TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL

Introdução 1.Âmbito da teoria geral do direito civil
Não se vai falar curar problemas específicos de direitos das coisa, de família, sucessões ou de crédito. Caracterizar figuras, equacionar problemas, formular soluções respeitantes a todo o domínio do direito civil ou, pelo menos, comum a normas e relações pertencentes a mais do que uma das referidas quatro partes especiais do direito civil. Teoria que visa reduzir algo amplo; tenta sintetizar. Apresenta um sistema de noções relacionadas entre si. Teoria da parte geral do direito civil; parte geral – pandectística.

2.Conteúdo da teoria geral do direito civil. Plano do curso
Impõe-se o conhecimento das fontes actuais do direito civil português. Fontes de direito civil: não tanto os modos de surgimento da regra, mas as próprias sedes onde se localiza o direito civil já nascido. Considera-se, então, os diplomas fundamentais do sistema de direito civíl português. É também essencial o conhecimento dos princípios básicos que formam a arquitectura do nosso sistema de direito civíl.

3.Divisão da teoria geral do direito civil: teoria geral do ordenamento jurídico civil e teoria geral da relação jurídica civil
Direito, em sentido objectivo: conjunto de princípios regulamentadores, de regras de conduta, de normas de disciplina social. Direito, em sentido subjectivo: sinónimo de poder ou faculdade. Teoria geral da norma jurídica: é a teoria geral do direito objectivo. Teoria geral da relação jurídica: é a teoria geral do direito subjectivo. A divisão da TGDC nestas duas partes é legítima porque utiliza como critérios de arrumação e referência dos problemas e soluções, duas categorias fundamentais do conhecimento do direito: - norma jurídica - relação jurídica A norma ou regra jurídica é uma dimensão fundamental do direito – é um veículo imprescindível da realização dos valores jurídicos. O direito visa realizar determinados valores, fundamentalmente a certeza desse disciplina e a segurança da vida dos homens, por um lado, e a «rectidão» ou «razoabilidade» das soluções, por outro. A realização da igualdade exige uma consideração normativa – geral – da realidade social a que o direito se aplica. A estatuição prescrita pelo direito para um situação deve ser aplicável às situações do mesmo tipo ou género. A existência de um direito recto e certo implica, pois, a sua formalização normativa, a formulação de prescrições gerais. O conceito de relação jurídica está na base da sistematização do nosso código civil. Estabelece-se uma parte geral que engloba as temas relevantes aos elementos comuns às outras quatro partes e estas, por sua vez, correspondem ao direito aplicável a quatro espécies ou modalidades diversas de relações jurídicas. Esta sistematização é conhecida por: sistematização germânica. Diverso era o plano francês. O direito não regula o homem isolado ou considerado em função das suas finalidades individuais, mas o homem no seu comportamento convivente. O direito pressupõe a vida dos homens uns com os outros e visa disciplinar os interesses contra postos nesse entrecruzar de actividades e interesses. Relação jurídica: ligação entre os homens, traduzida em poderes e vinculaçoes. Várias vozes têm formulado um veredicto anti-humano. O sujeito da relação jurídica são as pessoas colectivas. Tal ponto de vista dirige-se, pois, a um modo de arrumação, a uma forma de exposição, mais do que ao conteúdo das soluções expressas.

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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL

4.O direito civil como parte do direito privado
O direito civil é direito privado. Segundo um clássica distinção o direito divide-se em dois grandes ramos: - direito público - direito privado O direito civil constitui o direito privado geral.

5.Direito público e privado
privado. A teoria dos interesses é frequentemente referida para distinguir direito público do

Estaríamos perante uma norma de direito público: quando o fim dessa norma fosse a tutela de um interesse público, isto é, um interesse da colectividade; deparar-se-ia uma norma de direito privado: quando a norma visa tutelar ou satisfazer interesses individuais, isto é, interesses dos particulares. A este critério pode-se dirigir várias críticas: a) As normas de direito privado não se dirigem apenas à realização de interesses dos particulares, tenso em vista frequentemente, também, interesses públicos. Isso leva à intervenção pública. As normas de direito público, por sua vez, para além do interesse público visado, pretendem, também, dar adequada tutela a interesses dos particulares. Todas as normas, por cima dos interesses específicos e determinados que visam, miram um fundamental interesse público: o da realização do direito ou, se quisermos, da segurança e da rectidão. b) O critério apreciado só poderá tentar manter-se se procurar exprimir apenas uma nota tendencial: o direito público tutelaria predominantemente interesses da colectividade e o direito privado protegeria predominantemente interesses dos particulares. 1 – Não pode saber-se, em muitos casos, qual o interesse predominante. 2 – Há normas que, dado o lugar da sua inserção no sistema jurídico e dada a tradição e o desenvolvimento histórico do direito, são pacificamente classificadas como de direito privado e, todavia, visam predominantemente interesses públicos. O direito público: disciplina relações entre entidades que estão numa posição de supremacia e subordinação. O direito privado: regula relações entre entidades numa posição relativa de igualdade ou equivalência a) O direito público regula, por vezes, relações entre entidades numa relação de equivalência ou igualdade, como acontece com as relações entre autarquias locais. b) O direito privado disciplina, também, algumas vezes, situações onde existem posições relativas de supra-ordenação e infra-ordenação, como acontece com o poder paternal. Pode apenas dizer-se que a equivalência ou posição de igualdade dos sujeitos das relações jurídicas é normalmente característica da relação disciplinada pelo direito privado e a supremacia e subordinação característica normal da relação de direito público. A teoria dos sujeitos é hoje em dia o critério mais adequado, em virtude de assentar na qualidade dos sujeitos das relações jurídicas disciplinadas pelas normas a qualificar como de direito público ou privado. Segundo este critério o direito privado regula as relações jurídicas estabelecidas entre particulares ou entre particulares e o Estado ou outros entes públicos, mas intervindo o Estado ou esses entes públicos em veste particular, isto é, despidos de «imperium» ou poder soberano. É necessário, para se nos deparar uma norma de direito público, que pelo menos um dos sujeitos da relação disciplinada seja um ente titular de «imperium», de autoridade, que intervenha nessa veste. Os dois sectores não se separam de forma tão absoluta e completa.

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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL No domínio do direito do trabalho é discutido onde deve passar a linha divisória. O direito do trabalho contém normas de direito público (ex.: regras sobre intervenção administrativa na disciplina colectiva das relações de trabalho; as normas do chamado direito da previdência social), e normas de direito privado (ex.: normas reguladoras do contrato individual de trabalho)

6.Alcance prático da distinção entre direito público e privado
A divisão efectuada e a exacta integração de cada norma na categoria correspondente, revestem interesse no próprio plano de aplicação do direito. A distinção entre direito público e privado vai muitas vezes determinar as vias judiciais a que o particular que se considera lesado pelo Estado ou por uma autarquia local deve recorrer ou vice-versa. Se o particular tem uma pretensão contra o Estado ou contra um ente público, há que averiguar, se a relação jurídica donde essa pretensão deriva é uma relação de direito público ou privado. As acções entre particulares ou entre um ente particular e o Estado ou outra pessoa colectiva pública derivadas duma relação de direito privado devem ser propostas nos tribunais judiciais. Quando o assunto entre particulares e entes públicos ou entre estes diz respeito a relações jurídicas de direito público ou a efeitos jurídicos com elas conexionadas são competentes os tribunais administrativos. A responsabilidade civil, isto é, a obrigação de indemnizar os prejuízos sofridos, decorrente de uma actividade de órgãos, agentes ou representantes do Estado está sujeita a um regime diverso, consoante os danos são causados no exercício de uma actividade de gestão pública ou privada. Se os danos resultam de uma actividade de gestão pública, os pedidos de indemnização feitos à administração são apreciados por tribunais administrativos. Se os danos resultam de uma actividade de gestão privada, os pedidos de indemnização contra a administração central ou local, são deduzidos perante os tribunais judiciais. Actividade de gestão pública: é a actividade da administração disciplinada pelo direito público. Actividade de gestão privada: é a que é regida pelo direito privado.

7.O direito civil como direito privado comum. O direito comercial e do trabalho. A autonomia de outros ramos do direito.
O direito civil constitui o núcleo fundamental do direito privado. Constituir o núcleo fundamental do direito privado não significa ser todo o direito privado, mas apenas o direito privado comum ou geral. Historicamente, o direito privado confunde-se com direito civil, regendo este, sem restrições, todas as relações jurídicas entre sujeitos privados. O desenvolvimento da sociedade fez surgir ou acentuou necessidades específicas de determinados sectores da vida dos homens. Daí que fossem surgindo regras especiais para esses sectores particulares, estatuindo, para os domínios respectivos, regimes diversos dos que se aplicam à generalidade das relações jurídico-privadas do mesmo tipo. Essas normas especiais, em dado momento, passaram a compendiar-se. Dentro do direito privado surgiram assim, por especialização relativamente às normas do direito civil, ramos autónomos de direito. Esses ramos autónomos são: - direito comercial - direito trabalho Estes são direito privado especial, enquanto o direito civil é direito privado comum. O direito comercial e o direito do trabalho dão às particulares relações jurídicoprivadas a que se aplicam, uma disciplina diferente da que o direito civil dá às relações jurídicoprivadas em geral. Neste domínio das relações patrimoniais ligadas ao comércio ou à actividade laboral, se aplicam, todavia, por força do referido caracter subsidiário do direito civil, muitas normas gerais que assim cobrem todo o domínio do direito privado.

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A organização estadual proporciona ao particular meios eficazes e indispensáveis para o pleno desenvolvimento na sua personalidade e quanto ao exercício desses meios. Esta autonomia. formulador de normas imperativas ou reconhecedor de convenções colectivas de trabalho. a igualdade. quanto à sua constituição. se possa dizer ser o direito civil um direito privado comum e subsidiário dos ramos autónomos jurídico-privados. A entidade patronal estaria normalmente em posição da impor ao trabalhador condições inaceitáveis. Esta disciplina recta da vida do homem é realizada pelo direito civil numa perspectiva de autonomia da pessoa do desenvolvimento da sua personalidade. A actividade laboral. Como actos de comércio considera o código comercial certos tipos que descreve. com propriedade. a teoria geral do direito civil seja uma teoria geral do direito privado O direito comercial: disciplina os actos de comércio. em ordem a dar satisfação a exigências do tipo indicado. de se afastar do regime geral dos contratos. poder de autodeterminação nas relações com as outras pessoas. o crescimento das empresas. efeitos e extinção. A autonomia é uma ideia fundamental do direito civil. relativamente ao direito civil. É executado por força de um contrato de trabalho. tratando o trabalho como qualquer outra prestação. bem como os actos dos comerciantes conexionados com o seu comércio. das suas especificidades. que é proporcionada pelo direito comercial. O direito comercial é identificado pelos autores como uma disciplina de formas e mecanismos jurídicos cuja génese visa servir as finalidades das empresas. diversos de regulamentação que o direito civil dá aos negócios jurídicos patrimoniais em geral. etc. essa especialidade decorre das particulares necessidades que a zona de vida respectiva se fazem sentir. decorre a disciplina especial. Tem essa função enquanto está construído à volta da ideia de autonomia da pessoa e a autonomia é condição básica da personalidade. sejam ou não comerciantes as pessoas que nele intervêm.Sentido do direito civil: a autonomia da pessoa. O direito civil contém a disciplina positiva da actividade de convivência da pessoa humana com as outras pessoas. o 4 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . à situação social dos trabalhadores. negociadas a nível de classes organizadas e não dos indivíduos. contrato entre o trabalhador e a entidade patronal. em maior ou menor escala. prende-se com importantíssimos problemas e interesses ligados à vida económica da colectividade. Outra ideia caracterizadora do sentido do direito civil é a de que este se encontra directamente ao serviço da plena realização da pessoa na sua vida com as outras pessoas. A disciplina das relações de trabalho tem. 8. o desenvolvimento industrial e comercial posterior. a disciplina da vida quotidiana do homem comum. Eis porque no domínio laboral se veio a verificar um rigoroso intervencionismo estatal. a concentração operária vieram a determinar uma profunda modificação neste domínio. O direito comercial e o do trabalho regulam certos actos e relações jurídicas em termos especiais. Enquanto o código civil de 1867 regulava o contrato de trabalho nos termos gerais dos contratos.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Daí que. ainda que não se integrem nos tipos correspondentes aos actos objectivamente comerciais. supõe necessariamente a igualdade ou paridade de situação jurídica dos sujeitos. As necessidades próprias do comércio. à formação profissional. disciplina directamente o trabalho subordinado prestado a outrem. Daí que. com propriedade. Tutela os interesses dos homens em relação com outros homens. O direito do trabalho: na sua parte privatística. condições que este se veria obrigado a aceitar por a sua sobrevivência depender necessariamente da alienação da sua força de trabalho.

que visa precisamente assegurar a autonomia e a realização da personalidade no plano das relações com as outras pessoas. Toda a sua aparelhagem visa criar condições que facilitem ou melhorem a realização da personalidade na vida dos homens. A tutela é operada. embora integrada no quadro ou no sistema legal.: a faculdade de poder obter tratamento hospitalar. Não pode esquecer-se ser fundamentalmente a vida das pessoas. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 5 . estruturas instrumentais ao serviço da pessoa humana. precisando-a e concretizando-a. Dispõe o artigo 1º do código civil que são fontes de direito: as leis e as normas corporativas. impondo ao infractor dos seus comandos. a reacção do direito civil reforçada pelo direito criminal. frequentar escolas. Quando um comportamento lesivo de outrem. com especial relevo comunitário. isto é. O costume não é reconhecido como fonte de direito. a necessidade de reconstituir os interesses da pessoa lesada. 9. onde se manifestam apenas interesses dos particulares. lesa o interesse social com certa intensidade. Missão do julgador: cabe-lhe. O direito civil situa-se no núcleo mais íntimo e fundamental da sociedade. que o direito visa facilitar ou melhorar. disciplina as relações sociais de pessoa para pessoa O direito civil disciplina substancialmente as relações de pessoa a pessoa e porque é um ordenamento jurídico. Ex.45) PARTE I Teoria geral do ordenamento jurídico civil (I)Fontes do direito civil português 10. Estes meios de direito público. Esta tutela evidencia claramente estarmos no plano das relações de pessoa a pessoa.Formas de surgimento das normas jurídicas civis Os modos de aparecimento das normas integradoras do ordenamento jurídico civil vêm indicados nos primeiros artigos do código civil. A jurisprudência está igualmente excluída do quadro das fontes de direito. Os usos só valem quando a lei o determinar. nem sequer como modo de integração de lacunas da lei. além do prejuízo causado à pessoa. emanada dos órgãos estaduais competentes segundo a CRP. em face do caso concreto. O código civil refere-se igualmente aos usos conformes aos princípios de boa fé. uma convivência com outras pessoas humanas. Esta «concretização» da lei implica uma explicitação das suas virtualidades e um desenvolvimento e enriquecimento dela. dar vida à norma legal.Sequência (pág. não se reconhecendo um direito consuetudinário vigente. Estas não são hoje fonte de direito.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL particular encontra-se em situação de plena autonomia. tutela coercitivamente os interesses das pessoas. isto é. são. Estas disposições iniciais regulam a matéria das fontes de direito. Seria exagerado dizer que só o direito civil é o direito da pessoa. numa visão personalista. não se exige a consciência da obrigatoriedade dos referidos usos por parte dos que o adoptam. Lei: toda a disposição imperativa e geral de criação estadual. ordenamento dirigido à protecção dos valores da colectividade. Normas corporativas: disposições gerais e imperativas emanadas das entidades reconhecidas na CRP com a designação de organismos corporativos.

Apesar do carácter concretizador da actividade do juiz não podemos atribuir à jurisprudência o carácter de fonte de direito. na CRP princípios determinantes do conteúdo do direito civil português. Como já foi dito o código civil de 1966 está sistematizado segundo a sistematização germânica.da filiação – 1796º a 1972º . É que os resultados a que o julgador chegou só têm força vinculativa para o caso concreto a ser decidido.das sucessões em geral – 2024º a 2130º . É igualmente importante para o direito civil o artigo 36º.Diplomas fundamentais do direito civil português A lei é a fonte mais importante.da enfiteuse – 1492º a 1523º . uso e habitação – 1439º a 1490º .TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL O carácter constitutivo desta intervenção judicial é sobretudo importante no que se refere à aplicação aos casos da vida de conceitos indeterminados e cláusulas gerais em que aliás o código civil é fértil. fiscalizadoras ou sindicantes da aplicação das restantes normas do ordenamento jurídico. sua interpretação e aplicação – 1º a 65º . 11.das leis.da sucessão legitimária – 2151º a 2178º . Assenta esta sistematização na classificação germânica das relações jurídicas de direito privado. Correspondendo as 4 partes especiais do código civil aos 4 tipos de relações jurídicas. Em conformidade com este plano o código civil divide-se da seguinte forma: LIVRO I – Parte geral .da sucessão legítima – 2131º a 2150º .do casamento – 1587º a 1795º . O vértice de todo o ordenamento jurídico é constituído pelo direito constitucional.do usufruto.disposições gerais – 1576º a 1586º .da sucessão testamentária – 2179º a 2334º Este é o chamado sistema externo do código civil. É o caso do princípio do abuso de direito. Nesta parte atende-se à disciplina das relações jurídicas em geral. casamento e filiação.das relações jurídicas – 66º a 396º LIVRO II – Direito das obrigações .das obrigações em geral – 397º a 873º . Seguramente que se encontrarão.do direito de superfície – 1524º a 1542º .da adopção – 1973º a 2002º .dos contratos em especial – 874º a 1250º LIVRO III – Direito das coisas . Este carácter constitutivo da intervenção judicial é ainda claramente manifestado no caso particular de certas cláusulas gerais. que é feita preceder de uma parte geral. Trata-se dum aspecto formal.dos alimentos – 2003º a 2020º LIVRO V – Direito das sucessões . que contém princípios fundamentais sobre família. 6 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . é oportuna a definição de cada um desses tipos de relações. O sistema jurídico auto-limitou-se: criando meios de controlo dos resultados da aplicação das restantes normas.do direito de propriedade – 1302º a 1438º .das servidões prediais – 1543º a 1575º LIVRO IV – Direito da família .da posse – 1251º a 1301º . O julgador considerará certos momentos racionais e denominadores objectivos.

2 – formulação de conceitos gerais-abstractos: tipos de situações da vida.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Direito das obrigações: vínculos jurídicos por virtude dos quais uma pessoa fica adstrita para com outra à realização de uma prestação. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 7 . sob o ponto de vista do tipo de formulação legal adoptado. com a doutrina dos nossos jurisconsultos oitocentistas. Contém um «direito de juristas». Era um código onde se combinava o nosso direito tradicional. Um autor alemão (LARENZ) distingue 3 tipos de formulação legal: 1 – formulação casuística: prevendo o maior número possível de situações da vida. mas segundo uma ordenação que deve estar presente no espírito do julgador. Direito das sucessões: relações dirigidas a actuar a transmissão dos bens por morte do seu titular.CABRAL DE MONCADA). Na sua original sistematização. Dentro de algumas destas partes especiais encontra-se também. Este método possibilita um mais elevado grau de segurança e uma razoabilidade das soluções em geral mas pode levar o juiz a decisões menos rectas para o caso concreto. O seu conteúdo reflecte influências do direito romano. A atenuação desta desvantagem foi visada pelo legislador do código civil português introduzindo neste diploma legal cláusulas gerais para uma possibilidade de adaptação às várias situações da vida. traduzido em liberdade contratual e no respeito inflexível pelas convenções privadas. O código civil português adopta fundamentalmente o tipo de formulação mediante conceitos gerais-abstractos. Direitos reais: relações de um sujeito jurídico com todas as outras pessoas. O seu mundo filosófico-cultural nítido é o individualismo. 14. jusnaturalista setecentista e do liberalismo individualista.O sistema do código civil de 1966: coordenação da parte geral e das partes especiais O sistema externo do código civil português assenta numa parte geral e em 4 partes especiais. 3 – formulação de directivas: o legislador recorre a linhas de orientação. toma o indivíduo e a sua trajectória vital como critério de sistematização («visão antropocêntrica» . Direito da família: relações emergentes do casamento. Com a entrada em vigor do código civil de 1966. parentesco. Quanto à linguagem utilizada pelo código civil português de 1966. Desta relação entre uma parte geral e as partes especiais resulta que as normas contidas no código não se dispõem segundo um mero alinhamento ou contiguidade. 12.O código civil português: as circunstâncias históricas da sua elaboração e a legislação anterior Os trabalhos dirigidos à elaboração do actual código civil português estenderam-se por cerca de 22 anos. 13. esta é de carácter técnico. especializado. um conjunto de disposições gerais. afinidade ou adopção. cessou a vigência do código de Seabra de 1867. canónico.O código civil de 1966: características do tipo de formulações legais utilizado Um código civil pode corresponder a modelos diversos. expresso em linguagem de técnicos. por força das quais aquele sujeito adquire um poder directo e imediato sobre uma coisa.

igualmente.: direito ao nome – artigo 72º do CC e 26º da CRP). Direito civil e direito constitucional. Problemas de direito civil podem encontrar a sua solução numa norma que não é de direito civil. b) através de cláusulas gerais e conceitos indeterminados. a posição dos particulares em face do Estado. nos termos do artigo 35º da CRP. não pode. Parece conveniente e susceptível de conduzir a resultados mais razoáveis que a aplicação das normas constitucionais a actividades privadas se faça com referencia a instrumentos e regras próprios do direito civil. As 8 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . (II)Os princípios fundamentais do direito civil português (1)Introdução 15.As normas aplicáveis às relações de direito civil. no domínio das convenções entre particulares. Alguns diplomas avulsos regulam. O legislador deve emitir normas de direito civil não contrárias à CRP. Os preceitos constitucionais na sua aplicação às relações de direito privado devem conciliar o seu alcance com o de certos princípios fundamentais do direito privado – eles próprios conformes à CRP. Ex. sobrepor-se à liberdade contratual. embora se pudesse sustentar que esta protecção dos cidadãos já se encontrava guarida no artigo 17º e 80º do CC).: ordem pública do artigo 280º do CC). em termos gerais. matérias do direito privado comum. Tal estipulação contraria o citado preceito constitucional. O princípio da igualdade perante a lei parece impor necessariamente a inconstitucionalidade de quaisquer normas de direito civil que não sejam normas gerais. uma norma constitucional reconhecedora de um direito fundamental aplica-se independentemente da mediação de uma regra de direito privado (ex. O princípio da igualdade que caracteriza. salvo se o tratamento desigual implica a violação de um direito de personalidade de outrem. c) em casos absolutamente excepcionais. Aplicação de normas constitucionais às relações entre particulares As normas de direito civil estão fundamentalmente contidas no código civil português de 1966. por não existir clausula geral ou conceito indeterminado adequado. mas de direito constitucional. porém. cujo conteúdo é preenchido com os valores constitucionalmente consagrados (ex. A aplicação de normas constitucionais à actividade privada faz-se: a) através de normas de direito privado que reproduzem a seu conteúdo (ex. o juiz e os órgãos administrativos não devem aplicar normas inconstitucionais.: será nulo um contrato ou cláusula geral pela qual alguém se obrigue a professar ou a abandonar certa religião.: a protecção contra o uso incorrecto da informática.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Durante a sua vigência foram publicados alguns diplomas que alteraram o regime de algumas matérias nele disciplinadas: a) Lei do divórcio – 1910 b) Leis da família – 1911 c) Estabelecimento do registo civil obrigatório – 1911 d) Concordata com a Santa Sé – 1940 Antes da entrada em vigor do código civil de 1867 o principal diploma do nosso direito civil identifica-se com as ordenações filipinas (1603).

Carácter histórico desses princípios de ordenação sistemática interna. Artigo 66º n.: escravatura). 16. relações traduzidas em poderes (direitos) e deveres jurídicos «lato sensu». que fundamenta e retrata sinteticamente o direito civil actual. A personalidade jurídica.º 1 CC «Reconhece-se personalidade jurídica a todo o ser humano a partir do nascimento completo e com vida». Trata-se de um produto histórico. tendo como destinatário os seres humanos em convivência. Podemos considerar 7 ideias. Este quadro de princípios.O reconhecimento dos direito de personalidade jurídica de todos os seres humanos O direito só pode ser concebido.: leis-medida. do ponto de vista lógico.: associações. leis-providência. leis-provisão ou leis individuais). quer as normas que os aceitam e desenvolvem. o penetram e são por ele desenvolvidos: I – o reconhecimento da pessoa e dos direitos de personalidade II – o princípio da liberdade contratual III – a responsabilidade civil IV – a concessão da personalidade jurídica às pessoas colectivas V – a propriedade privada VI – a família VII – o fenómeno sucessório (2)O reconhecimento da pessoa e dos direitos de personalidade 17.A existência de princípios básicos do direito civil. Os seres humanos não são necessariamente. mas substancial ou material).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL normas aplicáveis a uma só situação ou a um conjunto de situações seriam normas inconstitucionais (ex. 18. pessoas em sentido jurídico (ex. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 9 . a sua susceptibilidade de direitos e obrigações. culturais e históricos que condicionam toda a organização da sociedade em cada momento e em cada lugar. princípios ou instituições que fundamentam o nosso actual direito civil. O princípio da igualdade impõe que o legislador não possa tratar arbitrariamente o essencialmente igual como desigual. Há uma ordenação dessas normas (a nível não apenas formal. sociedades. fundações). determinado pelos dados sociológicos.O reconhecimento de um círculo de direitos de personalidade A susceptibilidade de direitos e obrigações implica a titularidade real e efectiva de alguns direitos e obrigações. são elementos válidos numa dada circunstância espacial e temporal. A aplicação do direito civil a essa convivência humana desencadeia uma teia de relações jurídicas entre os homens. A autonomia e a igualdade como seus pressupostos actuais A massa das normas jurídicas não é um conjunto desordenado de preceitos avulsos. Bem se compreende que no nosso tempo não sofra discussão o reconhecimento dessa qualidade jurídica a todos os seres humanos. corresponde a uma condição indispensável da realização por cada homem dos seus fins ou interesses na vida com os outros. As pessoas em sentido jurídico não são necessariamente seres humanos (ex. não brotou por espontânea geração no solo da vida social de hoje. Quer os princípios conformadores do nosso actual modelo de direito civil. nem o essencialmente desigual arbitrariamente como igual. desprovidos de conexão uns com os outros.

honra. Este é um círculo de direitos necessários.negócios jurídicos bilaterais: constituído por duas ou mais declarações de vontade convergentes.negócios jurídicos unilaterais: perfaz-se com uma só declaração de vontade. os negócios jurídicos agrupam-se em duas classes: . manifesta-se. extinguindo-as e determinando o seu conteúdo. reserva sobre a intimidade da vida privada. o seu nome. imagem. na realização de negócios jurídicos. modificando-as. 10 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Cabe ao direito civil uma função de protecção ou defesa dos direitos constituídos ao abrigo da sua função modeladora.A liberdade contratual manifestação da autonomia da vontade no domínio dos contratos A produção de efeitos jurídicos resulta principalmente. É também a autonomia privada que se manifesta no poder de livre exercício dos seus direitos ou de livre gozo dos seus bens pelos particulares. um conteúdo mínimo e imprescindível da esfera jurídica de cada pessoa. podem todavia ser objecto de limitações voluntárias que não sejam contrárias aos princípios da ordem pública (artigo 81º). O negócio jurídico é um meio de actuação da autonomia privada. que se impõem ao respeito de todos os outros. Autonomia da vontade: o poder reconhecido aos particulares de auto-regulamentação dos seus interesses. Segundo ela. desde logo. O negócio jurídico é uma manifestação do princípio da vontade ou princípio da autonomia privada subjacente a todo o direito privado. cujos efeitos são produzidos por força da manifestação de uma intenção e em coincidência com o teor declarado dessa intenção. . b) nos negócios unilaterais modificativos vigora também o princípio da tipicidade. Os direitos de personalidade incidem sobre: a vida da pessoa. de actos de vontade. a sua saúde física. quando uma parte formula e comunica uma declaração de vontade (proposta) e a outra manifesta a sua anuência (aceitação). A autonomia privada é uma ideia fundamental deste ramo do direito. Negócios jurídicos: os actos jurídicos. Este autogoverno da sua esfera jurídica. Uma importante classificação dos negócios jurídicos é a resultante do critério do número e modo de disposição das declarações de vontade que os integram. que desencadeia uma punição estabelecida pelo código penal. no tocante à actuação humana juridicamente relevante. incidindo sobre os vários modos de ser físicos ou morais da sua personalidade. liberdade física e psicológica.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Direitos de personalidade: a pessoa é titular de um certo número de direitos absolutos. O direito protege os vários modos de ser físicos ou morais da personalidade. A violação de alguns desses aspectos da personalidade é até um facto ilícito criminal. Os direitos de personalidade são irrenunciáveis. Nos negócios unilaterais a autonomia da vontade está sujeita a muito maiores restrições do que nos contratos: a) os negócios unilaterais constitutivos de obrigações são apenas os que estiverem previstos na Lei (princípio da tipicidade). de actos pelos quais os particulares ditam a regulamentação das suas relações. constituindo-as. Os particulares podem estabelecer a ordenação das respectivas relações jurídicas. de autogoverno da sua esfera jurídica. (3)O princípio da liberdade contratual 19. tendentes à produção de um resultado jurídico unitário. integridade física. Só há negócio jurídico bilateral. A autonomia privada ou autonomia da vontade encontra os veículos da sua realização nos direitos subjectivos e na possibilidade de celebração de negócios jurídicos.

1 – Liberdade de celebração dos contratos: consiste na faculdade de livremente realizar contratos ou recusar a sua celebração. celebrados a nível de categorias económicas ou profissionais. têm de obedecer (contratos normativos). e) alguns contratos em especial estão necessariamente sujeitos a determinadas normas imperativas. c) na sujeição do contrato a autorização de outrem. b) são anuláveis em geral os chamados negócios usurários (artigo 282º. ou rejeita-as. A vende a B por 200. c) concluir contratos diferentes dos contratos expressamente disciplinados na lei (contratos atípicos). Uma das partes formula unilateralmente as cláusulas negociais e a outra parte aceita as condições.: cobrança de juros excessivos). Negócio de compra e venda + doação de 800).Aspectos contidos no princípio da liberdade contratual: a liberdade de conclusão ou celebração dos contratos e a liberdade de modelação do conteúdo contratual. Segundo tal princípio a ninguém pode ser impostos contratos contra a sua vontade ou aplicadas sanções por força de uma recusa de contratar nem a ninguém pode ser imposta a abstenção de contratar. celebrados entre pessoas pertencentes às referidas categorias. relativos aos deveres de prestação de serviços que impendem sobre os médicos).: estatuto da ordem dos médicos. aludidas no artigo 405º. 2 – Liberdade de modelação do conteúdo contratual: consiste na faculdade conferida aos contraentes de fixarem livremente o conteúdo dos contratos. d) a lei reconhece e admite certos contratos-tipo que. não sendo possível modificar o ordenamento negocial apresentado. Da norma citada emerge. eventualmente de uma autoridade pública. A liberdade de fixação ou modelação do conteúdo do contratos conhece também algumas restrições. c) a conduta das partes contratuais deve pautar-se pelo princípio da boa fé. b) na proibição de celebrar contratos com determinadas pessoas. contudo. pois os contratos de adesão Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 11 . Eis algumas dessas restrições: a) submete-se o contrato aos requisitos do artigo 280º (são nulos os contratos contrários à lei. contêm normas a que os contratos individuais.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 20. Esta disposição legal consagra apenas a liberdade de modelação ou liberdade de fixação ou estipulação do conteúdo contratual. o reconhecimento da liberdade de celebração ou conclusão dos contratos. Os contratos de adesão Artigo 405º do CC. b) celebrar contratos nominados aos quais acrescentam as cláusulas que lhes aprouver eventualmente conjugando-se 2 ou mais contratos diferentes (contratos mistos = ex. Uma importante limitação de ordem prática à liberdade de modelação do conteúdo contratual é a que se verifica nos chamados contratos de adesão. mediante adesão ao modelo ou impresso que lhe é apresentado. Simplesmente esta liberdade seria a de não satisfazer uma necessidade importante. As partes podem: a) realizar contratos com as características dos contratos previstos e regulados na lei (contratos típicos). ex. pelo que a recusa de contratar de uma das partes não impede a formação do contrato (ex.: x vale 1000. Restrições à liberdade de celebração dos contratos: a) na consagração de um dever jurídico de contratar. Teoricamente não há aqui restrições à liberdade de contratar. à ordem pública a aos bons costumes).

Nos contratos sucessórios. Nos contratos familiares. Liberdade contratual.Referência esquemática às principais disciplinados pelo direito das obrigações figuras e problemas O princípio da liberdade contratual tem no domínio dos contratos obrigacionais o seu campo de eleição. mesmo que lhe sejam desfavoráveis ou pouco equitativas – daí a restrição factual à liberdade de contratar. os factos jurídicos que dão origem ao vínculo obrigacional. Vantagens dos contratos de adesão: racionalização e normalização da actividade contratual dirigida a um número elevado e indeterminado de clientes. modificativos ou extintivos de direitos reais. Quanto a este. salvo algumas restrições. ou adopção são tipos contratuais rígidos. economia de mercado e economia planificada (pág. há liberdade de concluir ou não o respectivo contrato – é o pensamento da autonomia que subjaz e enforma o direito civil. O devedor não executa ou executa defeituosamente a prestação a que está adstrito. Daí que o particular. isto é. 21. isto é. a regra do nosso direito é a da proibição dos pactos sucessórios. impelido pela necessidade. isto é. Quanto à liberdade de fixação do conteúdo contratual ela está excluída no domínio dos contratos familiares pessoais. cujos efeitos estão preordenados na lei. O código civil regula as fontes das obrigações. os tribunais portugueses. O casamentos.Noção. 12 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . aceite as condições elaboradas pela outra parte. de um negócio unilateral – o testamento. como fez e continua a fazer a jurisprudência estrangeira.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL surgem normalmente em zona de comércio onde o fornecedor está em situação de monopólio ou quase monopólio. não podendo ser modificados pelas partes. constitutivos. não podem constituir direitos reais que se não integrem nos tipos previstos na lei (princípio da tipicidade). com eficácia no domínio das relações de família. 23. Considera como tais o contrato (artigo 405º). quase sempre. a gestão de negócios (artigo 464º). há liberdade de celebração. Na ausência de legislação específica. Obrigação ou direito de crédito: é o vínculo jurídico por virtude do qual uma pessoa fica adstrita para com outra à realização de uma prestação. o enriquecimento sem causa (artigo 473º) e a responsabilidade civil (artigo 483º). A sucessão voluntária resulta. Características gerais Na vida social os comportamentos adoptados por uma pessoa causam muitas vezes prejuízos a outrem. há liberdade de celebração e liberdade de fixação do conteúdo. perfilhação. devem considerar nulas certas cláusulas abusivas contidas em contratos de adesão. mas a liberdade de fixação do conteúdo contratual sofre um importante restrição. só se derrogando esta regra em casos limitadíssimos (artigo 1700º). Os contraentes.O princípio da liberdade contratual e o sistema económico e social. podendo embora celebrar contratos inominados. o negócio unilateral (artigo 457º).109) (4)A responsabilidade civil 24. um indivíduo destroi uma coisa de outrem.Domínio principal de aplicação da liberdade contratual: os contratos obrigacionais Nos contratos com eficácia real. o condutor de um veículo atropela um transeunte. 22.

honra. a reposição do lesão na situação em que estaria sem o facto lesivo terá lugar mediante uma indemnização em dinheiro ou por equivalente (restituição por equivalente). Ao lado da responsabilidade civil deve considerar-se a responsabilidade criminal. liberdade.º 1). Esta pode resultar da existência de uma intenção de causar um dano violando uma proibição (dolo) ou da omissão dos deveres de cuidado. e o lucro cessante. diligência ou perícia exigíveis para evitar o dano (negligência). No dano patrimonial estão compreendidos o dano emergente. mesmo quando esta for possível. Não sendo estes prejuízos avaliáveis em dinheiro. mostrando-lhes como a sociedade reage ao crime (prevenção geral). compensá-lo mediante satisfações derivadas da utilização do dinheiro. sem dano o lesado.º 1). através do surgimento da obrigação de indemnização. Esta indemnização é a hipótese largamente maioritária. isto é. a atribuição de uma soma pecuniária correspondente legitima-se. Devem verificar-se outros pressupostos para o surgimento da responsabilidade civil: 1 – Necessário se torna que o facto seja ilícito. Mas é possível contrabalançar o dano.de impedir o próprio infractor de cometer novas infracções (prevenção especial). 2 – Nexo de causalidade entre facto e dano. insuficiente ou excessivamente onerosa. o prejuízo imediato sofrido pelo lesado. Esta reconstitução da situação inicial deve em principio ter lugar mediante uma reconstituição natural. quer dizer. Os interesses cuja lesão desencadeia um dano não patrimonial são infungíveis. as vantagens que deixaram de entrar no património do lesado em consequência da lesão (artigo 564º n. saúde. A responsabilidade civil actua. ofendida pelo facto ilícito criminal. não podem ser reintegrados mesmo por equivalente. mas pela de compensação. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 13 . reputação). pois raramente o lesado ficará completamente indemnizado com a reconstituição natural. pela sua gravidade. .na produção de um mal a sofrer pelo agente criminoso. violador de direitos subjectivos ou interesses alheios tutelados por uma disposição legal.de intimidar as outras pessoas. tranquilidade.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Deverá o prejuízo ficar a cargo da pessoa em cuja esfera jurídica ele foi produzido ou deverá antes impor-se a obrigação do seu ressarcimento à pessoa cujo comportamento provocou uma lesão na esfera de outrem? A responsabilidade civil depara-se-nos quando a lei impõe ao autor de certos factos ou ao beneficiário de certa actividade a obrigação de reparar os danos causados a outrem. não pela ideia de indemnização ou reconstituição. visa colocar a vítima na situação em que estaria sem a ocorrência do facto danoso. A pena traduz-se: . mereçam tutela do direito (artigo 496º n. específica ou por equivalente. Estes danos não patrimoniais resultam da lesão de bens estranhos ao património do lesado (a integridade física. bem-estar. ou seja. Responsabilidade criminal: visa satisfazer interesses da comunidade. Esta tem precisamente em vista tornar indemne. . Responsabilidade civil: consiste na necessidade imposta pela lei a quem causa prejuízos a outrem de colocar o ofendido na situação em que estaria sem a lesão (artigo 483º e 562º). isto é. com a finalidade de retribuir o mal causado à sociedade com a infracção (retribuição). Quando a reconstituição natural for impossível. Responsabilidade civil: dirige-se à restauração. Culpa: reprovação ou censura da conduta desrespeitadora dos interesses tutelados pelo direito. O direito civil português manda atender também na fixação da indemnização aos danos não patrimoniais (danos morais) que. dos interesses individuais lesados. 3 – Facto lesivo.

