TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL

Introdução 1.Âmbito da teoria geral do direito civil
Não se vai falar curar problemas específicos de direitos das coisa, de família, sucessões ou de crédito. Caracterizar figuras, equacionar problemas, formular soluções respeitantes a todo o domínio do direito civil ou, pelo menos, comum a normas e relações pertencentes a mais do que uma das referidas quatro partes especiais do direito civil. Teoria que visa reduzir algo amplo; tenta sintetizar. Apresenta um sistema de noções relacionadas entre si. Teoria da parte geral do direito civil; parte geral – pandectística.

2.Conteúdo da teoria geral do direito civil. Plano do curso
Impõe-se o conhecimento das fontes actuais do direito civil português. Fontes de direito civil: não tanto os modos de surgimento da regra, mas as próprias sedes onde se localiza o direito civil já nascido. Considera-se, então, os diplomas fundamentais do sistema de direito civíl português. É também essencial o conhecimento dos princípios básicos que formam a arquitectura do nosso sistema de direito civíl.

3.Divisão da teoria geral do direito civil: teoria geral do ordenamento jurídico civil e teoria geral da relação jurídica civil
Direito, em sentido objectivo: conjunto de princípios regulamentadores, de regras de conduta, de normas de disciplina social. Direito, em sentido subjectivo: sinónimo de poder ou faculdade. Teoria geral da norma jurídica: é a teoria geral do direito objectivo. Teoria geral da relação jurídica: é a teoria geral do direito subjectivo. A divisão da TGDC nestas duas partes é legítima porque utiliza como critérios de arrumação e referência dos problemas e soluções, duas categorias fundamentais do conhecimento do direito: - norma jurídica - relação jurídica A norma ou regra jurídica é uma dimensão fundamental do direito – é um veículo imprescindível da realização dos valores jurídicos. O direito visa realizar determinados valores, fundamentalmente a certeza desse disciplina e a segurança da vida dos homens, por um lado, e a «rectidão» ou «razoabilidade» das soluções, por outro. A realização da igualdade exige uma consideração normativa – geral – da realidade social a que o direito se aplica. A estatuição prescrita pelo direito para um situação deve ser aplicável às situações do mesmo tipo ou género. A existência de um direito recto e certo implica, pois, a sua formalização normativa, a formulação de prescrições gerais. O conceito de relação jurídica está na base da sistematização do nosso código civil. Estabelece-se uma parte geral que engloba as temas relevantes aos elementos comuns às outras quatro partes e estas, por sua vez, correspondem ao direito aplicável a quatro espécies ou modalidades diversas de relações jurídicas. Esta sistematização é conhecida por: sistematização germânica. Diverso era o plano francês. O direito não regula o homem isolado ou considerado em função das suas finalidades individuais, mas o homem no seu comportamento convivente. O direito pressupõe a vida dos homens uns com os outros e visa disciplinar os interesses contra postos nesse entrecruzar de actividades e interesses. Relação jurídica: ligação entre os homens, traduzida em poderes e vinculaçoes. Várias vozes têm formulado um veredicto anti-humano. O sujeito da relação jurídica são as pessoas colectivas. Tal ponto de vista dirige-se, pois, a um modo de arrumação, a uma forma de exposição, mais do que ao conteúdo das soluções expressas.

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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL

4.O direito civil como parte do direito privado
O direito civil é direito privado. Segundo um clássica distinção o direito divide-se em dois grandes ramos: - direito público - direito privado O direito civil constitui o direito privado geral.

5.Direito público e privado
privado. A teoria dos interesses é frequentemente referida para distinguir direito público do

Estaríamos perante uma norma de direito público: quando o fim dessa norma fosse a tutela de um interesse público, isto é, um interesse da colectividade; deparar-se-ia uma norma de direito privado: quando a norma visa tutelar ou satisfazer interesses individuais, isto é, interesses dos particulares. A este critério pode-se dirigir várias críticas: a) As normas de direito privado não se dirigem apenas à realização de interesses dos particulares, tenso em vista frequentemente, também, interesses públicos. Isso leva à intervenção pública. As normas de direito público, por sua vez, para além do interesse público visado, pretendem, também, dar adequada tutela a interesses dos particulares. Todas as normas, por cima dos interesses específicos e determinados que visam, miram um fundamental interesse público: o da realização do direito ou, se quisermos, da segurança e da rectidão. b) O critério apreciado só poderá tentar manter-se se procurar exprimir apenas uma nota tendencial: o direito público tutelaria predominantemente interesses da colectividade e o direito privado protegeria predominantemente interesses dos particulares. 1 – Não pode saber-se, em muitos casos, qual o interesse predominante. 2 – Há normas que, dado o lugar da sua inserção no sistema jurídico e dada a tradição e o desenvolvimento histórico do direito, são pacificamente classificadas como de direito privado e, todavia, visam predominantemente interesses públicos. O direito público: disciplina relações entre entidades que estão numa posição de supremacia e subordinação. O direito privado: regula relações entre entidades numa posição relativa de igualdade ou equivalência a) O direito público regula, por vezes, relações entre entidades numa relação de equivalência ou igualdade, como acontece com as relações entre autarquias locais. b) O direito privado disciplina, também, algumas vezes, situações onde existem posições relativas de supra-ordenação e infra-ordenação, como acontece com o poder paternal. Pode apenas dizer-se que a equivalência ou posição de igualdade dos sujeitos das relações jurídicas é normalmente característica da relação disciplinada pelo direito privado e a supremacia e subordinação característica normal da relação de direito público. A teoria dos sujeitos é hoje em dia o critério mais adequado, em virtude de assentar na qualidade dos sujeitos das relações jurídicas disciplinadas pelas normas a qualificar como de direito público ou privado. Segundo este critério o direito privado regula as relações jurídicas estabelecidas entre particulares ou entre particulares e o Estado ou outros entes públicos, mas intervindo o Estado ou esses entes públicos em veste particular, isto é, despidos de «imperium» ou poder soberano. É necessário, para se nos deparar uma norma de direito público, que pelo menos um dos sujeitos da relação disciplinada seja um ente titular de «imperium», de autoridade, que intervenha nessa veste. Os dois sectores não se separam de forma tão absoluta e completa.

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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL No domínio do direito do trabalho é discutido onde deve passar a linha divisória. O direito do trabalho contém normas de direito público (ex.: regras sobre intervenção administrativa na disciplina colectiva das relações de trabalho; as normas do chamado direito da previdência social), e normas de direito privado (ex.: normas reguladoras do contrato individual de trabalho)

6.Alcance prático da distinção entre direito público e privado
A divisão efectuada e a exacta integração de cada norma na categoria correspondente, revestem interesse no próprio plano de aplicação do direito. A distinção entre direito público e privado vai muitas vezes determinar as vias judiciais a que o particular que se considera lesado pelo Estado ou por uma autarquia local deve recorrer ou vice-versa. Se o particular tem uma pretensão contra o Estado ou contra um ente público, há que averiguar, se a relação jurídica donde essa pretensão deriva é uma relação de direito público ou privado. As acções entre particulares ou entre um ente particular e o Estado ou outra pessoa colectiva pública derivadas duma relação de direito privado devem ser propostas nos tribunais judiciais. Quando o assunto entre particulares e entes públicos ou entre estes diz respeito a relações jurídicas de direito público ou a efeitos jurídicos com elas conexionadas são competentes os tribunais administrativos. A responsabilidade civil, isto é, a obrigação de indemnizar os prejuízos sofridos, decorrente de uma actividade de órgãos, agentes ou representantes do Estado está sujeita a um regime diverso, consoante os danos são causados no exercício de uma actividade de gestão pública ou privada. Se os danos resultam de uma actividade de gestão pública, os pedidos de indemnização feitos à administração são apreciados por tribunais administrativos. Se os danos resultam de uma actividade de gestão privada, os pedidos de indemnização contra a administração central ou local, são deduzidos perante os tribunais judiciais. Actividade de gestão pública: é a actividade da administração disciplinada pelo direito público. Actividade de gestão privada: é a que é regida pelo direito privado.

7.O direito civil como direito privado comum. O direito comercial e do trabalho. A autonomia de outros ramos do direito.
O direito civil constitui o núcleo fundamental do direito privado. Constituir o núcleo fundamental do direito privado não significa ser todo o direito privado, mas apenas o direito privado comum ou geral. Historicamente, o direito privado confunde-se com direito civil, regendo este, sem restrições, todas as relações jurídicas entre sujeitos privados. O desenvolvimento da sociedade fez surgir ou acentuou necessidades específicas de determinados sectores da vida dos homens. Daí que fossem surgindo regras especiais para esses sectores particulares, estatuindo, para os domínios respectivos, regimes diversos dos que se aplicam à generalidade das relações jurídico-privadas do mesmo tipo. Essas normas especiais, em dado momento, passaram a compendiar-se. Dentro do direito privado surgiram assim, por especialização relativamente às normas do direito civil, ramos autónomos de direito. Esses ramos autónomos são: - direito comercial - direito trabalho Estes são direito privado especial, enquanto o direito civil é direito privado comum. O direito comercial e o direito do trabalho dão às particulares relações jurídicoprivadas a que se aplicam, uma disciplina diferente da que o direito civil dá às relações jurídicoprivadas em geral. Neste domínio das relações patrimoniais ligadas ao comércio ou à actividade laboral, se aplicam, todavia, por força do referido caracter subsidiário do direito civil, muitas normas gerais que assim cobrem todo o domínio do direito privado.

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a igualdade. É executado por força de um contrato de trabalho.Sentido do direito civil: a autonomia da pessoa. efeitos e extinção. diversos de regulamentação que o direito civil dá aos negócios jurídicos patrimoniais em geral. A disciplina das relações de trabalho tem.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Daí que. A entidade patronal estaria normalmente em posição da impor ao trabalhador condições inaceitáveis. em maior ou menor escala. das suas especificidades. disciplina directamente o trabalho subordinado prestado a outrem. à situação social dos trabalhadores. Daí que. ainda que não se integrem nos tipos correspondentes aos actos objectivamente comerciais. decorre a disciplina especial. sejam ou não comerciantes as pessoas que nele intervêm. Enquanto o código civil de 1867 regulava o contrato de trabalho nos termos gerais dos contratos. 8. supõe necessariamente a igualdade ou paridade de situação jurídica dos sujeitos. A organização estadual proporciona ao particular meios eficazes e indispensáveis para o pleno desenvolvimento na sua personalidade e quanto ao exercício desses meios. Esta autonomia. negociadas a nível de classes organizadas e não dos indivíduos. Outra ideia caracterizadora do sentido do direito civil é a de que este se encontra directamente ao serviço da plena realização da pessoa na sua vida com as outras pessoas. Esta disciplina recta da vida do homem é realizada pelo direito civil numa perspectiva de autonomia da pessoa do desenvolvimento da sua personalidade. Tutela os interesses dos homens em relação com outros homens. à formação profissional. Eis porque no domínio laboral se veio a verificar um rigoroso intervencionismo estatal. Tem essa função enquanto está construído à volta da ideia de autonomia da pessoa e a autonomia é condição básica da personalidade. se possa dizer ser o direito civil um direito privado comum e subsidiário dos ramos autónomos jurídico-privados. etc. o desenvolvimento industrial e comercial posterior. a disciplina da vida quotidiana do homem comum. com propriedade. contrato entre o trabalhador e a entidade patronal. A actividade laboral. essa especialidade decorre das particulares necessidades que a zona de vida respectiva se fazem sentir. o crescimento das empresas. O direito comercial é identificado pelos autores como uma disciplina de formas e mecanismos jurídicos cuja génese visa servir as finalidades das empresas. O direito do trabalho: na sua parte privatística. o 4 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . a concentração operária vieram a determinar uma profunda modificação neste domínio. relativamente ao direito civil. tratando o trabalho como qualquer outra prestação. condições que este se veria obrigado a aceitar por a sua sobrevivência depender necessariamente da alienação da sua força de trabalho. que é proporcionada pelo direito comercial. prende-se com importantíssimos problemas e interesses ligados à vida económica da colectividade. formulador de normas imperativas ou reconhecedor de convenções colectivas de trabalho. quanto à sua constituição. a teoria geral do direito civil seja uma teoria geral do direito privado O direito comercial: disciplina os actos de comércio. O direito comercial e o do trabalho regulam certos actos e relações jurídicas em termos especiais. bem como os actos dos comerciantes conexionados com o seu comércio. em ordem a dar satisfação a exigências do tipo indicado. com propriedade. poder de autodeterminação nas relações com as outras pessoas. A autonomia é uma ideia fundamental do direito civil. Como actos de comércio considera o código comercial certos tipos que descreve. As necessidades próprias do comércio. de se afastar do regime geral dos contratos. O direito civil contém a disciplina positiva da actividade de convivência da pessoa humana com as outras pessoas.

Missão do julgador: cabe-lhe. que visa precisamente assegurar a autonomia e a realização da personalidade no plano das relações com as outras pessoas. em face do caso concreto. A jurisprudência está igualmente excluída do quadro das fontes de direito. que o direito visa facilitar ou melhorar. isto é. O costume não é reconhecido como fonte de direito. Ex. Estes meios de direito público. Esta tutela evidencia claramente estarmos no plano das relações de pessoa a pessoa. não se reconhecendo um direito consuetudinário vigente. Os usos só valem quando a lei o determinar. Estas disposições iniciais regulam a matéria das fontes de direito. Estas não são hoje fonte de direito. Esta «concretização» da lei implica uma explicitação das suas virtualidades e um desenvolvimento e enriquecimento dela. ordenamento dirigido à protecção dos valores da colectividade. com especial relevo comunitário. tutela coercitivamente os interesses das pessoas. disciplina as relações sociais de pessoa para pessoa O direito civil disciplina substancialmente as relações de pessoa a pessoa e porque é um ordenamento jurídico. lesa o interesse social com certa intensidade. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 5 . emanada dos órgãos estaduais competentes segundo a CRP. Lei: toda a disposição imperativa e geral de criação estadual. além do prejuízo causado à pessoa. O direito civil situa-se no núcleo mais íntimo e fundamental da sociedade. Não pode esquecer-se ser fundamentalmente a vida das pessoas. precisando-a e concretizando-a. são. Seria exagerado dizer que só o direito civil é o direito da pessoa.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL particular encontra-se em situação de plena autonomia. não se exige a consciência da obrigatoriedade dos referidos usos por parte dos que o adoptam. nem sequer como modo de integração de lacunas da lei. Toda a sua aparelhagem visa criar condições que facilitem ou melhorem a realização da personalidade na vida dos homens. 9. Quando um comportamento lesivo de outrem. embora integrada no quadro ou no sistema legal. estruturas instrumentais ao serviço da pessoa humana. onde se manifestam apenas interesses dos particulares. A tutela é operada. frequentar escolas. impondo ao infractor dos seus comandos. numa visão personalista.45) PARTE I Teoria geral do ordenamento jurídico civil (I)Fontes do direito civil português 10.Formas de surgimento das normas jurídicas civis Os modos de aparecimento das normas integradoras do ordenamento jurídico civil vêm indicados nos primeiros artigos do código civil. isto é. dar vida à norma legal. O código civil refere-se igualmente aos usos conformes aos princípios de boa fé. a reacção do direito civil reforçada pelo direito criminal.: a faculdade de poder obter tratamento hospitalar.Sequência (pág. uma convivência com outras pessoas humanas. Normas corporativas: disposições gerais e imperativas emanadas das entidades reconhecidas na CRP com a designação de organismos corporativos. Dispõe o artigo 1º do código civil que são fontes de direito: as leis e as normas corporativas. a necessidade de reconstituir os interesses da pessoa lesada.

Diplomas fundamentais do direito civil português A lei é a fonte mais importante.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL O carácter constitutivo desta intervenção judicial é sobretudo importante no que se refere à aplicação aos casos da vida de conceitos indeterminados e cláusulas gerais em que aliás o código civil é fértil. fiscalizadoras ou sindicantes da aplicação das restantes normas do ordenamento jurídico.da enfiteuse – 1492º a 1523º .das servidões prediais – 1543º a 1575º LIVRO IV – Direito da família . O julgador considerará certos momentos racionais e denominadores objectivos.dos alimentos – 2003º a 2020º LIVRO V – Direito das sucessões . Correspondendo as 4 partes especiais do código civil aos 4 tipos de relações jurídicas. que é feita preceder de uma parte geral. O sistema jurídico auto-limitou-se: criando meios de controlo dos resultados da aplicação das restantes normas.da adopção – 1973º a 2002º .das sucessões em geral – 2024º a 2130º . 11.dos contratos em especial – 874º a 1250º LIVRO III – Direito das coisas .da sucessão legitimária – 2151º a 2178º . Como já foi dito o código civil de 1966 está sistematizado segundo a sistematização germânica. Assenta esta sistematização na classificação germânica das relações jurídicas de direito privado. que contém princípios fundamentais sobre família. sua interpretação e aplicação – 1º a 65º .da posse – 1251º a 1301º . casamento e filiação. uso e habitação – 1439º a 1490º . Este carácter constitutivo da intervenção judicial é ainda claramente manifestado no caso particular de certas cláusulas gerais. Apesar do carácter concretizador da actividade do juiz não podemos atribuir à jurisprudência o carácter de fonte de direito.da filiação – 1796º a 1972º .do casamento – 1587º a 1795º . É igualmente importante para o direito civil o artigo 36º. 6 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . O vértice de todo o ordenamento jurídico é constituído pelo direito constitucional. Em conformidade com este plano o código civil divide-se da seguinte forma: LIVRO I – Parte geral . É o caso do princípio do abuso de direito.das obrigações em geral – 397º a 873º .do usufruto. Trata-se dum aspecto formal.do direito de propriedade – 1302º a 1438º . é oportuna a definição de cada um desses tipos de relações.das relações jurídicas – 66º a 396º LIVRO II – Direito das obrigações .da sucessão testamentária – 2179º a 2334º Este é o chamado sistema externo do código civil.das leis. Seguramente que se encontrarão.disposições gerais – 1576º a 1586º . na CRP princípios determinantes do conteúdo do direito civil português. É que os resultados a que o julgador chegou só têm força vinculativa para o caso concreto a ser decidido. Nesta parte atende-se à disciplina das relações jurídicas em geral.do direito de superfície – 1524º a 1542º .da sucessão legítima – 2131º a 2150º .

canónico.O sistema do código civil de 1966: coordenação da parte geral e das partes especiais O sistema externo do código civil português assenta numa parte geral e em 4 partes especiais.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Direito das obrigações: vínculos jurídicos por virtude dos quais uma pessoa fica adstrita para com outra à realização de uma prestação. afinidade ou adopção. 12. Desta relação entre uma parte geral e as partes especiais resulta que as normas contidas no código não se dispõem segundo um mero alinhamento ou contiguidade. mas segundo uma ordenação que deve estar presente no espírito do julgador. Era um código onde se combinava o nosso direito tradicional. jusnaturalista setecentista e do liberalismo individualista. Com a entrada em vigor do código civil de 1966. 13. O seu conteúdo reflecte influências do direito romano. 2 – formulação de conceitos gerais-abstractos: tipos de situações da vida. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 7 .O código civil de 1966: características do tipo de formulações legais utilizado Um código civil pode corresponder a modelos diversos. sob o ponto de vista do tipo de formulação legal adoptado.O código civil português: as circunstâncias históricas da sua elaboração e a legislação anterior Os trabalhos dirigidos à elaboração do actual código civil português estenderam-se por cerca de 22 anos. Direitos reais: relações de um sujeito jurídico com todas as outras pessoas. Contém um «direito de juristas». 14. especializado. Direito das sucessões: relações dirigidas a actuar a transmissão dos bens por morte do seu titular. toma o indivíduo e a sua trajectória vital como critério de sistematização («visão antropocêntrica» . Este método possibilita um mais elevado grau de segurança e uma razoabilidade das soluções em geral mas pode levar o juiz a decisões menos rectas para o caso concreto. 3 – formulação de directivas: o legislador recorre a linhas de orientação.CABRAL DE MONCADA). esta é de carácter técnico. Dentro de algumas destas partes especiais encontra-se também. expresso em linguagem de técnicos. um conjunto de disposições gerais. Quanto à linguagem utilizada pelo código civil português de 1966. Um autor alemão (LARENZ) distingue 3 tipos de formulação legal: 1 – formulação casuística: prevendo o maior número possível de situações da vida. cessou a vigência do código de Seabra de 1867. parentesco. Direito da família: relações emergentes do casamento. por força das quais aquele sujeito adquire um poder directo e imediato sobre uma coisa. O seu mundo filosófico-cultural nítido é o individualismo. Na sua original sistematização. A atenuação desta desvantagem foi visada pelo legislador do código civil português introduzindo neste diploma legal cláusulas gerais para uma possibilidade de adaptação às várias situações da vida. traduzido em liberdade contratual e no respeito inflexível pelas convenções privadas. O código civil português adopta fundamentalmente o tipo de formulação mediante conceitos gerais-abstractos. com a doutrina dos nossos jurisconsultos oitocentistas.

nos termos do artigo 35º da CRP.: direito ao nome – artigo 72º do CC e 26º da CRP). não pode.: a protecção contra o uso incorrecto da informática. Parece conveniente e susceptível de conduzir a resultados mais razoáveis que a aplicação das normas constitucionais a actividades privadas se faça com referencia a instrumentos e regras próprios do direito civil. b) através de cláusulas gerais e conceitos indeterminados. mas de direito constitucional. Problemas de direito civil podem encontrar a sua solução numa norma que não é de direito civil. matérias do direito privado comum. porém. (II)Os princípios fundamentais do direito civil português (1)Introdução 15.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Durante a sua vigência foram publicados alguns diplomas que alteraram o regime de algumas matérias nele disciplinadas: a) Lei do divórcio – 1910 b) Leis da família – 1911 c) Estabelecimento do registo civil obrigatório – 1911 d) Concordata com a Santa Sé – 1940 Antes da entrada em vigor do código civil de 1867 o principal diploma do nosso direito civil identifica-se com as ordenações filipinas (1603). sobrepor-se à liberdade contratual. a posição dos particulares em face do Estado. cujo conteúdo é preenchido com os valores constitucionalmente consagrados (ex. em termos gerais. Ex. Aplicação de normas constitucionais às relações entre particulares As normas de direito civil estão fundamentalmente contidas no código civil português de 1966. no domínio das convenções entre particulares.: ordem pública do artigo 280º do CC). O princípio da igualdade que caracteriza. por não existir clausula geral ou conceito indeterminado adequado. uma norma constitucional reconhecedora de um direito fundamental aplica-se independentemente da mediação de uma regra de direito privado (ex. embora se pudesse sustentar que esta protecção dos cidadãos já se encontrava guarida no artigo 17º e 80º do CC). Alguns diplomas avulsos regulam. c) em casos absolutamente excepcionais. O princípio da igualdade perante a lei parece impor necessariamente a inconstitucionalidade de quaisquer normas de direito civil que não sejam normas gerais. salvo se o tratamento desigual implica a violação de um direito de personalidade de outrem. A aplicação de normas constitucionais à actividade privada faz-se: a) através de normas de direito privado que reproduzem a seu conteúdo (ex. Os preceitos constitucionais na sua aplicação às relações de direito privado devem conciliar o seu alcance com o de certos princípios fundamentais do direito privado – eles próprios conformes à CRP. O legislador deve emitir normas de direito civil não contrárias à CRP. o juiz e os órgãos administrativos não devem aplicar normas inconstitucionais. As 8 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . igualmente. Tal estipulação contraria o citado preceito constitucional. Direito civil e direito constitucional.: será nulo um contrato ou cláusula geral pela qual alguém se obrigue a professar ou a abandonar certa religião.As normas aplicáveis às relações de direito civil.

Artigo 66º n. sociedades. do ponto de vista lógico. leis-providência. As pessoas em sentido jurídico não são necessariamente seres humanos (ex. que fundamenta e retrata sinteticamente o direito civil actual.O reconhecimento dos direito de personalidade jurídica de todos os seres humanos O direito só pode ser concebido. tendo como destinatário os seres humanos em convivência. o penetram e são por ele desenvolvidos: I – o reconhecimento da pessoa e dos direitos de personalidade II – o princípio da liberdade contratual III – a responsabilidade civil IV – a concessão da personalidade jurídica às pessoas colectivas V – a propriedade privada VI – a família VII – o fenómeno sucessório (2)O reconhecimento da pessoa e dos direitos de personalidade 17. Podemos considerar 7 ideias.: leis-medida. Os seres humanos não são necessariamente. O princípio da igualdade impõe que o legislador não possa tratar arbitrariamente o essencialmente igual como desigual. a sua susceptibilidade de direitos e obrigações. Trata-se de um produto histórico. pessoas em sentido jurídico (ex. A aplicação do direito civil a essa convivência humana desencadeia uma teia de relações jurídicas entre os homens. nem o essencialmente desigual arbitrariamente como igual. Bem se compreende que no nosso tempo não sofra discussão o reconhecimento dessa qualidade jurídica a todos os seres humanos.º 1 CC «Reconhece-se personalidade jurídica a todo o ser humano a partir do nascimento completo e com vida». desprovidos de conexão uns com os outros. leis-provisão ou leis individuais).O reconhecimento de um círculo de direitos de personalidade A susceptibilidade de direitos e obrigações implica a titularidade real e efectiva de alguns direitos e obrigações. relações traduzidas em poderes (direitos) e deveres jurídicos «lato sensu». princípios ou instituições que fundamentam o nosso actual direito civil. são elementos válidos numa dada circunstância espacial e temporal. mas substancial ou material). corresponde a uma condição indispensável da realização por cada homem dos seus fins ou interesses na vida com os outros. A autonomia e a igualdade como seus pressupostos actuais A massa das normas jurídicas não é um conjunto desordenado de preceitos avulsos. Quer os princípios conformadores do nosso actual modelo de direito civil.A existência de princípios básicos do direito civil. Carácter histórico desses princípios de ordenação sistemática interna. A personalidade jurídica. culturais e históricos que condicionam toda a organização da sociedade em cada momento e em cada lugar.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL normas aplicáveis a uma só situação ou a um conjunto de situações seriam normas inconstitucionais (ex. 16. fundações). Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 9 .: associações. Este quadro de princípios. não brotou por espontânea geração no solo da vida social de hoje. determinado pelos dados sociológicos. Há uma ordenação dessas normas (a nível não apenas formal.: escravatura). quer as normas que os aceitam e desenvolvem. 18.

. podem todavia ser objecto de limitações voluntárias que não sejam contrárias aos princípios da ordem pública (artigo 81º). A autonomia privada é uma ideia fundamental deste ramo do direito. Negócios jurídicos: os actos jurídicos. incidindo sobre os vários modos de ser físicos ou morais da sua personalidade. quando uma parte formula e comunica uma declaração de vontade (proposta) e a outra manifesta a sua anuência (aceitação). um conteúdo mínimo e imprescindível da esfera jurídica de cada pessoa. desde logo. O direito protege os vários modos de ser físicos ou morais da personalidade. Os direitos de personalidade são irrenunciáveis. A autonomia privada ou autonomia da vontade encontra os veículos da sua realização nos direitos subjectivos e na possibilidade de celebração de negócios jurídicos. Este autogoverno da sua esfera jurídica. na realização de negócios jurídicos. imagem. constituindo-as. (3)O princípio da liberdade contratual 19. no tocante à actuação humana juridicamente relevante. b) nos negócios unilaterais modificativos vigora também o princípio da tipicidade. O negócio jurídico é uma manifestação do princípio da vontade ou princípio da autonomia privada subjacente a todo o direito privado. de autogoverno da sua esfera jurídica. extinguindo-as e determinando o seu conteúdo. Cabe ao direito civil uma função de protecção ou defesa dos direitos constituídos ao abrigo da sua função modeladora. Os particulares podem estabelecer a ordenação das respectivas relações jurídicas.negócios jurídicos unilaterais: perfaz-se com uma só declaração de vontade. É também a autonomia privada que se manifesta no poder de livre exercício dos seus direitos ou de livre gozo dos seus bens pelos particulares.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Direitos de personalidade: a pessoa é titular de um certo número de direitos absolutos. liberdade física e psicológica. tendentes à produção de um resultado jurídico unitário. 10 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . manifesta-se. Segundo ela. Uma importante classificação dos negócios jurídicos é a resultante do critério do número e modo de disposição das declarações de vontade que os integram. honra. os negócios jurídicos agrupam-se em duas classes: . Nos negócios unilaterais a autonomia da vontade está sujeita a muito maiores restrições do que nos contratos: a) os negócios unilaterais constitutivos de obrigações são apenas os que estiverem previstos na Lei (princípio da tipicidade). O negócio jurídico é um meio de actuação da autonomia privada. de actos de vontade. o seu nome. A violação de alguns desses aspectos da personalidade é até um facto ilícito criminal. integridade física.A liberdade contratual manifestação da autonomia da vontade no domínio dos contratos A produção de efeitos jurídicos resulta principalmente. Este é um círculo de direitos necessários. que se impõem ao respeito de todos os outros. Só há negócio jurídico bilateral. de actos pelos quais os particulares ditam a regulamentação das suas relações. cujos efeitos são produzidos por força da manifestação de uma intenção e em coincidência com o teor declarado dessa intenção. que desencadeia uma punição estabelecida pelo código penal. modificando-as.negócios jurídicos bilaterais: constituído por duas ou mais declarações de vontade convergentes. reserva sobre a intimidade da vida privada. Os direitos de personalidade incidem sobre: a vida da pessoa. Autonomia da vontade: o poder reconhecido aos particulares de auto-regulamentação dos seus interesses. a sua saúde física.

Esta disposição legal consagra apenas a liberdade de modelação ou liberdade de fixação ou estipulação do conteúdo contratual. Simplesmente esta liberdade seria a de não satisfazer uma necessidade importante. 1 – Liberdade de celebração dos contratos: consiste na faculdade de livremente realizar contratos ou recusar a sua celebração. à ordem pública a aos bons costumes). Eis algumas dessas restrições: a) submete-se o contrato aos requisitos do artigo 280º (são nulos os contratos contrários à lei. celebrados entre pessoas pertencentes às referidas categorias. contêm normas a que os contratos individuais. 2 – Liberdade de modelação do conteúdo contratual: consiste na faculdade conferida aos contraentes de fixarem livremente o conteúdo dos contratos. contudo. aludidas no artigo 405º.: cobrança de juros excessivos). não sendo possível modificar o ordenamento negocial apresentado. d) a lei reconhece e admite certos contratos-tipo que. e) alguns contratos em especial estão necessariamente sujeitos a determinadas normas imperativas. A liberdade de fixação ou modelação do conteúdo do contratos conhece também algumas restrições. Uma importante limitação de ordem prática à liberdade de modelação do conteúdo contratual é a que se verifica nos chamados contratos de adesão.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 20. relativos aos deveres de prestação de serviços que impendem sobre os médicos). c) a conduta das partes contratuais deve pautar-se pelo princípio da boa fé. c) concluir contratos diferentes dos contratos expressamente disciplinados na lei (contratos atípicos). ex. ou rejeita-as. Negócio de compra e venda + doação de 800). pelo que a recusa de contratar de uma das partes não impede a formação do contrato (ex.: x vale 1000. eventualmente de uma autoridade pública. Da norma citada emerge. b) celebrar contratos nominados aos quais acrescentam as cláusulas que lhes aprouver eventualmente conjugando-se 2 ou mais contratos diferentes (contratos mistos = ex. b) na proibição de celebrar contratos com determinadas pessoas. Teoricamente não há aqui restrições à liberdade de contratar. o reconhecimento da liberdade de celebração ou conclusão dos contratos. A vende a B por 200. Os contratos de adesão Artigo 405º do CC. As partes podem: a) realizar contratos com as características dos contratos previstos e regulados na lei (contratos típicos). c) na sujeição do contrato a autorização de outrem. Restrições à liberdade de celebração dos contratos: a) na consagração de um dever jurídico de contratar. mediante adesão ao modelo ou impresso que lhe é apresentado. Segundo tal princípio a ninguém pode ser impostos contratos contra a sua vontade ou aplicadas sanções por força de uma recusa de contratar nem a ninguém pode ser imposta a abstenção de contratar. celebrados a nível de categorias económicas ou profissionais.: estatuto da ordem dos médicos. têm de obedecer (contratos normativos). pois os contratos de adesão Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 11 .Aspectos contidos no princípio da liberdade contratual: a liberdade de conclusão ou celebração dos contratos e a liberdade de modelação do conteúdo contratual. b) são anuláveis em geral os chamados negócios usurários (artigo 282º. Uma das partes formula unilateralmente as cláusulas negociais e a outra parte aceita as condições.

Quanto a este. impelido pela necessidade. Os contraentes. isto é. constitutivos. devem considerar nulas certas cláusulas abusivas contidas em contratos de adesão. O casamentos. quase sempre. 12 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados .Domínio principal de aplicação da liberdade contratual: os contratos obrigacionais Nos contratos com eficácia real. mesmo que lhe sejam desfavoráveis ou pouco equitativas – daí a restrição factual à liberdade de contratar. não podem constituir direitos reais que se não integrem nos tipos previstos na lei (princípio da tipicidade). os factos jurídicos que dão origem ao vínculo obrigacional. Nos contratos sucessórios. a gestão de negócios (artigo 464º). o enriquecimento sem causa (artigo 473º) e a responsabilidade civil (artigo 483º). um indivíduo destroi uma coisa de outrem.109) (4)A responsabilidade civil 24. Considera como tais o contrato (artigo 405º). os tribunais portugueses. perfilhação.Noção. Nos contratos familiares. 22. salvo algumas restrições. não podendo ser modificados pelas partes. A sucessão voluntária resulta. há liberdade de concluir ou não o respectivo contrato – é o pensamento da autonomia que subjaz e enforma o direito civil. modificativos ou extintivos de direitos reais. ou adopção são tipos contratuais rígidos. cujos efeitos estão preordenados na lei. só se derrogando esta regra em casos limitadíssimos (artigo 1700º). Características gerais Na vida social os comportamentos adoptados por uma pessoa causam muitas vezes prejuízos a outrem. o negócio unilateral (artigo 457º).O princípio da liberdade contratual e o sistema económico e social. Quanto à liberdade de fixação do conteúdo contratual ela está excluída no domínio dos contratos familiares pessoais. Obrigação ou direito de crédito: é o vínculo jurídico por virtude do qual uma pessoa fica adstrita para com outra à realização de uma prestação. o condutor de um veículo atropela um transeunte. como fez e continua a fazer a jurisprudência estrangeira. a regra do nosso direito é a da proibição dos pactos sucessórios. Na ausência de legislação específica. Daí que o particular. O devedor não executa ou executa defeituosamente a prestação a que está adstrito.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL surgem normalmente em zona de comércio onde o fornecedor está em situação de monopólio ou quase monopólio. Liberdade contratual. de um negócio unilateral – o testamento. podendo embora celebrar contratos inominados. há liberdade de celebração. economia de mercado e economia planificada (pág. há liberdade de celebração e liberdade de fixação do conteúdo. com eficácia no domínio das relações de família. isto é. 23. aceite as condições elaboradas pela outra parte. O código civil regula as fontes das obrigações. Vantagens dos contratos de adesão: racionalização e normalização da actividade contratual dirigida a um número elevado e indeterminado de clientes. mas a liberdade de fixação do conteúdo contratual sofre um importante restrição. isto é.Referência esquemática às principais disciplinados pelo direito das obrigações figuras e problemas O princípio da liberdade contratual tem no domínio dos contratos obrigacionais o seu campo de eleição. 21.

Culpa: reprovação ou censura da conduta desrespeitadora dos interesses tutelados pelo direito. as vantagens que deixaram de entrar no património do lesado em consequência da lesão (artigo 564º n. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 13 . pois raramente o lesado ficará completamente indemnizado com a reconstituição natural. quer dizer. Esta indemnização é a hipótese largamente maioritária. Mas é possível contrabalançar o dano. a reposição do lesão na situação em que estaria sem o facto lesivo terá lugar mediante uma indemnização em dinheiro ou por equivalente (restituição por equivalente). saúde. isto é. Responsabilidade civil: dirige-se à restauração. pela sua gravidade. . o prejuízo imediato sofrido pelo lesado. isto é. liberdade. violador de direitos subjectivos ou interesses alheios tutelados por uma disposição legal. e o lucro cessante. visa colocar a vítima na situação em que estaria sem a ocorrência do facto danoso. ofendida pelo facto ilícito criminal. a atribuição de uma soma pecuniária correspondente legitima-se. tranquilidade. bem-estar. . 2 – Nexo de causalidade entre facto e dano. Estes danos não patrimoniais resultam da lesão de bens estranhos ao património do lesado (a integridade física. mas pela de compensação. Esta tem precisamente em vista tornar indemne. mesmo quando esta for possível.º 1). A pena traduz-se: . específica ou por equivalente. reputação). Não sendo estes prejuízos avaliáveis em dinheiro. honra. 3 – Facto lesivo. com a finalidade de retribuir o mal causado à sociedade com a infracção (retribuição). através do surgimento da obrigação de indemnização. diligência ou perícia exigíveis para evitar o dano (negligência).de impedir o próprio infractor de cometer novas infracções (prevenção especial). sem dano o lesado.de intimidar as outras pessoas. Quando a reconstituição natural for impossível. não pela ideia de indemnização ou reconstituição.na produção de um mal a sofrer pelo agente criminoso. No dano patrimonial estão compreendidos o dano emergente. Devem verificar-se outros pressupostos para o surgimento da responsabilidade civil: 1 – Necessário se torna que o facto seja ilícito. mereçam tutela do direito (artigo 496º n. mostrando-lhes como a sociedade reage ao crime (prevenção geral). ou seja. O direito civil português manda atender também na fixação da indemnização aos danos não patrimoniais (danos morais) que. dos interesses individuais lesados.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Deverá o prejuízo ficar a cargo da pessoa em cuja esfera jurídica ele foi produzido ou deverá antes impor-se a obrigação do seu ressarcimento à pessoa cujo comportamento provocou uma lesão na esfera de outrem? A responsabilidade civil depara-se-nos quando a lei impõe ao autor de certos factos ou ao beneficiário de certa actividade a obrigação de reparar os danos causados a outrem. Esta reconstitução da situação inicial deve em principio ter lugar mediante uma reconstituição natural. insuficiente ou excessivamente onerosa. Responsabilidade civil: consiste na necessidade imposta pela lei a quem causa prejuízos a outrem de colocar o ofendido na situação em que estaria sem a lesão (artigo 483º e 562º). não podem ser reintegrados mesmo por equivalente. Os interesses cuja lesão desencadeia um dano não patrimonial são infungíveis.º 1). Esta pode resultar da existência de uma intenção de causar um dano violando uma proibição (dolo) ou da omissão dos deveres de cuidado. A responsabilidade civil actua. Responsabilidade criminal: visa satisfazer interesses da comunidade. Ao lado da responsabilidade civil deve considerar-se a responsabilidade criminal. compensá-lo mediante satisfações derivadas da utilização do dinheiro.

