TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL

Introdução 1.Âmbito da teoria geral do direito civil
Não se vai falar curar problemas específicos de direitos das coisa, de família, sucessões ou de crédito. Caracterizar figuras, equacionar problemas, formular soluções respeitantes a todo o domínio do direito civil ou, pelo menos, comum a normas e relações pertencentes a mais do que uma das referidas quatro partes especiais do direito civil. Teoria que visa reduzir algo amplo; tenta sintetizar. Apresenta um sistema de noções relacionadas entre si. Teoria da parte geral do direito civil; parte geral – pandectística.

2.Conteúdo da teoria geral do direito civil. Plano do curso
Impõe-se o conhecimento das fontes actuais do direito civil português. Fontes de direito civil: não tanto os modos de surgimento da regra, mas as próprias sedes onde se localiza o direito civil já nascido. Considera-se, então, os diplomas fundamentais do sistema de direito civíl português. É também essencial o conhecimento dos princípios básicos que formam a arquitectura do nosso sistema de direito civíl.

3.Divisão da teoria geral do direito civil: teoria geral do ordenamento jurídico civil e teoria geral da relação jurídica civil
Direito, em sentido objectivo: conjunto de princípios regulamentadores, de regras de conduta, de normas de disciplina social. Direito, em sentido subjectivo: sinónimo de poder ou faculdade. Teoria geral da norma jurídica: é a teoria geral do direito objectivo. Teoria geral da relação jurídica: é a teoria geral do direito subjectivo. A divisão da TGDC nestas duas partes é legítima porque utiliza como critérios de arrumação e referência dos problemas e soluções, duas categorias fundamentais do conhecimento do direito: - norma jurídica - relação jurídica A norma ou regra jurídica é uma dimensão fundamental do direito – é um veículo imprescindível da realização dos valores jurídicos. O direito visa realizar determinados valores, fundamentalmente a certeza desse disciplina e a segurança da vida dos homens, por um lado, e a «rectidão» ou «razoabilidade» das soluções, por outro. A realização da igualdade exige uma consideração normativa – geral – da realidade social a que o direito se aplica. A estatuição prescrita pelo direito para um situação deve ser aplicável às situações do mesmo tipo ou género. A existência de um direito recto e certo implica, pois, a sua formalização normativa, a formulação de prescrições gerais. O conceito de relação jurídica está na base da sistematização do nosso código civil. Estabelece-se uma parte geral que engloba as temas relevantes aos elementos comuns às outras quatro partes e estas, por sua vez, correspondem ao direito aplicável a quatro espécies ou modalidades diversas de relações jurídicas. Esta sistematização é conhecida por: sistematização germânica. Diverso era o plano francês. O direito não regula o homem isolado ou considerado em função das suas finalidades individuais, mas o homem no seu comportamento convivente. O direito pressupõe a vida dos homens uns com os outros e visa disciplinar os interesses contra postos nesse entrecruzar de actividades e interesses. Relação jurídica: ligação entre os homens, traduzida em poderes e vinculaçoes. Várias vozes têm formulado um veredicto anti-humano. O sujeito da relação jurídica são as pessoas colectivas. Tal ponto de vista dirige-se, pois, a um modo de arrumação, a uma forma de exposição, mais do que ao conteúdo das soluções expressas.

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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL

4.O direito civil como parte do direito privado
O direito civil é direito privado. Segundo um clássica distinção o direito divide-se em dois grandes ramos: - direito público - direito privado O direito civil constitui o direito privado geral.

5.Direito público e privado
privado. A teoria dos interesses é frequentemente referida para distinguir direito público do

Estaríamos perante uma norma de direito público: quando o fim dessa norma fosse a tutela de um interesse público, isto é, um interesse da colectividade; deparar-se-ia uma norma de direito privado: quando a norma visa tutelar ou satisfazer interesses individuais, isto é, interesses dos particulares. A este critério pode-se dirigir várias críticas: a) As normas de direito privado não se dirigem apenas à realização de interesses dos particulares, tenso em vista frequentemente, também, interesses públicos. Isso leva à intervenção pública. As normas de direito público, por sua vez, para além do interesse público visado, pretendem, também, dar adequada tutela a interesses dos particulares. Todas as normas, por cima dos interesses específicos e determinados que visam, miram um fundamental interesse público: o da realização do direito ou, se quisermos, da segurança e da rectidão. b) O critério apreciado só poderá tentar manter-se se procurar exprimir apenas uma nota tendencial: o direito público tutelaria predominantemente interesses da colectividade e o direito privado protegeria predominantemente interesses dos particulares. 1 – Não pode saber-se, em muitos casos, qual o interesse predominante. 2 – Há normas que, dado o lugar da sua inserção no sistema jurídico e dada a tradição e o desenvolvimento histórico do direito, são pacificamente classificadas como de direito privado e, todavia, visam predominantemente interesses públicos. O direito público: disciplina relações entre entidades que estão numa posição de supremacia e subordinação. O direito privado: regula relações entre entidades numa posição relativa de igualdade ou equivalência a) O direito público regula, por vezes, relações entre entidades numa relação de equivalência ou igualdade, como acontece com as relações entre autarquias locais. b) O direito privado disciplina, também, algumas vezes, situações onde existem posições relativas de supra-ordenação e infra-ordenação, como acontece com o poder paternal. Pode apenas dizer-se que a equivalência ou posição de igualdade dos sujeitos das relações jurídicas é normalmente característica da relação disciplinada pelo direito privado e a supremacia e subordinação característica normal da relação de direito público. A teoria dos sujeitos é hoje em dia o critério mais adequado, em virtude de assentar na qualidade dos sujeitos das relações jurídicas disciplinadas pelas normas a qualificar como de direito público ou privado. Segundo este critério o direito privado regula as relações jurídicas estabelecidas entre particulares ou entre particulares e o Estado ou outros entes públicos, mas intervindo o Estado ou esses entes públicos em veste particular, isto é, despidos de «imperium» ou poder soberano. É necessário, para se nos deparar uma norma de direito público, que pelo menos um dos sujeitos da relação disciplinada seja um ente titular de «imperium», de autoridade, que intervenha nessa veste. Os dois sectores não se separam de forma tão absoluta e completa.

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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL No domínio do direito do trabalho é discutido onde deve passar a linha divisória. O direito do trabalho contém normas de direito público (ex.: regras sobre intervenção administrativa na disciplina colectiva das relações de trabalho; as normas do chamado direito da previdência social), e normas de direito privado (ex.: normas reguladoras do contrato individual de trabalho)

6.Alcance prático da distinção entre direito público e privado
A divisão efectuada e a exacta integração de cada norma na categoria correspondente, revestem interesse no próprio plano de aplicação do direito. A distinção entre direito público e privado vai muitas vezes determinar as vias judiciais a que o particular que se considera lesado pelo Estado ou por uma autarquia local deve recorrer ou vice-versa. Se o particular tem uma pretensão contra o Estado ou contra um ente público, há que averiguar, se a relação jurídica donde essa pretensão deriva é uma relação de direito público ou privado. As acções entre particulares ou entre um ente particular e o Estado ou outra pessoa colectiva pública derivadas duma relação de direito privado devem ser propostas nos tribunais judiciais. Quando o assunto entre particulares e entes públicos ou entre estes diz respeito a relações jurídicas de direito público ou a efeitos jurídicos com elas conexionadas são competentes os tribunais administrativos. A responsabilidade civil, isto é, a obrigação de indemnizar os prejuízos sofridos, decorrente de uma actividade de órgãos, agentes ou representantes do Estado está sujeita a um regime diverso, consoante os danos são causados no exercício de uma actividade de gestão pública ou privada. Se os danos resultam de uma actividade de gestão pública, os pedidos de indemnização feitos à administração são apreciados por tribunais administrativos. Se os danos resultam de uma actividade de gestão privada, os pedidos de indemnização contra a administração central ou local, são deduzidos perante os tribunais judiciais. Actividade de gestão pública: é a actividade da administração disciplinada pelo direito público. Actividade de gestão privada: é a que é regida pelo direito privado.

7.O direito civil como direito privado comum. O direito comercial e do trabalho. A autonomia de outros ramos do direito.
O direito civil constitui o núcleo fundamental do direito privado. Constituir o núcleo fundamental do direito privado não significa ser todo o direito privado, mas apenas o direito privado comum ou geral. Historicamente, o direito privado confunde-se com direito civil, regendo este, sem restrições, todas as relações jurídicas entre sujeitos privados. O desenvolvimento da sociedade fez surgir ou acentuou necessidades específicas de determinados sectores da vida dos homens. Daí que fossem surgindo regras especiais para esses sectores particulares, estatuindo, para os domínios respectivos, regimes diversos dos que se aplicam à generalidade das relações jurídico-privadas do mesmo tipo. Essas normas especiais, em dado momento, passaram a compendiar-se. Dentro do direito privado surgiram assim, por especialização relativamente às normas do direito civil, ramos autónomos de direito. Esses ramos autónomos são: - direito comercial - direito trabalho Estes são direito privado especial, enquanto o direito civil é direito privado comum. O direito comercial e o direito do trabalho dão às particulares relações jurídicoprivadas a que se aplicam, uma disciplina diferente da que o direito civil dá às relações jurídicoprivadas em geral. Neste domínio das relações patrimoniais ligadas ao comércio ou à actividade laboral, se aplicam, todavia, por força do referido caracter subsidiário do direito civil, muitas normas gerais que assim cobrem todo o domínio do direito privado.

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A entidade patronal estaria normalmente em posição da impor ao trabalhador condições inaceitáveis. Tem essa função enquanto está construído à volta da ideia de autonomia da pessoa e a autonomia é condição básica da personalidade. em ordem a dar satisfação a exigências do tipo indicado. à situação social dos trabalhadores. ainda que não se integrem nos tipos correspondentes aos actos objectivamente comerciais. As necessidades próprias do comércio. Tutela os interesses dos homens em relação com outros homens. O direito comercial é identificado pelos autores como uma disciplina de formas e mecanismos jurídicos cuja génese visa servir as finalidades das empresas. O direito do trabalho: na sua parte privatística. a disciplina da vida quotidiana do homem comum. etc. poder de autodeterminação nas relações com as outras pessoas. sejam ou não comerciantes as pessoas que nele intervêm. Eis porque no domínio laboral se veio a verificar um rigoroso intervencionismo estatal. contrato entre o trabalhador e a entidade patronal. tratando o trabalho como qualquer outra prestação. decorre a disciplina especial. A autonomia é uma ideia fundamental do direito civil. É executado por força de um contrato de trabalho. A disciplina das relações de trabalho tem. O direito comercial e o do trabalho regulam certos actos e relações jurídicas em termos especiais. bem como os actos dos comerciantes conexionados com o seu comércio. em maior ou menor escala. o desenvolvimento industrial e comercial posterior. Esta autonomia. com propriedade. com propriedade. negociadas a nível de classes organizadas e não dos indivíduos. a teoria geral do direito civil seja uma teoria geral do direito privado O direito comercial: disciplina os actos de comércio. A organização estadual proporciona ao particular meios eficazes e indispensáveis para o pleno desenvolvimento na sua personalidade e quanto ao exercício desses meios. 8. a concentração operária vieram a determinar uma profunda modificação neste domínio. Daí que. o crescimento das empresas. de se afastar do regime geral dos contratos. relativamente ao direito civil. condições que este se veria obrigado a aceitar por a sua sobrevivência depender necessariamente da alienação da sua força de trabalho. prende-se com importantíssimos problemas e interesses ligados à vida económica da colectividade. Esta disciplina recta da vida do homem é realizada pelo direito civil numa perspectiva de autonomia da pessoa do desenvolvimento da sua personalidade. essa especialidade decorre das particulares necessidades que a zona de vida respectiva se fazem sentir. se possa dizer ser o direito civil um direito privado comum e subsidiário dos ramos autónomos jurídico-privados. A actividade laboral. formulador de normas imperativas ou reconhecedor de convenções colectivas de trabalho.Sentido do direito civil: a autonomia da pessoa. das suas especificidades. Como actos de comércio considera o código comercial certos tipos que descreve. O direito civil contém a disciplina positiva da actividade de convivência da pessoa humana com as outras pessoas. o 4 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . efeitos e extinção. diversos de regulamentação que o direito civil dá aos negócios jurídicos patrimoniais em geral.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Daí que. disciplina directamente o trabalho subordinado prestado a outrem. supõe necessariamente a igualdade ou paridade de situação jurídica dos sujeitos. que é proporcionada pelo direito comercial. à formação profissional. a igualdade. Enquanto o código civil de 1867 regulava o contrato de trabalho nos termos gerais dos contratos. quanto à sua constituição. Outra ideia caracterizadora do sentido do direito civil é a de que este se encontra directamente ao serviço da plena realização da pessoa na sua vida com as outras pessoas.

lesa o interesse social com certa intensidade. O direito civil situa-se no núcleo mais íntimo e fundamental da sociedade. numa visão personalista.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL particular encontra-se em situação de plena autonomia. que visa precisamente assegurar a autonomia e a realização da personalidade no plano das relações com as outras pessoas.: a faculdade de poder obter tratamento hospitalar. Seria exagerado dizer que só o direito civil é o direito da pessoa. precisando-a e concretizando-a. estruturas instrumentais ao serviço da pessoa humana. Dispõe o artigo 1º do código civil que são fontes de direito: as leis e as normas corporativas. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 5 . além do prejuízo causado à pessoa. emanada dos órgãos estaduais competentes segundo a CRP. Não pode esquecer-se ser fundamentalmente a vida das pessoas. Estes meios de direito público. ordenamento dirigido à protecção dos valores da colectividade. uma convivência com outras pessoas humanas. a necessidade de reconstituir os interesses da pessoa lesada.Sequência (pág. Toda a sua aparelhagem visa criar condições que facilitem ou melhorem a realização da personalidade na vida dos homens. são. isto é. onde se manifestam apenas interesses dos particulares. não se exige a consciência da obrigatoriedade dos referidos usos por parte dos que o adoptam. Quando um comportamento lesivo de outrem. O costume não é reconhecido como fonte de direito. Os usos só valem quando a lei o determinar. Estas não são hoje fonte de direito. Ex. tutela coercitivamente os interesses das pessoas. a reacção do direito civil reforçada pelo direito criminal. frequentar escolas. A tutela é operada. Lei: toda a disposição imperativa e geral de criação estadual. Estas disposições iniciais regulam a matéria das fontes de direito. disciplina as relações sociais de pessoa para pessoa O direito civil disciplina substancialmente as relações de pessoa a pessoa e porque é um ordenamento jurídico. embora integrada no quadro ou no sistema legal. isto é. dar vida à norma legal. Esta tutela evidencia claramente estarmos no plano das relações de pessoa a pessoa. O código civil refere-se igualmente aos usos conformes aos princípios de boa fé. Missão do julgador: cabe-lhe. A jurisprudência está igualmente excluída do quadro das fontes de direito. em face do caso concreto. impondo ao infractor dos seus comandos. nem sequer como modo de integração de lacunas da lei. que o direito visa facilitar ou melhorar. com especial relevo comunitário. Esta «concretização» da lei implica uma explicitação das suas virtualidades e um desenvolvimento e enriquecimento dela.45) PARTE I Teoria geral do ordenamento jurídico civil (I)Fontes do direito civil português 10. 9.Formas de surgimento das normas jurídicas civis Os modos de aparecimento das normas integradoras do ordenamento jurídico civil vêm indicados nos primeiros artigos do código civil. não se reconhecendo um direito consuetudinário vigente. Normas corporativas: disposições gerais e imperativas emanadas das entidades reconhecidas na CRP com a designação de organismos corporativos.

Nesta parte atende-se à disciplina das relações jurídicas em geral. Seguramente que se encontrarão. É que os resultados a que o julgador chegou só têm força vinculativa para o caso concreto a ser decidido.das obrigações em geral – 397º a 873º .do direito de superfície – 1524º a 1542º . sua interpretação e aplicação – 1º a 65º . que é feita preceder de uma parte geral. fiscalizadoras ou sindicantes da aplicação das restantes normas do ordenamento jurídico.das leis.dos contratos em especial – 874º a 1250º LIVRO III – Direito das coisas .TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL O carácter constitutivo desta intervenção judicial é sobretudo importante no que se refere à aplicação aos casos da vida de conceitos indeterminados e cláusulas gerais em que aliás o código civil é fértil.Diplomas fundamentais do direito civil português A lei é a fonte mais importante.do casamento – 1587º a 1795º .da filiação – 1796º a 1972º .das relações jurídicas – 66º a 396º LIVRO II – Direito das obrigações . Correspondendo as 4 partes especiais do código civil aos 4 tipos de relações jurídicas. Este carácter constitutivo da intervenção judicial é ainda claramente manifestado no caso particular de certas cláusulas gerais.da sucessão legítima – 2131º a 2150º . é oportuna a definição de cada um desses tipos de relações. Em conformidade com este plano o código civil divide-se da seguinte forma: LIVRO I – Parte geral . Como já foi dito o código civil de 1966 está sistematizado segundo a sistematização germânica. O sistema jurídico auto-limitou-se: criando meios de controlo dos resultados da aplicação das restantes normas. É o caso do princípio do abuso de direito. casamento e filiação.disposições gerais – 1576º a 1586º . Apesar do carácter concretizador da actividade do juiz não podemos atribuir à jurisprudência o carácter de fonte de direito.do direito de propriedade – 1302º a 1438º .das servidões prediais – 1543º a 1575º LIVRO IV – Direito da família .das sucessões em geral – 2024º a 2130º . O vértice de todo o ordenamento jurídico é constituído pelo direito constitucional. Trata-se dum aspecto formal. É igualmente importante para o direito civil o artigo 36º.dos alimentos – 2003º a 2020º LIVRO V – Direito das sucessões . uso e habitação – 1439º a 1490º . 11. que contém princípios fundamentais sobre família.da adopção – 1973º a 2002º . 6 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados .da enfiteuse – 1492º a 1523º .da posse – 1251º a 1301º .da sucessão legitimária – 2151º a 2178º . na CRP princípios determinantes do conteúdo do direito civil português.do usufruto.da sucessão testamentária – 2179º a 2334º Este é o chamado sistema externo do código civil. O julgador considerará certos momentos racionais e denominadores objectivos. Assenta esta sistematização na classificação germânica das relações jurídicas de direito privado.

Direitos reais: relações de um sujeito jurídico com todas as outras pessoas. Direito das sucessões: relações dirigidas a actuar a transmissão dos bens por morte do seu titular. toma o indivíduo e a sua trajectória vital como critério de sistematização («visão antropocêntrica» . mas segundo uma ordenação que deve estar presente no espírito do julgador. com a doutrina dos nossos jurisconsultos oitocentistas. 2 – formulação de conceitos gerais-abstractos: tipos de situações da vida. jusnaturalista setecentista e do liberalismo individualista. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 7 . Um autor alemão (LARENZ) distingue 3 tipos de formulação legal: 1 – formulação casuística: prevendo o maior número possível de situações da vida. Desta relação entre uma parte geral e as partes especiais resulta que as normas contidas no código não se dispõem segundo um mero alinhamento ou contiguidade. 13. Contém um «direito de juristas».O código civil de 1966: características do tipo de formulações legais utilizado Um código civil pode corresponder a modelos diversos. O código civil português adopta fundamentalmente o tipo de formulação mediante conceitos gerais-abstractos. sob o ponto de vista do tipo de formulação legal adoptado.O sistema do código civil de 1966: coordenação da parte geral e das partes especiais O sistema externo do código civil português assenta numa parte geral e em 4 partes especiais. O seu conteúdo reflecte influências do direito romano. A atenuação desta desvantagem foi visada pelo legislador do código civil português introduzindo neste diploma legal cláusulas gerais para uma possibilidade de adaptação às várias situações da vida. esta é de carácter técnico. 3 – formulação de directivas: o legislador recorre a linhas de orientação. 12. Este método possibilita um mais elevado grau de segurança e uma razoabilidade das soluções em geral mas pode levar o juiz a decisões menos rectas para o caso concreto. Era um código onde se combinava o nosso direito tradicional.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Direito das obrigações: vínculos jurídicos por virtude dos quais uma pessoa fica adstrita para com outra à realização de uma prestação. traduzido em liberdade contratual e no respeito inflexível pelas convenções privadas. expresso em linguagem de técnicos. Com a entrada em vigor do código civil de 1966. Dentro de algumas destas partes especiais encontra-se também. especializado. parentesco.CABRAL DE MONCADA). afinidade ou adopção. Direito da família: relações emergentes do casamento. Quanto à linguagem utilizada pelo código civil português de 1966. O seu mundo filosófico-cultural nítido é o individualismo. cessou a vigência do código de Seabra de 1867. um conjunto de disposições gerais. 14. Na sua original sistematização. canónico.O código civil português: as circunstâncias históricas da sua elaboração e a legislação anterior Os trabalhos dirigidos à elaboração do actual código civil português estenderam-se por cerca de 22 anos. por força das quais aquele sujeito adquire um poder directo e imediato sobre uma coisa.

O princípio da igualdade que caracteriza. matérias do direito privado comum. A aplicação de normas constitucionais à actividade privada faz-se: a) através de normas de direito privado que reproduzem a seu conteúdo (ex. O princípio da igualdade perante a lei parece impor necessariamente a inconstitucionalidade de quaisquer normas de direito civil que não sejam normas gerais.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Durante a sua vigência foram publicados alguns diplomas que alteraram o regime de algumas matérias nele disciplinadas: a) Lei do divórcio – 1910 b) Leis da família – 1911 c) Estabelecimento do registo civil obrigatório – 1911 d) Concordata com a Santa Sé – 1940 Antes da entrada em vigor do código civil de 1867 o principal diploma do nosso direito civil identifica-se com as ordenações filipinas (1603). a posição dos particulares em face do Estado. c) em casos absolutamente excepcionais. no domínio das convenções entre particulares. o juiz e os órgãos administrativos não devem aplicar normas inconstitucionais. Aplicação de normas constitucionais às relações entre particulares As normas de direito civil estão fundamentalmente contidas no código civil português de 1966. Direito civil e direito constitucional. embora se pudesse sustentar que esta protecção dos cidadãos já se encontrava guarida no artigo 17º e 80º do CC). Os preceitos constitucionais na sua aplicação às relações de direito privado devem conciliar o seu alcance com o de certos princípios fundamentais do direito privado – eles próprios conformes à CRP. As 8 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Problemas de direito civil podem encontrar a sua solução numa norma que não é de direito civil.: direito ao nome – artigo 72º do CC e 26º da CRP). Ex.: a protecção contra o uso incorrecto da informática. b) através de cláusulas gerais e conceitos indeterminados.As normas aplicáveis às relações de direito civil. uma norma constitucional reconhecedora de um direito fundamental aplica-se independentemente da mediação de uma regra de direito privado (ex. igualmente. nos termos do artigo 35º da CRP.: será nulo um contrato ou cláusula geral pela qual alguém se obrigue a professar ou a abandonar certa religião. Parece conveniente e susceptível de conduzir a resultados mais razoáveis que a aplicação das normas constitucionais a actividades privadas se faça com referencia a instrumentos e regras próprios do direito civil.: ordem pública do artigo 280º do CC). salvo se o tratamento desigual implica a violação de um direito de personalidade de outrem. não pode. em termos gerais. porém. Tal estipulação contraria o citado preceito constitucional. por não existir clausula geral ou conceito indeterminado adequado. cujo conteúdo é preenchido com os valores constitucionalmente consagrados (ex. O legislador deve emitir normas de direito civil não contrárias à CRP. sobrepor-se à liberdade contratual. Alguns diplomas avulsos regulam. mas de direito constitucional. (II)Os princípios fundamentais do direito civil português (1)Introdução 15.

Este quadro de princípios. sociedades.A existência de princípios básicos do direito civil. 18. Carácter histórico desses princípios de ordenação sistemática interna. fundações). O princípio da igualdade impõe que o legislador não possa tratar arbitrariamente o essencialmente igual como desigual.: escravatura).: associações. Os seres humanos não são necessariamente. Há uma ordenação dessas normas (a nível não apenas formal. a sua susceptibilidade de direitos e obrigações. leis-provisão ou leis individuais). desprovidos de conexão uns com os outros. Bem se compreende que no nosso tempo não sofra discussão o reconhecimento dessa qualidade jurídica a todos os seres humanos. A aplicação do direito civil a essa convivência humana desencadeia uma teia de relações jurídicas entre os homens. pessoas em sentido jurídico (ex. corresponde a uma condição indispensável da realização por cada homem dos seus fins ou interesses na vida com os outros. leis-providência. A autonomia e a igualdade como seus pressupostos actuais A massa das normas jurídicas não é um conjunto desordenado de preceitos avulsos. tendo como destinatário os seres humanos em convivência. culturais e históricos que condicionam toda a organização da sociedade em cada momento e em cada lugar. Quer os princípios conformadores do nosso actual modelo de direito civil.O reconhecimento dos direito de personalidade jurídica de todos os seres humanos O direito só pode ser concebido. do ponto de vista lógico. são elementos válidos numa dada circunstância espacial e temporal.: leis-medida. o penetram e são por ele desenvolvidos: I – o reconhecimento da pessoa e dos direitos de personalidade II – o princípio da liberdade contratual III – a responsabilidade civil IV – a concessão da personalidade jurídica às pessoas colectivas V – a propriedade privada VI – a família VII – o fenómeno sucessório (2)O reconhecimento da pessoa e dos direitos de personalidade 17. nem o essencialmente desigual arbitrariamente como igual.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL normas aplicáveis a uma só situação ou a um conjunto de situações seriam normas inconstitucionais (ex. Trata-se de um produto histórico. relações traduzidas em poderes (direitos) e deveres jurídicos «lato sensu». princípios ou instituições que fundamentam o nosso actual direito civil. Artigo 66º n. não brotou por espontânea geração no solo da vida social de hoje. As pessoas em sentido jurídico não são necessariamente seres humanos (ex. quer as normas que os aceitam e desenvolvem. Podemos considerar 7 ideias. determinado pelos dados sociológicos.º 1 CC «Reconhece-se personalidade jurídica a todo o ser humano a partir do nascimento completo e com vida». Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 9 . A personalidade jurídica.O reconhecimento de um círculo de direitos de personalidade A susceptibilidade de direitos e obrigações implica a titularidade real e efectiva de alguns direitos e obrigações. mas substancial ou material). que fundamenta e retrata sinteticamente o direito civil actual. 16.

negócios jurídicos bilaterais: constituído por duas ou mais declarações de vontade convergentes. O negócio jurídico é uma manifestação do princípio da vontade ou princípio da autonomia privada subjacente a todo o direito privado. a sua saúde física. o seu nome. de actos de vontade. Os direitos de personalidade são irrenunciáveis. de actos pelos quais os particulares ditam a regulamentação das suas relações.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Direitos de personalidade: a pessoa é titular de um certo número de direitos absolutos. Nos negócios unilaterais a autonomia da vontade está sujeita a muito maiores restrições do que nos contratos: a) os negócios unilaterais constitutivos de obrigações são apenas os que estiverem previstos na Lei (princípio da tipicidade). Negócios jurídicos: os actos jurídicos. constituindo-as. quando uma parte formula e comunica uma declaração de vontade (proposta) e a outra manifesta a sua anuência (aceitação). reserva sobre a intimidade da vida privada. imagem. O direito protege os vários modos de ser físicos ou morais da personalidade. É também a autonomia privada que se manifesta no poder de livre exercício dos seus direitos ou de livre gozo dos seus bens pelos particulares. incidindo sobre os vários modos de ser físicos ou morais da sua personalidade. tendentes à produção de um resultado jurídico unitário. Só há negócio jurídico bilateral. O negócio jurídico é um meio de actuação da autonomia privada. no tocante à actuação humana juridicamente relevante. que desencadeia uma punição estabelecida pelo código penal. Autonomia da vontade: o poder reconhecido aos particulares de auto-regulamentação dos seus interesses. honra. integridade física. Cabe ao direito civil uma função de protecção ou defesa dos direitos constituídos ao abrigo da sua função modeladora. Os particulares podem estabelecer a ordenação das respectivas relações jurídicas. Este é um círculo de direitos necessários. de autogoverno da sua esfera jurídica. podem todavia ser objecto de limitações voluntárias que não sejam contrárias aos princípios da ordem pública (artigo 81º). Segundo ela. 10 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados .negócios jurídicos unilaterais: perfaz-se com uma só declaração de vontade. liberdade física e psicológica. na realização de negócios jurídicos. Os direitos de personalidade incidem sobre: a vida da pessoa. os negócios jurídicos agrupam-se em duas classes: . Uma importante classificação dos negócios jurídicos é a resultante do critério do número e modo de disposição das declarações de vontade que os integram. A autonomia privada ou autonomia da vontade encontra os veículos da sua realização nos direitos subjectivos e na possibilidade de celebração de negócios jurídicos. desde logo. um conteúdo mínimo e imprescindível da esfera jurídica de cada pessoa. Este autogoverno da sua esfera jurídica. manifesta-se. A violação de alguns desses aspectos da personalidade é até um facto ilícito criminal. b) nos negócios unilaterais modificativos vigora também o princípio da tipicidade. (3)O princípio da liberdade contratual 19. A autonomia privada é uma ideia fundamental deste ramo do direito. modificando-as. que se impõem ao respeito de todos os outros.A liberdade contratual manifestação da autonomia da vontade no domínio dos contratos A produção de efeitos jurídicos resulta principalmente. . cujos efeitos são produzidos por força da manifestação de uma intenção e em coincidência com o teor declarado dessa intenção. extinguindo-as e determinando o seu conteúdo.

Simplesmente esta liberdade seria a de não satisfazer uma necessidade importante. Teoricamente não há aqui restrições à liberdade de contratar. à ordem pública a aos bons costumes). contudo. 2 – Liberdade de modelação do conteúdo contratual: consiste na faculdade conferida aos contraentes de fixarem livremente o conteúdo dos contratos. pelo que a recusa de contratar de uma das partes não impede a formação do contrato (ex.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 20. Uma das partes formula unilateralmente as cláusulas negociais e a outra parte aceita as condições. ex. c) na sujeição do contrato a autorização de outrem. b) na proibição de celebrar contratos com determinadas pessoas. Eis algumas dessas restrições: a) submete-se o contrato aos requisitos do artigo 280º (são nulos os contratos contrários à lei. ou rejeita-as. As partes podem: a) realizar contratos com as características dos contratos previstos e regulados na lei (contratos típicos).: estatuto da ordem dos médicos. c) concluir contratos diferentes dos contratos expressamente disciplinados na lei (contratos atípicos). pois os contratos de adesão Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 11 . celebrados a nível de categorias económicas ou profissionais.Aspectos contidos no princípio da liberdade contratual: a liberdade de conclusão ou celebração dos contratos e a liberdade de modelação do conteúdo contratual. Segundo tal princípio a ninguém pode ser impostos contratos contra a sua vontade ou aplicadas sanções por força de uma recusa de contratar nem a ninguém pode ser imposta a abstenção de contratar.: cobrança de juros excessivos). Negócio de compra e venda + doação de 800). contêm normas a que os contratos individuais. relativos aos deveres de prestação de serviços que impendem sobre os médicos). aludidas no artigo 405º. Restrições à liberdade de celebração dos contratos: a) na consagração de um dever jurídico de contratar. Os contratos de adesão Artigo 405º do CC. c) a conduta das partes contratuais deve pautar-se pelo princípio da boa fé. celebrados entre pessoas pertencentes às referidas categorias. têm de obedecer (contratos normativos). mediante adesão ao modelo ou impresso que lhe é apresentado. eventualmente de uma autoridade pública. Da norma citada emerge. não sendo possível modificar o ordenamento negocial apresentado. A liberdade de fixação ou modelação do conteúdo do contratos conhece também algumas restrições. A vende a B por 200.: x vale 1000. 1 – Liberdade de celebração dos contratos: consiste na faculdade de livremente realizar contratos ou recusar a sua celebração. b) são anuláveis em geral os chamados negócios usurários (artigo 282º. b) celebrar contratos nominados aos quais acrescentam as cláusulas que lhes aprouver eventualmente conjugando-se 2 ou mais contratos diferentes (contratos mistos = ex. Uma importante limitação de ordem prática à liberdade de modelação do conteúdo contratual é a que se verifica nos chamados contratos de adesão. Esta disposição legal consagra apenas a liberdade de modelação ou liberdade de fixação ou estipulação do conteúdo contratual. d) a lei reconhece e admite certos contratos-tipo que. o reconhecimento da liberdade de celebração ou conclusão dos contratos. e) alguns contratos em especial estão necessariamente sujeitos a determinadas normas imperativas.

modificativos ou extintivos de direitos reais. constitutivos. Quanto à liberdade de fixação do conteúdo contratual ela está excluída no domínio dos contratos familiares pessoais. o negócio unilateral (artigo 457º). Os contraentes. Obrigação ou direito de crédito: é o vínculo jurídico por virtude do qual uma pessoa fica adstrita para com outra à realização de uma prestação. o enriquecimento sem causa (artigo 473º) e a responsabilidade civil (artigo 483º).Domínio principal de aplicação da liberdade contratual: os contratos obrigacionais Nos contratos com eficácia real. Vantagens dos contratos de adesão: racionalização e normalização da actividade contratual dirigida a um número elevado e indeterminado de clientes. os factos jurídicos que dão origem ao vínculo obrigacional.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL surgem normalmente em zona de comércio onde o fornecedor está em situação de monopólio ou quase monopólio. Características gerais Na vida social os comportamentos adoptados por uma pessoa causam muitas vezes prejuízos a outrem. como fez e continua a fazer a jurisprudência estrangeira. isto é. Considera como tais o contrato (artigo 405º). o condutor de um veículo atropela um transeunte. 23. economia de mercado e economia planificada (pág. a gestão de negócios (artigo 464º). Quanto a este. aceite as condições elaboradas pela outra parte. impelido pela necessidade.O princípio da liberdade contratual e o sistema económico e social. O casamentos. com eficácia no domínio das relações de família. de um negócio unilateral – o testamento. Na ausência de legislação específica. há liberdade de celebração. a regra do nosso direito é a da proibição dos pactos sucessórios. cujos efeitos estão preordenados na lei. não podem constituir direitos reais que se não integrem nos tipos previstos na lei (princípio da tipicidade). salvo algumas restrições. só se derrogando esta regra em casos limitadíssimos (artigo 1700º). mas a liberdade de fixação do conteúdo contratual sofre um importante restrição. 21. Nos contratos familiares. há liberdade de celebração e liberdade de fixação do conteúdo. mesmo que lhe sejam desfavoráveis ou pouco equitativas – daí a restrição factual à liberdade de contratar.Referência esquemática às principais disciplinados pelo direito das obrigações figuras e problemas O princípio da liberdade contratual tem no domínio dos contratos obrigacionais o seu campo de eleição. 12 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Liberdade contratual. O código civil regula as fontes das obrigações.109) (4)A responsabilidade civil 24. um indivíduo destroi uma coisa de outrem. 22. O devedor não executa ou executa defeituosamente a prestação a que está adstrito. quase sempre. há liberdade de concluir ou não o respectivo contrato – é o pensamento da autonomia que subjaz e enforma o direito civil. ou adopção são tipos contratuais rígidos. podendo embora celebrar contratos inominados. os tribunais portugueses. Nos contratos sucessórios.Noção. devem considerar nulas certas cláusulas abusivas contidas em contratos de adesão. A sucessão voluntária resulta. não podendo ser modificados pelas partes. perfilhação. Daí que o particular. isto é. isto é.

reputação). não podem ser reintegrados mesmo por equivalente. 3 – Facto lesivo. A responsabilidade civil actua. Esta tem precisamente em vista tornar indemne. tranquilidade. Esta indemnização é a hipótese largamente maioritária.de impedir o próprio infractor de cometer novas infracções (prevenção especial). mesmo quando esta for possível. diligência ou perícia exigíveis para evitar o dano (negligência). o prejuízo imediato sofrido pelo lesado. pois raramente o lesado ficará completamente indemnizado com a reconstituição natural. violador de direitos subjectivos ou interesses alheios tutelados por uma disposição legal.na produção de um mal a sofrer pelo agente criminoso. Responsabilidade criminal: visa satisfazer interesses da comunidade. Mas é possível contrabalançar o dano. mas pela de compensação. não pela ideia de indemnização ou reconstituição. Não sendo estes prejuízos avaliáveis em dinheiro. . com a finalidade de retribuir o mal causado à sociedade com a infracção (retribuição). bem-estar. dos interesses individuais lesados. mostrando-lhes como a sociedade reage ao crime (prevenção geral).º 1).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Deverá o prejuízo ficar a cargo da pessoa em cuja esfera jurídica ele foi produzido ou deverá antes impor-se a obrigação do seu ressarcimento à pessoa cujo comportamento provocou uma lesão na esfera de outrem? A responsabilidade civil depara-se-nos quando a lei impõe ao autor de certos factos ou ao beneficiário de certa actividade a obrigação de reparar os danos causados a outrem. Os interesses cuja lesão desencadeia um dano não patrimonial são infungíveis. Quando a reconstituição natural for impossível. isto é. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 13 . Ao lado da responsabilidade civil deve considerar-se a responsabilidade criminal. Responsabilidade civil: consiste na necessidade imposta pela lei a quem causa prejuízos a outrem de colocar o ofendido na situação em que estaria sem a lesão (artigo 483º e 562º). O direito civil português manda atender também na fixação da indemnização aos danos não patrimoniais (danos morais) que. ofendida pelo facto ilícito criminal. . Culpa: reprovação ou censura da conduta desrespeitadora dos interesses tutelados pelo direito. insuficiente ou excessivamente onerosa. Responsabilidade civil: dirige-se à restauração. a reposição do lesão na situação em que estaria sem o facto lesivo terá lugar mediante uma indemnização em dinheiro ou por equivalente (restituição por equivalente). visa colocar a vítima na situação em que estaria sem a ocorrência do facto danoso. Devem verificar-se outros pressupostos para o surgimento da responsabilidade civil: 1 – Necessário se torna que o facto seja ilícito. pela sua gravidade.de intimidar as outras pessoas. mereçam tutela do direito (artigo 496º n. através do surgimento da obrigação de indemnização. isto é. liberdade. A pena traduz-se: . e o lucro cessante. Esta pode resultar da existência de uma intenção de causar um dano violando uma proibição (dolo) ou da omissão dos deveres de cuidado. quer dizer. saúde. as vantagens que deixaram de entrar no património do lesado em consequência da lesão (artigo 564º n. Estes danos não patrimoniais resultam da lesão de bens estranhos ao património do lesado (a integridade física. específica ou por equivalente. compensá-lo mediante satisfações derivadas da utilização do dinheiro. honra.º 1). No dano patrimonial estão compreendidos o dano emergente. ou seja. sem dano o lesado. Esta reconstitução da situação inicial deve em principio ter lugar mediante uma reconstituição natural. a atribuição de uma soma pecuniária correspondente legitima-se. 2 – Nexo de causalidade entre facto e dano.

