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RESUMO - Teoria Geral do Direito Civil

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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL

Introdução 1.Âmbito da teoria geral do direito civil
Não se vai falar curar problemas específicos de direitos das coisa, de família, sucessões ou de crédito. Caracterizar figuras, equacionar problemas, formular soluções respeitantes a todo o domínio do direito civil ou, pelo menos, comum a normas e relações pertencentes a mais do que uma das referidas quatro partes especiais do direito civil. Teoria que visa reduzir algo amplo; tenta sintetizar. Apresenta um sistema de noções relacionadas entre si. Teoria da parte geral do direito civil; parte geral – pandectística.

2.Conteúdo da teoria geral do direito civil. Plano do curso
Impõe-se o conhecimento das fontes actuais do direito civil português. Fontes de direito civil: não tanto os modos de surgimento da regra, mas as próprias sedes onde se localiza o direito civil já nascido. Considera-se, então, os diplomas fundamentais do sistema de direito civíl português. É também essencial o conhecimento dos princípios básicos que formam a arquitectura do nosso sistema de direito civíl.

3.Divisão da teoria geral do direito civil: teoria geral do ordenamento jurídico civil e teoria geral da relação jurídica civil
Direito, em sentido objectivo: conjunto de princípios regulamentadores, de regras de conduta, de normas de disciplina social. Direito, em sentido subjectivo: sinónimo de poder ou faculdade. Teoria geral da norma jurídica: é a teoria geral do direito objectivo. Teoria geral da relação jurídica: é a teoria geral do direito subjectivo. A divisão da TGDC nestas duas partes é legítima porque utiliza como critérios de arrumação e referência dos problemas e soluções, duas categorias fundamentais do conhecimento do direito: - norma jurídica - relação jurídica A norma ou regra jurídica é uma dimensão fundamental do direito – é um veículo imprescindível da realização dos valores jurídicos. O direito visa realizar determinados valores, fundamentalmente a certeza desse disciplina e a segurança da vida dos homens, por um lado, e a «rectidão» ou «razoabilidade» das soluções, por outro. A realização da igualdade exige uma consideração normativa – geral – da realidade social a que o direito se aplica. A estatuição prescrita pelo direito para um situação deve ser aplicável às situações do mesmo tipo ou género. A existência de um direito recto e certo implica, pois, a sua formalização normativa, a formulação de prescrições gerais. O conceito de relação jurídica está na base da sistematização do nosso código civil. Estabelece-se uma parte geral que engloba as temas relevantes aos elementos comuns às outras quatro partes e estas, por sua vez, correspondem ao direito aplicável a quatro espécies ou modalidades diversas de relações jurídicas. Esta sistematização é conhecida por: sistematização germânica. Diverso era o plano francês. O direito não regula o homem isolado ou considerado em função das suas finalidades individuais, mas o homem no seu comportamento convivente. O direito pressupõe a vida dos homens uns com os outros e visa disciplinar os interesses contra postos nesse entrecruzar de actividades e interesses. Relação jurídica: ligação entre os homens, traduzida em poderes e vinculaçoes. Várias vozes têm formulado um veredicto anti-humano. O sujeito da relação jurídica são as pessoas colectivas. Tal ponto de vista dirige-se, pois, a um modo de arrumação, a uma forma de exposição, mais do que ao conteúdo das soluções expressas.

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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL

4.O direito civil como parte do direito privado
O direito civil é direito privado. Segundo um clássica distinção o direito divide-se em dois grandes ramos: - direito público - direito privado O direito civil constitui o direito privado geral.

5.Direito público e privado
privado. A teoria dos interesses é frequentemente referida para distinguir direito público do

Estaríamos perante uma norma de direito público: quando o fim dessa norma fosse a tutela de um interesse público, isto é, um interesse da colectividade; deparar-se-ia uma norma de direito privado: quando a norma visa tutelar ou satisfazer interesses individuais, isto é, interesses dos particulares. A este critério pode-se dirigir várias críticas: a) As normas de direito privado não se dirigem apenas à realização de interesses dos particulares, tenso em vista frequentemente, também, interesses públicos. Isso leva à intervenção pública. As normas de direito público, por sua vez, para além do interesse público visado, pretendem, também, dar adequada tutela a interesses dos particulares. Todas as normas, por cima dos interesses específicos e determinados que visam, miram um fundamental interesse público: o da realização do direito ou, se quisermos, da segurança e da rectidão. b) O critério apreciado só poderá tentar manter-se se procurar exprimir apenas uma nota tendencial: o direito público tutelaria predominantemente interesses da colectividade e o direito privado protegeria predominantemente interesses dos particulares. 1 – Não pode saber-se, em muitos casos, qual o interesse predominante. 2 – Há normas que, dado o lugar da sua inserção no sistema jurídico e dada a tradição e o desenvolvimento histórico do direito, são pacificamente classificadas como de direito privado e, todavia, visam predominantemente interesses públicos. O direito público: disciplina relações entre entidades que estão numa posição de supremacia e subordinação. O direito privado: regula relações entre entidades numa posição relativa de igualdade ou equivalência a) O direito público regula, por vezes, relações entre entidades numa relação de equivalência ou igualdade, como acontece com as relações entre autarquias locais. b) O direito privado disciplina, também, algumas vezes, situações onde existem posições relativas de supra-ordenação e infra-ordenação, como acontece com o poder paternal. Pode apenas dizer-se que a equivalência ou posição de igualdade dos sujeitos das relações jurídicas é normalmente característica da relação disciplinada pelo direito privado e a supremacia e subordinação característica normal da relação de direito público. A teoria dos sujeitos é hoje em dia o critério mais adequado, em virtude de assentar na qualidade dos sujeitos das relações jurídicas disciplinadas pelas normas a qualificar como de direito público ou privado. Segundo este critério o direito privado regula as relações jurídicas estabelecidas entre particulares ou entre particulares e o Estado ou outros entes públicos, mas intervindo o Estado ou esses entes públicos em veste particular, isto é, despidos de «imperium» ou poder soberano. É necessário, para se nos deparar uma norma de direito público, que pelo menos um dos sujeitos da relação disciplinada seja um ente titular de «imperium», de autoridade, que intervenha nessa veste. Os dois sectores não se separam de forma tão absoluta e completa.

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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL No domínio do direito do trabalho é discutido onde deve passar a linha divisória. O direito do trabalho contém normas de direito público (ex.: regras sobre intervenção administrativa na disciplina colectiva das relações de trabalho; as normas do chamado direito da previdência social), e normas de direito privado (ex.: normas reguladoras do contrato individual de trabalho)

6.Alcance prático da distinção entre direito público e privado
A divisão efectuada e a exacta integração de cada norma na categoria correspondente, revestem interesse no próprio plano de aplicação do direito. A distinção entre direito público e privado vai muitas vezes determinar as vias judiciais a que o particular que se considera lesado pelo Estado ou por uma autarquia local deve recorrer ou vice-versa. Se o particular tem uma pretensão contra o Estado ou contra um ente público, há que averiguar, se a relação jurídica donde essa pretensão deriva é uma relação de direito público ou privado. As acções entre particulares ou entre um ente particular e o Estado ou outra pessoa colectiva pública derivadas duma relação de direito privado devem ser propostas nos tribunais judiciais. Quando o assunto entre particulares e entes públicos ou entre estes diz respeito a relações jurídicas de direito público ou a efeitos jurídicos com elas conexionadas são competentes os tribunais administrativos. A responsabilidade civil, isto é, a obrigação de indemnizar os prejuízos sofridos, decorrente de uma actividade de órgãos, agentes ou representantes do Estado está sujeita a um regime diverso, consoante os danos são causados no exercício de uma actividade de gestão pública ou privada. Se os danos resultam de uma actividade de gestão pública, os pedidos de indemnização feitos à administração são apreciados por tribunais administrativos. Se os danos resultam de uma actividade de gestão privada, os pedidos de indemnização contra a administração central ou local, são deduzidos perante os tribunais judiciais. Actividade de gestão pública: é a actividade da administração disciplinada pelo direito público. Actividade de gestão privada: é a que é regida pelo direito privado.

7.O direito civil como direito privado comum. O direito comercial e do trabalho. A autonomia de outros ramos do direito.
O direito civil constitui o núcleo fundamental do direito privado. Constituir o núcleo fundamental do direito privado não significa ser todo o direito privado, mas apenas o direito privado comum ou geral. Historicamente, o direito privado confunde-se com direito civil, regendo este, sem restrições, todas as relações jurídicas entre sujeitos privados. O desenvolvimento da sociedade fez surgir ou acentuou necessidades específicas de determinados sectores da vida dos homens. Daí que fossem surgindo regras especiais para esses sectores particulares, estatuindo, para os domínios respectivos, regimes diversos dos que se aplicam à generalidade das relações jurídico-privadas do mesmo tipo. Essas normas especiais, em dado momento, passaram a compendiar-se. Dentro do direito privado surgiram assim, por especialização relativamente às normas do direito civil, ramos autónomos de direito. Esses ramos autónomos são: - direito comercial - direito trabalho Estes são direito privado especial, enquanto o direito civil é direito privado comum. O direito comercial e o direito do trabalho dão às particulares relações jurídicoprivadas a que se aplicam, uma disciplina diferente da que o direito civil dá às relações jurídicoprivadas em geral. Neste domínio das relações patrimoniais ligadas ao comércio ou à actividade laboral, se aplicam, todavia, por força do referido caracter subsidiário do direito civil, muitas normas gerais que assim cobrem todo o domínio do direito privado.

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As necessidades próprias do comércio. tratando o trabalho como qualquer outra prestação. Enquanto o código civil de 1867 regulava o contrato de trabalho nos termos gerais dos contratos. que é proporcionada pelo direito comercial. A entidade patronal estaria normalmente em posição da impor ao trabalhador condições inaceitáveis. das suas especificidades. Eis porque no domínio laboral se veio a verificar um rigoroso intervencionismo estatal. etc. a igualdade. negociadas a nível de classes organizadas e não dos indivíduos. relativamente ao direito civil. sejam ou não comerciantes as pessoas que nele intervêm. A actividade laboral. É executado por força de um contrato de trabalho. à formação profissional. A organização estadual proporciona ao particular meios eficazes e indispensáveis para o pleno desenvolvimento na sua personalidade e quanto ao exercício desses meios. Tem essa função enquanto está construído à volta da ideia de autonomia da pessoa e a autonomia é condição básica da personalidade. em ordem a dar satisfação a exigências do tipo indicado. diversos de regulamentação que o direito civil dá aos negócios jurídicos patrimoniais em geral. condições que este se veria obrigado a aceitar por a sua sobrevivência depender necessariamente da alienação da sua força de trabalho. quanto à sua constituição. Esta autonomia. disciplina directamente o trabalho subordinado prestado a outrem. supõe necessariamente a igualdade ou paridade de situação jurídica dos sujeitos. A autonomia é uma ideia fundamental do direito civil. a disciplina da vida quotidiana do homem comum. em maior ou menor escala. Como actos de comércio considera o código comercial certos tipos que descreve. A disciplina das relações de trabalho tem. à situação social dos trabalhadores. contrato entre o trabalhador e a entidade patronal. o 4 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . decorre a disciplina especial. o crescimento das empresas.Sentido do direito civil: a autonomia da pessoa. com propriedade. prende-se com importantíssimos problemas e interesses ligados à vida económica da colectividade. Esta disciplina recta da vida do homem é realizada pelo direito civil numa perspectiva de autonomia da pessoa do desenvolvimento da sua personalidade. a teoria geral do direito civil seja uma teoria geral do direito privado O direito comercial: disciplina os actos de comércio. poder de autodeterminação nas relações com as outras pessoas. o desenvolvimento industrial e comercial posterior. O direito do trabalho: na sua parte privatística. O direito comercial e o do trabalho regulam certos actos e relações jurídicas em termos especiais.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Daí que. se possa dizer ser o direito civil um direito privado comum e subsidiário dos ramos autónomos jurídico-privados. Tutela os interesses dos homens em relação com outros homens. formulador de normas imperativas ou reconhecedor de convenções colectivas de trabalho. bem como os actos dos comerciantes conexionados com o seu comércio. O direito civil contém a disciplina positiva da actividade de convivência da pessoa humana com as outras pessoas. O direito comercial é identificado pelos autores como uma disciplina de formas e mecanismos jurídicos cuja génese visa servir as finalidades das empresas. essa especialidade decorre das particulares necessidades que a zona de vida respectiva se fazem sentir. Outra ideia caracterizadora do sentido do direito civil é a de que este se encontra directamente ao serviço da plena realização da pessoa na sua vida com as outras pessoas. ainda que não se integrem nos tipos correspondentes aos actos objectivamente comerciais. com propriedade. 8. de se afastar do regime geral dos contratos. Daí que. efeitos e extinção. a concentração operária vieram a determinar uma profunda modificação neste domínio.

A jurisprudência está igualmente excluída do quadro das fontes de direito. Estes meios de direito público. com especial relevo comunitário. Normas corporativas: disposições gerais e imperativas emanadas das entidades reconhecidas na CRP com a designação de organismos corporativos. precisando-a e concretizando-a. a reacção do direito civil reforçada pelo direito criminal. Estas não são hoje fonte de direito. nem sequer como modo de integração de lacunas da lei. isto é. ordenamento dirigido à protecção dos valores da colectividade. Não pode esquecer-se ser fundamentalmente a vida das pessoas. frequentar escolas. onde se manifestam apenas interesses dos particulares. impondo ao infractor dos seus comandos. Esta tutela evidencia claramente estarmos no plano das relações de pessoa a pessoa. Toda a sua aparelhagem visa criar condições que facilitem ou melhorem a realização da personalidade na vida dos homens. não se exige a consciência da obrigatoriedade dos referidos usos por parte dos que o adoptam. Esta «concretização» da lei implica uma explicitação das suas virtualidades e um desenvolvimento e enriquecimento dela. estruturas instrumentais ao serviço da pessoa humana. numa visão personalista.Sequência (pág. a necessidade de reconstituir os interesses da pessoa lesada. não se reconhecendo um direito consuetudinário vigente. embora integrada no quadro ou no sistema legal. emanada dos órgãos estaduais competentes segundo a CRP. além do prejuízo causado à pessoa. Dispõe o artigo 1º do código civil que são fontes de direito: as leis e as normas corporativas. Seria exagerado dizer que só o direito civil é o direito da pessoa. em face do caso concreto. O direito civil situa-se no núcleo mais íntimo e fundamental da sociedade. A tutela é operada. Quando um comportamento lesivo de outrem. que visa precisamente assegurar a autonomia e a realização da personalidade no plano das relações com as outras pessoas. uma convivência com outras pessoas humanas. lesa o interesse social com certa intensidade. Lei: toda a disposição imperativa e geral de criação estadual. Missão do julgador: cabe-lhe.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL particular encontra-se em situação de plena autonomia. tutela coercitivamente os interesses das pessoas.45) PARTE I Teoria geral do ordenamento jurídico civil (I)Fontes do direito civil português 10. dar vida à norma legal. Ex. são. isto é. disciplina as relações sociais de pessoa para pessoa O direito civil disciplina substancialmente as relações de pessoa a pessoa e porque é um ordenamento jurídico. Estas disposições iniciais regulam a matéria das fontes de direito. 9. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 5 . que o direito visa facilitar ou melhorar. O código civil refere-se igualmente aos usos conformes aos princípios de boa fé.: a faculdade de poder obter tratamento hospitalar. O costume não é reconhecido como fonte de direito. Os usos só valem quando a lei o determinar.Formas de surgimento das normas jurídicas civis Os modos de aparecimento das normas integradoras do ordenamento jurídico civil vêm indicados nos primeiros artigos do código civil.

do direito de superfície – 1524º a 1542º . Assenta esta sistematização na classificação germânica das relações jurídicas de direito privado. na CRP princípios determinantes do conteúdo do direito civil português. Nesta parte atende-se à disciplina das relações jurídicas em geral.dos alimentos – 2003º a 2020º LIVRO V – Direito das sucessões . Trata-se dum aspecto formal. Correspondendo as 4 partes especiais do código civil aos 4 tipos de relações jurídicas. Em conformidade com este plano o código civil divide-se da seguinte forma: LIVRO I – Parte geral .do direito de propriedade – 1302º a 1438º . Seguramente que se encontrarão.das servidões prediais – 1543º a 1575º LIVRO IV – Direito da família . O julgador considerará certos momentos racionais e denominadores objectivos.das sucessões em geral – 2024º a 2130º .da filiação – 1796º a 1972º . Apesar do carácter concretizador da actividade do juiz não podemos atribuir à jurisprudência o carácter de fonte de direito.dos contratos em especial – 874º a 1250º LIVRO III – Direito das coisas .da enfiteuse – 1492º a 1523º . Como já foi dito o código civil de 1966 está sistematizado segundo a sistematização germânica.disposições gerais – 1576º a 1586º . É que os resultados a que o julgador chegou só têm força vinculativa para o caso concreto a ser decidido. O sistema jurídico auto-limitou-se: criando meios de controlo dos resultados da aplicação das restantes normas. É igualmente importante para o direito civil o artigo 36º. é oportuna a definição de cada um desses tipos de relações. 6 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . O vértice de todo o ordenamento jurídico é constituído pelo direito constitucional. fiscalizadoras ou sindicantes da aplicação das restantes normas do ordenamento jurídico.das relações jurídicas – 66º a 396º LIVRO II – Direito das obrigações .da sucessão testamentária – 2179º a 2334º Este é o chamado sistema externo do código civil. sua interpretação e aplicação – 1º a 65º .da sucessão legítima – 2131º a 2150º . Este carácter constitutivo da intervenção judicial é ainda claramente manifestado no caso particular de certas cláusulas gerais.das obrigações em geral – 397º a 873º .TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL O carácter constitutivo desta intervenção judicial é sobretudo importante no que se refere à aplicação aos casos da vida de conceitos indeterminados e cláusulas gerais em que aliás o código civil é fértil.da adopção – 1973º a 2002º . É o caso do princípio do abuso de direito. casamento e filiação.das leis.da posse – 1251º a 1301º . que é feita preceder de uma parte geral. 11.Diplomas fundamentais do direito civil português A lei é a fonte mais importante.do casamento – 1587º a 1795º . uso e habitação – 1439º a 1490º . que contém princípios fundamentais sobre família.da sucessão legitimária – 2151º a 2178º .do usufruto.

Dentro de algumas destas partes especiais encontra-se também. O código civil português adopta fundamentalmente o tipo de formulação mediante conceitos gerais-abstractos. um conjunto de disposições gerais. afinidade ou adopção. jusnaturalista setecentista e do liberalismo individualista. Desta relação entre uma parte geral e as partes especiais resulta que as normas contidas no código não se dispõem segundo um mero alinhamento ou contiguidade. por força das quais aquele sujeito adquire um poder directo e imediato sobre uma coisa. sob o ponto de vista do tipo de formulação legal adoptado. Direito da família: relações emergentes do casamento. expresso em linguagem de técnicos. especializado. O seu mundo filosófico-cultural nítido é o individualismo. 3 – formulação de directivas: o legislador recorre a linhas de orientação.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Direito das obrigações: vínculos jurídicos por virtude dos quais uma pessoa fica adstrita para com outra à realização de uma prestação. toma o indivíduo e a sua trajectória vital como critério de sistematização («visão antropocêntrica» . 13.O código civil português: as circunstâncias históricas da sua elaboração e a legislação anterior Os trabalhos dirigidos à elaboração do actual código civil português estenderam-se por cerca de 22 anos. traduzido em liberdade contratual e no respeito inflexível pelas convenções privadas. Contém um «direito de juristas». mas segundo uma ordenação que deve estar presente no espírito do julgador.O código civil de 1966: características do tipo de formulações legais utilizado Um código civil pode corresponder a modelos diversos. 14. Na sua original sistematização. A atenuação desta desvantagem foi visada pelo legislador do código civil português introduzindo neste diploma legal cláusulas gerais para uma possibilidade de adaptação às várias situações da vida.O sistema do código civil de 1966: coordenação da parte geral e das partes especiais O sistema externo do código civil português assenta numa parte geral e em 4 partes especiais.CABRAL DE MONCADA). canónico. esta é de carácter técnico. Era um código onde se combinava o nosso direito tradicional. Um autor alemão (LARENZ) distingue 3 tipos de formulação legal: 1 – formulação casuística: prevendo o maior número possível de situações da vida. cessou a vigência do código de Seabra de 1867. Com a entrada em vigor do código civil de 1966. O seu conteúdo reflecte influências do direito romano. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 7 . com a doutrina dos nossos jurisconsultos oitocentistas. Este método possibilita um mais elevado grau de segurança e uma razoabilidade das soluções em geral mas pode levar o juiz a decisões menos rectas para o caso concreto. parentesco. Direitos reais: relações de um sujeito jurídico com todas as outras pessoas. 2 – formulação de conceitos gerais-abstractos: tipos de situações da vida. 12. Quanto à linguagem utilizada pelo código civil português de 1966. Direito das sucessões: relações dirigidas a actuar a transmissão dos bens por morte do seu titular.

O princípio da igualdade que caracteriza.As normas aplicáveis às relações de direito civil. O princípio da igualdade perante a lei parece impor necessariamente a inconstitucionalidade de quaisquer normas de direito civil que não sejam normas gerais. no domínio das convenções entre particulares. c) em casos absolutamente excepcionais.: ordem pública do artigo 280º do CC).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Durante a sua vigência foram publicados alguns diplomas que alteraram o regime de algumas matérias nele disciplinadas: a) Lei do divórcio – 1910 b) Leis da família – 1911 c) Estabelecimento do registo civil obrigatório – 1911 d) Concordata com a Santa Sé – 1940 Antes da entrada em vigor do código civil de 1867 o principal diploma do nosso direito civil identifica-se com as ordenações filipinas (1603). Ex. mas de direito constitucional. b) através de cláusulas gerais e conceitos indeterminados.: a protecção contra o uso incorrecto da informática. em termos gerais. Alguns diplomas avulsos regulam. As 8 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . não pode. nos termos do artigo 35º da CRP. por não existir clausula geral ou conceito indeterminado adequado. porém.: será nulo um contrato ou cláusula geral pela qual alguém se obrigue a professar ou a abandonar certa religião. Direito civil e direito constitucional. uma norma constitucional reconhecedora de um direito fundamental aplica-se independentemente da mediação de uma regra de direito privado (ex. Aplicação de normas constitucionais às relações entre particulares As normas de direito civil estão fundamentalmente contidas no código civil português de 1966. o juiz e os órgãos administrativos não devem aplicar normas inconstitucionais.: direito ao nome – artigo 72º do CC e 26º da CRP). a posição dos particulares em face do Estado. Tal estipulação contraria o citado preceito constitucional. matérias do direito privado comum. Parece conveniente e susceptível de conduzir a resultados mais razoáveis que a aplicação das normas constitucionais a actividades privadas se faça com referencia a instrumentos e regras próprios do direito civil. cujo conteúdo é preenchido com os valores constitucionalmente consagrados (ex. A aplicação de normas constitucionais à actividade privada faz-se: a) através de normas de direito privado que reproduzem a seu conteúdo (ex. igualmente. salvo se o tratamento desigual implica a violação de um direito de personalidade de outrem. sobrepor-se à liberdade contratual. embora se pudesse sustentar que esta protecção dos cidadãos já se encontrava guarida no artigo 17º e 80º do CC). Os preceitos constitucionais na sua aplicação às relações de direito privado devem conciliar o seu alcance com o de certos princípios fundamentais do direito privado – eles próprios conformes à CRP. Problemas de direito civil podem encontrar a sua solução numa norma que não é de direito civil. (II)Os princípios fundamentais do direito civil português (1)Introdução 15. O legislador deve emitir normas de direito civil não contrárias à CRP.

A personalidade jurídica. Trata-se de um produto histórico. O princípio da igualdade impõe que o legislador não possa tratar arbitrariamente o essencialmente igual como desigual. fundações). As pessoas em sentido jurídico não são necessariamente seres humanos (ex. não brotou por espontânea geração no solo da vida social de hoje. o penetram e são por ele desenvolvidos: I – o reconhecimento da pessoa e dos direitos de personalidade II – o princípio da liberdade contratual III – a responsabilidade civil IV – a concessão da personalidade jurídica às pessoas colectivas V – a propriedade privada VI – a família VII – o fenómeno sucessório (2)O reconhecimento da pessoa e dos direitos de personalidade 17. relações traduzidas em poderes (direitos) e deveres jurídicos «lato sensu».: associações. A autonomia e a igualdade como seus pressupostos actuais A massa das normas jurídicas não é um conjunto desordenado de preceitos avulsos. tendo como destinatário os seres humanos em convivência. a sua susceptibilidade de direitos e obrigações. Quer os princípios conformadores do nosso actual modelo de direito civil. leis-provisão ou leis individuais). são elementos válidos numa dada circunstância espacial e temporal.º 1 CC «Reconhece-se personalidade jurídica a todo o ser humano a partir do nascimento completo e com vida». 18. Bem se compreende que no nosso tempo não sofra discussão o reconhecimento dessa qualidade jurídica a todos os seres humanos. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 9 . Carácter histórico desses princípios de ordenação sistemática interna. que fundamenta e retrata sinteticamente o direito civil actual. culturais e históricos que condicionam toda a organização da sociedade em cada momento e em cada lugar. desprovidos de conexão uns com os outros. Este quadro de princípios. pessoas em sentido jurídico (ex.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL normas aplicáveis a uma só situação ou a um conjunto de situações seriam normas inconstitucionais (ex.A existência de princípios básicos do direito civil.O reconhecimento de um círculo de direitos de personalidade A susceptibilidade de direitos e obrigações implica a titularidade real e efectiva de alguns direitos e obrigações. princípios ou instituições que fundamentam o nosso actual direito civil. mas substancial ou material).O reconhecimento dos direito de personalidade jurídica de todos os seres humanos O direito só pode ser concebido. leis-providência. Há uma ordenação dessas normas (a nível não apenas formal. 16. determinado pelos dados sociológicos. quer as normas que os aceitam e desenvolvem. Artigo 66º n. Os seres humanos não são necessariamente.: leis-medida. nem o essencialmente desigual arbitrariamente como igual. corresponde a uma condição indispensável da realização por cada homem dos seus fins ou interesses na vida com os outros. do ponto de vista lógico. A aplicação do direito civil a essa convivência humana desencadeia uma teia de relações jurídicas entre os homens. sociedades. Podemos considerar 7 ideias.: escravatura).

um conteúdo mínimo e imprescindível da esfera jurídica de cada pessoa. de actos de vontade. na realização de negócios jurídicos. extinguindo-as e determinando o seu conteúdo. os negócios jurídicos agrupam-se em duas classes: . Segundo ela. no tocante à actuação humana juridicamente relevante. integridade física.negócios jurídicos unilaterais: perfaz-se com uma só declaração de vontade. (3)O princípio da liberdade contratual 19. tendentes à produção de um resultado jurídico unitário. Só há negócio jurídico bilateral. Nos negócios unilaterais a autonomia da vontade está sujeita a muito maiores restrições do que nos contratos: a) os negócios unilaterais constitutivos de obrigações são apenas os que estiverem previstos na Lei (princípio da tipicidade). cujos efeitos são produzidos por força da manifestação de uma intenção e em coincidência com o teor declarado dessa intenção. Uma importante classificação dos negócios jurídicos é a resultante do critério do número e modo de disposição das declarações de vontade que os integram. A violação de alguns desses aspectos da personalidade é até um facto ilícito criminal. de actos pelos quais os particulares ditam a regulamentação das suas relações. Este é um círculo de direitos necessários. incidindo sobre os vários modos de ser físicos ou morais da sua personalidade.A liberdade contratual manifestação da autonomia da vontade no domínio dos contratos A produção de efeitos jurídicos resulta principalmente. manifesta-se. podem todavia ser objecto de limitações voluntárias que não sejam contrárias aos princípios da ordem pública (artigo 81º). Cabe ao direito civil uma função de protecção ou defesa dos direitos constituídos ao abrigo da sua função modeladora. Autonomia da vontade: o poder reconhecido aos particulares de auto-regulamentação dos seus interesses. que se impõem ao respeito de todos os outros. O negócio jurídico é um meio de actuação da autonomia privada. . liberdade física e psicológica. honra. O negócio jurídico é uma manifestação do princípio da vontade ou princípio da autonomia privada subjacente a todo o direito privado. o seu nome. constituindo-as.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Direitos de personalidade: a pessoa é titular de um certo número de direitos absolutos. imagem. a sua saúde física. Os particulares podem estabelecer a ordenação das respectivas relações jurídicas. Negócios jurídicos: os actos jurídicos. de autogoverno da sua esfera jurídica. Os direitos de personalidade são irrenunciáveis. É também a autonomia privada que se manifesta no poder de livre exercício dos seus direitos ou de livre gozo dos seus bens pelos particulares. b) nos negócios unilaterais modificativos vigora também o princípio da tipicidade. A autonomia privada ou autonomia da vontade encontra os veículos da sua realização nos direitos subjectivos e na possibilidade de celebração de negócios jurídicos. que desencadeia uma punição estabelecida pelo código penal. Este autogoverno da sua esfera jurídica.negócios jurídicos bilaterais: constituído por duas ou mais declarações de vontade convergentes. modificando-as. quando uma parte formula e comunica uma declaração de vontade (proposta) e a outra manifesta a sua anuência (aceitação). 10 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Os direitos de personalidade incidem sobre: a vida da pessoa. A autonomia privada é uma ideia fundamental deste ramo do direito. reserva sobre a intimidade da vida privada. desde logo. O direito protege os vários modos de ser físicos ou morais da personalidade.

contêm normas a que os contratos individuais. celebrados a nível de categorias económicas ou profissionais. têm de obedecer (contratos normativos). 2 – Liberdade de modelação do conteúdo contratual: consiste na faculdade conferida aos contraentes de fixarem livremente o conteúdo dos contratos. Eis algumas dessas restrições: a) submete-se o contrato aos requisitos do artigo 280º (são nulos os contratos contrários à lei.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 20. c) concluir contratos diferentes dos contratos expressamente disciplinados na lei (contratos atípicos). Uma das partes formula unilateralmente as cláusulas negociais e a outra parte aceita as condições. pois os contratos de adesão Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 11 . ou rejeita-as. Uma importante limitação de ordem prática à liberdade de modelação do conteúdo contratual é a que se verifica nos chamados contratos de adesão.: estatuto da ordem dos médicos. b) na proibição de celebrar contratos com determinadas pessoas. A liberdade de fixação ou modelação do conteúdo do contratos conhece também algumas restrições. Teoricamente não há aqui restrições à liberdade de contratar. A vende a B por 200. pelo que a recusa de contratar de uma das partes não impede a formação do contrato (ex. não sendo possível modificar o ordenamento negocial apresentado.: cobrança de juros excessivos). celebrados entre pessoas pertencentes às referidas categorias. Simplesmente esta liberdade seria a de não satisfazer uma necessidade importante. 1 – Liberdade de celebração dos contratos: consiste na faculdade de livremente realizar contratos ou recusar a sua celebração. mediante adesão ao modelo ou impresso que lhe é apresentado. b) são anuláveis em geral os chamados negócios usurários (artigo 282º. Esta disposição legal consagra apenas a liberdade de modelação ou liberdade de fixação ou estipulação do conteúdo contratual.: x vale 1000. relativos aos deveres de prestação de serviços que impendem sobre os médicos). d) a lei reconhece e admite certos contratos-tipo que. Segundo tal princípio a ninguém pode ser impostos contratos contra a sua vontade ou aplicadas sanções por força de uma recusa de contratar nem a ninguém pode ser imposta a abstenção de contratar. e) alguns contratos em especial estão necessariamente sujeitos a determinadas normas imperativas. Os contratos de adesão Artigo 405º do CC. ex. eventualmente de uma autoridade pública. Negócio de compra e venda + doação de 800). b) celebrar contratos nominados aos quais acrescentam as cláusulas que lhes aprouver eventualmente conjugando-se 2 ou mais contratos diferentes (contratos mistos = ex. As partes podem: a) realizar contratos com as características dos contratos previstos e regulados na lei (contratos típicos). à ordem pública a aos bons costumes). o reconhecimento da liberdade de celebração ou conclusão dos contratos. Restrições à liberdade de celebração dos contratos: a) na consagração de um dever jurídico de contratar. c) na sujeição do contrato a autorização de outrem.Aspectos contidos no princípio da liberdade contratual: a liberdade de conclusão ou celebração dos contratos e a liberdade de modelação do conteúdo contratual. Da norma citada emerge. c) a conduta das partes contratuais deve pautar-se pelo princípio da boa fé. contudo. aludidas no artigo 405º.

Nos contratos sucessórios. 22. a gestão de negócios (artigo 464º). como fez e continua a fazer a jurisprudência estrangeira. mesmo que lhe sejam desfavoráveis ou pouco equitativas – daí a restrição factual à liberdade de contratar. de um negócio unilateral – o testamento.Referência esquemática às principais disciplinados pelo direito das obrigações figuras e problemas O princípio da liberdade contratual tem no domínio dos contratos obrigacionais o seu campo de eleição. 12 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . perfilhação. devem considerar nulas certas cláusulas abusivas contidas em contratos de adesão. economia de mercado e economia planificada (pág. Características gerais Na vida social os comportamentos adoptados por uma pessoa causam muitas vezes prejuízos a outrem.O princípio da liberdade contratual e o sistema económico e social. impelido pela necessidade. Vantagens dos contratos de adesão: racionalização e normalização da actividade contratual dirigida a um número elevado e indeterminado de clientes. Quanto a este. o negócio unilateral (artigo 457º). Os contraentes. com eficácia no domínio das relações de família. 23. um indivíduo destroi uma coisa de outrem. há liberdade de celebração. modificativos ou extintivos de direitos reais. Na ausência de legislação específica.Noção. O devedor não executa ou executa defeituosamente a prestação a que está adstrito. constitutivos. isto é. quase sempre. podendo embora celebrar contratos inominados. os tribunais portugueses. O casamentos. os factos jurídicos que dão origem ao vínculo obrigacional. Nos contratos familiares. isto é. salvo algumas restrições. há liberdade de concluir ou não o respectivo contrato – é o pensamento da autonomia que subjaz e enforma o direito civil. aceite as condições elaboradas pela outra parte.109) (4)A responsabilidade civil 24. a regra do nosso direito é a da proibição dos pactos sucessórios. só se derrogando esta regra em casos limitadíssimos (artigo 1700º). ou adopção são tipos contratuais rígidos. Considera como tais o contrato (artigo 405º). o enriquecimento sem causa (artigo 473º) e a responsabilidade civil (artigo 483º).Domínio principal de aplicação da liberdade contratual: os contratos obrigacionais Nos contratos com eficácia real. Liberdade contratual. não podem constituir direitos reais que se não integrem nos tipos previstos na lei (princípio da tipicidade). isto é. O código civil regula as fontes das obrigações. Quanto à liberdade de fixação do conteúdo contratual ela está excluída no domínio dos contratos familiares pessoais. não podendo ser modificados pelas partes. cujos efeitos estão preordenados na lei. A sucessão voluntária resulta. 21. Obrigação ou direito de crédito: é o vínculo jurídico por virtude do qual uma pessoa fica adstrita para com outra à realização de uma prestação. o condutor de um veículo atropela um transeunte.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL surgem normalmente em zona de comércio onde o fornecedor está em situação de monopólio ou quase monopólio. há liberdade de celebração e liberdade de fixação do conteúdo. mas a liberdade de fixação do conteúdo contratual sofre um importante restrição. Daí que o particular.

