TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL

Introdução 1.Âmbito da teoria geral do direito civil
Não se vai falar curar problemas específicos de direitos das coisa, de família, sucessões ou de crédito. Caracterizar figuras, equacionar problemas, formular soluções respeitantes a todo o domínio do direito civil ou, pelo menos, comum a normas e relações pertencentes a mais do que uma das referidas quatro partes especiais do direito civil. Teoria que visa reduzir algo amplo; tenta sintetizar. Apresenta um sistema de noções relacionadas entre si. Teoria da parte geral do direito civil; parte geral – pandectística.

2.Conteúdo da teoria geral do direito civil. Plano do curso
Impõe-se o conhecimento das fontes actuais do direito civil português. Fontes de direito civil: não tanto os modos de surgimento da regra, mas as próprias sedes onde se localiza o direito civil já nascido. Considera-se, então, os diplomas fundamentais do sistema de direito civíl português. É também essencial o conhecimento dos princípios básicos que formam a arquitectura do nosso sistema de direito civíl.

3.Divisão da teoria geral do direito civil: teoria geral do ordenamento jurídico civil e teoria geral da relação jurídica civil
Direito, em sentido objectivo: conjunto de princípios regulamentadores, de regras de conduta, de normas de disciplina social. Direito, em sentido subjectivo: sinónimo de poder ou faculdade. Teoria geral da norma jurídica: é a teoria geral do direito objectivo. Teoria geral da relação jurídica: é a teoria geral do direito subjectivo. A divisão da TGDC nestas duas partes é legítima porque utiliza como critérios de arrumação e referência dos problemas e soluções, duas categorias fundamentais do conhecimento do direito: - norma jurídica - relação jurídica A norma ou regra jurídica é uma dimensão fundamental do direito – é um veículo imprescindível da realização dos valores jurídicos. O direito visa realizar determinados valores, fundamentalmente a certeza desse disciplina e a segurança da vida dos homens, por um lado, e a «rectidão» ou «razoabilidade» das soluções, por outro. A realização da igualdade exige uma consideração normativa – geral – da realidade social a que o direito se aplica. A estatuição prescrita pelo direito para um situação deve ser aplicável às situações do mesmo tipo ou género. A existência de um direito recto e certo implica, pois, a sua formalização normativa, a formulação de prescrições gerais. O conceito de relação jurídica está na base da sistematização do nosso código civil. Estabelece-se uma parte geral que engloba as temas relevantes aos elementos comuns às outras quatro partes e estas, por sua vez, correspondem ao direito aplicável a quatro espécies ou modalidades diversas de relações jurídicas. Esta sistematização é conhecida por: sistematização germânica. Diverso era o plano francês. O direito não regula o homem isolado ou considerado em função das suas finalidades individuais, mas o homem no seu comportamento convivente. O direito pressupõe a vida dos homens uns com os outros e visa disciplinar os interesses contra postos nesse entrecruzar de actividades e interesses. Relação jurídica: ligação entre os homens, traduzida em poderes e vinculaçoes. Várias vozes têm formulado um veredicto anti-humano. O sujeito da relação jurídica são as pessoas colectivas. Tal ponto de vista dirige-se, pois, a um modo de arrumação, a uma forma de exposição, mais do que ao conteúdo das soluções expressas.

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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL

4.O direito civil como parte do direito privado
O direito civil é direito privado. Segundo um clássica distinção o direito divide-se em dois grandes ramos: - direito público - direito privado O direito civil constitui o direito privado geral.

5.Direito público e privado
privado. A teoria dos interesses é frequentemente referida para distinguir direito público do

Estaríamos perante uma norma de direito público: quando o fim dessa norma fosse a tutela de um interesse público, isto é, um interesse da colectividade; deparar-se-ia uma norma de direito privado: quando a norma visa tutelar ou satisfazer interesses individuais, isto é, interesses dos particulares. A este critério pode-se dirigir várias críticas: a) As normas de direito privado não se dirigem apenas à realização de interesses dos particulares, tenso em vista frequentemente, também, interesses públicos. Isso leva à intervenção pública. As normas de direito público, por sua vez, para além do interesse público visado, pretendem, também, dar adequada tutela a interesses dos particulares. Todas as normas, por cima dos interesses específicos e determinados que visam, miram um fundamental interesse público: o da realização do direito ou, se quisermos, da segurança e da rectidão. b) O critério apreciado só poderá tentar manter-se se procurar exprimir apenas uma nota tendencial: o direito público tutelaria predominantemente interesses da colectividade e o direito privado protegeria predominantemente interesses dos particulares. 1 – Não pode saber-se, em muitos casos, qual o interesse predominante. 2 – Há normas que, dado o lugar da sua inserção no sistema jurídico e dada a tradição e o desenvolvimento histórico do direito, são pacificamente classificadas como de direito privado e, todavia, visam predominantemente interesses públicos. O direito público: disciplina relações entre entidades que estão numa posição de supremacia e subordinação. O direito privado: regula relações entre entidades numa posição relativa de igualdade ou equivalência a) O direito público regula, por vezes, relações entre entidades numa relação de equivalência ou igualdade, como acontece com as relações entre autarquias locais. b) O direito privado disciplina, também, algumas vezes, situações onde existem posições relativas de supra-ordenação e infra-ordenação, como acontece com o poder paternal. Pode apenas dizer-se que a equivalência ou posição de igualdade dos sujeitos das relações jurídicas é normalmente característica da relação disciplinada pelo direito privado e a supremacia e subordinação característica normal da relação de direito público. A teoria dos sujeitos é hoje em dia o critério mais adequado, em virtude de assentar na qualidade dos sujeitos das relações jurídicas disciplinadas pelas normas a qualificar como de direito público ou privado. Segundo este critério o direito privado regula as relações jurídicas estabelecidas entre particulares ou entre particulares e o Estado ou outros entes públicos, mas intervindo o Estado ou esses entes públicos em veste particular, isto é, despidos de «imperium» ou poder soberano. É necessário, para se nos deparar uma norma de direito público, que pelo menos um dos sujeitos da relação disciplinada seja um ente titular de «imperium», de autoridade, que intervenha nessa veste. Os dois sectores não se separam de forma tão absoluta e completa.

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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL No domínio do direito do trabalho é discutido onde deve passar a linha divisória. O direito do trabalho contém normas de direito público (ex.: regras sobre intervenção administrativa na disciplina colectiva das relações de trabalho; as normas do chamado direito da previdência social), e normas de direito privado (ex.: normas reguladoras do contrato individual de trabalho)

6.Alcance prático da distinção entre direito público e privado
A divisão efectuada e a exacta integração de cada norma na categoria correspondente, revestem interesse no próprio plano de aplicação do direito. A distinção entre direito público e privado vai muitas vezes determinar as vias judiciais a que o particular que se considera lesado pelo Estado ou por uma autarquia local deve recorrer ou vice-versa. Se o particular tem uma pretensão contra o Estado ou contra um ente público, há que averiguar, se a relação jurídica donde essa pretensão deriva é uma relação de direito público ou privado. As acções entre particulares ou entre um ente particular e o Estado ou outra pessoa colectiva pública derivadas duma relação de direito privado devem ser propostas nos tribunais judiciais. Quando o assunto entre particulares e entes públicos ou entre estes diz respeito a relações jurídicas de direito público ou a efeitos jurídicos com elas conexionadas são competentes os tribunais administrativos. A responsabilidade civil, isto é, a obrigação de indemnizar os prejuízos sofridos, decorrente de uma actividade de órgãos, agentes ou representantes do Estado está sujeita a um regime diverso, consoante os danos são causados no exercício de uma actividade de gestão pública ou privada. Se os danos resultam de uma actividade de gestão pública, os pedidos de indemnização feitos à administração são apreciados por tribunais administrativos. Se os danos resultam de uma actividade de gestão privada, os pedidos de indemnização contra a administração central ou local, são deduzidos perante os tribunais judiciais. Actividade de gestão pública: é a actividade da administração disciplinada pelo direito público. Actividade de gestão privada: é a que é regida pelo direito privado.

7.O direito civil como direito privado comum. O direito comercial e do trabalho. A autonomia de outros ramos do direito.
O direito civil constitui o núcleo fundamental do direito privado. Constituir o núcleo fundamental do direito privado não significa ser todo o direito privado, mas apenas o direito privado comum ou geral. Historicamente, o direito privado confunde-se com direito civil, regendo este, sem restrições, todas as relações jurídicas entre sujeitos privados. O desenvolvimento da sociedade fez surgir ou acentuou necessidades específicas de determinados sectores da vida dos homens. Daí que fossem surgindo regras especiais para esses sectores particulares, estatuindo, para os domínios respectivos, regimes diversos dos que se aplicam à generalidade das relações jurídico-privadas do mesmo tipo. Essas normas especiais, em dado momento, passaram a compendiar-se. Dentro do direito privado surgiram assim, por especialização relativamente às normas do direito civil, ramos autónomos de direito. Esses ramos autónomos são: - direito comercial - direito trabalho Estes são direito privado especial, enquanto o direito civil é direito privado comum. O direito comercial e o direito do trabalho dão às particulares relações jurídicoprivadas a que se aplicam, uma disciplina diferente da que o direito civil dá às relações jurídicoprivadas em geral. Neste domínio das relações patrimoniais ligadas ao comércio ou à actividade laboral, se aplicam, todavia, por força do referido caracter subsidiário do direito civil, muitas normas gerais que assim cobrem todo o domínio do direito privado.

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a teoria geral do direito civil seja uma teoria geral do direito privado O direito comercial: disciplina os actos de comércio. O direito do trabalho: na sua parte privatística. contrato entre o trabalhador e a entidade patronal. É executado por força de um contrato de trabalho. decorre a disciplina especial. o crescimento das empresas. Outra ideia caracterizadora do sentido do direito civil é a de que este se encontra directamente ao serviço da plena realização da pessoa na sua vida com as outras pessoas.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Daí que. se possa dizer ser o direito civil um direito privado comum e subsidiário dos ramos autónomos jurídico-privados. das suas especificidades. Como actos de comércio considera o código comercial certos tipos que descreve. a igualdade. A disciplina das relações de trabalho tem. com propriedade. A entidade patronal estaria normalmente em posição da impor ao trabalhador condições inaceitáveis. efeitos e extinção. relativamente ao direito civil. formulador de normas imperativas ou reconhecedor de convenções colectivas de trabalho. o desenvolvimento industrial e comercial posterior. o 4 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . negociadas a nível de classes organizadas e não dos indivíduos. a concentração operária vieram a determinar uma profunda modificação neste domínio. disciplina directamente o trabalho subordinado prestado a outrem. bem como os actos dos comerciantes conexionados com o seu comércio. Tutela os interesses dos homens em relação com outros homens. Daí que. etc. O direito civil contém a disciplina positiva da actividade de convivência da pessoa humana com as outras pessoas. Esta disciplina recta da vida do homem é realizada pelo direito civil numa perspectiva de autonomia da pessoa do desenvolvimento da sua personalidade. condições que este se veria obrigado a aceitar por a sua sobrevivência depender necessariamente da alienação da sua força de trabalho. O direito comercial e o do trabalho regulam certos actos e relações jurídicas em termos especiais. sejam ou não comerciantes as pessoas que nele intervêm. ainda que não se integrem nos tipos correspondentes aos actos objectivamente comerciais. Eis porque no domínio laboral se veio a verificar um rigoroso intervencionismo estatal. com propriedade. 8. A organização estadual proporciona ao particular meios eficazes e indispensáveis para o pleno desenvolvimento na sua personalidade e quanto ao exercício desses meios. em ordem a dar satisfação a exigências do tipo indicado. Tem essa função enquanto está construído à volta da ideia de autonomia da pessoa e a autonomia é condição básica da personalidade. tratando o trabalho como qualquer outra prestação. a disciplina da vida quotidiana do homem comum. à situação social dos trabalhadores. diversos de regulamentação que o direito civil dá aos negócios jurídicos patrimoniais em geral. Esta autonomia. A actividade laboral. de se afastar do regime geral dos contratos. essa especialidade decorre das particulares necessidades que a zona de vida respectiva se fazem sentir. quanto à sua constituição. poder de autodeterminação nas relações com as outras pessoas. supõe necessariamente a igualdade ou paridade de situação jurídica dos sujeitos. à formação profissional. em maior ou menor escala. Enquanto o código civil de 1867 regulava o contrato de trabalho nos termos gerais dos contratos. As necessidades próprias do comércio. A autonomia é uma ideia fundamental do direito civil. O direito comercial é identificado pelos autores como uma disciplina de formas e mecanismos jurídicos cuja génese visa servir as finalidades das empresas. prende-se com importantíssimos problemas e interesses ligados à vida económica da colectividade. que é proporcionada pelo direito comercial.Sentido do direito civil: a autonomia da pessoa.

impondo ao infractor dos seus comandos. Seria exagerado dizer que só o direito civil é o direito da pessoa. numa visão personalista.: a faculdade de poder obter tratamento hospitalar. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 5 . Estas disposições iniciais regulam a matéria das fontes de direito.Formas de surgimento das normas jurídicas civis Os modos de aparecimento das normas integradoras do ordenamento jurídico civil vêm indicados nos primeiros artigos do código civil. Os usos só valem quando a lei o determinar. O costume não é reconhecido como fonte de direito. a reacção do direito civil reforçada pelo direito criminal. Normas corporativas: disposições gerais e imperativas emanadas das entidades reconhecidas na CRP com a designação de organismos corporativos. emanada dos órgãos estaduais competentes segundo a CRP. Dispõe o artigo 1º do código civil que são fontes de direito: as leis e as normas corporativas. não se reconhecendo um direito consuetudinário vigente. Esta «concretização» da lei implica uma explicitação das suas virtualidades e um desenvolvimento e enriquecimento dela. são. estruturas instrumentais ao serviço da pessoa humana. frequentar escolas. Estas não são hoje fonte de direito. onde se manifestam apenas interesses dos particulares. com especial relevo comunitário. nem sequer como modo de integração de lacunas da lei. disciplina as relações sociais de pessoa para pessoa O direito civil disciplina substancialmente as relações de pessoa a pessoa e porque é um ordenamento jurídico.Sequência (pág. Estes meios de direito público. O código civil refere-se igualmente aos usos conformes aos princípios de boa fé. Não pode esquecer-se ser fundamentalmente a vida das pessoas. uma convivência com outras pessoas humanas. que o direito visa facilitar ou melhorar. embora integrada no quadro ou no sistema legal. a necessidade de reconstituir os interesses da pessoa lesada. isto é. precisando-a e concretizando-a. isto é. lesa o interesse social com certa intensidade. A tutela é operada. não se exige a consciência da obrigatoriedade dos referidos usos por parte dos que o adoptam. que visa precisamente assegurar a autonomia e a realização da personalidade no plano das relações com as outras pessoas. além do prejuízo causado à pessoa. dar vida à norma legal. tutela coercitivamente os interesses das pessoas. 9.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL particular encontra-se em situação de plena autonomia. Missão do julgador: cabe-lhe. A jurisprudência está igualmente excluída do quadro das fontes de direito. O direito civil situa-se no núcleo mais íntimo e fundamental da sociedade. Toda a sua aparelhagem visa criar condições que facilitem ou melhorem a realização da personalidade na vida dos homens. Esta tutela evidencia claramente estarmos no plano das relações de pessoa a pessoa. em face do caso concreto.45) PARTE I Teoria geral do ordenamento jurídico civil (I)Fontes do direito civil português 10. Ex. Lei: toda a disposição imperativa e geral de criação estadual. Quando um comportamento lesivo de outrem. ordenamento dirigido à protecção dos valores da colectividade.

sua interpretação e aplicação – 1º a 65º .da filiação – 1796º a 1972º .das sucessões em geral – 2024º a 2130º .da sucessão testamentária – 2179º a 2334º Este é o chamado sistema externo do código civil. O julgador considerará certos momentos racionais e denominadores objectivos.Diplomas fundamentais do direito civil português A lei é a fonte mais importante. que contém princípios fundamentais sobre família. é oportuna a definição de cada um desses tipos de relações. Correspondendo as 4 partes especiais do código civil aos 4 tipos de relações jurídicas.do direito de propriedade – 1302º a 1438º .das relações jurídicas – 66º a 396º LIVRO II – Direito das obrigações .dos alimentos – 2003º a 2020º LIVRO V – Direito das sucessões . na CRP princípios determinantes do conteúdo do direito civil português.do usufruto. É igualmente importante para o direito civil o artigo 36º. Assenta esta sistematização na classificação germânica das relações jurídicas de direito privado.da adopção – 1973º a 2002º .TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL O carácter constitutivo desta intervenção judicial é sobretudo importante no que se refere à aplicação aos casos da vida de conceitos indeterminados e cláusulas gerais em que aliás o código civil é fértil.das leis. Apesar do carácter concretizador da actividade do juiz não podemos atribuir à jurisprudência o carácter de fonte de direito.das servidões prediais – 1543º a 1575º LIVRO IV – Direito da família .dos contratos em especial – 874º a 1250º LIVRO III – Direito das coisas .do casamento – 1587º a 1795º .da enfiteuse – 1492º a 1523º . casamento e filiação. Este carácter constitutivo da intervenção judicial é ainda claramente manifestado no caso particular de certas cláusulas gerais.da posse – 1251º a 1301º .das obrigações em geral – 397º a 873º . 11. Como já foi dito o código civil de 1966 está sistematizado segundo a sistematização germânica. O sistema jurídico auto-limitou-se: criando meios de controlo dos resultados da aplicação das restantes normas. É que os resultados a que o julgador chegou só têm força vinculativa para o caso concreto a ser decidido.disposições gerais – 1576º a 1586º . É o caso do princípio do abuso de direito. fiscalizadoras ou sindicantes da aplicação das restantes normas do ordenamento jurídico.da sucessão legítima – 2131º a 2150º . Trata-se dum aspecto formal. Em conformidade com este plano o código civil divide-se da seguinte forma: LIVRO I – Parte geral . que é feita preceder de uma parte geral.do direito de superfície – 1524º a 1542º . O vértice de todo o ordenamento jurídico é constituído pelo direito constitucional. Seguramente que se encontrarão. uso e habitação – 1439º a 1490º . 6 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Nesta parte atende-se à disciplina das relações jurídicas em geral.da sucessão legitimária – 2151º a 2178º .

O seu mundo filosófico-cultural nítido é o individualismo. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 7 . um conjunto de disposições gerais. sob o ponto de vista do tipo de formulação legal adoptado.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Direito das obrigações: vínculos jurídicos por virtude dos quais uma pessoa fica adstrita para com outra à realização de uma prestação. 2 – formulação de conceitos gerais-abstractos: tipos de situações da vida. A atenuação desta desvantagem foi visada pelo legislador do código civil português introduzindo neste diploma legal cláusulas gerais para uma possibilidade de adaptação às várias situações da vida. Quanto à linguagem utilizada pelo código civil português de 1966. Com a entrada em vigor do código civil de 1966. 3 – formulação de directivas: o legislador recorre a linhas de orientação. Era um código onde se combinava o nosso direito tradicional. cessou a vigência do código de Seabra de 1867. por força das quais aquele sujeito adquire um poder directo e imediato sobre uma coisa. Dentro de algumas destas partes especiais encontra-se também. parentesco. Na sua original sistematização. Direito da família: relações emergentes do casamento. toma o indivíduo e a sua trajectória vital como critério de sistematização («visão antropocêntrica» . afinidade ou adopção.O código civil de 1966: características do tipo de formulações legais utilizado Um código civil pode corresponder a modelos diversos. traduzido em liberdade contratual e no respeito inflexível pelas convenções privadas. especializado. mas segundo uma ordenação que deve estar presente no espírito do julgador. esta é de carácter técnico. 12. O seu conteúdo reflecte influências do direito romano. Desta relação entre uma parte geral e as partes especiais resulta que as normas contidas no código não se dispõem segundo um mero alinhamento ou contiguidade. Este método possibilita um mais elevado grau de segurança e uma razoabilidade das soluções em geral mas pode levar o juiz a decisões menos rectas para o caso concreto. Contém um «direito de juristas». 14.O código civil português: as circunstâncias históricas da sua elaboração e a legislação anterior Os trabalhos dirigidos à elaboração do actual código civil português estenderam-se por cerca de 22 anos. Direito das sucessões: relações dirigidas a actuar a transmissão dos bens por morte do seu titular. expresso em linguagem de técnicos. Direitos reais: relações de um sujeito jurídico com todas as outras pessoas.O sistema do código civil de 1966: coordenação da parte geral e das partes especiais O sistema externo do código civil português assenta numa parte geral e em 4 partes especiais. 13. canónico. jusnaturalista setecentista e do liberalismo individualista. O código civil português adopta fundamentalmente o tipo de formulação mediante conceitos gerais-abstractos. Um autor alemão (LARENZ) distingue 3 tipos de formulação legal: 1 – formulação casuística: prevendo o maior número possível de situações da vida. com a doutrina dos nossos jurisconsultos oitocentistas.CABRAL DE MONCADA).

(II)Os princípios fundamentais do direito civil português (1)Introdução 15. Tal estipulação contraria o citado preceito constitucional. o juiz e os órgãos administrativos não devem aplicar normas inconstitucionais. nos termos do artigo 35º da CRP.: direito ao nome – artigo 72º do CC e 26º da CRP). Problemas de direito civil podem encontrar a sua solução numa norma que não é de direito civil. O princípio da igualdade que caracteriza. em termos gerais. matérias do direito privado comum. cujo conteúdo é preenchido com os valores constitucionalmente consagrados (ex. Ex.: ordem pública do artigo 280º do CC). O legislador deve emitir normas de direito civil não contrárias à CRP. Aplicação de normas constitucionais às relações entre particulares As normas de direito civil estão fundamentalmente contidas no código civil português de 1966. no domínio das convenções entre particulares. As 8 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . porém. Direito civil e direito constitucional. Os preceitos constitucionais na sua aplicação às relações de direito privado devem conciliar o seu alcance com o de certos princípios fundamentais do direito privado – eles próprios conformes à CRP. por não existir clausula geral ou conceito indeterminado adequado. a posição dos particulares em face do Estado. Parece conveniente e susceptível de conduzir a resultados mais razoáveis que a aplicação das normas constitucionais a actividades privadas se faça com referencia a instrumentos e regras próprios do direito civil. uma norma constitucional reconhecedora de um direito fundamental aplica-se independentemente da mediação de uma regra de direito privado (ex. não pode. A aplicação de normas constitucionais à actividade privada faz-se: a) através de normas de direito privado que reproduzem a seu conteúdo (ex. b) através de cláusulas gerais e conceitos indeterminados.As normas aplicáveis às relações de direito civil. embora se pudesse sustentar que esta protecção dos cidadãos já se encontrava guarida no artigo 17º e 80º do CC). Alguns diplomas avulsos regulam. c) em casos absolutamente excepcionais.: será nulo um contrato ou cláusula geral pela qual alguém se obrigue a professar ou a abandonar certa religião.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Durante a sua vigência foram publicados alguns diplomas que alteraram o regime de algumas matérias nele disciplinadas: a) Lei do divórcio – 1910 b) Leis da família – 1911 c) Estabelecimento do registo civil obrigatório – 1911 d) Concordata com a Santa Sé – 1940 Antes da entrada em vigor do código civil de 1867 o principal diploma do nosso direito civil identifica-se com as ordenações filipinas (1603). salvo se o tratamento desigual implica a violação de um direito de personalidade de outrem. mas de direito constitucional. O princípio da igualdade perante a lei parece impor necessariamente a inconstitucionalidade de quaisquer normas de direito civil que não sejam normas gerais.: a protecção contra o uso incorrecto da informática. igualmente. sobrepor-se à liberdade contratual.

fundações). determinado pelos dados sociológicos. Quer os princípios conformadores do nosso actual modelo de direito civil. A autonomia e a igualdade como seus pressupostos actuais A massa das normas jurídicas não é um conjunto desordenado de preceitos avulsos. sociedades. a sua susceptibilidade de direitos e obrigações.A existência de princípios básicos do direito civil. culturais e históricos que condicionam toda a organização da sociedade em cada momento e em cada lugar. Há uma ordenação dessas normas (a nível não apenas formal.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL normas aplicáveis a uma só situação ou a um conjunto de situações seriam normas inconstitucionais (ex. quer as normas que os aceitam e desenvolvem.: associações.: leis-medida. desprovidos de conexão uns com os outros. pessoas em sentido jurídico (ex. o penetram e são por ele desenvolvidos: I – o reconhecimento da pessoa e dos direitos de personalidade II – o princípio da liberdade contratual III – a responsabilidade civil IV – a concessão da personalidade jurídica às pessoas colectivas V – a propriedade privada VI – a família VII – o fenómeno sucessório (2)O reconhecimento da pessoa e dos direitos de personalidade 17. corresponde a uma condição indispensável da realização por cada homem dos seus fins ou interesses na vida com os outros. leis-providência. Bem se compreende que no nosso tempo não sofra discussão o reconhecimento dessa qualidade jurídica a todos os seres humanos. relações traduzidas em poderes (direitos) e deveres jurídicos «lato sensu». princípios ou instituições que fundamentam o nosso actual direito civil. Artigo 66º n.º 1 CC «Reconhece-se personalidade jurídica a todo o ser humano a partir do nascimento completo e com vida».: escravatura).O reconhecimento de um círculo de direitos de personalidade A susceptibilidade de direitos e obrigações implica a titularidade real e efectiva de alguns direitos e obrigações. 18. Podemos considerar 7 ideias. O princípio da igualdade impõe que o legislador não possa tratar arbitrariamente o essencialmente igual como desigual. Os seres humanos não são necessariamente. são elementos válidos numa dada circunstância espacial e temporal.O reconhecimento dos direito de personalidade jurídica de todos os seres humanos O direito só pode ser concebido. 16. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 9 . tendo como destinatário os seres humanos em convivência. A personalidade jurídica. mas substancial ou material). não brotou por espontânea geração no solo da vida social de hoje. que fundamenta e retrata sinteticamente o direito civil actual. Este quadro de princípios. Trata-se de um produto histórico. A aplicação do direito civil a essa convivência humana desencadeia uma teia de relações jurídicas entre os homens. leis-provisão ou leis individuais). nem o essencialmente desigual arbitrariamente como igual. Carácter histórico desses princípios de ordenação sistemática interna. do ponto de vista lógico. As pessoas em sentido jurídico não são necessariamente seres humanos (ex.

de actos pelos quais os particulares ditam a regulamentação das suas relações. desde logo. O direito protege os vários modos de ser físicos ou morais da personalidade. modificando-as. cujos efeitos são produzidos por força da manifestação de uma intenção e em coincidência com o teor declarado dessa intenção. Cabe ao direito civil uma função de protecção ou defesa dos direitos constituídos ao abrigo da sua função modeladora. na realização de negócios jurídicos. a sua saúde física. Os particulares podem estabelecer a ordenação das respectivas relações jurídicas. reserva sobre a intimidade da vida privada. de actos de vontade. Negócios jurídicos: os actos jurídicos. tendentes à produção de um resultado jurídico unitário. imagem. extinguindo-as e determinando o seu conteúdo. O negócio jurídico é um meio de actuação da autonomia privada. os negócios jurídicos agrupam-se em duas classes: . honra. A autonomia privada é uma ideia fundamental deste ramo do direito.A liberdade contratual manifestação da autonomia da vontade no domínio dos contratos A produção de efeitos jurídicos resulta principalmente. b) nos negócios unilaterais modificativos vigora também o princípio da tipicidade. A autonomia privada ou autonomia da vontade encontra os veículos da sua realização nos direitos subjectivos e na possibilidade de celebração de negócios jurídicos. liberdade física e psicológica. no tocante à actuação humana juridicamente relevante. podem todavia ser objecto de limitações voluntárias que não sejam contrárias aos princípios da ordem pública (artigo 81º). O negócio jurídico é uma manifestação do princípio da vontade ou princípio da autonomia privada subjacente a todo o direito privado. integridade física. Este autogoverno da sua esfera jurídica. (3)O princípio da liberdade contratual 19. que se impõem ao respeito de todos os outros. Só há negócio jurídico bilateral. incidindo sobre os vários modos de ser físicos ou morais da sua personalidade.negócios jurídicos unilaterais: perfaz-se com uma só declaração de vontade. Os direitos de personalidade incidem sobre: a vida da pessoa. que desencadeia uma punição estabelecida pelo código penal. manifesta-se. Este é um círculo de direitos necessários. Autonomia da vontade: o poder reconhecido aos particulares de auto-regulamentação dos seus interesses. 10 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . constituindo-as. quando uma parte formula e comunica uma declaração de vontade (proposta) e a outra manifesta a sua anuência (aceitação). Nos negócios unilaterais a autonomia da vontade está sujeita a muito maiores restrições do que nos contratos: a) os negócios unilaterais constitutivos de obrigações são apenas os que estiverem previstos na Lei (princípio da tipicidade). o seu nome. Os direitos de personalidade são irrenunciáveis. Uma importante classificação dos negócios jurídicos é a resultante do critério do número e modo de disposição das declarações de vontade que os integram.negócios jurídicos bilaterais: constituído por duas ou mais declarações de vontade convergentes. A violação de alguns desses aspectos da personalidade é até um facto ilícito criminal. Segundo ela. . um conteúdo mínimo e imprescindível da esfera jurídica de cada pessoa.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Direitos de personalidade: a pessoa é titular de um certo número de direitos absolutos. É também a autonomia privada que se manifesta no poder de livre exercício dos seus direitos ou de livre gozo dos seus bens pelos particulares. de autogoverno da sua esfera jurídica.

Simplesmente esta liberdade seria a de não satisfazer uma necessidade importante. b) são anuláveis em geral os chamados negócios usurários (artigo 282º. mediante adesão ao modelo ou impresso que lhe é apresentado. Restrições à liberdade de celebração dos contratos: a) na consagração de um dever jurídico de contratar. pelo que a recusa de contratar de uma das partes não impede a formação do contrato (ex. 1 – Liberdade de celebração dos contratos: consiste na faculdade de livremente realizar contratos ou recusar a sua celebração. contêm normas a que os contratos individuais. Uma importante limitação de ordem prática à liberdade de modelação do conteúdo contratual é a que se verifica nos chamados contratos de adesão. celebrados entre pessoas pertencentes às referidas categorias. Segundo tal princípio a ninguém pode ser impostos contratos contra a sua vontade ou aplicadas sanções por força de uma recusa de contratar nem a ninguém pode ser imposta a abstenção de contratar. celebrados a nível de categorias económicas ou profissionais. contudo. relativos aos deveres de prestação de serviços que impendem sobre os médicos). Da norma citada emerge. aludidas no artigo 405º. têm de obedecer (contratos normativos). o reconhecimento da liberdade de celebração ou conclusão dos contratos. ex. As partes podem: a) realizar contratos com as características dos contratos previstos e regulados na lei (contratos típicos). c) na sujeição do contrato a autorização de outrem.: x vale 1000. Eis algumas dessas restrições: a) submete-se o contrato aos requisitos do artigo 280º (são nulos os contratos contrários à lei.: cobrança de juros excessivos). Esta disposição legal consagra apenas a liberdade de modelação ou liberdade de fixação ou estipulação do conteúdo contratual.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 20. Teoricamente não há aqui restrições à liberdade de contratar.: estatuto da ordem dos médicos. 2 – Liberdade de modelação do conteúdo contratual: consiste na faculdade conferida aos contraentes de fixarem livremente o conteúdo dos contratos. b) na proibição de celebrar contratos com determinadas pessoas. A vende a B por 200. ou rejeita-as. Negócio de compra e venda + doação de 800). d) a lei reconhece e admite certos contratos-tipo que. não sendo possível modificar o ordenamento negocial apresentado. b) celebrar contratos nominados aos quais acrescentam as cláusulas que lhes aprouver eventualmente conjugando-se 2 ou mais contratos diferentes (contratos mistos = ex. à ordem pública a aos bons costumes). A liberdade de fixação ou modelação do conteúdo do contratos conhece também algumas restrições. Os contratos de adesão Artigo 405º do CC. Uma das partes formula unilateralmente as cláusulas negociais e a outra parte aceita as condições. e) alguns contratos em especial estão necessariamente sujeitos a determinadas normas imperativas.Aspectos contidos no princípio da liberdade contratual: a liberdade de conclusão ou celebração dos contratos e a liberdade de modelação do conteúdo contratual. pois os contratos de adesão Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 11 . c) a conduta das partes contratuais deve pautar-se pelo princípio da boa fé. c) concluir contratos diferentes dos contratos expressamente disciplinados na lei (contratos atípicos). eventualmente de uma autoridade pública.

impelido pela necessidade. há liberdade de celebração. O devedor não executa ou executa defeituosamente a prestação a que está adstrito. Nos contratos sucessórios.Domínio principal de aplicação da liberdade contratual: os contratos obrigacionais Nos contratos com eficácia real.Referência esquemática às principais disciplinados pelo direito das obrigações figuras e problemas O princípio da liberdade contratual tem no domínio dos contratos obrigacionais o seu campo de eleição.O princípio da liberdade contratual e o sistema económico e social. 22. isto é.109) (4)A responsabilidade civil 24. modificativos ou extintivos de direitos reais. a regra do nosso direito é a da proibição dos pactos sucessórios. Características gerais Na vida social os comportamentos adoptados por uma pessoa causam muitas vezes prejuízos a outrem. o enriquecimento sem causa (artigo 473º) e a responsabilidade civil (artigo 483º). um indivíduo destroi uma coisa de outrem.Noção. constitutivos. Liberdade contratual. mas a liberdade de fixação do conteúdo contratual sofre um importante restrição. isto é. podendo embora celebrar contratos inominados. mesmo que lhe sejam desfavoráveis ou pouco equitativas – daí a restrição factual à liberdade de contratar. não podem constituir direitos reais que se não integrem nos tipos previstos na lei (princípio da tipicidade). Vantagens dos contratos de adesão: racionalização e normalização da actividade contratual dirigida a um número elevado e indeterminado de clientes. perfilhação. Quanto à liberdade de fixação do conteúdo contratual ela está excluída no domínio dos contratos familiares pessoais. Considera como tais o contrato (artigo 405º). A sucessão voluntária resulta. 12 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . economia de mercado e economia planificada (pág.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL surgem normalmente em zona de comércio onde o fornecedor está em situação de monopólio ou quase monopólio. ou adopção são tipos contratuais rígidos. 23. aceite as condições elaboradas pela outra parte. Daí que o particular. de um negócio unilateral – o testamento. os factos jurídicos que dão origem ao vínculo obrigacional. quase sempre. os tribunais portugueses. não podendo ser modificados pelas partes. só se derrogando esta regra em casos limitadíssimos (artigo 1700º). com eficácia no domínio das relações de família. Obrigação ou direito de crédito: é o vínculo jurídico por virtude do qual uma pessoa fica adstrita para com outra à realização de uma prestação. o condutor de um veículo atropela um transeunte. 21. cujos efeitos estão preordenados na lei. O código civil regula as fontes das obrigações. como fez e continua a fazer a jurisprudência estrangeira. o negócio unilateral (artigo 457º). Na ausência de legislação específica. devem considerar nulas certas cláusulas abusivas contidas em contratos de adesão. há liberdade de celebração e liberdade de fixação do conteúdo. Os contraentes. há liberdade de concluir ou não o respectivo contrato – é o pensamento da autonomia que subjaz e enforma o direito civil. Quanto a este. Nos contratos familiares. a gestão de negócios (artigo 464º). salvo algumas restrições. O casamentos. isto é.

3 – Facto lesivo. O direito civil português manda atender também na fixação da indemnização aos danos não patrimoniais (danos morais) que. Responsabilidade criminal: visa satisfazer interesses da comunidade. insuficiente ou excessivamente onerosa. mereçam tutela do direito (artigo 496º n.º 1). o prejuízo imediato sofrido pelo lesado. não podem ser reintegrados mesmo por equivalente. mas pela de compensação. pela sua gravidade. compensá-lo mediante satisfações derivadas da utilização do dinheiro. a reposição do lesão na situação em que estaria sem o facto lesivo terá lugar mediante uma indemnização em dinheiro ou por equivalente (restituição por equivalente). tranquilidade. as vantagens que deixaram de entrar no património do lesado em consequência da lesão (artigo 564º n. ou seja. a atribuição de uma soma pecuniária correspondente legitima-se. isto é. através do surgimento da obrigação de indemnização. diligência ou perícia exigíveis para evitar o dano (negligência).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Deverá o prejuízo ficar a cargo da pessoa em cuja esfera jurídica ele foi produzido ou deverá antes impor-se a obrigação do seu ressarcimento à pessoa cujo comportamento provocou uma lesão na esfera de outrem? A responsabilidade civil depara-se-nos quando a lei impõe ao autor de certos factos ou ao beneficiário de certa actividade a obrigação de reparar os danos causados a outrem. A responsabilidade civil actua. . Esta tem precisamente em vista tornar indemne. mostrando-lhes como a sociedade reage ao crime (prevenção geral). Esta indemnização é a hipótese largamente maioritária. pois raramente o lesado ficará completamente indemnizado com a reconstituição natural. Esta reconstitução da situação inicial deve em principio ter lugar mediante uma reconstituição natural. Mas é possível contrabalançar o dano. isto é. ofendida pelo facto ilícito criminal. visa colocar a vítima na situação em que estaria sem a ocorrência do facto danoso. quer dizer. saúde. Quando a reconstituição natural for impossível. não pela ideia de indemnização ou reconstituição. A pena traduz-se: . com a finalidade de retribuir o mal causado à sociedade com a infracção (retribuição). Devem verificar-se outros pressupostos para o surgimento da responsabilidade civil: 1 – Necessário se torna que o facto seja ilícito.de intimidar as outras pessoas. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 13 . específica ou por equivalente. . Responsabilidade civil: dirige-se à restauração. e o lucro cessante.na produção de um mal a sofrer pelo agente criminoso. 2 – Nexo de causalidade entre facto e dano. Esta pode resultar da existência de uma intenção de causar um dano violando uma proibição (dolo) ou da omissão dos deveres de cuidado. violador de direitos subjectivos ou interesses alheios tutelados por uma disposição legal. Os interesses cuja lesão desencadeia um dano não patrimonial são infungíveis. reputação). Ao lado da responsabilidade civil deve considerar-se a responsabilidade criminal. No dano patrimonial estão compreendidos o dano emergente. liberdade. Responsabilidade civil: consiste na necessidade imposta pela lei a quem causa prejuízos a outrem de colocar o ofendido na situação em que estaria sem a lesão (artigo 483º e 562º). dos interesses individuais lesados. bem-estar. Estes danos não patrimoniais resultam da lesão de bens estranhos ao património do lesado (a integridade física.º 1). Culpa: reprovação ou censura da conduta desrespeitadora dos interesses tutelados pelo direito. honra. Não sendo estes prejuízos avaliáveis em dinheiro. sem dano o lesado.de impedir o próprio infractor de cometer novas infracções (prevenção especial). mesmo quando esta for possível.