Responsabilidade contratual: originada pela violação de um direito de crédito ou obrigação em sentido técnico. É essa a solução pelas razões seguintes: qua non» da a) a segurança que a responsabilidade objectiva confere às potenciais vítimas de danos. b) substituir ao directamente lesado o autor não culposo do prejuízo. é neutralizada pela paralisação de iniciativas que a ponderação das possibilidades de dano produzirá no homem em acção.A personalidade colectiva e os tipos de pessoas colectivas Ao lado da personalidade jurídica reconhecida a todas as pessoas singulares. 14 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados .Responsabilidade contratual e extra-contratual. Pretende-se em tais casos compensar o sacrifício de um interesse menos valorado na composição de um conflito teleológico. verificados certos requisitos. Trata-se de domínios em que o homem tira partido de actividades que. ibi incommoda»). No núcleo da responsabilidade jurídica estará assim a ideia de responsabilidade moral. protegendo os bens dos indivíduos contra quaisquer lesões decorrentes da actividade de outrem. cria para os outros riscos acrescentados é justo por a cargo daquele a indemnização dos danos originados pelas suas actividades lucrativas («ubi commoda. pelo risco e por actos lícitos. O nosso sistema jurídico admite. assim se estimulando zelos e cuidados em impedi-los. Ex. danos causados por instalações de energia eléctrica ou gás (509º). com carácter excepcional. c) exigir a culpa do sujeito é fazer apelo à liberdade moral do homem e é apresentar os danos como consequências evitáveis. porque uma prevalência absoluta e total do interesse oposto seria injusta. O nosso sistema jurídico opta pela responsabilidade subjectiva. passagem forçada. Se alguém. Apesar do carácter conforme ao direito da actuação do sujeito.Responsabilidade por actos ilícitos. potenciando as suas possibilidades de lucro. Esta pertence ao domínio da consciência e dos deveres do homem para consigo próprio. em sentido lato. tem 3 modalidades fundamentais: a) associações: colectividades de pessoas que não têm por fim o lucro económico dos associados. também. Pessoas colectivas: são colectividades de pessoas ou complexos patrimoniais organizados em vista de um fim comum ou colectivo a que o ordenamento jurídico atribui a qualidade de sujeitos de direitos. A pessoa colectiva.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 25. atribui personalidade jurídica às chamadas pessoas colectivas. alguns casos contados de responsabilidade por actos lícitos ou intervenções lícitas. importam um aumento de risco para os outros. acidentes causados por veículos de circulação terrestre (503º). Responsabilidade extra-contratual: resulta da violação de um dever geral de abstenção contraposto a um direito absoluto.: danos causados por animais (502º). Compreende-se a exigência da culpa como «conditio sine responsabilidade. 26. Responsabilidade pelo risco é consagrada em algumas hipóteses especiais. o nosso direito civil. pareceu excessivo não dar à pessoa sacrificada uma reparação. Exs: responsabilidade emergente de certos casos de estado de necessidade. (5)A concessão de personalidade jurídica às pessoas colectivas 27. criando para si uma possibilidade de lucro.

em ordem à realização de fins jurídicos. (6)A propriedade privada 29. de submeter os poderes dos homens sobre as coisas à sua disciplina.131) Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 15 . c) sociedades: conjunto de pessoas que contribuem com bens ou serviços para o exercício de uma actividade económica dirigida à obtenção de lucros e à sua distribuição pelos sócios. A detenção. Constitui missão fundamental do direito. Seria impossível a vida em comum. e procurando este subtrair-se ao império das necessidades. um operador para a polarização das relações jurídicas ligadas à realização de certo fim colectivo. 30. seria inevitável a luta pela sua apropriação. uma forma.O problema do domínio sobre os bens como problema fundamental de uma sociedade No desenvolvimento da sua vida o homem serve-se das coisas.Fenomenologia da propriedade ao longo da história e no momento actual (pág. Enquanto as pessoas são fins em si mesmas. mas é a consequência. Teoria organicista: a personalidade jurídica não resulta de uma concessão discricionária do legislador. da existência de um organismo real. Doutrina: Teoria da ficção: a lei. imposta pela natureza das coisas. Sendo os bens escassos em relação às necessidades sentidas pelo homem. pelas concepções ético-jurídicas de tipo humanista hoje vigentes. o uso e a disposição das coisas permite ao homem satisfazer necessidade fundamentais ou secundárias e potencia a sua possibilidade real de se propor determinadas finalidades e de escolher entre várias vias para a realização desses fins. A criação de um autónomo centro de imputação das relações jurídicas ligadas à realização desses interesses permite uma mais fácil e eficaz consecução do escopo visado. as coisas são meios ao serviço dos fins das pessoas. Teria que ser defendido com a força do seu titular. ao estabelecer a personalidade jurídica das pessoas colectivas. O homem tem necessidades de se servir das coisas como condição da sua sobrevivência e do seu progresso. utilizando-as para satisfazer as suas necessidade e para conseguir os seus fins. por absurdo. estaria a proceder como se as pessoas colectivas fossem pessoas singulares.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL b) fundações: complexos patrimoniais ou massas de bens afectados por uma liberalidade à prossecução de uma finalidade estabelecida pelo fundador ou em harmonia com a sua vontade. se o direito se desinteressasse. Mas.Natureza da personalidade colectiva A existência de pessoas colectivas resulta da existência de interesses humanos comuns. 28. A personalidade jurídicas das pessoas colectivas é uma criação do espírito humano no campo do direito. o poder de facto sobre as coisas não se impunha ao respeito das outras pessoas. A personalidade jurídica dos indivíduos: é imposta. A personalidade jurídica das pessoas colectivas: é uma mecanismo técnico-jurídico – um modelo. organizar os poderes dos homens sobre as coisas e o conteúdo das relações entre os homens a respeito das coisas. como uma exigência forçosa da dignidade da pessoa humana e do direito ao respeito inerente a todo o ser humano.

em planos ou domínios da vida estranhos ao plano jurídico. atentas as seguintes razões: a) a ordenação concreta e institucional da família. (7)A família 33.º 1 da CRP. lealdade. desde logo. completa. Ex.A família. uso. O surgimento e a vida da família realizam-se e assentam numa série de comportamentos pessoais e realidades psicológicas e morais. superfícies. servidões prediais. A disciplina da instituição familiar impõe. por vezes. disciplinar com justiça e certeza a posição dos sujeitos. em situações de crise. o de conteúdo pleno e polimórfico.Características do direito de propriedade no nosso sistema jurídico A tutela constitucional da propriedade privada está expressamente consagrada no artigo 62º n. cuja existência material. O direito da propriedade é dotado de uma certa elasticidade – extinto um direito real que limite a propriedade da coisa. duma coisa e. de comportamentos: amor. psicológica e moral se manifesta. precisa e completa do regime jurídico correspondente.: penhor. de adquirir uma coisa. uso. não contém uma disciplina de todos os problemas respectivos em termos acabados e categóricos. aceita e considera. amizade.Os direitos reais limitados A propriedade é o direito real máximo. facilita o fluente curso da vida familiar e permite. que o direito reconhece. não pode a lei deixar de considerar essa realidade e esse mundo de relações. hipoteca. mesmo que aceite pelo legislador. vinca mais vivamente o sentimento dos deveres e direitos dos membros da família. O proprietário tem poderes indeterminados. habitação. como realidade natural e social. 16 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Direitos reais limitados: toda uma série de direitos reais de conteúdo ou estrutura bem diversa e ao serviço de funções ou interesses de natureza diferenciada. Não conferem a plenitude dos poderes sobre uma coisa. solidariedade. total ou parcial. Direitos reais de garantia: conferem o poder de um credor obter o pagamento da dívida de que é titular activo. vida em comum. Ex. Direitos reais de gozo: aqueles que conferem um poder de utilização. estabelecendo sobre este o manto de uma disciplina. Ex.: usufruto. tornando-se necessária uma formulação certa. Apesar da família na sua concreta e natural existência no seio da vida social conter uma ordenação íntima. A sua qualificação como um direito perpétuo não o deixa poder extinguir-se pelo não 32. perante o direito legislado Família: realidade natural e social. também o de apropriação dos frutos que a coisa produza. São direitos sobre coisa alheia. Direitos reais de aquisição: conferem a um determinado indivíduo a possibilidade de se apropriar de uma coisa. c) pode o Estado visar uma modificação da disciplina da família para um sentido diverso do correspondente ao direito vivido espontaneamente na realidade social. b) a consagração legislativa de um regime. confiança. tanto quanto possível.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 31. reconstitui-se a plenitude da propriedade sobre ela. Não se limitam os poderes do proprietário senão através das concretas restrições pela lei impostas. ao formular a sua regulamentação da instituição familiar.

O destino das relações jurídicas após a morte do seu titular Põe-se em qualquer comunidade o problema de saber qual o destino das relações jurídicas existentes na titularidade de uma pessoa singular após a morte desta. por ser destinada por lei aos referidos herdeiros. Artigo 2133º a) cônjuge e descendentes b) cônjuge e ascendentes c) irmãos e seus descendentes d) outros colaterais até ao quarto grau e) Estado Sucessão legitimária: consiste no chamamento dos herdeiros legitimários à sucessão na chamada legítima. 34.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL O direito da família é caracterizado por uma acentuado predomínio de normas imperativas. (8)O fenómeno sucessório ou sucessão por morte 35. uma fonte de riscos para os credores. isto é. 36. uma coexistência da ordem jurídica estadual e da canónica. num acto unilateral e revogável pelo qual um indivíduo dispõe de todos os seus bens ou parte deles para depois da morte. continua a verificar-se. Razões de relevante conveniência social tornam contra-indicado um regime de extinção de todas as relações jurídicas no momento da morte do seu titular. Fenómeno sucessório: é o chamamento de uma ou mais pessoas à titularidade das relações patrimoniais de uma pessoa falecida e a consequente devolução dos bens que a esta pertenciam. no todo ou em parte. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 17 . preferindo dentro de cada classe os parentes de grau mais próximo aos de grau mais afastado.Referência sumária ao direito sucessório português Sucessão legítima: consiste no chamamento dos herdeiros legítimos à sucessão. isto é. As justificações apresentadas para a sucessão legitimária são as que ressaltam da descrição das duas linhas evolutivas: a) a conservação na família de um património. Sucessão testamentária: consiste no chamamento à sucessão dos herdeiros designados em testamento. seria um contra-estímulo às actividades e iniciativas de caracter patrimonial das pessoas. mesmo para além da morte. É um direito institucional. b) cumprimento do dever moral de assistência recíproca entre familiares. para que todos em maior ou menor medida concorreram. quanto à disciplina de acto matrimonial. e que assegura a permanência e coesão do agregado familiar. o prejuízo dos credores por morte do devedor e a vacatura ou a aquisição pelo Estado dos bens do falecido. uma causa de litígios e perturbação da paz social. Na ordem jurídica portuguesa.Referência sumária ao direito da família português Ao direito da família continua a dedicar o código civil um livro – o livro IV. Tal regime. implicando a exoneração dos devedores à morte do seu credor. por o autor da sucessão não ter disposto válida e eficazmente. O chamamento faz-se por ordem de classes sucessíveis. dos seus bens. numa porção de bens que o testador não pode dispor. A transmissão das relações jurídicas patrimoniais para outra pessoa por força da morte do seu titular é reconhecida pelos sistemas jurídicos na actualidade e ao longo da historia.

mas evidencia as diferenças. o direito subjectivo identifica-se com o interesse visado. 38. normalmente a de estarem integradas no mesmo mecanismo jurídico ou ao serviço da mesma função. adoptado pelo direito. O direito subjectivo engloba duas modalidade fundamentais: a) os direitos subjectivos propriamente ditos: consiste no poder de exigir ou pretender de outrem um determinado comportamento positivo ou negativo. Uma situação de abuso de direito: verifica-se quando há desconformidade entre imagem estrutural do direito e entre a função atribuída ao direito.Estrutura da relação jurídica (cont. reflectindo o elemento funcional. ORLANDO DE CARVALHO não concorda e defende que abuso de direito: é quando um direito está a ser usado por um sujeito para causar prejuízo a outro sujeito. Para a doutrina em geral o abuso de direito: é quando alguém usa o direito de forma clamorosamente injusta. Última hipótese de averiguar se o acto é ilícito. que consiste na concreta situação de poder que faculta a uma pessoa em sentido jurídico intervir autonomamente na esfera jurídica de outrem». disciplinada pelo direito. produzir determinados efeitos jurídicos que inevitavelmente se impõem a outra pessoa. portanto. promana de um facto jurídico. produtiva de efeitos jurídicos e. Em sentido restrito ou técnico: é a relação da vida social disciplinada pelo direito.): direitos subjectivos propriamente ditos e potestativos Direito subjectivo: poder jurídico (reconhecido pela ordem jurídica a uma pessoa) de livremente exigir ou pretender de outrem um comportamento positivo ou negativo ou de por um acto de livre vontade. Direito subjectivo (em sentido amplo): «mecanismo de regulamentação. a sua efectivação pode fazer-se através de uma garantia (ex.Estrutura da relação jurídica (enunciado geral) Toda a relação jurídica existe entre sujeitos. Instituto jurídico: conjunto de normas legais que estabelecem a disciplina de uma série de relações jurídicas em sentido abstracto. Esta forma “clamorosamente injusta” é identificada por um controlo extra-jurídico feito através dos tribunais.: providências coercitivas). incidirá normalmente sobre um objecto. mas de poderes-deveres. Preliminares 37.Conceito de relação jurídica Em sentido amplo: é toda a relação da vida social relevante para o direito. Isto faz com que desapareça a liberdade característica do direito subjectivo. Este aspecto funcional repercute-se na estrutura do direito. ligadas por uma afinidade. só de per si ou integrado por um acto livre de autoridade pública. 18 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . mediante atribuição a uma pessoa de um direito subjectivo e a imposição a outra pessoa de um dever jurídico ou de uma sujeição. pois não se trata de poderes de livremente exigir um comportamento. Em termos funcionais. Quer dizer: a consideração exclusiva do aspecto estrutural não nos evidencia a razão de certas diferenças.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL PARTE II Teoria geral da relação jurídica. O direito subjectivo está dependente da vontade do seu titular. isto é. Abuso de direito Extrema ratio da verificação da ilicitude. 39.

direito potestativo: inevitabilidade de consequências jurídicas que criam. .direitos da pessoa: direitos de personalidade. b) Atende-se a relações intrínsecas ou extrínsecas relacionadas com certos estados em que as pessoas de encontram.: só se tem direitos de pai se se tiver um filho . .disponível: pode transferir (ex.relativo: imposto a pessoas certas e determinadas (ex. . recorrendo à autoridade pública. . ser reposto. .Critério estrutural . personalidade. transferir para outra pessoa . . d) Atende-se aos titulares passivos. Tipos de direitos subjectivos (lado activo) . pode obter dos tribunais e autoridades subordinadas a estes providências coercitivas aptas a satisfazer o seu interesse.: crédito). de crédito. .não essenciais: c) Atende-se à natureza dos bens em jogo . Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 19 .TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Contrapõe-se-lhe o dever jurídico da contraparte – um dever de «facere» ou de «non facere». família. Dever jurídico: é a necessidade de realizar o comportamento a que tem direito o titular activo da relação jurídica. reais.: direito de autor ou ao nome.: direito de propriedade). ao menos por equivalente.indisponível: não pode transferir (ex.direitos subjectivos (sentido estrito) . a quem o direito se impõe .direitos de personalidade: sobre a própria pessoa.pessoais: não é susceptível de ser transformado em dinheiro. . Excepção: direitos sobre outras pessoas. na situação lesada ou obter outras sanções.direitos reais: incidem sobre coisas.essenciais: a pessoa não pode ser privada desses direitos sem se privar de certos estados. potestativos.: direitos pessoais sobretudo essenciais). e) Atende-se à possibilidade do sujeito se desligar do direito. reais.inatos: existem desde o nascimento. Poder de exigir ou pretender: se a contraparte não cumpre o dever jurídico a que está adstrita. impõe “erga omnes” (ex.Critério institucional .: direitos patrimoniais). o objecto do direito é a própria pessoa titular do direito de personalidade. Classificação dos direitos subjectivos: a) Atende-se à ligação intrínseca ou extrínseca entre pessoas . Exs: direitos de crédito. . Ex.natos: adquirem-se quando o sujeito faz algo que é tutelável pelo direito.patrimoniais: são susceptíveis de os bens em causa serem redutíveis a bem pecuniário. poderes directos e imediatos sobre uma coisa.direitos de crédito: trata-se/impõem a pessoas certas e determinadas.absoluto: imposto à colectividade. Ex. O titular do direito pode. Ex.: direitos de personalidade.

Faculdades jurídicas secundárias: «poderes ou faculdades que constituem manifestações ou irradiações de direitos subjectivos existentes». direitos potestativos: modificativo. b) direitos potestativos modificativos: tendem a produzir uma simples modificação numa relação jurídica existente e que continuará a existir. trata-se de uma necessidade inelutável. Sujeição: situação de necessidade em que se encontra o adversário de ver produzir-se forçosamente uma consequência na sua esfera jurídica por mero efeito do exercício do direito pelo seu titular. b) os direitos potestativos: são poderes jurídicos de. Ex. Ex.direitos das obrigações: direitos de crédito – para o tráfego de bens direitos potestativos – resolver/revogar negócio direitos reais de garantia direitos das coisas – tratam ordenação de domínios das coisas.: o direito potestativo dirigido à constituição de uma servidão em beneficio de um prédio encravado. expondo-se embora a sanções. por um acto unilateral do seu titular. não pode deixar de produzir esse efeito.sujeição a um determinado direito potestativo. Sujeições: situação de necessidade inelutável. Direitos relativos: quando os deveres jurídicos impendem sobre uma ou mais pessoas determinadas. o sujeito do dever. em que está constituído o adversário do titular de um direito potestativo. modificativas ou extintivas do exercício daquele direito. No dever jurídico. produzir efeitos jurídicos que inelutavelmente se impõem à contraparte. a) direitos potestativos constitutivos: produzem a constituição de uma relação jurídica.: mudança de servidão para outro sítio. mesmo sem ou contra a vontade do proprietário do prédio confinante. .TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL .dever jurídico: necessidade de adoptar determinado comportamento. 20 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados .direitos sucessórios: sucessão mortis causa direito potestativo – a aceitação da herança direito crédito – dívidas da herança direitos reais – aquisição propriedade Tipos de direitos subjectivos (lado passivo em sentido estrito) . embora modificada. Exs: constituição da servidão de passagem em benefício do prédio encravado (1550º). extintivo direitos de crédito: dos cônjuges direitos reais: bens do casamento . Faculdades jurídicas primárias: «faculdades ou poderes em que se desdobra o poder de autodeterminação e através dos quais a pessoa se transforma em sujeito de efectivas relações jurídicas civis». O sujeitado não pode violar ou infringir a sua situação. de suportar na sua esfera jurídica as consequências constitutivas.direitos da família: que se desenvolvem em torno da instituição familiar. Direitos absolutos: quando se impõem a todas as pessoas. . o dever jurídico e a sujeição O lado passivo da relação jurídica: traduz-se num dever jurídico ou numa sujeição. c) direitos potestativos extintivos: tendem a produzir a extinção de uma relação jurídica existente. diversamente do dever jurídico. tem a possibilidade prática de não cumprir. só de per si ou integrado por uma decisão judicial. Aqui.).Estrutura da relação jurídica (cont. 40. por um acto livre de vontade.

Tratando-se de relações emergentes de um contrato obrigacional.singular: apenas uma pessoa ocupa o local de sujeito activo.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Estado de sujeição: o sujeitado suporta as consequências de um direito. modos de ser da própria pessoa e outros direitos..plural: mais do que uma pessoa em qualquer dos lados. própria das relações jurídicas. embalá-la. Ónus: necessidade de adopção de um comportamento para realização de um interesse próprio. promover o seu transporte). São os titulares do direito subjectivo e das posições passivas correspondentes: dever jurídico ou sujeição.plurilateral: várias frentes de interesses (ex.: o do vendedor de guardar a máquina. Expectativa jurídica: a situação activa. deveres laterais (ex. juridicamente tutelada. esse quadro.Elementos da relação jurídica: sujeitos. Podem ser objecto de relações jurídicas outras pessoas. No dever jurídico o obrigado «deve». em caso de infracção. 41. deveres acessórios (ex. correspondente a um estádio dum processo complexo e formação sucessiva de um direito. eventuais direitos a uma indemnização por força de um não cumprimento.g. Facto jurídico: é todo o facto produtivo de efeitos jurídicos. contra pólo do exercício de um direito potestativo.bilateral: apenas duas partes/pólos de interesses (ex. o vínculo respectivo. objecto. direitos potestativos (ex. perspectiva estática . . O facto jurídico tem um papel condicionante do surgimento da relação. facto jurídico e garantia Sujeitos: são as pessoas entre quem se estabelece o enlace. v. Os sujeitos são pessoas pois a personalidade jurídica é precisamente a susceptibilidade de ser titular de direitos e de obrigações. . a susceptibilidade de ser titular de relações jurídicas. Trata-se da possibilidade. Assim.: de resolução ou modificação do contrato).: contrato de sociedade). .Estrutura da relação jurídica: relação jurídica simples ou singular e complexa Relação jurídica complexa: uma série de direitos subjectivos e deveres ou sujeições conexionadas ou unificadas por um qualquer aspecto. ou para impedir uma violação receada. a relação formada entre comprador e vendedor de uma máquina não é só constituída pelo dever de pagar o preço e pelo correlativo direito ao preço. coisas corpóreas ou incorpóreas. Objecto: é aquilo sobre que incide os poderes do titular da relação. O devedor do preço é simultaneamente credor da entrega da máquina e existem outros vínculos entre as partes do contrato.: o de informar sobre as condições do funcionamento da máquina).: contrato de arrendamento). Estes formam o conteúdo da relação jurídica. numa posição recíproca de instrumentalidade e interdependência. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 21 . em ordem a obter satisfação do seu direito. postas à disposição do titular activo de uma relação jurídica. 42. de o seu titular activo por em movimento o aparelho sancionatório estadual para reintegrar a situação correspondente ao seu direito. Espécies de relações jurídicas. é uma condição ou pressuposto da sua existência. No ónus o onerado «precisa de». é uma relação obrigacional em sentido amplo ou relação obrigacional complexa. Garantia: é o conjunto de providências coercitivas.

. passivo (-). relações patrimoniais dependentes da filiação).: o ónus da prova recai sobre o lesante. que coenvolve todas as relações jurídicas activas e passivas que se centram num sujeito (como todo o sujeito. normalmente) em que uma delas (a acessória) é meramente instrumental em ordem à outra (a principal). penhor. Neste sentido.: casamento. Património global: conjunto de relações jurídicas activas e passivas avaliáveis em dinheiro de que uma pessoa é titular. valor sempre maior ou igual a zero (0). é uma combinação horizontal. pertencentes a uma pessoa. nas pessoas stricto sensu -. . estrutura linear. extinguindo-se quando a relação creditícia se extingue. o interesse não é satisfeito mas não há sanção sobre o onerado.autónomas: não depende de outras relações jurídicas. Património: conjunto de relações jurídicas de carácter patrimonial. 22 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados .TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL .simples: aquela que pressupõe sujeito activo (com direito) e passivo (com dever). Património ilíquido: conjunto de direitos avaliáveis em dinheiro. Duas combinações de relações jurídicas: a) Acessoriedade: combinação de relações jurídicas (duas. É o caso das relações de garantia especial das obrigações (tanto pessoais: fiança e subfiança.complexas: situação mais vulgar. sem descontar o passivo. nas pessoas humanas. indefectível em todos os sujeitos ou pessoas em sentido jurídico: e a esfera jurídica. abstraindo das obrigações. se não se adoptar o comportamento. hipoteca. privilégios creditórios e direitos de retenção). .: constituição de uma sociedade). Dependem do direito de crédito.duradouras: têm como cerne os direitos de personalidade. sendo nesta zona que devem localizar-se figuras que vulgarmente se deslocam para outras regiões (ex. desenvolvendo uma estrutura de suprainfra-ordenação. é maior. Ónus: necessidade de adoptar determinado comportamento para alcançar determinado interesse. Há uma combinação pertinencial necessária. registo predial não é obrigatório mas quem não o fizer tem desvantagens. b) Pertinência: combinação de relações jurídicas através do seu ennucleamento comum em certo pólo (em regra. Combinações de relações jurídicas As relações jurídicas podem combinar-se entre si. ao activo tira-se o passivo. um facto jurídico que faz surgir à sua volta um enredo enorme (ex.instantâneas: esgotam-se num único momento temporal embora os seus efeitos se projectem para o futuro (ex. que se localiza erradamente na teoria das coisas e dos objectos). como reais: consignação de rendimentos. . é uma combinação vertical. toda a pessoa tem esfera jurídica). Neste sentido. uma pessoa).: doação). todo o activo e passivo de determinada pessoa. Património líquido: saldo patrimonial. . desenhando uma estrutura circular ou esférica. ficando em face dela em posição de dependência. pelo facto de o ser.: a noção de património. Ex. O património de cada 1 é um círculo mais pequeno dentro da grande esfera jurídica de cada um. ou as relações intrassociais ou reais. igual ou menor que zero (0).não autónomas: dependem de outras relações jurídicas (ex. tem um mínimo de relações jurídicas as relações inatas. activo (+).

Exemplos de aquisição de direitos derivada: . depende do facto aquisitivo bem como do direito anterior (quanto à amplitude. em virtude da conhecida elasticidade ou força expansiva do direito de propriedade. a plenitude dos seus poderes. e tal é. Pode suceder também que preexistisse à aquisição o direito dum titular anterior.translativas: um direito que se adquire coincide com o direito do anterior titular (A doa a B.geral: todo o património está afecto a obrigações.restitutivas: a hipótese de o titular de um direito real limitado se demitir dele. B vê o seu direito de propriedade limitado embora continue a existir. . Pode ser que não preexistisse à aquisição de qualquer direito dum anterior titular (ex. Havendo aquisição não implica constituição. que mudam apenas de titular. sucessória. havendo entre os 2 fenómenos um nexo causal e não meramente cronológico. Ex. Por qualquer razão extingue-se o direito filial e o direito progenitor expande-se. B adquire um direito já constituído. .especial: que se destina apenas a satisfazer certos encargos. B adquire o direito de A tal e qual). Perspectiva dinâmica Processos fundamentais: . o caso normal. contratual.aquisição de móveis.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Afectação: . Apenas houve mudança de titular. O direito do adquirente será um direito novo da mesma natureza e conteúdo que o direito extinto. dois direitos sobre o mesmo objecto). ainda que porventura sobre a base de um direito anterior. É acompanhada da extinção subjectiva do direito do anterior titular ou da sua limitação ou compressão. Alguma doutrina considera que não há constituição de direitos sem aquisição. de resto. o direito não depende juridicamente/genericamente do facto anterior mas sim do facto aquisitivo. O objecto é o mesmo. .: ocupação de coisas móveis abandonadas ou que nunca tiveram dono). Na aquisição derivada intervém portanto uma relação entre o titular anterior e o novo. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 23 . . volta a adquirir a dimensão inicial uma vez que deixa de estar reprimido.constituição de direitos: trata-se sempre de direitos que surgem ex novo. Aquisição derivada: pressupõe um direito do anterior titular (o mesmo ou outro mais amplo). Exemplos de aquisição de direitos originária: 1318º . o proprietário. Ou transmissão parcial do direito (A tem terreno de 1000 m2 e vende apenas 500 m2). pode versar também sobre direitos preexistentes. recuperando assim.aquisição de direitos: pode-se ter por objecto direitos que surjam ex novo.: A doa a B. Mas o direito do adquirente não se filia no do titular anterior.constitutivas: adquire um direito ex novo mas o seu conteúdo cabe no direito anterior (A adquire direito de usufruto a B. Aquisição originária: um direito surge ex novo. Não pode ser mais amplo que o anterior). A maior parte dos casos não implica constituição. direito que se extinguiu ou ficou limitado ou comprimido em virtude da aquisição. unilateral ou contratualmente.

91. Esses efeitos jurídicos consistem fundamentalmente numa aquisição. A sucessão diz respeito também às dívidas e não só aos direitos. sendo o acto plenamente eficaz «inter partes». mesmo na falta de registo. seus herdeiros ou representantes. Constituição de direitos: é o seu surgimento. Coincide com a aquisição derivada translativa. mas depende ainda da amplitude do direito do transmitente.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Espécies de relações jurídicas. Sucessão: é o subingresso de uma pessoa na titularidade de todas as relações jurídicas ou determinada ou determinadas relações jurídicas de outrem. a) dos institutos do registo predial. O registo não é o meio de aquisição dos direitos. pois a sua venda a Bia é plenamente válida e eficaz «inter partes». a extensão do direito adquirido depende apenas do facto ou título aquisitivo. Logo. Este princípio caracterizador da aquisição derivada comporta. é a criação de um direito que não existia anteriormente. modificação e extinção de relações jurídicas 89.: se Abel vendeu um prédio ou automóvel a Bia e de pois a Caca. modificação ou extinção de relações jurídicas. o adquirente. Noção de terceiros para efeitos de registo predial: são as pessoas que do mesmo autor ou transmitente adquiram direitos incompatíveis (total ou parcialmente) sobre o mesmo prédio. perspectiva estática (II)Aquisição. a extensão do direito do adquirente depende do conteúdo do facto aquisitivo. Por força destes institutos devem ser inscritos. a veículos automóveis ou aos restantes bens indicados. Estas excepções significam que. embora Abel já não fosse o verdadeiro proprietário. 90. em certas hipóteses. com o fim de lhes dar publicidade. navios. Toda a constituição de um direito implica a sua aquisição. do registo de automóveis e registos similares (aeronaves. Ex. verifica-se uma excepção ao princípio. Modalidades desta última Um direito é adquirido por uma pessoa quando esta se torna titular dele. A consequência da falta de registo é a ineficácia do acto em relação a terceiros. pode obter um direito que não pertencia ao transmitente ou é mais amplo do que aqueles que pertenciam a este. excepções. Na aquisição derivada. Bia e Caca são terceiros entre si e prevalece a venda a Caca. Aquisição originária e derivada. em livros existentes em repartições especiais (conservatórias no caso do registo predial e automóvel). pois só nesta é que o direito adquirido é o mesmo do anterior titular. em particular os actos de que resulte a aquisição de direitos reais sobre os mesmos bens.Conceito e modalidade de aquisição de direitos. Aquisição de direitos: é a ligação de um direito a uma pessoa. se este não existia na titularidade do transmitente (A). se foi primeiramente registada. os diversos actos inerentes a bens imóveis. segundo o qual na aquisição derivada o adquirente (C) não pode adquirir um direito. dado não existirem direitos sem sujeito. não podendo em regra ser maior que a deste direito (nemo plus juris in alium transferre potest quam ipse habet). Impõe-se distinguir entre aquisição derivada e sucessão. todavia. não obstante a aquisição ser derivada.Preliminares Os facto jurídicos desencadeiam determinados efeitos.Importância da distinção entre aquisição derivada e originária Na aquisição originária. 24 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . quotas sociais).

É preciso que tenham passado pelo menos 3 anos desde o negócio inválido sem que tenha sido intentada uma acção com vista à sua invalidade. se A transmitiu. pressupõe meios (equipas técnicas. fé. aquele que desconhecia e não tinha a obrigação de saber. por negócio nulo ou anulável. Em Portugal não há «registo de bens» mas sim «aquisições de direitos» sobre bens. vender ou doar. a protecção do terceiro de boa fé. adquirentes a título oneroso.. a hipoteca (687º) é constitutivo. Efeito automático: o registo da aquisição de um direito em nome próprio faz com que se pressuponha a titularidade do direito (mesmo assim trata-se de uma presunção ilidível). regista-se aquilo que se diz adquirir Sistema de registo constitutivo: para se adquirir o direito tem que se registar. das nulidade e anulações de negócios respeitantes a imóveis ou moveis sujeitos a registo. o mesmo prédio a um terceiro e este ignorar a simulação. Princípio do trato sucessivo: um registo só pode ser feito havendo registo anterior do transmitente (A -> B -> C. de quem não era proprietário. Isto porque as nulidades e anulações operam em face de terceiros e não só em face da contraparte. É preciso que esteja em causa a aquisição de um direito sujeito a registo. c) da eventual inoponibilidade das nulidades e anulabilidades a terceiro de boa Por força do princípio «nemo plus juris. Sistema de registo declarativo: o direito adquire-se por mero efeito do contrato.». C só regista se B o tiver feito e anteriormente A). porém. se o contrato for válido o direito é adquirido independentemente do registo. Os negócios jurídicos simulados são nulos e. por força da invalidade do negócio donde resultaram os direitos do seu transmitente. apenas na hipótese de este ser invalidado nos 3 anos subsequentes à sua realização.. Para que um terceiro estar protegido é preciso a verificação de alguns requisitos: Existir um terceiro. o que não sabia mas desconfiava. portanto. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 25 . O actual código civil estabelece (291º) um regime de inoponibilidade a terceiros de boa fé. é o registo que cria o direito.: veículos). Que o negócio entre B e C seja oneroso (não doação). ao invés do que prescreve o princípio «nemo plus juris.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL b) da inoponibilidade da simulação a terceiros de boa fé. No nosso caso. Se o simulado adquirente dum prédio. resulta uma excepção ao princípio geral da aquisição derivada: «nemo plus juris in alium transferre potest quam ipse habet». Mesmo assim. como tal. peritos)/ conhecimento exacto sobre o que incidem os direitos. por acto verdadeiro. O terceiro tem que estar de boa fé (que não se traduz no simples desconhecimento do negócio anterior (simulação). desde que a acção tendente à declaração de nulidade ou à anulação não seja proposta e registada dentro dos 3 anos posteriores à conclusão do negócio. O terceiro adquire. o terceiro adquire validamente esse objecto (243º). C devia restituir o prédio.. declarado nulo ou anulado o primeiro acto. está de má fé). sendo os direitos deste sacrificados. Assim se realiza. consequentemente. o registo não garante que a pessoa inscrita como último adquirente o seja realmente. o segundo seria também nulo e. não produzem quaisquer efeitos. um prédio a B e este o transmitiu a C. através desta inovação do código de 1966.». O registo não é obrigatório mas é um ónus. O objecto do negócio tem que ser bem imóvel ou bem móvel sujeito a registo (ex. adquirente «a non domino».. Daí que o registo seja facultativo. Por exigência da protecção da confiança dos terceiros e dos interesses do comércio jurídico. É preciso que o registo seja anterior ao registo de acção de invalidade do negócio anterior.

e quanto a actos «inter vivos». Só pode haver substituição do devedor se o credor aceitar. pode ter lugar por sucessão «mortis causa». Muda o objecto se ex. Extinção subjectiva: se o direito sobrevive em si. Neste caso. significa que o ordenamento jurídico continua a tratar o direito como se não tivesse tido lugar a alteração. também.: não cumprindo o devedor culposamente a obrigação. A sucessão entre-vivos nas relações obrigacionais – substituição de sujeitos sem extinção da relação jurídica e surgimento de uma nova. Muda o conteúdo se ex. Tem lugar nesta hipótese uma situação de substituição. um direito inicialmente pertencente a dois sujeitos passa a pertencer a um único terceiro (A+B -> C). ou contra a sua vontade.: A empresta dinheiro a B.: é concedida pelo credor ao devedor uma prorrogação do prazo para o cumprimento. Também se pode falar de uma situação de multiplicação. A modificação também pode surgir do lado activo sendo esta sempre subjectiva. Efeito central: aquisições sujeitas a registo. O direito mudou de titularidade.Modificação de direitos Tem lugar a modificação de direitos (do lado activo) quando. não são oponíveis a terceiros e a regra geral que vale no direito primeiramente adquirido é substituída pela regra da prevalência do primeiro registo. do lado passivo. por último. isto é. 92. sem a vontade do mesmo titular. Modificação objectiva: se na modificação do direito se muda o conteúdo ou o objecto do direito. Pode. mas subsiste na esfera jurídica de outrem. apenas mudando a pessoa do seu titular. normalmente através da cessão da posição contratual. B paga a dívida a C). multiplicação e concentração.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Efeito lateral: outros que não o central e o automático (o facto de se registar produz determinados efeitos). A perduração do direito. apesar da modificação verificada. Quebra-se a relação de pertinência entre um direito e a pessoa do seu titular. extinguiu-se para aquele sujeito. sem novação. A modificação subjectiva das relações jurídicas. surgindo então a assunção da dívida e pode referir-se à relação contratual. permanece a identidade do referido direito. a multiplicação pode ocorrer por: sucessão (A transmite o mesmo direito para B e C). É o que se verifica nos direitos de crédito. apesar da vicissitude ocorrida. permanecendo a identidade objectiva do direito. Verifica-se também uma situação de substituição. mas antes com perduração da entidade do vínculo – pode ter lugar. o seu dever de prestar é substituído por um dever de indemnizar. não registadas.Extinção de direitos A extinção de um direito tem lugar quando um direito deixa de existir na esfera jurídica de uma pessoa. Neste caso. com a cessão de créditos e com a subrogação nos créditos (ex. O direito é o mesmo e não um direito novo. adjunção (um novo devedor assume a obrigação para com o credor. permanecendo juntamente com o devedor inicial [assunção cumulativa]). alterado ou mudado um elemento de um direito. Ocorre por vontade do titular do direito extinto. 26 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . 93. quer do lado activo. quer do lado passivo. A diz a cede a C o direito de ser ele a receber o dinheiro de B. existir uma situação de concentração. Modificação subjectiva: se na modificação do direito tem lugar uma substituição do respectivo titular. permanecendo este idêntico. É o que se verifica quando a um sujeito se substituem vários.

