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PERFIL MICROBIOLÓGICO DO EXTRATO ALCOÓLICO DE PRÓPOLIS

MANTIDO EM DUAS TEMPERATURAS DE ARMAZENAMENTO

MICROBIOLOGICAL PROFILE OF ETHANOLIC EXTRACT OF


PROPOLIS MAINTAINED ON THE TWO TEMPERATURES OF STORE
Edgar Toshiyuki Kawakita, Edison Antônio de Souza, Guilherme Suzigan Leis, Natália Yumi
Ikeda, Silvia Maria Alves Gomes, Ricardo de Oliveira Orsi – Campus de Botucatu – Faculdade de
Medicina Veterinária e Zootecnia – edgarteo_1@hotmail.com - FAPESP

Palavras-chave: própolis, qualidade, vida-útil


Key-words: propolis, quality, shelf-life

1. INTRODUÇÃO
Dentre os produtos das abelhas, a própolis tem atraído a atenção de muitos pesquisadores, no
sentido de elucidar suas propriedades terapêuticas e farmacológicas. Além disso, sua
comercialização tem sido realizada intensamente nos últimos anos, sendo empregada
principalmente na indústria farmacêutica.
Atualmente, a própolis está sendo utilizada na indústria farmacêutica e alimentícia na forma
de alimentos funcionais (Park et al., 1998). O homem tem utilizado a própolis para fins medicinais,
por esta apresentar propriedades biológicas como antimicrobianas, antioxidantes, antiinflamatória,
imunomodulatória, hipotensiva, cicatrizante, anestésica, anticâncer, anti-HIV, anticariogênica,
dentre outras (Castro, 2001; Orsi et al., 2006).
Vitali (2002) define vida útil de um alimento como sendo o tempo em que ele pode ser
conservado em determinadas condições de temperatura, umidade relativa, luz e embalagem
sofrendo pequenas, mas bem estabelecidas, alterações que são consideradas aceitáveis pelo
fabricante, pelo consumidor e pela legislação alimentar vigente.
Com relação ao extrato alcoólico de própolis, não se tem conhecimento sobre o tempo ideal
de armazenamento, bem como a melhor temperatura para se preservar a qualidade do extrato,
ficando o consumidor exposto ao consumo de um produto que pode não apresentar mais as
atividades biológicas desejadas.

2. OBJETIVOS
Diante do exposto, os objetivos do presente estudo foram avaliar a vida útil do extrato
alcoólico de própolis, em função da temperatura e tempo de armazenamento, por meio da atividade
antibacteriana contra Staphylococcus aureus e Escherichia coli.

3. MATERIAIS E METODOLOGIA
A própolis foi produzida em colméias de abelhas Apis mellifera africanizadas, alojadas em
colméias modelo Langstroth, através da técnica do coletor de própolis inteligente (CPI), que
consiste na colocação de sarrafos móveis nas laterais de uma melgueira (Lima, 2005). A própolis
coletada foi armazenada em freezer para o preparo dos extratos alcoólicos e inicio dos
experimentos.
O presente estudo foi realizado no apiário da Área de Produção de Apicultura da Faculdade
de Medicina Veterinária e Zootecnia, Campus de Botucatu, Estado de São Paulo.
A amostra de própolis foi triturada e solução alcoólica de própolis preparada na proporção
de 30% (30 g de própolis, completando o volume para 100 mL com álcool etílico 70%). A solução
permaneceu ao abrigo da luz, sob agitação freqüente, durante 7 dias. Decorrido este período, foi
filtrada (Orsi et al., 2000).

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Após o preparo do EAP, este foi dividido em 32 alíquotas de 50 mL cada e colocados em
frascos de vidro âmbar.
As alíquotas estão sendo mantidas em duas temperaturas (ambiente e 12oC) e analisados em
12 períodos (zero, 30, 60, 90, 120, 150, 180 e 210 dias). Foram mantidas duas alíquotas para cada
temperatura de armazenamento. Os dados de temperatura ambiente foram solicitados ao
Departamento de Ciências Ambientais da Faculdade de Ciências Agronômicas, UNESP, Botucatu.
Para as análises, as alíquotas foram coletadas de forma aleatória, sendo um frasco por
temperatura de armazenamento.
Para a avaliação da atividade biológica dos EAP foram utilizados dois microorganismos:
bactéria Gram positiva Staphylococcus aureus e bactéria Gram negativa Escherichia coli, ambas
linhagem padrão (ATCC). A sensibilidade dos microrganismos aos extratos alcoólicos de própolis
foi determinada segundo a técnica da diluição em caldo, seguida de semeadura em meio sólido para
a determinação da concentração inibitória bactericida (CIB).
As linhagens bacterianas foram inoculadas em meio de cultura Infusão de cérebro e coração
(BHI), com posterior incubação por 24 horas a 370C. Decorrido este período de tempo, a
concentração de unidades formadoras de colônias por mililitro (UFC/mL) foi ajustada de acordo
com a escala 0,5 de MacFarland (1,5 x 108 UFC/mL), seguido de diluição para obtenção da
concentração final do inóculo em 1,0 x 106 UFC/mL.
Tubos contendo 2,5 mL de BHI receberam diluições seriadas de EAP e, em seguida, 20 µL
da suspensão da linhagem bacteriana será adicionada (1,0 x 106 UFC/mL em cada tubo). Os tubos
foram incubados a 370 C por 24 horas. Após este período, foi realizada a semeadura das suspensões
em placa de Petri contendo o meio Mueller Hinton ágar, sendo os resultados registrados após 24
horas de incubação a 37°C, para obtenção da CIB.
Para verificar um possível efeito do etanol 70% - veículo utilizado como solvente no preparo
dos extratos, foram realizados ensaios para a obtenção de sua CIM.
Os resultados foram analisados por Análise de Variância (ANOVA), seguida do teste de
Tukey para comparações múltiplas. Foi considerado como estatisticamente diferentes quando
p<0,05 (Zar, 1996).

V. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os testes microbiológicos demonstraram que os EAP apresentaram atividade biológica,
promovendo inibição do crescimento de Staphylococcos aureus, independente da temperatura de
armazenamento. Verificou-se ainda que não houve diferença estatística ao longo do período de
tempo estudado para ambas temperaturas (Tabela 1).
Meresta e Meresta (1985) examinaram a sensibilidade de Staphylococcus sp ao EAP,
observando alta sensibilidade. Park et al. (2000) também observaram atividade biológica da
própolis contra Staphylococoos aureus utilizando a metodologia de difusão em meio ágar. Da
mesma forma Seidel et al. (2008) constataram a susceptibilidade de Staphylococoos aureus a
própolis.
Com relação à Escherichia coli também não foram observadas alterações significativas na
atividade antibacteriana do EAP, independente da temperatura de armazenamento e período de
tempo estudado (Tabela 2).
Fernandes Jr et al. (2006) relatam concentração inibitória mínima para Escherichia coli de
7,0%, 8,2% e 8,5% v/v respectivamente, para as amostras de Urubici no Estado de Santa Catarina,
Mossoró no Rio Grande Norte e Botucatu no Estado de São Paulo. Da mesma forma, outros autores
evidenciaram o efeito do EAP sobre Escherichia coli (Fangio et al., 2007; Mohammadzadeh et al.,
2007)
Inúmeros pesquisadores têm estudado a propriedade antimicrobiana da própolis,
evidenciando sua eficiente ação contra bactérias Gram-positivas e limitada atividade contra
bactérias Gram-negativas (Sforcin et al., 2000). Neste trabalho, verificou-se menor susceptibilidade
da Escherichia coli ao EAP, estando os resultados condizentes com a literatura.

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Para verificar um possível efeito do etanol 70% - veículo utilizado como solvente no preparo
dos extratos, foram realizados experimentos contra ambas as linhagens bacterianas estudadas. Pode-
se verificar que o etanol 70% inibiu o crescimento tanto de Staphylococcos aureus quanto
Escherichia coli. Entretanto, esta inibição foi significativamente menor que a observada com os
EAPs, sugerindo que a atividade antibacteriana apresentada pelos extratos de própolis é devida aos
componentes do apiterápico.

TABELA 1: Concentração inibitória bactericida (CIB) do extrato alcoólico de própolis submetido a


duas temperaturas de armazenamento (ambiente e 120C), durante o período de
setembro de 2008 a abril de 2009 e Etanol 70% contra Staphylococcos aureus. Os
dados representam a média seguida do respectivo desvio-padrão.
Concentração Inibitória Mínima
0 30 60 90 120 150 180 210
EAP 13,7±0,6 14,3±0,6 14,3±0,6 14,3±0,6 14,7±0,6 14,7±0,6 14,3±0,6 14,3±0,6
Ambiente aA aA aA aA aA aA aA aA
EAP 14,3±0,6 14,3±0,6 14,7±0,6 14,3±0,6 14,7±0,6 14,3±0,6 14,3±0,6 14,3±0,6
120C aA aA aA aA aA aA aA aA
Etanol 17,3±0,6 17,7±0,6 18,3±0,6 17,7±0,6 17,7±0,6 18,0±0,0 17,7±0,6 18,3±0,6
70% aB aB aB aB aB aB aB aB
Letras minúsculas diferentes, na mesma linha, indicam diferença estatística entre as médias (P<0,05).
Letras maiúsculas diferentes, na mesma coluna, indicam diferença estatística entre as médias (P<0,05).

TABELA 2: Concentração inibitória bactericida (CIB) do extrato alcoólico de própolis submetido a


duas temperaturas de armazenamento (ambiente e 120C), durante o período de
setembro de 2008 a abril de 2009 e Etanol 70% contra Escherichia coli. Os dados
representam a média seguida do respectivo desvio-padrão.
Concentração Inibitória Mínima
0 30 60 90 120 150 180 210
EAP 5,7±0,6 5,3±0,6 5,3±0,6 5,3±0,6 5,7±0,6 5,7±0,6 5,3±0,6 5,3±0,6
Ambiente aA aA aA aA aA aA aA aA
0
EAP 12 C 5,3±0,6 5,3±0,6 5,7±0,6 5,3±0,6 5,7±0,6 5,3±0,6 5,3±0,6 5,3±0,6
aA aA aA aA aA aA aA aA
Etanol 8,3±0,6 8,7±0,6 8,3±0,6 8,7±0,6 8,7±0,6 8,0±0,0 8,7±0,6 8,3±0,6
70% aB aB aB aB aB aB aB aB
Letras minúsculas diferentes, na mesma linha, indicam diferença estatística entre as médias (P<0,05).
Letras maiúsculas diferentes, na mesma coluna, indicam diferença estatística entre as médias (P<0,05)

5. CONCLUSÕES
De acordo com os resultados obtidos, pode-se constatar que a atividade antibacteriana do
extrato alcoólico de própolis, contra Staphylococcos aureus e Escherichia coli, não sofreu
influência do tempo e temperatura de armazenamento.

Referências Bibliográficas
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