara-se para fazer um apanhado geral do jogo, apontar o melhor em campo e mostrar, aos goleadores, a narração de seus feitos. Thiago Reis entra em campo em busca de uma entrevista com os jogadores. Neste momento, o ouvinte espera uma palavra de consolo ou de felicidade.

Após estas entrevistas dentro de campo, os repórteres e jogadores se deslocam para os vestiários onde iniciará uma coletiva de imprensa. Neste momento, técnicos e jogadores são alvos de perguntas, muitas vezes, maliciosas, sobre um mau desempenho durante a partida. A finalização da cobertura é feita por Thiago Reis, que, do lado de fora do estádio, conversa com os torcedores que, satisfeitos ou não, opinam sobre os jogadores, suas potencialidades, falhas, etc. É um momento de diálogo e contato próximo entra a Rádio Itatiaia e o seu ouvinte.

5.3.2 Alberto Rodrigues

5.3.2.1 História

Alberto Rodrigues, 71 anos, narrador da Rádio Itatiaia há 32 anos, é reconhecido, atualmente, como um dos maiores narradores esportivos mineiros. Foi ele quem fez a primeira transmissão ao vivo, narrando o coletivo da Seleção Mineira para o jogo inaugural do Estádio Magalhães Pinto, o “Mineirão”, em 1965. Alberto Rodrigues abriu o microfone da Rádio Itatiaia com a famosa frase de Januário Carneiro: “Nós abrimos, para o rádio de Minas, os caminhos de todos os continentes”. Neste dia, foi narrado, ao vivo, o coletivo da Seleção Mineira, que enfrentou o River Plate, time campeão da Argentina. Das cabines de rádio, Valdir Rodrigues narrou o primeiro tempo do jogo, deixando o segundo tempo a cargo de Alberto Rodrigues. Este, hoje, já computa 30 ininterruptos anos narrando as principais

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jornadas do esporte pela Rádio Itatiaia: Campeonatos Mineiros, Campeonatos Brasileiros, Libertadores, MERCOSUL, CONMEBOL, amistosos nacionais e internacionais, excursões do Cruzeiro na Europa e América do Sul e diversas Copas do Mundo.

5.3.2.2 Estilo

Alberto Rodrigues possui características, que, certamente, encantam o ouvinte de rádio: irradia os jogos do time para o qual torcem e, com isto vibra na narração das belas jogadas e vitórias. Por outro lado, compactua com a tristeza dos torcedores quando seu time perde. Ao narrarem os gols, utiliza bordões, tais como: “Gol! Gol! Gol!”, os jogadores são apelidados, de acordo com sua performance: Kleber (Gladiador), Wellington Paulista (Wellingol), Jonathan (Touro Sentado) e a Torcida Cruzeirense (China Azul). Vinhetas o anunciam e com sua capacidade criativa e seu carisma leva o ouvinte ao delírio.

5.3.2.3 Estratégia utilizada para fidelização do ouvinte

5.3.2.3.1 Trechos da narração de Cruzeiro X América (Campeonato Mineiro 2010)

Falando de forma clara e rápida, Alberto Rodrigues dá inicio à narração do jogo. Seu timbre de voz é inconfundível e preenche o espaço do ouvinte com gratificante expectativa.

Nós abrimos para a Rádio de Minas os caminhos para todos os continentes. Muito boa tarde torcida brasileira espalhada em cada pedacinho do planeta azul. Mineirão, mais um jogo, mais um clássico do campeonato mineiro (ALBERTO RODRIGUES, 2010 – Cruzeiro e América).

Todos os segundos são preenchidos com a fala credenciada de Alberto, que conhece muito bem o gosto exigente do seu ouvinte. Chamando os jogadores pela alcunha criada pelos torcedores e até mesmo, pela mídia, constrói um discurso de teor mais intimo, aproximandose, ainda mais, do seu ouvinte fiel.

O narrador, extremamente criativo, mostra-se objetivo no momento de passar informações e bem mais flexível e solto ao narrar um gol.

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Leo, repassa para Fortunato, que lança na meia direita para Fabrício, que avança para esquerda, vai tentando chegar, tocando para Paulista, chega a zaga Americana. Bola tocada para frente, Kleber recupera para o Cruzeiro que avança para meia lua: Gol! Gol! Gol! É do Cruuuzeiiiroooo!!! (ALBERTO RODRIGUES, 2010 – Jogo América e Cruzeiro).