Sucessos acidentais da vida da relação jurídica: Pendência. . O beneficiário da prescrição. ou funciona de novo.: direitos de crédito 304º).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL A extinção subjectiva ou perda de direitos verifica-se sempre que tem lugar um sucessão na titularidade dos direitos.: 265ºn1. deixando de existir para o seu titular ou para qualquer pessoa. na herança). A sub-rogação real joga naturalmente (faz parte da fisiologia) num património (de liquidação). .Não uso (direitos reais sobre coisa alheia. No plano das combinações jurídicas: a sucessão num património (designadamente. Extinção objectiva: existe se o direito desaparece. É o que acontece com as aquisições derivadas translativas sujeitas a condição ou termo suspensivos. é o caso das RJ do ausente. direitos reais limitados ex. É o que acontece se há destruição do objecto. numa sociedade em dissolução. pode recusar o cumprimento da prestação ou opôr-se ao exercício do direito prescrito. ficando como que adormecida. OS SUJEITOS DA RELAÇÃO JURÍDICA CIVIL Das pessoas humanas A subjectividade jurídica (a qualidade de quem é sujeito de direito) supõe no homem a personalidade jurídica. .Renúncia (abandono de uma situação de prevalência. Este último caso pode ocorrer por: . em pleno. abandono de um objecto. pois o que interessa é manter o conjunto de valor (activo) que garante o passivo.: servidão de passagem). o sucessor adquire ou subingressa na titularidade do direito e este extingue-se para o autor ou transmitente. Ex. de superfície) Aquiescência: quando um RJ já funcionou em pleno. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 27 .Caducidade: direito de accionar está em causa. Mas também é sucessão num património a adjudicação a um sócio ou terceiro. mas por um obstáculo análogo deixa de ter o seu funcionamento normal. Não há aquisição derivada. o obstáculo cessa e a RJ funciona. O fenómeno da sub-rogação real A sucessão num património tem o seu paradigma na sucessão mortis causa. É o caso das aquisições derivadas constitutivas (constituição de usufruto. que se extinguiram pela sua morte. que. 302). Sucessão a título universal e sucessão e título particular. por seu turno. direitos potestativos: arguir a nulidade do negócio. Aquiescência e Revivescência Pendência: quando uma relação jurídica plenamente formada não pode funcionar em pleno porque o sujeito activo ainda não existe ou não está ainda determinado. da totalidade do património social ou de uma quota parte a líquota dele.Prescrição: refere-se a direitos subjectivos em sentido estrito (ex.Decadência: quando o direito deixa de existir por a formação posterior de um direito incompatível. Revivescência: quando na Pendência ou Aquiescência. sucessão ou transmissão. completada esta. supõe a personalidade humana. Sub-rogação real: pode ser directa (a coisa é directamente substituída por outra: troca de um prédio por outro. ao fim de um ano extingue-se por caducidade. Sucessor a título universal é o que sucede na totalidade ou numa quota parte ideal do património. . de um prédio por acções) e indirecta (a coisa é substituída por um preço e o preço por outra coisa: A vende a B um prédio e com o preço compra a C um automóvel). não exercício do direito.

A personalidade jurídica é a projecção no direito (do normativo jurídico) da personalidade humana. os não concebidos. logo. excluindo-se quer os nados-mortos. a personalidade cessa com a morte.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL É porque o homem é pessoa – pessoa humana – que ele se reconhece como pessoa em sentido jurídico e.º1. ou seja. Todavia. A subjectividade jurídica.º1 do 68º do CC. Segundo o 1798º. Posse abstracto: poder de ser abstractamente titular de direitos e obrigações. dia 3/12/2002) (II)Pessoas singulares 47. Exige-se além disso. Do que resultam os seguintes corolários: 1) Essencialidade: a personalidade é essencial. A plenitude e a igualdade de direitos constituem a reivindicação número um que a personalidade formula actualmente ao Poder. quer os que morrem durante o parto ou antes da secção do cordão umbilical. Realmente. que é a qualidade de quem é “sujeito de direito”. quem nasce dentro desses 300 dias reputa-se como concebido. Quem nasce 300 dias depois da doação ou da morte do autor da herança reputa-se como não concebido. O que involve a irrecusabilidade da personalidade jurídica. que seja com vida e completo. como projecção da personalidade humana. é um posse necessário: ninguém é verdadeiramente pessoa jurídica se não tiver o estatuto permanente de sujeito de direito. em qualquer espécie de sucessão – 2033º n. ou o numerus clausus dos direitos de personalidade. Da personalidade 66º n. de teoricamente variável de pessoa para pessoa jurídica. Termo da personalidade a) A morte Nos termos do n. Ao princípio de que a personalidade jurídica começa com o nascimento parece opor-se a situação jurídica dos nascituros. como susceptibilidade abstracta de se ser titular de direitos e obrigações. Algo quantificável. reclama a Capacidade Jurídica: a susceptibilidade concreta de se ser titular de tais direitos e deveres. a subjectividade jurídica constitui um posse. existindo tanto e enquanto esta personalidade existir. Trata-se já não de um posse abstracto.º2). A personalidade humana é um prius da personalidade jurídica. 3) Ilimitabilidade: a personalidade jurídica é tão ilimitada como a personalidade humana. Há personalidade jurídica quando existe (logo que existe e enquanto existe) personalidade humana. Se a personalidade jurídica. de quem tem a susceptibilidade abstracta de ser titular de direitos e deveres. de sujeito para sujeito de direito. o filho reputa-se concebido dentro dos primeiros 120 dias dos 300 que precedem o nascimento. só na sucessão testamentária e contratual – 2033º n.Personalidade jurídica.º1 – O nascimento entende-se como a separação do feto do ventre materno. não só aos já concebidos mas ainda aos não concebidos a lei faculta que se façam doações (952º) e que se defiram sucessões (os concebidos. Só com personalidade humana há personalidade jurídica. pois pressupõe a personalidade humana. A personalidade jurídica traduz-se em subjectividade jurídica. (esquema caderno. O que exclui as chamadas gradações de personalidade. mas de um posse concreto: de me ser reconhecida a possibilidade de ter o direito A ou o direito B. Capacidade de Exercício de direitos: a capacidade para intervir por si próprio ou através de representante voluntário. 2) Indissolubilidade: a personalidade jurídica é indissolúvel da personalidade humana. a quem a lei reconhece direitos. mas porque existe a personalidade humana. como sujeito para o direito. 28 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . constitui juridicamente um esse. A personalidade jurídica não é algo que subsista por si mesmo.

de mortes simultâneas) susceptível de prova em contrário – iuris tantum. por não se encontrar ou não ser possível identificar o cadáver (ex. onde o n.º3: «Tem-se por falecida a pessoa cujo cadáver não foi encontrado ou reconhecido. nos termos do 247º e 248º do código do registo civil. c) O desaparecimento da pessoa Artigo 68º n. a pessoa perde os direitos e deveres da sua esfera. O desaparecimento de uma pessoa nestas circunstâncias. No direito inglês presume-se sempre a premoriência do mais velho. deve ser registado na repartição do registo civil da área onde ocorreu ou se encontra o cadáver. a herança é dividida pelos dois filhos (A e B). Se mais tarde se vier a verificar ter havido engano ou incorrecção. extinguindo-se os de natureza pessoal e transmitindo-se para os sucessores mortis causa os de natureza patrimonial. implica a abertura do chamado processo de justificação judicial do óbito. Entre nós essa reparação é admitida com base no 70º constituindo a ofensa à vida a máxima ofensa possível da personalidade e no 496º. para o efeito de providenciar pelos bens da pessoa Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 29 . que uma e outra falecem ao mesmo tempo».: um casal tem 2 filhos. b) Presunção de comoriência Nos termos do 68º n. o conservador lavrará o respectivo assento de óbito. PIRES DE LIMA. Suponhamos que num acidente de viação morre o casal juntamente com o filho A.º2 «quando certo efeito jurídico depender da sobrevivência de uma a outra pessoa. a cargo do Ministério Público. presume-se em caso de dúvida. as providências que a lei refere nos artigos citados. 66.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL No momento da morte. O que está em causa é a transmissão do direito de compensação (atribuível pela ilícita supressão da vida) e não da transmissão do direito à vida.). nos termos do 299º e segs. pondo termo à personalidade e desencadeando efeitos jurídicos significativos. Já se considerarmos simultâneas apenas as mortes dos pais. ANTUNES VARELA: vêem no 71º n. Por outro lado. a que se referem os artigos 89º a 121º. Esta presunção tem enorme importância prática. Se considerarmos que as mortes foram simultâneas.Ausência O termo «ausência». Ex. traduzido num desaparecimento sem notícias. pressupõem um sentido técnico de «ausência». requerer-se-á a invalidade ou rectificação do assento de óbito. É com este sentido técnico de não presença de alguém acompanhada da falta de notícias que o termo ausência é tomado. Há outras legislações que. especialmente no que concerne a efeitos sucessórios: não de verificarão fenómenos de transmissão entre os comorientes.º1 («os direitos de personalidade gozam igualmente de protecção depois da morte do respectivo titular») um desvio à cessação da personalidade com a morte.: afundamento de navio). em vez de presunção de comoriência. Problema discutido é a questão de saber se a lesão do direito à vida é susceptível de reparação. Julgada a justificação.º3 textualmente prescreve a possibilidade de atender aos danos não patrimoniais sofridos pela vítima. na totalidade da herança dos pais sucede apenas o filho sobrevivo B. passando a quota de A para o seu avô ainda vivo. Qualquer falecimento. quando o desaparecimento se tiver dado em circunstâncias que não permitam duvidar da morte dela». A e B. Consagra-se uma presunção de comoriência (isto é. consagram antes presunções de premoriência. não coincide com o significado que vulgarmente se atribui a este vocábulo de simples não presença de alguém em certo local. provando-se que o filho A morreu algumas horas mais tarde. Neste caso parece deverem aplicar-se as regras da morte presumida (114º e segs.

em caso de regresso. traduzidas no requerimento e instauração da curadoria provisória e da curadoria definitiva. além do cônjuge. embora o 116º dê ao cônjuge a possibilidade de contrair novo casamento sem necessidade de recorrer ao divórcio. O 115º prescreve que a declaração de morte presumida produz os mesmos efeitos que a morte física. verifica-se um fenómeno de sub-rogação real. têm legitimidade para requerer a curadoria provisória.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL ausente. podendo recorrer-se desde logo à declaração de morte presumida. os quais são tidos como curadores definitivos (104º) e não como proprietários desses bens (não podendo dispor deles). a qual deve ser deferida a uma das seguintes pessoas: cônjuge. Ex. ou passados 5 anos. 3) A falta de representante legal ou de procurador (89º). todavia. Os sucessores passam a ser tratados não como meros administradores (curadores) mas como proprietários dos bens. se se verificarem os requisitos legais de que depende. carecidos de administração. sendo estes. ao invés. O curador funciona como um simples administrador (94º). é necessário que decorram 5 anos sobre a data em que ele completaria a maioridade. têm subjacentes uma presunção de maior ou menor probabilidade de regresso do ausente. ou da declaração da morte presumida. c) Pela certeza da sua morte. visto que a lei só possibilita o recurso à justificação da ausência no caso de terem de corrido dois anos sem se saber do ausente ou cinco anos no caso de ele ter deixado representante legal ou procurador bastante (99º). Curadoria definitiva: A probabilidade de a pessoa ausente não regressar é nesta fase maior. em virtude de não ter deixado representante legal ou voluntário (procurador). e) Pela certeza da morte do ausente. ou. isto é. se entretanto o ausente tiver completado 80 anos de idade. Essas medidas.: o casamento não cessa. A legitimidade para o pedido de instauração da curadoria definitiva pertence também aqui ao Ministério Público ou a algum dos interessados. algum ou alguns dos herdeiros presumidos. Nenhuma delas está dependente da anterior. se a pessoa ausente for menor. nos termos da lei (98º): a) Pelo regresso do ausente. A curadoria provisória termina. Morte presumida: Decorridos 10 anos sobre a data das últimas notícias. d) Pela entrega dos bens aos curadores definitivos (com a curadoria definitiva). os efeitos desta equiparação. b) Se o ausente providenciar acerca da administração dos bens. Contudo. c) Pela comparência da pessoa que legalmente represente o ausente ou de procurador bastante. se fosse vivo. Após a justificação da ausência proceder-se-á à abertura de testamentos (101º) e à partilha e entrega dos bens aos herdeiros (103º). o tem o ausente direito: 30 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Na esfera patrimonial. Tanto o Ministério Público como qualquer interessado. O direito faculta a tomada de medidas tendentes a evitar os prejuízos decorrentes da falta de administração dos bens da pessoa ausente. Medidas legais Curadoria provisória: Os pressupostos de que a lei faz depender a nomeação de um curador provisório são: 1) O desaparecimento de alguém sem notícias. d) Pela declaração da morte presumida. A curadoria definitiva termina (112º): a) Pelo regresso do ausente. para que possa ser declarada a morte presumida (114º n. os herdeiros do ausente e todos os que tiverem sobre os seus bens qualquer direito dependente da sua morte.º2). Algumas disposições da lei atenuam. da sua morte. Para menores só pode pedir-se quando estes façam 23 anos. pela declaração de morte presumida. 2) A necessidade de prover acerca da administração dos seus bens. b) Pela notícia da sua existência e do lugar onde reside.

a sua saúde física. Os direitos de personalidade são inalienáveis e irrenunciáveis. não têm. A irrenunciabilidade dos direitos de personalidade não impede a eventual relevância do consentimento do lesado: este não produz a extinção do direito e tem um destinatário que beneficia dos seus efeitos. São os chamados direitos de personalidade. da qual se podem desentranhar um direito à vida. A ofensa de qualquer destes bens está sancionada no n.º1).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL a) Aos bens directamente adquiridos por troca com os bens do seu património (subrogação directa). Mantémse. titular de alguns direitos e obrigações. prevê expressamente no artigo 80º o chamado direito à reserva sobre a intimidade da vida privada. à integridade física. Reconhece-se assim merecedora de tutela a natural aspiração da pessoa ao resguardo da sua vida privada. A consagração desta protecção geral da personalidade permite conceder tutela a bens pessoais não tipificados. (119º). valor pecuniário) e absolutos. Direito geral de personalidade: «direito que abrange todas as manifestações previsíveis e imprevisíveis da personalidade humana». o ausente tem direito também à indemnização do prejuízo sofrido. extrapatrimoniais (embora as suas violações possam originar uma reparação em dinheiro. O direito protege os vários modos de ser físicos ou morais da personalidade. São direitos gerais (todos deles gozam). Toda a pessoa jurídica é. O CC. c) Ao preço dos bens alienados (sub-rogação directa). dada a sua essencialidade relativamente à pessoa. o seu nome. a reserva sobre a intimidade da sua vida privada. Neste sentido podem dar-se-lhe hoje as consabidas denominações da escola do direito natural racionalista: «direitos inatos» ou «direito originários». A violação de alguns desses aspectos da personalidade é mesmo um facto ilícito criminal. É este um círculo de direitos necessários. liberdade física e psicológica. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 31 . má fé dos sucessores – e exacta consiste no conhecimento pelos sucessores de que o ausente era vivo à data da declaração de morte presumida -. que desencadeia uma punição estabelecida no código penal. por força do seu nascimento. da qual constituem o núcleo mais profundo. 48. Em caso de lesão de que provenha a morte. Mesmo que. efectivamente. porém. no Estado em que se encontrar. ser-lhe-á devolvido o património que era seu. depois da morte do respectivo titular. se no documento de aquisição se fez menção da proveniência do dinheiro (sub-rogação indirecta). tendo por objecto a pessoa no seu todo. honra. Quais serão os direitos de personalidade? O 70º contém uma norma de tutela geral da personalidade. em si mesmos. Incidem os direitos de personalidade sobre a vida da pessoa. integridade física. o direito a indemnização é deferido às pessoas referidas nos 495º e 496º. Havendo. b) Aos bens adquiridos com o preço dos alienados. certamente para afastar quaisquer dúvidas previsíveis sobre a sua inclusão na tutela geral operada pelo 70º. Obviamente. Constituem «o mínimo necessário e imprescindível do conteúdo da personalidade». a protecção dos que possam continuar a ser ofendidos (71º n.º2 do mesmo artigo. no domínio patrimonial lhe não pertençam por hipótese quaisquer direitos sempre a pessoa é titular de um certo número de direitos absolutos que se impõem ao respeito de todos os outros. incidindo sobre os vários modos de ser físicos ou morais da sua personalidade. à honra. um conteúdo mínimo e imprescindível da esfera jurídica de cada pessoa. a sua imagem. à liberdade.Direitos de personalidade Designa-se por esta fórmula um certo número de poderes jurídicos pertencentes a todas as pessoas.

mas nestes casos não faz sentido falar em responsabilidade civil uma vez que o lesante é o mesmo que sofreu a lesão. Ex. . 32 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados .: maus profissionais. Pode ainda ser: física (liberdade sexual) ou moral (política.Projecção moral a) Direito à honra (direito à reputação. honra extrínseca): A imagem que a pessoa projecta de si nas outras pessoas.Direito à integridade física É o direito a não ser lesado na integridade físico-psíquica tal como possuiria se não se verificasse tal lesão. forma de estar). entendendo-se esta como a simples existência biológica. o direito à honra é. Divulgação indirecta: =imitação. por isso. a imagem que os outros têm de nós.Honra .Honra deontológica: ou profissional. Captação: violação Divulgação: violação mais grave. No direito civil a honra pode ser violada com a divulgação de factos reais. . São.. ex. Este direito é tutelado pela CRP bem como pelo código penal (131º e ss. Manipulação da imagem: usa-se a imagem e adultera-se. . A honra pode ser violada com o trazer a público de determinados factos sejam eles verdadeiros ou falsos..TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Direitos especiais de personalidade: .: se um jornal diz determinadas coisas acerca de uma pessoa. eutanásia). Em termos de liberdade negativa não se pode aplicar a sanção pecuniária compulsória. em termos de direito civil.: direito ao decoro (:forma de vestir. .Direito à liberdade É o direito à livre conformação da pessoa.o direito de controlar a captação/divulgação de qualquer elemento de identificação da pessoa. b) Direito à palavra As regras anteriores são aplicadas analogicamente. religiosa).Direito à inviolabilidade pessoal 1. No direito penal a honra só é violada com a divulgação de factos falsos. Os 2 últimos círculos variam de pessoa para pessoa. . na qualidade de sucessores e com base no direito que surge no momento exacto da morte desse sujeito. violação do direito à imagem + à verdade. A sanção penal do aborto não é assim defesa deste direito. O titular do direito não pode dispor dele sem cometer um ilícito (suicídio.Honra propriamente dita: dignidade humana.Honra económica: direito ao crédito pessoal. Este direito é também tutelado pela CRP e penalmente. .Direito à vida É o direito à conservação da vida. Esta liberdade pode ser: positiva (o direito de fazer algo) ou negativa (o direito de se recusar a fazer algo). Pode haver lugar a compensação (visto que é afectado um bem não patrimonial) mas quem a exige são os sucessores. variáveis. bom nome e reputação. Podem identificar-se 4 círculos de honra: . 2. violado.). mas da vida intra-uterina enquanto bem jurídico autónomo. honestidade.Projecção física a) Direito à imagem 79º . A honra também é protegida criminalmente.

º2 apresentam-se algumas situações onde se justifica a violação do direito à imagem. o nome igual não pode ser utilizado de forma a prejudicar outro. aspectos intrínsecos à natureza da própria pessoa.º3.Direito à criação pessoal e direito moral de autor O primeiro é um direito inato. morada. o direito de informação prevalece sobre o direito à honra. . 2 . Contudo. relativa aos dados de confidencialidade pessoal. um direito inato) e a identidade em sentido estrito (direito ao nome). preferências sexuais. No direito ao decoro pode haver consentimento válido. b) Direito à história pessoal Direito ao percurso da pessoa: ex. por exemplo. a ilicitude. Existe dentro de si 3 esferas: 1 . . A criação tem que ter duas características: . aspectos não relativos à própria pessoa mas que estão relacionados consigo.: diários) e por determinação da pessoa (coisas que cabe ao próprio o ónus da prova do seu carácter secreto). No 79º n.: biografias não autorizadas (“Os amores de Manuel” -> é preciso a autorização de Manuel e dos “amores”). O segundo é não inato e pressupõe o direito de criação pessoal mas surge só após a criação que se traduz numa obra. d) Direito à verdade pessoal Direito à liberdade negativa.Secreta: aspectos secretos da vida íntima.: casa. à fase de determinação da importância da violação. Há frequentemente conflitos entre o direito de honra e o direito à informação. Admite-se consentimentos vinculantes: pressupõe vínculo contratual (ex. . o titular pode limitar o direito. Quando se trata de uma matéria com relevante interesse público.Projecção vital a) Direito ao carácter Ninguém poderá estar sujeito sem consentimento a meios que permitam revelar o seu carácter. O direito de autor: abrange o aspecto moral e o aspecto patrimonial (direito real. aliás. âmbito mais restrito. situações que afastam.Direito à identidade pessoal Abrange a: identificação (não confundabilidade da pessoa. A nossa lei não permite a homonímia (o mesmo nome). Nas restantes situações isto não se verifica. 3 . não estão sujeitos a limitações dos titulares do direito. em caso de violação ao direito à honra. portanto. c) Direito à intimidade da vida privada Este é um direito que incide sobre informações. este é. O direito à honra não é consagrado num artigo específico do CC mas é aflorado no 79º n.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Os 3 primeiros círculos não são direitos disponíveis: isto é. Esta distinção é essencial no que diz respeito.Pessoal: ex.originalidade: a obra tem que ser “a” obra.: gostos. Contudo. os quais são resolvidos pelo 335º. este é sempre ilícito. As coisas secretas podem ser secretas: por natureza (ex. O direito é disponível logo. certa pessoa é “a” pessoa e não “uma” pessoa. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 33 . de propriedade sobre a obra). Obra: conjunto de sinais subjectivamente organizados e objectivamente expressos. 3.: modelos fotográficos).objectivação: a obra tem que ganhar consistência no sentido de ser objectivada.Privada: ex. o titular não pode limitar o direito.

por um médico ou outra pessoa legalmente autorizada a empreendê-los com intenção de prevenir. . que atribui a outrem um poder (fáctico) de agressão.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL O direito de autor é vitalício e depois da morte transmite-se para os herdeiros. como meio para evitar um perigo para o corpo ou para a saúde.direito ao inédito. mas justifica implicitamente a mesma: 340º n. . É possível violação simultânea do direito à honra e do direito moral de autor.tolerante: não atribui um poder de agressão. não do direito à integridade física.º1 e 340º CC). uma lesão ou fadiga corporal ou uma perturbação mental. O consentimento tem limites: superiores (direito à vida não pode ser limitado assim como o direito à integridade física) e inferiores (as exigências da vida em sociedade levam a que certas lesões sejam irrelevantes (ex. . se mostrem indicados e forem levados a cabo. diagnosticar. debelar ou minorar uma doença. Do consentimento do ofendido O consentimento pode também determinar a inexistência de lesão (exclusão do facto) ou a justificação dela (justificação do facto). excepto se se verificar qualquer das seguintes hipóteses: . e não se verificarem circunstancias que permitam concluir com segurança que o consentimento seria recusado. Nas intervenções e tratamentos médico-cirúrgicos em benefício próprio A lei penal dispõe hoje que «as intervenções e outros tratamentos que. designadamente um contrato. portanto. .Direito ao tratamento dos dados pessoais Tem em conta. o consentimento é irrelevante sempre que há uma desproporção enorme entre o benefício a obter e o risco da atitude médico-cirúrgica. Não havendo consentimento do paciente. segundo o estado dos conhecimentos e da experiência da medicina. 34 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados .autorizante: constitutivo de um compromisso jurídico sui generis. só puder ser obtido com adiamento que implique um perigo para a vida ou grave perigo para o corpo ou para a saúde. cai no domínio público. pois nesse caso é contra os bons costumes. embora sempre limitado pela ordem jurídica e pelos bons costumes (81º n.direito à dignidade da obra (direito a participar das valorizações extraordinárias da O direito moral de autor pode. Tutela deste direito: .direito à intangibilidade da obra (direito à obra não ser adulterada). mas da liberdade de vontade. . pode ser relevante para aferir da violação.se o consentimento.º1. .se o consentimento. as violações potenciadas pela utilização da informática. Este tem importância na medida em que. Ao fim de 50 anos. .vinculante: origina um compromisso jurídico autêntico. Além disso. de acordo com a leges artis. O consentimento não extingue o direito de personalidade. O consentimento e o correlativo dever de esclarecimento têm de ser mais rigorosos ainda nas intervenções ou tratamentos estéticos do que nos curativos. ser violado de inúmeras formas. obra). não se consideram ofensas corporais». Há 3 tipos de consentimento: .direito à paternidade da obra. por exemplo.: encontrões no autocarro)). mas o que foi realizado é imposto pelo estado dos conhecimentos ou experiência da medicina. haverá violação. foi dado para uma intervenção ou tratamento diferente. um sofrimento.

de relações jurídicas. anterior ou posterior ao acto. como vimos. Incapacidade negocial de gozo: provoca a nulidade dos negócios jurídicos respectivos e é insuprível. os negócios a que se refere nem podem ser concluídos por outra pessoa em nome do incapaz.Capacidade jurídica e capacidade para o exercício de direitos direitos. age pessoalmente. A incapacidade de exercício de direitos pode ser suprida pela representação legal ou pela assistência. isto é. de outra (assistente). Fala-se de capacidade jurídica para referir a aptidão para ser titular de um círculo. maior ou menor. na prática dos actos que movimentam a sua esfera jurídica. de capacidade jurídica e de capacidade para o exercício de direitos ao domínio dos negócios jurídicos. . Nas disposições em benefício de outrem. o cientista. . Modalidades: capacidade negocial de gozo (capacidade jurídica negocial) e capacidade negocial de exercício Estas noções traduzem-se na referência das noções. 49. isto é. salvo disposição legal em contrário: nisto consiste a sua capacidade jurídica». Não se pode admitir o consentimento presumido ou hipotético ou o consentimento por representante legal.Capacidade negocial. mesmo no caso de ser lícito. dotada da capacidade de exercício de direitos. não carece do consentimento.regeneráveis: idem. isto é. Melhor se falaria de capacidade de agir. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 35 .TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Nas intervenções e tratamentos médico-cirúrgicos em benefício alheio ou geral: Exigência interrogável e rigorosa do consentimento com dever de esclarecimento. da vantagem que a aquisição representa para o receptor.caducáveis: não há problema. A expressão capacidade de exercício de direitos sugere tratar-se unicamente da susceptibilidade de exercitar direitos deixando de fora o cumprimento das dívidas e a aquisição de direitos ou a aquisição de direitos ou a assunção de obrigações. das possibilidades de recuperação. deve atender a se se trata de: elementos caducáveis. por um representante legal (designado na lei ou em conformidade com ela) e age autonomamente. Contrapõe-se-lhes a incapacidade negocial de gozo e a incapacidade negocial de exercício. regeneráveis ou não regeneráveis. 50. A pessoa.não regeneráveis: a licitude depende do risco que a perda representa para o dador. não sendo. sujeito ao regime das disposições da integridade física em benefício alheio. mais genéricas. Há uma capacidade jurídica maior ou menor. . encontra-se. não carece de ser substituída. À personalidade jurídica é inerente a capacidade jurídica ou capacidade de gozo de O artigo 67º estabelece que «as pessoas podem ser sujeitos de quaisquer relações jurídicas. O direito a partes destacáveis do corpo humano Anote-se que o consentimento em ceder-se certo elemento orgânico quando este vier a destacar-se do organismo. nem por este com autorização de outra entidade. exercendo direitos ou cumprindo deveres. das técnicas de extracção. Ou há uma pessoa jurídica ou não há. por acto próprio e exclusivo ou mediante um representante voluntário ou procurador. convertível em autêntica obrigação. Distinta da noção de capacidade jurídica é a de capacidade de exercício de direitos. etc. Capacidade de exercício ou de agir: é a idoneidade para actuar juridicamente. adquirindo direitos ou assumindo obrigações.

Determinação da capacidade negocial de gozo A regra geral. Pessoas singulares Em princípio todas têm capacidade de exercício de direitos.: 153º . dada a incapacidade do representado. Há uma restrição do poder de disposição em certa direcção e por isso o código qualifica estes casos como indisponibilidade relativa. Assistência: tem lugar quando a lei admite o incapaz a agir. b) Da interdição. 3) Incapacidade para perfilhar dos menores de 16 anos. estiverem privadas dos seus órgãos. dos interditos por anomalia psíquica e dos notoriamente dementes no momento da perfilhação (1850º). 52. Não se trata. por inerência do conceito de personalidade. por ser designada pela lei ou em conformidade com ela. O representante substitui o incapaz na actuação jurídica. A capacidade de exercício das pessoas colectivas só sofrerá restrição quando. escolhido e legitimado para agir pelo representado – e não se admite aqui um representante voluntário. c) Das inabilitações.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Incapacidade negocial de exercício: provoca a anulabilidade dos negócios jurídicos respectivos e é suprível. excepcionalmente. Representação: é a forma de suprimento da incapacidade. Essa pessoa é denominada representante legal.suprimento da incapacidade dos menores pelo poder paternal. Existem contudo algumas restrições: 1) Incapacidades nupciais (impedimentos dirimentes absolutos e impedimentos dirimentes relativos 1601º e 1602º). 53. 2) Incapacidade de testar dos menores não emancipados e dos interditos por anomalia psíquica (2189º).Determinação da capacidade negocial de exercício.representação legal: ex.: 124º . seja necessária a autorização de certas entidades alheias à pessoa colectiva. 36 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados .«os inabilitados são assistidos por um curador». Generalidades Pessoas colectivas Estas possuem plena capacidade negocial de exercício. mas exige o consentimento de certa pessoa ou entidade. todavia. pertencendo a iniciativa do acto a este último. para dados efeitos. isto é. 51. não podendo os negócios a que se refere ser realizados pelo incapaz ou por um seu procurador. traduzida em ser admitida a agir outra pessoa em nome e no interesse do incapaz. o assistente impede o incapaz de agir ou intervém ao lado dele. O interesse determinante das incapacidades é o interesse do próprio incapaz.assistência: ex. agindo outras entidades em seu nome e no seu interesse ou quando. o assistente destina-se a autorizar o incapaz a agir. . pois a restrição não resulta da consideração de uma qualidade do disponente em si.Enumeração das incapacidades de exercício estatuídas pelo código civil As incapacidades de exercício estabelecidas pelo código civil resultam: a) Da menoridade. Enquanto o representante legal actua em vez do incapaz. Esta é suprível por: . Não se trata de um representante voluntário. de absoluta incapacidade. é capacidade jurídica.

a ineficácia em relação ao representado. Em princípio. Para o testamento. Poderá encontrar-se-lhes fundamento legal no 249º. por isso. as ilegitimidades originam sanções diversas: à venda de coisa alheia corresponde a nulidade (892º). dada a natureza dos interesses que determinam as incapacidades de gozo. Para alguns negócios a lei resolve expressamente o problema. têm legitimidade para um certo negócio os sujeitos dos interesses cuja modelação é visada pelo negócio.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 62. estatui a solução da anulabilidade e o mesmo se determina no 1861º para a perfilhação. que não os intervenientes no negócio (ex. mas é essa a solução geralmente defendida e a que se impõe. anulabilidade tem as características enunciadas no 125º. o artigo 2190º prescreve a nulidade. Outras vezes um indivíduo não pode celebrar livremente (carece de uma autorização). Capacidade: é um modo de ser ou qualidade do sujeito em si.Incapacidade dos menores Amplitude Abrange. Nas incapacidades conjugais. variáveis consoante o autor da acção de anulação e pode ser sanada por confirmação das pessoas com legitimidade para a invocar.: venda de coisa alheia. mas manifesta-se também no direito material. um indivíduo tem o poder de desencadear efeitos de direito numa esfera jurídica alheia (ex. aplicável por forças dos 139º e 156º. Existem algumas excepções à incapacidade: 1. um modo de ser para com os outros.). Legitimidade: supõe uma relação entre o sujeito e o conteúdo do acto e. Na incapacidade de menores. quaisquer negócios de natureza pessoal ou patrimonial. os menores podem praticar actos de administração ou disposição dos bens que o menor haja adquirido por seu trabalho (127º a)). assunção de obrigações. a anulabilidade (261º). 2º Semestre 54. que vinculem outras pessoas.: representação legal ou voluntária). Enquanto as incapacidades de exercício geram anulabilidades. 64. Por vezes. A invalidade só pode ser requerida pelas pessoas indicadas naquela disposição. as sanções dos actos indevidamente praticados constam do 1687º. sempre que se pretenda fazer derivar dum negócio efeitos (alienação ou aquisição de direitos. o 1631º a). etc. Haverá carência de legitimidade. ao negócio consigo mesmo. Nem sempre é assim. dentro dos prazos aí referidos. em princípio. etc. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 37 . Para o casamento.Capacidade e legitimidade A distinção é oriunda do direito processual e aí se evidencia com nitidez. à representação sem poderes e ao abuso de representação.). contrato a cargo de outrem. É uma incapacidade geral (123º).Valor dos negócios jurídicos indevidamente realizados pelos incapazes Incapacidade jurídica de gozo Os negócios feridos duma incapacidade jurídica negocial (incapacidade de gozo) são A lei não o diz de uma forma genérica. dos interditos ou dos inabilitados. é antes uma posição. todavia. Na extensão do conceito de ilegitimidade estão abrangidas manifestações jurídicas cujo tratamento é diverso. Incapacidade de exercício Nesta hipótese tem lugar a anulabilidade dos actos praticados pelos incapazes. nulos.

e como tal. acção de interdição ou inabilitação (131º). Como se supre a incapacidade do menor A incapacidade do menor é suprimida pelo instituto da representação. requerer a anulação (125º). O poder paternal pertence. O direito de invocar a anulabilidade é precludido pelo comportamento malicioso do menor. podem perfilhar quando tiverem mais de 16 anos (1850º. o poder de custodia. dá lugar à aplicação de sanções especiais. 4. se o hereditando morreu antes de ter expirado o prazo em que podia. todavia. fixada a idade núbil nos 16 anos.º2). e administrar os seus bens. dentro de um ano a contar do conhecimento do acto impugnado. Podem fazer testamento se emancipados (2189º). salvo se. ficam inibidos de invocar a anulabilidade. podem contrair validamente casamento. estiver pendente contra o menor. O legislador entendeu que. ou seja. no caso de este ter usado de dolo ou má fé a fim de se fazer passar por maior ou emancipado (126º). Na vertente pessoal salienta-se: o poder de educar os filhos (1885º 1886º 1878º). com base na consideração de que à situação de casado convém a plena capacidade de exercício de direitos decorrente da emancipação. especialmente o n. ele próprio. que a oposição dos pais ou do tutor constitui um impedimento impediente. O próprio menor. não distinguindo a lei poderes especiais do pai ou mãe em virtude do princípio da igualdade (1901º) Há a salientar a divisão «poder paternal relativamente à pessoa dos filhos» e «relativamente aos bens dos filhos». se o negócio não estiver cumprido. arte ou ofício que o menor tenha sido autorizado a exercer. subsidiariamente. são válidos os negócios jurídicos próprios da vida corrente do menor. ao atingir a maioridade. sem dependência de prazo. não só o menor mas também os herdeiros ou representante. arte ou ofício (127º c)). são válidos os negócios relativos à profissão. Duração A incapacidade termina quando o menor atingir a idade de 18 anos ou for emancipado (122º. 38 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . prover ao seu sustento. estando ao alcance da sua capacidade natural. pois. Poder paternal Compete aos pais. ou disposições de bens. 133º). As pessoas com legitimidade para arguir essa anulabilidade são: O representante do menor. dentro de um ano a contar da cessação da incapacidade. aos pais. dentro de um ano a contar da morte. desde que tenham idade superior a 16 anos (1601º a)). não implicando a nulidade do acto. velar pela segurança e saúde destes. que. de pequena importância (127º b)). 130º. em primeira linha o poder paternal e. 129º. são. a tutela. conviria manter a emancipação resultante do casamento. Nesta hipótese. Efeitos Os negócios jurídicos praticados pelo menor contrariamente à proibição em que se cifra a incapacidade estão feridos de anulabilidade (125º). representá-los. 3. na primeira hipótese. A anulabilidade pode ser invocada normalmente por via de excepção. (sendo certo. o direito ao respeito mutuo (1874º). O único facto constitutivo da emancipação é o casamento (132º).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 2. ou os praticados no exercício dessa profissão. Os meios de suprimentos da incapacidade dos menores através da representação. no interesse dos filhos. Qualquer herdeiro. ainda que nascituros. dirigir a sua educação. de guardar os filhos na sua própria casa ou lugar à escolha (1887º). só impliquem despesas.

