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Big Brother Brasil a banalização do cotidiano

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H UMANAS

Revista de Ciências

Revista filiada à:

Editora da UFSC

UNIVERSIDADE FEDERALDE SANTACATARINA
Reitor Vice-Reitor Lúcio José Botelho Ariovaldo Bolzan

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS Diretor Vice-Diretor EDITORA DA UFSC Diretor-Executivo Alcides Buss Conselho Editorial Cornélio Celso de Brasil Camargo, Eunice Sueli Nodari (Presidente), João Hernesto Weber, Luiz Henrique de Araújo Dutra, Nilcéa Lemos Pelandré, Regina Carvalho e Sérgio Fernando Torres de Freitas. REVISTA DE CIÊNCIAS HUMANAS Editor José Gonçalves Medeiros Comissão Editorial Cynthia Machado Campos, Hector Ricardo Leis, José Gonçalves Medeiros (Presidente), Marco Antônio Frangiotti, Maria Juracy FilgueirasTonelli, Norberto Olmiro Horn Filho, Rafael José de Menezes Bastos e Tamara Benakouche. Conselho Científico Alcir Pécora (UNICAMP); Artur Cesar Isaia (UFSC); Carmen Silvia Rial (UFSC); Cecile Helene Jeanne Raud Mattedi (UFSC); Cleci Maraschin (UFRGS); Darlei Dall’Agnoll (UFSC); Edmilson Lopes Junior (UFRN); Erly Euzébio dos Anjos (UFES); Fernando Ponte de Souza (UFSC); Franz Josef Brüseke (UFSC); Grauben Assis (UFPA); Héctor Ricardo Leis (UFSC); Jane Russo (UERJ); João Cleps Junior (UFU); José Carlos Zanelli (UFSC); Leila Christina D.Dias (UFSC); Luis Henrique Araújo Dutra (UFSC); Magda Ricci (UFPa); Márcio Lopes da Silva (UFV); Maria Angélica Motta-Maués (UFPa); Maria Bernardete Ramos (UFSC); Maria Cecilia Maringoni de Carvalho (UNICAMP); Maria Cristina Alves Maneschy (UFPa); Maria Teresa Santos Cunha (UDESC); Mauricio Roque Serva de Oliveira (PUC-PR); Mauro Pereira Porto (UNB); Olga Lucia Castreghini de Freitas Firkowski (UFPR); Oscar Calavia Sáez (UFSC); Pedro Paulo da Costa Coroa (UFPa); Rafael Raffaelli (UFSC); Saint-Clair C. da Trindade Júnior (UFPa); Silvio Paulo Botomé (UFSC); Walquiria Krüger Corrêa (UFSC). Organização Geral Tiragem Periodicidade Luiz Carlos Cardoso e Allysson Sérgio Vieira 500 exemplares Semestral João Eduardo Pinto Basto Lupi José Gonçalves Medeiros

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

H UMANAS
Revista de Ciências

ISSN 0101-9589

Revista de Ciências Humanas Florianópolis E D U F S C n. 35 p . 0 1 - 2 5 4 Abr. 2004

A Revista de Ciências Humanas é uma publicação semestral do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina. Lançou, em 1982, o seu primeiro número e tem sido um importante veículo na disseminação do conhecimento interdisciplinar nas diferentes áreas das humanidades. Publica com regularidade dois números por ano com uma tiragem de 500 exemplares por volume, além de números temáticos anuais. Os artigos são revisados por três relatores ad hoc, preferencialmente vinculados a instituições nacionais. Editoração eletrônica Allysson Sérgio Vieira allyssonvieira@yahoo.com.br Revisão geral José Gonçalves Medeiros Vera Vasilavski
Revista indexada por:
— — — — — — Sociological Abstracts - SA; Linguistics & Language Behavior Abstracts - LLBA; Social Planning / Policy & Development Abstracts - PODA; Public Affairs Information Service, Inc. - PAIS; Nisc Pensylvania Abstracts, inc. - NISC. Qualis/CAPES

Capa Allysson Sérgio Vieira Criação da Capa Ana Lúcia Gomes Medeiros Ilustração da Capa Antropofagia (1929), de Tarsila do Amaral

(Catalogação na fonte pela Biblioteca Universitária da Universidade Federal de Santa Catarina)
Revista de Ciências Humanas (Temas de Nosso Século) / Universidade Federal de Santa Catarina. Centro de Filosofia e Ciências Humanas.- v.1, n.1 (jan. 1982) - Florianópolis : Editora da UFSC, 1982v.; 21cm Semestral ISSN 0101-9589 I. Universidade Federal de Santa Catarina. Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Endereço para assinatura Mailing address subscriptions Universidade Federal de Santa Catarina Editora da UFSC Campus Universitário - Trindade Caixa Postal 476 88040-900 - Florianópolis - SC / Brasil Endereço para correspondência Mailing address Universidade Federal de Santa Catarina Centro de Filosofia e Ciências Humanas Revista de Ciências Humanas 88040-900 - Florianópolis - SC / Brasil

...... Miglievich Ribeiro Brand Arenari............... um arqueogenealogista do saber................................................................................07 Big Brother Brasil: a banalização do cotidiano Pedrinho A......................................... do poder e da ética Inês Lacerda Araújo..................................................79 Representações sociais sobre meio ambiente de alunos que cursam Engenharia Ambiental David José Diniz Rita de Cássia Magalhães Trindade Stano.......... Guareschi Laura Helena Pelizzoli............37 A modernidade sob o prisma da tragédia: um ensaio sobre a singularidade da tradição sociológica alemã Adélia M......57 Confiança no parceiro e proteção frente ao HIV: estudo de representações sociais com mulheres Andréia Isabel Giacomozzi...........................................................99 ...................11 Foucault................Revista de Ciências HUMANAS abril (Florianópolis) número 35 2004 Sumário Apresentação...........................................................

......................................................................................................................................................................................................................................... partir ou ficar? Sirlândia Schappo...........................117 Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba Paulo J........................................141 Gilberto Freyre e Celso Furtado: duas leituras distintas da formação urbano-industrial no Brasil Maria José de Rezende........................................ Krischke..................................225 Relação dos Consultores ad hoc...................177 Sistema familiar de produção: algumas questões para o debate Lauro Mattei................243 .................241 Normas para publicação.....205 Migrantes-nômades: chegar......Novas tramas produtivas no setor de telecomunicações pósprivatização: a experiência do Rio Grande do Sul Sandro Ruduit Garcia...........

a emoção barata e o banal”. entre outras questões.. Os autores Pedrinho A. O fenômeno que não é apenas brasileiro e indica. Nesse número.. a questão da ética.com mais um conjunto de artigos que tem por objetivo ampliar o debate de temas da contemporaneidade. Sobre os “reality show” diz Muniz Sodré em “O império do grotesco” que “. procura-se identificar realidade com um cotidiano desprovido de maior sentido. relativo ao primeiro semestre de 2004. Guareschi e Laura Helena Pelizzoli fazem uma análise crítica dos “reality show” produzidos pela Rede Globo abordando. principalmente. como nos demais. em que só há lugar para o miúdo. o rebaixamento do padrão televisivo e uma identificação do público com este “lixo reciclado e transmitido”. acostumado com a interdisciplinaridade da revista. o leitor. o mesquinho.Apresentação O número 35 da Revista de Ciências Humanas (RCH). . chega agora às mãos do leitor seu principal parceiro . encontrará idéias e proposições acerca do social produzido por profissionais da Área de Ciências Humanas e Sociais. no artigo Big Brother Brasil: a banalização do cotidiano. com uma espécie de grau zero do valor estético.

A contribuição desse trabalho.1920). . discutir o comportamento das mulheres face à prevenção é. Em A modernidade sob o prisma da tragédia: um ensaio sobre a singularidade da tradição sociológica alemã. estendendo a análise aos pensadores da Escola de Frankfurt. Em Foucault. Representações sociais sobre o meio ambiente de alunos que cursam Engenharia Ambiental. Simmel (1858-1918) e M. Weber (1864 . Propõe-se a verificar os discursos produzidos no campo da psicologia e da psicanálise como discursos produtores do saber/poder. O estudo Confiança no parceiro e proteção frente ao HIV: estudo de representações sociais com mulheres. controladora. de autoria de Andréia Isabel Giacomozzi.1936). contribui para a reflexão acerca das representações sociais de mulheres com ou sem parceiro fixo sobre a sexualidade e prevenção da AIDS. G. discute as representações sociais e as possíveis alterações que os formandos desses cursos. analisa as relações produtivas que se configuraram no setor das telecomunicações. deve-se ao fato de que a pesquisa realizada pela OMS/2004 confirmou o aumento crescente do número de mulheres infectadas.Inês Lacerda Araújo constrói seu artigo a partir do clássico texto de Foucault “Arqueologia do saber”. Tonnier (1855. Adélia Miglievich Ribeiro e Brand Arenari discorrem sobre as tradições do pensamento na sociologia e fazem um exercício de análise das escolhas epistemológicas de cada tradição. nesse momento. principalmente a social. dessas novas metodologias de proteção ao meio ambiente estão. a autora identifica as relações entre as práticas discursivas e não discursivas como sendo aquelas que apontam para o aparecimento do sujeito moderno e da sociedade disciplinar. uma contribuição significativa. Novas tramas produtivas no setor de telecomunicações pósprivatização: a experiência do Rio Grande do Sul. de autoria de David José Diniz e Rita de Cássia Magalhães Trindade Stano. do poder e da ética. na prática. no Estado do Rio Grande do Sul a partir do processo de privatização em 1998. Portanto. fazendo acontecer e com isso criando condições para mudanças curriculares. um arqueogenealogista do saber. Tomam por objetivo do trabalho analisar a “tragédia” como elemento comum que une pensadores da sociologia moderna como F. de Sandro Ruduit Garcia. como Adorno e Horkheimer.

mesmo canônico no campo da sociologia. e espera que sua contribuição possa ajudar a compreender os processos migratórios. Sistema familiar de produção: algumas questões para o debate de Lauro Mattei. Esperando que os artigos desta edição possam contribuir cada vez mais para a definição do caráter interdisciplinar da RHC. no artigo. a autora chama atenção para o risco do conceito quando utilizado de maneira genérica. Krischke compara a cultura política das cidades de Curitiba e Porto Alegre. partir ou ficar?. Maria José de Rezende. Paulo J. rastreia interpretações dadas por Freyre e Furtado acerca do processo de urbanização no Brasil. em Gilberto Freyre e Celso furtado: duas leituras distintas da formação urbano-industrial no Brasil. José Gonçalves Medeiros Editor . contribui ao problematizar o conceito de agricultura familiar.sociais. O olhar sociológico está presente em um interessante texto que. a autora de Migrantesnômades: chegar. Na esteira de refletir sobre agrupamentos sociais e suas definições. analisando suas diferenças e convergências como formas locais complementares de manifestação da conquista da cidadania nos diferentes contextos históricos . Sirlândia Schappo analisa a insuficiência do termo “êxodo rural” para definir os deslocamentos populacionais.Em Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba. colocamo-nos à disposição de nossos leitores e assinantes.

Big Brother Brasil: a banalização do cotidiano*

Pedrinho A. Guareschi1 Laura Helena Pelizzoli2
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

Resumo Trabalho 3 que analisa, de maneira crítica, o programa campeão de audiência da televisão brasileira Big Brother Brasil. Dividese em duas partes: na primeira, apresenta um referencial ético para análise de programas midiáticos. Na segunda parte, faz uma análise do programa, a partir de dois grupos de informações: o primeiro constitui-se de cartas enviadas eletronicamente por ouvintes que
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Abstract The paper discusses, within a critical framework, the most assisted program of the Brazilian television, Big Brother Brazil. It is divides in two parts. The first presents an ethical framework for the analysis of media programs. The second part discusses two kinds of data about the program: a set of information received through electronic mail from viewers who manifested dissatisfaction with the

* Big Brother Brasil: the vulgarization of everyday life 1 Endereço para correspondências: PUCRS, Av. Ipiranga, 6681 prédio 11, sala 927, Porto Alegre, RS, CEP 90619-900 (guareschi@pucrs.br) 2 Endereço para correspondências: PUCRS, Av. Ipiranga, 6681 prédio 11, sala 927, Porto Alegre, RS, CEP 90619-900 (lpelizzoli@terra.com.br) 3 Somos gratos ao CNPq que, por meio da bolsa de Produtividade em Pesquisa, da bolsa de Apoio Técnico e das duas bolsas de Iniciação Científica, possibilitou-nos realizar este trabalho. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.35, p.11-35, abril de 2004

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manifestam críticas ao programa e o segundo conjunto de informações compõe-se de dados coletados pelos pesquisadores, tendo em vista a audiência do programa. Constroemse algumas categorias centrais que agrupam os principais temas trazidos pelos telespectadores e investigados pelos pesquisadores. As categorias são discutidas a partir do referencial ético. Ao final, sugere possíveis alternativas a programas desse gênero que possam ser eticamente aceitáveis.

program, and another set of information gathered by the researchers in viewing the programs. Central categories are constructed which group the main themes brought by the electronic mails and gathered by the researchers. The categories are discussed through the ethical framework presented earlier. At the end some suggestions about alternatives to this kind of program that can be ethically acceptable are presented.

Palavras-chave: Mídia; ideologia; Keywords: Media, ideology, ethics, ética; representações sociais. social representations. Introdução Este artigo originou-se de uma pesquisa realizada pelos autores para a formulação de um parecer sobre o programa Big Brother Brasil, na sua terceira edição (2003), solicitado pela Comissão de Acompanhamento de Programação de Rádio e TV (CAP), que é ligada à Comissão de Ética da Câmara dos Deputados de Brasília e ao Conselho Nacional de Comunicação, cuja campanha é intitulada: Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania. A CAP recebeu inúmeras reclamações e sugestões, por e-mail, de cidadãos de todo o território nacional, que se posicionaram com insistência diante de certas cenas e situações veiculadas pelo programa. Considerou-se que tais situações e cenas feriam a ética, apresentando-se injuriosas a grande parte da população, deseducadoras e em desacordo com a função e a tarefa da mídia, que é prestar um serviço público de qualidade à população brasileira. Os cidadãos que apresentaram tais queixas fizeram-no com o objetivo manifestar seu pensamento, expressar sua opinião, reivindicando alguma providência dos órgãos competentes.

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Pedrinho A. Guareschi e Laura Helena Pelizzoli — 13

A fim de deixar claro de onde partimos para produzir tal parecer, iniciamos com uma rápida discussão sobre os pressupostos éticos que fundamentam a análise, pois a discussão no campo da ética pode dar ocasião a muitas polêmicas. Após a discussão sobre o referencial ético, iniciamos a análise. São informados, inicialmente, os procedimentos metodológicos empregados. A seguir, discutimos as diversas informações usadas, analisando as principais categorias que as sistematizam. A interpretação que fazemos tem como pano de fundo o referencial ético apresentado na primeira parte. Um referencial ético para análise da mídia Escutamos, a toda hora, alguém dizendo que tal procedimento não é ético, que tal ação é antiética e assim por diante. Qual seria o critério para tal afirmação ou julgamento? O que faz com que uma ação, uma prática e, indiretamente apenas, com que uma pessoa seja ética? Ao refletir sobre o que é ética e os seus fundamentos, damo-nos conta de o quão complexa é essa questão. Entretanto, ao mesmo tempo, vemos que todos nós, de um modo ou de outro, temos nossas convicções éticas, temos uma ética. Para tê-la, precisamos nos basear em algum fundamento, algum pressuposto filosófico e valorativo. Curiosamente, a maioria das pessoas, apesar de terem esses fundamentos e pressupostos, poucas vezes pararam para refletir e tomar consciência deles e de suas implicações. Nesse sentido, essa rápida discussão traz à baila esses pressupostos, no intuito de facilitar a descoberta do fundamento de ética de cada um. Mesmo os estudos de Kohlberg (1966, 1969) e, em parte, os de Piaget (1932), apesar de ajudarem a identificar “estágios” de consciência ética, não fornecem elementos para que se identifiquem os pressupostos filosóficos e, conseqüentemente, faça-se uma crítica desses pressupostos. Queremos esclarecer, a diferença que fazemos entre ética e moral, contudo, retornaremos a isso no final desta discussão teórica sobre ética. Entendemos por moral, ou moralidade, os costumes instituídos, a maneira como os grupos e as sociedades valorizam sua maneira de agir e se regular. As leis, a tradição, os costumes etc. fariam parte da moral. Já por ética entendemos uma crítica filosófica dessa moralidade. A ética é parte da filosofia, como é a metafísica e a epistemologia, e propõe-se a encontrar os “fundamentos últimos” de por que as coisas são como são. É a ética que discutimos aqui.
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Podem ser identificados dois paradigmas principais que fundamentam as exigências éticas ou os valores éticos presentes ainda na atualidade. O primeiro paradigma é o da lei natural, o segundo é o da lei positiva. A esses dois paradigmas mais clássicos, acrescentamos um terceiro, que questiona os dois anteriores e traz novas considerações para a discussão da problemática da ética: a ética tomada como instância crítica. É a partir desse terceiro enfoque que produzimos nossa análise. No primeiro paradigma, da lei natural, o grande referencial é a própria natureza. Esse referencial tem a pretensão de dizer que, a partir da atenção à natureza, é possível, de um lado, estruturar uma ética que governe todos os povos e em todas as épocas e, de outro lado, é possível uma “fonte” para essa ética que não seja os costumes ou instituições de determinados povos ou nações. Dentre os defensores de tal paradigma, podemos citar Aristóteles, os estóicos, Cícero e muitos outros seguidores, até os dias de hoje. Essa tradição dividiu-se em duas vertentes: uma pré-moderna, religiosa, inspirada em Tomás de Aquino, centrada na idéia de um Criador e numa ordem imutável estabelecida por Deus; e outra moderna, secular, inspirada nos escritos de Grotius e John Locke, fiel à mentalidade do mundo moderno que, sem negar a origem divina da natureza, investe na defesa dos “direitos humanos”. Podemos dizer que a primeira caracteriza-se como o “momento do objeto”, como pré-moderna, e a segunda, como o “momento do sujeito”, típica do pensamento moderno. Uma privilegia a estabilidade do objetivo e a outra, a liberdade e a iniciativa do subjetivo. Todavia, o critério que fundamenta ambas é algo exterior: a natureza como produto de Deus Criador, para a primeira, e a dignidade e os direitos fundamentais do ser humano, que podem ser racionalmente conhecidos e justificados, para a segunda. Esse paradigma percorre toda história, sempre com alguns seguidores. O segundo paradigma, o da lei positiva, surgiu como reação ao paradigma da lei natural, tanto na sua versão religiosa como na versão secular. Há uma rejeição, tanto em nível epistemológico como ideológico, de um apelo a uma ordem natural como referencial ético. Em nível epistemológico, a partir do relativismo cultural, questiona-se a possibilidade de dar conteúdo concreto às leis ditas naturais, ou seja, que elas sejam as mesmas em todas e para todas as épocas e culturas. Em nível ideológico, a experiência histórica do abuso, tanto de poderes religiosos como civis,
Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.35, p.11-35, abril de 2004

entende-se que o fundamento da ética é colocado por alguns na lei natural (dado essa lei ser originada por um Deus Criador ou por estar radicada na dignidade do ser humano e de seus direitos inalienáveis) ou num positivismo jurídico. No entanto. assim. que se radica no texto de uma lei escrita e promulgada. Podemos nos libertar. n. É a lei positiva. O critério ético passa a ser o que foi escrito e promulgado. indicam pistas de por onde se pode iniciar a busca de uma fundamentação ética para as ações e relações. levou à rejeição de uma ordem humana e social determinada por uma lei natural preestabelecida. ao mesmo tempo. Tal paradigma é denominado também de Contratualismo. o critério que fundamenta a ética. dever-se-ia dizer que os crimes e assassinatos cometidos nesse período estariam legitimados. ao perseguirmos tais fundamentações. o que acontece quando os governadores e os juizes são autoritários e quando alguns legislam em causa própria? O que dizer quando grupos e minorias poderosas forçam a criação de acordos e negociações em proveito próprio? Pode-se ainda dizer que o que é instituído é ético? Vejamos a história recente do Brasil e da maioria dos países da América Latina onde se instalaram ditaduras legitimadas pela Doutrina da Segurança Nacional e onde se modificaram as Constituições dos países na base da força e da pressão. Enquanto permanecermos dentro do que é humanamente instituído. Florianópolis: EDUFSC. de outro. Se as colocações discutidas mostram suas limitações e precariedades. Uma vez promulgada uma lei. Examinamos as limitações e os perigos que se originam de tais pressupostos. Todavia. de uma natureza cega. p.35. como exige toda postura crítica. e dos mandos e desmandos autoritários de governantes e grupos. Se eventualmente as leis fossem justas. Revista de Ciências Humanas. Guareschi e Laura Helena Pelizzoli — 15 de apelar para leis naturais para esmagar seres humanos que se opunham a determinados regimes. abril de 2004 . Que fazer. Se é a lei. o estado de direito poderia ser um forte defensor do direito e das liberdades dos seres humanos. tenhamos sempre em mente suas possíveis limitações. Pelo que se viu até aqui. discutidas democraticamente e aplicadas da maneira o mais imparcial possível.11-35. Como o paradigma da lei natural. então? Haveria alternativas para fundamentar a dimensão ética? É o que passamos a discutir. o instituído. Com isso se evitaria a arbitrariedade e poderse-ia apelar para algo objetivo que foi formulado e promulgado.Pedrinho A. é decisivamente importante que. de um lado. o da lei positiva também sofre restrições. sem apelar para o eterno e o transcendente. ela passa a ser válida.

Alguns autores da escola crítica. na reflexão. ao mesmo tempo. Elas são centrais para a compreensão mais profunda da ética. 1996. deve ser questionada e criticada. somando tanto a crítica kantiana quanto a marxista.11-35. n. p. p. de aperfeiçoamento. Vejamos cada uma detalhadamente. tem pressupostos indispensáveis. também.35. Perscrutando a fundo essa formulação. de mais interminável. A ética é sempre do “dever ser das relações humanas em vista de nossa plena realização”. cremos que ajudaria. a possibilidade de seu próprio resgate. de mais real e. redimensionados.31) de “críticos. p. Ele contém a maior possibilidade de criar todas as alternativas possíveis e. podem ser tidos como herdeiros dos ideais de liberdade dos modernos. Não pode se furtar a colocar exigências e desafios. temos de deixar sempre uma porta aberta. ao mesmo tempo. refeitos e retomados.16 — Big Brother Brasil: a banalização do cotidiano temos de reconhecer nossa “limitude” histórica. Ao mesmo tempo. ela está sempre por se fazer. ao mesmo tempo em que levam a sério a impossibilidade de existência do ser humano não socializado”. Ao contrário. de transformações. dentre eles. sofre contradições e. Nesse ínterim. Traz consigo. abril de 2004 . Revista de Ciências Humanas. por isso. como Karl Otto Apel e Jürgen Habermas procuram resgatar a dimensão ética a partir do discurso. Esses dois pensadores são chamados por Lima Lopes (1996. a ética não pode ser considerada algo pronto. À medida que ela se atualiza. ela tem de ser propositiva. Ao reconhecer essa “limitude”. é um impulso permanente em busca de crescimento e transformação. O discurso é o que temos de mais próximo. interminável.12). Nesse contexto. uma noção de ética como sendo uma “instância crítica e propositiva sobre o dever ser das relações humanas em vista de nossa plena realização como seres humanos” (DOS ANJOS. É uma busca infinita. ela está presente nas relações humanas existentes. sem os quais ele mesmo não pode se sustentar. Florianópolis: EDUFSC. uma infinidade de caminhos diferentes. os quais podem ser reelaborados. podemos extrair dela duas dimensões fundantes: a dimensão crítica e propositiva e a dimensão das relações. a porta de possibilidade de alternativas de crescimento. A dimensão crítica e propositiva Na sua dimensão crítica. acabado. é uma consciência nítida de nossa incompletude.

Como veremos adiante. A que se pretende “neutra”. p. está presente. sempre se dá entre dois ou mais sujeitos. de ocultação da realidade e de manipulação das consciências (GEUSS.) têm um “poder”. leva à própria evidência da impossibilidade de haver uma ciência ou uma prática científica neutra. Num trabalho anterior (GUARESCHI. A análise ideológica. uma qualidade individual de pessoas. escrever etc. o próprio John B. Na verdade. “Poder” é entendido como uma capacidade. que “as coisas são assim”. algo singular. Aliás. deve ter como finalidade iluminar e emancipar o agir humano. tranqüilas. define esse conceito como sendo o “uso de formas simbólicas que servem para criar ou manter relações de dominação”. naturalmente. Ela concretiza-se quando alguém retira. n. que dificilmente vai deixar as pessoas impassíveis. o que ajuda os grupos humanos dizer. a dimensão “ética”. Florianópolis: EDUFSC. particular. Ao mesmo tempo. e acontece quando há uma expropriação de poder. de maneira assimétrica ou injusta. na verdade. servindo a propósitos contrários.Pedrinho A. todos os que “podem” fazer algo (trabalhar. sem uma dimensão ética. 1992) mostrou-se como o uso cuidadoso e sério da crítica. ou seja. nesse sentido. um dos autores que mais ampla e criticamente analisa a ideologia. Uma forma simbólica somente é ideológica quando se pode mostrar que ela serve aos propósitos de criar ou manter relações que sejam de dominação. um poder de outro. então. relações assimétricas. é sempre uma demonstração e uma denúncia da existência de relações assimétricas. sem que se apresentem elementos de transformação e superação de tais situações? Revista de Ciências Humanas. Ela leva. desiguais. Toda ação humana. a crítica não encerra a questão da presença de uma dimensão ética específica. Nesse sentido. a própria Teoria Crítica tem como pressuposto a impossibilidade de neutralidade das ações humanas. abril de 2004 . Toma-se aqui dominação como um conceito diferente de “poder”. à constatação de situações que provocam uma tomada de posição.35. Não há ação que seja neutra. Essa é a grande vantagem (e ao mesmo tempo o risco) de se tomar ideologia na acepção crítica. estaria. Thompson (1995). falar. Guareschi e Laura Helena Pelizzoli — 17 Consideramos fundamental enfatizar a dimensão da crítica. simplesmente. ao discutir a questão da ética. A crítica resgata a dimensão ética de toda ação humana. a dimensão do “dever (ou não dever) fazer”. Para essa concepção de ideologia.11-35. desiguais. injustas. 1988). mesmo ao se discutir as diferentes teorias científicas. Já “dominação” é uma “relação”. segundo essa escola de pensamento.

implicitamente. abril de 2004 . na Ética a Nicômacos. sob o império do liberalismo. Pegoraro (1996) publicou um livro cujo título é Ética é justiça. ser conservador. a injustiça. em que o ser humano é considerado indivíduo (o indivisum in se et divisum a quolibet alio. mas o vício inteiro” (ARISTÓTELES.35. Entendemos por relação a “ordenação intrínseca de alguma coisa em direção a outra”. Em outras palavras. A dimensão da relação Essa é a segunda dimensão da ética tomada como instância crítica: a ética como ética das relações. Já a segunda. Por isso. A afirmação “ética é justiça” torna-se muito clara quando pensamos sobre o que significa “justiça”. que procura a transformação e a emancipação. fica difícil de perceber que a ética somente pode ser dita das relações e onde ela mesma é sempre uma relação. n. “Essa forma de justiça não é parte da virtude. posturas éticas. Numa cosmovisão individualista. Essa discussão é provocante e crucial. permitindo que as coisas permaneçam como estão ou impedindo que elas mudem. no qual ele recupera a argumentação de Aristóteles. alguém sozinho não pode ser justo. impedindo que as coisas mudem. em que o filósofo afirma que a justiça é a virtude central da ética. em que se discute o que é “ação” e os pressupostos éticos implícitos em qualquer ação. isto é. que no latim quer dizer “direito”. Florianópolis: EDUFSC. também não é uma parte do vício. Revista de Ciências Humanas. é uma ação tão ética quanto lutar pela mudança. 1985). pois ela comanda os atos de todas as virtudes. que a filosofia define como ordo ad aliquid. ver Israel (1972).11-35. ao dizer que as coisas devem permanecer como estão. Alguém é justo quando estabelece relações com outros seres justas. relação é algo que não pode ser sem o outro. Vejamos como a questão da relação tem a ver com a justiça e a ética. p. A primeira. o que é um/uno. mas a virtude inteira e seu contrário. procurando fazer com que a situação se transforme4. Em outras palavras. __________________________________________________ 4 Para uma discussão mais aprofundada dessa questão.18 — Big Brother Brasil: a banalização do cotidiano É importante ainda notar que tanto uma postura teórica. assume postura de manutenção do status quo. ao assumir claramente que as ações devem levar à iluminação e à libertação. como uma postura que toma a ciência como uma prática que diz “como as coisas são” pressupõem. mas que não tem nada a ver com qualquer outra coisa). Justiça provém de jus.

A situação em que vivem os pobres é critério para medir a bondade.43). em que os direitos de um terço da população não são garantidos e nos blasonamos como éticos ou como um país onde existe ética. como conseqüência. somente entram em cena no momento em que alguém se relaciona com os outros. Justiça tem a ver com o respeito aos direitos das pessoas. como o faz Dussel (1986). simpático. ao partir da definição de ser humano como “indivíduo”.11-35. É importante ainda. isto é. quem decide se somos ou não éticos são os outros. igualdade e solidariedade. perdemos a dimensão relacional e. assim. mistificamos o verdadeiro sentido de ética. Há justiça quando os direitos das pessoas são respeitados. distinguir moral e ética.Pedrinho A. pois isso não implica “relação”. o liberalismo. Dizer que ética é relação ou dizer que ética só se pode aplicar às “relações” é afirmar que ninguém pode se arvorar do predicativo de “ético”. branco. todo poder constituído “estabelece as próprias práticas como boas” (DUSSEL. Isso quer dizer que se pode aplicar o adjetivo “justo” somente a “relação”. enfim. refere-se aos princípios fundamentais. isto é. Por incrível que pareça. como quer. a seguinte afirmação mostra quem é o juiz da ética numa verdadeira democracia: “a existência de milhões de empobrecidos é a negação radical da ordem democrática. n. a partir de si mesmo.35. Florianópolis: EDUFSC. etc. ou a injustiça. da CNBB (1994). Agora. centraliza tudo no “eu”.. Guareschi e Laura Helena Pelizzoli — 19 Alguém sozinho pode ser alto. a justiça. A ética. Chegamos. p. exatamente. justo. sejam elas quais forem. no sujeito da proposição. p. 1986. Os pobres são os juizes da ordem democrática de uma nação” (n. Moral são os costumes vividos numa determinada sociedade. A ética está continuamente na busca de uma sociedade Revista de Ciências Humanas. Assim. que respeitem os direitos dos outros. Eu sou justo quando estabeleço relações com outros que sejam justas. não implica “outros”. a moralidade. ninguém consegue ser sozinho. como é a cosmovisão do liberalismo. Nesse sentido. Do mesmo modo ocorre com a ética. a absurdos sociais como os vividos hoje. No documento Exigências Éticas da Ordem Democrática. dentro da cosmovisão egocêntrica e individualista. pois a justiça. Isso parece chocante e de fato é-o. porém. abril de 2004 . necessário para o andamento e prosseguimento da ordem normal estabelecida. como a justiça.72). aquilo que os grupos e as pessoas estabeleceram como sendo comum. a efetivação da ordem democrática. O pensamento liberal. Tal adjetivação não pode ser dita de um pólo apenas da relação.

forma. de acordo com a Constituição de 1988. têm como compromisso implícito prestar serviço da melhor qualidade possível. nos pressupostos éticos discutidos acima. denunciando profeticamente suas lacunas e anunciando novas perspectivas de crescimento e libertação. As colocações que seguem se fundamentam. ante uma práxis que o sistema aprova mas que pode ser originalmente perversa. embora sendo legal. sem discriminação e ofensas às pessoas. p. Podemos acenar aqui para a questão da comunicação: a situação em que se encontra a alocação dos meios de comunicação. educa para a formação de uma consciência crítica. a partir dos princípios morais de um sistema que seja dominador (como é o caso de sistemas onde há apenas alguns que podem falar e a maioria não tem o direito de dizer sua palavra). libertadora e autônoma. ética busca a libertação pessoal e social das pessoas e das situações de injustiça. Como afirma Dussel (1986. abril de 2004 . A verdadeira educação. Revista de Ciências Humanas. essa mídia não tem donos. a consciência “moral”. mas sim concessionários. pois. além de propiciar informação o mais imparcial possível e uma diversão inteligente. Assim.35. capaz de continuamente questionar a situação presente. ao receberem a concessão. ou conforma.11-35.20 — Big Brother Brasil: a banalização do cotidiano mais justa e fraterna e do estabelecimento de normas que sejam mais e mais construtoras de seres humanos livres e solidários. poder-se-ia dizer ética? Estão respeitados os direitos à informação e à comunicação na atual legislação brasileira? A educação sistemática. n. de dominação. em geral. que não dói. aos padrões morais dos grupos e das sociedades. Em seguida. Florianópolis: EDUFSC. que seja educativo. promova os valores humanizantes. Acresce-se a tudo isso ainda uma outra questão. cria uma consciência tranqüila. p. Por ser um serviço público. que é o fato de que a mídia eletrônica (rádio e TV) é um serviço público. Análise do programa Big Brother Esta segunda parte inicia com uma rápida apresentação do método empregado na investigação. são discutidas algumas questões gerais referentes à montagem e estruturação do programa Big Brother.46): Deste modo. que. as pessoas a obedecer e a se ajustar aos padrões estabelecidos.

fizemos o que se poderia chamar de uma análise temática: as diferentes unidades de análise. Revista de Ciências Humanas. Dois conjuntos de informações foram utilizados como material de análise. O primeiro ponto que pode ser questionado é o da transparência na seleção dos participantes. Numa das versões brasileiras. doze foram escolhidas para o elenco. Doze mil foram pré-selecionadas e delas.Pedrinho A. As unidades de análise foram as cenas apresentadas pelo programa. O segundo conjunto é composto por anotações feitas por nós ao assistir ao programa. n. abril de 2004 . O primeiro constitui-se e-mails coletados pela CAP. Método Brevemente. Não se sabe com certeza de que maneira essas pessoas foram selecionadas. as diferentes cenas ou narrativas de cenas mencionadas pelos missivistas. interpretadas à luz do referencial ético apresentado na primeira parte. Alguns programas foram gravados e analisados mais detalhadamente. de Thompson (1995). cujas cópias foram enviadas a nós. Esse referencial caminha por três fases interligadas: a interpretação sócio-histórica. pesquisadores. p. outras se compõem de apenas alguns parágrafos.35. com pequenas modificações. 2002).000 pessoas inscreveram-se para o programa. foram agrupadas conforme temas com características semânticas semelhantes (BAUER e GASKELL. que. outros foram estudados no momento de sua audiência. A interpretação foi feita conforme o referencial metodológico da Hermenêutica de Profundidade. Já foi apresentado em diversos países do mundo. a análise formal ou discursiva. quais os critérios de escolha e os compromissos que elas assumem com os organizadores do programa. 500. foi a análise temática. têm em torno de uma página. nesse caso. A partir desses dados. Florianópolis: EDUFSC. Guareschi e Laura Helena Pelizzoli — 21 Entra-se. apresentam-se os procedimentos metodológicos da investigação. Questões gerais referentes à montagem e estruturação do programa Big Brother pertence ao grande capítulo dos reality shows criados por John de Mol. isto é.11-35. então. e a interpretação e re-interpretação das informações. na discussão das diversas categorias que abrangem as informações. Algumas dessas cartas são relativamente longas.

Florianópolis: EDUFSC. O quanto isso é verdade? O programa não se encarregou de esclarecer. dentre os quais se incluem os telespectadores votantes. sem firmar acordos prévios e de maneira “justa”. A suposição seria que as pessoas chegassem ao programa sem compromisso algum. as regras devem ficar claras a todos os participantes. Pergunta-se. o teor do programa. apenas em porcentagem? Com base no referencial ético que nos guia. p. Essa escolha é a que dá. pois. bem como já tinham determinados compromissos com o programa. quem garante que os resultados das votações são aqueles apresentados ao público. praticamente. sendo um jogo. O apresentador não poupa ocasião para criar estereótipos dos concorrentes. desconfianças e opiniões denunciadas por telespectadores de que os selecionados (indicados) eram dentre alguns apadrinhados por funcionários. no qual ética é uma instância crítica que se consegue numa ação comunicativa. então. a questão é: Quem manipula quem? A edição das cenas e a apresentação delas vão conduzindo a trama. pergunta-se: O que é escolhido? Com que critérios? A “edição” dos programas talvez seja a questão maior e mais séria. abril de 2004 . visto que se trata de um jogo com premiação. isto é. ao lucro. Apresenta-se uma realidade que sequer pode ser validada por seus atores. Revista de Ciências Humanas. Alguns telespectadores dizem ter certeza de que tudo não passava de uma combinação das partes envolvidas. Nesse caso. pergunta-se: Onde fica a transparência das informações e a possibilidade de uma comunicação em pé de igualdade? Essas são questões que deveriam ser esclarecidas à população. Daí. Evidentemente. que as ligações visam somente à arrecadação. há escolha de determinadas cenas.35. n. A finalidade do programa. O segundo ponto fundamental no que se refere à estruturação do programa diz respeito a como se dão seu processo e sua constituição. conduzir os fatos e dar a eles o caráter que bem entender. pois fica a cargo do apresentador. apoiado nas cenas.11-35. visando assim a posteriores contratos. por exemplo.22 — Big Brother Brasil: a banalização do cotidiano Perguntamo-nos até que ponto são verdadeiras as dúvidas. e. Outros dizem acreditar que o programa já iniciou com o ganhador definido. principalmente de desempenhar certos papéis. qual é o critério para a seleção das cenas que são passadas ao público. seria a de os participantes somente serem apresentados na mídia. participar de determinados jogos psicológicos etc. que são editadas. sem números.

de um cotidiano corriqueiro. que determina semanalmente que o próprio grupo “exclua” alguns. nos dias de “paredão”. Desse modo. a principal relação que se estabelece seja a de competição. n. Percebemos que a maior parte do que é selecionado são cenas de banalidades. dentre outros tantos personagens que o programa se encarregou de construir e legitimar. abril de 2004 . As cenas não são somente apresentadas. Difícil também é negar que essas relações são estimuladas pela própria estrutura do programa. p. provocações. A traição ao cotidiano Talvez o ponto central que questionamos (e com isso concorda a maior parte das reclamações enviadas à Comissão). procuram inventar maneiras de evitar. ou seja. Meira et al. Passamos agora à análise das diferentes categorias.Pedrinho A. sensacionalismos. decidir quem deverá viver ou morrer”. Revista de Ciências Humanas. onipotentemente. é que o programa Big Brother Brasil passa para a população brasileira uma representação e um ensinamento. (2003. Florianópolis: EDUFSC. tácito ou mesmo manifesto. p. É difícil aceitar que. por meio de diferentes táticas. Está no ar uma realidade fictícia de bandidos inteligentes e sacanas contra mocinhos sensuais e ingênuos. em que predominam a ociosidade. nunca se sabe).35. exercer o domínio sobre o destino alheio. Dhomini é o “palhaço tarado”. sua possível exclusão. de guerra e de intrigas. Viviane é a “boazuda culta e discreta”. Elane é a “menina primitiva e tosca”. Cabe ressaltar que. em que um procura dominar ou destruir o outro.11-35. Já os excluídos. são registrados os maiores índices de audiência. é o pior de tudo. Guareschi e Laura Helena Pelizzoli — 23 Então. conforme revela seu comportamento (ou o comportamento pedido pelo programa. Os pressupostos éticos da possibilidade de todos os atores manifestarem sua palavra e serem informados dos fatos são negados. coloque-os no chamado “paredão”. eliminar” os participantes. Segundo alguns. Harry é o “rabujento” e “reclamão”. e que aos espectadores é feito o convite para “torpedear. Numa análise psicanalítica do programa. não é dada ao telespectador a possibilidade de concluir por si quem é quem ou o quê. executar. mas sim comentadas. quando várias pessoas passam a viver em grupo. enfim.17) dizem que “ao público é dado o direito de. a promiscuidade e a competição. Sabrina é a “gatinha risonha e sexy”. ou seja. Jan Massumi é o “preguiçoso”. não certamente o melhor de tudo.

p. Vendo esse programa. Pode-se perguntar que tipo de sociedade estamos construindo assim. principalmente ao final dos programas. humanizante. mas o que se vê é a traição de um pressuposto que está. estratégias descaradas para passar a perna nos companheiros e garantir a própria permanência [. Poder-se-ia criar algo construtivo. as vezes degradante. Domenico de Masi. O que se vê. a uma crítica do cotidiano e a uma vivência do cotidiano em suas profundas dimensões de humanidade. no direito de toda uma população.] trata-se de “sadismo”. Florianópolis: EDUFSC. falando sobre o Big Brother. Talvez por isso. 2002. No dizer da psicanalista Maria Rita Kehl (2003. mesquinho. O fiel telespectador sente-se enternecido com esse tipo de lamúria e quase chora com seu herói solitário.87). mas não sexual” (Idem). É que não foram educadas para isso. os reality shows “vendem aos espectadores o espelho fiel de sua vida amesquinhada sob a égide severa das ‘leis de mercado’. Quem está vendo e quem é visto são peças de um mesmo xadrez. o tédio dos companheiros. a melhor palavra para classificar o programa seja mesmo “traição”. e nem é por culpa delas. são pessoas encostadas pelos cantos. E o pior é que.24 — Big Brother Brasil: a banalização do cotidiano Muitos se perguntam por que Big Brother não poderia ser um programa que levasse ao crescimento humano e psicológico das pessoas. A maioria da população tem a televisão quase como único meio de lazer e informação. assim se expressa: Esses programas de televisão revelam grupos de pessoas que não conseguem dar sentido ao tempo e ao ócio. abril de 2004 . do outro lado da tela. sim. traições. sociólogo italiano. o marasmo dos fatos. p. Programas desse tipo são a morte do tempo (apud VIEIRA. amaldiçoando o peso do tempo.. Vendem a imagem da selva em que a concorrência transforma as relações humanas”. armadilhas. o que pode desejar? Revista de Ciências Humanas. há milhões de pessoas que também poderiam estar aproveitando melhor o tempo. o programa produz e apresenta um cotidiano artificial. Ao contrário.35). p. partilha. o de que a mídia lhe apresente algo positivo e não uma série de mesquinharias. felicidade e amor? – à exceção do romance de Sabrina e Dhomini. “conspirações. ao menos implicitamente. um caso de traição e amor fugaz..35. engrandecedor.11-35. n.

engraçadas. p. intrigas e traições. mais estética.. A vida pode ser mais bonita. p. mais interessante”. no dizer de Vieira (2002 p.11-35. armam estratégias de eliminação dos pares.37-38) temos: [. mais respeitosa.23): “[. grosseiras. Até quando estaremos submetidos à tirania do vale-tudo na corrida pelo Ibope? Como diz Vieira (2002. n.] as famílias não conseguem impedir que esse tipo de mediocridade invada suas casas. O que forma o escândalo da agressão ao sentido do tempo é justamente a falta de inteligência e de bondade na forma de ir consumindo o dia. O jogo é competição. abril de 2004 ..Pedrinho A. se acordam de mau humor ou se estão com vontade de enganar seus concorrentes ou malfeitores. se brigam com o companheiro. Existem formas menos rudes... Fazem galhofa da miséria alheia. Nas edições que são exibidas em horários nobres de programação.] os participantes dos programas parecem perder o sentido tanto do seu habitat como do dia e da noite. parecem zumbis que conversam longamente em alta madrugada e têm dificuldades para identificar qual é o tempo de parar e de recomeçar suas longas horas sem ter o que fazer. e onde se elaboram as maquinações engenhosamente alimentadas pelo desejo de destruir. burras e mesquinhas de tratar e discutir os problemas do humano..35. cultas. a banalização de coisas sérias e a supervalorização de banalidades? Sobre isso. sem precisar apelar para baixarias e mediocridades. tripudiam em cima de fatos reveladores da fraqueza de um ou outro concorrente. criativas. muito menos promover. Revista de Ciências Humanas. A pergunta que os telespectadores se fazem é: Os responsáveis por uma comunicação. as horas vividas sem proveito travestem-se em doidos cenários onde se fabrica compulsivamente a futrica. Florianópolis: EDUFSC.. tão pouco inteligente? Por que não cenas de pessoas inteligentes. Não se necessitaria saber a que hora elas vão ao banheiro. que é um serviço público. não deveriam não permitir. tão mesquinha. Guareschi e Laura Helena Pelizzoli — 25 Que valores são alimentados? A “realidade” de nossas vidas tem de ser assim tão pobre.

deixa os telespectadores confusos. talvez. passivos e amortecidos em suas poltronas. do sucesso individual a qualquer custo.11-35..] empacotados em embalagem moderna. Revista de Ciências Humanas. No zoológico da televisão. eliminar o adversário a qualquer custo e se exibir a uma platéia ávida por emoções fortes e bizarras.35. mas sabem que precisam suportar aquilo com certa classe. as saídas tornam-se uma espécie de experiência sadomasoquista: ficam tristes por estarem sendo submetidos àquele tipo de prova. 15): [. Cada vez que alguém sai da casa. repetem a mesma lógica dos gladiadores romanos. ou simplesmente não sabem o que dizer no momento de dar a razão das escolhas feitas no jogo. como telespectadores votantes. a do mais forte. numa análise mais global. p. No começo. A forma de eliminação adotada no programa é uma espécie de morte. Delatam os melhores amigos. 2002. reforçadas a irresponsabilidade e também a impunidade. pois. Florianópolis: EDUFSC. Aos telespectadores é dada a possibilidade de. justificam suas traições. Como muito bem expressa Maria Fontenelle (apud VIEIRA. n. sob a máscara da amizade e do bom convívio.. ou seja. Além disso. E. há uma “traição à espiritualidade do cotidiano nos reality shows”. a repetição semanal produz certa perversão. abril de 2004 . não correm o risco de sentir-se culpados ou vir a responder pelas conseqüências do sofrimento alheio. é um modelo de vida marcado pelas tendências da competição e da exclusão. depois. os jogadores revelam uma ambigüidade de causar pena. é como se fosse celebrado um funeral. os jogadores só respeitam a lei da selva. os participantes sentem profundamente. p. exercer e sentir sem medo o gosto da perversidade. por intermédio do outro. Essa guerra diária capitalista. Nos “confessionários” eletrônicos desses programas. ganhar um papelzinho na televisão ou um convite para posar como modelo. É permitida a todos a impunidade e. conseqüentemente. Competição O programa. do mais esperto.26 — Big Brother Brasil: a banalização do cotidiano Como bem diz o subtítulo do trabalho desse autor. práticas tão presentes em nossa sociedade. invocando fatos banais.

O que conta. a pessoa honrada corrompe-se. Algumas se sujeitariam a ficar 10 dias comendo apenas marmelada. p. Para se ter uma idéia da corrida enlouquecida por dinheiro. Nossos maiores conglomerados de comunicação são adeptos incontestes de uma busca insana por audiência a qualquer preço. Outro vendeu duas cotas por 11. a recompensa do agir moral era o reconhecimento.35. acima de tudo.2 milhões. em seu currículo oculto. Como diz Vieira (2002. A Fiat investiu. mais de 11 milhões. 12 mil foram pré-selecionadas e doze foram escolhidas para o elenco. em troca de uma “boa bolada”. Na esteira em que comanda o dinheiro. Por causa da prata. p. lembremos que 500 mil pessoas se inscreveram para o programa.11-35. Os interesses do mercado detêm a batuta dessa tragicomédia da realidade. quem rege pode tornar-se um tirano e quem obedece. comentando o programa. o que se tem e exibe é a medida do que se é. nas duas primeiras experiências brasileiras do Big Brother. Delas. abril de 2004 . Agora. O Brasil torna-se assim cenário de uma disputa imoral por números campeões de audiência. os amigos são traídos e os segredos revelados. É difícil ter uma idéia de o quanto os canais de televisão lucram com tais programas. diz estar nele presente uma amoralidade do lucro: Os programas escancaram o que a maioria aceita e a minoria – por pudor e integridade – reluta em admitir. sem falar da exposição ao ridículo ou mostrar seus corpos nus.Pedrinho A. o honesto torna-se um impostor. o irmão vira um estranho e todos se pervertem. a não tomar banho durante uma semana.8 milhões cada. Guareschi e Laura Helena Pelizzoli — 27 Mercado e dinheiro Jurandir Freire Costa (2002. é elevar audiência dos canais de televisão. Outrora. o dissoluto jura. outras. é que. “o resultado natural dessa mixórdia é o aparecimento de programas escabrosos e perpetuação de batalhas semanais nas quais a baixaria tem lugar garantido”. a admiração e o respeito de todos.5). n. Florianópolis: EDUFSC. As pessoas fazem tudo para conseguir o prêmio de 500 mil reais. valemos o que pesamos em dinheiro. p. um escravo. que foi feito com anônimos. O que o programa sugere e ensina. No caso dos reality shows. pelo dinheiro. os traidores cortejam. Revista de Ciências Humanas. um dos canais vendeu quatro cotas publicitárias de 4. os parasitas adulam.140).

difícil até mesmo de discutir. Qualquer arranjo vai parecer artificial e pouco interessante. com o grau de exposição possível e permitido no campo da intimidade e. por outro lado. porque intimidade mostrada não é mais intimidade. intimidade Outro ponto muito questionado pelos telespectadores refere-se uma questão bastante delicada. de qualquer modo. Florianópolis: EDUFSC. o entusiasmo em se produzir e apresentar-se diante dos colegas e do público. Era a alma do romantismo. elas ficam irreconhecíveis. seu preço de mercado despencou. por um lado.] há elementos diabólicos na sofisticada exposição dos programas: o enfado da pessoa com ela mesma e a morte da surpresa. Hoje. Quando termina a série de dias de confinamento e essas pessoas se apresentam diante do público. A surpresa foi assassinada pelo olho da câmara cruel.. mas. A pessoa é roubada na sua capacidade de surpreender. Não há o que dissimular ou criar: está tudo gasto. Revista de Ciências Humanas.9). Havia boa demanda para isso. Como diz Vieira (2002. Essas questões têm a ver. seu “tesouro”. terminou a demanda do íntimo. chegou ao espírito. as pessoas se marcavam pelo mistério. relevante para quem pensa numa comunicação que se guie pela ética e pelo respeito. p..35. Os participantes são submetidos a um ritual cotidiano tão invasivo que diminui. abril de 2004 . de forma grave. É a TV do “trash”. com a massificação e a impessoalização. em que platéias deliram com confidências escandalosas.31): [. p. As pessoas entregam-no facilmente. comentando o programa. A impressão que se tem é que a intimidade veiculada nos programas produz uma espécie de pornografia “inocente”. com o grau de liberdade que fica comprometido em tais programas. Ciro Marcondes Filho (2002.11-35. p. n.. A miséria se desmaterializou.28 — Big Brother Brasil: a banalização do cotidiano Liberdade. afirma: O íntimo outrora era o segredo de cada um..

corromperá nosso coração e tornará cretino nosso cérebro. Enjaulados. também nossa liberdade é ameaçada com toda essa exposição. Um grupo de pessoas estranhas é jogado em um ambiente artificialmente familiar. poucos conseguem conservar sua dignidade e mesmo a sua sanidade. distração. dá força ao que convida à alienação”. para refletir e meditar.. a originalidade pessoal de cada um já está irremediavelmente perdida. A realidade vista não é precisamente realidade.. descontroles. tudo isso não passa de uma violência.11-35. o cidadão denuncia a: [. Querem “sobreviver”. pedem perdão. Além do mais. Elas correm o risco de se tornar aduladoras do público.] ofensa à dignidade humana e o desrespeito aos direitos humanos com a venda de imagens de pessoas que instigam a outra para fazer sexo aos olhos de quem estiver assistindo. ficam deprimidas.21) diz que “o homem moderno acaba por furtar-se da viagem para dentro de si e. de pessoas que rolam debaixo da mesma coberta. As pessoas agem sabendo que estão sendo acompanhadas pelas câmeras e volta e meia se referem ao público com cartadas de afeto. abril de 2004 .Pedrinho A. p. Assim. bebedeiras. além de pôr fim a nossa intimidade. as atividades propostas no programa impedem isso e fomentam disputas. (2003. é difícil afirmar que é autêntica a tal intimidade mostrada no vídeo. Numa das críticas enviada à CAP. n. desta forma. de conversas insinuosas e por vezes explícitas. Passam a reagir como criaturas que se angustiam com a redução de seu território para ir e vir. Sabem que o olho eletrônico do espectador não perdoará o mínimo deslize. A essa altura. Desse grupo arranca-se a liberdade. O que o voyeur de plantão assiste é à atuação de atores canastrões. Se é verdade que a clausura pode ajudar. pois extrairá centímetro por centímetro a nossa intimidade. como diz Antônio Mazzi (apud VIEIRA. extroversão. Revista de Ciências Humanas.35. Guareschi e Laura Helena Pelizzoli — 29 Ainda. choram ao perceber que deram uma derrapada. Por isso. as pessoas devem convencer-se de que a televisão é muito pior do que qualquer tirano. se for para mergulhar em si mesmo. correndo o risco de uma desumanização cruel. mexericos etc. Florianópolis: EDUFSC. Referente a isso. p. Meira et al. 2002) sobre o Big Brother.

. você viu? A carne explícita. contrapõe-se ao “in-cena”. p. abril de 2004 . mas é desmoralizador e no ritmo que vamos. durante o confinamento. assistindo filmes pornográficos. Não é fantástico? Obscenidade É importante resgatar aqui a etimologia da palavra “obsceno”. estejam o tempo inteiro seminus. Sendo assim. A particularidade erótica de determinada cena vem apresentada avulsa. sem couro. escancarada. Florianópolis: EDUFSC.35. n. Essa imagem ganha sentido próprio. o que a cena mostra. despida.. fora de cena. A partir daí. ocorre que uma cena na qual se mostra uma parte do corpo das pessoas ou um de seus membros pode vir a ser um objeto estimulante para olhos ávidos. sem pelo.30 — Big Brother Brasil: a banalização do cotidiano Assim. prescindindo de qualquer significado que o transcenda. breve estaremos: “Pai.5) chega a ser veemente em sua análise de algumas “ob-cenas” do Big Brother: Olha a picanha aberta. vende-se a intimidade das pessoas. filhos netos e bisnetos”. seria até suportável. Cangas. é chegada a hora do Big Brother Brasil e tudo que se possa imaginar de “corriqueiro”.70). fora da trama. Em primeiro lugar. p. rasgada.11-35.] deprimente ligar a televisão e não ter outra escolha. em contrapartida com a perda da identidade de quem se espelha naqueles modelos de comportamento. portanto. como salienta Vieira (2002. é o detalhe que se apresenta como completo em si mesmo e reclama a atenção. despojada. O “ob-ceno”. Eugênio Bucci (2002. p. E o cupim. ou quem sabe uma cena de sexo explícito ao vivo. escolhem-se corpos esculturais para que. “as câmeras percorrem famintas os ângulos mais insinuantes. sungas. impondo a própria capacidade de atrair. roupas íntimas e muitas bermudas lotam o guarda-roupa das versões”. mães. quem não estiver satisfeito que saia da sala. Obsceno. O que os programas mostram é algo desfocado. Será que o esquartejamento não é um streaptease sem freios? Existe a pornografia bovinofágica? Revista de Ciências Humanas. Outro cidadão diz ser [. sem osso quase nenhum.

eles passassem a apreciar a bunda da Viviane. usando inclusive de obscenidades. p. Guareschi e Laura Helena Pelizzoli — 31 Um telespectador denuncia as chamadas do Big Brother durante outros programas. referindo-se que a moça possuía belos nacos de carne muito bem distribuídos.. o improviso é fictício.35. Uma lástima. como no Fantástico no dia 16 de fevereiro de 2004. em um de seus comentários. Um péssimo exemplo de exploração da mulher como simples objeto sexual descartável.Pedrinho A.. chega a afirmar: Esses shows são enganosos. os buracos nas fechaduras são simulados.. Florianópolis: EDUFSC. mostrando os atrativos da moça. as portas que as protegem são trapaças.99). após a exclusão da participante Sabrina. Sinceridade e verdade versus cinismo e hipocrisia Um questionamento bem mais profundo pode ser feito a esse tipo de programa: O quanto ele representa de verdade e o quanto há nele de hipocrisia? Alberto Dines (apud VIEIRA.11-35. p. Outro simplesmente diz: Venho denunciar o mar de pornografia que é livremente transmitido diariamente pela TV-Globo no programa Big Brother Brasil. Para tentar garantir a audiência desta baixaria. n. Revista de Ciências Humanas. e a masturbação coletiva só tem um objetivo: ludibriar a realidade.. Foi constrangedor ver o Pedro Bial provocar os telespectadores para que.] destacava uma das participantes com um texto apelativo ao extremo. 2002. abril de 2004 . tratando-a como uma peça de carne no açougue. incluiu cenas da tal moça praticamente nua. a qual [. estas privacidades são falácias.

cínicos lances.] essa potência humana já escreveu a história do planeta com letras de sangue. As emoções são fictícias. quando externalizam esse grande poder que trazem consigo. O cinismo já montou doutrinas capazes de convencer que algumas pessoas devem sempre estar por cima de outras. precisam alimentar-se com uma certa dose de menosprezo pelos semelhantes.. Sobre isso. Muitas pessoas acreditam religiosamente que toda aquela trama é sincera. Risos cheios de suspeitas soam como punhais de traição.. em que se coloca. Os atores. como em um tubo de ensaio. futricas.11-35. o que é passado aos lares são mexericos. No fim de um programa. Revista de Ciências Humanas.101) diz que: [. apresentada nas cenas desses programas. a verdade do dia-a-dia. para realizar essa façanha. ou seja. nunca se sabe se um sorriso significa o que um sorriso deveria significar. mesmices e algumas cenas provocantes de sexo. p. Florianópolis: EDUFSC. artificial. de humor criativo ou de situações inusitadas e divertidas revela uma quase doença emocional. aquilo que o ser humano tem de mais assustador. pela própria vida e pelas circunstâncias. é criada. aqueles que acompanham as cenas. uma tragédia dos que preferiram ver a viver. n.35. a sua capacidade de jogar com a vida dos outros.. Nessa situação. A abundância de risadas desprovidas de sentido e de senso do bem.. Uma última consideração é o fato de que o programa cria um laboratório perigoso. Seria triste considerar válido o que os participantes do programa vivem. A alegria não é sincera. p. e a falsa emoção é o fim da emoção. há uma multidão prostrada. Mentiras bem maquiadas podem seduzir.32 — Big Brother Brasil: a banalização do cotidiano Na verdade. Alegria como máscara é uma das mais pérfidas criações do ser humano. Vieira (2002. Reinos e nações foram sacrificadas por causa da desfaçatez de uns poucos. Tem-se a impressão de uma pantomima espontaneísta: de um lado. fazendo uma mímica patética. atores fazendo de conta que acreditam em tudo e que gestos e conversas são frutos da mais casta naturalidade. é a pior face da convivência humana. de outro. confirmam que acreditam que as pessoas do vídeo acreditam. Nesses arremedos de realidade que a TV tem produzido. a verdade tem passado por provas terríveis. após tantas hipocrisias e tantos enganos. Além do mais. abril de 2004 .

A emissora responsável pela produção garantiu que uma eventual guerra de egos entre os participantes e a interferência do público. M. construtivo. com a análise feita.) Brasília: Ed. Cremos que tal programa é o que se pode considerar um tipo de “vingança” dos indignados com tal gênero. O material que fosse produzido em seus computadores portáteis seria mostrado pelas câmeras. p. como um desafio aos responsáveis por tais programas. com o título: Vous connaissez la nouvelle? – que poderia ser traduzido como: Sabe da última?. n. num espírito negativista e destrutivo. Guareschi e Laura Helena Pelizzoli — 33 Alternativas A pergunta que naturalmente nos fazemos é a seguinte: Não seria possível aproveitar a novidade do programa para coisas mais humanas e mais inteligentes? Cremos que sim. resolveram adaptar o programa a um estilo culturalmente mais aceitável. respeito por tantas pessoas que manifestaram ressalvas sérias aos programas e que merecem ser ouvidas nesse diálogo que constrói uma ética como instância crítica do dever ser. mais provocante e atraente. humanizante. não é apenas criticar por criticar. educativo. 1985. da G. In: KURY. Os franceses.Pedrinho A. Ética a Nicômacos. Gostaríamos de que nossa análise fosse. para que eles possam superar tais limitações e colocar a mídia. tanta engenhosidade poderia ser empregada para algo melhor. por meio de uma ação comunicativa. de fato (e essa é sua tarefa fundamental e primeira). não tão acostumados a tais baixarias. gostaríamos de repetir que nosso intento. libertador. de um lado. inteligente. garantiriam momentos de grande excitação intelectual. crescimento e a educação de toda a população. de outro lado. por exemplo. O que nos anima é ver que tanta criatividade. por isso mesmo. Florianópolis: EDUFSC. (Org. tomada como. abril de 2004 . como um serviço público para o entretenimento. Como conclusão. e. bem-estar. Os participantes são quatro escritores que ficam fechados em uma casa com a missão de produzir um conto de dez páginas cada um.35. da Universidade. Referências bibliográficas ARISTÓTELES. Revista de Ciências Humanas.11-35. que poderia enviar sugestões e críticas aos escritores.