No campo, tudo acontece muito rápido, mas Alberto Rodrigues consegue resumir os lances com clareza e objetividade, desenhando a cena para o ouvinte. O lançamento feito pelo defensor do Cruzeiro, Leonardo Silva, é narrado de forma ágil, visto que, tão logo ele acontece, o time adversário já recupera a bola e um novo ataque precisa ser narrado. “Leonardo Silva num lance lindo. Perde a chance de aumentar para o time celeste. Quase, quase, o zagueiro do Cruzeiro deu uma cabeçada na bola. Aguenta coração Alberto!!” (ARTHUR MORAIS, 2010 – Jogo América e Cruzeiro).

As jogadas acontecem de forma ininterrupta e com uma velocidade tão grande que só mesmo narradores, repórteres e comentaristas experientes conseguem relatar. Para isto, criam formas diferenciadas de locução capazes de integrar emissor e receptor numa única emoção.

O locutor esportivo parece prever as jogadas e prende a atenção até mesmo do ouvinte que acabou de ligar o rádio, ao entornar, literalmente, seu arsenal de verbos, substantivos e adjetivos. Alberto utiliza, com freqüência, as expressões: “Penetra! É perigo! O jogador está adentrando a zona adversária rumo ao gol” (Alberto Rodrigues, narração de Cruzeiro e América – campeonato Mineiro de 2010).

A tensão instala-se no peito do torcedor que já possui um arsenal de jogadas registradas na mente. Se o locutor narra que um jogador “recebeu um sanduiche”, por exemplo, a imagem deste, imprensada e impedido de concluir a jogada, imediatamente se forma e o torcedor se angustia como se visse a cena no próprio estádio.

A voz vibrante, emocionada e incisiva de Alberto Rodrigues cativa o ouvinte, causa-lhe impacto e o fideliza inexoravelmente, à Rádio Itatiaia. 5.3.2.3.2 Trechos da narração de Cruzeiro X Ceará (Campeonato Brasileiro 2010)

O zagueiro deve fazer a defesa do time, mas em certos momentos aventura-se rumo ao gol. Neste trecho da narração Alberto Rodrigues escancara a importância do lance nada

45 corriqueiro e anuncia a possibilidade iminente de um gol. “Caminha! É cercado! Penetra no ataque! É perigo!” (Alberto Rodrigues – narração de Cruzeiro e Ceará - Campeonato Brasileiro 2010). Nota-se com clareza, que a narração é permeada de expressões que unem o emissor e o receptor numa total intimidade futebolística. A entonação e a vibração de Alberto Rodrigues fecham este contrato de comunicação.

Marquinhos Paraná toca pra Fernandinho. Fernandinho girou para Gilberto, que driblou pra cá, driblou pra lá, passou agora para a esquerda virando o jogo, para Henrique, recebe Henrique, toca para Tiago Ribeiro e...defende o goleiro do Ceará, quase, quase, o time celeste marca! (ALBERTO RODRIGUES – Cruzeiro e Ceará – Campeonato Brasileiro de 2010).

Uma chance de gol é percebida, pelo ouvinte, antes mesmo da narração do lance, pois a voz do locutor está carregada de ansiedade, criando uma expectativa. A posição da barreira, a participação do zagueiro na jogada, a localização da falta na “boca do gol” e a narração emocionada de Alberto Rodrigues antecipam para o torcedor experiente, o perigo do gol.

O ritmo da narração acelera o coração do ouvinte que espera ansioso, pela finalização da jogada, em que a bola está colocada na extrema direita do time adversário.
Chega Fernandinho na bola, carregando o time celeste para direita, com uma jogada espetacular! Falta! O zagueiro do Ceará, pega Fernandinho por trás com uma pancada! O time do Cruzeiro reage, Gilberto toca para Kleber que chuta na mão do goleiro. Que chance perdeu novamente o Cruzeiro (ALBERTO RODRIGUES – Cruzeiro e Ceará – Campeonato Brasileiro de 2010).

O ouvinte, segundo Thompson (1998) não é um mero expectador passivo. Assíduo na audiência dos noticiários e campeonatos opina acerca de todos os detalhes e ultrapassa sua função social, tornando-se técnico, juiz, jogador e jornalista. Recebe do locutor um arsenal de informações que o coloca no meio do campo, como parte da jogada. Vê através dos olhos daquele que narra, com emoção, a partida. “O jogador está no meio de campo, rola a bola para o lado, prepara-se para o ataque! Gol, Gol, Gol! Do Cruzeiirroooo!!” (Alberto Rodrigues – narração de Cruzeiro e Ceará Campeonato Brasileiro 2010). Mestre da arte de narrar, Alberto leva o ouvinte ao local do

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lance, colocando na voz um tom mais vibrante e otimista, passando sempre para o ouvinte, uma idéia de possibilidade.

