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A Teoria da Perda de Uma Chance

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FACULDADE DE EDUCAÇÃO SANTA TEREZINHA CURSO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS

GILMAR NUNES PEREIRA

OS PRECEDENTES DA APLICAÇÃO DA TEORIA DA PERDA DE UMA CHANCE SEGUNDO ENTENDIMENTO DA JUSTIÇA BRASILEIRA

IMPERATRIZ 2010

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GILMAR NUNES PEREIRA

OS PRECEDENTES DA APLICAÇÃO DA TEORIA DA PERDA DE UMA CHANCE SEGUNDO ENTENDIMENTO DA JUSTIÇA BRASILEIRA
Monografia apresentada à Faculdade de Educação Santa Terezinha como requisito parcial para obtenção do título de bacharel em Ciências Jurídicas. Orientador: Prof. Thiago Vale Pestana

IMPERATRIZ 2010

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GILMAR NUNES PEREIRA

OS PRECEDENTES DA APLICAÇÃO DA TEORIA DA PERDA DE UMA CHANCE SEGUNDO ENTENDIMENTO DA JUSTIÇA BRASILEIRA

Monografia apresentada à Faculdade de Educação Santa Terezinha como requisito parcial para obtenção do título de bacharel em Ciências Jurídicas.

Aprovada em: 12 de Fevereiro de 2011.

COMISSÃO EXAMINADORA

_____________________________________________ Prof. Esp. Thiago Vale Pestana (Orientador) Esp. em Direito Civil e Processual Civil - UNAMA Esp. em Direito Tributário – IUL/LFG

_____________________________________________ Profª. Esp. Vilmária Cavalcante Araújo Mota (1º Examinador) Esp. em Direito Processual - UNIMONTES

_____________________________________________ Profª. Esp. Nara Cristina Batista Sampaio (2º Examinador) Esp. em Direito e Processo do Trabalho - UNIDERP

a quem não vejo mais sinto e a minha mãe Geneci Nunes Pereira. . que sempre me deram estímulo para que continuasse em busca dos meus sonhos. em especial aos meus pais.4 Dedico esse trabalho a toda minha família. Raimundo Henrique Pereira (in memorian).

THIAGO VALE PESTANA. por este motivo. experimentamos a grandeza de viver como irmãos. mulheres. na busca incessante por conhecimento. por existirem em minha vida. Lutar sempre!. que guardarei para sempre no coração. Em especial aos meus irmãos. DOUGLAS BARROS. vencerá suas batalhas e escreverá os novos capítulos de sua história. profissional admirável tanto pelo ser humano que é. e com esforço e perseverança alcançasse o objetivo com êxito. JAMES. e minha linda e maravilhosa filha. MARCELO MOTA.5 AGRADECIMENTOS A Deus por lembrar-se de mim. pela colaboração na realização deste trabalho. KARLENES DINIZ. por me conduzirem com afeto e dedicação para que trilhasse caminhos sem medo. concedendo-me o precioso dom da vida. Ao saber que nos foi dado a chance de poder ir muito além de uma simples amizade. A minha amável esposa. Ser Otimista!!! (Cora Coralina). por ter me proporcionando durante todos esses anos. pela força e pelo encorajamento. Aos meus amigos de curso. Terei sempre as lembranças perfeitas de grandes amigos. que compartilharam comigo esses cinco anos de luta acadêmica. pérolas de valor suntuoso. Esp. ANA CLARA. Ensinou a amar a vida. dignidade e valor. sem Ti. EVA TUANA. pelo exemplo de pugna e moral. recomeçar na derrota. não desistir da luta. enfim. por me ensinarem a viver com honra. muito obrigado pela compreensão. Reflito profundamente no valor de um amigo. indispensável na minha vida acadêmica e profissional. de valor sem igual. Ao meu orientador Professor. quanto pela maestria na qual exerce sua profissão. eternos mestres possuidores de uma magnitude de conhecimento incontestável. Aos meus pais. vitórias nas grandes lutas traçadas. acreditar nos valores humanos”. A todos muitíssimo Obrigado! . A todos os meus familiares e amigos. as emoções se afloram e a voz se embarga ao saber que chegamos no fim de uma estrada e que cada um seguirá seu destino. realizará seus sonhos. PAULO HENRIQUE. renunciar as palavras e pensamentos negativos. nada sou e nada posso. “O tempo muito nos ensinou. DARIO DE MACEDO E MIGUEL PINHEIRO. Raimundo Henrique Pereira (in memorian) e Geneci Nunes Pereira. Aos Professores.

mas sim pela perda da oportunidade de conquistar aquela vantagem ou evitar um prejuízo. o provimento jurisdicional. totalmente desvinculada do resultado final. no caso.6 Não será demasia acentuar que o sentido jurídico de chance ou oportunidade é a probabilidade real de alguém obter um lucro ou evitar um prejuízo. Salienta-se que não se busca o ressarcimento pela vantagem perdida. Sergio Savi .

O levantamento bibliográfico consistiu em pesquisa na literatura disponível buscando uma análise qualitativa do tema proposto. sua aceitação pela mais alta Corte em matéria infraconstitucional. dentro do possível. contudo. em especial. Palavras-chave: Responsabilidade Civil. buscou-se analisar a responsabilidade civil e sua evolução histórica e ainda a classificação da responsabilidade civil. exaurir completamente o tema. sua Aplicação nas cortes internacionais como sua natureza jurídica. Feito isso. Perda de Uma Chance. Precedentes de Aplicação Jurisprudencial. analisou-se os aspectos acerca do instituto da perda de uma chance sua origem e o direito que dela resulta.7 RESUMO O presente trabalho trata da aplicação da teoria francesa da responsabilidade civil pela perda de uma chance no ordenamento jurídico brasileiro. Inicialmente procurou-se analisar os fatos e atos jurídicos. Reparação do Dano. o Superior Tribunal de Justiça. seus precedentes e admissão no ordenamento jurídico. reparações e problemas quanto a fixação do quantum indenizatório e em especial. até em razão de serem muitas as matérias que este envolve. . Na seqüência. frisam-se os precedentes da aplicação da teoria apresentando um breve estudo sobre as principais questões levantadas acerca da teoria da perda de uma chance. tendo como referência as principais posições doutrinárias acerca da questão. realizou-se uma apresentação geral sobre a questão. Não tendo sido possível.

they cite the precedent of the application of the theory by presenting a brief study of the main questions raised about the theory of a loss chance. in particular. That done. Initially we attempted to analyze the facts and legal acts. and his previous admission to the legal system. we sought to examine the civil liability and its historical evolution and even the classification of liability. with reference to the major doctrinal positions on the issue. Subsequently. repairs and fixing problems as quantum indemnity and in particular. Was not possible. insofar as possible. The literature search consisted of searching the available literature in a qualitative analysis of the proposed topic. Application of judicial precedent. the Superior Court.8 ABSTRACT The present work concerns the application of the theory of the French Civil Liability for Loss of Chance in the Brazilian legal system. there was a general presentation on the issue. however. even since they may be many matters that this involves. . we analyzed the aspects about the institute a chance of losing your home and the right it conveys. Repairing the damage. Keywords: Civil Liability. its acceptance by the highest court on infra. its application in international courts as a legal nature. Loss of a chance. you have fully exhausted the subject.

.....................................................3 Nexo de Causalidade ................................2 Espécie de Dano: Moral e Material .............9 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ..........................................................................................3 Das Excludentes da Responsabilidade Civil ............................................................................................. 25 3.............................................2 Elementos da Responsabilidade Civil ..................... 21 3......................................2.......................................................................................................................................... 15 2.............................................................................................1 Ato Jurídico ......................... 29 3................................... 31 .................................................. 30 3..... 26 3.............................................................................................2 Fato Jurídico ............ 27 3.........2......................................... 11 2 NOÇÕES DE ATO-FATO JURÍDICO .............................................................................2..................................................................................................................................................................................................................................................................................1 Conceito de Responsabilidade Civil .............................................................1 Conduta Humana ................................................................... 13 2................................................................... 18 3 EVOLUÇÂO HISTÓRICA DA RESPONSABILIDADE CIVIL .......................................................................................

.............. 41 5..................................2 Responsabilidade Civil Objetiva ......................... 35 4..........1 A origem desta teoria e o direito que dela resulta .........................................3 Responsabilidade Civil Subjetiva ...........................1 Aplicação da teoria da perda de uma chance nas cortes internacionais .......................................................................... 44 5............................................................................................................1 Responsabilidade Civil Contratual e Extracontratual .................................................................................................................................................4 Responsabilidade Civil Objetiva e teoria do risco ............................................................................................................................................................................ 40 5..1 Os motivos para a admissão da indenização das chances perdida no Brasil .................................................... 52 ........................... 34 4............................................... 49 6 OS MOTIVOS PARA ADMISSÃO DA TEORIA NO BRASIL ...................................................................................................................................1................................................................................ 34 4.......................... 52 6......................................................................................10 4 CLASSIFICAÇÃO DAS TEORIAS QUE ABORDAM A RESPONSABILIDADE CIVIL ....................................................................................................................... Lucro cessante e teoria da perda de uma chance ....................................................................................... 36 4......................................................................................... 47 5.............................2 Natureza da perda de uma chance ......................................... 37 5 TEORIA DA PERDA DE UMA CHANCE ................................3 Diferenças entre Dano Emergente..............................................................................................................................................................

...........................................................................5 Análise comentada dos primeiros casos de aplicação da teoria da perda de uma chance e o acolhimento desta teoria de responsabilidade civil pelo Superior Tribunal de Justiça ............. 61 6................................................................................................................................................................. 83 REFERÊNCIA ..................................................................................................................................................................................................................................................2 A reparação integral dos danos e a proteção da vítima pela perda da chance . 57 6....................................... em virtude das chances perdidas .......................................3 A problemática da fixação do quantum indenizatório a partir da seleção de julgados oriundos da justiça estadual brasileira................................ 71 CONCLUSÃO .................................... 88 .....4 Os casos mais relevantes da aplicação da teoria da perda de uma chance no entendimento da Justiça gaúcha ............................................................................................................................................................. 67 6................................................................................................................ 85 ANEXO ...............................................11 6......

12 1 INTRODUÇÃO No mundo jurídico. direta ou indiretamente. Parte-se aqui da idéia de que a teoria da perda de uma chance deve ser abordada dentro da responsabilidade civil que assegura punição a pessoa que provocar um dano a outrem. através da assimilação do fato contrário ao direito. Para a elaboração deste trabalho. sendo esta obrigada a ressarcir e responder por eventuais prejuízos que tenha causado. constitui fórmula pela qual o sistema jurídico procura reprimir no interior da sua esfera os comportamentos contrários às regras. jornais. artigos e através da utilização . pode-se considerar responsabilidade como a obrigação de reparar prejuízo decorrente de uma ação de que se é culpado. foi realizada uma pesquisa bibliográfica através da coleta de dados em livros. A chamada teoria da perda de uma chance representa uma nova compreensão acerca do instituto da reparação de danos que objetiva reparar a perda da oportunidade na qual alguém deixa de obter algo em razão de ato ilícito praticado por terceiro. A responsabilidade civil constitui um elemento chave de um sistema jurídico. teses.

determinando-o. dados estatísticos ou campo geográfico de pesquisa. analisar as situações nas quais se poderá atribuir o dever de reparação do dano pelo prejuízo causado. revistas. ou seja. em primeiro lugar. Todo o trabalho será fundamentado nos estudos de grandes pesquisadores. julgados. bem como seus aspectos quantitativos (valor da indenização). Assim. E quando não há como quantificar os elementos do dano. artigos científicos. leis. . meios eletrônicos e livros em que se encontre uma maneira de sintetizá-los num texto que tenha o caráter de objetividade e riqueza de dados. estudar responsabilidade civil é estudar. os elementos que o compõem e suas inter-relações. para tanto. buscando-se analisar os precedentes da aplicação da mesma na justiça brasileira. não havendo. que possam ajudar no entendimento da avaliação do tema proposto. O objetivo do presente estudo consiste especificamente na responsabilidade civil pela perda de uma chance. doutrinas. mas há o real prejuízo à vítima. esta deve ser indenizada. descritos somente em obras que contribuem de forma significativa para a reflexão sobre o tema. teses.13 do meio eletrônico. a metodologia adotada neste trabalho foi à análise e consulta a textos. aplicando-se a Teoria da Perda de uma Chance. decorre essencialmente do fator dano e. a ocorrência do dano a outrem. O problema em estudo desta temática parte da importância decorrente do fato de que o dever de indenizar. dos fatos que lhe deram origem. analisando. indiretamente. Assim. É importante observar que não se pretende realizar uma pesquisa de campo e sim uma monografia de compilação. portanto.

p. somente o fato que esteja tutelado pela norma jurídica pode ser considerado um fato jurídico.171. GUSMÃO. os acontecimentos a que o direito atribui conseqüências. Introdução ao Estudo do Direito. produzem efeitos e extinguem-se. transmitir ou extinguir relações jurídicas2. 1995. modificar. Tais fontes. São Paulo: Saraiva. . Os direitos subjetivos e as obrigações dependem de pressupostos que a doutrina francesa denomina por fatos jurídicos. o mundo jurídico. Segundo Marcos Bernardes de Mello. As relações jurídicas acompanham o ciclo da vida. Marcos Bernardes de. Paulo Dourado de. p. atual. 9. passam a integrar também. pois nascem. 3 MELLO.454. e somente eles possuem efeito vinculante em relação à conduta humana3. Rio de Janeiro: Forense. p. 2008. 7ª ed. de forma a merecerem a tutela do Direito. Cezar. Curso Avançado de Direito Civil. Cada direito e dever pressupõem a ocorrência de 1 2 FIUZA. são os fatos isto é. Aqueles que apresentam relevância tal. 2009. Teoria do fato jurídico: plano da existência. sejam eles resultantes da natureza ou da conduta humana. aptos a criar.14 2 NOÇÕES DE ATO-FATO JURÍDICO Todos os fenômenos existentes em uma sociedade pertencem ao mundo dos fatos. através da incidência da norma sobre eles1. Rio de Janeiro: Forense. ou “pressupostos”.

Contratos. regras de controle social. Traça. O ato é determinado pela vontade do homem. A distinção entre as duas espécies está no elemento vontade. externa-se como todo acontecimento emanado do homem ou das coisas e que produz conseqüências jurídicas5. Vê-se. pois. desde que lícitos e não ofendam a vontade declarada e o ordenamento jurídico7. no sentido de ato lícito subdividem-se em ato jurídico e negócio jurídico. Rio de Janeiro: Forense. p. Os fatos jurídicos o são por vontade humana. enquadrado como uma espécie entre os atos jurídicos equivale a uma declaração de vontade de uma ou mais pessoas capazes. típico do homo socialis. ordenando a comunidade e viabilizando a convivência. p. já dizia a parêmia latina). uma vez que o homo naturalis. p. denominados mais propriamente de atos jurídicos. Paulo. com um sentido ou objetivo determinado. O primeiro é volitivo e o último. então. que é a principal mola do intercâmbio jurídico4. pressupõem a existência do fato jurídico. Não se pode olvidar que o Direito serve para adaptação social. p.15 um fato e a existência de normas reguladoras. isolado de tudo e de todos. com clareza solar a importância dos fatos para a vida social. Cit. .466. com o propósito de obter certos efeitos restritamente à sua pessoa.7 6 RIZZARDO. Os primeiros são fatos jurídicos em sentido amplo. em sentido restrito. por sua vez. 2008. 2008. visando à produção de efeitos jurídicos relativamente a terceiros. ocorre independentemente da vontade humana6. 7 RIZZARDO. dotadas de coercibilidade. Rio de Janeiro: Forense. Com efeito.8. Negócio jurídico. que produzem conseqüências jurídicas (atos lícitos e atos ilícitos). não necessitaria de harmonização social. no sentido estrito. 2. 2007. Os atos jurídicos.. Arnaldo. É fenômeno. é dos fatos que surgirá o Direito-organizado como ciência (ex facto ius oritur.7. pois.1 Ato Jurídico 4 5 NADER. Introdução ao Estudo do Direito. pela imputação de caráter jurídico aos simples fatos da vida. O fato jurídico. RIZZARDO. enquanto os segundos. Op.

porque não se destina ao conhecimento de determinada pessoa. de um comportamento. Em sentido amplo. e b) participações. Agora nossa atenção ficará voltada ao ato jurídico lícito. ao qual o ordenamento jurídico atribui efeitos invariáveis9. a manifestação ou atuação da vontade pode se fazer de acordo com a ordem jurídica. eis que não têm a finalidade de produzir evento psíquico na mente de outrem. São atos que têm por fim fazer alguém ciente de uma ocorrência ou de um intuito. . Sua existência consubstancia-se na destinação. Destarte. é determinação da vontade a que o ordenamento jurídico reconhece efeitos de Direito.173. quando se tipifica o ato jurídico ou ato jurídico lícito. p. p. que lhes dá existência imediata. nas quais o elemento intencional é irrelevante. para distinguirmos entre a manifestação volitiva que persegue 8 9 LIMA. o que descortina o ato ilícito. As participações consistem em declaração para ciência de intenções ou fatos. Não se destinam a ser levados ao conhecimento de outras pessoas. 28ª ed. ou ser contrária ao direito. porque estas são manifestações de um intento. manifestações do comportamento humano. destinatário. 1986. Trata-se. Rio de Janeiro: Freitas Bastos. Têm. p. 60. em síntese. no sentido de que o sujeito pratica o ato para dar conhecimento a outrem de que tem certo propósito ou de que ocorreu determinado fato. Hermes. sem se confundirem com as declarações de vontade dos negócios jurídicos. Os primeiros consistem numa atuação da vontade. Dividem-se em atos lícitos e ilícitos8. enquanto as participações consistem em simples comunicação. Os atos materiais são expressão de simples atuação da vontade. As participações são declarações de vontade. 10 GOMES. Não têm destinatário em suma10. que visam a produzir in mente alterius um evento psíquico. 2007. 2007. necessariamente. GOMES. Os atos jurídicos stricto sensu subdividem-se em: a) atos materiais. sem intento negocial.173. Introdução à ciência do direito.16 O ato jurídico é espécie do gênero fato jurídico.

Porém. O negócio jurídico é então um ato jurídico. de administrar e dispor livremente de seus bens através de atos e negócios jurídicos. p. diferenciando-se em que. que permite a pessoa contratar na forma que melhor satisfaça a seus interesses. p. não 11 VIANA.17 um resultado e aquela que é apenas conforme o ordenamento jurídico. previamente. Rio de Janeiro: Forense. ou a produção de efeitos não corresponde a um querer efetivo. No terreno dos atos e negócios jurídicos. domina o princípio de autonomia da vontade. mas dirigido a um fim determinado. resguardar. que são queridos. pela vontade das partes contratantes. 2004. em outros. transferir. que é querido e encontra tutela na ordem jurídica13. 12 VIANA. O ato jurídico em si não visa uma declaração de vontade programada.. Marco Aurélio S. 13 VIANA. se eles são queridos. p. 2008. Assim. que se manifesta na liberdade contratual.136. em ambas as situações a ação humana tem força jurígena. fica claro que os efeitos produzem-se ex lege ou ex voluntate. Sua atuação é consciente no sentido de que é endereçado a um efeito determinado. mas efeitos jurídicos de modo geral. Mas há casos em que a vontade atua visando a um fim protegido pelo ordenamento jurídico. os efeitos jurídicos se produzem sem que o sujeito tivesse pretendido obtê-los determinantemente. em certos casos. tem-se o negócio jurídico14. com efeitos jurídicos determinados. 14 VIANA. Curso de Direito Civil .136. Autonomia. que é o poder de os particulares decidirem sobre os seus negócios. 2004. 2004. A ação humana busca como fim imediato adquirir.7. o contrato é enquadrado na categoria dos negócios jurídicos15. 15 RIZZARDO. Evidentemente. dos atos de direito privado. encontrando seus efeitos produzidos independentemente do querer do agente. Assim. também denominada autonomia privada. e restritos na órbita pessoal do indivíduo. Op. p.137.136. ou seja. sendo indiferente que os tivesse visado. Cit.Parte Geral. há combinação entre o querer individual com o reconhecimento de sua eficácia pelo direito positivo11. mas que se manifesta por força de determinação legal12. modificar ou extinguir direitos. . Se estiverem preordenados tem-se o ato jurídico em sentido estrito. querido ou pretendido. a ação humana busca efeitos jurídicos. p.

p. lesão corporal. por falta de diligência ou de prudência. etc. da obrigação de reparar o dano. o ato jurídico pode ser lícito. tais como: capacidade jurídica e consentimento das partes. Só há. causador de dano à pessoa ou a seus bens. p. se deliberadamente o agente causa o evento (dano. 16 17 GUSMÃO. que só foi tentado. reparação do dano) imposta pela lei.171. se produzidos sem intenção. é passível de nulidade (nulidade absoluta) ou de anulação (nulidade relativa). Dano punível é o dano injusto. que origina a obrigação de indenizar.). Nulo se faltar-lhes um de seus elementos essenciais (exemplo: capacidade jurídica para praticá-lo) ou se for contrário à expressa disposição legal17.172. No ilícito. ex. 2008.172. pena de morte e pena alternativa como serviço prestado à comunidade) aplicável ao delinqüente. 18 GUSMÃO. o agente persegue fim ilícito. Finalmente. que consiste no descumprimento de dever legal ou de obrigação contratual. Ato ilícito gera a obrigação de indenizar ou a obrigação de sofrer uma pena. . e. pena pecuniária. contra a sua vontade e interesse. ao contrário do que ocorre nos atos lícitos. não exigível no ilícito penal. poderá anulá-los16. e culposos. Se sofrer. forma solene (no casamento. sendo a conseqüência jurídica (pena. p. GUSMÃO. tendo como conseqüência jurídica à pena (restritiva da liberdade. p.) ou se assume o risco de produzi-lo. pois. se for contra legem. 2008. Faltando essas condições. Os atos jurídicos supõem condições de validade. que praticamente ignoram o instituto. e ilícito.18 devendo sofrer coação de espécie alguma para celebrar contratos. isto é. objeto lícito. A ausência de uma previsão legal específica sobre o ato-fato jurídico tem gerado um efeito comum em vários manuais de Teoria Geral de Direito Civil. O ato ilícito é fonte de responsabilidade civil. Pode ser: ilícito penal se transgride norma penal. se for de acordo com o direito. por não ter ocorrido o evento. pois o praticado no exercício normal do direito é lícito18. Este pode se configurar pela tentativa. e ilícito civil. para alguns atos. condições relativas à forma que devem revestir: escritura pública (exemplo: na compra e venda de imóvel a escritura pública). em que não há dano ou prejuízo. 2008. ilícito civil se ocorrer dano. Os atos ilícitos podem ser dolosos.