Teoria Crítica: Habermas e a Escola de Frankfurt. The context of Social Psychology. Caderno Mais. e LIMA LOPES. M. In: DOS ANJOS. F. J. Ética e Direito: um diálogo. (Ed. e TAJFEL. R. Apresentação. J. Liberta o pobre! Petrópolis: Vozes. SP: Santuário. G. Stanford: Stanford University Press. 31 mar. 2002. M. Aparecida. Ética e Direito: um diálogo. n. J. KOHLBERG. L. 1994. COSTA. DOS ANJOS. ISRAEL. 2002. Exigências éticas da ordem democrática. Aparecida. 1972.123-211. F. R.04. A cognitive-developmental approach to socialization. C. H. 1986. Crítica. Consciência Moral Emergente. Folha de São Paulo. p. 1992. LIMA LOPES. In: ISRAEL. Aparecida. 31 mar. 1969. São Paulo: Edições Paulinas. L. BUCCI. p. KEHL. J. Revista Época. 2003. R. p. Pesquisa Qualitativa com Texto. SP: Santuário. J. Petrópolis: Vozes. R. In: MACCOBY. C.04-05.08-09.87. e SUZIN.34 — Big Brother Brasil: a banalização do cotidiano BAUER. J. e LIMA LOPES. abril de 2004 . P. 03 fev. E. SP: Santuário. Ética Comunitária. 17 fev. CNBB (CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL). R. F. M. e GASKELL. Londres: Academic Press. Caderno Mais. Imagem e Som.). E. GEUSS. A cognitive-developmental analysis of children”s sexrole concepts and attitudes. M. P. Chicago: Rand-McNallly. Folha de São Paulo. E. 1996. Ética e Direito – um panorama às vésperas do século XXI. M. Revista de Ciências Humanas. In: GOSLIN. p. In: DOS ANJOS. Florianópolis: EDUFSC. Stipulations and Construction in the Social Sciences. 1996. F. 1966. In: GUARESCHI. p. Handbook of Socialization. 2002. Folha de São Paulo. A emergência da consciência ética. D. Campinas: Papirus. E. L. FILHO. M. The development of sex-differences.35. GUARESCHI. 1988. 2002.11-35. p. DUSSEL. KOHLBERG.

P.. PEGORARO.: Free Press. Ill.. S. 2002. Florianópolis: EDUFSC. Big Brother. Petrópolis: Vozes. 2003. SEVERO.. n. Guareschi e Laura Helena Pelizzoli — 35 MEIRA. Aparecida: Santuário. Ideologia e cultura moderna: teoria social crítica na era dos meios de comunicação de massa. n. J. FORMOSO. PIAGET.35. p. J. R. Revista da Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul. Big Brother: uma compreensão psicanalítica para além do Record de audiência. Petrópolis: Vozes. C. 1996.Pedrinho A.2..16-22.11-35. LAMPERT. 1995 VIEIRA. abril de 2004 . S. NOTTI. C. Ética é justiça. p. A... GIRON. LUCCHESI.. THOMPSON. G. B. K. (Recebido em abril de 2004 e aceito para publicação em outubro de 2004) Revista de Ciências Humanas. JUNG. Glencoe. The Moral Judgement of Child. 1932. A. J. O.

Foucault, um arqueogenealogista do saber, do poder e da ética*

Inês Lacerda Araújo1
Pontifícia Universidade Católica do Paraná

Resumo Foucault aborda a questão do sujeito de forma a problematizar as filosofias de estilo cartesiano, as ilusões das filosofias do sujeito. Nosso objetivo é mostrar os passos essenciais dessa crítica em sua obra, ressaltando três momentos, o da objetivação do sujeito, o da sujeição ao saber/poder normalizador, e o da subjetivação através de tecnologias do eu. Para tal procede arqueogenealogicamente, relacionando as práticas discursivas com as práticas não-discursivas, para chegar ao sujeito moderno e à so-

Abstract Foucault deals with subject so as to criticize the Cartesian-style philosophies of the subject and their illusions. This paper aims at pointing out the basic steps of this criticism in Foucault”s work. Three moments are emphasized, namely the subject”s objectivation by the sciences, the subject”s subordination to power, and the constitution of the self by means of ego technologies. Foucault”s strategy is archaeogenealogical, i.e. he connects verbal practices with non-verbal ones, in order to understand certain

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* Foucault, an archeogenealogist of knowledge, power and ethics 1 Endereço para correspondências: Rua Raphael Papa, 557, Jardim Social, Curitiba, PR, CEP 82530-190 (ineslara@matrix.com.br). Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.35, p.37-55, abril de 2004

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ciedade disciplinar, controladora. Nesse sentido, as ciências humanas, especialmente a psicologia e a psicanálise, não libertam, pois também produzem verdade, não por razões epistemológicas nem ideológicas, mas por estratégias de saber/poder. Sua política da resistência concilia-se com uma política de constituição de si numa atitude estética, através de atos de liberdade, uma forma ética de existência. Concluiremos que isso é possível, mesmo com os jogos de verdade produzindo indivíduos sujeitados. Palavras-chave: Sujeito; arqueologia do saber; genealogia do poder; psicanálise; ética.

aspects of modern subject and society as a normative, controlling institution. In this regard, Psychology and Psychoanalysis represent strategies of both power and knowledge. Foucault”s resistance to politics stems from his aversion to the policy of self-constitution from an aesthetic perspective, by means of free acts connected with existence as ethically conceived. The conclusion of this paper is that this is possible, given that subjected individuals are produced by certain games of truth. Keywords: Subject; archaeology of knowledge; genealogy of power; psychoanalysis; ethics.

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ste estudo resulta de uma observação que Foucault fez a respeito de sua obra, em uma entrevista a Dreyfus e Rabinow. Afirma que ele tratou de três modos de objetivação que transformaram o ser humano em sujeito: as práticas discursivas (domínio do saber), as práticas disciplinares (domínio do poder) e as confessionais (domínio da ética).
Segundo Habermas, em O discurso filosófico da modernidade, Foucault desenvolveu sua tese de que o poder – e não as épistemês – é responsável pela constituição do sujeito, pela vontade de saber, porque teria ficado “irritado com a afinidade que obviamente existe entre sua arqueologia das ciências humanas e a Crítica de Metafísica da Idade Moderna de Heidegger” (1990, p.251). O conceito de ser não sai da autotematização do sujeito. Discorda-se aqui dessa interpretação de Habermas, uma vez que a Foucault interessa quais são as regras de formação dos discursos, ao passo que Heidegger voltou-se a uma interpretação da história do ser dos entes, a verdade é avaliada pela historicização do ser dos entes. Já Foucault preocupou-se com as interpretações provenientes de práticas de poder, como mostrei no último capítulo de Foucault e a crítica do sujeito. Isso não quer dizer que Foucault não admirasse a obra heideggeriana, que não fosse um leitor atento de Heidegger (cf. ARAÚJO, 2000, p.197). Em Dits et écrits (v.IV, p.703) afirma: “Todo meu futuro filosófico foi determinado pela minha leitura de Heidegger [...] Tentei ler Nietzsche nos anos 50, mas Nietzsche sozinho não me dizia nada! Ao passo que Nietzsche e Heidegger, isso foi um choque filosófico!” (1994, v.IV, p.703).

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Para tanto, ele procede como um arqueólogo, escava os domínios do saber de uma época que estão estabilizados em formações discursivas, e servem como material para a crítica que o genealogista faz do poder desses mesmos discursos, quando relacionados a práticas não-discursivas, como as disciplinares, as tecnologias do eu, a normalização. O procedimento arqueogenealógico O domínio de trabalho de Foucault (1926-1984), o campo de sua reflexão, é a história do presente, a questão de como nos tornamos esse indivíduo que objetivou a si por meio de ciências (As palavras e as coisas e Arqueologia do saber), esse sujeito dividido em normal e anormal, disciplinado, controlado (História da loucura e Vigiar e punir), e esse sujeito que forjou tecnologias para constituir um “eu”, uma subjetividade (História da sexualidade). As marcantes influências em seu pensamento foram o movimento estruturalista, a história “epocal” do ser de Heidegger2 e, principalmente, a genealogia de Nietzsche. Da epistemologia francesa, ele retirou as noções de descontinuidade, de irrupção, de acontecimento discursivo, que compõem sua arqueologia. Para isso, ele analisa os delineamentos, os arquivos do saber de uma época, tal como se fosse um trabalho de arqueólogo, mostrando como eles são constituídos de diferentes formas em cada épistemê, de modo a responder a diferentes necessidades. Um objeto não se encontra pronto na realidade, bastando ir até ele, descobri-lo, estudar sua organização interna. Um objeto é armado numa trama de relações nas chamadas “formações discursivas”, que permitem mostrar seu lugar e seu uso por um dado saber. Por exemplo: o modo como a loucura entrou no campo do saber médico faz da loucura objeto de saber; a tendência da modernidade em “psicologizar” e “medicalizar” as relações humanas faz da normalidade o parâmetro de avaliação do corpo saudável; o tema da circulação das riquezas mostra a moeda como meio universal de troca; o ser vivo, como tendo uma estrutura invisível, dá início à vida como objeto por excelência da biologia. Foucault vê o homem como um ser que pensa a si próprio e o faz de modos diferentes em configurações históricas também diferentes. Daí fazer a história dos diversos modos pelos quais ele pensou e como esses modos de pensamento se ligam à sociedade, à política,
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à economia, à história e também a certas categorias bem gerais, bastante distantes de princípios ou formas a priori de uma racionalidade transcendental. Ele não faz uma história das idéias, nem uma história da evolução da ciência, nem sobre se certo pensador ou cientista está correto ou não. Foucault analisa o modo como o saber se dispõe, vai se constituindo, fabricando temas e produzindo verdades. Seu objetivo é mostrar que, se os saberes foram sendo produzidos, não se deve tomá-los como simplesmente verdadeiros ou falsos, o que pode interessar do ponto de vista epistemológico, mas não do ponto de vista arqueológico. Assim, podemos criticar e destruir certas evidências, certas certezas, uma vez que estaremos desobrigados de comensurar, de fazer ciência. A partir de fins dos anos 1960, com Ordem do discurso e textos preparados para as aulas no Collège de France, reunidos numa edição italiana sob o título de Microfísica do Poder, Vigiar e Punir e História da Sexualidade, Foucault adota o procedimento genealógico, o qual se mostra mais apropriado para pensar certas práticas, como a loucura (mesmo sendo História da loucura anterior, nela o poder já era questão), a medicina, a prisão, a sexualidade. Trata-se de práticas não discursivas que sujeitam os indivíduos a mecanismos de poder; o indivíduo moderno “nasce” de relações de saber e poder; os sistemas filosóficos e as ciências, especialmente as ciências psicológicas e as ciências bioestatísticas, que são vistas pelo ângulo epistemológico e consideradas como métodos de conhecimento, para Foucault, em contrapartida, são um produto de certas transformações históricas. O genealogista aborda as práticas que tomam o ser humano como objeto de estudo científico, cujo resultado é a formação de um novo tipo de saber. Esse saber, afirma Foucault, “é organizado em torno da norma que possibilita controlar os indivíduos ao longo de sua existência. Essa norma é a base do poder, a forma do poder/saber que dará lugar não às grandes ciências da observação [...], mas àquelas que chamamos de ‘ciências humanas’: Psiquiatria, Psicologia, Sociologia” (1994, p.595). Entendemos, ao contrário da maioria dos estudiosos de Foucault, que o procedimento genealógico não substituiu a descrição arqueológica, isto é, não dispensou o uso dela, porque o tema do poder já estava presente na descrição arqueológica dos discursos. O procedimento arqueológico continua apropriado para circunscrever as práticas discursivas, enquanto o genealogista relaciona-as às demais práticas. Dentre os estudiosos que consideram haver duas fases distintas na obra de Foucault,
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Inês Lacerda Araújo — 41 estão Habermas. Merquior.. 1984c. transformado e até mesmo destruído. Revista de Ciências Humanas. em seguida. considerando-as material fundamental para o genealogista trabalhar. afirma que o foco deslocou-se “da ordem do discurso para as práticas sociais” (1990. A arqueologia é posta a serviço da genealogia. a mesma interpretação é dada por R. insiste na diferença entre as abordagens arqueológica e genealógica. e. especialmente em suas últimas obras. nele a função do arqueólogo não desaparece. desestabilizador das evidências. Florianópolis: EDUFSC. p. Eribon que. p. abril de 2004 . como ele afirmou em entrevista a Dreyfus e Rabinow. Não há necessidades universais na existência humana. tem um lugar. porque o tema central não é o poder. conceitos. n. o qual sustenta que “agora.97).351). como se depreende de sua Introdução à coletânea Microfísica do poder. e assume uma nova feição. para dar conta desse tema.218). Isso implica que Foucault descreve o modo como um objeto se delineia para o saber. Consideramos Foucault um arqueogenealogista. que diz que Arqueologia do saber e A ordem do discurso. que consideram que Foucault elabora uma análise interpretativa. pode ser criticado. que localiza essas práticas e considera o seu papel para disciplinar. e. em que o arqueólogo usa as formações discursivas como meio para isolar temas.35. objetos de análise. p. Aquilo que se toma por óbvio é fruto de um certo tipo de dominação. onde mostra que a arqueologia explica como os saberes aparecem e a genealogia é uma análise do “porquê” desses saberes. medicalizar.128). p. Por isso mesmo. o nome do jogo é o poder” (1985. que. Tal como Nietzsche. os quais serão tratados pelo genealogista. O procedimento arqueogenealógico é crítico por excelência. em sua biografia. uma marca.37-55. e sim o sujeito. mesmo após a virada genealógica. em O discurso filosófico da modernidade. Machado. continua a analisar as formações discursivas. embutida em saberes que carregam poderes. Esse é o trabalho do genealogista..] a racionalidade interna dos discursos e das práticas que ela estuda” (DREYFUS e RABINOW. que concordou com ela. isto é. Eles propuseram essa hipótese ao próprio Foucault. normalizar. esse material é interpretado genealogicamente. Seguimos a tese de Dreyfus e Rabinow. crítico do presente. p. a de “reconstrução de sistemas de práticas que possuem uma inteligibilidade interna [. marcam o “fim de um período” (1998. Foucault considera que a filosofia pode mudar alguma coisa no espírito das pessoas. e que a própria humanidade produziu. mostra que aquilo que tomamos por evidente e certo foi saber produzido. e Ternes.

Ora. nem a proliferação de sentido. científicas). As recorrências. não há essências fixas. progressiva. p. que produzem poder. técnicas. atento a detalhes. daí haver espaço para a liberdade. contínua. pois se ocupou com a história de certas práticas discursivas e não-discursivas. confinar. a prisão. institucionalização de práticas. n. mostrando que têm sua proveniência e que. decorrem de certas medidas (jurídicas. a minúcias. a cientificização das relações humanas. não busca o sentido escondido. mas sim as dispersões. o comportamento humano é particular. o arqueogenealogista não é um exegeta. cujo funcionamento cria valores. Como não há o segredo. Sua crítica voltou-se para as práticas psicológicas. Elas formam um certo modelo de humanidade. causal. os erros. O genealogista faz a história dessas interpretações. Por isso. para a crítica e para certas mudanças. nem verdade fundamentada em moldes metafísicos. em suas relações com as práticas não-discursivas. cujas conseqüências mais evidentes são modos institucionalizados que nossa sociedade tem de excluir. Elas são produzidas por certos mecanismos de saber. detectando nossas máscaras. Florianópolis: EDUFSC. Enquanto a história tradicional é finalista. para a criação. os jogos localizados dispensam a busca de um sentido mais profundo. os acidentes. as “velhas mentiras”. para as práticas autoritárias. As instituições são arbitrárias.42 — Foucault. portanto. um arqueogenealogista do saber.35. muitas vezes. Revista de Ciências Humanas. mediante regras. que. Enfim. leis de base. não faz hermenêutica. porque as interpretações foram impostas e os limites são elas mesmas que traçam. estabilização de sistemas. abril de 2004 . a disciplinarização da escola etc. poder. para as medidas que garantem governabilidade (aquilo que os administradores têm chamado de “gestão”). quer dizer. que passa por universal. como expressa Nietzsche. penitenciárias. O sujeito moderno é fruto de certas interpretações. para o genealogista.37-55. que provêm de práticas. pois tudo é já interpretação. saber. uma idéia normativa do comportamento humano. marcar. Por exemplo. ao mesmo tempo. pedagogizadoras. circunstancial. trata-se de práticas discursivas produtoras de saber. e são. Foucault não é um filósofo sistemático. do poder e da ética o filósofo/historiador vê o lado cinza da história. Seu olhar contempla a superfície. cabe questionar o hospital psiquiátrico. criadas. cristalizam-se em essências. médicas. o alvo desses saberes. e o que ele analisa e deixa à mostra não é a verdade.

Assim Foucault foi. sua questão principal. provenientes de certos fatores e mudanças culturais. analisa a subjetividade como uma construção relacionada a modos ou técnicas de si. e provavelmente ainda é.35. os homens não cansaram de se construir a si mesmos. O filósofo não responderia. responsável pela identidade. em contrapartida. Já as filosofias da linguagem e o estruturalismo representaram uma saída interessante para os impasses provocados pelas filosofias do sujeito. não merece assento no tribunal da razão. como veremos logo mais. Foucault estudou a loucura (irracional). como ele não cansou de dizer em várias entrevistas.37-55. responsáveis pelo sujeito moderno. Afirma Foucault em Dits et Écrits (1994. a biologia (vivo). p. fracassaram. as chamadas tecnologias de si. provavelmente. muitas vezes rejeição. não deram conta de como os sistemas de sentido e as significações formam-se. 20 anos após sua morte. saber e poder acerca de si mesmo. normalização. Foucault não pertence a nenhuma dessas escolas ou opções teóricas. isto é. As filosofias do sujeito. abril de 2004 . por meio da análise das formas históricas que produziram certos jogos de verdade. As ciências humanas produziram jogos de verdade. exclusão. O projeto que resume suas obras é o seguinte: a) Exame das teorias do sujeito como falante. logo. Foucault. v. vivo e produtor. p. reservaria o riso silencioso de quem apenas considerou imprescindível criticar a cultura moderna.IV. Foucault perturba com esse seu estilo cáustico de pensar. como realidade histórica e cultural. sujeito suscetível de se transformar. n. um filósofo que provoca polêmica.Inês Lacerda Araújo — 43 Por subjetividade. Alguns consideram que ser filósofo é ser racional. objetivaram o homem por meio de ciências que não são ciências humanas. ora. a maioria das pessoas entende uma espécie de eu estável. c) Análise das formas de subjetivação. a economia (produtor) e filologia (falante). na relação de si para consigo. porque não produziram novidades no campo do saber e porque. algo profundo. pessoal. intransferível. Florianópolis: EDUFSC.75): “No curso de sua história. produção de verdade. foi a questão da genealogia do sujeito moderno. porque seu pensamento põe em xeque conceitos e categorias que aceitamos sem exame crítico. como filosofias do sentido. b) Estudo de instituições que fizeram dos sujeitos objetos de dominação. Revista de Ciências Humanas.

ou seja. o do poder. animalescas. isto é. mas faz parte ou deveria fazer parte de estilos de existência pautados por atos de liberdade. As coisas falam. A representação. Ainda assim. no século XVII. que organizam. em fins do século XVIII. De fato. ciências acerca da vida (Biologia). bastando um olhar decifrador para descobrir as simpatias e antipatias que reinam no mundo. produtor e falante pudesse servir como objeto de saberes que o objetivam. ordena o caos do mundo. abril de 2004 . em torno da figura homem. Essa relação da ética e dos estilos de viver. Foi necessário surgir. por meio de formas. aquele que dá sentido àquilo que vê. com a sexualidade. ao mesmo tempo. O saber: crítica às filosofias do sujeito Em As palavras e as coisas. É impossível que o homem. de se constituir através de uma série infinita e múltipla de subjetividades diferentes e que não terão fim. Las Niñas de Velásquez traduz a epistémê.44 — Foucault. em pleno ato artístico.37-55. do poder e da ética de deslocar continuamente sua subjetividade. Florianópolis: EDUFSC. e. figurasse nesse mundo mágico. que não poderiam deixar de ser atos éticos. ilumina com sua racionalidade e capacidade analógica. o do domínio da problematização da ética e estética. Representar exclui justamente a possibilidade de qualquer interrogação acerca daquele para quem o quadro é exibido. sexualidade não é impulso biológico. finalmente. Revista de Ciências Humanas. n. todo um conhecimento e que. aquele que conhece é um sujeito universal. ligados à questão da sexualidade. o eu é transcendental. como sujeito que conhece e como objeto de um saber. p. com as formas subterrâneas. finito.35. Foucault ilustra o modo de saber do século XV-XVI. da verdade e sexualidade. Percorreremos essa trajetória em três momentos: o do saber. Descartes analisou o cogito. para que alguém encarnado. mutável. a tradução num discurso daquilo que o pensamento vê. enquadra. mostram que aquele que conhece é concreto. é quem pensou que há um sujeito de conhecimento que organiza. e os signos estão nas coisas. já no limiar da modernidade. um arqueogenealogista do saber. e não nos colocarão jamais diante de algo que seria o homem”. tampouco estava falando do homem. do trabalho (Economia Política) e da linguagem (Filologia). histórico. a experiência. fantástico. a configuração do saber clássico: é representada num quadro a cena do pintor em seu estúdio. por ele chamados de estética ou estilística da existência. o eu penso. Quando. o pintor autoretratado ignora o espectador. Kant. geralmente causa estranheza. Para Foucault. demoníacas da pintura de Bosch.

para ser pensado. uma vez que o incognoscível. nada disso pode ser considerado o “sujeito mesmo”.35. empírico. Ora. afirmar como os existencialistas que o homem é liberdade. iludir. mistificar a própria condição humana.Inês Lacerda Araújo — 45 No lugar do “eu penso” de Descartes. trabalhando e significando. O homem pode e deve exercer a liberdade. Desconhecer que os produtos humanos não podem servir de fundamento ou de decifração de uma suposta essência humana. Sua história é de luta. pequenas. Essas observações permitem compreender o papel do estruturalismo como “consciência inquieta” de nossa época. A percepção dessa tensão conflituosa é crítica. não fornece nenhuma certeza. há. a própria linguagem falando. a Psicanálise. isto é. Seria preciso supor um sujeito supra-histórico para doar sentido último e definitivo. abril de 2004 . daquilo que estrutura o homem. que variam. Revista de Ciências Humanas. n. chamadas por Foucault de “contraciências”. O homem é o “estranho par empírico-transcendental”. Não pode igualmente. como fundadores do sujeito. são ciências da estrutura. Para Foucault. tudo isso leva a trapacear. corrói. ao contrário do que pensa Sartre. a Etnologia e a Lingüística. Sua forma de pensar é determinada pela sua vida finita. Florianópolis: EDUFSC. não há uma essência humana. pois o material que a história produz e fornece para a análise será inexoravelmente histórico. pois é histórico. condicionado pelo conhecimento e condicionante do conhecimento. as filosofias do sujeito (fenomenologia e o existencialismo. muitas vezes. o positivismo. determinantes daquilo que é o sujeito. ignorar os jogos de verdade que nos constituem. o homem vivo. o inatual impedem qualquer acesso livre ao cogito. o sujeito é constituído por práticas. e não porque ele seja liberdade em sua essência. o inconsciente. ou seja. acabam por dissolver o homem como lugar de origem da consciência. Foucault mostra que o movimento estruturalista foi como essa novidade no panorama intelectual e político das décadas de 1950 e 1960. ao contrário. à qual ele jamais poderá aceder absolutamente. ao contrário das filosofias antropologizantes. uma vez que são formas também elas finitas. mina. o inconsciente. elas tomam o vivido. a história como explicação do homem e a produção humana. portanto. p. pois aquilo que permite conhecê-lo como finito. entendida como condição ontológica fundamental. uma vez que as novas ciências. Isso é uma incongruência.37-55. ao se constituir. As estruturas. que seria sua existência. encontrar uma origem primeira. mesquinhas. o discurso do doente. o marxismo).

como razão. podemos melhor avaliar o que representou Lacan. Freud. o estruturalismo funcionou como aguilhão crítico aos humanismos redentores. Foucault contrapõe o concreto. n.37-55. o que prejudica definitivamente a visão hegeliana de uma racionalidade crescente. afirmando a dependência do sujeito quanto a significantes. nas quais funcionam regras. fixa. não tem como explicar por que. da existência como essência. pergunta-se Foucault. Sartre. ao postular o sujeito livre. abril de 2004 . há regras que constituem tanto o sujeito como o objeto. Às filosofias do sujeito. A loucura como objeto do saber médico-científico somente surgiu no século XIX. e a esse objeto correspondeu a construção de um sujeito “razoável”. então. isso tudo em meio a modificações históricas. não há como ater-se ao Mesmo. do poder e da ética servindo de oxigênio com relação às filosofias do sentido. esse saber não é inocente. sociais e culturais. em contrapartida pergunta: O sujeito é a única forma de existência possível? Não haverá outras experiências nas quais não mais é dado o sujeito? Não há experiências que possam quebrar a relação consigo na busca de uma identidade última. o problema do sujeito tornou-se imperioso. Após Schopenhauer. esse sujeito nunca se realizou plenamente! Foucault. ao sujeito como categoria. Desse modo. para o existencialismo de Sartre. no modo de produção ou mesmo no dasein). ao analisar os mecanismos do inconsciente. doador de sentido ao mundo. Ora. como mente. Se pensarmos que. p. sem condicionamento. não buscar sempre? Para Foucault. mesmo porque há diversas culturas. único. No caso da loucura. uma nova subjetividade. que pode conhecer a loucura. Lacan mostrou a inutilidade das filosofias do sujeito. É ingênuo pensar numa essência humana. Nietzsche. não há inconsciente (Sartre chegou a afirmar que o estruturalismo “é o último refúgio da burguesia”).46 — Foucault. O sujeito modifica-se por meio daquilo mesmo que ele conhece. a análise do surgimento de formas de saber que constituem o sujeito. das experiências vividas e organizadas por um eu transcendental. um arqueogenealogista do saber. de um “eu profundo”? Por que. Florianópolis: EDUFSC. e o saber/poder opera uma nova relação do sujeito consigo. como mostrou Lévi-Strauss. Revista de Ciências Humanas.35. o que pode levar a construir novos objetos e novas formas de subjetividade. não voltar sempre. Nesse sentido. às identidades. prejudica igualmente a busca de uma essência para o homem (esteja ela na existência. Nele funciona um certo tipo de poder. a racionalidade.

há um tipo de poder relacional que produz o indivíduo como sujeito. jurídicopolítico. abril de 2004 . um poder relacional. essa é uma modificação na ordem do saber e também das funções dos discursos médicos. corrigido. num modelo tradicional. pelo controle de taxas de natalidade.Inês Lacerda Araújo — 47 por exemplo. Para ajustar a população crescente aos mecanismos de produção capitalista. Para ele. Florianópolis: EDUFSC. sua anatomia. a punição. Ao mesmo tempo. de modo tal que ele possa exercer suas atividades com o mínimo de dispêndio de energia e o máximo de eficácia. em dois sentidos: sujeitado ao saber do outro e podendo pensar a si mesmo como sujeito. n. Revista de Ciências Humanas. Pelo ângulo de um poder concebido como exclusivamente repressivo. examinado. Não é esse o ângulo de Foucault. com Freud e também com Lacan. a partir da segunda metade do século XVIII. como muitos apressadamente concluem. Foucault inverte sua relação com a psicanálise. Seu corpo. objetivando a loucura como doença. em sua história. O modelo jurídico-político-formal de poder não dá conta do funcionamento dos mecanismos da sociedade disciplinar e da vontade de saber e de como. Ora. que implica saber e poder do médico. um novo tipo de subjetividade foi forjado. políticas de saúde pública e outras práticas que transformam a sociedade em uma eficiente máquina de produção. o controle das populações por parte do Estado. surgiu um novo tipo de poder. produtor de uma anatomopolítica dos corpos. produzindo verdades que acabam por ser um instrumento para a exclusão. vigiado. Nesse momento crítico. p. explicar tudo pelo poder. o capitalismo crescente e a urbanização produziram o espaço médico do asilo.37-55. O poder como estratégia: controle do corpo como controle da “alma” Há um novo modo de subjetivação. a sexualidade não tem o papel de liberar. Nessa sociedade disciplinar. a biopolítica tece mecanismos de regulação das populações. é possível considerar o indivíduo como esmagado e sua individualidade destruída. a pretensão de Foucault não é.35. o sujeito é constituído. a vigilância. Ao analisar os mecanismos de poder. Seu ponto de partida é a análise de como os homens. a dominação. Seu resultado é o indivíduo disciplinado. a disciplinarização. torna-se máquina de produzir. de acabar com a repressão sexual. a normalização. tem serventia política. ao se modificarem as relações de poder. relacionam-se uns com os outros.

e sim fabricante. normalizável. Para um genealogista.I. ou. pois mostra qual é a verdade do analisando. erroneamente. pelo menos. forjador de uma subjetividade. Revista de Ciências Humanas. pois há de dizer tudo. do poder e da ética Como entender que. é libertar. e toda essa verdade acerca de nós mesmos que está desperta nele [no sexo]”. Esse discurso “promete ao mesmo tempo nosso sexo. é desalienar. A vontade de saber).35. em História da sexualidade (v. A confissão constitui um sujeito sujeitado ao saber do outro que o analisa. aquela de um sujeito subjetivado por práticas voltadas de si. diz Foucault em Dits et écrits (1994. dessa política da revolução pela liberação sexual pressuponhase. nada esconder. p. ao mesmo tempo da terapia e do jogo de verdade. posto que é invisível. abril de 2004 . por ser instado a dizer o sexo. um certo modo de praticá-la. acabou por produzir um discurso. A psicanálise. ele critica a proposta de um Reich ou de um Marcuse. determinante. o sexo. Esses saberes acerca de si favoreceram a tomada do indivíduo pela sociedade disciplinar como alguém passível de cura. um arqueogenealogista do saber.48 — Foucault.37-55. há de ser veraz. pronto a responder de modo eficiente aos sistemas. de modo que. Foucault propõe um novo modo de pensar o discurso da psicanálise. como observa Eribon. como sendo criador de um novo tipo de subjetividade. de certa forma. a colocá-lo em um discurso para dele extrair a verdade do sujeito. em História da loucura e especialmente História da sexualidade. Florianópolis: EDUFSC. Foucault desconfia de que. uma técnica de si típica da modernidade. o modo como o saber sobre o sexo. mais violento. Assim. o saber de cunho científico sobre o sexo e o papel das verdades resultantes forma um tipo de subjetividade que depende de uma tecnologia do eu de estilo confessional. Ele é mais sutil e. de que “desreprimir” o sexo é liberar. insta a dizer a verdade sobre o seu “eu” mais recôndito. v. em vez de a psicanálise servir ao discurso crítico. isso soa no mínimo como bizarro. O poder aliado ao saber não pode ser considerado exclusivamente pela sua força sufocadora.IV. que é possível ao sujeito humano ser livre e que essa política de libertação/liberação anularia o poder. calcado num modelo de saber médico-científico. n. Nessa nova perspectiva. ela passe a alvo do discurso crítico? Foucault analisa. inserção no diagnóstico. aquilo que há de mais obscuro em seu si próprio. que o conhece.118). principalmente ao da produção. pois o poder sobre a sexualidade não é sufocador ou repressivo. o verdadeiro. p.

Até hoje. com Lacan. como resume em A vontade de saber. O desejo vem junto com o poder. Contudo. modificá-las. investindo em prazeres.Inês Lacerda Araújo — 49 Pode-se. com razão. A ética dos atos de liberdade Ao lado das técnicas de comunicação e significação. que. em todas as sociedades. Mas. mas lei psíquica. Foucault mostra que é preciso pensar o sexo sem a lei e o poder sem o rei. não se pode ir a ele. como instância da lei. o sujeito está sob o poder da lei. de estilo jurídico. A política seria resistir e não se libertar. muda a concepção de desejo. o Significante. Lacan critica o discurso da repressão. de qualquer forma. A lei é constitutiva. denunciar o dispositivo histórico-cultural da sexualidade. dito. n. Revista de Ciências Humanas. tal como concebido por Freud. os estóicos propuseram cuidar de si. de produção e de dominação. a resistência não lhe é exterior. Ora. visto não mais como puro instinto sexual. portanto. enfim. abril de 2004 . Florianópolis: EDUFSC. Em outras palavras. é preciso afirmar os corpos e os prazeres. o sexo é “afirmado”. Por isso. Foucault analisa as práticas de si dos gregos na época clássica como suscetíveis de conduzir o indivíduo. Pode ser. A psicanálise mudou seu discurso. o poder é assim representado. chegar ao eu mais profundo etc. mas como falta. que. em grande medida. Ao olhar do genealogista. pelo bom uso dos prazeres. O “sujeito de desejo” é uma invenção histórica. nesse caso. Está-se sob a Lei. foi e é bastante influente. surjam novos tipos de subjetividade. intransponível. a Palavra. pois mudou a concepção de desejo. obrigação. é possível transformações com relação à subjetividade. objetar que Lacan nunca pretendeu liberar. poder jurídico que o sustenta. instaura o desejo. sem poderes locais. de um Marcuse. inclusive. porque o crescimento do Estado em grandes proporções deveu-se. não muda a concepção de poder. a alma. libertar. esse poder não funciona sem micromecanismos. entendido como lei. os pensamentos. se. não é a lei institucionalizada do direito. para apreciá-las. p. castração.35. ao poder do direito. surja um novo modo de desejar ou de pensar o desejo. como impondo pela lei. de um Reich. Nesse sentido. lei. o poder produz e funciona de modo relacional. a uma bela e compensadora vida. Foucault justamente critica o contrapor ao sujeito um poder de tipo jurídico. Mais tarde. no lugar de uma análise do desejo. há técnicas para agir sobre os corpos.37-55. o poder soberano. da interdição. as condutas.

mas cuidar de modular os prazeres a fim de exercitar-se em uma vida exemplar. armar o sujeito de uma verdade sobre si. meditar. é virtuoso aquele que é fiel a sua esposa. Mais uma vez. do poder e da ética cuidar da alma. Era preciso cuidar. Para os gregos. a partir do cristianismo. a substância ética. abril de 2004 . e não a sexualidade. O modo de sujeição à regra vem de uma escolha pessoal. a abordagem volta-se para a problematização da ética. a fidelidade passou a ser uma obrigação legal.37-55. ética implica não códigos ou regras morais. Assim. o corpo saudável.50 — Foucault. pois se autogovernar é também saber governar a polis. era preciso fazer de sua existência uma bela existência. numa moral sexual com obrigações restritivas. não porque há uma regra imposta. a relação consigo mesmo. Por exemplo. como tarefa para toda a vida. eram os prazeres. para ter uma bela existência. importando a atividade e a reação pessoais.35. um arqueogenealogista do saber. e não a obrigação a um universal “tu deves”. por meio de seus atos. sonhos. A moral do cristianismo codifica o que é permitido e o que é proibido. ocidentais. em dependência de um auto-exame e de um comportamento rigidamente regrado. Observe-se que não se trata de chegar ao que o sujeito é mesmo. temos Foucault mostrando que tudo se dá na superfície histórica de práticas criadas por necessidades humanas. a sexualidade. mas a constituição de um sujeito moral. são os sentimentos. O prêmio. Florianópolis: EDUFSC. por meio da escuta de conselhos. para nós. modernos. vale mais governar-se a si próprio. jurídica. não desperdiçar o simples e direto desejo. justificada pela religião. A confissão no cristianismo foi outras dessas práticas em que o “conhece-te a ti mesmo” exigia um exame de atos. p. levando a uma ética da renúncia de si. realizado de modo que o indivíduo não perdesse o controle de si. que modula essa regra. o bom uso desses prazeres. n. o cidadão torna-se inapto e indigno de bem governar os outros. Nos dois últimos volumes de História da sexualidade. entre os gregos. Santo Agostinho aconselhava a dominar a libido. não é a vida eterna. sem os constrangimentos de regras impostas para comportar-se. Uma vida ascética levaria a alma à vida eterna. evidentemente. Revista de Ciências Humanas. Para ele. Muito diversamente. sem autodomínio. o que mostra um tipo de constituição da subjetividade. mas refletir para que sua vida e aquele seu dia fosse proveitoso. a conduta que requer autonomia. mas porque. isto é. A substância ética para os cristãos era a carne e. uma hermenêutica de si voltada para a elisão dos pecados da carne e da concupiscência. desejos.

p. Não há mais uma verdade cultivada por um modo ou estilo de viver.IV. isto é.35. se não diz tudo sobre a psicanálise. o que.Inês Lacerda Araújo — 51 Hoje. afirma Foucault. passou a valer como purificação. Revista de Ciências Humanas. mas uma verdade produzida por um saber/poder. como “técnica de trabalho de si para si fundada na confissão”. dizer o não-dito. em Dits et Écrits (1994. Florianópolis: EDUFSC. mas. por si só. a existências cujo estilo seja a criação. Assim vista. Ele chama-a de cultura de si californiana. decifrando sua verdade. o que pode ajudar as pessoas. p. depois de depurá-lo das alienações. em compensação. a um belo e bom estilo de viver? Aí são necessários atos refletidos de liberdade. A libertação ou liberação de um domínio.665). um pouco. mas tampouco a garante e nem mesmo exige o apelo exclusivo a ela.IV. a luta política. Em lugar de jogos de verdade com pretensão ao conhecimento decifrador que prende o sujeito à verdade depositada no sexo.37-55. mas a liberação sexual. como se cria livremente uma obra de arte. n. não garante atos de liberdade. uma anatomopolítica e uma biopolítica. por exemplo) não invalida a eficácia terapêutica. porque os atos de liberdade dizem respeito a atos éticos. desapareceu a austeridade do código moral. mostra como ela se difundiu. um modo de relação de si para consigo. propõe uma estilística da existência. abril de 2004 . disse Foucault numa entrevista. em tudo diversa de uma estilística da existência. dos quais decorre poder (a psiquiatria. em que se chega ao verdadeiro eu. pois está sob o signo do ter de dizer. revelação do escondido. v. da verdade produzida por um saber cujo poder é o de investir num certo tipo de controle dos corpos e das populações.402). Cria um personagem se estruturando em torno do exame de seus desejos sexuais. sem os quais não há ética. Note-se que estar ligado a jogos de verdade. “graças a uma ciência psicológica ou psicanalítica que pretende ser capaz de dizer a você qual é o seu verdadeiro eu”. Decifrar sua verdade faz parte do si mesmo moderno. que devem surgir de uma relação com os outros livre para a prática e invenção de tipos de subjetividade que conduzam a novas formas de vida. (1994. Há uma cultura de si em certos meios dos EUA e da Europa. Como fazer ou o que fazer para aceder a um modo de ser. há uma relação entre a obrigação legal e a abordagem médico-científica. desde os cristãos. Confessar. como o xamã ajuda aquele que nele acredita. Foucault contrapõe a essa cultura da vontade de verdade uma ética do cuidado de si como prática da liberdade. v. trata-se de uma técnica de si. é sempre necessária. A psicanálise difundiu-se na sociedade moderna diz ele. em Dits et Écrits. p.

talvez seja preciso aviventar um pouco o estilo grego ou o estilo estóico. p. moldar um estilo seu de ser. sua própria vida.402). v..IV.35.. que se resolveria o problema. pois poderes locais somente podem ser combatidos com lutas locais. n. um arqueogenealogista do saber.. Desejos. p. do poder e da ética Liberar-se para praticar sem amarras a sexualidade não basta para um relacionamento de si para consigo completo e feliz. pulsão. prazeres e atitudes devem ser afirmados por atos de liberdade. Na sociedade disciplinar. verdades. é evidente que é liberando seu desejo que saberemos como conduzir-nos eticamente nas relações de prazer com os outros (FOUCAULT. interdito. não para chegar às profundezas de um eu. p. é si-mesmo. repressão.711).52 — Foucault. não para o prêmio eterno. esquecida. interiorização. abril de 2004 .IV. bela e boa. quer dizer. liberandose. Florianópolis: EDUFSC. para os quais faz sentido uma vida exemplar. Como ela anda escassa. E aí creio que se erra totalmente – e sei que caricaturo aqui as posições muito mais interessantes e agudas de numerosos autores – o problema ético que é o das práticas da liberdade: como é que se pode praticar a liberdade? Na ordem da sexualidade.37-55. 1994. e fazendo ultrapassar esses interditos. adianta afirma que a ética nada mais é do que a “prática da liberdade. a prática refletida da liberdade”. saberes.. a sociedade da norma e da extração da verdade de si como via única para a subjetividade.] o problema era inteiramente da ordem da liberação. Para dizer as coisas um pouco esquematicamente. discursos. Logo. mas para construir. Nós modernos esquecemos [. a zona preciosa na qual se devem aplicar valores estéticos.] a idéia segundo a principal obra de arte da qual é preciso cuidar. Foucault não vê uma saída ou solução revolucionária para essa questão. Revista de Ciências Humanas. Sua proposta é resistir a esses poderes. v. sua existência (1994. A leitura reichiana de Freud supõe erradamente que: [. haveria desejo.

transformá-los. equilibrado. Florianópolis: EDUFSC. mas de prazeres. de amizades. numa espécie de luta interna. é uma possibilidade de aceder a uma vida criativa”. algo que pode ser moldado criativamente e não uma pulsão instintiva a nos governar e que nós teríamos de sublimar. os estados de dominação produzem brechas que dão margem para que se possa resistir a esses saberes e poderes e. por exemplo. É possível criar novas formas de vida. em vez de simplesmente liberar o desejo. A resistência às relações de poder flui de “práticas refletidas de liberdade”. o que não significa cultura ou moral hedonista.37-55. novas formas de nos relacionarmos.IV.35. mas vindos da arte. O ser humano é livre para inventar estilos. na cura e na normalização. A estética da existência dos últimos escritos de Foucault mostra que nossas existências devem ser permeadas por uma arte de viver. na cultura. bem como novas formas vindas de escolhas de estilos. Os estados maciços e compactos de dominação econômica. do psiquiatra com o louco. de especialistas. n. social. ao contrário. Revista de Ciências Humanas. uma agonística. eventualmente. resistir. de relacionamentos.737): “O sexo não é uma fatalidade. Ao contrário. existência esteticamente prazerosa. do instrutor com o exercício do corpo. por isso mesmo. ela também faz parte da liberdade. mas. justamente aí. cuja medida é estabelecida por si mesmo. refletido. Diz Foucault em Dits et Écrits (1994. e isso é possível pela constituição de uma subjetividade ético-estética. de éticas e de políticas diferenciadas. assim.Inês Lacerda Araújo — 53 O conhece-te a ti mesmo e o cultivar-se a si mesmo não precisam passar pelo crivo de ciências. tanto na sociedade como na arte. ou de um certo estilo cultivado de viver. estilo temperante. como a do médico com o paciente. do vigia ou treinador com o funcionário. p. ser soberano e dono de seus atos e modos de pensar. os desejos são capazes de inspirar modos ou estilos de vida e. p. criar prazeres novos. liberdade em tudo. do terapeuta com o analisando. condutas éticas. institucional sustentam-se e reproduzem-se. do professor com o aluno. Como a sexualidade pertence à conduta. abril de 2004 . Se há uma trama de relações de poder é porque há resistência e. do policial com o encarcerado. Todavia. por penetram nas relações mais insuspeitas. moderado. v. Pode-se pensar em outros tipos de prazer que não sejam apenas o sexual. Ele propõe políticas de afirmação da identidade como força criadora. de preferências sexuais firmadas não como lugar do desejo. alternativas.

II. M. Trad. Paris: Gallimard. O discurso filosófico da modernidade. Les mots et les choses. São Paulo: Loyola. RABINOW. Hubert. DREYFUS. como se quer e o quanto se quer. 1990. São Paulo: Companhia das Letras. M. Foucault e a crítica do sujeito. L. Curitiba: Editora da UFPR. 1984b. M. p. ERIBON. FOUCAULT. Paul. M . Dits et écrits.37-55. FOUCAULT. enfim. Histoire de la sexualité. FOUCAULT. HABERMAS. v. de Laura Fraga de Almeida Sampaio. M. Paris: Gallimard. L´usage des plaisirs. 1984a. FOUCAULT. FOUCAULT. Florianópolis: EDUFSC. do poder e da ética Ela não serve para apagar desejos e prazeres. Referências bibliográficas ARAÚJO. M. Le souci de soi.IV. 1926-1984. não é ditado de fora. Paris: Gallimard. Trad. de Hildegard Feist. Revista de Ciências Humanas. M. uma boa e bela vida. 366p. 1990. v. n. 1966. Histoire de la sexualité. Didier. I. Michel Foucault. de Ana M. 1969. Dits et écrits. M. Jürgen. 1994. 2000. Paris: Gallimard.35. 1994. criatividade. Bernardo et al. Lisboa: Publicações Dom Quixote. Paris: Gallimard. 1999. un parcours philosophique: au delà de l”objectivité et de la subjectivité. . Michel Foucault. Paris: Gallimard. FOUCAULT. pode levar a uma transformação da pessoa e representa liberdade. Paris: Gallimard. mas para estabelecer. FOUCAULT. para si mesmo. 1976. Trad. o se quer. 1984c. Trad. A ordem do discurso. Histoire de la sexualité. FOUCAULT. não é imposto. L’archéologie du savoir. um arqueogenealogista do saber. Paris: Gallimard. ed. 5. É guiado e sugerido por técnicas de si. abril de 2004 . de Fabienne Durand-Bogarrt.54 — Foucault. Esse domínio exercido sobre si não vem do saber nem do poder de um outro. La volonté de savoir.

1998. abril de 2004 . José Guilherme. n. Goiânia: UFG. (Recebido em outubro de 2003 e aceito para publicação em outubro de 2004) Revista de Ciências Humanas. Florianópolis: EDUFSC.Inês Lacerda Araújo — 55 MERQUIOR.37-55. p. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. TERNES. Trad. Foucault ou o niilismo de cátedra. de Donald Garchagen. 1985. José. Michel Foucault e a idade do homem.35.

A modernidade sob o prisma da tragédia: um ensaio sobre a singularidade da tradição sociológica alemã* Adélia M.br). Endereço para correspondências: Universidade Estadual do Norte Fluminense. Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico (LEEA). enquanto olhar sobre o mundo surgido no processo da modernidade. Califórnia. Do mesmo modo que Jessé Souza (2000) afirma que não há Modernidade. Just as Jessé Souza (2000). Florianópolis: EDUFSC. 2000. but Modernities. Pq. it is argued here that there is no __________________________________________________ 2 Modernity from the standpoint of tragedy: an assay on singularity in german sociological tradition.com. A sociologia.57-77.com). Califórnia. CEP 28015-620 (adeliam@sky. Miglievich Ribeiro1 Brand Arenari2 Universidade Estadual do Norte Fluminense Resumo Discorrer sobre as tradições do pensamento na sociologia obriga a uma análise das escolhas e elaborações epistemológicas a partir das influências culturais que cada tradição sofreu. é também um de seus produtos. 2000. CEP 28015-620 (brand_arenari@hotmail. Rua Alberto Lamego. afir* 1 Abstract To discuss traditions of thought require analyzing choices and epistemological formulations from the point of view of cultural influences that each tradition receives. abril de 2004 . Rua Alberto Lamego. n. p. Revista de Ciências Humanas.35. Pq. Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico (LEEA). who maintains that there is no Modernity. Sociology considered as a way of viewing the world as it emerged during Modern times is one of such products. mas modernidades. Endereço para correspondências: Universidade Estadual do Norte Fluminense.

epistemologia. sobretudo Adorno e Horkheimer. german sociology. G. n. Tönnies (1855-1936). Bearing these ideas in mind. German tradition in sociological thought provides one of the most important matrixes to sociology. A partir disso. cabe tecer breves comentários a respeito do conceito de tragédia que escolhemos como explicativo. que funda uma linhagem nas ciências sociais. no Brasil. Keywords: Social Theory. A tradição do pensamento sociológico alemão compõe uma das mais importantes matrizes da sociologia. abril de 2004 . em grande medida. Weber (1864-1920). Florianópolis: EDUFSC.58 —A modernidade sob o prisma da tragédia mamos que não há Sociologia e sim sociologias. sobretudo. this paper aims at briefly analyzing the elements that made tragedy the common feature that brings together the following classical authors who discussed the rise of modern sociology in Germany: F. e que se estende até o círculo interno da Escola de Frankfurt.35. Palavras-chave: Teoria social. but sociologies. Tönnies (1855-1936). sociologia alemã. sociology. especially Adorno and Horkheimer. por círculos intelectuais em diversos países e. também. Simmel (1858-1918) e M.57-77. G. Weber (1864-1920). Simmel (1858-1918) and M. nas duas últimas décadas. p. a qual tem sido impressionantemente revista e reatualizada. a list to be extended to the inner circle of the Frankfurt school. Revista de Ciências Humanas. As singularidades contidas no processo de sua formação legou um olhar radicalmente original sobre a realidade. da conformação dessa disciplina no cenário germânico. A modernidade e o espírito da tragédia A ntes de entrarmos na problemática acerca da sociologia nascida sob o signo da tensão. which furnishes a radically original view of reality. tradição e modernidade na cultura alemã. este trabalho tem por objetivo analisar brevemente os elementos que tornaram a tragédia o traço comum que une os seguintes pensadores clássicos do surgimento da sociologia moderna na Alemanha: F. There are certain singularities in its process of development. epistemology.

a tragédia integra-se ao corpo epistemológico da filosofia representando uma dimensão fundamental da experiência humana (Ibid. lançamos mão da assertiva de F. Marx.191).. e então em algumas outras tradições literárias que foram profundamente influenciadas pelo modelo grego [. por conseguinte. aceitou o desafio de usar a razão para estimular a reconstrução da sociedade numa oposição simultânea às reivindicações do espírito ideal na Alemanha e à ideologia liberal dos interesses e direitos individuais na Inglaterra. p. 2001). é algo que se torna impossível. distanciou-se do idealismo e do romantismo alemães ou do que designamos como a tradição genuinamente alemã. Para definirmos o conceito de tragédia. o seu fim. é um gênero dramático específico de literatura que floresceu muito raramente na cultura ocidental: na Grécia antiga. bem como nos seus elos com o ativismo popular (Cf. as influências do Strum und Drang.C. Em muitas vezes. 2001. em sua jornada pela Europa Ocidental. o conceito de tragédia. e assim também pode ser entendido.. de seu lado. p. na sua essência e originalidade. n. Donald Levine. A tragédia dá-se quando a força ou o evento que deu origem a algo é a mesma força ou o evento que proporciona o seu crepúsculo.21). Hölderlin. A tragédia. p. Sobretudo em Atenas no século V a.. francesa e britânica. No entanto. abril de 2004 . Marx. Miglievich Ribeiro e Brand Arenari — 59 Isso se faz necessário devido às inúmeras situações em que o conceito de tragédia e. __________________________________________________ 3 A ausência de Karl Marx (1818-1883) no rol dos clássicos do pensamento sociológico alemão deve-se ao fato de ter sido ele provavelmente o primeiro teórico a se identificar de maneira significativa com as características mais importantes de todas as três tradições – alemã. A idéia de algo trágico soa.57-77. o conceito de trágico são aplicados na atualidade.Adélia M. não se encerra na simples idéia de algo com desfecho negativo. Esse conceito de trágico também se aplicaria ao uso que dele fazemos em nosso trabalho. já que os autores aqui estudados deixam transparecer essa possibilidade de fim negativo para a Modernidade.. Nas suas interpretações modernas mais sofisticadas. como um acontecimento com desfecho triste. Revista de Ciências Humanas. para além da literatura.35. e isso remonta a sua origem como gênero literário. isto é. Florianópolis: EDUFSC. um final dramático e necessariamente negativo. quando afirma que é o paradoxo o que caracteriza a tragédia. justamente pelo mesmo motivo que lhe deu a possibilidade de existência. Sua singularidade também está em sua “paixão social”.] (MOST. no seu sentido literal. nas abordagens contemporâneas mais comuns. Visões da tradição sociológica.

Tönnies (1855-1936). cujas relações sociais pouco diferiam das relações entre coisas ou máquinas. e sua penetração no cotidiano. Para eles. é o principal alvo das críticas do pensamento alemão. A experiência do paradoxo é a chave da compreensão da Modernidade e conforma uma sociologia que nasce cônscia da tragédia da Modernidade. as formas sociais em interação ou o que mais regularmente denominamos sociedade. assemelhando-se às relações eu-isso e perdendo contato com as relações que se assemelhariam às chamadas eu-tu propostas pelo filósofo Martin Buber (1878. Simmel (1858-1918) e M. A crítica à técnica aparece de forma mais explícita no pensamento alemão por meio da filosofia. e é dessa radicalização que falam os sociólogos. no entanto. é a perspectiva trágica em relação à modernidade. segundo a sociologia alemã. e que se estende até o círculo interno da Escola de Frankfurt.57-77. sobretudo em Heidegger. exaustivamente analisada pela sociologia como o traço marcante da modernidade. desencadeando processos que culminam no surgimento da modernidade é a introdução e o repentino avanço da técnica. mesmo que esse argumento nem sempre apareça de forma explícita na obra dos sociólogos clássicos. Florianópolis: EDUFSC. Esse advento será o fator elementar que proporcionará a tragédia da modernidade. A divisão do trabalho. direcionando-se para um mundo completamente reificado. que se distanciam progressivamente das experiências essenciais da vida. pois.60 —A modernidade sob o prisma da tragédia A questão central abordada neste artigo relaciona-se diretamente à proximidade entre o conceito de tragédia e a interpretação de mundo que aqui chamamos “olhar sociológico alemão”. já havia ocorrido um “boom tecnológico”. sobretudo Adorno e Horkheimer. Todavia. abril de 2004 . G. O advento da técnica. A técnica. há momentos em que o desenvolvimento tecnológico atinge estágios de avanço repentino sem precedentes. a despeito de algumas particularidades. Weber (1864-1920)3 –. assim como a divisão do trabalho. está contida no processo do avanço da técnica que também se relaciona diretamente ao processo de racionalização de todas as esferas da vida. A divisão do trabalho radicalizou-se a partir da revolução industrial. anteriormente a esse período de radicalização. Se existe um traço marcante que une os pensadores clássicos da sociologia alemã – F. Revista de Ciências Humanas. a modernidade apresenta-se como um destino sombrio para os homens. reconfigurando. faz parte de toda a história humana. n. O elemento que promoveu uma desorganização nas configurações sociais.35. p.1965).

a modernidade é o seu oposto e nada traria do período anterior. As microrrevoluções do cotidiano são oriundas do processo repentino de aprimoramento técnico e. a crítica ao avanço da técnica sobre todos os aspectos da vida não é uma peculiaridade da modernidade. experimentamos situações semelhantes a essas. nas narrativas mitológicas. em especial fenômenos de ordem predominantemente política e econômica. Contudo. pela introdução da técnica nas sociedades humanas. Revista de Ciências Humanas. o relógio mecânico.Adélia M. Assim vemos surgir o espelho. Para eles. que relata a decadência da Idade de Ouro.35. sem dúvida. representam emblematicamente a objetivação da modernidade. O Iluminismo criou sua identidade a partir da oposição à Idade Média. etc. a imprensa. como destaca Simmel. abril de 2004 . desse modo. os representantes da sociologia tendem a eleger fenômenos históricos de grande notoriedade. O mito de Prometeu.57-77. ainda que propulsor de mudanças. p. As narrativas míticas servem como metáforas sutis para a compreensão da complexa realidade atual. como a Revolução Industrial e a Revolução Francesa que. o dinheiro. Como afirmamos anteriormente. Florianópolis: EDUFSC. que aparece até mesmo nas nossas raízes arquetípicas mais profundas. valorizando as idéias e os feitos do próprio “movimento das luzes” e obscurecendo o que dizia respeito à época anterior. fruto do castigo dos deuses pela aquisição humana do domínio do fogo. A ideologia iluminista devotava à Idade Média apenas o ethos das trevas da ignorância. suas objetivações envolvem novas tecnologias. poucos tratam das microrrevoluções que pululavam no período pré-moderno (final da Idade Média). por conseguinte. permite visualizar um fenômeno que ocorreu repetidamente na história do mundo ocidental. A riqueza da cultura grega pré-filosófica sempre serviu de subsídio para o homem da modernidade interpretar o mundo a sua volta. ao mesmo tempo. peça chave para o entendimento da cosmologia das narrativas mitológicas gregas. à hegemonia do ideário iluminista na construção do discurso sobre a modernidade. reorganizam uma nova teia social. fenômenos de tal importância que sem eles possivelmente não haveria modernidade4. embora em escalas diferentes. n. Um exemplo é o mito de Prometeu. Miglievich Ribeiro e Brand Arenari — 61 Ao explicar a modernidade. ou seja. pois. No entanto. em outros momentos históricos. em grande medida. novos aparelhos para navegação. Essa crítica é algo tão presente na história. ou seja. __________________________________________________ 4 Deve-se isso. esses novos elementos que “invadem” o cotidiano desorganizam o sistema anterior e.

amaldiçoam a humanidade. que passou a padecer dos males da corrupção. Na narrativa desse mito.] as florestas ainda não tinham sido despojadas de suas árvores para fornecer madeira aos navios. Revista de Ciências Humanas. O desfecho desse enredo. dentre outros males que até então inexistiam. 2000. nem os homens haviam construído fortificações em torno das cidades. de maneira a tornar-se relativamente independente do clima. todos os homens esclarecidos que viveram em sociedades dominadas pela técnica saberiam relatar os impactos desse fenômeno na realidade social.22). na percepção da sociologia alemã.. que ampliou e facilitou o comércio (2000. No entanto.35. ou seja. porque se referem ao “mundo mágico” dos mitos.. p. da violência. mas a introdução da técnica nas sociedades humanas. p. Os homens que viviam na Idade de Ouro presenciaram a decadência de sua sociedade. que. sem que este se desse ao trabalho de lavrar ou colher (BULFINCH. amaldiçoando os homens pelo fato de dominarem a técnica. A terra produzia tudo necessário para os homens. Espadas. [. 20).57-77. finalmente. o Titã encarregado de cuidar dos homens. aquecer sua morada. Prometeu. causando a ira dos deuses. abril de 2004 . e o motivo que levou os deuses a agirem dessa forma não podemos interpretar plenamente. enviando-lhe inúmeras desgraças. Na Idade de Ouro. lanças ou elmos eram objetos desconhecidos. e. n. A história da humanidade é marcada por períodos de radicais reconfigurações sociais. Florianópolis: EDUFSC. a partir desse fato. p. rouba o fogo do carro do Sol e o entrega aos homens. criar a arte e a cunhagem de moedas. em que pese.62 —A modernidade sob o prisma da tragédia Como nos conta Thomas Bulfinch. como fica claro neste trecho narrado por Bulfinch: O fogo lhe forneceu o meio de construir armas com que subjugou animais e as ferramentas com que cultivou a terra. da cobiça. no seu Livro de Ouro da Mitologia (2000). a ira dos deuses. é contado pelos antigos gregos não somente o domínio do fogo.

a criação e a massificação das noções de indivíduo. por conseguinte.57-77. o desenvolvimento das cidades. respectivamente: unificação da moeda. Vale observar os elos entre ambos. Porém.Adélia M. sobretudo o marítimo. Não por acaso. em detrimento de uma aristocracia feudal. Esses períodos produzem um inegável desconforto para as pessoas. contribuindo para o surgimento do período clássico da Grécia e encontram fatores homólogos preponderantes no surgimento da modernidade. o florescimento do comércio.35. p. a criação do alfabeto grego e. O surgimento da moeda. por duas vezes. invenção da imprensa por Gutenberg. liberdade e mobilidade social no grau alcançado foram transformações sem precedentes. Miglievich Ribeiro e Brand Arenari — 63 a nítida percepção das descontinuidades a par das continuidades no processo histórico. a invenção do trabalho assalariado. a ascendência de uma rica classe de comerciantes em detrimento de uma aristocracia agrária e o surgimento da filosofia são alguns elementos que desfrutaram de afinidades eletivas. A radicalização e a intensidade que esses fenômenos alcançaram na modernidade jamais foram vistos antes na história humana. hegemonia das idéias políticas liberais. surgimento do dinheiro. também. ainda que o termo deva ser sujeito. a criação da ciência moderna. sobretudo. nas distintas realidades sociais. em Renascimento. expansão marítima. Nunca é demais ressaltar que a modernidade e o período clássico da Grécia são processos diferentes e portadores de peculiaridades. a difusão da linguagem escrita. A formação do Estado-Nação. As novas formas de viver combinadas ao avanço da técnica. quanto às novas formas institucionais inauguradas na modernidade. enfim. Revista de Ciências Humanas. as mudanças culminaram em momentos excepcionais. dado que os impactos das transformações são determinantes no curso de sua vida. a críticas. Na história do mundo ocidental. O surgimento do período clássico na Grécia da Antigüidade e o surgimento da modernidade na Europa do século XVII são fenômenos distintos. n. ressurgimento das cidades. falou-se. ascendência da burguesia. abril de 2004 . Florianópolis: EDUFSC. em alguns momentos. e. ressurgimento do comércio. despertaram a crítica de ilustres pensadores das respectivas sociedades. o advento da democracia. o período clássico grego e a modernidade européia apresentam algumas semelhanças em suas configurações sociais.

