P. 1
a analise criminal e o planejamento operacional

a analise criminal e o planejamento operacional

|Views: 1.064|Likes:
Publicado porSilvio Mendes

More info:

Published by: Silvio Mendes on Mar 01, 2011
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

05/07/2013

pdf

text

original

Sections

  • Ana Paula Mendes de Miranda
  • Doriam Borges
  • Simoni Lahud Guedes
  • Cláudio Beato
  • Elenice de Souza
  • Paulo Augusto Souza Teixeira
  • PERFIL DOS ORGANIZADORES E AUTORES

Série Análise Criminal | VOLUME 1

A ANÁLISE CRIMINAL E O PLANEJAMENTO OPERACIONAL
Distribuição Gratuita

Série Análise Criminal | VOLUME 1

A ANÁLISE CRIMINAL E O PLANEJAMENTO OPERACIONAL
MINISTRO DA SECRETARIA ESPECIAL DOS DIREITOS HUMANOS Paulo de Tarso Vannuchi GOVERNADOR DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO Sérgio Cabral Filho SECRETÁRIO DE ESTADO DE SEGURANÇA DO RIO DE JANEIRO José Mariano Beltrame INSTITUTO DE SEGURANÇA PÚBLICA
Série Análise Criminal
Distribuição Gratuita

PRESIDENTE DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL Luiz Inácio Lula da Silva

DIRETOR-PRESIDENTE Mário Sérgio de Brito Duarte VICE-PRESIDENTE Robson Rodrigues da Silva COORDENADOR DOS CONSELHOS COMUNITÁRIOS DE SEGURANÇA Paulo Augusto Teixeira

A ANÁLISE CRIMINAL E O PLANEJAMENTO OPERACIONAL

O conteúdo desta obra é de responsabilidade exclusiva dos autores e do Instituto de Segurança Pública. financiado pela União Européia. .Este livro foi produzido por meio de convênio firmado entre o Instituto de Segurança Pública e o Programa de Apoio Institucional às Ouvidorias de Polícia e Policiamento Comunitário da Secretaria Especial dos Direitos Humanos.

Projeto Curso de Capacitação em Técnicas Quantitativas e Análise Criminal Volume 1 A ANÁLISE CRIMINAL E O PLANEJAMENTO OPERACIONAL 2008 RIO DE JANEIRO 1ª EDIÇÃO .

) III. e por qualquer meio. v. CDD: 362. Análise Criminal – manuais. – Rio de Janeiro: Riosegurança. desde que citada a fonte. Ludmila Mendonça Lopes (Org. 1) ISBN 978-85-60502-32-5 1.Coleção Instituto de Segurança Pública Coordenador– Mário Sérgio de Brito Duarte Série Análise Criminal Organizadores – Andréia Soares Pinto e Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro Volume 1 A Análise Criminal e o Planejamento Operacional Autores Ana Paula Mendes de Miranda – IPP / Simoni Lahud Guedes – UFF / Doriam Borges – IUPERJ / Cláudio Beato – UFMG Elenice de Souza – UFMG / Paulo Augusto Souza Teixeira – ISP © 2006 by Instituto de Segurança Pública Tiragem: 150 exemplares Impresso no Brasil É permitida a reprodução. [autores] Ana Paula Mendes de Miranda . 116 p. Duarte.) II Ribeiro. I. Coordenador Mário Sérgio de Brito Duarte. etc.[et al. – (Série Análise Criminal. total ou parcial. Revisão Frederico César Girauta Maria Cláudia Ajuz Goulart Carmem Lúcia Teixeira Jochen Iara Cruz Fróes da Silva Projeto Gráfico Alexandre Lage da Gama Lima Thiago Venturotti Nunes Carneiro Diagramação Francisco Kelson Moreira de Sousa Organizadoras do volume Andréia Soares Pinto Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro Ficha Catalográfica Johenir Viégas Elenice Glória Martins Pinheiro Coordenação Técnica Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro Equipe técnica Lucas Botino do Amaral Daniel Keidel Bou Haya Coordenação Administrativa José Motta de Souza Apoio Administrativo Alexandre Corval Florisvaldo Moro José Renato Biral Belarmino A532a A Análise Criminal e o Planejamento Operacional / Organizadoras Andréia Soares Pinto e Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro.) II. 2008.]. III. Mário Sérgio de Brito (Coord.12 . Série. Título.. Andréia Soares (Org.. guias.Pinto.

.... 63 EXPLORANDO NOVOS DESAFIOS NA POLÍCIA: O PAPEL DO ANALISTA... 92 OS CONSELHOS COMUNITÁRIOS DE SEGURANÇA E OS DADOS OFICIAIS (Paulo Augusto Souza Teixeira).................................................................................................................................................................................................................................... ANÁLISE CRIMINAL E SENTIMENTO DE (IN) SEGURANÇA: CONSIDERAÇÕES PARA A CONSTRUÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS DE SEGURANÇA (Ana Paula Mendes de Miranda) ........................................................... 105 PERFIL DOS ORGANIZADORES E AUTORES .................................................. O POLICIAMENTO ORIENTADO PARA O PROBLEMA E A METODOLOGIA IARA (Elenice de Souza) .....................................................SUMÁRIO APRESENTAÇÃO (Mário Sérgio de Brito Duarte e Robson Rodrigues da Silva) .................... 42 O SISTEMA CLASSIFICATÓRIO DAS OCORRÊNCIAS NA POLÍCIA MILITAR DO RIO DE JANEIRO E A ORGANIZAÇÃO DA EXPERIÊNCIA POLICIAL: UMA ANÁLISE PRELIMINAR (Simoni Lahud Guedes) ................................... 14 COLETANDO E EXTRAINDO INFORMAÇÕES DOS BANCOS DE DADOS CRIMINAIS: A LÓGICA DAS ESTATÍSTICAS DAS ORGANIZAÇÕES POLICIAIS (Doriam Borges)........................................................................................................................................................................................................ 116 ................................................ 10 INFORMAÇÃO............................ 7 INTRODUÇÃO (Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro e Andréia Soares Pinto) .................................................................................................. 53 PRODUÇÃO... USO DE INFORMAÇÕES E DIAGNÓSTICOS EM SEGURANÇA URBANA (Cláudio Beato) .................

.

traçando metas factíveis e construindo indicadores adequados de avaliação e de produtividade. como no tático-operacional. a civilização ocidental se distinguiu no cenário mundial sustentada pelos pilares da ciência. M. do capitalismo e da democracia1. eficaz e efetiva que utiliza a ciência para a alocação racional dos recursos públicos. portanto.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 7 APRESENTAÇÃO Foi por uma postura racional que. Particularmente. tanto no plano estratégico. 1999. foram fatores decisivos para o surgimento do atual conceito de cidadão e da moderna sociedade industrial. A ética protestante e o espírito do capitalismo. menos contemplativa e cada vez mais compromissada com o progresso tecnológico. um diagnóstico adequado da realidade. dos recursos disponíveis e dos óbices que eventualmente dificultem a consecução desses objetivos. . Ministério Público. O livro que ora temos o prazer de apresentar trata exatamente da Análise Criminal e faz parte de um conjunto de estratégias desencadeadas pelo Instituto de Segurança Pública. Em termos de Administração Pública. justiça e presídios) com o instrumental científico-tecnológico construído pelo Instituto para uma gestão racional da segurança pública. No campo da segurança pública. a organização racional do trabalho e a ciência moderna. Pioneira. São Paulo. objetiva familiarizar atores do chamado sistema de justiça criminal e segurança pública (polícia. função que entendemos ser uma das premissas do Estado-nação. o conceito weberiano de “lucro renovável” pode ser traduzido por uma gestão eficiente. com todas as novidades que o progresso científico-tecnológico pode hoje nos proporcionar. O chamado planejamento estratégico deve contemplar. definindo objetivos. mais precisamente no que diz respeito ao controle da criminalidade e das violências. Nesse sentido. 14 ed. uma gestão que se pretenda moderna não deve abrir mão da Análise Criminal como instrumento otimizador de suas ações. segundo Max Weber. Um de seus objetivos é o de habilitar profissionais na manipulação de softwares estatísticos e de geoprocessamento para a produção e análise de informações necessárias ao planejamento e à execução de políticas públicas de segurança eficazes. Ele foi elaborado por 1 WEBER. a otimização de recursos na busca de um “lucro sempre renovável”. com vistas à modernização da segurança pública estadual.

5 O piloto desse projeto foi iniciado no Município de São Gonçalo e a expectativa é de que. o ISP vem procurando cumprir sua vocação institucional de subsidiar a Secretaria de Estado de Segurança na elaboração de políticas públicas. uma metodologia própria para a realização de pesquisas de vitimização que visam compreender o fenômeno da sub-notificação criminal. na elaboração de inferências. abordados nos artigos que compõem o presente livro. torna-se importante primeiramente a construção de bases de dados abrangendo informações sobre as práticas dos atores do sistema de justiça criminal. sem dúvida. Seu primeiro resultado foi a Pesquisa de 2 Tanto esse quanto outros projetos ou programas aqui citados serão. Por meio do mesmo convênio com a SEDH e a União Européia. dispondo de uma base de dados confiável das ocorrências registradas em todo o território fluminense. sua primeira etapa.8 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL ocasião do Curso de Capacitação em Técnica Quantitativas e Análise Criminal. no estabelecimento de padrões ou no mapeamento de tendências criminais. da Polícia Militar e das Guardas Municipais5.isp. desde 1999.rj. com o objetivo de integrar dados da Polícia Civil. muito em breve. Mesmo entendendo que a Análise Criminal seja mais do que a coleta de dados quantitativos para a produção de uma estatística criminal confiável. um dos projetos2 do convênio firmado com a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH/PR) e realizado pelo ISP com o financiamento da União Européia. juntamente com um ferramental analítico adequado. 3 www. e desenvolveu. A partir deles. Evidentemente que estamos falando de um processo de modernização que. Seguindo essa ordem. esta é. . por meio de uma postura moderna. de alguma maneira. depois. ele possa ser expandido para todo o estado. Nesse sentido o estado do Rio de Janeiro já conta.gov. nota 2. como todo processo. o ISP também desenvolveu o projeto SIAD4 (Sistema de Integração de Análise de Dados). apresenta uma ordem de etapas que precisa ser respeitada. Assim.br 4 Cf. ainda. mais comumente conhecida como “cifra negra”. o ISP produz a estatística criminal do estado que é divulgada mensalmente na página eletrônica do Instituto3 e no Diário Oficial do estado. quer na projeção de cenários. possam de fato utilizar em toda sua plenitude o instrumental disponibilizado pelo ISP. a sensibilização desses próprios atores para que. com o Programa Delegacia Legal.

7 Órgão que administra o recebimento das chamadas emergenciais 190. com o georeferenciamento dos dados das ocorrências policiais obtidas no Centro de Comando e Controle7 da Secretaria de Estado de Segurança . realizada em 2006/2007 na Região Metropolitana do estado do Rio de Janeiro e recentemente divulgada pelo ISP. Dessa forma. além das polícias estaduais. é bom ressaltar que o sucesso do primeiro curso de análise criminal já nos aponta alguns avanços nesse sentido. Nota 2. num futuro muito próximo. foi após a divulgação dos dados dessa pesquisa. Sabemos que ainda há muito caminho ainda para percorrer e. deverá ser acrescido de outros artigos ou volumes.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 9 Condições de Vida e de Vitimização6. problema que será discutido ao longo do presente trabalho. pesquisadores e gestores de segurança pública em geral. que o próprio Secretário de Estado de Segurança. inclusive. No entanto. foi estabelecido um diálogo com a Polícia Militar do estado do Rio de Janeiro para que o mesmo programa também seja oferecido na Academia de Polícia Militar D.SESEG. com isso. o ISP resolveu oferecer uma versão mais curta do mesmo curso para policiais. Dr. seria interessante contarmos também com dados sistematizados de outros atores do sistema de justiça criminal. MÁRIO SÉRGIO DE BRITO DUARTE Diretor-Presidente do Instituto de Segurança Pública ROBSON RODRIGUES DA SILVA Vice-Presidente do Instituto de Segurança Pública 6 Cf. como uma capacitação a ser continuada neste e no próximo ano. jornalistas. o que atenderá à Matriz Curricular proposta pela Secretaria Nacional de Segurança Pública. a imensa potencialidade que representa este trabalho que. Outro grande passo do ISP nesse processo foi a criação de um Observatório de Análise Criminal no Núcleo de Pesquisas em Segurança Pública e Justiça Criminal NUPESP/ISP. Aliás. Percebe-se. nesse aspecto. que possibilita o monitoramento espacializado das incidências criminais no estado. José Mariano Beltrame. E ainda no intuito da sensibilização. aventou a possibilidade de se iniciar uma série histórica para a avaliação das “cifras negras” no estado. . o que já foi incluído no Planejamento Orçamentário para o próximo ano. João VI para Aspirantes recém-formados no Curso de Formação de Oficiais.

para que esteja de fato capacitado a traçar ações de prevenção da criminalidade. após a implementação dessas. compreendidas através das técnicas de análise estatística. As ações que antecedem a elaboração da política e apontam suas virtudes e vicissitudes têm como sustentáculo as informações produzidas em sua implementação. de modo a apoiar as áreas operacional e administrativa no planejamento e distribuição de recursos para prevenção e supressão de atividades criminais. este instrumento parece ainda não integrar o cotidiano das organizações encarregadas da promoção da segurança pública na realidade brasileira. mas. sobretudo. os quais podem ter sua natureza e dinâmica. Contudo. Entre as habilidades requeridas para o agente de segurança pública. esta afirmação também é válida. Em boa medida. elevar a qualidade de vida dos cidadãos. Daí porque a estatística criminal tem se revelado como um dos principais instrumentos no planejamento e avaliação das ações de segurança pública. A análise criminal é entendida como um conjunto de processos sistemáticos direcionados para o provimento de informação oportuna e pertinente sobre os padrões do crime e suas correlações de tendências.10 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL INTRODUÇÃO Existe hoje amplo reconhecimento de que nenhuma organização pública ou particular funciona bem sem recursos humanos capazes de desenvolver com eficácia. No âmbito das instituições que compõem o sistema de justiça criminal. principalmente a violenta. razão pela qual muito se tem discutido sobre quais habilidades devem ser consideradas indispensáveis ao agente de segurança pública. . Isto porque uma política pública eficaz. estas se encontram armazenadas nas organizações que compõem o sistema de justiça criminal na forma de dados quantitativos. encontrase a de empreender uma boa análise criminal nos momentos que antecedem o planejamento das políticas públicas e. Consciente deste fenômeno e pressionado pela demanda contínua de diversos policiais no que diz respeito à capacitação em técnicas quantitativas e análise criminal. eficiência e efetividade as atividades que lhe são destinadas. em especial. eficiente e efetiva é aquela que consegue não apenas prevenir o crime.

um projeto de aperfeiçoamento dos agentes de segurança pública através da introdução. A partir do convênio entre a Secretaria Estadual de Segurança Pública e a Secretaria Especial dos Direitos Humanos do Governo Federal.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 11 o Instituto de Segurança Pública . bem como programas mais utilizados neste sentido. que produz mensalmente estatísticas relativas à ocorrência de crimes no estado. O Curso de Capacitação em Técnicas Quantitativas e Análise Criminal foi. A segunda parte visou dar suporte aos alunos na utilização dos dados de natureza criminal produzidos por cada uma das organizações que compõem o sistema de justiça criminal quais sejam: Polícia Militar. o ISP capacitou.ISP1 propôs a realização do Curso de Capacitação em Técnicas Quantitativas e Análise Criminal para os agentes de segurança pública do estado do Rio de Janeiro. Judiciário e Sistema Penitenciário. Este módulo teve como finalidade familiarizá-los com a utilização desses dados durante o exercício de sua atividade cotidiana. Ministério Público. O primeiro ministrou disciplinas capazes de dar suporte teórico à compreensão dos métodos quantitativos. portanto. Por fim. portanto. foram abordados conteúdos relativos à introdução à estatística e à análise de dados. trata-se de 1 O Instituto de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro é uma autarquia ligada à Secretaria de Segurança Pública. Alguns dos textos que integram o primeiro volume da série análise criminal foram produzidos pelos professores do curso ao longo das aulas. através de um curso estruturado em três módulos. entre os dias 7 de agosto e 11 de outubro de 2006. quais sejam EXCEL e SPSS. A proposta de realização do curso teve como sustentáculo o fato de que vários agentes de segurança pública argumentavam que a não utilização dos dados criminais produzidos pela delegacia legal e tratados pelo ISP se devia ao desconhecimento das ferramentas de análise criminal. de ferramentas de análise estatística enquanto instrumento auxiliar na mensuração dos resultados das políticas públicas implementadas e instrumento principal na elaboração de ações policiais preventivas eficazes. Esses dados constituem uma gama de informações que poderiam servir como ferramentas no planejamento e avaliação de políticas públicas da área de segurança . na realidade prática destes agentes. cinqüenta e três agentes de segurança pública. o terceiro módulo consistiu no compartilhamento de experiências de organizações policiais militares de outros estados da federação brasileira no uso de dados quantitativos enquanto ferramenta auxiliar na consecução do planejamento tático e operacional da unidade policial. com financiamento da União Européia. Ou seja. Polícia Civil. Nesta etapa.

12 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL trabalho construído não apenas a partir dos princípios teóricos e metodológicos que orientam a análise criminal. O segundo capítulo apresenta uma discussão sobre os pressupostos da estatística criminal. e a forma como os dados criminais têm sido produzidos e utilizados no estado do Rio de Janeiro. O último capítulo discute a transparência dos dados na seara da segurança pública a partir da análise das ações desenvolvidas de forma integrada pelas polícias . por conseguinte. mudar o quadro de não uso das ferramentas estatísticas enquanto instrumento e avaliação das políticas de segurança em razão do desconhecimento destas. Os capítulos 3 e 4 discutem a produção e o uso das informações criminais na elaboração de ações e diagnósticos em segurança pública. O primeiro capítulo analisa conceitualmente o papel da informação. a melhoria da qualidade de vida urbana. utilizado nos capítulos subseqüentes. na seara da segurança pública. A estrutura da obra em cinco capítulos reflete este propósito. sobretudo. viabilizam a redução da incidência criminal e. O primeiro deles parte do estudo de caso de Belo Horizonte e salienta que as diversas ferramentas estatísticas ensinadas no Curso de Capacitação em Técnicas Quantitativas e Análise Criminal. Já o terceiro capítulo parte de uma dessas bases de dados. mas. Assim. O outro capítulo enfatiza as capacidades requeridas para o moderno policial na produção e no uso das informações estatísticas e de como estas competências são ativadas e dinamizadas através da metodologia IARA (metodologia orientada para a solução de problemas composta por quatro etapas: Identificação. Resposta e Avaliação . em especial a estatística. Nele é desenvolvido o instrumental teórico acerca da importância da informação no planejamento e avaliação das políticas de segurança pública. a partir do diálogo com os principais usuários das ferramentas de informação e gestão que foram ensinadas no Curso de Capacitação em Técnicas Quantitativas e Análise Criminal. os estudos publicados neste volume representam uma tentativa de reunir as principais reflexões sobre análise criminal e.IARA). desta forma. para desenvolver a discussão sobre como foi montado e como hoje é operado o sistema classificatório das ocorrências policiais. principalmente no que diz respeito às possibilidades de aplicação dessa metodologia a diversas bases de dados criminais (ou não) disponíveis no Brasil. Análise. com ênfase na base construída pela Polícia Militar do Rio de Janeiro. quando empregadas com o devido rigor metodológico.

Com o primeiro volume da série análise criminal. desejamos suprimir uma lacuna na segurança pública. propiciando ao leitor um instrumento de apoio e reflexão que possa contribuir efetivamente para a melhor aplicação dos conteúdos apreendidos durante o curso. Esperamos que a interação entre os diversos campos de conhecimento possibilite a percepção de que o trabalho policial não se esgota no atendimento e registro de ocorrências. é uma atividade voltada para a identificação e resolução de conflitos. mas. Andréia Soares Pinto Coordenadora responsável pelo projeto Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro Coordenadora Técnica . e das informações produzidas pelos Conselhos Comunitários de Segurança do Rio de Janeiro.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 13 e pelas comunidades.

portanto.14 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL INFORMAÇÃO. que as cifras trariam mais credibilidade e legitimidade do que as descrições textuais. A criação da palavra Estatística é atribuída ao pesquisador alemão Gottfried Aschenwall (1719-1772) com o sentido de ciência do Estado. O uso mais comum dos “dados” está relacionado à estatística. Mas o que são “dados”? São elementos de informações ou representações de fatos que servem de base para a formação de uma análise. ANÁLISE CRIMINAL E SENTIMENTO DE (IN) SEGURANÇA: CONSIDERAÇÕES PARA A CONSTRUÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS DE SEGURANÇA1 Ana Paula Mendes de Miranda A informação e a construção do conhecimento A informação é considerada usualmente como um conjunto de fatos (acontecimentos) e/ou dados a respeito de algo. entendido como um processo de interação do sujeito com o mundo exterior. que permitiria aos governantes ter um diagnóstico mais objetivo dos fatos concernentes aos seus domínios. o espaço público e as políticas públicas. durante o Simpósio da Rede Interdisciplinar de Estudos Comparativos (RIEC): Direito. e privilegiando uma visão dos fatos como “coisas”. . cujo relato isento propiciaria a percepção da realidade como ela é. 1 Uma primeira versão deste artigo foi apresentada no Painel Políticas Públicas. Justiça e Segurança Pública . que constituiriam o ato de informar. então. em Coimbra. de uma forma de conhecimento que surge como um dos elementos da teoria da arte de governar. informar significa comunicar os fatos.Isaac Joseph. Tratou-se. no VIII Congresso LusoAfro Brasileiro de Ciências Sociais. De acordo com a teoria da informação. nos séculos XVII e XVIII. 2004. relacionada ao desenvolvimento dos aparelhos administrativos do Estado. cujo resultado será influenciado por diversos fatores. Acreditava-se. tornando-os públicos. enunciar uma mensagem permite a redução da incerteza sobre uma dada realidade. Violências e Discursos. Nesse sentido.

principalmente. o que explica a existência de um grau aceitável e conhecido de erro. não apenas porque foi produzido pelo Estado. e. A estatística entendida como ciência do Estado se constitui em um exemplo privilegiado dessa relação entre saberes e poderes. conhecendo os dados e áreas de incidência. bem como outros aspectos metodológicos da produção de estatísticas públicas. como referência ao hábito de utilização de produtos de beleza para disfarçar imperfeições e realçar pontos positivos. que ao longo da história procuraram dissimular alguns fatos e exibir outros tantos. bem como para produzir máscaras e fantasias. para que. que analisou a complexa relação entre os saberes e o poder. com o objetivo de obter os resultados que interessam aos governos. a população e os diferentes setores da sociedade civil possam objetivar as demandas por providências do Poder Público e contribuir para o esforço comunitário contra a insegurança. Não há como negar que a metáfora se aplica bem a diversas formas de governos. depois. tudo é produto de escolhas feitas pelos “analistas”. O uso da informação estatística possui um caráter estratégico porque permite dar significado a infinidade de dados que inundam a administração pública. mais ou menos democráticos. muito embora haja um discurso de que os números sejam sempre exatos. A inexatidão da informação estatística tem sido comumente interpretada como uma forma de manipulação intencional. orientar a administração quanto aos caminhos que deve seguir no planejamento. para a população conhecer o que está acontecendo ao seu redor. que vai desde a escolha dos temas a serem investigados até os conceitos. Esta prática é tradicionalmente chamada de “maquiagem”. mas porque todo saber tem em sua origem relações de poder. mas sim como sínteses construídas a partir da observação das realidades. também. Porém. tendo sido bem demonstrada por Foucault (1990). execução e redirecionamento das ações do sistema policial.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 15 A busca pela objetividade e neutralidade é algo já amplamente discutido na teoria do conhecimento2. Servem. Primeiro. Conseqüentemente. Assim. as estatísticas não podem ser compreendidas como uma cópia da realidade. é preciso se pensar para que servem os dados na segurança pública? Servem para. nacionais ou internacionais. ao afirmar que todo saber é político. há que se problematizar mais a inexatidão estatística sob o risco de perdermos um instrumento de análise necessário para a construção de políticas públicas. A sua 2 Ver Kuhn (1974) e Morin (2005) . todo recorte estatístico é constituído por diferentes interpretações de um mesmo fato.

a polícia ferroviária federal é citada. 1990 e 1998). 3 Embora as Guardas Municipais sejam citadas nesse artigo no §8.500 Municípios e um Distrito Federal. o que tem a ver pura e simplesmente com a quantidade das ocorrências criminais. Portanto. O processo de quantificação para que seja útil à interpretação da realidade deve ser complementado pelas informações qualitativas.institutodeseguranca. 4 Essas informações estão disponíveis na internet. 144. pode ser ampliada por inúmeros fatores. que. mais de 5. Por outro lado.16 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL importância não está apenas na divulgação da informação. polícia ferroviária federal. que fornecem mais detalhes sobre o fenômeno que se pretende estudar. sendo exercida “para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio” (Brasil. no site www. independentemente dos dados objetivos. polícia civil.br. mas na transformação da informação bruta em algo que possa servir para orientar ações futuras. polícia militar e corpo de bombeiros militares3. A informação como instrumento de políticas públicas O Brasil é uma república federativa. formada por 26 Estados. segundo a Secretaria Nacional de Segurança Pública. como sendo um dever do Estado e direito e responsabilidade de todos. em processo de liquidação. . também conhecida como sentimento de insegurança (Roché. Enquanto a cobertura de registros é de 100% no Rio de Janeiro. no título V (Da Defesa do Estado e das Instituições Democráticas). não estão listadas entre os órgãos responsáveis pela gestão da segurança pública. de crimes ou outros eventos ocorridos em todo o seu território4. polícia rodoviária federal. mas sua função é apenas proteger o que sobrou do patrimônio da Rede Ferroviária Federal. mas principalmente pelo impacto emocional destas ou daquelas ocorrências em função de quem seja a vítima ou o local onde tenham ocorrido. a média nacional é de 86%. A propósito da insegurança. 2004) pelos seguintes órgãos: polícia federal. cuja Constituição em vigor estabelece as competências relativas à segurança pública.gov. é o contexto que vai determinar o sentido dos dados. O Estado do Rio de Janeiro é o único do Brasil que publica mensalmente em Diário Oficial os registros de ocorrência em delegacias.rj. Não dão conta da (in) segurança subjetiva. em seu art. cumpre sublinhar que os dados estatísticos das polícias dão conta apenas do que se pode chamar de (in) segurança objetiva.

mas tem receita própria e gestão descentralizada. elaborando o planejamento da força policial que mais atenda às necessidades da sociedade. Juntamente com a divulgação no Diário Oficial dos dados estatísticos sobre a criminalidade no Estado. pesquisadores que estudam a temática da violência. critérios de avaliação e a elaboração de medidas de desempenho consistentes é um trabalho que pode auxiliar tanto para avaliação da qualidade desse trabalho. que possam contribuir para o aprimoramento profissional dos policiais. foi criado o Núcleo de Pesquisa em Justiça Criminal e Segurança Pública (NUPESP). considera-se que a realização de diagnósticos. 2000). como parte do Programa de Qualificação Estatística e Relação com a Mídia. O ISP está vinculado à Secretaria de Estado de Segurança Pública. além de desenvolver e coordenar estudos sobre a justiça criminal e segurança pública. para assegurar. o Instituto de Segurança Pública (ISP) passou a publicar 5 Trata-se da correspondência geográfica entre a área de um batalhão da Polícia Militar (responsável pelo policiamento ostensivo e a preservação da ordem pública) e uma ou mais circunscrições de delegacias da Polícia Civil (exercendo as funções de polícia judiciária e apuração de infrações penais) 6 O Instituto de Segurança Pública é uma autarquia. criada em dezembro de 1999. Participaram deste projeto diversos setores da sociedade. e desagregar os dados por Áreas Integradas de Segurança Pública (AISP)5. Tradicionalmente. inspetores e oficiais de cartório) e autoridades policiais (delegados). Em 2000. criminalidade e segurança pública (Governo do Estado do Rio de Janeiro. quanto possibilitar o gerenciamento profissional da polícia. de forma a constituir-se numa política pública de segurança. Trata-se de um órgão que pretende promover a integração entre a metodologia acadêmica de pesquisa e a avaliação institucional do trabalho policial. vinculado ao Instituto de Segurança Pública6. proveniente ou não de fontes policiais. Nesse sentido. gerenciar e executar a política de segurança do Estado do Rio de Janeiro. incorporar conhecimento especializado no tratamento das estatísticas. Os objetivos principais foram dar transparência aos dados. a gestão dos recursos policiais e o planejamento das ações têm sido orientados apenas pela “experiência” e “bom senso” dos agentes (investigadores. a fim de produzir mapas de risco com indicação de pontos de concentração de ocorrências de crimes. tendo como finalidades principais produzir os relatórios estatísticos sobre o sistema de segurança pública estadual. a definição de metas.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 17 Este trabalho teve início em 1999. em especial. .

