P. 1
Sexo, Escola e Rock and Roll - Incompleto (18 capítulos)

Sexo, Escola e Rock and Roll - Incompleto (18 capítulos)

|Views: 542|Likes:
Publicado porFernanda Lima
Romance "Sexo, Escola e Rock and Roll", versão incompleta com 18 capítulos.
Romance "Sexo, Escola e Rock and Roll", versão incompleta com 18 capítulos.

More info:

Published by: Fernanda Lima on Mar 10, 2011
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

09/10/2013

pdf

text

original

O mundo colegial e a filosofia dos menosprezados

Antes da aula

Primeiro dia de aula no melhor colégio desse quilômetro quadrado. Há. Como eu sentira saudade de acordar às 5 horas da manhã, pegar três ônibus para ir até uma escola pública no outro lado do Universo. Por que eu estudava ali mesmo? Ah, sim. Paixonite de ginasial. Será possível que eu ia ficar na mesma turma de novo? Desde a sétima série, as pessoas não mudam. Não entra ninguém novo, não sai ninguém velho. Pelo menos nesse ritmo dava para manter alguns amigos. Mas então, chegando na sala, eu tive que retirar essas palavras. Porque tinha uma garota nova na classe, sentada no meu lugar preferido, bem atrás e na janela. - Então, você vai ficar sentada aí mesmo? - Eu me aproximei da garota, que me olhou indiferente. - Vou. Por que, você queria sentar aqui? - Não, não é por nada. - Então me sentei ao seu lado. - Qual o seu nome? - Não era eu quem deveria perguntar isso? - Isabel. E você é... Sabrina. - De onde te conheço? - Mais uma duvidando de minhas habilidades. - Daqui. Não nos conhecíamos antes. Eu adivinhei o seu nome. - Leu na lista de chamada? - Não, é um dom. Olhe bem atentamente para alguém ou para algo, e você consegue achar as palavras ou os nomes perfeitos que descrevem aquilo. - Interessante. Você escreve? - Muito bem, por sinal. - Nessa hora, vi meu melhor amigo adentrar a sala. - Espere, vou te apresentar uma pessoa. Andei até a outra ponta da sala para falar com Jack e apresentá -lo à novata. - Jake, essa é Sabrina, a novata da sala. - Sabrina se levantou para cumprimentá-lo. - Prazer. - Os dois disseram ao mesmo tempo. Enquanto Jack enrubescia, a novata continuava com uma expressão indiferente, quase sensual.

Intervalo

- Eu sei que a novata é bonita, mas ficar vermelho só porque os pombinhos disseram "prazer" ao mesmo tempo? - Pára com isso. Acabei de conhecê-la. Não fiquei vermelho, deve ser coisa da sua mente. Fiquei quieta. Um dia ele veria como eu estava certa e me pediria desculpas.

Durante as aulas finais

- Pessoal, vocês sabem que nosso show de talentos semestral normalmente ocorre em abril, mas por razões pessoais, o diretor vai fazer uma viagem nesse período. Então resolvemos colocar o show para fevereiro, já que vocês não terão provas ainda. Ótimo. Uma chance de humilhação para nós. E com antecedência! - Quem gostaria de se inscrever? Ninguém levantou a mão. Depois de uns 40 segundos de silêncio, escutei Sabrina dizer ao meu lado: - Eu gostaria de me inscrever, professora. - Muito bem. Viram, gente? Ela é nova na escola e já quer participar de nossos eventos. Pronto, a professora arranjou um bichinho de estimação. - Seu nome e tipo de apresentação, por favor. - Sabrina Svarowski van Gerard. - Uau. Atrás de uma personalidade pobre, sempre há um nome impronunciável ou peitos do tamanho de bolas de futebol. Ela tinha os dois. - Irei me apresentar com um solo de guitarra e de canto. Olhei para ela, entediada como ela mesma estava. Além de nome, peitos e cabelos oxigenados, ela ainda cantava e tocava guitarra? Achei melhor me proteger com um livro, pois a qualquer hora ela poderia sair voando pela janela e o vidro se estilhaçaria em cima de mim. - Professora, a senhora soube escrever meu nome? - Eu ia perguntar isso, querida. Venha cá me ajudar. - Sabrina levantou e andou até a mesa da professora. Os garotos observavam seus cabelos loiros cacheados e seus peitos balançantes, enquanto as garotas morriam de inveja. Peituda, cabeluda oxigenada, cantora, guitarrista, nome impronunciável e agora com modos perfeitos. Voar era pouco. Devia ser a prima polonesa da Haruhi Suzumiya.

Paixão? Amizade? – Uma estranha entre os dois
De noite, no quarto de Isabel

Eu e Jack compartilhávamos a mesma cama, seminus, ele sobre mim. Ofegantes, suados, excitados, compartilhávamos amassos e carícias. Eu podia sentir o calor e a respiração rápida de Jack. - Bel... você é tão linda... - E eu adorava ouvir isso. Bom, eu havia dito que eu e Jack éramos amigos? Pois é, às vezes fazíamo s essas coisas.

Madrugada

Estávamos cansados, ofegantes. Eu abraçava o peito nu de Jack, com delicadeza. Pois é, eu consigo ser sutil às vezes. - Jack... eu acho que deveríamos assumir logo nosso relacionamento. - E sim, eu era a chata da história. - Mas estamos bem assim. Para que ficarmos mais próximos do que isso? - Eu acho... que te amo. Opa. Isso não estava nos meus planos. Enquanto eu olhava séria e fixamente em seus olhos esverdeados, percebi que sua atitude havia mudado. Alguma coisa não muito boa passara por sua mente. Então, ele se levantou da cama, com uma expressão chateada. Eu sou uma besta mesmo. - Estou indo para casa. - E então ele entrou no banheiro, e cerca de três minutos depois saiu totalmente vestido e penteado. - Vou te acompanhar até a entrada. - Pus meu robe de renda cor de vinho e andei um longo corredor até a porta de casa. Parece que nessas horas tensas, a distância a ser percorrida sempre é maior. - Te vejo amanhã. - E então ele saiu com as mãos nos bolsos, sem me dar sequer um beijo de despedida.

Segundo horário da escola, dia seguinte

Pois é. Jack ainda estava com aquela coisa estranha na cabeça que o fizera sair apressado e cabisbaixo de minha casa no dia anterior. Me evitava, apenas conversando

com Allen e com Maria. Aquilo me deixava extremamente irritada. E como se não bastasse... - Não te cumprimentei hoje, Isabel. Bom dia. Como vão as coisas? - Olhei para o lado, com a pior expressão que uma pessoa poderia apresentar, e encarei a oxigenada peituda durante alguns segundos. Ela continuava com a mesma expressão indiferente de sempre. - Bem. Extremamente bem. Magnífica. - E voltei à minha posição inicial, encarando Jack.

Intervalo

- Isabel! - Eu me virei, com uma expressão apenas um pouco menos pior do que a que usei com Sabrina. - Bom. Dia. Maria. - As pausas dramáticas evidenciavam que eu irradiava alegria. - Aconteceu alguma coisa entre você e o Jack? - Na lata. Eu tinha uma profunda admiração por Maria justamente por isso. E um profundo ódio também. - Eu também não sei... Nesse momento, ela me abraçou com seus braços branquinhos e cochichou em meu ouvido: - Eu posso te consolar, Bel... "Não, obrigada", pensei. Mas levei aquilo como um gesto amigo, e andamos silenciosamente pelo corredor, o mais longe que o tempo permitiu.

Reflexões – Um novo rumo?
(Flashback)

- Jack... eu acho que deveríamos assumir logo nosso relacionamento. - Mas estamos bem assim. Para que ficarmos mais próximos do que isso? - Eu acho... que te amo.
(/Flashback)

Fim da tarde, casa de Jack

"Eu também te amo. Amo desesperadamente, mais do que eu posso suportar.", era o que eu gostaria de ter respondido. Eu a amava simplesmente, como amiga de infância, como irmã, como amante, como companheira de aventuras... apenas por ser quem era. Então por que ela me veio na cabeça? Por que uma estranha me veio na cabeça? Por que... Sabrina me viera na cabeça? Eu realmente a achei atraente no primeiro dia de aula, mas apenas isso. Posso ter corado, mas foi só por isso. Eu sabia que Bel não levava a sério nada que vinha dela própria. Então, não liguei para o que ela havia dito.

(Flashback)

- Eu sei que a novata é bonita, mas ficar vermelho só porque os pombinhos disseram "prazer" ao mesmo tempo? - Pára com isso. Acabei de conhecê-la. Não fiquei vermelho, deve ser coisa da sua mente.
(/Flashback)

Pois é. Não era coisa da mente de Bel. - Que saco... - Escondi minha cara com o travesseiro, e comecei a pensar em Isabel. Ela era espetacular... Com seus cabelos longos, bem pretos, seus olhos cor-de-mel, seu rosto bem feito, um pouco arredondado, seu nariz empinado, sua pele macia e levemente bronzeada, seu corpo esbelto, com lindas curvas femininas... E não era apenas isso. Apesar de sua personalidade sarcástica e fria, era na verdade sensível e preocupada com o bem de seus amigos.

Por que tendo uma mulher linda, perfeita, NUA ao meu lado, eu fui fazer aquela merda ? Depois de ver o rosto de outra no lugar do dela? Me levantei da cama, fui até a pia do banheiro e molhei meu cabelo. Encarei o espelho. "Por que diabos eu tive que nascer parecendo com o Cloud de Final Fantasy?", pensei. E a seguinte ideia me veio: "Para completar a Tifa que está ao seu lado."

O show de talentos – Parte I
Passaram-se dias e dias com um clima estranho entre eu e Isabel. Eu estava inocentemente entrando na sala quando Maria e Allen surgiram na minha frente, em posição de bule. - Por que você está fazendo isso com a Bel? - Disse Maria. - Ela não quer nos contar o que houve! - Completou Allen. E eles continuaram alternando suas falas. - É absurdo, nós sabemos como vocês se gostam, parem com essa besteira de uma vez! - Já se passaram dias! Aposto que nem foi nada de mais, e além de tudo... - CALEM A BOCA VOCÊS DOIS! - Gritei, irritado, e me dirigi ao meu lugar. - Isso é um problema... - Escutei Maria falando atrás de mim, enquanto o resto da sala nos encarava. Reparei que o material de Bel estava sobre a mesa, mas a dita cu ja não se encontrava lá. Resolvi sair para procurá-la e acertar as contas de uma vez. Apesar de ter me irritado com Maria e com Allen, eu sabia que eles estavam certos. Aqueles dois sempre estavam certos, sem exceção. Logo quando ia saindo da sala, começaram a falar um recado pelos altos-falantes. - Por favor, os alunos que irão participar do show de talentos dirijam-se à sala de apresentações o mais rápido possível. Repito, aqueles que irão participar... Já era dia 10 de fevereiro? Passaram-se 4 dias que eu e Bel não dirigíamos a palavra um ao outro. "E o pessoal do concurso nem teve tempo de ensaiar direito", pensei. "Será que Sabrina vai conseguir se sair bem?". Apesar de ela ter indiretamente sido a causa de meus problemas, eu torcia para que ela se saísse bem no show. Afinal, não seria muito bom se sua reputação fosse arruinada logo no seu primeiro ano no colégio. Se bem que reputação foi uma coisa que nunca me preocupou.

(Flashback)

- Jack! Jack! Jack! A torcida gritava, enquanto Jack quicava a bola em direção à cesta, prestes a fazer o ponto final da partida. - Nós te amamos! - Lindooo!

A tensão aumentava na torcida e nos jogadores, tanto nos aliados quanto nos adversários. - Gostosoo! - Eu sei que você consegue! - Vaaai! Ele estava prestes a arremessar a bola. Porém nesse momento, ele virou levemente a cabeça em direção à arquibancada. Em meio à tantas pessoas, ele viu a garota sentada no andar mais alto, no canto do ginásio. A única que não gritava e não torcia. Tinha os cabelos escuros como a noite, e usava um vestido de renda vinho com mangas brancas compridas. Como uma princesa medieval. A sirene de final de partida tocou. Jack estava parado na quadra, olhando "para o nada", como as outras pessoas provavelmente pensaram. A bola caíra de sua mão. E logo, vieram as vaias e as perturbações...
(/Flashback)

Pois é. Eu não era o tipo de cara que me importava com reputação. Na verdade, não sou o tipo de cara que se preocupa com essas coisas. Mas desde aquele dia, nunca mais joguei basquete na vida. Puxa. Agora que pensei nisso, Bel havia estragado minha vida em muitos momentos. E sem mover um dedo sequer. Tudo bem, às vezes era mexendo o corpo inteiro. Mas isso não vem ao caso. Pelo menos eu sabia que sempre que uma garota me fazia arruinar momentos importantes da minha vida... significava amor. Eu precisava me acertar com Bel. Como o sinal já havia tocado, fui até a sala de apresentações com Maria e Allen, e guardei um lugar ao meu lado para Bel. Se ela vies se, conversaríamos como adultos. - Muito bem, pessoal! Bem vindos ao 16° show de talentos semestral do Colégio Federal Cristóvão Colombo. Iremos começar, como tradicionalmente fazemos, com as apresentações musicais. Então, senhor Jason Rogers, apresente-se ao palco! Nesse momento, uma mulher morena de cabelos curtos entrou no palco, apressada, e cochichou algo no ouvido do diretor. Depois saiu, com passinhos rápidos.

- Caham... me desculpem, pessoal. O senhor Rogers pegou catapora e não pôde vir. Uma pena, não? Mas o show deve continuar... então, senhorita Sabrina van Gerard, suba ao palco! Nesse momento, Sabrina saiu de trás das cortinas e adentrou o palco. Meu coração disparou. Ela vestia uma blusa branca, com rasgos no abdome, uma minissaia de couro preta, meias arrastão e um coturno preto militar que subia até metade de suas panturrilhas. Usava também suspensórios pretos presos à saia e um chapéu xadrez. Em seus braços, uma EX 50 BLK preta. O que era esse sentimento? Eu sequer falava direito com Sabrina. - Bom dia. Irei me apresentar com um solo de guitarra acompanhado de vocal. Tocarei "No, Thank You!" do Ho-kago Tea Time, e em seguida, "Going Under" do Evanescence. Ouvi comentários vindo das cadeiras de trás. - Uau, que gostosa! - Diziam os garotos. - Ela parece uma guitarrista profissional, não é? - Diziam as garotas. - Que vadia... - Dizia Maria. Tão suave... tão gentil. Antes que eu percebesse, a música começara. A introdução no teclado era provavelmente feita por computador, nos bastidores. E então... ela iniciou sua apresentação. Ela brilhava como uma estrela no palco. Sua naturalidade com a guitarra era fantástica, sua voz era esplêndida: uma incrível mezzo-soprano. Ela estava espetacular. - A oxigenada é muito habilidosa. - Ouvi uma voz conhecida dizer ao meu lado. Me virei, e vi Isabel sentada ao meu lado. Ela olhava para o palco, com um leve sorriso nos lábios. Mas... Pesadas lágrimas escorriam por seu rosto, caindo em sua roupa. Ela vestia o mesmo vestido que usara na meu último jogo de basquete. Bel... ...O que... ...Eu havia feito?

O show de talentos – Parte II
Let's sing motto, motto, motto, koe karete mo... Tudo soava ao meu redor. Minha música, minha voz, os gritos ao meu redor... RUUTO onaji chizu mochi meguriaeta... Soavam também... NO, Thank you! omoide nante iranai yo... ...Os meus pensamentos.

(Flashback) - Mamãe! Mamãe! A garotinha, com os cabelos de um tom loiríssimo e os olhos em um verde suave, usando um vestido preto de babados, corria desesperada em direção ao carro amassado de sua genitora. - Mamãe... - Eu te amo, Sab... - MAMÃE!!! E a figura ensanguentada desfalecera. Desta vez, para sempre. (/Flashback) Eu cantava com todo o meu coração, destinando as duas músicas que costumávamos ouvir juntas em minha infância para minha mãe. Onde ela estivesse, eu rezava em minha mente para que me escutasse. Lágrimas de saudade caíam pelos meus olhos. Nunca me revoltei pela morte prematura de minha mãe. Eu sentia mesmo é muita pena dela. Engravidara de mim aos 17 anos, e sem o apoio de meu pai ou de sua família, fugiu de casa. As duas únicas coisas que ela amara na vida, segundo ela própria, era a mim e à sua música. Desde sua morte fiz uma promessa para mim mesma de nunca expressar meus sentimentos na frente de outras pessoas, e de nunca me apegar a nada nem a ninguém. Assim, eu não sofreria. Quanto ao meu choro durante a apresentação... impossível notar com as luzes e com meus movimentos. Enquanto comecava a introdução de Going Under, música preferida de minha mãe, olhei para o público. Eu nunca havia visto cerca de 95% daquelas pessoas na vida, e elas estavam me aplaudindo e me elogiando. Isso me deixava enormemente feliz, já que tocar e cantar eram as únicas coisas que me davam prazer na vida. Na terceira fileira , estavam as pessoas de minha turma. Isabel, Jack, Maria e Allen - aprendo rápido os nomes das pessoas - estavam no canto. Quando olhei para a face de Isabel, me identifiquei.

Assim como eu, ela chorava para si mesma. Um choro silencioso, disfarçado pelo sorriso... ou pela indiferença.

O show de talentos – Parte III
Por que diabos eu estava chorando? Eu não tinha motivo nenhum.
(Flashback)

- Sabrina, posso falar com você um minuto? - A garota morena, usando um vestido cor de vinho, entrava nos bastidores com uma expressão ao mesmo tempo tímida e obstinada. - Isabel? Entre. - Erm... - Isabel observava com curiosidade todos aqueles apetrechos musicais. - Você tem namorado? - Tenho, por quê? - Sua expressão era, adivinhe, indiferente. - Quando você transa com ele, diz que o ama e ele fica com uma cara estranha e sai da sua casa sem se despedir, e depois te evita durante quatro dias, o que pode ter acontecido? - Nesse momento, Isabel corou. - Isso nunca aconteceu comigo, pois eu nunca disse que o amava. Mas... posso tentar adivinhar um motivo, se quiser. - Ela fez uma pausa. - Ele pode estar incerto sobre vocês dois. Ou pode te amar muito e ter vergonha de dizer. Ou então, pode e star escondendo algum sentimento que lhe passou à cabeça na hora. - Hum... - Isabel suspirou. - Era só isso, obrigada. Isabel deu mais uma volta do lado de fora do auditório, pensativa, depois foi assistir ao show.
(/Flashback)

Ok, eu fui procurar a ajuda da oxigenada. Fato. Mas acho que esse não era o pior problema com o qual eu tinha de me preocupar. Jack estava em silêncio, assistindo à apresentação da Sabrina van Alemoa. Nem notara minha presença, apesar de estar sentada ali há cerca de 3 minuto s. Olhei em seus olhos, e... que surpresa.
(Flashback)

Sentada no último degrau, no canto da arquibancada, a garota de vestido cor de vinho e cabelos negros era a única que não torcia. Ela simplesmente olhava, em transe, para o loiro forte que corria lado a lado da quadra. - Lindooo! - Uma garota gritou ao seu lado, fazendo Isabel sair do transe.