57-77. a moral.] Todas as ciências. a técnica da retórica. deixou os homens reféns de “enganadores” que dominavam a técnica do discurso e não a essência do conhecimento. a questões restritas a doxa (opinião). da máxima conhece-te a ti mesmo. todas as normas práticas. A atitude crítica dos sofistas visava. a sofística não somente servia de instrumento de domínio nas assembléias. ou seja.64 —A modernidade sob o prisma da tragédia Se os avanços da técnica foram menos intensos na Antigüidade. a política. que reduzia sua função ao poder de convencimento. a religião serão assim encaradas. Essa instrumentalização do conhecimento tinha por objetivo. o saber reveste-se da forma de receitas que se podem codificar e ensinar [. O saber para a instrumentalização técnica na pólis apartou-se do saber filosófico e. que acabava por relegálo a uma função estritamente técnica. 1990. nem por isso a filosofia socrático-platônica deixou de exercer uma severa crítica à prática sofista e a seu propósito de levar a tecnologia à vida do espírito. correntes de pensamento também se insurgiram contra a instrumentalização da vida. do belo e do bom. A inovação grega da democracia exigia de seus cidadãos a aprendizagem do aparato técnico para a defesa de determinadas posições ou convicções políticas.359). p. afastando-o de sua vertente de “iluminação interior”. abril de 2004 . mas também impedia o verdadeiro conhecimento. assim como. segundo os sofistas. Crítica essa bem próxima daquela mais tarde desenvolvida pelos fundadores da tradição sociológica alemã marcada pelo repúdio aos valores da modernidade. desse modo retirando-o de um ethos diferenciado social e culturalmente). a verdadeira filosofia.. como exemplifica a citação acima. a fonte de realização do homem. ditados pelo avanço técnico-racional a ocupar um lugar de proeminência nas interações sociais. assim. Essa tecnificação do conhecimento. segundo seus críticos. p. Na maioria dos sofistas. Revista de Ciências Humanas. sobretudo. atribuindo-lhe um valor material (e. como técnicas de ação a serviço dos indivíduos e das cidades (VERNANT. Florianópolis: EDUFSC. n.35. suprir as necessidades da vida na pólis. à dessacralização do conhecimento. na modernidade.. em uma perspectiva “instrumentalista”. permitia sua utilização a serviço de interesses particulares e não da “Verdade” (alétheia). Para os platônicos. O que ocorre é uma evolutiva colonização técnica de todos os assuntos da vida. entendido como a busca do verdadeiro.

abril de 2004 . bem como a separação entre cultura subjetiva e cultura objetiva. à medida que sutilmente interpreta o advento da técnica moderna como a matriz do espírito trágico que. algo sumamente superior à técnica. Miglievich Ribeiro e Brand Arenari — 65 A perspectiva trágica da sociologia alemã A lógica que imperava nos círculos cultos da Alemanha no período do florescimento da sociologia em relação ao “Conhecimento” indissociava-se da sacralização que os alemães devotavam a tudo que se referia à vida. Essa visão decadentista e dramática que singulariza a sociologia alemã reflete a atmosfera cultural da época. tal como uma profecia de fé das antigas tribos germânicas. O caráter místico conferido à cultura estava ameaçado pelo cientificismo.Adélia M. abateu-se sobre a modernidade.. pois aceitar o avanço desmedido da razão seria negar a essência da identidade alemã. segundo esses intérpretes. Para os alemães. Simmel.35. Revista de Ciências Humanas.. nos moldes do mito de Prometeu em referência à cultura grega. Os termos cunhados por Weber como secularização e desencantamento. renunciar à subjetividade da vida em prol de cálculos herméticos soava como renunciar a si próprio. origina-se na valorização da subjetividade mística do protestantismo luterano e de tradições religiosas anteriores. Para mais detalhes ver Louis Dumont. referem-se a esse processo interpretado como uma decadência ético-espiritual da humanidade. o deus Wyrd (o destino). Embora um dos traços de identidade da sociologia alemã caracterizese pela visão decadentista de mundo similar à narrativa do mito de Prometeu. p. O individualismo: uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. uma outra peculiaridade também está contida no mesmo mito. A corrente desse espírito trágico em relação ao desenvolvimento da sociedade que aparece explicitamente nas obras de Tönnies. por seu lado. __________________________________________________ 5 O termo utilizado refere-se à perspectiva de Herder que encara as culturas como indivíduos coletivos.57-77. recheada de um tom fatalista e sombrio. que marcam profundamente os traços da identidade cultural alemã. em Simmel. quando rendiam culto a sua divindade suprema. n. Weber e da Escola de Frankfurt flui da mesma fonte de divinização da cultura que. A ciência e a racionalização (expressões do avanço técnico) eram tidas como a fonte desse mal que assolava a vida do espírito. O combate à sociologia positivista e à literatura realista não era apenas uma questão de puro desacordo epistemológico. Florianópolis: EDUFSC. mas sim uma questão de ordem macro-existencial5.

perante o lento e dramático desmoronamento da Vida. envolve campos epistemológicos excluídos do núcleo central da ciência moderna. em momentos mais exaltados. as ciências sociais destacam-se também por meio de suas objetivações. excetuando-se as que procuram ligações escusas com o desastre nazi-fascista. Esse assunto. a fim de a eles se curvarem.66 —A modernidade sob o prisma da tragédia Assim como Pandora deixa escapar todos os males e somente lhe sobra a esperança. timidamente aparecem propostas de reversão do destino trágico imposto. sejam políticas ou sociais. O espírito decadentista impedia o vislumbre ao mais além. nem Weber. nos quais. A diminuta visibilidade que tais propostas tiveram na recepção da sociologia alemã não se deve apenas a sua pouca ênfase no conjunto da obra dos sociólogos clássicos alemães. abril de 2004 .57-77. em alguns mais e outros menos. Nesse quesito. culpava-a de cúmplice indireta da tragédia nazista. nem Tönnies realizaram diagnósticos trágicos. Nesse quadro fatalista atribuído a essa tradição. trazem conteúdos pertinentes para o entendimento da tradição sociológica alemã. n. Todas essas críticas. pois outro fator também compõe esse quadro: o modelo de ciência do século XX. como se “encaixaria” a tradição alemã? A maioria de suas análises. como veremos a seguir. como se avalia recorrentemente. p. pouquíssimas críticas dão relevância a certos aspectos da obra dos sociólogos clássicos alemães. Florianópolis: EDUFSC. trata de como seres humanos vivenciam as experiências sociais e a elas dão significado. Nem Simmel.35. a atividade do pensar restringia-se a um diagnóstico apático e conformado. trata de questões radicalmente subjetivas. todos os outros autores tinham uma réstia de esperança quanto à possibilidade de superação das patologias da modernidade. A mesma crítica a essa tradição. isto é. No entanto. estuda a ação humana nas formas de interação social. Em vista disso. é o que tratamos nos parágrafos abaixo. O caminho que a ciência trilhou no século XX foi marcado pelo impacto de suas transformações objetivas no devir da sociedade. pouco evidenciado pelos comentadores. com exceção da Escola de Frankfurt. Revista de Ciências Humanas. A crítica sociológica depositou sobre as costas de grande parte da tradição alemã a insígnia de um lirismo escatológico que não permitia novos espaços para propostas de superação das mazelas que assolavam a experiência humana.

Acreditavam que determinados elementos da vida poderiam salvar o homem do destino trágico que se lhe impunha.22). como propõe a metáfora do mito narrado por Bulfinch. com exceção de uma única coisa. esses pensadores buscavam devolver espírito a um mundo reificado. Em Ferdinad Tönnies. Miglievich Ribeiro e Brand Arenari — 67 Segundo G. A perspectiva de novos movimentos e interações aparece de forma implícita. p. Não há ação sem pressuposição de algum impacto. escapara todo o conteúdo da mesma. Ainda recorrendo às ricas metáforas do mito de Prometeu. todo aquele que age não é pessimista. é muito pouco evidenciado por seus comentadores. como Tönnies e Weber. segundo eles. uma vida intensa do ponto de vista intelectual e cultural. Pandora apressou-se em colocar a tampa na caixa. diante de um mundo de artificialismos. uma reaproximação entre sujeito e objeto. De maneira semelhante. 2000.35. e. e que devotaram grande parte de sua existência aos estudos sobre os dramas da vida humana não tivessem. e que era a esperança. Simmel. mas. infelizmente. em situações ou comentários. Tönnies. destituído da intensidade das relações humanas que. abril de 2004 . sejam quais forem os males que nos ameaçam. assim. como já afirmamos. por menores que fossem. enquanto a tivermos. Esse ponto. é possível identificar na sociologia alemã a expectativa de ver a cultura não subordinada à técnica e. nenhum mal nos torna inteiramente desgraçados (BULFINCH. p. n. Como ponto comum. Weber e Simmel também guardavam no “porão” de suas obras uma expectativa em relação à valorização da vida humana.Adélia M. não desfrutam de uma sistematização na sua obra. a esperança não nos deixa inteiramente. que ficara no fundo. Revista de Ciências Humanas. Assim.57-77. no caso particular de Simmel. as formas de superação da asfixia do homem moderno. pois. estaríamos diante de uma completa ilogicidade no agir humano. de transformação. Florianópolis: EDUFSC. foram substituídas por uma impessoalidade desumanizante. expectativas em relação à possibilidade de reversão do trágico diagnóstico da modernidade. O agir já pressupõe uma expectativa de mudança. Seria de estranhar que homens que tiveram uma ativa vida política e intelectual. se assim não fosse. e.

Desse modo. claro como esse processo vingaria. Assim como.57-77.35. à civilização (Zivilistation). o pessimismo tonnesiano refere-se apenas à modernidade. Entendendo que isso não ocorreria por meio de um enfretamento político. ou seja. abril de 2004 . Para Tönnies. em última instância. no Emílio. p. mantendo-o num cárcere permanente. A perspectiva otimista em relação à humanidade articula-se primeiramente na construção da imagem do homem em Tönnies. Contudo. Tönnies acreditava na superação dessa maneira de organização da vida tipicamente moderna. Tönnies constrói uma imagem humana recheada de aspectos românticos que confere ao homem uma essência de dignidade moral. mas a Sociedade (Gesellschaft) o corrompe. Rousseau fala em resgatar os sentimentos perdidos de amor de si e piedade natural. 1995). n. essas forças naturais reprimidas por um Estado – exemplo máximo da artificialidade moderna –. Florianópolis: EDUFSC. a teleologia tonnesiana. devido a fatores psicológicos. que Rousseau é a base da construção de suas categorias psicológicas.68 —A modernidade sob o prisma da tragédia dentro de outras discussões que ocupam a centralidade de sua sociologia. a organização da vida na modernidade era castradora das orientações naturais do homem. Para Tönnies. enquanto Hobbes inspira a formação de suas categorias sociológicas. como seria a superação do capitalismo prevista por Marx. contudo. As transformações na ordem social não são suficientes para explicar todas as transformações da vida em sociedade. de maneira genérica. Em algum momento. mesmo na periferia do seu pensamento. que gradativamente controlava suas vidas. tendo os filósofos contratualistas como fonte de inspiração. Revista de Ciências Humanas. Poderíamos afirmar. A falência e a superação das promessas da modernidade ocorreriam. independentemente do pessimismo em relação à Sociedade (Gesellschaft)6. poderíamos concluir que Tönnies afirma que o homem nasce bom. se assim podemos chamá-la. é a organização artificial da vida que deturpa as vontades e as relações humanas. __________________________________________________ 6 Cabe lembrar que o pessimismo de Tönnies não se referia à totalidade da organização social do gênero humano. superação que surgiria após o colapso de tais valores. uma tendência natural ao agir ético. Tal como Rousseau. podemos perceber um otimismo no espírito humano. Tönnies também apela para uma reconstrução da natureza humana. Tönnies não deixa. sufocando seus impulsos. entendida como Sociedade (Gesellschaft) (CAHNMAN. não ocorreria devido ao esgotamento de sistemas econômicos. reclamarão por uma nova organização social. No entanto.

Como vimos. Isso deixa as influências de um socialismo utópico claras. p. Miglievich Ribeiro e Brand Arenari — 69 Para Tönnies. já que entendemos que esse último deu seguimento a idéias pouco desenvolvidas. Tönnies acreditava que essa nova organização constituir-se-ia a partir de transformações na organização social. Segundo ele. As transformações na organização social circularmente também permitiram o aparecimento de um novo espírito comunitário latente nos homens. mas a filosofia social de Martin Buber (1878-1965) pode ser entendida como uma continuidade de seu pensamento. ingênuo. tal como sua aposta no feminino. as causas centrais da superação do artificialismo da vida moderna dar-se-iam por questões primeiramente de natureza existencial e. mais compelido pela rigidez das relações de hierarquia e poder. Florianópolis: EDUFSC. Tönnies tinha a esperança de que a mulher/feminino carregasse sentimentos comunitários mais fortes que os do homem/masculino. A sistematização de uma redenção da comunitariedade não se encontra especificamente na obra de Tönnies. Revista de Ciências Humanas. Tönnies também se inspirava nos movimentos sindicais que. pelos impactos sociais devido à universalidade desse fenômeno. o espírito da comunidade (Gemeinschaft) resgata-se também pela transformação das vontades humanas. a Vontade Essencial (Wesenwille) expressa a bondade natural do homem. mas já presentes na obra de Tönnies. Algumas das perspectivas tönnesianas misturam-se com as propostas de Buber. cuja herança do pensamento tonnesiano se apresenta de maneira clara. num segundo momento. abril de 2004 . em especial. Tönnies. Influenciado pelo sentimentalismo romântico e. mediante a entrada da mulher na política e em toda a vida pública. depositava sua fé no gênero humano.35. Tönnies atribui juízo de valor em relação às suas categorias psicológicas. mais uma vez. poderiam fazer aparecer na sociedade um novo espírito cooperativista. estabelecido em bases sentimentalistas e contrário ao pessimismo. por vezes. A filosofia social de Martin Buber ainda apresenta perspectivas adquiridas do pensamento de Simmel. Supunha ele que as mulheres agiriam de modo mais cooperativo e não tão competitivo quanto os homens. Quanto a isso. A cooperação substituindo a competição era sua convicção para um projeto de modernidade não destinado a um trágico desfecho.Adélia M. deixando claro que a Vontade Essencial (Wesenwille) é a que contém a verdadeira natureza moral do homem. como a Nova e Antiga Comunidade.57-77. direciona-o à sociabilidade e ao altruísmo. que foi seu influente professor. A esse respeito. n. referimo-nos especialmente a algumas conferências de Buber.

Florianópolis: EDUFSC. no lugar disso tudo. p. Weber lança mão da possibilidade do aparecimento de autoridades detentoras de atributos extra-ordinários. valendo-se de interpretações habermasianas. 2002.131). Na análise das potencialidades da modernidade em Max Weber merece destaque Patologias da modernidade: um diálogo entre Habermas e Weber. que se detém em outros aspectos sumamente relevantes. Nesse quesito. Segundo Souza (1997). Em um tom de uma súplica desesperada. abril de 2004 . Weber cogita a possível existência de uma história cíclica no que se refere às idéias. nesta prisão ou se. também poderíamos escapar da tragédia da modernidade mediante o retorno a determinadas velhas idéias e ideais. de Jessé Souza. assim como nos séculos XV e XVI vimos o ressurgimento dos ideais e das idéias da antiguidade clássica no movimento renascentista. ou se haverá um grande ressurgimento de velhas idéias e ideais ou se. Revista de Ciências Humanas. Num segundo momento. uma petrificação mecanizada ornamentada com um tipo de convulsiva auto-significância (WEBER. que dotaria a modernidade de um novo espírito e que ocuparia a lacuna de uma sociedade regida por uma burocracia sem espírito. o pensamento weberiano permite a ênfase em três esferas de análise: a da sociedade. no futuro. também aponta para a possibilidade de uma redenção frente à petrificação mecanizada. ao mesmo tempo em que apresenta a possibilidade do acontecimento de uma tragédia sem precedentes. Weber deposita sua esperança desesperada em um poder de ordem carismática. ele faz menção ao surgimento de profetas inteiramente novos. Nessa linha de pensamento.70 —A modernidade sob o prisma da tragédia Já a percepção do destino da modernidade por Max Weber faz lembrar imediatamente o antepenúltimo parágrafo de A ética protestante e o espírito do capitalismo: Ninguém sabe quem viverá. apelando para elementos de conteúdo irracionalista. surgirão profetas inteiramente novos. n.35. p. no final deste tremendo desenvolvimento. da cultura e a da personalidade. A constatação acima. Desse modo. nos moldes da tradição poética representada pelo círculo de George.57-77.

Em acordo com essa análise.. com vistas a encontrar no pensamento weberiano uma réstia de otimismo em oposição às interpretações correntes. p. de Rousseau – que. p.129). Florianópolis: EDUFSC. precisamente a ambigüidade entre a tragédia e a chance. Revista de Ciências Humanas. o destino do homem. e. que ressaltam apenas o caráter pessimista de Weber. desperta e consciente” (SOUZA. abril de 2004 . A escolha desse caminho remete a uma inevitável aproximação do pensamento weberiano com outras correntes que elegeram as questões da organização societária humana. “O conceito de personalidade weberiano vive. Ao destrinchar a vida moderna. de “personalidade” ascética e intramundana.. cujo imperativo do agir reduz-se ao utilitarismo e ao hedonismo. estabelecendo terapias muito próximas às de Tönnies – e. ou seja. Se Tönnies elegeu no comunitarismo sua forma predileta de interação social e. por conseguinte. Ele visualiza o momento em que “cada qual está só com seu Deus ou demônio que rege suas escolhas significativas” (SOUZA.1997. como aliás toda a sua sociologia” (SOUZA. apelam para uma reformulação moral no homem. em última instância. a meus olhos.116). até agora historicamente realizada. Weber elabora os seus tipos humanos ideais na mesma perspectiva dos autores citados. n. como problemática de estudo. na medida em que capacitava os homens “para a condução de uma vida clara. concluímos que Weber propõe uma reconstrução da natureza humana. de agir humano. a forma mais superior.119). p.35. O especialista sem espírito e o homem do prazer sem coração são o reflexo de uma natureza humana decadente. Weber desenvolveu sua preferência pelo tipo moral puritano.57-77. Weber recorre às questões existenciais para propor a superação das patologias modernas. A simpatia de Weber em relação ao férreo homem de vocação puritana [.] para o nosso autor. 1997. portanto. também. seus tipos humanos refletem a percepção de uma decadência moral na natureza humana.1997. Assim como seu colega Tönnies.Adélia M. Miglievich Ribeiro e Brand Arenari — 71 O autor detém-se na esfera da personalidade. p.

uniforme. portanto. A percepção de modernidade no pensamento de Georg Simmel não faz referência a uma estrutura social estática e. Enfatizar os absolutos relativos [.63). abril de 2004 . É vital para simmel a atenção às relações de reciprocidade e oposição entre os pólos distintos [. exige – a percepção das diferenciações nos processos de interação.]. as inter-relações. principalmente. e da formulação da personalidade constituída a partir de um esforço moral. como afirmamos em outro momento. dominação e tensão exemplificam..35. como tem sido compreendida a modernidade. que um dos lados da relação tende a dominar o outro.12-14). visto que conflito.57-77. n.. implicava o combate à padronização dos modos de ser e viver que marcavam a tragédia da cultura (2001. formas de interação social. opressor da vida natural. desenvolviam idéias de personalidade e identidade baseadas em teorias de interação social. Revista de Ciências Humanas. não cabia em seu sistema de pensamento a possibilidade de uma cultura monolítica. p. Florianópolis: EDUFSC. p. porém. o que não implica negar a idéia de relação. conceito caro na sociologia simmeliana. na América. na Europa e. em seus ensaios. Weber permaneceu próximo aos seus predecessores transcendentalistas e calvinistas ao acreditar (como Nietzsche) que nos tornamos o que somos por nossos próprios esforços (1999. não exclui – ao contrário. Miglievich Ribeiro observa que: A interação... que a vê apenas como um “Leviatã” monolítico. Diferentemente de Tönnies. admitindo. como representante da ética individual no mundo moderno. Segundo Diggins: Enquanto muitos sociólogos. no qual convivem unidades relacionais. para Simmel. a modernidade é assumida em seu pluralismo.72 —A modernidade sob o prisma da tragédia A idéia da preferência de Weber pelo tipo puritano. No seu entendimento da sociedade como formas de sociação e da vida como reciprocidade. também aparece na biografia que John Diggins faz de Max Weber. p. a partir de um duelo interior. ou seja. A partir dessa concepção. pela expressão absolutos relativos. Sobre isso. Simmel critica a concepção de que existe algo em si mesmo absoluto e opta.] garantindo suas especificidades e relativa autonomia.

em profundidade. Por mais que o agir “calculativo” da lógica economicista tenda a se confundir com o “genericamente humano”. em oposição ao espírito objetivo da modernidade.Adélia M. Segundo Simmel. n.57-77. nos quais cultivamos a nossa subjetividade. 2001). No seu entendimento. de enriquecimento espiritual (subjetivo). abril de 2004 . garantindo à sociedade seu caráter fluido e processual”. caso nos rendêssemos a uma modernidade monolítica. significa realizar a vida em profundidade. Revista de Ciências Humanas. aliado à palavra “Leben”. na densidade de uma floresta monetarista.. existe a possibilidade de se sobrepor às relações instrumentais a lógica fraterna. Dois conceitos desenvolvidos por Simmel são as chaves para o entendimento da possibilidade de um reencantamento do mundo moderno. Os conceitos de círculos sociais (Kulturkreislehre) e vivências (Erlebnis) indicam os caminhos pelos quais se processa o enriquecimento subjetivo frente a um mundo objetificado. enxerga ele. O conceito de vivências (Erlebnis) nega o entendimento da modernidade como “absoluto”. focos de cultivo da Vida. clareiras de encantamento que resistem. Nos círculos de amizade. Admitindo o domínio das relações instrumentais tipicamente modernas. a periferia da modernidade ofereceria espaço para uma contra-resposta ao avanço da cultura objetiva. porque são as vivências (Erlebnis) o alimento dos círculos sociais periféricos que dotam a humanidade de espírito. Simmel atenta para as formas de sociação na periferia da modernidade. e que se estabelecem a partir de outros conteúdos que não os do utilitarismo. Eis por que Simmel torna-se conhecido como “o observador astuto e o analista genial dos aspectos inusitados ou mesmo inesperados da vida social contra qualquer tentativa de fetichizar a sociedade” (Ibid. Miglievich Ribeiro e Brand Arenari — 73 Mesmo afirmando que o dinheiro é a força central do agir da modernidade. p. por exemplo. do cálculo e da instrumentalidade.35. que se traduz como vida. no entanto. “Nasciam assim as formas sociais que incessantemente se rearticulavam de incontáveis e diferentes maneiras. e. Florianópolis: EDUFSC. Na variedade dos círculos sociais de que participamos. é dada ao homem a possibilidade de construir micro-sociedades. participar das experiências essenciais da vida humana. poderíamos desenvolver sentimentos e emoções que estariam excluídos da grande sociedade. O prefixo “er” na língua alemã indica a realização de algo com sucesso.

observáveis de fora. a sua periferia oferece a oxigenação da vida. com seu eu. interdependentes e.35. indivíduo e sociedade). mas não apela para uma “regeneração” desses tipos como redenção da modernidade7. Simmel também vislumbra a representação de um estilo de personalidade típico da modernidade. o vivenciar refere-se à participação em profundidade na vida.27). abril de 2004 .57-77. Enfim. Diferentemente da crença de Tönnies nos modelos absolutos e dicotômicos Gemeinschaft e Gesellschaft. impõe que a pessoa rompa com a atitude blasé e com a alienação..74 —A modernidade sob o prisma da tragédia Nesse caso. p. autojustificável. In: MIRANDA. é sua recorrência às microssociedades. Tonnies. as relações sociais são retratadas na modernidade sob o aspecto da decadência. “[. n. tomado arbitrariamente como absoluto. com as coisas e com os outros que se opõe radicalmente ao tipo blasé. mas dotá-la de espírito. mesmo que o núcleo central da modernidade nos asfixie o espírito. Harry Cohen.] Erlebnis tornase um instrumento para ressaltar as qualidades internas e espirituais de uma vida humana contra quantidades objetivas. Florianópolis: EDUFSC.212). nesse autor. p. no que tange à moral. viver com alma.. na relação de oposição. do viver vegetativamente. para se opor à “grande sociedade”. 2001. “Simmel deseja e saúda a diferença. Para ler Ferdinand Tonnies. Simmel acredita num desvelamento do espírito objetivo da modernidade. como condição para se restaurar a Gemeinschaft (Cf. Também. p. Revista de Ciências Humanas.217). mais do que Simmel. O. 1998. __________________________________________________ 7 Há de se lembrar que uma possível interpretação de Tonnies permite entender que ele credita à Gemeinschaft uma forma especial e intensa de perceber e de se relacionar com o mundo. contra uma ciência positivista e materialista presa a fatos objetivos” (SOUZA. complementares” (MIGLIEVICH RIBEIRO. poderíamos dizer que a palavra “viver” representa a superficialidade da modernidade. vivências fundadora e refundadoras dos círculos sociais. diferentemente da dos outros autores analisados. Simmel constrói as figuras do blasé e do cínico. como um autômato regido pela burocracia da vida regulada pelo dinheiro. O que mais se destaca na obra de Simmel. notamos a esperança em uma redenção moral. para usar a terminologia de Simmel. Cada pólo da relação humana é um absoluto em si mesmo.. Todavia. Assim como nos outros pensadores examinados. Para dar forma a essa abstração. de uma refundação da modernidade que recusa o modelo de “esferas separadas” (subjetividade e objetividade. p. 1995. contudo necessariamente inter-relacionados. conferir à palavra vida não somente significado referente a movimentos mecânicos.

unidade. marca o pensamento desse autor. abril de 2004 . na organização da vida moderna. relação. oposição. sujeito e outro sujeito. A técnica é o evento ou a “força” que permite o progresso sem limites do homem sobre a Terra.57-77. p. reciprocidade e círculos definem o modo específico de observar a tragédia moderna. Florianópolis: EDUFSC. diferença. a partir dos círculos sociais de que ele faz parte. ou seja. no próprio devir da sociedade. não a consideram o fim das formas outras de experiência humana. devido à peculiaridade do significado desse termo no pensamento de Simmel. Importa dizer que os estudiosos que nos inspiraram em nossas análises contemporâneas nas ciências sociais. Isso se deve ao fato de Simmel acreditar que a esfera da personalidade é construída a partir das interações sociais. como denuncia Tonnies. assim como os conceitos de cisão. das quais o indivíduo participa. ainda que concordem com que a modernidade é uma tragédia inevitável. acrescentando as implicações existenciais. e em alguns casos até mesmo fora dela.35. como fala Simmel. n. e que muitos deles são da alçada de uma sociologia que admite estudar a dimensão subjetiva presente nos processos sociais. gostaríamos de ressaltar a metáfora proposta em nosso trabalho. Enfim. Analisar a Modernidade a partir de sua vertente técnica.Adélia M. podemos vislumbrar um destino menos sombrio para o homem. __________________________________________________ 8 Tradução do termo Vergesellschaftung feita por Evaristo de Morais. desejam reinvenções de formas de vida social. pode ser uma possibilidade de compreendermos e superarmos parte dos desafios que nossos tempos apresentam. atentando para os efeitos desse fenômeno na organização social. aspectos trágicos possam ser identificados. O caráter relacional e processual da formação da sociedade e da cultura a partir de sociações8. interação. essa característica central apresenta-se paradoxal para a Modernidade: a sua radicalização sinaliza o fim de tudo que ela permitiu existir. Contudo. centrando-se no conteúdo trágico que representa a introdução da técnica nas sociedades humanas. Ainda que. em contraste com as percepções cristalizadas da vida social. Miglievich Ribeiro e Brand Arenari — 75 Ele deposita sua esperança na superação da modernidade. Na crítica à modernidade. quer a perda da intensidade e inteireza nas relações entre sujeito consigo mesmo. Revista de Ciências Humanas. O modelo de esferas separadas não cabe no pensamento de Simmel. quer a cisão arbitrária entre cultura subjetiva e cultura objetiva. sujeito-objeto. complementaridade.

ao atentar para o perigo da ação despojada de sentido. Revista de Ciências Humanas. Gerd. As Três Culturas. 2001. Glenn. Dialética do Esclarecimento. In: BORNHEIM. Referências bibliográficas ADORNO. n. Rio de Janeiro: Ed Jorge Zahar. Louis. Max. LEPENIES. é necessariamente otimista. Tradução de David Monjardim. MIGLIEVICH RIBEIRO. O romantismo. In: HÖLDERLIN. 1987. Uma Variante Nacional: O povo e a nação em Herder e Fichte In: DUMONT. Filosofia do Romantismo. H.). como dissemos. Tradução Maria Clara Cescato. 1985. O individualismo: Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna.. Ronald. 1971. 2. Filosofia & Literatura: O trágico. 1993.. H. 2001. Friedrich. 1996. Living comunity to contrived. IFCS. Wolf. V. Sobre comunidade. O livro de ouro da mitologia. Martin. dãonos a chance oposta de clamar pela intensidade e autenticidade da vida. DIGGINS. Artificial Society. Rio de Janeiro: Record. 2000. HÖLDERLIN. Charles Scribner”s. BORNHEIM. Ed. (Org.. J. Friedrich. Glenn. K. (Org). ROSENFIELD. Filosofia & Literatura: O trágico. São Paulo: Edusp. DUMONT. FLETCHER. 1975. The Making of sociology: A study of sociological theory.76 —A modernidade sob o prisma da tragédia A ação. Ronald. Rio de Janeiro: Ediouro. São Paulo: Perspectiva. p. K. Tradução de Guido Antonio de Almeida. A significação das tragédias. 1999. abril de 2004 . ou melhor. (Org.57-77. Florianópolis: EDUFSC. Theodor e HORKHEIMER. Thomas. Adélia Maria. 2001. Ferdinand Tönnies: From natural. GUINSBURG. da vivência de mulheres e homens modernos. In: MOST. Gerd. John Patrick. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. São Paulo: Perspectiva. Max Weber: a política e o espírito da tragédia.35. Rio de janeiro: Rocco. In: FLETCHER. BUBER. BULFINCH. Paper. Louis.). Da tragédia ao trágico. ROSENFIELD. MOST. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. Os autores aqui retratados. Georg Simmel: um convite à análise dos princípios masculino e feminino na constituição da cultura.

A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Leopoldo. As aventuras de Georg Simmel. In: SIMMEL. In: SOUZA. n. 1997. Jessé e OELZE. Ferdinand. Max. Tradução de Haiganuch Sarian. p. 2000. George. Georg. (Org. Ferdinand. Jessé. A divisão do trabalho como causa de diferenciação da cultura subjetiva e objetiva. El individuo y la liberdad: ensayos de critica de la cultura. Georg. Comunidad y Sociedad.). SIMMEL. Patologias da modernidade: um diálogo entre Habermas e Weber. Tönnies e. WEBER. In: TÖNNIES. São Paulo: Annablume. O.). 1947. SIMMEL. Sociología I & II: Estudios sobre las formas de socialización. Jessé e OELZE. SIMMEL. Simmel e a Modernidade. São Paulo: Martin Claret. São Paulo: Ática. 1990. Mitos e pensamento entre os Gregos. TÖNNIES. Georg. 1986. 2002. Georg. SOUZA. O problema da Sociologia. (Recebido em junho de 2004 e aceito para publicação em novembro de 2004) Revista de Ciências Humanas. VERNANT. Brasília: Ed. J. H. Simmel. 1998. Para Ler Ferdinand Tönnies. 1998. 1983. In: SOUZA. Comunidade e Sociedade.35. Brasília: Ed. Florianópolis: EDUFSC. Buenos Aires: Losada. especialmente. A modernidade atemporal dos clássicos da sociologia: reflexões sobre Durkheim. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Barcelona: Nova-Gràfik. MIRANDA. Ferdinand. Madrid: Alianza. Berthold (Org). UNB. UNB. SIMMEL. Coleção grandes cientistas sociais. Evaristo de. e DAHME. Jean-Pierre. São Paulo: Editora 34. abril de 2004 .Adélia M. Miglievich Ribeiro e Brand Arenari — 77 RAMMSTEDT.57-77. São Paulo: Edusp. WAIZBORT. MORAES FILHO. 1997. Simmel e a Modernidade. Berthold (Org). Tradução de Pietro Nassetti. 1995. Orlando (Org. TÖNNIES.

O objetivo da pesquisa foi verificar como as mulheres com e sem relacionamento fixo elaboram suas __________________________________________________ Abstract This paper deals with social representations of women— regardless of their having a stable partner—about sexuality and prevention of Aids. who are infected most commonly by their sexual partners. SC. CEP 88085-310 (agiacomozzi@hotmail. a maioria tem se contaminado por intermédio do parceiro. ap. n. Florianópolis. Revista de Ciências Humanas. The aim of the related research has been to know how women—within or without stable relationships—ela- * Trust in partners and protection against HIV: a research on social representations with women 1 Endereço para correspondências: Rua Theófilo de Almeida.35.com). 104. em se tratando de mulheres.79-98. Bom Abrigo. abril de 2004 . p. 171. Florianópolis: EDUFSC. especially women.Confiança no parceiro e proteção frente ao HIV: estudo de representações sociais com mulheres* Andréia Isabel Giacomozzi1 Universidade Federal de Santa Catarina Resumo Este estudo refere-se às representações sociais de mulheres com e sem parceiro fixo sobre sexualidade e prevenção da aids. A incidência de aids tem aumentado entre indivíduos com relações heterossexuais estáveis em regime de conjugalidade e. Aids”s frequency increases among heterosexuals within stable relationships.

p. portanto. they feel safe and trust their sexual partners. exceto para elas mesmas. em virtude de um sentimento de confiança no parceiro. Verificou-se também que as entrevistadas sem parceiro fixo sentem-se mais vulneráveis frente à aids e. 20 women from 30 to 40 years old have been interviewed. utilizam preservativo em todos os seus envolvimentos sexuais eventuais. totalizando 40 mulheres entrevistadas entre 30 e 40 anos. comparativo. had also been interviewed. Florianópolis: EDUFSC. Keywords: Social representations. with no stable relationships. Aids. That research has been accomplished in both descriptive and comparative terms. who consider themselves protected by stable relationships. sexuality.35. Para a análise do material coletado. que se consideram seguras em suas relações conjugais. It has still been found out that women without stable relationships feel more vulnerable to Aids and use condoms in all their sexual relations. Trata-se de um estudo descritivo.80 — Confiança no parceiro e proteção frente ao HIV representações sociais sobre aids e se isso tem repercussão nas suas práticas de prevenção frente a essa doença. women. 20 other ones. Analysis of data so obtained has been made by means of a computer program for quantitative analysis of textual data (ALCESTE). stable relationships. Revista de Ciências Humanas.79-98. no qual foi empregada a técnica de observação indireta via entrevistas “semidiretivas”. Os resultados demonstram que as mulheres com parceiro fixo consideram a prevenção da aids algo necessário para todas as pessoas. borate on social representations about Aids. utilizou-se sotware de análise quantitativa de dados textuais ALCESTE. Foram entrevistadas 20 mulheres que mantinham relações fixas em regime de conjugalidade no momento da entrevista e 20 mulheres que estavam sem parceiro fixo. conjugalidade. Palavras-chave: Representações sociais. who at the time had stable relationships. abril de 2004 . sexualidade. mulheres. by means of indirect observations and non-directive interviews. aids. and whether this has an impact on their adhering to prevention practices concerning Aids. n. It has been found out that women with stable relationships consider that prevention of Aids is important for everybody but themselves.

sendo que 1. em regime de conjugalidade. n. O trabalho fundamentou-se em conhecimentos da psicologia social. sendo que. deles. Entre as décadas de 1980 e 90. também. 66. Considerou-se.5%. necessário investigar os fatores determinantes na propagação dessa doença entre esse grupo de pessoas. de 44. Observou-se. entre indivíduos heterossexuais com parceiro fixo. nas décadas de 1980 a 90. no âmbito da intimidade e da conseqüência da confiança existente no ambiente privado dos lares.719) são mulheres. contaminadas pela relação heterossexual. para 58. mais especificamente na teoria das representações sociais de Serge Moscovici e do gênero como categoria de análise. de 16.061) são homens e 26. Segundo o Boletim Epidemiológico de 2002. principalmente. na maioria dos casos. A contaminação das mulheres pelo vírus HIV configura-se em um importante questionamento na área da saúde nos últimos anos e tem sido problematizada também como uma questão social. para 16.Andréia Isabel Giacomozzi — 81 E ste artigo constitui um resumo de uma dissertação de mestrado do Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina e tem como foco as representações sociais de mulheres com e sem relacionamento fixo sobre sexualidade e prevenção à Aids2. Assim. redução da participação das categorias “homo e bissexual”.61% (185. nota-se que. essa porcentagem elevou-se a 93. No ano de 2002.17% (72. Os dados revelam aumento dessa epidemia. esta pesquisa estuda os aspectos interacionais da epidemia da aids.780 pessoas (notificados desde 1980).5%. decorrente da infecção pelo vírus HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana). as representações sociais da aids configuram-se de forma diferente de como são para os homens. abril de 2004 . em casos de aids.981 (65%) eram homens e 1. perfaziam 61. houve incremento da categoria “heterossexual”. o número de casos de aids é de 257.043 (34%). mulheres. Entretanto. a contaminação nas relações heterossexuais.0%. __________________________________________________ 2 Revista de Ciências Humanas. sob o ponto de vista das mulheres. a cada boletim epidemiológico o número de mulheres infectadas aumenta gradualmente. nas décadas 1980 a 90.79-98. Florianópolis: EDUFSC. Aids: Síndrome da Imunodeficiência Adquirida. É importante entender que. as mulheres maiores de 13 anos.3%.35. para as mulheres. no ano de 2002. ao mesmo tempo. No Brasil. p.1%.4%. portanto. o número de mulheres contaminadas com o vírus da aids cresce a cada ano e. publicado pelo Ministério da Saúde.

proposições e explicações originadas na vida cotidiana. p. Quando ocorrem contradições entre as representações sociais e suas práticas respectivas.. esta pesquisa pretende verificar se as representações das mulheres com e sem parceiro fixo estão em acordo com suas práticas sociais com relação à prevenção a essa epidemia. essa desconfiança inexiste ou é diminuída. associar aids à promiscuidade.] uma representação social é um conjunto de conceitos. enquanto.181).79-98. Segundo Moscovici (1981. para os homens. que podem gerar a transformação de uma ou outra. Nesse sentido. Florianópolis: EDUFSC. justificação de posicionamentos e comportamentos. homens e mulheres relatam.35. nas relações conjugais. as mulheres atribuíram à desinformação o fato de as pessoas contraírem o vírus. que pesquisou a representação da aids entre estudantes universitários. Nela.82 — Confiança no parceiro e proteção frente ao HIV Como exemplo disso. com o objetivo de compreender como a teoria psicanalítica disseminava-se de formas diferentes em diversos grupos. 1998. Revista de Ciências Humanas. o autor estuda a representação social da psicanálise. no curso de comunicações interpessoais. Mesmo com a prevenção à aids estando relacionada com a prevenção sexual. abril de 2004 . As representações desempenham papel fundamental nas práticas e na dinâmica das relações sociais. TURA. orientação de comportamentos e de práticas. MADEIRA.. n. enquanto. pois o perigo da aids está relacionado ao “outro” de quem se desconfia. a infecção pelo vírus HIV dava-se por um descuido do indivíduo contaminado. a partir da publicação por Serge Moscovici (1961) da obra La Psychanalyse: Son image et son public. Algumas pesquisas (CARVALHO. A teoria das representações sociais A teoria das representações sociais originou-se na Europa. segundo essa pesquisa. surgem as relações de conflitos. [. Porém. 1998. que funciona como uma espécie de ‘teoria do senso comum’”. há o estudo de Camargo (2000). p. Dentre suas funções. 1998) demonstram que o cuidado com a aids pauta-se em relações em que predomina um sentimento de desconfiança. Abric (1994) define quatro: saber.

evidências indicam que indivíduos em relacionamentos estáveis tendem a não tomar nenhuma medida efetiva de prevenção à aids. em geral. Essas medidas preventivas não entram em pauta na relação. quando estes têm relacionamentos estáveis. leva os indivíduos ao risco de contágio. que constatou que as profissionais do sexo utilizam preservativo em seus relacionamentos comerciais. mas não o utilizam com um parceiro fixo. A intimidade e a confiança seriam. A partir de então. não usam preservativo com seus parceiros fixos).. pois. portanto. n. causas de uma maior exposição ao vírus da aids. dado o conjunto formado por certas características individuais e sociais de seu cotidiano. de acordo com Misovich. Florianópolis: EDUFSC. homossexuais.65).. esses pesquisadores encontraram os que. têm relacionamentos sexuais casuais: jovens. p. Revista de Ciências Humanas. portanto.35. Já entre os indivíduos que utilizam o preservativo. abril de 2004 ..] avaliar objetivamente as diferentes chances que cada indivíduo ou grupo populacional particular tem de se contaminar. profissionais do sexo (porém. A relação de confiança. as pessoas tornam-se mais vulneráveis e as dimensões das práticas sociais podem dar indícios de que essa maneira de pensar afetará as estratégias de prevenção desse grupo. Esse termo surgiu como uma tentativa de compreender as possibilidades que uma pessoa ou grupo tem de se infectar com o vírus da aids. A confiança influencia os relacionamentos. 1999. p. e isso afetará as estratégias de prevenção à doença. A vulnerabilidade divide-se em dois aspectos: individual e coletiva. Isso também foi encontrado na pesquisa de Oltramari (2001). Fisher e Fisher (1997).79-98.Andréia Isabel Giacomozzi — 83 Levanta-se a hipótese de que o risco com relação à aids pode iniciar-se quando a relação de intimidade e confiança se estabelece. julgadas relevantes para a maior exposição ou menor chance de proteção diante do problema (AYRES e cols. geralmente. pois se estabelece certa vulnerabilidade. não usam preservativos e não conhecem a sua condição sorológica nem a do parceiro. Utiliza-se a seguinte noção de “vulnerabilidade”: [. Estudos de Pinkerton e Abramson (1993) indicam que ter relacionamento sexual sem proteção com parceiro fixo e eliminar relações casuais (manter monogamia) pode expor o indivíduo a maior risco e vulnerabilidade do que ter sexo seguro com parceiro fixo e parceiros eventuais.

Florianópolis: EDUFSC. comportamental e social afetam diretamente a vulnerabilidade individual. trabalha-se aqui com o gênero como categoria de análise. de acordo com Scott (1990). à medida que identidades de gênero (masculinidades e feminilidades múltiplas) diferenciam-se e constroem-se relacional e dinamicamente. de acordo com seus valores pessoais e recursos preventivos. invalidez e morte. A partir de oito índices. portanto.35. pelos seus programas de prevenção à aids. n. São muitos os critérios para a avaliação dessas ações.84 — Confiança no parceiro e proteção frente ao HIV Segundo Ayres e cols. e c) Questões de ordem cognitiva. abril de 2004 . A noção de gênero. (1999) a vulnerabilidade individual consiste em três pressupostos: a) Qualquer indivíduo é passível de contaminação. É importante. é necessário considerála relacionalmente ao homem. pois. índice de desenvolvimento humano. mortalidade antes dos cinco anos. mulheres e homens são definidos em termos recíprocos e nenhuma compreensão de um deles pode ser alcançada por um estudo separado: Revista de Ciências Humanas. preocupa-se em desvincular os papéis sexuais de seu determinismo biológico. para evitar contribuir com uma idéia sexista da moralidade. segundo Grossi e Miguel (1995). A primeira consiste nas ações do Estado. p. índice de liberdade humana. em determinada época de sua vida.79-98. as noções ligadas ao gênero são vistas como produtos de processos sociais e culturais. b) Quanto maior o amparo social e a assistência à saúde de que os indivíduos dispuserem. desnaturalizando a visão de mulher ainda existente e questionando a idéia de que haveria apenas um feminino e um masculino. Mais. A vulnerabilidade coletiva divide-se em programática e social. menor a morbidade. Segundo Ayres e cols. Como dito. São eles: acesso à informação. definem-se critérios para a classificação da vulnerabilidade entre alta. média e baixa. a vulnerabilidade social é avaliada por muitos indicadores sociais elaborados pelo Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD). situação da mulher. que fazem uma ligação entre os planos individual e social. Mesmo em uma pesquisa em que o foco seja somente a mulher. conceber o masculino e o feminino como formas mutáveis e flexíveis e em interação uns com os outros. gastos com serviços sociais e da saúde. relação entre despesas militares e gastos com educação e saúde. (1999).

uma integração entre masculino e feminino e entre indivíduo e sociedade (NOGUEIRA. tenha muito pouco. p. portanto. ou nada. Revista de Ciências Humanas. n. Essas questões. têm grande peso no comportamento sexual da mulher e evidentemente influem nas questões de poder e de tomada de decisões: [. mas que. pois. o poder é eminentemente masculino e pretende controlar os corpos e desejos femininos a toda prova. A noção de gênero pressupõe.7). em geral.. Florianópolis: EDUFSC. Todavia. a ver com o outro sexo” (SCOTT.Andréia Isabel Giacomozzi — 85 [.79-98. 1991. mesmo que sejam socialmente construídas e. isso acontece com todas as pessoas que não se situam dentro do que o modelo dominante define como práticas sexuais adequadas (1998. não se pode negar que existam muitas diferenças entre homens e mulheres. Também devemos ter em conta que não são elas as únicas a serem castigadas e estigmatizadas por sua conduta sexual.. a experiência de um sexo. no caso da sexualidade. p. ainda. 2001). Observa-se. p. Citando Faria: Mesmo considerando todas as diferenças de uma mulher para outra.] Este estudo rejeita a validade interpretativa da idéia de esferas separadas e sustenta que estudar as mulheres de maneira isolada perpetua o mito de que uma esfera. p.10). abril de 2004 . __________________________________________________ 3 Tradução da autora. por exemplo).35. as mulheres tenham estado em enorme desvantagem..] especialistas em gênero e comportamento sexual notam que gênero é obviamente importante para definir como serão as negociações nos encontros sexuais e quem determinará quais práticas irão prevalecer3 (EHRHARDT e WASSERHEIT..99). somadas às culturais e econômicas (dependência econômica da mulher em relação ao homem. podemos dizer que as mulheres têm em comum a vivência do sexo em uma sociedade machista e patriarcal. a grande influência das questões de gênero nos comportamentos de risco frente ao HIV. na sociedade. 1990.

e as outras 20 não tinham parceiro ou estavam separadas há mais de três meses. Florianópolis: EDUFSC.35. mediante entrevistas semidiretivas. no ano de 2003. Todas as mulheres tinham idade entre 30 e 40 anos e nenhuma delas era portadora do vírus HIV.79-98. pois é um dos recursos mais apropriados para a obtenção do material textual. estando em regime de conjugalidade. Participantes As participantes da pesquisa foram 40 mulheres que freqüentaram o Serviço de Atendimento Ginecológico do Ambulatório C do Hospital Universitário (HU) da Universidade Federal de Santa Catarina. Na primeira. comparativo. no momento da pesquisa. abril de 2004 . Essas entrevistas foram feitas com seis mulheres (três com relacionamento fixo há mais de Revista de Ciências Humanas. Esse procedimento permite certa objetividade na obtenção dos dados e também possibilita respostas explicativas das participantes. p. no qual se emprega a técnica de observação indireta. fez-se um estudo piloto para o levantamento de temas recorrentes para a formulação de um roteiro de entrevistas. 20 mulheres tinham parceiro fixo há mais de três meses. no intuito de coletar dados textuais como indicadores de RS e de práticas sociais de mulheres com e sem parceiros fixos. diante da prevenção à aids. Das 40 entrevistadas. Os critérios utilizados para a seleção das participantes foram dois: freqüentar o serviço de atendimento ginecológico do HU e estar na faixa etária definida. Instrumentos de coleta de dados Foi escolhida para a coleta dos dados a entrevista semidiretiva.86 — Confiança no parceiro e proteção frente ao HIV Método Caracterização da pesquisa Trata-se de um estudo descritivo. facilitando ao pesquisador identificar as possíveis representações acerca do fenômeno estudado. Procedimento A coleta de dados deu-se em duas etapas. n.

fez-se o processamento das produções discursivas para o software ALCESTE (Análise Lexical Contextual de um Conjunto de Segmentos de Texto4). A partir daí. As entrevistas foram realizadas individualmente.35. montou-se um roteiro. 2) exclusão das falas (questões) da entrevistadora. 3) lançamento da análise do material. 6) Permissão da entrevistada. As entrevistas dessa primeira etapa foram não-diretivas e não tinham um roteiro definido. constavam as variáveis descritivas de cada entrevistada (idade. existência ou não de filhos e número de casamentos. nível de escolaridade. A pesquisadora pedia para que a entrevistada falasse o máximo possível sobre o tema da prevenção à aids. com os seguintes passos: 1) adaptação das produções discursivas às normas do software. Outros dados a respeito das entrevistadas também foram coletados. passou-se a realizar as entrevistas com o roteiro preestabelecido. abril de 2004 . Os procedimentos para a realização das entrevistas seguiam os mesmo passos: 1) Contato telefônico da paciente com a secretária do ambulatório e agendamento da consulta. 3) Ao final do atendimento. Com os tópicos recorrentes naquelas entrevistas. __________________________________________________ 4 “Analyse Lexicale par contexto d’un ensemble de segments de texte”. 2) Atendimento com a enfermeira.Andréia Isabel Giacomozzi — 87 três meses e três com mulheres sem parceiro fixo ou separadas há mais de três meses). correção da concordância verbal e de gênero. 5) Apresentação dos objetivos do trabalho. p. Revista de Ciências Humanas. com ou sem filhos). n. a enfermeira falava à paciente sobre a pesquisa e a convidava a participar. tais como: idade. 3) correção de erros de pontuação e de português e transcrição de termos coloquiais de acordo com a escrita correta. ou seja. A segunda etapa considerou a análise do material obtido nas entrevistas piloto. 4) Contato com a pesquisadora. portanto.79-98. Análise Lexical Contextual de um Conjunto de Segentos de Texto. As entrevistas da segunda etapa foram. Adotaram-se procedimentos comuns que padronizassem a pesquisa. Florianópolis: EDUFSC. mais estruturadas. com ou sem parceiro fixo. 7) Aplicação do roteiro de entrevistas. Na seqüência. nível de escolaridade. Procedimentos para a análise dos dados Os procedimentos que se seguiram às transcrições das entrevistas foram: 1) na primeira linha da transcrição. 2) todas as falas da entrevistadora (perguntas) foram escritas em letras maiúsculas.

o programa ALCESTE executa quatro etapas: A. sendo que cada uma das três primeiras contém três operações e a última. o programa toma como base um único arquivo. cópia para uso interno do LACCOS. Florianópolis: EDUFSC. São elas: Etapa A: Leitura do texto e cálculo dos dicionários. Aqui. para Camargo (2003). Um conjunto de unidades de contexto iniciais (UCI) forma um corpus de análise. Portanto. essas classes. segmenta o texto. foi necessária a divisão do corpus inicial em dois corpora para garantir essa característica. cada entrevista será uma UCI. Para ser analisado pelo ALCESTE. Etapa C: Descrição das classes de UCEs. apresentam vocabulário semelhante entre si e diferente das UCEs das outras classes.35. o programa prepara o corpus. o corpus deve constituir um conjunto textual centrado em um tema. para se obter uma classificação definitiva. quando se aplica o ALCESTE no estudo da representação social. C e D. Para analisar os textos. O programa apresenta o dendograma da Classificação Hierárquica Descendente (CHD). reconhece as UCIs. n. __________________________________________________ 5 Capítulo de livro no prelo. mas é necessário indicar unidades de contexto iniciais (UCIs) e preparar esse arquivo sob regras específicas. Segundo Reinert (1990). Etapa B: Cálculo das matrizes de dados e classificação das UCEs (seguimentos de tamanhos similares). que mostra as relações entre as classes. Segundo Camargo5. No caso desta pesquisa. o teste do qui-quadrado. pois a análise dos textos sobre mais de um item pré-estruturado resulta na reprodução da estrutura prévia. ao mesmo tempo. p. Nessa etapa. Assim. Revista de Ciências Humanas. formadas por vários segmentos de textos com vocabulários semelhantes. abril de 2004 . Depois. o material textual deve ser monotemático. cinco. ainda. aplica-se o método de classificação hierárquica descendente. agrupa as ocorrências das palavras em função de suas raízes e calcula a freqüência dessas formas reduzidas. Utiliza-se. essas classes podem ser interpretadas como noções de mundo ou quadros perceptivo-cognitivos com certa estabilidade temporal e. as UCEs são classificadas em função dos seus respectivos vocabulários e são repartidas em função da freqüência das formas reduzidas.79-98. podem ser consideradas indicadores de diferentes noções de representação social ou campos de imagens sobre um determinado objeto. para obter classes de UCEs que. B.88 — Confiança no parceiro e proteção frente ao HIV O software é utilizado para relacionar os dados quantitativos textuais de uma quantidade de entrevistas com o seu contexto de localização no texto.

problemas na relação entre homens e mulheres. ambos formados pelas respostas a respeito das diversas problemáticas que envolvem as relações entre homens e mulheres. o programa calcula as UCEs mais características de cada classe para melhor contextualização do vocabulário típico de cada classe.84 e com freqüência maior do que 6. Os resultados da análise com o ALCESTE são apresentados na Figura 1. no dendograma.066 formas distintas. nos dias de hoje. nesse corpus. abril de 2004 . denominados problemas no casamento e separações e a aids no contexto das relações amorosas.79-98. Florianópolis: EDUFSC. que as respostas. Outro recurso dessa etapa é permitir exportar as UCEs obtidas para outros programas informáticos. Observa-se.35. 28. a seguir.697 ocorrências de palavras e 5. Resultados Análise do corpus 1 sobre relação conjugal formado pelos discursos das mulheres com e sem relacionamento fixo Relatam-se. Esse corpus refere-se às respostas das seguintes questões: 1) O que você pensa da relação entre homens e mulheres de hoje em dia? e 2) Como têm sido as suas relações com os homens? O corpus foi dividido em 629 UCEs (segmentos de tamanho similar) e a análise hierárquica descendente considerou para a análise todas as 629 UCEs.Andréia Isabel Giacomozzi — 89 Etapa D: Cálculos complementares – com base nas classes de UCEs escolhidas. ou seja. enquanto o segundo aborda a questão da aids. n. Houve. p. sob a forma de dendograma resultante da análise hierárquica descendente. desdobrou-se em outros dois subcorpora. embora o primeiro volte-se mais aos problemas gerais que envolvem os relacionamentos. Foram consideradas para a análise palavras com ÷2 > 3. Revista de Ciências Humanas. denominadas as relações entre homens e mulheres. A primeira ramificação. indicando uma média de 6 ocorrências por palavra. foram inicialmente repartidas em dois subcorpora denominados respectivamente: problemas nas relações entre homens e mulheres (primeira ramificação) e reflexões sobre a relação homem-mulher (segunda ramificação). os resultados obtidos via analise textual das respostas das entrevistadas. 100% do total das UCEs que esse corpus tinha.

A classe 4 (o medo e os métodos de prevenção utilizados) e a classe 5 (a prevenção por meio da palavra). abril de 2004 . a certeza de que o outro está dizendo a verdade para ela seria a garantia de prevenção. sendo. tais como transfusão de sangue. implicando diferentes práticas sociais a respeito de um novo casamento. os responsáveis pelas separações são os hábitos dos maridos de sair sozinhos e de beber. O primeiro. O segundo subcorpus dessa primeira ramificação (a aids no contexto das relações amorosas) também se subdividiu em duas classes. Florianópolis: EDUFSC. portanto. isto é. Ambas guardam proximidades temáticas. em clínicas. Contudo. enquanto as mulheres sem parceiro fixo consideram difícil encontrar alguém e ter certeza de que essa pessoa está dizendo a verdade com relação a seus hábitos sexuais para que elas sintam-se seguras. pois falam sobre os problemas que levaram as entrevistadas às suas separações conjugais. mas se poderia pensar que o segundo fator (traições) tenderia a magoar mais as mulheres do que o primeiro (bebidas e sair sozinho). na classe 5. mas não pela via sexual. Enquanto. as mulheres que estão com parceiro fixo relatam ter medo de contrair aids. pois se sentem seguras com seus maridos. p. bebidas e separações). as entrevistadas relacionam uma forma de prevenção à aids centrada na palavra. É importante também observar que as mulheres que relataram terem se separado em função do hábito de sair sozinho dos maridos e de beber voltaram a se casar. a classe 1 é formada pelas respostas em que as mulheres responsabilizam suas separações pelas traições dos maridos. n. enquanto as que se separaram em função de traições masculinas não se casaram novamente.79-98.35. hospitais etc. embora. essa prevenção via palavra dá-se de diferentes maneiras para os dois grupos de mulheres. na classe 3. Revista de Ciências Humanas. na classe 4. As mulheres com parceiro fixo têm certeza de que seus maridos dizem a verdade para elas e de que eles não têm relacionamentos extraconjugais. na classe 1 (história dos casamentos.90 — Confiança no parceiro e proteção frente ao HIV Cada um desses dois subcorpora (problemas no casamento e separações e a aids no contexto das relações amorosas) ainda se subdividiu em duas classes estáveis. porém. desnecessária a prevenção no casamento. e sim por outros meios. traições e separações) e classe 3 (o sair sozinho dos maridos. Não foram encontrados dados a esse respeito na literatura. no consultório odontológico. Essas duas classes também guardam semelhanças temáticas. enquanto.

Andréia Isabel Giacomozzi — 91 As relações entre homens e mulheres de hoje em dia Problemas na relação entre homens e mulheres Problemas nos casamentos e separações A aids no contexto das relações amorosas Reflexões sobre a relação homem-mulher Classe 1 Histórias dos casamentos. bebidas e separações Classe 4 O medo e os métodos de prevenção utilizados Classe 5 A prevenção por meio da palavra Classe 2 O que falta nos relacionamentos Classe 6 A dificuldade de estabelecer um compromisso Figura 1 Dendograma da classificação hierárquica descendente sobre a distribuição das classes estáveis das respostas referentes à relação homem mulher: grupo de mulheres com e sem parceiro fixo (n = 40) A segunda ramificação. p. na classe 2. n.79-98. sem aprofundar um vínculo afetivo. abril de 2004 . carinho e igualdade). os homens tendem a ter maior facilidade em ter relacionamentos eventuais. enquanto na classe 6. respeito. pois. reflexões sobre a relação homem-mulher desdobrou-se em duas classes. uma relação de proximidade temática entre si. as entrevistadas comentam a dificuldade de estabelecer relações de compromisso com os homens. Revista de Ciências Humanas. Porém. traições e separações Classe 3 O sair sozinho dos maridos. guardando. segundo elas. ambas referentes a respostas sobre a relação entre homens e mulheres. portanto.35. as mulheres falam sobre o que está faltando nos relacionamentos (diálogo. Florianópolis: EDUFSC.