. mereçam tutela do direito (artigo 496º n. A pena traduz-se: . 2 – Nexo de causalidade entre facto e dano. Esta indemnização é a hipótese largamente maioritária. insuficiente ou excessivamente onerosa. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 13 . reputação).º 1). isto é. Ao lado da responsabilidade civil deve considerar-se a responsabilidade criminal. quer dizer. através do surgimento da obrigação de indemnização.na produção de um mal a sofrer pelo agente criminoso. ou seja. pois raramente o lesado ficará completamente indemnizado com a reconstituição natural. pela sua gravidade. No dano patrimonial estão compreendidos o dano emergente. Os interesses cuja lesão desencadeia um dano não patrimonial são infungíveis. Responsabilidade civil: consiste na necessidade imposta pela lei a quem causa prejuízos a outrem de colocar o ofendido na situação em que estaria sem a lesão (artigo 483º e 562º). violador de direitos subjectivos ou interesses alheios tutelados por uma disposição legal. não pela ideia de indemnização ou reconstituição. específica ou por equivalente. a reposição do lesão na situação em que estaria sem o facto lesivo terá lugar mediante uma indemnização em dinheiro ou por equivalente (restituição por equivalente). mas pela de compensação. Esta pode resultar da existência de uma intenção de causar um dano violando uma proibição (dolo) ou da omissão dos deveres de cuidado. Não sendo estes prejuízos avaliáveis em dinheiro. Responsabilidade civil: dirige-se à restauração. .º 1). com a finalidade de retribuir o mal causado à sociedade com a infracção (retribuição). dos interesses individuais lesados. Estes danos não patrimoniais resultam da lesão de bens estranhos ao património do lesado (a integridade física. Culpa: reprovação ou censura da conduta desrespeitadora dos interesses tutelados pelo direito. isto é.de intimidar as outras pessoas. tranquilidade. mostrando-lhes como a sociedade reage ao crime (prevenção geral). Esta tem precisamente em vista tornar indemne. a atribuição de uma soma pecuniária correspondente legitima-se. não podem ser reintegrados mesmo por equivalente.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Deverá o prejuízo ficar a cargo da pessoa em cuja esfera jurídica ele foi produzido ou deverá antes impor-se a obrigação do seu ressarcimento à pessoa cujo comportamento provocou uma lesão na esfera de outrem? A responsabilidade civil depara-se-nos quando a lei impõe ao autor de certos factos ou ao beneficiário de certa actividade a obrigação de reparar os danos causados a outrem. Devem verificar-se outros pressupostos para o surgimento da responsabilidade civil: 1 – Necessário se torna que o facto seja ilícito. 3 – Facto lesivo. bem-estar. honra. O direito civil português manda atender também na fixação da indemnização aos danos não patrimoniais (danos morais) que. o prejuízo imediato sofrido pelo lesado.de impedir o próprio infractor de cometer novas infracções (prevenção especial). Responsabilidade criminal: visa satisfazer interesses da comunidade. sem dano o lesado. Esta reconstitução da situação inicial deve em principio ter lugar mediante uma reconstituição natural. as vantagens que deixaram de entrar no património do lesado em consequência da lesão (artigo 564º n. liberdade. A responsabilidade civil actua. ofendida pelo facto ilícito criminal. Quando a reconstituição natural for impossível. visa colocar a vítima na situação em que estaria sem a ocorrência do facto danoso. Mas é possível contrabalançar o dano. saúde. diligência ou perícia exigíveis para evitar o dano (negligência). compensá-lo mediante satisfações derivadas da utilização do dinheiro. mesmo quando esta for possível. e o lucro cessante.

importam um aumento de risco para os outros. É essa a solução pelas razões seguintes: qua non» da a) a segurança que a responsabilidade objectiva confere às potenciais vítimas de danos. acidentes causados por veículos de circulação terrestre (503º). Se alguém. danos causados por instalações de energia eléctrica ou gás (509º).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 25. Responsabilidade pelo risco é consagrada em algumas hipóteses especiais. com carácter excepcional. O nosso sistema jurídico admite. pareceu excessivo não dar à pessoa sacrificada uma reparação. Responsabilidade contratual: originada pela violação de um direito de crédito ou obrigação em sentido técnico. em sentido lato. tem 3 modalidades fundamentais: a) associações: colectividades de pessoas que não têm por fim o lucro económico dos associados. criando para si uma possibilidade de lucro. Apesar do carácter conforme ao direito da actuação do sujeito.A personalidade colectiva e os tipos de pessoas colectivas Ao lado da personalidade jurídica reconhecida a todas as pessoas singulares. porque uma prevalência absoluta e total do interesse oposto seria injusta. ibi incommoda»).: danos causados por animais (502º). atribui personalidade jurídica às chamadas pessoas colectivas. No núcleo da responsabilidade jurídica estará assim a ideia de responsabilidade moral. é neutralizada pela paralisação de iniciativas que a ponderação das possibilidades de dano produzirá no homem em acção. alguns casos contados de responsabilidade por actos lícitos ou intervenções lícitas. Compreende-se a exigência da culpa como «conditio sine responsabilidade. 14 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . O nosso sistema jurídico opta pela responsabilidade subjectiva. o nosso direito civil. Esta pertence ao domínio da consciência e dos deveres do homem para consigo próprio. passagem forçada. Trata-se de domínios em que o homem tira partido de actividades que. Pretende-se em tais casos compensar o sacrifício de um interesse menos valorado na composição de um conflito teleológico. b) substituir ao directamente lesado o autor não culposo do prejuízo. Responsabilidade extra-contratual: resulta da violação de um dever geral de abstenção contraposto a um direito absoluto. 26. potenciando as suas possibilidades de lucro. pelo risco e por actos lícitos. assim se estimulando zelos e cuidados em impedi-los. protegendo os bens dos indivíduos contra quaisquer lesões decorrentes da actividade de outrem. (5)A concessão de personalidade jurídica às pessoas colectivas 27. c) exigir a culpa do sujeito é fazer apelo à liberdade moral do homem e é apresentar os danos como consequências evitáveis. Ex. cria para os outros riscos acrescentados é justo por a cargo daquele a indemnização dos danos originados pelas suas actividades lucrativas («ubi commoda.Responsabilidade contratual e extra-contratual.Responsabilidade por actos ilícitos. Exs: responsabilidade emergente de certos casos de estado de necessidade. verificados certos requisitos. também. Pessoas colectivas: são colectividades de pessoas ou complexos patrimoniais organizados em vista de um fim comum ou colectivo a que o ordenamento jurídico atribui a qualidade de sujeitos de direitos. A pessoa colectiva.

A personalidade jurídica dos indivíduos: é imposta. A criação de um autónomo centro de imputação das relações jurídicas ligadas à realização desses interesses permite uma mais fácil e eficaz consecução do escopo visado. A personalidade jurídicas das pessoas colectivas é uma criação do espírito humano no campo do direito. 28. (6)A propriedade privada 29. em ordem à realização de fins jurídicos. ao estabelecer a personalidade jurídica das pessoas colectivas.131) Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 15 . o uso e a disposição das coisas permite ao homem satisfazer necessidade fundamentais ou secundárias e potencia a sua possibilidade real de se propor determinadas finalidades e de escolher entre várias vias para a realização desses fins. imposta pela natureza das coisas. A detenção.Natureza da personalidade colectiva A existência de pessoas colectivas resulta da existência de interesses humanos comuns. A personalidade jurídica das pessoas colectivas: é uma mecanismo técnico-jurídico – um modelo. Teoria organicista: a personalidade jurídica não resulta de uma concessão discricionária do legislador. Teria que ser defendido com a força do seu titular. Doutrina: Teoria da ficção: a lei. se o direito se desinteressasse. como uma exigência forçosa da dignidade da pessoa humana e do direito ao respeito inerente a todo o ser humano. um operador para a polarização das relações jurídicas ligadas à realização de certo fim colectivo.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL b) fundações: complexos patrimoniais ou massas de bens afectados por uma liberalidade à prossecução de uma finalidade estabelecida pelo fundador ou em harmonia com a sua vontade. O homem tem necessidades de se servir das coisas como condição da sua sobrevivência e do seu progresso. o poder de facto sobre as coisas não se impunha ao respeito das outras pessoas. seria inevitável a luta pela sua apropriação. Enquanto as pessoas são fins em si mesmas. as coisas são meios ao serviço dos fins das pessoas. estaria a proceder como se as pessoas colectivas fossem pessoas singulares. c) sociedades: conjunto de pessoas que contribuem com bens ou serviços para o exercício de uma actividade económica dirigida à obtenção de lucros e à sua distribuição pelos sócios. Constitui missão fundamental do direito. Mas.Fenomenologia da propriedade ao longo da história e no momento actual (pág. e procurando este subtrair-se ao império das necessidades. Seria impossível a vida em comum. mas é a consequência. por absurdo. utilizando-as para satisfazer as suas necessidade e para conseguir os seus fins. organizar os poderes dos homens sobre as coisas e o conteúdo das relações entre os homens a respeito das coisas. 30. Sendo os bens escassos em relação às necessidades sentidas pelo homem. pelas concepções ético-jurídicas de tipo humanista hoje vigentes. uma forma. de submeter os poderes dos homens sobre as coisas à sua disciplina.O problema do domínio sobre os bens como problema fundamental de uma sociedade No desenvolvimento da sua vida o homem serve-se das coisas. da existência de um organismo real.

perante o direito legislado Família: realidade natural e social. O direito da propriedade é dotado de uma certa elasticidade – extinto um direito real que limite a propriedade da coisa. confiança. Ex. tanto quanto possível. Ex. c) pode o Estado visar uma modificação da disciplina da família para um sentido diverso do correspondente ao direito vivido espontaneamente na realidade social. estabelecendo sobre este o manto de uma disciplina. (7)A família 33. hipoteca. reconstitui-se a plenitude da propriedade sobre ela. de adquirir uma coisa. O proprietário tem poderes indeterminados. precisa e completa do regime jurídico correspondente. cuja existência material. mesmo que aceite pelo legislador. habitação.: penhor. facilita o fluente curso da vida familiar e permite. tornando-se necessária uma formulação certa. não contém uma disciplina de todos os problemas respectivos em termos acabados e categóricos. Direitos reais de aquisição: conferem a um determinado indivíduo a possibilidade de se apropriar de uma coisa. que o direito reconhece. psicológica e moral se manifesta. servidões prediais. A disciplina da instituição familiar impõe. completa. O surgimento e a vida da família realizam-se e assentam numa série de comportamentos pessoais e realidades psicológicas e morais. b) a consagração legislativa de um regime. de comportamentos: amor. São direitos sobre coisa alheia. por vezes. Ex.º 1 da CRP.A família. em situações de crise. desde logo. não pode a lei deixar de considerar essa realidade e esse mundo de relações. o de conteúdo pleno e polimórfico. amizade. uso. duma coisa e. vinca mais vivamente o sentimento dos deveres e direitos dos membros da família. uso. aceita e considera. disciplinar com justiça e certeza a posição dos sujeitos. ao formular a sua regulamentação da instituição familiar.: usufruto. Direitos reais de garantia: conferem o poder de um credor obter o pagamento da dívida de que é titular activo. solidariedade. Apesar da família na sua concreta e natural existência no seio da vida social conter uma ordenação íntima. Direitos reais de gozo: aqueles que conferem um poder de utilização. lealdade. A sua qualificação como um direito perpétuo não o deixa poder extinguir-se pelo não 32. Direitos reais limitados: toda uma série de direitos reais de conteúdo ou estrutura bem diversa e ao serviço de funções ou interesses de natureza diferenciada.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 31.Características do direito de propriedade no nosso sistema jurídico A tutela constitucional da propriedade privada está expressamente consagrada no artigo 62º n. superfícies. 16 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Não conferem a plenitude dos poderes sobre uma coisa. Não se limitam os poderes do proprietário senão através das concretas restrições pela lei impostas.Os direitos reais limitados A propriedade é o direito real máximo. total ou parcial. como realidade natural e social. em planos ou domínios da vida estranhos ao plano jurídico. também o de apropriação dos frutos que a coisa produza. atentas as seguintes razões: a) a ordenação concreta e institucional da família. vida em comum.

seria um contra-estímulo às actividades e iniciativas de caracter patrimonial das pessoas. É um direito institucional. As justificações apresentadas para a sucessão legitimária são as que ressaltam da descrição das duas linhas evolutivas: a) a conservação na família de um património. isto é. isto é. por o autor da sucessão não ter disposto válida e eficazmente. mesmo para além da morte.Referência sumária ao direito da família português Ao direito da família continua a dedicar o código civil um livro – o livro IV. b) cumprimento do dever moral de assistência recíproca entre familiares. e que assegura a permanência e coesão do agregado familiar. o prejuízo dos credores por morte do devedor e a vacatura ou a aquisição pelo Estado dos bens do falecido. Sucessão testamentária: consiste no chamamento à sucessão dos herdeiros designados em testamento. 34. quanto à disciplina de acto matrimonial. Artigo 2133º a) cônjuge e descendentes b) cônjuge e ascendentes c) irmãos e seus descendentes d) outros colaterais até ao quarto grau e) Estado Sucessão legitimária: consiste no chamamento dos herdeiros legitimários à sucessão na chamada legítima. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 17 . preferindo dentro de cada classe os parentes de grau mais próximo aos de grau mais afastado. continua a verificar-se. Fenómeno sucessório: é o chamamento de uma ou mais pessoas à titularidade das relações patrimoniais de uma pessoa falecida e a consequente devolução dos bens que a esta pertenciam. O chamamento faz-se por ordem de classes sucessíveis. A transmissão das relações jurídicas patrimoniais para outra pessoa por força da morte do seu titular é reconhecida pelos sistemas jurídicos na actualidade e ao longo da historia. num acto unilateral e revogável pelo qual um indivíduo dispõe de todos os seus bens ou parte deles para depois da morte. dos seus bens. uma fonte de riscos para os credores.O destino das relações jurídicas após a morte do seu titular Põe-se em qualquer comunidade o problema de saber qual o destino das relações jurídicas existentes na titularidade de uma pessoa singular após a morte desta. Razões de relevante conveniência social tornam contra-indicado um regime de extinção de todas as relações jurídicas no momento da morte do seu titular. 36. numa porção de bens que o testador não pode dispor. implicando a exoneração dos devedores à morte do seu credor. Tal regime. para que todos em maior ou menor medida concorreram. (8)O fenómeno sucessório ou sucessão por morte 35.Referência sumária ao direito sucessório português Sucessão legítima: consiste no chamamento dos herdeiros legítimos à sucessão.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL O direito da família é caracterizado por uma acentuado predomínio de normas imperativas. por ser destinada por lei aos referidos herdeiros. Na ordem jurídica portuguesa. uma causa de litígios e perturbação da paz social. uma coexistência da ordem jurídica estadual e da canónica. no todo ou em parte.

Última hipótese de averiguar se o acto é ilícito. Direito subjectivo (em sentido amplo): «mecanismo de regulamentação. ORLANDO DE CARVALHO não concorda e defende que abuso de direito: é quando um direito está a ser usado por um sujeito para causar prejuízo a outro sujeito. o direito subjectivo identifica-se com o interesse visado. pois não se trata de poderes de livremente exigir um comportamento. Este aspecto funcional repercute-se na estrutura do direito. Quer dizer: a consideração exclusiva do aspecto estrutural não nos evidencia a razão de certas diferenças. incidirá normalmente sobre um objecto. normalmente a de estarem integradas no mesmo mecanismo jurídico ou ao serviço da mesma função. produzir determinados efeitos jurídicos que inevitavelmente se impõem a outra pessoa. O direito subjectivo engloba duas modalidade fundamentais: a) os direitos subjectivos propriamente ditos: consiste no poder de exigir ou pretender de outrem um determinado comportamento positivo ou negativo. mas evidencia as diferenças. produtiva de efeitos jurídicos e. portanto. Esta forma “clamorosamente injusta” é identificada por um controlo extra-jurídico feito através dos tribunais. 18 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . isto é. a sua efectivação pode fazer-se através de uma garantia (ex. reflectindo o elemento funcional. Instituto jurídico: conjunto de normas legais que estabelecem a disciplina de uma série de relações jurídicas em sentido abstracto.Conceito de relação jurídica Em sentido amplo: é toda a relação da vida social relevante para o direito. O direito subjectivo está dependente da vontade do seu titular. que consiste na concreta situação de poder que faculta a uma pessoa em sentido jurídico intervir autonomamente na esfera jurídica de outrem». mas de poderes-deveres. Para a doutrina em geral o abuso de direito: é quando alguém usa o direito de forma clamorosamente injusta. 38. mediante atribuição a uma pessoa de um direito subjectivo e a imposição a outra pessoa de um dever jurídico ou de uma sujeição. só de per si ou integrado por um acto livre de autoridade pública. Em termos funcionais. 39. ligadas por uma afinidade. Preliminares 37. disciplinada pelo direito.Estrutura da relação jurídica (enunciado geral) Toda a relação jurídica existe entre sujeitos. adoptado pelo direito. Uma situação de abuso de direito: verifica-se quando há desconformidade entre imagem estrutural do direito e entre a função atribuída ao direito.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL PARTE II Teoria geral da relação jurídica.: providências coercitivas).): direitos subjectivos propriamente ditos e potestativos Direito subjectivo: poder jurídico (reconhecido pela ordem jurídica a uma pessoa) de livremente exigir ou pretender de outrem um comportamento positivo ou negativo ou de por um acto de livre vontade. promana de um facto jurídico. Abuso de direito Extrema ratio da verificação da ilicitude.Estrutura da relação jurídica (cont. Em sentido restrito ou técnico: é a relação da vida social disciplinada pelo direito. Isto faz com que desapareça a liberdade característica do direito subjectivo.

na situação lesada ou obter outras sanções.pessoais: não é susceptível de ser transformado em dinheiro. Excepção: direitos sobre outras pessoas.direitos de personalidade: sobre a própria pessoa. .: direitos patrimoniais).Critério institucional . . .: crédito). b) Atende-se a relações intrínsecas ou extrínsecas relacionadas com certos estados em que as pessoas de encontram. O titular do direito pode. . Poder de exigir ou pretender: se a contraparte não cumpre o dever jurídico a que está adstrita.não essenciais: c) Atende-se à natureza dos bens em jogo .: direito de autor ou ao nome.Critério estrutural .direitos de crédito: trata-se/impõem a pessoas certas e determinadas.: direito de propriedade). Exs: direitos de crédito.direito potestativo: inevitabilidade de consequências jurídicas que criam.: só se tem direitos de pai se se tiver um filho . Ex. de crédito. transferir para outra pessoa . recorrendo à autoridade pública. Tipos de direitos subjectivos (lado activo) .indisponível: não pode transferir (ex. personalidade. família. impõe “erga omnes” (ex. poderes directos e imediatos sobre uma coisa. a quem o direito se impõe .direitos reais: incidem sobre coisas. pode obter dos tribunais e autoridades subordinadas a estes providências coercitivas aptas a satisfazer o seu interesse. . . e) Atende-se à possibilidade do sujeito se desligar do direito.direitos subjectivos (sentido estrito) . .essenciais: a pessoa não pode ser privada desses direitos sem se privar de certos estados. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 19 . reais. Ex.direitos da pessoa: direitos de personalidade.: direitos pessoais sobretudo essenciais).relativo: imposto a pessoas certas e determinadas (ex.disponível: pode transferir (ex. . Dever jurídico: é a necessidade de realizar o comportamento a que tem direito o titular activo da relação jurídica.patrimoniais: são susceptíveis de os bens em causa serem redutíveis a bem pecuniário. potestativos.absoluto: imposto à colectividade.natos: adquirem-se quando o sujeito faz algo que é tutelável pelo direito. d) Atende-se aos titulares passivos. o objecto do direito é a própria pessoa titular do direito de personalidade. Ex. .TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Contrapõe-se-lhe o dever jurídico da contraparte – um dever de «facere» ou de «non facere».: direitos de personalidade. ao menos por equivalente. Classificação dos direitos subjectivos: a) Atende-se à ligação intrínseca ou extrínseca entre pessoas .inatos: existem desde o nascimento. reais. ser reposto.

diversamente do dever jurídico.: mudança de servidão para outro sítio. Sujeição: situação de necessidade em que se encontra o adversário de ver produzir-se forçosamente uma consequência na sua esfera jurídica por mero efeito do exercício do direito pelo seu titular. por um acto unilateral do seu titular. Faculdades jurídicas primárias: «faculdades ou poderes em que se desdobra o poder de autodeterminação e através dos quais a pessoa se transforma em sujeito de efectivas relações jurídicas civis». o sujeito do dever. Aqui. a) direitos potestativos constitutivos: produzem a constituição de uma relação jurídica. . de suportar na sua esfera jurídica as consequências constitutivas.direitos da família: que se desenvolvem em torno da instituição familiar. Direitos relativos: quando os deveres jurídicos impendem sobre uma ou mais pessoas determinadas.Estrutura da relação jurídica (cont. 40. produzir efeitos jurídicos que inelutavelmente se impõem à contraparte. Ex. Sujeições: situação de necessidade inelutável. embora modificada. mesmo sem ou contra a vontade do proprietário do prédio confinante. extintivo direitos de crédito: dos cônjuges direitos reais: bens do casamento . b) direitos potestativos modificativos: tendem a produzir uma simples modificação numa relação jurídica existente e que continuará a existir. expondo-se embora a sanções. tem a possibilidade prática de não cumprir. não pode deixar de produzir esse efeito. por um acto livre de vontade. c) direitos potestativos extintivos: tendem a produzir a extinção de uma relação jurídica existente.: o direito potestativo dirigido à constituição de uma servidão em beneficio de um prédio encravado. b) os direitos potestativos: são poderes jurídicos de.dever jurídico: necessidade de adoptar determinado comportamento.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL . modificativas ou extintivas do exercício daquele direito. Faculdades jurídicas secundárias: «poderes ou faculdades que constituem manifestações ou irradiações de direitos subjectivos existentes». o dever jurídico e a sujeição O lado passivo da relação jurídica: traduz-se num dever jurídico ou numa sujeição. Direitos absolutos: quando se impõem a todas as pessoas. 20 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . direitos potestativos: modificativo. O sujeitado não pode violar ou infringir a sua situação. trata-se de uma necessidade inelutável.). Exs: constituição da servidão de passagem em benefício do prédio encravado (1550º). só de per si ou integrado por uma decisão judicial.sujeição a um determinado direito potestativo. Ex. No dever jurídico.direitos sucessórios: sucessão mortis causa direito potestativo – a aceitação da herança direito crédito – dívidas da herança direitos reais – aquisição propriedade Tipos de direitos subjectivos (lado passivo em sentido estrito) .direitos das obrigações: direitos de crédito – para o tráfego de bens direitos potestativos – resolver/revogar negócio direitos reais de garantia direitos das coisas – tratam ordenação de domínios das coisas. em que está constituído o adversário do titular de um direito potestativo. .

singular: apenas uma pessoa ocupa o local de sujeito activo. Espécies de relações jurídicas. promover o seu transporte). Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 21 . a susceptibilidade de ser titular de relações jurídicas.Estrutura da relação jurídica: relação jurídica simples ou singular e complexa Relação jurídica complexa: uma série de direitos subjectivos e deveres ou sujeições conexionadas ou unificadas por um qualquer aspecto. direitos potestativos (ex. embalá-la. Ónus: necessidade de adopção de um comportamento para realização de um interesse próprio. a relação formada entre comprador e vendedor de uma máquina não é só constituída pelo dever de pagar o preço e pelo correlativo direito ao preço. perspectiva estática . Assim. eventuais direitos a uma indemnização por força de um não cumprimento.bilateral: apenas duas partes/pólos de interesses (ex. facto jurídico e garantia Sujeitos: são as pessoas entre quem se estabelece o enlace. No dever jurídico o obrigado «deve».: contrato de arrendamento). deveres laterais (ex.: de resolução ou modificação do contrato). Tratando-se de relações emergentes de um contrato obrigacional. correspondente a um estádio dum processo complexo e formação sucessiva de um direito. postas à disposição do titular activo de uma relação jurídica.Elementos da relação jurídica: sujeitos. Trata-se da possibilidade. numa posição recíproca de instrumentalidade e interdependência. . . Estes formam o conteúdo da relação jurídica. própria das relações jurídicas. de o seu titular activo por em movimento o aparelho sancionatório estadual para reintegrar a situação correspondente ao seu direito.: o de informar sobre as condições do funcionamento da máquina).: o do vendedor de guardar a máquina. São os titulares do direito subjectivo e das posições passivas correspondentes: dever jurídico ou sujeição. Objecto: é aquilo sobre que incide os poderes do titular da relação. contra pólo do exercício de um direito potestativo. coisas corpóreas ou incorpóreas. em ordem a obter satisfação do seu direito. é uma relação obrigacional em sentido amplo ou relação obrigacional complexa. modos de ser da própria pessoa e outros direitos.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Estado de sujeição: o sujeitado suporta as consequências de um direito. O facto jurídico tem um papel condicionante do surgimento da relação. é uma condição ou pressuposto da sua existência. deveres acessórios (ex. v.: contrato de sociedade). o vínculo respectivo. O devedor do preço é simultaneamente credor da entrega da máquina e existem outros vínculos entre as partes do contrato.plurilateral: várias frentes de interesses (ex. Expectativa jurídica: a situação activa. Podem ser objecto de relações jurídicas outras pessoas. objecto.g. Os sujeitos são pessoas pois a personalidade jurídica é precisamente a susceptibilidade de ser titular de direitos e de obrigações.plural: mais do que uma pessoa em qualquer dos lados. No ónus o onerado «precisa de». Garantia: é o conjunto de providências coercitivas. em caso de infracção. 42.. 41. Facto jurídico: é todo o facto produtivo de efeitos jurídicos. juridicamente tutelada. ou para impedir uma violação receada. esse quadro. .

Património ilíquido: conjunto de direitos avaliáveis em dinheiro.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL . hipoteca. O património de cada 1 é um círculo mais pequeno dentro da grande esfera jurídica de cada um.: constituição de uma sociedade). Combinações de relações jurídicas As relações jurídicas podem combinar-se entre si. Neste sentido. relações patrimoniais dependentes da filiação). ficando em face dela em posição de dependência. estrutura linear. Neste sentido. b) Pertinência: combinação de relações jurídicas através do seu ennucleamento comum em certo pólo (em regra. desenhando uma estrutura circular ou esférica. todo o activo e passivo de determinada pessoa. registo predial não é obrigatório mas quem não o fizer tem desvantagens. é maior. Dependem do direito de crédito. Ónus: necessidade de adoptar determinado comportamento para alcançar determinado interesse. nas pessoas humanas. desenvolvendo uma estrutura de suprainfra-ordenação. se não se adoptar o comportamento. uma pessoa). indefectível em todos os sujeitos ou pessoas em sentido jurídico: e a esfera jurídica. Duas combinações de relações jurídicas: a) Acessoriedade: combinação de relações jurídicas (duas.: casamento. pertencentes a uma pessoa. valor sempre maior ou igual a zero (0). tem um mínimo de relações jurídicas as relações inatas. toda a pessoa tem esfera jurídica). normalmente) em que uma delas (a acessória) é meramente instrumental em ordem à outra (a principal). passivo (-). é uma combinação vertical. igual ou menor que zero (0). .: doação). como reais: consignação de rendimentos. sem descontar o passivo.instantâneas: esgotam-se num único momento temporal embora os seus efeitos se projectem para o futuro (ex.: a noção de património. 22 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . extinguindo-se quando a relação creditícia se extingue.simples: aquela que pressupõe sujeito activo (com direito) e passivo (com dever). activo (+). É o caso das relações de garantia especial das obrigações (tanto pessoais: fiança e subfiança. Património global: conjunto de relações jurídicas activas e passivas avaliáveis em dinheiro de que uma pessoa é titular.duradouras: têm como cerne os direitos de personalidade. é uma combinação horizontal. privilégios creditórios e direitos de retenção). . sendo nesta zona que devem localizar-se figuras que vulgarmente se deslocam para outras regiões (ex. penhor. . . ao activo tira-se o passivo. que coenvolve todas as relações jurídicas activas e passivas que se centram num sujeito (como todo o sujeito. Património líquido: saldo patrimonial. Ex. . abstraindo das obrigações. ou as relações intrassociais ou reais. que se localiza erradamente na teoria das coisas e dos objectos). Património: conjunto de relações jurídicas de carácter patrimonial.complexas: situação mais vulgar. o interesse não é satisfeito mas não há sanção sobre o onerado.não autónomas: dependem de outras relações jurídicas (ex.: o ónus da prova recai sobre o lesante. pelo facto de o ser. Há uma combinação pertinencial necessária. um facto jurídico que faz surgir à sua volta um enredo enorme (ex. nas pessoas stricto sensu -.autónomas: não depende de outras relações jurídicas.

constitutivas: adquire um direito ex novo mas o seu conteúdo cabe no direito anterior (A adquire direito de usufruto a B. B adquire um direito já constituído. ainda que porventura sobre a base de um direito anterior.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Afectação: . recuperando assim. direito que se extinguiu ou ficou limitado ou comprimido em virtude da aquisição.: ocupação de coisas móveis abandonadas ou que nunca tiveram dono). Por qualquer razão extingue-se o direito filial e o direito progenitor expande-se. sucessória. Não pode ser mais amplo que o anterior).: A doa a B. o direito não depende juridicamente/genericamente do facto anterior mas sim do facto aquisitivo. . pode versar também sobre direitos preexistentes.aquisição de direitos: pode-se ter por objecto direitos que surjam ex novo. O objecto é o mesmo. Mas o direito do adquirente não se filia no do titular anterior. Ou transmissão parcial do direito (A tem terreno de 1000 m2 e vende apenas 500 m2). Ex. volta a adquirir a dimensão inicial uma vez que deixa de estar reprimido. dois direitos sobre o mesmo objecto).aquisição de móveis. Pode suceder também que preexistisse à aquisição o direito dum titular anterior.geral: todo o património está afecto a obrigações. o caso normal. O direito do adquirente será um direito novo da mesma natureza e conteúdo que o direito extinto. . Na aquisição derivada intervém portanto uma relação entre o titular anterior e o novo. e tal é. A maior parte dos casos não implica constituição. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 23 . Exemplos de aquisição de direitos derivada: . contratual. Apenas houve mudança de titular. Pode ser que não preexistisse à aquisição de qualquer direito dum anterior titular (ex. . depende do facto aquisitivo bem como do direito anterior (quanto à amplitude. unilateral ou contratualmente.especial: que se destina apenas a satisfazer certos encargos. Aquisição derivada: pressupõe um direito do anterior titular (o mesmo ou outro mais amplo). Aquisição originária: um direito surge ex novo. havendo entre os 2 fenómenos um nexo causal e não meramente cronológico. B vê o seu direito de propriedade limitado embora continue a existir. Exemplos de aquisição de direitos originária: 1318º .translativas: um direito que se adquire coincide com o direito do anterior titular (A doa a B.restitutivas: a hipótese de o titular de um direito real limitado se demitir dele. Havendo aquisição não implica constituição. B adquire o direito de A tal e qual).constituição de direitos: trata-se sempre de direitos que surgem ex novo. em virtude da conhecida elasticidade ou força expansiva do direito de propriedade. Perspectiva dinâmica Processos fundamentais: . a plenitude dos seus poderes. Alguma doutrina considera que não há constituição de direitos sem aquisição. de resto. que mudam apenas de titular. . o proprietário. É acompanhada da extinção subjectiva do direito do anterior titular ou da sua limitação ou compressão.

Por força destes institutos devem ser inscritos. Coincide com a aquisição derivada translativa.Importância da distinção entre aquisição derivada e originária Na aquisição originária. Estas excepções significam que. Aquisição originária e derivada. A sucessão diz respeito também às dívidas e não só aos direitos. não obstante a aquisição ser derivada. com o fim de lhes dar publicidade. perspectiva estática (II)Aquisição. Na aquisição derivada. A consequência da falta de registo é a ineficácia do acto em relação a terceiros. Esses efeitos jurídicos consistem fundamentalmente numa aquisição. todavia. Sucessão: é o subingresso de uma pessoa na titularidade de todas as relações jurídicas ou determinada ou determinadas relações jurídicas de outrem. 24 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . em particular os actos de que resulte a aquisição de direitos reais sobre os mesmos bens. Aquisição de direitos: é a ligação de um direito a uma pessoa. modificação e extinção de relações jurídicas 89. se este não existia na titularidade do transmitente (A). 91.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Espécies de relações jurídicas. do registo de automóveis e registos similares (aeronaves.Conceito e modalidade de aquisição de direitos. pode obter um direito que não pertencia ao transmitente ou é mais amplo do que aqueles que pertenciam a este. o adquirente. pois a sua venda a Bia é plenamente válida e eficaz «inter partes». 90. segundo o qual na aquisição derivada o adquirente (C) não pode adquirir um direito. a) dos institutos do registo predial. Constituição de direitos: é o seu surgimento. pois só nesta é que o direito adquirido é o mesmo do anterior titular. Logo. navios. Ex. Noção de terceiros para efeitos de registo predial: são as pessoas que do mesmo autor ou transmitente adquiram direitos incompatíveis (total ou parcialmente) sobre o mesmo prédio. a extensão do direito adquirido depende apenas do facto ou título aquisitivo. a veículos automóveis ou aos restantes bens indicados. modificação ou extinção de relações jurídicas. Toda a constituição de um direito implica a sua aquisição. embora Abel já não fosse o verdadeiro proprietário. em livros existentes em repartições especiais (conservatórias no caso do registo predial e automóvel). os diversos actos inerentes a bens imóveis. sendo o acto plenamente eficaz «inter partes». mesmo na falta de registo.Preliminares Os facto jurídicos desencadeiam determinados efeitos. Este princípio caracterizador da aquisição derivada comporta. é a criação de um direito que não existia anteriormente. em certas hipóteses. Impõe-se distinguir entre aquisição derivada e sucessão. verifica-se uma excepção ao princípio. mas depende ainda da amplitude do direito do transmitente. Bia e Caca são terceiros entre si e prevalece a venda a Caca.: se Abel vendeu um prédio ou automóvel a Bia e de pois a Caca. seus herdeiros ou representantes. a extensão do direito do adquirente depende do conteúdo do facto aquisitivo. se foi primeiramente registada. dado não existirem direitos sem sujeito. não podendo em regra ser maior que a deste direito (nemo plus juris in alium transferre potest quam ipse habet). excepções. O registo não é o meio de aquisição dos direitos. Modalidades desta última Um direito é adquirido por uma pessoa quando esta se torna titular dele. quotas sociais).

É preciso que o registo seja anterior ao registo de acção de invalidade do negócio anterior. ao invés do que prescreve o princípio «nemo plus juris. pressupõe meios (equipas técnicas.». Princípio do trato sucessivo: um registo só pode ser feito havendo registo anterior do transmitente (A -> B -> C. como tal. No nosso caso.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL b) da inoponibilidade da simulação a terceiros de boa fé. portanto. adquirente «a non domino». um prédio a B e este o transmitiu a C. o terceiro adquire validamente esse objecto (243º).. porém. Em Portugal não há «registo de bens» mas sim «aquisições de direitos» sobre bens. É preciso que esteja em causa a aquisição de um direito sujeito a registo. declarado nulo ou anulado o primeiro acto. Se o simulado adquirente dum prédio. é o registo que cria o direito. C só regista se B o tiver feito e anteriormente A). Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 25 . O terceiro tem que estar de boa fé (que não se traduz no simples desconhecimento do negócio anterior (simulação). Por exigência da protecção da confiança dos terceiros e dos interesses do comércio jurídico. Isto porque as nulidades e anulações operam em face de terceiros e não só em face da contraparte. apenas na hipótese de este ser invalidado nos 3 anos subsequentes à sua realização. resulta uma excepção ao princípio geral da aquisição derivada: «nemo plus juris in alium transferre potest quam ipse habet». desde que a acção tendente à declaração de nulidade ou à anulação não seja proposta e registada dentro dos 3 anos posteriores à conclusão do negócio. se A transmitiu. peritos)/ conhecimento exacto sobre o que incidem os direitos. O objecto do negócio tem que ser bem imóvel ou bem móvel sujeito a registo (ex. de quem não era proprietário. consequentemente. está de má fé). C devia restituir o prédio. O registo não é obrigatório mas é um ónus. não produzem quaisquer efeitos. fé.». o segundo seria também nulo e. Para que um terceiro estar protegido é preciso a verificação de alguns requisitos: Existir um terceiro. Os negócios jurídicos simulados são nulos e. aquele que desconhecia e não tinha a obrigação de saber. o que não sabia mas desconfiava. por força da invalidade do negócio donde resultaram os direitos do seu transmitente.: veículos). regista-se aquilo que se diz adquirir Sistema de registo constitutivo: para se adquirir o direito tem que se registar. Sistema de registo declarativo: o direito adquire-se por mero efeito do contrato. adquirentes a título oneroso.. É preciso que tenham passado pelo menos 3 anos desde o negócio inválido sem que tenha sido intentada uma acção com vista à sua invalidade. por acto verdadeiro. O actual código civil estabelece (291º) um regime de inoponibilidade a terceiros de boa fé. c) da eventual inoponibilidade das nulidades e anulabilidades a terceiro de boa Por força do princípio «nemo plus juris. a hipoteca (687º) é constitutivo. o registo não garante que a pessoa inscrita como último adquirente o seja realmente. a protecção do terceiro de boa fé. por negócio nulo ou anulável. Efeito automático: o registo da aquisição de um direito em nome próprio faz com que se pressuponha a titularidade do direito (mesmo assim trata-se de uma presunção ilidível). das nulidade e anulações de negócios respeitantes a imóveis ou moveis sujeitos a registo. sendo os direitos deste sacrificados... Que o negócio entre B e C seja oneroso (não doação). o mesmo prédio a um terceiro e este ignorar a simulação. se o contrato for válido o direito é adquirido independentemente do registo. Assim se realiza. Mesmo assim. O terceiro adquire. vender ou doar. através desta inovação do código de 1966. Daí que o registo seja facultativo.

