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Aristóteles e Auerbach

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MIMESE: ARISTÓTELES E AUERBACH Mara Regina Pacheco* Prof. Dra.

Adna Candido de Paula**

RESUMO: O conceito de poeta como imitador do real, da mimese como imitação,

designando a ação ou a faculdade de imitar como cópia, reprodução, ou ainda, como representação da natureza em a “Poética” de Aristóteles é amplamente debatida até hoje. A obra basilar trata da mimese, um dos termos mais estudados na concepção das relações entre a literatura e representação da realidade. Vários teóricos contemporâneos tentaram recuperar esta questão que se relaciona com o conceito de verossimilhança. Auerbach delineia, na sua obra “Mimesis” (1946), a história da representação poética da realidade na literatura ocidental analisando a relação do texto literário com o mundo, porém recusando definir o que seja a imitação. Ao tratar da evolução da mimese de Aristóteles a Auerbach, perceberemos que o princípio estrutural dessa nova ordem é o verossímil (interno) numa construção de possibilidades referenciais onde a mimese é um processo sem fim, interminável nas suas possibilidades de inovação.

the action or the power to mimic as copying, reproduction, or as a representation of nature in Aristotle's “Poetics” is widely debated today. The basilar work deals with the mimesis, one of the most studied terms in conception of relations between literature and representation of reality. Many contemporary theorists tried to recover this issue as it relates to the concept of verisimilitude. Auerbach outlines in his work “Mimesis” (1946), the history of poetic representation of reality in occidental literature analyzing the relationship between literary text and the world, but refusing to define what is imitation. In dealing with the development of Aristotle's mimesis Auerbach, we will realize that the structural principle of this new order is verossimil (internal) in a building possibilities frames where mimesis is a process without end, endless in its possibilities for innovation.

ABSTRACT: The concept of poet as imitator of reality, mimesis as imitation, referring to

PALAVRAS-CHAVE: Mimese; Teoria e Crítica Literárias; Aristóteles; Auerbach KEY-WORDS: Mimesis; Literary Theory and Criticism; Aristotle; Auerbach INTRODUÇÃO: O termo mimese surgiu pela primeira vez com Platão, no início da civilização grega. Nessa época, a palavra não possuía uma significação única, e foi Platão que lhe concedeu relevância fundamental. Para Platão, a mimese é somente cópia, apenas imitação das formas e idéias primitivas, diferindo assim da verdade real, ou seja, a mimese é verossímil, “parece verdadeira”, mas é falsa e ilusória o que dificulta assim, o discurso filosófico. Para Platão, mimese deve ser adequação do sensível ao inteligível (o mundo das idéias), isto é, Platão impõe uma

tarefa ao artista (poeta), que antes de tudo é política, o que implica em adequar a ação da mimese a uma concepção de estado/individuo/sociedade. Ao considerar a mimese como imitação da imitação, Platão deprecia o conceito de mimese, que é recuperado posteriormente por seu discípulo Aristóteles, que recusa o conceito dado pelo mestre, e passa a exaltar o valor da arte exatamente pela autonomia do próprio processo mimético frente à verdade preestabelecida.
[...] De ontológica a arte passa a ter, com ele, uma concepção estética, não significando mais “imitação” do mundo exterior, mas fornecendo “possíveis interpretações do real através de ações, pensamentos e palavras, de experiências existenciais imaginárias. (COSTA, 1992, p. 6)

Através dessa afirmativa percebemos que a mimese toma para si a característica de fábula, distanciando-se da perfeição, da verdade primitiva passando a representar o que “poderia ser”, ou seja, uma verossimilhança, que com Aristóteles assegura a autonomia da arte mimética. Desse modo, a Poética passa a ser o primeiro tratado sobre o discurso literário elaborado sistematicamente, identificando-se com a noção de mimese poética. O estudo da Poética oferece dificuldades. A primeira dificuldade é o fato do texto de Aristóteles ser um conjunto de anotações resumidas que era usado de forma didática pelo estudioso, ao exercer suas atividades como mestre no Liceu. A segunda dificuldade é devida à incompletude do texto, uma vez que Aristóteles não chega sequer a definir nitidamente a mimese em suas anotações. O que fica claro portanto, é que o termo mimese de Aristóteles é empregado de forma diferente da de Platão. Este condena as artes reguladas pela mimese que pressupõe imitação, ou seja, uma poesia, para Platão, é mimese uma vez que o poeta deve representar o mundo sensível que é cópia da realidade. Evidenciamos em Platão um caráter negativo de mimese como imitação, simulacro, já em Aristóteles percebe-se um sentido positivo e uma relevância maior ao termo. Como podemos verificar em Duclós (1999) a mimese aristotélica alcança uma dimensão ontológica, por determinar o modo de ser do poeta trágico. Ou ainda, como afirma Knoll (1995), “a ação imitativa é o transporte particular para o universal”. Segundo Aristóteles, a poesia é a imitação: de homens melhores figurado na tragédia; de homens piores figurados na comédia. Ainda de acordo com Knoll, a mimese do poeta trágico não o torna um simples imitador, ou mero plagiador como figurado em Platão, e sim, o “imitar aristotélico das ações é uma criação”, uma vez que recupera o mundo nos mesmos moldes pelos quais ele se produz, e isto se dá pelo intermédio do próprio mundo, conferindo assim à imitação um caráter ativo e criativo em

