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FILOSOFIA

APOSTILA 1
1ª SÉRIE

1
UNIDADE 1
FILOSOFIA: O QUE É ISSO?

“Tudo é um”
TALES DE MILETO

1 - A FILOSOFIA E OS MITOS

Provavelmente, esta é a primeira aula de Filosofia da sua vida. Quando chegar


em casa, você poderá dar a notícia a seus familiares que, agora, você também é
um praticante de Filosofia. Eles certamente irão perguntar a você o que é
Filosofia? Para quê serve isso? E estas são perguntas que, agora mesmo, você
pode estar se fazendo.
Talvez, nos ajudaria verificar o que significa a palavra Filosofia. É aqui que
começa nossa aventura pela história do pensamento ocidental, já que esta palavra
é grega e, assim, temos de ir para o ano de 600 a.C., quando algumas pessoas
denominaram a si mesmas como filósofas. E mais: na verdade, a palavra filosofia
é a composição de dois termos gregos: filo + Sofia, vejamos o que sai daí:

FILO SOFIA
Filo decorre de philía e o significado A palavra Sophia significava, em um
deste termo é amizade, amor. Na língua primeiro momento, uma espécie de
grega, há o verbo philéo, que significa habilidade manual. Em seguida, também
sentir amizade por alguém, tratar como era aplicada à idéia de sabedoria moral,
amigo, procurar, buscar, perseguir para sensatez, prudência. Por fim, significou
encontrar. um conhecimento teórico. O verbo
sophízo significava tornar hábil,
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prudente, sábio .

Assim, faça a composição, você mesmo, do que, em poucas palavras, significa


Philosophía:
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Isto é, em algum momento da Antigüidade, nas colônias gregas da Ásia Menor,


algumas pessoas passaram a amar a sabedoria, a filosofar. Nada disso significa
que, antes, as pessoas não tinham vontade de conhecer as coisas; ao seu modo,
elas davam respostas às questões que se impunham, mas não filosoficamente,
1
CHAUÍ, Marilena. Introdução à História da Filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles. São Paulo:
Companhia das Letras, 2° edição, 2002, pp. 509-511.

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elas recorriam aos mitos. Vejamos alguns exemplos nos mitos de Aracne e de
Perseu.

O mito de Perseu

O rei Acrísio consultou um oráculo quando seu neto nasceu, ouvindo a


previsão de que seria morto e destronado pelo próprio neto, resolveu colocá-lo
junto com a mãe em uma caixa, dentro de uma embarcação, para que esta
levasse os dois para bem longe. Protegida por Zeus, pai da criança, de nome
Perseu, a embarcação chegou na ilha de Serifo, onde foi encontrada pelo príncipe
da cidade, que casou-se com a mãe de Perseu, Dânae.

Crescido, Perseu teve autorização de seu padrasto para aventurar-se pelo


mundo, em gratidão, Perseu prometeu-lhe trazer a cabeça de uma das três
górgonas como presente. Conduzido pelos deuses, Perseu passou pela morada
das grisalhas, seres de um só olho e uma só dente e que conseguiam usá-los,
apenas, alternadamente. Perseu roubou-lhes os olhos e dentes, dizendo que só
devolveria se elas dissessem onde moravam as ninfas. A chantagem deu certo e
foi para lá que Perseu se dirigiu.
Com as ninfas, criaturas conhecidas por ajudar pretendes a heróis, Perseu
conseguiu sapatos alados, uma bolsa e um capacete que o tornava invisível;
ademais, Hermes o presenteou com uma foice de bronze e, armado, viajou pelo
Oceano até a morada das górgonas. Lá, ajudado pela deusa Atena, escolheu a
górgona imortal, conhecida como Medusa, para golpear. Arrancou-lhe a cabeça e
colocou-a na bolsa sem olhá-la nos olhos para que ele não fosse transformado em
pedra.

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Fugindo das irmãs da Medusa, Perseu voou sobre o deserto da Líbia, as gostas
de sangue que caiam da cabeça da Medusa transformaram-se em serpentes ao
tocarem o chão e, até hoje, esta região tem muitas cobras. Cansado, pediu abrigo
ao rei Atlas para descansar, mas foi mal recebido e desrespeitado, além disso, o
rei expulsou Perseu. Este, enfurecido, transformou seu reino em pedra ao apontar
a cabeça da Medusa em todas as direções.
Continuando a viagem, Perseu avistou uma mortal acorrentada em uma pedra à
beira da praia. Conversando com ela, Perseu ouviu que ela estava ali porque os
deuses puniram sua família e que o reino de Cefeu só não seria inundado se a
princesa fosse colocada em sacrifício a um monstro marinho. Perseu aguardou,
então, que a maré subisse e derrotou o monstro, salvando a princesa Andrômeda
e a pedindo em casamento.
A família de Andrômeda ficou maravilhada com o feito de Perseu, que se casou
com Andrômeda após derrotar um antigo pretendente dela. Morando agora nas
terras de um rei estrangeiro, Perseu participou de uma competição esportiva e, na
prova de arremesso de discos, fazendo um lançamento desastroso, acertou seu
avô sem saber que ele estava ali. Assim, cumpriu-se a previsão oracular.

O mito de Aracne

Aracne era a melhor tecelã da região da Lídia e sua arte era tal que as pessoas
diziam que sua mestra havia sido Palas Atena, a deusa da sabedoria. Mas Aracne
não gostava desta história e, certa vez, disse a todos:
- Não aprendi minha arte com a deusa e como prova disso convido-a a
competir comigo, caso ela vença, aceitarei qualquer punição.
A deusa não gostou e disfarçou-se de uma velhinha para aproximar-se de
Aracne, puxou conversa e disse que a mortal deveria demonstrar humildade com
os deuses e pedir perdão a Atena. Aracne chamou a velhinha de louca e disse-lhe
que se Atena quisesse dizer-lhe algo, o convite já havia sido feito. Furiosa, a
deusa da sabedoria teve sua paciência esgotada, retirou o disfarce e disse a
Aracne que a competição para ver quem tecia o tapete mais belo deveria começar
imediatamente. Ambas colocaram-se a tecer.
Atena teceu no seu tapete a imagem do penhasco da acrópole de Atenas, lugar
que ela conquistou após uma luta com Posídon, deus dos mares, teceu também a
luta entre ela, armada de escudo e lança, que quando tocou a terra, deu origem à
oliveira na terra infértil, com Posídon, retratado empunhando seu tridente. Além de
desenhar sua vitória, Atena colocou em cada um dos quatro cantos do tapete,
imagens que simbolizavam a arrogância humana: Hemo e Ródope que
chamavam-se de Zeus e Hera e foram transformados em montanhas; a mãe dos
pigmeus transformada em garça; Antígona com serpentes na cabeça que não
paravam de mordê-la, já que ela comparara-se a Hera, e depois transformada em
cegonha; Cíniras chorando por suas orgulhosas filhas.
Já Aracne, desonrara Zeus no seu tapete: desenhou-o transformado em touro,
águia, cisne, sátiro, fogo e chuva de ouro. Quando Atena viu o tapete de Aracne,
golpeou-a com um ódio terrível e a perfurou três vezes na testa com a agulha de
tecer; além disso, Atena fez os cabelos, o nariz e os ouvidos de Aracne
desaparecerem, fez seu corpo diminuir bastante de tamanho e condenou-a a

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praticar sua antiga arte eternamente, tecendo fios como uma aranha. Segundo do
mito, eis Aracne: origem dos aracnídeos.

MÝTHOS: Mito, palavra proferida, discurso, narrativa; rumor; notícia que se


espalha, mensagem; conselho, prescrição. O verbo mythéomai significa: dizer,
conversar, contar, narrar, anunciar (um oráculo), designar, nomear, dizer a si
mesmo, deliberar em si mesmo. O historiador Heródoto emprega a palavra
mýthos para referir-se a relatos confirmados por testemunhas, tradição. Platão e
Aristóteles, porém, empregam mýthos para referir-se a narrativas ou relatos
fabulosos, portanto, com o sentido de fábula, lenda. Pouco a pouco, mýthos passa
a significar o lendário e irreal, mentira, relato não histórico. Nessa acepção,
mýthos opõe-se a lógos2.

VAMOS FILOSOFAR...

1 – O que significa a palavra Filosofia?


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2 – O significado da palavra Filosofia, que você encontra no seu dicionário, é


parecido com o significado de quando a palavra foi formada? Explique.
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3 – Como as pessoas explicavam o mundo antes da formação pela Filosofia pelos


gregos? Explique.
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2
CHAUI, Marilena. Op. cit., p. 506.

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4 – Explique como surgiram as serpentes, segundo o mito de Perseu.
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5 – Explique como surgiram as aranhas, segundo o mito de Aracne.


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6 – O que há em comum entre os mitos de Perseu e de Aracne? Explique.


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7 – Você pensa que é possível explicar a origem do mundo sem recorrer a


nenhum mito? Explique.
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8 – Pesquise um mito e demonstre o que ele tenta explicar.


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2 – PROXIMIDADE E DISTÂNCIA ENTRE FILOSOFIA E MITO

COSMOGONIA

Os mitos de Perseu e Aracne são exemplos de um saber que já existia antes


da Filosofia. A questão que temos de resolver, então, é saber o porquê da
fundação, pelos gregos daquela época, de uma outra maneira de explicar o
mundo. Antes dela, porém, vejamos em quê a Filosofia distancia-se em relação
aos mitos, mas também em quê se aproxima.

Habituados às cosmogonias dos mitos, que


explicavam a origem dos seres a partir da
personificação dos elementos e da relação
entre eles, os gregos dispunham de ótimo
material para explicar seu mundo, tal como a
Teogonia de Hesíodo. Note como há uma
narração da genealogia dos deuses (théos e
gonía) pelo poeta grego:

“Sim bem primeiro nasceu Caos, depois


também
Terra de amplo seio, de todos sede
irresvalável sempre,
dos imortais que têm a cabeça do Olimpo
nevado,
.e Tártaro nevoento no fundo do chão de
amplas vias,
e Eros: o mais belo entre Deuses imortais,
solta-membros, dos Deukses todos e dos homens todos
ele doma no peito o espírito e a prudente vontade.”
HESÍODO. Teogonia, 116-122.

Assim, de um modo geral, os mitos narram acontecimentos passados partindo


de um estado indeterminado, o Caos, do qual surgem mais seres que se

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relacionam. Com efeito, os mitos ofereceram um conteúdo enorme de questões
que, hoje, chamamos de filosóficas: de onde veio o mundo, para aonde ele vai?

COSMOLOGIA

As questões que foram colocadas pelos mitos foram pensadas, também, pelos
filósofos. Eles tentaram, e tentam, respondê-las, mas de modo diferenciado: os
filósofos evitaram explicar o mundo pelos seres míticos como Urano, Gaia e
Oceano e partiram do que aparecia para eles como substancial, a saber, o céu, a
terra, o mar; não se trata de geração a partir de deuses, mas de elementos da
natureza. Isto é, com a Filosofia, o que os gregos fizeram foi uma cosmologia: a
ordem (cosmos) do mundo passou a ser explicada por um princípio racional que
funciona como causa das coisas subseqüentes e que substitui a genealogia a
partir dos deuses por um encadeamento racionalizado do princípio. Como
cosmologia, então, a Filosofia nasceu como uma explicação racionalizada da
ordem do mundo.
Assim, cosmogonias são narrações de forças divinas e concretas que oferecem
genealogias sobre o mundo. A Filosofia também quer estabelecer explicações
sobre o mundo e sua ordem, mas de forma cosmológica: pesquisa-se um princípio
do mundo e, a partir dele, procura-se um encadeamento sobre a origem e a morte
das outras coisas, e não uma genealogia. Por isso, temos de ter muito cuidado
para conseguir verificar a relação entre Filosofia e mito nesta época: “(...) O
surgimento dessa nova filosofia-saber não significou imediato e completo
abandono da atitude religiosa diante de coisas e fenômenos. Durante muito
tempo, esse foi o esquema adotado para reduzir num conflito único o nascimento
da filosofia: a filosofia teria nascido da dissolução do mito e do pensamento de tipo
religioso. De fato, tal divórcio não foi tão pontual nem tão definitivo: se já não se
reverenciava cegamente os astros e as forças de interferência divina na vida dos
homens, durante muito tempo cabeças já filosóficas adoraram ainda entidades
como o próprio triângulo ou a tetráctis (sendo esta o número 10 na escola
pitagórica), figuras da perfeição absoluta, do equilíbrio e da constância de suas
medidas”3. Ao mesmo tempo, temos de tomar cuidado, também, para não
identificarmos a Filosofia aos mitos: compreender algo em uma cosmogonia era
encontrar seu pai e sua mãe, fazer uma genealogia; compreender algo em uma
cosmologia é definir a sua própria constituição, o seu próprio ser, o seu princípio4.

Cosmogonia Cosmologia
3
WATANABE, Lygia Araújo. “Filosofia antiga” in Primeira Filosofia: aspectos da História da Filosofia.
São Paulo: Editora Brasiliense, p. 19.
4
VERNANT, Jean-Pierre. Mito e pensamento entre os gregos: estudos de Psicologia Histórica. Tradução de
Haiganuch Sarian, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2° edição, 1990, p. 450.

8
Narrativa da origem do kósmos através Explicação racional sobre a origem e
das relações sexuais entre os deuses ordem do mundo natural ou natureza,
ou os elementos naturais enquanto sobre as causas das transformações,
forças vitais que engendram ou geração e perecimento de todos os
procriam todos os seres. seres5.

VAMOS FILOSOFAR...

1 – Como uma cosmogonia explica a origem do mundo?


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2 – Como uma cosmologia explica a origem do mundo?


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3 – Os mitos são cosmogônicos ou cosmológicos? Explique.


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4 – Qual é a proximidade entre a Filosofia e os mitos? Explique.


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5
CHAUÍ, Marilena. Op. Cit., p. 503.

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5 – Qual é a distância entre a Filosofia e os mitos? Explique.


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3 – CAUSAS DA ORIGEM DA FILOSOFIA

Comentávamos, no tópico anterior, que tínhamos de explicar porque os gregos


começaram a explicar o mundo de uma forma diferente da explicação mitológica.
Em outros termos, o que tornou possível a passagem da cosmogonia à
cosmologia?
Há causas para a origem da Filosofia e, agora, vamos analisar algumas delas.
Perceba como cada uma delas operou uma mudança significativa no modo de
pensar do homem na Antigüidade grega, permitindo a formação de coisas novas
como a Filosofia, segundo Jean-Pierre Vernant.

1) Navegações: uma parte considerável da vida dos gregos relacionava-se


com o mar, era de onde, por exemplo, conseguiam obter parte significativa
de sua alimentação. Vivendo muito no mar, os gregos não encontraram
muitos dos monstros marinhos narrados pela história oral e nem
vivenciaram seres e histórias narradas por poetas. Assim, as navegações
contribuíram para o que Max Weber chamou mais tarde de
“desencantamento do mundo”. Fazia-se necessário um saber que
explicasse os fatos ocorridos na natureza que não recorresse a histórias
sobrenaturais.
2) Calendário e moeda. Viver podendo pensar o tempo abstratamente e
quantificando valores para realizar trocas não é algo que sempre ocorreu
na história da humanidade. Quando os gregos passaram utilizar
o calendário e a moeda,
introduzida pelos fenícios,
conseguiram abstrair valores
como símbolo para as coisas,
fazendo avançar a
capacidade de matematizar e
1
/6 de Stater de prata do rei Croesus, cunhado em
de representação. Tudo isso
561/546 a.C., em Sardes, na Lídia favoreceu um

10
desenvolvimento mental muito significativo e com grande capacidade de
abstração.