113 UCEs e a análise hierárquica descendente considerou todas as 1. abril de 2004 . Houve. Florianópolis: EDUFSC. 2003. p. 100% das UCEs foram selecionadas.066 formas distintas.79-98.35. 51. o que indica uma média de 10 ocorrências por palavra. Revista de Ciências Humanas. Foram consideradas para a análise. palavras com freqüência maior do que 10 e com c2 > 3. isto é. pelo programa ALCESTE. foi utilizado o mesmo procedimento do corpus 1.578 ocorrências de palavras e 5. n.84.92 — Confiança no parceiro e proteção frente ao HIV Análise dos resultados do corpus 2 sobre prevenção à aids e métodos anticoncepcionais das entrevistadas com e sem parceiros fixos Esse corpus refere-se às respostas das seguintes questões: 3) Qual o método anticoncepcional que você utiliza? 4) O que você pensa a respeito da prevenção à aids? 5) Você se sente prevenida em relação a aids? 6) Você poderia me contar alguma coisa que a tenha impressionado sobre aids? 7) Gostaria de falar mais alguma coisa a esse respeito? Para a análise do material. portanto. nesse corpus. Florianópolis. O corpus 2 foi dividido em 1.113 UCEs. RS e prevenção da aids e métodos de anticoncepção RS de aids e prevenção Prevenção da aids Classe 1 Mulheres com parceiro fixo falam da segurança frente à aids e confiança nos maridos Classe 2 Mulheres sem parceiro fixo falam sobre insegurança frente à aids Classe 3 O medo e a proximidade da aids Classe 4 Métodos de anticoncepção dos dois grupos Figura 2 Dendograma da classificação hierárquica descendente sobre a distribuição das classes estáveis das respostas das entrevistadas sobre RS e prevenção à aids e métodos de anticoncepção – grupo de mulheres com e sem parceiro fixo.

Já na classe 2. n. uma relação de proximidade temática entre si. mulheres com parceiro fixo falam sobre segurança frente à aids e confiança nos maridos. Uma vez que confiam em seus maridos. que se denomina Métodos de anticoncepção dos dois grupos. nesse segundo dendograma. Com relação ao grupo de mulheres com relacionamento fixo. as entrevistadas mostraram que se tornam mais vulneráveis. apesar de focalizarem diferentes práticas de prevenção. p. abril de 2004 . mulheres sem parceiro fixo falam sobre insegurança frente à aids. Na classe 1.Andréia Isabel Giacomozzi — 93 Observa-se. ambas referentes aos sentimentos de prevenção à aids dos dois grupos de entrevistadas.79-98. a hipótese lançada no início deste trabalho confirma-se. guardando. em outros dois subcorpus: o primeiro denominou-se O medo e a proximidade da aids e desdobrou-se em duas classes. portanto. e as dimensões dessas práticas sociais de não-prevenção ou da prevenção por meio da palavra são indícios de que essa maneira de pensar afeta as estratégias de prevenção desse grupo. A partir de então. para elas. Florianópolis: EDUFSC. que as respostas distribuem-se inicialmente em duas ramificações. não tomando medidas preventivas com relação à aids.35. Revista de Ciências Humanas. Discussão Os resultados desta pesquisa mostram que as representações sociais da prevenção à aids dos dois grupos de mulheres estão de acordo com suas práticas sociais de prevenção a essa doença. as entrevistadas falam sobre a não-necessidade de prevenção dentro das suas relações conjugais. é ter certeza de que seus maridos não mantêm relações extraconjugais. a confiança. sendo que a primeira ramificação constitui um subcorpus denominado Representação social de aids e métodos de prevenção e a outra é formada por uma classe que se contrapõe a todas as outras. as entrevistadas falam sobre a insegurança que sentem a respeito da aids e suas práticas de prevenção a essa doença. Elas relatam utilizar preservativo em todas as suas relações sexuais. embora a maioria delas admita já ter falhado em pelo menos uma vez ao longo das suas vidas sexuais em manter esse comportamento. O subcorpus Representação social de aids e métodos de prevenção desdobrou-se em uma terceira ramificação. pois o risco com relação à aids inicia-se quando a relação de intimidade e confiança se estabelece.

e com cuidados de higiene e com a saúde de maneira geral. que elas preferem não atravessar. Considerações finais Esta pesquisa procurou levantar aspectos com relação às representações sociais da sexualidade e prevenção à aids que influenciam os comportamentos preventivos de mulheres com e sem relacionamento fixo. abril de 2004 . ao menos uma vez ao longo de sua vida sexual. Para as mulheres com parceiro fixo. são vários os obstáculos encontrados para se prevenir de doenças sexualmente transmissíveis em uma relação conjugal. uma vez que elas não se sentem totalmente prevenidas e têm medo de contrair a doença. n. a lógica da prevenção dá-se com a manutenção da fidelidade no casamento. tanto da mulher quanto do homem. Florianópolis: EDUFSC. existe um grande abismo. pois a doença está relacionada com dor. Nas falas das entrevistadas com relacionamento fixo. bem como a prevenção à aids. p. Com relação à prevenção da aids. embora já tenham falhado nisso. utilizando sempre o preservativo em seus encontros sexuais. enquanto o relacionamento amoroso que elas procuram construir passa pela entrega. percebe-se que aids não combina com amor. Além desses. Os dados encontrados revelam que os dois grupos de mulheres (com e sem parceiro fixo) tendem a construir diferentes formas de pensar a sexualidade.94 — Confiança no parceiro e proteção frente ao HIV Para as mulheres sem relacionamento fixo. para contribuir com estratégias preventivas para essa população. não questionar. sofrimento e morte (aspectos desvalorizados socialmente). pela confiança e pelo companheirismo.79-98. embora elas sintam dificuldades de negociar o uso da camisinha com seus parceiros eventuais e admitam que já fracassaram pelo menos uma vez nesta negociação. para não desmoronar seus sonhos de um casamento feliz. procuram ter práticas efetivas de proteção. as representações sociais da prevenção à aids também estão de acordo com suas práticas de prevenção frente a essa doença.35. para as mulheres sem relacionamento. Revista de Ciências Humanas. A confiança em seus parceiros é aspecto fundamental no relacionamento e justifica o não-uso de métodos de barreira nas relações sexuais. os riscos devem ser evitados usando camisinha. Entre essas duas instâncias. portanto.

1996.79-98. por exemplo. dentre outros. a responsabilidade de negociar com seus parceiros as práticas de sexo seguro. nesse caso. mais fácil estabelecer limites frente ao outro e negociar o sexo seguro. 1999). criaria a sensação de que o uso do preservativo seria desnecessário. elas mesmas ainda têm dificuldade de se visualizar em uma posição de risco. Segundo Martin (1997). a crença de que a camisinha é incômoda ou reduz o prazer sexual. na verdade. SILVA.35. trabalhar exclusivamente com um dos sexos é desconsiderar o caráter relacional constituinte dos gêneros e depositar apenas sobre as mulheres. em nível individual. há a dependência financeira do parceiro. Dessa forma. para poder ficar em pé de igualdade com os parceiros na hora de tomar decisões sobre sua própria sexualidade. bem como conceber a aids como tendo forte conotação de construção cultural em que as normas de gênero. já que essas questões envolvem ambos os parceiros. estão intimamente imbricados. fortemente ancorado na forma como as relações de gênero se estabelecem socialmente. tabus e preconceitos difíceis de ser modificados. especialmente levando-se em conta que. pois não existe nesses relacionamentos eventuais nenhum envolvimento afetivo com o parceiro. p. somente a noção de indivíduo. o medo de questionar ou de ser questionada a respeito de fidelidade. Além disso. seja necessário reconstruir profundamente as identidades feminina e masculina. além de estarem livres de todos esses aspectos que envolvem as relações de conjugalidade. portanto. Para as entrevistadas que não mantêm uma relação conjugal. n.Andréia Isabel Giacomozzi — 95 O fato de a maioria das entrevistadas usar a pílula como método anticoncepcional ou serem laqueadas. crenças. mais e mais pessoas alcancem essa autonomia. esses argumentos mostram que o sexo inseguro está longe de ser uma atitude irresponsável e limitada ao fato de não entrar em contato com o HIV. mas está. abril de 2004 . É preciso que. Talvez. seria. Revista de Ciências Humanas. dentre outros. com suas significações. os aspectos afetivos. Assim sendo. os programas que visam à prevenção e à intervenção junto a tal população poderiam privilegiar o trabalho com casais. para isso. Faz-se necessário também considerar não somente a responsabilidade individual pela contaminação ou exposição ao vírus HIV. mas os aspectos socioculturais e políticos que envolvem os sujeitos nos contextos de suas comunidades. Florianópolis: EDUFSC. como demonstram as pesquisas (DUARTE.

M. R. D. (Orgs. 1994. AYRES. e cols. Pratiques sociales et representations. mas que ela não seja um “tapa-olhos” para a sociedade e que as discussões e a luta pela igualdade entre os sexos não pare em função de sua chegada. Acesso em: mar. R. (Orgs.br/ udtv>. 1998. CAMARGO. 1998). Revista de Ciências Humanas. identidades e poder. Paris: Presses Universitaires de France. reconhecendo os mecanismos utilizados para a desvalorização feminina e reconstruindo a visão de o que é ser mulher e ser homem. A contaminação em massa pelo HIV é apenas mais um dos reflexos dessas desigualdades. BRASIL. nós contraímos: uma (psico)lógica (im)permeável à informação? In: MADEIRA. A vacina contra a aids realmente seria muito bem-vinda diante do quadro geral em que se encontra a contaminação entre a população mundial.). As desigualdades sociais entre homens e mulheres estão profundamente enraizadas na sociedade. Sexualidade e representações sociais de estudantes universitários da UFSC sobre AIDS. Ministério da saúde. 2002. B. R. abril de 2004 .).gov. CARVALHO. In: BARBOSA. É necessário que haja uma profunda mudança nos valores sociais e de gênero. Boletim epidemiológico-AIDS . 1999.2002: sistema nacional de notificação. Referências bibliográficas ABRIC.97-110. Sexualidade pelo avesso: Direitos. J. Eu confio. é necessário que primeiro se rediscutam as normas de gênero que regem a pessoa. p. Revista de Ciências Humanas.96 — Confiança no parceiro e proteção frente ao HIV individual e coletiva. bem como refazendo uma visão das relações e práticas sociais (FARIA. AIDS e representações sociais: a busca de sentidos: EDUFRN. M. J. para garantir a prevenção à aids entre a população. tu prevines. Disponível em: <http://www.35.aids. e PARKER. e JODELET. 2000. Florianópolis. M. n. Florianópolis: EDUFSC.79-98. Rio de Janeiro: IMS/UERJ. Vulnerabilidade e prevenção em tempos de Aids. p. para que as futuras gerações estejam longe dessa ameaça à saúde pública. M. de C. Desse modo.

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(Recebido em janeiro de 2004 e aceito para publicação em novembro de 2004) Revista de Ciências Humanas. 1998.98 — Confiança no parceiro e proteção frente ao HIV OLTRAMARI. Universidade Federal de Santa Catarina. abril de 2004 . D. uma categoria útil de análise histórica. Educação e Sociedade. SILVA. n. e ABRAMSON.504-528. Mulheres: casamento aids e doenças sexualmente transmissíveis./dez. AIDS e estudantes: a estrutura das representações sociais In: MADEIRA. 1990. D. 1993. R.35. Representações sociais de profissionais do sexo da região metropolitana de Florianópolis sobre prevenção da Aids e DSTs. Rev. L. SCOTT. (Orgs. M. Evaluation Review. Evaluating the risks: a Bernoulli process model of HIV infection and risk reduction. C. AIDS e representações sociais: a busca de sentidos: EDUFRN. e JODELET. 2002. p. 143f. São Paulo. Gênero. TURA.79-98. PINKERTON. USP. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Curso de Pós-graduação em Psicologia. Florianópolis. L. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Curso de Pósgraduação em Psicologia. Florianópolis: EDUFSC. 1999. 16 (2): 5-22. F. p. S. J. R. Porto Alegre. jul.). P.

using as subjects students attending their first and fourth terms at Federal University of Itajubá. Além de identificar possíveis alterações nas RSs em meio ambiente. Endereço para correspondências: Universidade Federal de Itajubá. abril de 2004 . Avenida BPS. Brazil (UNIFEI-MG). An inquiry has been carried out. Florianópolis: EDUFSC. CEP 37500-903. MG. MG. n. n. alunos de graduação em Engenharia Ambiental da Universidade Federal de Engenharia de Itajubá e ao CNPq. CEP 37500-903. In addition to identifying possible changes regar- The environmental engineer students social representations of environment. 1303. na Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI-MG). Revista de Ciências Humanas. namely view that environmental engineering students have of environment. ou seja. Itajubá. a visão de meio ambiente de alunos de Engenharia Ambiental. n. MG. p. Bairro Pinheirinho. Avenida BPS. órgão financiador. 2 Endereço para correspondências: Universidade Federal de Itajubá.Representações sociais sobre meio ambiente de alunos que cursam Engenharia Ambiental* David José Diniz1 Rita de Cássia Magalhães Trindade Stano2 Universidade Federal de Engenharia de Itajubá Resumo Estudo3 que objetiva apresentar as representações sociais (RSs). Bairro Pinheirinho. provocadas pelo __________________________________________________ * 1 Abstract The main purpose of this paper is to account for certain social representations (SR). 1303. que durante a realização da pesquisa cursavam o primeiro e o quarto ano do referido curso. Itajubá.99-115.35. 3 Agradecimentos aos sujeitos co-participantes desta pesquisa.

currículo. ecossistema etc. pois são entendidos. conceito científico ou representação social? São considerados conceitos científicos: nicho ecológico. podem-se encontrar os conceitos científicos na forma em que foram internalizados pelas pessoas. inserir o humano positivamente torna-se imprescindível para a construção de uma representação social de meio ambiente. representação social. Florianópolis: EDUFSC. p. which had been provoked by courses and classes offered. caracterizá-lo dentro do conceito de RS e não de conceito científico.99-115. Dessa forma. environment. que seja condizente com as necessidades de se formar profissionais de engenharia conscientes de seu papel na sociedade atual. que podem estar ou não inseridas na comunidade científica. se comparadas as várias definições de “meio ambiente” feitas por especialistas de diferentes ciências. respondendo à seguinte questão: Meio ambiente. n. neste momento. According to the results thus gotten. another aim of the applied methodology was to identify and suggest appropriate curricular changes. como conclui Reigota (1998). meio ambiente. por seu caráter difuso e variado.100 — Representações sociais sobre meio ambiente de alunos que cursam Engenharia Ambiental curso e por suas disciplinas. Por outro lado. ding SR of environment. meio ambiente pode ser considerado então uma representação social. de Marcos Reigota.35. definidos e ensinados universalmente como tais. Keywords: Engineering. em um segundo momento. Assim. vê-se que não existe consenso sobre o termo. julga-se válido. Revista de Ciências Humanas. one’s definite insertion is very important to the construction of a SR of environment that can be suitable to the needs of engineers who are aware of the role they have to play in society today. Introdução A ntes de fazer o levantamento de representação social de meio ambiente. social representations. abril de 2004 . mudanças curriculares. Palavras-chave: Engenharia. representando um consenso. fotossíntese. transcritas do livro Meio Ambiente e Representação Social. Nesse sentido. curriculum. podendo-se supor que ele ocorra fora dela. quando pertinentes. hábitat. foi identificar e sugerir. nas representações sociais.. na comunidade científica. outro objetivo da metodologia aplicada.

35. na qual ele é expresso. n. considerando que uma das definições de sociedade é agrupamento de seres que vivem em estado gregário (FERREIRA. diferentes tipos de conhecimento estão correlacionados às diferenças específicas na situação das sociedades em que são produzidos e usados (ELIAS. é específico de um grupo. e c) Sugerir mudanças curriculares. e que são unidas pelo sentimento de consciência do grupo. pode-se considerar que essas características cabem na microssociedade formada pelos sujeitos desta pesquisa. 1998). assim como a linguagem. utilizando-se métodos interrogativos. objetivos deste estudo: a) Identificar as possíveis mudanças provocadas pelo curso de Engenharia Ambiental nas representações sociais sobre meio ambiente de seus alunos. Fundamentação teórica Representação social na construção do conhecimento Por se tratar de uma pesquisa em educação. conhecer e organizar os elementos constituintes das RSs. b) Detectar semelhanças e diferenças nas RSs.David José Diniz e Rita de Cássia Magalhães Trindade Stano — 101 A partir disso. ainda mais em se tratando de um tema tão abrangente e complexo. Assim. O conhecimento é pessoal e. cada pessoa parte da palavra e entra na preexistente corrente de conhecimento. coletivo. lançou-se mão de metodologias baseadas nos conceitos de pesquisa qualitativa em educação e de estudos em representação social. ao mesmo tempo. este estudo baseia-se na necessidade de realizar uma pesquisa em educação. Além disso. Dessa forma. 2000). conjunto de pessoas que vivem em certa faixa de tempo e espaço. corpo social. Florianópolis: EDUFSC. como desenhos e associações de palavras para detectar. como meio ambiente. ou seja. Para a realização desta pesquisa. ato que vem evoluindo bastante pela importância de se caracterizar qualitativamente o processo de aprendizagem. de transmissão de conhecimento. segundo Elias (1998).99-115. Revista de Ciências Humanas. o que permite que seja representado simbolicamente por diversas linguagens. seguindo normas comuns. que ela pode melhorar ou aumentar e. abril de 2004 . fica evidente a necessidade de caracterizar o processo de conhecimento. p. estabelecendo uma comparação entre alunos que estavam iniciando (primeiro ano) e concluindo (quarto ano) o curso de Engenharia Ambiental.

de uma linguagem específica do grupo. A representação social se constrói no processo de comunicação. Revista de Ciências Humanas.35). espera-se que o indivíduo sofra “modificações”. 1996). na época em que o indivíduo entra no processo de aprendizagem. objetivando e selecionando seus comportamentos e coordenando-os em função de uma procura de personalização (MALRIEU. proposições e explicações originados no cotidiano. Elas equivalem. Devido às características do conhecimento. apud LANE. a ideologia possam ser detectadas. no qual o sujeito põe à prova. à medida que percorre esse processo. p. como parte disso. o caráter qualitativo e o estudo em representação social. que torna importante a realização de estudos na educação é o fato de que ninguém pode saber sem adquirir conhecimento de outros. que se dá entre as pessoas. Compreender. representações sociais implica conhecer não apenas o discurso mais amplo.99-115. mas a situação que define o indivíduo que as produz. abril de 2004 . 1998). Assim. podendo também ser encaradas como a versão contemporânea do senso comum. no qual as lacunas. p. meio indispensável para adquirir qualquer conhecimento (ELIAS.102 — Representações sociais sobre meio ambiente de alunos que cursam Engenharia Ambiental Outra característica relevante do conhecimento. através de suas ações. conseqüentemente. sem partir de um grupo de conhecedores que dividem um fundo comum de conhecimento e. Uma análise concreta das representações que um indivíduo tem do mundo que o rodeia somente é possível se consideradas inseridas num discurso bastante amplo. 1991. o valor – vantagens e desvantagens – do posicionamento dos que se comunicam com ele. Todavia. segundo Elias (1998) as diferenças específicas nas estruturas do conhecimento podem esclarecer o fato de que o ponto de partida do conhecimento individual é a condição social do conhecimento. segundo Moscovici (apud SÁ. Florianópolis: EDUFSC. no processo de comunicações. aos mitos e sistemas de crenças tradicionais. entende-se um conjunto de conceitos. as contradições e. na sociedade ou grupo. na pesquisa em educação. Nesse sentido. então. Por representações sociais. n.35. cabe.

assim como este. que reúne aqui linguagem. de maneira mais ampla. 2000). método para executar ou alcançar algo. um caminho. torna-se indispensável o pensamento complexo. como mostra a própria definição de ambiente. essa expressão engloba também as “coisas”. Sendo assim. maneira ou modo de agir. mas recusa as conseqüências mutiladoras. integra o mais possível os modos simplificadores de pensar. ao lugar com suas características e condicionamentos geofísicos. ilusórias de uma simplificação que se toma pelo reflexo do que há de real na realidade (MORIN. o seu sentido mais abrangente. p. sítio. recinto. O pensamento complexo. às vezes. espaço. Meio ambiente deve abranger também. ao contrário do pensamento simplificador que desintegra a complexidade do real. já que “meio” também significa via. finalmente. comunicação. ou seja. 2000). além de já conter em si o sentido de ambiente. redutoras.99-115. maneira de conseguir algo. aquilo que resulta desse agir. por todos os lados (FERREIRA.35. o termo “meio ambiente” transmite a idéia de um conjunto de condições naturais e de influências que atuam sobre os organismos vivos e os seres humanos (FERREIRA. A palavra “meio” pode expressar metade em distância ou tempo. talvez. tem como desafio exercer um pensamento capaz de tratar o real. capacidade. Indo mais além. segundo Morin (1990).David José Diniz e Rita de Cássia Magalhães Trindade Stano — 103 O pensamento complexo na relação meio ambiente e ser humano O conceito de “meio ambiente” nem sempre é colocado de forma a traduzir a complexidade que lhe é inerente. as relações socioculturais. organização. abril de 2004 . centro. esteja principalmente no fato de que. unidimensionais e. perdendo ele. locais naturais ou construídos pelos seres vivos. de dialogar e de negociar com ele. uma via. quando descreve que reúne espaços. Já o substantivo “ambiente” traduz a definição de lugar. conseqüentemente. 1990). A relação entre meio ambiente e a teoria do pensamento complexo. o que não contém vida. aquilo que cerca ou envolve os seres vivos ou as coisas. n. Florianópolis: EDUFSC. Revista de Ciências Humanas. poder ou capacidade para praticar uma ação. método. quando se refere à esfera social ou profissional. ou seja. Em se tratando de meio ambiente. onde se vive ou trabalha. ação e. aquele compartilha a ambição de dar articulações entre domínios disciplinares. que.

sem eliminar a contradição interior. Já Campos (apud NASCIMENTO. retirar a ambigüidade.104 — Representações sociais sobre meio ambiente de alunos que cursam Engenharia Ambiental que são quebrados pelo pensamento disjuntivo. mais uma vez. podem ser complementares sem deixar de ser antagônicas (MORIN. 1990). Isso ocorre. Florianópolis: EDUFSC. Os mesmos resultados foram encontrados por Nascimento (2000). Revista de Ciências Humanas. em um estudo voltado às representações sociais sobre meio ambiente. 2000) o que se observa são versões “naturalistas” do meio ambiente. apud MORIN. porém. mesmo sendo pressuposta. ações. antagônicas umas às outras. que aborda acontecimentos. enquanto a ação e a presença humana aparecem menos freqüentemente. por moradores de Florianópolis. ou seja. por parte de estudantes e profissionais de diferentes áreas. Cabe. ressaltar a necessidade do pensamento complexo. 1990). preocupação em superar a visão fragmentada de mundo. mediatas e imediatas. com a intenção de pôr ordem nos fenômenos. que não existe consenso sobre o que seja meio ambiente. que verdades profundas. permitir.35. determinações. n. o inverso não ocorreu com a mesma magnitude”. em um estudo sobre representações sociais da natureza e do meio ambiente. nos guias curriculares e programas governamentais. 2000). Outra contribuição do pensamento complexo à definição de meio ambiente está no fato de aquele rezar. Isso é referendado por Moraes (apud NASCIMENTO. Além disso. por parte de professores de primeiro grau. acasos. “Meio ambiente é identificado principalmente como natureza. observou que a maioria quase absoluta de coleções de livros didáticos caracterizam-se pelo cunho naturalista das concepções de meio ambiente e estudos ambientais. que todas se mantêm por um elo natural e insensível. retroações. 1990) além de presenciar representações naturalistas sobre meio ambiente. ou seja. ao examinar as definições de meio ambiente fornecidas por especialistas de diferentes áreas científicas. Segundo Reigota (apud NASCIMENTO.99-115. que todas as coisas são causadas e causadoras. turistas e agentes mediadores do turismo na ilha. com a reintegração dos seres humanos ao seu ambiente e com o desenvolvimento sustentável. afastar o incerto. p. interações. que constituem o mundo fenomenal do ser humano (MORIN. que liga as mais afastadas e as mais diversas. os resultados reforçaram uma visão naturalista do meio ambiente. aspirando ao pensamento multidimensional. em seu enunciado (PASCAL. por parte dos sujeitos entrevistados. ajudadas e ajudantes. sem rejeitar a desordem. o autor conclui. abril de 2004 . 1990).

. que tem a sua individualidade. ao idealismo que oculta a realidade que se encarrega de traduzir e se considera como a única real. No entanto. para a complexidade. objeto e sujeito abandonados. atribui-se a ele pouca individualidade. portanto. à uma patologia da idéia. pois a organização do ser vivo se dá no desequilíbrio recuperado ou compensado.99-115. como definido em Morin (1990). sempre salvaguardou o princípio da vida e de sua diversidade. fundamentada. pára ou fracassa (MORIN. são conceitos insuficientes. a fim de manter as suas estruturas e o seu meio interior. Como coloca Boff (1999). mas sempre sobreviveu.] sistema que tem necessidade de ser fechado ao mundo exterior. também auxilia na elaboração do termo meio ambiente. que conduz às atividades semelhantes.David José Diniz e Rita de Cássia Magalhães Trindade Stano — 105 até porque os seres humanos são sabedores. 1990). cada um a eles próprios. a Terra. um sistema que não faz trocas com o exterior e está em muito pobres relações com o meio. p. o meio estranho (MORIN. 1990. a concepção da situação atual. Ao considerar o meio ambiente um sistema fechado. a partir do pensamento complexo. p. conheceu cataclismos inimagináveis. é mister o reconhecimento. indeterminações. ela mesma ligada a relações muito ricas e. 1990). Deve-se se desprender do pensamento mutilador. Florianópolis: EDUFSC. no dinamismo estabilizado. 1990). n.. pois. mas que simultaneamente obtém este fecho a partir da sua abertura. simplificador. em sua biografia. caso contrário.32). que deve funcionar nas circunstâncias que permitem o seu cumprimento. fenômenos aleatórios (MORIN. dependentes do meio. elaborada.35. opondo-se a um programa que é uma seqüência de ações predeterminadas. nele. Revista de Ciências Humanas. que só pode ser totalmente lógico ao introduzir. ela compreende também incertezas. um sistema aberto (MORIN. porque a complexidade não compreende apenas quantidades de unidades e interações que desafiam as possibilidades de cálculo. abril de 2004 . ao contrário de um sistema aberto. Fica mais clara e completa a definição de meio ambiente sob a luz do pensamento complexo. optando-se por uma visão de meio ambiente como um [. A visão de sujeito e objeto. um sistema autoeco-organizador. não podendo bastar-se a ele próprio. com objetivo de estabelecer um ponto de partida para uma estratégia de mudança consciente.

desconhecido porque é indeterminado. n. o que inclui todos como participantes e jamais como meros espectadores. estranho. de forma geral. Nesse contexto. segundo o qual. se sujeito reflete o mundo. a completude das definições. mas sim abrir campo para uma discussão. sendo estudado pela ecologia. Mesmo com toda essa vasta possibilidade de definições e associações. nada existe sem ele. como revela uma das definições do Webster”s Unabridged Dictionary. no qual o objeto é o determinável. abertura para uma eventual ultrapassagem da alternativa para um eventual progresso do conhecimento” (MORIN. porque é totalidade. citada por Odum (1998). não há objeto sem sujeito e sujeito sem objeto. familiar etc. pode ser definido como “ambiente da casa” e inclui todos os organismos contidos nela e todos os processo funcionais que a tornam habitável (ODUM. pois a complexidade não tem a pretensão de comportar a verdade absoluta. e que o mundo nunca será aprisionado no discurso. 1990. que é o estudo do “lugar onde se vive”. de uma para a outra. até porque a noção de sujeito somente toma sentido num ecossistema (natural. Indo um pouco além na questão sujeito-objeto. Partindo daí para o tema do reflexo. a saída. é o suporte de toda a verdade e. Revista de Ciências Humanas. o sujeito é o tudo-nada. reconhecer a sua subjetividade. fechada sobre si mesma. com ênfase na totalidade ou no padrão de relações entre os organismos e o seu ambiente. mas tudo o exclui. olhar-se do exterior. uma ampliação da visão. Florianópolis: EDUFSC. em que “a noção de sujeito e objeto se reconhecem tornando-se abertura. isso pode também significar que o mundo reflete o sujeito (MORIN. o sujeito é o desconhecido.71). Ser humano e meio ambiente Meio ambiente. ao mesmo tempo. Segundo esse paradigma.99-115. espelho. manipulável. a solução. 1988). deve-se ter em mente que o que se define pela complexidade nunca será encerrado no conceito. dos conceitos. social. conseqüentemente. p. o erro diante do objeto.106 — Representações sociais sobre meio ambiente de alunos que cursam Engenharia Ambiental a idéia assume extrema pobreza. Ainda. dá-se pela consideração do ecossistema social. abertura para o mundo. uma crítica. por assim dizer. e também para o que propõe Boff (1999). abril de 2004 .35. 1990). chega-se ao que Morin (1990) chama de paradigma do Ocidente. o isolável e.). p. que permite ao ser humano distanciarse de si mesmo.

2) os dados são predominantemente descritivos. a Terra é para nós (BOFF. 21). seja qual for o conceito formado sobre meio ambiente. e somente eles o fazem. ao considerar a relação ser humano e meio ambiente. nós somos para a Terra. Ele inter-existe e co-existe com outros seres no mundo e no universo. 5) a análise dos dados tende a seguir um processo indutivo. n. ele deve evidenciar a consciência de que o ser humano é um fator da conservação ambiental. a ferramenta eficaz será a expansão da educação ambiental (FILHO. Assim: Revista de Ciências Humanas. e inserir-se conscientemente nela. 4) o “significado” que as pessoas dão às coisas e à sua vida é foco de atenção especial pelo pesquisador. p. é mesmo uma experiência universal e exclusivamente humana: todos os homens educam-se. a pesquisa qualitativa em educação apresenta cinco características básicas: 1) a pesquisa qualitativa tem o ambiente natural como sua fonte direta de dados e o pesquisador como seu principal instrumento.35. em relação essencial com as outras características desse último (REZENDE. Metodologia Pesquisa em educação De acordo com Sá (1996). p. Ainda. ao mesmo tempo. deve-se começar por reconhecer que se trata de uma experiência profundamente humana. Isso significa que a experiência da educação torna-se uma das manifestações mais primitivas e típicas do fenômeno humano. Ao considerar a educação um fenômeno. 1998. Em sentido forte. Em primeira instância. o realizador de sociedades em que a justiça social e a dignidade humana sejam valores respeitados e atuantes.David José Diniz e Rita de Cássia Magalhães Trindade Stano — 107 Entretanto. 1999). de recuperação dos espaços perdidos e. Para tanto. abril de 2004 . 1990). É seu antropocentrismo ancestral e seu individualismo visceral. Somente a partir daí. A centralidade em si mesmo – antropocentrismo – é sinal de arrogância e de falsa consciência. é importante voltar para a seguinte descrição: Importa tirar o ser humano de seu falso pedestal e de sua solidão onde se autocolocou: fora e acima da natureza. 3) a preocupação com o processo é muito maior do que com o produto. Ele precisa reconhecer esse vínculo de solidariedade cósmica. Florianópolis: EDUFSC.99-115.

evidenciase. segundo Rezende (1990). dessa forma. que é de projeção-prospectiva. na medida em que indivíduos e grupos. No terceiro momento. a sociedade e as classes sociais. p. podem viver sem perceber o sentido que suas vidas realmente têm (REZENDE. do que para sua negação revolucionária (REZENDE. a que se chama de fase da constatação. para a fenomenologia. julgada preferível e desejada pelos sujeitos e para eles. em vista de uma outra realidade. 51). um dos melhores indicadores do senso do sentido e do senso da realidade. 1990). a educação e a aprendizagem têm contribuído muito mais para a reprodução do sistema.108 — Representações sociais sobre meio ambiente de alunos que cursam Engenharia Ambiental Educar-se. somente três momentos correspondentes aos três sentidos da palavra “sentido”. Num primeiro momento. embora nem sempre de maneira significativa. em vista de uma descrição suficiente e significativa da situação de mundo que foi escolhida como objeto de pesquisa. Sobre pesquisas em educação (e em ciências humanas). p. quando muito. constata-se a realidade com um levantamento adequado dos dados.35. exatamente porque as questões não eram significativas. do sentido dado. sem atingir a segunda e muito menos a terceira. em aprender o sentido. O problema subjacente a semelhante posicionamento é o da alienação. não apenas para explicá-la. Aqui. antes de tudo. importa saber o que eles significam. correspondente ao segundo sentido da palavra “sentido”. É claro que. ou.99-115. mas no intuito de compreendê-la. de uma outra situação histórica. consiste. 1990. Muitas pesquisas em educação têm-se limitado à primeira dessas três etapas. como essas contradições e possibilidades podem ser exploradas. ou mesmo a humanidade. mais do que os dados simplesmente estatísticos. Semelhante constatação faz-se pela tentativa de evidenciar as diversas relações internas e as manifestações de suas contradições. bem como a descoberta das possibilidades de auto-superação. considera-se a realidade constatada. num questionamento da realidade. para que a existência possa ser vivida humanamente como tal. pela fenomenologia. Florianópolis: EDUFSC. abril de 2004 . O estabelecimento de um questionário é considerado. elas deveriam apresentar. Revista de Ciências Humanas. Num segundo momento. à luz do projeto. Um questionário pode proporcionar respostas perfeitamente insignificantes. mais para a consciência de seu vigor auto-reprodutivo. n.

e 4) Meio Ambiente e Você. Descrição das etapas percorridas Após a elaboração do projeto de pesquisa. ou seja. abril de 2004 . Florianópolis: EDUFSC. aqui chamados de sujeitos e não de objetos. 2) Meio ambiente e a Sociedade.. este estudo exigiu a utilização de métodos que possibilitaram levantar os elementos constitutivos da representação. uma representação social define-se por seu conteúdo (informações e atitudes) e sua organização. 3) Meio ambiente e a Engenharia Ambiental. uma aparente dicotomia (indivíduo-sociedade). separadamente. exatamente esta. b) Alunos do quarto ano de Engenharia Ambiental. descritos a seguir: a) Alunos do primeiro ano de Engenharia Ambiental. que lhes viessem à mente. Na perspectiva teórica. n. em termos gerais. 1996).99-115. seguindo esta. pois. determinada de “núcleo central” (ibid. Revista de Ciências Humanas. os sujeitos dessa pesquisa foram alunos dos cursos de Engenharia Ambiental da Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI-MG). nos dois primeiros itens.35. por se tratar de uma pesquisa educacional que envolve seres humanos. em termos de “humanidade” e em temos específicos. conhecer e organizar esses elementos e delimitar o núcleo central da representação. escrevessem dez palavras. em educação. propôs-se. aos dois grupos de sujeitos da pesquisa. p. que foi propositalmente sugerida. as coisas acontecem de maneira tão interligada que fica difícil isolar as variáveis envolvidas e mais ainda apontar claramente quais são as responsáveis por determinado efeito (LÜDKE e ANDRÉ. percebeu-se que poucos fenômenos nessa área podem ser submetidos a esse tipo de abordagem analítica. por permitir a análise de sentidos dados à relação que os estudantes concebem sobre o ambiente. nas quatro folhas em branco distribuídas. referentes aos seguintes temas. Quanto ao campo de trabalho.David José Diniz e Rita de Cássia Magalhães Trindade Stano — 109 Com a evolução dos próprios estudos na área da educação. Essa organização repousa sobre uma hierarquia entre os elementos. Sendo assim. Então. as técnicas a serem aplicadas no levantamento e na análise dos dados foram definidas. bem como os sujeitos da pesquisa. ordem: 1) Meio ambiente e o Ser Humano. sua estrutura interna. Aqui se observa. quanto aos sujeitos envolvidos e inseridos em grupos sociais e as inter-relações com o meio ambiente. que. 1986).

35. pôde-se identificar o que. uma análise.110 — Representações sociais sobre meio ambiente de alunos que cursam Engenharia Ambiental Assim. em Representação Social (RS). RS (incidência comum de significados do grupo de pesquisados). fizessem um desenho nessa folha. Tabela 1 Palavras de maior destaque nas associações de palavras dos alunos do primeiro e do quarto ano de Engenharia Ambiental Revista de Ciências Humanas. sugeriu-se a eles que. num próximo passo. n. para cada tema sugerido. pensando em meio ambiente. com os desenhos e seus respectivos títulos.99-115. Nessa fase. Com as associações de palavras. confirmar os conceitos descritos nas relações de palavras. distribuída a cada aluno. p. em uma folha de papel almaço em branco. Resultados e discussão As palavras que mais foram relacionadas por turma. Florianópolis: EDUFSC. abril de 2004 . mediante reafirmações nas respostas. ou seja. puderam-se identificar termos que definiram e confirmaram a concepção de meio ambiente de cada aluno e. tais itens permitem reforçar sentidos dados. Consideraram-se palavras que apareceram numa quantidade mínima capaz de ter alguma representatividade. ou permitem o desvelamento mesmo de contradições. a fim de configurar o NC. dos dados obtidos. Em seguida. chama-se de Núcleo Central (NC). dando-lhe posteriormente um título. na construção de representações sociais. Fazendo-se. o trabalho caracterizouse por um entrecruzamento dos dados. por grupo. na detecção do Núcleo Comum da RS estão na Tabela 1.

como desmatamento. uma série de palavras otimistas. preocupação. Isso se percebe nas duas turmas. no mínimo. essa relação inclui o EU. com maior intensidade nas associações de palavras dos alunos do primeiro ano. ou seja. Revista de Ciências Humanas. auto-incluem-se no universo que essas palavras abrangem. que abordam o tema água. uma posição de salvamento. de essa “falsa dicotomia” ter contribuído para reafirmar sentidos.99-115. num processo de auto-exclusão. n. Se ela desrespeita. pelo menos. analisando-se a quantidade de disciplinas ministradas. EU respeito. quando vista do ângulo pessoal (Eu e Engenharia). é mais otimista (respeito. na ENGENHARIA AMBIENTAL e no SER HUMANO. Quando se trata de fazer uma relação de palavras associando o meio ambiente e o curso que se está fazendo. porém. proteção. Aí os sujeitos deixam claro uma concepção de meio ambiente como matéria-prima. duas reflexões: primeiro. Quanto ao termo SOCIEDADE. que deve ser trabalhado conscientemente (proteção). EU preservo. considerando-se a “falsa dicotomia” que pode ter provocado uma necessidade de distinção de sentidos para a elaboração das listas de palavras pedidas. a relação com o meio ambiente. quando associado a meio ambiente. Daí resulta. Ao invés. há exclusão do EU social. Assim. abril de 2004 . porém. Segundo. EU tenho consciência.35. os estudantes ressaltarem toda a problemática atual que vem se discutindo acerca das questões ambientais. observa-se que ela pode ter contribuído para desvelar uma dicotomia que é vivida pelos próprios estudantes. Esses dados devem ser. pois descreve um comportamento da SOCIEDADE diferente do seu. relativizados. um processo de auto-exclusão. destruição. Florianópolis: EDUFSC. é correlacionado por uma série de palavras que expressam atitudes negativas. Se ela trata o meio ambiente com indiferença. ou. proteção). o EU-engenheiro. preservação.David José Diniz e Rita de Cássia Magalhães Trindade Stano — 111 A Tabela 1 desperta. ao associar essas palavras a meio ambiente. p. em relação ao meio ambiente. identificam-se no EU. Esse comportamento pode ser explicado. poluição etc. afinal. Se a SOCIEDADE destrói. enquanto os OUTROS (Sociedade e Ser Humano) agridem o meio ambiente (degradação. poluição. a palavra que se destaca é “água”. desmatamento). o meio ambiente é associado a um recurso natural. Percebe-se. porém. pois. no decorrer do curso. reserva-se uma atitude. nessa dicotomia. Os sujeitos em destaque vêem-se presentes. nota-se a tendência de. ao associar Meio Ambiente e o EU. para o EU.

percebeu-se incoerência de idéias e de conceitos. o Homem é visto como aquele que não se preocupa. Quando se faz alguma referência do humano. Nesse contexto. associar meio ambiente. Na maioria dos desenhos. o ponto alto da análise está na percepção da ausência. evidencia-se a eliminação do ser humano. meio ambiente e vida são descritos pela natureza. p. elemento cuja presença impossibilita a existência de um mundo ambientalmente correto. expressão abordada anteriormente neste trabalho. nesse contexto. destruído. fazendo-se uso invertido desses conceitos. principalmente nos desenhos realizados pelos alunos do primeiro ano. entendendo-se o desenvolvimento econômico. é indispensável. ele é. em praticamente em todos os desenhos. como. principalmente daqueles que pertencem ao grupo de sujeitos composto pelos alunos do quarto ano. aquele que está alheio à condição atual do meio ambiente. idealizada. não como um super-homem. da figura humana. n. somente tem espaço quando a intenção é demonstrar um meio ambiente degradado. destaca-se uma visão romântica. Vale levantar aqui a questão da formação de idéias e conceitos dos alunos. nesse contexto definido pelos sujeitos como o planeta. Entretanto. O desenvolvimento. na qual predomina uma relação simplista de meio ambiente com os elementos da natureza. aliado a atitudes e valores ambientalmente corretos. ela está associada quase sempre a suas atitudes prejudiciais ao meio ambiente. Uma visão do humano. revela-se uma visão que se pode determinar “visão naturalista” de meio ambiente. por intermédio do desenho. como seria um meio ambiente ideal. Há uma “demonização” do humano. assim como a figura humana. ser humano e desenvolvimento seria de vital importância. do meio ambiente. Revista de Ciências Humanas. Florianópolis: EDUFSC. mas como aquele que tem consciência da necessidade de desenvolvimento.99-115. abril de 2004 .112 — Representações sociais sobre meio ambiente de alunos que cursam Engenharia Ambiental Quanto aos desenhos.35. do homem ou da mulher em si. ficam esses elementos também fora da definição de meio ambiente expressadas no desenho. Quando se pretende demonstrar. tanto dos alunos do primeiro como do quarto ano. impactado. Também há incoerência entre muitos desenhos e seus títulos e. ou seja. Se estiverem eles sendo formados para atuar em um mercado cada vez mais voraz e ansioso por desenvolvimento. na fundamentação teórica. um salvador. o uso incorreto dos termos “preservar” e “recuperar”. em alguns desenhos. por exemplo. tecnológico e social como característica essencial do modo de vida humano.

principalmente. o maior problema detectado neste trabalho. proposital. Florianópolis: EDUFSC. em uma visão holística. “nega-se” a principal ameaça para esse meio ambiente idealizado. que se pode chamar de visão naturalista. ao definir e expressar a concepção de meio ambiente. mesmo quando o objetivo é destacar a necessidade de um “meio ambiente” em seu estado mais idealizado. uma visão simplista. ao definir-se “meio ambiente” a simples associação dele com a “natureza”. revelasse uma alienação. limitada. o ser humano. Isso. ou seja. ingênua. conciliar o ser humano. até porque. como sinônimo de afastamento. fauna e flora. Revista de Ciências Humanas. o desenvolvimento. dos envolvidos ao assunto. Apesar do forte sentido ideológico do termo. É comum também encontrar. suas relações e. é uma constante.35. há aqui o equivoco por se tomar a parte para representar o todo. por sua adequação à reflexão provocada pelos dados colhidos nesta pesquisa. porém. que é a exclusão da figura humana propriamente dita ou de suas ações e produtos. percebe-se. Exclui-se do meio ambiente o ser humano. se essa exclusão fosse consciente. ou seja. meio ambiente é visto como natureza.David José Diniz e Rita de Cássia Magalhães Trindade Stano — 113 Considerações finais Educação ambiental Seria necessária numa proposta de educação ambiental capaz de trabalhar sobre um grande ou. alienação. e sim a um projeto pedagógico conscientizador. na elaboração de um meio ambiente como lócus de contradições e de possibilidades. na maioria dos sujeitos. fechada. simplória. n. abril de 2004 . optou-se por se destacar aqui o construto teórico elaborado por Norbert Elias. e abordasse conteúdo que permitisse suprir a dificuldade de visualizar. Por outro lado. Esse comportamento seria interessante. Alienação e meio ambiente Em se tratando de meio ambiente. percebe-se. conservação. Seria interessante que a educação ambiental não fosse associada a uma disciplina específica. espera-se o desprendimento desse conceito. predomina a consciência da necessidade de preservação. na qual inexiste o contato com um conhecimento um pouco mais elaborado. p. Toma-se o todo pela parte. Assim. ignorante (falta de conhecimento).99-115. talvez. recuperação.

v. A. Psicologia Social: o homem em movimento. Pedagogia da Terra. H. é necessária. L. São Paulo: Brasiliense. M. 9. n. de distanciamento em si só já é vantajoso. e ANDRÉ. num estágio posterior. Petrópolis: Vozes. (Org. L. nesse sentido. ao contrário.3. GADOTTI. A alienação. L. 1999. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. Dessa forma. M. Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela terra. 1998. São Paulo: EPU. M. (Orgs. não ignorante. Petrópolis: Vozes. sem. Referências bibliográficas BOFF. compreender (ELIAS. sem ter consciência de sua interferência. S. num momento seguinte. por que não dizer. B. incluir-se.). O despertar da águia: o dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade. Miniaurélio século XXI: o minidicionário da língua portuguesa. sem ter consciência da sua influência. 1991. porém. E. 1986. In: Educação em diálogo. abril de 2004 . em momento algum. p. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. justamente pelo fato de se excluir. um processo proposital.114 — Representações sociais sobre meio ambiente de alunos que cursam Engenharia Ambiental distanciamento. N. ed. uma inclusão mais consciente.35. sua contribuição e. Rio de Janeiro: Gryphus. Trata-se de um estado de alienação que permite. o que seria um dos principais objetivos deste tipo de alienação. WANDERLEY. com a intenção de. LÜDKE. T. M. 1998. perder a noção. 2000. FERREIRA. afastarse para conhecer sua própria posição.99-115. Florianópolis: EDUFSC. M. em que se tem um domínio do objeto. A. São Paulo: Fundação Peirópolis. mesmo que não haja mudança na forma de pensar.). desperta o sujeito para suas omissões. BOFF. ELIAS. D. distancia-se. Revista de Ciências Humanas. na pior das hipóteses. Envolvimento e alienação. FILHO. de agir. Meio ambiente e educação. E. pois ele. no intuito de conhecer melhor. 2000. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. 1999. 1998). e CODO. LANE. de apreender. num contexto em que a maioria ocupa o seu espaço.

M. Núcleo centrar das representações sociais. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan SA. Florianópolis: EDUFSC. SÁ. São Paulo: Cortez. UFSC. 2. 2000. abril de 2004 . E.99-115. (Recebido em abril de 2004 e aceito para publicação em outubro de 2004) Revista de Ciências Humanas. REZENDE. Revista de Ciências Humanas (Temas de Nosso Século). n.ed. M. 1990. M. C. P. Lisboa: Instituto Piaget.35. Introdução ao pensamento complexo. Representações sociais da natureza e do meio ambiente. Meio ambiente e representação social. C. NASCIMENTO. ODUM. 1990. 1988.David José Diniz e Rita de Cássia Magalhães Trindade Stano — 115 MORIN. Concepção fenomenológica da educação. A. REIGOTA. Petrópolis: Vozes. E. Ecologia. Florianópolis. p. 1996. 1995. São Paulo: Cortez. P.

RS. Larangeira. Florianópolis: EDUFSC. Prof. 1000/604. CEP 90640-070 (sandroruduit@ig. Constatou-se que a empresa desestatizada reduziu o quadro de pessoal e ampliou __________________________________________________ * Abstract This paper aims to analyze aspects of the new production strategies present in the telecommunications sector in Rio Grande do Sul state. Porto Alegre. in Brazil. a partir do processo de privatização ocorrido em 1998. Este artigo apresenta aspectos de minha dissertação de mestrado Relações interfirmas e emprego: estudo de uma rede de empresas em telecomunicações. It has been found out that privatized companies reduced their own personnel and expanded contracts with other 1 2 New productive strategies in telecommunication industry after privatization: the case of Rio Grande do Sul Endereço para correspondências: Av.35. abril de 2004 .117-139.br). bem como os comentários da Profa. n. G. Cinara Rosenfield (PPGS/ UFRGS) à versão preliminar do texto. Oscar Pereira.com. Agradeço o apoio do grupo de pesquisa Trabalho na Sociedade Contemporânea (PPGS/ UFRGS). Bloco A1A. animado pela Profa. Revista de Ciências Humanas. em 2001. since its privatization in 1998. Sônia M. Dra. no Estado do Rio Grande do Sul. Dra. p. defendida no PPGS/ UFRGS.Novas tramas produtivas no setor de telecomunicações pós-privatização: a experiência do Rio Grande do Sul* Sandro Ruduit Garcia1 Universidade Federal do Rio Grande do Sul Resumo O objetivo deste texto2 é analisar as características das novas tramas produtivas que se configuram no setor de telecomunicações.

o setor enfrenta processos de privatização. no ano 2000. telefonia móvel). a privatização acarretou a perda de qualidade do emprego para alguns. de liberalização. N o âmbito da chamada nova economia. abril de 2004 . até o início da década de 1990. foram investidos em telecomunicações cerca de 6% do PIB mundial (OIT. telecomunicações. sobre as condições de saúde e de segurança no trabalho. relações interfirmas. 2002). sobre as qualificações. vem impondo a reestruturação técnica e organizacional dos tradicionais monopólios. aos níveis Federal e Estadual. even though it did not affected the level of employment in the sector. porém não afetou negativamente o nível de emprego no setor. No Brasil. A nova realidade das telecomunicações. Caracterizado. Introdução companies. Keywords: Privatization. along with new ways of utilizing employees” work and managing jobs.118 — Novas tramas produtivas no setor de telecomunicações pós-privatização a terceirização de trabalho. Palavras-Chave: Privatização. Portanto. intercompany relations. atestada pelo fato de que. estimularam a privatização e Revista de Ciências Humanas. A convergência entre a transformação do mercado de telecomunicações. So privatization leaded to worse jobs for some workers. p.117-139. o setor de telecomunicações está a experimentar importantes transformações que atingem a escala mundial.35. repercutindo sobre as formas de uso e de gestão da mão-de-obra. neste século XXI. Florianópolis: EDUFSC. employment. sobre o nível e a qualidade do emprego. nas formas de uso e de gestão da força de trabalho e nas condições de emprego. This new strategy relies on novel relationships between companies. bem como uma verdadeira revolução tecnológica (integração com o computador. sobre o perfil da mão-deobra e até mesmo sobre a ação sindical. telecommunications. which offer them services. configurando uma nova trama produtiva marcada pela diversidade nas relações interempresas. uso de fibras ópticas. emprego. o setor de telecomunicações experimentou um duplo movimento de privatização e de reestruturação das empresas nacionais. por monopólios públicos ou privados. n. a existência de demanda por telefonia não atendida e as estratégias governamentais. de desregulamentação de mercados e de fusões entre empresas. transmissão por satélite.

Nesse caso. bem como as características de uso e gestão da mãode-obra e as condições de emprego. c) transformações institucionais (privatização. de examinar a dinâmica das relações que se estabelecem entre uma das principais empresas do estado (desestatizada) e as empresas contratadas para a execução dos serviços de rede telefônica. nessa nova trama produtiva. e liberalização do mercado de telefonia fixa. n. liberalização. em 1998. p. assalariados. O texto contém três seções. apresentam-se as características da nova trama produtiva. A partir disso. b) mudanças organizacionais (voltadas para a flexibilização e para a redução do emprego na empresa). instalação de terminais telefônicos. a articulação entre as distintas práticas de emprego utilizadas. atendimento a clientes. a partir da privatização da principal empresa do setor Revista de Ciências Humanas. configurando novos arranjos interfirmas. apontam-se tendências de mudança no setor de telecomunicações em âmbito internacional. trabalho temporário). abril de 2004 . de certo modo. expressas por: a) intensa modernização tecnológica e ampliação da planta (incorporação da fibra óptica e digitalização das centrais de comutação).35. Trata-se. no ano 2000). a CRT passou a liderar uma nova trama produtiva marcada pela diversidade nas relações interempresas. além de serviços de apoio.117-139. cabeamento metálico. Florianópolis: EDUFSC. no Estado do Rio Grande do Sul. mais especificamente. e d) expansão da externalização de tarefas relativas. transferidos para empresas terceiras. nos quais há empresas com diferentes estratégias de competição no mercado. abrangendo os diversos padrões de relacionamento interfirmas e níveis existentes. com distintos perfis organizacionais e gerenciais (inovadores e restritivos) e com múltiplas práticas de emprego (vínculo formal e informal. trabalho por tarefa. Visando à ampliação e à atualização tecnológica da malha telefônica. como limpeza. inclusive a sua atividade fim (rede óptica. Os postos de trabalho perdidos no âmbito da CRT foram. vigilância e xerox). mormente no que se refere aos processos de privatização. pós-privatização. foram alteradas as formas de trabalho.Sandro Ruduit Garcia — 119 reestruturação da Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT). nessas empresas. principal empresa do setor. o objetivo deste texto é analisar as características das novas tramas produtivas que se configuram no setor de telecomunicações. Daí a pertinência em analisar-se. além desta introdução: na primeira. no estado do Rio Grande do Sul. hoje chamada Brasil Telecom (BrT). de produção e de atuação no mercado da empresa. na segunda. reestruturação e suas implicações para a composição do emprego. a partir do processo de privatização ocorrido em 1998. nas formas de uso e de gestão da força de trabalho e nas condições de emprego.

Chile e Uruguai (COSTA. capital privado. atraindo o interesse de grandes corporações. são heterogêneos. 1999)3. pode-se mencionar que. Como exemplos de tais divergências. focalizando as relações interfirmas (empresa contratante e fornecedores). 1996. nos países centrais. RUELAS. KOSKI e MAJUMDAR. marcado até a década de 1980 por monopólios estatais. privatização e liberalização de mercados. os serviços de telecomunicações tornamse estratégicos para o desenvolvimento econômico e social. No entanto. Amplia-se sobremaneira a necessidade de investimentos. Revista de Ciências Humanas. A competição global e oligopolística entre grandes indústrias e instituições financeiras tornou o acesso aos serviços de infra-estrutura. por mais que esse movimento seja uma tendência internacional4. Brasil. WALTER e GONZÁLEZ.35. no sentido da exploração de um mercado com amplo potencial de expansão. WALTER. Holanda e Espanha (CHANG. p.120 — Novas tramas produtivas no setor de telecomunicações pós-privatização de telecomunicações no estado. como em países periféricos. Florianópolis: EDUFSC. a reestruturação tende a ser lenta e gradual. Estados Unidos. veja-se Sorj (2003) e Ripper (2003). visando à exploração de novos mercados e. consumidores).117-139. fusões e aquisições entre empresas tradicionais e novas empresas. A convergência entre as telecomunicações e o computador constitui a base material sobre a qual se apóia a chamada nova economia (CASTELLS. CANO e SILVA. Inglaterra. tanto em países centrais. dos grandes grupos industriais interessados em serviços mais eficientes e baratos. com a trajetória do setor em cada sociedade e com a conjuntura política e econômica nacional. 1998. LARANGEIRA. potencialidades e desigualdades das telecomunicações na sociedade da informação. COSTA 1996. bem como os arranjos que produz. Estudos sobre o setor. México. nos países periféricos. 2000). 1998. Finalmente. França. 1995. 2003. 1998) evidenciam certas convergências: rápida evolução tecnológica. as formas de uso e de gestão da força de trabalho e as condições de emprego. A transfiguração do setor de telecomunicações Na economia globalizada. no Brasil. Alemanha. os de telecomunicações. Argentina. n. variando de acordo com a conflitualidade e a participação dos atores sociais envolvidos (Estado. os processos ocorrem por pressões internas. 1998 e 2003). bem como a demanda pelos serviços de telecomunicações. em países nos quais os sindicatos são mais fortes e estruturados. sindicatos. __________________________________________________ 3 4 Sobre o uso. a velocidade e a intensidade da reestruturação do setor. trabalhadores. fator fundamental de competitividade (PESSINI e MACIEL. dentre eles. PORTO. abril de 2004 . são apresentadas as conclusões da análise. a reestruturação assume caráter restritivo e imposto a partir das pressões de corporações e de agências internacionais.