Aristóteles. Contemporaneamente, o estudo da mimese é apresentado por Erich Auerbach na sua obra Mimesis com o propósito de refletir sobre a representação da realidade na literatura ocidental, promovendo a problematização do conceito de realidade. Porém, assim como Aristóteles, Auerbach acaba também não definindo o termo com precisão. Já no epílogo, Auerbach fala sobre o método que adotou na obra: apresentar uma certa quantidade de textos para cada época e, partindo dos mesmos, colocar em prática os seus pensamentos de forma tal que os leitores entendam do que se trata sem postular uma ‘teoria’ crua. Segundo Auerbach, esse método de interpretação através dos textos permite ao leitor ‘agir’, ou seja, inferir como quiser, desde que o texto permita essa inflexão, é claro. O teórico relata que suas interpretações são direcionadas para uma determinada intenção, porém é categórico ao afirmar que essas intenções ganham forma sucessivamente durante o corpo-a-corpo com o texto. Afirma também que, em grande parte, os textos foram escolhidos ao acaso.
Em pesquisas desta espécie não se mexe com leis, mas com tendências e correntes que se entrecruzam e complementam da forma mais variada possível. Não estava, de modo algum, interessado em oferecer somente aquilo que servisse, no sentido mais restrito, à minha intenção; pelo contrário, empenhei-me em acomodar os múltiplos dados e dar às minhas formulações a correspondente elasticidade (AUERBACH, 1946, p. 501-502).

O trabalho do estudioso contemporâneo traz em cada capítulo, reflexões sobre trechos de clássicos da literatura em um método interpretativo de modo a renovar as discussões sobre a historiografia literária. A obra começa com Auerbach fazendo a exploração da palavra figura, que, a priori, aparece no sentido plástico passando a imagem de novidade e de variação, ou seja, algo dinâmico e vivo. Porém a palavra não se restringe ao sentido plástico, passando a alcançar um significado abstrato também.
O termo figura indica então não somente forma sensível, como também forma gramatical, retórica, matemática, entre outras. O propósito de Auerbach é mostrar, como ele próprio afirma no ultimo parágrafo de Figura, “como, a partir da base do seu desenvolvimento semântico, uma palavra pode evoluir dentro de uma situação histórica e dar nascimento a estruturas que serão efetivas durante muitos séculos” (ABI-SÂMARA, 2005, p. 76)

Percebe-se que as estruturas acima mencionadas por Auebach relacionam-se com a interpretação figural que é uma segunda parte do trabalho desse estudioso. A obra Mimesis não é só uma história de um tipo específico de representação literária – o figuralismo – assim afirma Hayden White (apud ABI-SÂMARA), mas é uma história gerada numa

sequência de relações que denomina de ‘figurapreenchimento’. Ou seja, esse modelo ‘figura-preenchimento’ é utilizado por Auerbach para distribuir a tessitura diacrônica da história da literatura ocidental. Conforme explicita Abi-Sâmara, o termo díade ‘figurapreenchimento’ serve de parâmetro para compreender as relações sintagmáticas de Mimesis, ou seja, uma ferramenta utilizada para traçar períodos na evolução do realismo literário. White (apud ABI-SÂMARA) indaga pelas relações paradigmáticas no texto de Auerbach que tornaria viável a análise das relações inerentes, particulares de um determinado período. White afirma:
Se o que Auerbach chamou de estrutura figural (Figuralstruktur) serve como modelo para transformar uma série de períodos em uma sequência de figuras e seus preenchimentos, disponho com isso o paradigma para um mapeamento do eixo sintagmático de acontecimento histórico, então serve também como um modelo para caracterizar a relação entre um texto específico e um estilo de período, por um lado, e o estilo de um texto e seu contexto, por outro (apud ABI-SÂMARA, p. 94).