roubo em coletivo e latrocínio. extorsão mediante seqüestro. op. em 2005. não esteja incluído entre estes crimes”8. embora mereça atenção especial. Os crimes analisados mais profundamente são: homicídio doloso.cit . outras formas de análise são realizadas e encaminhadas às polícias. a fim de dar conta à população não só do significado dos números em relação às metas estabelecidas para o setor.gov. roubo e furto de veículos. No primeiro número. roubo a transeuntes. o estupro. Paralelamente.institutodeseguranca.rj.popularmente chamadas de assaltos.br 8 Ver Boletim Mensal. roubo em coletivos. Estes itens foram selecionados. assim considerados internacionalmente. • Crimes contra o patrimônio com o uso de violência . Essas informações não são divulgadas para não prejudicar as atividades policiais. o que dificulta o trabalho de planejamento. • Crimes passíveis de intervenção mais direta do Poder Público. roubo a residência. por atender aos seguintes critérios: • “Crimes violentos. Dossiê Mulher. roubo e furto de veículos. abordou-se os problemas das violências sexuais e agressões físicas no Rio de Janeiro e no mundo. tradicionalmente. roubo de carga. voltada para a análise de delitos relacionados a manifestações de violências interpessoais. já que são utilizadas para planejar as ações operacionais das polícias. Os profissionais que atuam no sistema de segurança pública. como também do que eles representam em relação às séries históricas sobre os crimes que mais preocupam a população. trabalham apenas com dados relativos aos crimes que estão sob sua responsabilidade direta. principalmente o homicídio e o latrocínio. pela Secretaria de Segurança Pública. razão pela qual. por exemplo. Embora. essa postura não permite perceber a regularidade com que determinados delitos ocorrem. tais como roubo a transeuntes. 7 Também disponível no site www. Dando continuidade ao Programa de Qualificação Estatística foi lançada a Série Estudos. de modo a mapear as áreas e horários com maior concentração de ocorrências registradas.18 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL o Boletim Mensal de Monitoramento e Análise7. não haja nada de errado nisso. roubo a banco.

visando reduzir a vitimização de cidadãos e policiais.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 19 A identificação de padrões. para que se possa falar no emprego de estratégias preventivas. onde o Estado tem a obrigação de atuar. Conforme já descreveu Roberto Kant de Lima (1995). Do caos às ordens: a disputa entre a “política do sigilo” e a transparência política O Registro de Ocorrência é o documento produzido pela Polícia Civil que poderá iniciar um inquérito policial. Trata-se de buscar formas de controle institucionais. o policial leva algumas horas convencendo a vítima a não registrar o crime. já foi verificado que. apresenta duas grandes dificuldades: romper com a tradição policial de reter as informações e não compartilhá-las. além de permitir que a administração pública conheça os principais problemas do ponto de vista da população. Os policiais consideram fundamental esta forma de trabalho. a partir do cruzamento das informações existentes nos bancos de dados das polícias. gastando provavelmente tempo equivalente ao necessário para se realizar o registro. Ressalta-se que a organização e análise dos dados são importantes por dois aspectos: permite que as instituições policiais possuam insumos de qualidade para realizar seu trabalho. o que contraria a legislação e as orientações governamentais atuais. como forma de centralizar o acesso aos dados na administração central e com o objetivo de reduzir o arbítrio policial. como por exemplo. ou nos casos de crimes contra a vida. Os policiais argumentam que estariam poupando tempo do cidadão. No entanto. no entanto. ainda hoje o registro de ocorrência só é efetivado quando a polícia assim o deseja. para fazer jus a direitos. A padronização da informação faz parte de um esforço de estruturação e organização das instituições policiais. muitas vezes. Esta estratégia. já que se sabe que somente é registrado aquilo que é considerado mais importante. como no caso do recebimento de seguro de automóveis. que assegurem a qualidade e a padronização da informação e do trabalho policial. e enfatizar o aperfeiçoamento da qualidade das informações recebidas e processadas pela polícia. constitui-se em uma forma de sistematização mais independente do que a memória individual dos agentes. . quando houver indício da existência de algum crime.

contravenções. sua análise explicita mais o modo pelo qual a polícia entende os conflitos sociais. a existência de um número maior de títulos de ocorrência do que as classificações de crimes na legislação. 02. não se restringe às classificações penais. 002 – contravenções. 9 No Boletim de Monitoramento nº. Embora essas hipóteses não mereçam ser descartadas. foi apresentado um levantamento que indicava a média percentual de 2. na qual a desordem e a particularização do conhecimento são mecanismos fundamentais para a distribuição e manutenção do poder10. o que explica. acredito. que abrangem a legislação relativa a crimes. para não contabilizar um número alto de casos não resolvidos9. As classificações de ocorrências na Polícia Militar são agregadas em cinco grandes conjuntos (001 – crimes. 11 Ver RAMOS (2002) e GUEDES (2003). que esse aparente descaso faz parte de uma forma tradicional de organização e controle de informações. assim como do interesse em manter um número baixo de registros. que não se encaixam nas demais. de julho de 2003 (base junho). que trata dos crimes e contravenções. Ao contrário. contudo. Há que se considerar. ainda. nos quais se incluem os crimes tipificados na legislação brasileira. do ponto de vista policial.20 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL É comum criticar-se este tipo de prática. 005 – diversas). 004 – assistenciais. incluindo além dos crimes. . 10 Tal prática foi observada por mim em outras instituições públicas. No Relatório Final do Projeto Avaliação do Trabalho Policial nos Registros de Ocorrências e Inquéritos Referentes a Homicídios Consumados em Áreas de Delegacias Legais (2005). 003 – trânsito. a média de elucidação de cinco delegacias analisadas foi de 4%. eventos que são denominados de “assistenciais” e os procedimentos considerados administrativos.7% de elucidação para os casos de homicídio. na prática. que a classificação dos eventos é distinta também entre as duas instituições policiais. O registro de ocorrência. Enquanto as categorias utilizadas pela Polícia Civil são quase totalmente relacionadas à legislação vigente no país. As classificações existentes na Polícia Civil totalizam cerca de 1200 títulos. Observa-se que há uma maior ênfase ao que se denomina modus operandi dos delitos. a classificação adotada pela Polícia Militar trata os eventos de forma mais genérica. que incluem um número variável de itens para detalhamento11. classificando-a como um indício do despreparo policial. tais como Cartórios de Registros Públicos e Arquivos Públicos (MIRANDA 2000 e 2005). assim como títulos genéricos que permitem a inclusão de eventos.

muitas vezes. Ressalta-se que tal prática pode acontecer independentemente de uma ordem superior. pretende-se com isso influenciar indiretamente a qualidade dos registros de ocorrências. mas a prática tem revelado que esta tarefa é feita pelos agentes e.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 21 Um outro ponto importante. a classificação dos títulos dos registros de ocorrência deveria ser realizada pelo delegado. A rigor. que por sua vez fica encarregada de conferir e cobrar as alterações necessárias. com o objetivo de criar um sistema nacional e integrado de informações. Infelizmente. Tratase de uma classificação inicial e provisória que atende ao relato feito no “calor dos acontecimentos”. Neste sentido. esse processo ainda está longe de ser realidade no país. uma análise aprofundada deste ciclo pressupõe que todas as instâncias do sistema de justiça criminal divulguem periodicamente seus dados. a discricionariedade do trabalho policial. apenas. os policiais podem. a classificação de um fato do ponto de vista policial pode se diferenciar da classificação do mesmo fato por parte do Ministério Público. Desde 2004. ainda que inconscientemente. estes títulos não são conferidos pela autoridade policial. em face a novos fatos e/ou outras informações obtidas durante o inquérito policial. diz respeito à transitoriedade do título da ocorrência na Polícia Civil. em função de um maior rigor na análise dos dados e. com a possibilidade do acompanhamento de um fato desde o registro da ocorrência até o seu julgamento. o que caracterizaria uma situação de “maquiagem das estatísticas”. Outra situação ainda comum no cotidiano das delegacias é a classificação de um fato em um título diferente para não contabilizá-lo na classificação correta. É importante lembrar que a organização dos dados na Polícia Civil teve início em julho de 1997. que pode ser modificado ao longo da investigação. Além do caráter correcional. podendo ter. Isso ocorre quando há a predominância de um problema numa região e os policiais decidem não registrá-lo mais. uma outra classificação quando do julgamento pelo juiz. o encaminhamento dos registros em que há divergência entre o título e o fato descrito para a Corregedoria. podem também demonstrar. quando a Assessoria de Planejamento (ASPLAN) começou um trabalho de digitação e organização de banco de dados. atualmente em fase inicial de . estar tentando evitar que sejam cobrados a melhorar a sua produtividade na investigação de tais delitos. ainda. conseqüentemente. podendo ser alterado a qualquer momento pela autoridade policial. da observação de um maior número de erros. Assim. a Polícia Civil do Rio de Janeiro adotou como procedimento regular. trabalho que posteriormente foi adaptado pela Secretaria Nacional de Segurança Pública. Ao fazê-lo autonomamente.

a partir da organização das informações e também da prestação de um serviço público de qualidade à população. A divulgação sistemática dos registros de ocorrência possibilita um diagnóstico preliminar. não incluindo as informações no banco de dados da instituição. insumo necessário à proposição de políticas públicas. ainda encontra resistências por parte dos policiais. no entanto. Como ressalta Beato Filho (2000). porém apenas recentemente. a resistência não deve ser encarada negativamente. os diferentes formatos de classificação não permitem muitas vezes a comparação entre os mesmos. com a retirada das carceragens e a melhoria do trabalho investigativo. ao contrário. da polícia mediadora de conflitos intracomunitários e de agência que articula a população a outras agências estatais. essa política sofrerá conseqüentemente críticas dos que não desejam a mudança. há um esforço contínuo de padronizar as classificações. Em levantamento realizado pelo NUPESP em 2004. Rio Grande do Sul. No entanto. saúde ou educação já são há algum tempo regularmente coletados e analisados nacionalmente. em 1999. informantes e até registros de ocorrências. No entanto. Rio de Janeiro. Uma outra mudança importante no processo de qualificação estatística do Rio de Janeiro foi a criação do Programa Delegacia Legal. Este processo. Quando não há nenhuma resistência é porque provavelmente as mudanças não estão surtindo os efeitos esperados. Entretanto. dos problemas que a população leva ao conhecimento da polícia. Seu objetivo foi modificar completamente a forma de operar de uma delegacia de polícia. No que tange à organização das informações. que mantém arquivos particulares. o mesmo não se pode falar sobre os dados do poder judiciário . são raras as secretarias de segurança no Brasil que dispõem de departamentos de estatística e coleta de dados. através da redação e divulgação de manuais. deve ser considerada um indicador importante do impacto das políticas públicas em culturas institucionais. constatou-se que dos 26 estados apenas quatro informavam regularmente seus dados. e ao fazê-lo. A resistência dos policiais às tentativas de padronização se soma à resistência com relação à publicidade dos dados. os dados oriundos das polícias passaram a merecer tal tratamento. também existente. com informações sobre criminosos. ater-se apenas ao que foi registrado retifica a imagem da polícia como uma instituição destinada ao combate ao crime. Só se pode falar de efetividade de uma política pública à medida que ela provoque impacto nas rotinas de uma instituição. bem como da tecnologia necessária para tal. em detrimento de uma outra imagem. 12 Os dados referentes à economia. São Paulo e Minas Gerais. embora limitado.22 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL implantação no Brasil12.

36% como fatos com procedimentos administrativos ou assistenciais (sem DP) e. 50% das ocorrências atendidas pela PMERJ classificam-se como condução à DP . que está analisando a situação dos bancos de dados das Polícias Civil e Militar visando a sua integração. 13 Segundo FERREIRA (2004). mediante o cruzamento das informações14. cujos critérios lhe são exteriores. a Secretaria de Segurança Pública e o Instituto de Segurança Pública. construído e transmitido pela ação e observação do trabalho dos “mais experientes”. Assim. visando à ampliação do conhecimento relativo aos fatos relacionados à segurança pública. Atualmente.obrigatória ou por opção das partes. 14% como atendimentos frustrados (não chegaram a se iniciar. hierarquiza e valoriza eventos. pretende-se promover a integração com as Guardas Municipais e a Justiça Estadual. Com eles. a estatística. Destaca-se que esses dados são extremamente valiosos.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 23 É essa imagem da polícia que o projeto de integração das informações entre as duas corporações e as Guardas Municipais pretende apresentar. ou seja. que toma por referência a experiência vivida em anos de trabalho policial em uma outra classificação. embora constitua 36% das atividades cotidianas. contabilizados juntamente com procedimentos administrativos que também não findam nas DP13. Numa segunda fase. da Polícia Militar e das Guardas Municipais do Estado do Rio de Janeiro. destacando que o sistema de registro trabalha conjugado a um sistema classificatório implícito. Simoni Lahud Guedes fez uma instigante análise sobre o sistema classificatório das ocorrências na Polícia Militar (2003). 14 Este projeto é parte de um convênio com a Secretaria Especial de Direitos Humanos. não são sistematizados e analisados. Atualmente. O principal problema em transformar o conjunto de ocorrências em estatística está exatamente na dificuldade de transformar a classificação policial. os dados dos atendimentos realizados pela Polícia Militar. desvaloriza outros e obriga à construção de liames entre o vivido e o registrado” (2003:7). “o sistema classificatório das ocorrências dirige o olhar para determinadas direções. genéricos e pretendem alcançar uma universalidade. o trabalho "assistêncial" que é considerado menos nobre. é possível observar diversas práticas relativas ao que se chama "feijoada". seja através do serviço de emergência (190). seja mediante o Talão de Registro de Ocorrência. está em andamento um projeto de Integração de Bancos de Dados da Polícia Civil. com financiamento da União Européia. .

setembro e outubro de 2003. com os fatos registrados pela Polícia Militar. abrangendo os meses de junho. Sua característica principal é a expressão de um certo temor: os documentos públicos quando analisados podem significar censura a uma má administração. maio. no que se refere à prestação de contas do uso de verbas públicas. junho e julho de 2004. aonde o cidadão vai apresentar sua queixa. Entretanto. das quais foram 38 selecionadas.24 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL Tal dificuldade se revela à medida que estamos tentando construir modelos de tradução que possibilitem a comparação entre os fatos registrados pela Polícia Civil. fevereiro. julho. produzido e reproduzido por um grupo através de suas práticas. o que equivale à possibilidade de constituir e gerir fontes de informação. este modelo contrasta com um outro. chamada de “política do sigilo”. já é possível observar que há algumas divergências de classificações entre as duas instituições. A adoção da transparência como modelo de ação política tem sido apreciada como discurso no país. inconsciente. Segundo José Honório Rodrigues. 2000). É preciso refletir também que esta relação deveria assegurar o direito-dever de informar. Esse desafio necessita ser enfrentado para que se possa efetivamente compreender que a relação entre informação e democracia é biunívoca. ou seja. relativos ao monitoramento 15 O conceito de tradição é entendido aqui como um determinado “padrão”. o que corresponderia ao acesso a uma pluralidade de fontes informativas diferenciadas e de qualidade. evitando-se os monopólios. o que certamente revelará o que é valorizado e desvalorizado pelas duas polícias. Foram selecionadas inicialmente 141 reportagens publicadas em jornais de circulação diária. evitando-se as informações manipuladas por má fé e/ou por ocultação de fatos. uma não pode existir sem a outra (FERRARI. a “política do sigilo” (1989: 13) corresponderia a uma velha tradição15 portuguesa que pretende esconder e sonegar os documentos. bem como o direito de ser informado. em especial. que atende a seus chamados. independentemente do tempo já decorrido. Publicidade dos dados e o sentimento de (in) segurança A descrição de como os dados têm sido produzidos e analisados é o ponto de partida para a discussão de como são construídas algumas representações a respeito da insegurança e o medo da violência e sua relação com a mídia no Rio de Janeiro. Numa análise preliminar dos eventos. observável a partir das práticas rotineiras de funcionários públicos. .

“Rio de Janeiro” (Jornal do Commercio). em fase de conclusão17. Méier. Esta localização certamente não é casual e indica uma associação entre a representação do cotidiano da vida urbana ao aumento da violência e do crime. Extra. Com exceção do Jornal Extra. Copacabana. O Dia. Jornal do Brasil e Jornal do Commercio). contando com a presença não só dos principais jornais fluminenses (O Globo. A escolha deste recorte temporal está associada com a cobertura da imprensa durante a divulgação dos Boletins Mensais de Monitoramento e Análise. conforme apontam Kant de Lima. quando foram apresentados os dados estatísticos. totalizando 2. “Rio” (O Globo). Foram aplicados 400 questionários em cada bairro a partir de uma amostra por cotas de gênero e idade. o que já foi amplamente analisado pela ciência social brasileira. Esse silêncio não pode ser considerado casual. Campo Grande. “Cotidiano” (Folha de São Paulo). Botafogo.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 25 dos dados referentes aos registros de crimes no Estado16. Renato Coelho Dirk. estagiários do ISP. Um outro ponto importante diz respeito aos jornais paulistas que muitas vezes dão um maior destaque aos fatos ocorridos no Rio de Janeiro e pouco falam sobre os eventos ocorridos em São Paulo18. Bárbara Tiago Bono e Gabriel Souza. bem como de dois jornais paulistas (O Estado de São Paulo e A Folha de São Paulo). 18 Ver também RAMOS E PAIVA (2005) . tendo sido realizada em nove bairros (Bangu. A seleção dos jornais ocorreu em função da participação de seus repórteres durante as entrevistas coletivas. Foram incluídas ainda algumas análises dos dados levantados pela pesquisa “Avaliação do sentimento de insegurança nos bairros da cidade do Rio de Janeiro”. 16 O levantamento foi realizado pelos estudantes de Comunicação Social.000 pessoas. Andréia Soares Pinto. Muito menos se pode imaginar que a principal metrópole do país seja um paraíso na terra. 17 A pesquisa foi financiada pela FAPERJ. levando-se em conta o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) de cada bairro. pelo Instituto de Segurança Pública. cujas matérias sobre as estatísticas aparecem no caderno denominado “Geral”. e de Ciências Sociais. Pavuna. Santa Cruz). “Cidade” (O Fluminense e Jornal do Brasil). “Cidades” (O Estado de São Paulo). taxa anual de homicídios e população. escolaridade. O Fluminense. Bonsucesso. Misse e Miranda (2000). os demais apresentaram suas matérias em seções chamadas de “Dia a Dia” / “Nosso Rio” / “Polícia” (O Dia). Uma primeira constatação diz respeito ao espaço dado pelos jornais ao tema. os critérios de renda. Participaram desse projeto os pesquisadores do ISP: Ana Luísa Vieira de Azevedo. Lagoa. Eliane dos Santos da Luz.

ou seja. Atualmente. a compreensão do modo como essas modalidades discursivas são construídas. Conforme nos assinala João Trajano Sento Sé.. a quem se deve temer e. 1999. se restringem a acionar os mecanismos afetivos de produção de notícia na veiculação de casos envolvendo a violência. no entanto. que se constitui em torno da representação de um perigo social que poderia contaminar o país. o que impossibilita qualquer tipo de comparação com os demais estados. caos urbano e falta de controle por parte do Estado. 1997 e 2000. É gritante a ausência da contrapartida mais ponderada de uma exposição ainda que eventual. João Trajano afirma: “despojada de maior consistência analítica. Como conseqüência os signos da violência passaram a ser os fatos que se apresentam sob a forma de desordem. os dados são divulgados pela internet de forma agrupada. 1994. A visibilidade dada à criminalidade do Rio de Janeiro em detrimento da existente em São Paulo é apontada por Michel Misse (1999) como a estratégia de construção de um “paradigma da violência carioca”. crimes contra a vida etc. mas a falta de consistência analítica a torna um instrumento forte para a divulgação e reprodução dos atos de violência. Este fato. ela faz parte dela. e a mídia escrita. em geral. MINAYO. tanto do ponto de vista acadêmico.” (2003: 35). 19 Sobre o tema ver BENEVIDES. 1981. que não pertence à sociedade. . o mais relevante seria a forma de abordagem. contrária à divulgação de informações relativas aos problemas locais. CARDIA. consistente e informada do quadro em que os eventos relatados devem ser colocados. Questionando a qualidade das abordagens a respeito da segurança pública. quanto jornalístico. tais como crimes contra o patrimônio. tem sido pouco analisado. O espaço dado ao crime não é o único objeto interessante do ponto de vista analítico. Ela constrói um discurso e/ou uma imagem do transgressor como um Outro que é estranho. em particular. a imprensa. portanto. RONDELLI. expresso pelo discurso do “aumento da violência” a partir da década de 1980. vivendo quase na animalidade. que deixa de ser exclusividade das classes pobres e se estende às classes médias e elites da cidade. É certo que a mídia não cria a realidade.26 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL já que é pública a posição da política de segurança pública do estado de São Paulo. Isso coincide com o período de democratização do país e com a expansão do ‘banditismo”. como se o passado recente tivesse sido diferente deste quadro. afastar do convívio social19.

constituindo-se. surge como uma realidade alheia e hostil à realização mais plena das tentativas democratizantes da sociedade em todos os níveis.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 27 Essa visão conservadora predomina nas análises sobre a violência. 48. 2000:14-15). a partir do ponto de vista da dinâmica cultural de uma dada sociedade. da marginalização do pequeno criminoso até a repressão militar de conflitos trabalhistas. a repartição. conforme podemos observar a partir dos dados levantados na pesquisa “Avaliação do sentimento de insegurança nos bairros da cidade do Rio de Janeiro”. ou suas formas de manifestação. portanto. início a uma tentativa de superação da exclusão social” (PEREIRA et al. .3% falaram que há uma diminuição dos fatos ocorridos. a violência no Brasil pode ser pensada a partir de uma dupla perspectiva: “por um lado. a opção para reivindicar exigências sociais justas. enquanto 38. 30.3% confiam na Polícia Militar. e 21. A mídia é uma das instituições políticas. que sustenta não ter a violência necessariamente uma conotação negativa. em um fenômeno de caráter polissêmico.5% dos entrevistados afirmaram confiar nos meios de comunicação. no sentido que Foucault definia como “um conjunto de procedimentos para a produção. A credibilidade desfrutada pelos meios de comunicação é um dos dispositivos de sua influência na construção dos discursos. para o qual as análises normativas e morais não são apropriadas. a forma de representar novas identidades culturais ou ressimbolizar a situação de marginalidade. Trata-se. trata-se de compreender o sentido que tem a violência. a lei. 67.5% disseram confiar na Polícia Civil e apenas 29. que se contrapõe à baixa credibilidade das instituições policiais. a circulação e o funcionamento dos enunciados” (1990: 14). a violência aparece como expressão limite de articulações culturais dinâmicas. Nesse sentido. Ou seja. que produzem e transmitem verdades. assim. tal como a universidade e a polícia. Quando perguntados se o que sai na mídia sobre a criminalidade no bairro. Esta pode ser uma forma de expressar o descontentamento diante da realidade e até de deflagrar processos de renovação social. Nos nove bairros da cidade do Rio de Janeiro pesquisados. assim. de uma disputa não “em favor da verdade”. tendo como uma rara exceção o trabalho organizado por PEREIRA et al (2000). Por outro.1% disseram que exageram os fatos ocorridos. mas sim dos efeitos de poder que se obtém ao se classificar o que é falso ou verdadeiro.6% afirmaram que os meios de comunicação refletem bem os fatos ocorridos. dando.