É essa a solução pelas razões seguintes: qua non» da a) a segurança que a responsabilidade objectiva confere às potenciais vítimas de danos. potenciando as suas possibilidades de lucro. Responsabilidade pelo risco é consagrada em algumas hipóteses especiais. O nosso sistema jurídico opta pela responsabilidade subjectiva. Apesar do carácter conforme ao direito da actuação do sujeito. protegendo os bens dos indivíduos contra quaisquer lesões decorrentes da actividade de outrem. Ex. No núcleo da responsabilidade jurídica estará assim a ideia de responsabilidade moral. Responsabilidade extra-contratual: resulta da violação de um dever geral de abstenção contraposto a um direito absoluto. atribui personalidade jurídica às chamadas pessoas colectivas. pareceu excessivo não dar à pessoa sacrificada uma reparação. Responsabilidade contratual: originada pela violação de um direito de crédito ou obrigação em sentido técnico. danos causados por instalações de energia eléctrica ou gás (509º). Se alguém. cria para os outros riscos acrescentados é justo por a cargo daquele a indemnização dos danos originados pelas suas actividades lucrativas («ubi commoda. Pretende-se em tais casos compensar o sacrifício de um interesse menos valorado na composição de um conflito teleológico. com carácter excepcional. o nosso direito civil. também.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 25. verificados certos requisitos.A personalidade colectiva e os tipos de pessoas colectivas Ao lado da personalidade jurídica reconhecida a todas as pessoas singulares. Esta pertence ao domínio da consciência e dos deveres do homem para consigo próprio. passagem forçada.: danos causados por animais (502º). é neutralizada pela paralisação de iniciativas que a ponderação das possibilidades de dano produzirá no homem em acção. O nosso sistema jurídico admite. porque uma prevalência absoluta e total do interesse oposto seria injusta.Responsabilidade contratual e extra-contratual. em sentido lato. Pessoas colectivas: são colectividades de pessoas ou complexos patrimoniais organizados em vista de um fim comum ou colectivo a que o ordenamento jurídico atribui a qualidade de sujeitos de direitos. alguns casos contados de responsabilidade por actos lícitos ou intervenções lícitas. A pessoa colectiva. 26. (5)A concessão de personalidade jurídica às pessoas colectivas 27. tem 3 modalidades fundamentais: a) associações: colectividades de pessoas que não têm por fim o lucro económico dos associados. Exs: responsabilidade emergente de certos casos de estado de necessidade. importam um aumento de risco para os outros.Responsabilidade por actos ilícitos. b) substituir ao directamente lesado o autor não culposo do prejuízo. criando para si uma possibilidade de lucro. acidentes causados por veículos de circulação terrestre (503º). Compreende-se a exigência da culpa como «conditio sine responsabilidade. ibi incommoda»). c) exigir a culpa do sujeito é fazer apelo à liberdade moral do homem e é apresentar os danos como consequências evitáveis. pelo risco e por actos lícitos. Trata-se de domínios em que o homem tira partido de actividades que. 14 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . assim se estimulando zelos e cuidados em impedi-los.

A personalidade jurídica das pessoas colectivas: é uma mecanismo técnico-jurídico – um modelo. A personalidade jurídica dos indivíduos: é imposta. pelas concepções ético-jurídicas de tipo humanista hoje vigentes. Sendo os bens escassos em relação às necessidades sentidas pelo homem. Mas.131) Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 15 . Teria que ser defendido com a força do seu titular. 28.Fenomenologia da propriedade ao longo da história e no momento actual (pág. uma forma. A criação de um autónomo centro de imputação das relações jurídicas ligadas à realização desses interesses permite uma mais fácil e eficaz consecução do escopo visado. se o direito se desinteressasse. c) sociedades: conjunto de pessoas que contribuem com bens ou serviços para o exercício de uma actividade económica dirigida à obtenção de lucros e à sua distribuição pelos sócios.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL b) fundações: complexos patrimoniais ou massas de bens afectados por uma liberalidade à prossecução de uma finalidade estabelecida pelo fundador ou em harmonia com a sua vontade. Constitui missão fundamental do direito. como uma exigência forçosa da dignidade da pessoa humana e do direito ao respeito inerente a todo o ser humano. organizar os poderes dos homens sobre as coisas e o conteúdo das relações entre os homens a respeito das coisas.Natureza da personalidade colectiva A existência de pessoas colectivas resulta da existência de interesses humanos comuns. de submeter os poderes dos homens sobre as coisas à sua disciplina. da existência de um organismo real. mas é a consequência. em ordem à realização de fins jurídicos.O problema do domínio sobre os bens como problema fundamental de uma sociedade No desenvolvimento da sua vida o homem serve-se das coisas. imposta pela natureza das coisas. utilizando-as para satisfazer as suas necessidade e para conseguir os seus fins. o poder de facto sobre as coisas não se impunha ao respeito das outras pessoas. e procurando este subtrair-se ao império das necessidades. o uso e a disposição das coisas permite ao homem satisfazer necessidade fundamentais ou secundárias e potencia a sua possibilidade real de se propor determinadas finalidades e de escolher entre várias vias para a realização desses fins. seria inevitável a luta pela sua apropriação. Seria impossível a vida em comum. O homem tem necessidades de se servir das coisas como condição da sua sobrevivência e do seu progresso. Teoria organicista: a personalidade jurídica não resulta de uma concessão discricionária do legislador. por absurdo. Doutrina: Teoria da ficção: a lei. as coisas são meios ao serviço dos fins das pessoas. A personalidade jurídicas das pessoas colectivas é uma criação do espírito humano no campo do direito. 30. estaria a proceder como se as pessoas colectivas fossem pessoas singulares. Enquanto as pessoas são fins em si mesmas. um operador para a polarização das relações jurídicas ligadas à realização de certo fim colectivo. ao estabelecer a personalidade jurídica das pessoas colectivas. A detenção. (6)A propriedade privada 29.

Apesar da família na sua concreta e natural existência no seio da vida social conter uma ordenação íntima. ao formular a sua regulamentação da instituição familiar. cuja existência material. Direitos reais limitados: toda uma série de direitos reais de conteúdo ou estrutura bem diversa e ao serviço de funções ou interesses de natureza diferenciada. A sua qualificação como um direito perpétuo não o deixa poder extinguir-se pelo não 32.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 31. estabelecendo sobre este o manto de uma disciplina. completa. lealdade. psicológica e moral se manifesta. Ex. uso. confiança. Direitos reais de gozo: aqueles que conferem um poder de utilização.: usufruto. amizade.Os direitos reais limitados A propriedade é o direito real máximo. servidões prediais. atentas as seguintes razões: a) a ordenação concreta e institucional da família. Direitos reais de aquisição: conferem a um determinado indivíduo a possibilidade de se apropriar de uma coisa. o de conteúdo pleno e polimórfico. Ex. total ou parcial. Direitos reais de garantia: conferem o poder de um credor obter o pagamento da dívida de que é titular activo. mesmo que aceite pelo legislador. que o direito reconhece. em situações de crise. hipoteca.Características do direito de propriedade no nosso sistema jurídico A tutela constitucional da propriedade privada está expressamente consagrada no artigo 62º n. Não se limitam os poderes do proprietário senão através das concretas restrições pela lei impostas. aceita e considera. habitação. superfícies. perante o direito legislado Família: realidade natural e social. vida em comum. solidariedade. não contém uma disciplina de todos os problemas respectivos em termos acabados e categóricos. disciplinar com justiça e certeza a posição dos sujeitos. reconstitui-se a plenitude da propriedade sobre ela. precisa e completa do regime jurídico correspondente. uso. duma coisa e.º 1 da CRP. A disciplina da instituição familiar impõe. facilita o fluente curso da vida familiar e permite. São direitos sobre coisa alheia.: penhor. vinca mais vivamente o sentimento dos deveres e direitos dos membros da família. de comportamentos: amor. não pode a lei deixar de considerar essa realidade e esse mundo de relações. desde logo. também o de apropriação dos frutos que a coisa produza. Ex. O direito da propriedade é dotado de uma certa elasticidade – extinto um direito real que limite a propriedade da coisa. por vezes. O proprietário tem poderes indeterminados. c) pode o Estado visar uma modificação da disciplina da família para um sentido diverso do correspondente ao direito vivido espontaneamente na realidade social. tornando-se necessária uma formulação certa. de adquirir uma coisa. como realidade natural e social. tanto quanto possível. Não conferem a plenitude dos poderes sobre uma coisa. O surgimento e a vida da família realizam-se e assentam numa série de comportamentos pessoais e realidades psicológicas e morais. b) a consagração legislativa de um regime. em planos ou domínios da vida estranhos ao plano jurídico.A família. 16 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . (7)A família 33.

no todo ou em parte. Razões de relevante conveniência social tornam contra-indicado um regime de extinção de todas as relações jurídicas no momento da morte do seu titular. isto é.Referência sumária ao direito sucessório português Sucessão legítima: consiste no chamamento dos herdeiros legítimos à sucessão.Referência sumária ao direito da família português Ao direito da família continua a dedicar o código civil um livro – o livro IV. O chamamento faz-se por ordem de classes sucessíveis. É um direito institucional. dos seus bens. por o autor da sucessão não ter disposto válida e eficazmente. quanto à disciplina de acto matrimonial. Fenómeno sucessório: é o chamamento de uma ou mais pessoas à titularidade das relações patrimoniais de uma pessoa falecida e a consequente devolução dos bens que a esta pertenciam. para que todos em maior ou menor medida concorreram. implicando a exoneração dos devedores à morte do seu credor.O destino das relações jurídicas após a morte do seu titular Põe-se em qualquer comunidade o problema de saber qual o destino das relações jurídicas existentes na titularidade de uma pessoa singular após a morte desta. uma fonte de riscos para os credores. 34. por ser destinada por lei aos referidos herdeiros. Tal regime. Artigo 2133º a) cônjuge e descendentes b) cônjuge e ascendentes c) irmãos e seus descendentes d) outros colaterais até ao quarto grau e) Estado Sucessão legitimária: consiste no chamamento dos herdeiros legitimários à sucessão na chamada legítima. b) cumprimento do dever moral de assistência recíproca entre familiares.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL O direito da família é caracterizado por uma acentuado predomínio de normas imperativas. o prejuízo dos credores por morte do devedor e a vacatura ou a aquisição pelo Estado dos bens do falecido. As justificações apresentadas para a sucessão legitimária são as que ressaltam da descrição das duas linhas evolutivas: a) a conservação na família de um património. e que assegura a permanência e coesão do agregado familiar. preferindo dentro de cada classe os parentes de grau mais próximo aos de grau mais afastado. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 17 . mesmo para além da morte. uma coexistência da ordem jurídica estadual e da canónica. Sucessão testamentária: consiste no chamamento à sucessão dos herdeiros designados em testamento. uma causa de litígios e perturbação da paz social. numa porção de bens que o testador não pode dispor. 36. seria um contra-estímulo às actividades e iniciativas de caracter patrimonial das pessoas. Na ordem jurídica portuguesa. num acto unilateral e revogável pelo qual um indivíduo dispõe de todos os seus bens ou parte deles para depois da morte. continua a verificar-se. (8)O fenómeno sucessório ou sucessão por morte 35. isto é. A transmissão das relações jurídicas patrimoniais para outra pessoa por força da morte do seu titular é reconhecida pelos sistemas jurídicos na actualidade e ao longo da historia.

18 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados .Conceito de relação jurídica Em sentido amplo: é toda a relação da vida social relevante para o direito. Em termos funcionais. reflectindo o elemento funcional. só de per si ou integrado por um acto livre de autoridade pública. 39. O direito subjectivo está dependente da vontade do seu titular. Esta forma “clamorosamente injusta” é identificada por um controlo extra-jurídico feito através dos tribunais. produzir determinados efeitos jurídicos que inevitavelmente se impõem a outra pessoa. O direito subjectivo engloba duas modalidade fundamentais: a) os direitos subjectivos propriamente ditos: consiste no poder de exigir ou pretender de outrem um determinado comportamento positivo ou negativo. Em sentido restrito ou técnico: é a relação da vida social disciplinada pelo direito. promana de um facto jurídico. a sua efectivação pode fazer-se através de uma garantia (ex. disciplinada pelo direito. normalmente a de estarem integradas no mesmo mecanismo jurídico ou ao serviço da mesma função. isto é. Este aspecto funcional repercute-se na estrutura do direito. ORLANDO DE CARVALHO não concorda e defende que abuso de direito: é quando um direito está a ser usado por um sujeito para causar prejuízo a outro sujeito. Para a doutrina em geral o abuso de direito: é quando alguém usa o direito de forma clamorosamente injusta. portanto. incidirá normalmente sobre um objecto. que consiste na concreta situação de poder que faculta a uma pessoa em sentido jurídico intervir autonomamente na esfera jurídica de outrem». pois não se trata de poderes de livremente exigir um comportamento.Estrutura da relação jurídica (cont. o direito subjectivo identifica-se com o interesse visado. Uma situação de abuso de direito: verifica-se quando há desconformidade entre imagem estrutural do direito e entre a função atribuída ao direito. Direito subjectivo (em sentido amplo): «mecanismo de regulamentação. adoptado pelo direito. Última hipótese de averiguar se o acto é ilícito. ligadas por uma afinidade. Preliminares 37. Isto faz com que desapareça a liberdade característica do direito subjectivo. mas evidencia as diferenças.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL PARTE II Teoria geral da relação jurídica.): direitos subjectivos propriamente ditos e potestativos Direito subjectivo: poder jurídico (reconhecido pela ordem jurídica a uma pessoa) de livremente exigir ou pretender de outrem um comportamento positivo ou negativo ou de por um acto de livre vontade. mas de poderes-deveres. mediante atribuição a uma pessoa de um direito subjectivo e a imposição a outra pessoa de um dever jurídico ou de uma sujeição.: providências coercitivas). Quer dizer: a consideração exclusiva do aspecto estrutural não nos evidencia a razão de certas diferenças. Abuso de direito Extrema ratio da verificação da ilicitude. 38.Estrutura da relação jurídica (enunciado geral) Toda a relação jurídica existe entre sujeitos. Instituto jurídico: conjunto de normas legais que estabelecem a disciplina de uma série de relações jurídicas em sentido abstracto. produtiva de efeitos jurídicos e.

patrimoniais: são susceptíveis de os bens em causa serem redutíveis a bem pecuniário.direitos reais: incidem sobre coisas.natos: adquirem-se quando o sujeito faz algo que é tutelável pelo direito. Classificação dos direitos subjectivos: a) Atende-se à ligação intrínseca ou extrínseca entre pessoas .: direito de autor ou ao nome.Critério estrutural . potestativos. ao menos por equivalente.: direito de propriedade). o objecto do direito é a própria pessoa titular do direito de personalidade. Ex.direitos subjectivos (sentido estrito) . recorrendo à autoridade pública.relativo: imposto a pessoas certas e determinadas (ex. Exs: direitos de crédito.indisponível: não pode transferir (ex. . d) Atende-se aos titulares passivos.: direitos patrimoniais).: crédito). Poder de exigir ou pretender: se a contraparte não cumpre o dever jurídico a que está adstrita. na situação lesada ou obter outras sanções. Ex. personalidade.: direitos pessoais sobretudo essenciais). . . a quem o direito se impõe .: direitos de personalidade. e) Atende-se à possibilidade do sujeito se desligar do direito. transferir para outra pessoa .: só se tem direitos de pai se se tiver um filho .TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Contrapõe-se-lhe o dever jurídico da contraparte – um dever de «facere» ou de «non facere».disponível: pode transferir (ex.direitos da pessoa: direitos de personalidade. Ex.direito potestativo: inevitabilidade de consequências jurídicas que criam. . Excepção: direitos sobre outras pessoas. poderes directos e imediatos sobre uma coisa.direitos de personalidade: sobre a própria pessoa. .absoluto: imposto à colectividade.não essenciais: c) Atende-se à natureza dos bens em jogo .Critério institucional . família.pessoais: não é susceptível de ser transformado em dinheiro. reais. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 19 . de crédito.essenciais: a pessoa não pode ser privada desses direitos sem se privar de certos estados. ser reposto. Tipos de direitos subjectivos (lado activo) . .inatos: existem desde o nascimento. . impõe “erga omnes” (ex. pode obter dos tribunais e autoridades subordinadas a estes providências coercitivas aptas a satisfazer o seu interesse. . reais. b) Atende-se a relações intrínsecas ou extrínsecas relacionadas com certos estados em que as pessoas de encontram. .direitos de crédito: trata-se/impõem a pessoas certas e determinadas. Dever jurídico: é a necessidade de realizar o comportamento a que tem direito o titular activo da relação jurídica. O titular do direito pode.

direitos potestativos: modificativo. Exs: constituição da servidão de passagem em benefício do prédio encravado (1550º). de suportar na sua esfera jurídica as consequências constitutivas. só de per si ou integrado por uma decisão judicial. o dever jurídico e a sujeição O lado passivo da relação jurídica: traduz-se num dever jurídico ou numa sujeição. Ex. O sujeitado não pode violar ou infringir a sua situação.Estrutura da relação jurídica (cont. diversamente do dever jurídico. mesmo sem ou contra a vontade do proprietário do prédio confinante. Direitos absolutos: quando se impõem a todas as pessoas. produzir efeitos jurídicos que inelutavelmente se impõem à contraparte. Faculdades jurídicas secundárias: «poderes ou faculdades que constituem manifestações ou irradiações de direitos subjectivos existentes». Direitos relativos: quando os deveres jurídicos impendem sobre uma ou mais pessoas determinadas.). .direitos da família: que se desenvolvem em torno da instituição familiar. extintivo direitos de crédito: dos cônjuges direitos reais: bens do casamento . não pode deixar de produzir esse efeito. Ex. trata-se de uma necessidade inelutável.direitos sucessórios: sucessão mortis causa direito potestativo – a aceitação da herança direito crédito – dívidas da herança direitos reais – aquisição propriedade Tipos de direitos subjectivos (lado passivo em sentido estrito) . No dever jurídico.direitos das obrigações: direitos de crédito – para o tráfego de bens direitos potestativos – resolver/revogar negócio direitos reais de garantia direitos das coisas – tratam ordenação de domínios das coisas.: mudança de servidão para outro sítio. c) direitos potestativos extintivos: tendem a produzir a extinção de uma relação jurídica existente. Faculdades jurídicas primárias: «faculdades ou poderes em que se desdobra o poder de autodeterminação e através dos quais a pessoa se transforma em sujeito de efectivas relações jurídicas civis».TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL . 40. Aqui. . o sujeito do dever. b) direitos potestativos modificativos: tendem a produzir uma simples modificação numa relação jurídica existente e que continuará a existir. a) direitos potestativos constitutivos: produzem a constituição de uma relação jurídica. Sujeição: situação de necessidade em que se encontra o adversário de ver produzir-se forçosamente uma consequência na sua esfera jurídica por mero efeito do exercício do direito pelo seu titular.sujeição a um determinado direito potestativo.dever jurídico: necessidade de adoptar determinado comportamento. por um acto livre de vontade.: o direito potestativo dirigido à constituição de uma servidão em beneficio de um prédio encravado. em que está constituído o adversário do titular de um direito potestativo. 20 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . b) os direitos potestativos: são poderes jurídicos de. por um acto unilateral do seu titular. modificativas ou extintivas do exercício daquele direito. Sujeições: situação de necessidade inelutável. expondo-se embora a sanções. embora modificada. tem a possibilidade prática de não cumprir.

TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Estado de sujeição: o sujeitado suporta as consequências de um direito. Tratando-se de relações emergentes de um contrato obrigacional. No dever jurídico o obrigado «deve». Expectativa jurídica: a situação activa. em caso de infracção. O facto jurídico tem um papel condicionante do surgimento da relação.: o do vendedor de guardar a máquina. própria das relações jurídicas. Assim. . a relação formada entre comprador e vendedor de uma máquina não é só constituída pelo dever de pagar o preço e pelo correlativo direito ao preço. ou para impedir uma violação receada. promover o seu transporte). Os sujeitos são pessoas pois a personalidade jurídica é precisamente a susceptibilidade de ser titular de direitos e de obrigações. deveres acessórios (ex.: de resolução ou modificação do contrato).: contrato de sociedade). em ordem a obter satisfação do seu direito.bilateral: apenas duas partes/pólos de interesses (ex. deveres laterais (ex. . o vínculo respectivo. contra pólo do exercício de um direito potestativo. Facto jurídico: é todo o facto produtivo de efeitos jurídicos. . Podem ser objecto de relações jurídicas outras pessoas. objecto. é uma condição ou pressuposto da sua existência.. Espécies de relações jurídicas.: contrato de arrendamento).Estrutura da relação jurídica: relação jurídica simples ou singular e complexa Relação jurídica complexa: uma série de direitos subjectivos e deveres ou sujeições conexionadas ou unificadas por um qualquer aspecto.plural: mais do que uma pessoa em qualquer dos lados. postas à disposição do titular activo de uma relação jurídica. Ónus: necessidade de adopção de um comportamento para realização de um interesse próprio. modos de ser da própria pessoa e outros direitos. Estes formam o conteúdo da relação jurídica.: o de informar sobre as condições do funcionamento da máquina). esse quadro. é uma relação obrigacional em sentido amplo ou relação obrigacional complexa.Elementos da relação jurídica: sujeitos. 42. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 21 . a susceptibilidade de ser titular de relações jurídicas. Trata-se da possibilidade. direitos potestativos (ex. embalá-la. eventuais direitos a uma indemnização por força de um não cumprimento.plurilateral: várias frentes de interesses (ex. No ónus o onerado «precisa de». v. correspondente a um estádio dum processo complexo e formação sucessiva de um direito. juridicamente tutelada. perspectiva estática .g. O devedor do preço é simultaneamente credor da entrega da máquina e existem outros vínculos entre as partes do contrato. de o seu titular activo por em movimento o aparelho sancionatório estadual para reintegrar a situação correspondente ao seu direito. numa posição recíproca de instrumentalidade e interdependência.singular: apenas uma pessoa ocupa o local de sujeito activo. 41. Garantia: é o conjunto de providências coercitivas. coisas corpóreas ou incorpóreas. São os titulares do direito subjectivo e das posições passivas correspondentes: dever jurídico ou sujeição. facto jurídico e garantia Sujeitos: são as pessoas entre quem se estabelece o enlace. Objecto: é aquilo sobre que incide os poderes do titular da relação.

Neste sentido. Ex. o interesse não é satisfeito mas não há sanção sobre o onerado. Dependem do direito de crédito.complexas: situação mais vulgar. pelo facto de o ser.: constituição de uma sociedade). é uma combinação vertical.autónomas: não depende de outras relações jurídicas. estrutura linear. . uma pessoa). que se localiza erradamente na teoria das coisas e dos objectos). . Há uma combinação pertinencial necessária. . Ónus: necessidade de adoptar determinado comportamento para alcançar determinado interesse. Património global: conjunto de relações jurídicas activas e passivas avaliáveis em dinheiro de que uma pessoa é titular. privilégios creditórios e direitos de retenção). Neste sentido. Património ilíquido: conjunto de direitos avaliáveis em dinheiro. hipoteca.instantâneas: esgotam-se num único momento temporal embora os seus efeitos se projectem para o futuro (ex. . indefectível em todos os sujeitos ou pessoas em sentido jurídico: e a esfera jurídica. É o caso das relações de garantia especial das obrigações (tanto pessoais: fiança e subfiança. registo predial não é obrigatório mas quem não o fizer tem desvantagens. relações patrimoniais dependentes da filiação). Património líquido: saldo patrimonial. como reais: consignação de rendimentos. desenhando uma estrutura circular ou esférica. que coenvolve todas as relações jurídicas activas e passivas que se centram num sujeito (como todo o sujeito. tem um mínimo de relações jurídicas as relações inatas. desenvolvendo uma estrutura de suprainfra-ordenação. ficando em face dela em posição de dependência. é maior. O património de cada 1 é um círculo mais pequeno dentro da grande esfera jurídica de cada um. . 22 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . sendo nesta zona que devem localizar-se figuras que vulgarmente se deslocam para outras regiões (ex. sem descontar o passivo.: doação). normalmente) em que uma delas (a acessória) é meramente instrumental em ordem à outra (a principal). Duas combinações de relações jurídicas: a) Acessoriedade: combinação de relações jurídicas (duas. penhor. passivo (-). se não se adoptar o comportamento.não autónomas: dependem de outras relações jurídicas (ex.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL .: o ónus da prova recai sobre o lesante. activo (+). nas pessoas humanas. b) Pertinência: combinação de relações jurídicas através do seu ennucleamento comum em certo pólo (em regra.duradouras: têm como cerne os direitos de personalidade.: casamento. Combinações de relações jurídicas As relações jurídicas podem combinar-se entre si. ao activo tira-se o passivo. abstraindo das obrigações. nas pessoas stricto sensu -. todo o activo e passivo de determinada pessoa. pertencentes a uma pessoa. um facto jurídico que faz surgir à sua volta um enredo enorme (ex. Património: conjunto de relações jurídicas de carácter patrimonial.simples: aquela que pressupõe sujeito activo (com direito) e passivo (com dever). ou as relações intrassociais ou reais. valor sempre maior ou igual a zero (0). extinguindo-se quando a relação creditícia se extingue.: a noção de património. toda a pessoa tem esfera jurídica). igual ou menor que zero (0). é uma combinação horizontal.

constitutivas: adquire um direito ex novo mas o seu conteúdo cabe no direito anterior (A adquire direito de usufruto a B.geral: todo o património está afecto a obrigações. dois direitos sobre o mesmo objecto). recuperando assim. Perspectiva dinâmica Processos fundamentais: . a plenitude dos seus poderes. o proprietário.especial: que se destina apenas a satisfazer certos encargos. Exemplos de aquisição de direitos originária: 1318º . Exemplos de aquisição de direitos derivada: . Aquisição originária: um direito surge ex novo. que mudam apenas de titular. Pode suceder também que preexistisse à aquisição o direito dum titular anterior. o caso normal.translativas: um direito que se adquire coincide com o direito do anterior titular (A doa a B. ainda que porventura sobre a base de um direito anterior. B adquire o direito de A tal e qual). sucessória.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Afectação: . A maior parte dos casos não implica constituição. e tal é. pode versar também sobre direitos preexistentes. Havendo aquisição não implica constituição. .: A doa a B. direito que se extinguiu ou ficou limitado ou comprimido em virtude da aquisição. Não pode ser mais amplo que o anterior). unilateral ou contratualmente. Apenas houve mudança de titular. de resto. O objecto é o mesmo. .restitutivas: a hipótese de o titular de um direito real limitado se demitir dele. havendo entre os 2 fenómenos um nexo causal e não meramente cronológico. em virtude da conhecida elasticidade ou força expansiva do direito de propriedade. Por qualquer razão extingue-se o direito filial e o direito progenitor expande-se. Na aquisição derivada intervém portanto uma relação entre o titular anterior e o novo. Aquisição derivada: pressupõe um direito do anterior titular (o mesmo ou outro mais amplo). Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 23 . Ex.aquisição de móveis. o direito não depende juridicamente/genericamente do facto anterior mas sim do facto aquisitivo. O direito do adquirente será um direito novo da mesma natureza e conteúdo que o direito extinto.aquisição de direitos: pode-se ter por objecto direitos que surjam ex novo. depende do facto aquisitivo bem como do direito anterior (quanto à amplitude.constituição de direitos: trata-se sempre de direitos que surgem ex novo. contratual. . Ou transmissão parcial do direito (A tem terreno de 1000 m2 e vende apenas 500 m2). . Mas o direito do adquirente não se filia no do titular anterior. B vê o seu direito de propriedade limitado embora continue a existir. volta a adquirir a dimensão inicial uma vez que deixa de estar reprimido. B adquire um direito já constituído. Pode ser que não preexistisse à aquisição de qualquer direito dum anterior titular (ex.: ocupação de coisas móveis abandonadas ou que nunca tiveram dono). É acompanhada da extinção subjectiva do direito do anterior titular ou da sua limitação ou compressão. Alguma doutrina considera que não há constituição de direitos sem aquisição.

segundo o qual na aquisição derivada o adquirente (C) não pode adquirir um direito. a veículos automóveis ou aos restantes bens indicados. navios. mas depende ainda da amplitude do direito do transmitente. 90.Conceito e modalidade de aquisição de direitos. embora Abel já não fosse o verdadeiro proprietário. mesmo na falta de registo.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Espécies de relações jurídicas. A sucessão diz respeito também às dívidas e não só aos direitos. dado não existirem direitos sem sujeito. a) dos institutos do registo predial. A consequência da falta de registo é a ineficácia do acto em relação a terceiros. seus herdeiros ou representantes. Toda a constituição de um direito implica a sua aquisição. Modalidades desta última Um direito é adquirido por uma pessoa quando esta se torna titular dele. se foi primeiramente registada. Esses efeitos jurídicos consistem fundamentalmente numa aquisição. Constituição de direitos: é o seu surgimento. 24 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . sendo o acto plenamente eficaz «inter partes». não podendo em regra ser maior que a deste direito (nemo plus juris in alium transferre potest quam ipse habet). excepções. 91. Coincide com a aquisição derivada translativa. com o fim de lhes dar publicidade. Noção de terceiros para efeitos de registo predial: são as pessoas que do mesmo autor ou transmitente adquiram direitos incompatíveis (total ou parcialmente) sobre o mesmo prédio. Logo. a extensão do direito do adquirente depende do conteúdo do facto aquisitivo. Estas excepções significam que. Sucessão: é o subingresso de uma pessoa na titularidade de todas as relações jurídicas ou determinada ou determinadas relações jurídicas de outrem.: se Abel vendeu um prédio ou automóvel a Bia e de pois a Caca. em particular os actos de que resulte a aquisição de direitos reais sobre os mesmos bens. os diversos actos inerentes a bens imóveis. Aquisição originária e derivada. modificação ou extinção de relações jurídicas.Preliminares Os facto jurídicos desencadeiam determinados efeitos. Impõe-se distinguir entre aquisição derivada e sucessão. Na aquisição derivada. não obstante a aquisição ser derivada. a extensão do direito adquirido depende apenas do facto ou título aquisitivo.Importância da distinção entre aquisição derivada e originária Na aquisição originária. em certas hipóteses. pois a sua venda a Bia é plenamente válida e eficaz «inter partes». Por força destes institutos devem ser inscritos. Este princípio caracterizador da aquisição derivada comporta. O registo não é o meio de aquisição dos direitos. Ex. em livros existentes em repartições especiais (conservatórias no caso do registo predial e automóvel). quotas sociais). o adquirente. verifica-se uma excepção ao princípio. do registo de automóveis e registos similares (aeronaves. é a criação de um direito que não existia anteriormente. Aquisição de direitos: é a ligação de um direito a uma pessoa. perspectiva estática (II)Aquisição. modificação e extinção de relações jurídicas 89. se este não existia na titularidade do transmitente (A). pois só nesta é que o direito adquirido é o mesmo do anterior titular. todavia. Bia e Caca são terceiros entre si e prevalece a venda a Caca. pode obter um direito que não pertencia ao transmitente ou é mais amplo do que aqueles que pertenciam a este.

regista-se aquilo que se diz adquirir Sistema de registo constitutivo: para se adquirir o direito tem que se registar. É preciso que tenham passado pelo menos 3 anos desde o negócio inválido sem que tenha sido intentada uma acção com vista à sua invalidade. não produzem quaisquer efeitos. por acto verdadeiro. Isto porque as nulidades e anulações operam em face de terceiros e não só em face da contraparte.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL b) da inoponibilidade da simulação a terceiros de boa fé. aquele que desconhecia e não tinha a obrigação de saber. de quem não era proprietário. o mesmo prédio a um terceiro e este ignorar a simulação. adquirentes a título oneroso.». o que não sabia mas desconfiava. vender ou doar. peritos)/ conhecimento exacto sobre o que incidem os direitos. O actual código civil estabelece (291º) um regime de inoponibilidade a terceiros de boa fé. pressupõe meios (equipas técnicas. O terceiro tem que estar de boa fé (que não se traduz no simples desconhecimento do negócio anterior (simulação).: veículos). Em Portugal não há «registo de bens» mas sim «aquisições de direitos» sobre bens. adquirente «a non domino». resulta uma excepção ao princípio geral da aquisição derivada: «nemo plus juris in alium transferre potest quam ipse habet». Sistema de registo declarativo: o direito adquire-se por mero efeito do contrato. C devia restituir o prédio. C só regista se B o tiver feito e anteriormente A). ao invés do que prescreve o princípio «nemo plus juris.». desde que a acção tendente à declaração de nulidade ou à anulação não seja proposta e registada dentro dos 3 anos posteriores à conclusão do negócio. consequentemente. se A transmitiu. Assim se realiza. através desta inovação do código de 1966. porém. portanto. Os negócios jurídicos simulados são nulos e. Daí que o registo seja facultativo. por força da invalidade do negócio donde resultaram os direitos do seu transmitente. É preciso que o registo seja anterior ao registo de acção de invalidade do negócio anterior. É preciso que esteja em causa a aquisição de um direito sujeito a registo.. o segundo seria também nulo e. Efeito automático: o registo da aquisição de um direito em nome próprio faz com que se pressuponha a titularidade do direito (mesmo assim trata-se de uma presunção ilidível). a hipoteca (687º) é constitutivo. No nosso caso. a protecção do terceiro de boa fé. O registo não é obrigatório mas é um ónus. por negócio nulo ou anulável. Mesmo assim. Por exigência da protecção da confiança dos terceiros e dos interesses do comércio jurídico. o registo não garante que a pessoa inscrita como último adquirente o seja realmente. o terceiro adquire validamente esse objecto (243º). Para que um terceiro estar protegido é preciso a verificação de alguns requisitos: Existir um terceiro. está de má fé). c) da eventual inoponibilidade das nulidades e anulabilidades a terceiro de boa Por força do princípio «nemo plus juris. se o contrato for válido o direito é adquirido independentemente do registo. sendo os direitos deste sacrificados. como tal. Que o negócio entre B e C seja oneroso (não doação). das nulidade e anulações de negócios respeitantes a imóveis ou moveis sujeitos a registo. fé. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 25 . Princípio do trato sucessivo: um registo só pode ser feito havendo registo anterior do transmitente (A -> B -> C. O terceiro adquire.. O objecto do negócio tem que ser bem imóvel ou bem móvel sujeito a registo (ex. um prédio a B e este o transmitiu a C.. apenas na hipótese de este ser invalidado nos 3 anos subsequentes à sua realização. é o registo que cria o direito.. declarado nulo ou anulado o primeiro acto. Se o simulado adquirente dum prédio.