O regime da incapacidade por interdição é idêntico ao da incapacidade por menoridade. não há possibilidade de suprimento da incapacidade dos interditos por anomalia psíquica (1601º). embora possam utilizar o seu rendimento nos termos do 1896º. São fundamentos de interdição as situações de anomalia psíquica (abrangendo deficiências do intelecto. referidas no 138º. estamos perante uma incapacidade negocial de gozo. quando pela sua gravidade tornem o interditando incapaz de reger a sua pessoa e bens (138º). quer quanto ao valor dos actos praticados em contravenção.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Na vertente patrimonial salienta-se: o poder de administração dos bens (1878º 1897º) e o reciproco dever de elementos (1874º 1878º). nos termos do artigo 1893º. Estão excluídos da administração dos pais certos bens mencionados no 1888º. O tutor – órgão executivo da tutela – tem poderes de representação abrangendo. Tutela É o meio normal de suprimento do poder paternal. da afectividade ou da vontade). na satisfação de necessidade da família. A sentença de interdição definitiva deve ser registada. ou quando os reflexos da surdez-mudez ou da cegueira sobre o discernimento do surdo-mudo ou do cego não excluem totalmente a sua aptidão para gerir os seus interesses. tal como os do pai. O poder tutelar é. declare a incapacidade. Não basta todavia a existência das deficiências naturais. devendo o tutor solicitar autorização judicial (ex. estão protegidos pela incapacidade por menoridade. Como se supre a incapacidade dos interditos É suprida mediante o instituto da representação legal. para existir a incapacidade. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 39 .: aplicação de capitais do menor na aquisição de bens). Quando a tutela recair nos pais. Estabelece-se uma tutela regulada pelas mesma normas que regulam a dos menores e que é deferida pela ordem estabelecida no artigo 143º. Torna-se necessária uma sentença judicial que. sob pena de não poder ser invocada contra terceiro de boa fé (147º) Efeitos É óbvio que só é suprível uma incapacidade de exercício de direitos. surdez-mudez ou cegueira. pois os menores embora dementes. O artigo seguinte enumera actos cuja validade depende de autorização do tribunal. estes exercem o poder paternal como se o interdito fosse menor. sendo predominantemente invalidades de tipo misto e não puras nulidades ou anulabilidades. Há certos actos que são vedados ao tutor e que o pai pode praticar. há actos que o pai pode praticar livremente. no termo de um processo especial. surdos-mudos ou cegos. Por isso. isto é. menos amplo que o poder paternal. 55. pelo menos com autorização judicial.Incapacidade dos interditos Quem pode ser interdito A incapacidade resultante de interdição é aplicável apenas a maiores. o incapaz será inabilitado. Parece haver lugar apenas à alternativa interdição ou inabilitação. consoante a gravidade das deficiências. As sanções para a infracção das proibições impostas ao tutor constam dos artigos 1939º e 1940º e variam conforme os casos. As infracções aos artigos 1889º e 1892º geram anulabilidade dos respectivos actos. De mencionar a extinção do usufruto legal dos pais sobre os bens dos filhos. Deve ser instaurada sempre que se verifique alguma das situações previstas no 1921º. As deficiências físico-psíquicas que são fundamento da interdição devem ser habituais ou duradouras e actuais. quer quanto aos meios de suprir a incapacidade (139º). quanto ao casamento. e princípio. todavia. a generalidade da esfera jurídica do menor. Quando a anomalia psíquica não vai ao ponto de tornar o demente inapto para a prática de todos os negócios.

durante a vigência da interdição. por outro lado.Valor dos actos praticados pelo interdito Três períodos 1. não se tomando em conta eventualidades ulteriores (ex. 58. no prazo de um ano a contar do levantamento da interdição e qualquer herdeiro deste. quanto aos negócios onerosos. A interpretação mais chegada ao texto do 956º do código de processo civil era a de que permitia a anulação de negócios que. 56. o 125º.Incapacidade dos inabilitados As inabilitações são uma fonte de incapacidade. 57. Quanto ao prazo para a invocação da anulabilidade. Trata-se. seja qual for a sua justificação moral. tal como as interdições. sem mais. tendo sido embora celebrados nas condições em que o faria uma pessoa normal e sensata. Uma doação. com as necessárias adaptações. é aplicável. só os interditos por anomalia psíquica estão feridos de uma incapacidade do tipo incapacidade de gozo. 40 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . haverá lugar à anulabilidade. Torna-se necessário o levantamento da interdição. A incapacidade acidental está prevista e regulada no 257º. com a cessação da incapacidade natural. se forem considerados prejudiciais numa apreciação reportada ao momento da prática do acto. Também quanto ao testamento. de uma decisão judicial. e a interdição vem a ser decretada. podendo eventualmente. tendo os surdos-mudos e cegos capacidade testamentária de gozo e exercício. por força do 139º. Nestes termos os negócios praticados pelo interdicendo.: valorização de terreno) que tornariam agora vantajoso não o ter realizado. um empobrecimento imediato do doador.Quando cessa a incapacidade dos interditos A incapacidade dos interditos não termina. na pendência do processo de interdição.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Só os interditos por surdez-mudez ou cegueira têm plena capacidade matrimonial. O prejuízo verificar-se-á. importa sempre. no prazo de um ano a contar do conhecimento do negócio. nos termos do qual a declaração negocial feita por quem se encontrava acidentalmente incapacitado de entender o sentido dela ou que não tinha o livre exercício da sua vontade é anulável. desde que: 1-o facto seja notório. se vieram a tornar desvantajosos para o interdito por força de eventualidades posteriores. cuja estatuição remete para o disposto acerca da incapacidade acidental. irremediavelmente. desde que «se mostre que o negócio causou prejuízo ao interdito» (149º).Anteriormente à publicidade da acção Acerca das condições da anulação destes actos. de uma invalidade sanável por confirmação das pessoas com legitimidade para a invocar. causar-lhe grave dano. 3-Depois do registo da sentença de interdição definitiva Os negócios jurídicos praticados neste período estão feridos de anulabilidade (148º). sempre que um contratante sensato e prudente na gestão dos seus bens não teria celebrado o negócio naqueles termos. 2-conhecido pelo declaratário. o próprio interdito. só serão anuláveis. Resultam. por força de ulteriores vicissitudes. e ás pessoas com legitimidade para a arguir. 2-Na pendência do processo de interdição Se o acto foi praticado depois de publicados os anúncio da proposição da acção. rege o 150º. Podem requerer o levantamento o próprio interdito ou qualquer das pessoas com legitimidade para requerer a interdição (151º). Podem assim requerer a anulação o representante do interdito. no prazo de um ano a contar da morte do incapaz.

portanto. Verificação e determinação judicial da inabilitação A incapacidade dos inabilitados não existe pelo simples facto da existência das circunstâncias referidas no 152º.Quando cessa a incapacidade dos inabilitados A incapacidade só deixa de existir quando for levantada a inabilitação. Constata-se. o instituto da representação. pode. no termo de um processo judicial. como forma de suprimento da incapacidade. à distinção entre inabilitações e interdições. as do 125º. tal como acontece com as interdições. que. portanto. Estabelece-se que. acerca do levantamento da inabilitação. O 155º contém. sendo aplicáveis as disposições que vigoram acerca do valor dos actos dos interditos. um regime particular. para evitar o risco de dissimulação ou fingimento. não corresponde.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Quando tem lugar a incapacidade dos inabilitados As pessoas sujeitas a inabilitação estão indicadas no 152º: indivíduos cuja anomalia psíquica. improdutivas e injustificáveis.Incapacidades acidentais O actual código não inclui a regulamentação da incapacidade acidental (257º) na secção relativa às incapacidades. A segunda categoria – habitual prodigalidade – abrange os indivíduos que praticam habitualmente actos de delapidação patrimonial (não confundir com a administração infeliz ou pouco perspicaz). uma diversidade das formas do respectivo suprimento. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 41 . os 148º 149º 150º. determinar-se que a administração do património do inabilitado seja entregue pelo tribunal ao curador (154ºn. 61. aplicável por remissão dos 139º 156º. regula-a conjuntamente com as várias hipóteses de falta ou vícios de vontade na declaração negocial. todavia. surdez-mudez ou cegueira que provoquem uma mera fraqueza de espírito e não uma total inaptidão do incapaz). Há que aplicar. Valor dos actos praticados pelo inabilitado A lei não regula directamente este problema. em princípio. indivíduos que se revelem incapazes de reger o seu património por habitual prodigalidade ou pelo abuso de bebidas alcoólicas ou estupefacientes. pois se é certo que nas inabilitações tem lugar. A sentença pode determinar uma extensão maior ou menor da incapacidade. Neste caso funciona. pretende-se sujeitar o inabilitado a um período de prova. As características da anulabilidade são. ainda que traduzida apenas na anormal dependência dessas drogas. Pode. tal como nas interdições. todavia. necessariamente. 59. A primeira categoria (anomalias psíquicas. bem como os especificados na sentença (153º). com as necessárias adaptações. surdez-mudez ou cegueira. pois estão sujeitos a autorização do curador os actos de disposição entre vivos. quando a inabilitação tiver por causa a prodigalidade ou o abuso de bebidas alcoólicas ou de estupefacientes. Meios de suprir a incapacidade A incapacidade dos inabilitados é suprida. a representação. A terceira categoria – abuso de bebidas alcoólicas ou de estupefacientes – representa uma inovação do código civil. acerca da sua regeneração. não seja tão grave que justifique a interdição. despesas desproporcionadas aos rendimentos. O abuso de bebidas alcoólicas ou de estupefacientes tem de importar uma alteração do carácter. o seu levantamento exige as condições seguintes: 1-Prova de cessação daquelas causas de inabilitação 2-Decurso de um prazo de 5 anos sobre o trânsito em julgado da sentença da inabilitação ou da sentença que desatendeu um pedido anterior de levantamento. sem o que não pode haver inabilitação. intervir. Torna-se necessária uma sentença de inabilitação. Trata-se da prática de actos de dissipação. pelo instituto da assistência. a assistência. mesmo que se não tenha verificado ainda um dano concreto. tendencialmente. Com estes prazos. Em qualquer dos casos basta que se prove a existência de um perigo actual de actos prejudiciais ao património.º1). embora de carácter permanente. por força do 156º.

A aplicação do princípio da igualdade dos cônjuges. no domínio da administração e da alienação dos bens do casal. pois não se prescreve qualquer regime especial.). quanto à administração dos bens próprios. cada um dos cônjuges tem a administração: 1-dos bens próprios do outro cônjuge. Assim. 42 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados .Incapacidades (ilegitimidades) conjugais As restrições à livre actuação jurídica. intoxicação. oneração. salvo se se tratar de bens doados ou deixados por conta da legitima desse outro cônjuge (= d)) e) dos bens móveis comuns por ele exclusivamente utilizados como instrumento de trabalho (= e)) f) dos bens comuns se o outro cônjuge se encontrar ausente ou impossibilitado (= f)) g) dos bens comuns do outro cônjuge se este lhe conferir por mandato esse poder (= g) O casamento continua a ser fonte de ilegitimidades conjugais.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL O 257º abrange todos os casos em que a declaração negocial é feita por quem. aliás. carecem de consentimento de ambos os cônjuges. ira. 4-a disposição do direito ao arrendamento da casa de morada da família. devido a qualquer causa (embriaguês. se este lhe conferir por mandato esse poder. Esta regra tem. A anulação está sujeita ao regime geral das anulabilidades (287º e ss.º3). alterou profundamente as soluções do direito anterior. inclusive no regime de separação: 1-a alienação ou oneração de móveis (próprios ou comuns) utilizados conjuntamente por ambos na vida do lar ou como instrumento comum de trabalho.º1). com exclusão da administração do outro cônjuge. delírio. são tradicionalmente designadas por incapacidades. se este se encontrar impossibilitado de exercer a administração por achar num lugar remoto ou não sabido. Qual a estatuição respectiva? Os actos referidos são anuláveis desde que o facto seja notório (cognoscível) ou conhecido do declaratário. algumas excepções. etc. A regra dos bens do casal é esta: cada um dos cônjuges tem a administração dos seus bens próprios (1678º n. Assim. ou por qualquer outro motivo (1678º f)). a este respeito. por ele exclusivamente utilizados como instrumento de trabalho (1678º e)). 60. estado hipnótico.º2 a)) b) dos seus direitos de autor (= b)) c) dos bens comuns por ele levados para o casamento ou adquiridos a título gratuito depois do casamento. Tais ilegitimidades constam dos 1682º 1682º-A 1682º -B e 1683º. de ilegitimidade. em qualquer regime de bens. mas proteger os interesses do outro cônjuge e da família. 3-a alienação. derivadas do casamento. Quanto à administração dos bens comuns. 3-dos bens próprios do outro cônjuge. inexistente. arrendamento ou constituição de outros direitos pessoais de gozo sobre a casa de morada de família. Mais correctamente se falará. contudo.) estiver transitoriamente incapacitado de se representar o sentido dela ou não tenha livre exercício da sua vontade. Não se pretende defender os cônjuges contra uma incapacidade natural. bem como dos sub-rogados em lugar deles (= c)) d) dos bens que tenham sido doados ou deixados a ambos os cônjuges. 2-dos bens próprios do outro cônjuge. pertencendo a ambos (em conjunto) a administração dos bens comuns (1678º n. à regra (administração conjunta) opõem-se as seguintes excepções: 1-cada um dos cônjuges tem legitimidade para a prática de actos de administração ordinária (1678º n. 2-a alienação ou oneração de móveis próprios ou comuns de que não tenha a administração.º3) 2-cada um dos cônjuges tem a administração: a) dos proveitos que receba pelo seu trabalho (1678º n.

etc. isto é. falta de liquidez na designação dos titulares. Antes da falência deve ser tentada a recuperação da empresa. N. Estes podem ser: falta de cumprimento das obrigações. O instituto da insolvência foi abolido e passou a ser um requisito da falência.A “massa falida” é inoponível. À alienação ou oneração de bens (móveis ou imóveis) próprios do outro cônjuge. empresas (objecto na titularidade dos comerciantes [não têm personalidade jurídica]). mas não já no regime de separação de bens: 1-a alienação. oneração ou locação do estabelecimento comercial. insolvência – aplica-se aos não comerciantes. A falência é a impossibilidade de uma pessoa. ou impossibilidade. A insolvência é revelada por “factos-índice” .O falido é impedido de dispor dos bens presentes/futuros. mas nunca depois de decorridos 3 anos sobre a sua celebração (nº2).º1 e 3 do 1682º.º 3: insolvência – carência de meios próprios e falta de crédito (note-se a importância do crédito). não são incapacidades. comerciantes (individuais ou sociedades). nos 1682º-A. 3-o repúdio de heranças ou legados. nos 6 meses subsequentes à data em que o requerente teve conhecimento do acto. próprio ou comum. havendo injusta recusa. Sanções da ilegitimidade conjugal De acordo com o 1687º. Pode-se falar em: sociedades (os sujeitos). está sujeito à forma exigida para a procuração e pode ser judicialmente suprido. nomeia o liquidatário judicial. há que ser declarada. são anuláveis a requerimento do cônjuge que não deu o consentimento ou dos seus herdeiros (n. os actos praticados contra o disposto nos n. 1682º-B e no n. feita sem legitimidade. Falência e Insolvência Por si só. Como se supre a ilegitimidade conjugal A ilegitimidade conjugal supre-se pelo consentimento do outro cônjuge (1682º n. Artigo 1º do código: falência – são as empresas em situação de insolvência. que passam a integrar a “massa falida”. Efeitos . Esta posição acaba com o Código das falências (DL 132/93.º1). de o prestar (1684º). são aplicáveis as regras relativas à alienação de coisa alheia. 1682º-A e 1682º-B) o consentimento conjugal. que deve ser especial para cada acto. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 43 . Recuperação da empresa A falência (que respeita os devedores titulares ou não da empresa insolvente) não existe ipso facto. fuga do titular. arrendamento ou constituição de outros direitos pessoais de gozo sobre imóveis próprios ou comuns. Existe um processo que acaba numa sentença judicial que tem que ser registada. .º2 do 1683º. não poder cumprir obrigações. oneração.O falido não pode mais exercer o comércio. são nulas nos termos dos 892º e ss. A falência (deve ser o último recurso) é admitida em relação a devedores não titulares da empresa. por qualquer causa. . nem pode administrar bens de menores (quase inabilitado). singular ou colectiva. cuja verificação determina a insolvência. fixa o prazo para os credores exigirem o crédito.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Carecem de consentimento de ambos os cônjuges. pontualmente. Esta sentença fixa a residência do falido. A falência deixou de ser um instituto dos comerciantes para passar a ser das empresas. apenas nos regimes de comunhão (geral ou de adquiridos). 23 Abril). 2-a alienação. dissipação/extravio de bens.º1e 3. MOTA PINTO: falência – instituto privado dos comerciantes.

Assim: a) o foro geral. como ponto de conexão entre a pessoa e um determinado lugar. b) a prestação debitória deve ser efectuada no lugar do domicílio do devedor (722º) e. para variados efeitos. 65. 2.Homologação do acordo extraordinário entre credor e devedor. ou agravamento dessa impossibilidade. por exemplo. Assim sendo. não há impugnação pois o credor devia ter-se acautelado devido à situação do devedor. Podem ser impugnados por “impugnação pauliana”. Em negócios. salvo disposição especial. o tribunal competente para quaisquer acções. quem os adquirir não os pode opor a terceiros. pode já.Quitação (inexistência da dívida: a dívida foi paga) dos credores. de obter a satisfação integral do seu crédito. se se verificar dolo no acto do devedor. Os seus actos não são inválidos. os bens continuam a integrar a massa falida. Requisitos para a impugnação pauliana: . A situação do falido não é incapacidade. tratando-se apenas de uma ilegitimidade. b. e é uma tentativa de garantir os credores. contudo. o se o crédito for posterior ao acto do devedor.Domicílio O ordenamento jurídico dá relevância. Fundamentos do levantamento da falência 1. no lugar do domicílio que o credor tiver ao tempo do cumprimento (774º). c) a sucessão por morte abre-se no lugar do último domicílio do seu autor (2031º). Repetição (devolução) do indevido. quem adquiriu os bens. É nomeado o liquidatário judicial para administrar. Esta situação está prevista no 610º e ss. pode haver impugnação. Valor dos actos praticados pelo falido Antes da declaração Os actos podem ser resolúveis em benefício da “massa falida”.Má fé (612º) (no sentido subjectivo): o Se o acto for oneroso – só é impugnável se o devedor e o terceiro tiverem agido de má fé.Decurso de 5 anos do trânsito em julgado. de compra e venda. . o falido pode vender bens da massa falida sendo estes negócios válidos. é o domicílio do réu. . no caso de obrigações pecuniárias. para o credor. verifica-se a impugnação pauliana. opô-los. o Se o acto for gratuito – a impugnação procede ainda que ambos estivessem de boa fé.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL O falido pode trabalhar (aliás. 3. isto é. Remissão da dívida. à noção de domicílio.Impossibilidade de satisfação do crédito ou o seu agravamento: o Há impugnação se resultar do acto a impossibilidade. Se o falido conseguir pagar a massa falida. faz todo o sentido para poder encontrar meio para pagar dívidas). É nomeado pelo juiz e “ajudado” pela comissão de credores. em matéria de competência territorial dos tribunais. 44 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados .momento em que nasce o crédito: o se o crédito for anterior ao acto do devedor. a. Contudo.

as freguesias. nos fornece o critério do domicilio do 82º. As partes convencionam que. Há com efeito duas espécies fundamentais de pessoas colectivas: Corporações: têm um substrato integrado por um agrupamento de pessoas singulares que visam um interesse comum. (III)PESSOAS COLECTIVAS 67. as associações recreativas ou culturais. mas um simples acto jurídico. porém. mesmo que a pessoa em causa não os tivesse em mente ou até os quisesse impedir. e com o dos agentes diplomáticos portugueses (88º). no domicílio da pessoa que devem ser praticadas as diligências ou efectuadas as comunicações dirigidas a dar-lhe conhecimento pessoal de um facto. segundo o direito internacional privado. a lei reconhece um domicílio profissional (83º) e um domicílio electivo (84º). estipulado. Ao lado do domicílio voluntário geral. com o que se visa impedir escapatórias. para determinados negócios. etc. bem como o seu termo. Essas pessoas ou associados Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 45 . que constituem centros autónomos de relações jurídicas – autónomos mesmo em relação aos seus membros ou às pessoas que actuam como seus órgãos. um negócio jurídico. igualmente. Há uma presunção de presença da pessoa no domicílio. onde costume regressar após ausências mais curtas ou mais longas. verificando-se a produção. os distritos.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL d) o elemento de conexão decisivo para a determinação. Uma pessoa pode ter dois ou mais domicílios. Em regra. Trata-se de organizações integradas essencialmente por pessoas ou essencialmente por bens. independente da vontade. Este acto voluntário não é. por escrito. se têm por domiciliadas em certo local. Sem dúvida que a residência habitual onde a pessoa vive normalmente. diferente do seu domicílio geral ou profissional. às quais a ordem jurídica atribui a personalidade jurídica. é. em alguns casos. É. resultam de um acto voluntário (de residir habitualmente num certo local ou de aí exercer uma profissão). para todos os efeitos jurídicos. o domicilio (32º). É o que ocorre com o domicílio legal dos menores e interditos (85º). os municípios. Não se confunde também com a residência. não coincide com o paradeiro (225º). dos efeitos jurídicos respectivos. localizando-se no lugar onde a profissão é exercida. À categoria das pessoas colectivas pertencem o Estado. egoístico ou altruístico. Função socioeconómica do instituto da personalidade colectiva As pessoas colectivas são organizações constituídas por uma colectividade de pessoas ou por uma massa de bens. com o local onde a pessoa está a viver com alguma permanência. isto é. com o dos funcionários públicos (87º). da lei aplicável a relações conexionadas com várias ordens jurídicas. Não se trata do local onde a pessoa se encontra em cada momento. as sociedades comerciais. Noção O conceito de domicílio voluntário geral é-nos fornecido pelo 82º e coincide com o lugar de residência habitual. por força da lei. se tem duas ou mais residências habituais. o estabelecimento do domicílio.Conceito de pessoa colectiva. as fundações. Domicílio electivo: é um domicílio particular. O nosso direito conhece alguns casos de domicílio legal. Na definição referiu-se organizações constituídas por uma colectividade de pessoas e organizações constituídas por uma massa de bens. dirigidos à realização de interesses comuns ou colectivos. Domicílio profissional: verifica-se para as pessoas que exercem uma profissão e é relevante para as relações que a esta se referem. isto é.

que lhe dá existência no mundo exterior. de um escopo ou finalidade comum. recreativas. tendo nas suas mãos. estando a actividade pessoal – necessária à prossecução do escopo fundacional – ao serviço da afectação patrimonial – estando subordinada a esta. basta pensar numa associação para a qual os associados concorrem apenas com serviços dirigidos à prossecução do fim comum. Manifesta-se a sua exigência quanto às sociedades. Por sua vez nas fundações só o elemento patrimonial assume relevo no interior da pessoa colectiva. através de actividades pessoais e meios materiais.Deve ser comum aos seus membros ou colectivo. 46 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . o conjunto de dados anteriores à outorga da personalidade jurídica. É o complexo de bens que o fundador afectou à consecução do fim fundacional (tal massa de bens designa-se habitualmente por dotação).. Elemento pessoal ou patrimonial O elemento pessoal verifica-se nas corporações. Pode existir a corporação. justamente o fim em causa determinante da formação da colectividade social ou da dotação funcional. É a realidade que dá peso terreno à pessoa colectiva. a sorte da corporação. 2.g. São corporações as associações desportivas.Elementos constitutivos das pessoas colectivas: o substrato e o reconhecimento Podemos legitimamente reconduzir a dois os seus elementos constitutivos: substrato e reconhecimento. 3. Importa saber o vários subelementos em que o substrato se pode decompor. Criada a fundação. É a colectividade de indivíduos que se agrupam para a realização. dão-lhe existência e cabe-lhes disciplinar a sua vida e destino. é o elemento de direito. O elemento patrimonial intervém nas fundações. É o conjunto de associados. Substrato. sem que os referidos serviços sejam susceptíveis de avaliação pecuniária. fora do substrato da fundação. defende grande parte da doutrina. o problema de saber se o escopo das pessoas colectivas deve ser duradouro ou permanente. rigorosamente. Elemento teleológico A pessoa colectiva deve prosseguir uma certa finalidade. sem que lhe pertença um património. fazendo-a ser algo mais do que uma superestrutura pairando sobre o vácuo. Reconhecimento: elemento a que a lei se refere expressamente (158º).Deve revestir os requisitos gerais do objecto de qualquer negócio jurídico (280º). Por que motivo se fala na existência de um elemento pessoal apenas das corporações e de um elemento patrimonial nas funções? Nas corporações só o elemento pessoal é relevante. Pode dizer-se que o reconhecimento é o elemento formal e o substrato o elemento material.Põe-se. na nulidade do chamado pacto leonino.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL organizam a corporação. por vezes. integrado por vários subelementos. mas tal como está fixada no acto de instituição e nos estatutos. mutualistas. e não em renovadas manifestações. transformador de uma organização ou ente de facto num ente ou pessoa jurídica. v. em segundo plano ou até. o fundador fica fora dela. 68. elevado à qualidade de sujeito jurídico pelo reconhecimento. Fundações: têm um substrato integrado por um conjunto de bens adstrito pelo fundador a um escopo ou interesse de natureza social. só ele sendo um componente necessário do substrato da pessoa colectiva. etc. as sociedades comerciais. É a sua vontade que regula a fundação. culturais. Dirigem-na de dentro. através da modificação dos estatutos ou de outras deliberações. Torna-se necessário que o escopo visado pela pessoa colectiva satisfaça certos requisitos: 1. estabelecida no 994º. Não é legítima a exigência deste requisito em termos de a sua falte impedir forçosamente a constituição de uma pessoa colectiva. é o elemento de facto. Noção O substrato é o conjunto de elementos da realidade extrajurídica. Substrato: é um elemento complexo.

Também esta modalidade de reconhecimento traduz um grau de liberdade e facilidade na constituição de pessoas colectivas superior ao reconhecimento por concessão. os serventuários. personificará ou não o substrato. e quanto às fundações. a pessoa colectiva é automaticamente constituída. os beneficiários ou terceiros. Acresce-se que o número e características dos órgãos da pessoa colectiva e a designação dos indivíduos que os preenchem obedece aos estatutos e. Quanto às associações. a exigência de um reconhecimento individual por parte da autoridade pública para a aquisição da personalidade jurídica resulta expressamente do n. os fundadores. sem mais exigências a todo o substrato completo da pessoa colectiva (sistema de livre constituição das pessoas colectivas). designadamente de relações jurídicas estabelecidas com os associados. isto é.Elementos constitutivos reconhecimento (cont. o contrato de sociedade para as sociedades (980º) e o acto de instituição nas fundações (186º).) da pessoa colectiva: substrato e O reconhecimento. desde logo. Verificado o reconhecimento. Reconhecimento normativo condicionado: também esta modalidade de reconhecimento é de carácter global. de «centros institucionalizados de poderes funcionais a exercer pelo indivíduo ou pelo colégio de indivíduos que nele estiverem providos com o objectivo de exprimir a vontade juridicamente imputável a essa pessoa colectiva». igualmente. Os órgãos da pessoa colectiva podem ser deliberativos ou executivos (representativos). Essa organização traduz-se num conjunto de preceitos disciplinadores das características e do funcionamento da pessoa colectiva (preceitos contidos nos estatutos ou no acto de constituição ou instituição) e na existência de órgãos. não existindo. Um tal sistema dificilmente existirá em qualquer direito positivo.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Elemento intencional Trata-se do intento de constituir uma nova pessoa jurídica («animus personificandi»). verificados esses requisitos. revestir duas formas: Reconhecimento normativo incondicionado: se a ordem jurídica atribuir personalidade jurídica de plano. traduzido num acto individual e discricionário de uma autoridade pública que. isto é. distinta dos associados.º1. A lei formula em geral a exigência de determinados pressupostos ou requisitos. do fundador ou dos beneficiários. O reconhecimento normativo pode. ainda. à qualidade de sujeito de Direito. sem necessidade de uma apreciação de oportunidade e conveniência por parte do Estado. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 47 . Como sujeito jurídico a pessoa colectiva torna-se titular de relações jurídicas. isto é. Pode ter lugar um reconhecimento normativo. 69. que devem acrescer aos elementos caracterizadores de um substrato e. perante cada caso concreto. redutor da dispersão e pluralidade do substrato à unidade. derivado automaticamente da lei e um reconhecimento individual ou por concessão. à lei. em Portugal. Noção. Ora nos negócios jurídicos os efeitos determinados pela ordem jurídica dependem da existência e do conteúdo duma vontade (intenção) correspondente. isto é. caso por caso. no silencio destes. A exigência deste elemento radica na circunstância de a constituição duma pessoa colectiva ter na origem um negócio jurídico: o acto de constituição nas associações (167º). derivado de uma norma jurídica dirigida a uma generalidade de casos e não de uma apreciação individual.º2. Entre nós o reconhecimento normativo condicionado vigora no domínio das sociedades comerciais e civis em forma comercial e das associações e o reconhecimento por concessão é exigido para as fundações (excepção). por uma organização destinada a introduzir na pluralidade de pessoas e de bens existente uma ordenação unificadora. surge uma nova pessoa jurídica: a pessoa colectiva. Modalidades O reconhecimento é o elemento de direito. o regime do reconhecimento normativo condicionado resulta do 158º n. Elemento organizatório A pessoa colectiva é integrada. São possíveis várias modalidades de reconhecimento.

a mais das notas genéricas do 980º. 2-Pessoas colectivas de fim económico não lucrativo: aqui a pessoas colectiva pretende conseguir certas vantagens patrimoniais para os seus associados: subsídios pecuniários no caso de invalidez. instrução. b)Pessoas colectivas de fim interessado ou egoístico: nestas pessoas colectivas. Estas. empréstimos. É o que resulta do 108º código comercial. segundo algum dos 4 tipos de sociedades comerciais conhecidas pela nossa lei.Pessoas colectivas de direito privado e utilidade particular: a finalidade própria destas pessoas colectivas é de mero interesse particular. não praticam actos de comércio. Pessoas colectivas de “mera utilidade pública”: este é um estatuto reconhecido pelo Estado após uma requisição do particular. concorrentemente. porque à comunidade social importa que tais interesses sejam satisfeitos. cultura física ou intelectual. II. têm «por objecto praticar um ou mais actos de comércio». a sua actividade (natural) não se insere no código comercial. nomeadamente. etc. ainda que. As sociedades comerciais são as que. de uma finalidade económica. de frutificação do que é posto em comum pelos sócios. têm capacidade testamentária passiva (2033º) e capacidade judiciária (2936º). São as que têm maior peso e existem em maior número. pois não se cuida propriamente de obter lucros para repartir pelos associados. O regime geral está fixado no Decreto-Lei 460/77. Mas não de uma finalidade lucrativa. que serão sempre – pode dizer-se – de tipo corporativo. E trata-se de pessoas colectivas de utilidade pública. destina-se a pessoas colectivas que prosseguem objectos importantes para determinada população mas em conjunto com a administração central. 48 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . pois. Os associados ou o fundador tomam a peito determinados interesses alheios. Têm por objecto o lucro. a responsabilidade dos sócios é pessoal e solidária [porque não têm personalidade jurídica] (sociedades em nome colectivo). Quanto às sociedades civis têm indiscutivelmente personalidade jurídica as constituídas sob forma comercial pois é-lhes aplicável o referido artigo.Pessoas colectivas de direito privado e utilidade pública: são as que se propõem em escopo de interesse público. Resumindo. Quando falamos de sociedade comercial: tipo contratual autónomo que tem que preencher determinados requisitos. Só podem ser constituídas para o exercício de certas actividades económicas. mas é tal que ao mesmo tempo interessa à comunidade 1-Pessoas colectivas de fim ideal: o objectivo egoístico que uma pessoa colectiva se proponha pode consistir num interesse de natureza ideal (não económica): recreio. aliás. etc. Exemplo é a sociedade comercial que tem uma disciplina privativa no código comercial. se dirijam à satisfação dum interesse dos próprios associadas ou do próprio fundador. excepto quanto à falência. ficando sujeitas às disposições do código comercial. pretende-se a repartição de lucros. não têm personalidade jurídica. As sociedades comerciais têm personalidade jurídica. podem constituir-se sob forma comercial. Espécies ou tipos de sociedades A primeira distinção a estabelecer dentro das sociedades é entre sociedades civis e sociedades comerciais. desporto. As sociedades a que falte esta diferença específica são sociedades civis. Trata-se. o escopo visado interesse de modo egoístico aos próprios associados.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Pessoas colectivas de direito público e privado I . a)Pessoas colectivas de fim desinteressado ou altruístico: nestas pessoas colectivas o interesse próprio que os associados ou o fundador querem satisfazer é um interesse de natureza altruística: o interesse de promover certos interesses de outras pessoas (beneficiários).