1% dos entrevistados afirmaram que o destaque é grande. Estão em destaque as notícias relativas ao mesmo mês. .1% responderam que isso se deve à importância da cidade no país. A credibilidade maior dos meios de comunicação do que das instituições policiais assegura uma maior influência no público. o que também o torna suspeito.7% alegaram que a cidade tem fama de violenta. 77. 2000). por sua vez.4% apresentaram outros fatores. 35. 3.3% das pessoas disseram que a atuação do crime organizado é responsável pelo destaque na mídia. Nesse caso. contra 22. o fluxo de comunicação já tem seu início comprometido. o que não ocorreria com as instituições policiais. mas também entre os próprios jornalistas. cujo conteúdo seja proveniente de informações policiais. A isso se soma o fato de que os dados oriundos de fontes policiais são analisados por um órgão estatal. 23. que geralmente partem do mesmo pressuposto. embora técnico. A recepção de uma mensagem veiculada pela imprensa. A análise de algumas manchetes originadas a partir da apresentação pública de dados estatísticos permite fazer algumas considerações importantes a respeito da construção de narrativas sobre o crime (CALDEIRA.5% apontaram que a cidade tem fama de ter uma polícia violenta. só serviriam para reforçar as sensações de perigo e de insegurança.28 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL Quando perguntados sobre o destaque dado às notícias sobre criminalidade no Rio. Quanto às razões para esse fato. optou-se por selecionar apenas as matérias que apresentaram de formas distintas as estatísticas de um mesmo período. 18. 20 Essa estratégia vigorou durante o período de junho 2003 até junho de 2005. já provoca uma desconfiança a respeito de sua veracidade. no quadro a seguir. que teriam a função de (re) ordenar o mundo a partir da repetição de histórias que. não só nos leitores. tomando como referência a manchete e o subtítulo da notícia. 19. na medida em que transmite uma imagem de sinceridade e neutralidade. durante uma entrevista coletiva20.9% que discordaram dessa idéia. Considerando que a divulgação dos dados oficiais era feita mediante a apresentação de um resumo do Boletim Mensal.

homicídios e latrocínios Estatística da violência em junho tem queda em 7 dos 10 índices principais A asfixia vai continuar 08/07/2003 22/07/2003 O Dia Jornal do Commercio O Globo 22/07/2003 29/08/2003 Extra 29/08/2003 29/08/2003 Jornal do Commercio O Fluminense Mais latrocínio e menos Secretaria de Segurança divulga assaltos e roubo de carro índices apurados em julho Aumenta número de roubos a lojas e residências no Estado Só índices de homicídio doloso e assalto a residência sobem Roubos e assassinatos crescem Secretaria de Segurança Pública considera gravíssima a situação em Niterói Violência: Em agosto houve queda em 8 dos 10 crimes monitorados Estatísticas de criminalidade no Rio indicam aumento de homicídios e ataques a residências no Estado 23/09/2003 Jornal do Commercio Jornal do Brasil 23/09/2003 17/10/2003 Folha de São Paulo Polícia do Rio mata mais do que em 2002 De janeiro a setembro de 2003. em comparação com o do ano passado Número de mortes em confrontos com a polícia aumenta quase 50% Estado comemora queda no número de carros roubados e fim dos assaltos a bancos 08/07/2003 O Fluminense Nova metodologia para analisar índices Roubos a lojas crescem Cai o número de assaltos. incidência de 8 tipos de crime sobre queda ____________ 17/10/2003 O Globo Violência: índices caem. foram 917 civis mortos em confrontos. apenas 3 tiveram alta em um ano Três tipos de crime tiveram aumento e sete caíram em maio Junho teve menos crimes.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 29 Quadro 1: Cobertura jornalística das estatísticas policiais Data 08/07/2003 Jornal Jornal do Brasil Manchete Cresce o número de roubos no Estado Subtítulo Assaltos a pessoas comércio e residências são responsáveis pelo aumento da sensação de insegurança Segundo dados do Estado. mas assalto a casas sobe . de 10 modalidades comparadas.

invasão de casas é o e latrocínios no Rio crime tido como mais problemático na cidade Sobem índices de dois crimes Caem números de oito tipos de crimes 18/05/2004 18/05/2004 Roubos a pedestres e seguidos de morte cresceram mês passado Latrocínio confirma tendência de aumento e assaltos a pedestre têm 361 casos a mais ____________ 18/05/2004 Folha de São Paulo Números de latrocínios e de roubos a pedestres aumentam no Rio Fonte: Jornal O Globo. Jornal O Estado de São Paulo. Jornal O Dia. Jornal Extra. nove dos 10 delitos considerados mais importantes sofreram redução em janeiro com relação ao mesmo período de 2003 Número de assaltos a residência é o único a não cair entre os 10 tipos de delito Números são menores do que os de março de 2003. apenas latrocínio cresceu Oito crimes registraram queda no mês de abril Crescem roubos e latrocínio 21/04/2004 Jornal do Commercio Extra Jornal do Brasil O Estado de São Paulo O Dia O Globo Estatística mostra queda ____________ ____________ 18/05/2004 18/05/2004 18/05/2004 Sobe número de assaltos Apesar disso. Jornal do Brasil. mas estão em alta 14/11/2003 Jornal do Commercio Extra O Fluminense 18/02/2004 18/02/2004 18/02/2004 O Dia Perigo dentro de casa 21/04/2004 O Globo Estatística aponta redução em oito índices de criminalidade no Estado Em dez modalidades.30 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL 14/11/2003 O Globo Estatística oficial aponta redução na criminalidade Índice de violência cai. Mortes em confronto aumentam 80% Nove itens analisados apresentam queda ____________ Pelos números oficiais. Jornal O Fluminense e Jornal do Commercio . mas assalto ao comércio aumenta Caem os índices de violência no estado Secretaria divulga nova queda na criminalidade Nove crimes caíram. Jornal Folha de São Paulo.

cit. que enfatizam o fato de que estamos trabalhando com os registros de ocorrência.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 31 Pobre do leitor que se utilizar de diversas fontes para estar bem informado! Se considerasse as manchetes publicadas em julho de 2003. Estado paralelo etc. portanto. não chegaria à conclusão alguma. questões distintas que só podem se tornar sinônimas quando se considera que na interpretação dada pela imprensa há uma mensagem oculta de que o Estado deve atuar para aniquilar os conflitos. já que duas se referem à queda e outras duas se referem ao aumento dos crimes. relativas aos dados divulgados sobre o mês de junho de 2003. integração e harmonia social (MISSE. 21 Sobre a relação entre os crimes econômicos e a mídia ver Miranda (1999) e (2002). segurança. os jornais possuem uma postura ambígua. o que teria acontecido com os registros de crime no estado? A primeira observação que podemos fazer é que. de que a criminalidade não pode ser compreendida apenas pela perspectiva de referência ao Estado (ausência do Estado.). Nota-se ainda que a criminalidade aparece nas notícias como um conjunto de práticas (roubos e homicídios) resultantes da ineficácia da ação repressiva da polícia. o que contradiz a proposta de Machado da Silva (1995 e 1999). que não correspondem à totalidade de eventos ocorridos no mês anterior. há uma confusão entre as noções de criminalidade e violência utilizadas propositadamente como sinônimas. Essa associação provoca uma série de equívocos. Uma segunda observação diz respeito à representação construída sobre as análises elaboradas pelo NUPESP. devendo ser entendidas como um conjunto de representações de uma idealidade negativa que se opõe às idéias de paz. ora insinuam que os números não são reais porque seriam maquiados. De modo geral. . em primeiro lugar. corrupção.). A associação das noções de criminalidade e violência acaba também por obscurecer outras modalidades criminosas. O que está em jogo é principalmente o questionamento sobre os mecanismos formais e informais de controle social. Violência e criminalidade são. consenso. ora se referem aos números como a realidade nua e crua. em especial as que se referem aos crimes econômicos (lavagem de dinheiro. Afinal. restaurando a ordem. É sabido que não se pode falar de violência e sim de violências. op. e não apenas o papel do Estado. e sim pela sua organização social e suas redes de sustentação. sonegação)21. numa concepção unitária e homogeneizadora da vida social.

valorizandoos. o que faz com que o leitor tenha de imediato uma má interpretação dos dados. já que tornam plausível a idéia de que o leitor será mais uma vítima. Embora seja possível. de forma a não gerar uma opinião ou interpretação direta sobre o assunto. em detrimento da descrição. em seus títulos. onde os fatos relatados equivalem a uma imputação de erro ou culpa a outrem. O jornal O Fluminense. Uma última observação corresponde à abordagem dada pelos diferentes órgãos de imprensa aos números.32 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL A terceira observação se refere ao uso constante dos verbos no tempo presente do modo indicativo. na Língua Portuguesa. Já jornais como O Globo e Extra. as narrativas que enfatizam o crime fazem o medo proliferar. Por fim. que não favorece a reflexão crítica. Essa abordagem privilegia a construção de um discurso homogêneo. Ao contrário do que se pensa comumente. o uso do presente significando um processo já ocorrido no passado. dá maior ênfase a dados negativos. o que do ponto de vista gramatical. . Podemos concluir que há de modo geral. Ao longo de nossa análise. ao mesmo tempo em que o faz acreditar que está lidando com a realidade (SERRA. através do subtítulo. que seria a técnica mais adequada em face do conteúdo abordado. como revelam os dados levantados pela pesquisa “Avaliação do sentimento de insegurança nos bairros do Rio de Janeiro”. uma abordagem que privilegia a denúncia como forma discursiva. o Jornal do Commercio foi o único que informou os dados de maneira íntegra. 1980). as narrativas denuncistas podem ainda reificar preconceitos e a definição de certos lugares e grupos como perigosos. significa que o processo ocorre simultaneamente ao momento em que se fala. a leitura de um jornal pode conformar o leitor à condição de um sujeito receptor acrítico de informações. O Jornal do Brasil destaca em suas manchetes somente dados de delitos em alta. revelando os números na íntegra apenas no decorrer do texto. observamos que o Jornal O Dia. do mesmo grupo editorial. Assim. mesmo que não se tenha provas da veracidade da mesma. essa forma discursiva propicia ao leitor a impressão de que aquele fato continua contecendo na mesma intensidade. valorizam os dados de delitos em queda. os dados relevantes em alta. por sua vez. A denúncia funciona como uma espécie de acusação. não deixando de divulgar. apresenta em suas matérias os dados positivos dos índices.

escuro. Ocorrência de crimes e atos de violência: tiroteio. desocupadas. comunidades carentes. agitado. pesquisa “Analisando o sentimento de insegurança nos bairros do Município do Rio de Janeiro”. Condições do local: deserto. mal iluminado. 3. assassinatos. Proximidade a outros lugares considerados perigosos: favelas. estranhas. desempregadas. englobando termos e expressões espontâneas. ambiente suspeito. lugares desocupados. 2004. Presença de elementos suspeitos: pivetes. . matagais. assaltos constantes. pesado. As categorias da tabela agrupam informações obtidas através da pergunta aberta “O senhor saberia reconhecer um lugar perigoso? Quais suas características?”. mendigos.00% Fonte: ISP. pobres ou sem recursos. trânsito parado ou parada em sinais. hostil. pessoas suspeitas. pessoas armadas. 4. drogados. de má índole. bandidos. 2. pouco movimentado. de acordo com os seguintes critérios: 1.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 33 Tabela 1: Características de um Lugar Perigoso Absoluto 1) Condições do local 2) Proximidade a outros lugares considerados perigosos 3) Sem policiamento 4) Lugares específicos 5) Todo lugar 6) Presença de elementos suspeitos 7) Ocorrências de crimes e atos de violência 8) Presença do tráfico de drogas 9) Com policiamento 10) Outros Total 1473 511 335 285 240 189 161 90 9 135 3428 % 43% 15% 10% 8% 7% 6% 5% 3% 0% 4% 100. com becos.

25 . 1990). 8. 2003. 10.34 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL 5. pelo medo e a preocupação com a ordem. O sentimento de insegurança. portanto. outros fatores. posto que tentam eliminar as ambigüidades e complexidades do processo de administração e controle de conflitos. um sentimento que resulta da crença de que não há risco ou perigo iminente. em contraposição às experiências vividas em crimes. Embora seja difícil mensurá-lo. que desorganizam o mundo. não se levando em conta os riscos mais freqüentes. o sentimento de insegurança não é irreal ou imaginário. A forma simplista. Lugares específicos: exemplos de nomes de locais considerados perigosos 9. Sem policiamento. O sentimento de insegurança é caracterizado. 6. se associaria a uma sensação difusa de angústia ou de ansiedade que permaneceria para além dos acontecimentos e que não possuiria um objeto definido. se os dados da criminalidade não incidem diretamente sobre o sentimento de insegurança e se as estatísticas são reconhecidamente imprecisas. O medo é uma construção social (DELUMEAU. Existem. Presença de tráfico de drogas. Então. A análise dos índices de criminalidade não serve para explicar o medo e o sentimento de insegurança22. deste modo. como essas narrativas são construídas acabam por reforçar modelos segregacionistas. Com policiamento. Configura-se. muitos de ordem subjetiva. 7. Os discursos produzidos tentam também reorganizar o mundo como uma ordem social homogênea e estática. no nível idealtípico do medo. onde se teme o que se considera ser um grande perigo. e até caricatural. Todo lugar: sem especificar condições. Outros: termos e expressões muito específicos. caberia perguntar por que elas seriam informações relevantes para a construção de políticas públicas de segurança? 22 Ver Sento-Sé. que a segurança é. incidindo sobre o sentimento de insegurança. do ponto de vista individual. além do conhecimento sobre o número efetivo de ocorrências criminais. segundo Roché (1990 e 1998).

É preciso que se considere que a análise criminal não é uma novidade. bem como possibilitar. provocam diversos questionamentos. “em termos objetivos (diminuição de riscos e perigos reais) e subjetivos (diminuição do medo)” (SILVA. pretendo ressaltar que antes de se iniciar a escolha desta ou daquela tecnologia. ou qualquer outro. Outro aspecto a considerar é que. se as informações não forem coletadas – nos atendimentos e investigações – e informatizadas. como qualquer análise científica. e não particularista. assim. Como resolver essa contradição? . 2003:1). pela população e pelo poder público. É comum que policiais (civis ou militares) procurem por informações que sabidamente não são regularmente coletadas pelos próprios policiais.. a utilização dos dados como base para a implementação de planejamento nas políticas de segurança de caráter universalista.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 35 Por que é preciso divulgar e analisar os números da criminalidade? É relevante a divulgação dos dados estatísticos por duas razões principais: dar visibilidade ao trabalho policial e. Na prática. a idéia de que a segurança pública é um serviço que deve ser oferecido pelo Estado a todos os cidadãos de modo racional. é necessário se definir o que se pretende com ela. Reforça-se. e tampouco uma solução mágica para resolver o problema da criminalidade. como tem sido a tradição. Com essa afirmação. pois provoca. mas não o são.. o envolvimento dos agentes na busca pela qualidade da informação. Na medida em que são divulgados. No entanto. é sabido que muitas vezes somos seduzidos por programas de computador que revolucionariam o mundo!. a análise criminal está diretamente relacionada com o enfoque teórico que orienta o recorte dos dados. aumentar a possibilidade de cobrança por resultados. Considero que a divulgação de dados é o primeiro passo deste processo. É claro que a tecnologia facilita em muito o trabalho do analista criminal. mas ele tem que saber para que e como tratar as informações. mesmo involuntariamente. que só podem ser respondidos se a informação estiver disponível no banco de dados. da delinqüência e das violências. se soubéssemos o que fazer com eles. não basta somente cobrar resultados das polícias e demais órgãos do sistema de justiça criminal. E não há banco de dados de informações policiais. por conseqüência. que pode manipular mais informações em menos tempo. mesmo que indiretamente. Tudo isso pode parecer obviedades.

36 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL

Devolver a pergunta é uma possibilidade concreta e imediata para a qualificação das informações contidas nos registros policiais. Outra possibilidade é a produção de relatórios analíticos, que originarão uma série de questionamentos sobre a validade das suas conclusões. Essas duas estratégias permitem indicar que jamais será possível a qualificação da informação policial, sem que os policiais se envolvam diretamente no processo. O resultado dessas ações pode ser constatado pela supressão e/ou redução de críticas dos pesquisadores aos dados do Rio de Janeiro23. Assim, a divulgação dos dados atende simultaneamente a dois propósitos: é uma prestação de contas à sociedade, e é também um instrumento poderoso de controle interno, já que permite identificar os gargalos da atuação policial. O segundo passo diz respeito à sensibilização dos policiais da importância e utilidade da análise criminal. Consideramos que antes de ensinar as técnicas de manipulação de softwares estatísticos e de geoprocessamento, é necessário que os policiais percebam o quanto essas ferramentas podem contribuir para a profissionalização das polícias. Nesse sentido, o ISP realizou I Encontro de Qualificação Estatística e Análise Criminal e a I Jornada de Qualificação Estatística e Análise Criminal, em 2004, voltado para os policiais militares e civis. Nos dois eventos, discutiu-se a necessidade do fortalecimento da integração entre as polícias; a necessidade de adequação das tecnologias à análise da dinâmica criminal; apresentação dos órgãos, produtos e serviços disponíveis; a importância do uso técnico das informações e recursos disponíveis atualmente na melhoria de qualidade dos serviços de polícia judiciária e dos serviços de polícia de preservação da ordem pública, tomando por base estudos de casos, onde delegados e oficiais apresentaram suas experiências concretas
23 Em abril de 2005, o ISP organizou o I Encontro Sistema Estadual de Estatísticas de Segurança Pública e Justiça Criminal, que teve como objetivo apresentar a situação do sistema à época, bem como as mudanças então previstas, possibilitando assim sua avaliação e a discussão de um novo modelo de divulgação dos dados, tendo em vista a incorporação de sugestões para a sua melhoria. Como conseqüência, foi criado o Grupo de Trabalho Sistema Integrado de Informações Policiais, formado por representantes de importantes núcleos de pesquisa da área, de várias instituições, a saber: Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes - CESeC; DataBrasil Ensino e Pesquisa/UCAM, Grupo de Estudos Estratégicos - GEE -Coppe - UFRJ, Laboratório de Análise da Violência - LAV/UERJ, Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana - NECVU/UFRJ, Núcleo de Pesquisa das Violências - NUPEVI- UERJ, Instituto de Pesquisa do Rio de Janeiro - IUPERJ Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro - SMS, Núcleo Fluminense de Estudos e Pesquisas - NUFEP - UFF, Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli - CLAVES, além de contar com a presença de uma consultora da SENASP. Ver também SOARES et al (2005)

SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 37

e os resultados alcançados no uso das informações e recursos técnicos atualmente colocados a sua disposição. A análise criminal que é desenvolvida atualmente pela equipe técnica multidisciplinar24 do Instituto de Segurança Pública, através do Núcleo de Pesquisa em Segurança Pública e Justiça Criminal (NUPESP), tem como objetivo realizar estudos analíticos e sistemáticos tomando por base as relações entre as ocorrências registradas e os padrões e tendências (aumento, estabilização, redução) dos delitos em diferentes regiões do Estado25. Outra linha de atuação está direcionada aos métodos analíticos de diagnóstico, monitoramento e avaliação da própria performance das polícias, em especial, ao acompanhamento da redução da letalidade policial e da vitimização policial. Com base nas discussões realizadas em 2004 e com as demandas e obstáculos encontrados pela equipe do NUPESP, que identificou um aumento de demanda por dados pelos oficiais superiores, a mídia e as instituições de pesquisa, observou-se também a sub-utilização dos dados criminais em uma dimensão micro, ou seja, pelas unidades de segurança através dos responsáveis pelo planejamento. Desta forma, foi elaborada uma proposta de capacitação dos policiais militares no uso de técnicas de análise quantitativa e fundamentos metodológicos para traçar metas e mensurar resultados, voltada para o aperfeiçoamento do planejamento estratégico26. Ainda não se pode prever os resultados do curso, que será desenvolvido ao longo de 2006, mas pode-se afirmar que a aproximação entre profissionais da segurança pública e da comunidade acadêmica27 será extremamente profícua para a construção efetiva de políticas públicas para a segurança, voltadas para a prevenção dos delitos e para a redução da violência.
24 A equipe é composta por policiais civis, militares e pesquisadores, cuja formação é variada (cientistas sociais, geógrafos, estatísticos), bem como a titulação (especialistas em políticas públicas, mestres e doutores). 25 As variáveis utilizadas geralmente são dia da semana, hora, local, perfil da vítima, perfil do autor, modus operandi 26 O curso de Capacitação em Técnicas Quantitativas e Análise Criminal foi desenvolvido com recursos da União Européia. 27 Outras parcerias já têm se mostrado exitosas no Rio de Janeiro: com a Universidade Estadual do Rio de Janeiro, no Curso de Extensão em Segurança Pública, que funciona desde 1999; com a Universidade Federal Fluminense, no Curso de Especialização em Políticas Públicas de Justiça Criminal e Segurança Pública, criado em 2000.

38 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL

Não se pretende com a análise criminal medir qual é a quantidade de crimes que ocorrem, o que, aliás, é impossível, pode-se apenas estimar a subnotificação dos crimes que varia em função do seu tipo28. O que a análise criminal pode contribuir é no fornecimento de subsídios para ações do poder público, seja na dimensão tática, para que os policiais possam realizar melhor as investigações e o patrulhamento, seja na dimensão estratégica, de modo que os gestores e formuladores das políticas possam realizar projeção de cenários. Por último, urge salientar que a análise criminal não é um fim em si mesma, é apenas a primeira etapa para o desenvolvimento de políticas públicas e para a profissionalização das polícias, restando ainda muito trabalho a ser feito.

28 Crimes sexuais tendem a ser os menos registrados e informados, enquanto o roubo de veículos tem a menor subnotificação por causa do seguro

1990.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 39 Bibliografia BEATO FILHO. Paris. Misse. Universidade Federal Fluminense. Política Pública para a Segurança. Simoni Lahud. DELUMEAU. Cidade de muros: crime. nº 50. In: Les Cahiers de la Securité Interieure. C. Rio de Janeiro. pp. Rio de Janeiro: EDUERJ. A microfísica do poder. Claudio. 1994. e Junior. Constituição da República Federativa do Brasil: promulgada em 5 de outubro de 1988. Rio de Janeiro: Graal. Roberto. p. KANT DE LIMA. In: Guimarães. Rio de Janeiro. Ano 1. UFRJ. Espaço e Debates. A Violência através da Imprensa: Os Linchamentos e a Justiça Popular. dez. CARDIA. vol. 34. GUEDES. Ana Paula Mendes de. Fontes de Dados Policiais em Estudos Criminológicos: Limites e Potenciais. Jean. 1. O sistema classificatório das ocorrências da Polícia Militar do Rio de Janeiro e a organização da experiência policial: uma análise preliminar. 2000. C. nº 2. Michel. 1981. BENEVIDES. Teresa Pires do Rio. São Paulo: Saraiva. Monografia. CALDEIRA. Segurança Pública e Justiça Criminal no Brasil: uma bibliografia. In: Segurança Pública no Brasil: uma discussão sobre bases de dados e questões metodológicas. nº 3. p. Apresentado no Seminário Formas Primitivas de classificação: cem anos depois. Rio de Janeiro: UCAM/IPEA. 2000. . 19-26. 2004. 2 sem. São Paulo: Edusp/Ed. BIB – Revista Brasileira de Informação Bibliográfica de Ciências Sociais. Justiça e Cidadania: plano estadual. FERRARI. 9 ed. Violência. Informação e democracia. Lesões Corporais: Análise descritiva e longitudinal do atendimento da Polícia Militar. Rio de Janeiro. 2004. 2000. 45-123. 2000. Criminalidade. BRASIL. Mídia e Violência. Vicenzo.-mar. 1990. Democracia e informação no final do século XX. FOUCAULT. 63-73. Le sentiment de securité dans l´historie. segregação e cidadania em São Paulo. Marcus. 2000. Michel e Miranda. Niterói. FERREIRA. Comunicação e Política. Nancy. 2003. Maria Victória de M. GOVERNO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO.

Rio de Janeiro. 2005. Malandros. Cartório: onde a tradição tem registro público. Um Problema na Interpretação da Criminalidade Urbana Violenta. Bertrand Brasil: 2005. MACHADO DA SILVA. pp. Revista de Sociologia e Política. IUPERJ. Arquivo Público: um segredo bem guardado? Revista Contemporânea de Antropologia e Política. Sociedade e Estado. 1999.) A crítica da ciência. MORIN. A função do dogma na investigação científica. Tese de Doutorado em Sociologia. de. Ana Paula Mendes et al. Rocco. ___________.-dez. Apresentado na XXIII Reunião Brasileira de Antropologia. 17. Criminalidade Violenta: Por uma Nova Perspectiva de Análise. 8ª ed. Fala. 115-124. Carlos A. jul. MISSE. 1999. 1995. Luiz A. Instituto de Segurança Pública. 1999. Ana Paula M. Rio de Janeiro. ___________. Rio de Janeiro. Marginais e Vagabundos e a Acumulação Social da Violência no Rio de Janeiro. KUHN. 1999. realizada na UFRGS. Edgar. MINAYO. ___________. Maria Cecília de S. 29-44. . pp. 1995.40 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL KANT DE LIMA. pp. 10. 2000. Jorge Dias de.). Roberto. Linguagens da Violência. 2000. São Paulo. PEREIRA. Gramado. Revista Contemporânea de Antropologia e Política. Garamond/Unesco. 8: 1. In: Deus. A Polícia da Cidade do Rio de Janeiro: Seus Dilemas e Paradoxos. Galera: Juventude. 1974. nº 2. MIRANDA. Rio de Janeiro. pp. vol. Thomas S. Brasília. Violência e Cidadania no Rio de Janeiro. (org. Niterói. 493-51. Rio de Janeiro: Zahar. 59-75. et al. 2005. MIRANDA. nº 3. Rio de Janeiro/ Brasília. Forense. Curitiba. Cadernos de Campo. MIRANDA. Soltando o Leão: Observações sobre as Práticas de Fiscalização do Imposto de Renda. Rio de Janeiro. em junho de 2002. 123-149. (2ª ed. Niterói. Ciência com consciência. Ana Paula Mendes et al. 8. Michel. pp. Os crimes que se contam nos jornais. M. Relatório Final de Pesquisa Avaliação do Trabalho Policial nos Registros de Ocorrências e nos Inquéritos Referentes a Homicídios Dolosos Consumados em Áreas de Delegacias Legais.

1997. Rio de Janeiro: Rocco. vol. p. n. SOARES. Comunicação e Política. Achiamé. 8. Anabela. Bárbara Musumeci et al. RAMOS.5. A Representação do Cotidiano num Jornal Popular. CESeC/ UCAM. Revue Française de Science Politique. 2. n. Sentidos Sociais e Alteridade. Rio de Janeiro: Forense. Comum. Rio de Janeiro. RODRIGUES. ROCHÉ. exposition. 48. Boletim Segurança e Cidadania. José Honório. João Trajano. jun. Propostas de mudanças nas estratégias de intervenção policial no Rio de Janeiro com vistas à polícia cidadã.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 41 RAMOS. nº 21. Sigilo e reserva. Mídia e Violência: Ação Testemunhal. M. Silvia e Paiva. Monografia de conclusão do Curso de Especialização em Políticas Públicas de Justiça Criminal e Segurança Pública. Crimes Sexuais no Estado do Rio de Janeiro – 2001 a 2003. 2005. et al. Rio de Janeiro. p. O Desvio Nosso de Cada Dia. mars. medo e mídia: Notas para um programa de pesquisa. Julio César. Segurança Pública e polícia: criminologia crítica aplicada. 4. jul-dez. Práticas Discursivas. 1-16. jul/dez 2003. Acessibilidade do público aos documentos. n. 1990. v. Antônio. 24-38. 2005. n. __________. C. set. 2. 7-12. SENTO-SÉ. Jorge da. Elizabeth. Relatório preliminar de pesquisa. 2000. 1990.1. 141160. Imagens da Violência e Práticas Discursivas. p. n. Rio de Janeiro. Deviance et Société. 4. RONDELLI. Expliquer le sentiment d’insecurité. Intervention publique et sociabilité. Niterói. Violência. XIV. nº 3. . __________. Essai sur le probleme de l’insecurité en France. jan-jun. 2002. 9. vol. Linguagens da Violência. SERRA. SILVA. ACERVO . 1980. A.Revista do Arquivo Nacional. Sebastian. vulnerabilité et acceptabilité. 1. ano 4. 2003. avril 1998. Mídia e violência: como os jornais retratam a mídia e a violência pública no Brasil. pp.-dez. Rio de Janeiro. In: Pereira. 1989 -v. vol. Sociedade e polícia – uma parceria possível. vol. Pression.

a motivação = importância associada ao trabalho. assim. ainda existem algumas dúvidas no que se refere às abordagens e os métodos mais adequados para uma análise criminal. o objetivo = qual a finalidade específica do trabalho. organizar. discutiremos o estado das artes das pesquisas e bases de dados deste fenômeno no Brasil. . auxiliar na tomada de decisões. Metodologia de Pesquisa A) Conceitos da Pesquisa Científica A estatística é um conjunto de ferramentas matemáticas que permitem coletar. No entanto. criminalidade e segurança pública têm sido cada vez mais estudados. c. b. a importância da gestão da informação no desenvolvimento de políticas públicas. o objetivo principal desta discussão é apresentar de uma forma simples a idéia da pesquisa na área da violência. Deste modo. descrever e analisar dados e. Na pesquisa científica. introduzindo os usos e problemas metodológicos de uma pesquisa. deve-se definir: a. baseado no rigor de certas exigências científicas. com o intuito de abordar este tema.42 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL COLETANDO E EXTRAINDO INFORMAÇÕES DOS BANCOS DE DADOS CRIMINAIS: A LÓGICA DAS ESTATÍSTICAS DAS ORGANIZAÇÕES POLICIAIS Doriam Borges Introdução Nos últimos anos os fenômenos relacionados à violência. Neste sentido. e a criação e manipulação de ferramentas analíticas para o fenômeno da violência e criminalidade. como instrumento para a construção do conhecimento do tema. as hipóteses a serem verificadas.

assim. as informações sobre a população são apenas aproximadas.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 43 Além disso. • decidir finalmente entre censo e amostragem. devem ser coletadas as informações de interesse sobre toda a população-alvo. de material. Já na amostragem. ao invés de selecionar pessoas de todas as faixas etárias.) para a boa coleta dos dados. No entanto. • verificar os custos associados à coleta. resolve trabalhar somente com os jovens). Além desta imprecisão amostral. devese coletar informações apenas de um subconjunto da população-alvo. denominado amostra. então: • definir quem é a população-alvo. maior a precisão. Nestas pesquisas é muito importante também levar em conta o “esforço” em termos de recursos necessários (humanos. No primeiro caso. o próprio observador impõe vícios na coleta. O erro do método está basicamente associado ao fato de usar um método errado para medir o que se quer. Quanto maior o tamanho amostral. enquanto que no estudo amostral. por exemplo. de tempo. No estudo censitário. um entrevistador. Nesse último caso é preciso. O erro do objeto é. existem outros erros que devem ser considerados: os erros do observador. Há perda de precisão neste último caso que está diretamente ligada ao tamanho da amostra tomada. as informações sobre a população são exatas. No censo. também maiores serão os custos associados a tal coleta. . um erro por não consideração da variação que pode haver em um indivíduo (como não levar em conta o fato que a pressão de uma pessoa varia ao longo do dia). mais próximo o subconjunto estará da população como um todo e. • definir o tamanho de amostra. Na coleta de dados sobre uma população. na verdade. fazendo com que a informação sobre a população contida na amostra seja destorcida (como. duas podem ser as formas de se obter dados tais dados: o CENSO e a AMOSTRAGEM. do método de observação e do próprio objeto. etc. deve-se verificar a existência de trabalhos similares e de opiniões de especialistas sobre o assunto trabalhado.

que alimentam o processo de avaliação. Feita a intervenção. Após a coleta. para ter certeza de que a mudança no fenômeno não foi devida a fatores externos a política pública. E isso se consegue criando condições favoráveis (técnicas e informacionais) para se estabelecer à obrigatoriedade do registro e processamento das informações definidas como relevantes. que visam determinar seu mérito ou relevância. são usadas para ajudar a descrever ou mesmo prever o comportamento das variáveis dependentes. A avaliação é um processo sistemático de análise das ações. utilidade ou efetividade. B) Avaliação de programas públicos (programas sociais e políticas de segurança pública) A avaliação de políticas públicas possui um caráter estratégico. seja sob a forma de treinamento. devemos medir novamente o fenômeno após certo tempo. existe um controle que deve ser realizado. Neste sentido. para a análise (estatística) e a interpretação dos resultados. programa ou projeto a partir de critérios definidos. execução e (re)direcionamento das ações do fenômeno. incluindo aqui as variáveis principais (dependentes) e as secundárias (independentes ou explicativas). características e resultados de uma política pública.44 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL Para cada tipo de erro. porque permite ajudar no planejamento. Deve-se ainda determinar quais os parâmetros (variáveis) que serão analisados. precisas. com grupo de controle”. Neste tipo de avaliação é preciso observar e medir o fenômeno que se pretende modificar antes da intervenção da política pública. chamado de avaliação “antes e depois. A fonte dos dados utilizada em uma pesquisa é dita primária (quando você mesmo realiza a coleta das informações de que precisa) ou secundária (quando se utiliza dados que uma outra pessoa coletou). sua qualidade. em muitos casos. sintéticas. será apresentado algum comentário sobre o método comparativo para a avaliação de políticas públicas. O sistema de monitoramento deve ser capaz de capturar as informações relevantes. é feito o pré-processamento da informação (através de codificação e digitação) e parte-se. As independentes. Além disto. O monitoramento é o processo sistemático de registro e armazenamento das informações substantivas no continuum da ação de uma política. seja sob a forma de utilização de técnicas adequadas para medir ou considerar características do objeto em estudo. gerando recomendações para sua correção ou melhoria. . então. Não há avaliação sem monitoramento.

como documentos. p. relatórios e dados de transações. Os sistemas de informação também armazenam informação sob várias formas. nos dois períodos. • Saída (ou output): envolve a transferência da informação processada às pessoas ou atividades que a utilizarão. o mais parecido com o grupo em que foi implementada a política pública. recuperar.” Os sistemas de informação contêm informações sobre lugares. pessoas e assuntos de interesse no ambiente ao redor da organização e dentro da própria organização. • Processamento: conversão dessa entrada bruta em uma forma mais útil e apropriada. . que deve ser. processar. 4) definem sistema de informação como um “conjunto de componentes inter-relacionados trabalhando juntos para coletar. na medida do possível. o controle. processamento e saída. Pinheiro (2001) caracteriza essas três atividades da seguinte forma: • Entrada (ou input): envolve a coleta ou captação de fontes de dados brutos de dentro de uma organização ou de seu ambiente externo. comparações e tomadas de ações alternativas. Este é chamado “grupo de controle”. e o fazem através de um ciclo de três atividades básicas: entrada. a saída de um sistema pode se transformar em entrada de outro sistema. a análise e o processo decisório em empresas e outras organizações. Idealmente. O processamento pode envolver cálculos. armazenar e distribuir informação com a finalidade de facilitar o planejamento. a única diferença entre os dois grupos deve ser a intervenção que está sendo realizada. que não tenha sofrido esta intervenção. um outro grupo. Em alguns casos.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 45 é preciso medir também. a coordenação. Esses sistemas transformam a informação no sentido de facilitar a análise e visualização de assuntos complexos e a tomada de decisão. Gestão da Informação A) Conceito de Informação Laudon & Laudon (1999. assim como o armazenamento de dados para uso futuro.