- E só faltam alguns segundos para terminar a partida, pessoal! Será que os nosso querido time da casa consegue ir para as finais? - Uma caixa de som no canto da quadra falou. Em meio a gritos, hinos e incentivos, o inesperado aconteceu. O loiro forte, pivô do time da casa, tirou seus olhos da bola. Isabel, incrédula, olhava para os olhos dele, quase invisíveis perante a distância. "Ele está... olhando para mim?"
(/Flashback)

Sim, aquele olhar. O olhar que ele lançava para a novata era o mesmo que lançara para mim quatro anos atrás. Se eu ainda me lembrava? Aquele foi o momento mais inesquecível da minha vida. Como não lembrar? E daí, surgiu o meu choro. Evidentemente ainda sem motivo. Então, resolvi concordar com o olhar de Jack, meu ainda-não-e-agora-não-mais-namorado. - A oxigenada é muito habilidosa. - Falei, chorando, mas sem conter um sorriso nos lábios. Aquilo tudo era muito engraçado. E eu pensando que só acontecia em animês e novelas... O idiota ficou me encarando, boquiaberto. Algo que ele já não tivesse visto? Negativo. - Bel... - E então, ele me abraçou. Bem no início do refrão de Going Under. Tive uma reação inesperada. Empurrei-o e me levantei de repente, fitando seus olhos confusos. - Não me abrace. Ela é o seu novo amor agora. - Apontei para Sabrina, no palco. - Não me procure mais. - A música parou, e ouvi um baque surdo vindo do palco. - Suma da minha vida, que eu sumo da sua. - Quando ia sair correndo, uma mão segurou no meu vestido. - Jack, me sol... Só que não era Jack. Uma Sabrina chorosa, com o joelho arranhado da queda do palco, olhava em meus olhos. - Não faça isso, Isabel... Não deixe que isso... - Ela soluçou. - ...que isso estrague seu relacionamento. Você não sabe... não sabe quando vai perdê-lo. - Todos do auditório nos encaravam, como se fôssemos um drama burguês ambulante. - Eu não ligo mais para isso, e... - Não diga que não se importa! - Ela gritou, e isso me deixou pensativa. "Qual terá sido o passado dela?", pensei. - Sabrina, você não precisa se importar tanto com isso. Volte para o seu show. Eu e Jack resolvemos isso. - Eu quase senti compaixão pela oxigenada. Bom, para quê eu fui dizer isso?

- Isabel. - Jack se levantara, sério. - Tem uma coisa que eu gostaria de te dizer. Senti os olhares do "público" mais próximos. Sabrina deu um passo para trás. - Eu também te amo. Amo desesperadamente, mais do que eu posso suportar. Então, agora ele me amava? Olhei em seus olhos. Era aquele olhar. Não, eu não podia me render a isso de novo... - Você não passa de um imbecil em cima do muro. - Puxei Sabrina para perto de mim, e ela veio, sem contestar. - Ela ou eu? Responda. Se você a escolher, eu sumo da sua vida para sempre. Se você me escolher... - Eu saio da escola e prometo que nunca mais procuro vocês de novo. - Os dois olhamos para ela. - Não precisa disso. - Dissemos ao mesmo tempo, e ela assentiu com a cabeça. "Garota submissa", pensei. O silêncio era total. O diretor, percebendo a intensidade do momento, decidiu não interferir. Na verdade, era o que mais se divertia com a trama. - Isabel... você sabe que... Eu nunca, nunca... iria querer outra garota além de você. Jack segurava em minhas mãos e olhava em meus olhos. Apesar de tudo, eu não conseguia resistir àquilo. - É verdade que me atraí por ela, e é verdade que pensei nela naquela noite... - Nós duas já havíamos pensado nessa possibilidade, portanto não ficamos surpresas. - Mas já me enganei muito com beleza. Er, não estou dizendo que você é má pessoa, Sabrina, é só que... E ele me abraçou e me beijou profundamente. Fechei meus olhos e agarrei seus ombros. Nossa situação era quase pornográfica. - WOOOO! - As pessoas gritavam e aplaudiam ao nosso redor. Um bando de idiotas. Se bem que eu não podia exigir privacidade nesse momento. Até porque minha boca estava ocupada com outra coisa, heh. Pois é, Jack estava perdoado. Apesar de tudo, eu ainda era uma pateta apaixonada. Enquanto isso, Sabrina subiu ao palco novamente. - Diretor, me permitiria tocar outra música? - Sua voz estava firme novamente. - Vá em frente. - Ele queria um desfecho romântico para sua traminha. - Tudo bem. Cantarei "Tsubasa", do animê de mesmo nome. Tudo bem. Só minha música preferida no mundo inteiro. Comecei a chorar. Tudo acontecendo tão depressa... Eu só queria apagar toda aquela problemática de meu passado. Essa briga, essas confusões... fingiria que nunca aconteram. Era um passo a mais em nossa relação. - Isabel... - Jack parou de me beijar, o que me deixou indignada com ele. - Ei, o que está... - Quer namorar comigo? - E a platéia idiota começou a gritar "Aceita! Aceita!".

- Jack, você é um idiota. - Comecei a gargalhar, deixando-o confuso. Garoto lerdo... - É o que eu sempre quis. - E continuei beijando-o. Sim... a partir de agora, iríamos recomeçar. - Que orgulho dos meus dois bebês! - Ouvi Maria gritar, fazendo nosso "público" rir. - Sempre soube que terminaria assim... - O idiota do Allen já estava chorando de novo. Achei engraçado. A música havia acabado. Nos sentamos em nossos lugares, eu apoiando minha cabeça no ombro de Jack, ele me abraçando. - Diretor, continue as apresentações! - Ahn...? Ah, claro. - O cara devia ter o quê, uns trinta e poucos anos? Esses jovens distraídos... - Vamos chamar o próximo participante... Maria Yukai Kouto, apresente-se! Eu e Jack nos entreolhamos. Maria, apresentando? - Yes! - Maria no palco parecia um cachorrinho feliz. - Este é Allen, meu teclado de estimação! Todos riram, e olharam para o Allen original. - Pois é, eu ajudei a escolher! - Esquece esse Allen aí. E ela começou a apresentação. Apertava quarenta botões ao mesmo tempo. Quanta energia. As pessoas a encaravam, totalmente surpresas. Três minutos depois, ela parou. - Nossa, isso cansa! - Suspirou. - Essa vai pro Allen, o original! - Ela apontou para ele. - Diga, Madame Yukai! - Que música foi essa? - O tema da Freya de Chobits! - Certo! Palmas pra gente! - Ela saiu correndo do palco e puxou Allen na platéia. Os dois foram para a frente do palco, amigavelmente abraçados e sorrindo, enquanto o pessoal gargalhava a aplaudia. Pois é. Era isso. Voltamos à paz, por enquanto.

Renovando as alianças e descobrindo o mundo alheio
Pois é. Agora que eu e Jack estávamos namorando, optei por agir mais como uma garota. - Môzinho, compra um sorvete de morango pra gente tomar juntinho! - Falei isso apertando as bochechas dele. - Que saco, para com isso! - Ele corou. Ah, como eu adorava irritá-lo. Caí na gargalhada. - E agora, qual o motivo do riso? - Ri ainda mais. Éramos um casal idiota, daqueles que o carro quebra na viagem pra Ilha do Mel e acabam parando numa mansão abandonada e fantasmagórica. Ach o que a mansão, nesse caso, se traduz por Colégio Federal Cristóvão Colombo. - Parabéns, vocês dois! - Allen veio nos cumprimentar. - É, eu já escutei isso. - Disse, abraçando-o. - Jack, vocês dois já... - E fez um gesto que eu gostaria que ele não tivesse feito. - Por que você não vai falar de - E ele imitou o gesto de Allen - com a sua namoradinha? - Eu já disse que a Maria não é a minha namorada! - Moe moe kyun! - Eu estava falando da Rebecca, aquela guria da sua quadra de quem você tanto fal a. Opa. - Ah é, tem a Rebecca, né... - Ele dizia isso, distraído, enquando olhava para Maria subindo a escada do lado da porta na nossa sala. Eu e Jack nos entreolhamos, com um sorrisinho irônico e as sobrancelhas erguidas. - Alô gente linda do meu Heart. - Ela pulou, sorridente, nos ombros de Allen, que corou com o gesto. Curiosa, puxei Maria para dentro da sala. - Ai, não me puxa! - Você e o Allen estão ficando? - Adoro ser cara-de-pau. - Quê? Lógico que não! Quem te disse isso? - Tirei minhas próprias conclusões. Você gosta dele? - Gosto dele como amigo, nada mais. - Ela fez questão de dizer isso em voz baixa, talvez sabendo que Allen gostava dela. - Que pena. Vocês são ótimos juntos. Seu sorriso se desmanchou. Era como... como se ela estivesse escondendo algo de importante. Algo que eu iria descobrir sem ela perceber que eu estava tentando.
Depois da aula, no Giraffa's

- Ai. Meu. Deus. - O que é aquilo?

- Acho que tem um rato de laboratório mutante na cabeça dele. - Querem calar a boca e se concentrar na conversa principal? - E Jack sempre era o estraga prazeres. Olhávamos para um cara de black power verde-vômito que passava em frente à lanchonete, esquecendo rapidamente do assunto inicial. - Ok, foco. - Allen se manifestou, com lágrimas escorrendo pelas bochechas de tanto rir da situação. - Isso não era para ser feito no terceiro ano? - Maria olhou para a pilha de testes vocacionais manchados de ketchup no centro da mesa. - Provavelmente, mas nos mandaram fazer agora, então faremos. Cada um pegue a sua folha e trate de dar um jeito de limpar a sujeira que fez. - Por essas e outras eu amava tanto Jack. Peguei minha folha e limpei a mancha de comida com um guardanapo o máximo que pude. - Então - continuou Jack -, temos que marcar na coluna "A" as atividades que nos agradam, na coluna "B" os intrumentos de trabalho com os quais temos afinidade, na coluna "C" os locais onde gostamos de exercer nossos afazeres e na coluna "D" os atividades para as quais temos vocação. - E como eu vou saber, cacete?! - Acalme-se, Maria. Você tem uma vocação incrível para vôlei, pois apesar de ser baixinha - Ela franziu o cenho com a afirmação - é a melhor jogadora do Ensino Médio. Acho que você leva jeito com computadores, pois aprendeu r ápido a mexer com programação e coisas do tipo. - Ok, então marco isso aqui? - Jack assentiu. - Eu acho que o Jack é um líder nato. - A fala de Allen depois de tanto tempo de silêncio de sua parte fez com que virássemos rápido para ele. - Foi capitão do time de basquete, representante de sala em todos os anos desde que o conheço, sempre faz o discurso de final de semestre e tira as melhores notas do segundo ano. Concordam? - Positivo. - O que fez Jack corar e ficar sério. Apertei suas bochechas. - Que saco! - Todos riram. Saímos do Giraffa's quase fechando, pois demoramos tempos falando sobre nossos gostos e vocações, e além disso Maria e Allen resolveram discutir sobre o que importa, dinheiro ou satisfação profissional. Eu sentira falta de passar um tempo assim com os amigos, principalmente com Jack, já que todos viajamos com nossas respectivas famílias durante as férias e depois tivemos - bom, eu tive - um início de ano conturbado.

Como minha casa ficava bem longe, ou Jack ou Allen me acompanhava quando era mais tarde. Jack tinha que passar no supermercado antes, então Allen voltou para casa comigo. Allen estava mais quieto do que o normal. Sempre quando ele me acompanhava até em casa, falávamos sobre mil coisas, desde sobre o atraso do mangá X ou Y na banca até sobre o domínio da Igreja na sociedade medieval. - Allen, aconteceu alguma coisa? - Ahn? Ah, não, só estou sem ter o que falar hoje. - Seu sorriso era tão falso... e o imbecil ainda tinha a intenção de me convencer, mesmo sabendo sobre meu dom. - Desenvolve. Eu estou esperando. Ainda tenho 40 minutos de viagem para te encher o saco. Acabamos de entrar no primeiro ônibus, e com mais o trânsito, os outros dois ônibus e a caminhada até a porta da minha casa, pode dar até uma hora. - Sua garganta vai sangrar de tanto me perguntar. - E isso quer dizer que realmente tem alguma coisa. - Besta. - Ser patético desprovido de funções cerebrais ativas. - Criatura acéfala de contornos excessivamente adiposos. - Recipiente inexorável de dejetos em estado de putrefação. - Moradora obscura do ambiente trevoso que se traduz por seus pensamentos. - Você vai me contar o que é ou não? - Eu prometi para alguém que não iria contar. Alguém, é? Olhei bem em seus olhos, durante cerca de 20 segundos. - Tem algo fundamental atrapalhando a relação que você gostaria de ter com a Maria. - Eu odeio você. - Mais um pra lista. O que seria essa 'coisa fundamental'? - Eu já disse que não vou contar! - Um carro buzinou bem durante a sua fala. - O quê, não ouvi? - Por experiência própria eu sabia que me fazer de idiota irrita as pessoas a ponto de elas falarem coisas que não querem. - Eu. Disse. Que. Não. Vou. Contar. - Enquanto ele falava, olhei para a janela do outro lado. - Pode repetir? Não prestei atenção. - Você vai parar de tentar me irritar se eu falar pra você? - Parei. - Funcionou.

- Nossa, como eu falo isso? Allen era muito fofo. Não sabia exatamente qual o motivo pelo qual Maria não ficava com ele de uma vez por todas. - Ok. Maria é lésbica. Meu mundo caiu. - Como é que é? Repete. - Não me irrite. Eu já disse o que tinha que dizer. - Timidamente, ele ficou olhando o pôrdo-sol pela janela de forma a não encontrar meus olhos, que o encaravam agora. Dessa vez eu tinha decrescido à posição de idiota de uma vez por todas. Maria, lésbica, como assim? Desde quando? Ela era uma quase-tsundere-moe-kawaii ambulante - excesso de expressões desnecessariamente otakus. - Allen... quando você descobriu isso? E desde quando ela é... sabe? Ainda sem olhar para mim, ele respondeu: - Descobri ano passado. Perguntei se ela gostava de algum garoto da turma, sabe, esperando que ela dissesse "Eu te amo, Allen gostosão paixão da minha vida" - Eu ri. Mesmo nessa situação ele conseguia fazer graça. - E ela disse "não sei qual a graça nos garotos". Em minha lerdeza habitual pensei simplesmente que ela tinha tido uma decepção amorosa recentemente e não falei nada de meus sentimentos para não confundí -la. Até que... Suspense me irritava. Muito. - Anda! - E dei um tapa em seu braço. - AI! Calma, droga. Até que ela veio me dizer toda tímida e moe moe "Não conte pra ninguém, mas penso que estou tendo uma espécie de... sentimento pela Karin da turma F", e eu olhei para a cara dela e disse "Como assim, vocês brigaram?", e ela "Não, idiota", e ficou me encarando, aí eu tive um estalo e disse "AAAAAH.", e depois "CACETE! Você é...?" e ela "Não sei, não conte para ninguém" e me fez assinar um contrato de silêncio absoluto que acabei de descumprir impiedosamente! Esse era o Allen que eu conhecia. - E aí eu fiquei chateado porque a Karin da turma F é uma ruiva gostosa e eu sou um garoto lerdo e verticalmente prejudicado, mas Deus, como eu gosto da Maria... Abracei Allen, reconfortando-o. O céu já estava no tom azul-marinho do Crepúsculo. - O que você quer que eu faça, Allen? - Não precisa fazer nada...

- Você gosta mesmo da Maria, como pensei... Então... era isso que ela estava escondendo hoje de manhã. Fiquei em choque e com pena de Allen ao mesmo tempo. - Ah... ela é tão linda, com aqueles olhos castanho-avermelhados e aquele cabelo repicado e macio... - E o amor estava vindo à tona de uma vez. Allen deitou no meu colo, aproveitando o espaço dos bancos de trás. - Ela é sempre tão alegre, aventureira, e apesar de parecer frágil, é forte tanto por fora quanto por dentro. Tive que concordar. Se Maria tivesse passado pela mesma situação que eu passei com Jack, ela não derramaria uma lágrima sequer e resolveria tudo no tato . - Atenção, última parada, desembarque obrigatório. - Vamos, Allen. - E então descemos do primeiro ônibus, já escuro. Dois minutos depois, chegou o microônibus que me levaria até o ponto da terceira condução. Já dentro, tive uma ideia. - Allen, por que você não passa a noite em minha casa? É sexta-feira mesmo. - E seus pais deixariam? - Que isso, eles te conhecem como à palma de suas mãos. Além disso, eu durmo com o meu irmão no quarto, o William, lembra dele? - Aquele bombado com cara de serial killer? Me lembro muito bem. - Sua voz era falha. Bons tempos. - Exatamente. Você vai dormir no quarto conosco. - Tá brincando com a minha cara? - Ele me olhou, sonso. - Eu nunca brinco. Se você tentar algo, ele vira Super Saiyajin 4 e detona co m você e com o resto do mundo. - Captei a mensagem. Chegando em casa, cumprimentei minha mãe, que como sempre estava escondida atrás de pilhas e mais pilhas de livros de direito, matemática, literatura e gramática, já que prestaria concurso público naquele ano. Arrastei Allen para o meu quarto,peguei um pijama do meu irmão no armário e emprestei para o meu querido visitante envergonhado. - Ele vai me matar. - Não vai se eu não deixar. - Ele vai me matar. - Veste logo isso.

Allen ficou mais tranquilo, muito mais tranquilo depois de receber a notícia de que William dormiria na casa da namorada. Idiota... Depois de uma sessão de chicken popcorn e filmes de terror antigos fomos dormir. Bem, "dormir". - Psiu, Bel. - Por que me chamas? - Você acha que eu devo me declarar pra Maria? - Quem sabe depois de uma declaração máscula e cheia de testosterona ela não passe a gostar de homens? - Haha, engraçada. - Não estava brincando. Que parte do "eu nunca brinco" você ainda não entendeu? - O "eu nunca brinco". É sério então? Lembre-se de que sou um homem perdido pedindo pela opinião de uma garota madura e especialista em amor. - Obrigada. E sim, acho que você deveria falar. Mas não diretamente. Pergunte sobre os sentimentos dela, perceba se está triste, confusa, vai ver ela até está mudando de ideia sobre a própria sexualidade. - E como diabos vou fazer isso: "Oi, quais são os seus sentimentos? Você está triste, confusa? A propósito, já deixou de ser lésbica? Responda logo, assim eu posso dizer que te amo." - Idiota. - Joguei um travesseiro nele. - Então o que eu falo? - Vá dormir. Segunda-feira eu te ajudo, mas nesse fim de semana quero que você distraia sua mente. A propósito, avisou sua família que viria para cá? - Mandei uma mensagem dizendo que iria para a escola com você na segunda. - Ok, Buona notte. - Oyasuminasai. - Psiu, Allen. - O que foi? - O que você achou da apresentação da oxigenada essa semana? - Achei muito legal. Penso que gostaria de tocar baixo. - Sério? Eu queria aprender a tocar bateria. - Lembra de K-ON?