pelo risco e por actos lícitos. Ex. 14 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . verificados certos requisitos.Responsabilidade contratual e extra-contratual. Pessoas colectivas: são colectividades de pessoas ou complexos patrimoniais organizados em vista de um fim comum ou colectivo a que o ordenamento jurídico atribui a qualidade de sujeitos de direitos. Apesar do carácter conforme ao direito da actuação do sujeito. Pretende-se em tais casos compensar o sacrifício de um interesse menos valorado na composição de um conflito teleológico. b) substituir ao directamente lesado o autor não culposo do prejuízo. O nosso sistema jurídico admite. A pessoa colectiva. Exs: responsabilidade emergente de certos casos de estado de necessidade. Esta pertence ao domínio da consciência e dos deveres do homem para consigo próprio. passagem forçada. alguns casos contados de responsabilidade por actos lícitos ou intervenções lícitas. Se alguém. Trata-se de domínios em que o homem tira partido de actividades que. cria para os outros riscos acrescentados é justo por a cargo daquele a indemnização dos danos originados pelas suas actividades lucrativas («ubi commoda.: danos causados por animais (502º). importam um aumento de risco para os outros. pareceu excessivo não dar à pessoa sacrificada uma reparação. Compreende-se a exigência da culpa como «conditio sine responsabilidade. em sentido lato. atribui personalidade jurídica às chamadas pessoas colectivas. porque uma prevalência absoluta e total do interesse oposto seria injusta. é neutralizada pela paralisação de iniciativas que a ponderação das possibilidades de dano produzirá no homem em acção. também. É essa a solução pelas razões seguintes: qua non» da a) a segurança que a responsabilidade objectiva confere às potenciais vítimas de danos. No núcleo da responsabilidade jurídica estará assim a ideia de responsabilidade moral. Responsabilidade pelo risco é consagrada em algumas hipóteses especiais. 26.A personalidade colectiva e os tipos de pessoas colectivas Ao lado da personalidade jurídica reconhecida a todas as pessoas singulares. (5)A concessão de personalidade jurídica às pessoas colectivas 27. danos causados por instalações de energia eléctrica ou gás (509º). tem 3 modalidades fundamentais: a) associações: colectividades de pessoas que não têm por fim o lucro económico dos associados.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 25. Responsabilidade extra-contratual: resulta da violação de um dever geral de abstenção contraposto a um direito absoluto. c) exigir a culpa do sujeito é fazer apelo à liberdade moral do homem e é apresentar os danos como consequências evitáveis. Responsabilidade contratual: originada pela violação de um direito de crédito ou obrigação em sentido técnico. potenciando as suas possibilidades de lucro. criando para si uma possibilidade de lucro.Responsabilidade por actos ilícitos. acidentes causados por veículos de circulação terrestre (503º). o nosso direito civil. ibi incommoda»). com carácter excepcional. protegendo os bens dos indivíduos contra quaisquer lesões decorrentes da actividade de outrem. assim se estimulando zelos e cuidados em impedi-los. O nosso sistema jurídico opta pela responsabilidade subjectiva.

utilizando-as para satisfazer as suas necessidade e para conseguir os seus fins. o uso e a disposição das coisas permite ao homem satisfazer necessidade fundamentais ou secundárias e potencia a sua possibilidade real de se propor determinadas finalidades e de escolher entre várias vias para a realização desses fins.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL b) fundações: complexos patrimoniais ou massas de bens afectados por uma liberalidade à prossecução de uma finalidade estabelecida pelo fundador ou em harmonia com a sua vontade. organizar os poderes dos homens sobre as coisas e o conteúdo das relações entre os homens a respeito das coisas. 30. O homem tem necessidades de se servir das coisas como condição da sua sobrevivência e do seu progresso. e procurando este subtrair-se ao império das necessidades. Constitui missão fundamental do direito. como uma exigência forçosa da dignidade da pessoa humana e do direito ao respeito inerente a todo o ser humano. as coisas são meios ao serviço dos fins das pessoas. imposta pela natureza das coisas. A personalidade jurídica das pessoas colectivas: é uma mecanismo técnico-jurídico – um modelo. pelas concepções ético-jurídicas de tipo humanista hoje vigentes. A personalidade jurídica dos indivíduos: é imposta. de submeter os poderes dos homens sobre as coisas à sua disciplina. estaria a proceder como se as pessoas colectivas fossem pessoas singulares. em ordem à realização de fins jurídicos. c) sociedades: conjunto de pessoas que contribuem com bens ou serviços para o exercício de uma actividade económica dirigida à obtenção de lucros e à sua distribuição pelos sócios. da existência de um organismo real. o poder de facto sobre as coisas não se impunha ao respeito das outras pessoas. Teria que ser defendido com a força do seu titular. mas é a consequência. seria inevitável a luta pela sua apropriação. (6)A propriedade privada 29.Natureza da personalidade colectiva A existência de pessoas colectivas resulta da existência de interesses humanos comuns.O problema do domínio sobre os bens como problema fundamental de uma sociedade No desenvolvimento da sua vida o homem serve-se das coisas. Seria impossível a vida em comum.131) Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 15 . Enquanto as pessoas são fins em si mesmas. se o direito se desinteressasse.Fenomenologia da propriedade ao longo da história e no momento actual (pág. A detenção. uma forma. Mas. A criação de um autónomo centro de imputação das relações jurídicas ligadas à realização desses interesses permite uma mais fácil e eficaz consecução do escopo visado. um operador para a polarização das relações jurídicas ligadas à realização de certo fim colectivo. por absurdo. ao estabelecer a personalidade jurídica das pessoas colectivas. 28. Doutrina: Teoria da ficção: a lei. A personalidade jurídicas das pessoas colectivas é uma criação do espírito humano no campo do direito. Teoria organicista: a personalidade jurídica não resulta de uma concessão discricionária do legislador. Sendo os bens escassos em relação às necessidades sentidas pelo homem.

hipoteca.: penhor. A disciplina da instituição familiar impõe. uso. O surgimento e a vida da família realizam-se e assentam numa série de comportamentos pessoais e realidades psicológicas e morais. Ex. 16 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Apesar da família na sua concreta e natural existência no seio da vida social conter uma ordenação íntima.º 1 da CRP. Ex. c) pode o Estado visar uma modificação da disciplina da família para um sentido diverso do correspondente ao direito vivido espontaneamente na realidade social. Não se limitam os poderes do proprietário senão através das concretas restrições pela lei impostas. como realidade natural e social.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 31. também o de apropriação dos frutos que a coisa produza. b) a consagração legislativa de um regime. São direitos sobre coisa alheia. psicológica e moral se manifesta. habitação. vinca mais vivamente o sentimento dos deveres e direitos dos membros da família. solidariedade. servidões prediais. tanto quanto possível. não contém uma disciplina de todos os problemas respectivos em termos acabados e categóricos. duma coisa e. amizade. estabelecendo sobre este o manto de uma disciplina. O proprietário tem poderes indeterminados. completa. Direitos reais limitados: toda uma série de direitos reais de conteúdo ou estrutura bem diversa e ao serviço de funções ou interesses de natureza diferenciada. aceita e considera. mesmo que aceite pelo legislador. A sua qualificação como um direito perpétuo não o deixa poder extinguir-se pelo não 32.: usufruto. disciplinar com justiça e certeza a posição dos sujeitos. tornando-se necessária uma formulação certa. de adquirir uma coisa. atentas as seguintes razões: a) a ordenação concreta e institucional da família. total ou parcial.Características do direito de propriedade no nosso sistema jurídico A tutela constitucional da propriedade privada está expressamente consagrada no artigo 62º n.A família. vida em comum. Não conferem a plenitude dos poderes sobre uma coisa. o de conteúdo pleno e polimórfico. em planos ou domínios da vida estranhos ao plano jurídico. reconstitui-se a plenitude da propriedade sobre ela. Direitos reais de garantia: conferem o poder de um credor obter o pagamento da dívida de que é titular activo. Direitos reais de aquisição: conferem a um determinado indivíduo a possibilidade de se apropriar de uma coisa. desde logo. perante o direito legislado Família: realidade natural e social. Direitos reais de gozo: aqueles que conferem um poder de utilização. Ex. confiança. que o direito reconhece. O direito da propriedade é dotado de uma certa elasticidade – extinto um direito real que limite a propriedade da coisa. por vezes. ao formular a sua regulamentação da instituição familiar. em situações de crise. lealdade. uso. (7)A família 33. não pode a lei deixar de considerar essa realidade e esse mundo de relações. precisa e completa do regime jurídico correspondente. de comportamentos: amor. facilita o fluente curso da vida familiar e permite.Os direitos reais limitados A propriedade é o direito real máximo. cuja existência material. superfícies.

Sucessão testamentária: consiste no chamamento à sucessão dos herdeiros designados em testamento. uma fonte de riscos para os credores. por o autor da sucessão não ter disposto válida e eficazmente. por ser destinada por lei aos referidos herdeiros. continua a verificar-se. e que assegura a permanência e coesão do agregado familiar. seria um contra-estímulo às actividades e iniciativas de caracter patrimonial das pessoas. É um direito institucional. quanto à disciplina de acto matrimonial. 36. uma causa de litígios e perturbação da paz social. preferindo dentro de cada classe os parentes de grau mais próximo aos de grau mais afastado.O destino das relações jurídicas após a morte do seu titular Põe-se em qualquer comunidade o problema de saber qual o destino das relações jurídicas existentes na titularidade de uma pessoa singular após a morte desta. Razões de relevante conveniência social tornam contra-indicado um regime de extinção de todas as relações jurídicas no momento da morte do seu titular. Fenómeno sucessório: é o chamamento de uma ou mais pessoas à titularidade das relações patrimoniais de uma pessoa falecida e a consequente devolução dos bens que a esta pertenciam. A transmissão das relações jurídicas patrimoniais para outra pessoa por força da morte do seu titular é reconhecida pelos sistemas jurídicos na actualidade e ao longo da historia. para que todos em maior ou menor medida concorreram. implicando a exoneração dos devedores à morte do seu credor. b) cumprimento do dever moral de assistência recíproca entre familiares. no todo ou em parte. dos seus bens. mesmo para além da morte. 34. O chamamento faz-se por ordem de classes sucessíveis.Referência sumária ao direito sucessório português Sucessão legítima: consiste no chamamento dos herdeiros legítimos à sucessão. o prejuízo dos credores por morte do devedor e a vacatura ou a aquisição pelo Estado dos bens do falecido. isto é.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL O direito da família é caracterizado por uma acentuado predomínio de normas imperativas. num acto unilateral e revogável pelo qual um indivíduo dispõe de todos os seus bens ou parte deles para depois da morte. isto é. Na ordem jurídica portuguesa. uma coexistência da ordem jurídica estadual e da canónica. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 17 . (8)O fenómeno sucessório ou sucessão por morte 35. numa porção de bens que o testador não pode dispor. Tal regime.Referência sumária ao direito da família português Ao direito da família continua a dedicar o código civil um livro – o livro IV. Artigo 2133º a) cônjuge e descendentes b) cônjuge e ascendentes c) irmãos e seus descendentes d) outros colaterais até ao quarto grau e) Estado Sucessão legitimária: consiste no chamamento dos herdeiros legitimários à sucessão na chamada legítima. As justificações apresentadas para a sucessão legitimária são as que ressaltam da descrição das duas linhas evolutivas: a) a conservação na família de um património.

adoptado pelo direito. Em termos funcionais. produzir determinados efeitos jurídicos que inevitavelmente se impõem a outra pessoa. 39.): direitos subjectivos propriamente ditos e potestativos Direito subjectivo: poder jurídico (reconhecido pela ordem jurídica a uma pessoa) de livremente exigir ou pretender de outrem um comportamento positivo ou negativo ou de por um acto de livre vontade. promana de um facto jurídico. o direito subjectivo identifica-se com o interesse visado. Abuso de direito Extrema ratio da verificação da ilicitude. Para a doutrina em geral o abuso de direito: é quando alguém usa o direito de forma clamorosamente injusta. 18 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Esta forma “clamorosamente injusta” é identificada por um controlo extra-jurídico feito através dos tribunais. portanto. só de per si ou integrado por um acto livre de autoridade pública. reflectindo o elemento funcional. Em sentido restrito ou técnico: é a relação da vida social disciplinada pelo direito. pois não se trata de poderes de livremente exigir um comportamento. Uma situação de abuso de direito: verifica-se quando há desconformidade entre imagem estrutural do direito e entre a função atribuída ao direito. Quer dizer: a consideração exclusiva do aspecto estrutural não nos evidencia a razão de certas diferenças. isto é. Direito subjectivo (em sentido amplo): «mecanismo de regulamentação.Conceito de relação jurídica Em sentido amplo: é toda a relação da vida social relevante para o direito. normalmente a de estarem integradas no mesmo mecanismo jurídico ou ao serviço da mesma função. O direito subjectivo engloba duas modalidade fundamentais: a) os direitos subjectivos propriamente ditos: consiste no poder de exigir ou pretender de outrem um determinado comportamento positivo ou negativo.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL PARTE II Teoria geral da relação jurídica. incidirá normalmente sobre um objecto. disciplinada pelo direito.: providências coercitivas). 38. mediante atribuição a uma pessoa de um direito subjectivo e a imposição a outra pessoa de um dever jurídico ou de uma sujeição. Isto faz com que desapareça a liberdade característica do direito subjectivo. ORLANDO DE CARVALHO não concorda e defende que abuso de direito: é quando um direito está a ser usado por um sujeito para causar prejuízo a outro sujeito. produtiva de efeitos jurídicos e. a sua efectivação pode fazer-se através de uma garantia (ex. ligadas por uma afinidade. que consiste na concreta situação de poder que faculta a uma pessoa em sentido jurídico intervir autonomamente na esfera jurídica de outrem». Este aspecto funcional repercute-se na estrutura do direito.Estrutura da relação jurídica (cont. mas de poderes-deveres. mas evidencia as diferenças. Última hipótese de averiguar se o acto é ilícito. O direito subjectivo está dependente da vontade do seu titular. Preliminares 37. Instituto jurídico: conjunto de normas legais que estabelecem a disciplina de uma série de relações jurídicas em sentido abstracto.Estrutura da relação jurídica (enunciado geral) Toda a relação jurídica existe entre sujeitos.

O titular do direito pode. Classificação dos direitos subjectivos: a) Atende-se à ligação intrínseca ou extrínseca entre pessoas .pessoais: não é susceptível de ser transformado em dinheiro. o objecto do direito é a própria pessoa titular do direito de personalidade.: direito de propriedade).direitos subjectivos (sentido estrito) .direitos de personalidade: sobre a própria pessoa. reais. de crédito. Ex.patrimoniais: são susceptíveis de os bens em causa serem redutíveis a bem pecuniário.relativo: imposto a pessoas certas e determinadas (ex.direitos da pessoa: direitos de personalidade. . Excepção: direitos sobre outras pessoas.Critério estrutural .: só se tem direitos de pai se se tiver um filho . poderes directos e imediatos sobre uma coisa. Ex. Dever jurídico: é a necessidade de realizar o comportamento a que tem direito o titular activo da relação jurídica. reais. ao menos por equivalente. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 19 .disponível: pode transferir (ex.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Contrapõe-se-lhe o dever jurídico da contraparte – um dever de «facere» ou de «non facere».natos: adquirem-se quando o sujeito faz algo que é tutelável pelo direito.: crédito).: direitos patrimoniais).direitos reais: incidem sobre coisas. b) Atende-se a relações intrínsecas ou extrínsecas relacionadas com certos estados em que as pessoas de encontram. transferir para outra pessoa . Tipos de direitos subjectivos (lado activo) . potestativos. . .não essenciais: c) Atende-se à natureza dos bens em jogo . a quem o direito se impõe . personalidade. impõe “erga omnes” (ex.essenciais: a pessoa não pode ser privada desses direitos sem se privar de certos estados. ser reposto. . recorrendo à autoridade pública.absoluto: imposto à colectividade.direito potestativo: inevitabilidade de consequências jurídicas que criam. pode obter dos tribunais e autoridades subordinadas a estes providências coercitivas aptas a satisfazer o seu interesse. na situação lesada ou obter outras sanções.: direito de autor ou ao nome.direitos de crédito: trata-se/impõem a pessoas certas e determinadas. . e) Atende-se à possibilidade do sujeito se desligar do direito.: direitos de personalidade. .indisponível: não pode transferir (ex. Exs: direitos de crédito. . . família.Critério institucional .inatos: existem desde o nascimento. . Poder de exigir ou pretender: se a contraparte não cumpre o dever jurídico a que está adstrita. d) Atende-se aos titulares passivos. Ex.: direitos pessoais sobretudo essenciais).

Sujeição: situação de necessidade em que se encontra o adversário de ver produzir-se forçosamente uma consequência na sua esfera jurídica por mero efeito do exercício do direito pelo seu titular. tem a possibilidade prática de não cumprir. a) direitos potestativos constitutivos: produzem a constituição de uma relação jurídica. o sujeito do dever.dever jurídico: necessidade de adoptar determinado comportamento. Exs: constituição da servidão de passagem em benefício do prédio encravado (1550º). expondo-se embora a sanções.: o direito potestativo dirigido à constituição de uma servidão em beneficio de um prédio encravado. 20 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados .Estrutura da relação jurídica (cont. modificativas ou extintivas do exercício daquele direito.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL . de suportar na sua esfera jurídica as consequências constitutivas. não pode deixar de produzir esse efeito. trata-se de uma necessidade inelutável. 40. extintivo direitos de crédito: dos cônjuges direitos reais: bens do casamento . diversamente do dever jurídico.direitos sucessórios: sucessão mortis causa direito potestativo – a aceitação da herança direito crédito – dívidas da herança direitos reais – aquisição propriedade Tipos de direitos subjectivos (lado passivo em sentido estrito) . b) direitos potestativos modificativos: tendem a produzir uma simples modificação numa relação jurídica existente e que continuará a existir. . Direitos absolutos: quando se impõem a todas as pessoas. por um acto livre de vontade.). direitos potestativos: modificativo. c) direitos potestativos extintivos: tendem a produzir a extinção de uma relação jurídica existente. . O sujeitado não pode violar ou infringir a sua situação. Faculdades jurídicas primárias: «faculdades ou poderes em que se desdobra o poder de autodeterminação e através dos quais a pessoa se transforma em sujeito de efectivas relações jurídicas civis». produzir efeitos jurídicos que inelutavelmente se impõem à contraparte. Direitos relativos: quando os deveres jurídicos impendem sobre uma ou mais pessoas determinadas. Ex. Sujeições: situação de necessidade inelutável. No dever jurídico. mesmo sem ou contra a vontade do proprietário do prédio confinante. por um acto unilateral do seu titular.direitos da família: que se desenvolvem em torno da instituição familiar.: mudança de servidão para outro sítio. Aqui. embora modificada. b) os direitos potestativos: são poderes jurídicos de. Faculdades jurídicas secundárias: «poderes ou faculdades que constituem manifestações ou irradiações de direitos subjectivos existentes».direitos das obrigações: direitos de crédito – para o tráfego de bens direitos potestativos – resolver/revogar negócio direitos reais de garantia direitos das coisas – tratam ordenação de domínios das coisas. Ex. em que está constituído o adversário do titular de um direito potestativo. o dever jurídico e a sujeição O lado passivo da relação jurídica: traduz-se num dever jurídico ou numa sujeição.sujeição a um determinado direito potestativo. só de per si ou integrado por uma decisão judicial.

própria das relações jurídicas. juridicamente tutelada. Tratando-se de relações emergentes de um contrato obrigacional. Assim. No ónus o onerado «precisa de». de o seu titular activo por em movimento o aparelho sancionatório estadual para reintegrar a situação correspondente ao seu direito. numa posição recíproca de instrumentalidade e interdependência. . a susceptibilidade de ser titular de relações jurídicas. correspondente a um estádio dum processo complexo e formação sucessiva de um direito. 42. Ónus: necessidade de adopção de um comportamento para realização de um interesse próprio. O facto jurídico tem um papel condicionante do surgimento da relação.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Estado de sujeição: o sujeitado suporta as consequências de um direito. é uma relação obrigacional em sentido amplo ou relação obrigacional complexa. embalá-la. Estes formam o conteúdo da relação jurídica.: de resolução ou modificação do contrato). v. Podem ser objecto de relações jurídicas outras pessoas. Trata-se da possibilidade. Objecto: é aquilo sobre que incide os poderes do titular da relação. deveres acessórios (ex.Elementos da relação jurídica: sujeitos. esse quadro.singular: apenas uma pessoa ocupa o local de sujeito activo. eventuais direitos a uma indemnização por força de um não cumprimento. direitos potestativos (ex. promover o seu transporte). .: contrato de arrendamento). deveres laterais (ex. São os titulares do direito subjectivo e das posições passivas correspondentes: dever jurídico ou sujeição. o vínculo respectivo. Garantia: é o conjunto de providências coercitivas.plurilateral: várias frentes de interesses (ex. modos de ser da própria pessoa e outros direitos. ou para impedir uma violação receada. em caso de infracção. Expectativa jurídica: a situação activa. em ordem a obter satisfação do seu direito. Os sujeitos são pessoas pois a personalidade jurídica é precisamente a susceptibilidade de ser titular de direitos e de obrigações. contra pólo do exercício de um direito potestativo.g. Espécies de relações jurídicas. facto jurídico e garantia Sujeitos: são as pessoas entre quem se estabelece o enlace.plural: mais do que uma pessoa em qualquer dos lados.: contrato de sociedade). 41. No dever jurídico o obrigado «deve».: o do vendedor de guardar a máquina. coisas corpóreas ou incorpóreas. objecto. Facto jurídico: é todo o facto produtivo de efeitos jurídicos. O devedor do preço é simultaneamente credor da entrega da máquina e existem outros vínculos entre as partes do contrato. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 21 .bilateral: apenas duas partes/pólos de interesses (ex. postas à disposição do titular activo de uma relação jurídica. é uma condição ou pressuposto da sua existência.: o de informar sobre as condições do funcionamento da máquina). perspectiva estática .. . a relação formada entre comprador e vendedor de uma máquina não é só constituída pelo dever de pagar o preço e pelo correlativo direito ao preço.Estrutura da relação jurídica: relação jurídica simples ou singular e complexa Relação jurídica complexa: uma série de direitos subjectivos e deveres ou sujeições conexionadas ou unificadas por um qualquer aspecto.

Património: conjunto de relações jurídicas de carácter patrimonial. pertencentes a uma pessoa. nas pessoas stricto sensu -. é uma combinação horizontal.: doação). nas pessoas humanas. activo (+). como reais: consignação de rendimentos. pelo facto de o ser. relações patrimoniais dependentes da filiação). é maior.: casamento. se não se adoptar o comportamento. O património de cada 1 é um círculo mais pequeno dentro da grande esfera jurídica de cada um. que se localiza erradamente na teoria das coisas e dos objectos). registo predial não é obrigatório mas quem não o fizer tem desvantagens. um facto jurídico que faz surgir à sua volta um enredo enorme (ex.: o ónus da prova recai sobre o lesante. . .não autónomas: dependem de outras relações jurídicas (ex.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL .: constituição de uma sociedade). é uma combinação vertical. Duas combinações de relações jurídicas: a) Acessoriedade: combinação de relações jurídicas (duas. . tem um mínimo de relações jurídicas as relações inatas. Dependem do direito de crédito. É o caso das relações de garantia especial das obrigações (tanto pessoais: fiança e subfiança. estrutura linear. sendo nesta zona que devem localizar-se figuras que vulgarmente se deslocam para outras regiões (ex.duradouras: têm como cerne os direitos de personalidade. Património global: conjunto de relações jurídicas activas e passivas avaliáveis em dinheiro de que uma pessoa é titular.simples: aquela que pressupõe sujeito activo (com direito) e passivo (com dever). . igual ou menor que zero (0). todo o activo e passivo de determinada pessoa. penhor. Combinações de relações jurídicas As relações jurídicas podem combinar-se entre si. extinguindo-se quando a relação creditícia se extingue.complexas: situação mais vulgar. toda a pessoa tem esfera jurídica). Há uma combinação pertinencial necessária. Ónus: necessidade de adoptar determinado comportamento para alcançar determinado interesse. 22 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . hipoteca. ao activo tira-se o passivo. . valor sempre maior ou igual a zero (0). Património líquido: saldo patrimonial. uma pessoa). privilégios creditórios e direitos de retenção). b) Pertinência: combinação de relações jurídicas através do seu ennucleamento comum em certo pólo (em regra. abstraindo das obrigações. ou as relações intrassociais ou reais. indefectível em todos os sujeitos ou pessoas em sentido jurídico: e a esfera jurídica.: a noção de património. o interesse não é satisfeito mas não há sanção sobre o onerado.autónomas: não depende de outras relações jurídicas. desenhando uma estrutura circular ou esférica. Património ilíquido: conjunto de direitos avaliáveis em dinheiro. Neste sentido. normalmente) em que uma delas (a acessória) é meramente instrumental em ordem à outra (a principal). passivo (-). sem descontar o passivo. Ex.instantâneas: esgotam-se num único momento temporal embora os seus efeitos se projectem para o futuro (ex. que coenvolve todas as relações jurídicas activas e passivas que se centram num sujeito (como todo o sujeito. Neste sentido. ficando em face dela em posição de dependência. desenvolvendo uma estrutura de suprainfra-ordenação.

constituição de direitos: trata-se sempre de direitos que surgem ex novo. a plenitude dos seus poderes.aquisição de direitos: pode-se ter por objecto direitos que surjam ex novo. depende do facto aquisitivo bem como do direito anterior (quanto à amplitude. Exemplos de aquisição de direitos derivada: . Havendo aquisição não implica constituição. Mas o direito do adquirente não se filia no do titular anterior. Aquisição originária: um direito surge ex novo. Não pode ser mais amplo que o anterior). A maior parte dos casos não implica constituição. Perspectiva dinâmica Processos fundamentais: . . O direito do adquirente será um direito novo da mesma natureza e conteúdo que o direito extinto. e tal é.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Afectação: .geral: todo o património está afecto a obrigações. . o direito não depende juridicamente/genericamente do facto anterior mas sim do facto aquisitivo. Na aquisição derivada intervém portanto uma relação entre o titular anterior e o novo. sucessória. B adquire o direito de A tal e qual). B vê o seu direito de propriedade limitado embora continue a existir. .: A doa a B. havendo entre os 2 fenómenos um nexo causal e não meramente cronológico. direito que se extinguiu ou ficou limitado ou comprimido em virtude da aquisição. Ex. .aquisição de móveis. Ou transmissão parcial do direito (A tem terreno de 1000 m2 e vende apenas 500 m2). volta a adquirir a dimensão inicial uma vez que deixa de estar reprimido. de resto. Aquisição derivada: pressupõe um direito do anterior titular (o mesmo ou outro mais amplo). Pode suceder também que preexistisse à aquisição o direito dum titular anterior. em virtude da conhecida elasticidade ou força expansiva do direito de propriedade. Pode ser que não preexistisse à aquisição de qualquer direito dum anterior titular (ex. Alguma doutrina considera que não há constituição de direitos sem aquisição. Apenas houve mudança de titular. ainda que porventura sobre a base de um direito anterior.constitutivas: adquire um direito ex novo mas o seu conteúdo cabe no direito anterior (A adquire direito de usufruto a B.translativas: um direito que se adquire coincide com o direito do anterior titular (A doa a B. o caso normal. Exemplos de aquisição de direitos originária: 1318º . É acompanhada da extinção subjectiva do direito do anterior titular ou da sua limitação ou compressão.: ocupação de coisas móveis abandonadas ou que nunca tiveram dono). que mudam apenas de titular. pode versar também sobre direitos preexistentes. dois direitos sobre o mesmo objecto). O objecto é o mesmo. unilateral ou contratualmente. o proprietário.especial: que se destina apenas a satisfazer certos encargos. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 23 . contratual. recuperando assim. Por qualquer razão extingue-se o direito filial e o direito progenitor expande-se. B adquire um direito já constituído.restitutivas: a hipótese de o titular de um direito real limitado se demitir dele.

quotas sociais). todavia. Estas excepções significam que. verifica-se uma excepção ao princípio. Impõe-se distinguir entre aquisição derivada e sucessão. com o fim de lhes dar publicidade. se foi primeiramente registada. Coincide com a aquisição derivada translativa. o adquirente. se este não existia na titularidade do transmitente (A). a extensão do direito adquirido depende apenas do facto ou título aquisitivo. Modalidades desta última Um direito é adquirido por uma pessoa quando esta se torna titular dele. 91. dado não existirem direitos sem sujeito. modificação e extinção de relações jurídicas 89. 90. A sucessão diz respeito também às dívidas e não só aos direitos. Logo. A consequência da falta de registo é a ineficácia do acto em relação a terceiros. Noção de terceiros para efeitos de registo predial: são as pessoas que do mesmo autor ou transmitente adquiram direitos incompatíveis (total ou parcialmente) sobre o mesmo prédio. é a criação de um direito que não existia anteriormente. Na aquisição derivada. navios. seus herdeiros ou representantes. pois só nesta é que o direito adquirido é o mesmo do anterior titular. Este princípio caracterizador da aquisição derivada comporta. excepções. mesmo na falta de registo. a) dos institutos do registo predial. O registo não é o meio de aquisição dos direitos. Aquisição originária e derivada. Ex. em certas hipóteses. modificação ou extinção de relações jurídicas. em livros existentes em repartições especiais (conservatórias no caso do registo predial e automóvel). em particular os actos de que resulte a aquisição de direitos reais sobre os mesmos bens. Aquisição de direitos: é a ligação de um direito a uma pessoa. 24 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . mas depende ainda da amplitude do direito do transmitente.Importância da distinção entre aquisição derivada e originária Na aquisição originária. a veículos automóveis ou aos restantes bens indicados.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Espécies de relações jurídicas. Esses efeitos jurídicos consistem fundamentalmente numa aquisição. perspectiva estática (II)Aquisição. a extensão do direito do adquirente depende do conteúdo do facto aquisitivo. sendo o acto plenamente eficaz «inter partes». pois a sua venda a Bia é plenamente válida e eficaz «inter partes». Sucessão: é o subingresso de uma pessoa na titularidade de todas as relações jurídicas ou determinada ou determinadas relações jurídicas de outrem. não obstante a aquisição ser derivada.: se Abel vendeu um prédio ou automóvel a Bia e de pois a Caca. do registo de automóveis e registos similares (aeronaves. Constituição de direitos: é o seu surgimento. Bia e Caca são terceiros entre si e prevalece a venda a Caca.Preliminares Os facto jurídicos desencadeiam determinados efeitos. pode obter um direito que não pertencia ao transmitente ou é mais amplo do que aqueles que pertenciam a este. embora Abel já não fosse o verdadeiro proprietário. Toda a constituição de um direito implica a sua aquisição.Conceito e modalidade de aquisição de direitos. Por força destes institutos devem ser inscritos. não podendo em regra ser maior que a deste direito (nemo plus juris in alium transferre potest quam ipse habet). segundo o qual na aquisição derivada o adquirente (C) não pode adquirir um direito. os diversos actos inerentes a bens imóveis.

por força da invalidade do negócio donde resultaram os direitos do seu transmitente. Em Portugal não há «registo de bens» mas sim «aquisições de direitos» sobre bens. é o registo que cria o direito. portanto. desde que a acção tendente à declaração de nulidade ou à anulação não seja proposta e registada dentro dos 3 anos posteriores à conclusão do negócio. Se o simulado adquirente dum prédio. resulta uma excepção ao princípio geral da aquisição derivada: «nemo plus juris in alium transferre potest quam ipse habet». No nosso caso. Sistema de registo declarativo: o direito adquire-se por mero efeito do contrato. O registo não é obrigatório mas é um ónus. vender ou doar. É preciso que esteja em causa a aquisição de um direito sujeito a registo. não produzem quaisquer efeitos. adquirente «a non domino». Os negócios jurídicos simulados são nulos e. a protecção do terceiro de boa fé. regista-se aquilo que se diz adquirir Sistema de registo constitutivo: para se adquirir o direito tem que se registar. C devia restituir o prédio. Daí que o registo seja facultativo.. Efeito automático: o registo da aquisição de um direito em nome próprio faz com que se pressuponha a titularidade do direito (mesmo assim trata-se de uma presunção ilidível). Para que um terceiro estar protegido é preciso a verificação de alguns requisitos: Existir um terceiro. a hipoteca (687º) é constitutivo. está de má fé). ao invés do que prescreve o princípio «nemo plus juris. Isto porque as nulidades e anulações operam em face de terceiros e não só em face da contraparte. É preciso que tenham passado pelo menos 3 anos desde o negócio inválido sem que tenha sido intentada uma acção com vista à sua invalidade. o registo não garante que a pessoa inscrita como último adquirente o seja realmente. aquele que desconhecia e não tinha a obrigação de saber. o mesmo prédio a um terceiro e este ignorar a simulação. adquirentes a título oneroso.. por negócio nulo ou anulável. Que o negócio entre B e C seja oneroso (não doação). O actual código civil estabelece (291º) um regime de inoponibilidade a terceiros de boa fé.: veículos). por acto verdadeiro. O objecto do negócio tem que ser bem imóvel ou bem móvel sujeito a registo (ex. pressupõe meios (equipas técnicas. declarado nulo ou anulado o primeiro acto. o segundo seria também nulo e. porém. Princípio do trato sucessivo: um registo só pode ser feito havendo registo anterior do transmitente (A -> B -> C. se o contrato for válido o direito é adquirido independentemente do registo. das nulidade e anulações de negócios respeitantes a imóveis ou moveis sujeitos a registo. fé.. C só regista se B o tiver feito e anteriormente A). como tal.». O terceiro tem que estar de boa fé (que não se traduz no simples desconhecimento do negócio anterior (simulação). Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 25 ..TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL b) da inoponibilidade da simulação a terceiros de boa fé. consequentemente. sendo os direitos deste sacrificados. o terceiro adquire validamente esse objecto (243º). c) da eventual inoponibilidade das nulidades e anulabilidades a terceiro de boa Por força do princípio «nemo plus juris. Por exigência da protecção da confiança dos terceiros e dos interesses do comércio jurídico. de quem não era proprietário. O terceiro adquire. Mesmo assim. É preciso que o registo seja anterior ao registo de acção de invalidade do negócio anterior. Assim se realiza. um prédio a B e este o transmitiu a C. o que não sabia mas desconfiava.». apenas na hipótese de este ser invalidado nos 3 anos subsequentes à sua realização. peritos)/ conhecimento exacto sobre o que incidem os direitos. se A transmitiu. através desta inovação do código de 1966.

Modificação objectiva: se na modificação do direito se muda o conteúdo ou o objecto do direito. apesar da vicissitude ocorrida.: não cumprindo o devedor culposamente a obrigação. Neste caso. A modificação também pode surgir do lado activo sendo esta sempre subjectiva. ou contra a sua vontade. permanece a identidade do referido direito. Tem lugar nesta hipótese uma situação de substituição. quer do lado passivo. Efeito central: aquisições sujeitas a registo. extinguiu-se para aquele sujeito.: é concedida pelo credor ao devedor uma prorrogação do prazo para o cumprimento. apenas mudando a pessoa do seu titular. e quanto a actos «inter vivos». Pode. B paga a dívida a C). Quebra-se a relação de pertinência entre um direito e a pessoa do seu titular. alterado ou mudado um elemento de um direito. 26 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados .TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Efeito lateral: outros que não o central e o automático (o facto de se registar produz determinados efeitos). mas antes com perduração da entidade do vínculo – pode ter lugar. permanecendo a identidade objectiva do direito. existir uma situação de concentração. com a cessão de créditos e com a subrogação nos créditos (ex. A modificação subjectiva das relações jurídicas. pode ter lugar por sucessão «mortis causa». Muda o conteúdo se ex. do lado passivo. sem novação. Extinção subjectiva: se o direito sobrevive em si. sem a vontade do mesmo titular. a multiplicação pode ocorrer por: sucessão (A transmite o mesmo direito para B e C). Verifica-se também uma situação de substituição. permanecendo este idêntico. isto é. Só pode haver substituição do devedor se o credor aceitar. um direito inicialmente pertencente a dois sujeitos passa a pertencer a um único terceiro (A+B -> C). não são oponíveis a terceiros e a regra geral que vale no direito primeiramente adquirido é substituída pela regra da prevalência do primeiro registo. 92. adjunção (um novo devedor assume a obrigação para com o credor. por último. Ocorre por vontade do titular do direito extinto. apesar da modificação verificada. 93. Modificação subjectiva: se na modificação do direito tem lugar uma substituição do respectivo titular. É o que se verifica nos direitos de crédito. não registadas. Muda o objecto se ex. significa que o ordenamento jurídico continua a tratar o direito como se não tivesse tido lugar a alteração. Neste caso. quer do lado activo.: A empresta dinheiro a B.Extinção de direitos A extinção de um direito tem lugar quando um direito deixa de existir na esfera jurídica de uma pessoa. Também se pode falar de uma situação de multiplicação. A diz a cede a C o direito de ser ele a receber o dinheiro de B. A perduração do direito. surgindo então a assunção da dívida e pode referir-se à relação contratual. É o que se verifica quando a um sujeito se substituem vários. também. O direito é o mesmo e não um direito novo. mas subsiste na esfera jurídica de outrem. A sucessão entre-vivos nas relações obrigacionais – substituição de sujeitos sem extinção da relação jurídica e surgimento de uma nova. normalmente através da cessão da posição contratual. O direito mudou de titularidade. o seu dever de prestar é substituído por um dever de indemnizar. permanecendo juntamente com o devedor inicial [assunção cumulativa]). multiplicação e concentração.Modificação de direitos Tem lugar a modificação de direitos (do lado activo) quando.

