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TUDO SOBRE ALFABETIZAÇÃO

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1 TUD SOBRE ALFABETIZAÇÃO Edição Especial | 03/2009

Alfabetizar é todo dia O professor deve planejar com antecedência e constantemente as atividades de leitura e escrita. Por isso, manter-se atualizado com as novas pesquisas didáticas é essencial

MÃO NA MASSA As crianças precisam ser confrontadas com situações de escrita desde o início do processo. Foto: Ricardo Beliel Alfabetizar todos os alunos nas séries iniciais tem implicações em todo o desenvolvimento deles nos anos seguintes. Segundo a educadora Telma Weisz, supervisora do Programa Ler e Escrever, da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, “a leitura e a escrita são o conteúdo central da escola e têm a função de incorporar a criança à cultura do grupo em que ela vive”. Por isso, o desafio requer trabalho planejado, constante e diário, conhecimento sobre as teorias e atualização em relação a pesquisas sobre as didáticas específicas (leia o artigo abaixo).

Esta edição especial traz o que há de mais consistente na área. Hoje se sabe que as crianças constroem simultaneamente conhecimentos sobre a escrita e a linguagem que se escreve. Conhecer as políticas públicas de Educação no país e seus instrumentos de avaliação é um meio de direcionar o trabalho. Um exemplo é a Provinha Brasil, que avalia se as crianças dominam a escrita e também seus usos e funções. Para a secretária de Educação Básica do Ministério da Educação, Maria do Pilar Lacerda e Silva, o grande mérito do teste de avaliação que mede as competências das crianças na fase inicial de alfabetização é fornecer instrumentos para o professor interpretar os resultados, além de sugerir práticas pedagógicas eficazes para alcançá-los. “É um material que ajuda o professor na reflexão porque

2 nenhuma avaliação serve para nada quando se limita a constatar. Ela só faz sentido para mudar práticas e identificar as dificuldades de cada aluno.” Telma Weisz A saída é a formação do professor alfabetizador Para desenvolver este artigo, parto de dois pressupostos. Primeiro: o que garante a qualidade da Educação que acontece de fato nas escolas é, sobretudo, a qualidade do trabalho profissional dos professores. O segundo: a qualidade do trabalho profissional dos professores tem dependido essencialmente da formação em serviço, pois a inicial tem se mostrado inadequada e insuficiente. Diante disso, me concentro numa questão: a competência da escola pública brasileira para produzir cidadãos plenamente alfabetizados, requisito mínimo para falar em Educação de qualidade. É preciso admitir que nossa incapacidade para ensinar a ler e a escrever tem sido responsável por um verdadeiro genocídio intelectual. A existência de um fracasso maciço, o fato de ele ter sido tratado como natural até poucos anos atrás e a fraca evolução desse quadro em 40 anos comprovam como vem sendo penoso ensinar os brasileiros que dependem da rede pública. Pesquisas de campo mostram a enorme dificuldade que os educadores têm para avaliar o que os alunos já sabem e o que eles não sabem. Aqueles que produzem escritas silábicoalfabéticas e alfabéticas na 1ª série e que teriam condições de acompanhar a 2ª série – pois podem ler e escrever, ainda que com precariedade – são retidos. Por outro lado, os bons copistas e os que têm letra bonita ou caderno bem feito são promovidos. Quando se trabalha com esse tipo de indicador, até avanços na aprendizagem acabam sendo prejudiciais. Muitas crianças que aprendem a ler começam a “errar” na cópia. Elas deixam de copiar letra por letra e passam a ler e escrever blocos de palavras, em geral unidades de sentido. Isso faz com que cometam erros de ortografia ou unam palavras. O que indicaria progresso é interpretado como regressão, pois, por incrível que pareça, nem sempre o professor sabe a diferença entre copiar e escrever. Essa é uma dificuldade de avaliação comum nos quatro cantos do país e que explica em grande parte por que muitos alunos de 4ª série não leem e não entendem um texto simples. Eles costumam ser os que terminam a 1ª série sem saber ler ou lendo precariamente. Nas séries seguintes, passam o tempo copiando a matéria do quadronegro ou do livro didático. Ao serem perguntados sobre o que fariam para melhorar a qualidade da leitura e do texto produzido por esses estudantes, os profissionais que lecionam para a 2ª, 3ª ou 4ª série costumam dizer que não há o que fazer, já que eles foram mal alfabetizados e, além disso, as famílias não ajudam. Nos últimos 25 anos, estive envolvida com programas de formação docente em serviço

3 em todos os níveis possíveis: desde a implantação de uma unidade educacional até a formação em nível nacional. Essa experiência me dá condições de afirmar que não existem soluções mágicas para resolver em pouco tempo os problemas da escola brasileira. A qualidade da Educação – e especificamente da alfabetização – só melhorará quando as políticas educacionais forem um projeto de Estado e não de governo.
TELMA WEISZ é supervisora do Programa Ler e Escrever, da Secretaria Estadual da Educação de São Paulo

E não há tempo a perder. No início do ano, como agora, a tarefa essencial é descobrir quais as hipóteses de escrita das crianças, mesmo antes que saibam ler e escrever convencionalmente (leia mais sobre como fazer um bom diagnóstico). Assim, fica mais fácil acompanhar, durante o ano, a evolução individual para planejar as intervenções necessárias que permitam que todos efetivamente avancem. Essa sondagem inicial influi na distribuição da turma em grupos produtivos de trabalho, como mostra a reportagem Parceiros em Ação.

CERCADA POR TEXTOS Todos os materiais escritos do cotidiano, como livros, jornais e revistas, devem ser levados para a sala de aula. Foto: Marcelo Min Da mesma forma, organizar a rotina é imprescindível. Uma distribuição de atividades deve ser estabelecida com antecedência, contemplando trabalhos diários, sequências com prazos determinados e projetos que durem várias semanas ou meses (confira dicas preciosas sobre o planejamento). Ao montar essa programação, cabe ao professor abrir espaço para as quatro situações didáticas que, segundo as pesquisas, são essenciais para o sucesso na alfabetização: ler para os alunos, fazer com que eles leiam mesmo antes de saber ler, assumir a função de escriba para textos que a turma produz oralmente e promover situações que permitam a cada um deles escrever até que todos dominem de fato o sistema de escrita. A partir da página 34, você encontra as bases teóricas e casos reais de professoras que obtiveram sucesso ao desenvolver cada uma das situações (com sugestões detalhadas de atividades). Sabe-se, já há algum tempo, que as crianças começam a pensar na escrita muito antes de ingressar na escola. Por isso, precisam ter a oportunidade de colocar em prática

4 esse saber, o que deve ser feito em atividades que estimulem a reflexão sobre o sistema alfabético. No livro Aprender a Ler e a Escrever, as educadoras Ana Teberosky e Teresa Colomer apontam que o desenvolvimento do aluno se dá “por reconstruções de conhecimentos anteriores, que dão lugar a novos saberes”. Essa condição está presente nos 12 planos de aula deste especial. Em todos, transparece a necessidade de abrir espaço para que a turma debata o que produz, permitindo que a reflexão leve a avanços nas hipóteses iniciais de cada estudante.

Expectativas para o 1º ano
COMUNICAÇÃO ORAL • Fazer intercâmbio oral, ouvindo com atenção e formulando perguntas. • Mostrar interesse por ouvir e expressar sentimentos, experiências, ideias e opiniões. • Recontar histórias de repetição e/ou acumulativas com base em narrações ou livros. • Conhecer e recontar um repertório variado de textos literários, preservando os elementos da linguagem escrita. LEITURA • Ouvir com atenção textos lidos. • Refletir sobre o sistema alfabético com base na leitura de nomes próprios, rótulos de produtos e outros materiais - listas, calendários, cantigas e títulos de histórias, por exemplo -, sendo capaz de se guiar pelo contexto, antecipar e verificar o que está escrito. • Ler textos conhecidos de memória, como parlendas, adivinhas, quadrinhas e canções, de maneira a descobrir o que está escrito em diferentes trechos do texto, fazendo o ajuste do falado ao que está escrito e o uso do conhecimento que possuem sobre o sistema de escrita. • Buscar e considerar indícios no texto que permitam verificar as antecipações realizadas para confirmar, corrigir, ajustar ou escolher entre várias possibilidades. • Confrontar ideias, opiniões e interpretações, comentando e recomendando leituras, entre outras possibilidades. • Relacionar texto e imagem ao antecipar sentidos na leitura de quadrinhos, tirinhas e revistas de heróis. • Inferir o conteúdo de um texto antes de fazer a leitura com base em título, imagens, diagramação e informações contidas na capa, contracapa ou índice (no caso de livros e revistas).