A modificação também pode surgir do lado activo sendo esta sempre subjectiva. mas subsiste na esfera jurídica de outrem. Quebra-se a relação de pertinência entre um direito e a pessoa do seu titular. Modificação objectiva: se na modificação do direito se muda o conteúdo ou o objecto do direito. quer do lado activo. Pode. O direito mudou de titularidade. A diz a cede a C o direito de ser ele a receber o dinheiro de B. sem a vontade do mesmo titular.: A empresta dinheiro a B. apesar da modificação verificada. Muda o conteúdo se ex. Neste caso. um direito inicialmente pertencente a dois sujeitos passa a pertencer a um único terceiro (A+B -> C). permanece a identidade do referido direito. por último. surgindo então a assunção da dívida e pode referir-se à relação contratual. Só pode haver substituição do devedor se o credor aceitar. existir uma situação de concentração.: é concedida pelo credor ao devedor uma prorrogação do prazo para o cumprimento. A sucessão entre-vivos nas relações obrigacionais – substituição de sujeitos sem extinção da relação jurídica e surgimento de uma nova. não são oponíveis a terceiros e a regra geral que vale no direito primeiramente adquirido é substituída pela regra da prevalência do primeiro registo. É o que se verifica quando a um sujeito se substituem vários.: não cumprindo o devedor culposamente a obrigação. Tem lugar nesta hipótese uma situação de substituição. Verifica-se também uma situação de substituição. apesar da vicissitude ocorrida. a multiplicação pode ocorrer por: sucessão (A transmite o mesmo direito para B e C). e quanto a actos «inter vivos». não registadas. normalmente através da cessão da posição contratual. Ocorre por vontade do titular do direito extinto. multiplicação e concentração. permanecendo a identidade objectiva do direito. adjunção (um novo devedor assume a obrigação para com o credor. isto é. o seu dever de prestar é substituído por um dever de indemnizar. O direito é o mesmo e não um direito novo. pode ter lugar por sucessão «mortis causa».TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Efeito lateral: outros que não o central e o automático (o facto de se registar produz determinados efeitos). 26 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . significa que o ordenamento jurídico continua a tratar o direito como se não tivesse tido lugar a alteração. permanecendo juntamente com o devedor inicial [assunção cumulativa]). B paga a dívida a C). Também se pode falar de uma situação de multiplicação. A perduração do direito. 92. 93. Neste caso.Extinção de direitos A extinção de um direito tem lugar quando um direito deixa de existir na esfera jurídica de uma pessoa. ou contra a sua vontade. permanecendo este idêntico. extinguiu-se para aquele sujeito. Muda o objecto se ex. quer do lado passivo. mas antes com perduração da entidade do vínculo – pode ter lugar.Modificação de direitos Tem lugar a modificação de direitos (do lado activo) quando. A modificação subjectiva das relações jurídicas. apenas mudando a pessoa do seu titular. Efeito central: aquisições sujeitas a registo. Modificação subjectiva: se na modificação do direito tem lugar uma substituição do respectivo titular. sem novação. É o que se verifica nos direitos de crédito. alterado ou mudado um elemento de um direito. do lado passivo. também. Extinção subjectiva: se o direito sobrevive em si. com a cessão de créditos e com a subrogação nos créditos (ex.

deixando de existir para o seu titular ou para qualquer pessoa. da totalidade do património social ou de uma quota parte a líquota dele. A sub-rogação real joga naturalmente (faz parte da fisiologia) num património (de liquidação). direitos potestativos: arguir a nulidade do negócio. Sucessão a título universal e sucessão e título particular. sucessão ou transmissão. Revivescência: quando na Pendência ou Aquiescência. que. abandono de um objecto. numa sociedade em dissolução. pode recusar o cumprimento da prestação ou opôr-se ao exercício do direito prescrito. por seu turno. É o que acontece se há destruição do objecto. Este último caso pode ocorrer por: . Ex. o sucessor adquire ou subingressa na titularidade do direito e este extingue-se para o autor ou transmitente.: servidão de passagem). É o que acontece com as aquisições derivadas translativas sujeitas a condição ou termo suspensivos. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 27 . É o caso das aquisições derivadas constitutivas (constituição de usufruto. Mas também é sucessão num património a adjudicação a um sócio ou terceiro.: 265ºn1.: direitos de crédito 304º). . O fenómeno da sub-rogação real A sucessão num património tem o seu paradigma na sucessão mortis causa. pois o que interessa é manter o conjunto de valor (activo) que garante o passivo. Sucessor a título universal é o que sucede na totalidade ou numa quota parte ideal do património. Sucessos acidentais da vida da relação jurídica: Pendência. é o caso das RJ do ausente. não exercício do direito.Decadência: quando o direito deixa de existir por a formação posterior de um direito incompatível. . de um prédio por acções) e indirecta (a coisa é substituída por um preço e o preço por outra coisa: A vende a B um prédio e com o preço compra a C um automóvel).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL A extinção subjectiva ou perda de direitos verifica-se sempre que tem lugar um sucessão na titularidade dos direitos. o obstáculo cessa e a RJ funciona. No plano das combinações jurídicas: a sucessão num património (designadamente. 302). completada esta. Sub-rogação real: pode ser directa (a coisa é directamente substituída por outra: troca de um prédio por outro. ficando como que adormecida. ou funciona de novo. Não há aquisição derivada. supõe a personalidade humana. direitos reais limitados ex.Não uso (direitos reais sobre coisa alheia.Prescrição: refere-se a direitos subjectivos em sentido estrito (ex. Extinção objectiva: existe se o direito desaparece. que se extinguiram pela sua morte. O beneficiário da prescrição. ao fim de um ano extingue-se por caducidade. em pleno.Caducidade: direito de accionar está em causa. . mas por um obstáculo análogo deixa de ter o seu funcionamento normal. na herança). de superfície) Aquiescência: quando um RJ já funcionou em pleno. Aquiescência e Revivescência Pendência: quando uma relação jurídica plenamente formada não pode funcionar em pleno porque o sujeito activo ainda não existe ou não está ainda determinado. OS SUJEITOS DA RELAÇÃO JURÍDICA CIVIL Das pessoas humanas A subjectividade jurídica (a qualidade de quem é sujeito de direito) supõe no homem a personalidade jurídica.Renúncia (abandono de uma situação de prevalência. .

como sujeito para o direito. A personalidade humana é um prius da personalidade jurídica. de sujeito para sujeito de direito. de teoricamente variável de pessoa para pessoa jurídica. reclama a Capacidade Jurídica: a susceptibilidade concreta de se ser titular de tais direitos e deveres. a subjectividade jurídica constitui um posse. os não concebidos. Trata-se já não de um posse abstracto. Exige-se além disso. que seja com vida e completo. Ao princípio de que a personalidade jurídica começa com o nascimento parece opor-se a situação jurídica dos nascituros. mas porque existe a personalidade humana. de quem tem a susceptibilidade abstracta de ser titular de direitos e deveres. excluindo-se quer os nados-mortos. Quem nasce 300 dias depois da doação ou da morte do autor da herança reputa-se como não concebido. O que involve a irrecusabilidade da personalidade jurídica. Segundo o 1798º. em qualquer espécie de sucessão – 2033º n. Realmente. a personalidade cessa com a morte.º1. 28 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Há personalidade jurídica quando existe (logo que existe e enquanto existe) personalidade humana. o filho reputa-se concebido dentro dos primeiros 120 dias dos 300 que precedem o nascimento. 3) Ilimitabilidade: a personalidade jurídica é tão ilimitada como a personalidade humana. A personalidade jurídica traduz-se em subjectividade jurídica. como susceptibilidade abstracta de se ser titular de direitos e obrigações. Só com personalidade humana há personalidade jurídica. ou o numerus clausus dos direitos de personalidade. a quem a lei reconhece direitos.Personalidade jurídica. pois pressupõe a personalidade humana. Da personalidade 66º n. A plenitude e a igualdade de direitos constituem a reivindicação número um que a personalidade formula actualmente ao Poder. A personalidade jurídica não é algo que subsista por si mesmo.º1 do 68º do CC. Todavia. constitui juridicamente um esse. ou seja. Do que resultam os seguintes corolários: 1) Essencialidade: a personalidade é essencial. que é a qualidade de quem é “sujeito de direito”.º1 – O nascimento entende-se como a separação do feto do ventre materno. Posse abstracto: poder de ser abstractamente titular de direitos e obrigações. quer os que morrem durante o parto ou antes da secção do cordão umbilical. Capacidade de Exercício de direitos: a capacidade para intervir por si próprio ou através de representante voluntário. não só aos já concebidos mas ainda aos não concebidos a lei faculta que se façam doações (952º) e que se defiram sucessões (os concebidos. (esquema caderno. como projecção da personalidade humana. Se a personalidade jurídica. O que exclui as chamadas gradações de personalidade. A personalidade jurídica é a projecção no direito (do normativo jurídico) da personalidade humana. Algo quantificável. 2) Indissolubilidade: a personalidade jurídica é indissolúvel da personalidade humana. mas de um posse concreto: de me ser reconhecida a possibilidade de ter o direito A ou o direito B. quem nasce dentro desses 300 dias reputa-se como concebido. Termo da personalidade a) A morte Nos termos do n. é um posse necessário: ninguém é verdadeiramente pessoa jurídica se não tiver o estatuto permanente de sujeito de direito. dia 3/12/2002) (II)Pessoas singulares 47. A subjectividade jurídica.º2). logo. só na sucessão testamentária e contratual – 2033º n.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL É porque o homem é pessoa – pessoa humana – que ele se reconhece como pessoa em sentido jurídico e. existindo tanto e enquanto esta personalidade existir.

deve ser registado na repartição do registo civil da área onde ocorreu ou se encontra o cadáver. Se mais tarde se vier a verificar ter havido engano ou incorrecção.: um casal tem 2 filhos. Problema discutido é a questão de saber se a lesão do direito à vida é susceptível de reparação. de mortes simultâneas) susceptível de prova em contrário – iuris tantum. na totalidade da herança dos pais sucede apenas o filho sobrevivo B. não coincide com o significado que vulgarmente se atribui a este vocábulo de simples não presença de alguém em certo local. implica a abertura do chamado processo de justificação judicial do óbito. ANTUNES VARELA: vêem no 71º n. quando o desaparecimento se tiver dado em circunstâncias que não permitam duvidar da morte dela». O que está em causa é a transmissão do direito de compensação (atribuível pela ilícita supressão da vida) e não da transmissão do direito à vida. nos termos do 247º e 248º do código do registo civil. No direito inglês presume-se sempre a premoriência do mais velho. Se considerarmos que as mortes foram simultâneas. Esta presunção tem enorme importância prática. Julgada a justificação. Qualquer falecimento. provando-se que o filho A morreu algumas horas mais tarde. por não se encontrar ou não ser possível identificar o cadáver (ex. Já se considerarmos simultâneas apenas as mortes dos pais. Entre nós essa reparação é admitida com base no 70º constituindo a ofensa à vida a máxima ofensa possível da personalidade e no 496º. 66.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL No momento da morte. pondo termo à personalidade e desencadeando efeitos jurídicos significativos. c) O desaparecimento da pessoa Artigo 68º n. É com este sentido técnico de não presença de alguém acompanhada da falta de notícias que o termo ausência é tomado. especialmente no que concerne a efeitos sucessórios: não de verificarão fenómenos de transmissão entre os comorientes. onde o n.: afundamento de navio).). nos termos do 299º e segs.Ausência O termo «ausência». extinguindo-se os de natureza pessoal e transmitindo-se para os sucessores mortis causa os de natureza patrimonial. traduzido num desaparecimento sem notícias.º1 («os direitos de personalidade gozam igualmente de protecção depois da morte do respectivo titular») um desvio à cessação da personalidade com a morte.º3 textualmente prescreve a possibilidade de atender aos danos não patrimoniais sofridos pela vítima. passando a quota de A para o seu avô ainda vivo. O desaparecimento de uma pessoa nestas circunstâncias.º2 «quando certo efeito jurídico depender da sobrevivência de uma a outra pessoa. pressupõem um sentido técnico de «ausência». A e B. Suponhamos que num acidente de viação morre o casal juntamente com o filho A. consagram antes presunções de premoriência. que uma e outra falecem ao mesmo tempo». Ex. requerer-se-á a invalidade ou rectificação do assento de óbito. PIRES DE LIMA.º3: «Tem-se por falecida a pessoa cujo cadáver não foi encontrado ou reconhecido. em vez de presunção de comoriência. b) Presunção de comoriência Nos termos do 68º n. a cargo do Ministério Público. Por outro lado. a que se referem os artigos 89º a 121º. Neste caso parece deverem aplicar-se as regras da morte presumida (114º e segs. a pessoa perde os direitos e deveres da sua esfera. as providências que a lei refere nos artigos citados. a herança é dividida pelos dois filhos (A e B). presume-se em caso de dúvida. para o efeito de providenciar pelos bens da pessoa Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 29 . Há outras legislações que. Consagra-se uma presunção de comoriência (isto é. o conservador lavrará o respectivo assento de óbito.

Contudo. a qual deve ser deferida a uma das seguintes pessoas: cônjuge. pela declaração de morte presumida. d) Pela entrega dos bens aos curadores definitivos (com a curadoria definitiva). ou passados 5 anos. Tanto o Ministério Público como qualquer interessado. Após a justificação da ausência proceder-se-á à abertura de testamentos (101º) e à partilha e entrega dos bens aos herdeiros (103º). todavia. os efeitos desta equiparação. b) Pela notícia da sua existência e do lugar onde reside. nos termos da lei (98º): a) Pelo regresso do ausente. 3) A falta de representante legal ou de procurador (89º). b) Se o ausente providenciar acerca da administração dos bens. ou da declaração da morte presumida. têm legitimidade para requerer a curadoria provisória. A legitimidade para o pedido de instauração da curadoria definitiva pertence também aqui ao Ministério Público ou a algum dos interessados. Os sucessores passam a ser tratados não como meros administradores (curadores) mas como proprietários dos bens. os quais são tidos como curadores definitivos (104º) e não como proprietários desses bens (não podendo dispor deles). Essas medidas. e) Pela certeza da morte do ausente. carecidos de administração. se entretanto o ausente tiver completado 80 anos de idade. o tem o ausente direito: 30 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . d) Pela declaração da morte presumida. ao invés. verifica-se um fenómeno de sub-rogação real.º2). ou. A curadoria provisória termina. O 115º prescreve que a declaração de morte presumida produz os mesmos efeitos que a morte física. é necessário que decorram 5 anos sobre a data em que ele completaria a maioridade. da sua morte. visto que a lei só possibilita o recurso à justificação da ausência no caso de terem de corrido dois anos sem se saber do ausente ou cinco anos no caso de ele ter deixado representante legal ou procurador bastante (99º). se a pessoa ausente for menor. têm subjacentes uma presunção de maior ou menor probabilidade de regresso do ausente. se se verificarem os requisitos legais de que depende. se fosse vivo. c) Pela certeza da sua morte. Ex. O direito faculta a tomada de medidas tendentes a evitar os prejuízos decorrentes da falta de administração dos bens da pessoa ausente. além do cônjuge.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL ausente. Algumas disposições da lei atenuam. traduzidas no requerimento e instauração da curadoria provisória e da curadoria definitiva. Para menores só pode pedir-se quando estes façam 23 anos.: o casamento não cessa. 2) A necessidade de prover acerca da administração dos seus bens. em virtude de não ter deixado representante legal ou voluntário (procurador). O curador funciona como um simples administrador (94º). podendo recorrer-se desde logo à declaração de morte presumida. embora o 116º dê ao cônjuge a possibilidade de contrair novo casamento sem necessidade de recorrer ao divórcio. Nenhuma delas está dependente da anterior. A curadoria definitiva termina (112º): a) Pelo regresso do ausente. isto é. sendo estes. para que possa ser declarada a morte presumida (114º n. Curadoria definitiva: A probabilidade de a pessoa ausente não regressar é nesta fase maior. Morte presumida: Decorridos 10 anos sobre a data das últimas notícias. em caso de regresso. os herdeiros do ausente e todos os que tiverem sobre os seus bens qualquer direito dependente da sua morte. Medidas legais Curadoria provisória: Os pressupostos de que a lei faz depender a nomeação de um curador provisório são: 1) O desaparecimento de alguém sem notícias. Na esfera patrimonial. c) Pela comparência da pessoa que legalmente represente o ausente ou de procurador bastante. algum ou alguns dos herdeiros presumidos.

da qual se podem desentranhar um direito à vida. A irrenunciabilidade dos direitos de personalidade não impede a eventual relevância do consentimento do lesado: este não produz a extinção do direito e tem um destinatário que beneficia dos seus efeitos. O CC. É este um círculo de direitos necessários. Reconhece-se assim merecedora de tutela a natural aspiração da pessoa ao resguardo da sua vida privada. c) Ao preço dos bens alienados (sub-rogação directa). um conteúdo mínimo e imprescindível da esfera jurídica de cada pessoa. não têm. Obviamente. certamente para afastar quaisquer dúvidas previsíveis sobre a sua inclusão na tutela geral operada pelo 70º. (119º). Os direitos de personalidade são inalienáveis e irrenunciáveis. em si mesmos. prevê expressamente no artigo 80º o chamado direito à reserva sobre a intimidade da vida privada. ser-lhe-á devolvido o património que era seu. a sua saúde física. efectivamente. A consagração desta protecção geral da personalidade permite conceder tutela a bens pessoais não tipificados. Constituem «o mínimo necessário e imprescindível do conteúdo da personalidade». honra. o seu nome. Mesmo que. A violação de alguns desses aspectos da personalidade é mesmo um facto ilícito criminal. dada a sua essencialidade relativamente à pessoa. integridade física. no Estado em que se encontrar. no domínio patrimonial lhe não pertençam por hipótese quaisquer direitos sempre a pessoa é titular de um certo número de direitos absolutos que se impõem ao respeito de todos os outros. titular de alguns direitos e obrigações. valor pecuniário) e absolutos. à integridade física. incidindo sobre os vários modos de ser físicos ou morais da sua personalidade.º1). depois da morte do respectivo titular. que desencadeia uma punição estabelecida no código penal. da qual constituem o núcleo mais profundo.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL a) Aos bens directamente adquiridos por troca com os bens do seu património (subrogação directa). 48. a protecção dos que possam continuar a ser ofendidos (71º n. Toda a pessoa jurídica é. tendo por objecto a pessoa no seu todo. Em caso de lesão de que provenha a morte. A ofensa de qualquer destes bens está sancionada no n. a reserva sobre a intimidade da sua vida privada. à honra. Neste sentido podem dar-se-lhe hoje as consabidas denominações da escola do direito natural racionalista: «direitos inatos» ou «direito originários». Direito geral de personalidade: «direito que abrange todas as manifestações previsíveis e imprevisíveis da personalidade humana». Incidem os direitos de personalidade sobre a vida da pessoa. porém. O direito protege os vários modos de ser físicos ou morais da personalidade. o ausente tem direito também à indemnização do prejuízo sofrido.Direitos de personalidade Designa-se por esta fórmula um certo número de poderes jurídicos pertencentes a todas as pessoas. Havendo. São os chamados direitos de personalidade. Quais serão os direitos de personalidade? O 70º contém uma norma de tutela geral da personalidade. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 31 .º2 do mesmo artigo. má fé dos sucessores – e exacta consiste no conhecimento pelos sucessores de que o ausente era vivo à data da declaração de morte presumida -. à liberdade. Mantémse. se no documento de aquisição se fez menção da proveniência do dinheiro (sub-rogação indirecta). a sua imagem. o direito a indemnização é deferido às pessoas referidas nos 495º e 496º. São direitos gerais (todos deles gozam). b) Aos bens adquiridos com o preço dos alienados. por força do seu nascimento. extrapatrimoniais (embora as suas violações possam originar uma reparação em dinheiro. liberdade física e psicológica.

.. violado. Ex. . A sanção penal do aborto não é assim defesa deste direito. o direito à honra é.Direito à vida É o direito à conservação da vida. forma de estar). A honra pode ser violada com o trazer a público de determinados factos sejam eles verdadeiros ou falsos.Honra económica: direito ao crédito pessoal. ex. A honra também é protegida criminalmente. 32 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados .TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Direitos especiais de personalidade: .Honra propriamente dita: dignidade humana. Esta liberdade pode ser: positiva (o direito de fazer algo) ou negativa (o direito de se recusar a fazer algo). 2. mas da vida intra-uterina enquanto bem jurídico autónomo. Manipulação da imagem: usa-se a imagem e adultera-se. honestidade. variáveis. em termos de direito civil. No direito civil a honra pode ser violada com a divulgação de factos reais. b) Direito à palavra As regras anteriores são aplicadas analogicamente. Os 2 últimos círculos variam de pessoa para pessoa. Captação: violação Divulgação: violação mais grave. O titular do direito não pode dispor dele sem cometer um ilícito (suicídio.). religiosa). Pode ainda ser: física (liberdade sexual) ou moral (política. eutanásia). .Projecção moral a) Direito à honra (direito à reputação.Direito à inviolabilidade pessoal 1.Direito à liberdade É o direito à livre conformação da pessoa. . entendendo-se esta como a simples existência biológica..o direito de controlar a captação/divulgação de qualquer elemento de identificação da pessoa.: direito ao decoro (:forma de vestir. . por isso. Em termos de liberdade negativa não se pode aplicar a sanção pecuniária compulsória.Direito à integridade física É o direito a não ser lesado na integridade físico-psíquica tal como possuiria se não se verificasse tal lesão. Podem identificar-se 4 círculos de honra: . Este direito é tutelado pela CRP bem como pelo código penal (131º e ss.Honra deontológica: ou profissional. bom nome e reputação. Este direito é também tutelado pela CRP e penalmente.: se um jornal diz determinadas coisas acerca de uma pessoa. violação do direito à imagem + à verdade.: maus profissionais. No direito penal a honra só é violada com a divulgação de factos falsos. honra extrínseca): A imagem que a pessoa projecta de si nas outras pessoas.Honra . .Projecção física a) Direito à imagem 79º . na qualidade de sucessores e com base no direito que surge no momento exacto da morte desse sujeito. a imagem que os outros têm de nós. mas nestes casos não faz sentido falar em responsabilidade civil uma vez que o lesante é o mesmo que sofreu a lesão. São. Divulgação indirecta: =imitação. Pode haver lugar a compensação (visto que é afectado um bem não patrimonial) mas quem a exige são os sucessores.

TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Os 3 primeiros círculos não são direitos disponíveis: isto é. O direito de autor: abrange o aspecto moral e o aspecto patrimonial (direito real. este é sempre ilícito. d) Direito à verdade pessoal Direito à liberdade negativa. por exemplo.Projecção vital a) Direito ao carácter Ninguém poderá estar sujeito sem consentimento a meios que permitam revelar o seu carácter. de propriedade sobre a obra). . certa pessoa é “a” pessoa e não “uma” pessoa. Contudo. O direito à honra não é consagrado num artigo específico do CC mas é aflorado no 79º n.º3. relativa aos dados de confidencialidade pessoal. A nossa lei não permite a homonímia (o mesmo nome).: diários) e por determinação da pessoa (coisas que cabe ao próprio o ónus da prova do seu carácter secreto). Obra: conjunto de sinais subjectivamente organizados e objectivamente expressos. No 79º n. morada. b) Direito à história pessoal Direito ao percurso da pessoa: ex. não estão sujeitos a limitações dos titulares do direito.Secreta: aspectos secretos da vida íntima. aspectos intrínsecos à natureza da própria pessoa. . 3. 2 . um direito inato) e a identidade em sentido estrito (direito ao nome). Existe dentro de si 3 esferas: 1 . c) Direito à intimidade da vida privada Este é um direito que incide sobre informações.Privada: ex.Direito à criação pessoal e direito moral de autor O primeiro é um direito inato.: gostos. portanto. O segundo é não inato e pressupõe o direito de criação pessoal mas surge só após a criação que se traduz numa obra. o direito de informação prevalece sobre o direito à honra.º2 apresentam-se algumas situações onde se justifica a violação do direito à imagem. os quais são resolvidos pelo 335º. à fase de determinação da importância da violação. aspectos não relativos à própria pessoa mas que estão relacionados consigo. As coisas secretas podem ser secretas: por natureza (ex. o nome igual não pode ser utilizado de forma a prejudicar outro. No direito ao decoro pode haver consentimento válido.objectivação: a obra tem que ganhar consistência no sentido de ser objectivada.: modelos fotográficos).Direito à identidade pessoal Abrange a: identificação (não confundabilidade da pessoa. Contudo. O direito é disponível logo.: biografias não autorizadas (“Os amores de Manuel” -> é preciso a autorização de Manuel e dos “amores”).Pessoal: ex. 3 . . o titular pode limitar o direito. A criação tem que ter duas características: . Nas restantes situações isto não se verifica. Há frequentemente conflitos entre o direito de honra e o direito à informação.: casa. situações que afastam. em caso de violação ao direito à honra. preferências sexuais. a ilicitude. o titular não pode limitar o direito. Quando se trata de uma matéria com relevante interesse público. Esta distinção é essencial no que diz respeito. âmbito mais restrito. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 33 . Admite-se consentimentos vinculantes: pressupõe vínculo contratual (ex. este é. aliás.originalidade: a obra tem que ser “a” obra.

embora sempre limitado pela ordem jurídica e pelos bons costumes (81º n. ser violado de inúmeras formas. . Não havendo consentimento do paciente. . segundo o estado dos conhecimentos e da experiência da medicina.se o consentimento. designadamente um contrato. foi dado para uma intervenção ou tratamento diferente. excepto se se verificar qualquer das seguintes hipóteses: . Este tem importância na medida em que.direito à dignidade da obra (direito a participar das valorizações extraordinárias da O direito moral de autor pode. debelar ou minorar uma doença. Tutela deste direito: . como meio para evitar um perigo para o corpo ou para a saúde.direito à paternidade da obra. não se consideram ofensas corporais».º1.direito à intangibilidade da obra (direito à obra não ser adulterada). portanto. pode ser relevante para aferir da violação.tolerante: não atribui um poder de agressão. por exemplo. O consentimento e o correlativo dever de esclarecimento têm de ser mais rigorosos ainda nas intervenções ou tratamentos estéticos do que nos curativos. não do direito à integridade física.autorizante: constitutivo de um compromisso jurídico sui generis.Direito ao tratamento dos dados pessoais Tem em conta. pois nesse caso é contra os bons costumes. só puder ser obtido com adiamento que implique um perigo para a vida ou grave perigo para o corpo ou para a saúde. . as violações potenciadas pela utilização da informática. mas da liberdade de vontade. obra). Nas intervenções e tratamentos médico-cirúrgicos em benefício próprio A lei penal dispõe hoje que «as intervenções e outros tratamentos que. Há 3 tipos de consentimento: . de acordo com a leges artis.º1 e 340º CC). cai no domínio público. haverá violação. Do consentimento do ofendido O consentimento pode também determinar a inexistência de lesão (exclusão do facto) ou a justificação dela (justificação do facto). diagnosticar. .: encontrões no autocarro)). e não se verificarem circunstancias que permitam concluir com segurança que o consentimento seria recusado.vinculante: origina um compromisso jurídico autêntico. mas o que foi realizado é imposto pelo estado dos conhecimentos ou experiência da medicina. o consentimento é irrelevante sempre que há uma desproporção enorme entre o benefício a obter e o risco da atitude médico-cirúrgica. por um médico ou outra pessoa legalmente autorizada a empreendê-los com intenção de prevenir. O consentimento não extingue o direito de personalidade. um sofrimento. Além disso. É possível violação simultânea do direito à honra e do direito moral de autor. . se mostrem indicados e forem levados a cabo. . O consentimento tem limites: superiores (direito à vida não pode ser limitado assim como o direito à integridade física) e inferiores (as exigências da vida em sociedade levam a que certas lesões sejam irrelevantes (ex.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL O direito de autor é vitalício e depois da morte transmite-se para os herdeiros.se o consentimento. que atribui a outrem um poder (fáctico) de agressão. 34 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . uma lesão ou fadiga corporal ou uma perturbação mental. mas justifica implicitamente a mesma: 340º n. .direito ao inédito. Ao fim de 50 anos.

deve atender a se se trata de: elementos caducáveis. os negócios a que se refere nem podem ser concluídos por outra pessoa em nome do incapaz.Capacidade jurídica e capacidade para o exercício de direitos direitos. mais genéricas. maior ou menor. À personalidade jurídica é inerente a capacidade jurídica ou capacidade de gozo de O artigo 67º estabelece que «as pessoas podem ser sujeitos de quaisquer relações jurídicas. Não se pode admitir o consentimento presumido ou hipotético ou o consentimento por representante legal. Incapacidade negocial de gozo: provoca a nulidade dos negócios jurídicos respectivos e é insuprível. 50. das possibilidades de recuperação.caducáveis: não há problema. nem por este com autorização de outra entidade. Ou há uma pessoa jurídica ou não há. Modalidades: capacidade negocial de gozo (capacidade jurídica negocial) e capacidade negocial de exercício Estas noções traduzem-se na referência das noções. Melhor se falaria de capacidade de agir. . exercendo direitos ou cumprindo deveres. Distinta da noção de capacidade jurídica é a de capacidade de exercício de direitos. como vimos. salvo disposição legal em contrário: nisto consiste a sua capacidade jurídica». na prática dos actos que movimentam a sua esfera jurídica. isto é. . Fala-se de capacidade jurídica para referir a aptidão para ser titular de um círculo. convertível em autêntica obrigação. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 35 . Nas disposições em benefício de outrem. da vantagem que a aquisição representa para o receptor. A expressão capacidade de exercício de direitos sugere tratar-se unicamente da susceptibilidade de exercitar direitos deixando de fora o cumprimento das dívidas e a aquisição de direitos ou a aquisição de direitos ou a assunção de obrigações. das técnicas de extracção. A pessoa. isto é. mesmo no caso de ser lícito. dotada da capacidade de exercício de direitos. por um representante legal (designado na lei ou em conformidade com ela) e age autonomamente. Contrapõe-se-lhes a incapacidade negocial de gozo e a incapacidade negocial de exercício. sujeito ao regime das disposições da integridade física em benefício alheio. não carece do consentimento. de relações jurídicas. não carece de ser substituída. etc.não regeneráveis: a licitude depende do risco que a perda representa para o dador. A incapacidade de exercício de direitos pode ser suprida pela representação legal ou pela assistência. O direito a partes destacáveis do corpo humano Anote-se que o consentimento em ceder-se certo elemento orgânico quando este vier a destacar-se do organismo. o cientista. por acto próprio e exclusivo ou mediante um representante voluntário ou procurador. anterior ou posterior ao acto. regeneráveis ou não regeneráveis. 49. de capacidade jurídica e de capacidade para o exercício de direitos ao domínio dos negócios jurídicos. isto é. de outra (assistente). encontra-se. . age pessoalmente. Capacidade de exercício ou de agir: é a idoneidade para actuar juridicamente. não sendo. adquirindo direitos ou assumindo obrigações.Capacidade negocial.regeneráveis: idem. Há uma capacidade jurídica maior ou menor.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Nas intervenções e tratamentos médico-cirúrgicos em benefício alheio ou geral: Exigência interrogável e rigorosa do consentimento com dever de esclarecimento.

o assistente impede o incapaz de agir ou intervém ao lado dele. traduzida em ser admitida a agir outra pessoa em nome e no interesse do incapaz. isto é. 36 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados .Determinação da capacidade negocial de exercício. Esta é suprível por: . Assistência: tem lugar quando a lei admite o incapaz a agir.suprimento da incapacidade dos menores pelo poder paternal. 2) Incapacidade de testar dos menores não emancipados e dos interditos por anomalia psíquica (2189º).: 153º . Pessoas singulares Em princípio todas têm capacidade de exercício de direitos. b) Da interdição. excepcionalmente.Determinação da capacidade negocial de gozo A regra geral. 3) Incapacidade para perfilhar dos menores de 16 anos. .: 124º . Não se trata de um representante voluntário. c) Das inabilitações. o assistente destina-se a autorizar o incapaz a agir. O representante substitui o incapaz na actuação jurídica.assistência: ex. 52. pertencendo a iniciativa do acto a este último. Essa pessoa é denominada representante legal. de absoluta incapacidade. é capacidade jurídica. não podendo os negócios a que se refere ser realizados pelo incapaz ou por um seu procurador.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Incapacidade negocial de exercício: provoca a anulabilidade dos negócios jurídicos respectivos e é suprível. Enquanto o representante legal actua em vez do incapaz. para dados efeitos. por ser designada pela lei ou em conformidade com ela. Generalidades Pessoas colectivas Estas possuem plena capacidade negocial de exercício. todavia. A capacidade de exercício das pessoas colectivas só sofrerá restrição quando. Existem contudo algumas restrições: 1) Incapacidades nupciais (impedimentos dirimentes absolutos e impedimentos dirimentes relativos 1601º e 1602º). agindo outras entidades em seu nome e no seu interesse ou quando. 51.representação legal: ex. estiverem privadas dos seus órgãos. mas exige o consentimento de certa pessoa ou entidade. seja necessária a autorização de certas entidades alheias à pessoa colectiva. escolhido e legitimado para agir pelo representado – e não se admite aqui um representante voluntário. pois a restrição não resulta da consideração de uma qualidade do disponente em si. Não se trata. Representação: é a forma de suprimento da incapacidade. dos interditos por anomalia psíquica e dos notoriamente dementes no momento da perfilhação (1850º). Há uma restrição do poder de disposição em certa direcção e por isso o código qualifica estes casos como indisponibilidade relativa. 53.Enumeração das incapacidades de exercício estatuídas pelo código civil As incapacidades de exercício estabelecidas pelo código civil resultam: a) Da menoridade.«os inabilitados são assistidos por um curador». dada a incapacidade do representado. por inerência do conceito de personalidade. O interesse determinante das incapacidades é o interesse do próprio incapaz.

o artigo 2190º prescreve a nulidade. Legitimidade: supõe uma relação entre o sujeito e o conteúdo do acto e. A invalidade só pode ser requerida pelas pessoas indicadas naquela disposição. um modo de ser para com os outros. Em princípio. a ineficácia em relação ao representado. Outras vezes um indivíduo não pode celebrar livremente (carece de uma autorização). Para o testamento. Na extensão do conceito de ilegitimidade estão abrangidas manifestações jurídicas cujo tratamento é diverso. em princípio.Incapacidade dos menores Amplitude Abrange. dos interditos ou dos inabilitados.: venda de coisa alheia. Enquanto as incapacidades de exercício geram anulabilidades. Para alguns negócios a lei resolve expressamente o problema.Valor dos negócios jurídicos indevidamente realizados pelos incapazes Incapacidade jurídica de gozo Os negócios feridos duma incapacidade jurídica negocial (incapacidade de gozo) são A lei não o diz de uma forma genérica. por isso. ao negócio consigo mesmo. à representação sem poderes e ao abuso de representação. Nem sempre é assim. Existem algumas excepções à incapacidade: 1.). sempre que se pretenda fazer derivar dum negócio efeitos (alienação ou aquisição de direitos.: representação legal ou voluntária). Para o casamento. etc. dada a natureza dos interesses que determinam as incapacidades de gozo. Poderá encontrar-se-lhes fundamento legal no 249º. nulos.Capacidade e legitimidade A distinção é oriunda do direito processual e aí se evidencia com nitidez. 2º Semestre 54. a anulabilidade (261º). Nas incapacidades conjugais. um indivíduo tem o poder de desencadear efeitos de direito numa esfera jurídica alheia (ex. as ilegitimidades originam sanções diversas: à venda de coisa alheia corresponde a nulidade (892º). é antes uma posição. Por vezes.). Na incapacidade de menores. contrato a cargo de outrem. que não os intervenientes no negócio (ex. as sanções dos actos indevidamente praticados constam do 1687º. o 1631º a). etc. dentro dos prazos aí referidos. que vinculem outras pessoas. Incapacidade de exercício Nesta hipótese tem lugar a anulabilidade dos actos praticados pelos incapazes. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 37 . Capacidade: é um modo de ser ou qualidade do sujeito em si. Haverá carência de legitimidade. É uma incapacidade geral (123º). variáveis consoante o autor da acção de anulação e pode ser sanada por confirmação das pessoas com legitimidade para a invocar. os menores podem praticar actos de administração ou disposição dos bens que o menor haja adquirido por seu trabalho (127º a)). mas manifesta-se também no direito material. estatui a solução da anulabilidade e o mesmo se determina no 1861º para a perfilhação.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 62. aplicável por forças dos 139º e 156º. quaisquer negócios de natureza pessoal ou patrimonial. todavia. 64. mas é essa a solução geralmente defendida e a que se impõe. anulabilidade tem as características enunciadas no 125º. assunção de obrigações. têm legitimidade para um certo negócio os sujeitos dos interesses cuja modelação é visada pelo negócio.

dentro de um ano a contar da morte. especialmente o n. Efeitos Os negócios jurídicos praticados pelo menor contrariamente à proibição em que se cifra a incapacidade estão feridos de anulabilidade (125º). Nesta hipótese. desde que tenham idade superior a 16 anos (1601º a)). 4. fixada a idade núbil nos 16 anos. não implicando a nulidade do acto. na primeira hipótese. são válidos os negócios relativos à profissão. O poder paternal pertence. conviria manter a emancipação resultante do casamento. prover ao seu sustento. Como se supre a incapacidade do menor A incapacidade do menor é suprimida pelo instituto da representação. 130º. acção de interdição ou inabilitação (131º). 133º). se o negócio não estiver cumprido. Qualquer herdeiro. se o hereditando morreu antes de ter expirado o prazo em que podia. são. não só o menor mas também os herdeiros ou representante. representá-los. O próprio menor. Podem fazer testamento se emancipados (2189º). arte ou ofício que o menor tenha sido autorizado a exercer. com base na consideração de que à situação de casado convém a plena capacidade de exercício de direitos decorrente da emancipação.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 2. velar pela segurança e saúde destes. estando ao alcance da sua capacidade natural. Os meios de suprimentos da incapacidade dos menores através da representação. O direito de invocar a anulabilidade é precludido pelo comportamento malicioso do menor. ainda que nascituros. de guardar os filhos na sua própria casa ou lugar à escolha (1887º). aos pais. e administrar os seus bens. sem dependência de prazo. podem perfilhar quando tiverem mais de 16 anos (1850º. o direito ao respeito mutuo (1874º). no interesse dos filhos. As pessoas com legitimidade para arguir essa anulabilidade são: O representante do menor. a tutela. Na vertente pessoal salienta-se: o poder de educar os filhos (1885º 1886º 1878º). todavia. 38 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . só impliquem despesas. dentro de um ano a contar do conhecimento do acto impugnado. ao atingir a maioridade. O único facto constitutivo da emancipação é o casamento (132º). Duração A incapacidade termina quando o menor atingir a idade de 18 anos ou for emancipado (122º. Poder paternal Compete aos pais. A anulabilidade pode ser invocada normalmente por via de excepção.º2). arte ou ofício (127º c)). em primeira linha o poder paternal e. de pequena importância (127º b)). o poder de custodia. e como tal. dá lugar à aplicação de sanções especiais. no caso de este ter usado de dolo ou má fé a fim de se fazer passar por maior ou emancipado (126º). podem contrair validamente casamento. são válidos os negócios jurídicos próprios da vida corrente do menor. ele próprio. ou disposições de bens. pois. que. dentro de um ano a contar da cessação da incapacidade. salvo se. requerer a anulação (125º). subsidiariamente. O legislador entendeu que. ficam inibidos de invocar a anulabilidade. (sendo certo. dirigir a sua educação. que a oposição dos pais ou do tutor constitui um impedimento impediente. ou os praticados no exercício dessa profissão. não distinguindo a lei poderes especiais do pai ou mãe em virtude do princípio da igualdade (1901º) Há a salientar a divisão «poder paternal relativamente à pessoa dos filhos» e «relativamente aos bens dos filhos». ou seja. estiver pendente contra o menor. 129º. 3.

e princípio. quer quanto aos meios de suprir a incapacidade (139º). Deve ser instaurada sempre que se verifique alguma das situações previstas no 1921º. Por isso. na satisfação de necessidade da família. 55. Há certos actos que são vedados ao tutor e que o pai pode praticar. Quando a anomalia psíquica não vai ao ponto de tornar o demente inapto para a prática de todos os negócios. quanto ao casamento. embora possam utilizar o seu rendimento nos termos do 1896º. o incapaz será inabilitado. O tutor – órgão executivo da tutela – tem poderes de representação abrangendo. devendo o tutor solicitar autorização judicial (ex. Estabelece-se uma tutela regulada pelas mesma normas que regulam a dos menores e que é deferida pela ordem estabelecida no artigo 143º. O poder tutelar é. As infracções aos artigos 1889º e 1892º geram anulabilidade dos respectivos actos. a generalidade da esfera jurídica do menor. declare a incapacidade. pois os menores embora dementes. estão protegidos pela incapacidade por menoridade.: aplicação de capitais do menor na aquisição de bens). ou quando os reflexos da surdez-mudez ou da cegueira sobre o discernimento do surdo-mudo ou do cego não excluem totalmente a sua aptidão para gerir os seus interesses. no termo de um processo especial. Torna-se necessária uma sentença judicial que. pelo menos com autorização judicial.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Na vertente patrimonial salienta-se: o poder de administração dos bens (1878º 1897º) e o reciproco dever de elementos (1874º 1878º).Incapacidade dos interditos Quem pode ser interdito A incapacidade resultante de interdição é aplicável apenas a maiores. De mencionar a extinção do usufruto legal dos pais sobre os bens dos filhos. O artigo seguinte enumera actos cuja validade depende de autorização do tribunal. para existir a incapacidade. não há possibilidade de suprimento da incapacidade dos interditos por anomalia psíquica (1601º). estes exercem o poder paternal como se o interdito fosse menor. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 39 . sendo predominantemente invalidades de tipo misto e não puras nulidades ou anulabilidades. As deficiências físico-psíquicas que são fundamento da interdição devem ser habituais ou duradouras e actuais. tal como os do pai. quando pela sua gravidade tornem o interditando incapaz de reger a sua pessoa e bens (138º). menos amplo que o poder paternal. quer quanto ao valor dos actos praticados em contravenção. As sanções para a infracção das proibições impostas ao tutor constam dos artigos 1939º e 1940º e variam conforme os casos. Quando a tutela recair nos pais. Parece haver lugar apenas à alternativa interdição ou inabilitação. Não basta todavia a existência das deficiências naturais. Tutela É o meio normal de suprimento do poder paternal. nos termos do artigo 1893º. O regime da incapacidade por interdição é idêntico ao da incapacidade por menoridade. Estão excluídos da administração dos pais certos bens mencionados no 1888º. A sentença de interdição definitiva deve ser registada. São fundamentos de interdição as situações de anomalia psíquica (abrangendo deficiências do intelecto. consoante a gravidade das deficiências. referidas no 138º. Como se supre a incapacidade dos interditos É suprida mediante o instituto da representação legal. isto é. há actos que o pai pode praticar livremente. sob pena de não poder ser invocada contra terceiro de boa fé (147º) Efeitos É óbvio que só é suprível uma incapacidade de exercício de direitos. da afectividade ou da vontade). surdez-mudez ou cegueira. estamos perante uma incapacidade negocial de gozo. surdos-mudos ou cegos. todavia.