A personalidade colectiva e os tipos de pessoas colectivas Ao lado da personalidade jurídica reconhecida a todas as pessoas singulares. Pretende-se em tais casos compensar o sacrifício de um interesse menos valorado na composição de um conflito teleológico. 14 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . tem 3 modalidades fundamentais: a) associações: colectividades de pessoas que não têm por fim o lucro económico dos associados. O nosso sistema jurídico admite.Responsabilidade contratual e extra-contratual. passagem forçada. A pessoa colectiva. O nosso sistema jurídico opta pela responsabilidade subjectiva. atribui personalidade jurídica às chamadas pessoas colectivas. b) substituir ao directamente lesado o autor não culposo do prejuízo. Ex. 26. pareceu excessivo não dar à pessoa sacrificada uma reparação. Se alguém. potenciando as suas possibilidades de lucro. assim se estimulando zelos e cuidados em impedi-los. porque uma prevalência absoluta e total do interesse oposto seria injusta. Responsabilidade extra-contratual: resulta da violação de um dever geral de abstenção contraposto a um direito absoluto. o nosso direito civil. também. Responsabilidade pelo risco é consagrada em algumas hipóteses especiais. verificados certos requisitos. Compreende-se a exigência da culpa como «conditio sine responsabilidade. Exs: responsabilidade emergente de certos casos de estado de necessidade. acidentes causados por veículos de circulação terrestre (503º). pelo risco e por actos lícitos. No núcleo da responsabilidade jurídica estará assim a ideia de responsabilidade moral. Pessoas colectivas: são colectividades de pessoas ou complexos patrimoniais organizados em vista de um fim comum ou colectivo a que o ordenamento jurídico atribui a qualidade de sujeitos de direitos. ibi incommoda»). Trata-se de domínios em que o homem tira partido de actividades que. é neutralizada pela paralisação de iniciativas que a ponderação das possibilidades de dano produzirá no homem em acção. importam um aumento de risco para os outros. Responsabilidade contratual: originada pela violação de um direito de crédito ou obrigação em sentido técnico.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 25. protegendo os bens dos indivíduos contra quaisquer lesões decorrentes da actividade de outrem. É essa a solução pelas razões seguintes: qua non» da a) a segurança que a responsabilidade objectiva confere às potenciais vítimas de danos. alguns casos contados de responsabilidade por actos lícitos ou intervenções lícitas. com carácter excepcional. Esta pertence ao domínio da consciência e dos deveres do homem para consigo próprio. Apesar do carácter conforme ao direito da actuação do sujeito.: danos causados por animais (502º). criando para si uma possibilidade de lucro. em sentido lato. (5)A concessão de personalidade jurídica às pessoas colectivas 27. cria para os outros riscos acrescentados é justo por a cargo daquele a indemnização dos danos originados pelas suas actividades lucrativas («ubi commoda. c) exigir a culpa do sujeito é fazer apelo à liberdade moral do homem e é apresentar os danos como consequências evitáveis.Responsabilidade por actos ilícitos. danos causados por instalações de energia eléctrica ou gás (509º).

28. como uma exigência forçosa da dignidade da pessoa humana e do direito ao respeito inerente a todo o ser humano. uma forma. Mas. imposta pela natureza das coisas. A personalidade jurídica dos indivíduos: é imposta. A detenção. Enquanto as pessoas são fins em si mesmas.O problema do domínio sobre os bens como problema fundamental de uma sociedade No desenvolvimento da sua vida o homem serve-se das coisas. um operador para a polarização das relações jurídicas ligadas à realização de certo fim colectivo.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL b) fundações: complexos patrimoniais ou massas de bens afectados por uma liberalidade à prossecução de uma finalidade estabelecida pelo fundador ou em harmonia com a sua vontade. Seria impossível a vida em comum.131) Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 15 . pelas concepções ético-jurídicas de tipo humanista hoje vigentes. utilizando-as para satisfazer as suas necessidade e para conseguir os seus fins. por absurdo. se o direito se desinteressasse. A personalidade jurídica das pessoas colectivas: é uma mecanismo técnico-jurídico – um modelo. as coisas são meios ao serviço dos fins das pessoas. Doutrina: Teoria da ficção: a lei. A criação de um autónomo centro de imputação das relações jurídicas ligadas à realização desses interesses permite uma mais fácil e eficaz consecução do escopo visado. de submeter os poderes dos homens sobre as coisas à sua disciplina. ao estabelecer a personalidade jurídica das pessoas colectivas. mas é a consequência. (6)A propriedade privada 29. c) sociedades: conjunto de pessoas que contribuem com bens ou serviços para o exercício de uma actividade económica dirigida à obtenção de lucros e à sua distribuição pelos sócios. Sendo os bens escassos em relação às necessidades sentidas pelo homem. O homem tem necessidades de se servir das coisas como condição da sua sobrevivência e do seu progresso. da existência de um organismo real. e procurando este subtrair-se ao império das necessidades. em ordem à realização de fins jurídicos. organizar os poderes dos homens sobre as coisas e o conteúdo das relações entre os homens a respeito das coisas. Teoria organicista: a personalidade jurídica não resulta de uma concessão discricionária do legislador.Natureza da personalidade colectiva A existência de pessoas colectivas resulta da existência de interesses humanos comuns. o poder de facto sobre as coisas não se impunha ao respeito das outras pessoas. A personalidade jurídicas das pessoas colectivas é uma criação do espírito humano no campo do direito.Fenomenologia da propriedade ao longo da história e no momento actual (pág. seria inevitável a luta pela sua apropriação. Teria que ser defendido com a força do seu titular. estaria a proceder como se as pessoas colectivas fossem pessoas singulares. Constitui missão fundamental do direito. 30. o uso e a disposição das coisas permite ao homem satisfazer necessidade fundamentais ou secundárias e potencia a sua possibilidade real de se propor determinadas finalidades e de escolher entre várias vias para a realização desses fins.

tornando-se necessária uma formulação certa.A família. Direitos reais limitados: toda uma série de direitos reais de conteúdo ou estrutura bem diversa e ao serviço de funções ou interesses de natureza diferenciada. ao formular a sua regulamentação da instituição familiar. em planos ou domínios da vida estranhos ao plano jurídico. facilita o fluente curso da vida familiar e permite. também o de apropriação dos frutos que a coisa produza. A disciplina da instituição familiar impõe. 16 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . aceita e considera. desde logo. O surgimento e a vida da família realizam-se e assentam numa série de comportamentos pessoais e realidades psicológicas e morais. como realidade natural e social. confiança. Não se limitam os poderes do proprietário senão através das concretas restrições pela lei impostas. Apesar da família na sua concreta e natural existência no seio da vida social conter uma ordenação íntima. (7)A família 33. solidariedade.: usufruto. em situações de crise. psicológica e moral se manifesta. precisa e completa do regime jurídico correspondente. hipoteca. atentas as seguintes razões: a) a ordenação concreta e institucional da família. superfícies. completa. Direitos reais de gozo: aqueles que conferem um poder de utilização.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 31. cuja existência material. Direitos reais de aquisição: conferem a um determinado indivíduo a possibilidade de se apropriar de uma coisa. total ou parcial. b) a consagração legislativa de um regime. vida em comum. vinca mais vivamente o sentimento dos deveres e direitos dos membros da família. perante o direito legislado Família: realidade natural e social. por vezes.º 1 da CRP.: penhor. reconstitui-se a plenitude da propriedade sobre ela. uso.Os direitos reais limitados A propriedade é o direito real máximo. de adquirir uma coisa. tanto quanto possível. Ex. habitação. O direito da propriedade é dotado de uma certa elasticidade – extinto um direito real que limite a propriedade da coisa. lealdade. Ex. de comportamentos: amor. duma coisa e. Ex. amizade. disciplinar com justiça e certeza a posição dos sujeitos. mesmo que aceite pelo legislador. não contém uma disciplina de todos os problemas respectivos em termos acabados e categóricos. que o direito reconhece.Características do direito de propriedade no nosso sistema jurídico A tutela constitucional da propriedade privada está expressamente consagrada no artigo 62º n. o de conteúdo pleno e polimórfico. O proprietário tem poderes indeterminados. Não conferem a plenitude dos poderes sobre uma coisa. A sua qualificação como um direito perpétuo não o deixa poder extinguir-se pelo não 32. Direitos reais de garantia: conferem o poder de um credor obter o pagamento da dívida de que é titular activo. uso. São direitos sobre coisa alheia. estabelecendo sobre este o manto de uma disciplina. servidões prediais. c) pode o Estado visar uma modificação da disciplina da família para um sentido diverso do correspondente ao direito vivido espontaneamente na realidade social. não pode a lei deixar de considerar essa realidade e esse mundo de relações.

Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 17 . e que assegura a permanência e coesão do agregado familiar. Razões de relevante conveniência social tornam contra-indicado um regime de extinção de todas as relações jurídicas no momento da morte do seu titular.O destino das relações jurídicas após a morte do seu titular Põe-se em qualquer comunidade o problema de saber qual o destino das relações jurídicas existentes na titularidade de uma pessoa singular após a morte desta. quanto à disciplina de acto matrimonial. isto é. Artigo 2133º a) cônjuge e descendentes b) cônjuge e ascendentes c) irmãos e seus descendentes d) outros colaterais até ao quarto grau e) Estado Sucessão legitimária: consiste no chamamento dos herdeiros legitimários à sucessão na chamada legítima. Fenómeno sucessório: é o chamamento de uma ou mais pessoas à titularidade das relações patrimoniais de uma pessoa falecida e a consequente devolução dos bens que a esta pertenciam. mesmo para além da morte. o prejuízo dos credores por morte do devedor e a vacatura ou a aquisição pelo Estado dos bens do falecido.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL O direito da família é caracterizado por uma acentuado predomínio de normas imperativas. Sucessão testamentária: consiste no chamamento à sucessão dos herdeiros designados em testamento. As justificações apresentadas para a sucessão legitimária são as que ressaltam da descrição das duas linhas evolutivas: a) a conservação na família de um património. O chamamento faz-se por ordem de classes sucessíveis. implicando a exoneração dos devedores à morte do seu credor. no todo ou em parte. continua a verificar-se. por ser destinada por lei aos referidos herdeiros. numa porção de bens que o testador não pode dispor. uma fonte de riscos para os credores. uma causa de litígios e perturbação da paz social. uma coexistência da ordem jurídica estadual e da canónica. Tal regime. É um direito institucional. para que todos em maior ou menor medida concorreram.Referência sumária ao direito da família português Ao direito da família continua a dedicar o código civil um livro – o livro IV. Na ordem jurídica portuguesa. b) cumprimento do dever moral de assistência recíproca entre familiares. 34. dos seus bens. 36. isto é.Referência sumária ao direito sucessório português Sucessão legítima: consiste no chamamento dos herdeiros legítimos à sucessão. seria um contra-estímulo às actividades e iniciativas de caracter patrimonial das pessoas. preferindo dentro de cada classe os parentes de grau mais próximo aos de grau mais afastado. num acto unilateral e revogável pelo qual um indivíduo dispõe de todos os seus bens ou parte deles para depois da morte. (8)O fenómeno sucessório ou sucessão por morte 35. por o autor da sucessão não ter disposto válida e eficazmente. A transmissão das relações jurídicas patrimoniais para outra pessoa por força da morte do seu titular é reconhecida pelos sistemas jurídicos na actualidade e ao longo da historia.

o direito subjectivo identifica-se com o interesse visado. a sua efectivação pode fazer-se através de uma garantia (ex. O direito subjectivo está dependente da vontade do seu titular. Em termos funcionais. Abuso de direito Extrema ratio da verificação da ilicitude. Para a doutrina em geral o abuso de direito: é quando alguém usa o direito de forma clamorosamente injusta. portanto. incidirá normalmente sobre um objecto. Este aspecto funcional repercute-se na estrutura do direito. 38. só de per si ou integrado por um acto livre de autoridade pública. Preliminares 37.Conceito de relação jurídica Em sentido amplo: é toda a relação da vida social relevante para o direito. disciplinada pelo direito. Esta forma “clamorosamente injusta” é identificada por um controlo extra-jurídico feito através dos tribunais. ORLANDO DE CARVALHO não concorda e defende que abuso de direito: é quando um direito está a ser usado por um sujeito para causar prejuízo a outro sujeito.Estrutura da relação jurídica (enunciado geral) Toda a relação jurídica existe entre sujeitos.: providências coercitivas). adoptado pelo direito. ligadas por uma afinidade. 18 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . isto é. Em sentido restrito ou técnico: é a relação da vida social disciplinada pelo direito. Última hipótese de averiguar se o acto é ilícito. O direito subjectivo engloba duas modalidade fundamentais: a) os direitos subjectivos propriamente ditos: consiste no poder de exigir ou pretender de outrem um determinado comportamento positivo ou negativo. Quer dizer: a consideração exclusiva do aspecto estrutural não nos evidencia a razão de certas diferenças. promana de um facto jurídico. pois não se trata de poderes de livremente exigir um comportamento.Estrutura da relação jurídica (cont. normalmente a de estarem integradas no mesmo mecanismo jurídico ou ao serviço da mesma função. Direito subjectivo (em sentido amplo): «mecanismo de regulamentação. Uma situação de abuso de direito: verifica-se quando há desconformidade entre imagem estrutural do direito e entre a função atribuída ao direito. produzir determinados efeitos jurídicos que inevitavelmente se impõem a outra pessoa. Isto faz com que desapareça a liberdade característica do direito subjectivo. produtiva de efeitos jurídicos e. Instituto jurídico: conjunto de normas legais que estabelecem a disciplina de uma série de relações jurídicas em sentido abstracto. reflectindo o elemento funcional. mediante atribuição a uma pessoa de um direito subjectivo e a imposição a outra pessoa de um dever jurídico ou de uma sujeição. mas evidencia as diferenças.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL PARTE II Teoria geral da relação jurídica. 39. que consiste na concreta situação de poder que faculta a uma pessoa em sentido jurídico intervir autonomamente na esfera jurídica de outrem». mas de poderes-deveres.): direitos subjectivos propriamente ditos e potestativos Direito subjectivo: poder jurídico (reconhecido pela ordem jurídica a uma pessoa) de livremente exigir ou pretender de outrem um comportamento positivo ou negativo ou de por um acto de livre vontade.

b) Atende-se a relações intrínsecas ou extrínsecas relacionadas com certos estados em que as pessoas de encontram.direitos da pessoa: direitos de personalidade.direitos de crédito: trata-se/impõem a pessoas certas e determinadas.: direitos de personalidade. . Tipos de direitos subjectivos (lado activo) .: crédito).natos: adquirem-se quando o sujeito faz algo que é tutelável pelo direito. reais. . de crédito. .absoluto: imposto à colectividade.relativo: imposto a pessoas certas e determinadas (ex. família.: só se tem direitos de pai se se tiver um filho . pode obter dos tribunais e autoridades subordinadas a estes providências coercitivas aptas a satisfazer o seu interesse.disponível: pode transferir (ex. o objecto do direito é a própria pessoa titular do direito de personalidade.Critério institucional . Excepção: direitos sobre outras pessoas.: direito de autor ou ao nome. Ex. recorrendo à autoridade pública.: direito de propriedade).não essenciais: c) Atende-se à natureza dos bens em jogo . impõe “erga omnes” (ex.essenciais: a pessoa não pode ser privada desses direitos sem se privar de certos estados. reais.direitos reais: incidem sobre coisas. . ser reposto.direito potestativo: inevitabilidade de consequências jurídicas que criam. a quem o direito se impõe . na situação lesada ou obter outras sanções. transferir para outra pessoa .indisponível: não pode transferir (ex. Ex.: direitos patrimoniais). Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 19 . . .inatos: existem desde o nascimento.Critério estrutural . Dever jurídico: é a necessidade de realizar o comportamento a que tem direito o titular activo da relação jurídica.direitos de personalidade: sobre a própria pessoa. d) Atende-se aos titulares passivos. potestativos. .pessoais: não é susceptível de ser transformado em dinheiro.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Contrapõe-se-lhe o dever jurídico da contraparte – um dever de «facere» ou de «non facere». e) Atende-se à possibilidade do sujeito se desligar do direito. Classificação dos direitos subjectivos: a) Atende-se à ligação intrínseca ou extrínseca entre pessoas .direitos subjectivos (sentido estrito) . Exs: direitos de crédito. . Ex. personalidade. . ao menos por equivalente. O titular do direito pode.patrimoniais: são susceptíveis de os bens em causa serem redutíveis a bem pecuniário.: direitos pessoais sobretudo essenciais). Poder de exigir ou pretender: se a contraparte não cumpre o dever jurídico a que está adstrita. poderes directos e imediatos sobre uma coisa.

Estrutura da relação jurídica (cont. Aqui. Ex.direitos das obrigações: direitos de crédito – para o tráfego de bens direitos potestativos – resolver/revogar negócio direitos reais de garantia direitos das coisas – tratam ordenação de domínios das coisas. em que está constituído o adversário do titular de um direito potestativo. trata-se de uma necessidade inelutável. só de per si ou integrado por uma decisão judicial. direitos potestativos: modificativo. embora modificada. b) os direitos potestativos: são poderes jurídicos de. Sujeição: situação de necessidade em que se encontra o adversário de ver produzir-se forçosamente uma consequência na sua esfera jurídica por mero efeito do exercício do direito pelo seu titular. tem a possibilidade prática de não cumprir. 40. Direitos absolutos: quando se impõem a todas as pessoas. o sujeito do dever.direitos sucessórios: sucessão mortis causa direito potestativo – a aceitação da herança direito crédito – dívidas da herança direitos reais – aquisição propriedade Tipos de direitos subjectivos (lado passivo em sentido estrito) . Exs: constituição da servidão de passagem em benefício do prédio encravado (1550º). . por um acto livre de vontade.sujeição a um determinado direito potestativo. c) direitos potestativos extintivos: tendem a produzir a extinção de uma relação jurídica existente. mesmo sem ou contra a vontade do proprietário do prédio confinante.direitos da família: que se desenvolvem em torno da instituição familiar. modificativas ou extintivas do exercício daquele direito.).: mudança de servidão para outro sítio. a) direitos potestativos constitutivos: produzem a constituição de uma relação jurídica. extintivo direitos de crédito: dos cônjuges direitos reais: bens do casamento .TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL . Ex.dever jurídico: necessidade de adoptar determinado comportamento. por um acto unilateral do seu titular. Faculdades jurídicas secundárias: «poderes ou faculdades que constituem manifestações ou irradiações de direitos subjectivos existentes». o dever jurídico e a sujeição O lado passivo da relação jurídica: traduz-se num dever jurídico ou numa sujeição. diversamente do dever jurídico. No dever jurídico.: o direito potestativo dirigido à constituição de uma servidão em beneficio de um prédio encravado. Sujeições: situação de necessidade inelutável. Faculdades jurídicas primárias: «faculdades ou poderes em que se desdobra o poder de autodeterminação e através dos quais a pessoa se transforma em sujeito de efectivas relações jurídicas civis». Direitos relativos: quando os deveres jurídicos impendem sobre uma ou mais pessoas determinadas. expondo-se embora a sanções. não pode deixar de produzir esse efeito. . b) direitos potestativos modificativos: tendem a produzir uma simples modificação numa relação jurídica existente e que continuará a existir. 20 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . O sujeitado não pode violar ou infringir a sua situação. de suportar na sua esfera jurídica as consequências constitutivas. produzir efeitos jurídicos que inelutavelmente se impõem à contraparte.

.Estrutura da relação jurídica: relação jurídica simples ou singular e complexa Relação jurídica complexa: uma série de direitos subjectivos e deveres ou sujeições conexionadas ou unificadas por um qualquer aspecto. esse quadro.singular: apenas uma pessoa ocupa o local de sujeito activo. a susceptibilidade de ser titular de relações jurídicas. Facto jurídico: é todo o facto produtivo de efeitos jurídicos. modos de ser da própria pessoa e outros direitos. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 21 . contra pólo do exercício de um direito potestativo. Tratando-se de relações emergentes de um contrato obrigacional.Elementos da relação jurídica: sujeitos. promover o seu transporte). Expectativa jurídica: a situação activa. O facto jurídico tem um papel condicionante do surgimento da relação. deveres laterais (ex. embalá-la. coisas corpóreas ou incorpóreas.plural: mais do que uma pessoa em qualquer dos lados. Objecto: é aquilo sobre que incide os poderes do titular da relação. juridicamente tutelada. numa posição recíproca de instrumentalidade e interdependência. Estes formam o conteúdo da relação jurídica. o vínculo respectivo. eventuais direitos a uma indemnização por força de um não cumprimento. . 42. própria das relações jurídicas. em ordem a obter satisfação do seu direito. correspondente a um estádio dum processo complexo e formação sucessiva de um direito. deveres acessórios (ex. objecto. direitos potestativos (ex. Podem ser objecto de relações jurídicas outras pessoas. v. São os titulares do direito subjectivo e das posições passivas correspondentes: dever jurídico ou sujeição.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Estado de sujeição: o sujeitado suporta as consequências de um direito. No ónus o onerado «precisa de». postas à disposição do titular activo de uma relação jurídica. é uma relação obrigacional em sentido amplo ou relação obrigacional complexa. em caso de infracção.plurilateral: várias frentes de interesses (ex. 41. Trata-se da possibilidade. O devedor do preço é simultaneamente credor da entrega da máquina e existem outros vínculos entre as partes do contrato. Ónus: necessidade de adopção de um comportamento para realização de um interesse próprio. é uma condição ou pressuposto da sua existência. facto jurídico e garantia Sujeitos: são as pessoas entre quem se estabelece o enlace.: o do vendedor de guardar a máquina.bilateral: apenas duas partes/pólos de interesses (ex. a relação formada entre comprador e vendedor de uma máquina não é só constituída pelo dever de pagar o preço e pelo correlativo direito ao preço.: contrato de sociedade). perspectiva estática .g.: de resolução ou modificação do contrato). de o seu titular activo por em movimento o aparelho sancionatório estadual para reintegrar a situação correspondente ao seu direito. Os sujeitos são pessoas pois a personalidade jurídica é precisamente a susceptibilidade de ser titular de direitos e de obrigações. ou para impedir uma violação receada. No dever jurídico o obrigado «deve».: contrato de arrendamento). .: o de informar sobre as condições do funcionamento da máquina).. Garantia: é o conjunto de providências coercitivas. Assim. Espécies de relações jurídicas.

ao activo tira-se o passivo. ficando em face dela em posição de dependência. é uma combinação horizontal. . igual ou menor que zero (0). nas pessoas humanas. Há uma combinação pertinencial necessária. se não se adoptar o comportamento. Património global: conjunto de relações jurídicas activas e passivas avaliáveis em dinheiro de que uma pessoa é titular. relações patrimoniais dependentes da filiação). nas pessoas stricto sensu -. extinguindo-se quando a relação creditícia se extingue. . .autónomas: não depende de outras relações jurídicas. uma pessoa). toda a pessoa tem esfera jurídica).complexas: situação mais vulgar. desenvolvendo uma estrutura de suprainfra-ordenação. hipoteca. abstraindo das obrigações. é maior. 22 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . activo (+). Combinações de relações jurídicas As relações jurídicas podem combinar-se entre si. Dependem do direito de crédito. pertencentes a uma pessoa. ou as relações intrassociais ou reais. tem um mínimo de relações jurídicas as relações inatas. é uma combinação vertical. privilégios creditórios e direitos de retenção). indefectível em todos os sujeitos ou pessoas em sentido jurídico: e a esfera jurídica. .: o ónus da prova recai sobre o lesante. É o caso das relações de garantia especial das obrigações (tanto pessoais: fiança e subfiança. todo o activo e passivo de determinada pessoa. o interesse não é satisfeito mas não há sanção sobre o onerado. que coenvolve todas as relações jurídicas activas e passivas que se centram num sujeito (como todo o sujeito.duradouras: têm como cerne os direitos de personalidade. normalmente) em que uma delas (a acessória) é meramente instrumental em ordem à outra (a principal). estrutura linear. desenhando uma estrutura circular ou esférica.: constituição de uma sociedade). Neste sentido.: casamento. Ex. Ónus: necessidade de adoptar determinado comportamento para alcançar determinado interesse. Duas combinações de relações jurídicas: a) Acessoriedade: combinação de relações jurídicas (duas. penhor.: doação). pelo facto de o ser. valor sempre maior ou igual a zero (0).instantâneas: esgotam-se num único momento temporal embora os seus efeitos se projectem para o futuro (ex. b) Pertinência: combinação de relações jurídicas através do seu ennucleamento comum em certo pólo (em regra. Património ilíquido: conjunto de direitos avaliáveis em dinheiro. Património líquido: saldo patrimonial. O património de cada 1 é um círculo mais pequeno dentro da grande esfera jurídica de cada um. que se localiza erradamente na teoria das coisas e dos objectos). . sendo nesta zona que devem localizar-se figuras que vulgarmente se deslocam para outras regiões (ex. Património: conjunto de relações jurídicas de carácter patrimonial.não autónomas: dependem de outras relações jurídicas (ex. registo predial não é obrigatório mas quem não o fizer tem desvantagens. passivo (-). como reais: consignação de rendimentos.: a noção de património. sem descontar o passivo.simples: aquela que pressupõe sujeito activo (com direito) e passivo (com dever). um facto jurídico que faz surgir à sua volta um enredo enorme (ex. Neste sentido.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL .

. de resto. Ex.especial: que se destina apenas a satisfazer certos encargos. Perspectiva dinâmica Processos fundamentais: . Por qualquer razão extingue-se o direito filial e o direito progenitor expande-se. Havendo aquisição não implica constituição. Aquisição derivada: pressupõe um direito do anterior titular (o mesmo ou outro mais amplo). unilateral ou contratualmente. em virtude da conhecida elasticidade ou força expansiva do direito de propriedade. Pode ser que não preexistisse à aquisição de qualquer direito dum anterior titular (ex. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 23 .: ocupação de coisas móveis abandonadas ou que nunca tiveram dono). Exemplos de aquisição de direitos derivada: . O objecto é o mesmo. direito que se extinguiu ou ficou limitado ou comprimido em virtude da aquisição. dois direitos sobre o mesmo objecto). recuperando assim. Apenas houve mudança de titular. Pode suceder também que preexistisse à aquisição o direito dum titular anterior. havendo entre os 2 fenómenos um nexo causal e não meramente cronológico. ainda que porventura sobre a base de um direito anterior. o caso normal. Na aquisição derivada intervém portanto uma relação entre o titular anterior e o novo. Não pode ser mais amplo que o anterior). B vê o seu direito de propriedade limitado embora continue a existir. É acompanhada da extinção subjectiva do direito do anterior titular ou da sua limitação ou compressão.constitutivas: adquire um direito ex novo mas o seu conteúdo cabe no direito anterior (A adquire direito de usufruto a B. . o direito não depende juridicamente/genericamente do facto anterior mas sim do facto aquisitivo.: A doa a B. contratual. depende do facto aquisitivo bem como do direito anterior (quanto à amplitude.translativas: um direito que se adquire coincide com o direito do anterior titular (A doa a B. B adquire um direito já constituído. Alguma doutrina considera que não há constituição de direitos sem aquisição. . pode versar também sobre direitos preexistentes. e tal é. B adquire o direito de A tal e qual).aquisição de direitos: pode-se ter por objecto direitos que surjam ex novo. sucessória. Exemplos de aquisição de direitos originária: 1318º .restitutivas: a hipótese de o titular de um direito real limitado se demitir dele.aquisição de móveis.geral: todo o património está afecto a obrigações. Mas o direito do adquirente não se filia no do titular anterior. A maior parte dos casos não implica constituição. Aquisição originária: um direito surge ex novo. Ou transmissão parcial do direito (A tem terreno de 1000 m2 e vende apenas 500 m2). O direito do adquirente será um direito novo da mesma natureza e conteúdo que o direito extinto. que mudam apenas de titular. a plenitude dos seus poderes. . o proprietário. volta a adquirir a dimensão inicial uma vez que deixa de estar reprimido.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Afectação: .constituição de direitos: trata-se sempre de direitos que surgem ex novo.

Este princípio caracterizador da aquisição derivada comporta. em particular os actos de que resulte a aquisição de direitos reais sobre os mesmos bens. Constituição de direitos: é o seu surgimento. quotas sociais). Aquisição de direitos: é a ligação de um direito a uma pessoa. 91. Por força destes institutos devem ser inscritos. os diversos actos inerentes a bens imóveis. embora Abel já não fosse o verdadeiro proprietário. a) dos institutos do registo predial. sendo o acto plenamente eficaz «inter partes». não podendo em regra ser maior que a deste direito (nemo plus juris in alium transferre potest quam ipse habet).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Espécies de relações jurídicas. Modalidades desta última Um direito é adquirido por uma pessoa quando esta se torna titular dele.: se Abel vendeu um prédio ou automóvel a Bia e de pois a Caca. Estas excepções significam que. A sucessão diz respeito também às dívidas e não só aos direitos. Sucessão: é o subingresso de uma pessoa na titularidade de todas as relações jurídicas ou determinada ou determinadas relações jurídicas de outrem. a extensão do direito adquirido depende apenas do facto ou título aquisitivo. Esses efeitos jurídicos consistem fundamentalmente numa aquisição. 24 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . verifica-se uma excepção ao princípio. pode obter um direito que não pertencia ao transmitente ou é mais amplo do que aqueles que pertenciam a este. O registo não é o meio de aquisição dos direitos. modificação ou extinção de relações jurídicas. 90. A consequência da falta de registo é a ineficácia do acto em relação a terceiros. do registo de automóveis e registos similares (aeronaves. mesmo na falta de registo. dado não existirem direitos sem sujeito.Conceito e modalidade de aquisição de direitos.Importância da distinção entre aquisição derivada e originária Na aquisição originária. Ex. Coincide com a aquisição derivada translativa. pois só nesta é que o direito adquirido é o mesmo do anterior titular. não obstante a aquisição ser derivada. modificação e extinção de relações jurídicas 89. Toda a constituição de um direito implica a sua aquisição. a extensão do direito do adquirente depende do conteúdo do facto aquisitivo. pois a sua venda a Bia é plenamente válida e eficaz «inter partes». se foi primeiramente registada. Impõe-se distinguir entre aquisição derivada e sucessão.Preliminares Os facto jurídicos desencadeiam determinados efeitos. navios. Noção de terceiros para efeitos de registo predial: são as pessoas que do mesmo autor ou transmitente adquiram direitos incompatíveis (total ou parcialmente) sobre o mesmo prédio. excepções. é a criação de um direito que não existia anteriormente. mas depende ainda da amplitude do direito do transmitente. segundo o qual na aquisição derivada o adquirente (C) não pode adquirir um direito. se este não existia na titularidade do transmitente (A). em livros existentes em repartições especiais (conservatórias no caso do registo predial e automóvel). Logo. em certas hipóteses. perspectiva estática (II)Aquisição. a veículos automóveis ou aos restantes bens indicados. Bia e Caca são terceiros entre si e prevalece a venda a Caca. Aquisição originária e derivada. seus herdeiros ou representantes. todavia. o adquirente. Na aquisição derivada. com o fim de lhes dar publicidade.

vender ou doar.». aquele que desconhecia e não tinha a obrigação de saber. O actual código civil estabelece (291º) um regime de inoponibilidade a terceiros de boa fé. Assim se realiza. um prédio a B e este o transmitiu a C. não produzem quaisquer efeitos. por acto verdadeiro. Para que um terceiro estar protegido é preciso a verificação de alguns requisitos: Existir um terceiro. o registo não garante que a pessoa inscrita como último adquirente o seja realmente. a protecção do terceiro de boa fé. No nosso caso. porém. O terceiro tem que estar de boa fé (que não se traduz no simples desconhecimento do negócio anterior (simulação). É preciso que tenham passado pelo menos 3 anos desde o negócio inválido sem que tenha sido intentada uma acção com vista à sua invalidade. O objecto do negócio tem que ser bem imóvel ou bem móvel sujeito a registo (ex. por força da invalidade do negócio donde resultaram os direitos do seu transmitente. C só regista se B o tiver feito e anteriormente A). apenas na hipótese de este ser invalidado nos 3 anos subsequentes à sua realização. Se o simulado adquirente dum prédio.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL b) da inoponibilidade da simulação a terceiros de boa fé. o mesmo prédio a um terceiro e este ignorar a simulação. ao invés do que prescreve o princípio «nemo plus juris. o terceiro adquire validamente esse objecto (243º). como tal. fé. adquirentes a título oneroso. o segundo seria também nulo e. adquirente «a non domino». portanto.. das nulidade e anulações de negócios respeitantes a imóveis ou moveis sujeitos a registo. sendo os direitos deste sacrificados. Mesmo assim.». peritos)/ conhecimento exacto sobre o que incidem os direitos. regista-se aquilo que se diz adquirir Sistema de registo constitutivo: para se adquirir o direito tem que se registar. É preciso que o registo seja anterior ao registo de acção de invalidade do negócio anterior.: veículos). se o contrato for válido o direito é adquirido independentemente do registo. declarado nulo ou anulado o primeiro acto.. através desta inovação do código de 1966. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 25 . Efeito automático: o registo da aquisição de um direito em nome próprio faz com que se pressuponha a titularidade do direito (mesmo assim trata-se de uma presunção ilidível). é o registo que cria o direito. de quem não era proprietário. está de má fé). por negócio nulo ou anulável. Em Portugal não há «registo de bens» mas sim «aquisições de direitos» sobre bens.. O registo não é obrigatório mas é um ónus. pressupõe meios (equipas técnicas. Daí que o registo seja facultativo. Sistema de registo declarativo: o direito adquire-se por mero efeito do contrato. Os negócios jurídicos simulados são nulos e. Princípio do trato sucessivo: um registo só pode ser feito havendo registo anterior do transmitente (A -> B -> C. consequentemente. O terceiro adquire. É preciso que esteja em causa a aquisição de um direito sujeito a registo. se A transmitiu. Que o negócio entre B e C seja oneroso (não doação). c) da eventual inoponibilidade das nulidades e anulabilidades a terceiro de boa Por força do princípio «nemo plus juris.. Por exigência da protecção da confiança dos terceiros e dos interesses do comércio jurídico. C devia restituir o prédio. Isto porque as nulidades e anulações operam em face de terceiros e não só em face da contraparte. a hipoteca (687º) é constitutivo. resulta uma excepção ao princípio geral da aquisição derivada: «nemo plus juris in alium transferre potest quam ipse habet». o que não sabia mas desconfiava. desde que a acção tendente à declaração de nulidade ou à anulação não seja proposta e registada dentro dos 3 anos posteriores à conclusão do negócio.

um direito inicialmente pertencente a dois sujeitos passa a pertencer a um único terceiro (A+B -> C). não são oponíveis a terceiros e a regra geral que vale no direito primeiramente adquirido é substituída pela regra da prevalência do primeiro registo. multiplicação e concentração. significa que o ordenamento jurídico continua a tratar o direito como se não tivesse tido lugar a alteração. A diz a cede a C o direito de ser ele a receber o dinheiro de B. pode ter lugar por sucessão «mortis causa». Extinção subjectiva: se o direito sobrevive em si. alterado ou mudado um elemento de um direito. Ocorre por vontade do titular do direito extinto. permanecendo este idêntico. Neste caso. permanecendo a identidade objectiva do direito. 93. Efeito central: aquisições sujeitas a registo. quer do lado passivo. surgindo então a assunção da dívida e pode referir-se à relação contratual. É o que se verifica quando a um sujeito se substituem vários. não registadas. O direito mudou de titularidade. mas subsiste na esfera jurídica de outrem. quer do lado activo. por último. A sucessão entre-vivos nas relações obrigacionais – substituição de sujeitos sem extinção da relação jurídica e surgimento de uma nova. mas antes com perduração da entidade do vínculo – pode ter lugar. Modificação objectiva: se na modificação do direito se muda o conteúdo ou o objecto do direito. Verifica-se também uma situação de substituição. B paga a dívida a C). ou contra a sua vontade. adjunção (um novo devedor assume a obrigação para com o credor. com a cessão de créditos e com a subrogação nos créditos (ex.Extinção de direitos A extinção de um direito tem lugar quando um direito deixa de existir na esfera jurídica de uma pessoa. permanece a identidade do referido direito. A modificação também pode surgir do lado activo sendo esta sempre subjectiva. Muda o objecto se ex. É o que se verifica nos direitos de crédito.: é concedida pelo credor ao devedor uma prorrogação do prazo para o cumprimento. a multiplicação pode ocorrer por: sucessão (A transmite o mesmo direito para B e C). permanecendo juntamente com o devedor inicial [assunção cumulativa]). Quebra-se a relação de pertinência entre um direito e a pessoa do seu titular. O direito é o mesmo e não um direito novo. e quanto a actos «inter vivos». existir uma situação de concentração.Modificação de direitos Tem lugar a modificação de direitos (do lado activo) quando. 26 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Também se pode falar de uma situação de multiplicação. apenas mudando a pessoa do seu titular. 92. A modificação subjectiva das relações jurídicas. Muda o conteúdo se ex. Neste caso. extinguiu-se para aquele sujeito.: A empresta dinheiro a B. do lado passivo. Tem lugar nesta hipótese uma situação de substituição. apesar da vicissitude ocorrida. sem a vontade do mesmo titular. normalmente através da cessão da posição contratual. isto é. A perduração do direito. o seu dever de prestar é substituído por um dever de indemnizar. também.: não cumprindo o devedor culposamente a obrigação. sem novação. apesar da modificação verificada. Pode. Modificação subjectiva: se na modificação do direito tem lugar uma substituição do respectivo titular. Só pode haver substituição do devedor se o credor aceitar.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Efeito lateral: outros que não o central e o automático (o facto de se registar produz determinados efeitos).

deixando de existir para o seu titular ou para qualquer pessoa. A sub-rogação real joga naturalmente (faz parte da fisiologia) num património (de liquidação). que se extinguiram pela sua morte. ou funciona de novo. É o que acontece se há destruição do objecto. direitos potestativos: arguir a nulidade do negócio. .Não uso (direitos reais sobre coisa alheia. No plano das combinações jurídicas: a sucessão num património (designadamente. abandono de um objecto. que. OS SUJEITOS DA RELAÇÃO JURÍDICA CIVIL Das pessoas humanas A subjectividade jurídica (a qualidade de quem é sujeito de direito) supõe no homem a personalidade jurídica. O beneficiário da prescrição.: 265ºn1. supõe a personalidade humana. É o que acontece com as aquisições derivadas translativas sujeitas a condição ou termo suspensivos. de um prédio por acções) e indirecta (a coisa é substituída por um preço e o preço por outra coisa: A vende a B um prédio e com o preço compra a C um automóvel). numa sociedade em dissolução. Extinção objectiva: existe se o direito desaparece. de superfície) Aquiescência: quando um RJ já funcionou em pleno.Decadência: quando o direito deixa de existir por a formação posterior de um direito incompatível. Este último caso pode ocorrer por: . Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 27 . completada esta. . na herança). direitos reais limitados ex.Prescrição: refere-se a direitos subjectivos em sentido estrito (ex.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL A extinção subjectiva ou perda de direitos verifica-se sempre que tem lugar um sucessão na titularidade dos direitos. Revivescência: quando na Pendência ou Aquiescência. Sucessor a título universal é o que sucede na totalidade ou numa quota parte ideal do património. mas por um obstáculo análogo deixa de ter o seu funcionamento normal. Aquiescência e Revivescência Pendência: quando uma relação jurídica plenamente formada não pode funcionar em pleno porque o sujeito activo ainda não existe ou não está ainda determinado. em pleno. ao fim de um ano extingue-se por caducidade. pode recusar o cumprimento da prestação ou opôr-se ao exercício do direito prescrito. ficando como que adormecida. Mas também é sucessão num património a adjudicação a um sócio ou terceiro. sucessão ou transmissão.Renúncia (abandono de uma situação de prevalência. 302). O fenómeno da sub-rogação real A sucessão num património tem o seu paradigma na sucessão mortis causa. É o caso das aquisições derivadas constitutivas (constituição de usufruto. da totalidade do património social ou de uma quota parte a líquota dele. Sub-rogação real: pode ser directa (a coisa é directamente substituída por outra: troca de um prédio por outro. Ex. .Caducidade: direito de accionar está em causa. o sucessor adquire ou subingressa na titularidade do direito e este extingue-se para o autor ou transmitente. Sucessos acidentais da vida da relação jurídica: Pendência.: servidão de passagem). o obstáculo cessa e a RJ funciona. pois o que interessa é manter o conjunto de valor (activo) que garante o passivo. Sucessão a título universal e sucessão e título particular. não exercício do direito. por seu turno.: direitos de crédito 304º). Não há aquisição derivada. . é o caso das RJ do ausente.