Revista de Ciências Humanas. 2. a taxa de crescimento do setor de telecomunicações foi precisamente o dobro: 7% (BRASIL. tais como redução do emprego nas tradicionais empresas monopolísticas estatais. 1999 (em milhares) Fonte: Composição a partir de Organização Internacional do Trabalho (2002). por empresas internacionais. A internet é uma das expressões mais significativas dessa expansão: expandiu-se a taxas superiores a 100% ao ano durante na década de 1990 (Idem. notadamente. os processos de privatização. no Reino Unido. no Japão e na Alemanha – 1991. 1997). 1997). cada vez mais. Em muitos casos.8%.Sandro Ruduit Garcia — 121 Investimentos massivos têm sido aplicados em inovação tecnológica e em ampliação de redes telefônicas. as taxas de crescimento anual do PIB e do setor em todo o mundo foram. respectivamente. De fato. de liberalização e de reestruturação das tradicionais empresas do setor impõem prejuízos aos trabalhadores. A nova realidade do setor de telecomunicações é marcada. p. 1995. as empresas vêm adotando novos conceitos organizacionais para flexibilizar o trabalho. no ano de 1990. Como evidencia Figari (1998).5%. junto com as inovações tecnológicas. Florianópolis: EDUFSC. n. em 1995.2% e 1. relativamente ao caso argentino. enquanto o PIB mundial teve um incremento de 3. Mas. a externalização de tarefas. abril de 2004 54321 54321 54321 54321 138 54321 54321 54321 321 321 321 5 1 1 4 321 4 54321321 3214324321 5 3214324321 54324321 1 5 1 3214324321 1 5 3214324321 5 1 3214324321 5 1 4 1 54321321 3214324321 5 3214324321 5 1 4 5 1 3214321321 54324321 3214324321 54321321 1 3214324321 5 4 5 1 3214324321 1 5 321432132 54324321 3214321321 5 4 1 54324321 3214324321 5 1 54324321 1 54324321 1 54321321 1 4 54324321 4 54321321 1 54321321 4 54324321 54324321 1 54324321 1 54324321 1 54321321 1 4 1 54321321 54324 227 227 225 4 1 1 5 321 3254321 43214321 321 3254321 4 1 321 3214321 4 5 43254321 321 3254321 4 1 321 3254321 4 1 321 3254321 4 1 1 5 4 1 321 3254321 4 1 321 3254321 43254321 43214321 321 3254321 4 1 321 3254321 4 1 1 321 3254321 4 5 43214321 321 3254321 4 1 321 3254321 4 1 321 3254321 43254321 1 4 1 321 3254321 4 1 321 3254321 4 1 4 5 321 3254321 4 1 321 3214321 4 1 321 3254321 4 321 321 1991 1995 1999 .117-139. em lugar de companhias nacionais. como se observa na Figura 1. 5 4 3254321321 1 1 3254324321 1 1 3254324321 1 1 1 5 3254324321 14324321 1 3254324321 1 1 3254324321 1 1 1 54324321 3254324321 1 1 3254324321 1 1 1 3254324321 1 1 54324321 3254324321 1 1 3254324321 14324321 1 1 3254324321 1 1 1 1 3254324321 3254324321 5432432 1 1 1 5 3254324321 1 1 1 3254324321 14324321 1 54324321 1 54324321 1 1 54324321 54324321 1 1 54324321 54324321 1 54324321 1 54324321 1 4321 4321 4321 4321 4321 4321 4321 4321 4321 4321 250 200 150 100 50 0 156 164 54 1 1 43254324321 1 4 43254324321 1 1 43254321321 1 4 1 54 1 1 43254324321 1 32432 43254324321 1 1 43254324321 1 32432 54 1 1 1 43254324321 1 1 43254321321 1 4 1 54321321 43254324321 1 4 43254324321 1 1 43254324321 1 32132 1 54324321 43254324321 1 1 1 1 43254324321 43254321321 1 4 1 4 4 1 43254324321 1 321321 5 4321 4321 4321 4321 4321 4321 4321 4321 4321 4321 4 1 4321 4321 32 249 169 185 136 138 136 France Télécom Brasil Telecom NTT DeutscheTelekom Figura 1 Emprego nas operadoras tradicionais de telecomunicações na França.35.

abril de 2004 54324 4321 1 4 54324321 54321321 1 1 54321321 432 5 91 99 Itália 43254321 1 5 1 43254321 43214321 1 4325 5 43214321 1 43254321 14321 43254321 5 43214321 1 43254321 43214321 5 4321 243 245 Japão 54321 54321 54321 54321 54321 1 54321 54321 5432 54321321 1 4 54324321 4 54321321 1 54324321 4 54324321 1 54321321 1 54324321 4 54321321 1 54324321 54321321 4 1 54321321 4 54324321 54324321 1 4 1 54324321 54324321 1 54324321 1 54324321 1 54324321 1 54321321 1 54324321 54324321 1 1 54324321 54324321 5432132 4 1 54324321 1 54321321 1 4 54324321 54324321 1 54321 1 1 4 54321321 54324321 54321 54321 54321 54321 54321 1070 1995 1999 43214321 43214321 43214321 4321 54324321 1 1 54324321 54324321 1 1 54324321 54324321 1 54324321 1 1 54324321 4 54321321 1 54324321 54321 . em muitos casos.35.122 — Novas tramas produtivas no setor de telecomunicações pós-privatização No entanto. em contexto de adoção de estratégias de redução de custos. amplos planos de benefícios sociais. todas restritivas relativamente ao emprego. o que aponta para tendência de precarização do trabalho em segmentos do setor. Entretanto. os sindicatos e os trabalhadores enfrentam. 2003). embora não seja uma tendência generalizada. Revista de Ciências Humanas. da expansão da telefonia móvel e das chamadas empresas pontocom. p.117-139. de produção flexível e de amplo uso da externalização de trabalho (LARANGEIRA. expansão do emprego global no setor – como se pode observar no Figura 2 –. Estudos recentes indicam outro aspecto significativo: uma reestruturação das práticas sindicais vis-à-vis à nova realidade. em razão do ingresso de empresas concorrentes. negociação com empresas privadas de capital internacional. Florianópolis: EDUFSC. mesmo em países centrais – vide Figura 3. também se verifica. O setor era marcado mundialmente por relações de emprego bastante vantajosas aos trabalhadores: altos salários. n. 1200 1000 800 600 400 200 0 217 223 90 81 69 43214321 14321 5 43254321 5 900 52 Alemanha Canadá Espanha EUA Figura 2 Emprego total no setor de telecomunicações em países selecionados – 1995 e 1999 (em milhares) Fonte: Composição a partir de Organização Internacional do Trabalho (2002). O problema está na qualidade dos novos postos de trabalho: expande-se rapidamente o trabalho em tempo parcial e recua o trabalho em tempo integral. estabilidade. hoje.

abril de 2004 54321321 4 54321321 4 0 29 19 101 79 69 46 Japão 54321 1 54321 54321 5432 54321 1 54321 5432 4321 1 5 43214321 5 43254321 43254321 1 43254321 14321 43214321 5 43214321 5 54321 1 54321 5432 1995 1999 . a insuficiência dos investimentos do Estado. 1998). 1996. Revista de Ciências Humanas. a influência no governo de agências internacionais de financiamento (FMI e BM) e o interesse de investidores privados estrangeiros induziram a atualização tecnológica e a expansão da rede.35. mas. verifica-se como tendência a redução do emprego nos tradicionais monopólios. Dessa forma.Sandro Ruduit Garcia — 123 1200 993 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 4321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 4321 4321 4321 1000 800 600 400 200 54324321 1 1070 214 54324321 1 4 54324321 1 54321321 4321 4321 5 43254321 14321 43254321 1 43254321 1 43214321 5 4321 168 170 180 Argentina EUA Reino Unido Itália Espanha Figura 3 Emprego em tempo integral no setor de telecomunicações em países selecionados – 1995 e 1999 (em milhares) Fonte: Composição a partir de Organização Internacional do Trabalho (2002). LARANGEIRA.117-139. em muitos casos. p. Florianópolis: EDUFSC. O problema passa a ser a qualidade do emprego. no contexto de emergência de novas empresas de telecomunicações e de reestruturação dos tradicionais monopólios. n. sem redução global do emprego no setor. a reestruturação do setor de telecomunicações tornou-se uma imposição. Novas tramas produtivas no Rio Grande do Sul No caso do Brasil. combinadas com privatização e liberalização do setor (COSTA. Quanto às conseqüências desses processos para os trabalhadores.

Em novembro do ano 2000. O capital social da CRT passou a ser constituído por parcelas pertencentes à Telebrás.9%. a empresa passou a chamar-se Brasil Telecom (BrT). holding estatal. o governo estadual instituiu a Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT). o governo do estado vendeu 35% das ações da CRT6. Como se observa na Tabela 1. a CRT reestruturou e elevou tarifas. A competição nos serviços de longa distância nacional iniciou-se com a implantação do Código de Seleção de Prestadora (CSP). sobretudo para os clientes residenciais. a tarifa de assinatura residencial mensal aumentou 3. Em dezembro de 1996. o governo do estado vendeu a maioria de suas ações para o consórcio liderado pela Telefónica de España. n. No período de 1994 a 2000. Os serviços de telefonia no estado iniciaram-se ainda em 1895. sendo executados por empresas privadas. em 19985.117-139. O Parceiro. o governo gaúcho celebrou com o Ministério das Comunicações um contrato de concessão. Paralelamente. como forma de capitalizá-la e de prepará-la para a privatização total. em 1973.A. Florianópolis: EDUFSC. abril de 2004 . Em junho de 1998. a empresa passou a investir massivamente na expansão da rede telefônica – o que se expressa no incremento do número de linhas em serviço – e na sua modernização – expressa na digitalização da planta. com significativas implicações para a composição do emprego. o controle da empresa foi repassado a um consórcio liderado pela Brasil Telecom S. criada em 1972.12% das ações com direito a voto. com duração de 30 anos. entrou em operação a chamada empresa-espelho. enquanto o INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) variou 86. possibilitando aos usuários a escolha de operadoras em cada chamada efetuada. Seguindo o que se verifica em âmbito internacional. set.A. em julho de 1999. Em 2002.6% (Sinttel/RS. sob seu controle acionário. Posteriormente. a privatização da empresa impôs um radical processo de reestruturação interna. e vem liberalizando-o paulatinamente. aos assinantes e ao governo do estado. mediante a entrada no mercado das chamadas empresas-espelho. quando da criação da Telebrás. que passou a deter 85.). a Global Village Telecom (GVT).124 — Novas tramas produtivas no setor de telecomunicações pós-privatização O Brasil foi um dos últimos países latino-americanos a privatizar o setor. O Rio Grande do Sul e a CRT apresentam peculiaridades nas suas trajetórias. A liberalização do mercado também ocorreu gradualmente. para coordenar a ação da empresas estaduais de telecomunicações. __________________________________________________ 5 6 Isso ocorreu com a venda da Telebrás (Telecomunicações do Brasil S. No ano de 1962. 2000). concretizando o projeto de liberalização do mercado de telefonia fixa local.241% e a não-residencial 522. autorizadas a operar nas mesmas áreas das atuais concessionárias.35. Em julho de 2000. acionista majoritário. Revista de Ciências Humanas. inspirado em um programa nacionalista do então Governador Leonel Brizola. p.

instalação de terminais telefônicos) pela CRT – hoje. Tal investimento resultou na elevação da receita líquida dos serviços. decorrente da externalização do trabalho de expansão e de manutenção da rede telefônica (digitalização das centrais de comutação. dentre outros aspectos. __________________________________________________ 7 Brasil Telecom. 1995 a 1999.117-139. a empresa reduziu dramaticamente o número de empregados. Desse modo. Florianópolis: EDUFSC. Revista de Ciências Humanas. um dos aspectos da reestruturação da empresa foi a configuração de uma nova trama produtiva. p.Sandro Ruduit Garcia — 125 Tabela 1 Mudanças na Companhia Riograndense de Telecomunicações7 – 1995 a 1999 Fonte: Composição a partir dos Relatórios Anuais da CRT. n. na adoção de programas de qualidade. a partir de 2001.35. no estabelecimento de metas de produção. abril de 2004 . na polivalência dos trabalhadores e na externalização de trabalho. apoiada. A reestruturação da empresa. instalação de redes de fibra óptica e de cabos metálicos. o que implicou a expansão da produtividade dos funcionários (linhas fixas em serviço por empregado). resultou na redução do custo do pessoal relativamente à receita dos serviços. Ao mesmo tempo.

À redução do emprego no antigo monopólio estatal contrapõe-se a expansão do número total de estabelecimentos e do nível global de emprego no setor de telecomunicações no Rio Grande do Sul. p. 1999.126 — Novas tramas produtivas no setor de telecomunicações pós-privatização Brasil Telecom – a empresas terceiras. decorrente da expansão da externalização de trabalho 8. 1999. 2001) Fonte: Relatório Anual de Informações Sociais – Ministério do Trabalho e Emprego (RAIS/ TEM). 14000 654321 1 1 8 65432876543287654321 1 876543287654321 1 65432876543287654321 1 1 65432876543287654321 1 8 1 8 1 65432876543287654321 176543217654321 65432876543287654321 1 8 1 1 65432876543287654321 176543217654321 654328 1 876543287654321 1 65432876543217654321 1 1 8 876543287654321 65432176543287654321 1 1 65432876543287654321 8 8 1 65432876543287654321 176543217654321 1 65432876543287654321 1 1 65432876543287654321 1 87654321 654321 654321 654321 654321 654321 654321 654321 654321 654321 654321 654321 654321 7182 6601 Empregos 12000 10000 8000 4000 2000 0 13333 Figura 4 Telecomunicações no Rio Grande do Sul (1997. em razão da dispersão do processo produtivo entre empresas. Revista de Ciências Humanas. 2001.35. conforme se verifica no Figura 4. 1997. n. Sobre tais diferenças.117-139. É no contexto desse novo arranjo interempresas que a empresa vem expandindo e modernizando a malha telefônica e reduzindo o nível de emprego. bem como as características dos novos postos de trabalho. __________________________________________________ 8 Os processos de externalização de tarefas podem envolver a terceirização de trabalho e a subcontratação de empresas. abril de 2004 8 1 8 1 876543287654321 65432176543217654321 8 65432176543287654321 87654321 250 641 618 Estabelecimentos 54321 54321 54321 54321 54321 1 54321 5432 1997 1999 2001 321 321 321 . É importante examinar as condições nas quais essas empresas se integram à nova trama produtiva. ver Ruduit Garcia (2002b). Florianópolis: EDUFSC. Externalização de tarefas e relações interfirmas A nova trama produtiva liderada pelo antigo monopólio estatal compõe-se de uma estrutura de posições e de um sistema de relações interfirmas.

apenas cinco grandes empresas. era o menor preço.35.000 postos. e 3) menor valor cobrado pelos serviços.Sandro Ruduit Garcia — 127 Estima-se que o volume de postos de trabalho nas empresas contratadas tenha se ampliado de cerca de 400 postos. __________________________________________________ 9 Agência Nacional de Telecomunicações. o número de empregados e o faturamento. e 3) o repasse de obras de pequeno e de médio portes não só dificultava a redução de custos dos serviços com ganhos de escala. em 2000. Revista de Ciências Humanas. no caso de instalação e de manutenção de terminais telefônicos. 2) atendimento das normas legais. mas também exigia que a CRT repassasse os valores contratados durante a obra. são apresentados na Figura 5. em 1997. em 1999. veículos) e a realização dos serviços passou a ser verificada integralmente. Os novos critérios implicaram a redução do número e o aumento do porte das empresas terceiras. os critérios passaram a ser: 1) volume de capital social. Além dos registros e impostos corriqueiros.117-139. A estrutura da nova trama produtiva. o número de fiscais reduziu-se e a fiscalização do trabalho passou a concentrar-se mais na documentação das empresas do que na observação in loco dos serviços: a redução do número de empresas subcontratadas permitiu que a documentação de todas fosse examinada (antes era por amostragem). os equipamentos empregados (ferramentas. responsável pela regulação do setor. n. 2) a instituição de metas de qualidade e de universalização dos serviços pela Anatel9 impôs à CRT a necessidade de melhorar os serviços de rede. maquinário. o critério para a contratação de empresas. gerando três tipos de problemas: 1) a contratação de inúmeras empresas (cerca de 88) dificultava o controle e a fiscalização dos serviços prestados. para cerca de 4. Com a privatização. bem como os dados sobre o tipo de serviços fornecidos. posto que as pequenas e médias empresas não dispunham de capital social suficiente para custear as suas despesas a longo prazo. na forma de concorrência. instrumentos de segurança. p. restando. A fiscalização dos serviços também sofreu alterações. As pequenas e médias empresas foram eliminadas dos processos de seleção de prestadoras de serviços pela CRT. A partir de 1999. das empresas estudadas. abril de 2004 . Florianópolis: EDUFSC. à medida que as atividades de construção e de manutenção de redes telefônicas foram totalmente terceirizadas (Entrevista com Diretor do Sinttel/RS).

relações cooperativas. fotocópias. Tal estrutura sustenta-se em distintos padrões de relações interempresas. quanto maior a complexidade técnica dos serviços prestados. n. instalação e manutenção de terminais telefônicos públicos. em contexto de estratégia competitiva de redução de custos.128 — Novas tramas produtivas no setor de telecomunicações pós-privatização Ela é composta por diferentes segmentos e por distintos níveis de fornecedores10.35. p. as quais terceirizam tarefas a “empresas quartas” (segundo nível) e assim sucessivamente. no intercâmbio e nos laços de confiança interempresas. estabelecerem práticas de intercâmbio e desenvolverem laços de confiança. Os níveis de fornecedores são as sucessivas camadas de empresas subcontratadas. 2000. comerciais e residenciais. vigilância. Verificou-se que. construção de redes de fibra óptica e de cabo metálico (infra-estrutura). com as empresas contratantes. Revista de Ciências Humanas. CRT IA digitalização de centrais 3500 funcionários faturamento: R$ 4 bilhões II A fibra óptica 80 funcionários faturamento: R$ 6 milhões IB cabo metálico e fibra óptica 350 funcionários faturamento: R$ 33 milhões II B cabo metálico e fibra óptica 95 funcionários faturamento: R$ 12 milhões III B cabo metálico e fibra óptica 110 funcionários faturamento: não revelado IV B cabo metálico 30 funcionários faturamento: não revelado IC instalação terminais 920 funcionários faturamento: não revelado II C 2 cabo metálico 1 funcionário faturamento: R$ 40 mil II C 1 cabo metálico e instalação de terminais 80 funcionários faturamento: R$ 900 mil III C instalação de terminais nenhum funcionário faturamento: R$ 48 mil Figura 5 Organograma da nova trama produtiva Fonte: Pesquisa empírica. maiores as possibilidades de as empresas contratadas negociarem as condições de vínculo. hidráulicos e de refrigeração dos prédios.117-139. em face da divisão vertical do processo produtivo. configurando. pois. manutenção dos sistemas elétricos. A empresa central terceiriza diferentes tarefas a “empresas terceiras” (primeiro nível de fornecedores). abril de 2004 . Florianópolis: EDUFSC. instalação e digitalização de centrais de comutação telefônica. __________________________________________________ 10 Os segmentos de fornecedores são os grupos de empresas subcontratadas para a execução de frações especializadas de tarefas. traduzidas nas condições de vínculo. geradas pela divisão horizontal do processo produtivo: atendimento aos clientes. Região Metropolitana de Porto Alegre.

classificar as relações interempresas encontradas em três tipos: a) Relações de cooperação são aquelas com a menor assimetria de poder entre as tipificadas. prestando serviço de baixa complexidade e amplamente oferecido no mercado (instalação de terminais telefônicos)11. abril de 2004 . nas condições financeiras orientadas por sua estratégia competitiva.117-139. __________________________________________________ 11 Para detalhamento da dinâmica das relações interfirmas. e c) Relações interfirmas de subordinação por dependência são as relações com maior assimetria de poder. Revista de Ciências Humanas. à medida que a complexidade e a especificidade técnica dos serviços envolvidos (digitalização de centrais telefônicas) impõem práticas de cooperação entre as partes. Os principais traços das relações tipificadas são esquematizados no Quadro 1. 2000. para fins analíticos. Florianópolis: EDUFSC. para a empresa contratada é conveniente prestar serviços sob as condições financeiras da contratante. porquanto são marcadas pela predominância dos interesses da empresa contratante sobre os da contratada. mas por conveniência para ambas partes: para a empresa contratante é conveniente utilizar os serviços relativamente complexos da contratada (cabeamento óptico e metálico). p. desde que. b) Relações interfirmas de subordinação por conveniência apresentam maior assimetria de poder do que as de cooperação. ver Ruduit Garcia (2002a). em razão de que a empresa contratada depende do mercado da rede.Sandro Ruduit Garcia — 129 Pode-se. Quadro 1 Tipos de relações interfirmas Fonte: Composição a partir de pesquisa empírica. Região Metropolitana de Porto Alegre.35. n. desde que mantenha certa estabilidade de vínculo e diversificação de clientes.

Como se pode constatar no Quadro 2. relacionada ao tipo de serviços prestados. verticalmente e horizontalmente. aos programas de qualidade e participação. estratégias participativas. ao treinamento e à terceirização nas empresas estão reunidas no Quadro 2. Nesse caso. qualificação de mão-de-obra. a interação e a conflitualidade entre os interesses da empresa contratante. polivalência. A empresa IB encontra-se em situação intermediária: mais restritiva do que a IA e menos restritiva do que a IC. A estratégia competitiva de redução de custos adotada pela CRT abriu um campo de possibilidades para a estruturação da rede (múltiplas posições derivadas da existência de diferentes segmentos e níveis de fornecedores). treinamento constante. orientados pela estratégia competitiva. Formas de uso e de gestão da força de trabalho As formas de uso e de gestão da força de trabalho variam no interior da nova trama produtiva. terceirização voltada para a especialização de atividades) ou restritivo (diversos níveis hierárquicos. assumindo caráter virtuoso (poucos níveis hierárquicos. situação de mercado. de acordo com as relações estabelecidas entre a empresa contratante e a empresa contratada. que convergem nos tipos de serviços prestados). promoção por tempo de serviço. relações interfirmas envolvem a variável distribuição de poder e diferentes formas de compatibilização dos divergentes interesses dos atores sociais (cooperação e subordinação). ausência de controle de qualidade. a empresa IA apresenta as formas mais virtuosas de uso e de gestão da mão-de-obra entre as empresas terceiras. promoção por mérito. As informações concernentes aos planos de cargos e salários. O exame dos dados mostra que os programas de qualidade. e em diferentes padrões de relacionamento interempresas. bem como a terceirização de trabalho. abril de 2004 . p. e a capacidade de resistência e imposição das empresas contratadas. impossibilidade de participação do trabalhador. resultam em dispersão do processo produtivo. controle de qualidade. Daí a multiformidade verificada nas relações interfirmas. ausência de treinamento. de treinamento. de cargos e salários. n.35. Florianópolis: EDUFSC. terceirização para reduzir custos com mão-deobra).117-139. que foram realizadas distintamente pelas empresas. Revista de Ciências Humanas.130 — Novas tramas produtivas no setor de telecomunicações pós-privatização Portanto. empregados pelas empresas contratadas diferenciam-se. em razão de suas características (tecnologia empregada. trabalho monótono. em uma estrutura diferenciada e fragmentada.

Sandro Ruduit Garcia — 131 Quadro 2 Uso e gestão da força de trabalho nas empresas Fonte: Pesquisa empírica. 1999 e 2000. p. Florianópolis: EDUFSC. Revista de Ciências Humanas.117-139. Região Metropolitana de Porto Alegre. n.35. abril de 2004 .

117-139. permite às empresas contratadas formas mais virtuosas de gestão dos recursos humanos. apoiadas na qualidade dos serviços e na promoção da qualificação da força de trabalho. a promoção não se dá apenas por mérito. ou porque as partes ‘nobres’ (de alto valor e tecnologia) do serviço ficam nos primeiros níveis. II. Então. ou porque aumenta o número de empresas intermediárias entre a empresa central e a empresa que executa a tarefa. Os dados evidenciam também que existe associação entre as formas de uso e de gestão da força de trabalho e a posição ocupada pela empresa nos níveis da rede.35. quanto mais distante da empresa central encontra-se uma empresa na estrutura da rede. p.132 — Novas tramas produtivas no setor de telecomunicações pós-privatização Já esta apresenta as formas mais restritivas de uso e de gestão da força de trabalho entre as empresas terceiras. Revista de Ciências Humanas. à medida que o distanciamento da empresa central: 1) favorece a redução do valor pago pelos serviços prestados. maiores as chances de se estabelecerem formas virtuosas de uso e de gestão da mão-de-obra nas empresas contratadas. característicos das relações de cooperação interfirmas. O Quadro 3 esquematiza os dados relativos às condições de emprego nas empresas investigadas. Condições de emprego A estrutura da nova trama produtiva e os variados padrões de relacionamento interfirmas implicam a multiformidade do emprego: envolve tanto formas precárias de emprego. A maior cooperação para desenvolvimento de produtos. n. tanto mais restritivas são as formas de uso e de gestão da força de trabalho. serviços e tecnologia e a estabilidade nos laços entre as empresas. verificase que alguns aspectos considerados virtuosos vão sendo perdidos à medida que se avança para a periferia da trama produtiva: a participação deixa de ser estimulada. nem todos os profissionais são polivalentes e a terceirização também é usada com o objetivo de suprir a empresa com mão-de-obra em momentos de grande demanda. quanto maior a cooperação (ou menor a subordinação) nas relações interfirmas. 2) favorece a instabilidade nos laços – pois há maior incerteza e variabilidade no volume de obras. Florianópolis: EDUFSC. e 3) facilita a burla de contratos e de legislações – pois diminui o controle e a fiscalização sobre as empresas. III e IV). Assim. Comparando-se os níveis de fornecimento nos quais se encontram as diferentes empresas (I. abril de 2004 . como não-precárias. bem como exige isso delas.

entre as empresas terceiras. segundo o tipo de relações estabelecidas com a empresa central. na natureza da formação profissional (o apoio tecnológico e organizacional torna mais complexo o processo produtivo. assim como a negociação das condições contratuais possibilita a obtenção de melhores valores contratados. Revista de Ciências Humanas. O intercâmbio entre as empresas interfere na natureza da formação e na instrução dos trabalhadores (treinamento conjunto fomenta a formação teórica da mão-de-obra e exige maior instrução dos treinandos. pois é possível obter melhores preços para a execução dos serviços. à medida que a empresa contratada pode ampliar prazos e reduzir a dependência em relação à empresa contratante (mantendo trabalhadores empregados). exigindo mão-de-obra instruída e com formação teórica) e na formalização do vínculo (a estabilidade dos laços e a atualização técnica e organizacional estimulam a formalização do uso da mão-de-obra). A empresa IB apresentou uma situação intermediária. verifica-se que a empresa IA foi a que apresentou melhor desempenho nos indicadores analisados. e sobre o valor da remuneração.117-139. a que apresentou o pior desempenho nos indicadores examinados. o intercâmbio e a confiança entre as empresas permitem à parte contratada planejar e estabilizar as práticas de emprego. A empresa IC foi. abril de 2004 . Os dados autorizam a afirmação de que quanto maior a cooperação nas relações interfirmas. permitindo a oferta de mão-de-obra mais qualificada e com melhores condições de emprego. A negociação das condições de vínculo interempresas incide sobre a temporalidade do vínculo empregatício. p. bem como troca de informações técnicas exige equivalência na formação dos recursos humanos) e na rotatividade da mão-de-obra (a cooperação para formação de mão-de-obra implica investimento nos recursos humanos e conseqüente esforço para a sua manutenção).Sandro Ruduit Garcia — 133 Examinado os dados relativos às empresas terceiras da nova trama produtiva. em face da extensão e do apoio no vínculo interempresas.35. tanto maiores serão as chances de as empresas contratadas estabelecerem práticas não-precárias de emprego. n. Por conseqüência. A confiança nos laços interempresas repercute na rotatividade (laços de confiança tornam os serviços mais freqüentes. Florianópolis: EDUFSC. permitindo a manutenção da força de trabalho empregada).

Revista de Ciências Humanas. Florianópolis: EDUFSC. p. n.117-139.134 — Novas tramas produtivas no setor de telecomunicações pós-privatização Quadro 3 Condições de emprego nas empresas Fonte: Pesquisa empírica.35. 1999 e 2000. Região Metropolitana de Porto Alegre. abril de 2004 .

abril de 2004 . no volume de serviços e no controle de contratos e da legislação. Tais conexões ocorrem pelo fato de que as diferentes posições nos níveis da rede influem nos valores pagos pelos serviços prestados. sem relação significativa com os níveis das empresas. de outro lado. conforme os níveis de empresas distanciam-se da empresa líder da trama produtiva. Por conseguinte. são mais estimulados a reduzir custos. facilitam a informalidade do vínculo. p. com o aumento dos níveis da trama produtiva e. Florianópolis: EDUFSC. por um lado. utilizando mão-de-obra não-qualificada e em condições de precariedade. como se observa no Quadro 3. que ocorre à medida que as empresas assumem posições mais periféricas na rede. A maior variabilidade no volume de serviços contratados repercute em instabilidade na gestão dos recursos humanos: maior rotatividade e dificuldades para treinamento de mão-de-obra. de um lado. Revista de Ciências Humanas. O afrouxamento do controle e da fiscalização dos contratos e da legislação. Os múltiplos atores empresariais envolvidos têm. Assim. por outro lado. o corte de benefícios sociais e práticas paternalistas de negociação entre capital e trabalho. Os valores da remuneração mensal e os benefícios sociais também são variáveis. A retração dos valores pagos pelos serviços pressiona as empresas para a redução da remuneração e dos benefícios sociais. n. A rotatividade tende a aumentar à medida que avançam os níveis da rede. há. assumindo a forma de remuneração fixa.35. como a PLR (Participação nos Lucros e Resultados).Sandro Ruduit Garcia — 135 A posição da empresa nos níveis da trama produtiva também interfere nas condições de emprego. com tendência de queda com o avanço nos níveis da rede. não-precárias e combinações de práticas precárias e não-precárias. o emprego precariza-se à proporção que aumentam os níveis na nova trama produtiva. e/ou por produção. em detrimento de formas de remuneração mais complexas. grande irregularidade na temporalidade do vínculo. os dados relativos aos indicadores examinados evidenciam a existência de divergentes condições de emprego ao longo da nova trama produtiva: precárias. leve tendência de ampliação das situações de informalidade nos vínculos. menor dificuldade para burlar legislações ou contratos e menor controle da qualidade dos serviços prestados e. Tal multiformidade se deve tanto aos distintos padrões de relacionamento interfirmas. quanto mais distantes da empresa líder se encontram.117-139. A remuneração tende a apresentar caráter mais simples e restritivo. Quanto ao vínculo trabalhista. como à fragmentação vertical do processo produtivo em diversos níveis de fornecedores.

136 — Novas tramas produtivas no setor de telecomunicações pós-privatização Considerações finais O setor de telecomunicações enfrenta. notadamente para os empregados da antiga estatal. caracterizados por estabilidade. n. a privatização da principal empresa do setor de telecomunicações no Estado do Rio Grande do Sul (tradicional monopólio estatal) acentuou a reestruturação técnica e organizacional da empresa. Entretanto.117-139. em parte. oportunidades de treinamento e qualificação. Florianópolis: EDUFSC. salários elevados. abril de 2004 . em razão da entrada de novas empresas (liberalização e competição) e da transferência de postos de trabalho dos tradicionais monopólios (antes. de fusões e aquisições de empresas e de profundas mudanças tecnológicas. com variados níveis de complexidade tecnológica (que expressam as suas variadas capacidades de imposição à empresa contratante). de privatização. muitas vezes.35. Há indicações de que novos postos de trabalho vêm sendo criados. O problema está na qualidade dos postos criados em substituição ao emprego reduzido nos tradicionais monopólios reestruturados. inclusive no Brasil. a qualidade do emprego tem sido. de liberalização e desregulamentação de mercados. como estratégia de redução de custos e de redução do emprego na empresa. p. O nível global de emprego no setor não foi prejudicado. isso nem sempre se reflete em retração do emprego no setor. resultam em três tipos de Revista de Ciências Humanas. valendo-se sobremaneira da externalização de trabalho. Porém. como se verifica em muitos países. visando à redução do emprego. A expansão da rede telefônica ocorreu com intenso uso do trabalho terceirizado. alta sindicalização) para empresas terceiras e fornecedores. uma nova realidade marcada por processos. todos eles impondo a reestruturação técnica e organizacional dos tradicionais monopólios que caracterizaram o setor até o início da década de 1990. No caso em questão. Tal reestruturação vem indicando como tendência a redução do emprego nessas empresas. Constatou-se que a interação entre a estratégia competitiva da empresa contratante apoiada na redução de custos (que expressa as condições oferecidas às empresas contratadas) e os diferentes tipos de serviços prestados pelas empresas contratadas. A nova trama produtiva liderada pela empresa privatizada combina diferentes padrões de relacionamento interfirmas e de emprego. configurando uma nova trama produtiva. conjugados. em âmbito internacional. prejudicada.

A sociedade em rede. quintas e sextas) e que as diferentes relações interfirmas e as posições das empresas nos níveis da trama produtiva implicam a existência de formas virtuosas e restritivas de uso e de gestão da força de trabalho e de práticas precárias e não-precárias de emprego. 2000. Acesso em: dez. as novas tramas produtivas no setor de telecomunicações pós-privatização indicam uma nova realidade bem mais complexa e fragmentada. no contexto das novas tramas produtivas. Portanto. de subordinação por conveniência e de subordinação por dependência) e em diversos níveis ou camadas de fornecedores (empresas terceiras. Brasília: Ministério das Comunicações.anatel.gov. ampliar o ‘olhar’ sobre os processos de mudança da empresa para a constelação de empresas. Brasília: Ministério das Comunicações. abril de 2004 . Disponível em: <http:www. São Paulo: Paz e Terra.br>. os níveis de qualidade existente no período de vigência dos monopólios estatais. tipos de relações interfirmas.Sandro Ruduit Garcia — 137 relacionamento interempresas (de cooperação. n. tais como relações interfirmas e níveis de fornecedores. para a apreensão das estruturas e das relações concernentes ao trabalho e ao emprego. formas de uso e de gestão da mão-de-obra e níveis de qualidade do emprego. É preciso. na sua totalidade.35. diferentes atores sociais. CASTELLS. Disponível em: <http:www. Perspectivas para Ampliação e Modernização do Setor de Telecomunicações (PASTE). é identificar os tipos de relações das empresas reestruturadas com os múltiplos e novos fornecedores. Programa de Recuperação e Ampliação do Sistema de Telecomunicações e do Sistema Postal (PASTE).br>. evidenciando a contradição e a instabilidade dos novos processos em curso. Manuel.gov. nas novas tramas produtivas. incorporando outros atores sociais e novas variáveis às análises.anatel. Florianópolis: EDUFSC. Acesso em: dez. Há. 1999. p. quartas. Referências bibliográficas BRASIL. como demonstra esta análise. pois. 2000.117-139. incompatível com relações mecânicas e lineares. A reestruturação das empresas de telecomunicações vem significando arranjos nos quais os novos postos de trabalho não mantêm. Uma das pistas para a explicação da natureza do emprego. mas não são todos precários. 1997. 2000. BRASIL. Revista de Ciências Humanas.

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8. WALTER. RUDUIT GARCIA. Relações industriais. Chicago: Latin American Studies of Association. Revista Latinoamericana de estudios del trabajo. p. RUELAS. Privatizaciones y relaciones laborales en la telefonía latinoamericana. SORJ. (Recebido em novembro de 2003 e aceito para publicação em outubro de 2004) Revista de Ciências Humanas. Jorge. In: WALTER. p. Porto Alegre. Las telecomunicaciones mexicanas: claroscuros de la desregulación. Brasil@povo. Trabalho e tecnologia: dicionário crítico. n. abril de 2004 . Porto Alegre: Ed. 2001. Jorge y GONZÁLES. Porto Alegre.Sandro Ruduit Garcia — 139 RUDUIT GARCIA.8. 1998. Terceirização/Subcontratação. Jorge y GONZÁLES. Florianópolis: EDUFSC. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Buenos Aires: Eudeba. Empresas y sindicatos en la telefonia Argentina privatizada./dez. ano 4. jul.89-107.35. Anais…1998. Cecilia. Bernardo.400-431.com: a luta contra a desigualdade na sociedade da informação. 1998. Sandro. La privatización de las telecomunicaciones na América Latina. 4. Antônio D. análises comparativas. da UFRGS. 2002a. n. ed. XXI CONGRESSO DE LATIN AMERICAN STUDIES ASSOCIATION. Ana L. 2003. Relações interfirmas e emprego na rede de empresas: a experiência de externalização de uma empresa no setor de telecomunicações. RUDUIT GARCIA. Relações interfirmas e emprego: estudo de uma rede de empresas em telecomunicações.117-139. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em Sociologia. In: CATTANI. WALTER. Sandro. n. Brasília: Unesco. Sociologias. p. Petrópolis: Vozes. 2002b. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Sandro. São Paulo. Cecilia.

It analyses both their differences and similarities as local complementary forms and manifestations of achieving citizenship. será publicada no livro Democracia e justiça global (Porto Alegre. Nythamar Oliveira e Wilson Mendonça.35. durante o processo de democratização da esfera pú__________________________________________________ Abstract This paper presents a comparative study of certain basic characteristics of political culture in Brazilian cities of Curitiba and Porto Alegre. CEP 88040-970 (krischke@brturbo. Trindade. analisando as suas diferenças e convergências como formas locais complementares de manifestação da conquista da cidadania. These differences are seen to derive from their socio-historical context during * Political culture: similarities and differences between Porto Alegre and Curitiba 1 Endereço para correspondências: UFSC/CFH.com). Florianópolis: EDUFSC. Krischke1 Universidade Federal de Santa Catarina Resumo Este estudo2 compara certas características básicas da cultura política nas cidades de Curitiba e Porto Alegre. Florianópolis. e a três pareceristas desta revista a versões anteriores deste trabalho.Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba* Paulo J. denominada A cultura política pública em Porto Alegre e Curitiba. Revista de Ciências Humanas. SC. sem contudo responsabilizálos pelas limitações da versão atual. abril de 2004 . O autor agradece os comentários dos colegas Stephen Chilton. Campus Universitário. n. em distintos contextos histórico-sociais. p. Editora da PUC-RS).141-175. 2 Uma versão mais ampla deste trabalho.

A finalidade do questionamento das abordagens à modernização que faremos aqui é interpretar adequadamente os resultados de uma pesquisa comparativa recente. apesar das eventuais desilusões com esse ou aquele partido ou governante de turno. Palavras-Chave: Modernização. political culture (and subcultures). Specifically. democratização. On this approach it is argued against the deterministic bias and over-generalization procedures usually deployed by current empirical and theoretical research on political culture that are inspired by theories of modernization.142 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba blica. cultura política (e sub-culturas). A primeira parte do trabalho apresenta as linhas gerais da interpretação convencional da mudança e modernização cultural. postmaterialism A importância dos estudos sobre cultura política está nas evidências que eles proporcionam acerca da disposição das pessoas a apoiar o regime democrático. pois muitos pretendem que os processos de democratização sejam inexoráveis ou irreversíveis – como se lhes coubesse seguir a mesma trajetória de modernização (hoje diríamos “globalização”) trilhada pelos países centrais do ocidente. cidadania. inspirados nas teorias da modernização. Infelizmente. e as diferenças e semelhanças que existem no interior dessa cultura. Introdução the process of democratization of the public domain. nas cidades de Curitiba e Porto Alegre. contextos histórico-sociais. há certo simplismo ou certa linearidade nesses estudos sobre a cultura política. refuta-se especificamente a abordagem de Ronald Inglehart ao chamado “pós-materialismo”. n. Keywords: Modernization. the present study relies on research data in order to refute the approach of Ronald Inglehart-considered one of the most influential contemporary scholars in theory of modernization-to the socalled “postmaterialism”.141-175. e os procedimentos de hiper-generalização por eles geralmente adotados. socio-historical contexts. pós-materialismo. Revista de Ciências Humanas. muitas vezes. Florianópolis: EDUFSC.35. p. abril de 2004 . citizenship. por ser esse autor considerado um dos mais influentes estudiosos atuais da teoria da modernização. Com base nos dados desta pesquisa. democratization. Este trabalho se opõe aos estudos empíricos e teóricos convencionais acerca da cultura política. sobre as mudanças em curso na cultura política. argumentando contra o viés determinista desses estudos. que foi testada na pesquisa.

1996. Remmer. Florianópolis: EDUFSC. apenas encontrada nos países centrais do ocidente. Revista de Ciências Humanas. Munck. difundindo o crescimento. Esteves (1999) mostrou “A Auto-refutação do Determinismo”. e com abundante base empírica. abril de 2004 . p. n. para adotar os padrões culturais e institucionais vigentes nos países centrais e democráticos do ocidente5. por mostrarem as ambigüidades e as diferenças existentes nos processos de democratização da cultura política em Curitiba e em Porto Alegre.Paulo J. a essa maior afluência e sofisticação socioeconômica. Lipset. desde uma perspectiva filosófica. __________________________________________________ 3 4 5 Trechos desta seção foram atualizados de trabalho anterior (KRISCHKE. Bermeo. ver Talcott Parsons (1951. Por exemplo. 1990.141-175. veremos que essa perspectiva é compartilhada explicitamente por Ronald Inglehart (1997). Pensava-se então que o desenvolvimento socioeconômico exibiria uma capacidade integrativa quase infinita. Geddes. M. a riqueza. Krischke — 143 A segunda parte apresenta resultados encontrados na pesquisa que. acerca dos condicionantes socioeconômicos da democracia. contradizem essa interpretação. Desde já devemos reconhecer que.35. 1960. propostas por Lipset e outros. A seguir.182-191) e S. por exemplo. ver Andrade (1979) e Lindenberg (1990). p. que vincula a emergência de uma nova cultura – denominada “pós-materialista” –. entre a juventude do mundo inteiro. 2000). a partir de diversas perspectivas teóricas. É certo também que esse determinismo não era apenas econômico. em sua maioria. 1995. vários estudiosos da democratização na América Latina (por exemplo. pois se baseava na suposição de que o desenvolvimento da economia e da tecnologia viria acompanhado de mudanças sociopolítico-culturais que retirariam a sociedade de seu legado tradicional. inicialmente. Há farta documentação sobre esse assunto. bem como as suas convergências e contribuições ao fortalecimento da democracia. política e cultural. Przeworski e Limongi. 1993) têm refutado explicitamente as teses sobre a modernização. Modernização (e “pós-materialismo”)3 Sabemos que as teorias da modernização dos anos 1950 e 60 adotaram um determinismo socioeconômico e político-cultural que hoje consideramos datado pelas ilusões do pós-guerra. a tolerância e a liberdade política – e até a felicidade pessoal entre a população da América Latina4. 1992.

como. elaborados pela Freedom House) padece de um viés etnocêntrico e determinista. 10): “A validade de um índice que se propõe a captar prioridades dos indivíduos sobre valores é determinada mais adequadamente ao nível em que se origina: nas respostas individuais e a nível micro [. econômica e política em 43 Sociedades (1997). p. tendo preferências com prioridades entre os temas alternativos. __________________________________________________ 6 Ver a crítica a Inglehart. lança mão da massa de dados do World values survey (pesquisa mundial sobre valores). Para isso. p. com base em duas hipóteses: a de incidência da “escassez” e a dos efeitos e períodos de “socialização”. p. “em grande medida. 2001). abril de 2004 . Isto é. feita por Davis e Davenport (1999. os entrevistados podem escolher cada valor separadamente por seus próprios méritos. Revista de Ciências Humanas. entre diferentes estratos de idade ou gerações. sem que sejam necessariamente ‘materialistas’ ou ‘pós-materialistas’. Modernização e pós-modernização. sem referir a uma dimensão valorativa subjacente. nem retratar o modo como as pessoas percebem as várias questões políticas e sociais”. p. que tem merecido a crítica metodológica de vários estudos. A hipótese de socialização postula que.144 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba A utilização que esses últimos autores fazem dos indicadores socioeconômicos (e outros de caráter político. a fim de afirmar sua interpretação da mudança cultural nos valores das populações. por exemplo. tanto na Austrália como nos Estados Unidos..141-175. o índice [de Inglehart] pode de fato não refletir uma dimensão ‘materialista/pós-materialista’. Por esta razão. o que revela o caráter problemático dessa suposição destituída de comprovação”. os entrevistados podem selecionar sincera e significativamente os temas individuais. n. em que os indivíduos estivessem envolvidos como participantes ativos6. Mudança cultural. Ronald Inglehart dedicou um de seus livros mais abrangentes. 2): “Mostramos que é muito débil a relação entre idade e valores.24-5) e Krischke (2000.] Consideramos que quando se pede aos entrevistados que escolham sucessivamente valores de uma série de possibilidades positivas [desejáveis].. p. em nome de um “progresso” econômico e tecnológico aparentemente inelutável. Florianópolis: EDUFSC. Isso resultaria em novas formas de socialização (por exemplo. Ver também a crítica de Tranter e Western (2002. a uma retomada da teoria da modernização.433-34). Munck (1996. Escobar (1992. A hipótese de escassez postula que “as prioridades do indivíduo refletem o seu ambiente socioeconômico”. em que busca matizar os efeitos do viés determinista dessa teoria. essa forma de determinismo considera a modernização como decorrente de forças externas materiais que se impõem à população. via mídia eletrônica e informatização) – sem a mediação explícita de processos históricos de aprendizado e elaboração cultural intersubjetiva. Especificamente.35.

recessão. pois as gerações que adotaram esses valores tenderiam a persistir no seu apoio. dentre outros. desemprego) aumentaria a tendência de apoio a valores materialistas (busca de segurança pessoal. a pessoa colocará maior valor na segurança física e econômica. também postulou que a tendência ao pós-materialismo não era apenas um fenômeno juvenil que acaso desaparecesse na fase adulta. movimentos pacifistas. 3) combater a inflação. Revista de Ciências Humanas. Por isso. KRISCHKE e TOSO. Inglehart testou inicialmente suas hipóteses na Europa ocidental e demais países centrais do ocidente. 2) maior participação da população nas decisões importantes do governo. 1998)7. Esses “pós-materialistas” estariam mais preocupados com a qualidade de vida. pois tiveram assegurada sua segurança física e econômica. e em movimentos sociais dos anos 1970 e 80. Krischke — 145 os valores básicos dos indivíduos refletem as condições prevalecentes durante o período anterior à sua vida adulta” (ECHEGARAY. enquanto “pós-materialistas” seriam aqueles que preferem objetivos e valores menos tangíveis. 1990). os dois principais objetivos no país: 1) manter a ordem. A série longitudinal da pesquisa. essa pessoa será considerada “materialista”. que vêem “pouca consistência comprovada ou validade comportamental preditiva nos resultados”. Florianópolis: EDUFSC. na esfera pública em âmbito local.Paulo J. Ver as críticas de Marshall (1997. As alternativas utilizadas como questões de pesquisa são. Os entrevistados são convidados a selecionar. Por outro lado. 1). de que. mas de modo crescente) a adotar valores “pós-materialistas”. p. apenas. 4) proteger a liberdade de expressão. de gênero. onde postulou que as gerações nascidas no pós-guerra gradualmente teriam passado (em parte. __________________________________________________ 7 A escassez implicaria mudanças valorativas de curto prazo: períodos de escassez econômica (inflação. ecológicos. durante a idade pré-adulta. as quatro empregadas originalmente por Inglehart. (CLARK e INGLEHART. n. a afetividade e a estética do que com considerações de ordem econômica e material. Essas duas hipóteses orientam o argumento de Inglehart. material e política). Também postulou ali que essa tendência estava relacionada a atitudes participativas. culturais etc.35. entre quatro possibilidades. em geral. a hipótese de socialização enfatiza os efeitos geracionais de longo prazo (apesar dos efeitos conjunturais de curto prazo. que modificam. parcialmente satisfeitas durante a fase pré-adulta. quando as necessidades físicas e econômicas são. realizada regularmente desde a metade dos anos 1970. ao atingir a idade adulta. afetividade e estética). minorias raciais. os efeitos ou as atitudes básicas geracionais). por ordem de prioridade. Contudo. p. abril de 2004 . as que deveriam ser. os períodos de prosperidade aumentariam a tendência de apoio aos valores pós-materialistas (qualidade de vida.141-175. reforçando ou mitigando.

. ou seja com a perspectiva de alcançar um consenso. é aparentemente crítica do viés determinista dos estudos convencionais da modernização. na melhor das hipóteses. O autor encaminha a seguir sua proposta de “análise funcional e síndromes de mudança previsíveis”. No livro de 1997.14-15). p.141-175. O processo não é teleológico. Isto não se relaciona com a preferência de valores. política e economia são recíprocas. é apenas relativamente a normas e sistemas normativos destacados da totalidade da vida social que os participantes podem tomar a distância necessária para adotar face a eles uma atitude hipotética [. candidatos a materializar-se em normas destinadas a expressar um interesse geral.. com conseqüências metodológicas que especificaremos adiante: “Os valores culturais [. Aqui vale lembrar também a advertência de Habermas sobre o estudo dos valores. 126-7.]. assume sua vinculação com as teorias anteriores da modernização. assim como na Europa oriental. Inglehart trata de ampliar seu argumento. e a natureza exata desses vínculos em cada caso é uma questão empírica. Nos países do chamado terceiro mundo. fato geralmente atribuído pelo autor à incidência de fatores de insegurança econômica.] são. com amostras nacionais da população em 43 países. __________________________________________________ 8 É necessário assinalar o procedimento hiper-generalizante de Inglehart. como Tranter e Western (2002) e Marshall (1997).146 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba Os entrevistados que selecionam “manter a ordem” e “combater a inflação” são classificados como materialistas e aqueles que escolhem “maior participação” e “liberdade de expressão” são classificados como pós-materialistas. As quatro combinações restantes são classificadas como “mistas”8. a qual] estende-se apenas às questões práticas que se podem debater racionalmente. com a mesma finalidade. na sua aferição de valores a partir apenas de escolhas dos entrevistados entre essas poucas alternativas. logo no início do livro. política e material na fase pré-adulta dos entrevistados (a hipótese de socialização). abril de 2004 . Vários autores têm criticado esse procedimento. 1989. Nesse livro. mas opera como se fosse: as sociedades com sistemas legítimos de autoridade têm mais chances de sobrevivência que aquelas que não os têm”(p. antes que algo a ser decidido a priori”(p. Florianópolis: EDUFSC. Brasil. afirmando que “não assumimos o determinismo. ao mesmo tempo em que dialoga com as teorias sobre a chamada pós-modernidade. n.35. A posição formal de Inglehart.4). Por conseguinte. mas com a validade das normas de ação” (HABERMAS.. a tendência em apoio aos valores pós-materialistas é incipiente.. Assim fazendo. Inglehart expande o seu argumento. Revista de Ciências Humanas. grifo do autor). pois “todo sistema econômico e político tem um sistema cultural que o legitima [. p. que busca adaptar a sua proposta... explicitando a teoria em termos de modernização e pós-modernização. quatro delas da América Latina (Argentina. Chile e México). econômico ou cultural: nossos resultados sugerem que as relações entre valores.

“apresenta apenas toscas e débeis teses gerais. grifo do autor). O capítulo oferece evidência desses resultados. Florianópolis: EDUFSC. E acrescenta adiante: “A proposta de Inglehart é um caso paradigmático de materialismo. Introduction). ele afirma que: “O desenvolvimento conduz à democracia desde que ocasione certas mudanças na cultura e na estrutura social. típica da modernidade. linear e comparativamente estática [. mediante uma estratégia evasiva.. que conduziria à difusão de valores racionais-seculares e auto-expressivos – é materialista. Inglehart busca. __________________________________________________ O Capítulo 6 de seu livro dedica-se a esse ponto e. expomos os dados de pesquisa em que se buscou testar essas limitações. Tudo isso.. sendo o fiat da transformação de uma em outra os processos de industrialização e diversificação sociocultural. cuja validade não é sustentada empiricamente”. ver as críticas de Haller (2002. Inglehart enfatiza assim a existência de duas formas ou dois modelos contrastantes de sociedade.] suas escalas são coleções de itens heterogêneos. em que tenta abrigar-se na noção de “equilíbrio homeostático” da teoria dos sistemas (JOHNSON. sua classificação dos países em “zonas culturais” carece de consistência.quando] mobiliza públicos massivos e tende a suscitar orientações culturais em apoio [à democracia]” (p. portanto. buscando superar o funcionalismo standard das teorias anteriores sobre a modernização.35.. abril de 2004 . com a crescente ênfase cultural na qualidade de vida. escapar do estigma determinista. Desse ponto de vista.141-175. Introduction): “A tese central de Inglehart – a mudança de valores vista principalmente como decorrência do desenvolvimento econômico e tecnológico.] Ele admite abertamente que sua primeira tese (a hipótese da escassez) ‘é semelhante ao princípio da utilidade marginal da teoria econômica’”(1997. n. que pretende uma causação direta das idéias por circunstâncias materiais [. estipulados pela teoria da modernização.Paulo J. Assim. p. A seguir. resultantes na sociedade pósmoderna e pós-materialista10.16). 10 Sobre essas falácias interpretativas. recomendamos Gibbins (1992. Interessa salientar que toda essa preocupação multicausal com o equilíbrio funcional não o faz descartar os condicionantes socioeconômicos. inclusive. 1966). que os adeptos mais militantes dessa mudança cultural teriam certamente grande dificuldade em aceitar. típica da pós-modernidade.. ele propõe. entre outras. e ele desconsidera a distinção entre os níveis macro e micro de análise”. mas [que] sobrevivem e se difundem porque a servem” (p. 9 Revista de Ciências Humanas. após apoiar-se nos dados e nas conclusões de Lipset e outros sobre os condicionantes socioeconômicos da democracia.. a mudança da cultura atual para o pós-materialismo é vista como “mutações [que] não acontecem para servir a uma função. principalmente no que refere aos efeitos da industrialização sobre a cultura política e a estrutura social. mas não pode escapar ao leitor o caráter circular da argumentação. Krischke — 147 Entretanto. cada uma com suas próprias condições de desenvolvimento socioeconômico e político-cultural. uma leitura adaptativa da cultura pós-moderna.161. p.. ao contrário9. E grande parte do livro dedica-se a contrastar a busca pela segurança material. finalmente. [. Sobre isso. antes.33). no velho estilo dualista das teorias da modernização.

e circulava por temas relacionados a: democracia versus autoritarismo. p. 1998. 2001) realizando o trabalho de campo em contextos histórico-culturais claramente contrastantes e delimitados. Carine Fernandes e Doris Waldow participaram de várias etapas de realização técnica e administrativa. Em razão dessas dificuldades de generalização. à colega Louise Lhullier. que colaboraram nas fases iniciais de elaboração deste projeto de pesquisa. da política e das condições gerais de vida em cada cidade – além das alternativas sobre materialismo/pós-materialismo13. com duas faixas etárias de participantes em cada cidade – onde incluímos a discussão de outros temas. 12 Reis (2003) tem enfatizado as dificuldades cognitivas dos entrevistados por surveys no Brasil. foi importante estabelecer. as hipóteses de Inglehart para o caso brasileiro. como as populações das duas cidades entendiam as questões formuladas por Inglehart. de modo preliminar. Outro objetivo foi reconstruir as histórias de vida dos entrevistados. encontrando contudo resultados muito parciais e bastante contraditórios (ECHEGARAY. e assessorou a realização do trabalho de campo. e participação política e social (além da discussão sobre as alternativas de Inglehart sobre pós-materialismo). respectivamente à realização do trabalho de campo e ao processamento estatístico dos dados. tendo em vista a provável diversidade de compreensão dos entrevistados acerca dessas categorias12. Principalmente. em ambas as cidades. com 29 anos ou mais. A colega Fátima Quintal coordenou a realização dos grupos focais. Revista de Ciências Humanas. estudantes e professores das universidades Federal e Católica. O Instituto Ethos de Curitiba e o Instituto Meta de Porto Alegre proporcionaram apoio logístico. fato que buscamos contornar entrevistando pessoas com pelo menos o 2° grau de escolaridade. valores e crenças políticas. As bolsistas Giselle Cardoso. e cada grupo foi constituído em idênticas proporções por funcionários. com o objetivo de captar melhor as posições manifestadas durante os debates. Houve distribuição eqüitativa por sexo. Foram também realizadas entrevistas individuais com cada membro dos grupos. Para aferir essa compreensão por parte dos públicos de Curitiba e Porto Alegre. Fabian Echegaray e Sérgio Costa. O debate era moderado por um membro da equipe de pesquisa. KRISCHKE. de modo preliminar. têm sido testadas. 2000).148 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba Os casos de Curitiba e Porto Alegre11 Desde há alguns anos. buscando captar os modos em que os contextos histórico-sociais influenciam a constituição de sua personalidade. surgiram dúvidas sobre a capacidade de generalização dos dados levantados com as alternativas de Inglehart. 13 Foram realizados dois grupos com nove ou dez participantes em cada cidade. n. um deles com pessoas de idade até 28 anos e o outro. Luís Cláudio Messa atuou como bolsista de ajuda técnica e na organização dos dados do survey. planejamos uma pesquisa de campo comparando as características da cultura política nas cidades de Porto Alegre e Curitiba. e TOSO. Principalmente. KRISCHKE. referentes ao entendimento da democracia. realizamos debates com grupos focais em separado.141-175. Florianópolis: EDUFSC. que colaborou decisivamente na sua reformulação teórico-metodológica. abril de 2004 . A finalidade dessa escolha foi superar as tendências hiper-generalizantes dos métodos usuais na pesquisa empírica da cultura política (KRISCHKE. __________________________________________________ 11 Agradecimentos aos colegas Aluir Toso.35. Ana Lídia Brizola apoiou a coordenação administrativa e o trabalho de campo. O doutorando Marcos Mesquita participou ativamente na sistematização e análise dos dados do survey. Nesse sentido.

dessa forma.70). visto que isto.. 2001. e derivada de Kohlberg (1981). em parte. pode se desenvolver [. Devemos ter em mente que estamos tentando mostrar como a idéia de sociedade. mesmo que particulares em seu meio social. p. pouco fazendo menção aos aspectos sociais e políticos que viveram ou que aconteceram no país. que se apóia na homologia sugerida por Habermas (1989). 2001.35. por assim dizer. familiar e de trabalho” (QUINTAL. no sentido atribuído por Rawls deriva de sua afirmação de que: “Podemos. Florianópolis: EDUFSC. Por outro lado. versão brasileira. ao longo das duas últimas décadas. os mais novos de Porto Alegre. p.. p. em certa medida. 14 Revista de Ciências Humanas. no que tange ao conteúdo das justificativas elaboradas. também faziam uma referência a um “eu”. entrar nessa posição [original] a qualquer momento simplesmente argumentando em favor de princípios de justiça em consonância com as restrições mencionadas acima. fruto em grande medida das políticas públicas em vigor. (CHILTON. os moradores incorporaram. 1993. e (b) usadas de fato pelos participantes para orientarem-se mutuamente em assuntos sócio-políticos (como seu foco público de orientação)” (Ibid. Krischke — 149 A atividade dos grupos possibilitou também criar um dispositivo de argumentação (ou recurso comunicativo).. p. entretanto este “eu” aparecia dentro de uma perspectiva de potencialidade de ações.. ao longo dos anos.. A caracterização dos grupos.1). os valores de parte da ideologia dominante.] o mesmo se aplica à representação de um papel em termos gerais. Os governos municipais nas duas cidades. 15 A introdução do relatório dessa etapa indica que “Destacam-se as diferenças entre os grupos de uma mesma cidade. simulamos estar na posição original [. ocuparam e ocupam pólos opostos. n. Os mais velhos de Curitiba faziam uma referência mais forte ao “eu”. grifos do autor). abril de 2004 ..]” (RAWLS. seja na maneira de implantação de seus projetos e. As conclusões principais dos grupos foram assim sintetizadas pela coordenadora dessa etapa (QUINTAL. Pois elas são: “(a) compreendidas como um entendimento comum. em suas vidas. 1990. em oposição a um “nós social”. em que os participantes são convidados a situar-se e a debater eqüitativamente as normas vigentes no seu cotidiano14. entre a maturidade individual da cidadania e a evolução das estruturas normativas e jurídicas da sociedade – definindo a cultura política como “uma forma de relação ‘compartilhada’ apenas quando publicamente comum numa dada coletividade”. Quando.80). Essa “forma de relação” compartilharia “critérios de validade intersubjetiva” sobre normas de ação que sejam “públicas” e “comuns” entre os participantes dos debates..141-175. ao menos em parte. até certo ponto análogo ao que Habermas denomina “situação ideal de discurso” (ou “posição original” no sentido de Rawls). é esperado diante das diferenças de histórias vividas e acontecimentos político-sociais que estiveram presentes em suas existências.Paulo J.24)15: Poder-se-ia dizer que tanto em uma quanto em outra cidade. seja no sistema ideológico. enquanto sistema eqüitativo de cooperação. _________________________________________________ Este procedimento foi inspirado em uma proposta de interpretação da cultura política em termos de “desenvolvimento moral-cognitivo”. p.

os participantes de Porto Alegre acabam por refletir uma história continuada de um mesmo tipo de administração pública em que os canais de envolvimento e participação da população têm sido incentivados e se constituem em fortes baluartes da orientação política existente. criou uma identidade de cidadão participante como aquele afeito à defesa de seus direitos. localizadas e isoladas. no caso de Curitiba. “Nos moradores de Curitiba. de que [.. na cidade de Porto Alegre. O social é compreendido na perspectiva de ações individuais corretas. Tal diversidade tem suas origens nas profundas mudanças da sociedade brasileira nos últimos 30 anos. somente. que poderíamos chamar de subculturas políticas. de formatos dos espaços públicos locais. p. de modo que o político e o social tenham sido construídos com um conteúdo da necessária existência do “outro social”. ações essas permeadas pela exigência da qualidade. incentivada e construída em Curitiba ao longo destes anos.17 _________________________________________________ 16 17 Essa interpretação refere-se aos debates sobre “Maior Participação da População”. p. Florianópolis: EDUFSC.. Por outro lado. dentro do marco da individualidade.24).. seja para delimitar e explicitar a diferença. Na realidade. abril de 2004 . o debate e a participação em esferas para além do individual têm sido incentivadas. isto está coerente à acepção radical do termo cidadão.16 Essa interpretação geral dos grupos. em termos do espaço considerado permitido e aceitável e que é destinado à participação das pessoas na vida pública e cotidiana. não significa que a igualdade de participação decorra naturalmente deste quadro. Revista de Ciências Humanas.150 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba conseqüentemente. visto que ele se torna possível. Distinções podem também ser observadas nos perfis da vida associativa e naquilo que poderia se denominar. 2001. seja para serem encontradas ou fortalecidas estratégias de ação.. Entretanto.141-175. dos quais veremos logo alguns detalhes. isto. esta deveria se fazer na direção do cumprimento do previsto legalmente. n. a interlocução. mas pode também ser extrapolada à de outros temas (QUINTAL. de forma genérica. legalmente amparadas e legitimadas pelo atendimento destas prescrições.35. quando necessária uma atuação das pessoas. que implicam diferentes modos de viver a política e de relacionar-se com o mundo público em geral. do correto e do cumprimento das leis e direitos. na outra cidade. veio confirmar inicialmente a hipótese traçada pela pesquisa. seja para identificar os pares das ações. e mais próximo da dimensão da exposição pública. Poder-se-ia dizer que a rede de relações sociais existente. por si só.] subsiste no interior da sociedade brasileira uma relativa pluralidade de matrizes valorativas e atitudinais relevantes no âmbito político.” Ver Costa (1996). Por sua vez. o plano da ação poderia estar mais próximo da dimensão da explicitação privada. Em certa medida. os conteúdos dirigem-se a ações individuais. Poder-se-ia dizer que focalizam no plano da garantia da materialização das leis e.

mediante a categoria de respostas mistas (suposta incoerência entre uma prioridade materialista e outra pós-materialista). p.Paulo J. [Inglehart] deformou a variação dessa variável dependente” (p. como variável dependente com três categorias. abril de 2004 . em Curitiba e Porto Alegre. em pontos de alta circulação. O principal objetivo foi levantar dados que permitissem a análise de possíveis clivagens geracionais na cultura política nessas duas cidades. considerando a diversidade dos contextos históricos de socialização. Em Curitiba. as interpretações que os grupos focais fizeram dessas alternativas foram muito diversificadas e. Esse último requisito está vinculado à importância atribuída às experiências vividas nessa faixa etária. os resultados do survey20 mostram que não existe diferença significativa entre as duas cidades. buscava-se investigar a possibilidade de haver diferenças entre ambas. n. Paralelamente. em ordem de prioridade.4). nas duas cidades. como Davis e Davenport (1999). justificando com dados empíricos a sua eliminação. em cidades que passaram por trajetórias políticas diferentes. com escolaridade mínima de 2º grau completo e que tivessem vivido na cidade onde foram entrevistados – Curitiba e Porto Alegre – dos 10 aos 17 anos de idade. O último trabalho conclui que: “Ao classificar o índice de quatro itens para análise de regressão. As conclusões gerais dessa etapa de estudo com grupos focais (e das entrevistas individuais com os participantes) foram muito importantes para orientar metodologicamente a fase seguinte da pesquisa (estudo por survey da população)18. em Porto Alegre. mas propondo aos entrevistados uma única opção apenas – em lugar das duas pedidas por Inglehart. como também fazemos aqui. Além disso. 20 Esses resultados foram inicialmente organizados por Marcos Mesquita. como segundo ponto de reformulação metodológica. Em primeiro lugar. Quanto ao primeiro ponto de revisão. decidimos manter as quatro alternativas apresentadas originalmente por Inglehart. por 463 entrevistados.141-175. A exigência de 2º grau completo está relacionada ao grau de dificuldade apresentado pelo instrumento. responsável também pela versão preliminar da análise que segue (até a Tabela 5). às vezes. possivelmente relacionadas às repercussões histórico-culturais do processo de democratização na socialização política de seus habitantes. Portanto. como veremos a seguir. a amostra foi constituída por 462 entrevistados e. no que respeita à adesão a valores supostamente materialistas e pós-materialistas. entre entrevistados com escolaridade inferior a esse patamar.35. Krischke — 151 Um dos pontos de mudança cultural previstos pela pesquisa seria em termos geracionais. tal diversidade de interpretação dessas alternativas pelos membros dos grupos focais somou-se ao levantamento de outros valores surgidos nesses debates. 19 Várias críticas foram feitas a essa categoria “mista” de Inglehart. opostas entre si. inclusive. Brown e Carmine (1995) e Tranter e Western (2002). testado previamente. _________________________________________________ Os dados foram coletados em agosto de 2001. foi constituída por pessoas de ambos os sexos. 18 Revista de Ciências Humanas. A intenção desse procedimento foi evitar ilações que tenderiam a enviesar os resultados. no mínimo. A população-alvo. Os dados que se apresentam posteriormente foram sistematizados e analisados com apoio estatístico de Luiz Cláudio Messa. Florianópolis: EDUFSC. que tem sido interpretada por Inglehart em termos de uma “transição” entre as duas situações19.