57. de uma decisão judicial.: valorização de terreno) que tornariam agora vantajoso não o ter realizado. desde que: 1-o facto seja notório. com a cessação da incapacidade natural. com as necessárias adaptações.Valor dos actos praticados pelo interdito Três períodos 1. irremediavelmente. é aplicável. seja qual for a sua justificação moral. por outro lado. Também quanto ao testamento. Podem assim requerer a anulação o representante do interdito. 2-Na pendência do processo de interdição Se o acto foi praticado depois de publicados os anúncio da proposição da acção. de uma invalidade sanável por confirmação das pessoas com legitimidade para a invocar.Incapacidade dos inabilitados As inabilitações são uma fonte de incapacidade. sempre que um contratante sensato e prudente na gestão dos seus bens não teria celebrado o negócio naqueles termos. durante a vigência da interdição. Quanto ao prazo para a invocação da anulabilidade. o próprio interdito. importa sempre. no prazo de um ano a contar do levantamento da interdição e qualquer herdeiro deste. Nestes termos os negócios praticados pelo interdicendo. nos termos do qual a declaração negocial feita por quem se encontrava acidentalmente incapacitado de entender o sentido dela ou que não tinha o livre exercício da sua vontade é anulável.Anteriormente à publicidade da acção Acerca das condições da anulação destes actos. tendo sido embora celebrados nas condições em que o faria uma pessoa normal e sensata. O prejuízo verificar-se-á. por força do 139º. haverá lugar à anulabilidade. um empobrecimento imediato do doador. podendo eventualmente.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Só os interditos por surdez-mudez ou cegueira têm plena capacidade matrimonial. só serão anuláveis. Trata-se. sem mais. e ás pessoas com legitimidade para a arguir. causar-lhe grave dano. não se tomando em conta eventualidades ulteriores (ex. na pendência do processo de interdição. A incapacidade acidental está prevista e regulada no 257º. 56. quanto aos negócios onerosos. no prazo de um ano a contar da morte do incapaz. Resultam. se vieram a tornar desvantajosos para o interdito por força de eventualidades posteriores. 2-conhecido pelo declaratário. rege o 150º. Torna-se necessário o levantamento da interdição. A interpretação mais chegada ao texto do 956º do código de processo civil era a de que permitia a anulação de negócios que. desde que «se mostre que o negócio causou prejuízo ao interdito» (149º). 3-Depois do registo da sentença de interdição definitiva Os negócios jurídicos praticados neste período estão feridos de anulabilidade (148º). Uma doação. Podem requerer o levantamento o próprio interdito ou qualquer das pessoas com legitimidade para requerer a interdição (151º).Quando cessa a incapacidade dos interditos A incapacidade dos interditos não termina. por força de ulteriores vicissitudes. no prazo de um ano a contar do conhecimento do negócio. 40 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . cuja estatuição remete para o disposto acerca da incapacidade acidental. se forem considerados prejudiciais numa apreciação reportada ao momento da prática do acto. tal como as interdições. o 125º. só os interditos por anomalia psíquica estão feridos de uma incapacidade do tipo incapacidade de gozo. 58. tendo os surdos-mudos e cegos capacidade testamentária de gozo e exercício. e a interdição vem a ser decretada.

todavia. O abuso de bebidas alcoólicas ou de estupefacientes tem de importar uma alteração do carácter. quando a inabilitação tiver por causa a prodigalidade ou o abuso de bebidas alcoólicas ou de estupefacientes. regula-a conjuntamente com as várias hipóteses de falta ou vícios de vontade na declaração negocial. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 41 . um regime particular. aplicável por remissão dos 139º 156º.º1). uma diversidade das formas do respectivo suprimento. sem o que não pode haver inabilitação. improdutivas e injustificáveis. embora de carácter permanente. 59. Com estes prazos. Torna-se necessária uma sentença de inabilitação. pelo instituto da assistência. à distinção entre inabilitações e interdições. surdez-mudez ou cegueira que provoquem uma mera fraqueza de espírito e não uma total inaptidão do incapaz). bem como os especificados na sentença (153º). ainda que traduzida apenas na anormal dependência dessas drogas. portanto. Há que aplicar. Valor dos actos praticados pelo inabilitado A lei não regula directamente este problema. Trata-se da prática de actos de dissipação. a representação. Pode.Quando cessa a incapacidade dos inabilitados A incapacidade só deixa de existir quando for levantada a inabilitação. Neste caso funciona. surdez-mudez ou cegueira. Meios de suprir a incapacidade A incapacidade dos inabilitados é suprida. necessariamente. acerca da sua regeneração. Estabelece-se que. pois se é certo que nas inabilitações tem lugar. Em qualquer dos casos basta que se prove a existência de um perigo actual de actos prejudiciais ao património. tendencialmente. 61. A segunda categoria – habitual prodigalidade – abrange os indivíduos que praticam habitualmente actos de delapidação patrimonial (não confundir com a administração infeliz ou pouco perspicaz). Verificação e determinação judicial da inabilitação A incapacidade dos inabilitados não existe pelo simples facto da existência das circunstâncias referidas no 152º. os 148º 149º 150º. a assistência. indivíduos que se revelem incapazes de reger o seu património por habitual prodigalidade ou pelo abuso de bebidas alcoólicas ou estupefacientes. As características da anulabilidade são. determinar-se que a administração do património do inabilitado seja entregue pelo tribunal ao curador (154ºn. por força do 156º. que. intervir. não seja tão grave que justifique a interdição. pretende-se sujeitar o inabilitado a um período de prova. o instituto da representação. A terceira categoria – abuso de bebidas alcoólicas ou de estupefacientes – representa uma inovação do código civil. como forma de suprimento da incapacidade. despesas desproporcionadas aos rendimentos. sendo aplicáveis as disposições que vigoram acerca do valor dos actos dos interditos. Constata-se.Incapacidades acidentais O actual código não inclui a regulamentação da incapacidade acidental (257º) na secção relativa às incapacidades. pode. pois estão sujeitos a autorização do curador os actos de disposição entre vivos. com as necessárias adaptações. tal como nas interdições. não corresponde. em princípio. as do 125º. para evitar o risco de dissimulação ou fingimento. A primeira categoria (anomalias psíquicas. A sentença pode determinar uma extensão maior ou menor da incapacidade.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Quando tem lugar a incapacidade dos inabilitados As pessoas sujeitas a inabilitação estão indicadas no 152º: indivíduos cuja anomalia psíquica. O 155º contém. o seu levantamento exige as condições seguintes: 1-Prova de cessação daquelas causas de inabilitação 2-Decurso de um prazo de 5 anos sobre o trânsito em julgado da sentença da inabilitação ou da sentença que desatendeu um pedido anterior de levantamento. todavia. tal como acontece com as interdições. portanto. no termo de um processo judicial. mesmo que se não tenha verificado ainda um dano concreto. acerca do levantamento da inabilitação.

no domínio da administração e da alienação dos bens do casal. quanto à administração dos bens próprios. oneração. 3-dos bens próprios do outro cônjuge. Tais ilegitimidades constam dos 1682º 1682º-A 1682º -B e 1683º. salvo se se tratar de bens doados ou deixados por conta da legitima desse outro cônjuge (= d)) e) dos bens móveis comuns por ele exclusivamente utilizados como instrumento de trabalho (= e)) f) dos bens comuns se o outro cônjuge se encontrar ausente ou impossibilitado (= f)) g) dos bens comuns do outro cônjuge se este lhe conferir por mandato esse poder (= g) O casamento continua a ser fonte de ilegitimidades conjugais.º3). 2-a alienação ou oneração de móveis próprios ou comuns de que não tenha a administração. bem como dos sub-rogados em lugar deles (= c)) d) dos bens que tenham sido doados ou deixados a ambos os cônjuges. carecem de consentimento de ambos os cônjuges. ira. Assim.º3) 2-cada um dos cônjuges tem a administração: a) dos proveitos que receba pelo seu trabalho (1678º n. se este se encontrar impossibilitado de exercer a administração por achar num lugar remoto ou não sabido. se este lhe conferir por mandato esse poder. Mais correctamente se falará. A aplicação do princípio da igualdade dos cônjuges. Quanto à administração dos bens comuns. pertencendo a ambos (em conjunto) a administração dos bens comuns (1678º n. delírio. à regra (administração conjunta) opõem-se as seguintes excepções: 1-cada um dos cônjuges tem legitimidade para a prática de actos de administração ordinária (1678º n. Esta regra tem. derivadas do casamento. arrendamento ou constituição de outros direitos pessoais de gozo sobre a casa de morada de família. são tradicionalmente designadas por incapacidades. 42 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . algumas excepções. por ele exclusivamente utilizados como instrumento de trabalho (1678º e)).º2 a)) b) dos seus direitos de autor (= b)) c) dos bens comuns por ele levados para o casamento ou adquiridos a título gratuito depois do casamento. Qual a estatuição respectiva? Os actos referidos são anuláveis desde que o facto seja notório (cognoscível) ou conhecido do declaratário.º1). inclusive no regime de separação: 1-a alienação ou oneração de móveis (próprios ou comuns) utilizados conjuntamente por ambos na vida do lar ou como instrumento comum de trabalho.Incapacidades (ilegitimidades) conjugais As restrições à livre actuação jurídica.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL O 257º abrange todos os casos em que a declaração negocial é feita por quem. alterou profundamente as soluções do direito anterior. devido a qualquer causa (embriaguês.) estiver transitoriamente incapacitado de se representar o sentido dela ou não tenha livre exercício da sua vontade. estado hipnótico. cada um dos cônjuges tem a administração: 1-dos bens próprios do outro cônjuge. A anulação está sujeita ao regime geral das anulabilidades (287º e ss. 2-dos bens próprios do outro cônjuge. intoxicação. etc. aliás. contudo. Assim. ou por qualquer outro motivo (1678º f)). com exclusão da administração do outro cônjuge. Não se pretende defender os cônjuges contra uma incapacidade natural. em qualquer regime de bens. de ilegitimidade.). mas proteger os interesses do outro cônjuge e da família. 60. 4-a disposição do direito ao arrendamento da casa de morada da família. pois não se prescreve qualquer regime especial. a este respeito. inexistente. A regra dos bens do casal é esta: cada um dos cônjuges tem a administração dos seus bens próprios (1678º n. 3-a alienação.

Recuperação da empresa A falência (que respeita os devedores titulares ou não da empresa insolvente) não existe ipso facto. não são incapacidades. Esta sentença fixa a residência do falido. há que ser declarada. Sanções da ilegitimidade conjugal De acordo com o 1687º. nomeia o liquidatário judicial. são anuláveis a requerimento do cônjuge que não deu o consentimento ou dos seus herdeiros (n. oneração. Pode-se falar em: sociedades (os sujeitos). A falência (deve ser o último recurso) é admitida em relação a devedores não titulares da empresa. oneração ou locação do estabelecimento comercial. 1682º-A e 1682º-B) o consentimento conjugal. 2-a alienação. Existe um processo que acaba numa sentença judicial que tem que ser registada. falta de liquidez na designação dos titulares. Falência e Insolvência Por si só. por qualquer causa. empresas (objecto na titularidade dos comerciantes [não têm personalidade jurídica]). 3-o repúdio de heranças ou legados. apenas nos regimes de comunhão (geral ou de adquiridos). Efeitos . MOTA PINTO: falência – instituto privado dos comerciantes. N. os actos praticados contra o disposto nos n. Antes da falência deve ser tentada a recuperação da empresa.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Carecem de consentimento de ambos os cônjuges. cuja verificação determina a insolvência. A insolvência é revelada por “factos-índice” . são aplicáveis as regras relativas à alienação de coisa alheia.º1). fixa o prazo para os credores exigirem o crédito. feita sem legitimidade. Como se supre a ilegitimidade conjugal A ilegitimidade conjugal supre-se pelo consentimento do outro cônjuge (1682º n. que deve ser especial para cada acto. 23 Abril). A falência é a impossibilidade de uma pessoa. A falência deixou de ser um instituto dos comerciantes para passar a ser das empresas. que passam a integrar a “massa falida”. pontualmente. são nulas nos termos dos 892º e ss. havendo injusta recusa. Artigo 1º do código: falência – são as empresas em situação de insolvência. . está sujeito à forma exigida para a procuração e pode ser judicialmente suprido. de o prestar (1684º). mas nunca depois de decorridos 3 anos sobre a sua celebração (nº2).º 3: insolvência – carência de meios próprios e falta de crédito (note-se a importância do crédito). não poder cumprir obrigações.O falido é impedido de dispor dos bens presentes/futuros. ou impossibilidade. singular ou colectiva. isto é. . Esta posição acaba com o Código das falências (DL 132/93. comerciantes (individuais ou sociedades). nos 1682º-A. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 43 .A “massa falida” é inoponível.º2 do 1683º. À alienação ou oneração de bens (móveis ou imóveis) próprios do outro cônjuge. O instituto da insolvência foi abolido e passou a ser um requisito da falência.º1e 3. Estes podem ser: falta de cumprimento das obrigações. mas não já no regime de separação de bens: 1-a alienação. fuga do titular. próprio ou comum. etc. arrendamento ou constituição de outros direitos pessoais de gozo sobre imóveis próprios ou comuns. nem pode administrar bens de menores (quase inabilitado).O falido não pode mais exercer o comércio.º1 e 3 do 1682º. nos 6 meses subsequentes à data em que o requerente teve conhecimento do acto. insolvência – aplica-se aos não comerciantes. dissipação/extravio de bens. 1682º-B e no n.

Remissão da dívida. verifica-se a impugnação pauliana. isto é. e é uma tentativa de garantir os credores. A situação do falido não é incapacidade.Má fé (612º) (no sentido subjectivo): o Se o acto for oneroso – só é impugnável se o devedor e o terceiro tiverem agido de má fé. Requisitos para a impugnação pauliana: . no lugar do domicílio que o credor tiver ao tempo do cumprimento (774º). opô-los. É nomeado o liquidatário judicial para administrar. 65. quem os adquirir não os pode opor a terceiros. Se o falido conseguir pagar a massa falida.Impossibilidade de satisfação do crédito ou o seu agravamento: o Há impugnação se resultar do acto a impossibilidade. Contudo. a. ou agravamento dessa impossibilidade. Assim: a) o foro geral. por exemplo. no caso de obrigações pecuniárias.Domicílio O ordenamento jurídico dá relevância. Valor dos actos praticados pelo falido Antes da declaração Os actos podem ser resolúveis em benefício da “massa falida”. o tribunal competente para quaisquer acções. faz todo o sentido para poder encontrar meio para pagar dívidas). Repetição (devolução) do indevido. para o credor. 2. se se verificar dolo no acto do devedor. é o domicílio do réu. É nomeado pelo juiz e “ajudado” pela comissão de credores. como ponto de conexão entre a pessoa e um determinado lugar. Em negócios.Homologação do acordo extraordinário entre credor e devedor. em matéria de competência territorial dos tribunais. de obter a satisfação integral do seu crédito.Decurso de 5 anos do trânsito em julgado. Podem ser impugnados por “impugnação pauliana”. pode já. pode haver impugnação. à noção de domicílio. 44 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Esta situação está prevista no 610º e ss. para variados efeitos. contudo. . quem adquiriu os bens. não há impugnação pois o credor devia ter-se acautelado devido à situação do devedor. b. c) a sucessão por morte abre-se no lugar do último domicílio do seu autor (2031º). os bens continuam a integrar a massa falida.Quitação (inexistência da dívida: a dívida foi paga) dos credores. 3. Assim sendo. salvo disposição especial. b) a prestação debitória deve ser efectuada no lugar do domicílio do devedor (722º) e. o Se o acto for gratuito – a impugnação procede ainda que ambos estivessem de boa fé. o se o crédito for posterior ao acto do devedor. Fundamentos do levantamento da falência 1. de compra e venda.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL O falido pode trabalhar (aliás. . Os seus actos não são inválidos. o falido pode vender bens da massa falida sendo estes negócios válidos. tratando-se apenas de uma ilegitimidade.momento em que nasce o crédito: o se o crédito for anterior ao acto do devedor.

com o dos funcionários públicos (87º). as sociedades comerciais. Na definição referiu-se organizações constituídas por uma colectividade de pessoas e organizações constituídas por uma massa de bens.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL d) o elemento de conexão decisivo para a determinação. O nosso direito conhece alguns casos de domicílio legal. porém. os distritos. Não se confunde também com a residência. os municípios. Função socioeconómica do instituto da personalidade colectiva As pessoas colectivas são organizações constituídas por uma colectividade de pessoas ou por uma massa de bens. mesmo que a pessoa em causa não os tivesse em mente ou até os quisesse impedir. por força da lei. Essas pessoas ou associados Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 45 . estipulado. às quais a ordem jurídica atribui a personalidade jurídica. dirigidos à realização de interesses comuns ou colectivos. Sem dúvida que a residência habitual onde a pessoa vive normalmente. Este acto voluntário não é. isto é. etc. É. o domicilio (32º). no domicílio da pessoa que devem ser praticadas as diligências ou efectuadas as comunicações dirigidas a dar-lhe conhecimento pessoal de um facto. se tem duas ou mais residências habituais. o estabelecimento do domicílio. segundo o direito internacional privado. À categoria das pessoas colectivas pertencem o Estado. a lei reconhece um domicílio profissional (83º) e um domicílio electivo (84º). Trata-se de organizações integradas essencialmente por pessoas ou essencialmente por bens. resultam de um acto voluntário (de residir habitualmente num certo local ou de aí exercer uma profissão). localizando-se no lugar onde a profissão é exercida. com o local onde a pessoa está a viver com alguma permanência. dos efeitos jurídicos respectivos. onde costume regressar após ausências mais curtas ou mais longas. Não se trata do local onde a pessoa se encontra em cada momento. Ao lado do domicílio voluntário geral. para determinados negócios. diferente do seu domicílio geral ou profissional. da lei aplicável a relações conexionadas com várias ordens jurídicas. É o que ocorre com o domicílio legal dos menores e interditos (85º). nos fornece o critério do domicilio do 82º. Domicílio profissional: verifica-se para as pessoas que exercem uma profissão e é relevante para as relações que a esta se referem. para todos os efeitos jurídicos. independente da vontade. é. Domicílio electivo: é um domicílio particular. (III)PESSOAS COLECTIVAS 67. isto é. bem como o seu termo. se têm por domiciliadas em certo local. que constituem centros autónomos de relações jurídicas – autónomos mesmo em relação aos seus membros ou às pessoas que actuam como seus órgãos. não coincide com o paradeiro (225º). verificando-se a produção. as associações recreativas ou culturais. egoístico ou altruístico.Conceito de pessoa colectiva. igualmente. Uma pessoa pode ter dois ou mais domicílios. um negócio jurídico. Há uma presunção de presença da pessoa no domicílio. As partes convencionam que. com o que se visa impedir escapatórias. mas um simples acto jurídico. em alguns casos. Em regra. e com o dos agentes diplomáticos portugueses (88º). as fundações. as freguesias. Noção O conceito de domicílio voluntário geral é-nos fornecido pelo 82º e coincide com o lugar de residência habitual. por escrito. Há com efeito duas espécies fundamentais de pessoas colectivas: Corporações: têm um substrato integrado por um agrupamento de pessoas singulares que visam um interesse comum.

através da modificação dos estatutos ou de outras deliberações. Por que motivo se fala na existência de um elemento pessoal apenas das corporações e de um elemento patrimonial nas funções? Nas corporações só o elemento pessoal é relevante. Não é legítima a exigência deste requisito em termos de a sua falte impedir forçosamente a constituição de uma pessoa colectiva.Elementos constitutivos das pessoas colectivas: o substrato e o reconhecimento Podemos legitimamente reconduzir a dois os seus elementos constitutivos: substrato e reconhecimento. Elemento teleológico A pessoa colectiva deve prosseguir uma certa finalidade.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL organizam a corporação. São corporações as associações desportivas. Pode dizer-se que o reconhecimento é o elemento formal e o substrato o elemento material. mutualistas. Substrato. 3. Por sua vez nas fundações só o elemento patrimonial assume relevo no interior da pessoa colectiva. dão-lhe existência e cabe-lhes disciplinar a sua vida e destino. na nulidade do chamado pacto leonino. 46 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . é o elemento de direito. transformador de uma organização ou ente de facto num ente ou pessoa jurídica. Pode existir a corporação. basta pensar numa associação para a qual os associados concorrem apenas com serviços dirigidos à prossecução do fim comum. justamente o fim em causa determinante da formação da colectividade social ou da dotação funcional. 68. através de actividades pessoais e meios materiais. fazendo-a ser algo mais do que uma superestrutura pairando sobre o vácuo. sem que os referidos serviços sejam susceptíveis de avaliação pecuniária. estando a actividade pessoal – necessária à prossecução do escopo fundacional – ao serviço da afectação patrimonial – estando subordinada a esta. sem que lhe pertença um património. rigorosamente. o problema de saber se o escopo das pessoas colectivas deve ser duradouro ou permanente. por vezes. recreativas. Noção O substrato é o conjunto de elementos da realidade extrajurídica. Criada a fundação. Manifesta-se a sua exigência quanto às sociedades. É o complexo de bens que o fundador afectou à consecução do fim fundacional (tal massa de bens designa-se habitualmente por dotação).Deve ser comum aos seus membros ou colectivo. e não em renovadas manifestações. culturais. Importa saber o vários subelementos em que o substrato se pode decompor. é o elemento de facto. 2. Fundações: têm um substrato integrado por um conjunto de bens adstrito pelo fundador a um escopo ou interesse de natureza social. Torna-se necessário que o escopo visado pela pessoa colectiva satisfaça certos requisitos: 1. Reconhecimento: elemento a que a lei se refere expressamente (158º). Dirigem-na de dentro. que lhe dá existência no mundo exterior.. só ele sendo um componente necessário do substrato da pessoa colectiva. etc.Põe-se. mas tal como está fixada no acto de instituição e nos estatutos. o conjunto de dados anteriores à outorga da personalidade jurídica.g. em segundo plano ou até. tendo nas suas mãos. as sociedades comerciais. O elemento patrimonial intervém nas fundações. de um escopo ou finalidade comum. integrado por vários subelementos. fora do substrato da fundação. o fundador fica fora dela. É a realidade que dá peso terreno à pessoa colectiva. estabelecida no 994º. defende grande parte da doutrina. v. É a colectividade de indivíduos que se agrupam para a realização.Deve revestir os requisitos gerais do objecto de qualquer negócio jurídico (280º). Substrato: é um elemento complexo. É o conjunto de associados. a sorte da corporação. Elemento pessoal ou patrimonial O elemento pessoal verifica-se nas corporações. É a sua vontade que regula a fundação. elevado à qualidade de sujeito jurídico pelo reconhecimento.

surge uma nova pessoa jurídica: a pessoa colectiva. sem mais exigências a todo o substrato completo da pessoa colectiva (sistema de livre constituição das pessoas colectivas). Elemento organizatório A pessoa colectiva é integrada. Noção. ainda. 69. Ora nos negócios jurídicos os efeitos determinados pela ordem jurídica dependem da existência e do conteúdo duma vontade (intenção) correspondente. Acresce-se que o número e características dos órgãos da pessoa colectiva e a designação dos indivíduos que os preenchem obedece aos estatutos e.º2. desde logo. perante cada caso concreto. do fundador ou dos beneficiários. a pessoa colectiva é automaticamente constituída. o regime do reconhecimento normativo condicionado resulta do 158º n. no silencio destes. derivado de uma norma jurídica dirigida a uma generalidade de casos e não de uma apreciação individual. redutor da dispersão e pluralidade do substrato à unidade. que devem acrescer aos elementos caracterizadores de um substrato e. os serventuários. à lei. Verificado o reconhecimento. isto é. A exigência deste elemento radica na circunstância de a constituição duma pessoa colectiva ter na origem um negócio jurídico: o acto de constituição nas associações (167º). os fundadores.º1. caso por caso. os beneficiários ou terceiros. Como sujeito jurídico a pessoa colectiva torna-se titular de relações jurídicas. de «centros institucionalizados de poderes funcionais a exercer pelo indivíduo ou pelo colégio de indivíduos que nele estiverem providos com o objectivo de exprimir a vontade juridicamente imputável a essa pessoa colectiva». Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 47 . A lei formula em geral a exigência de determinados pressupostos ou requisitos. a exigência de um reconhecimento individual por parte da autoridade pública para a aquisição da personalidade jurídica resulta expressamente do n. e quanto às fundações. o contrato de sociedade para as sociedades (980º) e o acto de instituição nas fundações (186º). Quanto às associações. Essa organização traduz-se num conjunto de preceitos disciplinadores das características e do funcionamento da pessoa colectiva (preceitos contidos nos estatutos ou no acto de constituição ou instituição) e na existência de órgãos. isto é. Reconhecimento normativo condicionado: também esta modalidade de reconhecimento é de carácter global. à qualidade de sujeito de Direito. São possíveis várias modalidades de reconhecimento. O reconhecimento normativo pode.Elementos constitutivos reconhecimento (cont. distinta dos associados. não existindo.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Elemento intencional Trata-se do intento de constituir uma nova pessoa jurídica («animus personificandi»). isto é. igualmente. Pode ter lugar um reconhecimento normativo. Os órgãos da pessoa colectiva podem ser deliberativos ou executivos (representativos). designadamente de relações jurídicas estabelecidas com os associados. Também esta modalidade de reconhecimento traduz um grau de liberdade e facilidade na constituição de pessoas colectivas superior ao reconhecimento por concessão. Entre nós o reconhecimento normativo condicionado vigora no domínio das sociedades comerciais e civis em forma comercial e das associações e o reconhecimento por concessão é exigido para as fundações (excepção). traduzido num acto individual e discricionário de uma autoridade pública que. isto é. revestir duas formas: Reconhecimento normativo incondicionado: se a ordem jurídica atribuir personalidade jurídica de plano. Um tal sistema dificilmente existirá em qualquer direito positivo.) da pessoa colectiva: substrato e O reconhecimento. por uma organização destinada a introduzir na pluralidade de pessoas e de bens existente uma ordenação unificadora. Modalidades O reconhecimento é o elemento de direito. derivado automaticamente da lei e um reconhecimento individual ou por concessão. verificados esses requisitos. em Portugal. sem necessidade de uma apreciação de oportunidade e conveniência por parte do Estado. personificará ou não o substrato.

mas é tal que ao mesmo tempo interessa à comunidade 1-Pessoas colectivas de fim ideal: o objectivo egoístico que uma pessoa colectiva se proponha pode consistir num interesse de natureza ideal (não económica): recreio. nomeadamente. Quando falamos de sociedade comercial: tipo contratual autónomo que tem que preencher determinados requisitos. desporto. ainda que. Trata-se. Pessoas colectivas de “mera utilidade pública”: este é um estatuto reconhecido pelo Estado após uma requisição do particular. II. Só podem ser constituídas para o exercício de certas actividades económicas. instrução. As sociedades comerciais são as que. a mais das notas genéricas do 980º. Quanto às sociedades civis têm indiscutivelmente personalidade jurídica as constituídas sob forma comercial pois é-lhes aplicável o referido artigo. b)Pessoas colectivas de fim interessado ou egoístico: nestas pessoas colectivas. Resumindo. aliás. Exemplo é a sociedade comercial que tem uma disciplina privativa no código comercial. E trata-se de pessoas colectivas de utilidade pública. podem constituir-se sob forma comercial. Mas não de uma finalidade lucrativa. pois. empréstimos. cultura física ou intelectual. têm «por objecto praticar um ou mais actos de comércio». pois não se cuida propriamente de obter lucros para repartir pelos associados. a responsabilidade dos sócios é pessoal e solidária [porque não têm personalidade jurídica] (sociedades em nome colectivo). destina-se a pessoas colectivas que prosseguem objectos importantes para determinada população mas em conjunto com a administração central. segundo algum dos 4 tipos de sociedades comerciais conhecidas pela nossa lei. concorrentemente. As sociedades comerciais têm personalidade jurídica. não têm personalidade jurídica. O regime geral está fixado no Decreto-Lei 460/77.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Pessoas colectivas de direito público e privado I . etc. a sua actividade (natural) não se insere no código comercial. Estas. pretende-se a repartição de lucros. É o que resulta do 108º código comercial. ficando sujeitas às disposições do código comercial. Têm por objecto o lucro.Pessoas colectivas de direito privado e utilidade pública: são as que se propõem em escopo de interesse público. o escopo visado interesse de modo egoístico aos próprios associados. não praticam actos de comércio. porque à comunidade social importa que tais interesses sejam satisfeitos.Pessoas colectivas de direito privado e utilidade particular: a finalidade própria destas pessoas colectivas é de mero interesse particular. Os associados ou o fundador tomam a peito determinados interesses alheios. As sociedades a que falte esta diferença específica são sociedades civis. 2-Pessoas colectivas de fim económico não lucrativo: aqui a pessoas colectiva pretende conseguir certas vantagens patrimoniais para os seus associados: subsídios pecuniários no caso de invalidez. se dirijam à satisfação dum interesse dos próprios associadas ou do próprio fundador. 48 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . a)Pessoas colectivas de fim desinteressado ou altruístico: nestas pessoas colectivas o interesse próprio que os associados ou o fundador querem satisfazer é um interesse de natureza altruística: o interesse de promover certos interesses de outras pessoas (beneficiários). de frutificação do que é posto em comum pelos sócios. Espécies ou tipos de sociedades A primeira distinção a estabelecer dentro das sociedades é entre sociedades civis e sociedades comerciais. excepto quanto à falência. etc. São as que têm maior peso e existem em maior número. têm capacidade testamentária passiva (2033º) e capacidade judiciária (2936º). que serão sempre – pode dizer-se – de tipo corporativo. de uma finalidade económica.

pois intervêm nelas sócios que assumem responsabilidade ilimitada como os sócios das sociedades em nome colectivo (Comanditados) e sócios que só arriscam o valor das suas entradas como os accionistas das sociedades anónimas (comanditários). sociais. de fiscalização (ex. pela parte que lhes cabe do capital social. isto é. Cabe ao instituidor dizer quais os bens afectos. a partir do requerimento do reconhecimento. e ainda. A instituição é um acto irrevogável pelos herdeiros do fundador. Aplica-se subsidiariamente o código comercial. pelas prestações devidas à sociedade por algum ou alguns dos outros associados por força da não realização integral das suas quotas. Fundações Derivam de uma só pessoa.: assembleia geral). DR). solidária e ilimitada dos sócios perante os credores sociais. O seu regime está presente no código cooperativo. Segundo o 168º. não visam o lucro. A sua constituição tem que ser por escritura pública sob pena de nulidade.: conselho fiscal). as cooperativas não eram bem cooperativas. A associação tem órgãos deliberativos (ex. A sua constituição dá-se mediante a verificação de princípios cooperativos com por exemplo o princípio da porta aberta. as suas decisões são anuláveis e o 182º fala acerca da sua extinção (da associação). Neste caso há uma dotação que é afecta á prossecução de determinado fim. 185º) ou testamento (a fundação apresenta-se tal qual está prevista no testamento). cada sócio responde. a associação não adquire personalidade jurídica. pelo montante das acções respectivas. tal como nas anónimas.: órgão de administração). Se falta a publicidade. Segundo o 177º. esta traduz-se numa inoponibilidade a terceiros. culturais. a fundação é irrevogável. Os limites à vontade do instituidor e ao fim da fundação estão previstos no 189º. Se algum aspecto for omisso. pelas dividas da sociedade. Não são sociedades. Cooperativas Antigamente eram uma subespécie de sociedades. os estatutos da associação estão a sujeitos a publicidade (série III. O 167º diz o que a escritura deve conter para respeitar a forma legal. O reconhecimento da fundação é requerido pelo fundador ou pelos herdeiros e. nada mais tendo a satisfazer. um negócio jurídico unilateral.º5). sendo portanto. para com a sociedade. bem como o modo de funcionamento da fundação. Podem exercer actividades económicas. A sua instituição é feita por: acto entre vivos (escritura pública. isto é. Associações Emerge de negócio bilateral ou plurilateral. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 49 . mesmo que os outros sócios estejam em dívida para com a sociedade. etc. Também aqui só há produção de efeitos se for publicitada (185º n. c) Sociedades em comandita – são uma combinação entre os tipos anteriores. o capital social está dividido em fracções a cada uma das quais corresponde uma acção. pelo capital que subscreveu. O seu capital é variável bem como a sua composição (princípio da porta aberta). d) Sociedades por quotas – os sócios também não respondem. solidariamente com os demais. executivos (ex. respondem para com a sociedade pela realização da sua quota.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Tipos legais de sociedades a) Sociedades em nome colectivo – caracterizam-se pela responsabilidade pessoal. b) Sociedades anónimas – os sócios estão isentos de responsabilidade pessoal pelas dívidas da sociedade e os credores sociais só se podem pagar pelos bens sociais. No antigo regime.

TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Segundo o 191º. 165º). em princípio. o que fazer com os bens (em caso de testamento)? Os bens devem ser entregues a uma colectividade que prossiga fins análogos ao da fundação. sem necessidade de se ser representado ou assistido por outrem. ou por autoridade pública. então deve rejeitar-se a tese da capacidade para o exercício de direitos das pessoas colectivas. Ora as pessoas colectivas carecem de um organismo físico-psíquico. também. ou de mera representação? Se se concluir pela organicidade. em princípio. Só num caso bem delimitado a lei impõe essa responsabilidade no âmbito da representação voluntária: é a hipótese do 500º (“aquele que encarrega outrem de qualquer comissão responde. mesmo sem culpa.”). é de verdadeira identificação e. Quanto à representação voluntária.º2). gerentes. todavia. Esta proposição negatória da capacidade de agir das pessoas colectivas não está. isenta de contestação possível. administradoresdelegados.Capacidade para o exercício de direitos das pessoas colectivas. 50 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . etc. pois há autonomia entre as personalidades jurídicas do representante e do representado. Há limitações relativamente à capacidade das pessoas singulares. responsabilidade civil extracontratual dos representados pelos actos dos seus representantes. directores. A resposta à pergunta “órgãos ou representantes?” infere-se da solução dada pela lei e um concreto problema de regulamentação: o problema da responsabilidade civil extracontratual das pessoas colectivas. pelos danos que o comissário causar.). Neste caso. o reconhecimento é individual e verificam-se dois pressupostos: . Neste caso. conselho de administração.suficiência dos bens (188º n.. Logo as pessoas colectivas. verifica-se um juízo discricionário para o seu apuramento. bem podendo vir a chegar-se à conclusão oposta. não tomando estes termos no sentido rigoroso em que ficaram definidos. a vontade do instituidor pode ser afastada se houver prejuízo sobre o património da fundação. 160º . A aquisição de personalidade/capacidade jurídica está presente no 160º havendo relação com o 158º.interesse social da fundação. se se concluir pela representação. A lei fala indiferentemente em órgãos (162º) e em representantes (163º. cujos actos projectarão a sua eficácia na esfera jurídica do ente colectivo. pois a relação entre um órgão e o ente em que se integra. não há fundação. a das pessoas colectivas é mais reduzida pois apenas se lhes aplicam os direitos necessários e convenientes. Tudo depende da natureza do vínculo entre a pessoa colectiva e aquelas pessoas físicas que procedem em seu nome e no seu interesse: será um nexo de verdadeira organicidade. a administração já actua de forma vinculada. só podendo agir por intermédio de certas pessoas físicas. Este tipo de responsabilidade só pode resultar dum comportamento (acção ou omissão) próprio. independentemente de culpa. 76. A capacidade para o exercício de direitos ou capacidade de agir consiste na aptidão para por em movimento a capacidade jurídica por actividade própria. Trata-se dum problema de natureza conceitual. Quanto ao primeiro. assim. .. então pode aceitar-se terem as pessoas colectivas capacidade para o exercício de direitos.capacidade de gozo. com fundamento no risco: se beneficia duma actividade alheia – a do comissário – deve suportar os riscos respectivos. estariam necessariamente privadas daquela capacidade. Sem reconhecimento. não podendo agir elas mesmas. Na verdade resulta da lei não haver. mas apenas através de determinadas pessoas singulares (assembleia geral. A fundação é extinta segundo o 192º por: disposição da lei. Nesta hipótese uma pessoa (o comitente) responde. o fim da pessoa colectiva determina a sua capacidade. agindo o órgão é a própria pessoa que age. não há responsabilidade do representado pelos actos ilícitos extracontratuais do seu procurador. “Princípio da especialidade do fim” – norteia a medida da capacidade das pessoas colectivas. No segundo caso.