19 20 GOMES. 1. outros gravitam fora da órbita jurídica. mas mesmo assim. o efeito de determinar a transmissão do patrimônio do finado aos sucessores19. o define como “aqueles fatos a que o direito atribui relevância jurídica. Trad. p. Ricardo Rodrigues Gama. O que se ressalta. pois é o fato humano. dentre outros. na verdade. por sua vez. 21 BETTI. 12. porque a lei lhe atribui. a que correspondem novas qualificações jurídicas”21. a vontade humana é irrelevante. mas não importa para a norma se houve. por si só que goza de importância jurídica e eficácia social. p. Campinas: LZN. no sentido de mudar as situações anteriores.2 Fato Jurídico Nem todos os acontecimentos naturais são fatos jurídicos. sem se dar maior significância se houve vontade ou não de realizá-lo. o ato humano é realmente da substância desse fato jurídico. Emilio. Betti. O primeiro autor a tratar do fato jurídico. vontade em sua prática (CHAVES e ROSENVALD. ou seja o fato resultante. A morte é. pouco interessando se houve. porém o seus efeitos decorrem por conta da norma. 2. ou não. Rio de Janeiro: Forense. p. é a consequência do ato. segundo Marcos Bernardes de Mello foi Savigny. .. 2009). Não seria uma contradição dizer que se trata de um fato.19 Todavia não há como deixar de reconhecer a sua existência.159. 2003. principalmente quando tomamos como base as obras fundamentais dos mestres Pontes de Miranda e Marcos Bernardes de Melo. ou não. 87. MELLO. fato jurídico de suma importância. Op. Teoria geral do negócio jurídico. A idéia que deve presidir a compreensão dos atos-fatos jurídicos é a de que. Cit. v. que o conceituou como “os acontecimentos em virtude dos quais as relações de direito nascem e terminam”20. Introdução ao Direito Civil. o ato-fato jurídico nada mais é do que um fato qualificado pela atuação humana. Alguns não têm importância para o Direito. 2007. Orlando. intenção de praticá-lo. Com efeito. O ato-fato jurídico é aquele em que a hipótese de incidência pressupõe um ato humano. para sua caracterização. se exige a intervenção do individuo? No ato-fato jurídico. por exemplo.

p. por essa forma jurídica. que nada mais são do que a resposta do ordenamento jurídico à verificação da hipótese prevista em lei no mundo fático23. Se alguém quer vender uma coisa a outrem. Pelo contrato que celebram. tomam. caso ela ocorra concretamente22. que em Direito se chama ocupação.466. p. as duas declarações de vontade.20 O fato jurídico se opera da seguinte maneira: na norma jurídica. O qualificativo jurídico significa que o fato concreto é regulado pelo Direito. tendo todos o dever de respeitar o direito 22 23 FIUZA.455.455. 26 GOMES.160. ao seu poder. pelo qual o ocupante pode usar. Verifica-se a vinculação de situações jurídicas: o nexo de causalidade entre fattispecie e a correlativa disposição criam a causalidade jurídica e as novas situações que daí se desenvolvam denominam-se efeitos jurídicos. fruir e dispor do bem subjugado. dá nascimento ao direito de propriedade. Fato jurídico é uma espécie do gênero fato. tanto em relação às pessoas de Direito Privado. o fato jurídico submete uma coisa diretamente ao poder de uma pessoa. Os fatos jurídicos criam novas situações jurídicas. 24 NADER. por efeito da qual se movimentam as normas jurídicas adequadas. e dela se apropria. juridicamente. p. direitos e obrigações correlatos26. Se alguém encontra coisa sem dono. do vendedor e do comprador. p. Este é definido como “qualquer transformação da realidade” ou “transformação do mundo exterior”. o fato jurídico apresenta-se como a força de propulsão da relação jurídica. 25 GOMES.159. Nas relações de natureza pessoal o fato jurídico liga o sujeito ativo ao sujeito passivo. É esse fato que dispara as disposições legais sobre a compra e venda. 2007. No sentido lato. 2009. o nome de contrato de compra e venda que é fato jurídico da espécie negócio jurídico. Nas relações de natureza real.. desse modo. Da lei não surgem diretamente direitos subjetivos. p. 2007. Nascem. Ibid. há a previsão de uma hipótese de fato e o tratamento apropriado a se aplicar. esse fato. é preciso uma causa e essa causa se chama fato jurídico25. quanto às pessoas jurídicas de Direito Público24. 2007. . uma das partes obriga-se a transferir a propriedade da coisa vendida e a outra a pagar o preço ajustado.

que determine a ocorrência de efeitos constitutivos. pela qual o agente se torna proprietário do bem assim adquirido27. GOMES. na órbita do direito. de modo a afetar. Em suma. mesmo quando ocorra dentro do ciclo rotineiro das eventualidades cotidianas de que todos participam sem darem atenção”. precisas são as palavras de Cristiano Chaves de Farias e Nelson Rosenvald (2006. Nesse ponto. a comunidade jurídica se manifesta editando normas que passarão a regular o relacionamento inter-humano que geram efeitos no modelo de convivência social. Todo acontecimento. para Orlando Gomes. a perda e a modificação de um direito. como aqueles aos quais o ordenamento atribui a virtude de produzir efeitos de direto. o fato jurídico exerce tríplice função: 1) a constituição. o equilíbrio de posicionamento do homem diante dos outros. ser o fato “elemento gerador do direito subjetivo mesmo quando se apresenta tão simples que má se perceba. ressalta que o fato jurídico seria todo acontecimento em virtude do qual começam ou terminam as relações jurídicas. denomina-se fato jurídico. natural ou Humano. 27 28 GOMES. de alguma maneira. p. Esse fato é o elemento que propulsiona a relação jurídica de domínio. 2) a substituição de preexistente relação jurídica.160. causa essa que são os fatos jurídicos. 309). Com habitual sensibilidade. um vir a ser que se transformará em Direito mediante a ocorrência de um acontecimento que converte a potencialidade de um interesse. À luz aos ensinamentos de Savigny. de uma coisa ou de outro fato. p. p. .21 assim adquirido. Quando o Fato vem interferir no cotidiano da vida social de forma direta ou indireta. modificativos ou extintintivos de direitos e obrigações. A lei define comumente uma possibilidade. modificação ou extinção de uma relação jurídica. explica Caio Mário da Silva Pereira.161. que nós clasificamos. ou seja eventualidades capazes de provocar a aquisição. na série infinita de eventualidades. Todos os fenômenos até aqui descritos não se produzem sem uma causa. De acordo com o referido autor. não são fatos jurídicos os atos permitidos que não provocam esses efeitos28. 2007. em direito individual. 2007. 3) a qualificação de uma pessoa.

não se desenrrola senão através de uma série infinita de manifestações jurídicas. Ao analisarmos o vocábulo responsabilidade veremos que sua origem provém do verbo latino respondere. tampouco. sendo acontecimento diário. a raiz latina de spondeo. A primeira intervenção do Poder Público de que se tem história nos moldes da vingança privada é a chamada Lei de Talião. claramente. uma reflexão sucinta de sua origem histórica. pois. a valoração dos fatos. evoluiu para uma reação individual fundamentada pela vingança privada. por mais breve que seja. surgindo dos fatos que sucedem habitualmente no mundo. 3 EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA RESPONSABILIDADE CIVIL A análise de qualquer tema que se propõe estudar requer. Posteriormente. significando a obrigação que alguém tem de assumir com os efeitos jurídicos de sua conduta. surge a óbvia conclusão de que o Direito. as primeiras formas organizadas de sociedade tinham a concepção de responsabilidade fundamentada na vingança coletiva. fórmula através da qual se vinculava no Direito Romano o devedor nos contratos verbais.22 Bem. E. Estudos do Direito Romano indicam que nos primórdios da civilização. se analisarmos a época dos fatos e a natureza humana sempre que tenta se proteger do mal sofrido. que se caracterizava pela reação conjunta do grupo contra o agressor pela ofensa a um de seus componentes. É cristalina a forma rudimentar diante da postura admitida. conforme a evolução social. porém compreensível. A norma jurídica representa. revelada. é acontecimento rotineiro na vida humana. que disciplinava os casos . ou seja. havia o direito de reagir pessoalmente diante da ofensa sofrida. quando foi reconhecida juridicamente e praticada nos moldes da atualidade. podemos afirmar que desde o início da civilização sempre existiu ao menos a noção desse instituto. contendo ainda. se a norma jurídica qualifica os fatos. tratando-se do instituto da responsabilidade civil não seria diferente. Essa valoração é essencial para conferir coercibilidade. No entanto. Não se sabe exatamente o momento histórico em que se originou a concepção de responsabilidade.

“quem com ferro fere com ferro será ferido”. e ao menos se cogitava a idéia de culpa. 2007. é que se formulou um conceito de culpa. sempre no aspecto econômico. e segundo a doutrina.23 em que era admitida ou excluída. Ingressa na órbita jurídica após ultrapassada. ou do ofendido quando se tratasse de delito privado. pelo contrário. Por consequência. p. mas compreensível do ponto de vista humano como lídima reação pessoal contra o mal sofrido (GAGLIANO e PAMPLONA FILHO. inicialmente grupal. O Poder Público somente intervinha para coibir abusos e declarar quando e como a vítima poderia ter o direito de retaliação. De fato. “dente por dente”. 2010. Somente a partir desse momento. p. Ao decorrer desse período surgiu a composição. ou seja. 10). nesta fase não havia diferença alguma entre responsabilidade civil e penal. as partes envolvidas concluíram que ao praticarem a retaliação não se reparava dano algum. dada a relevância de vingar. bem como nas civilizações pré-romanas. causavam duplo dano: o da vítima e o de seu ofensor. onde se permitia a reparação do mal pelo mal. a justiça era feita com as próprias mãos. a fase da reação imediata. no entanto. (SILVA. era sintetizada na fórmula “olho por olho”. passando pela sua institucionalização. fundada na idéia de devolução da injúria e na reparação do mal com mal igual. com a pena do talião. depois de punido. surgiu a Lex Aquilia damno que estabeleceu as bases da responsabilidade extracontratual. 4). A maioria dos doutrinadores consagram a Lex Aquilia como um marco da evolução histórica concernente a responsabilidade civil. a partir desse momento criou-se uma forma de indenizar o prejuízo com embasamento na fixação de seu valor. Neste período. pois através dela . pelo qual foram estabelecidas algumas condutas delituosas e a respectiva obrigação de reparar danos. Sendo assim. ou seja. a cobrança ficaria a critério da autoridade pública se o delito fosse público. forma por certo rudimentar. entre os povos primitivos. certa quantia em dinheiro. nas primeiras formas organizadas de sociedade. depois individual. a origem do instituto está calcada na concepção da vingança privada. já que qualquer dano causado a outra pessoa era considerado contrário ao direito natural. A partir de então. diante da observância do fato de que seria mais conveniente o autor da ofensa reparar o dano mediante o pagamento de uma poena.

os que defendem a sua presença como elementar na responsabilidade civil”. como remédio jurídico de caráter geral. 17). 18). imperícia e negligência) e dolosa do agente. que a idéia de culpa era estranha à Lei Aquilia. divide os autores. a moderna concepção da responsabilidade extracontratual (VENOSA. Entretanto. atinge dimensão ampla na época de Justiniano. p. do dano sofrido. independentemente da relação obrigacional preexistente. Desse modo. 06): “de um lado os que sustentam. houve também a expansão da responsabilidade civil no que diz respeito à sua extensão ou área de incidência. não havia distinção entre a responsabilidade civil da pena. Somente na Idade Média é que se estruturou a idéia de dolo e de culpa stricto sensu. Não obstante. segundo Pettefi da Silva (2009. aumentando-se o número de . mediante pagamento de uma contraprestação em dinheiro. 2009. p. Passou-se a partir de então. abstraindo-se a concepção de pena para substituí-la paulatinamente pela idéia de reparação. diante de diversos casos em que os danos se perpetuavam sem reparação pela impossibilidade de comprovação do elemento fundamental. distinguindo-se a responsabilidade civil da pena. seria obrigado a ressarcir o prejuízo. enorme controvérsia. a teoria clássica de culpa não conseguia atender todas as peculiaridades da vida em comum. Por essa razão denomina-se também responsabilidade aquiliana essa modalidade (VENOSA. seguida de uma elaboração da dogmática da culpa. a atribuir-se ao dano as condutas culposa (imprudência. Nesse sentido está o entendimento do doutrinador Silvio de Salvo Venosa: A Lex Aquilia é o divisor de águas da responsabilidade civil. como considera o ato ilícito uma figura autônoma. O sistema romano de responsabilidade extrai da interpretação da Lex Aquilia o princípio pelo qual se pune a culpa por danos injustamente provocados. Contudo. Contudo. de uso restrito a princípio. Funda-se aí a origem da responsabilidade extracontratual. Esse diploma. todo aquele que causasse danos a outrem. pois. surge desse modo. com amparo nos textos. 2009. a teoria da responsabilidade civil somente se estabeleceu por obra da doutrina.24 ensejaram-se as primeiras noções e conceito da responsabilidade extracontratual ou também denominada aquiliana. de outro lado. A composição permaneceu no Direito Romano com o caráter de pena privada e como reparação. p.

multa. Concernente a evolução histórica da responsabilidade civil no Brasil. inicialmente havia ainda uma certa confusão entre os aspectos civis e criminais. No início da formação de nossa sociedade. ainda que de modo sucinto. convém salientarmos. e por consequência influenciado por países estrangeiros em muitas áreas do direito e demais ciências. pelo fato ou em virtude do risco criado. entenderemos a razão da estruturação da responsabilidade civil tal qual como é hoje regulamentada. o que refere à modernização ao aplicar a doutrina e os preceitos jurisprudências já existentes. absorvendo paulatinamente. as inovações e influências dos ordenamentos jurídicos de outros países que não Portugal.1 Conceito de responsabilidade Civil . nos dias atuais. exclusivamente. de acordo com as peculiaridades de cada caso concreto. Em decorrência de tais fatos. enfatizando acima de tudo. o Brasil foi gradativamente estruturando sua legislação e doutrina. de beneficiários da indenização e de fatos que a ensejaram. que propugnavam pela reparação do dano decorrente. no entanto vigorava a premissa de reparação do dano causado mediante a comprovação de culpa. motivo pelo qual.25 pessoas responsáveis pelos danos. No entanto. 3. podemos observar que o ordenamento jurídico brasileiro submetia-se quase que totalmente ao lusitano. iniciou-se dentro do próprio preceito a ampliação do conceito de culpa e o acolhimento inusitado de novas teorias dogmáticas. Tais doutrinas. encontraram amparo nas legislações mais modernas. Devemos registrar que. Sobrevindo a independência. alguns de seus aspectos. sem aversão total à teoria tradicional da culpa. e reparação. a legislação brasileira adota e aplica na prática as teorias objetiva e subjetiva. sendo adotadas até mesmo pelo Código Civil brasileiro de 2002. Considerando que a nação brasileira é se comparada às outras civilizações um país novo. inclusive. no ordenamento colonial praticamente não havia distinções entre as noções de pena.

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Após breve análise dos aspectos históricos da responsabilidade civil, apreciaremos os principais elementos que a compõe. Lembrando que, o tema proposto constitui um dos mais problemáticos da atualidade jurídica ante a sua admirável progressão no direito moderno, seus reflexos nas atividades humanas, em sua repercussão em todas as ciências do Direito e na realidade social. Em razão da imensidão de campo, não há entendimento uniforme doutrinário e jurisprudencial quanto à definição de sua abrangência, à enunciação de seus pressupostos e à sua própria textura. Por essa razão, o vocábulo responsabilidade pode ser interpretado de várias formas, inclusive, tal entendimento pode ocorrer no ordenamento jurídico. Vulgarmente analisando, podemos dizer que responsabilidade é obrigação que alguém tem de responder pelas suas condutas. Juridicamente, está vinculado ao surgimento de uma obrigação derivada, ou seja, um dever legal sucessivo, em função da ocorrência de um fato jurídico em sentido amplo. A responsabilidade jurídica apresenta-se, destarte, quando houver prejuízo a um indivíduo, a coletividade, ou a ambos, desvirtuando a ordem social, hipótese em que a sociedade reagirá contra esses fatos, coagindo o causador a recompor o statu quo ante, a pagar uma indenização ou cumprir uma pena, com o objetivo de impedir que ele torne a causar o desequilíbrio social e de evitar que outras pessoas o imitem. Fernando Noronha, (2007), assevera que o vocábulo “responsabilidade” tem sua origem no termo latino spondeo, tirada do Direito Romano, a qual ligava o devedor nos contratos verbais”. O seu conceito legal, porém, vem disposto no artigo 927 do Código Civil de 2002 que diz:
Artigo 927. Aquele que, por ato ilícito, causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo. Parágrafo único. Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem.

Interpretando o artigo em epígrafe, Maria Helena Diniz (2008, p. 30) conceitua responsabilidade civil como a aplicação de medidas que obriguem uma pessoa a reparar um dano moral ou patrimonial causado a terceiros, em razão de ato por ela mesma praticado, por pessoa por quem ela responde, por alguma coisa a

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ela pertencente ou de simples imposição legal. Do referido conceito, verificamos que são duas as finalidades básicas da responsabilidade civil; a obrigação de indenizar (reparar o dano), objetivando a compensação da vítima pelo prejuízo sofrido; e a punição do agente ofensor, de modo a convencer a não mais cometê-lo, sob pena de ter que repará-lo. Segundo Regina Beatriz Tavares da Silva (2010, p. 6), a responsabilidade civil vem defendida por Savatier como obrigação que pode incubir uma pessoa a reparar o prejuízo causado a outra, por fato próprio, ou por fato de pessoas ou coisas que dela dependam. Convém observar que, o princípio que rege a responsabilidade civil é o unuscuique sua culpa nocet, o que significa que dentro da doutrina subjetiva cada um responde pela sua culpa, e por se tratar de Direito à pretensão reparatória, caberá ao autor, sempre o ônus da prova de tal culpa do réu. No entanto, existem situações em que o ordenamento jurídico confere a responsabilidade civil a alguém por dano que não foi causado diretamente por ele, mas sim por um terceiro com quem mantém algum tipo de relação jurídica. Nestas hipóteses, trata-se de uma responsabilidade civil indireta, em que o elemento culpa não é abandonado, mas sim presumido, em função do dever de vigilância a que está obrigado o réu.

3.2 Elementos da Responsabilidade Civil

Consolidou-se no direito a exigência à reparação que necessita da conjugação dos seguintes elementos: o dano, que se faz necessário, eis que, sem dano não há responsabilidade civil; a ação: que envolve tanto o ato comissivo como o ato omissivo e o nexo causal, ou seja, a relação de causalidade entre a ação e o dano. Observa-se que na linha de consideração que o princípio da culpa como requisito do direito à reparação não pode mais ser considerado como algo indispensável, eis que, como já fora afirmado anteriormente, a responsabilidade civil subsiste em hipóteses culposas ou não-culposas, erigindo-se o risco como uma das fundamentações de responsabilidade, tendo em vista certas atividades. Tornando-se

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indispensável, o estudo dos elementos principais que compõe a responsabilidade civil, para que possamos entender quando teremos direito à indenização do prejuízo causado nas hipóteses do tema em questão. Porém, a apresentação deste item visa apenas abordá-los de maneira sucinta, sem adentrarmos em maiores detalhes. Assim, os pressupostos da responsabilidade civil são: conduta humana (ação ou omissão do agente); nexo causal ou relação de causalidade; dano material ou moral. Note-se que não incluímos a culpa entre os elementos da responsabilidade civil, pois como iremos verificar no tópico seguinte, a responsabilidade objetiva é presumida ou sequer questionada. Isto porque, a culpa integra apenas as teorias de responsabilidade subjetiva, o que significa que não é prescindível, sendo, entretanto, muitas vezes secundária.
A culpa, portanto, não é um elemento essencial, mas sim acidental, pelo que reiteramos nosso entendimento de que os elementos básicos ou pressupostos gerais da responsabilidade civil são apenas três: a conduta humana (positiva ou negativa), o dano ou prejuízo, e o nexo de causalidade (GAGLIANO; PAMPLONA, 2003, p. 29).

A abolição total do conceito da culpa vai dar num resultado anti-social e amoral, dispensando a distinção entre o lícito e o ilícito, ou desatendendo à qualificação da boa ou má conduta, uma vez que o dever de reparar tanto corre para aquele que procede na conformidade da lei, quanto para aquele outro que age ao seu arrepio (PEREIRA, 2006, p. 391).
Genericamente entendida, é, pois, fundo animador do ato ilícito, da injúria, ofensa ou má conduta imputável. Nesta figura encontram-se dois elementos: o objetivo, expressado na iliceidade, e o subjetivo, do mau procedimento imputável. A conduta reprovável, por sua parte compreende duas projeções: o dolo, no qual se identifica à vontade direta de prejudicar, configura a culpa no sentido amplo; e a simples negligência (negligentia, imprudentia, ignavia) em relação ao direito alheio, que vem a ser a culpa no sentido restrito e rigorosamente técnico (DIAS, 2006, p.121).

A culpa é a falta de diligência na observância da norma de conduta, isto é, o desprezo, por parte do agente, do esforço necessário para observá-la, com resultado, não objetivado, mas previsível, desde que o agente se detivesse na consideração das consequências eventuais da sua atitude (DIAS, 2006, p. 123).

Sérgio Cavalieri Filho (2009. não há que se falar em ação humana. com ou sem culpa.2. em responsabilidade civil. é necessária a existência de uma ação voluntária do agente. seja ela positiva ou negativa (omissiva). que cause dano a outrem. comissivo ou omissivo. ou o fato de animal ou coisa inanimada. seja contratual ou extracontratual. pois somente o homem através de seus atos ou por meio das pessoas jurídicas que forma. ou por danos causados por animais ou coisas sob sua guarda. curatelados. 3. p. ilícito ou lícito. portanto. O ato humano.1 Conduta Humana O primeiro elemento da responsabilidade civil é a conduta humana.2 Espécies de Dano: Moral e Material O segundo elemento constitutivo da responsabilidade civil é dano ou prejuízo. 37) prefere não diferenciar ação comissiva de omissiva. e. Conduta é gênero de que são espécies a ação e a omissão”. muito menos. poderá ser civilmente responsabilizado. conforme se configure responsabilidade subjetiva ou objetiva. Não havendo essa voluntariedade. p. A responsabilidade civil do agente só pode ser gerada por conduta própria. objetiva ou . p. gerando o dever de satisfazer os direitos do lesado (DINIZ. Donde concluímos que o ato que gera o dano pode ser uma ação ou omissão do agente. voluntário e objetivamente imputável. tutelados. de terceiros sejam filhos menores. 2010. com discernimento necessário para ter consciência daquilo que faz”. educandos ou empregados que estejam sob sua responsabilidade. que causa exatamente a liberdade de escolha do agente imputável. Para os doutrinadores Glagliano e Pamplona Filho (2007.2.29 3. 30). do próprio agente ou de terceiro. o núcleo fundamental da noção de conduta é “a voluntariedade. 37). Indistintamente da espécie. Ou seja. chamando a ambas simplesmente de conduta humana “porque abrange as duas formas de exteriorização da atividade humana.

independentemente do tipo de dano (se material ou moral. o dano constitui o seu elemento preponderante. ou seja. O dano também pode ser direto ou indireto. Tanto é assim que. toda lesão ou destruição advinda de um certo evento. 40) Os efeitos do dano. na chamada responsabilidade civil direta ou indireta. ou bens que não diretamente relacionados ao fato lesivo. respectivamente. mas não pode responsabilidade sem dano. Pode ser também direta ou indireta a causalidade. diminuindo. quando causam prejuízo direto à vítima. cujo resultado. qualquer que seja a modalidade do risco que lhe sirva de fundamento – risco profissional. pois não há possibilidade de se indenizar prejuízo incerto. se houver um prejuízo. Na responsabilidade objetiva. seja este causado direta ou indiretamente pelo agente. Desta forma. a relação entre dano e consequência. sem dano. dano é o que basicamente se configura como lesão aos interesses de outrem. se causarem prejuízos à vítima por seus efeitos ou repercussões. é o de maior evidência e o de mais fácil mensuração por se tratar de lesão que afeta o patrimônio da vítima. ou deteriorando o . risco criado etc. 2009. a saber: pode ser dano causado à própria vítima. ou a objeto seu. contra sua vontade. nem em ressarcimento. pois. -. Demais disso. não haverá o que reparar. são de causalidade direta. sofre uma pessoa. Igualmente convém esclarecer que é preciso que o dano seja subsistente. ou mesmo ambos). ou a alguém de sua família ou terceiros que lhe digam respeito. o dano material. o dano pode ser de duas vertentes: material e moral. Contudo. uma violação ao direito. também chamado de dano patrimonial. continue a existir e lesar o ofendido no momento em que estiver sendo exigida sua reparação em juízo. Considera-se dano. o ato ilícito somente reflete na esfera do Direito Civil se causar prejuízo a alguém. se não houvesse dano. ainda que a conduta tenha sido culposa ou até dolosa (CAVALIERI FILHO. Pode haver responsabilidade sem culpa. são chamados de causalidade direta. Desta forma. p. sem dúvida. o grande vilão da responsabilidade civil. O dano é. somente será possível pleitear indenização. seja de natureza patrimonial ou não. Não haveria que se falar em indenização. patrimonial ou moral. Assim. é necessário que o dano seja concreto. o dano é requisito indispensável para sua configuração. seja extinguindo uma parte dele. risco proveito. em qualquer bem ou interesse jurídico.30 subjetiva.

temos o nexo de causalidade.3 Nexo de Causalidade Como terceiro e último requisito à configuração da responsabilidade civil. Normalmente. apenas se poderá responsabilizar alguém cujo comportamento . é o dano passível de avaliação pecuniária. ou não pode acrescer em seu patrimônio. portanto. dor ou incômodo causado à vítima a partir do dano. qual o efetivo valor destes sentimentos. que variam imensamente em cada pessoa? E quando não é possível ou não ocorreu o dano material. pelas características próprias. em critérios objetivos. Neste tipo de dano.2. em função do dano causado). Pode-se concluir que o dano moral é a indenização que tem caráter de satisfação e compensação à vítima e vale como pena pecuniária adicional para o agente. Já. conseqüentemente. o dano material é objetivamente avaliado em dinheiro (valor perdido ou que se deixou de auferir). 3. isto porque não podem pairar suspeitas de enriquecimento sem causa por parte da vítima. corresponde a uma indenização de valor idêntico à perda. Enfim. quando causa lesão ao patrimônio da vítima ou à sua pessoa de imediato. da honradez. Outras dificuldades comuns estão em medir o tamanho do decoro. e se não passível de reparação. por outra. da dignidade atingidos. Nota-se que. Entende-se como nexo de causalidade o elo etiológico que une a conduta do agente (positiva ou negativa) ao dano.31 mesmo. abrange-se o dano chamado emergente (o patrimônio perdido) e o lucro cessante (aquele que a vítima deixou de lucrar. quando suas consequências é que atingem a vítima. Englobam-se no dano patrimonial a privação do uso de coisa. ser direto. a diminuição do seu uso. ou. a ofensa ou calúnia que efetivamente reflitam na vida profissional ou negócios da vítima. consistindo na compensação pela perda. comprovar o dano moral e equacionar sua indenização é. o dano material pode. tarefa árdua. de seu sofrimento ou padecimento. a diminuição da capacidade para o trabalho. ou indireto. Assim. o dano moral é mais subjetivo que o dano material. o dano moral é de difícil mensuração devido à dificuldade em se avaliar sua extensão.

