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República de Moçambique Instituto Superior de Relações Internacionais Tese de Licenciatura em Relações

República de Moçambique Instituto Superior de Relações Internacionais

Tese de Licenciatura em Relações Internacionais e Diplomacia

O Papel das Multinacionais na Promoção do Desenvolvimento das Comunidades Locais: o Caso da MOZAL em Moçambique

Paulo Mateus António Wache 1

Maputo, Maio de 2008

1 Licenciado em Relações Internacionais e Diplomacia, pelo Instituto Superior de Relações Internacionais de Moçambique e Mestre em Estudos diplomáticos pela Academia Diplomática de Londres (DAL) na Universidade de Westminster. Docente de política Externa, Geopolítica e Estudos da União Europeia.

CAPÍTULO 1: INTRODUÇÃO

O presente trabalho tem como tema, O papel das multinacionais na promoção do

desenvolvimento das comunidades locais: o caso da MOZAL em Moçambique . E abrange o período que vai de 1998, ano da construção da Mozambique Aluminium (MOZAL), a 2007 ano em que se realizou a pesquisa deste estudo. Pretende-se com o mesmo, compreender a contribuição das multinacionais na promoção do desenvolvimento das comunidades locais em Moçambique. Este compreende o espaço afectado pela actividade da MOZAL em Moçambique, com particular destaque para região do Município de Matola e dos distritos de Boane e Moamba.

O estudo do papel das multinacionais torna-se importante na medida em que possibilita uma avaliação do seu contributo no desenvolvimento dos países em vias de desenvolvimento. No caso vertente, o estudo da MOZAL poderá trazer alguns subsídios para uma compreensão da contribuição desta companhia em Moçambique. Como afirma Kassotche (1999: 66-67), as multinacionais por um lado promovem o desenvolvimento

do Sul, fornecendo formação e conhecimentos de gestão, capital e tecnologia. Por outro

lado exploram e estorvam o seu desenvolvimento aumentando os desequilíbrios entre ricos e pobres. Encontrar elementos que consubstanciem tanto uma como outra posição é o desafio que se impõe a este trabalho, com vista a no futuro melhorar-se o que hoje não

concorre para o desenvolvimento.

O aparecimento da MOZAL em Moçambique enquadra-se num contexto mais amplo

denominado Consenso de Washington, que segundo Rosário (2005: 38) aconteceu na década de 80, entre o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BM). Este consenso plasmou o que considerou de políticas apropriadas para o ajustamento estrutural das economias dos Países em Vias de Desenvolvimento (PVD s). Tendo identificado dez medidas das quais se destacam as seguintes: a disciplina fiscal, a reformulação das prioridades das despesas públicas, a reforma fiscal, a liberalização da taxa de juros, da taxa de câmbios, do comércio, do Investimento Directo Estrangeiro e as privatizações.

É na sequência das recomendações do Consenso de Washington que Moçambique

embarcou no ajustamento estrutural e reformulou a sua legislação a fim de melhorar a sua performance económica. No caso vertente a MOZAL é fruto do Investimento Directo

Estrangeiro (IDE), que é uma das recomendações das instituições de Breton Woods. Daí

que se pode dizer que o Consenso de Washington criou um ambiente propício para o

investimento directo em Moçambique.

O preâmbulo

ajustamento estrutural nos seguintes termos:

da

lei

do

investimento

descreve as transformações decorrentes do

As profundas transformações que se têm vindo a operar no mundo em geral, e no país em particular, especialmente as decorrentes da implementação das medidas do Programa de Reabilitação Económica e da entrada em vigor da nova Constituição da República, associada à pertinente exigência em se adoptar uma política económica mais aberta, objectiva e que privilegie uma maior participação, complementaridade e igualdade de tratamento dos investimentos nacionais e estrangeiros determinam a necessidade de revisão da legislação existente sobre esta matéria (Lei n 3/93, de 24 de Junho) 2 .

O esforço do Estado Moçambicano, no sentido de tornar a economia mais aberta,

permitiu com o aparecimento da MOZAL em 1998. A MOZAL é uma fábrica de fundição de alumínio, instalada na Zona Franca Industrial de Beluluane. Esta empresa tem como accionistas a BHP Billiton com 47%, a Mitsubishi Corporation com 25%, International Development Corporation (IDC) com 24% e o Governo da República de Moçambique com 4%. Volvidos nove anos, é legítimo procurar compreender o papel desta Multinacional, no desenvolvimento do país, muito em particular das comunidades circunvizinhas, sabido que Moçambique pertence aos Países em Vias de

Desenvolvimento e toda a tentativa de revisão da legislação visa impulsionar o desenvolvimento para conferir ao cidadão um nível de vida aceitável.

2 A primeira lei sobre Investimentos nacionais e estrangeiros foi a lei n 4/84, de 18 de Agosto, e o primeiro regulamento de Investimento Directo Estrangeiro foi estabelecido pelo decreto n 8/87, de 30 de Janeiro.

A construção da MOZAL ocorreu em duas fases tendo a primeira iniciado em 1998 3 e

começado a operar em Dezembro de 2000, produzindo 250 mil toneladas de alumínio por ano. De salientar que é na sequência da instalação da MOZAL que surgiu o Parque

Industrial de Beluluane, inaugurado a 12 de Setembro de 2000. Os accionistas do Parque são a Chiefton e o governo Moçambicano, que é representado pelo Centro de Promoção de Investimento (CPI). Até Julho de 2007 cerca de vinte empresas a funcionavam no parque, todas com capital estrangeiro, excepto a ÓMEGA que é completamente nacional. Para além das empresas que estão no recinto do parque, mais cinco funcionam à margem

da ZFI 4 .

A segunda fase visava a duplicação da produção, o que veio a acontecer em 2004,

passando a produzir 500 mil toneladas de alumínio por ano. A matéria prima para o funcionamento da fábrica é importada de dois países, nomeadamente: da Austrália de onde se obtém a alumina e dos EUA de onde se obtém o cocke. Segundo Rungo (18 de Julho de 2007), actualmente a empresa produz 560 mil toneladas, isto é, está acima da capacidade instalada. Este fenómeno deve-se ao facto da empresa ter adoptado a Business Improviment Process . 5

A MOZAL faz parte das cinco maiores fábricas mundiais como ilustra a Tabela1. É esta

dimensão que justifica o alto nível de demanda de serviços de outros sectores que a empresa tem, o que cria a integração Intersectorial. Mas pode questionar-se o facto de nenhuma delas encontrarem-se nos países mais ricos.

3 No dia 22 de Maio de 1998 fez-se em Beluane o lançamento da primeira pedra para a construção da MOZAL A construção da terceira fase está dependente da disponibilidade de energia eléctrica o que até ao momento ainda não tem solução à vista.

4 Alto funcionário do CPI, 27 de Julho de 2007.

5 Este processo consiste na racionalização de recursos e de custos sem ferir a qualidade do produto.

Tabela 1: Maiores fábricas mundiais de alumínio

Fundição

Localização

Capacidade

(ton/ano)

Bratsk

Siberia

955

000

krasnoyark

Siberia

920

000

Dubai

Dubai

680

000

Hillside

África do Sul

640

000

MOZAL

Moçambique

535

000 6

Fonte: Informação obtida na reunião da MOZAL com as partes interessadas e afectadas, apresentada por

Piter Wishaw, director geral a 18 de Março de 2004.

1.1 Problematização

Na compreensão do papel das multinacionais questiona-se o papel que estas desempenham no desenvolvimento das comunidades locais. Procura-se entender o motivo pelo qual os países pobres como Moçambique optam por aceitar o estabelecimento de multinacionais como a MOZAL. As respostas a estas perguntas vêm-nos de autores como Barros (2004:15) que diz:

Os Mega projectos podem ser contribuintes significativos para o desenvolvimento, incluindo o crescimento do PIB, geração de receitas de exportação, algum nível de criação de emprego. Para além destes benefícios, os mega projectos têm tido outros benefícios em Moçambique. Isto inclui a colocação de Moçambique no mapa como um destino para o investimento, estabelecendo e elevando os padrões de qualidade e apoiando os serviços comunitários/sociais.

Kassotche (1999: 67) citando Spiegel afirma que as multinacionais substituíram o sistema colonial como meio de penetração e extracção de riqueza do Sul.

Barros e Kassotche representam duas perspectivas opostas, enquanto Barros encontra nas multinacionais uma tábua de salvação a caminho do desenvolvimento. Kassotche representa a classe dos cépticos que vêm nas multinacionais uma espécie de

6 Os dados actualizados apontam para uma produção 560 mil toneladas por ano (Rungo 18 de Julho de

2007).

neocolonialismo. A divergência de opiniões entre os autores mostra que não existe uma única percepção do papel das multinacionais na promoção do desenvolvimento das comunidades locais. Portanto, é importante que cada caso seja estudado para daí se retirar

as devidas ilações. Por esta razão torna-se importante estudar o papel da MOZAL na sua qualidade de multinacional para se inferir a real contribuição desta companhia no desenvolvimento.

1.2 Objectivos

O presente trabalho foi conduzido por um objectivo geral que se desdobrou em três

objectivos específicos. Sendo objectivo geral:

Compreender a contribuição da MOZAL no desenvolvimento de Moçambique. Os objectivos específicos são os seguintes:

Analisar a contribuição económica da MOZAL no desenvolvimento de Moçambique. Explicar até que ponto a MOZAL pode ser considerada ponto de articulação para as integrações Intersectorial e Espacial da economia Moçambicana Analisar a política interna da MOZAL com relação ao desenvolvimento das comunidades circunvizinhas.

1.3 Hipóteses

Com base nos objectivos específicos acima enunciados foram estabelecidas as seguintes hipóteses:

A presença da MOZAL em Moçambique estimula o desenvolvimento deste país. A MOZAL como ponto de articulação estimula as integrações Intersectorial e Espacial na região onde se localiza. A política interna da MOZAL estimula o desenvolvimento das comunidades circunvizinhas.

na região onde se localiza. A política interna da MOZAL estimula o desenvolvimento das comunidades circunvizinhas.
na região onde se localiza. A política interna da MOZAL estimula o desenvolvimento das comunidades circunvizinhas.

1.4

Questões de Pesquisa

O trabalho procura responder às seguintes questões de pesquisa:

Até que ponto a presença da MOZAL em Moçambique estimula o desenvolvimento deste país? Até que ponto a MOZAL serve de ponto de articulação de modo a estimular as integrações intersectorial e espacial? Terá a MOZAL uma política interna para estimular o desenvolvimento das comunidades circunvizinhas?