2ª . também. por assim o justificar a analogia das situações (175º). A personalidade colectiva é um mecanismo aparelhado pela ordem jurídica para mais fácil e eficaz realização de certos interesses (os correspondentes aos fins estatutários). muito menos. portanto. injustificável. igual à capacidade de que desfrutam as pessoas singulares.Capacidade jurídica (capacidade de gozo de direitos) das pessoas colectivas A capacidade jurídica das pessoas colectivas é um «status» inerente à sua existência como pessoas jurídicas (67º). pois estes – pelo menos o órgão mais qualificado – não são encarregados de uma comissão. agentes ou mandatários que produzam o inadimplemento de uma obrigação em sentido técnico. tal situação nenhuma analogia apresenta com a ligação entre a pessoa colectiva e os seus «representantes». Sendo assim. os titulares de toda a iniciativa e não meros comitidos. que prevê uma hipótese sem analogia com a situação das pessoas colectivas. dificilmente. legal ou voluntária. etc.º1. um sector caracterizado da representação voluntária: os casos em que o procurador pode ser considerado um comissário nos termos e para os efeitos do mesmo artigo. a uma autoridade deste. Assim resulta claramente do 165º («as pessoas colectivas respondem civilmente»: esta expressão abrange quer a responsabilidade contratual. As pessoas colectivas podem. uma capacidade igual para todas. mas são eles próprios formuladores da vontade da pessoa colectiva. «a contrario» do 160º n. ser titulares dos chamados direitos de personalidade (pelo menos de alguns): direito ao nome (72º). apenas. que o instituto da representação. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 51 . Ora tal qualificação só lhe pode caber quando estiver numa relação de dependência em face do representado – quando estiver submetido a um poder de direcção. enquanto a das pessoas singulares é de carácter geral. encontrar quem com ela transaccionasse a crédito. 77. quer a extracontratual). Só então se poderá dizer que foi encarregado de uma comissão. a exclusão dessa forma de responsabilidade. É uma capacidade jurídica específica.Responsabilidade civil das pessoas colectivas Responsabilidade contratual Seria uma situação de favor. Tal restrição já constava da legislação anterior (34º do código civil: não podiam ser sujeitos de relações estranhas «aos interesses legítimos do seu instituto«). todavia.estão exceptuadas do âmbito da capacidade jurídica das pessoas colectivas as relações jurídicas vedadas por lei ou que sejam inseparáveis da personalidade singular. nos termos do 500º. não importa qualquer responsabilidade dos representados pelos actos ilícitos extracontratuais dos seus representantes.resulta. 78. As pessoas colectivas de fim desinteressado ou egoístico ideal não estão de todo incapacitadas para praticar actos de natureza lucrativa. A lei refere-se-lhe expressamente para o efeito de a limitar. Essas limitações constam do 160º e são as seguintes: 1ª . É o chamado princípio da «especialidade do fim». Constata-se. Não é. em ordem a obter recursos para a prossecução dos seus fins. aplicável às associações. Devem portanto responder pelos factos dos seus órgãos. nem. estarem fora da capacidade jurídica das pessoas colectivas os direitos e obrigações que não sejam necessários ou convenientes à prossecução dos seus fins.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL A situação prevista no 500º abrange. Ora no 165º estatui-se a responsabilidade civil dos entes colectivos. salvo no caso particular do 500º. com o reverso desfavorável para a própria pessoa colectiva de. Logo as pessoas físicas que agem em seu nome e no seu interesse são ou integram verdadeiros órgãos e portanto as pessoas colectivas têm capacidade para o exercício de direitos. às fundações e também às sociedades.

desde que tenha havido culpa deste no plano das relações internas. exige a subordinação de um bem ao poder do titular do direito. não se tornando necessário mais nenhum requisito. O objecto de uma relação jurídica é precisamente o «quid» sobre que incidem os poderes do seu titular activo. Daí resulta ser necessário para o surgimento da obrigação de indemnizar que tenha havido culpa do devedor no não cumprimento.º1). por força do princípio de justiça segundo o qual quem emprega determinadas pessoas para vantagem própria deve suportar os riscos da sua actividade. Nestes termos. à supremacia do titular activo da relação jurídica e é o objecto desta. Objecto e conteúdo Fala-se de objecto da relação jurídica para referir o objecto do direito subjectivo que constitui o lado activo da mesma relação. Ao alargamento das potencialidades do sujeito na satisfação dos seus interesses próprios deve corresponder a responsabilidade pelos danos causados por esse alargamento («ubi commoda. O 165º estatui que as pessoas colectivas respondem nos mesmos termos em que os comitentes respondem pelos actos ou omissões dos seus comissários. está enunciado no 798º. 3)Ao lado da pessoa colectiva fica igualmente adstrito à obrigação de indemnizar o órgão. verificar-se a culpa dos órgãos ou agentes da pessoa colectiva pelo inadimplemento da obrigação. 4)A pessoa colectiva que tiver satisfeito a indemnização ao lesado tem direito de regresso contra o órgão. em que se prescinde da culpa do responsável. isto é. está submetido aos poderes. ibi incommoda»). Esse poder e essas faculdades incidem sobre determinado ente (coisa ou pessoa). agente ou mandatário recaia igualmente a obrigação de indemnizar (500º n. (II)TEORIA GERAL DO OBJECTO DA RELAÇÃO JURÍDICA 80. desde que o inadimplemento tenha sido culposo e dele resultem danos. ser exercitados sobre um determinado «quid». integrado nas disposições relativas à responsabilidade pelo risco (responsabilidade objectiva). 52 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . conferem a possibilidade de exercer uma soberania ou domínio sobre um bem. Resulta desta disposição que. que corresponde ao aspecto funcional do direito. O 165º remete para a responsabilidade dos comitentes por actos dos seus comitidos. agente ou mandatário (500º n. na hipótese de responsabilidade contratual. agente ou mandatário. A solução afirmativa do problema da responsabilidade extracontratual está expressamente consagrada no 165º para os actos praticados por órgãos (representantes). e as faculdades que o integram. A satisfação do interesse. pessoa. o que não nos parece exacto. estabelecendo-se no 799º uma presunção refutável de culpa na caso de não cumprimento defeituoso. podem.º1). incluindo um determinado modo de ser da própria pessoa. É o que resulta do 800º para o qual se deve considerar como feita remissão do 165º. o ente colectivo responde para com o credor. podendo exigir-lhe o reembolso de tudo quanto haja pago. Esse bem. que constitui o ponto de incidência do direito. Aliás. sobre um objecto (coisa corpórea ou incorpórea.Objecto da relação jurídica.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL O princípio geral do nosso código em matéria de responsabilidade contratual. Conceito. corpóreo ou incorpóreo. quase sempre. agentes ou mandatários. Tal responsabilidade – na hipótese da responsabilidade aquiliana – consta do 500º. o regime é o mesmo em virtude de o inadimplemento da obrigação se dever sempre considerar como tendo ocorrido «no exercício da função que lhe foi confiada». 2)Que o acto danoso haja sido praticado pelo órgão. se devem verificar os pressupostos seguintes: 1)Que sobre o órgão. prestação. se se considerar que a remissão é feita para o 500º. O direito subjectivo traduz-se num poder atribuído a uma pessoa. Este poder. Responsabilidade extracontratual A responsabilidade extracontratual das pessoas colectivas é a melhor solução «de jure condendo». portanto. agente ou mandatário no exercício da função que lhe foi confiada. outro direito). para a pessoa colectiva responder. Deve.

que aquela equivalência não é inteiramente rigorosa. o credor só tem direito à coisa através da prestação do devedor. modificação ou constituição de relações jurídicas). A distinção exprime a diversidade entre aquilo que directamente está submetido aos poderes ideais que integram um direito subjectivo e aquilo que só de uma forma mediata ou indirecta. Nelas o objecto imediato do direito do credor é o comportamento do próprio devedor. não esgotam contudo a extensão do conceito de objecto jurídico. mas antes poderesdeveres ou poderes funcionais. através de um elemento mediador. dispor).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Objecto de relações jurídicas (objecto de direitos subjectivos é. Nos direitos reais não há intermediário entre o titular do direito e a coisa. fruir. Conteúdo: é o conjunto dos poderes ou faculdades que o direito subjectivo comporta. sendo é certo a espécie mais corrente de objectos de relações jurídicas. têm um conteúdo especial. todo o ente. o objecto das relações jurídicas. 2)Prestações: Nos direitos de crédito o objecto é uma conduta ou acto humano: a prestação. quer os que inquestionavelmente o são. mediante uma identificação com o bem sobre que incidem os poderes do titular actual. colhendo directamente dele as respectivas utilidades.Possíveis objectos de relações jurídicas O 202º estabelece equivalência entre o conceito de coisa e o de objecto de relações jurídicas e enuncia o artigo seguinte várias classificações das coisas. puramente filosófico. etc. afastando um conceito amplo. etc. Objecto: é aquilo sobre que recaem os poderes do titular do direito. parece dever concluir-se que os direitos potestativos não têm objecto. Entre o credor (ou o seu direito) e a coisa intromete-se a pessoa do devedor. O proprietário.Objecto imediato e objecto mediato Pode distinguir-se entre objecto mediato e imediato dos direitos subjectivos. as noções de objecto de um direito e de conteúdo do mesmo direito. pois as coisas. Nas obrigações de prestação de facto (ex. isto é. São direitos a uma modificação jurídica (extinção. A distinção verifica-se nas obrigações (direitos de crédito) de prestação de coisa certa e determinada. isto é. 1)Pessoas: Estes direitos sobre outras pessoas. pois. de coisa. ao contrário do titular dos direitos reais. Facilmente se distinguem. Vejamos de per si cada um dos possíveis objectos de relações jurídicas. assim. Na verdade o exercício destes direitos não se traduz na incidência de quaisquer poderes ou de qualquer domínio sobre um bem submetido a essa supremacia. 81. quer os que suscitam dúvidas. nos sistemas jurídicos modernos. o acto de entrega da coisa. Cremos. contudo. puramente pensado. todo o «quid». sob a tutela do ordenamento jurídico que actua positivamente (atribuição de poderes ao proprietário. o usufrutuário. Exemplos desta figura são os direitos integrados nos institutos de poder paternal e do poder tutelar. a prestação. Quis-se certamente restringir o conceito de coisa àquilo que pode ser objecto de direitos.: A obrigase para com o empresário B a dar um recital de piano) já a distinção entre objecto imediato e objecto mediato se apresenta evanescente. ao usufrutuário. pois não são direitos subjectivos do tipo comum. assim.) e negativamente (imposição de um dever geral de abstenção a todos os outros). Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 53 . todo o bem sobre que podem recair direitos subjectivos). A distinção nem sempre se verifica. 82. das relações jurídicas.. Definido. O objecto mediato é a própria coisa que deve ser entregue ao credor. Objecto do direito de propriedade são os poderes conferidos pelo ordenamento jurídico ao proprietário (poderes de usar. estão em contacto directo com o objecto do seu direito. na verdade. está submetido àqueles poderes. Actuam com carácter conformador sobre o mundo.

4)Coisas incorpóreas ou bens imateriais: A actividade espiritual do homem pode ser exercida no sentido da criação de obras. carecidas de personalidade jurídica (coisas materiais). necessário que estes objectos corpóreos revistam certos requisitos: existência autónoma. serem objecto de direitos subjectivos. (II)As coisas e o património 83. É.Noção jurídica de coisa Num sentido corrente e amplo coisa é tudo o que pode ser pensado. mas um comportamento do devedor (uma actividade nas obrigações de prestação de coisa ou de prestação de facto positivo. 54 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . portanto. cientificas. intelectuais. Em consequência dessa aplicação do espírito humano surgem obras artísticas. e. há que considerar o 202º. 3)Coisas materiais ou corpóreas: Nenhuma dúvida se pode suscitar acerca da possibilidade de realidades físicas. é susceptível de ser captado pelos sentidos. Pensemos nas pessoas. revestindo a noção explicitada no 202º um significado puramente expositivo. possibilidade de sujeição jurídica ao poder exclusivo de um ou alguns homens. como dissemos. Quanto ao sentido jurídico de coisa. Num sentido físico coisa é tudo o que tem existência corpórea ou. isto é. Para além do seu valor patrimonial. produtos do engenho. Compreende-se assim que o direito reconheça esses bens e tutele os aspectos patrimonial e pessoal apontados. que são o pressuposto de todos os direitos. idoneidade para satisfazer interesses humanos. da inteligência ou da sensibilidade humanas. pelo menos. podem integrar-se no conceito de coisas. pois podem ser explorados economicamente. Exemplos: penhor de direitos. nesse plano. invenções industriais. devem ser apropriáveis. 5)Direitos subjectivos: Pode pôr-se o problema de saber se um direito subjectivo pode constituir objecto de outro direito subjectivo. de importância limitada no quadro dos fins da ciência do Direito.. Acresce não se divisar um qualquer valor operacional ou prático na inclusão de uma definição deste tipo num código. objecto dos direitos de autor ou de propriedade industrial. e aos direitos. desprovidos de personalidade e não integradores do conteúdo necessário desta. São coisas incorpóreas. uma abstenção nas obrigações de prestação de facto negativo. isto é. embora tenham um regime especial relativamente ao regime geral das coisas e não estejam previstas nas várias classificações das coisas enumeradas no 203º. susceptíveis de constituírem objecto de relações jurídicas. nas prestações. referidas no 829º a). usufruto de direitos de crédito. pois ela está reflectida na obra criada. é um problema de construção dogmática. nos modos de ser ou bens da própria personalidade. fundamentalmente teórico. contudo. Quanto aos bens imateriais.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Nestes direitos o objecto não é rigorosamente uma coisa (res). incorrecto. alguns deles estão intimamente ligados à personalidade do seu autor. Conjugando todas estas ideias podemos definir as coisas em sentido jurídico como «os bens (ou os entes) de carácter estático. etc. de tipo manualístico e. Com efeito há entes susceptíveis de serem objecto de relações jurídicas que não são coisas em sentido jurídico. objecto de certas figuras de direitos sobre direitos. literárias. onde se contém a seguinte definição: «Diz-se coisa tudo aquilo que pode ser objecto de relações jurídicas». ainda que não tenha existência real e presente. se deve falar em direitos sobre certos modos de ser da pessoa ou antes em posições jurídicas fundamentais do homem. etc. Saber se. a esse respeito. Estes bens têm valor patrimonial autónomo. devem ser úteis. Não pode considerar-se rigorosa tal definição. 6)A própria pessoa (certas manifestações ou modos de ser físicos ou morais da pessoa): Alguns autores contestam veemente a legitimidade da figura dos direitos sobre a própria pessoa.

pois para nada servem. as coisas futuras. c)Que se trate de bens efectivamente apropriados (pode tratar-se das «res nullius». que sejam bens apropriáveis). uma gota de agua. portanto. são necessariamente aproveitados por todos os homens.) Inversamente não é necessário: a)Que se trate de bens de natureza corpórea (a energia eléctrica é uma coisa como o são os objectos dos direitos de autor e da propriedade industrial). noção muito importante dada a sua aplicação no regime do usufruto e da posse (os frutos da coisa cabem ao possuidor da boa fé. basta. não sendo todavia cada uma das pedras ou das paredes que a integram. na produção de efeitos jurídicos. Esta relevância jurídica traduz-se. Definem-se igualmente as benfeitorias (216º: despesas feitas para conservar ou melhorar a coisa). como por exemplo. isto é.. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 55 . só são coisas em sentido jurídico quando puderem ser objecto de relações jurídicas. com valor de troca (pode tratar-se de bens com valor meramente pessoal). etc. etc. as coisas principais e as coisas acessórias ou pertenças. c)Aptidão para satisfazer interesses ou necessidades humanas (o homem é a medida e o critério do relevo jurídico das coisas. são manifestação ou actuação de uma vontade. como por exemplo e por enquanto. um grão de areia. principalmente. Dá também o conceito de frutos (212º: tudo o que a coisa produz periodicamente. enquanto absorvida ou incluída no todo). as coisas consumíveis. são acções humanas tratadas pelo direito enquanto manifestações de vontade. Os segundos são estranhos a qualquer processo volitivo – ou porque resultam de causas de ordem natural ou porque a sua eventual voluntariedade não tem relevância jurídica. as coisas divisíveis. etc. úteis (não são indispensáveis mas mantêm o valor da coisa).Classificação dos factos jurídicos A primeira grande classificação dos factos jurídicos é a que se pode estabelecer entre factos voluntários ou actos jurídicos e factos jurídicos involuntários ou naturais. Para esse efeito devem apresentar as seguintes características: a)Existência autónoma ou separada (uma casa é uma coisa. noção igualmente importante dada a sua aplicação no regime da posse. por isso não são coisas. ou os que. b)Possibilidade de apropriação exclusiva por alguém (não são coisas os bens que escapam ao domínio do homem. as estrelas. 88. Os primeiros resultam da vontade como elemento juridicamente relevante. mas não já ao possuidor de má fé). carecidos de personalidade. de qualquer homem.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Os bens de carácter estático.Noção de facto jurídico Facto jurídico é todo o acto humano ou acontecimento natural juridicamente relevante. (III)TEORIA GERAL DO FACTO JURÍDICO (1)Dos factos jurídicos em geral (I)Conceitos e Classificações 87. O mesmo artigo considera e define três modalidades de benfeitorias: necessárias (indispensáveis para manter a coisa). os planetas. voluptuárias (destina-se ao recreio). como os animais bravios ou os peixes não apropriados. b)Que se trate de bens permutáveis. O código civil define no 204º e seguintes as coisas imóveis e móveis. do arrendamento. a camada atmosférica. ou de coisas abandonadas. sem prejuízo da sua substância). por falta de possibilidade de delimitação ou captura. etc. a luz solar. as coisas simples e compostas. senão mesmo necessariamente. as coisas fungíveis.

A importância do negócio jurídico manifesta-se na circunstância de esta figura ser um meio de auto-ordenação das relações jurídicas de cada sujeito de direito. distinguir-se em negócios jurídicos e simples actos jurídicos ou actos jurídicos «stricto sensu». Os efeitos dos negócios jurídicos produzem-se «ex voluntate» e não apenas «ex lege». Estamos perante o instrumento principal de realização do princípio da autonomia da vontade ou autonomia privada. com intenção de os alcançar sob tutela do direito. embora muitas vezes haja concordância entre a vontade destes e os referidos efeitos. Não é. dirigidas à realização de certos efeitos práticos. da gestão de negócios. É o caso da acessão (uma coisa de uma pessoa une-se a uma coisa de outra pessoa) industrial (resultado de acção humana) ou natural (derivada de causa naturais). determinando o ordenamento jurídico a produção dos efeitos jurídicos conformes à intenção manifestada pelo declarante ou declarantes. apareça como manifestação de uma vontade de certos efeitos práticos sob a sanção do ordenamento jurídico. da especificação.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Os factos jurídicos voluntários podem ser lícitos ou ilícitos. Estamos no domínio dos factos voluntários. etc. importam uma sanção para o seu autor (infractor de uma norma jurídica). tal como este é objectivamente (de fora) apercebido. É o que sucede com o testamento e com os contratos. da descoberta de um tesouro. Os efeitos dos simples actos jurídicos ou actos jurídicos «stricto sensu» produzem-se «ex lege» e não «ex voluntate».Conceito e importância do negócio jurídico Os negócios jurídicos são actos jurídicos constituídos por uma ou mais declarações de vontade. da notificação da cessão de créditos. (II)DO NEGÓCIO JURÍDICO E DO SIMPLES ACTO JURÍDICO (1)Conceito. todavia. Os actos reais ou operações jurídicas: traduzem-se na efectivação ou realização de um resultado material ou factual a que a lei liga determinados efeitos jurídicos. É o caso da interpelação do devedor. apesar disso nem sempre os efeitos jurídicos respectivos são produzidos por terem sido queridos e na medida em que o foram. da ocupação de animais ou coisas móveis. Os actos lícitos são conformes à ordem jurídica e por ela consentidos. etc. mesmo que não tenham sido previstos ou queridos pelos seus autores. A distinção entre negócios jurídicos e simples actos jurídicos assenta precisamente neste critério da relação que intercede entre a vontade ou volição das partes dirigida a um resultado e os efeitos jurídicos produzidos. cujo núcleo essencial é integrado por uma ou mais declarações de vontade a que o ordenamento jurídicos atribui efeitos jurídicos concordantes com o conteúdo da vontade das partes. Os factos voluntários ou actos jurídicos podem. Dentro dos simples actos jurídicos é usual fazer-se uma distinção entre: Os quase-negócios jurídicos: traduzem-se na manifestação exterior de uma vontade. Os simples actos jurídicos são factos voluntários cujos efeitos se produzem. exteriormente observado. 56 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . O que é verdadeiramente constitutivo do negócio é o comportamento declarativo – a existência de um comportamento que. segundo outra classificação de carácter fundamental. necessária uma vontade de produção dos efeitos correspondentes ao tipo de simples acto jurídico em causa para essa eficácia se desencadear. elementos e classificações (I)Conceito e elementos 94. Os negócios jurídicos são factos voluntários. Os actos ilícitos são contrários à ordem jurídica e por ela reprovados.

às quais é estranho o intuito de criar. Se a dúvida for do segundo tipo. Teoria dos efeitos prático-jurídicos É o ponto de vista correcto. igualmente. para um jantar). normalmente económicos. Haveria uma vontade das partes dirigida à produção de determinados e precisos efeitos jurídicos. não bastando provar-se que as partes não pensaram no ponto ou até provavelmente não teriam querido aquele regime. Pode surgir a dúvida sobre se numa dada hipótese existe um negócio de pura obsequiosidade ou um negócio jurídico – ou antes sobre se existe um «agreement» ou um negócio jurídico. Os autores dos negócios jurídicos visam certos resultados práticos ou materiais e querem realizá-los por via jurídica. não é única nem é a decisiva – decisivo para existir um negócio é a vontade de os efeitos práticos queridos serem juridicamente vinculativos. Têm. mas que. não é menos verdade que elas só deixam de se aplicar quando uma vontade real contrária for manifestada. Os próprios efeitos derivados de normas supletivas resultariam da tácita vontade das partes. etc. é a parte interessada em demonstrar a existência do negócio jurídico que tem o ónus da prova respectivo. estão desprovidas de intenção de efeitos jurídicos. também uma vontade de efeitos jurídicos.: o convite para um passeio.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 95. em que o disponente confia pura e simplesmente na honorabilidade dos herdeiros a quem cumpre executar a disposição. são perfeita e completamente correspondentes ao conteúdo da vontade das partes. Por falta de intenção de efeitos jurídicos nestes termos. o que sucede é que as partes dos vários negócios não têm uma representação completa e exacta de todos os efeitos que o ordenamento jurídico atribui às suas declarações de vontade. Se a dúvida for do primeiro. moral. é a parte interessada em demonstrar a inexistência da intenção negocial que tem o onus probandi. Este ponto de vista não fornece o correcto diagnóstico ou o correcto critério para a determinação da relação que intercede no negócio jurídico entre a vontade dos seus autores e os efeitos jurídicos respectivos. a ser esta doutrina correcta. praxes sociais. faria a lei corresponder efeitos jurídicos concordantes. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 57 .Relação entre a vontade exteriorizada na declaração negocial e os efeitos jurídicos do negócio. Há uma «intenção dirigida a um determinado efeito económico juridicamente garantido». A estes efeitos práticos ou empíricos manifestados. correspondentes aos efeitos práticos. Simplesmente não se trata de uma representação completa dos efeitos jurídicos correspondentes àquela vontade de efeitos práticos – esses efeitos jurídicos completos serão determinados pela lei. distinguem-se os negócios jurídicos dos chamados negócios de pura obsequiosidade. Teoria dos efeitos práticos Para esta doutrina a teoria dos efeitos jurídicos não é realista – está longe da realidade. Estas convenções são combinações sobre a matéria que é normalmente objecto de negócios jurídicos. modificar ou extinguir um vinculo jurídico (ex. Ora. Estes são promessas ou combinações da vida social. a vontade de se gerarem efeitos jurídicos nomeadamente deveres jurídicos. Teoria dos efeitos jurídicos Para esta doutrina os efeitos jurídicos produzidos. só os juristas completamente informados sobre o ordenamento podiam celebrar negócios jurídicos. excepcionalmente. A falta de vontade de efeitos jurídicos distingue. Também esta concepção é inaceitável. Por outro lado. sem carácter ilícito. os negócios jurídicos do chamados gentlemen’s agreements. tais como a lei os determina. Aliás. Tal como define o negócio jurídico este não se distingue dos compromissos ou convenções celebradas sob o império de outros ordenamentos normativos (cortesia. se é certo que algumas normas supletivas consagram cláusulas usuais ou de estilo do comércio jurídico. pois. A vontade dirigida a efeitos práticos. É o caso de um empréstimo de honra ou de uma disposição de bens para depois da morte. As partes manifestam apenas uma vontade de efeitos práticos ou empíricos.).

todavia. embora com um significado para cada parte. Nos contratos ou negócios bilaterais há duas ou mais declarações de vontade. Existem também as condições especiais de validade.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 96. mas convergente. da estipulação de lugar e tempo para o cumprimento da obrigação. nos primeiros a declaração só é eficaz. a declaração de vontade sem anomalias e a idoneidade do objecto. Alguns exemplos de negócios unilaterais: testamento.Elementos dos negócios jurídicos Elementos essenciais Sendo o negócio jurídico um acto que só desempenha a sua função na medida em que for válido. se for e quando for dirigida e levada ao conhecimento de certa pessoa. submetendo os efeitos do negócio a um evento futuro e incerto. sendo estas a estipulação que caracteriza um determinado negócio jurídico. quando a sua falta implique invalidade e não apenas ineficácia). da cláusula condicional. Não é necessário que as partes configurem qualquer cláusula para a produção destes efeitos. os artigos 964º (doação). abrangendo assim as duas modalidades. ajustando-se na sua comum pretensão de produzir resultado jurídico unitário.Negócios jurídicos unilaterais e contratos ou negócio jurídicos bilaterais O código civil contém uma regulamentação geral do negócio jurídico. 1030º (locação). não vemos razão para afastar a sistematização tradicional que considera elementos essenciais de todo e qualquer negócio jurídico os requisitos ou condições gerais de validade de qualquer negócio. etc. formando um só grupo. Nos negócios unilaterais há uma só declaração de vontade ou várias declarações. Há assim uma oferta ou proposta e a aceitação. 885º (compra e venda). O critério classificativo é o do número e modo de articulação das declarações integradoras do negócio. Trata-se das estipulações que não caracterizam o tipo negocial em abstracto. sem ser necessário comunicá-la a quem quer que seja. São eles a capacidade das partes (e a legitimidade. mas se tornam imprescindíveis para que o negócio concreto produza os efeitos a que elas tendem. 2) vigora o princípio da tipicidade. Elementos naturais São os efeitos negociais. enquanto nos segundos basta a emissão da declaração. derivados de disposições legais supletivas. que se conciliam num consenso. É o caso das cláusulas de juros. de conteúdo oposto. 58 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . ser excluídos por estipulação antecipadamente formulada. São exemplos de normas supletivas. renúncia a certos direitos. mas paralelas. podendo. É o caso paradigmático da compra e venda. Elementos acidentais São as cláusulas acessórias dos negócios jurídicos. e consequentemente de efeitos correspondentes a elementos naturais dos respectivos tipos de negócio jurídico. (II)Classificações dos negócios jurídicos 97. etc. Acerca dos negócios unilaterais importa focar as seguintes notas ou características do regime dos negócios unilaterais: 1) é desnecessária a aceitação do adversário. 3) uma importante distinção neste domínio é a que se deve estabelecer entre negócios unilaterais receptícios e negócios unilaterais não receptícios. etc.

a tutela das expectativas da parte que se encontra em face da declaração negocial. quando o proponente passa a estar em condições de a conhecer. que parece a preferível.º1 a)). fundamentalmente. por qualquer meio. carta. por exemplo. é nulo.º 1 b)). Os contratos unilaterais geram obrigações apenas para uma das partes. põe-se o problema de saber qual o momento da sua perfeição. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 59 . por força dos interesses gerais do comércio jurídico. Importância: a excepção de não cumprimento do contrato (428º) é privativa dos contratos bilaterais. Os negócios da segunda categoria são negócios «fora do comércio jurídico». existindo nos contratos bilaterais. Uma importante distinção é a que se faz entre contratos unilaterais e contratos bilaterais. Nestes há inicialmente apenas obrigações para uma das partes. necessário que a declaração chegue ao poder ou à esfera de acção do proponente. apenas admitindo nalguns casos particulares (2028º). Não será. b) Instituição contratual de herdeiro ou legatário em favor de terceiros. sob a pena de nulidade. Negócio «mortis causa» é. mas não já a faculdade de resolução com fundamento em inadimplemento ou mora: esta. feita por qualquer dos esposados (1700º n. nem a excepção de não cumprimento do contrato. Os autores referem também a categoria dos contratos bilaterais imperfeitos. inequivocamente. b) Doutrina da expedição: o contrato está perfeito quando o destinatário expediu. os segundos destinamse a só produzir efeitos depois da morte da respectiva parte ou de alguma delas. foi dele conhecida (224º n. Não tem lugar nos contratos bilaterais imperfeitos a condição resolutiva tácita. por qualquer meio (telegrama. Os contratos bilaterais ou sinalagmáticos geram obrigações para ambas as partes. À primeira categoria pertencem quase todos os negócios jurídicos e na sua disciplina tem grande importância. feita pelo outro esposado ou por terceiro (1700 n. O código considera lícitas certas disposições por morte feitas em convenção antenupcial. mantendo-se durante lapsos de tempo referidos no 228º. obrigações ligadas entre si por um nexo de causalidade ou correspectividade. A proposta de contrato é irrevogável depois de chegar ao conhecimento do destinatário (230º). Tais convenções podem ser. isto é. c) Doutrina da recepção: o contrato está perfeito quando a resposta contendo a aceitação chega à esfera de acção do proponente.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Acerca dos contratos Não são integrados por dois negócios unilaterais. no sentido de que. cada uma das declarações (proposta e aceitação) é emitida em vista do acordo. A regra de proibição dos pactos sucessórios comporta excepções. um contrato de alienação da própria herança mediante um preço ou uma renda vitalícia. surgindo eventualmente mais tarde obrigações para a outra parte. d) Doutrina da percepção: o contrato só está perfeito quando o proponente tomou conhecimento efectivo da aceitação. etc. em virtude do cumprimento das primeiras e em dados termos. Assim. de dois tipos: a) Instituição contratual de herdeiro ou legatário em favor de qualquer dos esposados. na sua regulamentação.Negócios entre vivos e negócios «mortis causa» Os primeiros destinam-se a produzir efeitos em vida das partes. Do artigo 224º resulta consagrar o nosso direito a doutrina da recepção. Nestes termos. Sendo o contrato integrado por duas declarações.) a sua aceitação. todavia. A lei actual proíbe em princípio os pactos ou contratos sucessórios. a compra e venda.º1). o testamento. a locação. etc. se. 98. pode ter lugar também nalguns contratos unilaterais. os interesses do declarante devem prevalecer sobre o interesse na protecção da confiança do destinatário dos efeitos respectivos. Várias doutrinas abordam a questão: a) Doutrina da aceitação: o contrato está perfeito quando o destinatário da proposta declarou aceitar a oferta que lhe foi feita.

a declaração negocial deve. Documento autêntico: são os documentos exarados. o acatamento de determinado formalismo ou de determinadas solenidades. de celebração de contratos diferentes dos previstos na lei e de inclusão nestes de quaisquer cláusulas (405º).Negócios consensuais ou não solenes e negócios formais ou solenes Os negócios formais ou solenes são aqueles para os quais a lei prescreve a necessidade da observância de determinada forma. esta não for observada. resultantes de algumas normas imperativas do direito das sucessões. etc. quanto aos contratos. Quanto aos negócios familiares pessoais: a liberdade contratual está praticamente excluída. a lei não impõe uma determinada roupagem exterior para o negócio. além das declarações de vontade das partes. familiares e sucessórios O critério desta classificação diz respeito à natureza da relação jurídica constituída. Quanto aos negócios sucessórios: este princípio sofre importantes restrições. quanto a problemas como o da interpretação do negócio jurídico e o da falta ou dos vícios da vontade. são numerosos e frequentes). tratando-se de contratos) são os que podem ser celebrados por quaisquer meios declarativos aptos a exteriorizar a vontade negocial. não tem que atender às 60 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Quando o negócio é formal. através de certo tipo de documento. mas não podendo fixar-lhe livremente o conteúdo. pelas autoridades publicas nos limites da sua competência ou. com carácter real. visto que «não é permitida a constituição. quanto aos negócios unilaterais. mediante uma cerimonia. nos negócios formais. pelo notário ou outro oficial público provido de fé pública. nem podendo celebrar contratos diferentes dos previstos na lei. com as formalidades legais. abrangendo a liberdade de fixação do conteúdo dos contratos típicos. No domínio dos negócios obrigacionais: vigora o princípio da liberdade negocial. Quanto às noções de documento autêntico e documento particular elas estão no 363º. a declaração negocial é nula. de restrições ao direito senão nos casos previstos na lei» (1306º). dentro do círculo de actividade que lhe é atribuído. Só podem constituir-se direitos reais típicos. Quanto aos negócios familiares patrimoniais: existe. com alguma largueza. quase inconfinadamente. modificada ou extinta pelo negócio. 1714º). vigora. embora representem uma excepção. Documento particular: todos os outros. as partes não o podem realizar por todo e qualquer comportamento declarativo. nos casos excepcionais em que a lei prescrever uma certa forma (casos que. 100.Negócios patrimoniais e negócios pessoais refere. Quanto aos negócios reais: o princípio da liberdade contratual sofre considerável limitação derivada o princípio da tipicidade. 101.). o princípio da tipicidade (457º). reais. Os negócios não solenes (consensuais. A sua importância resulta da diversa extensão que o princípio da liberdade contratual (405º) reveste cada uma das categorias. formalizadas ou não.Negócios reais São aqueles negócios em que se exige. Quando. a liberdade de convenção (1698º). Os negócios reais podem ser classificados quanto aos efeitos e quando à sua constituição. 102. porém. podendo apenas os interessados celebrar ou deixar de celebrar o negócio. o da natureza da relação jurídica a que o negócio se Os negócios pessoais são negócios cuja disciplina.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 99. O critério distintivo é. embora essa constituição possa resultar de um negócio inominado ou atípico. também. a prática anterior ou simultânea de um certo acto material. sofrendo embora restrições (1699º.Negócios obrigacionais. realizar-se através de certo tipo de comportamento declarativo imposto pela lei (por escrito.

de incêndio. para que esta as venda. certos tipos de jogo). existindo. o usualmente chamado contrato de consignação (contrato estimatório). Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 61 .). quanto aos problemas em que está em causa a subsistência da doação. Uma parte tem a intenção. A outra parte procede com a consciência e vontade de receber essa vantagem sem um sacrifício correspondente. em matéria da impugnação pauliana (612º). a uma possibilidade de ganhar ou perder. 104. Cada uma das partes faz uma atribuição patrimonial que considera retribuída ou contrabalançada pela atribuição da contraparte. etc. Exemplos: jogo. Caracterizam-se pelo facto de uma pessoa prometer certa prestação em troca de uma qualquer participação nos proveitos que a contraparte obtenha por força daquela prestação. dependendo de um facto incerto a determinação de quem a realizará (aposta. pelo que. A onerosidade consiste na circunstância de ambas estarem sujeitas ao risco de perder. com o direito de uma participação nos lucros e a obrigação de restituir as unidades não vendidas. Os contratos de jogo e de aposta não são contratos válidos. seguro. por exemplo. Cada uma das prestações ou atribuições é o correspectivo (a contrapartida) da outra. ao invés. se valorizarem frequentemente os interesses de terceiros e os do doador em maior medida do que os do donatário. assim se reconhecendo «o valor social da aparência». Os negócios onerosos pressupõem atribuições patrimoniais de ambas as partes. um nexo ou relação de correspectividade entre as referidas atribuições patrimoniais (normalmente traduzidas em prestações). devidamente manifestada. se cada parte obtém da outra uma vantagem. aposta. mas uma delas é incerta no seu «quantum» (seguro de vida). segundo a perspectiva destas. de maior montante do que aquele (seguro de responsabilidade civil. pela intervenção de uma intenção liberal (animus donandi). de protecção do terceiro adquirente de boa fé «a non domino». Na disciplina dos negócios patrimoniais. Nos contratos aleatórios as partes submetem-se a uma álea. consideradas pelo seu valor objectivo ou normal. pode haver uma prestação certa e outra incerta.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL expectativas dos declaratários e aos interesses gerais da contratação. A distinção dos negócios jurídicos em onerosos e gratuitos tem como critério o conteúdo e finalidade do negócio nos termos que a seguir se evidenciam. O acto é a título gratuito quando for realizado com uma particular intenção ou causa que é a de proporcionar uma vantagem à outra parte. Exemplos: parceria pecuniária (1121º). nem constituem fonte de obrigações civis. a vontade manifestada ou declarada triunfa sobre a vontade real. pode haver duas prestações certas na sua existência. Pode haver uma só prestação. etc. de efectuar uma atribuição patrimonial a favor de outra. Os negócios gratuitos caracterizam-se. certas formas de sociedade.Negócios parciários São um subespécie dos negócios onerosos. Como ideia geral pode reter-se a constatação de. só uma venha a ganhar. etc. Não é necessário um equilíbrio ou uma equivalência das prestações ou atribuições patrimoniais.Negócios onerosos e negócios gratuitos A importância da distinção manifesta-se. no final de contas. sem contrapartida ou correspectivo. etc. 103. Nos negócios gratuitos cria-se – e há acordo das partes sobre este ponto – uma vantagem patrimonial para um dos sujeitos sem nenhum equivalente. está a pagá-la com um sacrifício que é visto pelos sujeitos do negócio como correspondente. por exigência de tutela da confiança do declaratário e dos interesses do tráfico. nos termos do qual uma das partes remeta à outra tantas unidades de certa mercadoria. nas doações (paradigma dos negócios gratuitos).Contratos comutativos e contratos aleatórios É uma subdivisão a estabelecer dentro dos contratos onerosos. embora. 105.