3) Escrita. Outro fator que potencializou em grande medida o poder de


abstração do homem grego foi transcrever a palavra e o pensamento com
símbolos: eis o alfabeto. A escrita permite o pensamento mais aguçado
sobre algo quando ficamos lendo e analisando alguma coisa, como, por
exemplo, uma lei. Ao ser fixada, a lei fica exposta como um bem comum de
toda a cidade, um saber que não é secreto como um saber vinculado ao
exercício de um sacerdote, mas propriamente público, além de estabelecer
uma nova noção na atividade jurídica, a saber, uma verdade objetiva.

Alfabeto Grego

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Política. Esta é a principal causa para a origem da Filosofia, já que, até agora,
vimos somente a contribuição das técnicas para isso; porém, havia mais
recursos técnicos no Oriente que na Grécia, e a Filosofia é uma invenção
genuinamente grega, além do Oriente não ter se libertado dos mitos. Note que
a palavra política é formada pelo termo grego polis (π ο λ ι ζ ), cujo
significado é cidade, cidade-estado, conjunto de cidadãos que vivem em um
mesmo lugar e uma mesma lei. E o mais importante: são os cidadãos que
faziam suas próprias leis mediante uma assembléia. Esta prática teve início
com os guerreiros que, juntos, discutiam o melhor modo de vencer ao inimigo,
cada um dos guerreiros tinha o direito de falar, bastando para isso ir ao centro
do círculo formado na assembléia; ao final da guerra, outras assembléias
eram feitas para dividir o que foi ganho. Isto é, ocorre a prática do diálogo para
a decisão, dando a todos o direito de falar e a condição de serem iguais uns
aos outros e à lei partilhada entre eles. Aquele que conseguir convencer a
maioria de que sua proposta é a que aproxima-se mais da verdade de como
vencer aos inimigos, receberá maior número de votos. Ora, é esta a prática
que o filósofo
adotou mais tarde: escrevendo
ou discursando, tornava pública
suas idéias por considerá-las
verdadeiras, por pretender
encontrar a harmonia perdida
do debate entre opiniões
divergentes. Debater, trocar
opiniões, argumentar, eis a
prática democrática, eis a
prática filosófica. A Filosofia
nasce como uma filha da polis,
como uma filha da democracia.

Eis o que Jean Pierre Vernant


chamou de um “universo espiritual da polis”6: trata-se de um lugar com
proeminência da palavra - a palavra aberta a todos e com igualdade no seu uso
era o modo de fazer política; com publicidade - separação entre questões privadas
e questões públicas, estabelecendo práticas abertas e democráticas em oposição
aos processos secretos; com isonomia (ι σ ο ν ο µ ι α ) – todos eram iguais no
exercício do poder e diante das leis que criaram. Além disso, este novo universo
espiritual esteve acompanhado e propiciou uma “mutação mental”7 nos homens:
agora era possível explicar o mundo abstratamente excluindo o sobrenatural.

6
VERNANT, Jean-Pierre. As Origens do Pensamento Grego. Tradução de Ísis Borges B. da Fonseca, Rio de
Janeiro, 11° edição, 2000, p. 41.
7
______. Mito e pensamento entre os gregos: estudos de Psicologia Histórica, p. 453.

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Este novo “universo espiritual da polis” foi determinante para a origem da
Filosofia. O que falta sabermos, agora, é porque só algumas pessoas tornaram-se
filósofos, e não todas.

VAMOS FILOSOFAR...

1 – Como as navegações contribuíram com uma mudança no modo de pensar dos


homens da Antigüidade Grega?
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2 – Como a moeda e o calendário contribuíram com uma mudança no modo de


pensar dos homens da Antigüidade Grega?
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3 – Como a escrita contribuiu para aumentar a capacidade de abstração dos


homens na Antigüidade Grega?
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4 – Por que a política é a principal causa para a origem da Filosofia na


Antigüidade Grega? Responda citando também a importância dos guerreiros e sua
prática democrática.
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5 – O que Jean-Pierre Vernant entende por um novo “universo espiritual da polis”?


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6 – As navegações, o calendário e a moeda, a escrita e a política contribuíram


com a mudança no modo de pensar dos homens na Antigüidade Grega. Você
considera que, hoje, a informática, com a virtualidade, pode está mudando o
nosso modo de pensar? Explique.
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4 – CAUSA DO FILOSOFAR

O contexto social e histórico que permitiu às pessoas a invenção da Filosofia


nós já analisamos. Mas o que falta verificar é o que motivava alguns a filosofarem.
Já na Antigüidade, Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) pensara a respeito:

“A admiração sempre foi, antes como agora, a causa


pela qual os homens começaram a filosofar: a princípio,
surpreendiam-se com as dificuldades mais comuns;
depois, avançando passo a passo, tentavam explicar
fenômenos maiores, como, por exemplo, as fases da lua,
o curso do sol e dos astros e, finalmente, a formação do
universo. Procurar uma explicação e admirar-se é
reconhecer-se ignorante”.

ARISTÓTELES. Metafísica, 982 b13.

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Para filosofar, segundo Aristóteles, é preciso estar admirado com algo. Basta
isso, não há Filosofia sem curiosidade, sem admiração; do contrário, se estamos
acostumados com algo e não pensamos sobre ele, não há Filosofia. Olhe para sua
própria vida e perceba que quando você tinha menos idade, mais você se
admirava com as coisas e mais queria saber porque eram daquela forma, como
funcionavam. Porém, na medida que você cresceu e acostumou-se com as coisas,
deixando de se admirar com elas, deixou também de lado a atitude filosófica.
Filósofos são aqueles que jamais perdem a admiração sobre os grandes ou
pequenos segredos do mundo, que passam a vida toda sem deixar se acostumar
com as coisas. E mais: veja como termina a citação acima – quando procuramos
uma explicação sobre algo encontramo-nos “ignorantes”, descobrimos que não
sabemos e que sempre há algo a descobrir. A Filosofia é, sem dúvida nenhuma,
uma aventura.

Aristóteles

VAMOS FILOSOFAR...

1 – Segundo Aristóteles, qual é a causa do filosofar? Explique.


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2 – O que leva à morte do filosofar? Explique.
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3 – Como nos reconhecemos quando procuramos a explicação sobre alguma


coisa? Explique.
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4 – Escolha algo que você admira e:


a) desenhe-o.

b) explique-o (escreva como ele é, pense no porquê de sua existência, se


precisa de mudanças, como funciona, qual a sua causa... Enfim, filosofe).
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5 – OS PRIMEIROS FILÓSOFOS

Sabemos como a Filosofia nasceu, sabemos também o que motiva uma pessoa
a filosofar. Mas quais foram os primeiros filósofos? O que fizeram?
O primeiro deles foi Tales de Mileto (cerca de 625/4-558/6 a.C.) e, infelizmente,
o tempo não conservou nenhum de seus fragmentos, aliás, segundo John Burnet,
Tales jamais escreveu; porém, alguns pensadores antigos escreveram o que
pensavam outros: veja, por exemplo, o que Aristóteles escreveu sobre Tales:

“A maior parte dos primeiros filósofos considerava como


os únicos princípios de todas as coisas os que são de
natureza da matéria. Aquilo de que todos os seres são
constituídos, e de que primeiro são gerados e em que
por fim se dissolvem, enquanto a substância subsiste
mudando-se apenas as afecções, tal é, para eles, o
elemento, tal é o princípio dos seres; e por isso julgam
que nada se gera nem se destrói, como se tal natureza
subsistisse sempre... Pois deve haver uma natureza
qualquer, ou mais do que uma, donde as outras coisas
se engendram, mas continuando ela mesma. Quanto ao
número e à natureza destes princípios, nem todos dizem
o mesmo. Tales, o fundador da filosofia, diz ser água [o
princípio] (é por este motivo também que ele declarou
que a terra está sobre água), levando sem dúvida a esta
concepção por ver que o alimento de todas as coisas é o
úmido, e que o próprio quente dele procede e dele vive
(ora aquilo de que as coisas vem e, para todos, o seu
princípio. Por tal observar adotou esta concepção, e pelo
fato de as sementes de todas as coisas terem a natureza
úmida; e a água é o princípio da natureza para as coisas
úmidas (...).”

ARISTÓTELES. Metafísica, I, 3.983 b6 .

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Note a força das palavras atribuídas a Tales: a água, ou o úmido, é o princípio
de todas as coisas. Você já parou para pensar qual é o princípio (α ρ χ η ) das
coisas? Tal era a ambição de Tales: desvendar o segredo do mundo, o seu
princípio. Há alguns motivos que levaram Tales a pensar que o princípio de todas
as coisas fosse a água: a) na própria mitologia grega, há a idéia de que o rio
Oceano estava envolta do mundo e o formou; b) a passagem da água de um
estado a outro pôde fazer Tales pensar que ela está por trás de todas as coisas; c)
segundo Simplício, Tales teria observado que os seres vivos são úmidos e, ao
morrerem, secam; d) na sua viagem pelo Egito, Tales observou que, após a cheia,
as plantas apareciam; e) restos de animais marinhos encontrados em regiões
montanhosas da época, reforçaram a idéia em Tales de que, um dia, tudo era
água.
Certas ou erradas, as idéias de Tales expressavam um novo modo de explicar o
mundo: a água como princípio de tudo funciona como um deus (θ ε ο ζ - a
palavra deus, na época de Tales, podia ser usada com um sentido não-religioso,
significando uma espécie de princípio ativo presentes nas coisas8), um princípio
vital e que se movimenta, provocando mudança (kínesis) nas coisas. Assim, ao
surgirem da água, as coisas não podem surgir do nada e nem retornar a ele, mas
apenas da e para a água. A grande questão é resolver como que, a partir da água,
todo o resto foi formado?
Por isso, lembre-se, o pensamento de Tales é uma cosmologia, explicando o
mundo racionalmente a partir das observações sobre ele. Outros filósofos da
mesma época explicavam o mundo da mesma forma, mas com outros elementos
como princípio: Anaximandro de Mileto apostou no ilimitado, Anaxímenes de
Mileto no ar, Pitágoras de Samos o número... Enfim, seria interessante você fazer
uma pesquisa e verificar como os primeiros filósofos, também chamados de pré-
socráticos e de filósofos da natureza, explicavam o mundo. Além dos nomes já
citados, procure por Heráclito de Éfeso, Parmênides de Eléia, Zenão de Eléia,
Empédocles de Agrigento, Anaxágoras de Clazómena, Demócrito.

VAMOS FILOSOFAR....

1 – Qual foi o primeiro filósofo da história?


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8
BURNET, John. O despertar da Filosofia grega. Tradução de Mauro Gama, São Paulo: Editora Siciliano,
1994, p. 24.

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2 – Qual é a razão para o princípio de todas as coisas ser a água, segundo Tales
de Mileto?
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3 – Por que as idéias de Tales de Mileto enquadram-se no que chamamos de


cosmologia?
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4 – Tales de Mileto considerava que as coisas estão “cheias de deuses”. O que
isso pode significar?
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5 – Quais são as questões que Tales e os primeiros filósofos quiseram resolver?


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6 – Os primeiros filósofos queriam desvendar qual era o princípio do mundo? Você


considera que esta questão já foi resolvida? Explique.
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7 – Buscar o princípio das coisas é filosofar. Você considera que isso é feito nos
meios de comunicação de hoje? Explique.
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8- Encontre o nome dos primeiros filósofos citados no final do texto sobre Os


primeiros filósofos.

OS PRIMEIROS FILÓSOFOS
P Z Z T R A J I A S X A G L P
O A L E S M H G A J N O A L B
X E R V N M C R L A U P E H E
V O A M M A O T X K W G X Y N
Q U K X E G O A J H A Y O W F
F X R B A N G D U Z G E T N E
Q G P T O O I W H K H M I L P
N A I M R T E D B D J P R D L
C P E A P R I V E Y T E C D A
B R S Q Z B F L T S T D O M A
T A L E S M H B C C Y O M X H
I P E C K L X Q Y A P C E H S
W I R E E X A L P X R L D D T
A N A X I M A N D R O E Z C W
D S E N E M I X A N A S H N W

6 – SUGESTÃO DE ATIVIDADES

A) TEXTO COMPLEMENTAR

“(...) Ora, não é difícil ver como as considerações meteorológicas podem ter
levado Tales a adotar a sua concepção. De tudo o que conhecemos, a água
parece tomar as mais variadas formas. Ela nos é familiar em uma aparência
sólida, líquida ou vaporosa, bem podendo Tales, assim, ter pensado que via o
processo do mundo a partir da água e de novo de volta à água ocorrendo diante
de seus olhos. O fenômeno da evaporação naturalmente sugere que o fogo dos
corpos celestes é mantido pela umidade que eles extraem do mar. Mesmo nos
dias presentes as pessoas falam do ‘sol extraindo água’. A água cai de novo com
a chuva e, finalmente, assim pensavam os primeiros cosmólogos, ela volta para a
terra. Isso possivelmente parecia bastante natural aos homens familiarizados com

20
o rio do Egito, que havia formado o delta e, com as torrentes da Ásia Menor, que
traziam rio abaixo grandes sedimentos aluviais. Hoje, o golfo de Atmo, no qual
Mileto se esguia antigamente, encheu-se por completo. Finalmente, eles
pensavam, a terra volta uma vez mais à água – idéia proveniente da observação
do orvalho, dos nevoeiros noturnos, dos mananciais subterrâneos. Pois, na
Antigüidade, não se supunha que estes últimos tivessem alguma coisa a ver com
a chuva. As ‘águas debaixo da terra’ eram consideradas uma fonte de umidade
independente”.

BURNET, John. O despertar da Filosofia Grega. Tradução de Mauro Gama, São


Paulo: Editora Siciliano, 1994, p. 52.

B) DINÂMICA DE GRUPO

Que tal filosofar no pátio da escola ? Com a sala dividida em dois grupos, deixe
uma bola no centro do pátio e cada um dos grupos nas linhas que demarcam o
fundo da mesma, quando o professor fizer uma das perguntas abaixo e gritar “já”,
corra até a bola e tente tocá-la com o pé antes de seu colega e responda “falso”
ou “verdadeiro” à pergunta feita. Acertando, sua equipe pontua; errando, a outra
equipe pontua.

( ) A palavra Filosofia significa amor à sabedoria.


( ) A Filosofia teve origem no ano 600 d.C.
( ) Foi na Grécia que a Filosofia nasceu.
( ) Filosofia e mito são as mesmas coisas.
( ) Perseu é um mito que narra a tentativa do homem em mudar o seu destino.
( ) O mito de Perseu não aponta porque existem muitas serpentes na Líbia.
( ) Aracne conseguiu escapar da deusa Atena e não foi punida.
( ) Cosmogonia e cosmologia são as mesmas coisas.
( ) Explicação sobre a origem do mundo pela relação ente os deuses significa
cosmogonia.
( ) Explicação racional sobre a origem do mundo significa cosmologia.
( ) As navegações em nada contribuíram para a origem da Filosofia.
( ) A moeda não contribuiu para a origem da Filosofia, apenas o calendário.
( ) A escrita contribuiu para aumentar a capacidade de abstração do homem
antigo.
( ) A política é a principal causa para a origem da Filosofia na Grécia.
( ) A Filosofia nasce no campo e não da polis.
( ) Um universo espiritual novo na polis foi fundamental para a origem da Filosofia.
( ) Para Aristóteles, o que leva uma pessoa a filosofar é a admiração.
( ) Para Aristóteles, quem está acostumado demais com o mundo também
filosofa.
( ) Para Aristóteles, filosofar não é reconhecer-se um ignorante.