Esses resultados aparecem na Tabela 1: Tabela 1 Objetivos mais importantes para o Brasil por cidade. os valores relevantes que surgiram nos debates. da qual eles foram convidados a escolher as cinco alternativas que consideraram principais. Revista de Ciências Humanas. para “a construção de uma sociedade ideal”. ambos os públicos seriam majoritariamente pós-materialistas – se quiséssemos continuar usando essas categorias – embora seja necessário interpretar esses dados em outro contexto teórico. sem ordem de prioridade. entre os participantes dos grupos focais de ambas as cidades. Florianópolis: EDUFSC... como veremos.141-175. n. todas diferentes das expectativas de Inglehart.35. embora houvesse variações sugestivas. com respeito à adesão a valores supostamente materialistas ou pós-materialistas. Quanto ao segundo ponto de revisão metodológica. foram apresentados como uma lista de escolha múltipla aos entrevistados pelo survey.152 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba Quando confrontados com as alternativas de Inglehart. abril de 2004 . Resultado semelhante obteve-se ao correlacionar esses mesmos dados do survey por faixa etária. na população de cada cidade (Ver a Tabela 6 ao final do texto). não houve significação estatística nas diferenças entre as faixas de idade. que especificaremos ao final. Curitiba e Porto Alegre Fonte: Pesquisa Clivagens Geracionais. ou seja. p.

é decisiva. religião”. o cumprimento de regras sociais. em que a manutenção da ordem institucional. durante os debates e nas entrevistas: “[a disciplina] é seguir a lei”. Krischke — 153 Os resultados dessas escolhas são apresentados na Tabela 2. “transição gera instabilidade”. “igreja. “cultura conservadora”. Diferentemente dos que responderam em Porto Alegre. na qual se constata que quatro desses valores principais são majoritários e comuns às duas cidades. insegurança”.35. “geração do medo”. “todas instituições perderam credibilidade”. _________________________________________________ 21 Participantes dos grupos focais em Curitiba expressaram as falas seguintes. os entrevistados de Curitiba não escolheram o valor do respeito ao meio ambiente como um dos cinco mais importantes para a construção da “sociedade ideal”. abril de 2004 . n.. “assaltos. “preconceito e politicagem”. “corrupção. “desenvolver a pessoa para desenvolver o mundo. Revista de Ciências Humanas. Isso reafirma o que foi observado na dinâmica dos Grupos Focais. desconfiança”. Florianópolis: EDUFSC. a autoridade. ordenamento. e sim a disciplina. “começa na comunidade e acaba no indivíduo”. Todavia. “instituições dependem das pessoas”. hierarquia e a organização nas relações entre as pessoas foram pontos muito presentes e valorizados entre os curitibanos21. Tabela 2 Importância dos valores a para construção de uma sociedade ideal Fonte: Pesquisa Clivagens Geracionais. “ditadura = ordem”.Paulo J. p. pela organização do convívio cotidiano.. e será considerada a seguir. do privado para o público”. as diferenças entre as escolhas das duas populações (quinto valor selecionado acima) também são muito significativas e devemos enfatizá-las aqui. selecionando-se conjuntamente quatro dos cinco valores como prioritários.141-175. A convergência entre as escolhas da população das duas cidades.

“orçamento participativo do governo por si só não funciona”. buscamos estudar a sua configuração de conjunto. parece inserir-se em um “projeto coletivo” mais amplo. em cada uma das cidades. mas com iniciativa própria”. que permite visualizar a relação dos valores entre si. A importância dada ao Desenvolvimento econômico aparece assim relativizada pela preocupação com o Meio ambiente. nas escolhas feitas por cada entrevistado. a formação de um fator composto pelos valores da liberdade. uma tendência à eleição de um conjunto em detrimento de outros (Ver Gráficos 1 e 2 em anexo). como valores do desenvolvimento sustentável. Revista de Ciências Humanas. “o meio ambiente somos nós que fazemos”. a distância indica oposição. n. Isso. haviam tratado de enfatizar22. Florianópolis: EDUFSC. em contraste com os outros valores.141-175. educação. em Porto Alegre. liberdade e do desenvolvimento econômico aparece ancorada na disciplina como mediadora das relações sociais. “se faz política acreditando nos outros”. “movimentos sociais conseguem mudar pela força do número”. porém importante. tal como o que alguns dos participantes dos grupos focais. indicando uma tendência à eleição do conjunto de valores ali inseridos. sugere uma representação acerca da “sociedade ideal” que contempla a inserção de novos valores ético-sociais e a ressignificação dos demais valores. em que a questão da qualidade de vida toma peso. “aprendendo a interpretar uma opinião”[motivos do falante]. pela sua pertinência.35. com outros valores também selecionados na lista. que podemos denominar de valores ético-sociais. Considerando-se essa diferença inicial entre os valores mais escolhidos nas duas cidades. ‘bola de neve’ do PT”. “projeto coletivo: satisfação muito grande”. igualdade e justiça. Em Porto Alegre. até a própria lei”. Pudemos então observar. a valorização do Respeito ao meio ambiente. “visão mais ampla. Para isso. “OP: é por aí. _________________________________________________ 22 Eis algumas manifestações dos participantes nos grupos e entrevistas em Porto Alegre: “socialismo mais próximo da cidadania. entrevistados anteriormente em Porto Alegre. vai levar um tempo mas vai mudar”. a partir da composição de fatores que se agrupam por ordem de proximidade. bem como a ênfase maior conferida aos valores da Igualdade e Liberdade. composto pelos valores do desenvolvimento econômico e do respeito ao meio ambiente. que poderíamos denominar. p. ou seja.154 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba A valorização da justiça. Aqui. Esses dois fatores são destacados na análise de Cluster. abril de 2004 . “programação subterrânea que não se vê mas sabe que existe”. “os novos discutem mais. igualdade. aliás. saúde”. associada aos demais valores. e a formação de um fator menos coeso. “o pessoal está pensando mais. utilizamos uma técnica estatística chamada Cluster Analysis.

o segundo fator é composto pelos valores liberdade. ao menos. ao relacioná-la com outras opções dos entrevistados. abril de 2004 . Também aqui. observamos a formação de fatores que dão visibilidade a diferenças sutis. visualiza-se a formação de dois importantes fatores que se opõem a todos os outros valores. e o reconhecimento dessa importância foi amplamente majoritário. Partindo-se desta constatação geral. à medida que a faixa etária aumenta. entre as duas cidades e entre as diferentes idades. que aliam valores ético-sociais à “manutenção da ordem”. é necessário assinalar as similaridades entre as respostas dos entrevistados das duas cidades. maior reconhecimento da importância da política entre os mais jovens. a interpretações e conotações convergentes dos mesmos valores no contexto histórico-cultural específico de sua cidade. Revista de Ciências Humanas. ainda. suas experiências práticas nos grupos de idade em cada cidade e também em conjunto nas duas cidades serão tratadas a seguir. A formação destes fatores confirma indicações de diferenças na representação da sociedade ideal entre os habitantes das duas cidades — tal como fora sugerido pelos debates nos grupos focais. p. que aliam a idéia de progresso à de justiça social. do que em Curitiba. Por outro lado. igualdade e disciplina. Além disso. 66% dos entrevistados (Ver adiante a nota de rodapé 21). 73% dos entrevistados. perguntou-se aos entrevistados nas duas cidades a importância que atribuíam à política. E observa-se. nas duas cidades. dos valores prioritários em cada uma das duas cidades. Um primeiro fator é composto dos valores desenvolvimento econômico e justiça. Essas semelhanças e diferenças entre as opções dos entrevistados. Florianópolis: EDUFSC. a qual diminui. Não é grande a diferença da importância da política. nas preferências dos entrevistados.Paulo J. ou. também. da existência de diferentes matrizes culturais. n. mas veremos depois o seu peso específico. há ainda questões relacionadas à vida política e sua prática. sendo a importância da política relativamente mais valorizada em Porto Alegre. porém importantes para pensar e demarcar diferenças valorativas. essas semelhanças relacionam-se à escolha conjunta que os entrevistados fazem dos mesmos valores prioritários. na Tabela 3.141-175. que às vezes receberam atenção especial e diferenciada. na identidade dos habitantes de cada cidade. há também diferenças contrastantes entre outras respostas e temas enfatizados nas duas cidades. Krischke — 155 Em Curitiba. Por exemplo.35. Em parte.

Revista de Ciências Humanas. Contudo.156 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba Tabela 3 Valorização da política por faixa etária Fonte: Pesquisa Clivagens Geracionais. observa-se maior tolerância política. Para verificar o grau de tolerância política dos entrevistados. A adesão a esse índice foi alta em ambas as cidades. estatisticamente significativa.35. p. foi formulada uma questão na qual se pedia que o entrevistado indicasse a frase que considerava mais próxima às suas concepções.. Florianópolis: EDUFSC. n. em conjunto nas duas cidades (Tabela 4). A tolerância é um importante indicador de democratização cultural. nos entrevistados com até 28 anos de idade. abril de 2004 . correlacionando-se esses dados com a faixa etária.. não havendo diferença significativa entre as respostas das duas populações.141-175. caracterizando uma disposição para conviver com o direito à diferença.

Paulo J. Já é conhecida de pesquisas anteriores a tendência à falta de interesse em geral da população brasileira pela política em seu formato institucional. como no caso da defesa do Revista de Ciências Humanas. n.. abril de 2004 . p. quando a atividade política constitui-se considerando dimensões culturais e simbólicas. Porém. Krischke — 157 Tabela 4 Tolerância (atitude em relação aos que pensam diferente) por faixa etária. Florianópolis: EDUFSC.35.141-175.. Curitiba e Porto Alegre Fonte: Pesquisa Clivagens Geracionais.

por idade dos entrevistados em cada cidade. O teste qui-quadrado verifica a associação entre duas variáveis. constatou-se um p-value de 0.0222. analisados por cidade.006-3. Essa análise estatística mais fina.05). Mencionamos anteriormente que as escolhas referentes aos denominados materialismo e pós-materialismo não permitem encontrar diferenças com significação estatística. 0.3). seja entre as populações das duas cidades.0 e 0. Embora as diferenças entre as duas faixas de idade mais jovens sejam pequenas.5. No exemplo acima. ao nível de significação de 5% (no caso. Isto significa que a importância da política é avaliada diferentemente. os da preservação da natureza e meio ambiente (respectivamente. apresentamos algumas correlações entre essas respostas dos entrevistados. ambas se diferenciam da faixa dos mais idosos. 29 aos 44 anos (0. Florianópolis: EDUFSC. cuja omissão na escolha desses valores alcança significado estatístico. n.96. enfatizam mais o valor da justiça e.35. A seguir. abril de 2004 . havendo associação positiva quando o resultado obtido for igual ou maior do que 1.132-2. na lista inicial de valores.158 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba meio ambiente ou demais valores prioritários.3 para as respostas que declararam a política Muito Importante.8). nas duas cidades. Até mesmo os jovens até 28 anos de ambas as cidades enfatizam também o valor da competência. nas duas cidades. salientamos apenas que os resultados apresentados a seguir. enquanto.141-175. surpreendentemente. Por exemplo. ao testar se a associação da Importância da Política com cada cidade era a mesma. p. os apoios à liberdade e igualdade. nas duas cidades. para debater o seu significado na cultura política das duas cidades 23. resultou em 2. indica que devemos matizar as configurações iniciais que fizemos acima. Com referência à lista inicial de valores correlacionada à faixa de idade. estabelecendo matrizes das diferenças gerais de opção entre as duas cidades. os entrevistados tendem a declarar participação mais efetiva na política.005-2. que resultam da aplicação dos testes estatísticos qui-quadrado e resíduos ajustados.022 (menor que os 0. pelos entrevistados de idade intermediária. por meio da análise de Cluster. dos quais daremos alguns exemplos. que não chegou a alcançar prioridade entre as outras faixas de idade. _________________________________________________ 23 Para não sobrecarregar o texto com tabelas. para os que declaram Nada Importante à mesma questão. A análise de resíduos ajustados verifica a magnitude da associação existente entre as variáveis. em Curitiba. Esses entrevistados com mais de 45 anos.3 e 0. alcançam maior significado em Porto Alegre (respectivamente. a análise em Porto Alegre resultou em 2.023-2. O valor do desenvolvimento econômico é principalmente enfatizado.1). em cada cidade. Revista de Ciências Humanas. a margem de erro desta pesquisa). 0.

] Transpor para um nível agregado de análise as respostas do survey. a partir da clivagem geracional.. como veremos. Krischke — 159 seja entre faixas etárias diversas em cada cidade. Essa prioridade do lazer e das relações afetivas encontra correspondência com a faixa etária dos entrevistados nas duas cidades.0). desde o início dos anos 80..141-175. implica no suposto apriorístico. encontramos elementos que permitem indagar acerca da eventual formação de uma subcultura etária em âmbito regional. p. No entanto. Esse pode ser um indicador importante. n.35.Paulo J. é um artifício de mensuração” (Introduction). e Davis e Davenport (1999): afirmam que “[. do materialismo para o pósmaterialismo. essa preferência não foi significativa. encontrada pelo Eurobarômetro. _________________________________________________ 24 Ver críticas. Entre os mais idosos. Revista de Ciências Humanas. (1999) de que “[Nossos] resultados apóiam o argumento de que grande parte da mudança dos valores. tanto de insatisfação com o presente como de motivação para inovar no futuro. sendo que as respostas dos dois grupos de idade abaixo de 45 anos alcançaram a mesma magnitude (2. de Kaase et al. os entrevistados de ambas as cidades enfatizaram principalmente o lazer e as relações afetivas (Tabela 5).. o que contradiz. ou ao menos questiona radicalmente24. Quando indagados sobre suas alternativas desejáveis de inserção social no tempo livre. incluindo tanto Curitiba como Porto Alegre. as hipóteses de Inglehart. Tabela 5 Inserção em grupo ou atividade no tempo livre Fonte: Pesquisa Clivagens Geracionais. nessa direção. abril de 2004 . Florianópolis: EDUFSC. numa lista de escolha múltipla. de que o índice de quatro itens reflete adequadamente um sistema (não comprovado) de crenças duradouras e orientações valorativas individuais” (Introduction)..

3).002-3. n.3). a opção de tempo livre em atividades políticas correlaciona-se positivamente com a ênfase que já vimos acima. abril de 2004 . prazer (Curitiba: 0. de todas as idades e nas duas cidades. que unem a insatisfação com o presente à busca por soluções politicamente inovadoras.3. Outra opção significativa no uso do tempo livre pelos mais jovens. _________________________________________________ 25 Márcia R. tais como: alegria. com a importância da democracia.002-3.006.141-175.7). Dias (2003) realiza pesquisa sobre esse tema.001-3.2. auto-realização (Porto Alegre: 0.160 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba Essa prioridade no uso do tempo livre correlaciona-se positivamente com as escolhas sobre valores da lista inicial. aqueles que optam por atividades políticas.0). Já a opção no tempo livre por atividades assistenciais e religiosas é priorizada por aqueles que escolheram. foi a procura de outro emprego (0.001-3. no uso do tempo livre.35. Significativamente. oferecem suporte motivacional para uma subcultura em formação. 0.6). que pode inclusive alcançar (se não estiver já alcançando) uma expressão política e eleitoral. não selecionam temor a Deus na lista inicial de valores. Esses valores estão entre os preferidos pelos mais jovens (até 28 anos) em ambas as cidades (0.1). Florianópolis: EDUFSC. acerca da importância da política (principalmente em Porto Alegre: 0.20-2.021-2.2. em Porto Alegre.026-2. como prioridade (0. de ambas as cidades. nessa cidade. Esse conjunto de dados permite perceber tendências emergentes nos grupos mais jovens. Destaca-se também a preferência dos mais jovens pela defesa do meio ambiente.7).09-3. Essa última opção pelo valor da liberdade está também relacionada. em Curitiba. A seleção de atividades políticas como opção de tempo livre. p.2) e meio ambiente (POA: 0. POA: 0. em Curitiba. em correspondência com a escolha desse mesmo valor na lista inicial (Curitiba: 0. Para o conjunto dos entrevistados.8). embora nem sempre sejam essas as escolhas de valores majoritárias. Revista de Ciências Humanas. também se correlaciona positivamente com a escolha da liberdade na lista inicial de valores (0.008-2. Mas é possível sugerir que essas tendências inovadoras. É certo que essas tendências nem sempre assumem o perfil nítido de um “projeto coletivo” – como denominaram alguns entrevistados nos grupos focais de Porto Alegre o apoio às administrações do PT25.29. entre seus valores da lista inicial. e os que escolhem lazer e relações afetivas.2). o temor a Deus ou a religiosidade (principalmente em Curitiba. mesmo nessa faixa de idade. em ambas as cidades.

Esses últimos valores. mais típicos dos jovens –. Florianópolis: EDUFSC. do desenvolvimento e da igualdade. p. que supera entre os mais jovens a tradicional rejeição das instituições por parte da população brasileira..141-175. que recebem o apoio principal da maior parte da população.35. junto aos valores majoritários entre o conjunto dos entrevistados das duas cidades. conjuntamente nas duas cidades. pode unir-se a atitudes de respeito ao meio ambiente. Curitiba e Porto Alegre Fonte: Pesquisa Clivagens Geracionais.. passam a receber uma nova conotação emergente. Tal inovação retoma também as categorias de Inglehart sobre materialismo e pós-materialismo. Revista de Ciências Humanas. a favor da justiça. abril de 2004 . dando-lhes outro contexto e significação. a partir das novas gerações. tolerância e autorealização. a seguir. liberdade.Paulo J. A Tabela 6. mostrando marcantes contrastes com os supostos de Inglehart. Krischke — 161 É assim que o interesse pela política. n. Tabela 6 Objetivos mais importantes para o Brasil por faixa etária. abrigando valores menos salientes – como o da alegria e outros. relaciona as respostas a essas alternativas por faixa etária.

Por exemplo. n.141-175. nas duas cidades. relacionando as diferentes faixas etárias e os posicionamentos que os entrevistados assumem. houve também uma correlação significativa. com a visível exceção do apoio à terceira alternativa (“pessoas mais importantes que dinheiro”). na qual inclusive as preferências dos maiores de 45 anos estão mais próximas às dos menores de 28. Os mais jovens (até 28 anos) e os de idade intermediária (29 a 44 anos) mostram pequena variação entre suas preferências. sobre os objetivos que consideram mais importantes para o país. Nos dados sobre a eleição dos objetivos principais para o país. mas resultou especialmente significativa no grupo de idade intermediária. e dão maior apoio à manutenção da ordem social e da autoridade. mas foi. nas duas cidades. Examinando essa correlação separadamente em cada cidade.35. por faixa etária. Haller e Marshall. em Curitiba e Porto Alegre. em Curitiba).162 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba Assim. citados. de novo. semelhante correlação positiva entre respostas que contradizem os supostos centrais de Inglehart sobre valores. Florianópolis: EDUFSC. outros resultados significativos. abril de 2004 . Em Curitiba. Há. para todos os grupos de idades. Esses últimos priorizam menos a participação política. quando correlacionamos essas opções dos entrevistados sobre os objetivos para o país. observamos uma diferenciação entre os entrevistados mais jovens e os maiores de 45 anos. Contudo. e especialmente Clarke (2000). p. com outras escolhas e respostas que eles expressaram a várias questões diferentes da pesquisa. as diferenças que encontramos na Tabela 6 são pequenas e carecem de significaçào estatística. como foi mencionado acima. Essa correlação positiva entre ambas as escolhas ocorreu em todas as faixas etárias nas duas cidades. constatamos que ela também ocorreu em todas as faixas etárias (com a única exceção dos maiores de 45 anos. muitos dos que optaram pela estabilidade econômica e combate à inflação também escolheram o desenvolvimento econômico como uma das cinco prioridades. entre a escolha do valor desenvolvimento econômico na lista inicial e a ênfase na maior participação da população como objetivo principal do país26. Já vimos que a ênfase no desenvolvimento econômico esteve entre os cinco valores principais escolhidos por ambas as amostras. na lista inicial de valores. entre 29 e 44 anos. principalmente significativa no grupo de idade dos 29 aos 44 anos. em outros estudos. Revista de Ciências Humanas. porém. _________________________________________________ 26 Vários pesquisadores notaram.

n. Isso sugere a prioridade do desenvolvimento. por tratar-se de valor selecionado como prioritário apenas em Porto Alegre por todas as faixas de idade.026-2. Assim. que enfatizaram a importância da política e a tolerância (0. Algo similar observa-se com outro exemplo diferente. Florianópolis: EDUFSC. ou seja. nas duas cidades.3). o que parece mais coeso e consistente na busca desse objetivo (0. abril de 2004 . em cada cidade e segundo a faixa etária.Paulo J.35. como foi sugerido acima. como no caso de Curitiba. o que especifica melhor o que foi constatado na análise de Cluster (Gráfico 1 do anexo). Revista de Ciências Humanas. Talvez seja essa geração a que foi mais exposta. essas variantes interpretativas.023-2. nas duas cidades. também declararam preferência pela estabilidade econômica como objetivo principal para o país. os jovens de Porto Alegre. presumem a existência de suportes doutrinários e ideológicos contrastantes. dos 29 aos 44 anos. embora todos busquem o desenvolvimento. embora com conotações variadas segundo a faixa etária. à influência da reativação sindical e ao associativismo do final dos anos 1970 e durante a década de 80. com um significado específico. como o caminho para o desenvolvimento. Krischke — 163 A escolha do valor desenvolvimento econômico entre os cinco principais da lista inicial também alcançou uma correlação positiva. até os 28 anos. p. seja nas demandas redistributivas mais gerais. As diferenças de correlação dessa resposta com as eleições dos objetivos para o país. com as respostas dos entrevistados em Porto Alegre a outras questões. A difusão dessa escolha do valor do desenvolvimento econômico. é o grupo de idade intermediário. nos seus anos formativos. Além disso. seja na versão mais politizada de Porto Alegre. A democratização do país passou a ser vista. que orientam diversamente as opções da população. entre os setores mais politizados dessa cidade. que escolheram o valor do trabalho entre os valores prioritários da lista inicial. que é o caso do meio ambiente. obtidas frente a outros temas da pesquisa). indica bem mais do que a sua importância central para todos os entrevistados.141-175. confirmam a existência. nas conotações com que se relacionam os valores considerados principais às atividades e orientações políticas. por grupos de idade. em Porto Alegre e Curitiba (e outras variações. A consideração desse caso é útil. De fato. assim. entre todas as faixas de idade das duas cidade.3). quanto à adoção dos valores principais. de matrizes ou conceptualizações diferenciadas do que seja o desenvolvimento. pelas análises de cluster.

por exemplo. na análise por faixa etária.164 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba como um dos cinco valores principais mais escolhidos nessa cidade. por um lado. na literatura especializada. pelo menos com índice semelhante de significação. como vimos no caso do valor desenvolvimento econômico. entre as duas cidades. a existência de algo mais do que matrizes culturais diferentes em cada cidade – as configurações diferenciadas dos valores. n. na lista inicial de valores. É claro que esses dados não são necessariamente contraditórios. Quanto à alternativa de opção do tempo livre especificamente na defesa do meio ambiente. Contudo. do grupo de mais idosos (acima de 45 anos) declarar preferência significativa tanto pelo valor preservação da natureza como pelo valor meio ambiente. constatadas pela análise de Cluster. Florianópolis: EDUFSC. e entre os diferentes grupos de idade.0). O que se evidencia agora é a existência de uma diversidade de conotação e contextualização doutrinária e ideológica. Existe um debate amplo. as políticas de conservacionismo às do preservacionismo ou. a faixa dos mais jovens das duas cidades correlaciona positivamente essas opções com a escolha do valor meio ambiente. nas correlações entre respostas sobre esses temas. notamos o resultado que mais acima consideramos surpreendente. No entanto. nas duas cidades. investida nos valores meio ambiente e preservação da natureza.006-3. por outro lado. o que não acontece nas demais faixas de idade. Revista de Ciências Humanas. de todas as idades. no uso desejável do tempo livre. que expressa uma adesão potencial a atividades inovadoras. todos os que fizeram essa opção. há quem interprete defesa do meio ambiente e preservação da natureza como sinônimos. abril de 2004 . sugerem também. ainda.. nas duas cidades – em separado ou em conjunto –. as tendências do “eco-capitalismo” às do “eco-socialismo” etc.35. Tranter e Western (2002) enfatizam a influência dos partidos e movimentos “Verdes” sobre o voto da juventude: “[. correlacionam-na positivamente com a escolha do valor preservação da natureza. Mas essas diferenças de significação..27 _________________________________________________ 27 Ver a tese de doutoramento de Agripa Faria Alexandre (2003) sobre essas e outras diversificações do tema na prática dos grupos e movimentos ecológicos e nas próprias políticas governamentais. p.141-175. (que não podemos abordar neste espaço) sobre essa diversificação ideológica – opondo. como um dos principais na lista inicial de valores (0. embora essa seja apenas uma entre outras interpretações. O texto esclarece ainda que as influências “Verdes” relacionam-se também com os valores ético-sociais participativos. sustentados por outros partidos da chamada “nova política” nesses sistemas multipartidários. em conjunto.] Concluímos que as estruturas institucionais e os partidos políticos deveriam receber muito maior atenção nos relatos sobre a mudança dos valores materialistas em âmbito internacional” (Introduction).

é certo que tais diferenças têm um impacto na orientação das políticas públicas e na atuação dos movimentos sociais. _________________________________________________ 28 Os procedimentos e os resultados de pesquisa de Inglehart têm sido objeto de severas restrições na bibliografia especializada. por exemplo. na solução dos problemas ecológicos (e outros tantos). antes. estritamente consideradas. No caso de Curitiba.Paulo J. a partir dos resultados desta pesquisa.141-175. p. mas. Stolle e Hooghe (2002) reafirmam todas essas críticas. que serão certamente diferenciados em cada cidade e faixa etária. especialmente considerando-se as trajetórias diferentes de incorporação desses temas na agenda das administrações municipais. sobretudo de uma teleologia determinista do “progresso” socioeconômico e material. Além das mencionadas anteriormente. vendo. contendo até inversões de suas expectativas. começam a desvelar as aporias de hiper-simplificação e hiper-generalização da abordagem desse autor. Krischke — 165 Essa diversidade doutrinária e prática merece ser mais bem analisada. Revista de Ciências Humanas. porque são prisioneiras não apenas de um artefato metodológico residual (as respostas mistas ou contraditórias. Essas inversões de expectativa das hipóteses de Inglehart. n. que contestam as relações diretas entre pós-materialismo e civismo. além de outros pontos apontados pela crítica)28. considere-se Rahn e Transue (1998). Ver também Echegaray e Armento (2000) sobre o caso da Argentina. que encontram “pouca diferença entre “pós-materialismo/materialismo” e o pólo conservador/liberal da personalidade”. na expansão do seu debate público e nas atividades associativas correspondentes à orientação dos movimentos ecológicos em cada cidade. que afetam todos. Seja qual for o resultado dos debates sobre o significado desses valores. uma maior continuidade com os desenvolvimentos anteriores”. em Porto Alegre.35. Dessa forma. Degraaf e Evans (1996). interpretadas como “de transição”. nas diversas faixas etárias das duas cidades. Florianópolis: EDUFSC. enquanto. começamos a perceber que a diferença entre a cultura política em Porto Alegre e Curitiba pouco têm a ver com as hipóteses de Inglehart. os grupos focais denunciaram a utilização apenas “publicitária” da questão ambiental pelo governo. É portanto muito importante salientar a sua correlação positiva com a ênfase no emprego eventual do tempo livre. ou ainda Cliquet (1991) que “disputa a pretensão de completa novidade das tendências descritas. encontradas por Inglehart entre a juventude. pois essas escolhas e outras opções e alternativas políticas que estamos considerando revelam a disposição dos entrevistados por práticas inovadoras e um potencial de engajamento coletivo. abril de 2004 . que não encontra respaldo nos fatos. a questão era vista como integrada à resolução dos demais problemas urbanos e dela decorrente.

também reconhecemos que há outros fatores do contexto histórico-cultural. criam sejam quais forem as estruturas partilhadas por esses atores” (HABERMAS. No caso de Curitiba. há uma ênfase no cidadão como portador de direitos e obrigações.35. 1979. por sua vez. Esses fatores relacionam-se ao processo de democratização do país. liberdade. A democracia é vista assim como uma “hipótese prática”. observamos que curitibanos e porto-alegrenses convergem suas preferências de valores ao redor da justiça. Portanto. Por outro lado. embora os primeiros apontem a disciplina e os segundos o respeito ao meio ambiente. p. desenvolvimento e igualdade. principalmente dos menores de 45 anos. Revista de Ciências Humanas. os quais.141-175. já que as instituições democráticas “colocam sob controle o desenvolvimento dos sistemas sociais. podem relacionar-se ao complexo de mudanças de caráter prático e simbólico que vimos acima. como seu quinto valor prioritário. através de uma institucionalização do discurso efetivamente política”. a sua teoria do desenvolvimento moral-cognitivo é multidimensional (HABERMAS. Florianópolis: EDUFSC. nos planos ontogenétrico e filogenético” (HABERMAS. p. que afetam significativamente as posições de jovens e adultos. a teoria habermasiana da mudança social repousa em dois postulados: o primeiro é que “o aprendizado é o mecanismo evolutivo básico da cultura”. bem como na diversidade das gestões administrativas e da liderança ideológico-partidária. industrialização. p. ocupação. 1989). dentro da abordagem convencional (KRISCHKE. tanto em Curitiba como em Porto Alegre. não há diferença significativa entre os indicadores socioeconômicos e demográficos de Porto Alegre e Curitiba (índices de renda. o segundo é que “há padrões homólogos de desenvolvimento cognitivo. 205). dados geralmente considerados cruciais para sustentar as mudanças de modernização da cultura política.166 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba Realmente. as escolhas.99. que emerge entre as novas gerações das duas cidades. em contraste _________________________________________________ 29 O processo de democratização no plano cotidiano pode ser interpretado. favorecidas por uma orientação cultural inovadora. como quer Bohman (1990) do ponto de vista de Habermas: Bohman sugere que a definição habermasiana da “democracia como institucionalização de discursos” supõe que “os discursos são institucionalizados na medida em que é criado um contexto social que permita acordos coletivos.). certamente. escolaridade etc. pós-convencionais. Todavia. Considerações finais Sintetizando o que vimos acima. em cada município29.73). abril de 2004 . ao lado da dimensão normativa (o desenvolvimento jurídico-moral) e da dimensão subjetiva (o desenvolvimento de identidades e estruturas de personalidade mais complexas). Ademais. que atua sobre as tradições culturais diferentes das duas cidades. 1997). 1979. priorizando alternativas que Inglehart consideraria pós-materialistas. n. incluindo-se a dimensão cognitiva (o desenvolvimento de “visões de mundo”). respectivamente.

matizadas e diferenciadas. linear e determinista. Florianópolis: EDUFSC. não faz mais que renunciar a qualquer tentativa de explicação histórica para as diferenças e convergências entre subculturas regionais. sem considerar a participação ativa da cidadania. durante os processos históricos de democratização da esfera pública. com que essas matrizes distintas se manifestam nas faixas de idade. a pesquisa revela que é manifestamente inadequada à abordagem da mudança cultural nos termos da modernização. Mesmo quando certos valores são escolhidos preferencialmente pelos mais jovens. não se trata de esperar um efeito mecânico de causas materiais já existentes. a partir de cada contexto municipal. mas construindo e aprofundando. por meio do apoio dos cidadãos à convergência entre as suas visões da justiça. que enfatizam seja o acatamento individual da lei seja a sua fundamentação e seu aperfeiçoamento argumentativo na participação coletiva30. tais peculiaridades não apenas persistem.141-175. Essas ênfases contrastantes podem ser vistas como duas faces complementares do exercício da cidadania. tendencialmente reconhecido em Porto Alegre como participante de um projeto coletivo.Paulo J. Essa forma de pensamento. a democratização cultural e institucional dessa região do país. igualdade e liberdade. Considerandose o caráter prospectivo de mudança que essas escolhas sugerem. Na verdade. como se essa mudança decorresse apenas do progresso tecnológico e socioeconômico ou de um equilíbrio multicausal adaptativo. embora haja exceções que são também importantes e devem ser mais bem analisadas. Krischke — 167 com a ênfase no “outro social”. mas de vislumbrar uma redefinição sustentável do desenvolvimento socioeconômico e político-cultural. naquilo de relevante que têm a contribuir. nos seus efeitos e nas suas causas. Certamente. principalmente entre os menores de 45 anos. valores prioritários do conjunto das duas cidades correlacionam-se positivamente com as atividades eventuais de tempo livre e com outras importantes opções e experiências práticas da vida política. _________________________________________________ 30 Como vimos. abril de 2004 . mas se especificam ainda mais. em conjunto. podemos indagar sobre seus efeitos e relações com um pós-materialismo emergente.35. Revista de Ciências Humanas. p. A realização do survey com amostras das duas populações também permitiu perceber as nuanças às vezes sutis. n. Em conclusão. principalmente entre as faixas etárias até os 44 anos de idade. nos depoimentos de entrevistados dos grupos focais (notas 19 e 20) e na interpretação de Fátima Quintal (notas 13 e 14). que postula um único caminho e desenlace para os processos de mudança cultural. entre a cultura e as estruturas/instituições.

168 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba

O antigo viés teleológico das abordagens da modernização, de tratar a diferença como “atraso ou demora cultural” não encontra respaldo na realidade31, pois o que se observa nos dados desta pesquisa é o fortalecimento, com ênfases diversas, de um fenômeno inovador, centrado no pluralismo doutrinário e ideológico, o qual passa a convergir e a fundamentar a prática da democracia em âmbito municipal e regional. A pesquisa constatou um índice majoritário de confiança na política e de tolerância com a diferença, na população das duas cidades estudadas. Essa tendência é promissora, porque é relacionada a uma nova orientação cultural, emergente entre os setores mais jovens da sociedade, enfatizando a igualdade, a reciprocidade e demais atributos da democracia, o que possibilita a sua crescente difusão em âmbito regional. Nesse contexto, os mais diversos significados da democracia podem coexistir, ajustados à diversidade de orientações ideológicas da cidadania. Esses cidadãos assumem-se como livres e iguais, não obstante os constrangimentos estruturais e institucionais em que lhes cabe viver, construindo a sua liberdade e igualdade, junto aos demais valores da esfera pública. É certo que a complexidade do questionário utilizado pelo survey limita a generalização dos resultados que colhemos ao universo dos entrevistados que alcançaram o segundo grau de escolaridade. Contudo, outra pesquisa de âmbito nacional, sobre a juventude brasileira (KRISCHKE, 2004), sugere que escolaridade, renda, ocupação e outros indicadores usualmente associados à modernização, não mais podem ser considerados determinantes da adesão à democracia. Outros fatores aparecem com mais peso nas opções pela democracia, dentre os quais o estímulo recebido do contexto histórico-cultural e dos desafios e incentivos à participação política. Portanto, à luz desta pesquisa sobre Porto Alegre e Curitiba, a democratização da cultura política passa a ser vista como um processo necessário de revisão das tradições culturais da política na própria vida e no comportamento democrático dos cidadãos. Essas mudanças são reforçadas pelas importantes características, mais (ou menos) democratizantes, das gestões político-partidárias encarregadas de sua implementação.
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31

Welch (1992, p.31-32) na sua importante avaliação teórica das diferentes abordagens ao estudo da cultura política, denuncia a falácia desse argumento, por derivar de uma teleologia da modernização que nada explica e é “cientificamente inútil”.

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Tais mudanças resultam, também e talvez principalmente, das formas e dos conteúdos legados pela tradição política, na expansão e no fortalecimento do exercício local da democracia32. Isso é o que encontramos em curso de realização, nesta pesquisa sobre as mudanças da cultura política em Curitiba e Porto Alegre. Referências bibliográficas ANDRADE, Regis. The Economics of underdevelopment, the state and politics in ECLA”s Doctrine. Occasional Papers, 29, University of Glasgow, 1979. ALEXANDRE, Agripa Faria. Ambientalismo político, seletivo e diferencial no Brasil. 2003. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis. BERMEO, Nancy. Democracy and the lessons of dictatorship. Comparative Politics, 24, Abril: 273-91, 1992. BOHMAN, James. Communication, ideology and democratic theory. American Political Science Review, 84:93-109, 1990. BROWN, Robert e CARMINES, Edward. Materialists, Postmaterialists, and the criteria for political choice in U.S. Presidential Elections. Journal of Politics, 57: 483-494, 1995. CHILTON, Stephen. Grounding political development. Boulder: Lynne Rienner, 1990. CLARK, Terry Nichols e INGLEHART, Ronald. The new political culture. Changing dynamics of support for the welfare state and other policies in post-industrial societies. ISA Congress. Madrid, July, (41p), 1990.
_________________________________________________
32

Habermas (1979) notou as relações com a tradição que permitem a consolidação da mudança cultural, quando se entende essa mudança “[...] como processos de aprendizagem, através dos quais as estruturas de racionalidade já latentes podem ser traduzidas em prática social, de modo a encontrar finalmente uma corporificação institucional, colocando-se a ulterior tarefa de identificar o potencial de racionalização das tradições” (p.39 da tradução brasileira).

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170 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba

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174 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba Anexo Gráfico 1 Cluster analysis . Florianópolis: EDUFSC. p. n.Porto Alegre C A S E 0 5 10 15 20 25 Label Num +————+————+————+————+————+ OBEDIENC 13 -+-+ TRADICAO 18 -+ I CONFORTO 2 —+-+ PRAZER 4 —+ +-+ TEMORDEU 12 ——+ I RELIGIOS 5 ———+——+ ALEGRIA 7 ———+ I AUTOREAL 10 ——————+—————+ FRATERNI 11 ——————+ I PRESENAT 15 ——————+ I DISCIPLI 8 ——————+-+ +———————————+ COMPETEN 9 ——————+ +-+ I I DEDICTRA 3 ———————+ +-+ I I DESENECO 14 ————————+ +——+ I RESPMEIA 1 —————————+ I JUSTICA 16 ———————+-+ I IGUALDAD 17 ———————+ +————————————+ LIBERDAD 6 ————————+ Fonte: Pesquisa Clivagens Geracionais...141-175. Revista de Ciências Humanas. abril de 2004 .35.

n. p.141-175. Krischke — 175 Gráfico 2 Cluster analysis .Paulo J.35.Curitiba C A S E 0 5 10 15 20 25 Label Num +————+————+————+————+————+ OBEDIENC 13 -+-+ TRADICAO 18 -+ +-+ CONFORTO 2 —+ +——+ PRAZER 4 ——+ +—+ ALEGRIA 7 —————+ I AUTOREAL 10 ———————+—————+ PRESENAT 15 ———————+ I DEDICTRA 3 —————————+ +——————————+ COMPETEN 9 —————————+-+ I I RESPMEIA 1 —————————+ I I I FRATERNI 11 ————————+ +——+ I TEMORDEU 12 ————————+-+ I I RELIGIOS 5 ————————+ +-+ I DISCIPLI 8 —————————+ I LIBERDAD 6 —————————+—+ I IGUALDAD 17 —————————+ +——————————+ DESENECO 14 ——————————+-+ JUSTICA 16 ——————————+ Fonte: Pesquisa Clivagens Geracionais. abril de 2004 . Florianópolis: EDUFSC. (Recebido em abril de 2004 e aceito para publicação em outubro de 2004) Revista de Ciências Humanas...

177-203. a lenta formação das cidades e de seus modos de vida. Dentre as diversas interpretações dadas. duas destacam-se neste artigo: a de Gilberto Freyre e a de Celso Furtado. p. a partir da crise do patriarcalismo. industrial formation. Londrina.Gilberto Freyre e Celso Furtado: duas leituras distintas da formação urbano-industrial no Brasil* Maria José de Rezende1 Universidade Estadual de Londrina Resumo A formação das atividades urbano-industriais no Brasil tem sido investigada sistematicamente pelas ciências sociais. Revista de Ciências Humanas. desencadeada no século XVIII. from the 18th Century on. apto 1104. Among various interpretations. que __________________________________________________ Abstract The formation of urban-industrial activities in Brazil has been systematically investigated by the social sciences. PR. 1 Endereço para correspondências: Rua Pio XII. CEP 86020914 (wld@rantac. As discussões do primeiro sobre o processo de formação das atividades urbano-industriais procuraram esmiuçar. Florianópolis: EDUFSC.net). Freyre tried to account in minor details for the slow process of constitution of towns and their * Gilberto Freire and Celso Furtado: two different views of brazilian urban.35. In his discussions about the formation process of urban-industrial activities. considering the period of crisis of the rural Patriarchal system. n. two are dealt with in this article: Gilberto Freyre”s and Celso Furtado”s. 335. abril de 2004 .

É uma busca das permanências. 1961. urbanization. 1958. 1967. 1997c. 2000. Brazilian Economic Formation. which were not always renewed. neste estudo. Introdução lifestyles.35. em primeiro lugar. 1959. edição. 1977. urbanização. p. 1996d. 1957. however. 1978. A primeira edição da obra Formação econômica do Brasil data de 1959. In his turn. já que a expansão cafeeira. 1975. no conjunto de seus livros. 1999. a qual foi publicada em 2000. industrialization. será utilizada nesse artigo a 27ª. industrialização. 1962. 1962. 1959a. 1957. 1983. According to Freyre it is the quest for stability. 1972. 1974. de Celso Furtado. 1984. 1997. Furtado focuses on changes that occurred since the middle of the 19th Century. faz-se necessário. formação econômica brasileira. n. __________________________________________________ 2 T 3 Dentre as suas principais obras destacam-se as seguintes: Freyre. No entanto. 1961. 1997b. Dialética do desenvolvimento. 1994. FURTADO. teria formado as bases para a expansão industrial no país. 1997a.178 — Gilberto Freyre e Celso Furtado: duas leituras distintas da formação urbano-industrial no Brasil nem sempre eram totalmente renovados.177-203. 1967. Keywords: Social changes. given that. fornecem subsídios suficientes para a compreensão de duas perspectivas distintas acerca do modo de processamento da urbanização e da industrialização no Brasil. A fantasia organizada e A fantasia desfeita. Os livros Sobrados e mucambos e Ordem e progresso. 1947. constancy. according to him the expansion of coffee agriculture—even though it took place according to the same logic of former economic cycles based on the needs of the foreign market—furnished the bases to the country”s industrial development. das acomodações e das quebras de acomodações que emergiram com o processo de urbanização. 1968. 1966. e 2002. centra em suas análises as mudanças que se processaram a partir de meados do século XIX. 1992. de Gilberto Freyre e Formação econômica do Brasil3. Celso Furtado. accommodations and the ruptures in them that emerged during the process of urbanization. das constâncias. recortar. mesmo obedecendo à mesma lógica – fundada na demanda externa – dos demais ciclos econômicos anteriores. 1976. trata-se de dois pensadores que têm uma vasta obra de interpretação do Brasil2. Palavras-chave: Mudanças sociais. 1956. endo em vista que. Florianópolis: EDUFSC. Revista de Ciências Humanas. abril de 2004 . 1968. aqueles textos que melhor explicitam uma constante preocupação com a formação das atividades urbano-industriais no país. no entanto.

“em que ambos perdem. Nordeste. no que se refere à interpretação do processo histórico brasileiro. ou seja. em especial. 2000.Maria José de Rezende — 179 As divergências constituidoras de suas interpretações não se formaram com base em diálogos diretos estabelecidos entre eles próprios. 1997c. Freyre. quase se ignorando em relação ao modo como cada qual interpretava o país. e Ordem e progresso. as ricas pistas sobre a formação da identidade nacional e sobre a problemática racial contidas na obra de Freyre” (GUIMARÃES. Furtado. p. mesmo criticamente. p. ao não desenvolver. formaram dois blocos de interpretação. mantendo-se apático ou até mesmo hostil diante do grande movimento político-cultural que reinseriu o Nordeste no imaginário nacional e que resultou na criação da Sudene. No entanto. Florianópolis: EDUFSC. Celso Furtado e Gilberto Freyre trilharam caminhos distintos em suas análises. Os principais livros de Freyre (Casa grande & senzala. tiveram suas primeiras edições no mesmo ano. mas as obras Formação econômica do Brasil. Ao construírem análises expressivamente distintas e sem diálogos e enfrentamentos críticos. Revista de Ciências Humanas. O próprio Celso Furtado argumenta em As aventuras de um economista brasileiro que desde muito cedo travou contato com a obra de Gilberto Freyre. 1959.35. Sobrados e mucambos) são anteriores aos escritos de Furtado.177-203. Sua importância esteve em que nos revelou todo um instrumental novo de trabalho” (FURTADO. o livro principal de Freyre que havia empolgado muitos intelectuais em nada o havia influenciado “no que diz respeito a sua mensagem substantiva. desse último. isto é. Casa grande & senzala. p. O declínio do patriarcalismo e a formação das atividades urbanoindustriais no Brasil: a leitura de Gilberto Freyre O mundo rural e o mundo urbano: interpenetração e acomodação As análises de Gilberto Freyre sobre a formação das atividades urbano-industriais estão marcadas pela busca de relações de acomodação e de incorporação de interesses entre as classes sociais preponderantes.19).16). do primeiro. o qual o introduziu nas discussões antropológicas e sociológicas que se desenvolviam nos EUA na primeira metade do século XX. n. abril de 2004 .

do padrão de domínio patriarcal. Os grandes proprietários de terras eram detentores de um poder político sem igual e definidor. firmavase uma relação de parasitagem que se estendeu século XX adentro e se pautava na refutação de toda reivindicação por melhorias salariais e de condições de trabalho (BOMFIM.177-203. então. enganoso supor que o desenvolvimento paulatino das atividades urbanas teria encerrado definitivamente um dado padrão de organização social. então. p. todavia. de renda. marcadas por relações patriarcais. formou-se a partir de uma contemporização de estilos de vida e de padrões de cultura (FREYRE. 1993). por exemplo. nasceram marcadas pelo privatismo patriarcal. segundo Freyre. XVII e XVIII. 1961).35. no que diz respeito à reelaboração de um padrão de organização e de domínio. A análise de Freyre oferece dados que elucidam a tortuosidade do desenvolvimento das atividades urbano-industriais. suas influências ao longo do século XIX. abril de 2004 . desde o início. as novas formas de subordinação e os novos antagonismos tanto se redefiniram quanto mantiveram alguns traços do padrão de organização social. nos séculos XVI. Revista de Ciências Humanas. seriam visíveis na maneira como as atividades urbanas reproduziam um tipo de mentalidade escravocrata na relação com o trabalhador. O padrão de organização social que ganhou forma nesse período estenderia. dado lugar paulatinamente a uma outra forma de patriarcalismo: o urbano. n. Pode-se afirmar. ele demonstra que as atividades urbano-industriais teriam sido.180 — Gilberto Freyre e Celso Furtado: duas leituras distintas da formação urbano-industrial no Brasil Isso não supunha. política e cultural do mundo rural. O declínio do patriarcalismo rural teria. aos quais Freyre não se atém. em A América Latina: males de origem. Como afirma Manoel Bomfim. de raça. Em Sobrados e mucambos. As novas distâncias sociais (de classe. assim. portanto. o que se deu de maneira tal que o processo de urbanização e de industrialização estivera marcado pelo modo de encadeamento da vida social dos séculos anteriores. com todas as atividades que lhe são pertinentes. Florianópolis: EDUFSC. O mundo urbano. que a constatação de que no mundo urbano o privatismo e o personalismo continuaram a existir nos moldes sedimentados pela organização patriarcal esclarece a tortuosidade das mudanças sociais no Brasil. Sendo. de instrução). Os efeitos desse processo. As atividades de comércio e de indústria. a inexistência de formas de subordinação entre os segmentos sociais diversos que controlavam as atividades econômicas prevalecentes.

sociais e culturais.177-203. Como padrão de organização de família. verifica-se que o poder tutelar foi-se esmaecendo no âmbito das atividades econômicas. abril de 2004 . Todavia. mas não. p. Nesse sentido. não houve rompimentos absolutos. Essa desintegração deixou suas marcas. ajustando-se. Revista de Ciências Humanas. nas novas atividades econômicas e no novo sistema de hábitos e de costumes que se instalava nas cidades. as gradações que iam do patriarcalismo agrário ao urbano passavam por.35. de economia e de cultura. mas sim combinações e conciliações que foram produzindo equilíbrios. 1961). o grau desses controles era variável à medida que ocorriam mudanças na própria estrutura patriarcal. a essencialidade de estudar essas gradações estava no fato de elas revelarem condições de raça. desequilíbrios e acomodações (FREYRE. mas também nas relações políticas. o patriarcalismo foi-se modificando e produzindo tipos particulares de relações sociais. Para Gilberto Freyre. A partir do final do século XIX. pode-se dizer que tais controles eram distintos no patriarcalismo semi-rural. por exemplo. no mínimo. Tal absorção foi também decisiva no âmbito das atividades econômicas. a necessidade de se diferenciar da aristocracia rural foi-se constituindo paulatinamente por meio da desintegração do poder econômico e do sistema de moral vigente. seus rastros. No entanto. de classe e de cultura que iam se modificando. A transição do patriarcalismo rural para o patriarcalismo urbano esteve marcada pelo desprestígio do senhor de engenho e pela ascensão do prestígio da aristocracia urbana. n. Explicando melhor. Por isso. Por isso.Maria José de Rezende — 181 Isso é verificável não somente no modo da mentalidade patriarcal imiscuir-se nas relações econômicas. no semi-urbano e depois no propriamente urbano. duas etapas intermediárias. a análise efetuada por Freyre acerca da formação e da expansão das atividades urbano-industriais revela que não somente no âmbito da vida política e no do Estado as incorporações dos valores patriarcalistas trouxeram conseqüências significativas. acomodando-se e se redefinindo a um só tempo. a qual era formada pelos comerciantes e pelos bacharéis. Florianópolis: EDUFSC. no âmbito da vida e da cultura políticas. que passaram a reproduzir um padrão de organização social que não se desvencilhava totalmente dos controles personalistas e familistas.

de 1905. demonstrou que não houve qualquer incorporação significativa dos ex-escravos às atividades industriais. 1993). n. eles teriam sido abandonados à própria sorte (BOMFIM. o que teria representado a emergência das condições que dificultaram a sobrevivência da escravidão no país.35. mas. 1961. p. animal e máquina. No capítulo Escravo. dos traços do patriarcalismo agrário? Essa co-responsabilização do negro nesse processo tem duas dimensões. Revista de Ciências Humanas.400). não eliminando ou destruindo inteiramente o sistema patriarcal. __________________________________________________ 4 Manoel Bomfim em A América Latina: males de origem. Florianópolis: EDUFSC. É evidente que Gilberto Freyre generaliza significativamente essa incorporação dos negros livres às atividades urbanas. Em seu entender. adentraram as atividades industriais. Sem formação técnica e profissional e sem qualquer instrução. de fato. p. A segunda fundase na necessidade de ressignificar a importância social desse processo de incorporação de alguns negros e mulatos livres à ordem econômica industrial. As mudanças foram morais e materiais. mas incorporando traços desse padrão de domínio e de cultura “contraditório em vários dos seus efeitos sociais” (FREYRE.177-203. de Sobrados e mucambos. Seria visível na primeira metade do século XIX que alguns negros livres eram incorporados aos trabalhos técnicos e mecânicos. seria esse fato significativo a ponto de garantir a sedimentação. A possibilidade de ascensão social do negro livre acabava por criar a sensação de uma possível mobilidade social para as camadas mais pobres da sociedade. isso teria servido para amortizar os novos antagonismos que se iam instalando com as atividades industriais. A primeira é a necessidade que Freyre via de mostrar que o negro e o mulato desempenharam papéis fundamentais nas revoluções técnicas que ganharam fôlego no início do século XIX4.182 — Gilberto Freyre e Celso Furtado: duas leituras distintas da formação urbano-industrial no Brasil Padrão de domínio e padrão de organização social: continuidades e mudanças A formação das atividades urbano-industriais processou-se. Eles não foram somente agentes passivos. Alguns. abril de 2004 . nas novas formas econômicas. Freyre faz uma análise do aperfeiçoamento técnico que ocorreu com a ascensão da máquina. Isso se deu tanto pela incorporação dos negros livres às atividades mecânicas quanto pelo modo como os aristocratas urbanos aproximaramse dos proprietários de terras e de escravos.

Ele instalou-se em vista do modo como o padrão de organização social e de domínio foi-se estabelecendo ao longo de décadas. nem pode manter” (FREYRE. Isso golpeava de morte o padrão de organização social vigente. dentre outros.35.Maria José de Rezende — 183 O efeito social mais visível do desenvolvimento técnico-industrial teria sido a diminuição contínua da necessidade tanto do escravo quanto do proprietário de escravos. A transferência de capitais. teria havido incorporações deles nas atividades mecânicas e. de escravos. eles teriam sido substituídos por máquinas e imigrantes europeus. destacar-se que várias das modificações que sofreram então paisagens e instituições ligam-se direta ou indiretamente à cessação do tráfico legal de escravos. paisagem social foi-se modificando ao longo do século XIX. Florianópolis: EDUFSC. Contribuiu enormemente com esse processo de transição a proibição do tráfico legal de escravos. 1961. Revista de Ciências Humanas. nas principais áreas do nosso país. comerciantes de escravos e outros setores que viviam a circundar o sistema escravocrata foram afetados pela cessação do tráfico. prédios urbanos. “Lento em deixar de existir e de influir sobre o ambiente ou sobre o meio” (p. p. Mesmo golpeado de morte. p. fábricas etc. O sistema econômico escravocrata esfacelou-se aos poucos. O preterimento do ex-escravo não era algo inscrito no processo de desenvolvimento urbano-industrial. mas através de crises profundas” (Idem. de máquinas. o capital tomava outro rumo. Segundo Freyre. do norte para o sul criava todas as favorabilidades para a paulatina substituição do escravo pelo colono europeu e do negro e do mestiço mecânico por máquinas e imigrantes. ou seja. Fica implícito em suas discussões que o modo como o sul cafeeiro conduziu o processo de desenvolvimento urbano e industrial levou à paulatina exclusão do negro das atividades mecânicas. “É do maior interesse para a compreensão do período de transição que foi. Senhores de escravos e terras. A passagem de um sistema econômico agrário para um sistema urbano “não se fez docemente. de prestígios. num segundo. n. p. a primeira metade do século XIX. passava a ser utilizado para aquisição de máquinas. ele foi imprimindo suas marcas nas atividades urbanas em desenvolvimento.177-203. Num primeiro momento. Assim.549) que atingiram toda a sociedade.549). abril de 2004 . ele sobreviveu ao longo do século XIX.549). cujo volume o clandestino nem sempre conseguiu suprir. A abordagem histórica de Gilberto Freyre objetivava ressaltar que o processo de exclusão do negro e do mulato das atividades urbanoindustriais deu-se fundamentalmente a partir da segunda metade do século XIX.

quanto um processo de transferência da hegemonia econômica e política do norte agrário para a região neo-aristocrática de São Paulo. o que se teria dado principalmente por meio da assimilação “de substâncias humanas. assim. expressivos de um viver. Revista de Ciências Humanas. em que momento teria. em alguns momentos. numa espécie de transmigração sociológica” (FREYRE. de normas. houve uma perda significativa. de fato. de ritos sociais. ou seja. possibilitado a inserção de negros livres e mestiços na nova ordem econômica que emergia. acomodação se mantivesse. se houve a “transmigração de todo um conjunto de formas. as portas para a emergência de um padrão de organização social que privilegiava a inclusão de alguns mestiços.391). problemática. abril de 2004 . em seu entender. 1962. cabe a seguinte pergunta: Por que nesse processo de transmigração não se manteve a tendência inclusiva que ele teria detectado no final do século XVIII e início do século XIX?.184 — Gilberto Freyre e Celso Furtado: duas leituras distintas da formação urbano-industrial no Brasil Ainda no final do século XVIII. ocorrido o bloqueamento dessa tendência inclusiva ressaltada em algumas partes das obras Sobrados e mucambos e Ordem e progresso? Afinal. assimilação. 1962. com a transferência dos faustos patriarcais do norte para o sul. Ilustra isso o fato de ele supor tanto um processo de acomodação e de equilíbrio de antagonismos e contradições que teria. p. étnicas e culturais. A acomodação que ocorreu entre o mundo rural e o mundo urbano abria. mas não a inclusão do negro e do mulato em geral na nova ordem econômica que se instalava. o que foi significativamente subtraído após a República. Florianópolis: EDUFSC. no decorrer do século XIX. Apesar disso. da capacidade do sistema econômico de absorver o negro livre nas novas atividades emergentes.177-203. Acerca disso. p. A análise realizada por Gilberto Freyre permite concluir que tais movimentos inclusivos dissiparam-se em razão da aristocratização dos bacharéis mestiços e da associação desses últimos à própria aristocracia rural e também à urbana. de um sentir e de um pensar patriarcalmente aristocráticos do norte para a subárea paulista do Império” (FREYRE.392) é de se supor que a possibilidade de absorção. segundo Freyre. p.35. O processo de formação urbano-industrial: equilíbrio de antagonismos e de contradições É evidente que a análise de Freyre revela-se. o próprio movimento denominado Inconfidência Mineira estava voltado para a defesa de uma reconstrução social e política que fosse capaz de incluir econômica e politicamente os negros e os mulatos. n.