secretária estadual de Educação de São Paulo. com dois docentes por sala. listas. • Reescrever histórias conhecidas .ditando para o professor ou para os colegas e. a intervenção do professor é vital para negociar a passagem da linguagem oral. considerando as ideias principais do texto-fonte e algumas características da linguagem escrita. ouvindo com atenção e formulando perguntas sobre o tema tratado. Essa preocupação deve ser compartilhada por professores e órgãos públicos. cartas. à linguagem escrita. (Baseadas nas expectativas de aprendizagem em Língua Portuguesa da rede municipal de São Paulo) É fundamental levar para a escola as muitas fontes de texto que nos cercam no cotidiano. • Produzir escritos de autoria (bilhetes. O número mais recente do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf). • Produzir texto de memória de acordo com sua hipótese de escrita. material didático de apoio. • Escrever usando a hipótese silábica. relacionálas ao tema e fazer perguntas sobre os assuntos abordados. afirma Maria Helena Guimarães de Castro.5 ESCRITA E PRODUÇÃO TEXTUAL • Conhecer as representações das letras maiúsculas do alfabeto de imprensa e a ordem alfabética. de próprio punho -. revistas. assim. expressar suas ideias. • Aprender a respeitar modos de falar diferentes do seu. nas atividades de produção de texto. • Ouvir com atenção crescente a opinião dos colegas. “O governo está fazendo uma intervenção específica nas séries iniciais para ter resultados rapidamente. contos e muito mais). recuperando características da linguagem do texto original. se preparar para se comunicar em . Variedade é realmente fundamental para os alfabetizadores. o desempenho escolar nos anos iniciais precisa de resultados melhores. • Escrever o próprio nome e utilizá-lo como referência para a escrita. • Recontar histórias conhecidas. gibis. que devem ainda abordar todos os gêneros de escrita (textos informativos. mais informal. mostra que só 28% da população brasileira está na condição de alfabetizados plenos. com ou sem valor sonoro convencional. de 2007. • Aprender a falar de maneira mais formal e. E. como livros. instrucionais). enciclopédias etc. Para impedir que mais pessoas fiquem restritas a compreender apenas enunciados simples. Expectativas para o 2º ano COMUNICAÇÃO ORAL • Participar de situações de intercâmbio oral. quando possível. jornais. formação continuada e avaliação bimestral”.

assim. selecionar uma informação precisa. com ajuda do professor e dos colegas. no que se refere tanto aos aspectos textuais como à apresentação gráfica. da pontuação). • Ler. além de placas de identificação. instrucionais. • Colocar em ação diferentes modalidades de leitura em função do texto e dos propósitos da leitura (ler para buscar uma informação. LEITURA • Apreciar textos literários. recitais. nos contos. • Revisar textos coletivamente. • Com a ajuda do professor. em cartazes. ESCRITA E PRODUÇÃO TEXTUAL • Escrever alfabeticamente. • Reescrever histórias conhecidas. • Compreender a natureza do sistema de escrita e ler por si mesmo textos conhecidos. legendas. • Analisar textos impressos utilizados como referência ou modelo para conhecer e apreciar a linguagem usada ao escrever (como os autores descrevem um personagem. quadrinhos e rótulos. poemas. ler minuciosamente para executar uma tarefa. para melhorá-los e. hipo e hipersegmentação. saraus. textos conhecidos. por si mesmo. fazem uso da letra maiúscula. entre outros). • Aprender a se preocupar com a qualidade de suas produções escritas. reler um trecho para retomar uma informação ou apreciar aquilo que está escrito. canções e trava-línguas. notícias). como resolvem os diálogos.6 situações como entrevistas. ler diferentes gêneros (literários. em textos esportivos e nas notícias de jornal). para se entreter. como parlendas. ainda que com erros ortográficos (ausência de marcas de nasalização. nas histórias em quadrinhos. para compreender etc. ditando-as ou de próprio punho. evitam repetições.). • Ampliar suas competências leitoras: ler rapidamente títulos e subtítulos até encontrar uma informação. entre outras. cantorias e seminários. (Baseadas nas expectativas de aprendizagem em Língua Portuguesa da rede municipal de São Paulo) . de divulgação científica. apoiando-se em conhecimentos sobre tema. listas. adivinhas. • Coordenar a informação presente no texto com as informações oriundas das imagens que o ilustram (por exemplo. compreender a revisão como parte do processo de produção. manchetes de jornal. gênero e sistema de escrita. • Produzir textos simples de autoria. características do portador.

E. em 2009. todos tinham a ideia de que ensinar era transmitir informações. Nesta entrevista a NOVA ESCOLA. dona de uma generosidade sem igual. por meio do conhecimento científico. muitos acharam que . trabalham com a meta de alfabetizar as turmas em no máximo dois anos. Nos últimos 30 anos. adaptada por NOVA ESCOLA. Para garantir que essas expectativas de aprendizagem sejam atingidas. você pode adequar suas propostas de trabalho e fazer com que. Antigamente. nenhum aluno da turma fique para trás. Desde então. “Aí fiquei furiosa comigo mesma”. Com base nela. quando começamos a descobrir que ensinar é criar condições e situações para a aprendizagem e quando os professores ouviram falar. de expectativas de aprendizagem em Língua Portuguesa para o 1º e o 2º ano da rede municipal paulistana. você confere uma lista. explica por que eles acontecem. Em sua trajetória profissional. Ainda há professores que não transmitem informações às crianças por pensar que elas aprendem sozinhas? Qual é a origem dessa dificuldade? Telma Weisz Na verdade. Hoje. que as crianças constroem seu conhecimento. com a autoridade de quem soube.Fundamentos Edição Especial | Março 2009 REPORTAGEM: Aposte alto na capacidade dos alunos Ela é a mais respeitada especialista em alfabetização do país. Nos quadros acima. Telma abusa de exemplos cotidianos para mostrar equívocos. até ter contato com as ideias da psicogênese da língua escrita. Pois superar os desafios da alfabetização é apenas o primeiro passo para que todos tenham uma vida escolar cheia de aprendizagens cada vez mais significativas. mudou seu olhar sobre os alunos. o mais importante. o PROFA. revela a educadora. da Secretaria Estadual da Educação. muitos deles cometidos no passado por ela mesma.7 As principais redes de ensino do país. ela supervisiona a versão paulista do programa. debates e orientações curriculares têm de ser incentivados”. refletir sobre a própria prática para melhorá-la. aprofundou-se como ninguém no assunto e. isso tem a ver com a própria concepção de ensino. que ocorrem na árdua tarefa de ensinar a ler e escrever. sugere Célia Maria Carolino Pires. dedicou-se a transformar a prática de milhares de professores alfabetizadores por meio do principal curso de formação em Alfabetização do Brasil. o Ler e Escrever. “Pesquisas. que coordenou em 2008 o Programa de Orientações Curriculares da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. como a estadual e a municipal de São Paulo. é preciso um compromisso dos coordenadores pedagógicos em utilizar os horários de trabalho coletivo para afinar a capacitação das equipes. percebeu que não se pode subestimar a capacidade intelectual de nenhuma criança. Língua Portuguesa Alfabetização inicial . sem aprofundamento. Telma Weisz viveu o conflito de ter trabalhado durante anos numa perspectiva mais tradicional.

Quando vi. Não ao mesmo tempo – e esse é outro equívoco –. Dei uma informação errada. Depende das circunstâncias e daquilo que as crianças pensam em cada momento. porque todos os saberes que estão sendo construídos são provisórios. A. todos elaboram ideias e constroem conhecimento. apresentava à classe o alfabeto (para aquela aluna. mas todos têm a oportunidade de expressar o que pensam. naquele dia. pela primeira vez). quando se acalmou. mas sobre o que informar. mas também tem suas características. O papel do professor é ser aquele que sabe mais dentro da classe e que valida a informação que circula. Esses mal-entendidos fizeram com que muitos tivessem dúvidas não só sobre informar ou não. não teria ficado tanto tempo aqui até aprender. se você tem um aluno que está escrevendo uma letra para cada sílaba e ele pergunta “qual é o MI”. elaborados por meio de um processo permanente de aproximação com o conhecimento objetivo. Há uma quantidade enorme de informações que cabe ao professor oferecer. como ela vai saber? Outro exemplo: uma . Como o objetivo era deixar que os professores vissem-nas pensando em voz alta. Mas eu não sabia que eram tão poucas. Não sei se ainda há quem pense assim. todos falam. em um trabalho de pesquisa. que no caso era eu. Eu espero que não. A validação deve acontecer.8 bastava o contato com as letras e o material escrito para que o conhecimento aparecesse naturalmente. ele havia escrito “balãsa”. Como essas dúvidas se revelam na prática? Telma Por exemplo. Em uma sala. A interpretação enviesada do construtivismo também tem a ver. observei uma menina que estava repetindo a 1ª série havia cinco anos. A professora. a situação é outra. Certa vez. Há muitos anos. um outro me perguntou “Como se escreve lã?”. A primeira é: “MI é o M e o I”. em parte. porque não tive o cuidado de perguntar “para escrever o quê?”. til”.” É uma informação simples. Era uma tentativa de ilustrar o que estava no livro [Psicogênese da Língua Escrita. a intervenção era pequena. você pode dar duas respostas. com o fato de que a teoria da psicogênese foi popularizada no Brasil por um conjunto de vídeos de entrevistas com as crianças. mas se não é dita. O que foi mal compreendido é que aquilo não era uma situação de ensino nem de pesquisa. mas é preciso ter condições e critérios para saber quais estudantes podem aproveitá-las. por geração espontânea. buscava tornar visíveis as hipóteses que elas formulam quando estão aprendendo a ler e a escrever. E essa é uma questão delicada porque não há um guia de coisas permitidas ou proibidas. de Emilia Ferreiro e Ana Teberosky] e que não era de fácil compreensão. ajudando-o a encontrar uma resposta que caiba na estrutura teórica com a qual ele está trabalhando. E eu disse “L. A garota teve uma crise descontrolada de choro e. todos estão em atividade intelectual. disse “eu sempre saio da escola no meio do ano porque não consigo aprender as letras. pois é um equívoco. O entrevistador. Se eu soubesse. Se o menino já está escrevendo alfabeticamente. E a segunda: “O que você quer escrever?”. Isso só se consegue fazendo avaliação constante da classe.