A forma mais eficaz de gerenciamento de informações é realizada através de um Banco de Dados. . permite uma previsão de crescimento do objeto estudado e ajuda na elaboração de estratégias. segurança / privacidade. Figura 1: Fluxo de Bancos de Dados Informação Registrar Organizando os registros Fato Formulário Arquivos Banco de Dados Relatório Entrada Processamento Saída Um Sistema de Banco de Dados (SBD) possui as seguintes características: integridade / consistência. reduz custos. elimina duplicação de tarefas. Redundância reduzida: os dados são organizados por um SBD e armazenados em apenas um local. uma das principais preocupações é gerenciamento das informações necessárias para que os objetivos de exame ou controle sejam alcançados. Vantagens no uso de Sistema de Banco de Dados (SBD): 1. reorganização e eficiência. restrições. Além de interligar todo trabalho da organização.46 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL B) A importância e organização de banco de dados Quando se deseja controlar qualquer atividade ou processo. restauração. Maior integridade de dados: como os dados estão em apenas um local. não existe o perigo de existirem cópias mantidas em locais separados. 2.

Independência entre dados e programas: o programa não é afetado pela localização do dado. Na área da violência e criminalidade. Manutenção mais fácil: o SBD cumpre a tarefa de atualizar os dados comandados de diversos programas. 6.Registros de Ocorrência. recuperação de veículos. estupros.Instituto de Segurança Pública divulga estes dados mensalmente. O ISP . Fontes de dados compartilhadas: é fácil localizar o fluxo que o dado faz. dentro do banco de dados. 5. cujo preenchimento é baseado nas categorias criminais definidas pelo Código Penal. foi utilizado a 9ª . por duas pessoas qualificadas que tenham presenciado ou constatado a morte. abrangendo todo o território do estado. destacamos três fontes de dados: as registradas pela Polícia Civil. vários tipos de roubos. ou. a confiança no backup é maior. No estado do Rio de Janeiro a base das estatísticas criminais é coletada através da Polícia Civil. as coletadas pelo Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde e as pesquisas de vitimização. C) Fontes de Dados Para realizar uma análise. para a codificação da causa de morte. furtos etc) e nãocriminais (desaparecidos. Melhor proteção global: como os dados estão armazenados em apenas 1 local físico. Do período de 1979 a 1995. desde sua origem até seu destino. bem como novos dados podem ser agregados ao banco a qualquer momento. um total de 38 títulos de ocorrências criminais (homicídios. O SIM classifica as mortes violentas como “Causas Externas”. 7. por meio dos RO .O Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) tem sua informação inicial gerada pela DO – Declaração de Óbito. Estes registros são divulgados segundo desagregação de AISP – Área Integrada de Segurança Pública – e segundo área de circunscrição de delegacia de polícia. um monitoramento ou uma avaliação é preciso conhecer as fontes de dados.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 47 3. na ausência de médico. número de registros de ocorrências etc). Padronização do acesso aos dados: para acessar os dados. segundo a Classificação Internacional de Doenças (CID). 4. que é preenchida com base no atestado médico. bem como controle de acesso. diversos programas utilizam os mesmos procedimentos. ficando transparente ao programador e ao usuário final.

e desde 1996 os óbitos passaram a serem classificados através da 10ª Revisão do CID (CID-10). Tem como objetivo obter informações sobre a experiência das pessoas com respeito ao crime. levar em conta que o registro se refere ao local da morte e não o local de ocorrência. por exemplo. Pelo SIM os homicídios são definidos segundo a CID. Para a Polícia. que não podem ser medidos diretamente. Além disto. Por exemplo. e ao se trabalhar com os dados da saúde.48 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL Revisão do CID. e permitem tirar conclusões sobre o desenvolvimento dos fenômenos sociais em questão. e faleceu. e quantifica a ocorrência de violações específicas para aproximar à realidade os dados divulgados pelos órgãos oficiais. o crime ocorreu no município Y. estratégias de prevenção ao crime e avaliação dos serviços prestados pelas forças policiais. Logo. indicadores são parâmetros qualificados e/ou quantificados que servem para detalhar em que medida os objetivos de um projeto foram alcançados. Com isto. as mortes por homicídio classificadas pelo SIM abrangem mais de um tipo de morte violenta registradas pelas polícias. Vale ressaltar que a definição de morte violenta dada pelo SIM é diferente da dada pelas polícias. Como o próprio .São expressões numéricas de fenômenos quantificáveis. Deste modo. enquanto que os do SIM se referem ao local do óbito. que é o mais importante no estudo da segurança pública. Gera informações que eventualmente sirvam no desenvolvimento de políticas para o controle da criminalidade. Indicadores Sociais Em projetos sociais. não é possível realizar comparações entre as duas fontes de dados. As pesquisas de vitimização são um tipo de levantamento na população sobre a experiência com o crime. dentro de um prazo delimitado de tempo e numa localidade específica. risco de vitimização. enquanto que na saúde a morte é registrada no município X. enquanto que para as polícias a definição é feita segundo o Código Penal. atitudes com relação à polícia e a punição dos criminosos. supondo que um indivíduo levou um tiro em um município Y. propensão a registrar queixa policial. as taxas de homicídio contabilizadas pelos dados da saúde são sempre maiores que as contabilizadas pelas polícias. os dados da polícia se referem ao local da ocorrência do fato. e foi levado para um hospital do município X. representando fenômenos sociais politicamente relevantes.

são uma espécie de “marca” ou sinalizador. Neste sentido. os indicadores se referem a aspectos tangíveis e intangíveis da realidade. estilos de comportamento. legislação. oferta etc. como renda. por exemplo. gestão. organização. • Relevância: Enquanto propriedade desejável de um indicador social. atitudes. sua capacidade de refletir. valores. habilidades. Já os intangíveis são aqueles sobre os quais só podemos captar parcial e indiretamente algumas manifestações: consciência social. a relevância diz respeito à pertinência desse indicador para a tomada de decisão acerca dos problemas sociais. cidadania.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 49 nome sugere. Uma iniciativa pode ser considerada como “relevante” se a mesma em seus objetivos mencionasse a orientação de políticas públicas. formas de participação. Os indicadores sociais devem possuir duas características fundamentais: • Validade: A validade de um indicador corresponde ao grau de proximidade entre o conceito e a medida. Baseiam-se na identificação de uma variável. medir a disponibilidade de bens. saúde. liderança. Os tangíveis são os facilmente observáveis e aferíveis quantitativa ou qualitativamente. capacidade empreendedora. A primeira decorrência desta afirmação é. ou seja. 2001: 26). ou seja. Os indicadores podem ser utilizados para medir ou revelar aspectos relacionados a diversos aspectos sociais. de fato. poder. ou captar processos em termos de intensidade e sentido de mudanças. variação esta que consideramos capaz de expressar um fenômeno que nos interessa. auto-estima. o conceito abstrato que o indicador se propõe a “operacionalizar” ou “substituir” (JANNUZZI. justamente. divulgação. conhecimentos. A escolha dos indicadores em um projeto também ocorre em função dos ângulos que se quer avaliar: • Eficiência: boa utilização dos recursos • Eficácia: se as ações do projeto permitiram alcançar os resultados previstos • Efetividade: em que medida os resultados do projeto estão incorporados . que busca expressar algum aspecto da realidade sob uma forma que possamos observá-lo ou mensurá-lo. serviços e conhecimentos. escolaridade. direitos legais. que eles indicam mas não são a própria realidade. algum aspecto que varia de estado ou situação. Podem.

meses. • ser bem definido. • Estudo Temporal: tem como objetivo verificar a existência de tendências. sazonalidade (ciclos). que possam ser usados para demonstrar o comportamento do fenômeno estudado. viabilizando a descrição das variáveis. Ferramentas para a análise de fenômenos da segurança pública Quando os dados estão coletados. sem ser simplista. capaz de ser compreendido por todos. • considerar as particularidades do contexto. • Estatísticas Descritivas: possibilita a apresentação de dados quantitativos de forma manejável. e não apenas por especialistas. sem ter pretensão de dar conta da totalidade. • Aproveita as fontes confiáveis de informação existentes. • Fornece informações relevantes e em quantidade que permite a análise e a tomada de decisão. Neste sentido. anos).50 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL a realidade da população atingidaImpacto: as mudanças em outras áreas não trabalhadas pelo projeto. além da identificação de padrões do fenômeno no tempo (horas. através de tabelas e gráficos. se torna necessário transformar os dados brutos num conjunto de números organizados. Nos estudos de segurança pública deve-se sempre lembrar que ao se comparar os dados do verão com os do outono . e ser desenvolvido a partir de um bom conhecimento da realidade na qual se vai intervir. • ser viável do ponto de vista operacional e financeiro. demonstrando seu poder de influência e irradiação. dias.Um bom indicador para monitoramento e avaliação de resultados deve apresentar as seguintes características: • ser coerente com a visão e com a concepção que as organizações tem sobre os objetivos. a principal tarefa a ser realizada é a análise dos resultados. preciso e representativo no que se refere aos aspectos centrais da estratégia do projeto. • ser simples.

Estudo Espaço-Temporal: analisa o fenômeno a partir das duas metodologias acima. visando identificar diferenciais de risco e orientar a alocação de recursos. . por exemplo. será encontrado um crescimento. • Estudo Espacial: descreve e visualiza distribuições espaciais. acompanhar a incidência de algum tipo de crime por bairro variando a cada hora de um dia. descobre padrões de associação espaciais e identifica observações atípicas.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 51 anterior. percebendo qual o local e o horário de maior incidência daquele crime. provavelmente. devido ao fato de que o verão tende a ser mais violento. Pode avaliar a variação geográfica na ocorrência de um fenômeno. Pode. Mas na comparação dos dados de um verão com os do verão anterior (em vez de com os meses anteriores) a influência do próprio verão estará controlada.

Rio de Janeiro: Ipea e Cesec/Ucam. política de segurança e sentimento de insegurança. C. de. Fórum de Debates Criminalidade. C. FERRARI. 2001. 2ª ed. KAHN. Rio de Janeiro: Ipea e Cesec/Ucam. 2001. CANO. Rio de Janeiro: Eduerj. MIRANDA. Porto Alegre: Ed. Coimbra. Trabalho apresentado no VII Congresso Luso-Afro Brasileiro de Ciências Sociais. C. V. T. Informação. 2002. M. PINHEIRO. LAUDON. 2001. Registros Criminais da Polícia no Rio de Janeiro: Problemas de Validade e Confiabilidade. L. C. 2004. J. JANNUZZI. Indicadores Sociais no Brasil. & Junior. 2001. Fórum de Debates Criminalidade. LAUDON.. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos. CANO. Rio de Janeiro: Ipea e Cesec/Ucam. I. Violência e Segurança Pública no Brasil: Uma Discussão sobre Bases de Dados e Questões Metodológicas I. Medindo a Criminalidade: Um Panorama dos principais Métodos e Projetos Existentes. Fontes de Dados Policiais em Estudos Criminológicos: Limites e Potenciais. 2001. 2000. Violência e Segurança Pública no Brasil: Uma Discussão sobre Bases de Dados e Questões Metodológicas I. Democracia e Informação no final do século XX. K. Sistemas de Informação (Apostila do Curso de Graduação em Sistemas de Informação). P. Belém: Instituto de Estudos Superiores da Amazônia. Informação e democracia. Fórum de Debates Criminalidade. Campinas: Editora Alínea. I. P.52 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL Bibliografia BEATO. Ana Paula M. SCHRADER. In: Guimarães. . UFRGS. 2004. Sistemas de informação com Internet. A. Métodos de Pesquisa Social Empírica e Indicadores Sociais. 1999. Rio de Janeiro: Editora FGV. Violência e Segurança Pública no Brasil: Uma Discussão sobre Bases de Dados e Questões Metodológicas I. Introdução à Avaliação de Programas Sociais.

1998. Minhas observações centram-se exclusivamente no referido sistema classificatório que. 1997 ou CUNHA. prioritariamente. mediada pelas inúmeras formas de administração e gerenciamento da “população”. IFCS/UFRJ . proporcionada pelos colegas do IFCS/UFRJ. principalmente. e as análises históricas de HOLLOWAY. certamente. Dito de outro modo. questão particularmente importante para a compreensão de atividades profissionais que se definem. de um exercício referente à relação entre a “função classificatória” e a construção de saberes profissionais. objetivo fazer algumas observações acerca do modo pelo qual um sistema classificatório de referência partilha da produção de habitus profissionais específicos (BOURDIEU. para iniciar uma reflexão baseada em um material empírico um tanto novo para mim. Sob esta perspectiva. suponho. o caráter preliminar e algo rudimentar desta reflexão. como espero demonstrar. que não pretende de modo algum ser uma análise da prática policial no Rio de Janeiro (como a de KANT DE LIMA. entre outros). 1987). de imediato. permite levantar uma ou duas hipóteses sobre os princípios sóciológicos que o animam. 1994. como constituídas de um “saber prático”.Mesa: Universos judiciários. 1 Trabalho apresentado originalmente no Seminário “Formas primitivas de classificação”. . a produção destes saberes e deste habitus está. Cem anos depois (junho 2003) promovido pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais. o tema que trago permite relacionar esquemas geradores da ação e uma “teoria da prática”. característica fundamental das técnicas de poder. tomado em si mesmo. Acentuo. Neste caso. 1980). práticas classificatórias. a partir do século XVIII. como acentua Foucault (1979. 1980.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 53 O SISTEMA CLASSIFICATÓRIO DAS OCORRÊNCIAS NA POLÍCIA MILITAR DO RIO DE JANEIRO E A ORGANIZAÇÃO DA EXPERIÊNCIA POLICIAL: UMA ANÁLISE PRELIMINAR1 Simoni Lahud Guedes Introdução Aproveito a ocasião da comemoração dos cem anos de publicação de um dos textos fundadores das Ciências Sociais. Trata-se.

o autor expõe e analisa as diversas “ocorrências” registradas pela Assessoria de Planejamento. de 1983) compõem o corpus sobre o qual pretendo fazer algumas observações. é um sistema hierarquizado e é um sistema que pressupõe uma totalidade”. os eventos sociais com a sua intervenção. com profissionais de outras turmas.ou sistematizadas em alguns trabalhos escritos. Neste curso. trouxeram algumas informações adicionais sobre o sistema classificatório em questão. . Trazem uma série de informações e interpretações sobre a corporação. Algumas conversas posteriores. Foi. A relação com estes alunos. Refiro-me à monografia de conclusão do curso realizada por Júlio Cesar Ramos (2002). expondo. Acentua a dimensão hierárquica. resume o que seriam as “três qualidades fundamentais” da “função classificatória”: “é um sistema de distinções ou diferenciações. juntamente com dois documentos que me foram fornecidos para auxiliar na minha compreensão do sistema (um modelo do Talão de Registro de Ocorrências. na UFF. todos com longa inserção institucional. também. constituído a partir de uma demanda dos então responsáveis pela política de formação dos oficiais da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. 73). Mauss e Hertz via Dumont. relendo Durkheim. na medida mesmo em que é para ela que dirigem quase todo o seu foco de atenção.nos exemplos de que se servem na sala-de-aula ou nas conversas informais em outros espaços . pela própria polícia militar. por esta via. p. Classificando as interações problemáticas e controlando os policiais que controlam a população DUARTE (1986. no mesmo curso. uma parcela importante dos alunos é de oficiais superiores desta corporação. que ocorre há mais ou menos quatro anos. de 1997. no meu caso especificamente. Orçamento e Modernização da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro em 2001. minha proposta é bastante preliminar. um produto de nossa experiência coletiva. um destes trabalhos escritos que despertou meu interesse acerca do sistema classificatório das “ocorrências”. forma como são denominados. Como se vê. tem propiciado um olhar novo sobre esta instituição. enfocando a possibilidade de uma parceria entre a sociedade e a polícia. também por esta dimensão. Nesta monografia. com o Curso de Especialização em Justiça Criminal e Segurança Pública. o sistema classificatório dos eventos com intervenção policial.54 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL Esta reflexão é. Estes dados. das classificações. de valor. de modo assistemático . e as Normas Gerais de Policiamento. justamente.

sinaliza seu objetivo maior de organizar a prática policial militar. tem estas três características bastante evidenciadas. interna aos níveis aparentemente equivalentes. sua característica maior. neste sentido. ações policiais e situações sociais. No seu primeiro nível. 005 – Diversas. Mas vejamos o sistema classificatório em questão. Esta ordenação. em alguns momentos. visando à exaustividade e à sistematicidade. Define-se. O sistema classificatório aqui tomado como material para reflexão. é. A totalidade de que trata são as intervenções do policial militar na vida social denominadas ocorrências. enquanto um construto interno à instituição. torna-se mais minucioso nos níveis inferiores. denominadas amplamente de códigos. estabelecendo diferenciações e inclusões. ao mesmo tempo. e. mesmo que. 002 – Contravenções. sobre a qual falarei adiante. diferencia cinco grandes conjuntos de intervenções. tenha que lançar mão da categoria residual diversos. A um primeiro olhar. resultado de interpretações da experiência elaboradas por policiais experimentados. compreendida. há uma série de indícios de uma outra diferenciação. 2002: 5). como a maioria das classificações. Classifica. por sua vez. tanto como uma declaração acerca das intervenções esperadas e legitimadas do policial militar quanto pelo detalhamento das situações sociais consideradas como “problemáticas”. registrando e medindo as experiências vividas. pretendendo ser exaustivo nesta direção. 003 – Trânsito. de valor. ao tomar como objeto as inúmeras e diversificadas situações sociais em que a PM intervém ou é solicitada a intervir. Embora referida pelos profissionais como uma codificação que se pretende exclusivamente técnica. mais amplo. certamente. da perspectiva que assumo aqui. numeradas nesta ordem: código 001 – Crimes. . classificando. A propriedade da “antecipação totalizadora” é. pretendendo contemplar todo o campo dos possíveis. 004 – Assistenciais. O sistema opera em três níveis distintos de abrangência. por esta via. construído pela e para a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (RAMOS. ordenando.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 55 enfatizando que as diferenciações não são simples dicotomizações. há equivalência entre as distinções internas a cada nível. Contudo. dialogando em muitos dos seus aspectos com as definições legais. como “neutra”. ordena e hierarquiza. mas importam em uma dimensão interna de valor diferencial cujo paradigma seria exatamente a oposição direita-esquerda analisada por Hertz. muito importante no sistema.

congregando quer os resíduos. na verdade. implícita ou explicitamente. em quase toda a especificação do código). dois tipos distintos de assistência. interpretando-a e buscando replicar seus termos e diferenciações.56 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL Nos dois primeiros códigos. O primeiro tipo refere-se àquelas atividades inerentes ao trabalho policial (auxílio a órgãos de meio-ambiente. sob este ponto de vista. mais implícita. abrindo-o para as interpretações construídas em outro território. replica esta relativa ambigüidade. Mantêm relação estreita com esta legislação. classifica-se como “diversos”. através da qual os dois tipos distintos de assistência são tornados equivalentes. a meu ver. mal súbito. nas ciências. abriga. este conjunto é absolutamente fundamental ao sistema. que denota os . Supõem e propõem. mas nas quais o policial militar não é o agente principal. o do meio em cinco. a complexa e prolixa legislação brasileira acerca de crimes e contravenções é transformada em ocorrências identificáveis. Quando se passa ao nível seguinte. Voltarei a este ponto ao final. pois retém sua inclusividade absoluta e o que estou chamando de sua propriedade de “antecipação totalizadora”. há indícios da importância para a prática policial militar do primeiro grupo de ocorrências (001 – crimes). a categoria central é auxílio (presente. o “rótulo da ignorância”. auto furtado e direção perigosa) quanto a acidentes. Finalmente. pois. pois pode referir-se tanto a crimes e contravenções (por exemplo. O código 004 congregando as intervenções denominadas como assistenciais. como diz Mauss (1968: 365). indícios de uma outra classificação. o quinto código ocorrências diversas agrupa o inclassificável ou. nos quais tudo cabe. Aqui. É extremamente diversificado. referindo-se ao que. Contudo. apresenta alguns “coringas”: termos absolutamente genéricos e amplos. O terceiro código – trânsito – é mais impreciso. quer uma perspectiva distinta sobre fenômenos já considerados. Voltarei também a este ponto adiante. condução de enfermo). o segundo tipo legitima (e talvez até proponha) uma dimensão de relação do policial militar com os diversos segmentos sociais (parturiente. é uma das características mais interessantes deste sistema. o intermediário em abrangência. Para sustentar sua inclusividade. determinadas leituras do ordenamento jurídico da sociedade para a transformação de eventos em ocorrências no interior destes dois conjuntos. portanto. Sua situação como o terceiro. auxílio à autoridade policial). o que não encontrou lugar nos códigos anteriores.

poderíamos dizer que é o primeiro e não apenas o número um. pelo investimento maior na diferenciação interna das ocorrências criminosas. crimes contra os costumes e cerca de 20 no grupo 200. Neste nível. um único grupo. nos seus nove grupos (cinco do primeiro código e um para cada um dos outros). evidentemente. Na verdade. É possível. neste nível de detalhamento. O terceiro e último nível de abrangência é aquele no qual se classificam as ocorrências propriamente. O valor maior atribuído ao código crimes fica duplamente evidenciado: primeiro. De qualquer modo. cada uma. crimes contra o patrimônio). mas isso é. Ou seja. os crimes contra a família). no sistema classificatório em questão o segundo nível existe. por exemplo. garante a incorporação de todos os possíveis principalmente através dos seus próprios termos “coringas”. Assim. trânsito. segundo. na interpretação institucional de um aparato legislador muito amplo e diversificado. crimes contra o patrimônio. impondo-se a atuação diante de comportamentos e situações classificados como criminosos como a principal das funções precípuas da Polícia Militar. replicando-a e interpretando-a. exclusivamente. a relação institucional com a historicidade deste sistema classificatório. para este código. enquanto que as outras quatro categorias (contravenções. deduzidas de algumas diferenças observadas nas ocorrências registradas no documento de 1997 (Talão de Registro de Ocorrências) . todos os termos mereceriam ser analisados em termos do conjunto de diferenciações em que se situam. com um número variável de itens (entre sete. De fato. relacionando-o à construção da “experiência” e da prática dos policiais militares. pela sua numeração. estas subdivisões contemplam os principais objetos da legislação penal brasileira. apesar da incipiência e assistematicidade do material coletado. crimes contra a administração pública e “outros crimes” (o diversos deste nível de abrangência que. o segundo nível é estabelecido exclusivamente pelo primeiro grupo. contando. é possível notar. de novo. impossível aqui. por exemplo. Na verdade. contudo. assistenciais e diversas) comportam.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 57 valores distintos atribuídos às diferenciações em cada nível. por exemplo. fazer algumas observações gerais e outras pontuais que permitam elaborar alguns dos significados veiculados por este sistema classificatório. em termos de valor. Apresenta cinco subdivisões: crimes contra a pessoa. vagos e amplos. no grupo 300. no interior da categoria crimes distinguem-se cinco outros grupos como é denominada a subdivisão seguinte. como. crimes contra os costumes.

na conversa com outros alunos do curso. De fato. possivelmente. Apesar disso. o acréscimo de periclitação da vida e contra a honra. mesmo num curtíssimo espaço de tempo. Estas diferenças indicam. . ele é amplamente conhecido por todos. por exemplo. incluindo novas ocorrências (como. bem como a falta de registro de suas alterações. 69). o que dá no mesmo. pois muitos elaboram críticas a suas imprecisões. Na mesma direção aponta a ausência de textos que expliquem as diversas categorias classificatórias dos eventos e as formas de enquadrar o “acontecido” na classe adequada (ou. Sob este ponto de vista. p. portarias e instruções. documentos. regulamentos. A ausência de interesse em sua origem. nativo. Isto é bastante significativo em uma instituição absolutamente letrada. sendo enfocado como uma simples forma de registro.58 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL e no registro apresentado em Ramos (2002. baseado em um setor de planejamento da PMERJ. documento no qual estão minuciosamente registradas as formas previstas de policiamento. o acréscimo de roubo de veículo de transporte de valores). Mas não há. Incorporado como parte de sua atividade profissional. qualquer explanação ou instrução sobre a codificação dos eventos. Indagados sobre isso. subtraindo à classificação vaga dos “resíduos” algumas intervenções que se tornaram significativas no processo social. explicando-se. transformadas em novos “problemas sociais”. nos crimes contra a pessoa. inclusive. Mas é bastante interessante também que nenhum dos profissionais consultados (repito. Não há diferenças nos níveis de abrangência mais amplos. percebi que atribuem a ele uma importância menor na organização de sua prática. surgindo como alguma coisa que “sempre esteve lá”. neste documento. é um modelo consciente. Entre eles. inconsistências e dificuldades. membros da mesma corporação. o desinteresse de profissionais experientes e graduados na instituição por tais textos). indicam uma certa naturalização deste sistema classificatório. nos crimes contra o patrimônio. a constante atualização do sistema classificatório. que se inscreve permanentemente em manuais. acerca deste tema. de modo assistemático) tenha se referido às mudanças do sistema classificatório. que não pode ser precisada pelos alunos consultados. passim). não o fazem sem reflexão. as Normas Gerais de Policiamento (1983). as formas de preenchimento do Talão de Registro de Ocorrências (Anexo III. nos termos de Lévi-Strauss (1967). capitães. sendo parte de seu saber comum e rotineiro. disseram que a referência eram as próprias categorias legais. As alterações parecem se dar em termos de uma maior especificação no interior de alguns grupos.

faz com que diferentes princípios classificatórios sejam utilizados. por essa via. A acumulação de “experiência” é aqui compreendida como parte do processo fundamental de construção de saberes coletivos. Assim. de modos distintos e em proporções variáveis. nesta profissão. neste terceiro nível do sistema classificatório. A busca do máximo de especificação quanto aos eventos. a importância maior de algumas ocorrências em detrimento de outras. implícito. sendo um dos mais importantes a classificação do público que é tirado pelos policiais. só o estudo das práticas policiais e da construção da “experiência”. sem nenhuma dúvida. acerca das inconsistências do sistema. este sistema classificatório convive e conjuga-se com diversos outros. normas explícitas.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 59 Tudo isso indica que se trata de um esquema aparentemente muito detalhado. permitirá a compreensão das formas de classificação dos fenômenos de intervenção da polícia militar. nem definido. ao mesmo tempo. portanto. muitas vezes não reconhecidos como tal. se. teorias nativas e saberes implícitos. enfatizando. Por exemplo. mas também muito geral de organização do vivido. absolutamente não apreensível nos documentos escritos. investindo contra o uso acrítico das “experiências” no trabalho dos historiadores: “Experiência é. Como acentua a historiadora Joan Scott. a maioria não escritos. portanto. Mas. conjugado a um outro. todo o tempo. já uma interpretação e algo que precisa de interpretação. pela observação e acompanhamento dos mais “experientes”. como demonstra Kant de Lima (1995: 53 segts). no código 01. hierarquiza e valoriza eventos. O que conta como experiência não é nem auto-evidente. são . Minha primeira hipótese. com quem conversei. O sistema classificatório das ocorrências dirige o olhar para determinadas direções. na análise preliminar deste sistema classificatório: o sistema de registro trabalha. Esta também é uma das razões das observações dos policiais militares. Toda prática conjuga. racionalizações. Trata-se daqueles construídos e transmitidos na própria ação. além da categoria genérica furto (210). configurase. desvaloriza outros e obriga à construção de liames entre o vivido e o registrado. não devemos minimizar a importância da ordenação escrita desta prática. é sempre contestável. trabalho a que se dedicam alguns pesquisadores. Talvez sua característica mais importante seja exatamente esta: o que ele não diz. grupo 200 (crimes contra o patrimônio). cujos princípios mais importantes não podem ser depreendidos de sua inscrição textual. o espaço que abre para as interpretações e construções coletivas. sempre político” (SCOTT. garantindo o espaço na classificação para todas as formas de furto. 1999: 48).