as quais veremos no tópico seguinte. na multiplicidade de fatores causais. Assim. as quais não configuram culpa do agente. posto que para isto não concorresse. desloca-se para o terreno do nexo causal. e não da culpa. causa sua morte. 3. há algumas causas excludentes. Seu atropelador não poderá ser responsabilizado. Efetivamente quem causou a morte foi terceiro alheio e este é o único causador do evento. p. aquele que normalmente pode ser o centro do nexo de causalidade (PEREIRA. em nosso Direito é a adequação da causa ao dano. 74). ela termine por cair sob as rodas de outro automóvel. O problema. ainda que à primeira vista o agente seja o causador do mesmo. hodiernamente. É a pessoa que efetivamente causou o dano. ao atropelá-la. a teoria pode assim ser resumida: o problema da relação de causalidade é uma questão científica de probabilidade. Assim. como ocorre nas hipóteses de caso fortuito. há que destacar aquele que está em condições de necessariamente tê-lo produzido. aquele que aparenta ser o agente causador não é mais que mero instrumento do dano. suponhamos que no exemplo acima. p. a doutrina que se constrói neste processo técnico se diz da ‘causalidade adequada’ porque faz salientar.32 houvesse dado causa ao prejuízo. Dentre os antecedentes do dano. 79). de forma geral. há casos em que prevalecem as excludentes do nexo causal. A boa técnica recomenda falar em fato exclusivo da vítima. o atropelador não mate sua vítima. 2009. o que se aplica. Assim. O direito italiano fala em relevância do comportamento da vítima para os fins de nexo de causalidade material (CAVALIERI FILHO. O fato de terceiro é outro elemento afastado do nexo causal. que enfim. força maior ou culpa exclusiva da vítima. Não resta ao primeiro motorista . mas que. Salienta-se que. 2006. Um exemplo simples seria o da vítima que se atira sob as rodas de um carro. em lugar da culpa exclusiva.3 Das excludentes da responsabilidade Civil Na responsabilidade civil. mencionado por Caio Mário Pereira: Em linhas gerais e sucintas. sendo apontada como a única responsável. A própria vítima pode provocar o dano. Em consequência. como se viu.

resta o caso fortuito ou força maior. 2010. um tufão destruidor em regiões não sujeitas a esse fenômeno. isto é. tendo o mesmo efeito. e tem fim a responsabilidade civil. mesmo com toda diligência com a mecânica do carro. Encontramos no fato jurídico extraordinário: caso fortuito e força maior. por sua imprevisibilidade e inevitabilidade. inevitável. (STOCO. 81). p. p. Força maior é “o evento humano que. por exemplo. embargo para suspensão de uma obra etc. 2008. Mantendo-nos no mesmo exemplo. sendo exemplos: guerra. mas poderá deixar de sê-lo se não afetar totalmente o cumprimento do ajuste. Os fatos jurídicos extraordinários caracterizam-se pela sua eventualidade. Caso fortuito é. caso fortuito é “todo aquele imprevisível e. por exemplo. Comprovando-se que tenha sido fato inevitável. desapropriação. cria para o contratado impossibilidade intransponível de regular execução do contrato” (DINIZ. invasão de território. ou verem-lhe faltar os freios. porém é inevitável. além das próprias forças que o indivíduo possua para se contrapor. os dois termos como sinônimos há uma diferença fixada. Embora a legislação encare. sendo o caso de força maior aquele que pode até ser previsível. revolução. e etc. com as mesmas características de imprevisibilidade e inevitabilidade. os fenômenos da natureza. deslocando-o do alcance do agente do dano. ou outro qualquer fato. Por último. por isso. Segundo a melhor doutrina. por exemplo. praticamente. 48). desatrela-se a relação de causalidade.33 responsabilidade sobre o fato gerado. ou uma inundação imprevisível que cubra o local da obra. Assim. equivaleria ao motorista atropelador ter subitamente um pneu furado. 125). sem culpa de qualquer das partes. tais como tempestades. greve.. A força maior evidencia um acontecimento resultante do ato alheio (fato de outrem) que supere os meios de que se dispõe para evitá-lo.” (PEREIRA. sentença judicial específica que impeça o cumprimento da obrigação assumida.. ou se o contratado contar com outros meios para contornar a incidência de seus efeitos no contrato. 2006. o de desviar o nexo causal. não . que equivalem ao fato de terceiro. em que nada se poderia fazer para evitar o desfecho. que venha impossibilitar totalmente a execução do contrato ou retardar o seu andamento. uma greve que paralise os transportes ou a fabricação de um produto de que dependa a execução do contrato é força maior. furacões. p.

É o caso. é necessária a observação de certas circunstâncias. São eles: caso fortuito ou força maior e “factum principis”. São eventualidades que. não pode haver caso fortuito ou força maior que justifiquem o descumprimento contratual. porém. Também não são provenientes da volição humana. apresentar a intervenção do homem em sua formação. podem escusar o sujeito passivo de uma relação jurídica pelo não cumprimento da obrigação estipulada. como também de criar novas relações de direito. Porém. tais como a inevitabilidade do acontecimento e a ausência de culpa das partes envolvidas na relação afetada. Caso não haja a presença de qualquer destes requisitos. de uma tempestade que provoque o desabamento de uma ponte por onde deveria passar um carregamento confiado a uma transportadora. para que determinado caso fortuito ou força maior possa excluir a obrigação estipulada em um contrato. quando ocorrem. por exemplo. Como já foi visto caso fortuito ou força maior são fatos capazes de modificar os efeitos de relações jurídicas já existentes. É interessante falar que diante de tal situação e da impossibilidade da continuação do itinerário.34 acontecendo necessariamente no dia-a-dia. . a transportadora livra-se da responsabilidade pela entrega atrasada do material. podendo.

35 4 CLASSIFICAÇÃO DAS TEORIAS QUE ABORDAM A RESPONSABILIDADE CIVIL São vários os critérios e os tipos de classificação da responsabilidade civil apresentados pela doutrina. de ilícito contratual. por isso decorre de relação obrigacional preexistente e pressupõe capacidade para contratar. competirá ao devedor. porém basicamente. ou seja. que deverá provar. portanto. destacando-se também a responsabilidade pelo risco. logo. 4. na responsabilidade contratual. A responsabilidade contratual.1 Responsabilidade Civil Contratual e extracontratual A responsabilidade contratual se origina da inexecução contratual. de falta de adimplemento ou da mora no cumprimento de qualquer obrigação. O ônus da prova. basta provar o inadimplemento. de que trata o artigo 389 do Código Civil. para que exista é imprescindível à preexistência de uma obrigação. e para os fins do presente estudo. o mesmo deverá provar que o fato ocorreu devido a caso fortuito ou força maior. classifica-se a responsabilidade civil em responsabilidade contratual e extracontratual. A responsabilidade contratual é o resultado da violação de uma obrigação anterior. . não precisa o contratante provar a culpa do inadimplente. ante o inadimplemento. Pode ser de um negócio jurídico bilateral ou unilateral. Resulta. ainda em responsabilidade subjetiva e objetiva. É uma infração a um dever especial estabelecido pela vontade dos contratantes. a inexistência de sua culpa ou presença de qualquer excludente do dever de indenizar. para obter reparação das perdas e danos.

por não estarem ligadas por uma relação obrigacional. onde a loja. ao contrário da contratual. Mas poderá abranger ainda a responsabilidade sem culpa. ou seja. na responsabilidade extracontratual. quando se dispensa a prova da culpa do agente. A fonte desta inobservância é a lei. 2002). Já. 4. tem a obrigação de trocá-lo ou indenizar o cliente no caso de vício ou defeito. na verdade. Codigo Civil. da prática de um ato ilícito por pessoa capaz ou incapaz. caberá a vítima provar a culpa do agente. também chamada de aquiliana. e a dispensa da culpa. Não cumprida à obrigação. É a lesão a um direito sem que entre o ofensor e o ofendido preexista qualquer relação jurídica. também comum.36 Art. Duas são as modalidades de responsabilidade civil extracontratual quanto ao fundamento: a subjetiva e a objetiva. é presumida. o lesado deverá provar para obter reparação que o agente agiu com imprudência ou negligência. bastando que haja relação entre o dano experimentado e o ato do agente. A princípio a responsabilidade extracontratual baseia-se pelo menos na culpa. quando um veículo é furtado. temos a chamada culpa presumida. A atitude seja dolosa ou culposa do agente causador é irrelevante. se resulta do inadimplemento normativo. ou . é o que vemos nos estacionamentos de shoppings. mais juros e atualização monetária segundo índices oficiais regularmente estabelecidos. visto que não há vínculo anterior entre as partes. Caso clássico é o previsto no código de defesa do consumidor. baseada no risco. responde o devedor por perdas e danos. e honorários de advogado (BRASIL. ou responsabilidade objetiva imprópria. embora não fabrique o produto. A culpa. Outro. O estabelecimento responde pelo dano mesmo não tendo concorrido para a culpa. Dentro da modalidade objetiva de responsabilidade. 389. Aqui.2 Responsabilidade Civil Objetiva É a novidade introduzida pelo código Civil de 2002. da violação de um devedor fundado em algum princípio geral de direito.

O lesado será obrigado a provar a culpa do lesante na produção do dano (DINIZ. relativamente à responsabilidade indireta. com a qual tem o vínculo legal de responsabilidade (é o que ocorre com. sem haver culpa. Será indireta apenas nas situações previstas em leis. mesmo que não tenha agido culposamente. Porém. cabendo. donos de edifícios. A responsabilidade será individual. quando o agente responder pelo ato próprio. pais. podendo ser direita e indireta. se comprovada. Estamos em face da responsabilidade legal ou objetiva. sem a qual não há responsabilidade. a ideia central é a da formação da culpa.37 responsabilidade objetiva própria. 213). Entretanto. 2010. etc). o imputado responderá por até a terceira pessoa. habitantes de casas. em determinadas situações. pelas coisas caldas ou lançadas. nas quais se admite culpa presumida.3 Responsabilidade Civil subjetiva Neste tipo de responsabilidade civil. e não há responsabilidade penal. fecha a teoria da responsabilidade subjetiva. Mas a responsabilidade penal. aquele que através de sua atividade cria um risco ou dano para terceiros deve ser obrigado a repará-lo. bastando que exista relação de causalidade entre o dano experimentado pela vítima e o ato do agente. a certas pessoas. é por fato de animal ou coisas inanimadas sob sua guarda (como sucede com danos ou detentores de animais. indenização. a lei impõe. consagrada em nosso ordenamento pátrio desde o código anterior. onde o comportamento do agente é irrelevante. posto que não existe este debate na área penal. a reparação do dano cometido sem culpa. tutores. deve ser comprovada a culpa do . Voltemos à teoria subjetiva: neste caso. curadores. p. Segundo o que dispõe Maria Helena Diniz que “será direta. via de regra. Dentro desta. pois aqui vale a teoria do risco e segundo esta. etc). além da pena. Despiciendo dizer que falamos da abrangência civil. encerrando o processo na esfera civil: quem é culpado na área criminal o será na área civil. operando-se conseqüentemente a inversão do ônus probandi”. 4. não há ilícito.

é a ela que cabe o ônus probandi. A culpa gerará a obrigação de indenizar. provar a extensão do dano moral aduzido fica extremamente prejudicado. p. e comentando a gradação culpa/indenização. nos casos de responsabilidade objetiva ou sem culpa. 2008. como conciliar a contradição entre indenizar por inteiro quando se tratar de responsabilidade objetiva e impor indenização reduzida ou parcial porque o agente atuou com culpa leve. contra a sua vontade. segundo nos parece. ou seja. em qualquer interesse ou bem jurídico.38 agente. Deve a vítima provar a culpa e o dano causado pelo agente. O dolo não obrigatoriamente estará presente. dano é a lesão (destruição ou diminuição) que. Segundo Gustavo Passarelli da Silva. sofre uma pessoa. por exemplo. se na primeira hipótese sequer se exige culpa? (STOCCO. conduta culposa. 4. É óbvio que não há responsabilidade civil onde não existe prejuízo. Aliás. não em dolo ou culpa strictu sensu. evidentemente. pela própria dificuldade que a vítima tem de provar a culpa do agente. Somente aquele que preenche certos requisitos: certeza. Assim. O elemento constitutivo desta teoria é o dano: é o elemento ou requisito essencial na etiologia da responsabilidade civil. A respeito do art. 944 do código civil brasileiro. p. (2010. 11) “a responsabilidade subjetiva se inspira na idéia de culpa. de modo que a responsabilidade do agente causador do dano só se configura se agiu culposa ou dolosamente”. foi largamente criticada. nexo causal entre a ação ou omissão do agente e o dano produzido. Esta é a teoria clássica. Aqui se fala em culpa lato sensu. podendo ter ocorrido mera imprudência.4 Responsabilidade Civil objetiva e teoria do risco . Por outro lado. Deve haver. 13) Esta teoria. rompe com a teoria da restitutio integrum ao facultar ao juiz reduzir. Nem todo dano é ressarcível. devendo haver prova da culpa como pressuposto da obrigação de indenizar. que obrigatoriamente envolve a prova da culpa. devido a certo evento. Ao adotar e fazer retornar os critérios de graus da culpa obrou mal. subsistência e atualidade. pois o dano material não pode sofrer influência dessa gradação se comprovado que o agente agiu culposamente ou que há nexo de causa e efeito entre a conduta e o resultado danoso. Rui Stocco sabiamente alerta: Também o parágrafo único desse artigo. a indenização se houver ‘excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano’. moral ou patrimonial. eqüitativamente.

por ato ilícito (arts. Isto induz a uma habitualidade. Código Civil de 2002). nos casos especificados em lei. e exerça esta atividade de risco com fins lucrativos. Senão. nos casos previstos em lei. (2007). 2002). como risco criado. risco integral. Haverá obrigação de reparar o dano. por sua natureza. é dela (da responsabilidade objetiva) que brota. 927 do CC/2002: Art. pressupondo um meio de vida. levando em consideração o que é atividade de risco. Codigo Civil. 927. No seu parágrafo único. fica obrigado a repará-lo. e “causar a pessoa determinada um ônus maior do que aos demais membros da coletividade” (BRASIL. entende que “a teoria do risco não se justifica desde que não haja proveito para o agente causador do dano. Mas existem outras teorias de risco. ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar. surgirá a obrigação indenizatória ou reparatória à atividade do agente que tenha causado danos. Aquele que. Parágrafo único. Na verdade. que a lei deixou silenciosa. causar dano a outrem.39 Confunde-se enormemente com a teoria objetiva da responsabilidade civil. portanto. Fica à mercê do magistrado. Aqui se fala no chamado risco-proveito. verifica-se que questão é como interpretar a responsabilidade civil sobre o risco assumido. porquanto. posto que aqui se trata de responsabilidade objetiva. Assim. Pablo Stolze Gagliano e Rodolfo Pamplona Filho. vejamos o art. Não importando qual a caracterização do risco. 186 e 187). mas também uma previsibilidade dos riscos que podem ferir direitos de terceiros. o artigo prevê a obrigatoriedade de reparar o dano. nos acidentes de trabalho e outros. No entanto. o que corresponde à responsabilidade objetiva. e que a vítima deve provar. esta interpretação. uma profissão. que tem fim lucrativo. um grau de especialização. qual o grau assumido que independe de culpa. sobre o risco habitual. quando a atividade normalmente desenvolvida pelo agente implicar em risco para direitos de outrem. risco profissional e risco excepcional. risco para os direitos de outrem (BRASIL. na sua ausência deixa de ter fundamento à teoria”. se o proveito é a razão de ser justificativa de arcar o agente com os riscos. Aqui não se trata simplesmente de responsabilidade objetiva. independentemente de culpa. como no código do consumidor. pecuniário. trata-se de provar o dano .

pois sempre existirão casos em que um destes critérios se revelará manifestamente insuficiente. e em que grau e com que nexo ocorreu. mas sim completá-la. A teoria do risco não vem substituir a teoria subjetiva. seja através de novas disposições legais. continuam a ser exceções abertas ao postulado tradicional da responsabilidade subjetiva (FARIAS e ROSENVALD. por mais numerosas que sejam. que vem ampliando seu campo de aplicação. apesar dos progressos da responsabilidade objetiva. 2006). Peca o Código Civil por uma falta de exatidão. seja em razão das decisões dos nossos tribunais. . pois. A responsabilidade civil não pode assentar-se exclusivamente na culpa ou no risco.40 em função de um risco assumido pelo agente. não sistematiza a responsabilidade por risco. posto que enquanto prevê a responsabilidade objetiva e suas normas.

mas por um fato seu o defendente detém o desenvolvimento de uma série de acontecimentos que poderiam oferecer a chance de ganhar ou de perder. 29 30 NORONHA. caso não tivesse ocorrido o fato.41 5 TEORIA DA PERDA DE UMA CHANCE Por um longo período. Responsabilidade Civil pela Perda de uma Chance. os Tribunais costumavam exigir. se está perante situações em que está em curso um processo que propicia a uma pessoa a oportunidade de vir a obter no futuro algo benéfico29. Figura-se o fato de uma situação que já é definitiva e que nada modificará. São Paulo: Atlas. já há algum tempo. teria conseguido o resultado que se dizia interrompido. 2003. A teoria da perda da chance embasa o direito à reparação em virtude da perda da oportunidade de alcançar determinado resultado ou evitar determinado prejuízo. por parte da vítima que alegava a perda de uma chance. Todavia. elementos e reflexos nesses dois pressupostos da responsabilidade30. prova inequívoca de que. p. a doutrina e a jurisprudência começaram a perceber a importância da chamada responsabilidade pela perda de uma chance. tendo. 665. na verdade. Quando se fala em chance. PETTEFI DA SILVA. por sua culpa. Direito das Obrigações. priva o defendente de realizar um ganho ou evitar uma perda. quando o demandante. 2007 . outros relacionam com a questão do nexo causal. tendo como fundamento que aquilo que não aconteceu não poderia nunca ser objeto de certeza ao ponto de propiciar uma reparação. Nas palavras de Caio Mário da Silva Pereira (2006): O problema surge. notadamente. Rafael. São Paulo: Saraiva. o direito ignorou a possibilidade de se responsabilizar o autor do dano decorrente da perda de alguém obter uma oportunidade de chances ou de evitar um prejuízo. A partir dessa constatação se pode compreender a hipótese de responsabilidade pela perda de uma chance que alguns autores classificam como espécie de dano. Fernando. Nesse sentido.

notadamente.] quando determinado acontecimento não ocorreu. 41. 5.42 Segundo Vera Maria Jacob Fradera. por sua culpa. mas a atuação do médico tornou-o impossível. Desse modo. é a frustração de uma expectativa. ou de se evitar um prejuízo.. (2004). a teoria ficou conhecida como teoria da perda de uma chance de cura ou de sobrevivência. a teoria é um legado dos tribunais franceses ao julgarem os médicos daquele país sob o enfoque da responsabilidade civil. de maneira eficaz. O evento teria sido possível. mas poderia ter ocorrido. 31 CAVALIERI FILHO. passível de reparação. quando da verificação da responsabilidade civil de um médico pela perda da chance de cura ou de sobrevivência de um paciente. Programa de Responsabilidade Civil. p. 32 PEREIRA. provocou a perda de uma chance. dizendo que ‘o fato do qual depende o prejuízo está consumado32. Sérgio. 2006. o problema surge. por si mesmo ou através de intervenção de terceiro. Foi o que decidiu a Corte de Cassação francesa. A falta. reside em não se dar ao paciente todas as chances de cura ou de sobrevivência31. de uma esperança. quando o demandante. priva o defendente de realizar um ganho ou evitar uma perda. destarte. p. 7ª ed. 2007.1 A origem desta teoria e o direito que dela resulta A teoria da perda de uma chance tem sua origem na jurisprudência francesa. Para Caio da Silva Pereira. Essa teoria busca. Atlas. mas por um fato seu o defendente detém o desenvolvimento de uma série de acontecimentos que poderiam oferecer a chance de ganhar ou de perder. na perda de uma probabilidade. Importante frisar que: o que se perde é a chance da cura e não a continuidade da vida. em que o elemento que determina a indenização é a perda de uma chance de resultado favorável no tratamento. Figura-se o fato de uma situação que já é definitiva e que nada modificará. Aplicada à atividade médica. em outras palavras. A perda de uma chance.. 75. . indenizar um dano ocorrido ao se considerar a perda de uma chance de se obter um lucro. Afirmam os Mazeaud. São Paulo: Ed. como um dano real. concretiza-se a perda de uma chance: [.

da possibilidade de reparação da vítima pela perda de uma oportunidade de cura ou sobrevivência decorrente de omissão do médico.. 11-14. 190-193. revista e atualizada pelo Prof. José Serpa Santa Maria. Deve se frisar que a teoria da perda de uma chance ou perte d’une chance tem origem na jurisprudência da Corte de Cassação Francesa. CAVALIERI FILHO. p. ed.358-362. Rio de Janeiro: Freitas Bastos. a qual se relacionou. ed. A partir deste caso particular. Responsabilidade civil do advogado. Sílvio. 9. dentre outros. Miguel Maria de. V. Responsabilidade Civil. 296-297 e 720-721. pelos seguintes autores: ALVIM. Rio de Janeiro: Forense. p. revista. Da Responsabilidade Civil. 2829. p. p. AGUIAR DIAS. ed. é relativamente nova.43 Formulando algumas hipóteses de chances de ganho ou de perda. ed. ganhar um concurso. SERPA LOPES. Sérgio. dizem eles que decidir assim seria ‘raciocinar mal’. ainda que de forma sucinta. v. discutem se há um dano reparável. 391. 2000. p. ANDRADE. ausência de critérios argumentativos que tragam uniformidade aos casos (BRASIL. Direito Civil: responsabilidade civil. admite-se a perda de uma chance de resultado favorável no tratamento. MARTINS-COSTA. José de. 10. No Brasil. 7. e passa a constituir uma categoria autônoma de dano material. inicialmente. 2003. a teoria é hoje aceita pela doutrina e jurisprudência majoritárias33. Os Danos Extrapa-trimoniais. 33 Na doutrina brasileira. SANTOS. 2002. 26-28. como elemento prejudicial determinante da reparação. a teoria rapidamente se expande. Sérgio. 2002). de responsabilidade civil por erro médico. 9192. a adoção da responsabilidade civil baseada na perda de uma chance. E exemplificam: vencer uma corrida de cavalos. dano e nexo de causalidade). 2003. Quando é difícil a prova do nexo de causalidade entre o ato ou omissão culposos do médico e o dano experimentado pelo paciente. Rio de Janeiro: Malheiros. SEVERO. sendo progressivamente assimilada pelas jurisprudências de diversos países.. São Paulo: Atlas. ser vitorioso numa demanda. 3. E: Do inadimplemento das obrigações. Curso de Direito Civil. Rio de Janeiro . 1995. enfatizando o resultado lesivo. 3. atualizada. p. com questães.178179 e 197-201. Código Civil. PEREIRA. Dano Moral Indenizável. 2 v. Fábio Siebeneichler. ed. p. VENOSA. 1965. 2006). Desse inconvenientes modo. São Paulo: Saraiva. 40-43. . p. ainda. Da Inexe-cução das Obrigações e suas Consequências. (PEREIRA. Comentários ao Novo Código Civil. António Jeová. p. t.São Paulo: Editora Jurídica e Universitária. existentes a idéia na central da teoria dos consiste em explicitar da comprovação elementos formadores responsabilidade subjetiva (culpa. Programa de Responsabilidade Civil. 1996. No Brasil. Rio de Janeiro: Forense. Indagam os Mazeaud: ‘Como avaliar então tal prejuízo?’ Respondendo. ed. o que se configura na categoria de ‘perda de uma chance’ (perte d’une chance). a responsabilidade civil por perda de uma chance foi objeto de análise. ed. Caio Mário da Silva. 108-112. Agostinho. 2003. aumentada e atualizada de acordo com o novo Código Civil. uma vez que o Código Civil de 2002 não fez menção a ela. ampliada. São Paulo: Lejus. Existe. Judith. 4. in RT 697. 1999. Seu estudo e aplicação ficam a cargo da doutrina e jurisprudência. p. 2.. Rio de Janeiro: Forense.

necessária à ocorrência do dano. poderia integrar o dano sofrido a perda desta chance. Vale ressaltar que a incerteza deve dizer respeito apenas à ocorrência do resultado. A segunda questão de relevo que se coloca é a da quantificação da perda de uma chance. a chance deve ser séria e real. o que leva alguns doutrinadores a defender a abolição do instituto. na maioria dos casos. uma vez que tal probabilidade. Neste ponto é que se colocam as mais sérias dificuldades da teoria. Certo é que não deve ter por base apenas o evento futuro incerto. O nexo de causalidade entre a conduta e a perda da chance. a teoria da perda de uma chance hoje enquadra o amplo rol de inovações feitas à teoria clássica da responsabilidade civil com o objetivo de promover a ampla . deixa de prestar um concurso público no qual depositava grandes expectativas profissionais. deve direta e imediatamente dar causa à perda de uma oportunidade. Ambos dizem respeito a algo que a vítima deixou de ganhar. Partindo desta premissa.44 Uma das primeiras questões que se coloca quando se trata da teoria é a diferenciação entre lucros cessantes e perda de uma chance. pois nenhuma oportunidade palpável terá sido perdida. no caso da perda de uma chance. é um dado de difícil apuração. deve ser certo e aferível. no caso do exemplo apresentado. por sua vez. a Suprema Corte Suíça. não há necessidade de certeza alguma. A aplicação do instituto acaba por depender excessivamente da percepção subjetiva do juiz. Ademais. e o que se perde é apenas uma oportunidade. se alguém. A conduta. na decisão de um “leading case” em 17 de Junho de 2007. mas sim a oportunidade perdida. Assim. e do nexo de causalidade. mas. Assim os possíveis ganhos patrimoniais deverão ser ponderados pela probabilidade de ocorrência das demais circunstâncias que levariam a sua efetiva percepção pela vítima. refutou a aplicação do instituto em prol de uma interpretação mais clássica da legislação de responsabilidade civil suíça. baseando-se na necessidade de certeza para caracterização do dano. Em face das dificuldades enfrentadas pelos aplicadores do instituto. se no caso dos lucros cessantes o resultado deve ser certo. referente à responsabilidade por erro médico. deve ficar comprovado que do acidente resultou a impossibilidade de prestar o concurso. A probabilidade excessivamente reduzida de ocorrência do evento gera a descaracterização do instituto. por conta de um acidente. Assim.