É preciso aprender a escrever assim para depois pensar na questão das separações. Não estou dizendo para não usar a terminologia. Só com pesquisa cientifica é possível compreender o outro que pensa diferente de você. vi meninos escreverem coisas que. muitas vezes. Há muitos anos. as crianças . estava explicando a eles as hipóteses sobre a escrita e dizendo que. de qualquer maneira. recusam a ideia de que os artigos sejam palavras. para mim. É porque somos alfabetizados que ouvimos e vemos coisas que. Isso só pode acontecer a uma pessoa cuja percepção da relação entre escrita e leitura está de tal maneira organizada em cima da sua própria competência leitora que nem passa por sua cabeça que a fala é um contínuo e que jamais as crianças vão encontrar no falado os elementos que permitirão separar as palavras. imagina-se que há uma disfunção. Imaginar que é obvio escrevermos exatamente como falamos. perguntei a uma menina o que era “palavra”. Sem a ajuda da ciência. de onde virá? O que acontece quando não nos colocamos na perspectiva do aluno? Telma “Cegamos” o aluno. ninguém é capaz de fazer isso. o mesmo som pode ser com S.” E eu insisti: “Por quê?”. “Por que a Bíblia é a palavra de Deus”. não se pode recuperar uma visão que já se teve. Certa vez. só acontece se não nos colocamos no lugar de quem está aprendendo. Intuitivamente. para os que ainda não sabem ler e escrever. porque já tinha visto aquilo tudo. ou aproveitar a situação para explicar que é com Z. A vida inteira. Colocar-se no lugar do aprendiz é essencial para ensinar. não eram nada. dessa perspectiva. Não há. E aí fiquei furiosa comigo mesma. um problema. não estão lá. não dávamos importância. na mesma ordem. mas que. Um exemplo simples: muitos professores estão convencidos de que o branco entre as palavras é uma coisa que se pode escutar. dependendo das condições do grupo. se isso não vier do professor. pode saber o que são palavras. Assim. é introduzida uma série de informações que nem todos talvez possam utilizar. é uma perda de tempo. somos obrigados a olhar de outro jeito. Não olhávamos para isso como uma ação inteligente delas.9 criança pergunta “cozinha é com S ou com Z?” O que você faz? Diz a ela “pense para descobrir?” Não tem como pensar para descobrir. Muitos falam em “palavras”. Mas. o que. Até o dia em que li sobre a psicogênese. quando trabalhei com professores indígenas no Acre. às vezes. Você tem duas alternativas: mandála ao dicionário. mas é preciso ter claro que o que se está nomeando não é exatamente o que as crianças pensam que é. Porque. ainda que entre vogais. como se as crianças soubessem o que é isso. mesmo quando já fazem isso. numa espécie de esquecimento cognitivo. que já escreve e segmenta o texto. em determinadas circunstâncias. Ela respondeu: “É o que está escrito na Bíblia. Trata-se de um momento necessário do processo. E é claro que. Mas só gente alfabetizada. ao assumir essa perspectiva. não eram escrita. ao vê-las escrevendo tudo grudado. Na verdade. no inicio. E. Qualquer alfabetizador já viu crianças escrevendo com uma letra para cada sílaba ou com menos letras. Nunca parei para refletir sobre o que eles estavam pensando. mas que foi apagada.

a mais tradicional e frequente. o saber errado e o saber certo. Ou seja. ler. ele tem outras. usamos uma letra. É possível e necessário subsidiá-lo para ajudá-lo. com uma abordagem psicogenética da alfabetização. para alguns. Mas. via bom senso ou afetividade. Há uma dificuldade enorme de aceitar e deixar no caderno uma escrita que não esteja ortograficamente correta. Eles me olhavam com estranheza. abandonar essa hipótese que. cuida de evitar que se fixem na memória ideias erradas. Até que um deles puxou uma folha antiga de sua pasta. escrevendo uma letra para cada sílaba e conseguindo se virar assim. Porque. por sua vez. Em uma delas. “vai fixar o erro”. para cada vez que abrimos a boca. para escrever um pedaço do que se fala. bem satisfeito da vida. para a qual o ensino. A segunda versão é uma leitura parcialmente equivocada do que chamamos de conflito cognitivo. escrever com uma letra só. basta um pedaço de escrita. fica claro que aquela escrita. é preciso estimular o máximo possível a reflexão sobre o que se escreve. mostra-se aos silábicos quais letras faltam. tem um problema. Ele se chamava Norberto.10 pensam que. “O que os pais vão pensar?”. como a de que não pode escrever uma mesma letra repetida. E é claro que isso corresponde a uma concepção de aprendizagem. havia feito um desenho e assinado NBT. faz parte de um processo do aluno. Quais são os equívocos mais comuns na escolha das intervenções para fazer a turma avançar nas hipóteses de escrita? Telma Vejo duas versões sobre isso. Nós não nos lembramos de quando não sabíamos calcular. naquele momento. Toda a tradição de correção com caneta vermelha e de cópia dos erros vem daí – existe o não saber. o que faz um menino. que para eles é a letra. O que acontece com uma língua como o português. imaginando que isso os ajuda a chegar a uma hipótese mais avançada. os professores fazem uma assimilação de que é preciso produzir situações conflitivas o tempo todo. é tão elegante? Como é que ele avança? Além da hipótese de que. A partir dessa explicação. Nós não temos a memória viva do que é ser alguém que tem de aprender. Foi uma situação interessante ver um adulto recuperar esse esquecimento. Mas o conflito ou é do aprendiz ou vira uma . escrever com poucas letras e. não se chega a lugar algum. Era recémalfabetizado e ainda tinha o documento de suas próprias hipóteses. que não sabe nada sobre determinada coisa. o que é muito diferente de dar informações para obter um produto correto. Essa contradição entre os esquemas explicativos que ela tem para a leitura e a escrita é que dá origem e espaço ao que chamamos de conflito cognitivo. Na verdade. escrever. “o aluno achará que está certo”. errada segundo os padrões convencionais. E os professores. de forma alguma. só podem recorrer ao conhecimento cientifico para recuperar isso. duas letras também é muito pouco. falta compreensão da diferença entre trabalhar o processo de aprendizagem e trabalhar sobre o produto que a criança está realizando. pois essa ideia de hipótese era muito estranha à cultura local. Na visão construtivista. A média estatística da exigência é em torno de três letras. que está lá. como tais. pois precisa colocar alguma coisa para não cometer um “sacrilégio”. E que. com uma quantidade enorme de palavras dissílabas? Toda vez que a criança escreve um dissílabo. do ponto de vista teórico.

por exemplo. no papel. bater três palmas. Isso está certo? Telma Não está clara. Como as duas sabem de memória. isso não faz o menor sentido. e que borracha. que as crianças já sabem ou podem aprender oralmente na escola. Então. “bota ovo amarelinho”. Por exemplo. Dependendo de em que nível os meninos estejam. Você pode perguntar onde está escrito “vizinho”. Eles acompanharão o texto e começarão a localizar as partes do escrito e relacioná-las ao falado. É comum a ideia de que. não é qualquer texto que pode ser utilizado. Para “bota ovo amarelinho”. Protestantes de orientação calvinista. se você disser “palavras”. para “borracha”. naturalmente memorizado. uma em cada sílaba. O que está por trás disso? O fato de que ninguém nasce sabendo que se escreve tudo aquilo que se fala. Em primeiro lugar. São versinhos. usadas em brincadeiras de roda e jogos verbais. “a galinha do vizinho bota ovo amarelinho”. Esse tipo de atividade tem um papel extremamente importante e não aprendemos isso com a psicolinguística ou com a didática. mas aí não é necessário ficar contando quantas vezes a boca abre ou quantas letras a palavra tem. Se você tem “a galinha do vizinho”. Uma é juntar duas delas (com níveis próximos de conhecimento. Mas sendo um texto estável. tudo o que têm de intercambiar é que letras colocar e onde. “ovo” e “amarelinho”. mas eu estou mostrando que não é. na primeira linha. de forma que uma possa contribuir com a outra) para produzir uma escrita. o importante é guardar a grafia das palavras. E certamente não fará quando estão colocando três letras. não o segundo parágrafo da história da Bela Adormecida. tomam decisões em função desse conhecimento prévio. Pode ser em uma transição.11 conversa sem nexo para ele. nos países nórdicos. os mais avançados podem achar que está escrito “bota”. a importância do trabalho com textos memorizados. eles tinham uma prática sistemática de . eles procurarão as letras). Existe um vasto repertório infantil. toda a população era alfabetizada antes de haver escolas. tem oito letras”. mas não necessariamente nessa ordem. está escrito “a galinha do vizinho” e. parlendas e trava-línguas. No início. Mas com a história da leitura. sabendo o que está escrito em cada verso. na leitura de textos memorizados. na segunda. Deve ser um texto estável. A própria criança começa a batalhar para colocar as letras. Pense mais um pouco”. Outro tipo de trabalho é pedir que acompanhem. usados em dois tipos de atividades muito interessantes. pensam que está escrito “galinha” e “vizinho”. com investigações sobre como as populações antigas se alfabetizaram. para quem pensa dessa forma. Por exemplo. Descobriu-se que. imagina-se que só se escreve os substantivos. sem omitir nada. Elas sabem que. a leitura que alguém faz. Ou você pode – e para isso é preciso conhecê-la intelectualmente – dizer: “Você sabe fazer melhor do que isso. pergunta quantas letras tem e diz: “Você pensa que abrimos a boca três vezes e que é preciso colocar três letras. Uma das atitudes equivocadas mais clássicas nessa linha é mandar contar os pedaços de uma palavra falada. que são as “palavras” (mas. na ordem em que se fala. Se estivessem redigindo um texto inventado. não teriam um problema comum para resolver. o professor escreve a palavra. É interessante pedir para localizar e ler pedaços. porque você informou.

