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O desenvolvimento das funções psicológicas superiores: O ponto de vista de Vigotsky - PEPA

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A obra de Vigotsky, realizada na União Soviética entre a metade da década de 20 e a metade da década de 30, apesar de a termos conhecido inicialmente por meio dos aspectos parciais no âmbito psicoevolutivo ou da psicologia da linguagem, representa, no fundo, um projeto global ambicioso de estruturação de uma psicologia capaz de empreender o estudo da consciência 'humana de maneira objetiva e científica.
A obra de Vigotsky, realizada na União Soviética entre a metade da década de 20 e a metade da década de 30, apesar de a termos conhecido inicialmente por meio dos aspectos parciais no âmbito psicoevolutivo ou da psicologia da linguagem, representa, no fundo, um projeto global ambicioso de estruturação de uma psicologia capaz de empreender o estudo da consciência 'humana de maneira objetiva e científica.

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Published by: José Hiroshi Taniguti on Mar 06, 2011
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O desenvolvimento das funções psicológicas superiores: O ponto de vista de Vigotsky.

In: SALVADOR, César Coll (org.) Psicologia da educação. Cap 9. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995, p. 105-110

A obra de Vigotsky, realizada na União Soviética entre a metade da década de 20 e a metade da década de 30, apesar de a termos conhecido inicialmente por meio dos aspectos parciais no âmbito psicoevolutivo ou da psicologia da linguagem, representa, no fundo, um projeto global ambicioso de estruturação de uma psicologia capaz de empreender o estudo da consciência 'humana de maneira objetiva e científica. Atividade 10 Como no caso da teoria genética, é muito provável que você conheça as proposições gerais de Vigotsky ou alguns dos seus aspectos. Tente lembrar-se de tais proposições e tome nota das suas idéias, especialmente das que aludem aos fatores que o autor valoriza como responsáveis pelo desenvolvimento e também ao papel que atribui à educação nesse processo. Este projeto nasce com o propósito de superar o que Vigotsky entendia como uma situação de crise da psicologia da sua época: o rompimento entre, por um lado, uma psicologia natural e causal, centrada no estudo de processos psicológicos elementares comuns essencialmente ao homem e a outras espécies animais - e baseada na utilização de uma metodologia experimental homologável a outras disciplinas científicas; por outro lado, uma psicologia fenomenológica e hermenêutica, centrada no estudo dos processos psicológicos mais típicos e caracteristicamente humanos, porém ao custo da renúncia à explicação causal dos fenômenos e ao uso de uma metodologia científica. Por isso, o problema apresentado por Vigotsky é a construção de uma aproximação conceituai e metodológica capaz de abordar, por meio de uma metodologia estritamente científica, o estudo das funções psicológicas específicas ao homem, isto é, o estudo da consciência. O ponto de partida da problemática vigotskiana é, em certo sentido, contrário ao que adota Piaget: segundo Piaget, a questão é a relação e a continuidade entre as propriedades da vida orgânica e as propriedades da cognição humana; segundo Vigotsky, a questão, ao contrário, é a explicação daquilo que é especifico dos humanos, isto é, do que não é redutível a processos de caráter inferior ou mais elementar. O ponto de partida da problemática vigotskiana é, em certo sentido, contrário ao que adota Piaget: segundo Piaget, a questão é a relação e a continuidade entre as propriedades da vida orgânica e as propriedades da cognição humana; segundo Vigotsky, a questão, ao contrário, é a explicação daquilo que é especifico dos humanos, isto é, do que não é redutível a processos de caráter inferior ou mais elementar.