- Como não lembrar? - A gente podia fazer uma banda. - Não fale besteiras, estamos grogues de sono. Amanhã discutimos isso. - A Yui aprendeu guitarra depois de entrar no keionbu. - Durma. - De repente demais pra você? - Você sabe que eu gosto de coisas planejadas, sistemáticas e úteis. Não me venha com gracinhas. Vamos aprender a tocar baixo e bateria juntos, mas é só. - Você ainda vai mudar de ideia. Que sono. - Estávamos iguais à dois bêbados, de tanto sono. Rimos com isso. - Ok, vamos dormir então. Gute Nacht. - Buenas noches.

Erro técnico
- Não, eu me recuso a ir à sala agora! – Isabel me arrastava impiedosamente em direção ao alojamento temporário do monstro de 1.95 m de altura e 98 kg (ou mais), que curiosamente tinha parentesco próximo com ela, uma criatura que não tinha mais do que 1.65 m. - Deixe de ser idiota, o que ele pode te fazer de mal? O que ele poderia me fazer de mal? - Que tal me pendurar numa árvore de cabeça para baixo pela cueca e me fazer de pinhata de novo? Bom, isso. - Patético... – Ela estava rindo de mim. Por que ela estava rindo de mim? Saí correndo dela pelo corredor em direção ao quintal de sua casa, quando ela me empurrou e se posicionou em frente ao portão se saída. - Vamos dar uma saída por enquanto... – Disse, tentando abafar o caso. Ela não engoliria essa. - E você espera que eu saia sem avisar a ninguém? - Exato. Você é esperta. – Ela ia me bater. - Novamente, patético. – Ela segurou o meu pulso e começou a me puxar em direção à sala de estar de sua casa. – Vamos. A casa não é tão grande assim para você querer se esconder sempre que meu irmão aparecer. Eu tinha plano de saúde, então acho que meu tratamento in tensivo não sairia tão caro. Quando chegamos à sala, William estava gritando para a televisão com sua voz de câmera lenta. - Mas tu é um idiota, Edilson! – Agora eu sabia com quem Bel havia aprendido a se comportar. - Irmão. – Ela o chamou, que virou de lado e sorriu ridiculamente. - Olha, quem é o campeão aí? - Lembra do Allen? – Ela puxou minha blusa enquanto eu tentava fugir pela sombra. Dei um sorriso para disfarçar. - Allen? O baixinho que gostava de subir no telhado? – Eu estava tentando salvar o gato deles, ora. Não sabia que era natural os gatos fazerem isso. – Como me lembro! – Então, ele se levantou e deu um tapão nas minhas costas, o que me fez dar uns dois passos para frente e quase soltar um palavrão. – Aprontamos muitas juntos, né, guri? Qual o objetivo disso mesmo? - Olha, William, vamos dar uma saída. – Ela chegou mais perto dele. Era até engraçado, pois ela batia no ombro dele. - Que horas pretendem chegar?

- Não se preocupe antes das 22 horas, e não chame a polícia antes das 23h. - Aonde vão? - Perambular. - Leve o celular. - Quebrou. - Leve o cartão telefônico, então. - Perdi. - Putz, então leve o meu celular. - Eu não sei mexer. - Então que se ferrem vocês dois. Ele saiu da sala e nós dois começamos a rir. Dei a língua para ele. Já no fim do corredor, perguntei: - E então, Bel, o que pretende fazer? - Vamos andar de bicicleta pela cidade. Você pode pegar a do meu pai. – E ela apontou para uma mountain bike verde escuro parada ao lado de uma bicicleta comum cor de vinho, que supus que era de Bel. Peguei minha mochila num cabideiro ao lado da dispensa, e quando Bel ia subindo em sua bicicleta, me veio uma inspiração. - Inspiração, Bel. - O que devo fazer? – Ela já estava acostumada com minhas inspirações artísticas que vinham nas horas mais inesperadas. - Fique em pé ao lado da bicicleta, com um pé no pedal e uma mão no guidão, olhando para o horizonte. Depois de ela se arranjar, observei-a um pouco e saquei um kit de aquarela, pincéis e também um papel Canson próprio da mochila. Enchi um potinho com água em seu tanque, e me sentei no chão para pintar. Me veio uma pergunta à cabeça. - Bel, por que você usa tantas coisas cor de vinho? – Eu já havia começado minha obra. - Bom... eu acho que me lembra daquelas roupas medievais e da corte moderna também, ainda mais as que vêm com rendas e com mangas brancas e bufantes. - Você gosta mesmo de história, hein? Andei olhando seus livros, e você tem ao menos uns 40 sobre história medieval e moderna, e uns 20 de história antiga. - Nunca tirei uma nota abaixo de 9.8 em história, em toda a minha vida. Tenho paixões pelas idades medieval e moderna. Me parece tão familiar, não sei explicar... – Sua expressão havia ficado mais leve e natural com o assunto, o que estava me deixando

ainda mais inspirado. Acelerei a pintura. – E você, de que disciplinas gosta? – Ela perguntou sem mover a cabeça. - Eu gosto de artes e de matemática. Acho que as duas se complementam. - Você é incrível nas artes. Não tenho dom para nenhum tipo de arte, que tosquice... Rapidamente, me lembrei de um episódio e comecei a rir. - Mas você é boa em música. Lembra da flauta da tia Telma? – Gargalhei com a lembrança da cena. - Ah, não. Não me venha com flauta da tia Telma. – Sua expressão era zangada agora. - “Gente, gente, olha a música que aprendi a tocar na flauta!” – E comecei a assobiar o funk da Carla Perez. - Idiota, eu não sabia distinguir estilos musicais na época, ok? - Mas você aprendeu rapidinho. – Minha barriga estava doendo de tanto rir. - Quieto! Você não presta mesmo! – Ela se virou para mim, zangada. - Pose. - Desculpe. – E voltou para sua posição anterior. – Como está seu trabalho? - Pergunte em dez segundos. Dez segundos depois, ela me perguntou novamente: - Como está seu trabalho? - Acabado. - Mas já? Só tem 10 minutos que estamos aqui. Empinei o nariz, metido, e lhe mostrei a folha úmida de aquarela. - Caramba, você é incrível! – Bipolaridade mata, oi. – Me dá? Eu vou enquadrar e pendurar no meu quarto. Eu a havia desenhado no topo de um castelo de pedra, com um vestido cor de vinho estilo medieval, apoiada na varanda e olhando para a paisagem no horizonte, com lagos grandes, bosques e uma aldeia. - Pode ficar. – Ela saiu correndo, provavelmente até seu quarto, e depois voltou, ofegante. – Então, vamos? - Vamos. – Botei minha mochila nas costas e peguei a bicicleta verde. Olhei em meu relógio de pulso, e eram cerca de 10 horas da manhã.
19 horas

- Que. Cansaço. – Falei, me jogando na poltrona do cinema com um balde mega de pipoca na mão. - Me matem antes que isso comece a doer... – Isabel se jogou na poltrona ao meu lado, com um copo de 1L de fanta uva – nosso refrigerante preferido - em cada mão. Havíamos passado o dia inteiro andando de bicicleta, e agora estávamos no extremo oposto da cidade, em relação à casa de Isabel. Tomamos um mega sundae numa sorveteria enorme que nem sabíamos que existia, e depois resolvemos ir ao cinema, com preguiça de voltar tudo de novo na hora. Logo na primeira cena de filme, apareceu um cadáver imer so em uma poça enorme de sangue. - Isso é horrível. – Bel disse ao meu lado. - Eu sei. Não é legal? - Muito. Ei, não coma toda a pipoca com manteiga. - Eu como o quanto quiser da sua preciosa manteiga, afinal eu que paguei 15 reais por essa pipoca. – E comi um punhado de pipocas praticamente derretidas pela manteiga na cara dela. - Ah, é? Então você vai morrer de desidratação, pois eu paguei pelos refrigerantes e posso tomar tudo. – E ela bebeu um pouco de cada copo na minha cara. - Você vai fazer xixi nas calças e vai feder daqui até sua casa. - E aquele cara morto da primeira cena é você daqui a 40 segundos. Como superar? E 40 segundos era Death Note demais para mim.

Durante o filme, Bel havia começado a passar mal com tanta comida e mais as nojeiras que apareciam a cada cena. Então depois que acabou, ela resolveu vomitar na moita ao lado do cinema. - E aí, acabou? É meio constrangedor ficar ao lado de um arbusto que faz “Bleagh” e “Rarg”. Ouvi um outro “Bleagh” como resposta. Cerca de um minuto depois, e la saiu de trás da moita, despenteada. - Droga... me dá sua água. Tirei um cantil militar da mochila e entreguei para Bel, que detonou com todo o seu conteúdo. - Desse jeito, vai acabar vomitando de novo.

- Quieto. – Ela me entregou o cantil vazio e saiu andando em direção ao bicicletário onde havíamos estacionado nossas bicicletas. Chegando lá, ela olhou para o lado e arregalou os olhos. Olhei para a mesma direção que ela. - Allen... nossas bicicletas, elas... - Sumiram. – Completei. Só restavam as correntes, que haviam sido jogadas no chão. Me aproximei e segurei-as, tentando não entrar em pânico. - Rápido, Len, temos que chamar a polícia ou algo assim. - Não, o processo seria demorado demais. O melhor é acharmos um jeito de voltar para casa, para depois nos preocupamos com as bicicletas. Então, tirei o celular da mochila, que deu um apito de bateria fraca. Olhei a hora em meu relógio de pulso, eram 21h 30 min. - Me diga seu telefone. Rápido, a bateria está acabando. Tem problema ligar a cobrar? – Digitei o “9090” - Numa situação nessas, claro que não... - Ok, pode falar. - 3254... - Hum. - ...7845. Opa. - Erm, Bel, sobre o celular... digamos que... a bateria acabou. - Mas que saco! Por que tudo tem que dar errado? – Ela saiu emburrada, e sentou-se no meio-fio, com as mãos apoiadas nos joelhos e o rosto apoiado nas mãos. - Calma. Você tem algum dinheiro para uma passagem de ônibus, metrô, qualquer coisa? Ela tirou as mãos vazias dos bolsos. - Não, e você? Peguei minha carteira na mochila. - Tenho 25 centavos. - Nem dá para comprar algodão doce. Ela bateu na minha mão, o que fez a moeda rolar até o meio da rua. - Eu gostava dessa moeda. - Disse, encarando-a.

- Então vai pegar. - Não gostava tanto assim. Depois de alguns minutos de silêncio, falei para ela: - Acho que temos que voltar andando para casa. - Está maluco? Está escuro, aqui não é a parte mais segura da cidade, não sabemos bem para onde ir e estamos a uns 10 km da minha casa. Levaria umas 2 horas e meia no mínimo para voltarmos. - Então tem alguma outra idéia? – Sem esperança, perguntei: - Conhece alguém que more aqui perto? Ela ficou em silêncio por alguns segundos. - Acho que tem uma amiga da minha mãe que mora nesse bairro... – Ela olhou para as casas por alguns momentos. – Não, espera. Ela se mudou para uma cidade vizinha tem uns dias. - Que ótimo... – Escondi meu rosto em meus joelhos. – Sabe se outra pessoa mora aqui? Jack, Maria, sei lá...? Então, ela virou a cabeça vagarosamente para mim, com os olhos brilhantes. - É isso. Lembra que Maria nos disse que ela vinha passar os finais de semana com uma tia dela... - ...que mora há cerca de 800 metros do cinema cultural do bairro do Lântemo? – Rapidamente, nos entreolhamos. Nos levantamos e atravessamos a rua correndo, como dois náufragos que avistaram terra. Porém, ao chegar na calçada do outro lado da rua, ela parou e puxou a manga de meu casaco. Ótimo. - O que foi agora? – Olhei para ela, aborrecido. - 800 metros para qual direção? Epa.Não havia pensado nisso. - Ela te deu algum ponto de referência? - Ela mencionou algo sobre uma igreja com umas flores no jardim... - Igreja... não sei onde fica. Vamos perguntar no cinema. Andamos de volta para o cinema, dessa vez desanimados. Chegando lá, andamos em direção a um atendente de caixa sonolento. - Boa noite. – O homem se voltou para Isabel. – Pode nos informar onde fica uma igreja com umas flores na frente?

- Igreja... tem uma indo aqui pela direita. Fica a uns 800 metros daqui. Entreolhamos-nos, satisfeitos. - Obrigada, moço. Bel agarrou minha mão e andou rápido até a saída. Chegando lá, ela parou e me encarou. - Olhe. Eu não sei o que pode acontecer, pois já é tarde e essa é uma região violenta da cidade. E não tem ninguém na rua a essa hora para nos ajudar caso algo aconteça. – Sua expressão era séria. Eu apenas assentia. – Portanto, não vamos nos separar. Andamos para a direita do cinema, conforme o cara havia nos informado. Chegando lá, avistamos uma passagem um tanto estreita e sinistra. Apesar dessas condições, continuamos andando. - Bel, fique do meu lado. - Por quê? Sei me defender. – Sua voz era de desdém. - Então finja que você vai ao meu lado para me defender caso seja necessário. - Acho que isso é mais real do que você pensa... – Ignorei-a e continuei andando. No fim da passagem, que deveria ter cerca de 150 metros, havia uma bifurcação. No caso, uma trifurcação, pois havia calçadas para todos os lados. - E agora, para onde vamos? – Ela perguntou ao meu lado, com uma voz cansada. Olhei ao redor, em busca de alguma referência. Só consegui avistar uma árvore alta do outro lado de uma calçada larga que atravessava a que estávamos no momento. - Vou subir naquela árvore para ver se avisto alguma coisa. Me espere aqui. - Ok, tenha cuidado. – Ela se posicionou bem, logo abaixo de um pequeno poste de luz. Naquela região, era comum que as igrejas tivessem grandes cruzes de madeira em seu topo. Então se subisse alto, talvez avistasse algo do tipo. Comecei a escalar a árvore, preocupado tanto em não cair como em ficar de olho em Bel, sozinha lá embaixo. Bel era bastante forte para uma garota, mas não pário para um bandido armado. Bom, mesmo que alguém mal-intencionado aparecesse e eu estivesse perto, não conseguiria abatê-lo também, mas poderia chamar alguém da vizinhança para ajudar-nos, ou qualquer coisa. Era preciso começar a pensar nessas possibilidades. Quando alcancei um ponto com uma boa vista, olhei em todas as direções, procurando por algo útil. Depois de várias tentativas, pensei ter avistado uma cruz no fim da calçada que ia em frente. Olhei de novo para ter certeza e desci rapidamente da árvore. Bel estava parada, na mesma posição em que a havia deixado.

- Vamos, acho que avistei algo indo direto. - Limpei minha roupa das folhas e das formigas. - Você acha que avistou algo? – Sua voz era, novamente, de desdém. - Nessas horas, precisamos arriscar. – Comecei a andar, e Bel veio correndo para o meu lado, sem dizer nada. Cerca de 5 minutos depois, avistamos algo de perto. Estávamos no alto de uma ladeira, e logo abaixo havia uma praça com várias lamparinas, o que facilitou a visão e nos deu um pouco mais de calma, depois da escuridão. Algumas casas tinham suas luzes acesas, mas não muitas, já que aquela região era nova e tinha muitas residências vazias. Sentimos também o cheiro suave de damas-da-noite. - Estamos perto. – Bel disse ao meu lado. A animação do momento fez com que descêssemos a ladeira correndo. Depois de atravessar a praça e andar mais um pequeno trecho, chegamos na tal igreja. - Viu, eu disse que era bom arriscarmos. – E então, paramos em frente à construção. A igreja era maior do que pensávamos. Tinha as paredes brancas, e as portas e janelas num tom de ouro velho. No jardim, grandes roseiras, margaridas e damas -da-noite. - Que igreja linda... – Ela falou, suavemente. Seu estilo colonial certamente a deixara fascinada. - Está sentindo o cheiro dessas flores? – Perguntei, já animado. - Estou... – ela respirou fundo. – Vamos logo achar a casa de Maria. Pode ser qualquer uma num raio de 50 metros a partir dessa igreja. - Vamos tentar ver se tem móveis na casa pela janela, e se tiver, chamamos pelo interfone. - Mas vamos perturbar as pessoas. - Isabel. – Segurei seus ombros e a olhei bem nos olhos. – Somos dois jovens de 16 anos, perdidos, sem dinheiro e sem comunicação com o mundo, sem ter como voltar para casa e no meio de um bairro perigoso. Eles não se importarão. - Tudo bem... Então, você olha na casa depois da igreja e eu na que fica antes. - Ok. – E andei em direção à janela da primeira casa, que não estava envolta pelo portão. Olhei para dentro da janela e não avistei nada. Voltei para a frente da igreja, e Bel fez o mesmo. - Nada? - Nada. – Ela parecia preocupada. Tentei acalmá-la.

- Ainda temos as casas de trás e as que ficam depois da praça. Vamos primeiro nas de trás, que estão mais próximas. - Tudo bem... – Nosso passo era lento, pois estávamos exaustos. Fizemos a mesma coisa com as três casas que ficavam na rua de trás. Só havia gente morando na última, pois avistei alguns móveis lá dentro. Voltei para a frente do portão e toquei o interfone. Depois de uns 5 toques, alguma alma agora zangada resolveu atender. - Alô, quem é? – Uma voz feminina meio ranzinza falou através da caixa verde. - Ahm... desculpe incomodar... a Maria Yukai mora aqui? - Não tem nenhuma Maria aqui não, querido. É uma Maria japonesinha que você está procurando? - Sim, é uma garota japonesa. – Me animei um pouco. - Ah, ela aparece no fim de semana numa casa cor de salmão que tem ali do outro lado da praça. Acho que vi ela hoje de manhã, se não me engano... é uma casa com o telhado escuro e o portão cinza, vai lá checar. - Ah, obrigado. – Já bastante animado, corri até Bel, que me esperava escorada no portão de uma casa que havia checado. - Bel, Bel! – Ela olhou aborrecida para meu sorriso. – Não me olhe assim. Uma mulher me disse que a Maria está numa casa salmão com o portão cinza depois da praça. – Ela me encarou, cansada demais para sorrir. - Então vamos. – Ela pôs a mão nos bolsos e começou a andar na minha frente, quase se arrastando. Passamos pela praça e procuramos por uma casa salmão. Ficava na segunda fileira de casas depois da praça. Uma luz fraca que mudava de cor, provavelmente uma televisão, estava acesa numa janela do lado direito da casa. - Vou chamar o interfone. – Bel andou até o portão e apertou o botão do interfone. A pessoa atendeu rápido. Não ouvi o que o morador disse, apenas escutei Bel dizendo: - Você não sabe o que nos aconteceu... Só posso dizer que não temos como voltar para casa. Aham, eu te conto, abre a porta pra gente. Supus que Maria havia atendido ao interfone. Depois de um zumbido de abertura do portão, Maria apareceu na porta, com uma camisola azul-claro e os cabelos soltos e despenteados. - Vocês estão com umas caras horríveis. Ah, mas vão ter que me contar cada detalhe do que aconteceu. Olha a hora em que vocês me aparecem!