Quando se tem . decora. Essa prática de ler uma história e depois pedir um desenho não tem nada a ver com a ideia de que o que se lê pode ser aprofundado. aponta e tenta acompanhar. Isso também aconteceu nas escolas religiosas judaicas e ocorre nas escolas religiosas muçulmanas .. buscar uma compreensão teórica que vai muito além de apenas saber identificar uma hipótese de escrita. Certa vez. Se não estiverem. O intercâmbio de ideias a partir de uma situação de leitura é algo que se faz apenas quando se tem uma experiência significativa e intensa como leitor. eu gostaria de fazer um “mea culpa público”. Agora. por exemplo. em um vídeo. pede ajuda à família. é capaz de fazê-la ler. explorado. para aproveitar as possibilidades de uma atividade em que se leia um texto memorizado em público. As pessoas acompanhavam e decoravam para se aproximar desse objeto sagrado que era a escrita. Quando lemos com ou para as crianças. A leitura da escrita não entra pela pele. passar o dedo embaixo. cada um tem um poema. leva para casa. no esforço de lembrar como as palavras são escritas. eu disse “ler com o dedinho”. tentamos constituir bons comportamentos leitores. quando lemos um livro? Telma Ou pedir que façam um desenho. Para isso. por exemplo. Sempre que os professores insistem na memorização da forma. não acontece nada. os alunos. Faz sentido apenas se houver reflexão sobre a grafia das palavras e se quem está lendo tenta ajustar aquilo que fala ao que está escrito. Essa situação de focalização e de achar as partes do texto para se apresentar de forma adequada ajuda a descobrir em qual pedaço está escrito o quê. pois terá de se apresentar publicamente. estuda. o que é ainda pior. ao pedir que a criança acompanhe a leitura com o dedo. Para um sarau de poesia. em si. Se simplesmente diz “acompanhe com o dedo” e vai embora.mas nessas duas instituições o aprendizado é apenas para os homens. não é nada. produzem uma escrita caótica. é preciso estudar. A forma adequada de organizar esse tipo de atividade é. Mas. para que você funcione como um modelo desses comportamentos. pára numa determinada palavra e anda pela sala para ver se os dedos estão onde deveriam estar.12 acompanhar nos textos o que se falava nos cultos. Ler acompanhando com o dedo serve.. É preciso construir uma situação de aprendizagem e não ficar alisando papel. também precisa ser um leitor. o professor bate palma. Já a memorização da forma escrita produz um efeito contrário. sem observar se ela faz a relação do escrito com o falado? Telma Sobre esse assunto. essencial. O que leva o professor a passar questionários em vez de promover comentários sobre as histórias lidas – como fazemos com amigos. e não a que produziriam se estivessem pensando em como se escreve. ajuda a entender a posição certa. Muita gente repete isso. depois de dizer muitas vezes “ler apontando com o dedinho”. O professor ainda acredita que. Todos eram incorporados a esse universo em que a palavra escrita nos textos religiosos era tratada como uma coisa básica. Essa é a origem do trabalho que fazemos com textos memorizados. De repente. todos cantarem uma canção juntos. mas é uma bobagem. re-elaborado e compartilhado.

Até o dia em que chegou uma enciclopédia de dinossauros. Mas as crianças não têm isso claro. o menino ficou absolutamente fascinado. para as crianças. me lembrei daquilo. Aparentemente. agarrou a enciclopédia. não tinha interesse. Aprendeu a ler em dias. apenas uma vaga intuição. Mas ele tinha muita vontade de aprender a ler para classificar os dinossauros. saber de que época eram e o que faziam. Mas acho que o problema é anterior: o professor tem de ler para si mesmo. então. outros de assombração ou de fadas. mas queria dizer outra”. Os livros infantis. usa esses portadores para recortar letras. eu diria. uma discussão louca surge na classe. respondem que “é a escritora”. Ele não tinha vontade de aprender a ler para ler sozinho as histórias infantis. podam o intercâmbio real. Esse espaço de intercâmbio é um espaço de trocas. Nesse dia. Se não souberem como fazer isso. “ela existe de verdade?”. mas foi também uma mudança de mundo para o garoto. mas que é gigante e aparece sempre que a garota precisa se proteger dos adultos. É interessante fazer perguntas sobre aspectos de uma história que talvez poucos tenham entendido. E você pode questionar “mas aqui diz ‘eu não gosto que me penteiem os cabelos porque arranca e dói’. ele saía de perto e ia fazer outra coisa. antes de levá-lo para as crianças. menos um menino.13 a concepção de que a leitura não é simplesmente fazer barulho com a boca diante das marcas gráficas. Se entende. “E você?”. . Precisamos reconhecer essas diferenças. São todos livros de ficção. Só que isso nunca é dito explicitamente. Se o professor não entende isso. Eu acompanhei uma classe de alfabetização em que todos estavam envolvidos com os livros de histórias. na verdade. ele tinha alma de cientista. Assim. eu pensei nisso. Em geral. Só no jornal e nas revistas há uma variedade enorme de gêneros. que. A escritora disse isso?” Aparece. com critérios. É uma mudança de gênero. aprende como explorar os gêneros que há dentro deles. você dá o modelo: “Lendo esse texto. Se você pergunta “quem é essa amiga grande?”. é completamente misturada à do escritor. O professor já compreendeu a importância dos livros na alfabetização. Mas ele oferece variedade de materiais de leitura? Telma A variedade dos gêneros ultrapassa a ideia dos livros. subgêneros. não têm uma grande variedade de gêneros. parecia que ele queria dizer uma coisa. em geral. achei muito interessante a forma com que o autor escreveu. Quando se falava em leitura e escrita. Eu tenho visto perguntarem “de que pedaço você gostou mais?”. e que eu posso ter observado mais um aspecto do que outro e que podemos nos interessar por coisas diferentes. uma representação do desejo da menina que se salva das maldades dos adultos. Porque a personagem é. sabe-se que ela produz em mim um impacto diferente do que em você. Também é interessante perguntar “quem estava contando essa história? A personagem? A mãe dela?”. Ele não tinha alma de ficcionista. Têm. Há uma escritora que escreve em espanhol e tem uma série de livros sobre uma menina com uma amiga igualzinha a ela. a ideia do narrador. que seria “quem achou uma coisa interessante que gostaria de contar aos amigos?”. para selecionar o texto. mas alguns falam de mistério.

mais detalhada. na verdade. uma parte inicial do texto é algo muito possível de fazer.sa Não é porque uma criança colocou todas as letras que ela já sai lendo. Ler os títulos. que não é igual a dos outros. onde ocorreu uma avalanche e aborda questões como o que é isso. É claro que sozinhas elas não entendem. escrever. sem olhar se a turma está acompanhando. é preciso construir situações que ajudem a desembaraçar a leitura. Tenho uma experiência recente com uma que estava . é preciso ter um sentido para isso. Você não vai. A maioria precisa construir uma prática de leitura para se soltar. Não uma aposta cega. Os meninos tinham de assistir o noticiário da TV e. Estes não são o problema. por exemplo. para que encontrassem as informações sobre os fatos do dia anterior. O que os diferentes gêneros permitem é abrir o leque das possibilidades de leitura e oferecer o discurso escrito em suas diversas formas. O professor encontra dificuldades em dar atividades diferenciadas para os que já estão alfabéticos e também precisam avançar? Como agir nesses casos? Telma Isso é o mais fácil. tenho outro. elas devolvem um pouquinho. vi uma professora fazer um trabalho muito interessante. Quando se espera mais. sim. o subtítulo da reportagem. no dia seguinte. propor a leitura de uma reportagem sobre uma chacina. mas não é uma ideia mecânica. na produção de um texto. jornais. Esse trabalho é fascinante. A variedade tem de ser selecionada em função daquilo que a turma pode aprender. ser envolvidos em projetos mais complexos. há alfabéticos que não são leitores. a busca de informações em diversas fontes? Telma Há um medo mortal de trabalhar verdadeiramente com jornais porque se pensa que é um texto adulto. Por que ainda é pequeno o acesso a materiais que favoreceriam. por exemplo. elas devolvem mais. ela levava o jornal impresso para a sala. tenho um foco. O problema são os que ainda não compreenderam o sistema. Poucas fazem isso. não aprendem só o enredo. mas também sua linguagem. especialmente quando se tem sensibilidade para escolher o quê. Quando alguém relata algo que viu. Mas é preciso fazer uma aposta alta. Às vezes. E. se vou ler histórias. Quando se espera pouco. quem ganhou o campeonato ou a corrida. ajustada àquilo que as crianças mostram que são capazes de pensar e fazer. Eu sou uma defensora convicta da presença do jornal na sala de aula porque os fatos são a fonte da história. você pode perguntar se a turma deseja escutar a história contada no jornal impresso. produzir textos. revistas. Nesse caso. Tudo isso vale para enciclopédias. Quando introduzimos um gênero novo. a mais alta possível. que não é algo que vem sozinho. Os já alfabéticos podem ler. Mas pode ler sobre quem jogou no domingo. das diferenciações que os alunos já têm condições de fazer e que você se sente em condições de oferecer. Com um mapa múndi na classe você aponta. textos de ficção. Mas é preciso ter a inteligência das crianças em alta conta. Para ler poemas. por que acontece. lemos sobre acontecimentos de países distantes. O fato de trabalhar no limiar superior faz com que avancem muito mais do que quando se pensa “elas não vão entender”. Porque. quando as crianças ouvem o adulto ler. Nele. Certa vez.14 Variar os gêneros é importante. Isso não é verdade.