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reparação da vítima. Este processo, que atinge a teoria como um todo, indo desde a relativização da culpa até flexibilização do nexo causal atinge também as classificações clássicas do dano, incluindo categorias novas, dentre as quais figuram com destaque a teoria da perda de uma chance e a teoria do dano punitivo. 5.1.1 aplicação da teoria da perda de uma chance nas cortes internacionais

Deve-se frisar que a Corte de Cassação francesa “pode ser considerada a mais criativa em relação às possibilidades de utilização da teoria da perda de uma chance”, que vem sendo objeto de julgamento na jurisprudência francesa. São os citados casos de chances de lograr êxito em um jogo de azar ou em uma competição esportiva, a perda de chances pela quebra do dever de informar, chances perdidas de auferir melhor condição social no futuro e de obter alimentos, além de vários outros casos julgados em matéria contenciosa e em matéria empresarial. No que concerne à reparação das chances perdidas em matéria contenciosa na jurisprudência francesa, Peteffi (2009), relembra que “a primeira utilização da noção de perda de uma chance de que se tem notícia foi observada quando da falha de um auxiliar de justiça”. A Corte de Cassação francesa se divide em duas correntes com relação a estes casos. Para que haja a concessão da reparação de acordo com a primeira corrente é suficiente à probabilidade de procedência da demanda perdida em razão da falha profissional, mais para a outra corrente jurisprudencial francesa, “a fraqueza da chance apresentada não é motivo suficiente para gerar a improcedência da demanda, mas apenas um baixo valor de indenização”. Kfouri (2002), complementa, com relação à aplicação da teoria da perda de uma chance relativamente à área médica, que a jurisprudência civil francesa “aplica a noção de perda de uma chance de cura ou sobrevivência, modo geral, a todo caso de culpa médica, seja em se tratando de erro de diagnóstico, tratamento ou cuidados médicos”. Para demonstrar como vem se dando esta aplicação, o autor exemplifica:
A Corte de Cassação referendou julgado da Corte de Paris, condenou-se cirurgião que se fez assistir, durante a cirurgia, por outro médico não especialista em anestesia. Durante a indução anestésica, efetuada por este

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último, a paciente sofreu uma crise de apnéia, seguida de distúrbios cardíacos. Transportada, em coma, ao hospital, a mulher morreu dias mais tarde. A culpa do cirurgião foi reconhecida pelos peritos da Corte de Paris: por falta de diligência, o cirurgião ocasionou a perda de uma chance de sobrevivência à paciente.

Peteffi (2009), traz, a título exemplificativo, um julgado datado de 1966, da Corte de Apelação de Paris:
Em 10 de março de 1966, a Corte de Apelação de Paris julgou um caso em que uma mulher, após dar à luz um bebê, foi acometida de forte hemorragia, em função da qual veio a falecer. A Corte entendeu que o médico que tratou a paciente foi negligente por tê-la deixado sem assistência adequada logo após o parto. Porém, não houve condenação integral porque os peritos afirmaram que, mesmo com a terapêutica correta, em torno de 20% das pacientes nesse estado vem a falecer. Deste modo, a Corte decidiu por condenar o médico pela perda de 80% das chances de cura.

No entanto, apesar de seu surgimento na França e, portanto, do pioneirismo do país no trato do instituto da perda de uma chance, sua utilização não ficou restrita ao ordenamento francês, espalhando-se, inicialmente, por outros países europeus e, atualmente, por outros continentes, conforme se perceberá. Entre os italianos, a teoria, de início, encontrou alguns entraves. Os primeiros estudiosos, Giovanni Pacchioni e Francesco Donato Busnelli, consideravam que “uma simples possibilidade, uma chance, tem sim um valor social notável, mas não um valor de mercado”. Pacchioni, por exemplo, ao analisar algumas situações típicas de perda de chance, como um jóquei cujo cavalo não é entregue a tempo de participar de uma competição; um pintor cuja pintura é extraviada por culpa do correio, não podendo participar de uma exposição e, por fim, um advogado que deixa transcorrer o prazo para apelar sem, no entanto, interpor o recurso, fazendo com que o constituinte perca a chance de ver seu pedido ser apreciado em instância superior, concluiu que “em todas essas hipóteses as vítimas, teriam sem dúvida razão para se queixar”. No ano de 1965, o autor italiano Francesco Donato Busnelli passou a analisar o tema, no entanto, mantendo o mesmo posicionamento de Pacchioni. Após analisar um caso típico de perda de chance julgado pelo Tribunal de Apelação de Paris, Busnelli enquadrou “a perda de chance como um mero interesse de fato e, portanto, como um dano que não seria indenizável de acordo com o ordenamento jurídico italiano”.

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A teoria da perda de uma chance somente passou a ser corretamente estudada e admitida através de Adriano de Cupis, ao publicar, em 1966, obra denominada “Il Danno: Teoria Generale Della Reponsabilitá Civile”, o qual “conseguiu visualizar um dano independente do resultado final e, portanto, enquadrar a chance perdida no conceito de dano emergente e não de lucro cessante, como vinha sendo feito pelos autores que o antecederam”, completa o doutrinador Savi (2009). Assim, o problema da incerteza do dano estava resolvido naquele ordenamento. De Cupis foi responsável pela fixação de importantes premissas necessárias à admissão da indenizabilidade das chances perdidas, como requisitos para a quantificação das chances perdidas e para sua indenização. Nesse sentido, importante lição de Cupis, precursor da admissibilidade da teoria na Itália:
A vitória é absolutamente incerta, mas a possibilidade de vitória, que o credor pretendeu garantir, já existe, talvez em reduzidas proporções, no momento em que se verifica o fato em função do qual ela é excluída; de modo que se está em presença não de um lucro cessante em razão da impedida futura vitória, mas de um dano emergente em razão da atual possibilidade de vitória que restou frustrada.

Bocchiola, em artigo publicado em 1976, foi o grande precursor na adequada compreensão da teoria no ordenamento italiano, trazendo outros importantes conceitos e fixando algumas importantes premissas na aplicação da teoria da perda de uma chance. Vem de sua obra, por exemplo, imprescindíveis conceitos na diferenciação entre o instituto da perda de uma chance e a espécie lucros cessantes da responsabilidade civil geral. Entretanto, como esclarece Savi, (2009), “apesar de reconhecer, em tese, a possibilidade de indenizar as chances perdidas, Bocchiola deixa claro que tudo dependerá do caso concreto”. E continua: “após longo trabalho de fixação das premissas e de esclarecimentos dos conceitos, Bocchiola chega à conclusão de que não há qualquer razão [...] que impeça a indenização das chances perdidas na Itália”. Nos dizeres de Savi (2009):
Assim como na França, doutrina e jurisprudência italianas passaram a visualizar um dano independente do resultado final, consistente na perda da oportunidade de obter uma vantagem ou de evitar um prejuízo. Passou-se, então, a admitir o valor patrimonial da chance por si só considerada, desde que séria, e a traçar os requisitos para o acolhimento da teoria.

402 (dano) quanto o art. Na doutrina brasileira não há unanimidade sobre a 34 SILVA. também. indenizar o dano consubstanciado na chance perdida. pode-se afirmar que a jurisprudência italiana fez grandes evoluções no que concerne à reparação das chances perdidas. outros a enquadram na noção de dano emergente. a perda de chance configura dano autônomo e. apenas em 1983 a Corte de Cassação italiana julgou o primeiro caso favoravelmente à indenização da perda de chance. a uma aplicação da causalidade parcial34. Como observa Peteffi da Silva. não seria dano ressarcível. para outros. para alguns autores a figura não constitui um dano indenizável. 5. 403 (nexo causal) ensejam a discussão do tema uma vez que a natureza das chances perdidas pode apontar a uma espécie peculiar de dano e. indenizável.48 Muito embora já existisse todo esse trabalho doutrinário. a qualificam como lucro cessante. principalmente. Alguns dos autores que reduzem a perda de uma chance a um problema de dano. Segundo Rafael Peteffi da Silva (2009). 214-216 . Atualmente. portanto. após acreditar durante anos que. passou a exigir (na maioria dos casos) uma probabilidade superior a 50% (cinqüenta por cento) como prova da certeza do dano e. inseriu a perda de chance no conceito de dano emergente. passou a reconhecer e. p. seguindo as premissas fixadas pela Doutrina. por fim. mas utilização da causalidade parcial. trecho da lição de SAVI sintetizando as principais premissas doutrinárias utilizadas pela Corte de Cassação italiana na aplicação da responsabilidade civil por perda de chance: Para tanto. Assim. partindo do dano final multiplicado pelo percentual de probabilidade de obtenção do resultado útil impedido pela conduta do ofensor. tanto o art. pois. enquanto. por se tratar de mera expectativa de fato. 2007. a liquidar o dano.2 Natureza da perda de uma chance Diversas correntes doutrinárias discutem a natureza jurídica da perda de chance.

Editora Método. na doutrina estrangeira predomina o entendimento “que apenas algumas modalidades de utilização da perda de uma chance utilizam-se da causalidade parcial. 664. John Makdisi afirmam que a perda de uma chance não constitui um dano autônomo e somente poderia auferir reparação se fosse utilizada a causalidade parcial38. um novo tipo de dano indenizável”39. ainda. In: Questões Controvertidas no Novo Código Civil. eventual35. Rafael Peteffi da.2. 402.. 36 . Jorge Cesar Ferreira da Silva prefere abordar o tema no comentário ao art.htm. São Paulo. Eduardo Abreu. 2010. 2003.pesquisedireito. 444 40 BIONDI. Conclui o autor que a chance não pode ser analisada como a perda de um resultado favorável. 1ª ed. Responsabilidade pela Perda de uma Chance. destacando que a oportunidade de ganho ou de se evitar um prejuízo. tendo em vista não haver a possibilidade de se determinar qual seria o resultado final. São Paulo: Revista dos Tribunais. Na doutrina francesa Jacques Boré e na doutrina do Common Law. na maioria dos casos.49 natureza da perda de uma chance. p. p.com/tpcrc. 2006. De acordo com Eduardo Abreu Biondi. 2007. não se pode vincular a chance perdida com o eventual resultado final. já é incorporada no patrimônio jurídico do indivíduo. para os adeptos da corrente tradicional. não se cogita em dano pela perda da chance. ou seja. com Peteffi da Silva. sendo que a chance perdida representa. Segundo Biondi. Jorge Cesar. a sua violação ensejará indenização. pois esta recai na seara do dano hipotético. 39 SILVA. além da indenização material. Teoria da perda de uma chance na responsabilidade civil. 36 FERREIRA DA SILVA. por si só. . p. a vítima pode vir a sofrer o dano imaterial40. p. p. Inadimplemento das Obrigações. 2006. De acordo.52. 38 SILVA. Disponível em: http://www. Acesso em 24 de novembro de 2010. 173 37 NORONHA. Já Fernando Noronha 35 BIONDI. mas sim como a perda da possibilidade de angariar aquela vantagem. sendo assim. ponderando que “o elemento de discussão mais relevante parece ser a aceitação da perda da chance como verdadeiro dano” aborda o tema no âmbito da causalidade37.

eventual. a sua violação ensejará indenização. que somente precisa ser quantificado. Pode-se dizer. Já os lucros cessantes. Não é mansa e pacífica na doutrina pátria o entendimento da perda de uma chance como dano certo e determinado. Em consonância com o acatado. esse prejuízo será aquilatado aplicando-se uma média diária dos seus ganhos. não se cogita em dano pela perda da chance. Inicialmente convém explicar que o dano emergente. com toda a convicção que a chance não pode ser analisada como a perda de um resultado favorável. importa numa efetiva e imediata diminuição do patrimônio da vítima. que serão provados nos autos. É. Além disso. Para os adeptos da corrente tradicional. como entendido pacificamente na doutrina. Em razão do evento. por si só. diante da incerteza de obtenção do resultado esperado. esse motorista sofre um prejuízo imediato. mas é bem menor do que na situação de perda de uma chance. mas sim como a perda da . ele sofre outro prejuízo. portanto. é a perda do lucro esperável. sendo assim. Parece ser equivocada a afirmativa de vincular a chance perdida com o eventual resultado final. Vale dizer que a oportunidade de ganho ou de se evitar um prejuízo. são aquilo que a vítima razoavelmente deixou de lucrar. serve como exemplo o caso clássico do motorista de táxi que tem o seu veículo abalroado injustamente por outrem. na definição legal.50 5. A dificuldade na quantificação do lucro cessante existe. como inexiste possibilidade de se determinar qual seria o resultado final. pois esta recai na seara do dano hipotético. Lucro cessante e Teoria da Perda de uma chance. consistente na perda de ganhos com as corridas durante o período em que o veículo ficar paralisado para conserto. algo quase certo. já é incorporada no patrimônio jurídico do indivíduo. classificado como lucro cessante. Portanto. pois insistem ainda alguns autores em não admitir a cisão entre a possibilidade de ganho ou de se evitar um prejuízo com o resultado final. naquilo que ela efetivamente perdeu o que hoje está consagrado no artigo 402 do Código Civil vigente.3 Diferenças entre Dano emergente. consistente nos danos causados ao seu veículo: dano emergente.

51 possibilidade de angariar aquela vantagem. como é evidente. parte da nossa doutrina entende que se trata de uma espécie de lucro cessante. entendendo alguns autores que se trata de uma terceira espécie intermediária de dano. posto que se baseia na perda da oportunidade de obter um lucro (vantagem) ou evitar um dano. Com as despesas desse tratamento deverá arcar o autor do ato. o enquadramento desse dano não cabe exatamente no dano emergente nem nos lucros cessantes. se a vitória não pode ser provada e confirmada. enquadrada nessa terceira e sui generis espécie. Igualmente não se pode esquecer de que o ato ilícito que gerou a indenização pela perda de uma chance pode acarretar outros prejuízos materiais por dano emergente propriamente dito. não fosse a existência do ato danoso. Consoante noção cedida. Portanto. o mesmo ocorre em relação ao insucesso da obtenção do resultado esperado. apenas. Para a maioria da doutrina. também passível de reparação. É claro que. interessante se faz assinalar o exemplo de um atleta corregedor que está a poucos metros da bandeirada final que lhe daria. Todavia. Por outro lado. Assim. Convém ressaltar ainda que além da indenização material. Esta perda apenas ocorre porque um fato lícito ou ilícito interrompe o curso normal dos acontecimentos antes da concretização da oportunidade. com a obtenção da chance pretendida. Há prejuízo pela perda da chance e por danos morais. que tem natureza de dano emergente. de dano emergente. a perda da chance configura-se um dano material e autônomo. Com esse ato retira se lhe a oportunidade de ser vitorioso. ante a probabilidade e não certeza de obtenção do resultado aguardado. se a perda de uma chance for enquadrada como dano emergente ou lucro cessante. além da indenização material. com séria chance. a vítima pode sofrer dano moral. mas que é agarrado por uma pessoa que o impede de continuar na disputa. outra. terá o autor da ação que comprovar de forma inequívoca que. a vitória em primeiro lugar. a vítima pode vir a sofrer o dano imaterial. . passível de reparação. Ora. o que não se pode é dizer que a indenização pela perda de uma chance é de natureza moral. o que é impossível. o resultado teria se consumado. pois o abalo foi tão grande que atingiu a saúde física e psíquica do mesmo. entre o dano emergente e o lucro cessante. mas esse atleta pode ainda ficar traumatizado e doente e ter que se submeter a sério tratamento médico e psicológico para poder voltar a correr.

seja como dano emergente. Por fim. a doutrina que considera o dano pela perda de uma chance de natureza jurídica patrimonial. havendo uma oportunidade perdida. lucro cessante ou até mesmo dano moral. como Sílvio de Salvo Venosa. no entanto. apesar das diversas tipificações estipuladas. como Sérgio Savi. contudo. espécie de dano emergente. uma terceira modalidade de dano patrimonial intermediária entre o dano emergente e o lucro cessante. Existem também decisões de tribunais que concedem a indenização pela perda da chance como forma de lucro cessante. Para outros doutrinadores.52 Sabido é que o dano patrimonial deve sempre ser atual e certo. visto que são espécies de danos muito verossimilhantes. ela integrará o patrimônio da vítima. observa-se no que tange às chances perdidas. reconhece que nada impede que a prática do ato ilícito ou lícito provoque. Este doutrinador baseia-se no posicionamento de que “a vantagem que se espera alcançar é atual. um dano moral à vítima. é incerta. . A perda de uma chance é considerada por muitos doutrinadores. enquadrando. torna-se possibilitada a interpretação de que. pois o que se analisa é a potencialidade de uma perda e não o que a vítima efetivamente deixou de ganhar (lucro cessante) ou o que efetivamente perdeu (dano emergente)”. desde que séria e real. podendo ser indenizada. a perda de uma chance é modalidade de dano material. de modo a se identificar com clareza os danos emergentes e lucros cessantes no momento da indenização. visto que a chance já existe no patrimônio da vítima quando do momento da ocorrência da lesão. Cumpre destacar ainda que. além do dano pela perda da chance.

ao que razoavelmente deixou de ganhar e. ano 6. São Paulo.179. ainda. jul. os advogados raramente a invocam. os juízes ainda mais raramente a reconhecem. Sérgio. Fernando. Como se trata de instituto de grande valia. ou seja. 30. O fim da responsabilidade civil é a restituição do lesado ao estado em que se encontraria se não tivesse havido o dano. n. a responsabilidade por perda de chance ainda é quase desconhecida. Por isso. possivelmente por influência de uma conferência proferida na Faculdade de Direito da UFRGS em maio de 1990 por François Chabas. ao dano moral42. Responsabilidade por perda de chances. O dano rompe o equilíbrio jurídico-econômico anteriormente existente entre o agente e a vítima. 23. Limitar a reparação é impor à vítima que suporte o resto dos prejuízos não indenizados. Indenizar significa tornar indene a vítima. 42 DIREITO. há de corresponder a tudo aquilo que a vítima perdeu. Somente no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul existe uma jurisprudência mais aberta à admissibilidade da figura jurídica. Há uma necessidade fundamental de se restabelecer esse equilíbrio. que na França é um dos juristas que melhor estudaram a matéria. mede-se a indenização pela extensão do dano. a situação na jurisprudência seja modificada41. Carlos Alberto Menezes e CAVALIERI FILHO. Comentários ao Novo Código Civil . Revista de Direito Privado. p.1 Os motivos para a admissão da indenização das chances perdida no Brasil O ordenamento jurídico brasileiro não prevê de modo expresso a possibilidade de reparação por perda de uma chance. a partir da noção de responsabilidade civil é possível aplicar a teoria da perda de uma chance no ordenamento jurídico nacional. o que se procura fazer recolocando o prejudicado no statu quo ante. contudo. 41 NORONHA. reparar todo o dano por ela sofrido. . p. 2005. em geral a justificativa invocada para a negação é tratar-se de situações em que o dano é incerto.Volume XIII. uma vez preenchidos os elementos necessários. é de se esperar que. Nas palavras de Noronha: No Brasil. Rio de Janeiro: Forense./set. 2007.53 6 OS MOTIVOS PARA ADMISSÃO DA TEORIA NO BRASIL 6. de futuro.

em que prevê a indenização de qualquer espécie de dano sofrido pela vítima. Esse sistema se sustenta nos princípios fundamentais de justiça. eqüidade e seguridade44. Em consequência este é apenas o reverso da medalha.33. de acordo com o já abordado. em determinados casos concretos preencherá os demais requisitos exigidos para o surgimento do dever de indenizar. 2006. Colocou-a no ápice da pirâmide que. em seu art. negligência ou imprudência violar direito e causar dano a outrem ainda que exclusivamente moral. 186 e 187). Observa-se. 2003. O chamado princípio da reparação dos danos. a saber: “Aquele que. nela implícito. A base legal encontrase na cláusula geral de tutela da pessoa. desse modo. Tem-se aqui o princípio da reparação integral dos danos. comete ilícito. a posição da pessoa humana. . 2004. e de sua dignidade. causar dano a outrem. abarcando em sua vasta amplitude todas as espécies de danos. lícitos e atividades perigosas.83. fica obrigado a repará-lo”. 927 do CC ao tratar das conseqüências do ato ilícito. objetiva a reparação plena ou integral de todo dano causado.45. Por outro lado. Na mesma direção dispõe o art. p. no ordenamento jurídico. p. atos ilícitos. o milenar preceito neminem laedere. por ação ou omissão voluntária. Estabelece ainda a chamada cláusula geral de responsabilidade civil. Danos à Pessoa Humana. gerado por inadimplemento contratual. Ed Renovar: Rio de Janeiro. in verbis: Aquele que. que o Código Civil Brasileiro adota um conceito amplo de dano. Maria Celina Bodin. 45 MORAES. sem delimitar quais seriam os tipos de danos abrangidos pelo conceito. dispõe sobre uma cláusula geral de responsabilidade civil. inclusive o decorrente da perda de uma chance que. uma leitura Civil-Constitucional dos Danos Morais. VIEIRA. que contém. dá forma ao sistema normativo. 43 44 SAVI. logrou implicitamente determinar a cabal reparação de todos os prejuízos causados injustamente à pessoa humana. plasticamente. de maneira decisiva.54 De acordo com Sérgio Savi o conceito de dano previsto no Código Civil é o mais amplo possível. dentre os quais o dano da perda de uma chance43. a lei civil. por ato ilícito (arts. 186. De acordo com Maria Celina Bodin de Moraes: A Constituição Federal de 1988 fortaleceu. já anteriormente mencionado.