Não há aquisição derivada. na herança).Renúncia (abandono de uma situação de prevalência. O beneficiário da prescrição. completada esta.: direitos de crédito 304º). da totalidade do património social ou de uma quota parte a líquota dele. Ex. Este último caso pode ocorrer por: . Revivescência: quando na Pendência ou Aquiescência.Prescrição: refere-se a direitos subjectivos em sentido estrito (ex. Mas também é sucessão num património a adjudicação a um sócio ou terceiro. Aquiescência e Revivescência Pendência: quando uma relação jurídica plenamente formada não pode funcionar em pleno porque o sujeito activo ainda não existe ou não está ainda determinado. pode recusar o cumprimento da prestação ou opôr-se ao exercício do direito prescrito. de um prédio por acções) e indirecta (a coisa é substituída por um preço e o preço por outra coisa: A vende a B um prédio e com o preço compra a C um automóvel). . pois o que interessa é manter o conjunto de valor (activo) que garante o passivo. .: servidão de passagem). Sucessos acidentais da vida da relação jurídica: Pendência. Sucessor a título universal é o que sucede na totalidade ou numa quota parte ideal do património. é o caso das RJ do ausente.Não uso (direitos reais sobre coisa alheia. É o que acontece se há destruição do objecto. em pleno. No plano das combinações jurídicas: a sucessão num património (designadamente. A sub-rogação real joga naturalmente (faz parte da fisiologia) num património (de liquidação). que. É o que acontece com as aquisições derivadas translativas sujeitas a condição ou termo suspensivos.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL A extinção subjectiva ou perda de direitos verifica-se sempre que tem lugar um sucessão na titularidade dos direitos. Extinção objectiva: existe se o direito desaparece. por seu turno. que se extinguiram pela sua morte. supõe a personalidade humana.: 265ºn1. não exercício do direito. Sucessão a título universal e sucessão e título particular. o obstáculo cessa e a RJ funciona.Caducidade: direito de accionar está em causa. . direitos potestativos: arguir a nulidade do negócio. sucessão ou transmissão. mas por um obstáculo análogo deixa de ter o seu funcionamento normal. Sub-rogação real: pode ser directa (a coisa é directamente substituída por outra: troca de um prédio por outro. deixando de existir para o seu titular ou para qualquer pessoa. de superfície) Aquiescência: quando um RJ já funcionou em pleno. o sucessor adquire ou subingressa na titularidade do direito e este extingue-se para o autor ou transmitente. . abandono de um objecto. ou funciona de novo. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 27 . 302).Decadência: quando o direito deixa de existir por a formação posterior de um direito incompatível. OS SUJEITOS DA RELAÇÃO JURÍDICA CIVIL Das pessoas humanas A subjectividade jurídica (a qualidade de quem é sujeito de direito) supõe no homem a personalidade jurídica. ao fim de um ano extingue-se por caducidade. É o caso das aquisições derivadas constitutivas (constituição de usufruto. direitos reais limitados ex. O fenómeno da sub-rogação real A sucessão num património tem o seu paradigma na sucessão mortis causa. ficando como que adormecida. numa sociedade em dissolução.

Personalidade jurídica. a personalidade cessa com a morte. Trata-se já não de um posse abstracto. Se a personalidade jurídica. reclama a Capacidade Jurídica: a susceptibilidade concreta de se ser titular de tais direitos e deveres. Da personalidade 66º n. Capacidade de Exercício de direitos: a capacidade para intervir por si próprio ou através de representante voluntário. (esquema caderno. Há personalidade jurídica quando existe (logo que existe e enquanto existe) personalidade humana. que seja com vida e completo. pois pressupõe a personalidade humana. ou seja. existindo tanto e enquanto esta personalidade existir. Ao princípio de que a personalidade jurídica começa com o nascimento parece opor-se a situação jurídica dos nascituros. é um posse necessário: ninguém é verdadeiramente pessoa jurídica se não tiver o estatuto permanente de sujeito de direito. A personalidade humana é um prius da personalidade jurídica. de quem tem a susceptibilidade abstracta de ser titular de direitos e deveres. A personalidade jurídica traduz-se em subjectividade jurídica. Só com personalidade humana há personalidade jurídica.º2). como projecção da personalidade humana. como susceptibilidade abstracta de se ser titular de direitos e obrigações. Posse abstracto: poder de ser abstractamente titular de direitos e obrigações. A personalidade jurídica é a projecção no direito (do normativo jurídico) da personalidade humana. dia 3/12/2002) (II)Pessoas singulares 47. mas porque existe a personalidade humana. excluindo-se quer os nados-mortos. Exige-se além disso. Todavia. em qualquer espécie de sucessão – 2033º n. A plenitude e a igualdade de direitos constituem a reivindicação número um que a personalidade formula actualmente ao Poder. Algo quantificável. O que involve a irrecusabilidade da personalidade jurídica. quer os que morrem durante o parto ou antes da secção do cordão umbilical. a subjectividade jurídica constitui um posse. ou o numerus clausus dos direitos de personalidade. que é a qualidade de quem é “sujeito de direito”. Termo da personalidade a) A morte Nos termos do n.º1. logo. a quem a lei reconhece direitos. Quem nasce 300 dias depois da doação ou da morte do autor da herança reputa-se como não concebido. Do que resultam os seguintes corolários: 1) Essencialidade: a personalidade é essencial. 3) Ilimitabilidade: a personalidade jurídica é tão ilimitada como a personalidade humana. constitui juridicamente um esse. não só aos já concebidos mas ainda aos não concebidos a lei faculta que se façam doações (952º) e que se defiram sucessões (os concebidos. o filho reputa-se concebido dentro dos primeiros 120 dias dos 300 que precedem o nascimento. Segundo o 1798º.º1 do 68º do CC. A personalidade jurídica não é algo que subsista por si mesmo.º1 – O nascimento entende-se como a separação do feto do ventre materno.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL É porque o homem é pessoa – pessoa humana – que ele se reconhece como pessoa em sentido jurídico e. os não concebidos. de teoricamente variável de pessoa para pessoa jurídica. só na sucessão testamentária e contratual – 2033º n. O que exclui as chamadas gradações de personalidade. Realmente. A subjectividade jurídica. 2) Indissolubilidade: a personalidade jurídica é indissolúvel da personalidade humana. 28 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . de sujeito para sujeito de direito. mas de um posse concreto: de me ser reconhecida a possibilidade de ter o direito A ou o direito B. quem nasce dentro desses 300 dias reputa-se como concebido. como sujeito para o direito.

ANTUNES VARELA: vêem no 71º n. implica a abertura do chamado processo de justificação judicial do óbito. a que se referem os artigos 89º a 121º. Julgada a justificação. pressupõem um sentido técnico de «ausência». passando a quota de A para o seu avô ainda vivo. que uma e outra falecem ao mesmo tempo». deve ser registado na repartição do registo civil da área onde ocorreu ou se encontra o cadáver. Ex.º2 «quando certo efeito jurídico depender da sobrevivência de uma a outra pessoa. Suponhamos que num acidente de viação morre o casal juntamente com o filho A. Por outro lado. a herança é dividida pelos dois filhos (A e B). Problema discutido é a questão de saber se a lesão do direito à vida é susceptível de reparação. b) Presunção de comoriência Nos termos do 68º n. em vez de presunção de comoriência. de mortes simultâneas) susceptível de prova em contrário – iuris tantum. 66. o conservador lavrará o respectivo assento de óbito. Se mais tarde se vier a verificar ter havido engano ou incorrecção. para o efeito de providenciar pelos bens da pessoa Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 29 .º3 textualmente prescreve a possibilidade de atender aos danos não patrimoniais sofridos pela vítima. requerer-se-á a invalidade ou rectificação do assento de óbito. Entre nós essa reparação é admitida com base no 70º constituindo a ofensa à vida a máxima ofensa possível da personalidade e no 496º. Qualquer falecimento. A e B. Já se considerarmos simultâneas apenas as mortes dos pais. É com este sentido técnico de não presença de alguém acompanhada da falta de notícias que o termo ausência é tomado. provando-se que o filho A morreu algumas horas mais tarde. consagram antes presunções de premoriência. a pessoa perde os direitos e deveres da sua esfera. O que está em causa é a transmissão do direito de compensação (atribuível pela ilícita supressão da vida) e não da transmissão do direito à vida. por não se encontrar ou não ser possível identificar o cadáver (ex. O desaparecimento de uma pessoa nestas circunstâncias. nos termos do 247º e 248º do código do registo civil. presume-se em caso de dúvida. não coincide com o significado que vulgarmente se atribui a este vocábulo de simples não presença de alguém em certo local. especialmente no que concerne a efeitos sucessórios: não de verificarão fenómenos de transmissão entre os comorientes. pondo termo à personalidade e desencadeando efeitos jurídicos significativos. Se considerarmos que as mortes foram simultâneas.: afundamento de navio).º1 («os direitos de personalidade gozam igualmente de protecção depois da morte do respectivo titular») um desvio à cessação da personalidade com a morte. traduzido num desaparecimento sem notícias. c) O desaparecimento da pessoa Artigo 68º n. PIRES DE LIMA. onde o n. quando o desaparecimento se tiver dado em circunstâncias que não permitam duvidar da morte dela».º3: «Tem-se por falecida a pessoa cujo cadáver não foi encontrado ou reconhecido. nos termos do 299º e segs.). a cargo do Ministério Público. as providências que a lei refere nos artigos citados. Neste caso parece deverem aplicar-se as regras da morte presumida (114º e segs. Consagra-se uma presunção de comoriência (isto é. Esta presunção tem enorme importância prática.Ausência O termo «ausência».: um casal tem 2 filhos.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL No momento da morte. extinguindo-se os de natureza pessoal e transmitindo-se para os sucessores mortis causa os de natureza patrimonial. na totalidade da herança dos pais sucede apenas o filho sobrevivo B. Há outras legislações que. No direito inglês presume-se sempre a premoriência do mais velho.

Após a justificação da ausência proceder-se-á à abertura de testamentos (101º) e à partilha e entrega dos bens aos herdeiros (103º). se se verificarem os requisitos legais de que depende. 2) A necessidade de prover acerca da administração dos seus bens. da sua morte. carecidos de administração. e) Pela certeza da morte do ausente. o tem o ausente direito: 30 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . sendo estes. Tanto o Ministério Público como qualquer interessado. têm subjacentes uma presunção de maior ou menor probabilidade de regresso do ausente. Contudo. os herdeiros do ausente e todos os que tiverem sobre os seus bens qualquer direito dependente da sua morte. ou da declaração da morte presumida. todavia. Nenhuma delas está dependente da anterior. 3) A falta de representante legal ou de procurador (89º). ou. se entretanto o ausente tiver completado 80 anos de idade. visto que a lei só possibilita o recurso à justificação da ausência no caso de terem de corrido dois anos sem se saber do ausente ou cinco anos no caso de ele ter deixado representante legal ou procurador bastante (99º). isto é. Algumas disposições da lei atenuam. além do cônjuge. em virtude de não ter deixado representante legal ou voluntário (procurador). Para menores só pode pedir-se quando estes façam 23 anos. O direito faculta a tomada de medidas tendentes a evitar os prejuízos decorrentes da falta de administração dos bens da pessoa ausente.º2). embora o 116º dê ao cônjuge a possibilidade de contrair novo casamento sem necessidade de recorrer ao divórcio. c) Pela comparência da pessoa que legalmente represente o ausente ou de procurador bastante. Essas medidas. d) Pela entrega dos bens aos curadores definitivos (com a curadoria definitiva). A legitimidade para o pedido de instauração da curadoria definitiva pertence também aqui ao Ministério Público ou a algum dos interessados. nos termos da lei (98º): a) Pelo regresso do ausente.: o casamento não cessa. O 115º prescreve que a declaração de morte presumida produz os mesmos efeitos que a morte física. d) Pela declaração da morte presumida. b) Pela notícia da sua existência e do lugar onde reside. c) Pela certeza da sua morte. a qual deve ser deferida a uma das seguintes pessoas: cônjuge. têm legitimidade para requerer a curadoria provisória. os quais são tidos como curadores definitivos (104º) e não como proprietários desses bens (não podendo dispor deles). traduzidas no requerimento e instauração da curadoria provisória e da curadoria definitiva. se a pessoa ausente for menor. Ex. verifica-se um fenómeno de sub-rogação real. Na esfera patrimonial. A curadoria definitiva termina (112º): a) Pelo regresso do ausente. b) Se o ausente providenciar acerca da administração dos bens. ao invés. para que possa ser declarada a morte presumida (114º n. em caso de regresso. A curadoria provisória termina. é necessário que decorram 5 anos sobre a data em que ele completaria a maioridade. Medidas legais Curadoria provisória: Os pressupostos de que a lei faz depender a nomeação de um curador provisório são: 1) O desaparecimento de alguém sem notícias. Curadoria definitiva: A probabilidade de a pessoa ausente não regressar é nesta fase maior. O curador funciona como um simples administrador (94º). pela declaração de morte presumida. podendo recorrer-se desde logo à declaração de morte presumida. os efeitos desta equiparação. Morte presumida: Decorridos 10 anos sobre a data das últimas notícias. ou passados 5 anos.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL ausente. se fosse vivo. Os sucessores passam a ser tratados não como meros administradores (curadores) mas como proprietários dos bens. algum ou alguns dos herdeiros presumidos.

o ausente tem direito também à indemnização do prejuízo sofrido.º2 do mesmo artigo. 48.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL a) Aos bens directamente adquiridos por troca com os bens do seu património (subrogação directa). A ofensa de qualquer destes bens está sancionada no n. no domínio patrimonial lhe não pertençam por hipótese quaisquer direitos sempre a pessoa é titular de um certo número de direitos absolutos que se impõem ao respeito de todos os outros. titular de alguns direitos e obrigações. b) Aos bens adquiridos com o preço dos alienados. prevê expressamente no artigo 80º o chamado direito à reserva sobre a intimidade da vida privada. ser-lhe-á devolvido o património que era seu. São direitos gerais (todos deles gozam). Quais serão os direitos de personalidade? O 70º contém uma norma de tutela geral da personalidade. Obviamente. à integridade física. c) Ao preço dos bens alienados (sub-rogação directa). da qual se podem desentranhar um direito à vida. (119º). tendo por objecto a pessoa no seu todo. Neste sentido podem dar-se-lhe hoje as consabidas denominações da escola do direito natural racionalista: «direitos inatos» ou «direito originários». porém. O CC. o direito a indemnização é deferido às pessoas referidas nos 495º e 496º. a sua imagem. da qual constituem o núcleo mais profundo. Constituem «o mínimo necessário e imprescindível do conteúdo da personalidade». É este um círculo de direitos necessários. valor pecuniário) e absolutos. extrapatrimoniais (embora as suas violações possam originar uma reparação em dinheiro. à honra. efectivamente. A consagração desta protecção geral da personalidade permite conceder tutela a bens pessoais não tipificados. no Estado em que se encontrar. que desencadeia uma punição estabelecida no código penal. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 31 . Havendo. o seu nome. por força do seu nascimento. Mesmo que. à liberdade.º1). Incidem os direitos de personalidade sobre a vida da pessoa. a protecção dos que possam continuar a ser ofendidos (71º n. O direito protege os vários modos de ser físicos ou morais da personalidade. Os direitos de personalidade são inalienáveis e irrenunciáveis. um conteúdo mínimo e imprescindível da esfera jurídica de cada pessoa.Direitos de personalidade Designa-se por esta fórmula um certo número de poderes jurídicos pertencentes a todas as pessoas. A irrenunciabilidade dos direitos de personalidade não impede a eventual relevância do consentimento do lesado: este não produz a extinção do direito e tem um destinatário que beneficia dos seus efeitos. Toda a pessoa jurídica é. Mantémse. honra. A violação de alguns desses aspectos da personalidade é mesmo um facto ilícito criminal. Em caso de lesão de que provenha a morte. incidindo sobre os vários modos de ser físicos ou morais da sua personalidade. Direito geral de personalidade: «direito que abrange todas as manifestações previsíveis e imprevisíveis da personalidade humana». dada a sua essencialidade relativamente à pessoa. certamente para afastar quaisquer dúvidas previsíveis sobre a sua inclusão na tutela geral operada pelo 70º. liberdade física e psicológica. São os chamados direitos de personalidade. depois da morte do respectivo titular. Reconhece-se assim merecedora de tutela a natural aspiração da pessoa ao resguardo da sua vida privada. se no documento de aquisição se fez menção da proveniência do dinheiro (sub-rogação indirecta). integridade física. a reserva sobre a intimidade da sua vida privada. má fé dos sucessores – e exacta consiste no conhecimento pelos sucessores de que o ausente era vivo à data da declaração de morte presumida -. em si mesmos. não têm. a sua saúde física.

b) Direito à palavra As regras anteriores são aplicadas analogicamente.Projecção moral a) Direito à honra (direito à reputação.. Podem identificar-se 4 círculos de honra: . No direito civil a honra pode ser violada com a divulgação de factos reais.Honra económica: direito ao crédito pessoal.: maus profissionais. . Captação: violação Divulgação: violação mais grave. A honra pode ser violada com o trazer a público de determinados factos sejam eles verdadeiros ou falsos. bom nome e reputação. O titular do direito não pode dispor dele sem cometer um ilícito (suicídio. entendendo-se esta como a simples existência biológica. violado. São. No direito penal a honra só é violada com a divulgação de factos falsos. por isso. Este direito é tutelado pela CRP bem como pelo código penal (131º e ss. mas nestes casos não faz sentido falar em responsabilidade civil uma vez que o lesante é o mesmo que sofreu a lesão. ex. . Esta liberdade pode ser: positiva (o direito de fazer algo) ou negativa (o direito de se recusar a fazer algo).Direito à inviolabilidade pessoal 1. forma de estar). variáveis.Direito à vida É o direito à conservação da vida. mas da vida intra-uterina enquanto bem jurídico autónomo. A sanção penal do aborto não é assim defesa deste direito. Em termos de liberdade negativa não se pode aplicar a sanção pecuniária compulsória. A honra também é protegida criminalmente. o direito à honra é. em termos de direito civil. eutanásia).: se um jornal diz determinadas coisas acerca de uma pessoa.o direito de controlar a captação/divulgação de qualquer elemento de identificação da pessoa. Pode ainda ser: física (liberdade sexual) ou moral (política. .). Os 2 últimos círculos variam de pessoa para pessoa. na qualidade de sucessores e com base no direito que surge no momento exacto da morte desse sujeito. religiosa).. 2.Direito à integridade física É o direito a não ser lesado na integridade físico-psíquica tal como possuiria se não se verificasse tal lesão. . honra extrínseca): A imagem que a pessoa projecta de si nas outras pessoas. honestidade. .Honra . Pode haver lugar a compensação (visto que é afectado um bem não patrimonial) mas quem a exige são os sucessores. violação do direito à imagem + à verdade. Ex. Manipulação da imagem: usa-se a imagem e adultera-se.: direito ao decoro (:forma de vestir.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Direitos especiais de personalidade: .Honra propriamente dita: dignidade humana. .Honra deontológica: ou profissional.Projecção física a) Direito à imagem 79º . Este direito é também tutelado pela CRP e penalmente. Divulgação indirecta: =imitação. a imagem que os outros têm de nós. 32 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados .Direito à liberdade É o direito à livre conformação da pessoa.

: diários) e por determinação da pessoa (coisas que cabe ao próprio o ónus da prova do seu carácter secreto). A criação tem que ter duas características: .Secreta: aspectos secretos da vida íntima. de propriedade sobre a obra).Pessoal: ex.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Os 3 primeiros círculos não são direitos disponíveis: isto é. 2 .: biografias não autorizadas (“Os amores de Manuel” -> é preciso a autorização de Manuel e dos “amores”). âmbito mais restrito. .Projecção vital a) Direito ao carácter Ninguém poderá estar sujeito sem consentimento a meios que permitam revelar o seu carácter. A nossa lei não permite a homonímia (o mesmo nome). Contudo. Há frequentemente conflitos entre o direito de honra e o direito à informação. Esta distinção é essencial no que diz respeito. o direito de informação prevalece sobre o direito à honra. o nome igual não pode ser utilizado de forma a prejudicar outro. aspectos intrínsecos à natureza da própria pessoa. d) Direito à verdade pessoal Direito à liberdade negativa. portanto. . Obra: conjunto de sinais subjectivamente organizados e objectivamente expressos. O segundo é não inato e pressupõe o direito de criação pessoal mas surge só após a criação que se traduz numa obra. 3.Direito à identidade pessoal Abrange a: identificação (não confundabilidade da pessoa. o titular não pode limitar o direito. não estão sujeitos a limitações dos titulares do direito. c) Direito à intimidade da vida privada Este é um direito que incide sobre informações. No 79º n.º3.: casa. o titular pode limitar o direito.originalidade: a obra tem que ser “a” obra. Contudo. . Nas restantes situações isto não se verifica.: modelos fotográficos). por exemplo. aspectos não relativos à própria pessoa mas que estão relacionados consigo. preferências sexuais. O direito à honra não é consagrado num artigo específico do CC mas é aflorado no 79º n. um direito inato) e a identidade em sentido estrito (direito ao nome). O direito de autor: abrange o aspecto moral e o aspecto patrimonial (direito real. certa pessoa é “a” pessoa e não “uma” pessoa.Direito à criação pessoal e direito moral de autor O primeiro é um direito inato. os quais são resolvidos pelo 335º. Quando se trata de uma matéria com relevante interesse público.: gostos.Privada: ex. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 33 . Admite-se consentimentos vinculantes: pressupõe vínculo contratual (ex. 3 .º2 apresentam-se algumas situações onde se justifica a violação do direito à imagem. b) Direito à história pessoal Direito ao percurso da pessoa: ex. As coisas secretas podem ser secretas: por natureza (ex. aliás. este é sempre ilícito. relativa aos dados de confidencialidade pessoal. No direito ao decoro pode haver consentimento válido. Existe dentro de si 3 esferas: 1 . O direito é disponível logo.objectivação: a obra tem que ganhar consistência no sentido de ser objectivada. a ilicitude. este é. situações que afastam. em caso de violação ao direito à honra. à fase de determinação da importância da violação. morada.

O consentimento e o correlativo dever de esclarecimento têm de ser mais rigorosos ainda nas intervenções ou tratamentos estéticos do que nos curativos.vinculante: origina um compromisso jurídico autêntico. por um médico ou outra pessoa legalmente autorizada a empreendê-los com intenção de prevenir. . como meio para evitar um perigo para o corpo ou para a saúde. uma lesão ou fadiga corporal ou uma perturbação mental. cai no domínio público. O consentimento tem limites: superiores (direito à vida não pode ser limitado assim como o direito à integridade física) e inferiores (as exigências da vida em sociedade levam a que certas lesões sejam irrelevantes (ex. as violações potenciadas pela utilização da informática. haverá violação.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL O direito de autor é vitalício e depois da morte transmite-se para os herdeiros. . Tutela deste direito: . É possível violação simultânea do direito à honra e do direito moral de autor. Há 3 tipos de consentimento: . portanto. Além disso. se mostrem indicados e forem levados a cabo. excepto se se verificar qualquer das seguintes hipóteses: . designadamente um contrato. Não havendo consentimento do paciente.direito à intangibilidade da obra (direito à obra não ser adulterada).se o consentimento. obra). só puder ser obtido com adiamento que implique um perigo para a vida ou grave perigo para o corpo ou para a saúde. não se consideram ofensas corporais».se o consentimento. embora sempre limitado pela ordem jurídica e pelos bons costumes (81º n. segundo o estado dos conhecimentos e da experiência da medicina. . ser violado de inúmeras formas. por exemplo. e não se verificarem circunstancias que permitam concluir com segurança que o consentimento seria recusado. Este tem importância na medida em que. . debelar ou minorar uma doença. de acordo com a leges artis.: encontrões no autocarro)). pois nesse caso é contra os bons costumes. Do consentimento do ofendido O consentimento pode também determinar a inexistência de lesão (exclusão do facto) ou a justificação dela (justificação do facto). um sofrimento.autorizante: constitutivo de um compromisso jurídico sui generis. 34 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados .Direito ao tratamento dos dados pessoais Tem em conta. não do direito à integridade física. .º1 e 340º CC). . mas da liberdade de vontade. O consentimento não extingue o direito de personalidade. Nas intervenções e tratamentos médico-cirúrgicos em benefício próprio A lei penal dispõe hoje que «as intervenções e outros tratamentos que. Ao fim de 50 anos.direito à paternidade da obra.tolerante: não atribui um poder de agressão. diagnosticar. o consentimento é irrelevante sempre que há uma desproporção enorme entre o benefício a obter e o risco da atitude médico-cirúrgica.direito ao inédito. mas o que foi realizado é imposto pelo estado dos conhecimentos ou experiência da medicina. . que atribui a outrem um poder (fáctico) de agressão.direito à dignidade da obra (direito a participar das valorizações extraordinárias da O direito moral de autor pode. foi dado para uma intervenção ou tratamento diferente.º1. pode ser relevante para aferir da violação. mas justifica implicitamente a mesma: 340º n.

salvo disposição legal em contrário: nisto consiste a sua capacidade jurídica». etc. Nas disposições em benefício de outrem. por um representante legal (designado na lei ou em conformidade com ela) e age autonomamente. da vantagem que a aquisição representa para o receptor. deve atender a se se trata de: elementos caducáveis. regeneráveis ou não regeneráveis. Contrapõe-se-lhes a incapacidade negocial de gozo e a incapacidade negocial de exercício. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 35 . exercendo direitos ou cumprindo deveres. das possibilidades de recuperação. na prática dos actos que movimentam a sua esfera jurídica. Distinta da noção de capacidade jurídica é a de capacidade de exercício de direitos. mais genéricas. o cientista. A incapacidade de exercício de direitos pode ser suprida pela representação legal ou pela assistência.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Nas intervenções e tratamentos médico-cirúrgicos em benefício alheio ou geral: Exigência interrogável e rigorosa do consentimento com dever de esclarecimento. das técnicas de extracção. por acto próprio e exclusivo ou mediante um representante voluntário ou procurador. . . de outra (assistente). isto é. anterior ou posterior ao acto. de capacidade jurídica e de capacidade para o exercício de direitos ao domínio dos negócios jurídicos.não regeneráveis: a licitude depende do risco que a perda representa para o dador. Ou há uma pessoa jurídica ou não há. Há uma capacidade jurídica maior ou menor. isto é. dotada da capacidade de exercício de direitos. não carece de ser substituída. de relações jurídicas. Modalidades: capacidade negocial de gozo (capacidade jurídica negocial) e capacidade negocial de exercício Estas noções traduzem-se na referência das noções.Capacidade jurídica e capacidade para o exercício de direitos direitos. mesmo no caso de ser lícito. Melhor se falaria de capacidade de agir. 50. encontra-se. A pessoa. .regeneráveis: idem. À personalidade jurídica é inerente a capacidade jurídica ou capacidade de gozo de O artigo 67º estabelece que «as pessoas podem ser sujeitos de quaisquer relações jurídicas. não carece do consentimento. como vimos. nem por este com autorização de outra entidade. 49. age pessoalmente.Capacidade negocial. adquirindo direitos ou assumindo obrigações. Capacidade de exercício ou de agir: é a idoneidade para actuar juridicamente. isto é. Incapacidade negocial de gozo: provoca a nulidade dos negócios jurídicos respectivos e é insuprível. convertível em autêntica obrigação. não sendo. sujeito ao regime das disposições da integridade física em benefício alheio. os negócios a que se refere nem podem ser concluídos por outra pessoa em nome do incapaz. Fala-se de capacidade jurídica para referir a aptidão para ser titular de um círculo. Não se pode admitir o consentimento presumido ou hipotético ou o consentimento por representante legal. maior ou menor. O direito a partes destacáveis do corpo humano Anote-se que o consentimento em ceder-se certo elemento orgânico quando este vier a destacar-se do organismo. A expressão capacidade de exercício de direitos sugere tratar-se unicamente da susceptibilidade de exercitar direitos deixando de fora o cumprimento das dívidas e a aquisição de direitos ou a aquisição de direitos ou a assunção de obrigações.caducáveis: não há problema.

Generalidades Pessoas colectivas Estas possuem plena capacidade negocial de exercício.Determinação da capacidade negocial de exercício. 53. Essa pessoa é denominada representante legal. Enquanto o representante legal actua em vez do incapaz. seja necessária a autorização de certas entidades alheias à pessoa colectiva. . todavia.Enumeração das incapacidades de exercício estatuídas pelo código civil As incapacidades de exercício estabelecidas pelo código civil resultam: a) Da menoridade. estiverem privadas dos seus órgãos. 2) Incapacidade de testar dos menores não emancipados e dos interditos por anomalia psíquica (2189º). de absoluta incapacidade.Determinação da capacidade negocial de gozo A regra geral. para dados efeitos. é capacidade jurídica. c) Das inabilitações. excepcionalmente. Não se trata de um representante voluntário. Representação: é a forma de suprimento da incapacidade. o assistente destina-se a autorizar o incapaz a agir. isto é. o assistente impede o incapaz de agir ou intervém ao lado dele. 36 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . 51.suprimento da incapacidade dos menores pelo poder paternal. agindo outras entidades em seu nome e no seu interesse ou quando.assistência: ex. traduzida em ser admitida a agir outra pessoa em nome e no interesse do incapaz. Existem contudo algumas restrições: 1) Incapacidades nupciais (impedimentos dirimentes absolutos e impedimentos dirimentes relativos 1601º e 1602º). b) Da interdição. dos interditos por anomalia psíquica e dos notoriamente dementes no momento da perfilhação (1850º).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Incapacidade negocial de exercício: provoca a anulabilidade dos negócios jurídicos respectivos e é suprível. pois a restrição não resulta da consideração de uma qualidade do disponente em si. Assistência: tem lugar quando a lei admite o incapaz a agir. A capacidade de exercício das pessoas colectivas só sofrerá restrição quando.: 153º . O interesse determinante das incapacidades é o interesse do próprio incapaz. mas exige o consentimento de certa pessoa ou entidade. 52. Pessoas singulares Em princípio todas têm capacidade de exercício de direitos. 3) Incapacidade para perfilhar dos menores de 16 anos. Não se trata. por ser designada pela lei ou em conformidade com ela. Há uma restrição do poder de disposição em certa direcção e por isso o código qualifica estes casos como indisponibilidade relativa.: 124º . dada a incapacidade do representado. pertencendo a iniciativa do acto a este último. não podendo os negócios a que se refere ser realizados pelo incapaz ou por um seu procurador.«os inabilitados são assistidos por um curador». O representante substitui o incapaz na actuação jurídica.representação legal: ex. Esta é suprível por: . escolhido e legitimado para agir pelo representado – e não se admite aqui um representante voluntário. por inerência do conceito de personalidade.

quaisquer negócios de natureza pessoal ou patrimonial. contrato a cargo de outrem. Poderá encontrar-se-lhes fundamento legal no 249º.Incapacidade dos menores Amplitude Abrange. Nem sempre é assim. o artigo 2190º prescreve a nulidade. Incapacidade de exercício Nesta hipótese tem lugar a anulabilidade dos actos praticados pelos incapazes. Para o testamento. a anulabilidade (261º). que não os intervenientes no negócio (ex. É uma incapacidade geral (123º). têm legitimidade para um certo negócio os sujeitos dos interesses cuja modelação é visada pelo negócio. todavia. dos interditos ou dos inabilitados. o 1631º a). Nas incapacidades conjugais. um modo de ser para com os outros. Enquanto as incapacidades de exercício geram anulabilidades.Valor dos negócios jurídicos indevidamente realizados pelos incapazes Incapacidade jurídica de gozo Os negócios feridos duma incapacidade jurídica negocial (incapacidade de gozo) são A lei não o diz de uma forma genérica. ao negócio consigo mesmo. aplicável por forças dos 139º e 156º.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 62. Em princípio. os menores podem praticar actos de administração ou disposição dos bens que o menor haja adquirido por seu trabalho (127º a)).Capacidade e legitimidade A distinção é oriunda do direito processual e aí se evidencia com nitidez. é antes uma posição. as ilegitimidades originam sanções diversas: à venda de coisa alheia corresponde a nulidade (892º).). as sanções dos actos indevidamente praticados constam do 1687º. estatui a solução da anulabilidade e o mesmo se determina no 1861º para a perfilhação. nulos. Capacidade: é um modo de ser ou qualidade do sujeito em si. por isso. Para alguns negócios a lei resolve expressamente o problema. Na extensão do conceito de ilegitimidade estão abrangidas manifestações jurídicas cujo tratamento é diverso. Na incapacidade de menores. etc. 64. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 37 . A invalidade só pode ser requerida pelas pessoas indicadas naquela disposição. Existem algumas excepções à incapacidade: 1. em princípio. Legitimidade: supõe uma relação entre o sujeito e o conteúdo do acto e. mas manifesta-se também no direito material. etc. mas é essa a solução geralmente defendida e a que se impõe. Para o casamento. dentro dos prazos aí referidos. um indivíduo tem o poder de desencadear efeitos de direito numa esfera jurídica alheia (ex. à representação sem poderes e ao abuso de representação. 2º Semestre 54.: venda de coisa alheia. variáveis consoante o autor da acção de anulação e pode ser sanada por confirmação das pessoas com legitimidade para a invocar.: representação legal ou voluntária). Haverá carência de legitimidade. Por vezes. a ineficácia em relação ao representado. sempre que se pretenda fazer derivar dum negócio efeitos (alienação ou aquisição de direitos. assunção de obrigações. Outras vezes um indivíduo não pode celebrar livremente (carece de uma autorização). dada a natureza dos interesses que determinam as incapacidades de gozo. anulabilidade tem as características enunciadas no 125º.). que vinculem outras pessoas.

Duração A incapacidade termina quando o menor atingir a idade de 18 anos ou for emancipado (122º. e como tal.º2). o poder de custodia. ou os praticados no exercício dessa profissão. no interesse dos filhos. ele próprio. em primeira linha o poder paternal e. se o hereditando morreu antes de ter expirado o prazo em que podia. salvo se. são válidos os negócios relativos à profissão. dá lugar à aplicação de sanções especiais. Qualquer herdeiro. Como se supre a incapacidade do menor A incapacidade do menor é suprimida pelo instituto da representação. podem contrair validamente casamento. dentro de um ano a contar da morte. ou disposições de bens. Podem fazer testamento se emancipados (2189º). a tutela. arte ou ofício que o menor tenha sido autorizado a exercer. de pequena importância (127º b)). requerer a anulação (125º). 130º. As pessoas com legitimidade para arguir essa anulabilidade são: O representante do menor.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 2. prover ao seu sustento. sem dependência de prazo. estiver pendente contra o menor. dentro de um ano a contar do conhecimento do acto impugnado. conviria manter a emancipação resultante do casamento. Poder paternal Compete aos pais. ao atingir a maioridade. não só o menor mas também os herdeiros ou representante. acção de interdição ou inabilitação (131º). não distinguindo a lei poderes especiais do pai ou mãe em virtude do princípio da igualdade (1901º) Há a salientar a divisão «poder paternal relativamente à pessoa dos filhos» e «relativamente aos bens dos filhos». O legislador entendeu que. A anulabilidade pode ser invocada normalmente por via de excepção. podem perfilhar quando tiverem mais de 16 anos (1850º. 38 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . ainda que nascituros. O próprio menor. de guardar os filhos na sua própria casa ou lugar à escolha (1887º). todavia. pois. especialmente o n. fixada a idade núbil nos 16 anos. estando ao alcance da sua capacidade natural. Efeitos Os negócios jurídicos praticados pelo menor contrariamente à proibição em que se cifra a incapacidade estão feridos de anulabilidade (125º). na primeira hipótese. se o negócio não estiver cumprido. O poder paternal pertence. não implicando a nulidade do acto. ou seja. Os meios de suprimentos da incapacidade dos menores através da representação. Nesta hipótese. aos pais. 3. no caso de este ter usado de dolo ou má fé a fim de se fazer passar por maior ou emancipado (126º). dentro de um ano a contar da cessação da incapacidade. que. ficam inibidos de invocar a anulabilidade. com base na consideração de que à situação de casado convém a plena capacidade de exercício de direitos decorrente da emancipação. subsidiariamente. desde que tenham idade superior a 16 anos (1601º a)). Na vertente pessoal salienta-se: o poder de educar os filhos (1885º 1886º 1878º). que a oposição dos pais ou do tutor constitui um impedimento impediente. dirigir a sua educação. O direito de invocar a anulabilidade é precludido pelo comportamento malicioso do menor. (sendo certo. são. O único facto constitutivo da emancipação é o casamento (132º). 4. representá-los. arte ou ofício (127º c)). 129º. 133º). são válidos os negócios jurídicos próprios da vida corrente do menor. e administrar os seus bens. só impliquem despesas. velar pela segurança e saúde destes. o direito ao respeito mutuo (1874º).