todo o trabalho é de estabelecer objetivos cada vez mais complexos para a mesma coisa. Elas são muito mais inteligentes do que os adultos porque. Porque ela senta na frente da TV. contados um por dia e. É claro que histórias grandes podem ser pobres e chatas. nunca lidas em capítulos? Telma Essa mania de que tudo tem de ser pequenininho é uma deturpação da concepção de criança e. pois só se entende o que se lê quando se lê rápido. Então. mas não sei ler. com as letras de forma e de imprensa. Mas elas adoram ouvir uma história grande em capítulos. O que acontece é que muitos imaginam que. ele se treinou. Mas dizia “eu não sei nada porque escrevo. na verdade. agora aguardem o capitulo de amanhã! Quem que acha que elas não gostam nunca experimentou. Minha experiência pessoal é a de escolher livros pela grossura. que é ler e escrever. ele não tinha se soltado da ideia de que era necessário ler todas as letras. voltou e disse: “Estou lendo tudo”. mas alfabética. O nome do conteúdo não muda e. nesse momento da vida. o que está lá dentro. Quando ela já sabia todas as letras. Elas têm tudo fresquinho na cabeça. lembra de todos os personagens. Mas isso empacava a leitura. cheia de erros de ortografia. Em primeiro lugar. Conforme passou a compreender o que lia. a vontade de ler cresceu e a leitura melhorou. ninguém deveria chegar ao final da segunda série sem compreender o sistema de escrita e sem ler. ele teve de usar as estratégias de leitura. ela avançou rapidamente para uma escrita alfabética. Todas as vezes que não conseguia reconhecer uma letra.15 escrevendo silabicamente com valor sonoro. o menino via na tira. não quero que ela acabe! Esse lugar do leitor que tem prazer na leitura é o que o professor teria de encarnar. no fim da leitura: “tchan tchan tchan tchan. Porque. Esse é um ciclo virtuoso. Como deve ser o trabalho do 3º ano em diante no que se refere ao aprimoramento da leitura e da escrita? Telma Você já disse a palavra: aprimoramento. Eu escrevo nessa letra e tudo o que eu vejo está escrito numa letra que eu não conheço”. já não sabia mais sobre o que era o texto. ao contrário do que alguns fazem. mas é só essa? Tem mais? Você poderia colocar outra no lugar?” Então. vê uma novela em 180 capítulos. Eu sempre escolho os livros mais grossos porque. Quando perdem isso é porque os adultos destruíram. tudo está para ser aprendido e a disponibilidade para a aprendizagem é enorme. depois de destrinchar todo o texto. quem casou com quem. sim. Para elas. voltasse a estudá-lo para ler rápido. principalmente. Daí pra frente. uma história pequena é pobre e chata. Isso fez com que ganhasse velocidade e compreensão. O fracasso reiterado mata essa disponibilidade. fiz uma tira de correspondência. Sozinho. E estava mesmo. quando se é capaz de colocar . quem brigou com quem e o que vestia em tal dia. Passei a propor que lesse desse jeito e. As crianças não têm problemas de memória. se a história for boa. um desrespeito enorme. foi possível pensar em trabalhar questões como “essa letra serve para escrever esse som. Na medida em que pedi para que avançasse além dessa leitura letra por letra. quem tem problemas de memória somos nós. Quando ele terminava a segunda palavra. Ainda persiste a ideia de que as crianças só podem ter contato com histórias curtinhas.

o destino depois da quinta série é o fracasso. Aprende-se a ler e a escrever ao longo da vida toda. . O aprendizado das chamadas "letras de mão" deve ser trabalhado com crianças alfabéticas. Uma prova de que isso não é verdade é que os meus alunos na pós-graduação estão aprendendo a ler textos acadêmicos. Antes de estarem alfabetizadas.br) Esta escolha está relacionada ao processo de construção das hipóteses da escrita. criam as apostilas. desde que tal contato fique restrito à leitura. As letras de fôrma maiúsculas são as ideais para essa tarefa. E aprender por meio dos textos é condição para estudar os outros conteúdos na escola. em vez de deixá-los ler textos acadêmicos adequados à competência deles. Isso os impediu de construir a capacidade de ler textos de certo grau de complexidade. ainda que silabando. está encerrada a aprendizagem da leitura e da escrita. que já têm a lógica do sistema de escrita organizada. Quando entendemos isso. porque infelizmente as faculdades onde estudaram. os pequenos trabalham pensando quais e quantas letras são necessárias para escrever as palavras.com. no pior sentido da palavra. Para quem não sabe aprender a partir de um texto escrito. Alfabetização inicial . Durante a alfabetização inicial. Esse trabalho os transforma em leitores cada vez melhores e de uma gama mais ampla de gêneros. ajudamos os meninos a se aproximar de textos cada vez mais complexos.Fundamentos Edição 217 | 2008/11/01 | Atualizado em 2008/11/01 Por que as crianças devem aprender a escrever com letra de fôrma para depois passar para a cursiva? Beatriz Vichessi (bvichessi@abril. elas entram em contato naturalmente com as letras cursivas e as de fôrma minúscula e até podem ser apresentadas a elas. já que são caracteres isolados e com traçado simples diferentemente das cursivas. de um determinado gênero. simplificando o conteúdo. Não basta ser alfabético e ser capaz de ler um outdoor para ser alfabetizado.16 todas as letras e ler alguma coisa. emendadas umas às outras.

iniciada em 1979. Cortez. Mergulhar nas informações sobre a pré-história das elaborações infantis a respeito das marcas da linguagem expressas no mundo que nos rodeia acende uma luz definitiva sobre a alfabetização: diante de construções tão inteligentes. Ana Cláudia Rocha. Porém é importante que o leitor passeie pelas refllexões propostas no texto com olhos e pensamento atentos. O texto instiga o educador e dá subsídios para que ele questione sua prática e revitalize o modo de compreender o ensino. e prioriza a análise das produções infantis. que surpreendem muito ao mostrar quão originais (e nem um pouco mecânicas) são as construções cognitivas que os pequenos são capazes de realizar. pois irá deparar-se com saberes infantis sofisticados e engenhosos. diretora do Projeto DICA de formação docente Trecho do livro "Temos uma imagem empobrecida da língua escrita: é preciso reintroduzir. Ed. ao sabermos o que as crianças pensam e como pensam.. somos convidados a construir uma escola igualmente inteligente! E. Temos uma imagem empobrecida da criança que aprende: a reduzimos a um par de olhos. tel. 15 reais). permitimos que sejam abertos novos caminhos: torna-se um compromisso inadiável entender cada vez mais e melhor como esses processos funcionam para planejar as aulas de alfabetização. quando consideramos a alfabetização. A investigação acadêmica organizada por Emilia Ferreiro a respeito da alfabetização. um par de ouvidos. inaugurando uma maneira inédita de alfabetizar: a autora transfere a investigação do jeito de ensinar para o que tem de ser aprendido.17 Alfabetização inicialFundamentos Edição 218 | 2008/12/01 | Atualizado em 2008/12/01 A criança e a escrita A pesquisadora Emília Ferreiro escreve sobre alfabetização. com foco nas concepções que as crianças têm sobre o sistema de escrita. Trata-se da síntese das principais contribuições de Emilia para a história e as descobertas sobre a alfabetização. lançado em 1981. uma mão que pega um instrumento para marcar e um . 11/38640111. revolucionou o jeito de ensinar as crianças a ler e escrever e fez da autora uma referência mundial sobre o tema. O livro Reflexões sobre Alfabetização (104 págs. é um dos melhores materiais concebidos pela educadora argentina para quem quer iniciar o estudo das pesquisas realizadas por ela a respeito da psicogênese da língua escrita. a escrita como sistema de representação da linguagem.

18 aparelho fonador que emite sons.Expõe exemplos de como se dá o pensamento infantil sobre o sistema de escrita. colocando o foco naquele que aprende. e até que ponto funcionam como fi ltros de transformação seletiva e deformante de qualquer proposta inovadora. Os testes de prontidão também não são neutros. que constrói interpretações. que age sobre o real para fazê-lo seu.Apresenta o percurso pelo qual as crianças elaboram suas próprias idéias sobre o sistema de escrita.) É sufi ciente apontar que a 'prontidão' que tais testes dizem avaliar é uma noção tão pouco científi ca como a 'inteligência' que outros pretendem medir. ... demonstrando a originalidade e a provisoriedade dessas concepções.Convida o educador à consciência da dimensão política da alfabetização. alguém que pensa. . (. É preciso reanalisar as práticas de introdução da língua escrita.Aproxima o leitor da pesquisa que representou uma revolução conceitual na alfabetização.Fornece elementos para compreender por que a escola tem formado analfabetos funcionais. Um novo método não resolve os problemas. ." Por que ler . tratando de ver os pressupostos subjacentes a elas. . . entendida como ferramenta de construção de cidadania. Atrás disso há um sujeito cognoscente.