5.3.3 Mário Henrique

5.3.3.1 História Mário Henrique, 38 anos, mais conhecido como “Caixa”, estreou sua carreira na Rádio Itatiaia, narrando, há 16 anos, o clássico América x Villa Nova, no estádio Independência, em Belo Horizonte. Com o futebol, já teve a oportunidade de conhecer os cinco continentes e 39 países. Foi ao Peru para narrar Atlético x Sipesa, pela Copa CONMEBOL, ao lado do repórter Roberto Abras; participou de várias excursões pelo exterior, como à Arábia Saudita, com a Seleção Brasileira; à Iugoslávia e à Croácia, com o América e, mais recentemente, ao Uruguai com o clássico Atlético x Cruzeiro, pelo Torneiro de Verão. Hoje, coleciona quatro coberturas de Olimpíadas, três Copas do Mundo e três Jogos Pan-Americanos, além da narração de diversas partidas de campeonatos brasileiros e estaduais.

5.3.3.2 Estilo

Mário Henrique também irradia os jogos do time para o qual torce e, também vibra nas narrações das belas jogadas e vitórias. Ao narrarem os gols, utiliza bordões, tais como: “Caixa! Caixa! Caixa!” (Mário Henrique); além de lemas de apoio aos times: “Bica eles bicudo”, “O Caixa nunca perde a esperança”, entre outros.

Os jogadores são apelidados: Diego Tardelli (Dom Diego e Tatatatatatardeli), Muriqui (murica eles, Muriqui) e a Torcida Atleticana (Massa Alvinegra). Nos bastidores, os repórteres de campo e os comentaristas recheam a narração de Mário com entrevistas e comentários.

5.3.3.3 Estratégia utilizada para fidelização do ouvinte

5.3.3.3.1 Trechos da narração de Atlético X Ipatinga (Campeonato Mineiro 2010)

47 Mário Henrique é rápido e claro em sua narrativa. Refere-se à torcida atleticana como “Massa Alvinegra” e mantém os apelidos dados carinhosamente, pelos torcedores.

Alô galera! A partir de agora a minha voz vai rasgar os céus deste Brasil levando a você a emoção do futebol brasileiro pelo rádio! A bola vai rolar no Mineirão! Tem o Galo, tem o Tigre, tem o Ipatinga, tem o Atlético, tem bola rolando, tem emoção pura na Rádio de Minas! (MÁRIO HENRIQUE, Campeonato Mineiro de 2010).

Empolgação, informação e opinião são os pilares da sustentação da narrativa futebolística que, gera muita polêmica. Segundo Gisela Ortriwano (1985), o rádio esportivo sempre contribuiu com efetiva e vibrante participação.

Mário Henrique mostra toda esta empolgação, recheando com jargões e expressões a sua locução.

A narrativa do escanteio, a ser cobrada pelo meio-campo do Atlético, tira o ouvinte da apatia. O perigo do gol é retratado quando Mário Henrique cita que “o jogador vai erguer a bola para a cara do gol”, se a continuidade de sua descrição é feita com empolgação crescente, o ouvinte chega ao ápice do entusiasmo e vibra pelo seu time de coração.

O ouvinte espera do locutor algo mais que a descrição pura e simples do lance. Quer uma fala futebolística, técnica e eletrizante. O sujeito falante, como cita Charaudeau (1996) é o responsável pela organização do enunciado e precisa estudá-lo, criando estratégias de locução.

No futebol, as expressões suscitam interesse e também melhor compreensão da jogada. A expressão “Caixa! Caixa! Caixa! Já representa para o ouvinte o momento do gol, jargão já criado pelo narrador Mário Henrique.

Os comentaristas esportivos da Rádio Itatiaia valorizam, ainda mais, os intervalos dos jogos, resgatando as mais belas jogadas, apresentando os dados estatísticos do campeonato, a posição dos times na tabela e noticiando fatos importantes.

Bom, o Atlético faz um jogo de segurança aqui no Mineirão. Joga mais uma vez com o regulamento debaixo do braço. Mas, de qualquer forma o Atlético ainda foi superior ao Ipatinga neste primeiro tempo, chegou mais perto do gol e aproveitou mais jogadas. (LÉLIO GUSTAVO, Campeonato Mineiro de 2010).

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Os gols do primeiro tempo também são reprisados pelos comentaristas, que aproveitam o momento para opinarem sobre a partida e os jogadores. Um prognóstico inicial também é oferecido ao ouvinte.

O comentarista procura mostrar-se imparcial em sua objetividade usa o mesmo discurso da equipe de narração, adotando, porém, uma postura mais formal. Diante de sua análise, faz com que o ouvinte posicionando-se a favor ou contra.