Também aqui só há produção de efeitos se for publicitada (185º n. A associação tem órgãos deliberativos (ex. pelo montante das acções respectivas. cada sócio responde.º5). Associações Emerge de negócio bilateral ou plurilateral. A sua constituição dá-se mediante a verificação de princípios cooperativos com por exemplo o princípio da porta aberta. Não são sociedades. Podem exercer actividades económicas. solidária e ilimitada dos sócios perante os credores sociais. b) Sociedades anónimas – os sócios estão isentos de responsabilidade pessoal pelas dívidas da sociedade e os credores sociais só se podem pagar pelos bens sociais. sociais. mesmo que os outros sócios estejam em dívida para com a sociedade. O seu regime está presente no código cooperativo. isto é. Se algum aspecto for omisso.: órgão de administração). pois intervêm nelas sócios que assumem responsabilidade ilimitada como os sócios das sociedades em nome colectivo (Comanditados) e sócios que só arriscam o valor das suas entradas como os accionistas das sociedades anónimas (comanditários). O 167º diz o que a escritura deve conter para respeitar a forma legal. pela parte que lhes cabe do capital social. executivos (ex. isto é. O reconhecimento da fundação é requerido pelo fundador ou pelos herdeiros e. A sua constituição tem que ser por escritura pública sob pena de nulidade. não visam o lucro.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Tipos legais de sociedades a) Sociedades em nome colectivo – caracterizam-se pela responsabilidade pessoal. solidariamente com os demais. um negócio jurídico unilateral. DR). d) Sociedades por quotas – os sócios também não respondem. e ainda. nada mais tendo a satisfazer. de fiscalização (ex. para com a sociedade. No antigo regime. Aplica-se subsidiariamente o código comercial. a associação não adquire personalidade jurídica. Os limites à vontade do instituidor e ao fim da fundação estão previstos no 189º. esta traduz-se numa inoponibilidade a terceiros. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 49 . o capital social está dividido em fracções a cada uma das quais corresponde uma acção. bem como o modo de funcionamento da fundação. culturais. Fundações Derivam de uma só pessoa. pelo capital que subscreveu. as cooperativas não eram bem cooperativas. c) Sociedades em comandita – são uma combinação entre os tipos anteriores. A instituição é um acto irrevogável pelos herdeiros do fundador. sendo portanto. Segundo o 168º. pelas dividas da sociedade.: assembleia geral). Se falta a publicidade. a fundação é irrevogável. os estatutos da associação estão a sujeitos a publicidade (série III. Segundo o 177º. Cooperativas Antigamente eram uma subespécie de sociedades. a partir do requerimento do reconhecimento. O seu capital é variável bem como a sua composição (princípio da porta aberta). Cabe ao instituidor dizer quais os bens afectos.: conselho fiscal). A sua instituição é feita por: acto entre vivos (escritura pública. pelas prestações devidas à sociedade por algum ou alguns dos outros associados por força da não realização integral das suas quotas. tal como nas anónimas. 185º) ou testamento (a fundação apresenta-se tal qual está prevista no testamento). Neste caso há uma dotação que é afecta á prossecução de determinado fim. as suas decisões são anuláveis e o 182º fala acerca da sua extinção (da associação). respondem para com a sociedade pela realização da sua quota. etc.

em princípio. mas apenas através de determinadas pessoas singulares (assembleia geral. verifica-se um juízo discricionário para o seu apuramento. Neste caso. Neste caso. ou por autoridade pública. independentemente de culpa. A capacidade para o exercício de direitos ou capacidade de agir consiste na aptidão para por em movimento a capacidade jurídica por actividade própria. Nesta hipótese uma pessoa (o comitente) responde. sem necessidade de se ser representado ou assistido por outrem. mesmo sem culpa. responsabilidade civil extracontratual dos representados pelos actos dos seus representantes. com fundamento no risco: se beneficia duma actividade alheia – a do comissário – deve suportar os riscos respectivos. Trata-se dum problema de natureza conceitual. também. bem podendo vir a chegar-se à conclusão oposta. assim. Tudo depende da natureza do vínculo entre a pessoa colectiva e aquelas pessoas físicas que procedem em seu nome e no seu interesse: será um nexo de verdadeira organicidade. 50 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . só podendo agir por intermédio de certas pessoas físicas.º2). Sem reconhecimento. gerentes. 160º .). etc. Logo as pessoas colectivas. não podendo agir elas mesmas. a administração já actua de forma vinculada. Quanto ao primeiro. o que fazer com os bens (em caso de testamento)? Os bens devem ser entregues a uma colectividade que prossiga fins análogos ao da fundação..Capacidade para o exercício de direitos das pessoas colectivas. A fundação é extinta segundo o 192º por: disposição da lei. Esta proposição negatória da capacidade de agir das pessoas colectivas não está. então deve rejeitar-se a tese da capacidade para o exercício de direitos das pessoas colectivas. No segundo caso. A resposta à pergunta “órgãos ou representantes?” infere-se da solução dada pela lei e um concreto problema de regulamentação: o problema da responsabilidade civil extracontratual das pessoas colectivas. Há limitações relativamente à capacidade das pessoas singulares. pelos danos que o comissário causar. estariam necessariamente privadas daquela capacidade. a vontade do instituidor pode ser afastada se houver prejuízo sobre o património da fundação. directores.interesse social da fundação. ou de mera representação? Se se concluir pela organicidade. conselho de administração. administradoresdelegados.. Só num caso bem delimitado a lei impõe essa responsabilidade no âmbito da representação voluntária: é a hipótese do 500º (“aquele que encarrega outrem de qualquer comissão responde.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Segundo o 191º. não há fundação. “Princípio da especialidade do fim” – norteia a medida da capacidade das pessoas colectivas. se se concluir pela representação.suficiência dos bens (188º n. isenta de contestação possível. pois há autonomia entre as personalidades jurídicas do representante e do representado. então pode aceitar-se terem as pessoas colectivas capacidade para o exercício de direitos. a das pessoas colectivas é mais reduzida pois apenas se lhes aplicam os direitos necessários e convenientes. A lei fala indiferentemente em órgãos (162º) e em representantes (163º. . agindo o órgão é a própria pessoa que age. em princípio. não tomando estes termos no sentido rigoroso em que ficaram definidos. todavia. Quanto à representação voluntária. Este tipo de responsabilidade só pode resultar dum comportamento (acção ou omissão) próprio. Na verdade resulta da lei não haver.capacidade de gozo. não há responsabilidade do representado pelos actos ilícitos extracontratuais do seu procurador.”). Ora as pessoas colectivas carecem de um organismo físico-psíquico. pois a relação entre um órgão e o ente em que se integra. 76. o fim da pessoa colectiva determina a sua capacidade. cujos actos projectarão a sua eficácia na esfera jurídica do ente colectivo. é de verdadeira identificação e. o reconhecimento é individual e verificam-se dois pressupostos: . A aquisição de personalidade/capacidade jurídica está presente no 160º havendo relação com o 158º. 165º).

aplicável às associações. Tal restrição já constava da legislação anterior (34º do código civil: não podiam ser sujeitos de relações estranhas «aos interesses legítimos do seu instituto«). Constata-se. dificilmente. encontrar quem com ela transaccionasse a crédito. Só então se poderá dizer que foi encarregado de uma comissão. Devem portanto responder pelos factos dos seus órgãos. não importa qualquer responsabilidade dos representados pelos actos ilícitos extracontratuais dos seus representantes. igual à capacidade de que desfrutam as pessoas singulares. enquanto a das pessoas singulares é de carácter geral. etc. A lei refere-se-lhe expressamente para o efeito de a limitar. Ora no 165º estatui-se a responsabilidade civil dos entes colectivos. apenas. nos termos do 500º. 2ª . muito menos.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL A situação prevista no 500º abrange. É o chamado princípio da «especialidade do fim». a uma autoridade deste. As pessoas colectivas podem. em ordem a obter recursos para a prossecução dos seus fins. agentes ou mandatários que produzam o inadimplemento de uma obrigação em sentido técnico. Não é. todavia. a exclusão dessa forma de responsabilidade.Capacidade jurídica (capacidade de gozo de direitos) das pessoas colectivas A capacidade jurídica das pessoas colectivas é um «status» inerente à sua existência como pessoas jurídicas (67º). salvo no caso particular do 500º. 77. que o instituto da representação. As pessoas colectivas de fim desinteressado ou egoístico ideal não estão de todo incapacitadas para praticar actos de natureza lucrativa. por assim o justificar a analogia das situações (175º). Assim resulta claramente do 165º («as pessoas colectivas respondem civilmente»: esta expressão abrange quer a responsabilidade contratual. 78. pois estes – pelo menos o órgão mais qualificado – não são encarregados de uma comissão. Sendo assim. uma capacidade igual para todas. portanto. Essas limitações constam do 160º e são as seguintes: 1ª . A personalidade colectiva é um mecanismo aparelhado pela ordem jurídica para mais fácil e eficaz realização de certos interesses (os correspondentes aos fins estatutários). estarem fora da capacidade jurídica das pessoas colectivas os direitos e obrigações que não sejam necessários ou convenientes à prossecução dos seus fins. também. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 51 . Ora tal qualificação só lhe pode caber quando estiver numa relação de dependência em face do representado – quando estiver submetido a um poder de direcção. legal ou voluntária. É uma capacidade jurídica específica. «a contrario» do 160º n. injustificável. um sector caracterizado da representação voluntária: os casos em que o procurador pode ser considerado um comissário nos termos e para os efeitos do mesmo artigo. mas são eles próprios formuladores da vontade da pessoa colectiva. nem. Logo as pessoas físicas que agem em seu nome e no seu interesse são ou integram verdadeiros órgãos e portanto as pessoas colectivas têm capacidade para o exercício de direitos.Responsabilidade civil das pessoas colectivas Responsabilidade contratual Seria uma situação de favor.º1. tal situação nenhuma analogia apresenta com a ligação entre a pessoa colectiva e os seus «representantes». os titulares de toda a iniciativa e não meros comitidos. que prevê uma hipótese sem analogia com a situação das pessoas colectivas. ser titulares dos chamados direitos de personalidade (pelo menos de alguns): direito ao nome (72º).estão exceptuadas do âmbito da capacidade jurídica das pessoas colectivas as relações jurídicas vedadas por lei ou que sejam inseparáveis da personalidade singular.resulta. com o reverso desfavorável para a própria pessoa colectiva de. às fundações e também às sociedades. quer a extracontratual).

ser exercitados sobre um determinado «quid». verificar-se a culpa dos órgãos ou agentes da pessoa colectiva pelo inadimplemento da obrigação. para a pessoa colectiva responder. O 165º estatui que as pessoas colectivas respondem nos mesmos termos em que os comitentes respondem pelos actos ou omissões dos seus comissários. Aliás. agente ou mandatário. outro direito). na hipótese de responsabilidade contratual. Resulta desta disposição que. prestação. ibi incommoda»).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL O princípio geral do nosso código em matéria de responsabilidade contratual. não se tornando necessário mais nenhum requisito. se devem verificar os pressupostos seguintes: 1)Que sobre o órgão. está submetido aos poderes. Objecto e conteúdo Fala-se de objecto da relação jurídica para referir o objecto do direito subjectivo que constitui o lado activo da mesma relação. por força do princípio de justiça segundo o qual quem emprega determinadas pessoas para vantagem própria deve suportar os riscos da sua actividade. isto é. que corresponde ao aspecto funcional do direito. integrado nas disposições relativas à responsabilidade pelo risco (responsabilidade objectiva). 52 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Conceito. (II)TEORIA GERAL DO OBJECTO DA RELAÇÃO JURÍDICA 80. exige a subordinação de um bem ao poder do titular do direito. o regime é o mesmo em virtude de o inadimplemento da obrigação se dever sempre considerar como tendo ocorrido «no exercício da função que lhe foi confiada».º1). O 165º remete para a responsabilidade dos comitentes por actos dos seus comitidos. O objecto de uma relação jurídica é precisamente o «quid» sobre que incidem os poderes do seu titular activo. 2)Que o acto danoso haja sido praticado pelo órgão. corpóreo ou incorpóreo. Ao alargamento das potencialidades do sujeito na satisfação dos seus interesses próprios deve corresponder a responsabilidade pelos danos causados por esse alargamento («ubi commoda. Responsabilidade extracontratual A responsabilidade extracontratual das pessoas colectivas é a melhor solução «de jure condendo». em que se prescinde da culpa do responsável. podendo exigir-lhe o reembolso de tudo quanto haja pago. e as faculdades que o integram. Tal responsabilidade – na hipótese da responsabilidade aquiliana – consta do 500º.º1). 3)Ao lado da pessoa colectiva fica igualmente adstrito à obrigação de indemnizar o órgão. portanto. agente ou mandatário recaia igualmente a obrigação de indemnizar (500º n. pessoa. estabelecendo-se no 799º uma presunção refutável de culpa na caso de não cumprimento defeituoso. o ente colectivo responde para com o credor. desde que o inadimplemento tenha sido culposo e dele resultem danos. sobre um objecto (coisa corpórea ou incorpórea. Esse poder e essas faculdades incidem sobre determinado ente (coisa ou pessoa). incluindo um determinado modo de ser da própria pessoa. Nestes termos. agente ou mandatário no exercício da função que lhe foi confiada. podem. 4)A pessoa colectiva que tiver satisfeito a indemnização ao lesado tem direito de regresso contra o órgão. o que não nos parece exacto. A satisfação do interesse. à supremacia do titular activo da relação jurídica e é o objecto desta. O direito subjectivo traduz-se num poder atribuído a uma pessoa. É o que resulta do 800º para o qual se deve considerar como feita remissão do 165º. Daí resulta ser necessário para o surgimento da obrigação de indemnizar que tenha havido culpa do devedor no não cumprimento. desde que tenha havido culpa deste no plano das relações internas. Esse bem. se se considerar que a remissão é feita para o 500º.Objecto da relação jurídica. quase sempre. agente ou mandatário (500º n. Este poder. está enunciado no 798º. agentes ou mandatários. conferem a possibilidade de exercer uma soberania ou domínio sobre um bem. que constitui o ponto de incidência do direito. A solução afirmativa do problema da responsabilidade extracontratual está expressamente consagrada no 165º para os actos praticados por órgãos (representantes). Deve.

Quis-se certamente restringir o conceito de coisa àquilo que pode ser objecto de direitos. Definido..: A obrigase para com o empresário B a dar um recital de piano) já a distinção entre objecto imediato e objecto mediato se apresenta evanescente. afastando um conceito amplo. mas antes poderesdeveres ou poderes funcionais. fruir. assim. A distinção nem sempre se verifica.Possíveis objectos de relações jurídicas O 202º estabelece equivalência entre o conceito de coisa e o de objecto de relações jurídicas e enuncia o artigo seguinte várias classificações das coisas. Na verdade o exercício destes direitos não se traduz na incidência de quaisquer poderes ou de qualquer domínio sobre um bem submetido a essa supremacia. todo o ente. ao contrário do titular dos direitos reais. O proprietário. A distinção verifica-se nas obrigações (direitos de crédito) de prestação de coisa certa e determinada. Objecto: é aquilo sobre que recaem os poderes do titular do direito. está submetido àqueles poderes. o usufrutuário. Cremos. sob a tutela do ordenamento jurídico que actua positivamente (atribuição de poderes ao proprietário. A distinção exprime a diversidade entre aquilo que directamente está submetido aos poderes ideais que integram um direito subjectivo e aquilo que só de uma forma mediata ou indirecta. puramente pensado. Conteúdo: é o conjunto dos poderes ou faculdades que o direito subjectivo comporta. puramente filosófico. parece dever concluir-se que os direitos potestativos não têm objecto. sendo é certo a espécie mais corrente de objectos de relações jurídicas. Facilmente se distinguem. Nos direitos reais não há intermediário entre o titular do direito e a coisa. estão em contacto directo com o objecto do seu direito. das relações jurídicas. O objecto mediato é a própria coisa que deve ser entregue ao credor. etc. Nelas o objecto imediato do direito do credor é o comportamento do próprio devedor. o credor só tem direito à coisa através da prestação do devedor. Actuam com carácter conformador sobre o mundo. modificação ou constituição de relações jurídicas). que aquela equivalência não é inteiramente rigorosa. as noções de objecto de um direito e de conteúdo do mesmo direito. o objecto das relações jurídicas. a prestação. assim. o acto de entrega da coisa. 81. Entre o credor (ou o seu direito) e a coisa intromete-se a pessoa do devedor. todo o «quid». pois não são direitos subjectivos do tipo comum. Vejamos de per si cada um dos possíveis objectos de relações jurídicas. nos sistemas jurídicos modernos. quer os que suscitam dúvidas. etc. todo o bem sobre que podem recair direitos subjectivos). Exemplos desta figura são os direitos integrados nos institutos de poder paternal e do poder tutelar. colhendo directamente dele as respectivas utilidades.Objecto imediato e objecto mediato Pode distinguir-se entre objecto mediato e imediato dos direitos subjectivos. ao usufrutuário. na verdade. 1)Pessoas: Estes direitos sobre outras pessoas. pois. São direitos a uma modificação jurídica (extinção. pois as coisas. Objecto do direito de propriedade são os poderes conferidos pelo ordenamento jurídico ao proprietário (poderes de usar. de coisa. através de um elemento mediador. quer os que inquestionavelmente o são.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Objecto de relações jurídicas (objecto de direitos subjectivos é. dispor). 82.) e negativamente (imposição de um dever geral de abstenção a todos os outros). mediante uma identificação com o bem sobre que incidem os poderes do titular actual. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 53 . têm um conteúdo especial. isto é. 2)Prestações: Nos direitos de crédito o objecto é uma conduta ou acto humano: a prestação. contudo. isto é. Nas obrigações de prestação de facto (ex. não esgotam contudo a extensão do conceito de objecto jurídico.

invenções industriais. ainda que não tenha existência real e presente. cientificas. 6)A própria pessoa (certas manifestações ou modos de ser físicos ou morais da pessoa): Alguns autores contestam veemente a legitimidade da figura dos direitos sobre a própria pessoa. É. nas prestações. fundamentalmente teórico. intelectuais. Compreende-se assim que o direito reconheça esses bens e tutele os aspectos patrimonial e pessoal apontados. etc. necessário que estes objectos corpóreos revistam certos requisitos: existência autónoma. (II)As coisas e o património 83. 4)Coisas incorpóreas ou bens imateriais: A actividade espiritual do homem pode ser exercida no sentido da criação de obras. Acresce não se divisar um qualquer valor operacional ou prático na inclusão de uma definição deste tipo num código. se deve falar em direitos sobre certos modos de ser da pessoa ou antes em posições jurídicas fundamentais do homem. carecidas de personalidade jurídica (coisas materiais). Exemplos: penhor de direitos. produtos do engenho. nesse plano. Num sentido físico coisa é tudo o que tem existência corpórea ou. Pensemos nas pessoas. de importância limitada no quadro dos fins da ciência do Direito.Noção jurídica de coisa Num sentido corrente e amplo coisa é tudo o que pode ser pensado. incorrecto. susceptíveis de constituírem objecto de relações jurídicas. possibilidade de sujeição jurídica ao poder exclusivo de um ou alguns homens.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Nestes direitos o objecto não é rigorosamente uma coisa (res). uma abstenção nas obrigações de prestação de facto negativo. devem ser apropriáveis. isto é. nos modos de ser ou bens da própria personalidade. São coisas incorpóreas. portanto. Para além do seu valor patrimonial. desprovidos de personalidade e não integradores do conteúdo necessário desta. usufruto de direitos de crédito. revestindo a noção explicitada no 202º um significado puramente expositivo. pois podem ser explorados economicamente. Quanto ao sentido jurídico de coisa. Conjugando todas estas ideias podemos definir as coisas em sentido jurídico como «os bens (ou os entes) de carácter estático. referidas no 829º a). alguns deles estão intimamente ligados à personalidade do seu autor. embora tenham um regime especial relativamente ao regime geral das coisas e não estejam previstas nas várias classificações das coisas enumeradas no 203º. contudo. há que considerar o 202º. Não pode considerar-se rigorosa tal definição. Em consequência dessa aplicação do espírito humano surgem obras artísticas. 54 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . isto é. e aos direitos. objecto de certas figuras de direitos sobre direitos. 3)Coisas materiais ou corpóreas: Nenhuma dúvida se pode suscitar acerca da possibilidade de realidades físicas. a esse respeito. pois ela está reflectida na obra criada. devem ser úteis. idoneidade para satisfazer interesses humanos. podem integrar-se no conceito de coisas. é susceptível de ser captado pelos sentidos.. de tipo manualístico e. Quanto aos bens imateriais. 5)Direitos subjectivos: Pode pôr-se o problema de saber se um direito subjectivo pode constituir objecto de outro direito subjectivo. e. Saber se. objecto dos direitos de autor ou de propriedade industrial. é um problema de construção dogmática. etc. serem objecto de direitos subjectivos. mas um comportamento do devedor (uma actividade nas obrigações de prestação de coisa ou de prestação de facto positivo. onde se contém a seguinte definição: «Diz-se coisa tudo aquilo que pode ser objecto de relações jurídicas». Com efeito há entes susceptíveis de serem objecto de relações jurídicas que não são coisas em sentido jurídico. como dissemos. literárias. que são o pressuposto de todos os direitos. Estes bens têm valor patrimonial autónomo. da inteligência ou da sensibilidade humanas. pelo menos.

são manifestação ou actuação de uma vontade. enquanto absorvida ou incluída no todo). um grão de areia. (III)TEORIA GERAL DO FACTO JURÍDICO (1)Dos factos jurídicos em geral (I)Conceitos e Classificações 87. são acções humanas tratadas pelo direito enquanto manifestações de vontade. as coisas consumíveis. etc. isto é.Noção de facto jurídico Facto jurídico é todo o acto humano ou acontecimento natural juridicamente relevante. etc. do arrendamento. noção muito importante dada a sua aplicação no regime do usufruto e da posse (os frutos da coisa cabem ao possuidor da boa fé. as coisas fungíveis.. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 55 . os planetas. etc. só são coisas em sentido jurídico quando puderem ser objecto de relações jurídicas. por isso não são coisas. ou de coisas abandonadas.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Os bens de carácter estático. Esta relevância jurídica traduz-se. b)Possibilidade de apropriação exclusiva por alguém (não são coisas os bens que escapam ao domínio do homem. carecidos de personalidade. a luz solar. na produção de efeitos jurídicos. noção igualmente importante dada a sua aplicação no regime da posse. com valor de troca (pode tratar-se de bens com valor meramente pessoal). Dá também o conceito de frutos (212º: tudo o que a coisa produz periodicamente. úteis (não são indispensáveis mas mantêm o valor da coisa). Os primeiros resultam da vontade como elemento juridicamente relevante. por falta de possibilidade de delimitação ou captura. Os segundos são estranhos a qualquer processo volitivo – ou porque resultam de causas de ordem natural ou porque a sua eventual voluntariedade não tem relevância jurídica. as coisas futuras. como por exemplo e por enquanto. O código civil define no 204º e seguintes as coisas imóveis e móveis. c)Aptidão para satisfazer interesses ou necessidades humanas (o homem é a medida e o critério do relevo jurídico das coisas. b)Que se trate de bens permutáveis. basta. as estrelas. ou os que. como os animais bravios ou os peixes não apropriados. Definem-se igualmente as benfeitorias (216º: despesas feitas para conservar ou melhorar a coisa). as coisas principais e as coisas acessórias ou pertenças. a camada atmosférica. etc. mas não já ao possuidor de má fé).) Inversamente não é necessário: a)Que se trate de bens de natureza corpórea (a energia eléctrica é uma coisa como o são os objectos dos direitos de autor e da propriedade industrial). O mesmo artigo considera e define três modalidades de benfeitorias: necessárias (indispensáveis para manter a coisa). pois para nada servem. como por exemplo. Para esse efeito devem apresentar as seguintes características: a)Existência autónoma ou separada (uma casa é uma coisa. c)Que se trate de bens efectivamente apropriados (pode tratar-se das «res nullius». não sendo todavia cada uma das pedras ou das paredes que a integram. uma gota de agua. são necessariamente aproveitados por todos os homens. portanto. as coisas simples e compostas. senão mesmo necessariamente.Classificação dos factos jurídicos A primeira grande classificação dos factos jurídicos é a que se pode estabelecer entre factos voluntários ou actos jurídicos e factos jurídicos involuntários ou naturais. que sejam bens apropriáveis). de qualquer homem. principalmente. as coisas divisíveis. 88. sem prejuízo da sua substância). voluptuárias (destina-se ao recreio).

Estamos no domínio dos factos voluntários. da gestão de negócios. É o caso da acessão (uma coisa de uma pessoa une-se a uma coisa de outra pessoa) industrial (resultado de acção humana) ou natural (derivada de causa naturais). da especificação. (II)DO NEGÓCIO JURÍDICO E DO SIMPLES ACTO JURÍDICO (1)Conceito. embora muitas vezes haja concordância entre a vontade destes e os referidos efeitos. importam uma sanção para o seu autor (infractor de uma norma jurídica). cujo núcleo essencial é integrado por uma ou mais declarações de vontade a que o ordenamento jurídicos atribui efeitos jurídicos concordantes com o conteúdo da vontade das partes. A importância do negócio jurídico manifesta-se na circunstância de esta figura ser um meio de auto-ordenação das relações jurídicas de cada sujeito de direito. da notificação da cessão de créditos. etc. mesmo que não tenham sido previstos ou queridos pelos seus autores. Os actos reais ou operações jurídicas: traduzem-se na efectivação ou realização de um resultado material ou factual a que a lei liga determinados efeitos jurídicos. distinguir-se em negócios jurídicos e simples actos jurídicos ou actos jurídicos «stricto sensu». Não é. 56 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . elementos e classificações (I)Conceito e elementos 94. apareça como manifestação de uma vontade de certos efeitos práticos sob a sanção do ordenamento jurídico. Os efeitos dos negócios jurídicos produzem-se «ex voluntate» e não apenas «ex lege». apesar disso nem sempre os efeitos jurídicos respectivos são produzidos por terem sido queridos e na medida em que o foram. exteriormente observado. tal como este é objectivamente (de fora) apercebido. É o caso da interpelação do devedor. Dentro dos simples actos jurídicos é usual fazer-se uma distinção entre: Os quase-negócios jurídicos: traduzem-se na manifestação exterior de uma vontade. Os actos ilícitos são contrários à ordem jurídica e por ela reprovados. necessária uma vontade de produção dos efeitos correspondentes ao tipo de simples acto jurídico em causa para essa eficácia se desencadear. É o que sucede com o testamento e com os contratos.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Os factos jurídicos voluntários podem ser lícitos ou ilícitos. etc. segundo outra classificação de carácter fundamental. determinando o ordenamento jurídico a produção dos efeitos jurídicos conformes à intenção manifestada pelo declarante ou declarantes. com intenção de os alcançar sob tutela do direito. todavia. Os simples actos jurídicos são factos voluntários cujos efeitos se produzem. Os factos voluntários ou actos jurídicos podem.Conceito e importância do negócio jurídico Os negócios jurídicos são actos jurídicos constituídos por uma ou mais declarações de vontade. Os efeitos dos simples actos jurídicos ou actos jurídicos «stricto sensu» produzem-se «ex lege» e não «ex voluntate». dirigidas à realização de certos efeitos práticos. Estamos perante o instrumento principal de realização do princípio da autonomia da vontade ou autonomia privada. da ocupação de animais ou coisas móveis. Os negócios jurídicos são factos voluntários. A distinção entre negócios jurídicos e simples actos jurídicos assenta precisamente neste critério da relação que intercede entre a vontade ou volição das partes dirigida a um resultado e os efeitos jurídicos produzidos. Os actos lícitos são conformes à ordem jurídica e por ela consentidos. da descoberta de um tesouro. O que é verdadeiramente constitutivo do negócio é o comportamento declarativo – a existência de um comportamento que.

Se a dúvida for do primeiro. Estas convenções são combinações sobre a matéria que é normalmente objecto de negócios jurídicos. faria a lei corresponder efeitos jurídicos concordantes. A falta de vontade de efeitos jurídicos distingue. Se a dúvida for do segundo tipo. não é menos verdade que elas só deixam de se aplicar quando uma vontade real contrária for manifestada. o que sucede é que as partes dos vários negócios não têm uma representação completa e exacta de todos os efeitos que o ordenamento jurídico atribui às suas declarações de vontade. praxes sociais. distinguem-se os negócios jurídicos dos chamados negócios de pura obsequiosidade. Ora. normalmente económicos. Estes são promessas ou combinações da vida social. Simplesmente não se trata de uma representação completa dos efeitos jurídicos correspondentes àquela vontade de efeitos práticos – esses efeitos jurídicos completos serão determinados pela lei. também uma vontade de efeitos jurídicos. moral. só os juristas completamente informados sobre o ordenamento podiam celebrar negócios jurídicos. A vontade dirigida a efeitos práticos. As partes manifestam apenas uma vontade de efeitos práticos ou empíricos. se é certo que algumas normas supletivas consagram cláusulas usuais ou de estilo do comércio jurídico. correspondentes aos efeitos práticos. Haveria uma vontade das partes dirigida à produção de determinados e precisos efeitos jurídicos. Os próprios efeitos derivados de normas supletivas resultariam da tácita vontade das partes. não bastando provar-se que as partes não pensaram no ponto ou até provavelmente não teriam querido aquele regime. mas que. Pode surgir a dúvida sobre se numa dada hipótese existe um negócio de pura obsequiosidade ou um negócio jurídico – ou antes sobre se existe um «agreement» ou um negócio jurídico. em que o disponente confia pura e simplesmente na honorabilidade dos herdeiros a quem cumpre executar a disposição. não é única nem é a decisiva – decisivo para existir um negócio é a vontade de os efeitos práticos queridos serem juridicamente vinculativos. sem carácter ilícito. os negócios jurídicos do chamados gentlemen’s agreements. é a parte interessada em demonstrar a inexistência da intenção negocial que tem o onus probandi. tais como a lei os determina. estão desprovidas de intenção de efeitos jurídicos. Por outro lado. A estes efeitos práticos ou empíricos manifestados. pois. etc. É o caso de um empréstimo de honra ou de uma disposição de bens para depois da morte. a vontade de se gerarem efeitos jurídicos nomeadamente deveres jurídicos.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 95. Têm. Há uma «intenção dirigida a um determinado efeito económico juridicamente garantido». Também esta concepção é inaceitável. Por falta de intenção de efeitos jurídicos nestes termos. Tal como define o negócio jurídico este não se distingue dos compromissos ou convenções celebradas sob o império de outros ordenamentos normativos (cortesia. excepcionalmente. modificar ou extinguir um vinculo jurídico (ex. para um jantar). são perfeita e completamente correspondentes ao conteúdo da vontade das partes. a ser esta doutrina correcta. Teoria dos efeitos jurídicos Para esta doutrina os efeitos jurídicos produzidos.: o convite para um passeio. igualmente.Relação entre a vontade exteriorizada na declaração negocial e os efeitos jurídicos do negócio. é a parte interessada em demonstrar a existência do negócio jurídico que tem o ónus da prova respectivo. Este ponto de vista não fornece o correcto diagnóstico ou o correcto critério para a determinação da relação que intercede no negócio jurídico entre a vontade dos seus autores e os efeitos jurídicos respectivos.). Os autores dos negócios jurídicos visam certos resultados práticos ou materiais e querem realizá-los por via jurídica. Teoria dos efeitos práticos Para esta doutrina a teoria dos efeitos jurídicos não é realista – está longe da realidade. Teoria dos efeitos prático-jurídicos É o ponto de vista correcto. às quais é estranho o intuito de criar. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 57 . Aliás.

Nos contratos ou negócios bilaterais há duas ou mais declarações de vontade. Não é necessário que as partes configurem qualquer cláusula para a produção destes efeitos. renúncia a certos direitos. embora com um significado para cada parte. Elementos acidentais São as cláusulas acessórias dos negócios jurídicos. 1030º (locação). etc. da estipulação de lugar e tempo para o cumprimento da obrigação. O critério classificativo é o do número e modo de articulação das declarações integradoras do negócio. Trata-se das estipulações que não caracterizam o tipo negocial em abstracto. Elementos naturais São os efeitos negociais. São exemplos de normas supletivas. derivados de disposições legais supletivas. mas se tornam imprescindíveis para que o negócio concreto produza os efeitos a que elas tendem. ser excluídos por estipulação antecipadamente formulada. etc. 885º (compra e venda). (II)Classificações dos negócios jurídicos 97. 2) vigora o princípio da tipicidade. Há assim uma oferta ou proposta e a aceitação. a declaração de vontade sem anomalias e a idoneidade do objecto. Acerca dos negócios unilaterais importa focar as seguintes notas ou características do regime dos negócios unilaterais: 1) é desnecessária a aceitação do adversário. todavia. abrangendo assim as duas modalidades. de conteúdo oposto. sem ser necessário comunicá-la a quem quer que seja.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 96. se for e quando for dirigida e levada ao conhecimento de certa pessoa. formando um só grupo. enquanto nos segundos basta a emissão da declaração. submetendo os efeitos do negócio a um evento futuro e incerto. sendo estas a estipulação que caracteriza um determinado negócio jurídico. etc.Elementos dos negócios jurídicos Elementos essenciais Sendo o negócio jurídico um acto que só desempenha a sua função na medida em que for válido. É o caso das cláusulas de juros. 58 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Existem também as condições especiais de validade. que se conciliam num consenso.Negócios jurídicos unilaterais e contratos ou negócio jurídicos bilaterais O código civil contém uma regulamentação geral do negócio jurídico. 3) uma importante distinção neste domínio é a que se deve estabelecer entre negócios unilaterais receptícios e negócios unilaterais não receptícios. os artigos 964º (doação). podendo. São eles a capacidade das partes (e a legitimidade. da cláusula condicional. quando a sua falta implique invalidade e não apenas ineficácia). nos primeiros a declaração só é eficaz. mas paralelas. Nos negócios unilaterais há uma só declaração de vontade ou várias declarações. É o caso paradigmático da compra e venda. não vemos razão para afastar a sistematização tradicional que considera elementos essenciais de todo e qualquer negócio jurídico os requisitos ou condições gerais de validade de qualquer negócio. Alguns exemplos de negócios unilaterais: testamento. e consequentemente de efeitos correspondentes a elementos naturais dos respectivos tipos de negócio jurídico. mas convergente. ajustando-se na sua comum pretensão de produzir resultado jurídico unitário.

cada uma das declarações (proposta e aceitação) é emitida em vista do acordo. isto é. Sendo o contrato integrado por duas declarações. d) Doutrina da percepção: o contrato só está perfeito quando o proponente tomou conhecimento efectivo da aceitação.º1 a)). o testamento. feita pelo outro esposado ou por terceiro (1700 n. etc. Tais convenções podem ser. por força dos interesses gerais do comércio jurídico. Negócio «mortis causa» é. Várias doutrinas abordam a questão: a) Doutrina da aceitação: o contrato está perfeito quando o destinatário da proposta declarou aceitar a oferta que lhe foi feita. Uma importante distinção é a que se faz entre contratos unilaterais e contratos bilaterais. necessário que a declaração chegue ao poder ou à esfera de acção do proponente. c) Doutrina da recepção: o contrato está perfeito quando a resposta contendo a aceitação chega à esfera de acção do proponente. de dois tipos: a) Instituição contratual de herdeiro ou legatário em favor de qualquer dos esposados. por qualquer meio.) a sua aceitação. apenas admitindo nalguns casos particulares (2028º). Importância: a excepção de não cumprimento do contrato (428º) é privativa dos contratos bilaterais. Não tem lugar nos contratos bilaterais imperfeitos a condição resolutiva tácita. A lei actual proíbe em princípio os pactos ou contratos sucessórios. surgindo eventualmente mais tarde obrigações para a outra parte.Negócios entre vivos e negócios «mortis causa» Os primeiros destinam-se a produzir efeitos em vida das partes. Os contratos unilaterais geram obrigações apenas para uma das partes. Assim. a tutela das expectativas da parte que se encontra em face da declaração negocial. Nestes termos. obrigações ligadas entre si por um nexo de causalidade ou correspectividade. que parece a preferível. um contrato de alienação da própria herança mediante um preço ou uma renda vitalícia. b) Instituição contratual de herdeiro ou legatário em favor de terceiros.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Acerca dos contratos Não são integrados por dois negócios unilaterais.º1). fundamentalmente. sob a pena de nulidade. existindo nos contratos bilaterais. Não será. pode ter lugar também nalguns contratos unilaterais. os segundos destinamse a só produzir efeitos depois da morte da respectiva parte ou de alguma delas. no sentido de que. inequivocamente. põe-se o problema de saber qual o momento da sua perfeição. por exemplo. A regra de proibição dos pactos sucessórios comporta excepções. A proposta de contrato é irrevogável depois de chegar ao conhecimento do destinatário (230º). nem a excepção de não cumprimento do contrato. foi dele conhecida (224º n. Os autores referem também a categoria dos contratos bilaterais imperfeitos. na sua regulamentação. todavia. Nestes há inicialmente apenas obrigações para uma das partes. por qualquer meio (telegrama. b) Doutrina da expedição: o contrato está perfeito quando o destinatário expediu. quando o proponente passa a estar em condições de a conhecer. em virtude do cumprimento das primeiras e em dados termos. etc. O código considera lícitas certas disposições por morte feitas em convenção antenupcial. a locação.º 1 b)). a compra e venda. feita por qualquer dos esposados (1700º n. Os negócios da segunda categoria são negócios «fora do comércio jurídico». é nulo. Os contratos bilaterais ou sinalagmáticos geram obrigações para ambas as partes. 98. mas não já a faculdade de resolução com fundamento em inadimplemento ou mora: esta. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 59 . se. Do artigo 224º resulta consagrar o nosso direito a doutrina da recepção. mantendo-se durante lapsos de tempo referidos no 228º. À primeira categoria pertencem quase todos os negócios jurídicos e na sua disciplina tem grande importância. carta. os interesses do declarante devem prevalecer sobre o interesse na protecção da confiança do destinatário dos efeitos respectivos.

também. nos casos excepcionais em que a lei prescrever uma certa forma (casos que. com as formalidades legais. modificada ou extinta pelo negócio. além das declarações de vontade das partes. de celebração de contratos diferentes dos previstos na lei e de inclusão nestes de quaisquer cláusulas (405º). o da natureza da relação jurídica a que o negócio se Os negócios pessoais são negócios cuja disciplina. nos negócios formais. as partes não o podem realizar por todo e qualquer comportamento declarativo. Só podem constituir-se direitos reais típicos. O critério distintivo é. de restrições ao direito senão nos casos previstos na lei» (1306º). vigora.Negócios patrimoniais e negócios pessoais refere. a declaração negocial deve. Documento particular: todos os outros. com alguma largueza. quanto aos contratos. esta não for observada. quase inconfinadamente. realizar-se através de certo tipo de comportamento declarativo imposto pela lei (por escrito. mediante uma cerimonia. formalizadas ou não. reais. Quanto aos negócios reais: o princípio da liberdade contratual sofre considerável limitação derivada o princípio da tipicidade. podendo apenas os interessados celebrar ou deixar de celebrar o negócio. o princípio da tipicidade (457º).). Os negócios não solenes (consensuais. porém. 1714º). pelas autoridades publicas nos limites da sua competência ou.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 99. pelo notário ou outro oficial público provido de fé pública. nem podendo celebrar contratos diferentes dos previstos na lei. 102. Quando o negócio é formal. Quanto aos negócios familiares patrimoniais: existe. resultantes de algumas normas imperativas do direito das sucessões. tratando-se de contratos) são os que podem ser celebrados por quaisquer meios declarativos aptos a exteriorizar a vontade negocial. No domínio dos negócios obrigacionais: vigora o princípio da liberdade negocial. quanto aos negócios unilaterais. embora representem uma excepção. Documento autêntico: são os documentos exarados. Os negócios reais podem ser classificados quanto aos efeitos e quando à sua constituição. Quanto aos negócios sucessórios: este princípio sofre importantes restrições. com carácter real.Negócios consensuais ou não solenes e negócios formais ou solenes Os negócios formais ou solenes são aqueles para os quais a lei prescreve a necessidade da observância de determinada forma. quanto a problemas como o da interpretação do negócio jurídico e o da falta ou dos vícios da vontade.Negócios reais São aqueles negócios em que se exige. Quando. Quanto aos negócios familiares pessoais: a liberdade contratual está praticamente excluída. familiares e sucessórios O critério desta classificação diz respeito à natureza da relação jurídica constituída. são numerosos e frequentes). não tem que atender às 60 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados .Negócios obrigacionais. dentro do círculo de actividade que lhe é atribuído. a liberdade de convenção (1698º). etc. Quanto às noções de documento autêntico e documento particular elas estão no 363º. a declaração negocial é nula. 101. sofrendo embora restrições (1699º. embora essa constituição possa resultar de um negócio inominado ou atípico. visto que «não é permitida a constituição. mas não podendo fixar-lhe livremente o conteúdo. a prática anterior ou simultânea de um certo acto material. abrangendo a liberdade de fixação do conteúdo dos contratos típicos. através de certo tipo de documento. 100. o acatamento de determinado formalismo ou de determinadas solenidades. a lei não impõe uma determinada roupagem exterior para o negócio. A sua importância resulta da diversa extensão que o princípio da liberdade contratual (405º) reveste cada uma das categorias.