Notamos que ao enfatizar o conceito estético na história literária de Auerbach, White não pressupõe o não reconhecimento da herança historicista deste estudioso. É uma convenção a historiografia de Auerbach, em Mimesis ser a personificação do enfoque historicista, da qual é ao mesmo tempo teórico e historiador. Essas normas, essas regras do historicismo são a abertura para o entendimento da história do realismo literário. Ainda de acordo com Abi-Sâmara, a evolução do realismo na literatura ocidental é colocado por Auerbach na sua obra como coextensivo e até mesmo sinônimo do crescimento do ponto de vista historicista cristalizado na Alemanha no início do século XIX. O que verdadeiramente percebemos é que na Mimesis, a ocupação de Auerbach não é a de elaborar uma grande narrativa que notabilize a precisão dos sequenciamentos históricos, e sim encontramos em sua interpretação, de certa forma, extensos movimentos internos devido às suas reflexões se desencadearem especialmente partindo de fragmentos de obras clássicas. Apesar de Auerbach ter sido sempre reservado e econômico relativamente às formulações mais genéricas, no seu texto de 1937 há uma fala reveladora e enfática onde se lê:
Deve-se supor que uma transformação na execução artística imitativa e nos seus objetos, está conectada a uma transformação da visão de si humana e, além disso, a uma transformação correspondente do próprio ser humano e de sua estrutura social. (AUERBACH, 1937, p. 276).

O que percebemos com essa fala, é que as variações do realismo estão ligadas às transformações na imagem do homem, bem como nas transformações da sociedade. Podemos afirmar com essa premissa que através da forma literária, o filólogo tem através dos estudos dos textos uma via de acesso para a totalidade. Auerbach, nesse sentido, deixa uma contribuição e um desafio para estudos posteriores com um chamado que é vivo, forte e desafiador. I. MIMESE E MUNDOS POSSÍVEIS Segundo Julio Jeha, desde Platão e Aristóteles, a idéia de mimese tem dominado a estética ocidental, ou seja, as ficções derivam da realidade, sendo imitações ou representações de objetos que independem da cognição para existir. De acordo com Jeha, a metáfora da arte como espelho da natureza corporifica a mimese. Para Pierce (1958), as proposições na literatura referem-se especificamente ao mundo ficcional, sendo assim, sua validade se dá somente na ontologia do texto. Conforme explica Pierce, a literatura não se alude ao mundo como seu objeto, por não haver entre eles uma correspondência que faça negar ou afirmar a verdade de um texto. Verificamos assim, que as proposições ou sentenças do texto literário constituem um espaço interno de referência, ou melhor dizendo, formam uma teia de referentes interligados: personagens, acontecimentos, idéias e diálogo. Nota-se que a própria linguagem do texto colabora na geração desse espaço interno concomitantemente na sua referência a ele, ou seja, a realidade, ou o significado do texto é influenciada por princípios reguladores como por exemplo: tom de voz, ponto de vista, situação, gênero e atitude perante o público, conforme afirma Jeha. Harshaw (1984, p. 234) sentencia que o significado vem de três pontos: dos princípios reguladores, do sentido, e do quadro de referência. A partir daí o leitor se vê frente a inúmeras alternativas que desembocam em múltiplas interpretações. A obra literária lança ao menos um campo de referência interna ao qual os sentidos se relacionam, assim afirma Harshaw. Este, argumenta ainda, que alguns dos referentes concernem somente ao texto e não exigem existência externa. Aqui, percebemos que mesmo o texto literário dependendo do mundo, imitando ou fazendo uso dos seus referentes externos, o autor escolhe esses elementos e os coloca numa ordem de criação que se torna autônoma dentro do texto, ou seja, o autor articula com os objetos do seu mundo experimental concebendo assim forma à

narrativa que cria. Verificamos com Jeha que o campo de referência interna é moldado partindo do externo conforme podemos destacar no seguinte trecho:
O nosso conhecimento do mundo nos permite encontrar significados em uma obra de ficção, construir os quadros de referência a partir de material disseminado, preencher vazios e criar hierarquias. Por sua vez, o campo de referência interno representa campos externos: certos comportamentos, cenas, construtos de significado complexo são entendidos como ‘típicos’ (ou atípicos) quando comparados com a história, a natureza humana, a sociedade urbana ou qualquer outro campo de referência generalizado (JEHA, 1993, p. 04).