1.5 Metodologia do Trabalho

Para o presente trabalho foram utilizados três métodos, nomeadamente: método comparativo, método monográfico e método estatístico. O método Comparativo foi usado para cruzar informações comparando diferentes categorias, tais como tempo e espaço

procurando compreender o antes e o depois da região em estudo. Este método é relevante para este trabalho porque a partir deste poderemos compreender o impacto da MOZAL

na

região onde está estabelecida e por extensão em todo o país. O método monográfico

ou

estudo de caso foi usado para fazer um estudo profundo sobre a MOZAL para melhor

compreender o seu papel no desenvolvimento local. E o método estatístico foi usado para mostrar de forma simples as informações sobre as diversas actividades exercidas pela MOZAL com vista ao desenvolvimento do país, através de gráficos. A estes métodos foram ajuntados a técnica documental que, baseando-se na revisão bibliográfica, ajudou a dar um conteúdo consistente ao trabalho. A técnica de entrevista presencial, foi usada para recolher opiniões de especialistas na área económica e de pessoas envolvidas com as actividades da companhia em estudo.

1.6 Estrutura do Trabalho

O tema é explanado em cinco capítulos: O primeiro é a introdução que apresenta o

contexto, a problematização, os objectivos, as hipóteses, as questões de pesquisa e a metodologia. O capítulo subsequente tem como título: Aspectos Teóricos e Conceptuais,

nele apresenta-se a teoria de integração que serve de instrumento de análise. Em seguida procura-se definir os conceitos chaves deste trabalho de modo a que o leitor seja capaz de seguir a discussão, tomando como base a compreensão dos conceitos segundo o autor. O terceiro capítulo é dedicado ao impacto da MOZAL na economia Moçambicana, começando-se por se debater o binómio MOZAL e a Legislação Moçambicana e logo depois o que a MOZAL significa na economia Moçambicana. O quarto capítulo é intitulado: MOZAL e a Comunidade, divide-se em duas subunidades, a primeira é denominada: Associação MOZAL para o Desenvolvimento da Comunidade. Nesta secção são tratados temas como: o desenvolvimento de pequenos negócios, a educação e formação, a saúde e o meio ambiente, o desporto e a cultura e as infra-estruturas comunitárias. A segunda e última secção é a alternativa de desenvolvimento da comunidade local, onde se propõe a mudança do modus operandi, da Associação MOZAL para o Desenvolvimento da Comunidade.

Finalmente, são apresentadas as conclusões e as recomendações, para melhorar a vida das populações que residem na área em estudo, e por essa via o melhoramento das condições de vida de todo o país. Esperando-se que através de partilha de experiências todos os Países em Vias de Desenvolvimento, onde operem multinacionais, sejam beneficiados. Contribuindo-se assim, para o desenvolvimento destes países.

CAPÍTULO 2: ASPECTOS TEÓRICOS E CONCEPTUIAIS

Este capítulo vai tratar do referencial teórico e dos conceitos mais importantes para a compreensão deste estudo. No tocante ao referencial teórico, foi usada a teoria de integração económica que preconiza as integrações intersectorial e espacial. Num segundo momento são definidos conceitos como: Investimento Directo Estrangeiro, Multinacional, Crescimento Económico, Desenvolvimento, Países em vias de Desenvolvimento e Zona Franca Industrial. A sua compreensão no contexto deste trabalho evitará a multiplicidade de interpretações do conteúdo aqui abordado.

2.1 Teoria da Integração Económica

A teoria que responde os objectivos deste estudo é a teoria da Integração Económica 7 . Esta teoria na perspectiva que se pretende dar neste trabalho tem como teórico Robert ERBES (1966) na sua obra L integration economique international (SOUSA, 1995:161). Segundo este autor, a integração económica compreende Integração Intersectorial e Integração Espacial (Ibid.).

1. Integração Intersectorial é aquela em que há ligações entre sectores de

actividade, o que possibilita a expansão directa ou indirecta da produção das actividades que se ligam tecnologicamente e via demanda final com outras actividades da área. O aumento do grau de integração intersectorial desenvolve-se de três maneiras principais:

a) Pontos de articulação - um sector é ponto de articulação quando liga dois sectores

de actividade até então isolados um do outro, ele serve de lugar de passagem dos efeitos de encadeamento provenientes de actividade de cada subconjunto.

b) Redução da vulnerabilidade dos complexos reduz-se a vulnerabilidade quando se implantam ramos capazes de funcionar como pontos de articulação adicionais. Se o complexo tiver apenas um ponto de articulação, será vulnerável porque a redução da

7 Esta teoria é também abordada por Bela BALASSA (1982:13) na perspectiva restrita onde a Integração Económica se reveste de várias formas, no campo internacional: Zonas de Livre Comércio, União Aduaneira, Mercado Comum, União Económica e União Política.

produção ou o desaparecimento do ponto da articulação colocará em crise todo o complexo.

c) Extensão de redes esta compreende a implantação de pontos de articulação e introdução de uma actividade de integração. As novas ligações permitem a retenção dos efeitos de satélites ligados às actividades-chave como sectores mais tradicionais, agricultura e os serviços.

A criação de actividades interdependentes em áreas menos desenvolvidas torna-se

às

actividades extractivas.

possível

inicialmente,

pela

implantação

de

actividades

ligadas

a

agricultura

e

2. Integração espacial acontece quando há um aumento de circulação de bens no

espaço originando uma integração entre diferentes regiões do mesmo país e do exterior.

O grau de integração espacial de uma economia pode ser medido a partir de um quadro

de comércio inter-regional entre as várias regiões em conexão. A importância da integração espacial reflecte-se quando o crescimento surge num ponto do espaço de regiões interdependentes e em crescimento. Todas as regiões podem beneficiar-se, porém, o prejuízo de uma crise terá um efeito englobante. Contudo a intensidade da crise

dependerá do nível da integração da região; se esta estiver bem integrada a nível interno,

as

crises externas não serão intensas exceptuando o caso de depressões generalizadas.

O

tema foi lido tendo em conta a Integração intersectorial e a Integração espacial. No que

se

refere a integração intersectorial, analisou-se as relações que a MOZAL estabelece

com outras empresas que oferecem serviços a esta companhia. No tocante a integração espacial fez-se a interpretação das actividades da AMDC, na criação do bem estar das comunidades locais. Assim, a avaliação da integração económica foi feita em duas

vertentes a empresarial e a comunitária.

2.2 Aspectos Conceptuais

O primeiro conceito a ter em conta é o de Investimento Directo Estrangeiro (IDE).

Designa-se por Investimento Directo Estrangeiro aos fluxos internacionais de capital pelos quais uma empresa em um país cria ou expande uma filial em outro (Krugman & Obstfeld, 2001:175). O que significa que a filial faz parte da estrutura organizacional da empresa-mãe.

Em Moçambique, a Lei do Investimento define o IDE como:

Qualquer das formas de contribuição de capital estrangeiro susceptível de avaliação

exterior e destinados à sua

incorporação no investimento para a realização de um projecto de actividade económica, através de uma empresa registada em Moçambique e a operar a partir do território

Moçambicano (Lei n 3/93, de 24 de Junho). Portanto, o IDE é a transferência de capital dum país para o outro, com finalidade de realizar actividades económicas a partir do país da chegada do capital.

pecuniária, que constitua capital ou recursos próprios [

]do

Multinacional é também um conceito que aparece com frequência neste estudo. Segundo Namburete, Multinacional (MTN) é uma companhia que é dona ou controla de forma significativa actividades em, pelo menos, dois países (2002:166). De salientar que as multinacionais são uma consequência directa do investimento directo estrangeiro. Assim,

a Multinacional é uma empresa que tem o controle significativo de actividades económicas que são executadas em dois ou mais países.

Sabendo-se que as multinacionais podem ter como um dos seus benefícios o Crescimento Económico de um país, é preciso ter clareza sobre o seu significado, pelo menos neste trabalho. Para Abramowitz, crescimento económico é o aumento global da produtividade das nações (1989:24). Dornbusch acrescenta que a causa do crescimento económico é o aumento da quantidade de insumos disponíveis, como mão-de-obra, capital e avanços tecnológicos (2003:39). Assim, o crescimento económico de um país é o aumento do PIB desse mesmo país motivado pelo aumento da quantidade de insumos disponíveis.

Os conceitos acima definidos, seriam vazios se deixássemos de lado o conceito de desenvolvimento, que é o mais importante de todos os outros, pois advém do objecto do estudo. É preciso salientar que não há consenso na definição do desenvolvimento, porém, duas correntes se destacam: A primeira corrente representada pelos modelos da tradição neoclássica, como o de Meade e o de Harrod e Domar, define o desenvolvimento como sinónimo do crescimento económico, valorizando-se assim a dimensão quantitativa em detrimento da qualitativa (Sousa, 1995:16). A segunda corrente representada por economistas de inspiração Marxista, Prebisch e Furtado, encara o crescimento económico como uma simples variação quantitativa do produto, enquanto o desenvolvimento envolve mudanças qualitativas no modo de vida das pessoas, nas instituições e nas estruturas produtivas (ibid). É nesta última perspectiva que o PNUD define o desenvolvimento como aquele processo cujo objectivo básico é criar um ambiente adequado para que as pessoas possam gozar duma vida longa, saudável e criativa (1998:7). 8 Assim, desenvolvimento é o crescimento económico contínuo acompanhado de mudanças qualitativas do modo de vida das pessoas, das instituições e das estruturas produtivas. 9

Um outro conceito que merece atenção é o de Países em vias de Desenvolvimento 10 . São países em vias de desenvolvimento todos aqueles com:

um padrão de vida próximo do nível de subsistência, e grande parte do orçamento familiar usado para alimentação,

8 Para o PNUD não se pode discutir a noção de desenvolvimento sem ter em conta a noção de desenvolvimento humano. E aqui o desenvolvimento é dar prioridade aos pobres ampliando as suas oportunidades e escolhas fazendo com que participem mais nas decisões que afectam as suas vidas. Assim o desenvolvimento deve favorecer as camadas vulneráveis principalmente a mulher.

9 É preciso salientar que o crescimento económico continua a ser o indicador mais importante do desenvolvimento porque as mudanças qualitativas só existem se houver crescimento económico.

10 Os países em vias de desenvolvimento são também denominados países subdesenvolvidos ou países do terceiro mundo. Neste trabalho optou-se pelo termo paises em vias de desenvolvimento porque parece mais adequado pois tem um sentido evolutivo o que é típico do desevolvimento. Ao contrário do termo países subdesenvolvidos, que transminte a ideia de algo acabado e estático. O termo países do terceiro mundo foi preterido pelo facto de estar descontextualizado, pois este surgiu no periodo da guerra fria, na era bipolar onde os países do primeiro mundo eram os países capitalistas, os países do segundo mundo eram os países socialista e os do terceiro mundo eram os que neste trabalho denominam-se países em vias de desenvolvimento.

baixas taxas de urbanização, habitação precária, população dedicada ao sector primário, altas taxas de analfabetismo, baixa esperança de vida a nascença, mortalidade infantil altíssima, nutrição, saúde pública e condições sanitárias deficientes, altos índices de desemprego, baixo uso de tecnologias modernas, poupança e investimento quase inexistentes. Portanto, estes países são instáveis e dependentes da ajuda dos países desenvolvidos tanto a nível económico como a nível tecnológico.