1993. essa plasticidade. na formação das atividades urbano-industriais. p. “abraçavam. O que Gilberto Freyre via como mérito das elites dirigentes no final do século XIX – a conciliação do republicanismo paulista com os interesses dos proprietários rurais receosos com a abolição (FREYRE. a elite político-econômica que tomou corpo após a República era mais plástica..83). essa sensibilidade não se efetiva no sentido de estabelecer políticas de fato inclusivas? Na verdade. que comandavam a República.179). desde o início atuavam visando a conservar “um regime arcaico de lavoura.] universidades – já alemãs. 1993. urbano-industrial. Freyre. ocioso. já francesas” (BOMFIM. p. optou-se por lançá-lo ao ostracismo..35. 2002. então. parece incompreensível o motivo pelo qual essa não-inserção deu-se. Freyre não estava voltado para a busca de tais políticas como esteve. na obra A América Latina: males de origem em que condena o modo de agir no âmbito econômico e político do fazendeiro do café. ignorante. p. mantendo o fazendeiro no seu tipo – parasita. que prepare a massa geral da população – elemento essencial numa democracia. a exclusão social de uma expressiva camada de brasileiros. os ex-escravos. o aprendizado de um trabalho moderno. reclamam [. Tais elites. As elites dirigentes vinculadas a essa última “em vez do ensino popular.177-203. assinalava que a acomodação entre as diferentes elites políticas. hoje ricas e prósperas – em vez deste.183). ao abandono” (REZENDE. uma vez que se mantinha intocada. abril de 2004 . Bomfim afirma que as elites políticas. por exemplo. p.Maria José de Rezende — 185 Seguindo-se o raciocínio de Freyre. segundo Bomfim. em vez de tornar-lhe acessível a instrução. portanto..394). 1962. p. em vez da instrução profissional-industrial. para ele. por exemplo.399) – Manoel Bomfim via como tragédia antidemocrática.. já que.] que as elites do norte” (1962. p. n. de onde tem saído o progresso econômico de todas as nações. Manoel Bomfim. Diferentemente. ágil e sensível “aos novos problemas do trabalho [. Por que. que atestava a sensibilidade e plasticidade da aristocracia cafeeira do Sul. ao decidir pela migração. muito contente de viver das diferenças entre o preço do café e o salário do trabalhador” (BOMFIM. um plano arrasador para o trabalhador nacional. Florianópolis: EDUFSC. A análise de Manoel Bomfim constatou exatamente o oposto da de Gilberto Freyre. Revista de Ciências Humanas.

ele reconhece que teria havido. Em Ordem e progresso. uma vez que esse tempo industrial convivia com o tempo agrário. um terceiro tempo. uma feição singular. segundo Freyre. falando Freyre? “Democracia etnicossocial e até sócio-econômica mais que política. pronta a harmonizar-se com a industrialização” (FREYRE. Não teria havido rompimentos econômicos ou políticos. ao ter suas bases fundadas num outro tempo. assim. abril de 2004 . nos primeiros anos da República. Havia. Mas de qual democracia estava.177-203. a sua compreensão de democracia que se assentava numa forma de distribuição do poder entre as elites: açucareira. A democracia para a qual vinham contribuindo fatos anteriores à abolição” (p. A industrialização. Florianópolis: EDUFSC. ou seja. a constituição. 1947). Elucida-se. no tempo agrário e aristocrático (FREYRE. mas democracia. a urbanização e a República inauguravam um tempo social novo. p. no Brasil.399). então. em 1889.399). tanto da ordem econômica industrial quanto da ordem política e social. Segundo Freyre. processou-se de modo contraditório ao revelar a formação de um tempo social e psicológico que se distinguia no âmbito econômico e no âmbito político de outros países já desenvolvidos. em sua avaliação. Nesse caso.186 — Gilberto Freyre e Celso Furtado: duas leituras distintas da formação urbano-industrial no Brasil econômicas e regionais somente era possível em razão de já vigorar no país. O progresso tecnológico e industrial. democracia socioeconômica. que era correspondente a esse novo tempo. Revista de Ciências Humanas. processou-se dentro de parâmetros propriamente brasileiros. uma excessiva valorização do café em detrimento do homem. conciliando o passado e o presente. assim. n. mas. mas sim equilíbrio entre ordens econômicas distintas. cafeeira e industrial. inaugurava-se. em seu entender. isso não teria dissolvido as virtudes democráticas que se tinham constituído como fundamento do padrão de organização social vigente no país desde a colônia. mas singular. a democracia ganhava. “uma pujante democracia em potencial. ou seja. que era distinto do tempo europeu e do tempo norte-americano. p. porque o desenvolvimento industrial que transmutaria a ordem econômica conciliou-se com as atividades da monocultura agrária. é bem de ver. 1962.35. Desse modo.

conforme ele demonstrou na obra A fantasia desfeita5. 1997d. Quanto a isso.] das velhas oligarquias” (FURTADO. política e cultural) e não indicam necessariamente plasticidade. não há divergências entre ele e a perspectiva freyriana. Em Celso Furtado. p. condutores das principais modificações gestadas pela decadência do patriarcalismo rural e pela emergência do patriarcalismo urbano.. com o aumento de sua representatividade e a rejeição [.Maria José de Rezende — 187 Celso Furtado e a formação das atividades urbano-industriais no Brasil As persistências e as continuidades encadeando atrasos e resistências à mudança Se compararem as obras de Celso Furtado com as de Freyre.37). ou seja. abril de 2004 .35. todo ele orientado para recuperar o atraso político e abrir espaço a fim de que parcelas crescentes da população regional assumissem na plenitude os direitos de cidadania. ele afirma que ela “se inseria em amplo processo de mudança social. conjunto de políticas colocadas em práticas no final da década de 1950 no governo Juscelino Kubitschek. de fato. o modo de interpretar tais recursos é distinto entre eles.37). 1968. n. principalmente nas discussões sobre a forma de domínio. Celso Furtado argumenta que o desenvolvimento das atividades urbano-industriais no Brasil deu-se de maneira específica. haveria nesse caso uma das indicações mais expressivas das dimensões que teria tomado no Brasil a resistência aos processos de mudanças que. Revista de Ciências Humanas. Florianópolis: EDUFSC. Nos livros Ordem e progresso e Sobrados e mucambos. principalmente dos setores preponderantes. __________________________________________________ 5 Ao analisar a Operação Nordeste. Se em Gilberto Freyre a renovação dos quadros políticos sempre pareceu positivamente mediada pela conciliação havida entre os setores oligárquicos e os novos setores que emergiam com o processo de desenvolvimento industrial. as reflexões sobre a resistência à mudança situam-se nas diversas esferas (econômica. p.177-203. No entanto. O modo de os setores oligárquicos – defensores de uma economia colonial – integrarem-se às mudanças que ocorreram a partir da década de 1950 indicava uma maleabilidade destruidora da nação. maleabilidade. apontariam para a redefinição da organização social brasileira tendente à manutenção de um padrão de domínio autoritário. em Furtado. “os recursos dos que resistem à mudança social” (FURTADO. p.. não repetindo o padrão dos países capitalistas avançados. Em Dialética do desenvolvimento. a resistência à mudança aparece envolta de plasticidade. Verdadeiras mudanças não poderiam vir senão da renovação dos quadros políticos. fica visível que os dois destacam.

Furtado procurou destacar que. de fato. no não-abandono absoluto de modos de agir e pensar consentâneos com o mundo agrário. ele pergunta continuamente. no continuísmo entre atividades distintas. Celso Furtado. verificaram-se mudanças expressivas a partir da emergência do trabalho livre. n. de fato. abril de 2004 . ao longo do texto: economicamente. Ressalte-se que Gilberto Freyre. mas sociologicamente o que. a qual teria embasado relações econômicas capazes de suplantar a economia colonial no país. buscando. na forma de incorporar uma noção de tempo ibérico (FREYRE.. quando se expandiu a economia cafeeira. dessa maneira. o qual era reproduzido nos hábitos. num longo período de transição. nos costumes etc. nos longos séculos (XVIII e XIX) de decadência do patriarcalismo e no modo como. conforme faz Freyre. estende a análise da formação urbana no Brasil do século XVIII até o final do século XIX. A própria forma de ele recortar o objeto de análise tem a ver com o fato de ele pôr em relevo os aspectos socioculturais. mudou. No entanto. no familismo. Sua análise não se centra. Mesmo quando Freyre analisa o final do século XIX em Ordem e progresso. p. em Formação econômica do Brasil. Evidentemente. na maneira de implementação da República. no patriarcalismo.188 — Gilberto Freyre e Celso Furtado: duas leituras distintas da formação urbano-industrial no Brasil que também demonstra a especificidade do modo de constituição da economia industrial no Brasil. os elementos explicativos do caráter ímpar da expansão das cidades e das atividades e dos modos de vida atinentes a elas. Revista de Ciências Humanas. focar o processo de formação urbano-industrial a partir de períodos mais extensos.177-203. “do ponto de vista de sua estrutura econômica. na conciliação das diferenças e dos antagonismos de interesses e de região. as particularidades da emergência e da expansão das atividades urbanas. visto que ele não concebe cortes tão profundos entre o mundo agrário e o mundo urbano-industrial em emergência. esclarece que sua análise deu centralidade à segunda metade do século XIX. Florianópolis: EDUFSC. esse último teria conseguido imprimir suas marcas no interior das atividades urbano-industriais nascentes.35. permaneceu? Para Celso Furtado. e o que. nesse processo. interessava muito mais compreender as razões do atraso da industrialização do que a longa decadência econômica e política da grande lavoura. diferentemente da de Freyre. os motivos pelos quais foi singular tal formação são distintos nos dois pensadores aqui trabalhados. no livro Sobrados e mucambos. produz conseqüências expressivas para a análise. 1975). Gilberto Freyre buscava no processo de colonização portuguesa.

constituiu uma etapa de transição econômica.34). XVII. por exemplo. desse processo de geração das bases do desenvolvimento industrial teria sido a expansão cafeeira na segunda metade do século XIX. de caráter colonial. suas reflexões acerca dos séculos XVI. concluindo-se. resultante dessa imutabilidade. a tendência à concentração social da renda e o lento crescimento do mercado interno” (FURTADO.35. É das tensões internas da economia cafeeira em sua etapa de crise que surgirão os elementos de um sistema econômico autônomo. Revista de Ciências Humanas. é responsável pelo atraso relativo da industrialização” (FURTADO.34). O tipo de economia colonial vigente no país assentava-se em significativas perdas dos setores exportadores. visto que os grupos que intermediavam a comercialização do açúcar. A ausência de tensões internas. A estrutura econômica. ficavam com uma parte significativa dos rendimentos oriundos da economia agrário-exportadora – quem pagou pelas perdas dos grupos internos (senhores do engenho. ocorrendo. 1997b. assim como a primeira metade desse século representou uma fase de transição política.Maria José de Rezende — 189 o Brasil da metade do século XIX não diferia do que fora nos três séculos anteriores. definitivamente a etapa colonial da economia brasileira (FURTADO. Essa expansão industrial somente se efetivou a partir da década de 1930. O elemento diferenciador. XVIII e XIX estiveram centradas na busca do encadeamento histórico do atraso brasileiro. p. então. Desse modo. 1997b. p. 2000. abril de 2004 . “A dinâmica desse processo de transferência de recursos para o exterior permitia explicar.163) que bloqueava totalmente a formação de recursos internos que estimulassem o desenvolvimento industrial. assentava-se na degradação “da relação de troca” (FURTADO. Florianópolis: EDUFSC. p. p. A economia agrário-exportadora. durante a qual se modificam as bases do sistema econômico. por excelência. n. A expansão cafeeira da segunda metade do século XIX. p.163). capaz de gerar o seu próprio impulso de crescimento. baseada principalmente no trabalho escravo se mantivera imutável nas etapas de expansão e decadência. 2000.177-203. por exemplo) foram os segmentos mais pobres –. no caso brasileiro.

p. a economia agrário-exportadora era do tipo colonial e não do tipo periférico.249).35. 2000. Esse atrofiamento resulta do isolamento imposto a uma economia. dentro do setor açucareiro tem induzido muita gente a supor que era essa uma economia de tipo semifeudal. 2000. o impedimento da formação de bases (as quais adviriam da diversificação da estrutura produtiva e da formação do mercado interno7) para a expansão de uma economia urbano-industrial. A partir disso. 1997b. Ele conclui que essa última bloqueava inteiramente as atividades industriais.164). teria sido a rápida expansão do setor cafeeiro (1880-1930). Suas análises sobre o desenvolvimento da indústria têxtil no século XIX assinalam que o crescimento das atividades industriais nesse setor – cuja dependência do mercado interno era absoluta – deu-se exatamente quando a economia exportadora entrou em crise. __________________________________________________ 6 7 8 Por essas razões. p. isolamento que engendra grande diminuição da produtividade pela impossibilidade em que se encontra o sistema de tirar partido da especialização e da divisão do trabalho que lhe permite o nível da técnica já alcançado. a qual se caracterizava essencialmente pela “não diversificação das estruturas produtivas” e pela “contração do mercado interno” (FURTADO. p. “A natureza puramente contábil do fluxo de renda. Ao inverso da unidade feudal. A essencialidade da economia colonial seria. 2000. então. Florianópolis: EDUFSC. a unidade escravista (estabelecida no Brasil) pode ser apresentada como um caso extremo de especialização econômica. o mesmo número de operários têxteis nas duas regiões (FURTADO. Isso implica que a sociedade brasileira pagaria um preço altíssimo pela vigência da economia do tipo colonial6.190 — Gilberto Freyre e Celso Furtado: duas leituras distintas da formação urbano-industrial no Brasil então. n. as industrias têxteis tanto se instalaram na região Nordeste quanto na região Sudeste. a qual estava calcada na dinamicidade da demanda externa que gerava enormes somas de excedentes que eram investidos na geração da industrialização. Furtado demonstra que o estudo do processo de industrialização no país estava estreitamente ligado a essas duas características da economia colonial que vigorava no Brasil. Em Formação econômica do Brasil há uma discussão importante sobre o fato de o processo de industrialização no país ter se iniciado em diversas regiões ao mesmo tempo. Revista de Ciências Humanas. p.245). Ora. ou seja. Celso Furtado cita um dado revelador dessa concomitância: em 1910 havia. O feudalismo é um fenômeno de regressão que traduz o atrofiamento de uma estrutura econômica. ela vive totalmente voltada para o mercado externo” (FURTADO.177-203. abril de 2004 . aproximadamente. “A primeira metade do século XX está marcada pela progressiva emergência de um sistema cujo principal centro dinâmico é o mercado interno” (FURTADO. No livro A fantasia organizada. p.54). Somente a título de ilustração. o que Celso Furtado chamou em diversos textos de “socialização das perdas”. cabe perguntar: O que teria levado à formação desse mercado interno capaz de potencializar o desenvolvimento industrial?8 Para ele.

Explica-se. tendiam a concentrar-se nesse mesmo setor. então. o qual tomou decisões (em relação à imigração... desde fins do século passado. p.) que favoreceram a expansão da economia cafeeira. assim. que favoreceu significativamente os fazendeiros do café que controlavam o governo do Estado de São Paulo. as inversões na cafeicultura não encontraram limitação pelo lado da oferta de fatores. Nesse livro. O florescimento das atividades urbano-industriais ligou-se. que se haja formado. uma situação crônica de excesso de oferta.170-171). tais como a descentralização republicana. a partir de meados do século XIX9. E essas volumosas inversões efetuadas no setor cafeicultor [. nas fases de prosperidade. a expansão do crédito para o setor cafeeiro etc. ou seja. mas também sobre as condições políticas. havendo oferta elástica de fatores. p. por exemplo) que favoreceram expressivamente os cafeicultores. abril de 2004 . a abundância de recursos naturais e as dimensões relativamente grandes do mercado interno em formação. o de agricultura de subsistência e o de agricultura de exportação. Revista de Ciências Humanas. n.35. Celso Furtado apresenta uma discussão não somente sobre as condições econômicas (a crise asiática da produção de café. os lucros – demais para serem utilizados para modernizar as formas de consumo dos grupos de altas rendas – puderam ser reinvertidos. Florianópolis: EDUFSC. essencialmente à expansão da economia cafeeira. De fato: dada a grande abundância de terras aptas para plantar café e a elasticidade da oferta de mão-de-obra. A efetividade desse processo deu-se em razão da criação de condições que favoreceram a emergência de um mercado interno alimentado pelas indústrias têxteis e alimentícias.177-203. A complexidade desse processo está no fato de que esse setor industrial não alavancou de modo que ganhasse supremacia expressiva sobre os demais setores.Maria José de Rezende — 191 Celso Furtado explica da seguinte forma esse processo: A experiência brasileira surge como um caso especial. __________________________________________________ 9 A obra Formação econômica do Brasil detalha o processo de expansão e de crise da cultura do café no país. Os lucros do setor cafeicultor. no qual se conjugam o controle por grupos nacionais da produção exportável. o que abriria caminho aos investimentos industriais (1969. A diferença com respeito à experiência centro-americana estava em que. promovendo assim a expansão do setor monetário e dando origem à formação de um mercado interno de dimensões relativamente grandes.] provocaram a absorção da economia de subsistência preexistente e financiaram a imigração européia.

1997c. os países em que o setor pré-capitalista deixou de ser reservatório de mão-de-obra para os setores capitalistas e os países (Argentina e Uruguai.23). Todavia. por exemplo. A seu ver.300). Celso Furtado destaca as especificidades dos países latino-americanos em relação às suas classificações como tipicamente subdesenvolvidos ou não. principalmente a partir do século XIX. para Furtado. Celso Furtado considerava que o estudo das motivações é essencial para compreender todo processo social. essencial. por exemplo) em que não havia um dualismo estrutural não seriam tipicamente subdesenvolvidos. p. Florianópolis: EDUFSC. o grande problema continuava a ser a prevalência de uma economia colonial que impedia que o desenvolvimento industrial se realizasse de forma plena. Observe-se que Furtado formulou o conceito de subdesenvolvimento como um tipo ideal que tem como traço definidor a existência de um dualismo estrutural (FURTADO. p. n. as razões pelas quais a economia colonial se manteve intacta durante tantos séculos devem ser procuradas nas motivações11 daqueles que detinham posições de mando e de poder no decorrer dos séculos XIX e XX12. ele se aproximava mais e mais da Sociologia. uma economia que se articulava em torno desses três setores. teria sido preciso lutar.177-203. ele afirmava: “No estudo da inflação. Para a criação das bases para o desenvolvimento industrial. __________________________________________________ 10 11 12 Em Subdesenvolvimento e estagnação na América Latina. Ao propor estudos fundados na motivação dos agentes. No caso do estudo da inflação. “O meu enfoque dos processos econômicos. Revista de Ciências Humanas. importava acima de tudo que identificássemos as forças sociais que estavam pressionando para modificar a distribuição da renda e descobríssemos suas motivações” (FURTADO. basicamente. A análise do modo de atuação de tais forças era. A manutenção da coexistência entre economia colonial e economia industrial tinha como resultado a perpetuação do subdesenvolvimento10. no qual se combina uma visão histórica global com um corte sincrônico para o qual se utilizam todos os recursos da análise econômica. alcançou a forma que para mim passou a ser definitiva quando cristalizaram em meu espírito duas idéias: a de estrutura e a de centro de decisão” (FURTADO. O subdesenvolvimento e a reprodução do padrão de domínio oligárquico Celso Furtado considerava que estavam em lados opostos a economia colonial e a economia industrial. porquanto revelaria as formas de confrontação que se estabeleceram no país. assim. uma vez que a manutenção da estrutura colonial articulava-se nessas duas esferas. com as forças sociais que se apegavam a um padrão de organização e a um padrão de domínio que conservavam os resquícios do tipo colonial de economia. 1968). 1997b. abril de 2004 . Essa última era vista por ele como uma forma de suplantar a primeira. nesse processo de tentativa de superação da economia agrário-exportadora.192 — Gilberto Freyre e Celso Furtado: duas leituras distintas da formação urbano-industrial no Brasil Criou-se. No entanto. p.35. Os emperramentos eram de natureza econômica e política.

no Nordeste. Filiado à perspectiva weberiana. a redefinição das aplicações dos recursos do governo federal e o desenvolvimento industrial. reforçavam as estruturas existentes fundadas nas disputas das forças sociais oligárquicas pelo controle de verbas e de cargos. Enfim. a reversão das disparidades regionais. 1997b). 13 Revista de Ciências Humanas. durante séculos.Maria José de Rezende — 193 Enquanto Freyre partia do século XVIII para entender a quebra de acomodação e os antagonismos que emergiram com o longo declínio do patriarcalismo. em razão do imobilismo político. ele assinala que procurar as causas históricas era buscar as motivações que levaram as forças sociais preponderantes. então. social e da estagnação econômica13 (FURTADO. A seu ver. no século seguinte. barreiras etc. do tráfico interprovincial de escravos. da crise da monarquia. tais como as Ligas Camponesas. Dentre as várias motivações – as quais giravam em torno da crise da grande lavoura. 14 Em 1958.35. mas também em seus aspectos políticos. na década de 1950. pois envolve interesses que se foram perpetuando através dos tempos. à superação da economia colonial. Esse processo deve ser pensado não somente em seus aspectos econômicos. __________________________________________________ Celso Furtado afirma que. feitas com as frentes de trabalho. era importante compreender as motivações que embasavam os antagonismos que ganhavam forma naquele momento. p. era visível que poder econômico e poder político eram duas faces de uma mesma moeda. denominada Operação Nordeste. ao analisar as condições sociais vigentes no Nordeste. em plena ação no final da década de 1950. a qual foi comandada por Celso Furtado e tinha como um de seus objetivos o estabelecimento de um absoluto combate aos vícios políticos da indústria da seca. – Celso Furtado destacou as voltadas para o controle do processo de industrialização. os herdeiros da tradição escravocrata continuavam. O centro da luta política era. Bastava observar como eles agiam mediante a expansão dos movimentos de massa. Florianópolis: EDUFSC.. uma luta pela perpetuação do imobilismo político e da estagnação econômica (FURTADO. o combate à corrupção e à decadência da região. 1997d. por exemplo. e mediante as ações da Operação Nordeste14. p. da instauração da República etc. da instauração do trabalho livre. abril de 2004 . mais precisamente nos anos 30. torna-se essencialmente importante para elucidar o papel que os diversos grupos sociais dominantes desempenharam no controle das mudanças que se iam delineando no horizonte. entre os setores preponderantes. a uma intermitente luta para subordinar a industrialização ao sistema agrário-exportador (FURTADO. em meados do século XIX. 1997d).50). da abolição. As atuações do governo federal via financiamento de estradas.177-203. Ele afirma que estudar os motivos que levaram ao aprofundamento das confrontações (o que não significava rompimentos). o governo de Juscelino Kubitschek propôs uma nova política para o Nordeste. Furtado buscava demonstrar que as últimas cinco décadas do século XIX eram essenciais para compreender a emergência das condições que poderiam levar. n.

com o aumento de sua representatividade e a rejeição para um desvão da história. trazia à tona a possibilidade de desmontar o arcaísmo econômico e político vigente15? Furtado assinala que o processo de industrialização. p. todo orientado para recuperar o atraso político e abrir espaço. principalmente. 1997c. visto que ela acaba por não problematizar a frágil fronteira entre o poder público e o poder privado no Brasil. Ao colocar nesses termos a análise do processo de desenvolvimento industrial. o desmantelamento dos “mecanismos de defesa de autopreservação da economia tipo colonial porão em marcha processos históricos capazes de viabilizar o deslocamento das atividades industriais com respeito ao complexo primário-exportador” (FURTADO. conseguia encerrar uma economia de tipo colonial e possibilitava também a emergência das massas urbanas na arena política. Verdadeiras mudanças não poderiam vir senão da renovação dos quadros políticos. abril de 2004 . as quais constituíam agentes provocadores de desconfortos significativos para a política tradicional e oligárquica.194 — Gilberto Freyre e Celso Furtado: duas leituras distintas da formação urbano-industrial no Brasil Eles rechaçavam-nas inteiramente. ou seja: Quais estruturas arcaicas e tradicionais potencializaram-no ao longo dos séculos? e Quais modificações sociais abriram caminhos para um processo de modernização da sociedade brasileira que. 1997d.37). n. __________________________________________________ 15 Depois da crise de 1929. a fim de que parcelas crescentes da população regional assumissem na plenitude os direitos de cidadania. porque essa última.35. a partir da década de 1930. representava uma tentativa de estabelecer um “amplo processo de mudança social.165). que parecia não ver na manutenção do oligarquismo grandes problemas para a sociedade brasileira que se industrializava. das velhas oligarquias” (FURTADO. para bloqueá-las. ao dar início a um crescimento econômico fundado no crescimento do mercado interno. mas também para as controlar e. ao buscar os elementos positivos de um padrão de domínio assentado na esfera privada.177-203. Celso Furtado desvenda as diversas ações políticas perpetuadoras de um oligarquismo nefasto para a vida social brasileira. p. Tal rechaçamento tinha de ser compreendido também historicamente. São várias as implicações desse último tipo de análise. não somente para impulsioná-las. Revista de Ciências Humanas. até mesmo. acaba por atenuar os efeitos da manutenção de relações oligárquicas no âmbito das atividades urbanas. Ao discutir a formação das atividades industriais a partir das motivações e dos interesses dos agentes envolvidos. por exemplo. Celso Furtado distingue de modo enfático suas análises das de Gilberto Freyre. Florianópolis: EDUFSC. p. Gilberto Freyre.

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Celso Furtado assinala que os alicerces do subdesenvolvimento16 do Nordeste estavam na própria região. Esses alicerces eram econômicos e também políticos. Dessa forma, não bastava criticar as regiões mais industrializadas como responsáveis pelo estado caótico de atraso no qual se encontravam as populações de algumas partes do país. Em seu entender, a decadência da região nordestina era secular e não tinha como ser explicada somente em vista da industrialização do Sul.
A causa básica daquela decadência está na incapacidade do sistema para superar as formas de produção e utilização dos recursos estruturados na época colonial. A articulação com a região sul por meio de cartelização da economia açucareira prolongou a vida do velho sistema cuja decadência se iniciou no século XVII, pois contribuiu para preservar as velhas estruturas monoprodutoras (FURTADO, 2000, p.251).

Gilberto Freyre, no entanto, rejeitou toda tese que enaltecesse somente o caráter negativo do tipo de economia, de política e de cultura que vigorava no Nordeste. Todo e qualquer processo de industrialização deveria estar voltado para a preservação das complexidades regionais brasileiras. É como se Freyre quisesse chamar a atenção para a necessidade de conciliar o projeto industrial com o projeto agrário, que disputavam, em vários âmbitos da vida social, espaços políticos, aquele para se impor, esse, para se perpetuar. A conciliação como fator de emperramento do desenvolvimento urbano-industrial De maneira distinta da de Freyre, Celso Furtado procura assinalar que a industrialização deveria ser um processo de busca da superação das atividades econômicas do tipo colonial predominavam no país nos séculos XVI 17, XVII, XVIII 18 e XIX 19 .
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“O subdesenvolvimento é, portanto, um processo histórico autônomo, e não uma etapa pela qual tenham, necessariamente, passado as economias que já alcançaram um grau superior de desenvolvimento” (FURTADO, 1969, p.166). Nos séculos XVI e XVII, o Brasil monopolizou a exportação do açúcar. A produção de ouro e de diamantes predominou na economia brasileira no século XVIII. A agricultura de exportação foi implementada a partir da crise do ouro no final do século XVIII. O século XIX foi um divisor de águas significativo na economia, com a emergência do ciclo cafeeiro, que teve sua melhor performance entre 1850 e 1910, quando se iniciou um processo de crise nesse setor. Tal crise teve seu apogeu em 1930, quando ocorreu a destruição de grande quantidade do café acumulado por retenção dos estoques excedentes (FURTADO, 1964, p.100).

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A sedimentação urbano-industrial não poderia fundar-se na conciliação, uma vez que a economia agrário-exportadora, baseada no latifúndio, tinha alimentado um padrão de domínio político que circunscrevia o desenvolvimento industrial dentro de determinados limites condizentes com a manutenção da estrutura de poder e de organização social vigente. O processo de industrialização iniciado a partir de 1930 teria, para Furtado, agido como fator essencial de desmantelamento do marco institucional brasileiro que “durante três séculos resultou de uma formação econômica baseada nas grandes fazendas. A população urbana era reduzida e tinha pouca expressão política” (1964, p.109). Todo o sistema representativo, até 1930, era desenhado no sentido de dar garantias de permanência do padrão de domínio vigente. Segundo ele, a partir de 1930, o efeito mais expressivo do processo de mudança social no Brasil foi o início da desarticulação política da estrutura agrária, a qual “servia como sustentáculo ao sistema político” (p.110). Por que teria havido essa desarticulação? As atividades urbano-industriais teriam gerado a possibilidade de uma redefinição política, porque originaram novos agentes que lutaram para se firmar como forças sociais capazes de redefinir os próprios marcos institucionais. Esses agentes foram, evidentemente, rechaçados, em razão de que o controle estava ainda, nos anos subseqüentes, expressivamente nas mãos dos representantes das velhas estruturas agrárias. Celso Furtado destaca que, a partir de 1930, anunciava-se uma possibilidade de redefinição do sistema político, pelo fato de a industrialização criar uma diferenciação geradora de agentes sociais distintos daqueles prevalecentes na estrutura agrário-exportadora, a qual estava voltada essencialmente para atender ao mercado externo. As décadas seguintes, ou seja, até 1964, fizeram-se de fortes tensões originárias das pressões das massas urbanas, que eram tolhidas e rechaçadas pelos setores preponderantes que atuavam ainda no marco institucional vigente desde antes de 1930. Observa-se, então, dificuldade incomensurável de evolução do sistema político, uma vez que todas as pressões por reformas que surgiam desafiavam de tal modo as classes dirigentes, que elas se voltavam mais e mais para a conservação do status quo. Nessas condições, a industrialização avançava na década de 1950, mas sem as mudanças políticas necessárias, então, eternizava-se a paralisia do desenvolvimento social.
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Celso Furtado, em 1964, no livro Dialética do desenvolvimento, advogava a necessidade de combinar a expansão industrial e a urbanização com as reformas políticas. Essas últimas eram essenciais, para que se redefinissem os marcos institucionais. Isso abriria as portas para que o país se projetasse mundialmente. É curioso que a sua forma de justificar essa probabilidade acaba por reafirmar a tese freyriana do sentido plástico e democrático da formação étnica aqui prevalecente. Ele diz: “O sentido democrático da formação étnica do seu povo facilitará essa projeção dos valores brasileiros além-fronteiras, permitindo que o Brasil desempenhe importante papel junto às novas nações em formação no mundo tropical” (FURTADO, 1964, p.112). A análise de Furtado sobre o período que se abre em 1930 enfoca o processo de expansão urbano-industrial, não somente em vista dos elementos econômicos, mas principalmente dos políticos. Esses últimos definiriam ou não a possibilidade de mudanças estruturais. O capitalismo industrial, que ganhou expressão a partir desse momento, teve performance singular, já que o “predomínio da classe capitalista industrial, no Brasil, não resultou de um conflito aberto com os grupos dirigentes. Em realidade, o capitalismo industrial começou a dar os seus primeiros passos significativos quando a economia colonial entrara em franca decomposição, abandonando os dirigentes desta qualquer posição ideológica consistente e dedicando-se a um improvisado oportunismo político” (FURTADO, 1964, p.115). A expansão das atividades urbano-industriais estava, então, marcada pelo fato de não ter estabelecido “no país um desenvolvimento endógeno conflitante com os interesses do setor exportador”20 (FURTADO, 1964, p.116). Os setores arcaicos procuraram ajustar-se politicamente às modificações que tomavam corpo no período pós 1930. Os novos setores dirigentes que se instalavam no poder não tinham clareza da dimensão das transformações que estavam ocorrendo. A consolidação da industrialização foi lenta, porque as classes dirigentes não tinham a consciência da necessidade de se empenhar para efetivá-la.
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Os industriais não se colocaram na arena política como portadores de um antagonismo irreconciliável com os grupos dirigentes ancorados na economia agrário-exportadora. Isso se devia, em parte, ao fato de que a proteção dos interesses do café constituía a base do desenvolvimento industrial (FURTADO, 1964, p.134).

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Havia, também, outras dificuldades estruturais que não dependiam somente da vontade dos novos dirigentes, visto que eram séculos de um processo de enraizamento de dificuldades econômicas, políticas e sociais. Celso Furtado cita como exemplo disso, em Dialética do desenvolvimento, a predominância de uma agricultura voltada para o mercado interno, que era absolutamente inelástica e encarecia significativamente o preço dos alimentos nas cidades. “De maneira geral, os preços dos produtos industriais cresceram menos que os dos produtos agrícolas destinados ao mercado interno, o que indica que a classe capitalista industrial teve de transferir para os interesses ligados ao latifúndio parte dos lucros que auferia. Tudo se passava como se a nova classe capitalista fosse chamada a pagar ao setor mais retrógrado da antiga economia um direito de senhoria” (1964, p.126). A industrialização potencializava a urbanização, a qual exigia mais e mais produtos agrícolas para alimentar o grande contingente de pessoas que passavam a habitar nas cidades. Instaurava-se uma crise entre os setores industriais e os latifundiários que se empenhavam, desatinadamente, em abocanhar uma parte expressiva dos lucros auferidos nas atividades urbano-industriais 21. Isso constituiu um entrave na economia brasileira, que era visível no modo de os setores agrícolas agirem na esfera política, debatendo-se para manter suas posições de poder por meio de pressões no Legislativo, principalmente. Havia, assim, uma contradição significativa no interior da própria classe capitalista, contradição desapercebida ou desconsiderada pelos próprios setores industriais, que, não compreendendo o significado da parasitagem do setor agrário, apavoravam-se mais e mais diante da intensificação das tensões sociais oriundas das pressões das massas trabalhadoras. Despreparados para compreender que a luta de classes é o fundamento de uma sociedade democrática, os setores industriais contribuíam com o emperramento econômico e político da sociedade brasileira.

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“Em síntese, podemos afirmar que o processo de formação de um capitalismo industrial, no Brasil, encontrou obstáculos de natureza estrutural, cuja superação parece impraticável dentro do presente marco institucional e pelos meios a que estão afeitas as classes dirigentes” (FURTADO, 1964, p.133).

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.35, p.177-203, abril de 2004

giram as reflexões desenvolvidas em Sobrados e mucambos e em Ordem e progresso. para Freyre. lança luzes sobre os elementos econômicos. para ele. a imaginatividade e a ação política se configurariam em decorrência de um conjunto de valores cristalizados nos diversos segmentos sociais. no conjunto de suas obras.177-203. não diz que nada mudou no país ao longo de sua história. abril de 2004 . os hábitos e os costumes. no seu ethos. então. os brasileiros não romperam inteiramente com o modo de ser e de agir que vigorou no passado. Há. e. indicadora de que. a econômica. A formação urbano-industrial brasileira seria. Ao discutir as minúcias da vida social nesse processo de formação urbano-industrial. todavia. mesmo tendo-se alterado. pois o último insiste que a história é um processo aberto. uma diferença essencial entre ele e Celso Furtado. nesse e em outros pontos. reproduziriam no presente o que os brasileiros foram no passado. ao menos não o é em todos os seus aspectos. Cabe então a pergunta: De que forma aquilo que mudava era controlado pelas permanências? Em torno dessa questão. uma vez que. um processo aberto. Ele. Daí deriva a concepção de Celso Furtado de que a história é um processo aberto. Estaria aí uma das mais relevantes contribuições de Freyre ao estudo do processo de diferenciação social desencadeado pela urbanização e pela industrialização. p. em suas obras. a política e a cultural. O olhar que Celso Furtado lançava sobre o processo de formação urbano-industrial tem diferenças essenciais da perspectiva de Gilberto Freyre. os atos.Maria José de Rezende — 199 Considerações finais Freyre. ou seja. Florianópolis: EDUFSC. n. não cabe dizer que o passado exerce um controle quase absoluto sobre os acontecimentos futuros. não concebe a história inteiramente nesses termos. porque não há como calcular a capacidade de imaginatividade e de ação política com base naquilo que os grupos sociais foram no passado. Essa capacidade não pode ser também circunscrita àquilo que os agentes sociais conseguiram realizar nos séculos precedentes.35. As diversas esferas da vida social. guardariam em sua essência muito do que o país foi no passado distante (colonial) e no passado nem tão distante assim (Império). portanto. Freyre. políticos e culturais que. mediante as atitudes. ele pretendia assinalar. o que mudava e o que permanecia. A história não é. Revista de Ciências Humanas.

FERRANTE. a que define todo um modo de conceber a vida social brasileira. Rio de Janeiro: Topbooks. n. E. p. T. B. o subdesenvolvimento que se assentava na dualidade estrutural e a política oligárquica que se acomodava às novas condições. o padrão de organização social e o padrão de domínio em momento algum estiveram petrificados em torno de permanências e constâncias definidas por um dado padrão cultural que dispensasse as rupturas. abril de 2004 . G. negava a possibilidade de superação de seus entraves principais. antagonismo. ao caminhar em círculos. Todavia enquanto o primeiro buscava os elementos indicadores de uma circularidade histórica positiva que ia no sentido de acomodação. 1994. ANTUNES. V. In: MORAES.). pelo menos não em todos os seus aspectos. Inteligência brasileira. o segundo destacava que o país. 1993. BOTTOMORE. Revista de Ciências Humanas. R. 1986. B. Olympio. Florianópolis: EDUFSC. quebra de acomodação. A multiplicidade de desafios colocados aos diversos agentes sociais em razão da formação e da expansão das atividades urbano-industriais revela que. Conservadorismo e radicalismo na sociologia e o homem conservador. São Paulo: Brasiliense.. uma das mais relevantes. 1976. R. para o autor de Casa Grande & Senzala. Referências bibliográficas BASTOS. Gilberto Freyre e a questão nacional. Se ela não é um processo aberto. É válido assinalar que tanto Freyre quanto Furtado estavam voltados para a compreensão das atuações dos agentes sociais ante as mudanças e as resistências às mudanças. Rio de Janeiro: Zahar. (Orgs. para Celso Furtado. nova acomodação e. ela é-o inteiramente na visão do autor de Formação Econômica do Brasil. FREYRE. sucessivamente. A América Latina: males de origem.177-203.35. Rio de Janeiro: J. BOMFIM.200 — Gilberto Freyre e Celso Furtado: duas leituras distintas da formação urbano-industrial no Brasil Conforme foi apontado. é a maneira de o primeiro conceber a história. L. sobrevivendo após a década de 1930 e marcando o desenvolvimento das atividades urbanas. R. tais como os traços da economia colonial que resistiam ao processo de industrialização. Casa grande & senzala. assim. In: A sociologia como crítica social.. M.

Maria José de Rezende — 201 FREYRE. 1975. Estácio Coimbra: homem representativo de seu meio e do seu tempo. Vida social no Brasil nos meados do século XIX. G. Olympio. Rio de Janeiro: J. FREYRE. Uma economia dependente. n. Rio de Janeiro: Iseb. FREYRE. Rio de Janeiro: J. G. 1959a. p. modernista do Recife. Recife: Instituto Joaquim Nabuco. Brasil. Manifesto regionalista. FURTADO. C. C. FREYRE. Sobrados e mucambos. n. Interpretação do Brasil. C. G. FREYRE. FURTADO. FREYRE. Porto Alegre: Globo. Olympio. A operação nordeste.6. Olympio. contrastes e possíveis futuros nas suas inter-relações. FREYRE. G. Insurgências e ressurgências atuais: cruzamentos de sins e nãos num mundo em transição. C. Brasília: sugestões em torno de problemas brasileiros de unidade e diversidade e das relações de alguns deles com problemas gerais de pluralismo étnico e cultural.35. Rio de Janeiro: J. Olympio. Revista de Ciências Humanas. 1973. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional. Uma política de desenvolvimento para o nordeste. Brasis. G. Ordem e progresso. Série Documentos. 1968. Rio de Janeiro: Record. G. 1976. FURTADO. Florianópolis: EDUFSC. G. Rio de Janeiro: ISEB. T. 1956. Rio de Janeiro: Arte Nova. tradicionalista e. 1959. 1947. abril de 2004 . FREYRE. Olympio. 1962. Olympio. FREYRE. 1967. Rio de Janeiro: MEC. Sociologia: introdução ao estudo de seus princípios. FURTADO. G. a seu modo. Recife: Instituto Joaquim Nabuco.177-203. Rio de Janeiro: J. FREYRE. 1983. G. 1958. FREYRE. Perspectivas da economia brasileira. O brasileiro entre os outros hispanos: afinidades. G. Nordeste. 1961. 1957. Rio de Janeiro: J.1 e 2. G. Rio de Janeiro: J. 1977.

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p. Florianópolis: EDUFSC.35. A fantasia organizada. In: Obra autobiográfica. In: Obra autobiográfica. Em busca de novo modelo. 1997b. FURTADO. C. 1997c. (Org./jun. 1959. C.1. Tomo II. A fantasia desfeita. abril de 2004 . FURTADO. M. v. C. M. Recife. Rio de Janeiro: Paz e Terra. São Paulo: Publifolha. FURTADO. (Recebido em abril de 2004 e aceito para publicação em outubro de 2004) Revista de Ciências Humanas. n. J. Cadernos de Estudos Sociais. C. São Paulo: Paz e Terra. p. A trajetória intelectual de Celso Furtado. C. REZENDE.Maria José de Rezende — 203 FURTADO. J. Celso Furtado e o Brasil. Aventuras de um economista brasileiro.).18. FURTADO. In: TAVARES. GUIMARÃES. 1999.73-92.177-203. Tomo II. 2002. In: Obra autobiográfica. C. 2002. São Paulo: Perseu Abramo. C. FURTADO. 1997d. n. Tomo I. São Paulo: Paz e Terra. 2000. jan. de. O longo amanhecer. Formação econômica do Brasil. Soberania nacional e mudança social em Manoel Bomfim. São Paulo: Paz e Terra. São Paulo: Paz e Terra. 2000.

O autor agradece os comentários e as sugestões de dois pareceristas anônimos. Furthermore. p. em Porto Alegre (RS). Florianópolis: EDUFSC. Revista de Ciências Humanas. CEP 88036-002 (mattei@cse. some problematic aspects related to the concept of family farm are emphasized. realçando as questões mais recentes sobre essa temática.Sistema familiar de produção: algumas questões para o debate* Lauro Mattei1 Universidade Federal de Santa Catarina Resumo O objetivo deste estudo2 é discutir os principais aspectos envolvidos no debate sobre o sistema familiar de produção. 1288. apresentado no 4° Encontro Brasileiro de Economia Política. bairro Trindade. 2 Versão modificada do trabalho Produção Familiar: velhas e novas questões. Endereço para correspondências: Rua Lauro Linhares. 1999. Florianópolis. Palavras-chave: Sistema familiar de produção.br). highlighting most recently questions about this theme. Keywords: Family production system. agricultura familiar. bl.205-223. family farm. SC. * The family-based production system: Some contributions to the debate 1 Professor Adjunto do Departamento de Ciências Econômicas da UFSC. n.ufsc. abril de 2004 . 03. além de enfatizar alguns pontos problemáticos relacionados à definição de agricultura familiar.35. apto 502. __________________________________________________ Abstract The purpose of this paper is to stand out main aspects of family production system.

p.35.206 — Sistema familiar de produção: algumas questões para o debate Introdução O debate acadêmico sobre o sistema de produção familiar está longe de seu final e. a agricultura familiar. Florianópolis: EDUFSC. De modo geral. é a agricultura familiar que deve ocupar lugar destacado nos rumos do desenvolvimento rural e do próprio desenvolvimento do país. esse sistema familiar é o núcleo dinâmico do processo produtivo agropecuário brasileiro. n. fazem parte do estudo mais três seções. o objetivo deste trabalho é dialogar com o primeiro grupo de autores. apesar de ainda manter certa relevância. Em grande medida. de apoio por parte das políticas públicas. pode-se dizer que esse debate assenta-se em três perspectivas teóricas distintas: a Marxista (e sua derivada Leninista). necessitando. cada vez mais atraente. abril de 2004 . além desta seção introdutória. Para outro grupo de autores. A segunda seção resgata os principais aspectos do debate teórico sobre a persistência da produção familiar. A terceira seção apresenta alguns aspectos conceituais relacionados ao tema agricultura familiar. Nesse caso. a Kautskyana e a Chayanoviana. tanto em termos da promoção do uso equilibrado dos recursos naturais como em termos da produção alimentar. essa polêmica originou-se com os autores clássicos do capitalismo agrário e perpassou todas as formulações teóricas sobre o tema da produção familiar no século XX. na tentativa de aprofundar o horizonte teórico do debate sobre a produção familiar. vem perdendo dinamismo quando confrontada com os dados do conjunto das atividades produtivas do sistema agroalimentar. houve um desmonte das unidades familiares de produção e isso fez com que aspectos analíticos mais importantes – dinâmica do trabalho e geração de renda – ultrapassassem os limites restritos das unidades produtivas agrícolas. Finalmente. Para um determinado grupo de autores. a quarta seção expõe as conclusões do estudo. com destaque para as questões mais recentes que procuram estabelecer novos parâmetros para a discussão do tema. procurando demonstrar as principais restrições que esse conceito assume ao tentar representar universalmente o sistema da produção familiar. em decorrência das transformações estruturais do sistema capitalista que impactaram a agricultura. portanto. justamente por isso. porque. Revista de Ciências Humanas. A partir disso. Nesse sentido.205-223.

Florianópolis: EDUFSC.205-223. ainda persistem formas não-capitalistas na agricultura. aumentando as dificuldades para definir a condição de classe. os autores entendem que se torna complicado. além das condições econômicas e sociais. os autores reafirmam o processo de diferenciação social ainda existente na agricultura depois de mais de dois séculos de desenvolvimento do capitalismo agrário. p. eles reconhecem a dificuldade de se lidar com a categoria que se localiza entre a burguesia de base agrícola e o proletariado. tanto em termos das unidades familiares quanto em termos dos membros individuais.35. Nesse caso. uma vez que nem os produtores familiares e nem os camponeses tradicionais constituem uma classe social. Nesse sentido. uma vez que a expansão e a reprodução do capital requer também uma expansão da classe trabalhadora. o processo de decomposição de classes afeta diretamente as famílias que trabalham na agricultura. ao mesmo tempo em que a maioria das famílias agrícolas permanece marginalizada das esferas de produção e de consumo. Além disso. o qual aprofunda o caráter capitalista entre os agricultores e faz com que uma pequena parte deles ascenda socialmente. os autores entendem que é necessário responder a uma questão básica: O que explica a persistência do sistema de produção familiar e dos próprios produtores familiares? A resposta para essa pergunta não é simples devido ao duplo caráter desse segmento. considerar a família uma unidade demográfica. é necessário considerar. pois algumas vezes ele pode trabalhar por conta própria e em outras ser assalariado. para algumas correntes. A razão da persistência é que os vários segmentos que constituem a produção familiar em uma determinada sociedade têm diferentes papéis econômicos e sociais.Lauro Mattei — 207 O problema da persistência da produção familiar Usando o conceito de classe marxista e tentando adaptá-lo ao contexto da moderna agricultura capitalista. Hoje. n. há diferenças importantes entre Revista de Ciências Humanas. mas proporcionam as estruturas básicas para a formação dessa categoria social. que tem como característica determinante seu alto grau de diferenciação. os processos políticos e as políticas do mercado de trabalho. Partindo do fato de que. Desse modo. nas análises sobre classes sociais na agricultura. Inicialmente. abril de 2004 . No passado. a persistência de formas não-capitalistas na agricultura significava a persistência da produção agrícola familiar. Friedland e Pugliese (1991) oferecem uma explicação teórica para a persistência da produção familiar.

cada forma de produção é caracterizada por relações sociais específicas e também por cadeias técnicas específicas. Nesse sentido. aquelas que vivem em estado de pobreza por falta de alternativas no mercado de trabalho e aquelas que persistem por razões de qualidade de vida. sendo que cada uma dessas formas precisa ter uma relação particular no âmbito geral das relações sociais.). n. O conceito de forma de produção refere-se às unidades atuais das organizações produtivas (empresas capitalistas etc. p.205-223. no tocante às unidades mínimas da organização produtiva. a qual é concebida por meio da dupla especificação da unidade de produção e da formação social. Dentre eles. devido à grande polêmica causada pelas suas teses. Atualmente. Partindo do princípio de que o conceito de “modo de produção4” tem apresentado uma base analítica limitada. Com isso. Esses dois conceitos focalizam os aspectos dinâmicos da organização produtiva e requerem. State. Esse debate também foi enfrentado por outros autores. a autora afirma que a análise da persistência ou do desaparecimento de diferentes formas de produção é facilitada pelo conceito de reprodução e de transformação.35. and Family Farm: Social Bases of Household Production in the Era of Wage Labor (1976). uma vez que as fontes básicas de renda não provêm mais da agricultura. a criação e a distribuição do produto social de tal modo que: __________________________________________________ 3 4 5 Especificamente em relação à persistência da produção familiar. abril de 2004 . das rendas nãoagrícolas obtidas por parte dos membros da família e das transferências de recursos públicos e privados. políticos e ideológicos das organizações sociais. naquele período. em todos os casos. Cada forma de produção é caracterizada por relações sociais específicas e por cadeias técnicas específicas. parte dessas unidades persiste em função dos baixos investimentos que executam. A reprodução refere-se à renovação de um circuito de produção por outro.208 — Sistema familiar de produção: algumas questões para o debate aquelas unidades familiares que persistem porque são viáveis. Já a transformação refere-se à recombinação de alguns elementos velhos de produção que resultam em novas relações. as crises e o empobrecimento conduziam ao desaparecimento das unidades familiares de produção. Revista de Ciências Humanas. com elementos técnicos e sociais e com uma quantidade de relações entre ambos. dois trabalhos são centrais: Household Production and the National Economy: Concepts for the Analysis of Agrarian Formations (1980) e World Market. Florianópolis: EDUFSC. os autores supracitados concluem que há uma tendência diferente em relação ao passado. Friedmann (1980) argumenta que o conceito central para analisar as relações sociais agrárias deve se situar na “forma de produção5”. destaca-se Harriet Friedmann3. uma vez que. O conceito de modo de produção caracteriza historicamente as instituições específicas que estão envolvidas nos aspectos econômicos. Assim.

organizar a produção. Já na produção simples de mercadorias. por um lado.205-223. e a existência de vendedores. principalmente. Como resultado. b) As ferramentas. __________________________________________________ 6 Para um acompanhamento mais detalhado desse debate. XXV-3/4. abril de 2004 . Friedmann distingue-se dos demais autores marxistas. A condição básica para a reprodução capitalista é a contínua recriação dos compradores da força de trabalho. Revista de Ciências Humanas. A partir daí. publicado na revista Sociologia Ruralis de 1985. denominada Patriarchy and Property: a reply to Goodman & Redclift. quando uma forma particular de reprodução é decomposta. c) No caso de alguém. dizendo que essas formulações tentam conceituar a produção simples de mercadorias como uma categoria teórica e empírica separada. publicada na mesma revista. Para eles. isso ocorre porque uma quantidade suficiente de bases técnica e social foi destruída. v. há somente uma classe diretamente envolvida na produção.35. Diversas foram as reações críticas a essas propostas. os animais. n. XXVI-2. Goodmann e Redclift (1985)6 criticam as teses acima citadas. sugere-se a leitura da resposta de Friedmann. segundo a história. v. Florianópolis: EDUFSC. no ano de 1986. É a família quem compra os meios de produção e coloca-os em movimento com o seu trabalho. porque seu trabalho diz respeito às economias capitalistas desenvolvidas e também porque ela usa a América do Norte como estudo de caso. as máquinas e os insumos sejam mantidos ou substituídos no novo round de produção (consumo produtivo). a reprodução também requer a presença deles no meio produtivo (oferta de trabalhadores). Petty Commodity Production and the Farm Enterprise. p. Dessa maneira.Lauro Mattei — 209 a) Os produtores diretos tenham artigos suficientes para consumir e para participar de um novo round de produção (consumo pessoal). merecendo destaque as que seguem. local onde não houve produção camponesa sob condições de escassez de terra. os proprietários da empresa e da força de trabalho combinam-se. Além disso. além dos trabalhadores. por outro. A reprodução capitalista depende da existência do mercado de trabalho e da maneira como os salários são determinados. Friedmann esclarece as condições para a reprodução capitalista e também para as formas simples de produção de mercadorias. a condição básica para a existência da produção simples de mercadorias é a continuidade da recriação integral das famílias como unidade produtiva e de consumo pessoal. Nesse caso. ver o artigo dos autores denominado Capitalism.

os autores procuraram explicar a persistência da produção por meio da tese da diferença entre o tempo de trabalho e tempo de produção. Florianópolis: EDUFSC.210 — Sistema familiar de produção: algumas questões para o debate Para os autores. então. n. quando há disponibilidade de trabalho. Como Friedmann parte do pressuposto de que a produção simples de mercadorias não tem relação de classe. sobre o uso eficiente do capital constante e do capital variável. a natureza da produção e as relações de classe. Posteriormente. o trabalho assalariado livre tem uma função meramente auxiliar no processo de trabalho das unidades familiares. Mann e Dickinson (1978)7 procuraram demonstrar algumas das razões para a persistência do trabalho familiar em determinados setores agrícolas das sociedades capitalistas avançadas. A tese básica dos autores é que existem setores da economia agrária em que há uma baixa identidade entre o tempo de trabalho e o tempo de produção (combinação de períodos em que há aplicação de trabalho com períodos que ficam sob a influência dos processos naturais). Revista de Ciências Humanas.35. mas é uma exigência de condições específicas de existência proporcionada exclusivamente pelo modo de produção capitalista e essa afirmação representa uma contradição terminológica nas definições de produção simples de mercadorias. os pesquisadores ainda confrontavam-se com o problema da persistência e co-existência da pequena produção familiar ao lado de modos de produção capitalistas dominantes. que configura uma forma e não um modo de produção. abril de 2004 . Partindo de um enfoque distinto dos anteriores. Nos períodos subseqüentes. a qual está relacionada a três temas básicos: o trabalho assalariado. Para Goodman e Redclift. não significa inabilidade geral de assegurar as próprias condições de existência. Assim. nesses países. Mann (1990) retomou e aperfeiçoou essa questão no seu trabalho clássico Agrarian Capitalism in Theory and Practice. Assim. o que acaba realçando o tema das relações de classe no âmbito desse sistema de produção. com o trabalho Obstáculos para o Desenvolvimento do Capitalismo na Agricultura. a dependência lógica da produção simples de mercadorias. bem como sobre o funcionamento normal do processo de acumulação e realização do capital. p. a não-identidade entre esses dois tempos de trabalho provoca efeitos adversos sobre as taxas de lucro.205-223. __________________________________________________ 7 Em 1978. o trabalho assalariado torna-se uma exigência estrutural para a reprodução das propriedades. essa correspondência somente se sustenta por um determinado período do ciclo demográfico familiar. buscou-se explicar por que.

Para tanto. Neste estudo. realçando o seu potencial futuro para as sociedades rurais.35. Florianópolis: EDUFSC. da agricultura em tempo parcial e da multifuncionalidade agrícola. naquelas esferas de produção caracterizadas por essa baixa identidade. Essa formulação teórica recebeu diversas críticas.205-223. surgiram diversas explicações alternativas sobre a persistência da produção familiar no âmbito do desenvolvimento do capitalismo agrário. a agricultura em tempo parcial permite uma ocupação do agricultor em outras atividades durante os gaps do processo produtivo agrícola. destacam-se dois fatores decisivos na nova fase do sistema de produção familiar. Dentre eles. o desenvolvimento tecnológico. principalmente da engenharia genética e da biotecnologia. vêm se destacando os temas da pluriatividade. as políticas do pós-guerra tiveram um papel determinante ao assegurar condições favoráveis à administração dessas unidades de produção. Revista de Ciências Humanas. principalmente daqueles de origem camponesa. Isso resultou em maior homogeneização da estrutura social dos agricultores. ressaltando-se o papel das cadeias produtivas agroalimentares. Por um lado. bem como a sua diferenciação em vários contextos espaciais. Seguindo essa lógica e analisando o caso italiano. com geração de taxas de lucro menores. Ressalta-se que. em sua maioria. Por um lado.Lauro Mattei — 211 Desses fatos derivam os obstáculos à penetração do capitalismo na agricultura. p. Saraceno (1994) apresentou uma nova visão sobre a função “moderna” da produção familiar. A explicação disso é que o trabalho familiar prevalece nos ramos de produção em que o tempo de rotação do capital é muito grande. Partindo do princípio de que a persistência da produção familiar não necessariamente implica a continuidade de sua função original de subsistência. Nesse sentido. é necessário compreender esse sistema de produção no âmbito de suas relações com os outros segmentos sociais e econômicos. coloca em xeque o argumento da diferenciação. entende-se que não há estatuto teórico que sustente a explicação para a existência do trabalho familiar a partir da diferenciação entre tempo de trabalho e tempo de produção. abril de 2004 . Nos últimos períodos. n. observa-se menor atratividade por parte do capital em larga escala (produção capitalista). Por outro. essas “novas definições” procuram fugir do dualismo clássico. tendo em vista que. ao controlar ou reduzir sistematicamente os efeitos do processo natural de produção. ao apresentar novos elementos analíticos. a autora diz que o mais importante é identificar o papel e a dinâmica do sistema familiar.

abril de 2004 . Do ponto de vista das famílias. observa-se que os níveis de emprego nos setores industrial e de serviços aumentaram bem mais do que os do emprego agrícola. o que revela que esse processo de industrialização atraiu um grande número de pessoas antes ocupadas somente na agricultura. e que ultrapassam os limites da própria agricultura como principal atividade responsável pela dinâmica econômica. Revista de Ciências Humanas.35. esses agricultores tornaram-se estruturalmente dependentes da pluriatividade e desse novo contexto rural. os produtores familiares. a autora insiste que há outras questões que influem na manutenção das famílias nas áreas rurais. ao diversificar o conjunto de atividades tradicionalmente desenvolvidas. condição objetiva para permanecer na atividade produtiva. tornamse. o que ajudou a estabilizar as unidades de produção e determinou o fim das pressões sobre os agricultores.212 — Sistema familiar de produção: algumas questões para o debate Em contrapartida. O fato é que o processo de industrialização difusa alterou a dinâmica do trabalho no meio rural. Florianópolis: EDUFSC. no intuito de manter eficientes as atividades especificamente agrícolas. caracterizado por uma diversificação local do mercado de trabalho e das atividades econômicas. enquanto as propriedades não-pluriativas precisam expandir a área ou incrementar a sua produção para manter ou elevar os níveis de rentabilidade. também. Por isso. a pluriatividade tem resolvido o problema da insuficiência de renda. mesmo elas tendo. apenas o papel de residência. o fato de as áreas rurais continuarem bastante povoadas não quer dizer que a agricultura continua a ser a mais importante das atividades econômicas. o padrão de industrialização difusa permitiu aos agricultores a manutenção de suas propriedades. Entretanto. Visando a continuar como produtores familiares e ter renda suficiente. Atualmente. as unidades familiares aumentaram sua renda monetária global. p. no sentido de vender as suas propriedades e migrar para as cidades.205-223. Com isso. por meio da pluriatividade e do trabalho em tempo parcial dinamizam-se as atividades e garantem-se os níveis de ocupações rurais e a renda dos produtores familiares. Além disso. dependentes das condições econômicas externas propiciadas pela divisão do trabalho e pela sua integração às cadeias produtivas agroalimentares. em muitos casos. É a pluriatividade que tem dado aos produtores familiares a possibilidade de permanecer estáveis. Em virtude da pluriatividade e do trabalho parcial. n.

abril de 2004 . uma grande diversidade de formas sociais (WANDERLEY. Essa visão. Outros autores também fizeram referência a essa questão. uma vez que. O ponto de partida dessa nova perspectiva é o conceito de agricultura familiar. circunscreve e vincula esse sistema de produção apenas às atividades agrícolas. para representar o sistema de produção que articula os processos de trabalho de caráter familiar e que tinha várias denominações: agricultura camponesa. ao mesmo tempo em que é proprietária dos meios de produção. nível técnico. deu lugar a uma discussão mais ampla que contempla a integração da produção familiar às cadeias produtivas e às economias locais. Florianópolis: EDUFSC. 1996). os temas pluriatividade e agricultura em tempo parcial aparecem como elementos decisivos na estabilidade do emprego e da renda das unidades familiares de produção. portanto. Lamarche (1993) afirma que as explorações agrícolas familiares não constituem um grupo social homogêneo e. Nesse caso. uma vez que. capacidade financeira etc. a exploração familiar não é um elemento da diversidade. agricultura familiar de subsistência. em um mesmo lugar e em um mesmo modelo de funcionamento.205-223. p. ainda permanece atrelada às idéias da igualdade entre o rural e o agrícola. as explorações dividem-se em diferentes classes sociais segundo suas condições objetivas de produção (superfície. conceitualmente. Produção familiar x agricultura familiar: muito além da semântica Nos últimos anos. Saraceno concluiu que a lógica tradicional do debate sobre a persistência da produção familiar. Nesse sentido. Revista de Ciências Humanas. assim definida. assentada na função básica de subsistência e no seu grau de eficiência.35. toda exploração familiar define-se. ao mesmo tempo em que estimulam a permanência das famílias nas áreas rurais. mas contém nela mesma toda essa diversidade. grau de mecanização. mesmo procurando apresentar um significado novo. no Brasil. a expressão “agricultura familiar”. n. em um modelo de funcionamento e em uma classe social no interior desse modelo. consolidou-se. entendida como aquela em que a família. No entanto. assume o trabalho no estabelecimento produtivo.Lauro Mattei — 213 Dessa forma. pois a combinação entre propriedade e trabalho assume. ao mesmo tempo. essa categoria é necessariamente genérica. pequena produção etc.). no tempo e no espaço.

o Projeto FAO/INCRA (1994 e 1996)8 definiu os elementos centrais da agricultura familiar e elaborou uma tipologia desse sistema de produção para o conjunto dos estabelecimentos agropecuários do país. n. abril de 2004 . c) Não tinham empregado permanente e cujo número médio de empregados temporários era menor ou igual a quatro ou com um empregado permanente e número médio de empregados temporários menor ou igual a três. com características determinadas pela sua maior ou menor participação nas atividades econômicas e sociais. p. acessar <www. ou seja. Partindo do princípio de que a promoção da agricultura familiar como linha estratégica de desenvolvimento rural trará muitas vantagens para a sociedade brasileira. as seguintes condições: a) A direção dos trabalhos era exercida pelo produtor. No caso brasileiro. Revista de Ciências Humanas. Florianópolis: EDUFSC. consideraramse estabelecimentos familiares os que preenchiam.35.gov. Na verdade. sendo que cada tomada de decisão importante é resultante de duas forças: uma que representa o peso do passado e da tradição e a outra. observa-se que as atuais definições de “agricultura familiar” procuram englobar os diferentes sistemas de produção que se multiplicaram a partir da desintegração do campesinato tradicional e que se expressavam em generalidades que vão desde a simples produção de subsistência até a agricultura familiar modernizada e integrada à dinâmica agroindustrial. b) Não realizaram despesas com serviços de empreitada. a atração por um futuro materializado pelos projetos que ocorrerão no porvir. Foi a partir dessa diversidade que emergiram os conceitos atuais. Vejam-se alguns dos principais enfoques em debate. o funcionamento da exploração familiar deve ser compreendido dentro dessa dinâmica. sua capacidade de reprodução deve ser analisada conjuntamente nesses dois níveis. a presença desse conjunto de agricultores com distintas inserções nos processos produtivos agrícolas é vista como uma ruptura com o passado. Nessa nova concepção. d) Tinham área total menor ou igual a 500 hectares para as regiões Sul e Sudeste e mil hectares para as demais regiões. pois possibilitou a emergência de um “novo agricultor”.214 — Sistema familiar de produção: algumas questões para o debate Dessa maneira. __________________________________________________ 8 Projeto de Pesquisa Financiado pela FAO e que tem o INCRA como órgão coordenador.br>. simultaneamente.205-223. Para maiores detalhes.incra.

