Você está na página 1de 3

De toda a obra de Nietzsche, Assim falou Zaratustra é provavelmente o livro mais

importante, o mais célebre e o mais surpreende. Sua forma poética seduz mais
desconcerta, envolve mas desorienta e, muitas vezes, o leitor não passa de um primeiro
contato. Assim, de uma leitura incompleta, colhem-se aleatoriamente alguns aforismos,
algumas frases de efeito, que isolados de seu contexto podem suscitar grandes enganos.

Assim falou Zaratustra surpreende sempre e muitas vezes desanima o leitor.


Surpreende, independentemente de sua forma poética muito particular, pois não se
vê bem, ao primeiro contato, o que significam exatamente as aventuras desse personagem
e suas pretensas profecias. Ainda que se perceba um sentido, como este não parece
apresentar, de imediato, nenhum interesse filosófico evidente, adivinha-se que o respeito
dos especialistas, que não poderia ser puro esnobismo, deve referir-se a um outro sentido,
que, mais profundo, escapa totalmente ao não iniciado. Às vezes, a poesia seduz, mas é
muito desconcertante – e muito difícil de ser recuperada pela tradução. Assim, na maioria
das vezes e na melhor das hipóteses, colhem-se aqui e ali algumas fórmulas que agradam,
alguns aforismos particulares bem achados, mas, em geral, fica-se perplexo. Perplexo e
logo desanimado, o que é mais grava, e o livro “cai das mãos” de mais um leitor, mesmo
entre os mais bem-intencionados e mais dispostos a se deixarem seduzir.

Comentado por: HÉBER-SUFFRIN, Pierre: O Zaratustra de Nietzsche.Tradução de


Lucy Guimarães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor . 1999.

Na obra de Nietzsche, Zaratustra ocupa uma posição ímpar, quanto ao conteúdo e


quanto à problemática, sendo que se afasta de uma “metafísica de artista”, que o
orientava desde o Nascimento da Tragédia, e que o ligava a Wagner e Schopenhauer.
Com Zaratustra ele, o filósofo bufão, atinge a maturidade, no sentido em que aparecem
neste livro pela primeira vez, ou são dessa época, os temas mais singulares, mais
originais, de sua filosofia. Assim, Zaratustra é a mais livre de suas produções, conforme
carta a seu amigo Peter Gast, redigida pelo filósofo Nietzsche. Com Zaratustra, começa o
terceiro período, definitivo na obra de Nietzsche. Depois de um início romântico,
analisando o papel da tragédia na obra dos gregos, depois da reação científico-
desmistificadora, já presentes na obra Aurora e A Gaia Ciência, onde há um dissecar da
ciência e suas relações com o poder, Nietzsche parte a um itinerário onde encontra sua
verdadeira natureza, esclarece suas idéias fundamentais e decisivas, desmistificando
assim, sua própria linguagem e seus próprios pensamentos. Esta obra marca a maturidade
de pensamento do filósofo poeta. Mas a posição ímpar da obra está sobretudo em
pretender realizar a adequação entre o conteúdo e expressão, o que faz dela uma obra de
filosofia e, ao mesmo tempo, uma obra de arte, como um canto (ou mesmo um ditirambo
dionisíaco), que Nietzsche não cantou em seu primeiro livro, e que permite considerá-lo o
ápice de sua filosofia trágica (iniciada em O Nascimento da Tragédia).

A singularidade artística da obra, já comentada por Deleuze, que considerava o


autor de Zaratustra como um homem de teatro, no sentido de que introduziu o teatro na
filosofia e com este, novos meios de expressão que transformaram o pensamento
filosófico do século XX. E neste contexto, os temas nietzschianos da vontade de potência
e eterno retorno adentram as páginas da obra, no formato metafórico-teatral. Esta
linguagem estilística da obra se manifesta de duas maneiras, sendo pelo deslocamento de
uma linguagem conceitual científica – e o objetivo do filósofo era revolucionar a mesma,
não escrever na linguagem padrão de sua época, mas romper com um ciclo herdado dos
racionalistas e iluministas – para uma linguagem artística, ou mais adequadamente, uma
linguagem poética, e, outrossim, pelo deslocamento de uma linguagem sistemática,
argumentativa, cartesiana, sempre pressupondo uma teoria, característica da herança
filosófica hermética herdada em sua totalidade por Nietzsche, que promove sua
revolução, para uma linguagem construída de forma narrativa e dramática, fazendo da
filosofia uma obra poética.

Mas nesta obra, não está implícito o interesse do filósofo de renovar ou modificar
os conceitos da filosofia, seu objetivo principal do ponto de vista da forma de expressão,
é libertar a palavra da universalidade do conceito, construindo um pensamento filosófico
através da palavra poética, mais do que, como nas outras obras, através do uso do
aforismo, do fragmento ou mesmo do ensaio. Nietzsche mesmo se orgulhava, pois
através de aforismos conseguia comunicar o que muitos não conseguiam em um volume
inteiro.

Comentado por: MACHADO, Roberto: Zaratustra, tragédia Nietzschiana. 2ª ed. Rio de


Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.

Acerca de uma primeira leitura do Zaratustra, não orientamos, pois é preciso


traçar um pequeno roteiro para ler Nietzsche, conforme quer seu principal tradutor no
Brasil, Paulo César de Souza, que se referia a um não exagero afirmar que a obra total do
filósofo pode ser considerada uma obra-prima ou “a mais fascinante produção filosófica
ou crítico-poética de nosso tempo” no dizer de Thomas Mann, sendo o Zaratustra, o ápice
artístico. Ideal é que o corajoso leitor inicie-se por sua biografia, a biografia de Nietzsche
por ele mesmo, Ecce Homo, percorra as obras de cunho científico e moral, como Aurora,
A Gaia Ciência, Além do Bem e do Mal e Genealogia da Moral, respectivamente, para só
após desaguar, como um rio no oceano, em Zaratustra. Necessário se faz a leitura de
alguma biografia de Nietzsche, como adendo a esta aventura literária. Zaratustra deve ser
lido por último, pois a compreensão desta obra, cheia de parábolas, com uma linguagem
altamente metafórica e simbólica, necessita do “beber” em outras obras, o conhecimento
das demais obras. Existe, como auxilio, toda uma bibliografia secundária para ler
Nietzsche, de autores que se enforcaram em desmistificar ou mesmo explicar o
Zaratustra, sendo várias as introduções a Nietzsche, como também ao Zaratustra.

É preciso, contudo, tomar cuidado com as traduções, pois Nietzsche foi muito mal
traduzido para o português. As traduções da Companhia das Letras, que têm em Paulo
César de Souza, um especialista em tradução – ou em problemas de tradução do alemão
para nossa língua, é um fiel na balança, mas ainda não encontramos no mercado a obra
Zaratustra traduzida por este especialista. Traduções sugeridas pelo doutor são as de
Rubens Rodrigues Torres Filho, na coleção Os Pensadores, nesta infelizmente há alguns
extratos do Zaratustra, assim como a de Mário da Silva, que traduziu a obra na integra,
pela Bertrand Brasil. Para quem lê inglês, as traduções de R. J. Hollingdale, e do
americano Walter Kaufmann são formidáveis, assim como as da Gallimard, para que se
aventura em traduções francesas. E da Alianza, para os fies ao espanhol, todas de bom
nível.