E por fim, é importante definir o termo Zona Franca Industrial (ZFI). Segundo o Decreto n 16/2002, de 27 de Junho ZFI é:

Uma área ou unidade geograficamente delimitada ou série de unidades de actividade

industrial, isto é, conglomerado de empresas situadas numa área fisicamente delimitada

onde os bens nela entrados são considerados como não estando no território aduaneiro no que respeita aos direitos e outras imposições devidas.

O artigo 5, ponto 1 do mesmo Decreto afirma que a criação duma ZFI só é possível se houver pelo menos 500 postos de emprego permanentes para moçambicanos em toda a ZFI e que cada empresa nela existente deve empregar no mínimo 20 trabalhadores (Ibid). As empresas instaladas nesta área deverão produzir para a exportação de 85% da sua produção podendo vender no mercado interno os restantes 15%.

[

]

CAPÍTULO 3: A MOZAL NA ECONOMIA MOÇAMBICANA

O presente capítulo pretende analisar como a MOZAL cria ligações entre sectores de

actividade, possibilitando a expansão directa ou indirecta da produção das actividades que se ligam tecnologicamente e via demanda final com outras actividades da área, criando a integração Intersectorial. O capítulo divide-se em duas partes: a primeira parte situa a MOZAL no âmbito da Legislação Moçambicana. Aqui procura-se entender as bases jurídicas que orientam a acção da MOZAL em Moçambique. A segunda parte procura analisar a contribuição desta empresa na economia moçambicana e a sua relevância no processo de Integração Intersectorial.

3.1 A MOZAL e a Legislação Moçambicana

Nesta secção pretende-se discutir a legislação que regula as actividades da MOZAL. Esta necessidade leva-nos à lei do investimento, que é a Lei n 3/93, de 24 de Junho e ao regulamento das Zonas Francas Industriais que foi aprovado pelo decreto n 62/99, de 21 de Setembro com as alterações aprovadas pelo decreto n 35/2000 de 17 de Outubro e pelo Decreto n 16/2002, de 27 de Junho. Pretende-se perceber até que ponto estas duas leis regulam as actividades do Investimento Directo Estrangeiro como é o caso da MOZAL, por forma a que esta companhia promova o desenvolvimento das comunidades locais.

A lei do investimento no seu artigo 7 na alínea a) afirma claramente que o investimento

tem como um dos seus objectivos a implantação, reabilitação, expansão ou modernização de infra-estruturas económicas destinadas à exploração de actividade produtiva ou à prestação de serviços indispensáveis para o apoio à actividade económica produtiva e do desenvolvimento do país e na alínea o) acrescenta como um dos

objectivos a redução e substituição de importações .

Quanto ao primeiro objectivo verifica-se que a MOZAL é de facto um gigante que tem dado algum dinamismo económico. Mas questiona-se o segundo que é a redução e a substituição de importações, pois a sua matéria prima é importada da Austrália, a

alumina, e dos EUA, o cocke. Na prática a MOZAL importa o equivalente ao que exporta, não contribuindo desta forma para a substituição das importações.

O efeito das importações é nefasto para a economia nacional, pelo facto de o Regulamento das Zonas francas Industriais (Decreto n 16/2002, de 27 de Junho) afirmar no seu artigo 38 n 1 que

Os operadores de zonas francas industriais gozam de isenção de direitos na importação, de materiais de construção, máquinas, equipamentos, acessórios, peças sobressalentes acompanhantes e outros bens destinados à prossecução da actividade licenciada nas zonas francas industriais.

O que na prática faz com que as importações que a MOZAL e outras companhias das

zonas francas industriais fazem não contribuam para a balança de pagamentos, pois estes operadores têm isenção de direitos na importação. Um outro aspecto negativo nos é dado pela USAID, ao afirmar que o facto de os mega projectos obterem insumos importados

com isenção de direitos desencoraja a aquisição dentro do mercado interno (2004:9) enfraquecendo-se assim o empresariado nacional. Como tal, questiona-se o seu papel para a economia nacional.

Um outro aspecto que atrai o investimento para Moçambique é a permissividade da

legislação no tocante aos aspectos financeiros como ilustram os artigos 30, 31 e 32 n 1 (Decreto n 16/2002, de 27 de Junho). O artigo 30 reza que é permitido aos operadores e

as empresas de ZFI's abrir, manter e movimentar contas em moeda estrangeira no país e

no exterior . O que deixa o estado sem nenhum controlo efectivo do capital das companhias estrangeiras, principalmente a operarem nas ZFI's, para efeitos de pagamentos de impostos. O artigo 31 afirma que a importação de capitais para a constituição ou aumento de capital social das entidades abrangidas por este regulamento

deve ser registada mediante a apresentação de documentação comprovativa, no Banco de Moçambique, o qual emitirá os documentos certificativos do registo . Para em seguida o artigo 32 n 1 afirmar que a transferência de lucros e dividendos poderá ser efectuada desde que observado o disposto no artigo anterior, mediante comprovação do cumprimento das obrigações fiscais e após confirmação pelo Ministério do Plano e

Finanças do valor do lucro exportável. Questiona-se os mecanismos de garantia que o país possui para se assegurar que os lucros apresentados são realmente aqueles, sabendo- se que as multinacionais possuem contas no país e no estrangeiro.

A legislação Moçambicana, a lei de investimento e o regulamento das Zonas Francas Industriais, não prevendo deveres específicos para promoção do desenvolvimento das comunidades locais, confia na boa fé dos operadores. E regula de forma explícita os benefícios que estes operadores têm no exercício das suas actividades no território nacional como sejam: abrir, manter e movimentar contas em moedas estrangeiras no país e no exterior. Porém esta liberdade só dificulta a actividade fiscalizadora do estado não chegando a saber o real montante de imposto que deve receber da multinacional, devido a facilidade da circulação do capital.

Às facilidades legais acrescenta-se a denúncia mencionada por Kassotche (1999: 67) segundo o qual as multinacionais evitam pagar os impostos inventando truques de contabilidade para aumentar os lucros e diminuir os encargos fiscais. O que a ser verdade o país com a MOZAL e outras companhias com o mesmo estatuto perde duplamente. Perde porque tem uma legislação facilitadora e perde porque a é ludibriado contabilisticamente.

Na realidade, o que esta legislação expressa são duas grandes preocupações legítimas de um país em vias de desenvolvimento: A primeira é a necessidade que o país tem, de a todo custo sair das estatísticas desabonatórias que indicam Moçambique como um dos países menos desenvolvidos do planeta. Moçambique faz parte dos 50 países menos desenvolvido e mais marginalizados, dos quais 34 são africanos, com níveis de pobreza bastante altos (in Notícias, 11/07/2007: 24). A segunda, é percepção de que uma legislação facilitadora, que em nenhum momento prevê a responsabilidade social 11 destas companhias das ZFI's, irá atrair muitas industrias para o solo nacional e por essa via mais desenvolvimento para o país. Uma percepção partilhada por Barros (2004:15) que

11 Neste trabalho a responsabilidade social deve ser entendida como o dever que as empresas tem com a sociedade pelos prejuízos ambientais, morais e sociais que o estabelecimento duma determinada empresa causa.

defende que os Mega projectos colocam Moçambique no mapa como um destino para o investimento externo.

A actual legislação reguladora das actividades das multinacionais e no caso vertente da

MOZAL, carece de dispositivos promotores de desenvolvimento, especificamente do desenvolvimento das comunidades locais afectadas pelo estabelecimento do empreendimento. Ao mesmo tempo que ela facilita a manipulação dos resultados advenientes das actividades das multinacionais. Acresce-se a estes dois pontos, o facto de não contribuir para as receitas fiscais, pois estão isentas de direitos aduaneiros nas suas importações tanto de matéria prima como de todo o material para o seu funcionamento, aumentando assim o fosso entre as importações e as exportações. Ou seja, as quantidades de alumínio exportadas resultam das quantidades da matéria prima importada (alumina e cocke). Mas as importações superam as exportações na medida em que para além da matéria prima também outros materiais para o seu funcionamento estão isentos de direitos aduaneiros.

3.2 A MOZAL e a Economia Moçambicana

Uma empresa da dimensão da MOZAL é resultado de investimentos altos e como tal com capitais também altos. Conhecer os seus capitais próprios e os seus resultados ajuda a perceber a contribuição que uma companhia deste nível pode dar a um país em vias de desenvolvimento. É sobretudo o seu impacto na macroeconomia Moçambicana que faz

da MOZAL uma empresa a ser estudada.

3.2.1 Capital e resultados da MOZAL

A Tabela 2 mostra que das cem maiores empresas existentes em Moçambique em 2005 a

MOZAL é aquela que tinha os maiores capitais próprios. Pois esta empresa possuía vinte e quatro mil setecentos e setenta e quatro biliões, seiscentos e cinquenta e quatro milhões

de meticais. (24,774,654 x 10 6 Meticais). Esta quantia representa um acréscimo de quatro

mil seiscentos e trinta e dois biliões, setecentos e sessenta e oito milhões de meticais

(4,632,768 x 10 6 Meticais), em relação ao ano anterior. Isto significa que a MOZAL é uma empresa economicamente forte com capital em crescimento.

Tabela 2: Os Maiores por Ordem de Capitais Próprios

Rank

Empresa / Company

Activo Líquido (10 6 MZM)

2005

 

2005

2004

1

MOZAL, SARL

24,774,654

20,141,886

2

CFM - Portos e Caminhos de Ferro De Moçambique, E.P

19,957,285

19,258,011

3

Sasol Petroleum Temane, Lda

4,611,298

-

4

TDM- Telecomunicações de Moçambique,EP

3,467,806

2,977,988

5

EDM Electricidade de Moçambique, EP

1,876,996

2,139,639

6

BIM Banco Internacional de Moçambique, SARL

1,448,784

1,297,330

7

Motraco, SARL

1,229,365

857,952

8

Cervejas de Moçambique, SARL

1,187,163

990,712

9

Standard Bank, SARL

1,039,988

662,951

10

Cimentos de Moçambique, SARL

922,562

842,522

Fonte: KPMG, 2006a:104

A Tabela 3 mostra que a MOZAL teve os resultados líquidos mais altos na quantia de

sete mil sessenta e cinco biliões, dezanove milhões de meticais (7,065,019 x 10 6

Meticais). Representando um aumento de mil novecentos e noventa e nove biliões,

setecentos e oitenta e quatro milhões de meticais (1,999,784 x 10 6 Meticais), em relação

ao ano anterior. Estes resultados tornam-na a maior empresa Moçambicana e por essa razão o ponto de articulação para a Integração Intersectorial.