Além disso. sobre aquilo que escrevem. necessariamente. com a ajuda do professor. mostraram que as crianças constroem diferentes ideias sobre a escrita. a produção espontânea de uma lista de palavras sem apoio de outras fontes e pode ou não prever a escrita de algumas frases simples. realizadas por Emilia Ferreiro e Ana Teberosky no fim dos anos 1970 e publicadas no Brasil em 1984. o professor alfabetizador tem uma tarefa imprescindível: descobrir o que cada aluno sabe sobre o sistema de escrita. representa um momento no qual as crianças têm a oportunidade de refletir. ou seja. Essa lista deve. conta Regina . o que torna necessário propor ao resto da turma uma atividade que dispense ajuda. As pesquisas sobre a psicogênese da língua escrita. É a chamada sondagem inicial (ou diagnóstico da turma). O guia ressalta também que é por meio da leitura que o alfabetizador “pode observar se o aluno estabelece ou não relações entre aquilo que ele escreveu e aquilo que ele lê em voz alta. entre a fala e a escrita”. num primeiro momento. a criança elabora hipóteses sobre o sistema de escrita. a sondagem é descrita como uma atividade que envolve. ser lida pelo aluno assim que terminar de escrevê-la. resolvem problemas e elaboram conceituações. Aí entra o que pode ser considerado uma palavra. das secretarias estadual e municipal de Educação de São Paulo.19 Edição Especial | 03/2009 Para conhecer a nova turma Mesmo antes de saber ler e escrever convencionalmente. que permite identificar quais hipóteses sobre a língua escrita as crianças têm e com isso adequar o planejamento das aulas de acordo com as necessidades de aprendizagem. No Guia de Planejamento e Orientações Didáticas do programa Ler e Escrever. “Essas hipóteses se desenvolvem quando a criança interage com o material escrito e com leitores e escritores que dão informações e interpretam esse material”. Descobrir em qual nível cada uma está é um importante passo para os professores alfabetizadores levarem todas a aprender MANTENHA O FOCO A sondagem deve ser individual. Foto: Marcos Rosa Nos primeiros dias de aula. Ela permite uma avaliação e um acompanhamento dos avanços na aquisição da base alfabética e a definição das parcerias de trabalho entre os alunos. com quantas letras ela é escrita e em qual ordem as letras devem ser colocadas.

identificando o que é possível ler. Ela se caracteriza em dois níveis. na tentativa de compreender o funcionamento da escrita. mesmo que não convencionalmente. ressalta Regina. as crianças procuram diferenciar o desenho da escrita. COMBINE ANTES É importante que a criança saiba que ela pode escrever da melhor forma que conseguir. dando lugar a novas construções”. No livro Aprender a Ler e a Escrever. O desafio é propor atividades que não sejam tão fáceis a ponto de não darem nada a aprender. As quatro hipóteses Ferreiro e Teberosky observaram que. semelhantes aos que os seres humanos se colocaram ao longo da história da escrita”. pois revelam que os pequenos já começaram a pensar sobre a escrita antes mesmo de ingressar na escola e que não dependem da autorização do professor para iniciar esse processo. Aqueles que não percebem a escrita ainda como uma representação do falado têm a hipótese pré-silábica. a criança utiliza letras aleatórias (geralmente presentes em seu próprio nome) e sem uma quantidade definida.20 Câmara. nem tão difíceis que se torne impossível para as crianças realizá-las. São as chamadas hipóteses. membro da equipe responsável pela elaboração do material do Programa Ler e Escrever e formadora de professores. “Todos eles precisam de oportunidades para pôr em jogo o que sabem para se aproximar pouco a pouco desse objeto importante da cultura”. a silábica. Ana Teberosky e Teresa Colomer ressaltam que as “hipóteses que as crianças desenvolvem constituem respostas a verdadeiros problemas conceituais. elas constroem dois princípios organizadores básicos que vão acompanhá-las por algum tempo durante o processo de alfabetização: o de que é preciso uma quantidade mínima de letras para que alguma coisa esteja escrita (em torno de três) e o de que haja uma variedade interna de caracteres para que se possa ler. . as crianças elaboram verdadeiras “teorias” explicativas que assim se desenvolvem: a pré-silábica. As conclusões desse estudo são importantes do ponto de vista da prática pedagógica. a silábico-alfabética e a alfabética. Já no segundo nível. E completa: o desenvolvimento “ocorre por reconstruções de conhecimentos anteriores. Para escrever. Diagnosticar o que os alunos sabem. No primeiro. quais hipóteses têm sobre a língua escrita e qual o caminho que vão percorrer até compreender o sistema e estar alfabetizados permite ao professor organizar intervenções adequadas à diversidade de saberes da turma.

depois. na Grande São Paulo. sem relação com os sons que ela representa. o resto da turma precisa estar envolvido em uma atividade diversificada em que não seja necessária a ajuda do professor (a cópia de uma cantiga. na EMEB Helena Zanfelici da Silva. apenas alguns dias depois da sondagem.21 Quando a escrita representa uma relação de correspondência termo a termo entre a grafia e as partes do falado. uma letra escrita. explica Regina. Essa é a estratégia usada por Eduardo Araújo. O aluno começa a atribuir a cada parte do falado (a sílaba oral) uma grafia. os alunos ainda apresentam erros ortográficos. que podem ajustar seus programas de formação continuada de professores em regiões onde os resultados mostram que os estudantes não estão evoluindo da maneira desejada. a criança se encontra na hipótese silábica. Quando a escrita representa cada fonema com uma letra. Alguns dias após o retorno às aulas. “A atividade de sondagem representa uma espécie de retrato do processo naquele momento.). Araújo sabe bem o valor da sondagem inicial. Enquanto isso. mas já conseguem entender a lógica do funcionamento do sistema de escrita alfabético”. chamado silábico sem valor sonoro. Ao mesmo tempo. mantendo um registro criterioso do processo de evolução das hipóteses de escrita das crianças. ele deixa as crianças envolvidas com jogos e brincadeiras sob a supervisão da estagiária que o acompanha em sala. O professor deve realizar a primeira sondagem no início do período letivo e. bem como um retrato da qualidade do ensino para as redes.” Investigação individual O melhor é que a atividade seja feita individualmente. há um avanço e cada sílaba é representada por uma vogal ou consoante que expressa o seu som correspondente. Essa etapa também pode ser dividida em dois níveis: no primeiro. Ora ela escreve atribuindo a cada sílaba uma letra. diz-se que a criança se encontra na hipótese alfabética. os fonemas. ressalta Regina. pode acontecer de. é fundamental uma observação cotidiana e atenta do percurso dos alunos. ela representa cada sílaba por uma única letra qualquer. “As sondagens bimestrais são importantes também por representarem dispositivos de acompanhamento das aprendizagens para os pais. A hipótese silábico-alfabética corresponde a um período de transição no qual a criança trabalha simultaneamente com duas hipóteses: a silábica e a alfabética. Alfabetizador há mais de sete anos. um ou vários alunos terem dado um salto”. um jogo etc. “Conhecendo a situação de cada aluno. ao fim de cada bimestre. a produção de um desenho. consigo pensar melhor como será a rotina do bimestre e quais as intervenções devo fazer para ajudar os menos avançados a entender a lógica do sistema de escrita. E como esse processo é dinâmico e na maioria das vezes evolui muito rapidamente. ora representando as unidades sonoras menores. No segundo. em São Bernardo do Campo.” . o silábico com valor sonoro. ou seja. com o professor chamando um aluno por vez. “Nesse estágio. que deve tentar escrever algumas palavras e uma frase ditadas.

ao ditar. “O ideal é preparar uma lista de termos de um mesmo campo semântico. Os monossílabos ficam para o fim do ditado. se a escrita da palavra permanece estável mesmo num contexto diferente. de uma monossílaba – sem que o professor. um aluno comentou com o professor Araújo: . marque a separação das sílabas (leia no quadro abaixo como preparar a lista de palavras). por exemplo. E a frase escolhida foi: usei a pá na reforma. As palavras ditadas foram ferramenta. que utiliza vogais. cuja hipótese de escrita talvez faça com que creiam ser impossível escrever algo com duas ou mais letras iguais. Observação e registro Ficar atento às reações dos alunos enquanto escrevem também é fundamental. do Programa Ler e Escrever. O ditado deve ser iniciado por uma palavra polissílaba.22 ADOTE SINAIS Fazer luma marcação nos textos produzidos é útil para registrar como o aluno lê o que escreve e se ele se detém ou não em cada letra. por causar um grande conflito para as crianças que estão entrando no Ensino Fundamental. ferro e pá. Deve-se evitar que as palavras tenham vogais repetidas em sílabas próximas. pode ajudar a perceber quais as ideias deles sobre o sistema de escrita. ou seja. Anotar o que eles falam. Após a lista. sobretudo de forma espontânea. como ABACAXI. poderão se recusar a escrever se tiverem de começar por ele. martelo. precisaria escrever AAAI. por último. seguida de uma trissílaba. para poder observar se o aluno volta a escrevê-la de forma semelhante. agregados por uma unidade de sentido. Esse cuidado deve ser tomado porque. e uma frase adequada ao contexto desse grupo”. recomenda a formadora de professores Regina Câmara. Aproveitando a curiosidade das crianças. é preciso ditar uma frase que envolva pelo menos uma das palavras já mencionadas. a escolha certa das palavras e da frase (e da ordem em que elas serão ditadas) é essencial. Por exemplo: um aluno com hipótese silábica com valor sonoro convencional. a escola onde Araújo leciona passava por grande reforma. Lista bem feita Na sondagem. No começo de 2008. Na sondagem inicial feita com a lista de palavras relacionadas à reforma da escola. de uma dissílaba e. no caso de as crianças escreverem segundo a hipótese do número mínimo de letras. ele resolveu trabalhar com uma lista de objetos usados na obra do prédio. ou seja.