De acordo com Wertsch (1988), é possível estruturar o núcleo de propostas que Vigotsky sugere como uma base para o estudo objetivo da consciência em tomo de três idéias fundamentais:
a) a adoção de um método genético ou evolutivo como um eixo básico para o estudo das questões psicológicas; b) a tese de que os processos psicológicos superiores têm uma origem social; e. c) a afirmação do caráter mediado pêlos instrumentos desses processos. Quanto à primeira ideia, Vigotsky afirma que os processos psicológicos superiores somente podem ser compreendidos e explicados se estudarmos a sua gênese e o seu desenvolvimento. Isso ocorre na medida em que compreende a mudança como algo consubstanciai com os processos e sistemas psicológicos e que pretende ir mais além da sua descrição para compreender as relações causais dinâmicas que a originam. De acordo com Vigotsky, o estudo da gênese e do desenvolvimento dos fenômenos psicológicos não pode ficar limitado exclusivamente ao âmbito ontogênico; ao contrário, deve ser estendido também a outros domínios genéticos, como, por exemplo, (à evolução da espécie a filogênese), à evolução sociocultural e ao âmbito da microgênese. Em relação à segunda idéia, Vigotsky postula o caráter primogênito da dimensão social e cultural da consciência e o caráter derivado e secundário da sua dimensão individual. Dito de outra maneira, Vigotsky indica que todos os processos psicológicos superiores aparecem inicialmente no âmbito das relações sociais e sob forma de processos interpsicológicos ou intermentais (regulados e controlados mediante a interação social com outras pessoas) e que, até um momento posterior em que se transformam em processos individuais, não podem ser efetuados no plano intrapsicológico ou intramental (regulados e controlados a partir do interior do indivíduo). A justificativa da tese da origem social dos processos psicológicos superiores origina-se, segundo Vigotsky, na terceira das idéias que destacamos, isto é, no caráter mediado pêlos instrumentos desses processos (ver o texto da margem). Partindo dessa afirmação, podemos dizer que a relação do ser humano com o meio sempre é uma relação ativa e transformadora. Tal relação é possível graças ao uso de instrumentos intermediários, pêlos quais, nas palavras deste autor, a atividade humana define-se essencialmente como uma atividade instrumental. A partir do ponto de vista de Vigotsky,ou só de sistemas de signos que servem de mediadores é precisamente o que origina a emergência dos processos psicológicos superiores tipicamente humanos.
É preciso recordar que... ... a obra de Vigotsky, em função de sua morte prematura e das circunstancia» históricas às quais a sua obra esteve submetida posteriormente no seu país, é, essencialmente, uma obra inacabado, mas é uma teoria completa e bem* elaborada. As suas idéias e hipóteses continuam sendo desenvolvidas atualmente; portanto, basearemo-nos na proposta de Wertsch, um dos autores contemporâneo que mais tem contribuído a divulgação e à explanação das teses vigotskianas entre os psicólogos ocidentais para poder organizar a nossa exposição nesse ponto. Os instrumentos.,.

... que caracterizam a atividade humana podem ser do tipo físico (as ferramenta» quê possibilitam que modifiquemos o ambiente) ou do tipo psicológico (os signos ou os sistemas de signos, a linguagem, concretamente, além de outros, como, por exemplo, os sistemas numéricos, os sistemas de representação gráfica e. em geral, todo tipo de sistema convencional).

Por quê? Porque os signos possuem a capacidade específica de "inverter a ação" (Vigotsky, 1979, p. 70), ou seja, de modificar a mente, voltando a apresentar os estímulos, ordenando e colocando de novo a informação; sempre fazendo, por fim, com que o sujeito possa regular a sua conduta de maneira ativa e consciente em função do significado que a mesmo confere aos signos, e não simplesmente como uma resposta passiva e direta aos estímulos físicos exteriores. Assim, os signos funcionam como estímulos artificiais por meio dos quais o ser humano controla e regula a sua conduta; a possibilidade desses estímulos servirem consiste, dessa forma, na característica diferencial mais importante dos processos psicológicos superiores típicos da espécie humana: a passagem do controle do ambiente espécie humana: a passagem do controle do ambiente ao controle do indivíduo (isto é, o surgimento da regulação voluntária) e, portanto, a possibilidade de realizar esses processos de uma maneira consciente. "O fato de contar com os dedos foi, no seu momento, um triunfo cultural importante da humanidade. Tal descoberta fazia o papel de ponte entre a percepção quantitativa imediata e o cálculo. Assim, os papuas da Nova Guiné começaram a contar com o dedo pequenomão esquerda e, depois, continuavam com os outros dedos da da mesma mão, uniram a mão esquerda, o antebraço, o cotovelo, o braço, o braço direito e assim, sucessivamente, até terminar no dedo pequeno da mão direita. Se assim não era suficiente, usavam os dedos de outra pessoa ou os dedos de seus pés, conchinhas ou outros objetos pequenos duráveis. Nos sistemas primeiros de contas podemos observar, de uma maneira desenvolvida e ativa, o sistema que se pode apreciar em mesmo forma rudimentar durante o desenvolvimento raciocínio aritmético da criança. De maneira semelhante, o fato do de fazer um nó para não se esquecer de alguma coisa apresenta-se relacionado com a psicologia da vida cotidiana. Uma pessoa deverá lembrar-se de algo, de cumprir algum pedido, de fazer isso ou aquilo, de pegar algum objeto, etc.; como não confia na sua memória, tem medo de descuidar-se involunta daquilo que riamente deve realizar, por isso, faz um nó no seu lenço ou utiliza um mecanismo semelhante, como, por exemplo, introduzir um pedaço de papel sob a aba que cobre o bolso, tarde, o nó o recordará do que fazer. O mecanismo mais descrito costuma cumprir satisfat oriamente a sua função. Essa é, pois, uma outra operação que se revelaria totalmente impossível de ser imaginada ou realizados serem pêlos animais. Na introdução de recursos auxiliares e artificiais para a memorização e na criação e utilização ativa de um estímulo como uma ferramenta para a memória, observamos uma nova característica de conduta especificamente humana."
Vigotsky (1979, p. 190-191)