). se cada parte obtém da outra uma vantagem. ao invés. assim se reconhecendo «o valor social da aparência». Pode haver uma só prestação. Nos contratos aleatórios as partes submetem-se a uma álea. pelo que. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 61 . certos tipos de jogo). por exigência de tutela da confiança do declaratário e dos interesses do tráfico. sem contrapartida ou correspectivo. aposta. certas formas de sociedade. Caracterizam-se pelo facto de uma pessoa prometer certa prestação em troca de uma qualquer participação nos proveitos que a contraparte obtenha por força daquela prestação. etc. O acto é a título gratuito quando for realizado com uma particular intenção ou causa que é a de proporcionar uma vantagem à outra parte. Os negócios onerosos pressupõem atribuições patrimoniais de ambas as partes. Exemplos: jogo. etc. etc. em matéria da impugnação pauliana (612º).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL expectativas dos declaratários e aos interesses gerais da contratação. embora. A outra parte procede com a consciência e vontade de receber essa vantagem sem um sacrifício correspondente. existindo. 103. 105. só uma venha a ganhar. de incêndio. mas uma delas é incerta no seu «quantum» (seguro de vida). quanto aos problemas em que está em causa a subsistência da doação. 104. Cada uma das partes faz uma atribuição patrimonial que considera retribuída ou contrabalançada pela atribuição da contraparte. Exemplos: parceria pecuniária (1121º). Como ideia geral pode reter-se a constatação de. com o direito de uma participação nos lucros e a obrigação de restituir as unidades não vendidas. o usualmente chamado contrato de consignação (contrato estimatório). de protecção do terceiro adquirente de boa fé «a non domino». Não é necessário um equilíbrio ou uma equivalência das prestações ou atribuições patrimoniais. um nexo ou relação de correspectividade entre as referidas atribuições patrimoniais (normalmente traduzidas em prestações). Na disciplina dos negócios patrimoniais. nos termos do qual uma das partes remeta à outra tantas unidades de certa mercadoria. se valorizarem frequentemente os interesses de terceiros e os do doador em maior medida do que os do donatário. Cada uma das prestações ou atribuições é o correspectivo (a contrapartida) da outra. A onerosidade consiste na circunstância de ambas estarem sujeitas ao risco de perder. nem constituem fonte de obrigações civis. pode haver duas prestações certas na sua existência. seguro. por exemplo.Negócios onerosos e negócios gratuitos A importância da distinção manifesta-se. dependendo de um facto incerto a determinação de quem a realizará (aposta. de efectuar uma atribuição patrimonial a favor de outra. pela intervenção de uma intenção liberal (animus donandi). pode haver uma prestação certa e outra incerta. no final de contas. nas doações (paradigma dos negócios gratuitos). segundo a perspectiva destas.Contratos comutativos e contratos aleatórios É uma subdivisão a estabelecer dentro dos contratos onerosos.Negócios parciários São um subespécie dos negócios onerosos. Os negócios gratuitos caracterizam-se. a vontade manifestada ou declarada triunfa sobre a vontade real. etc. está a pagá-la com um sacrifício que é visto pelos sujeitos do negócio como correspondente. consideradas pelo seu valor objectivo ou normal. de maior montante do que aquele (seguro de responsabilidade civil. para que esta as venda. devidamente manifestada. A distinção dos negócios jurídicos em onerosos e gratuitos tem como critério o conteúdo e finalidade do negócio nos termos que a seguir se evidenciam. Nos negócios gratuitos cria-se – e há acordo das partes sobre este ponto – uma vantagem patrimonial para um dos sujeitos sem nenhum equivalente. Uma parte tem a intenção. Os contratos de jogo e de aposta não são contratos válidos. a uma possibilidade de ganhar ou perder.

). formada sem anomalias e coincidente com o sentido exteriormente captado daquele comportamento. com coerência.Remissão São requisitos ou pressupostos gerais de validade dos negócios jurídicos a capacidade e a legitimidade. não num elemento interior – uma vontade real.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL (II)ELEMENTOS ESSENCIAIS DO NEGÓCIO JURÍDICO (1)Capacidade e legitimidade 107. A capacidade: traduz-se num modo de ser ou qualidade do sujeito em si. o da interpretação da declaração negocial. 109. Dá-se assim um conceito objectivista de declaração negocial. conduzindo a sua falta à inexistência material do negócio. acto social. aparência de vontade.) ou o aspecto objectivista (comportamento objectivo.Conceito de declaração negocial Pode definir-se a declaração de vontade negocial como o comportamento que. por actividade própria ou através de um representante voluntário. cria a aparência de exteriorização de um certo conteúdo de vontade negocial. No domínio dos negócios jurídicos fala-se de capacidade negocial de gozo (ou capacidade jurídica negocial) e de capacidade negocial de exercício. cumprindo ou assumindo obrigações. depois. e os do declaratário e do comércio jurídico. o conceito de declaração negocial. manifestação de vontade. A declaração pretende ser o instrumento de exteriorização da vontade psicológica do declarante – essa é a sua função. psicológica –. É porém. mas num elemento exterior – o comportamento declarativo. Tais problemas têm subjacente um conflito entre os interesses do declarante. A capacidade negocial de gozo: é a susceptibilidade de ser titular de direitos e obrigações derivados de negócios jurídicos. O comportamento externo. Estas noções traduzem-se na referência a este domínio das noções mais genéricas de capacidade jurídica e de capacidade para o exercício de direitos. por um lado. o direito civil conhece hoje um estádio de evolução que põe na primeira linha a protecção das expectativas dos declaratários e da segurança do comércio jurídico. que se deve definir. fazendo-se consistir a sua nota essencial. caracterizando. à luz das soluções dispensadas pelo ordenamento jurídico a uma série de problemas. a vontade negocial como o intenção de realizar certos efeitos práticos. uma realidade componente ou constitutiva da estrutura do negócio. com ânimo de que sejam juridicamente tutelados e vinculantes. etc.A declaração negocial como verdadeiro elemento do negócio jurídico Trata-se de um verdadeiro elemento do negócio. em que se traduz a declaração. efectiva. A capacidade negocial de exercício: é a idoneidade para actuar juridicamente. etc. exercendo ou adquirindo direitos. (2)A declaração negocial (I)Noções gerais 108. dando 62 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . exteriormente observado. manifesta normalmente uma vontade. por outro. realçando o aspecto subjectivista (vontade manifestada. Os problemas decisivos para o efeito de determinar o conceito de declaração negocial – correspondente aos dados do sistema – são o da divergência entre a vontade e a declaração e dos vícios de vontade. A declaração negocial é um elemento verdadeiramente integrante do negócio jurídico. Ora. etc. A legitimidade: é uma relação entre o sujeito e o conteúdo do acto (a relação jurídica que está em jogo no negócio).

TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL assim relevância à «aparência» e a uma «exigência de cognoscibilidade», a expensas da vontade real e psicológica. O código civil não toma partido, directamente, como é natural, numa questão dogmática; mas é manifesto o intuito do legislador de se não comprometer, sequer ao nível terminológico, com as concepções voluntarísticas, pois não emprega a expressão «declaração de vontade», falando antes em «declaração negocial».

110.Breve referência aos actos jurídicos de natureza não negocial
A lei portuguesa começa logo por regular a problemática posta pelo negócio jurídico, alude a «actos jurídicos que não sejam negócios jurídicos», mas não toma posição sobre qual a compreensão ou a extensão da categoria «negócio jurídico», reservando assim esse domínio à doutrina. Foram já definidos os conceitos de negócio jurídico e de acto não negocial (simples acto jurídico), fazendo-se agora remissão para as noções então formuladas. O 295º manda aplicar aos actos negociais as disposições da doutrina geral do negócio jurídico, na medida em que a analogia das situações o justifique. Daí se infere que não se aplicarão aquelas normas, sempre que não haja uma verdadeira analogia de situações. Aos actos pessoais (perfilhação, adopção, etc.), e mesmo que a lei o não diga expressamente, não se aplicam, portanto, as disposições inspiradas pela tutela da confiança dos declaratários e da segurança e celeridade do comércio jurídico. Quanto aos actos mais correntemente qualificados como simples actos jurídicos ou actos não negociais (ex.: interpelação do devedor, gestão de negócios, domicilio voluntário geral, certas notificações, etc.), quais as normas da regulamentação geral do negócio jurídico aplicáveis ou não, segundo o critério da analogia das situações? Os quase-negócios jurídicos ou actos jurídicos quase-negociais traduzem-se na manifestação exterior de uma vontade e existe quase sempre uma consciência e até uma intenção de relevância jurídica da vontade exteriorizada. Aplicar-se-lhe-ão, em regra, as normas sobre capacidade, recepção da declaração pelo destinatário, interpretação, vícios da vontade e representação. As operações jurídicas ou actos materiais ou actos reais traduzem-se na efectivação ou realização de um resultado material ou factual, a que a lei liga determinados efeitos jurídicos; desencadeiam, por força da lei, a produção desses efeitos, embora normalmente ou, pelo menos, frequentemente estes não sejam visados. Não se exige para a produção dos respectivos efeitos a capacidade, nem se aplicam, em geral, os preceitos sobre vícios da vontade, interpretação, recepção de declarações, representação.

111.Elementos constitutivos normais da declaração negocial
Numa declaração negocial podem distinguir-se normalmente os seguintes elementos: a) A declaração propriamente dita (elemento externo) – consiste no comportamento declarativo; b) A vontade (elemento interno) – consiste no querer, na realidade volitiva que normalmente existirá e coincidirá com o sentido objectivo da declaração. O elemento interno – a vontade real – pode decompor-se analiticamente em três subelementos. A vontade de acção Consiste na voluntariedade (consciência e intenção) do comportamento declarativo. Pode faltar a vontade de acção. Assim acontece se uma pessoa, por acto reflexo ou distraidamente, sem se aperceber do facto, faz um gesto e este objectivamente aparece como uma declaração negocial (ex.: aceitação de uma proposta). É igualmente o caso da coacção ou violência absoluta (coacção física) – é esta a hipótese mais viável e significativa de falta de vontade de acção.

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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL A vontade da declaração ou vontade da relevância negocial da acção Consiste em o declarante atribuir ao comportamento querido o significado de uma declaração negocial. Este subelemento só está presente, se o declarante tiver a consciência e a vontade de que o seu comportamento tenha significado negocial vinculativo – consciência e vontade de que o seu comportamento produza efeitos negociais no campo do direito. A declaração deve corresponder a um «sic volo sic jubeo», vinculativo do declarante. Pode faltar a vontade da declaração. Uma pessoa, julgando subscrever uma simples ficha de assinatura para o arquivo de um banco, assina uma declaração negocial. Um indivíduo entra num leilão e faz um gesto de saudação a um amigo; segundo as praxes do lugar esse facto significa uma oferta de certa importância pelo objecto leiloado. A vontade negocial, vontade do conteúdo da declaração ou intenção do resultado Consiste na vontade de celebrar um negócio jurídico de conteúdo coincidente com o significado exterior da declaração. É uma vontade efectiva correspondente ao negócio concreto que apareceu exteriormente declarado. Pode haver um desvio na vontade negocial. É o caso de o declarante ter atribuído aos termos da declaração um sentido diverso do sentido que exteriormente é captado. Uma pessoa quer comprar a Quinta do Mosteiro e declara querer comprar a Quinta da Capela – que é um outro prédio – por julgar erradamente que este é o seu nome. Constatamos, portanto, poder verificar-se uma falta de vontade de acção, uma falta de vontade da declaração e um desvio na vontade negocial. Em todos estes casos surge um dissídio, uma divergência, entre a vontade e a declaração. Tal divergência pode, aliás, resultar ainda de um desvio na vontade de acção (lapsus linguae ou lapsus calami). O declarante quer escrever uma coisa e engana-se ao escrever.

112.Declaração negocial expressa e declaração negocial tácita
Generalidades Os negócios jurídicos realizam uma ampla autonomia privada, como já se sabe, na medida em que, quanto ao seu conteúdo, vigora o princípio da liberdade negocial (405º). Quanto à forma é igualmente reconhecido pelo ordenamento jurídico um critério de liberdade : princípio da liberdade declarativa. Tal princípio está consagrado nos 217º e 219º. Por vezes, a lei exige, porém, que a declaração negocial seja expressa. Ex.: 957º, 731º Outras vezes a lei tem o cuidado de frisar que um certo negócio pode ter lugar por declaração tácita (ex.: 302º, 2056º), o que já resultaria do princípio geral do 217º. Os termos da distinção O critério da distinção entre declaração tácita e declaração expressa consagrada pela lei (217º) é o proposto pela teoria subjectiva: a declaração é expressa quando feita por palavras, escrito ou quaisquer outros meios directos, frontais, imediatos de expressão da vontade e é tácita quando do seu conteúdo directo se infere um outro, isto é, quando se destina a um certo fim, mas implica e torna cognoscível, a latere, um autoregulamento sobre outro ponto – em via oblíqua, imediata, lateral – («quando se deduz de factos que, com toda a probabilidade, a revelam»). Resulta claramente da formulação legal que a inequivocidade dos factos concludentes não exige que a dedução, no sentido do autoregulamento tacitamente expresso, seja forçosa ou necessária, bastando que, conforme os usos do ambiente social, ela possa ter lugar com toda a probabilidade.

113.O valor do silêncio como meio declarativo
Trata-se, principalmente, de saber se o silêncio – entendido não apenas como um «nada dizer», mas como um «nada fazer», uma total omissão – pode considerar-se um facto concludente (declaração tácita) no sentido da aceitação de propostas negociais. O código civil resolve o problema no 218º, estabelecendo que o silêncio não vale como declaração negocial, a não ser que esse valor lhe seja atribuído por lei, convenção ou uso. Repudia-se, pois, o velho brocardo do direito canónico «qui tacet consentire videtur», mesmo que o sujeito pudesse e devesse falar, pois a atribuição ao silêncio do valor de consenso negocial, não é, como regra geral, razoável. Só lhe caberá tal significado, havendo norma legal ou convenção das partes nesse sentido, bem como na hipótese de um uso

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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL prevalente em certo círculo social (uso geral, v.g., no caso de uma pessoa enviar habitualmente a outra mercadorias que esta recebe, sem aceitar nem rejeitar, e paga em devido tempo, criando-se entre ambas uma prática deste tipo). É a solução mais razoável. Seria inaceitável dar expressão legislativa ao tópico «quem cala consente». Com efeito, o silêncio é, em si mesmo, insignificativo e quem cala pode comportar-se desse modo pelas mais diversas causas, pelo que deve considerar-se irrelevante – sem querer dizer sim, nem não – um comportamento omissivo.

114.Declaração negocial presumida. Declaração negocial ficta
A declaração negocial presumida tem lugar quando a lei liga a determinado comportamento o significado de exprimir uma vontade negocial, em certo sentido, podendo ilidir-se tal presunção mediante prova em contrário (350º n.º1 e 2). A declaração negocial ficta tem lugar sempre que a um comportamento seja atribuído um significado tipicizado, sem admissão de prova em contrário (350º n.º2 no fim).

115.Protesto e reserva
Emitido certo comportamento declarativo, pode o seu autor recear que lhe seja imputado, por interpretação, um certo sentido. Para o impedir, o declarante afirma abertamente não ser esse o seu intuito. A esta contradeclaração dá-se o nome de protesto. O protesto tem o nome de reserva (subespécie de protesto), quando consiste na declaração de que um certo comportamento não significa renúncia a um direito próprio, ou reconhecimento de um direito alheio. Exemplos: o mutuante recebe certa importância, a título de juros, mas, julgando ter direito a receber mais, declara não prescindir do excedente. Afirma-se comummente que o protesto não vale quando o comportamento declarativo só consente a interpretação contra a qual o declarante se quer acautelar.

116.Forma da declaração negocial
Vantagens e inconvenientes do formalismo negocial (pág. 430) Ponderando as vantagens e inconvenientes do formalismo negocial, sancionou o CC (219º) o princípio da liberdade de forma ou da consensualidade (sendo este último termo rigoroso, apenas, para os contratos). O formalismo exigível para um certo negócio pode ser imposto pela lei (forma legal) ou resultar de uma estipulação ou negócio jurídico das partes (forma convencional), como acontece, por exemplo, quando durante as negociações prévias se convenciona que o futuro ou os futuros negócios entre as partes se deverão revestir de certa forma. O problema da legitimidade da forma convencional é debatido na doutrina; o CC resolveu-o no sentido da admissibilidade e eficácia dos negócios determinativos da forma (223º). É óbvio, porém, que o reconhecimento das estipulações das partes sobre forma do negócio não significa que os particulares possam afastar, por acordo, as normas legais que exigem requisitos formais para certos actos, pois trata-se de normas imperativas. O reconhecimento da forma convencional significa, apenas, poderem as partes exigir determinados requisitos para um acto, pertencente a um tipo negocial que a lei regula não formal ou sujeita a um formalismo menos solene. Âmbito da forma exigida No que toca ao problema de saber quais as cláusulas ou estipulações negociais a que a forma legal é aplicável, quanto exigida, MANUEL ANDRADE entendia que a forma abrangia, não só as cláusulas essenciais do negócio jurídico, mas também as estipulações acessórias, típicas ou atípicas, quer as contemporâneas da conclusão do negócio, quer as subsequentes, mas já se não estenderia tal exigência aos chamados pactos abolitivos ou extintivos. O CC consagrou esta regra, na medida em que estatui, em princípio, que as estipulações acessórias anteriores ao negócio ou contemporâneas dele devem revestir a forma exigida pela lei para o acto, sob pena de nulidade (221º). Admitem-se, contudo, na mesma disposição, restrições a este princípio.

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º2.: confissão]). B) Consequências da inobservância da forma no nosso direito: a) Inobservância da forma legal: em conformidade com a orientação da generalidade das legislações e com os motivos de interesse público que determinam as exigências legais de forma. todavia. b) Que não sejam abrangidas pela razão de ser da exigência do documento – por exemplo. mas prova-se que as partes convencionaram verbalmente que o preço seria pago em certo local e data. anteriores ou contemporâneas do documento. Não se verifica. o CC liga à inobservância da forma legal a nulidade. as seguintes condições: a) Que se trate de cláusulas acessórias – não deve tratar-se de estipulações essenciais e parece dever igualmente tratar-se de estipulações adicionais. não considerará certas formalidades como simplesmente probatórias. que tal solução conduzirá a resultados injustos. nada se diz num contrato de compra e venda sobre o lugar e tempo de pagamento do preço. são expressa.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Reconhece-se a validade de estipulações verbais anteriores ao documento exigido para a declaração negocial ou contemporâneas dele. por falta de forma. pois. a que se refere o 221º. Por outro lado. parece que haveria um locumpletamento injusto do vendedor ou do mutuário. que complementem o documento. Assim se defende o conteúdo dos documentos contra os perigos da precária prova testemunhal. pois traduz-se na prova de que a estipulação existiu. pelo que. Isto dado o disposto no 394º que declara inadmissível a prova por testemunhas. gerando a sua falta a nulidade do negócio) e formalidades probatórias (a sua falta pode ser suprida por outros meios de prova mais difíceis de conseguir [ex. o pacto verbal não será válido. todavia. deverá ser restituído tudo o que tiver sido prestado em consequência do negócio viciado. não abrangidas pela razão determinante da forma. 66 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . autenticados ou particulares são formalidades substanciais. se sobre o ponto acessório há cláusula no documento. Há que tomar em conta o 364º integrado nas disposições sobre direito probatório material constantes do mesmo. a este propósito. dada a nulidade dos contratos donde resultaria essa obrigação. Pode suscitar-se. pois tem de se admitir que as partes. É o que resulta do 289º. adicional. nalguns casos. à primeira vista. desde que se verifiquem. não quiseram de todo o pacto verbal anterior ou contemporâneo. tal locumpletamento à custa alheia. o problema de saber se o nosso direito. a lei determine outra consequência (220º). parece que tal acordo verbal deve ser respeitado. Poderá parecer. cumulativamente.º1 o princípio geral. em casos particulares. só produzirão efeitos. Com efeito. que estejam em contrário dele. se resultar claramente da lei que foi exigido apenas para prova da declaração. Da coordenação do 221º com o 394º resulta que as estipulações adicionais não formalizadas. sempre que. é manifesto que há uma presunção natural de o documento ser completo. regulando aquele ponto no documento. Tome-se. c) Que se prove que correspondem à vontade das partes – este requisito é óbvio. se tiver por objecto convenções contrárias ou adicionais ao conteúdo de documentos autênticos ou particulares. que estejam para além do conteúdo do mesmo e não de estipulações que o contradigam. produzirem efeitos é bem menor do que «prima facie» pode parecer. na dúvida sobre a existência de uma estipulação acessória. A nulidade deixará de ser a sanção para a inobservância da forma legal. No n. e não mera anulabilidade. em atenção que a possibilidade de as estipulações acessórias não formalizadas. Aí se reafirma no n. Consequências da inobservância da forma A) Distinção doutrinal entre formalidades substanciais (são insubstituíveis por outro género de prova. nula. não havendo lugar à aplicação de quaisquer normas supletivas. uma vez declarado nulo o negócio. é de decidir contra a sua existência. segundo o qual os documentos autênticos. se tiver lugar a confissão ou se forem provadas por documento embora menos solene do que o exigido para o negócio. pois não seria obrigado a entregar a coisa vendida ou a restituir a importância recebida. uma compra em que o comprador já pagou o preço ou um mútuo em que a quantia mutuada já foi entregue ao mutuário. anterior ou simultânea.

não podendo. Sem dúvida que a aplicação das regras de forma pode conduzir a uma ou outra solução de menos equidade. Assim: 1. como todas as presunções legais. etc. a resposta ao problema posto deve ser pedida. quando essa invocação por uma das partes constitua um abuso de direito. nesta última hipótese. a forma tem pois carácter constitutivo. presume-se que. pois trata-se de um preço conscientemente pago para fruir o rendimento social correspondente às vantagens do formalismo negocial. isto é.). seja intoleravelmente ofensivo do nosso sentido ético-jurídico? Assim. Viu-se também que desta doutrina constante do 224º. em primeiro lugar. Esta perspectiva é correcta. isto é. para a solução da improcedência da arguição da nulidade. 117. todavia. de outro modo. «excedendo manifestamente os limites impostos pela boa fé. nos casos excepcionais em que resultar claramente da lei que a finalidade tida em vista ao ser formulada certa exigência de forma foi apenas a de obter prova segura acerca do acto e não qualquer das outras finalidades possíveis do formalismo negocial (obrigar as partes a reflexão sobre as consequências do acto. sem a observância da forma. MANUEL DE ANDRADE inclinava-se. Na doutrina nacional e estrangeira já se tem posto o problema de saber se a possibilidade de invocação da nulidade por vício de forma não pode ser excluída por aplicação da cláusula geral de boa fé ou do abuso de direito. chega à esfera de acção do proponente. sacrificando o critério de «justiça de cada caso». quando o titular excede manifestamente os limites impostos pela boa fé. pelos bons costumes ou pelo fim social ou económico desse direito» (334º). Se a forma especial foi estipulada antes da conclusão do negócio. sem a forma devida.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Donde se infere que quaisquer documentos (autênticos ou particulares) serão formalidades probatórias. afastar-se a sua aplicação nesses casos. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 67 . fazendo como que falsificar por outrem a sua própria assinatura ou induzindo dolosamente a outra parte a não insistir pela formalização do negócio ou procedendo em termos de criar na outra parte a expectativa de que a nulidade jamais seria arguida. v.. aceitando. mas as partes convencionaram. decorre ter a nossa lei optado pela doutrina da recepção quanto ao momento da conclusão dos contratos. fundamento para admitir que as partes se quiseram vincular desde logo. por um contratante que a provocou. isto é. O 223º limita-se a estabelecer presunções que. com fundamento em vício de forma. Entre essas vantagens está a criação e tutela do valor de segurança jurídica. públicos. b) Inobservância da forma convencional: rege a este respeito o 223º. a arguição da nulidade. As declarações não receptivas tornam-se eficazes logo que o vontade se manifesta na forma adequada. são em princípio meramente relativas ou «iuris tantum» (350º). Deverá admitir-se a invocação da nulidade com fundamento em vício de forma. presume-se que as partes não quiseram substituir o negócio. quando esta arguição revista as características de um abuso de direito. pois. assegurar a reconhecibilidade do acto por terceiros ou o seu controle no interesse da comunidade. o negócio é ineficaz. pelos bons costumes ou pelo fim social ou económico desse direito». havendo. reiterados e dispendiosos testemunhos de gratidão por uma liberdade feita. Essas presunções são duas. entre nós sancionada no 334º: «É ilegítimo o exercício de um direito. aliás. por exemplo. quando o comportamento do invocante.Perfeição da declaração negocial Como já se disse. mas apenas visaram consolidá-lo ou qualquer outro efeito. à vontade das partes. É óbvio que. contendo a aceitação. quando o proponente passa a estar em condições de a conhecer. Quer dizer: o contrato está perfeito quando a resposta. 2. suprimindo-o e concluindo-o de novo. será verdadeiramente escandalosa. tratando-se de averiguar quais as consequências da falta de requisitos formais que a lei não exige. variando com o facto que é base da presunção. a declaração negocial com um destinatário ganha eficácia logo que chegue ao seu poder ou é dele conhecida. renunciar-se-ia à realização do interesse público que subjaz à formulação das exigências de formalismo negocial. consagra-se um presunção de essencialidade.g. Se a forma foi convencionada após o negócio ou simultaneamente com ele. que só pode ser plenamente realizado. globalmente considerado. embora não categoricamente.

se não tem chegado a depositar uma confiança. isto é. antes de receber a proposta ou ao mesmo tempo que esta (230º n. limitações ou outras modificações. a morte ou a incapacidade do proponente não obstam à conclusão do contrato. a relação temporal da possibilidade de conhecimento. porém.º2). Esta responsabilidade pré-contratual tanto vale no caso de ruptura de negociações. salvo se outra tivesse sido a sua vontade presumível (226º). afinal frustrada. a interpretação não pode ser abandonada ao senso empírico de cada intérprete. e virá a produzir. em princípio. se não houver qualquer motivo de invalidade. fixado o seu sentido. a conduta das respectivas partes). precisamente. é um sentido objectivo. abrir-se um problema de divergência entre a vontade e a declaração) e. Esta só poderá eventualmente ficar sem efeito. os efeitos que o negócio visa produzir. Quer dizer: deve colocar-se o lesado na situação em que estaria. Se a modificação for suficientemente precisa. na celebração dum contrato válido e eficaz. a aceitação vale. não a ordem do conhecimento efectivo. merece destaque o 227º que manda pautar a conduta das partes pelos princípios da boa fé. Trata-se de determinar o conteúdo das declarações de vontade (interpretado o negócio.Em que consiste o problema. quer durante a fase negociatória. pode. se foi aceite com aditamentos. quer durante a fase decisória (proposta e aceitação do contrato. mas tem em vista evidenciar um conteúdo normativo (um conjunto de comandos) que vai pautar a conduta de algumas pessoas (no negócio jurídico. postula uma interpretação. o objecto da teoria da interpretação dos negócios ou hermenêutica negocial. mas deve pautar-se por regras ou critérios cuja formulação é. Não vigora. como qualquer outra manifestação do espírito humano. O dano a ser ressarcido pela responsabilidade pré-contratual é o chamado dano da confiança. que consistiria em colocar as coisas na situação correspondente ao cumprimento de um contrato válido. Em coerência com a irrevogabilidade. 68 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . deve entender-se que em princípio existe apenas um convite para contratar (ex. pois. é irrevogável. se o sentido fixado.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Sabe-se já também que a proposta de contrato. entendida esta num sentido ético. Como actividade ou operação dirigida à fixação do sentido negocial. Só que nos negócios jurídicos – como nas leis – a interpretação não visa pôr em relevo um resultado destinado a uma pura assimilação ou compreensão intelectuais (uma mensagem) ou afectivas. em conformidade com tais declarações. Quando se dirige uma proposta a pessoas indeterminadas. como no de o contrato se concluir e vir a ser nulo ou ineficaz. Em relação com esta matéria da perfeição da declaração negocial e da formação dos contratos. releva. para este efeito. se o destinatário receber uma retractação do proponente ou dela tiver conhecimento. segundo as directrizes da teoria da interpretação.: se alguém anuncia num jornal que vende certas mercadorias a tanto por quilograma ou envia a lista de preços). a doutrina que admite a revogação da proposta se a referida revogação chegar ao destinatário antes de este ter expedido a aceitação. Uma proposta é rejeitada. como nova proposta (233º). depois de recebida pelo destinatário ou de ser dele conhecida. consequentemente. Posições possíveis O negócio jurídico. A interpretação nos negócios jurídicos é a actividade dirigida a fixar o sentido e alcance decisivo dos negócios. entre nós. segundo as respectivas declarações integradoras. resultante de lesão do interesse contratual negativo. A retractação ou revogação da proposta ou da aceitação tem lugar – repete-se –. se a declaração revogatória chegou ao poder da outra parte ao mesmo tempo ou antes do que as declarações de proposta ou de aceitação. Coisa diversa seria a reparação do interesse contratual positivo. dela resultar a vontade de o seu autor se vincular e houver consciência de se estar a emitir uma verdadeira declaração negocial. depois. (II)Interpretação e integração dos negócios jurídicos (1)Interpretação 118. Registe-se que uma proposta contratual só existirá se for suficientemente precisa.

A resposta afirmativa tem lugar.º1. A teoria da interpretação dos negócios jurídicos tem dado lugar à formulação de concepções opostas. De entre as doutrinas objectivistas merece referência. é de acordo com ela que vale a declaração emitida. Para as posições objectivistas o intérprete não vai pesquisar a vontade efectiva do declarante. colocado na posição do real declaratário. para os negócios formais. por ser a melhor das suas variantes. Não se dá relevo necessariamente à vontade real do declarante. se o destinatário a conheceu. Neste caso a vontade real. É o caso dos 236º e ss. de uma limitação. o 236º n.Posição adoptada Doutrina geral O CC define o tipo de sentido negocial decisivo para a interpretação nos termos daquela posição objectivista: «a declaração vale no sentido que um declaratário normal. Não podemos deixar de a considerar como acto determinante. Para haver uma declaração a interpretar é necessário estarmos perante um acto ou conduta voluntária equiparável. O negócio valerá com o sentido subjectivo. Basta que se tome conhecimento da existência de posições subjectivistas e objectivistas. que tem de ter relação com aquele a quem se destina ou o conhece.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL A teoria da interpretação pode ver alguns dos seus resultados convertidos em verdadeiras normas jurídicas onde se fixam princípios ou critérios interpretativos. Em conformidade com o ditame da velha máxima «falsa demonstratio non nocet». a chamada teoria da impressão do destinatário. correspondeu à impressão real do destinatário concreto. em narcose ou em situação que exclua toda a direcção consciente da vontade. porém. Não é declaração negocial uma manifestação feita durante o sono. que este pudesse razoavelmente contar com ele (236º n. considera-se o real declaratário nas condições concretas em que se encontra e tomam-se em conta os elementos que ele conheceu efectivamente mais os que uma pessoa razoável. mas um sentido exteriorizado ou cognoscível através de certos elementos objectivos.º2 estabelece que. seja qual for a causa da descoberta da real intenção do declarante. colocado na posição concreta do real declaratário. bem como a coacção absoluta. podendo não coincidir com o sentido objectivo normal. quando assim se concluir do ponto de vista de um Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 69 . todavia.º2). logo. se o declaratário conhecer este sentido (com as limitações decorrentes. 119. Para as posições subjectivistas o intérprete deve buscar. Quer dizer: a ambiguidade objectiva. isto é. sempre que o declaratário conheça vontade real do declarante. a declaração é. isto é. possa deduzir do comportamento de declarante» (236º n. a vontade real do declarante. um acto social de comunicação. do 238º n.º1). objecto. este é o sentido decisivo. na lei. Além de ser um acto determinante (meio de autodeterminação). Não se verificando tal coincidência entre o sentido objectivo correspondente à impressão do destinatário e um dos sentidos ainda imputáveis ao declarante. ou até a vontade real. uma acção ou omissão controláveis pela vontade. quer dizer. em conformidade com o ponto de vista de LARENZ e FERRER COSTA: para que tal sentido possa relevar torna-se necessário que seja possível a sua imputação ao declarante. através de todos os meios adequados. uma manifestação de validade que é o fundamento imediato da verificação dos efeitos jurídicos. O sentido querido realmente pelo declarante releva. A prevalência do sentido correspondente à impressão do destinatário é. a declaração deve valer com o sentido que um destinatário razoável. zelosa e sagaz. mesmo quando a formulação seja ambígua ou inexacta. normalmente esclarecida. também. a sanção parece ser a nulidade do negócio. lhe atribuiria. como foi querido pelo autor da declaração. Houve coincidência de sentidos (o querido e o compreendido). fim). teria conhecido e figura-se que ele raciocinou sobre essas circunstâncias como o teria feito um declaratário razoável. A interpretação abrange também o problema de saber se há ou não uma declaração negocial.

De acordo com o critério propugnado. na posição do declaratário efectivo. razões de certeza ou segurança e quando estejam em causa interesses de terceiros. Exige-se que a vontade do testador. o sentido subjectivo. A lei não dá qualquer indicação mais precisa. a elementos ou circunstâncias estranhas aos termos do testamento. Um critério normativo de interpretação aponta aqui. por não se lhes opor o texto daquele n. pelo contrário. limitando-se a estatuir que «não surtirá qualquer efeito a vontade do testador que não tenha no contexto um mínimo de correspondência. as ideias expendidas por MANUEL DE ANDRADE. O significado decisivo é que o testador quis dizer. Desvios A doutrina preferível. fundadas em qualquer dos meios de prova geralmente admitidos. para o direito anterior. 70 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . v. assim reconstituída. b)Num maior subjectivismo: é o caso das disposições testamentárias. diversamente dos negócios «entre vivos». Quanto a estes. quanto ao problema da hermenêutica negocial. Esses desvios traduzem-se: a)Num maior objectivismo: é o que acontece nos negócios solenes ou formais. Na pesquisa desta vontade do testador é admitido o recurso à chamada prova complementar ou extrínseca. quanto ao problema do tipo do sentido negocial decisivo para a interpretação. teria tomado em conta. na medida em que se contenta com uma expressão ténue da intenção do testador no contexto do documento. o sentido correspondente à doutrina geral. possa valer. embora. o problema deve ser resolvido nos termos do 237º.g. sofre desvios quanto a certos negócios. desde que se verifique um duplo condicionalismo: 1) Corresponder à vontade real e concordante das partes. desde que se possa averiguar. o testamento se torne conhecido dos interessados. no respectivo documento. O CC não se pronuncia sobre o problema de saber quais as circunstâncias atendíveis para a interpretação. ao menos analógica do 224º n. quanto à sua interpretação. no texto do respectivo documento (238º n. rudimentarmente sequer.º2). o sentido objectivo correspondente à impressão do destinatário. Em todo o caso não há declaração negocial se falta a vontade acção (246º).º3. quando essas razões forem.º1). Admite-se que um sentido não traduzido. isto é. a este respeito. mesmo no caso de real impropriedade das expressões utilizadas («falsa demonstratio non nocet»). com o limite do «contexto do testamento» (2187º n.º1). Esta limitação é uma manifestação do carácter solene do negócio testamentário. Consagra-se.. ainda que imperfeitamente expressa». nos negócios onerosos. as favorecer. Podem continuar a aceitar-se. contra o emitente das condições gerais préordenadas para uma multiplicidade de contratos individuais. Quando a interpretação leve a um resultado duvidoso. quanto à relação que deve interceder entre a intenção testatória e o contexto do documento. diligente e sagaz. antes. predominantemente. isto é. o que conduzir ao maior equilíbrio das prestações. tenha um mínimo de correspondência. para a vontade psicológica do testador: não há que tomar em consideração as possibilidades de conhecimento de um destinatário como critério interpretativo. Se porém a dúvida a que se chegar no termo do labor interpretativo for insanável parece que a declaração é ineficaz. também aqui se deverá operar com a hipótese dum declaratário normal: serão atendíveis todos os coeficientes ou elementos que um declaratário medianamente instruído. parece haver obstáculo insuperável. que coincide substancialmente com o regime do CC anterior: nos negócios gratuitos prevalece o sentido menos gravoso para o disponente e. por aplicação. embora imperfeita. depois da morte. 2) Não oposição a essa validade das razões determinantes da forma do negócio: assim.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL declaratário normal colocado na posição do declaratário real. no contexto (2187º n. ainda que imperfeita. em tese geral. Nos contratos de adesão costuma propugnar-se a princípio de que na dúvida deve interpretar-se «contra stipulatorem».º2 do 2187º. não pode valer se não tiver um mínimo de correspondência. isto é.

A nulidade. O CC considera que a integração deve ser determinada para cada negócio e não. se o testador usou termos numa acepção pessoal. Ressalva a hipótese de existir disposição especial. que estas teriam estipulado. de acordo com o que corresponda à justiça contratual (ao que as partes devem querer agora e não propriamente o que deveriam ter querido). dos termos empregues ou o erro na declaração (2203º). na própria letra do testamento seja patente a significação esotérica. uma solução plenamente de acordo com a ideia de que o negócio jurídico é. como será o caso. Não pode proceder-se na integração como se se estivesse a aplicar uma norma estranha ao contrato. a partir da finalidade e da conexão dos significados manifestados na regulamentação contratual. mesmo que seja evidente a prova da vontade hipotética das partes. que esta última solução (nulidade) sofra uma excepção. porém. considerar o que um contraente honesto e razoável há-de admitir como exigido pelo contrato. que o juiz se deverá afastar da vontade hipotética ou conjectural das partes. Certos problemas.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Segundo essas ideias. (2)Integração 120. o sentido subjectivo. nos casos em que o contrato não está plena e completamente tipicizado ou se afasta dos tipificados em pontos que a regulamentação legal se não adapte ao contrato. Admitir-se-á a relevância do sentido subjectivo. isto é. apenas. Já aquele sentido subjectivo não valerá se o testador usou termos numa acepção extravagante que estava fora dos seus próprios hábitos de linguagem ou incorreu em erro na declaração. sempre que haja disposição supletiva aplicável. para os vários tipos de negócios. A regulamentação de um «contrato semelhante» é a que resulta das normas supletivas. quando. Deve atender-se à regulamentação concretamente estipulada e situarmo-nos no círculo por ela delimitado. «lex privata» das partes. mas deu a entender isso mesmo no testamento ou usava habitualmente esses termos nessa acepção anómala (o testador que se refere à sua garrafeira como a sua “biblioteca”). Na falta de disposição supletiva que possa aplicar-se. todavia. o 239º remete para a vontade hipotética ou conjectural das partes . nos negócios típicos – ou por analogia. correspondentes ao texto da disposição do anteprojecto transcrita na penúltima nota. assim. isto é. como aconteceria se mandasse colmatar as lacunas negociais pelo recurso aos usos. Hão-de considerar-se as circunstâncias que dão ao contrato concretamente celebrado a sua individualidade e não as características do tipo contratual. directamente – o que poderá verificar-se.Termos em que pode admitir-se O critério a utilizar para o efeito de realizar a integração dos negócios jurídicos lacunosos é enunciado no 239º. genericamente. consagrando. contrarie os ditames da boa fé. valerá. neste caso. não podem ser equacionados e resolvidos em sede de integração negocial. justifica-se pelas razões que estão ligadas à exigência de forma dos testamentos. fora dos usos gerais da língua. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 71 . reconstituindo através da prova extrínseca. deve a declaração se integrada de acordo com as referidas exigências da boa fé. quando a solução. que foi pretendido pelas partes. nesta hipótese. não habitual ao testador.«a que elas teriam tido se houvessem previsto o ponto omisso». Estabelece-se. Designadamente não pode a integração conduzir a uma ampliação do objecto negocial.Em que consiste O problema pode formular-se através da seguinte pergunta: qual a regulamentação das questões não previstas pelas partes. Será de admitir. A integração negocial tem limites. ao proverem à elaboração do ordenamento negocial das suas relações? 121. em princípio.