Demorou bastante até se manifestar: – Mas essa não dá para escrever. – Agora eu quero que você escreva “pá” – disse o professor. sem que o critério de escolha . O professor pode anotar em uma folha à parte como ela faz a leitura. entre o falado e o escrito – ou se lê aleatoriamente. em situação de sondagem. pois pensava que só se pode ler ou escrever palavras com três ou mais letras e. o professor conseguiu perceber que a criança entrou em conflito.23 – Ferro começa com “fe”. Fica só uma letra e isso não pode. se associa aquilo que fala à escrita etc. afirma Regina. não permite analisar essa produção e identificar sua hipótese de escrita”. Terminado o ditado. se aponta com o dedo cada uma das letras. Por meio da interpretação dela sobre a própria escrita. é necessário registrar abaixo a relação de cada letra com uma sílaba. é que se pode observar se ela estabelece ou não relações entre o que escreveu e o que lê em voz alta – ou seja. tinha construído a hipótese de que para cada emissão sonora uma letra basta. CRIE UMA TABELA O ideal é construir um quadro para anotar a evolução das hipóteses de cada estudante. é imprescindível pedir que a criança leia o que escreveu. ao mesmo tempo. O aluno parou um instante. durante a leitura. usando marcação com sinais que indique quais as associações feitas pela criança: LGA (mar) (te) (lo) Ou ainda: LGA ||| É possível que o aluno utilize muitas e variadas letras. “Uma lista de palavras produzida pelo aluno. não é? E termina com “o”. Se o aluno escreveu LGA para o ditado da palavra martelo e associou cada uma das sílabas dessa palavra a uma das letras. Há duas maneiras de fazer esse registro. Essa é fácil. Fotos Marcos Rosa Com o comentário. tentou contar “as partes” da palavra com os dedos e ficou um pouco incomodado. de Felipe. sem a respectiva leitura.

que oferece novas informações sobre a escrita e orienta seu olhar para os materiais escritos disponíveis na sala de aula. como a ortografia. Será que todos interagem com outras fontes de texto e. é necessário anotar o sentido que ele usou nessa leitura. quantos têm hipóteses mais avançadas e os que estão alfabetizados. realizaram avanços significativos em comparação com sua escrita do início do ano. Atividades diversificadas REGISTRE TUDO A observação da produção de cada um ao longo do ano mostra com clareza como ele avançou. particularmente. posteriormente. refletem sobre a escrita e seu uso? Recebem informações de colegas mais experientes. comparando quanto evoluiu ao longo do ano. os avanços que ela obtém ao longo do ano. o professor precisa acompanhar a evolução de todos. Para que os alunos atinjam o objetivo previsto para o 1º ano – escrever alfabeticamente. se ele ler sem se deter em cada uma das letras. Com base nessa tabela. LPIEMAN Esse tipo de marcação é importante.24 desses caracteres tenha alguma relação com a palavra falada. que os ajudam a compreender o que está envolvido na leitura e na escrita? Têm a oportunidade de tentar ler por si mesmos? Contam com o apoio do professor. Com frequência. essa comparação traz agradáveis surpresas em relação aos que. O ideal é que seja construída uma tabela que contenha a evolução das hipóteses de cada um. Esses últimos. é possível também fazer uma análise crítica da rotina e das atividades que estão sendo contempladas. sendo encorajados a se arriscar e escrever segundo suas hipóteses? . nessa interação. necessitam de outros conteúdos de ensino. que podem ajudar no momento de decidir pelo uso de uma determinada letra? Encontram na escola um ambiente favorável à pesquisa. ainda que com erros de ortografia –. Nesse caso. apesar de não escreverem convencionalmente. conhecendo os que demandam mais atenção. pois permite observar com mais clareza a hipótese que a criança tem e.

O melhor é colocar a garotada para escrever e observar a organização gráfica." Pesquisadora e professora do Instituto de Pesquisas Filológicas da Universidade Nacional Autônoma do México. que vem a São Paulo para a Semana da Educação. dizemos que ela serve para separar unidades sintáticas e organizar o texto". E mostra que esse jeito tradicional de ensinar não resolve o problema da garotada. "Na sala de aula. ao fim do ano letivo. Alfabetização inicia . todos estejam alfabetizados. Pontos indicam pausas mais longas.Produção de textos Edição 225 | Setembro 2009 Célia Diaz Argüero: "A organização do texto vale tanto quanto vírgula e ponto" Especialista. ela coordena desde 2003 um trabalho com crianças das séries iniciais para descobrir como elas efetivamente apreendem o sentido de dividir e reagrupar as ideias no papel usando sinais de pontuação para que qualquer pessoa possa entendê-las. se sua abordagem e rotina estão funcionando. Se você aprendeu pontuação assim (ou ensina seus alunos usando apenas essas informações). fala das hipóteses que os estudantes fazem sobre a pontuação na alfabetização inicial CELIA DÍAZ ARGÜERO "Oferecer textos prontos e pedir para pontuar não ajuda o professor em nada.25 É por meio das sondagens e da observação cuidadosa e constante das produções dos estudantes durante o ano que se pode saber em que momento se encontra cada um." Vírgulas servem para indicar breves pausas para respirar. . "Só que as crianças nem sequer entendem o que isso significa. qual a expectativa razoável de evolução para os que ainda se encontram em hipóteses mais primitivas e como ajustar o planejamento do trabalho para que. afirma Celia Díaz Argüero.lPrática pedagógica . Aspas aparecem quando queremos mostrar que alguém disse alguma coisa. talvez seja hora de rever alguns conceitos.

Confira a seguir algumas das principais conclusões de sua pesquisa. como palavras e parágrafos. Ela é visual também.e essas ideias não têm a ver com os conceitos formais que a escola divulga sobre o que é pontuação. Além disso. mas a passagem da fala para a escrita é muito mais complexa do que falar em "unidades sintáticas". há enormes diferenças de compreensão das regras de pontuação. Mas é bastante claro que a organização gráfica do texto é muito importante para a grande maioria dos alunos em início de alfabetização. de criança para criança. é muito difícil para uma criança entender que uma lista de itens precisa de sinais de pontuação porque. Para o professor. Porque essas unidades textuais não são nada óbvias para quem está aprendendo a ler e escrever. É essencial ter a clareza de que. o uso que as crianças fazem dos sinais de pontuação atende a ideias específicas que elas têm sobre a função de tais marcas gráficas na construção de um texto . O que suas pesquisas revelam sobre a forma como as crianças aprendem o que é (e como usar) a pontuação? CELIA DÍAZ ARGÜERO Em primeiro lugar. mas não necessariamente com o que a escola quer que elas aprendam. a lista é uma unidade em si. palavra. a organização dos textos não é só uma questão sintática. é essencial saber disso e observar a organização visual das produções para poder avaliá-las e ajudar a garotada a avançar. devem ser feitas via internet).26 Celia vem a São Paulo em outubro como uma das palestrantes da Semana de Educação. De que forma as crianças organizam o texto quando ainda não compreendem o sentido da pontuação? CELIA Entre a unidade letra e a unidade texto. Mas as crianças trabalham com tudo junto: letra. a pontuação tem a ver com o que as crianças pensam sobre o idioma. sílaba. é que os alunos rapidamente compreendem que a pontuação está associada a duas coisas: à entonação e à ideia que se completa. para ela. existem diferentes unidades. que já estão abertas. O que descobrimos. promovida pela Fundação Victor Civita (as inscrições. Por outro lado. Como isso se traduz nas produções dos estudantes em classe? CELIA Não há um comportamento igual em 100% dos casos. ao realizar o trabalho. Isso significa que nas séries iniciais é relativamente fácil compreender que o sinal "?" está associado a uma pergunta porque falamos com uma entonação diferente quando propomos uma questão a alguém. Em outras palavras. . que ajuda a entender como os alunos constroem os principais conceitos sobre a pontuação. nesse primeiro momento. parágrafo. Elas compreendem que todos falamos em "blocos". Ao contrário. na alfabetização inicial. que a explicação oficial para o que é a pontuação está muito distante do que as crianças de 6 e 7 anos sabem sobre os usos da língua. A forma como os pequenos colocam as palavras no papel e a forma como exploram os espaços em branco na folha dizem muito sobre suas concepções de linguagem.

para apresentar nossa proposta. abreviaturas etc. como deveria ser feito em todas as escolas quando se pensa num bom trabalho de alfabetização.27 Na prática. Só assim é possível observar a organização visual que cada criança constrói. Não têm luz elétrica. do total de 120 na região. E trabalhamos com textos variados. Como a pesquisa surgiu? CELIA O trabalho nasceu em 2003. existem inúmeros sinais gráficos. as crianças têm acesso a textos escritos desde o primeiro dia.tudo tendo por base os estudos psicogenéticos realizados por Emilia Ferreiro e as pesquisas de didática da alfabetização realizadas por Delia Lerner. o secretário de Educação local imediatamente se comprometeu a dar início a um projeto de longa duração. no estado de Nayarit. estava ligado a programas de formação permanente. em textos reais de uso social. Essa é mais uma das razões para fazer com que todos. Como eu acredito que a única forma de desenvolver um trabalho com professores é de forma contínua . tudo o que fazíamos. Por sorte. quando eu ainda trabalhava para o Ministério da Educação do México. Em que momento as crianças avançam para um uso mais convencional da pontuação? CELIA Uma das conclusões de nossa pesquisa é que as crianças aprendem a usar a pontuação como se espera quando têm (ou passam a ter) contato com livros. Cada um desses professores ficou responsável pela coordenação de uma. Aliás. Um deles diz: "Nossas escolas são feitas de uma mistura de barro e palha. o professor faz muitas atividades de leitura de textos e também muitas de revisão . o melhor caminho é colocar a garotada para escrever. nosso país é muito ensolarado e podemos aproveitar a luz que entra pelas janelas". Nesse momento. no Ministério. elas começam a entender que. não só nos de língua espanhola como também no Brasil. Como é a rotina de trabalho? CELIA Para começar. Outro: "Muitos de . No dia a dia. também produzam muito em sala de aula. duas ou três escolas. o que o professor pode fazer para avaliar melhor a turma? CELIA Oferecer textos prontos aos estudantes e pedir para todos colocarem a pontuação é um tipo de tarefa que não ajuda o professor em nada nesse processo. oferecendo materiais que nos ajudem a entender os processos das crianças. Sem dúvida. avançam de um estágio para outro. desde então. O ponto de partida foi um livro chamado E de Escuela (de autoria de Tomàs Abella. continuamos atuando regularmente com esse grupo. E.e não com grandes eventos e conferências que acabam isoladas do dia a dia das equipes docentes -. com mais facilidade. que traz fotos de crianças africanas e textos curtos que descrevem a Educação local. Quando chegamos à cidade de Tepic. não lançado por aqui). E. Durante o primeiro ano. que já foram amplamente estudados e reproduzidos em diversos países. além de ler muito. trabalhamos três dias por semana com os 80 professores (40 de pré-escola e outros 40 de 1º ano).