Esses estímulos artificiais - os sistemas de signos - têm uma origem social elaborada no decorrer da evolução histórica e cultural da espécie humana; são essencialmente de natureza cultural e têm um caráter basicamente convencional e arbitrário. Por isso, é possível que nos

apropriemos e que os usemos somente ao participarmos em situações de interação social com outras pessoas que já os dominam e são capazes de transmiti-los a nós. De Vigotsky, deriva-se a seguinte conclusão: se os processos psicológicos superiores típicos da espécie humana se constituem como tal graças à mediação semiótica - a mediação com a ajuda do uso de signos - e se esses signos são de natureza e origem social e cultural, os processos psicológicos superiores serão processos de natureza e origem social e cultural.

Atividade 11

P artindo do princípio de que a atividade hum ana é definida principalm ente atividade um a com o instrum ental, isto é, com o um a atividade que executam os com a ajuda de determ in entos ados instrum m ediadores, não nos custará encontrar exem plos desses instrum entos. exem plo, em um a P ense, por atividade cotidiana com o tom ar um café em um bar. Tente um a lista dos instrum entos m ediadores preparar que você utiliza para realizar essa atividade .
As três idéias expressadas, se as considerarmos conjuntamente, delimitam a via que permite abordar de maneira específica a perspectiva vigotskiana, o estudo científico da consciência: a análise da gênese social e relacional dos processos psicológicos superiores tipicamente humanos e, concretamente, de uso e de aquisição dos sistemas simbólicos que mediatízam esses processos (disso se deriva o interesse de Vigotsky pela linguagem como um sistema fundamental de mediação semiótica). A solução programática proposta por Vigotsky implica aproximar a explicação das formas mais características do comportamento humano, não dentro do mesmo organismo, mas fora dele. As palavras de Luria (1968, p. 129) ilustram com clareza essa solução programá proposta por Vigotsky: tica "Não há nenhuma esperança, dizia Vigotsky, de encontrar as fontes do ato ativo e livre nasalturas do

espírito ou nas profundidades do cérebro. O critério idealista dos fenomenólo é tão desesperado gos como o critério positivista dos naturalistas. Para poder descobrir as fontes do ato livre e ativo, é preciso sair dos limites do organismo, não na esfera intima doespirito, mas nas formas objetivas da vida social; é preciso aproximar as fontes da consciência e da uberdade humanas na história social da humanidade."
Nesse âmbito, Vigotsky entende globalmente o desenvolvimento como um processo em que se produzem mudanças ou "saltos" qualitativos e revolucionários. Esses pontos de transição correspondem precisamente a mudanças nas formas de mediação que o indivíduo é capaz de utilizar e no tipo de processos que essas novas formas possibilitam: processos psicológicos elementares versus superiores "rudimentares" versus processos superiores "avançados". Nesse ponto de transição e de crise, portanto, novos fatores incorporam-se ao desenvolvimento e produz-se uma reorganização global do funcionamento da consciência. Cada etapa no estágio do desenvolvimento significa, para Vigotsky, um conjunto de funções psíquicas, as quais mantêm relações específicas entre si, e um conjunto de princípios explicativos também específicos, entre os que inclui, no momento, fatores biológicos e fatores sociais e culturais. A distinção que Vigotsky propõe entre o que denomina "a linha natural do desenvolvimento" e a análise das suas relações podem contribuir para esclarecer e destacar essa maneira de entender o desenvolvimento psicológico das pessoas e, sobretudo, para aprofundar os fatores que destacamos, a partir desse ponto de vista, como seus responsáveis. As linhas natural e social do desenvolvimento A distinção feita por Vigotsky entre a linha natural e a Unha social e cultural do desenvolvimento está ligada à sua tentativa de compreender os processos psicológicos mais tipicamente humanos e com as suas teses da mediatízacào da conduta. De acordo com isso, a linha natural do desenvolvimento remete a funções psicológicas elementares: sensações, atenção não-consciente, memória natural, reações emocionais básicas, etc. Tais funções, comuns ao homem e a outras espécies, são controladas pêlos estímulos do ambiente e não comportam uma execução consciente do individuo. Por exemplo, esse seria o caso das capacidades de atenção do recém-nascido: os bebes que acabam de nascer dão atenção