Só com personalidade humana há personalidade jurídica. o filho reputa-se concebido dentro dos primeiros 120 dias dos 300 que precedem o nascimento. Ao princípio de que a personalidade jurídica começa com o nascimento parece opor-se a situação jurídica dos nascituros. quer os que morrem durante o parto ou antes da secção do cordão umbilical. 3) Ilimitabilidade: a personalidade jurídica é tão ilimitada como a personalidade humana. Do que resultam os seguintes corolários: 1) Essencialidade: a personalidade é essencial.º1. Há personalidade jurídica quando existe (logo que existe e enquanto existe) personalidade humana. ou seja. mas de um posse concreto: de me ser reconhecida a possibilidade de ter o direito A ou o direito B. ou o numerus clausus dos direitos de personalidade. Todavia. reclama a Capacidade Jurídica: a susceptibilidade concreta de se ser titular de tais direitos e deveres.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL É porque o homem é pessoa – pessoa humana – que ele se reconhece como pessoa em sentido jurídico e. Exige-se além disso. é um posse necessário: ninguém é verdadeiramente pessoa jurídica se não tiver o estatuto permanente de sujeito de direito. dia 3/12/2002) (II)Pessoas singulares 47.º1 do 68º do CC. excluindo-se quer os nados-mortos. Quem nasce 300 dias depois da doação ou da morte do autor da herança reputa-se como não concebido. Posse abstracto: poder de ser abstractamente titular de direitos e obrigações.º1 – O nascimento entende-se como a separação do feto do ventre materno. 28 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Segundo o 1798º.º2). Trata-se já não de um posse abstracto. só na sucessão testamentária e contratual – 2033º n. de sujeito para sujeito de direito. Algo quantificável. a subjectividade jurídica constitui um posse. a personalidade cessa com a morte. constitui juridicamente um esse. como sujeito para o direito. logo. A personalidade jurídica é a projecção no direito (do normativo jurídico) da personalidade humana. A personalidade humana é um prius da personalidade jurídica. em qualquer espécie de sucessão – 2033º n. como susceptibilidade abstracta de se ser titular de direitos e obrigações. os não concebidos. Termo da personalidade a) A morte Nos termos do n. Capacidade de Exercício de direitos: a capacidade para intervir por si próprio ou através de representante voluntário. pois pressupõe a personalidade humana. quem nasce dentro desses 300 dias reputa-se como concebido. 2) Indissolubilidade: a personalidade jurídica é indissolúvel da personalidade humana. a quem a lei reconhece direitos. Realmente. não só aos já concebidos mas ainda aos não concebidos a lei faculta que se façam doações (952º) e que se defiram sucessões (os concebidos. Se a personalidade jurídica. (esquema caderno.Personalidade jurídica. A plenitude e a igualdade de direitos constituem a reivindicação número um que a personalidade formula actualmente ao Poder. como projecção da personalidade humana. O que involve a irrecusabilidade da personalidade jurídica. de teoricamente variável de pessoa para pessoa jurídica. de quem tem a susceptibilidade abstracta de ser titular de direitos e deveres. que seja com vida e completo. A subjectividade jurídica. A personalidade jurídica traduz-se em subjectividade jurídica. que é a qualidade de quem é “sujeito de direito”. existindo tanto e enquanto esta personalidade existir. mas porque existe a personalidade humana. A personalidade jurídica não é algo que subsista por si mesmo. Da personalidade 66º n. O que exclui as chamadas gradações de personalidade.

TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL No momento da morte.º3: «Tem-se por falecida a pessoa cujo cadáver não foi encontrado ou reconhecido. Suponhamos que num acidente de viação morre o casal juntamente com o filho A. a que se referem os artigos 89º a 121º. em vez de presunção de comoriência. consagram antes presunções de premoriência. na totalidade da herança dos pais sucede apenas o filho sobrevivo B. Julgada a justificação. especialmente no que concerne a efeitos sucessórios: não de verificarão fenómenos de transmissão entre os comorientes. pondo termo à personalidade e desencadeando efeitos jurídicos significativos. deve ser registado na repartição do registo civil da área onde ocorreu ou se encontra o cadáver. não coincide com o significado que vulgarmente se atribui a este vocábulo de simples não presença de alguém em certo local. provando-se que o filho A morreu algumas horas mais tarde. para o efeito de providenciar pelos bens da pessoa Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 29 . Já se considerarmos simultâneas apenas as mortes dos pais.º2 «quando certo efeito jurídico depender da sobrevivência de uma a outra pessoa. Neste caso parece deverem aplicar-se as regras da morte presumida (114º e segs. de mortes simultâneas) susceptível de prova em contrário – iuris tantum.: um casal tem 2 filhos.: afundamento de navio). quando o desaparecimento se tiver dado em circunstâncias que não permitam duvidar da morte dela». pressupõem um sentido técnico de «ausência». Qualquer falecimento. a cargo do Ministério Público. Por outro lado.). nos termos do 247º e 248º do código do registo civil. Ex. Há outras legislações que. extinguindo-se os de natureza pessoal e transmitindo-se para os sucessores mortis causa os de natureza patrimonial. Se considerarmos que as mortes foram simultâneas. O que está em causa é a transmissão do direito de compensação (atribuível pela ilícita supressão da vida) e não da transmissão do direito à vida. ANTUNES VARELA: vêem no 71º n. por não se encontrar ou não ser possível identificar o cadáver (ex. requerer-se-á a invalidade ou rectificação do assento de óbito. traduzido num desaparecimento sem notícias. presume-se em caso de dúvida.º3 textualmente prescreve a possibilidade de atender aos danos não patrimoniais sofridos pela vítima. O desaparecimento de uma pessoa nestas circunstâncias. nos termos do 299º e segs. onde o n. o conservador lavrará o respectivo assento de óbito. No direito inglês presume-se sempre a premoriência do mais velho. Consagra-se uma presunção de comoriência (isto é. É com este sentido técnico de não presença de alguém acompanhada da falta de notícias que o termo ausência é tomado.º1 («os direitos de personalidade gozam igualmente de protecção depois da morte do respectivo titular») um desvio à cessação da personalidade com a morte. as providências que a lei refere nos artigos citados. b) Presunção de comoriência Nos termos do 68º n. Se mais tarde se vier a verificar ter havido engano ou incorrecção. c) O desaparecimento da pessoa Artigo 68º n. passando a quota de A para o seu avô ainda vivo. Esta presunção tem enorme importância prática. PIRES DE LIMA. Entre nós essa reparação é admitida com base no 70º constituindo a ofensa à vida a máxima ofensa possível da personalidade e no 496º. 66. Problema discutido é a questão de saber se a lesão do direito à vida é susceptível de reparação.Ausência O termo «ausência». implica a abertura do chamado processo de justificação judicial do óbito. a herança é dividida pelos dois filhos (A e B). que uma e outra falecem ao mesmo tempo». a pessoa perde os direitos e deveres da sua esfera. A e B.

os herdeiros do ausente e todos os que tiverem sobre os seus bens qualquer direito dependente da sua morte. c) Pela comparência da pessoa que legalmente represente o ausente ou de procurador bastante. b) Se o ausente providenciar acerca da administração dos bens.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL ausente. se a pessoa ausente for menor. nos termos da lei (98º): a) Pelo regresso do ausente. visto que a lei só possibilita o recurso à justificação da ausência no caso de terem de corrido dois anos sem se saber do ausente ou cinco anos no caso de ele ter deixado representante legal ou procurador bastante (99º). em caso de regresso. os quais são tidos como curadores definitivos (104º) e não como proprietários desses bens (não podendo dispor deles). c) Pela certeza da sua morte. Após a justificação da ausência proceder-se-á à abertura de testamentos (101º) e à partilha e entrega dos bens aos herdeiros (103º). ou da declaração da morte presumida. Os sucessores passam a ser tratados não como meros administradores (curadores) mas como proprietários dos bens. se fosse vivo. têm legitimidade para requerer a curadoria provisória. têm subjacentes uma presunção de maior ou menor probabilidade de regresso do ausente. A curadoria provisória termina. isto é. Morte presumida: Decorridos 10 anos sobre a data das últimas notícias. pela declaração de morte presumida. O direito faculta a tomada de medidas tendentes a evitar os prejuízos decorrentes da falta de administração dos bens da pessoa ausente. traduzidas no requerimento e instauração da curadoria provisória e da curadoria definitiva. embora o 116º dê ao cônjuge a possibilidade de contrair novo casamento sem necessidade de recorrer ao divórcio. os efeitos desta equiparação. além do cônjuge.º2). Nenhuma delas está dependente da anterior. Tanto o Ministério Público como qualquer interessado. todavia. ao invés. sendo estes. se entretanto o ausente tiver completado 80 anos de idade. ou. o tem o ausente direito: 30 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Essas medidas. b) Pela notícia da sua existência e do lugar onde reside. A curadoria definitiva termina (112º): a) Pelo regresso do ausente. 2) A necessidade de prover acerca da administração dos seus bens. da sua morte. algum ou alguns dos herdeiros presumidos. verifica-se um fenómeno de sub-rogação real. é necessário que decorram 5 anos sobre a data em que ele completaria a maioridade. A legitimidade para o pedido de instauração da curadoria definitiva pertence também aqui ao Ministério Público ou a algum dos interessados. podendo recorrer-se desde logo à declaração de morte presumida. Contudo. para que possa ser declarada a morte presumida (114º n. O curador funciona como um simples administrador (94º). carecidos de administração. e) Pela certeza da morte do ausente. d) Pela declaração da morte presumida. ou passados 5 anos. em virtude de não ter deixado representante legal ou voluntário (procurador). d) Pela entrega dos bens aos curadores definitivos (com a curadoria definitiva). Curadoria definitiva: A probabilidade de a pessoa ausente não regressar é nesta fase maior. a qual deve ser deferida a uma das seguintes pessoas: cônjuge. Ex. Na esfera patrimonial. Medidas legais Curadoria provisória: Os pressupostos de que a lei faz depender a nomeação de um curador provisório são: 1) O desaparecimento de alguém sem notícias.: o casamento não cessa. Algumas disposições da lei atenuam. Para menores só pode pedir-se quando estes façam 23 anos. 3) A falta de representante legal ou de procurador (89º). O 115º prescreve que a declaração de morte presumida produz os mesmos efeitos que a morte física. se se verificarem os requisitos legais de que depende.

Mantémse. b) Aos bens adquiridos com o preço dos alienados. da qual se podem desentranhar um direito à vida. má fé dos sucessores – e exacta consiste no conhecimento pelos sucessores de que o ausente era vivo à data da declaração de morte presumida -. A ofensa de qualquer destes bens está sancionada no n. no domínio patrimonial lhe não pertençam por hipótese quaisquer direitos sempre a pessoa é titular de um certo número de direitos absolutos que se impõem ao respeito de todos os outros. c) Ao preço dos bens alienados (sub-rogação directa). Quais serão os direitos de personalidade? O 70º contém uma norma de tutela geral da personalidade. certamente para afastar quaisquer dúvidas previsíveis sobre a sua inclusão na tutela geral operada pelo 70º. a sua imagem. É este um círculo de direitos necessários. em si mesmos. à integridade física.º2 do mesmo artigo.Direitos de personalidade Designa-se por esta fórmula um certo número de poderes jurídicos pertencentes a todas as pessoas. a reserva sobre a intimidade da sua vida privada. São os chamados direitos de personalidade. Os direitos de personalidade são inalienáveis e irrenunciáveis. liberdade física e psicológica. Havendo. valor pecuniário) e absolutos. São direitos gerais (todos deles gozam). honra. incidindo sobre os vários modos de ser físicos ou morais da sua personalidade. A irrenunciabilidade dos direitos de personalidade não impede a eventual relevância do consentimento do lesado: este não produz a extinção do direito e tem um destinatário que beneficia dos seus efeitos. tendo por objecto a pessoa no seu todo. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 31 . O CC. extrapatrimoniais (embora as suas violações possam originar uma reparação em dinheiro. Incidem os direitos de personalidade sobre a vida da pessoa. titular de alguns direitos e obrigações. à liberdade. Reconhece-se assim merecedora de tutela a natural aspiração da pessoa ao resguardo da sua vida privada. 48. A consagração desta protecção geral da personalidade permite conceder tutela a bens pessoais não tipificados. Toda a pessoa jurídica é. a protecção dos que possam continuar a ser ofendidos (71º n. por força do seu nascimento. Neste sentido podem dar-se-lhe hoje as consabidas denominações da escola do direito natural racionalista: «direitos inatos» ou «direito originários».TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL a) Aos bens directamente adquiridos por troca com os bens do seu património (subrogação directa). da qual constituem o núcleo mais profundo. Em caso de lesão de que provenha a morte. (119º). não têm. depois da morte do respectivo titular. Direito geral de personalidade: «direito que abrange todas as manifestações previsíveis e imprevisíveis da personalidade humana». efectivamente. ser-lhe-á devolvido o património que era seu. o ausente tem direito também à indemnização do prejuízo sofrido. Constituem «o mínimo necessário e imprescindível do conteúdo da personalidade». Obviamente. o direito a indemnização é deferido às pessoas referidas nos 495º e 496º. O direito protege os vários modos de ser físicos ou morais da personalidade.º1). A violação de alguns desses aspectos da personalidade é mesmo um facto ilícito criminal. se no documento de aquisição se fez menção da proveniência do dinheiro (sub-rogação indirecta). à honra. a sua saúde física. prevê expressamente no artigo 80º o chamado direito à reserva sobre a intimidade da vida privada. porém. que desencadeia uma punição estabelecida no código penal. dada a sua essencialidade relativamente à pessoa. Mesmo que. no Estado em que se encontrar. integridade física. um conteúdo mínimo e imprescindível da esfera jurídica de cada pessoa. o seu nome.

TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Direitos especiais de personalidade: . .: direito ao decoro (:forma de vestir. Ex. .Honra deontológica: ou profissional. 32 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . mas nestes casos não faz sentido falar em responsabilidade civil uma vez que o lesante é o mesmo que sofreu a lesão.. Divulgação indirecta: =imitação.Projecção física a) Direito à imagem 79º . . Pode haver lugar a compensação (visto que é afectado um bem não patrimonial) mas quem a exige são os sucessores. Esta liberdade pode ser: positiva (o direito de fazer algo) ou negativa (o direito de se recusar a fazer algo). No direito penal a honra só é violada com a divulgação de factos falsos.o direito de controlar a captação/divulgação de qualquer elemento de identificação da pessoa. .Honra propriamente dita: dignidade humana. A honra também é protegida criminalmente. Os 2 últimos círculos variam de pessoa para pessoa. por isso. Em termos de liberdade negativa não se pode aplicar a sanção pecuniária compulsória. . honestidade. No direito civil a honra pode ser violada com a divulgação de factos reais.. religiosa). forma de estar).: se um jornal diz determinadas coisas acerca de uma pessoa. eutanásia).). bom nome e reputação.Honra económica: direito ao crédito pessoal. variáveis. entendendo-se esta como a simples existência biológica. violado. o direito à honra é. b) Direito à palavra As regras anteriores são aplicadas analogicamente.Direito à liberdade É o direito à livre conformação da pessoa.Direito à integridade física É o direito a não ser lesado na integridade físico-psíquica tal como possuiria se não se verificasse tal lesão. O titular do direito não pode dispor dele sem cometer um ilícito (suicídio. a imagem que os outros têm de nós. Captação: violação Divulgação: violação mais grave. na qualidade de sucessores e com base no direito que surge no momento exacto da morte desse sujeito. São. Pode ainda ser: física (liberdade sexual) ou moral (política.Honra .Projecção moral a) Direito à honra (direito à reputação. . Manipulação da imagem: usa-se a imagem e adultera-se. Este direito é também tutelado pela CRP e penalmente. A sanção penal do aborto não é assim defesa deste direito. 2. ex. A honra pode ser violada com o trazer a público de determinados factos sejam eles verdadeiros ou falsos. em termos de direito civil. honra extrínseca): A imagem que a pessoa projecta de si nas outras pessoas. Este direito é tutelado pela CRP bem como pelo código penal (131º e ss. Podem identificar-se 4 círculos de honra: . mas da vida intra-uterina enquanto bem jurídico autónomo. violação do direito à imagem + à verdade.: maus profissionais.Direito à vida É o direito à conservação da vida.Direito à inviolabilidade pessoal 1.

aspectos intrínsecos à natureza da própria pessoa. por exemplo.Direito à identidade pessoal Abrange a: identificação (não confundabilidade da pessoa. No 79º n. O direito é disponível logo. A nossa lei não permite a homonímia (o mesmo nome). em caso de violação ao direito à honra. Admite-se consentimentos vinculantes: pressupõe vínculo contratual (ex. 3. O direito de autor: abrange o aspecto moral e o aspecto patrimonial (direito real. No direito ao decoro pode haver consentimento válido. A criação tem que ter duas características: . 2 . relativa aos dados de confidencialidade pessoal. . não estão sujeitos a limitações dos titulares do direito. portanto. O segundo é não inato e pressupõe o direito de criação pessoal mas surge só após a criação que se traduz numa obra. Há frequentemente conflitos entre o direito de honra e o direito à informação.Secreta: aspectos secretos da vida íntima. o direito de informação prevalece sobre o direito à honra.: modelos fotográficos). este é.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Os 3 primeiros círculos não são direitos disponíveis: isto é.objectivação: a obra tem que ganhar consistência no sentido de ser objectivada. aliás. As coisas secretas podem ser secretas: por natureza (ex.Pessoal: ex. o titular não pode limitar o direito. a ilicitude. 3 .: casa. o titular pode limitar o direito.Direito à criação pessoal e direito moral de autor O primeiro é um direito inato. de propriedade sobre a obra).º2 apresentam-se algumas situações onde se justifica a violação do direito à imagem. O direito à honra não é consagrado num artigo específico do CC mas é aflorado no 79º n. b) Direito à história pessoal Direito ao percurso da pessoa: ex. o nome igual não pode ser utilizado de forma a prejudicar outro. Existe dentro de si 3 esferas: 1 . . Obra: conjunto de sinais subjectivamente organizados e objectivamente expressos.: gostos. situações que afastam. Quando se trata de uma matéria com relevante interesse público.Privada: ex. Nas restantes situações isto não se verifica.: diários) e por determinação da pessoa (coisas que cabe ao próprio o ónus da prova do seu carácter secreto). certa pessoa é “a” pessoa e não “uma” pessoa. preferências sexuais. à fase de determinação da importância da violação.Projecção vital a) Direito ao carácter Ninguém poderá estar sujeito sem consentimento a meios que permitam revelar o seu carácter. este é sempre ilícito. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 33 . âmbito mais restrito. morada. d) Direito à verdade pessoal Direito à liberdade negativa. c) Direito à intimidade da vida privada Este é um direito que incide sobre informações.originalidade: a obra tem que ser “a” obra. Contudo. os quais são resolvidos pelo 335º. Contudo. aspectos não relativos à própria pessoa mas que estão relacionados consigo. um direito inato) e a identidade em sentido estrito (direito ao nome). Esta distinção é essencial no que diz respeito.: biografias não autorizadas (“Os amores de Manuel” -> é preciso a autorização de Manuel e dos “amores”).º3. .

pode ser relevante para aferir da violação. . mas justifica implicitamente a mesma: 340º n. foi dado para uma intervenção ou tratamento diferente. Não havendo consentimento do paciente. .: encontrões no autocarro)). as violações potenciadas pela utilização da informática.direito à intangibilidade da obra (direito à obra não ser adulterada).vinculante: origina um compromisso jurídico autêntico.se o consentimento. O consentimento e o correlativo dever de esclarecimento têm de ser mais rigorosos ainda nas intervenções ou tratamentos estéticos do que nos curativos. cai no domínio público. segundo o estado dos conhecimentos e da experiência da medicina. ser violado de inúmeras formas. É possível violação simultânea do direito à honra e do direito moral de autor. .Direito ao tratamento dos dados pessoais Tem em conta. pois nesse caso é contra os bons costumes. um sofrimento.direito ao inédito. diagnosticar. 34 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . . obra).direito à dignidade da obra (direito a participar das valorizações extraordinárias da O direito moral de autor pode. só puder ser obtido com adiamento que implique um perigo para a vida ou grave perigo para o corpo ou para a saúde.direito à paternidade da obra. . O consentimento tem limites: superiores (direito à vida não pode ser limitado assim como o direito à integridade física) e inferiores (as exigências da vida em sociedade levam a que certas lesões sejam irrelevantes (ex. não se consideram ofensas corporais». mas o que foi realizado é imposto pelo estado dos conhecimentos ou experiência da medicina. . o consentimento é irrelevante sempre que há uma desproporção enorme entre o benefício a obter e o risco da atitude médico-cirúrgica. uma lesão ou fadiga corporal ou uma perturbação mental. por exemplo. . excepto se se verificar qualquer das seguintes hipóteses: . Há 3 tipos de consentimento: . Ao fim de 50 anos. haverá violação.tolerante: não atribui um poder de agressão. e não se verificarem circunstancias que permitam concluir com segurança que o consentimento seria recusado. Este tem importância na medida em que. embora sempre limitado pela ordem jurídica e pelos bons costumes (81º n. que atribui a outrem um poder (fáctico) de agressão. como meio para evitar um perigo para o corpo ou para a saúde. Tutela deste direito: .se o consentimento. Além disso. mas da liberdade de vontade. não do direito à integridade física. O consentimento não extingue o direito de personalidade. por um médico ou outra pessoa legalmente autorizada a empreendê-los com intenção de prevenir. designadamente um contrato. debelar ou minorar uma doença. Nas intervenções e tratamentos médico-cirúrgicos em benefício próprio A lei penal dispõe hoje que «as intervenções e outros tratamentos que. Do consentimento do ofendido O consentimento pode também determinar a inexistência de lesão (exclusão do facto) ou a justificação dela (justificação do facto).autorizante: constitutivo de um compromisso jurídico sui generis.º1 e 340º CC).º1.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL O direito de autor é vitalício e depois da morte transmite-se para os herdeiros. se mostrem indicados e forem levados a cabo. de acordo com a leges artis. portanto.

das possibilidades de recuperação. mesmo no caso de ser lícito.Capacidade jurídica e capacidade para o exercício de direitos direitos. 49. Ou há uma pessoa jurídica ou não há. por um representante legal (designado na lei ou em conformidade com ela) e age autonomamente. À personalidade jurídica é inerente a capacidade jurídica ou capacidade de gozo de O artigo 67º estabelece que «as pessoas podem ser sujeitos de quaisquer relações jurídicas. da vantagem que a aquisição representa para o receptor. isto é. Modalidades: capacidade negocial de gozo (capacidade jurídica negocial) e capacidade negocial de exercício Estas noções traduzem-se na referência das noções. de outra (assistente). Contrapõe-se-lhes a incapacidade negocial de gozo e a incapacidade negocial de exercício. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 35 . nem por este com autorização de outra entidade. . Há uma capacidade jurídica maior ou menor. Capacidade de exercício ou de agir: é a idoneidade para actuar juridicamente. convertível em autêntica obrigação. Não se pode admitir o consentimento presumido ou hipotético ou o consentimento por representante legal. A incapacidade de exercício de direitos pode ser suprida pela representação legal ou pela assistência. dotada da capacidade de exercício de direitos. não carece de ser substituída. de capacidade jurídica e de capacidade para o exercício de direitos ao domínio dos negócios jurídicos. deve atender a se se trata de: elementos caducáveis. salvo disposição legal em contrário: nisto consiste a sua capacidade jurídica». O direito a partes destacáveis do corpo humano Anote-se que o consentimento em ceder-se certo elemento orgânico quando este vier a destacar-se do organismo. encontra-se. . etc. Melhor se falaria de capacidade de agir.não regeneráveis: a licitude depende do risco que a perda representa para o dador. Distinta da noção de capacidade jurídica é a de capacidade de exercício de direitos. o cientista. adquirindo direitos ou assumindo obrigações. na prática dos actos que movimentam a sua esfera jurídica. os negócios a que se refere nem podem ser concluídos por outra pessoa em nome do incapaz. mais genéricas. sujeito ao regime das disposições da integridade física em benefício alheio. Nas disposições em benefício de outrem. regeneráveis ou não regeneráveis.caducáveis: não há problema.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Nas intervenções e tratamentos médico-cirúrgicos em benefício alheio ou geral: Exigência interrogável e rigorosa do consentimento com dever de esclarecimento.Capacidade negocial. isto é. isto é. não sendo. não carece do consentimento. de relações jurídicas. A expressão capacidade de exercício de direitos sugere tratar-se unicamente da susceptibilidade de exercitar direitos deixando de fora o cumprimento das dívidas e a aquisição de direitos ou a aquisição de direitos ou a assunção de obrigações. 50. Fala-se de capacidade jurídica para referir a aptidão para ser titular de um círculo. como vimos. exercendo direitos ou cumprindo deveres. por acto próprio e exclusivo ou mediante um representante voluntário ou procurador. anterior ou posterior ao acto.regeneráveis: idem. age pessoalmente. A pessoa. . Incapacidade negocial de gozo: provoca a nulidade dos negócios jurídicos respectivos e é insuprível. maior ou menor. das técnicas de extracção.

«os inabilitados são assistidos por um curador». seja necessária a autorização de certas entidades alheias à pessoa colectiva. 3) Incapacidade para perfilhar dos menores de 16 anos. 51. todavia.assistência: ex. é capacidade jurídica. dos interditos por anomalia psíquica e dos notoriamente dementes no momento da perfilhação (1850º). Há uma restrição do poder de disposição em certa direcção e por isso o código qualifica estes casos como indisponibilidade relativa. escolhido e legitimado para agir pelo representado – e não se admite aqui um representante voluntário.Enumeração das incapacidades de exercício estatuídas pelo código civil As incapacidades de exercício estabelecidas pelo código civil resultam: a) Da menoridade.Determinação da capacidade negocial de exercício. O interesse determinante das incapacidades é o interesse do próprio incapaz. 53. não podendo os negócios a que se refere ser realizados pelo incapaz ou por um seu procurador. Representação: é a forma de suprimento da incapacidade. Assistência: tem lugar quando a lei admite o incapaz a agir. estiverem privadas dos seus órgãos. pois a restrição não resulta da consideração de uma qualidade do disponente em si. Pessoas singulares Em princípio todas têm capacidade de exercício de direitos.suprimento da incapacidade dos menores pelo poder paternal. O representante substitui o incapaz na actuação jurídica. Essa pessoa é denominada representante legal. Não se trata de um representante voluntário. dada a incapacidade do representado. por ser designada pela lei ou em conformidade com ela. 2) Incapacidade de testar dos menores não emancipados e dos interditos por anomalia psíquica (2189º). mas exige o consentimento de certa pessoa ou entidade. Esta é suprível por: . c) Das inabilitações. pertencendo a iniciativa do acto a este último. o assistente destina-se a autorizar o incapaz a agir. por inerência do conceito de personalidade.: 153º . b) Da interdição. isto é. excepcionalmente. para dados efeitos.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Incapacidade negocial de exercício: provoca a anulabilidade dos negócios jurídicos respectivos e é suprível. de absoluta incapacidade. 52. Generalidades Pessoas colectivas Estas possuem plena capacidade negocial de exercício. Não se trata. A capacidade de exercício das pessoas colectivas só sofrerá restrição quando. . Enquanto o representante legal actua em vez do incapaz.Determinação da capacidade negocial de gozo A regra geral.: 124º . traduzida em ser admitida a agir outra pessoa em nome e no interesse do incapaz. o assistente impede o incapaz de agir ou intervém ao lado dele.representação legal: ex. 36 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Existem contudo algumas restrições: 1) Incapacidades nupciais (impedimentos dirimentes absolutos e impedimentos dirimentes relativos 1601º e 1602º). agindo outras entidades em seu nome e no seu interesse ou quando.

dada a natureza dos interesses que determinam as incapacidades de gozo. Enquanto as incapacidades de exercício geram anulabilidades. dos interditos ou dos inabilitados. assunção de obrigações. mas é essa a solução geralmente defendida e a que se impõe.Incapacidade dos menores Amplitude Abrange. ao negócio consigo mesmo. em princípio. mas manifesta-se também no direito material. Para alguns negócios a lei resolve expressamente o problema. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 37 . Capacidade: é um modo de ser ou qualidade do sujeito em si. Na extensão do conceito de ilegitimidade estão abrangidas manifestações jurídicas cujo tratamento é diverso. aplicável por forças dos 139º e 156º. sempre que se pretenda fazer derivar dum negócio efeitos (alienação ou aquisição de direitos. Em princípio. é antes uma posição. Na incapacidade de menores. que vinculem outras pessoas. Haverá carência de legitimidade. os menores podem praticar actos de administração ou disposição dos bens que o menor haja adquirido por seu trabalho (127º a)). um modo de ser para com os outros. nulos. estatui a solução da anulabilidade e o mesmo se determina no 1861º para a perfilhação. que não os intervenientes no negócio (ex. Existem algumas excepções à incapacidade: 1. Outras vezes um indivíduo não pode celebrar livremente (carece de uma autorização). Incapacidade de exercício Nesta hipótese tem lugar a anulabilidade dos actos praticados pelos incapazes. por isso.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 62. variáveis consoante o autor da acção de anulação e pode ser sanada por confirmação das pessoas com legitimidade para a invocar.). dentro dos prazos aí referidos. têm legitimidade para um certo negócio os sujeitos dos interesses cuja modelação é visada pelo negócio. a anulabilidade (261º). um indivíduo tem o poder de desencadear efeitos de direito numa esfera jurídica alheia (ex.Valor dos negócios jurídicos indevidamente realizados pelos incapazes Incapacidade jurídica de gozo Os negócios feridos duma incapacidade jurídica negocial (incapacidade de gozo) são A lei não o diz de uma forma genérica.: venda de coisa alheia. a ineficácia em relação ao representado. o 1631º a). etc. Legitimidade: supõe uma relação entre o sujeito e o conteúdo do acto e.Capacidade e legitimidade A distinção é oriunda do direito processual e aí se evidencia com nitidez. Nas incapacidades conjugais. contrato a cargo de outrem.: representação legal ou voluntária). Para o casamento. Nem sempre é assim. quaisquer negócios de natureza pessoal ou patrimonial. as ilegitimidades originam sanções diversas: à venda de coisa alheia corresponde a nulidade (892º). todavia.). Poderá encontrar-se-lhes fundamento legal no 249º. etc. as sanções dos actos indevidamente praticados constam do 1687º. o artigo 2190º prescreve a nulidade. Para o testamento. A invalidade só pode ser requerida pelas pessoas indicadas naquela disposição. 2º Semestre 54. Por vezes. 64. à representação sem poderes e ao abuso de representação. anulabilidade tem as características enunciadas no 125º. É uma incapacidade geral (123º).

arte ou ofício que o menor tenha sido autorizado a exercer. dá lugar à aplicação de sanções especiais. 129º. 130º. representá-los. acção de interdição ou inabilitação (131º). O poder paternal pertence. todavia. e como tal. dentro de um ano a contar do conhecimento do acto impugnado. Duração A incapacidade termina quando o menor atingir a idade de 18 anos ou for emancipado (122º. salvo se. Podem fazer testamento se emancipados (2189º). que. estiver pendente contra o menor. fixada a idade núbil nos 16 anos. a tutela. pois. As pessoas com legitimidade para arguir essa anulabilidade são: O representante do menor. 38 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . O direito de invocar a anulabilidade é precludido pelo comportamento malicioso do menor. ainda que nascituros. sem dependência de prazo. se o negócio não estiver cumprido. prover ao seu sustento. não distinguindo a lei poderes especiais do pai ou mãe em virtude do princípio da igualdade (1901º) Há a salientar a divisão «poder paternal relativamente à pessoa dos filhos» e «relativamente aos bens dos filhos». são válidos os negócios relativos à profissão. arte ou ofício (127º c)). não só o menor mas também os herdeiros ou representante. e administrar os seus bens. dirigir a sua educação. no interesse dos filhos. não implicando a nulidade do acto. O próprio menor. ou disposições de bens. de guardar os filhos na sua própria casa ou lugar à escolha (1887º). ou os praticados no exercício dessa profissão. O legislador entendeu que. em primeira linha o poder paternal e. se o hereditando morreu antes de ter expirado o prazo em que podia. na primeira hipótese. só impliquem despesas. no caso de este ter usado de dolo ou má fé a fim de se fazer passar por maior ou emancipado (126º). desde que tenham idade superior a 16 anos (1601º a)). ele próprio. 133º). Nesta hipótese. Efeitos Os negócios jurídicos praticados pelo menor contrariamente à proibição em que se cifra a incapacidade estão feridos de anulabilidade (125º). Como se supre a incapacidade do menor A incapacidade do menor é suprimida pelo instituto da representação. de pequena importância (127º b)). que a oposição dos pais ou do tutor constitui um impedimento impediente. são válidos os negócios jurídicos próprios da vida corrente do menor. estando ao alcance da sua capacidade natural. o poder de custodia. ou seja. Os meios de suprimentos da incapacidade dos menores através da representação. especialmente o n. dentro de um ano a contar da cessação da incapacidade. ficam inibidos de invocar a anulabilidade. (sendo certo. subsidiariamente. dentro de um ano a contar da morte. A anulabilidade pode ser invocada normalmente por via de excepção. são. aos pais. podem contrair validamente casamento. com base na consideração de que à situação de casado convém a plena capacidade de exercício de direitos decorrente da emancipação. requerer a anulação (125º). Na vertente pessoal salienta-se: o poder de educar os filhos (1885º 1886º 1878º).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 2. velar pela segurança e saúde destes. conviria manter a emancipação resultante do casamento. Qualquer herdeiro. O único facto constitutivo da emancipação é o casamento (132º). Poder paternal Compete aos pais. 4. 3.º2). ao atingir a maioridade. podem perfilhar quando tiverem mais de 16 anos (1850º. o direito ao respeito mutuo (1874º).