Este pequeno exercício. Poderiam ser encaradas como parte fundamental da relação da polícia com o que é transformado. estabelecimento financeiro. como aquele que envolve “destruição ou rompimento de obstáculo à subtração da coisa ou com abuso de confiança. cerca de 56% das intervenções em 2001 foram classificadas neste código (RAMOS. pode ser classificado simplesmente como furto. em “problema de segurança” maior pelos segmentos sociais dominantes. estacionado na garagem interna de um estabelecimento comercial. Permite. Assim. no nível maior de abrangência. responde. que é fundamental o que ele não diz e o espaço que abre para a construção coletiva de interpretações. estabelecimento de ensino. neste instrumento legal. não visa. ele é muito bem sucedido e muito bem construído. na verdade. Tudo isso também nos . avançar a reflexão em uma outra direção. valorizando aqueles cometidos em alguns locais e. ainda. seis termos referem-se ao local do furto (auto. residência). escolas e residências) ou objeto (autocarga) relacionase quer com sua maior freqüência quer com a visibilidade maior que tenham estas ocorrências na sociedade. de modo algum. ou mediante fraude. simultaneamente. coletivo. o estudo sistemático das inclusões e exclusões ocorridas no sistema – se é que ocorreram – permitiria desenredar alguns indícios sobre o que vai se tornando mais ou menos importante na atuação policial. intenção de folclorizá-lo. a uma enorme concentração da atividade do policial militar nos eventos neste setor: segundo dados da própria PM. estabelecimento comercial. que poderia ser repetido em vários pontos do sistema classificatório em questão. do código 003 – trânsito. definido. Visa demonstrar. Assim. sobretudo. o ponto que já enunciei acima. 2002). por exemplo. lançando ao limbo genérico da primeira categoria (furtos tout court) os ocorridos em outros locais. ademais. Sob esta perspectiva. fazer coro aos questionamentos internos em relação à propriedade e/ou eficácia das categorias especificadas. Uma única categoria refere-se ao objeto do furto (autocarga). Não tem também. sinalizando também seu valor em relação a todos os objetos furtáveis. portanto.60 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL utilizadas outras oito categorias que expressam princípios distintos: uma refere-se a uma figura do código penal (furto qualificado. a saber. neste caso e só neste caso. como furto em estabelecimento comercial e. com toda a ambigüidade que apresenta. meios de transporte. da qual se arrombou a porta. utiliza-se como critério de classificação os meios pelos quais o furto é cometido. bancos. como furto de autocarga. em cada momento. poderíamos pensar que a existência. lojas. Nesse sentido. escalada ou destreza”). Continuando a usar como exemplo as especificações sobre furto. como furto qualificado (pois rompeu-se um obstáculo). poderíamos elaborar a hipótese de que a importância maior da especificação de locais (no caso. por exemplo. absolutamente. o furto da carga de um caminhão de transporte.

neste caso. (2) examinar os usos e impactos dos índices na forma como são divulgados pela mídia.171 homicídios” pode ser lida como. implícito neste sistema classificatório: produzir estatísticas sobre as ocorrências policiais. o Secretario de Segurança do Estado do Rio de Janeiro. estipulando “uma média percentual de 12% para a redução de. ela é suscetível de reagir sobre a sua causa e contribuir para modificá-la.) as idéias são organizadas sobre um modelo que é fornecido pela sociedade. operam com modelos mecânicos para transformá-los em modelos estatísticos. relação com a Secretaria de Segurança Pública. produção de normas etc. buscando pensar. A manchete da reportagem “Limite do ano: 4.. intencionalmente. em 08 de maio de 2003. insistem. Nessa direção creio que seria produtivo: (1) examinar os usos e impactos dos índices na organização interna da prática policial em seus diversos níveis (relações com as outras instituições de policiamento. Mas uma vez que esta organização da mentalidade coletiva exista. 2 O lugar ocupado pela produção de índices estatísticos é absolutamente central para avaliação da prática policial. em seguida. em última instância. o conjunto das atividades da polícia militar e os eventos “problemáticos” da vida social2. na produção de estatísticas que medem e avaliam. através dos inúmeros índices que produz. a experiência de outros). aquele segundo momento em que. a função classificatória. pelo menos. após ter estabelecido o postulado de que “a classificação das coisas reproduz a classificação dos homens”. aprender a classificar sua vivência em determinadas direções. as reações expostas na própria reportagem explicitam a necessidade de se “reduzir a zero” os homicídios e seqüestros. de princípios operatórios distintos. 1968: 184. expõe um número que pode ser absolutamente assustador para os cidadãos comuns. 10 delitos”. Gostaria de terminar lembrando que realizei aqui apenas um pequeno exercício a partir do texto de Durkheim e Mauss. (3) examinar a diferença entre usos internos e externos das estatísticas. mas movendo-se no campo aberto pela utilização. nas quais o saber produzido pelas estatísticas é o eixo das técnicas de poder. tradução minha). simultaneamente. pois ao mesmo tempo em que reproduz a proposta de redução de índices.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 61 faz recordar o objetivo mais amplo. . De certo modo.).. entre outras coisas. O que está no meio disso é o vivido e a “experiência” dos profissionais envolvidos que devem. segundo a reportagem do Jornal do Brasil. Aqui é útil relembrar Foucault e a questão fundamental do gerenciamento das populações. Também creio ser útil lembrar Lévi-Strauss e as diferenças entre modelos mecânicos e estatísticos. na classificação. no processo dialético contínuo de realimentação entre os dois níveis: “(. limitada pela classificação pré-existente (ou seja. Anthony Garotinho. particularmente. irônica. Experiência obrigada a se auto-inscrever para produzir estatísticas. concretiza-se. p C2. teria estabelecido em termos estatísticos as metas da política de segurança. Assim. Assim.” (DURKHEIM e MAUSS. por exemplo. demonstrando a precedência lógica da organização social sobre o sistema classificatório. na interpretação das ocorrências em que se envolvem. Talvez pudéssemos dizer que os policiais.

ESTADO MAIOR. Niterói.62 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL Bibliografia BOURDIEU. KANT DE LIMA. FOUCAULT. 1968. Sociedade e polícia – uma parceria possível. Rio de Janeiro. Lago. Rio de Janeiro: Graal. M. Les tecniques du corps. Classificação e valor na reflexão sobre identidade social. A polícia da cidade do Rio de Janeiro. Microfísica do poder. F. 22. 1998. e Ramos. Vigiar e Punir. 1980. Experiência. Júlio Cesar. 1999.). FOUCAULT. FGV. M. POLÍCIA MILITAR DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. De quelques formes primitives de classification. Sociologie et anthropologie. (org. SCOTT. 1930-1942. Teoria e pesquisa. M. e MAUSS. 1968. Repressão e resistência numa cidade do século XIX. MAUSS. o nascimento da prisão. M. L. 2002. Paris: Minuit. In Mauss. M. FOUCAULT. Monografia de conclusão do Curso de Especialização em Políticas Públicas de Justiça Criminal e Segurança Pública. leituras. Joan. n. 1977. Os domínios da experiência. 1986. 1995. M. Paris: PUF. RAMOS. DURKHEIM. DUARTE. (orgs). Normas Gerais de Policiamento. In Leite. Thomas. In Cardoso. Seus dilemas e paradoxos. R. HOLLOWAY. Essais de Sociologie. Rio de Janeiro: Forense. A aventura antropológica. CUNHA. História da sexualidade I. Florianópolis: Editora Mulheres. Olivia. Paris: Minuit. Rio de Janeiro: Graal. T. Le sens pratique. 1997. 1967. Propostas de mudanças nas estratégias de intervenção policial no Rio de Janeiro com vistas à polícia cidadã. 1983. Polícia no Rio de Janeiro. Teorias. da ciência e da lei: os manuais da polícia civil do Distrito Federal. A. P. análises. Claude. Estudos Históricos. LÉVI-STRAUSS. Petrópolis: Vozes. Falas de Gênero. . 1979. É. M. Rio de Janeiro: Paz e Terra. R. Antropologia Estrutural. A vontade de saber. D. 1987. Rio de Janeiro: FGV. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.

Como conseqüência. quaisquer que sejam os resultados alcançados. pois a necessidades de tais projetos são tão urgentes que. O desafio que enfrentamos hoje em estudos criminológicos na América Latina diz respeito justamente às bases de informações necessárias para que se possa avançar no alcance das proposições empíricas. do aumento do medo e da percepção de risco das populações nos grandes centros urbanos. bem como efetuar testes de teoria mais sofisticados. e as políticas. n. sem dúvida nenhuma. Sem esse conhecimento não temos ação efetiva e conseqüente. destaca-se a nossa ignorância sobre a matéria. independente das implicações para o problema da delinqüência. 2005. As implicações dessa situação para o desenho e avaliação de políticas de segurança são óbvias. temos uma situação de incremento acentuado das taxas de criminalidade. Crime and Violence diagnostics and information. World Bank Working papers. Podemos dizer.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 63 PRODUÇÃO. . Não há uma avaliação dos custos destes programas frente aos resultados alcançados. No que diz respeito ao impacto específico de políticas e programas sociais. violência e políticas de controle na América Latina que não comece ou termine enfatizando as inúmeras deficiências nas bases de informações sobre criminalidade e violência. esta situação é ainda mais obscura. que dentre as diversas causas de crime hoje na América Latina. Washington DC. C. BEATO FILHO. são efetuadas em vôo cego. 35135. considera-se como bem sucedido. . na América Latina. 1-45. USO DE INFORMAÇÕES E DIAGNÓSTICOS EM SEGURANÇA URBANA1 Cláudio Beato Dados e programas de prevenção Não há estudo exploratório ou revisão de literatura sobre criminalidade. programas e projetos de segurança desenhados com base neste conhecimento. O ceticismo e descrença diante da aparente impossibilidade de se obter resultados estão “naturalizando” os fenômenos da criminalidade e violência. Essa é uma situação grave que compromete seriamente os estudos realizados. C. v. ou tampouco da 1 Versão resumida de 2. como se estivéssemos inevitavelmente destinados a conviver com o medo e a insegurança. p. 1. Políticas na área da criminalidade e justiça. sem instrumentos e com orientação puramente impressionista.

como transformar estes dados em informação. e evolução desta patologia”. dada a freqüente escassez de recursos que nossos governos nos mais diversos níveis tendem a enfrentar. falta de levantamentos sistemáticos de dados. ter uma percepção mínima acerca do que está ocorrendo. (RUBIO. Qual o impacto efetivo deles nas taxas de violência e criminalidade? Que aspectos funcionaram melhor? Qual o lapso de tempo necessário para que se produzam efeitos? Que tipos de combinações são necessários para a produção de resultados promissores? Como evitar gastos desnecessários com abordagens que na realidade são inúteis. extensão. A sugestão dada pelo autor é claramente inusitada: a prioridade da agenda está não nos resultados a serem buscados. um aspecto recorrente é a incerteza acerca do que realmente está ocorrendo. mas em construir e delinear sistemas que ajudem. cujas gravidades parecem ser proporcionais aos níveis de violência”. e seguindo a mesma ordem de preocupações ao referir-se ao problema da violência e criminalidade na Colômbia. (RUBIO. destaca que para falarmos de “crime. antes de qualquer coisa. embora bem intencionadas? A análise dessas questões é cada vez mais necessária. e a informação em conhecimento que permita uma base de ação sólida e consistente através de programas de prevenção. e deficiências das agências de estatísticas em reportar o crime e a violência. além de possibilitar a avaliação dessas ações. Da mesma maneira. violência e insegurança. A escassez de informação nas bases de dados sobre criminalidade e violência Relatório recente do Banco Mundial que tratou dos impactos que a violência e a criminalidade têm tido para o desenvolvimento sustentado e combate da pobreza nas América Latina ressalta que o problema mais imediato é que os “dados são grosseiramente inadequados. 1998). O diagnóstico deste fenômeno e o desenho de políticas pertinentes enfrentam desde o princípio os problemas da medição e observação. a primeira prioridade na agenda emergente para tratar do problema na região é a necessidade de se incrementar a base de conhecimento sobra a natureza. Assim. As razões incluem problemas graves de sub-registro de vítimas.64 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL efetividade deles. 1998b: 2) . Esta aula vai discutir como podemos levantar dados a respeito de problemas de segurança. e o natural interesse em identificar e reorientar políticas de prevenção de crime a partir de decisões baseadas em modelos de custo e benefício.

ao passo que os delitos contra a propriedade ocorrem mais nas regiões ricas. Estudos recentes mostram como a dinâmica espacial e temporal dos homicídios é bastante distinta do que ocorre com outros tipos de crime (BEATO. (c) quando se utiliza o homicídio como principal medida de violência. Homicídios ocorrem mais nas regiões pobres de uma cidade. é que isso nos permite comparar o número dos delitos em relação a populações de tamanhos distintos. por exemplo. (b) muitas formas graves de violência nem sempre terminam em homicídios como. esta qualificação é necessária. seja para efeitos de alocação de recursos. ou até mesmo como comparação entre países2. país. regiões e países. . a violência doméstica ou as diversas formas de agressão interpessoal. ainda assim eles persistem. e distinto do que ocorre com outros tipos de delitos que afligem dramaticamente a população tais como as diversas modalidades de crimes contra o patrimônio. estado ou país. divididos pela população e multiplicados por cem mil habitantes. isto nem sempre é verdadeiro. dado que existem sérios problemas de sub-registros em relação aos crimes contra o patrimônio. No entanto. 2000). pois algumas avaliações de sistemas de informação mostram como os dados de saúde tendem a ser mais reportados em cidade e regiões que contam com sistema de coleta em 2 Taxas são o número de delitos que ocorrem em um grupo de dez ou cem mil habitantes. ou problemas legais de classificação são menores. seja para efeitos de análise. tende-se a subestimar outras formas tais como a violência física e a intimidação. Os homicídios. Daí alguns estudiosos e policy makers adotarem a taxa de homicídio como indicador de criminalidade em uma cidade. o BID (nota técnica 2) alerta para três tipos de problemas que podem surgir: (a) mesmo que os homicídios tendam a ter menos problemas de sub-registro. região. além de graves problemas de inconsistências entre diferentes tipos de fontes. Eles são calculados como o número de homicídios. nas suas mais diversas modalidades. Isto se deve ao fato de que esta é uma modalidade de crime em que o sub-registro. por exemplo. tornam-se o indicador para compararmos cidades. a tendência tem sido utilizar os dados de homicídio coletados usualmente pelos sistemas de informação de saúde. Contudo. Para efeitos de elaboração de programas de controle e prevenção. Assim. a utilização dos homicídios como parâmetro comparativo sobre a violência também acarreta crítica acerca da sua validade.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 65 Diante dessa ausência. poderíamos argumentar que o problema mais grave em relação às taxas de homicídio seja que ele tem um padrão de comportamento bastante específico. A razão de se utilizar este denominador de dez ou cem mil habitantes. Na verdade.

a taxa de morte por homicídios entre os jovens entre 15 e 29 anos é 34% maior do que as taxas no mesmo grupo de idade em São Paulo. 1999). do ponto de vista de sua composição. embora as taxas sejam parecidas. (d) homicídios primários entre pessoas íntimas tais como familiares. distribuições serem completamente diferentes (LYNCH. Estes números nos indicam que. Podemos ter a mesma taxa de homicídios em duas cidades e. no entanto. a região metropolitana do Rio de janeiro. isto é. PARKER. (c) homicídio primário entre pessoas não íntimas tais como amigos e. aquele que ocorre entre pessoas que têm um prévio relacionamento. Os homicídios não-primários. Tomarmos as definições oficiais da ocorrência de homicídios nos leva à falsa idéia de que todos eles têm uma mesma motivação3. 1988). Apenas o homicídio primário. tendem a seguir o mesmo padrão de outros delitos contra a propriedade. as mortes por armas de fogo representaram 87% das mortes por homicídios no Rio de Janeiro. SMITH & PARKER. 2002) Por outro lado. Toda a digressão acima não nos deve conduzir à falsa idéia de que os homicídios não são indicadores extremamente importantes da situação de violência 3 Muitos estudos tendem inclusive a analisar os distintos tipos de homicídio como se todos tivessem uma mesma causa definida por fatores ordem estrutural. 1995).58. institucional. ao passo que em São Paulo elas representaram 47% (BATITTUCI. (b) homicídio não primário como resultado de outros crimes. social ou demográfica (KATZ. Além disso. teve uma taxa de homicídio de 59. A região metropolitana de São Paulo também teve um taxa parecida de 55.66 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL organizações mais bem estruturadas. Finalmente. 1980. ASSUNÇÃO E OTTONI. existe a discussão acerca da agregação de coisas diferentes sob o mesmo rótulo de homicídio. correlaciona-se com indicadores socioeconômicos de desenvolvimento. No entanto. 1979. segundo o SIM – Sistema de Informações de Mortalidade. Isto em geral ocorre nas cidades pólos de cada região (CASTRO. vinculados a casos de assalto ou roubo. taxas de homicídio podem ser indicadores agregados que terminam ocultando uma série de fenômenos distintos que podem ser do interesse do planejador em conhecer. Nessa perspectiva. elas são bastante diferentes. No ano de 1996. foram classificados quatro tipos de homicídio: (a) homicídio não primário resultante de roubo. as similaridades entre as taxas ocultam importantes diferenças.35 homicídios por cem mil habitantes. Uma forma de compreendermos a diversidade de tipos poderia ser tratá-los com base no relacionamento entre o agressor e a vítima (PARKER & SMITH. 1989). No Rio de janeiro. sejam eles de ordem socioeconômica. .

Informações e programas de prevenção A tendência recente na América Latina tem sido a de incorporar crescentemente componentes de prevenção social e situacional de crimes na agenda das políticas públicas de segurança. (b) Treinamento e terapia para famílias que tivessem crianças que houvessem demonstrado comportamento agressivo na escola. Isto não ocorre por acaso. Compreender a distribuição de homicídios que ocorrem vinculados a razões de ordem utilitária tais como o latrocínio4. além de projetos de reurbanização. estabelecendo que após a terceira reincidência o delinqüente terá uma pena de 25 anos. A comparação favorece amplamente os programas de intervenção e. 4 No Brasil. . ou homicídios resultantes de uma dinâmica doméstica de conflitos e agressões.352 homicídios. Estes programas foram comparados ao impacto que a introdução da lei dos “Three Strikes”5 teve sobre as taxas de crime na Califórnia. 5 A legislação dos Three Strikes é extremamente severa. em 1993. investigado pelas delegacias de crimes contra o patrimônio. 4. que é. Pelo contrário. pois eles são mais eficazes.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 67 e criminalidade e determinados locais. o que está sendo discutido é a extrema diversidade de fenômenos que existe em apenas um delito. Isto nos sugere fortemente a necessidade de se compreender todas estas nuances para a elaboração de programas que sejam eficazes. (d) monitoramento e supervisão de jovens secundaristas que tenham exibido comportamento delinqüente. A cidade de Bogotá registrou. em especial. inclusive. Cidades colombianas como Bogotá e Cali também vêm adotando com bastante sucesso programas de prevenção envolvendo jovens. isto significa o assalto seguido de morte. Isto é corroborado em estudo realizado pela Rand Corporation. reforma da justiça e das organizações policiais. Terminou o ano de 2002 com 1902 homicídios. ou que estivessem em vias de serem expulsos dela. os de incentivo monetário na forma de uma “bolsa escola”. não importando a gravidade do delito cometido. no qual analisou-se o impacto de diferentes estratégias para prevenção de crimes através de programas de intervenção comparada à introdução de legislação dura. Os programas de intervenção incluíam (a) visitas a lares por assistente logo após o nascimento das crianças durante até os seis anos de vida. (c) quatro anos de incentivo monetário para induzir garotos carentes a se graduarem. com resultados mais duradouros e muito mais baratos do que as estratégias de repressão adotadas tradicionalmente.

68 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL

reduzindo a menos da metade suas taxas de homicídios por cem mil habitantes, conforme vemos no quadro abaixo. O programa “Seguridad Y Convivencia Ciudadana” articulou simultaneamente programas na área de justiça e polícia envolvendo desenvolvimento tecnológico de comunicação e bases de dados para a polícia, além da provisão de equipamentos. Além disso, projetos voltados para grupos vulneráveis e de recuperação de espaços públicos foram implementados, além de fortalecimento do sistema de justiça e reforma das instituições policiais através de programas de treinamento e equipamentos. Gráfico 1: Taxa de Homicídios por cem mil habitantes em Bogotá e Colômbia

Fuente: Instituto Nacional de Medicina Legal y Ciencias Forenses - Bogotá-CO

Da mesma maneira, Cali, durante os anos 1980 e 1990, assistiu grande crescimento das taxas de homicídios, que passaram de 23 por cem mil habitantes em 1983, para 90 em 1993. O programa Desenvolvimento, Segurança e Paz –DESEPAZlidou com fatores de risco identificados no contexto específico de atuação do programa, tais como o álcool; as armas de fogo; cultura de resposta violenta ao conflito; impunidade e ineficiência da justiça e da força policial e; pobreza, desigualdade social e marginalidade. A primeira área estratégica desenvolvida foi a produção sistemática de informações sobre a violência que pudessem servir de base para a elaboração de planos e estratégias. Duas abordagens foram adotadas para o levantamento de dados: (1) epidemiologia da violência, sob a coordenação de uma epidemióloga, um grupo, no qual estavam representantes da polícia, fiscalização, saúde, medicina legal e escritório de direitos humanos, reunia-se semanalmente a fim de estudar detalhadamente os

SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 69

eventos violentos ocorridos na última semana e preparar relatório a ser analisado pelo Conselho Municipal de Segurança. (2) Pesquisas de opinião, a fim de avaliar a qualidade dos serviços de justiça e de polícia, que era realizada a cada seis meses.

Informações municipais de segurança Quando estamos tratando de programas de prevenção, temos que desenvolver um sistema de informações que não esteja relacionado apenas aos dados de criminalidade, violência e segurança pública. A intervenção em fatores de risco da violência pressupõe alguma indagação acerca de quais são eles, bem como do impacto na criminalidade. Alguns deles encontram-se expressos nos dados relativos à segurança pública. Outros, entretanto, devem ser buscados no contexto socioeconômico no qual ocorrem os crimes, e daí a necessidade de uma base extensa de informações que não se relaciona apenas às agências de justiça e controle, mas a variáveis que expressam este contexto e informações sobre organizações e instituições que podem estar influindo positiva ou negativamente sobre os padrões de criminalidade. A recente experiência que está sendo implantada em algumas cidades americanas através do NIJ denominada de COMPASS (Community Mapping, Planning, and Analysis for Safety Strategies) constitui-se num bom exemplo de utilização intensiva de dados de diversas origens. Seu objetivo é justamente implementar sistemas de mensuração de eventos criminais e comunitários que possam servir a propósito de planejamento e análise. Assim, quaisquer bases de dados disponíveis podem vir a compor um armazém de dados, que congregaria informações criminais, comunitárias, informações mapeadas e pesquisas de opinião e comportamento.

Obstáculos a uma abordagem empírica dos problemas de criminalidade e violência Dados que sejam informações e informações que se constituam em conhecimento. Todas as dificuldades e vicissitudes expostas acima nos apontam para um problema que é central na constituição de conjuntos de dados que possam auxiliar a elaboração de planos e projetos. Ter dados sobre um fenômeno não significa necessariamente ter informação disponível. Sabemos que existem muitos dados em diversas organizações, mas a desorganização em seu armazenamento não os torna

70 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL

facilmente disponíveis para sua utilização. O custo financeiro ou até mesmo político da organização desses dados muitas vezes inviabiliza qualquer utilização mais sistemática deles. Registros policiais encontram-se em forma manuscrita e dispersos em porções e salas mal preparadas. Por outro lado, muitos dos detentores de informações vitais para a compreensão de um problema podem ter muitas e variadas razões para não os fornecerem aos representantes do poder público. No que diz respeito aos dados oficiais sabemos que informações criminais e judiciais são precárias, pouco sistematizadas e sua divulgação é errática. Isto torna difícil a construção de séries históricas, além de inviabilizar as comparações inter e intra-regionais, ou internacionais6. Algumas condições afetam negativamente essa qualidade que tem a ver com características das organizações encarregadas da coleta destes dados. Uma delas referese às tecnologias de processamento de dados: raramente as organizações policiais ou de justiça possuem computadores integrados em rede e submetidos a mecanismos eletrônicos de coleta de dados. Ainda usa-se muito papel no preenchimento das ocorrências, sendo o computador uma máquina absolutamente estranha ao cotidiano dos quartéis e delegacias. Outra tem a ver com a qualificação das pessoas alocadas nas atividades de coleta e registro de informações. É sempre importante lembrar que quando se pretende montar um sistema de informações, deve-se ter pessoal minimamente qualificado para a tarefa, que tenha um domínio no manejo de bancos de dados eletronicamente disponíveis, planilhas e, se possível, de algum software de análise estatística de dados. A par das condições necessárias para se transformar dados em informações que possam ser utilizadas pelos agentes destes programas, temos outra ordem de fatores a conspirar contra a transformação dessas informações em conhecimento. A primeira tem a ver com a centralidade dessas atividades no conjunto das práticas organizacionais. Estatísticas são produzidas por departamentos e unidades que nada tem a ver com o planejamento operacional das organizações e
6 Ver (1) “INDICADORES SOCIAIS DE CRIMINALIDADE” Trabalho elaborado de acordo com o convênio SG nº 033/86 e o Termo de Renovação SG-003/87, celebrados entre a Fundação João Pinheiro (FJP) e o Ministério da Justiça - Programa Ruas em Paz. (2) IBGE, Rio de Janeiro. Pesquisa de vitimização: dificuldades e alternativas. Rio de Janeiro, 1985. Mimeo. (3) PACHECO, Lúcia Maria M.; CRUZ, Olga Lopes da; CATÃO, Yolanda S. D. Construção de indicadores de criminalidade. Rio de Janeiro, IBGE. Mimeo.

mas estratégias sólidas e permanentes ao longo do tempo que devem ser perseguidas disciplinadamente (SHERMAN et al. A ausência de avaliações e estudos científicos. Existe outra ordem de problemas. Este é um quadro freqüente na América do Sul. 1997. mais ineficazes. Mitos que paralisam policy makers Um dos principais problemas relativos à formulação de políticas públicas diz respeito a alguns mitos bastante presentes nas elites políticas e gerenciais na área de segurança. Nesta área não existem improvisações ou insights bem intencionados. NEWMAN. 1999). provavelmente. Outras condições referem-se à utilidade deste tipo de informações para o trabalho de ponta das organizações policiais e judiciárias. as políticas sejam as mais tradicionais e. deverá torná-los pior ainda. como atestam um sem número de autores que reclamam a montagem de bases de dados .SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 71 setores encarregados da prevenção e controle da criminalidade. Vamos a alguns deles: “Nossos problemas de criminalidade são tão urgentes que não posso ficar perdendo tempo com estudos e avaliações. entretanto.” É verdade que os problemas de crescimento da criminalidade e violência nos grandes centros urbanos têm sido marcantes. que diz respeito a um certo tipo de cultura institucional e política ainda prevalecente em muitos setores da administração pública. que se traduzem numa disjunção percebida pelos profissionais entre a informação e sua prática cotidiana. e em alguns casos aterradores. entretanto. É bastante comum que. Estamos vivendo a difícil situação de não sabermos quais os problemas mais graves simplesmente porque não temos quase nenhuma informação sobre eles. na ausência de qualquer orientação mais racional. Análises mais compreensivas da criminalidade urbana são descartadas em favor da confecção de relatórios insípidos e de nenhuma serventia para os propósitos finais destas agências. Raros são os países que dispõem de sistemas de aferição confiáveis sobre o problema da criminalidade e violência. Acrescente-se a isto que muitas vezes há um excesso de informações solicitadas no preenchimento de boletins de coleta de dados.