Podemos afirmar desse modo, que o campo de referência interno se firma no quadro de referência externo, mesmo que essas proposições sejam falsas, não nos é permitido julgar o valor estético de acordo com a “verdade” dessas afirmativas. Jeha diz que se a “verdade” do texto se desviar da posição normal do quadro de referência externo dado, mas, for coerente com o campo de referência interno, então a visão de mundo que o texto apresenta é legitima. Isso se deve ao fato de o texto, ao ser lido, contagiar o leitor em diversos aspectos, provocando sua interpretação da realidade e atribuindo um sentido para o mundo. Desse modo, o leitor, submetido a certas condições pela composição do mundo interno/mundo externo, responde ao texto adaptando-se ao mundo interno. Assim, como argumenta Jeha, se o texto é bem sucedido, passa a influenciar o mundo interno do leitor de forma a modificar seu comportamento em relação ao mundo objetivo. II. COMO O EXTERNO SE TORNA INTERNO A partir da leitura e estudo da obra auerbachiana, chega-se ao entendimento de que o estudioso fala de uma realidade (interior) existente dentro da obra, ou seja, a representação, ou a exposição da realidade interna à obra, da realidade tal qual a obra literária apresenta e expõe. Nesse ponto, colabora a fala de Kate Hamburguer (1995) em se tratando de compreender a especificidade da obra de Auerbach logo após sua publicação:
A novidade do método de Auerbach consiste no fato de que o desenvolvimento estilístico da literatura européia é indicado em uma categoria especificamente sociológica, a realidade da vida social humana. O subtítulo do livro não fala em “representação da realidade”, mas sim em “realidade exposta na literatura ocidental”, com o que o problema da realidade já é designado como um elemento estético-estilístico das obras literárias, e não meramente como sua “matéria” (HAMBURGER, 1995, p. 143-144)

Esse trecho colabora com a idéia de que a realidade não é encontrada fora da obra, mas sim dentro dela mesma, ou seja, a realidade não é externa, e sim interna e esteticamente constituída. Devido à complexidade semântica do texto, pode surgir um estigma de que os mundos ficcionais são modelos em miniatura do mundo real. Porém, o que esta sendo manifestado ai é a auto-suficiência estrutural dos mundos ficcionais, uma vez que os elementos naturais se misturam criando o mundo ficcional que confere à obra a unicidade que lhe é própria. O que verificamos é, que usando um mundo dado, o autor cria outro mundo, que por um lado repete, e por outro difere da matéria prima, o que ajuda a demonstrar em parte a fantasia e, em parte a mimese na criação literária. Aqui cabe a assertiva de Benjamin Harshaw quando profere: “o campo de referência interno é construído como um plano paralelo ao mundo real”. Segundo ele, a ficção realista é projetada o mais paralelamente e similarmente possível ao campo de referência externo, já em narrativas não realistas, o interno se contrapõe de inúmeras maneiras do campo externo. Julio Jeha assim argumenta sobre a questão do mundo real e mundo ficcional:
O mundo real participa na formação de mundos ficcionais fornecendo modelos de sua estrutura (inclusive a experiência do autor), ancorando a história ficcional em um acontecimento histórico [...] transmitindo “fatos brutos” ou “realemas” culturais. [...] O material que o mundo real fornece tem que sofrer uma transformação para ser admitido no mundo ficcional: ele deve ser convertido em possíveis não-reais, com todas as conseqüências lógicas, ontológicas e semânticas (JEHA, idem, p. 05).

Em síntese, podemos concluir que ao interpretar os mundos ficcionais como mundos possíveis, deixamos a literatura livre da função de imitar fielmente o mundo real. Percebemos desse modo que nos mundos possíveis estão presentes mundos “similares” ou “análogos” ao mundo real como também nos mundos mais fantasticamente afastados da realidade, ou seja, “os mundos da literatura realista são tão ficcionais quanto os mundos dos contos de fadas e da ficção científica”, conforme profere Julio Jeha, contribuindo assim para a argumentação de fechamento deste tópico.

III. MIMESE NA CONTEMPORANEIDADE: Assim como Auerbach, outros estudiosos se propuseram a tratar da mimese na contemporaneidade. Dentre eles podemos citar: José Guilherme Melquior, Luis Costa Lima e Paul Ricoeur.