Como se supre a incapacidade dos interditos É suprida mediante o instituto da representação legal. São fundamentos de interdição as situações de anomalia psíquica (abrangendo deficiências do intelecto. O artigo seguinte enumera actos cuja validade depende de autorização do tribunal. Parece haver lugar apenas à alternativa interdição ou inabilitação. As sanções para a infracção das proibições impostas ao tutor constam dos artigos 1939º e 1940º e variam conforme os casos.: aplicação de capitais do menor na aquisição de bens). estes exercem o poder paternal como se o interdito fosse menor.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Na vertente patrimonial salienta-se: o poder de administração dos bens (1878º 1897º) e o reciproco dever de elementos (1874º 1878º). quer quanto ao valor dos actos praticados em contravenção. todavia. referidas no 138º. Estabelece-se uma tutela regulada pelas mesma normas que regulam a dos menores e que é deferida pela ordem estabelecida no artigo 143º. O tutor – órgão executivo da tutela – tem poderes de representação abrangendo. O regime da incapacidade por interdição é idêntico ao da incapacidade por menoridade. declare a incapacidade. ou quando os reflexos da surdez-mudez ou da cegueira sobre o discernimento do surdo-mudo ou do cego não excluem totalmente a sua aptidão para gerir os seus interesses. quer quanto aos meios de suprir a incapacidade (139º). Quando a anomalia psíquica não vai ao ponto de tornar o demente inapto para a prática de todos os negócios. pelo menos com autorização judicial. consoante a gravidade das deficiências. Estão excluídos da administração dos pais certos bens mencionados no 1888º. estamos perante uma incapacidade negocial de gozo. no termo de um processo especial. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 39 . A sentença de interdição definitiva deve ser registada. De mencionar a extinção do usufruto legal dos pais sobre os bens dos filhos. pois os menores embora dementes. Tutela É o meio normal de suprimento do poder paternal. O poder tutelar é. quanto ao casamento. nos termos do artigo 1893º. há actos que o pai pode praticar livremente. embora possam utilizar o seu rendimento nos termos do 1896º. para existir a incapacidade. Há certos actos que são vedados ao tutor e que o pai pode praticar. o incapaz será inabilitado. surdos-mudos ou cegos. As infracções aos artigos 1889º e 1892º geram anulabilidade dos respectivos actos. sob pena de não poder ser invocada contra terceiro de boa fé (147º) Efeitos É óbvio que só é suprível uma incapacidade de exercício de direitos. quando pela sua gravidade tornem o interditando incapaz de reger a sua pessoa e bens (138º). menos amplo que o poder paternal. Deve ser instaurada sempre que se verifique alguma das situações previstas no 1921º. Por isso. e princípio.Incapacidade dos interditos Quem pode ser interdito A incapacidade resultante de interdição é aplicável apenas a maiores. não há possibilidade de suprimento da incapacidade dos interditos por anomalia psíquica (1601º). surdez-mudez ou cegueira. isto é. tal como os do pai. 55. Torna-se necessária uma sentença judicial que. na satisfação de necessidade da família. Não basta todavia a existência das deficiências naturais. sendo predominantemente invalidades de tipo misto e não puras nulidades ou anulabilidades. As deficiências físico-psíquicas que são fundamento da interdição devem ser habituais ou duradouras e actuais. Quando a tutela recair nos pais. estão protegidos pela incapacidade por menoridade. a generalidade da esfera jurídica do menor. da afectividade ou da vontade). devendo o tutor solicitar autorização judicial (ex.

tal como as interdições.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Só os interditos por surdez-mudez ou cegueira têm plena capacidade matrimonial. 3-Depois do registo da sentença de interdição definitiva Os negócios jurídicos praticados neste período estão feridos de anulabilidade (148º). desde que: 1-o facto seja notório. irremediavelmente. Podem requerer o levantamento o próprio interdito ou qualquer das pessoas com legitimidade para requerer a interdição (151º). 56. 57. importa sempre. tendo os surdos-mudos e cegos capacidade testamentária de gozo e exercício. 58. Uma doação. só os interditos por anomalia psíquica estão feridos de uma incapacidade do tipo incapacidade de gozo. se vieram a tornar desvantajosos para o interdito por força de eventualidades posteriores. haverá lugar à anulabilidade. seja qual for a sua justificação moral. por outro lado. Trata-se.Quando cessa a incapacidade dos interditos A incapacidade dos interditos não termina. o próprio interdito. Torna-se necessário o levantamento da interdição. por força de ulteriores vicissitudes. só serão anuláveis. Resultam.Incapacidade dos inabilitados As inabilitações são uma fonte de incapacidade. 2-conhecido pelo declaratário. cuja estatuição remete para o disposto acerca da incapacidade acidental.Valor dos actos praticados pelo interdito Três períodos 1. causar-lhe grave dano. e a interdição vem a ser decretada. e ás pessoas com legitimidade para a arguir. Podem assim requerer a anulação o representante do interdito.Anteriormente à publicidade da acção Acerca das condições da anulação destes actos. no prazo de um ano a contar do levantamento da interdição e qualquer herdeiro deste. desde que «se mostre que o negócio causou prejuízo ao interdito» (149º). com a cessação da incapacidade natural. Quanto ao prazo para a invocação da anulabilidade. nos termos do qual a declaração negocial feita por quem se encontrava acidentalmente incapacitado de entender o sentido dela ou que não tinha o livre exercício da sua vontade é anulável. o 125º. um empobrecimento imediato do doador. de uma invalidade sanável por confirmação das pessoas com legitimidade para a invocar. na pendência do processo de interdição. de uma decisão judicial. durante a vigência da interdição. sempre que um contratante sensato e prudente na gestão dos seus bens não teria celebrado o negócio naqueles termos. tendo sido embora celebrados nas condições em que o faria uma pessoa normal e sensata. O prejuízo verificar-se-á.: valorização de terreno) que tornariam agora vantajoso não o ter realizado. com as necessárias adaptações. 40 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . se forem considerados prejudiciais numa apreciação reportada ao momento da prática do acto. quanto aos negócios onerosos. A interpretação mais chegada ao texto do 956º do código de processo civil era a de que permitia a anulação de negócios que. não se tomando em conta eventualidades ulteriores (ex. rege o 150º. no prazo de um ano a contar da morte do incapaz. podendo eventualmente. no prazo de um ano a contar do conhecimento do negócio. A incapacidade acidental está prevista e regulada no 257º. 2-Na pendência do processo de interdição Se o acto foi praticado depois de publicados os anúncio da proposição da acção. é aplicável. Nestes termos os negócios praticados pelo interdicendo. por força do 139º. Também quanto ao testamento. sem mais.

Estabelece-se que. surdez-mudez ou cegueira. despesas desproporcionadas aos rendimentos. Há que aplicar. improdutivas e injustificáveis. pois se é certo que nas inabilitações tem lugar. uma diversidade das formas do respectivo suprimento. Torna-se necessária uma sentença de inabilitação. não corresponde. no termo de um processo judicial. A sentença pode determinar uma extensão maior ou menor da incapacidade. bem como os especificados na sentença (153º). ainda que traduzida apenas na anormal dependência dessas drogas. A primeira categoria (anomalias psíquicas. a representação. todavia. Trata-se da prática de actos de dissipação. acerca do levantamento da inabilitação. que. as do 125º. intervir. todavia. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 41 .º1). Constata-se. Em qualquer dos casos basta que se prove a existência de um perigo actual de actos prejudiciais ao património. indivíduos que se revelem incapazes de reger o seu património por habitual prodigalidade ou pelo abuso de bebidas alcoólicas ou estupefacientes. Com estes prazos. sem o que não pode haver inabilitação. aplicável por remissão dos 139º 156º. um regime particular. 61. pelo instituto da assistência. Valor dos actos praticados pelo inabilitado A lei não regula directamente este problema. à distinção entre inabilitações e interdições. A terceira categoria – abuso de bebidas alcoólicas ou de estupefacientes – representa uma inovação do código civil. A segunda categoria – habitual prodigalidade – abrange os indivíduos que praticam habitualmente actos de delapidação patrimonial (não confundir com a administração infeliz ou pouco perspicaz). Meios de suprir a incapacidade A incapacidade dos inabilitados é suprida. embora de carácter permanente. o seu levantamento exige as condições seguintes: 1-Prova de cessação daquelas causas de inabilitação 2-Decurso de um prazo de 5 anos sobre o trânsito em julgado da sentença da inabilitação ou da sentença que desatendeu um pedido anterior de levantamento. tal como nas interdições. pretende-se sujeitar o inabilitado a um período de prova. a assistência. em princípio. determinar-se que a administração do património do inabilitado seja entregue pelo tribunal ao curador (154ºn. portanto. O 155º contém. mesmo que se não tenha verificado ainda um dano concreto. com as necessárias adaptações. surdez-mudez ou cegueira que provoquem uma mera fraqueza de espírito e não uma total inaptidão do incapaz).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Quando tem lugar a incapacidade dos inabilitados As pessoas sujeitas a inabilitação estão indicadas no 152º: indivíduos cuja anomalia psíquica. As características da anulabilidade são. como forma de suprimento da incapacidade. regula-a conjuntamente com as várias hipóteses de falta ou vícios de vontade na declaração negocial. portanto. sendo aplicáveis as disposições que vigoram acerca do valor dos actos dos interditos. 59. os 148º 149º 150º. acerca da sua regeneração. tal como acontece com as interdições. por força do 156º. O abuso de bebidas alcoólicas ou de estupefacientes tem de importar uma alteração do carácter. Verificação e determinação judicial da inabilitação A incapacidade dos inabilitados não existe pelo simples facto da existência das circunstâncias referidas no 152º. pode. o instituto da representação. Neste caso funciona. para evitar o risco de dissimulação ou fingimento. Pode. quando a inabilitação tiver por causa a prodigalidade ou o abuso de bebidas alcoólicas ou de estupefacientes. necessariamente. pois estão sujeitos a autorização do curador os actos de disposição entre vivos.Incapacidades acidentais O actual código não inclui a regulamentação da incapacidade acidental (257º) na secção relativa às incapacidades. tendencialmente.Quando cessa a incapacidade dos inabilitados A incapacidade só deixa de existir quando for levantada a inabilitação. não seja tão grave que justifique a interdição.

de ilegitimidade. bem como dos sub-rogados em lugar deles (= c)) d) dos bens que tenham sido doados ou deixados a ambos os cônjuges. arrendamento ou constituição de outros direitos pessoais de gozo sobre a casa de morada de família. ou por qualquer outro motivo (1678º f)). Não se pretende defender os cônjuges contra uma incapacidade natural. salvo se se tratar de bens doados ou deixados por conta da legitima desse outro cônjuge (= d)) e) dos bens móveis comuns por ele exclusivamente utilizados como instrumento de trabalho (= e)) f) dos bens comuns se o outro cônjuge se encontrar ausente ou impossibilitado (= f)) g) dos bens comuns do outro cônjuge se este lhe conferir por mandato esse poder (= g) O casamento continua a ser fonte de ilegitimidades conjugais. Assim.Incapacidades (ilegitimidades) conjugais As restrições à livre actuação jurídica. Assim. contudo. A anulação está sujeita ao regime geral das anulabilidades (287º e ss. intoxicação. em qualquer regime de bens. por ele exclusivamente utilizados como instrumento de trabalho (1678º e)). Quanto à administração dos bens comuns. estado hipnótico. oneração. ira. pertencendo a ambos (em conjunto) a administração dos bens comuns (1678º n. A regra dos bens do casal é esta: cada um dos cônjuges tem a administração dos seus bens próprios (1678º n. Qual a estatuição respectiva? Os actos referidos são anuláveis desde que o facto seja notório (cognoscível) ou conhecido do declaratário. derivadas do casamento. quanto à administração dos bens próprios. 2-a alienação ou oneração de móveis próprios ou comuns de que não tenha a administração.º3). delírio. devido a qualquer causa (embriaguês. inclusive no regime de separação: 1-a alienação ou oneração de móveis (próprios ou comuns) utilizados conjuntamente por ambos na vida do lar ou como instrumento comum de trabalho. se este se encontrar impossibilitado de exercer a administração por achar num lugar remoto ou não sabido.º1). 4-a disposição do direito ao arrendamento da casa de morada da família. a este respeito. com exclusão da administração do outro cônjuge. algumas excepções. Esta regra tem. carecem de consentimento de ambos os cônjuges. cada um dos cônjuges tem a administração: 1-dos bens próprios do outro cônjuge. 60. Tais ilegitimidades constam dos 1682º 1682º-A 1682º -B e 1683º. no domínio da administração e da alienação dos bens do casal. alterou profundamente as soluções do direito anterior. Mais correctamente se falará. são tradicionalmente designadas por incapacidades. mas proteger os interesses do outro cônjuge e da família.º2 a)) b) dos seus direitos de autor (= b)) c) dos bens comuns por ele levados para o casamento ou adquiridos a título gratuito depois do casamento. 2-dos bens próprios do outro cônjuge. 42 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . à regra (administração conjunta) opõem-se as seguintes excepções: 1-cada um dos cônjuges tem legitimidade para a prática de actos de administração ordinária (1678º n. se este lhe conferir por mandato esse poder.) estiver transitoriamente incapacitado de se representar o sentido dela ou não tenha livre exercício da sua vontade.º3) 2-cada um dos cônjuges tem a administração: a) dos proveitos que receba pelo seu trabalho (1678º n. 3-dos bens próprios do outro cônjuge.). A aplicação do princípio da igualdade dos cônjuges.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL O 257º abrange todos os casos em que a declaração negocial é feita por quem. inexistente. etc. pois não se prescreve qualquer regime especial. 3-a alienação. aliás.

º2 do 1683º. Esta posição acaba com o Código das falências (DL 132/93. feita sem legitimidade. nomeia o liquidatário judicial. Esta sentença fixa a residência do falido. A falência (deve ser o último recurso) é admitida em relação a devedores não titulares da empresa.O falido não pode mais exercer o comércio. apenas nos regimes de comunhão (geral ou de adquiridos). 1682º-B e no n. nos 1682º-A. MOTA PINTO: falência – instituto privado dos comerciantes. singular ou colectiva. Antes da falência deve ser tentada a recuperação da empresa. pontualmente. ou impossibilidade. que deve ser especial para cada acto. dissipação/extravio de bens. fixa o prazo para os credores exigirem o crédito. O instituto da insolvência foi abolido e passou a ser um requisito da falência. nos 6 meses subsequentes à data em que o requerente teve conhecimento do acto. os actos praticados contra o disposto nos n. arrendamento ou constituição de outros direitos pessoais de gozo sobre imóveis próprios ou comuns. não poder cumprir obrigações. À alienação ou oneração de bens (móveis ou imóveis) próprios do outro cônjuge. cuja verificação determina a insolvência. empresas (objecto na titularidade dos comerciantes [não têm personalidade jurídica]). comerciantes (individuais ou sociedades). havendo injusta recusa. 3-o repúdio de heranças ou legados. Recuperação da empresa A falência (que respeita os devedores titulares ou não da empresa insolvente) não existe ipso facto. está sujeito à forma exigida para a procuração e pode ser judicialmente suprido. A falência deixou de ser um instituto dos comerciantes para passar a ser das empresas. Como se supre a ilegitimidade conjugal A ilegitimidade conjugal supre-se pelo consentimento do outro cônjuge (1682º n. Pode-se falar em: sociedades (os sujeitos). oneração ou locação do estabelecimento comercial. Efeitos . mas nunca depois de decorridos 3 anos sobre a sua celebração (nº2). 2-a alienação. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 43 . não são incapacidades. . há que ser declarada. falta de liquidez na designação dos titulares. são aplicáveis as regras relativas à alienação de coisa alheia. Falência e Insolvência Por si só. oneração. por qualquer causa. próprio ou comum. 1682º-A e 1682º-B) o consentimento conjugal.O falido é impedido de dispor dos bens presentes/futuros. Artigo 1º do código: falência – são as empresas em situação de insolvência. Estes podem ser: falta de cumprimento das obrigações. A falência é a impossibilidade de uma pessoa. N. são nulas nos termos dos 892º e ss. de o prestar (1684º). . são anuláveis a requerimento do cônjuge que não deu o consentimento ou dos seus herdeiros (n. fuga do titular. que passam a integrar a “massa falida”. isto é.º1).º1e 3. Sanções da ilegitimidade conjugal De acordo com o 1687º. insolvência – aplica-se aos não comerciantes. 23 Abril).º1 e 3 do 1682º. Existe um processo que acaba numa sentença judicial que tem que ser registada. mas não já no regime de separação de bens: 1-a alienação.A “massa falida” é inoponível. A insolvência é revelada por “factos-índice” . etc.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Carecem de consentimento de ambos os cônjuges. nem pode administrar bens de menores (quase inabilitado).º 3: insolvência – carência de meios próprios e falta de crédito (note-se a importância do crédito).

Assim: a) o foro geral. se se verificar dolo no acto do devedor. Assim sendo. pode já. salvo disposição especial. tratando-se apenas de uma ilegitimidade. Fundamentos do levantamento da falência 1. o se o crédito for posterior ao acto do devedor. pode haver impugnação. . 65. quem adquiriu os bens. Esta situação está prevista no 610º e ss.Quitação (inexistência da dívida: a dívida foi paga) dos credores. 2. à noção de domicílio. de compra e venda.momento em que nasce o crédito: o se o crédito for anterior ao acto do devedor. como ponto de conexão entre a pessoa e um determinado lugar.Domicílio O ordenamento jurídico dá relevância.Homologação do acordo extraordinário entre credor e devedor. e é uma tentativa de garantir os credores. É nomeado o liquidatário judicial para administrar. no lugar do domicílio que o credor tiver ao tempo do cumprimento (774º). em matéria de competência territorial dos tribunais. para variados efeitos. Contudo. contudo. Em negócios. opô-los. b. para o credor. Requisitos para a impugnação pauliana: . ou agravamento dessa impossibilidade. o Se o acto for gratuito – a impugnação procede ainda que ambos estivessem de boa fé. verifica-se a impugnação pauliana.Decurso de 5 anos do trânsito em julgado. . por exemplo. Valor dos actos praticados pelo falido Antes da declaração Os actos podem ser resolúveis em benefício da “massa falida”. quem os adquirir não os pode opor a terceiros. faz todo o sentido para poder encontrar meio para pagar dívidas). isto é. é o domicílio do réu. Repetição (devolução) do indevido. a.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL O falido pode trabalhar (aliás.Impossibilidade de satisfação do crédito ou o seu agravamento: o Há impugnação se resultar do acto a impossibilidade. no caso de obrigações pecuniárias. A situação do falido não é incapacidade. o tribunal competente para quaisquer acções. b) a prestação debitória deve ser efectuada no lugar do domicílio do devedor (722º) e. c) a sucessão por morte abre-se no lugar do último domicílio do seu autor (2031º). de obter a satisfação integral do seu crédito. Remissão da dívida. Podem ser impugnados por “impugnação pauliana”. 3. Os seus actos não são inválidos. Se o falido conseguir pagar a massa falida. os bens continuam a integrar a massa falida.Má fé (612º) (no sentido subjectivo): o Se o acto for oneroso – só é impugnável se o devedor e o terceiro tiverem agido de má fé. É nomeado pelo juiz e “ajudado” pela comissão de credores. não há impugnação pois o credor devia ter-se acautelado devido à situação do devedor. o falido pode vender bens da massa falida sendo estes negócios válidos. 44 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados .

com o que se visa impedir escapatórias. se tem duas ou mais residências habituais. É. Domicílio electivo: é um domicílio particular. não coincide com o paradeiro (225º). os distritos. Na definição referiu-se organizações constituídas por uma colectividade de pessoas e organizações constituídas por uma massa de bens. as freguesias. Essas pessoas ou associados Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 45 . onde costume regressar após ausências mais curtas ou mais longas. em alguns casos. bem como o seu termo. o estabelecimento do domicílio. As partes convencionam que. À categoria das pessoas colectivas pertencem o Estado. Domicílio profissional: verifica-se para as pessoas que exercem uma profissão e é relevante para as relações que a esta se referem. Há uma presunção de presença da pessoa no domicílio. as fundações. Uma pessoa pode ter dois ou mais domicílios. Em regra. Não se trata do local onde a pessoa se encontra em cada momento. (III)PESSOAS COLECTIVAS 67. o domicilio (32º). Este acto voluntário não é. se têm por domiciliadas em certo local. verificando-se a produção. mesmo que a pessoa em causa não os tivesse em mente ou até os quisesse impedir.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL d) o elemento de conexão decisivo para a determinação. estipulado. mas um simples acto jurídico. nos fornece o critério do domicilio do 82º. diferente do seu domicílio geral ou profissional. com o local onde a pessoa está a viver com alguma permanência. É o que ocorre com o domicílio legal dos menores e interditos (85º). e com o dos agentes diplomáticos portugueses (88º). as associações recreativas ou culturais. no domicílio da pessoa que devem ser praticadas as diligências ou efectuadas as comunicações dirigidas a dar-lhe conhecimento pessoal de um facto. Há com efeito duas espécies fundamentais de pessoas colectivas: Corporações: têm um substrato integrado por um agrupamento de pessoas singulares que visam um interesse comum. que constituem centros autónomos de relações jurídicas – autónomos mesmo em relação aos seus membros ou às pessoas que actuam como seus órgãos. Sem dúvida que a residência habitual onde a pessoa vive normalmente. Função socioeconómica do instituto da personalidade colectiva As pessoas colectivas são organizações constituídas por uma colectividade de pessoas ou por uma massa de bens. da lei aplicável a relações conexionadas com várias ordens jurídicas. os municípios. porém. localizando-se no lugar onde a profissão é exercida. é. por escrito. para determinados negócios. Ao lado do domicílio voluntário geral. isto é. Noção O conceito de domicílio voluntário geral é-nos fornecido pelo 82º e coincide com o lugar de residência habitual. um negócio jurídico. resultam de um acto voluntário (de residir habitualmente num certo local ou de aí exercer uma profissão). as sociedades comerciais. igualmente. às quais a ordem jurídica atribui a personalidade jurídica.Conceito de pessoa colectiva. independente da vontade. a lei reconhece um domicílio profissional (83º) e um domicílio electivo (84º). para todos os efeitos jurídicos. Trata-se de organizações integradas essencialmente por pessoas ou essencialmente por bens. por força da lei. segundo o direito internacional privado. com o dos funcionários públicos (87º). dirigidos à realização de interesses comuns ou colectivos. O nosso direito conhece alguns casos de domicílio legal. Não se confunde também com a residência. egoístico ou altruístico. isto é. etc. dos efeitos jurídicos respectivos.

mas tal como está fixada no acto de instituição e nos estatutos.. as sociedades comerciais. Pode existir a corporação.Põe-se. o fundador fica fora dela. que lhe dá existência no mundo exterior. tendo nas suas mãos. é o elemento de facto.Deve revestir os requisitos gerais do objecto de qualquer negócio jurídico (280º). É a sua vontade que regula a fundação. de um escopo ou finalidade comum. 46 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . É a colectividade de indivíduos que se agrupam para a realização. transformador de uma organização ou ente de facto num ente ou pessoa jurídica. O elemento patrimonial intervém nas fundações. Importa saber o vários subelementos em que o substrato se pode decompor. elevado à qualidade de sujeito jurídico pelo reconhecimento. basta pensar numa associação para a qual os associados concorrem apenas com serviços dirigidos à prossecução do fim comum. por vezes. São corporações as associações desportivas. só ele sendo um componente necessário do substrato da pessoa colectiva. mutualistas.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL organizam a corporação. É a realidade que dá peso terreno à pessoa colectiva. fazendo-a ser algo mais do que uma superestrutura pairando sobre o vácuo. através de actividades pessoais e meios materiais. É o conjunto de associados. Fundações: têm um substrato integrado por um conjunto de bens adstrito pelo fundador a um escopo ou interesse de natureza social. Elemento pessoal ou patrimonial O elemento pessoal verifica-se nas corporações. É o complexo de bens que o fundador afectou à consecução do fim fundacional (tal massa de bens designa-se habitualmente por dotação). etc. sem que lhe pertença um património. Substrato. 68. através da modificação dos estatutos ou de outras deliberações. v. sem que os referidos serviços sejam susceptíveis de avaliação pecuniária. Criada a fundação. na nulidade do chamado pacto leonino. o conjunto de dados anteriores à outorga da personalidade jurídica. fora do substrato da fundação. defende grande parte da doutrina. é o elemento de direito. culturais. Manifesta-se a sua exigência quanto às sociedades. dão-lhe existência e cabe-lhes disciplinar a sua vida e destino. Noção O substrato é o conjunto de elementos da realidade extrajurídica. estabelecida no 994º. e não em renovadas manifestações.g. Dirigem-na de dentro. Não é legítima a exigência deste requisito em termos de a sua falte impedir forçosamente a constituição de uma pessoa colectiva. Reconhecimento: elemento a que a lei se refere expressamente (158º). 2. Torna-se necessário que o escopo visado pela pessoa colectiva satisfaça certos requisitos: 1.Elementos constitutivos das pessoas colectivas: o substrato e o reconhecimento Podemos legitimamente reconduzir a dois os seus elementos constitutivos: substrato e reconhecimento. rigorosamente. recreativas.Deve ser comum aos seus membros ou colectivo. Pode dizer-se que o reconhecimento é o elemento formal e o substrato o elemento material. estando a actividade pessoal – necessária à prossecução do escopo fundacional – ao serviço da afectação patrimonial – estando subordinada a esta. a sorte da corporação. Elemento teleológico A pessoa colectiva deve prosseguir uma certa finalidade. o problema de saber se o escopo das pessoas colectivas deve ser duradouro ou permanente. Por que motivo se fala na existência de um elemento pessoal apenas das corporações e de um elemento patrimonial nas funções? Nas corporações só o elemento pessoal é relevante. justamente o fim em causa determinante da formação da colectividade social ou da dotação funcional. 3. Por sua vez nas fundações só o elemento patrimonial assume relevo no interior da pessoa colectiva. integrado por vários subelementos. em segundo plano ou até. Substrato: é um elemento complexo.

de «centros institucionalizados de poderes funcionais a exercer pelo indivíduo ou pelo colégio de indivíduos que nele estiverem providos com o objectivo de exprimir a vontade juridicamente imputável a essa pessoa colectiva». por uma organização destinada a introduzir na pluralidade de pessoas e de bens existente uma ordenação unificadora. que devem acrescer aos elementos caracterizadores de um substrato e. em Portugal. os serventuários. Entre nós o reconhecimento normativo condicionado vigora no domínio das sociedades comerciais e civis em forma comercial e das associações e o reconhecimento por concessão é exigido para as fundações (excepção). à qualidade de sujeito de Direito. isto é. isto é. verificados esses requisitos. Reconhecimento normativo condicionado: também esta modalidade de reconhecimento é de carácter global. a pessoa colectiva é automaticamente constituída. Ora nos negócios jurídicos os efeitos determinados pela ordem jurídica dependem da existência e do conteúdo duma vontade (intenção) correspondente. Como sujeito jurídico a pessoa colectiva torna-se titular de relações jurídicas. no silencio destes. perante cada caso concreto. desde logo. Verificado o reconhecimento. o contrato de sociedade para as sociedades (980º) e o acto de instituição nas fundações (186º). A lei formula em geral a exigência de determinados pressupostos ou requisitos. Essa organização traduz-se num conjunto de preceitos disciplinadores das características e do funcionamento da pessoa colectiva (preceitos contidos nos estatutos ou no acto de constituição ou instituição) e na existência de órgãos. Quanto às associações. Os órgãos da pessoa colectiva podem ser deliberativos ou executivos (representativos). A exigência deste elemento radica na circunstância de a constituição duma pessoa colectiva ter na origem um negócio jurídico: o acto de constituição nas associações (167º). Pode ter lugar um reconhecimento normativo. Também esta modalidade de reconhecimento traduz um grau de liberdade e facilidade na constituição de pessoas colectivas superior ao reconhecimento por concessão. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 47 . distinta dos associados. isto é.Elementos constitutivos reconhecimento (cont. surge uma nova pessoa jurídica: a pessoa colectiva.º1. ainda. à lei. São possíveis várias modalidades de reconhecimento. os fundadores. e quanto às fundações. sem mais exigências a todo o substrato completo da pessoa colectiva (sistema de livre constituição das pessoas colectivas). o regime do reconhecimento normativo condicionado resulta do 158º n. derivado automaticamente da lei e um reconhecimento individual ou por concessão. designadamente de relações jurídicas estabelecidas com os associados. do fundador ou dos beneficiários. os beneficiários ou terceiros. derivado de uma norma jurídica dirigida a uma generalidade de casos e não de uma apreciação individual.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Elemento intencional Trata-se do intento de constituir uma nova pessoa jurídica («animus personificandi»). sem necessidade de uma apreciação de oportunidade e conveniência por parte do Estado. caso por caso. não existindo. Acresce-se que o número e características dos órgãos da pessoa colectiva e a designação dos indivíduos que os preenchem obedece aos estatutos e. isto é. revestir duas formas: Reconhecimento normativo incondicionado: se a ordem jurídica atribuir personalidade jurídica de plano. personificará ou não o substrato. 69. Um tal sistema dificilmente existirá em qualquer direito positivo. O reconhecimento normativo pode. Elemento organizatório A pessoa colectiva é integrada. redutor da dispersão e pluralidade do substrato à unidade. Noção.) da pessoa colectiva: substrato e O reconhecimento. a exigência de um reconhecimento individual por parte da autoridade pública para a aquisição da personalidade jurídica resulta expressamente do n. traduzido num acto individual e discricionário de uma autoridade pública que.º2. igualmente. Modalidades O reconhecimento é o elemento de direito.

de frutificação do que é posto em comum pelos sócios. Os associados ou o fundador tomam a peito determinados interesses alheios. excepto quanto à falência.Pessoas colectivas de direito privado e utilidade particular: a finalidade própria destas pessoas colectivas é de mero interesse particular. têm capacidade testamentária passiva (2033º) e capacidade judiciária (2936º). 48 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . ainda que. Exemplo é a sociedade comercial que tem uma disciplina privativa no código comercial. concorrentemente.Pessoas colectivas de direito privado e utilidade pública: são as que se propõem em escopo de interesse público. Pessoas colectivas de “mera utilidade pública”: este é um estatuto reconhecido pelo Estado após uma requisição do particular. a mais das notas genéricas do 980º. a sua actividade (natural) não se insere no código comercial. Têm por objecto o lucro. Só podem ser constituídas para o exercício de certas actividades económicas. empréstimos. que serão sempre – pode dizer-se – de tipo corporativo. Espécies ou tipos de sociedades A primeira distinção a estabelecer dentro das sociedades é entre sociedades civis e sociedades comerciais. pois. As sociedades comerciais têm personalidade jurídica. pois não se cuida propriamente de obter lucros para repartir pelos associados. E trata-se de pessoas colectivas de utilidade pública. nomeadamente. mas é tal que ao mesmo tempo interessa à comunidade 1-Pessoas colectivas de fim ideal: o objectivo egoístico que uma pessoa colectiva se proponha pode consistir num interesse de natureza ideal (não económica): recreio. pretende-se a repartição de lucros. cultura física ou intelectual. destina-se a pessoas colectivas que prosseguem objectos importantes para determinada população mas em conjunto com a administração central. É o que resulta do 108º código comercial. etc. Estas. instrução. Resumindo. de uma finalidade económica. desporto. O regime geral está fixado no Decreto-Lei 460/77. Quando falamos de sociedade comercial: tipo contratual autónomo que tem que preencher determinados requisitos. Mas não de uma finalidade lucrativa. não têm personalidade jurídica. Trata-se. aliás. a responsabilidade dos sócios é pessoal e solidária [porque não têm personalidade jurídica] (sociedades em nome colectivo). II.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Pessoas colectivas de direito público e privado I . a)Pessoas colectivas de fim desinteressado ou altruístico: nestas pessoas colectivas o interesse próprio que os associados ou o fundador querem satisfazer é um interesse de natureza altruística: o interesse de promover certos interesses de outras pessoas (beneficiários). podem constituir-se sob forma comercial. b)Pessoas colectivas de fim interessado ou egoístico: nestas pessoas colectivas. não praticam actos de comércio. se dirijam à satisfação dum interesse dos próprios associadas ou do próprio fundador. São as que têm maior peso e existem em maior número. ficando sujeitas às disposições do código comercial. 2-Pessoas colectivas de fim económico não lucrativo: aqui a pessoas colectiva pretende conseguir certas vantagens patrimoniais para os seus associados: subsídios pecuniários no caso de invalidez. Quanto às sociedades civis têm indiscutivelmente personalidade jurídica as constituídas sob forma comercial pois é-lhes aplicável o referido artigo. porque à comunidade social importa que tais interesses sejam satisfeitos. As sociedades comerciais são as que. As sociedades a que falte esta diferença específica são sociedades civis. segundo algum dos 4 tipos de sociedades comerciais conhecidas pela nossa lei. o escopo visado interesse de modo egoístico aos próprios associados. etc. têm «por objecto praticar um ou mais actos de comércio».

as cooperativas não eram bem cooperativas. a partir do requerimento do reconhecimento. A sua constituição tem que ser por escritura pública sob pena de nulidade. b) Sociedades anónimas – os sócios estão isentos de responsabilidade pessoal pelas dívidas da sociedade e os credores sociais só se podem pagar pelos bens sociais. Os limites à vontade do instituidor e ao fim da fundação estão previstos no 189º. isto é. Aplica-se subsidiariamente o código comercial.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Tipos legais de sociedades a) Sociedades em nome colectivo – caracterizam-se pela responsabilidade pessoal. sociais. a associação não adquire personalidade jurídica. pois intervêm nelas sócios que assumem responsabilidade ilimitada como os sócios das sociedades em nome colectivo (Comanditados) e sócios que só arriscam o valor das suas entradas como os accionistas das sociedades anónimas (comanditários). o capital social está dividido em fracções a cada uma das quais corresponde uma acção. para com a sociedade. O seu capital é variável bem como a sua composição (princípio da porta aberta). as suas decisões são anuláveis e o 182º fala acerca da sua extinção (da associação). esta traduz-se numa inoponibilidade a terceiros.: conselho fiscal). e ainda. mesmo que os outros sócios estejam em dívida para com a sociedade. bem como o modo de funcionamento da fundação. culturais. c) Sociedades em comandita – são uma combinação entre os tipos anteriores. a fundação é irrevogável. executivos (ex. solidária e ilimitada dos sócios perante os credores sociais. pela parte que lhes cabe do capital social. de fiscalização (ex. A sua instituição é feita por: acto entre vivos (escritura pública. cada sócio responde. Cooperativas Antigamente eram uma subespécie de sociedades. Fundações Derivam de uma só pessoa.: órgão de administração). isto é. O 167º diz o que a escritura deve conter para respeitar a forma legal. Segundo o 168º. DR). nada mais tendo a satisfazer. Também aqui só há produção de efeitos se for publicitada (185º n. O reconhecimento da fundação é requerido pelo fundador ou pelos herdeiros e. Neste caso há uma dotação que é afecta á prossecução de determinado fim. solidariamente com os demais. os estatutos da associação estão a sujeitos a publicidade (série III. Segundo o 177º. etc. pelo capital que subscreveu. pelas prestações devidas à sociedade por algum ou alguns dos outros associados por força da não realização integral das suas quotas. A instituição é um acto irrevogável pelos herdeiros do fundador. pelas dividas da sociedade. O seu regime está presente no código cooperativo. A associação tem órgãos deliberativos (ex.º5). 185º) ou testamento (a fundação apresenta-se tal qual está prevista no testamento). Cabe ao instituidor dizer quais os bens afectos.: assembleia geral). um negócio jurídico unilateral. pelo montante das acções respectivas. Não são sociedades. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 49 . Podem exercer actividades económicas. sendo portanto. d) Sociedades por quotas – os sócios também não respondem. Se algum aspecto for omisso. Associações Emerge de negócio bilateral ou plurilateral. respondem para com a sociedade pela realização da sua quota. tal como nas anónimas. A sua constituição dá-se mediante a verificação de princípios cooperativos com por exemplo o princípio da porta aberta. Se falta a publicidade. não visam o lucro. No antigo regime.

a administração já actua de forma vinculada. ou por autoridade pública. não há responsabilidade do representado pelos actos ilícitos extracontratuais do seu procurador. Quanto à representação voluntária. não podendo agir elas mesmas. Este tipo de responsabilidade só pode resultar dum comportamento (acção ou omissão) próprio. bem podendo vir a chegar-se à conclusão oposta. o fim da pessoa colectiva determina a sua capacidade. etc. estariam necessariamente privadas daquela capacidade. . sem necessidade de se ser representado ou assistido por outrem. não tomando estes termos no sentido rigoroso em que ficaram definidos. Na verdade resulta da lei não haver. agindo o órgão é a própria pessoa que age. 160º . com fundamento no risco: se beneficia duma actividade alheia – a do comissário – deve suportar os riscos respectivos. A lei fala indiferentemente em órgãos (162º) e em representantes (163º. A capacidade para o exercício de direitos ou capacidade de agir consiste na aptidão para por em movimento a capacidade jurídica por actividade própria. cujos actos projectarão a sua eficácia na esfera jurídica do ente colectivo. “Princípio da especialidade do fim” – norteia a medida da capacidade das pessoas colectivas.Capacidade para o exercício de direitos das pessoas colectivas. No segundo caso. Trata-se dum problema de natureza conceitual. Há limitações relativamente à capacidade das pessoas singulares. isenta de contestação possível.º2).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Segundo o 191º. Só num caso bem delimitado a lei impõe essa responsabilidade no âmbito da representação voluntária: é a hipótese do 500º (“aquele que encarrega outrem de qualquer comissão responde. Nesta hipótese uma pessoa (o comitente) responde. é de verdadeira identificação e. assim. conselho de administração. gerentes. a das pessoas colectivas é mais reduzida pois apenas se lhes aplicam os direitos necessários e convenientes.. pois a relação entre um órgão e o ente em que se integra. então deve rejeitar-se a tese da capacidade para o exercício de direitos das pessoas colectivas. Ora as pessoas colectivas carecem de um organismo físico-psíquico. 76. A resposta à pergunta “órgãos ou representantes?” infere-se da solução dada pela lei e um concreto problema de regulamentação: o problema da responsabilidade civil extracontratual das pessoas colectivas. o reconhecimento é individual e verificam-se dois pressupostos: . a vontade do instituidor pode ser afastada se houver prejuízo sobre o património da fundação.capacidade de gozo. ou de mera representação? Se se concluir pela organicidade. mesmo sem culpa.”). 50 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . directores. Neste caso. A aquisição de personalidade/capacidade jurídica está presente no 160º havendo relação com o 158º. Esta proposição negatória da capacidade de agir das pessoas colectivas não está. A fundação é extinta segundo o 192º por: disposição da lei. mas apenas através de determinadas pessoas singulares (assembleia geral. em princípio. responsabilidade civil extracontratual dos representados pelos actos dos seus representantes. verifica-se um juízo discricionário para o seu apuramento.). todavia. Logo as pessoas colectivas.suficiência dos bens (188º n. Quanto ao primeiro. administradoresdelegados. em princípio. Sem reconhecimento. então pode aceitar-se terem as pessoas colectivas capacidade para o exercício de direitos. não há fundação.. pelos danos que o comissário causar. se se concluir pela representação. Neste caso.interesse social da fundação. pois há autonomia entre as personalidades jurídicas do representante e do representado. 165º). Tudo depende da natureza do vínculo entre a pessoa colectiva e aquelas pessoas físicas que procedem em seu nome e no seu interesse: será um nexo de verdadeira organicidade. o que fazer com os bens (em caso de testamento)? Os bens devem ser entregues a uma colectividade que prossiga fins análogos ao da fundação. também. independentemente de culpa. só podendo agir por intermédio de certas pessoas físicas.