21
( ) O primeiro filósofo da história foi Tales de Mileto.
( ) Buscar o princípio de todas as coisas é filosofar.
( ) Para Tales, o princípio de todas as coisas é o ar.
( ) Uma das coisas que ajudaram Tales a pensar que a água era a origem de
todas as coisas foram as cheias do rio Nilo.
( ) O pensamento de Tales é uma cosmologia.
( ) Fragmentos da obra de Tales resistiram ao tempo e, até hoje, podemos lê-los.

C) FILMES

- PEIXE GRANDE E SUAS HISTÓRIAS MARAVILHOSAS. Filme de John August


com direção de Tim Burton (EUA, 2003) que problematiza a relação entre mito e
razão: nem toda narrativa é ficção, nem toda racionalidade é correta.

- HÉRCULES. Animação feita pela Disney


que ilustra os famosos trabalhos de
Hércules e a intervenção dos deuses na
vida dos homens a partir da mitologia
grega.

D) ATIVIDADE EM GRUPO

Que tal cada um dos grupos da sala


pesquisar o princípio de todas as coisas nos
filósofos citados no final do texto e preparar
uma encenação para a sala? Todos perceberiam como os princípios de todas as
coisas mudam de acordo com os filósofos da natureza.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ARISTÓTELES. Metafísica. Tradução de Leonel Vallandro, Porto Alegre: Editora


Globo, 1969.

BURNET, John. O despertar da Filosofia Grega. Tradução de Mauro Gama, São


Paulo: Editora Siciliano, 1994.

CHÂTELET, François. História da Filosofia – idéias, doutrinas: a Filosofia Pagã.


Tradução de Maria José de Almeida, Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1973.

22
CHAUI, Marilena. Introdução à História da Filosofia: dos pré-socráticos a
Aristóteles. São Paulo: Companhia das Letras, 2° edição, 20002.

HESÍODO. Teogonia. Tradução de Jaa Torrano, São Paulo: Editora Iluminuras,


1995.

NIETZSCHE, Friedrich. “O nascimento da tragédia no espírito da música” e “A


Filosofia na época trágica dos gregos” in Os Pensadores. Tradução de Rubens
Rodrigues Torres Filho, São Paulo: Abril Cultural, 1 edição, 1974.

SCHWAB, Gustav. As mais belas histórias da Antigüidade Clássica: os mitos da


Grécia e de Roma. Tradução de Luís Krausz, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 6°
edição, 1994.

PRÉ-SOCRÁTICOS. Os Pensadores. Traduções de José Cavalcante de Souza,


Anna Lia Amaral de Almeida Prado, Ísis Lana Borges, Maria Conceição Martins
Cavalcante, Remberto Francisco Kuhnen, Rubens Rodrigues Torres Filho, Carlos
Alberto Ribeiro de Moura, Ernildo Stein, Hélio Leite de Barros, Arnildo Devigili,
Mary Amazonas Leite de Barros, Paulo Frederico Flor, Wilson Regis, São Paulo:
Abril Cultural, 1° edição, 1973.

SPINELLI, Miguel. “A noção de arché no contexto da Filosofia dos Pré-Socráticos”


in Revista Hypnos n° 8, São Paulo: Editora da PUC-SP, Edições Loyola, Editora
Triom, 2002.

VERNANT, Jean-Pierre. As origens do pensamento grego. Tradução de Ísis


Borges B. da Fonseca, Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 11° edição, 2000.

______. Mito e pensamento entre os gregos: estudos de Psicologia Histórica.


Tradução de Haiganuch Sarian, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.

VLASTOS, Gregory. “Equality and justice in early Greek Cosmologies” in Studies


in Greek Philosophy. Princeton/New Jersey: Princeton University Press.

WATANABE, Lygia Araújo. “Filosofia antiga” in (vários autores) Primeira Filosofia:


aspectos da História da Filosofia. São Paulo: Editora Brasiliense, 9° edição, 1991.

23
UNIDADE 2
I – A LIBERDADE ENTRE A RAZÃO E OS INSTINTOS

1 – LIBERDADE E RAZÃO: SÓCRATES

“Conheça-te a ti mesmo” (Sócrates)

1.1 – Das trevas à luz: Platão e a alegoria da caverna

Platão (427-347 a.C.) formulou uma história conhecida como alegoria da


caverna. Nela, há algumas pessoas que estão lá desde crianças, amarradas pelas
pernas e pelo pescoço, de costas para a entrada da caverna, impedidas de saírem
dali. Da luz que vem de fora e que se projeta no fundo da caverna, estas pessoas
vêem as sombras de outras pessoas que passavam carregando toda espécie de
objetos fora da caverna, estes prisioneiros ainda ouvem o eco dos barulhos que
vêm lá de fora, já que lá alguns caminham conversando com outros – os
prisioneiros pensam, portanto, que a realidade é a sombra que vêem e o eco que
ouvem.
Estes prisioneiros faziam até concursos e concediam prêmios aos que
distinguiam da melhor forma as sombras que eram observadas, aos que
conseguiam primeiramente notar quais delas passavam e quais delas passavam
acompanhadas de outras e, por fim, até de prever as próximas sombras que
passariam.

24
Se fossem libertados, os prisioneiros continuariam a pensar que as sombras
eram, de fato, o que havia de real no mundo; porém, caminhariam para fora da
caverna e teriam a vista ofuscada, pouco a pouco acostumariam-se com a luz e
conseguiriam ver as imagens deles mesmos projetadas na água, veriam os
próprios objetos, veriam a lua e as estrelas. Já acostumados, conseguiriam voltar
os olhos ao sol e o veriam, compreendendo enfim que ele seria o autor das
projeções que haviam no fundo da caverna.
Ocorreu que um destes prisioneiros soltou-se e caminhou até a entrada da
caverna, ele notou, então, que aquelas imagens vistas lá embaixo não passavam
das sombras das coisas que estavam fora da caverna e que estas eram a
realidade. Encantado com o que viu, ele retornou à caverna, já que sentiu enorme
piedade dos seus companheiros de cárcere, contando tudo o que havia visto. Ele
sentiu as trevas em seus olhos, já que havia se acostumado a olhar para a
verdadeira luz, e tinha muita dificuldade em distinguir as sombras (seria preciso
mais tempo para ele se acostumar com as trevas novamente). Os outros
prisioneiros, então, consideraram que não valia à pena sair da caverna,
defenderam-se daquele que tentou tirar-lhes de lá e até o mataram.

Para Platão, Sócrates (470-399 a.C.), seu grande mestre, foi quem viu a luz,
quem retirou a alma da escuridão e a iluminou para, em seguida, retornar à
caverna e dizer que tudo que ali havia não era real, mas sombra, ilusão. Viu o que
cada sombra representava melhor que ninguém porque viu, também, a sua
verdadeira forma fora da caverna e voltou para dizer aos prisioneiros qual era a
essência daquilo que eles viam. O que fez Sócrates foi iluminar seu espírito com
uma sabedoria que o retirou das trevas, vejamos como é possível alcançar a luz!

1.2 – “Conheça-te a ti mesmo:” Sócrates e o poder da razão.

“Conheça-te a ti mesmo”: na entrada do templo de Apolo era esta a mensagem


que estava escrita. Era esta a mensagem também que Sócrates aconselhava às
pessoas: ele gostaria que elas saíssem da caverna, da escuridão que havia em
seus espíritos. Para alcançarem a luz, seria necessário, segundo ele, buscá-la.
Porém, aonde buscá-la? A resposta era imediata: dentro de nós mesmos –
“conheça-te a ti mesmo”.
Para que as pessoas conhecessem a si mesmas, Sócrates fazia perguntas: era
um perguntador incansável, e até irritante. Dialogava com todos sobre os mais
variados assuntos e faziam-nos perceber que o que elas sabiam sobre esses
assuntos não passavam de sombras, aparências do que elas, de fato, eram. Com
a continuidade do diálogo, Sócrates ajudava as pessoas a lembrar do que já
sabiam, já que ele pensava que a sabedoria estava dentro de nós9, não fora; por
isso, aconselhava: “conheça-te a ti mesmo”.
Conhecendo a nós mesmos, tomaríamos ciência que a nossa alma racional
seria um fator decisivo para a nossa felicidade: agindo de acordo com a razão,
agiríamos de acordo com nosso ser – agiríamos como homens, não como
9
A mãe de Sócrates era parteira e Sócrates também considerava-se um parteiro, mas de idéias: como ele
acreditava que elas estavam nas próprias pessoas, sua atividade consistia em interrogá-las até que as idéias
nascessem em suas mentes. Esta atividade genuinamente socrática ficou conhecida como maiêutica..

25
animais. Não seríamos dominados pelos mesmos impulsos irracionais que
dominam os animais, não seríamos dominados pelas paixões e pelos sentidos,
seríamos senhores de nós mesmos e não agiríamos de modo desregrado. Para
agirmos como homens, temos de saber o que somos: se somos racionais, nossa
conduta também precisa ser. “Conheça-te a ti mesmo”.
Em suma, como procuramos o bem, tentamos nos afastar do mal: viver
escravo dos prazeres é, para Sócrates, viver sem se saber o que se quer, é não-
saber, é não usar a razão, é não agir como homem. Viver feliz e livre é viver
senhor de nós mesmos, é saber o que se quer, é agir racionalmente, é procurar o
bem para si mesmo. Eis o caminho para a liberdade na Filosofia socrática:

Conheça-te a ti mesmo:

- Quem sabe (usa a razão) o que é o bem, pratica-o;


- quem pratica o bem, é, realmente, um ser humano;
- a liberdade reside na ação racional: é a razão que nos livra do vício e nos
conduz à felicidade.

Sócrates (470-399 a.C.)

Um exemplo: supondo que esteja muito calor e você foi a uma sorveteria,
racionalmente se refresca com um sorvete e sabe que ele faz bem para você
justamente porque lhe refresca. O que você fez foi um bem a si mesmo ao tomar
um sorvete. E mais: libertou-se da sensação de calor. Porém, caso você aja
desregradamente, tomando muitos sorvetes, o prazer transforma-se em um
problema para o seu estômago. O que você fez foi um mal para si mesmo: ao
deixar de usar a razão, deixou de agir como homem e tornou-se um escravo dos
prazeres.

VAMOS FILOSOFAR...

1 – Resuma a alegoria da caverna, narrada por Platão, em uma história em


quadrinhos.

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2 – Reflita sobre a alegoria da caverna e escreva:

a) a caverna é o mundo em que vivemos? Explique.

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b) o prisioneiro que se liberta e sai da caverna é o filósofo? Explique.

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3 – Qual era a mensagem que estava inscrita no templo de Apolo e que era dita
por Sócrates aos cidadãos de Atenas? Por que ela é importante para sermos
livres?

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4 – Para Sócrates, o que é preciso para fazermos o bem para nós mesmos?
Explique.

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5 – Dê dois exemplos de ações livres, de acordo com a filosofia de Sócrates.

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2 – LIBERDADE E INSTINTOS: NIETZSCHE

“Esse mundo é a vontade de potência – e nada além disso! E também vós


próprios sois essa vontade de potência – e nada além disso!” (NIETZSCHE,
Fragmento póstumo, 1885, 38 [12])

2.1 – Saber e fazer: uma diferença

Sabemos que, para Sócrates, ao sabermos o que é o bem, o faremos. Porém,


Friedrich Nietzsche (1844-1900) acreditava que este foi um grande erro de
Sócrates e de Platão: quantas vezes agimos em sentido contrário a uma ação
considerada correta? As pessoas sabem que não devem mentir, mas mentem.
Sabem que não devem “furar fila”, mas furam. Sabem que devem ser polidas, mas
não o são. O que Nietzsche apontou é que há uma diferença entre saber e
fazer: podemos conhecer muito bem uma obrigação e, mesmo assim,
desrespeitá-la. Por que agimos assim? Parece que há algo a mais em nós do que
pretendia Sócrates, parece que a razão não é o suficiente para explicar a
liberdade.

Além da razão, há o corpo: nossos impulsos vitais, nossos instintos foram


deixados de lado pela moral socrática. O “conheça-te a ti mesmo” de Sócrates foi

28
um projeto falido, segundo Nietzsche, por não levar o corpo em conta, aquele que
quis conhecer, não conheceu a si mesmo. Para Nietzsche, nossos impulsos são
constituídos de forças que duelam em nós mesmos para prevalecerem uma às
outras. Somos um conflito de forças que lutam entre si para sobreporem-se às
outras.

Sócrates errou, segundo Nietzsche, ao pensar que nossas ações são o


resultado de uma empresa exclusivamente espiritual, cada ação movida por nós é
o resultado de forças instintivas que lutam entre si e impulsionam o corpo. E não
se trata apenas do corpo do homem, mas de algo que acontece em toda a
natureza: em cada célula de cada ser vivo há esta luta, nem os seres
microscópicos escapam destas forças. São forças que não param de duelar em
um só momento e cada uma delas procura ser a mais potente – essa é a teoria
nietzschiana da vontade de potência. Por isso, o filósofo pensou que não era
possível explicar nossa conduta e nossa liberdade apenas por nossa razão, como
desejou Sócrates. É preciso respeitar nossa natureza instintiva: “Esse mundo é a
vontade de potência – e nada além disso! E também vós próprios sois essa
vontade de potência – e nada além disso!”10

Friedrich Nietzsche (1844-1900)

2.2 – Liberdade e impulsos: crítica da liberdade como dominação. Ou “como


tornar-se o que se é”.

10
NIETZSCHE, Friedrich. “Fragmento póstumo (1885, 38 [12])” in Os Pensadores. Tradução de Rubens
Rodrigues Torres Filho, 1° edição, 1974, p. 405.

29
Para Nietzsche, somos forças que buscam vontade de potência. Imagine agora
que por muitas vezes reprimimos estas forças, que agimos contra nosso próprio
ser. Foi isto que aconteceu na história da humanidade, segundo o filósofo,
vejamos como.

Para Nietzsche, há dois tipos de pessoas: as que são fortes como aves de
rapina e as que são fracas como ovelhas. As aves de rapina também são
chamadas de fortes, senhores, nobres e as ovelhas são chamadas de fracas,
escravas, ressentidas. As aves de rapina têm força para realizarem aquilo que
querem e, se tiverem o desejo de capturar ovelhas, elas conseguirão se impor,
afinal são mais fortes. Já as ovelhas, para se defenderem, farão com que a força
das aves de rapina não se manifeste, darão um “golpe de mestre”11 e enganarão
as aves de rapina com uma “fábrica de mentiras”12: a impotência passa a ser
considerada virtude e bondade, a fraqueza passa a ser considerada mérito. As
ovelhas fazem as aves de rapina acreditarem em um reino de Deus, onde seriam
punidas caso efetivassem sua força.

Como há dois tipos de pessoas, há dois tipos de moral: como os fortes dizem
sim a si mesmos, vêem-se como bons, como fortes, e desprezam as ovelhas, já
que são seres fracos, ruins. Já as ovelhas, dizem não a um outro, consideram-no
mau e desejam vingança. Isto é, as ovelhas inverteram os valores e dominaram
as aves de rapina com a moral socrática e com o cristianismo. Criaram o reino de
Deus para punirem e vingarem-se dos que insistirem em efetivar suas forças,
usaram a moral como forma de dominar as aves de rapina.