Em Melquior encontramos a recuperação da teoria da mimese trágica e épica em função da mimese lírica, embasando-se em dois pontos cernes: primeiramente ressaltando a relevância da carne das palavras significantes na poesia; em segundo lugar, declarando o lírico como gênero mimético, o que corresponde a um tipo determinado de imitação do agir humano. Conforme pontua Costa, a proposta teórica de Melquior de mimese lírica, conjuga a mimese aristotélica com a estruturação linguística de Roman Jakobson:
[...] o poema é definido como uma espécie de mensagem verbal, que mimetiza estados de ânimo (stasis), e é regido estruturalmente pelo princípio da função poética da linguagem, ou seja, pela projeção do princípio de equivalência do eixo de seleção das palavras, sobre o eixo da contigüidade ou sequência na frase (COSTA, 1992, p. 56).

Ou seja, de acordo com Costa, a finalidade da mensagem é a transmissão indireta através de estímulos que não são apenas intelectuais, de modo que o poema faz referência tanto à realidade factual quanto às relações de imitação literária. Desse modo, conferimos que os elementos que dão independência ao produto artístico não se restringem pela lógica interna que orienta sua construção, em outras palavras, pelo verossímel, e também, como afirma Costa “pelas regras de espírito responsáveis pelo caráter universal e não verdadeiro da obra de arte” (idem, p. 57). Costa objeta ainda, que o aspecto inovador das assertivas de Melquior é a combinação da teoria da mimese aristotélica, com uma mimese interna da lírica perfazendo assim uma análise literária moderna, de cunho atual. Também em Luis Costa Lima, verifica-se a questão da mimese na teoria literária atual, remetendo-se aos conceitos de Aristóteles em Poética. Em Mímesis e modernidade, Costa Lima refuta a idéia de imitatio garantindo à mimese aristotélica uma “produção análoga à natureza”. Em relação às motivações da produção e recepção da mimese, Costa Lima define o discurso mimético da seguinte forma:
O discurso mimético é o discurso do significante à busca de um significado, que lhe é emprestado tanto pelo autor quanto, e principalmente, pelo receptor. Em poucas palavras: na realidade efetiva do produto mimético, isto é em sua circulação, realiza-se a combinação de uma “semelhança” [...] e de uma “diferença”... (COSTA LIMA, 1980, p. 50-51)

Já na segunda parte de Mimesis e modernidade, o escritor fala de “sociedade e sistemas de representação”, onde pontua que os sistemas de representação funcionam como um meio de comunicação. Nessa parte, o estudioso apresenta também uma gama de considerações sobre a

mimese, onde chama atenção para a afirmação de que a obra literária equivale a uma “virtualidade” que deve ser acrescida, ou ainda, suplementada para ocorrer uma coerência interna de suas linhas constitutivas. Podemos, desse modo, verificar em Costa Lima, como coloca Costa, “uma retomada da teoria aristotélica, que prescreve a prioridade da composição estrutural (verossimilhança “interna”) para a eficácia desejada do objeto mimético” (p. 64). O escritor conclui seu pensamento pontuando que “a falta de organização interna do texto, paralela à dissocialização das representações, é a crítica mais contundente que faz às produções da modernidade”. (idem) Em Paul Ricoeur encontramos a investigação das relações entre mito e mimese, onde o teórico critica a tradução da palavra mimese por imitação, uma vez que isso implica numa oposição entre arte figurativa e não-figurativa. Segundo Ricoeur, a mimese para Aristóteles constrói cada uma das partes da tragédia (da intriga ao espetáculo), e para Ricoeur, apenas existe mimese onde há um fazer, ou seja, onde aparece a produção de algo singular, portanto, para ele, a construção do mito identifica-se com a mimese. Relevante para este estudo também, é a decomposição que Paul Ricoeur faz da mimese em três etapas: Mimese I (pré-figuração); Mimese II (configuração); e Mimese III (reconfiguração). Para melhor compreender a tríplice mimese nos apoiaremos em Costa (1992) ao explicar:
A tríplice mimese tem na mimese II sua função-pivô: a criação propriamente dita da obra, o dinamismo da composição da intriga. Mas o imitar ou representar é, antes de tudo, pré-compreender em que consiste o agir humano, suas estruturas inteligíveis, suas fontes simbólicas e seu caráter temporal. É sobre esta pré-compreensão do mundo de ação ou competência prévia (mímese I), comum ao poeta e ao seu leitor, que se ergue a ação de compor a intriga (mímese II). A atividade mimética estabelece assim, um estatuto de transposição “metafórica”, ao partir do campo prático para o campo do mito. Por outro lado, a atividade mimética não encontra a finalidade à que visa, pelo seu dinamismo, somente no texto poético, mas também através do espectador ou leitor, que avaliza a composição poética (mímese III) (COSTA, 1992, p. 68-69).