Tabela 3: Os Maiores Resultados Líquidos

Rank

Empresa / Company

Activo Líquido (10 6 MZM )

2005

 

2005

2004

1

MOZAL, SARL

7,065,019

5,065,235

2

Cerveja de Moçambique, SARL

439,502

347,216

3

BIM Banco Internacional de Moçambique, SARL

343,577

201,641

4

Standard Bank, SARL

274,751

168,751

5

BCI Banco Comercial e de Investimento Fomento, SARL

223,009

133,129

6

Moçambique Celular, Lda (mcel), SARL

165,224

660,024

7

BP Moçambique, Lda

144,805

167, 644

8

Cornelder de Moçambique, SARL

142,263

70,976

9

TDM Telecomunicações de Moçambique E.P

110,423

193,545

10

SIM Segurança Internacional de Moçambique, SARL

102,875

14,876

Fonte: KPMG, 2006a:104

Os altos resultados da MOZAL são fruto dum grande investimento. Para a instalação desta empresa foram investidos dois biliões de dólares, tendo na fase da construção gerado 5.033 postos de trabalho, dos quais, 3.525 foram ocupados por trabalhadores Moçambicanos (Barros, 2004: 13). Segundo Rungo 12 , actualmente a MOZAL emprega 1150 trabalhadores dos quais 95% são moçambicanos e o salário mínimo é de 15.600 meticais. Este número exclui os trabalhadores das 250 empresas com contractos activos com a companhia, que são 1250, porém para estes últimos, o salário obedece os padrões nacionais. Significando isto que uma parte considerável (1250) dos trabalhadores recebem salários baixos em relação àqueles que a MOZAL oferece aos seus trabalhadores. Apesar desta diferença é preciso realçar que as 250 empresas representam para a MOZAL um custo mensal de USD 8.000.000 (oito milhões de dólares), o que perfaz um total de USD 96.000.000 (noventa e seis milhões de dólares) anuais que são transferidos para os cofres das empresas que operam em Moçambique (Ibid).

3.2.2 O Impacto da MOZAL na Macroeconomia

A nível macroeconómico pode-se constatar, por exemplo, que em 2002 o crescimento do PIB real de Moçambique foi 8% e a MOZAL contribuiu com 2% deste crescimento. Isto é apenas uma amostra de como a MOZAL afecta a economia Moçambicana. O Gráfico 1 também mostra que o PIB nominal tem estado em contínuo aumento o que por força das estatísticas eleva o PIB per capita deixando uma impressão de uma economia estável e em contínuo crescimento.

12 18 de Julho de 2007

Gráfico 1: Evolução do PIB nominal e do PIB per capta.

1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005

1996=100

180000 160000 140000 120000 100000 80000 60000 40000 20000 0 milhares de meticais
180000
160000
140000
120000
100000
80000
60000
40000
20000
0
milhares de meticais

Anos

PIB (precos correntes 10^9 Mt)180000 160000 140000 120000 100000 80000 60000 40000 20000 0 milhares de meticais Anos PIB (per

PIB (per capta 10^3 Mt)160000 140000 120000 100000 80000 60000 40000 20000 0 milhares de meticais Anos PIB (precos correntes

Fonte: dados compilados pelo autor com base nos anuários estatísticos do INE de 2000: 129, 2003:125 e

2005:142.

Segundo Barros (2004:13), em 2002 a MOZAL contribuiu para um impacto positivo líquido da balança de pagamentos que foi de 100 milhões de dólares. As exportações de 2000 a 2001 aumentaram de 310 milhões de dólares para 662 milhões com a contribuição da MOZAL. Porém esta constatação peca por exaltar a questão das exportações não visualizando o que sucede com as importações. Estas aumentaram mais do que as exportações no mesmo período, em parte por causa das importações da matéria prima e das máquinas para o funcionamento da MOZAL, como se pode constatar no gráfico da evolução da balança comercial.

O Gráfico 2 mostra o comportamento das exportações de alumínio que em 1999 Contribuíam com USD 42.000 (quarenta e dois mil dólares). Em 2005 as exportações de alumínio atingiram a cifra de USD 1.022. 386 milhões. Este valor correspondia a 58,6% das exportações totais de Moçambique naquele ano. (INE, 2005:110). Verifica-se com este facto que a MOZAL tem liderado as exportações do alumínio.

Gráfico 2:Comportamento das exportações de alumínio

1200000 1000000 800000 600000 400000 200000 0 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 anos
1200000
1000000
800000
600000
400000
200000
0
1999
2000
2001
2002
2003
2004
2005
anos
Valores em dolares

Exportacoes de aluminio manifestadas nas alfandegas em 10^3 USD

Fonte: dados compilados pelo autor com base nos anuários estatísticos do INE de 1999:106, 2000:103, 2001: 97, 2002:105, 2003:98, 2004:98 e 2005:110.

Apesar do aumento das exportações do alumínio, o Gráfico 3 mostra que a balança

comercial de Moçambique em finais de 2005, [

dos 30% ao registar um défice de USD 497 milhões contra USD 345.8 milhões em 2004 (K PMG, 2006a:88). É preciso questionar se as exportações que a MOZAL faz ajudam ou não a reduzir o défice. A KPMG (Ibid) acrescenta que o saldo deficitário da balança

comercial resulta do crescimento do volume externo de USD 3,987.6 milhões,

equivalente a exportações no valor de USD 1,745.3 milhões [

indicava um agravamento na ordem

]

]

e importações no valor

de USD 2,242.3 milhões representando um défice de USD 497 milhões na balança comercial de Moçambique. É de destacar que a Holanda é o principal mercado para as

exportações Moçambicanas, devido ao facto da MOZAL exportar para aquele país 100% da sua produção (Ibid).

Gráfico 3: Evolução da Balança Comercial

Gráfico 3: Evolução da Balança Comercial Fonte: K PMG, 2006a:88 O Gráfico 4 mostra que quando

Fonte: K PMG, 2006a:88

O Gráfico 4 mostra que quando se analisa a situação industrial de Moçambique,

constata-se que a produção da MOZAL corresponde a 62,1% da produção, sobrando

para os outros ramos industriais apenas 27,9%, dos quais 23,6% é pertença da indústria

de produtos alimentares (INE 2005:66).

Gráfico 4: Produção Industrial incluindo a MOZAL

couros e peles em pelospasta, papel e cartao e seus artigos artigos de borracha e mateirais materiais, plasticos produtos

pasta, papel e cartao e seus artigoscouros e peles em pelos artigos de borracha e mateirais materiais, plasticos produtos de outras industrias

artigos de borracha e mateirais materiais, plasticoscouros e peles em pelos pasta, papel e cartao e seus artigos produtos de outras industrias

produtos de outras industrias extrativasartigos artigos de borracha e mateirais materiais, plasticos produtos metalicos transformados madeiras e obras de madeira

produtos metalicos transformadosplasticos produtos de outras industrias extrativas madeiras e obras de madeira e cortica material impresso,

madeiras e obras de madeira e corticaindustrias extrativas produtos metalicos transformados material impresso, suportes gravados outros produtos

material impresso, suportes gravadostransformados madeiras e obras de madeira e cortica outros produtos indutriais transformados industria de tabaco

outros produtos indutriais transformadosde madeira e cortica material impresso, suportes gravados industria de tabaco produtos quimicos outros produtos

industria de tabacosuportes gravados outros produtos indutriais transformados produtos quimicos outros produtos minerais nao metalicos

produtos quimicosoutros produtos indutriais transformados industria de tabaco outros produtos minerais nao metalicos petroleo bruto e gas

outros produtos minerais nao metalicostransformados industria de tabaco produtos quimicos petroleo bruto e gas natural produtos alimentares e bebidas

petroleo bruto e gas naturalprodutos quimicos outros produtos minerais nao metalicos produtos alimentares e bebidas metais nao ferroso Estrutura

produtos alimentares e bebidasprodutos minerais nao metalicos petroleo bruto e gas natural metais nao ferroso Estrutura em % do

metais nao ferrosopetroleo bruto e gas natural produtos alimentares e bebidas Estrutura em % do valor da producao

Estrutura em % do valor da producao das actividades industriais, comMOZAL, 2005 00.1.100.1.20.200.2.20.3 1 1.2
Estrutura em % do valor da producao
das actividades industriais, comMOZAL, 2005
00.1.100.1.20.200.2.20.3
1
1.2
4.2
6.5
23.6
62.1

Fonte: dados compilados pelo autor com base no anuário estatístico do INE de 2005:66

O Gráfico 5 mostra uma análise sem a inclusão da MOZAL, e constata-se que a indústria

de produtos alimentares lidera a lista com 62,2% do total. O que significa em outras

palavras que Moçambique como muitos estados pobres, tem um parque industrial virado

a alimentação. Portanto, com o aparecimento da MOZAL a indústria pesada passa a liderar o ramo industrial em Moçambique.

Gráfico 5: Produção industrial excluindo a MOZAL

ESTRUTURA EM %DO VALOR DA PRODUCAO DAS ACTIVIDADES INDUSTRIAIS, SEM A MOZAL, 2005.

 

maquinas e equipamentos

 

vestuario e artigos de peles com pelos 

 

couro e pele sem pelo 

pasta, papel e cartao e seus artigose artigos de peles com pelos   couro e pele sem pelo 0. 5. 5 0

0. 5. 5 0 . 50 . 6 0 . 8 000 0011 2130 2
0. 5. 5 0 . 50 . 6 0 . 8
000
0011 2130
2 . 7
3 . 1
11. 3

6 2 . 2

 

artigos de borracha e materias plasticas0. 5. 5 0 . 50 . 6 0 . 8 000 0011 2130 2 .

produtos de outras industrias extrativas6 2 . 2   artigos de borracha e materias plasticas produtos metalicos transformados madeira e

produtos metalicos transformadosmaterias plasticas produtos de outras industrias extrativas madeira e obras de madeira e cortico material impresso,

madeira e obras de madeira e corticoindustrias extrativas produtos metalicos transformados material impresso, suportes gravados outros produtos da

material impresso, suportes gravadosmetalicos transformados madeira e obras de madeira e cortico outros produtos da industria 17 transformadora  

outros produtos da industriade madeira e cortico material impresso, suportes gravados 17 transformadora   industria de tabaco produtos

17

transformadora

 

industria de tabaco 

produtos quimicosindustria 17 transformadora   industria de tabaco   outros minerais nao metalicos petroleo bruto e gas

 

outros minerais nao metalicos 

petroleo bruto e gas natural  industria de tabaco produtos quimicos   outros minerais nao metalicos produtos alimentares e bebidas

produtos alimentares e bebidas  industria de tabaco produtos quimicos   outros minerais nao metalicos petroleo bruto e gas natural

Fonte: dados compilados pelo autor com base no anuário estatístico do INE de 2005:69

Do debate feito sobre a MOZAL pode-se reter os seguintes aspectos: que a MOZAL é o ponto de articulação ligando vários sectores de actividades em torno de si, reduzindo as vulnerabilidades financeiras de diversas empresas ao despender noventa e seis milhões de dólares anuais para as 250 empresas com contrato activo. E sobretudo possibilitando que novas empresas de prestação de serviços surjam, estendendo assim, a rede de sectores de actividades. Os aspectos mencionados dão origem a uma integração intersectorial que é uma realidade no Parque Industrial de Beluluane, alcançando as cidades de Maputo e Matola.