As ovelhas dizem: “Você é uma ave de rapina, mas é livre para não usar sua
força, é livre para não cometer o erro de agir de acordo com sua natureza, é livre
para não ser uma ave de rapina. Caso nos devore, será punida no reino de Deus”!
Isto é, pecamos, mas somos livres para expiar e pagar nossa culpa;
desrespeitamos as normas, mas somos livres para pagarmos a dívida. A liberdade
aparece como meio de submissão das aves de rapina às ovelhas, estas
sustentam a crença de que “o forte é livre para ser fraco, e ave de rapina livre para
ser ovelha”13.

AVES DE RAPINA OVELHAS


Fortes, senhores, nobres. Fracas, escravas, ressentidas.
Como são muito fortes, dizem sim a si Como são fracas, dizem não a um outro,
mesmas. a alguém que não são elas mesmas.
Consideram a si mesmos como boas e Consideram a si mesmas como boas e
as outras como ruins. Inventaram o as outras como maus. Inventaram a
desprezo. vingança.
Acreditaram na fábrica de mentiras Inverteram a moral inventaram o reino
(moral) das ovelhas e foram dominadas de Deus para dominarem as aves de
11
NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral: uma polêmica. Tradução de Paulo César de Souza, São
Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 39.
12
Op. Cit., p. 38.
13
Op.cit, pp. 36-37.

30
por elas. rapina.

Como os fortes acreditaram, a conseqüência para a sua liberdade foi trágica:


foram dominados por quem era mais fraco que eles e dominados por uma
liberdade servil, isto é, uma liberdade de se aceitar o que não se é – os fortes
escolhem não exercer sua força para não serem punidos no reino de Deus. Ao
invés de agirem de acordo com seus instintos, os reprimem com a razão. O
caminho que Nietzsche trilha para que as aves de rapina voltem a ser livres é
somente um:

“Como tornar-se o que se é”14

- Dizer não à moral, instrumento dos fracos para dominar os fortes;


- que a ave de rapina seja ave de rapina;
- a liberdade reside em não se deixar escravizar pela razão que os fracos
impuseram aos fortes. A liberdade está nos impulsos vitais não reprimidos
pela moral.

VAMOS FILOSOFAR...

1 – Sócrates pensava que para fazer o bem, bastaria sabê-lo. Nietzsche


concordou com ele? Explique.

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2 – Nietzsche considerava o “conheça-te a ti mesmo”, de Sócrates, um projeto que


atingiu seu objetivo? Explique.

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3 – Para Nietzsche, como funciona nossa natureza instintiva?

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Este é o subtítulo do livro Ecce Homo, de Nietzsche.

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4 – Quem são e como se caracterizam os dois tipos de pessoas que houve em


nossa história, segundo Nietzsche?

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5 – O que fizeram as ovelhas para que as aves de rapina não exercessem sua
força sobre elas?

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6 – Explique a origem do desprezo e da vingança a partir do pensamento de


Nietzsche.

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7 – Como é a liberdade que as ovelhas oferecem às aves de rapina? Nietzsche


concorda com ela? Explique.

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8 – Para Nietzsche, o que as aves de rapina devem fazer para voltarem a ser
livres?

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3 – À GUISA DE CONCLUSÃO: UM CONTO PARA NOSSA REFLEXÃO.

Oscar Wilde (1856-1900), no conto O jovem rei, narra a história de um príncipe


raptado com apenas oito dias de vida e que cresceu sob os cuidados de uma
humilde família de camponeses. Como ele era o único filho que a filha do rei teve,
era necessário encontrá-lo para que alguém sucedesse ao rei no dia em que este
morresse.

Enfim, este dia chegou e, um dia antes de sua coroação, o jovem rei teve um
sonho:

“Pensou que estava numa água-furtada, comprida e baixa, entre o ronrom e o


barulho de um grande número de teares.

A frouxa luz coava-se, furtivamente, pelas janelas fechadas com grades e


deixava-lhes ver as silhuetas grosseiras dos tecelões, debruçados sobre os seus
teares.

Crianças pálidas e de aspecto doentio estavam acocoradas ao pé das enormes


travessas.

Quando as lançadeiras passavam como um relâmpago através da urdidura,


levantavam pesados batentes e quando elas atingiam o final de seu movimento,
deixavam recair os braços, que apertavam o fios, enlaçando-os juntos.

As suas faces estavam minguadas pela fome.

As suas mãos delgadas estavam agitadas e trêmulas.

Mulheres de feições duras e olhos esgazeados estavam sentadas a uma mesa


e cosiam.

Um cheiro horrível enchia o local, O ambiente era impuro e pesado; as paredes


estavam sulcadas de filetes úmidos. O jovem rei abeirou-se de um dos tecelões,
parou um instante a olhar para ele.

O tecelão lançou-lhe um olhar irritado e disse:

- Por que me estás olhando? És um espião que nosso patrão enviou para
junto de nós?
- Quem é teu patrão? Perguntou o jovem monarca.

33
Nosso patrão! Exclamou o tecelão com amargura. É um homem como eu. Para
dizer a verdade, não existe a menor diferença entre nós, a não ser que ele usa
bonitas roupas, enquanto eu visto trapos.

- O país é livre, disse o jovem rei, e tu não és escravo de ninguém.


- Na guerra, disse o tecelão, os fortes reduzem os fracos à escravidão e, em
tempos de paz, é a mesma coisa. Temos de trabalhar para viver com
salários tão miseráveis que morremos quase de fome. Os nossos filhos
emagrecem prematuramente e as feições daqueles que amamos tornam-se
duras e más. Esmagamos as uvas, mas são os outros que bebem o vinho.
Semeamos o trigo, e a nossa arca está vazia, Arrastamos cadeias, embora
os olhos as não vejam e somos escravos, se bem que nos chamem
homens livres.
- E isso dá-se com todos? Perguntou o jovem rei.
- Assim é para todos, respondeu o tecelão, pra os novos como para os
velhos, para as mulheres como para os homens, para as crianças assim
como para aqueles que sucumbem todos os anos. Os comerciantes
apertam-nos e temos de obedecer às suas ordens. Através das vielas sem
sol, em que moramos, a Pobreza de olhos esfomeados e o Pecado de
faces devastadas os seguem. A Miséria desperta-nos pela manhã até à
noite, a Vergonha nos espreita. Mas que te importam essas coisas? Não és
um de nós. No teu rosto, lê-se a felicidade.

E afastou-se com ar truculento; colocou a sua lançadeira entre os fios, e o


jovem rei observou que a lançadeira estava guarnecida com fios de ouro.

Um grande terror apoderou-se dele e disse ao tecelão:

- Que vem a ser essa roupa que estás tecendo?


- É a roupa destinada à coroação do jovem rei, replicou ele. Que te importa
isso?

E o rei moço soltou um grande grito, acordou e...

Estava no seu aposento, e, através da janela, contemplou a vasta lua cor de


mel, suspensa numa atmosfera cheia de brumas...”15

VAMOS FILOSOFAR...

1 – Supondo que você fosse o jovem rei, como usaria sua liberdade a partir da
concepção de Sócrates? Isto é, pela razão, o que faria para resolver os problemas
expostos no texto e conquistar o bem para o seu país?

15
WILDE, Oscar. O jovem rei. Tradução de José Maria Machado, São Paulo: Clube do livro, 1963, páginas
14, 15 e 16.

34
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2 – Supondo que você fosse o jovem rei, como usaria sua liberdade a partir da
concepção de Nietzsche? Lembre-se de que os seus instintos vitais precisariam
ser valorizados.

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3 – Relacione a filosofia de Nietzsche à seguinte passagem do texto de Oscar


Wilde: “Na guerra, disse o tecelão, os fortes reduzem os fracos à escravidão e, em
tempos de paz, é a mesma coisa”16. Nietzsche considera que os fortes
escravizaram os fracos? Explique.

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4 – Faça uma redação de seus atos no primeiro dia de sua coroação como o
jovem rei. Escolha se agiria de acordo com sua razão ou de acordo com seus
instintos.

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16
_____. Op. cit., p. 15.

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SUGESTÃO DE ATIVIDADES

A) TEXTO COMPLEMENTAR

O problema de Sócrates

“Dei a entender com o que Sócrates fascinava: ele parecia ser um médico, um
salvador. É necessário indicar ainda o erro que havia em sua crença na
‘racionalidade a todo preço’? – é um auto-engano dos filósofos e moralistas
pensar que já saem da décadence ao fazerem guerra contra ela. O sair está fora
de sua força: mesmo aquilo que escolhem como remédio, como salvação, é
apenas, outra vez, uma expressão de décadence – eles alteram sua expressão,
não a eliminam propriamente. Sócrates foi um mal-entendido; a inteira moral-da-
melhoria, também a cristã, foi um mal-entendido... A luz do dia mais crua, a
racionalidade a todo preço, a vida clara, fria, cautelosa, consciente, sem instinto,
oferecendo resistência aos instintos era, ela mesma, apenas uma doença, uma
outra doença – e de modo nenhum um caminho de retorno à ‘virtude’, à ‘saúde’, à
felicidade... Ter de combater os instintos – eis a fórmula para a décadence:
enquanto a vida se intensifica, felicidade é igual a instinto”.

NIETZSCHE, Friedrich. “Crepúsculo dos ídolos (§ 11)” in Os Pensadores.


Tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho, São Paulo: Abril Cultural, 1° edição,
1974, p. 338.

B) TRABALHO EM GRUPO

36
Recolha imagens sobre pessoas usando sua razão e seus instintos vitais; em
seguida, monte um painel expondo, de um lado, o conceito de liberdade de
Sócrates com imagens que correspondam a este conceito. De outro, o conceito de
liberdade de Nietzsche com imagens que correspondam a este conceito.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARRENECHEA, Miguel Ângelo. Nietzsche e a liberdade. Rio de Janeiro: Viveiros


de Castro Editora, 2000.
CHAUÍ, Marilena. Introdução à História da Filosofia: dos pré-socráticos a
Aristóteles. São Paulo: Companhia das Letras, 2° edição, 2002.
MARTON, Scarlett. Nietzsche: a transvaloração dos valores. São Paulo: Editora
Moderna, 4° edição, 1996.
MÜLLER-LAUTER, Wolfgang. Nietzsche. Berlim: Walter de Gruyter, 1971.
NIETZSCHE. Friedrich. Além do Bem e do Mal: Prelúdio a uma Filosofia do
Futuro. Tradução de Paulo César de Souza, São Paulo: Companhia das Letras, 2°
edição, 2000.
_____. Genealogia da Moral: Uma Polêmica. Tradução de Paulo César de Souza,
São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
_____. Os Pensadores. Tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho, São Paulo:
Abril Cultural, 1° edição, 1974.
PLATÃO. A República. Tradução de Leonel Vallandro, Porto Alegre: Editora
Globo, 1964.

UNIDADE 3
I – LIBERDADE: ELA EXISTE?

Liberdade - essa palavra


Que o sonho humano alimenta
Que não há ninguém que explique,
E ninguém que não entenda!

Cecília Meireles. Romanceiro da Inconfidência.

1 – Determinismo

OS MITOS DE TÂNTALO, PÉLOPS E NÍOBE

Tântalo

Tântalo era um rei rico e famoso em Sípilo, além de ser um dos filhos de Zeus;
como tal, era amigo dos deuses e sempre era convidado a comer na mesa deles,

37
no Olimpo. Porém, vaidoso, Tântalo revelou segredos dos deuses aos mortais,
roubou o néctar e a ambrosia dos deuses e entregou-os a seus amigos mortais,
escondeu um cão de ouro em Creta e, para testar a onisciência dos deuses,
cometeu um crime terrível: matou seu próprio filho, Pélops, serviu sua carne na
refeição e esperava que os deuses comessem a carne humana.
Os deuses perceberam, ressuscitaram Pélops e castigaram Tântalo da
seguinte forma: em um lago, ele ficou preso com o nível da água até o seu queixo,
uma sede muito forte o incomodava, mas ao tentar beber a água, o nível dela
abaixava e ele nunca conseguia bebê-la. Atrás de Tântalo, belíssimas árvores
carregadas de frutas tinham galhos que chegavam sobre sua cabeça, quando ele
movimentava-a para cima, um vento forte afastava os galhos cheios de frutas para
longe, impossibilitando Tântalo de matar sua fome. Piorando seu sofrimento, ainda
havia um rochedo suspenso no ar e localizado acima de sua cabeça, deixando-o
com um terrível medo da morte.
Eis o destino de Tântalo por seu crime. Por mais que ele se esforçasse e
tentasse em tomar água, esta afastava-se; por mais que ele se esforçasse em
tentar comer as frutas, estas também se afastavam; por mais que ele tentasse
esquecer do rochedo, ele estava bem acima de si. A sede, a fome e o medo
sempre venciam – o destino mostrava-se imutável: era impossível alterar a
decisão dos deuses olímpicos.

38
A vida de Tântalo estava determinada, controlada pelos deuses. Em Filosofia,
denominamos de determinismo a idéia de que somos controlados por algo ou
alguém, a idéia de que temos um destino, de que ele seja inalterável e que possa
estar escrito independentemente de nossa vontade. Tudo o que acontece conosco
pode estar previamente definido.

Pélops

Esta idéia de que nossa vida pode estar traçada anteriormente por algo ou
alguém, é vista com mais clareza na continuidade do mito: Pélops era o filho de
Tântalo, morto por seu pai e ressuscitado pelos deuses, ele apaixonou-se pela
princesa Hipodâmia, de Elice. O rei Enômao ouvira de um oráculo que se sua filha
se casasse, ele morreria. Para evitar o casamento de sua filha, o rei anunciava
uma corrida de carruagem a todos os pretendentes dela: a corrida acontecia de
Pisa até o altar de Poseidon, em Corinto, e enquanto os pretendentes largavam na
frente, o rei oferecia um carneiro a Zeus. Se o rei alcançasse seu oponente, podia
matá-lo com sua lança; caso contrário, o pretendente poderia casar-se com
Hipodâmia – assim, muitos já haviam morrido, já que os cavalos do rei, Fila e
Harpina, corriam mais velozmente que o vento Norte.
Pélops era mais um concorrente e, antes da corrida, invocou Poseidon, que o
atendeu e ofereceu a ele uma carruagem com cavalos alados e rápidos como
flechas. Na corrida, mesmo com estes cavalos, Pélops foi alcançado por Enômao.
Poseidon soltou as rodas da carruagem do rei, que caiu e morreu enquanto
Pélops alcançava a linha de chegada em Corinto. De volta a Pisa, Pélops ainda
salvou a princesa de um incêndio do castelo real e, enfim, casou-se com sua
amada.

Dizíamos que a idéia de determinismo aparece nesta narrativa mais claramente


que na primeira. Basta verificar que a previsão oracular cumpriu-se com todo o
seu rigor: como perdeu a corrida, o rei seria morto e, no momento que ele cai da

39
carruagem, a morte apresentou-se fatalmente, tal como estava determinado. No
derminismo, não há como alterar o destino imposto pelos deuses: uma vez que o
destino do rei era a morte, caso sua filha se casasse, ela mostrou-se fatal,
inexorável.