RUBIO. 1998b. BEATO. antes de tudo. BEATO. 1999. que nem sempre resultam em ferimento ou morte das vítimas.” Este é.” Um exemplo eloqüente da ausência de diagnósticos é a famosa resposta de “aparelhamento das polícias” que muitas vezes nossos prefeitos tendem a repetir em suas cidades. nossos policy-makers não são donos de sua própria agenda. As organizações policiais latino-americanas são reféns de antigos modelos de gerenciamento. ou sob a pressão de figuras influentes. Por outro lado. BUVINIC e MORRINSON. Apenas os “grandes crimes” ou os fatos notáveis são objeto de atenção por parte de jornalistas. 1988. muitos deles de inspiração militar. que não se coadunam à realidade da criminalidade urbana de nossos dias (BUVINIC e MORRINSON. . Esta é uma dimensão da violência urbana que apenas estatísticas detalhadas são capazes de fornecer. devemos equipar as nossas polícias que andam em carros velhos. o mais preconceituoso dos argumentos. desconhecendo a violência cotidiana e corriqueira nos espaços urbanos em que habitam grupos desprivilegiados. enfrentando bandidos com armas mais poderosas e ganhando um salário miserável. Conseqüentemente. MOSER e SHARADER. provavelmente. tendo que reagir ao sabor dos fatos espetaculares noticiados pela mídia. estes fatos envolvem pessoas que supostamente não deveriam ser vítimas da violência (em geral da classe média para cima). 2001b) “Para que estatísticas detalhadas? Quem quiser informações sobre a criminalidade. se é verdade que grandes crimes noticiados pela imprensa são importantes na formação da percepção de nossas populações. “Para enfrentar os nossos graves problemas de criminalidade. 2000). através da provisão de recursos materiais para as organizações policiais.72 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL (FJP. Muitas vezes. que leia os eloqüentes relatos que nossos jornais de circulação diária trazem sobre o tema. 2000b. mais grave que o sucateamento material das polícias é seu estado de indigência administrativa e gerencial. Poderíamos arriscar um diagnóstico alternativo que. os eventos que mais a afligem são os pequenos delitos urbanos. 2000. pois ignora o fato de que a mídia é seletiva em relação aos fatos criminais noticiados.

O programa Safer Cities das Nações Unidas recomenda a utilização de três tipos de ferramentas para a formulação de planos e projetos de prevenção. ou de desenvolvimento social. Qualquer programa de prevenção que envolva seja a utilização de estratégias de redução de oportunidades. e à definição de modalidades de implementação e institucionalização destes programas. (c) grupos comunitários produzindo informações resultantes de encontros formais e informais com a comunidade. encarregada 7 As outras ferramentas dizem respeito ao desenvolvimento de estratégias adequadas à prevenção e soluções específicas para problemas. Definir problemas relacionados à violência e criminalidade significa também definir grupos de interessados na solução destes problemas. em especial bases de dados geocodificadas. até a orientação focalizada para problemas específicos. informações recebidas de outras agências e associações de programas de prevenção.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 73 Identificando problemas de criminalidade e violência Tanto o processo de construção de parcerias como de solução de problemas são dependentes de uma definição prévia de qual será a comunidade objeto do processo de intervenção. serviço de inteligência. bem como para o treinamento de agentes destes processos a nível local. igreja etc. mapas de diversos tipos de crimes. Em nível local (municipal) podemos encontrar várias informações que contribuem para a formulação de atividades de prevenção. dados de outros órgãos de justiça criminal etc. . com distintas unidades de contagem. Isto envolve a formulação de planos estratégicos e de mobilização de grupos. da justiça criminal e de dados censitários. A base espacial torna-se o denominador comum de todas estas bases de informação oriundas de diferentes fontes. trânsito. Todas estas informações são processadas pelo sistema que as encaminha a uma unidade de análise. (b) fontes policiais referentes às bases de dados sobre quadrilhas e gangues. tornando possível a construção de uma base de dados que agregue os mais diversos tipos de informação. que poderão ser mostradas em mapas digitalizados. A construção desses geoarquivos consiste na montagem de bases geo-referenciadas de informação de diversas fontes administrativas. mobilização comunitária. escolas. habitações e prédios. bem como para o monitoramento e avaliação de resultados. O sistema é alimentado por: (a) fontes não policiais tais como órgãos da administração pública que cuidam de parques. arquivos de homicídios. deverá efetuar uma análise detalhada de dados para formulação de estratégias. reforma da justiça. O primeiro tipo refere-se justamente aos dados e informações a serem levantados para determinar a extensão e a natureza dos crimes7.

promotoria. Informações oficiais As informações oficiais podem ser coletadas a partir de dados disponíveis nas agências oficiais encarregadas da produção de informações a respeito de crimes e criminosos. O usual é que apenas algumas dessas informações estejam disponíveis de forma fragmentária e dispersa em distintas organizações e agências públicas. violência e sobre as organizações de polícia e justiça. Mais adiante nos dedicaremos a este tipo de problema conhecido como “cifra negra". Cada organização encarregada do processamento de crimes e criminosos os classifica de acordo com seus objetivos e orientações. além da comunidade. hospitais de pronto-socorro e organizações encarregadas da emissão de atestados de óbito dentre outras. Podemos consegui-las através de (a) fontes secundárias tais como os dados oficiais e registros administrativos existentes. a orientação a ser seguida é a de organizar o maior número delas. de unidades especiais da polícia e aos órgãos da administração municipal envolvidos. Registros oficiais e administrativos são produzidos por organizações policiais. Assim. associações e organizações da sociedade civil.74 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL da identificação de “hot spots”. Existem várias possibilidades para se obter informações a respeito de criminalidade. um dos problemas com este tipo de fonte de informação refere-se aos eventos que não chegam ao conhecimento da polícia pelas mais diversas razões. bem como das próprias agências da justiça criminal (polícias. ou então podemos (b) produzir estes dados através de observações diretas. Conforme veremos adiante. juizes e prisões). surveys de vitimização e auto-resposta ou observações experimentais. de forma a se montar um mosaico incompleto de uma paisagem bastante complexa. São muito raros os exemplos de um gestor que disponha simultaneamente de um sistema com esta diversidade de informações organizada de forma sistemática e consistente. Esta informação é disseminada posteriormente para os encarregados do policiamento. Trata-se de uma estrutura que visa integrar uma grande gama de informações em um sistema único que congregue a polícia com agências públicas e civis. . mensuração ou definição de delitos criminosos. A montagem dessas várias frentes de informações deve-se ao fato de que não existe uma fórmula única de classificação.

As discrepâncias são bastante expressivas. que por sua própria natureza nos levariam a supor um menor grau de subnotificação. Centro de Estudos Políticos e Sociais. as diferenças entre essas fontes podem chegar a quase 50% dos homicídios registrados. Conforme vemos no quadro adiante: Quadro I: Modelo de informações sobre fluxos e taxas de produção da justiça criminal SEGMENTO ORGANIZACIONAL Polícia Militar Polícia Civil Ministério Público Justiça Censo Penitenciário PAPÉIS Ocorrências Inquéritos Denúncias Processos PESSOAS Prisões Indiciados/Implicados Denunciados/Acusados Condenados Populações Prisionais Fonte: Indicadores Sociais de Criminalidade. a Polícia Civil.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 75 A par do problema da “cifra negra”. Em alguns estados. O Sistema de Informações de Mortalidade do Ministério da Saúde registra as . em relação aos homicídios. 312. A tabela 1 ilustra essa discrepância em relação aos eventos atribuídos a cada uma das organizações no que diz respeito aos homicídios. Em 1991. como Rio de Janeiro e São Paulo. e o SIM. Fundação João Pinheiro. por exemplo. Mesmo ao tomarmos apenas os delitos de homicídio. observamos diferenças resultantes das distintas tarefas que cada uma das organizações policiais cumpre. as dificuldades em tomar as estatísticas policiais referem-se também ao domínio de eventos com que cada organização do sistema de justiça lida. há três sistemas de classificação de crimes violentos: o das Polícias Militares Estaduais. 1987). que se encarrega da apuração do crime. Belo Horizonte. a PMMG havia contabilizado 231 homicídios. Polícias Civis e. 1987 No que diz respeito às etapas iniciais do processamento de crimes e criminosos no Brasil. o Sistema de Informações de Mortalidade do Ministério da Saúde. e já foram observadas outras vezes (FJP. dados da Polícia Militar são agregados pela Polícia Civil. 308. Conforme se vê.

homicídio culposo. ou como morte resultante de agressões. Assim. latrocínio ou lesão corporal seguido de morte. conforme inquérito conduzido pela Polícia Civil. uma classificação de homicídio ou tentativa de homicídio na Polícia Militar poderá ser qualificada mais adiante como homicídio doloso. como homicídio. o que irá gerar outro tipo de documento de ocorrência. bem como outros casos que se tornam homicídios posteriormente. resultam das próprias diferenças nas funções de cada organização. A Polícia Militar limita-se a registrar as ocorrências verificadas no local para. a causa de morte pode ser uma “perfuração por objeto contundente” (OLIVEIRA et alii. para efetuar investigações no sentido de classificá-los juridicamente. Tabela1: Homicídios registrados em Belo Horizonte (1991-1999) Sistema de Informações sobre Mortalidade 308 280 274 261 373 396 436 Ano 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 Polícia Militar 231 196 197 218 235 259 271 368 428 Polícia Civil 312 286 293 295 321 323 326 433 505 Fonte: PM. PC e SIM. 2000). Já nos registros de óbitos. classificado nas Estatísticas de Mortalidade. até o ano de 1995. tendo como referência o Código Penal. mais recentemente.76 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL ocorrências resultantes dos registros de óbitos preenchidos por profissionais da área médica. documento gerado por atestados de óbito conferidos por médicos. As diferenças observadas. no momento seguinte encaminhá-la à Polícia Civil por meio de algum documento de ocorrência (BOs). . portanto. A Polícia Civil tomará essas ocorrências. no capítulo relativo a causas externas.

tal como a de ser vítima de um latrocínio. dado que a possibilidade de ocultação da materialidade do crime é menor. não obstante as diferenças. Gráfico 2: Regressão Homicídios PM e PC em Minas Gerais Fonte: PM e PC de Minas Gerais No caso de homicídios. Afinal. por exemplo: . Como mensurar e utilizar estes números? Nenhuma dessas informações isoladamente é suficiente para responder a indagações sobre as chances de vitimização de diferentes tipos de crimes. as informações são congruentes o suficiente a ponto de podermos contar com um alto grau de previsibilidade de uma fonte de informação a partir da outra.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 77 Números tão discrepantes são úteis para se trabalhar? Números tão discrepantes poderiam comprometer as bases de dados utilizadas para mensurar um tipo de delito que. Embora distintas em magnitude. de tal forma a verificar a possibilidade de. Essa resposta significaria compreender a natureza dos crimes violentos e das condições de sua ocorrência. não é assim que ocorre. isso significa apreender as probabilidades condicionais associadas a um lugar ou situação particular. haver um certo padrão de diferenças entre as bases de dados. Contudo. em tese. podem-se perfeitamente prever os números contabilizados por uma das organizações policiais pelos números da outra. homicídios são delitos com supostamente números pequenos de subnotificações. Qual é a cadeia de eventos e qual o peso de cada fator para que um determinado resultado ocorra? Estatisticamente. restando-nos então avaliar a congruência entre as diferentes fontes de dados. não haveria por que serem tão distintos.

801. o que equivale a quase dez vezes a taxa média da cidade. chegando a 8 por cem mil. que ele resultará em morte. a taxa de assaltos a transeuntes em 1997 foi de 758 por cem mil habitantes. outras formas mais . que alguém sairá ferido. qual a probabilidade de que ele atirará e.24 assalto por dia em um universo de 92. Possibilidades alternativas de levantamento de dados Várias formas alternativas de coleta de informações e de dados têm sido sugeridas e adotadas para contornar alguns dos problemas com as diversas fontes de informação. é de que haja um assalto para cada 74.672 corridas/dia. especialmente delitos não comunicados aos agentes do sistema. Surveys de vitimização têm sido crescentemente sugeridos como importantes instrumentos para fornecer informações complementares às estatísticas criminais produzidas pelas organizações do sistema de justiça criminal. Dado que muitos problemas de segurança são bastante localizados e manifestam-se em uma área geográfica bastante reduzida. O risco da atividade ocupacional. O mesmo ocorre em relação a roubo à mão armada contra transeuntes no centro da cidade. Se tomarmos a taxa em relação à população flutuante. 1993:416) O entendimento dessas cadeias de eventos implica o levantamento de bases de dados e informações não imediatamente disponíveis às organizações policiais. dado o ferimento. constituindo uma ameaça à vida. Dado a tentativa de assalto. O risco de morte por corrida efetuada é de 1 para 27. este número decresce para quase dez vezes a taxa de BH.78 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL “A cadeia de probabilidades condicionais para um latrocínio incluiria as chances de ser abordado num dado lugar e situação por um assaltante e das chances deste assaltante estar armado com uma arma de fogo. portanto.600 corridas no ano. qual a chance dele constituir-se numa ameaça à vida e. O denominador deve ser a população flutuante ou a população residente? Em Belo Horizonte. Qual a taxa de risco associada à possibilidade de um motorista de táxi vir a ser vítima de assalto ou de homicídio? No caso de Belo Horizonte. de tal forma a delinear probabilidades condicionais.” (REISS. ocorreu em 1999 uma média de 1. Além disso. é uma limitação importante nas bases de dados policiais. se tomarmos a população residente no centro da cidade. se atirar.735 corridas. A capacidade de ligar dados de diferentes fontes para a análise de problemas específicos de criminalidade e violência. Uma possibilidade de como se fazer isso é o que veremos adiante.

pode-se ver que o tipo de investigação aqui proposta permite um melhor dimensionamento da ocorrência do fenômeno a que se propõe conhecer do que apenas o uso das taxas oficiais de ocorrências. Em busca da “cifra negra” Outra forma de aferir as taxas de criminalidade seria através de surveys de vitimização. tenham sido eles comunicados à polícia ou não. nem sempre chegam ao conhecimento das autoridades judiciárias e policiais. A pesquisa buscará obter informações sobre (a) as vítimas. não obstante serem um importante avanço em relação aos sistemas oficiais. buscar-se-á obter informações suplementares sobre a experiência das vítimas com o sistema de justiça criminal. Este é o caso de eventos que. O objetivo das pesquisas amostrais de vitimização é obter informações detalhadas da freqüência e natureza de crimes como estupro e violência sexual. uso de armas. permitindo uma avaliação da dimensão da cifra oculta de crimes. Nele. Ele compara as taxas de furto registradas pela Polícia Militar. pela Polícia Civil e as taxas obtidas através da pesquisa realizada no município de Belo Horizonte pelo CRISP. (b) os agressores e seu relacionamento com as vítimas. entrevistas com pessoas chave. Contudo. as medidas tomadas para autodefesa e a possível utilização de drogas por parte dos agressores.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 79 baratas de se obter informações podem ser utilizadas. bem como da produção de dados que não são coletados. Além disso. arrombamentos. a produção de surveys de vitimização também produzem dados incompletos e inconsistentes. ou de delitos cuja classificação não encontra amparo nas formas oficiais de categorização. Grupos focais com moradores e interessados da região. Pesquisas desta natureza são pertinentes porque complementam os dados oficiais de segurança. agressões. e (c) os delitos e as circunstâncias em que ele ocorreu (hora e local. O gráfico seguinte é um exemplo das diferenças entre as taxas de ocorrências registradas pelo sistema de justiça e pelo survey de vitimização. ou cuja produção é bastante deficiente. pelas mais diversas razões. . conseqüências econômicas etc). observação participante e até mesmo lançar mão de gravações em vídeo podem ser recursos bastante eficazes para o levantamento de informações. furtos e roubo de carro. assaltos. Nos últimos anos estes surveys têm sido freqüentemente sugeridos como estratégia de redução dos sub-registros.

5 17.090. 2001 Pesquisas de vitimização são importantes também na medida em que permitem maior conhecimento acerca da percepção que a população constrói a respeito dos agentes de segurança pública. portanto. 2002 A tabela abaixo.8 28.984.114. além das experiências vividas junto a essas instituições.0 348.80 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL Gráfico 3: Estimativa proporção denúncias PM. Constitui-se.0 12. descreve as diferenças de taxas para outros delitos considerados na pesquisa.5 Fonte: CRISP – Survey de Vitimização em Belo Horizonte.9 6.4 5.2 14.0 300.005.3 Taxa 132.4 358. .3 PC Razão 67.6 307. por sua vez.3 20. num instrumento de avaliação direta das pessoas sobre a atuação do estado na segurança pública.8 754. As tabelas seguintes descrevem os percentuais referentes à opinião que os entrevistados manifestaram sobre as polícias no município de Belo Horizonte.357.4 10.6 2.3 3.1 17.Survey de Vitimização em Belo Horizonte.252. Tabela 2: diferenças estimativas de taxas .2 PMMG Razão 8.8 15.1 4. PC e survey vitimização Fonte: CRISP .Funil de ocorrências Crime Roubo Furto Invasão de domicílio Agressão sexual Agressão física Survey Vitimização Taxa 8.5 Taxa 1.7 19.6 738.

9% PC 6. Segundo suplemento de vitimização incluída na pesquisa PNAD de 1988. os agentes de segurança pública podem dirigir esforços através de campanhas educativas e do estímulo a denúncias de uma série de delitos que escapam ao seu registro8. .9% 46. pelos mais diversos motivos. Além disso.8% PC 7.1% 2. na medida em que tornam viável o acesso a informações sobre a natureza e a extensão de crimes. como proposto neste projeto.5% das vítimas de furto e roubo e 60. a cifra de pessoas que não registram queixa na polícia é bastante significativa e similar a de outros países. 2002.7% PC 4. 8 O mais eloqüente caso de sub-registro refere-se aos delitos de violência doméstica dirigidas contra a mulher e crianças.4% Favela não violenta PM 19.8% 2. bem como dos hábitos que levam as pessoas a reportarem crimes à polícia.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 81 Tabela 3 . 2002. como os EUA e Inglaterra. Estas informações podem ser valiosas no planejamento de estratégias para o combate à criminalidade violenta e para medidas de mensuração sobre as estratégias adotadas na prevenção da criminalidade.1% 1. Sua avaliação ao longo do tempo permite uma descrição precisa da evolução da criminalidade.0% Tabela 4 . 67.7% 58.4% 2. Conforme o perfil de violência detectada pelo survey.Você acha que as polícias em Belo Horizonte: PM Trabalham muito bem e razoavelmente bem Muito ou razoavelmente violenta com a população Fonte: CRISP – Survey de Vitimização em Belo Horizonte.4% 2. No Brasil. Os estudos de vitimização permitem ainda a comparação entre taxas de diferentes cidades ou áreas da mesma região metropolitana.Já foi vítima de extorsão pela polícia? Bairro não Você já foi vítima de: Violência Extorsão violento PM 12.8% das vítimas de agressão não recorreram à polícia.4% Favela violenta PM 27.0% 2.0% Fonte: CRISP – Survey de Vitimização em Belo Horizonte. investigações desta natureza possibilitam também maior cientificidade no planejamento de políticas públicas.4% PC 51. 53.

Não se deve. A produção de pesquisas que revelem o tamanho das vitimizações de empresas contribuiria para compreendermos importantes aspectos do crime organizado em grandes centros urbanos. 20% julgaram que não era necessário. . 17. Os mapas a seguir são do século XIX. mas complementam as outras formas de levantamento de dados. A utilização de mapas para a análise de dados de diferentes naturezas já possui uma longa tradição.5% resolveram sozinhos e 14. superestimar os benefícios deste tipo de pesquisa. Sua visualização. A simples visualização dos dados no espaço permitiu identificar que eles estavam ocorrendo ao redor de alguns poços de água contaminados pelo vibrião. O primeiro ilustra a localização dos casos de cólera em Londres. nos fornece uma imagem muito mais eloqüente do que a informação através de tabelas. Por outro lado. que tornou possível a utilização de mapas eletrônicos e dos sistemas geográficos de informação eletronicamente disponíveis. este tipo de enquete. esta distribuição era distinta quando levamos em contas variáveis de desenvolvimento socioeconômicas. Elas não substituem. Tal como ainda ocorre em nossos dias. mas não produzem bons dados a respeito de organizações comerciais.7% não acreditavam na polícia.7%). contudo. O mapa abaixo nos dá uma informação bastante conhecido de todos: a distribuição da população mundial. entretanto. Incorporando dimensões espaço-temporais: o uso de geoarquivos Uma das ferramentas mais importantes para a análise criminal são os mapas. não é bom instrumento para revelar crimes contra empresas. Esta é uma área que avançou bastante nos últimos anos. Não devemos negligenciar o fato de que pesquisas de vitimização são instrumentos que produzem informações a nível individual. 19. por exemplo. não obstante sua importância para descortinar a “cifra negra” de alguns tipos de delitos. em virtude do desenvolvimento da informática. Na verdade. O segundo mapa ilustra casos de crimes contra a pessoa e contra o patrimônio em regiões da França. ou orientar políticas focalizadas ao nível de vizinhança.4% disseram que não queriam envolver a polícia. A proporção dos que não acreditavam na polícia como motivo para não recorrer a ela é maior quando se trata de roubos e furtos (27.82 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL No caso de agressões. as limitações decorrentes do tamanho da amostra neste tipo de pesquisa terminam por torná-la inoperante como instrumento de definição de políticas e programas a nível local.

SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 83 Figura 1: Map of Cholera Death and Locations of Water Pumps Figura 2: Balbia and Guerry (1829) Maps Comparing Crime and Instruction .

1998). Esquematicamente. Lawrence W. Esta propriedade é essencial para quem quer desenvolver projetos e programas de prevenção de crimes. pois mapas podem ser uma maneira fácil de conceber. da justiça criminal e de dados censitários. Michael E. Tradicionalmente. vol.crisp. a criminologia tem estado atenta às dimensões temporais da criminalidade. visualizar e analisar um problema difícil9. Sistemas de informação têm servido para a detecção de padrões e regularidades. com distintas unidades de contagem. pp. .ufmg. A criação de unidades de análise de crimes tem se constituído num dos principais suportes para o desenvolvimento de policiamento comunitário e de solução de problemas. Criminology. a montagem de um geoarquivo é representada a seguir: 9 Uma ao introdução ao estudo do mapeamento de crimes encontra-se disponível no endereço www. 27. Para o analista. Isto permitiu descortinar um dos princípios de análise espacial mais importante: a de que se trata de fenômeno bastante concentrado tanto espacial como temporalmente10. Geoarquivos e análise criminal A construção de geoarquivos consiste na montagem de bases georeferenciadas de informação de diversas fontes administrativas. 1989: “Hot Spots of Predatory Crime: Routine Activities and the Criminology of Place”. tornando possível a construção de uma base de dados que agregue os mais diversos tipos de informação. 1. 27-55. Contudo. e Buerger.84 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL Exemplo de Mapa do Século XIX A simples visualização de informações em um mapa nos permite uma compreensão mais fácil. a incorporação de dimensões espaciais na análise adiciona um novo e importante elemento de explicação do fenômeno.br 10 Ver Sherman. A base espacial torna-se o denominador comum de todas essas bases de informação oriundas de diferentes fontes. de maneira a dar suporte às atividades de policiamento. Além disso. n.. bem como para prestar contas à comunidade sobre problemas relativos a segurança (Buslik e Maltz. apresentando conseqüentemente uma possibilidade melhor de compartilhar informações. a tendência recente na organização de dados policiais tem sido a de incorporar a dimensão espacial tanto para a explicação como para o planejamento de ações e estratégias de controle. Patrick R. Gartin. Reconhecer os determinantes das tendências verificadas ao longo do tempo tem sido a questão crucial para muitas perspectivas explicativas e de atuação sobre o fenômeno. sabemos também que um grande número dessas ocorrências geralmente origina-se num pequeno número de ofensores.

ofensor. incidente • Territórios quadrilhas • Prisões • Jurisdições delegacias • Liberdade condicional GEOARQUIVO Análise Problemas Desenvolvimento Estratégico Prevenção + Intervenção Comunidade e Agências sistema justiça Informações oriundas de diferentes fontes tornam possível a montagem e superposição de mapas temáticos de diferentes fontes. tais como o mapa adiante com informações a respeito da renda média de setores censitários superposto a mapas de homicídio na cidade de Belo Horizonte.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 85 Figura 3: Montagem de um geoarquivo Comunidade Exemplos de dados: • Mapas de ruas • Uso Urbano • Dados demográficos • Mapas cognitivos • Território quadrilhas e grupos • Escolas Agências Justiça Criminal Exemplos de dados: • Ligação Vítima. Mapa 1: Homicídios por distribuição de renda em setores censitários de Belo Horizonte Fonte: IBGE / CRISP / PMMG .

um conjunto de técnicas e métodos tem se desenvolvido para a identificação de hot spots. Estatísticas são produzidas por departamentos e unidades que nada têm a ver com o planejamento operacional das organizações policiais. poderíamos compor um quadro de informações da seguinte maneira: . sequer. Mapas podem ser utilizados para fins descritivos. A ausência de um enfoque específico voltado para a análise de crimes que cumpra as funções acima mencionadas é decorrente da fragmentação organizacional no trato das informações por parte das organizações policiais. Quais informações devem ser coletadas? Diversos tipos de informação podem vir a compor um banco de dados que possa subsidiar programas de prevenção. Como regra. Um dos problemas inerentes à criação de unidades deste tipo é particularmente agudo no Brasil. ilustrando crimes. Análises mais compreensivas da criminalidade urbana são descartadas em favor da confecção de relatórios insípidos e de nenhuma serventia. acidentes de trânsito. Sua origem. chamadas telefônicas. deveríamos tentar obter informações que fossem pertinentes aos problemas com os quais estamos lidando. Por outro lado. nos deteremos um pouco nos dados a serem utilizados. ou áreas com alta incidência de criminalidade. podemos utiliza-los para fins analíticos: analisa dados e expõe resultados. uma formação especializada neste tema. De uma forma geral. o que termina por dificultar a acumulação de conhecimento na área. pode estar nas mais diversas organizações e locais. 1998). conforme vimos. Ou então. a tradição de estudos criminológicos de natureza quantitativa ainda é bastante incipiente no Brasil Não temos nenhum centro de formação em criminologia. Para tal. ou. e outros tipos de dados. Conseqüentemente. Logo adiante discutiremos com mais detalhes esta possibilidade. que tem servido de base para o planejamento conjunto entre diversas agências públicas (TAXMAN e McEWEN. entretanto. Toda a infinidade de informações municipal e de crimes pode ser representado visualmente.86 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL O resultado mais visível da montagem de geoarquivos está na possibilidade de realizar análise específica para problemas locais (mapa 1). abundam estudos de pouco rigor e pouco vinculados às mais sólidas tradições teóricas de estudos em criminologia. Por ora.

SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 87 Quadro I: Variáveis dependentes – crimes violentos Crimes contra a pessoa Homicídio Estupro Consumado Tentado Consumado A residências urbanas A estabelecimento bancário A ônibus / coletivo A casa lotérica A padaria A mercearia / supermercado A depósito em geral A veículo automotor A táxi A transeunte A postos de combustível A residências urbanas A estabelecimento bancário A residências urbanas A estabelecimento bancário A ônibus / coletivo A casa lotérica A padaria A mercearia / supermercado A depósito em geral A veículo automotor A táxi A transeunte A postos de combustível A residências urbanas A estabelecimento bancário Roubos sem o uso de arma Crimes violentos Crimes contra o patrimônio Roubos à mão armada (assalto) Violência doméstica .

.88 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL Quadro II: Variáveis independentes Nível de limpeza das ruas Porcentagem de área ocupada com comércio Porcentagem de área ocupada com residências Número de grupos culturais Nível de acabamento das residências Número de residências Água tratada Índice de Infra-estrutura Esgoto encanado urbana Energia elétrica Iluminação pública Porcentagem de domicílios Rua calçada assistidos com.. Bancas de revista Telefone público Índice de proteção social Número de pessoas assistidas em programas . Creche 7 a 15 anos Qualificação profissional Idosos Familiares Características urbanas Características populacionais Renda Idade Anos de escolaridade Porcentagem de idosos Porcentagem de crianças Porcentagem de brancos Porcentagem de homens Porcentagem de empregados Porcentagem de ocupados em profissões formais Porcentagem de desnutridos Taxa de mortalidade infantil Taxa de analfabetismo ..... Telefone Banco Posto de gasolina Índice de serviços urbanos Pontos de táxi Agência de correio Número de..

Anais do GT 21 do XXII Encontro Anual da ANPOC. Violência e criminalidade. pp. Revista de Saúde Pública. ASSUNÇÃO. & Morrison. em outubro de 1998. . 2001. Crime Prevention Studies. 1998. São Paulo. Buvinic. Living in a more violent world. 168-176. 2º Encontro do Fórum de Debates sobre Criminalidade.C. Atlas da criminalidade em Belo Horizonte. 1: 159-173. “La criminalidad em regiones metropolitanas de Rio de Janeiro y São Paulo: factores determinantes de la victimación e política pública”. in P. Harold G. 58-72. 2. Alfaomega/Banco Mundial.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 89 Bibliografia ARAÚJO JR. Washington. Yolanda. Shifter. realizado em Caxambu. Eduardo. “Pesquisas de vitimização”. CATÃO. D. & GRASMICK. 2001. New York. IPEA e CESeC/UCAM. CARNEIRO. 118.). 2000. 37. BEATO F. P. Bogotá/ Washington. Violencia en América Latina y el Caribe : Un Marco de Referencia para la Acción. D.). “Análise descritiva da criminalidade violenta no Brasil: uma análise de quatro regiões metropolitanas”. Andrew. Mark. Crimen y violencia en América Latina. Fajnzylber. 35 p. Mayra. BURSIK. Morrison. Crisp/UFMG (mimeo. Cláudio C. MONTEIRO-DE-CASTRO. A. Buvinic. “Determining factors of criminality in Minas Gerais”. Lederman e N. Foreign Policy. BUSLIK. & FAJNZYLBER. Loayza (eds. “Power to the people: mapping and information sharing in the Chacao Police Department”. 2000b. Brazilian Review of Social Sciences. Mônica Silva.. Michael.). Robert J. BID. n. São Paulo. Neighborhoods and crime. Renato Martins. In: WIDESBURG. Rio de Janeiro. MALTZ. 2003. 2000. In: Daniel Cerqueira. Crime Justice Press. Marcelo Ottoni. BEATO F. Comparação de Dados sobre Homicídios entre Dois Sistemas de Informação.. Claudio C. Violência e Segurança Pública no Brasil. Belo Horizonte. M. Michael. DURANTE. David and MCEWEN. Monsey. Ari Francisco. p. v. et al. BATITUCCI. P. R. Lexington Books. 197-235.). 2002. Pablo. L. & FAJNZYLBER. Crime Mapping and Crime Preventions.. Tom (org). Julita Lemgruber e Leonarda Musumeci (orgs. San Francisco CA.. Cedeplar (mimeo. 1993. Minas Gerais. agosto de 2000.

KATZ. FJP. 1985.90 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL CLARKE. in Michael Tonry e Norval Morris. 1999. 1987. American Journal of Sociology. “Poverty. “Pesquisa de Vitimização em Belo Horizonte” (mimeo. 4: 983-1. and SHRADER. Social Forces. 1985. 85: 614-624. PERCILIA. 4: 755-776. “Crime in International Perspective”. 1979. Ronal & CORNISH. NEWMAN. Situational crime prevention. 29. pp. IBGE. and Community Crime Rates”. CATÃO. Caroline. “Deterrence. 1988. 1999. San Francisco/California. 1997. and Type of Homicide”. D. Crime and justice: an annual review of research. 1991. 2001. Pesquisa de vitimização: dificuldades e alternativas. Poverty. Publishers. PACHECO. . Mimeo.007. PATTERSON. 1995. Survey com Policiais Militares da cidade de Belo Horizonte. IBGE. Subculture of Violence. "Criminalidade. Elizabeth." LCSES Seminar Series. Rio de Janeiro. Nova York. CRISP. LYNCH. and Type of Homicide”. MOSER. Derek.). Rio de Janeiro. 67. Joan. Jack. Crime. Lúcia Maria M. Violência e Pobreza Urbana na America Latina: Rumo a uma Estrutura Integrada. ICS Press. Robert Nash and SMITH. “Modeling offenders. James. Seductions of crime: moral and sensual attractions in doing evil. Nova York. NY. Harrow and Heston. E. M. Mineo. The University of Chicago Press. Robert Nash. Dwayne.. 2002. decisions: a framework for research and policy”. In: A Organização Policial e o Combate a Criminalidade Violenta.). CRUZ. PARKER. Income Inequality. 1989. CLARKE. CRISP. MacMillan. James. In: WILSON. celebrados entre a Fundação João Pinheiro (FJP) e o Ministério da Justiça . O. Yolanda S. Ronald (ed. Britt. 147-187. DC: The World Bank. Construção de indicadores de criminalidade. “Poverty.Programa Ruas em Paz. Albany. “Indicadores Sociais de Criminalidade” Trabalho elaborado de acordo com o convênio SG nº 033/86 e o Termo de Renovação SG-003/87. Mimeo. PARKER. Olga Lopes da. Rio de Janeiro. Chicago. Defensible space. Washington. Criminology. Basic Book.

Caroline Rebecca et all (org). e ROTH. “The Chicago Area Four GeoArchive: An information founding for community policing. M. Dwayne e PARKER. DC. S. "Type of homicide and variation in regional rates". Rio de Janeiro: IPPUR/UFRJ. RUBIO. M. The World Bank. National Academy Press. Crime Mapping and Crime Prevention. Violence. Washington DC.” In: BLOCK. Annual World Bank Conference on Development in Latin America and the Caribbean: Poverty and Inequality (Bogotá. Rosélia. Aiyer.. 1998. GREEN. J. Robert Nash. 805-816. Tom (org). Journal of Economic Issues 31(3). Panel on the understanding and control of violent behavior. Sgt Ronald F. 605-610. 59: 136-147. Hommes. Crime analyses through computer mapping. Comission on Behavioral and Social Sciences and Education. Thomas F. in L. “Using geographic tools with interagency work groups to develop and implement crime control agencies. Police Executive Research Reform. A. Preventing crime: what works.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 91 PIQUET.). 1998a. John Eck. National Institute of Justice. 1993. p. what doesn't. . pp. 2000. organized crimes. Crime Justice Press. Sherman. in: Burki. Lynn. David.J. SMITH. Comment. R. S. SHERMAN. Peter Reuter e Shawn Bushway. RUBIO. WILSON.” In: WIDDESBURG. Thinking about crime. New York. Journal of Economic Issues 32(2). National Institute of Justice. what's promising. M. Committee on Law and Justice. 1997. Colombia). Doris MacKenzie. 1980. 85-118. TAXMAN. Social Forces. Tom. Washington. Washington. Washington. REWERS. RICH. Vintage Books. 1997. James Q. 1998b.A.J. The Use of Computerized Mapping in Crime Control and Prevention Programs. M. MCEWEN. Perverse social capital – some evidence from Colombia. MCEWEN. "Thinking about crime prevention". REISS Jr. Monsey. Rio de Janeiro: perfil de uma metrópole em mutação. Denise Gottfredson. (Eds.R. National Research Council. 1983. and the criminal justice system in Colombia. 90-92. RUBIO. Nova York. Understanding and preventing violence. Crime Prevention Studies.. Lawrence W.. 1997. Faye S. 1995.

. mais do que simplesmente reagir a chamadas urgentes e fazer cumprir a lei. Isso tem dificultado a condução de uma análise mais precisa sobre problemas repetitivos. bem como de desenvolver uma metodologia de gestão que possa orientar. A polícia precisa priorizar problemas substantivos. tanto o planejamento estratégico e operacional de suas atividades quanto a avaliação e o monitoramento de seus resultados. a habilidade do policial em resolver problemas tem resultado mais da sua experiência individual e do seu conhecimento prático do que de um processo criativo. que causam prejuízos às comunidades. processar informações de forma sistemática. organizar. Como conseqüência. recorrentes. fundamentado em um método analítico consistente. Isso desafia o modelo tradicional de polícia como uma organização orientada para incidentes com a função primordial de controlar crimes. O POLICIAMENTO ORIENTADO PARA O PROBLEMA E A METODOLOGIA IARA Elenice de Souza Introdução Um dos maiores desafios lançados às organizações policiais está em potencializar sua capacidade de produzir. Nesse ciclo vicioso. raramente os policiais compartilham informações com seus pares sobre os problemas enfrentados no seu dia-a-dia e as formas alternativas de solucioná-los. com base em evidências e análises. similares e muitas vezes comuns que ocorrem freqüentemente em locais específicos. Aumentar a capacidade analítica das polícias com o objetivo de alcançar resultados mais eficientes requer mudanças profundas no modo tradicional de conceber o papel e a função da polícia nas sociedades modernas. espera-se que os policiais a cada turno respondam rapidamente às chamadas de emergência e estejam liberados para atender às próximas chamadas.92 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL EXPLORANDO NOVOS DESAFIOS NA POLÍCIA: O PAPEL DO ANALISTA. No modelo tradicional.

tanto nos boletins de ocorrências. (3) a metodologia de solução de problemas. como nos registros de crimes. no caso das Polícias Judiciárias. aprimorando sua habilidade em utilizar ferramentas analíticas com base na metodologia científica. pois. Assim os analistas têm como funções básicas: • Controlar e sistematizar informações e dados oficiais.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 93 É necessário. Este modelo dá assim grande valor à dimensão intelectual do trabalho policial. com a função de organizar e alimentar complexos bancos de dados a partir de informações coletadas. bem como de implementar formas mais eficazes e pró-ativas de solucioná-los. • Criar. maior comprometimento das organizações policiais com um modelo de gestão de informação e resultados que amplie o potencial das mesmas de questionar e investigar de maneira sistemática a natureza de problemas substantivos para os quais o público espera uma resposta. Policiais devem ser capacitados e treinados para se tornarem experts na solução de problemas. . e do forte investimento em análise. através de um sistemático questionamento sobre a natureza dos problemas que afetam comunidades. 1) O papel do analista de crime Tradicionalmente. intervir nas causas que contribuem para sua emergência. através do uso da metodologia de solução de problemas. que lhes permitam. a imagem que se tem do analista de crime remete ao indivíduo que passa o dia inteiro dentro de uma unidade de estatística do departamento de planejamento ou de inteligência das organizações policiais. (2) introduzir o modelo de policiamento orientado para a solução de problemas e. pesquisa e avaliação. mais do que reagir aos problemas de crime. sentado à frente de um computador. Essa nova concepção do papel do policial está intimamente associada ao modelo de policiamento orientado para a solução de problemas – uma forma de gerenciamento das organizações policiais que tem por objetivo analisar e intervir nas causas subjacentes e imediatas que geram problemas substantivos. Este texto tem como objetivos centrais (1) discutir o papel do analista de crime. no caso das Polícias Militares. organizar e alimentar bancos de dados. identificando respostas alternativas bem como novos mecanismos de avaliação e monitoramento de resultados.

ou em relatórios no formato digital. Assim.94 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL • Analisar e mapear estatísticas sobre a distribuição temporal e geográfica do crime. criar tabelas e gráficos para facilitar a interpretação desses dados. analisando e mapeando estatísticas. servem mais para justificar uma intervenção policial anteriormente planejada do que para orientar o planejamento estratégico e tático operacional de ações futuras. que são arquivados em prateleiras. para que as organizações policiais aumentem sua capacidade de usar informações. Neste sentido. bem como a implementação de novas metodologias de avaliação e monitoramento de resultados. planejar intervenções pontuais em locais ou alvos que foram identificados como prioritários e. o resultado desse importante trabalho de transformar informação e análise em inteligência policial acaba se transformando em pilhas de papéis. criando gráficos e tabelas. Todo esse material é então colocado à disposição dos gerentes e executivos das organizações policiais com a expectativa de que possa ser utilizado para: 1. Entretanto. bem como elaborando volumosos relatórios sobre a evolução e tendências da criminalidade. • Organizar relatórios estatísticos periodicamente. raramente são realizadas avaliações sobre o próprio produto das análises. diariamente. é preciso potencializar o papel dos analistas. São eles: . • Analisar a evolução e as tendências da criminalidade. orientar o processo de tomada de decisões. Além disso. sendo por isso pouco divulgado dentro das corporações policiais (COPE. alguns fatores podem explicar a grande dificuldade de transformar a atividade do analista em uma ferramenta prática fundamental de planejamento estratégico e tático-operacional das polícias. avaliar e monitorar os resultados. 3. Esse material é quase sempre pouco utilizado em termos práticos. 2. Em geral. • Fornecer informações sistematizadas para executivos e gerentes das corporações policiais. 2004). Entretanto. pautando suas ações em evidências e análises. os analistas passam a maior parte do tempo calculando taxas.

bem como o contexto social e físico que possam ter contribuído para a ocorrência do crime. II. As pesquisas mostram que por vários motivos há um grande sub-registro de ocorrências de crimes por parte da população. A qualidade das informações Alguns problemas relativos à qualidade de informações são: a. apresentam dados muitas vezes incorretos ou incompletos sobre o endereço. As informações nem sempre são precisas em relação ao endereço onde os crimes ocorreram. . os terceiros envolvidos. Por outro lado. Além disso. como. as vítimas. comprometendo assim as análises a serem desenvolvidas. que são processadas dentro das corporações. Contudo. confundindo-se muitas vezes o local do registro das ocorrências com o local do crime. por exemplo. ao fundamentar as análises exclusivamente nesses registros.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 95 I. em especial por aqueles envolvidos diretamente na solução de crimes (COPE. aquelas consideradas sigilosas ou as preciosas informações produzidas pelos próprios policiais no dia-a-dia de suas atividades. Isso tem uma grande implicação no mapeamento dos crimes. O tipo de dados utilizados Geralmente as análises se restringem ao uso de dados oficiais. corre-se risco de se ter uma visão parcial dos eventos criminais. já que os dados oficiais representam apenas eventos que foram reportados para a polícia. As informações se limitam a dizer sobre o que aconteceu no tempo presente “do aqui e do agora”. 2004). c. quase sem nenhuma associação com os fatores que contribuíram para o processo sistemático de produção da própria informação (COPE. As informações acabam priorizando o binômio crime / agente infrator pouco dizendo sobre o comportamento criminoso. os analistas nem sempre têm acesso a todas as informações. b. 2004). as redes criminosas.

Além disso. especializadas e de inteligência (BEATO. Isso dificulta o planejamento integrado e tático operacional de ações entre as diversas corporações policiais. seja internamente às próprias corporações. em detrimento de atividades integradas. Pouca participação dos analistas no planejamento de estratégias e operações. e pela fragmentação das ações entre suas unidades especiais. Aplicação limitada dos resultados da análise na atividade prática de polícia. o que implica. Divulgação restrita dos resultados da análise entre as diversas unidades de polícia e pouco feedback do trabalho realizado pelos analistas. seja entre as corporações. em outras palavras. A posição pouco privilegiada dos analistas na hierarquia das organizações policiais De acordo com a COPE (2004) isso pode ser explicado por alguns fatores. bem como na avaliação e monitoramento de resultados. é crucial que as corporações policiais desenvolvam sua capacidade analítica e de avaliação de resultados. é comum o monopólio de informações por grupos específicos dentro das organizações. Por um lado. tais como: a. d. Falta de compreensão e reconhecimento da importância da atividade pelos próprios policiais. as informações que são coletadas e produzidas por cada organização policial são raramente distribuídas e compartilhadas entre organizações irmãs. c. As informações sobre a criminalidade circulam de forma parcial. A cultura das organizações policiais Tradicionalmente. fortalecendo uma cultura organizacional que prioriza ações e soluções individualistas. No caso especifico dos policiais na América Latina. b. IV. o que dificulta a consolidação de um espírito de equipe sólido para a execução da missão policial de controle e prevenção do crime.96 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL III. 2005). onde cada organização é reconhecida como parte de um mesmo processo de produção e garantia de segurança pública. o fluxo de informações nas organizações policiais é descontínuo e restrito. Neste sentido. (1) transformar . esse problema é intensificado pela dualidade organizacional que separa as atividades de polícia judiciária das atividades de polícia ostensiva.

1996). os analistas se tornariam experts na solução de problemas com a habilidade de: • Distinguir o que funciona e o que não funciona em termos de controle e prevenção de crime. Nesse sentido. de acordo com Godstein (1990). (2) envolver os policiais na atividade de pesquisa. (GOLDSTEIN. e dados de outras instituições. além de contarem com o suporte de pesquisadores acadêmicos. que não apenas dominem o uso de programas computacionais estatísticos e de geoprocessamento.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 97 o conhecimento prático dos policiais em informações institucionais. Mais do que isso. processando e compartilhando suas experiências e expertise. com a expertise estratégica das lideranças e os conceitos e teorias científicas dos acadêmicos. surveys de vitimização. Deste modo. Isto proporcionaria uma mistura de talentos e uma oportunidade única de troca entre as experiências e o conhecimento prático das ruas. como. identificar novas respostas e submetê-las a rigorosa avaliação e monitoramento e (5) facilitar o acesso ao conhecimento produzido. • Complementar os dados oficiais com fontes de informação alternativas. que invistam em analistas capazes também de aplicar conceitos e o método científico para explicar a complexidade de fatores que criam oportunidades para a emergência de problemas substantivos repetitivos. Essas unidades deveriam ser formadas por uma equipe mista de policiais: tanto aqueles que trabalham nas ruas. as unidades de estatística e análise criminal das organizações policiais teriam de ser direcionadas para a solução de problemas. na posição de liderança. gerenciam as unidades policiais. Para isso é preciso também que as corporações invistam na formação de analistas. • Tipificar e categorizar modalidades de crime de forma mais específica e explicar seus padrões e variação no tempo. entrevistas com agentes infratores. (3) desenvolver um processo sistemático para produção de conhecimento sobre os problemas comuns e repetitivos que a polícia enfrenta no dia-a-dia (4). • Aplicar conceitos e métodos científicos na solução de problemas substantivos. por exemplo. . quanto os que. contribuindo assim de forma mais prática para a eficiência dos resultados policiais e a implementação de políticas que potencializem a defesa social.

as unidades de análise de crime constituem um pilarchave das corporações policiais modernas. Focalizado na prevenção e no uso sistemático de informação e análise. se não discutirmos a relevância que o modelo de policiamento orientado para a solução de problemas deve dar ao fomento da conformação de uma polícia inteligente. Esses policiais comprometem grande parte do tempo de trabalho reagindo a incidentes repetitivos envolvendo os mesmos agentes infratores.98 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL • Identificar as causas imediatas dos problemas de crime. o que contribui para que os incidentes se repitam. Entretanto. • Explicar e saber como evitar a imigração do problema e explicar a difusão de benefícios da intervenção. Desde modo. próprio do modelo tradicional de polícia. reforça-se a crença de que a polícia apenas “enxuga gelo”. de efeito paliativo sobre os problemas de crime e segurança pública. Sem dúvida alguma. cujo trabalho é baseado na informação e análise. Ao contrário. o policiamento orientado para a solução de problemas tem um caráter pró-ativo e procura intervir nos fatores situacionais que geram oportunidades . 2) O policiamento orientado para a solução de problemas O policiamento orientado para a solução de problema é tido como uma das estratégias mais eficientes de gestão das organizações policiais. as mesmas vítimas. cujo principal negócio é a solução de problemas substantivos que afetam as comunidades. esse modelo procura interromper o ciclo vicioso e incessante de atendimento rápido e urgente a incidentes. optando por respostas alternativas que tenham efeito de longo prazo. tendo como objetivos aumentar a eficiência de seus resultados na prevenção e controle do crime. • Avaliar os custos e benefícios das intervenções. • Propor soluções para problemas identificados. e garantir maior segurança pública. • Avaliar e monitorar resultados. e os mesmos locais de ocorrência. E dedicam pouco tempo para pensar em como preveni-los. é inválido discutir a importância do papel dos analistas. • Identificar parceiros em potencial.

e o conhecimento orientado pela experiência prática. Essa metodologia própria das Ciências Sociais tem como pressuposto básico o estreitamento entre o conhecimento orientado por evidências científicas. Juntos. que causam prejuízos ao público. os policiais têm se limitado a fazer nada mais do que registrar e atender incidentes. . Neste sentido. Ao contrário do modelo tradicional. o qual espera que a polícia vá resolvê-los. No caso específico do policiamento orientado para a solução de problemas. as polícias têm diminuído sua capacidade analítica e preventiva direcionada para resultados e investido em estratégias tradicionais de caráter muito geral para lidar com uma ampla gama de problemas distintos. comunidade. ou sociedade em estudo (GOLDSTEIN. são responsáveis pelo desenvolvimento de um processo analítico cuidadoso de identificação dos fatores que contribuem para emergência de problemas para os quais o público espera que a polícia dê uma resposta.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 99 para emergência de problemas substantivos para a polícia. 1990. avaliação e monitoramento de resultados. 1979) a esse modelo é a prioridade dada aos “meios” da atividade policial em detrimento dos seus “fins”. o conhecimento científico dos acadêmicos soma-se à expertise dos profissionais de polícia. A principal crítica de Goldstein (1990. Origem do conceito O policiamento orientado para a solução de problemas foi introduzido pela primeira vez em 1979. bem como pela implementação de respostas. Como resultado. De acordo com esse modelo. próprio de pesquisadores acadêmicos. próprio daqueles que são integrantes de uma determinada organização. Assim. a metodologia de pesquisa ação pressupõe que pesquisadores acadêmicos e policiais façam parte de uma equipe interdisciplinar de solução de problemas. o policiamento orientado para a solução de problemas baseia-se na metodologia da pesquisa ação. (GOLDSTEIN. complementando-se e propiciando uma interlocução valiosa entre teoria e prática. 1979). por Herman Goldstein – professor de Direito e consultor do Departamento de Polícia de Chicago – num período de intenso questionamento em relação à eficiência do modelo profissional de polícia de controlar e prevenir o crime. 1990). “problemas” são um conjunto recorrente de incidentes similares e relacionados entre si.

II. 2004). 1987). comparação e interpretação de informações utilizadas na fase anterior. bem como de identificação de padrões. podendo ainda utilizar novas fontes de dados que se fizerem necessárias. seleção. Identificação Essa é uma etapa vital do processo de solução de problemas. (2) análise. Um dos resultados dessa etapa é a formulação de hipóteses claras sobre o problema em foco. que explicam a emergência de um problema em particular. Nesse estágio os problemas são identificados através da análise estatística e geoprocessamento de dados. (5) intervenção para minimizar riscos e. dados oficiais das polícias. (3) revisão e seleção. bem como para desenvolver intervenções mais adequadas. Análise A etapa de análise baseia-se no pensamento lógico e inclui revisão.100 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL 3) O policiamento orientado para a solução de problemas e o método iara O policiamento orientado para a solução de problemas envolve um processo analítico muito similar ao processo de inteligência caracterizado pela (1) coleta de informação. conhecimento e expertise de policiais. Esses elementos são sintetizados pelos quatro estágios do método IARA de solução de problemas. Contribuem assim para compreender a natureza e a extensão do problema. Cada uma dessas etapas é respectivamente descrita abaixo: I. por exemplo. dados de pesquisas de vitimização. com o objetivo de se definir de forma mais precisa e detalhada possível o problema em questão. (5) avaliação de impacto (COPE. . informações decorrentes de entrevistas com agentes infratores entre outras. relacionais. evolução e tendências do problema. É recomendável que nessa fase seja utilizada uma ampla gama de informações como. Hipóteses são cruciais para explicar relações causais entre variáveis associadas a um problema em particular e que devem ser testadas. Essa é uma fase crucial de investigação de fatores causais. o qual inclui (1) Identificação (2) Análise (3) Resposta e (4) Avaliação e monitoramento (ECK e SPELMAN.

por um lado uma avaliação do processo de implementação e de impacto das respostas. cada obstáculo identificado nesta etapa implicará o reinício do processo IARA ou de pelo menos um de seus estágios. Assim também. exigindo-se assim um aprimoramento desse estágio. todos que diretamente estão envolvidos com o problema e sofrem suas conseqüências. a qual envolve o desenvolvimento de estratégias alternativas de prevenção e controle de crime e outros problemas correlatos. a etapa de análise pode indicar que o problema não foi bem definido no primeiro estágio de identificação. Por exemplo. demandando assim uma melhor precisão em relação aos seus elementos constitutivos. sendo que a conclusão de cada uma de suas etapas permite trazer novos elementos para se repensar etapas anteriores. Essas respostas devem ir além da captura e prisão de agentes infratores. o IARA é essencialmente interativo. de modo a intervir nas causas dos problemas. como outros órgãos governamentais. comércio e o público em geral. Avaliação e monitoramento Esta é uma etapa que inclui. Embora o método IARA à primeira vista sugira a idéia de um modelo linear – cada um dos estágios segue seqüencialmente um ao outro –. O resultado da etapa de avaliação e monitoramento é crucial para orientar a formulação de novas estratégias. causas estas que sejam passíveis de avaliação e monitoramento. Como resultado. dificuldades na formulação de respostas podem apontar para inadequações e imprecisões na etapa de análise do problema. instituições. .SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 101 III. Esse método requer a coleta e processamento de ampla gama de dados que orientem a formulação e implementação de respostas mais criativas e práticas. Resposta Criatividade é o elemento chave desta etapa. a fim de evitar que o problema surja novamente. Uma das vantagens do método IARA é auxiliar a equipe de analistas de problemas a formular perguntas mais relevantes que possam contribuir na identificação e definição de “problemas” de forma mais precisa e adequada. IV. e por outro o acompanhamento sistemático das ações implementadas. bem como de novas políticas de prevenção. podendo envolver a participação de parceiros em potencial. igrejas.