O crescimento económico gerado pela MOZAL suscita dúvidas aos mais atentos,

chegando mesmo a pensar-se que este não beneficia a economia na sua globalidade devido a transferência dos lucros para o país onde se encontra a empresa mãe, tornando

as estatísticas Moçambicanas ilusórias. Pois os números não correspondem ao dinheiro

físico existente no país onde a produção acontece, no caso em Moçambique. Apesar de a

USAID (2004:9) afirmar que:

Moçambique atraiu investimento estrangeiro significativo em mega projectos de capital intensivo a partir de 1998. Estes grandes projectos estão a contribuir para um aumento rápido das exportações e estão a ligar cada vez mais a economia ao mercado global, trazendo para o país tecnologia, gestão e formação da força de trabalho.

Porém, partindo do princípio de que nos PVD s, como Moçambique, há baixo uso de tecnologias modernas, e constatando-se que a MOZAL usa tecnologia de ponta pode-se perceber que a maior parte do pessoal técnico especializado vem do exterior, apenas o pessoal menor é que se beneficia da formação.

Os salários, que são a principal forma de distribuição da renda, abrangem um número reduzido de trabalhadores (1150) devido ao uso intensivo de capital e tecnologia. Os outros trabalhadores ligados a empresas que prestam serviços à MOZAL recebem salários segundo os padrões nacionais sendo relativamente baixos. Mantendo-se assim a disparidade entre as estatísticas e os benefícios económicos advenientes deste mega projecto.

CAPÍTULO 4: A MOZAL E A COMUNIDADE

Mozal, Mozal, donde Vens? Mozal, Mozal, nós somos o grupo de dança de Boane Vens para melhorar a nossa vida e para trazer-nos boas mudanças Damos-te as boas vindas Mozal e agradecemos A tua ajuda em construir um novo Moçambique De tudo o que foi destruído pela guerra Mozal, Mozal, tu trazes um novo futuro Melhor e mais forte, para nos tornar de novo orgulhosos. (AMDC, 2000:3)

O trecho acima, mostra os sonhos, os anseios e as esperanças, que as populações onde a MOZAL se estabeleceu tinham e têm, não só para a sua comunidade mas para Moçambique como um todo. Estará a MOZAL a ir ao encontro destes desejos? Este capítulo procurará analisar como a MOZAL cria o aumento de circulação de bens no espaço originando a Integração Espacial, isto é, irá analisar o papel que a MOZAL tem na comunidade local. E para tal recorrer-se-á ao estudo das actividades da Associação MOZAL para o Desenvolvimento da Comunidade, como um braço social da MOZAL, e na óptica deste trabalho, a entidade responsável pela criação da Integração Espacial.

4.1 Associação MOZAL para o Desenvolvimento da Comunidade

A Associação MOZAL para o Desenvolvimento da Comunidade (AMDC) foi criada em Novembro de 1999 por decisão do conselho de administração da MOZAL. A AMDC foi lançada oficialmente em Fevereiro de 2000 com um investimento inicial de 1,7 milhões de dólares. Segundo a AMDC (2000:6) a sua primeira actividade foi o reassentamento das populações que se localizavam na área de interesse da MOZAL. Este programa foi gerido pelo governo Moçambicano em conformidade com os requisitos do Banco Mundial (BM), nomeadamente: garantir que as populações deslocadas pela MOZAL recebessem a respectiva indemnização; permitir que as pessoas afectadas fossem

concedidas projectos de desenvolvimento; evitar e mitigar efeitos potencialmente adversos nas pessoas afectadas; e fazer consultas activas e contínuas nas comunidades em causa (Ibid:4) O que se pode questionar é se a AMDC é uma iniciativa genuína da MOZAL, ou é cumprimento dos requisitos do Banco Mundial.

Quando se analisa os requisitos do BM em nenhum momento se fala da promoção do desenvolvimento. O único requisito que menciona o termo desenvolvimento afirma que se devia assegurar que as pessoas afectadas beneficiassem de projectos de desenvolvimento (Ibid.). Ora, requisito deste género da origem a várias interpretações, principalmente na determinação da duração desses projectos. Chegando mesmo a terminar-se projectos de agricultura, sem se deixar infra-estruturas nem meios para a sua continuidade.

No cumprimento parcial dos requisitos do BM, a AMDC distribuiu nos finais de Maio de 2000, 1500 terrenos com um tamanho de 0,5 hectares para as famílias afectadas. Para a agricultura foram distribuídos 750 hectares já desmatados e lavrados. Foram também distribuídos materiais de cultivo. Quanto ao reassentamento, 80 casas novas de nível equivalente foram distribuídas aos afectados tendo lhes sido dado o transporte para a efectivação das mudanças. Foram também transferidas 113 sepulturas (Ibid.). Na realidade o processo de reassenamento prejudicou as populações na medida em que essas perderam o Habitat com o qual tinham afinidades afectivas, acima de tudo quando se afirma que as casas distribuídas eram de nível equivalente as que as populações já tinham. Assim a mudança das populações das suas aldeias para os novos sítios propostos pela MOZAL representou uma perda para as populações da região em apreço.

A Associação até 2006 trabalhava com as comunidades localizadas num raio de 10km a partir da fábrica e investia segundo Rungo 13 um total de dois milhões e quinhentos mil dólares (USD 2. 500.000) por ano em projectos de desenvolvimento da comunidade. A partir de 2007, o valor duplicou passando para cinco milhões de dólares (USD 5.000.000), e o raio de acção passou a ser de 20km. Em determinados casos são

13 18 de Julho de 2007

considerados também projectos da Matola e da Cidade de Maputo. Se se tomar em conta que um dos requisitos do BM é evitar e mitigar efeitos potencialmente adversos nas pessoas afectadas (AMDC, 2000:4), a AMDC tem sido um fiel cumpridor. Porém, este requisito visa evitar e mitigar, significando isso, que a promoção do desenvolvimento não cabe neste requisito. Pois a promoção do desenvolvimento visa solucionar problemas de pobreza das comunidades locais.

A necessidade de evitar e mitigar efeitos nefastos faz com que o financiamento disponível seja disperso em várias áreas nomeadamente: Desenvolvimento de Pequenos Negócios, Educação e Formação, Saúde e Meio Ambiente, Desporto e Cultura e Infra- estruturas Comunitárias. A observação das áreas de actividade da AMDC recorda o velho provérbio popular: quem muito abarca pouco aperta . Os recursos que são aplicados às cinco áreas poderiam ser aplicadas a uma única actividade que seria o móbil do desenvolvimento das outras áreas.

4.1.1 Desenvolvimento de Pequenos Negócios

O título suscita algumas dúvidas do real papel da MOZAL, através da AMDC, na promoção do desenvolvimento das comunidades locais. Questionando-se por essa via o porquê de pequenos negócios se quem financia é um mega Projecto com lucros

altíssimos. A responsabilidade social do mega projecto em relação às comunidades onde

se localiza, deveria ser tão notável quanto o são os seus resultados líquidos.

A AMDC (Ibid:10) afirma que foram introduzidos no foro mundial económico dois

princípios a saber: comércio em vez de ajuda e construir empreendedores em vez de postos de trabalho . E acrescenta que a associação MOZAL adopta estes princípios na sua actuação pois acredita que os pequenos empreendimentos representam uma fonte de rendimento e de emprego e são móbeis de desenvolvimento comunitário (Ibid). O que se pode questionar, pois sabendo-se que os recursos são limitados, o financiamento desses pequenos negócios pode ser feito a custa de descriminação, apoiando-se as viúvas em

detrimento de mulheres cujos maridos não trabalham ou simplesmente estão muito tempo fora de casa, como os que trabalham na vizinha África do Sul.

4.1.1.1 O Apoio a Agricultura

Em Março de 2000 a AMDC criou o Programa de Desenvolvimento Agrícola (PDA). Segundo a AMDC (2003:9), o PDA tinha como objectivo primário assistir os 1200

camponeses reassentados por causa da instalação da MOZAL naquela região. Tinha como objectivos complementares: Melhorar a produção agrícola, e promover a produção

de subsistência. Estes objectivos demonstram que a grande preocupação da AMDC, não é

o Empowerment das populações, para serem auto suficientes, pois procura promover a agricultura de subsistência ao invés da agricultura comercial, que pode dar riqueza às populações. E por essa via acaba não cumprindo com o princípio: comércio em vez de ajuda (Ibid.),que afirma ter sido introduzido pelo foro económico mundial.

Segundo Banze 14 , o PDA criou a associação de camponeses de Bematchome, que até 2005 tinha 1200 membros. Porém actualmente conta com apenas cerca de 600 membros devido à desistência de alguns membros por incapacidade financeira para pagamento das quotas e das taxas. Durante cinco anos (2000 - 2005) a AMDC através do PDA afirma ter apoiado a Associação de Bematchome 15 em sementes, tractores para lavrar os campos e fertilizantes. Porém, quando o projecto chega ao fim os camponeses estavam descapitalizados por causa das secas cíclicas naquela região, o que não permitiu que os camponeses arcassem com as despesas da produção.

AMDC (2003:11) descreveu a produção daquela região nos seguintes moldes:

A

1999 (antes do PDA) ------------------400kg/ano/família 1 ano do PDA 2000/01----------------1,5 ton/ano/família 2 ano do PDA 2001/2 -----------------1,9 ton/ano/família 3 ano do PDA 2002/3 ----------------- produção nula

2 ano do PDA 2001/2 -----------------1,9 ton/ano/família 3 ano do PDA 2002/3 ----------------- produção nula
2 ano do PDA 2001/2 -----------------1,9 ton/ano/família 3 ano do PDA 2002/3 ----------------- produção nula
2 ano do PDA 2001/2 -----------------1,9 ton/ano/família 3 ano do PDA 2002/3 ----------------- produção nula

14 18 de Julho de 2007

15 A associação BEMATCHOME tem título de uso e aproveitamento de 700 hectares.

Segundo Banze 16 , as secas continuaram nas duas campanhas seguintes 2003/4 e 2004/5, tendo melhorado na época 2005/6. É preciso salientar que o PDA terminou na campanha

2004/5, tendo abandonado os camponeses préstimos.

na altura em que mais precisavam dos seus

A questão é se a altura em que o programa acabou era a melhor, tendo em conta que visava melhorar a vida dos camponeses. Na realidade o programa deixou as populações numa situação pior do que quando o programa começou. Em outras palavras o programa no lugar de potenciar a comunidade criou dependência porque não conferiu melhores condições em relação as encontradas no inicio do programa. Constata-se aqui, que muitos projectos são apenas cumprimento de planos poucos claros e pouco interessados com o verdadeiro desenvolvimento das comunidades locais.