Níobe

Níobe era orgulhosa como seu pai, Tântalo. Como rainha de Tebas, certa vez
proibiu as pessoas de fazerem uma homenagem a Leto, Apolo e Ártemis alegando
que ela é que deveria ser homenageada por ser filha de Tântalo, neta de Zeus e
um de seus antepassados é Atlas. As oferendas foram interrompidas e todos
voltaram para casa.
Leto, a deusa do destino, e seus filhos, Apolo e Ártemis, reagiram aos insultos
de Níobe e prepararam uma terrível vingança: Apolo acertou, com flechas, cada
um dos sete filhos de Níobe, que faziam treinos eqüestres. A notícia se espalhou e
Anfíon, rei de Tebas e marido de Níobe, ao saber da notícia, suicidou-se com sua
espada. Níobe, acompanhada de suas sete filhas, correu para o campo
lamentando a morte de seu marido e de seus filhos; porém, continuou a gritar
contra os deuses e considerando-se mais rica. Assim, novas flechas voaram em
Tebas e mataram também as suas sete filhas. Sentada diante de seus sete filhos,
sete filhas e marido, todos mortos, Níobe ficou paralisada de tanta dor, o vento já
não conseguia fazer seus cabelos oscilarem, o sangue petrificou em suas veias:
Níobe foi transformada em uma rocha, mas que ainda continuava a chorar. Por
fim, uma ventania jogou a pedra pelos ares e a levou até a Lídia, onde Níobe está
até hoje em uma montanha, chorando. A deusa do destino vingou-se furiosamente
do orgulho de Níobe e sua tentativa de interromper o louvor aos deuses.

Os três mitos acima expressaram algumas características fundamentais


da idéia de determininsmo:
- nossa vida é controlada por algo ou alguém, tal como Tântalo
controlado pelos deuses no lago;
- não há como alterar o nosso destino, tal como o rei Enômao que não
escapou da morte assim que Pélops venceu a corrida de carruagem.

VAMOS FILOSOFAR

1 – Procure no dicionário o significado das palavras abaixo e transcreva-os para


cá.

a) destino
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b) determinismo
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2 – Qual foi o crime cometido por Tântalo? Qual foi o seu destino imposto pelos
deuses como castigo?
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3 – Qual era a previsão oracular que o rei Enômao conhecia? O que ele fazia para
tentar impedi-la? Como a previsão oracular realizou-se no mito de Pélops?
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4 – Como Níobe insultou os deuses? Como estes reagiram? Qual foi o destino
imposto a ela como castigo?
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5 – Desenhe o destino que os deuses reservaram a cada uma das personagens


abaixo:

41
a) Tântalo

b) Enômao

c) Níobe

6 – Os três mitos que estudamos expressaram as características principais da


idéia de determinismo? Quais são elas?
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7 – Você acredita no determinismo? Isto é, você pensa que há algo ou alguém que
determina tudo que vai acontecer na sua vida? Explique.
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8 – Na música abaixo, da banda Titãs, explique qual é o destino da personagem


Marvin.

TITÃS – MARVIN
Meu pai não tinha educação
Ainda me lembro, era um grande coração
Ganhava a vida com muito suor
E mesmo assim não podia ser pior
Pouco dinheiro pra poder pagar
Todas as contas e despesas do lar
Mas Deus quis vê-lo no chão
Com as mãos levantadas pro céu
Implorando perdão
Chorei, meu pai disse: Boa sorte,
Com a mão no meu ombro
Em seu leito de morte
E disse
Marvin, agora é só você
E não vai adiantar
Chorar vai me fazer sofrer.
Três dias depois de morrer
Meu pai, eu queria saber
Mas não botava nem um pé na escola
Mamãe lembrava disso a toda hora
Todo dia antes do sol sair

43
Eu trabalhava sem me distrair
Às vezes acho que não vai dar pé
Eu queria fugir, mas onde eu estiver
Eu sei muito bem o que ele quis dizer
Meu pai, eu me lembro, não me deixa esquecer
Ele disse
Marvin, a vida é pra valer
Eu fiz o meu melhor
E o seu destino eu sei de cor
E então um dia uma forte chuva veio
E acabou com o trabalho de um ano inteiro
E aos treze anos de idade eu sentia todo o peso do mundo em minhas
costas
Eu queria jogar mas perdi a aposta.
Trabalhava feito um burro nos campos
Só via carne se roubasse um frango
Meu pai cuidava de toda a família
Sem perceber segui a mesma trilha
Toda noite minha mãe orava
Deus, era em nome da fome que eu roubava
Dez anos passaram, cresceram meus irmãos
E os anjos levaram minha mãe pelas mãos
Chorei, meu pai disse: Boa sorte
Com a mão no meu ombro
Em seu leito de morte
Marvin, agora é só você
E não vai adiantar
Chorar vai me fazer sofrer.
Marvin, a vida é pra valer
Eu fiz o meu melhor o seu destino eu sei de cor
Titãs. Titãs, 1984.

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2 – Liberdade segundo Sartre: a escolha


Tântalo e Níobe ficaram impotentes diante dos castigos que receberam. Essa
impotência de mudar a situação significa ausência de liberdade? Quando não
conseguimos conquistar alguma coisa dizemos: “Não somos livres”. Em outras
palavras, quando conseguimos sair da situação de impotência, quando vencemos
as adversidades, declaramo-nos livres; porém, quando não as vencemos,
declaramo-nos não-livres.

44
Para pensar nesta questão, vejamos o que o filósofo francês Jean-Paul Sartre
escreveu. Segundo ele, se estamos diante de um rochedo e este bloqueia nossa
passagem, nós tentaremos passar por ele com uma série de técnicas, como a do
alpinismo. Mesmo que não consigamos escalar o rochedo, fomos nós quem
escolhemos pela escalada, foi a nossa liberdade que optou em ultrapassá-lo. O
projeto era escalar, mas se não houve a realização da escalada, não deixamos de
ser livres. O que Sartre apontou é que as pessoas não diferenciam o projeto da
realização: o fato de não conseguirem escalar o rochedo não significa que não
sejam livres, significa que são impotentes. Liberdade não é a obtenção do que se
quer, o êxito de uma realização em nada importa para a liberdade.
Suponhamos que você gostaria de ir à festa de aniversário de seu amigo, mas
no caminho seu carro quebrou e você talvez não consiga chegar a tempo. O fato
de você não conseguir realizar seu projeto (ir à festa) não significa que você não
seja livre; significa, somente, que você não consegue vencer a uma adversidade.
A liberdade manifesta-se na escolha que você realiza em ir à festa. Em seguida,
você escolhe em consertar o carro, mas não sabe; escolhe em procurar um
mecânico, mas não encontra. Isto é, escolhe em escapar da adversidade. A
liberdade, segundo Sartre, é esta “autonomia de escolha”17 que independe da
realização do projeto: “Minha liberdade de escolher não deve ser confundida com
minha liberdade de obter”18. Isto é, como fazemos escolhas a todo momento,
somos livres e estamos condenados à liberdade.

17
SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica. Tradução de Paulo Perdigão,
Petrópolis: Vozes, 1997, p. 595.
18
SARTRE, Jean-Paul. Op. Cit, p. 621.

45
Jean-Paul Sartre, 1905-1980.

VAMOS FILOSOFAR...

1 – Ao não conseguirmos realizar um projeto deixamos de ser livres? Explique.


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2 – A liberdade é a obtenção daquilo que queremos, segundo Sartre? Explique.


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3 – Para Sartre, como se manifesta nossa liberdade? Explique.


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4 – Leia o quadrinho e explique, usando a filosofia de Sartre, se o rato está ou não


livre na situação abaixo:

http://www2.uol.com.br/niquel/bau/shtml

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3 – Liberdade segundo Sartre: a situação, o ser e o nada

O exemplo da festa de aniversário foi significativo: somos livres, mas nossa


liberdade é exercida em meio a uma situação. O desejo é de chegar à festa; por
isso que é doloroso ficar na rua com o carro quebrado, sem utensílios e sabedoria
para consertá-lo, pensando na promessa que fiz a meu amigo de que estaria em
seu aniversário, sem conseguir escapar do estado de coisas que me foi imposto
pelos outros (um carro que não funciona).

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A situação, neste caso, é a condição de estar em um lugar que não é a festa, é
o fato de conviver com o problema de não cumprir o que foi prometido no
passado, de não dominar as técnicas (utensílios) que possibilitariam resolver o
problema, de ver o estado de coisas criados por outros não resolver meus
problemas. A liberdade não é abstrata, ela é concreta e a expressão de sua
concretude é a situação – as escolhas que faço para resolver meus problemas são
escolhas situadas, escolhas que têm como objetivo resolver problemas concretos.
O que me faz falta é estar na festa e o meu objetivo, o meu projeto, o meu fim, é
chegar a tempo nela. Minha liberdade consiste em fazer escolhas que me levem
até a festa, que me tirem do lugar onde estou, com o carro quebrado: o que eu
quero é trocar uma situação por outra, superar uma situação e chegar até outra, ir
além de uma situação que me incomoda e realizar a que desejo, transcender a
atual situação. Em outros termos, o que eu quero é acabar com a atual situação,
nadificá-la. Minha escolha pretende colocar um ponto final em meus problemas,
exterminá-los. Meu projeto é tornar existente minha presença na festa, torná-la
real, enteficá-la, dar ser a ela.
Sartre conseguiu mostrar que nossa liberdade se exerce em situação,
nadificando ou enteficando realidades em nome de um projeto que queremos
realizá-lo: no problema em questão, trata-se de nadificar a situação de ficar
parado com o carro quebrado e dar ser a minha participação na festa – dar fim a
uma situação e iniciar outra: “A liberdade, sendo escolha, é mudança”19.

SARTRE: A LIBERDADE SE EXERCE, EM SITUAÇÃO, PARA TENTAR


CUMPRIR UM PROJETO:

SER

SITUAÇÃO  ESCOLHA
 NADA

VAMOS FILOSOFAR...

1 – Cite quais são os problemas que a personagem do texto enfrenta na situação


acima.
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19
SARTRE, Jean-Paul. Op. Cit., p. 610.

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2 – Segundo Sartre, a liberdade é abstrata ou concreta? Explique.
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3 – Segundo Sartre, exercemos nossa liberdade ao fazer escolhas que tentam


cumprir nossos projetos. Qual é o projeto da personagem do texto e o que você
faria para cumpri-lo?
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4 – Para Sartre, qual é a relação da liberdade com o ser e o nada?


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5 – Relacionando a filosofia de Sartre sobre a liberdade ao poema da Cecília


Meireles, explique porque a liberdade, ao ser uma escolha, leva algumas coisas
ao nada e outras ao ser.

49
Ou isto ou aquilo
Cecília Meireles

Ou se tem chuva e não se tem sol,


ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,


ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,


quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa


estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o


doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...


e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,


se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda


qual é melhor: se é isto ou aquilo.

CECÍLIA MEIRELES. Poesia completa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira,


2001.

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4 – Liberdade segundo Sartre: o problema da responsabilidade

“A conseqüência essencial de nossas observações anteriores é a de que o


homem, estando condenado a ser livre, carrega nos ombros o peso do mundo
inteiro: é responsável pelo mundo e por si mesmo enquanto maneira de ser”20. Tal
é a conclusão de Sartre, vejamos como a liberdade desembocou no peso da
responsabilidade sobre nós.
Sabemos que a idéia de determinismo expressa o controle de nossas vidas por
parte de algo ou alguém e a impossibilidade de mudarmos nosso destino.
Sabemos também que Sartre recusou a idéia de determinismo e demonstrou que
somos nós quem escolhemos nossas ações e, assim, tornamo-nos livres,
controlamos nossas vidas e ganhamos a possibilidade de mudá-la. Essa
liberdade, como vimos, é situada, condicionada por questões concretas e, ao
procurarmos resolver os problemas para realizar nosso projeto, nadificamos uma
realidade e tornamos real uma outra.
Como escolhemos, realizamos projetos, acabamos com situações e criamos
outras, somos nós os agentes de nossa história e da história da humanidade. Não
há algo ou alguém movendo nossas vidas, não há determinismo: não há como
responsabilizarmos os deuses por nossos acertos e por nossos erros. Somos nós
os responsáveis pelas nossas vidas, já que somos nós que fazemos as escolhas.
Se escolhemos em ir à festa, lutamos contra as adversidades e chegamos na
mesma, somos os responsáveis por nossa participação; se escolhemos não ir à
festa, somos os responsáveis por nossa ausência. A responsabilidade acompanha
a liberdade e é inseparável dela.

VAMOS FILOSOFAR...

1 – Para Sartre, podemos responsabilizar os deuses por nossos erros e por


nossos acertos? Explique.
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2 – Para Sartre, é possível separar a liberdade da responsabilidade? Explique.


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20
SARTRE, Jean-Paul. Op. cit., p. 678.

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3 – Dê dois exemplos de escolhas que você fez, escrevendo as responsabilidades


que precisou assumir.
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ATIVIDADES

A – TEXTO COMPLEMENTAR

LIBERDADE E FACTICIDADE: A SITUAÇÃO

“(...) O coeficiente de adversidade das coisas, em particular, não pode constituir


um argumento contra nossa liberdade, porque é por nós, ou seja, pelo
posicionamento prévio de um fim, que surge o coeficiente de adversidade.
Determinado rochedo, que demonstra profunda resistência se pretendo removê-lo,
será, ao contrário, preciosa ajuda se quero escalá-lo pra contemplar a paisagem.
Em si mesmo – se for sequer possível imaginar o que ele é em si mesmo -, o
rochedo é neutro, ou seja, espera ser iluminado pro um fim de modo a se
manifestar como adversário ou auxiliar. Também só pode manifestar-se dessa ou
daquela maneira no interior de um complexo-utensílio já estabelecido. Sem
picaretas e ganchos, veredas já traçadas, técnica de escalagem, o rochedo não
seria nem fácil nem difícil de escalar; a questão não seria colocada, e o rochedo
não manteria relação de espécie alguma com a técnica do alpinismo. Assim, ainda
que as coisas em bruto (...) possam desde a origem limitar nossa liberdade de
ação, é nossa liberdade mesmo que deve constituir previamente a moldura, a
técnica e os fins em relação aos quis as coisas irão manifestar-se como limites.
Mesmo se o rochedo se revela como ‘muito difícil de escalar’ e temos de desistir
da escalada, observemos que ele só se revela desse modo por ter sido
originariamente captado como ‘escalável’; portanto, é nossa liberdade que
constitui os limites que irá encontrar depois. (...) O ser dito livre é aquele que pode
realizar seus projetos. Mas, para que o ato possa comportar uma realização, é
preciso que a simples projeção de um fim possível se distinga a priori da
realização deste vim. Se bastasse conceber para realizar, estaria eu mergulhado
em um mundo semelhante ao do sonho, no qual o possível não se distingue de
forma alguma do real. Ficaria condenado, então, a ver o mundo se modificar
segundo os caprichos das alterações de minha consciência, e não poderia
praticar, em relação a minha concepção, a ‘colocação entre parênteses’ e a

52
suspensão de juízo que irão distinguir uma simples ficção de uma escolha real.
Aparecendo desde o momento em que é simplesmente concebido, o objeto não
seria nem escolhido nem desejado. Abolida a distinção entre o simples desejo, a
representação que posso escolher e a escolha, a liberdade desapareceria com
ela. Somos livres quando o último termo pelo qual fazemos anunciar a nós
mesmos o que somos constitui um fim, ou seja, não um existente real, como
aquele que, na suposição precedente, viria a satisfazer nosso desejo, mas sim um
objeto que ainda não existe (...)”.

SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica.


Tradução de Paulo Perdigão, Petrópolis: Editora Vozes, 1997.

B – CINEMA

Madagascar (EUA, 2005). Animação da Dreamworks cuja trama


é a fuga de alguns animais que, para conquistarem a liberdade, fogem do
zoológico. Enquanto estavam no zoológico eles eram não-livres? Boa
oportunidade para pensarmos nesta questão.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica.