isto é. As deficiências físico-psíquicas que são fundamento da interdição devem ser habituais ou duradouras e actuais. declare a incapacidade. Quando a anomalia psíquica não vai ao ponto de tornar o demente inapto para a prática de todos os negócios. da afectividade ou da vontade). há actos que o pai pode praticar livremente. quanto ao casamento. ou quando os reflexos da surdez-mudez ou da cegueira sobre o discernimento do surdo-mudo ou do cego não excluem totalmente a sua aptidão para gerir os seus interesses. pelo menos com autorização judicial. surdez-mudez ou cegueira. Por isso. quer quanto ao valor dos actos praticados em contravenção. Parece haver lugar apenas à alternativa interdição ou inabilitação. Como se supre a incapacidade dos interditos É suprida mediante o instituto da representação legal. o incapaz será inabilitado. embora possam utilizar o seu rendimento nos termos do 1896º. estão protegidos pela incapacidade por menoridade. Quando a tutela recair nos pais. O tutor – órgão executivo da tutela – tem poderes de representação abrangendo. sob pena de não poder ser invocada contra terceiro de boa fé (147º) Efeitos É óbvio que só é suprível uma incapacidade de exercício de direitos. O poder tutelar é. não há possibilidade de suprimento da incapacidade dos interditos por anomalia psíquica (1601º). estamos perante uma incapacidade negocial de gozo. As sanções para a infracção das proibições impostas ao tutor constam dos artigos 1939º e 1940º e variam conforme os casos. quer quanto aos meios de suprir a incapacidade (139º). menos amplo que o poder paternal. Estabelece-se uma tutela regulada pelas mesma normas que regulam a dos menores e que é deferida pela ordem estabelecida no artigo 143º. sendo predominantemente invalidades de tipo misto e não puras nulidades ou anulabilidades. O artigo seguinte enumera actos cuja validade depende de autorização do tribunal. Há certos actos que são vedados ao tutor e que o pai pode praticar. nos termos do artigo 1893º. a generalidade da esfera jurídica do menor. Não basta todavia a existência das deficiências naturais. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 39 . O regime da incapacidade por interdição é idêntico ao da incapacidade por menoridade. Tutela É o meio normal de suprimento do poder paternal. 55. pois os menores embora dementes. quando pela sua gravidade tornem o interditando incapaz de reger a sua pessoa e bens (138º). A sentença de interdição definitiva deve ser registada. no termo de um processo especial. devendo o tutor solicitar autorização judicial (ex. surdos-mudos ou cegos. Deve ser instaurada sempre que se verifique alguma das situações previstas no 1921º. na satisfação de necessidade da família. tal como os do pai. São fundamentos de interdição as situações de anomalia psíquica (abrangendo deficiências do intelecto. estes exercem o poder paternal como se o interdito fosse menor.Incapacidade dos interditos Quem pode ser interdito A incapacidade resultante de interdição é aplicável apenas a maiores. todavia. para existir a incapacidade.: aplicação de capitais do menor na aquisição de bens). referidas no 138º. consoante a gravidade das deficiências.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Na vertente patrimonial salienta-se: o poder de administração dos bens (1878º 1897º) e o reciproco dever de elementos (1874º 1878º). As infracções aos artigos 1889º e 1892º geram anulabilidade dos respectivos actos. De mencionar a extinção do usufruto legal dos pais sobre os bens dos filhos. Torna-se necessária uma sentença judicial que. Estão excluídos da administração dos pais certos bens mencionados no 1888º. e princípio.

tendo sido embora celebrados nas condições em que o faria uma pessoa normal e sensata. 58.Incapacidade dos inabilitados As inabilitações são uma fonte de incapacidade. Também quanto ao testamento. seja qual for a sua justificação moral. 2-conhecido pelo declaratário. 3-Depois do registo da sentença de interdição definitiva Os negócios jurídicos praticados neste período estão feridos de anulabilidade (148º). durante a vigência da interdição. importa sempre. Quanto ao prazo para a invocação da anulabilidade. no prazo de um ano a contar do conhecimento do negócio. 57. com as necessárias adaptações. 2-Na pendência do processo de interdição Se o acto foi praticado depois de publicados os anúncio da proposição da acção. irremediavelmente. é aplicável. haverá lugar à anulabilidade. não se tomando em conta eventualidades ulteriores (ex.Valor dos actos praticados pelo interdito Três períodos 1. no prazo de um ano a contar da morte do incapaz. o 125º. na pendência do processo de interdição. tendo os surdos-mudos e cegos capacidade testamentária de gozo e exercício. Podem requerer o levantamento o próprio interdito ou qualquer das pessoas com legitimidade para requerer a interdição (151º). O prejuízo verificar-se-á. Uma doação. de uma decisão judicial. Nestes termos os negócios praticados pelo interdicendo. desde que: 1-o facto seja notório. um empobrecimento imediato do doador. se vieram a tornar desvantajosos para o interdito por força de eventualidades posteriores.Quando cessa a incapacidade dos interditos A incapacidade dos interditos não termina. nos termos do qual a declaração negocial feita por quem se encontrava acidentalmente incapacitado de entender o sentido dela ou que não tinha o livre exercício da sua vontade é anulável. tal como as interdições. por outro lado. quanto aos negócios onerosos. Trata-se. Torna-se necessário o levantamento da interdição. causar-lhe grave dano. 56. A interpretação mais chegada ao texto do 956º do código de processo civil era a de que permitia a anulação de negócios que. o próprio interdito.Anteriormente à publicidade da acção Acerca das condições da anulação destes actos. e ás pessoas com legitimidade para a arguir. 40 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Resultam. podendo eventualmente.: valorização de terreno) que tornariam agora vantajoso não o ter realizado. e a interdição vem a ser decretada. por força de ulteriores vicissitudes.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Só os interditos por surdez-mudez ou cegueira têm plena capacidade matrimonial. por força do 139º. de uma invalidade sanável por confirmação das pessoas com legitimidade para a invocar. Podem assim requerer a anulação o representante do interdito. desde que «se mostre que o negócio causou prejuízo ao interdito» (149º). sem mais. no prazo de um ano a contar do levantamento da interdição e qualquer herdeiro deste. cuja estatuição remete para o disposto acerca da incapacidade acidental. se forem considerados prejudiciais numa apreciação reportada ao momento da prática do acto. sempre que um contratante sensato e prudente na gestão dos seus bens não teria celebrado o negócio naqueles termos. só os interditos por anomalia psíquica estão feridos de uma incapacidade do tipo incapacidade de gozo. rege o 150º. com a cessação da incapacidade natural. só serão anuláveis. A incapacidade acidental está prevista e regulada no 257º.

por força do 156º. Verificação e determinação judicial da inabilitação A incapacidade dos inabilitados não existe pelo simples facto da existência das circunstâncias referidas no 152º. as do 125º. sendo aplicáveis as disposições que vigoram acerca do valor dos actos dos interditos.Incapacidades acidentais O actual código não inclui a regulamentação da incapacidade acidental (257º) na secção relativa às incapacidades. A sentença pode determinar uma extensão maior ou menor da incapacidade. um regime particular.Quando cessa a incapacidade dos inabilitados A incapacidade só deixa de existir quando for levantada a inabilitação. ainda que traduzida apenas na anormal dependência dessas drogas. o seu levantamento exige as condições seguintes: 1-Prova de cessação daquelas causas de inabilitação 2-Decurso de um prazo de 5 anos sobre o trânsito em julgado da sentença da inabilitação ou da sentença que desatendeu um pedido anterior de levantamento. que. O abuso de bebidas alcoólicas ou de estupefacientes tem de importar uma alteração do carácter. pois estão sujeitos a autorização do curador os actos de disposição entre vivos. mesmo que se não tenha verificado ainda um dano concreto. 59. os 148º 149º 150º. tal como nas interdições. pois se é certo que nas inabilitações tem lugar.º1). para evitar o risco de dissimulação ou fingimento. não seja tão grave que justifique a interdição. embora de carácter permanente. determinar-se que a administração do património do inabilitado seja entregue pelo tribunal ao curador (154ºn. Valor dos actos praticados pelo inabilitado A lei não regula directamente este problema. uma diversidade das formas do respectivo suprimento. o instituto da representação. aplicável por remissão dos 139º 156º. com as necessárias adaptações. bem como os especificados na sentença (153º). portanto. O 155º contém. Trata-se da prática de actos de dissipação. despesas desproporcionadas aos rendimentos. As características da anulabilidade são. portanto. acerca do levantamento da inabilitação. tendencialmente. intervir.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Quando tem lugar a incapacidade dos inabilitados As pessoas sujeitas a inabilitação estão indicadas no 152º: indivíduos cuja anomalia psíquica. A segunda categoria – habitual prodigalidade – abrange os indivíduos que praticam habitualmente actos de delapidação patrimonial (não confundir com a administração infeliz ou pouco perspicaz). no termo de um processo judicial. acerca da sua regeneração. Constata-se. A primeira categoria (anomalias psíquicas. improdutivas e injustificáveis. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 41 . pode. Estabelece-se que. Há que aplicar. tal como acontece com as interdições. todavia. Neste caso funciona. necessariamente. não corresponde. sem o que não pode haver inabilitação. como forma de suprimento da incapacidade. indivíduos que se revelem incapazes de reger o seu património por habitual prodigalidade ou pelo abuso de bebidas alcoólicas ou estupefacientes. em princípio. pretende-se sujeitar o inabilitado a um período de prova. Em qualquer dos casos basta que se prove a existência de um perigo actual de actos prejudiciais ao património. surdez-mudez ou cegueira. todavia. regula-a conjuntamente com as várias hipóteses de falta ou vícios de vontade na declaração negocial. pelo instituto da assistência. Meios de suprir a incapacidade A incapacidade dos inabilitados é suprida. a representação. a assistência. surdez-mudez ou cegueira que provoquem uma mera fraqueza de espírito e não uma total inaptidão do incapaz). 61. A terceira categoria – abuso de bebidas alcoólicas ou de estupefacientes – representa uma inovação do código civil. Torna-se necessária uma sentença de inabilitação. Com estes prazos. Pode. à distinção entre inabilitações e interdições. quando a inabilitação tiver por causa a prodigalidade ou o abuso de bebidas alcoólicas ou de estupefacientes.

etc. Tais ilegitimidades constam dos 1682º 1682º-A 1682º -B e 1683º. 60. alterou profundamente as soluções do direito anterior. contudo. aliás. algumas excepções. carecem de consentimento de ambos os cônjuges.º3). intoxicação. inexistente. 42 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . bem como dos sub-rogados em lugar deles (= c)) d) dos bens que tenham sido doados ou deixados a ambos os cônjuges. estado hipnótico. arrendamento ou constituição de outros direitos pessoais de gozo sobre a casa de morada de família. por ele exclusivamente utilizados como instrumento de trabalho (1678º e)). oneração. devido a qualquer causa (embriaguês.). se este lhe conferir por mandato esse poder. A aplicação do princípio da igualdade dos cônjuges.º2 a)) b) dos seus direitos de autor (= b)) c) dos bens comuns por ele levados para o casamento ou adquiridos a título gratuito depois do casamento. salvo se se tratar de bens doados ou deixados por conta da legitima desse outro cônjuge (= d)) e) dos bens móveis comuns por ele exclusivamente utilizados como instrumento de trabalho (= e)) f) dos bens comuns se o outro cônjuge se encontrar ausente ou impossibilitado (= f)) g) dos bens comuns do outro cônjuge se este lhe conferir por mandato esse poder (= g) O casamento continua a ser fonte de ilegitimidades conjugais. à regra (administração conjunta) opõem-se as seguintes excepções: 1-cada um dos cônjuges tem legitimidade para a prática de actos de administração ordinária (1678º n. a este respeito. pois não se prescreve qualquer regime especial.Incapacidades (ilegitimidades) conjugais As restrições à livre actuação jurídica. cada um dos cônjuges tem a administração: 1-dos bens próprios do outro cônjuge. Quanto à administração dos bens comuns. derivadas do casamento. Assim. Esta regra tem. 3-dos bens próprios do outro cônjuge. inclusive no regime de separação: 1-a alienação ou oneração de móveis (próprios ou comuns) utilizados conjuntamente por ambos na vida do lar ou como instrumento comum de trabalho.) estiver transitoriamente incapacitado de se representar o sentido dela ou não tenha livre exercício da sua vontade. se este se encontrar impossibilitado de exercer a administração por achar num lugar remoto ou não sabido. no domínio da administração e da alienação dos bens do casal. Qual a estatuição respectiva? Os actos referidos são anuláveis desde que o facto seja notório (cognoscível) ou conhecido do declaratário. A anulação está sujeita ao regime geral das anulabilidades (287º e ss. de ilegitimidade. Mais correctamente se falará. 2-a alienação ou oneração de móveis próprios ou comuns de que não tenha a administração. ou por qualquer outro motivo (1678º f)). 4-a disposição do direito ao arrendamento da casa de morada da família. quanto à administração dos bens próprios. A regra dos bens do casal é esta: cada um dos cônjuges tem a administração dos seus bens próprios (1678º n. pertencendo a ambos (em conjunto) a administração dos bens comuns (1678º n.º1). são tradicionalmente designadas por incapacidades. mas proteger os interesses do outro cônjuge e da família. 3-a alienação. 2-dos bens próprios do outro cônjuge. Não se pretende defender os cônjuges contra uma incapacidade natural.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL O 257º abrange todos os casos em que a declaração negocial é feita por quem. Assim. em qualquer regime de bens. com exclusão da administração do outro cônjuge.º3) 2-cada um dos cônjuges tem a administração: a) dos proveitos que receba pelo seu trabalho (1678º n. delírio. ira.

3-o repúdio de heranças ou legados. Sanções da ilegitimidade conjugal De acordo com o 1687º. os actos praticados contra o disposto nos n.A “massa falida” é inoponível. empresas (objecto na titularidade dos comerciantes [não têm personalidade jurídica]). nem pode administrar bens de menores (quase inabilitado). está sujeito à forma exigida para a procuração e pode ser judicialmente suprido. são anuláveis a requerimento do cônjuge que não deu o consentimento ou dos seus herdeiros (n. são aplicáveis as regras relativas à alienação de coisa alheia. insolvência – aplica-se aos não comerciantes. Esta posição acaba com o Código das falências (DL 132/93. falta de liquidez na designação dos titulares. Antes da falência deve ser tentada a recuperação da empresa. Efeitos . À alienação ou oneração de bens (móveis ou imóveis) próprios do outro cônjuge. apenas nos regimes de comunhão (geral ou de adquiridos). Como se supre a ilegitimidade conjugal A ilegitimidade conjugal supre-se pelo consentimento do outro cônjuge (1682º n. Esta sentença fixa a residência do falido.º 3: insolvência – carência de meios próprios e falta de crédito (note-se a importância do crédito). . oneração. 1682º-A e 1682º-B) o consentimento conjugal. Estes podem ser: falta de cumprimento das obrigações. O instituto da insolvência foi abolido e passou a ser um requisito da falência. Artigo 1º do código: falência – são as empresas em situação de insolvência. de o prestar (1684º). Pode-se falar em: sociedades (os sujeitos). A falência é a impossibilidade de uma pessoa. cuja verificação determina a insolvência. próprio ou comum. 23 Abril). nomeia o liquidatário judicial. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 43 . singular ou colectiva. fuga do titular. oneração ou locação do estabelecimento comercial.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Carecem de consentimento de ambos os cônjuges. ou impossibilidade. N. isto é. fixa o prazo para os credores exigirem o crédito. arrendamento ou constituição de outros direitos pessoais de gozo sobre imóveis próprios ou comuns.º1e 3. que passam a integrar a “massa falida”.O falido não pode mais exercer o comércio. A insolvência é revelada por “factos-índice” .O falido é impedido de dispor dos bens presentes/futuros. nos 1682º-A. A falência deixou de ser um instituto dos comerciantes para passar a ser das empresas. 2-a alienação. mas não já no regime de separação de bens: 1-a alienação. não poder cumprir obrigações. que deve ser especial para cada acto. pontualmente. 1682º-B e no n. nos 6 meses subsequentes à data em que o requerente teve conhecimento do acto. dissipação/extravio de bens. há que ser declarada. não são incapacidades. havendo injusta recusa. comerciantes (individuais ou sociedades). . A falência (deve ser o último recurso) é admitida em relação a devedores não titulares da empresa. MOTA PINTO: falência – instituto privado dos comerciantes. Existe um processo que acaba numa sentença judicial que tem que ser registada.º1 e 3 do 1682º. mas nunca depois de decorridos 3 anos sobre a sua celebração (nº2).º1). feita sem legitimidade. por qualquer causa. são nulas nos termos dos 892º e ss.º2 do 1683º. Recuperação da empresa A falência (que respeita os devedores titulares ou não da empresa insolvente) não existe ipso facto. etc. Falência e Insolvência Por si só.

Valor dos actos praticados pelo falido Antes da declaração Os actos podem ser resolúveis em benefício da “massa falida”. opô-los. 44 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . no caso de obrigações pecuniárias. Requisitos para a impugnação pauliana: . Em negócios. de compra e venda. para o credor. como ponto de conexão entre a pessoa e um determinado lugar. o Se o acto for gratuito – a impugnação procede ainda que ambos estivessem de boa fé.Domicílio O ordenamento jurídico dá relevância. salvo disposição especial. contudo. Se o falido conseguir pagar a massa falida. por exemplo. Podem ser impugnados por “impugnação pauliana”. Assim: a) o foro geral. em matéria de competência territorial dos tribunais. b. para variados efeitos. faz todo o sentido para poder encontrar meio para pagar dívidas). quem adquiriu os bens. quem os adquirir não os pode opor a terceiros. 65. . à noção de domicílio. isto é. pode haver impugnação. Assim sendo. Os seus actos não são inválidos. os bens continuam a integrar a massa falida. ou agravamento dessa impossibilidade. É nomeado pelo juiz e “ajudado” pela comissão de credores. b) a prestação debitória deve ser efectuada no lugar do domicílio do devedor (722º) e. não há impugnação pois o credor devia ter-se acautelado devido à situação do devedor. Repetição (devolução) do indevido.Quitação (inexistência da dívida: a dívida foi paga) dos credores. a. A situação do falido não é incapacidade. o tribunal competente para quaisquer acções. 3. o falido pode vender bens da massa falida sendo estes negócios válidos. no lugar do domicílio que o credor tiver ao tempo do cumprimento (774º). tratando-se apenas de uma ilegitimidade. . o se o crédito for posterior ao acto do devedor.Má fé (612º) (no sentido subjectivo): o Se o acto for oneroso – só é impugnável se o devedor e o terceiro tiverem agido de má fé. Remissão da dívida. Fundamentos do levantamento da falência 1. c) a sucessão por morte abre-se no lugar do último domicílio do seu autor (2031º). 2.Impossibilidade de satisfação do crédito ou o seu agravamento: o Há impugnação se resultar do acto a impossibilidade.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL O falido pode trabalhar (aliás. é o domicílio do réu. Contudo. Esta situação está prevista no 610º e ss. se se verificar dolo no acto do devedor.Homologação do acordo extraordinário entre credor e devedor. É nomeado o liquidatário judicial para administrar.Decurso de 5 anos do trânsito em julgado. verifica-se a impugnação pauliana. e é uma tentativa de garantir os credores.momento em que nasce o crédito: o se o crédito for anterior ao acto do devedor. pode já. de obter a satisfação integral do seu crédito.

com o dos funcionários públicos (87º). um negócio jurídico. porém. dirigidos à realização de interesses comuns ou colectivos. Na definição referiu-se organizações constituídas por uma colectividade de pessoas e organizações constituídas por uma massa de bens. Este acto voluntário não é. as fundações.Conceito de pessoa colectiva. Uma pessoa pode ter dois ou mais domicílios. resultam de um acto voluntário (de residir habitualmente num certo local ou de aí exercer uma profissão). com o que se visa impedir escapatórias. os distritos. não coincide com o paradeiro (225º). dos efeitos jurídicos respectivos. a lei reconhece um domicílio profissional (83º) e um domicílio electivo (84º). no domicílio da pessoa que devem ser praticadas as diligências ou efectuadas as comunicações dirigidas a dar-lhe conhecimento pessoal de um facto. que constituem centros autónomos de relações jurídicas – autónomos mesmo em relação aos seus membros ou às pessoas que actuam como seus órgãos. diferente do seu domicílio geral ou profissional. As partes convencionam que. para todos os efeitos jurídicos. verificando-se a produção. mas um simples acto jurídico. às quais a ordem jurídica atribui a personalidade jurídica.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL d) o elemento de conexão decisivo para a determinação. o estabelecimento do domicílio. as sociedades comerciais. Noção O conceito de domicílio voluntário geral é-nos fornecido pelo 82º e coincide com o lugar de residência habitual. Função socioeconómica do instituto da personalidade colectiva As pessoas colectivas são organizações constituídas por uma colectividade de pessoas ou por uma massa de bens. as freguesias. estipulado. Há com efeito duas espécies fundamentais de pessoas colectivas: Corporações: têm um substrato integrado por um agrupamento de pessoas singulares que visam um interesse comum. por força da lei. À categoria das pessoas colectivas pertencem o Estado. onde costume regressar após ausências mais curtas ou mais longas. é. Domicílio profissional: verifica-se para as pessoas que exercem uma profissão e é relevante para as relações que a esta se referem. etc. localizando-se no lugar onde a profissão é exercida. em alguns casos. o domicilio (32º). mesmo que a pessoa em causa não os tivesse em mente ou até os quisesse impedir. por escrito. as associações recreativas ou culturais. Em regra. Há uma presunção de presença da pessoa no domicílio. nos fornece o critério do domicilio do 82º. Trata-se de organizações integradas essencialmente por pessoas ou essencialmente por bens. Ao lado do domicílio voluntário geral. (III)PESSOAS COLECTIVAS 67. se têm por domiciliadas em certo local. isto é. e com o dos agentes diplomáticos portugueses (88º). O nosso direito conhece alguns casos de domicílio legal. independente da vontade. É. Sem dúvida que a residência habitual onde a pessoa vive normalmente. da lei aplicável a relações conexionadas com várias ordens jurídicas. segundo o direito internacional privado. É o que ocorre com o domicílio legal dos menores e interditos (85º). igualmente. isto é. Essas pessoas ou associados Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 45 . os municípios. Domicílio electivo: é um domicílio particular. egoístico ou altruístico. com o local onde a pessoa está a viver com alguma permanência. Não se confunde também com a residência. Não se trata do local onde a pessoa se encontra em cada momento. se tem duas ou mais residências habituais. para determinados negócios. bem como o seu termo.

Pode dizer-se que o reconhecimento é o elemento formal e o substrato o elemento material. dão-lhe existência e cabe-lhes disciplinar a sua vida e destino. É o conjunto de associados. fazendo-a ser algo mais do que uma superestrutura pairando sobre o vácuo.Deve ser comum aos seus membros ou colectivo. em segundo plano ou até. 46 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Substrato. Torna-se necessário que o escopo visado pela pessoa colectiva satisfaça certos requisitos: 1. mutualistas. É a colectividade de indivíduos que se agrupam para a realização. recreativas. É a sua vontade que regula a fundação. Por sua vez nas fundações só o elemento patrimonial assume relevo no interior da pessoa colectiva. e não em renovadas manifestações. estando a actividade pessoal – necessária à prossecução do escopo fundacional – ao serviço da afectação patrimonial – estando subordinada a esta. Elemento teleológico A pessoa colectiva deve prosseguir uma certa finalidade. o conjunto de dados anteriores à outorga da personalidade jurídica. fora do substrato da fundação. Manifesta-se a sua exigência quanto às sociedades. etc. o problema de saber se o escopo das pessoas colectivas deve ser duradouro ou permanente. É a realidade que dá peso terreno à pessoa colectiva. estabelecida no 994º. por vezes. na nulidade do chamado pacto leonino. basta pensar numa associação para a qual os associados concorrem apenas com serviços dirigidos à prossecução do fim comum. sem que lhe pertença um património.. é o elemento de facto. Não é legítima a exigência deste requisito em termos de a sua falte impedir forçosamente a constituição de uma pessoa colectiva. defende grande parte da doutrina. rigorosamente. Criada a fundação. as sociedades comerciais. Fundações: têm um substrato integrado por um conjunto de bens adstrito pelo fundador a um escopo ou interesse de natureza social. de um escopo ou finalidade comum. sem que os referidos serviços sejam susceptíveis de avaliação pecuniária. Substrato: é um elemento complexo. Noção O substrato é o conjunto de elementos da realidade extrajurídica.g. Elemento pessoal ou patrimonial O elemento pessoal verifica-se nas corporações. através de actividades pessoais e meios materiais. só ele sendo um componente necessário do substrato da pessoa colectiva. 68. o fundador fica fora dela. v.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL organizam a corporação. Importa saber o vários subelementos em que o substrato se pode decompor. culturais. Por que motivo se fala na existência de um elemento pessoal apenas das corporações e de um elemento patrimonial nas funções? Nas corporações só o elemento pessoal é relevante. Pode existir a corporação. É o complexo de bens que o fundador afectou à consecução do fim fundacional (tal massa de bens designa-se habitualmente por dotação). a sorte da corporação. que lhe dá existência no mundo exterior. 2. integrado por vários subelementos. transformador de uma organização ou ente de facto num ente ou pessoa jurídica.Põe-se. justamente o fim em causa determinante da formação da colectividade social ou da dotação funcional. O elemento patrimonial intervém nas fundações. elevado à qualidade de sujeito jurídico pelo reconhecimento. 3. é o elemento de direito. Reconhecimento: elemento a que a lei se refere expressamente (158º). Dirigem-na de dentro. São corporações as associações desportivas. através da modificação dos estatutos ou de outras deliberações. mas tal como está fixada no acto de instituição e nos estatutos.Elementos constitutivos das pessoas colectivas: o substrato e o reconhecimento Podemos legitimamente reconduzir a dois os seus elementos constitutivos: substrato e reconhecimento.Deve revestir os requisitos gerais do objecto de qualquer negócio jurídico (280º). tendo nas suas mãos.

Quanto às associações. Pode ter lugar um reconhecimento normativo. isto é. Entre nós o reconhecimento normativo condicionado vigora no domínio das sociedades comerciais e civis em forma comercial e das associações e o reconhecimento por concessão é exigido para as fundações (excepção). derivado automaticamente da lei e um reconhecimento individual ou por concessão. os fundadores. Verificado o reconhecimento.) da pessoa colectiva: substrato e O reconhecimento. sem necessidade de uma apreciação de oportunidade e conveniência por parte do Estado. a pessoa colectiva é automaticamente constituída. Um tal sistema dificilmente existirá em qualquer direito positivo. isto é. personificará ou não o substrato. Essa organização traduz-se num conjunto de preceitos disciplinadores das características e do funcionamento da pessoa colectiva (preceitos contidos nos estatutos ou no acto de constituição ou instituição) e na existência de órgãos. o contrato de sociedade para as sociedades (980º) e o acto de instituição nas fundações (186º). São possíveis várias modalidades de reconhecimento. Elemento organizatório A pessoa colectiva é integrada. e quanto às fundações. à qualidade de sujeito de Direito. os serventuários. de «centros institucionalizados de poderes funcionais a exercer pelo indivíduo ou pelo colégio de indivíduos que nele estiverem providos com o objectivo de exprimir a vontade juridicamente imputável a essa pessoa colectiva». no silencio destes. Como sujeito jurídico a pessoa colectiva torna-se titular de relações jurídicas. distinta dos associados. traduzido num acto individual e discricionário de uma autoridade pública que. A lei formula em geral a exigência de determinados pressupostos ou requisitos. do fundador ou dos beneficiários. perante cada caso concreto. isto é. sem mais exigências a todo o substrato completo da pessoa colectiva (sistema de livre constituição das pessoas colectivas).º2. revestir duas formas: Reconhecimento normativo incondicionado: se a ordem jurídica atribuir personalidade jurídica de plano. 69. surge uma nova pessoa jurídica: a pessoa colectiva. a exigência de um reconhecimento individual por parte da autoridade pública para a aquisição da personalidade jurídica resulta expressamente do n. à lei.º1. que devem acrescer aos elementos caracterizadores de um substrato e. ainda. em Portugal. não existindo. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 47 . A exigência deste elemento radica na circunstância de a constituição duma pessoa colectiva ter na origem um negócio jurídico: o acto de constituição nas associações (167º).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Elemento intencional Trata-se do intento de constituir uma nova pessoa jurídica («animus personificandi»). Também esta modalidade de reconhecimento traduz um grau de liberdade e facilidade na constituição de pessoas colectivas superior ao reconhecimento por concessão. Reconhecimento normativo condicionado: também esta modalidade de reconhecimento é de carácter global. Ora nos negócios jurídicos os efeitos determinados pela ordem jurídica dependem da existência e do conteúdo duma vontade (intenção) correspondente. o regime do reconhecimento normativo condicionado resulta do 158º n. igualmente. Modalidades O reconhecimento é o elemento de direito. isto é. O reconhecimento normativo pode. por uma organização destinada a introduzir na pluralidade de pessoas e de bens existente uma ordenação unificadora. designadamente de relações jurídicas estabelecidas com os associados. redutor da dispersão e pluralidade do substrato à unidade. verificados esses requisitos. Noção. os beneficiários ou terceiros. derivado de uma norma jurídica dirigida a uma generalidade de casos e não de uma apreciação individual. Os órgãos da pessoa colectiva podem ser deliberativos ou executivos (representativos). desde logo. Acresce-se que o número e características dos órgãos da pessoa colectiva e a designação dos indivíduos que os preenchem obedece aos estatutos e.Elementos constitutivos reconhecimento (cont. caso por caso.

não praticam actos de comércio. destina-se a pessoas colectivas que prosseguem objectos importantes para determinada população mas em conjunto com a administração central. 2-Pessoas colectivas de fim económico não lucrativo: aqui a pessoas colectiva pretende conseguir certas vantagens patrimoniais para os seus associados: subsídios pecuniários no caso de invalidez. de frutificação do que é posto em comum pelos sócios. pois não se cuida propriamente de obter lucros para repartir pelos associados. podem constituir-se sob forma comercial. a mais das notas genéricas do 980º.Pessoas colectivas de direito privado e utilidade pública: são as que se propõem em escopo de interesse público. instrução. pretende-se a repartição de lucros. têm «por objecto praticar um ou mais actos de comércio». b)Pessoas colectivas de fim interessado ou egoístico: nestas pessoas colectivas. o escopo visado interesse de modo egoístico aos próprios associados. Mas não de uma finalidade lucrativa. nomeadamente. E trata-se de pessoas colectivas de utilidade pública. têm capacidade testamentária passiva (2033º) e capacidade judiciária (2936º). As sociedades comerciais têm personalidade jurídica. Quando falamos de sociedade comercial: tipo contratual autónomo que tem que preencher determinados requisitos. ainda que. a sua actividade (natural) não se insere no código comercial. etc. cultura física ou intelectual. São as que têm maior peso e existem em maior número. concorrentemente. Resumindo. que serão sempre – pode dizer-se – de tipo corporativo. de uma finalidade económica. Quanto às sociedades civis têm indiscutivelmente personalidade jurídica as constituídas sob forma comercial pois é-lhes aplicável o referido artigo. O regime geral está fixado no Decreto-Lei 460/77. Pessoas colectivas de “mera utilidade pública”: este é um estatuto reconhecido pelo Estado após uma requisição do particular. 48 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . As sociedades comerciais são as que. desporto. mas é tal que ao mesmo tempo interessa à comunidade 1-Pessoas colectivas de fim ideal: o objectivo egoístico que uma pessoa colectiva se proponha pode consistir num interesse de natureza ideal (não económica): recreio. etc. excepto quanto à falência. segundo algum dos 4 tipos de sociedades comerciais conhecidas pela nossa lei. Têm por objecto o lucro. Espécies ou tipos de sociedades A primeira distinção a estabelecer dentro das sociedades é entre sociedades civis e sociedades comerciais. ficando sujeitas às disposições do código comercial. se dirijam à satisfação dum interesse dos próprios associadas ou do próprio fundador. As sociedades a que falte esta diferença específica são sociedades civis. Exemplo é a sociedade comercial que tem uma disciplina privativa no código comercial.Pessoas colectivas de direito privado e utilidade particular: a finalidade própria destas pessoas colectivas é de mero interesse particular. II. Estas. a responsabilidade dos sócios é pessoal e solidária [porque não têm personalidade jurídica] (sociedades em nome colectivo). Trata-se. não têm personalidade jurídica. Só podem ser constituídas para o exercício de certas actividades económicas. É o que resulta do 108º código comercial. Os associados ou o fundador tomam a peito determinados interesses alheios.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Pessoas colectivas de direito público e privado I . empréstimos. a)Pessoas colectivas de fim desinteressado ou altruístico: nestas pessoas colectivas o interesse próprio que os associados ou o fundador querem satisfazer é um interesse de natureza altruística: o interesse de promover certos interesses de outras pessoas (beneficiários). aliás. porque à comunidade social importa que tais interesses sejam satisfeitos. pois.

o capital social está dividido em fracções a cada uma das quais corresponde uma acção. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 49 . pois intervêm nelas sócios que assumem responsabilidade ilimitada como os sócios das sociedades em nome colectivo (Comanditados) e sócios que só arriscam o valor das suas entradas como os accionistas das sociedades anónimas (comanditários). O seu regime está presente no código cooperativo. sendo portanto. respondem para com a sociedade pela realização da sua quota. 185º) ou testamento (a fundação apresenta-se tal qual está prevista no testamento). Podem exercer actividades económicas. Neste caso há uma dotação que é afecta á prossecução de determinado fim. de fiscalização (ex. Cabe ao instituidor dizer quais os bens afectos. isto é. não visam o lucro. Se falta a publicidade.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Tipos legais de sociedades a) Sociedades em nome colectivo – caracterizam-se pela responsabilidade pessoal. pela parte que lhes cabe do capital social. pelas prestações devidas à sociedade por algum ou alguns dos outros associados por força da não realização integral das suas quotas. as suas decisões são anuláveis e o 182º fala acerca da sua extinção (da associação). etc. para com a sociedade. A sua constituição tem que ser por escritura pública sob pena de nulidade. a associação não adquire personalidade jurídica. tal como nas anónimas. Segundo o 177º. a partir do requerimento do reconhecimento. A associação tem órgãos deliberativos (ex. cada sócio responde. a fundação é irrevogável. bem como o modo de funcionamento da fundação. Se algum aspecto for omisso. um negócio jurídico unilateral. DR). Também aqui só há produção de efeitos se for publicitada (185º n.: conselho fiscal). O 167º diz o que a escritura deve conter para respeitar a forma legal. A sua constituição dá-se mediante a verificação de princípios cooperativos com por exemplo o princípio da porta aberta. O reconhecimento da fundação é requerido pelo fundador ou pelos herdeiros e. nada mais tendo a satisfazer. Fundações Derivam de uma só pessoa. solidária e ilimitada dos sócios perante os credores sociais. culturais. A sua instituição é feita por: acto entre vivos (escritura pública. Cooperativas Antigamente eram uma subespécie de sociedades. solidariamente com os demais. Aplica-se subsidiariamente o código comercial. pelo montante das acções respectivas. Segundo o 168º. No antigo regime. executivos (ex.: assembleia geral). Os limites à vontade do instituidor e ao fim da fundação estão previstos no 189º. as cooperativas não eram bem cooperativas. os estatutos da associação estão a sujeitos a publicidade (série III. c) Sociedades em comandita – são uma combinação entre os tipos anteriores. d) Sociedades por quotas – os sócios também não respondem. esta traduz-se numa inoponibilidade a terceiros. pelo capital que subscreveu. e ainda. mesmo que os outros sócios estejam em dívida para com a sociedade. isto é.º5). A instituição é um acto irrevogável pelos herdeiros do fundador. b) Sociedades anónimas – os sócios estão isentos de responsabilidade pessoal pelas dívidas da sociedade e os credores sociais só se podem pagar pelos bens sociais. O seu capital é variável bem como a sua composição (princípio da porta aberta). sociais. Associações Emerge de negócio bilateral ou plurilateral. Não são sociedades.: órgão de administração). pelas dividas da sociedade.

bem podendo vir a chegar-se à conclusão oposta. sem necessidade de se ser representado ou assistido por outrem. administradoresdelegados. em princípio. Logo as pessoas colectivas. não há fundação. também. etc.capacidade de gozo. Trata-se dum problema de natureza conceitual.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Segundo o 191º. A lei fala indiferentemente em órgãos (162º) e em representantes (163º. não tomando estes termos no sentido rigoroso em que ficaram definidos.interesse social da fundação. Sem reconhecimento. Esta proposição negatória da capacidade de agir das pessoas colectivas não está. ou por autoridade pública.º2). 50 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . não podendo agir elas mesmas. A aquisição de personalidade/capacidade jurídica está presente no 160º havendo relação com o 158º. A resposta à pergunta “órgãos ou representantes?” infere-se da solução dada pela lei e um concreto problema de regulamentação: o problema da responsabilidade civil extracontratual das pessoas colectivas. conselho de administração.. pelos danos que o comissário causar. Neste caso. Quanto à representação voluntária. A capacidade para o exercício de direitos ou capacidade de agir consiste na aptidão para por em movimento a capacidade jurídica por actividade própria. estariam necessariamente privadas daquela capacidade.). a administração já actua de forma vinculada. Quanto ao primeiro. pois há autonomia entre as personalidades jurídicas do representante e do representado. Há limitações relativamente à capacidade das pessoas singulares. directores. se se concluir pela representação. independentemente de culpa. o que fazer com os bens (em caso de testamento)? Os bens devem ser entregues a uma colectividade que prossiga fins análogos ao da fundação. agindo o órgão é a própria pessoa que age. Só num caso bem delimitado a lei impõe essa responsabilidade no âmbito da representação voluntária: é a hipótese do 500º (“aquele que encarrega outrem de qualquer comissão responde. mas apenas através de determinadas pessoas singulares (assembleia geral. . gerentes. mesmo sem culpa.. Ora as pessoas colectivas carecem de um organismo físico-psíquico. Este tipo de responsabilidade só pode resultar dum comportamento (acção ou omissão) próprio.”). isenta de contestação possível. assim. a das pessoas colectivas é mais reduzida pois apenas se lhes aplicam os direitos necessários e convenientes. o reconhecimento é individual e verificam-se dois pressupostos: . 160º . responsabilidade civil extracontratual dos representados pelos actos dos seus representantes. A fundação é extinta segundo o 192º por: disposição da lei. todavia. só podendo agir por intermédio de certas pessoas físicas. com fundamento no risco: se beneficia duma actividade alheia – a do comissário – deve suportar os riscos respectivos.Capacidade para o exercício de direitos das pessoas colectivas. Na verdade resulta da lei não haver. o fim da pessoa colectiva determina a sua capacidade. é de verdadeira identificação e. 165º). não há responsabilidade do representado pelos actos ilícitos extracontratuais do seu procurador. No segundo caso. cujos actos projectarão a sua eficácia na esfera jurídica do ente colectivo. Nesta hipótese uma pessoa (o comitente) responde. “Princípio da especialidade do fim” – norteia a medida da capacidade das pessoas colectivas. em princípio. verifica-se um juízo discricionário para o seu apuramento. pois a relação entre um órgão e o ente em que se integra. então deve rejeitar-se a tese da capacidade para o exercício de direitos das pessoas colectivas. Neste caso. 76. Tudo depende da natureza do vínculo entre a pessoa colectiva e aquelas pessoas físicas que procedem em seu nome e no seu interesse: será um nexo de verdadeira organicidade. então pode aceitar-se terem as pessoas colectivas capacidade para o exercício de direitos. ou de mera representação? Se se concluir pela organicidade. a vontade do instituidor pode ser afastada se houver prejuízo sobre o património da fundação.suficiência dos bens (188º n.