020.Lauro Mattei — 215 A partir desses critérios. operários. 1. que diz textualmente que “a renda monetária bruta foi obtida pela diferença entre as receitas e as despesas provenientes das atividades agropecuárias. essa posição choca-se com a visão da “Escola Francesa”. estratificaram-se os estabelecimentos familiares e obteve-se a seguinte classificação: 2. Florianópolis: EDUFSC. A metodologia adotada reforça a afirmação que se fez no início desse item. principalmente para aqueles considerados periféricos. Após esse trabalho pioneiro. dos 5. e 1. Não é objetivo aqui tratar desse tipo de problema. Em outros termos. porém muitos deles continham sérias imprecisões. que serviu de base para toda a estratificação da agricultura familiar. seriam necessários outros tipos de políticas públicas. isso significa que essa denominação ou tipologia de agricultura familiar diz respeito apenas às atividades agrícolas que estão sendo desenvolvidas pelas unidades familiares de produção. empregados e aposentados aparecem na sociedade rural. que esta “nova” visão não se dissocia do modelo anterior.168.16).000 foram considerados periféricos. considerada aqui como a responsável pela dotação de estatuto teórico à categoria da “Agricultura Familiar”.000 foram classificados como consolidados.339.809 estabelecimentos existentes no Censo Agropecuário de 1985.000 foram enquadrados como estabelecimentos em transição. chegou-se a conclusão que. sendo que. p.205-223. Esse aspecto pode ser abstraído do próprio relatório FAO/INCRA. Para essa escola. Utilizando-se como parâmetro a Renda Monetária Bruta (RMB). 4. o primeiro aspecto a ser ressaltado é a RMB.150. para aqueles considerados periféricos. De certa forma. De posse dessa classificação geral.053 eram estabelecimentos familiares. abril de 2004 . definiu-se que as políticas governamentais para a agricultura familiar deveriam contemplar o segmento dos estabelecimentos em transição. p. ignorando-se por completo o papel de qualquer outro tipo de atividade que possa gerar ocupação e renda para importantes parcelas dos estabelecimentos agropecuários de caráter familiar. mas sim discutir a questão de fundo que está implícita nessa nova denominação da produção familiar. novos grupos sociais formados por administradores. n. exploração mineral e outras receitas” (1996.801. generalizou-se a construção de tipologias semelhantes em um grande número de estudos sobre agricultura familiar. Nesse sentido. excluídas as receitas relativas a serviços prestados a terceiros. Revista de Ciências Humanas. uma vez que ainda considera o “agrícola” como elemento central e único. definidor do processo produtivo familiar.35.

o lugar e o papel da exploração familiar não podem mais ser pensados sob o único ângulo das relações de produção agrícola (LAMARCHE. os quais se tornam operários. engenheiros. Nesse cenário. Revista de Ciências Humanas. a pluriatividade assume um papel decisivo. com as mudanças ocorridas tanto na organização social familiar como nas condições que regem a integração da agricultura à economia global. cultiva-se o ideário da igualdade entre unidade de produção e família. tanto a identidade entre família e exploração quanto a exploração agrícola como locus exclusivo de atividades dos membros familiares estão em xeque. 1993). Ao pensar a realidade. assiste-se a um redimensionamento da estrutura social local e. p. ao se tornarem cada vez menos agrícolas. Com isso. Enfim. conseqüentemente. os sistemas de exploração intensivos detêm um certo poder de compra que não poderia ser obtido apenas no âmbito das relações de produção exclusivamente agrícolas. Além disso. Partindo do pressuposto de que se caminha em direção a uma “nova ruralidade”. Lamarche (1993) mostra que. Em síntese. busca-se a afirmação de uma nova identidade social rural. ao oferecer um complemento de trabalho e de renda às unidades familiares de produção. sob formas e segundo modalidades diversas. ou seja. seria importante considerar o que a “Escola Francesa” propõe para o segmento familiar. perdem suas especificidades. abril de 2004 . Então. o desenvolvimento de atividades externas à exploração. enquanto a agricultura vê sua característica familiar se dissolver. Florianópolis: EDUFSC. ou então atuar como elemento de modernização e de desenvolvimento das próprias unidades de produção. diz respeito a uma proporção crescente da população rural. empregados.216 — Sistema familiar de produção: algumas questões para o debate Com isso. de manutenção da exploração. Nesse caso. Do ponto de vista financeiro. Todavia.35. n. professores. o seu caráter é diverso. graças às receitas externas. a noção de agricultura familiar repousa sobre a idéia de uma identidade entre família e exploração. em que as atividades exclusivamente agrícolas não são mais o elemento central. os agricultores já estão tomando consciência de que a agricultura não ocupa mais o lugar privilegiado que deteve na sociedade em outras épocas. essa identidade está sendo fortemente questionada. a um sensível declínio da hegemonia agrícola nas sociedades rurais. uma vez que ela não atrai mais os filhos dos agricultores.205-223. porque as famílias. em que a pluriatividade é um meio muito eficaz nessa transição. podendo ser uma estratégia de reprodução social. funcionários públicos etc.

abril de 2004 . como evidência de impossibilidade desse tipo de produtor de assimilar as novas demandas e a própria lógica do mercado. segundo Carneiro (1997). esse novo programa governamental foi concebido para uma parcela de agricultores que supostamente estão mais qualificados para se tornar os “verdadeiros agricultores”. por alguns segmentos. o seu enquadramento em uma categoria social periférica reforça e cristaliza a marginalização de grande contingente da população rural cuja sobrevivência dependerá das políticas sociais.Lauro Mattei — 217 O segundo aspecto diz respeito ao público-alvo preferencial das políticas setoriais. No caso brasileiro. a incapacidade da unidade familiar de se sustentar exclusivamente das atividades agrícolas é vista. A proposta original adotou como beneficiários prioritários os agricultores classificados como consolidados e na categoria “em transição”.35. p. segmento que. Somente a partir das reformas na PAC. além de não ter capacidade para incorporar as inovações tecnológicas. no final dos anos 1960 e início dos anos 1980. apresenta um potencial de viabilidade econômica muito grande. ou seja. Naquela época e naquele contexto. oportunidades de trabalho em outros setores do meio rural. aqueles que conseguem ocupar a mão-de-obra familiar e gerar rendas exclusivamente a partir das atividades agrícolas. Já a categoria dos “periféricos” não foi enquadrada nos requisitos do programa. Por conseguinte. De certo modo. sem que lhe seja concedida à oportunidade de participar do desenvolvimento rural. independentemente de eles serem ou não pluriativos. essa visão foi alterada e passou-se a dar o mesmo tratamento ao conjunto dos agricultores. ficando à espera de outras ações específicas de políticas públicas. n. __________________________________________________ 9 Dificuldade de empregar toda mão-de-obra na unidade de produção. excluindo-se aqueles segmentos que. sendo que os agricultores que a praticavam eram excluídos dos benefícios concedidos pela Política Agrícola Comum (PAC). sazonalidade do trabalho essencialmente agrícola etc. Na verdade. embora não consolidado.205-223. implementada pela Comunidade Européia. a pluriatividade era vista como uma atividade essencialmente negativa. acabam se envolvendo com atividades não-agrícolas como forma de complementar a renda. fato que aprofundará ainda mais o abismo entre as camadas sociais do campo. É amplamente reconhecido que a tipologia do estudo FAO/ INCRA serviu de base para a formulação do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF). Revista de Ciências Humanas. essa opção do PRONAF pela tipologia desenvolvida pelo Projeto FAO/INCRA é um retorno à visão européia dos anos 1960 sobre os agricultores que exerciam atividades extra-agrícolas. por algum motivo9. Florianópolis: EDUFSC.

de maneira a incorporar também aqueles segmentos que combinam as atividades agrícolas com outros tipos de atividades.218 — Sistema familiar de produção: algumas questões para o debate Além disso. sustentando-se exclusivamente nas atividades agrícolas. quando ela destaca que é necessário ampliar a noção de produtor familiar. Nesse sentido. Por conseguinte. ao lazer e à proteção ambiental. principalmente em relação ao mercado de trabalho e à geração de rendas dos habitantes do mundo rural. impondo-se a necessidade de adotar um novo tipo de análise que contemple todas as dimensões das formas de produção. Revista de Ciências Humanas. abril de 2004 . ao se padronizar o “verdadeiro agricultor” como aquele que consegue obter sua renda exclusivamente das atividades agrícolas. Hoje. Para tanto. e disso emergem novas formas diversificadas de produção que incluem desde a produção agrícola até um conjunto de atividades relacionadas aos serviços. Na verdade. endossam-se aqui as formulações de Carneiro (1997). as análises agora precisam dar conta de um conjunto de novas atividades.205-223. Nesse sentido. a tese aqui defendida procura ampliar as definições de agricultura familiar. já há novas formas de utilização do espaço rural que levam a uma desarticulação dos laços tradicionais da agricultura como atividade econômica soberana do mundo rural. responder integralmente às demandas do mercado. Florianópolis: EDUFSC. pois se entende que os espaços do sistema de produção familiar não se circunscrevem exclusivamente aos limites específicos do setor agrícola. elementos fundamentais nas atuais circunstâncias para se manter as pessoas no meio rural e elevar seus níveis de vida. p. Isso implica considerar a pluriatividade uma condição para manter a população no campo e também para viabilizar as unidades produtivas familiares que não conseguem. o rural transcende as fronteiras do agrícola. esse fato representa a perda do monopólio da agricultura como atividade econômica. Esse processo provoca uma enorme diferenciação de oportunidades. Em função disso. é fundamental compreender que as mudanças em curso no meio rural colocam novos elementos que impedem a generalização da definição de “agricultura familiar” como a única atividade econômica responsável pela dinamização das ocupações rurais e geradora de renda.35. exclui-se qualquer possibilidade de se combinar atividades agrícolas e extra-agrícolas como forma de geração de emprego e de renda. n. os quais causam impactos diretos no mundo do trabalho rural. normalmente associadas aos novos padrões de consumo das sociedades. por motivos vários.

) incorpora-se às atividades econômicas das propriedades. nesse novo cenário. abril de 2004 . na visão da autora. geralmente no âmbito das economias regionais.Lauro Mattei — 219 Dentre as questões chave que impactam o rural. gerando novas formas de ocupação da mão-de-obra e novas fontes de rendimento. Essas são. destacam-se o aumento da demanda por novos produtos (normalmente naturais e de qualidade superior) – o que leva à formação dos nichos de mercados –. p. É nesse sentido que o espaço rural não pode mais ser definido somente a partir de suas relações produtivas assentadas exclusivamente nas atividades agrícolas. as quais integram a produção familiar ao seio da economia local e regional. passaram por um certo revigoramento e começam a ganhar para si a adesão de pessoas das cidades. Nesse caso. as principais razões para que as tendências e escolhas que afetam as áreas rurais não sejam estudadas de forma isolada daquilo que está ocorrendo nas áreas nãorurais. as áreas rurais aumentam sua competitividade no âmbito econômico. esse conceito expressa a idéia de que uma série de valores típicos do velho mundo rural. conduzindo à formação de redes que operam nas economias locais. Segundo Saraceno (1994). Por outro lado. n. e uma remodelação da forma de inserção das economias locais no contexto econômico regional e nacional. Florianópolis: EDUFSC. Dentre as principais razões para que isso ocorra. salientam-se a crescente segmentação da demanda por certos produtos no mercado mundial (grupo de produtos padronizados e com demanda estável e grupo de produtos segmentados e com demanda variável). uma série de recursos rurais (edificações. uma vez que a realocação espacial das atividades está relacionada ao contexto econômico maior. a incorporação da variável ambiental na agenda de trabalho. mas ter em conta a multiplicidade de atividades econômicas que são desenvolvidas. principalmente de transportes e de comunicações. paisagem natural etc. e que se pensava estarem em vias de extinção. a maior cooperação entre as empresas. Revista de Ciências Humanas. e a atratividade das áreas rurais para determinados segmentos da população que não encontram mais oportunidade de trabalho no meio urbano. uma perspectiva analítica exclusivamente urbana não seria suficiente para explicar o que está ocorrendo nas áreas rurais 10. as novas oportunidades geradas a partir da melhoria da rede de infra-estrutura. __________________________________________________ 10 É neste sentido que alguns autores passam a adotar o conceito genérico de “neo-ruralismo”.35.205-223. Segundo Giuliani (1990).

Além de ele oferecer ar. turismo. Há um conjunto de atividades não-agrícolas que responde cada vez mais pela nova dinâmica populacional do meio rural brasileiro. enquanto a PEA agrícola diminuiu. hotéis-fazenda. no espaço localregional. residência e de um conjunto de outras ocupações tipicamente urbanas (motoristas. contudo.35.). de produção artesanal. principalmente em função de que a visão histórica tradicional desse setor como promotor apenas da subsistência básica deixou de ser a mais relevante. Os dados das PNADs da década de 1990 revelam que a PEA rural cresceu. n. observa-se que a produção agrícola não fornece a maior parte da renda familiar. Para Muller (1995). ao discutir a evolução atual da agricultura brasileira. A explicação para esse contraste está no vigoroso crescimento verificado da população economicamente ativa ocupada em atividades não-agrícolas residente no meio rural brasileiro. podem-se observar melhor as novas funções que esse sistema de produção vem desempenhando nos últimos períodos. Procedendo dessa maneira.5% aa. pedreiros etc. Por um lado. água. dentre elas destacando-se as atividades de lazer (pesque-pague. diversos autores vêm dando ênfase à necessidade de um redimensionamento das análises do espaço rural. entende-se ser necessário ampliar o horizonte analítico para além do dualismo da teoria clássica. concluiu que não se pode mais caracterizar a dinâmica do meio rural brasileiro como determinada exclusivamente pelo seu lado agrário. Já Graziano da Silva (1997). o espaço rural não mais pode ser pensado apenas como um lugar produtor de mercadorias agrárias e ofertador de mão-de-obra. Florianópolis: EDUFSC. de preservação ambiental. de turismo. abril de 2004 . cujas taxas foram da ordem de 3. Considerações finais Quanto à polêmica sobre a persistência da produção familiar. isso se deve às “novas funções” e às “novas atividades” que se expandem pelo mundo rural. mecânicos. uma vez que o comportamento do emprego rural não pode mais ser explicado apenas a partir do calendário agrícola e da expansão e retração das áreas e da produção agropecuária. Revista de Ciências Humanas. Em grande parte. visando a apreender o conjunto das transformações. p. chácaras de final de semana etc. combinar postos de trabalho com pequenas e médias empresas.220 — Sistema familiar de produção: algumas questões para o debate No Brasil. oferece também a possibilidade de.). lazer e bens de saúde.205-223.

e a emergência de atividades denominadas genericamente de “fundos de quintal”. a emergência de um conjunto de novas atividades até há pouco tempo sem importância como atividades econômicas (pesque-pague. turismo rural etc. tendo em vista que a exploração agrícola. n. É exatamente nessa direção que se julga necessário ampliar o conceito de agricultura familiar para além da fronteira agrícola stricto sensu. São precisamente essas características que fazem o “rural” ser bem mais amplo do que o “agrícola”. entende-se que a denominação “Produção Familiar” para designar o segmento social de produtores de caráter familiar – que já não alocam mais sua força de trabalho e definem suas estratégias de reprodução exclusivamente a partir das atividades agrícolas – é a mais correta. deixou de ser hegemônica. devido aos problemas enfrentados pelos grandes centros urbanos. na maioria dos casos. colocando a economia rural em um novo patamar nas suas relações com as economias locais e regionais.). Nesse caso. em que se processam e comercializam produtos de origem agropecuária ou finalizam-se partes de outros produtos. como atividade exclusiva do mundo rural. surge um conjunto de novas atividades que interagem com o sistema familiar de produção. Esse fato obriga a repensar o próprio conceito de agricultura familiar. É nesse sentido que se entende que os espaços da produção familiar vão muito além dos limites do mundo agrícola. tanto em termos de produção como em termos de geração de renda e de emprego. Florianópolis: EDUFSC. ainda predominem as atividades agrícolas. por estar em sintonia com as transformações do capitalismo agrário contemporâneo. como é o caso das indústrias de confecções e de malharias. com destaque para as questões da pluriatividade. embora. emergem novos temas e novas relações de produção no ambiente socioespacial onde a produção familiar insere-se. abril de 2004 . da agricultura em tempo parcial e da multifuncionalidade. como locus exclusivo das ocupações produtivas do conjunto dos membros familiares. Essa nova dimensão da dinâmica econômica e social rural – que rompe com a associação do rural ao agrícola – é dada por uma série uma série de fatores. Nesse espaço.Lauro Mattei — 221 Nesse caso. p. as quais se transformaram nos elementos fundamentais de ligação entre os dois assuntos tratados neste estudo. destacam-se a busca de novas oportunidades de trabalho e de lazer no meio rural. Revista de Ciências Humanas.35.205-223. Dentre eles.

205-223. Brasília: Projeto UTF/BRA/036.. 1994. GOODMAN. W.1-24. Brasília. 1980. 1991. p. 1985. Capitalism. abril de 2004 . M. FRIEDMANN. v. GIULIANI. FAO/INCRA. e a implementação de uma rede de infra-estrutura básica no meio rural que possibilita a instalação de novas empresas nesse ambiente. Towards a new political economy of agriculture. Diretrizes de política agrária e desenvolvimento sustentável. destacam-se o fim da dicotomia tradicional entre as atividades de característica especificamente urbanas e rurais – o que possibilita a ocupação produtiva dos trabalhadores rurais sem que ocorram as migrações –. Perfil da agricultura familiar no Brasil: dossiê estatístico. Referências bibliográficas CARNEIRO. 1997. n. as novas formas de ocupação do espaço rural.20.3/4. H.XXV. Revista de Ciências Sociais. n. n.222 — Sistema familiar de produção: algumas questões para o debate Dentre essas mudanças. Neo-ruralismo: o novo estilo dos velhos modelos. Household production and the national economy: concepts for the analysis of agrarian formations. In: FRIEDLAND. Campinas.35. Sociologia Ruralis.158-184. Revista de Ciências Humanas. e REDCLIFT.. p. v. Brasília: Projeto UTF/BRA/036. 1990. state and family farm: social bases of household production in the era of wage labour. Comparative Studies in Society and History. G.7(2).33-53. n. Brasília-DF: SOBER. M. Journal of Peasant Studies. p. Shaping the new political economy of advanced capitalist agriculture.545-585. FRIEDLAND. FAO/INCRA. Ruralidade: novas identidades em construção.1-24. o desenvolvimento de uma série de atividades de lazer e de serviços. W. D. 1996.14. p. p. J. Florianópolis: EDUFSC. Boulder: Westview Press. World market. Anais. et al. 1997. p. SP: Editora da UNICAMP. GRAZIANO DA SILVA. XXXV CONGRESSO BRASILEIRO DE ECONOMIA E SOCIOLOGIA RURAL. M. A nova dinâmica da agricultura brasileira. v. J. H. petty commodity production and the farm enterprise. FRIEDMANN.4. 1996. não necessariamente vinculadas às atividades agrícolas. 1978.

n. 2000 (Texto para Discussão n° 4).. Campinas. (Coord.43-81. L.308-328. XX ENCONTRO ANUAL DA ANPOCS. n.4. n. Obstacles to the development of a capitalist agriculture. Tese (Doutorado). [inicial]. WANDERLEY. Universidade de Campinas/ IE. MANN. S. The modern functions of small farm system: an Italian experience. G. S. 1990. 1996. p. H.223-247. p. Sociologia Ruralis. 1995. 1999. 1994. O novo rural brasileiro.34. Brasil agrário: heranças e tendências. A. Florianópolis: EDUFSC. Agrarian capitalism in theory and practice. Anais. J. Introdução geral. São Paulo. v. Campinas. H. p.35. Revista Nova Economia.Lauro Mattei — 223 GRAZIANO DA SILVA. abril de 2004 .. 1997. In: LAMARCHE. Chajul Hill & London. MÜLLER. The University of North Caroline Press. v. p. Raízes históricas do campesinato brasileiro. E. Fundação SEADE. n. Brasil em Artigos. Journal of Peasant Studies. L. (Recebido em março de 2003 e aceito para publicação em outubro de 2004) Revista de Ciências Humanas. 1993. Novas dimensões sócio-econômicas do espaço rural brasileiro.7. B. Caxambu (MG). MATTEI. A agricultura familiar: comparação internacional.467-481. SARACENO. M. A. São Paulo.1. e DICKINSON. 1996.). Florianópolis (SC): UFSC/CSE/Economia. p. LAMARCHE. Pluriatividade e o desenvolvimento rural no Estado de Santa Catarina. MATTEI.5.205-223. 1978. N. SP: Editora da UNICAMP. MANN.

A utilização genérica do termo pode reduzir a compreensão de tais processos no atual contexto. In such a context the possibility of ascending social mobility is reduced. Revista de Ciências Humanas. em especial os acontecidos nas últimas décadas.br). Centro. in addition to the direc- Nomad migrants: arriving.Migrantes-nômades: chegar. 07. leaving. partir ou ficar?* Sirlândia Schappo 1 Universidade Estadual de Campinas Resumo Este artigo analisa a insuficiência do termo “êxodo rural” para definir os deslocamentos populacionais que emergem. SC. p. CEP 88430-000 (sschappo@bol. or staying? Endereço para correspondências: Rua Senador Konder Reis.225-240. as well as the occurrence of new displacements. The generic use of that term prevents one from a suitable understanding of population displacements in the present social context. o qual corresponde à redução das possibilidades de mobilidade social ascendente e à emergência de novos deslocamentos que relativizam os chamados pontos de “partida” e de “chegada”. n. Florianópolis: EDUFSC. abril de 2004 . __________________________________________________ * 1 Abstract This paper aims at arguing that the term “rural exodus” is not able to account for the displacements of populations that occurred in last decades.com. in which the so-called points of “departure” and “arrival” are relative. Petrolândia.35.

Palavras-chave: Migração. p. pretende-se refletir sobre a insuficiência da utilização genérica do termo êxodo rural para explicar os deslocamentos populacionais no atual contexto. com os “desenraizamentos” das populações rurais ocorridas na década de 1960 no Brasil.35. Compreende-se que o termo refere-se à migração rural-urbana frente às perspectivas de “ascensão social” vislumbradas no local de destino por parte dos migrantes. Keywords: M i g r a t i o n .225-240. Revista de Ciências Humanas. em especial na Mesorregião Oeste de Santa Catarina. pode-se observar que eles vêm adquirindo (já a partir dos anos 80 e principalmente na década de 1990) novos contornos marcados por direções acentuadamente “indefinidas”. A forma pela qual a migração tem se desenhado. Por que Migrantes-nômades? Primeiramente. êxodo rural. Neste sentido. por exemplo. and what the social. ao se contextualizar tais deslocamentos em sua diversidade e heterogeneidade. busca-se esclarecer a opção pelo termo migrantes-nômades frente a uma gama de expressões utilizadas para denominar os deslocamentos populacionais. Porém. Pode-se aferir que as alternativas de reinclusão rápidas dos migrantes no mercado de trabalho são cada vez mais reduzidas. A o adentrar na análise das expressões do fenômeno migratório na atualidade. r u r a l exodus. political problem of migration is like today. instiga um debate sobre os pressupostos que norteiam as discussões sobre o tema e o que viria a ser hoje o problema social e político da migração. como abandono dos campos. busca-se destacar questões pertinentes ao contexto sócio-econômico que incidem nas novas dimensões e recentes configurações dos deslocamentos populacionais. em especial os de origem rural. Especially in the Brazilian region called “Mesoregião Oeste de Santa Catarina” the way population migrations take place raises a question about the very presuppositions of the discussions dealing with this topic. partir ou ficar? bem como o percurso rural-urbano de um processo migratório. Florianópolis: EDUFSC. abril de 2004 . tion taken by the migratory process (from rural to urban areas). em comparação. n.226 — Migrantes-nômades: chegar.

se ele pode. encontrar seu caminho na vida citadina ou estabelecer-se em uma terra no campo. a passagem de uma civilização camponesa tradicional a uma civilização industrial tecnicista e urbanizada”. utilizada com freqüência.225-240. não oferecem. seria o resultado de uma avaliação por parte de quem se põe em “movimento”. abril de 2004 . onde continuam a exercer seu ofício. o deslocamento de agricultores do seu local de origem para outras regiões. onde encontre um ganha-pão suficientemente remunerador. além da migração rural-urbana. e o movimento do êxodo começa a funcionar (MENDRAS. O êxodo. Para Mendras (1978. p. recriar os laços. diante do que ele denominou perda de vitalidade da sociedade aldeã e a possibilidade de um ambiente acolhedor a sua espera: Se a sociedade aldeã perde toda vitalidade e a aldeia abandonada não é mais que um teatro de sombras. se é possível refazer aí sua identidade social. __________________________________________________ 2 O próprio Mendras (1978) reconhece que o que ocorre nos países do terceiro mundo não pode ser comparável ao contexto da Europa no século XIX. no Oeste Catarinense. apresenta o que Mendras (p. n. ao mudar de ofício.172). êxodo rural. na mesma proporção. outro limite é a utilização do termo “êxodo rural” para os países do terceiro mundo. Entretanto. apesar de receberem um fluxo considerável de população.Sirlândia Schappo — 227 êxodo rural e evasão. se mais adiante um ambiente acolhedor o espera.166) êxodo rural restringe-se ao movimento de massa que conduz os camponeses às cidades industrializadas.35. ou seja. Revista de Ciências Humanas. Florianópolis: EDUFSC. pode limitar os movimentos demográficos à passagem de um meio tradicional para um meio técnico urbanizado. 1978.166) denominou “migração de agricultores”. o emigrante se instala. Um exemplo disso é o grande número de ex-agricultores familiares assentados nos projetos de reforma agrária e envolvidos no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). p. Uma delas. “A transferência para a cidade de populações rurais em uma época de rápida industrialização é. p. ao mesmo tempo. No entanto. para Mendras. Segundo o autor. a Mesorregião Oeste de Santa Catarina. onde as cidades. então. empregos em um mundo industrial2.

nas últimas décadas. no presente contexto. econômica ou política. aponta que todo ato migratório implica um lugar de origem. Dessa forma. na qual se destacam autores como Ravestein (1885) e Lee (1966). 1994.228 — Migrantes-nômades: chegar. CAMARANO e ABRAMOVAY.99). nas últimas décadas. como aponta o estudo de Jannuzzi (2000) sobre os migrantes no mercado de trabalho paulista. p. Nesse cenário. como “uma mudança permanente ou semipermanente de residência”. Esse deslocamento seria resultado de um cálculo racional dos indivíduos entre as perspectivas oferecidas na sociedade de destino e as condições prevalecentes na sociedade de origem.225-240. MARTINE. n. Contudo. A teoria clássica da migração. os pontos de “partida” e de “chegada” tornam-se relativos. é definido por Lee (1966. opta-se aqui pelo termo migrantes-nômades para caracterizar tais migrantes no atual contexto. p. a ênfase no fator determinante principal é variável. por isso. apresentando fatores de atração comparáveis àqueles dos anos de plena expansão. Revista de Ciências Humanas. 1999). a partir da década de 1950. 2000. conforme os diferentes períodos históricos. da industrialização no Brasil. No entanto. pode tornar-se um local de “origem” de um novo deslocamento. Uma possível evidência da diminuição dos fatores de atração é a redução dos fluxos migratórios. em breve. principalmente. abril de 2004 . os locais de “origem” e de “destino” tornam-se relativos. o autor. partir ou ficar? Tais restrições à utilização genérica de “êxodo rural” ampliaramse nas últimas décadas. como mencionado. cabe um questionamento no sentido de primeiro se averiguar se o “lugar de destino” continuaria. ao desmembrar tal conceito. busca ressaltar os condicionantes de atração e retração das áreas envolvidas em um deslocamento populacional.35. um lugar de destino e uma série de obstáculos intervenientes. a mudança é abordada como algo que representaria melhora nas condições de vida do migrante e destacam-se os pontos de partida e de chegada. Florianópolis: EDUFSC. para as áreas mais urbanizadas. a qual apontada por vários autores (JANNUZZI. Nesse enfoque. diante do contexto de aumento do nível e desemprego e das dificuldades de mobilidade social nos centros urbanos. O termo “migração”. no sentido de que o “destino” pode corresponder à chegada a um ambiente provisório que. Porém. no sentido genérico. Pode-se aferir que os estudos sobre migração congregam diferentes condicionantes dos deslocamentos populacionais. os quais são apresentados como sendo principalmente de ordem social.

na medida em que este atinge a agricultura. Revista de Ciências Humanas. p. Nesse sentido. Os fatores de mudança provocam um fluxo maciço de emigração que tem por conseqüência reduzir o tamanho absoluto da população rural. o próximo item aborda aspectos da atual conjuntura e da caracterização do fenômeno migratório. Singer (1976. as migrações internas como expressão da industrialização. Problemas sociais e políticos da migração Parte-se aqui do pressuposto de que a problemática social e política da migração não é inerente ao fenômeno em si. aumento da produtividade do trabalho. Os fatores de estagnação resultam da incapacidade dos produtores em economia de subsistência de elevarem a produtividade da terra. Migrar nem sempre representa uma mudança negativa nas condições de vida das pessoas. trazendo consigo mudanças de técnica e.225-240. em termos sociocupacionais. n. No entanto. Nesse enfoque. em conseqüência. p. Os fatores de estagnação levam à emigração de parte ou da totalidade do acréscimo populacional devido ao crescimento vegetativo da população rural. 224). as quais acompanhariam a estrutura de produção do capitalismo. Estudos mais recentes ressaltam a necessidade de incorporar em tais análises o caráter histórico e conjuntural das migrações. na conjuntura em questão. abandonar uma situação pior para alcançar uma mais positiva. bem como alguns pontos relevantes. abordando o país todo e não apenas os espaços duais de atração e repulsão. A origem das migrações estaria nas disparidades e desigualdades sociais geradas pela industrialização nos moldes capitalistas. 1976. p. 224) aponta que os fatores de expulsão que levam às migrações são de duas ordens: fatores de mudança e os fatores de estagnação3. assim. Singer (1976) destaca. Florianópolis: EDUFSC. o mais importante é a demanda por força de trabalho. cujo tamanho absoluto se mantém estagnado ou cresce apenas vagarosamente” (Singer.35.Sirlândia Schappo — 229 apontando-se o deslocamento como correspondendo a uma mobilidade social ascendente. no que tange aos estudos referentes aos deslocamentos populacionais. abril de 2004 . pois esse ato pode expressar uma alternativa melhor dentre as oportunidades de que o indivíduo dispõe. são os fatores de atração que determinam a orientação destes fluxos e que entre estes fatores. __________________________________________________ 3 “Os fatores de mudança fazem parte do próprio processo de industrialização. o autor destaca que apesar dos fatores de expulsão definirem as áreas de onde se originam os fluxos migratórios.

abril de 2004 . É o estreitamento das possibilidades de ascensão social. quando esses processos ocorrem em sociedades que estão passando por demorado período de estreitamento das oportunidades de vida.230 — Migrantes-nômades: chegar.. frente ao modelo de industrialização. as migrações internas no Brasil seguiram basicamente dois rumos: as fronteiras agrícolas e os centros urbano-industrializados. A década de 1980 já apresentava sinais de uma menor capacidade de absorção do mercado de trabalho. p. 2000. VAINER. Tal perfil histórico dos deslocamentos populacionais é evidenciado por vários autores (SALES e BAENINGER. a desigualdade entre os plenamente incluídos em relação àqueles cuja inclusão se situa à margem dessa mesma sociedade. partir ou ficar? O problema principal da migração encontra-se hoje na dificuldade de absorver essa população no mercado de trabalho. via substituição de importações. Jannuzzi (2000) refere-se os anos 1990 como década “mais do que perdida”. mas são relativos aos empecilhos à migração de uma posição social a outra. MARTINE. 2000.) Talvez devamos entendê-las como deslocamentos sociais que se tornam problemáticos para o próprio ser humano. ou seja. no interior da sociedade. em termos de mobilidade. em uma conjuntura que se caracteriza pelo estreitamento das oportunidades de vida. Entre as décadas de 1930 e 70. Nesse contexto. Revista de Ciências Humanas. no sentido de ascensão social. como a nossa.35. Conforme diz Martins (1998. na dificuldade de reinclusão. A problemática estaria. na criação de emprego. 1994). a diminuição das migrações rural-urbanas e um aumento populacional em cidades médias e pequenas.. No entanto. (.31): Os problemas que aparecem não são relativos à migração de um lugar para outro. cria-se uma nova desigualdade. nas últimas décadas.225-240. em comparação com a relação entre dinamismo. marcando um período de intenso deslocamento populacional rural-urbano. Florianópolis: EDUFSC. esse percurso tem indicado alguns limites: o esgotamento das fronteiras agrícolas. p. e a alta intensidade de migrantes das décadas anteriores. n. segundo esse autor.

reemigração daqueles menos capacitados. aponta para dificuldades crescentes nesse sentido. dentre outros fatores. substrato este que incluiria não somente os trabalhadores volantes e bóiasfrias. Esse autor. p. Enquanto. 1980.225-240. a existência de um substrato de verdadeiros nômades na população brasileira. p. 2000.Sirlândia Schappo — 231 A recessão ocorrida no início da década e seus efeitos sobre o nível de emprego. Nesse contexto. A sociedade brasileira estaria presenciando a transição de um regime de mobilidade social ditada menos pela mobilidade estrutural e cada vez mais pela mobilidade circular4. aliados àqueles decorrentes da abertura comercial.. Florianópolis: EDUFSC. de outro. ao analisar as possibilidades de ascensão social nos anos 80 e início dos anos 90. as possibilidades de movimentos. p. têm-se dado no sentido de troca de posições entre ocupados.35. contribuíram para que as taxas de expansão das ocupações nos anos 90 se mantivessem mais baixas do que na década anterior e para que o desemprego se tornasse um grave problema estrutural. na década de 80. Revista de Ciências Humanas.99). mas também outros itinerantes em busca de uma difícil subsistência (MARTINE. em direção a outras regiões: [. poder-se-ia postular. esse nível já atingia 6% do conjunto dos migrantes (JANNUZZI. em 1993. n. O cenário aponta para a acentuação da mobilidade dos migrantes já descrita por Martine em 1980: de um lado. inclusive.18). frente ao desenraizamento das populações rurais observadas nos anos 1960 no Brasil.] A hipótese de retenção seletiva dos elementos mais capacitados (ou da migração repetida nos segmentos populacionais mais marginalizados) parece mais aceitável. absorção dos mais aptos a competir no mercado de trabalho e. desregulamentação dos mercados e concorrência. o nível de desocupados no Estado de São Paulo era inferior a 1%. os efeitos da competição individual no mercado de trabalho”. ou seja. Nota-se que os dados anteriores expressam uma conjuntura mais instável e desfavorável do mercado de trabalho nas últimas décadas.. ausência de uma política industrial. p. Com base nestas informações. __________________________________________________ 4 Segundo Jannuzzi (2000. as alternativas de reinclusão rápidas. ao longo da escala sociocupacional. são cada vez mais reduzidas. abril de 2004 . “A mobilidade estrutural refletiria os efeitos da mudança da estrutura composicional da mão-de-obra e a mobilidade circular.971). em que a subida de um decorreria da descida de outro.

p.29) duas características que marcam essa nova etapa: a) A fragmentação das ações – Renúncia do Estado Central ao estabelecimento de estratégias e políticas territoriais em escala nacional.232 — Migrantes-nômades: chegar. direcionamento.225-240. moradia etc. controles cada vez mais estritos à livre circulação dos indivíduos e ao uso da violência física ou simbólica. Nesse contexto. na formação da sociedade urbano-industrial. p. antes tidos como fundamentais para a acumulação do capital. “Constitui política migratória toda política que. as intervenções voltadas para contenção. No âmbito das políticas estatais na atualidade.30). Florianópolis: EDUFSC. direcionamento e deslocamento espacial da população têm configurado. partir ou ficar? Pode-se aferir que a hipótese do autor tende a se confirmar. tendo em vista o que se constata nas últimas décadas. inclusive industriais. estímulo. políticas territoriais que levem em conta questões mais amplas. o desenvolvimento da indústria nacional e outras. mais especificamente da política migratória6. ou seja. destacam-se políticas sociais. com o objetivo de gerenciar os excedentes populacionais no âmbito local e de forma dispersa. em relação à posse da terra. à existência da fome.. ordenamento e acompanhamento de deslocamentos espaciais de população”. Percebem-se. para fechar espaços. é considerada “problema social”5. p. ao grau de concentração. Revista de Ciências Humanas. Segundo Vainer (2000. objetivos e práticas relativas à contenção. são deslocadas para um segundo ou terceiro plano. como a distribuição de renda. O contexto é marcado ainda pela histórica perseverança das deficiências da estrutura e da questão agrária no Brasil. a baixos investimentos na agricultura. n. concentração na comercialização e industrialização dos produtos agrícolas. de forma explícita e direta. b) A violência como mecanismo de mobilização ou imobilização das populações – Vários municípios têm aplicado políticas ativas de segregação e fechamento do território a migrantes em busca de emprego. gera avaliações. de emprego etc.35. em vez de recurso econômico. __________________________________________________ 5 6 Vainer (2000) também aponta que o conceito de população como recurso cede progressivamente o lugar ao conceito de população como ônus – ou custo. assim. estímulo. Na agenda das políticas públicas. Observa-se que grande parte dos migrantes. abril de 2004 . reforma agrária. vê-se transformada naquilo que Benetti e Vainer (1998) denominaram de “estorvo”. geração. segundo Vainer (2000. geração. dentre outros fatores.

35. p. pode-se constatar que o percurso daqueles que se põem em movimento é freqüentemente marcado pela incerteza e insegurança em torno das possibilidades de ascensão social e também constituído por uma vivência marcada por constrangimentos à liberdade de escolha. e não consegue viver no e do mercado. limitando as possibilidades de escolha dos migrantes de permanecer em determinados espaços.Sirlândia Schappo — 233 A falta de políticas estruturais e territoriais mais amplas agrava os problemas ligados aos deslocamentos populacionais. deslocamentos de populações com história de vida demarcada por uma territorialidade. Nesse sentido. para construir a riqueza da nação. em breve.8): O nômade de antigamente foi capturado. Segundo Benetti e Vainer (1988. caracteriza-se como um problema político. p. Segundo Villela (1997. movimentos de retorno (por exemplo: de São Paulo para o Nordeste). __________________________________________________ 7 Observam-se. mas “aparece cada vez mais como prática de uma população com conteúdos de vivência territorial das mais variadas.225-240. o fenômeno adquire características particulares. O nomadismo7 revigora-se. levado para as fazendas. para as indústrias. forçado a integrar-se ao mercado. pois um ponto de chegada pode tornar-se.27): “O nômade não se desloca desde um ponto de partida até um ponto de chegada. constituindo-se numa prática migratória inerente ao modelo de desenvolvimento da era atual” (MENEZES. assim. mais do que social. n. no tocante às ações e opções que norteiam projetos e ideais de vida. dependendo dos espaços onde se processa. o problema da migração. diante das novas dimensões da migração. Florianópolis: EDUFSC. 2000. ele está em movimento absoluto. o que também quer dizer imobilidade. não mais tão caracterizado pelo caboclo que produzia o que consumia e consumia o que produzia ou pelas populações indígenas. mas que passam a se caracterizar como migrantes-nômades. Expressa-se o cenário de uma gama variada de fluxos migratórios: movimentos de curta distância. Nesse sentido. O paradoxo consiste justamente em que este nômade contemporâneo não pode mais viver fora do mercado. pois desde a sua perspectiva não há referencial fixo com relação ao qual se possa definir um movimento de afastamento ou aproximação”. um novo ponto de partida. de municípios urbanos para rurais e outros. p. Não efetua uma viagem de ida e de volta. mobilizado. Assim. dos espaços rurais para urbanos. Revista de Ciências Humanas. p. abril de 2004 .8).

nem sempre são apreendidas no âmbito das tendências gerais. de crédito. Florianópolis: EDUFSC.35. no entanto. Revista de Ciências Humanas. diante de escassas expectativas de melhoria nas condições de vida. por um lado. abril de 2004 . principalmente de agricultores da própria mesorregião. em sua grande maioria. a manifestação do desassossego. p. Tal fenômeno expressa. necessitando de estudos que aprofundem situações específicas. As alterações nas diferentes intensidades e espacialidades que envolvem os movimentos migratórios marcam as características recentes do processo de distribuição espacial da população no país. da luta pelo “direito a ter direito”. parte-se para alguns apontamentos sobre a dinâmica populacional de um espaço específico – a Mesorregião Oeste de Santa Catarina. Em especial. p.39). A mesorregião representa mais de 50% da produção agrícola do estado e caracteriza-se por sua evolução ser muito inferior à da população rural. como “esvaziamento dos campos” e outras do gênero. em relação ao estado e ao Brasil. O Oeste de Santa Catarina constitui-se. no entanto. direito à política agrária. que se deslocam para acampamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais SemTerra (MST). busca-se observar o movimento populacional interno. e da própria resistência pela opção de permanecer no meio rural. o deslocamento de migrantes-nômades que convivem num cotidiano de incertezas e por outro. n. Essas transformações. parte-se para a análise do fenômeno migratório em uma região específica e que se caracteriza como um espaço rural. Observando-se a importância de tal proposição.225-240. Desprezam-se expressões freqüentemente utilizadas. valorizam-se aspectos ligados à diversidade apresentada no interior da mesorregião analisada. partir ou ficar? Segundo Sales e Baeninger (2000.234 — Migrantes-nômades: chegar. de educação. A dinâmica populacional é observada em sua forma heterogênea. Migrantes nômades no Oeste de Santa Catarina Neste item. por estabelecimentos agrícolas de trabalho familiar.

Na década de 1990. na qual os menores estabelecimentos concentram os solos mais declivosos e pedregosos. dada a crise nacional que afetou a economia da Mesorregião Oeste. até mesmo. atraindo pessoas de outros municípios e outras regiões.225-240. ao do Brasil. Revista de Ciências Humanas. entre 1996 e 2000. ocorre mesmo com taxa média anual de natalidade maior no Oeste (2. p. o fenômeno migratório agravou-se. que passou para 1. n.36%) do que a estadual (2.12 a.a. taxa de crescimento negativa. mais especificamente e de forma mais intensa a partir de meados da década de 1990. O resultado disso foi um intenso processo de exclusão de suinocultores da atividade. o esgotamento dos recursos naturais e a redução da rentabilidade de alguns produtos tradicionais.. assim como no Brasil. que.. Agregando-se aos fatores conjunturais. -0. a mesorregião Oeste apontava crescimento de 1. com taxa de 0. com base em dados dos censos demográficos do IBGE.a. enquanto a taxa de crescimento da população entre 1980-1991. muitos municípios apresentaram crescimento da população rural superior ao do estado e.. ou seja..a. apesar de a taxa de crescimento em Santa Catarina ter reduzido.. a escassez de terras aptas para culturas anuais. pela redução da demanda por produtos agrícolas e pela diminuição do crédito para custeio e investimento agrícolas e agroindustriais. em relação ao estado. suínos e feijão (TESTA et al. que.a. mesmo diante de tal problemática. o que expressa acentuado e progressivo movimento de esvaziamento demográfico. apesar do “esvaziamento populacional” que tem caracterizado a mesorregião. Outros fatores no campo econômico contribuíram para a crise. 1996). como a diminuição do volume de crédito agrícola. Essa taxa inferior.94 a. a mesorregião Oeste teve redução bem mais acentuada. e.93 a.35. Florianópolis: EDUFSC. o esgotamento da fronteira agrícola e a estrutura fundiária excessivamente subdividida. como milho.35 a. chegando a apresentar.a. os fatores estruturais também agravaram a crise. era de 2. tendo em vista a grande distância dos principais mercados consumidores. Decresceu o consumo per capita do principal componente da agroindustrialização. de 1.73 a.17 a.a.Sirlândia Schappo — 235 Observa-se. ainda. a atividade suinícola.a.23%). abril de 2004 . o perfil de distribuição da população estudada revela. no Brasil. Todavia..29 a. em Santa Catarina. Entre 1991 e 2000. passando para 1.

habitação. ou seja. escola etc. 69. Revista de Ciências Humanas.225-240. Tais projetos têm representado. p. totalizando 2. a possibilidade de explicitar suas reivindicações pela ampliação das políticas públicas. obtidas por parte dos agricultores já assentados. Destaca-se que. em termos de acesso à terra e infra-estrutura. encontram algumas conquistas. Esses espaços congregam o conjunto de municípios considerados atraentes.35. Quanto às moças. em parte. as quais apontam para uma ampliação das políticas. por parte dos agricultores familiares. com destino a determinados municípios. Um estudo mais detalhado sobre a dinâmica populacional da mesorregião foi feito por Schappo (2003). Constata-se que duas microrregiões do Oeste Catarinense. No local de “chegada”. configura-se uma migração rural-rural. n. ou seja. Florianópolis: EDUFSC. o que corresponde a 75.2% são oriundas de Santa Catarina.236 — Migrantes-nômades: chegar. abril de 2004 . o que pode ser observado na figura seguinte: Percebe-se também que o meio urbano não condiz com o ideário futuro de grande parte dos jovens do Oeste Catarinense. sendo que.2% do total de famílias acampadas no estado. de origem oestina. destacam-se por apresentarem-se atraentes. no entanto. partir ou ficar? __________________________________________________ 8 Um dos fatores que têm contribuído para a diversidade na dinâmica populacional que caracteriza os municípios do Oeste de Santa Catarina é o deslocamento de agricultores para acampamentos do MST. O anseio dos agricultores por permanecer no meio rural é expresso pelo fato de a grande maioria das pessoas acampadas e assentadas nessas microrregiões serem da própria mesorregião. situados no interior da própria mesorregião. 69% dos rapazes desejam permanecer na agricultura como proprietários e apenas 20% anseiam trabalhar e morar na cidade.. 32% delas gostariam de permanecer na agricultura.413 famílias acampadas. além de terem sido agricultores familiares antes de assentados8. Segundo ICEPA (1998). Joaçaba e Xanxerê. onde tais migrantes-nômades descobrem. reflexo do grande número de projetos de assentamento e de acampamentos do MST lá existentes. Segundo Abramovay (2000). resistência frente ao abandono acentuado dos espaços rurais. via expressão dos movimentos sociais. 73. desse total. mesmo que não sejam imediatas. no interior da própria mesorregião. Tal fato pode ser. dessas famílias catarinenses. Assim.6% dos acampamentos de Sem-Terra do Estado estão localizados no Oeste de Santa Catarina. que atraíram um grande número de pessoas na última década. Esse cenário incentiva aqueles que para lá se dirigem a acreditar na melhoria das condições de vida. há desejo maior de trabalhar e morar na cidade (43%). cerca de 92% são da própria Mesorregião Oeste Catarinense. a partir de dados do INCRA (1997). como proprietárias.

migrantes-nômades – a maioria deles da própria mesorregião.302 famílias. destacando que 82.671). antes de serem assentados. em março de 2002. segundo o Índice de Gini (o qual passou. 1997. o cenário analisado expressa inter-relação dos processos migratórios e ampliação dos conflitos de terra. 68 localizavam-se no Oeste Catarinense. com 4. entre 1985 e 1995.67% deles eram agricultores ou camponeses. Assim. sendo que. Segundo ICEPA (1998).682 para 0. abril de 2004 54321 54321 54321 54321 54321 54321 54321 54321 54321 54321 54321 54321 54321 54321 54321 54321 54321 54321 432121098765432109876543210987654321 432121098765432109876543210987654321 432121098765432109876543210987654321 432121098765432109876543210987654321 432121098765432109876543210987654321 432121098765432109876543210987654321 432121098765432109876543210987654321 432121098765432109876543210987654321 432121098765432109876543210987654321 432121098765432109876543210987654321 432121098765432109876543210987654321 432121098765432109876543210987654321 432121098765432109876543210987654321 432121098765432109876543210987654321 432121098765432109876543210987654321 432121098765432109876543210987654321 43212109876543210910765654320987654321 684324321 1 5 9871 43212109876543210910765654320987654321 684324321 1 5 9871 43212109876543210910765654320987654321 2684324321 1 15 9871 43212109876543210910765654320987654321 2684324321 1 15 9871 43212109876543210910765654320987654321 2684324321 1 15 9871 43212109876543210610432654321 2184324321 1 15 9871 65 9871 43212109876543210910765654320987654321 29876543210987654321 43212109876543210910765654320987654321 2610432654321 18 9874321 1 5 9871 43212109876543210910765654320987654321 2184324321 1 15 9871 65 9871 43212109876543210910765654320987654321 2684324321 1 43212109876543210910765654320987654321 2684324321 1 15 9871 43212109876543210910765654320987654321 2684324321 1 15 9871 43212109876543210610432654321 2184324321 1 15 9871 65 9871 43212109876543210910765654320987654321 29876543210987654321 987 1 43212109876543210910765654320987654321 2684324321 1 15 9871 43212109876543210910765654320987654321 2610432654321 18 9874321 5 1 43212109876543210910765654320987654321 2184324321 1 15 9871 65 9871 43212109876543210910765654320987654321 2684324321 1 43212109876543210910765654320987654321 2684324321 1 15 9871 Fonte: INCRA.120 famílias. com 3. 95 assentamentos. expressivos deslocamentos caracterizam-se. deles. Os dados apontam ainda os beneficiários envolvidos em projetos de assentamento em Santa Catarina. da luta pelo “direito a ter direito”. Dados mais recentes mostram que.35. Nela. p. até março de 1998.225-240.33% dos projetos de assentamento. conforme o INCRA e a Superintendência Regional de Santa Catarina. Apesar de ter havido alguns avanços em termos de desconcentração da terra em Santa Catarina. em especial. à política agrária e à política de crédito rural. Figura 1 Origem das famílias acampadas na Mesorregião Oeste de Santa Catarina Norte Catarinense Oeste Catarinense Região Serrana Sirlândia Schappo — 237 Sul Catarinense . 29% das famílias de agricultores do Oeste podem ser consideradas “carentes de terra”. a Mesorregião Oeste Catarinense abrigava 78.61% das famílias assentadas em Santa Catarina e 68. de 0.Revista de Ciências Humanas. a demanda por terra no Oeste Catarinense ainda é grande. havia. n. no Estado. conforme dados dos censos agropecuários. por parte dos agricultores familiares. Florianópolis: EDUFSC.

Ricardo. Pontuou-se. abril de 2004 . locais que representam uma possibilidade. Texto para discussão n. CAMARANO.238 — Migrantes-nômades: chegar. partir ou ficar? rumo aos acampamentos e assentamentos. CAMARANO. n. Chegar. Carlos B. Referências bibliográficas ABRAMOVAY. VAINER. Texto para discussão n. sendo que a condição de migrantes-nômades permanece. set. p.225-240. Rio de Janeiro: IPEA. mas que revela o quanto a utilização genérica do termo êxodo rural – entendido como um deslocamento de uma sociedade rural para uma sociedade urbana industrial. ABRAMOVAY. em que um ponto de “chegada” pode tornar-se em breve um ponto de “partida” de um novo deslocamento. um caso específico de deslocamento populacional. de possibilidades de melhoria em termos de “ascensão social” – torna-se hoje insuficiente para dar conta da ampla variedade dos deslocamentos populacionais existente. envelhecimento e masculinização no Brasil: panorama dos últimos 50 anos.eco. IPEA. Rio de Janeiro: IPEA. Pablo. mesmo limitada ou incerta. para aqueles migrantes.br/ projetos/rurbanos>. Revista de Ciências Humanas. como resultado de uma avaliação.766. Êxodo rural. por parte daqueles que migram. partir ou ficar? – essas expressões revelam alargamento da indefinição do percurso de uma migração.unicamp. Acesso em: 02 nov. em especial.2. No entanto. o ponto de “chegada” pode se tornar em breve um local de “origem” de um novo deslocamento. BELTRÃO. Florianópolis: EDUFSC. Disponível em: <www. assim. Migrações e metrópoles. O local de “chegada” pode significar. tendo em vista a morosidade nos processos de formulação e implementação de políticas públicas destinadas ao meio rural. n. IPEA./dez. de acesso à política agrária e à política agrícola. 2000. 1988. BENETTI. à política agrária. num contexto de estreitamento das possibilidades de ascensão social. Ana Amélia. 1999. Ricardo et al. 2000. São Paulo. 2002. Ana Amélia. Kaizô Iwakami. 621. ampliação (ou possibilidade de ampliação) das oportunidades de melhores condições de vida. Travessia: Revista do Migrante. Agricultura familiar e sucessão profissional: novos desafios. Distribuição espacial da população brasileira: mudanças na segunda metade deste século.35.

Acesso em: nov.69. Adaptação dos migrantes ou sobrevivência dos mais fortes?. Hélio A. Uma teoria sobre a migração.Sirlândia Schappo — 239 INSTITUTO NACIONAL DE COLONIZAÇÃO E REFORMA AGRÁRIA. MARTINE. Rio de Janeiro: Zahar Editores. As leis da migração. 2000. O problema das migrações no limiar do Terceiro Milênio.35. 1966-1980.es/geocrit/sn-69-45. de Moura. abril de 2004 . 01 de agosto. Everett S. São Paulo. In: Migrações internas no Brasil. George.225-240. Paulo de Martino.ub. Scripta Nova Revista Eletrônica de Geografia y Ciências Sociales. Maria José da Silveira Lindoso. Trad. 1978.htm>.36. SALES. Petrópolis. 2000. MARTINE. JANNUZZI. Revista de Ciências Humanas. n. Travessia: Revista do Migrante. 1980. 1998. 1885-1980. n. MENEZES. Trad. Sociedades Camponesas. Trad. Rio de Janeiro: IPEA. 1997 e 2002. Rosana.329. janeiro-abril. Florianópolis: EDUFSC. Ministério do Desenvolvimento Agrário. Migrações internas e internacionais no Brasil: panorama deste século. In: Migrações internas no Brasil. RAVENSTEIN. Maria Lúcia Pires. MENDRAS. Campinas. INCRA. de Moura. BNB/UFC. RJ: Vozes. Disponível em: <http://www. BNB/UFC. E. A redistribuição espacial da população brasileira durante a década de 80. MARTINS. Hélio A. Fortaleza. Migração e mobilidade social: migrantes no mercado de trabalho paulista. LEE. Florianópolis. Universidade de Barcelona. Fortaleza: BNB/UFC. p. Tendências atuais das migrações internas no Brasil. In: O fenômeno migratório no limiar do Terceiro Milênio. INSTITUTO DE PLANEJAMENTO E ECONOMIA AGRÍCOLA DE SANTA CATARINA. George. 1998. 2003. Texto para discussão n. Teresa. In: Migrações internas no Brasil. G. Henri. Fortaleza. São Paulo: Autores Associados. Migração rural e estrutura agrária no Oeste Catarinense: Aspectos recentes. IPEA. BAENINGER. 2000. 1994. José de Souza. n.

27. (Recebido em setembro de 2003 e aceito para publicação em outubro de 2004) Revista de Ciências Humanas. Políticas públicas no meio rural: o PRONAF e suas inter-relações com o fenômeno da migração na Mesorregião Oeste de Santa Catarina. partir ou ficar? SINGER. VAINER. Migrações internas: considerações teóricas sobre o seu estudo. BNB/UFC. TESTA. Florianópolis. VILLELA. Sirlândia. Fortaleza. 2000. n. O que distingue o nomadismo da migração? Travessia: Revista do Migrante. 1976-1980. n. In: Migrações internas no Brasil.35. 2003. Paul. Vilson Marcos.36. et al. SCHAPPO. São Paulo. 1997. Jorge.225-240. São Paulo.240 — Migrantes-nômades: chegar. 1996. Florianópolis: EPAGRI. janeiro-abril. janeiro-abril. O desenvolvimento sustentável do Oeste Catarinense: proposta para discussão. Estado e migrações no Brasil: anotações para uma história das políticas migratórias. Dissertação (Mestrado em Sociologia Política) – Universidade Federal de Santa Catarina. NADAL. Travessia: Revista do Migrante. Carlos B. n. Florianópolis: EDUFSC. p. abril de 2004 . Raul de.

Perez (PUC/PR) Elio Cantalício Serpa (UFG) Erly Euzébio dos Anjos (UFES) Fernando Silva Teixeira Filho (UNESP) Georgina Carolina Oliveira Faneco Maniakas (UFSCAR) Hector Ricardo Leis (UFSC) Horácio Luján Martinez (UNIOESTE) Jean Hébette (UFPA) João Ignacio Pires Lucas (UCS) Jorge Saba Arbache Filho (UNB) Marco Antonio de Castro Figueiredo (USP Marco Antonio dos Santos Reigota (UNISO) Maria da Conceição Fonseca Silva (UESB) Maria José de Rezende (UEL) Maria Juracy Toneli Siqueira (UFSC) Marilia Luiza Peluso (UNB) Maurício Roque Serva de Oliveira (UFPR) Norberto Olmiro Horn Filho (UFSC) Paulo Pinheiro Machado (UFSC) Rafael José de Menezes Bastos (UFSC) Renato Kilpp (UFCG) Tamara Benakouche (UFSC) Walquiria Krüger Corrêa (UFSC) Wilson Ferreira Coelho (USP) Yan de Souza Carreirão (UFSC) .RELAÇÃO DOS CONSULTORES AD HOC Revista número 35 Ana Lúcia Gomes Medeiros (UFSC) Anita Brumer (UFRGS) Benilde Maria Lenzi Motim (UFPR) Breno Augusto Souto Maior Fontes (UFPE) Cecile Helene Jeanne Raud Mattedi (UFSC) Daniel Omar.

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