Teoria da declaração Enquanto a teoria da vontade arranca da consideração de que a essência do negócio está apenas na vontade do declarante (dogma da vontade). mas sem intuito de enganar qualquer pessoa (declaratário ou terceiros). de um engano. Teoria da culpa «in contrahendo» Assenta na mesma ideia da teoria anterior. sendo forçado a dizer ou escrever o que não quer. por causas diversas. por razões diversas. O negócio ser válido. com a simples diferença de. A divergência intencional pode apresentar-se sob uma de três formas principais: a) Simulação – o declarante emite uma declaração não coincidente com a sua vontade real. Teoria da vontade Propugna a invalidade do negócio (não vale a vontade real nem a declarada). c) Na coacção física ou violência absoluta – o declarante é transformado num autómato. verificar-se. com a intenção de enganar terceiros. sem qualquer arranjo com o declaratário. a teoria da declaração. A normal relação de concordância entre a vontade e a declaração (sentido objectivo) é afastada. À relação normal de concordância substitui-se uma relação patológica. dá-se mais atenção ao argumento da necessidade de proteger a confiança. embora de 72 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . e estando de boa fé o declaratário.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL (III)A divergência entre a vontade e a declaração (1)O problema em geral 122. A divergência não intencional pode consistir: a) No erro-obstáculo ou na declaração – o declarante emite a declaração divergente da vontade real. b) Reserva mental – o declarante emite uma declaração não coincidente com a sua vontade real. mas por força do emprego de uma força física irresistível que o instrumentaliza e leva a adoptar o comportamento. não através de uma mera. de um equívoco. podendo até faltar completamente a vontade de agir. uma divergência entre esses dois elementos da declaração negocial. c) Declarações não sérias – o declarante emite uma declaração não coincidente com a sua vontade real. contudo. sem sequer ter a consciência (a vontade) de fazer uma declaração negocial. b) Na falta de consciência da declaração – o declarante emite uma declaração. desde que se verifique uma divergência entre a vontade e a declaração e sem necessidade de mais requisitos. Estamos perante um vício na formulação da vontade. por se considerar insuficiente a tutela concedida pelo teoria da culpa in contrahendo. Trata-se de um lapso. 124. por força de um arranjo com o declaratário. em certos casos anómalos.Formas possíveis de divergência Normalmente o elemento interno (vontade) e o elemento externo da declaração negocial (declaração negocial) coincidirão. sem ter consciência dessa falta de coincidência.Teorias que visam resolver o problema da divergência entre a vontade e a declaração No direito civil moderno várias teorias foram formuladas em vista da solução do problema em epígrafe. Pode. em caso de dolo ou culpa do declarante. visando precisamente enganar este.

produzem-se certos efeitos. em particular a doutrina da confiança: a divergência entre a vontade real e o sentido objectivo da declaração. a invalidade dos negócios simulados pode ser arguida a todo o tempo (286º). não exclui a possibilidade de simulação nos negócios unilaterais. A simulação é inocente se houve o mero intuito de enganar terceiros. não se apercebendo do dissídio entre a vontade real e o sentido objectivo. Comporta diversas modalidades: Modalidade primitiva e extrema: consagra-se uma adesão rígida à expressão literal – se a forma ritual foi observada. só produz a invalidade do negócio. Há apenas o negócio simulado e. ao que foi exteriormente manifestado. no fim. isto é. se o declaratário confiou efectivamente nesse sentido. mesmo que não tenham sido queridos. quer tenha tido lugar o cumprimento. Doutrina da aparência eficaz: subscreve os resultados da doutrina da confiança. para o qual remete o 242º). Por detrás do negócio simulado ou aparente ou fictício ou ostentivo há um negócio dissimulado ou real ou latente ou oculto. também. Na simulação relativa as partes fingem celebrar um certo negócio jurídico e na realidade querem um outro negócio jurídico de tipo ou conteúdo diverso. pode qualquer interessado invocar a nulidade e o tribunal declará-la oficiosamente (286º. b) Acordo entre declarante e declaratário (acordo simulatório). a validade do sentido objectivo só será de aceitar. nada mais. em correspondência com a orientação da doutrina tradicional. propugnando a invalidade. dá relevo fundamental à declaração. se for conhecida ou cognoscível do declaratário. a mais frequente. Como todas as nulidades. por detrás dele. As modalidades modernas e atenuadas.Modalidades da simulação Uma primeira distinção é a que se estabelece entre simulação inocente e simulação fraudulenta. ter.º2). o que um declaratário razoável lhe atribuiria.Efeitos da simulação absoluta A simulação importa a nulidade do negócio simulado (240º n. os elementos integradores do conceito. (Na simulação não pode haver usucapião uma vez que adquiria sendo um possuidor precário (1253º c)). referidos naquela disposição.Conceito. 128. compreendido um terceiro sentido. elementos e importância prática O conceito de negócio simulado está explicitamente formulado no 240º n. ou seja. Esta distinção é aludida no 242º n. todavia. em vez da invalidade. (2)A simulação 127. Outra destrinça é a que se faz entre simulação absoluta e simulação relativa. são: a) Intencionalidade da divergência entre vontade e a declaração.º2). c) Intuito de enganar terceiros. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 73 . revelando a mesma disposição legal a ausência de interesse civilístico da referida dicotomia. quer o negócio não esteja cumprido (aliás. evidentemente. sem os prejudicar e é fraudulenta.º1. de acordo com o regime geral. sem dependência de prazo: 287º n.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL modo diverso. o que. se houve o intuito de prejudicar terceiros ilicitamente ou de contornar qualquer norma da lei.º1. nesta hipótese. em conformidade com as suas modalidades. A simulação fraudulenta é. 129. as próprias anulabilidades podem ser arguidas. Na primeira – é o caso da venda fantástica ou da doação simulada com fins de pompa ou ostentação – as partes fingem celebrar um negócio jurídico e na realidade não querem nenhum negócio jurídico. de longe. mas limita-a. para a hipótese de o declaratário. quer dizer.

tal como foi preconizada por BELEZA DOS SANTOS. Resulta do teor desta disposição que. um problema específico que não surgia no caso da simulação absoluta. Este é um simples testa de ferro. se for observada a forma exigida e nada diz para a hipótese de as razões do formalismo do negócio dissimulado se acharem satisfeitas com a observância das solenidades do negócio simulado. Quid juris.: finge-se uma venda e quer-se uma doação). porém. além das multas em que os simuladores incorrem. ex. A simulação relativa põe. sucede apenas que. Nestes termos poderá o negócio latente ser plenamente válido e eficaz ou poderá ser inválido. não na intervenção de um sujeito aparente. mas na supressão de um sujeito real. exige a lei. A interposição fictícia de pessoas não se deve confundir com a interposição real. por força de um acordo entre ele e um só dos sujeitos. mesmo que se tenham observado as formalidades exigidas para o negócio aparente. se tivesse sido abertamente concluído. só é válido se tiver sido observada a forma exigida por lei». mas para pagar apenas uma sisa os três sujeitos concordam em documentar na escritura pública apenas uma venda da A a C.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 130. 131. mas no interesse e por conta de outrem. para ele. Na interposição fictícia há um conluio (arranjo) entre os dois sujeitos reais da operação e o interposto. este será nulo por vício de forma. É o que se verifica na chamada interposição fictícia de pessoas. fingindo-se um preço superior ou inferior ao preço real. intervindo um conluio entre os três. no negócio simulado. mais frequentemente um apenas. Na interposição real o interposto actua em nome próprio. finge doar a C para este posteriormente doar a B. à face da lei civil lhe cabe. um homem de palha. em prejuízo da Fazenda Nacional O negócio dissimulado (venda ou doação) não é afectado na sua validade pela lei fiscal. b) Simulação de valor – incide sobre o «quantum» de prestações estipuladas entre as partes. se esse for o regime que. Simulação sobre a natureza do negócio. É fundamentalmente – mas não só – o caso da simulação de preço na compra e venda.º2 consagra a solução de nulidade do negócio dissimulado. quanto ao negócio disfarçado ou dissimulado? Sanciona-se.Efeitos da simulação relativa Doutrina geral O negócio fictício ou simulado está ferido de nulidade. todavia. Pode igualmente a simulação consistir. desde logo. o negócio dissimulado for de natureza formal.: fez-se uma venda de A a B e outra de B a C. Para a validade do negócio real torna-se necessária a observância do formalismo que. 74 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . a este respeito. o imposto liquidado será o correspondente à natureza do negócio realmente celebrado (negócio dissimulado).: A. A simulação objectiva ou sobre o conteúdo do negócio pode ser: a) Simulação sobre a natureza do negócio – se o negócio ostensivo ou simulado resulta de uma alteração do tipo negocial correspondente ao negócio dissimulado ou oculto (ex. pretendendo dar um prédio a B. permanecendo válido e eficaz. os requisitos de forma exigidos para o dissimulado.Modalidades da simulação relativa A simulação relativa manifesta-se em espécies diversas consoante o elemento do negócio dissimulado a que se refere (simulação subjectiva ou dos sujeitos e simulação objectiva ou sobre o conteúdo do negócio). a solução correspondente à orientação tradicional: o negócio real ou dissimulado será objecto do tratamento jurídico que lhe caberia se tivesse sido concluído sem dissimulação (241º). A lei estabelece que o negócio dissimulado só é válido. Podem ser. Ex. simulados ou sujeitos do negócio jurídico. consoante as consequências que teriam lugar. Aí se estatui que «se. mesmo que tal forma não seja suficiente para o negócio aparente. tal como na simulação absoluta. O 241º n.º1. Efeitos da simulação quanto aos negócios formais Os problemas suscitados pela aplicação aos negócios formais da doutrina geral da simulação relativa encontram a sua resposta no 241º n. se não se cumpriram.

quando as razões determinantes da forma se não oponham (238º n. o negócio dissimulado é nulo por vício de forma. quando falta a vontade de acção não há um comportamento humano consciente. reflexo ou. o declaratário tem direito a ser indemnizado do dano coberto pela chamada responsabilidade pré-negocial ou por «culpa in contrahendo». Estatui-se que o negócio não produz qualquer efeito. só vale no nosso direito. «finalista». Advirta-se. Trata-se dum caso de nulidade. a expensas do interesse na protecção da confiança do declaratário. aí se estatui que é inadmissível a prova testemunhal do acordo simulatório e do negócio dissimulado. no entanto. antes. sob a epígrafe «coacção física» (246º). a ineficácia da declaração negocial («a declaração não produz efeitos»). Não há qualquer dever de indemnização. salvo na hipótese de falta de vontade de acção em que parece estar-se. prudente ou ambiguamente. A lei. há um comportamento inconsciente.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Quer dizer: o negócio simulado é nulo por simulação. pelo menos. 132. mas não emitido por B. repare-se que o princípio «falsa demonstratio non nocet». porém.Se há restrições à arguição da simulação pelos próprios simuladores O 242º n. Os interesses do autor do comportamento são tutelados em primeira linha. absolutamente forçado. Com efeito. quanto seja menor que o preço real. como inexistência. não há obstáculo de natureza formal a que seja eficaz a venda pelo preço efectivamente convencionado.º2. culpado da falta de consciência da declaração.. que esta possibilidade de a nulidade ser invocada pelos próprios simuladores entre si sofre uma apreciável restrição indirecta por força do 394º n. na hipótese de coacção física. (4)Divergência não intencional 140. a hipótese de o declarante ser «coagido pela força física a emitir» a declaração. A coacção física ou absoluta importa. Nas declarações sob o nome de outrem: não há qualquer comportamento por parte do sujeito a quem a declaração é atribuída. há um comportamento declarativo do errante. estabelece que a declaração não produz qualquer efeito e não fala de nulidade. involuntário. dado ser discutível a qualificação como nulidade ou.. voluntário.». fazendo-se passar por B. como acontece se A faz um negócio. nos termos do 246º. antes. Aliás. mesmo que a simulação seja fraudulenta. a cargo do «declarante». solução oposta à defendida anteriormente. Estas hipóteses são abrangidas pelo 246º: «se o declarante não tiver a consciência de fazer uma declaração negocial. A doutrina exposta é a que vale para a simulação de pessoas e para a simulação sobre a natureza do negócio. perante um caso de verdadeira inexistência da declaração. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 75 .Erro na declaração ou erro-obstáculo Conceito No erro-obstáculo: havendo embora uma divergência inconsciente entre a vontade e a declaração. atribui legitimidade aos próprios simuladores para a arguição da nulidade do negócio simulado. 141. 142. a favor da solução que defendemos. Têm-se em vista as hipóteses em que o declarante é reduzido à condição de puro autómato (coacção absoluta) e não aquelas em que o emprego da força física não chega aos extremos. quando invocados pelos simuladores.Coacção física ou coacção absoluta ou ablativa O CC prevê. mesmo que a falta de consciência da declaração não seja conhecida ou cognoscível do declaratário. declinando a identidade deste ou falsificando a respectiva assinatura ou pondo em circulação um documento assinado por B. parecendo esta última mais exacta. embora exteriormente pareça estarmos perante uma declaração. a consciência da declaração. se o declarante for.º2).Falta de consciência da declaração Falta a vontade de acção ou.º1.

como se referiu. embora este conhecimento. quando na verdade aquele prédio é o n. consciência de fazer uma declaração negocial. o comprador poderá anular o negócio. possa não ter suscitado ao declaratário qualquer suspeita ou dúvida acerca da correspondência entre a vontade real e a declarada. A validação do negócio. ostensivamente revelados no contexto da declaração ou nas circunstâncias que a acompanham. A vontade não se formou de um modo julgado normal e são. admitindo a anulabilidade em termos excessivamente fáceis e gravosos para a confiança do declaratário e para a segurança do tráfico jurídico. para o declarante. como ilegítimos. mas apenas à sua rectificação (249º). Assim: 1)Se o declaratário se apercebeu do dissídio entre a vontade real e a declarada e conheceu a vontade real do declarante. (IV)Vícios da vontade (1)Noções gerais 144. 5)Se o declaratário compreendeu um terceiro sentido que não coincide nem com o querido pelo declarante.º 20. 3)Se o declaratário aceitar o negócio como o declarante queria. o conhecimento ou a cognoscibilidade do erro.Vícios da vontade Conceito Trata-se de perturbações do processo formativo da vontade. 2)Se o declaratário conheceu ou devia ter conhecido o erro.º2). para estes caso. directamente ou por analogia. tem uma explicação análoga à da solução indicada em 1). pelo direito.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Na declaração sob o nome de outrem ninguém pode pretender que o negócio vincule o sujeito ao qual. exigindo-se para anulação do negócio que «o declaratário conhecesse ou não devesse ignorar a essencialidade. do elemento sobre que incidiu o erro». a anulabilidade fundada em erro não procede (248º). diz respeito. Causas e efeitos. 76 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Contenta-se com o conhecimento ou a cognoscibilidade da essencialidade do elemento sobre que incidiu o erro. porém. porque queria comprar o prédio onde nasceu. b)Certas hipóteses particulares merecem tratamento especial. tal como em certos casos de erro-obstáculo. embora concorde com a declaração. a)O princípio geral regulador destas hipóteses consta do 247º. A hipótese pode subsumir-se. o negócio valerá de acordo com a vontade real (236º n. pois. nesta hipótese. é determinada por motivos anómalos e valorados. erro mecânico) ou desvio na vontade negocial (erro de juízo) Nestas hipóteses o declarante tem a consciência de emitir uma declaração negocial. o reconhecimento ou a reconhecibilidade do erro. não se apercebe de que a declaração tem um conteúdo divergente na sua vontade real. compra a B o prédio n. por lapso de actividade (erro mecânico: lapsus linguae ou erro ortográfico) ou por «error in judicando» (atribuição às palavras de um significado diverso do seu sentido objectivo). se A. bastando que seja reconhecível a essencialidade do elemento sobre que o declarante errou. 4)O erro de cálculo e o erro de escrita. Quando há desvio na vontade de acção («lapsus liguae» ou «lapsus calami». não dão lugar à anulabilidade do negócio. por parte do declarante aparente. Por esse motivo fala-se. A lei não exige. do 246º. Assim. não há. aparentemente. desde que prove que o vendedor conhecia ou não devia ignorar que só interessava ao outro contraente o prédio onde nasceu. mas. operando de tal modo que esta. mesmo que a outra parte não se tenha apercebido da falsificação. de «erro sobre o conteúdo da declaração». nem com o declarado.º 10. o regime aplicável continua a ser a anulabilidade e não a nulidade verdadeira e a própria. Já se viu não ser necessário para a anulação.

Para além deste efeito – anulabilidade – a lei regula. (2)O erro como vício da vontade 148. ligeireza. coacção moral (256º). quando alguém. Há. Pode. Trata-se pois. coacção moral.O regime da lesão e dos vícios redibitórios no CC Lesão (usura) No CC a proscrição da lesão. pelo coacto ou pelo incapaz (287º: «as pessoas em cujo interesse a lei estabelece»). uma alternativa para a anulação dos negócios usurários: a sua modificação. porém. a todo o tempo.Noção Erro-vício: traduz-se numa representação inexacta ou na ignorância de uma qualquer circunstância de facto ou de direito que foi determinante na decisão de efectuar o negócio. incapacidade acidental (257º). Aí se determina que é anulável. dolo. 147. dolo. porém. inexperiência. incapacidade acidental (257º).Enumeração dos vícios da vontade a que o nosso direito atribui um geral relevância autónoma Erro-vício. a requerimento do lesado ou da parte contrária. É o caso dos 905º e 913º (venda de coisas oneradas ou defeituosas) e do 1035º (vícios da coisa locada). nas disposições gerais sobre o negócio jurídico. Se estivesse esclarecido acerca dessa circunstância – se tivesse exacto conhecimento da realidade – o declarante não teria realizado qualquer negócio ou não teria realizado o negócio nos termos em que o celebrou. Vícios redibitórios O CC não se refere. Estado mental ou fraqueza de carácter de outrem. obteve a promessa ou concessão de benefícios excessivos ou injustificados. por usura. as seguintes: a)Só pode ser invocada pelo errante.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 145. segundo juízos de equidade. explorando a situação de necessidade. b)Só pode ser invocada dentro do ano subsequente à cessação do vício que lhe serve de fundamento (287º n. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 77 . coacção ou incapacidade acidental Trata-se duma anulabilidade: Erro-vício (251º 252º). fim). sob a designação de usura.º1. normas que se referem a essa hipótese na regulamentação de alguns contratos especiais. dolo (254º). Em ambos os casos a anulabilidade do negócio depende da verificação dos requisitos legais de relevância do erro ou do dolo. de um erro nos motivos determinantes (elementos internos) da vontade. porém. um negócio jurídico. ser invocada. nem todo o regime está previsto no CC. alguns aspectos particulares da situação. consta do 282º. As características da anulabilidade são. igualmente.Qualificação da invalidade proveniente de Erro-vício. Por força das directivas comunitárias. pelo enganado. se o negócio não estiver cumprido. aos vícios ocultos do objecto negocial como fundamento autónomo de invalidade. dependência. c)Pode ser sanada por confirmação da pessoa a quem pertencer o direito de anulação (288º). o Estado de necessidade (282º) 146. Estabelece-se no artigo seguinte. em face dos 287º e 288º.

etc. O erro é essencial se. incorrerá em responsabilidade prénegocial devendo indemnizar o chamado interesse contratual negativo. estatuído o mesmo regime para duas delas): o erro sobre os motivos.g. O erro foi causa (é indiferente tratar-se de uma situação de causalidade única ou de concausalidade) da celebração do negócio e não apenas dos seus termos. 153. com fundamento no 227º (culpa na formação dos contratos). na subsecção relativa aos vícios da vontade. pois. 78 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . sem ele. embora noutros termos.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 150. 152. versar sobre os requisitos legais de forma negocial. aliás. O erro é incidental se. O erro só é próprio quando incide sobre uma circunstância que não seja a verificação de qualquer elemento legal da validade do negócio. sem ele. deve atingir os motivos determinantes da vontade (251º e 252º). o erro sobre a pessoa do declaratário e o erro sobre o objecto do negócio.Modalidades Em face do CC as categorias que revestem interesse são: a)Erro sobre a pessoa do declaratário: erro sobre a identidade (este será. o errante. como motivo de invalidade. 3 modalidades (sendo. a ilicitude do objecto mediato ou imediato. Escusabilidade Não se formula. que corresponde ao erro acerca da causa (erro de direito ou de facto). que. O erro. quase sempre. isto é. os interesses da outra parte. pelo que se deve reputar consagrada a solução segundo a qual tal requisito é dispensável. nos termos expostos – devem acrescer certos requisitos especiais. Erro sobre os motivos Inserem-se nesta categoria os casos em que o erro se não refere à pessoa do declaratário. quando. c)Erro sobre os motivos não referentes à pessoa do declaratário nem ao objecto do negócio (252º): é uma noção residual. admitido a invocar a anulabilidade. assim.Condições gerais de relevância do Erro-vício como motivo de anulabilidade Essencialidade É corrente na doutrina a afirmação de que só é relevante o erro essencial. assim. Já não relevaria o erro incidental isto é. O erro será impróprio. os sujeitos). que é. todavia. entender-se. o errante. a melhor «de iure condendo». se não celebraria qualquer negócio ou se celebraria um negócio com outro objecto ou de outro tipo ou com outra pessoa. aquele que levou o errante a concluir o negócio. sempre celebraria o mesmo negócio (manter-se-ia o tipo negocial. não são desprotegidos. Há que distinguir. que variam com as diversas modalidades do erro-vício. Propriedade Trata-se de um requisito que circunscreve o campo de aplicação autónoma do Errovício. aquele que influiu apenas nos termos do negócio. duma noção definida por via negativa. no caso de erro culposo. a capacidade do errante. pois o errante sempre contrataria. para relevar. Trata-se. o objecto. qualquer exigência da desculpabilidade ou escusabilidade do erro. não obstante a anulação. aliás. ou sobre o objecto imediato (erro sobre a natureza do negócio). v. b)Erro sobre o objecto de negócio: pode incidir sobre o objecto mediato (sobre a identidade ou sobre as qualidades)..Condições especiais de relevância do erro-vício como motivo de anulabilidade Aos requisitos gerais de relevância do erro – essencialidade e propriedade. embora noutras condições. em si mesmo e não apenas nos termos em que foi concluído. corresponde ao erro acerca da causa (de direito ou de facto ) do código anterior e abrange igualmente o erro sobre a pessoa de terceiro. um erro-obstáculo) e erro sobre as qualidades. nem ao objecto do negócio. Deve.

pois o 253º n. 155. por acordo. Está igualmente previsto no 251º.Modalidades a)Dolo positivo e negativo A distinção já foi caracterizada e consta do 253º n. não existe em todos os casos de silêncio perante o erro em que versa o declarante. a lei declara não constituírem dolo ilícito. nos 437º a 439º. do erro do declarante (dolo negativo. o 252º n. ou quando tenha lugar a dissimulação. sobre o seu conteúdo. Com efeito. pelo declaratário ou por terceiro.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Nos casos deste tipo. b)Dolus bonus e malus Só é relevante. estabelece-se um regime especial para certos casos de erro sobre os motivos: se o erro incidir sobre as circunstâncias que constituem a chamada base negocial. (3)Dolo 154.º1. o regime correspondente ao erro na declaração. a essencialidade do motivo»). quer na do erro sobre as qualidades. de estipulação negocial ou das concepções dominantes no comércio jurídico (253º n. Importa aqui referir apenas que o dolo negativo ou omissivo.º1. segundo as concepções dominantes no comércio jurídico (253º n. como fundamento da anulabilidade e de responsabilidade. para o declarante. Na 2ª parte do 252º. desde que haja uma cláusula (expressa ou tácita) no sentido de a validade do negócio ficar dependente da existência da circunstância sobre que versou o erro («se as partes houverem reconhecido. isto é. pois este versa sobre os efeitos do negócio. ponto é que exista o dever de elucidar por parte do terceiro reticente. O negócio será anulável nos termos previstos no 247º para o erro-obstáculo.º2).º1. permite a anulação. usuais. A omissão de esclarecimento só constituirá dolo ilícito. igualmente. expendemos quando se tratou do erro na declaração e tendentes à conclusão de que seria mais razoável ter-se exigido o conhecimento ou a cognoscibilidade do erro. omissivo ou de consciência). o chamado erro sobre a natureza do negócio. Erro sobre a pessoa do declaratário Abrange igualmente o erro sobre a identidade e o erro sobre as qualidades. por força de lei. Só existirá dolo. «desde que o declaratário conhecesse ou não devesse ignorar a essencialidade. se dispõe acerca da resolução por alteração das circunstâncias vigentes no momento em que o negócio foi concluído («desde que a exigência das obrigações assumidas afecte gravemente os princípios da boa fé e não esteja coberta pelos riscos próprios do contrato»). Costumava assinalar-se à distinção o interesse prático de o dolo negativo de terceiros não ser relevante. nos mesmos termos em que. quando se verifique o emprego de qualquer sugestão ou artifício com a intenção ou consciência de induzir ou manter em erro o autor da declaração (dolo positivo ou comissivo). a seu propósito. cabendo-lhe.º1 fala expressamente em dissimulação de terceiro. portanto. sobre o seu objecto imediato. Trata-se dum erro determinado por um certo comportamento da outra parte. isto é. reputada legítima pelas concepções imperantes num certo sector negocial. Erro sobre o objecto do negócio Está previsto no 251º. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 79 . quer na hipótese do erro sobre a identidade (na medida em que seja um erro-vício e não um erro na declaração). do elemento sobre que incidiu o erro». O 251º abrange. quando existia um dever de elucidar.Conceito A noção de dolo consta do 253º n. A lei tolera a simples astúcia. Essa conclusão não tem hoje qualquer fundamento. haverá lugar à anulabilidade do contrato. São cabidas acerca deste regime as considerações que.º1 2ª parte). considerados legítimos. o dolus malus.

mesmo que esse não seja o propósito de quem a cria ou mantém. É um elemento da definição de dolo. há que fazer a seguinte distinção: a)Se o declaratário conheceu ou lhe foi cognoscível o dolo de terceiro. não apenas dolo de terceiro. são exigidas certas condições suplementares que devem acrescer às do dolo do declaratário e o seu efeito é mais restrito. Na hipótese de dolo negativo trata-se de uma causalidade hipotética. apesar dela. com o seu comportamento contrário às regras da boa fé. além disso. mas também dolo do declaratário. há dolo ilícito. pois sempre contrataria. neste caso. A distinção não tem interesse prático. Desde logo. Este requisito tem algum vago apoio no 254º n. d)Dolo proveniente do declaratário e proveniente de terceiro A distinção tem grande importância. a lei. haverá dolo negativo do próprio declaratário.º2). se ao terceiro deceptor adveio. basta a consciência de criar ou manter uma situação de erro. todavia. directamente algum direito (isto é. enquanto no segundo há o intuito ou a consciência de prejudicar.º2) Devem verificar-se os requisitos anteriores e. o negócio só será anulável.º1. se este for cúmplice daquele. e)Dolo essencial ou determinante e dolo incidental A distinção põe-se nos termos em que se pôs para o erro. pois. sem dolo não se teria concluído qualquer negócio. não é necessário que o dolo seja unilateral. 4)Ao contrário do que exigem algumas legislações e a própria tradição jurídica. 80 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . por ter dado origem à invalidade. Condições de relevância do dolo do declaratário como motivo de anulação 1)Deve tratar-se dum dolus malus (253º n. em ambos os casos se verificando os mesmos efeitos. segundo ele.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL c)Dolo inocente e fraudulento No primeiro há mero intuito enganatório. embora noutras condições. O próprio dolo bilateral ou recíproco pode ser invocado como fundamento de anulação. embora o dolo incidental também possa vir a conduzir à anulação. b)Se o declaratário não conheceu nem devia conhecer o dolo de terceiro. Na verdade o 254º n. No dolo incidental o deceptus apenas foi influenciado quanto aos termos do negócio. No dolo essencial o enganado (deceptus) foi induzido pelo dolo a concluir o negócio em si mesmo e não apenas nos termos em que foi concluído. se existir no contrato cláusula a seu favor e anulação será limitada à cláusula a favor do terceiro (invalidade parcial). Se essa consciência existe e.º2). Existirá.º1). Condições de relevância do dolo de terceiro como motivo de anulação (254º n. estabelece a sanção da anulabilidade.º1 2ª parte dispõe que.º1.Condições de relevância do dolo como motivo de anulação O principal efeito do dolo é a anulabilidade do negócio (254º n. 156. 3)Existência no deceptor da intenção ou consciência de induzir ou manter em erro. constante do 253º n. mesmo para a hipótese da simples cognoscibilidade do declaratário. durante os preliminares e a formação do negócio (227º). 2)Deve ser essencial ou determinante. «a nulabilidade não é excluída pelo facto de o dolo ser bilateral». por força do negócio. para a relevância do dolo de terceiro. Tal solução é a que logicamente resulta do facto de o fundamento da anulabilidade por dolo ser a viciação da vontade. se prossegue ou mantém o comportamento que gera ou faz perdurar o erro. conhecer ou dever conhecer a actuação de terceiros (254º n. mas acresce a responsabilidade pré-negocial do autor do dolo (deceptor). se ele conheceu efectivamente os artifícios de terceiro. o negócio será sempre anulável.

embora a submissão à ameaça fosse a única escolha normal. tal como sucede com o erro simples. pois existe sempre uma opção entre padecer o mal cominado ou expor-se à sua consumação e celebrar o negócio (A é ameaça de morte ou de agressão ou de difamação. 162. semper voluntas). sendo o coagido ameaçado de um mal se não emitir a declaração.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 157. e não com a anulabilidade. existente no Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 81 . portanto. em relação a este. a liberdade do coacto é cerceada. na coacção moral. quando a liberdade exterior do coacto é totalmente excluída e este é utilizado como puro autómato ou instrumento. quer o coactor seja beneficiado por cláusula a seu favor. Assim estaremos dentro do campo da coacção moral (coacção relativa ou compulsiva). Coacção dirigida à pessoa ou à honra ou à fazenda do declarante ou de terceiro No regime geral da coacção não há qualquer diferença de tratamento. quando lhe foram deixadas possibilidades de escolha. mas na adulteração da vontade do «deceptus».º2). a lei exclui. quando a liberdade do coacto não foi totalmente excluída. A ameaça pode dizer respeito à pessoa como à honra ou fazenda do declarante ou de terceiro (255º n. apenas. A coacção moral ou relativa ou compulsiva reduz a liberdade do coagido mas não a elimina (neste sentido coacta voluntas. mas não excluída. a segunda à mera anulabilidade (256º). o dolo não tem relevância específica em relação ao erro (no casamento engana quem pode). Torna-se necessário que o receio provenha de uma ameaça ilícita.Condições de relevância da coacção como motivo de anulabilidade Coacção exercida por terceiro A coacção exercida por terceiro provoca a anulabilidade do negócio e põe a cargo do coactor uma obrigação de indemnizar o declarante (coagido) e o declaratário (mas. se não emitir certa declaração negocial). consoante o bem ameaçado pela cominação ou a pessoa directamente visada. (4)Coacção 160.Fundamento jurídico da anulabilidade por dolo O fundamento da anulabilidade por dolo não consiste numa ideia de reparação do prejuízo sofrido pelo enganado (o próprio dolo inocente ou altruístico releva). se ele não for cúmplice do terceiro). traduzida no medo resultante da ameaça ilícita de um dano (de um mal). como começo de execução do mal cominado. 161. 159. cominada com o intuito de extorquir a declaração negocial.º2). para compelir ao negócio. Só há vício da vontade. a perturbação da vontade. desde logo. é óbvio. mesmo no caso da ameaça com arma de fogo ou no caso de emprego da violência física. absoluta ou ablativa reduz o coagido à situação de mero instrumento ou autómato. Não basta um simples medo ou receio.º1 e consiste no «recreio de um mal de que o declarante foi ilicitamente ameaçado com o fim de obter dele a declaração». o negócio será anulável na sua totalidade (mesmo em face do declaratário). Exige-se igualmente que a cominação do mal vise extorquir a declaração negocial.Negócio em que o dolo não tem relevância específica Resulta dos artigos 1631º b) e 1636º que no casamento. A primeira dá lugar à inexistência do negócio (246º). Só cairemos no âmbito da coacção física (coacção absoluta ou ablativa). o chamado temor reverencial (255º n. É. A reparação do prejuízo causado é visada com a responsabilidade civil que impende sobre o «deceptor».Conceito Consta do 255º n. Ao contrário do dolo de terceiro.Modalidades Coacção física (absoluta e moral (relativa) A coacção física.

então. quer não seja. sendo. 166. mas antes de um desvio no processo formativo da sua vontade em relação às circunstâncias normais do seu processo deliberativo. etc. consoante a natureza do facto que lhe dá origem: facto natural ou facto humano. Modalidades possíveis. em face dela. a protecção da contraparte cabe. mas entre a falta e os vícios da vontade. para que ela. O requisito da notoriedade significa a cognoscibilidade por uma pessoa média. onde se estatui a anulabilidade dos chamados negócios usurários. A hipótese está prevista no 257º. (5)O estado de necessidade e outras situações como vícios da vontade negocial 164. A lei desaprova a coacção em tão forte medida que. pelo representado ao representante: fala-se. colocado na posição concreta do declaratário. desde que se verifique um requisito (além da incapacidade acidental) destinado á tutela da confiança do declaratário: a notoriedade ou o conhecimento da perturbação psíquica. por um acto voluntário. (6)A incapacidade acidental 167.Valor dos negócios jurídicos realizados em estado de necessidade No CC a hipótese dos negócio em Estado de necessidade deve subsumir-se na previsão do 282º. para na esfera desse outrem se produzirem os respectivos efeitos.Conceito Situação de receio ou temor gerada por um grave perigo que determina o necessitado a celebrar um negócio para superar o perigo em que se encontra. torna-se necessário que o representante actue «nos limites dos poderes que lhe competem» (258º) ou que o representado realize. Já se sabe que este regime dos 282º e 283º não se aplicará. assim. havendo antes lugar à nulidade.A incapacidade acidental O CC regula a incapacidade acidental. Os poderes de representação podem ser atribuídos. gratidão. irrelevante como motivo determinante da vontade. quando a pessoa não se aproveita conscientemente da situação de necessidade tinha o dever de auxiliar o necessitado (acto contrário à lei ou ofensivo dos bons costumes). 163. (V)A representação nos negócios jurídicos 168. não sancionando um critério puramente objectivo. seja eficaz.A coacção moral e o simples temor reverencial O temor reverencial (medo de incorrer no desagrado ou desafecto de outrem. supervenientemente.) não constitui coacção. mas exigindo.Conceito Infere-se do 258º. uma ratificação. não na secção das incapacidades. de representação voluntária e o acto voluntário atribuidor de poderes representativos chama-se procuração. todavia. dado o facto não se tratar de uma situação permanente do indivíduo. em conformidade com a fisionomia moderna do instituto. A representação traduz-se na prática dum acto jurídico em nome de outrem. É nos termos de tal disposição. mesmo que esta nada soubesse ou devesse saber da coacção. que o legislador concebe sob a designação de usura alguma relevância ao velho instituto da lesão. e haja ou não conhecimento ou cognoscibilidade do vício por parte do declaratário (256º 1ª parte). onde se prescreve a anulabilidade. Nada mais é necessário para existir a representação.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL contrato. Podem resultar dos estatutos de 82 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . a quem se deve respeito.