prioritariamente a determinados estímulos visuais e auditivos que cumprem determinadas características. Esses estímulos atuam sobre seu equipamento sensória! e perceptivo, sempre captando a sua atenção e mantendo-a centrada nele durante um certo tempo, de maneira que o bebe não possa fazer nada para evitá-lo. Vigotsky opina que o aparecimento de funções vinculadas à linha natural do desenvolvimento está fundamentalmente justificada por princípios dos tipos biológicos, associados, sobretudo, à maturidade neurofisiológica.

A linha social e cultural do desenvolvimento está unida ao surgimento de processos psicológicos superiores tipicamente processos psicológicos superiores tipicamente humanos: atenção ativa e consciente, pensamento abstrato, memória voluntária, afetividade, etc. Vimos que a característica distintiva desses processos é o, seu caráter mediado por signos, fato que conduz à sua execução auto-regulada e consciente. Seguindo com o exemplo da atenção, a partir de um determinado“ momento no processo de desenvolvimento, os meninos e as meninas mostram uma atenção que pode "escapar" do controle dos aspectos mais evidentes do ambiente para exercitarem-se de maneira consciente e.voluntária: trata-se da capacidade de estar para aquilo que se quer ' estar e de manter a atenção sobre aquilo, especialmente se aquilo a que dá atenção é pouco importante perceptivamente, (como quando somos capazes de Pregação de São Bernardo na Igreja de São Francisco, em Siena , em uma obra nos concentrarmos np estudo, mesmo que por volta de Sano di Pietro, no ano de 1430, Homens e Mulheres separados por uma haja muito ruído e tráfego, ou quando escutamos barreira, escutam com atenção a palavra do pregador uma explicação muito monótona e pouco atrativa de um conferencista). De acordo com o seu caráter mediado, esses tipos de processos exigem, para a sua explicação - segundo Vigotsky -, a referência a explicação - segundo Vigotsky -, a referência a fatores relacionados com a experiência social, concretamente a interação com outras pessoas mais competentes a partir do ponto de vista do domínio das ferramentas e habilidades culturais do grupo em questão. A distinção entre ambas as linhas de desenvolvimento ajuda a compreender melhores as afirmações anteriores à importância que OS saltos qualitativos no desenvolvimento representam para Vigotsky e também a pluralidade de fatores que os explicam. Efetivamente, assim como o desenvolvimento natural produz funções com formas primárias ou elementares, o desenvolvimento cultural, ao contrário, permite a transformação dos processos elementares em superiores; isso representa um nível qualitativamente diferente de funcionamento psicológico. Vigotsky refere-se principalmente a essa transformação quando alude às descontinuidades e às mudanças qualitativas presentes no desenvolvimento (por exemplo, o acesso à linguagem a partir do segundo ano de vida), em que postula igualmente momentos de mudança que comportam a passagem de versões menos avançadas de uma forma de mediatização existente (como, por exemplo, a possibilidade de fazer cálculos com quantidades para objetos concretos em contextos cotidianos) a versões mais avançadas dessa mediatização (é o caso da execução de cálculos com cifras, independentemente dos objetos a que se referem e em contextos imaginários ou hipotéticos). O fato de distinguir e de remarcar as diferenças substanciais que analisamos entre as duas linhas de desenvolvimento não pode deixar que nos esqueçamos, apesar de tudo, que, de acordo com o que Vigotsky propusera, a linha natural e a linha social e cultural não são entendidas como paralelas nem independentes, mas, necessariamente, inter-relacionadas.

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