A personalidade colectiva é um mecanismo aparelhado pela ordem jurídica para mais fácil e eficaz realização de certos interesses (os correspondentes aos fins estatutários). nem. nos termos do 500º. agentes ou mandatários que produzam o inadimplemento de uma obrigação em sentido técnico. aplicável às associações. apenas. Assim resulta claramente do 165º («as pessoas colectivas respondem civilmente»: esta expressão abrange quer a responsabilidade contratual. que prevê uma hipótese sem analogia com a situação das pessoas colectivas. enquanto a das pessoas singulares é de carácter geral.º1. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 51 . Só então se poderá dizer que foi encarregado de uma comissão. injustificável. Essas limitações constam do 160º e são as seguintes: 1ª . os titulares de toda a iniciativa e não meros comitidos. Sendo assim. encontrar quem com ela transaccionasse a crédito. As pessoas colectivas podem. a uma autoridade deste. Não é. estarem fora da capacidade jurídica das pessoas colectivas os direitos e obrigações que não sejam necessários ou convenientes à prossecução dos seus fins. As pessoas colectivas de fim desinteressado ou egoístico ideal não estão de todo incapacitadas para praticar actos de natureza lucrativa. também. É o chamado princípio da «especialidade do fim».Responsabilidade civil das pessoas colectivas Responsabilidade contratual Seria uma situação de favor. salvo no caso particular do 500º. Ora tal qualificação só lhe pode caber quando estiver numa relação de dependência em face do representado – quando estiver submetido a um poder de direcção. portanto.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL A situação prevista no 500º abrange. um sector caracterizado da representação voluntária: os casos em que o procurador pode ser considerado um comissário nos termos e para os efeitos do mesmo artigo. dificilmente. É uma capacidade jurídica específica. uma capacidade igual para todas. com o reverso desfavorável para a própria pessoa colectiva de.resulta. mas são eles próprios formuladores da vontade da pessoa colectiva. «a contrario» do 160º n. 2ª . Logo as pessoas físicas que agem em seu nome e no seu interesse são ou integram verdadeiros órgãos e portanto as pessoas colectivas têm capacidade para o exercício de direitos. a exclusão dessa forma de responsabilidade. Tal restrição já constava da legislação anterior (34º do código civil: não podiam ser sujeitos de relações estranhas «aos interesses legítimos do seu instituto«). ser titulares dos chamados direitos de personalidade (pelo menos de alguns): direito ao nome (72º). todavia. igual à capacidade de que desfrutam as pessoas singulares.Capacidade jurídica (capacidade de gozo de direitos) das pessoas colectivas A capacidade jurídica das pessoas colectivas é um «status» inerente à sua existência como pessoas jurídicas (67º). em ordem a obter recursos para a prossecução dos seus fins. quer a extracontratual). 78. muito menos. 77. pois estes – pelo menos o órgão mais qualificado – não são encarregados de uma comissão. que o instituto da representação. às fundações e também às sociedades. Constata-se. por assim o justificar a analogia das situações (175º).estão exceptuadas do âmbito da capacidade jurídica das pessoas colectivas as relações jurídicas vedadas por lei ou que sejam inseparáveis da personalidade singular. legal ou voluntária. etc. não importa qualquer responsabilidade dos representados pelos actos ilícitos extracontratuais dos seus representantes. tal situação nenhuma analogia apresenta com a ligação entre a pessoa colectiva e os seus «representantes». A lei refere-se-lhe expressamente para o efeito de a limitar. Devem portanto responder pelos factos dos seus órgãos. Ora no 165º estatui-se a responsabilidade civil dos entes colectivos.

estabelecendo-se no 799º uma presunção refutável de culpa na caso de não cumprimento defeituoso. portanto. à supremacia do titular activo da relação jurídica e é o objecto desta. O 165º estatui que as pessoas colectivas respondem nos mesmos termos em que os comitentes respondem pelos actos ou omissões dos seus comissários. ser exercitados sobre um determinado «quid». A solução afirmativa do problema da responsabilidade extracontratual está expressamente consagrada no 165º para os actos praticados por órgãos (representantes). por força do princípio de justiça segundo o qual quem emprega determinadas pessoas para vantagem própria deve suportar os riscos da sua actividade. desde que tenha havido culpa deste no plano das relações internas. pessoa. O direito subjectivo traduz-se num poder atribuído a uma pessoa.º1). O objecto de uma relação jurídica é precisamente o «quid» sobre que incidem os poderes do seu titular activo.Objecto da relação jurídica.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL O princípio geral do nosso código em matéria de responsabilidade contratual. incluindo um determinado modo de ser da própria pessoa. corpóreo ou incorpóreo. É o que resulta do 800º para o qual se deve considerar como feita remissão do 165º. Aliás. agente ou mandatário no exercício da função que lhe foi confiada. isto é. desde que o inadimplemento tenha sido culposo e dele resultem danos. 3)Ao lado da pessoa colectiva fica igualmente adstrito à obrigação de indemnizar o órgão. verificar-se a culpa dos órgãos ou agentes da pessoa colectiva pelo inadimplemento da obrigação. conferem a possibilidade de exercer uma soberania ou domínio sobre um bem. se devem verificar os pressupostos seguintes: 1)Que sobre o órgão. exige a subordinação de um bem ao poder do titular do direito. na hipótese de responsabilidade contratual. integrado nas disposições relativas à responsabilidade pelo risco (responsabilidade objectiva). ibi incommoda»). podendo exigir-lhe o reembolso de tudo quanto haja pago. Este poder. Conceito. está enunciado no 798º. O 165º remete para a responsabilidade dos comitentes por actos dos seus comitidos. outro direito). 4)A pessoa colectiva que tiver satisfeito a indemnização ao lesado tem direito de regresso contra o órgão. Resulta desta disposição que. o que não nos parece exacto. prestação. o regime é o mesmo em virtude de o inadimplemento da obrigação se dever sempre considerar como tendo ocorrido «no exercício da função que lhe foi confiada». Responsabilidade extracontratual A responsabilidade extracontratual das pessoas colectivas é a melhor solução «de jure condendo».º1). para a pessoa colectiva responder. não se tornando necessário mais nenhum requisito. Objecto e conteúdo Fala-se de objecto da relação jurídica para referir o objecto do direito subjectivo que constitui o lado activo da mesma relação. podem. e as faculdades que o integram. que corresponde ao aspecto funcional do direito. Esse poder e essas faculdades incidem sobre determinado ente (coisa ou pessoa). está submetido aos poderes. agente ou mandatário. Tal responsabilidade – na hipótese da responsabilidade aquiliana – consta do 500º. se se considerar que a remissão é feita para o 500º. Esse bem. Nestes termos. 52 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . o ente colectivo responde para com o credor. (II)TEORIA GERAL DO OBJECTO DA RELAÇÃO JURÍDICA 80. Deve. agente ou mandatário (500º n. Ao alargamento das potencialidades do sujeito na satisfação dos seus interesses próprios deve corresponder a responsabilidade pelos danos causados por esse alargamento («ubi commoda. quase sempre. que constitui o ponto de incidência do direito. A satisfação do interesse. em que se prescinde da culpa do responsável. Daí resulta ser necessário para o surgimento da obrigação de indemnizar que tenha havido culpa do devedor no não cumprimento. sobre um objecto (coisa corpórea ou incorpórea. 2)Que o acto danoso haja sido praticado pelo órgão. agente ou mandatário recaia igualmente a obrigação de indemnizar (500º n. agentes ou mandatários.

O objecto mediato é a própria coisa que deve ser entregue ao credor. isto é. o usufrutuário. modificação ou constituição de relações jurídicas). contudo. ao usufrutuário. A distinção nem sempre se verifica. A distinção exprime a diversidade entre aquilo que directamente está submetido aos poderes ideais que integram um direito subjectivo e aquilo que só de uma forma mediata ou indirecta. sendo é certo a espécie mais corrente de objectos de relações jurídicas. Exemplos desta figura são os direitos integrados nos institutos de poder paternal e do poder tutelar. Objecto: é aquilo sobre que recaem os poderes do titular do direito.Possíveis objectos de relações jurídicas O 202º estabelece equivalência entre o conceito de coisa e o de objecto de relações jurídicas e enuncia o artigo seguinte várias classificações das coisas. São direitos a uma modificação jurídica (extinção. fruir. Facilmente se distinguem. dispor). pois. das relações jurídicas. puramente filosófico. quer os que suscitam dúvidas. o objecto das relações jurídicas. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 53 . Quis-se certamente restringir o conceito de coisa àquilo que pode ser objecto de direitos. nos sistemas jurídicos modernos. Definido. 82. está submetido àqueles poderes. puramente pensado.. de coisa. o credor só tem direito à coisa através da prestação do devedor. Objecto do direito de propriedade são os poderes conferidos pelo ordenamento jurídico ao proprietário (poderes de usar. que aquela equivalência não é inteiramente rigorosa. sob a tutela do ordenamento jurídico que actua positivamente (atribuição de poderes ao proprietário. não esgotam contudo a extensão do conceito de objecto jurídico. todo o «quid». quer os que inquestionavelmente o são. 1)Pessoas: Estes direitos sobre outras pessoas. Cremos. Nos direitos reais não há intermediário entre o titular do direito e a coisa.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Objecto de relações jurídicas (objecto de direitos subjectivos é. 2)Prestações: Nos direitos de crédito o objecto é uma conduta ou acto humano: a prestação. parece dever concluir-se que os direitos potestativos não têm objecto. todo o bem sobre que podem recair direitos subjectivos). afastando um conceito amplo. o acto de entrega da coisa. isto é. Conteúdo: é o conjunto dos poderes ou faculdades que o direito subjectivo comporta. O proprietário. através de um elemento mediador. Na verdade o exercício destes direitos não se traduz na incidência de quaisquer poderes ou de qualquer domínio sobre um bem submetido a essa supremacia.: A obrigase para com o empresário B a dar um recital de piano) já a distinção entre objecto imediato e objecto mediato se apresenta evanescente. Vejamos de per si cada um dos possíveis objectos de relações jurídicas.Objecto imediato e objecto mediato Pode distinguir-se entre objecto mediato e imediato dos direitos subjectivos. etc. estão em contacto directo com o objecto do seu direito. a prestação. Actuam com carácter conformador sobre o mundo. ao contrário do titular dos direitos reais. 81. mediante uma identificação com o bem sobre que incidem os poderes do titular actual. todo o ente. mas antes poderesdeveres ou poderes funcionais. etc. as noções de objecto de um direito e de conteúdo do mesmo direito.) e negativamente (imposição de um dever geral de abstenção a todos os outros). têm um conteúdo especial. na verdade. Entre o credor (ou o seu direito) e a coisa intromete-se a pessoa do devedor. A distinção verifica-se nas obrigações (direitos de crédito) de prestação de coisa certa e determinada. Nas obrigações de prestação de facto (ex. assim. Nelas o objecto imediato do direito do credor é o comportamento do próprio devedor. pois não são direitos subjectivos do tipo comum. pois as coisas. colhendo directamente dele as respectivas utilidades. assim.

ainda que não tenha existência real e presente. literárias. isto é. e. Pensemos nas pessoas.. se deve falar em direitos sobre certos modos de ser da pessoa ou antes em posições jurídicas fundamentais do homem. contudo. objecto dos direitos de autor ou de propriedade industrial. objecto de certas figuras de direitos sobre direitos. Compreende-se assim que o direito reconheça esses bens e tutele os aspectos patrimonial e pessoal apontados. etc. uma abstenção nas obrigações de prestação de facto negativo. Conjugando todas estas ideias podemos definir as coisas em sentido jurídico como «os bens (ou os entes) de carácter estático. etc. usufruto de direitos de crédito. há que considerar o 202º. invenções industriais. que são o pressuposto de todos os direitos. desprovidos de personalidade e não integradores do conteúdo necessário desta. Com efeito há entes susceptíveis de serem objecto de relações jurídicas que não são coisas em sentido jurídico. (II)As coisas e o património 83. idoneidade para satisfazer interesses humanos. possibilidade de sujeição jurídica ao poder exclusivo de um ou alguns homens. Acresce não se divisar um qualquer valor operacional ou prático na inclusão de uma definição deste tipo num código. 6)A própria pessoa (certas manifestações ou modos de ser físicos ou morais da pessoa): Alguns autores contestam veemente a legitimidade da figura dos direitos sobre a própria pessoa. da inteligência ou da sensibilidade humanas. Quanto aos bens imateriais. de importância limitada no quadro dos fins da ciência do Direito. e aos direitos. devem ser úteis. produtos do engenho. cientificas. é um problema de construção dogmática. Estes bens têm valor patrimonial autónomo. pois ela está reflectida na obra criada.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Nestes direitos o objecto não é rigorosamente uma coisa (res). revestindo a noção explicitada no 202º um significado puramente expositivo. nos modos de ser ou bens da própria personalidade. alguns deles estão intimamente ligados à personalidade do seu autor. Exemplos: penhor de direitos. fundamentalmente teórico. intelectuais. 54 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . devem ser apropriáveis. pois podem ser explorados economicamente. Não pode considerar-se rigorosa tal definição. a esse respeito. nas prestações. susceptíveis de constituírem objecto de relações jurídicas. 4)Coisas incorpóreas ou bens imateriais: A actividade espiritual do homem pode ser exercida no sentido da criação de obras. isto é. Quanto ao sentido jurídico de coisa. de tipo manualístico e. É. referidas no 829º a). Para além do seu valor patrimonial. necessário que estes objectos corpóreos revistam certos requisitos: existência autónoma. 5)Direitos subjectivos: Pode pôr-se o problema de saber se um direito subjectivo pode constituir objecto de outro direito subjectivo. onde se contém a seguinte definição: «Diz-se coisa tudo aquilo que pode ser objecto de relações jurídicas». Saber se. São coisas incorpóreas. nesse plano. Em consequência dessa aplicação do espírito humano surgem obras artísticas. carecidas de personalidade jurídica (coisas materiais). mas um comportamento do devedor (uma actividade nas obrigações de prestação de coisa ou de prestação de facto positivo. como dissemos. incorrecto. pelo menos. Num sentido físico coisa é tudo o que tem existência corpórea ou. é susceptível de ser captado pelos sentidos. podem integrar-se no conceito de coisas. 3)Coisas materiais ou corpóreas: Nenhuma dúvida se pode suscitar acerca da possibilidade de realidades físicas. serem objecto de direitos subjectivos.Noção jurídica de coisa Num sentido corrente e amplo coisa é tudo o que pode ser pensado. portanto. embora tenham um regime especial relativamente ao regime geral das coisas e não estejam previstas nas várias classificações das coisas enumeradas no 203º.

. de qualquer homem. Os primeiros resultam da vontade como elemento juridicamente relevante. as coisas principais e as coisas acessórias ou pertenças. Para esse efeito devem apresentar as seguintes características: a)Existência autónoma ou separada (uma casa é uma coisa. etc. com valor de troca (pode tratar-se de bens com valor meramente pessoal). Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 55 . principalmente. Os segundos são estranhos a qualquer processo volitivo – ou porque resultam de causas de ordem natural ou porque a sua eventual voluntariedade não tem relevância jurídica. c)Aptidão para satisfazer interesses ou necessidades humanas (o homem é a medida e o critério do relevo jurídico das coisas. a camada atmosférica. ou os que. só são coisas em sentido jurídico quando puderem ser objecto de relações jurídicas. a luz solar.Noção de facto jurídico Facto jurídico é todo o acto humano ou acontecimento natural juridicamente relevante. noção igualmente importante dada a sua aplicação no regime da posse. etc. Esta relevância jurídica traduz-se. um grão de areia. como os animais bravios ou os peixes não apropriados. voluptuárias (destina-se ao recreio). carecidos de personalidade. ou de coisas abandonadas. as coisas divisíveis. como por exemplo e por enquanto. na produção de efeitos jurídicos. senão mesmo necessariamente. uma gota de agua. pois para nada servem. as coisas consumíveis. Dá também o conceito de frutos (212º: tudo o que a coisa produz periodicamente. são manifestação ou actuação de uma vontade. b)Que se trate de bens permutáveis. são necessariamente aproveitados por todos os homens. etc. noção muito importante dada a sua aplicação no regime do usufruto e da posse (os frutos da coisa cabem ao possuidor da boa fé. são acções humanas tratadas pelo direito enquanto manifestações de vontade. as coisas simples e compostas. as coisas fungíveis. etc.Classificação dos factos jurídicos A primeira grande classificação dos factos jurídicos é a que se pode estabelecer entre factos voluntários ou actos jurídicos e factos jurídicos involuntários ou naturais. b)Possibilidade de apropriação exclusiva por alguém (não são coisas os bens que escapam ao domínio do homem. as coisas futuras. portanto. enquanto absorvida ou incluída no todo). (III)TEORIA GERAL DO FACTO JURÍDICO (1)Dos factos jurídicos em geral (I)Conceitos e Classificações 87. do arrendamento. por isso não são coisas. não sendo todavia cada uma das pedras ou das paredes que a integram. isto é. que sejam bens apropriáveis). mas não já ao possuidor de má fé). c)Que se trate de bens efectivamente apropriados (pode tratar-se das «res nullius». O código civil define no 204º e seguintes as coisas imóveis e móveis. úteis (não são indispensáveis mas mantêm o valor da coisa).) Inversamente não é necessário: a)Que se trate de bens de natureza corpórea (a energia eléctrica é uma coisa como o são os objectos dos direitos de autor e da propriedade industrial).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Os bens de carácter estático. por falta de possibilidade de delimitação ou captura. os planetas. como por exemplo. basta. Definem-se igualmente as benfeitorias (216º: despesas feitas para conservar ou melhorar a coisa). sem prejuízo da sua substância). 88. O mesmo artigo considera e define três modalidades de benfeitorias: necessárias (indispensáveis para manter a coisa). as estrelas.

todavia. elementos e classificações (I)Conceito e elementos 94. Os actos ilícitos são contrários à ordem jurídica e por ela reprovados. da descoberta de um tesouro. apareça como manifestação de uma vontade de certos efeitos práticos sob a sanção do ordenamento jurídico. É o caso da interpelação do devedor. determinando o ordenamento jurídico a produção dos efeitos jurídicos conformes à intenção manifestada pelo declarante ou declarantes. O que é verdadeiramente constitutivo do negócio é o comportamento declarativo – a existência de um comportamento que. da notificação da cessão de créditos. Os efeitos dos negócios jurídicos produzem-se «ex voluntate» e não apenas «ex lege». mesmo que não tenham sido previstos ou queridos pelos seus autores. cujo núcleo essencial é integrado por uma ou mais declarações de vontade a que o ordenamento jurídicos atribui efeitos jurídicos concordantes com o conteúdo da vontade das partes. importam uma sanção para o seu autor (infractor de uma norma jurídica). da ocupação de animais ou coisas móveis. Os factos voluntários ou actos jurídicos podem. Os actos lícitos são conformes à ordem jurídica e por ela consentidos. Os negócios jurídicos são factos voluntários. segundo outra classificação de carácter fundamental. Os actos reais ou operações jurídicas: traduzem-se na efectivação ou realização de um resultado material ou factual a que a lei liga determinados efeitos jurídicos.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Os factos jurídicos voluntários podem ser lícitos ou ilícitos. etc. da gestão de negócios. da especificação. Dentro dos simples actos jurídicos é usual fazer-se uma distinção entre: Os quase-negócios jurídicos: traduzem-se na manifestação exterior de uma vontade. Não é. (II)DO NEGÓCIO JURÍDICO E DO SIMPLES ACTO JURÍDICO (1)Conceito. distinguir-se em negócios jurídicos e simples actos jurídicos ou actos jurídicos «stricto sensu». 56 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . A importância do negócio jurídico manifesta-se na circunstância de esta figura ser um meio de auto-ordenação das relações jurídicas de cada sujeito de direito. tal como este é objectivamente (de fora) apercebido. Os efeitos dos simples actos jurídicos ou actos jurídicos «stricto sensu» produzem-se «ex lege» e não «ex voluntate». dirigidas à realização de certos efeitos práticos. A distinção entre negócios jurídicos e simples actos jurídicos assenta precisamente neste critério da relação que intercede entre a vontade ou volição das partes dirigida a um resultado e os efeitos jurídicos produzidos. É o que sucede com o testamento e com os contratos. apesar disso nem sempre os efeitos jurídicos respectivos são produzidos por terem sido queridos e na medida em que o foram.Conceito e importância do negócio jurídico Os negócios jurídicos são actos jurídicos constituídos por uma ou mais declarações de vontade. Os simples actos jurídicos são factos voluntários cujos efeitos se produzem. necessária uma vontade de produção dos efeitos correspondentes ao tipo de simples acto jurídico em causa para essa eficácia se desencadear. Estamos no domínio dos factos voluntários. exteriormente observado. com intenção de os alcançar sob tutela do direito. embora muitas vezes haja concordância entre a vontade destes e os referidos efeitos. etc. Estamos perante o instrumento principal de realização do princípio da autonomia da vontade ou autonomia privada. É o caso da acessão (uma coisa de uma pessoa une-se a uma coisa de outra pessoa) industrial (resultado de acção humana) ou natural (derivada de causa naturais).

para um jantar). são perfeita e completamente correspondentes ao conteúdo da vontade das partes. modificar ou extinguir um vinculo jurídico (ex. Por outro lado. é a parte interessada em demonstrar a inexistência da intenção negocial que tem o onus probandi. a vontade de se gerarem efeitos jurídicos nomeadamente deveres jurídicos. pois. praxes sociais. A vontade dirigida a efeitos práticos. os negócios jurídicos do chamados gentlemen’s agreements. Estes são promessas ou combinações da vida social. A estes efeitos práticos ou empíricos manifestados. Haveria uma vontade das partes dirigida à produção de determinados e precisos efeitos jurídicos. Por falta de intenção de efeitos jurídicos nestes termos. se é certo que algumas normas supletivas consagram cláusulas usuais ou de estilo do comércio jurídico. tais como a lei os determina.). a ser esta doutrina correcta. Ora. Pode surgir a dúvida sobre se numa dada hipótese existe um negócio de pura obsequiosidade ou um negócio jurídico – ou antes sobre se existe um «agreement» ou um negócio jurídico.Relação entre a vontade exteriorizada na declaração negocial e os efeitos jurídicos do negócio. não é menos verdade que elas só deixam de se aplicar quando uma vontade real contrária for manifestada. Teoria dos efeitos prático-jurídicos É o ponto de vista correcto. normalmente económicos. distinguem-se os negócios jurídicos dos chamados negócios de pura obsequiosidade.: o convite para um passeio. Este ponto de vista não fornece o correcto diagnóstico ou o correcto critério para a determinação da relação que intercede no negócio jurídico entre a vontade dos seus autores e os efeitos jurídicos respectivos. é a parte interessada em demonstrar a existência do negócio jurídico que tem o ónus da prova respectivo. sem carácter ilícito. Teoria dos efeitos jurídicos Para esta doutrina os efeitos jurídicos produzidos. o que sucede é que as partes dos vários negócios não têm uma representação completa e exacta de todos os efeitos que o ordenamento jurídico atribui às suas declarações de vontade. As partes manifestam apenas uma vontade de efeitos práticos ou empíricos. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 57 . às quais é estranho o intuito de criar. igualmente. A falta de vontade de efeitos jurídicos distingue. Os próprios efeitos derivados de normas supletivas resultariam da tácita vontade das partes. Os autores dos negócios jurídicos visam certos resultados práticos ou materiais e querem realizá-los por via jurídica. Também esta concepção é inaceitável. Se a dúvida for do segundo tipo. só os juristas completamente informados sobre o ordenamento podiam celebrar negócios jurídicos. também uma vontade de efeitos jurídicos. estão desprovidas de intenção de efeitos jurídicos. não é única nem é a decisiva – decisivo para existir um negócio é a vontade de os efeitos práticos queridos serem juridicamente vinculativos. mas que. não bastando provar-se que as partes não pensaram no ponto ou até provavelmente não teriam querido aquele regime. Simplesmente não se trata de uma representação completa dos efeitos jurídicos correspondentes àquela vontade de efeitos práticos – esses efeitos jurídicos completos serão determinados pela lei. etc. Aliás. faria a lei corresponder efeitos jurídicos concordantes. Têm. É o caso de um empréstimo de honra ou de uma disposição de bens para depois da morte. Estas convenções são combinações sobre a matéria que é normalmente objecto de negócios jurídicos. correspondentes aos efeitos práticos. em que o disponente confia pura e simplesmente na honorabilidade dos herdeiros a quem cumpre executar a disposição. excepcionalmente. Se a dúvida for do primeiro. Há uma «intenção dirigida a um determinado efeito económico juridicamente garantido». moral.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 95. Tal como define o negócio jurídico este não se distingue dos compromissos ou convenções celebradas sob o império de outros ordenamentos normativos (cortesia. Teoria dos efeitos práticos Para esta doutrina a teoria dos efeitos jurídicos não é realista – está longe da realidade.

etc. ajustando-se na sua comum pretensão de produzir resultado jurídico unitário. que se conciliam num consenso. São eles a capacidade das partes (e a legitimidade. 2) vigora o princípio da tipicidade. Elementos acidentais São as cláusulas acessórias dos negócios jurídicos. Nos negócios unilaterais há uma só declaração de vontade ou várias declarações. da estipulação de lugar e tempo para o cumprimento da obrigação. 58 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . submetendo os efeitos do negócio a um evento futuro e incerto. enquanto nos segundos basta a emissão da declaração. ser excluídos por estipulação antecipadamente formulada. não vemos razão para afastar a sistematização tradicional que considera elementos essenciais de todo e qualquer negócio jurídico os requisitos ou condições gerais de validade de qualquer negócio. Alguns exemplos de negócios unilaterais: testamento. a declaração de vontade sem anomalias e a idoneidade do objecto. abrangendo assim as duas modalidades. todavia. podendo. sem ser necessário comunicá-la a quem quer que seja. formando um só grupo. sendo estas a estipulação que caracteriza um determinado negócio jurídico. Há assim uma oferta ou proposta e a aceitação. de conteúdo oposto. É o caso das cláusulas de juros. 885º (compra e venda). O critério classificativo é o do número e modo de articulação das declarações integradoras do negócio. derivados de disposições legais supletivas. (II)Classificações dos negócios jurídicos 97. 3) uma importante distinção neste domínio é a que se deve estabelecer entre negócios unilaterais receptícios e negócios unilaterais não receptícios. 1030º (locação). Elementos naturais São os efeitos negociais. se for e quando for dirigida e levada ao conhecimento de certa pessoa. Trata-se das estipulações que não caracterizam o tipo negocial em abstracto. nos primeiros a declaração só é eficaz. renúncia a certos direitos. São exemplos de normas supletivas. mas paralelas. mas convergente.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 96. embora com um significado para cada parte. Nos contratos ou negócios bilaterais há duas ou mais declarações de vontade. Acerca dos negócios unilaterais importa focar as seguintes notas ou características do regime dos negócios unilaterais: 1) é desnecessária a aceitação do adversário. mas se tornam imprescindíveis para que o negócio concreto produza os efeitos a que elas tendem. Existem também as condições especiais de validade.Negócios jurídicos unilaterais e contratos ou negócio jurídicos bilaterais O código civil contém uma regulamentação geral do negócio jurídico. quando a sua falta implique invalidade e não apenas ineficácia). Não é necessário que as partes configurem qualquer cláusula para a produção destes efeitos. É o caso paradigmático da compra e venda. da cláusula condicional. e consequentemente de efeitos correspondentes a elementos naturais dos respectivos tipos de negócio jurídico. os artigos 964º (doação). etc.Elementos dos negócios jurídicos Elementos essenciais Sendo o negócio jurídico um acto que só desempenha a sua função na medida em que for válido. etc.

feita por qualquer dos esposados (1700º n.) a sua aceitação. os segundos destinamse a só produzir efeitos depois da morte da respectiva parte ou de alguma delas. Do artigo 224º resulta consagrar o nosso direito a doutrina da recepção. etc. Várias doutrinas abordam a questão: a) Doutrina da aceitação: o contrato está perfeito quando o destinatário da proposta declarou aceitar a oferta que lhe foi feita. 98. cada uma das declarações (proposta e aceitação) é emitida em vista do acordo. a compra e venda.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Acerca dos contratos Não são integrados por dois negócios unilaterais. feita pelo outro esposado ou por terceiro (1700 n. isto é. os interesses do declarante devem prevalecer sobre o interesse na protecção da confiança do destinatário dos efeitos respectivos. d) Doutrina da percepção: o contrato só está perfeito quando o proponente tomou conhecimento efectivo da aceitação.º 1 b)). por qualquer meio. todavia. b) Instituição contratual de herdeiro ou legatário em favor de terceiros. apenas admitindo nalguns casos particulares (2028º). A regra de proibição dos pactos sucessórios comporta excepções. etc. Negócio «mortis causa» é. mas não já a faculdade de resolução com fundamento em inadimplemento ou mora: esta. quando o proponente passa a estar em condições de a conhecer. Tais convenções podem ser. Não será. que parece a preferível. obrigações ligadas entre si por um nexo de causalidade ou correspectividade. Os negócios da segunda categoria são negócios «fora do comércio jurídico». Nestes há inicialmente apenas obrigações para uma das partes. sob a pena de nulidade. a tutela das expectativas da parte que se encontra em face da declaração negocial.º1 a)). pode ter lugar também nalguns contratos unilaterais. O código considera lícitas certas disposições por morte feitas em convenção antenupcial. inequivocamente. Uma importante distinção é a que se faz entre contratos unilaterais e contratos bilaterais. A lei actual proíbe em princípio os pactos ou contratos sucessórios. c) Doutrina da recepção: o contrato está perfeito quando a resposta contendo a aceitação chega à esfera de acção do proponente. por qualquer meio (telegrama. por força dos interesses gerais do comércio jurídico. b) Doutrina da expedição: o contrato está perfeito quando o destinatário expediu. de dois tipos: a) Instituição contratual de herdeiro ou legatário em favor de qualquer dos esposados. é nulo. Sendo o contrato integrado por duas declarações. Assim. nem a excepção de não cumprimento do contrato. na sua regulamentação. no sentido de que.Negócios entre vivos e negócios «mortis causa» Os primeiros destinam-se a produzir efeitos em vida das partes. por exemplo. põe-se o problema de saber qual o momento da sua perfeição. carta. surgindo eventualmente mais tarde obrigações para a outra parte. Os contratos bilaterais ou sinalagmáticos geram obrigações para ambas as partes. fundamentalmente. se. em virtude do cumprimento das primeiras e em dados termos. necessário que a declaração chegue ao poder ou à esfera de acção do proponente. mantendo-se durante lapsos de tempo referidos no 228º. Importância: a excepção de não cumprimento do contrato (428º) é privativa dos contratos bilaterais. Os autores referem também a categoria dos contratos bilaterais imperfeitos. a locação. Não tem lugar nos contratos bilaterais imperfeitos a condição resolutiva tácita. o testamento. Nestes termos. foi dele conhecida (224º n. um contrato de alienação da própria herança mediante um preço ou uma renda vitalícia. Os contratos unilaterais geram obrigações apenas para uma das partes. existindo nos contratos bilaterais. À primeira categoria pertencem quase todos os negócios jurídicos e na sua disciplina tem grande importância. A proposta de contrato é irrevogável depois de chegar ao conhecimento do destinatário (230º). Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 59 .º1).

também. nem podendo celebrar contratos diferentes dos previstos na lei. esta não for observada. quanto aos contratos. 100. com carácter real. de celebração de contratos diferentes dos previstos na lei e de inclusão nestes de quaisquer cláusulas (405º). tratando-se de contratos) são os que podem ser celebrados por quaisquer meios declarativos aptos a exteriorizar a vontade negocial. nos casos excepcionais em que a lei prescrever uma certa forma (casos que. dentro do círculo de actividade que lhe é atribuído. sofrendo embora restrições (1699º. Quanto aos negócios familiares patrimoniais: existe. realizar-se através de certo tipo de comportamento declarativo imposto pela lei (por escrito. No domínio dos negócios obrigacionais: vigora o princípio da liberdade negocial.Negócios reais São aqueles negócios em que se exige. etc.Negócios obrigacionais. pelo notário ou outro oficial público provido de fé pública. são numerosos e frequentes). Os negócios reais podem ser classificados quanto aos efeitos e quando à sua constituição. Os negócios não solenes (consensuais.Negócios patrimoniais e negócios pessoais refere. vigora. Só podem constituir-se direitos reais típicos. A sua importância resulta da diversa extensão que o princípio da liberdade contratual (405º) reveste cada uma das categorias. nos negócios formais. 1714º). 101. quanto a problemas como o da interpretação do negócio jurídico e o da falta ou dos vícios da vontade. familiares e sucessórios O critério desta classificação diz respeito à natureza da relação jurídica constituída. com alguma largueza. Documento particular: todos os outros. a prática anterior ou simultânea de um certo acto material. a declaração negocial deve. 102. Documento autêntico: são os documentos exarados. formalizadas ou não. quanto aos negócios unilaterais. resultantes de algumas normas imperativas do direito das sucessões. Quando o negócio é formal. o acatamento de determinado formalismo ou de determinadas solenidades. através de certo tipo de documento. embora essa constituição possa resultar de um negócio inominado ou atípico.). Quanto aos negócios familiares pessoais: a liberdade contratual está praticamente excluída. Quanto aos negócios sucessórios: este princípio sofre importantes restrições. Quanto aos negócios reais: o princípio da liberdade contratual sofre considerável limitação derivada o princípio da tipicidade. pelas autoridades publicas nos limites da sua competência ou. mediante uma cerimonia. Quanto às noções de documento autêntico e documento particular elas estão no 363º. porém. O critério distintivo é. mas não podendo fixar-lhe livremente o conteúdo. as partes não o podem realizar por todo e qualquer comportamento declarativo. a liberdade de convenção (1698º). com as formalidades legais. reais. modificada ou extinta pelo negócio. quase inconfinadamente. não tem que atender às 60 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . o princípio da tipicidade (457º). abrangendo a liberdade de fixação do conteúdo dos contratos típicos. a declaração negocial é nula.Negócios consensuais ou não solenes e negócios formais ou solenes Os negócios formais ou solenes são aqueles para os quais a lei prescreve a necessidade da observância de determinada forma. o da natureza da relação jurídica a que o negócio se Os negócios pessoais são negócios cuja disciplina. visto que «não é permitida a constituição. de restrições ao direito senão nos casos previstos na lei» (1306º). embora representem uma excepção. a lei não impõe uma determinada roupagem exterior para o negócio. Quando. além das declarações de vontade das partes.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 99. podendo apenas os interessados celebrar ou deixar de celebrar o negócio.

só uma venha a ganhar.Negócios parciários São um subespécie dos negócios onerosos. ao invés. por exigência de tutela da confiança do declaratário e dos interesses do tráfico. Uma parte tem a intenção. nas doações (paradigma dos negócios gratuitos). Não é necessário um equilíbrio ou uma equivalência das prestações ou atribuições patrimoniais. um nexo ou relação de correspectividade entre as referidas atribuições patrimoniais (normalmente traduzidas em prestações). Os negócios onerosos pressupõem atribuições patrimoniais de ambas as partes. mas uma delas é incerta no seu «quantum» (seguro de vida).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL expectativas dos declaratários e aos interesses gerais da contratação. dependendo de um facto incerto a determinação de quem a realizará (aposta. 105. consideradas pelo seu valor objectivo ou normal. 104. Pode haver uma só prestação. Os negócios gratuitos caracterizam-se. se valorizarem frequentemente os interesses de terceiros e os do doador em maior medida do que os do donatário. se cada parte obtém da outra uma vantagem. certas formas de sociedade. de efectuar uma atribuição patrimonial a favor de outra. Os contratos de jogo e de aposta não são contratos válidos. devidamente manifestada. em matéria da impugnação pauliana (612º). quanto aos problemas em que está em causa a subsistência da doação.Contratos comutativos e contratos aleatórios É uma subdivisão a estabelecer dentro dos contratos onerosos. de protecção do terceiro adquirente de boa fé «a non domino». segundo a perspectiva destas. nem constituem fonte de obrigações civis. nos termos do qual uma das partes remeta à outra tantas unidades de certa mercadoria. 103. A outra parte procede com a consciência e vontade de receber essa vantagem sem um sacrifício correspondente. etc. Caracterizam-se pelo facto de uma pessoa prometer certa prestação em troca de uma qualquer participação nos proveitos que a contraparte obtenha por força daquela prestação. Cada uma das prestações ou atribuições é o correspectivo (a contrapartida) da outra. de incêndio. está a pagá-la com um sacrifício que é visto pelos sujeitos do negócio como correspondente. aposta. Nos contratos aleatórios as partes submetem-se a uma álea. etc. pode haver duas prestações certas na sua existência. por exemplo. seguro. assim se reconhecendo «o valor social da aparência».Negócios onerosos e negócios gratuitos A importância da distinção manifesta-se. sem contrapartida ou correspectivo. com o direito de uma participação nos lucros e a obrigação de restituir as unidades não vendidas. Exemplos: jogo. Nos negócios gratuitos cria-se – e há acordo das partes sobre este ponto – uma vantagem patrimonial para um dos sujeitos sem nenhum equivalente. etc. no final de contas. A onerosidade consiste na circunstância de ambas estarem sujeitas ao risco de perder. existindo. certos tipos de jogo). Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 61 . A distinção dos negócios jurídicos em onerosos e gratuitos tem como critério o conteúdo e finalidade do negócio nos termos que a seguir se evidenciam. embora. a uma possibilidade de ganhar ou perder. de maior montante do que aquele (seguro de responsabilidade civil. Na disciplina dos negócios patrimoniais. o usualmente chamado contrato de consignação (contrato estimatório). pode haver uma prestação certa e outra incerta. Exemplos: parceria pecuniária (1121º). para que esta as venda. Como ideia geral pode reter-se a constatação de. O acto é a título gratuito quando for realizado com uma particular intenção ou causa que é a de proporcionar uma vantagem à outra parte. pela intervenção de uma intenção liberal (animus donandi). Cada uma das partes faz uma atribuição patrimonial que considera retribuída ou contrabalançada pela atribuição da contraparte. etc. pelo que.). a vontade manifestada ou declarada triunfa sobre a vontade real.