Não há igualmente coincidência entre as noções de representação e de mandato. mas em nome próprio. a representação voluntária pode ter lugar por força da chamada in rem suam. para se produzirem os mesmos efeitos que se produziriam se tais declarações fossem recebidas por esse outrem. Não há contradição. A representação já acima ficou definida e resulta que: a)Pode haver mandato sem haver representação Quando o mandatário não recebeu poderes para agir em nome do mandante. 169. Com efeito. São poderes de grande amplitude. inabilitados. Verifica-se no mandato sem representação e. pois o mandato é um contrato pelo qual uma das partes se obriga a praticar um ou mais actos jurídicos por conta da outra (1157º). curador). contrariamente a um equívoco bastante generalizado. capacidade de agir por possuírem órgãos que as podem representar. tendo como critério a fonte donde promanam os poderes representativos. c)Representação activa e passiva A primeira é a actuação em nome de outrem na emissão de declarações negociais. Esta pode ser geral. ou por decisão judicial em conformidade com a lei e tem os poderes definidos pela lei. Para existir a representação basta que o negócio seja concluído em nome do representado. ou especial. A chamada representação imprópria não é uma verdadeira representação. tal como este conceito é pressuposto pelo 258º. igualmente. traduzindo-se em legitimidade para representarem. se a representação legal tem lugar sempre no interesse do representado (incapaz). mas pode ser outro (ex. Representação legal: o representante é indicado. por isso. eventualmente. abrangendo apenas os actos nela referidos e os necessários à sua execução. Não há contradição entre a representação e o princípio da autonomia privada. interditos) não se nos depara. administrador de bens. ser concedidos pela lei a representantes legais (pais. Quanto às pessoas colectivas têm. Na representação legal (menores. segundo a perspectiva do ordenamento jurídico. caso em que os poderes representativos são conferidos no interesse do próprio procurador. directa ou imediata e a representação imprópria. verificadas certas situações. em condições de defender os seus interesses e.: contrato de trabalho). será o mandato. mas também no que toca à representação voluntária: esta resulta de um acto – procuração (262º) – que pode existir autonomamente (negócio unilateral) ou coexistir com um contrato que. em todos os seus assuntos pessoais ou patrimoniais. A segunda traduz-se em receber declarações negociais em nome de outrem. isto é. b)Pode haver representação sem haver mandato Não só na hipótese da representação legal. trata-se de uma modalidade particular do contrato de prestação de serviços. noutras hipóteses de interposição real de pessoas. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 83 . justamente. Representação voluntária: os poderes do representante e a respectiva extensão provêm da vontade do representado. indirecta ou mediata. não têm capacidade para se autodeterminarem. normalmente. desde logo. e. verificada cada certa situação. traduz um alargamento das possibilidades contidas na referida autonomia. os interditos e certos inabilitados não estão. Há perfeita autonomia entre as duas figuras. não sendo já necessário que o seja no interesse do representado. A representação voluntária não contradiz o referido princípio.Espécies a)Distinção entre representação própria. porque as possibilidades de actuação jurídico-negocial própria (do representado) não são restringidas pelo facto de ter passado a outrem uma procuração. qualquer contradição com a autonomia privada. neste caso. manifestada na procuração. não disfrutam de autonomia privada. age por conta do mandante.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL uma pessoa colectiva (representação orgânica ou estatutária) ou. b)Distinção entre representação legal e voluntária. ao invés. em princípio. pela lei. tutor. só legítima para actos de administração ordinária. Os menores. o menor ou o interdito.

o núncio transmite uma declaração de outrem. O representante emite uma declaração em nome de outrem. etc. é ineficaz. frequentemente. não existe a chamada «contemplatio domini». sem necessidade de um acto especial de transmissão dos direitos e das dívidas. Diversidade de tratamento jurídico: 1) o representante (voluntário) não precisa de ter plena capacidade legal. A representação imprópria ou mediata – na qual o agente. nem mesmo quando a procuração é especialíssima. são previstos e disciplinados no 452º e ss. isto é. os operários. os consultores técnicos. O representante consuma. podendo tratar-se de operações de tipo intelectual). no sentido da anulabilidade.. o «dominos» poderá ficar vinculado nos termos da declaração emitida. mais. retroactivamente. o representante realiza negócios jurídicos e os dactilógrafos. os direitos e obrigações provenientes do contrato são apropriados. no contrato para pessoa a nomear. o núncio transmite o já consumado. o se do negócio e. uma vez feita a declaração de nomeação nos termos do 453º. o negócio é ineficaz em relação ao representado (268º). não sendo feita a declaração de nomeação nos termos legais. age em nome próprio – é uma forma de mera representação de interesses. o conteúdo. 1)Na representação própria o negócio representativo produz efeitos na esfera do representado ou. no contrato para pessoa a nomear. embora se actue no interesse ou por conta de outrem. O núncio é um mero longamanus. b)Representação própria e imprópria Na representação imprópria (contrato de comissão. mandato sem representação. Decide. d)Representação e os contratos para a pessoa a nomear Os contratos para pessoa a nomear. Este é que é parte negocial. etc. podendo uma criança actuar como núncio. reservando-se apenas o direito de o nomear e. pelo menos. do erro na transmissão da declaração. 2) se o representante excede os seus poderes de representação. bastará a capacidade natural para transmitir a declaração de vontade. sendo este obrigado a assumir as obrigações contraídas pelo mandatário. se o núncio transmite a sua declaração inexactamente. embora actuando no interesse de outrem. adquirindo os direitos e obrigações decorrentes dos actos que celebra. se este não atribuir àquele legitimidade representativa (ratificação). se não se verificarem os requisitos do 250º para a relevância. o contrato produz os seus efeitos relativamente ao contraente originário (455º). 2)Na representação imprópria o mandatário age em nome próprio.Confronto com institutos afins a)Representante e o simples núncio O representante. na representação própria existe a «contemplatio domini» (actuação em nome de outrem). e é obrigado a transferir para o mandante os direitos adquiridos. um braço mais comprido. mas carece de capacidade natural de entender e querer. c)Representação e as diversas formas de colaboração material ou técnica nos negócios de outrem A distinção assenta na contraposição negócio jurídico/acto material. 84 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados .). que não torna o «dono do negócio» parte ou sujeito do acto jurídico praticado pelo «representante». e)Representação e simples autorização ou consentimento para actos de outrem O representante actua e na simples autorização inibe-se ou aprova-se uma iniciativa e uma actuação de outrem. os efeitos do negócio são encabeçados pela pessoa nomeada. nunca recebe. actos materiais (no sentido de actos não negociais. a partir da celebração do negócio. um mandato absolutamente especificado e imperativo. ao contrário do núncio. exigida pela natureza do negócio que haja de efectuar (263º).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 170. na hipótese de falta de legitimação representativa. pela pessoa nomeada e. quanto ao núncio. um dos contraentes declara contratar para um terceiro.

da procuração. pura e simplesmente. O carácter formal ou consensual da ratificação. responde perante a contraparte. posteriormente. e não. de uma vontade do representado. isto é.Pressupostos da representação a)Pressupostos de existência (conceituais) da representação: 1)«Contemplatio domini». 172. A. está ferido de anulabilidade (261º) e não de ineficácia. com culpa. Os actos praticados por um representante sem poderes ou «falsus procurator» (com falta total de poderes representativos ou com excedência dos poderes que lhe foram atribuídos) são ineficazes em relação à pessoa em nome da qual se celebrou o negócio. esta não é parte negocial. É admitida nos 262º e ss. não responde). eventualmente. mas de modo substancialmente contrário aos fins da representação. legitimação representativa. se não psicologicamente ao menos objectivamente. que pode ser originária. o representante sem poderes. O 269º manda aplicar o regime do 268º à hipótese de abuso de representação. Deve existir. desde que o representado tenha especificamente consentido na celebração) -. Haverá abuso de representação quando o representante actuar dentro dos limites formais dos poderes conferidos. como.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL f)Representação e os contratos a favor de terceiros Na representação. «prima facie».º2 e 262º n. 2)Declaração.º2) 171. verificada culpa sua. salvo se tiver lugar a ratificação (268º nº1). no qual está coenvolvida uma procuração. A sua admissibilidade e o seu domínio de aplicação resultam das disposições que a consagram para o efeito de se suprir a incapacidade dos menores (124º). ineficaz relativamente ao «representado». além do direito adquirido pelo terceiro a favor de quem foi convencionada a promessa ou dos outros efeitos favoráveis a este (443º n. o representante não se torna titular de quaisquer direitos ou obrigações em face da contraparte do negócio representativo. nos contratos a favor de terceiro. compra em nome próprio um objecto que vende em nome de B (autocontrato). já existente ao tempo do negócio representativo ou conferida. é a fonte mais frequente da representação voluntária. O negócio consigo mesmo: o chamado negócio consigo mesmo – ex. tratado como um negócio do representante. se poderia pensar e se teria de concluir se o caso não estivesse expressamente hipotizado em norma especial (261º). O negócio vale em relação ao representado. com fundamento em responsabilidade pré-negocial (227º) ou na existência de uma promessa tácita de garantia. se a outra parte conhecia o abuso ou este lhe era cognoscível. O mandato com representação (1178º).º2). se desconhecia. de uma vontade própria do representante. aliás. através de uma ratificação do negócio (legitimação representativa subsequente). estabelecem-se vínculos jurídicos entre o promissário e o promitente.Admissibilidade da representação a)Representação legal. até. Através deste requisito distinguese a figura do representante da figura do núncio. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 85 . depende das exigências formais do negócio representativo (268º n. por parte do representante. isto é. procurador de B. manifestação particular da representação sem poderes (na medida em que o negócio é perfeitamente válido. para que a contraparte saiba ou possa saber com quem negoceia. a dos inabilitados (154º). a falta de poderes (no caso raro de não ter culpa. Não havendo ratificação. Não vale em relação ao representante. como . O negócio. a dos interditos (139º) e. como será quase sempre o caso. sendo sujeitos das relações emergentes do referido negócio o representado e a outra parte. sempre existente. não é. b)Pressuposto de eficácia da representação: o acto deve estar integrado nos limites dos poderes que competem ao representante. também. em maior ou menor escala. b)Representação voluntária.. realização do negócio em nome do representado. O «falsus procurator» responde pelo interesse contratual negativo ou interesse da confiança (a contraparte é colocada na situação em que estaria se não tivesse contado com a realização do contrato).

TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL A extinção da representação é unilateral e pode dar-se por: revogação (por parte do representado) ou renúncia (por parte do representante) (265º). Pode dar-se também por causa natural, isto é, por conclusão. O 264º faz ainda referência à hipótese de subestabelecimento: o representante representa-se por outrem.

(III)Elementos acidentais dos negócios jurídicos (Cláusulas acessórias típicas gerais) (I)Condição 176.Conceito, natureza e importância da estipulação condicional
As noções de condição suspensiva e de condição resolutiva constam do 270º: subordinação pelas partes a um acontecimento futuro e incerto ou da produção dos efeitos do negócio jurídico (condição suspensiva) ou da resolução dos mesmos efeitos (condição resolutiva). Natureza da estipulação condicional Trata-se duma vontade hipotética, embora actual, e efectiva, exteriorizada numa declaração única e incindível. Razão de ser e importância prática da condição Superação da incerteza objectiva do futuro, através de um regulamento de interesses apto a, em qualquer hipótese, realizar a representação que os sujeitos têm do seu interesse. Numa especial modalidade permite influir sobre o comportamento de outrem.

178.A aponibilidade da condição
Princípio geral A cláusula condicional é um elemento acidental, susceptível de ser inserido na generalidade dos negócios, por força do princípio da liberdade negocial. Valor de condição aposta a um negócio incondicionável Em conformidade com o princípio da incindibilidade do negócio condicional, a consequência da aposição duma condição a um negócio incondicionável é a nulidade do negócio. Tal solução, na falta de disposição que expressamente a preceitue (ex.: 848º), resultará da aplicação analógica do 271º e até genericamente do 294º.

179.Classificação das condições
Condições suspensivas e resolutivas O critério da distinção, nos termos do 270º, é o da influência que a verificação do evento condicionante tem sobre a eficácia do negócio: se a verificação da condição importa a produção dos efeitos do negócio, não tendo estes lugar doutro modo, trata-se duma condição suspensiva; se a verificação da condição importa a destruição dos efeitos negociais, aquela diz-se resolutiva. Saber se uma condição é suspensiva ou resolutiva é um problema de interpretação do negócio jurídico, não formulando o CC qualquer presunção geral, nem sendo legítimo propor qualquer presunção natural ou de facto com validade geral. Condições possíveis e impossíveis. As chamadas condições ilícitas (contrárias à lei) Os conceitos de condição impossível (física ou legalmente) e de condição contrária à lei ou à ordem pública ou ofensiva dos bons costumes resultam claramente das considerações acerca dos requisitos legais do objecto negocial: sempre que o evento condicionante não possa realizar-se por impossibilidade física ou legal, ou seja contrário à lei, à ordem pública ou ofensivo dos bons costumes, a condição respectiva terá a qualificação correspondente. A condição que consiste num facto ilícito pode ser lícita, se a cláusula condicional representar um contra-estímulo à prática desse acto; só deixará de ser assim, nesta hipótese,

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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL sendo, portanto, nula a condição, se repugnar à lei ou aos bons costumes a ideia de que se pratique tal acto mediante retribuição. Por outro lado, sendo embora o evento condicionante lícito, pode a condição ser ilícita, por força do seu nexo com o restante conteúdo do negócio.

181.Efeitos da condição suspensiva
Na pendência da condição, isto é, enquanto o evento condicionante não se verificou, nem deixou de se poder verificar. Neste período, o credor condicional não tem ainda um direito exercitável em relação ao devedor, embora as partes estejam já vinculadas, de tal modo que estão sujeitas à produção dos efeitos do negócio, uma vez verificado o evento condicionante.

(II)Termo 183.Conceito
Cláusula acessória típica pela qual a existência ou a exercitabilidade dos efeitos de um negócio são postas na dependência de um acontecimento futuro mas certo, de tal modo que os efeitos só começam ou se tornam exercitáveis a partir de certo momento (termo suspensivo ou inicial) ou começam desde logo, mas cessam a partir de certo momento (termo resolutivo ou final).

185.Aponibilidade do termo
Em obediência ao princípio da liberdade contratual, as partes gozam da faculdade de inserir esta cláusula na generalidade dos negócios. O termo pode ser aposto, em princípio, a qualquer negócio jurídico. Esta regra tem excepções, contudo, visto que há negócios que não admitem termo – negócios inaprazáveis -, os quais coincidem, em regra, com os negócios incondicionáveis.

186.Modalidades
Termo inicial, suspensivo ou dilatório (dies a quo ou ex quo) e termo final, resolutivo ou peremptório (dies ad quem) Esta distinção é paralela à que separa a condição suspensiva da resolutiva, assentando num critério baseado na influência que a verificação do facto futuro (mas certo) tem sobre a existência ou a exercitabilidade dos efeitos do negócio. Se os efeitos do negócio só começam ou só se tornam exercitáveis a partir de certo momento, o termo diz-se suspensivo ou inicial; se começam desde logo, mas cessam a partir de certo momento, o termo diz-se resolutivo ou final. Termo certo e incerto O termo é certo quando se sabe antecipadamente o momento exacto em que se verificará (ex.: o devedor fica obrigado a cumprir a sua prestação no dia 1 de Janeiro de determinado ano ou dentro de um mês a contar de certa data), e incerto quando esse momento é desconhecido (ex.: consistir o momento da morte de alguém, a qual, como se sabe, é certa, mas a sua hora incerta). Chama-se prazo ao período de tempo que decorre entre a realização do negócio e a ocorrência do termo, embora se possam atribuir outros sentidos àquela expressão. 279º regime supletivo da contagem dos prazos (importante para os advogados).

(III)Modo, encargo ou cláusula modal 188.Conceito
Cláusula acessória típica, pela qual, nas doações e liberalidade testamentárias, o disponente impõe ao beneficiário da liberalidade um encargo, isto é, a obrigação de adoptar um certo comportamento no interesse do disponente, de terceiro ou do próprio beneficiário.

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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Referem-se-lhe os 963º (doações com cláusula modal) e 2244º (instituição de herdeiro e nomeação de legatário sujeitas a encargos).

189.Distinção do modo e da condição
O modo só pode ser aposto à liberalidades, enquanto a cláusula condicional é aponível, salvas as excepções constantes da lei, a todos os negócios (gratuitos ou onerosos). Enquanto a cláusula modal se traduz na imposição, ao beneficiário da liberalidade, do dever de adoptar uma certa conduta, a condição pode ter como evento condicionante um facto de qualquer das partes (credor ou devedor condicional), um facto natural ou de terceiro ou um evento de carácter misto.

190.Valor do modo impossível ou ilícito
No CC há um artigo – 967º - que manda aplicar aos encargos modais, física ou legalmente impossíveis, contrários à lei ou à ordem pública ou ofensivos dos bons, apostos às doações, as regras estabelecidas em matéria testamentária. Há, assim, identidade de regime entre as doações e os testamentos, quanto a este ponto, contrariamente ao que resultava da legislação anterior. O 2245º manda aplicar aos encargos impossíveis ou ilícitos o regime estatuído, para as condições com as mesmas características, no 2230º. Assim, a cláusula modal impossível (física ou legalmente) tem-se por não escrita e não prejudica o donatário, herdeiro ou legatário, salvo declaração do doador ou do testador em contrário. Os encargos ilícitos (contrários à lei ou à ordem pública ou ofensivos dos bons costumes), têm-se igualmente por não escritos, ainda que o disponente disponha o contrário. A nulidade é, portanto, parcial, isto é, mantém-se o restante conteúdo da liberalidade que assim resulta ampliada, sendo tal regime supletivo, no que toca ao modo impossível, e imperativo, para o modo ilícito.

(IV)Cláusula penal 192.Conceito e importância
Cláusula penal: é a estipulação em que as partes convencionam antecipadamente uma determinada prestação, normalmente uma quantia em dinheiro, que o devedor terá de satisfazer ao credor em caso de não cumprimento, ou de não cumprimento perfeito da obrigação. Pode, assim, revestir duas modalidades: cláusula penal compensatória ou moratória, conforme tenha sido estipulada para o não cumprimento da obrigação ou para a simples mora do devedor. Aparece normalmente como cláusula do contrato, dele fazendo parte desde a sua celebração, mas nada impede que seja convencionada posteriormente, desde que antes da verificação do facto constitutivo de responsabilidade. A cláusula penal constitui a fixação antecipada e convencional do montante da indemnização, sendo uma cláusula acessória da obrigação principal, pelo que as vicissitudes desta se reflectirão na pena convencional (designação por que também é conhecida). Assim, se a obrigação principal for nula, nula é a cláusula penal (810º). A importância prática da cláusula penal é manifesta, tendo em conta as funções que desempenha. Constituindo uma forma de liquidação prévia do dano, segundo a estimativa dos próprios contraentes, superam-se assim dificuldades e incertezas várias, mormente de prova do dano e da sua extensão. Com efeito, em circunstâncias normais, e na ausência de qualquer cláusula penal, o credor, que pretenda ser indemnizado dos prejuízos resultantes da violação do contrato, terá de fazer prova, através da acção judicial competente, dos prejuízos sofridos. Existindo uma cláusula penal, contudo, o credor deixa de ter de fazer essa prova, sendo o montante da indemnização aquele em que as partes tiveram previamente acordado. Supera-se assim, com a estipulação de uma cláusula penal, a incerteza dos contraentes quanto à avaliação judicial da indemnização, conhecendo-se de antemão as

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assim. a responsabilidade do devedor pelo não cumprimento.g. sobretudo quando a pena é de montante elevado. e não apenas de ser superior ao dano. que esse montante se venha a revelar. independentemente da desproporção existente. ao tribunal a redução desse montante. manifestamente excessivo.Regime O CC não trata da disciplina das cláusulas limitativas e de exclusão de responsabilidade em termos claros e sistemáticos. no momento da celebração do contrato – ou posteriormente. ao fixar a doutrina do 812º. (V)Cláusulas limitativas e de exclusão de responsabilidade civil 194. na medida ajustada. pode a pena ser modificada na parte proporcional». culmina um movimento que de há muito vinha salientando a necessidade de combater cláusulas penais abusivas. A limitação da responsabilidade verificar-se-á. dolo e culpa grave. em termos equitativos. quer condicionando-a a determinado grau de culpa (v. referindo-se a elas apenas no 800º nº2. mediante acordo prévio. «desde Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 89 . quer limitando-a no seu montante. pois.. a fim de evitar abusos. é. que o tribunal poderá reduzir o montante da cláusula penal. A possibilidade de redução equitativa de pena manifestamente excessiva. Aí se permite que a responsabilidade do devedor por actos dos representantes legais ou auxiliares possa ser convencionalmente excluída ou limitada. para que esta figura está especialmente vocacionada: uma função sancionatória.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL consequências que advirão de um incumprimento do contrato e evitando-se litígios judiciais sobre o montante do dano. esta situação conduzia. isto é. nas circunstancias concretas. o bem fundado de tal argumentação. visto que o código de Seabra estabelecia apenas que «se a obrigação foi cumprida em parte. Pode acontecer. fosse superior ao prejuízo efectivo. que o CC consagra. como forma de justificar a imutabilidade da pena. visto que a possibilidade de reduzir a cláusula pena depende de o seu montante se mostrar manifestamente excessivo. exonerando. O legislador não deixou. o mesmo sucedendo se a obrigação tiver sido parcialmente cumprida (812º).Regime A cláusula penal é devida independentemente da extensão dos danos. durante algum tempo. não pode minimizar-se uma outra. todavia. nos termos acordados pelas partes -. em termos de poder questionar-se se não ficarão assim comprometidas as sua funções de reforço da garantia de cumprimento do contrato e de certeza do montante da indemnização em caso de não cumprimento. desde que antes da verificação do facto gerador de responsabilidade -. 195. se fosse permitida a redução da pena sempre que. de pressão sobre o devedor em ordem à execução correcta do contrato. de ter em devida conta.Conceito e importância prática Cláusulas limitativas de responsabilidade: são estipulações através das quais os contraentes. anular-se-iam as vantagens que a cláusula penal apresenta. Só em casos excepcionais. Esta argumentação foi utilizada. cumprimento defeituoso ou mora das obrigações assumidas. de alguma forma. Mas além desta importante função que a cláusula penal desempenha – liquidação prévia do dano. neste caso. 193. É certo que a fiscalização judicial da cláusula penal contende com algumas vantagens que esta figura apresenta. sendo o montante da indemnização aquele em que as partes tiverem antecipadamente acordado. a cláusula penal constituirá um incentivo ao incumprimento tanto maior quanto mais elevado for o seu montante. o devedor em caso de incumprimento devido a simples culpa leve). acordam em limitar. permitindo-se. porém. em certos casos. Sabendo o devedor a quantia que terá de entregar ao credor. mas teve de ceder perante as flagrantes injustiças a que. pois doutra forma. se não cumprir a obrigação. revestindo-se esta função de particular importância sobretudo tratando-se de obrigações de prestação de facto infungível ou de contratos em que o cumprimento rigoroso das obrigações assume particular significado.

a possibilidade de as partes fixarem por acordo o montante da indemnização exigível.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL que a exclusão ou limitação não compreenda actos que representem a violação de deveres impostos por normas de ordem pública». Outras formas de ineficácia em sentido lato A ineficácia em sentido amplo tem lugar sempre que um negócio não produz. esta cláusula não cabe na hipótese do 809º. os efeitos do negócio são retroactivamente destruídos. o negócio não deve produzir os efeitos a que tendia. o direito potestativo de anular. de ineficácia em sentido lato – por força de eventos posteriores ao momento da sua celebração. por causas intrínsecas ou extrínsecas. Nulidade e anulabilidade. coerentemente. como vimos. não se encontra na lei uma resposta clara e segura sobre o regime daquelas convenções. alguma anormalidade. Há. Tratando-se. entre eles. enquanto não for julgada procedente uma acção de anulação. pensamos não ser abrangida pela proibição constante do 809º. não de uma falta ou irregularidade dos elementos internos do negócio. Estes dois últimos conceitos serão precisados adiante. formativos) do negócio. 90 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . a invalidade é apenas a ineficácia que provém de uma falta ou irregularidade dos elementos internos (essenciais. desde o início. contemporâneos da sua formação. integra a situação complexa produtiva de efeitos jurídicos. no quadro conceitual e terminológico do CC. com consequências mais graves do que a nulidade e a anulabilidade. porém. Pelo contrário. a valoração de um negócio. pela circunstância de depender. A invalidade é uma espécie do género ineficácia: enquanto a ineficácia lato sensu compreende todas as hipóteses em que. Na invalidade. na terminologia do CC à anterior distinção doutrinal entre nulidade absoluta e nulidade relativa. que se verifiquem os elementos correspondentes ao seu tipo. no todo ou em parte. os efeitos que tenderia a produzir. sem embargo de ocorrer. quando nem sequer aparentemente se verifica o «corpus» de certo negócio jurídico (a materialidade correspondente à noção de tal negócio) ou. pertencente a uma das partes. caducidade. pressupõe. o de indemnização. por impedimento decorrente do ordenamento jurídico. Por outro lado. pelo menos. nesses elementos. existindo embora essa aparência. admite a lei. (IV)Ineficácia e invalidade dos negócios jurídicos 198. O negócio nulo não produz. porém. isto é. O conceito de ineficácia em sentido estrito definir-se-á. a realidade não corresponde a tal noção. de actos directamente praticados pelo próprio devedor. a ausência de produção dos efeitos negociais resulta de vícios ou deficiências do negócio. Quanto à inexistência. Ineficácia stricto sensu e invalidade. produz os seus efeitos e é tratado como válido. no 810º. Invalidades mistas A distinção entre nulidade e anulabilidade corresponde. denúncia. revogação. que o negócio exista. Quanto à cláusula limitativa de responsabilidade. por força da falta ou vício de um elemento interno ou formativo.Inexistência e invalidade (nulidade e anulabilidade) dos negócios jurídicos Inexistência e invalidade A inexistência é uma figura autónoma. 200. mas da fixação de um limite máximo. figuras como a resolução. O mesmo sucede em muitos casos de ineficácia em sentido estrito. portanto. Surgem-nos com estas características.Ineficacia dos negócios jurídicos (latu sensu). exercido. afirma-se estarmos perante esta figura. norma que impede o credor de renunciar antecipadamente a certos direitos. segundo o teor das declarações respectivas. como nulo ou anulável. conjuntamente com o negócio. mas de alguma circunstância extrínseca que. mediante esta acção. Noção. casos de cessação dos efeitos negociais – e.

ressalvada a possibilidade da sua arguição por via de excepção. como nunca tendo tido lugar. restituindo-se tudo o que tiver sido prestado ou. quer por via de acção. Se não for anulado. a renovação opera «ex nunc». considera-se que os efeitos visados não se produziram desde o início. ter lugar aqui um sucedâneo da confirmação: a chamada renovação ou reiteração do negócio nulo. passa a ser definitivamente válido. b)Só podem ser invocadas por determinadas pessoas E não por quaisquer interessados. porém. Na hipótese dos actos afectados por ilegitimidades conjugais. nos contratos nulos. pelo sujeito de qualquer relação jurídica afectada. nesta hipótese. A confirmação não depende de forma especial e pode ser tácita ou expressa (288º nº3). mesmo em relação a terceiros. ser precludida. em princípio. arguindo a anulabilidade de qualquer negócio jurídico que contra elas seja invocado (287º). A confirmação tem efeito retroactivo. o valor correspondente (289º nº1). pelos efeitos a que o negócio se dirigia (286º). se o negócio não esta cumprido. no prazo legal e pelas pessoas com legitimidade. A possibilidade da sua invocação perpétua pode. mesmo que o fundamento da nulidade tenha desaparecido. a renovação. Resulta do 287º nº1 que só têm legitimidade para arguir a anulabilidade os titulares do interesse para cuja específica tutela a lei a estabeleceu. Exigem uma acção especialmente destinada a esse efeito. isto é. Se for anulado. 2)Não obstante a retroactividade. pela verificação da usucapião (prescrição aquisitiva). Há algumas diferenças entre a confirmação e a renovação. é um novo contrato. officio» pelo juiz. poderá vir-se requerer a anulação a todo o tempo. (289º nº3). quer por via de excepção. na sua consistência jurídica ou prática. portanto. contemporâneo da sua formação. a possibilidade de as pessoas legitimadas se defenderem. se a situação de facto foi actuada de acordo com os efeitos a que tendia o negócio. são invocáveis a todo o tempo (286º). d)São sanáveis mediante confirmação (288º) A confirmação é um negócio unilateral pelo qual a pessoa com legitimidade para arguir a anulabilidade declara aprovar o negócio viciado. A confirmação é um negócio unilateral. em matéria de frutos. tratado como válido. c)São sanáveis pelo decurso do tempo O CC estabelece em prazo de um ano para a arguição das anulabilidades. apesar do vício. 202.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 201. encargos. no tempo e forma devidos. embora. benfeitorias. porém. possa ter eficácia retroactiva nas relações «inter partes». 3)Em consonância com a retroactividade. o que está em perfeita coerência com a ideia de que a invalidade resulta de um vício intrínseco de negócio e. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 91 . e podem ser declaradas «ex officio» pelo tribunal (286º). b)São invocáveis por qualquer pessoa interessada Isto é. nem sequer uma sentença judicial prévia.Efeitos da declaração de nulidade e da anulação 1)Operam retroactivamente (289º). por estipulação «ad hoc». 204. todavia. Note-se.Regime das nulidades a)Operam «ipso iure» ou «ipsa vi legis» Não se torna necessário intentar uma acção ou emitir uma declaração nesse sentido. Não se produzem os efeitos jurídicos a que o negócio tendia. se a restituição em espécie não for possível. São as seguintes as características das anulabilidades: a)Têm de ser invocadas pela pessoa dotada de legitimidade Não podem ser declaradas «ex.Regime das anulabilidades O negócio anulável é. no aspecto prático. há lugar à aplicação das normas sobre a situação do possuidor de boa fé. haverá lugar à repristinação das coisas no estado anterior ao negócio. etc. d)São insanáveis mediante confirmação (288º «a contrario») Pode. que a arguição da anulabilidade não está sujeita a qualquer prazo. c)São insanáveis pelo decurso do tempo Isto é. o prazo é de três anos (1687º nº2).

92 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . se contrariar a vontade das partes ou a finalidade da resolução. ou implica uma acção judicial (anulabilidade). em princípio. a)A resolução pode fazer-se mediante declaração à outra parte (436º). a denúncia diz-se ad nutum ou ad libitum. c)A resolução nunca prejudica os direitos adquiridos por terceiro (435º). Pode ter lugar igualmente uma revogação dos contratos por comum acordo. b)A resolução tem. sem carácter retroactivo. a invalidade tem efeito retroactivo «inter partes». por mútuo consentimento. extinguem a relação contratual existente entre eles. Se não se exige como pressuposto ou requisito da denúncia uma justa causa. da relação contratual. devemos assinalar: a)a sua causa é algo de objectivo. a invalidade. não dum vício da formação do contrato. a invalidade opera os seus efeitos em relação a terceiros. eventualmente com eficácia retroactiva «inter partes».TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 4)A retroactividade da nulidade e da anulação. É o chamado extintivo ou abolitivo ou «contrarius consensus» (406º nº1). a que está vinculado. b)actua automaticamente ou de pleno direito («ipso iure»). c)não tem carácter retroactivo. revogação. mediante mera declaração. Com este «contrarius consensus» as partes. resultando. efeito retroactivo entre as partes. não carecida de justificação (uma nuda voluntas). levada às suas últimas consequências lógicas. A resolução tem lugar em situações de variada natureza. sem estas limitações. caducidade e denúncia) Resolução O CC admite a chamada resolução do contrato. Deve reconhecer-se. normalmente um facto que vem iludir a legítima expectativa duma parte contratante. Caducidade A cessação dos efeitos negociais pode ter lugar. emergente de um contrato bilateral ou plurilateral. nos contratos de execução continuada ou periódica. a denúncia caracterizase especificamente por ser a faculdade existente na titularidade de um contratante de. do autor da denúncia. não opera retroactivamente. seja um facto da contraparte (inadimplemento de uma obrigação). Denúncia Entre as formas de pôr termo à eficácia de um negócio jurídico. conduziria à oponibilidade da destruição dos efeitos do negócio em face de terceiros. A revogação tem apenas a consequência de extinguir os efeitos do negócio para o futuro («ex nunc»). Tentando por em evidência traços específicos da caducidade. salvo se o terceiro adquiriu o seu direito posteriormente ao registo da acção de resolução. mas tal efeito não se verifica. com fundamento na lei ou em convenção das partes. sob a forma da caducidade. «ex nunc». Nela se manifesta uma pura e simples vontade. mas dum facto posterior à sua celebração. ou actua automaticamente (nulidade). fazer cessar uma relação contratual ou obrigacional em sentido amplo. bem como. um motivo particular. a existência de um poder de denúncia sem uma específica causa justificativa. nos contratos de duração ou por tempo indeterminado. da consecução do fim visado ou de qualquer outro facto ou evento superveniente (ex. a partir das suas manifestações legais.: morte de uma pessoa) a que a lei atribui efeito extintivo.A invalidade e outras formas de cessação dos efeitos negociais (resolução. O fundamento material desta denunciabilidade «ad nutum» é a tutela da liberdade dos sujeitos que seria comprometida por um vínculo demasiadamente duradouro. seja um facto natural ou social («alteração anormal das circunstâncias»). 206. Revogação Nalguns casos a lei autoriza um dos sujeitos do negócio jurídico a revogá-lo. em princípio. No nosso sistema jurídico abrange este conceito uma série numerosa de situações em que as relações jurídicas duradouras de tipo obrigacional criadas pelo contrato ou pelo negócio (formando no seu conjunto a relação contratual) se extinguem para futuro por força do decurso do prazo estipulado.

todavia. Trata-se de saber se. Admissibilidade da conversão no nosso direito A conversão é genericamente regulada no 293º. não poderá reconstituirse. se soubessem que o negócio se opunha parcialmente a alguma disposição legal e não pudessem realizá-lo em termos de ser válido na sua integridade. cujo resultado final económico-jurídico. sempre o teriam realizado na parte não directamente atingida pela invalidade. não tendo lugar em caso de duvida. o critério da vontade hipotética ou conjectural das partes. onde são formulados requisitos coincidentes com os enunciados pela doutrina. Acentue-se. prefeririam não realizar qualquer negócio. a venda verbal de imóveis é inconvertível em promessa de compra e venda. com os materiais do negócio totalmente inválido. em geral. quando se imponha a conclusão de que as partes teriam querido o negócio sucedâneo se. a conversão exige a prova da vontade hipotética ou conjectural das partes. exigindo. O problema da conversão dos negócios jurídicos Os termos do problema Trata-se de saber se. deve ter lugar a redução do negócio. deve concluir-se pela invalidade total. a este propósito. Se se concluir que as partes. o negócio deve valer na parte restante (não afectada) ou deve ser nulo ou anulável na sua totalidade.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 207. certos requisitos de admissibilidade. Requisitos de admissibilidade A doutrina nacional e estrangeira é largamente favorável à conversão dos negócios jurídicos. embora mais precário. Se é de admitir que as partes. Assim. Solução do problema Na doutrina propõe-se. «não uma vontade real.. a produção do mesmo fenómeno é. 208. declarado nulo ou anulado totalmente um negócio. dados certos requisitos. vontade). Para além desta norma (293º) que resolve. 2)Exige-se que a vontade hipotética ou conjectural das partes seja no sentido da conversão.. Esses requisitos são os seguintes: 1)É necessário que o negócio inválido contenha os requisitos essenciais de forma e substância (capacidade. o problema da conversão dos negócios jurídicos. na hipótese de se terem apercebido do vício do negócio principal. objecto.Formas de aproveitamento de negócios inválidos. se aproxime do tido em vista pelas partes com a celebração do contrato totalmente inválido. 3)É frequentemente exigido pela doutrina que o negócio sucedâneo diga respeito ao mesmo objecto material a que respeitava o negócio principal. Só haverá conversão. mas a vontade como que fingida ou construida pelo juiz». não pudessem tê-lo celebrado sem essa deficiência. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 93 .Formas de aproveitamento de negócios inválidos. que. este não produzirá quaisquer efeitos negociais ou se. dado o 410º nº2. provavelmente. expressamente determinada em disposições particulares (conversão «ope legis»): 946 nº2 (conversão legal das doações por morte em disposições testamentárias). diversamente do que sucede com a redução dos negócios jurídicos. um outro negócio. no caso de um fundamento de invalidade ser relativo apenas (afectar apenas) uma parte do conteúdo negocial. Trata-se de averiguar aquilo que as partes teriam querido provavelmente. O problema da redução dos negócios jurídicos Posição do problema O problema da redução dos negócios jurídicos insere-se na disciplina dos efeitos das nulidades e anulabilidades pessoais. necessários para a validade do negócio sucedâneo. nessa hipótese. sem atender à vontade hipotética. predominantemente.

) Há importantes diferenças de regime entre a prescrição e a caducidade. por último. ser ilididas por confissão do devedor (306º). o qual é interrogável (300º). pela prática do acto (331º). podem. susceptível de influir. enquanto que a prescrição se interrompe pela citação ou notificação judicial de qualquer acto que exprima.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL (III)Eficácia do decurso do tempo nas relações jurídicas 209. em muitos domínios do direito civil. da ponderação de uma inércia negligente do titular do direito em exercitá-lo. em relações jurídicas do mais diverso tipo. uma prescrição de cinco anos (310º). Remissão O tempo é um facto jurídico não negocial. directa ou indirectamente. 94 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Estas prescrições presuntivas. 5 dias depois de requerida a citação ou a notificação.Prescrição extintiva e caducidade. igualmente. o mesmo não acontecendo a respeito do regime da prescrição. que o prazo ordinário da prescrição é de vinte anos (309º). Os problemas mais importantes colocados pela repercussão do decurso do tempo no mundo dos efeitos jurídicos referem-se à prescrição extintiva e à caducidade. em princípio. em princípio. de ofício (303º). que tem que ser invocada. não podendo o tribunal supri-la. para certas hipóteses.312º). Diversamente da caducidade. o torna indigno da tutela do Direito. possam embora não lhe ser totalmente estranhas razões de justiça. bem como o facto de influírem sobre o prazo de prescrição. 3)A caducidade. Há prazos mais curtos para as chamadas prescrições presuntivas (que se fundam na «presunção de cumprimento» . os quais podem ser de seis meses (316º) ou de dois anos (317º). por serem fundadas numa presunção de cumprimento. situações e acontecimentos que excluem a possibilidade de a falta de exercício do direito ser atribuída a inércia do titular – situações e acontecimento a que podem suspender ou interromper a prescrição.g. mas não a caducidade. que tem que ser invocada -. diversamente do que sucede com a prescrição. ao contrário da prescrição que se suspende e interrompe nos casos previstos na lei (respectivamente 318º ss.. o que faz presumir uma renúncia ou. em harmonia com o velho aforismo «dormientibus non succurit jus». A prescrição extintiva. que a caducidade seja apreciada oficiosamente pelo tribunal – ao contrário da prescrição. se estas não tiverem sido feitas por causa não imputável ao requerente (323º). v. a intenção de exercer o direito. e não sobre o da caducidade. tendo-se. Assim: 1)Admitem-se estipulações convencionais sobre a caducidade (330º). Na caducidade só o aspecto objectivo da certeza e segurança é tomado em conta. prevendo a lei. também. De referir. a caducidade só é impedida. não comporta causas de suspensão nem de interrupção (328º). ao contrário do regime geral da prescrição. 4)Por último. (93. pelo menos. a prescrição arranca. O que explica. é um instituto endereçado fundamentalmente à realização de objectivos de conveniência ou oportunidade. por interrompida. 2)A caducidade é apreciada oficiosamente pelo tribunal (333º). e 323º ss.).

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