Estas noções traduzem-se na referência a este domínio das noções mais genéricas de capacidade jurídica e de capacidade para o exercício de direitos. mas num elemento exterior – o comportamento declarativo. (2)A declaração negocial (I)Noções gerais 108.) ou o aspecto objectivista (comportamento objectivo. Os problemas decisivos para o efeito de determinar o conceito de declaração negocial – correspondente aos dados do sistema – são o da divergência entre a vontade e a declaração e dos vícios de vontade. A capacidade: traduz-se num modo de ser ou qualidade do sujeito em si. etc. cria a aparência de exteriorização de um certo conteúdo de vontade negocial. com ânimo de que sejam juridicamente tutelados e vinculantes. exteriormente observado. com coerência. caracterizando.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL (II)ELEMENTOS ESSENCIAIS DO NEGÓCIO JURÍDICO (1)Capacidade e legitimidade 107. manifestação de vontade. A declaração pretende ser o instrumento de exteriorização da vontade psicológica do declarante – essa é a sua função. exercendo ou adquirindo direitos. cumprindo ou assumindo obrigações. manifesta normalmente uma vontade. e os do declaratário e do comércio jurídico.Remissão São requisitos ou pressupostos gerais de validade dos negócios jurídicos a capacidade e a legitimidade. No domínio dos negócios jurídicos fala-se de capacidade negocial de gozo (ou capacidade jurídica negocial) e de capacidade negocial de exercício. A capacidade negocial de exercício: é a idoneidade para actuar juridicamente. o da interpretação da declaração negocial. A capacidade negocial de gozo: é a susceptibilidade de ser titular de direitos e obrigações derivados de negócios jurídicos. etc. fazendo-se consistir a sua nota essencial. 109. conduzindo a sua falta à inexistência material do negócio. uma realidade componente ou constitutiva da estrutura do negócio. formada sem anomalias e coincidente com o sentido exteriormente captado daquele comportamento. não num elemento interior – uma vontade real. a vontade negocial como o intenção de realizar certos efeitos práticos. o direito civil conhece hoje um estádio de evolução que põe na primeira linha a protecção das expectativas dos declaratários e da segurança do comércio jurídico. realçando o aspecto subjectivista (vontade manifestada. depois.A declaração negocial como verdadeiro elemento do negócio jurídico Trata-se de um verdadeiro elemento do negócio. Ora. dando 62 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . É porém. etc. por actividade própria ou através de um representante voluntário. psicológica –. por outro. Dá-se assim um conceito objectivista de declaração negocial. por um lado.). Tais problemas têm subjacente um conflito entre os interesses do declarante. A legitimidade: é uma relação entre o sujeito e o conteúdo do acto (a relação jurídica que está em jogo no negócio).Conceito de declaração negocial Pode definir-se a declaração de vontade negocial como o comportamento que. em que se traduz a declaração. efectiva. que se deve definir. A declaração negocial é um elemento verdadeiramente integrante do negócio jurídico. O comportamento externo. aparência de vontade. o conceito de declaração negocial. acto social. à luz das soluções dispensadas pelo ordenamento jurídico a uma série de problemas.

TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL assim relevância à «aparência» e a uma «exigência de cognoscibilidade», a expensas da vontade real e psicológica. O código civil não toma partido, directamente, como é natural, numa questão dogmática; mas é manifesto o intuito do legislador de se não comprometer, sequer ao nível terminológico, com as concepções voluntarísticas, pois não emprega a expressão «declaração de vontade», falando antes em «declaração negocial».

110.Breve referência aos actos jurídicos de natureza não negocial
A lei portuguesa começa logo por regular a problemática posta pelo negócio jurídico, alude a «actos jurídicos que não sejam negócios jurídicos», mas não toma posição sobre qual a compreensão ou a extensão da categoria «negócio jurídico», reservando assim esse domínio à doutrina. Foram já definidos os conceitos de negócio jurídico e de acto não negocial (simples acto jurídico), fazendo-se agora remissão para as noções então formuladas. O 295º manda aplicar aos actos negociais as disposições da doutrina geral do negócio jurídico, na medida em que a analogia das situações o justifique. Daí se infere que não se aplicarão aquelas normas, sempre que não haja uma verdadeira analogia de situações. Aos actos pessoais (perfilhação, adopção, etc.), e mesmo que a lei o não diga expressamente, não se aplicam, portanto, as disposições inspiradas pela tutela da confiança dos declaratários e da segurança e celeridade do comércio jurídico. Quanto aos actos mais correntemente qualificados como simples actos jurídicos ou actos não negociais (ex.: interpelação do devedor, gestão de negócios, domicilio voluntário geral, certas notificações, etc.), quais as normas da regulamentação geral do negócio jurídico aplicáveis ou não, segundo o critério da analogia das situações? Os quase-negócios jurídicos ou actos jurídicos quase-negociais traduzem-se na manifestação exterior de uma vontade e existe quase sempre uma consciência e até uma intenção de relevância jurídica da vontade exteriorizada. Aplicar-se-lhe-ão, em regra, as normas sobre capacidade, recepção da declaração pelo destinatário, interpretação, vícios da vontade e representação. As operações jurídicas ou actos materiais ou actos reais traduzem-se na efectivação ou realização de um resultado material ou factual, a que a lei liga determinados efeitos jurídicos; desencadeiam, por força da lei, a produção desses efeitos, embora normalmente ou, pelo menos, frequentemente estes não sejam visados. Não se exige para a produção dos respectivos efeitos a capacidade, nem se aplicam, em geral, os preceitos sobre vícios da vontade, interpretação, recepção de declarações, representação.

111.Elementos constitutivos normais da declaração negocial
Numa declaração negocial podem distinguir-se normalmente os seguintes elementos: a) A declaração propriamente dita (elemento externo) – consiste no comportamento declarativo; b) A vontade (elemento interno) – consiste no querer, na realidade volitiva que normalmente existirá e coincidirá com o sentido objectivo da declaração. O elemento interno – a vontade real – pode decompor-se analiticamente em três subelementos. A vontade de acção Consiste na voluntariedade (consciência e intenção) do comportamento declarativo. Pode faltar a vontade de acção. Assim acontece se uma pessoa, por acto reflexo ou distraidamente, sem se aperceber do facto, faz um gesto e este objectivamente aparece como uma declaração negocial (ex.: aceitação de uma proposta). É igualmente o caso da coacção ou violência absoluta (coacção física) – é esta a hipótese mais viável e significativa de falta de vontade de acção.

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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL A vontade da declaração ou vontade da relevância negocial da acção Consiste em o declarante atribuir ao comportamento querido o significado de uma declaração negocial. Este subelemento só está presente, se o declarante tiver a consciência e a vontade de que o seu comportamento tenha significado negocial vinculativo – consciência e vontade de que o seu comportamento produza efeitos negociais no campo do direito. A declaração deve corresponder a um «sic volo sic jubeo», vinculativo do declarante. Pode faltar a vontade da declaração. Uma pessoa, julgando subscrever uma simples ficha de assinatura para o arquivo de um banco, assina uma declaração negocial. Um indivíduo entra num leilão e faz um gesto de saudação a um amigo; segundo as praxes do lugar esse facto significa uma oferta de certa importância pelo objecto leiloado. A vontade negocial, vontade do conteúdo da declaração ou intenção do resultado Consiste na vontade de celebrar um negócio jurídico de conteúdo coincidente com o significado exterior da declaração. É uma vontade efectiva correspondente ao negócio concreto que apareceu exteriormente declarado. Pode haver um desvio na vontade negocial. É o caso de o declarante ter atribuído aos termos da declaração um sentido diverso do sentido que exteriormente é captado. Uma pessoa quer comprar a Quinta do Mosteiro e declara querer comprar a Quinta da Capela – que é um outro prédio – por julgar erradamente que este é o seu nome. Constatamos, portanto, poder verificar-se uma falta de vontade de acção, uma falta de vontade da declaração e um desvio na vontade negocial. Em todos estes casos surge um dissídio, uma divergência, entre a vontade e a declaração. Tal divergência pode, aliás, resultar ainda de um desvio na vontade de acção (lapsus linguae ou lapsus calami). O declarante quer escrever uma coisa e engana-se ao escrever.

112.Declaração negocial expressa e declaração negocial tácita
Generalidades Os negócios jurídicos realizam uma ampla autonomia privada, como já se sabe, na medida em que, quanto ao seu conteúdo, vigora o princípio da liberdade negocial (405º). Quanto à forma é igualmente reconhecido pelo ordenamento jurídico um critério de liberdade : princípio da liberdade declarativa. Tal princípio está consagrado nos 217º e 219º. Por vezes, a lei exige, porém, que a declaração negocial seja expressa. Ex.: 957º, 731º Outras vezes a lei tem o cuidado de frisar que um certo negócio pode ter lugar por declaração tácita (ex.: 302º, 2056º), o que já resultaria do princípio geral do 217º. Os termos da distinção O critério da distinção entre declaração tácita e declaração expressa consagrada pela lei (217º) é o proposto pela teoria subjectiva: a declaração é expressa quando feita por palavras, escrito ou quaisquer outros meios directos, frontais, imediatos de expressão da vontade e é tácita quando do seu conteúdo directo se infere um outro, isto é, quando se destina a um certo fim, mas implica e torna cognoscível, a latere, um autoregulamento sobre outro ponto – em via oblíqua, imediata, lateral – («quando se deduz de factos que, com toda a probabilidade, a revelam»). Resulta claramente da formulação legal que a inequivocidade dos factos concludentes não exige que a dedução, no sentido do autoregulamento tacitamente expresso, seja forçosa ou necessária, bastando que, conforme os usos do ambiente social, ela possa ter lugar com toda a probabilidade.

113.O valor do silêncio como meio declarativo
Trata-se, principalmente, de saber se o silêncio – entendido não apenas como um «nada dizer», mas como um «nada fazer», uma total omissão – pode considerar-se um facto concludente (declaração tácita) no sentido da aceitação de propostas negociais. O código civil resolve o problema no 218º, estabelecendo que o silêncio não vale como declaração negocial, a não ser que esse valor lhe seja atribuído por lei, convenção ou uso. Repudia-se, pois, o velho brocardo do direito canónico «qui tacet consentire videtur», mesmo que o sujeito pudesse e devesse falar, pois a atribuição ao silêncio do valor de consenso negocial, não é, como regra geral, razoável. Só lhe caberá tal significado, havendo norma legal ou convenção das partes nesse sentido, bem como na hipótese de um uso

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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL prevalente em certo círculo social (uso geral, v.g., no caso de uma pessoa enviar habitualmente a outra mercadorias que esta recebe, sem aceitar nem rejeitar, e paga em devido tempo, criando-se entre ambas uma prática deste tipo). É a solução mais razoável. Seria inaceitável dar expressão legislativa ao tópico «quem cala consente». Com efeito, o silêncio é, em si mesmo, insignificativo e quem cala pode comportar-se desse modo pelas mais diversas causas, pelo que deve considerar-se irrelevante – sem querer dizer sim, nem não – um comportamento omissivo.

114.Declaração negocial presumida. Declaração negocial ficta
A declaração negocial presumida tem lugar quando a lei liga a determinado comportamento o significado de exprimir uma vontade negocial, em certo sentido, podendo ilidir-se tal presunção mediante prova em contrário (350º n.º1 e 2). A declaração negocial ficta tem lugar sempre que a um comportamento seja atribuído um significado tipicizado, sem admissão de prova em contrário (350º n.º2 no fim).

115.Protesto e reserva
Emitido certo comportamento declarativo, pode o seu autor recear que lhe seja imputado, por interpretação, um certo sentido. Para o impedir, o declarante afirma abertamente não ser esse o seu intuito. A esta contradeclaração dá-se o nome de protesto. O protesto tem o nome de reserva (subespécie de protesto), quando consiste na declaração de que um certo comportamento não significa renúncia a um direito próprio, ou reconhecimento de um direito alheio. Exemplos: o mutuante recebe certa importância, a título de juros, mas, julgando ter direito a receber mais, declara não prescindir do excedente. Afirma-se comummente que o protesto não vale quando o comportamento declarativo só consente a interpretação contra a qual o declarante se quer acautelar.

116.Forma da declaração negocial
Vantagens e inconvenientes do formalismo negocial (pág. 430) Ponderando as vantagens e inconvenientes do formalismo negocial, sancionou o CC (219º) o princípio da liberdade de forma ou da consensualidade (sendo este último termo rigoroso, apenas, para os contratos). O formalismo exigível para um certo negócio pode ser imposto pela lei (forma legal) ou resultar de uma estipulação ou negócio jurídico das partes (forma convencional), como acontece, por exemplo, quando durante as negociações prévias se convenciona que o futuro ou os futuros negócios entre as partes se deverão revestir de certa forma. O problema da legitimidade da forma convencional é debatido na doutrina; o CC resolveu-o no sentido da admissibilidade e eficácia dos negócios determinativos da forma (223º). É óbvio, porém, que o reconhecimento das estipulações das partes sobre forma do negócio não significa que os particulares possam afastar, por acordo, as normas legais que exigem requisitos formais para certos actos, pois trata-se de normas imperativas. O reconhecimento da forma convencional significa, apenas, poderem as partes exigir determinados requisitos para um acto, pertencente a um tipo negocial que a lei regula não formal ou sujeita a um formalismo menos solene. Âmbito da forma exigida No que toca ao problema de saber quais as cláusulas ou estipulações negociais a que a forma legal é aplicável, quanto exigida, MANUEL ANDRADE entendia que a forma abrangia, não só as cláusulas essenciais do negócio jurídico, mas também as estipulações acessórias, típicas ou atípicas, quer as contemporâneas da conclusão do negócio, quer as subsequentes, mas já se não estenderia tal exigência aos chamados pactos abolitivos ou extintivos. O CC consagrou esta regra, na medida em que estatui, em princípio, que as estipulações acessórias anteriores ao negócio ou contemporâneas dele devem revestir a forma exigida pela lei para o acto, sob pena de nulidade (221º). Admitem-se, contudo, na mesma disposição, restrições a este princípio.

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66 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . pois traduz-se na prova de que a estipulação existiu. pois não seria obrigado a entregar a coisa vendida ou a restituir a importância recebida. desde que se verifiquem. à primeira vista. é de decidir contra a sua existência. se tiver lugar a confissão ou se forem provadas por documento embora menos solene do que o exigido para o negócio. uma compra em que o comprador já pagou o preço ou um mútuo em que a quantia mutuada já foi entregue ao mutuário. Tome-se. nalguns casos. que tal solução conduzirá a resultados injustos. a lei determine outra consequência (220º). o CC liga à inobservância da forma legal a nulidade. por falta de forma. regulando aquele ponto no documento. dada a nulidade dos contratos donde resultaria essa obrigação. parece que haveria um locumpletamento injusto do vendedor ou do mutuário. uma vez declarado nulo o negócio. Há que tomar em conta o 364º integrado nas disposições sobre direito probatório material constantes do mesmo. Isto dado o disposto no 394º que declara inadmissível a prova por testemunhas.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Reconhece-se a validade de estipulações verbais anteriores ao documento exigido para a declaração negocial ou contemporâneas dele. Por outro lado. No n. tal locumpletamento à custa alheia. Da coordenação do 221º com o 394º resulta que as estipulações adicionais não formalizadas. Aí se reafirma no n. gerando a sua falta a nulidade do negócio) e formalidades probatórias (a sua falta pode ser suprida por outros meios de prova mais difíceis de conseguir [ex. parece que tal acordo verbal deve ser respeitado. não considerará certas formalidades como simplesmente probatórias. pelo que. mas prova-se que as partes convencionaram verbalmente que o preço seria pago em certo local e data. adicional. nada se diz num contrato de compra e venda sobre o lugar e tempo de pagamento do preço. Assim se defende o conteúdo dos documentos contra os perigos da precária prova testemunhal. que complementem o documento.º1 o princípio geral. não quiseram de todo o pacto verbal anterior ou contemporâneo. A nulidade deixará de ser a sanção para a inobservância da forma legal. que estejam para além do conteúdo do mesmo e não de estipulações que o contradigam. só produzirão efeitos. todavia. sempre que. pois tem de se admitir que as partes. não havendo lugar à aplicação de quaisquer normas supletivas. se resultar claramente da lei que foi exigido apenas para prova da declaração. não abrangidas pela razão determinante da forma. é manifesto que há uma presunção natural de o documento ser completo. Poderá parecer. Não se verifica. se tiver por objecto convenções contrárias ou adicionais ao conteúdo de documentos autênticos ou particulares. É o que resulta do 289º. anterior ou simultânea. e não mera anulabilidade. nula. na dúvida sobre a existência de uma estipulação acessória. B) Consequências da inobservância da forma no nosso direito: a) Inobservância da forma legal: em conformidade com a orientação da generalidade das legislações e com os motivos de interesse público que determinam as exigências legais de forma. em casos particulares. b) Que não sejam abrangidas pela razão de ser da exigência do documento – por exemplo. o pacto verbal não será válido. segundo o qual os documentos autênticos.º2. todavia. que estejam em contrário dele. se sobre o ponto acessório há cláusula no documento. Consequências da inobservância da forma A) Distinção doutrinal entre formalidades substanciais (são insubstituíveis por outro género de prova. anteriores ou contemporâneas do documento. deverá ser restituído tudo o que tiver sido prestado em consequência do negócio viciado. Pode suscitar-se. Com efeito. são expressa.: confissão]). c) Que se prove que correspondem à vontade das partes – este requisito é óbvio. as seguintes condições: a) Que se trate de cláusulas acessórias – não deve tratar-se de estipulações essenciais e parece dever igualmente tratar-se de estipulações adicionais. a este propósito. cumulativamente. o problema de saber se o nosso direito. pois. autenticados ou particulares são formalidades substanciais. produzirem efeitos é bem menor do que «prima facie» pode parecer. em atenção que a possibilidade de as estipulações acessórias não formalizadas. a que se refere o 221º.

Assim: 1. para a solução da improcedência da arguição da nulidade. suprimindo-o e concluindo-o de novo. quando esta arguição revista as características de um abuso de direito. a arguição da nulidade.). renunciar-se-ia à realização do interesse público que subjaz à formulação das exigências de formalismo negocial. «excedendo manifestamente os limites impostos pela boa fé. Quer dizer: o contrato está perfeito quando a resposta. nesta última hipótese. isto é. chega à esfera de acção do proponente. Entre essas vantagens está a criação e tutela do valor de segurança jurídica. por exemplo. públicos. o negócio é ineficaz.g. pois. a resposta ao problema posto deve ser pedida. seja intoleravelmente ofensivo do nosso sentido ético-jurídico? Assim. 2. pelos bons costumes ou pelo fim social ou económico desse direito». contendo a aceitação. 117. são em princípio meramente relativas ou «iuris tantum» (350º). em primeiro lugar. assegurar a reconhecibilidade do acto por terceiros ou o seu controle no interesse da comunidade.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Donde se infere que quaisquer documentos (autênticos ou particulares) serão formalidades probatórias. pois trata-se de um preço conscientemente pago para fruir o rendimento social correspondente às vantagens do formalismo negocial. isto é. de outro modo. quando o titular excede manifestamente os limites impostos pela boa fé. será verdadeiramente escandalosa. havendo. presume-se que as partes não quiseram substituir o negócio. embora não categoricamente. fundamento para admitir que as partes se quiseram vincular desde logo. tratando-se de averiguar quais as consequências da falta de requisitos formais que a lei não exige. globalmente considerado. mas apenas visaram consolidá-lo ou qualquer outro efeito. quando o proponente passa a estar em condições de a conhecer. Essas presunções são duas. Se a forma especial foi estipulada antes da conclusão do negócio. fazendo como que falsificar por outrem a sua própria assinatura ou induzindo dolosamente a outra parte a não insistir pela formalização do negócio ou procedendo em termos de criar na outra parte a expectativa de que a nulidade jamais seria arguida. É óbvio que. pelos bons costumes ou pelo fim social ou económico desse direito» (334º). com fundamento em vício de forma. não podendo. a declaração negocial com um destinatário ganha eficácia logo que chegue ao seu poder ou é dele conhecida. Na doutrina nacional e estrangeira já se tem posto o problema de saber se a possibilidade de invocação da nulidade por vício de forma não pode ser excluída por aplicação da cláusula geral de boa fé ou do abuso de direito. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 67 . MANUEL DE ANDRADE inclinava-se.. reiterados e dispendiosos testemunhos de gratidão por uma liberdade feita. presume-se que. entre nós sancionada no 334º: «É ilegítimo o exercício de um direito. Deverá admitir-se a invocação da nulidade com fundamento em vício de forma. As declarações não receptivas tornam-se eficazes logo que o vontade se manifesta na forma adequada. Viu-se também que desta doutrina constante do 224º. consagra-se um presunção de essencialidade. Sem dúvida que a aplicação das regras de forma pode conduzir a uma ou outra solução de menos equidade. decorre ter a nossa lei optado pela doutrina da recepção quanto ao momento da conclusão dos contratos. quando o comportamento do invocante. por um contratante que a provocou. quando essa invocação por uma das partes constitua um abuso de direito.Perfeição da declaração negocial Como já se disse. sacrificando o critério de «justiça de cada caso». que só pode ser plenamente realizado. todavia. O 223º limita-se a estabelecer presunções que. a forma tem pois carácter constitutivo. Esta perspectiva é correcta. mas as partes convencionaram. v. como todas as presunções legais. isto é. sem a forma devida. sem a observância da forma. nos casos excepcionais em que resultar claramente da lei que a finalidade tida em vista ao ser formulada certa exigência de forma foi apenas a de obter prova segura acerca do acto e não qualquer das outras finalidades possíveis do formalismo negocial (obrigar as partes a reflexão sobre as consequências do acto. aliás. aceitando. etc. Se a forma foi convencionada após o negócio ou simultaneamente com ele. variando com o facto que é base da presunção. afastar-se a sua aplicação nesses casos. à vontade das partes. b) Inobservância da forma convencional: rege a este respeito o 223º.

segundo as respectivas declarações integradoras. como nova proposta (233º). Registe-se que uma proposta contratual só existirá se for suficientemente precisa. precisamente. se o sentido fixado. Esta responsabilidade pré-contratual tanto vale no caso de ruptura de negociações. os efeitos que o negócio visa produzir. como qualquer outra manifestação do espírito humano. a relação temporal da possibilidade de conhecimento. em princípio.º2). é um sentido objectivo. Quando se dirige uma proposta a pessoas indeterminadas.Em que consiste o problema. mas tem em vista evidenciar um conteúdo normativo (um conjunto de comandos) que vai pautar a conduta de algumas pessoas (no negócio jurídico. Em relação com esta matéria da perfeição da declaração negocial e da formação dos contratos. a aceitação vale. para este efeito. deve entender-se que em princípio existe apenas um convite para contratar (ex. a conduta das respectivas partes). quer durante a fase decisória (proposta e aceitação do contrato. pois. se o destinatário receber uma retractação do proponente ou dela tiver conhecimento. abrir-se um problema de divergência entre a vontade e a declaração) e. fixado o seu sentido. Como actividade ou operação dirigida à fixação do sentido negocial.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Sabe-se já também que a proposta de contrato. entendida esta num sentido ético. depois. se não houver qualquer motivo de invalidade. que consistiria em colocar as coisas na situação correspondente ao cumprimento de um contrato válido. (II)Interpretação e integração dos negócios jurídicos (1)Interpretação 118. Coisa diversa seria a reparação do interesse contratual positivo. dela resultar a vontade de o seu autor se vincular e houver consciência de se estar a emitir uma verdadeira declaração negocial. pode. releva. O dano a ser ressarcido pela responsabilidade pré-contratual é o chamado dano da confiança. na celebração dum contrato válido e eficaz. em conformidade com tais declarações. Uma proposta é rejeitada. postula uma interpretação. o objecto da teoria da interpretação dos negócios ou hermenêutica negocial. isto é. Quer dizer: deve colocar-se o lesado na situação em que estaria. Só que nos negócios jurídicos – como nas leis – a interpretação não visa pôr em relevo um resultado destinado a uma pura assimilação ou compreensão intelectuais (uma mensagem) ou afectivas.: se alguém anuncia num jornal que vende certas mercadorias a tanto por quilograma ou envia a lista de preços). mas deve pautar-se por regras ou critérios cuja formulação é. é irrevogável. depois de recebida pelo destinatário ou de ser dele conhecida. Em coerência com a irrevogabilidade. a interpretação não pode ser abandonada ao senso empírico de cada intérprete. entre nós. não a ordem do conhecimento efectivo. Se a modificação for suficientemente precisa. Trata-se de determinar o conteúdo das declarações de vontade (interpretado o negócio. como no de o contrato se concluir e vir a ser nulo ou ineficaz. quer durante a fase negociatória. segundo as directrizes da teoria da interpretação. Não vigora. se a declaração revogatória chegou ao poder da outra parte ao mesmo tempo ou antes do que as declarações de proposta ou de aceitação. A interpretação nos negócios jurídicos é a actividade dirigida a fixar o sentido e alcance decisivo dos negócios. Posições possíveis O negócio jurídico. salvo se outra tivesse sido a sua vontade presumível (226º). se foi aceite com aditamentos. afinal frustrada. resultante de lesão do interesse contratual negativo. se não tem chegado a depositar uma confiança. a morte ou a incapacidade do proponente não obstam à conclusão do contrato. porém. merece destaque o 227º que manda pautar a conduta das partes pelos princípios da boa fé. A retractação ou revogação da proposta ou da aceitação tem lugar – repete-se –. consequentemente. 68 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . a doutrina que admite a revogação da proposta se a referida revogação chegar ao destinatário antes de este ter expedido a aceitação. Esta só poderá eventualmente ficar sem efeito. antes de receber a proposta ou ao mesmo tempo que esta (230º n. e virá a produzir. limitações ou outras modificações.

este é o sentido decisivo. 119. como foi querido pelo autor da declaração. possa deduzir do comportamento de declarante» (236º n. Para haver uma declaração a interpretar é necessário estarmos perante um acto ou conduta voluntária equiparável. fim). A prevalência do sentido correspondente à impressão do destinatário é. A resposta afirmativa tem lugar. Para as posições objectivistas o intérprete não vai pesquisar a vontade efectiva do declarante. Basta que se tome conhecimento da existência de posições subjectivistas e objectivistas. É o caso dos 236º e ss. teria conhecido e figura-se que ele raciocinou sobre essas circunstâncias como o teria feito um declaratário razoável. considera-se o real declaratário nas condições concretas em que se encontra e tomam-se em conta os elementos que ele conheceu efectivamente mais os que uma pessoa razoável. Não podemos deixar de a considerar como acto determinante.Posição adoptada Doutrina geral O CC define o tipo de sentido negocial decisivo para a interpretação nos termos daquela posição objectivista: «a declaração vale no sentido que um declaratário normal. Quer dizer: a ambiguidade objectiva. porém. na lei. colocado na posição concreta do real declaratário. O sentido querido realmente pelo declarante releva. do 238º n. lhe atribuiria. em narcose ou em situação que exclua toda a direcção consciente da vontade. quando assim se concluir do ponto de vista de um Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 69 . um acto social de comunicação. bem como a coacção absoluta. que tem de ter relação com aquele a quem se destina ou o conhece. logo. o 236º n. sempre que o declaratário conheça vontade real do declarante. Não é declaração negocial uma manifestação feita durante o sono.º2). isto é. também. uma manifestação de validade que é o fundamento imediato da verificação dos efeitos jurídicos. Houve coincidência de sentidos (o querido e o compreendido). isto é. que este pudesse razoavelmente contar com ele (236º n. podendo não coincidir com o sentido objectivo normal.º1. mas um sentido exteriorizado ou cognoscível através de certos elementos objectivos. quer dizer. a sanção parece ser a nulidade do negócio. uma acção ou omissão controláveis pela vontade. Para as posições subjectivistas o intérprete deve buscar. colocado na posição do real declaratário. Neste caso a vontade real. Em conformidade com o ditame da velha máxima «falsa demonstratio non nocet». se o declaratário conhecer este sentido (com as limitações decorrentes. A interpretação abrange também o problema de saber se há ou não uma declaração negocial. para os negócios formais. através de todos os meios adequados. a vontade real do declarante. todavia. zelosa e sagaz.º1). se o destinatário a conheceu. a chamada teoria da impressão do destinatário. O negócio valerá com o sentido subjectivo. de uma limitação. seja qual for a causa da descoberta da real intenção do declarante. é de acordo com ela que vale a declaração emitida. Além de ser um acto determinante (meio de autodeterminação). A teoria da interpretação dos negócios jurídicos tem dado lugar à formulação de concepções opostas. mesmo quando a formulação seja ambígua ou inexacta. a declaração é. em conformidade com o ponto de vista de LARENZ e FERRER COSTA: para que tal sentido possa relevar torna-se necessário que seja possível a sua imputação ao declarante. objecto. normalmente esclarecida. a declaração deve valer com o sentido que um destinatário razoável.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL A teoria da interpretação pode ver alguns dos seus resultados convertidos em verdadeiras normas jurídicas onde se fixam princípios ou critérios interpretativos. ou até a vontade real. Não se dá relevo necessariamente à vontade real do declarante. correspondeu à impressão real do destinatário concreto. De entre as doutrinas objectivistas merece referência. por ser a melhor das suas variantes. Não se verificando tal coincidência entre o sentido objectivo correspondente à impressão do destinatário e um dos sentidos ainda imputáveis ao declarante.º2 estabelece que.

TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL declaratário normal colocado na posição do declaratário real. tenha um mínimo de correspondência. antes. a elementos ou circunstâncias estranhas aos termos do testamento. o sentido objectivo correspondente à impressão do destinatário. desde que se possa averiguar. Desvios A doutrina preferível. por não se lhes opor o texto daquele n. Nos contratos de adesão costuma propugnar-se a princípio de que na dúvida deve interpretar-se «contra stipulatorem». Esses desvios traduzem-se: a)Num maior objectivismo: é o que acontece nos negócios solenes ou formais. quanto ao problema do tipo do sentido negocial decisivo para a interpretação. Quando a interpretação leve a um resultado duvidoso. com o limite do «contexto do testamento» (2187º n.º1). em tese geral. isto é. Se porém a dúvida a que se chegar no termo do labor interpretativo for insanável parece que a declaração é ineficaz. rudimentarmente sequer.g. O significado decisivo é que o testador quis dizer. Na pesquisa desta vontade do testador é admitido o recurso à chamada prova complementar ou extrínseca. 2) Não oposição a essa validade das razões determinantes da forma do negócio: assim. isto é. ainda que imperfeita. quando essas razões forem. De acordo com o critério propugnado. embora. na posição do declaratário efectivo. o que conduzir ao maior equilíbrio das prestações. as ideias expendidas por MANUEL DE ANDRADE. A lei não dá qualquer indicação mais precisa.º1). a este respeito. quanto à relação que deve interceder entre a intenção testatória e o contexto do documento. o testamento se torne conhecido dos interessados. razões de certeza ou segurança e quando estejam em causa interesses de terceiros. que coincide substancialmente com o regime do CC anterior: nos negócios gratuitos prevalece o sentido menos gravoso para o disponente e. no contexto (2187º n. também aqui se deverá operar com a hipótese dum declaratário normal: serão atendíveis todos os coeficientes ou elementos que um declaratário medianamente instruído. fundadas em qualquer dos meios de prova geralmente admitidos. o sentido subjectivo. b)Num maior subjectivismo: é o caso das disposições testamentárias. v. assim reconstituída. quanto ao problema da hermenêutica negocial. limitando-se a estatuir que «não surtirá qualquer efeito a vontade do testador que não tenha no contexto um mínimo de correspondência. desde que se verifique um duplo condicionalismo: 1) Corresponder à vontade real e concordante das partes. para o direito anterior. diversamente dos negócios «entre vivos». no respectivo documento. o problema deve ser resolvido nos termos do 237º. O CC não se pronuncia sobre o problema de saber quais as circunstâncias atendíveis para a interpretação. contra o emitente das condições gerais préordenadas para uma multiplicidade de contratos individuais. no texto do respectivo documento (238º n. as favorecer. sofre desvios quanto a certos negócios. Esta limitação é uma manifestação do carácter solene do negócio testamentário. quanto à sua interpretação. Exige-se que a vontade do testador. parece haver obstáculo insuperável. na medida em que se contenta com uma expressão ténue da intenção do testador no contexto do documento. Em todo o caso não há declaração negocial se falta a vontade acção (246º). Quanto a estes. pelo contrário. predominantemente.. Podem continuar a aceitar-se.º2 do 2187º. para a vontade psicológica do testador: não há que tomar em consideração as possibilidades de conhecimento de um destinatário como critério interpretativo. depois da morte. ainda que imperfeitamente expressa». possa valer. não pode valer se não tiver um mínimo de correspondência. 70 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Admite-se que um sentido não traduzido. isto é. teria tomado em conta. diligente e sagaz. nos negócios onerosos. por aplicação. o sentido correspondente à doutrina geral. embora imperfeita. Um critério normativo de interpretação aponta aqui. ao menos analógica do 224º n.º3.º2). Consagra-se. mesmo no caso de real impropriedade das expressões utilizadas («falsa demonstratio non nocet»).

correspondentes ao texto da disposição do anteprojecto transcrita na penúltima nota. reconstituindo através da prova extrínseca. valerá. para os vários tipos de negócios. genericamente.Termos em que pode admitir-se O critério a utilizar para o efeito de realizar a integração dos negócios jurídicos lacunosos é enunciado no 239º. não podem ser equacionados e resolvidos em sede de integração negocial. uma solução plenamente de acordo com a ideia de que o negócio jurídico é. Admitir-se-á a relevância do sentido subjectivo. mas deu a entender isso mesmo no testamento ou usava habitualmente esses termos nessa acepção anómala (o testador que se refere à sua garrafeira como a sua “biblioteca”). quando a solução. nos negócios típicos – ou por analogia. não habitual ao testador. Já aquele sentido subjectivo não valerá se o testador usou termos numa acepção extravagante que estava fora dos seus próprios hábitos de linguagem ou incorreu em erro na declaração. porém. O CC considera que a integração deve ser determinada para cada negócio e não. Não pode proceder-se na integração como se se estivesse a aplicar uma norma estranha ao contrato. como aconteceria se mandasse colmatar as lacunas negociais pelo recurso aos usos. A integração negocial tem limites. deve a declaração se integrada de acordo com as referidas exigências da boa fé. em princípio. Designadamente não pode a integração conduzir a uma ampliação do objecto negocial. Estabelece-se. se o testador usou termos numa acepção pessoal.Em que consiste O problema pode formular-se através da seguinte pergunta: qual a regulamentação das questões não previstas pelas partes. considerar o que um contraente honesto e razoável há-de admitir como exigido pelo contrato. apenas. o 239º remete para a vontade hipotética ou conjectural das partes . Certos problemas. dos termos empregues ou o erro na declaração (2203º). como será o caso. todavia. consagrando. na própria letra do testamento seja patente a significação esotérica. que o juiz se deverá afastar da vontade hipotética ou conjectural das partes. nos casos em que o contrato não está plena e completamente tipicizado ou se afasta dos tipificados em pontos que a regulamentação legal se não adapte ao contrato. mesmo que seja evidente a prova da vontade hipotética das partes. «lex privata» das partes. assim. que foi pretendido pelas partes.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Segundo essas ideias. que esta última solução (nulidade) sofra uma excepção. Na falta de disposição supletiva que possa aplicar-se. isto é. quando.«a que elas teriam tido se houvessem previsto o ponto omisso». Hão-de considerar-se as circunstâncias que dão ao contrato concretamente celebrado a sua individualidade e não as características do tipo contratual. directamente – o que poderá verificar-se. contrarie os ditames da boa fé. que estas teriam estipulado. de acordo com o que corresponda à justiça contratual (ao que as partes devem querer agora e não propriamente o que deveriam ter querido). isto é. Será de admitir. sempre que haja disposição supletiva aplicável. fora dos usos gerais da língua. nesta hipótese. justifica-se pelas razões que estão ligadas à exigência de forma dos testamentos. (2)Integração 120. A regulamentação de um «contrato semelhante» é a que resulta das normas supletivas. Ressalva a hipótese de existir disposição especial. o sentido subjectivo. neste caso. a partir da finalidade e da conexão dos significados manifestados na regulamentação contratual. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 71 . Deve atender-se à regulamentação concretamente estipulada e situarmo-nos no círculo por ela delimitado. A nulidade. ao proverem à elaboração do ordenamento negocial das suas relações? 121.