A principal causa da desistência dos membros da associação de Bematchome é a questão das quotas e da taxa que cada membro em cada época deveria pagar para fazer face as despesas do tractor para lavrava os campos. Segundo Banze (Ibid.), estes valores começaram a ser pagos em 2001, num valor de 500.00 MT por membro, em 2003 este valor ascendeu para 1250.00 MT o que fez com que muitos membros não conseguissem pagar este valor e por consequência no ano 2004 não houve pagamentos. Em 2005 o valor decresceu para 710.00 MT, em 2006 o valor a pagar era de 810,00 MT e em 2007 o valor é 860.00 MT. Ora, estes valores são altíssimos para uma comunidade camponesa que durante três épocas consecutivas sofreu secas cíclicas e para o cúmulo o PDA termina quando a comunidade mais precisa dele.

Na visão de Banze ( Ibid.), as grandes dificuldades que a associação enfrenta são:

Ausência de tractores e seus acessórios para trabalhar a terra, o que significa que a associação deve alugar, e com as subidas de preço do combustível a actividade agrária torna-se insustentável para muitos agricultores membros. Esta dificuldade parece contradizer os relatórios da AMDC (2003:11) que afirmam ter disponibilizado um tractor e um reboque para ajudar os camponeses a transportarem os seus bens até a paragem de

16 18 de Julho de 2007

autocarros. A AMDC (Ibid.) acrescenta que foi oferecida aos mesmos uma pequena moageira. Mas observando-se a Figura 1 percebe-se de que tractor se trata e de que moageira a AMDC se refere. É caso para questionar a real utilidade do tractor oferecido pela AMDC. A dependência total da chuva, o que torna os camponeses vulneráveis a secas cíclicas. A falta de meio de transporte para escoar os produtos em caso de boas colheitas. O facto da ligação com a AMDC ser indirecta, no caso a companhia de desenvolvimento de Moçambique (CODEMO), representante do estado, era o intermediário entre o financiador e o financiado. Isto dificulta a comunicação e consequentemente a realização mais adequada dos objectivos dos projectos.

O rol das dificuldades apresentadas pela presidente da associação Bematchome demonstram o quanto a AMDC está a actuar como mitigadora. É preciso recordar que esta mitigação resulta do cumprimento dos requisitos impostos pelo BM à MOZAL. Isto significa que a AMDC possui políticas internas para a promoção do desenvolvimento local, porém a sua implementação carece de melhoramentos, como a concentração da actividade da associação numa só área e na região que se propõe a zelar por ela. Figura 1 : Oferta da AMDC às comunidades locais

reboque
reboque
moageira
moageira
tractor
tractor
Fonte: AMDC (2003:10)
Fonte: AMDC (2003:10)

30

A AMDC financiou uma formação dos camponeses nas seguintes áreas: gestão da própria associação, preparação da terra, sistema de cultivo da terra e nutrição das plantas, uso e aplicação de fertilizantes, controlo da peste e da erva daninha, comercialização da colheita, registo de terras, finanças e orçamento e colheita e armazenagem. Contudo, como é frequente, as secas cíclicas vieram deitar abaixo os conhecimentos adquiridos nesta formação, pois sem chuva não era possível aplicá-los. O que em outras palavras quer significar que os financiamentos deste género devem ser feitos num projecto mais amplo e sustentável como é o caso de campos com garantia de irrigação.

O apoio à cooperativa 25 de Setembro 17 de Boane ocorreu no biénio 2003/4 e segundo Lhamanguana 18 , a AMDC através da CODEMO reabilitou as valas de irrigação, reparou duas motobombas e um tractor. A AMDC (2003:11) acrescenta que ensinou aos camponeses melhores formas de cultivo, uso e aplicação de fertilizantes e comercialização da produção.

A AMDC reparou as motobombas e o tractor, o que equivale dizer que se pós um remendo novo em pano velho, pois as motobombas e o tractor são da década de 1980, estando neste momento obsoletos. A reparação não trouxe grandes melhorias, porque segundo Lhamanguane (Ibid), para irrigar uma parcela de um hectare precisa-se de 20 litros de combustível, e tem que ser uma pessoa por cada vez, num universo de 41 associados, enquanto, 20 litros serviriam para 10 famílias irrigarem as suas parcelas simultaneamente, se as motobombas estivessem em boas condições.

Se a AMDC substituísse as duas motobombas obsoletas por outras tantas novas reduziria o tempo que cada associado leva para chegar a sua vez de irrigar a sua parcela. Reduziria também os custos em termos de combustíveis, pois cada associado gasta actualmente 20 litros por cada irrigação, mas se as motobombas fossem novas gastaria apenas 2 litros por cada rega uma vez que segundo Lhamanguane (Ibid.), 20 litros dariam

17 A cooperativa 25 de Setembro foi criada como machamba colectiva a 25 de Setembro de 1975, e transformada em cooprerativa de camponeses 25 de Setembro a 22 de julho de 1981 e tem na sua posse 160 hectares, estando em uso apenas 40 hectares.

18 17 de Julho de 2007

para 10 famílias irrigarem suas parcelas concomitantemente. Em suma a produção da associação seria eficiente e por conseguinte a vida dos camponeses melhoraria.

Salienta-se que na altura que se fez o presente estudo estava em curso o apoio a associação dos Regantes de Manguiza, em Boane que estava a expandir o sistema de regadio e atribuir os primeiros quites de produção e fertilizantes. Segundo o Extencionista 19 , esta associação tem uma área de 10 hectares. E acrescenta que o grande problema destes projectos é a sua sustentabilidade.

4.1.1.2 O Apoio a outras áreas produtivas

O fabrico de blocos faz parte do leque das iniciativas apoiadas pela AMDC. O apoio foi prestado a um homem de negócios sedeado em Djuba, Boane. Este indivíduo foi oferecido uma máquina de fabrico de blocos aumentando a sua capacidade de 800 para 1800, por dia. Actualmente produz 2600 por dia como resultado da compra de uma nova máquina. É preciso afirmar que este projecto está a gerar algum emprego para algumas famílias, mas deixa de lado a maioria que não pode ser absorvida pelo empreendimento.

No referente ao aviário de Bematchome, a AMDC (2005:9) afirma que este projecto surge devido ao insucesso na produção agrícola durante os cinco anos da vigência do PDA. Foi assim que a AMDC financiou a construção de dois de pavilhões. Um pavilhão

é para criação de frangos e tem uma capacidade de dois mil frangos. O outro, é destinado às poedeiras e tem a mesma capacidade que o primeiro. Segundo a AMDC (Ibid.) são produzidos diariamente 650 ovos que são colocados no mercado local e formal.

Segundo Banze (Ibid.), o aviário começou a sua actividade em 2002 com dois mil frangos

e em Dezembro de 2004 foram alocados para a segunda capoeira mil poedeiras. Contudo

devido a má gestão, até 2006, as capoeiras tanto as de frangos como as de poedeiras estavam vazias. Diante deste facto, a primeira medida foi afastar a direcção e a segunda

foi recomeçar a criação. Em Agosto de 2006, foi instalada uma nova direcção e

19 17 de Julho de 2007

recomeçou a criação de frangos com 500 aves. Até Julho de 2007 a capoeira tinha 1200 frangos e ainda não se tinha retomado a criação de poedeiras.

Segundo Banze (Ibid.) os custos de produção são extremamente altos e tomam como exemplo o lote de frangos de 01 de Maio a 01de Junho de 2007, cujo total de despesa foi 62.520 MT. Atendendo que a receita total foi de 79.000 MT, o lucro antes de pagamento dos salários 20 era de 16.480 MT. Esta importância tinha de ser repartida entre os salários

e a aquisição de mais pintos para aumentar o volume de produção. Para revitalizar a

produção de ovos, a AMDC propôs-se apoiar a associação na aquisição de poedeiras e vai assistir durante três meses (de Agosto a Outubro de 2007). Questiona-se a eficiência

do projecto, posto que o tempo de duração da assistência é bastante reduzido.

É fundamental recordar que a associação dos camponeses de Bematchome começou em

2000 com 1200 membros e contava em 2007 com 600 membros. A forma de distribuição do rendimento da associação é através da prestação de serviços no aviário, criando as aves, e a sua posterior venda. Só depois da venda é que se aufere uma remuneração inferior ou igual a 1500,00MT. O período que separa um lote de frangos do outro é de 45 dias no mínimo. E em cada lote apenas podem trabalhar quatro associados, que só voltarão a trabalhar depois dos restantes 596 terem trabalhado.

Perante a situação acima descrita é de notar que a fórmula encontrada não cria incentivos à participação. Segundo a fórmula temos a seguinte situação:

(1) 600 membro/4 membros por cada lote de frangos = 150 lotes de frangos. O que quer dizer que os primeiros só voltarão a trabalhar depois de 149 lotes de frango.

E como cada lote de frango dura no mínimo 45 dias, e teríamos:

(2) 150 lotes de frangos x 45 dias = 6750 dias. Em termos de dias é preciso passar 6750 dias para que o primeiro grupo volte a beneficiar do salário da associação. Transformando esses dias em anos teríamos:

(3) 6750 dias/365 dias = 18,49 anos.

20 Por questões éticas Banze não quis informar ao autor o valor dos salários dos associados que prestaram serviços no lote em causa.

Portanto é preciso esperar 18 anos para voltar a ter acesso aos rendimentos provenientes da associação e se se tomar em conta que a associação já teve 1200 membros, então seriam precisos 36 anos de espera paciente. É caso para dizer que os membros desta associação não encontram incentivos neste empreendimento. Ao mesmo tempo que se constata que este empreendimento não está promovendo o desenvolvimento das comunidades locais.

Para além da situação descrita no parágrafo anterior, a associação de Bematchome enfrenta dificuldades de transporte para as actividades de produção e comercialização dos frangos. Assim, nos moldes em que aquele aviário funciona não capitaliza aquelas comunidades de modo a terem uma qualidade de vida melhor que antes da instalação da MOZAL naquela região.