Essas limitações constam do 160º e são as seguintes: 1ª . a uma autoridade deste. É o chamado princípio da «especialidade do fim».º1. apenas. também. Devem portanto responder pelos factos dos seus órgãos. Sendo assim. A personalidade colectiva é um mecanismo aparelhado pela ordem jurídica para mais fácil e eficaz realização de certos interesses (os correspondentes aos fins estatutários). Logo as pessoas físicas que agem em seu nome e no seu interesse são ou integram verdadeiros órgãos e portanto as pessoas colectivas têm capacidade para o exercício de direitos. aplicável às associações. pois estes – pelo menos o órgão mais qualificado – não são encarregados de uma comissão. A lei refere-se-lhe expressamente para o efeito de a limitar. 77. ser titulares dos chamados direitos de personalidade (pelo menos de alguns): direito ao nome (72º).Responsabilidade civil das pessoas colectivas Responsabilidade contratual Seria uma situação de favor. 2ª . todavia. Ora tal qualificação só lhe pode caber quando estiver numa relação de dependência em face do representado – quando estiver submetido a um poder de direcção. muito menos. legal ou voluntária. Ora no 165º estatui-se a responsabilidade civil dos entes colectivos. a exclusão dessa forma de responsabilidade. etc. Assim resulta claramente do 165º («as pessoas colectivas respondem civilmente»: esta expressão abrange quer a responsabilidade contratual. nem. «a contrario» do 160º n. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 51 . tal situação nenhuma analogia apresenta com a ligação entre a pessoa colectiva e os seus «representantes». quer a extracontratual). uma capacidade igual para todas. salvo no caso particular do 500º.estão exceptuadas do âmbito da capacidade jurídica das pessoas colectivas as relações jurídicas vedadas por lei ou que sejam inseparáveis da personalidade singular. encontrar quem com ela transaccionasse a crédito. que prevê uma hipótese sem analogia com a situação das pessoas colectivas. As pessoas colectivas podem. Constata-se. com o reverso desfavorável para a própria pessoa colectiva de. não importa qualquer responsabilidade dos representados pelos actos ilícitos extracontratuais dos seus representantes. agentes ou mandatários que produzam o inadimplemento de uma obrigação em sentido técnico. Tal restrição já constava da legislação anterior (34º do código civil: não podiam ser sujeitos de relações estranhas «aos interesses legítimos do seu instituto«). injustificável. nos termos do 500º. Só então se poderá dizer que foi encarregado de uma comissão. estarem fora da capacidade jurídica das pessoas colectivas os direitos e obrigações que não sejam necessários ou convenientes à prossecução dos seus fins.resulta. às fundações e também às sociedades. enquanto a das pessoas singulares é de carácter geral. por assim o justificar a analogia das situações (175º). portanto.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL A situação prevista no 500º abrange. em ordem a obter recursos para a prossecução dos seus fins. que o instituto da representação. É uma capacidade jurídica específica.Capacidade jurídica (capacidade de gozo de direitos) das pessoas colectivas A capacidade jurídica das pessoas colectivas é um «status» inerente à sua existência como pessoas jurídicas (67º). As pessoas colectivas de fim desinteressado ou egoístico ideal não estão de todo incapacitadas para praticar actos de natureza lucrativa. um sector caracterizado da representação voluntária: os casos em que o procurador pode ser considerado um comissário nos termos e para os efeitos do mesmo artigo. mas são eles próprios formuladores da vontade da pessoa colectiva. dificilmente. Não é. os titulares de toda a iniciativa e não meros comitidos. igual à capacidade de que desfrutam as pessoas singulares. 78.

o regime é o mesmo em virtude de o inadimplemento da obrigação se dever sempre considerar como tendo ocorrido «no exercício da função que lhe foi confiada». portanto. 3)Ao lado da pessoa colectiva fica igualmente adstrito à obrigação de indemnizar o órgão.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL O princípio geral do nosso código em matéria de responsabilidade contratual. 4)A pessoa colectiva que tiver satisfeito a indemnização ao lesado tem direito de regresso contra o órgão. podem. agente ou mandatário no exercício da função que lhe foi confiada. verificar-se a culpa dos órgãos ou agentes da pessoa colectiva pelo inadimplemento da obrigação. Este poder. 2)Que o acto danoso haja sido praticado pelo órgão. conferem a possibilidade de exercer uma soberania ou domínio sobre um bem. O 165º estatui que as pessoas colectivas respondem nos mesmos termos em que os comitentes respondem pelos actos ou omissões dos seus comissários. Esse bem. Nestes termos. quase sempre. Aliás. desde que tenha havido culpa deste no plano das relações internas. agente ou mandatário (500º n. ser exercitados sobre um determinado «quid».º1). na hipótese de responsabilidade contratual. desde que o inadimplemento tenha sido culposo e dele resultem danos. A satisfação do interesse. outro direito).Objecto da relação jurídica.º1). que corresponde ao aspecto funcional do direito. o ente colectivo responde para com o credor. exige a subordinação de um bem ao poder do titular do direito. Responsabilidade extracontratual A responsabilidade extracontratual das pessoas colectivas é a melhor solução «de jure condendo». Daí resulta ser necessário para o surgimento da obrigação de indemnizar que tenha havido culpa do devedor no não cumprimento. Esse poder e essas faculdades incidem sobre determinado ente (coisa ou pessoa). O objecto de uma relação jurídica é precisamente o «quid» sobre que incidem os poderes do seu titular activo. que constitui o ponto de incidência do direito. Ao alargamento das potencialidades do sujeito na satisfação dos seus interesses próprios deve corresponder a responsabilidade pelos danos causados por esse alargamento («ubi commoda. ibi incommoda»). agentes ou mandatários. Objecto e conteúdo Fala-se de objecto da relação jurídica para referir o objecto do direito subjectivo que constitui o lado activo da mesma relação. 52 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Resulta desta disposição que. Conceito. incluindo um determinado modo de ser da própria pessoa. para a pessoa colectiva responder. estabelecendo-se no 799º uma presunção refutável de culpa na caso de não cumprimento defeituoso. O direito subjectivo traduz-se num poder atribuído a uma pessoa. o que não nos parece exacto. à supremacia do titular activo da relação jurídica e é o objecto desta. por força do princípio de justiça segundo o qual quem emprega determinadas pessoas para vantagem própria deve suportar os riscos da sua actividade. integrado nas disposições relativas à responsabilidade pelo risco (responsabilidade objectiva). e as faculdades que o integram. está enunciado no 798º. Tal responsabilidade – na hipótese da responsabilidade aquiliana – consta do 500º. (II)TEORIA GERAL DO OBJECTO DA RELAÇÃO JURÍDICA 80. em que se prescinde da culpa do responsável. A solução afirmativa do problema da responsabilidade extracontratual está expressamente consagrada no 165º para os actos praticados por órgãos (representantes). É o que resulta do 800º para o qual se deve considerar como feita remissão do 165º. agente ou mandatário. se se considerar que a remissão é feita para o 500º. agente ou mandatário recaia igualmente a obrigação de indemnizar (500º n. está submetido aos poderes. O 165º remete para a responsabilidade dos comitentes por actos dos seus comitidos. pessoa. corpóreo ou incorpóreo. prestação. não se tornando necessário mais nenhum requisito. se devem verificar os pressupostos seguintes: 1)Que sobre o órgão. sobre um objecto (coisa corpórea ou incorpórea. Deve. isto é. podendo exigir-lhe o reembolso de tudo quanto haja pago.

nos sistemas jurídicos modernos. Nas obrigações de prestação de facto (ex.. A distinção verifica-se nas obrigações (direitos de crédito) de prestação de coisa certa e determinada. estão em contacto directo com o objecto do seu direito. o credor só tem direito à coisa através da prestação do devedor. pois as coisas. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 53 . O proprietário. está submetido àqueles poderes. todo o ente. fruir. a prestação. São direitos a uma modificação jurídica (extinção. assim. Facilmente se distinguem. Nos direitos reais não há intermediário entre o titular do direito e a coisa. 81.: A obrigase para com o empresário B a dar um recital de piano) já a distinção entre objecto imediato e objecto mediato se apresenta evanescente. Actuam com carácter conformador sobre o mundo. A distinção exprime a diversidade entre aquilo que directamente está submetido aos poderes ideais que integram um direito subjectivo e aquilo que só de uma forma mediata ou indirecta. O objecto mediato é a própria coisa que deve ser entregue ao credor. através de um elemento mediador. quer os que suscitam dúvidas. isto é.Possíveis objectos de relações jurídicas O 202º estabelece equivalência entre o conceito de coisa e o de objecto de relações jurídicas e enuncia o artigo seguinte várias classificações das coisas. afastando um conceito amplo. o acto de entrega da coisa. dispor). pois não são direitos subjectivos do tipo comum.) e negativamente (imposição de um dever geral de abstenção a todos os outros). ao contrário do titular dos direitos reais. puramente pensado. o usufrutuário. das relações jurídicas. mas antes poderesdeveres ou poderes funcionais. Definido. Nelas o objecto imediato do direito do credor é o comportamento do próprio devedor. parece dever concluir-se que os direitos potestativos não têm objecto. não esgotam contudo a extensão do conceito de objecto jurídico. Exemplos desta figura são os direitos integrados nos institutos de poder paternal e do poder tutelar. sendo é certo a espécie mais corrente de objectos de relações jurídicas. Na verdade o exercício destes direitos não se traduz na incidência de quaisquer poderes ou de qualquer domínio sobre um bem submetido a essa supremacia. isto é. Cremos. Vejamos de per si cada um dos possíveis objectos de relações jurídicas. pois.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Objecto de relações jurídicas (objecto de direitos subjectivos é. quer os que inquestionavelmente o são. Objecto do direito de propriedade são os poderes conferidos pelo ordenamento jurídico ao proprietário (poderes de usar. 2)Prestações: Nos direitos de crédito o objecto é uma conduta ou acto humano: a prestação. Conteúdo: é o conjunto dos poderes ou faculdades que o direito subjectivo comporta. ao usufrutuário. A distinção nem sempre se verifica. etc.Objecto imediato e objecto mediato Pode distinguir-se entre objecto mediato e imediato dos direitos subjectivos. contudo. Quis-se certamente restringir o conceito de coisa àquilo que pode ser objecto de direitos. 82. que aquela equivalência não é inteiramente rigorosa. sob a tutela do ordenamento jurídico que actua positivamente (atribuição de poderes ao proprietário. colhendo directamente dele as respectivas utilidades. na verdade. as noções de objecto de um direito e de conteúdo do mesmo direito. etc. têm um conteúdo especial. todo o «quid». puramente filosófico. mediante uma identificação com o bem sobre que incidem os poderes do titular actual. assim. modificação ou constituição de relações jurídicas). 1)Pessoas: Estes direitos sobre outras pessoas. Objecto: é aquilo sobre que recaem os poderes do titular do direito. todo o bem sobre que podem recair direitos subjectivos). Entre o credor (ou o seu direito) e a coisa intromete-se a pessoa do devedor. o objecto das relações jurídicas. de coisa.

3)Coisas materiais ou corpóreas: Nenhuma dúvida se pode suscitar acerca da possibilidade de realidades físicas. necessário que estes objectos corpóreos revistam certos requisitos: existência autónoma. contudo. se deve falar em direitos sobre certos modos de ser da pessoa ou antes em posições jurídicas fundamentais do homem. como dissemos. etc.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Nestes direitos o objecto não é rigorosamente uma coisa (res). objecto dos direitos de autor ou de propriedade industrial. susceptíveis de constituírem objecto de relações jurídicas. há que considerar o 202º. produtos do engenho. e aos direitos. onde se contém a seguinte definição: «Diz-se coisa tudo aquilo que pode ser objecto de relações jurídicas». Para além do seu valor patrimonial. 4)Coisas incorpóreas ou bens imateriais: A actividade espiritual do homem pode ser exercida no sentido da criação de obras. embora tenham um regime especial relativamente ao regime geral das coisas e não estejam previstas nas várias classificações das coisas enumeradas no 203º. devem ser úteis. Exemplos: penhor de direitos. 54 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Saber se. é um problema de construção dogmática. Em consequência dessa aplicação do espírito humano surgem obras artísticas. (II)As coisas e o património 83. ainda que não tenha existência real e presente. É. nas prestações. Estes bens têm valor patrimonial autónomo. isto é. São coisas incorpóreas. Não pode considerar-se rigorosa tal definição. cientificas. objecto de certas figuras de direitos sobre direitos. Num sentido físico coisa é tudo o que tem existência corpórea ou. Pensemos nas pessoas. que são o pressuposto de todos os direitos. desprovidos de personalidade e não integradores do conteúdo necessário desta. Conjugando todas estas ideias podemos definir as coisas em sentido jurídico como «os bens (ou os entes) de carácter estático. a esse respeito. alguns deles estão intimamente ligados à personalidade do seu autor. possibilidade de sujeição jurídica ao poder exclusivo de um ou alguns homens. pelo menos. mas um comportamento do devedor (uma actividade nas obrigações de prestação de coisa ou de prestação de facto positivo. intelectuais.Noção jurídica de coisa Num sentido corrente e amplo coisa é tudo o que pode ser pensado. Com efeito há entes susceptíveis de serem objecto de relações jurídicas que não são coisas em sentido jurídico. e. de importância limitada no quadro dos fins da ciência do Direito. de tipo manualístico e. invenções industriais. podem integrar-se no conceito de coisas. nos modos de ser ou bens da própria personalidade. fundamentalmente teórico. referidas no 829º a). é susceptível de ser captado pelos sentidos. idoneidade para satisfazer interesses humanos. pois podem ser explorados economicamente. 6)A própria pessoa (certas manifestações ou modos de ser físicos ou morais da pessoa): Alguns autores contestam veemente a legitimidade da figura dos direitos sobre a própria pessoa. 5)Direitos subjectivos: Pode pôr-se o problema de saber se um direito subjectivo pode constituir objecto de outro direito subjectivo. devem ser apropriáveis. nesse plano. uma abstenção nas obrigações de prestação de facto negativo. da inteligência ou da sensibilidade humanas. etc.. literárias. isto é. carecidas de personalidade jurídica (coisas materiais). pois ela está reflectida na obra criada. Acresce não se divisar um qualquer valor operacional ou prático na inclusão de uma definição deste tipo num código. revestindo a noção explicitada no 202º um significado puramente expositivo. serem objecto de direitos subjectivos. Compreende-se assim que o direito reconheça esses bens e tutele os aspectos patrimonial e pessoal apontados. portanto. Quanto ao sentido jurídico de coisa. usufruto de direitos de crédito. incorrecto. Quanto aos bens imateriais.

portanto. carecidos de personalidade. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 55 . do arrendamento. Dá também o conceito de frutos (212º: tudo o que a coisa produz periodicamente. b)Que se trate de bens permutáveis. a luz solar. noção muito importante dada a sua aplicação no regime do usufruto e da posse (os frutos da coisa cabem ao possuidor da boa fé. Definem-se igualmente as benfeitorias (216º: despesas feitas para conservar ou melhorar a coisa). as coisas fungíveis. Esta relevância jurídica traduz-se. c)Que se trate de bens efectivamente apropriados (pode tratar-se das «res nullius». não sendo todavia cada uma das pedras ou das paredes que a integram. basta. são manifestação ou actuação de uma vontade. O código civil define no 204º e seguintes as coisas imóveis e móveis. voluptuárias (destina-se ao recreio). por falta de possibilidade de delimitação ou captura. c)Aptidão para satisfazer interesses ou necessidades humanas (o homem é a medida e o critério do relevo jurídico das coisas. um grão de areia. são necessariamente aproveitados por todos os homens. úteis (não são indispensáveis mas mantêm o valor da coisa). as coisas simples e compostas. sem prejuízo da sua substância). com valor de troca (pode tratar-se de bens com valor meramente pessoal). etc. ou os que. ou de coisas abandonadas. etc.. noção igualmente importante dada a sua aplicação no regime da posse. Os segundos são estranhos a qualquer processo volitivo – ou porque resultam de causas de ordem natural ou porque a sua eventual voluntariedade não tem relevância jurídica. 88. enquanto absorvida ou incluída no todo).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Os bens de carácter estático. etc. que sejam bens apropriáveis). pois para nada servem. como por exemplo e por enquanto. b)Possibilidade de apropriação exclusiva por alguém (não são coisas os bens que escapam ao domínio do homem. as estrelas. são acções humanas tratadas pelo direito enquanto manifestações de vontade. os planetas.) Inversamente não é necessário: a)Que se trate de bens de natureza corpórea (a energia eléctrica é uma coisa como o são os objectos dos direitos de autor e da propriedade industrial). as coisas consumíveis. como os animais bravios ou os peixes não apropriados. só são coisas em sentido jurídico quando puderem ser objecto de relações jurídicas. as coisas principais e as coisas acessórias ou pertenças. isto é. a camada atmosférica. as coisas divisíveis. principalmente. Para esse efeito devem apresentar as seguintes características: a)Existência autónoma ou separada (uma casa é uma coisa. senão mesmo necessariamente. O mesmo artigo considera e define três modalidades de benfeitorias: necessárias (indispensáveis para manter a coisa). de qualquer homem. na produção de efeitos jurídicos. etc. como por exemplo.Classificação dos factos jurídicos A primeira grande classificação dos factos jurídicos é a que se pode estabelecer entre factos voluntários ou actos jurídicos e factos jurídicos involuntários ou naturais. por isso não são coisas. Os primeiros resultam da vontade como elemento juridicamente relevante. uma gota de agua.Noção de facto jurídico Facto jurídico é todo o acto humano ou acontecimento natural juridicamente relevante. as coisas futuras. mas não já ao possuidor de má fé). (III)TEORIA GERAL DO FACTO JURÍDICO (1)Dos factos jurídicos em geral (I)Conceitos e Classificações 87.

Os actos reais ou operações jurídicas: traduzem-se na efectivação ou realização de um resultado material ou factual a que a lei liga determinados efeitos jurídicos. determinando o ordenamento jurídico a produção dos efeitos jurídicos conformes à intenção manifestada pelo declarante ou declarantes. apareça como manifestação de uma vontade de certos efeitos práticos sob a sanção do ordenamento jurídico. etc. distinguir-se em negócios jurídicos e simples actos jurídicos ou actos jurídicos «stricto sensu». da gestão de negócios. Dentro dos simples actos jurídicos é usual fazer-se uma distinção entre: Os quase-negócios jurídicos: traduzem-se na manifestação exterior de uma vontade. etc. necessária uma vontade de produção dos efeitos correspondentes ao tipo de simples acto jurídico em causa para essa eficácia se desencadear. apesar disso nem sempre os efeitos jurídicos respectivos são produzidos por terem sido queridos e na medida em que o foram. A importância do negócio jurídico manifesta-se na circunstância de esta figura ser um meio de auto-ordenação das relações jurídicas de cada sujeito de direito. exteriormente observado. Os efeitos dos negócios jurídicos produzem-se «ex voluntate» e não apenas «ex lege».TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Os factos jurídicos voluntários podem ser lícitos ou ilícitos. elementos e classificações (I)Conceito e elementos 94. dirigidas à realização de certos efeitos práticos. Estamos no domínio dos factos voluntários. Os efeitos dos simples actos jurídicos ou actos jurídicos «stricto sensu» produzem-se «ex lege» e não «ex voluntate». (II)DO NEGÓCIO JURÍDICO E DO SIMPLES ACTO JURÍDICO (1)Conceito. cujo núcleo essencial é integrado por uma ou mais declarações de vontade a que o ordenamento jurídicos atribui efeitos jurídicos concordantes com o conteúdo da vontade das partes. segundo outra classificação de carácter fundamental. da ocupação de animais ou coisas móveis. da especificação. Os negócios jurídicos são factos voluntários. Estamos perante o instrumento principal de realização do princípio da autonomia da vontade ou autonomia privada. mesmo que não tenham sido previstos ou queridos pelos seus autores. todavia. 56 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . da descoberta de um tesouro. Os actos lícitos são conformes à ordem jurídica e por ela consentidos. É o caso da interpelação do devedor. A distinção entre negócios jurídicos e simples actos jurídicos assenta precisamente neste critério da relação que intercede entre a vontade ou volição das partes dirigida a um resultado e os efeitos jurídicos produzidos. da notificação da cessão de créditos. Os factos voluntários ou actos jurídicos podem. É o que sucede com o testamento e com os contratos. importam uma sanção para o seu autor (infractor de uma norma jurídica). Os actos ilícitos são contrários à ordem jurídica e por ela reprovados. tal como este é objectivamente (de fora) apercebido. O que é verdadeiramente constitutivo do negócio é o comportamento declarativo – a existência de um comportamento que. com intenção de os alcançar sob tutela do direito. embora muitas vezes haja concordância entre a vontade destes e os referidos efeitos.Conceito e importância do negócio jurídico Os negócios jurídicos são actos jurídicos constituídos por uma ou mais declarações de vontade. Os simples actos jurídicos são factos voluntários cujos efeitos se produzem. É o caso da acessão (uma coisa de uma pessoa une-se a uma coisa de outra pessoa) industrial (resultado de acção humana) ou natural (derivada de causa naturais). Não é.

é a parte interessada em demonstrar a existência do negócio jurídico que tem o ónus da prova respectivo. Também esta concepção é inaceitável. Têm. É o caso de um empréstimo de honra ou de uma disposição de bens para depois da morte. a ser esta doutrina correcta. estão desprovidas de intenção de efeitos jurídicos. excepcionalmente.: o convite para um passeio. Ora. Por falta de intenção de efeitos jurídicos nestes termos. As partes manifestam apenas uma vontade de efeitos práticos ou empíricos. tais como a lei os determina. não é única nem é a decisiva – decisivo para existir um negócio é a vontade de os efeitos práticos queridos serem juridicamente vinculativos. etc. também uma vontade de efeitos jurídicos.Relação entre a vontade exteriorizada na declaração negocial e os efeitos jurídicos do negócio. é a parte interessada em demonstrar a inexistência da intenção negocial que tem o onus probandi. Teoria dos efeitos jurídicos Para esta doutrina os efeitos jurídicos produzidos. correspondentes aos efeitos práticos. Pode surgir a dúvida sobre se numa dada hipótese existe um negócio de pura obsequiosidade ou um negócio jurídico – ou antes sobre se existe um «agreement» ou um negócio jurídico. Os autores dos negócios jurídicos visam certos resultados práticos ou materiais e querem realizá-los por via jurídica. Teoria dos efeitos práticos Para esta doutrina a teoria dos efeitos jurídicos não é realista – está longe da realidade. sem carácter ilícito. Os próprios efeitos derivados de normas supletivas resultariam da tácita vontade das partes. a vontade de se gerarem efeitos jurídicos nomeadamente deveres jurídicos. Teoria dos efeitos prático-jurídicos É o ponto de vista correcto. Aliás. só os juristas completamente informados sobre o ordenamento podiam celebrar negócios jurídicos. Tal como define o negócio jurídico este não se distingue dos compromissos ou convenções celebradas sob o império de outros ordenamentos normativos (cortesia. Se a dúvida for do primeiro. praxes sociais. pois. A estes efeitos práticos ou empíricos manifestados. os negócios jurídicos do chamados gentlemen’s agreements.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 95. normalmente económicos. igualmente. Haveria uma vontade das partes dirigida à produção de determinados e precisos efeitos jurídicos. mas que. se é certo que algumas normas supletivas consagram cláusulas usuais ou de estilo do comércio jurídico. faria a lei corresponder efeitos jurídicos concordantes. Simplesmente não se trata de uma representação completa dos efeitos jurídicos correspondentes àquela vontade de efeitos práticos – esses efeitos jurídicos completos serão determinados pela lei. o que sucede é que as partes dos vários negócios não têm uma representação completa e exacta de todos os efeitos que o ordenamento jurídico atribui às suas declarações de vontade. Estas convenções são combinações sobre a matéria que é normalmente objecto de negócios jurídicos. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 57 . Há uma «intenção dirigida a um determinado efeito económico juridicamente garantido». para um jantar). não bastando provar-se que as partes não pensaram no ponto ou até provavelmente não teriam querido aquele regime. em que o disponente confia pura e simplesmente na honorabilidade dos herdeiros a quem cumpre executar a disposição. Por outro lado. A vontade dirigida a efeitos práticos. às quais é estranho o intuito de criar. distinguem-se os negócios jurídicos dos chamados negócios de pura obsequiosidade. Estes são promessas ou combinações da vida social.). Este ponto de vista não fornece o correcto diagnóstico ou o correcto critério para a determinação da relação que intercede no negócio jurídico entre a vontade dos seus autores e os efeitos jurídicos respectivos. modificar ou extinguir um vinculo jurídico (ex. A falta de vontade de efeitos jurídicos distingue. não é menos verdade que elas só deixam de se aplicar quando uma vontade real contrária for manifestada. Se a dúvida for do segundo tipo. são perfeita e completamente correspondentes ao conteúdo da vontade das partes. moral.

Não é necessário que as partes configurem qualquer cláusula para a produção destes efeitos. se for e quando for dirigida e levada ao conhecimento de certa pessoa. (II)Classificações dos negócios jurídicos 97. podendo. É o caso paradigmático da compra e venda. mas se tornam imprescindíveis para que o negócio concreto produza os efeitos a que elas tendem. 3) uma importante distinção neste domínio é a que se deve estabelecer entre negócios unilaterais receptícios e negócios unilaterais não receptícios. Nos negócios unilaterais há uma só declaração de vontade ou várias declarações. da cláusula condicional. formando um só grupo. todavia. os artigos 964º (doação). não vemos razão para afastar a sistematização tradicional que considera elementos essenciais de todo e qualquer negócio jurídico os requisitos ou condições gerais de validade de qualquer negócio. 58 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . 2) vigora o princípio da tipicidade. etc. etc. Elementos naturais São os efeitos negociais. São eles a capacidade das partes (e a legitimidade.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 96. Elementos acidentais São as cláusulas acessórias dos negócios jurídicos. ser excluídos por estipulação antecipadamente formulada. renúncia a certos direitos. mas convergente. sendo estas a estipulação que caracteriza um determinado negócio jurídico. Alguns exemplos de negócios unilaterais: testamento. Acerca dos negócios unilaterais importa focar as seguintes notas ou características do regime dos negócios unilaterais: 1) é desnecessária a aceitação do adversário. Trata-se das estipulações que não caracterizam o tipo negocial em abstracto. a declaração de vontade sem anomalias e a idoneidade do objecto. enquanto nos segundos basta a emissão da declaração. Nos contratos ou negócios bilaterais há duas ou mais declarações de vontade.Elementos dos negócios jurídicos Elementos essenciais Sendo o negócio jurídico um acto que só desempenha a sua função na medida em que for válido. 885º (compra e venda). etc.Negócios jurídicos unilaterais e contratos ou negócio jurídicos bilaterais O código civil contém uma regulamentação geral do negócio jurídico. sem ser necessário comunicá-la a quem quer que seja. mas paralelas. Há assim uma oferta ou proposta e a aceitação. submetendo os efeitos do negócio a um evento futuro e incerto. e consequentemente de efeitos correspondentes a elementos naturais dos respectivos tipos de negócio jurídico. Existem também as condições especiais de validade. derivados de disposições legais supletivas. abrangendo assim as duas modalidades. ajustando-se na sua comum pretensão de produzir resultado jurídico unitário. São exemplos de normas supletivas. embora com um significado para cada parte. quando a sua falta implique invalidade e não apenas ineficácia). de conteúdo oposto. nos primeiros a declaração só é eficaz. da estipulação de lugar e tempo para o cumprimento da obrigação. É o caso das cláusulas de juros. que se conciliam num consenso. 1030º (locação). O critério classificativo é o do número e modo de articulação das declarações integradoras do negócio.

º 1 b)). necessário que a declaração chegue ao poder ou à esfera de acção do proponente. b) Instituição contratual de herdeiro ou legatário em favor de terceiros. Não tem lugar nos contratos bilaterais imperfeitos a condição resolutiva tácita. feita por qualquer dos esposados (1700º n. um contrato de alienação da própria herança mediante um preço ou uma renda vitalícia. b) Doutrina da expedição: o contrato está perfeito quando o destinatário expediu. A regra de proibição dos pactos sucessórios comporta excepções. etc. existindo nos contratos bilaterais. todavia. Tais convenções podem ser. Do artigo 224º resulta consagrar o nosso direito a doutrina da recepção. por exemplo. se. que parece a preferível. Importância: a excepção de não cumprimento do contrato (428º) é privativa dos contratos bilaterais. no sentido de que. 98.) a sua aceitação. mantendo-se durante lapsos de tempo referidos no 228º. obrigações ligadas entre si por um nexo de causalidade ou correspectividade. mas não já a faculdade de resolução com fundamento em inadimplemento ou mora: esta. o testamento. isto é. na sua regulamentação. a compra e venda. Nestes termos. é nulo. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 59 . os interesses do declarante devem prevalecer sobre o interesse na protecção da confiança do destinatário dos efeitos respectivos. c) Doutrina da recepção: o contrato está perfeito quando a resposta contendo a aceitação chega à esfera de acção do proponente.º1). carta. apenas admitindo nalguns casos particulares (2028º).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Acerca dos contratos Não são integrados por dois negócios unilaterais. A proposta de contrato é irrevogável depois de chegar ao conhecimento do destinatário (230º). Os contratos unilaterais geram obrigações apenas para uma das partes. O código considera lícitas certas disposições por morte feitas em convenção antenupcial. quando o proponente passa a estar em condições de a conhecer. Várias doutrinas abordam a questão: a) Doutrina da aceitação: o contrato está perfeito quando o destinatário da proposta declarou aceitar a oferta que lhe foi feita. Assim. À primeira categoria pertencem quase todos os negócios jurídicos e na sua disciplina tem grande importância. A lei actual proíbe em princípio os pactos ou contratos sucessórios. d) Doutrina da percepção: o contrato só está perfeito quando o proponente tomou conhecimento efectivo da aceitação. Os negócios da segunda categoria são negócios «fora do comércio jurídico». põe-se o problema de saber qual o momento da sua perfeição. a tutela das expectativas da parte que se encontra em face da declaração negocial. Nestes há inicialmente apenas obrigações para uma das partes. os segundos destinamse a só produzir efeitos depois da morte da respectiva parte ou de alguma delas. etc. nem a excepção de não cumprimento do contrato. de dois tipos: a) Instituição contratual de herdeiro ou legatário em favor de qualquer dos esposados. Negócio «mortis causa» é. Os autores referem também a categoria dos contratos bilaterais imperfeitos. Uma importante distinção é a que se faz entre contratos unilaterais e contratos bilaterais. cada uma das declarações (proposta e aceitação) é emitida em vista do acordo. surgindo eventualmente mais tarde obrigações para a outra parte.Negócios entre vivos e negócios «mortis causa» Os primeiros destinam-se a produzir efeitos em vida das partes.º1 a)). Sendo o contrato integrado por duas declarações. pode ter lugar também nalguns contratos unilaterais. em virtude do cumprimento das primeiras e em dados termos. inequivocamente. Os contratos bilaterais ou sinalagmáticos geram obrigações para ambas as partes. sob a pena de nulidade. feita pelo outro esposado ou por terceiro (1700 n. por qualquer meio (telegrama. foi dele conhecida (224º n. fundamentalmente. a locação. por qualquer meio. por força dos interesses gerais do comércio jurídico. Não será.

o acatamento de determinado formalismo ou de determinadas solenidades. embora representem uma excepção. quanto aos contratos. o da natureza da relação jurídica a que o negócio se Os negócios pessoais são negócios cuja disciplina.Negócios consensuais ou não solenes e negócios formais ou solenes Os negócios formais ou solenes são aqueles para os quais a lei prescreve a necessidade da observância de determinada forma. Quanto aos negócios familiares patrimoniais: existe. Quanto aos negócios familiares pessoais: a liberdade contratual está praticamente excluída. quase inconfinadamente.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 99. a declaração negocial é nula. nos casos excepcionais em que a lei prescrever uma certa forma (casos que. com as formalidades legais. visto que «não é permitida a constituição. de celebração de contratos diferentes dos previstos na lei e de inclusão nestes de quaisquer cláusulas (405º). formalizadas ou não. a prática anterior ou simultânea de um certo acto material. pelas autoridades publicas nos limites da sua competência ou. a liberdade de convenção (1698º). Só podem constituir-se direitos reais típicos. Os negócios não solenes (consensuais. quanto a problemas como o da interpretação do negócio jurídico e o da falta ou dos vícios da vontade.Negócios patrimoniais e negócios pessoais refere. também. Os negócios reais podem ser classificados quanto aos efeitos e quando à sua constituição. são numerosos e frequentes). Quanto aos negócios reais: o princípio da liberdade contratual sofre considerável limitação derivada o princípio da tipicidade. embora essa constituição possa resultar de um negócio inominado ou atípico. etc. sofrendo embora restrições (1699º. realizar-se através de certo tipo de comportamento declarativo imposto pela lei (por escrito. através de certo tipo de documento. quanto aos negócios unilaterais. de restrições ao direito senão nos casos previstos na lei» (1306º). o princípio da tipicidade (457º). 1714º). A sua importância resulta da diversa extensão que o princípio da liberdade contratual (405º) reveste cada uma das categorias. com alguma largueza. além das declarações de vontade das partes.Negócios obrigacionais. modificada ou extinta pelo negócio. Quanto aos negócios sucessórios: este princípio sofre importantes restrições. mas não podendo fixar-lhe livremente o conteúdo. abrangendo a liberdade de fixação do conteúdo dos contratos típicos. Documento autêntico: são os documentos exarados. Quanto às noções de documento autêntico e documento particular elas estão no 363º. porém. familiares e sucessórios O critério desta classificação diz respeito à natureza da relação jurídica constituída. nem podendo celebrar contratos diferentes dos previstos na lei.). mediante uma cerimonia. as partes não o podem realizar por todo e qualquer comportamento declarativo. Quando. Quando o negócio é formal. podendo apenas os interessados celebrar ou deixar de celebrar o negócio. esta não for observada. Documento particular: todos os outros. pelo notário ou outro oficial público provido de fé pública.Negócios reais São aqueles negócios em que se exige. reais. tratando-se de contratos) são os que podem ser celebrados por quaisquer meios declarativos aptos a exteriorizar a vontade negocial. nos negócios formais. com carácter real. a lei não impõe uma determinada roupagem exterior para o negócio. vigora. 100. No domínio dos negócios obrigacionais: vigora o princípio da liberdade negocial. resultantes de algumas normas imperativas do direito das sucessões. dentro do círculo de actividade que lhe é atribuído. não tem que atender às 60 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . a declaração negocial deve. 101. O critério distintivo é. 102.

só uma venha a ganhar. consideradas pelo seu valor objectivo ou normal. Como ideia geral pode reter-se a constatação de. ao invés. pela intervenção de uma intenção liberal (animus donandi). sem contrapartida ou correspectivo. pode haver duas prestações certas na sua existência. no final de contas. Nos negócios gratuitos cria-se – e há acordo das partes sobre este ponto – uma vantagem patrimonial para um dos sujeitos sem nenhum equivalente. aposta. pode haver uma prestação certa e outra incerta.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL expectativas dos declaratários e aos interesses gerais da contratação. Uma parte tem a intenção. etc. Caracterizam-se pelo facto de uma pessoa prometer certa prestação em troca de uma qualquer participação nos proveitos que a contraparte obtenha por força daquela prestação. Os negócios onerosos pressupõem atribuições patrimoniais de ambas as partes. devidamente manifestada. A onerosidade consiste na circunstância de ambas estarem sujeitas ao risco de perder.Negócios onerosos e negócios gratuitos A importância da distinção manifesta-se. Os contratos de jogo e de aposta não são contratos válidos. Cada uma das prestações ou atribuições é o correspectivo (a contrapartida) da outra. nas doações (paradigma dos negócios gratuitos). dependendo de um facto incerto a determinação de quem a realizará (aposta. por exigência de tutela da confiança do declaratário e dos interesses do tráfico.Negócios parciários São um subespécie dos negócios onerosos. existindo. etc. A outra parte procede com a consciência e vontade de receber essa vantagem sem um sacrifício correspondente. embora. com o direito de uma participação nos lucros e a obrigação de restituir as unidades não vendidas. 105. para que esta as venda. a vontade manifestada ou declarada triunfa sobre a vontade real. segundo a perspectiva destas. o usualmente chamado contrato de consignação (contrato estimatório). certas formas de sociedade. um nexo ou relação de correspectividade entre as referidas atribuições patrimoniais (normalmente traduzidas em prestações). a uma possibilidade de ganhar ou perder. está a pagá-la com um sacrifício que é visto pelos sujeitos do negócio como correspondente. de incêndio. nos termos do qual uma das partes remeta à outra tantas unidades de certa mercadoria. de maior montante do que aquele (seguro de responsabilidade civil. de protecção do terceiro adquirente de boa fé «a non domino». Pode haver uma só prestação. mas uma delas é incerta no seu «quantum» (seguro de vida). Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 61 .Contratos comutativos e contratos aleatórios É uma subdivisão a estabelecer dentro dos contratos onerosos. Exemplos: jogo. seguro. O acto é a título gratuito quando for realizado com uma particular intenção ou causa que é a de proporcionar uma vantagem à outra parte. Cada uma das partes faz uma atribuição patrimonial que considera retribuída ou contrabalançada pela atribuição da contraparte. Nos contratos aleatórios as partes submetem-se a uma álea. certos tipos de jogo). A distinção dos negócios jurídicos em onerosos e gratuitos tem como critério o conteúdo e finalidade do negócio nos termos que a seguir se evidenciam. se valorizarem frequentemente os interesses de terceiros e os do doador em maior medida do que os do donatário. 104. quanto aos problemas em que está em causa a subsistência da doação. etc. Na disciplina dos negócios patrimoniais. assim se reconhecendo «o valor social da aparência». Não é necessário um equilíbrio ou uma equivalência das prestações ou atribuições patrimoniais. de efectuar uma atribuição patrimonial a favor de outra. se cada parte obtém da outra uma vantagem. pelo que. por exemplo.). etc. 103. Exemplos: parceria pecuniária (1121º). nem constituem fonte de obrigações civis. em matéria da impugnação pauliana (612º). Os negócios gratuitos caracterizam-se.