Nas palavras de Godim (2005): 46 47 CAVALIERI FILHO. Há que se fazer a distinção entre o resultado perdido e a possibilidade de consegui-lo46. dos danos puramente eventuais e hipotéticos. 48 GODIM. No entanto. eficaz e. plena. a chance por este perdida deve representar muito mais do que uma simples esperança subjetiva deve apresentar chances sérias e reais. Segundo Cavalieri. p. na qual se localiza a teoria da perda de uma chance. 2007. cit.134. a) Perda de uma chance e certeza do dano.. para além da seriedade das chances perdidas. repudiando-se casos hipotéticos que possuem o único objetivo de criar uma gama de pretensões indenizatórias sem fundamento”47. o propósito desta teoria da perda de uma chance é “reparar a vítima que teve um efetivo ganho frustrado. op. a fim de que este seja ressarcido. se a própria Constituição Federal determina que a reparação deva ser justa. 75. sendo o critério da “observação da seriedade e da realidade das chances perdidas” o mais utilizado pelos tribunais franceses para separar os danos potenciais e prováveis e. (b) de atualidade que deve apresentar o dano reparável. para que haja a reparação do dano.17. 2005. não se pode negar a necessidade de indenização nas hipóteses em que alguém perder uma chance ou oportunidade em razão de ato de outrem. GODIM. muitos doutrinadores admitem a existência de uma “zona gris. Ainda segundo Gondim (2005): Em virtude da necessidade de certeza e atualidade no prejuízo sofrido pela vítima. mas sim. de probabilidades”. a adequação da indenização à álea inerente às chances perdidas e a perda da “aposta” (ou vantagem) esperada pela vítima. Com efeito. dessa maneira. 49 SILVA. cuja reparação deve ser rechaçada 49. portanto.25. p. deve ser pela perda da oportunidade de obter uma vantagem e não pela perda da própria vantagem. pois não se trata de um dano certo e atual. indenizáveis. .55 Diante disso. será necessário provar. p. O que ocorre é que a conduta do agente faz com que uma certeza deixe de se realizar48. p. a teoria da perda de uma chance encontra o seu limite no caráter de (a) certeza e. De acordo com Gondim. 2005. Para que a demanda do réu seja digna de procedência.

b) Perda de uma chance e danos futuros. O dano pela perda de uma chance em regra é dano presente. São Paulo: Atlas. O julgador deverá estabelecer se a possibilidade perdida constitui uma probabilidade concreta. VENOSA. a chance a ser indenizada deve ser algo que certamente iria ocorrer. NÃO CONFIGURAÇÃO DO DANO. INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAL E MATERIAL. segundo avaliamos. RECOLHIMENTO A MENOR DE TRIBUTO DE RESPONSABILIDADE DA AUTORA. DANO MATERIAL ACOLHIDO. v. [. Nesse sentido já se manifestou a jurisprudência: RESPONSABILIDADE CIVIL. Esta certeza reside na comprovação de que a oportunidade que se perdeu em virtude da conduta do agente se concretizaria. NÃO GERA LESÃO MORAL À HONRA OBJETIVA DA EMPRESA. Direito Civil: responsabilidade civil. 2005. uma vez que nos casos tradicionalmente lembrados (advogado que perde o prazo do recurso de apelação. mas também não pode ser fundada em dados hipotéticos.] A chance perdida a ser indenizada não pode. Rel. trata-se do grau de probabilidade que deverá ser analisado pelo juiz50. [.56 Assim. Julgamento em: 30/09/2010 . em hipótese alguma. A ‘chance’ deve ser devidamente avaliada quando existe certo grau de probabilidade. mas essa apreciação não se funda no ganho ou na perda porque a frustração é aspecto próprio e caracterizador da ‘chance51.. Sílvio de Salvo. um prognóstico de certeza.. conseqüentemente. Apelação Cível nº 2007. RECURSO DESPROVIDO. direito à indenização.. TEORIA DA PERDA DE CHANCE. Por óbvio que a certeza não é totalmente absoluta. A oportunidade (chance) perdida só é possível de produzir dano.052625-1. o que não sucede quando a possibilidade que se frusta situa-se no campo da mera hipótese ou cuja ocorrência é um prognóstico de difícil e incerta probabilidade de êxito52. quando o ato ilícito praticado ocasionar prejuízo concreto. p. Com efeito. a conclusão será pela inexistência de perda de oportunidade. POR SI SÓ.RESULTADO MERAMENTE HIPOTÉTICO DA PARTICIPAÇÃO NO CERTAME. CIRCUNSTÂNCIA QUE. mas cuja concretização restou frustrada em virtude do ato danoso. 184. devendo existir a atual certeza de que houve uma impossibilidade de realizar um ganho ou evitar uma perda. a reparação não é do dano. p.].23. mas sim da chance. 52 TJ-SC. FRUSTRADA PARTICIPAÇÃO EM LICITAÇÃO. que são repudiadas pelo nosso direito. 2ª ed. 4. e gerar. ser meramente hipotética. Eládio Torret Rocha. Para Venosa (2009): Se a possibilidade frustrada é vaga ou meramente hipotética.. cavalo impedido de correr no páreo) “as 50 51 GODIM. empresário que não pode participar de licitação. 2002. NEGLIGÊNCIA NA PRESTAÇÃO DE SERVIÇO DE CONTABILIDADE E ADMINISTRAÇÃO. Não se admitem as expectativas incertas ou pouco prováveis.

2007. CPC. . portanto. que pode vir a ocorrer. fazendo que cheguem depois do início da 53 54 SILVA. é tendo em conta o critério da data da decisão judicial que apreciará a demanda saber se “os efeitos do dano já se esgotaram ou se continuarão a se fazer sentir no futuro” 54. A teoria da perda da chance. não podendo a liquidação apontá-lo como igual a zero.. sujeitando-se. eventual. pois outros fatores poderão indicar a seriedade da chance perdida56. quer se trate de dano futuro. Para Peteffi Silva (2007). Os arts. portanto.. 1. não há indenização possível. tendo em vista que: [. SILVA. REsp 965758 / RS. ser certo. caso aplicável à hipótese. ao juízo rescisório em conformidade com o art. V. O importante. atual e subsistente. por isso. A atualidade exige que o dano já tenha se verificado. 2007.109.] apesar do lapso temporal entre o evento danoso e o momento em que as chances seriam utilizadas ser um critério importante. deveria reconhecer o dever de indenizar um valor positivo. RESCISÓRIA. CONDENAÇÃO A RESSARCIR DANO INCERTO. Sobre a questão.059 e 1. o dano provocado pela perda da chance será indenizável quer se trate de dano presente. manifesta-se Kfouri Neto: São numerosos os casos em que uma pessoa se queixa de haver perdido uma chance (probabilidade) por culpa de outra. ele também não é certo e. PROCEDÊNCIA. Porém. Nesse sentido já se manifestou o STJ: PROCESSUAL CIVIL. Subsistente é o dano que ainda não foi ressarcido. haverá casos em que a reparação será concedida mesmo com o aludido lapso temporal dilatado. 56 SILVA. p.141. Rel. Se o dano pode revelar-se inexistente. p.57 conseqüências da perda da chance já foram totalmente observadas no momento da sentença”53. Ministra Nancy Andrighi. Recurso Especial provido55. porém.110. como no caso do acidentado no trânsito que perde a chance de obter um emprego mais lucrativo no futuro.060 exigem dano “efetivo” como pressuposto do dever de indenizar. 2007. 55 STJ. Julgado em: 19/08/2008. O dano deve. Incerto é dano hipotético. se podem verificar modalidades de danos futuros em espécies de perda de uma chance. o transportador se atrasa. Viola literal disposição de lei o acórdão que não reconhece a certeza do dano. VIOLAÇÃO À LITERAL DISPOSIÇÃO DE LEI. DJe 03/09/2008. Encarregado de conduzir ao hipódromo um cavalo de corridas ou a seu jóquei. ou não. 485. p.

Mas é inegável que havia uma chance. Verdade e Conjetura. sobre a sociedade o encargo de suportar a carga ressarcitória. Auxiliar de escritório de advocacia. O Direito. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. mas. sem uma reparação adequada. ou que o recurso seria provido […]. a Constituição Federal aguçou a sensibilidade dos juristas quanto à necessidade de se tutelar os direitos da personalidade. e as perdas e danos. conforme a natureza das coisas. por mais que seja ou deva ser fundamentado na “diretriz da concretude”. Culpa médica e ônus da prova: presunções. o proprietário perde a chance e ganhar o prêmio. 58 NADER. 96-97. E esta chance se perdeu. 59 REALE. A reparação dos danos nasce com a necessidade de delimitação de uma política social. esta “recolocação” opera de forma apenas aproximativa ou conjectural59. recaindo. p. bastando pensar no “dano morte”. 2009. sejam de ordem patrimonial ou extrapatrimonial. ampliando-se a tipologia dos danos indutores da indenização58.58 corrida. Não 57 KFOURI NETO. constituem mais uma delas: seu escopo é o de “recolocar a vítima na situação em que estaria se o prejuízo não tivesse sido produzido”. […] Todas essas espécies e muitas outras surgem na jurisprudência. 3ª ed. 2001. 6. que deveria recorrer. ou advogado. ou mesmo no que tem a sua casa destruída por um incêndio. Notário. ou azar. ou em certos danos à saúde. Miguel. por isso. inversão do ônus da prova e consentimento informado – responsabilidade civil em pediatria e responsabilidade civil em gineco-obstetrícia. que não é hipotético […]57. cargas probatórias dinâmicas. p. perda de uma chance. existe aí um prejuízo. perdem os prazos. Miguel. Sem dúvida. não se pode afastar de certas ficções. faz com que este perca a probabilidade de adquirir uma propriedade. encarregado de protocolar apelação. 2002. negligente no cumprimento do mandato que lhe havia sido conferido pelo cliente. Os tribunais não têm vacilado em conceder reparação. ou no cliente que vê a sua causa frustrada pela negligência do advogado que perdeu um prazo. no sentido de que nenhuma vítima deve ser deixada à sua sorte. não era certo que o cavalo ganharia a corrida. São Paulo: Revista dos Tribunais. afinal. em certos casos. Alguns danos são irreversíveis. . seus clientes perdem a chance de que se modifique a decisão contrária.2 A reparação integral dos danos e a proteção da vítima pela perda da chance Ao elevar a dignidade da pessoa humana a um dos fundamentos do Estado brasileiro. 94.

60 61 Apud MARTINS-COSTA. indicando aquilo que é a função precípua da responsabilidade civil. 403). e não tem valor absoluto seja porque por vezes é possível diminuir a indenização. A fórmula é bastante sintética e não tem valor absoluto: é sintética por indicar que o responsável está obrigado a reparar todo o dano que tenha relação adequada e necessária com o fato principal (art. 2009. “indenização é o que se há de prestar para se por a pessoa na mesma situação patrimonial. 63 MARTINS-COSTA. 94460. Assim sendo. verifica-se na indenização por dano extrapatrimonial63. 2009. p. se o agente. mas nada mais que o dano” é expressiva para indicar que o lesado não deve nem receber menos nem mais do que efetivamente perdeu. 2009. . p. Essa “medida o mais próxima possível” é indicada por um princípio. 944. NADER. do dever de mitigar quando o credor não tomou as providências razoáveis para diminuir o prejuízo62. p. a fórmula “todo o dano. ou seja. 62 MARTINS-COSTA. doloso ou mesmo sem culpa. De qualquer forma. 2009. Por este princípio se compreende que todo o dano. mas nada mais que o dano. parágrafo único). seja porque verifica-se a tendência ao acolhimento. o dano injusto. agora expresso com todas as letras no caput do art.487. 64 NADER. Dano suscetível de reparação é o praticado contra ius. nos casos de imputação objetiva. 93.59 obstante tais vicissitudes. o critério da justiça comutativa impõe que a vítima seja indenizada na medida o mais próxima possível do prejuízo sofrido. ou por incremento do patrimônio. p. denominando “princípio da reparação integral”.488. independentemente da circunstância de o dano ter sido produzido por um obrar culposo. por via jurisprudencial. a saber: a reparação dos prejuízos injustamente sofridos. Tanto os prejuízos de pequeno porte como os de grande expressão são suscetíveis de reparação61. seja porque há excessiva desproporção entre a culpa do autor do dano e o valor do prejuízo (art. 2009. por vezes. o não amparado pelo ordenamento64. deve ser indenizado. 93. p. Como ensina Pontes de Miranda. A caracterização do dano independe de sua extensão. o que afasta das perdas e danos o intuito punitivo que.488. no mesmo estado pessoal em que estaria se não se houvesse produzido o fato ilícito (lato sensu) de que se irradiou o dever de indenizar”.

colocando-a na mesma posição que estaria se o fato danoso não tivesse acontecido. todo dano é. profissão etc. Muitas vezes há de ocorrer como que uma “instantaneidade” entre a causa e o efeito. cronologicamente. que é a perda do ganho esperável. situação financeira. são bastante freqüentes na prática. da expectativa de lucro ou a diminuição potencial do patrimônio da vítima. 2009. conseqüência ou efeito do evento que os causou. 2009. uma vez que todos os danos são. já analisado. MARTINS-COSTA. porém certo. O princípio da reparação total do dano tem por finalidade garantir que seja estabelecido o equilíbrio entre o dano e a reparação. deve ser atual. o retorno ao status quo ante. não estará praticando ilicitude. porém. por exemplo. no tempo. A questão que se coloca. O art.547. à sua causa66. Não há dúvidas de que. p. juridicamente. e não mera hipótese é o caso abrangido justamente pela expressão “lucro cessante”. como forma de assegurar. sempre. O dano deve ser certo. ele sempre se produz num momento “futuro” em relação à causa geradora. . Sabe-se que todo dano. necessariamente. p.548. como a idade da vítima. Ocorrem. muitos fatores podendo influir nessa evolução. a lógica evidenciando que o prejuízo é sempre posterior. 188 do Código Civil dispõe sobre as excludentes do ato ilícito. decorrente de paradigmas genéticos. Em todos esses casos a área que afeta o quantum indenizatório do dano não deve ser obstáculo ao princípio da reparação.60 autorizado pela ordem jurídica. quando um acidente corporal faz nascer uma incapacidade e essa evolui ao longo do tempo. pode haver um prejuízo futuro que seja certo. é a de saber o que é. um dano futuro e um dano atual. por mais veloz que seja o efeito. sempre que possível. exercita o direito de retenção. Por outras vezes essa 65 66 MARTINS-COSTA. Os casos de prejuízo futuro. posterior ao eventus damni. Porém. sua longevidade. o que significa dizer que não pode ser uma mera hipótese. A importância deste princípio no estudo da responsabilidade civil é destacada. além de certo. portanto. pois nem sempre a linguagem leiga tem a mesma acepção da linguagem técnico-jurídica65. causando prejuízos a outrem. uma vez que tem a grande virtude de assegurar o direito da vítima de ser ressarcida de todos os danos sofridos.

isto é: o dano ainda não existente (no momento da decisão judicial). 107. extinguindo. são danos futuros os que só ocorrerão depois desse momento. A responsabilidade pela “perda de uma chance” deriva do acolhimento. não sendo uma mera probabilidade. embora ainda como conseqüência adequada do fato lesivo. na perda de uma chance. os já verificados no momento em que são apreciados. sendo suscetível de estimação imediata”70. o que é indenizado é justamente a chance de não alcançar determinado resultado. está-se diante de uma situação na qual está em curso um processo que propicia a uma pessoa a oportunidade de vir a obter no futuro algo benéfico. em sua decisão. p. assim. 2003. ex. Assim sendo. mas. porém. como “futuro”. não é o momento da produção do dano que se leva em conta. Na responsabilidade pela perda de uma chance. diversamente. dos progressos no estudo da probabilidade. As chances devem ser “sérias e reais”. nem se indeniza o fato de ter perdido a causa: o 67 68 MARTINS-COSTA. aparecendo aos juízes “como a prolongação certa e direta de um estado de coisas atual. logo. 578. mas uma certeza. chance que foi perdida pela vítima em razão de ato culposo do lesante. não se trata de uma mera e subjetiva “esperança de vencer a causa”. às vezes por períodos muito extensos. se deve referir ao que foi alegado e comprovado68. isto é. 70 SILVA. p. De acordo com o já mencionado. para qualificar um dano como “atual” ou.548. pois o juiz. qualquer chance de a ação vir a ser julgada procedente. assim compreendida a decisão final. perde o prazo para recorrer). SILVA. p. 2009. o momento posterior à decisão do magistrado na ação em que a vítima reclamou a reparação: “o paradigma que se utilizará é o do momento da decisão do magistrado”. ou de auferir certo benefício.. p. 69 NORONHA. como sucede com a invalidez permanente de alguém prejudicado no âmbito de um contrato de transporte ou de serviços médicos67.61 instantaneidade não se verifica: as conseqüências danosas se projetam ao longo do tempo. no curso da lide. 108. no Direito. como no caso de alguém que ingressa em juízo. mas cuja realização “seja certa em virtude do desenrolar de uma situação já existente”69. . Neste caso. O critério é: constituem danos presentes ou atuais aqueles efetivamente ocorridos. na Estatística. 2007. o advogado incorre em negligência grave (p. 2007.

pode-se dizer que o tratamento jurisprudencial atualmente dispensado à matéria “se caracteriza pela ebulição da teoria da perda de uma chance em alguns tribunais brasileiros”. como o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Rel. também já demonstraram o acolhimento da teoria. assim o sendo também relativamente à aplicação da responsabilização da perda de chance. Des. como os advogados já pugnam pela indenização da chance perdida por seu constituinte. 71 72 SILVA. Pode-se afirmar que não apenas os magistrados vêm reconhecendo a aplicabilidade da teoria nos mais variados contextos.62 que se indeniza é. os quais. Tribunal de Justiça de São Paulo. 589069996. apesar do escasso número de casos que reconhecem a teoria da perda de uma chance. Apesar de alguns tribunais pátrios ainda não terem se ocupado da teoria da responsabilidade civil por perda de uma chance. pode-se citar o Tribunal de Justiça de Santa Catarina. em virtude das chances perdidas. também vem dispensando um tratamento crescente à matéria e demonstrando um aprofundamento no estudo de suas principais características. Com muita propriedade. a chance de o processo vir a ser apreciado por uma instância superior71. Assim. de Minas Gerais mostram que a teoria vem se tornando cada vez mais presente e aplicada no ordenamento jurídico brasileiro. nas palavras de Peteffi (2009). o Superior Tribunal de Justiça. não só o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul72.3 A problemática da fixação do quantum indenizatório a partir da seleção de julgados oriundos da justiça estadual brasileira. Ainda. apesar da escassa aplicação. o qual se mostra pioneiro em muitas ocasiões ante os demais tribunais brasileiros. RIO GRANDE DO SUL. também em uma variada gama de situações. 134. Ruy Rosado de Aguiar Júnior. 6. 2007. do Distrito Federal. . julgado em 12/06/1990. 5ª Câmara Cível. o Tribunal de Justiça do Paraná. Apelação Cível n. o Tribunal de Justiça de Goiás. p. justamente. além de se mostrar inteiramente favorável à aplicação da teoria no ordenamento jurídico pátrio. Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul.

Tratava-se de um caso de indenização pela chance perdida de vencer uma licitação pública. Rafael. movida por uma distribuidora de combustíveis. como afirmou Peteffi73. Responsabilidade Civil pela Perda de uma Chance. 74 RIO GRANDE DO SUL. pois o Tribunal entendeu que existia causalidade entre o dano final e a ação médica. dos médicos. foi a Apelação Cível n. Da cirurgia. referiu-se à perda de chance pela primeira vez. No mesmo ano. Em suas palavras: 73 PETTEFI DA SILVA. 4364/SP. por parte da jurisprudência brasileira”. a qual alegava que a autorização para a instalação de postos de abastecimento ao longo de uma rodovia pública deveria ser precedida de licitação. O caso referia-se a uma ação de indenização por danos decorrentes de falha médica em uma cirurgia para correção de miopia. 58906999697 do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul74. a mais alta Corte em matéria infraconstitucional. Por óbvio. seria impróprio afirmar que a teoria da perda de uma chance já goza de aplicação geral e irrestrita. Apesar de no caso. relatada pelo Desembargador Ruy Rosado de Aguiar Júnior. como afirmado acima. devido ao fato de. 1. Ministro Ilmar Galvão. no ordenamento jurídico brasileiro. Não ocorrendo o certame. em 29 de outubro. o acórdão tratou da existência do instituto de forma pioneira na jurisprudência brasileira. o Superior Tribunal de Justiça. entre inúmeras outras situações. São Paulo: Atlas. perda da possibilidade de conseguir um novo emprego. demonstra sua aceitação pela indenizabilidade desta espécie de dano. não ser reconhecida a perda de uma chance. 2007. resultou hipermetropia e cicatrizes nos olhos do requerente. muitos tribunais demonstrarem falta de conhecimento acerca da existência da matéria. . ao analisar o Agravo Regimental n. e datada de 12 de junho de 1990. admitindo o valor econômico da chance perdida. perda de chance de realização de negócios como venda de imóveis. em casos de perda de chance de realizar concurso.63 Deste modo. O julgado pioneiro a referir-se à teoria francesa. a teoria vem sendo aplicada na esfera da responsabilidade civil dos advogados. “mesmo avançando a passos largos. O relator. sustentava sua perda de chance com relação aos lucros que poderia auferir com os postos de combustíveis. op. Cit p.

Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. o Eminente Desembargador Ruy Rosado de Aguiar Júnior. situação que se manteve por doze anos. O requerente reclamava por indenização em desfavor do mandatário negligente por dano decorrente do fato de não ter ele restaurado os autos do processo que haviam sido extraviados. não são raras as cessões de direito de ação. 59106483799. devendo indenizar o mandante pela perda da chance. conferiu indenização por perda de chance pela primeira vez no ordenamento brasileiro. o acórdão foi ementado da seguinte forma: Age com negligência o mandatário que sabe do extravio dos autos do processo judicial e não comunica o fato a sua cliente e nem trata de restaurá-los. não tendo o advogado tomado qualquer providência durante todo este período. ao julgar a Apelação Cível n. Assim. por terem se mostrados pioneiros na aplicação do novo instituto da 75 RIO GRANDE DO SUL. sequer dando ciência ao seu constituinte da ocorrência deste fato. Des. concedendo indenizações por chances perdidas nas mais variadas ocasiões. 5ª Câmara Cível. por culpa do advogado. concluiu que o cliente havia perdido uma possibilidade de ver sua pretensão apreciada pelo órgão judiciário. em análise dos fatos. ao final. Admitindo o Tribunal. Neste sentido. 59106483799. Ruy Rosado de Aguiar Júnior. desta forma. que se restringe. atentando ao fato de que “o dano corresponde apenas à perda da chance”. Grandes partes das Cortes demonstram interesse pelo assunto. a teoria da perda de uma chance vem tendo crescente aplicabilidade e reconhecimento por parte da doutrina e jurisprudência brasileiras. julgado em 12/06/1990. o que demonstra que se trata de mera chance com valor econômico. o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul75. Tratava-se de um caso clássico de perda de chance. Atualmente. entretanto. O apelo foi provido. é inegável que remanesce um direito de ressarcimento. Apelação Cível n. Rel. de relatoria do Desembargador Ruy Rosado de Aguiar. Frustrada a chance de vencer. . e não pelo resultado da causa. a indenizabilidade das chances perdidas. Em 29 de agosto de 1991. o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro. como já aduzido acima. de responsabilidade profissional de advogado por extravio de autos relativos a pedido de pensão em face do INSS. ao simples valor pago pela cessão.64 Como se sabe.

de que. Ausência de responsabilidade da entidade realizadora do evento. A Corte paranaense. Responsabilidade contratual somente da empresa transportadora. o requerente ajuizou ação de indenização por danos morais e materiais contra a empresa transportadora. O Tribunal de Justiça paranaense convenceu-se. restara comprovada sua imprestabilidade por não ter chegado ao destino a tempo. A 5ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Paraná76 conferiu indenização por chance perdida no julgamento da Apelação Cível n. . havendo probabilidade de o autor findar o concurso entre os três melhores trabalhos. sendo devida indenização pelo valor gasto com sua confecção e não só com o que foi gasto com o transporte. reclamando ressarcimento não só pelo valor do contrato realizado com esta. mantendo a condenação da transportadora. conforme se pode depreender de trecho retirado do acórdão prolatado pela referida Corte. mas também quanto aos insumos gastos para confecção da obra de arte. apesar de ainda incorrerem em erro em algumas situações. Apelação Cível n. em virtude do extravio de obra de arte no transporte para um evento cultural. Doutrina da “perte d`une chance”. ascendendo os autos ao Tribunal de Justiça do Paraná. ainda. conforme se poderá perceber na análise dos julgados dos Tribunais pátrios. Concurso que exigia obra inédita. No referido caso. Acolhimento pelo superior tribunal de justiça. mas também quanto aos insumos gastos para a confecção da obra de arte. 0471982-0102. Imprestabilidade desta após a ocorrência da mostra. por entender que. ainda que recuperado o bem transportado. em julgamento. Indenização devida não só pelo valor do contrato (remessa e embalagem). julgado em 18/11/2008. Este entendimento é perfeitamente demonstrado. Houve a condenação da empresa transportadora no juízo monocrático. confirmou a sentença de primeiro grau. ao que esta apelou.65 responsabilidade civil vem trabalhando o assunto com mais propriedade. de relatoria do Desembargador Rogério Ribas. Rogério Ribas. Indenização ainda pela “perda de uma chance”. caracterizado estava a necessidade de indenização por perda de uma chance de lograr êxito no referido concurso. Autor com probabilidade efetiva de findar o 76 PARANÁ. remessa e embalagem. por meio do Eminente Desembargador Rogério Ribas: Contrato de transporte. Rel. Tribunal de Justiça do Paraná. 5ª Câmara Cível. 0471982-0. Obras de arte que deixaram de chegar a tempo de concorrer a prêmios em mostra cultural. a qual tratava de pedido de ressarcimento de danos materiais e morais. Des.