O comportamento externo. por outro. que se deve definir. (2)A declaração negocial (I)Noções gerais 108. aparência de vontade. com coerência. mas num elemento exterior – o comportamento declarativo. acto social. e os do declaratário e do comércio jurídico. realçando o aspecto subjectivista (vontade manifestada. efectiva. Os problemas decisivos para o efeito de determinar o conceito de declaração negocial – correspondente aos dados do sistema – são o da divergência entre a vontade e a declaração e dos vícios de vontade. exteriormente observado.). por um lado. etc. cria a aparência de exteriorização de um certo conteúdo de vontade negocial. fazendo-se consistir a sua nota essencial. A capacidade negocial de exercício: é a idoneidade para actuar juridicamente. manifesta normalmente uma vontade.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL (II)ELEMENTOS ESSENCIAIS DO NEGÓCIO JURÍDICO (1)Capacidade e legitimidade 107. 109. No domínio dos negócios jurídicos fala-se de capacidade negocial de gozo (ou capacidade jurídica negocial) e de capacidade negocial de exercício. à luz das soluções dispensadas pelo ordenamento jurídico a uma série de problemas. A declaração negocial é um elemento verdadeiramente integrante do negócio jurídico. psicológica –. Tais problemas têm subjacente um conflito entre os interesses do declarante.A declaração negocial como verdadeiro elemento do negócio jurídico Trata-se de um verdadeiro elemento do negócio.) ou o aspecto objectivista (comportamento objectivo. A capacidade: traduz-se num modo de ser ou qualidade do sujeito em si. caracterizando.Remissão São requisitos ou pressupostos gerais de validade dos negócios jurídicos a capacidade e a legitimidade. A capacidade negocial de gozo: é a susceptibilidade de ser titular de direitos e obrigações derivados de negócios jurídicos. o conceito de declaração negocial. É porém. exercendo ou adquirindo direitos. Dá-se assim um conceito objectivista de declaração negocial. a vontade negocial como o intenção de realizar certos efeitos práticos. manifestação de vontade. o direito civil conhece hoje um estádio de evolução que põe na primeira linha a protecção das expectativas dos declaratários e da segurança do comércio jurídico. etc. cumprindo ou assumindo obrigações. etc. conduzindo a sua falta à inexistência material do negócio. por actividade própria ou através de um representante voluntário. em que se traduz a declaração. depois. Estas noções traduzem-se na referência a este domínio das noções mais genéricas de capacidade jurídica e de capacidade para o exercício de direitos. uma realidade componente ou constitutiva da estrutura do negócio. A declaração pretende ser o instrumento de exteriorização da vontade psicológica do declarante – essa é a sua função. com ânimo de que sejam juridicamente tutelados e vinculantes. não num elemento interior – uma vontade real. A legitimidade: é uma relação entre o sujeito e o conteúdo do acto (a relação jurídica que está em jogo no negócio). o da interpretação da declaração negocial. dando 62 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . formada sem anomalias e coincidente com o sentido exteriormente captado daquele comportamento. Ora.Conceito de declaração negocial Pode definir-se a declaração de vontade negocial como o comportamento que.

TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL assim relevância à «aparência» e a uma «exigência de cognoscibilidade», a expensas da vontade real e psicológica. O código civil não toma partido, directamente, como é natural, numa questão dogmática; mas é manifesto o intuito do legislador de se não comprometer, sequer ao nível terminológico, com as concepções voluntarísticas, pois não emprega a expressão «declaração de vontade», falando antes em «declaração negocial».

110.Breve referência aos actos jurídicos de natureza não negocial
A lei portuguesa começa logo por regular a problemática posta pelo negócio jurídico, alude a «actos jurídicos que não sejam negócios jurídicos», mas não toma posição sobre qual a compreensão ou a extensão da categoria «negócio jurídico», reservando assim esse domínio à doutrina. Foram já definidos os conceitos de negócio jurídico e de acto não negocial (simples acto jurídico), fazendo-se agora remissão para as noções então formuladas. O 295º manda aplicar aos actos negociais as disposições da doutrina geral do negócio jurídico, na medida em que a analogia das situações o justifique. Daí se infere que não se aplicarão aquelas normas, sempre que não haja uma verdadeira analogia de situações. Aos actos pessoais (perfilhação, adopção, etc.), e mesmo que a lei o não diga expressamente, não se aplicam, portanto, as disposições inspiradas pela tutela da confiança dos declaratários e da segurança e celeridade do comércio jurídico. Quanto aos actos mais correntemente qualificados como simples actos jurídicos ou actos não negociais (ex.: interpelação do devedor, gestão de negócios, domicilio voluntário geral, certas notificações, etc.), quais as normas da regulamentação geral do negócio jurídico aplicáveis ou não, segundo o critério da analogia das situações? Os quase-negócios jurídicos ou actos jurídicos quase-negociais traduzem-se na manifestação exterior de uma vontade e existe quase sempre uma consciência e até uma intenção de relevância jurídica da vontade exteriorizada. Aplicar-se-lhe-ão, em regra, as normas sobre capacidade, recepção da declaração pelo destinatário, interpretação, vícios da vontade e representação. As operações jurídicas ou actos materiais ou actos reais traduzem-se na efectivação ou realização de um resultado material ou factual, a que a lei liga determinados efeitos jurídicos; desencadeiam, por força da lei, a produção desses efeitos, embora normalmente ou, pelo menos, frequentemente estes não sejam visados. Não se exige para a produção dos respectivos efeitos a capacidade, nem se aplicam, em geral, os preceitos sobre vícios da vontade, interpretação, recepção de declarações, representação.

111.Elementos constitutivos normais da declaração negocial
Numa declaração negocial podem distinguir-se normalmente os seguintes elementos: a) A declaração propriamente dita (elemento externo) – consiste no comportamento declarativo; b) A vontade (elemento interno) – consiste no querer, na realidade volitiva que normalmente existirá e coincidirá com o sentido objectivo da declaração. O elemento interno – a vontade real – pode decompor-se analiticamente em três subelementos. A vontade de acção Consiste na voluntariedade (consciência e intenção) do comportamento declarativo. Pode faltar a vontade de acção. Assim acontece se uma pessoa, por acto reflexo ou distraidamente, sem se aperceber do facto, faz um gesto e este objectivamente aparece como uma declaração negocial (ex.: aceitação de uma proposta). É igualmente o caso da coacção ou violência absoluta (coacção física) – é esta a hipótese mais viável e significativa de falta de vontade de acção.

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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL A vontade da declaração ou vontade da relevância negocial da acção Consiste em o declarante atribuir ao comportamento querido o significado de uma declaração negocial. Este subelemento só está presente, se o declarante tiver a consciência e a vontade de que o seu comportamento tenha significado negocial vinculativo – consciência e vontade de que o seu comportamento produza efeitos negociais no campo do direito. A declaração deve corresponder a um «sic volo sic jubeo», vinculativo do declarante. Pode faltar a vontade da declaração. Uma pessoa, julgando subscrever uma simples ficha de assinatura para o arquivo de um banco, assina uma declaração negocial. Um indivíduo entra num leilão e faz um gesto de saudação a um amigo; segundo as praxes do lugar esse facto significa uma oferta de certa importância pelo objecto leiloado. A vontade negocial, vontade do conteúdo da declaração ou intenção do resultado Consiste na vontade de celebrar um negócio jurídico de conteúdo coincidente com o significado exterior da declaração. É uma vontade efectiva correspondente ao negócio concreto que apareceu exteriormente declarado. Pode haver um desvio na vontade negocial. É o caso de o declarante ter atribuído aos termos da declaração um sentido diverso do sentido que exteriormente é captado. Uma pessoa quer comprar a Quinta do Mosteiro e declara querer comprar a Quinta da Capela – que é um outro prédio – por julgar erradamente que este é o seu nome. Constatamos, portanto, poder verificar-se uma falta de vontade de acção, uma falta de vontade da declaração e um desvio na vontade negocial. Em todos estes casos surge um dissídio, uma divergência, entre a vontade e a declaração. Tal divergência pode, aliás, resultar ainda de um desvio na vontade de acção (lapsus linguae ou lapsus calami). O declarante quer escrever uma coisa e engana-se ao escrever.

112.Declaração negocial expressa e declaração negocial tácita
Generalidades Os negócios jurídicos realizam uma ampla autonomia privada, como já se sabe, na medida em que, quanto ao seu conteúdo, vigora o princípio da liberdade negocial (405º). Quanto à forma é igualmente reconhecido pelo ordenamento jurídico um critério de liberdade : princípio da liberdade declarativa. Tal princípio está consagrado nos 217º e 219º. Por vezes, a lei exige, porém, que a declaração negocial seja expressa. Ex.: 957º, 731º Outras vezes a lei tem o cuidado de frisar que um certo negócio pode ter lugar por declaração tácita (ex.: 302º, 2056º), o que já resultaria do princípio geral do 217º. Os termos da distinção O critério da distinção entre declaração tácita e declaração expressa consagrada pela lei (217º) é o proposto pela teoria subjectiva: a declaração é expressa quando feita por palavras, escrito ou quaisquer outros meios directos, frontais, imediatos de expressão da vontade e é tácita quando do seu conteúdo directo se infere um outro, isto é, quando se destina a um certo fim, mas implica e torna cognoscível, a latere, um autoregulamento sobre outro ponto – em via oblíqua, imediata, lateral – («quando se deduz de factos que, com toda a probabilidade, a revelam»). Resulta claramente da formulação legal que a inequivocidade dos factos concludentes não exige que a dedução, no sentido do autoregulamento tacitamente expresso, seja forçosa ou necessária, bastando que, conforme os usos do ambiente social, ela possa ter lugar com toda a probabilidade.

113.O valor do silêncio como meio declarativo
Trata-se, principalmente, de saber se o silêncio – entendido não apenas como um «nada dizer», mas como um «nada fazer», uma total omissão – pode considerar-se um facto concludente (declaração tácita) no sentido da aceitação de propostas negociais. O código civil resolve o problema no 218º, estabelecendo que o silêncio não vale como declaração negocial, a não ser que esse valor lhe seja atribuído por lei, convenção ou uso. Repudia-se, pois, o velho brocardo do direito canónico «qui tacet consentire videtur», mesmo que o sujeito pudesse e devesse falar, pois a atribuição ao silêncio do valor de consenso negocial, não é, como regra geral, razoável. Só lhe caberá tal significado, havendo norma legal ou convenção das partes nesse sentido, bem como na hipótese de um uso

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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL prevalente em certo círculo social (uso geral, v.g., no caso de uma pessoa enviar habitualmente a outra mercadorias que esta recebe, sem aceitar nem rejeitar, e paga em devido tempo, criando-se entre ambas uma prática deste tipo). É a solução mais razoável. Seria inaceitável dar expressão legislativa ao tópico «quem cala consente». Com efeito, o silêncio é, em si mesmo, insignificativo e quem cala pode comportar-se desse modo pelas mais diversas causas, pelo que deve considerar-se irrelevante – sem querer dizer sim, nem não – um comportamento omissivo.

114.Declaração negocial presumida. Declaração negocial ficta
A declaração negocial presumida tem lugar quando a lei liga a determinado comportamento o significado de exprimir uma vontade negocial, em certo sentido, podendo ilidir-se tal presunção mediante prova em contrário (350º n.º1 e 2). A declaração negocial ficta tem lugar sempre que a um comportamento seja atribuído um significado tipicizado, sem admissão de prova em contrário (350º n.º2 no fim).

115.Protesto e reserva
Emitido certo comportamento declarativo, pode o seu autor recear que lhe seja imputado, por interpretação, um certo sentido. Para o impedir, o declarante afirma abertamente não ser esse o seu intuito. A esta contradeclaração dá-se o nome de protesto. O protesto tem o nome de reserva (subespécie de protesto), quando consiste na declaração de que um certo comportamento não significa renúncia a um direito próprio, ou reconhecimento de um direito alheio. Exemplos: o mutuante recebe certa importância, a título de juros, mas, julgando ter direito a receber mais, declara não prescindir do excedente. Afirma-se comummente que o protesto não vale quando o comportamento declarativo só consente a interpretação contra a qual o declarante se quer acautelar.

116.Forma da declaração negocial
Vantagens e inconvenientes do formalismo negocial (pág. 430) Ponderando as vantagens e inconvenientes do formalismo negocial, sancionou o CC (219º) o princípio da liberdade de forma ou da consensualidade (sendo este último termo rigoroso, apenas, para os contratos). O formalismo exigível para um certo negócio pode ser imposto pela lei (forma legal) ou resultar de uma estipulação ou negócio jurídico das partes (forma convencional), como acontece, por exemplo, quando durante as negociações prévias se convenciona que o futuro ou os futuros negócios entre as partes se deverão revestir de certa forma. O problema da legitimidade da forma convencional é debatido na doutrina; o CC resolveu-o no sentido da admissibilidade e eficácia dos negócios determinativos da forma (223º). É óbvio, porém, que o reconhecimento das estipulações das partes sobre forma do negócio não significa que os particulares possam afastar, por acordo, as normas legais que exigem requisitos formais para certos actos, pois trata-se de normas imperativas. O reconhecimento da forma convencional significa, apenas, poderem as partes exigir determinados requisitos para um acto, pertencente a um tipo negocial que a lei regula não formal ou sujeita a um formalismo menos solene. Âmbito da forma exigida No que toca ao problema de saber quais as cláusulas ou estipulações negociais a que a forma legal é aplicável, quanto exigida, MANUEL ANDRADE entendia que a forma abrangia, não só as cláusulas essenciais do negócio jurídico, mas também as estipulações acessórias, típicas ou atípicas, quer as contemporâneas da conclusão do negócio, quer as subsequentes, mas já se não estenderia tal exigência aos chamados pactos abolitivos ou extintivos. O CC consagrou esta regra, na medida em que estatui, em princípio, que as estipulações acessórias anteriores ao negócio ou contemporâneas dele devem revestir a forma exigida pela lei para o acto, sob pena de nulidade (221º). Admitem-se, contudo, na mesma disposição, restrições a este princípio.

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nada se diz num contrato de compra e venda sobre o lugar e tempo de pagamento do preço. pois traduz-se na prova de que a estipulação existiu. B) Consequências da inobservância da forma no nosso direito: a) Inobservância da forma legal: em conformidade com a orientação da generalidade das legislações e com os motivos de interesse público que determinam as exigências legais de forma. Poderá parecer. anteriores ou contemporâneas do documento.º2. que tal solução conduzirá a resultados injustos. em atenção que a possibilidade de as estipulações acessórias não formalizadas. que complementem o documento. Assim se defende o conteúdo dos documentos contra os perigos da precária prova testemunhal. e não mera anulabilidade. as seguintes condições: a) Que se trate de cláusulas acessórias – não deve tratar-se de estipulações essenciais e parece dever igualmente tratar-se de estipulações adicionais. deverá ser restituído tudo o que tiver sido prestado em consequência do negócio viciado. não considerará certas formalidades como simplesmente probatórias. não havendo lugar à aplicação de quaisquer normas supletivas. No n. parece que haveria um locumpletamento injusto do vendedor ou do mutuário. nalguns casos. que estejam em contrário dele. pelo que. A nulidade deixará de ser a sanção para a inobservância da forma legal. parece que tal acordo verbal deve ser respeitado. uma compra em que o comprador já pagou o preço ou um mútuo em que a quantia mutuada já foi entregue ao mutuário. em casos particulares. todavia. segundo o qual os documentos autênticos. pois tem de se admitir que as partes. a que se refere o 221º. à primeira vista. a este propósito. Por outro lado. todavia. o problema de saber se o nosso direito. pois não seria obrigado a entregar a coisa vendida ou a restituir a importância recebida. Tome-se. desde que se verifiquem. é de decidir contra a sua existência. regulando aquele ponto no documento.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Reconhece-se a validade de estipulações verbais anteriores ao documento exigido para a declaração negocial ou contemporâneas dele. por falta de forma. b) Que não sejam abrangidas pela razão de ser da exigência do documento – por exemplo. 66 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . nula. mas prova-se que as partes convencionaram verbalmente que o preço seria pago em certo local e data. se tiver lugar a confissão ou se forem provadas por documento embora menos solene do que o exigido para o negócio. anterior ou simultânea. É o que resulta do 289º. são expressa. Não se verifica. se tiver por objecto convenções contrárias ou adicionais ao conteúdo de documentos autênticos ou particulares. se sobre o ponto acessório há cláusula no documento. a lei determine outra consequência (220º). na dúvida sobre a existência de uma estipulação acessória. só produzirão efeitos. dada a nulidade dos contratos donde resultaria essa obrigação. autenticados ou particulares são formalidades substanciais. produzirem efeitos é bem menor do que «prima facie» pode parecer. não abrangidas pela razão determinante da forma. gerando a sua falta a nulidade do negócio) e formalidades probatórias (a sua falta pode ser suprida por outros meios de prova mais difíceis de conseguir [ex. tal locumpletamento à custa alheia. o pacto verbal não será válido. Há que tomar em conta o 364º integrado nas disposições sobre direito probatório material constantes do mesmo. uma vez declarado nulo o negócio. Consequências da inobservância da forma A) Distinção doutrinal entre formalidades substanciais (são insubstituíveis por outro género de prova. Pode suscitar-se. sempre que. Da coordenação do 221º com o 394º resulta que as estipulações adicionais não formalizadas. não quiseram de todo o pacto verbal anterior ou contemporâneo. Aí se reafirma no n. pois.: confissão]). c) Que se prove que correspondem à vontade das partes – este requisito é óbvio. que estejam para além do conteúdo do mesmo e não de estipulações que o contradigam. Com efeito.º1 o princípio geral. adicional. cumulativamente. é manifesto que há uma presunção natural de o documento ser completo. se resultar claramente da lei que foi exigido apenas para prova da declaração. o CC liga à inobservância da forma legal a nulidade. Isto dado o disposto no 394º que declara inadmissível a prova por testemunhas.

renunciar-se-ia à realização do interesse público que subjaz à formulação das exigências de formalismo negocial. aceitando. Entre essas vantagens está a criação e tutela do valor de segurança jurídica. fundamento para admitir que as partes se quiseram vincular desde logo. reiterados e dispendiosos testemunhos de gratidão por uma liberdade feita. públicos. a forma tem pois carácter constitutivo. quando o comportamento do invocante. com fundamento em vício de forma. isto é. de outro modo. isto é. presume-se que as partes não quiseram substituir o negócio. aliás. todavia. são em princípio meramente relativas ou «iuris tantum» (350º). v. suprimindo-o e concluindo-o de novo. sem a observância da forma. será verdadeiramente escandalosa. Sem dúvida que a aplicação das regras de forma pode conduzir a uma ou outra solução de menos equidade. As declarações não receptivas tornam-se eficazes logo que o vontade se manifesta na forma adequada. tratando-se de averiguar quais as consequências da falta de requisitos formais que a lei não exige. a arguição da nulidade. consagra-se um presunção de essencialidade. sem a forma devida. quando esta arguição revista as características de um abuso de direito. contendo a aceitação. globalmente considerado.). mas as partes convencionaram. embora não categoricamente. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 67 . pois. b) Inobservância da forma convencional: rege a este respeito o 223º. Essas presunções são duas. nesta última hipótese. afastar-se a sua aplicação nesses casos. quando essa invocação por uma das partes constitua um abuso de direito. quando o titular excede manifestamente os limites impostos pela boa fé. que só pode ser plenamente realizado. variando com o facto que é base da presunção. não podendo. entre nós sancionada no 334º: «É ilegítimo o exercício de um direito. fazendo como que falsificar por outrem a sua própria assinatura ou induzindo dolosamente a outra parte a não insistir pela formalização do negócio ou procedendo em termos de criar na outra parte a expectativa de que a nulidade jamais seria arguida. etc. seja intoleravelmente ofensivo do nosso sentido ético-jurídico? Assim. pelos bons costumes ou pelo fim social ou económico desse direito» (334º). O 223º limita-se a estabelecer presunções que.Perfeição da declaração negocial Como já se disse. Esta perspectiva é correcta. em primeiro lugar. o negócio é ineficaz. isto é. havendo. assegurar a reconhecibilidade do acto por terceiros ou o seu controle no interesse da comunidade. MANUEL DE ANDRADE inclinava-se. chega à esfera de acção do proponente. 2.g. presume-se que. quando o proponente passa a estar em condições de a conhecer. mas apenas visaram consolidá-lo ou qualquer outro efeito. 117. Na doutrina nacional e estrangeira já se tem posto o problema de saber se a possibilidade de invocação da nulidade por vício de forma não pode ser excluída por aplicação da cláusula geral de boa fé ou do abuso de direito. pois trata-se de um preço conscientemente pago para fruir o rendimento social correspondente às vantagens do formalismo negocial. Assim: 1. Deverá admitir-se a invocação da nulidade com fundamento em vício de forma. nos casos excepcionais em que resultar claramente da lei que a finalidade tida em vista ao ser formulada certa exigência de forma foi apenas a de obter prova segura acerca do acto e não qualquer das outras finalidades possíveis do formalismo negocial (obrigar as partes a reflexão sobre as consequências do acto. a declaração negocial com um destinatário ganha eficácia logo que chegue ao seu poder ou é dele conhecida.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Donde se infere que quaisquer documentos (autênticos ou particulares) serão formalidades probatórias. pelos bons costumes ou pelo fim social ou económico desse direito». a resposta ao problema posto deve ser pedida. sacrificando o critério de «justiça de cada caso». Quer dizer: o contrato está perfeito quando a resposta. Se a forma especial foi estipulada antes da conclusão do negócio. Viu-se também que desta doutrina constante do 224º. por um contratante que a provocou. à vontade das partes. para a solução da improcedência da arguição da nulidade. É óbvio que. «excedendo manifestamente os limites impostos pela boa fé. por exemplo. decorre ter a nossa lei optado pela doutrina da recepção quanto ao momento da conclusão dos contratos.. como todas as presunções legais. Se a forma foi convencionada após o negócio ou simultaneamente com ele.

Esta só poderá eventualmente ficar sem efeito. Em coerência com a irrevogabilidade. O dano a ser ressarcido pela responsabilidade pré-contratual é o chamado dano da confiança. se a declaração revogatória chegou ao poder da outra parte ao mesmo tempo ou antes do que as declarações de proposta ou de aceitação. Uma proposta é rejeitada. pode. a interpretação não pode ser abandonada ao senso empírico de cada intérprete. A retractação ou revogação da proposta ou da aceitação tem lugar – repete-se –. se não houver qualquer motivo de invalidade.Em que consiste o problema.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Sabe-se já também que a proposta de contrato. isto é. o objecto da teoria da interpretação dos negócios ou hermenêutica negocial. antes de receber a proposta ou ao mesmo tempo que esta (230º n. depois. se foi aceite com aditamentos. deve entender-se que em princípio existe apenas um convite para contratar (ex. precisamente. quer durante a fase negociatória. como qualquer outra manifestação do espírito humano. 68 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . como no de o contrato se concluir e vir a ser nulo ou ineficaz. quer durante a fase decisória (proposta e aceitação do contrato. entendida esta num sentido ético. que consistiria em colocar as coisas na situação correspondente ao cumprimento de um contrato válido. Quando se dirige uma proposta a pessoas indeterminadas. mas deve pautar-se por regras ou critérios cuja formulação é. limitações ou outras modificações. é um sentido objectivo. se o sentido fixado. Registe-se que uma proposta contratual só existirá se for suficientemente precisa. em conformidade com tais declarações. mas tem em vista evidenciar um conteúdo normativo (um conjunto de comandos) que vai pautar a conduta de algumas pessoas (no negócio jurídico. segundo as respectivas declarações integradoras. os efeitos que o negócio visa produzir. e virá a produzir. Trata-se de determinar o conteúdo das declarações de vontade (interpretado o negócio. dela resultar a vontade de o seu autor se vincular e houver consciência de se estar a emitir uma verdadeira declaração negocial. Só que nos negócios jurídicos – como nas leis – a interpretação não visa pôr em relevo um resultado destinado a uma pura assimilação ou compreensão intelectuais (uma mensagem) ou afectivas.: se alguém anuncia num jornal que vende certas mercadorias a tanto por quilograma ou envia a lista de preços). a relação temporal da possibilidade de conhecimento. Coisa diversa seria a reparação do interesse contratual positivo. consequentemente. postula uma interpretação. não a ordem do conhecimento efectivo. Em relação com esta matéria da perfeição da declaração negocial e da formação dos contratos. como nova proposta (233º). pois. se não tem chegado a depositar uma confiança. Quer dizer: deve colocar-se o lesado na situação em que estaria. segundo as directrizes da teoria da interpretação. na celebração dum contrato válido e eficaz. Não vigora. merece destaque o 227º que manda pautar a conduta das partes pelos princípios da boa fé. resultante de lesão do interesse contratual negativo. depois de recebida pelo destinatário ou de ser dele conhecida. porém. a conduta das respectivas partes). é irrevogável. para este efeito. salvo se outra tivesse sido a sua vontade presumível (226º). a aceitação vale. em princípio. (II)Interpretação e integração dos negócios jurídicos (1)Interpretação 118. entre nós. A interpretação nos negócios jurídicos é a actividade dirigida a fixar o sentido e alcance decisivo dos negócios. releva. a doutrina que admite a revogação da proposta se a referida revogação chegar ao destinatário antes de este ter expedido a aceitação. abrir-se um problema de divergência entre a vontade e a declaração) e.º2). se o destinatário receber uma retractação do proponente ou dela tiver conhecimento. Esta responsabilidade pré-contratual tanto vale no caso de ruptura de negociações. a morte ou a incapacidade do proponente não obstam à conclusão do contrato. Como actividade ou operação dirigida à fixação do sentido negocial. afinal frustrada. fixado o seu sentido. Se a modificação for suficientemente precisa. Posições possíveis O negócio jurídico.

A teoria da interpretação dos negócios jurídicos tem dado lugar à formulação de concepções opostas. fim). logo. possa deduzir do comportamento de declarante» (236º n. se o declaratário conhecer este sentido (com as limitações decorrentes. em narcose ou em situação que exclua toda a direcção consciente da vontade. é de acordo com ela que vale a declaração emitida. normalmente esclarecida. para os negócios formais.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL A teoria da interpretação pode ver alguns dos seus resultados convertidos em verdadeiras normas jurídicas onde se fixam princípios ou critérios interpretativos. Não podemos deixar de a considerar como acto determinante. um acto social de comunicação. Para as posições objectivistas o intérprete não vai pesquisar a vontade efectiva do declarante. Não se verificando tal coincidência entre o sentido objectivo correspondente à impressão do destinatário e um dos sentidos ainda imputáveis ao declarante. ou até a vontade real.º1. que este pudesse razoavelmente contar com ele (236º n. lhe atribuiria. do 238º n. este é o sentido decisivo. porém. por ser a melhor das suas variantes. de uma limitação. Não se dá relevo necessariamente à vontade real do declarante. A resposta afirmativa tem lugar. mas um sentido exteriorizado ou cognoscível através de certos elementos objectivos. É o caso dos 236º e ss.º1). isto é. considera-se o real declaratário nas condições concretas em que se encontra e tomam-se em conta os elementos que ele conheceu efectivamente mais os que uma pessoa razoável. a chamada teoria da impressão do destinatário. teria conhecido e figura-se que ele raciocinou sobre essas circunstâncias como o teria feito um declaratário razoável. Basta que se tome conhecimento da existência de posições subjectivistas e objectivistas. todavia. colocado na posição concreta do real declaratário. Em conformidade com o ditame da velha máxima «falsa demonstratio non nocet». Além de ser um acto determinante (meio de autodeterminação). podendo não coincidir com o sentido objectivo normal. o 236º n. a declaração deve valer com o sentido que um destinatário razoável.º2). a declaração é. isto é. Não é declaração negocial uma manifestação feita durante o sono. sempre que o declaratário conheça vontade real do declarante. Para haver uma declaração a interpretar é necessário estarmos perante um acto ou conduta voluntária equiparável. Neste caso a vontade real. na lei. quando assim se concluir do ponto de vista de um Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 69 . Para as posições subjectivistas o intérprete deve buscar. correspondeu à impressão real do destinatário concreto. Houve coincidência de sentidos (o querido e o compreendido). se o destinatário a conheceu. através de todos os meios adequados. De entre as doutrinas objectivistas merece referência. A interpretação abrange também o problema de saber se há ou não uma declaração negocial. a vontade real do declarante. O sentido querido realmente pelo declarante releva. como foi querido pelo autor da declaração. 119. quer dizer. uma acção ou omissão controláveis pela vontade. Quer dizer: a ambiguidade objectiva. também. uma manifestação de validade que é o fundamento imediato da verificação dos efeitos jurídicos. seja qual for a causa da descoberta da real intenção do declarante. em conformidade com o ponto de vista de LARENZ e FERRER COSTA: para que tal sentido possa relevar torna-se necessário que seja possível a sua imputação ao declarante. mesmo quando a formulação seja ambígua ou inexacta.º2 estabelece que. colocado na posição do real declaratário. a sanção parece ser a nulidade do negócio. A prevalência do sentido correspondente à impressão do destinatário é. bem como a coacção absoluta. O negócio valerá com o sentido subjectivo. objecto. zelosa e sagaz.Posição adoptada Doutrina geral O CC define o tipo de sentido negocial decisivo para a interpretação nos termos daquela posição objectivista: «a declaração vale no sentido que um declaratário normal. que tem de ter relação com aquele a quem se destina ou o conhece.

por não se lhes opor o texto daquele n. em tese geral. Quando a interpretação leve a um resultado duvidoso.g. no texto do respectivo documento (238º n. Em todo o caso não há declaração negocial se falta a vontade acção (246º). diligente e sagaz. o que conduzir ao maior equilíbrio das prestações. sofre desvios quanto a certos negócios. Quanto a estes. isto é. O CC não se pronuncia sobre o problema de saber quais as circunstâncias atendíveis para a interpretação. Esses desvios traduzem-se: a)Num maior objectivismo: é o que acontece nos negócios solenes ou formais. Exige-se que a vontade do testador.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL declaratário normal colocado na posição do declaratário real. na posição do declaratário efectivo. depois da morte. nos negócios onerosos. v. pelo contrário. com o limite do «contexto do testamento» (2187º n.º1).º3. razões de certeza ou segurança e quando estejam em causa interesses de terceiros. 70 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . ao menos analógica do 224º n. tenha um mínimo de correspondência. o testamento se torne conhecido dos interessados. a este respeito. isto é. De acordo com o critério propugnado.. para o direito anterior. fundadas em qualquer dos meios de prova geralmente admitidos. antes. quanto à sua interpretação. isto é. Um critério normativo de interpretação aponta aqui. quanto à relação que deve interceder entre a intenção testatória e o contexto do documento. quanto ao problema do tipo do sentido negocial decisivo para a interpretação. não pode valer se não tiver um mínimo de correspondência. Nos contratos de adesão costuma propugnar-se a princípio de que na dúvida deve interpretar-se «contra stipulatorem». possa valer. ainda que imperfeitamente expressa». O significado decisivo é que o testador quis dizer. as ideias expendidas por MANUEL DE ANDRADE. o problema deve ser resolvido nos termos do 237º. Desvios A doutrina preferível. Admite-se que um sentido não traduzido. por aplicação. mesmo no caso de real impropriedade das expressões utilizadas («falsa demonstratio non nocet»). contra o emitente das condições gerais préordenadas para uma multiplicidade de contratos individuais. teria tomado em conta. Se porém a dúvida a que se chegar no termo do labor interpretativo for insanável parece que a declaração é ineficaz. que coincide substancialmente com o regime do CC anterior: nos negócios gratuitos prevalece o sentido menos gravoso para o disponente e. diversamente dos negócios «entre vivos». as favorecer. b)Num maior subjectivismo: é o caso das disposições testamentárias. quando essas razões forem. o sentido objectivo correspondente à impressão do destinatário. quanto ao problema da hermenêutica negocial. para a vontade psicológica do testador: não há que tomar em consideração as possibilidades de conhecimento de um destinatário como critério interpretativo.º2 do 2187º. desde que se verifique um duplo condicionalismo: 1) Corresponder à vontade real e concordante das partes. Na pesquisa desta vontade do testador é admitido o recurso à chamada prova complementar ou extrínseca.º2). embora. rudimentarmente sequer. no contexto (2187º n. assim reconstituída.º1). o sentido correspondente à doutrina geral. parece haver obstáculo insuperável. predominantemente. também aqui se deverá operar com a hipótese dum declaratário normal: serão atendíveis todos os coeficientes ou elementos que um declaratário medianamente instruído. A lei não dá qualquer indicação mais precisa. o sentido subjectivo. Podem continuar a aceitar-se. limitando-se a estatuir que «não surtirá qualquer efeito a vontade do testador que não tenha no contexto um mínimo de correspondência. no respectivo documento. embora imperfeita. a elementos ou circunstâncias estranhas aos termos do testamento. Consagra-se. na medida em que se contenta com uma expressão ténue da intenção do testador no contexto do documento. desde que se possa averiguar. Esta limitação é uma manifestação do carácter solene do negócio testamentário. 2) Não oposição a essa validade das razões determinantes da forma do negócio: assim. ainda que imperfeita.

Em que consiste O problema pode formular-se através da seguinte pergunta: qual a regulamentação das questões não previstas pelas partes. de acordo com o que corresponda à justiça contratual (ao que as partes devem querer agora e não propriamente o que deveriam ter querido). sempre que haja disposição supletiva aplicável. que estas teriam estipulado. que o juiz se deverá afastar da vontade hipotética ou conjectural das partes. considerar o que um contraente honesto e razoável há-de admitir como exigido pelo contrato. quando. assim. Será de admitir. não podem ser equacionados e resolvidos em sede de integração negocial. mas deu a entender isso mesmo no testamento ou usava habitualmente esses termos nessa acepção anómala (o testador que se refere à sua garrafeira como a sua “biblioteca”). directamente – o que poderá verificar-se. A regulamentação de um «contrato semelhante» é a que resulta das normas supletivas. nesta hipótese. Não pode proceder-se na integração como se se estivesse a aplicar uma norma estranha ao contrato. a partir da finalidade e da conexão dos significados manifestados na regulamentação contratual. dos termos empregues ou o erro na declaração (2203º). contrarie os ditames da boa fé. A integração negocial tem limites. como será o caso. deve a declaração se integrada de acordo com as referidas exigências da boa fé. O CC considera que a integração deve ser determinada para cada negócio e não. ao proverem à elaboração do ordenamento negocial das suas relações? 121. Na falta de disposição supletiva que possa aplicar-se. Designadamente não pode a integração conduzir a uma ampliação do objecto negocial. Certos problemas. Hão-de considerar-se as circunstâncias que dão ao contrato concretamente celebrado a sua individualidade e não as características do tipo contratual. em princípio. na própria letra do testamento seja patente a significação esotérica. A nulidade. porém. o sentido subjectivo. Deve atender-se à regulamentação concretamente estipulada e situarmo-nos no círculo por ela delimitado. que foi pretendido pelas partes. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 71 . correspondentes ao texto da disposição do anteprojecto transcrita na penúltima nota. quando a solução. neste caso. reconstituindo através da prova extrínseca.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Segundo essas ideias. uma solução plenamente de acordo com a ideia de que o negócio jurídico é. apenas. isto é. o 239º remete para a vontade hipotética ou conjectural das partes . que esta última solução (nulidade) sofra uma excepção. como aconteceria se mandasse colmatar as lacunas negociais pelo recurso aos usos. fora dos usos gerais da língua. justifica-se pelas razões que estão ligadas à exigência de forma dos testamentos. não habitual ao testador. valerá. Estabelece-se. Admitir-se-á a relevância do sentido subjectivo. todavia. «lex privata» das partes. Já aquele sentido subjectivo não valerá se o testador usou termos numa acepção extravagante que estava fora dos seus próprios hábitos de linguagem ou incorreu em erro na declaração. (2)Integração 120. consagrando.«a que elas teriam tido se houvessem previsto o ponto omisso». nos casos em que o contrato não está plena e completamente tipicizado ou se afasta dos tipificados em pontos que a regulamentação legal se não adapte ao contrato. mesmo que seja evidente a prova da vontade hipotética das partes. se o testador usou termos numa acepção pessoal. nos negócios típicos – ou por analogia. genericamente. isto é.Termos em que pode admitir-se O critério a utilizar para o efeito de realizar a integração dos negócios jurídicos lacunosos é enunciado no 239º. para os vários tipos de negócios. Ressalva a hipótese de existir disposição especial.