109. caracterizando. etc. não num elemento interior – uma vontade real. conduzindo a sua falta à inexistência material do negócio. Os problemas decisivos para o efeito de determinar o conceito de declaração negocial – correspondente aos dados do sistema – são o da divergência entre a vontade e a declaração e dos vícios de vontade. aparência de vontade. em que se traduz a declaração. por um lado. A capacidade negocial de exercício: é a idoneidade para actuar juridicamente. Dá-se assim um conceito objectivista de declaração negocial.A declaração negocial como verdadeiro elemento do negócio jurídico Trata-se de um verdadeiro elemento do negócio. acto social. É porém. A capacidade: traduz-se num modo de ser ou qualidade do sujeito em si. manifesta normalmente uma vontade. exteriormente observado. e os do declaratário e do comércio jurídico. por outro. com ânimo de que sejam juridicamente tutelados e vinculantes. A declaração negocial é um elemento verdadeiramente integrante do negócio jurídico. o direito civil conhece hoje um estádio de evolução que põe na primeira linha a protecção das expectativas dos declaratários e da segurança do comércio jurídico. psicológica –. cria a aparência de exteriorização de um certo conteúdo de vontade negocial. O comportamento externo. à luz das soluções dispensadas pelo ordenamento jurídico a uma série de problemas. A capacidade negocial de gozo: é a susceptibilidade de ser titular de direitos e obrigações derivados de negócios jurídicos. cumprindo ou assumindo obrigações.Conceito de declaração negocial Pode definir-se a declaração de vontade negocial como o comportamento que. efectiva. No domínio dos negócios jurídicos fala-se de capacidade negocial de gozo (ou capacidade jurídica negocial) e de capacidade negocial de exercício. exercendo ou adquirindo direitos. etc.) ou o aspecto objectivista (comportamento objectivo. o da interpretação da declaração negocial. realçando o aspecto subjectivista (vontade manifestada. A legitimidade: é uma relação entre o sujeito e o conteúdo do acto (a relação jurídica que está em jogo no negócio). Estas noções traduzem-se na referência a este domínio das noções mais genéricas de capacidade jurídica e de capacidade para o exercício de direitos. o conceito de declaração negocial.Remissão São requisitos ou pressupostos gerais de validade dos negócios jurídicos a capacidade e a legitimidade. formada sem anomalias e coincidente com o sentido exteriormente captado daquele comportamento. fazendo-se consistir a sua nota essencial. dando 62 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . mas num elemento exterior – o comportamento declarativo.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL (II)ELEMENTOS ESSENCIAIS DO NEGÓCIO JURÍDICO (1)Capacidade e legitimidade 107. com coerência. Ora. manifestação de vontade. etc. Tais problemas têm subjacente um conflito entre os interesses do declarante. A declaração pretende ser o instrumento de exteriorização da vontade psicológica do declarante – essa é a sua função. depois. por actividade própria ou através de um representante voluntário. que se deve definir. uma realidade componente ou constitutiva da estrutura do negócio. (2)A declaração negocial (I)Noções gerais 108. a vontade negocial como o intenção de realizar certos efeitos práticos.).

TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL assim relevância à «aparência» e a uma «exigência de cognoscibilidade», a expensas da vontade real e psicológica. O código civil não toma partido, directamente, como é natural, numa questão dogmática; mas é manifesto o intuito do legislador de se não comprometer, sequer ao nível terminológico, com as concepções voluntarísticas, pois não emprega a expressão «declaração de vontade», falando antes em «declaração negocial».

110.Breve referência aos actos jurídicos de natureza não negocial
A lei portuguesa começa logo por regular a problemática posta pelo negócio jurídico, alude a «actos jurídicos que não sejam negócios jurídicos», mas não toma posição sobre qual a compreensão ou a extensão da categoria «negócio jurídico», reservando assim esse domínio à doutrina. Foram já definidos os conceitos de negócio jurídico e de acto não negocial (simples acto jurídico), fazendo-se agora remissão para as noções então formuladas. O 295º manda aplicar aos actos negociais as disposições da doutrina geral do negócio jurídico, na medida em que a analogia das situações o justifique. Daí se infere que não se aplicarão aquelas normas, sempre que não haja uma verdadeira analogia de situações. Aos actos pessoais (perfilhação, adopção, etc.), e mesmo que a lei o não diga expressamente, não se aplicam, portanto, as disposições inspiradas pela tutela da confiança dos declaratários e da segurança e celeridade do comércio jurídico. Quanto aos actos mais correntemente qualificados como simples actos jurídicos ou actos não negociais (ex.: interpelação do devedor, gestão de negócios, domicilio voluntário geral, certas notificações, etc.), quais as normas da regulamentação geral do negócio jurídico aplicáveis ou não, segundo o critério da analogia das situações? Os quase-negócios jurídicos ou actos jurídicos quase-negociais traduzem-se na manifestação exterior de uma vontade e existe quase sempre uma consciência e até uma intenção de relevância jurídica da vontade exteriorizada. Aplicar-se-lhe-ão, em regra, as normas sobre capacidade, recepção da declaração pelo destinatário, interpretação, vícios da vontade e representação. As operações jurídicas ou actos materiais ou actos reais traduzem-se na efectivação ou realização de um resultado material ou factual, a que a lei liga determinados efeitos jurídicos; desencadeiam, por força da lei, a produção desses efeitos, embora normalmente ou, pelo menos, frequentemente estes não sejam visados. Não se exige para a produção dos respectivos efeitos a capacidade, nem se aplicam, em geral, os preceitos sobre vícios da vontade, interpretação, recepção de declarações, representação.

111.Elementos constitutivos normais da declaração negocial
Numa declaração negocial podem distinguir-se normalmente os seguintes elementos: a) A declaração propriamente dita (elemento externo) – consiste no comportamento declarativo; b) A vontade (elemento interno) – consiste no querer, na realidade volitiva que normalmente existirá e coincidirá com o sentido objectivo da declaração. O elemento interno – a vontade real – pode decompor-se analiticamente em três subelementos. A vontade de acção Consiste na voluntariedade (consciência e intenção) do comportamento declarativo. Pode faltar a vontade de acção. Assim acontece se uma pessoa, por acto reflexo ou distraidamente, sem se aperceber do facto, faz um gesto e este objectivamente aparece como uma declaração negocial (ex.: aceitação de uma proposta). É igualmente o caso da coacção ou violência absoluta (coacção física) – é esta a hipótese mais viável e significativa de falta de vontade de acção.

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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL A vontade da declaração ou vontade da relevância negocial da acção Consiste em o declarante atribuir ao comportamento querido o significado de uma declaração negocial. Este subelemento só está presente, se o declarante tiver a consciência e a vontade de que o seu comportamento tenha significado negocial vinculativo – consciência e vontade de que o seu comportamento produza efeitos negociais no campo do direito. A declaração deve corresponder a um «sic volo sic jubeo», vinculativo do declarante. Pode faltar a vontade da declaração. Uma pessoa, julgando subscrever uma simples ficha de assinatura para o arquivo de um banco, assina uma declaração negocial. Um indivíduo entra num leilão e faz um gesto de saudação a um amigo; segundo as praxes do lugar esse facto significa uma oferta de certa importância pelo objecto leiloado. A vontade negocial, vontade do conteúdo da declaração ou intenção do resultado Consiste na vontade de celebrar um negócio jurídico de conteúdo coincidente com o significado exterior da declaração. É uma vontade efectiva correspondente ao negócio concreto que apareceu exteriormente declarado. Pode haver um desvio na vontade negocial. É o caso de o declarante ter atribuído aos termos da declaração um sentido diverso do sentido que exteriormente é captado. Uma pessoa quer comprar a Quinta do Mosteiro e declara querer comprar a Quinta da Capela – que é um outro prédio – por julgar erradamente que este é o seu nome. Constatamos, portanto, poder verificar-se uma falta de vontade de acção, uma falta de vontade da declaração e um desvio na vontade negocial. Em todos estes casos surge um dissídio, uma divergência, entre a vontade e a declaração. Tal divergência pode, aliás, resultar ainda de um desvio na vontade de acção (lapsus linguae ou lapsus calami). O declarante quer escrever uma coisa e engana-se ao escrever.

112.Declaração negocial expressa e declaração negocial tácita
Generalidades Os negócios jurídicos realizam uma ampla autonomia privada, como já se sabe, na medida em que, quanto ao seu conteúdo, vigora o princípio da liberdade negocial (405º). Quanto à forma é igualmente reconhecido pelo ordenamento jurídico um critério de liberdade : princípio da liberdade declarativa. Tal princípio está consagrado nos 217º e 219º. Por vezes, a lei exige, porém, que a declaração negocial seja expressa. Ex.: 957º, 731º Outras vezes a lei tem o cuidado de frisar que um certo negócio pode ter lugar por declaração tácita (ex.: 302º, 2056º), o que já resultaria do princípio geral do 217º. Os termos da distinção O critério da distinção entre declaração tácita e declaração expressa consagrada pela lei (217º) é o proposto pela teoria subjectiva: a declaração é expressa quando feita por palavras, escrito ou quaisquer outros meios directos, frontais, imediatos de expressão da vontade e é tácita quando do seu conteúdo directo se infere um outro, isto é, quando se destina a um certo fim, mas implica e torna cognoscível, a latere, um autoregulamento sobre outro ponto – em via oblíqua, imediata, lateral – («quando se deduz de factos que, com toda a probabilidade, a revelam»). Resulta claramente da formulação legal que a inequivocidade dos factos concludentes não exige que a dedução, no sentido do autoregulamento tacitamente expresso, seja forçosa ou necessária, bastando que, conforme os usos do ambiente social, ela possa ter lugar com toda a probabilidade.

113.O valor do silêncio como meio declarativo
Trata-se, principalmente, de saber se o silêncio – entendido não apenas como um «nada dizer», mas como um «nada fazer», uma total omissão – pode considerar-se um facto concludente (declaração tácita) no sentido da aceitação de propostas negociais. O código civil resolve o problema no 218º, estabelecendo que o silêncio não vale como declaração negocial, a não ser que esse valor lhe seja atribuído por lei, convenção ou uso. Repudia-se, pois, o velho brocardo do direito canónico «qui tacet consentire videtur», mesmo que o sujeito pudesse e devesse falar, pois a atribuição ao silêncio do valor de consenso negocial, não é, como regra geral, razoável. Só lhe caberá tal significado, havendo norma legal ou convenção das partes nesse sentido, bem como na hipótese de um uso

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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL prevalente em certo círculo social (uso geral, v.g., no caso de uma pessoa enviar habitualmente a outra mercadorias que esta recebe, sem aceitar nem rejeitar, e paga em devido tempo, criando-se entre ambas uma prática deste tipo). É a solução mais razoável. Seria inaceitável dar expressão legislativa ao tópico «quem cala consente». Com efeito, o silêncio é, em si mesmo, insignificativo e quem cala pode comportar-se desse modo pelas mais diversas causas, pelo que deve considerar-se irrelevante – sem querer dizer sim, nem não – um comportamento omissivo.

114.Declaração negocial presumida. Declaração negocial ficta
A declaração negocial presumida tem lugar quando a lei liga a determinado comportamento o significado de exprimir uma vontade negocial, em certo sentido, podendo ilidir-se tal presunção mediante prova em contrário (350º n.º1 e 2). A declaração negocial ficta tem lugar sempre que a um comportamento seja atribuído um significado tipicizado, sem admissão de prova em contrário (350º n.º2 no fim).

115.Protesto e reserva
Emitido certo comportamento declarativo, pode o seu autor recear que lhe seja imputado, por interpretação, um certo sentido. Para o impedir, o declarante afirma abertamente não ser esse o seu intuito. A esta contradeclaração dá-se o nome de protesto. O protesto tem o nome de reserva (subespécie de protesto), quando consiste na declaração de que um certo comportamento não significa renúncia a um direito próprio, ou reconhecimento de um direito alheio. Exemplos: o mutuante recebe certa importância, a título de juros, mas, julgando ter direito a receber mais, declara não prescindir do excedente. Afirma-se comummente que o protesto não vale quando o comportamento declarativo só consente a interpretação contra a qual o declarante se quer acautelar.

116.Forma da declaração negocial
Vantagens e inconvenientes do formalismo negocial (pág. 430) Ponderando as vantagens e inconvenientes do formalismo negocial, sancionou o CC (219º) o princípio da liberdade de forma ou da consensualidade (sendo este último termo rigoroso, apenas, para os contratos). O formalismo exigível para um certo negócio pode ser imposto pela lei (forma legal) ou resultar de uma estipulação ou negócio jurídico das partes (forma convencional), como acontece, por exemplo, quando durante as negociações prévias se convenciona que o futuro ou os futuros negócios entre as partes se deverão revestir de certa forma. O problema da legitimidade da forma convencional é debatido na doutrina; o CC resolveu-o no sentido da admissibilidade e eficácia dos negócios determinativos da forma (223º). É óbvio, porém, que o reconhecimento das estipulações das partes sobre forma do negócio não significa que os particulares possam afastar, por acordo, as normas legais que exigem requisitos formais para certos actos, pois trata-se de normas imperativas. O reconhecimento da forma convencional significa, apenas, poderem as partes exigir determinados requisitos para um acto, pertencente a um tipo negocial que a lei regula não formal ou sujeita a um formalismo menos solene. Âmbito da forma exigida No que toca ao problema de saber quais as cláusulas ou estipulações negociais a que a forma legal é aplicável, quanto exigida, MANUEL ANDRADE entendia que a forma abrangia, não só as cláusulas essenciais do negócio jurídico, mas também as estipulações acessórias, típicas ou atípicas, quer as contemporâneas da conclusão do negócio, quer as subsequentes, mas já se não estenderia tal exigência aos chamados pactos abolitivos ou extintivos. O CC consagrou esta regra, na medida em que estatui, em princípio, que as estipulações acessórias anteriores ao negócio ou contemporâneas dele devem revestir a forma exigida pela lei para o acto, sob pena de nulidade (221º). Admitem-se, contudo, na mesma disposição, restrições a este princípio.

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Isto dado o disposto no 394º que declara inadmissível a prova por testemunhas. A nulidade deixará de ser a sanção para a inobservância da forma legal. em casos particulares. adicional. a lei determine outra consequência (220º). mas prova-se que as partes convencionaram verbalmente que o preço seria pago em certo local e data. são expressa. regulando aquele ponto no documento. que tal solução conduzirá a resultados injustos. não havendo lugar à aplicação de quaisquer normas supletivas. sempre que. Consequências da inobservância da forma A) Distinção doutrinal entre formalidades substanciais (são insubstituíveis por outro género de prova. desde que se verifiquem. nalguns casos. É o que resulta do 289º. nula. tal locumpletamento à custa alheia. se tiver por objecto convenções contrárias ou adicionais ao conteúdo de documentos autênticos ou particulares. parece que haveria um locumpletamento injusto do vendedor ou do mutuário. que complementem o documento. produzirem efeitos é bem menor do que «prima facie» pode parecer. a este propósito. cumulativamente. se tiver lugar a confissão ou se forem provadas por documento embora menos solene do que o exigido para o negócio.: confissão]). B) Consequências da inobservância da forma no nosso direito: a) Inobservância da forma legal: em conformidade com a orientação da generalidade das legislações e com os motivos de interesse público que determinam as exigências legais de forma. uma compra em que o comprador já pagou o preço ou um mútuo em que a quantia mutuada já foi entregue ao mutuário. c) Que se prove que correspondem à vontade das partes – este requisito é óbvio. o pacto verbal não será válido. Não se verifica. Pode suscitar-se. se resultar claramente da lei que foi exigido apenas para prova da declaração. não abrangidas pela razão determinante da forma.º2. anterior ou simultânea. pois tem de se admitir que as partes. Há que tomar em conta o 364º integrado nas disposições sobre direito probatório material constantes do mesmo. dada a nulidade dos contratos donde resultaria essa obrigação. é manifesto que há uma presunção natural de o documento ser completo. não considerará certas formalidades como simplesmente probatórias. deverá ser restituído tudo o que tiver sido prestado em consequência do negócio viciado. nada se diz num contrato de compra e venda sobre o lugar e tempo de pagamento do preço. parece que tal acordo verbal deve ser respeitado. anteriores ou contemporâneas do documento. a que se refere o 221º. Com efeito. b) Que não sejam abrangidas pela razão de ser da exigência do documento – por exemplo. Da coordenação do 221º com o 394º resulta que as estipulações adicionais não formalizadas. Por outro lado. em atenção que a possibilidade de as estipulações acessórias não formalizadas. 66 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . pois. autenticados ou particulares são formalidades substanciais. pelo que.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Reconhece-se a validade de estipulações verbais anteriores ao documento exigido para a declaração negocial ou contemporâneas dele. Aí se reafirma no n. todavia.º1 o princípio geral. pois não seria obrigado a entregar a coisa vendida ou a restituir a importância recebida. o CC liga à inobservância da forma legal a nulidade. pois traduz-se na prova de que a estipulação existiu. que estejam para além do conteúdo do mesmo e não de estipulações que o contradigam. não quiseram de todo o pacto verbal anterior ou contemporâneo. Assim se defende o conteúdo dos documentos contra os perigos da precária prova testemunhal. é de decidir contra a sua existência. na dúvida sobre a existência de uma estipulação acessória. o problema de saber se o nosso direito. se sobre o ponto acessório há cláusula no documento. por falta de forma. Tome-se. No n. que estejam em contrário dele. à primeira vista. uma vez declarado nulo o negócio. e não mera anulabilidade. todavia. só produzirão efeitos. Poderá parecer. as seguintes condições: a) Que se trate de cláusulas acessórias – não deve tratar-se de estipulações essenciais e parece dever igualmente tratar-se de estipulações adicionais. gerando a sua falta a nulidade do negócio) e formalidades probatórias (a sua falta pode ser suprida por outros meios de prova mais difíceis de conseguir [ex. segundo o qual os documentos autênticos.

etc. à vontade das partes. sem a forma devida.g. pois. sem a observância da forma. pois trata-se de um preço conscientemente pago para fruir o rendimento social correspondente às vantagens do formalismo negocial. Essas presunções são duas. a arguição da nulidade. com fundamento em vício de forma. chega à esfera de acção do proponente. quando esta arguição revista as características de um abuso de direito. globalmente considerado. são em princípio meramente relativas ou «iuris tantum» (350º).Perfeição da declaração negocial Como já se disse. em primeiro lugar. renunciar-se-ia à realização do interesse público que subjaz à formulação das exigências de formalismo negocial. Viu-se também que desta doutrina constante do 224º. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 67 . aceitando. suprimindo-o e concluindo-o de novo. pelos bons costumes ou pelo fim social ou económico desse direito» (334º). Quer dizer: o contrato está perfeito quando a resposta. consagra-se um presunção de essencialidade. tratando-se de averiguar quais as consequências da falta de requisitos formais que a lei não exige. nesta última hipótese. por exemplo. fundamento para admitir que as partes se quiseram vincular desde logo. que só pode ser plenamente realizado. contendo a aceitação. por um contratante que a provocou. assegurar a reconhecibilidade do acto por terceiros ou o seu controle no interesse da comunidade.). O 223º limita-se a estabelecer presunções que. entre nós sancionada no 334º: «É ilegítimo o exercício de um direito. pelos bons costumes ou pelo fim social ou económico desse direito». isto é. quando o comportamento do invocante.. como todas as presunções legais. MANUEL DE ANDRADE inclinava-se. será verdadeiramente escandalosa. mas apenas visaram consolidá-lo ou qualquer outro efeito. b) Inobservância da forma convencional: rege a este respeito o 223º. não podendo. Assim: 1. afastar-se a sua aplicação nesses casos. fazendo como que falsificar por outrem a sua própria assinatura ou induzindo dolosamente a outra parte a não insistir pela formalização do negócio ou procedendo em termos de criar na outra parte a expectativa de que a nulidade jamais seria arguida. a declaração negocial com um destinatário ganha eficácia logo que chegue ao seu poder ou é dele conhecida. havendo. 2. presume-se que.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Donde se infere que quaisquer documentos (autênticos ou particulares) serão formalidades probatórias. sacrificando o critério de «justiça de cada caso». embora não categoricamente. aliás. o negócio é ineficaz. Se a forma especial foi estipulada antes da conclusão do negócio. todavia. quando o proponente passa a estar em condições de a conhecer. mas as partes convencionaram. de outro modo. públicos. Esta perspectiva é correcta. decorre ter a nossa lei optado pela doutrina da recepção quanto ao momento da conclusão dos contratos. É óbvio que. isto é. reiterados e dispendiosos testemunhos de gratidão por uma liberdade feita. para a solução da improcedência da arguição da nulidade. v. As declarações não receptivas tornam-se eficazes logo que o vontade se manifesta na forma adequada. Deverá admitir-se a invocação da nulidade com fundamento em vício de forma. variando com o facto que é base da presunção. «excedendo manifestamente os limites impostos pela boa fé. isto é. Na doutrina nacional e estrangeira já se tem posto o problema de saber se a possibilidade de invocação da nulidade por vício de forma não pode ser excluída por aplicação da cláusula geral de boa fé ou do abuso de direito. nos casos excepcionais em que resultar claramente da lei que a finalidade tida em vista ao ser formulada certa exigência de forma foi apenas a de obter prova segura acerca do acto e não qualquer das outras finalidades possíveis do formalismo negocial (obrigar as partes a reflexão sobre as consequências do acto. a forma tem pois carácter constitutivo. quando essa invocação por uma das partes constitua um abuso de direito. Entre essas vantagens está a criação e tutela do valor de segurança jurídica. Sem dúvida que a aplicação das regras de forma pode conduzir a uma ou outra solução de menos equidade. presume-se que as partes não quiseram substituir o negócio. seja intoleravelmente ofensivo do nosso sentido ético-jurídico? Assim. Se a forma foi convencionada após o negócio ou simultaneamente com ele. quando o titular excede manifestamente os limites impostos pela boa fé. a resposta ao problema posto deve ser pedida. 117.

Esta só poderá eventualmente ficar sem efeito. fixado o seu sentido. em conformidade com tais declarações. mas deve pautar-se por regras ou critérios cuja formulação é.: se alguém anuncia num jornal que vende certas mercadorias a tanto por quilograma ou envia a lista de preços). resultante de lesão do interesse contratual negativo. entre nós. merece destaque o 227º que manda pautar a conduta das partes pelos princípios da boa fé. a interpretação não pode ser abandonada ao senso empírico de cada intérprete. dela resultar a vontade de o seu autor se vincular e houver consciência de se estar a emitir uma verdadeira declaração negocial. A interpretação nos negócios jurídicos é a actividade dirigida a fixar o sentido e alcance decisivo dos negócios. antes de receber a proposta ou ao mesmo tempo que esta (230º n. em princípio. Uma proposta é rejeitada. depois de recebida pelo destinatário ou de ser dele conhecida. como nova proposta (233º).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Sabe-se já também que a proposta de contrato. Quando se dirige uma proposta a pessoas indeterminadas. A retractação ou revogação da proposta ou da aceitação tem lugar – repete-se –. a conduta das respectivas partes). Em relação com esta matéria da perfeição da declaração negocial e da formação dos contratos. segundo as directrizes da teoria da interpretação. porém. Como actividade ou operação dirigida à fixação do sentido negocial. na celebração dum contrato válido e eficaz. Esta responsabilidade pré-contratual tanto vale no caso de ruptura de negociações. pois. como no de o contrato se concluir e vir a ser nulo ou ineficaz. isto é. salvo se outra tivesse sido a sua vontade presumível (226º). postula uma interpretação. mas tem em vista evidenciar um conteúdo normativo (um conjunto de comandos) que vai pautar a conduta de algumas pessoas (no negócio jurídico. consequentemente. não a ordem do conhecimento efectivo. os efeitos que o negócio visa produzir. Trata-se de determinar o conteúdo das declarações de vontade (interpretado o negócio. depois. limitações ou outras modificações. deve entender-se que em princípio existe apenas um convite para contratar (ex. quer durante a fase negociatória. a doutrina que admite a revogação da proposta se a referida revogação chegar ao destinatário antes de este ter expedido a aceitação. (II)Interpretação e integração dos negócios jurídicos (1)Interpretação 118. 68 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . se o destinatário receber uma retractação do proponente ou dela tiver conhecimento. releva. como qualquer outra manifestação do espírito humano. precisamente. se não tem chegado a depositar uma confiança. e virá a produzir. quer durante a fase decisória (proposta e aceitação do contrato. Se a modificação for suficientemente precisa. afinal frustrada. Quer dizer: deve colocar-se o lesado na situação em que estaria. se a declaração revogatória chegou ao poder da outra parte ao mesmo tempo ou antes do que as declarações de proposta ou de aceitação. a relação temporal da possibilidade de conhecimento. a morte ou a incapacidade do proponente não obstam à conclusão do contrato. Só que nos negócios jurídicos – como nas leis – a interpretação não visa pôr em relevo um resultado destinado a uma pura assimilação ou compreensão intelectuais (uma mensagem) ou afectivas. é irrevogável. segundo as respectivas declarações integradoras. o objecto da teoria da interpretação dos negócios ou hermenêutica negocial. é um sentido objectivo. Posições possíveis O negócio jurídico.º2). Em coerência com a irrevogabilidade. que consistiria em colocar as coisas na situação correspondente ao cumprimento de um contrato válido. se o sentido fixado. se não houver qualquer motivo de invalidade. Coisa diversa seria a reparação do interesse contratual positivo.Em que consiste o problema. para este efeito. pode. entendida esta num sentido ético. Não vigora. abrir-se um problema de divergência entre a vontade e a declaração) e. O dano a ser ressarcido pela responsabilidade pré-contratual é o chamado dano da confiança. se foi aceite com aditamentos. a aceitação vale. Registe-se que uma proposta contratual só existirá se for suficientemente precisa.

É o caso dos 236º e ss. isto é. colocado na posição do real declaratário. De entre as doutrinas objectivistas merece referência. zelosa e sagaz. seja qual for a causa da descoberta da real intenção do declarante. Para as posições objectivistas o intérprete não vai pesquisar a vontade efectiva do declarante. a declaração deve valer com o sentido que um destinatário razoável. todavia. ou até a vontade real. logo. também. a vontade real do declarante. o 236º n. Não se verificando tal coincidência entre o sentido objectivo correspondente à impressão do destinatário e um dos sentidos ainda imputáveis ao declarante. O sentido querido realmente pelo declarante releva. uma manifestação de validade que é o fundamento imediato da verificação dos efeitos jurídicos. A resposta afirmativa tem lugar. podendo não coincidir com o sentido objectivo normal. mas um sentido exteriorizado ou cognoscível através de certos elementos objectivos. em conformidade com o ponto de vista de LARENZ e FERRER COSTA: para que tal sentido possa relevar torna-se necessário que seja possível a sua imputação ao declarante. que este pudesse razoavelmente contar com ele (236º n. A interpretação abrange também o problema de saber se há ou não uma declaração negocial. um acto social de comunicação. Além de ser um acto determinante (meio de autodeterminação). do 238º n. uma acção ou omissão controláveis pela vontade. 119. fim). bem como a coacção absoluta. a sanção parece ser a nulidade do negócio. Neste caso a vontade real. de uma limitação. objecto. correspondeu à impressão real do destinatário concreto. Para haver uma declaração a interpretar é necessário estarmos perante um acto ou conduta voluntária equiparável. Houve coincidência de sentidos (o querido e o compreendido). isto é. este é o sentido decisivo. normalmente esclarecida. se o destinatário a conheceu. lhe atribuiria. a chamada teoria da impressão do destinatário. porém. a declaração é. mesmo quando a formulação seja ambígua ou inexacta.Posição adoptada Doutrina geral O CC define o tipo de sentido negocial decisivo para a interpretação nos termos daquela posição objectivista: «a declaração vale no sentido que um declaratário normal. para os negócios formais. quer dizer. Em conformidade com o ditame da velha máxima «falsa demonstratio non nocet». O negócio valerá com o sentido subjectivo. considera-se o real declaratário nas condições concretas em que se encontra e tomam-se em conta os elementos que ele conheceu efectivamente mais os que uma pessoa razoável. que tem de ter relação com aquele a quem se destina ou o conhece. Basta que se tome conhecimento da existência de posições subjectivistas e objectivistas. Não podemos deixar de a considerar como acto determinante. Quer dizer: a ambiguidade objectiva. através de todos os meios adequados. A teoria da interpretação dos negócios jurídicos tem dado lugar à formulação de concepções opostas. Para as posições subjectivistas o intérprete deve buscar.º2 estabelece que. se o declaratário conhecer este sentido (com as limitações decorrentes. Não é declaração negocial uma manifestação feita durante o sono.º1). em narcose ou em situação que exclua toda a direcção consciente da vontade. sempre que o declaratário conheça vontade real do declarante. possa deduzir do comportamento de declarante» (236º n.º2). teria conhecido e figura-se que ele raciocinou sobre essas circunstâncias como o teria feito um declaratário razoável.º1. quando assim se concluir do ponto de vista de um Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 69 . A prevalência do sentido correspondente à impressão do destinatário é. na lei. Não se dá relevo necessariamente à vontade real do declarante. por ser a melhor das suas variantes. como foi querido pelo autor da declaração. colocado na posição concreta do real declaratário. é de acordo com ela que vale a declaração emitida.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL A teoria da interpretação pode ver alguns dos seus resultados convertidos em verdadeiras normas jurídicas onde se fixam princípios ou critérios interpretativos.

º2 do 2187º. as favorecer. rudimentarmente sequer. parece haver obstáculo insuperável. Quando a interpretação leve a um resultado duvidoso. fundadas em qualquer dos meios de prova geralmente admitidos. na posição do declaratário efectivo. b)Num maior subjectivismo: é o caso das disposições testamentárias. v. as ideias expendidas por MANUEL DE ANDRADE. 2) Não oposição a essa validade das razões determinantes da forma do negócio: assim.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL declaratário normal colocado na posição do declaratário real. embora. o sentido objectivo correspondente à impressão do destinatário. Na pesquisa desta vontade do testador é admitido o recurso à chamada prova complementar ou extrínseca.º1). Se porém a dúvida a que se chegar no termo do labor interpretativo for insanável parece que a declaração é ineficaz. quando essas razões forem. tenha um mínimo de correspondência. sofre desvios quanto a certos negócios. antes. desde que se verifique um duplo condicionalismo: 1) Corresponder à vontade real e concordante das partes. limitando-se a estatuir que «não surtirá qualquer efeito a vontade do testador que não tenha no contexto um mínimo de correspondência. quanto ao problema da hermenêutica negocial. em tese geral. A lei não dá qualquer indicação mais precisa. a este respeito. que coincide substancialmente com o regime do CC anterior: nos negócios gratuitos prevalece o sentido menos gravoso para o disponente e. Um critério normativo de interpretação aponta aqui. Nos contratos de adesão costuma propugnar-se a princípio de que na dúvida deve interpretar-se «contra stipulatorem». nos negócios onerosos. na medida em que se contenta com uma expressão ténue da intenção do testador no contexto do documento. Desvios A doutrina preferível.º1). para o direito anterior. o sentido subjectivo. ainda que imperfeitamente expressa». Consagra-se. isto é. De acordo com o critério propugnado. por aplicação. isto é. pelo contrário. quanto ao problema do tipo do sentido negocial decisivo para a interpretação. Exige-se que a vontade do testador. também aqui se deverá operar com a hipótese dum declaratário normal: serão atendíveis todos os coeficientes ou elementos que um declaratário medianamente instruído. ao menos analógica do 224º n. 70 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . desde que se possa averiguar.º3. teria tomado em conta. com o limite do «contexto do testamento» (2187º n. não pode valer se não tiver um mínimo de correspondência. Quanto a estes. no texto do respectivo documento (238º n. Esta limitação é uma manifestação do carácter solene do negócio testamentário. O significado decisivo é que o testador quis dizer. a elementos ou circunstâncias estranhas aos termos do testamento. diligente e sagaz.g. o sentido correspondente à doutrina geral. predominantemente. Admite-se que um sentido não traduzido. mesmo no caso de real impropriedade das expressões utilizadas («falsa demonstratio non nocet»). por não se lhes opor o texto daquele n. possa valer. diversamente dos negócios «entre vivos». embora imperfeita.º2). razões de certeza ou segurança e quando estejam em causa interesses de terceiros. o problema deve ser resolvido nos termos do 237º. para a vontade psicológica do testador: não há que tomar em consideração as possibilidades de conhecimento de um destinatário como critério interpretativo. o testamento se torne conhecido dos interessados. no contexto (2187º n.. quanto à relação que deve interceder entre a intenção testatória e o contexto do documento. assim reconstituída. Esses desvios traduzem-se: a)Num maior objectivismo: é o que acontece nos negócios solenes ou formais. Podem continuar a aceitar-se. contra o emitente das condições gerais préordenadas para uma multiplicidade de contratos individuais. no respectivo documento. ainda que imperfeita. isto é. O CC não se pronuncia sobre o problema de saber quais as circunstâncias atendíveis para a interpretação. depois da morte. Em todo o caso não há declaração negocial se falta a vontade acção (246º). o que conduzir ao maior equilíbrio das prestações. quanto à sua interpretação.

que estas teriam estipulado. Já aquele sentido subjectivo não valerá se o testador usou termos numa acepção extravagante que estava fora dos seus próprios hábitos de linguagem ou incorreu em erro na declaração. Designadamente não pode a integração conduzir a uma ampliação do objecto negocial. todavia. porém. como será o caso. em princípio. como aconteceria se mandasse colmatar as lacunas negociais pelo recurso aos usos. nos casos em que o contrato não está plena e completamente tipicizado ou se afasta dos tipificados em pontos que a regulamentação legal se não adapte ao contrato. A integração negocial tem limites. consagrando. neste caso.«a que elas teriam tido se houvessem previsto o ponto omisso». Hão-de considerar-se as circunstâncias que dão ao contrato concretamente celebrado a sua individualidade e não as características do tipo contratual. não habitual ao testador. o sentido subjectivo. Certos problemas. não podem ser equacionados e resolvidos em sede de integração negocial. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 71 . considerar o que um contraente honesto e razoável há-de admitir como exigido pelo contrato. isto é. sempre que haja disposição supletiva aplicável. Deve atender-se à regulamentação concretamente estipulada e situarmo-nos no círculo por ela delimitado. deve a declaração se integrada de acordo com as referidas exigências da boa fé. de acordo com o que corresponda à justiça contratual (ao que as partes devem querer agora e não propriamente o que deveriam ter querido). Admitir-se-á a relevância do sentido subjectivo. valerá. contrarie os ditames da boa fé. nesta hipótese. na própria letra do testamento seja patente a significação esotérica. que o juiz se deverá afastar da vontade hipotética ou conjectural das partes. directamente – o que poderá verificar-se. A regulamentação de um «contrato semelhante» é a que resulta das normas supletivas. Não pode proceder-se na integração como se se estivesse a aplicar uma norma estranha ao contrato. ao proverem à elaboração do ordenamento negocial das suas relações? 121.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Segundo essas ideias. apenas. justifica-se pelas razões que estão ligadas à exigência de forma dos testamentos. mesmo que seja evidente a prova da vontade hipotética das partes. se o testador usou termos numa acepção pessoal. que esta última solução (nulidade) sofra uma excepção. Estabelece-se. nos negócios típicos – ou por analogia. que foi pretendido pelas partes. fora dos usos gerais da língua. reconstituindo através da prova extrínseca. isto é. (2)Integração 120. correspondentes ao texto da disposição do anteprojecto transcrita na penúltima nota. Será de admitir. assim. Ressalva a hipótese de existir disposição especial. Na falta de disposição supletiva que possa aplicar-se. genericamente. mas deu a entender isso mesmo no testamento ou usava habitualmente esses termos nessa acepção anómala (o testador que se refere à sua garrafeira como a sua “biblioteca”). quando. uma solução plenamente de acordo com a ideia de que o negócio jurídico é. a partir da finalidade e da conexão dos significados manifestados na regulamentação contratual.Em que consiste O problema pode formular-se através da seguinte pergunta: qual a regulamentação das questões não previstas pelas partes. o 239º remete para a vontade hipotética ou conjectural das partes .Termos em que pode admitir-se O critério a utilizar para o efeito de realizar a integração dos negócios jurídicos lacunosos é enunciado no 239º. O CC considera que a integração deve ser determinada para cada negócio e não. quando a solução. A nulidade. «lex privata» das partes. para os vários tipos de negócios. dos termos empregues ou o erro na declaração (2203º).

em certos casos anómalos. visando precisamente enganar este. mas por força do emprego de uma força física irresistível que o instrumentaliza e leva a adoptar o comportamento. b) Na falta de consciência da declaração – o declarante emite uma declaração.Teorias que visam resolver o problema da divergência entre a vontade e a declaração No direito civil moderno várias teorias foram formuladas em vista da solução do problema em epígrafe. em caso de dolo ou culpa do declarante. sem sequer ter a consciência (a vontade) de fazer uma declaração negocial. verificar-se. mas sem intuito de enganar qualquer pessoa (declaratário ou terceiros). O negócio ser válido. por razões diversas. c) Declarações não sérias – o declarante emite uma declaração não coincidente com a sua vontade real. A divergência não intencional pode consistir: a) No erro-obstáculo ou na declaração – o declarante emite a declaração divergente da vontade real. sem ter consciência dessa falta de coincidência. contudo. com a intenção de enganar terceiros. desde que se verifique uma divergência entre a vontade e a declaração e sem necessidade de mais requisitos. embora de 72 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . com a simples diferença de. sendo forçado a dizer ou escrever o que não quer. A divergência intencional pode apresentar-se sob uma de três formas principais: a) Simulação – o declarante emite uma declaração não coincidente com a sua vontade real. c) Na coacção física ou violência absoluta – o declarante é transformado num autómato. por causas diversas. Teoria da declaração Enquanto a teoria da vontade arranca da consideração de que a essência do negócio está apenas na vontade do declarante (dogma da vontade). Trata-se de um lapso.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL (III)A divergência entre a vontade e a declaração (1)O problema em geral 122. uma divergência entre esses dois elementos da declaração negocial. por se considerar insuficiente a tutela concedida pelo teoria da culpa in contrahendo. Estamos perante um vício na formulação da vontade. de um engano. não através de uma mera. 124. sem qualquer arranjo com o declaratário. de um equívoco.Formas possíveis de divergência Normalmente o elemento interno (vontade) e o elemento externo da declaração negocial (declaração negocial) coincidirão. dá-se mais atenção ao argumento da necessidade de proteger a confiança. e estando de boa fé o declaratário. a teoria da declaração. Teoria da vontade Propugna a invalidade do negócio (não vale a vontade real nem a declarada). podendo até faltar completamente a vontade de agir. A normal relação de concordância entre a vontade e a declaração (sentido objectivo) é afastada. Teoria da culpa «in contrahendo» Assenta na mesma ideia da teoria anterior. À relação normal de concordância substitui-se uma relação patológica. por força de um arranjo com o declaratário. Pode. b) Reserva mental – o declarante emite uma declaração não coincidente com a sua vontade real.