por ser este “mais sofisticado do que o sistema francês”. Assim. Peteffi.66 concurso entre os três melhores trabalhos. que a teoria da chance perdida vem sendo amplamente aceita no Brasil. contudo. ao argumento de que o fato inocorrente não é certo e. a começar pela Corte máxima em matéria infraconstitucional. preleciona que “a regra fundamental a ser obedecida em casos de responsabilidade pela perda de uma chance prescreve que a reparação da chance perdida sempre deverá ser inferior ao valor da vantagem esperada e definitivamente perdida pela vítima”. portanto. . seguindo o mesmo caminho depois trilhado por NORONHA e Savi. O entendimento da admissibilidade da indenização do dano consubstanciado na perda de chance de obter uma vantagem ou de evitar um prejuízo restou confirmado pelo Superior Tribunal de Justiça. Em suma. tal regra deve ser obedecida”. como a vem aplicando corretamente nos seus mais variados aspectos e em uma variada gama de situações. Isso é que dá ensejo a um pleito de indenização pela perda de uma chance. acrescentando que “mesmo nas espécies de dano moral. em que. por muito tempo o Direito Brasileiro ignorou esta modalidade de responsabilidade civil. que não só lhe vem concedendo ampla aceitação. Atualmente. (2009). seguindo a sistemática utilizada no sistema da Common Law. a obra brasileira mais completa em termos de quantificação das chances perdidas. portanto. não só doutrinária como jurisprudencialmente. Indenização calculada de acordo com a chance matemática de êxito. é o civilista quem estabelece as mais importantes premissas a serem utilizadas pelos juristas pátrios quando da estipulação do valor a ser arbitrado a título de indenização por perda de chance. É da autoria de Peteffi (2009). Pode-se concluir. da análise dos julgados colacionados. Há casos. a utilização da teoria por esta Corte vem sendo intensificada. em razão de um ato ilícito ou quebra de contrato alguém fica privado da oportunidade de obter determinada vantagem. o que resulta em uma compreensão adequada dos mais variados aspectos do instituto e na sua consequente aplicação às mais variadas situações. o Superior Tribunal de Justiça. não gera direito à reparação. conforme se pode depreender acima.

colaciona um pretório analisado por Joseph King Jr. Entre estes.000. que a jurisprudência norte-americana segue o mesmo caminho das Cortes francesas. como visto. Pelo fato já destacado de o sistema da Common Law de quantificação das chances perdidas serem o mais completo atualmente. o paciente possuía quarenta por cento (40%) de chances de curar-se e viver mais trinta e cinco anos. a perda da chance de sobreviver seria quantificada. estabelecendo a autonomia das chances perdidas como o grande referencial a ser utilizado na quantificação da perda de chance. Mesmo que a aludida cura não se concretizasse. Sem a presença da falha médica. mantendo a sua autonomia”. [. o qual.] Dessa forma. baseia seus estudos na sistemática estabelecida por aquele ordenamento como uma proposta de importação dos principais conceitos para o sistema jurídico. os herdeiros da vítima receberiam indenização pelos seis meses de vida que ela certamente teria. ainda.. Peteffi (2009) alega. o qual assevera que “a função chance perdida” é a derivada da função vantagem esperada (dano final)” e acrescenta que aquela “varia conforme esta. quarenta por cento do valor de a vítima viver trinta e quatro anos e seis meses. em função de sua complexidade.67 Sendo assim.00 (vantagem esperada). o paciente certamente teria mais seis meses de vida. caso a falha médica (overdose) não tivesse ocorrido. convém que se analise: Imagine-se um paciente que é morto devido a uma dose excessiva de medicação (overdose). após os seis meses. Se as bolsas de aposta mostravam que o aludido cavalo possuía vinte por cento (20%) de chances de ganhar o primeiro prêmio da corrida.00. Peteffi (2009). proveniente do primeiro prêmio da corrida que seu cavalo participaria não fosse à falha do advogado. Em outro momento. sendo esta a única forma de mitigar-se os grandes equívocos ainda cometidos aqui na aplicação da estudada teoria. ou seja.. o qual efetuou a inscrição do animal de forma equivocada. mesmo com a provável (60%) subsequente morte pela doença. exemplificando com alguns julgados. Isto porque.000. ele carece de uma sistematização quanto ao método de quantificação deste novo conceito alargado de dano. o autor exemplifica: Tem-se aquele do proprietário de um cavalo de corrida que esperava ganhar a importância de R$ 20. E traz à colação lição de Jean-Pierre Couturier. . a reparação pelas chances perdidas seria de R$ 4.

e que poderia levar ao resultado pretendido (. TEORIA DA PERDA DE UMA CHANCE.68 6. na medida em que a conduta omissiva do demandado certamente subtraiu da autora a chance de evitar o resultado danoso (. pela chance perdida.. mas o analisa sob uma perspectiva diferente). em si. o agente será responsável. O dano. TEORIA DA PERDA DE UMA CHANCE. não será imputado ao agente. essa teoria não dispensa o nexo de causalidade. APELAÇÃO CÍVEL. não era possível demonstrar o nexo de causalidade entre ambos. o agente será responsável. ABORTO. podendo ser caracterizado como o dano. 78 TJ-RS. mas de forma que compense as chances de recuperação perdidas pelo lesado. a jurisprudência francesa criou essa teoria. Em razão das dificuldades presentes nessas demandas. pela chance perdida. TEORIA DA PERDA DE UMA CHANCE. Tribunal de Justiça do RS. DANO MORAL CONFIGURADO. Julgamento em: 26/11/2008. O dano. em si. ainda que não seja integral. ou seja. pois pode haver outras causas. por um fato ilícito.. Julgamento em: 17/12/2008. Dentre os casos mais relevantes pode-se destacar: APELAÇÃO CÍVEL.. A teoria da perda de uma chance surgiu na França no contexto de casos de responsabilidade médica em que. Nona Câmara Cível. RESPONSABILIDADE DO MUNICÍPIO. FALHA NA PRESTAÇÃO DO SERVIÇO. não será imputado ao agente. isso sim. Os elementos que caracterizam a perda de uma chance são: a conduta do agente.)77. ou diretamente ligado à lesão. tendo utilizado a mesma em diferentes oportunidades. restando o lesado sem o devido ressarcimento. . a certeza de ganho que foi encerrada por sua conduta. DANO NÃO CONFIGURADO. Apelação Cível Nº 70023576044. 77 TJ-RS. isso sim. Relator: Odone Sanguiné. pois podem haver outras causas. e o nexo causal entre a conduta e a chance que se perdeu (assim. RESPONSABILIDADE CIVIL. ou seja. Nona Câmara Cível. TEORIA DA PERDA DE UMA CHANCE. é aplicável ao caso em tela a teoria da perda de uma chance. embora constatada a ocorrência de conduta culposa do agente e de um dano efetivo para a vítima.4 Os casos mais relevantes da aplicação da teoria da perda de uma chance no entendimento da Justiça gaúcha O tribunal gaúcho é um dos precursores na aplicação da teoria da perda de uma chance. Relator: Odone Sanguiné. O nexo causal deverá existir entre o fato interruptivo do processo e o suposto dano e assim será caracterizado se for suficiente para demonstrar a interrupção do processo que estava em curso. Apelação Cível Nº 70025179458. objetivando o ressarcimento da vítima. Assim. Tribunal de Justiça do RS..)78. um resultado que se perdeu. em que pese não haja nos autos comprovação de que eventual presteza no deslocamento da gestante no veículo disponibilizado pelo Município teria evitado com certeza o abortamento. a certeza de ganho que foi encerrada por sua conduta.

80 TJ-RS. a inexistência de certeza quanto à cura. sobremaneira. MÉDICO. e nesse ponto o ônus de provar a correta prestação de serviços seria da ré.69 APELAÇÃO CÍVEL. ou perda da visão. Relator: Ergio Roque Menine. nisso já reside o prejuízo (. Tribunal de Justiça do RS. não se mostrava aleatória. está ligada ao tempo do diagnóstico em sua fase inicial e a implementação do tratamento necessário. Julgamento em 23/07/2009. dito. Nona Câmara Cível. FALHA NO ACOMPANHAMENTO POR OFTALMOLOGISTA. A indenização deve ser graduada tendo em vista a probabilidade da cura. Ocorrendo a perda da chance. se não inibe algum defeito visual. Décima Sexta Câmara Cível.. entretanto. que não se indeniza a cegueira. tudo isso pressuponha que houvesse sido no mínimo disponibilizado esse acompanhamento. CEGUEIRA SUPERVENIENTE. que. Quantificação dos danos morais. sopesando-se. o que. TEORIA DA PERDA DE UMA CHANCE. mas a chance que adviesse. CARGA DINÂMICA DA PROVA. não o que a vítima realmente perdeu (dano emergente) ou efetivamente deixou de ganhar (lucro cessante). pode impedir que se instale a cegueira. Frisa-se. seja pelo peso ao nascer. SERVIÇOS ADVOCATÍCIOS. dano hipotético. pois de responsabilidade por perda de uma chance. Apelação Cível Nº 70025788159. porém incerto. indenizando-se a probabilidade e não o dano final. sendo que em muitos casos outros prejuízos. RECÉM-NASCIDO. outrossim. mas sim a perda da oportunidade de cura. . e isso. Apelação Cível Nº 70030588370. Ausência de produção de prova testemunhal na ação trabalhista patrocinada e a conseqüente insuficiência de demonstração da justa causa. DANOS MATERIAIS E MORAIS. E mais ainda.)79. sendo que o advogado tinha perfeitas condições de fazê-lo. como se viu. SOPRO CARDIÁCO. PERDA DE CHANCE. RESPONSABILIDADE CIVIL. O que se analisa é a potencialidade de uma perda. Readequação dos valores. HOSPITAL. PREJUÍZOS CAUSADOS EM RAZÃO DE MANDATO. seja pelo tempo gestacional. qual seja. HOSPITAL. RECÉM-NASCIDO. A dúvida que não restou esclarecida. tais como miopia. havendo os danos serem estabelecidos por arbitramento. Típico caso. Relator: Marilene Bonzanini Bernardi. No caso dos autos. o qual. estatisticamente. é se haveria ou não condições de o menor suportar algum procedimento oftalmológico dadas as suas precárias condições de saúde. Julgamento em 02/09/2009. não aconteceu. Pensionamento ajustado80. Teoria da perda de chance é utilizada para calcular indenização quando há um dano atual. no fato de não ser providenciado exame oftalmológico no recém nascido prematuro o qual. cuja possibilidade de tratamento. NEGLIGÊNCIA. O que é certo é que não houve registro dessa impossibilidade no prontuário e esta condição haveria de resultar de consenso entre os especialistas. FALHA NO DEVER DE INFORMAR AOS EFETIVOS RESPONSÁVEIS PELO BEBÊ SOBRE A NECESSIDADE DE 79 TJ-RS. se inseria entre aqueles com maior incidência da chamada retinopatia da prematuridade.. sem dúvidas. o erro se tipificou basicamente na forma omissiva. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO. Tribunal de Justiça do RS. estrabismo são percentualmente significativos no quadro. RESPONSABILIDADE CIVIL. RETINOPATIA DA PREMATURIDADE. que são reduzidos. com resultados satisfatórios. Perda da chance que se aplica tanto aos danos materiais como aos morais. não retira a gravidade da doença (retinopatia da prematuridade .ROP) e suas reservas quanto à evolução da visão. como consequência possível e provável de um descolamento de retina total.

POUCOS DIAS APÓS A ALTA. de responsabilidade por perda de uma chance. mas deve ser provada a perda de uma chance concreta. o ato ilícito se tipificou basicamente na forma comissiva do preposto do ente público. havendo os danos serem estabelecidos por arbitramento. se mais precocemente fosse o menor encaminhado a avaliação cardiológica. TEORIA DA PERDA DE UMA CHANCE. CONSEQUENTE MAJORAÇÃO. VERBA HONORÁRIA. cobrando dívida adimplida. sobremaneira. devendo ser mantidos. no caso o aborto. POR PROBLEMAS CARDÍACOS. DANOS MORAIS TIPIFICADOS. No caso dos autos. quiçá. Provou. a perda da chance de ser promovido. Julgamento em 28/10/2009. porém também não era certa. que não se indeniza a morte. não basta alegação de mera probabilidade de alcançar um objetivo. no fornecimento incorreto de medicação à paciente grávida. no caso. CRITÉRIOS DE FIXAÇÃO. mas sim a perda da oportunidade de cura. PERDA DE UMA CHANCE CONFIGURADA. Típico caso. de acordo com os princípios 81 TJ-RS. A indenização deve ser graduada tendo em vista a probabilidade do nascimento. que. DANOS MORAIS. mas sim a perda da oportunidade do nascimento do primeiro filho. Tribunal de Justiça do RS. na ausência de informação aos efetivos responsáveis pelo bebê. Tribunal de Justiça do RS. E CUIDADOS QUANTO A EVENTUAL SINTOMATOLOGIA. Nona Câmara Cível. TROCA DE MEDICAMENTO QUANDO DO FORNECIMENTO PELO AGENTE PÚBLICO. caso não houvesse sido ministrado medicação não indicada para gestantes. LIGAÇÕES TELEFÔNICAS REALIZADAS PARA O LOCAL DE TRABALHO DO AUTOR. a inexistência de certeza quanto ao nascimento da criança esperada (feto). NEXO CAUSAL. EXPLICITAÇÃO. APELAÇÃO CÍVEL. ATO ILÍCITO E DANO COMPROVADOS. teriam evitado o seu óbito. Para ser devida a indenização pela perda de uma chance. Nona Câmara Cível. FIXAÇÃO EM PERCENTUAL. COBRANÇAS DE DÍVIDA ADIMPLIDA. A indenização deve ser graduada tendo em vista a probabilidade da cura. No caso dos autos. Julgamento em 01/09/2010. TEORIA DA PERDA DE UMA CHANCE. O autor logrou provar fato constitutivo de seu direito. APELAÇÕES CÍVEIS. ainda. que não se indeniza a morte. RESPONSABILIDADE CIVIL. . Quantum indenizatório reduzido. Apelação Cível Nº 70034816306. no caso. não se mostrava aleatória. sopesando-se. SUCUMBÊNCIA MANTIDA. 82 TJ-RS. MEDICAÇÕES PRESCRITAS. no sentido de que a requerida realizava ligações para seu local de trabalho. Frisa-se. ainda que com procedimentos mais invasivos. VALOR A SER REPARADO. porém também não era certa. havendo os danos serem estabelecidos por arbitramento. a inexistência de certeza quanto à cura. Frisa-se. MANUTENÇÃO. VALOR DA INDENIZAÇÃO REDUZIDO. não se mostrava aleatória. mas a chance que adviesse. que. Denunciação da lide acolhida81. RELAÇÃO DE CONSUMO. ABORTO. que. pois. GRAVIDEZ. mas a chance que adviesse. Relator: Marilene Bonzanini Bernardi. RESPONSABILIDADE CIVIL. de responsabilidade por perda de uma chance. o erro se tipificou basicamente na forma omissiva. do possível sopro cardíaco constatado e dos cuidados a serem observados quanto à sintomatologia evolutiva e investigação. Relator: Marilene Bonzanini Bernardi. qual seja.70 INVESTIGAÇÃO. INDENIZATÓRIA POR DANOS MATERIAIS E MORAIS. APELAÇÃO DO RÉU DESPROVIDA82. outrossim. Os danos morais restaram comprovados. MORTE QUE SOBREVÉM. pois. DANO MORAL MANTIDO. sopesando-se. qual seja. outrossim. sobremaneira. APLICAÇÃO DO CDC. Típico caso. Apelação Cível Nº 70030146138.

tem contornos de indenização pelos danos materiais (lucros cessantes). 6. INDENIZAÇÃO. impõese o acolhimento dos aclaratórios para supri-la. ocorrido em 1/2/2005. Tal perda. PERDA DE UMA CHANCE. mesmo que para efeito de prequestionamento. REPASSE SOMENTE DEPOIS DE NOVE MESES. Sem a prova efetiva do dano. PREQUESTIONAMENTO. pode dar ensejo a danos de natureza material ou moral. Quinta Câmara Cível. Tribunal de Justiça do RS. a perda de uma chance. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO DO RÉU DESACOLHIDOS E DO AUTOR ACOLHIDOS84. Julgamento em 29/09/2010. NEGATIVA DE VIGÊNCIA. No julgamento no AG nº 272. pois não implementados os requisitos autorizadores. RESPONSABILIDADE CIVIL.5 Análise comentada dos primeiros casos de aplicação da teoria da perda de uma chance e o acolhimento desta teoria de responsabilidade civil pelo Superior Tribunal de Justiça Analisam-se abaixo alguns casos os quais o Superior Tribunal de Justiça aplicou e acolheu a teoria da perda de uma chance nos seus julgados. por sua vez. OMISSÃO VERIFICADA.71 da proporcionalidade e da razoabilidade. não merece guarida a pretensão recursal do autor. Julgado em 30/05/2007. RETENÇÃO PELO ADVOGADO DE NUMERÁRIO DO CLIENTE SACADO MEDIANTE ALVARÁ. o Ministro Eduardo Ribeiro esboçou mostrar-se favorável à indenização da chance perdida em 83 TJ-RS. A perda de uma chance reclamada pelo autor. impõe-se a rejeição. PROVIDO83. ainda que se admitisse estar o autor a tratar da teoria francesa homônima. Ademais disso. porém sim a perda de uma oportunidade. Verificada a omissão relativamente ao pedido indenizatória sobre a rubrica perda de uma chance vertida na inicial. ou ainda. APELO PARCIALMENTE Observa-se que nos julgados supracitados. Relator: Romeu Marques Ribeiro Filho. Nona Câmara Cível. por não estar devidamente explicitada e por constar na inicial referência expressa ao artigo 402 do Código Civil. DANO MATERIAL. Apelação Cível Nº 70038084646. Não verificada a obscuridade apontada no acórdão embargado. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. . Tribunal de Justiça do RS. 84 Embargos de Declaração Nº 70019251370. o tribunal explicita que a teoria da perda de uma chance visa não a indenização do dano em si. Relator: Tasso Caubi Soares Delabary. também sob este viés não mereceria prosperar a pretensão. dentre os quais se ressalta o caso de maior recursão que foi o “Show do Milhão” um programa televisivo da televisão aberta brasileira que será relatado neste capitulo.635-RJ.

razão pela qual há de ser mantida a decisão recorrida (SAVI. o Tribunal de Justiça de São Paulo afirmou que o autor da ação deveria ter requerido a indenização pelo fato de ter perdido a chance de ganhar a ação em razão da perda por seu advogado do prazo para a interposição do recurso contra a sentença de improcedência e com esta afirmação o Ministro Eduardo Ribeiro pareceu concordar. No entanto. o prejudicado com a perda do prazo para a interposição do recurso ajuizou uma ação requerendo a condenação do advogado negligente ao pagamento de tudo aquilo que receberia se a sua reclamação trabalhista tivesse sido julgada procedente. A condenação em perdas e danos pressupõe a prova efetiva do gravame suportado pelo requerente. É possível que sua vitória fosse apenas parcial. Esta decisão do Ministro Eduardo Ribeiro demonstra que o Superior Tribunal de Justiça estaria disposto a indenizar o dano da perda da chance se este tivesse sido o pedido formulado pelo autor da ação. No presente caso. pediu o autor que “a indenização pelos danos suportados com a conduta desidiosa dos advogados fosse equivalente ao que pleiteava na ação trabalhista”. que . p. Está-se. mas não há certeza quanto a sua efetiva ocorrência. diante de uma possibilidade de dano. Com base nos casos estudados e citados neste trabalho cientifico. não há como se estabelecer se o autor teria sua pretensão julgada procedente em sua totalidade. como de fato não foi. houve-se com acerto a corte estadual. O tribunal de origem entendeu que. o pedido de indenização assim formulado não teria como ser acolhido. conforme se extrai do trecho de seu voto a seguir transcrito em sua inicial. com isso. portanto. o pedido seria improcedente porque incertos os danos pleiteados. embora provada a culpa do primeiro réu. Deve se destacar. ou quanto à sua extensão. contudo. Observa-se no caso analisado. não há como se fixar a certeza do dano consistente na vitória e. a outra parte poderia ser a vencedora. observa-se que mesmo se o recurso tivesse sido interposto tempestivamente ninguém poderia afirmar com certeza que o mesmo seria provido. Do mesmo modo.72 caso de responsabilidade civil do advogado que perde o prazo para a interposição de recurso contra a sentença desfavorável aos interesses-de seu constituinte. Concluiu-se que o autor deveria ter requerido indenização pelo fato de ter perdido a chance de ser vencedor em sua demanda. De fato. 2009.78). Não sendo possível determinar se o recurso seria ou não provido.

diante de um pedido certo de indenização por lucros cessantes formulado pelo autor da ação. para o caso de o juiz não entender pela certeza. o juiz deverá. poderá ele conceder uma indenização a este título? Entende-se que. em atenção aos princípios do contraditório e da ampla defesa. entendendo que a perda de chance não caracteriza lucros cessantes. julgar o pedido procedente. Se o juiz. dar ao réu a oportunidade de se defender dessa nova qualificação jurídica. expressamente. Porém.529-DF. em respeito à vontade do autor. o caso supra julgado pela Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça. O primeiro de indenização pelos lucros cessantes e. o juiz deverá verificar cuidadosamente qual foi a real intenção do autor. ainda que relativa. apesar de o dano da perda de chance não ter sido indenizado em razão da limitação da responsabilidade do transportador aéreo pela Legislação especial. como o Ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira manifestaram-se. então o juiz. que em uma ação indenizatória desta natureza o autor deva formular pedidos alternativos. alternativamente. chegar à conclusão de que o caso é de perda de chance (dano emergente). pode ser assim descrito: um representante de uma determinada empresa fabricante de alimentos realizou uma viagem de Brasília a Belo Horizonte. Com base no posicionamento de Rodrigo Xavier Leonardo (2004): . tanto o Ministro Ruy Rosado de Aguiar. É de fundamental importancia atentar para uma interessante questão ligada a este julgado. Se foi a indenização por perda da chance. Com base na da leitura da petição inicial restar claro que o autor somente pretendia indenização que tivesse por fundamento lucros cessantes. com o propósito de participar de uma concorrência pública para a aquisição de alimentos. a concordância do Ministro com a teoria não pode ser afirmada com absoluta certeza. mesmo que o qualifique como dano emergente. Entende-se. de indenização pela perda da chance. Neste caso. pela possibilidade de indenização das chances perdidas. levando consigo as amostras necessárias para participar do certame. o juiz deverá. portanto. por este motivo. no julgamento do Recurso Especial n° 57. contudo.73 a noção de perda da chance não integra a ementa do acórdão e. De volta ao posicionamento do STJ. ainda que a tenha qualificado equivocadamente como lucro cessante. daqueles. não poderá acolher o pedido e deve julgá-lo improcedente.

529-DF. artigo 295. 7. nos termos da legislação especial. Desta forma o acórdão está assim ementado: “TRANSPORTE AÉREO. Recurso Especial n º 57. a fabricante ajuizou uma ação contra a empresa aérea pleiteando indenização pelo dano decorrente do extravio da bagagem. Quarta Turma. Conforme reiteradamente assinalado no curso deste estudo. Quando do julgamento da apelação interposta pela Autora. despesas com a viagem inútil. Para o acórdão Ministro Fontes de Alencar. assegurando desse modo que eventual requalificação atenda efetivamente à verdadeira intenção do autor. Em qualquer caso.e deverá fazê-lo logo. que previa o limite de 150 OTN. à Lei n a 7. do Código Brasileiro de Aeronáutica. Mas. Diante de tais fatos. à razão de l OTN por 6. que certamente venceria em razão dos menores preços que ofereceu. a Terceira Turma Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal deu provimento parcial ao recurso apenas para elevar a condenação para 925 BTNs. Rei. conforme documentação acostada aos autos do processo. na forma dos artigos 248 e 260. o juiz deve ir em busca da essência da manifestação de vontade do autor. é mais coerente com o princípio da demanda. Ao autor deve ser reservado o poder de limitar a demanda fática e juridicamente. parágrafo único. a responsabilidade da empresa transportadora. Recurso especial não conhecido. quando houver falta de clareza ou precisão na qualificação jurídica. como consequência dasgarantias constitucionais do contraditório e da ampla defesa. inciso III) . além de indenização pela perda da concorrência. porque inepta a petição inicial (CPC. e não da aparência. julgado em 7/11/2004. que extinguiu aquele título.801/89. ajustando o disposto na Lei n. mas aquele configurado pelos delimitadores fáticos e jurídicos estabelecidos pelo autor. Da fundamentação deste acórdão extrai-se que o Tribunal de Justiça do Distrito Federal entendeu que a responsabilidade do transportador aéreo encontrase limitada pelo disposto no artigo 260 do Código Brasileiro de Aeronáutica e que. mas o pedido. restritiva da aplicação do iura novit cúria.74 Penso que esta segunda orientação. sobre a nova qualificação jurídica deverá ter o réu nova e ampla oportunidade de oferecer alegações e de propor e produzir provas. que confere ao autor o poder de fixar os limites objetivos e subjetivos da demanda e conseqúentemente com a própria liberdade das partes. É limitada. Tal sentença julgou os pedidos parcialmente procedentes para condenar a empresa aérea ao pagamento de 150 BTNs. Na dúvida. substituindo-o pelo BTN. sem dúvida.17 BTNs. . em caso de extravio de bagagem durante a execução do contrato de transporte.” STJ.que esclareça a sua manifestação de vontade. mesmo porque o objeto da jurisdição civil não são os fatos. Maioria.565/86. o juiz deverá pedir ao próprio autor . o litígio posto em juízo não é o litígio in natura.