Tanta energia para se ter às dez e meia de um sábado... Ela estava radiante, como sempre, contrastando com nosso estado desprezível. Saiu andando para dentro da casa e deixou a porta aberta. Fechei-a quando entrei. Ela só havia acendido uma pequena luminária no canto da sala, então não pude vê -la bem. Só avistei os contornos de dois pufes, um sofá em L, uma rack com uma TV LCD, uma revisteira, um quadro e uma arca com alguns jarros em cima. Segui em direção a um quarto, que imaginei ser o dela. Bel já estava lá dentro, sentada na cama de Maria - bastante grande para uma garota tão pequena. Encarava a TV, que mostrava um jogo não-terminado de Final Fantasy XIII. Maria rapidamente o salvou e desligou a TV, acendendo uma lamparina em forma de leque que ficava ao lado de sua cama. - Vocês estão tão cansados... querem passar a noite aqui? - Ela nos olhava com compaixão. - E você acha mesmo que eu vou me levantar daqui? – Bel disse, se deitando em cima da cama. Maria lhe lançou um sorriso. - Vamos fazer o seguinte. Eu ligo para sua casa e pergunto o que é melhor fazer. E você, Allen? – Ela olhou para mim. - Eu passaria a noite na casa de Bel. - Ok, melhor ainda. Me esperem. Pode deitar na cama, se quiser. – Ela falou a última parte para mim, saindo do quarto. Me deitei na cama, ao lado de Bel, que já havia apagado ali em cima. Fechei meus olhos também, que pesavam e ardiam com o sono. Cerca de dois minutos depois, Maria reapareceu no quarto. - Gente,vocês podem dormir aí. Bel, sua mãe está preocupada. – Bel respondeu com um gemido indefinido. – Ela disse que vem buscar vocês amanhã umas dez horas. Então, tomem café-da-manhã aqui, ok? Respondi com outro gemido. Senti que ela estava tirando meus tênis e meias, e provavelmente os de Bel também. Ouvi-a ligar o ventilador, então nos cobriu com uma manta macia e apagou a lamparina. Depois disso, não me lembro de mais nada.

Encontros e desencontros
- NÃÃÃO! SAI DE CIMA DE MIIIIM! AAAAAAH! SUA PSICOPATA! Ruídos agradáveis como esse me despertaram sutilmente na manhã seguinte à nossa jornada épica. Ao meu lado, Maria e Allen discutiam fervorosamente pelo último an-pan*. Deviam ser menos de nove horas, mas isso não era problema; eles estavam descansados. Quem liga para a garota que precisa de 15 horas de sono diárias para não desmaiar? Abri os olhos numa velocidade que meu lagarto perneta nunca havia visto antes. Na mesma velocidade, me levantei e lancei o maior travesseiro que vi na direção do tumulto. Meu corpo doía abundantemente em cada centímetro quadrado de sua extensão. - Ai! - Os dois falaram em uníssono. - Foi mal. Acordamos você? - Não, é que eu acho que ouvi o barulho de uma abelhinha envenenada. É um absurdo, elas deveriam ser multadas por tamanha balbúrdia. - Desculpe. - Allen disse, dividindo o pão em três pedaços obviamente diferentes. - Pegue um pedaço. Peguei a semi-migalha e comi. Assim que engoli, percebi o estado deplorável em que meu estômago se encontrava. Uma energia divina surgiu do nada em meu co rpo, me fazendo correr até a cozinha. Ouvi passos vindo atrás de mim. - Minha tia saiu. Foi ao cabelereiro, e só deve voltar no fim da tarde. Então... comam o que quiserem. Não compreendi a associação. - E isso não seria possível se sua tia estivesse aqui? - Não. A não ser que seu maior desejo gastronômico seja torta de cevada com figo e alga marinha. Agora ficou claro. - A gente já comeu. - Allen disse ao meu lado. - Ainda tem alguns biscoitos no armário e umas frutas secas. Frutas... secas? - Maria, Maria, você tem nozes, hein? Vai, diga o que eu quero ouvir! - Fiz uma cara moe e olhei em seus olhos. - Aonde você vai as nozes se acabam, impressionante... Espera, vou pegar.

Ela entrou na dispensa e voltou, um minuto depois, com uma caixinha de nozes já sem casca. - Grazi! - Saí correndo com minhas jóias comestíveis e me joguei no pufe de couro que havia na sala de estar. Maria e Allen me observavam comer as nozes compulsivamente. Cerca de três minutos depois, fui até a cozinha para jogar a caixa fora e voltei com uma lata de suco de lichia. - Acho que foi um recorde, não? - Allen dizia para Maria, sério. - Não. Da última vez, ela detonou a mesma quantidade em pouco mais de dois minutos. Ela olhava para o relógio da parede. - Eu poderia beber e usar drogas, mas prefiro comer umas nozezinhas cheias de proteína. - Abri o meu suco e voltei para o quarto. Os dois me seguiram de novo. - Mandado de vigilância 24 horas? - Não. Mas é interessante observar seus hábitos matinais. Maria, antes séria, fez uma careta, fungando como um coelho. - Olha, eu não ia comentar, mas pelo amor de Deus, tomem um banho! Eu e Allen olhamos para ela. - Não precisa se incomodar, madame perfume j'adore, nós vamos embora em uma hora. - E ele veio até a cama e se sentou ao meu lado.

Conversamos até pouco mais de onze horas, quando minha mãe surgiu na porta, ofegante. - Crianças... más notícias... Oba. - Diga... - Minha voz era cavernosa. - O carro quebrou no meio da Rua Maria das Flores, sorte que tinha um mecânico ali perto... se importam de andar até lá? O cara prometeu que terminaria tudo até o meio -dia. Nós três nos entreolhamos. - Mãe, o que houve? - Puxei-a até o sofá, onde ela se sentou, confortável. - O carro já está velhinho... A bateria também não estava lá essas coisas, e aí resolveu pifar. - Você andou uns dois quilômetros até aqui, dona Miria. Não está cansada? Melhor tomar alguma coisa antes de voltarem. Podem até almoçar aqui se quiserem. - Maria às vezes

conseguia fingir bem que tinha pelo menos um pingo de cortesia. Bom, ela nos deixara dormir em sua cama na noite passada, e me deu 150 gramas de nozes. - Tudo bem, querida. Acho que vou querer só um copo d'água, por favor. Maria foi até a cozinha, trazendo consigo um copo da Sailor Saturnus com água até a boca.

Uma meia-hora depois, nos despedimos de Maria e fomos andando até o mecânico. Por sorte, a distância era menor do que pensávamos. Nossos corpos doíam por completo a cada passo, mas depois de tudo, era sorte ter que andar apenas um quilômetro. Pegamos o carro, que demorou uns 5 minutos até resolver ligar, e fomos a 90 km/h até em casa, numa rua de paralelepípedos. Depois de sermos massacrados, batidos e nocauteados, precisamos de alguns minutos para conseguirmos sair do carro. Mas logo a tontura passou, quando sentimos o cheiro de comida novinha vindo da cozinha. - Vocês dois querem bife ou frutos do mar? - Frutos do mar! - Eu e Allen respondemos ao mesmo tempo, enquanto fui até meu pai/cozinheiro preferido para abraçá-lo. - Mas que novidade. Quer dizer que os dois frajolas deram fim na minha bicicleta? Que bom que ele só se preocupava com a bicicleta. E aposto que ele nem sabia o que era um frajola. - Eu não vou gastar meu dinheiro até você ver isso na polícia. - Disse, beliscando as batatas fritas. - Eu sei, eu sei. Aonde o Allen foi? Olhei em volta. Ele havia sido abduzido. Fui até o meu quarto, onde o achei falando no meu celular. Me escondi atrás da porta, para ouvir o que dizia. Se fosse a cobrar, seriam suas últimas falas, devendo ser guardadas com carinho. - Eu pedi pra você falar com ela! Falar com quem? - Não, criatura miserável, não era sobre isso! A única criatura miserável com quem ele poderia estar falando era com Maria. - Logo de manhã eu te falei. Disse que conversei com ela. Não estávamos até planejando como seria? Só falta ela aceitar.

Aquilo não me cheirava nada bem. - Mas ela disse que queria aprender bateria. É, ela me contou. Eu aprendo baixo, você toca o teclado, o Jack pode aprender guitarra e a Bel fica com a percurssão. Ah, não. Não, não podia ser. Eles estavam planejando aquela ideia maluca de formar uma banda pelas minhas costas! - Hum, não sei, acho que depois de tudo que aconteceu... e ne m a conhecemos direito. Eu sei que ela é ótima na guitarra, canta pra cacete e tudo o mais, mas sei lá, devíamos falar mais com ela antes. Ok. Bastava. - Allen, você é um idiota. Eu já disse um milhão de vezes que não vou formar droga de banda nenhuma com vocês, parem de planejar essas coisas absurdas! E vocês nunca trocaram uma palavra com a Sabrina, então parem de meter a garota no meio das suas maluquices! - Acho que ela descobriu. Depois nos falamos. - Ele desligou o telefone e deu um sorriso estúpido para mim. - Pode começar a explicar. Ele respirou fundo e me encarou, sério. - Ok, ok. Foi errado de minha parte esconder isso de você. Mas que bom que você descobriu agora, assim sai esse peso da minha consciência. Lá vinha bomba. - É o seguinte. Bom, primeiro que nós trocamos uma palavra com a Sabrina, sim. Várias, na verdade. Depois do show de talentos, Maria e ela tiveram uma conversa. A Sabrina foi elogiar a Maria, e tals, e as duas começaram a conversar pra valer. Aí a Sabrina revelou que tocava numa banda quando estava na sexta série, mas que as pessoas acabaram mudando de colégio, não se falando mais, além de outros problemas com dinheiro, espaço, essas coisas. - Dá pra ir mais rápido? - Não, os detalhes são importantes. - Suspirei, impaciente. - E ela acabou dizendo também que queria voltar a ter uma banda, pois era muito melhor para tocar do que sozinha. Maria ficou toda animada com a ideia e sugeriu que o fizessem juntas. Aí ela acabou falando demais e nos envolveu na história. - Típico... - Pois é. Mas acabei pensando e gostei da ideia. Eu estava há uns três anos protelando meu curso de baixo, ficava só dedilhando em casa, meu pobre Jacques-Clouseau - Fiz

uma careta com o nome. - já estava ficando com as cordas enferrujadas. E não faça essa cara, é um nome lindo. Enfim, por isso perguntei aquele dia. Eu e Maria combinamos de te convencer hoje de manhã, mas a imbecil esqueceu. - Peraí, quando vocês combinaram isso? E como fica o Jack nessa história? - Ah, eu acordei cedo hoje e nós conversamos. Quanto ao Jack, você sabe que ele topa qualquer coisa. - Vocês são zumbis. - Você que é, só que no outro sentido. Ficamos em silêncio um pouco. Finalmente falei: - Então vocês querem mesmo fazem isso, hein? - Encarei-o, com um pequeno sorriso. - E eu não entendo porque você não quer. Suspirei, aborrecida. - Eu já disse o motivo. Gosto de coisas planejadas e que tenham um objetivo claro. Ele olhou em meus olhos, cínico. - Eu acho que não é por isso. Estava começando a ficar irritada. - Droga, Allen, por que você tem que complicar as coisas? Simplesmente aceite minha decisão! Não vou, e pronto! - Eu paro de te perturbar se você me falar o que é. Não sabe mesmo mentir, hein? Fechei os olhos e pensei um pouco. Séria, disse: - Promete que não vai rir nem dar palpite? - Prometo. - É uma história meio longa. - A minha também foi, comece. - Jura que vai parar de me encher o saco? - Começa logo, caramba! - Que seja. - Respirei pausadamente antes de começar. Allen estava impaciente à minha frente. Sentei-me no chão. - Você sabe que eu quero aprender a tocar bateria, não é? - É, você disse. - Bem, desde criancinha eu queria aprender. Eu ficava batucando nas coisas com meus lápis de cor, e achava que estava arrasando com minhas batidas sem sincronia. Minha mãe já estava de saco cheio do meu barulho e resolveu me colocar num curso. Durante

dois anos, fiquei super animada. Mas comecei a me deprimir quando vi que, mesmo me esforçando diariamente, meus colegas haviam avançado bem mais do que eu, e sempre precisavam me ajudar. No concerto da escola, ficamos em quinto lugar só porque eu errei. Os outros ficaram com raiva de mim, e fiquei muito triste. Decidi desistir. Minha mãe e meus amigos do colégio diziam que eu tocava muito bem, mas não acreditei. Desde os 8, 9 anos que não toco, porque tenho medo de ser um fardo para os outros. Allen me encarou por alguns segundos. Sua boca começou a se retorcer. Então, ele começou a dar gargalhadas altas. - Você prometeu que não ia rir, seu idiota. - Chutei seu tornozelo. - Desculpe, mas idiota é o que você disse. - É o quê? - Eu ficava realmente muito irritada quando alguém achava meus motivos sem importância. Ele se levantou e pegou o violão que estava escorado na parede debaixo da janela. Voltou a sentar na cama, e começou a tocar algumas notas separadas. De repente, ele começou a dedilhar alguma coisa que me lembrava Fly me to the Moon. - Eu treinei por três anos. Não me aguentei e comecei a gargalhar. Foi a vez dele de se irritar. - Muito engraçado, huh? Arranquei o violão de sua mão e comecei a batucar em suas costas. Continuei Fly me to the Moon de onde ele havia parado, mas o que ouvi foram apenas uns barulhos desritmados. Quando acabei, ele me olhou nos olhos, perplexo. - Minha filha, onde diabos você está ouvindo erros aí? Ok, por essa eu não esperava. - Eu toquei tudo errado. - Não. EU toquei tudo errado. Sua bateria estava quase perfeita. Lembre -se de que a percussão não é o mesmo ritmo da música, é só um marcador. Acho que o quinto lugar não foi por causa de você... - Claro que foi, os outros sempre me ajudavam porque eu não sabia! - Acho que eles que estavam errados. Ou então tentavam aprender contigo. - Isso é ridículo. Você não sabe de nada. Me levantei e saí do quarto, irritada.

Fui até a sala, onde me sentei no sofá e peguei meu Ipod, que estava solto em cima da mesa de centro. Botei os fones de ouvido e liguei o aparelho, selecionando Fly me to the Moon na lista de músicas. Ouvi-a umas quatro vezes. Desliguei o Ipod e tentei batucar o percussão da música na mesa. Depois, tentei fazê-lo acompanhando a música. - E agora, sei de alguma coisa? Olhei para Allen, encostado na entrada da sala e sorrindo sarcasticamente para mim. - Eu não entendo. Por que diziam que estava tudo errado? - Me diga, quando foi isso? - Bom, eu tinha uns 7 anos... - E quando você começou a fazer o curso? - Com 7 anos. - E quando foi o tal concerto da escola? - Quando eu tinha 7 anos. - Quando você tinha 8 anos, eles continuaram querendo ensinar as coisas pra você? Pensei um pouco. Na verdade, com 8 anos, fui a primeira a apresentar na bateria. Mas ninguém falava comigo. Nesse ano, me lembrei também que comecei a minha fase gótica. - Na verdade ninguém nem me olhava na cara. Acho que tinham um pouco de medo de mim, já que eu só usava preto e crucifixos 24 horas por dia. - Pois é. Achei a sua falha. Ele andou e se jogou ao meu lado no sofá. - Você sabia tocar bateria sim. E continua sabendo. Ninguém falava nada porque seus colegas tinham medo que a senhora das trevas os matassem. Olhei-o nos olhos. - Você não está falando sério. - As outras pessoas te elogiavam, não é? - É, mas eram pessoas próximas... - Lembra quando sua mãe deu opinião sobre a tua roupa de formatura? - Sim, aquilo me ofendeu bastante. O vestido era tão lindo... - Pois é, ela foi extremamente sincera. - Ele deu um risinho. Dei um tapa em sua perna. Com a bateria foi a mesma coisa. - Mas ela deve ter dito aquilo só porque sabia que eu estava me esforçando.

- Você ficou 2 meses trabalhando em um curso de italiano para comprar aquela roupa. Eu o odiava. O pior de tudo é que ele havia me convencido. - Yosh! - Ele se levantou. - Temos uma banda completa, então. Voltei à realidade num instante. - O quê? Quem disse? Eu não concordei com nada, imbecil, pare de querer tomar decisões por mim. Ele me olhou carinhosamente e bagunçou meus cabelos. - Você fica linda quando tenta enganar os outros. - Ele riu alto, me irritando ainda mais. - Tentar dar uma de Jack também não vai funcionar. - Não preciso. Ele sentou ao meu lado, com uma expressão extremamente suspeita. Ficamos em silêncio por cerca de cinco minutos, quando a campainha tocou. Me levantei para atender, mas Allen rapidamente correu até a porta. - Eu atendo! Nesse momento, ouvi uma voz conhecida vir de fora. - Não acredito... - Bati em minha testa e fui até a entrada. - Jack, que infernos te fizeram vir aqui a mando deste ser deplorável? - Vontade de te ver. Não posso te visitar? Meu coração deu tilt nesse momento. Sorri como uma idiota e pulei em cima de meu namorado, beijando-o. - É, parece que a banda está formada. - Allen voltou para o sofá. - Então, você acha que eu aprendo a tocar guitarra? Olhei-o, séria. - Talvez em um ou dois anos. Talvez menos, você já sabe violão. - Eu sou o único aqui que não toca nada, por acaso? - Ouvi Allen choramingando, indignado. Puxei Jack até o sofá, e pus Allen em meu colo. - Cara, você não treinava baixo há uns 3 anos ou mais? Como você não sabe tocar? Allen começou a chorar ainda mais. - Bem onde dói... Jack puxou o rosto de Allen para si. - Não se preocupe, eu posso te ensinar algumas coisas.