Extinção de direitos A extinção de um direito tem lugar quando um direito deixa de existir na esfera jurídica de uma pessoa. normalmente através da cessão da posição contratual. não são oponíveis a terceiros e a regra geral que vale no direito primeiramente adquirido é substituída pela regra da prevalência do primeiro registo. o seu dever de prestar é substituído por um dever de indemnizar. Pode. quer do lado activo. mas subsiste na esfera jurídica de outrem. Efeito central: aquisições sujeitas a registo. apesar da modificação verificada. do lado passivo. 26 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . sem novação. quer do lado passivo. Extinção subjectiva: se o direito sobrevive em si. A sucessão entre-vivos nas relações obrigacionais – substituição de sujeitos sem extinção da relação jurídica e surgimento de uma nova. 93. sem a vontade do mesmo titular. Modificação subjectiva: se na modificação do direito tem lugar uma substituição do respectivo titular. A perduração do direito. Neste caso. Quebra-se a relação de pertinência entre um direito e a pessoa do seu titular. Só pode haver substituição do devedor se o credor aceitar.Modificação de direitos Tem lugar a modificação de direitos (do lado activo) quando. É o que se verifica nos direitos de crédito. permanece a identidade do referido direito. Tem lugar nesta hipótese uma situação de substituição. Muda o conteúdo se ex. extinguiu-se para aquele sujeito. alterado ou mudado um elemento de um direito. surgindo então a assunção da dívida e pode referir-se à relação contratual. A modificação também pode surgir do lado activo sendo esta sempre subjectiva. também. com a cessão de créditos e com a subrogação nos créditos (ex. A diz a cede a C o direito de ser ele a receber o dinheiro de B. multiplicação e concentração. adjunção (um novo devedor assume a obrigação para com o credor. não registadas. É o que se verifica quando a um sujeito se substituem vários.: é concedida pelo credor ao devedor uma prorrogação do prazo para o cumprimento. existir uma situação de concentração. O direito mudou de titularidade. A modificação subjectiva das relações jurídicas. permanecendo a identidade objectiva do direito. Modificação objectiva: se na modificação do direito se muda o conteúdo ou o objecto do direito.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Efeito lateral: outros que não o central e o automático (o facto de se registar produz determinados efeitos). mas antes com perduração da entidade do vínculo – pode ter lugar. Verifica-se também uma situação de substituição. a multiplicação pode ocorrer por: sucessão (A transmite o mesmo direito para B e C). B paga a dívida a C). Muda o objecto se ex. Também se pode falar de uma situação de multiplicação. apenas mudando a pessoa do seu titular. permanecendo este idêntico. permanecendo juntamente com o devedor inicial [assunção cumulativa]). 92. pode ter lugar por sucessão «mortis causa». isto é. Neste caso. apesar da vicissitude ocorrida.: não cumprindo o devedor culposamente a obrigação. O direito é o mesmo e não um direito novo. ou contra a sua vontade.: A empresta dinheiro a B. por último. e quanto a actos «inter vivos». significa que o ordenamento jurídico continua a tratar o direito como se não tivesse tido lugar a alteração. Ocorre por vontade do titular do direito extinto. um direito inicialmente pertencente a dois sujeitos passa a pertencer a um único terceiro (A+B -> C).

por seu turno. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 27 . direitos reais limitados ex. completada esta. É o caso das aquisições derivadas constitutivas (constituição de usufruto. supõe a personalidade humana. Extinção objectiva: existe se o direito desaparece. 302).: servidão de passagem).Prescrição: refere-se a direitos subjectivos em sentido estrito (ex.Caducidade: direito de accionar está em causa. O fenómeno da sub-rogação real A sucessão num património tem o seu paradigma na sucessão mortis causa. . Aquiescência e Revivescência Pendência: quando uma relação jurídica plenamente formada não pode funcionar em pleno porque o sujeito activo ainda não existe ou não está ainda determinado. de superfície) Aquiescência: quando um RJ já funcionou em pleno. . abandono de um objecto. Sucessão a título universal e sucessão e título particular. Este último caso pode ocorrer por: . No plano das combinações jurídicas: a sucessão num património (designadamente.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL A extinção subjectiva ou perda de direitos verifica-se sempre que tem lugar um sucessão na titularidade dos direitos. Mas também é sucessão num património a adjudicação a um sócio ou terceiro. É o que acontece com as aquisições derivadas translativas sujeitas a condição ou termo suspensivos. é o caso das RJ do ausente.Renúncia (abandono de uma situação de prevalência. O beneficiário da prescrição. . que se extinguiram pela sua morte. da totalidade do património social ou de uma quota parte a líquota dele. numa sociedade em dissolução. sucessão ou transmissão. Sucessor a título universal é o que sucede na totalidade ou numa quota parte ideal do património. na herança). pois o que interessa é manter o conjunto de valor (activo) que garante o passivo. ou funciona de novo. mas por um obstáculo análogo deixa de ter o seu funcionamento normal. o obstáculo cessa e a RJ funciona. deixando de existir para o seu titular ou para qualquer pessoa. Sucessos acidentais da vida da relação jurídica: Pendência. em pleno.: direitos de crédito 304º). direitos potestativos: arguir a nulidade do negócio. de um prédio por acções) e indirecta (a coisa é substituída por um preço e o preço por outra coisa: A vende a B um prédio e com o preço compra a C um automóvel). A sub-rogação real joga naturalmente (faz parte da fisiologia) num património (de liquidação).: 265ºn1. Ex. pode recusar o cumprimento da prestação ou opôr-se ao exercício do direito prescrito. ao fim de um ano extingue-se por caducidade. que. É o que acontece se há destruição do objecto.Decadência: quando o direito deixa de existir por a formação posterior de um direito incompatível. não exercício do direito. Sub-rogação real: pode ser directa (a coisa é directamente substituída por outra: troca de um prédio por outro. OS SUJEITOS DA RELAÇÃO JURÍDICA CIVIL Das pessoas humanas A subjectividade jurídica (a qualidade de quem é sujeito de direito) supõe no homem a personalidade jurídica. ficando como que adormecida. Não há aquisição derivada. o sucessor adquire ou subingressa na titularidade do direito e este extingue-se para o autor ou transmitente. Revivescência: quando na Pendência ou Aquiescência.Não uso (direitos reais sobre coisa alheia. .

Posse abstracto: poder de ser abstractamente titular de direitos e obrigações. Exige-se além disso. é um posse necessário: ninguém é verdadeiramente pessoa jurídica se não tiver o estatuto permanente de sujeito de direito. Trata-se já não de um posse abstracto.º1 do 68º do CC. Todavia.º1 – O nascimento entende-se como a separação do feto do ventre materno. pois pressupõe a personalidade humana. A personalidade humana é um prius da personalidade jurídica. Do que resultam os seguintes corolários: 1) Essencialidade: a personalidade é essencial. de teoricamente variável de pessoa para pessoa jurídica. como projecção da personalidade humana. não só aos já concebidos mas ainda aos não concebidos a lei faculta que se façam doações (952º) e que se defiram sucessões (os concebidos. ou seja. 3) Ilimitabilidade: a personalidade jurídica é tão ilimitada como a personalidade humana. mas porque existe a personalidade humana. reclama a Capacidade Jurídica: a susceptibilidade concreta de se ser titular de tais direitos e deveres. Da personalidade 66º n. que seja com vida e completo. O que involve a irrecusabilidade da personalidade jurídica. excluindo-se quer os nados-mortos. Termo da personalidade a) A morte Nos termos do n.º1.º2). Ao princípio de que a personalidade jurídica começa com o nascimento parece opor-se a situação jurídica dos nascituros. a personalidade cessa com a morte. ou o numerus clausus dos direitos de personalidade. Capacidade de Exercício de direitos: a capacidade para intervir por si próprio ou através de representante voluntário. Há personalidade jurídica quando existe (logo que existe e enquanto existe) personalidade humana. logo.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL É porque o homem é pessoa – pessoa humana – que ele se reconhece como pessoa em sentido jurídico e. a subjectividade jurídica constitui um posse. mas de um posse concreto: de me ser reconhecida a possibilidade de ter o direito A ou o direito B. A personalidade jurídica traduz-se em subjectividade jurídica. A subjectividade jurídica. A plenitude e a igualdade de direitos constituem a reivindicação número um que a personalidade formula actualmente ao Poder. Realmente. o filho reputa-se concebido dentro dos primeiros 120 dias dos 300 que precedem o nascimento. Algo quantificável. a quem a lei reconhece direitos. O que exclui as chamadas gradações de personalidade. (esquema caderno. 2) Indissolubilidade: a personalidade jurídica é indissolúvel da personalidade humana. quem nasce dentro desses 300 dias reputa-se como concebido. constitui juridicamente um esse. Se a personalidade jurídica. os não concebidos. de quem tem a susceptibilidade abstracta de ser titular de direitos e deveres. existindo tanto e enquanto esta personalidade existir. só na sucessão testamentária e contratual – 2033º n. A personalidade jurídica não é algo que subsista por si mesmo. Só com personalidade humana há personalidade jurídica. de sujeito para sujeito de direito. como sujeito para o direito. quer os que morrem durante o parto ou antes da secção do cordão umbilical.Personalidade jurídica. 28 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . que é a qualidade de quem é “sujeito de direito”. como susceptibilidade abstracta de se ser titular de direitos e obrigações. Segundo o 1798º. dia 3/12/2002) (II)Pessoas singulares 47. Quem nasce 300 dias depois da doação ou da morte do autor da herança reputa-se como não concebido. A personalidade jurídica é a projecção no direito (do normativo jurídico) da personalidade humana. em qualquer espécie de sucessão – 2033º n.

de mortes simultâneas) susceptível de prova em contrário – iuris tantum.: um casal tem 2 filhos. Já se considerarmos simultâneas apenas as mortes dos pais. Neste caso parece deverem aplicar-se as regras da morte presumida (114º e segs. É com este sentido técnico de não presença de alguém acompanhada da falta de notícias que o termo ausência é tomado. a herança é dividida pelos dois filhos (A e B).Ausência O termo «ausência». 66. por não se encontrar ou não ser possível identificar o cadáver (ex. Problema discutido é a questão de saber se a lesão do direito à vida é susceptível de reparação. nos termos do 247º e 248º do código do registo civil. PIRES DE LIMA.). Ex. Entre nós essa reparação é admitida com base no 70º constituindo a ofensa à vida a máxima ofensa possível da personalidade e no 496º. Julgada a justificação. em vez de presunção de comoriência. Suponhamos que num acidente de viação morre o casal juntamente com o filho A. Há outras legislações que. ANTUNES VARELA: vêem no 71º n. Consagra-se uma presunção de comoriência (isto é.º2 «quando certo efeito jurídico depender da sobrevivência de uma a outra pessoa. quando o desaparecimento se tiver dado em circunstâncias que não permitam duvidar da morte dela». c) O desaparecimento da pessoa Artigo 68º n. na totalidade da herança dos pais sucede apenas o filho sobrevivo B. provando-se que o filho A morreu algumas horas mais tarde. as providências que a lei refere nos artigos citados. deve ser registado na repartição do registo civil da área onde ocorreu ou se encontra o cadáver. passando a quota de A para o seu avô ainda vivo.º3: «Tem-se por falecida a pessoa cujo cadáver não foi encontrado ou reconhecido. Por outro lado. o conservador lavrará o respectivo assento de óbito. para o efeito de providenciar pelos bens da pessoa Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 29 . implica a abertura do chamado processo de justificação judicial do óbito. O desaparecimento de uma pessoa nestas circunstâncias. Se mais tarde se vier a verificar ter havido engano ou incorrecção. traduzido num desaparecimento sem notícias. a cargo do Ministério Público. a que se referem os artigos 89º a 121º. Se considerarmos que as mortes foram simultâneas.: afundamento de navio). pressupõem um sentido técnico de «ausência». requerer-se-á a invalidade ou rectificação do assento de óbito.º3 textualmente prescreve a possibilidade de atender aos danos não patrimoniais sofridos pela vítima. Esta presunção tem enorme importância prática. especialmente no que concerne a efeitos sucessórios: não de verificarão fenómenos de transmissão entre os comorientes. A e B. presume-se em caso de dúvida.º1 («os direitos de personalidade gozam igualmente de protecção depois da morte do respectivo titular») um desvio à cessação da personalidade com a morte. extinguindo-se os de natureza pessoal e transmitindo-se para os sucessores mortis causa os de natureza patrimonial. não coincide com o significado que vulgarmente se atribui a este vocábulo de simples não presença de alguém em certo local. nos termos do 299º e segs. pondo termo à personalidade e desencadeando efeitos jurídicos significativos. b) Presunção de comoriência Nos termos do 68º n. No direito inglês presume-se sempre a premoriência do mais velho. a pessoa perde os direitos e deveres da sua esfera. onde o n. que uma e outra falecem ao mesmo tempo». O que está em causa é a transmissão do direito de compensação (atribuível pela ilícita supressão da vida) e não da transmissão do direito à vida. Qualquer falecimento.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL No momento da morte. consagram antes presunções de premoriência.

os efeitos desta equiparação. c) Pela comparência da pessoa que legalmente represente o ausente ou de procurador bastante. ou da declaração da morte presumida. A curadoria provisória termina. se fosse vivo. carecidos de administração. Após a justificação da ausência proceder-se-á à abertura de testamentos (101º) e à partilha e entrega dos bens aos herdeiros (103º). embora o 116º dê ao cônjuge a possibilidade de contrair novo casamento sem necessidade de recorrer ao divórcio. todavia. ao invés. os quais são tidos como curadores definitivos (104º) e não como proprietários desses bens (não podendo dispor deles). Para menores só pode pedir-se quando estes façam 23 anos. traduzidas no requerimento e instauração da curadoria provisória e da curadoria definitiva. O direito faculta a tomada de medidas tendentes a evitar os prejuízos decorrentes da falta de administração dos bens da pessoa ausente. têm subjacentes uma presunção de maior ou menor probabilidade de regresso do ausente. Os sucessores passam a ser tratados não como meros administradores (curadores) mas como proprietários dos bens. e) Pela certeza da morte do ausente. 2) A necessidade de prover acerca da administração dos seus bens.º2). sendo estes. se entretanto o ausente tiver completado 80 anos de idade. ou passados 5 anos. A curadoria definitiva termina (112º): a) Pelo regresso do ausente. Tanto o Ministério Público como qualquer interessado. Algumas disposições da lei atenuam.: o casamento não cessa. Essas medidas. algum ou alguns dos herdeiros presumidos. Curadoria definitiva: A probabilidade de a pessoa ausente não regressar é nesta fase maior. Contudo. os herdeiros do ausente e todos os que tiverem sobre os seus bens qualquer direito dependente da sua morte. b) Pela notícia da sua existência e do lugar onde reside. nos termos da lei (98º): a) Pelo regresso do ausente. podendo recorrer-se desde logo à declaração de morte presumida. o tem o ausente direito: 30 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . c) Pela certeza da sua morte. se a pessoa ausente for menor. para que possa ser declarada a morte presumida (114º n. Morte presumida: Decorridos 10 anos sobre a data das últimas notícias. da sua morte. é necessário que decorram 5 anos sobre a data em que ele completaria a maioridade. Ex. têm legitimidade para requerer a curadoria provisória. O 115º prescreve que a declaração de morte presumida produz os mesmos efeitos que a morte física. visto que a lei só possibilita o recurso à justificação da ausência no caso de terem de corrido dois anos sem se saber do ausente ou cinco anos no caso de ele ter deixado representante legal ou procurador bastante (99º). verifica-se um fenómeno de sub-rogação real.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL ausente. Nenhuma delas está dependente da anterior. se se verificarem os requisitos legais de que depende. Na esfera patrimonial. ou. 3) A falta de representante legal ou de procurador (89º). O curador funciona como um simples administrador (94º). b) Se o ausente providenciar acerca da administração dos bens. Medidas legais Curadoria provisória: Os pressupostos de que a lei faz depender a nomeação de um curador provisório são: 1) O desaparecimento de alguém sem notícias. em virtude de não ter deixado representante legal ou voluntário (procurador). A legitimidade para o pedido de instauração da curadoria definitiva pertence também aqui ao Ministério Público ou a algum dos interessados. isto é. além do cônjuge. pela declaração de morte presumida. em caso de regresso. d) Pela declaração da morte presumida. a qual deve ser deferida a uma das seguintes pessoas: cônjuge. d) Pela entrega dos bens aos curadores definitivos (com a curadoria definitiva).

certamente para afastar quaisquer dúvidas previsíveis sobre a sua inclusão na tutela geral operada pelo 70º. Quais serão os direitos de personalidade? O 70º contém uma norma de tutela geral da personalidade. à integridade física. (119º). o seu nome. que desencadeia uma punição estabelecida no código penal. efectivamente. extrapatrimoniais (embora as suas violações possam originar uma reparação em dinheiro.Direitos de personalidade Designa-se por esta fórmula um certo número de poderes jurídicos pertencentes a todas as pessoas. a protecção dos que possam continuar a ser ofendidos (71º n. A irrenunciabilidade dos direitos de personalidade não impede a eventual relevância do consentimento do lesado: este não produz a extinção do direito e tem um destinatário que beneficia dos seus efeitos. incidindo sobre os vários modos de ser físicos ou morais da sua personalidade. por força do seu nascimento. honra. a sua saúde física. Os direitos de personalidade são inalienáveis e irrenunciáveis. ser-lhe-á devolvido o património que era seu. depois da morte do respectivo titular. o ausente tem direito também à indemnização do prejuízo sofrido. São os chamados direitos de personalidade. Toda a pessoa jurídica é. São direitos gerais (todos deles gozam). A consagração desta protecção geral da personalidade permite conceder tutela a bens pessoais não tipificados. Reconhece-se assim merecedora de tutela a natural aspiração da pessoa ao resguardo da sua vida privada.º2 do mesmo artigo. um conteúdo mínimo e imprescindível da esfera jurídica de cada pessoa. má fé dos sucessores – e exacta consiste no conhecimento pelos sucessores de que o ausente era vivo à data da declaração de morte presumida -. Neste sentido podem dar-se-lhe hoje as consabidas denominações da escola do direito natural racionalista: «direitos inatos» ou «direito originários». O direito protege os vários modos de ser físicos ou morais da personalidade. o direito a indemnização é deferido às pessoas referidas nos 495º e 496º.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL a) Aos bens directamente adquiridos por troca com os bens do seu património (subrogação directa). Em caso de lesão de que provenha a morte. a sua imagem. prevê expressamente no artigo 80º o chamado direito à reserva sobre a intimidade da vida privada. É este um círculo de direitos necessários. da qual se podem desentranhar um direito à vida. da qual constituem o núcleo mais profundo. Incidem os direitos de personalidade sobre a vida da pessoa. à honra. Mesmo que. no Estado em que se encontrar. O CC. Constituem «o mínimo necessário e imprescindível do conteúdo da personalidade». Mantémse. b) Aos bens adquiridos com o preço dos alienados. liberdade física e psicológica. integridade física. Obviamente. não têm. titular de alguns direitos e obrigações. valor pecuniário) e absolutos. tendo por objecto a pessoa no seu todo. c) Ao preço dos bens alienados (sub-rogação directa). se no documento de aquisição se fez menção da proveniência do dinheiro (sub-rogação indirecta). A violação de alguns desses aspectos da personalidade é mesmo um facto ilícito criminal. no domínio patrimonial lhe não pertençam por hipótese quaisquer direitos sempre a pessoa é titular de um certo número de direitos absolutos que se impõem ao respeito de todos os outros. porém. dada a sua essencialidade relativamente à pessoa. 48. à liberdade. a reserva sobre a intimidade da sua vida privada. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 31 . A ofensa de qualquer destes bens está sancionada no n. Havendo. em si mesmos. Direito geral de personalidade: «direito que abrange todas as manifestações previsíveis e imprevisíveis da personalidade humana».º1).

.Direito à vida É o direito à conservação da vida. ex.. a imagem que os outros têm de nós. Podem identificar-se 4 círculos de honra: .Honra propriamente dita: dignidade humana.: maus profissionais.: se um jornal diz determinadas coisas acerca de uma pessoa. forma de estar).). Captação: violação Divulgação: violação mais grave. Este direito é também tutelado pela CRP e penalmente.. Ex. Pode haver lugar a compensação (visto que é afectado um bem não patrimonial) mas quem a exige são os sucessores. . Os 2 últimos círculos variam de pessoa para pessoa. na qualidade de sucessores e com base no direito que surge no momento exacto da morte desse sujeito. bom nome e reputação. b) Direito à palavra As regras anteriores são aplicadas analogicamente. Pode ainda ser: física (liberdade sexual) ou moral (política. Manipulação da imagem: usa-se a imagem e adultera-se.Direito à integridade física É o direito a não ser lesado na integridade físico-psíquica tal como possuiria se não se verificasse tal lesão. violação do direito à imagem + à verdade.Direito à inviolabilidade pessoal 1. . Este direito é tutelado pela CRP bem como pelo código penal (131º e ss. Divulgação indirecta: =imitação. violado.Honra deontológica: ou profissional. 2. Esta liberdade pode ser: positiva (o direito de fazer algo) ou negativa (o direito de se recusar a fazer algo). O titular do direito não pode dispor dele sem cometer um ilícito (suicídio. entendendo-se esta como a simples existência biológica. eutanásia). A honra também é protegida criminalmente.: direito ao decoro (:forma de vestir. A honra pode ser violada com o trazer a público de determinados factos sejam eles verdadeiros ou falsos.Honra económica: direito ao crédito pessoal. honra extrínseca): A imagem que a pessoa projecta de si nas outras pessoas. São. . por isso.o direito de controlar a captação/divulgação de qualquer elemento de identificação da pessoa. mas nestes casos não faz sentido falar em responsabilidade civil uma vez que o lesante é o mesmo que sofreu a lesão. No direito civil a honra pode ser violada com a divulgação de factos reais. No direito penal a honra só é violada com a divulgação de factos falsos. . Em termos de liberdade negativa não se pode aplicar a sanção pecuniária compulsória.Direito à liberdade É o direito à livre conformação da pessoa.Honra . . A sanção penal do aborto não é assim defesa deste direito. em termos de direito civil.Projecção física a) Direito à imagem 79º . honestidade. variáveis. 32 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . religiosa). mas da vida intra-uterina enquanto bem jurídico autónomo. o direito à honra é.Projecção moral a) Direito à honra (direito à reputação.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Direitos especiais de personalidade: .

Há frequentemente conflitos entre o direito de honra e o direito à informação. âmbito mais restrito. b) Direito à história pessoal Direito ao percurso da pessoa: ex. No 79º n. de propriedade sobre a obra). certa pessoa é “a” pessoa e não “uma” pessoa.Privada: ex. O direito é disponível logo. Obra: conjunto de sinais subjectivamente organizados e objectivamente expressos. As coisas secretas podem ser secretas: por natureza (ex. Nas restantes situações isto não se verifica. O direito à honra não é consagrado num artigo específico do CC mas é aflorado no 79º n. Existe dentro de si 3 esferas: 1 . relativa aos dados de confidencialidade pessoal. por exemplo.: biografias não autorizadas (“Os amores de Manuel” -> é preciso a autorização de Manuel e dos “amores”). Esta distinção é essencial no que diz respeito.Projecção vital a) Direito ao carácter Ninguém poderá estar sujeito sem consentimento a meios que permitam revelar o seu carácter.º3.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Os 3 primeiros círculos não são direitos disponíveis: isto é. o titular não pode limitar o direito. Quando se trata de uma matéria com relevante interesse público. o nome igual não pode ser utilizado de forma a prejudicar outro. Contudo. o titular pode limitar o direito. situações que afastam.: modelos fotográficos).º2 apresentam-se algumas situações onde se justifica a violação do direito à imagem. No direito ao decoro pode haver consentimento válido. 2 . A nossa lei não permite a homonímia (o mesmo nome). O direito de autor: abrange o aspecto moral e o aspecto patrimonial (direito real.Pessoal: ex. este é. aliás. Contudo. preferências sexuais.Direito à criação pessoal e direito moral de autor O primeiro é um direito inato. morada. portanto. à fase de determinação da importância da violação. o direito de informação prevalece sobre o direito à honra. um direito inato) e a identidade em sentido estrito (direito ao nome). . 3. este é sempre ilícito.Secreta: aspectos secretos da vida íntima. 3 .: gostos. em caso de violação ao direito à honra. A criação tem que ter duas características: . Admite-se consentimentos vinculantes: pressupõe vínculo contratual (ex. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 33 . os quais são resolvidos pelo 335º. O segundo é não inato e pressupõe o direito de criação pessoal mas surge só após a criação que se traduz numa obra.objectivação: a obra tem que ganhar consistência no sentido de ser objectivada. c) Direito à intimidade da vida privada Este é um direito que incide sobre informações.: diários) e por determinação da pessoa (coisas que cabe ao próprio o ónus da prova do seu carácter secreto). não estão sujeitos a limitações dos titulares do direito. aspectos intrínsecos à natureza da própria pessoa. a ilicitude.Direito à identidade pessoal Abrange a: identificação (não confundabilidade da pessoa. aspectos não relativos à própria pessoa mas que estão relacionados consigo. d) Direito à verdade pessoal Direito à liberdade negativa.originalidade: a obra tem que ser “a” obra. . .: casa.

pois nesse caso é contra os bons costumes. um sofrimento. O consentimento não extingue o direito de personalidade. por exemplo.º1. mas justifica implicitamente a mesma: 340º n. pode ser relevante para aferir da violação.se o consentimento. O consentimento tem limites: superiores (direito à vida não pode ser limitado assim como o direito à integridade física) e inferiores (as exigências da vida em sociedade levam a que certas lesões sejam irrelevantes (ex.: encontrões no autocarro)). Nas intervenções e tratamentos médico-cirúrgicos em benefício próprio A lei penal dispõe hoje que «as intervenções e outros tratamentos que. o consentimento é irrelevante sempre que há uma desproporção enorme entre o benefício a obter e o risco da atitude médico-cirúrgica.tolerante: não atribui um poder de agressão. mas o que foi realizado é imposto pelo estado dos conhecimentos ou experiência da medicina. por um médico ou outra pessoa legalmente autorizada a empreendê-los com intenção de prevenir. se mostrem indicados e forem levados a cabo. e não se verificarem circunstancias que permitam concluir com segurança que o consentimento seria recusado. só puder ser obtido com adiamento que implique um perigo para a vida ou grave perigo para o corpo ou para a saúde.autorizante: constitutivo de um compromisso jurídico sui generis. embora sempre limitado pela ordem jurídica e pelos bons costumes (81º n.direito à intangibilidade da obra (direito à obra não ser adulterada). . como meio para evitar um perigo para o corpo ou para a saúde. Há 3 tipos de consentimento: .direito à paternidade da obra. Ao fim de 50 anos.º1 e 340º CC). haverá violação. . . portanto. de acordo com a leges artis.direito à dignidade da obra (direito a participar das valorizações extraordinárias da O direito moral de autor pode. obra). . segundo o estado dos conhecimentos e da experiência da medicina. Do consentimento do ofendido O consentimento pode também determinar a inexistência de lesão (exclusão do facto) ou a justificação dela (justificação do facto). designadamente um contrato.vinculante: origina um compromisso jurídico autêntico. não se consideram ofensas corporais». Não havendo consentimento do paciente. .TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL O direito de autor é vitalício e depois da morte transmite-se para os herdeiros. mas da liberdade de vontade. . que atribui a outrem um poder (fáctico) de agressão. debelar ou minorar uma doença.se o consentimento. 34 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados .Direito ao tratamento dos dados pessoais Tem em conta. Tutela deste direito: . foi dado para uma intervenção ou tratamento diferente. O consentimento e o correlativo dever de esclarecimento têm de ser mais rigorosos ainda nas intervenções ou tratamentos estéticos do que nos curativos. não do direito à integridade física. ser violado de inúmeras formas. excepto se se verificar qualquer das seguintes hipóteses: . Além disso. uma lesão ou fadiga corporal ou uma perturbação mental. Este tem importância na medida em que. É possível violação simultânea do direito à honra e do direito moral de autor. as violações potenciadas pela utilização da informática. cai no domínio público. .direito ao inédito. diagnosticar.

não regeneráveis: a licitude depende do risco que a perda representa para o dador. O direito a partes destacáveis do corpo humano Anote-se que o consentimento em ceder-se certo elemento orgânico quando este vier a destacar-se do organismo. de relações jurídicas. não carece de ser substituída. etc.Capacidade jurídica e capacidade para o exercício de direitos direitos. isto é. das técnicas de extracção. 49.caducáveis: não há problema. das possibilidades de recuperação. os negócios a que se refere nem podem ser concluídos por outra pessoa em nome do incapaz. . mesmo no caso de ser lícito. mais genéricas. . não carece do consentimento. dotada da capacidade de exercício de direitos. A expressão capacidade de exercício de direitos sugere tratar-se unicamente da susceptibilidade de exercitar direitos deixando de fora o cumprimento das dívidas e a aquisição de direitos ou a aquisição de direitos ou a assunção de obrigações. de capacidade jurídica e de capacidade para o exercício de direitos ao domínio dos negócios jurídicos. adquirindo direitos ou assumindo obrigações. como vimos. deve atender a se se trata de: elementos caducáveis. por acto próprio e exclusivo ou mediante um representante voluntário ou procurador. Há uma capacidade jurídica maior ou menor. não sendo. isto é. convertível em autêntica obrigação. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 35 . anterior ou posterior ao acto. exercendo direitos ou cumprindo deveres. 50. na prática dos actos que movimentam a sua esfera jurídica. de outra (assistente). Fala-se de capacidade jurídica para referir a aptidão para ser titular de um círculo. À personalidade jurídica é inerente a capacidade jurídica ou capacidade de gozo de O artigo 67º estabelece que «as pessoas podem ser sujeitos de quaisquer relações jurídicas. Contrapõe-se-lhes a incapacidade negocial de gozo e a incapacidade negocial de exercício. Incapacidade negocial de gozo: provoca a nulidade dos negócios jurídicos respectivos e é insuprível. . salvo disposição legal em contrário: nisto consiste a sua capacidade jurídica». Ou há uma pessoa jurídica ou não há. isto é. Nas disposições em benefício de outrem. A incapacidade de exercício de direitos pode ser suprida pela representação legal ou pela assistência.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Nas intervenções e tratamentos médico-cirúrgicos em benefício alheio ou geral: Exigência interrogável e rigorosa do consentimento com dever de esclarecimento. Capacidade de exercício ou de agir: é a idoneidade para actuar juridicamente.Capacidade negocial. o cientista. Melhor se falaria de capacidade de agir. Distinta da noção de capacidade jurídica é a de capacidade de exercício de direitos. Não se pode admitir o consentimento presumido ou hipotético ou o consentimento por representante legal. maior ou menor. A pessoa. age pessoalmente. nem por este com autorização de outra entidade. regeneráveis ou não regeneráveis. por um representante legal (designado na lei ou em conformidade com ela) e age autonomamente. da vantagem que a aquisição representa para o receptor. Modalidades: capacidade negocial de gozo (capacidade jurídica negocial) e capacidade negocial de exercício Estas noções traduzem-se na referência das noções.regeneráveis: idem. encontra-se. sujeito ao regime das disposições da integridade física em benefício alheio.

b) Da interdição. 51. não podendo os negócios a que se refere ser realizados pelo incapaz ou por um seu procurador. Generalidades Pessoas colectivas Estas possuem plena capacidade negocial de exercício. pois a restrição não resulta da consideração de uma qualidade do disponente em si. Enquanto o representante legal actua em vez do incapaz. isto é. 52. 53. pertencendo a iniciativa do acto a este último. Esta é suprível por: . . agindo outras entidades em seu nome e no seu interesse ou quando. excepcionalmente.Enumeração das incapacidades de exercício estatuídas pelo código civil As incapacidades de exercício estabelecidas pelo código civil resultam: a) Da menoridade. Há uma restrição do poder de disposição em certa direcção e por isso o código qualifica estes casos como indisponibilidade relativa. A capacidade de exercício das pessoas colectivas só sofrerá restrição quando.Determinação da capacidade negocial de gozo A regra geral. O interesse determinante das incapacidades é o interesse do próprio incapaz.assistência: ex.: 124º . Pessoas singulares Em princípio todas têm capacidade de exercício de direitos. mas exige o consentimento de certa pessoa ou entidade.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Incapacidade negocial de exercício: provoca a anulabilidade dos negócios jurídicos respectivos e é suprível. o assistente impede o incapaz de agir ou intervém ao lado dele. Assistência: tem lugar quando a lei admite o incapaz a agir. Não se trata de um representante voluntário. dos interditos por anomalia psíquica e dos notoriamente dementes no momento da perfilhação (1850º). c) Das inabilitações. é capacidade jurídica.«os inabilitados são assistidos por um curador». por ser designada pela lei ou em conformidade com ela. por inerência do conceito de personalidade. Essa pessoa é denominada representante legal. o assistente destina-se a autorizar o incapaz a agir. O representante substitui o incapaz na actuação jurídica. Representação: é a forma de suprimento da incapacidade. Não se trata. estiverem privadas dos seus órgãos. traduzida em ser admitida a agir outra pessoa em nome e no interesse do incapaz.Determinação da capacidade negocial de exercício. Existem contudo algumas restrições: 1) Incapacidades nupciais (impedimentos dirimentes absolutos e impedimentos dirimentes relativos 1601º e 1602º). para dados efeitos. todavia.suprimento da incapacidade dos menores pelo poder paternal. 2) Incapacidade de testar dos menores não emancipados e dos interditos por anomalia psíquica (2189º). 3) Incapacidade para perfilhar dos menores de 16 anos. dada a incapacidade do representado.representação legal: ex.: 153º . 36 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . de absoluta incapacidade. seja necessária a autorização de certas entidades alheias à pessoa colectiva. escolhido e legitimado para agir pelo representado – e não se admite aqui um representante voluntário.

64. aplicável por forças dos 139º e 156º. que não os intervenientes no negócio (ex. mas é essa a solução geralmente defendida e a que se impõe. a anulabilidade (261º). sempre que se pretenda fazer derivar dum negócio efeitos (alienação ou aquisição de direitos.Incapacidade dos menores Amplitude Abrange. Nas incapacidades conjugais. Existem algumas excepções à incapacidade: 1. Incapacidade de exercício Nesta hipótese tem lugar a anulabilidade dos actos praticados pelos incapazes. Em princípio. dentro dos prazos aí referidos. etc. Poderá encontrar-se-lhes fundamento legal no 249º. Outras vezes um indivíduo não pode celebrar livremente (carece de uma autorização). Na incapacidade de menores. um indivíduo tem o poder de desencadear efeitos de direito numa esfera jurídica alheia (ex. o artigo 2190º prescreve a nulidade. as ilegitimidades originam sanções diversas: à venda de coisa alheia corresponde a nulidade (892º). um modo de ser para com os outros.Capacidade e legitimidade A distinção é oriunda do direito processual e aí se evidencia com nitidez.). os menores podem praticar actos de administração ou disposição dos bens que o menor haja adquirido por seu trabalho (127º a)). Para o testamento.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 62.). à representação sem poderes e ao abuso de representação. assunção de obrigações.Valor dos negócios jurídicos indevidamente realizados pelos incapazes Incapacidade jurídica de gozo Os negócios feridos duma incapacidade jurídica negocial (incapacidade de gozo) são A lei não o diz de uma forma genérica. Enquanto as incapacidades de exercício geram anulabilidades. Haverá carência de legitimidade. mas manifesta-se também no direito material. Para alguns negócios a lei resolve expressamente o problema. por isso.: representação legal ou voluntária). o 1631º a). Nem sempre é assim. variáveis consoante o autor da acção de anulação e pode ser sanada por confirmação das pessoas com legitimidade para a invocar. Para o casamento. é antes uma posição. 2º Semestre 54. Por vezes. estatui a solução da anulabilidade e o mesmo se determina no 1861º para a perfilhação. as sanções dos actos indevidamente praticados constam do 1687º. nulos. dos interditos ou dos inabilitados. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 37 . todavia. quaisquer negócios de natureza pessoal ou patrimonial. A invalidade só pode ser requerida pelas pessoas indicadas naquela disposição. em princípio. Na extensão do conceito de ilegitimidade estão abrangidas manifestações jurídicas cujo tratamento é diverso. a ineficácia em relação ao representado. têm legitimidade para um certo negócio os sujeitos dos interesses cuja modelação é visada pelo negócio. contrato a cargo de outrem. anulabilidade tem as características enunciadas no 125º. que vinculem outras pessoas. dada a natureza dos interesses que determinam as incapacidades de gozo. É uma incapacidade geral (123º). ao negócio consigo mesmo. Legitimidade: supõe uma relação entre o sujeito e o conteúdo do acto e.: venda de coisa alheia. etc. Capacidade: é um modo de ser ou qualidade do sujeito em si.

são válidos os negócios relativos à profissão. Podem fazer testamento se emancipados (2189º). Na vertente pessoal salienta-se: o poder de educar os filhos (1885º 1886º 1878º). 133º). que. no caso de este ter usado de dolo ou má fé a fim de se fazer passar por maior ou emancipado (126º). são válidos os negócios jurídicos próprios da vida corrente do menor. Duração A incapacidade termina quando o menor atingir a idade de 18 anos ou for emancipado (122º. a tutela. conviria manter a emancipação resultante do casamento. As pessoas com legitimidade para arguir essa anulabilidade são: O representante do menor. estiver pendente contra o menor. que a oposição dos pais ou do tutor constitui um impedimento impediente. não só o menor mas também os herdeiros ou representante. com base na consideração de que à situação de casado convém a plena capacidade de exercício de direitos decorrente da emancipação. 38 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . subsidiariamente. ou os praticados no exercício dessa profissão. Nesta hipótese. se o hereditando morreu antes de ter expirado o prazo em que podia. O legislador entendeu que. arte ou ofício (127º c)). requerer a anulação (125º). fixada a idade núbil nos 16 anos. o direito ao respeito mutuo (1874º). são. ou seja. dá lugar à aplicação de sanções especiais. O único facto constitutivo da emancipação é o casamento (132º). não distinguindo a lei poderes especiais do pai ou mãe em virtude do princípio da igualdade (1901º) Há a salientar a divisão «poder paternal relativamente à pessoa dos filhos» e «relativamente aos bens dos filhos». prover ao seu sustento. no interesse dos filhos. aos pais. dentro de um ano a contar da cessação da incapacidade. o poder de custodia. estando ao alcance da sua capacidade natural. O poder paternal pertence. e como tal. Como se supre a incapacidade do menor A incapacidade do menor é suprimida pelo instituto da representação.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 2. na primeira hipótese. Efeitos Os negócios jurídicos praticados pelo menor contrariamente à proibição em que se cifra a incapacidade estão feridos de anulabilidade (125º). ficam inibidos de invocar a anulabilidade. podem perfilhar quando tiverem mais de 16 anos (1850º. arte ou ofício que o menor tenha sido autorizado a exercer. dentro de um ano a contar da morte. dirigir a sua educação. salvo se. Poder paternal Compete aos pais. não implicando a nulidade do acto. de guardar os filhos na sua própria casa ou lugar à escolha (1887º). ou disposições de bens. de pequena importância (127º b)). ele próprio. 130º. sem dependência de prazo. (sendo certo. pois. ao atingir a maioridade. A anulabilidade pode ser invocada normalmente por via de excepção. 4. só impliquem despesas.º2). acção de interdição ou inabilitação (131º). 129º. podem contrair validamente casamento. e administrar os seus bens. desde que tenham idade superior a 16 anos (1601º a)). Qualquer herdeiro. O próprio menor. ainda que nascituros. especialmente o n. Os meios de suprimentos da incapacidade dos menores através da representação. todavia. dentro de um ano a contar do conhecimento do acto impugnado. em primeira linha o poder paternal e. 3. se o negócio não estiver cumprido. O direito de invocar a anulabilidade é precludido pelo comportamento malicioso do menor. representá-los. velar pela segurança e saúde destes.