Diante deste acórdão. Por ser um dos primeiros acórdãos do Superior Tribunal de Justiça em que a teoria da responsabilidade civil por perda de uma chance foi frontalmente enfrentada. portanto.75 ainda que não fosse o caso de limitação. onde a doutrina. cumpre transcrever. Ou seja. seja no tratamento médico. Para tanto. especialmente na França. que conhecia do recurso e lhe dava provimento. ainda que parcialmente. . ao não reconhecer a possibilidade de indenizar este dano. restou vencido por questões outras que não a admissibilidade da teoria. A jurisprudência francesa registra inúmeros precedentes: perda da chance de ser laureado pela pintura não exposta a tempo por culpa do transportador. na disputa judicial. Confira-se: A autora pretende a indenização pela perda da chance. alegou que para a indenização dos lucros cessantes pleiteados. 1521. não poderia ser indenizado. uma vez que não havia como assegurar que a autora sairia vencedora da licitação da qual participaria se as suas amostras não tivessem extraviado durante o transporte aéreo. aquele tribunal entendeu que o pedido de lucros cessantes. que não era certo e. na vida social. o voto do Ministro Ruy Rosado de Aguiar que. perda da chance de ganhar um processo por incompetência do advogado ou falta de recurso. que o acórdão do Tribunal de Justiça do Distrito Federal. a autora da ação interpôs recurso especial alegando violação aos artigos 159. o Código Civil deveria ser concorrentemente aplicado o Código Brasileiro de Aeronáutica e. perda da chance de melhoria na carreira. III. o pedido de indenização por lucros cessantes encontraria óbice na exigência de certeza dos danos para serem indenizados. não obstante a maestria. O recurso especial foi distribuído ao Ministro Ruy Rosado de Aguiar. os lucros cessantes deveriam ser compostos em face da previsão dos artigos acima mencionados. se referia a um dano hipotético. 1059. do Código Civil de 1916 e ao artigo 260 do Código Brasileiro de Aeronáutica. nas mais diversas situações jurídicas. O tema tem sido versado em outros países. ainda que afastada a incidência deste último diploma legal. violou o artigo 159 do Código Civil de 1916. incentivada por decisões da Corte de Cassação. por entender ser o caso de indenização pela perda da chance e. perda da chance de prosseguir nos trabalhos de laboratório etc. por este motivo. na realidade. perda da chance de um proveito na bolsa por causa de execução tardia de ordem pelo agente de câmbio. admite a necessidade de ser responsabilizado o autor da ação ou da omissão que causa a outrem a perda de uma oportunidade real de alcançar uma vantagem ou evitar um prejuízo. 1542 e 1553. perda da chance de obter um emprego pela liberação tardia do diploma. profissional ou comercial.

LGDJ. por violação ao artigo 159 do CC e lhe dou parcial provimento. in casu. a fim de deferir a indenização pela perda da chance de participar da concorrência. pois foi causado por culpa da transportadora. Não se indeniza a vantagem de quem venceria a concorrência. a limitação da responsabilidade prevista no Código Brasileiro de Aeronáutica. expressamente. mas a perda real da oportunidade de concorrer. estabelecer linhas limitadoras: a chance deve ser real e séria. Confira-se: Penso eu que tal decisão causa ofensa ao disposto no artigo 159 do Código Civil. a possibilidade de se indenizarem as chances perdidas. Jacques Ghestin. o lesado estar efetivamente em condições pessoais de concorrer à situação futura esperada. o próprio seguro repousa sobre a ideia da chance. como na indenização por incapacidade física. que é um fato provado. É preciso. conforme se verifica do seguinte trecho de seu voto: Em primeiro plano. cujo valor deverá ser objeto de liquidação por arbitramento.76 Mais adiante. um dado da realidade. A dificuldade de sua avaliação não é maior do que avaliar o dano moral pela morte de um filho. a reparação deve necessariamente ser menor do que o valor da vantagem perdida (Viney. tenho . o Ministro Ruy Rosado de Aguiar transcreve a defesa feita por Geneviève Viney às objeções opostas a esta hipótese de responsabilização: O caráter futuro do dano não se constitui em empecilho para que se admita a responsabilidade civil. 341 e seguintes). incluído no âmbito do artigo 159 do Código Civil. 1. in Traité de Droit Civil. tanto que o bilhete de loteria tem valor. La responsabilité. deve haver proximidade de tempo entre a ação do agente e o momento em que seria realizado o ato futuro. A conclusão do voto do Ministro Ruy Rosado é no sentido de se indenizar a chance perdida pela empresa fabricante de alimentos. ainda que não o seja a real concretização dessa perspectiva. sem embargo da inexistência de norma específica em nosso ordenamento positivo no que diz respeito à perda de uma “chance”. Após pedir vista dos autos. Isto posto. reconheceu. conheço do recurso especial. porém. o qual não poderá ser superior a 20% do lucro líquido que teria se vencesse o certame. e por isso. em seu voto. A oportunidade. ou por morte do obrigado a prestar alimentos etc. 1982. o Ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira. sendo comum nos casos de danos contínuos. a chance de obter uma situação futura é uma realidade concreta. causador de prejuízo de não concorrer.548 do CC). é um fato do mundo. apesar de concluir pela impossibilidade de majoração da indenização concedida pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal tão somente pelo fato de entender aplicável. cláusula geral que contempla inclusive a hipótese da perda de uma real oportunidade de obtenção de uma certa vantagem. Geneviève. ou o dote devido à mulher agravada em sua honra (art.

Se o Estado dispensa a licitação para a cessão de uso de bem público. Recurso especial do Estado de São Paulo conhecido e provido. 1. ADMINISTRATIVO. tendo características de mera possibilidade. prejudicado o recurso interposto pela Companhia Brasileira de Petróleo Ipiranga85. . do Código Brasileiro de Aeronáutica. nos termos do artigo 264. Porém. Agravo desprovido. então mera expectativa de fato em relação ao 85 Supremo Tribunal Federal. em razão da incerteza acerca de quem venceria a licitação. A conclusão do acórdão foi a de se negar a indenização dos lucros cessantes. por si só. expressão patrimonial. Ministros Ruy Rosado de Aguiar e Sálvio de Figueiredo Teixeira. A mera chance de vencer o certame só seria passível de indenização. Ficou claro que em ambos os casos se sustentam a agravante que a autorização de implantação de postos de abastecimento ao longo da rodovia haveria de ser precedida de licitação. o hipotético lucro que teriam se vencessem a licitação não é indenizável. HIPÓTESE EM QUE O DIREITO DE TERCEIROS. Prejuízo meramente hipotético. 2007. entretanto. DISPENSA DE LICITAÇÃO OBRIGATÓRIA PARA A CESSÃO DE USO DE BENS PÚBLICOS. DESPACHO QUE NEGOU PROVIMENTO A RECURSO INTERPOSTO DE DECISÃO INDEFERITÓRIA DE RECURSO ESPECIAL. Frustração do direito de participar de concorrência pública. se demonstrado fora que possuía.77 igualmente como assente que tal reparação se encontra compreendida no universo amplo do art. na medida em que o artigo 1. em ambos os casos não se indenizou à chance perdida pelo fato de esta não ter sido considerada séria e real. não abrangida pelo art. as empresas assim alijadas da concorrência devem atacar o ato administrativo que deixou de seguir o procedimento próprio. INTERESSADOS NESSE USO.050 do Código Civil. tida por indispensável. Pelo o que se pode perceber dos votos dos Ministros relatores. Os dois outros casos em que a teoria da perda da chance foi enfrentada pelo Superior Tribunal de Justiça são muito parecidos e podem ser facilmente compreendidos pela simples leitura das ementas: AGRAVO REGIMENTAL. se realizada. pelo fato de a maioria da Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça ter entendido que a responsabilidade do transportador aéreo é limitada. possuía ela. sem a anulação deste. ambos admitem a aplicação da teoria da responsabilidade civil por perda de uma chance no ordenamento jurídico brasileiro. conforme se constata dos votos dos Ministros Ruy Rosado de Aguiar e Sálvio de Figueiredo Teixeira. já que fundado em mera expectativa de fato. Admitido.059 do Código Civil supõe dano efetivo ou frustração de lucro que razoavelmente se poderia esperar circunstâncias inexistentes na espécie. RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO. que tivesse condições de participar do certame. NÃO VAI ALÉM DA ANULAÇÃO DO ATO ADMINISTRATIVO. 159. do Código Civil.

afinal. isto é. ela ainda teria de vencer a licitação . DANO NÃO CONFIGURADO. do Código Civil. que se restringe. Conforme demonstrado ao longo desta pesquisa meras possibilidades não são passíveis de indenização. Fora daí. APELAÇÃO CÍVEL. possuía algum valor económico. não será imputado ao agente. que não rende direito a indenização. sempre com no mínimo 50% de probabilidade de se verificar. por si só. Nas condições descritas nos autos. isto é. como o que seria sofrido pela agravante se já houvesse vencido a licitação. é inegável que remanesce um direito de ressarcimento. ao simples valor pago pela cessão. em indenização de mera chance. entendemos que esta Corte aplicou-se corretamente a teoria. RESPONSABILIDADE CIVIL. se. suposto. por culpa do advogado.só depois disso haveria lucro previsível.78 lucro produzido pelos postos de serviço em referência. dependente de variável incerta: se a licitação tivesse sido aberta aos interessados e. entretanto. não são raras as cessões de direito de ação. A dispensa da licitação frustrou uma expectativa de lucro da Companhia de Petróleo Ipiranga. imaginário. ela teria lucro. O dano. presunção que se atribui aos resultados dos negócios de empresas bem administradas e já posicionadas no mercado. 1. se tem lucro hipotético. razão pela qual não se pode sequer falar em indenização do direito de concorrer. Observa-se que. Como pode se observar nos casos supra às chances não foram consideradas sérias pelo Superior Tribunal de Justiça. não ficou demonstrado que a mera possibilidade de concorrer na licitação dos postos. o agente será . ao aventar o despacho agravado a possibilidade de indenização de mera chance. decorrente da marcha normal dos acontecimentos. não se compreendendo no comando da norma do art. Como se sabe. No caso dos autos. TEORIA DA PERDA DE UMA CHANCE. quis referir hipótese em que esta chance. e não pelo resultado da causa. desfeita a indigitada cessão de bens públicos. em si. o respectivo objeto lhe tivesse sido adjudicado. como é o caso do exercício do direito de ação. A chance perdida há de ser séria e real. o que é o mesmo dizer. o alegado prejuízo é meramente hipotético. o que demonstra que se trata de mera chance com valor económico. nunca de um lucro previsível. Fica claro que o prejuízo indenizável deve ser certo. caso houvesse sido aberta. Frustrada a chance de vencer. mera esperança de vir a adquirir um direito. conforme se afirmou no despacho em referência. apresenta valor económico.059. pois podem haver outras causas.

podendo ser caracterizado como o dano. pela chance perdida. Ausência de produção de prova testemunhal na ação trabalhista patrocinada e a conseqüente insuficiência de demonstração da justa causa. APELAÇÃO CÍVEL. por parte do banco réu. No caso concreto. os fatos narrados na exordial remontam à 1994 e 1995. ou seja. QUANTUM CONDENATÓRIO. Relator: Ergio Roque Menine. essa teoria não dispensa o nexo de causalidade. nisso já reside o prejuízo. na condição de credor hipotecário. MEDICAÇÕES 86 APELAÇÃO DESPROVIDA.. INDENIZATÓRIA POR DANOS MATERIAIS E MORAIS. levar ao resultado pretendido. a fevereiro de 199886. Tribunal de Justiça do RS. RELAÇÃO DE CAUSALIDADE NA OMISSÃO. com a indisponibilização dos bens dos autores. antes de tudo. Inexistência de parâmetros legais. Vários outros fatores podem ter concorrido para esse fato não necessariamente a negativa do banco em anuir com o empreendimento. Critérios para mensuração. no sentido do aumento do risco de falência da empresa incorporadora de propriedade dos autores. porém incerto. Nexo de causalidade afastado. isso sim. qualquer iniciativa para a anuência com o registro do loteamento.79 responsável. NEGLIGÊNCIA. mas o analisa sob uma perspectiva diferente). APELAÇÕES CÍVEIS. Décima Sexta Câmara Cível. PERDA DE CHANCE. a certeza de ganho que foi encerrada por sua conduta. Os elementos que caracterizam a perda de uma chance são: a conduta do agente. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO. Relator: Odone Sanguiné. (Apelação Cível Nº 70025788159. que. GRAVIDEZ. O que se analisa é a potencialidade de uma perda. Deve atentar este para a função reparadora da indenização. por um fato ilícito. Julgado em 23/07/2009) . com probabilidade próxima à certeza. PREJUÍZOS CAUSADOS EM RAZÃO DE MANDATO. demanda a aplicação do princípio da eqüidade. e o nexo causal entre a conduta e a chance que se perdeu (assim. a causalidade necessária entre o dano e a conduta não ficou demonstrada. Teoria da perda de chance é utilizada para calcular indenização quando há um dano atual. Tribunal de Justiça do RS. dito dano hipotético. RESPONSABILIDADE CIVIL. (Apelação Cível Nº 70025179458. Ocorrendo a perda da chance. sendo que o advogado tinha perfeitas condições de fazê-lo. e que poderia. não o que a vítima realmente perdeu (dano emergente) ou efetivamente deixou de ganhar (lucro cessante). Invertidos os ônus da sucumbência87. não constitui causa adequada. de deveres para com a empresa dos autores no sentido de autorizar. Nona Câmara Cível. O nexo causal deverá existir entre o fato interruptivo do processo e o suposto dano e assim será caracterizado se for suficiente para demonstrar a interrupção do processo que estava em curso. 3. a fim de que a parte sofredora do abalo moral não venha a locupletar-se com enriquecimento indevido. SERVIÇOS ADVOCATÍCIOS. A mera omissão na anuência para a efetivação do registro imobiliário subseqüente à carta-contrato na condição de credor hipotecário do imóvel em que projetado o empreendimento. e já a decretação de falência da empresa. Julgada parcialmente procedente a demanda. considerando que não ficou evidenciada a relação que deveria haver entre a não anuência da instituição financeira ré para registro do loteamento dos imóveis e a subseqüente falência da empresa MARSIAJ. Ademais. sendo deixada ao prudente arbítrio do julgador. Julgado em 17/12/2008) 87 DERAM PARCIAL PROVIMENTO AO APELO. um resultado que se perdeu. É dizer. os autores limitam-se a afirmar que o dano sofrido seria decorrente do descumprimento do disposto na carta-contrato cujo conteúdo em nada pressupõe a assunção concreta e efetiva. UNÂNIME.

ABORTO. a qual. uma vez que a Constituição Federal não indica percentual relativo às terras reservadas aos índios. . Ministro Fernando Gonçalves. ATO ILÍCITO E DANO COMPROVADOS. Ministro Fernando Gonçalves. caso não houvesse sido ministrado medicação não indicada para gestantes. EXPLICITAÇÃO. Na continuidade. Um dos casos de maior repercussão de aplicação da teoria da perda de uma chance aplicada pelo Superior Tribunal de Justiça foi no julgamento em Recurso Especial sob relatório do Min. pois. Rei. TROCA DE MEDICAMENTO QUANDO DO FORNECIMENTO PELO AGENTE PÚBLICO. a cada resposta certa na seqüência.459-BA. DJ em 13/3/2006. não se mostrava aleatória. RECURSO ESPECIAL. IMPROPRIEDADE DE PERGUNTA FORMULADA EM PROGRAMA DE TELEVISÃO. CONSEQUENTE MAJORAÇÃO. seria feita a pergunta do milhão. no caso o aborto. aumentava o montante do prêmio. no caso. o participante teria que responder a uma série de perguntas e. APELAÇÃO DO RÉU DESPROVIDA. provido89. Recurso conhecido e. sobremaneira. até chegar à penúltima pergunta.00. em programa de perguntas e respostas. De acordo com o regulamento do programa. o ato ilícito se tipificou basicamente na forma comissiva do preposto do ente público. que. NEXO CAUSAL.000. qual seja. Fernando Gonçalves. O questionamento. 2. a inexistência de certeza quanto ao nascimento da criança esperada (feto). 334. sem viabilidade lógica. Julgado em 01/09/2010. Frisa-se. Relator: Marilene Bonzanini Bernardi. sopesando-se. PERDA DA OPORTUNIDADE. para atingir o valor de R$ 500. pela perda da oportunidade. A indenização deve ser graduada tendo em vista a probabilidade do nascimento. VALOR A SER REPARADO. Rel. INDENIZAÇÃO. se respondida de modo correto. 89 STJ-REsp. de responsabilidade por perda de uma chance. impondo o dever de ressarcir o participante pelo que razoavelmente haja deixado de lucrar.80 PRESCRITAS. 1. a impossibilidade da prestação por culpa do devedor. DJU de 13/03/2006. pela televisão. Tribunal de Justiça do RS. Quarta Turma. outrossim. como decidido pelas instâncias ordinárias. daria ao candidato o direito de receber o prêmio 88 Apelação Cível Nº 70034816306. Típico caso. julgado em 8 de novembro de 2005. p. porém também não era certa. no fornecimento incorreto de medicação à paciente grávida. VERBA HONORÁRIA. havendo os danos serem estabelecidos por arbitramento. que não se indeniza à morte. em parte. mas sim a perda da oportunidade do nascimento do primeiro filho. TEORIA DA PERDA DE UMA CHANCE. CRITÉRIOS DE FIXAÇÃO. Nº 788459/BA. acarreta. em que apreciou o caso do “Show do milhão” e reafirmou entendimento favorável ao acolhimento da teoria da responsabilidade civil pela perda de uma chance através do Recurso Especial nº 788. APELAÇÃO DOS AUTORES PARCIALMENTE PROVIDA88. FIXAÇÃO EM PERCENTUAL. No caso dos autos. DANOS MORAIS. mas a chance que adviesse. Nona Câmara Cível. MANUTENÇÃO.

por inexistir resposta correta. a seguir. a indenização a ser fixada deveria ser inferior ao montante final que a autora receberia. No caso em tela. Apesar de ter aplicado a teoria da perda de uma chance. autora da ação tinha logrado êxito em todas as respostas e chegou à pergunta do milhão. contudo. que apreciou o Recurso Especial e aplicou a teoria da responsabilidade civil pela perda de uma chance e entendeu que as chances matemáticas que a autora tinha de acertar a resposta da pergunta do milhão. se formulada a questão corretamente. de meio milhão de reais.00. desse modo. como se afirmar categoricamente . a candidata. Assim sendo. Assim. O STJ. caso fosse o questionamento final do programa formulado dentro de parâmetros regulares. o valor da indenização não poderia ser o prêmio perdido.81 máximo de um milhão de reais. se tivesse tido êxito. a análise das regras do jogo e o conteúdo da última pergunta formulada levaram à conclusão de que a pergunta havia sido deliberadamente elaborada de uma forma que não poderia ser respondida. obtido desempenho brilhante no decorrer do concurso que. não há. relatado pelo ministro Fernando Gonçalves: Na hipótese dos autos. se a pergunta tivesse sido formulada corretamente.000. o resultado esperado. Em primeira instancia. seria . importantes fundamentos do voto vencedor. eram de 25%. receberia o prêmio acumulado.ainda que a recorrida tenha. o candidato perderia tudo que conquistou até então. optou por não respondê-la. Eis. os R$ 500. Na hipótese de responder incorretamente. considerando o curso normal dos eventos. tendo em vista que não se poderia afirmar que a autora realmente acertaria a resposta.00. E se o candidato preferisse não responder à pergunta do milhão. dentro de um juízo de probabilidade. até o momento em que surpreendida com uma pergunta no dizer do acórdão sem resposta. ou seja. por entender que não existia resposta correta.000. De fato. reduziu a condenação para R$ 125. acolheu-se a teoria da responsabilidade civil pela perda da chance e concedeu o pedido de R$ 500.000. o juiz de primeiro grau fixou equivocadamente a indenização. inviabilizando. ou seja. a possibilidade da autora de ganhar o prêmio máximo. Nesse sentido. porém a própria chance.00. pois levou em conta não a possibilidade de a autora acertar a resposta da pergunta e ganhar o prêmio total.

. pressuposto essencial à condenação da recorrente no pagamento da integralidade do valor que ganharia a recorrida caso obtivesse êxito na pergunta final. ao responder uma das quatro alternativas90. porém. tenho que ao tribunal é permitido analisar com desenvoltura e liberdade o tema. a razão do acolhimento da tese da responsabilidade de o réu indenizar o prejuízo causado à autora.. b) A chance de ganhar o prêmio máximo já se integrara ao patrimônio da autora quando do ato danoso do réu. no que concerne à quantificação da chance perdida. Isto porque o que se indeniza não é a chance em si. A quantia sugerida pela recorrente (R$ 125. o resultado final. ou seja. justamente no momento em que poderia sagrar-se milionária. o juiz deverá basear-se no critério da probabilidade para a aferição do montante da oportunidade perdida.00) – equivalente a um quarto do valor em comento. por ser uma ‘probabilidade matemática’ de acerto da questão de múltipla escolha com quatro itens. c) Por fim. Indenização pela perda de uma chance. mesmo na esfera da probabilidade.. Acesso em 24 de novembro de 2010. Não obstante. Assim senso.. Falta. que o normal andamento dos fatos conduziria ao acerto da questão. reflete as reais possibilidades de êxito da recorrida.asp?id=1785. Eis.. foi alvo de conduta ensejadora de evidente dano. Nesse sentido manifesta-se Rafael Peteffi da Silva: 90 MELO. qual seja. ao se deparar com a questão mal formulada. portanto. proporcional às possibilidades que tinha a candidata. aplicando o critério matemático de 25%. Disponível em: http://boletimjuridico. que formulou incorretamente a questão final.com/doutrina/texto.). se obtivesse êxito na pergunta final. Quanto ao valor do ressarcimento.82 razoável esperar que ela lograsse responder corretamente à “pergunta do milhão” (. Resta. que não comportava resposta efetivamente correta. Raimundo Simão. para não permitir o enriquecimento sem causa de uma parte ou o dano exagerado da outra. adequando-o aos parâmetros jurídicos utilizados. é de se ter em conta que a recorrida.000. não há como concluir. Raimundo Simão Melo destaca como sendo os principais pontos abordados no acórdão pelo STJ: a) A incerteza do acerto da resposta foi fato inviabilizador da condenação do réu no pagamento integral do valor que ganharia a autora. a certeza – ou a probabilidade objetiva – do acréscimo patrimonial apto a qualificar o lucro cessante. o tribunal aceitou o entendimento de que a indenização será sempre inferior ao valor do resultado final esperado. assim. a perda da oportunidade de se tentar chegar àquele resultado. em conseqüência. evidente a perda da oportunidade pela recorrida (. a exemplo do que sucede nas indenizações por dano moral.) Destarte.