Tradução de Paulo Perdigão, Petrópolis: Editora Vozes, 1997.

____. A idade da razão. Tradução de Sérgio Milliet, São Paulo: Abril cultural, 1981.

____. Sursis. Tradução de Sérgio Milliet, São Paulo: Círculo do Livro, s/d.

____. Com a morte na alma. Tradução de Sérgio Milliet, Rio de Janeiro: Editora
Nova Fronteira, 1983.

____. “Determinação e liberdade” in (vários autores) Moral e Sociedade. Tradução


de Nice Rissione, Rio de Janeiro: Paz e Terra.

SCHWAB, Gustav. As mais belas histórias da Antigüidade Clássica Vol. 1.


Tradução de Hildegard Herbold, Rio de Janeiro: Paz e terra, 1999.

53
As evidências do cotidiano :

“Cremos no espaço, no tempo, na realidade, na qualidade,na verdade, na


diferença entre realidade e sonho ou loucura, entre verdade e mentira; cremos
também na objetividade e na diferença entre ela e a subjetividade, na existência
da vontade, da liberdade, do bem e do mal, da moral, da sociedade “

A atitude filosófica

Atitude Filosófica é aquela atitude de questionamento frente à vida, portanto,


quando perguntamos :
“O que é Filosofia ? “ “A decisão de não aceitar como obvias e evidentes as
coisas, as idéias, os fatos, as situações, os valores, os comportamentos de nossa
existência cotidiana; jamais aceitá-los sem antes havê-los investigado e
compreendido”
“Para que Filosofia ? “ Para podermos exercitar o nosso eu interior ; para poder
sermos agentes e sujeitos de nossas ações, enfim, para
estarmos conectados com esse cosmo do qual fazemos parte.

A atitude crítica:
1º atitude é a negativa :dizer não ao senso comum, aos pré-conceitos, aos
pré-juízos, aos fatos e às idéias da experiência cotidiana,
ao que todo mundo pensa e diz.
2º atitude positiva : uma interrogação sobre o que são as coisas, as idéias, os
fatos, as situações, os comportamentos, os valores, nós mesmos. É
também uma interrogação sobre o porquê disso tudo e de nós, e
uma interrogação sobre como tudo isso é assim e não de outra
maneira. O que é ? Por que é ? Como é ? . Essas são as
indagações fundamentais da atitude filosófica.

A face positiva e negativa da atitude filosófica é o que chamamos de atitude


crítica e pensamento crítico.

Atitude filosófica : indagar


O que ? O que a coisa ou a idéia, ou o valor é ?
Como ? Como a coisa , ou o valor, ou a idéia é ?
Por que ? Por que a coisa , a idéia, ou o valor existe ?

Essas questões se referem à nossa capacidade de conhecer, a capacidade de


pensar. É por isso que elas se dirigem , por fim, ao próprio pensamento.
A filosofia torna-se o pensamento interrogando-se a si mesmo.
Por ser uma volta que o pensamento realiza sobre si mesmo, a Filosofia se
realiza como REFLEXÃO.
Reflexão Filosófica

54
Como é possível o próprio pensamento ?
Que é pensar , falar e agir ?

Nossas crenças cotidianas são ou não um saber verdadeiro ?


Portanto:
A atitude filosófica inicia-se indagando - O que, Como e Por que ?
- São perguntas sobre a essência,
a significação ou a estrutura e a
origem de todas as coisas a reflexão filosófica indaga : Por que , O que , Para
que ?
São perguntas sobre a capacidade e a finalidade humanas para conhecer e agir .

A Filosofia é uma ciência ?


A Filosofia não é uma ciência: é uma reflexão crítica sobre os procedimentos e
conceitos científicos. Não é uma religião: é uma reflexão crítica sobre as origens
e formas das crenças religiosas. Não é arte : é uma interpretação crítica dos
conteúdos, das formas, das significações das obras de arte e do trabalho artístico.
Não é sociologia nem psicologia, mas a interpretação e avaliação crítica dos
conceitos e métodos da sociologia e da psicologia. Não é política , mas
interpretação, compreensão e reflexão sobre a origem , a natureza e as formas do
poder. Não é história, mas interpretação do sentido dos acontecimentos
enquanto inseridos no tempo e compreensão do que seja o próprio tempo.
Conhecimento do conhecimento e da ação humana, conhecimento da
transformação temporal dos princípios do saber e do agir, conhecimento da
mudança das formas do real ou dos seres, a Filosofia sabe que está na História e
que possui uma história.
Qual seria a utilidade da Filosofia ?
“Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não
se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos
for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história
for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na
política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem
conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a
felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de
todos os saberes de que os seres humanos são capazes. “
Marilena Chauí

A CONSCIÊNCIA MÍTICA

INTRODUÇÃO

A noção de mito é complexa .


O Mito não é exclusividade dos povos primitivos, existe em todos os tempos e
culturas como componente indissociável da maneira humana de compreender a
realidade.
O mito entre os primitivos
Entre os povos primitivos o mito é estrutura dominante

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Enquanto processo vivo de compreensão da realidade, o mito surge como
verdade.
O critério de adesão do mito é a crença, e não a evidência racional
O Mito é portanto uma instituição compreensiva da realidade, é uma forma
espontânea de o homem situar-se no mundo.
As raízes do mito não se acham nas explicações exclusivamente racionais, mas
na realidade vivida.
Funções do mito
A função principal do mito é acomodar e tranqüilizar o homem em um mundo
assustador.
]
MITO – RITO – ÍDOLO
No mundo primitivo tudo é sagrado e nada é natural
Para Mircea Eliade : “uma das funções do mito é fixar os modelos exemplares de
todos os ritos e de todas as atividades humanas significativas “
“ Assim fizeram os deuses, assim fazem os homens “
O Mito não pode prescindir do Rito
O Rito : O rito deve ser entendido como um canal de comunicação
com o mito, ou seja, com o sobrenatural. Impossível reverenciar o mito sem o
rito.É com o ritual que eu falo com os deuses. É com o rito que o tempo sagrado é
revivido.
“ O tempo sagrado é revivido, ou seja, toda a festa religiosa não é uma simples
comemoração, mas torna-se a ocasião em que o sagrado acontece novamente e
representa a reatualização do evento sagrado que teve lugar no passado mítico,
“no começo”. ”
ex. festas religiosas como : Semana Santa Cristã
Yom Kippur
Ramadã
Ídolo = aquele que representa o mito.
“Santos” em templos religiosos
“Santos” modernos artistas e pessoas de destaque na mídia.
É com o mito que se dá a preponderância do coletivo sobre o individual
A decorrência do coletivismo é o dogmatismo : a consciência mítica é ingênua
( no sentido de não crítica ), desprovida de problematização e
supõe a aceitação tácita dos mitos e das prescrições dos rituais.
A adesão ao mito é feita pela fé, pela crença.
No universo cuja consciência é coletiva, a trasngressão da norma ultrapassa quem
a violou. Por isso o tabu. Ao ser transgredido, estigmatiza a família, os amigos e,
às vezes, toda a tribo. Daí os “ritos de purificação”
E os rituais do “bode expiatório” ,nos quais o pecado é transferido para um
animal .

Mito e religião
“No desenvolvimento da cultura humana, não podemos fixar um ponto onde
termina o mito e a religião começa. Em todo curso de sua história, a religião
permanece indissoluvelmente ligada a elementos míticos e repassada deles.”
Mito hoje

56
Perguntamos : O desenvolvimento do pensamento reflexivo deveria decretar a
morte da consciência mítica ?
O mito é o ponto de partida para a compreensão do ser.
“Tudo que o que pensamos e queremos se situa inicialmente no horizonte da
imaginação, nos pressupostos míticos, cujo sentido existencial serve de base para
todo trabalho posterior da razão “
A função fabuladora persiste não só nos contos populares, no folclore, como
também no dia-a-dia, ao proferir palavras ricas em sentido mítico.
Casa, lar, amor, pai, mãe, paz, liberdade.
Personalidades dos meios de comunicação.
Nas histórias em quadrinhos, o maniqueísmo retoma o arquétipo da luta entre o
bem e o mal.
O comportamento do homem também é permeado de “rituais”
Nascimentos, casamentos, festa de debutantes, festas de ano-novo, de formatura
verdadeiros ritos de passagem.
Mito e razão se completam mutuamente

A Concepção Filosófica
Período Arcaico : Primeiros filósofos gregos - Fins séc. VII a .C. e séc. VI a
.C.
Passagem do pensamento mítico - crítico racional filosófico:
“O surgimento da racionalidade crítica, ou seja, da Filosofia n
 a Grécia não é o
resultado de um salto, um “milagre” .
É a culminação de um processo que se fez através dos tempos e tem sua dívida
com o passado mítico.
Fatores que colaboraram para o desenvolvimento da filosofia na Grécia:

A ESCRITA :
Mythos : significa “palavra” , “ o que se diz”
A primeira escrita é mágica e reservada aos privilegiados, aos sacerdotes e aos
reis.
Na Grécia a escrita surge por influência dos fenícios e já no século VIII a . C. está
desligada de preocupações religiosas.
A escrita gera uma nova idade mental: postura diferente daquela de quem apenas
fala .
A retomada daquilo que foi escrito e o exame por outras pessoas e noutros
tempos , abrem os horizontes do pensamento propiciando o distanciamento do
vivido, o confronto das idéias, a ampliação da crítica.
A escrita aparece como uma possibilidade maior de abstração, uma reflexão da
palavra que tenderá a modificar a própria estrutura do pensamento.

A MOEDA :
Século VIII a VI a . C. - desenvolvimento do comércio marítimo (resultado da
expansão grega )

57
No período de domínio exclusivo da aristocracia rural, a economia era pré-
monetária e os objetos usados para troca eram carregados de simbologia afetiva
e sagrada.
A moeda aparece na Grécia por volta do século VIII a .C. . Passa a ter uma função
muito importante e revolucionária pois está relacionada com o desenvolvimento do
pensamento racional

A LEI ESCRITA
Drácon ( séc.VII a .C. ) / Sólon e Clístenes ( séc. VI a .C. )

As Leis passam a ser escritas e comuns a todos os cidadãos. Estas leis, por
serem escritas passam a permitir sua discussão e modificação.
Clístenes : fundação da PÓLIS : Organização tribal é abolida.
Estabelecem-se novas relações determinadas por nova
organização administrativa.
As mudanças processadas expressaram um ideal igualitário e prepararam campo
para a Democracia nascente.

A PÓLIS E O CIDADÃO
Nascimento da Pólis séc. VIII e VII a . C. - Provocou grandes alterações na vida
social e nas relações entre os homens.
A Ágora ( praça pública ) : Espaço onde se debatem os problemas de interesse
comum .
“A Polis se faz pela autonomia da palavra, não mais a palavra mágica dos mitos,
mas a palavra humana, do conflito, da discussão, da argumentação. O saber
deixa de ser sagrado e passa a ser objeto de discussão “.
A expressão da individualidade por meio do debate faz nascer a
POLÍTICA.
Libertando o homem da idéia de pré-destinação e dos desígnios divinos e
permitindo a ele traçar o seu próprio destino em praça pública.
Surge, então, o Cidadão da Pólis. Ele participa dos destinos da cidade por meio
do uso da palavra em praça pública. É a isonomia : igual participação de todos os
cidadãos no exercício do poder.
Apogeu da democracia : Séc. V a . C. - período Clássico - Péricles estratego
O que era a Democracia Ateniense ? Uma nova concepção de poder
O ideal teórico da nova classe de comerciantes será elaborado pelos sofistas,
filósofos do séc. V a . C.
O Nascimento do Filósofo
A filosofia surgiu no século VI a .C. nas colônias Gregas da Magna Grécia ( sul
da Itália ) e Jônia ( atual Turquia ). Somente no século V a .C. desloca-se para
Atenas.
Divisão da Filosofia Grega
Pré-socráticos
A procura do Arché ( princípio )
Escola Jônica - 1ª escola filosófica grega
Thales de Mileto - a origem de todas as coisas (Arché) = a água (o
transformismo)

58
Anaxímenes - o Arché - o ar
Anaximandro - ápeiron ( infinito ) ( substância etérea, infinita, invisível )
Heráclito - o devir ( contínuas transformações, é a lei fundamental do universo)“
as transformações se fazem de acordo com uma lei : Logos que é a realidade
última do mundo “
Tudo segue seu curso - coisa alguma é estável:“nunca podemos tomar banho
duas vezes no mesmo rio “
“ tudo flui e nada fica como é “
Empédocles - ( quatro elementos primordiais ) Terra, Ar, Água e Fogo (o
que determinava a união entre as coisas era o amor e a luta) Os quatro elementos
e os dois princípios são eternos.
A Teoria de Empédocles foi usada e difundida pelos “cientistas” até o século XVII,
quando foi criticada por Lavoisier

Escola Itálica:
Pitágoras - religião órfica ( “Tudo o que nasce torna a nascer nas revoluções de
um determinado ciclo, até se libertar efetivamente da
roda dos nascimentos “ ) matemática ( a soma dos quadrados dos catetos é
igual ao quadrado da hipotenusa ). O número é o princípio de todas as coisas
( ARCHÉ ).
Parmênides - Ser ( a realidade é eterna e intemporal . Toda mudança é
ilusória ) “Não há mudança nas coisas . Como pode, então, o que é , vir a ser no
futuro ?
Se vem a ser , então não é “

“o Ser é e o não ser não é “


Xenófanes
Zenão

Escola Atomista
Demócrito - “ Tudo que existe é composto de átomos “
Átomo ( grego ) = a ( alfa ) - não ; tomos - divisão, divisível.
“Todas as qualidades das coisas : cor, cheiro , peso; som, beleza e vida etc.,
nada mais são do que movimentos e modos de ser diferentes dos agregados de
átomos que formam a respectiva coisa “ .
Sócrates e os pós-socráticos
Sofistas : comerciantes da filosofia representavam a anti-razão
A única norma lógica e intelectual era o êxito

SOCRATES
lª etapa
Ironia ( em grego perguntar ) com hábeis perguntas, desmonta as certezas até o
outro reconhecer a ignorância.
2ª etapa
Maiêutica ( Parto das idéias ) “ conhece-te a ti mesmo “
“as pessoas geralmente começam a pensar a partir do que conhecem. Sócrates
começava pelo que não conhecia - pela ignorância “

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“Só sei que nada sei” : Consiste na sabedoria de reconhecer a própria
ignorância, ponto de partida para a procura do saber.
As questões que preocupam Sócrates são aquelas referentes à moral
Sócrates procura o Logos - “a razão que se dá de algo “ - conceito : o logos da
justiça / o logos da coragem
Discípulos : Xenofonte e Platão

PLATÃO
“ Teoria das idéias “ - “ teoria do conhecimento “
“ as coisas que percebemos não constituem a verdadeira realidade. Essas coisas
não passam de aparência, de reflexo, de cópias, de sombras da verdadeira
realidade. O real são as idéias das coisas. Estas são modelos imutáveis das
coisas sensíveis . Estão suspensas num céu intelectual ( tópos noetós : Lugar de
conhecimento ) “
Tudo encontra-se no “Mundo das Idéias” - “O Mito da Caverna “
Obras : A República / Críton / A apologia de Sócrates / Fédon / Fimeu /Fedro/
O Banquete.