todavia. quanto ao casamento. Quando a tutela recair nos pais. pois os menores embora dementes. Parece haver lugar apenas à alternativa interdição ou inabilitação. embora possam utilizar o seu rendimento nos termos do 1896º. Estabelece-se uma tutela regulada pelas mesma normas que regulam a dos menores e que é deferida pela ordem estabelecida no artigo 143º. O tutor – órgão executivo da tutela – tem poderes de representação abrangendo. quando pela sua gravidade tornem o interditando incapaz de reger a sua pessoa e bens (138º). há actos que o pai pode praticar livremente. Como se supre a incapacidade dos interditos É suprida mediante o instituto da representação legal. devendo o tutor solicitar autorização judicial (ex. pelo menos com autorização judicial. a generalidade da esfera jurídica do menor. Por isso. referidas no 138º. quer quanto aos meios de suprir a incapacidade (139º). tal como os do pai. surdez-mudez ou cegueira. As infracções aos artigos 1889º e 1892º geram anulabilidade dos respectivos actos. O artigo seguinte enumera actos cuja validade depende de autorização do tribunal. no termo de um processo especial. 55. estamos perante uma incapacidade negocial de gozo. Torna-se necessária uma sentença judicial que. O regime da incapacidade por interdição é idêntico ao da incapacidade por menoridade. Há certos actos que são vedados ao tutor e que o pai pode praticar. surdos-mudos ou cegos. quer quanto ao valor dos actos praticados em contravenção. A sentença de interdição definitiva deve ser registada. São fundamentos de interdição as situações de anomalia psíquica (abrangendo deficiências do intelecto. o incapaz será inabilitado.Incapacidade dos interditos Quem pode ser interdito A incapacidade resultante de interdição é aplicável apenas a maiores. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 39 . estes exercem o poder paternal como se o interdito fosse menor. ou quando os reflexos da surdez-mudez ou da cegueira sobre o discernimento do surdo-mudo ou do cego não excluem totalmente a sua aptidão para gerir os seus interesses. As sanções para a infracção das proibições impostas ao tutor constam dos artigos 1939º e 1940º e variam conforme os casos. Tutela É o meio normal de suprimento do poder paternal. consoante a gravidade das deficiências. nos termos do artigo 1893º. e princípio. isto é. De mencionar a extinção do usufruto legal dos pais sobre os bens dos filhos. sendo predominantemente invalidades de tipo misto e não puras nulidades ou anulabilidades. Deve ser instaurada sempre que se verifique alguma das situações previstas no 1921º. As deficiências físico-psíquicas que são fundamento da interdição devem ser habituais ou duradouras e actuais. declare a incapacidade. Quando a anomalia psíquica não vai ao ponto de tornar o demente inapto para a prática de todos os negócios.: aplicação de capitais do menor na aquisição de bens). na satisfação de necessidade da família. não há possibilidade de suprimento da incapacidade dos interditos por anomalia psíquica (1601º). da afectividade ou da vontade). Estão excluídos da administração dos pais certos bens mencionados no 1888º.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Na vertente patrimonial salienta-se: o poder de administração dos bens (1878º 1897º) e o reciproco dever de elementos (1874º 1878º). para existir a incapacidade. Não basta todavia a existência das deficiências naturais. sob pena de não poder ser invocada contra terceiro de boa fé (147º) Efeitos É óbvio que só é suprível uma incapacidade de exercício de direitos. O poder tutelar é. estão protegidos pela incapacidade por menoridade. menos amplo que o poder paternal.

sempre que um contratante sensato e prudente na gestão dos seus bens não teria celebrado o negócio naqueles termos. de uma invalidade sanável por confirmação das pessoas com legitimidade para a invocar.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Só os interditos por surdez-mudez ou cegueira têm plena capacidade matrimonial. tendo os surdos-mudos e cegos capacidade testamentária de gozo e exercício. A incapacidade acidental está prevista e regulada no 257º. um empobrecimento imediato do doador. rege o 150º. e ás pessoas com legitimidade para a arguir.: valorização de terreno) que tornariam agora vantajoso não o ter realizado. no prazo de um ano a contar do conhecimento do negócio. 40 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . por força do 139º. irremediavelmente.Quando cessa a incapacidade dos interditos A incapacidade dos interditos não termina. 57. A interpretação mais chegada ao texto do 956º do código de processo civil era a de que permitia a anulação de negócios que. Torna-se necessário o levantamento da interdição. 56. é aplicável. de uma decisão judicial. no prazo de um ano a contar do levantamento da interdição e qualquer herdeiro deste. por força de ulteriores vicissitudes. desde que «se mostre que o negócio causou prejuízo ao interdito» (149º). Quanto ao prazo para a invocação da anulabilidade. 3-Depois do registo da sentença de interdição definitiva Os negócios jurídicos praticados neste período estão feridos de anulabilidade (148º). haverá lugar à anulabilidade. não se tomando em conta eventualidades ulteriores (ex.Valor dos actos praticados pelo interdito Três períodos 1. só os interditos por anomalia psíquica estão feridos de uma incapacidade do tipo incapacidade de gozo. tendo sido embora celebrados nas condições em que o faria uma pessoa normal e sensata. 58.Incapacidade dos inabilitados As inabilitações são uma fonte de incapacidade. cuja estatuição remete para o disposto acerca da incapacidade acidental. Também quanto ao testamento. sem mais. seja qual for a sua justificação moral. por outro lado. com as necessárias adaptações. O prejuízo verificar-se-á. quanto aos negócios onerosos. no prazo de um ano a contar da morte do incapaz. causar-lhe grave dano. e a interdição vem a ser decretada. tal como as interdições. Nestes termos os negócios praticados pelo interdicendo. o próprio interdito. Podem requerer o levantamento o próprio interdito ou qualquer das pessoas com legitimidade para requerer a interdição (151º). se vieram a tornar desvantajosos para o interdito por força de eventualidades posteriores. se forem considerados prejudiciais numa apreciação reportada ao momento da prática do acto. 2-conhecido pelo declaratário. nos termos do qual a declaração negocial feita por quem se encontrava acidentalmente incapacitado de entender o sentido dela ou que não tinha o livre exercício da sua vontade é anulável. podendo eventualmente. Trata-se. Uma doação.Anteriormente à publicidade da acção Acerca das condições da anulação destes actos. com a cessação da incapacidade natural. 2-Na pendência do processo de interdição Se o acto foi praticado depois de publicados os anúncio da proposição da acção. durante a vigência da interdição. o 125º. Podem assim requerer a anulação o representante do interdito. Resultam. só serão anuláveis. desde que: 1-o facto seja notório. na pendência do processo de interdição. importa sempre.

O abuso de bebidas alcoólicas ou de estupefacientes tem de importar uma alteração do carácter. portanto. O 155º contém. à distinção entre inabilitações e interdições. A primeira categoria (anomalias psíquicas. a assistência. Constata-se. bem como os especificados na sentença (153º). determinar-se que a administração do património do inabilitado seja entregue pelo tribunal ao curador (154ºn. Há que aplicar. todavia. A terceira categoria – abuso de bebidas alcoólicas ou de estupefacientes – representa uma inovação do código civil. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 41 . Meios de suprir a incapacidade A incapacidade dos inabilitados é suprida.Incapacidades acidentais O actual código não inclui a regulamentação da incapacidade acidental (257º) na secção relativa às incapacidades. pode. ainda que traduzida apenas na anormal dependência dessas drogas. necessariamente. um regime particular.º1). despesas desproporcionadas aos rendimentos. uma diversidade das formas do respectivo suprimento. portanto. surdez-mudez ou cegueira que provoquem uma mera fraqueza de espírito e não uma total inaptidão do incapaz). em princípio. as do 125º. A segunda categoria – habitual prodigalidade – abrange os indivíduos que praticam habitualmente actos de delapidação patrimonial (não confundir com a administração infeliz ou pouco perspicaz). aplicável por remissão dos 139º 156º. pois estão sujeitos a autorização do curador os actos de disposição entre vivos. o instituto da representação. acerca da sua regeneração. Pode. não corresponde. Com estes prazos. indivíduos que se revelem incapazes de reger o seu património por habitual prodigalidade ou pelo abuso de bebidas alcoólicas ou estupefacientes. acerca do levantamento da inabilitação.Quando cessa a incapacidade dos inabilitados A incapacidade só deixa de existir quando for levantada a inabilitação. o seu levantamento exige as condições seguintes: 1-Prova de cessação daquelas causas de inabilitação 2-Decurso de um prazo de 5 anos sobre o trânsito em julgado da sentença da inabilitação ou da sentença que desatendeu um pedido anterior de levantamento. no termo de um processo judicial. Torna-se necessária uma sentença de inabilitação. tal como acontece com as interdições. com as necessárias adaptações. Estabelece-se que. tal como nas interdições. As características da anulabilidade são. para evitar o risco de dissimulação ou fingimento. a representação. A sentença pode determinar uma extensão maior ou menor da incapacidade. por força do 156º. todavia. sendo aplicáveis as disposições que vigoram acerca do valor dos actos dos interditos. improdutivas e injustificáveis. como forma de suprimento da incapacidade. regula-a conjuntamente com as várias hipóteses de falta ou vícios de vontade na declaração negocial. os 148º 149º 150º. intervir. pelo instituto da assistência. 59. surdez-mudez ou cegueira. não seja tão grave que justifique a interdição. sem o que não pode haver inabilitação. Neste caso funciona. 61. tendencialmente. pretende-se sujeitar o inabilitado a um período de prova. Valor dos actos praticados pelo inabilitado A lei não regula directamente este problema. quando a inabilitação tiver por causa a prodigalidade ou o abuso de bebidas alcoólicas ou de estupefacientes. Em qualquer dos casos basta que se prove a existência de um perigo actual de actos prejudiciais ao património. que. pois se é certo que nas inabilitações tem lugar. Trata-se da prática de actos de dissipação. mesmo que se não tenha verificado ainda um dano concreto. Verificação e determinação judicial da inabilitação A incapacidade dos inabilitados não existe pelo simples facto da existência das circunstâncias referidas no 152º.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Quando tem lugar a incapacidade dos inabilitados As pessoas sujeitas a inabilitação estão indicadas no 152º: indivíduos cuja anomalia psíquica. embora de carácter permanente.

estado hipnótico. alterou profundamente as soluções do direito anterior. se este lhe conferir por mandato esse poder.º3) 2-cada um dos cônjuges tem a administração: a) dos proveitos que receba pelo seu trabalho (1678º n. com exclusão da administração do outro cônjuge. inexistente. pois não se prescreve qualquer regime especial. A anulação está sujeita ao regime geral das anulabilidades (287º e ss. 2-a alienação ou oneração de móveis próprios ou comuns de que não tenha a administração. 2-dos bens próprios do outro cônjuge. devido a qualquer causa (embriaguês. 42 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . oneração. Tais ilegitimidades constam dos 1682º 1682º-A 1682º -B e 1683º. 60. arrendamento ou constituição de outros direitos pessoais de gozo sobre a casa de morada de família.) estiver transitoriamente incapacitado de se representar o sentido dela ou não tenha livre exercício da sua vontade. salvo se se tratar de bens doados ou deixados por conta da legitima desse outro cônjuge (= d)) e) dos bens móveis comuns por ele exclusivamente utilizados como instrumento de trabalho (= e)) f) dos bens comuns se o outro cônjuge se encontrar ausente ou impossibilitado (= f)) g) dos bens comuns do outro cônjuge se este lhe conferir por mandato esse poder (= g) O casamento continua a ser fonte de ilegitimidades conjugais. de ilegitimidade. bem como dos sub-rogados em lugar deles (= c)) d) dos bens que tenham sido doados ou deixados a ambos os cônjuges. A aplicação do princípio da igualdade dos cônjuges. à regra (administração conjunta) opõem-se as seguintes excepções: 1-cada um dos cônjuges tem legitimidade para a prática de actos de administração ordinária (1678º n. delírio. em qualquer regime de bens. A regra dos bens do casal é esta: cada um dos cônjuges tem a administração dos seus bens próprios (1678º n. pertencendo a ambos (em conjunto) a administração dos bens comuns (1678º n. se este se encontrar impossibilitado de exercer a administração por achar num lugar remoto ou não sabido. no domínio da administração e da alienação dos bens do casal. derivadas do casamento. algumas excepções. Assim. mas proteger os interesses do outro cônjuge e da família. Assim. Não se pretende defender os cônjuges contra uma incapacidade natural. 4-a disposição do direito ao arrendamento da casa de morada da família. quanto à administração dos bens próprios.). contudo. inclusive no regime de separação: 1-a alienação ou oneração de móveis (próprios ou comuns) utilizados conjuntamente por ambos na vida do lar ou como instrumento comum de trabalho.º1). etc. intoxicação. a este respeito.Incapacidades (ilegitimidades) conjugais As restrições à livre actuação jurídica. são tradicionalmente designadas por incapacidades. ira. 3-a alienação. Esta regra tem. Quanto à administração dos bens comuns.º3). aliás. Qual a estatuição respectiva? Os actos referidos são anuláveis desde que o facto seja notório (cognoscível) ou conhecido do declaratário. cada um dos cônjuges tem a administração: 1-dos bens próprios do outro cônjuge.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL O 257º abrange todos os casos em que a declaração negocial é feita por quem. carecem de consentimento de ambos os cônjuges.º2 a)) b) dos seus direitos de autor (= b)) c) dos bens comuns por ele levados para o casamento ou adquiridos a título gratuito depois do casamento. ou por qualquer outro motivo (1678º f)). 3-dos bens próprios do outro cônjuge. Mais correctamente se falará. por ele exclusivamente utilizados como instrumento de trabalho (1678º e)).

º2 do 1683º. A falência deixou de ser um instituto dos comerciantes para passar a ser das empresas. por qualquer causa. Sanções da ilegitimidade conjugal De acordo com o 1687º. 2-a alienação. etc. nem pode administrar bens de menores (quase inabilitado). está sujeito à forma exigida para a procuração e pode ser judicialmente suprido. ou impossibilidade. Esta sentença fixa a residência do falido. há que ser declarada. Pode-se falar em: sociedades (os sujeitos). próprio ou comum. N.º 3: insolvência – carência de meios próprios e falta de crédito (note-se a importância do crédito). À alienação ou oneração de bens (móveis ou imóveis) próprios do outro cônjuge. que passam a integrar a “massa falida”.O falido não pode mais exercer o comércio. não poder cumprir obrigações. Efeitos .O falido é impedido de dispor dos bens presentes/futuros. nomeia o liquidatário judicial. havendo injusta recusa. A falência (deve ser o último recurso) é admitida em relação a devedores não titulares da empresa. singular ou colectiva. Falência e Insolvência Por si só. mas nunca depois de decorridos 3 anos sobre a sua celebração (nº2). mas não já no regime de separação de bens: 1-a alienação. oneração. MOTA PINTO: falência – instituto privado dos comerciantes. apenas nos regimes de comunhão (geral ou de adquiridos). Como se supre a ilegitimidade conjugal A ilegitimidade conjugal supre-se pelo consentimento do outro cônjuge (1682º n. empresas (objecto na titularidade dos comerciantes [não têm personalidade jurídica]). falta de liquidez na designação dos titulares.º1e 3. arrendamento ou constituição de outros direitos pessoais de gozo sobre imóveis próprios ou comuns. os actos praticados contra o disposto nos n. 1682º-B e no n. fixa o prazo para os credores exigirem o crédito. 3-o repúdio de heranças ou legados. dissipação/extravio de bens. são aplicáveis as regras relativas à alienação de coisa alheia.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Carecem de consentimento de ambos os cônjuges. não são incapacidades. pontualmente. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 43 .º1). comerciantes (individuais ou sociedades). A insolvência é revelada por “factos-índice” . são nulas nos termos dos 892º e ss. 23 Abril). . Esta posição acaba com o Código das falências (DL 132/93. insolvência – aplica-se aos não comerciantes. de o prestar (1684º). feita sem legitimidade. Artigo 1º do código: falência – são as empresas em situação de insolvência. . Recuperação da empresa A falência (que respeita os devedores titulares ou não da empresa insolvente) não existe ipso facto. O instituto da insolvência foi abolido e passou a ser um requisito da falência. A falência é a impossibilidade de uma pessoa. oneração ou locação do estabelecimento comercial. Existe um processo que acaba numa sentença judicial que tem que ser registada. isto é.A “massa falida” é inoponível. 1682º-A e 1682º-B) o consentimento conjugal. cuja verificação determina a insolvência.º1 e 3 do 1682º. nos 6 meses subsequentes à data em que o requerente teve conhecimento do acto. são anuláveis a requerimento do cônjuge que não deu o consentimento ou dos seus herdeiros (n. Estes podem ser: falta de cumprimento das obrigações. Antes da falência deve ser tentada a recuperação da empresa. fuga do titular. nos 1682º-A. que deve ser especial para cada acto.

pode já. 2. Fundamentos do levantamento da falência 1. no lugar do domicílio que o credor tiver ao tempo do cumprimento (774º). o falido pode vender bens da massa falida sendo estes negócios válidos. Assim sendo. c) a sucessão por morte abre-se no lugar do último domicílio do seu autor (2031º). É nomeado pelo juiz e “ajudado” pela comissão de credores. de compra e venda. contudo. pode haver impugnação. Assim: a) o foro geral. Valor dos actos praticados pelo falido Antes da declaração Os actos podem ser resolúveis em benefício da “massa falida”. o se o crédito for posterior ao acto do devedor.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL O falido pode trabalhar (aliás.Homologação do acordo extraordinário entre credor e devedor. quem os adquirir não os pode opor a terceiros. Em negócios. opô-los. 44 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados .Impossibilidade de satisfação do crédito ou o seu agravamento: o Há impugnação se resultar do acto a impossibilidade. se se verificar dolo no acto do devedor. 65. o tribunal competente para quaisquer acções. ou agravamento dessa impossibilidade.Domicílio O ordenamento jurídico dá relevância. Os seus actos não são inválidos. quem adquiriu os bens. para o credor. b. Esta situação está prevista no 610º e ss. por exemplo. A situação do falido não é incapacidade. Remissão da dívida.Má fé (612º) (no sentido subjectivo): o Se o acto for oneroso – só é impugnável se o devedor e o terceiro tiverem agido de má fé.Quitação (inexistência da dívida: a dívida foi paga) dos credores. o Se o acto for gratuito – a impugnação procede ainda que ambos estivessem de boa fé. os bens continuam a integrar a massa falida. É nomeado o liquidatário judicial para administrar.Decurso de 5 anos do trânsito em julgado. isto é. . Se o falido conseguir pagar a massa falida. b) a prestação debitória deve ser efectuada no lugar do domicílio do devedor (722º) e. Podem ser impugnados por “impugnação pauliana”. salvo disposição especial. não há impugnação pois o credor devia ter-se acautelado devido à situação do devedor. Repetição (devolução) do indevido. . como ponto de conexão entre a pessoa e um determinado lugar. Contudo.momento em que nasce o crédito: o se o crédito for anterior ao acto do devedor. de obter a satisfação integral do seu crédito. é o domicílio do réu. a. faz todo o sentido para poder encontrar meio para pagar dívidas). tratando-se apenas de uma ilegitimidade. e é uma tentativa de garantir os credores. 3. à noção de domicílio. em matéria de competência territorial dos tribunais. Requisitos para a impugnação pauliana: . para variados efeitos. no caso de obrigações pecuniárias. verifica-se a impugnação pauliana.

com o local onde a pessoa está a viver com alguma permanência. egoístico ou altruístico. verificando-se a produção. se tem duas ou mais residências habituais. Ao lado do domicílio voluntário geral. para todos os efeitos jurídicos. as fundações. por força da lei. um negócio jurídico. etc. por escrito. É o que ocorre com o domicílio legal dos menores e interditos (85º). se têm por domiciliadas em certo local. À categoria das pessoas colectivas pertencem o Estado. Não se confunde também com a residência. Na definição referiu-se organizações constituídas por uma colectividade de pessoas e organizações constituídas por uma massa de bens. para determinados negócios. que constituem centros autónomos de relações jurídicas – autónomos mesmo em relação aos seus membros ou às pessoas que actuam como seus órgãos. onde costume regressar após ausências mais curtas ou mais longas. em alguns casos. Há uma presunção de presença da pessoa no domicílio. porém. é. Há com efeito duas espécies fundamentais de pessoas colectivas: Corporações: têm um substrato integrado por um agrupamento de pessoas singulares que visam um interesse comum. mesmo que a pessoa em causa não os tivesse em mente ou até os quisesse impedir. estipulado. dos efeitos jurídicos respectivos. às quais a ordem jurídica atribui a personalidade jurídica. Domicílio profissional: verifica-se para as pessoas que exercem uma profissão e é relevante para as relações que a esta se referem. segundo o direito internacional privado. as associações recreativas ou culturais. Noção O conceito de domicílio voluntário geral é-nos fornecido pelo 82º e coincide com o lugar de residência habitual. a lei reconhece um domicílio profissional (83º) e um domicílio electivo (84º). no domicílio da pessoa que devem ser praticadas as diligências ou efectuadas as comunicações dirigidas a dar-lhe conhecimento pessoal de um facto. com o dos funcionários públicos (87º).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL d) o elemento de conexão decisivo para a determinação. o estabelecimento do domicílio. igualmente. isto é. as sociedades comerciais. Uma pessoa pode ter dois ou mais domicílios. não coincide com o paradeiro (225º). dirigidos à realização de interesses comuns ou colectivos. Trata-se de organizações integradas essencialmente por pessoas ou essencialmente por bens. os municípios.Conceito de pessoa colectiva. (III)PESSOAS COLECTIVAS 67. da lei aplicável a relações conexionadas com várias ordens jurídicas. o domicilio (32º). independente da vontade. mas um simples acto jurídico. O nosso direito conhece alguns casos de domicílio legal. Domicílio electivo: é um domicílio particular. e com o dos agentes diplomáticos portugueses (88º). bem como o seu termo. Função socioeconómica do instituto da personalidade colectiva As pessoas colectivas são organizações constituídas por uma colectividade de pessoas ou por uma massa de bens. os distritos. diferente do seu domicílio geral ou profissional. nos fornece o critério do domicilio do 82º. com o que se visa impedir escapatórias. Não se trata do local onde a pessoa se encontra em cada momento. isto é. É. localizando-se no lugar onde a profissão é exercida. Este acto voluntário não é. Essas pessoas ou associados Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 45 . as freguesias. Sem dúvida que a residência habitual onde a pessoa vive normalmente. As partes convencionam que. Em regra. resultam de um acto voluntário (de residir habitualmente num certo local ou de aí exercer uma profissão).

Não é legítima a exigência deste requisito em termos de a sua falte impedir forçosamente a constituição de uma pessoa colectiva. é o elemento de direito. rigorosamente. Elemento pessoal ou patrimonial O elemento pessoal verifica-se nas corporações. Torna-se necessário que o escopo visado pela pessoa colectiva satisfaça certos requisitos: 1. o fundador fica fora dela. integrado por vários subelementos. Pode existir a corporação. fazendo-a ser algo mais do que uma superestrutura pairando sobre o vácuo.Deve ser comum aos seus membros ou colectivo. Por que motivo se fala na existência de um elemento pessoal apenas das corporações e de um elemento patrimonial nas funções? Nas corporações só o elemento pessoal é relevante. É o conjunto de associados. de um escopo ou finalidade comum.Põe-se. 68. São corporações as associações desportivas.. o conjunto de dados anteriores à outorga da personalidade jurídica. 46 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . transformador de uma organização ou ente de facto num ente ou pessoa jurídica. por vezes. através da modificação dos estatutos ou de outras deliberações. através de actividades pessoais e meios materiais. É a colectividade de indivíduos que se agrupam para a realização. sem que lhe pertença um património. estabelecida no 994º. O elemento patrimonial intervém nas fundações. sem que os referidos serviços sejam susceptíveis de avaliação pecuniária. e não em renovadas manifestações. Elemento teleológico A pessoa colectiva deve prosseguir uma certa finalidade. É a sua vontade que regula a fundação. recreativas. Reconhecimento: elemento a que a lei se refere expressamente (158º). Noção O substrato é o conjunto de elementos da realidade extrajurídica. Substrato.Deve revestir os requisitos gerais do objecto de qualquer negócio jurídico (280º). só ele sendo um componente necessário do substrato da pessoa colectiva. basta pensar numa associação para a qual os associados concorrem apenas com serviços dirigidos à prossecução do fim comum. Substrato: é um elemento complexo. É o complexo de bens que o fundador afectou à consecução do fim fundacional (tal massa de bens designa-se habitualmente por dotação). Importa saber o vários subelementos em que o substrato se pode decompor. fora do substrato da fundação.g. é o elemento de facto. Dirigem-na de dentro. É a realidade que dá peso terreno à pessoa colectiva. Pode dizer-se que o reconhecimento é o elemento formal e o substrato o elemento material. as sociedades comerciais. mutualistas. Fundações: têm um substrato integrado por um conjunto de bens adstrito pelo fundador a um escopo ou interesse de natureza social. estando a actividade pessoal – necessária à prossecução do escopo fundacional – ao serviço da afectação patrimonial – estando subordinada a esta. elevado à qualidade de sujeito jurídico pelo reconhecimento. v. justamente o fim em causa determinante da formação da colectividade social ou da dotação funcional. Por sua vez nas fundações só o elemento patrimonial assume relevo no interior da pessoa colectiva. 2. a sorte da corporação.Elementos constitutivos das pessoas colectivas: o substrato e o reconhecimento Podemos legitimamente reconduzir a dois os seus elementos constitutivos: substrato e reconhecimento. etc.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL organizam a corporação. 3. que lhe dá existência no mundo exterior. em segundo plano ou até. Criada a fundação. mas tal como está fixada no acto de instituição e nos estatutos. na nulidade do chamado pacto leonino. culturais. dão-lhe existência e cabe-lhes disciplinar a sua vida e destino. tendo nas suas mãos. o problema de saber se o escopo das pessoas colectivas deve ser duradouro ou permanente. Manifesta-se a sua exigência quanto às sociedades. defende grande parte da doutrina.

Elementos constitutivos reconhecimento (cont. a pessoa colectiva é automaticamente constituída. ainda. Noção. os serventuários. designadamente de relações jurídicas estabelecidas com os associados. revestir duas formas: Reconhecimento normativo incondicionado: se a ordem jurídica atribuir personalidade jurídica de plano. os beneficiários ou terceiros.º1. verificados esses requisitos. distinta dos associados. Acresce-se que o número e características dos órgãos da pessoa colectiva e a designação dos indivíduos que os preenchem obedece aos estatutos e.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Elemento intencional Trata-se do intento de constituir uma nova pessoa jurídica («animus personificandi»). sem mais exigências a todo o substrato completo da pessoa colectiva (sistema de livre constituição das pessoas colectivas). isto é. isto é. personificará ou não o substrato. por uma organização destinada a introduzir na pluralidade de pessoas e de bens existente uma ordenação unificadora. Quanto às associações. a exigência de um reconhecimento individual por parte da autoridade pública para a aquisição da personalidade jurídica resulta expressamente do n. no silencio destes. à qualidade de sujeito de Direito. que devem acrescer aos elementos caracterizadores de um substrato e. Essa organização traduz-se num conjunto de preceitos disciplinadores das características e do funcionamento da pessoa colectiva (preceitos contidos nos estatutos ou no acto de constituição ou instituição) e na existência de órgãos. e quanto às fundações. O reconhecimento normativo pode. Como sujeito jurídico a pessoa colectiva torna-se titular de relações jurídicas. em Portugal. Ora nos negócios jurídicos os efeitos determinados pela ordem jurídica dependem da existência e do conteúdo duma vontade (intenção) correspondente. isto é. Verificado o reconhecimento. traduzido num acto individual e discricionário de uma autoridade pública que. A exigência deste elemento radica na circunstância de a constituição duma pessoa colectiva ter na origem um negócio jurídico: o acto de constituição nas associações (167º). Reconhecimento normativo condicionado: também esta modalidade de reconhecimento é de carácter global. surge uma nova pessoa jurídica: a pessoa colectiva.º2. do fundador ou dos beneficiários. o contrato de sociedade para as sociedades (980º) e o acto de instituição nas fundações (186º). caso por caso. de «centros institucionalizados de poderes funcionais a exercer pelo indivíduo ou pelo colégio de indivíduos que nele estiverem providos com o objectivo de exprimir a vontade juridicamente imputável a essa pessoa colectiva». Modalidades O reconhecimento é o elemento de direito. derivado automaticamente da lei e um reconhecimento individual ou por concessão. 69. A lei formula em geral a exigência de determinados pressupostos ou requisitos. os fundadores. Um tal sistema dificilmente existirá em qualquer direito positivo. derivado de uma norma jurídica dirigida a uma generalidade de casos e não de uma apreciação individual. o regime do reconhecimento normativo condicionado resulta do 158º n. Pode ter lugar um reconhecimento normativo. não existindo. desde logo. Elemento organizatório A pessoa colectiva é integrada. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 47 . Os órgãos da pessoa colectiva podem ser deliberativos ou executivos (representativos). perante cada caso concreto. sem necessidade de uma apreciação de oportunidade e conveniência por parte do Estado. redutor da dispersão e pluralidade do substrato à unidade. São possíveis várias modalidades de reconhecimento. igualmente.) da pessoa colectiva: substrato e O reconhecimento. isto é. Também esta modalidade de reconhecimento traduz um grau de liberdade e facilidade na constituição de pessoas colectivas superior ao reconhecimento por concessão. Entre nós o reconhecimento normativo condicionado vigora no domínio das sociedades comerciais e civis em forma comercial e das associações e o reconhecimento por concessão é exigido para as fundações (excepção). à lei.

É o que resulta do 108º código comercial. se dirijam à satisfação dum interesse dos próprios associadas ou do próprio fundador. não praticam actos de comércio. Mas não de uma finalidade lucrativa. Exemplo é a sociedade comercial que tem uma disciplina privativa no código comercial. Só podem ser constituídas para o exercício de certas actividades económicas. a sua actividade (natural) não se insere no código comercial. podem constituir-se sob forma comercial. o escopo visado interesse de modo egoístico aos próprios associados. pois não se cuida propriamente de obter lucros para repartir pelos associados. porque à comunidade social importa que tais interesses sejam satisfeitos. cultura física ou intelectual. As sociedades comerciais têm personalidade jurídica.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Pessoas colectivas de direito público e privado I . Os associados ou o fundador tomam a peito determinados interesses alheios. 48 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Têm por objecto o lucro. pretende-se a repartição de lucros. têm «por objecto praticar um ou mais actos de comércio». Resumindo. Pessoas colectivas de “mera utilidade pública”: este é um estatuto reconhecido pelo Estado após uma requisição do particular. a)Pessoas colectivas de fim desinteressado ou altruístico: nestas pessoas colectivas o interesse próprio que os associados ou o fundador querem satisfazer é um interesse de natureza altruística: o interesse de promover certos interesses de outras pessoas (beneficiários). Estas. II. aliás.Pessoas colectivas de direito privado e utilidade pública: são as que se propõem em escopo de interesse público. não têm personalidade jurídica. desporto. 2-Pessoas colectivas de fim económico não lucrativo: aqui a pessoas colectiva pretende conseguir certas vantagens patrimoniais para os seus associados: subsídios pecuniários no caso de invalidez. As sociedades comerciais são as que. Quando falamos de sociedade comercial: tipo contratual autónomo que tem que preencher determinados requisitos. Trata-se. Espécies ou tipos de sociedades A primeira distinção a estabelecer dentro das sociedades é entre sociedades civis e sociedades comerciais. excepto quanto à falência. mas é tal que ao mesmo tempo interessa à comunidade 1-Pessoas colectivas de fim ideal: o objectivo egoístico que uma pessoa colectiva se proponha pode consistir num interesse de natureza ideal (não económica): recreio. ainda que. E trata-se de pessoas colectivas de utilidade pública. São as que têm maior peso e existem em maior número. etc. pois. Quanto às sociedades civis têm indiscutivelmente personalidade jurídica as constituídas sob forma comercial pois é-lhes aplicável o referido artigo. de frutificação do que é posto em comum pelos sócios. b)Pessoas colectivas de fim interessado ou egoístico: nestas pessoas colectivas. etc. destina-se a pessoas colectivas que prosseguem objectos importantes para determinada população mas em conjunto com a administração central. nomeadamente. O regime geral está fixado no Decreto-Lei 460/77. a mais das notas genéricas do 980º. empréstimos. ficando sujeitas às disposições do código comercial. a responsabilidade dos sócios é pessoal e solidária [porque não têm personalidade jurídica] (sociedades em nome colectivo). segundo algum dos 4 tipos de sociedades comerciais conhecidas pela nossa lei. As sociedades a que falte esta diferença específica são sociedades civis. têm capacidade testamentária passiva (2033º) e capacidade judiciária (2936º). concorrentemente. instrução.Pessoas colectivas de direito privado e utilidade particular: a finalidade própria destas pessoas colectivas é de mero interesse particular. que serão sempre – pode dizer-se – de tipo corporativo. de uma finalidade económica.

: conselho fiscal). Aplica-se subsidiariamente o código comercial. b) Sociedades anónimas – os sócios estão isentos de responsabilidade pessoal pelas dívidas da sociedade e os credores sociais só se podem pagar pelos bens sociais. A sua constituição dá-se mediante a verificação de princípios cooperativos com por exemplo o princípio da porta aberta. c) Sociedades em comandita – são uma combinação entre os tipos anteriores. DR). Podem exercer actividades económicas. O seu regime está presente no código cooperativo. cada sócio responde. as suas decisões são anuláveis e o 182º fala acerca da sua extinção (da associação). Associações Emerge de negócio bilateral ou plurilateral. Segundo o 168º. Se algum aspecto for omisso. solidária e ilimitada dos sócios perante os credores sociais. isto é. um negócio jurídico unilateral. O 167º diz o que a escritura deve conter para respeitar a forma legal. os estatutos da associação estão a sujeitos a publicidade (série III. culturais. a partir do requerimento do reconhecimento. Se falta a publicidade. isto é. Cooperativas Antigamente eram uma subespécie de sociedades. executivos (ex.: órgão de administração).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Tipos legais de sociedades a) Sociedades em nome colectivo – caracterizam-se pela responsabilidade pessoal. pelo montante das acções respectivas. O reconhecimento da fundação é requerido pelo fundador ou pelos herdeiros e. Fundações Derivam de uma só pessoa. d) Sociedades por quotas – os sócios também não respondem. as cooperativas não eram bem cooperativas. Segundo o 177º. etc.: assembleia geral). A instituição é um acto irrevogável pelos herdeiros do fundador. No antigo regime. pelas prestações devidas à sociedade por algum ou alguns dos outros associados por força da não realização integral das suas quotas. pelas dividas da sociedade. esta traduz-se numa inoponibilidade a terceiros. e ainda. respondem para com a sociedade pela realização da sua quota. não visam o lucro. mesmo que os outros sócios estejam em dívida para com a sociedade. tal como nas anónimas. A sua constituição tem que ser por escritura pública sob pena de nulidade. nada mais tendo a satisfazer. solidariamente com os demais. sociais. a associação não adquire personalidade jurídica. Os limites à vontade do instituidor e ao fim da fundação estão previstos no 189º. Neste caso há uma dotação que é afecta á prossecução de determinado fim. A associação tem órgãos deliberativos (ex. 185º) ou testamento (a fundação apresenta-se tal qual está prevista no testamento). pela parte que lhes cabe do capital social. sendo portanto. de fiscalização (ex. Também aqui só há produção de efeitos se for publicitada (185º n. pelo capital que subscreveu. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 49 . a fundação é irrevogável.º5). bem como o modo de funcionamento da fundação. O seu capital é variável bem como a sua composição (princípio da porta aberta). Cabe ao instituidor dizer quais os bens afectos. Não são sociedades. o capital social está dividido em fracções a cada uma das quais corresponde uma acção. para com a sociedade. pois intervêm nelas sócios que assumem responsabilidade ilimitada como os sócios das sociedades em nome colectivo (Comanditados) e sócios que só arriscam o valor das suas entradas como os accionistas das sociedades anónimas (comanditários). A sua instituição é feita por: acto entre vivos (escritura pública.

assim. Sem reconhecimento. então deve rejeitar-se a tese da capacidade para o exercício de direitos das pessoas colectivas. o fim da pessoa colectiva determina a sua capacidade. A lei fala indiferentemente em órgãos (162º) e em representantes (163º. a administração já actua de forma vinculada. mesmo sem culpa.interesse social da fundação. o reconhecimento é individual e verificam-se dois pressupostos: . Neste caso. A aquisição de personalidade/capacidade jurídica está presente no 160º havendo relação com o 158º. o que fazer com os bens (em caso de testamento)? Os bens devem ser entregues a uma colectividade que prossiga fins análogos ao da fundação.capacidade de gozo. então pode aceitar-se terem as pessoas colectivas capacidade para o exercício de direitos. se se concluir pela representação. mas apenas através de determinadas pessoas singulares (assembleia geral. com fundamento no risco: se beneficia duma actividade alheia – a do comissário – deve suportar os riscos respectivos. Neste caso. Há limitações relativamente à capacidade das pessoas singulares. Trata-se dum problema de natureza conceitual. ou de mera representação? Se se concluir pela organicidade. cujos actos projectarão a sua eficácia na esfera jurídica do ente colectivo. também. sem necessidade de se ser representado ou assistido por outrem. gerentes. 165º). Ora as pessoas colectivas carecem de um organismo físico-psíquico.. pois a relação entre um órgão e o ente em que se integra. responsabilidade civil extracontratual dos representados pelos actos dos seus representantes. A resposta à pergunta “órgãos ou representantes?” infere-se da solução dada pela lei e um concreto problema de regulamentação: o problema da responsabilidade civil extracontratual das pessoas colectivas. independentemente de culpa. é de verdadeira identificação e. A fundação é extinta segundo o 192º por: disposição da lei. Logo as pessoas colectivas. a das pessoas colectivas é mais reduzida pois apenas se lhes aplicam os direitos necessários e convenientes. conselho de administração. administradoresdelegados. pois há autonomia entre as personalidades jurídicas do representante e do representado. 76.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Segundo o 191º. No segundo caso. estariam necessariamente privadas daquela capacidade. não há fundação. Quanto ao primeiro. “Princípio da especialidade do fim” – norteia a medida da capacidade das pessoas colectivas. todavia.”). agindo o órgão é a própria pessoa que age. não tomando estes termos no sentido rigoroso em que ficaram definidos.º2). directores. . só podendo agir por intermédio de certas pessoas físicas.Capacidade para o exercício de direitos das pessoas colectivas. etc. 50 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Só num caso bem delimitado a lei impõe essa responsabilidade no âmbito da representação voluntária: é a hipótese do 500º (“aquele que encarrega outrem de qualquer comissão responde. Este tipo de responsabilidade só pode resultar dum comportamento (acção ou omissão) próprio. Quanto à representação voluntária.suficiência dos bens (188º n. Nesta hipótese uma pessoa (o comitente) responde. bem podendo vir a chegar-se à conclusão oposta. em princípio. pelos danos que o comissário causar. Tudo depende da natureza do vínculo entre a pessoa colectiva e aquelas pessoas físicas que procedem em seu nome e no seu interesse: será um nexo de verdadeira organicidade. não podendo agir elas mesmas. verifica-se um juízo discricionário para o seu apuramento. em princípio. ou por autoridade pública. isenta de contestação possível. A capacidade para o exercício de direitos ou capacidade de agir consiste na aptidão para por em movimento a capacidade jurídica por actividade própria. não há responsabilidade do representado pelos actos ilícitos extracontratuais do seu procurador. a vontade do instituidor pode ser afastada se houver prejuízo sobre o património da fundação. Na verdade resulta da lei não haver..). Esta proposição negatória da capacidade de agir das pessoas colectivas não está. 160º .