Na mesma direção se manifesta Gondim: Não há que se cogitar uma reparação equivalente ao benefício que provavelmente ocorreria. mas sim a sua impossibilidade de sobrevivência92. o instituto da responsabilidade civil passou e ainda é alcançado por inúmeras modificações e reformulações. Isto porque. O prejuízo da vítima é considerado como o evitamento do dano. presente tanto em casos particulares como no conjunto da sociedade. Nos dias atuais. p. Dentro desses instrumentos. 91 92 SAVI. Observou-se que no direito brasileiro. não podendo ser avaliado o dano causado. surgiu a corrente jurisprudencial e doutrinária calcada na reparação dos danos decorrentes da perda de uma chance. o que será ressarcido não é a morte do paciente. p.33. para aumentar as possibilidades de reparação efetiva dos danos. O objetivo da justiça e o anseio da reparação integral dos prejuízos sofridos pelo lesado levaram a doutrina e a jurisprudência a criarem instrumentos e artifícios. mas apenas a chance. a responsabilidade civil é contemplada como um fenômeno global. ou seja. nas decisões judiciais e também na análise doutrinária do direito de responsabilidade civil.235. devendo o valor ser apurado pela chance e não pela perda. A contemplação de forma global dos danos tem proporcionado a incorporação de elementos de reflexão de ordem moral e ética no campo da disciplina legal. mormente no que se refere aos seus requisitos ou elementos indispensáveis. GONDIM. . por exemplo. 2005. 2006. juridicamente respaldados. tendo em vista que esta é comprovadamente a lesão do ofendido.83 Pode-se afirmar que a regra fundamental a ser obedecida em casos de responsabilidade pela perda da chance prescreve que a reparação da chance perdida sempre deverá ser inferior ao valor da vantagem esperada e definitivamente perdida pela vítima 91. CONCLUSÃO A amplitude e complexidade do tema objeto do presente trabalho tornam a elaboração de uma síntese conclusiva uma tarefa árdua.

vem sendo apreciado pelos tribunais que já adotaram posicionamento favorável ao acolhimento da teoria da responsabilidade civil por perda de uma chance na esteira da existência. Não se admitem. não teve qualquer pretensão de esgotar o tema da teoria da perda de uma chance. para que exista o dever de indenizar devem estar presentes os requisitos da responsabilidade civil. por outro lado às expectativas incertas ou pouco prováveis. Por tudo o que foi abordado. e um nexo de causalidade entre os primeiros. repassar. ou seja: uma conduta. caracterizado pela perda da oportunidade de obter uma vantagem ou de evitar um prejuízo. em linhas gerais. enfim. a reparação não é do dano. algumas questões que nos pareceram relevantes para a compreensão do assunto. de uma cláusula geral de responsabilização civil. da obrigatoriedade de indenização da vítima de um dano injusto.84 Igualmente. . um dano. em sede constitucional. ter conseguido contribuir. na hipótese em estudo. Dessa maneira. espera-se. em nosso ordenamento jurídico. O presente estudo. a chance a ser indenizada deve ser algo que certamente iria ocorrer. do princípio da plena reparação dos danos e. porém cuja concretização foi frustrada pelo fato danoso. cada vez mais. para a compreensão do tema que. mas sim. de algum modo. Contudo. porém sim da chance.

Curso de Direito Constitucional. Institui o Código de Processo Civil. ed. BRASIL. Teresina-PI. . Promulgada em 05 de outubro de 1988. Clóvis. Constituição da República Federativa do Brasil.078. 9.uol. Lei n° 3. de 11 de setembro de 1990. Institui o Código Civil. BORTOLUZZI. ed. Luís Roberto.071. 15 abril de 2006. 1990. Bibiana Carollo. 25. BEVILÁQUA. Brasília. 2009. Saraiva.jus. Lei n° 5. Código Civil Comentado. Disponível em: www.869. de 11 de janeiro de 1973.com. São Paulo: Malheiros. 1988. Paulo Bonavides. 2010. BRASIL. Brasília. Rio de Janeiro. BRASIL. 1973. São Paulo. O Direito Constitucional e a Efetividade de suas Normas. Lei n° 8. Institui o Código de Defesa do Consumidor. Acesso em: 16 de outubro de 2010. de 01 de janeiro de 1916. A perda da chance e a responsabilização do advogado. 1916. 2008. BONAVIDES.br/doutrina. Rio de Janeiro: Renovar. BRASIL. ed.85 REFERÊNCIAS BARROSO. Brasília.

11ª ed. In: Revista dos Tribunais. v. 3ª edição. rev. Lumer Juris. Maria Helena. e aumentada por Rui Benford Dias – Rio de Janeiro: Renascer. GONÇALVES. Curso de direito civil: obrigações em geral.86 CARDOSO. Nelson. COSTA. Programa de Responsabilidade Civil. A responsabilidade civil dos médicos. Gisela. Dilvanir José da. DOWER. 2005. 2005. Sampaio. Rodolfo. Miguel Maria Serpa. 2002. e atual. 55. e atual. CAVALIERI FILHO. ed. Revista e Ampliada. 2004. São Paulo: Nelpa. São Paulo: Saraiva 2007. O problema do nexo Causal na responsabilidade civil. LEONARDO.19. e atual. Cristiano Chaves de. São Paulo: Saraiva 2010. Jacob. Miguel. v. pela lei de falência e pela lei de biossegurança. 2006. Rodrigo Xavier. Teoria Geral. Culpa médica e ônus da prova. LOPES. GAGLIANO. CRUZ. Nelson Godoy Bassil. Direito civil brasileiro: responsabilidade civil. Vol. Ed. ed. outubro de 2005. 5. 2009. n. Belo Horizonte: Dd Rey. Novo curso de direito Civil: responsabilidade civil. Glenda Gonçalves. Direito Civil. FARIAS. Rio de Janeiro: Livraria Freitas Bastos S. KFOURI NETO. DINIZ. DIAS. Responsabilidade Civil e Penal dos Médicos nos Casos de Transplantes. in Curso moderno de direito civil. Direito Civil à Luz do Novo Código. José da Aguiar. Rosenvald. rev. 2006.A. GONDIM. VII. São Paulo: Saraiva. São Paulo: RT. Rio de Janeiro: Forense. rev. 5º atualizado pela emenda constitucional nº45. Rio de Janeiro: Renovar. 2008. AJURIS: revista da Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul. 2003. São Paulo: RT. Contratos e responsabilidade civil. Revista de direito privado. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. Rio de Jeniro. revista. São Paulo: Atlas. 2009. Sérgio. atualizada de acordo com o Código Civil de 2002. PAMPLONA FILHO. Alaércio. 8. Responsabilidade civil contratual e extracontratual: primeiras anotações em face do novo código civil brasileiro. Curso de Direito Civil Brasileiro: Responsabilidade Civil. Responsabilidade civil: teoria da perda de uma chance. . 2005. FRADERA. Pablo Stolze. Da responsabilidade civil. 2009.5. Porto Alegre: Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul. 3. Carlos Roberto.

COSTA.87 MARTINS. Rafael. Rio de Janeiro. 45. PACHECO.responsabilidade Civil. A Ponderação de Interesses na Constituição Federal. Gustavo Passarelli da. Direito Civil . Maria Celina Bodin de. A responsabilidade objetiva no direito brasileiro como regra geral após o advento do novo Código Civil. Responsabilidade civil por perda de uma chance. coord. PEREIRA. 2004. Rio de Janeiro: Lumen Júris. Daniel. Rio de Janeiro: Forense. Porto Alegre. Jus Navigandi. 2005. A Perda de Chance de Cura na Responsabilidade Civil Médica. Sérgio. Rio de Janeiro: Forense. Fernando. Curso de Direito Civil . Rio de Janeiro: Renovar. MORSELLO. NORONHA. A Responsabilidade Civil Pré-contratual: teoria geral e responsabilidade pela ruptura das negociações contratuais.Volume 7 . SILVA. Responsabilidade civil no transporte aéreo. Comentário ao Código Brasileiro de Aeronáutica. 2007. ampliada. 2003. Responsabilidade Civil. 2006. Rio de Janeiro: Forense. ed. 2009. 1ª ed. 9. Rio de Janeiro: Lumen Júris. Sálvio de Figueiredo Teixeira. PETTEFI DA SILVA. 1. Teresina. São Paulo: Saraiva 2007. PEREIRA. Dissertação de mestrado. PEDRO. Régis Fichtner. São Paulo: Saraiva. 2007. Paulo. Rafael. Direito das Obrigações: fundamentos do direito das obrigações: introdução à responsabilidade civil. Garcia Moreira Cristina do. PETTEFI DA SILVA. SAVI. ed. 3 ed. p. Fábio Anderson de Freitas. Responsabilidade Civil pela Perda de uma Chance. 2006. Comentários ao Novo Código Civil: Do Inadimplemento das Obrigações. IV. 2005. 2006. MORAES. São Paulo: ATLAS. José da Silva. Marco Fábio. Silvio. 2009. Judith. Danos à Pessoa Humana: uma leitura civil constitucional dos danos morais. SARMENTO. São Paulo: Atlas. 2006. 2009. Faculdade de Direito da UFRGS. Rio de Janeiro: Renovar. 2007. ROSÁRIO. Rio de Janeiro: Forense. RODRIGUES. Responsabilidade Civil pela Perda de Uma Chance no Direito Francês. Vol. NADER.Responsabilidade Civil. [Artigo] Universidade Estácio de Sá. A Responsabilidade Civil no Transporte Aéreo. . Caio Mário da Silva. São Paulo: Atlas.

Disponível em: www. Tratado de Responsabilidade civil – Responsabilidade Civil e sua Interpretação Jurisprudencial. FIUZA. ABORTO.jus. FALHA NA PRESTAÇÃO DO SERVIÇO. quando o dano acontece em decorrência de uma omissão do Estado. SILVA. Acesso em: 02 nov. 2009. ed. ANEXO – A: OUTROS JULGADOS RECENTES DE APLICAÇÃO DA TEORIA DA PERDA DE UMA CHANÇE 1º APELAÇÃO CÍVEL. Direito Civil: responsabilidade civil. 2008. Hipótese dos autos em que restou comprovada a omissão consistente na deficiência na prestação do serviço público por parte do Município. Todavia. é de aplicar-se a teoria da responsabilidade subjetiva. Rui. A Responsabilidade Civil Objetiva no Direito de Danos. Rio de Janeiro: Forense.uol. DANO MORAL CONFIGURADO. Responsabilidade Civil Pela Perda de Uma Chance. 1 maio 2003. Rafael Peteffi. 2010. 2009.7ª Ed. Patrícia Ribeiro Serra. Tal assertiva encontra respaldo legal no art. 2004. O sistema jurídico brasileiro adota a responsabilidade patrimonial objetiva do Estado sob a forma da Teoria do Risco Administrativo.com. CONDUTA OMISSIVA.. Sílvio de Salvo. São Paulo: Atlas. § 6º. TEORIA DA PERDA DE UMA CHANCE. 37. São Paulo: Editora Atlas. . São Paulo: RT. RESPONSABILIDADE DO MUNICÍPIO. Editora Saraiva 2010. Ricardo. 65. VENOSA. SILVA. STOCO. n. Código Civil Comentado . RESPONSABILIDADE DO MUNICÍPIO.88 ano 8. VIEIRA. o sofrimento durante duas horas da gestante e o subseqüente dano abortamento. Regina Beatriz Tavares da. 9. da CF/88.br/revista/texto/4045>.

A causalidade na omissão é entendida como um juízo hipotético. na medida em que a conduta omissiva do demandado certamente subtraiu da autora a chance de evitar o resultado danoso. a jurisprudência francesa criou essa teoria. representada pela inocorrência de pronto atendimento. CAUSALIDADE HIPOTÉTICA E AUMENTO DO RISCO. a certeza de ganho que foi encerrada por sua conduta. ‘posta’ mentalmente a ação não executada. em razão da ansiedade e dor física que passou enquanto aguardava por atendimento e via o seu estado de saúde se agravar durante o longo trajeto percorrido. . isso sim. A teoria da perda de uma chance surgiu na França no contexto de casos de responsabilidade médica em que. mas de colocação da ação: a omissão será causal quando. desapareceria o resultado. tenha diminuído as chances de impedir o resultado. é aplicável ao caso em tela a teoria da perda de uma chance.89 NEXO DE CAUSALIDADE NA OMISSÃO. ou diretamente ligado à lesão. até que fosse devidamente atendida. A inicial não deduz como única causa de pedir o abortamento. ainda que não seja integral. pois podem haver outras causas. Assim. Dano moral caracterizado. TEORIA DA PERDA DE UMA CHANCE. em si. em que pese não haja nos autos comprovação de que eventual presteza no deslocamento da gestante no veículo disponibilizado pelo Município teria evitado com certeza o abortamento. o agente será responsável. além do intenso sofrimento durante horas. não será imputado ao agente. A inserção do critério do aumento do risco no setor da causalidade implica que será causal a omissão quando a não execução da atividade possível para evitar o resultado. no caso em tela. não era possível demonstrar o nexo de causalidade entre ambos. embora constatada a ocorrência de conduta culposa do agente e de um dano efetivo para a vítima. resultando em sofrimento físico e moral desnecessário. pois a demandante também busca a indenização pelos transtornos advindos da falha do serviço. Em razão das dificuldades presentes nessas demandas. O dano. não de eliminação. ou seja. INDENIZAÇÃO PELO SOFRIMENTO. tenha aumentado o risco de sua produção. objetivando o ressarcimento da vítima. pela chance perdida. mas de forma que compense as chances de recuperação perdidas pelo lesado. do aborto. restando o lesado sem o devido ressarcimento. em razão da ausência de pronto atendimento. Deficiência na prestação do serviço público que causou sofrimento à autora. isto é.

o valor da indenização será arbitrado não em função do resultado lesivo final abortamento mas. na reparação do dano certo causado pela perda de uma chance. o qual. seja pelo peso ao nascer. 6. Por outro lado. quando não se tem a certeza de que a atuação nos padrões exigidos conduziria ao resultado diverso. o erro se tipificou basicamente na forma omissiva. sim. (Apelação Cível Nº 70023576044.90 QUANTUM INDENIZATÓRIO. No caso dos autos. Tribunal de Justiça do RS. TEORIA DA PERDA DE UMA CHANCE. HOSPITAL. Nona Câmara Cível. Julgado em 26/11/2008) 2º RESPONSABILIDADE CIVIL. seja pelo tempo gestacional. no fato de não ser providenciado exame oftalmológico no recém nascido prematuro o qual. pode impedir que se instale a cegueira. se não inibe algum defeito visual. cuja possibilidade de tratamento. como consequência possível e provável de um descolamento de retina total. DERAM PROVIMENTO AO APELO. RECÉM-NASCIDO. a fim de dissuadi-lo de novo atentado. está ligada ao tempo do diagnóstico em sua fase inicial e a implementação do tratamento necessário. é se haveria ou não condições de o menor . Relator: Odone Sanguiné. estatisticamente. de modo que não signifique um enriquecimento sem causa para a vítima e produza impacto bastante no causador do mal. Evidente que. A indenização por dano moral deve representar para a vítima uma satisfação capaz de amenizar de alguma forma o sofrimento impingido. e nesse ponto o ônus de provar a correta prestação de serviços seria da ré. A eficácia da contrapartida pecuniária está na aptidão para proporcionar tal satisfação em justa medida. se inseria entre aqueles com maior incidência da chamada retinopatia da prematuridade. UNÂNIME. qual seja. Verba sucumbencial invertida. o dano deve ser mitigado. com resultados satisfatórios. CEGUEIRA SUPERVENIENTE. DANOS MATERIAIS E MORAIS. em função da perda da chance de evitar o abortamento e em função do sofrimento a que a autora foi submetida em razão da deficiência na prestação do serviço. CARGA DINÂMICA DA PROVA. A dúvida que não restou esclarecida. FALHA NO ACOMPANHAMENTO POR OFTALMOLOGISTA. RETINOPATIA DA PREMATURIDADE.

o que. POR PROBLEMAS CARDÍACOS. sendo que em muitos casos outros prejuízos. Típico caso. E mais ainda. Perda da chance que se aplica tanto aos danos materiais como aos morais. O que é certo é que não houve registro dessa impossibilidade no prontuário e esta condição haveria de resultar de consenso entre os especialistas. Relator: Marilene Bonzanini Bernardi. sem dúvidas. Quantificação dos danos morais. como se viu. Pensionamento ajustado. na ausência de informação aos efetivos responsáveis pelo bebê. que. ou perda da visão. MÉDICO. FALHA NO DEVER DE INFORMAR AOS EFETIVOS RESPONSÁVEIS PELO BEBÊ SOBRE A NECESSIDADE DE INVESTIGAÇÃO. mas sim a perda da oportunidade de cura.91 suportar algum procedimento oftalmológico dadas as suas precárias condições de saúde. não se mostrava aleatória. No caso dos autos. E CUIDADOS QUANTO A EVENTUAL SINTOMATOLOGIA. POUCOS DIAS APÓS A ALTA. qual seja. Readequação dos valores. sobremaneira. HOSPITAL. RECÉM-NASCIDO. que são reduzidos. mas a chance que adviesse. pois de responsabilidade por perda de uma chance. DANOS MORAIS TIPIFICADOS.ROP) e suas reservas quanto à evolução da visão. Tribunal de Justiça do RS. que não se indeniza a cegueira. o erro se tipificou basicamente na forma omissiva. TEORIA DA PERDA DE UMA CHANCE. MORTE QUE SOBREVÉM. APELAÇÃO PARCIALMENTE PROVIDA. Frisa-se. SOPRO CARDIÁCO. (Apelação Cível Nº 70030588370. não aconteceu. Julgado em 02/09/2009) 3º RESPONSABILIDADE CIVIL. e isso. sopesando-se. estrabismo são percentualmente significativos no quadro. outrossim. entretanto. indenizando-se a probabilidade e não o dano final. tudo isso pressuponha que houvesse sido no mínimo disponibilizado esse acompanhamento. tais como miopia. A indenização deve ser graduada tendo em vista a probabilidade da cura. do possível sopro cardíaco constatado e dos cuidados a serem observados quanto à . havendo os danos serem estabelecidos por arbitramento. a inexistência de certeza quanto à cura. Nona Câmara Cível. não retira a gravidade da doença (retinopatia da prematuridade .

não basta alegação de mera probabilidade de alcançar um objetivo. pois.92 sintomatologia evolutiva e investigação. Julgado em 29/09/2010). RESPONSABILIDADE CIVIL. que não se indeniza a morte. teriam evitado o seu óbito. ainda que com procedimentos mais invasivos. no caso. Os danos morais restaram comprovados. Tribunal de Justiça do RS. se mais precocemente fosse o menor encaminhado a avaliação cardiológica. Quantum indenizatório reduzido. VALOR DA INDENIZAÇÃO REDUZIDO. porém também não era certa. a perda da chance de ser promovido. Julgado em 28/10/2009) 4º APELAÇÃO CÍVEL. Típico caso. O autor logrou provar fato constitutivo de seu direito. no sentido de que a requerida realizava ligações para seu local de trabalho. outrossim. (Apelação Cível Nº 70030146138. mas deve ser provada a perda de uma chance concreta. APELO PARCIALMENTE PROVIDO. a inexistência de certeza quanto à cura. de acordo com os princípios da proporcionalidade e da razoabilidade. Quinta Câmara Cível. que. A indenização deve ser graduada tendo em vista a probabilidade da cura. mas sim a perda da oportunidade de cura. Relator: Marilene Bonzanini Bernardi. LIGAÇÕES TELEFÔNICAS REALIZADAS PARA O LOCAL DE TRABALHO DO AUTOR. COBRANÇAS DE DÍVIDA ADIMPLIDA. . de responsabilidade por perda de uma chance. RELAÇÃO DE CONSUMO. quiçá. (Apelação Cível Nº 70038084646. Nona Câmara Cível. havendo os danos ser estabelecidos por arbitramento. Provou. Para ser devida a indenização pela perda de uma chance. ainda. Denunciação da lide acolhida. não se mostrava aleatória. cobrando dívida adimplida. Relator: Romeu Marques Ribeiro Filho. APLICAÇÃO DO CDC. SUCUMBÊNCIA MANTIDA. mas a chance que adviesse. APELAÇÃO PROVIDA. Frisa-se. sopesando-se. DANO MORAL MANTIDO. devendo ser mantidos. sobremaneira. que. Tribunal de Justiça do RS. PERDA DE UMA CHANCE CONFIGURADA.

eventualmente perdidas em razão da desídia do causídico. precisamente a perda da possibilidade de se buscar posição mais vantajosa que muito provavelmente se alcançaria. de modo que há julgamento extra petita se o autor deduz pedido certo de indenização por danos materiais absolutamente identificados na inicial e o acórdão. não é o só fato de o advogado ter perdido o prazo para a contestação. e diante do aspecto relativo à incerteza da vantagem não experimentada. Em caso de responsabilidade de profissionais da advocacia por condutas apontadas como negligentes. Vale dizer.é considerada uma lesão às justas expectativas frustradas do indivíduo. CONDENAÇÃO EM DANOS MORAIS.que a parte teria de se sagrar vitoriosa. tampouco de lucros cessantes. INDENIZAÇÃO POR DANOS MATERIAIS FORMULADA PELO CLIENTE EM FACE DO PATRONO. como no caso em apreço. que enseja sua automática responsabilização civil com base na teoria da perda de uma chance. ao perseguir uma posição jurídica mais vantajosa. A teoria da perda de uma chance (perte d’une chance) visa à responsabilização do agente causador não de um dano emergente. JULGAMENTO EXTRA PETITA RECONHECIDO. APLICAÇÃO DA TEORIA DA PERDA DE UMA CHANCE. Nesse passo. PERDA DO PRAZO PARA CONTESTAR. não fosse o ato ilícito praticado. mas de algo intermediário entre um e outro.que se supõe real . e não somente fluida ou hipotética . ou para a interposição de recursos. a perda de uma chance – desde que essa seja razoável. com base na . PREJUÍZO MATERIAL PLENAMENTE INDIVIDUALIZADO NA INICIAL. possui causa de pedir totalmente diversa daquela admitida no acórdão recorrido. as demandas que invocam a teoria da “perda de uma chance” devem ser solucionadas a partir de uma detida análise acerca das reais possibilidades de êxito do processo. que. a pretensão à indenização por danos materiais individualizados e bem definidos na inicial. Assim. séria e real.93 5º RESPONSABILIDADE CIVIL. teve o curso normal dos acontecimentos interrompido por ato ilícito de terceiro. ADVOCACIA. É absolutamente necessária a ponderação acerca da probabilidade .

A pretensão de simples reexame de prova não enseja recurso especial. ADMISSIBILIDADE. Ministros Raul Araújo. A responsabilidade do advogado na condução da defesa processual de seu cliente é de ordem contratual. recurso cabível na hipótese e desejado pelo mandante. por unanimidade. Ausente. o prazo para a interposição de apelação. DEMETRYUS EUGENIO GRAPIGLIA. APLICAÇÃO. Os Srs. nos termos do voto do Sr. Maria Isabel Gallotti e João Otávio de Noronha votaram com o Sr. o Sr. portanto. Recurso especial conhecido em parte e provido. A Turma. STJ. de forma negligente. A perda da chance se aplica tanto aos danos materiais quanto aos danos morais. Não se conhece do Especial quando a decisão . STJ. pela perda da probabilidade de sucesso no recurso. justificadamente.94 teoria da “perda de uma chance”. Não se trata. RECURSO ESPECIAL. DEFICIÊNCIA NA FUNDAMENTAÇÃO. Embora não responda pelo resultado. Responde. nem tampouco de conferir ao lesado a integralidade do que esperava ter caso obtivesse êxito ao usufruir plenamente de sua chance. no entanto. 6º PROCESSUAL CIVIL E DIREITO CIVIL. deu provimento ao recurso especial. Ministro Relator. SÚMULA 7. portanto. Aplicação da Súmula 7. desde que tal chance seja séria e real. pela parte RECORRIDA: ONOFRE DAL PIVA. A hipótese revela. condena o réu ao pagamento de indenização por danos morais. RESPONSABILIDADE DE ADVOGADO PELA PERDA DO PRAZO DE APELAÇÃO. TEORIA DA PERDA DA CHANCE. NECESSIDADE DE REVISÃO DO CONTEXTO FÁTICO-PROBATÓRIO. de reparar a perda de “uma simples esperança subjetiva”. APLICAÇÃO. Ministro Relator. o advogado frustra as chances de êxito de seu cliente. Ministro Aldir Passarinho Junior. o advogado é obrigado a aplicar toda a sua diligência habitual no exercício do mandato. que os danos materiais ora pleiteados já tinham sido objeto de ações autônomas e que o dano moral não pode ser majorado por deficiência na fundamentação do recurso especial. Drª. Ao perder.

relatados e discutidos estes autos. Os Srs. nos termos do voto da Sra.95 recorrida assenta em mais de um fundamento suficiente e o recurso não abrange todos eles. Súmula 283. Acórdão Vistos. Ministra Relatora. Ministra Relatora. Recurso Especial não conhecido. não conhecer do recurso especial. acordam os Ministros da TERCEIRA TURMA do Superior Tribunal de Justiça. por unanimidade. . na conformidade dos votos e das notas taquigráficas constantes dos autos. STF. Ministros Massami Uyeda e Sidnei Beneti votaram com a Sra.

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