ARISTÓTELES
O Mundo é composto por substâncias ( coisas subsistentes ) e de acidentes
( as qualidades, propriedades das coisas )“ as substâncias , aquilo que faz com
que as coisas sejam o que são, só são percebidas através de suas qualidades as
substâncias ou coisas, com respeito às mudanças, estão em ato ( realidades) ou
em potência ( em vias de transformar-se em outra coisa )”ex.: Uma semente , em
ato, é uma semente, mas em potência, poder ser uma árvore “
encadeamento - “o último motor “
Aristóteles fundou o Liceu
Sistematizador da lógica - Organon ( Livro )
Últimos lampejos da Filosofia Grega
Epicurismo : “a razão de viver seria o prazer “
“não devemos evitar os prazeres e sim escolhê-los “
O essencial era viver o melhor possível, cada momento da vida, sem
preocupações de outra ordem
- Ataraxia : o prazer máximo consistia na tranqüilidade, na paz de espírito e
harmonia consigo próprio
Estoicismo : Há uma lei universal, superior a tudo, os homens devem seguí-la.
Eram mais teóricos do que práticos
Zenão de Cítio ( fundador )
Marco Aurélio - Imperador romano foi o maior expoente
“ todas as coisas fazem parte de um único sistema que é a natureza . A vida
individual só é boa quando está em harmonia com a natureza “Ideal : Apatheia
( indiferença ante o inevitável) .
Cinismo : Procuravam alcançar a verdadeira liberdade
Diógenes ( fundador ) andou com uma vela acesa, ao meio-dia, em Atenas,
procurando um Homem.Dormia num barril e durante o dia ficava sentado ao sol.
Finalidade: chocar a sociedade convencional.

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“o caso de Alexandre, o grande “Se eu não fosse Alexandre gostaria de ser
Diógenes “
“ Conta-se que Alexandre, quando estava prestes a atacar a Pérsia, soube que o
filósofo se encontrava por perto, em Corinto, e resolveu fazer-lhe uma visita.
“Encontro-o num bosque de ciprestes, quase despido, morando num tonel.
Alexandre, ricamente vestido, chegou acompanhado de sua grande comitiva,
enquanto o filósofo, dentro do tonel, tomava seu banho de Sol. Vendo o cortejo
que se aproximava, nem se moveu. Alexandre, detendo-se, perguntou-lhe :
“Você sabe quem sou ? “ . Como Diógenes nada respondesse, acrescentou : “
Saiba que sou Alexandre ! “ Disse o filósofo, com indiferença : “ Eu sou Diógenes
“. - Você sabe que possuo um império e milhares de homens se curvam perante
mim ? - “Pois eu só tenho este tonel, senhor, e isso me basta . Quanto aos
homens, não creio neles; há muito que procuro um e não encontro.” Alexandre,
em vez de zangar-se, riu e disse: “ Agrada-me sua maneira de ser. Para provar o
quando simpatizei com você, quero satisfazer qualquer desejo seu. Que deseja” -
“ Desejo que o senhor se afaste um pouco para não me tomar o Sol ”. Com o
semblante sério, o rei disse aos que o acompanhavam : “ Se eu não fosse
Alexandre, gostaria de ser Diógenes “.

A Patrística
A partir do séc. II - filosofia dos padres da Igreja - Patrística
- esforço de converter os pagãos, combater as heresias e justificar a fé :
apologética.
- longa aliança entre fé e razão - durante toda a Idade Média - a razão é auxiliar
da fé e a ela subordinada. “Credo ut intelligam “ - “Creio para que possa entender
“ - Sto. Agostinho.
Padres recorreram à filosofia platônica
Principal nome da patrística = Santo Agostinho ( 354-430 )
- retoma a teoria de Platão referente ao mundo sensível e ao mundo das idéias e
substitui esse último pelas idéias divinas.

TEORIA DA ILUMINAÇÃO (Adaptação da teoria platônica ).


. “o homem recebe de Deus o conhecimento das verdades eternas : tal como o
sol, Deus ilumina a razão e torna possível o pensar correto “.

ESCOLÁSTICA
Desenvolve-se IX - XIII - Aliança entre a fé e a razão
A partir do séc. XI transformações - Surgimento das universidades.
Resgate do pensamento Aristotélico - Filosofia aristotélico-tomista
“as substâncias ou coisas, com respeito às mudanças, estão em ato ( realidades)
ou em potência ( em vias de transformar-se em outra coisa )” todos os elementos
que constituem o mundo em que vivemos passam por esse processo de
transformação. É uma reação em cadeia. Essa cadeia imensa está ligada à força
que dá a partida para tudo - O Último Motor
(Deus)

61
MITO E FILOSOFIA
Para os filósofos , a ordem do mundo deriva de forças opostas que se equilibram
reciprocamente, e a união dos opostos explica os fenômenos meteorológicos, as
estações do ano, o nascimento e a morte de tudo que vive Na passagem do mito à
razão, há continuidade no uso comum de certas estruturas de explicação.

Enquanto o mito é uma narrativa cujo conteúdo não se questiona, a filosofia


problematiza e convida à discussão
Enquanto no mito a inteligibilidade é dada, na filosofia ela é procurada
A filosofia rejeita o sobrenatural, a interferência de agentes divinos na explicação
dos fenômenos.
A filosofia busca a coerência interna, a definição rigorosa dos conceitos, o debate
e a discussão organiza-se em doutrina e surge, como pensamento abstrato.
Somente no século XVII as ciências encontram seu próprio método separando-se
da filosofia.

A Idade Moderna

A Teoria do Conhecimento

A separação entre fé a razão - leva ao desenvolvimento do método científico.


O antropocentrismo - a razão humana como fundamento do saber.
O interesse pelo saber ativo, em oposição ao saber contemplativo, que leva a
transformação da natureza e ao desenvolvimento das técnicas.
Primeiros representantes do pensamento renascentista

Ética e Política
Nicolau Maquiavel : O Príncipe

O poder do soberano
O Principe, de Maquiavel
O príncipe atormentou a humanidade durante quatro séculos. E continuará a
tormentá-la...” A frase refere-se à obra de Maquiavel que serviu de instrumento
teórico a muitos governantes autoritários e totalitários, do século XVI ao século XX
: àqueles que fizeram da “razão de Estado” o pretexto para sufocar liberdades
individuais de toda a sociedade.
Sobressaem-se em sua obra outras frases, que isoladamente , fora de contexto,
têm servido a ditadores diversos: “ O triunfo do mais forte é o fato essencial da
história humana”. “Todos os profetas armados venceram, desarmados arruinaram-
se”. “Desprezar a arte da guerra é o primeiro passo para a ruína, possuí-la
perfeitamente, eis o meio de elevar-se ao poder”.
Assim, “Maquiavel – nome próprio universalmente conhecido, que teria de formar
um substantivo, ‘maquiavelismo’ – e um adjetivo, ‘maquiavélico’ – evoca uma
época, a Renascença; uma nação, a Itália; uma cidade, Florença; enfim, o próprio
homem, o bom funcionário florentino que, na maior ingenuidade, na total
ignorância do estranho futuro, trazia o nome de Maquiavel, votado à reputação
mais ruidosa e equívoca”.

62
CHEVALIER , Jean-Jacques. As grandes obras políticas – de Maquiavel a
nossos dias. Rio de Janeiro, Agir,12980. p.48.
Thomas Hobbes : Leviatã*
Considerado por muitos o teórico que melhor definiu a ideologia absolutista,
articulou um sistema lógico e coerente para apresentar a necessidade do Estado
despótico.
O Estado - Entidade todo-poderosa que dominaria todos os cidadãos
“O Homem é o lobo do Homem”
“Os homens dotados de razão, do sentimento de autoconservação e de defesa
buscam superar esse estado natural de destruição unindo-se para formar uma
sociedade civil, mediante um contrato segundo o qual cada um cede seus direitos
ao soberano. Dessa forma, renuncia-se a todo direito de liberdade, nocivo à paz,
em benefício do Estado”
Século XVII - os pensadores do século XVII - abordagem nova
Colocação em questão da própria possibilidade do conhecimento
Deve-se indagar sobre o sujeito do conhecimento não o objeto
Quais as possibilidades de engano ou acerto ?
Quais os métodos que utilizaremos para garantir que o conhecimento seja
verdadeiro ?
Duas perguntas duas correntes filosóficas :
O empirismo
O racionalismo

O Racionalismo : Século XVII - René Descartes


“Existem erros e ilusões dos sentidos. Qual o fundamento do verdadeiro
conhecimento ?”
A dúvida como método de pensamento rigoroso:
- duvida de tudo que lhe chega através dos sentidos
- duvida de todas as idéias que se apresentam como verdadeiras
À medida que duvida descobre que mantém a capacidade de pensar: “Cogito,
ergo sum” ( Penso, logo existo ).Este “eu” cartesiano é puro pensamento.
No caminho da dúvida a realidade do corpo foi colocada em questão.
]
“Discurso sobre o método”
Descartes
- dois tipos de idéias :
1) inatas( que não estão sujeitas a erro - fundamento da ciência)
Já se encontram no espírito.São inatas , não no sentido de o homem já nascer
com elas, mas como resultantes exclusivas da capacidade de pensar. São idéias
confusas e duvidosas:“dentre as idéias inatas encontramos as de um Deus
Perfeito e Infinito” ( substância infinita ).
O ponto de partida de Descartes é o pensamento, abstraindo toda e qualquer
relação entre este e a realidade .Como passar do pensamento para a matéria dos
corpos ?
Pensamento - idéia de infinito que é Deus - ser perfeito - “para ser perfeito Deus
deve existir , senão lhe faltaria algo para ser perfeito. Portanto, ele existe”

63
Ser perfeito nos faz ter idéias sobre o mundo exterior e sensível.
Portanto a partir de uma idéia inata podemos deduzir a idéia da existência da
matéria dos corpos .O homem é um ser duplo - dualismo-psicofísico - composto
por: substância pensante - res cogitans , substância externa -
res extensa .A razão não afeta nem é afetada pelo objeto - razão só lida com as
representações ( imagens e conceitos ) que correspondem ao objeto exterior.
O método deve garantir:
. as coisas sejam representadas corretamente, sem risco de erro ;
. controle de todas as etapas das operações intelectuais ;
. possibilidade de serem feitas deduções que levem ao progresso do
conhecimento.
Acentua-se o caráter absoluto e universal da razão: só com suas forças pode
chegar a descobrir as verdades possíveis.
Antagonismo : o corpo é uma realidade física - sujeito às leis deterministas da
natureza fenômenos mentais - não têm extensão no espaço nem localização.
As principais atividades da mente são recordar, raciocinar, conhecer e querer;
portanto, não se submetem às leis físicas, mas são o lugar da liberdade
corpo - objeto de estudo da ciência
mente - objeto da reflexão filosófica

O Empirismo
John Locke - crítica ao racionalismo cartesiano - crítica à teoria das idéias
inatas.
“Ensaio sobre o entendimento humano “ : todas as idéias têm origem na
experiência sensível.
“ é a partir dos dados da experiência que o intelecto produz idéias”
“a razão humana é vista como uma folha em branco sobre a qual os objetos vão
deixar sua impressão sensível que será elaborada, através de certos
procedimentos mentais, em idéias particulares e idéias gerais “.
Para Locke todas as nossas idéias provêm de duas fontes : a sensação
a reflexão a sensação apreende impressões vindas do mundo externo a reflexão é
o ato pelo qual o espírito conhece suas próprias operações.
Locke : As idéias podem ser simples e complexas.
As idéias simples ,que se impõem à consciência na experiência sensível e são
irredutíveis à análise ao estabelecer relação entre as idéias simples , surgem as
idéias complexas.

David Hume

Leva mais adiante o empirismo de Locke.


A razão é o hábito de associar idéias, seja por semelhança, seja por diferença.
“O que observamos é a sucessão de fatos ou a seqüência de eventos, e não o
nexo causal entre esses mesmos fatos ou eventos. O que nos faz ultrapassar o
dado e afirmar mais do que pode ser alcançado pela experiência é o hábito criado
através da observação de casas semelhantes . A partir deles, imaginamos que o
fato atual se comportará de forma semelhante “ ;“a única base para as idéias

64
gerais é a crença, que, do ponto de vista do entendimento, faz uma extensão
ilegítima do conceito” .

Descartes : Justifica o poder da razão de perceber o mundo através de idéias


claras e distintas.

Locke : valoriza os sentidos e a experiência na elaboração do conhecimento.

Hume : levanta o problema da exterioridade das relações frente aos termos.

Criticismo kantiano - Immanuel Kant :


Preocupação em encontrar uma solução para a divisão estabelecida entre o
ceticismo empírico e o racionalismo.
Qual é o verdadeiro valor dos nossos conhecimentos e o que é conhecimento ?
Kant tenta estabelecer a análise crítica da própria razão como meio de estabelecer
seus limites e suas possibilidades.
É possível uma ”razão pura” independente da experiência ?

“CRíTICA DA RAZÃO PURA” criticismo


A razão é uma estrutura vazia, uma forma pura sem conteúdos -
- essa estrutura é inata - independe de experiência para existir
- a razão é anterior à experiência - a estrutura da razão é a priori
a priori - vem antes da experiência e não depende dela
Os conteúdos que a razão conhece e nos quais pensa dependem da experiência.
A experiência fornece a matéria ( os conteúdos) do conhecimento para a razão e
esta,, por sua vez, fornece a forma ( universal e necessária ) do conhecimento
A matéria do conhecimento, por ser fornecida pela experiência, vem depois desta
por isto é : a posteriori.
Qual o engano dos racionalistas ?
- Supor que os conteúdos ou a matéria do conhecimento são inatos. Não
existem idéias inatas.
Qual o engano dos empiristas ?
- Supor que a estrutura da razão é adquirida por experiência ou causada pela
experiência.
“ Na verdade, a experiência não é causa das idéias , mas é a ocasião para que a
razão, recebendo a matéria ou o conteúdo, formule as idéias”

O Iluminismo e o pensamento burguês:


O Antigo Regime – século XVII/XVIII - e suas características

Os valores da burguesia e a luta contra o antigo Regime


O Iluminismo - Razões = Luzes
Defesa da ordem natural e dos direitos naturais
John Locke e a defesa dos direitos naturais
“Todo homem nasce com os direitos naturais”
Direito à Liberdade
Direito à propriedade

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Direito à vida

LOCKE : Pai do Liberalismo político


“Segundo Tratado sobre o Governo Civil”
“A sociedade existe antes do Estado, quando o Estado se torna tirano a
sociedade deve pegar em armas e depor este Estado tirano”

Jean-Jacques Rousseau - O Contrato Social e Emilio


A fisiocracia e as críticas ao absolutismo
Turgot e Quesnay - Pais da Fisiocracia
De onde vem a riqueza ?
Terra = riqueza – Não intervenção do Estado
“Laissez faire , Laissez passe”
Lei da oferta e da procura
Pouco produto e muita procura o preço sobe
Muito produto e pouca procura o preço desce

NÃO AO CONTROLE DO ESTADO E SIM À ORDEM NATURAL DAS COISAS

Adam Smith - Breve biografia


Adam Smith nasceu em 1723 na Escócia. Era filho de um escocês que ocupou o
cargo de Juiz Defensor e Interventor de Alfândegas. Foi educado nas
Universidades de Glasgow e Oxford, chegando a ser em Glasgow, professor de
lógica e mais tarde de filosofia moral. Depois de treze anos de ensino acadêmico
viajou pela França durante dois anos como tutor do jovem Duque de Buccleuch de
quem recebeu uma pensão vitalícia o que lhe permitiu consagrar-se inteiramente
à tarefa de escrever.
Seu talento natural acoplado às suas experiências educacionais em Glasgow e
Oxford; seus contatos com grandes pensadores da época, tais como David
Hutcheson, além dos contatos com os fisiocratas, e da oportunidade de
observação pessoal da metrópole comercial de Glasgow, permitiram-lhe produzir o
grande trabalho criativo que é

A Riqueza das Nações.