Teorias que visam resolver o problema da divergência entre a vontade e a declaração No direito civil moderno várias teorias foram formuladas em vista da solução do problema em epígrafe. não através de uma mera. verificar-se. de um equívoco. mas por força do emprego de uma força física irresistível que o instrumentaliza e leva a adoptar o comportamento. com a simples diferença de. contudo. uma divergência entre esses dois elementos da declaração negocial. O negócio ser válido. mas sem intuito de enganar qualquer pessoa (declaratário ou terceiros). A divergência intencional pode apresentar-se sob uma de três formas principais: a) Simulação – o declarante emite uma declaração não coincidente com a sua vontade real. por causas diversas. de um engano. sem qualquer arranjo com o declaratário. Teoria da vontade Propugna a invalidade do negócio (não vale a vontade real nem a declarada). Estamos perante um vício na formulação da vontade. Teoria da declaração Enquanto a teoria da vontade arranca da consideração de que a essência do negócio está apenas na vontade do declarante (dogma da vontade).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL (III)A divergência entre a vontade e a declaração (1)O problema em geral 122. embora de 72 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . sem ter consciência dessa falta de coincidência. com a intenção de enganar terceiros. por razões diversas. em caso de dolo ou culpa do declarante. Pode. b) Reserva mental – o declarante emite uma declaração não coincidente com a sua vontade real. em certos casos anómalos. c) Na coacção física ou violência absoluta – o declarante é transformado num autómato. A divergência não intencional pode consistir: a) No erro-obstáculo ou na declaração – o declarante emite a declaração divergente da vontade real. a teoria da declaração. sem sequer ter a consciência (a vontade) de fazer uma declaração negocial. A normal relação de concordância entre a vontade e a declaração (sentido objectivo) é afastada. por se considerar insuficiente a tutela concedida pelo teoria da culpa in contrahendo. e estando de boa fé o declaratário. por força de um arranjo com o declaratário. sendo forçado a dizer ou escrever o que não quer. Trata-se de um lapso. b) Na falta de consciência da declaração – o declarante emite uma declaração.Formas possíveis de divergência Normalmente o elemento interno (vontade) e o elemento externo da declaração negocial (declaração negocial) coincidirão. podendo até faltar completamente a vontade de agir. desde que se verifique uma divergência entre a vontade e a declaração e sem necessidade de mais requisitos. À relação normal de concordância substitui-se uma relação patológica. 124. dá-se mais atenção ao argumento da necessidade de proteger a confiança. visando precisamente enganar este. c) Declarações não sérias – o declarante emite uma declaração não coincidente com a sua vontade real. Teoria da culpa «in contrahendo» Assenta na mesma ideia da teoria anterior.

elementos e importância prática O conceito de negócio simulado está explicitamente formulado no 240º n. as próprias anulabilidades podem ser arguidas. b) Acordo entre declarante e declaratário (acordo simulatório). A simulação fraudulenta é.º2).º1. Na primeira – é o caso da venda fantástica ou da doação simulada com fins de pompa ou ostentação – as partes fingem celebrar um negócio jurídico e na realidade não querem nenhum negócio jurídico. o que um declaratário razoável lhe atribuiria. ou seja. se houve o intuito de prejudicar terceiros ilicitamente ou de contornar qualquer norma da lei. são: a) Intencionalidade da divergência entre vontade e a declaração. Há apenas o negócio simulado e. quer tenha tido lugar o cumprimento. referidos naquela disposição. de acordo com o regime geral.º2). todavia. nesta hipótese. c) Intuito de enganar terceiros. em particular a doutrina da confiança: a divergência entre a vontade real e o sentido objectivo da declaração. não exclui a possibilidade de simulação nos negócios unilaterais. nada mais.Conceito. por detrás dele. (2)A simulação 127. em conformidade com as suas modalidades. os elementos integradores do conceito. mas limita-a. produzem-se certos efeitos. no fim. A simulação é inocente se houve o mero intuito de enganar terceiros. Esta distinção é aludida no 242º n. se for conhecida ou cognoscível do declaratário. Por detrás do negócio simulado ou aparente ou fictício ou ostentivo há um negócio dissimulado ou real ou latente ou oculto. revelando a mesma disposição legal a ausência de interesse civilístico da referida dicotomia. a validade do sentido objectivo só será de aceitar. sem os prejudicar e é fraudulenta. pode qualquer interessado invocar a nulidade e o tribunal declará-la oficiosamente (286º. quer o negócio não esteja cumprido (aliás. isto é. a invalidade dos negócios simulados pode ser arguida a todo o tempo (286º). propugnando a invalidade. se o declaratário confiou efectivamente nesse sentido. ter. evidentemente. compreendido um terceiro sentido. 129. Doutrina da aparência eficaz: subscreve os resultados da doutrina da confiança. não se apercebendo do dissídio entre a vontade real e o sentido objectivo.º1. Comporta diversas modalidades: Modalidade primitiva e extrema: consagra-se uma adesão rígida à expressão literal – se a forma ritual foi observada. de longe. As modalidades modernas e atenuadas.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL modo diverso.Modalidades da simulação Uma primeira distinção é a que se estabelece entre simulação inocente e simulação fraudulenta. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 73 . em correspondência com a orientação da doutrina tradicional. em vez da invalidade. Na simulação relativa as partes fingem celebrar um certo negócio jurídico e na realidade querem um outro negócio jurídico de tipo ou conteúdo diverso. ao que foi exteriormente manifestado.Efeitos da simulação absoluta A simulação importa a nulidade do negócio simulado (240º n. a mais frequente. Como todas as nulidades. para a hipótese de o declaratário. para o qual remete o 242º). 128. sem dependência de prazo: 287º n. também. quer dizer. Outra destrinça é a que se faz entre simulação absoluta e simulação relativa. (Na simulação não pode haver usucapião uma vez que adquiria sendo um possuidor precário (1253º c)). só produz a invalidade do negócio. o que. dá relevo fundamental à declaração. mesmo que não tenham sido queridos.

Podem ser. quanto ao negócio disfarçado ou dissimulado? Sanciona-se. Pode igualmente a simulação consistir. Simulação sobre a natureza do negócio. 74 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados .: A. Efeitos da simulação quanto aos negócios formais Os problemas suscitados pela aplicação aos negócios formais da doutrina geral da simulação relativa encontram a sua resposta no 241º n. mas na supressão de um sujeito real. A simulação relativa põe. a solução correspondente à orientação tradicional: o negócio real ou dissimulado será objecto do tratamento jurídico que lhe caberia se tivesse sido concluído sem dissimulação (241º). mesmo que tal forma não seja suficiente para o negócio aparente. se for observada a forma exigida e nada diz para a hipótese de as razões do formalismo do negócio dissimulado se acharem satisfeitas com a observância das solenidades do negócio simulado. A simulação objectiva ou sobre o conteúdo do negócio pode ser: a) Simulação sobre a natureza do negócio – se o negócio ostensivo ou simulado resulta de uma alteração do tipo negocial correspondente ao negócio dissimulado ou oculto (ex. não na intervenção de um sujeito aparente.: fez-se uma venda de A a B e outra de B a C. a este respeito.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 130. A interposição fictícia de pessoas não se deve confundir com a interposição real. b) Simulação de valor – incide sobre o «quantum» de prestações estipuladas entre as partes. os requisitos de forma exigidos para o dissimulado. o negócio dissimulado for de natureza formal. Quid juris. se tivesse sido abertamente concluído. sucede apenas que. 131.º1. finge doar a C para este posteriormente doar a B. pretendendo dar um prédio a B. Para a validade do negócio real torna-se necessária a observância do formalismo que. intervindo um conluio entre os três. ex. desde logo. mesmo que se tenham observado as formalidades exigidas para o negócio aparente. Na interposição fictícia há um conluio (arranjo) entre os dois sujeitos reais da operação e o interposto. um problema específico que não surgia no caso da simulação absoluta. mas para pagar apenas uma sisa os três sujeitos concordam em documentar na escritura pública apenas uma venda da A a C. consoante as consequências que teriam lugar. Resulta do teor desta disposição que. por força de um acordo entre ele e um só dos sujeitos. Aí se estatui que «se. à face da lei civil lhe cabe. Ex. É fundamentalmente – mas não só – o caso da simulação de preço na compra e venda. tal como foi preconizada por BELEZA DOS SANTOS. o imposto liquidado será o correspondente à natureza do negócio realmente celebrado (negócio dissimulado). fingindo-se um preço superior ou inferior ao preço real.: finge-se uma venda e quer-se uma doação).Efeitos da simulação relativa Doutrina geral O negócio fictício ou simulado está ferido de nulidade. simulados ou sujeitos do negócio jurídico. mas no interesse e por conta de outrem. se não se cumpriram. porém. este será nulo por vício de forma. É o que se verifica na chamada interposição fictícia de pessoas. todavia. exige a lei. se esse for o regime que. em prejuízo da Fazenda Nacional O negócio dissimulado (venda ou doação) não é afectado na sua validade pela lei fiscal. Este é um simples testa de ferro.º2 consagra a solução de nulidade do negócio dissimulado.Modalidades da simulação relativa A simulação relativa manifesta-se em espécies diversas consoante o elemento do negócio dissimulado a que se refere (simulação subjectiva ou dos sujeitos e simulação objectiva ou sobre o conteúdo do negócio). tal como na simulação absoluta. A lei estabelece que o negócio dissimulado só é válido. Na interposição real o interposto actua em nome próprio. no negócio simulado. além das multas em que os simuladores incorrem. permanecendo válido e eficaz. para ele. Nestes termos poderá o negócio latente ser plenamente válido e eficaz ou poderá ser inválido. O 241º n. mais frequentemente um apenas. só é válido se tiver sido observada a forma exigida por lei». um homem de palha.

Estas hipóteses são abrangidas pelo 246º: «se o declarante não tiver a consciência de fazer uma declaração negocial. quando falta a vontade de acção não há um comportamento humano consciente.. dado ser discutível a qualificação como nulidade ou. declinando a identidade deste ou falsificando a respectiva assinatura ou pondo em circulação um documento assinado por B. porém.». como acontece se A faz um negócio.Falta de consciência da declaração Falta a vontade de acção ou. quanto seja menor que o preço real. parecendo esta última mais exacta. A lei. reflexo ou. 142. antes. A coacção física ou absoluta importa.º2.Erro na declaração ou erro-obstáculo Conceito No erro-obstáculo: havendo embora uma divergência inconsciente entre a vontade e a declaração. atribui legitimidade aos próprios simuladores para a arguição da nulidade do negócio simulado. mesmo que a falta de consciência da declaração não seja conhecida ou cognoscível do declaratário. o negócio dissimulado é nulo por vício de forma. prudente ou ambiguamente. 132. Têm-se em vista as hipóteses em que o declarante é reduzido à condição de puro autómato (coacção absoluta) e não aquelas em que o emprego da força física não chega aos extremos. Com efeito. perante um caso de verdadeira inexistência da declaração. a hipótese de o declarante ser «coagido pela força física a emitir» a declaração. há um comportamento declarativo do errante. estabelece que a declaração não produz qualquer efeito e não fala de nulidade. a ineficácia da declaração negocial («a declaração não produz efeitos»). sob a epígrafe «coacção física» (246º). voluntário. como inexistência.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Quer dizer: o negócio simulado é nulo por simulação. repare-se que o princípio «falsa demonstratio non nocet». a cargo do «declarante». que esta possibilidade de a nulidade ser invocada pelos próprios simuladores entre si sofre uma apreciável restrição indirecta por força do 394º n. quando as razões determinantes da forma se não oponham (238º n. há um comportamento inconsciente. não há obstáculo de natureza formal a que seja eficaz a venda pelo preço efectivamente convencionado. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 75 . Nas declarações sob o nome de outrem: não há qualquer comportamento por parte do sujeito a quem a declaração é atribuída. salvo na hipótese de falta de vontade de acção em que parece estar-se. no entanto. fazendo-se passar por B. absolutamente forçado. quando invocados pelos simuladores. culpado da falta de consciência da declaração.Se há restrições à arguição da simulação pelos próprios simuladores O 242º n.º2). só vale no nosso direito. mas não emitido por B. (4)Divergência não intencional 140. solução oposta à defendida anteriormente. aí se estatui que é inadmissível a prova testemunhal do acordo simulatório e do negócio dissimulado. a expensas do interesse na protecção da confiança do declaratário. 141. nos termos do 246º. involuntário.. antes.Coacção física ou coacção absoluta ou ablativa O CC prevê. Aliás. Não há qualquer dever de indemnização. mesmo que a simulação seja fraudulenta. se o declarante for. Estatui-se que o negócio não produz qualquer efeito. Trata-se dum caso de nulidade. na hipótese de coacção física. o declaratário tem direito a ser indemnizado do dano coberto pela chamada responsabilidade pré-negocial ou por «culpa in contrahendo». a favor da solução que defendemos. Advirta-se. Os interesses do autor do comportamento são tutelados em primeira linha. a consciência da declaração. embora exteriormente pareça estarmos perante uma declaração.º1. «finalista». pelo menos. A doutrina exposta é a que vale para a simulação de pessoas e para a simulação sobre a natureza do negócio.

nesta hipótese. desde que prove que o vendedor conhecia ou não devia ignorar que só interessava ao outro contraente o prédio onde nasceu. b)Certas hipóteses particulares merecem tratamento especial. do elemento sobre que incidiu o erro». o regime aplicável continua a ser a anulabilidade e não a nulidade verdadeira e a própria. não dão lugar à anulabilidade do negócio. exigindo-se para anulação do negócio que «o declaratário conhecesse ou não devesse ignorar a essencialidade. quando na verdade aquele prédio é o n. mesmo que a outra parte não se tenha apercebido da falsificação.º 20.Vícios da vontade Conceito Trata-se de perturbações do processo formativo da vontade. A lei não exige. se A. o reconhecimento ou a reconhecibilidade do erro. de «erro sobre o conteúdo da declaração». por lapso de actividade (erro mecânico: lapsus linguae ou erro ortográfico) ou por «error in judicando» (atribuição às palavras de um significado diverso do seu sentido objectivo).º2).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Na declaração sob o nome de outrem ninguém pode pretender que o negócio vincule o sujeito ao qual. do 246º. ostensivamente revelados no contexto da declaração ou nas circunstâncias que a acompanham. 3)Se o declaratário aceitar o negócio como o declarante queria. como se referiu. embora concorde com a declaração. mas apenas à sua rectificação (249º). pelo direito. compra a B o prédio n. para estes caso. tem uma explicação análoga à da solução indicada em 1). A vontade não se formou de um modo julgado normal e são. não se apercebe de que a declaração tem um conteúdo divergente na sua vontade real. aparentemente. não há. o negócio valerá de acordo com a vontade real (236º n. Quando há desvio na vontade de acção («lapsus liguae» ou «lapsus calami». Causas e efeitos. é determinada por motivos anómalos e valorados. pois. A hipótese pode subsumir-se. a)O princípio geral regulador destas hipóteses consta do 247º.º 10. mas. como ilegítimos. porque queria comprar o prédio onde nasceu. porém. diz respeito. (IV)Vícios da vontade (1)Noções gerais 144. Contenta-se com o conhecimento ou a cognoscibilidade da essencialidade do elemento sobre que incidiu o erro. por parte do declarante aparente. a anulabilidade fundada em erro não procede (248º). operando de tal modo que esta. 2)Se o declaratário conheceu ou devia ter conhecido o erro. Já se viu não ser necessário para a anulação. 76 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . 4)O erro de cálculo e o erro de escrita. erro mecânico) ou desvio na vontade negocial (erro de juízo) Nestas hipóteses o declarante tem a consciência de emitir uma declaração negocial. consciência de fazer uma declaração negocial. A validação do negócio. o conhecimento ou a cognoscibilidade do erro. directamente ou por analogia. 5)Se o declaratário compreendeu um terceiro sentido que não coincide nem com o querido pelo declarante. Assim: 1)Se o declaratário se apercebeu do dissídio entre a vontade real e a declarada e conheceu a vontade real do declarante. Por esse motivo fala-se. o comprador poderá anular o negócio. admitindo a anulabilidade em termos excessivamente fáceis e gravosos para a confiança do declaratário e para a segurança do tráfico jurídico. nem com o declarado. bastando que seja reconhecível a essencialidade do elemento sobre que o declarante errou. para o declarante. Assim. tal como em certos casos de erro-obstáculo. embora este conhecimento. possa não ter suscitado ao declaratário qualquer suspeita ou dúvida acerca da correspondência entre a vontade real e a declarada.

as seguintes: a)Só pode ser invocada pelo errante. pelo enganado. Trata-se pois.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 145. quando alguém. incapacidade acidental (257º). Estado mental ou fraqueza de carácter de outrem. em face dos 287º e 288º. porém. Aí se determina que é anulável. de um erro nos motivos determinantes (elementos internos) da vontade. a todo o tempo. Em ambos os casos a anulabilidade do negócio depende da verificação dos requisitos legais de relevância do erro ou do dolo.Enumeração dos vícios da vontade a que o nosso direito atribui um geral relevância autónoma Erro-vício. a requerimento do lesado ou da parte contrária. sob a designação de usura. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 77 .º1. Se estivesse esclarecido acerca dessa circunstância – se tivesse exacto conhecimento da realidade – o declarante não teria realizado qualquer negócio ou não teria realizado o negócio nos termos em que o celebrou. coacção moral (256º). o Estado de necessidade (282º) 146. Há.Noção Erro-vício: traduz-se numa representação inexacta ou na ignorância de uma qualquer circunstância de facto ou de direito que foi determinante na decisão de efectuar o negócio. normas que se referem a essa hipótese na regulamentação de alguns contratos especiais. igualmente. c)Pode ser sanada por confirmação da pessoa a quem pertencer o direito de anulação (288º). uma alternativa para a anulação dos negócios usurários: a sua modificação. dolo (254º). Por força das directivas comunitárias. nas disposições gerais sobre o negócio jurídico. dependência.O regime da lesão e dos vícios redibitórios no CC Lesão (usura) No CC a proscrição da lesão. Vícios redibitórios O CC não se refere.Qualificação da invalidade proveniente de Erro-vício. É o caso dos 905º e 913º (venda de coisas oneradas ou defeituosas) e do 1035º (vícios da coisa locada). inexperiência. alguns aspectos particulares da situação. fim). porém. obteve a promessa ou concessão de benefícios excessivos ou injustificados. se o negócio não estiver cumprido. dolo. 147. ser invocada. dolo. b)Só pode ser invocada dentro do ano subsequente à cessação do vício que lhe serve de fundamento (287º n. (2)O erro como vício da vontade 148. explorando a situação de necessidade. As características da anulabilidade são. por usura. aos vícios ocultos do objecto negocial como fundamento autónomo de invalidade. coacção ou incapacidade acidental Trata-se duma anulabilidade: Erro-vício (251º 252º). um negócio jurídico. nem todo o regime está previsto no CC. porém. segundo juízos de equidade. ligeireza. Para além deste efeito – anulabilidade – a lei regula. Estabelece-se no artigo seguinte. pelo coacto ou pelo incapaz (287º: «as pessoas em cujo interesse a lei estabelece»). consta do 282º. coacção moral. Pode. incapacidade acidental (257º).

pois o errante sempre contrataria. embora noutras condições. aquele que levou o errante a concluir o negócio. nos termos expostos – devem acrescer certos requisitos especiais. para relevar. na subsecção relativa aos vícios da vontade. aquele que influiu apenas nos termos do negócio. assim. um erro-obstáculo) e erro sobre as qualidades. pelo que se deve reputar consagrada a solução segundo a qual tal requisito é dispensável. embora noutros termos. quase sempre. não são desprotegidos. que corresponde ao erro acerca da causa (erro de direito ou de facto). Há que distinguir. aliás. sem ele. etc. 3 modalidades (sendo. o errante. O erro. estatuído o mesmo regime para duas delas): o erro sobre os motivos. b)Erro sobre o objecto de negócio: pode incidir sobre o objecto mediato (sobre a identidade ou sobre as qualidades). quando. os sujeitos). não obstante a anulação. Escusabilidade Não se formula. todavia. qualquer exigência da desculpabilidade ou escusabilidade do erro. O erro será impróprio. 152. Erro sobre os motivos Inserem-se nesta categoria os casos em que o erro se não refere à pessoa do declaratário. a melhor «de iure condendo». Propriedade Trata-se de um requisito que circunscreve o campo de aplicação autónoma do Errovício.g. que variam com as diversas modalidades do erro-vício. 78 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Deve. c)Erro sobre os motivos não referentes à pessoa do declaratário nem ao objecto do negócio (252º): é uma noção residual. isto é.Condições gerais de relevância do Erro-vício como motivo de anulabilidade Essencialidade É corrente na doutrina a afirmação de que só é relevante o erro essencial.Modalidades Em face do CC as categorias que revestem interesse são: a)Erro sobre a pessoa do declaratário: erro sobre a identidade (este será. O erro foi causa (é indiferente tratar-se de uma situação de causalidade única ou de concausalidade) da celebração do negócio e não apenas dos seus termos. incorrerá em responsabilidade prénegocial devendo indemnizar o chamado interesse contratual negativo. o errante. no caso de erro culposo. se não celebraria qualquer negócio ou se celebraria um negócio com outro objecto ou de outro tipo ou com outra pessoa. como motivo de invalidade. a ilicitude do objecto mediato ou imediato. entender-se. corresponde ao erro acerca da causa (de direito ou de facto ) do código anterior e abrange igualmente o erro sobre a pessoa de terceiro.. pois. em si mesmo e não apenas nos termos em que foi concluído. sempre celebraria o mesmo negócio (manter-se-ia o tipo negocial. os interesses da outra parte.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 150. O erro só é próprio quando incide sobre uma circunstância que não seja a verificação de qualquer elemento legal da validade do negócio. O erro é incidental se. sem ele. com fundamento no 227º (culpa na formação dos contratos). O erro é essencial se. deve atingir os motivos determinantes da vontade (251º e 252º). que. versar sobre os requisitos legais de forma negocial. v. o objecto. assim. Já não relevaria o erro incidental isto é. nem ao objecto do negócio. aliás. admitido a invocar a anulabilidade. que é. a capacidade do errante. Trata-se. o erro sobre a pessoa do declaratário e o erro sobre o objecto do negócio.Condições especiais de relevância do erro-vício como motivo de anulabilidade Aos requisitos gerais de relevância do erro – essencialidade e propriedade. duma noção definida por via negativa. 153. ou sobre o objecto imediato (erro sobre a natureza do negócio).

haverá lugar à anulabilidade do contrato. isto é. quer na do erro sobre as qualidades. isto é. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 79 . b)Dolus bonus e malus Só é relevante. para o declarante.º1. do erro do declarante (dolo negativo. se dispõe acerca da resolução por alteração das circunstâncias vigentes no momento em que o negócio foi concluído («desde que a exigência das obrigações assumidas afecte gravemente os princípios da boa fé e não esteja coberta pelos riscos próprios do contrato»). do elemento sobre que incidiu o erro». permite a anulação. A lei tolera a simples astúcia. reputada legítima pelas concepções imperantes num certo sector negocial.º2). Importa aqui referir apenas que o dolo negativo ou omissivo. 155. não existe em todos os casos de silêncio perante o erro em que versa o declarante.Conceito A noção de dolo consta do 253º n. o chamado erro sobre a natureza do negócio. o dolus malus. Erro sobre a pessoa do declaratário Abrange igualmente o erro sobre a identidade e o erro sobre as qualidades. pois o 253º n.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Nos casos deste tipo. A omissão de esclarecimento só constituirá dolo ilícito. igualmente. a essencialidade do motivo»). quando existia um dever de elucidar. pelo declaratário ou por terceiro. desde que haja uma cláusula (expressa ou tácita) no sentido de a validade do negócio ficar dependente da existência da circunstância sobre que versou o erro («se as partes houverem reconhecido. sobre o seu objecto imediato. sobre o seu conteúdo. a seu propósito. nos mesmos termos em que. expendemos quando se tratou do erro na declaração e tendentes à conclusão de que seria mais razoável ter-se exigido o conhecimento ou a cognoscibilidade do erro. ponto é que exista o dever de elucidar por parte do terceiro reticente. quando se verifique o emprego de qualquer sugestão ou artifício com a intenção ou consciência de induzir ou manter em erro o autor da declaração (dolo positivo ou comissivo). nos 437º a 439º. o 252º n. Essa conclusão não tem hoje qualquer fundamento. o regime correspondente ao erro na declaração. O 251º abrange. Está igualmente previsto no 251º. a lei declara não constituírem dolo ilícito. portanto. usuais. (3)Dolo 154. ou quando tenha lugar a dissimulação. considerados legítimos. Erro sobre o objecto do negócio Está previsto no 251º. Costumava assinalar-se à distinção o interesse prático de o dolo negativo de terceiros não ser relevante. como fundamento da anulabilidade e de responsabilidade. Só existirá dolo.º1. Com efeito. por acordo. quer na hipótese do erro sobre a identidade (na medida em que seja um erro-vício e não um erro na declaração). estabelece-se um regime especial para certos casos de erro sobre os motivos: se o erro incidir sobre as circunstâncias que constituem a chamada base negocial.º1 fala expressamente em dissimulação de terceiro. O negócio será anulável nos termos previstos no 247º para o erro-obstáculo.Modalidades a)Dolo positivo e negativo A distinção já foi caracterizada e consta do 253º n. Na 2ª parte do 252º. São cabidas acerca deste regime as considerações que. segundo as concepções dominantes no comércio jurídico (253º n.º1 2ª parte). por força de lei. omissivo ou de consciência). pois este versa sobre os efeitos do negócio. Trata-se dum erro determinado por um certo comportamento da outra parte. cabendo-lhe. «desde que o declaratário conhecesse ou não devesse ignorar a essencialidade.º1. de estipulação negocial ou das concepções dominantes no comércio jurídico (253º n.

durante os preliminares e a formação do negócio (227º). sem dolo não se teria concluído qualquer negócio. Tal solução é a que logicamente resulta do facto de o fundamento da anulabilidade por dolo ser a viciação da vontade. No dolo essencial o enganado (deceptus) foi induzido pelo dolo a concluir o negócio em si mesmo e não apenas nos termos em que foi concluído. b)Se o declaratário não conheceu nem devia conhecer o dolo de terceiro. por força do negócio. não é necessário que o dolo seja unilateral. Se essa consciência existe e. basta a consciência de criar ou manter uma situação de erro. No dolo incidental o deceptus apenas foi influenciado quanto aos termos do negócio. apesar dela.º1). Este requisito tem algum vago apoio no 254º n. enquanto no segundo há o intuito ou a consciência de prejudicar. d)Dolo proveniente do declaratário e proveniente de terceiro A distinção tem grande importância. o negócio será sempre anulável. para a relevância do dolo de terceiro. se este for cúmplice daquele. É um elemento da definição de dolo. A distinção não tem interesse prático. com o seu comportamento contrário às regras da boa fé. O próprio dolo bilateral ou recíproco pode ser invocado como fundamento de anulação. são exigidas certas condições suplementares que devem acrescer às do dolo do declaratário e o seu efeito é mais restrito.º2). se existir no contrato cláusula a seu favor e anulação será limitada à cláusula a favor do terceiro (invalidade parcial). mesmo para a hipótese da simples cognoscibilidade do declaratário.º1 2ª parte dispõe que. há dolo ilícito. estabelece a sanção da anulabilidade. embora o dolo incidental também possa vir a conduzir à anulação. neste caso. em ambos os casos se verificando os mesmos efeitos. se ao terceiro deceptor adveio. por ter dado origem à invalidade.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL c)Dolo inocente e fraudulento No primeiro há mero intuito enganatório. Desde logo. Condições de relevância do dolo de terceiro como motivo de anulação (254º n. constante do 253º n. haverá dolo negativo do próprio declaratário. se prossegue ou mantém o comportamento que gera ou faz perdurar o erro.º1.Condições de relevância do dolo como motivo de anulação O principal efeito do dolo é a anulabilidade do negócio (254º n. 80 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . não apenas dolo de terceiro. além disso. se ele conheceu efectivamente os artifícios de terceiro. segundo ele. 3)Existência no deceptor da intenção ou consciência de induzir ou manter em erro. «a nulabilidade não é excluída pelo facto de o dolo ser bilateral». Na verdade o 254º n. Condições de relevância do dolo do declaratário como motivo de anulação 1)Deve tratar-se dum dolus malus (253º n. e)Dolo essencial ou determinante e dolo incidental A distinção põe-se nos termos em que se pôs para o erro. o negócio só será anulável. 156.º1. 2)Deve ser essencial ou determinante. mas acresce a responsabilidade pré-negocial do autor do dolo (deceptor).º2). embora noutras condições.º2) Devem verificar-se os requisitos anteriores e. pois sempre contrataria. pois. há que fazer a seguinte distinção: a)Se o declaratário conheceu ou lhe foi cognoscível o dolo de terceiro. Existirá. Na hipótese de dolo negativo trata-se de uma causalidade hipotética. mesmo que esse não seja o propósito de quem a cria ou mantém. mas também dolo do declaratário. conhecer ou dever conhecer a actuação de terceiros (254º n. 4)Ao contrário do que exigem algumas legislações e a própria tradição jurídica. todavia. a lei. directamente algum direito (isto é.

a perturbação da vontade. é óbvio.º2). apenas.Conceito Consta do 255º n. se ele não for cúmplice do terceiro). Ao contrário do dolo de terceiro. (4)Coacção 160. Coacção dirigida à pessoa ou à honra ou à fazenda do declarante ou de terceiro No regime geral da coacção não há qualquer diferença de tratamento. 162. para compelir ao negócio. A primeira dá lugar à inexistência do negócio (246º). a segunda à mera anulabilidade (256º). cominada com o intuito de extorquir a declaração negocial. pois existe sempre uma opção entre padecer o mal cominado ou expor-se à sua consumação e celebrar o negócio (A é ameaça de morte ou de agressão ou de difamação. o chamado temor reverencial (255º n. o dolo não tem relevância específica em relação ao erro (no casamento engana quem pode). 161. em relação a este. a liberdade do coacto é cerceada. sendo o coagido ameaçado de um mal se não emitir a declaração.Negócio em que o dolo não tem relevância específica Resulta dos artigos 1631º b) e 1636º que no casamento. Exige-se igualmente que a cominação do mal vise extorquir a declaração negocial. Assim estaremos dentro do campo da coacção moral (coacção relativa ou compulsiva). traduzida no medo resultante da ameaça ilícita de um dano (de um mal). A coacção moral ou relativa ou compulsiva reduz a liberdade do coagido mas não a elimina (neste sentido coacta voluntas. existente no Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 81 . mas na adulteração da vontade do «deceptus». absoluta ou ablativa reduz o coagido à situação de mero instrumento ou autómato. na coacção moral. tal como sucede com o erro simples. embora a submissão à ameaça fosse a única escolha normal. portanto. mesmo no caso da ameaça com arma de fogo ou no caso de emprego da violência física.Fundamento jurídico da anulabilidade por dolo O fundamento da anulabilidade por dolo não consiste numa ideia de reparação do prejuízo sofrido pelo enganado (o próprio dolo inocente ou altruístico releva).º2). quando a liberdade exterior do coacto é totalmente excluída e este é utilizado como puro autómato ou instrumento. Não basta um simples medo ou receio. Torna-se necessário que o receio provenha de uma ameaça ilícita. e não com a anulabilidade. se não emitir certa declaração negocial).Condições de relevância da coacção como motivo de anulabilidade Coacção exercida por terceiro A coacção exercida por terceiro provoca a anulabilidade do negócio e põe a cargo do coactor uma obrigação de indemnizar o declarante (coagido) e o declaratário (mas. quando a liberdade do coacto não foi totalmente excluída.º1 e consiste no «recreio de um mal de que o declarante foi ilicitamente ameaçado com o fim de obter dele a declaração». 159. como começo de execução do mal cominado. a lei exclui. É. o negócio será anulável na sua totalidade (mesmo em face do declaratário). Só cairemos no âmbito da coacção física (coacção absoluta ou ablativa). A ameaça pode dizer respeito à pessoa como à honra ou fazenda do declarante ou de terceiro (255º n. mas não excluída. quer o coactor seja beneficiado por cláusula a seu favor. A reparação do prejuízo causado é visada com a responsabilidade civil que impende sobre o «deceptor». desde logo. semper voluntas).Modalidades Coacção física (absoluta e moral (relativa) A coacção física. quando lhe foram deixadas possibilidades de escolha.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 157. Só há vício da vontade. consoante o bem ameaçado pela cominação ou a pessoa directamente visada.

Modalidades possíveis. (5)O estado de necessidade e outras situações como vícios da vontade negocial 164. etc.Conceito Situação de receio ou temor gerada por um grave perigo que determina o necessitado a celebrar um negócio para superar o perigo em que se encontra. torna-se necessário que o representante actue «nos limites dos poderes que lhe competem» (258º) ou que o representado realize. onde se prescreve a anulabilidade. uma ratificação. (6)A incapacidade acidental 167. pelo representado ao representante: fala-se. em face dela. É nos termos de tal disposição. Nada mais é necessário para existir a representação. não sancionando um critério puramente objectivo. Podem resultar dos estatutos de 82 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados .Valor dos negócios jurídicos realizados em estado de necessidade No CC a hipótese dos negócio em Estado de necessidade deve subsumir-se na previsão do 282º. gratidão. A hipótese está prevista no 257º. (V)A representação nos negócios jurídicos 168. A lei desaprova a coacção em tão forte medida que. para que ela. 166. para na esfera desse outrem se produzirem os respectivos efeitos. a quem se deve respeito. sendo. havendo antes lugar à nulidade.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL contrato. desde que se verifique um requisito (além da incapacidade acidental) destinado á tutela da confiança do declaratário: a notoriedade ou o conhecimento da perturbação psíquica. de representação voluntária e o acto voluntário atribuidor de poderes representativos chama-se procuração. mesmo que esta nada soubesse ou devesse saber da coacção. seja eficaz. O requisito da notoriedade significa a cognoscibilidade por uma pessoa média.A incapacidade acidental O CC regula a incapacidade acidental. irrelevante como motivo determinante da vontade. mas antes de um desvio no processo formativo da sua vontade em relação às circunstâncias normais do seu processo deliberativo.) não constitui coacção. consoante a natureza do facto que lhe dá origem: facto natural ou facto humano.A coacção moral e o simples temor reverencial O temor reverencial (medo de incorrer no desagrado ou desafecto de outrem. A representação traduz-se na prática dum acto jurídico em nome de outrem. em conformidade com a fisionomia moderna do instituto. e haja ou não conhecimento ou cognoscibilidade do vício por parte do declaratário (256º 1ª parte). Já se sabe que este regime dos 282º e 283º não se aplicará. colocado na posição concreta do declaratário. quer não seja. onde se estatui a anulabilidade dos chamados negócios usurários. supervenientemente.Conceito Infere-se do 258º. quando a pessoa não se aproveita conscientemente da situação de necessidade tinha o dever de auxiliar o necessitado (acto contrário à lei ou ofensivo dos bons costumes). a protecção da contraparte cabe. que o legislador concebe sob a designação de usura alguma relevância ao velho instituto da lesão. mas exigindo. 163. por um acto voluntário. Os poderes de representação podem ser atribuídos. então. assim. dado o facto não se tratar de uma situação permanente do indivíduo. não na secção das incapacidades. mas entre a falta e os vícios da vontade. todavia.