Allen corou. Não resisti. - Ah, que lindo! Beija! Os dois me encararam, sérios. - Yaoísta dos infernos... - Eles se irritaram, afastando as cabeças. - Desculpem. Meu ponto fraco. - Apertei o peito na região do coração. - E as nozes. - Disse Jack. - E o Jack. - Allen completou. - E o Às de espadas. - Pois é, ela roubou os do meu baralho para fazer um mural, acredita? - Calem a boca, os dois imbecis. - Ela ama a gente. Corei. - É, amo. - Abracei os dois.

Dez minutos depois, meu pai gritou: - Almoço pronto! - Vamos comer logo, estou morrendo aqui. - Allen saiu em disparada até a cozinha. Eu e Jack nos entreolhamos e demos alguns beijos. Depois, seguimos a rota do baixinho faminto.

O colégio contra-ataca
- Então, quem vai falar com ela primeiro? - A Maria. Ela que começou a ter ideias. - Mas vocês concordaram, então temos que ir juntos. - Mas você fala. - Tá, que droga. Apenas venham logo. Eu, Allen e Jack andávamos em fila indiana atrás de Maria, em direção à carteira da oxigenada. Ela lia um livro chamado "Minha Querida Sputnik", com uma capa colorida azul e rosa. Paramos na sua frente, como um bando de idiotas. Ela levantou os olhos do livro. - Posso ajudar? Nós quatro nos entreolhamos. - A gente queria discutir sobre aquele negócio... - Começou Maria. - Ah, sim, a banda. - Ela fechou o livro e nos olhou, com uma expressão indiferente, porém com um toque de felicidade em seus olhos. Nos sentamos nas cadeiras à sua volta. - Então, vocês quatro decidiram o quê? Ela realmente parecia animada. - Depois de muita insistência - Maria me olhou, cínica. -, conseguimos convencer todos. - Que bom! - Era muito estranho como sua voz era de uma garota extremamente contente, enquanto sua face continuava inexpressiva. - E vai ser aquilo mesmo que combinamos? - Assim, tem gente que ainda está aprendendo a tocar, mas acho que poderíamos tentar fazer alguma coisa... - Que tal vocês irem na minha casa depois da aula? Meu apartamento é pequeno, mas meu namorado trabalha num estúdio que fica a duas quadras de distância de lá. Ele pode alugar uma hora de graça pra gente. Tem os instrumentos e tudo. O que acham? Novamente, nos entreolhamos. O silêncio perdurou até que Jack resolveu dar sua opinião. - Acho que está tudo bem. Podemos tentar ver alguma coisa. Mas posso lhe assegurar que a única pessoa aqui que toca tão bem quanto você é Maria. - É verdade. - Allen concordou.

- Não poderia estar mais certo. - Re-afirmei. - Tudo bem. Eu posso ensinar você a tocar guitarra, Jack. E Allen, se você tiver qualquer dificuldade pode falar com o Sam. Ele sabe tocar um zilhão de coisas diferentes. - Ahm... Sam? - Allen perguntou, tímido. - Meu namorado. - Pensei ver um sorriso muito sutil nos lábios de Sabrina.

Depois do colégio

- Caramba. Temos uma tonelada de dever de casa para fazer. - Acho que não vai dar para ir na casa da Sabrina... Na mesma hora em que Maria disse isso, a branquela apareceu perto de nós, com uma expressão triste, por mais indiferente que pudesse parecer à primeira vista. - Você tem razão... não vai dar para irmos no estúdio. Mas será que vocês podiam fazer o dever na minha casa? - Vi suas bochechas corarem. - Bom... acho que sim. Vocês podem? - Jack nos perguntou. - Podemos. - Respondi por nós três. - Ah, obrigada. - Não entendi o motivo do agradecimento. - Então, moro logo no fim da avenida. Tenho comida pronta em casa, querem almoçar lá? - Vamos. - Jack começou a andar na direção em que ela apontou, puxando Allen e eu.

Na casa de Sabrina

- Ahm... você mora aqui? - Allen perguntou, surpreso com o apartamento. - É, tem um ano que vivo aqui. - Ela tirava alguns livros de cima de uma pequena mesa circular e arrumava pratos e talheres. - Alguém mora com você? - Perguntei. - Não. Esse apartamento era da minha mãe. Continuei morando aqui depois que era morreu. Meu avô me manda algum dinheiro para pagar os impostos e comprar o necessário. Ficamos todos chocados. Sabrina perdera a mãe? E agora ela vivia num muquifo de uns 20 m² com sala, cozinha e banheiro? Automaticamente me senti culpada por tudo o que pensei dela na primeira semana de aulas. - Sinto muito... - Disseram Maria e Jack. Allen a olhou com pesar.

- Não, tudo bem. Bom, eu ainda vou esquentar a comida. Fiquem à vontade. E me desculpem pela bagunça. O armário quebrou, então não tenho onde colocar as roupas de cama. Entramos no quitinete, receosos. O sofá estava coberto por uma manta cor de cobre, e tinha um travesseiro pequeno na ponta. Ao seu lado, havia um armá rio que estava com a porta aberta, mostrando alguns livros, roupas e cosméticos. Na porta do lado, a prateleira estava caída. No centro, havia uma mesinha onde ela punha os pratos. Na ponta, um fogão de bancada, uma geladeira pequena e uma pia com alguns armários em cima. Fui ao banheiro. Era apenas um vaso sanitário, uma pia e uma duchinha escondida por uma cortina impermeável branca. - Er, Sabrina, desculpe ser tão inconveniente, mas como você consegue morar aqui? Maria realmente não sabia ser discreta. - Ah, eu me acostumei. Estou sozinha, mesmo. Então esse espaço é suficiente para mim. - Ela colocava uma tigela de macarrão com queijo da geladeira numa panela para aquecer. Depois de observarmos um pouco a quitinete, nos sentamos à mesa, calados e meio desconfortáveis. Permanecemos todos em silêncio até Sabrina trazer a tigela com macarrão e uma jarra de limonada. - Sirvam-se. Allen pegou quase metade do que estava na mesa. Dividimos o resto, sem reclamar - já estávamos acostumados à comilança dele. Quando o último terminou de comer - eu, digase de passagem -, Jack perguntou, tímido: - Então... deveríamos começar a fazer os deveres, não? - Claro. - Sabrina disse. - Deixem-me só lavar a louça. Quando ela disse isso, todos nós rapidamente pegamos nossos pratos e copos e formamos uma fila na frente da pia. - Não precisam me ajudar. É pouca coisa mesmo. - Tudo bem. Nós sujamos, nós limpamos. - Seria ótimo se aplicássemos essa regra em nossas próprias casas.

Quando terminamos de limpar tudo, pegamos nossos livros e cadernos e os colocamos em cima da mesa. - Uau. Já são mais de duas horas. Nunca que vamos terminar de fazer isso. - Maria disse.

- Além do mais, a casa da Bel fica bem longe, então temos que sair quando ainda for claro. - Completou Jack. - Tudo bem. - Sabrina falou. - Faremos o que der. Ela se sentou na frente de sua pilha de livros. Fizemos o mesmo.

Cerca de vinte minutos depois, estávamos todos escrevendo feito loucos, concentrados em nossas atividades. Exceto Sabrina. Allen olhou para ela. - Ahm... Sabrina, está tendo algum problema? Ela o olhou, surpresa. - Hum? Ah, é que eu não sou muito boa nisso... - Nisso o quê, exatamente? - Na verdade, eu não sei nada disso.. - Alguma coisa você tem que saber, para estar no segundo ano. - Isso é o normal, certo? - Ela largou a lapiseira e apoiou a cabeça em suas mãos, olhando tristemente para o livro. Todos nós paramos o que estávamos fazendo e a encaramos. - Quer nos contar alguma coisa? - Maria tocou sua mão, dando um sorriso amigo. Ela suspirou um pouco. - Não se incomodem. Eu só não consigo aprender. - Por que não consegue? É dificuldade de aprender, ou tem mais alguma coisa? Ela encarou Maria por um instante. - Na verdade, depois que minha mãe morreu, eu fui morar com meu avô por um ano e meio. Na época, ele morava numa fazenda muito, mas muito longe de tudo, então fiquei sem estudar. Quando ele se mudou para a cidade, depois de ver que eu não podia ficar mais tempo sem ir à escola, o único colégio que tinha era um tal de Santos Dumont, e que por acaso é um dos piores da região. - Ok, já entendi o problema. Você não tem base, não é mesmo? - Jack estava sério. - Acho que é. Eu costumava ir bem na escola, mas depois de tudo isso que acon teceu, fiquei meio que estagnada... Dei um sorriso para ela. Depois de um tempo sem ter dito nada, finalmente me pronunciei: - Nós podemos te ajudar.

Todos me lançaram de um olhar de "Mas você não a odiava há coisa de duas semanas?" - Sim. Eu sou ótima com humanas. A Maria e o Jack são os Mestres das Exatas. O Allen, apesar de gostar mais de matemática, é melhor em química e biologia. Ele também sabe algo de humanas. Ela olhou-nos, timidamente. - Tem certeza que vocês querem fazer isso? Não quero incomodá-los. Rimos. - Eu tenho um irmão de 8 anos que leva duas horas para entender uma divisão simples. Verdade. O irmão de Allen era burro como uma porta. - Entre os dois, você é como se fosse um serafim. - Bom, nesse caso... eu estou tentando fazer o trabalho de história sobre o Iluminismo e a Revolução Francesa, mas eu não sei nada do que aconteceu antes disso, então não entendo. Arrastei minha cadeira para o seu lado. - Bom, só me diga o que você sabe. Ela pensou por um instante. - Sei que na Idade Moderna teve um Reforma Protestante e que teve a Revolução Industrial. Respirei fundo. - Ótimo. Temos muito trabalho pela frente. - Olhei para os três que estavam nos observando. - O que vocês estão esperando? Também têm que fazer o mesmo trabalho, então tratem de vir aqui. Os panacas voltaram à realidade e vieram mais para perto. Comecei um discurso que ia da Baixa Idade Média até o assunto do trabalho.

Depois que terminamos de escrever tudo, já eram mais de seis horas. - Isabel, você não precisava ir? - Sabrina me olhou, preocupada. - Tudo bem. Eu durmo na casa do Jack. - Olhei-o. Ele assentiu com a cabeça. - Mas ainda temos uma lista de exercícios de matemática e um projeto de química pela frente. A propósito, trouxeram os materiais? Maria levantou uma sacola enorme cheia de troços que não identifiquei. Confirmei com a cabeça. - Bom. Maria, Jack, é a vez de vocês.

Organizamos as cadeiras de forma que os dois pudessem ficar próximos de Sabrina. Com uma pontada de ciúmes, sentei ao lado de Jack.

Quando terminamos tudo, já eram onze horas da noite. - Gente, olha a hora! - Maria estava exausta e desesperada. - Minha casa é a mais próxima. Se quiserem, tem lugar para vocês dormirem lá. Minha mãe pode emprestar alguma coisa para vocês vestirem. - Jack olhou para mim e para Maria. - Allen... acho que minhas roupas vão ficar grandes em você. Olhei para os dois. Jack tinha mais de 1,85 m, enquanto Allen era da minha altura, talvez até alguns centímetros menor. - O que você está olhando? - Enfezado, Allen me encarou. Eu e Maria rimos. - Parem de rir! Ele é só um pouco maior do que eu. - Você bate no ombro dele, se liga. - Rimos ainda mais. - E você, criatura desprezível? Não tem nem 1,60 m e fica rindo de mim. - Mas eu sou garota. É normal. Você tem quase 17 anos e não cresce. - Idiotas. - Ele olhou para Jack. - Eu acho que tenho uma muda de roupa na minha mochila, não se importe. Jack continuou encarando Allen, como se tentasse descobrir alguma coisa. Isso f ez com que o tampinha ficasse vermelho. - Vamos lá, Jack! Eu deixo você me trair com ele, seria tão fofo. Mas só na minha frente, ok? - Allen me olhou, muito irritado. - Ah é, é isso que você quer? - Jack se abaixou, segurando o queixo de Allen com o dedo. Meu coração acelerou. - Droga, Jack, para com isso! - O pequeno estava se revoltando. Porém, nesse momento, Jack deu um selinho em Allen. - AAAH QUE LINDO! - Eu e Maria gritamos. Me joguei em cima de Jack. Allen estava parado no mesmo lugar de antes, corado e em choque. Depois de alguns minutos, ele se recompôs. Deu um soco nas costas de Jack, que riu disso. - Droga, cara, você é idiota demais! Tá pensando que eu sou o quê, hein?! - Você deixou. - Jack estava totalmente tranquilo, mas Allen corou de novo. - Não deixei não! Imbecil, não fala mais comigo. Rimos bastante da situação. Eu podia ser uma garota fria, mas virava uma louca idiota com esse tipo de cena. Tive que puxar Allen pelo braço até a casa de Jack.

Pois é. Esse foi o nosso dia.

Os sonhos de Isabel
- Vocês duas, me deixem em paz, digo e repito quantas vezes quiserem ouvir, eu não vou fazer isso! - Mas você quem começou, agora vai ter que nos aturar. Cinco horas da manhã na casa de Jack. Depois de uma bela bomba de café e açaí, eu, Maria e ele havíamos acordado. Apenas Allen ainda estava dormindo. Huhuh. Durante aquela noite, eu tive alguns sonhos interessantes. Só queria que fossem postos em ação diante da minha câmera. Bom, mas um dos atores principais tinha se rebelado. - Maria, me larga! Não adianta. Vocês pensam que eu sou o quê? Olhamos para sua cara. - Ok, já entendi. Me deem um motivo muito bom para fazer isso. - Por que você nos ama. - Respondi. - E isso leva a...? - Porque nós temos uma coisa sua que aposto que você vai querer de volta. Maria estendeu uma fita de vídeo com uma etiqueta onde estava escrito "Segunda festinha 1997". Houve um momento de silêncio. - E o que você pretende fazer com essa fita? - Jack estava sério, agora desarmado. - Em primeiro lugar, mostrar para a sua namorada. Ele teve um calafrio. - Em segundo, mostrar para o seu namorado. - Ela começou a rir. - Idiota... Ele saiu correndo atrás de Maria para pegar a fita. Mas Jack era um le rdo total quando se tratava de atividades físicas - pelo menos desde quando parara de treinar basquete -, enquanto Maria era quase um guepardo em ação. - E em terceiro lugar, a nossa sala de aula ainda tem um vídeo cassete velho pra caramba. Ele suspirou. - O que você quer que eu faça? - Venha comigo.

Eu me mantive calada, apenas observando a cena. Agora que o nosso ator estava disponível, as coisas ficariam mais interessantes. - Olha que lindo o Allen dormindo. Parece uma garota. - Maria, se ele ouvisse isso você seria mais uma japonesa morta. - Quieta. Então, Jack, vá até a cama dele e lhe faça alguns carinhos. - Quê?! Mas por que eu... - No final, teremos uma festinha igual à de 1997. O que acha? Essas pessoas ardilosas... - Arg... tá. Maria pegou a câmera em cima da mesa e começou a filmar tudo. Jack sentou -se na cama, ao lado de Allen, e começou a fazer alguns carinhos em seus cabelos castanho escuros. Novamente, meu coração começou a acelerar. - Agora levante seu tronco e olhe romanticamente para sua face. Ele encarou Maria. - Vocês, garotas, são doentes... Ele obedeceu-a como um patinho. Era engraçado ver um garoto alto e forte como Jack obedecendo a uma menina pequena e magrinha como Maria. - Agora, dê um beijo. - Pra mim já chega. - Ele se levantou da cama e foi até Maria. - Vamos, você já fez isso antes. Ele tentou pegar a fita da mão de Maria, mas ela a jogou para mim. Saí correndo até a sala e pulei a janela que dava para o quintal. Só que meu perseguidor n ão passava pela janela, e muito menos pela fechadura da porta - já que ela estava trancada há muito tempo, desde que a chave sumira. - Isso é jogo sujo. - Então, querido. - Maria o olhava da porta da sala, cínica. - Vocês vão mostrar essa fita pra alguém? - Pro Allen, lógico. E se a Sabrina gostar de yaoi... - QUÊ?! Ela foi até ele e o puxou para o quarto. Sem defesas, ele foi. Voltei para a sala e segui-os. Por precaução, deixei a fita do lado de fora.

- Bom, voltando à parte em que paramos. - Maria ligou a câmera, com um sorriso irônico no rosto. - Então basicamente tenho que fazer um bando de merda gay? - Nas raras vezes em que Jack falava palavrões, era porque ele estava muito nervoso. - Basicamente. Sabe aquela vez em que te obrigamos a assistir Junjou Romantica? Então, faça mais ou menos a mesma coisa. E pra ficar mais fácil, olha só, o Allen até parece com o Misaki. Era verdade. Tirando a cor dos olhos, os dois eram bastante parecidos. - Uau. Que ótimo. - Ele voltou à posição de antes. Maria estava gravando. Ele levantou o tronco de Allen como pedimos, e depois deu um belo beijo na Aurora. E o pior de tudo é que nem assim Allen acordou. Tivemos uma crise. - AAAAAHHH, MAIS, MAIS!! - Como assim mais? Eu já fiz o que vocês mandaram. - De quatro, de quatro? - Não! Eu não vou ficar de quatro em cima dele. - Sabe, também achei outro vídeo interessante. - Maria estendeu dessa vez um DVD, onde estava escrito "Primeiro dia na escola". - NÃO!!! Onde você achou isso?! - No mesmo lugar onde eu achei o outro. Agora anda, de quatro. E ele assim o fez. - KYAAAAA! Acho que vou ter um sangramento nasal. - Beija mais, mais! - Não querem que eu estupre o garoto de uma vez?! - Queremos! - Respondi. Ele me lançou um olhar mortal. - Anda, beijos, beijos, mordidinha na orelha! - Eu odeio... muito... vocês. Ouro, muito ouro. Jack era um perfeito seme, Allen um perfeito uke. Quando Jack estava se aproximando da boca de Allen, este começou a se mexer. Só que de olhos fechados, meu garoto não notou tal fato. Eu e Maria nos entreolhamos e nos escondemos atrás da mesa, ainda gravando as cenas. Allen abriu os olhos. - Ahm... Hein...? Jack, o que você... - Quando Allen ia terminar de perguntar, ganhou um lindo beijo. No início, ele arregalou os olhos, mas depois fechou-os. Isso foi o bastante para surtarmos de vez.