As modalidades modernas e atenuadas.º1. propugnando a invalidade. pode qualquer interessado invocar a nulidade e o tribunal declará-la oficiosamente (286º. se for conhecida ou cognoscível do declaratário.º1. se houve o intuito de prejudicar terceiros ilicitamente ou de contornar qualquer norma da lei. (Na simulação não pode haver usucapião uma vez que adquiria sendo um possuidor precário (1253º c)). também. em correspondência com a orientação da doutrina tradicional. são: a) Intencionalidade da divergência entre vontade e a declaração.Modalidades da simulação Uma primeira distinção é a que se estabelece entre simulação inocente e simulação fraudulenta. Comporta diversas modalidades: Modalidade primitiva e extrema: consagra-se uma adesão rígida à expressão literal – se a forma ritual foi observada.º2). c) Intuito de enganar terceiros. Por detrás do negócio simulado ou aparente ou fictício ou ostentivo há um negócio dissimulado ou real ou latente ou oculto. as próprias anulabilidades podem ser arguidas. quer dizer. só produz a invalidade do negócio. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 73 . A simulação fraudulenta é. para a hipótese de o declaratário. nada mais. isto é. o que. Há apenas o negócio simulado e. Na simulação relativa as partes fingem celebrar um certo negócio jurídico e na realidade querem um outro negócio jurídico de tipo ou conteúdo diverso. não se apercebendo do dissídio entre a vontade real e o sentido objectivo. a validade do sentido objectivo só será de aceitar. dá relevo fundamental à declaração. 129. produzem-se certos efeitos.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL modo diverso. referidos naquela disposição. no fim. 128. os elementos integradores do conceito. A simulação é inocente se houve o mero intuito de enganar terceiros.º2). ou seja. mesmo que não tenham sido queridos. (2)A simulação 127. de longe. revelando a mesma disposição legal a ausência de interesse civilístico da referida dicotomia. por detrás dele. em conformidade com as suas modalidades.Efeitos da simulação absoluta A simulação importa a nulidade do negócio simulado (240º n. se o declaratário confiou efectivamente nesse sentido. de acordo com o regime geral. quer o negócio não esteja cumprido (aliás. a invalidade dos negócios simulados pode ser arguida a todo o tempo (286º). para o qual remete o 242º). evidentemente. Doutrina da aparência eficaz: subscreve os resultados da doutrina da confiança. todavia. Como todas as nulidades. compreendido um terceiro sentido. nesta hipótese. Outra destrinça é a que se faz entre simulação absoluta e simulação relativa. ter. Esta distinção é aludida no 242º n. o que um declaratário razoável lhe atribuiria. em particular a doutrina da confiança: a divergência entre a vontade real e o sentido objectivo da declaração. mas limita-a. elementos e importância prática O conceito de negócio simulado está explicitamente formulado no 240º n. a mais frequente. sem dependência de prazo: 287º n. ao que foi exteriormente manifestado. sem os prejudicar e é fraudulenta. Na primeira – é o caso da venda fantástica ou da doação simulada com fins de pompa ou ostentação – as partes fingem celebrar um negócio jurídico e na realidade não querem nenhum negócio jurídico. quer tenha tido lugar o cumprimento. em vez da invalidade. não exclui a possibilidade de simulação nos negócios unilaterais. b) Acordo entre declarante e declaratário (acordo simulatório).Conceito.

Na interposição real o interposto actua em nome próprio. Podem ser. mesmo que se tenham observado as formalidades exigidas para o negócio aparente. em prejuízo da Fazenda Nacional O negócio dissimulado (venda ou doação) não é afectado na sua validade pela lei fiscal. É o que se verifica na chamada interposição fictícia de pessoas. Para a validade do negócio real torna-se necessária a observância do formalismo que. Ex.: A. A interposição fictícia de pessoas não se deve confundir com a interposição real. É fundamentalmente – mas não só – o caso da simulação de preço na compra e venda. mas na supressão de um sujeito real. mas no interesse e por conta de outrem. A simulação relativa põe. pretendendo dar um prédio a B. O 241º n. 131. não na intervenção de um sujeito aparente. Efeitos da simulação quanto aos negócios formais Os problemas suscitados pela aplicação aos negócios formais da doutrina geral da simulação relativa encontram a sua resposta no 241º n. no negócio simulado. ex. por força de um acordo entre ele e um só dos sujeitos. A lei estabelece que o negócio dissimulado só é válido.º1.Modalidades da simulação relativa A simulação relativa manifesta-se em espécies diversas consoante o elemento do negócio dissimulado a que se refere (simulação subjectiva ou dos sujeitos e simulação objectiva ou sobre o conteúdo do negócio).: finge-se uma venda e quer-se uma doação). mas para pagar apenas uma sisa os três sujeitos concordam em documentar na escritura pública apenas uma venda da A a C. o imposto liquidado será o correspondente à natureza do negócio realmente celebrado (negócio dissimulado). a solução correspondente à orientação tradicional: o negócio real ou dissimulado será objecto do tratamento jurídico que lhe caberia se tivesse sido concluído sem dissimulação (241º). tal como na simulação absoluta. porém. finge doar a C para este posteriormente doar a B.Efeitos da simulação relativa Doutrina geral O negócio fictício ou simulado está ferido de nulidade. Resulta do teor desta disposição que. um homem de palha. Aí se estatui que «se.º2 consagra a solução de nulidade do negócio dissimulado. fingindo-se um preço superior ou inferior ao preço real. quanto ao negócio disfarçado ou dissimulado? Sanciona-se. os requisitos de forma exigidos para o dissimulado. exige a lei. Simulação sobre a natureza do negócio. se for observada a forma exigida e nada diz para a hipótese de as razões do formalismo do negócio dissimulado se acharem satisfeitas com a observância das solenidades do negócio simulado. 74 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . b) Simulação de valor – incide sobre o «quantum» de prestações estipuladas entre as partes. Quid juris. se esse for o regime que. Este é um simples testa de ferro. para ele. intervindo um conluio entre os três. todavia.: fez-se uma venda de A a B e outra de B a C. permanecendo válido e eficaz. mais frequentemente um apenas. Na interposição fictícia há um conluio (arranjo) entre os dois sujeitos reais da operação e o interposto. um problema específico que não surgia no caso da simulação absoluta. Nestes termos poderá o negócio latente ser plenamente válido e eficaz ou poderá ser inválido. além das multas em que os simuladores incorrem. à face da lei civil lhe cabe. se tivesse sido abertamente concluído. se não se cumpriram. este será nulo por vício de forma. Pode igualmente a simulação consistir. a este respeito. mesmo que tal forma não seja suficiente para o negócio aparente. o negócio dissimulado for de natureza formal. sucede apenas que. só é válido se tiver sido observada a forma exigida por lei». consoante as consequências que teriam lugar.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 130. A simulação objectiva ou sobre o conteúdo do negócio pode ser: a) Simulação sobre a natureza do negócio – se o negócio ostensivo ou simulado resulta de uma alteração do tipo negocial correspondente ao negócio dissimulado ou oculto (ex. desde logo. tal como foi preconizada por BELEZA DOS SANTOS. simulados ou sujeitos do negócio jurídico.

Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 75 . mas não emitido por B. voluntário. culpado da falta de consciência da declaração. A doutrina exposta é a que vale para a simulação de pessoas e para a simulação sobre a natureza do negócio.º2. que esta possibilidade de a nulidade ser invocada pelos próprios simuladores entre si sofre uma apreciável restrição indirecta por força do 394º n. há um comportamento declarativo do errante. só vale no nosso direito. como inexistência. mesmo que a falta de consciência da declaração não seja conhecida ou cognoscível do declaratário. Nas declarações sob o nome de outrem: não há qualquer comportamento por parte do sujeito a quem a declaração é atribuída. antes. quando as razões determinantes da forma se não oponham (238º n.Se há restrições à arguição da simulação pelos próprios simuladores O 242º n. Aliás. a cargo do «declarante». involuntário. fazendo-se passar por B. (4)Divergência não intencional 140. Trata-se dum caso de nulidade. quando invocados pelos simuladores. a hipótese de o declarante ser «coagido pela força física a emitir» a declaração. a favor da solução que defendemos. Estas hipóteses são abrangidas pelo 246º: «se o declarante não tiver a consciência de fazer uma declaração negocial.Erro na declaração ou erro-obstáculo Conceito No erro-obstáculo: havendo embora uma divergência inconsciente entre a vontade e a declaração. declinando a identidade deste ou falsificando a respectiva assinatura ou pondo em circulação um documento assinado por B. no entanto. a ineficácia da declaração negocial («a declaração não produz efeitos»). nos termos do 246º. repare-se que o princípio «falsa demonstratio non nocet». o negócio dissimulado é nulo por vício de forma. quando falta a vontade de acção não há um comportamento humano consciente. como acontece se A faz um negócio. A lei. Com efeito.º2). estabelece que a declaração não produz qualquer efeito e não fala de nulidade. porém. salvo na hipótese de falta de vontade de acção em que parece estar-se. pelo menos.Falta de consciência da declaração Falta a vontade de acção ou. Advirta-se. Têm-se em vista as hipóteses em que o declarante é reduzido à condição de puro autómato (coacção absoluta) e não aquelas em que o emprego da força física não chega aos extremos. sob a epígrafe «coacção física» (246º).Coacção física ou coacção absoluta ou ablativa O CC prevê. Não há qualquer dever de indemnização. a expensas do interesse na protecção da confiança do declaratário. na hipótese de coacção física. parecendo esta última mais exacta. reflexo ou. antes. atribui legitimidade aos próprios simuladores para a arguição da nulidade do negócio simulado.º1. há um comportamento inconsciente. 142. se o declarante for. 141. o declaratário tem direito a ser indemnizado do dano coberto pela chamada responsabilidade pré-negocial ou por «culpa in contrahendo».. mesmo que a simulação seja fraudulenta. Estatui-se que o negócio não produz qualquer efeito. A coacção física ou absoluta importa. Os interesses do autor do comportamento são tutelados em primeira linha. solução oposta à defendida anteriormente. absolutamente forçado. prudente ou ambiguamente. aí se estatui que é inadmissível a prova testemunhal do acordo simulatório e do negócio dissimulado. dado ser discutível a qualificação como nulidade ou.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Quer dizer: o negócio simulado é nulo por simulação.. quanto seja menor que o preço real. «finalista».». perante um caso de verdadeira inexistência da declaração. não há obstáculo de natureza formal a que seja eficaz a venda pelo preço efectivamente convencionado. embora exteriormente pareça estarmos perante uma declaração. 132. a consciência da declaração.

de «erro sobre o conteúdo da declaração». 2)Se o declaratário conheceu ou devia ter conhecido o erro.º2). do elemento sobre que incidiu o erro». do 246º. (IV)Vícios da vontade (1)Noções gerais 144. aparentemente. para estes caso. como ilegítimos.º 10. quando na verdade aquele prédio é o n. não há. embora concorde com a declaração. admitindo a anulabilidade em termos excessivamente fáceis e gravosos para a confiança do declaratário e para a segurança do tráfico jurídico. por lapso de actividade (erro mecânico: lapsus linguae ou erro ortográfico) ou por «error in judicando» (atribuição às palavras de um significado diverso do seu sentido objectivo). Por esse motivo fala-se. a anulabilidade fundada em erro não procede (248º). A hipótese pode subsumir-se. não se apercebe de que a declaração tem um conteúdo divergente na sua vontade real. o conhecimento ou a cognoscibilidade do erro. 5)Se o declaratário compreendeu um terceiro sentido que não coincide nem com o querido pelo declarante. Assim. A validação do negócio. tem uma explicação análoga à da solução indicada em 1). pelo direito. é determinada por motivos anómalos e valorados. ostensivamente revelados no contexto da declaração ou nas circunstâncias que a acompanham. compra a B o prédio n. 4)O erro de cálculo e o erro de escrita. o comprador poderá anular o negócio. b)Certas hipóteses particulares merecem tratamento especial. porém. como se referiu. nesta hipótese. porque queria comprar o prédio onde nasceu. não dão lugar à anulabilidade do negócio. por parte do declarante aparente.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Na declaração sob o nome de outrem ninguém pode pretender que o negócio vincule o sujeito ao qual. nem com o declarado. Já se viu não ser necessário para a anulação. exigindo-se para anulação do negócio que «o declaratário conhecesse ou não devesse ignorar a essencialidade. se A. o negócio valerá de acordo com a vontade real (236º n. a)O princípio geral regulador destas hipóteses consta do 247º. diz respeito. A vontade não se formou de um modo julgado normal e são. 76 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . operando de tal modo que esta. desde que prove que o vendedor conhecia ou não devia ignorar que só interessava ao outro contraente o prédio onde nasceu. 3)Se o declaratário aceitar o negócio como o declarante queria. bastando que seja reconhecível a essencialidade do elemento sobre que o declarante errou. Assim: 1)Se o declaratário se apercebeu do dissídio entre a vontade real e a declarada e conheceu a vontade real do declarante. o reconhecimento ou a reconhecibilidade do erro. A lei não exige. possa não ter suscitado ao declaratário qualquer suspeita ou dúvida acerca da correspondência entre a vontade real e a declarada. pois. Quando há desvio na vontade de acção («lapsus liguae» ou «lapsus calami». erro mecânico) ou desvio na vontade negocial (erro de juízo) Nestas hipóteses o declarante tem a consciência de emitir uma declaração negocial. para o declarante. Causas e efeitos. mas apenas à sua rectificação (249º). mesmo que a outra parte não se tenha apercebido da falsificação. directamente ou por analogia. consciência de fazer uma declaração negocial. embora este conhecimento. Contenta-se com o conhecimento ou a cognoscibilidade da essencialidade do elemento sobre que incidiu o erro. tal como em certos casos de erro-obstáculo.º 20. o regime aplicável continua a ser a anulabilidade e não a nulidade verdadeira e a própria.Vícios da vontade Conceito Trata-se de perturbações do processo formativo da vontade. mas.

fim). sob a designação de usura. pelo coacto ou pelo incapaz (287º: «as pessoas em cujo interesse a lei estabelece»). inexperiência. incapacidade acidental (257º). Vícios redibitórios O CC não se refere. obteve a promessa ou concessão de benefícios excessivos ou injustificados. em face dos 287º e 288º. nas disposições gerais sobre o negócio jurídico. alguns aspectos particulares da situação. É o caso dos 905º e 913º (venda de coisas oneradas ou defeituosas) e do 1035º (vícios da coisa locada). incapacidade acidental (257º). coacção moral. coacção moral (256º). por usura. 147. porém. nem todo o regime está previsto no CC. coacção ou incapacidade acidental Trata-se duma anulabilidade: Erro-vício (251º 252º). pelo enganado. As características da anulabilidade são. Pode. dolo. ser invocada. um negócio jurídico. c)Pode ser sanada por confirmação da pessoa a quem pertencer o direito de anulação (288º). a todo o tempo. se o negócio não estiver cumprido. Estado mental ou fraqueza de carácter de outrem. Se estivesse esclarecido acerca dessa circunstância – se tivesse exacto conhecimento da realidade – o declarante não teria realizado qualquer negócio ou não teria realizado o negócio nos termos em que o celebrou. porém. Aí se determina que é anulável. de um erro nos motivos determinantes (elementos internos) da vontade.Qualificação da invalidade proveniente de Erro-vício. Por força das directivas comunitárias. normas que se referem a essa hipótese na regulamentação de alguns contratos especiais.Noção Erro-vício: traduz-se numa representação inexacta ou na ignorância de uma qualquer circunstância de facto ou de direito que foi determinante na decisão de efectuar o negócio. a requerimento do lesado ou da parte contrária. dolo. b)Só pode ser invocada dentro do ano subsequente à cessação do vício que lhe serve de fundamento (287º n. quando alguém. Estabelece-se no artigo seguinte. aos vícios ocultos do objecto negocial como fundamento autónomo de invalidade. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 77 . uma alternativa para a anulação dos negócios usurários: a sua modificação. porém. Trata-se pois. Há. consta do 282º. Em ambos os casos a anulabilidade do negócio depende da verificação dos requisitos legais de relevância do erro ou do dolo. (2)O erro como vício da vontade 148. explorando a situação de necessidade.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 145. o Estado de necessidade (282º) 146. as seguintes: a)Só pode ser invocada pelo errante. dolo (254º).O regime da lesão e dos vícios redibitórios no CC Lesão (usura) No CC a proscrição da lesão. Para além deste efeito – anulabilidade – a lei regula. igualmente.º1. dependência.Enumeração dos vícios da vontade a que o nosso direito atribui um geral relevância autónoma Erro-vício. ligeireza. segundo juízos de equidade.

incorrerá em responsabilidade prénegocial devendo indemnizar o chamado interesse contratual negativo. não são desprotegidos. como motivo de invalidade. qualquer exigência da desculpabilidade ou escusabilidade do erro. um erro-obstáculo) e erro sobre as qualidades. com fundamento no 227º (culpa na formação dos contratos). admitido a invocar a anulabilidade. O erro foi causa (é indiferente tratar-se de uma situação de causalidade única ou de concausalidade) da celebração do negócio e não apenas dos seus termos. embora noutros termos. não obstante a anulação. sem ele. versar sobre os requisitos legais de forma negocial. Há que distinguir. etc. a melhor «de iure condendo». nem ao objecto do negócio. c)Erro sobre os motivos não referentes à pessoa do declaratário nem ao objecto do negócio (252º): é uma noção residual. O erro é essencial se. que é. deve atingir os motivos determinantes da vontade (251º e 252º). Escusabilidade Não se formula. ou sobre o objecto imediato (erro sobre a natureza do negócio). o erro sobre a pessoa do declaratário e o erro sobre o objecto do negócio. todavia. pois. estatuído o mesmo regime para duas delas): o erro sobre os motivos. que corresponde ao erro acerca da causa (erro de direito ou de facto). no caso de erro culposo. que variam com as diversas modalidades do erro-vício. o errante. quase sempre. sempre celebraria o mesmo negócio (manter-se-ia o tipo negocial. aliás. 153. aquele que levou o errante a concluir o negócio. Propriedade Trata-se de um requisito que circunscreve o campo de aplicação autónoma do Errovício. o objecto. assim.Condições gerais de relevância do Erro-vício como motivo de anulabilidade Essencialidade É corrente na doutrina a afirmação de que só é relevante o erro essencial. sem ele. em si mesmo e não apenas nos termos em que foi concluído.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 150. pois o errante sempre contrataria.Modalidades Em face do CC as categorias que revestem interesse são: a)Erro sobre a pessoa do declaratário: erro sobre a identidade (este será. Já não relevaria o erro incidental isto é. a capacidade do errante. na subsecção relativa aos vícios da vontade. que. Trata-se..Condições especiais de relevância do erro-vício como motivo de anulabilidade Aos requisitos gerais de relevância do erro – essencialidade e propriedade. O erro. O erro só é próprio quando incide sobre uma circunstância que não seja a verificação de qualquer elemento legal da validade do negócio. b)Erro sobre o objecto de negócio: pode incidir sobre o objecto mediato (sobre a identidade ou sobre as qualidades). 152. pelo que se deve reputar consagrada a solução segundo a qual tal requisito é dispensável. isto é. quando. aliás.g. duma noção definida por via negativa. 78 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . embora noutras condições. O erro será impróprio. nos termos expostos – devem acrescer certos requisitos especiais. O erro é incidental se. os sujeitos). assim. para relevar. Erro sobre os motivos Inserem-se nesta categoria os casos em que o erro se não refere à pessoa do declaratário. entender-se. Deve. a ilicitude do objecto mediato ou imediato. corresponde ao erro acerca da causa (de direito ou de facto ) do código anterior e abrange igualmente o erro sobre a pessoa de terceiro. 3 modalidades (sendo. os interesses da outra parte. se não celebraria qualquer negócio ou se celebraria um negócio com outro objecto ou de outro tipo ou com outra pessoa. v. aquele que influiu apenas nos termos do negócio. o errante.

Na 2ª parte do 252º. pois o 253º n. ou quando tenha lugar a dissimulação. de estipulação negocial ou das concepções dominantes no comércio jurídico (253º n.º1.Conceito A noção de dolo consta do 253º n. Importa aqui referir apenas que o dolo negativo ou omissivo. Só existirá dolo. sobre o seu conteúdo. por força de lei. nos 437º a 439º. o dolus malus. permite a anulação. desde que haja uma cláusula (expressa ou tácita) no sentido de a validade do negócio ficar dependente da existência da circunstância sobre que versou o erro («se as partes houverem reconhecido. do erro do declarante (dolo negativo. considerados legítimos. Está igualmente previsto no 251º. A lei tolera a simples astúcia. b)Dolus bonus e malus Só é relevante. Erro sobre o objecto do negócio Está previsto no 251º. segundo as concepções dominantes no comércio jurídico (253º n. São cabidas acerca deste regime as considerações que. para o declarante. pois este versa sobre os efeitos do negócio. portanto. reputada legítima pelas concepções imperantes num certo sector negocial. isto é. Costumava assinalar-se à distinção o interesse prático de o dolo negativo de terceiros não ser relevante. «desde que o declaratário conhecesse ou não devesse ignorar a essencialidade. a seu propósito.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Nos casos deste tipo. o regime correspondente ao erro na declaração. a essencialidade do motivo»). pelo declaratário ou por terceiro. Trata-se dum erro determinado por um certo comportamento da outra parte.º2). expendemos quando se tratou do erro na declaração e tendentes à conclusão de que seria mais razoável ter-se exigido o conhecimento ou a cognoscibilidade do erro.º1. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 79 . quando se verifique o emprego de qualquer sugestão ou artifício com a intenção ou consciência de induzir ou manter em erro o autor da declaração (dolo positivo ou comissivo). não existe em todos os casos de silêncio perante o erro em que versa o declarante. A omissão de esclarecimento só constituirá dolo ilícito. sobre o seu objecto imediato. igualmente. O 251º abrange. (3)Dolo 154. Com efeito. o 252º n. nos mesmos termos em que. o chamado erro sobre a natureza do negócio.Modalidades a)Dolo positivo e negativo A distinção já foi caracterizada e consta do 253º n. isto é. ponto é que exista o dever de elucidar por parte do terceiro reticente.º1. cabendo-lhe. quer na do erro sobre as qualidades. 155. O negócio será anulável nos termos previstos no 247º para o erro-obstáculo. omissivo ou de consciência). Erro sobre a pessoa do declaratário Abrange igualmente o erro sobre a identidade e o erro sobre as qualidades.º1 fala expressamente em dissimulação de terceiro. se dispõe acerca da resolução por alteração das circunstâncias vigentes no momento em que o negócio foi concluído («desde que a exigência das obrigações assumidas afecte gravemente os princípios da boa fé e não esteja coberta pelos riscos próprios do contrato»).º1 2ª parte). quer na hipótese do erro sobre a identidade (na medida em que seja um erro-vício e não um erro na declaração). do elemento sobre que incidiu o erro». quando existia um dever de elucidar. Essa conclusão não tem hoje qualquer fundamento. como fundamento da anulabilidade e de responsabilidade. a lei declara não constituírem dolo ilícito. haverá lugar à anulabilidade do contrato. usuais. estabelece-se um regime especial para certos casos de erro sobre os motivos: se o erro incidir sobre as circunstâncias que constituem a chamada base negocial. por acordo.

conhecer ou dever conhecer a actuação de terceiros (254º n. são exigidas certas condições suplementares que devem acrescer às do dolo do declaratário e o seu efeito é mais restrito. em ambos os casos se verificando os mesmos efeitos. e)Dolo essencial ou determinante e dolo incidental A distinção põe-se nos termos em que se pôs para o erro. estabelece a sanção da anulabilidade. se ele conheceu efectivamente os artifícios de terceiro. embora o dolo incidental também possa vir a conduzir à anulação. se prossegue ou mantém o comportamento que gera ou faz perdurar o erro. neste caso. apesar dela. há dolo ilícito. não apenas dolo de terceiro.º1. Condições de relevância do dolo do declaratário como motivo de anulação 1)Deve tratar-se dum dolus malus (253º n. basta a consciência de criar ou manter uma situação de erro. o negócio só será anulável. além disso. o negócio será sempre anulável. pois. No dolo incidental o deceptus apenas foi influenciado quanto aos termos do negócio.º2). por ter dado origem à invalidade. para a relevância do dolo de terceiro. se ao terceiro deceptor adveio. constante do 253º n. por força do negócio. No dolo essencial o enganado (deceptus) foi induzido pelo dolo a concluir o negócio em si mesmo e não apenas nos termos em que foi concluído. enquanto no segundo há o intuito ou a consciência de prejudicar. pois sempre contrataria. com o seu comportamento contrário às regras da boa fé. directamente algum direito (isto é. sem dolo não se teria concluído qualquer negócio.Condições de relevância do dolo como motivo de anulação O principal efeito do dolo é a anulabilidade do negócio (254º n. se este for cúmplice daquele. «a nulabilidade não é excluída pelo facto de o dolo ser bilateral». d)Dolo proveniente do declaratário e proveniente de terceiro A distinção tem grande importância. Condições de relevância do dolo de terceiro como motivo de anulação (254º n. É um elemento da definição de dolo. mesmo que esse não seja o propósito de quem a cria ou mantém. mesmo para a hipótese da simples cognoscibilidade do declaratário. 2)Deve ser essencial ou determinante.º2) Devem verificar-se os requisitos anteriores e.º2). Existirá. segundo ele.º1). embora noutras condições. 156. Na hipótese de dolo negativo trata-se de uma causalidade hipotética. A distinção não tem interesse prático. Este requisito tem algum vago apoio no 254º n. Desde logo. mas também dolo do declaratário. se existir no contrato cláusula a seu favor e anulação será limitada à cláusula a favor do terceiro (invalidade parcial). não é necessário que o dolo seja unilateral. Tal solução é a que logicamente resulta do facto de o fundamento da anulabilidade por dolo ser a viciação da vontade. durante os preliminares e a formação do negócio (227º). 3)Existência no deceptor da intenção ou consciência de induzir ou manter em erro. 4)Ao contrário do que exigem algumas legislações e a própria tradição jurídica. a lei. há que fazer a seguinte distinção: a)Se o declaratário conheceu ou lhe foi cognoscível o dolo de terceiro.º1 2ª parte dispõe que.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL c)Dolo inocente e fraudulento No primeiro há mero intuito enganatório. haverá dolo negativo do próprio declaratário. Na verdade o 254º n. b)Se o declaratário não conheceu nem devia conhecer o dolo de terceiro. mas acresce a responsabilidade pré-negocial do autor do dolo (deceptor).º1. todavia. O próprio dolo bilateral ou recíproco pode ser invocado como fundamento de anulação. 80 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Se essa consciência existe e.

existente no Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 81 . o dolo não tem relevância específica em relação ao erro (no casamento engana quem pode). consoante o bem ameaçado pela cominação ou a pessoa directamente visada.Negócio em que o dolo não tem relevância específica Resulta dos artigos 1631º b) e 1636º que no casamento.Modalidades Coacção física (absoluta e moral (relativa) A coacção física. portanto. A reparação do prejuízo causado é visada com a responsabilidade civil que impende sobre o «deceptor». pois existe sempre uma opção entre padecer o mal cominado ou expor-se à sua consumação e celebrar o negócio (A é ameaça de morte ou de agressão ou de difamação. É. mas não excluída. A coacção moral ou relativa ou compulsiva reduz a liberdade do coagido mas não a elimina (neste sentido coacta voluntas. desde logo.º2). é óbvio. quer o coactor seja beneficiado por cláusula a seu favor. semper voluntas). 162. para compelir ao negócio. apenas. Só cairemos no âmbito da coacção física (coacção absoluta ou ablativa). mesmo no caso da ameaça com arma de fogo ou no caso de emprego da violência física.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 157.Conceito Consta do 255º n. o negócio será anulável na sua totalidade (mesmo em face do declaratário). Coacção dirigida à pessoa ou à honra ou à fazenda do declarante ou de terceiro No regime geral da coacção não há qualquer diferença de tratamento. Só há vício da vontade. A ameaça pode dizer respeito à pessoa como à honra ou fazenda do declarante ou de terceiro (255º n. e não com a anulabilidade. tal como sucede com o erro simples. embora a submissão à ameaça fosse a única escolha normal. a liberdade do coacto é cerceada. 161. Ao contrário do dolo de terceiro. Assim estaremos dentro do campo da coacção moral (coacção relativa ou compulsiva). a segunda à mera anulabilidade (256º). em relação a este. quando a liberdade exterior do coacto é totalmente excluída e este é utilizado como puro autómato ou instrumento. (4)Coacção 160. Exige-se igualmente que a cominação do mal vise extorquir a declaração negocial. se não emitir certa declaração negocial). a lei exclui. mas na adulteração da vontade do «deceptus». se ele não for cúmplice do terceiro). sendo o coagido ameaçado de um mal se não emitir a declaração. o chamado temor reverencial (255º n.Fundamento jurídico da anulabilidade por dolo O fundamento da anulabilidade por dolo não consiste numa ideia de reparação do prejuízo sofrido pelo enganado (o próprio dolo inocente ou altruístico releva). quando a liberdade do coacto não foi totalmente excluída. na coacção moral. absoluta ou ablativa reduz o coagido à situação de mero instrumento ou autómato.º2). traduzida no medo resultante da ameaça ilícita de um dano (de um mal).Condições de relevância da coacção como motivo de anulabilidade Coacção exercida por terceiro A coacção exercida por terceiro provoca a anulabilidade do negócio e põe a cargo do coactor uma obrigação de indemnizar o declarante (coagido) e o declaratário (mas. cominada com o intuito de extorquir a declaração negocial. Não basta um simples medo ou receio. 159. A primeira dá lugar à inexistência do negócio (246º).º1 e consiste no «recreio de um mal de que o declarante foi ilicitamente ameaçado com o fim de obter dele a declaração». quando lhe foram deixadas possibilidades de escolha. Torna-se necessário que o receio provenha de uma ameaça ilícita. a perturbação da vontade. como começo de execução do mal cominado.

pelo representado ao representante: fala-se. não sancionando um critério puramente objectivo. irrelevante como motivo determinante da vontade. 166. (6)A incapacidade acidental 167. para na esfera desse outrem se produzirem os respectivos efeitos. não na secção das incapacidades. mas entre a falta e os vícios da vontade. A lei desaprova a coacção em tão forte medida que. em conformidade com a fisionomia moderna do instituto. a quem se deve respeito. onde se estatui a anulabilidade dos chamados negócios usurários. assim. (5)O estado de necessidade e outras situações como vícios da vontade negocial 164. onde se prescreve a anulabilidade. quando a pessoa não se aproveita conscientemente da situação de necessidade tinha o dever de auxiliar o necessitado (acto contrário à lei ou ofensivo dos bons costumes). O requisito da notoriedade significa a cognoscibilidade por uma pessoa média.Conceito Situação de receio ou temor gerada por um grave perigo que determina o necessitado a celebrar um negócio para superar o perigo em que se encontra.Valor dos negócios jurídicos realizados em estado de necessidade No CC a hipótese dos negócio em Estado de necessidade deve subsumir-se na previsão do 282º. então. Nada mais é necessário para existir a representação. Podem resultar dos estatutos de 82 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . colocado na posição concreta do declaratário. Os poderes de representação podem ser atribuídos. mas antes de um desvio no processo formativo da sua vontade em relação às circunstâncias normais do seu processo deliberativo. dado o facto não se tratar de uma situação permanente do indivíduo. uma ratificação. gratidão.) não constitui coacção. todavia. consoante a natureza do facto que lhe dá origem: facto natural ou facto humano. desde que se verifique um requisito (além da incapacidade acidental) destinado á tutela da confiança do declaratário: a notoriedade ou o conhecimento da perturbação psíquica.A coacção moral e o simples temor reverencial O temor reverencial (medo de incorrer no desagrado ou desafecto de outrem. por um acto voluntário. torna-se necessário que o representante actue «nos limites dos poderes que lhe competem» (258º) ou que o representado realize. de representação voluntária e o acto voluntário atribuidor de poderes representativos chama-se procuração. supervenientemente. mas exigindo. quer não seja.A incapacidade acidental O CC regula a incapacidade acidental. A hipótese está prevista no 257º. havendo antes lugar à nulidade. seja eficaz. (V)A representação nos negócios jurídicos 168. em face dela. Modalidades possíveis. mesmo que esta nada soubesse ou devesse saber da coacção. a protecção da contraparte cabe. 163. para que ela. e haja ou não conhecimento ou cognoscibilidade do vício por parte do declaratário (256º 1ª parte). etc. que o legislador concebe sob a designação de usura alguma relevância ao velho instituto da lesão. É nos termos de tal disposição.Conceito Infere-se do 258º. sendo. Já se sabe que este regime dos 282º e 283º não se aplicará.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL contrato. A representação traduz-se na prática dum acto jurídico em nome de outrem.

pois o mandato é um contrato pelo qual uma das partes se obriga a praticar um ou mais actos jurídicos por conta da outra (1157º). por isso. mas pode ser outro (ex. pela lei. curador). Não há contradição entre a representação e o princípio da autonomia privada. tendo como critério a fonte donde promanam os poderes representativos. em todos os seus assuntos pessoais ou patrimoniais. abrangendo apenas os actos nela referidos e os necessários à sua execução. não têm capacidade para se autodeterminarem. ser concedidos pela lei a representantes legais (pais. A chamada representação imprópria não é uma verdadeira representação. para se produzirem os mesmos efeitos que se produziriam se tais declarações fossem recebidas por esse outrem. tal como este conceito é pressuposto pelo 258º. desde logo. não sendo já necessário que o seja no interesse do representado. A representação já acima ficou definida e resulta que: a)Pode haver mandato sem haver representação Quando o mandatário não recebeu poderes para agir em nome do mandante. indirecta ou mediata. Há perfeita autonomia entre as duas figuras. verificada cada certa situação. neste caso. A representação voluntária não contradiz o referido princípio. Os menores. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 83 . age por conta do mandante.: contrato de trabalho). capacidade de agir por possuírem órgãos que as podem representar. traduzindo-se em legitimidade para representarem. c)Representação activa e passiva A primeira é a actuação em nome de outrem na emissão de declarações negociais. porque as possibilidades de actuação jurídico-negocial própria (do representado) não são restringidas pelo facto de ter passado a outrem uma procuração. administrador de bens. inabilitados. segundo a perspectiva do ordenamento jurídico. Verifica-se no mandato sem representação e.Espécies a)Distinção entre representação própria. mas também no que toca à representação voluntária: esta resulta de um acto – procuração (262º) – que pode existir autonomamente (negócio unilateral) ou coexistir com um contrato que. Não há igualmente coincidência entre as noções de representação e de mandato.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL uma pessoa colectiva (representação orgânica ou estatutária) ou. directa ou imediata e a representação imprópria. os interditos e certos inabilitados não estão. contrariamente a um equívoco bastante generalizado. qualquer contradição com a autonomia privada. a representação voluntária pode ter lugar por força da chamada in rem suam. São poderes de grande amplitude. Para existir a representação basta que o negócio seja concluído em nome do representado. normalmente. caso em que os poderes representativos são conferidos no interesse do próprio procurador. e. mas em nome próprio. A segunda traduz-se em receber declarações negociais em nome de outrem. b)Distinção entre representação legal e voluntária. traduz um alargamento das possibilidades contidas na referida autonomia. trata-se de uma modalidade particular do contrato de prestação de serviços. se a representação legal tem lugar sempre no interesse do representado (incapaz). Representação voluntária: os poderes do representante e a respectiva extensão provêm da vontade do representado. não disfrutam de autonomia privada. será o mandato. Na representação legal (menores. o menor ou o interdito. Com efeito. em condições de defender os seus interesses e. Quanto às pessoas colectivas têm. verificadas certas situações. Não há contradição. Esta pode ser geral. ao invés. justamente. b)Pode haver representação sem haver mandato Não só na hipótese da representação legal. isto é. manifestada na procuração. em princípio. eventualmente. tutor. Representação legal: o representante é indicado. noutras hipóteses de interposição real de pessoas. igualmente. ou por decisão judicial em conformidade com a lei e tem os poderes definidos pela lei. ou especial. 169. só legítima para actos de administração ordinária. interditos) não se nos depara.

que não torna o «dono do negócio» parte ou sujeito do acto jurídico praticado pelo «representante». na hipótese de falta de legitimação representativa. podendo tratar-se de operações de tipo intelectual). d)Representação e os contratos para a pessoa a nomear Os contratos para pessoa a nomear. mandato sem representação. os operários. 84 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . o núncio transmite uma declaração de outrem. 2) se o representante excede os seus poderes de representação. etc. age em nome próprio – é uma forma de mera representação de interesses. um dos contraentes declara contratar para um terceiro. o negócio é ineficaz em relação ao representado (268º). no contrato para pessoa a nomear. se o núncio transmite a sua declaração inexactamente. Diversidade de tratamento jurídico: 1) o representante (voluntário) não precisa de ter plena capacidade legal. sem necessidade de um acto especial de transmissão dos direitos e das dívidas. não sendo feita a declaração de nomeação nos termos legais. nunca recebe. a partir da celebração do negócio. O representante consuma. adquirindo os direitos e obrigações decorrentes dos actos que celebra. Decide. reservando-se apenas o direito de o nomear e. no sentido da anulabilidade. etc. o contrato produz os seus efeitos relativamente ao contraente originário (455º). bastará a capacidade natural para transmitir a declaração de vontade. c)Representação e as diversas formas de colaboração material ou técnica nos negócios de outrem A distinção assenta na contraposição negócio jurídico/acto material. é ineficaz. actos materiais (no sentido de actos não negociais.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 170. O representante emite uma declaração em nome de outrem. são previstos e disciplinados no 452º e ss. sendo este obrigado a assumir as obrigações contraídas pelo mandatário. frequentemente. isto é. 2)Na representação imprópria o mandatário age em nome próprio. embora actuando no interesse de outrem.. A representação imprópria ou mediata – na qual o agente. pela pessoa nomeada e. mais. os direitos e obrigações provenientes do contrato são apropriados. se este não atribuir àquele legitimidade representativa (ratificação).Confronto com institutos afins a)Representante e o simples núncio O representante. e)Representação e simples autorização ou consentimento para actos de outrem O representante actua e na simples autorização inibe-se ou aprova-se uma iniciativa e uma actuação de outrem. 1)Na representação própria o negócio representativo produz efeitos na esfera do representado ou. e é obrigado a transferir para o mandante os direitos adquiridos. uma vez feita a declaração de nomeação nos termos do 453º. o representante realiza negócios jurídicos e os dactilógrafos. os consultores técnicos. um braço mais comprido. embora se actue no interesse ou por conta de outrem. na representação própria existe a «contemplatio domini» (actuação em nome de outrem). Este é que é parte negocial. o «dominos» poderá ficar vinculado nos termos da declaração emitida. os efeitos do negócio são encabeçados pela pessoa nomeada. O núncio é um mero longamanus. ao contrário do núncio. no contrato para pessoa a nomear. o núncio transmite o já consumado. retroactivamente. pelo menos. o se do negócio e. nem mesmo quando a procuração é especialíssima. mas carece de capacidade natural de entender e querer.). exigida pela natureza do negócio que haja de efectuar (263º). quanto ao núncio. não existe a chamada «contemplatio domini». um mandato absolutamente especificado e imperativo. o conteúdo. podendo uma criança actuar como núncio. se não se verificarem os requisitos do 250º para a relevância. do erro na transmissão da declaração. b)Representação própria e imprópria Na representação imprópria (contrato de comissão.

