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SilvioMeiraNoPonto

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Publicado porsilvio meira
Meira, Silvio Lemos
Silvio Meira NO. / Silvio Lemos Meira – Recife,
Pernambuco, 2004.
320f.
Coletânea de artigos publicados entre 2000 e 2002 na
revista eletrônica NO., www.no.com.br.
1. Sociedade da informação. 2. Tecnologias de
informação e comunicação. 3. Internet: conteúdos,
serviços e universalização. 4. Infra-estrutura de
informação. 5. Nova economia. 6. Políticas nacionais. 7.
Política de Informática. 8. empreendedorismo em
Informática
Meira, Silvio Lemos
Silvio Meira NO. / Silvio Lemos Meira – Recife,
Pernambuco, 2004.
320f.
Coletânea de artigos publicados entre 2000 e 2002 na
revista eletrônica NO., www.no.com.br.
1. Sociedade da informação. 2. Tecnologias de
informação e comunicação. 3. Internet: conteúdos,
serviços e universalização. 4. Infra-estrutura de
informação. 5. Nova economia. 6. Políticas nacionais. 7.
Política de Informática. 8. empreendedorismo em
Informática

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Published by: silvio meira on Feb 28, 2011
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[ 01.Fev.2002 ]

Desde que a produção intelectual e industrial começou a ser
sistematizada, a proteção de propriedade virtual –marcas,
patentes, processos, poemas, canções- tem sido uma
preocupação constante dos atores econômicos. A (tal)
sociedade virtual já teria começado muito antes da industrial,
quando a primeira Carta Patente foi concedida, por Henrique
VI da Inglaterra, em 1449: um certo John of Utynam recebeu a
graça real de monopolizar, por 20 anos, um método para fazer
vitrais que foi primeiramente usado na construção do Eton
College. Para qualquer outro fabricante que ousasse usar o
método, as masmorras e correntes reais provavelmente teriam
sido o destino.

A história das patentes tem mais de meio milênio na Inglaterra
e foi sistematizada pela primeira vez pelo rei James I, no
Statute of Monopolies de 1624, estabelecendo que não haveria
outros monopólios na Inglaterra que não "por 14 anos, ou
menos, para as manufaturas, para o seu real e verdadeiro
inventor" e que tais restrições "não poderiam ser contrárias à
lei ou afetar o estado, aumentar o preço das mercadorias ou
afetar negativamente o comércio". No papel, só valiam, então,
os monopólios "do bem". Conceitualmente, nada mudou até
hoje, no mundo inteiro. Não é possível registrar um processo
de fabricação de crack, menos ainda um método de eliminação
sistemática da concorrência. Se bem que os dois, no caso,
existem sob várias formas: os processos contra práticas
monopolistas ilegais estão aí pra gente ver. O problema é que o
grau de proteção dado aos criadores, como veremos, vem
assumindo proporções assustadoras.

A proteção para os livros e outros escritos, na Inglaterra,
apareceu muito depois, em 1710; até então, disputas sobre os
quais eram resolvidas pela lei comum. E a proteção legal foi
estabelecida pra valer somente quando as impressoras se
tornaram comuns na Europa: de posse de um meio de
duplicação rápida, qualquer pessoa de má fé podia, então,
vender o resultado do trabalho de outrem, sem que para isso
precisasse passar pelo tedioso processo de copiar o manuscrito,
o que era caro demais e tirava a margem de lucro do malfeitor.
As impressoras de Gutenberg, pode-se dizer, foram o Napster
do texto, a partir do séc. XV e pra valer, mesmo, depois do séc.
XVII. Aqui, entramos num túnel do tempo e saímos trezentos
anos depois.

Lá no passado, alguém montava a composição, em chumbo, de
um texto de Shakespeare e, muitos deles impressos, saía
vendendo. Hoje, alguém passa um "ripper" (software que extrai
conteúdo musical ou áudio-visual de um CD) num disco e
publica o material num site qualquer. O empreendedor ilícito

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das obras de Shakespeare vendia átomos, na forma de livros,
com o autor de Hamlet lá dentro. A garotada que troca e toca
Belle & Sebastian via Morpheus manda e recebe bits, com os
escoceses lá codificados. O vendedor de falsos Shakespeare
talvez distribuísse seu material com desconto; em alguns
lugares, até os conseguiria vender mais caro, talvez face à
desinformação local sobre quem era o real editor do bardo. A
galera que troca rock e pop nas redes "peer to peer" (entre
pares, ou P2P) talvez nem saiba quem é a gravadora de B&S e,
melhor, quem são B&S. Gostam do som, copiam pro winchester
e pronto. Não vi ninguém, ainda, vendendo MP3 pirata de
absolutamente nada. Os falsos Shakespeares eram um
empreendimento claramente criminoso, com alguém auferindo
lucros. As cópias verdadeiras de B&S que circulam na rede não
criam lucro para ninguém; no máximo, se tanto, representam
perda de receita para a gravadora da banda.