Os menores. traduz um alargamento das possibilidades contidas na referida autonomia.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL uma pessoa colectiva (representação orgânica ou estatutária) ou. justamente. em condições de defender os seus interesses e. Com efeito. caso em que os poderes representativos são conferidos no interesse do próprio procurador. trata-se de uma modalidade particular do contrato de prestação de serviços. Não há igualmente coincidência entre as noções de representação e de mandato. isto é. segundo a perspectiva do ordenamento jurídico. mas em nome próprio. o menor ou o interdito. não disfrutam de autonomia privada. traduzindo-se em legitimidade para representarem. administrador de bens. normalmente. manifestada na procuração. por isso. verificadas certas situações. noutras hipóteses de interposição real de pessoas. ser concedidos pela lei a representantes legais (pais. indirecta ou mediata. inabilitados. será o mandato. pois o mandato é um contrato pelo qual uma das partes se obriga a praticar um ou mais actos jurídicos por conta da outra (1157º). verificada cada certa situação. não têm capacidade para se autodeterminarem. tendo como critério a fonte donde promanam os poderes representativos. contrariamente a um equívoco bastante generalizado. eventualmente. ou por decisão judicial em conformidade com a lei e tem os poderes definidos pela lei. Não há contradição. em princípio. Na representação legal (menores. Verifica-se no mandato sem representação e. Esta pode ser geral. se a representação legal tem lugar sempre no interesse do representado (incapaz). neste caso.Espécies a)Distinção entre representação própria. Representação legal: o representante é indicado. qualquer contradição com a autonomia privada. a representação voluntária pode ter lugar por força da chamada in rem suam. porque as possibilidades de actuação jurídico-negocial própria (do representado) não são restringidas pelo facto de ter passado a outrem uma procuração. A chamada representação imprópria não é uma verdadeira representação. e. b)Distinção entre representação legal e voluntária. c)Representação activa e passiva A primeira é a actuação em nome de outrem na emissão de declarações negociais. b)Pode haver representação sem haver mandato Não só na hipótese da representação legal. mas também no que toca à representação voluntária: esta resulta de um acto – procuração (262º) – que pode existir autonomamente (negócio unilateral) ou coexistir com um contrato que. para se produzirem os mesmos efeitos que se produziriam se tais declarações fossem recebidas por esse outrem. capacidade de agir por possuírem órgãos que as podem representar. interditos) não se nos depara. mas pode ser outro (ex. Há perfeita autonomia entre as duas figuras.: contrato de trabalho). curador). ou especial. A representação voluntária não contradiz o referido princípio. tal como este conceito é pressuposto pelo 258º. directa ou imediata e a representação imprópria. age por conta do mandante. pela lei. igualmente. em todos os seus assuntos pessoais ou patrimoniais. Representação voluntária: os poderes do representante e a respectiva extensão provêm da vontade do representado. A segunda traduz-se em receber declarações negociais em nome de outrem. Para existir a representação basta que o negócio seja concluído em nome do representado. abrangendo apenas os actos nela referidos e os necessários à sua execução. só legítima para actos de administração ordinária. São poderes de grande amplitude. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 83 . não sendo já necessário que o seja no interesse do representado. desde logo. ao invés. Quanto às pessoas colectivas têm. Não há contradição entre a representação e o princípio da autonomia privada. tutor. 169. os interditos e certos inabilitados não estão. A representação já acima ficou definida e resulta que: a)Pode haver mandato sem haver representação Quando o mandatário não recebeu poderes para agir em nome do mandante.

d)Representação e os contratos para a pessoa a nomear Os contratos para pessoa a nomear. 1)Na representação própria o negócio representativo produz efeitos na esfera do representado ou. isto é. os consultores técnicos. nunca recebe. do erro na transmissão da declaração. não existe a chamada «contemplatio domini». embora se actue no interesse ou por conta de outrem. b)Representação própria e imprópria Na representação imprópria (contrato de comissão. o negócio é ineficaz em relação ao representado (268º). O representante consuma. podendo uma criança actuar como núncio. pela pessoa nomeada e. não sendo feita a declaração de nomeação nos termos legais. mas carece de capacidade natural de entender e querer. no contrato para pessoa a nomear. um mandato absolutamente especificado e imperativo.Confronto com institutos afins a)Representante e o simples núncio O representante. actos materiais (no sentido de actos não negociais. se não se verificarem os requisitos do 250º para a relevância. a partir da celebração do negócio. o representante realiza negócios jurídicos e os dactilógrafos. na hipótese de falta de legitimação representativa. nem mesmo quando a procuração é especialíssima. no sentido da anulabilidade. que não torna o «dono do negócio» parte ou sujeito do acto jurídico praticado pelo «representante». são previstos e disciplinados no 452º e ss. Decide. sendo este obrigado a assumir as obrigações contraídas pelo mandatário. O núncio é um mero longamanus. o contrato produz os seus efeitos relativamente ao contraente originário (455º). uma vez feita a declaração de nomeação nos termos do 453º. podendo tratar-se de operações de tipo intelectual).. mandato sem representação.). sem necessidade de um acto especial de transmissão dos direitos e das dívidas. e)Representação e simples autorização ou consentimento para actos de outrem O representante actua e na simples autorização inibe-se ou aprova-se uma iniciativa e uma actuação de outrem. se este não atribuir àquele legitimidade representativa (ratificação).TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 170. no contrato para pessoa a nomear. um dos contraentes declara contratar para um terceiro. pelo menos. o núncio transmite o já consumado. age em nome próprio – é uma forma de mera representação de interesses. exigida pela natureza do negócio que haja de efectuar (263º). A representação imprópria ou mediata – na qual o agente. quanto ao núncio. c)Representação e as diversas formas de colaboração material ou técnica nos negócios de outrem A distinção assenta na contraposição negócio jurídico/acto material. os operários. o núncio transmite uma declaração de outrem. reservando-se apenas o direito de o nomear e. O representante emite uma declaração em nome de outrem. e é obrigado a transferir para o mandante os direitos adquiridos. o conteúdo. os efeitos do negócio são encabeçados pela pessoa nomeada. Este é que é parte negocial. etc. Diversidade de tratamento jurídico: 1) o representante (voluntário) não precisa de ter plena capacidade legal. retroactivamente. 84 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . etc. o «dominos» poderá ficar vinculado nos termos da declaração emitida. 2)Na representação imprópria o mandatário age em nome próprio. na representação própria existe a «contemplatio domini» (actuação em nome de outrem). é ineficaz. embora actuando no interesse de outrem. os direitos e obrigações provenientes do contrato são apropriados. frequentemente. o se do negócio e. ao contrário do núncio. bastará a capacidade natural para transmitir a declaração de vontade. se o núncio transmite a sua declaração inexactamente. adquirindo os direitos e obrigações decorrentes dos actos que celebra. 2) se o representante excede os seus poderes de representação. um braço mais comprido. mais.

O mandato com representação (1178º).. está ferido de anulabilidade (261º) e não de ineficácia. Não havendo ratificação. A sua admissibilidade e o seu domínio de aplicação resultam das disposições que a consagram para o efeito de se suprir a incapacidade dos menores (124º). posteriormente. de uma vontade do representado. como . a dos inabilitados (154º). já existente ao tempo do negócio representativo ou conferida. se poderia pensar e se teria de concluir se o caso não estivesse expressamente hipotizado em norma especial (261º). aliás.Admissibilidade da representação a)Representação legal. no qual está coenvolvida uma procuração. sempre existente. pura e simplesmente. Os actos praticados por um representante sem poderes ou «falsus procurator» (com falta total de poderes representativos ou com excedência dos poderes que lhe foram atribuídos) são ineficazes em relação à pessoa em nome da qual se celebrou o negócio. com culpa. se não psicologicamente ao menos objectivamente. é a fonte mais frequente da representação voluntária. não é. mas de modo substancialmente contrário aos fins da representação.Pressupostos da representação a)Pressupostos de existência (conceituais) da representação: 1)«Contemplatio domini». isto é. isto é. como será quase sempre o caso. eventualmente. o representante não se torna titular de quaisquer direitos ou obrigações em face da contraparte do negócio representativo. responde perante a contraparte. por parte do representante. como.º2 e 262º n. além do direito adquirido pelo terceiro a favor de quem foi convencionada a promessa ou dos outros efeitos favoráveis a este (443º n. O negócio consigo mesmo: o chamado negócio consigo mesmo – ex. 2)Declaração. desde que o representado tenha especificamente consentido na celebração) -. O negócio. «prima facie». se a outra parte conhecia o abuso ou este lhe era cognoscível. da procuração. não responde). 172. legitimação representativa. o representante sem poderes. também. tratado como um negócio do representante. É admitida nos 262º e ss. para que a contraparte saiba ou possa saber com quem negoceia. b)Pressuposto de eficácia da representação: o acto deve estar integrado nos limites dos poderes que competem ao representante. O carácter formal ou consensual da ratificação. O negócio vale em relação ao representado. que pode ser originária. Não vale em relação ao representante. a falta de poderes (no caso raro de não ter culpa. nos contratos a favor de terceiro. realização do negócio em nome do representado. ineficaz relativamente ao «representado». se desconhecia. estabelecem-se vínculos jurídicos entre o promissário e o promitente.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL f)Representação e os contratos a favor de terceiros Na representação. salvo se tiver lugar a ratificação (268º nº1). Através deste requisito distinguese a figura do representante da figura do núncio. a dos interditos (139º) e.º2). Haverá abuso de representação quando o representante actuar dentro dos limites formais dos poderes conferidos. Deve existir. depende das exigências formais do negócio representativo (268º n.º2) 171. e não. procurador de B. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 85 . de uma vontade própria do representante. manifestação particular da representação sem poderes (na medida em que o negócio é perfeitamente válido. b)Representação voluntária. esta não é parte negocial. em maior ou menor escala. O «falsus procurator» responde pelo interesse contratual negativo ou interesse da confiança (a contraparte é colocada na situação em que estaria se não tivesse contado com a realização do contrato). compra em nome próprio um objecto que vende em nome de B (autocontrato). O 269º manda aplicar o regime do 268º à hipótese de abuso de representação. sendo sujeitos das relações emergentes do referido negócio o representado e a outra parte. até. verificada culpa sua. através de uma ratificação do negócio (legitimação representativa subsequente). A. com fundamento em responsabilidade pré-negocial (227º) ou na existência de uma promessa tácita de garantia.

TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL A extinção da representação é unilateral e pode dar-se por: revogação (por parte do representado) ou renúncia (por parte do representante) (265º). Pode dar-se também por causa natural, isto é, por conclusão. O 264º faz ainda referência à hipótese de subestabelecimento: o representante representa-se por outrem.

(III)Elementos acidentais dos negócios jurídicos (Cláusulas acessórias típicas gerais) (I)Condição 176.Conceito, natureza e importância da estipulação condicional
As noções de condição suspensiva e de condição resolutiva constam do 270º: subordinação pelas partes a um acontecimento futuro e incerto ou da produção dos efeitos do negócio jurídico (condição suspensiva) ou da resolução dos mesmos efeitos (condição resolutiva). Natureza da estipulação condicional Trata-se duma vontade hipotética, embora actual, e efectiva, exteriorizada numa declaração única e incindível. Razão de ser e importância prática da condição Superação da incerteza objectiva do futuro, através de um regulamento de interesses apto a, em qualquer hipótese, realizar a representação que os sujeitos têm do seu interesse. Numa especial modalidade permite influir sobre o comportamento de outrem.

178.A aponibilidade da condição
Princípio geral A cláusula condicional é um elemento acidental, susceptível de ser inserido na generalidade dos negócios, por força do princípio da liberdade negocial. Valor de condição aposta a um negócio incondicionável Em conformidade com o princípio da incindibilidade do negócio condicional, a consequência da aposição duma condição a um negócio incondicionável é a nulidade do negócio. Tal solução, na falta de disposição que expressamente a preceitue (ex.: 848º), resultará da aplicação analógica do 271º e até genericamente do 294º.

179.Classificação das condições
Condições suspensivas e resolutivas O critério da distinção, nos termos do 270º, é o da influência que a verificação do evento condicionante tem sobre a eficácia do negócio: se a verificação da condição importa a produção dos efeitos do negócio, não tendo estes lugar doutro modo, trata-se duma condição suspensiva; se a verificação da condição importa a destruição dos efeitos negociais, aquela diz-se resolutiva. Saber se uma condição é suspensiva ou resolutiva é um problema de interpretação do negócio jurídico, não formulando o CC qualquer presunção geral, nem sendo legítimo propor qualquer presunção natural ou de facto com validade geral. Condições possíveis e impossíveis. As chamadas condições ilícitas (contrárias à lei) Os conceitos de condição impossível (física ou legalmente) e de condição contrária à lei ou à ordem pública ou ofensiva dos bons costumes resultam claramente das considerações acerca dos requisitos legais do objecto negocial: sempre que o evento condicionante não possa realizar-se por impossibilidade física ou legal, ou seja contrário à lei, à ordem pública ou ofensivo dos bons costumes, a condição respectiva terá a qualificação correspondente. A condição que consiste num facto ilícito pode ser lícita, se a cláusula condicional representar um contra-estímulo à prática desse acto; só deixará de ser assim, nesta hipótese,

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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL sendo, portanto, nula a condição, se repugnar à lei ou aos bons costumes a ideia de que se pratique tal acto mediante retribuição. Por outro lado, sendo embora o evento condicionante lícito, pode a condição ser ilícita, por força do seu nexo com o restante conteúdo do negócio.

181.Efeitos da condição suspensiva
Na pendência da condição, isto é, enquanto o evento condicionante não se verificou, nem deixou de se poder verificar. Neste período, o credor condicional não tem ainda um direito exercitável em relação ao devedor, embora as partes estejam já vinculadas, de tal modo que estão sujeitas à produção dos efeitos do negócio, uma vez verificado o evento condicionante.

(II)Termo 183.Conceito
Cláusula acessória típica pela qual a existência ou a exercitabilidade dos efeitos de um negócio são postas na dependência de um acontecimento futuro mas certo, de tal modo que os efeitos só começam ou se tornam exercitáveis a partir de certo momento (termo suspensivo ou inicial) ou começam desde logo, mas cessam a partir de certo momento (termo resolutivo ou final).

185.Aponibilidade do termo
Em obediência ao princípio da liberdade contratual, as partes gozam da faculdade de inserir esta cláusula na generalidade dos negócios. O termo pode ser aposto, em princípio, a qualquer negócio jurídico. Esta regra tem excepções, contudo, visto que há negócios que não admitem termo – negócios inaprazáveis -, os quais coincidem, em regra, com os negócios incondicionáveis.

186.Modalidades
Termo inicial, suspensivo ou dilatório (dies a quo ou ex quo) e termo final, resolutivo ou peremptório (dies ad quem) Esta distinção é paralela à que separa a condição suspensiva da resolutiva, assentando num critério baseado na influência que a verificação do facto futuro (mas certo) tem sobre a existência ou a exercitabilidade dos efeitos do negócio. Se os efeitos do negócio só começam ou só se tornam exercitáveis a partir de certo momento, o termo diz-se suspensivo ou inicial; se começam desde logo, mas cessam a partir de certo momento, o termo diz-se resolutivo ou final. Termo certo e incerto O termo é certo quando se sabe antecipadamente o momento exacto em que se verificará (ex.: o devedor fica obrigado a cumprir a sua prestação no dia 1 de Janeiro de determinado ano ou dentro de um mês a contar de certa data), e incerto quando esse momento é desconhecido (ex.: consistir o momento da morte de alguém, a qual, como se sabe, é certa, mas a sua hora incerta). Chama-se prazo ao período de tempo que decorre entre a realização do negócio e a ocorrência do termo, embora se possam atribuir outros sentidos àquela expressão. 279º regime supletivo da contagem dos prazos (importante para os advogados).

(III)Modo, encargo ou cláusula modal 188.Conceito
Cláusula acessória típica, pela qual, nas doações e liberalidade testamentárias, o disponente impõe ao beneficiário da liberalidade um encargo, isto é, a obrigação de adoptar um certo comportamento no interesse do disponente, de terceiro ou do próprio beneficiário.

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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Referem-se-lhe os 963º (doações com cláusula modal) e 2244º (instituição de herdeiro e nomeação de legatário sujeitas a encargos).

189.Distinção do modo e da condição
O modo só pode ser aposto à liberalidades, enquanto a cláusula condicional é aponível, salvas as excepções constantes da lei, a todos os negócios (gratuitos ou onerosos). Enquanto a cláusula modal se traduz na imposição, ao beneficiário da liberalidade, do dever de adoptar uma certa conduta, a condição pode ter como evento condicionante um facto de qualquer das partes (credor ou devedor condicional), um facto natural ou de terceiro ou um evento de carácter misto.

190.Valor do modo impossível ou ilícito
No CC há um artigo – 967º - que manda aplicar aos encargos modais, física ou legalmente impossíveis, contrários à lei ou à ordem pública ou ofensivos dos bons, apostos às doações, as regras estabelecidas em matéria testamentária. Há, assim, identidade de regime entre as doações e os testamentos, quanto a este ponto, contrariamente ao que resultava da legislação anterior. O 2245º manda aplicar aos encargos impossíveis ou ilícitos o regime estatuído, para as condições com as mesmas características, no 2230º. Assim, a cláusula modal impossível (física ou legalmente) tem-se por não escrita e não prejudica o donatário, herdeiro ou legatário, salvo declaração do doador ou do testador em contrário. Os encargos ilícitos (contrários à lei ou à ordem pública ou ofensivos dos bons costumes), têm-se igualmente por não escritos, ainda que o disponente disponha o contrário. A nulidade é, portanto, parcial, isto é, mantém-se o restante conteúdo da liberalidade que assim resulta ampliada, sendo tal regime supletivo, no que toca ao modo impossível, e imperativo, para o modo ilícito.

(IV)Cláusula penal 192.Conceito e importância
Cláusula penal: é a estipulação em que as partes convencionam antecipadamente uma determinada prestação, normalmente uma quantia em dinheiro, que o devedor terá de satisfazer ao credor em caso de não cumprimento, ou de não cumprimento perfeito da obrigação. Pode, assim, revestir duas modalidades: cláusula penal compensatória ou moratória, conforme tenha sido estipulada para o não cumprimento da obrigação ou para a simples mora do devedor. Aparece normalmente como cláusula do contrato, dele fazendo parte desde a sua celebração, mas nada impede que seja convencionada posteriormente, desde que antes da verificação do facto constitutivo de responsabilidade. A cláusula penal constitui a fixação antecipada e convencional do montante da indemnização, sendo uma cláusula acessória da obrigação principal, pelo que as vicissitudes desta se reflectirão na pena convencional (designação por que também é conhecida). Assim, se a obrigação principal for nula, nula é a cláusula penal (810º). A importância prática da cláusula penal é manifesta, tendo em conta as funções que desempenha. Constituindo uma forma de liquidação prévia do dano, segundo a estimativa dos próprios contraentes, superam-se assim dificuldades e incertezas várias, mormente de prova do dano e da sua extensão. Com efeito, em circunstâncias normais, e na ausência de qualquer cláusula penal, o credor, que pretenda ser indemnizado dos prejuízos resultantes da violação do contrato, terá de fazer prova, através da acção judicial competente, dos prejuízos sofridos. Existindo uma cláusula penal, contudo, o credor deixa de ter de fazer essa prova, sendo o montante da indemnização aquele em que as partes tiveram previamente acordado. Supera-se assim, com a estipulação de uma cláusula penal, a incerteza dos contraentes quanto à avaliação judicial da indemnização, conhecendo-se de antemão as

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que o CC consagra. que o tribunal poderá reduzir o montante da cláusula penal. para que esta figura está especialmente vocacionada: uma função sancionatória. Esta argumentação foi utilizada.g. durante algum tempo. quer limitando-a no seu montante. a responsabilidade do devedor pelo não cumprimento. cumprimento defeituoso ou mora das obrigações assumidas. no momento da celebração do contrato – ou posteriormente. Pode acontecer. anular-se-iam as vantagens que a cláusula penal apresenta. nas circunstancias concretas. a cláusula penal constituirá um incentivo ao incumprimento tanto maior quanto mais elevado for o seu montante. e não apenas de ser superior ao dano. acordam em limitar. sendo o montante da indemnização aquele em que as partes tiverem antecipadamente acordado. não pode minimizar-se uma outra. a fim de evitar abusos. permitindo-se. fosse superior ao prejuízo efectivo. Aí se permite que a responsabilidade do devedor por actos dos representantes legais ou auxiliares possa ser convencionalmente excluída ou limitada. É certo que a fiscalização judicial da cláusula penal contende com algumas vantagens que esta figura apresenta. isto é.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL consequências que advirão de um incumprimento do contrato e evitando-se litígios judiciais sobre o montante do dano. culmina um movimento que de há muito vinha salientando a necessidade de combater cláusulas penais abusivas. ao fixar a doutrina do 812º. sobretudo quando a pena é de montante elevado. em termos de poder questionar-se se não ficarão assim comprometidas as sua funções de reforço da garantia de cumprimento do contrato e de certeza do montante da indemnização em caso de não cumprimento. (V)Cláusulas limitativas e de exclusão de responsabilidade civil 194. quer condicionando-a a determinado grau de culpa (v. pode a pena ser modificada na parte proporcional». o mesmo sucedendo se a obrigação tiver sido parcialmente cumprida (812º). de alguma forma. mas teve de ceder perante as flagrantes injustiças a que. esta situação conduzia. em certos casos. manifestamente excessivo. 193. visto que a possibilidade de reduzir a cláusula pena depende de o seu montante se mostrar manifestamente excessivo. é.Conceito e importância prática Cláusulas limitativas de responsabilidade: são estipulações através das quais os contraentes. 195. ao tribunal a redução desse montante. que esse montante se venha a revelar. «desde Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 89 . A limitação da responsabilidade verificar-se-á. neste caso. se fosse permitida a redução da pena sempre que. exonerando. Mas além desta importante função que a cláusula penal desempenha – liquidação prévia do dano. mediante acordo prévio. visto que o código de Seabra estabelecia apenas que «se a obrigação foi cumprida em parte.Regime A cláusula penal é devida independentemente da extensão dos danos. de pressão sobre o devedor em ordem à execução correcta do contrato. na medida ajustada. se não cumprir a obrigação. nos termos acordados pelas partes -. Só em casos excepcionais. como forma de justificar a imutabilidade da pena. de ter em devida conta. O legislador não deixou. pois.. pois doutra forma. todavia. dolo e culpa grave. porém. o devedor em caso de incumprimento devido a simples culpa leve).Regime O CC não trata da disciplina das cláusulas limitativas e de exclusão de responsabilidade em termos claros e sistemáticos. em termos equitativos. desde que antes da verificação do facto gerador de responsabilidade -. o bem fundado de tal argumentação. Sabendo o devedor a quantia que terá de entregar ao credor. revestindo-se esta função de particular importância sobretudo tratando-se de obrigações de prestação de facto infungível ou de contratos em que o cumprimento rigoroso das obrigações assume particular significado. referindo-se a elas apenas no 800º nº2. independentemente da desproporção existente. A possibilidade de redução equitativa de pena manifestamente excessiva. assim.

produz os seus efeitos e é tratado como válido. porém. não se encontra na lei uma resposta clara e segura sobre o regime daquelas convenções. exercido. Estes dois últimos conceitos serão precisados adiante. pela circunstância de depender. o direito potestativo de anular. (IV)Ineficácia e invalidade dos negócios jurídicos 198. 90 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . Noção. na terminologia do CC à anterior distinção doutrinal entre nulidade absoluta e nulidade relativa. como nulo ou anulável.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL que a exclusão ou limitação não compreenda actos que representem a violação de deveres impostos por normas de ordem pública». a valoração de um negócio. que se verifiquem os elementos correspondentes ao seu tipo. pressupõe. alguma anormalidade. Nulidade e anulabilidade. o de indemnização. segundo o teor das declarações respectivas. mas de alguma circunstância extrínseca que. mas da fixação de um limite máximo. a realidade não corresponde a tal noção.Ineficacia dos negócios jurídicos (latu sensu). caducidade. o negócio não deve produzir os efeitos a que tendia. de actos directamente praticados pelo próprio devedor. Outras formas de ineficácia em sentido lato A ineficácia em sentido amplo tem lugar sempre que um negócio não produz. denúncia. a ausência de produção dos efeitos negociais resulta de vícios ou deficiências do negócio. Pelo contrário. O conceito de ineficácia em sentido estrito definir-se-á. integra a situação complexa produtiva de efeitos jurídicos. contemporâneos da sua formação. por causas intrínsecas ou extrínsecas. revogação. admite a lei. não de uma falta ou irregularidade dos elementos internos do negócio. com consequências mais graves do que a nulidade e a anulabilidade. quando nem sequer aparentemente se verifica o «corpus» de certo negócio jurídico (a materialidade correspondente à noção de tal negócio) ou. como vimos. por impedimento decorrente do ordenamento jurídico. 200.Inexistência e invalidade (nulidade e anulabilidade) dos negócios jurídicos Inexistência e invalidade A inexistência é uma figura autónoma. mediante esta acção. norma que impede o credor de renunciar antecipadamente a certos direitos. O mesmo sucede em muitos casos de ineficácia em sentido estrito. no 810º. Quanto à cláusula limitativa de responsabilidade. casos de cessação dos efeitos negociais – e. Ineficácia stricto sensu e invalidade. sem embargo de ocorrer. porém. formativos) do negócio. no todo ou em parte. desde o início. figuras como a resolução. O negócio nulo não produz. conjuntamente com o negócio. Há. Por outro lado. coerentemente. os efeitos que tenderia a produzir. por força da falta ou vício de um elemento interno ou formativo. A invalidade é uma espécie do género ineficácia: enquanto a ineficácia lato sensu compreende todas as hipóteses em que. Invalidades mistas A distinção entre nulidade e anulabilidade corresponde. Quanto à inexistência. pertencente a uma das partes. isto é. afirma-se estarmos perante esta figura. enquanto não for julgada procedente uma acção de anulação. a invalidade é apenas a ineficácia que provém de uma falta ou irregularidade dos elementos internos (essenciais. os efeitos do negócio são retroactivamente destruídos. a possibilidade de as partes fixarem por acordo o montante da indemnização exigível. Surgem-nos com estas características. pelo menos. nesses elementos. pensamos não ser abrangida pela proibição constante do 809º. entre eles. que o negócio exista. de ineficácia em sentido lato – por força de eventos posteriores ao momento da sua celebração. no quadro conceitual e terminológico do CC. existindo embora essa aparência. portanto. esta cláusula não cabe na hipótese do 809º. Na invalidade. Tratando-se.

pelo sujeito de qualquer relação jurídica afectada. pela verificação da usucapião (prescrição aquisitiva). Não se produzem os efeitos jurídicos a que o negócio tendia. poderá vir-se requerer a anulação a todo o tempo. a renovação. em matéria de frutos. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 91 . tratado como válido. arguindo a anulabilidade de qualquer negócio jurídico que contra elas seja invocado (287º).Efeitos da declaração de nulidade e da anulação 1)Operam retroactivamente (289º). nem sequer uma sentença judicial prévia. Há algumas diferenças entre a confirmação e a renovação. no prazo legal e pelas pessoas com legitimidade. no tempo e forma devidos. 204. A possibilidade da sua invocação perpétua pode. c)São insanáveis pelo decurso do tempo Isto é. quer por via de acção. São as seguintes as características das anulabilidades: a)Têm de ser invocadas pela pessoa dotada de legitimidade Não podem ser declaradas «ex. isto é. ressalvada a possibilidade da sua arguição por via de excepção. mesmo em relação a terceiros. quer por via de excepção. o que está em perfeita coerência com a ideia de que a invalidade resulta de um vício intrínseco de negócio e. ter lugar aqui um sucedâneo da confirmação: a chamada renovação ou reiteração do negócio nulo. etc. d)São sanáveis mediante confirmação (288º) A confirmação é um negócio unilateral pelo qual a pessoa com legitimidade para arguir a anulabilidade declara aprovar o negócio viciado. A confirmação não depende de forma especial e pode ser tácita ou expressa (288º nº3). que a arguição da anulabilidade não está sujeita a qualquer prazo. benfeitorias. se a situação de facto foi actuada de acordo com os efeitos a que tendia o negócio. em princípio. possa ter eficácia retroactiva nas relações «inter partes». porém. e podem ser declaradas «ex officio» pelo tribunal (286º). na sua consistência jurídica ou prática. é um novo contrato. 2)Não obstante a retroactividade. b)Só podem ser invocadas por determinadas pessoas E não por quaisquer interessados. Se não for anulado.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 201. mesmo que o fundamento da nulidade tenha desaparecido. Note-se. apesar do vício. haverá lugar à repristinação das coisas no estado anterior ao negócio. a renovação opera «ex nunc». porém. officio» pelo juiz. nesta hipótese. como nunca tendo tido lugar. contemporâneo da sua formação. embora. o valor correspondente (289º nº1). c)São sanáveis pelo decurso do tempo O CC estabelece em prazo de um ano para a arguição das anulabilidades. (289º nº3). A confirmação é um negócio unilateral. restituindo-se tudo o que tiver sido prestado ou. todavia. Se for anulado. no aspecto prático. 202. A confirmação tem efeito retroactivo. portanto. pelos efeitos a que o negócio se dirigia (286º). se o negócio não esta cumprido. 3)Em consonância com a retroactividade. Exigem uma acção especialmente destinada a esse efeito. b)São invocáveis por qualquer pessoa interessada Isto é. d)São insanáveis mediante confirmação (288º «a contrario») Pode.Regime das nulidades a)Operam «ipso iure» ou «ipsa vi legis» Não se torna necessário intentar uma acção ou emitir uma declaração nesse sentido. considera-se que os efeitos visados não se produziram desde o início. o prazo é de três anos (1687º nº2). passa a ser definitivamente válido. por estipulação «ad hoc». encargos. a possibilidade de as pessoas legitimadas se defenderem. Resulta do 287º nº1 que só têm legitimidade para arguir a anulabilidade os titulares do interesse para cuja específica tutela a lei a estabeleceu. se a restituição em espécie não for possível. nos contratos nulos. há lugar à aplicação das normas sobre a situação do possuidor de boa fé.Regime das anulabilidades O negócio anulável é. ser precludida. Na hipótese dos actos afectados por ilegitimidades conjugais. são invocáveis a todo o tempo (286º).

emergente de um contrato bilateral ou plurilateral. extinguem a relação contratual existente entre eles. salvo se o terceiro adquiriu o seu direito posteriormente ao registo da acção de resolução. sem estas limitações. a denúncia diz-se ad nutum ou ad libitum. ou implica uma acção judicial (anulabilidade). normalmente um facto que vem iludir a legítima expectativa duma parte contratante. nos contratos de duração ou por tempo indeterminado.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 4)A retroactividade da nulidade e da anulação. a existência de um poder de denúncia sem uma específica causa justificativa. em princípio. sem carácter retroactivo. resultando. um motivo particular. Com este «contrarius consensus» as partes. O fundamento material desta denunciabilidade «ad nutum» é a tutela da liberdade dos sujeitos que seria comprometida por um vínculo demasiadamente duradouro. em princípio. É o chamado extintivo ou abolitivo ou «contrarius consensus» (406º nº1). mediante mera declaração. não opera retroactivamente. mas tal efeito não se verifica. a denúncia caracterizase especificamente por ser a faculdade existente na titularidade de um contratante de. c)não tem carácter retroactivo. Nela se manifesta uma pura e simples vontade. a invalidade tem efeito retroactivo «inter partes». b)A resolução tem.: morte de uma pessoa) a que a lei atribui efeito extintivo. Se não se exige como pressuposto ou requisito da denúncia uma justa causa. nos contratos de execução continuada ou periódica. A revogação tem apenas a consequência de extinguir os efeitos do negócio para o futuro («ex nunc»). 92 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . a invalidade opera os seus efeitos em relação a terceiros. caducidade e denúncia) Resolução O CC admite a chamada resolução do contrato. sob a forma da caducidade. Deve reconhecer-se. seja um facto da contraparte (inadimplemento de uma obrigação). do autor da denúncia. Caducidade A cessação dos efeitos negociais pode ter lugar. c)A resolução nunca prejudica os direitos adquiridos por terceiro (435º). b)actua automaticamente ou de pleno direito («ipso iure»). mas dum facto posterior à sua celebração. fazer cessar uma relação contratual ou obrigacional em sentido amplo. No nosso sistema jurídico abrange este conceito uma série numerosa de situações em que as relações jurídicas duradouras de tipo obrigacional criadas pelo contrato ou pelo negócio (formando no seu conjunto a relação contratual) se extinguem para futuro por força do decurso do prazo estipulado. a)A resolução pode fazer-se mediante declaração à outra parte (436º). levada às suas últimas consequências lógicas. a que está vinculado. Denúncia Entre as formas de pôr termo à eficácia de um negócio jurídico. não carecida de justificação (uma nuda voluntas). com fundamento na lei ou em convenção das partes. da consecução do fim visado ou de qualquer outro facto ou evento superveniente (ex. da relação contratual. «ex nunc». A resolução tem lugar em situações de variada natureza. não dum vício da formação do contrato. Revogação Nalguns casos a lei autoriza um dos sujeitos do negócio jurídico a revogá-lo. ou actua automaticamente (nulidade). Tentando por em evidência traços específicos da caducidade. por mútuo consentimento. revogação. bem como. a partir das suas manifestações legais. devemos assinalar: a)a sua causa é algo de objectivo. a invalidade. efeito retroactivo entre as partes. seja um facto natural ou social («alteração anormal das circunstâncias»). Pode ter lugar igualmente uma revogação dos contratos por comum acordo. conduziria à oponibilidade da destruição dos efeitos do negócio em face de terceiros.A invalidade e outras formas de cessação dos efeitos negociais (resolução. eventualmente com eficácia retroactiva «inter partes». 206. se contrariar a vontade das partes ou a finalidade da resolução.

Para além desta norma (293º) que resolve. onde são formulados requisitos coincidentes com os enunciados pela doutrina. sempre o teriam realizado na parte não directamente atingida pela invalidade. 3)É frequentemente exigido pela doutrina que o negócio sucedâneo diga respeito ao mesmo objecto material a que respeitava o negócio principal. predominantemente. Trata-se de saber se. declarado nulo ou anulado totalmente um negócio.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 207. Requisitos de admissibilidade A doutrina nacional e estrangeira é largamente favorável à conversão dos negócios jurídicos. o critério da vontade hipotética ou conjectural das partes. expressamente determinada em disposições particulares (conversão «ope legis»): 946 nº2 (conversão legal das doações por morte em disposições testamentárias). O problema da redução dos negócios jurídicos Posição do problema O problema da redução dos negócios jurídicos insere-se na disciplina dos efeitos das nulidades e anulabilidades pessoais. provavelmente. o negócio deve valer na parte restante (não afectada) ou deve ser nulo ou anulável na sua totalidade. na hipótese de se terem apercebido do vício do negócio principal. com os materiais do negócio totalmente inválido. não pudessem tê-lo celebrado sem essa deficiência. Só haverá conversão. Esses requisitos são os seguintes: 1)É necessário que o negócio inválido contenha os requisitos essenciais de forma e substância (capacidade. dados certos requisitos. Solução do problema Na doutrina propõe-se. Se se concluir que as partes. objecto. deve concluir-se pela invalidade total. a conversão exige a prova da vontade hipotética ou conjectural das partes. mas a vontade como que fingida ou construida pelo juiz». nessa hipótese. embora mais precário. um outro negócio. 208. Assim. Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 93 . a produção do mesmo fenómeno é. que. o problema da conversão dos negócios jurídicos. exigindo. se aproxime do tido em vista pelas partes com a celebração do contrato totalmente inválido. a venda verbal de imóveis é inconvertível em promessa de compra e venda. em geral. «não uma vontade real. todavia. cujo resultado final económico-jurídico. certos requisitos de admissibilidade. quando se imponha a conclusão de que as partes teriam querido o negócio sucedâneo se.Formas de aproveitamento de negócios inválidos.Formas de aproveitamento de negócios inválidos. dado o 410º nº2. diversamente do que sucede com a redução dos negócios jurídicos. no caso de um fundamento de invalidade ser relativo apenas (afectar apenas) uma parte do conteúdo negocial. Acentue-se. 2)Exige-se que a vontade hipotética ou conjectural das partes seja no sentido da conversão. Se é de admitir que as partes. O problema da conversão dos negócios jurídicos Os termos do problema Trata-se de saber se.. Trata-se de averiguar aquilo que as partes teriam querido provavelmente. necessários para a validade do negócio sucedâneo. não tendo lugar em caso de duvida. prefeririam não realizar qualquer negócio. se soubessem que o negócio se opunha parcialmente a alguma disposição legal e não pudessem realizá-lo em termos de ser válido na sua integridade. deve ter lugar a redução do negócio. este não produzirá quaisquer efeitos negociais ou se. não poderá reconstituirse. sem atender à vontade hipotética. Admissibilidade da conversão no nosso direito A conversão é genericamente regulada no 293º.. vontade). a este propósito.

enquanto que a prescrição se interrompe pela citação ou notificação judicial de qualquer acto que exprima. (93. tendo-se. igualmente. possam embora não lhe ser totalmente estranhas razões de justiça. 3)A caducidade. a caducidade só é impedida.) Há importantes diferenças de regime entre a prescrição e a caducidade. não comporta causas de suspensão nem de interrupção (328º). que tem que ser invocada. ao contrário da prescrição que se suspende e interrompe nos casos previstos na lei (respectivamente 318º ss.).312º). prevendo a lei. a intenção de exercer o direito. os quais podem ser de seis meses (316º) ou de dois anos (317º). podem. diversamente do que sucede com a prescrição. que a caducidade seja apreciada oficiosamente pelo tribunal – ao contrário da prescrição. que o prazo ordinário da prescrição é de vinte anos (309º). 94 Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados . é um instituto endereçado fundamentalmente à realização de objectivos de conveniência ou oportunidade. e não sobre o da caducidade. o torna indigno da tutela do Direito. 4)Por último. ser ilididas por confissão do devedor (306º). pela prática do acto (331º).g. Assim: 1)Admitem-se estipulações convencionais sobre a caducidade (330º). se estas não tiverem sido feitas por causa não imputável ao requerente (323º). para certas hipóteses. 5 dias depois de requerida a citação ou a notificação. e 323º ss. também. da ponderação de uma inércia negligente do titular do direito em exercitá-lo. de ofício (303º). o mesmo não acontecendo a respeito do regime da prescrição. o que faz presumir uma renúncia ou. uma prescrição de cinco anos (310º). por último. v. não podendo o tribunal supri-la.. por serem fundadas numa presunção de cumprimento. mas não a caducidade. em muitos domínios do direito civil. o qual é interrogável (300º). directa ou indirectamente. Na caducidade só o aspecto objectivo da certeza e segurança é tomado em conta. em princípio.TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL (III)Eficácia do decurso do tempo nas relações jurídicas 209. ao contrário do regime geral da prescrição. Os problemas mais importantes colocados pela repercussão do decurso do tempo no mundo dos efeitos jurídicos referem-se à prescrição extintiva e à caducidade. De referir. Há prazos mais curtos para as chamadas prescrições presuntivas (que se fundam na «presunção de cumprimento» . 2)A caducidade é apreciada oficiosamente pelo tribunal (333º). susceptível de influir. A prescrição extintiva. a prescrição arranca. situações e acontecimentos que excluem a possibilidade de a falta de exercício do direito ser atribuída a inércia do titular – situações e acontecimento a que podem suspender ou interromper a prescrição. Remissão O tempo é um facto jurídico não negocial. por interrompida.Prescrição extintiva e caducidade. pelo menos. em princípio. que tem que ser invocada -. bem como o facto de influírem sobre o prazo de prescrição. Estas prescrições presuntivas. em harmonia com o velho aforismo «dormientibus non succurit jus». O que explica. em relações jurídicas do mais diverso tipo. Diversamente da caducidade.

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