P. 1
SilvioMeiraNoPonto

SilvioMeiraNoPonto

|Views: 1.063|Likes:
Publicado porsilvio meira
Meira, Silvio Lemos
Silvio Meira NO. / Silvio Lemos Meira – Recife,
Pernambuco, 2004.
320f.
Coletânea de artigos publicados entre 2000 e 2002 na
revista eletrônica NO., www.no.com.br.
1. Sociedade da informação. 2. Tecnologias de
informação e comunicação. 3. Internet: conteúdos,
serviços e universalização. 4. Infra-estrutura de
informação. 5. Nova economia. 6. Políticas nacionais. 7.
Política de Informática. 8. empreendedorismo em
Informática
Meira, Silvio Lemos
Silvio Meira NO. / Silvio Lemos Meira – Recife,
Pernambuco, 2004.
320f.
Coletânea de artigos publicados entre 2000 e 2002 na
revista eletrônica NO., www.no.com.br.
1. Sociedade da informação. 2. Tecnologias de
informação e comunicação. 3. Internet: conteúdos,
serviços e universalização. 4. Infra-estrutura de
informação. 5. Nova economia. 6. Políticas nacionais. 7.
Política de Informática. 8. empreendedorismo em
Informática

More info:

Published by: silvio meira on Feb 28, 2011
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

01/31/2013

pdf

text

original

[ 08.Mar.2002 ]

Ser presidente dos Estados Unidos não é um dos doze
trabalhos mais fáceis do mundo. Terroristas jogam aviões em
prédios-símbolo de sua mais importante cidade, após o que
teimam em continuar resistindo em montanhas congeladas
perto do fim do mundo, forçando o comandante em chefe a
arriscar vidas de americanos. Companhias que estavam
"fazendo história", de acordo com respeitados analistas e
professores, como Gary Hamel, implodem miseravelmente,
soterrando as economias de seus funcionários e parceiros e
ainda abrem um rombo do tamanho do Afeganistão na
confiança americana nas práticas de suas corporações. E muita
gente do time da presidência pode acabar aparecendo do lado
errado da investigação. Mazelas a rodo e, como se não bastasse,
setores da economia que padecem de incompetência sistêmica,
não podem competir nem localmente e forçam a presidência a
reescrever, em casa, o livro de regras que tenta impingir ao
mundo.

Segundo o credo americano à G. W. Bush, "Free markets and
open trade are the best weapons against poverty" e, claro,
"Terrorists attacked world and free trade". Nas duas citações, a
mesma ladainha: mercados abertos e livre comércio. Mas, no
começo de março, o mesmo Bush resolveu criar um
impostozinho de até 30% sobre as importações de aço, uma das
mais frágeis competências americanas, por culpa de
siderúrgicas ultrapassadas e acordos trabalhistas do começo do
século passado. Algo como o OGMO e quase totalidade dos
portos brasileiros.

A sobretaxa de 30% foi criada ao tom de "We're a free-trading
nation, and in order to remain a free-trading nation, we must
enforce law", o que é absolutamente arretado sob qualquer
ponto de vista. A interpretação mais otimista é algo como

"somos a favor do livre comércio dos nossos produtos nos
vossos mercados e lutaremos de todas as formas para diminuir
a competitividade dos vossos produtos nos nossos mercados,
tratando o assunto com todas as armas à nossa disposição,
inclusive a lei". Um dos países mais afetados pela decisão é o
Brasil. E o que informática tem a ver com isso?

Desde os anos 70 que o Brasil tenta fazer valer uma certa
política de desenvolvimento industrial em tecnologias da
informação e comunicação. Começamos com uma comissão
(CAPRE) para organizar as compras do governo, que depois
passou a induzir uma indústria nacional, processo que foi
transformado em lei (7.232, de 1984), que foi mal interpretada
e mal utilizada, tanto contra como a favor, acabando por ser
flexibilizada (pela Lei 8248) e, mais recentemente,
modernizada (Lei 10.176, regulamentada pelo decreto 3.800).

312

Este ano, deveríamos comemorar trinta anos de criação da
CAPRE, mas não haverá, que eu saiba, nenhuma festa... somos
modernos, eficientes e eficazes, não precisamos destas coisas
de país pobre como proteção à inteligência, mercado e
indústria locais. Comemorar pra que?