Só então se poderá dizer que foi encarregado de uma comissão. portanto. tal situação nenhuma analogia apresenta com a ligação entre a pessoa colectiva e os seus «representantes».Responsabilidade civil das pessoas colectivas Responsabilidade contratual Seria uma situação de favor. Tal restrição já constava da legislação anterior (34º do código civil: não podiam ser sujeitos de relações estranhas «aos interesses legítimos do seu instituto«). com o reverso desfavorável para a própria pessoa colectiva de. ser titulares dos chamados direitos de personalidade (pelo menos de alguns): direito ao nome (72º).estão exceptuadas do âmbito da capacidade jurídica das pessoas colectivas as relações jurídicas vedadas por lei ou que sejam inseparáveis da personalidade singular. É o chamado princípio da «especialidade do fim». Logo as pessoas físicas que agem em seu nome e no seu interesse são ou integram verdadeiros órgãos e portanto as pessoas colectivas têm capacidade para o exercício de direitos. Ora no 165º estatui-se a responsabilidade civil dos entes colectivos. por assim o justificar a analogia das situações (175º). nos termos do 500º. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 51 . Essas limitações constam do 160º e são as seguintes: 1ª . legal ou voluntária. etc. Ora tal qualificação só lhe pode caber quando estiver numa relação de dependência em face do representado – quando estiver submetido a um poder de direcção. Constata-se.Capacidade jurídica (capacidade de gozo de direitos) das pessoas colectivas A capacidade jurídica das pessoas colectivas é um «status» inerente à sua existência como pessoas jurídicas (67º). apenas. uma capacidade igual para todas. que o instituto da representação. às fundações e também às sociedades. estarem fora da capacidade jurídica das pessoas colectivas os direitos e obrigações que não sejam necessários ou convenientes à prossecução dos seus fins. também. Não é.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL A situação prevista no 500º abrange. As pessoas colectivas de fim desinteressado ou egoístico ideal não estão de todo incapacitadas para praticar actos de natureza lucrativa. todavia. nem. «a contrario» do 160º n. 2ª . salvo no caso particular do 500º. Devem portanto responder pelos factos dos seus órgãos. mas são eles próprios formuladores da vontade da pessoa colectiva. Assim resulta claramente do 165º («as pessoas colectivas respondem civilmente»: esta expressão abrange quer a responsabilidade contratual. A lei refere-se-lhe expressamente para o efeito de a limitar. enquanto a das pessoas singulares é de carácter geral. quer a extracontratual). os titulares de toda a iniciativa e não meros comitidos. aplicável às associações.º1.resulta. 77. um sector caracterizado da representação voluntária: os casos em que o procurador pode ser considerado um comissário nos termos e para os efeitos do mesmo artigo. em ordem a obter recursos para a prossecução dos seus fins. igual à capacidade de que desfrutam as pessoas singulares. não importa qualquer responsabilidade dos representados pelos actos ilícitos extracontratuais dos seus representantes. dificilmente. Sendo assim. A personalidade colectiva é um mecanismo aparelhado pela ordem jurídica para mais fácil e eficaz realização de certos interesses (os correspondentes aos fins estatutários). pois estes – pelo menos o órgão mais qualificado – não são encarregados de uma comissão. encontrar quem com ela transaccionasse a crédito. As pessoas colectivas podem. que prevê uma hipótese sem analogia com a situação das pessoas colectivas. 78. a uma autoridade deste. É uma capacidade jurídica específica. agentes ou mandatários que produzam o inadimplemento de uma obrigação em sentido técnico. muito menos. a exclusão dessa forma de responsabilidade. injustificável.

Objecto da relação jurídica. A solução afirmativa do problema da responsabilidade extracontratual está expressamente consagrada no 165º para os actos praticados por órgãos (representantes). Nestes termos. agentes ou mandatários. podendo exigir-lhe o reembolso de tudo quanto haja pago. 2)Que o acto danoso haja sido praticado pelo órgão. Responsabilidade extracontratual A responsabilidade extracontratual das pessoas colectivas é a melhor solução «de jure condendo». 3)Ao lado da pessoa colectiva fica igualmente adstrito à obrigação de indemnizar o órgão. prestação. na hipótese de responsabilidade contratual. à supremacia do titular activo da relação jurídica e é o objecto desta. que constitui o ponto de incidência do direito. agente ou mandatário (500º n. se devem verificar os pressupostos seguintes: 1)Que sobre o órgão. se se considerar que a remissão é feita para o 500º. O 165º remete para a responsabilidade dos comitentes por actos dos seus comitidos. Tal responsabilidade – na hipótese da responsabilidade aquiliana – consta do 500º. ser exercitados sobre um determinado «quid». Objecto e conteúdo Fala-se de objecto da relação jurídica para referir o objecto do direito subjectivo que constitui o lado activo da mesma relação. não se tornando necessário mais nenhum requisito. sobre um objecto (coisa corpórea ou incorpórea. agente ou mandatário. O 165º estatui que as pessoas colectivas respondem nos mesmos termos em que os comitentes respondem pelos actos ou omissões dos seus comissários. Ao alargamento das potencialidades do sujeito na satisfação dos seus interesses próprios deve corresponder a responsabilidade pelos danos causados por esse alargamento («ubi commoda. outro direito). agente ou mandatário recaia igualmente a obrigação de indemnizar (500º n. A satisfação do interesse. o ente colectivo responde para com o credor. exige a subordinação de um bem ao poder do titular do direito.º1). pessoa. está enunciado no 798º. Conceito. Este poder. 52 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Esse poder e essas faculdades incidem sobre determinado ente (coisa ou pessoa). Aliás. e as faculdades que o integram. O objecto de uma relação jurídica é precisamente o «quid» sobre que incidem os poderes do seu titular activo. estabelecendo-se no 799º uma presunção refutável de culpa na caso de não cumprimento defeituoso. agente ou mandatário no exercício da função que lhe foi confiada. quase sempre. podem. conferem a possibilidade de exercer uma soberania ou domínio sobre um bem. Esse bem. O direito subjectivo traduz-se num poder atribuído a uma pessoa. corpóreo ou incorpóreo. desde que o inadimplemento tenha sido culposo e dele resultem danos. está submetido aos poderes. Resulta desta disposição que. É o que resulta do 800º para o qual se deve considerar como feita remissão do 165º.º1). desde que tenha havido culpa deste no plano das relações internas. isto é. o regime é o mesmo em virtude de o inadimplemento da obrigação se dever sempre considerar como tendo ocorrido «no exercício da função que lhe foi confiada». verificar-se a culpa dos órgãos ou agentes da pessoa colectiva pelo inadimplemento da obrigação. por força do princípio de justiça segundo o qual quem emprega determinadas pessoas para vantagem própria deve suportar os riscos da sua actividade. em que se prescinde da culpa do responsável. Deve. integrado nas disposições relativas à responsabilidade pelo risco (responsabilidade objectiva). o que não nos parece exacto. 4)A pessoa colectiva que tiver satisfeito a indemnização ao lesado tem direito de regresso contra o órgão. ibi incommoda»). portanto. para a pessoa colectiva responder. (II)TEORIA GERAL DO OBJECTO DA RELAÇÃO JURÍDICA 80. Daí resulta ser necessário para o surgimento da obrigação de indemnizar que tenha havido culpa do devedor no não cumprimento.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL O princípio geral do nosso código em matéria de responsabilidade contratual. que corresponde ao aspecto funcional do direito. incluindo um determinado modo de ser da própria pessoa.

isto é. está submetido àqueles poderes. pois. dispor). Entre o credor (ou o seu direito) e a coisa intromete-se a pessoa do devedor. o credor só tem direito à coisa através da prestação do devedor. na verdade. o usufrutuário.) e negativamente (imposição de um dever geral de abstenção a todos os outros). mediante uma identificação com o bem sobre que incidem os poderes do titular actual. 81. colhendo directamente dele as respectivas utilidades. Nelas o objecto imediato do direito do credor é o comportamento do próprio devedor. A distinção verifica-se nas obrigações (direitos de crédito) de prestação de coisa certa e determinada. modificação ou constituição de relações jurídicas). o acto de entrega da coisa. quer os que inquestionavelmente o são. 82. das relações jurídicas. Definido. puramente pensado. fruir. Actuam com carácter conformador sobre o mundo. puramente filosófico. A distinção exprime a diversidade entre aquilo que directamente está submetido aos poderes ideais que integram um direito subjectivo e aquilo que só de uma forma mediata ou indirecta. Objecto: é aquilo sobre que recaem os poderes do titular do direito. contudo. sob a tutela do ordenamento jurídico que actua positivamente (atribuição de poderes ao proprietário. pois não são direitos subjectivos do tipo comum. pois as coisas. etc. Exemplos desta figura são os direitos integrados nos institutos de poder paternal e do poder tutelar. a prestação. O proprietário. o objecto das relações jurídicas. todo o ente. não esgotam contudo a extensão do conceito de objecto jurídico. isto é. mas antes poderesdeveres ou poderes funcionais. Conteúdo: é o conjunto dos poderes ou faculdades que o direito subjectivo comporta. ao contrário do titular dos direitos reais.Objecto imediato e objecto mediato Pode distinguir-se entre objecto mediato e imediato dos direitos subjectivos.Possíveis objectos de relações jurídicas O 202º estabelece equivalência entre o conceito de coisa e o de objecto de relações jurídicas e enuncia o artigo seguinte várias classificações das coisas. estão em contacto directo com o objecto do seu direito. de coisa. têm um conteúdo especial. O objecto mediato é a própria coisa que deve ser entregue ao credor. todo o bem sobre que podem recair direitos subjectivos). São direitos a uma modificação jurídica (extinção. Quis-se certamente restringir o conceito de coisa àquilo que pode ser objecto de direitos. sendo é certo a espécie mais corrente de objectos de relações jurídicas. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 53 . através de um elemento mediador. Nas obrigações de prestação de facto (ex. afastando um conceito amplo. Facilmente se distinguem. nos sistemas jurídicos modernos. quer os que suscitam dúvidas. 1)Pessoas: Estes direitos sobre outras pessoas. ao usufrutuário. assim. Cremos. assim. Na verdade o exercício destes direitos não se traduz na incidência de quaisquer poderes ou de qualquer domínio sobre um bem submetido a essa supremacia. 2)Prestações: Nos direitos de crédito o objecto é uma conduta ou acto humano: a prestação. etc.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Objecto de relações jurídicas (objecto de direitos subjectivos é. parece dever concluir-se que os direitos potestativos não têm objecto. Nos direitos reais não há intermediário entre o titular do direito e a coisa. Objecto do direito de propriedade são os poderes conferidos pelo ordenamento jurídico ao proprietário (poderes de usar. Vejamos de per si cada um dos possíveis objectos de relações jurídicas.: A obrigase para com o empresário B a dar um recital de piano) já a distinção entre objecto imediato e objecto mediato se apresenta evanescente. todo o «quid». as noções de objecto de um direito e de conteúdo do mesmo direito. A distinção nem sempre se verifica. que aquela equivalência não é inteiramente rigorosa..

Em consequência dessa aplicação do espírito humano surgem obras artísticas. referidas no 829º a). objecto dos direitos de autor ou de propriedade industrial. intelectuais. a esse respeito. alguns deles estão intimamente ligados à personalidade do seu autor. é um problema de construção dogmática. devem ser apropriáveis. isto é. carecidas de personalidade jurídica (coisas materiais). podem integrar-se no conceito de coisas. 3)Coisas materiais ou corpóreas: Nenhuma dúvida se pode suscitar acerca da possibilidade de realidades físicas. Acresce não se divisar um qualquer valor operacional ou prático na inclusão de uma definição deste tipo num código. ainda que não tenha existência real e presente. possibilidade de sujeição jurídica ao poder exclusivo de um ou alguns homens. São coisas incorpóreas. invenções industriais. necessário que estes objectos corpóreos revistam certos requisitos: existência autónoma. de importância limitada no quadro dos fins da ciência do Direito. pelo menos. desprovidos de personalidade e não integradores do conteúdo necessário desta. Compreende-se assim que o direito reconheça esses bens e tutele os aspectos patrimonial e pessoal apontados. Quanto aos bens imateriais. revestindo a noção explicitada no 202º um significado puramente expositivo. objecto de certas figuras de direitos sobre direitos. mas um comportamento do devedor (uma actividade nas obrigações de prestação de coisa ou de prestação de facto positivo.Noção jurídica de coisa Num sentido corrente e amplo coisa é tudo o que pode ser pensado. É. Para além do seu valor patrimonial. há que considerar o 202º.. e. nas prestações. nos modos de ser ou bens da própria personalidade. produtos do engenho. 6)A própria pessoa (certas manifestações ou modos de ser físicos ou morais da pessoa): Alguns autores contestam veemente a legitimidade da figura dos direitos sobre a própria pessoa. se deve falar em direitos sobre certos modos de ser da pessoa ou antes em posições jurídicas fundamentais do homem. Num sentido físico coisa é tudo o que tem existência corpórea ou. Quanto ao sentido jurídico de coisa. da inteligência ou da sensibilidade humanas. susceptíveis de constituírem objecto de relações jurídicas. 5)Direitos subjectivos: Pode pôr-se o problema de saber se um direito subjectivo pode constituir objecto de outro direito subjectivo. Saber se. isto é. onde se contém a seguinte definição: «Diz-se coisa tudo aquilo que pode ser objecto de relações jurídicas». portanto. como dissemos. Com efeito há entes susceptíveis de serem objecto de relações jurídicas que não são coisas em sentido jurídico. nesse plano. idoneidade para satisfazer interesses humanos. Pensemos nas pessoas. serem objecto de direitos subjectivos. Estes bens têm valor patrimonial autónomo. devem ser úteis. embora tenham um regime especial relativamente ao regime geral das coisas e não estejam previstas nas várias classificações das coisas enumeradas no 203º. e aos direitos. incorrecto. literárias. fundamentalmente teórico. Exemplos: penhor de direitos. Conjugando todas estas ideias podemos definir as coisas em sentido jurídico como «os bens (ou os entes) de carácter estático. cientificas. 54 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . contudo. etc. pois podem ser explorados economicamente. uma abstenção nas obrigações de prestação de facto negativo. usufruto de direitos de crédito. 4)Coisas incorpóreas ou bens imateriais: A actividade espiritual do homem pode ser exercida no sentido da criação de obras. pois ela está reflectida na obra criada. Não pode considerar-se rigorosa tal definição. que são o pressuposto de todos os direitos. (II)As coisas e o património 83.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Nestes direitos o objecto não é rigorosamente uma coisa (res). é susceptível de ser captado pelos sentidos. de tipo manualístico e. etc.

. sem prejuízo da sua substância). como os animais bravios ou os peixes não apropriados. ou os que. senão mesmo necessariamente. Para esse efeito devem apresentar as seguintes características: a)Existência autónoma ou separada (uma casa é uma coisa. um grão de areia. úteis (não são indispensáveis mas mantêm o valor da coisa). Os segundos são estranhos a qualquer processo volitivo – ou porque resultam de causas de ordem natural ou porque a sua eventual voluntariedade não tem relevância jurídica. voluptuárias (destina-se ao recreio). O código civil define no 204º e seguintes as coisas imóveis e móveis. carecidos de personalidade. as estrelas. Os primeiros resultam da vontade como elemento juridicamente relevante. isto é. Dá também o conceito de frutos (212º: tudo o que a coisa produz periodicamente. na produção de efeitos jurídicos. enquanto absorvida ou incluída no todo). a luz solar. b)Que se trate de bens permutáveis. como por exemplo e por enquanto. não sendo todavia cada uma das pedras ou das paredes que a integram. a camada atmosférica. basta.) Inversamente não é necessário: a)Que se trate de bens de natureza corpórea (a energia eléctrica é uma coisa como o são os objectos dos direitos de autor e da propriedade industrial).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Os bens de carácter estático. O mesmo artigo considera e define três modalidades de benfeitorias: necessárias (indispensáveis para manter a coisa).Noção de facto jurídico Facto jurídico é todo o acto humano ou acontecimento natural juridicamente relevante. como por exemplo. principalmente. c)Aptidão para satisfazer interesses ou necessidades humanas (o homem é a medida e o critério do relevo jurídico das coisas. os planetas. etc. Esta relevância jurídica traduz-se. por isso não são coisas.Classificação dos factos jurídicos A primeira grande classificação dos factos jurídicos é a que se pode estabelecer entre factos voluntários ou actos jurídicos e factos jurídicos involuntários ou naturais. são necessariamente aproveitados por todos os homens. com valor de troca (pode tratar-se de bens com valor meramente pessoal). Definem-se igualmente as benfeitorias (216º: despesas feitas para conservar ou melhorar a coisa). c)Que se trate de bens efectivamente apropriados (pode tratar-se das «res nullius». as coisas divisíveis. as coisas fungíveis. noção igualmente importante dada a sua aplicação no regime da posse. etc. 88. as coisas simples e compostas. as coisas principais e as coisas acessórias ou pertenças. b)Possibilidade de apropriação exclusiva por alguém (não são coisas os bens que escapam ao domínio do homem. etc. de qualquer homem. as coisas consumíveis. mas não já ao possuidor de má fé). do arrendamento. por falta de possibilidade de delimitação ou captura. as coisas futuras. são manifestação ou actuação de uma vontade. ou de coisas abandonadas. uma gota de agua. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 55 . portanto. etc. pois para nada servem. só são coisas em sentido jurídico quando puderem ser objecto de relações jurídicas. noção muito importante dada a sua aplicação no regime do usufruto e da posse (os frutos da coisa cabem ao possuidor da boa fé. são acções humanas tratadas pelo direito enquanto manifestações de vontade. (III)TEORIA GERAL DO FACTO JURÍDICO (1)Dos factos jurídicos em geral (I)Conceitos e Classificações 87. que sejam bens apropriáveis).

dirigidas à realização de certos efeitos práticos. exteriormente observado. etc. Os negócios jurídicos são factos voluntários. O que é verdadeiramente constitutivo do negócio é o comportamento declarativo – a existência de um comportamento que. Os efeitos dos simples actos jurídicos ou actos jurídicos «stricto sensu» produzem-se «ex lege» e não «ex voluntate». apesar disso nem sempre os efeitos jurídicos respectivos são produzidos por terem sido queridos e na medida em que o foram. A importância do negócio jurídico manifesta-se na circunstância de esta figura ser um meio de auto-ordenação das relações jurídicas de cada sujeito de direito. tal como este é objectivamente (de fora) apercebido. da notificação da cessão de créditos. Os actos reais ou operações jurídicas: traduzem-se na efectivação ou realização de um resultado material ou factual a que a lei liga determinados efeitos jurídicos. importam uma sanção para o seu autor (infractor de uma norma jurídica). cujo núcleo essencial é integrado por uma ou mais declarações de vontade a que o ordenamento jurídicos atribui efeitos jurídicos concordantes com o conteúdo da vontade das partes. da especificação. Estamos perante o instrumento principal de realização do princípio da autonomia da vontade ou autonomia privada. É o que sucede com o testamento e com os contratos. da descoberta de um tesouro. É o caso da acessão (uma coisa de uma pessoa une-se a uma coisa de outra pessoa) industrial (resultado de acção humana) ou natural (derivada de causa naturais). segundo outra classificação de carácter fundamental. necessária uma vontade de produção dos efeitos correspondentes ao tipo de simples acto jurídico em causa para essa eficácia se desencadear.Conceito e importância do negócio jurídico Os negócios jurídicos são actos jurídicos constituídos por uma ou mais declarações de vontade. todavia. (II)DO NEGÓCIO JURÍDICO E DO SIMPLES ACTO JURÍDICO (1)Conceito. Os efeitos dos negócios jurídicos produzem-se «ex voluntate» e não apenas «ex lege». determinando o ordenamento jurídico a produção dos efeitos jurídicos conformes à intenção manifestada pelo declarante ou declarantes.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Os factos jurídicos voluntários podem ser lícitos ou ilícitos. Os actos lícitos são conformes à ordem jurídica e por ela consentidos. mesmo que não tenham sido previstos ou queridos pelos seus autores. etc. embora muitas vezes haja concordância entre a vontade destes e os referidos efeitos. Não é. da ocupação de animais ou coisas móveis. com intenção de os alcançar sob tutela do direito. Dentro dos simples actos jurídicos é usual fazer-se uma distinção entre: Os quase-negócios jurídicos: traduzem-se na manifestação exterior de uma vontade. Os actos ilícitos são contrários à ordem jurídica e por ela reprovados. apareça como manifestação de uma vontade de certos efeitos práticos sob a sanção do ordenamento jurídico. Os simples actos jurídicos são factos voluntários cujos efeitos se produzem. É o caso da interpelação do devedor. A distinção entre negócios jurídicos e simples actos jurídicos assenta precisamente neste critério da relação que intercede entre a vontade ou volição das partes dirigida a um resultado e os efeitos jurídicos produzidos. Estamos no domínio dos factos voluntários. 56 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . elementos e classificações (I)Conceito e elementos 94. da gestão de negócios. Os factos voluntários ou actos jurídicos podem. distinguir-se em negócios jurídicos e simples actos jurídicos ou actos jurídicos «stricto sensu».

é a parte interessada em demonstrar a existência do negócio jurídico que tem o ónus da prova respectivo. Os autores dos negócios jurídicos visam certos resultados práticos ou materiais e querem realizá-los por via jurídica. também uma vontade de efeitos jurídicos. não é menos verdade que elas só deixam de se aplicar quando uma vontade real contrária for manifestada. tais como a lei os determina. igualmente. modificar ou extinguir um vinculo jurídico (ex. As partes manifestam apenas uma vontade de efeitos práticos ou empíricos. a ser esta doutrina correcta. Pode surgir a dúvida sobre se numa dada hipótese existe um negócio de pura obsequiosidade ou um negócio jurídico – ou antes sobre se existe um «agreement» ou um negócio jurídico. Ora. etc. Estes são promessas ou combinações da vida social. Se a dúvida for do segundo tipo. não é única nem é a decisiva – decisivo para existir um negócio é a vontade de os efeitos práticos queridos serem juridicamente vinculativos. moral. só os juristas completamente informados sobre o ordenamento podiam celebrar negócios jurídicos. Se a dúvida for do primeiro. A falta de vontade de efeitos jurídicos distingue. os negócios jurídicos do chamados gentlemen’s agreements. são perfeita e completamente correspondentes ao conteúdo da vontade das partes. mas que. Tal como define o negócio jurídico este não se distingue dos compromissos ou convenções celebradas sob o império de outros ordenamentos normativos (cortesia.Relação entre a vontade exteriorizada na declaração negocial e os efeitos jurídicos do negócio. Também esta concepção é inaceitável. o que sucede é que as partes dos vários negócios não têm uma representação completa e exacta de todos os efeitos que o ordenamento jurídico atribui às suas declarações de vontade. Têm. A vontade dirigida a efeitos práticos. praxes sociais.). não bastando provar-se que as partes não pensaram no ponto ou até provavelmente não teriam querido aquele regime. faria a lei corresponder efeitos jurídicos concordantes. Há uma «intenção dirigida a um determinado efeito económico juridicamente garantido». se é certo que algumas normas supletivas consagram cláusulas usuais ou de estilo do comércio jurídico. a vontade de se gerarem efeitos jurídicos nomeadamente deveres jurídicos. Aliás. é a parte interessada em demonstrar a inexistência da intenção negocial que tem o onus probandi. Teoria dos efeitos prático-jurídicos É o ponto de vista correcto. para um jantar). correspondentes aos efeitos práticos. Os próprios efeitos derivados de normas supletivas resultariam da tácita vontade das partes. A estes efeitos práticos ou empíricos manifestados. pois. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 57 . É o caso de um empréstimo de honra ou de uma disposição de bens para depois da morte.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 95. Por outro lado. Teoria dos efeitos práticos Para esta doutrina a teoria dos efeitos jurídicos não é realista – está longe da realidade. Por falta de intenção de efeitos jurídicos nestes termos. estão desprovidas de intenção de efeitos jurídicos. distinguem-se os negócios jurídicos dos chamados negócios de pura obsequiosidade. em que o disponente confia pura e simplesmente na honorabilidade dos herdeiros a quem cumpre executar a disposição. Este ponto de vista não fornece o correcto diagnóstico ou o correcto critério para a determinação da relação que intercede no negócio jurídico entre a vontade dos seus autores e os efeitos jurídicos respectivos. às quais é estranho o intuito de criar. Haveria uma vontade das partes dirigida à produção de determinados e precisos efeitos jurídicos. Simplesmente não se trata de uma representação completa dos efeitos jurídicos correspondentes àquela vontade de efeitos práticos – esses efeitos jurídicos completos serão determinados pela lei. Estas convenções são combinações sobre a matéria que é normalmente objecto de negócios jurídicos.: o convite para um passeio. normalmente económicos. Teoria dos efeitos jurídicos Para esta doutrina os efeitos jurídicos produzidos. excepcionalmente. sem carácter ilícito.

TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 96. mas convergente. todavia. renúncia a certos direitos. (II)Classificações dos negócios jurídicos 97. de conteúdo oposto. sendo estas a estipulação que caracteriza um determinado negócio jurídico. sem ser necessário comunicá-la a quem quer que seja. quando a sua falta implique invalidade e não apenas ineficácia). Elementos naturais São os efeitos negociais.Elementos dos negócios jurídicos Elementos essenciais Sendo o negócio jurídico um acto que só desempenha a sua função na medida em que for válido. 1030º (locação). Acerca dos negócios unilaterais importa focar as seguintes notas ou características do regime dos negócios unilaterais: 1) é desnecessária a aceitação do adversário. e consequentemente de efeitos correspondentes a elementos naturais dos respectivos tipos de negócio jurídico. derivados de disposições legais supletivas. os artigos 964º (doação). etc. a declaração de vontade sem anomalias e a idoneidade do objecto. 885º (compra e venda). Trata-se das estipulações que não caracterizam o tipo negocial em abstracto. nos primeiros a declaração só é eficaz. Existem também as condições especiais de validade. O critério classificativo é o do número e modo de articulação das declarações integradoras do negócio. etc. É o caso paradigmático da compra e venda. mas se tornam imprescindíveis para que o negócio concreto produza os efeitos a que elas tendem. ser excluídos por estipulação antecipadamente formulada. 3) uma importante distinção neste domínio é a que se deve estabelecer entre negócios unilaterais receptícios e negócios unilaterais não receptícios.Negócios jurídicos unilaterais e contratos ou negócio jurídicos bilaterais O código civil contém uma regulamentação geral do negócio jurídico. da cláusula condicional. Não é necessário que as partes configurem qualquer cláusula para a produção destes efeitos. Elementos acidentais São as cláusulas acessórias dos negócios jurídicos. ajustando-se na sua comum pretensão de produzir resultado jurídico unitário. da estipulação de lugar e tempo para o cumprimento da obrigação. embora com um significado para cada parte. Nos negócios unilaterais há uma só declaração de vontade ou várias declarações. mas paralelas. que se conciliam num consenso. enquanto nos segundos basta a emissão da declaração. se for e quando for dirigida e levada ao conhecimento de certa pessoa. podendo. Nos contratos ou negócios bilaterais há duas ou mais declarações de vontade. submetendo os efeitos do negócio a um evento futuro e incerto. São eles a capacidade das partes (e a legitimidade. não vemos razão para afastar a sistematização tradicional que considera elementos essenciais de todo e qualquer negócio jurídico os requisitos ou condições gerais de validade de qualquer negócio. 2) vigora o princípio da tipicidade. abrangendo assim as duas modalidades. 58 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Há assim uma oferta ou proposta e a aceitação. etc. Alguns exemplos de negócios unilaterais: testamento. São exemplos de normas supletivas. formando um só grupo. É o caso das cláusulas de juros.

apenas admitindo nalguns casos particulares (2028º). por exemplo. por qualquer meio (telegrama. feita pelo outro esposado ou por terceiro (1700 n. Várias doutrinas abordam a questão: a) Doutrina da aceitação: o contrato está perfeito quando o destinatário da proposta declarou aceitar a oferta que lhe foi feita. b) Doutrina da expedição: o contrato está perfeito quando o destinatário expediu. um contrato de alienação da própria herança mediante um preço ou uma renda vitalícia.º1). Negócio «mortis causa» é. em virtude do cumprimento das primeiras e em dados termos. a tutela das expectativas da parte que se encontra em face da declaração negocial. Tais convenções podem ser. A regra de proibição dos pactos sucessórios comporta excepções. nem a excepção de não cumprimento do contrato. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 59 .º 1 b)). feita por qualquer dos esposados (1700º n. por qualquer meio. Nestes termos.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Acerca dos contratos Não são integrados por dois negócios unilaterais. c) Doutrina da recepção: o contrato está perfeito quando a resposta contendo a aceitação chega à esfera de acção do proponente. os segundos destinamse a só produzir efeitos depois da morte da respectiva parte ou de alguma delas. 98.º1 a)). a compra e venda. Uma importante distinção é a que se faz entre contratos unilaterais e contratos bilaterais. o testamento. Sendo o contrato integrado por duas declarações. Os autores referem também a categoria dos contratos bilaterais imperfeitos. Os contratos unilaterais geram obrigações apenas para uma das partes. que parece a preferível. inequivocamente. põe-se o problema de saber qual o momento da sua perfeição. obrigações ligadas entre si por um nexo de causalidade ou correspectividade. foi dele conhecida (224º n. cada uma das declarações (proposta e aceitação) é emitida em vista do acordo. no sentido de que. fundamentalmente. b) Instituição contratual de herdeiro ou legatário em favor de terceiros. etc. A proposta de contrato é irrevogável depois de chegar ao conhecimento do destinatário (230º). Assim. Não será. mas não já a faculdade de resolução com fundamento em inadimplemento ou mora: esta. necessário que a declaração chegue ao poder ou à esfera de acção do proponente. isto é. À primeira categoria pertencem quase todos os negócios jurídicos e na sua disciplina tem grande importância. a locação. na sua regulamentação.) a sua aceitação. é nulo. existindo nos contratos bilaterais. d) Doutrina da percepção: o contrato só está perfeito quando o proponente tomou conhecimento efectivo da aceitação. Nestes há inicialmente apenas obrigações para uma das partes.Negócios entre vivos e negócios «mortis causa» Os primeiros destinam-se a produzir efeitos em vida das partes. se. Os negócios da segunda categoria são negócios «fora do comércio jurídico». de dois tipos: a) Instituição contratual de herdeiro ou legatário em favor de qualquer dos esposados. todavia. carta. Não tem lugar nos contratos bilaterais imperfeitos a condição resolutiva tácita. A lei actual proíbe em princípio os pactos ou contratos sucessórios. pode ter lugar também nalguns contratos unilaterais. etc. Importância: a excepção de não cumprimento do contrato (428º) é privativa dos contratos bilaterais. os interesses do declarante devem prevalecer sobre o interesse na protecção da confiança do destinatário dos efeitos respectivos. sob a pena de nulidade. surgindo eventualmente mais tarde obrigações para a outra parte. Os contratos bilaterais ou sinalagmáticos geram obrigações para ambas as partes. por força dos interesses gerais do comércio jurídico. Do artigo 224º resulta consagrar o nosso direito a doutrina da recepção. O código considera lícitas certas disposições por morte feitas em convenção antenupcial. mantendo-se durante lapsos de tempo referidos no 228º. quando o proponente passa a estar em condições de a conhecer.

esta não for observada. Quando. vigora. também. Quanto aos negócios familiares pessoais: a liberdade contratual está praticamente excluída. porém. Quanto às noções de documento autêntico e documento particular elas estão no 363º. embora representem uma excepção. realizar-se através de certo tipo de comportamento declarativo imposto pela lei (por escrito. pelo notário ou outro oficial público provido de fé pública. No domínio dos negócios obrigacionais: vigora o princípio da liberdade negocial. familiares e sucessórios O critério desta classificação diz respeito à natureza da relação jurídica constituída. com carácter real. mas não podendo fixar-lhe livremente o conteúdo. Só podem constituir-se direitos reais típicos. 101. a declaração negocial deve. quanto aos contratos.Negócios obrigacionais. 102. nem podendo celebrar contratos diferentes dos previstos na lei. Os negócios não solenes (consensuais. não tem que atender às 60 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . 100. quase inconfinadamente. 1714º). através de certo tipo de documento. com alguma largueza. de celebração de contratos diferentes dos previstos na lei e de inclusão nestes de quaisquer cláusulas (405º). a liberdade de convenção (1698º). Os negócios reais podem ser classificados quanto aos efeitos e quando à sua constituição. resultantes de algumas normas imperativas do direito das sucessões. com as formalidades legais. tratando-se de contratos) são os que podem ser celebrados por quaisquer meios declarativos aptos a exteriorizar a vontade negocial. o da natureza da relação jurídica a que o negócio se Os negócios pessoais são negócios cuja disciplina. a lei não impõe uma determinada roupagem exterior para o negócio. dentro do círculo de actividade que lhe é atribuído. Documento particular: todos os outros. modificada ou extinta pelo negócio. quanto aos negócios unilaterais. Quanto aos negócios sucessórios: este princípio sofre importantes restrições.Negócios patrimoniais e negócios pessoais refere. etc. Quanto aos negócios reais: o princípio da liberdade contratual sofre considerável limitação derivada o princípio da tipicidade.Negócios reais São aqueles negócios em que se exige. embora essa constituição possa resultar de um negócio inominado ou atípico. a declaração negocial é nula. Quando o negócio é formal.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 99. de restrições ao direito senão nos casos previstos na lei» (1306º). visto que «não é permitida a constituição. abrangendo a liberdade de fixação do conteúdo dos contratos típicos. o acatamento de determinado formalismo ou de determinadas solenidades. O critério distintivo é. quanto a problemas como o da interpretação do negócio jurídico e o da falta ou dos vícios da vontade. podendo apenas os interessados celebrar ou deixar de celebrar o negócio. A sua importância resulta da diversa extensão que o princípio da liberdade contratual (405º) reveste cada uma das categorias. reais. Quanto aos negócios familiares patrimoniais: existe. mediante uma cerimonia. a prática anterior ou simultânea de um certo acto material. sofrendo embora restrições (1699º. as partes não o podem realizar por todo e qualquer comportamento declarativo. o princípio da tipicidade (457º). nos negócios formais. são numerosos e frequentes). além das declarações de vontade das partes. nos casos excepcionais em que a lei prescrever uma certa forma (casos que.Negócios consensuais ou não solenes e negócios formais ou solenes Os negócios formais ou solenes são aqueles para os quais a lei prescreve a necessidade da observância de determinada forma. Documento autêntico: são os documentos exarados. formalizadas ou não. pelas autoridades publicas nos limites da sua competência ou.).

assim se reconhecendo «o valor social da aparência». um nexo ou relação de correspectividade entre as referidas atribuições patrimoniais (normalmente traduzidas em prestações). pelo que. Caracterizam-se pelo facto de uma pessoa prometer certa prestação em troca de uma qualquer participação nos proveitos que a contraparte obtenha por força daquela prestação. se valorizarem frequentemente os interesses de terceiros e os do doador em maior medida do que os do donatário. aposta. Os contratos de jogo e de aposta não são contratos válidos. Exemplos: jogo. A distinção dos negócios jurídicos em onerosos e gratuitos tem como critério o conteúdo e finalidade do negócio nos termos que a seguir se evidenciam. Pode haver uma só prestação. 104.Contratos comutativos e contratos aleatórios É uma subdivisão a estabelecer dentro dos contratos onerosos. etc. Como ideia geral pode reter-se a constatação de. só uma venha a ganhar. O acto é a título gratuito quando for realizado com uma particular intenção ou causa que é a de proporcionar uma vantagem à outra parte. dependendo de um facto incerto a determinação de quem a realizará (aposta. Nos negócios gratuitos cria-se – e há acordo das partes sobre este ponto – uma vantagem patrimonial para um dos sujeitos sem nenhum equivalente. por exigência de tutela da confiança do declaratário e dos interesses do tráfico. Os negócios gratuitos caracterizam-se. Cada uma das partes faz uma atribuição patrimonial que considera retribuída ou contrabalançada pela atribuição da contraparte. a vontade manifestada ou declarada triunfa sobre a vontade real. seguro.). 105. certos tipos de jogo). está a pagá-la com um sacrifício que é visto pelos sujeitos do negócio como correspondente. a uma possibilidade de ganhar ou perder. Na disciplina dos negócios patrimoniais. etc. A outra parte procede com a consciência e vontade de receber essa vantagem sem um sacrifício correspondente. Os negócios onerosos pressupõem atribuições patrimoniais de ambas as partes. de efectuar uma atribuição patrimonial a favor de outra. de maior montante do que aquele (seguro de responsabilidade civil. nos termos do qual uma das partes remeta à outra tantas unidades de certa mercadoria. Cada uma das prestações ou atribuições é o correspectivo (a contrapartida) da outra. Exemplos: parceria pecuniária (1121º). Não é necessário um equilíbrio ou uma equivalência das prestações ou atribuições patrimoniais. de protecção do terceiro adquirente de boa fé «a non domino». nas doações (paradigma dos negócios gratuitos). etc. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 61 . existindo. certas formas de sociedade. A onerosidade consiste na circunstância de ambas estarem sujeitas ao risco de perder. nem constituem fonte de obrigações civis.Negócios parciários São um subespécie dos negócios onerosos. sem contrapartida ou correspectivo. pode haver uma prestação certa e outra incerta. com o direito de uma participação nos lucros e a obrigação de restituir as unidades não vendidas. segundo a perspectiva destas. embora. pela intervenção de uma intenção liberal (animus donandi). Uma parte tem a intenção. etc. de incêndio. para que esta as venda. 103. o usualmente chamado contrato de consignação (contrato estimatório). em matéria da impugnação pauliana (612º). mas uma delas é incerta no seu «quantum» (seguro de vida). consideradas pelo seu valor objectivo ou normal. por exemplo. se cada parte obtém da outra uma vantagem. pode haver duas prestações certas na sua existência. Nos contratos aleatórios as partes submetem-se a uma álea. ao invés. no final de contas.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL expectativas dos declaratários e aos interesses gerais da contratação. quanto aos problemas em que está em causa a subsistência da doação. devidamente manifestada.Negócios onerosos e negócios gratuitos A importância da distinção manifesta-se.

etc. fazendo-se consistir a sua nota essencial. (2)A declaração negocial (I)Noções gerais 108. Tais problemas têm subjacente um conflito entre os interesses do declarante. A capacidade: traduz-se num modo de ser ou qualidade do sujeito em si. acto social. uma realidade componente ou constitutiva da estrutura do negócio. A legitimidade: é uma relação entre o sujeito e o conteúdo do acto (a relação jurídica que está em jogo no negócio). 109. É porém. efectiva. que se deve definir. depois. aparência de vontade. manifestação de vontade. à luz das soluções dispensadas pelo ordenamento jurídico a uma série de problemas. O comportamento externo. em que se traduz a declaração. manifesta normalmente uma vontade. com coerência. o da interpretação da declaração negocial. exercendo ou adquirindo direitos. A capacidade negocial de exercício: é a idoneidade para actuar juridicamente.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL (II)ELEMENTOS ESSENCIAIS DO NEGÓCIO JURÍDICO (1)Capacidade e legitimidade 107.Conceito de declaração negocial Pode definir-se a declaração de vontade negocial como o comportamento que. psicológica –. etc. e os do declaratário e do comércio jurídico. formada sem anomalias e coincidente com o sentido exteriormente captado daquele comportamento. A declaração pretende ser o instrumento de exteriorização da vontade psicológica do declarante – essa é a sua função. Ora. exteriormente observado. o conceito de declaração negocial. dando 62 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . realçando o aspecto subjectivista (vontade manifestada. por um lado. Dá-se assim um conceito objectivista de declaração negocial. caracterizando. não num elemento interior – uma vontade real.) ou o aspecto objectivista (comportamento objectivo.Remissão São requisitos ou pressupostos gerais de validade dos negócios jurídicos a capacidade e a legitimidade.A declaração negocial como verdadeiro elemento do negócio jurídico Trata-se de um verdadeiro elemento do negócio. cria a aparência de exteriorização de um certo conteúdo de vontade negocial. a vontade negocial como o intenção de realizar certos efeitos práticos. A capacidade negocial de gozo: é a susceptibilidade de ser titular de direitos e obrigações derivados de negócios jurídicos. mas num elemento exterior – o comportamento declarativo. o direito civil conhece hoje um estádio de evolução que põe na primeira linha a protecção das expectativas dos declaratários e da segurança do comércio jurídico. etc. conduzindo a sua falta à inexistência material do negócio. No domínio dos negócios jurídicos fala-se de capacidade negocial de gozo (ou capacidade jurídica negocial) e de capacidade negocial de exercício. Os problemas decisivos para o efeito de determinar o conceito de declaração negocial – correspondente aos dados do sistema – são o da divergência entre a vontade e a declaração e dos vícios de vontade. Estas noções traduzem-se na referência a este domínio das noções mais genéricas de capacidade jurídica e de capacidade para o exercício de direitos. A declaração negocial é um elemento verdadeiramente integrante do negócio jurídico. por outro. por actividade própria ou através de um representante voluntário.). com ânimo de que sejam juridicamente tutelados e vinculantes. cumprindo ou assumindo obrigações.

TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL assim relevância à «aparência» e a uma «exigência de cognoscibilidade», a expensas da vontade real e psicológica. O código civil não toma partido, directamente, como é natural, numa questão dogmática; mas é manifesto o intuito do legislador de se não comprometer, sequer ao nível terminológico, com as concepções voluntarísticas, pois não emprega a expressão «declaração de vontade», falando antes em «declaração negocial».

110.Breve referência aos actos jurídicos de natureza não negocial
A lei portuguesa começa logo por regular a problemática posta pelo negócio jurídico, alude a «actos jurídicos que não sejam negócios jurídicos», mas não toma posição sobre qual a compreensão ou a extensão da categoria «negócio jurídico», reservando assim esse domínio à doutrina. Foram já definidos os conceitos de negócio jurídico e de acto não negocial (simples acto jurídico), fazendo-se agora remissão para as noções então formuladas. O 295º manda aplicar aos actos negociais as disposições da doutrina geral do negócio jurídico, na medida em que a analogia das situações o justifique. Daí se infere que não se aplicarão aquelas normas, sempre que não haja uma verdadeira analogia de situações. Aos actos pessoais (perfilhação, adopção, etc.), e mesmo que a lei o não diga expressamente, não se aplicam, portanto, as disposições inspiradas pela tutela da confiança dos declaratários e da segurança e celeridade do comércio jurídico. Quanto aos actos mais correntemente qualificados como simples actos jurídicos ou actos não negociais (ex.: interpelação do devedor, gestão de negócios, domicilio voluntário geral, certas notificações, etc.), quais as normas da regulamentação geral do negócio jurídico aplicáveis ou não, segundo o critério da analogia das situações? Os quase-negócios jurídicos ou actos jurídicos quase-negociais traduzem-se na manifestação exterior de uma vontade e existe quase sempre uma consciência e até uma intenção de relevância jurídica da vontade exteriorizada. Aplicar-se-lhe-ão, em regra, as normas sobre capacidade, recepção da declaração pelo destinatário, interpretação, vícios da vontade e representação. As operações jurídicas ou actos materiais ou actos reais traduzem-se na efectivação ou realização de um resultado material ou factual, a que a lei liga determinados efeitos jurídicos; desencadeiam, por força da lei, a produção desses efeitos, embora normalmente ou, pelo menos, frequentemente estes não sejam visados. Não se exige para a produção dos respectivos efeitos a capacidade, nem se aplicam, em geral, os preceitos sobre vícios da vontade, interpretação, recepção de declarações, representação.

111.Elementos constitutivos normais da declaração negocial
Numa declaração negocial podem distinguir-se normalmente os seguintes elementos: a) A declaração propriamente dita (elemento externo) – consiste no comportamento declarativo; b) A vontade (elemento interno) – consiste no querer, na realidade volitiva que normalmente existirá e coincidirá com o sentido objectivo da declaração. O elemento interno – a vontade real – pode decompor-se analiticamente em três subelementos. A vontade de acção Consiste na voluntariedade (consciência e intenção) do comportamento declarativo. Pode faltar a vontade de acção. Assim acontece se uma pessoa, por acto reflexo ou distraidamente, sem se aperceber do facto, faz um gesto e este objectivamente aparece como uma declaração negocial (ex.: aceitação de uma proposta). É igualmente o caso da coacção ou violência absoluta (coacção física) – é esta a hipótese mais viável e significativa de falta de vontade de acção.

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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL A vontade da declaração ou vontade da relevância negocial da acção Consiste em o declarante atribuir ao comportamento querido o significado de uma declaração negocial. Este subelemento só está presente, se o declarante tiver a consciência e a vontade de que o seu comportamento tenha significado negocial vinculativo – consciência e vontade de que o seu comportamento produza efeitos negociais no campo do direito. A declaração deve corresponder a um «sic volo sic jubeo», vinculativo do declarante. Pode faltar a vontade da declaração. Uma pessoa, julgando subscrever uma simples ficha de assinatura para o arquivo de um banco, assina uma declaração negocial. Um indivíduo entra num leilão e faz um gesto de saudação a um amigo; segundo as praxes do lugar esse facto significa uma oferta de certa importância pelo objecto leiloado. A vontade negocial, vontade do conteúdo da declaração ou intenção do resultado Consiste na vontade de celebrar um negócio jurídico de conteúdo coincidente com o significado exterior da declaração. É uma vontade efectiva correspondente ao negócio concreto que apareceu exteriormente declarado. Pode haver um desvio na vontade negocial. É o caso de o declarante ter atribuído aos termos da declaração um sentido diverso do sentido que exteriormente é captado. Uma pessoa quer comprar a Quinta do Mosteiro e declara querer comprar a Quinta da Capela – que é um outro prédio – por julgar erradamente que este é o seu nome. Constatamos, portanto, poder verificar-se uma falta de vontade de acção, uma falta de vontade da declaração e um desvio na vontade negocial. Em todos estes casos surge um dissídio, uma divergência, entre a vontade e a declaração. Tal divergência pode, aliás, resultar ainda de um desvio na vontade de acção (lapsus linguae ou lapsus calami). O declarante quer escrever uma coisa e engana-se ao escrever.

112.Declaração negocial expressa e declaração negocial tácita
Generalidades Os negócios jurídicos realizam uma ampla autonomia privada, como já se sabe, na medida em que, quanto ao seu conteúdo, vigora o princípio da liberdade negocial (405º). Quanto à forma é igualmente reconhecido pelo ordenamento jurídico um critério de liberdade : princípio da liberdade declarativa. Tal princípio está consagrado nos 217º e 219º. Por vezes, a lei exige, porém, que a declaração negocial seja expressa. Ex.: 957º, 731º Outras vezes a lei tem o cuidado de frisar que um certo negócio pode ter lugar por declaração tácita (ex.: 302º, 2056º), o que já resultaria do princípio geral do 217º. Os termos da distinção O critério da distinção entre declaração tácita e declaração expressa consagrada pela lei (217º) é o proposto pela teoria subjectiva: a declaração é expressa quando feita por palavras, escrito ou quaisquer outros meios directos, frontais, imediatos de expressão da vontade e é tácita quando do seu conteúdo directo se infere um outro, isto é, quando se destina a um certo fim, mas implica e torna cognoscível, a latere, um autoregulamento sobre outro ponto – em via oblíqua, imediata, lateral – («quando se deduz de factos que, com toda a probabilidade, a revelam»). Resulta claramente da formulação legal que a inequivocidade dos factos concludentes não exige que a dedução, no sentido do autoregulamento tacitamente expresso, seja forçosa ou necessária, bastando que, conforme os usos do ambiente social, ela possa ter lugar com toda a probabilidade.

113.O valor do silêncio como meio declarativo
Trata-se, principalmente, de saber se o silêncio – entendido não apenas como um «nada dizer», mas como um «nada fazer», uma total omissão – pode considerar-se um facto concludente (declaração tácita) no sentido da aceitação de propostas negociais. O código civil resolve o problema no 218º, estabelecendo que o silêncio não vale como declaração negocial, a não ser que esse valor lhe seja atribuído por lei, convenção ou uso. Repudia-se, pois, o velho brocardo do direito canónico «qui tacet consentire videtur», mesmo que o sujeito pudesse e devesse falar, pois a atribuição ao silêncio do valor de consenso negocial, não é, como regra geral, razoável. Só lhe caberá tal significado, havendo norma legal ou convenção das partes nesse sentido, bem como na hipótese de um uso

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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL prevalente em certo círculo social (uso geral, v.g., no caso de uma pessoa enviar habitualmente a outra mercadorias que esta recebe, sem aceitar nem rejeitar, e paga em devido tempo, criando-se entre ambas uma prática deste tipo). É a solução mais razoável. Seria inaceitável dar expressão legislativa ao tópico «quem cala consente». Com efeito, o silêncio é, em si mesmo, insignificativo e quem cala pode comportar-se desse modo pelas mais diversas causas, pelo que deve considerar-se irrelevante – sem querer dizer sim, nem não – um comportamento omissivo.

114.Declaração negocial presumida. Declaração negocial ficta
A declaração negocial presumida tem lugar quando a lei liga a determinado comportamento o significado de exprimir uma vontade negocial, em certo sentido, podendo ilidir-se tal presunção mediante prova em contrário (350º n.º1 e 2). A declaração negocial ficta tem lugar sempre que a um comportamento seja atribuído um significado tipicizado, sem admissão de prova em contrário (350º n.º2 no fim).

115.Protesto e reserva
Emitido certo comportamento declarativo, pode o seu autor recear que lhe seja imputado, por interpretação, um certo sentido. Para o impedir, o declarante afirma abertamente não ser esse o seu intuito. A esta contradeclaração dá-se o nome de protesto. O protesto tem o nome de reserva (subespécie de protesto), quando consiste na declaração de que um certo comportamento não significa renúncia a um direito próprio, ou reconhecimento de um direito alheio. Exemplos: o mutuante recebe certa importância, a título de juros, mas, julgando ter direito a receber mais, declara não prescindir do excedente. Afirma-se comummente que o protesto não vale quando o comportamento declarativo só consente a interpretação contra a qual o declarante se quer acautelar.

116.Forma da declaração negocial
Vantagens e inconvenientes do formalismo negocial (pág. 430) Ponderando as vantagens e inconvenientes do formalismo negocial, sancionou o CC (219º) o princípio da liberdade de forma ou da consensualidade (sendo este último termo rigoroso, apenas, para os contratos). O formalismo exigível para um certo negócio pode ser imposto pela lei (forma legal) ou resultar de uma estipulação ou negócio jurídico das partes (forma convencional), como acontece, por exemplo, quando durante as negociações prévias se convenciona que o futuro ou os futuros negócios entre as partes se deverão revestir de certa forma. O problema da legitimidade da forma convencional é debatido na doutrina; o CC resolveu-o no sentido da admissibilidade e eficácia dos negócios determinativos da forma (223º). É óbvio, porém, que o reconhecimento das estipulações das partes sobre forma do negócio não significa que os particulares possam afastar, por acordo, as normas legais que exigem requisitos formais para certos actos, pois trata-se de normas imperativas. O reconhecimento da forma convencional significa, apenas, poderem as partes exigir determinados requisitos para um acto, pertencente a um tipo negocial que a lei regula não formal ou sujeita a um formalismo menos solene. Âmbito da forma exigida No que toca ao problema de saber quais as cláusulas ou estipulações negociais a que a forma legal é aplicável, quanto exigida, MANUEL ANDRADE entendia que a forma abrangia, não só as cláusulas essenciais do negócio jurídico, mas também as estipulações acessórias, típicas ou atípicas, quer as contemporâneas da conclusão do negócio, quer as subsequentes, mas já se não estenderia tal exigência aos chamados pactos abolitivos ou extintivos. O CC consagrou esta regra, na medida em que estatui, em princípio, que as estipulações acessórias anteriores ao negócio ou contemporâneas dele devem revestir a forma exigida pela lei para o acto, sob pena de nulidade (221º). Admitem-se, contudo, na mesma disposição, restrições a este princípio.

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se resultar claramente da lei que foi exigido apenas para prova da declaração. à primeira vista. só produzirão efeitos.: confissão]). cumulativamente. É o que resulta do 289º. mas prova-se que as partes convencionaram verbalmente que o preço seria pago em certo local e data. c) Que se prove que correspondem à vontade das partes – este requisito é óbvio. e não mera anulabilidade. gerando a sua falta a nulidade do negócio) e formalidades probatórias (a sua falta pode ser suprida por outros meios de prova mais difíceis de conseguir [ex. adicional. se tiver por objecto convenções contrárias ou adicionais ao conteúdo de documentos autênticos ou particulares. não havendo lugar à aplicação de quaisquer normas supletivas. o CC liga à inobservância da forma legal a nulidade. não abrangidas pela razão determinante da forma. autenticados ou particulares são formalidades substanciais. se tiver lugar a confissão ou se forem provadas por documento embora menos solene do que o exigido para o negócio. Há que tomar em conta o 364º integrado nas disposições sobre direito probatório material constantes do mesmo. parece que tal acordo verbal deve ser respeitado. Poderá parecer. produzirem efeitos é bem menor do que «prima facie» pode parecer. em casos particulares. A nulidade deixará de ser a sanção para a inobservância da forma legal. Por outro lado.º2. não quiseram de todo o pacto verbal anterior ou contemporâneo. pois não seria obrigado a entregar a coisa vendida ou a restituir a importância recebida. é de decidir contra a sua existência. pois. regulando aquele ponto no documento. B) Consequências da inobservância da forma no nosso direito: a) Inobservância da forma legal: em conformidade com a orientação da generalidade das legislações e com os motivos de interesse público que determinam as exigências legais de forma. b) Que não sejam abrangidas pela razão de ser da exigência do documento – por exemplo.º1 o princípio geral. 66 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . deverá ser restituído tudo o que tiver sido prestado em consequência do negócio viciado. uma compra em que o comprador já pagou o preço ou um mútuo em que a quantia mutuada já foi entregue ao mutuário. pois traduz-se na prova de que a estipulação existiu. parece que haveria um locumpletamento injusto do vendedor ou do mutuário. tal locumpletamento à custa alheia. dada a nulidade dos contratos donde resultaria essa obrigação. que complementem o documento. que tal solução conduzirá a resultados injustos. são expressa. se sobre o ponto acessório há cláusula no documento. a que se refere o 221º. Com efeito.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Reconhece-se a validade de estipulações verbais anteriores ao documento exigido para a declaração negocial ou contemporâneas dele. pelo que. todavia. uma vez declarado nulo o negócio. que estejam em contrário dele. Aí se reafirma no n. anteriores ou contemporâneas do documento. nalguns casos. nada se diz num contrato de compra e venda sobre o lugar e tempo de pagamento do preço. o problema de saber se o nosso direito. anterior ou simultânea. Da coordenação do 221º com o 394º resulta que as estipulações adicionais não formalizadas. segundo o qual os documentos autênticos. No n. que estejam para além do conteúdo do mesmo e não de estipulações que o contradigam. desde que se verifiquem. é manifesto que há uma presunção natural de o documento ser completo. a lei determine outra consequência (220º). Consequências da inobservância da forma A) Distinção doutrinal entre formalidades substanciais (são insubstituíveis por outro género de prova. as seguintes condições: a) Que se trate de cláusulas acessórias – não deve tratar-se de estipulações essenciais e parece dever igualmente tratar-se de estipulações adicionais. Assim se defende o conteúdo dos documentos contra os perigos da precária prova testemunhal. a este propósito. Não se verifica. todavia. não considerará certas formalidades como simplesmente probatórias. nula. pois tem de se admitir que as partes. o pacto verbal não será válido. em atenção que a possibilidade de as estipulações acessórias não formalizadas. na dúvida sobre a existência de uma estipulação acessória. sempre que. Tome-se. Isto dado o disposto no 394º que declara inadmissível a prova por testemunhas. Pode suscitar-se. por falta de forma.

decorre ter a nossa lei optado pela doutrina da recepção quanto ao momento da conclusão dos contratos. pelos bons costumes ou pelo fim social ou económico desse direito» (334º). não podendo. fazendo como que falsificar por outrem a sua própria assinatura ou induzindo dolosamente a outra parte a não insistir pela formalização do negócio ou procedendo em termos de criar na outra parte a expectativa de que a nulidade jamais seria arguida. será verdadeiramente escandalosa. aliás. v. a resposta ao problema posto deve ser pedida. reiterados e dispendiosos testemunhos de gratidão por uma liberdade feita. embora não categoricamente.. a arguição da nulidade. etc. Entre essas vantagens está a criação e tutela do valor de segurança jurídica. consagra-se um presunção de essencialidade. por um contratante que a provocou. pois. 2. Essas presunções são duas. b) Inobservância da forma convencional: rege a este respeito o 223º. seja intoleravelmente ofensivo do nosso sentido ético-jurídico? Assim. sem a observância da forma. renunciar-se-ia à realização do interesse público que subjaz à formulação das exigências de formalismo negocial. «excedendo manifestamente os limites impostos pela boa fé. isto é. Viu-se também que desta doutrina constante do 224º. com fundamento em vício de forma. Esta perspectiva é correcta. Se a forma especial foi estipulada antes da conclusão do negócio. de outro modo. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 67 .Perfeição da declaração negocial Como já se disse. Assim: 1. suprimindo-o e concluindo-o de novo. Se a forma foi convencionada após o negócio ou simultaneamente com ele. nesta última hipótese. presume-se que as partes não quiseram substituir o negócio. quando essa invocação por uma das partes constitua um abuso de direito. à vontade das partes. para a solução da improcedência da arguição da nulidade. 117. globalmente considerado.). isto é. entre nós sancionada no 334º: «É ilegítimo o exercício de um direito. É óbvio que. afastar-se a sua aplicação nesses casos. que só pode ser plenamente realizado.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Donde se infere que quaisquer documentos (autênticos ou particulares) serão formalidades probatórias. pois trata-se de um preço conscientemente pago para fruir o rendimento social correspondente às vantagens do formalismo negocial. Na doutrina nacional e estrangeira já se tem posto o problema de saber se a possibilidade de invocação da nulidade por vício de forma não pode ser excluída por aplicação da cláusula geral de boa fé ou do abuso de direito. por exemplo. sacrificando o critério de «justiça de cada caso». contendo a aceitação. fundamento para admitir que as partes se quiseram vincular desde logo. chega à esfera de acção do proponente. isto é. havendo. nos casos excepcionais em que resultar claramente da lei que a finalidade tida em vista ao ser formulada certa exigência de forma foi apenas a de obter prova segura acerca do acto e não qualquer das outras finalidades possíveis do formalismo negocial (obrigar as partes a reflexão sobre as consequências do acto. a declaração negocial com um destinatário ganha eficácia logo que chegue ao seu poder ou é dele conhecida. Sem dúvida que a aplicação das regras de forma pode conduzir a uma ou outra solução de menos equidade. como todas as presunções legais. variando com o facto que é base da presunção. O 223º limita-se a estabelecer presunções que. quando esta arguição revista as características de um abuso de direito. públicos. todavia.g. quando o comportamento do invocante. presume-se que. em primeiro lugar. MANUEL DE ANDRADE inclinava-se. o negócio é ineficaz. a forma tem pois carácter constitutivo. sem a forma devida. mas as partes convencionaram. quando o proponente passa a estar em condições de a conhecer. Deverá admitir-se a invocação da nulidade com fundamento em vício de forma. pelos bons costumes ou pelo fim social ou económico desse direito». são em princípio meramente relativas ou «iuris tantum» (350º). tratando-se de averiguar quais as consequências da falta de requisitos formais que a lei não exige. Quer dizer: o contrato está perfeito quando a resposta. quando o titular excede manifestamente os limites impostos pela boa fé. assegurar a reconhecibilidade do acto por terceiros ou o seu controle no interesse da comunidade. As declarações não receptivas tornam-se eficazes logo que o vontade se manifesta na forma adequada. mas apenas visaram consolidá-lo ou qualquer outro efeito. aceitando.

Em coerência com a irrevogabilidade. a aceitação vale. dela resultar a vontade de o seu autor se vincular e houver consciência de se estar a emitir uma verdadeira declaração negocial. depois. Esta só poderá eventualmente ficar sem efeito. em conformidade com tais declarações. postula uma interpretação. em princípio. A retractação ou revogação da proposta ou da aceitação tem lugar – repete-se –. quer durante a fase decisória (proposta e aceitação do contrato. deve entender-se que em princípio existe apenas um convite para contratar (ex. Trata-se de determinar o conteúdo das declarações de vontade (interpretado o negócio. é irrevogável. não a ordem do conhecimento efectivo. mas deve pautar-se por regras ou critérios cuja formulação é. Em relação com esta matéria da perfeição da declaração negocial e da formação dos contratos. A interpretação nos negócios jurídicos é a actividade dirigida a fixar o sentido e alcance decisivo dos negócios. se foi aceite com aditamentos. que consistiria em colocar as coisas na situação correspondente ao cumprimento de um contrato válido. o objecto da teoria da interpretação dos negócios ou hermenêutica negocial. Coisa diversa seria a reparação do interesse contratual positivo. abrir-se um problema de divergência entre a vontade e a declaração) e. Uma proposta é rejeitada. como no de o contrato se concluir e vir a ser nulo ou ineficaz. se não houver qualquer motivo de invalidade. a doutrina que admite a revogação da proposta se a referida revogação chegar ao destinatário antes de este ter expedido a aceitação. como nova proposta (233º). se não tem chegado a depositar uma confiança. é um sentido objectivo. (II)Interpretação e integração dos negócios jurídicos (1)Interpretação 118. Se a modificação for suficientemente precisa. e virá a produzir. se o destinatário receber uma retractação do proponente ou dela tiver conhecimento. merece destaque o 227º que manda pautar a conduta das partes pelos princípios da boa fé. segundo as directrizes da teoria da interpretação. se o sentido fixado.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Sabe-se já também que a proposta de contrato.Em que consiste o problema.º2). Esta responsabilidade pré-contratual tanto vale no caso de ruptura de negociações. na celebração dum contrato válido e eficaz. afinal frustrada. para este efeito. Registe-se que uma proposta contratual só existirá se for suficientemente precisa. fixado o seu sentido. a morte ou a incapacidade do proponente não obstam à conclusão do contrato. resultante de lesão do interesse contratual negativo. 68 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . os efeitos que o negócio visa produzir. consequentemente. Só que nos negócios jurídicos – como nas leis – a interpretação não visa pôr em relevo um resultado destinado a uma pura assimilação ou compreensão intelectuais (uma mensagem) ou afectivas. salvo se outra tivesse sido a sua vontade presumível (226º).: se alguém anuncia num jornal que vende certas mercadorias a tanto por quilograma ou envia a lista de preços). O dano a ser ressarcido pela responsabilidade pré-contratual é o chamado dano da confiança. pois. releva. Posições possíveis O negócio jurídico. pode. a interpretação não pode ser abandonada ao senso empírico de cada intérprete. a conduta das respectivas partes). mas tem em vista evidenciar um conteúdo normativo (um conjunto de comandos) que vai pautar a conduta de algumas pessoas (no negócio jurídico. limitações ou outras modificações. porém. depois de recebida pelo destinatário ou de ser dele conhecida. Quer dizer: deve colocar-se o lesado na situação em que estaria. antes de receber a proposta ou ao mesmo tempo que esta (230º n. como qualquer outra manifestação do espírito humano. entendida esta num sentido ético. isto é. Quando se dirige uma proposta a pessoas indeterminadas. entre nós. quer durante a fase negociatória. segundo as respectivas declarações integradoras. Não vigora. a relação temporal da possibilidade de conhecimento. precisamente. se a declaração revogatória chegou ao poder da outra parte ao mesmo tempo ou antes do que as declarações de proposta ou de aceitação. Como actividade ou operação dirigida à fixação do sentido negocial.

Para as posições subjectivistas o intérprete deve buscar. A interpretação abrange também o problema de saber se há ou não uma declaração negocial. lhe atribuiria. Não podemos deixar de a considerar como acto determinante.º1. Para haver uma declaração a interpretar é necessário estarmos perante um acto ou conduta voluntária equiparável. do 238º n. O sentido querido realmente pelo declarante releva. Houve coincidência de sentidos (o querido e o compreendido). quer dizer. em narcose ou em situação que exclua toda a direcção consciente da vontade. considera-se o real declaratário nas condições concretas em que se encontra e tomam-se em conta os elementos que ele conheceu efectivamente mais os que uma pessoa razoável. este é o sentido decisivo. É o caso dos 236º e ss. isto é. porém. Em conformidade com o ditame da velha máxima «falsa demonstratio non nocet». um acto social de comunicação. quando assim se concluir do ponto de vista de um Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 69 . se o declaratário conhecer este sentido (com as limitações decorrentes. seja qual for a causa da descoberta da real intenção do declarante. mesmo quando a formulação seja ambígua ou inexacta. Quer dizer: a ambiguidade objectiva. uma acção ou omissão controláveis pela vontade. também. bem como a coacção absoluta. podendo não coincidir com o sentido objectivo normal. Para as posições objectivistas o intérprete não vai pesquisar a vontade efectiva do declarante. Basta que se tome conhecimento da existência de posições subjectivistas e objectivistas. a chamada teoria da impressão do destinatário. que este pudesse razoavelmente contar com ele (236º n. logo. o 236º n. Não se verificando tal coincidência entre o sentido objectivo correspondente à impressão do destinatário e um dos sentidos ainda imputáveis ao declarante. Neste caso a vontade real.º1).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL A teoria da interpretação pode ver alguns dos seus resultados convertidos em verdadeiras normas jurídicas onde se fixam princípios ou critérios interpretativos. A resposta afirmativa tem lugar. colocado na posição concreta do real declaratário. A prevalência do sentido correspondente à impressão do destinatário é. a declaração é. uma manifestação de validade que é o fundamento imediato da verificação dos efeitos jurídicos. mas um sentido exteriorizado ou cognoscível através de certos elementos objectivos. através de todos os meios adequados. ou até a vontade real. Não se dá relevo necessariamente à vontade real do declarante. como foi querido pelo autor da declaração. correspondeu à impressão real do destinatário concreto. Não é declaração negocial uma manifestação feita durante o sono. Além de ser um acto determinante (meio de autodeterminação). possa deduzir do comportamento de declarante» (236º n. A teoria da interpretação dos negócios jurídicos tem dado lugar à formulação de concepções opostas. zelosa e sagaz. colocado na posição do real declaratário. objecto. que tem de ter relação com aquele a quem se destina ou o conhece. sempre que o declaratário conheça vontade real do declarante. De entre as doutrinas objectivistas merece referência.º2 estabelece que. em conformidade com o ponto de vista de LARENZ e FERRER COSTA: para que tal sentido possa relevar torna-se necessário que seja possível a sua imputação ao declarante. para os negócios formais. é de acordo com ela que vale a declaração emitida. a vontade real do declarante. normalmente esclarecida. 119. teria conhecido e figura-se que ele raciocinou sobre essas circunstâncias como o teria feito um declaratário razoável. a sanção parece ser a nulidade do negócio.º2). de uma limitação. na lei. se o destinatário a conheceu. fim). isto é. todavia. por ser a melhor das suas variantes. O negócio valerá com o sentido subjectivo. a declaração deve valer com o sentido que um destinatário razoável.Posição adoptada Doutrina geral O CC define o tipo de sentido negocial decisivo para a interpretação nos termos daquela posição objectivista: «a declaração vale no sentido que um declaratário normal.

isto é. nos negócios onerosos. O significado decisivo é que o testador quis dizer.º1). Esta limitação é uma manifestação do carácter solene do negócio testamentário. as ideias expendidas por MANUEL DE ANDRADE. com o limite do «contexto do testamento» (2187º n. não pode valer se não tiver um mínimo de correspondência. Um critério normativo de interpretação aponta aqui. O CC não se pronuncia sobre o problema de saber quais as circunstâncias atendíveis para a interpretação. Esses desvios traduzem-se: a)Num maior objectivismo: é o que acontece nos negócios solenes ou formais. quanto à relação que deve interceder entre a intenção testatória e o contexto do documento. rudimentarmente sequer. o sentido correspondente à doutrina geral. quando essas razões forem. contra o emitente das condições gerais préordenadas para uma multiplicidade de contratos individuais. Podem continuar a aceitar-se. depois da morte. b)Num maior subjectivismo: é o caso das disposições testamentárias. limitando-se a estatuir que «não surtirá qualquer efeito a vontade do testador que não tenha no contexto um mínimo de correspondência. também aqui se deverá operar com a hipótese dum declaratário normal: serão atendíveis todos os coeficientes ou elementos que um declaratário medianamente instruído. Quando a interpretação leve a um resultado duvidoso. em tese geral. A lei não dá qualquer indicação mais precisa.º1). parece haver obstáculo insuperável. na medida em que se contenta com uma expressão ténue da intenção do testador no contexto do documento. possa valer. as favorecer. que coincide substancialmente com o regime do CC anterior: nos negócios gratuitos prevalece o sentido menos gravoso para o disponente e. predominantemente. Admite-se que um sentido não traduzido. quanto ao problema do tipo do sentido negocial decisivo para a interpretação. para a vontade psicológica do testador: não há que tomar em consideração as possibilidades de conhecimento de um destinatário como critério interpretativo. embora imperfeita. Se porém a dúvida a que se chegar no termo do labor interpretativo for insanável parece que a declaração é ineficaz. na posição do declaratário efectivo. ainda que imperfeitamente expressa». diligente e sagaz. razões de certeza ou segurança e quando estejam em causa interesses de terceiros. quanto ao problema da hermenêutica negocial.. no contexto (2187º n. o testamento se torne conhecido dos interessados. sofre desvios quanto a certos negócios. v. antes. teria tomado em conta.g. Quanto a estes. por não se lhes opor o texto daquele n. o problema deve ser resolvido nos termos do 237º. a este respeito. assim reconstituída. Consagra-se. Em todo o caso não há declaração negocial se falta a vontade acção (246º). Exige-se que a vontade do testador. o que conduzir ao maior equilíbrio das prestações. Desvios A doutrina preferível. o sentido objectivo correspondente à impressão do destinatário. mesmo no caso de real impropriedade das expressões utilizadas («falsa demonstratio non nocet»). no respectivo documento. 70 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . para o direito anterior. ainda que imperfeita. tenha um mínimo de correspondência.º3. embora. diversamente dos negócios «entre vivos». fundadas em qualquer dos meios de prova geralmente admitidos. a elementos ou circunstâncias estranhas aos termos do testamento. isto é. no texto do respectivo documento (238º n. desde que se verifique um duplo condicionalismo: 1) Corresponder à vontade real e concordante das partes. isto é. Na pesquisa desta vontade do testador é admitido o recurso à chamada prova complementar ou extrínseca.º2 do 2187º. quanto à sua interpretação.º2).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL declaratário normal colocado na posição do declaratário real. o sentido subjectivo. De acordo com o critério propugnado. 2) Não oposição a essa validade das razões determinantes da forma do negócio: assim. pelo contrário. ao menos analógica do 224º n. Nos contratos de adesão costuma propugnar-se a princípio de que na dúvida deve interpretar-se «contra stipulatorem». desde que se possa averiguar. por aplicação.

consagrando.«a que elas teriam tido se houvessem previsto o ponto omisso». dos termos empregues ou o erro na declaração (2203º). fora dos usos gerais da língua. «lex privata» das partes. considerar o que um contraente honesto e razoável há-de admitir como exigido pelo contrato.Termos em que pode admitir-se O critério a utilizar para o efeito de realizar a integração dos negócios jurídicos lacunosos é enunciado no 239º. como será o caso. A integração negocial tem limites. nos negócios típicos – ou por analogia. que foi pretendido pelas partes. Já aquele sentido subjectivo não valerá se o testador usou termos numa acepção extravagante que estava fora dos seus próprios hábitos de linguagem ou incorreu em erro na declaração. correspondentes ao texto da disposição do anteprojecto transcrita na penúltima nota. Hão-de considerar-se as circunstâncias que dão ao contrato concretamente celebrado a sua individualidade e não as características do tipo contratual. nesta hipótese. quando. porém. contrarie os ditames da boa fé. de acordo com o que corresponda à justiça contratual (ao que as partes devem querer agora e não propriamente o que deveriam ter querido). Será de admitir. Não pode proceder-se na integração como se se estivesse a aplicar uma norma estranha ao contrato. em princípio. ao proverem à elaboração do ordenamento negocial das suas relações? 121. Ressalva a hipótese de existir disposição especial. que esta última solução (nulidade) sofra uma excepção. todavia. (2)Integração 120. O CC considera que a integração deve ser determinada para cada negócio e não. não habitual ao testador. deve a declaração se integrada de acordo com as referidas exigências da boa fé. Na falta de disposição supletiva que possa aplicar-se. se o testador usou termos numa acepção pessoal. assim. que estas teriam estipulado. não podem ser equacionados e resolvidos em sede de integração negocial. neste caso. uma solução plenamente de acordo com a ideia de que o negócio jurídico é. genericamente. isto é. Admitir-se-á a relevância do sentido subjectivo. nos casos em que o contrato não está plena e completamente tipicizado ou se afasta dos tipificados em pontos que a regulamentação legal se não adapte ao contrato. valerá. Deve atender-se à regulamentação concretamente estipulada e situarmo-nos no círculo por ela delimitado. o 239º remete para a vontade hipotética ou conjectural das partes . A nulidade. sempre que haja disposição supletiva aplicável. A regulamentação de um «contrato semelhante» é a que resulta das normas supletivas. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 71 .TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Segundo essas ideias. reconstituindo através da prova extrínseca. que o juiz se deverá afastar da vontade hipotética ou conjectural das partes. isto é. como aconteceria se mandasse colmatar as lacunas negociais pelo recurso aos usos.Em que consiste O problema pode formular-se através da seguinte pergunta: qual a regulamentação das questões não previstas pelas partes. Certos problemas. quando a solução. directamente – o que poderá verificar-se. para os vários tipos de negócios. apenas. o sentido subjectivo. mesmo que seja evidente a prova da vontade hipotética das partes. Designadamente não pode a integração conduzir a uma ampliação do objecto negocial. justifica-se pelas razões que estão ligadas à exigência de forma dos testamentos. na própria letra do testamento seja patente a significação esotérica. a partir da finalidade e da conexão dos significados manifestados na regulamentação contratual. Estabelece-se. mas deu a entender isso mesmo no testamento ou usava habitualmente esses termos nessa acepção anómala (o testador que se refere à sua garrafeira como a sua “biblioteca”).