5.3.3.3.2 Trechos da narração de Atlético X Fluminense (Campeonato Brasileiro 2010)

Toda transmissão futebolística é impactante, pois repassa, para o ouvinte, algo que está acontecendo no exato momento. Porém, o modo como a narrativa é conduzida é que, de fato, será o fator determinante para a construção satisfatória daquela partida de futebol no imaginário daquele ouvinte.

Num ataque do time do Atlético, o Dom Diego Tardeli faz uma jogada e consegue um escanteio pelo lado direito do campo. È a chance do Galo de marcar um gol. A torcida está vibrante, com os dedos cruzados. Aguenta torcida alvinegra! (MÁRIO HENRIQUE Atlético e Fluminense - Campeonato Brasileiro 2010).

O repórter de campo é o auxiliar direto do locutor e é chamado para descrever, com exatidão, determinados lances. Fazendo uso de jargões e expressões próprias, que colocam o ouvinte dentro do lance, desenha a cena.

Roberto Abras, repórter da Rádio Itatiaia, valoriza ainda mais a jogada do Atlético, dizendo que o capitão do time “chamou para o baile o atleta do time adversário”, driblando-o e dançando diante dele.

As figuras de linguagem despertam a imaginação do ouvinte, que, privado das imagens, busca no discurso do locutor, a descrição fidedigna dos lances. O locutor parece, às vezes, falar com cada ouvinte em particular, fidelizando-o.

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6 CONCLUSÃO

Quando o jogo se inicia, o locutor esportivo sabe que, mais uma vez, será os olhos do ouvinte. Criará imagens, através de sua fala e permitirá que o rádio continue a fazer parte da história das transmissões esportivas, ao lado de todo aparato tecnológico do século XXI.

O advento das imagens valoriza, ainda mais, o papel da equipe de transmissão do rádio que, cada vez mais, parece se superar. A criatividade e a busca de novos artifícios de narração mantêm o rádio vivo nos lares, nos automóveis, e, até mesmo, nos próprios estádios de futebol.

O discurso do narrador é, hoje, acompanhado pelo trabalho dos comentaristas e dos repórteres de campo, que enriquecem, ainda mais, o imaginário do ouvinte, colocando-o frente a frente com as jogadas.

A televisão e a internet oferecem imagens, mas é o rádio quem cria e recria, através das locuções vibrantes e objetivas, a emoção do momento do lance. A fala, junto da imagem, parece ser redundante, mas, se a imagem não existe, ela é indispensável.

Profissionais competentes fidelizam o seu ouvinte, através de uma narrativa impecável e objetiva. Diante da locução de uma partida de futebol, não sobra espaço para diferença de raça, credo ou classe social.

O locutor esportivo fala a linguagem do torcedor e cria, com eles, através de seus jargões e expressões curiosas, um vínculo forte. As narrativas deixaram de ser enfadonhas e monótonas para tornarem-se energizantes.

O rádio imprime velocidade ao tempo do jogo e relata não apenas os lances, mas também as informações mais relevantes sobre o jogo, o trânsito no entorno do estádio, o campeonato, as demais partidas, o público presente, etc.

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As locuções de Alberto Rodrigues, narrador da Itatiaia há 32 anos, e Mário Henrique, narrador, há 16 anos, são cativantes. A expectativa criada, por eles, no início das partidas, os relatos dos gols, e os lances perigosos, incitam a emoção do ouvinte.

A interação destes profissionais, com os repórteres de campo e com os comentaristas, fazem com que cada lance seja lapidado. A partida é analisada como um todo, e torna-se mais clara e emocionante.

A transmissão eficaz fideliza o ouvinte à rádio e confirma a teoria de Thompson (1998) acerca da não-passividade do receptor. Este quer um modo de transmissão novo, capaz de levá-lo a um mundo mágico, lúdico e diferente (THOMPSON, 1998). Segundo Prata, o ouvinte é exigente, e busca uma emissora que transmita a tradicionalidade, a interatividade, a credibilidade, a qualidade e a seriedade.

A Itatiaia privilegia as novas técnicas e treina seus novos profissionais para fazer da reportagem e da narração uma arte. O rádio esportivo, neste estudo, aparece como um ícone da comunicação midiática brasileira e tem a “Rádio de Minas” como parte importante da sua história.

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REFERÊNCIAS

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PORCHAT, Maria Elisa. Manual de Radiojornalismo: Jovem Pan. São Paulo: Ática, 1989.

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SCHINNER, Carlos Fernando. Manual dos Locutores Esportivos. São Paulo: Panda, 2004.

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