contudo. sem ter consciência dessa falta de coincidência. embora de 72 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . não através de uma mera. Teoria da declaração Enquanto a teoria da vontade arranca da consideração de que a essência do negócio está apenas na vontade do declarante (dogma da vontade). À relação normal de concordância substitui-se uma relação patológica. verificar-se. Teoria da culpa «in contrahendo» Assenta na mesma ideia da teoria anterior. c) Na coacção física ou violência absoluta – o declarante é transformado num autómato. Teoria da vontade Propugna a invalidade do negócio (não vale a vontade real nem a declarada). O negócio ser válido. mas por força do emprego de uma força física irresistível que o instrumentaliza e leva a adoptar o comportamento. b) Reserva mental – o declarante emite uma declaração não coincidente com a sua vontade real. Pode. por força de um arranjo com o declaratário.Teorias que visam resolver o problema da divergência entre a vontade e a declaração No direito civil moderno várias teorias foram formuladas em vista da solução do problema em epígrafe. sem qualquer arranjo com o declaratário.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL (III)A divergência entre a vontade e a declaração (1)O problema em geral 122. 124. mas sem intuito de enganar qualquer pessoa (declaratário ou terceiros). c) Declarações não sérias – o declarante emite uma declaração não coincidente com a sua vontade real. em certos casos anómalos. Trata-se de um lapso. por se considerar insuficiente a tutela concedida pelo teoria da culpa in contrahendo. a teoria da declaração. e estando de boa fé o declaratário. A normal relação de concordância entre a vontade e a declaração (sentido objectivo) é afastada. uma divergência entre esses dois elementos da declaração negocial. com a intenção de enganar terceiros. desde que se verifique uma divergência entre a vontade e a declaração e sem necessidade de mais requisitos. em caso de dolo ou culpa do declarante. A divergência não intencional pode consistir: a) No erro-obstáculo ou na declaração – o declarante emite a declaração divergente da vontade real. sendo forçado a dizer ou escrever o que não quer. sem sequer ter a consciência (a vontade) de fazer uma declaração negocial. por causas diversas.Formas possíveis de divergência Normalmente o elemento interno (vontade) e o elemento externo da declaração negocial (declaração negocial) coincidirão. A divergência intencional pode apresentar-se sob uma de três formas principais: a) Simulação – o declarante emite uma declaração não coincidente com a sua vontade real. de um engano. Estamos perante um vício na formulação da vontade. podendo até faltar completamente a vontade de agir. com a simples diferença de. dá-se mais atenção ao argumento da necessidade de proteger a confiança. de um equívoco. por razões diversas. visando precisamente enganar este. b) Na falta de consciência da declaração – o declarante emite uma declaração.

não se apercebendo do dissídio entre a vontade real e o sentido objectivo. são: a) Intencionalidade da divergência entre vontade e a declaração. ao que foi exteriormente manifestado. Como todas as nulidades. 129. nada mais. b) Acordo entre declarante e declaratário (acordo simulatório). c) Intuito de enganar terceiros. em particular a doutrina da confiança: a divergência entre a vontade real e o sentido objectivo da declaração.º2). elementos e importância prática O conceito de negócio simulado está explicitamente formulado no 240º n. a validade do sentido objectivo só será de aceitar. para a hipótese de o declaratário. se o declaratário confiou efectivamente nesse sentido. A simulação fraudulenta é. de longe. em conformidade com as suas modalidades. a invalidade dos negócios simulados pode ser arguida a todo o tempo (286º). sem dependência de prazo: 287º n. revelando a mesma disposição legal a ausência de interesse civilístico da referida dicotomia. para o qual remete o 242º). os elementos integradores do conceito. ter. o que. quer o negócio não esteja cumprido (aliás.Efeitos da simulação absoluta A simulação importa a nulidade do negócio simulado (240º n. isto é. propugnando a invalidade.Conceito. (Na simulação não pode haver usucapião uma vez que adquiria sendo um possuidor precário (1253º c)). Esta distinção é aludida no 242º n. dá relevo fundamental à declaração. mesmo que não tenham sido queridos.º2). o que um declaratário razoável lhe atribuiria. produzem-se certos efeitos. as próprias anulabilidades podem ser arguidas. quer tenha tido lugar o cumprimento. quer dizer. Na simulação relativa as partes fingem celebrar um certo negócio jurídico e na realidade querem um outro negócio jurídico de tipo ou conteúdo diverso. (2)A simulação 127. não exclui a possibilidade de simulação nos negócios unilaterais. só produz a invalidade do negócio. de acordo com o regime geral. sem os prejudicar e é fraudulenta. também.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL modo diverso. Há apenas o negócio simulado e. pode qualquer interessado invocar a nulidade e o tribunal declará-la oficiosamente (286º. no fim. nesta hipótese. Por detrás do negócio simulado ou aparente ou fictício ou ostentivo há um negócio dissimulado ou real ou latente ou oculto. se for conhecida ou cognoscível do declaratário. todavia. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 73 . evidentemente. por detrás dele. mas limita-a. Comporta diversas modalidades: Modalidade primitiva e extrema: consagra-se uma adesão rígida à expressão literal – se a forma ritual foi observada. Outra destrinça é a que se faz entre simulação absoluta e simulação relativa.º1. A simulação é inocente se houve o mero intuito de enganar terceiros. Na primeira – é o caso da venda fantástica ou da doação simulada com fins de pompa ou ostentação – as partes fingem celebrar um negócio jurídico e na realidade não querem nenhum negócio jurídico. em vez da invalidade. em correspondência com a orientação da doutrina tradicional.º1. As modalidades modernas e atenuadas. Doutrina da aparência eficaz: subscreve os resultados da doutrina da confiança. referidos naquela disposição. a mais frequente. ou seja. se houve o intuito de prejudicar terceiros ilicitamente ou de contornar qualquer norma da lei. compreendido um terceiro sentido.Modalidades da simulação Uma primeira distinção é a que se estabelece entre simulação inocente e simulação fraudulenta. 128.

se for observada a forma exigida e nada diz para a hipótese de as razões do formalismo do negócio dissimulado se acharem satisfeitas com a observância das solenidades do negócio simulado. um problema específico que não surgia no caso da simulação absoluta. Simulação sobre a natureza do negócio. Para a validade do negócio real torna-se necessária a observância do formalismo que. finge doar a C para este posteriormente doar a B. se não se cumpriram. Resulta do teor desta disposição que. Podem ser. quanto ao negócio disfarçado ou dissimulado? Sanciona-se. Ex. intervindo um conluio entre os três. um homem de palha. se tivesse sido abertamente concluído. Este é um simples testa de ferro. mesmo que se tenham observado as formalidades exigidas para o negócio aparente. permanecendo válido e eficaz. Aí se estatui que «se. 74 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . mas no interesse e por conta de outrem. porém. se esse for o regime que.: A. o imposto liquidado será o correspondente à natureza do negócio realmente celebrado (negócio dissimulado). os requisitos de forma exigidos para o dissimulado. para ele.: fez-se uma venda de A a B e outra de B a C.: finge-se uma venda e quer-se uma doação). consoante as consequências que teriam lugar. o negócio dissimulado for de natureza formal. em prejuízo da Fazenda Nacional O negócio dissimulado (venda ou doação) não é afectado na sua validade pela lei fiscal. mesmo que tal forma não seja suficiente para o negócio aparente.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 130. Pode igualmente a simulação consistir.Efeitos da simulação relativa Doutrina geral O negócio fictício ou simulado está ferido de nulidade. no negócio simulado. O 241º n. a solução correspondente à orientação tradicional: o negócio real ou dissimulado será objecto do tratamento jurídico que lhe caberia se tivesse sido concluído sem dissimulação (241º). pretendendo dar um prédio a B. b) Simulação de valor – incide sobre o «quantum» de prestações estipuladas entre as partes.º2 consagra a solução de nulidade do negócio dissimulado. só é válido se tiver sido observada a forma exigida por lei». tal como foi preconizada por BELEZA DOS SANTOS. Efeitos da simulação quanto aos negócios formais Os problemas suscitados pela aplicação aos negócios formais da doutrina geral da simulação relativa encontram a sua resposta no 241º n. A simulação objectiva ou sobre o conteúdo do negócio pode ser: a) Simulação sobre a natureza do negócio – se o negócio ostensivo ou simulado resulta de uma alteração do tipo negocial correspondente ao negócio dissimulado ou oculto (ex. A lei estabelece que o negócio dissimulado só é válido. É o que se verifica na chamada interposição fictícia de pessoas. sucede apenas que.Modalidades da simulação relativa A simulação relativa manifesta-se em espécies diversas consoante o elemento do negócio dissimulado a que se refere (simulação subjectiva ou dos sujeitos e simulação objectiva ou sobre o conteúdo do negócio). mas para pagar apenas uma sisa os três sujeitos concordam em documentar na escritura pública apenas uma venda da A a C. por força de um acordo entre ele e um só dos sujeitos. à face da lei civil lhe cabe. Quid juris.º1. tal como na simulação absoluta. A interposição fictícia de pessoas não se deve confundir com a interposição real. exige a lei. este será nulo por vício de forma. além das multas em que os simuladores incorrem. A simulação relativa põe. É fundamentalmente – mas não só – o caso da simulação de preço na compra e venda. desde logo. 131. todavia. Na interposição fictícia há um conluio (arranjo) entre os dois sujeitos reais da operação e o interposto. mas na supressão de um sujeito real. ex. Na interposição real o interposto actua em nome próprio. mais frequentemente um apenas. a este respeito. Nestes termos poderá o negócio latente ser plenamente válido e eficaz ou poderá ser inválido. não na intervenção de um sujeito aparente. fingindo-se um preço superior ou inferior ao preço real. simulados ou sujeitos do negócio jurídico.

estabelece que a declaração não produz qualquer efeito e não fala de nulidade. involuntário. o negócio dissimulado é nulo por vício de forma.. a ineficácia da declaração negocial («a declaração não produz efeitos»). no entanto. quando falta a vontade de acção não há um comportamento humano consciente. como inexistência. quando as razões determinantes da forma se não oponham (238º n. a cargo do «declarante». sob a epígrafe «coacção física» (246º). aí se estatui que é inadmissível a prova testemunhal do acordo simulatório e do negócio dissimulado. A coacção física ou absoluta importa. Aliás. 142. nos termos do 246º. há um comportamento inconsciente. há um comportamento declarativo do errante. solução oposta à defendida anteriormente. que esta possibilidade de a nulidade ser invocada pelos próprios simuladores entre si sofre uma apreciável restrição indirecta por força do 394º n. (4)Divergência não intencional 140. A lei. mas não emitido por B. o declaratário tem direito a ser indemnizado do dano coberto pela chamada responsabilidade pré-negocial ou por «culpa in contrahendo».Se há restrições à arguição da simulação pelos próprios simuladores O 242º n. mesmo que a simulação seja fraudulenta. repare-se que o princípio «falsa demonstratio non nocet». não há obstáculo de natureza formal a que seja eficaz a venda pelo preço efectivamente convencionado. na hipótese de coacção física. a hipótese de o declarante ser «coagido pela força física a emitir» a declaração. Trata-se dum caso de nulidade. mesmo que a falta de consciência da declaração não seja conhecida ou cognoscível do declaratário. perante um caso de verdadeira inexistência da declaração. Estas hipóteses são abrangidas pelo 246º: «se o declarante não tiver a consciência de fazer uma declaração negocial. porém. declinando a identidade deste ou falsificando a respectiva assinatura ou pondo em circulação um documento assinado por B. Nas declarações sob o nome de outrem: não há qualquer comportamento por parte do sujeito a quem a declaração é atribuída.º2). a expensas do interesse na protecção da confiança do declaratário. prudente ou ambiguamente.Erro na declaração ou erro-obstáculo Conceito No erro-obstáculo: havendo embora uma divergência inconsciente entre a vontade e a declaração. A doutrina exposta é a que vale para a simulação de pessoas e para a simulação sobre a natureza do negócio. Advirta-se. fazendo-se passar por B.º1. Têm-se em vista as hipóteses em que o declarante é reduzido à condição de puro autómato (coacção absoluta) e não aquelas em que o emprego da força física não chega aos extremos. pelo menos. se o declarante for. «finalista». quando invocados pelos simuladores. atribui legitimidade aos próprios simuladores para a arguição da nulidade do negócio simulado. reflexo ou. salvo na hipótese de falta de vontade de acção em que parece estar-se. quanto seja menor que o preço real. Não há qualquer dever de indemnização. antes. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 75 . só vale no nosso direito. 132. a consciência da declaração. embora exteriormente pareça estarmos perante uma declaração.. 141.º2. a favor da solução que defendemos. voluntário. antes. absolutamente forçado. Com efeito.». Estatui-se que o negócio não produz qualquer efeito.Coacção física ou coacção absoluta ou ablativa O CC prevê. como acontece se A faz um negócio. dado ser discutível a qualificação como nulidade ou. Os interesses do autor do comportamento são tutelados em primeira linha. parecendo esta última mais exacta. culpado da falta de consciência da declaração.Falta de consciência da declaração Falta a vontade de acção ou.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Quer dizer: o negócio simulado é nulo por simulação.

5)Se o declaratário compreendeu um terceiro sentido que não coincide nem com o querido pelo declarante. o comprador poderá anular o negócio. tal como em certos casos de erro-obstáculo. exigindo-se para anulação do negócio que «o declaratário conhecesse ou não devesse ignorar a essencialidade.Vícios da vontade Conceito Trata-se de perturbações do processo formativo da vontade. Por esse motivo fala-se. quando na verdade aquele prédio é o n. embora concorde com a declaração. não dão lugar à anulabilidade do negócio. não há. porque queria comprar o prédio onde nasceu. por lapso de actividade (erro mecânico: lapsus linguae ou erro ortográfico) ou por «error in judicando» (atribuição às palavras de um significado diverso do seu sentido objectivo). b)Certas hipóteses particulares merecem tratamento especial. porém. A lei não exige. mas. o regime aplicável continua a ser a anulabilidade e não a nulidade verdadeira e a própria. a anulabilidade fundada em erro não procede (248º). Já se viu não ser necessário para a anulação. mas apenas à sua rectificação (249º). ostensivamente revelados no contexto da declaração ou nas circunstâncias que a acompanham. possa não ter suscitado ao declaratário qualquer suspeita ou dúvida acerca da correspondência entre a vontade real e a declarada. Contenta-se com o conhecimento ou a cognoscibilidade da essencialidade do elemento sobre que incidiu o erro. pelo direito. embora este conhecimento. para estes caso. compra a B o prédio n. A validação do negócio. 2)Se o declaratário conheceu ou devia ter conhecido o erro. como ilegítimos. por parte do declarante aparente. mesmo que a outra parte não se tenha apercebido da falsificação. bastando que seja reconhecível a essencialidade do elemento sobre que o declarante errou.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Na declaração sob o nome de outrem ninguém pode pretender que o negócio vincule o sujeito ao qual. nem com o declarado. como se referiu. nesta hipótese. de «erro sobre o conteúdo da declaração». 3)Se o declaratário aceitar o negócio como o declarante queria.º 10. é determinada por motivos anómalos e valorados. A hipótese pode subsumir-se. o reconhecimento ou a reconhecibilidade do erro. 76 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . (IV)Vícios da vontade (1)Noções gerais 144. tem uma explicação análoga à da solução indicada em 1). erro mecânico) ou desvio na vontade negocial (erro de juízo) Nestas hipóteses o declarante tem a consciência de emitir uma declaração negocial.º2). Assim: 1)Se o declaratário se apercebeu do dissídio entre a vontade real e a declarada e conheceu a vontade real do declarante. a)O princípio geral regulador destas hipóteses consta do 247º. o conhecimento ou a cognoscibilidade do erro. do elemento sobre que incidiu o erro». Quando há desvio na vontade de acção («lapsus liguae» ou «lapsus calami». o negócio valerá de acordo com a vontade real (236º n. desde que prove que o vendedor conhecia ou não devia ignorar que só interessava ao outro contraente o prédio onde nasceu. admitindo a anulabilidade em termos excessivamente fáceis e gravosos para a confiança do declaratário e para a segurança do tráfico jurídico. directamente ou por analogia. se A. Causas e efeitos. 4)O erro de cálculo e o erro de escrita. Assim. para o declarante. operando de tal modo que esta. consciência de fazer uma declaração negocial. do 246º. diz respeito. A vontade não se formou de um modo julgado normal e são. não se apercebe de que a declaração tem um conteúdo divergente na sua vontade real. aparentemente.º 20. pois.

Pode.º1. explorando a situação de necessidade. As características da anulabilidade são. sob a designação de usura. c)Pode ser sanada por confirmação da pessoa a quem pertencer o direito de anulação (288º). o Estado de necessidade (282º) 146. Em ambos os casos a anulabilidade do negócio depende da verificação dos requisitos legais de relevância do erro ou do dolo. incapacidade acidental (257º). a requerimento do lesado ou da parte contrária. igualmente. dolo.Qualificação da invalidade proveniente de Erro-vício.O regime da lesão e dos vícios redibitórios no CC Lesão (usura) No CC a proscrição da lesão. Há. dolo. Estado mental ou fraqueza de carácter de outrem. por usura. alguns aspectos particulares da situação. em face dos 287º e 288º. porém. porém. dolo (254º). Vícios redibitórios O CC não se refere. 147. porém. de um erro nos motivos determinantes (elementos internos) da vontade. Para além deste efeito – anulabilidade – a lei regula. normas que se referem a essa hipótese na regulamentação de alguns contratos especiais. pelo enganado. incapacidade acidental (257º). (2)O erro como vício da vontade 148. aos vícios ocultos do objecto negocial como fundamento autónomo de invalidade.Noção Erro-vício: traduz-se numa representação inexacta ou na ignorância de uma qualquer circunstância de facto ou de direito que foi determinante na decisão de efectuar o negócio. Estabelece-se no artigo seguinte. É o caso dos 905º e 913º (venda de coisas oneradas ou defeituosas) e do 1035º (vícios da coisa locada). coacção moral (256º). Trata-se pois. uma alternativa para a anulação dos negócios usurários: a sua modificação. nas disposições gerais sobre o negócio jurídico. Por força das directivas comunitárias. pelo coacto ou pelo incapaz (287º: «as pessoas em cujo interesse a lei estabelece»). a todo o tempo. Se estivesse esclarecido acerca dessa circunstância – se tivesse exacto conhecimento da realidade – o declarante não teria realizado qualquer negócio ou não teria realizado o negócio nos termos em que o celebrou. um negócio jurídico. obteve a promessa ou concessão de benefícios excessivos ou injustificados.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 145. consta do 282º. quando alguém. ligeireza. dependência. Aí se determina que é anulável. coacção ou incapacidade acidental Trata-se duma anulabilidade: Erro-vício (251º 252º).Enumeração dos vícios da vontade a que o nosso direito atribui um geral relevância autónoma Erro-vício. b)Só pode ser invocada dentro do ano subsequente à cessação do vício que lhe serve de fundamento (287º n. inexperiência. segundo juízos de equidade. nem todo o regime está previsto no CC. se o negócio não estiver cumprido. ser invocada. coacção moral. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 77 . fim). as seguintes: a)Só pode ser invocada pelo errante.

com fundamento no 227º (culpa na formação dos contratos). um erro-obstáculo) e erro sobre as qualidades.Condições gerais de relevância do Erro-vício como motivo de anulabilidade Essencialidade É corrente na doutrina a afirmação de que só é relevante o erro essencial. a ilicitude do objecto mediato ou imediato. duma noção definida por via negativa. O erro. na subsecção relativa aos vícios da vontade.g. que é. 78 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . aquele que influiu apenas nos termos do negócio. estatuído o mesmo regime para duas delas): o erro sobre os motivos. a melhor «de iure condendo». se não celebraria qualquer negócio ou se celebraria um negócio com outro objecto ou de outro tipo ou com outra pessoa. sem ele. aliás. os sujeitos). admitido a invocar a anulabilidade. aliás. Erro sobre os motivos Inserem-se nesta categoria os casos em que o erro se não refere à pessoa do declaratário.Modalidades Em face do CC as categorias que revestem interesse são: a)Erro sobre a pessoa do declaratário: erro sobre a identidade (este será. isto é. o objecto. não obstante a anulação. os interesses da outra parte. v. nos termos expostos – devem acrescer certos requisitos especiais. pois. não são desprotegidos. que variam com as diversas modalidades do erro-vício. todavia. assim. Deve. embora noutras condições. pois o errante sempre contrataria. Propriedade Trata-se de um requisito que circunscreve o campo de aplicação autónoma do Errovício. em si mesmo e não apenas nos termos em que foi concluído. sempre celebraria o mesmo negócio (manter-se-ia o tipo negocial.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 150. b)Erro sobre o objecto de negócio: pode incidir sobre o objecto mediato (sobre a identidade ou sobre as qualidades). como motivo de invalidade. no caso de erro culposo. etc. sem ele. que. O erro foi causa (é indiferente tratar-se de uma situação de causalidade única ou de concausalidade) da celebração do negócio e não apenas dos seus termos. O erro só é próprio quando incide sobre uma circunstância que não seja a verificação de qualquer elemento legal da validade do negócio. ou sobre o objecto imediato (erro sobre a natureza do negócio). que corresponde ao erro acerca da causa (erro de direito ou de facto). quase sempre. entender-se. a capacidade do errante. o errante.. Trata-se. Escusabilidade Não se formula. versar sobre os requisitos legais de forma negocial. qualquer exigência da desculpabilidade ou escusabilidade do erro. Há que distinguir. deve atingir os motivos determinantes da vontade (251º e 252º). Já não relevaria o erro incidental isto é. O erro será impróprio. corresponde ao erro acerca da causa (de direito ou de facto ) do código anterior e abrange igualmente o erro sobre a pessoa de terceiro. nem ao objecto do negócio. aquele que levou o errante a concluir o negócio. O erro é incidental se.Condições especiais de relevância do erro-vício como motivo de anulabilidade Aos requisitos gerais de relevância do erro – essencialidade e propriedade. 3 modalidades (sendo. 152. assim. 153. incorrerá em responsabilidade prénegocial devendo indemnizar o chamado interesse contratual negativo. para relevar. pelo que se deve reputar consagrada a solução segundo a qual tal requisito é dispensável. O erro é essencial se. o erro sobre a pessoa do declaratário e o erro sobre o objecto do negócio. c)Erro sobre os motivos não referentes à pessoa do declaratário nem ao objecto do negócio (252º): é uma noção residual. o errante. embora noutros termos. quando.

Importa aqui referir apenas que o dolo negativo ou omissivo. se dispõe acerca da resolução por alteração das circunstâncias vigentes no momento em que o negócio foi concluído («desde que a exigência das obrigações assumidas afecte gravemente os princípios da boa fé e não esteja coberta pelos riscos próprios do contrato»). para o declarante.Conceito A noção de dolo consta do 253º n. Erro sobre o objecto do negócio Está previsto no 251º. quer na hipótese do erro sobre a identidade (na medida em que seja um erro-vício e não um erro na declaração). pois este versa sobre os efeitos do negócio. A lei tolera a simples astúcia. desde que haja uma cláusula (expressa ou tácita) no sentido de a validade do negócio ficar dependente da existência da circunstância sobre que versou o erro («se as partes houverem reconhecido. sobre o seu conteúdo.Modalidades a)Dolo positivo e negativo A distinção já foi caracterizada e consta do 253º n. Costumava assinalar-se à distinção o interesse prático de o dolo negativo de terceiros não ser relevante. Está igualmente previsto no 251º. considerados legítimos. isto é. omissivo ou de consciência). Trata-se dum erro determinado por um certo comportamento da outra parte. b)Dolus bonus e malus Só é relevante. a essencialidade do motivo»). sobre o seu objecto imediato. cabendo-lhe. o chamado erro sobre a natureza do negócio. quer na do erro sobre as qualidades. o regime correspondente ao erro na declaração. do elemento sobre que incidiu o erro». A omissão de esclarecimento só constituirá dolo ilícito.º2). nos 437º a 439º.º1.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Nos casos deste tipo. igualmente. ou quando tenha lugar a dissimulação. pelo declaratário ou por terceiro. reputada legítima pelas concepções imperantes num certo sector negocial.º1. estabelece-se um regime especial para certos casos de erro sobre os motivos: se o erro incidir sobre as circunstâncias que constituem a chamada base negocial. Só existirá dolo. não existe em todos os casos de silêncio perante o erro em que versa o declarante. a seu propósito. ponto é que exista o dever de elucidar por parte do terceiro reticente. segundo as concepções dominantes no comércio jurídico (253º n. Com efeito. «desde que o declaratário conhecesse ou não devesse ignorar a essencialidade. quando existia um dever de elucidar. O negócio será anulável nos termos previstos no 247º para o erro-obstáculo. São cabidas acerca deste regime as considerações que. nos mesmos termos em que.º1 2ª parte). (3)Dolo 154.º1. usuais.º1 fala expressamente em dissimulação de terceiro. Na 2ª parte do 252º. do erro do declarante (dolo negativo. haverá lugar à anulabilidade do contrato. como fundamento da anulabilidade e de responsabilidade. portanto. pois o 253º n. a lei declara não constituírem dolo ilícito. Erro sobre a pessoa do declaratário Abrange igualmente o erro sobre a identidade e o erro sobre as qualidades. o 252º n. permite a anulação. quando se verifique o emprego de qualquer sugestão ou artifício com a intenção ou consciência de induzir ou manter em erro o autor da declaração (dolo positivo ou comissivo). O 251º abrange. 155. de estipulação negocial ou das concepções dominantes no comércio jurídico (253º n. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 79 . por acordo. isto é. expendemos quando se tratou do erro na declaração e tendentes à conclusão de que seria mais razoável ter-se exigido o conhecimento ou a cognoscibilidade do erro. por força de lei. Essa conclusão não tem hoje qualquer fundamento. o dolus malus.

enquanto no segundo há o intuito ou a consciência de prejudicar. por ter dado origem à invalidade. sem dolo não se teria concluído qualquer negócio. haverá dolo negativo do próprio declaratário. O próprio dolo bilateral ou recíproco pode ser invocado como fundamento de anulação.º2) Devem verificar-se os requisitos anteriores e. se prossegue ou mantém o comportamento que gera ou faz perdurar o erro. com o seu comportamento contrário às regras da boa fé.º2). há dolo ilícito. 3)Existência no deceptor da intenção ou consciência de induzir ou manter em erro. conhecer ou dever conhecer a actuação de terceiros (254º n. mesmo para a hipótese da simples cognoscibilidade do declaratário. se ele conheceu efectivamente os artifícios de terceiro. mesmo que esse não seja o propósito de quem a cria ou mantém. 2)Deve ser essencial ou determinante. constante do 253º n. embora noutras condições. directamente algum direito (isto é.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL c)Dolo inocente e fraudulento No primeiro há mero intuito enganatório. No dolo incidental o deceptus apenas foi influenciado quanto aos termos do negócio. mas acresce a responsabilidade pré-negocial do autor do dolo (deceptor).Condições de relevância do dolo como motivo de anulação O principal efeito do dolo é a anulabilidade do negócio (254º n. não apenas dolo de terceiro. estabelece a sanção da anulabilidade. Existirá. se ao terceiro deceptor adveio. pois sempre contrataria. Desde logo. todavia. Na hipótese de dolo negativo trata-se de uma causalidade hipotética. Tal solução é a que logicamente resulta do facto de o fundamento da anulabilidade por dolo ser a viciação da vontade.º1 2ª parte dispõe que. se existir no contrato cláusula a seu favor e anulação será limitada à cláusula a favor do terceiro (invalidade parcial). o negócio só será anulável.º1. 80 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . para a relevância do dolo de terceiro. b)Se o declaratário não conheceu nem devia conhecer o dolo de terceiro.º1. Condições de relevância do dolo de terceiro como motivo de anulação (254º n. É um elemento da definição de dolo. além disso. o negócio será sempre anulável. Este requisito tem algum vago apoio no 254º n.º2). Condições de relevância do dolo do declaratário como motivo de anulação 1)Deve tratar-se dum dolus malus (253º n. segundo ele. «a nulabilidade não é excluída pelo facto de o dolo ser bilateral». d)Dolo proveniente do declaratário e proveniente de terceiro A distinção tem grande importância. Se essa consciência existe e. são exigidas certas condições suplementares que devem acrescer às do dolo do declaratário e o seu efeito é mais restrito. se este for cúmplice daquele. a lei. basta a consciência de criar ou manter uma situação de erro. apesar dela. há que fazer a seguinte distinção: a)Se o declaratário conheceu ou lhe foi cognoscível o dolo de terceiro. Na verdade o 254º n. durante os preliminares e a formação do negócio (227º). em ambos os casos se verificando os mesmos efeitos. No dolo essencial o enganado (deceptus) foi induzido pelo dolo a concluir o negócio em si mesmo e não apenas nos termos em que foi concluído. e)Dolo essencial ou determinante e dolo incidental A distinção põe-se nos termos em que se pôs para o erro. embora o dolo incidental também possa vir a conduzir à anulação. 4)Ao contrário do que exigem algumas legislações e a própria tradição jurídica. A distinção não tem interesse prático. por força do negócio. mas também dolo do declaratário. não é necessário que o dolo seja unilateral. 156. pois. neste caso.º1).

é óbvio.Modalidades Coacção física (absoluta e moral (relativa) A coacção física. quando a liberdade do coacto não foi totalmente excluída. Só há vício da vontade. 159. A coacção moral ou relativa ou compulsiva reduz a liberdade do coagido mas não a elimina (neste sentido coacta voluntas. Torna-se necessário que o receio provenha de uma ameaça ilícita. 161. apenas. na coacção moral. consoante o bem ameaçado pela cominação ou a pessoa directamente visada. Exige-se igualmente que a cominação do mal vise extorquir a declaração negocial. em relação a este. a liberdade do coacto é cerceada. A ameaça pode dizer respeito à pessoa como à honra ou fazenda do declarante ou de terceiro (255º n.º2). quando a liberdade exterior do coacto é totalmente excluída e este é utilizado como puro autómato ou instrumento.º1 e consiste no «recreio de um mal de que o declarante foi ilicitamente ameaçado com o fim de obter dele a declaração».º2). (4)Coacção 160. A reparação do prejuízo causado é visada com a responsabilidade civil que impende sobre o «deceptor». para compelir ao negócio. mesmo no caso da ameaça com arma de fogo ou no caso de emprego da violência física. mas não excluída. a segunda à mera anulabilidade (256º). Coacção dirigida à pessoa ou à honra ou à fazenda do declarante ou de terceiro No regime geral da coacção não há qualquer diferença de tratamento. cominada com o intuito de extorquir a declaração negocial. mas na adulteração da vontade do «deceptus». desde logo. se ele não for cúmplice do terceiro). o chamado temor reverencial (255º n. absoluta ou ablativa reduz o coagido à situação de mero instrumento ou autómato.Conceito Consta do 255º n. existente no Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 81 . traduzida no medo resultante da ameaça ilícita de um dano (de um mal).Fundamento jurídico da anulabilidade por dolo O fundamento da anulabilidade por dolo não consiste numa ideia de reparação do prejuízo sofrido pelo enganado (o próprio dolo inocente ou altruístico releva). pois existe sempre uma opção entre padecer o mal cominado ou expor-se à sua consumação e celebrar o negócio (A é ameaça de morte ou de agressão ou de difamação. embora a submissão à ameaça fosse a única escolha normal. 162. quando lhe foram deixadas possibilidades de escolha. quer o coactor seja beneficiado por cláusula a seu favor.Condições de relevância da coacção como motivo de anulabilidade Coacção exercida por terceiro A coacção exercida por terceiro provoca a anulabilidade do negócio e põe a cargo do coactor uma obrigação de indemnizar o declarante (coagido) e o declaratário (mas. Assim estaremos dentro do campo da coacção moral (coacção relativa ou compulsiva). Ao contrário do dolo de terceiro. a lei exclui. A primeira dá lugar à inexistência do negócio (246º).Negócio em que o dolo não tem relevância específica Resulta dos artigos 1631º b) e 1636º que no casamento.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 157. É. se não emitir certa declaração negocial). Não basta um simples medo ou receio. semper voluntas). portanto. e não com a anulabilidade. a perturbação da vontade. como começo de execução do mal cominado. sendo o coagido ameaçado de um mal se não emitir a declaração. o negócio será anulável na sua totalidade (mesmo em face do declaratário). o dolo não tem relevância específica em relação ao erro (no casamento engana quem pode). tal como sucede com o erro simples. Só cairemos no âmbito da coacção física (coacção absoluta ou ablativa).

Podem resultar dos estatutos de 82 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . uma ratificação. 166. (V)A representação nos negócios jurídicos 168.Conceito Infere-se do 258º. quer não seja. para que ela. não na secção das incapacidades. 163. assim. que o legislador concebe sob a designação de usura alguma relevância ao velho instituto da lesão.Conceito Situação de receio ou temor gerada por um grave perigo que determina o necessitado a celebrar um negócio para superar o perigo em que se encontra. A lei desaprova a coacção em tão forte medida que. O requisito da notoriedade significa a cognoscibilidade por uma pessoa média.A coacção moral e o simples temor reverencial O temor reverencial (medo de incorrer no desagrado ou desafecto de outrem. onde se prescreve a anulabilidade. quando a pessoa não se aproveita conscientemente da situação de necessidade tinha o dever de auxiliar o necessitado (acto contrário à lei ou ofensivo dos bons costumes). dado o facto não se tratar de uma situação permanente do indivíduo. em face dela. seja eficaz. havendo antes lugar à nulidade. para na esfera desse outrem se produzirem os respectivos efeitos. onde se estatui a anulabilidade dos chamados negócios usurários. consoante a natureza do facto que lhe dá origem: facto natural ou facto humano. não sancionando um critério puramente objectivo. A hipótese está prevista no 257º.A incapacidade acidental O CC regula a incapacidade acidental.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL contrato. irrelevante como motivo determinante da vontade. mas exigindo. (5)O estado de necessidade e outras situações como vícios da vontade negocial 164. mas entre a falta e os vícios da vontade. em conformidade com a fisionomia moderna do instituto. (6)A incapacidade acidental 167. pelo representado ao representante: fala-se. gratidão.) não constitui coacção.Valor dos negócios jurídicos realizados em estado de necessidade No CC a hipótese dos negócio em Estado de necessidade deve subsumir-se na previsão do 282º. desde que se verifique um requisito (além da incapacidade acidental) destinado á tutela da confiança do declaratário: a notoriedade ou o conhecimento da perturbação psíquica. por um acto voluntário. a protecção da contraparte cabe. supervenientemente. Nada mais é necessário para existir a representação. a quem se deve respeito. de representação voluntária e o acto voluntário atribuidor de poderes representativos chama-se procuração. mesmo que esta nada soubesse ou devesse saber da coacção. sendo. É nos termos de tal disposição. Já se sabe que este regime dos 282º e 283º não se aplicará. mas antes de um desvio no processo formativo da sua vontade em relação às circunstâncias normais do seu processo deliberativo. colocado na posição concreta do declaratário. etc. Os poderes de representação podem ser atribuídos. todavia. A representação traduz-se na prática dum acto jurídico em nome de outrem. e haja ou não conhecimento ou cognoscibilidade do vício por parte do declaratário (256º 1ª parte). torna-se necessário que o representante actue «nos limites dos poderes que lhe competem» (258º) ou que o representado realize. então. Modalidades possíveis.

interditos) não se nos depara.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL uma pessoa colectiva (representação orgânica ou estatutária) ou. A segunda traduz-se em receber declarações negociais em nome de outrem. justamente. segundo a perspectiva do ordenamento jurídico. Esta pode ser geral. Representação legal: o representante é indicado. ser concedidos pela lei a representantes legais (pais. mas em nome próprio. manifestada na procuração. traduzindo-se em legitimidade para representarem. caso em que os poderes representativos são conferidos no interesse do próprio procurador. e. A representação voluntária não contradiz o referido princípio. b)Pode haver representação sem haver mandato Não só na hipótese da representação legal. capacidade de agir por possuírem órgãos que as podem representar. em princípio. tal como este conceito é pressuposto pelo 258º. se a representação legal tem lugar sempre no interesse do representado (incapaz). A representação já acima ficou definida e resulta que: a)Pode haver mandato sem haver representação Quando o mandatário não recebeu poderes para agir em nome do mandante. igualmente. 169. age por conta do mandante. tutor. ao invés. traduz um alargamento das possibilidades contidas na referida autonomia. Para existir a representação basta que o negócio seja concluído em nome do representado. contrariamente a um equívoco bastante generalizado. não têm capacidade para se autodeterminarem. Com efeito. a representação voluntária pode ter lugar por força da chamada in rem suam. Verifica-se no mandato sem representação e. ou especial. noutras hipóteses de interposição real de pessoas.: contrato de trabalho). normalmente. em condições de defender os seus interesses e. eventualmente. será o mandato. isto é. inabilitados. Não há igualmente coincidência entre as noções de representação e de mandato. desde logo. A chamada representação imprópria não é uma verdadeira representação. qualquer contradição com a autonomia privada. só legítima para actos de administração ordinária.Espécies a)Distinção entre representação própria. porque as possibilidades de actuação jurídico-negocial própria (do representado) não são restringidas pelo facto de ter passado a outrem uma procuração. verificada cada certa situação. administrador de bens. mas também no que toca à representação voluntária: esta resulta de um acto – procuração (262º) – que pode existir autonomamente (negócio unilateral) ou coexistir com um contrato que. b)Distinção entre representação legal e voluntária. São poderes de grande amplitude. tendo como critério a fonte donde promanam os poderes representativos. directa ou imediata e a representação imprópria. Na representação legal (menores. c)Representação activa e passiva A primeira é a actuação em nome de outrem na emissão de declarações negociais. pela lei. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 83 . Os menores. curador). os interditos e certos inabilitados não estão. Representação voluntária: os poderes do representante e a respectiva extensão provêm da vontade do representado. indirecta ou mediata. abrangendo apenas os actos nela referidos e os necessários à sua execução. por isso. não disfrutam de autonomia privada. Não há contradição entre a representação e o princípio da autonomia privada. Há perfeita autonomia entre as duas figuras. ou por decisão judicial em conformidade com a lei e tem os poderes definidos pela lei. para se produzirem os mesmos efeitos que se produziriam se tais declarações fossem recebidas por esse outrem. mas pode ser outro (ex. Quanto às pessoas colectivas têm. não sendo já necessário que o seja no interesse do representado. trata-se de uma modalidade particular do contrato de prestação de serviços. em todos os seus assuntos pessoais ou patrimoniais. neste caso. o menor ou o interdito. pois o mandato é um contrato pelo qual uma das partes se obriga a praticar um ou mais actos jurídicos por conta da outra (1157º). Não há contradição. verificadas certas situações.