Teorias que visam resolver o problema da divergência entre a vontade e a declaração No direito civil moderno várias teorias foram formuladas em vista da solução do problema em epígrafe. com a intenção de enganar terceiros. A divergência não intencional pode consistir: a) No erro-obstáculo ou na declaração – o declarante emite a declaração divergente da vontade real. b) Reserva mental – o declarante emite uma declaração não coincidente com a sua vontade real. não através de uma mera. por se considerar insuficiente a tutela concedida pelo teoria da culpa in contrahendo. 124. c) Declarações não sérias – o declarante emite uma declaração não coincidente com a sua vontade real. c) Na coacção física ou violência absoluta – o declarante é transformado num autómato. sem sequer ter a consciência (a vontade) de fazer uma declaração negocial. desde que se verifique uma divergência entre a vontade e a declaração e sem necessidade de mais requisitos. À relação normal de concordância substitui-se uma relação patológica. Trata-se de um lapso. Teoria da declaração Enquanto a teoria da vontade arranca da consideração de que a essência do negócio está apenas na vontade do declarante (dogma da vontade). A divergência intencional pode apresentar-se sob uma de três formas principais: a) Simulação – o declarante emite uma declaração não coincidente com a sua vontade real. por causas diversas. podendo até faltar completamente a vontade de agir. em certos casos anómalos. embora de 72 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . b) Na falta de consciência da declaração – o declarante emite uma declaração. verificar-se. com a simples diferença de. O negócio ser válido.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL (III)A divergência entre a vontade e a declaração (1)O problema em geral 122. uma divergência entre esses dois elementos da declaração negocial. em caso de dolo ou culpa do declarante. Estamos perante um vício na formulação da vontade.Formas possíveis de divergência Normalmente o elemento interno (vontade) e o elemento externo da declaração negocial (declaração negocial) coincidirão. por razões diversas. e estando de boa fé o declaratário. mas por força do emprego de uma força física irresistível que o instrumentaliza e leva a adoptar o comportamento. mas sem intuito de enganar qualquer pessoa (declaratário ou terceiros). A normal relação de concordância entre a vontade e a declaração (sentido objectivo) é afastada. sem qualquer arranjo com o declaratário. Pode. contudo. de um engano. Teoria da vontade Propugna a invalidade do negócio (não vale a vontade real nem a declarada). sendo forçado a dizer ou escrever o que não quer. visando precisamente enganar este. sem ter consciência dessa falta de coincidência. a teoria da declaração. de um equívoco. por força de um arranjo com o declaratário. dá-se mais atenção ao argumento da necessidade de proteger a confiança. Teoria da culpa «in contrahendo» Assenta na mesma ideia da teoria anterior.

º1. (2)A simulação 127. se houve o intuito de prejudicar terceiros ilicitamente ou de contornar qualquer norma da lei. em particular a doutrina da confiança: a divergência entre a vontade real e o sentido objectivo da declaração. c) Intuito de enganar terceiros. A simulação fraudulenta é. a validade do sentido objectivo só será de aceitar. quer o negócio não esteja cumprido (aliás. b) Acordo entre declarante e declaratário (acordo simulatório).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL modo diverso.Modalidades da simulação Uma primeira distinção é a que se estabelece entre simulação inocente e simulação fraudulenta. nada mais. A simulação é inocente se houve o mero intuito de enganar terceiros. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 73 . Outra destrinça é a que se faz entre simulação absoluta e simulação relativa. quer tenha tido lugar o cumprimento. no fim. o que. também. ter. mesmo que não tenham sido queridos.º1. as próprias anulabilidades podem ser arguidas. os elementos integradores do conceito. elementos e importância prática O conceito de negócio simulado está explicitamente formulado no 240º n. são: a) Intencionalidade da divergência entre vontade e a declaração. quer dizer. em vez da invalidade. 128. a invalidade dos negócios simulados pode ser arguida a todo o tempo (286º).º2). por detrás dele. se for conhecida ou cognoscível do declaratário. Na simulação relativa as partes fingem celebrar um certo negócio jurídico e na realidade querem um outro negócio jurídico de tipo ou conteúdo diverso. pode qualquer interessado invocar a nulidade e o tribunal declará-la oficiosamente (286º. sem os prejudicar e é fraudulenta. não se apercebendo do dissídio entre a vontade real e o sentido objectivo. sem dependência de prazo: 287º n. Na primeira – é o caso da venda fantástica ou da doação simulada com fins de pompa ou ostentação – as partes fingem celebrar um negócio jurídico e na realidade não querem nenhum negócio jurídico. em conformidade com as suas modalidades. Por detrás do negócio simulado ou aparente ou fictício ou ostentivo há um negócio dissimulado ou real ou latente ou oculto. se o declaratário confiou efectivamente nesse sentido. As modalidades modernas e atenuadas. ou seja. referidos naquela disposição. evidentemente. todavia. propugnando a invalidade. Comporta diversas modalidades: Modalidade primitiva e extrema: consagra-se uma adesão rígida à expressão literal – se a forma ritual foi observada. compreendido um terceiro sentido. isto é. 129. Esta distinção é aludida no 242º n. de longe. para a hipótese de o declaratário. Como todas as nulidades. não exclui a possibilidade de simulação nos negócios unilaterais.Conceito. o que um declaratário razoável lhe atribuiria. Doutrina da aparência eficaz: subscreve os resultados da doutrina da confiança. (Na simulação não pode haver usucapião uma vez que adquiria sendo um possuidor precário (1253º c)). ao que foi exteriormente manifestado. Há apenas o negócio simulado e. em correspondência com a orientação da doutrina tradicional. para o qual remete o 242º). mas limita-a. produzem-se certos efeitos. revelando a mesma disposição legal a ausência de interesse civilístico da referida dicotomia. nesta hipótese.º2).Efeitos da simulação absoluta A simulação importa a nulidade do negócio simulado (240º n. dá relevo fundamental à declaração. a mais frequente. de acordo com o regime geral. só produz a invalidade do negócio.

por força de um acordo entre ele e um só dos sujeitos.º1. finge doar a C para este posteriormente doar a B. fingindo-se um preço superior ou inferior ao preço real.: finge-se uma venda e quer-se uma doação). se tivesse sido abertamente concluído. Podem ser. mesmo que tal forma não seja suficiente para o negócio aparente. intervindo um conluio entre os três. permanecendo válido e eficaz. se for observada a forma exigida e nada diz para a hipótese de as razões do formalismo do negócio dissimulado se acharem satisfeitas com a observância das solenidades do negócio simulado. Aí se estatui que «se. desde logo. Ex. se esse for o regime que.Efeitos da simulação relativa Doutrina geral O negócio fictício ou simulado está ferido de nulidade. para ele. todavia. ex. no negócio simulado. um problema específico que não surgia no caso da simulação absoluta. tal como foi preconizada por BELEZA DOS SANTOS. quanto ao negócio disfarçado ou dissimulado? Sanciona-se. Resulta do teor desta disposição que. A lei estabelece que o negócio dissimulado só é válido. mas para pagar apenas uma sisa os três sujeitos concordam em documentar na escritura pública apenas uma venda da A a C.: fez-se uma venda de A a B e outra de B a C. porém. não na intervenção de um sujeito aparente. a este respeito.º2 consagra a solução de nulidade do negócio dissimulado. 131. É o que se verifica na chamada interposição fictícia de pessoas. Na interposição real o interposto actua em nome próprio. o negócio dissimulado for de natureza formal. É fundamentalmente – mas não só – o caso da simulação de preço na compra e venda. Efeitos da simulação quanto aos negócios formais Os problemas suscitados pela aplicação aos negócios formais da doutrina geral da simulação relativa encontram a sua resposta no 241º n. o imposto liquidado será o correspondente à natureza do negócio realmente celebrado (negócio dissimulado). Pode igualmente a simulação consistir. os requisitos de forma exigidos para o dissimulado. Nestes termos poderá o negócio latente ser plenamente válido e eficaz ou poderá ser inválido. Quid juris. se não se cumpriram. à face da lei civil lhe cabe. A simulação objectiva ou sobre o conteúdo do negócio pode ser: a) Simulação sobre a natureza do negócio – se o negócio ostensivo ou simulado resulta de uma alteração do tipo negocial correspondente ao negócio dissimulado ou oculto (ex. A simulação relativa põe. 74 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . sucede apenas que. Este é um simples testa de ferro. este será nulo por vício de forma. pretendendo dar um prédio a B.: A. consoante as consequências que teriam lugar. um homem de palha. Para a validade do negócio real torna-se necessária a observância do formalismo que. Simulação sobre a natureza do negócio. só é válido se tiver sido observada a forma exigida por lei». O 241º n. exige a lei. tal como na simulação absoluta. mas na supressão de um sujeito real. mesmo que se tenham observado as formalidades exigidas para o negócio aparente. Na interposição fictícia há um conluio (arranjo) entre os dois sujeitos reais da operação e o interposto. mais frequentemente um apenas. mas no interesse e por conta de outrem. além das multas em que os simuladores incorrem. A interposição fictícia de pessoas não se deve confundir com a interposição real. simulados ou sujeitos do negócio jurídico.Modalidades da simulação relativa A simulação relativa manifesta-se em espécies diversas consoante o elemento do negócio dissimulado a que se refere (simulação subjectiva ou dos sujeitos e simulação objectiva ou sobre o conteúdo do negócio). em prejuízo da Fazenda Nacional O negócio dissimulado (venda ou doação) não é afectado na sua validade pela lei fiscal. b) Simulação de valor – incide sobre o «quantum» de prestações estipuladas entre as partes.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 130. a solução correspondente à orientação tradicional: o negócio real ou dissimulado será objecto do tratamento jurídico que lhe caberia se tivesse sido concluído sem dissimulação (241º).

º2. Estatui-se que o negócio não produz qualquer efeito. sob a epígrafe «coacção física» (246º). quando falta a vontade de acção não há um comportamento humano consciente. não há obstáculo de natureza formal a que seja eficaz a venda pelo preço efectivamente convencionado. perante um caso de verdadeira inexistência da declaração. Os interesses do autor do comportamento são tutelados em primeira linha.º1..Falta de consciência da declaração Falta a vontade de acção ou. atribui legitimidade aos próprios simuladores para a arguição da nulidade do negócio simulado. como inexistência. embora exteriormente pareça estarmos perante uma declaração. que esta possibilidade de a nulidade ser invocada pelos próprios simuladores entre si sofre uma apreciável restrição indirecta por força do 394º n. Aliás. parecendo esta última mais exacta. pelo menos. 132. mas não emitido por B. a cargo do «declarante». Advirta-se. culpado da falta de consciência da declaração. a hipótese de o declarante ser «coagido pela força física a emitir» a declaração.». 142. quando as razões determinantes da forma se não oponham (238º n. a ineficácia da declaração negocial («a declaração não produz efeitos»). 141. A lei. Têm-se em vista as hipóteses em que o declarante é reduzido à condição de puro autómato (coacção absoluta) e não aquelas em que o emprego da força física não chega aos extremos. Nas declarações sob o nome de outrem: não há qualquer comportamento por parte do sujeito a quem a declaração é atribuída. antes. mesmo que a falta de consciência da declaração não seja conhecida ou cognoscível do declaratário. nos termos do 246º. «finalista». a expensas do interesse na protecção da confiança do declaratário. absolutamente forçado. Com efeito. (4)Divergência não intencional 140. a consciência da declaração. solução oposta à defendida anteriormente. o negócio dissimulado é nulo por vício de forma.Se há restrições à arguição da simulação pelos próprios simuladores O 242º n. mesmo que a simulação seja fraudulenta. antes. prudente ou ambiguamente. Trata-se dum caso de nulidade. A coacção física ou absoluta importa. voluntário.Coacção física ou coacção absoluta ou ablativa O CC prevê. involuntário. declinando a identidade deste ou falsificando a respectiva assinatura ou pondo em circulação um documento assinado por B. o declaratário tem direito a ser indemnizado do dano coberto pela chamada responsabilidade pré-negocial ou por «culpa in contrahendo». se o declarante for. estabelece que a declaração não produz qualquer efeito e não fala de nulidade. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 75 . repare-se que o princípio «falsa demonstratio non nocet». fazendo-se passar por B. A doutrina exposta é a que vale para a simulação de pessoas e para a simulação sobre a natureza do negócio. salvo na hipótese de falta de vontade de acção em que parece estar-se. aí se estatui que é inadmissível a prova testemunhal do acordo simulatório e do negócio dissimulado. no entanto. reflexo ou. na hipótese de coacção física. há um comportamento declarativo do errante. como acontece se A faz um negócio.º2). a favor da solução que defendemos. Estas hipóteses são abrangidas pelo 246º: «se o declarante não tiver a consciência de fazer uma declaração negocial. Não há qualquer dever de indemnização. dado ser discutível a qualificação como nulidade ou. só vale no nosso direito.Erro na declaração ou erro-obstáculo Conceito No erro-obstáculo: havendo embora uma divergência inconsciente entre a vontade e a declaração. porém. há um comportamento inconsciente.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Quer dizer: o negócio simulado é nulo por simulação.. quanto seja menor que o preço real. quando invocados pelos simuladores.

Causas e efeitos. admitindo a anulabilidade em termos excessivamente fáceis e gravosos para a confiança do declaratário e para a segurança do tráfico jurídico. por parte do declarante aparente. ostensivamente revelados no contexto da declaração ou nas circunstâncias que a acompanham. operando de tal modo que esta. mas. a)O princípio geral regulador destas hipóteses consta do 247º.º2). Assim: 1)Se o declaratário se apercebeu do dissídio entre a vontade real e a declarada e conheceu a vontade real do declarante. tal como em certos casos de erro-obstáculo.º 10. para o declarante. A vontade não se formou de um modo julgado normal e são. exigindo-se para anulação do negócio que «o declaratário conhecesse ou não devesse ignorar a essencialidade. Assim. 2)Se o declaratário conheceu ou devia ter conhecido o erro. erro mecânico) ou desvio na vontade negocial (erro de juízo) Nestas hipóteses o declarante tem a consciência de emitir uma declaração negocial. 76 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . é determinada por motivos anómalos e valorados. b)Certas hipóteses particulares merecem tratamento especial. pelo direito. (IV)Vícios da vontade (1)Noções gerais 144. Por esse motivo fala-se. por lapso de actividade (erro mecânico: lapsus linguae ou erro ortográfico) ou por «error in judicando» (atribuição às palavras de um significado diverso do seu sentido objectivo). como ilegítimos. nesta hipótese. mesmo que a outra parte não se tenha apercebido da falsificação. se A. porque queria comprar o prédio onde nasceu. 5)Se o declaratário compreendeu um terceiro sentido que não coincide nem com o querido pelo declarante. possa não ter suscitado ao declaratário qualquer suspeita ou dúvida acerca da correspondência entre a vontade real e a declarada. para estes caso. não há. o reconhecimento ou a reconhecibilidade do erro. desde que prove que o vendedor conhecia ou não devia ignorar que só interessava ao outro contraente o prédio onde nasceu. mas apenas à sua rectificação (249º). 3)Se o declaratário aceitar o negócio como o declarante queria. diz respeito. A lei não exige. directamente ou por analogia. do elemento sobre que incidiu o erro». pois. quando na verdade aquele prédio é o n. Quando há desvio na vontade de acção («lapsus liguae» ou «lapsus calami». 4)O erro de cálculo e o erro de escrita. tem uma explicação análoga à da solução indicada em 1). a anulabilidade fundada em erro não procede (248º). Já se viu não ser necessário para a anulação. A hipótese pode subsumir-se. do 246º. A validação do negócio. de «erro sobre o conteúdo da declaração». como se referiu. não se apercebe de que a declaração tem um conteúdo divergente na sua vontade real. nem com o declarado. não dão lugar à anulabilidade do negócio. o comprador poderá anular o negócio. embora este conhecimento. o conhecimento ou a cognoscibilidade do erro. o negócio valerá de acordo com a vontade real (236º n.Vícios da vontade Conceito Trata-se de perturbações do processo formativo da vontade.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Na declaração sob o nome de outrem ninguém pode pretender que o negócio vincule o sujeito ao qual. bastando que seja reconhecível a essencialidade do elemento sobre que o declarante errou. o regime aplicável continua a ser a anulabilidade e não a nulidade verdadeira e a própria. compra a B o prédio n. embora concorde com a declaração. consciência de fazer uma declaração negocial. aparentemente. porém.º 20. Contenta-se com o conhecimento ou a cognoscibilidade da essencialidade do elemento sobre que incidiu o erro.

consta do 282º. Estado mental ou fraqueza de carácter de outrem. nem todo o regime está previsto no CC. coacção moral (256º). porém. Aí se determina que é anulável.Qualificação da invalidade proveniente de Erro-vício.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 145. Por força das directivas comunitárias. aos vícios ocultos do objecto negocial como fundamento autónomo de invalidade. sob a designação de usura. inexperiência. dolo. se o negócio não estiver cumprido.O regime da lesão e dos vícios redibitórios no CC Lesão (usura) No CC a proscrição da lesão. por usura.º1. alguns aspectos particulares da situação. pelo enganado. obteve a promessa ou concessão de benefícios excessivos ou injustificados. incapacidade acidental (257º). ser invocada. As características da anulabilidade são. segundo juízos de equidade. b)Só pode ser invocada dentro do ano subsequente à cessação do vício que lhe serve de fundamento (287º n. igualmente. nas disposições gerais sobre o negócio jurídico. quando alguém. (2)O erro como vício da vontade 148. dependência. fim). dolo. coacção moral. o Estado de necessidade (282º) 146. coacção ou incapacidade acidental Trata-se duma anulabilidade: Erro-vício (251º 252º). porém. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 77 . as seguintes: a)Só pode ser invocada pelo errante. uma alternativa para a anulação dos negócios usurários: a sua modificação. Pode. a todo o tempo. explorando a situação de necessidade. pelo coacto ou pelo incapaz (287º: «as pessoas em cujo interesse a lei estabelece»). dolo (254º). c)Pode ser sanada por confirmação da pessoa a quem pertencer o direito de anulação (288º). Estabelece-se no artigo seguinte.Noção Erro-vício: traduz-se numa representação inexacta ou na ignorância de uma qualquer circunstância de facto ou de direito que foi determinante na decisão de efectuar o negócio. Há. porém. Para além deste efeito – anulabilidade – a lei regula. em face dos 287º e 288º. Se estivesse esclarecido acerca dessa circunstância – se tivesse exacto conhecimento da realidade – o declarante não teria realizado qualquer negócio ou não teria realizado o negócio nos termos em que o celebrou. normas que se referem a essa hipótese na regulamentação de alguns contratos especiais. ligeireza.Enumeração dos vícios da vontade a que o nosso direito atribui um geral relevância autónoma Erro-vício. de um erro nos motivos determinantes (elementos internos) da vontade. a requerimento do lesado ou da parte contrária. Trata-se pois. Em ambos os casos a anulabilidade do negócio depende da verificação dos requisitos legais de relevância do erro ou do dolo. 147. É o caso dos 905º e 913º (venda de coisas oneradas ou defeituosas) e do 1035º (vícios da coisa locada). Vícios redibitórios O CC não se refere. um negócio jurídico. incapacidade acidental (257º).

assim. O erro. sem ele. Já não relevaria o erro incidental isto é. Escusabilidade Não se formula. sem ele. que corresponde ao erro acerca da causa (erro de direito ou de facto). aquele que influiu apenas nos termos do negócio.Condições especiais de relevância do erro-vício como motivo de anulabilidade Aos requisitos gerais de relevância do erro – essencialidade e propriedade. assim. Trata-se. embora noutras condições. b)Erro sobre o objecto de negócio: pode incidir sobre o objecto mediato (sobre a identidade ou sobre as qualidades). entender-se. a capacidade do errante. o objecto. não obstante a anulação.g. admitido a invocar a anulabilidade. 3 modalidades (sendo. com fundamento no 227º (culpa na formação dos contratos). versar sobre os requisitos legais de forma negocial. o errante. c)Erro sobre os motivos não referentes à pessoa do declaratário nem ao objecto do negócio (252º): é uma noção residual. pois o errante sempre contrataria. Propriedade Trata-se de um requisito que circunscreve o campo de aplicação autónoma do Errovício. os interesses da outra parte. corresponde ao erro acerca da causa (de direito ou de facto ) do código anterior e abrange igualmente o erro sobre a pessoa de terceiro. ou sobre o objecto imediato (erro sobre a natureza do negócio). para relevar. v. em si mesmo e não apenas nos termos em que foi concluído. Deve. a ilicitude do objecto mediato ou imediato. estatuído o mesmo regime para duas delas): o erro sobre os motivos. incorrerá em responsabilidade prénegocial devendo indemnizar o chamado interesse contratual negativo. Erro sobre os motivos Inserem-se nesta categoria os casos em que o erro se não refere à pessoa do declaratário. 78 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . aliás. qualquer exigência da desculpabilidade ou escusabilidade do erro. quase sempre. não são desprotegidos. que variam com as diversas modalidades do erro-vício. Há que distinguir. O erro foi causa (é indiferente tratar-se de uma situação de causalidade única ou de concausalidade) da celebração do negócio e não apenas dos seus termos. todavia. O erro é incidental se. nem ao objecto do negócio. que é. embora noutros termos. como motivo de invalidade. que. um erro-obstáculo) e erro sobre as qualidades. pelo que se deve reputar consagrada a solução segundo a qual tal requisito é dispensável. deve atingir os motivos determinantes da vontade (251º e 252º). os sujeitos). na subsecção relativa aos vícios da vontade. O erro será impróprio. 152.. se não celebraria qualquer negócio ou se celebraria um negócio com outro objecto ou de outro tipo ou com outra pessoa. o errante. 153. isto é. a melhor «de iure condendo». duma noção definida por via negativa.Condições gerais de relevância do Erro-vício como motivo de anulabilidade Essencialidade É corrente na doutrina a afirmação de que só é relevante o erro essencial. aliás.Modalidades Em face do CC as categorias que revestem interesse são: a)Erro sobre a pessoa do declaratário: erro sobre a identidade (este será. quando.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 150. no caso de erro culposo. etc. o erro sobre a pessoa do declaratário e o erro sobre o objecto do negócio. pois. O erro só é próprio quando incide sobre uma circunstância que não seja a verificação de qualquer elemento legal da validade do negócio. sempre celebraria o mesmo negócio (manter-se-ia o tipo negocial. nos termos expostos – devem acrescer certos requisitos especiais. O erro é essencial se. aquele que levou o errante a concluir o negócio.

º1 2ª parte). usuais. do erro do declarante (dolo negativo. «desde que o declaratário conhecesse ou não devesse ignorar a essencialidade. o chamado erro sobre a natureza do negócio. o dolus malus. permite a anulação.º2). desde que haja uma cláusula (expressa ou tácita) no sentido de a validade do negócio ficar dependente da existência da circunstância sobre que versou o erro («se as partes houverem reconhecido. ponto é que exista o dever de elucidar por parte do terceiro reticente. segundo as concepções dominantes no comércio jurídico (253º n.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Nos casos deste tipo. por força de lei. Costumava assinalar-se à distinção o interesse prático de o dolo negativo de terceiros não ser relevante. o regime correspondente ao erro na declaração. para o declarante. portanto. por acordo. ou quando tenha lugar a dissimulação. quer na do erro sobre as qualidades. quando existia um dever de elucidar. pois este versa sobre os efeitos do negócio. haverá lugar à anulabilidade do contrato. O negócio será anulável nos termos previstos no 247º para o erro-obstáculo. sobre o seu conteúdo. reputada legítima pelas concepções imperantes num certo sector negocial. A omissão de esclarecimento só constituirá dolo ilícito. pelo declaratário ou por terceiro. Trata-se dum erro determinado por um certo comportamento da outra parte. a essencialidade do motivo»). não existe em todos os casos de silêncio perante o erro em que versa o declarante. pois o 253º n. nos mesmos termos em que. omissivo ou de consciência). isto é. quando se verifique o emprego de qualquer sugestão ou artifício com a intenção ou consciência de induzir ou manter em erro o autor da declaração (dolo positivo ou comissivo). A lei tolera a simples astúcia. 155.º1 fala expressamente em dissimulação de terceiro. considerados legítimos. Só existirá dolo. do elemento sobre que incidiu o erro». O 251º abrange. b)Dolus bonus e malus Só é relevante. a seu propósito. Essa conclusão não tem hoje qualquer fundamento. o 252º n.º1. Erro sobre o objecto do negócio Está previsto no 251º. se dispõe acerca da resolução por alteração das circunstâncias vigentes no momento em que o negócio foi concluído («desde que a exigência das obrigações assumidas afecte gravemente os princípios da boa fé e não esteja coberta pelos riscos próprios do contrato»). Está igualmente previsto no 251º.Modalidades a)Dolo positivo e negativo A distinção já foi caracterizada e consta do 253º n. estabelece-se um regime especial para certos casos de erro sobre os motivos: se o erro incidir sobre as circunstâncias que constituem a chamada base negocial. a lei declara não constituírem dolo ilícito. Com efeito. isto é. igualmente.º1. como fundamento da anulabilidade e de responsabilidade.º1. Importa aqui referir apenas que o dolo negativo ou omissivo. São cabidas acerca deste regime as considerações que. de estipulação negocial ou das concepções dominantes no comércio jurídico (253º n. Erro sobre a pessoa do declaratário Abrange igualmente o erro sobre a identidade e o erro sobre as qualidades. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 79 . nos 437º a 439º. expendemos quando se tratou do erro na declaração e tendentes à conclusão de que seria mais razoável ter-se exigido o conhecimento ou a cognoscibilidade do erro. Na 2ª parte do 252º. quer na hipótese do erro sobre a identidade (na medida em que seja um erro-vício e não um erro na declaração). (3)Dolo 154. cabendo-lhe.Conceito A noção de dolo consta do 253º n. sobre o seu objecto imediato.

80 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . mas também dolo do declaratário. No dolo essencial o enganado (deceptus) foi induzido pelo dolo a concluir o negócio em si mesmo e não apenas nos termos em que foi concluído. o negócio será sempre anulável. conhecer ou dever conhecer a actuação de terceiros (254º n. mesmo para a hipótese da simples cognoscibilidade do declaratário. por força do negócio.º1). 3)Existência no deceptor da intenção ou consciência de induzir ou manter em erro. se existir no contrato cláusula a seu favor e anulação será limitada à cláusula a favor do terceiro (invalidade parcial).º2). se este for cúmplice daquele. Condições de relevância do dolo do declaratário como motivo de anulação 1)Deve tratar-se dum dolus malus (253º n. b)Se o declaratário não conheceu nem devia conhecer o dolo de terceiro. Existirá.º1 2ª parte dispõe que.º1. se ao terceiro deceptor adveio. A distinção não tem interesse prático. com o seu comportamento contrário às regras da boa fé. não apenas dolo de terceiro. pois sempre contrataria. o negócio só será anulável.º2) Devem verificar-se os requisitos anteriores e. constante do 253º n. segundo ele. se ele conheceu efectivamente os artifícios de terceiro. neste caso. 2)Deve ser essencial ou determinante. Na hipótese de dolo negativo trata-se de uma causalidade hipotética. embora o dolo incidental também possa vir a conduzir à anulação. para a relevância do dolo de terceiro.º2). e)Dolo essencial ou determinante e dolo incidental A distinção põe-se nos termos em que se pôs para o erro. em ambos os casos se verificando os mesmos efeitos. são exigidas certas condições suplementares que devem acrescer às do dolo do declaratário e o seu efeito é mais restrito. Este requisito tem algum vago apoio no 254º n. Condições de relevância do dolo de terceiro como motivo de anulação (254º n. sem dolo não se teria concluído qualquer negócio. não é necessário que o dolo seja unilateral. Se essa consciência existe e.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL c)Dolo inocente e fraudulento No primeiro há mero intuito enganatório. durante os preliminares e a formação do negócio (227º). 4)Ao contrário do que exigem algumas legislações e a própria tradição jurídica. No dolo incidental o deceptus apenas foi influenciado quanto aos termos do negócio. Desde logo. pois. Na verdade o 254º n. por ter dado origem à invalidade. embora noutras condições. haverá dolo negativo do próprio declaratário. Tal solução é a que logicamente resulta do facto de o fundamento da anulabilidade por dolo ser a viciação da vontade. todavia. basta a consciência de criar ou manter uma situação de erro. O próprio dolo bilateral ou recíproco pode ser invocado como fundamento de anulação. 156. d)Dolo proveniente do declaratário e proveniente de terceiro A distinção tem grande importância. estabelece a sanção da anulabilidade. «a nulabilidade não é excluída pelo facto de o dolo ser bilateral». directamente algum direito (isto é. além disso. mas acresce a responsabilidade pré-negocial do autor do dolo (deceptor).º1. há dolo ilícito. apesar dela. há que fazer a seguinte distinção: a)Se o declaratário conheceu ou lhe foi cognoscível o dolo de terceiro. É um elemento da definição de dolo. se prossegue ou mantém o comportamento que gera ou faz perdurar o erro.Condições de relevância do dolo como motivo de anulação O principal efeito do dolo é a anulabilidade do negócio (254º n. enquanto no segundo há o intuito ou a consciência de prejudicar. mesmo que esse não seja o propósito de quem a cria ou mantém. a lei.

Não basta um simples medo ou receio. cominada com o intuito de extorquir a declaração negocial. A coacção moral ou relativa ou compulsiva reduz a liberdade do coagido mas não a elimina (neste sentido coacta voluntas. pois existe sempre uma opção entre padecer o mal cominado ou expor-se à sua consumação e celebrar o negócio (A é ameaça de morte ou de agressão ou de difamação. a liberdade do coacto é cerceada. Torna-se necessário que o receio provenha de uma ameaça ilícita. 161. o negócio será anulável na sua totalidade (mesmo em face do declaratário). se não emitir certa declaração negocial). É. tal como sucede com o erro simples. quando a liberdade do coacto não foi totalmente excluída. mesmo no caso da ameaça com arma de fogo ou no caso de emprego da violência física. Só cairemos no âmbito da coacção física (coacção absoluta ou ablativa). A primeira dá lugar à inexistência do negócio (246º). semper voluntas). apenas. (4)Coacção 160.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 157. na coacção moral. embora a submissão à ameaça fosse a única escolha normal.º1 e consiste no «recreio de um mal de que o declarante foi ilicitamente ameaçado com o fim de obter dele a declaração». quando lhe foram deixadas possibilidades de escolha. mas na adulteração da vontade do «deceptus». como começo de execução do mal cominado. desde logo. para compelir ao negócio.Conceito Consta do 255º n.Modalidades Coacção física (absoluta e moral (relativa) A coacção física. absoluta ou ablativa reduz o coagido à situação de mero instrumento ou autómato. Só há vício da vontade. em relação a este. A ameaça pode dizer respeito à pessoa como à honra ou fazenda do declarante ou de terceiro (255º n. Assim estaremos dentro do campo da coacção moral (coacção relativa ou compulsiva). Exige-se igualmente que a cominação do mal vise extorquir a declaração negocial. o chamado temor reverencial (255º n.º2).Fundamento jurídico da anulabilidade por dolo O fundamento da anulabilidade por dolo não consiste numa ideia de reparação do prejuízo sofrido pelo enganado (o próprio dolo inocente ou altruístico releva).Negócio em que o dolo não tem relevância específica Resulta dos artigos 1631º b) e 1636º que no casamento. traduzida no medo resultante da ameaça ilícita de um dano (de um mal). sendo o coagido ameaçado de um mal se não emitir a declaração. a segunda à mera anulabilidade (256º). quer o coactor seja beneficiado por cláusula a seu favor. o dolo não tem relevância específica em relação ao erro (no casamento engana quem pode). a lei exclui. portanto. e não com a anulabilidade. Ao contrário do dolo de terceiro. consoante o bem ameaçado pela cominação ou a pessoa directamente visada. 162. existente no Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 81 . quando a liberdade exterior do coacto é totalmente excluída e este é utilizado como puro autómato ou instrumento.Condições de relevância da coacção como motivo de anulabilidade Coacção exercida por terceiro A coacção exercida por terceiro provoca a anulabilidade do negócio e põe a cargo do coactor uma obrigação de indemnizar o declarante (coagido) e o declaratário (mas. Coacção dirigida à pessoa ou à honra ou à fazenda do declarante ou de terceiro No regime geral da coacção não há qualquer diferença de tratamento. A reparação do prejuízo causado é visada com a responsabilidade civil que impende sobre o «deceptor». a perturbação da vontade. se ele não for cúmplice do terceiro). 159. mas não excluída.º2). é óbvio.