- ISSO, ISSO! AAAHHHHH!!! O problema é que os dois escutaram. - Vocês duas idiotas, o que pensam que estam fazendo? - Allen falou. - Por que Jack está em cima de mim?! Só pode ser coisa de vocês, duas garotas malucas e doentias... - É, é coisa nossa. Mas estava tão bonitinho quando você deixou Jack te beijar... - Ela começou a pular alegre. Jack rapidamente saiu de cima de Allen. Estava sério. Fui até ele. - Why so serious? - Perguntei, com um ar eufórico pelo que havia visto. - O que ele vai pensar de mim agora? - Cochichou. Não acredito. Ele estava preocupado com o que Allen pensaria dele. - Allen, vem cá. - Puxei-o pela camisa. - Ai, droga, o que foi? - Só quero que você saiba que chantageamos feio o Jack para ele fazer isso. Ele corou. - Ah... está bem... Era fofo de forma que não tinha como não abraçar. Maria viu a cena e pulou em cima dele. Isso fez com que Allen corasse mais ainda. - Se prepare, terá mais. - Ouvi-a cochichando em seu ouvido. O garoto estava vermelho como um tomate. Como se não bastasse tudo, Jack ainda resolveu fazer graça. - Sabe, melhor não fazer essa cara quando eu te apresentar para os meus amigos... Sua voz era de malícia. Começamos a rir, exceto Allen, que estava choramingando. Durante alguns minutos, ficamos sacaneando o baixinho. O despertador tocou 6 horas, e então tivemos que nos preparar para ir ao colégio. Ai ai... isso sim é uma boa manhã.

Caridade absoluta
Um dia congelante, depois da geada. Cinco e quinze da manhã. Mochila pesada. Andar na rua sozinha. Um dia comum na minha preciosa vida. Depois de pegar múltiplos ônibus, acompanhados de engarrafamentos e chuva, cheguei à escola. Allen, Maria e Jack estavam na entrada, olhando para um quadro verde cheio de papéis coloridos. - O que estão olhando? Os três me ignoraram. Puxei o cabelo de Jack. Depois de alguns segundos, sua cabeça girou roboticamente para minha direção. - B-bom d-ia. - Beijei-o delicadamente. Seus lábios estavam gélidos. - A-ah, o-oi B-bel. - Allen voltou-se para mim. - O-ohay-ou. Eu tinha esquecido que meus amigos era uns friorentos frouxos. - Se estão com tanto frio, por que não vão para a sala? - A-ah. Estamos olhando o quadro de aniversários. Encarei o quadro. Havia as divisões dos meses, com os aniversários das pessoas do ensino médio espalhados por eles. Vi nomes conhecidos. "Isabel Rigardi Agarelli - 13 de novembro". "Maria Yukai Kouto - 15 de dezembro". "Allen H. T. P. L. Johnson - 21 de agosto". "Jackson Ernest McMiller - 01 de janeiro". Mas o que mas me chamou a atenção foi o espaço daquele mês. "Sabrina Svarowski van Gerard - 25 de fevereiro". - Quer dizer que a loira - Sim, ela evoluiu - faz aniversário hoje. - Observei. - Pois é. Estávamos meio que pensando em uma coisa... - Os três voltaram-se para mim. Começamos a andar até a sala. - Digam. - Vamos levá-la para algum lugar. Já deve ter um tempo que ela não se diverte de verdade. - Maria tinha uma voz sincera. Respirei fundo. - Só se o Allen pagar. - É claro que ele vai pagar. É o único que tem dinheiro aqui. - Olhamos para ele. - Vocês só me dão prejuízo. Só porque moro no Centro não quer dizer que tenha dinheiro.

- Ah, não. Porque uma pessoa sem grana pode muito bem pagar por um apartamento de 300 m² que custa zilhões de reais, e porque todos podem ter uma Mercedes E uma BMW na garagem, com um motorista para cada uma. - Minha casa de férias, dona Yukai. - Pra sua informação, despedimos o outro motorista. E era uma dos apartamentos mais baratos de lá, foi uns 2 milhões. Fizemos questão de bater nele bem forte. - Vocês que começaram! Idiotas. - Então, para onde vamos levá-la? - Jack finalmente se manifestou. - Pensei em irmos no Zefir's Armazens. Allen adorava jogar na nossa cara que podia pagar 90 reais para comer no Zefir's. - E será que ela vai aceitar? Pode ser aquele tipo de pessoa alérgica a burguesia. Opinei. Fizemos o mais simples. Fomos até ela, demos os parabéns e convidamos-na. Ainda bem que tínhamos a cara-de-pau da Maria para fazer esse tipo de coisa. - O Zefir's não é aquele restaurante caro que fica no Centro? Ela não sabia de nossa arma secreta. Empurramos Allen para sua frente. Ele sorriu e acenou. - Pois é, eu que vou pagar por tudo. Os olhos da loira se arregalaram sutilmente. - Está brincando? Tem ideia de como aquele lugar é caro? - Erm... na verdade, eu costumo almoçar lá toda semana... - Ele deu um sorrisinho amarelo. - Pois é. Apesar de não parecer, esta coisa aqui tem uma continha milionária. - Maria se queimava de inveja. Sempre quis ser rica. Bom, eu também não reclamaria. Ficamos em silêncio por um minuto. - Mas se você tem tanto dinheiro, por que não estuda em uma escola melhor? Grilos. - Não sei. Estudo aqui desde que me entendo por gente. Essa escola é boa, apesar de ser pública. Costume, talvez. - E está tudo bem para você pagar isso tudo num almoço para nós? - Eu já falei com meu pai. Ele achou ótimo "ir a um local de qualidade com meus companheiros".

- Ah, sim. O pai de Allen tem ações em várias grandes empresas. Fora que é muito gostoso para alguém de 40 anos. Tive uma crise de náuseas. - Que nojo, Maria! Não se refira ao meu pai com adjetivos que uma garota usaria para definir o Jack. Eca... - Tá chamando ele de gostoso, é? - Ela adorava fazê-lo sofrer. Ele corou e se irritou. - Não, caramba. Eu só estou usando a opinião geral. - Realmente. Jack era muito gostoso. Mas esse não deveria ser o assunto principal. - Sabe, eu continuo aqui. E Allen, obrigado pelo elogio. - Ele bagunçou o cabelo do baixinho, que ficou emburrado. Rimos. - Ignore esses idiotas. Então, você topa ir? - Perguntei à loira, que nos observava com um olhar de interrogação. - Olha, não sei se me sentiria confortável com você pagando por tudo... - Ela olhou para Allen. - Se isso faz você se sentir melhor, parte do meu dinheiro vem do que você gasta noMcDonald's. Ela pensou por alguns instantes. - Tudo bem, eu vou. Ahm, isso é quando? - Hoje, naturalmente. - Respondi por todos, que concordaram através do silêncio. - Que tal irmos ao estúdio do seu namorado depois? Combinamos isso há alguns dias, então acho que está tudo bem, certo? - Ah, claro. Se estiverem dispostos, tem uma casa de jogos aqui perto. Abre às 16 horas. Que tal irmos à noite? Nos entreolhamos. - ...Que tipo de casa de jogos é essa exatamente? Ela riu com o olhar - já que sua expressão geral era, como sempre, indiferente. - Não, não. Não é nada disso que vocês estão pensando. Acho que usei um termo antiquado. Quis dizer que é como um fliperama. - Fliperama?! Eba, oba, vamos, vamos? Podemos?? - Algum casal de baixinhos estava bastante animado para jogar. - Quietos. - Jack fez sua voz de Capone, e os dois se calaram. - A hora nos dirá se será possível, tudo bem? - Que formalismo.

- Capisci. - Não pude deixar de pensar em algo como "papéis invertidos". Parece que os outros também pensaram nisso. - Você falando assim parece com a Bel quando chegou nessa escola. Falava que nem aquele pessoal de Passione. Eram mesmo uns imbecis. - Ah, claro. Porque dá para adquirir muito sotaque tendo vindo da Itália com 5 anos de idade. - Pior que dá. Você tinha. Na verdade até hoje tem um pouco. - Allen riu. - Ah, é mesmo. Você é italiana de nascença, não é, Isabel? Percebi que tinha um pouco de sotaque, mas não sabia de onde. Seu sobrenome também... Ótimo. O papo era minha nacionalidade agora. O sobrenome dela era polonês/alemão/russo/[insira nacionalidade da Europa Oriental aqui], e nem por isso ela falava [insira idioma complicado aqui]. - Não sei como ela conseguia entender as aulas... E como fez tantos cursos logo que chegou aqui. - Mas na idade dela estava bom para aprender. Bem, já que era para saber da minha vida... - Já que estão todos falando de mim, então vão escutar sobre mim. Isabel Rigardi Agarelli, nascida em Napoli, Italia, - Fiz questão de falar tudo em italiano. - no dia 13 de novembro de 1994. 1,65 m, 56 kg, minha comida favorita é Nhoque Bolognesa. Gosto de animês, e não vivo sem assistir Hetalia e Tsubasa Chronicle. Felizes agora, bando de stalkers? Todos me olharam, sérios. - Isso ficaria melhor num quadro de apresentações... - Enfim, a aula vai começar. - Eles foram até seus lugares. Idiotas... começavam a falar de mim e depois faziam isso. Também fui até minha carteira. Até tal instante, tudo em seu devido lugar.
-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-

Leitores, aproveito a apresentação de Isabel - feita por ela mesma - para fazer um mural de dados dos outros protagonistas. Não, não vou arranjar mais situações forçadas para fazer esse tipo de coisa...
Allen H.T.P.L. Johnson

Porto Alegre, RS - 21 de agosto de 1994. Podre de rico, o pai é um acionista sortudo. Por parecer com o Misaki de Junjou Romantica, frequentemente tem sua masculinidade

testada. Consegue gostar muito de alguém e nunca demonstrar tudo o que sente. Tem 1,63 m de altura e pesa 57,5 kg. Sua comida favorita é lagosta à thermidor.

Maria Yukai Kouto

São Paulo, SP - 15 de dezembro de 1995. Nikkei, aprendeu japonês com seus familiares. Vive em uma família um tanto diferente - descobriremos mais depois, hehe. Sua comida predileta éanko-mochi*. Mede 1,58 m de altura e pesa 47 kg. Era sempre chamada de "anã", mas foi mais respeitada depois de revelar-se karateca experiente.

Jackson Ernest McMiller

Rio Branco, AC - 01 de janeiro de 1994. Loiro, alto e forte, parece muito com Cloud Strife, de Final Fantasy VII - Advent Children. É frequentemente alvo de brincadeiras por suas características peculiares, como ter nascido no ano novo, no Acre, e ainda por cima ser canhoto e não saber dobrar a língua - sendo chamado de "Darth Maul" e "Rei dos normais". Sua comida preferida é sopa de caranguejo. Tem 1,87 m de altura e pesa 85 kg.

Sabrina Svarowski van Gerard

São Paulo, SP - 25 de fevereiro de 1993. Apesar do nome, é descendente distante de poloneses e russos. Sempre teve uma vida extremamente difícil, e por conta disso, possui grande dificuldade nos estudos e nos relacionamentos com colegas de classe. No entanto, tem ótimos atributos físicos, toca vários instrumentos e canta muito bem. Mede 1,70 m e pesa 58 kg.

Admirável drama novo
Eu e meus companheiros de batalha caminhávamos até a porta da sala, abatidos, encarando nossas provas de história. Exceto um certo alguém. - Ah, gente. Essa questão estava ridícula. É claro que o Iluminismo faz analogia ao Renascimento. Basta ver que ambos se baseavam no racionalismo. Isso é o suficiente para desenvolver uma resposta. Encarei Isabel com meu melhor olhar mortal. Jack e Allen me imitaram. - Desculpa, senhora gabaritei-a-prova-de-história. - Vocês poderiam gabaritar se tivessem estudado ao invés de passarem a semana jogando Mortal Kombat. Até você, Jack? Costuma sempre tirar as melhores notas. Odeio quando os outros estão certos e eu não. Mas não era hora de pensar na prova de história. Iríamos comer num restaurante chique às custas do Allen, e eu estava louca para chegar lá. - Parem de andar feito um bando de condenados, seus idiotas, temos um almoço de rico em uma hora! - Eu preciso aproveitar, já que quando crescer não vou poder mais fazer isso... com essas notas, vou virar um mendigo e morrer de fome. - E Allen tinha começado com o drama. Dei um tapa em sua cabeça. - Se você fracassar na vida ainda vai ter rios de dinheiro, já que existe algo chamado heran-ça. Mas nós, reles mortais, teremos que vender manga no sinal e fazer malabarismo com bolinhas de cachorro. Do nada, Sabrina apareceu na nossa frente. Dei um grito de susto. - Desculpa, não queria assustar. - Ela se virou para Bel. - Posso corrigir minha prova com a sua? Depois de pegar a prova de Isabel, ela se virou para nós. - O professor disse que daria alguns décimos extras para quem não tivesse ido bem e corrigisse a prova. Vocês podiam tentar. Meu mundo caiu. Agora todo mundo sabia que tínhamos ido mal? Alguns segundos de luto depois, Jack lembrou-se de uma coisa. - Bel, Allen. Nós tínhamos que entregar aquela lista de matemática hoje, lembram? E já que eu fiz o trabalho todo - Os dois deram um sorriso amarelo. Vagabundos. -, ao menos vocês deveriam ir comigo até a sala dos professores. Sem esperar um "sim" como resposta, ele simplesmente arrastou os dois escada abaixo. Eu e Sabrina nos entreolhamos. Levei outro susto. Mas dessa vez era por uma razão diferente. Nunca a tinha observado muito. Mas agora, olhando de perto para ela, notei que era muito bonita.

E aí aconteceu uma coisa estranha. Meu coração disparou, e entrei em transe. Mergulhei nos profundos olhos verdes de Sabrina, e só voltei quando ela falou, sem saber quanto tempo havia se passado. - Algum problema, Maria? - Hã? Ah, não, só me distraí. - Tudo bem. Que tal irmos logo para a entrada? - Ok, eu mando uma mensagem para o Allen avisando que vamos pra lá. Descemos as escadas em silêncio. Não quis olhar para ela, com medo daquilo acontecer de novo. Afinal, o que foi aquilo? - Ele disse se iria demorar? – Ela perguntava sobre Allen. - Eles estão procurando o professor. Ele é do tipo que quer distância dos alunos e se esconde assim que terminam as aulas. - Ele não parece uma pessoa assim. Deve ter outras ocupações. Sua voz era extremamente doce, e até ingênua. Na verdade, ela parecia ser o tipo de pessoa que não encontra o mal nos outros. Passou-se um minuto de silêncio. - Er, Maria... posso te fazer uma pergunta? Olhei para ela, evitando seus olhos. Ela estava corada. - Ahm, claro. - Bom, é que... você... já teve algum tipo de amor proibido? Amor proibido? Que tipo de pergunta era essa? - O que quer dizer? - Já gostou de alguém mesmo a relação sendo impossível? Por que ela estava falando disso? Na verdade, eu... - Ah, desculpe. – Ela olhou nos meus olhos. Desviei o olhar. – É meio cedo para fazer esse tipo de pergunta, não? Tive um calafrio. A cada palavra que dizia, ela ficava mais linda. - Na verdade – Comecei a falar. Ela olhou para mim. – Eu já... Quando ia começar a falar, o trio matemática surgiu na nossa frente, ofegante. - Aquele... maldito... – Allen se sentou no chão. - Que tipo de professor vai para a mesquita depois da aula? E ainda por cima, sem ser sequer muçulmano? – Jack se sentou ao lado dele, e puxou o braço de Bel, que fez a mesma coisa. - Vocês conseguem andar até a estação de ônibus desse jeito? – Sabrina se levantou do banco em que estávamos. – Qualquer coisa, posso pedir uma carona para o meu namorado. O namorado dirige, é?

- Ah, seria ótimo. – Allen se levantou de novo. – Se não for incomodar, adoraria não ter que pegar ônibus em horário de almoço. - Você tem motorista pra quê, mesmo? – Perguntei. - Na verdade, o motorista fica com o meu pai o dia todo. É que o trabalho dele fica numa cidade vizinha. - Então vou chamar o Sam. Acho que fica meio apertado para nós seis, mas ainda assim é melhor do que o ônibus. – Ela tirou um celular meio detonado de dentro da mochila. Depois de algum tempo, um jipe com estampa militar apareceu na porta do colégio. - Ele chegou. Vou apresentá-lo a vocês. Caminhamos até o carro, em fila indiana. Quem via de fora deveria estar rindo da nossa cara. Não tive a iniciativa de verificar. - Feliz aniversário, amor. - O namorado foi até ela e a beijou. - Obrigada. Sam, esses são Isabel, Jack, Allen e Maria. – Ela apontou para cada um de nós. Sam veio nos cumprimentar. Era alto, mas não tanto quanto Jack, tinha o cabelo parecido com o de Allen, porém mais escuro, e olhos negros. - Prazer. - Oi. – Falei, seca. Me arrependi logo depois: o cara estava fazendo um baita favor para nós. - Obrigado por nos levar até o restaurante. - Olá. Entramos todos no carro. Sabrina foi na frente, e nós quatro nos esprememos atrás. Allen resolveu sentar no colo de Bel, para abrir mais espaço. Isso despertou a atenção de Sam. - Vocês dois são namorados? A dupla olhou para ele. - Não, somos amigos. – Allen disse. – Bel é a namorada de Jack. - Ah, é mesmo? Achei que ele fosse namorado da pequenininha. Pequenininha?! Quem aquele cara pensava que era? - Não. Como sou pequenininha, não alcançaria sua boca. – Fui o mais ríspida possível. Bel me olhou com cara feia. - Foi mal aí. Não quis ser invasivo. - Você não foi. Me desculpe pela Maria, ela é assim mesmo. – Bel fez o favor de responder antes que eu dissesse alguma besteira. Ah, qual é. Só sou sincera. - Que isso. Ela é uma guria legal, acho que vamos nos dar bem. – Ele me olhou pelo retrovisor, com um sorriso estúpido. Lancei-lhe um olhar gelado.