Uma parcela considerável de americanos (interessados no
vasto mercado brasileiro) e brasileiros (interessados nas
comissões de venda de importados) sempre foi contra qualquer
política de qualquer coisa brasileira e, muito bem remunerada
para tal, sempre usou a lógica, de curto prazo, para descontar
como ingênuas nossas possibilidades industriais em hardware
e software, do tipo que fosse. E o desenvolvimento não cabe na
lógica, pois é de longo prazo. Daí que, alimentada por
esperança, a fênix da política teima em voltar, apesar de tão
queimada ,que é necessário, cada vez que se fala dela, começar
pela defesa do passado. Pra simplificar uma longa história,
dados da Secretaria de Política de Informática, em números
redondos, mostram que, para uma renúncia fiscal de 4.4
bilhões de reais, oriunda da Lei 8.248, entre 1993 e 2000, as
empresas beneficiadas recolheram (outros impostos no valor
de) 8.1 bilhões de reais. O resultado líquido, para o país, foi de
3.7 bilhões de reais, aliado a investimentos que podem ter
significado, no mais das vezes, aumento da capacidade nacional
de desenvolvimento e produção competitiva de bens e serviços
de informática. A isenção afeta a indústria de hardware, mas
uma grande parte do investimento é efetuado no
desenvolvimento de sistemas e software, mercado que vale
mais de 10 bilhões de reais no país, hoje.

A Lei 10.176, aprovada contra os interesses de grupos que
queriam a pura, simples e rápida abertura dos portos para o
"livre comércio" do senhor Bush, levou mais de um ano para
ser regulamentada e, se tudo continuar correndo bem, começa
a funcionar de verdade este ano. A nova política tenta
simplificar a vida das empresas, aumentar a possibilidade de
desenvolvimento regional e criar novas possibilidades de
investimento além dos já clássicos pesquisa, desenvolvimento e
formação de capital humano. Dos quase 680 milhões de reais
que devem ser investidos este ano, mais de 100 milhões têm
que ser utilizados em projetos nas regiões norte, nordeste e
centro-oeste, aumentando a criação de oportunidades e
desafios "fora do centro", criando um processo emergente de
desenvolvimento nacional. Chega de empilhar o país inteiro em
três ou cinco cidades: a Campinas de hoje tem parte de sua
gênese em um processo de desenvolvimento "nacional" tão
concentrado que todo mundo, inclusive e principalmente os
fora-da-lei, tem que ir pra lá pra sobreviver. E ainda não
paramos de fazer isso, o Brasil continua se concentrando, nos
mesmos lugares.

A 10.176 também inova ao criar um fundo, para onde irão, em
2002, mais de 60 milhões, que o governo pode usar para

313

induzir ações capazes de direcionar centenas de milhões em
investimento para projetos de interesse nacional, de
desenvolvimento regional e do setor. Outros 500 milhões de
reais podem ter qualquer destino garantido pela legislação. E a
10.176 ainda cria uma possibilidade nova e bem vinda,
considerando investimento em "atividades de pesquisa e
desenvolvimento em tecnologia da informação" o processo de
"fomento à invenção e inovação, gestão e controle da
propriedade intelectual gerada dentro das atividades de
pesquisa e desenvolvimento, bem como implantação e operação
de incubadoras de base tecnológica em tecnologia da
informação". Em bom português, a 10.176 pode fomentar a
inovação e empreendedorismo numa área onde a maioria dos
investidores só quer comprar fluxos de caixa positivos, além de
financiar incubadoras, entidades que normalmente sobrevivem
da teimosia e do bom amadorismo de seus criadores.

Ainda falta uma portaria para regulamentar tal feito; Vanda
Scartezini, Secretária de Política de Informática, só pensa em
botar os pontos nos is deste assunto. Se coisas como esta
fossem parte da política industrial desde a CAPRE, há 30 anos,
teríamos muito mais a comemorar. Mas pelo menos temos um
discurso mais coerente do que os do Norte que, enquanto nos
pedem mercado livre de informática, criam barreiras para se
proteger do ferro que iriam deixar passar pela porta aberta da
própria incompetência. Pimenta no...

314

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->