A RIQUEZA DAS NAÇÕES
Trabalho publicado em 1776 e que levou 25 anos para ser concluído.
Funda a Escola de Economia Política Clássica. É com este trabalho que, pela
primeira vez a economia é vista como ciência. É com esta obra que Adam Smith
ganha o título de Pai do Liberalismo Econômico.
Primeira Etapa - Como é a Obra
Segunda Etapa - Comentários
Primeira Etapa :
A Riqueza das Nações está dividida em uma Introdução que estabelece o plano
do autor, cinco livros e um Apêndice.
O Livro I é : “Das Causas da Melhoria nos Poderes Produtivos da Mão-de-Obra,
e da Ordem de Acordo com a Qual o Produto é Naturalmente Distribuído entre as
Diferentes Categorias de Pessoas”

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Comentário : O Livro se inicia com a discussão de sua relação com a propensão
inata do homem à troca e com o processo de crescimento econômico.

O Livro II : “Da Natureza, Acumulação e Emprego de Estoque”


Comentário : Analisa as condicionantes e características da acumulação de
capital, que determinam a oferta de emprego produtivo e sua distribuição setorial,
e contém a maior parte da teoria monetária de Smith.

O Livro III : “Do Progresso Diferente em Diferentes Nações”


Comentário : contém uma síntese abrangente da evolução econômica da
Humanidade, muito influenciada pela longa História da Inglaterra do filósofo David
Hume e constitui, no contexto da obra, o teste empírico-histórico da teoria do
crescimento econômico apresentada anteriormente.
Estes três primeiros livros são principalmente uma apresentação de princípios
econômicos.

O Livro IV : “Dos Sistemas de Economia Política”


Comentário : Smith discute os fundamentos das políticas comercial e colonial
mercantilistas, de onde emerge sua crítica violenta ao sistema econômico do
Antigo Regime .

O Livro V : “Da Receita do Soberano ou da Comunidade”


Comentário : trata da política fiscal, analisando as políticas de gasto público, onde
desenvolve interessante discussão das vantagens e desvantagens da intervenção
do Estado em diferentes áreas de atividade.
Estes últimos dois livros levam Smith à área da economia política.
O HOMEM E A OBRA EM PERSPECTIVA HISTÓRICA , FILOSÓFICA E
PSICOLÓGICA.
Sabemos que Adam Smith, nesta obra, procura responder às inquietações do
período e identificar, a origem da Riqueza das Nações. Apóia-se nos fisiocratas,
porém, vai mais além , afirmando que a riqueza não está na terra,
necessariamente, e sim no trabalho.
Com este trabalho, Adam Smith estabelece uma conjugação de posturas
filosóficas e metodológicas das quais emergem duas concepções pioneiras e
revolucionárias.

A Primeira: é a análise dos fenômenos econômicos como manifestação de uma


ordem natural a eles subjacentes, governada por leis objetivas e inteligíveis
através de um sistema coordenado de relações causais.

A Segunda : é a doutrina segundo a qual essa ordem natural requer, para sua
operação eficiente, a maior liberdade individual possível na esfera das relações
econômicas, doutrina cujos fundamentos racionais são derivados de seu sistema
teórico, já que o interesse individual é visto por ele como a motivação fundamental
da divisão social do trabalho e da acumulação de capital, causas últimas do
crescimento do bem-estar coletivo.

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A Obra de Adam Smith tem influência de sua postura como filósofo e
principalmente de seu trabalho anterior à Riqueza das Nações que é a “Teoria
dos Sentimentos Morais”. O objetivo da filosofia moral é a felicidade humana e o
seu bem-estar, portanto esta não é apenas uma obra técnica sobre economia , é
muito mais do que isto, porque analisa em profundidade não só o mecanismo
natural da economia como a posição que o homem exerce dentro deste sistema.
O homem como elemento principal desta engrenagem.
Pois bem, de onde vem a Riqueza das Nações ? segundo Smith :
“a riqueza ou o bem estar das nações só pode ser identificado com seu produto
anual per capita que, dada sua constelação de recursos naturais, é determinado
pela produtividade do trabalho ”útil”ou produtivo.”
E diz mais :
“é o trabalho produtivo que leva ao processo de acumulação de capital gerando
uma pressão de demanda por mão-de-obra sobre o mercado de trabalho. Isto
provoca um crescimento concomitante dos salários e, a melhoria das condições
de vida dos trabalhadores e da população, ampliando o tamanho dos mercados
que, para um dado estoque de capital, é o determinante básico da extensão da
divisão do trabalho, iniciando-se assim, a espiral do crescimento.”
Seu toque genial decorre da percepção das conseqüências analíticas da
acelerada generalização dos métodos capitalistas de organização da produção, do
progressivo aumento da competição e da maior mobilidade de capital entre as
diferentes ocupações.
A Riqueza das Nações é o produto do desenvolvimento histórico do capitalismo e
da ação dos homens.
Para Adam Smith , então, ao contrário do que queriam os fisiocratas não é a
natureza mas o esforço humano que torna os bens disponíveis e como o homem
procura, a felicidade, ela somente será encontrada, quando ele perceber que
além de indivíduo, ele também é membro de uma família, de um Estado e da
grande sociedade que constitui a raça humana.
São os bens e não o ouro que constituem a riqueza de uma nação. Neste sentido
ele constata que sem os esforços cooperativos da mão-de-obra, nem a terra nem
o capital poderiam produzir o que quer que fosse. A esta constatação vem a
pergunta. De que modo podem ser aumentados os poderes produtivos do trabalho
?

Através da Divisão do Trabalho.


Os homens através da divisão do trabalho, podem produzir mais e portanto gerar
mais riqueza. Ex. fabricantes de Alfinetes
Um homem sozinho no máximo poderá produzir 20 alfinetes por dia, devido o
trabalho e o tempo que gasta para ir de uma etapa a outra, de modo que se
tivermos 10 trabalhadores numa fábrica ligados pela divisão do trabalho ,
produzirão 48.000 alfinetes por dia o que equivaleria a dizer uma produção de
4.800 cada um.
Adam Smith diz que a divisão do trabalho não é uma constatação necessária do
sistema capitalista pois ela surge espontaneamente.

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“ a divisão de trabalho surgiu espontaneamente e é uma conseqüência da
propensão a permutar que só é encontrada no homem e não é senão expressão
de seu comportamento de auto-interesse”
O auto interesse , então, é o motivo que naturalmente impele os homens, desde
que nascem até que morram. O homem carrega consigo a característica de
melhorar.
Estas palavras são importantes como indicadores da defesa da iniciativa privada.
Só a característica de melhorar, que é natural no homem, permite a ele lançar-se
a novos desafios.
“Somente trocando seus excedentes com outros é que ele pode adquirir todos os
bens de que necessita, e para servir a seus próprios interesses apela para o auto-
interesse dos demais seres humanos”. Já que é por tratado, escambo e por
aquisição que obtemos uns dos outros a maior parte desses bons ofícios mútuos
de que necessitamos, é essa mesma disposição para permutar que originalmente
dá ensejo à divisão do trabalho e a iniciativa privada.
Todas estas ações humanas, segundo Adam Smith, estão relacionadas, já que o
homem pertence à natureza, a uma ordem natural das coisas, ao que ele chama
de “bondade suprema da ordem natural”
“ Todos os interesses econômicos que o indivíduo busca são geralmente
adquiridos no decurso de sua experiência social. Portanto não cabe ao Estado e
sim aos indivíduos, livres, daí a defesa da Livre iniciativa, juntos, seguindo esta
ordem natural criar condições de riqueza e de vida.”
É no centro deste sistema que está o indivíduo, que deve seguir seus próprios
interesses, ao mesmo tempo em que promove o bem estar da sociedade como um
todo, porque assim é o caráter da ordem natural, que é um fato.
Dentro do enfoque da ordem natural, é que se gesta uma variedade de instituições
econômicas benéficas. Entre elas estão a divisão do trabalho, o desenvolvimento
da moeda, o crescimento da poupança e do investimento de capital, o
desenvolvimento do comércio exterior e o ajustamento mútuo da procura e da
oferta. Estas e outras instituições são o resultado do comportamento de auto-
interesse do homem e funcionam no benefício da sociedade como um todo.
Encontramos, então, em A Riqueza das Nações uma noção muito clara de auto-
amor e auto-interesse.
Adam Smith ainda assinala que “a uma organização social inteligente cabe
apenas agir e o quanto possível em harmonia com os ditames da ordem natural”
A felicidade a que o homem busca estará sempre relacionada à virtude e esta
virtude está centrada no trabalho do homem e no respeito à ordem natural.
Na Idade Média a Igreja dizia que a felicidade nada tinha a ver com a virtude e que
a única virtude do homem encontrava-se na abnegação. Combatendo este
conceito Adam Smith nos mostra o contrário que a virtude encontra-se no
trabalho, na liderança e no empreendimento.
Conclusão
Como conclusão podemos reconhecer a seguinte postura nas teorias de Adam
Smith :
Segundo ele seis motivos determinam , de um modo natural, a conduta humana :
o amor de si mesmo, a simpatia, o desejo de ser livre, o sentimento da
propriedade, o hábito do trabalho e a tendência para trocar, permutar e substituir

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uma coisa pela outra. Cada homem, dados estes móveis da conduta, é por
natureza, o melhor juiz de seu próprio interesse, e , pois, se lhe deveria dar
liberdade para, à sua maneira, procurar seus interesse. Não só, deixando-o à sua
sorte, obteria o máximo de satisfação, como aumentaria o bem-estar comum .
Adam Smith enfatiza que os diferentes móveis da conduta humana equilibram-se
de tal modo que o bem de um não estará em conflito com o bem de todos.
Outros móveis, sobretudo o da simpatia, acompanham o amor de si mesmo, como
resultado de que a vantagem dos outros não deixa de estar ligada à vantagem
própria.
A fé que Adam Smith tinha no equilíbrio natural dos móveis do homem foi o que o
levou a fazer a célebre declaração de que ao procurar seu próprio benefício, “uma
mão invisível o conduziria a favorecer um fim que não entrava no seu propósito,
ou seja, quando o homem é livre e procura o máximo de vantagem pessoal,
impulsionado pela lei natural, está contribuindo para elevar ao máximo o bem
comum.

O CONHECIMENTO CIENTÍFICO
O Senso comum
O senso comum é o conhecimento de todos nós.
É o saber resultante das experiências vividas e a soma dos saberes herdados.
O Senso comum , enquanto conhecimento espontâneo é :
ametódico
assistemático
empírico
ingênuo
presa das aparências
fragmentário
particular
subjetivo
O Conhecimento comum é presa fácil do “saber ilusório”
É possível transformar o senso comum em bom senso simplesmente tornando-o
estruturado, coerente e crítico.
O conhecimento científico
Sócrates: buscava a definição dos conceitos para atingir a essência das coisas
Platão : mostrava o caminho que a educação do sábio devia percorrer para ir da
opinião à ciência
A ciência moderna nasce ao determinar um objeto específico de investigação e ao
criar um método pelo qual se fará o controle desse conhecimento.
A utilização de métodos rigorosos permite que a ciência atinja um tipo de
conhecimento sistemático, preciso e objetivo.
Cada ciência se torna uma ciência particular ( fenômenos ) e geral ( conclusões)
O mundo constituído pela ciência aspira a objetividade : as conclusões podem
ser verificadas por qualquer membro da comunidade científica. Por isso procura
despojar-se do emotivo.
“ Merleau Ponty : A ciência explica o mundo, mas se recusa a habitá-lo “
A ciência amplia o conhecimento mas o reduz pois o cientista remove toda a
experiência individual que caracterizaria o “estar-no-mundo “

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Precisão e objetividade : utilização da matemática para transformar qualidade em
quantidade. Galileu
O uso de instrumentos torna a ciência mais rigorosa, precisa e objetiva
É preciso retirar do conceito de ciência a falsa idéia de que ela é a única
explicação da realidade e se trata de um conhecimento “certo” e “infalível”.
Física e demais ciências da natureza : matematizáveis
Ciências Humanas : Psicanálise : avessa a qualquer forma de experimentação ou
matematização
Ciência e Poder
As ciências da natureza, organizadas como foram, a partir da Idade
Moderna possibilitam ao homem maior previsibilidade dos fenômenos e maior
poder de transformação da natureza.
Ciência e técnica = tecnologia ( técnica enriquecida pelo saber científico )
“ No entanto, o poder da ciência e da tecnologia é ambíguo, porque pode estar a
serviço do homem ou contra ele. Daí a necessidade de o trabalho do cientista e do
técnico ser acompanhado por reflexões de caráter moral e político, a fim de que
sejam questionados os fins a que se destinam os meios utilizados pelo homem: se
servem ao
crescimento espiritual ou se o degradam, se servem à liberdade ou às formas de
dominação.
Por isso é impossível admitir a existência do trabalho científico neutro. “

Os mitos da ciência

Iluministas : “pela ciência o homem pode espantar o medo causado pela


ignorância e superstição, guardando a esperança de um mundo melhor
iluminado pelas luzes da razão” .
Positivistas : “o único valor valido é o conhecimento cientifico outras formas de
abordagem do real, como mitos, religiões e até a filosofia são
expressões inferiores e superadas da experiência humana.”
Na medida em que o positivismo reduz tudo ao racional ele cria mitos:

O mito do cientificismo : o único conhecimento válido e perfeito é o científico

O mito do progresso : o progresso é explicado como um fenômeno


linear, cuja tendência automática é o aperfeiçoamento humano.

O mito da tecnocracia : “passamos a viver num mundo onde a palavra definitiva


somente pode ser dada pelos técnicos”.

O saber derivado da ciência passa a ser o único a ter autoridade :


portanto o poder pertence a quem possui o saber.
O mito do especialista: apenas certas pessoas tem competência em
determinados setores específicos.
Conclusão : “ Se há um discurso competente, em contraposição, há
incompetentes ( que somos nós...), cujo não-saber supõe a aceitação passiva do
discurso do saber. Caberia à teoria o papel de comando sobre a prática

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dos homens: a teoria manda porque possui as idéias, e a prática
obedece porque é ignorante... Com essa relação hierárquica, perde-se a
dialética entre a teoria e a práxis “.
A ciência e a tecnologia, mesmo que sejam expressões da racionalidade,
produzem contraditoriamente efeitos irracionais, perversos, já que a razão é posta
a serviço da
destruição da natureza, da alienação humana e da dominação.

Qual é o papel da filosofia ?


A ciência não é capaz de investigar seus próprios fundamentos, portanto:
Cabe à filosofia discutir a respeito dos conceitos, das validades dos métodos, do
valor das conclusões, bem como da concepção de homem subjacente a cada
ciência.
Estabelecer a interdisciplinaridade entre os diversos campos do saber .
Recolocar o problema da unidade do saber .
A fragmentação leva o homem a estar ausente da ciência.
A filosofia tem compromisso com a investigação a propósito dos fins e das
prioridades a que a ciência se propõe, bem como a análise das condições em que
se realizam as pesquisas e as conseqüências das técnicas utilizadas.
A análise crítica denuncia o escamoteamento do homem e aponta as
possibilidades dos vários caminhos a buscar e a seguir.

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