Conforme valida Costa, Paul Ricoeur, com sua argumentação frente à tríplice mimese, e seu critério de verossimilhança, oferecem à teoria da literatura uma reformulação do pensamento ocidental para a contemporaneidade, de Poética de Aristóteles, obra basilar e referencial que trata do objeto “mimese” e suas implicações. CONSIDERAÇÕES FINAIS:

De acordo com tudo o que foi exposto até este ponto, percebemos que a mimese varia. Isto se deve porque não existe regra para uma obra, porém, fica claro que o método e o realismo de cada obra deve ser percebido através de suas peculiaridades, isso explica o fato de Auerbach tratar da mimese através de exemplos. Não podemos deixar de pontuar também que a mimese depende do ponto de vista da teoria, depende de quem vê, de que lado se vê. Para os marxistas não existe criação, ou autonomia da arte, uma vez que ela é fruto das condições históricas e materiais. Para outras vertentes, como a desconstrução, por exemplo, a autonomia existe. Neste caso, por mais imitativa que a arte seja, ela sempre traz um plus, um quantum, um suplemento (termo usado por Derrida) que toda representação faz acontecer. Alguns artistas apostam bastante nesta modificação, fazendo do suplemento ainda maior; outros já são mais imitativos fazendo com que a obra seja mais colada ao real. O que precisamos não deixar de ter em mente é que o real muda. Se transforma, inclusive, segundo nossas perspectivas. Podemos nos indagar: Em tempos de crise de paradigmas e de teoria do caos, o que é o real e o que é a verdade? E a resposta seria: Aquilo em que acreditamos, aquilo que a sociedade acredita, aquilo que cada um acredita. E sendo dessa forma, como pensar numa obra e na adequação do real de forma completa? É de conhecimento notório que na idade média a mimese é entendida como imitatio, que é também adequação da arte ao real, concebido pela igreja através do conceito de decoro. Já na contemporaneidade, a arte foi como que “liberada” para criar, num conceito que podemos denominar de anti-representação. Desse modo, percebemos que o percurso aqui gerado, indo do antigo, Aristóteles, ao moderno, Auerbach, nos faz chegar à conclusão de que a literatura fala do mundo, e que a literatura fala da literatura. REFERÊNCIAS: ABI-SÂMARA, Raquel. A interpretação figural e a questão da teleologia. Palimpsesto – Revista de Pós-Graduação em Letras da UERJ. Volume 04 ANO 4 (2005) – ISSN 1809-3507. AUERBACH, Erich. Mimesis. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1946. COSTA, Lígia Militz da. A Poética de verossimilhança. São Paulo: Ed. Ática, 1992. Aristóteles. Mimese e

DUCLÓS, Miguel. Nota sobre o conceito de mimesis e katharsis na Poética de Aristóteles. São Paulo: Consciência, 1999. HAMBURGUER, Kate. La Logica De La Literatura. Espanha: Ed. VISOR, 1995. ISBN: 9788477747185 HARSHAW, Benjamin. Fictionality and fields of reference: remarks on a theorical framework. Poetics Today, V.5, n.2, p. 227-251, 1984. JEHA, Julio. Mimese e Mundos Possíveis. Disponível em: http://www.revista.ufg.br/index.php/sig/article/.../7354/5219 Acesso em 02 nov. 2009. KNOLL, V. Discurso. São Paulo: USP, 1995. LIMA, Luis Costa. Mímesis e modernidade. Rio de Janeiro: Graal, 1980. PIERCE, Charles Sanders. Collected papers. Ed. By Charles Harshorne, Paul Weiss, Arthur W. Burks. Cambridge, MA: The Belknap Press of Harvard Univ. Press, 1958. RICOEUR, Paul. Teoria da Interpretação. Lisboa: Edições 70, 1987.

Mestranda em Letras/2010 pela UFGD em Literatura e Práticas Culturais, e Prof. de Língua e Literatura de Língua Inglesa pela UEMS/Dourados. ** Doutora em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas, e Prof. do Mestrado em Letras/UFGD.
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