Alto lá, diriam os advogados da gravadora: você esqueceu de
dizer que os garotos que copiam e distribuem a música, sem
autorização dos proprietários do copyright, são criminosos
também, não vamos deixar isto por menos. Certo, que não
deixemos, então. Que a Polícia do Copyright seja enviada para
autuar e, quando for o caso, prender tantos quantos forem os
usuários ilegais das manifestações intelectuais e artísticas que,
mesmo protegidas por copyright, vagam pela rede. Faltaria
cadeia no mundo: Napster chegou a ter 80 milhões de usuários,
logo antes de fechar. Morpheus já tem 46 milhões de
downloads, outras redes têm muitos milhões. Algo, portanto,
está errado no reino da rede. Os súditos da Rainha do
Copyright teimam em não obedecer aos editos de S.M., que, por
sua vez, procura desesperada novos meios de extrair receita de
seus súditos. Na forma de "digital rights management" (DRM),
por exemplo.

Pra exemplificar o que isto vem a ser, imagine-se, míope, lendo
este artigo no jornal. Quem compra um exemplar do jornal
recebe também óculos, que só lêem aquela cópia! Se outra
pessoa quiser ver o que está escrito, terá que comprar seus
óculos, pois os meus não servem para nenhum outro leitor.
Ainda mais, meus óculos, além de não mostrarem nenhuma
outra coisa (teria que ter outros para ver uma revista), são do
tipo Agente 86: depois de algumas leituras e após um aviso
qualquer, a coisa se auto-consumiria em chamas. Leitores que
tendem a dormir à sombra de nossos artigos seriam
incinerados na pira da, agora terrível, Deusa do Copyright.
Claro que, ao mostrar um artigo pra você, recomendando-o,
deveria haver alguma forma simples de você comprar tais
óculos misteriosos, em qualquer lugar. Aí, entra a indústria de
conteúdo e DRM.

Compre um CD. Nele, haverá seu próprio tocador, um software
que só serve para ele. Tente fazer uma cópia de backup:
impossível. Pense em copiá-lo em MP3, para seu próprio uso:

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necas. Tente tocar onde o fabricante não definiu como um dos
"alvos" do CD: lamentamos muito. Envie uma música para
alguém: OK, quem recebeu vai ouvir apenas os primeiros
segundos, após o que aparecerá um "passe seu cartão aqui...",
condição para ouvir o resto. DRM é a entrada dos mega-
proprietários de produção intelectual em P2P, onde pretendem,
ao invés de ter seu copyright solapado, torná-lo parte de seu
marketing direto, consentido, feito por quem é idôneo. Eu
mando uma música, você ouve uns segundos, a música lhe
pede que a compre. Indiretamente, sou eu fazendo marketing
direto para (contra?) você. E olha que você, entre outras
alternativas, vai poder pagar para ouvir só uma vez, por
exemplo. Os auriculares se auto-destruirão após uma audição.
Depois, para ouvir de novo... vai estar lá a música passando o
chapéu.

Certo que haverá muitas políticas de execução e preço (ou
assinatura). Todas elas, face à fúria capitalista das gravadoras
e grandes conglomerados midiáticos, destinadas a extrair, se
for o caso, até o sangue do ouvinte em forma de pagamento. O
"setor" tem conseguido forçar a passagem, nas casas legislativas
do mundo todo, legislação que estende a validade do copyright:
nos EUA, eram 28 anos para uma obra cair no domínio público,
em 1790. Em 1976, o Congresso estendeu a validade do
copyright para 50 anos depois da morte do autor e, se for
trabalho corporativo, 75 anos da data de publicação. Isto faria
com que Mickey Mouse entrasse no domínio público em 2004...
só que, em 1998, o mesmo Congresso mudou tudo, protegendo
os trabalhos pela vida do autor mais 70 anos.

Mickey, livre, só lá pra 2025, isso se a Disney não conseguir
convencer o Congresso de então a dar-lhes mais uns 20 anos
ou, quiçá, o sempre, de presente. Coisas da política e de sua
relação com o Capital, das quais o rato é só um exemplo. E a
extensão do prazo é só parte: o DMCA, de que falamos em
coluna anterior, muda o entendimento do que é copyright e das
formas de protegê-lo, e patrocina absurdos como a prisão de
Dmitry Sklyarov, acusado de... demonstrar que o sistema de
proteção a arquivos PDF (da Adobe) é de uma incompetência
sesquipedal (e para o que ele escreveu um recuperador de
chaves, para quem as tinha, de verdade, e perdeu de alguma
forma)...

O domínio público tem sido de importância fundamental para o
desenvolvimento das idéias e das coisas. À medida que se quer
restringir, cada vez mais, o acesso livre à informação, há o
claro risco de se perder possibilidades de recriar, de inovar. E
tem gente querendo ganhar royalties em cima dos comentários
sobre suas criações e, de resto, proibir até que a gente conte
uma história para outrem, se a tivermos lido em algum lugar,
sem pagar o devido dízimo à fonte. Aí vai ser o fim mesmo. Mas
disso a gente fala semana que vem.

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