Valor dos negócios jurídicos realizados em estado de necessidade No CC a hipótese dos negócio em Estado de necessidade deve subsumir-se na previsão do 282º. a quem se deve respeito. consoante a natureza do facto que lhe dá origem: facto natural ou facto humano. Modalidades possíveis. etc. colocado na posição concreta do declaratário. A representação traduz-se na prática dum acto jurídico em nome de outrem. mesmo que esta nada soubesse ou devesse saber da coacção. mas exigindo. para na esfera desse outrem se produzirem os respectivos efeitos.Conceito Infere-se do 258º. A lei desaprova a coacção em tão forte medida que. pelo representado ao representante: fala-se. não na secção das incapacidades. (5)O estado de necessidade e outras situações como vícios da vontade negocial 164. Já se sabe que este regime dos 282º e 283º não se aplicará. supervenientemente. irrelevante como motivo determinante da vontade. que o legislador concebe sob a designação de usura alguma relevância ao velho instituto da lesão. sendo. 163. onde se prescreve a anulabilidade. em conformidade com a fisionomia moderna do instituto. Podem resultar dos estatutos de 82 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . mas antes de um desvio no processo formativo da sua vontade em relação às circunstâncias normais do seu processo deliberativo. (6)A incapacidade acidental 167. A hipótese está prevista no 257º. 166. uma ratificação. todavia. quando a pessoa não se aproveita conscientemente da situação de necessidade tinha o dever de auxiliar o necessitado (acto contrário à lei ou ofensivo dos bons costumes). para que ela. (V)A representação nos negócios jurídicos 168. por um acto voluntário. quer não seja. gratidão. dado o facto não se tratar de uma situação permanente do indivíduo. O requisito da notoriedade significa a cognoscibilidade por uma pessoa média. e haja ou não conhecimento ou cognoscibilidade do vício por parte do declaratário (256º 1ª parte). em face dela. a protecção da contraparte cabe. desde que se verifique um requisito (além da incapacidade acidental) destinado á tutela da confiança do declaratário: a notoriedade ou o conhecimento da perturbação psíquica. seja eficaz.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL contrato.Conceito Situação de receio ou temor gerada por um grave perigo que determina o necessitado a celebrar um negócio para superar o perigo em que se encontra.A coacção moral e o simples temor reverencial O temor reverencial (medo de incorrer no desagrado ou desafecto de outrem. Os poderes de representação podem ser atribuídos. assim. de representação voluntária e o acto voluntário atribuidor de poderes representativos chama-se procuração.) não constitui coacção. Nada mais é necessário para existir a representação. mas entre a falta e os vícios da vontade. não sancionando um critério puramente objectivo. então. onde se estatui a anulabilidade dos chamados negócios usurários.A incapacidade acidental O CC regula a incapacidade acidental. havendo antes lugar à nulidade. torna-se necessário que o representante actue «nos limites dos poderes que lhe competem» (258º) ou que o representado realize. É nos termos de tal disposição.

ou especial. se a representação legal tem lugar sempre no interesse do representado (incapaz). abrangendo apenas os actos nela referidos e os necessários à sua execução. manifestada na procuração. em condições de defender os seus interesses e. segundo a perspectiva do ordenamento jurídico. capacidade de agir por possuírem órgãos que as podem representar. curador). b)Pode haver representação sem haver mandato Não só na hipótese da representação legal. Não há contradição entre a representação e o princípio da autonomia privada. mas pode ser outro (ex. Verifica-se no mandato sem representação e. traduz um alargamento das possibilidades contidas na referida autonomia. não sendo já necessário que o seja no interesse do representado. inabilitados. ao invés. b)Distinção entre representação legal e voluntária. indirecta ou mediata. a representação voluntária pode ter lugar por força da chamada in rem suam. administrador de bens. Esta pode ser geral. por isso. trata-se de uma modalidade particular do contrato de prestação de serviços. 169.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL uma pessoa colectiva (representação orgânica ou estatutária) ou. não disfrutam de autonomia privada. age por conta do mandante. mas em nome próprio. tal como este conceito é pressuposto pelo 258º. pela lei. traduzindo-se em legitimidade para representarem. directa ou imediata e a representação imprópria. isto é. Representação legal: o representante é indicado. Não há igualmente coincidência entre as noções de representação e de mandato. tendo como critério a fonte donde promanam os poderes representativos. neste caso. em todos os seus assuntos pessoais ou patrimoniais. contrariamente a um equívoco bastante generalizado.Espécies a)Distinção entre representação própria. não têm capacidade para se autodeterminarem. Os menores.: contrato de trabalho). só legítima para actos de administração ordinária. ser concedidos pela lei a representantes legais (pais. caso em que os poderes representativos são conferidos no interesse do próprio procurador. justamente. qualquer contradição com a autonomia privada. A chamada representação imprópria não é uma verdadeira representação. Há perfeita autonomia entre as duas figuras. desde logo. porque as possibilidades de actuação jurídico-negocial própria (do representado) não são restringidas pelo facto de ter passado a outrem uma procuração. mas também no que toca à representação voluntária: esta resulta de um acto – procuração (262º) – que pode existir autonomamente (negócio unilateral) ou coexistir com um contrato que. os interditos e certos inabilitados não estão. eventualmente. Para existir a representação basta que o negócio seja concluído em nome do representado. verificadas certas situações. Quanto às pessoas colectivas têm. o menor ou o interdito. Na representação legal (menores. verificada cada certa situação. para se produzirem os mesmos efeitos que se produziriam se tais declarações fossem recebidas por esse outrem. noutras hipóteses de interposição real de pessoas. igualmente. Com efeito. será o mandato. tutor. interditos) não se nos depara. pois o mandato é um contrato pelo qual uma das partes se obriga a praticar um ou mais actos jurídicos por conta da outra (1157º). e. A representação já acima ficou definida e resulta que: a)Pode haver mandato sem haver representação Quando o mandatário não recebeu poderes para agir em nome do mandante. ou por decisão judicial em conformidade com a lei e tem os poderes definidos pela lei. Representação voluntária: os poderes do representante e a respectiva extensão provêm da vontade do representado. c)Representação activa e passiva A primeira é a actuação em nome de outrem na emissão de declarações negociais. Não há contradição. em princípio. A representação voluntária não contradiz o referido princípio. São poderes de grande amplitude. A segunda traduz-se em receber declarações negociais em nome de outrem. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 83 . normalmente.

na representação própria existe a «contemplatio domini» (actuação em nome de outrem). se o núncio transmite a sua declaração inexactamente. reservando-se apenas o direito de o nomear e. não sendo feita a declaração de nomeação nos termos legais. actos materiais (no sentido de actos não negociais. bastará a capacidade natural para transmitir a declaração de vontade. 2) se o representante excede os seus poderes de representação. do erro na transmissão da declaração. uma vez feita a declaração de nomeação nos termos do 453º. adquirindo os direitos e obrigações decorrentes dos actos que celebra. embora se actue no interesse ou por conta de outrem. O núncio é um mero longamanus. nunca recebe. o «dominos» poderá ficar vinculado nos termos da declaração emitida. no contrato para pessoa a nomear. Este é que é parte negocial. não existe a chamada «contemplatio domini». O representante consuma. que não torna o «dono do negócio» parte ou sujeito do acto jurídico praticado pelo «representante». um braço mais comprido. os efeitos do negócio são encabeçados pela pessoa nomeada. sendo este obrigado a assumir as obrigações contraídas pelo mandatário. o representante realiza negócios jurídicos e os dactilógrafos. exigida pela natureza do negócio que haja de efectuar (263º). d)Representação e os contratos para a pessoa a nomear Os contratos para pessoa a nomear. os operários. no contrato para pessoa a nomear. 2)Na representação imprópria o mandatário age em nome próprio. o conteúdo. pelo menos. o negócio é ineficaz em relação ao representado (268º). podendo uma criança actuar como núncio. embora actuando no interesse de outrem. A representação imprópria ou mediata – na qual o agente. age em nome próprio – é uma forma de mera representação de interesses.). a partir da celebração do negócio. 1)Na representação própria o negócio representativo produz efeitos na esfera do representado ou. no sentido da anulabilidade. Diversidade de tratamento jurídico: 1) o representante (voluntário) não precisa de ter plena capacidade legal. o núncio transmite uma declaração de outrem. etc. retroactivamente. o se do negócio e. frequentemente. b)Representação própria e imprópria Na representação imprópria (contrato de comissão. se este não atribuir àquele legitimidade representativa (ratificação).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 170. podendo tratar-se de operações de tipo intelectual). Decide. e)Representação e simples autorização ou consentimento para actos de outrem O representante actua e na simples autorização inibe-se ou aprova-se uma iniciativa e uma actuação de outrem. os consultores técnicos. o contrato produz os seus efeitos relativamente ao contraente originário (455º). e é obrigado a transferir para o mandante os direitos adquiridos. os direitos e obrigações provenientes do contrato são apropriados.Confronto com institutos afins a)Representante e o simples núncio O representante. é ineficaz. 84 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . um dos contraentes declara contratar para um terceiro. etc. pela pessoa nomeada e.. mais. um mandato absolutamente especificado e imperativo. isto é. o núncio transmite o já consumado. ao contrário do núncio. mas carece de capacidade natural de entender e querer. são previstos e disciplinados no 452º e ss. c)Representação e as diversas formas de colaboração material ou técnica nos negócios de outrem A distinção assenta na contraposição negócio jurídico/acto material. nem mesmo quando a procuração é especialíssima. sem necessidade de um acto especial de transmissão dos direitos e das dívidas. mandato sem representação. quanto ao núncio. O representante emite uma declaração em nome de outrem. se não se verificarem os requisitos do 250º para a relevância. na hipótese de falta de legitimação representativa.

nos contratos a favor de terceiro. com fundamento em responsabilidade pré-negocial (227º) ou na existência de uma promessa tácita de garantia. está ferido de anulabilidade (261º) e não de ineficácia. também. O carácter formal ou consensual da ratificação. 2)Declaração.Pressupostos da representação a)Pressupostos de existência (conceituais) da representação: 1)«Contemplatio domini». O negócio consigo mesmo: o chamado negócio consigo mesmo – ex. b)Representação voluntária. realização do negócio em nome do representado. de uma vontade do representado. procurador de B. se a outra parte conhecia o abuso ou este lhe era cognoscível. de uma vontade própria do representante. se não psicologicamente ao menos objectivamente. a dos inabilitados (154º). mas de modo substancialmente contrário aos fins da representação. eventualmente. responde perante a contraparte. como será quase sempre o caso. pura e simplesmente. ineficaz relativamente ao «representado». no qual está coenvolvida uma procuração. A sua admissibilidade e o seu domínio de aplicação resultam das disposições que a consagram para o efeito de se suprir a incapacidade dos menores (124º). depende das exigências formais do negócio representativo (268º n. A. aliás. verificada culpa sua. através de uma ratificação do negócio (legitimação representativa subsequente). além do direito adquirido pelo terceiro a favor de quem foi convencionada a promessa ou dos outros efeitos favoráveis a este (443º n. para que a contraparte saiba ou possa saber com quem negoceia. Os actos praticados por um representante sem poderes ou «falsus procurator» (com falta total de poderes representativos ou com excedência dos poderes que lhe foram atribuídos) são ineficazes em relação à pessoa em nome da qual se celebrou o negócio. que pode ser originária. Haverá abuso de representação quando o representante actuar dentro dos limites formais dos poderes conferidos. com culpa. o representante sem poderes. e não. Não havendo ratificação. Através deste requisito distinguese a figura do representante da figura do núncio. até. O «falsus procurator» responde pelo interesse contratual negativo ou interesse da confiança (a contraparte é colocada na situação em que estaria se não tivesse contado com a realização do contrato). O 269º manda aplicar o regime do 268º à hipótese de abuso de representação. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 85 . é a fonte mais frequente da representação voluntária. por parte do representante. a falta de poderes (no caso raro de não ter culpa. manifestação particular da representação sem poderes (na medida em que o negócio é perfeitamente válido. esta não é parte negocial.º2). não é.Admissibilidade da representação a)Representação legal.º2 e 262º n. O negócio. já existente ao tempo do negócio representativo ou conferida. o representante não se torna titular de quaisquer direitos ou obrigações em face da contraparte do negócio representativo. posteriormente. sendo sujeitos das relações emergentes do referido negócio o representado e a outra parte. desde que o representado tenha especificamente consentido na celebração) -. 172. Deve existir.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL f)Representação e os contratos a favor de terceiros Na representação. estabelecem-se vínculos jurídicos entre o promissário e o promitente. sempre existente. É admitida nos 262º e ss. O mandato com representação (1178º). Não vale em relação ao representante. a dos interditos (139º) e.. b)Pressuposto de eficácia da representação: o acto deve estar integrado nos limites dos poderes que competem ao representante. isto é. tratado como um negócio do representante. «prima facie». como . compra em nome próprio um objecto que vende em nome de B (autocontrato). salvo se tiver lugar a ratificação (268º nº1). se desconhecia. isto é. O negócio vale em relação ao representado.º2) 171. legitimação representativa. em maior ou menor escala. se poderia pensar e se teria de concluir se o caso não estivesse expressamente hipotizado em norma especial (261º). como. não responde). da procuração.

TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL A extinção da representação é unilateral e pode dar-se por: revogação (por parte do representado) ou renúncia (por parte do representante) (265º). Pode dar-se também por causa natural, isto é, por conclusão. O 264º faz ainda referência à hipótese de subestabelecimento: o representante representa-se por outrem.

(III)Elementos acidentais dos negócios jurídicos (Cláusulas acessórias típicas gerais) (I)Condição 176.Conceito, natureza e importância da estipulação condicional
As noções de condição suspensiva e de condição resolutiva constam do 270º: subordinação pelas partes a um acontecimento futuro e incerto ou da produção dos efeitos do negócio jurídico (condição suspensiva) ou da resolução dos mesmos efeitos (condição resolutiva). Natureza da estipulação condicional Trata-se duma vontade hipotética, embora actual, e efectiva, exteriorizada numa declaração única e incindível. Razão de ser e importância prática da condição Superação da incerteza objectiva do futuro, através de um regulamento de interesses apto a, em qualquer hipótese, realizar a representação que os sujeitos têm do seu interesse. Numa especial modalidade permite influir sobre o comportamento de outrem.

178.A aponibilidade da condição
Princípio geral A cláusula condicional é um elemento acidental, susceptível de ser inserido na generalidade dos negócios, por força do princípio da liberdade negocial. Valor de condição aposta a um negócio incondicionável Em conformidade com o princípio da incindibilidade do negócio condicional, a consequência da aposição duma condição a um negócio incondicionável é a nulidade do negócio. Tal solução, na falta de disposição que expressamente a preceitue (ex.: 848º), resultará da aplicação analógica do 271º e até genericamente do 294º.

179.Classificação das condições
Condições suspensivas e resolutivas O critério da distinção, nos termos do 270º, é o da influência que a verificação do evento condicionante tem sobre a eficácia do negócio: se a verificação da condição importa a produção dos efeitos do negócio, não tendo estes lugar doutro modo, trata-se duma condição suspensiva; se a verificação da condição importa a destruição dos efeitos negociais, aquela diz-se resolutiva. Saber se uma condição é suspensiva ou resolutiva é um problema de interpretação do negócio jurídico, não formulando o CC qualquer presunção geral, nem sendo legítimo propor qualquer presunção natural ou de facto com validade geral. Condições possíveis e impossíveis. As chamadas condições ilícitas (contrárias à lei) Os conceitos de condição impossível (física ou legalmente) e de condição contrária à lei ou à ordem pública ou ofensiva dos bons costumes resultam claramente das considerações acerca dos requisitos legais do objecto negocial: sempre que o evento condicionante não possa realizar-se por impossibilidade física ou legal, ou seja contrário à lei, à ordem pública ou ofensivo dos bons costumes, a condição respectiva terá a qualificação correspondente. A condição que consiste num facto ilícito pode ser lícita, se a cláusula condicional representar um contra-estímulo à prática desse acto; só deixará de ser assim, nesta hipótese,

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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL sendo, portanto, nula a condição, se repugnar à lei ou aos bons costumes a ideia de que se pratique tal acto mediante retribuição. Por outro lado, sendo embora o evento condicionante lícito, pode a condição ser ilícita, por força do seu nexo com o restante conteúdo do negócio.

181.Efeitos da condição suspensiva
Na pendência da condição, isto é, enquanto o evento condicionante não se verificou, nem deixou de se poder verificar. Neste período, o credor condicional não tem ainda um direito exercitável em relação ao devedor, embora as partes estejam já vinculadas, de tal modo que estão sujeitas à produção dos efeitos do negócio, uma vez verificado o evento condicionante.

(II)Termo 183.Conceito
Cláusula acessória típica pela qual a existência ou a exercitabilidade dos efeitos de um negócio são postas na dependência de um acontecimento futuro mas certo, de tal modo que os efeitos só começam ou se tornam exercitáveis a partir de certo momento (termo suspensivo ou inicial) ou começam desde logo, mas cessam a partir de certo momento (termo resolutivo ou final).

185.Aponibilidade do termo
Em obediência ao princípio da liberdade contratual, as partes gozam da faculdade de inserir esta cláusula na generalidade dos negócios. O termo pode ser aposto, em princípio, a qualquer negócio jurídico. Esta regra tem excepções, contudo, visto que há negócios que não admitem termo – negócios inaprazáveis -, os quais coincidem, em regra, com os negócios incondicionáveis.

186.Modalidades
Termo inicial, suspensivo ou dilatório (dies a quo ou ex quo) e termo final, resolutivo ou peremptório (dies ad quem) Esta distinção é paralela à que separa a condição suspensiva da resolutiva, assentando num critério baseado na influência que a verificação do facto futuro (mas certo) tem sobre a existência ou a exercitabilidade dos efeitos do negócio. Se os efeitos do negócio só começam ou só se tornam exercitáveis a partir de certo momento, o termo diz-se suspensivo ou inicial; se começam desde logo, mas cessam a partir de certo momento, o termo diz-se resolutivo ou final. Termo certo e incerto O termo é certo quando se sabe antecipadamente o momento exacto em que se verificará (ex.: o devedor fica obrigado a cumprir a sua prestação no dia 1 de Janeiro de determinado ano ou dentro de um mês a contar de certa data), e incerto quando esse momento é desconhecido (ex.: consistir o momento da morte de alguém, a qual, como se sabe, é certa, mas a sua hora incerta). Chama-se prazo ao período de tempo que decorre entre a realização do negócio e a ocorrência do termo, embora se possam atribuir outros sentidos àquela expressão. 279º regime supletivo da contagem dos prazos (importante para os advogados).

(III)Modo, encargo ou cláusula modal 188.Conceito
Cláusula acessória típica, pela qual, nas doações e liberalidade testamentárias, o disponente impõe ao beneficiário da liberalidade um encargo, isto é, a obrigação de adoptar um certo comportamento no interesse do disponente, de terceiro ou do próprio beneficiário.

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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Referem-se-lhe os 963º (doações com cláusula modal) e 2244º (instituição de herdeiro e nomeação de legatário sujeitas a encargos).

189.Distinção do modo e da condição
O modo só pode ser aposto à liberalidades, enquanto a cláusula condicional é aponível, salvas as excepções constantes da lei, a todos os negócios (gratuitos ou onerosos). Enquanto a cláusula modal se traduz na imposição, ao beneficiário da liberalidade, do dever de adoptar uma certa conduta, a condição pode ter como evento condicionante um facto de qualquer das partes (credor ou devedor condicional), um facto natural ou de terceiro ou um evento de carácter misto.

190.Valor do modo impossível ou ilícito
No CC há um artigo – 967º - que manda aplicar aos encargos modais, física ou legalmente impossíveis, contrários à lei ou à ordem pública ou ofensivos dos bons, apostos às doações, as regras estabelecidas em matéria testamentária. Há, assim, identidade de regime entre as doações e os testamentos, quanto a este ponto, contrariamente ao que resultava da legislação anterior. O 2245º manda aplicar aos encargos impossíveis ou ilícitos o regime estatuído, para as condições com as mesmas características, no 2230º. Assim, a cláusula modal impossível (física ou legalmente) tem-se por não escrita e não prejudica o donatário, herdeiro ou legatário, salvo declaração do doador ou do testador em contrário. Os encargos ilícitos (contrários à lei ou à ordem pública ou ofensivos dos bons costumes), têm-se igualmente por não escritos, ainda que o disponente disponha o contrário. A nulidade é, portanto, parcial, isto é, mantém-se o restante conteúdo da liberalidade que assim resulta ampliada, sendo tal regime supletivo, no que toca ao modo impossível, e imperativo, para o modo ilícito.

(IV)Cláusula penal 192.Conceito e importância
Cláusula penal: é a estipulação em que as partes convencionam antecipadamente uma determinada prestação, normalmente uma quantia em dinheiro, que o devedor terá de satisfazer ao credor em caso de não cumprimento, ou de não cumprimento perfeito da obrigação. Pode, assim, revestir duas modalidades: cláusula penal compensatória ou moratória, conforme tenha sido estipulada para o não cumprimento da obrigação ou para a simples mora do devedor. Aparece normalmente como cláusula do contrato, dele fazendo parte desde a sua celebração, mas nada impede que seja convencionada posteriormente, desde que antes da verificação do facto constitutivo de responsabilidade. A cláusula penal constitui a fixação antecipada e convencional do montante da indemnização, sendo uma cláusula acessória da obrigação principal, pelo que as vicissitudes desta se reflectirão na pena convencional (designação por que também é conhecida). Assim, se a obrigação principal for nula, nula é a cláusula penal (810º). A importância prática da cláusula penal é manifesta, tendo em conta as funções que desempenha. Constituindo uma forma de liquidação prévia do dano, segundo a estimativa dos próprios contraentes, superam-se assim dificuldades e incertezas várias, mormente de prova do dano e da sua extensão. Com efeito, em circunstâncias normais, e na ausência de qualquer cláusula penal, o credor, que pretenda ser indemnizado dos prejuízos resultantes da violação do contrato, terá de fazer prova, através da acção judicial competente, dos prejuízos sofridos. Existindo uma cláusula penal, contudo, o credor deixa de ter de fazer essa prova, sendo o montante da indemnização aquele em que as partes tiveram previamente acordado. Supera-se assim, com a estipulação de uma cláusula penal, a incerteza dos contraentes quanto à avaliação judicial da indemnização, conhecendo-se de antemão as

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A limitação da responsabilidade verificar-se-á. na medida ajustada. é. (V)Cláusulas limitativas e de exclusão de responsabilidade civil 194. a responsabilidade do devedor pelo não cumprimento. acordam em limitar. Pode acontecer. que o tribunal poderá reduzir o montante da cláusula penal. isto é. permitindo-se. como forma de justificar a imutabilidade da pena.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL consequências que advirão de um incumprimento do contrato e evitando-se litígios judiciais sobre o montante do dano. visto que a possibilidade de reduzir a cláusula pena depende de o seu montante se mostrar manifestamente excessivo. e não apenas de ser superior ao dano. de ter em devida conta. «desde Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 89 . 195. o bem fundado de tal argumentação. ao tribunal a redução desse montante. quer condicionando-a a determinado grau de culpa (v. em termos equitativos. revestindo-se esta função de particular importância sobretudo tratando-se de obrigações de prestação de facto infungível ou de contratos em que o cumprimento rigoroso das obrigações assume particular significado. não pode minimizar-se uma outra. mas teve de ceder perante as flagrantes injustiças a que. porém.Regime A cláusula penal é devida independentemente da extensão dos danos. em certos casos. durante algum tempo. 193. sendo o montante da indemnização aquele em que as partes tiverem antecipadamente acordado. pode a pena ser modificada na parte proporcional». visto que o código de Seabra estabelecia apenas que «se a obrigação foi cumprida em parte. O legislador não deixou. Sabendo o devedor a quantia que terá de entregar ao credor.Regime O CC não trata da disciplina das cláusulas limitativas e de exclusão de responsabilidade em termos claros e sistemáticos. quer limitando-a no seu montante. anular-se-iam as vantagens que a cláusula penal apresenta. o devedor em caso de incumprimento devido a simples culpa leve). nas circunstancias concretas. pois. cumprimento defeituoso ou mora das obrigações assumidas. de pressão sobre o devedor em ordem à execução correcta do contrato. esta situação conduzia. independentemente da desproporção existente. pois doutra forma.g. todavia. dolo e culpa grave. A possibilidade de redução equitativa de pena manifestamente excessiva. Esta argumentação foi utilizada. É certo que a fiscalização judicial da cláusula penal contende com algumas vantagens que esta figura apresenta. nos termos acordados pelas partes -. culmina um movimento que de há muito vinha salientando a necessidade de combater cláusulas penais abusivas. fosse superior ao prejuízo efectivo. a fim de evitar abusos. neste caso. referindo-se a elas apenas no 800º nº2. ao fixar a doutrina do 812º. mediante acordo prévio. se fosse permitida a redução da pena sempre que. o mesmo sucedendo se a obrigação tiver sido parcialmente cumprida (812º). que o CC consagra. exonerando. Aí se permite que a responsabilidade do devedor por actos dos representantes legais ou auxiliares possa ser convencionalmente excluída ou limitada. de alguma forma. Só em casos excepcionais. para que esta figura está especialmente vocacionada: uma função sancionatória. em termos de poder questionar-se se não ficarão assim comprometidas as sua funções de reforço da garantia de cumprimento do contrato e de certeza do montante da indemnização em caso de não cumprimento. se não cumprir a obrigação. assim. desde que antes da verificação do facto gerador de responsabilidade -. no momento da celebração do contrato – ou posteriormente. Mas além desta importante função que a cláusula penal desempenha – liquidação prévia do dano.Conceito e importância prática Cláusulas limitativas de responsabilidade: são estipulações através das quais os contraentes. a cláusula penal constituirá um incentivo ao incumprimento tanto maior quanto mais elevado for o seu montante. manifestamente excessivo. sobretudo quando a pena é de montante elevado. que esse montante se venha a revelar..

no quadro conceitual e terminológico do CC. casos de cessação dos efeitos negociais – e. nesses elementos. por impedimento decorrente do ordenamento jurídico. enquanto não for julgada procedente uma acção de anulação. porém. 200. Há. quando nem sequer aparentemente se verifica o «corpus» de certo negócio jurídico (a materialidade correspondente à noção de tal negócio) ou. o negócio não deve produzir os efeitos a que tendia. de actos directamente praticados pelo próprio devedor. Pelo contrário. Quanto à inexistência. Surgem-nos com estas características. a valoração de um negócio. Por outro lado. por causas intrínsecas ou extrínsecas. não se encontra na lei uma resposta clara e segura sobre o regime daquelas convenções. norma que impede o credor de renunciar antecipadamente a certos direitos. figuras como a resolução. esta cláusula não cabe na hipótese do 809º. A invalidade é uma espécie do género ineficácia: enquanto a ineficácia lato sensu compreende todas as hipóteses em que. formativos) do negócio. O negócio nulo não produz. denúncia. a possibilidade de as partes fixarem por acordo o montante da indemnização exigível. entre eles. que o negócio exista. pertencente a uma das partes. pela circunstância de depender. por força da falta ou vício de um elemento interno ou formativo. os efeitos que tenderia a produzir. Na invalidade. como nulo ou anulável. Tratando-se. com consequências mais graves do que a nulidade e a anulabilidade.Inexistência e invalidade (nulidade e anulabilidade) dos negócios jurídicos Inexistência e invalidade A inexistência é uma figura autónoma.Ineficacia dos negócios jurídicos (latu sensu). alguma anormalidade. (IV)Ineficácia e invalidade dos negócios jurídicos 198. revogação. na terminologia do CC à anterior distinção doutrinal entre nulidade absoluta e nulidade relativa. no 810º. porém. admite a lei. desde o início. Noção. produz os seus efeitos e é tratado como válido. mas de alguma circunstância extrínseca que. 90 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Estes dois últimos conceitos serão precisados adiante. conjuntamente com o negócio. isto é. afirma-se estarmos perante esta figura. que se verifiquem os elementos correspondentes ao seu tipo. mas da fixação de um limite máximo. Ineficácia stricto sensu e invalidade. o de indemnização. O conceito de ineficácia em sentido estrito definir-se-á. coerentemente. pressupõe. a realidade não corresponde a tal noção. caducidade. contemporâneos da sua formação. pensamos não ser abrangida pela proibição constante do 809º. de ineficácia em sentido lato – por força de eventos posteriores ao momento da sua celebração. Outras formas de ineficácia em sentido lato A ineficácia em sentido amplo tem lugar sempre que um negócio não produz. portanto. Invalidades mistas A distinção entre nulidade e anulabilidade corresponde. no todo ou em parte. Nulidade e anulabilidade. a ausência de produção dos efeitos negociais resulta de vícios ou deficiências do negócio. segundo o teor das declarações respectivas. O mesmo sucede em muitos casos de ineficácia em sentido estrito. a invalidade é apenas a ineficácia que provém de uma falta ou irregularidade dos elementos internos (essenciais. os efeitos do negócio são retroactivamente destruídos. integra a situação complexa produtiva de efeitos jurídicos. não de uma falta ou irregularidade dos elementos internos do negócio. existindo embora essa aparência. mediante esta acção. exercido. Quanto à cláusula limitativa de responsabilidade. o direito potestativo de anular. sem embargo de ocorrer. como vimos. pelo menos.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL que a exclusão ou limitação não compreenda actos que representem a violação de deveres impostos por normas de ordem pública».

a renovação. d)São insanáveis mediante confirmação (288º «a contrario») Pode. passa a ser definitivamente válido. A confirmação é um negócio unilateral. possa ter eficácia retroactiva nas relações «inter partes». 202. quer por via de excepção.Regime das anulabilidades O negócio anulável é. 204. ser precludida. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 91 . Resulta do 287º nº1 que só têm legitimidade para arguir a anulabilidade os titulares do interesse para cuja específica tutela a lei a estabeleceu. São as seguintes as características das anulabilidades: a)Têm de ser invocadas pela pessoa dotada de legitimidade Não podem ser declaradas «ex. por estipulação «ad hoc». porém. ressalvada a possibilidade da sua arguição por via de excepção. mesmo em relação a terceiros. Note-se.Efeitos da declaração de nulidade e da anulação 1)Operam retroactivamente (289º). b)São invocáveis por qualquer pessoa interessada Isto é. haverá lugar à repristinação das coisas no estado anterior ao negócio. o prazo é de três anos (1687º nº2).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 201. apesar do vício. se a restituição em espécie não for possível. portanto. 2)Não obstante a retroactividade. b)Só podem ser invocadas por determinadas pessoas E não por quaisquer interessados. poderá vir-se requerer a anulação a todo o tempo. são invocáveis a todo o tempo (286º). benfeitorias. arguindo a anulabilidade de qualquer negócio jurídico que contra elas seja invocado (287º). que a arguição da anulabilidade não está sujeita a qualquer prazo. no prazo legal e pelas pessoas com legitimidade. como nunca tendo tido lugar. A confirmação tem efeito retroactivo. em matéria de frutos. Na hipótese dos actos afectados por ilegitimidades conjugais. c)São insanáveis pelo decurso do tempo Isto é. quer por via de acção. todavia. Se não for anulado. embora. d)São sanáveis mediante confirmação (288º) A confirmação é um negócio unilateral pelo qual a pessoa com legitimidade para arguir a anulabilidade declara aprovar o negócio viciado. nesta hipótese. pelo sujeito de qualquer relação jurídica afectada. se a situação de facto foi actuada de acordo com os efeitos a que tendia o negócio. há lugar à aplicação das normas sobre a situação do possuidor de boa fé. restituindo-se tudo o que tiver sido prestado ou. porém. (289º nº3). o valor correspondente (289º nº1). contemporâneo da sua formação. tratado como válido. mesmo que o fundamento da nulidade tenha desaparecido. Há algumas diferenças entre a confirmação e a renovação. A confirmação não depende de forma especial e pode ser tácita ou expressa (288º nº3). Exigem uma acção especialmente destinada a esse efeito. 3)Em consonância com a retroactividade. no aspecto prático. nem sequer uma sentença judicial prévia. se o negócio não esta cumprido. pela verificação da usucapião (prescrição aquisitiva). ter lugar aqui um sucedâneo da confirmação: a chamada renovação ou reiteração do negócio nulo. c)São sanáveis pelo decurso do tempo O CC estabelece em prazo de um ano para a arguição das anulabilidades.Regime das nulidades a)Operam «ipso iure» ou «ipsa vi legis» Não se torna necessário intentar uma acção ou emitir uma declaração nesse sentido. é um novo contrato. em princípio. no tempo e forma devidos. Se for anulado. e podem ser declaradas «ex officio» pelo tribunal (286º). Não se produzem os efeitos jurídicos a que o negócio tendia. isto é. o que está em perfeita coerência com a ideia de que a invalidade resulta de um vício intrínseco de negócio e. officio» pelo juiz. a possibilidade de as pessoas legitimadas se defenderem. etc. considera-se que os efeitos visados não se produziram desde o início. A possibilidade da sua invocação perpétua pode. encargos. pelos efeitos a que o negócio se dirigia (286º). na sua consistência jurídica ou prática. a renovação opera «ex nunc». nos contratos nulos.

É o chamado extintivo ou abolitivo ou «contrarius consensus» (406º nº1). nos contratos de execução continuada ou periódica. mediante mera declaração. b)actua automaticamente ou de pleno direito («ipso iure»). ou implica uma acção judicial (anulabilidade). a denúncia caracterizase especificamente por ser a faculdade existente na titularidade de um contratante de. sob a forma da caducidade. sem carácter retroactivo. emergente de um contrato bilateral ou plurilateral. Denúncia Entre as formas de pôr termo à eficácia de um negócio jurídico. do autor da denúncia. Com este «contrarius consensus» as partes. mas tal efeito não se verifica. A resolução tem lugar em situações de variada natureza. Pode ter lugar igualmente uma revogação dos contratos por comum acordo. b)A resolução tem. Deve reconhecer-se. No nosso sistema jurídico abrange este conceito uma série numerosa de situações em que as relações jurídicas duradouras de tipo obrigacional criadas pelo contrato ou pelo negócio (formando no seu conjunto a relação contratual) se extinguem para futuro por força do decurso do prazo estipulado. com fundamento na lei ou em convenção das partes. a invalidade opera os seus efeitos em relação a terceiros. 206. resultando. não carecida de justificação (uma nuda voluntas). Revogação Nalguns casos a lei autoriza um dos sujeitos do negócio jurídico a revogá-lo. nos contratos de duração ou por tempo indeterminado. a que está vinculado. c)A resolução nunca prejudica os direitos adquiridos por terceiro (435º). seja um facto natural ou social («alteração anormal das circunstâncias»). a invalidade tem efeito retroactivo «inter partes». efeito retroactivo entre as partes. não dum vício da formação do contrato. Caducidade A cessação dos efeitos negociais pode ter lugar. conduziria à oponibilidade da destruição dos efeitos do negócio em face de terceiros. a invalidade. 92 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . devemos assinalar: a)a sua causa é algo de objectivo. eventualmente com eficácia retroactiva «inter partes». c)não tem carácter retroactivo. revogação. Tentando por em evidência traços específicos da caducidade. «ex nunc». caducidade e denúncia) Resolução O CC admite a chamada resolução do contrato. seja um facto da contraparte (inadimplemento de uma obrigação). extinguem a relação contratual existente entre eles. ou actua automaticamente (nulidade). fazer cessar uma relação contratual ou obrigacional em sentido amplo. a denúncia diz-se ad nutum ou ad libitum. não opera retroactivamente.: morte de uma pessoa) a que a lei atribui efeito extintivo.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 4)A retroactividade da nulidade e da anulação.A invalidade e outras formas de cessação dos efeitos negociais (resolução. levada às suas últimas consequências lógicas. em princípio. Se não se exige como pressuposto ou requisito da denúncia uma justa causa. a partir das suas manifestações legais. da consecução do fim visado ou de qualquer outro facto ou evento superveniente (ex. sem estas limitações. bem como. em princípio. normalmente um facto que vem iludir a legítima expectativa duma parte contratante. um motivo particular. a existência de um poder de denúncia sem uma específica causa justificativa. Nela se manifesta uma pura e simples vontade. O fundamento material desta denunciabilidade «ad nutum» é a tutela da liberdade dos sujeitos que seria comprometida por um vínculo demasiadamente duradouro. a)A resolução pode fazer-se mediante declaração à outra parte (436º). salvo se o terceiro adquiriu o seu direito posteriormente ao registo da acção de resolução. se contrariar a vontade das partes ou a finalidade da resolução. mas dum facto posterior à sua celebração. A revogação tem apenas a consequência de extinguir os efeitos do negócio para o futuro («ex nunc»). por mútuo consentimento. da relação contratual.

exigindo. não tendo lugar em caso de duvida. deve ter lugar a redução do negócio. nessa hipótese. todavia. declarado nulo ou anulado totalmente um negócio. «não uma vontade real. vontade). prefeririam não realizar qualquer negócio. Trata-se de averiguar aquilo que as partes teriam querido provavelmente. onde são formulados requisitos coincidentes com os enunciados pela doutrina. Requisitos de admissibilidade A doutrina nacional e estrangeira é largamente favorável à conversão dos negócios jurídicos. o problema da conversão dos negócios jurídicos.. Esses requisitos são os seguintes: 1)É necessário que o negócio inválido contenha os requisitos essenciais de forma e substância (capacidade. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 93 . Acentue-se. cujo resultado final económico-jurídico. no caso de um fundamento de invalidade ser relativo apenas (afectar apenas) uma parte do conteúdo negocial. o negócio deve valer na parte restante (não afectada) ou deve ser nulo ou anulável na sua totalidade. dado o 410º nº2. necessários para a validade do negócio sucedâneo. sem atender à vontade hipotética. mas a vontade como que fingida ou construida pelo juiz». que. 2)Exige-se que a vontade hipotética ou conjectural das partes seja no sentido da conversão. Se se concluir que as partes. a produção do mesmo fenómeno é. 208. Se é de admitir que as partes..TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 207. se soubessem que o negócio se opunha parcialmente a alguma disposição legal e não pudessem realizá-lo em termos de ser válido na sua integridade. objecto. provavelmente. a conversão exige a prova da vontade hipotética ou conjectural das partes. O problema da conversão dos negócios jurídicos Os termos do problema Trata-se de saber se. a venda verbal de imóveis é inconvertível em promessa de compra e venda. diversamente do que sucede com a redução dos negócios jurídicos. a este propósito. este não produzirá quaisquer efeitos negociais ou se. se aproxime do tido em vista pelas partes com a celebração do contrato totalmente inválido. na hipótese de se terem apercebido do vício do negócio principal. Admissibilidade da conversão no nosso direito A conversão é genericamente regulada no 293º.Formas de aproveitamento de negócios inválidos. dados certos requisitos. embora mais precário. não pudessem tê-lo celebrado sem essa deficiência. não poderá reconstituirse. um outro negócio. Trata-se de saber se. Só haverá conversão. sempre o teriam realizado na parte não directamente atingida pela invalidade. com os materiais do negócio totalmente inválido. O problema da redução dos negócios jurídicos Posição do problema O problema da redução dos negócios jurídicos insere-se na disciplina dos efeitos das nulidades e anulabilidades pessoais. quando se imponha a conclusão de que as partes teriam querido o negócio sucedâneo se. Assim. expressamente determinada em disposições particulares (conversão «ope legis»): 946 nº2 (conversão legal das doações por morte em disposições testamentárias). predominantemente. certos requisitos de admissibilidade. o critério da vontade hipotética ou conjectural das partes. Solução do problema Na doutrina propõe-se. em geral.Formas de aproveitamento de negócios inválidos. 3)É frequentemente exigido pela doutrina que o negócio sucedâneo diga respeito ao mesmo objecto material a que respeitava o negócio principal. deve concluir-se pela invalidade total. Para além desta norma (293º) que resolve.

em relações jurídicas do mais diverso tipo. 4)Por último. é um instituto endereçado fundamentalmente à realização de objectivos de conveniência ou oportunidade. também. Na caducidade só o aspecto objectivo da certeza e segurança é tomado em conta. de ofício (303º). o que faz presumir uma renúncia ou. pelo menos. a intenção de exercer o direito. em harmonia com o velho aforismo «dormientibus non succurit jus». directa ou indirectamente.Prescrição extintiva e caducidade. por serem fundadas numa presunção de cumprimento. bem como o facto de influírem sobre o prazo de prescrição. uma prescrição de cinco anos (310º). da ponderação de uma inércia negligente do titular do direito em exercitá-lo. O que explica. ao contrário do regime geral da prescrição. não comporta causas de suspensão nem de interrupção (328º).). que o prazo ordinário da prescrição é de vinte anos (309º). a prescrição arranca. enquanto que a prescrição se interrompe pela citação ou notificação judicial de qualquer acto que exprima.. e 323º ss. por interrompida.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL (III)Eficácia do decurso do tempo nas relações jurídicas 209. diversamente do que sucede com a prescrição. Há prazos mais curtos para as chamadas prescrições presuntivas (que se fundam na «presunção de cumprimento» . Assim: 1)Admitem-se estipulações convencionais sobre a caducidade (330º). por último. (93. o qual é interrogável (300º). possam embora não lhe ser totalmente estranhas razões de justiça. susceptível de influir. v. Remissão O tempo é um facto jurídico não negocial. Os problemas mais importantes colocados pela repercussão do decurso do tempo no mundo dos efeitos jurídicos referem-se à prescrição extintiva e à caducidade. os quais podem ser de seis meses (316º) ou de dois anos (317º). se estas não tiverem sido feitas por causa não imputável ao requerente (323º). igualmente. em princípio. Estas prescrições presuntivas. em princípio. 2)A caducidade é apreciada oficiosamente pelo tribunal (333º). Diversamente da caducidade. situações e acontecimentos que excluem a possibilidade de a falta de exercício do direito ser atribuída a inércia do titular – situações e acontecimento a que podem suspender ou interromper a prescrição. em muitos domínios do direito civil. 94 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . que a caducidade seja apreciada oficiosamente pelo tribunal – ao contrário da prescrição. De referir. para certas hipóteses. podem.) Há importantes diferenças de regime entre a prescrição e a caducidade. prevendo a lei. não podendo o tribunal supri-la. que tem que ser invocada. que tem que ser invocada -. mas não a caducidade.g. pela prática do acto (331º). tendo-se. ser ilididas por confissão do devedor (306º). o torna indigno da tutela do Direito. o mesmo não acontecendo a respeito do regime da prescrição. A prescrição extintiva. ao contrário da prescrição que se suspende e interrompe nos casos previstos na lei (respectivamente 318º ss. e não sobre o da caducidade.312º). a caducidade só é impedida. 5 dias depois de requerida a citação ou a notificação. 3)A caducidade.

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