Por outro. A metodologia IARA de solução de problemas contribui assim para potencializar um policiamento inteligente baseado num processo sistemático de coleta e processamento de informação e análise. aumentando sua responsabilidade para com as comunidades. para problemas diferentes. Além disso.ação. as agendas de pesquisa precisam investir no estudo de tipos específicos de problemas em que haja demanda de intervenção policial pelo público. aumentando-se assim a eficiência policial na prevenção. Conduzir. devem fornecer assistência e recursos para aprimorar a capacidade tanto das corporações policiais quanto de seus profissionais de coletar. dinamizando suas unidades de estatística e análise criminal. analisar e usar informações.102 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL Neste sentido o sucesso da aplicação do método IARA depende de uma maior atenção dos analistas a cada um desses estágios. também. auxiliando assim as corporações policiais a pensar em como preveni-los. sem antes avaliar minuciosamente seus resultados ou monitorar seu processo de implementação. Além disso. essas unidades teriam que auxiliar as polícias não apenas a produzir e organizar um conhecimento sistemático e consistente sobre o que funciona e o que não funciona em termos de prevenção e controle da criminalidade. 4) Conclusão Para que as polícias aumentem sua capacidade analítica e o modelo de polícia inteligente orientado para a solução de problemas realmente se torne uma estratégia policial bem sucedida. as organizações policiais precisam colocar em prática a metodologia de pesquisa . com a participação de . sistemática avaliação do processo analítico e seus efeitos na prevenção. Por um lado. Enfim. característica do policiamento orientado para a solução de problemas. mas disseminar esse conhecimento dentro de toda a organização policial. é preciso que as lideranças policiais e os pesquisadores acadêmicos se comprometam a desenvolver um conhecimento sistemático sobre problemas substantivos que constantemente demandam a atenção policial. as unidades de análise de crime deveriam ter um importante papel no desenvolvimento da capacidade pró-ativa das polícias. Estas unidades de análise deveriam desenvolver projetos de prevenção e controle de crime no sentido de solucionar problemas substantivos colocados para as polícias. bem como avaliar resultados. evitando assim o imediatismo muitas vezes presente entre os policiais de dar respostas sem analisar cuidadosamente os problemas ou insistir na implementação de respostas comuns. gerais.

e avaliando resultados. deveriam ser alocados mais recursos federais e estaduais em programas de treinamento de policiais como experts em análise de problemas recorrentes. e no desenvolvimento e implementação de projetos de prevenção do crime. Enfim.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 103 outros órgãos governamentais. A troca de conhecimentos entre profissionais de polícia e pesquisadores representa um esforço conjunto valioso na formulação de estratégias e de políticas públicas de defesa social mais participativas e eficientes. no sentido de tornar sólidos os conhecimentos que vão orientar políticas mais eficientes no futuro. . do público e de outros colaboradores em potencial.

__________. 44(2): 188-203. W. . IGESP da Secretaria de Defesa Social do Estado de Minas Gerais. Problem-Oriented Policing: the rationale. C. Problem-Oriented Policing in Newport News. Improving Policing: A Problem-Oriented Policing Approach. 25(2):234-58. National Institute of Justice. 1990. UK: Police Research Group. e SPELMAN. 2004. N. London. Washington. Problem-Oriented Policing. 1987.104 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL Bibliografia BEATO. _________. E. In: Polícia. Crime & Delinquency. 1979. Home Office. Apresentação do Modelo de Gestão Integrada de Segurança Pública. GOLDSTEIN. the Concept. __________. J. Sociedad y Estado: Modernizacion y Reforma Policial en America del Sul. Problem-Solving. Intelligence led Policing or Policing led Intelligence? British Journal of Criminology. 2001. H. Acction y Estrategia de las Organizacoes Policiales.S. 1996. Ed. DC: Police Executive Research Forum and the U. COPE. ECK. Santiago: Centro de Estudios del Desarollo. 2005. and Reflections on Its Implementation. New York: McGraw Hill.

418. em especial. Descaso e incompetência. ao me referir à inteligência ao longo desse texto. ora relacionado à solução de problemas novos.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 105 OS CONSELHOS COMUNITÁRIOS DE SEGURANÇA E OS DADOS OFICIAIS Paulo Augusto Souza Teixeira Introdução Uma questão que tem assumido grande relevância na atualidade é a transparência dos atos da administração pública. n. 2006. de áreas do Estado consideradas “sensíveis”. inteligência. Desse modo. o presente trabalho visa discutir os limites e as possibilidades de divulgação dos dados oficiais sobre a criminalidade e a violência nos Conselhos Comunitários de Segurança. Época. mai. “inteligência” está ligada ao processo de tomada de decisão. Sem ter a pretensão de esgotar o tema.54. permitindo. como no texto a seguir publicado na revista Época1: “A causa próxima é a absoluta incompetência. o desenvolvimento de ações integradas entre as organizações policiais e as comunidades onde elas atuam. Faltam investigação. como a Segurança Pública. interesse. a atividade de inteligência é o que eles fazem e o conhecimento de inteligência o que eles produzem. procurei me ater ao conjunto de organizações governamentais que compõem a “comunidade de inteligência” ou os “serviços de inteligência”. p. para os quais não há uma regra previamente definida. Muitas vezes. 1 OLIVEIRA. o termo é empregado no discurso público em alusão à capacidade cognitiva. ora associado à compreensão de regras. Entretanto. São Paulo. como as normas e procedimentos de uma atividade profissional. Em ambos os casos. . Há desvios de função e corrupção”. A Lógica do Segredo Gostaria de delimitar de forma mais clara o termo “inteligência” para este texto. Antônio Cláudio Mariz de. assim.

e os “serviços” de inteligência das polícias foram . pode-se perceber as diferenças nos tipos das relações sociais. Em vários países a atividade de inteligência se estruturou como instrumento de assessoramento do Chefe de Estado para diversas questões. Durante muitos anos. relacionadas à segurança do Estado. De acordo com Antunes (2002: 28): “O grau de um segredo pode ser especificado pelo exame do número e da qualidade de diferentes contextos nos quais o fluxo de informações é intencionalmente bloqueado.106 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL Segundo Antunes (2002: 21). Desse modo. deve ser analisada levando-se em consideração alguns aspectos. aqueles a quem a informação é bloqueada”. A atividade de inteligência existe em grande parte dos países. às atividades desempenhadas no sentido de obtê-las ou impedir que outros as obtenham e às organizações responsáveis pela realização e coordenação da atividade na esfera estatal”. No Brasil. cabe ressaltar que essa atividade. mas serve para destacar um dos elementos centrais na nossa discussão: o segredo como ferramenta de poder. e “eles”. “a atividade de inteligência refere-se a certos tipos de informações. a regulamentação pública e o conhecimento sobre os órgãos responsáveis pela condução da atividade no país. que somos aqueles que retemos a informação. Esses aspectos devem permitir que haja um controle legislativo e que os diversos atores envolvidos com essa atividade respondam publicamente pelos seus atos. Contudo. a segurança pública esteve diretamente atrelada às atividades de segurança nacional. as organizações ligadas à segurança externa e à manutenção da ordem se tornaram atores privilegiados dessa atividade. Um estudo mais aprofundado sobre essa atividade foge ao escopo do presente trabalho. a França e os Estados Unidos. Diversos autores tratam dessa questão e o acesso privilegiado às informações delimita toda uma rede de relações sociais. e se constitui num dos instrumentos de suporte para o exercício do monopólio estatal do uso legítimo da força. em um contexto democrático. devido ao próprio processo histórico de estruturação da atividade no país. inteligência e segurança têm um vínculo muito maior. como: o grau de constitucionalidade desse serviço. como o Reino Unido. Quando a informação é mostrada em um contexto e restringida em outro. É possível discernir os dois grupos essenciais: ‘nós’.

desta forma. . Segundo Lima. em resposta a essas pressões. pelo distanciamento entre a sociedade e os organismos encarregados da segurança pública. A população usualmente aciona a Polícia Militar em situações consideradas de risco individual ou coletivo. geralmente consideradas urgentes e de certa gravidade. Disponível no site da FGV. mas cabe esclarecer que se tratam de dois conceitos distintos. conhecido popularmente através do telefone “190”. no CPDOC. dia 07 de abril de 2004. temos a primeira visão parcial das questões de 2 Para uma análise mais aprofundada da questão consultar “Cidadania e controle democrático do acesso aos documentos sigilosos”. Os Registros Policiais Usualmente os conceitos de criminalidade e violência são empregados como sinônimos no discurso público sobre o tema. Encontramos aí o primeiro limitador ao processo de compartilhamento de informações: a lógica do segredo é responsável. diversas violências são toleradas socialmente sem que sejam entendidas como crimes. A fonte básica para as pesquisas sobre criminalidade são os registros policiais.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 107 estruturados para capilarizar a rede de informações das Forças Armadas. esses registros podem ter várias origens. Por outro lado. em especial a do Exército. O policial militar se depara com uma grande quantidade de demandas da população. “ações espetaculosas são mobilizadas e os principais problemas do modelo de organização do sistema de justiça criminal e da pouca participação da sociedade deixam de ser considerados urgentes e politicamente pertinentes”. mas tudo aquilo que. ainda hoje. Essa diversidade de intervenções da Polícia Militar cobre não somente aquilo que se classifica por crime. pois coexistem diversas organizações que atuam na área da segurança pública. recebe milhares de ligações diárias e se constitui numa das principais interfaces entre a polícia e o público. no entender do cidadão. Uma outra questão importante diz respeito ao conflito estabelecido entre essa lógica e a pressão de diversas organizações que exigem uma maior transparência das ações dos agentes públicos2. No Brasil. Palestra proferida por Alberto Nogueira Jr. Nem todas as condutas classificadas por uma determinada sociedade como crimes são necessariamente violentas. viola a ordem e a tranqüilidade públicas. O policial militar realiza registros de suas intervenções e. O sistema de atendimento de chamadas de urgência. que variam de elementos suspeitos a ações de grupos armados.

O Estado do Rio de Janeiro criou em 1999. a Polícia Civil é a encarregada de registrar e de investigar os fatos entendidos como crimes. Em outras palavras. por conseguinte. o estabelecimento de análises temporais. exige que seja incorporada e legitimada pelas organizações de justiça criminal”. Um dos primeiros passos para a compreensão dos fenômenos associados à criminalidade é o estabelecimento de uma metodologia consistente de coleta. bem como de questões difusas que constituem grande parte das atividades e do tempo empenhado pelos policiais nos seus serviços. Suas ações visam esclarecer a materialidade e a autoria dos delitos para apresentação à Justiça. vai ter impacto direto na sintonia dos tempos da demanda e da oferta de dados. conforme demonstra Senra (2000). A sistematização da coleta e armazenamento dos dados permite organizar os eventos em categorias baseadas na legislação penal. são elas: a constância do modelo de classificação. Com base no Código de Processo Penal. um núcleo de pesquisa que objetivava implantar uma metodologia de tratamento de dados da criminalidade. como as organizações policiais federais e os serviços de estatísticas de outras secretarias estaduais. da lógica organizacional das instituições de justiça criminal e. Uma das características relevantes é que os registros de todas . Há algumas características julgadas essenciais a uma metodologia consistente para tratar dos dados de criminalidade. classificação e disseminação de informações. é possível pensar as estatísticas. como algo que não nasceu. visando subsidiar políticas públicas nessa área. após a apreciação da autoridade policial. Esse núcleo (Núcleo de Pesquisa em Justiça Criminal e Segurança Pública – NUPESP) hoje faz parte do Instituto de Segurança Pública (ISP). A questão das estatísticas na área de segurança pública também é abordada por Lima: “Trata-se da origem da demanda por informações que. a publicidade dos dados e uma regularidade de produção e divulgação dos dados. assim. na medida em que podem comportar interpretações diversas do sentido e do papel das estatísticas. como os Boletins das Áreas Integradas de Segurança Pública e o Monitoramento Mensal.108 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL criminalidade e violência. Existem outras fontes que registram crimes e seus resultados. O Instituto desenvolve ainda diversos outros produtos para os gestores da área de segurança. como resultados de demandas externas. permitindo. no caso. como o registro dos óbitos pela área de saúde. Essa competência acaba tornando os registros da Polícia Civil a fonte primária dos pesquisadores e gestores de políticas públicas voltados para o controle da criminalidade. aparentemente.

Além disso. e uma das primeiras medidas foi a criação das Áreas Integradas de Segurança Pública (AISP).gov. foram estabelecidas reuniões periódicas de trabalho entre o comandante do Batalhão e os delegados titulares da AISP. rompendo a lógica do segredo. com caráter consultivo e com três finalidades básicas: aproximar a comunidade das organizações policiais e a polícia das comunidades. implementar soluções e monitorar a eficácia das medidas adotadas. O conceito de comunidade adotado pela SSP/RJ para a implantação dos Conselhos estava vinculado às referências geográficas de atuação das organizações policiais. que buscaram compatibilizar geograficamente as áreas de atuação das polícias ostensiva (militar) e judiciária (civil). conhecer melhor o problema de cada localidade através das demandas dos moradores e delimitar. exigindo planejamento e avaliações permanentes e tornando possível o seu monitoramento. Com a introdução do conceito de AISP. esses dados estão disponíveis através do site do ISP na Internet (www. Assim. no Estado do Rio de Janeiro. A nossa história recente ampliou na sociedade a imagem da polícia como uma entidade externa à sociedade e poucas foram as iniciativas que tiveram êxito para reverter esse quadro. Com esse processo de integração institucional entre as polícias tornou-se necessário estabelecer um canal de participação dos cidadãos na área de segurança. Foi adotada a estratégia de reformar o modelo de gestão das instituições policiais. o Conselho Comunitário de Segurança surge com forte vinculação às AISP. no ano de 1999. junto às comunidades.br).rj. com a finalidade de avaliar os problemas. Vou fixar a minha abordagem nos Conselhos Comunitários de Segurança que são um dos elementos centrais deste trabalho. Além disso. Os conselhos foram criados pela Secretaria de Segurança Pública (SSP/RJ). . Como forma de articular as demandas da população foram criados os Conselhos Comunitários de Segurança.isp. Mas qual a relevância dessas informações para que a sociedade interaja com as organizações policiais na busca de soluções para os problemas locais? Relação Polícia-Comunidade: os Conselhos Comunitários de Segurança O primeiro passo é definir de que forma se dará essa interação entre polícia e sociedade. e essa ação estava inserida na implantação de uma política pública de segurança mais ampla.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 109 as delegacias policiais do estado são publicados mensalmente através do Diário Oficial do Estado. uma nova abordagem seria implantada em relação às responsabilidades das polícias. o papel das polícias e de outros órgãos que podem contribuir na redução da violência. Esse conjunto de medidas visava aproximar institucionalmente as organizações policiais.

Os participantes foram orientados a procurar os canais institucionais já existentes para encaminhar as suas denúncias. Organizar a prevenção do crime tendo como base a comunidade. Como podemos ver. Alguns de seus elementos essenciais visam criar as condições para provocar mudanças graduais nas práticas operacionais das organizações policiais e buscar novas alternativas táticas e estratégicas para o emprego do policiamento. quatro devem ser as áreas de mudança programática no policiamento de uma forma geral: “1. O objetivo de delimitar o papel das polícias. continua sendo um grande desafio. A partir de 2004 o Instituto de Segurança Pública (ISP) passou a avaliar o funcionamento dos Cafés e Conselhos Comunitários de Segurança e. Em 2003 é instituído o Café Comunitário nos batalhões de Polícia Militar como estratégia de aproximação comunitária. A idéia de conhecer melhor o problema de cada localidade através das demandas dos moradores não pode ser confundida com um estímulo à prática de denúncias. mas como espaços de participação comunitária. Descentralizar o comando”.110 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL A aproximação entre as comunidades e as organizações policiais devia restaurar as imagens de ambas e os conselhos não deveriam ser tomados como uma estratégia de “relações públicas” ou como eventos sociais. pois a existência desse canal institucional de comunicação entre o poder público e a população acabou trazendo inúmeras demandas que não estão ligadas diretamente à área de segurança. Segundo Skolnick & Bayley. Ao longo do tempo tivemos uma grande oscilação na participação nas reuniões e diversos conselhos encerraram as suas atividades. 2. como a Ouvidoria e a Corregedoria. uma das premissas centrais dos conselhos comunitários de segurança implantados no Rio de Janeiro é que o público deve exercer um papel mais ativo e coordenado em relação à segurança. em 2005. A contribuição de outros órgãos não é constante e temos observado a importância de ações efetivas do poder público municipal com ações concretas que podem reduzir o sentimento de insegurança da população. além do Disque-Denúncia. 3. e 4. Aumentar a responsabilização das comunidades locais. junto às comunidades. foi editada a Resolução SSP nº 781 que aprova um regulamento para os conselhos em . Nas primeiras análises dessa questão nos deparamos com um medo dos participantes de serem confundidos com X-9 (informantes) da polícia. Reorientar as atividades de patrulhamento para enfatizar os serviços não-emergenciais.

As situações urgentes requerem intervenções imediatas. ficando a presidência do Conselho sob a responsabilidade de um membro eleito. Considero que o estabelecimento de prioridades e o encaminhamento adequado dos problemas detectados são passos importantes para a instituição de um novo paradigma de atuação policial. A questão que se apresenta é de que forma serão estabelecidas essas prioridades. 17. ao resolver esses problemas. também. Um artigo importante é o que atribui aos representantes das organizações policiais a obrigação de divulgar. O estabelecimento de prioridades deve ser realizado pelos representantes das polícias. O desafio está em compatibilizar os interesses conflitantes das pessoas que freqüentam as reuniões dos conselhos. junto com os representantes das comunidades das áreas geográficas dos CCS (art. a obrigatoriedade de divulgar os dados estatísticos da AISP no início de cada reunião. Desse modo. evitando grandes desastres. Já os problemas importantes estão vinculados à missão da organização ou objetivos do grupo. onde a rapidez da ação é sua virtude mais importante. a composição dos Conselhos com membros natos (representantes das organizações policiais) e eleitos (representantes da sociedade civil). Outros pontos essenciais são: o aumento da flexibilidade nos limites geográficos dos Conselhos Comunitários. Em muitos casos. inciso IV). São dois os critérios normalmente utilizados para a definição de prioridades: a urgência e a importância. os dados estatísticos relativos à área do CCS. além de informar quais foram as medidas adotadas para garantir a segurança . na área de atuação do CCS. as pessoas procuram a polícia para resolver questões individuais. Esse regulamento possui alguns dispositivos muito importantes. há uma melhora significativa em relação à situação anterior. inciso IV e art. uma das finalidades dos Conselhos Comunitários é discutir com os representantes das polícias civil e militar a definição de prioridades na segurança pública. como. 4º. Um exemplo clássico é a adoção de medidas no caso de um incêndio. Uso dos Dados pelos Conselhos Comunitários De acordo com a Resolução SSP Nº 781.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 111 todo o Rio de Janeiro. a cada reunião. podendo assim atender a muitas conformações de associação da sociedade civil e. não se preocupando com os problemas coletivos. por exemplo. levando as pessoas a adotar uma solução rápida. que ataque os efeitos percebidos. A importância diz respeito aos resultados.

artística. XXXIII – “todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular. sendo instituições estaduais elas estão sujeitas ao estado geral de tranqüilidade das outras AISP. inciso XIII). 17. 37. independentemente do pagamento de taxas: .112 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL da comunidade (art. XIV – “é assegurado a todos o direito à informação e resguardado o sigilo da fonte. admitindo-se invocar sigilo sobre as informações reservadas que a legislação assim classificar (art. “na apresentação dos dados estatísticos serão abordados obrigatoriamente os itens publicados pela SESP. em conformidade com os preceitos constitucionais.. Assim. independentemente de censura ou licença”. O primeiro está relacionado ao formato dos dados que serão disponibilizados aos conselhos e aos recursos necessários para o envio desses dados..b) a obtenção de certidões em repartições públicas. Entendo que a simples divulgação da variação da quantidade de registros das modalidades criminosas publicadas no Diário Oficial pode ser insuficiente para um acompanhamento da efetividade das ações adotadas pelas polícias. Outra característica do regulamento que gostaria de destacar é o fortalecimento da transparência nas relações da polícia com a comunidade. Dessa forma. programados ou não. Brasil e Espanha consagram nas suas Cartas Magnas o direito à informação como um direito fundamental3. Desta forma. ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado”. ou de interesse coletivo ou geral. observado o disposto no art. os representantes das polícias ficam obrigados a oferecer quaisquer explicações solicitadas pelo CCS sobre o serviço policial. X e XXXIII” .. 17. parágrafo 3o – “A lei disciplinará as formas de participação do usuário na administração pública direta e indireta. IX – “é livre a expressão da atividade intelectual. que serão prestadas no prazo da lei. referentes ao mês mais recente”. regulando especialmente: . 5º. XXXIV – “são a todos assegurados. Mas a preocupação com a transparência não se restringe aos policiais que participam das 3 CF/88. pode haver necessidade de realocar recursos temporariamente em outro ponto do estado. pois.II – o acesso dos usuários a registros administrativos e a informações sobre atos de governo. para defesa dos direitos e esclarecimento de situações de interesse pessoal”. como Portugal. científica e de comunicação. em virtude de eventos. e o parágrafo 5º desse artigo explica que. A outra questão diz respeito ao limite de autonomia das unidades policiais.. 5o. sob pena de responsabilidade. art. O parágrafo 6º autoriza os membros natos a “produzir informações quantitativas próprias no intuito de esclarecer fatos específicos relacionados à área em questão”. Neste artigo. em Diário Oficial. que trata da dinâmica da reunião. tornando ainda mais importante o estabelecimento de prioridades e o acompanhamento das ações. inciso III). há um certo limite para a execução das ações planejadas. quando necessário ao exercício profissional”. Alguns países. mesmo após terem sido definidas as prioridades para uma área específica. São dois os grandes problemas a serem resolvidos. há um tempo reservado para a apresentação dos dados estatísticos do mês anterior (art 33. inciso IV). art.

A primeira delas é a lógica do segredo que ainda distancia a sociedade das organizações . devido ao esforço necessário para a sua confecção e a necessidade de comparar resultados em prazos mais longos. Contudo. § 5º). além de servir de instrumento para identificar as demandas de cada localidade. que serão planejadas e coordenadas pelo Diretor Social e de Assuntos Comunitários (art. As pesquisas de opinião previstas na resolução podem ajudar a difundir a idéia de participação popular na área de segurança pública. nas organizações policiais federais (Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal). um acompanhamento mais efetivo pela população. assim. podemos atingir o morador individualmente. Há previsão de apoio técnico do ISP para desenvolver duas ações específicas. 33. Aos superiores hierárquicos imediatos dos membros natos cabe exigir que prestem contas à comunidade em relação às medidas que estão sendo adotadas para a melhoria da segurança pública local (art. onde há uma certa “opacidade” em relação às suas ações. inciso III). podemos afirmar que a divulgação de dados através das reuniões dos Conselhos Comunitários esbarra em diversas questões importantes.SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 113 reuniões. Em relação aos relatórios analíticos. reduzindo assim a particularização das demandas trazidas às reuniões pelos representantes da sociedade civil. A questão da transparência proposta através da resolução esbarra na questão tratada inicialmente sobre a lógica do segredo. dificultando. considero que tais relatórios devem ser confeccionados a cada seis meses e o seu formato deve ser definido através de uma reunião específica envolvendo representantes do ISP. por exemplo. O modelo de pesquisa de opinião pode variar de acordo com os problemas locais e o Nupesp possui pessoal capacitado para formatar a pesquisa e orientar a sua tabulação e análise. ouvindo as suas opiniões e compreendendo os seus problemas. as organizações policiais estaduais têm dado passos firmes na direção de tornar públicos os seus dados. A primeira é no sentido de orientar a realização de pesquisas de opinião junto à comunidade. Conclusões Em linhas gerais. 39. Dessa forma. das organizações policiais e dos presidentes dos Conselhos Comunitários de Segurança. Cabe destacar que o mesmo comportamento não ocorre. inciso VIII) e a segunda é o fornecimento de relatórios analíticos para subsidiar as discussões sobre as incidências mensais da área (art. 22.

114 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL policiais. julgamos importante o desenvolvimento de modelos distintos para os diversos públicos. A análise desse conjunto de informações poderia permitir o desenvolvimento de políticas públicas em diversas áreas. Desse modo. . contribuindo. Assim. os gestores públicos das diversas áreas e os cidadãos em geral. Finalmente. mas um conjunto imenso de dados referentes aos acionamentos da polícia militar não é sistematizado. Os dados disponíveis para a área de segurança pública devem ter um duplo referencial: a sua disponibilidade e a sua usabilidade pelo público. como os pesquisadores do tema. geralmente através dos registros das delegacias policiais. Em relação à disponibilidade temos encontrado iniciativas importantes nas polícias estaduais. não havendo o mesmo esforço nas polícias federais. Esses dados possibilitam uma visualização parcial dos crimes que afligem a sociedade. O processo de institucionalização desses conselhos pode ser considerado um aprendizado social . assim. as idéias de controle e definição de prioridades poderão ser vistas como aliadas na melhoria e no aumento da efetividade da ação policial. para adoção de medidas de prevenção aos crimes e a melhoria da qualidade de vida da população. Já em relação ao uso. A outra questão relevante diz respeito à produção dos dados. a interação entre elas se dá de forma complexa e com reservas de ambos os lados. apresentamos os Conselhos Comunitários de Segurança como um instrumento que pode ajudar a transformar a lógica do segredo através da cobrança sistemática de transparência das informações sobre as medidas adotadas pelas organizações policiais.

de 19 de maio de 2003. Priscila Carlos Brandão. Luiz Carlos e SPINK. LORIGGIO. de 26 de julho de 1999. 2002. 2003. Policiamento comunitário: questões e práticas através do mundo. 2002. LIMA.).SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL | 115 Bibliografia ANTUNES. Secretaria de Estado de Segurança Pública. Jerome H. Rio de Janeiro: Editora FGV. Rio de Janeiro: Editora FGV. & BAYLEY. 2004. Secretaria de Estado de Segurança Pública. SKOLNICK. RESOLUÇÃO SSP nº 629. PRATS I CATALÁ. 5ª ed. Reforma do Estado e administração pública gerencial. Segredos e relações de poderes na produção e no uso de informações e estatísticas criminais. 2002. De onde vêm os problemas: método para um diagnóstico eficaz. Antonio. SNI & Abin: uma leitura da atuação dos serviços secretos brasileiros ao longo do século XX. Secretaria de Estado de Segurança Pública. RESOLUÇÃO SSP nº 263. Joan. . de 08 de agosto de 2005. Peter Kevin (Org. Renato Sérgio de. In: BRESSER PEREIRA. Governabilidade democrática na América Latina no final do século XX. David H. ANAIS DA ANPOCS. RESOLUÇÃO SSP nº 781. São Paulo: Negócio Editora. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.

Coordenadora do Núcleo de Informações sobre Segurança e Violência do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos (IPP) - ana_paulamiranda@yahoo. Doutorando em sociologia pelo IUPERJ.br Cláudio Beato – Doutor em sociologia pelo IUPERJ e Diretor do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança da Universidade Federal de Minas Gerais.br Doriam Borges – Professor do Departamento de Estatística da UFF.br Andréia Soares Pinto . Pesquisador do Instituto de Segurança Pública – dborges@iuperj.simonilahud@uol. Professora da Universidade Candido Mendes.Mestre em Sociologia pelo IUPERJ.rj. Brasil .gov.andreiapinto2@yahoo. Brasil - claudiobeato@crisp. Coordenadora do Curso de Capacitação em Técnicas Quantitativas e Análise Criminal e Pesquisadora do Instituto de Segurança Pública .ufmg. USA e Pesquisadora do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança da Universidade Federal de Minas Gerais.com.com Paulo Augusto Souza Teixeira – Ten Cel da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro e Coordenador dos Conselhos Comunitários de Segurança Pública no ISP - teixeira@isp.br .br Elenice de Souza – Doutoranda em Justiça Criminal e Criminologia pela Rutgers – The State University of New Jersey.elenice@crisp.com.ribeiro@gmail.Doutora em Antropologia Social.br Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro – Doutoranda em Sociologia pelo IUPERJ e Coordenadora do Curso de Capacitação em Técnicas Quantitativas e Análise Criminal – ludmila.ufmg.com.116 | SÉRIE ANÁLISE CRIMINAL PERFIL DOS ORGANIZADORES E AUTORES Ana Paula Mendes de Miranda .br Simoni Lahud Guedes – Doutora em antropologia social pela UFRJ e Professora da UFF .

ISBN 978-85-60502-32-5 .

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->