O mercado de Beluluane construído pela AMDC é descrito como tendo 100 bancas das quais 70 podem ser usadas para diferentes tipos de negócio e 30 especialmente para venda de legumes. A AMDC diz que o mercado está a gerar benefícios resultantes das receitas aqui produzidas e beneficia cerca de 100 famílias (AMDC, 2005:7). Porém a realidade constatada na entrevista com Mahumane (16 de Julho de 2007) é sombria e diverge dalgum modo com a informação bastante optimista da AMDC. Das 100 bancas apenas 15 estão em funcionamento. Esta situação justifica-se pela falta de clientes, pois o grosso da clientela era constituído pelos trabalhadores que estavam a construir a MOZAL. Após a construção o negócio tornou-se insustentável, pois as populações locais estão descapitalizadas.

Para Mahumana (Ibid.), a MOZAL trouxe benefícios na região na medida em que trouxe energia e água potável. Mas o mercado não representa uma vantagem de vulto na medida em que tanto os comerciantes, os poucos que existem, como o resto da população estão descapitalizados. E acrescenta que esta situação deve-se ao facto de a MOZAL não ter criado postos de trabalhos para os locais nem financiado projectos que capitalizassem as comunidades locais.

4.1.2

Educação e Formação

Nesta área a AMDC afirma apoiar os ensinos primário, secundário e universitário em diversos aspectos (AMDC, 2003:13). No ensino primário a associação afirma que tem distribuído material escolar às escolas que se encontram no raio de 10km em volta da fábrica. De salientar que a partir de 2007 o raio de acção da AMDC passou para 20km. Em conjunto com a MAD GROUP, grupo de esposas de funcionários estrangeiros da MOZAL, a AMDC apoia os professores da sua área de acção em material didáctico e realiza convívios em todas as festividades do dia internacional das crianças.

No ensino secundário destaca-se a oferta de 20 computadores à Escola Secundária Josina Machel e a reabilitação de dois campos polivalentes da mesma escola. A Biblioteca da Escola Secundária da Matola foi reabilitada. A Escola Industrial e Comercial da Matola também recebeu um equipamento de soldar e livros para a biblioteca. À Escola Nelson Mandela foi concedido um lote de 42 computadores e à Escola Secundária da Polana foram concedidos outros 30 computadores. E no ensino superior apenas a Universidade Eduardo Mondlane (UEM) beneficia de 20 bolsas atribuídas a estudantes desfavorecidos.

4.1.3 Saúde e Ambiente

O programa da Malária, a distribuição de redes mosquiteiras impregnadas, apoio ao Instituto de Coração, ao Hospital Central de Maputo (HCM) e ao centro da terceira idade são actividades mencionadas pela AMDC nesta área. Porém, o programa do combate à malária denominado Libombo Spatial Development Initiative (LSDI) é da iniciativa dos governos de Moçambique, da Suazilândia e da África do Sul, embora a AMDC co- financie. Esta iniciativa através da Medical Research council, está a levar a cabo uma campanha de pulverização que através 2005 estava na 8 ronda o que tinha baixado a taxa de infecção pela malária de 86.8% para 8% (AMDC, 2005:15). Se o programa é da iniciativa de três países é auto sustentável não se tornando necessária a intervenção da AMDC que devia dedicar-se exclusivamente ao desenvolvimento das comunidades locais.

A AMDC diz ter financiado o programa de malária da LSDI na pulverização de

Beluluane e Matola no valor de 600,000 USD. E que a partir de Junho de 2004, 650.000 USD foram doados anualmente, num período de três anos consecutivos, pela BHP Billiton à Medicine for Malaria Venture (MMV), uma ONG (Organização Não Governamental), que pesquisa medicamentos para malária que custem menos de um dólar para África (Ibid.). Ainda no combate à malária a AMDC (2005: 15) afirma ter distribuído 5.571 redes mosquiteiras para 3,323 famílias. Estas redes são cosidas por viúvas e mães solteiras que depois vendem-nas a AMDC que as distribui a comunidade.

A saúde é de facto uma questão prioritária mas ela não deriva apenas da prevenção da

malária. Elementos como dieta alimentar, higiene pessoal e colectiva são importantíssimos. A questão da dieta torna-se pertinente quando a AMDC afirma que as redes são produzidas pelas viúvas e pelas mães solteiras e compradas pela AMDC. O equivalente a dizer que este grupo social tem um tratamento privilegiado e de certa forma tem renda. Ora, as mulheres casadas são simplesmente excluídas como se ter esposo fosse equivalente a ter renda. Este critério, independentemente dos princípios que o sustentam, pode a longo prazo destruir a família, pois as mulheres poderão preferir ser mães solteiras a permanecer casadas com homens desempregados.

A AMDC afirma ter financiado o Instituto de Coração no valor de 700.000 MT, nos anos 2002 e 2003 para ajudar as crianças que sofrendo de problemas cardíacos não tinham recursos financeiros para fazer o devido tratamento. A AMDC ofereceu igualmente equipamento de diagnóstico cardiovascular ao Hospital central em 2005. Estas doações são de grande valor humanitário, mas desviam a AMDC da sua área de actuação que é um raio de vinte quilómetros a partir do local da localização da fábrica. É nesta área que em primeiro lugar deve realizar grandes projectos de desenvolvimento comunitário e só depois as outras áreas.

Constata-se que as actividades relatadas estão directamente ligadas a saúde, dizendo pouco ou quase nada sobre o meio ambiente, embora a própria AMDC considere a Saúde e Meio Ambiente como uma das cinco áreas da sua actividade (AMDC, 2003:5). Portanto

o meio ambiente é tido aqui no seu sentido lato, uma vez que o combate a malária pode ser tido como um acto pró-ambiente, na medida em que a ausência de pandemias é associada a um ambiente são.

4.1.4 Desporto e Cultura

No que se refere ao desporto a AMDC diz apoiar as iniciativas nesta área dando mais atenção ao Voleibol, ao futebol e ao basquetebol. O caso do voleibol, por exemplo, as equipas apoiadas pela Associação MOZAL participaram por seis vezes nos torneios da federação da modalidade na praia Miramar (AMDC, 2003:19). Quanto ao futebol, a Associação MOZAL patrocina a equipa comunitária denominada Ndhopfu, que está a participar no campeonato provincial de Maputo. Diz ter apoiado também o basquetebol nos torneios inter-escolares ao nível do ensino médio decorridos em 2002 e 2003 na Escola Industrial da Matola.

Quanto à cultura, a AMDC (2005:21), durante os anos de 2004 e 2005, patrocinou catorze exposições de obras de arte. Mas as populações locais não podem ser a beneficiárias de tais exposições, porque sofrendo de secas cíclicas não têm condição para contemplarem a arte enquanto as suas necessidades básica não encontram resposta adequada. Esta constatação só reforça a ideia de que a aposta no sector agrário traria mais benefícios às comunidades locais.

4.1.5 Infra-estruturas Comunitárias

A AMDC afirma que tem comparticipado na construção e reabilitação de algumas Infra- estruturas da comunidade. São exemplos da sua comparticipação no redimensionamento de estabelecimentos de ensino os seguintes locais: 8 salas de aulas em Beluluane, 9 salas de aulas em Jonasse, 3 salas em 1 de Junho, 4 salas de aulas em Djuba, 2 salas em Tchonissa e 2 salas em Mussumbuluco (2003:21).

Em parceria com a International Finance Corporation (IFC), a Associação MOZAL está, desde 2003, a construir a Escola Secundária Nelson Mandela na Matola Rio. Está, também a co-financiar a construção do Centro de formação da LSDI em Namaacha. A

AMDC construiu a esquadra de Beluluane, e reabilitou o comando provincial da Polícia de Maputo, reabilitou também a clínica de Saúde Materno Infantil (SMI) da Matola 700 e aquando do acidente de Tenga em 2002 a AMDC reabilitou o edifício de serviços de urgência e laboratório do Hospital de Moamba, tendo construído também um centro de fisioterapia (Ibid.:23).

O que se pode constatar é que as actividades feitas pela MOZAL através da AMDC não estão a criar a Integração Espacial. Esta situação deve-se em parte porque a AMDC não concebe projectos em prol da comunidade local, mas sim, aprova projectos que são submetidos junto a si, pedindo patrocínio. Estes projectos embora de alguma forma beneficiem a comunidade não têm uma íntima relação entre si, porque foram pensados isoladamente, para fins díspares. Excepção seja feita para o caso do PDA que durou apenas 5 anos. Um outro factor que fragiliza o impacto das actividades da AMDC é o facto de estar a actuar em cinco áreas e apoiar entidades que se encontram fora da sua área de actuação. Uma única área produziria mais resultados, e essa área devia ser a agricultura.

4.2 Alternativa de Desenvolvimento da Comunidade Local

(Matola, Boane e Moamba)

Este sub capítulo é uma proposta para tornar possível a Integração Espacial na região em que a MOZAL se encontra. E tendo em conta que Moçambique é um país com cerca de

20 milhões de habitantes e com aproximadamente 36 milhões de hectares de terra arável,

dos quais apenas 9 milhões estão sendo aproveitados para a produção. E que deste universo 3.3 milhões de hectares de terra tem potencial para a irrigação dos quais apenas

55 mil hectares são actualmente irrigados.

Sabendo-se que os agricultores em Moçambique subdividem-se em sector tradicional e sector comercial. O primeiro é basicamente constituído pelos agricultores de subsistência

e o segundo por empresas que produzem em escala. A conjugação destes grupos dá origem a três tipos de agentes agrários nomeadamente: pequenos, médios e grandes produtores como mostra a tabela 4 (Rosário, 2005:111).

Tabela 4: Sectores de Agricultura em Moçambique

Variável

Camponês

 

de

Orientado

para

o

Comercial

subsistência

 

mercado

Objectivo da produção

Virada principalmente para

Auto consumo e também

Virado para o mercado

o

auto consumo

para o mercado, integração parcial no mercado também imperfeito

Tecnologia usada

Tradicional,

pouca

Alguma

tecnologia

Melhorada

e

avançada.

utilização

de

insumos

e

melhorada, contudo a

Níveis

de

produção

e

mecanização

agrícola,

produção

e

produtividade/ha elevados

baixa

produção

e

produtividade/ha é ainda baixa.

produtividade/ha

 

Tamanho da machamba

Reduzido e de pequena escala, uso predominante de mão de obra familiar

Pequena escala e por vezes alguma preocupação em combinar a escala da

Óptima combinação entre

a economia de escala da machamba e do tamanho da mesma com vista a

machamba e o tamanho da mesma

a produtividade/hae lucro comercial

maximizar

Actividades

Produz essencialmente culturas alimentares, dedica-se a pecuária principalmente animais de pequeno porte e algum gado bovino e caprino. Fraco maneio e gestão desta actividade.

Produz

culturas

especializada

desenvolvidas

alimentares e algumas de rendimento para o mercado. Dedica-se ainda a pecuária tanto para alimentação como para o mercado

Atitude perante o risco

É

adverso ao risco

 

É cauteloso à assumpção do risco

Assume o risco

Nível

de predominância

Predominante e o principal no país

Ainda pouco desenvolvido no país

Muito pouco desenvolvido em Moçambique, praticamente inexistente.

no país

Fonte: Rosário, 2005:114.