Nos mantivemos quietos até chegarmos ao restaurante. Desembarcamos, atrapalhados, e entramos. Sam resolveu ir junto, mas não ia almoçar, só acompanhar. Não gostei muito da idéia, mas não podia me manifestar sem ganhar olhares gélidos. O lugar era grandioso. Tons de vinho e marrom, design clássico, lustres e música ao vivo. Rico era outra coisa. Sabrina e Isabel foram ao banheiro. Na verdade, Bel só queria ver o design do lugar inteiro. Havia ficado encantada com aquilo, era como a casa de seus sonhos – sem os troços de restaurante, claro. Depois, Allen foi com Jack até o caixa pedir alguma coisa. Surpreendentemente, estava lotado, e demoraria horas até que alguém viesse nos atender. Os dois garotos me pediram para esperar na mesa, porém não gostei nadinha de ficar a sós com Sam. - Você é bastante petulante, não é? – Ele se sentou à minha frente, me encarando. Seus olhos percorriam meu corpo como adagas. Olhei para ele, irritada. - Ah, eu não era uma garota legal até agora pouco? – Desafiei-o com um sorriso sarcástico. - Mas você é legal. – Ele tocou minha mão. Recolhi-a, rapidamente. - Está brincando comigo? – Ele realmente estava me irritando. – Isso é algum tipo de jogo? - Não, princesa. – Ele segurou meu braço. Tentei soltar. – Só quero conversar direito com você. – Sua expressão era tão cínica que me dava nojo. - Larga o meu braço. – Eu finquei minhas unhas em seu pulso. - Não adianta me atacar com suas garrinhas. – Ele me puxou para perto de si e chegou seu rosto próximo do meu. Tentei me livrar dele, mas o cara era muito forte. Ele começou a beijar meu pescoço e a passar e mão pelo meu corpo.Tive um acesso de náusea. - Me... larga... – Ele não largou. A única coisa que pude fazer foi gritar. Mas minha voz falhou, e o grito saiu fraco. Para melhorar, a nossa mesa estava bastante isolada do resto do lugar. - Idiota, para de gritar. – Ele agarrou mais forte nos meus pulsos, ignorando os olhares alheios. Olhei de relance para o balcão, e notei que Allen e Jack já estavam voltando. Parece que ele também notou, pois me soltou e encostou na cadeira. Depressa, me levantei e sentei do outro lado da mesa. Os dois chegaram com alguns recibos em mãos. Segurei o braço de Jack quando ele passou ao meu lado. - O que foi, Maria? – Ele olhou em meus olhos e captou a mensagem. Sentou-se ao meu lado. Vendo aquilo, Allen sentou-se à minha frente, assentindo com a cabeça. Eu podia sentir que Sam nos observava, apesar de evitar olhar em sua direção. Um tempo depois, Sabrina e Isabel voltaram. Sabrina se sentou ao lado de seu namorado idiota, e Bel ao lado de Jack.

- Oi, amor, que saudade senti nesse tempo que você me abandonou. – Sam deu um beijo em Sabrina, que ingenuamente retribuiu. Como uma garota daquelas foi parar com um falso e descarado como aquele homem? Algum tempo depois, nossa comida chegou. Eu não sabia o nome de nenhum dos pratos, mas eles pareciam deliciosos e absurdamente caros. Um deles era uma lagosta, que Allen fez questão de atacar. Esperamos o pequeno leão acabar de se servir, e pegamos o resto. Eu não conseguia aproveitar bem a refeição. Sentia que Sam me encarava de longe. Meus amigos estavam preocupados comigo, pois já sabiam que havia alguma coisa errada só de me verem daquele jeito. Então, não agüentei. - Bel, você pode vir comigo até o banheiro? - Ah, claro. – Ela se levantou, fiz o mesmo. - Mas você acabou de voltar de lá. – O imbecil do Sam resolveu se intrometer. - Isso não me impede de ir de novo. – Eu adorava Bel. Curta e grossa, mas sem perder o charme. Sam levantara os braços, como quem diz “eu me rendo”. Ridículo. Andamos até o banheiro, tentando agir naturalmente. Chegando lá, me deparei com uma mulher de meia-idade que retocava a maquiagem. - Algum problema, Maria? Você não parecia muito bem. - Olha, Bel... se eu te contar uma coisa você promete guardar segredo, por tudo que é mais sagrado? - Pode falar. – Entramos no box para deficientes físicos e trancamos a porta. - Sabe aquele namorado da Sabrina? - Sei. O que tem ele? - Bom, basicamente ele tentou me assediar enquanto vocês estavam longe. E conseguiu, em parte. – Fui direto ao ponto, pois sabia que Bel era confiável. Ela me encarou por um minuto, tentando processar. - Como é? – Ela realmente não acreditava. - Você ouviu. - Olha, Maria... eu não sei se posso acreditar nisso, aquele cara foi tão legal nos trazendo até aqui, e ainda vai nos emprestar o estúdio. – Droga. Eu tinha esquecido da parte do estúdio. Olhei-a bem nos olhos, séria. - Eu já menti para você alguma vez na minha vida? Ela me encarou igualmente. Respirou fundo. - Tudo bem, eu acredito em você. - Sabia que podia confiar em você. Mas então, o que eu faço? - Aquele cara tem uns 20 anos de idade, você tem 15. Pode até colocá-lo na justiça.

- Não exagera. - Ok, ok. Mas... o que exatamente ele fez? - Agarrou meus pulsos com força e começou a passar a mão em mim e a beijar meu pescoço. – Tremi só de lembrar. - Deus, como a loira foi parar com um cafajeste desses? – Eu também me perguntava isso... – Tudo bem. Vamos fazer de tudo para manter ele longe de você, e pelo menos dois de nós têm que ficar por perto. - Dois? - Já pensou se ficar só o Allen com você, por exemplo? É capaz do cara assediar os dois. – Apesar de tudo, rimos da situação. - Verdade... – Fiquei séria de novo. – Mas Bel... sinto como se devesse falar isso para a Sabrina. - Acho que ainda não. – Ela chegou mais perto. – Viu como ela o olha? Está totalmente apaixonada. - Realmente. Parece você com o Jack. – Soltei um risinho. - Quieta. Mas, por outro lado... vamos deixá-la com aquele imbecil? Nos entreolhamos. Acho que ela pensou o mesmo que eu. “Aquela garota é uma bruxa. Há algumas semanas, a odiávamos, e agora estamos preocupadas com ela”. É a vida... Sem dizer mais nada, saímos do banheiro e voltamos para nossos lugares. Nossos dois garotos pareciam curiosos. Sabrina não estava achando nada estranho. Apesar de sua expressão imutável, parecia contente por estar ali. Era mesmo uma garota incrível. Senti minhas bochechas queimarem ao olhá-la. Teria que aproveitar que estava feliz agora, pois iríamos estragar aquilo em pouco tempo. Aquele retardado não iria dar em cima de mim e fazer aquela menina tão linda de boba. Lancei um sorriso cínico para Bel, que retribuiu. Allen e Jack não estavam entendendo nada. Calminha, garotos... logo iriam descobrir.

Desdobramentos inesperados
Depois de muito viajar pelo Fantástico Mundo de Bob, o único plano plausível que me veio à cabeça foi, bem... não tão plausível assim. - Gente, tive uma ideia! - Falei de repente, fazendo com que todos me olhassem. - Já que o Allen pagou pelo almoço, que tal irmos aqui na Hebber escolher alguns presentes pra Sabrina? - Não precisa, eu já estou feliz com esse almoço. Finalmente descobri o que é Foie Gras. - Sabrina, apesar da inexpressividade, conseguia dizer tudo apenas com os olhos e com o tom de voz. No início, fiquei feliz por ela, mas depois, quando pensei no que viria a seguir, logo minha alegria se esvaiu. - Acho que Maria tem razão. - Apesar de não termos discutido o plano, Bel conseguia meio que ler meus pensamentos. Ela sempre foi assim. - Já comemos bastante, não? - Ela olhou para Jack, que estava deitado em um sofá marrom, quase morrendo de tanto comer. - Sério que vocês querem que eu saia daqui? - Ele perguntou, numa voz de sofrimento. Dei uma risada e fui até lá ajudá-lo a se levantar. Fomos até o balcão pagar a exorbitante conta de mais de 500 reais, e depois andamos até a Hebber, que ficava a cerca de 200 metros dali. Quando entramos, automaticamente os garotos se sentaram nas cadeiras da entrada, inclusive o idiota do Sam que não se interessou nem um pouco em escolher alguma coisa para a própria namorada. Então, fomos eu, Bel e Sabrina. Respirei fundo, sabendo que dali a alguns minutos todo aquele clima mudaria. Fomos até o último andar, onde escolhi estrategicamente a seção de perfumes, já que ela tinha vista para o térreo. Estava na hora de começar. - Bel, Sabrina. - Olhei séria para as duas. - Eu vou até o térreo. Por favor, fiquem olhando para a seção de lingerie no térreo, de preferência de modo a não serem vistas lá de baixo. Me perdoe, Sabrina. - Olhei para ela, pesarosa. Desci dois andares e fui até os garotos. Encarei Sam, séria. - Vamos escolher alguma coisa para a sua namorada? - Ele respondeu, com fúria nos olhos e um sorriso nos lábios. - Claro. Tentando ficar o mais distante dele possível, caminhamos até a seção de roupas íntimas femininas. - Até quando pretende enganá-la desse jeito? - Disse, sem olhar para ele.

- Eu sabia que estava planejando algo. Você não entende mesmo, não é? - Ele também não olhou para mim, fingindo escolher uma lingerie para Sabrina. - Não, eu não entendo. Você tem uma namorada linda como ela, e mesmo assim a trai com uma garota que acabou de conhecer, na frente de todo mundo. - É um pouco mais complicado do que isso. - Ele encostou na minha mão, e eu a movi rapidamente, indo para a estante do outro lado. - Não tem nem um pouco de respeito? - Dessa vez, encarei-o, séria. Ele fez o mesmo, soltando uma risada. Aquilo me deu náuseas. - Eu cansei, sabe? Cansei de fazer tudo o que me pedem. Por mais que pareça valer a pena... - Ele se aproximava de mim, e eu tentava evitá-lo, por mais que aquilo fosse parte do plano. - Eu não sei o que você está passando, mas não é motivo para fazer essas coisas. Aquela garota sofreu muito, e eu digo isso mesmo a tendo conhecido há tão pouco tempo. - Eu não ligo. E você quer saber do que mais? - Ele me prendeu contra a parede. Apenas deixei. - O quê? - Você... - Aproximando seu rosto do meu, pude ouvir sua respiração. Fiquei ainda mais enjoada, mas me mantive ali. - Você me excita... de um jeito que não consigo me controlar. - Ele me beijou, puxando minha cintura para si. Estava me sufocando. - Solte-a. - Arregalei os olhos, reconhecendo a voz de Bel. O cafajeste apenas obedeceua. - Está tudo bem. - Sabrina se aproximava, com uma lágrima escorrendo por seu rosto. Se você não me quer mais... por que não terminamos? - Você sabe que não posso. - Estávamos todos sérios e prestando atenção no que ocorria, por mais que não fosse da nossa conta. Quer dizer, não minha e de Bel. - Se eu o fizer, ele não ficará chateado. - Ele? Não entendia. - Ficará. Ele pediu que nos apoiássemos, lembra? - Nos apoiaremos mais separados, Sam. Você sabe o quanto eu amo vocês dois... - Ela fez uma pausa e abaixou a cabeça. - E o quanto sou grata por aquilo. Mas não está dando certo. Eu já não estava compreendendo mais nada, e pela expressão, nem Bel. Quem era e ssa terceira pessoa envolvida na história? - Eu vi você e a Lil naquele dia, Sam.

Os olhos do marmanjo se arregalaram. - Mas... você... você... - Eu sei. Não é culpa sua. - Ela andou até ele e o beijou suavemente. - E este foi o nosso último beijo. Diga a seu pai que eu pedi por isso, e ele não terá raiva de você, mas de mim. - Me... desculpe. Sabrina saiu andando na frente. Apenas a seguimos, confusas. Que história era essa de pai, e quem era Lil? Chegando na entrada, os dois garotos conversa vam seriamente sobre algo. - Podemos ir? - A loira passou seus olhos por todos nós. Nessa hora, nossos corações se apertaram. O meu, pelo menos. Voltamos para a frente do restaurante. - Eu sinto muito pelo incômodo. E obrigada por tudo. - Sabrina ia sair andando, quando resolvi falar: - Olha, se pensa que vamos te deixar ir embora assim, está enganada. - Ela se virou e me olhou, surpresa. - Você nos deve algumas explicações. - Maria, não é uma boa... - Bel tentou me segurar, mas caminhei até Sabrina, encarandoa. - Temos uma banda para constituir, e como amigos, devemos compartilhar tudo. Principalmente o que mais escondemos de nós mesmos. - Sorri, tentando animá-la. Seus olhos estavam cheios de lágrimas. Fizemos uma pausa dramática, até que... - Muito obrigada. - A loira veio até mim e me abraçou. Senti meu coração parar. - Você não vai mais ficar sozinha. - Abracei-a de volta. Eu não sabia o que era aquilo... aquela sensação. Era como se eu... - Não vamos ficar aqui só olhando, né? - Bel, Allen e Jack vieram até nós e nos abraçaram também. Depois de um minuto assim, Allen se manifestou. - Gente, as pessoas da rua estão começando a olhar. - Nos soltamos, rindo. Até Sabrina, apesar dos olhos tristes, tinha um levíssimo sorriso nos lábios. Respirei fundo. - Então! Vamos ficar aqui de drama no meio da calçada, ou vamos procurar um estúdio pra gente discutir o que é importante?

Sem falar nada, Allen chamou um táxi. Nos arrumamos dentro dele do mesmo jeito que estávamos no carro de Sam. - Qual o nome do estúdio em que íamos? - O baixinho perguntou para Sabrina. - Garage Music & Tricks. - Tá, nos leve para um bom estúdio que não seja esse aí. E seguimos viagem. Bom, eu tinha tempo para perguntar direito sobre o que acontecera na loja. Mas não naquela hora. Não ali. Algo me dizia que eu iria saber na hora certa.

Um terrível passado e um misterioso futuro
6 meses, 18 dias e um par de horas. Esse foi exatamente o tempo que levou algo que, pelo menos em uma certa mente humana, duraria para sempre. - Pronto, chegamos. - Abandonei meus pensamentos, depois que o táxi parou na frente de um prédio comercial. Pagamos, e em seguida descemos do veículo. - Bom, eu já vim aqui antes. O estúdio fica no fim do corredor do terceiro andar. Estúdio... apenas a música serviria para que eu me recuperasse do que acontecera. Chegando lá, simplesmente entramos na sala de isolamento acústico, sem sequer fazer reservas. Bom... significa que ainda não havia muitos músicos na cidade. - Gente, o que fazemos agora? - Ficamos parados olhando para os instrumentos, sem saber o que fazer. Allen e Jack ainda não sabiam tocar os instrumentos adequadamente, e não havíamos planejado nada. Isabel puxou a mão de Allen e foi até o microfone. - Canta alguma coisa para animar a gente. - Eu?! O que você espera com isso? - O jeito do garoto me lembrava de um amigo que eu tinha na infância... apenas amigo, infelizmente. - Não me diga que você não se lembra daquele evento. - Seu tom de voz era malicioso. - Do que voc... Ah, fala sério. Aquilo não, eu tinha 10 anos! - Estava tão fofo, faz aí. - Do que eles estariam falando? - Não. - Vamos! - Não. - Ok. Então Maria, vem cá can... - NÃO!!! - Todos gritaram ao mesmo tempo. - Isso magoa, sabia? Canta, Allen! - Vocês... - Ele ligou o microfone, e em seguida conectou um pen drive no estereo que estava no canto da sala. Uma música que reconheci começou a tocar. "Sekai de ichi-ban OHIME-SAMA Sou-yu atsukai KOKORO-ete

Yone" Todos começaram a gritar, como uma torcida. Não entendi muito, até que Allen começou a coreografar junto com a música. Sua voz era boa, limpa, mas não muito... masculina. "Ahhhh!" - Assim é fácil despertar o lado homossexual dos homens. - Isabel estava animada, e gargalhou quando o cantor lhe lançou um olhar mortal. Quando ele terminou, as duas garotas pularam em cima dele. Jack não perdeu uma oportunidade de brincar. - Eu nem quero saber como você aprendeu esse gritinho... - Idiota. - Eles não te cercaram no evento? Desse jeito você fica no topo da pirâmide das coisas molestáveis. - Vocês têm sorte porque estou aqui para diverti-los. - Ele se afastou dos outros, com o nariz empinado. Jack seguiu-o. - Então quer nos divertir? - O loiro se agachou um pouco na frente de Allen, olhando diretamente em seus olhos. O pequeno corou. - Você tem sorte porque sou mais fraco. - Ele andou na direção contrária. - Você também. - Seu sorriso era malicioso, o que fez Maria e Isabel corarem. - Um dia eu te mato, idiota. - Jack riu, brincando. Estávamos em um estúdio, apenas conversando e nos divertindo. Assim, peguei um violão no canto da sala. Eu não aguentava mais. Improvisei uma melodia, mas roubando a letra de uma música que me acompanhava desde aquele dia. "Just be friends! Ukandan da Kinou no asa hayaku ni Wareta GURASU Kaki atsumeru youna" Todos pararam de conversar e olharam para mim, seus rostos num misto de seriedade e surpresa. Cheguei apenas até a metade da música, quando fortes lágrimas invadiram meu rosto. Caí de joelhos no chão. Por que eu estava chorando? Mais do que ninguém eu sabia que nada daquilo havia sido verdadeiro. Maria se levantou e foi até mim. Sentou-se à minha frente, enxugando minhas lágrimas. Ela sorria tranquilamente.