Confronto com institutos afins a)Representante e o simples núncio O representante. do erro na transmissão da declaração. d)Representação e os contratos para a pessoa a nomear Os contratos para pessoa a nomear. e)Representação e simples autorização ou consentimento para actos de outrem O representante actua e na simples autorização inibe-se ou aprova-se uma iniciativa e uma actuação de outrem.. o representante realiza negócios jurídicos e os dactilógrafos. um dos contraentes declara contratar para um terceiro. se não se verificarem os requisitos do 250º para a relevância. o «dominos» poderá ficar vinculado nos termos da declaração emitida. no sentido da anulabilidade. se este não atribuir àquele legitimidade representativa (ratificação). ao contrário do núncio. um mandato absolutamente especificado e imperativo. 1)Na representação própria o negócio representativo produz efeitos na esfera do representado ou. na representação própria existe a «contemplatio domini» (actuação em nome de outrem). etc. Este é que é parte negocial. o contrato produz os seus efeitos relativamente ao contraente originário (455º). c)Representação e as diversas formas de colaboração material ou técnica nos negócios de outrem A distinção assenta na contraposição negócio jurídico/acto material. a partir da celebração do negócio. 84 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . exigida pela natureza do negócio que haja de efectuar (263º). mas carece de capacidade natural de entender e querer. e é obrigado a transferir para o mandante os direitos adquiridos. é ineficaz. embora actuando no interesse de outrem. b)Representação própria e imprópria Na representação imprópria (contrato de comissão. bastará a capacidade natural para transmitir a declaração de vontade. podendo tratar-se de operações de tipo intelectual). quanto ao núncio. 2)Na representação imprópria o mandatário age em nome próprio. o se do negócio e. etc. o núncio transmite uma declaração de outrem. um braço mais comprido. pelo menos. O representante emite uma declaração em nome de outrem. mandato sem representação. pela pessoa nomeada e. A representação imprópria ou mediata – na qual o agente. os consultores técnicos. Diversidade de tratamento jurídico: 1) o representante (voluntário) não precisa de ter plena capacidade legal. adquirindo os direitos e obrigações decorrentes dos actos que celebra. o núncio transmite o já consumado. se o núncio transmite a sua declaração inexactamente. não existe a chamada «contemplatio domini». Decide. não sendo feita a declaração de nomeação nos termos legais. nunca recebe. os direitos e obrigações provenientes do contrato são apropriados. uma vez feita a declaração de nomeação nos termos do 453º. age em nome próprio – é uma forma de mera representação de interesses. 2) se o representante excede os seus poderes de representação.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 170. nem mesmo quando a procuração é especialíssima. mais. frequentemente. reservando-se apenas o direito de o nomear e. na hipótese de falta de legitimação representativa. são previstos e disciplinados no 452º e ss.). O representante consuma. no contrato para pessoa a nomear. o conteúdo. isto é. no contrato para pessoa a nomear. sendo este obrigado a assumir as obrigações contraídas pelo mandatário. podendo uma criança actuar como núncio. O núncio é um mero longamanus. os efeitos do negócio são encabeçados pela pessoa nomeada. o negócio é ineficaz em relação ao representado (268º). sem necessidade de um acto especial de transmissão dos direitos e das dívidas. embora se actue no interesse ou por conta de outrem. actos materiais (no sentido de actos não negociais. os operários. retroactivamente. que não torna o «dono do negócio» parte ou sujeito do acto jurídico praticado pelo «representante».

O 269º manda aplicar o regime do 268º à hipótese de abuso de representação. a dos inabilitados (154º). sendo sujeitos das relações emergentes do referido negócio o representado e a outra parte.º2). como . verificada culpa sua. isto é. é a fonte mais frequente da representação voluntária. «prima facie». até. não responde). com culpa. se desconhecia. Os actos praticados por um representante sem poderes ou «falsus procurator» (com falta total de poderes representativos ou com excedência dos poderes que lhe foram atribuídos) são ineficazes em relação à pessoa em nome da qual se celebrou o negócio. O negócio consigo mesmo: o chamado negócio consigo mesmo – ex. mas de modo substancialmente contrário aos fins da representação. procurador de B. compra em nome próprio um objecto que vende em nome de B (autocontrato). eventualmente. Deve existir. já existente ao tempo do negócio representativo ou conferida. estabelecem-se vínculos jurídicos entre o promissário e o promitente. a falta de poderes (no caso raro de não ter culpa. O mandato com representação (1178º). responde perante a contraparte.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL f)Representação e os contratos a favor de terceiros Na representação. ineficaz relativamente ao «representado». para que a contraparte saiba ou possa saber com quem negoceia. esta não é parte negocial. posteriormente. pura e simplesmente. manifestação particular da representação sem poderes (na medida em que o negócio é perfeitamente válido. e não. que pode ser originária. Não havendo ratificação.º2) 171. A. está ferido de anulabilidade (261º) e não de ineficácia. por parte do representante. isto é. O negócio vale em relação ao representado. legitimação representativa. aliás. além do direito adquirido pelo terceiro a favor de quem foi convencionada a promessa ou dos outros efeitos favoráveis a este (443º n. O negócio. Através deste requisito distinguese a figura do representante da figura do núncio. de uma vontade própria do representante. depende das exigências formais do negócio representativo (268º n. também. o representante sem poderes. tratado como um negócio do representante. O carácter formal ou consensual da ratificação. Não vale em relação ao representante.Pressupostos da representação a)Pressupostos de existência (conceituais) da representação: 1)«Contemplatio domini». 2)Declaração. através de uma ratificação do negócio (legitimação representativa subsequente). O «falsus procurator» responde pelo interesse contratual negativo ou interesse da confiança (a contraparte é colocada na situação em que estaria se não tivesse contado com a realização do contrato).º2 e 262º n. sempre existente. se poderia pensar e se teria de concluir se o caso não estivesse expressamente hipotizado em norma especial (261º). Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 85 . no qual está coenvolvida uma procuração. b)Pressuposto de eficácia da representação: o acto deve estar integrado nos limites dos poderes que competem ao representante. com fundamento em responsabilidade pré-negocial (227º) ou na existência de uma promessa tácita de garantia. salvo se tiver lugar a ratificação (268º nº1). Haverá abuso de representação quando o representante actuar dentro dos limites formais dos poderes conferidos. em maior ou menor escala. A sua admissibilidade e o seu domínio de aplicação resultam das disposições que a consagram para o efeito de se suprir a incapacidade dos menores (124º).. de uma vontade do representado. nos contratos a favor de terceiro. desde que o representado tenha especificamente consentido na celebração) -. É admitida nos 262º e ss. como. da procuração. realização do negócio em nome do representado. como será quase sempre o caso. 172. se a outra parte conhecia o abuso ou este lhe era cognoscível. não é. se não psicologicamente ao menos objectivamente. b)Representação voluntária. a dos interditos (139º) e.Admissibilidade da representação a)Representação legal. o representante não se torna titular de quaisquer direitos ou obrigações em face da contraparte do negócio representativo.

TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL A extinção da representação é unilateral e pode dar-se por: revogação (por parte do representado) ou renúncia (por parte do representante) (265º). Pode dar-se também por causa natural, isto é, por conclusão. O 264º faz ainda referência à hipótese de subestabelecimento: o representante representa-se por outrem.

(III)Elementos acidentais dos negócios jurídicos (Cláusulas acessórias típicas gerais) (I)Condição 176.Conceito, natureza e importância da estipulação condicional
As noções de condição suspensiva e de condição resolutiva constam do 270º: subordinação pelas partes a um acontecimento futuro e incerto ou da produção dos efeitos do negócio jurídico (condição suspensiva) ou da resolução dos mesmos efeitos (condição resolutiva). Natureza da estipulação condicional Trata-se duma vontade hipotética, embora actual, e efectiva, exteriorizada numa declaração única e incindível. Razão de ser e importância prática da condição Superação da incerteza objectiva do futuro, através de um regulamento de interesses apto a, em qualquer hipótese, realizar a representação que os sujeitos têm do seu interesse. Numa especial modalidade permite influir sobre o comportamento de outrem.

178.A aponibilidade da condição
Princípio geral A cláusula condicional é um elemento acidental, susceptível de ser inserido na generalidade dos negócios, por força do princípio da liberdade negocial. Valor de condição aposta a um negócio incondicionável Em conformidade com o princípio da incindibilidade do negócio condicional, a consequência da aposição duma condição a um negócio incondicionável é a nulidade do negócio. Tal solução, na falta de disposição que expressamente a preceitue (ex.: 848º), resultará da aplicação analógica do 271º e até genericamente do 294º.

179.Classificação das condições
Condições suspensivas e resolutivas O critério da distinção, nos termos do 270º, é o da influência que a verificação do evento condicionante tem sobre a eficácia do negócio: se a verificação da condição importa a produção dos efeitos do negócio, não tendo estes lugar doutro modo, trata-se duma condição suspensiva; se a verificação da condição importa a destruição dos efeitos negociais, aquela diz-se resolutiva. Saber se uma condição é suspensiva ou resolutiva é um problema de interpretação do negócio jurídico, não formulando o CC qualquer presunção geral, nem sendo legítimo propor qualquer presunção natural ou de facto com validade geral. Condições possíveis e impossíveis. As chamadas condições ilícitas (contrárias à lei) Os conceitos de condição impossível (física ou legalmente) e de condição contrária à lei ou à ordem pública ou ofensiva dos bons costumes resultam claramente das considerações acerca dos requisitos legais do objecto negocial: sempre que o evento condicionante não possa realizar-se por impossibilidade física ou legal, ou seja contrário à lei, à ordem pública ou ofensivo dos bons costumes, a condição respectiva terá a qualificação correspondente. A condição que consiste num facto ilícito pode ser lícita, se a cláusula condicional representar um contra-estímulo à prática desse acto; só deixará de ser assim, nesta hipótese,

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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL sendo, portanto, nula a condição, se repugnar à lei ou aos bons costumes a ideia de que se pratique tal acto mediante retribuição. Por outro lado, sendo embora o evento condicionante lícito, pode a condição ser ilícita, por força do seu nexo com o restante conteúdo do negócio.

181.Efeitos da condição suspensiva
Na pendência da condição, isto é, enquanto o evento condicionante não se verificou, nem deixou de se poder verificar. Neste período, o credor condicional não tem ainda um direito exercitável em relação ao devedor, embora as partes estejam já vinculadas, de tal modo que estão sujeitas à produção dos efeitos do negócio, uma vez verificado o evento condicionante.

(II)Termo 183.Conceito
Cláusula acessória típica pela qual a existência ou a exercitabilidade dos efeitos de um negócio são postas na dependência de um acontecimento futuro mas certo, de tal modo que os efeitos só começam ou se tornam exercitáveis a partir de certo momento (termo suspensivo ou inicial) ou começam desde logo, mas cessam a partir de certo momento (termo resolutivo ou final).

185.Aponibilidade do termo
Em obediência ao princípio da liberdade contratual, as partes gozam da faculdade de inserir esta cláusula na generalidade dos negócios. O termo pode ser aposto, em princípio, a qualquer negócio jurídico. Esta regra tem excepções, contudo, visto que há negócios que não admitem termo – negócios inaprazáveis -, os quais coincidem, em regra, com os negócios incondicionáveis.

186.Modalidades
Termo inicial, suspensivo ou dilatório (dies a quo ou ex quo) e termo final, resolutivo ou peremptório (dies ad quem) Esta distinção é paralela à que separa a condição suspensiva da resolutiva, assentando num critério baseado na influência que a verificação do facto futuro (mas certo) tem sobre a existência ou a exercitabilidade dos efeitos do negócio. Se os efeitos do negócio só começam ou só se tornam exercitáveis a partir de certo momento, o termo diz-se suspensivo ou inicial; se começam desde logo, mas cessam a partir de certo momento, o termo diz-se resolutivo ou final. Termo certo e incerto O termo é certo quando se sabe antecipadamente o momento exacto em que se verificará (ex.: o devedor fica obrigado a cumprir a sua prestação no dia 1 de Janeiro de determinado ano ou dentro de um mês a contar de certa data), e incerto quando esse momento é desconhecido (ex.: consistir o momento da morte de alguém, a qual, como se sabe, é certa, mas a sua hora incerta). Chama-se prazo ao período de tempo que decorre entre a realização do negócio e a ocorrência do termo, embora se possam atribuir outros sentidos àquela expressão. 279º regime supletivo da contagem dos prazos (importante para os advogados).

(III)Modo, encargo ou cláusula modal 188.Conceito
Cláusula acessória típica, pela qual, nas doações e liberalidade testamentárias, o disponente impõe ao beneficiário da liberalidade um encargo, isto é, a obrigação de adoptar um certo comportamento no interesse do disponente, de terceiro ou do próprio beneficiário.

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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Referem-se-lhe os 963º (doações com cláusula modal) e 2244º (instituição de herdeiro e nomeação de legatário sujeitas a encargos).

189.Distinção do modo e da condição
O modo só pode ser aposto à liberalidades, enquanto a cláusula condicional é aponível, salvas as excepções constantes da lei, a todos os negócios (gratuitos ou onerosos). Enquanto a cláusula modal se traduz na imposição, ao beneficiário da liberalidade, do dever de adoptar uma certa conduta, a condição pode ter como evento condicionante um facto de qualquer das partes (credor ou devedor condicional), um facto natural ou de terceiro ou um evento de carácter misto.

190.Valor do modo impossível ou ilícito
No CC há um artigo – 967º - que manda aplicar aos encargos modais, física ou legalmente impossíveis, contrários à lei ou à ordem pública ou ofensivos dos bons, apostos às doações, as regras estabelecidas em matéria testamentária. Há, assim, identidade de regime entre as doações e os testamentos, quanto a este ponto, contrariamente ao que resultava da legislação anterior. O 2245º manda aplicar aos encargos impossíveis ou ilícitos o regime estatuído, para as condições com as mesmas características, no 2230º. Assim, a cláusula modal impossível (física ou legalmente) tem-se por não escrita e não prejudica o donatário, herdeiro ou legatário, salvo declaração do doador ou do testador em contrário. Os encargos ilícitos (contrários à lei ou à ordem pública ou ofensivos dos bons costumes), têm-se igualmente por não escritos, ainda que o disponente disponha o contrário. A nulidade é, portanto, parcial, isto é, mantém-se o restante conteúdo da liberalidade que assim resulta ampliada, sendo tal regime supletivo, no que toca ao modo impossível, e imperativo, para o modo ilícito.

(IV)Cláusula penal 192.Conceito e importância
Cláusula penal: é a estipulação em que as partes convencionam antecipadamente uma determinada prestação, normalmente uma quantia em dinheiro, que o devedor terá de satisfazer ao credor em caso de não cumprimento, ou de não cumprimento perfeito da obrigação. Pode, assim, revestir duas modalidades: cláusula penal compensatória ou moratória, conforme tenha sido estipulada para o não cumprimento da obrigação ou para a simples mora do devedor. Aparece normalmente como cláusula do contrato, dele fazendo parte desde a sua celebração, mas nada impede que seja convencionada posteriormente, desde que antes da verificação do facto constitutivo de responsabilidade. A cláusula penal constitui a fixação antecipada e convencional do montante da indemnização, sendo uma cláusula acessória da obrigação principal, pelo que as vicissitudes desta se reflectirão na pena convencional (designação por que também é conhecida). Assim, se a obrigação principal for nula, nula é a cláusula penal (810º). A importância prática da cláusula penal é manifesta, tendo em conta as funções que desempenha. Constituindo uma forma de liquidação prévia do dano, segundo a estimativa dos próprios contraentes, superam-se assim dificuldades e incertezas várias, mormente de prova do dano e da sua extensão. Com efeito, em circunstâncias normais, e na ausência de qualquer cláusula penal, o credor, que pretenda ser indemnizado dos prejuízos resultantes da violação do contrato, terá de fazer prova, através da acção judicial competente, dos prejuízos sofridos. Existindo uma cláusula penal, contudo, o credor deixa de ter de fazer essa prova, sendo o montante da indemnização aquele em que as partes tiveram previamente acordado. Supera-se assim, com a estipulação de uma cláusula penal, a incerteza dos contraentes quanto à avaliação judicial da indemnização, conhecendo-se de antemão as

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culmina um movimento que de há muito vinha salientando a necessidade de combater cláusulas penais abusivas. O legislador não deixou. de alguma forma. A possibilidade de redução equitativa de pena manifestamente excessiva. Esta argumentação foi utilizada. de ter em devida conta. como forma de justificar a imutabilidade da pena. anular-se-iam as vantagens que a cláusula penal apresenta. «desde Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 89 . isto é. visto que a possibilidade de reduzir a cláusula pena depende de o seu montante se mostrar manifestamente excessivo. não pode minimizar-se uma outra. desde que antes da verificação do facto gerador de responsabilidade -. a cláusula penal constituirá um incentivo ao incumprimento tanto maior quanto mais elevado for o seu montante.g. fosse superior ao prejuízo efectivo. em certos casos. sendo o montante da indemnização aquele em que as partes tiverem antecipadamente acordado. se fosse permitida a redução da pena sempre que. no momento da celebração do contrato – ou posteriormente. dolo e culpa grave. o devedor em caso de incumprimento devido a simples culpa leve). sobretudo quando a pena é de montante elevado. visto que o código de Seabra estabelecia apenas que «se a obrigação foi cumprida em parte. a responsabilidade do devedor pelo não cumprimento. cumprimento defeituoso ou mora das obrigações assumidas. assim. independentemente da desproporção existente. É certo que a fiscalização judicial da cláusula penal contende com algumas vantagens que esta figura apresenta. porém. mediante acordo prévio. se não cumprir a obrigação. na medida ajustada. e não apenas de ser superior ao dano. referindo-se a elas apenas no 800º nº2. Só em casos excepcionais. é.Conceito e importância prática Cláusulas limitativas de responsabilidade: são estipulações através das quais os contraentes. ao fixar a doutrina do 812º. neste caso. para que esta figura está especialmente vocacionada: uma função sancionatória. o bem fundado de tal argumentação. de pressão sobre o devedor em ordem à execução correcta do contrato. nos termos acordados pelas partes -. durante algum tempo. que esse montante se venha a revelar. revestindo-se esta função de particular importância sobretudo tratando-se de obrigações de prestação de facto infungível ou de contratos em que o cumprimento rigoroso das obrigações assume particular significado.Regime O CC não trata da disciplina das cláusulas limitativas e de exclusão de responsabilidade em termos claros e sistemáticos. mas teve de ceder perante as flagrantes injustiças a que. Mas além desta importante função que a cláusula penal desempenha – liquidação prévia do dano. permitindo-se.Regime A cláusula penal é devida independentemente da extensão dos danos. pois. Sabendo o devedor a quantia que terá de entregar ao credor.. pode a pena ser modificada na parte proporcional». o mesmo sucedendo se a obrigação tiver sido parcialmente cumprida (812º). quer condicionando-a a determinado grau de culpa (v. acordam em limitar. em termos equitativos.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL consequências que advirão de um incumprimento do contrato e evitando-se litígios judiciais sobre o montante do dano. todavia. Aí se permite que a responsabilidade do devedor por actos dos representantes legais ou auxiliares possa ser convencionalmente excluída ou limitada. 193. a fim de evitar abusos. manifestamente excessivo. pois doutra forma. A limitação da responsabilidade verificar-se-á. que o tribunal poderá reduzir o montante da cláusula penal. Pode acontecer. (V)Cláusulas limitativas e de exclusão de responsabilidade civil 194. em termos de poder questionar-se se não ficarão assim comprometidas as sua funções de reforço da garantia de cumprimento do contrato e de certeza do montante da indemnização em caso de não cumprimento. 195. exonerando. quer limitando-a no seu montante. esta situação conduzia. que o CC consagra. nas circunstancias concretas. ao tribunal a redução desse montante.

(IV)Ineficácia e invalidade dos negócios jurídicos 198. no 810º. Surgem-nos com estas características. que se verifiquem os elementos correspondentes ao seu tipo. não de uma falta ou irregularidade dos elementos internos do negócio. a invalidade é apenas a ineficácia que provém de uma falta ou irregularidade dos elementos internos (essenciais. O mesmo sucede em muitos casos de ineficácia em sentido estrito. de actos directamente praticados pelo próprio devedor. revogação. portanto. mas da fixação de um limite máximo. esta cláusula não cabe na hipótese do 809º. com consequências mais graves do que a nulidade e a anulabilidade. que o negócio exista. pressupõe. casos de cessação dos efeitos negociais – e. admite a lei. alguma anormalidade. o negócio não deve produzir os efeitos a que tendia. A invalidade é uma espécie do género ineficácia: enquanto a ineficácia lato sensu compreende todas as hipóteses em que. Na invalidade. nesses elementos. figuras como a resolução. no quadro conceitual e terminológico do CC. a realidade não corresponde a tal noção. entre eles. Estes dois últimos conceitos serão precisados adiante. O negócio nulo não produz. sem embargo de ocorrer. formativos) do negócio. integra a situação complexa produtiva de efeitos jurídicos. 90 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . porém. quando nem sequer aparentemente se verifica o «corpus» de certo negócio jurídico (a materialidade correspondente à noção de tal negócio) ou. de ineficácia em sentido lato – por força de eventos posteriores ao momento da sua celebração. o de indemnização.Inexistência e invalidade (nulidade e anulabilidade) dos negócios jurídicos Inexistência e invalidade A inexistência é uma figura autónoma. segundo o teor das declarações respectivas. Invalidades mistas A distinção entre nulidade e anulabilidade corresponde. Outras formas de ineficácia em sentido lato A ineficácia em sentido amplo tem lugar sempre que um negócio não produz. a possibilidade de as partes fixarem por acordo o montante da indemnização exigível. porém. Tratando-se. pelo menos. enquanto não for julgada procedente uma acção de anulação. afirma-se estarmos perante esta figura. no todo ou em parte. por causas intrínsecas ou extrínsecas. o direito potestativo de anular. pensamos não ser abrangida pela proibição constante do 809º.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL que a exclusão ou limitação não compreenda actos que representem a violação de deveres impostos por normas de ordem pública». a valoração de um negócio. pela circunstância de depender. Ineficácia stricto sensu e invalidade.Ineficacia dos negócios jurídicos (latu sensu). Quanto à inexistência. como vimos. denúncia. norma que impede o credor de renunciar antecipadamente a certos direitos. Por outro lado. 200. Noção. caducidade. na terminologia do CC à anterior distinção doutrinal entre nulidade absoluta e nulidade relativa. O conceito de ineficácia em sentido estrito definir-se-á. Quanto à cláusula limitativa de responsabilidade. desde o início. contemporâneos da sua formação. Há. Nulidade e anulabilidade. os efeitos que tenderia a produzir. por impedimento decorrente do ordenamento jurídico. conjuntamente com o negócio. mas de alguma circunstância extrínseca que. existindo embora essa aparência. exercido. como nulo ou anulável. produz os seus efeitos e é tratado como válido. mediante esta acção. Pelo contrário. coerentemente. pertencente a uma das partes. por força da falta ou vício de um elemento interno ou formativo. isto é. os efeitos do negócio são retroactivamente destruídos. não se encontra na lei uma resposta clara e segura sobre o regime daquelas convenções. a ausência de produção dos efeitos negociais resulta de vícios ou deficiências do negócio.

Há algumas diferenças entre a confirmação e a renovação. restituindo-se tudo o que tiver sido prestado ou. ser precludida. quer por via de acção. c)São sanáveis pelo decurso do tempo O CC estabelece em prazo de um ano para a arguição das anulabilidades. possa ter eficácia retroactiva nas relações «inter partes». que a arguição da anulabilidade não está sujeita a qualquer prazo. mesmo que o fundamento da nulidade tenha desaparecido. como nunca tendo tido lugar. Se for anulado. apesar do vício. São as seguintes as características das anulabilidades: a)Têm de ser invocadas pela pessoa dotada de legitimidade Não podem ser declaradas «ex. arguindo a anulabilidade de qualquer negócio jurídico que contra elas seja invocado (287º). se a situação de facto foi actuada de acordo com os efeitos a que tendia o negócio. A confirmação tem efeito retroactivo. etc. nem sequer uma sentença judicial prévia. Não se produzem os efeitos jurídicos a que o negócio tendia. quer por via de excepção. são invocáveis a todo o tempo (286º). todavia. 202. (289º nº3). Exigem uma acção especialmente destinada a esse efeito. passa a ser definitivamente válido. a possibilidade de as pessoas legitimadas se defenderem. nos contratos nulos. é um novo contrato. no prazo legal e pelas pessoas com legitimidade.Regime das nulidades a)Operam «ipso iure» ou «ipsa vi legis» Não se torna necessário intentar uma acção ou emitir uma declaração nesse sentido. em matéria de frutos. mesmo em relação a terceiros. se o negócio não esta cumprido. c)São insanáveis pelo decurso do tempo Isto é. 2)Não obstante a retroactividade. 204.Efeitos da declaração de nulidade e da anulação 1)Operam retroactivamente (289º). em princípio. A confirmação não depende de forma especial e pode ser tácita ou expressa (288º nº3). portanto. haverá lugar à repristinação das coisas no estado anterior ao negócio. porém. contemporâneo da sua formação. pela verificação da usucapião (prescrição aquisitiva). o prazo é de três anos (1687º nº2). tratado como válido. A confirmação é um negócio unilateral. A possibilidade da sua invocação perpétua pode. d)São sanáveis mediante confirmação (288º) A confirmação é um negócio unilateral pelo qual a pessoa com legitimidade para arguir a anulabilidade declara aprovar o negócio viciado. Na hipótese dos actos afectados por ilegitimidades conjugais. ter lugar aqui um sucedâneo da confirmação: a chamada renovação ou reiteração do negócio nulo. no aspecto prático. ressalvada a possibilidade da sua arguição por via de excepção. no tempo e forma devidos. benfeitorias. poderá vir-se requerer a anulação a todo o tempo. 3)Em consonância com a retroactividade. b)Só podem ser invocadas por determinadas pessoas E não por quaisquer interessados. porém. isto é. considera-se que os efeitos visados não se produziram desde o início. d)São insanáveis mediante confirmação (288º «a contrario») Pode.Regime das anulabilidades O negócio anulável é. pelos efeitos a que o negócio se dirigia (286º). o valor correspondente (289º nº1). Resulta do 287º nº1 que só têm legitimidade para arguir a anulabilidade os titulares do interesse para cuja específica tutela a lei a estabeleceu. encargos. e podem ser declaradas «ex officio» pelo tribunal (286º). a renovação opera «ex nunc». na sua consistência jurídica ou prática. pelo sujeito de qualquer relação jurídica afectada. embora. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 91 . nesta hipótese.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 201. Note-se. por estipulação «ad hoc». Se não for anulado. se a restituição em espécie não for possível. há lugar à aplicação das normas sobre a situação do possuidor de boa fé. officio» pelo juiz. b)São invocáveis por qualquer pessoa interessada Isto é. a renovação. o que está em perfeita coerência com a ideia de que a invalidade resulta de um vício intrínseco de negócio e.

a invalidade. A revogação tem apenas a consequência de extinguir os efeitos do negócio para o futuro («ex nunc»). não dum vício da formação do contrato. caducidade e denúncia) Resolução O CC admite a chamada resolução do contrato.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 4)A retroactividade da nulidade e da anulação. salvo se o terceiro adquiriu o seu direito posteriormente ao registo da acção de resolução. a que está vinculado. É o chamado extintivo ou abolitivo ou «contrarius consensus» (406º nº1). mas dum facto posterior à sua celebração. Tentando por em evidência traços específicos da caducidade. conduziria à oponibilidade da destruição dos efeitos do negócio em face de terceiros. 92 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . não carecida de justificação (uma nuda voluntas). da relação contratual. da consecução do fim visado ou de qualquer outro facto ou evento superveniente (ex. sob a forma da caducidade. devemos assinalar: a)a sua causa é algo de objectivo. a invalidade tem efeito retroactivo «inter partes». emergente de um contrato bilateral ou plurilateral. Se não se exige como pressuposto ou requisito da denúncia uma justa causa. por mútuo consentimento. b)A resolução tem. revogação. c)não tem carácter retroactivo.A invalidade e outras formas de cessação dos efeitos negociais (resolução. fazer cessar uma relação contratual ou obrigacional em sentido amplo. com fundamento na lei ou em convenção das partes. O fundamento material desta denunciabilidade «ad nutum» é a tutela da liberdade dos sujeitos que seria comprometida por um vínculo demasiadamente duradouro. a invalidade opera os seus efeitos em relação a terceiros. Deve reconhecer-se. Com este «contrarius consensus» as partes. um motivo particular. eventualmente com eficácia retroactiva «inter partes». nos contratos de duração ou por tempo indeterminado. sem estas limitações. seja um facto da contraparte (inadimplemento de uma obrigação). se contrariar a vontade das partes ou a finalidade da resolução. ou actua automaticamente (nulidade). a partir das suas manifestações legais. A resolução tem lugar em situações de variada natureza. a denúncia diz-se ad nutum ou ad libitum. Nela se manifesta uma pura e simples vontade. bem como. mediante mera declaração. a)A resolução pode fazer-se mediante declaração à outra parte (436º). nos contratos de execução continuada ou periódica. «ex nunc». sem carácter retroactivo. 206. não opera retroactivamente. c)A resolução nunca prejudica os direitos adquiridos por terceiro (435º). Revogação Nalguns casos a lei autoriza um dos sujeitos do negócio jurídico a revogá-lo. mas tal efeito não se verifica. extinguem a relação contratual existente entre eles. em princípio. ou implica uma acção judicial (anulabilidade).: morte de uma pessoa) a que a lei atribui efeito extintivo. Caducidade A cessação dos efeitos negociais pode ter lugar. No nosso sistema jurídico abrange este conceito uma série numerosa de situações em que as relações jurídicas duradouras de tipo obrigacional criadas pelo contrato ou pelo negócio (formando no seu conjunto a relação contratual) se extinguem para futuro por força do decurso do prazo estipulado. levada às suas últimas consequências lógicas. do autor da denúncia. Pode ter lugar igualmente uma revogação dos contratos por comum acordo. a denúncia caracterizase especificamente por ser a faculdade existente na titularidade de um contratante de. resultando. em princípio. seja um facto natural ou social («alteração anormal das circunstâncias»). a existência de um poder de denúncia sem uma específica causa justificativa. Denúncia Entre as formas de pôr termo à eficácia de um negócio jurídico. normalmente um facto que vem iludir a legítima expectativa duma parte contratante. efeito retroactivo entre as partes. b)actua automaticamente ou de pleno direito («ipso iure»).

diversamente do que sucede com a redução dos negócios jurídicos. embora mais precário. declarado nulo ou anulado totalmente um negócio. Acentue-se. mas a vontade como que fingida ou construida pelo juiz». com os materiais do negócio totalmente inválido. este não produzirá quaisquer efeitos negociais ou se. cujo resultado final económico-jurídico. necessários para a validade do negócio sucedâneo. se aproxime do tido em vista pelas partes com a celebração do contrato totalmente inválido. o critério da vontade hipotética ou conjectural das partes. na hipótese de se terem apercebido do vício do negócio principal. onde são formulados requisitos coincidentes com os enunciados pela doutrina.. exigindo. não pudessem tê-lo celebrado sem essa deficiência. vontade). Solução do problema Na doutrina propõe-se. provavelmente. o negócio deve valer na parte restante (não afectada) ou deve ser nulo ou anulável na sua totalidade. Admissibilidade da conversão no nosso direito A conversão é genericamente regulada no 293º. expressamente determinada em disposições particulares (conversão «ope legis»): 946 nº2 (conversão legal das doações por morte em disposições testamentárias). Se se concluir que as partes. 208. Requisitos de admissibilidade A doutrina nacional e estrangeira é largamente favorável à conversão dos negócios jurídicos. certos requisitos de admissibilidade. O problema da redução dos negócios jurídicos Posição do problema O problema da redução dos negócios jurídicos insere-se na disciplina dos efeitos das nulidades e anulabilidades pessoais. Assim. Trata-se de saber se. Trata-se de averiguar aquilo que as partes teriam querido provavelmente.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 207. no caso de um fundamento de invalidade ser relativo apenas (afectar apenas) uma parte do conteúdo negocial.. 3)É frequentemente exigido pela doutrina que o negócio sucedâneo diga respeito ao mesmo objecto material a que respeitava o negócio principal. sempre o teriam realizado na parte não directamente atingida pela invalidade. o problema da conversão dos negócios jurídicos.Formas de aproveitamento de negócios inválidos. quando se imponha a conclusão de que as partes teriam querido o negócio sucedâneo se.Formas de aproveitamento de negócios inválidos. nessa hipótese. deve ter lugar a redução do negócio. Esses requisitos são os seguintes: 1)É necessário que o negócio inválido contenha os requisitos essenciais de forma e substância (capacidade. sem atender à vontade hipotética. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 93 . a conversão exige a prova da vontade hipotética ou conjectural das partes. «não uma vontade real. Para além desta norma (293º) que resolve. em geral. todavia. deve concluir-se pela invalidade total. Só haverá conversão. não tendo lugar em caso de duvida. a venda verbal de imóveis é inconvertível em promessa de compra e venda. a este propósito. O problema da conversão dos negócios jurídicos Os termos do problema Trata-se de saber se. se soubessem que o negócio se opunha parcialmente a alguma disposição legal e não pudessem realizá-lo em termos de ser válido na sua integridade. um outro negócio. que. dado o 410º nº2. não poderá reconstituirse. objecto. dados certos requisitos. Se é de admitir que as partes. prefeririam não realizar qualquer negócio. 2)Exige-se que a vontade hipotética ou conjectural das partes seja no sentido da conversão. predominantemente. a produção do mesmo fenómeno é.

por serem fundadas numa presunção de cumprimento. pela prática do acto (331º). em muitos domínios do direito civil. (93. uma prescrição de cinco anos (310º). De referir. se estas não tiverem sido feitas por causa não imputável ao requerente (323º). Os problemas mais importantes colocados pela repercussão do decurso do tempo no mundo dos efeitos jurídicos referem-se à prescrição extintiva e à caducidade. diversamente do que sucede com a prescrição. que tem que ser invocada -. os quais podem ser de seis meses (316º) ou de dois anos (317º). em harmonia com o velho aforismo «dormientibus non succurit jus».g. também. Na caducidade só o aspecto objectivo da certeza e segurança é tomado em conta. ao contrário do regime geral da prescrição. 94 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . podem. igualmente. Estas prescrições presuntivas.Prescrição extintiva e caducidade. não podendo o tribunal supri-la. enquanto que a prescrição se interrompe pela citação ou notificação judicial de qualquer acto que exprima. de ofício (303º). 5 dias depois de requerida a citação ou a notificação. em relações jurídicas do mais diverso tipo. em princípio. da ponderação de uma inércia negligente do titular do direito em exercitá-lo. ao contrário da prescrição que se suspende e interrompe nos casos previstos na lei (respectivamente 318º ss. mas não a caducidade. em princípio. é um instituto endereçado fundamentalmente à realização de objectivos de conveniência ou oportunidade. por último.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL (III)Eficácia do decurso do tempo nas relações jurídicas 209. por interrompida. situações e acontecimentos que excluem a possibilidade de a falta de exercício do direito ser atribuída a inércia do titular – situações e acontecimento a que podem suspender ou interromper a prescrição. tendo-se. não comporta causas de suspensão nem de interrupção (328º). 4)Por último. o que faz presumir uma renúncia ou. O que explica. bem como o facto de influírem sobre o prazo de prescrição. o torna indigno da tutela do Direito. A prescrição extintiva. Remissão O tempo é um facto jurídico não negocial.) Há importantes diferenças de regime entre a prescrição e a caducidade. Diversamente da caducidade.. ser ilididas por confissão do devedor (306º). v. 3)A caducidade. e não sobre o da caducidade. possam embora não lhe ser totalmente estranhas razões de justiça. a prescrição arranca. susceptível de influir. pelo menos. Assim: 1)Admitem-se estipulações convencionais sobre a caducidade (330º). que tem que ser invocada.). o mesmo não acontecendo a respeito do regime da prescrição. directa ou indirectamente.312º). que a caducidade seja apreciada oficiosamente pelo tribunal – ao contrário da prescrição. para certas hipóteses. e 323º ss. a intenção de exercer o direito. Há prazos mais curtos para as chamadas prescrições presuntivas (que se fundam na «presunção de cumprimento» . 2)A caducidade é apreciada oficiosamente pelo tribunal (333º). prevendo a lei. o qual é interrogável (300º). a caducidade só é impedida. que o prazo ordinário da prescrição é de vinte anos (309º).

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