Conhecidos os três tipos de agricultura praticados em Moçambique e sabendo-se que a região de Boane e Moamba é atravessada por dois rios nomeadamente: Umbeluzi e Incomati, o que torna a região passível de ser irrigada desde que haja interesse nesse sentido. Tomando-se em conta que a MOZAL disponibiliza anualmente cinco milhões de dólares para o desenvolvimento da comunidade geridos pela AMDC num raio de 20 km,

e sobretudo estando conscientes de que a agricultura e a pecuária, constituem a base para

o desenvolvimento das comunidades locais, as quais não têm melhorado com a chegada da MOZAL, urge portanto, mudar de estratégia de modo a melhorar realmente a vida daquelas comunidades.

Para tornar a AMDC uma instituição de desenvolvimento e não de mitigação, como o que acontece actualmente, é fundamental concentrar os seus esforços na agricultura e não em cinco áreas como actualmente procede. A AMDC deveria apostar numa MEGA ASSOCIAÇÃO de agricultores que praticasse uma agricultura mecanizada com uma grande extensão de terras (3 000 hectares) que se estendessem de Boane a Moamba.

As terras seriam obtidas em coordenação com o governo local 21 . O projecto seria financiado durante 15 anos consecutivos. O financiamento seria directo, isto é, o financiamento deveria ser alocado para a comissão de gestão da Associação. Seriam membros da comissão membros idóneos da comunidade, e pessoal técnico da AMDC. Esta comissão seria encarregue de criar um regadio, comprar paulatinamente tractores (1 por ano), Motobombas (1 de 2 em 2 anos) e camiões (1 em de 3 em 3 anos) 22 , construir armazéns para efeitos de conservação da produção, disponibilizar fertilizantes, conceder

as terras aos agricultores 23 e lavrá-las, contactar o mercado para a colocação dos produtos

e sua consequente venda.

21 É preciso realçar que a associação dos camponeses de BEMATCHOME tem o título de uso e aproveitamento de 700 hectares, porém, estas terras não estão a produzir devido a dependência extrema da chuva.

22 No fim do mandato da AMDC a associação teria 15 tractores, 7 motobombas e 5 camiões de 10 toneladas, o que dotaria a associação duma capacidade de continuidade.

23 Esta concessão refere-se a terras que tenham já consedidas a AMDC para o efeito.

Seriam membros da associação todos os cidadãos (camponeses) que manifestassem interesse e que residissem no perímetro da acção da Associação MOZAL para o desenvolvimento da comunidade. Estes teriam a missão de cuidar cada um da sua parcela desde a sementeira, a sacha, a pulverização, a fertilização da terra, a colheita e a conservação. Os produtos seriam entregues à comissão que venderia no mercado anteriormente identificado, de salientar que cada camponês deveria pesar o seu produto de modo a saber o valor a receber.

Depois da venda, 40% do valor obtido por cada camponês fica com a comissão para o funcionamento da MEGA ASSOCIAÇÃO sendo 60% para o trabalhador da terra. As culturas a serem produzidas seriam o milho e ou o feijão por serem produtos que ficam muito tempo após a produção e o que permite uma melhor negociação do preço sem o risco de deterioração. Um outro motivo da produção destes produtos é o facto de o Zimbabwe que era o maior produtor de milho na região encontrar-se em crise económica o que facilitaria a colocação do produto no mercado regional em integração.

A acontecer a criação da MEGA ASSOCIAÇÃO teria como efeitos:

Fim da completa dependência da quantidade da chuva a cair para ter uma boa produção.

Aumento da renda e florescimento do comércio das populações locais,

Surgimento de empresários provenientes da acumulação de capital,

Contribuição para a auto-suficiência alimentar a nível interno e regional,

Aumento da qualidade de vida e aquisição do poder de compra de serviços de saúde e educação pelas populações locais. Redução dos índices de pobreza, principalmente das mulheres e das crianças que são as mais atingidas. Surgimento de postos de emprego que pela natureza do trabalho beneficia as comunidades locais ao contrário do que acontece com o trabalho na fábrica da MOZAL.

Findo o período de 15 anos a AMDC retirar-se-ia deixando a continuidade do projecto com a comissão de gestão, que já teria uma experiência de 15 anos, a continuar com o projecto. Assim, teríamos por um lado uma comunidade local realmente beneficiada com a instalação desta multinacional, e por outro lado, capitalizar-se-ia a vontade financiadora da MOZAL, passando de medidas paleativas e de mitigação para uma acção geradora do desenvolvimento. criando a Integração Espacial que neste momento é inexistente. É preciso salientar que para que a AMDC consiga levar a cabo este projecto precisaria também duma colaboração atenta por parte do governo de Moçambique.

CONCLUSÕES

A MOZAL está a criar uma integração sectorial devido à quantidade de serviços que esta companhia solicita às empresas nacionais e estrangeiras. Um exemplo desta integração é o parque industrial de Beluluane que actualmente congrega vinte empresas que produzem bens para exportação, 24 o que significa que a economia tira proveitos do estabelecimento desta multinacional, mas este proveito é mais notório no crescimento económico e menos no desenvolvimento do país.

A legislação Moçambicana é omissa em relação àquilo que as multinacionais em geral e a MOZAL em particular devem fazer em prol das comunidades locais.

A MOZAL é um ponto de articulação, sobre o qual vários sectores de actividade interagem criando a integração sectorial. Porém esta integração é vulnerável, pois depende duma única unidade, no caso a MOZAL. Se esta companhia (MOZAL) falir a integração chega ao fim, porque não há pontos de articulação adicionais.

O crescimento económico que se verifica em Moçambique com a contribuição da MOZAL é ilusório, pois os lucros não ficam no território nacional, mas contam no BIP. Esta é uma das razões que leva a disparidade entre o crescimento económico e o desenvolvimento em Moçambique.

A AMDC faz um financiamento indirecto usando intermediários, como é o caso da CODEMO, o que faz com que os fundos realmente aplicados ao projecto sejam reduzidos ou até mesmo desviados para pagar salários dos funcionários da empresa intermediária.

24 Os bens produzidos 85% devem ser para exportação e 15% podem ser vendidos no mercado nacional.

A presença da MOZAL em Moçambique melhorou algumas infra-estruturas como o porto da Matola, as vias de acesso para a fábrica. Contudo este facto tornou a região mais concorrida, fazendo com que os detentores de capital passem a comprar (adquirir os títulos de uso e aproveitamento) a terra das populações pobres, que se tornam cada vez mais pobres e se afastam das zonas que habitaram durante décadas. O que significa que os pobres ficaram mais pobres e mais distantes do centro urbano, no caso, da Matola.

As políticas internas da MOZAL em relação as populações circunvizinhas, são mais de mitigação e não necessariamente de Desenvolvimento, razão pela qual, as condições de vida não têm registado grandes melhorias, exceptuando-se os benefícios trazidos pelo fornecimento da água e energia.

Nos moldes em que a MOZAL através da AMDC opera na sua relação com a comunidade local não possibilita uma integração espacial. Pois não há criação de riqueza para a comunidade, que no caso vertente seria possível se houvesse uma aposta numa agricultura mecanizada.

Ausência da distribuição da renda para as populações situadas na área da localização da Multinacional, sendo este fenómeno causado pela fraca instrução destas, o que não permite a sua integração nas vagas de emprego criadas pela multinacional, transferindo-se assim os rendimentos para profissionais qualificados provenientes das grandes cidades e do estrangeiro. Significando isto que não há melhoria de vida das populações e por conseguinte a MOZAL não está a criar Desenvolvimento na região onde se encontra e muito menos a nível nacional. Pois beneficia os beneficiados e prejudica os prejudicados.

O papel da MOZAL no desenvolvimento da região em que se encontra, e de Moçambique em geral, é de Mitigador da pobreza, pois através da AMDC, não desenvolve projectos criadores da integração espacial e por conseguinte impulsionadores do desenvolvimento.

RECOMENDAÇÕES

A AMDC deve actuar numa única área, a agricultura, ao invés de fazê-lo em cinco áreas. Pois dispersa os esforços e recursos e os resultados têm pouco impacto sobre a vida das comunidades.

A AMDC deve criar projectos que sejam fonte de rendimento seguro na área de agricultura. Para tal é preciso que os projectos sejam de longa duração para permitir a instrução das populações envolvidas. Sendo por isso, imperioso criar uma mega associação de camponeses, alocar infra-estruturas, meios e dar uma assistência técnica e financeira prolongadas.

O governo deve melhorar a legislação sobre o Investimento Directo Estrangeiro, clarificando os sistemas de controlo tanto da importação como da exportação de capital por parte das multinacionais.

É preciso eliminar o financiamento indirecto, que tem sido actualmente a prática da AMDC através da CODEMO, passando a financiar directamente a associação dos agricultores.

As multinacionais, no caso a MOZAL, devem exigir das empresas que lhes prestam serviços simples, como seja as de limpeza e de segurança, a integração de trabalhadores menos instruídos da comunidade local, como forma de criar distribuição de renda, e consequentemente uma integração espacial.

O governo deve eliminar paulatinamente as facilidades legais concedidas às Multinacionais de modo a que as importações feitas por estas passem a pagar os direitos aduaneiros melhorando-se a situação económica nacional.

o caso de viúvas e mulheres solteira, passando a privilegiar critérios inclusivos.

A AMDC deve evitar o uso de critérios que beneficiam apenas minorias como é

Em suma, é urgente que a MOZAL tome atitudes pró-desenvolvimento das comunidades locais, e no caso o ponto de partida seria a agricultura mecanizada.

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ENTREVISTAS

1. BANZE, A., Presidente de Camponeses de BEMATCHOME, entrevistada em 18 de

Julho de 2007, Maputo

2. LHALANGUANA, A. M., Camponês da Cooperativa 25 de Setembro de Boane,

entrevistado em17 de Julho de 2007, Maputo.

3. MAHUMANE, A. L., Comerciante do Mercado de Beluluane, entrevistado em 16 de

Julho de 2007, Maputo.

4. RUNGO, T., Superitendente de Recursos Humanos da MOZAL, entrevistado em 18

de Julho de 2007, Maputo.

5. Extensionista, supervisor da Associação dos Regantes de Manguiza, entrevistado em

17 de Julho de 2007, Maputo.

6. ALTO FUNCIONÁRIO DO CPI responsável do departamento de arquitectura do

Parque Industria de Beluluane, entrevistado em 27 de Julho de 2007

7. RODRIGUEZ, A.W. Consultor da MOKORO, Economista e especialista em gestão

das finanças públicas, 16 de Novembro 2007