Naquele segundo, foi como se o mundo tivesse parado para mim. Olhei para ela, tentando manter a expressão neutra. - Eu sabia que uma hora isso iria acontecer. Vamos lá fora, e você descarrega tudo o que guarda nesse coração. - Ela se levantou, esticando a mão para mim. Olhei para os outros, que apenas assentiram sorridentes. - Vá. Assim nós aproveitamos para treinar sem passarmos vergonha na frente de vocês. Então, eu e Maria saímos do estúdio e andamos até uma praça próxima . No caminho, ela não me fez perguntas. Nos sentamos nas bordas de um chafariz. A cidade era bastante vazia àquela hora, então podíamos ficar mais à vontade. Ela olhou em meus olhos, por algum tempo, e sorriu. - Maria... - Sim! - Ela desviou o olhar rapidamente, como se estivesse distraída. Pausa. - Então, Sabrina... você pode se abrir comigo. - Seu sorriso voltou, junto com algumas lembranças que eu não gostaria de ter em mente. Suspirei. - Não era nada, Maria. Nunca foi nada. - Do que você está falando? - Nossa relação. Foi toda arranjada. E tudo começou por minha causa. É uma longa história. - Senti um calafrio, então fiz pressão em meu punho. - Eu não ligo. Conte-me tudo, Sabrina. Eu não aguento mais vê-la todos os dias e não saber de nada, não saber quem você é. - Eu não sei porque estou aqui. Se era para passar por tudo isso, era melhor ter morrido ali, não? - As lágrimas voltaram para o meu rosto. Cenas daqueles tempos passaram por minha cabeça. Automaticamente pus a mão no canto direito de meu abdome, a prova que eu havia que carregar. - Sabrina... isso tudo já passou. Eu não sei o que houve, mas você está entre amigos agora. - Ela me abraçou, acariciando meus cabelos. Meu coração acelerou, por algum motivo. - Quando eu cheguei nessa cidade, há pouco mais de um ano, a única coisa que eu sabia fazer era cantar e tocar meus instrumentos. Então eu me apresentava em alguns bares como sustento. Até que consegui um emprego permanente em um certo lugar. Logo na minha primeira semana, tive que trabalhar até de madrugada. - As lembranças eram tão fortes que o pavor daquele dia retornava, me deixando tonta, enjoada e sentindo

calafrios. Maria me abraçou ainda mais fortemente. - Quando eu ia saindo, dois homens me abordaram... - Solucei ao lembrar-me. - Eles não estavam sóbrios... eu tenho certeza de que uma pessoa sóbria nunca faria aquilo... eles me levaram até um beco, e como animais que acham um cervo morto na relva, arrancaram minhas roupas... e... e... - Não pude continuar de imediato. Estava passando muito mal, e as lágrimas não paravam de cair. - Calma... isso já passou. Todas essas coisas horríveis estão seladas no passado. - Eu... tentei me livrar, mas eles me esfaquearam duas vezes na barriga... doía tanto que perdi o foco da visão, e fiquei inconsciente. Até que um homem me achou e me levou ao hospital. Pelo menos é o que os médicos disseram. - Algo em Maria me acalmava, mesmo com aquelas imagens terríveis na mente. - Durante dois dias ele ia me visitar. No terceiro, veio uma pessoa diferente. Um rapaz pouco mais velho do que eu. Ele sempre me trazia, flores, sorrindo com os olhos tristes. - Eu me sentia melhor, era como se um peso saísse do peito... - Quando recebi alta, descobri que seu pai fora diagnosticado como HIV positivo. - Esse rapaz... - Sim. Sam. - Abracei Maria com força, naquele momento tão catártico. - O pai dele um dia resolveu ter uma conversa comigo. Disse que Sam não queria saber de trabalhar, só de se divertir com garotas ou de arrumar briga na rua. Disse que não tinha muito tempo de vida, mas que ele queria muito que eu e seu filho ficássemos juntos. Porque eu o ajudaria a tomar um bom rumo na vida, e ele me protegeria e posteriormente me sustentaria. Eu estava tão agradecida, e convencida de que isso daria certo... então chamei Sam para sair, casualmente. Ele apenas aceitou. Mas os dois sabíamos de tudo. Apenas não queríamos tocar no assunto. Eu visitava pai e filho todos os dias, eram minha nova família e eu os amava tanto quanto amei meus próprios parentes. Eu tentava me focar no presente, ignorando o que aconteceria em não muito tempo. Parecia tudo bem, até aquele dia. - Então... era isso. Desculpe, pode continuar. - Eu fui visitá-los, quando achei ele e Lil, uma amiga do bairro... - Fiz uma pausa, tentando expressar o ato com o silêncio. - Naquela hora, tudo aquilo em que eu acreditara até ali desapareceu. Percebi que todos aqueles dias juntos não passavam de uma mentira. Mas eu resolvi deixar passar, afinal, eu tinha feito uma promessa ao Senhor Phil, o pai de Sam. E agora, Maria... tudo sumiu de vez. - Me desfiz de seu abraço delicadamente, para examinar sua expressão. Mas era a mesma de antes. - Agora eu entendo. Entendo tudo mesmo. - Ela arrumou meu cabelo. Meu coração acelerou de novo. - Sabrina... você não está mais chorando. - Era verdade. Minha tristeza

acabara. Eu me sentia mais leve, mesmo depois de ter relembrado todo aquele passado doloroso. - Nunca, nunca mais, volte a sentir aquela tristeza. Isso é uma ordem. Nossos rostos se aproximavam cada vez mais. Por algum motivo, as palavras ficaram presas em minha garganta. Ela brincava com meus cachos, enquanto sorria. Meu coração disparou de vez. - Maria... o que... E nossos lábios se tocaram. P...por quê?

Que a Força esteja conosco
Era como se ela possuísse algum tipo de magia. Mesmo tentando cessar aquilo, apenas ao respirar, sentir seu cheiro... - Maria... - Ela se afastou de mim. Permaneci com os olhos fechados por alguns instantes, tentando processar o que acabara de acontecer. - O que foi isso? Eu que me pergunto. O que diabos foi isso? - Me desculpe. É que de repente eu... - Não tem problema. Acho que estamos sentindo o mesmo. Ela também sentia aquilo? Como se alguém puxasse seu coração para fora do corpo, e como se existisse uma barreira entre nós e o mundo? - Isso está bem para você? - Eu não sei explicar, mas... é como se o meu coração... quisesse fugir. - Arregalei os olhos. Nos entreolhamos, e então eu pude ver. Era aquilo que chamavam de "atração magnética"? Não sei quanto tempo se passou até que começássemos a nos beijar novamente. Mas em minha mente, foi muito tempo. Tempo demais. Algo tão repentino, tão inesperado, e ao mesmo tempo... tão certo. - Isso está certo, Maria? - Hã...? - Eu ainda não me encontrava completamente lúcida. - Nós duas aqui... eu não entendo. Não respondi. Eu não sabia o que dizer, nem o que pensar. Apenas enxergava a garota magnífica que estava à minha frente. - Nunca pensei dessa forma... mas você é realmente bonita. Eu? Bonita? E por que ela dizia aquelas coisas? Naquele mesmo dia ela terminara com o namorado, ainda que não fosse verdadeiro. Mas por que nós duas tínhamos todo aquele clima? Mas um pensamento em particular me passou pela cabeça. Allen. - Não. Sabrina, não podemos. Isso não foi nada. - Me levantei, ficando de costas para ela. Assim não notaria que eu chorava. - Então não significou nada para você?

Logo, uma grande culpa me veio à cabeça. Junto, uma grande dúvida. Magoar o garoto que me ama... ou magoar a garota que poderia me amar, e vice-versa? Allen possuía aquele sentimento há muito tempo. Mas Sabrina já havia sofrido muito durante a vida. Allen era, acima de tudo, meu melhor amigo. Mas... - Maria. - Senti as mãos da loira segurarem as minhas. - Acho que estou gostando de você. ...Mas Sabrina era de quem eu realmente gostava. - Nos conhecemos tem menos de um mês. - Eu dizia aquilo mais para mim mesma do que para qualquer outra pessoa. - Então você não gosta de mim? O que eu diria a seguir? Suspirei fundo. Me virei e beijei-a de novo. - Por favor... - Eu chorava muito, estava extremamente confusa. - Não conte a ninguém. - Não contarei. - Seus olhos também estavam molhados. - Então posso ficar tranquila. Sem dizer mais nada, voltamos para o estúdio de mãos dadas.

A chave da discórdia
- Gente, foi incrível ontem! Nunca pensei que a gente conseguiria algum resultado em tão pouco tempo. - Eu sorria, me lembrando do dia anterior. - Até que eu e o Allen nos saímos bem. Vocês foram muito gentis ao concordarem em criar uma música fácil pra gente tocar. - A Sabrina e a Maria cobriram a gente legal... - O ritmo da música ficou o máximo, uma combinação de Arctic Monkeys com Within Temptation. Nossa sincronia é uma porcaria, mas o que importa? Temos uma música nova! - Só falta a letra... - Metade, na verdade. - Bel parou de rir e de andar, e foi até um banco. Tirou uma pasta da mochila. - Comecei a escrever a letra ontem. Não tem muitas rimas, já que escrevi primeiro em italiano para depois traduzir para o inglês... - Bel, você é muito foda, eu já te falei? - Peguei a pasta, onde havia apenas uma folha. Lights, setting on fire I'd meant to be right Running more than legs Couldn't wait anymore

Dreaming about a castle With princesses and kings She was just a child She was going to met her love

They found angels though When they look to each other The prince and the princess were there, then Prepare the show, stop that damn world

- Bel... - Todos olhamos para ela, com uma expressão idiota. - Sim, é sobre a nossa "primeira vista". - Ela pegou a mão de Jack, que beijou seu cabelo.

- A letra combina com a música. Tem um tom bonitinho, inocente... gostei. Preciso f azer alguns arranjos com isso. Me empresta, Bel? - Sabrina estava bastante séria sobre isso, principalmente depois de ver o que conseguíamos fazer juntos.
Depois da aula, atrás da escola

- Maria! - Eu me envolvia em meus pensamentos, quando Sabrina chegou correndo no local marcado. - Desculpe o atraso, tive que falar com o professor de física antes de vir para cá. - Tudo bem, o importante é que você veio. - A abracei fortemente, e nos beijamos. Eu ainda não havia processado tudo o que acontecera naqueles últimos dois dias. Fora muita coisa. Almoço conturbado, términos de relações, o primeiro ensaio da banda - muito bom por sinal, apesar do preço que pagamos pelas 3 horas e meia de uso -, e principalmente... - O - o que vocês estão fazendo? - Levei um susto, ao ouvir a voz assustada de um garoto. Quando me virei não era Allen, contudo. Era um garoto de nossa turma, com quem eu nunca havia falado. - O que você acha que estamos fazendo? - Respondi, sem pensar muito. - Cara, eu não entendo esse mundo. O que vocês fazem é errado. Como é que é? - Eu decido o que é errado ou não. Agora, dá o fora que estamos interessadas em algo que com certeza não envolve você. - Cheguei para mais perto de Sabrina, e quando ia voltar a beijá-la, o inevitável. - Eu não vou deixar essa história acabar por aqui. - E saiu andando, para o outro lado. - Maria... ele vai contar para todos do colégio. - A voz de Sabrina tinha um tom preocupado. - Eu não me importo com o que aqueles idiotas da escola pensam de nós. Desd e que tudo fique longe dos ouvidos de três pessoas. - Jack, Isabel e Allen. - Principalmente do Allen. - Mas por que você está escondendo deles? Quer dizer, não que seja importante, afinal, ontem que nós... - Eu não quero que se magoem, Sabrina. Sei o que Allen sente por mim. Sei o que Bel e Jack esperam que eu faça. - Se isso está causando tantos problemas, não precisamos continuar. Não quero isso.

- Sabrina, escuta. - Segurei suas mãos e olhei para ela. - Acho que está na minha vez de falar um pouco sobre mim. Andamos juntas até um lugar sossegado. Nos sentamos debaixo de uma árvore, escondidas. - Eu me sinto muito mal ao falar sobre família com você, mas acho que preciso falar sobre isso. - Tudo bem, pode falar. - Minha vida começou a ficar confusa aos 7 anos de idade. Meu pai e minha mãe se separaram junto com meu tio e minha tia, irmã da minha mãe. Até aí, tolerável. Mas meu pai resolveu casar com a minha tia e minha mãe, com o meu tio. E eu tinha irmãos e primos. Agora não sei quem chamo de pai, quem chamo de tia, quem chamo de madrasta e de irmão. E o meu padrasto, tio, sei lá, é simplesmente o capeta, Sabrina. Quer dizer, não que nos maltrate ou algo do tipo, mas ele lavou as nossas mentes por inteiro. Pelo menos a da minha mãe. Agora ela parece um zumbi, tentando ser a dama perfeita o tempo todo e nos castigando se algo que fazemos é pior do que excepcional. Meu pai a controla e faz a mesma coisa. - Eu não esperava por isso... - Acho que ninguém espera. Agora, minha mãe quer me mandar para um colégio de patricinhas francesas no Rio de Janeiro. - Ela arregalou os olhos. - Você não pode ir! - Eu não vou. Me recuso. Nem que tenha que sair de casa. Meus irmãos já tiveram a lavagem cerebral completa, mas eu não quero. Por isso tento passar a maior parte possível do tempo na casa da minha tia. Pense o que é chegar em casa, e ser obrigada a fazer faxina, a aprender dança japonesa, instrumentos tradicionais, boas maneiras, e não poder rir, me divertir ou conversar amigavelmente com garotos. Só falta querer me transformar numa Geisha. - Eu sinto muito... - Não sinta, você também é como eu. Você se sente como eu. Nós estamos na mesma sintonia. É a primeira vez que alguém me entende de verdade, Sabrina. Até a Bel disse que eu estava exagerando, e que minha mãe só queria que eu fosse uma moça elegante. Eu amo muito meus amigos, e depois de ter te conhecido, não vou mesmo embora. - Tem tão pouco tempo que nos conhecemos, mas não sei, há algo a mais... - Você acredita em almas gêmeas, Sabrina? - Sorri para ela, que enxugou as lágrimas que escorriam pelo meu rosto.

- Eu não duvido de nada. - Nos beijamos profundamente, com um sentimento que eu não conseguia explicar.

Problemas sempre chegam em dobro
Não me faltavam desculpas para fugir da aula de Educação Física. Minhas maiores especialidades na área envolviam tropeçar nos próprios pés, deixar a bola cair, errar a cesta e ficar em último lugar na corrida. Mas nem tudo são flores. Coloquei meu uniforme esportivo, que eu só não me recusava a usar por ser cor-de-vinho, e fui até o centro da quadra. Como sempre, fui a última a ser escolhida para o jogo de vôlei. Estava indo tudo muito bem, todas as outras que não se chamavam 'Isabel Rigardi' jogando direitinho, até que comecei a observar Sabrina, que jogava como levantadora em meu time. Ela estava ofegante, e seus olhos entreabertos, como se sua noite de sono tivesse sido ruim. E ela não se cansava fácil - pelo contrário, era uma das mais resistentes da turma. Talvez por ter que andar sempre de um lugar para o outro. A cada jogada, ela parecia mais cansada, e em muitas horas perdia o equilíbrio, tropeçando nos próprios pés - coisa que apenas eu conseguiria fazer com tão pouco esforço. Até que o inimaginável aconteceu. Ela tombou na quadra, desacordada, soltando um longo suspiro. Todas as garotas e a professora pararam o jogo imediatamente, indo ao encontro da loira que parecia dormir naquele chão frio. - Sabrina, Sabrina! - Maria tentava falar com Sabrina, sussurando em seu ouvido e apertando sua mão. Eu estava preocupada demais para notar a suspeita que essa cena causaria em uma situação normal. - Professora, vou chamar a enfermeira! - Uma garota baixinha, de cabelo curto, saiu correndo em direção à enfermaria antes de receber permissão para isso. Ficamos ao redor de Sabrina, Maria e eu mais próximas e as outras discutindo sobre o que poderia ter acontecido. Eu já estava pensando em ligar para o pronto -socorro, visto que ela estava demorando para acordar. Cerca de 5 minutos depois, a enfermeira parruda e dois auxiliares chegaram, portando uma maca. Na mesma hora, Sabrina abriu os olhos, zonza. - O... que... - Não se esforce. Vamos levá-la para a enfermaria. As outras garotas queriam nos acompanhar, mas a professora não permitiu e mandou que voltassem à aula e que apenas eu e a japinha fôssemos junto.

32 minutos e 17 segundos. Esse foi o tempo exato que tivemos que ficar na sala de espera. Um auxiliar veio nos chamar. - As duas, podem entrar. Ela ainda está bastante grogue, mas quer falar com vocês. - Sabe o que aconteceu com ela? - Maria perguntou a ele, tirando as palavras da minha boca. - Essa garota não come a dias, os níveis de glicose no sangue estão baixíssimos, e a pressão também. Não come há dias? Como assim? Entramos na enfermaria. Pequena, mas limpa e aconchegante. Sentamo -nos nas bordas da maca onde Sabrina estava. - Me desculpem, eu não sei porque isso aconteceu. - Não sabe? - Fui sarcástica, meio sem querer. - Você anda se alimentando direito, Sabrina? Seja sincera conosco. - Maria estava séria, e olhava nos olhos da loira. Ela olhou para baixo, como uma criança que sabe que fez algo de errado. - Eu não tenho escolha... - Como assim não tem escolha? Você sabe muito bem que precisa comer direito, e além do mais não tem motivo nenhum para... - Eu não tenho o que comer. Silêncio. Até que resolvi falar. - Como assim não tem o que comer? - O meu avô está muito doente e tem pouco tempo de vida. Minha avó resolveu usar todo o dinheiro que eles têm para pagar o tratamento dele. Então, não tenho como comprar comida. Fiquei profundamente abalada com isso. Enquanto eu não sabia o que dizer, Maria falava cada vez mais. - Ah, meu Deus. Eu sinto muitíssimo por você e pela sua avó, e lhes darei todo o apoio que precisarem. Mas ela não pode deixar você sem comida, por mais que ame o seu avô. Isso pode dar até problema na Justiça, sabia? Eu vou ligar para ela, Sabrina. Dizer a sua situação. - Ela balançava a cabeça em sinal de reprovação, nervosa.

- Não é tão simples. Eu... não tenho um bom relacionamento com a minha avó. Ela nunca perdoou minha mãe por ter engravidado cedo, e me vê como 'o fator que destruiu a vida da família'. - Que coisa ridícula! Sinto muito, mas a sua vó é muito idiota. - Por favor, não a chame assim. Ela é muito honesta, trabalhadora, e tem razão quanto a mim... - Uma lágrima escorreu pela face alva da garota. - Não, ela não tem! É melhor vocês se resolverem, pois não vai gosta r se eu me intrometer. E nós vamos arranjar um jeito de cuidar de você até que isso acabe. Na minha casa vai ser difícil para você ficar, mas... - Sabrina. Você pode ficar na minha casa ou na de Allen, sem problemas. - Não citei a casa de Jack por instinto mais do que por ciúmes. - Não precisam se preocupar comigo, prometo que não vai acontecer de novo. E não quero causar incômodo. - Já que você só entende se eu falar desse jeito, então é o seguinte: acha que não incomodou todo mundo ao terem que parar a aula por tua causa, e por terem que te trazer até aqui? O que você prefere, isso ou ficar na casa de um amigo? - Tudo bem, então... Você deixaria eu ficar na sua casa, Isabel? - Claro. Seria um prazer. Temos um chef de cozinha em casa, você irá pro var la migliore cucina italiana. - Sorri de leve, para que ela se animasse um pouco. Levei um susto quando a enfermeira me chamou. - Você, de cabelo solto. - Virei, esperando uma arma apontada para mim. - Vai na cantina e pega alguma coisa decente para essa garota comer, diz que a enfermeira vai pagar depois. - T-tudo bem. - Ela era enorme, como aquelas dos desenhos. Me assustava legal. Corri até a cantina, e chegando lá, perguntei se havia algo de saudável. No final, só consegui uma sopa de legumes fria e uma maçã meio amassada. Nada menos do que o esperado. O que não era esperado, seria o que vinha a seguir. - Sabrina, eu trouxe isso para vo... As duas pararam no ato, e me olharam com os olhos arregalados, sem palavras. - Quanta intimidade. - Falei, abismada com o que acabara de ver. Larguei a bandeja em cima da mesa, e dei meia-volta. - Podem continuar. Saí da sala, tentando acreditar que aquilo havia acontecido de verdade.

Então Allen tinha razão. Maria era realmente... lésbica. E meu inconsciente também estava certo. Sabrina não era uma pessoa tão legal assim. Por mais que eu tentasse me esquecer daquele problema com ela e com Jack no mês anterior, aquilo me voltava à cabeça. Com mais essa situação, eu tinha uma bola de neve de raiva, e não queria descontar em cima de Sabrina. Ela não estava fazendo nada de mais. Ou estava? Além do mais... como ficaria Allen nessa história toda?

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->