A. como . como será quase sempre o caso. também. salvo se tiver lugar a ratificação (268º nº1). no qual está coenvolvida uma procuração. O carácter formal ou consensual da ratificação. se não psicologicamente ao menos objectivamente. até. legitimação representativa. b)Pressuposto de eficácia da representação: o acto deve estar integrado nos limites dos poderes que competem ao representante. de uma vontade própria do representante. se a outra parte conhecia o abuso ou este lhe era cognoscível. com fundamento em responsabilidade pré-negocial (227º) ou na existência de uma promessa tácita de garantia. da procuração.º2 e 262º n. a dos interditos (139º) e. Os actos praticados por um representante sem poderes ou «falsus procurator» (com falta total de poderes representativos ou com excedência dos poderes que lhe foram atribuídos) são ineficazes em relação à pessoa em nome da qual se celebrou o negócio.. sempre existente. A sua admissibilidade e o seu domínio de aplicação resultam das disposições que a consagram para o efeito de se suprir a incapacidade dos menores (124º). o representante sem poderes. posteriormente. O mandato com representação (1178º). responde perante a contraparte. por parte do representante. para que a contraparte saiba ou possa saber com quem negoceia. manifestação particular da representação sem poderes (na medida em que o negócio é perfeitamente válido. se desconhecia. É admitida nos 262º e ss.Pressupostos da representação a)Pressupostos de existência (conceituais) da representação: 1)«Contemplatio domini». e não. aliás. estabelecem-se vínculos jurídicos entre o promissário e o promitente. através de uma ratificação do negócio (legitimação representativa subsequente).º2) 171. sendo sujeitos das relações emergentes do referido negócio o representado e a outra parte. verificada culpa sua. já existente ao tempo do negócio representativo ou conferida. ineficaz relativamente ao «representado».º2). 2)Declaração. isto é. O negócio. em maior ou menor escala. nos contratos a favor de terceiro. 172. a falta de poderes (no caso raro de não ter culpa. se poderia pensar e se teria de concluir se o caso não estivesse expressamente hipotizado em norma especial (261º). realização do negócio em nome do representado. além do direito adquirido pelo terceiro a favor de quem foi convencionada a promessa ou dos outros efeitos favoráveis a este (443º n. O 269º manda aplicar o regime do 268º à hipótese de abuso de representação. depende das exigências formais do negócio representativo (268º n. tratado como um negócio do representante. a dos inabilitados (154º). desde que o representado tenha especificamente consentido na celebração) -. Através deste requisito distinguese a figura do representante da figura do núncio. mas de modo substancialmente contrário aos fins da representação. Não vale em relação ao representante. não responde).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL f)Representação e os contratos a favor de terceiros Na representação. esta não é parte negocial. Não havendo ratificação. «prima facie». O «falsus procurator» responde pelo interesse contratual negativo ou interesse da confiança (a contraparte é colocada na situação em que estaria se não tivesse contado com a realização do contrato). de uma vontade do representado. pura e simplesmente. que pode ser originária. está ferido de anulabilidade (261º) e não de ineficácia. procurador de B. com culpa. como. Haverá abuso de representação quando o representante actuar dentro dos limites formais dos poderes conferidos. isto é. compra em nome próprio um objecto que vende em nome de B (autocontrato). Deve existir. O negócio vale em relação ao representado.Admissibilidade da representação a)Representação legal. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 85 . o representante não se torna titular de quaisquer direitos ou obrigações em face da contraparte do negócio representativo. não é. b)Representação voluntária. eventualmente. O negócio consigo mesmo: o chamado negócio consigo mesmo – ex. é a fonte mais frequente da representação voluntária.

TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL A extinção da representação é unilateral e pode dar-se por: revogação (por parte do representado) ou renúncia (por parte do representante) (265º). Pode dar-se também por causa natural, isto é, por conclusão. O 264º faz ainda referência à hipótese de subestabelecimento: o representante representa-se por outrem.

(III)Elementos acidentais dos negócios jurídicos (Cláusulas acessórias típicas gerais) (I)Condição 176.Conceito, natureza e importância da estipulação condicional
As noções de condição suspensiva e de condição resolutiva constam do 270º: subordinação pelas partes a um acontecimento futuro e incerto ou da produção dos efeitos do negócio jurídico (condição suspensiva) ou da resolução dos mesmos efeitos (condição resolutiva). Natureza da estipulação condicional Trata-se duma vontade hipotética, embora actual, e efectiva, exteriorizada numa declaração única e incindível. Razão de ser e importância prática da condição Superação da incerteza objectiva do futuro, através de um regulamento de interesses apto a, em qualquer hipótese, realizar a representação que os sujeitos têm do seu interesse. Numa especial modalidade permite influir sobre o comportamento de outrem.

178.A aponibilidade da condição
Princípio geral A cláusula condicional é um elemento acidental, susceptível de ser inserido na generalidade dos negócios, por força do princípio da liberdade negocial. Valor de condição aposta a um negócio incondicionável Em conformidade com o princípio da incindibilidade do negócio condicional, a consequência da aposição duma condição a um negócio incondicionável é a nulidade do negócio. Tal solução, na falta de disposição que expressamente a preceitue (ex.: 848º), resultará da aplicação analógica do 271º e até genericamente do 294º.

179.Classificação das condições
Condições suspensivas e resolutivas O critério da distinção, nos termos do 270º, é o da influência que a verificação do evento condicionante tem sobre a eficácia do negócio: se a verificação da condição importa a produção dos efeitos do negócio, não tendo estes lugar doutro modo, trata-se duma condição suspensiva; se a verificação da condição importa a destruição dos efeitos negociais, aquela diz-se resolutiva. Saber se uma condição é suspensiva ou resolutiva é um problema de interpretação do negócio jurídico, não formulando o CC qualquer presunção geral, nem sendo legítimo propor qualquer presunção natural ou de facto com validade geral. Condições possíveis e impossíveis. As chamadas condições ilícitas (contrárias à lei) Os conceitos de condição impossível (física ou legalmente) e de condição contrária à lei ou à ordem pública ou ofensiva dos bons costumes resultam claramente das considerações acerca dos requisitos legais do objecto negocial: sempre que o evento condicionante não possa realizar-se por impossibilidade física ou legal, ou seja contrário à lei, à ordem pública ou ofensivo dos bons costumes, a condição respectiva terá a qualificação correspondente. A condição que consiste num facto ilícito pode ser lícita, se a cláusula condicional representar um contra-estímulo à prática desse acto; só deixará de ser assim, nesta hipótese,

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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL sendo, portanto, nula a condição, se repugnar à lei ou aos bons costumes a ideia de que se pratique tal acto mediante retribuição. Por outro lado, sendo embora o evento condicionante lícito, pode a condição ser ilícita, por força do seu nexo com o restante conteúdo do negócio.

181.Efeitos da condição suspensiva
Na pendência da condição, isto é, enquanto o evento condicionante não se verificou, nem deixou de se poder verificar. Neste período, o credor condicional não tem ainda um direito exercitável em relação ao devedor, embora as partes estejam já vinculadas, de tal modo que estão sujeitas à produção dos efeitos do negócio, uma vez verificado o evento condicionante.

(II)Termo 183.Conceito
Cláusula acessória típica pela qual a existência ou a exercitabilidade dos efeitos de um negócio são postas na dependência de um acontecimento futuro mas certo, de tal modo que os efeitos só começam ou se tornam exercitáveis a partir de certo momento (termo suspensivo ou inicial) ou começam desde logo, mas cessam a partir de certo momento (termo resolutivo ou final).

185.Aponibilidade do termo
Em obediência ao princípio da liberdade contratual, as partes gozam da faculdade de inserir esta cláusula na generalidade dos negócios. O termo pode ser aposto, em princípio, a qualquer negócio jurídico. Esta regra tem excepções, contudo, visto que há negócios que não admitem termo – negócios inaprazáveis -, os quais coincidem, em regra, com os negócios incondicionáveis.

186.Modalidades
Termo inicial, suspensivo ou dilatório (dies a quo ou ex quo) e termo final, resolutivo ou peremptório (dies ad quem) Esta distinção é paralela à que separa a condição suspensiva da resolutiva, assentando num critério baseado na influência que a verificação do facto futuro (mas certo) tem sobre a existência ou a exercitabilidade dos efeitos do negócio. Se os efeitos do negócio só começam ou só se tornam exercitáveis a partir de certo momento, o termo diz-se suspensivo ou inicial; se começam desde logo, mas cessam a partir de certo momento, o termo diz-se resolutivo ou final. Termo certo e incerto O termo é certo quando se sabe antecipadamente o momento exacto em que se verificará (ex.: o devedor fica obrigado a cumprir a sua prestação no dia 1 de Janeiro de determinado ano ou dentro de um mês a contar de certa data), e incerto quando esse momento é desconhecido (ex.: consistir o momento da morte de alguém, a qual, como se sabe, é certa, mas a sua hora incerta). Chama-se prazo ao período de tempo que decorre entre a realização do negócio e a ocorrência do termo, embora se possam atribuir outros sentidos àquela expressão. 279º regime supletivo da contagem dos prazos (importante para os advogados).

(III)Modo, encargo ou cláusula modal 188.Conceito
Cláusula acessória típica, pela qual, nas doações e liberalidade testamentárias, o disponente impõe ao beneficiário da liberalidade um encargo, isto é, a obrigação de adoptar um certo comportamento no interesse do disponente, de terceiro ou do próprio beneficiário.

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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Referem-se-lhe os 963º (doações com cláusula modal) e 2244º (instituição de herdeiro e nomeação de legatário sujeitas a encargos).

189.Distinção do modo e da condição
O modo só pode ser aposto à liberalidades, enquanto a cláusula condicional é aponível, salvas as excepções constantes da lei, a todos os negócios (gratuitos ou onerosos). Enquanto a cláusula modal se traduz na imposição, ao beneficiário da liberalidade, do dever de adoptar uma certa conduta, a condição pode ter como evento condicionante um facto de qualquer das partes (credor ou devedor condicional), um facto natural ou de terceiro ou um evento de carácter misto.

190.Valor do modo impossível ou ilícito
No CC há um artigo – 967º - que manda aplicar aos encargos modais, física ou legalmente impossíveis, contrários à lei ou à ordem pública ou ofensivos dos bons, apostos às doações, as regras estabelecidas em matéria testamentária. Há, assim, identidade de regime entre as doações e os testamentos, quanto a este ponto, contrariamente ao que resultava da legislação anterior. O 2245º manda aplicar aos encargos impossíveis ou ilícitos o regime estatuído, para as condições com as mesmas características, no 2230º. Assim, a cláusula modal impossível (física ou legalmente) tem-se por não escrita e não prejudica o donatário, herdeiro ou legatário, salvo declaração do doador ou do testador em contrário. Os encargos ilícitos (contrários à lei ou à ordem pública ou ofensivos dos bons costumes), têm-se igualmente por não escritos, ainda que o disponente disponha o contrário. A nulidade é, portanto, parcial, isto é, mantém-se o restante conteúdo da liberalidade que assim resulta ampliada, sendo tal regime supletivo, no que toca ao modo impossível, e imperativo, para o modo ilícito.

(IV)Cláusula penal 192.Conceito e importância
Cláusula penal: é a estipulação em que as partes convencionam antecipadamente uma determinada prestação, normalmente uma quantia em dinheiro, que o devedor terá de satisfazer ao credor em caso de não cumprimento, ou de não cumprimento perfeito da obrigação. Pode, assim, revestir duas modalidades: cláusula penal compensatória ou moratória, conforme tenha sido estipulada para o não cumprimento da obrigação ou para a simples mora do devedor. Aparece normalmente como cláusula do contrato, dele fazendo parte desde a sua celebração, mas nada impede que seja convencionada posteriormente, desde que antes da verificação do facto constitutivo de responsabilidade. A cláusula penal constitui a fixação antecipada e convencional do montante da indemnização, sendo uma cláusula acessória da obrigação principal, pelo que as vicissitudes desta se reflectirão na pena convencional (designação por que também é conhecida). Assim, se a obrigação principal for nula, nula é a cláusula penal (810º). A importância prática da cláusula penal é manifesta, tendo em conta as funções que desempenha. Constituindo uma forma de liquidação prévia do dano, segundo a estimativa dos próprios contraentes, superam-se assim dificuldades e incertezas várias, mormente de prova do dano e da sua extensão. Com efeito, em circunstâncias normais, e na ausência de qualquer cláusula penal, o credor, que pretenda ser indemnizado dos prejuízos resultantes da violação do contrato, terá de fazer prova, através da acção judicial competente, dos prejuízos sofridos. Existindo uma cláusula penal, contudo, o credor deixa de ter de fazer essa prova, sendo o montante da indemnização aquele em que as partes tiveram previamente acordado. Supera-se assim, com a estipulação de uma cláusula penal, a incerteza dos contraentes quanto à avaliação judicial da indemnização, conhecendo-se de antemão as

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195. mas teve de ceder perante as flagrantes injustiças a que. Esta argumentação foi utilizada. É certo que a fiscalização judicial da cláusula penal contende com algumas vantagens que esta figura apresenta. que esse montante se venha a revelar. Mas além desta importante função que a cláusula penal desempenha – liquidação prévia do dano. anular-se-iam as vantagens que a cláusula penal apresenta. assim. e não apenas de ser superior ao dano. neste caso. nos termos acordados pelas partes -. manifestamente excessivo. não pode minimizar-se uma outra. revestindo-se esta função de particular importância sobretudo tratando-se de obrigações de prestação de facto infungível ou de contratos em que o cumprimento rigoroso das obrigações assume particular significado. isto é. em termos de poder questionar-se se não ficarão assim comprometidas as sua funções de reforço da garantia de cumprimento do contrato e de certeza do montante da indemnização em caso de não cumprimento. culmina um movimento que de há muito vinha salientando a necessidade de combater cláusulas penais abusivas. 193. referindo-se a elas apenas no 800º nº2. na medida ajustada.Conceito e importância prática Cláusulas limitativas de responsabilidade: são estipulações através das quais os contraentes. a responsabilidade do devedor pelo não cumprimento. o devedor em caso de incumprimento devido a simples culpa leve). a cláusula penal constituirá um incentivo ao incumprimento tanto maior quanto mais elevado for o seu montante. porém. em termos equitativos. desde que antes da verificação do facto gerador de responsabilidade -. em certos casos. independentemente da desproporção existente. o mesmo sucedendo se a obrigação tiver sido parcialmente cumprida (812º). como forma de justificar a imutabilidade da pena. é. sobretudo quando a pena é de montante elevado. pois. para que esta figura está especialmente vocacionada: uma função sancionatória. visto que o código de Seabra estabelecia apenas que «se a obrigação foi cumprida em parte. de alguma forma. pode a pena ser modificada na parte proporcional». Só em casos excepcionais. acordam em limitar. ao tribunal a redução desse montante. nas circunstancias concretas. Aí se permite que a responsabilidade do devedor por actos dos representantes legais ou auxiliares possa ser convencionalmente excluída ou limitada. «desde Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 89 . cumprimento defeituoso ou mora das obrigações assumidas. Pode acontecer. visto que a possibilidade de reduzir a cláusula pena depende de o seu montante se mostrar manifestamente excessivo.Regime O CC não trata da disciplina das cláusulas limitativas e de exclusão de responsabilidade em termos claros e sistemáticos. ao fixar a doutrina do 812º. dolo e culpa grave. de ter em devida conta. no momento da celebração do contrato – ou posteriormente. fosse superior ao prejuízo efectivo.g. O legislador não deixou. se fosse permitida a redução da pena sempre que. durante algum tempo. (V)Cláusulas limitativas e de exclusão de responsabilidade civil 194. que o CC consagra. de pressão sobre o devedor em ordem à execução correcta do contrato. A limitação da responsabilidade verificar-se-á.Regime A cláusula penal é devida independentemente da extensão dos danos. que o tribunal poderá reduzir o montante da cláusula penal.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL consequências que advirão de um incumprimento do contrato e evitando-se litígios judiciais sobre o montante do dano. se não cumprir a obrigação. a fim de evitar abusos. pois doutra forma. quer condicionando-a a determinado grau de culpa (v. Sabendo o devedor a quantia que terá de entregar ao credor. o bem fundado de tal argumentação. todavia. permitindo-se. exonerando. A possibilidade de redução equitativa de pena manifestamente excessiva. mediante acordo prévio. esta situação conduzia. sendo o montante da indemnização aquele em que as partes tiverem antecipadamente acordado.. quer limitando-a no seu montante.

revogação. não de uma falta ou irregularidade dos elementos internos do negócio. mas da fixação de um limite máximo. existindo embora essa aparência. O mesmo sucede em muitos casos de ineficácia em sentido estrito. Estes dois últimos conceitos serão precisados adiante. a invalidade é apenas a ineficácia que provém de uma falta ou irregularidade dos elementos internos (essenciais. enquanto não for julgada procedente uma acção de anulação. pensamos não ser abrangida pela proibição constante do 809º. segundo o teor das declarações respectivas. pertencente a uma das partes. por causas intrínsecas ou extrínsecas. nesses elementos. Pelo contrário. produz os seus efeitos e é tratado como válido. (IV)Ineficácia e invalidade dos negócios jurídicos 198. Há. como nulo ou anulável. por impedimento decorrente do ordenamento jurídico. não se encontra na lei uma resposta clara e segura sobre o regime daquelas convenções. Invalidades mistas A distinção entre nulidade e anulabilidade corresponde. casos de cessação dos efeitos negociais – e. Na invalidade. porém. porém. a ausência de produção dos efeitos negociais resulta de vícios ou deficiências do negócio. entre eles. formativos) do negócio. de actos directamente praticados pelo próprio devedor. a valoração de um negócio. integra a situação complexa produtiva de efeitos jurídicos. a realidade não corresponde a tal noção. o negócio não deve produzir os efeitos a que tendia. Ineficácia stricto sensu e invalidade. A invalidade é uma espécie do género ineficácia: enquanto a ineficácia lato sensu compreende todas as hipóteses em que. 90 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . alguma anormalidade. no quadro conceitual e terminológico do CC. o de indemnização. quando nem sequer aparentemente se verifica o «corpus» de certo negócio jurídico (a materialidade correspondente à noção de tal negócio) ou. isto é. o direito potestativo de anular. coerentemente. conjuntamente com o negócio. Por outro lado. O negócio nulo não produz. no todo ou em parte. admite a lei. como vimos. desde o início. pressupõe. que o negócio exista. com consequências mais graves do que a nulidade e a anulabilidade. Quanto à cláusula limitativa de responsabilidade. portanto. esta cláusula não cabe na hipótese do 809º. a possibilidade de as partes fixarem por acordo o montante da indemnização exigível. contemporâneos da sua formação. figuras como a resolução. que se verifiquem os elementos correspondentes ao seu tipo. Outras formas de ineficácia em sentido lato A ineficácia em sentido amplo tem lugar sempre que um negócio não produz.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL que a exclusão ou limitação não compreenda actos que representem a violação de deveres impostos por normas de ordem pública». Surgem-nos com estas características. Tratando-se. na terminologia do CC à anterior distinção doutrinal entre nulidade absoluta e nulidade relativa. pelo menos. Noção. no 810º. Nulidade e anulabilidade. os efeitos do negócio são retroactivamente destruídos. mediante esta acção. pela circunstância de depender. Quanto à inexistência. os efeitos que tenderia a produzir. mas de alguma circunstância extrínseca que.Ineficacia dos negócios jurídicos (latu sensu). caducidade. afirma-se estarmos perante esta figura. exercido.Inexistência e invalidade (nulidade e anulabilidade) dos negócios jurídicos Inexistência e invalidade A inexistência é uma figura autónoma. O conceito de ineficácia em sentido estrito definir-se-á. 200. sem embargo de ocorrer. de ineficácia em sentido lato – por força de eventos posteriores ao momento da sua celebração. norma que impede o credor de renunciar antecipadamente a certos direitos. por força da falta ou vício de um elemento interno ou formativo. denúncia.

se a restituição em espécie não for possível. arguindo a anulabilidade de qualquer negócio jurídico que contra elas seja invocado (287º). considera-se que os efeitos visados não se produziram desde o início. o que está em perfeita coerência com a ideia de que a invalidade resulta de um vício intrínseco de negócio e. no tempo e forma devidos. nesta hipótese. nem sequer uma sentença judicial prévia. é um novo contrato.Regime das anulabilidades O negócio anulável é.Regime das nulidades a)Operam «ipso iure» ou «ipsa vi legis» Não se torna necessário intentar uma acção ou emitir uma declaração nesse sentido. nos contratos nulos. 204. c)São insanáveis pelo decurso do tempo Isto é. d)São sanáveis mediante confirmação (288º) A confirmação é um negócio unilateral pelo qual a pessoa com legitimidade para arguir a anulabilidade declara aprovar o negócio viciado. e podem ser declaradas «ex officio» pelo tribunal (286º). se o negócio não esta cumprido. Se for anulado. 202. d)São insanáveis mediante confirmação (288º «a contrario») Pode. A confirmação tem efeito retroactivo. Exigem uma acção especialmente destinada a esse efeito. Note-se. porém. A possibilidade da sua invocação perpétua pode. ser precludida. em princípio. Se não for anulado. c)São sanáveis pelo decurso do tempo O CC estabelece em prazo de um ano para a arguição das anulabilidades. restituindo-se tudo o que tiver sido prestado ou. a renovação. isto é.Efeitos da declaração de nulidade e da anulação 1)Operam retroactivamente (289º). pelos efeitos a que o negócio se dirigia (286º). quer por via de acção. portanto. (289º nº3). no aspecto prático. mesmo em relação a terceiros. a possibilidade de as pessoas legitimadas se defenderem. se a situação de facto foi actuada de acordo com os efeitos a que tendia o negócio. poderá vir-se requerer a anulação a todo o tempo. possa ter eficácia retroactiva nas relações «inter partes». Na hipótese dos actos afectados por ilegitimidades conjugais. São as seguintes as características das anulabilidades: a)Têm de ser invocadas pela pessoa dotada de legitimidade Não podem ser declaradas «ex. Resulta do 287º nº1 que só têm legitimidade para arguir a anulabilidade os titulares do interesse para cuja específica tutela a lei a estabeleceu. A confirmação é um negócio unilateral. pelo sujeito de qualquer relação jurídica afectada. apesar do vício. 2)Não obstante a retroactividade. na sua consistência jurídica ou prática. Há algumas diferenças entre a confirmação e a renovação. como nunca tendo tido lugar. b)Só podem ser invocadas por determinadas pessoas E não por quaisquer interessados. mesmo que o fundamento da nulidade tenha desaparecido. A confirmação não depende de forma especial e pode ser tácita ou expressa (288º nº3). b)São invocáveis por qualquer pessoa interessada Isto é.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 201. ter lugar aqui um sucedâneo da confirmação: a chamada renovação ou reiteração do negócio nulo. no prazo legal e pelas pessoas com legitimidade. o prazo é de três anos (1687º nº2). há lugar à aplicação das normas sobre a situação do possuidor de boa fé. officio» pelo juiz. 3)Em consonância com a retroactividade. porém. benfeitorias. tratado como válido. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 91 . quer por via de excepção. são invocáveis a todo o tempo (286º). pela verificação da usucapião (prescrição aquisitiva). em matéria de frutos. o valor correspondente (289º nº1). por estipulação «ad hoc». que a arguição da anulabilidade não está sujeita a qualquer prazo. haverá lugar à repristinação das coisas no estado anterior ao negócio. ressalvada a possibilidade da sua arguição por via de excepção. etc. Não se produzem os efeitos jurídicos a que o negócio tendia. encargos. todavia. contemporâneo da sua formação. a renovação opera «ex nunc». passa a ser definitivamente válido. embora.

Denúncia Entre as formas de pôr termo à eficácia de um negócio jurídico. ou actua automaticamente (nulidade). O fundamento material desta denunciabilidade «ad nutum» é a tutela da liberdade dos sujeitos que seria comprometida por um vínculo demasiadamente duradouro. com fundamento na lei ou em convenção das partes. bem como. c)A resolução nunca prejudica os direitos adquiridos por terceiro (435º). não carecida de justificação (uma nuda voluntas). a partir das suas manifestações legais. A revogação tem apenas a consequência de extinguir os efeitos do negócio para o futuro («ex nunc»). conduziria à oponibilidade da destruição dos efeitos do negócio em face de terceiros. No nosso sistema jurídico abrange este conceito uma série numerosa de situações em que as relações jurídicas duradouras de tipo obrigacional criadas pelo contrato ou pelo negócio (formando no seu conjunto a relação contratual) se extinguem para futuro por força do decurso do prazo estipulado. a invalidade. sem estas limitações. Caducidade A cessação dos efeitos negociais pode ter lugar.: morte de uma pessoa) a que a lei atribui efeito extintivo. a denúncia caracterizase especificamente por ser a faculdade existente na titularidade de um contratante de. 92 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Nela se manifesta uma pura e simples vontade. mas tal efeito não se verifica. um motivo particular. a invalidade tem efeito retroactivo «inter partes». por mútuo consentimento. seja um facto da contraparte (inadimplemento de uma obrigação). devemos assinalar: a)a sua causa é algo de objectivo. Pode ter lugar igualmente uma revogação dos contratos por comum acordo. seja um facto natural ou social («alteração anormal das circunstâncias»). b)actua automaticamente ou de pleno direito («ipso iure»). mediante mera declaração. extinguem a relação contratual existente entre eles. sem carácter retroactivo.A invalidade e outras formas de cessação dos efeitos negociais (resolução. a)A resolução pode fazer-se mediante declaração à outra parte (436º). fazer cessar uma relação contratual ou obrigacional em sentido amplo. emergente de um contrato bilateral ou plurilateral. salvo se o terceiro adquiriu o seu direito posteriormente ao registo da acção de resolução. se contrariar a vontade das partes ou a finalidade da resolução. levada às suas últimas consequências lógicas. Deve reconhecer-se. 206. da relação contratual. Revogação Nalguns casos a lei autoriza um dos sujeitos do negócio jurídico a revogá-lo. caducidade e denúncia) Resolução O CC admite a chamada resolução do contrato. revogação. do autor da denúncia. eventualmente com eficácia retroactiva «inter partes». resultando. efeito retroactivo entre as partes. «ex nunc». não opera retroactivamente. A resolução tem lugar em situações de variada natureza. a existência de um poder de denúncia sem uma específica causa justificativa. não dum vício da formação do contrato. a invalidade opera os seus efeitos em relação a terceiros. b)A resolução tem. em princípio. Se não se exige como pressuposto ou requisito da denúncia uma justa causa. mas dum facto posterior à sua celebração. normalmente um facto que vem iludir a legítima expectativa duma parte contratante. c)não tem carácter retroactivo. nos contratos de execução continuada ou periódica. ou implica uma acção judicial (anulabilidade). a que está vinculado. em princípio.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 4)A retroactividade da nulidade e da anulação. É o chamado extintivo ou abolitivo ou «contrarius consensus» (406º nº1). a denúncia diz-se ad nutum ou ad libitum. Tentando por em evidência traços específicos da caducidade. da consecução do fim visado ou de qualquer outro facto ou evento superveniente (ex. sob a forma da caducidade. nos contratos de duração ou por tempo indeterminado. Com este «contrarius consensus» as partes.

a este propósito. cujo resultado final económico-jurídico. objecto. a conversão exige a prova da vontade hipotética ou conjectural das partes. certos requisitos de admissibilidade.. que. sempre o teriam realizado na parte não directamente atingida pela invalidade. declarado nulo ou anulado totalmente um negócio. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 93 . o problema da conversão dos negócios jurídicos. 2)Exige-se que a vontade hipotética ou conjectural das partes seja no sentido da conversão. Se é de admitir que as partes. 208. Requisitos de admissibilidade A doutrina nacional e estrangeira é largamente favorável à conversão dos negócios jurídicos. não tendo lugar em caso de duvida. provavelmente.Formas de aproveitamento de negócios inválidos. necessários para a validade do negócio sucedâneo. Solução do problema Na doutrina propõe-se. sem atender à vontade hipotética. não poderá reconstituirse. prefeririam não realizar qualquer negócio. um outro negócio. Se se concluir que as partes. se soubessem que o negócio se opunha parcialmente a alguma disposição legal e não pudessem realizá-lo em termos de ser válido na sua integridade. o negócio deve valer na parte restante (não afectada) ou deve ser nulo ou anulável na sua totalidade.. no caso de um fundamento de invalidade ser relativo apenas (afectar apenas) uma parte do conteúdo negocial. embora mais precário. diversamente do que sucede com a redução dos negócios jurídicos. quando se imponha a conclusão de que as partes teriam querido o negócio sucedâneo se. a venda verbal de imóveis é inconvertível em promessa de compra e venda. Assim. onde são formulados requisitos coincidentes com os enunciados pela doutrina.Formas de aproveitamento de negócios inválidos. o critério da vontade hipotética ou conjectural das partes. Trata-se de averiguar aquilo que as partes teriam querido provavelmente. Trata-se de saber se. com os materiais do negócio totalmente inválido. não pudessem tê-lo celebrado sem essa deficiência. na hipótese de se terem apercebido do vício do negócio principal. Admissibilidade da conversão no nosso direito A conversão é genericamente regulada no 293º. exigindo. Só haverá conversão. «não uma vontade real. dado o 410º nº2. em geral. dados certos requisitos. vontade). deve ter lugar a redução do negócio. 3)É frequentemente exigido pela doutrina que o negócio sucedâneo diga respeito ao mesmo objecto material a que respeitava o negócio principal. mas a vontade como que fingida ou construida pelo juiz». a produção do mesmo fenómeno é. expressamente determinada em disposições particulares (conversão «ope legis»): 946 nº2 (conversão legal das doações por morte em disposições testamentárias). este não produzirá quaisquer efeitos negociais ou se. nessa hipótese. se aproxime do tido em vista pelas partes com a celebração do contrato totalmente inválido. Para além desta norma (293º) que resolve. O problema da conversão dos negócios jurídicos Os termos do problema Trata-se de saber se. predominantemente. O problema da redução dos negócios jurídicos Posição do problema O problema da redução dos negócios jurídicos insere-se na disciplina dos efeitos das nulidades e anulabilidades pessoais. todavia.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 207. deve concluir-se pela invalidade total. Esses requisitos são os seguintes: 1)É necessário que o negócio inválido contenha os requisitos essenciais de forma e substância (capacidade. Acentue-se.

que o prazo ordinário da prescrição é de vinte anos (309º). por interrompida. por último. para certas hipóteses. por serem fundadas numa presunção de cumprimento. e 323º ss. enquanto que a prescrição se interrompe pela citação ou notificação judicial de qualquer acto que exprima. em harmonia com o velho aforismo «dormientibus non succurit jus». O que explica. o torna indigno da tutela do Direito. se estas não tiverem sido feitas por causa não imputável ao requerente (323º). e não sobre o da caducidade. igualmente. ao contrário da prescrição que se suspende e interrompe nos casos previstos na lei (respectivamente 318º ss. os quais podem ser de seis meses (316º) ou de dois anos (317º). em relações jurídicas do mais diverso tipo. possam embora não lhe ser totalmente estranhas razões de justiça. Estas prescrições presuntivas. tendo-se. o qual é interrogável (300º). uma prescrição de cinco anos (310º). Assim: 1)Admitem-se estipulações convencionais sobre a caducidade (330º). de ofício (303º). em princípio. 5 dias depois de requerida a citação ou a notificação. prevendo a lei. em princípio. 3)A caducidade. podem. pela prática do acto (331º). que a caducidade seja apreciada oficiosamente pelo tribunal – ao contrário da prescrição. situações e acontecimentos que excluem a possibilidade de a falta de exercício do direito ser atribuída a inércia do titular – situações e acontecimento a que podem suspender ou interromper a prescrição. 4)Por último. a caducidade só é impedida. 2)A caducidade é apreciada oficiosamente pelo tribunal (333º).) Há importantes diferenças de regime entre a prescrição e a caducidade.g. é um instituto endereçado fundamentalmente à realização de objectivos de conveniência ou oportunidade. susceptível de influir. diversamente do que sucede com a prescrição. em muitos domínios do direito civil. a intenção de exercer o direito. ao contrário do regime geral da prescrição.). Os problemas mais importantes colocados pela repercussão do decurso do tempo no mundo dos efeitos jurídicos referem-se à prescrição extintiva e à caducidade. a prescrição arranca. bem como o facto de influírem sobre o prazo de prescrição.Prescrição extintiva e caducidade. ser ilididas por confissão do devedor (306º). Remissão O tempo é um facto jurídico não negocial. v. da ponderação de uma inércia negligente do titular do direito em exercitá-lo. Há prazos mais curtos para as chamadas prescrições presuntivas (que se fundam na «presunção de cumprimento» . o que faz presumir uma renúncia ou. De referir. que tem que ser invocada.312º). não comporta causas de suspensão nem de interrupção (328º). Diversamente da caducidade. directa ou indirectamente. mas não a caducidade.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL (III)Eficácia do decurso do tempo nas relações jurídicas 209.. 94 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . A prescrição extintiva. que tem que ser invocada -. o mesmo não acontecendo a respeito do regime da prescrição. não podendo o tribunal supri-la. pelo menos. (93. também. Na caducidade só o aspecto objectivo da certeza e segurança é tomado em conta.

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