" e "Vendem-se muitas coisas no centro no centro existem muitas lojas". "Existem crianças que brigam e crianças tranquilas na escola na escola temos televisão. Sem ponto nem nada. percebem a importância de saber ler e escrever. Quais são as dificuldades mais comuns apontadas pela pesquisa? CELIA O "erro" que as crianças mais cometem nesse processo de entender o que é e para que serve a pontuação é a dificuldade de identificar as tais unidades sintáticas. Cada um deve fazer a atividade individualmente. Isso os anima a frequentar a escola para adultos". o total de palavras nos textos é de 145 nas salas que participam do projeto e de apenas 77 no grupo de controle. que é bem maior entre as crianças que não recebem a orientação. emendam uma nova frase sobre outro tema. há os estudantes que usam. As crianças percebem que escrevem para alguém que vai ler . sim. mas não sabem se o correto é pôr uma vírgula ou um ponto.. Desde o início. quando viajam para vender a colheita ou os animais no mercado. sinais de pontuação.28 nossos pais e mães não puderam ir à escola quando eram pequenos..não só porque o professor está mandando. avança da periferia para o centro. acompanhamos outras (em outra cidade) que não têm nenhum tipo de acompanhamento. Qual é o papel do professor diante de situações como essa? CELIA Acredito que todo professor precisa se fazer algumas perguntas para ajudar a turma a se desenvolver. Veja dois exemplos reais. O resultado é que esses alunos se desenvolvem mais do que a média. além das turmas que participam do projeto. como escreveu Emilia Ferreiro? De que forma as crianças incorporam as informações que a escola lhes oferece? Que relação existe entre a pontuação e a ortografia? Que relação existe entre a pontuação e outros recursos para organizar os textos. numa folha de papel. E o desempenho dos nossos alunos é claramente melhor do que os desse grupo de controle. Diversos alunos escrevem uma frase sobre um assunto. saber que é preciso ter um destinatário para qualquer produção textual é fundamental para o sucesso do trabalho. Além disso. Daí propomos uma tarefa: escrever um texto para que as crianças da África saibam quem somos e como é nossa escola. Quais sinais os alunos utilizam primeiro? Quais são os mais usados por cada um? A pontuação. Colocam dois pontos para indicar o horário ("12:30"). mas não sabem fazer isso de forma convencional. e responder a quatro perguntas: Quem sou eu? Como é a nossa escola? Como chegamos à escola? O que fazemos na escola? E por que essas práticas fazem diferença na aprendizagem? CELIA De cara. Mas. Em média. como o uso do espaço na folha de papel? . de fato. O mesmo ocorre com o número de erros de ortografia.

e que ainda não há pesquisas específicas na área de didática que ajudem a pensar em atividades ou sequências que garantam um avanço mais eficaz na direção de fazer as crianças aprenderem a usar a pontuação. Na verdade. . no fim de abreviaturas. faz um trabalho genial. é essencial entender que o que fazemos é um primeiro passo para descobrir como os alunos aprendem . O que realmente importa é observar os alunos e entender o processo para ajudá-los a superar as barreiras. Ela não usa corretamente as maiúsculas e organiza o texto praticamente sem pontuação. é empregado no fim da linha (mesmo que não seja o fim de uma frase).29 É possível dar um exemplo de uso do espaço como forma de pontuação? CELIA Veja um trecho de um texto produzido por uma de nossas alunas: "MINHA ESCOLA Quem sou. O ponto. para delimitar os parágrafos. para delimitar frases no interior de um parágrafo. os pequenos passam a usar vírgulas para separar elementos numa lista. Também há os que usam aspas para títulos e para delimitar grupos (2º ano "A") e os dois pontos antes de uma lista ou para indicar horário. Que elementos a garotada costuma usar primeiro em seus textos? CELIA As formas mais comuns são os espaços em branco para separar frases ou parágrafos. e nem é isso que buscamos com a pesquisa. Quando percebem que isso aparece em outros textos. assim como um travessão no fim de cada linha. Cada linha é uma frase e cada frase tem apenas um verbo. ocupando uma página inteira.a chamada psicogênese . Por mais que existam atividades eficazes para dar início ao trabalho. Eu me chamo Karina eu vivo em Santa Maria tenho 7 anos Minha professora se chama Maria Cruz Minha casa é grande e branca" E por aí vai. para concluir o texto. pois é bastante fácil compreender o sentido. Uma linha ao longo de toda a superfície do papel também aparece com frequência para separar parágrafos. Como. e. claro. atuar para fazer a garotada entender as regras de pontuação e usálas de forma convencional? CELIA Não há soluções mágicas. em geral. todos os professores dão nota zero. então. No entanto.

eles se concentram nos desafios da produção do texto: a definição do conteúdo. A criança que não sabe escrever de forma convencional está diante de uma situação-problema que permite a ela observar o desenvolvimento de seu processo de aprendizagem e da compreensão da linguagem escrita.30 Alfabetização inicial . as diferenças entre a linguagem oral e a escrita e a importância de sempre revisar o que é produzido. Foto: Marcos Rosa Por anos. a adequação a um gênero e a organização da linguagem escrita. o ditado foi patrimônio do professor: um texto ou uma lista com o propósito de avaliar se a turma sabia escrever de acordo com as regras da ortografia. pois o conhecimento do sistema alfabético não é pré-requisito para a produção de texto. uma das quatro situações didáticas previstas pelos principais programas oficiais de alfabetização inicial é pedir que os alunos produzam textos oralmente para se perceberem capazes de escrever antes de estarem alfabetizados.tanto nos objetivos como na forma.br) PROFESSORA ESCRIBA Os alunos produzem um texto sobre os polos norte e sul. formadora do Instituto Avisa Lá e professora do Instituto Superior de Ensino Vera Cruz. . ditando as informações que pesquisaram em duplas. ou seja. Hoje. o docente trabalha o comportamento escritor. explica Silvana Augusto.Produção de textos Edição Especial | Março 2009 Produzir texto sem escrever Ao desempenhar o papel de escriba e pedir que os estudantes criem oralmente um texto.com. Isso mudou . não é preciso saber grafar as letras para organizar as ideias tal como se escreve".Prática pedagógica . individual ou coletivamente Anderson Moço (novaescola@atleitor. Livres de questões relacionadas à grafia e ao sistema de representação. ambos em São Paulo. "É importante criar espaços para que as crianças usem a linguagem escrita antes de ler e escrever.

o professor: . O texto que será grafado pelo professor precisa ter uma função comunicativa definida (a produção de um bilhete. ressalta Silvana Augusto A produção precisa ter um destinatário real. Durante o ditado para o professor. . Fotos Marcos Rosa Uma atividade de ditado para o professor que não deve ficar fora do planejamento das aulas diz respeito à produção de textos de indicação literária. pedi que elas me ditassem um texto de indicação literária. mudando o tom de voz. a recomendação de um livro lido etc. elas foram percebendo expressões repetidas no texto e frases que precisavam ser alteradas.Oferece às crianças espaço de troca de experiências e preferências.Seleciona um material de leitura de significativo valor estético. repetem partes quando necessário e distinguem o que dizem para ser escrito do que dizem como interlocutores. Diário da professora Carlene Fernandes Lima . ritmo e velocidade. Na EE Nelson Fernandes. que anotei no quadro-negro. . sugerindo como melhorar a narrativa.e fazem adequações na produção: incluem pausas. Na hora da revisão. contemplando diferentes gêneros. Elas ditam seu parecer sobre o material e os motivos para recomendar essa leitura.Após a leitura de um livro que as crianças adoraram. nos quais as crianças expõem sua opinião e aprendem a reconhecer e expressar preferências como leitoras. Semanalmente. No começo do ano. Ao fazer isso.Propõe a produção de texto com propósitos comunicativos claros. que será encaminhada a outras turmas. . os alunos comandam a produção do texto no conteúdo e na forma .31 A elaboração de um texto vai muito além do registro gráfico.). a criança desenvolve critérios para a formação das preferências". Foi o que aconteceu com a sala da alfabetizadora Carlene Fernandes Lima após a leitura de A Fantástica Fábrica de Chocolate.por meio das leituras e releituras do que já foi escrito . os alunos da 1ª série contam com a ajuda do professor para escrever o texto. em São Paulo. "É um comportamento usual entre as pessoas indicar os livros de que gostam mais. as crianças escolhem uma das leituras realizadas para que seja produzida uma recomendação. Indicação literária Neste trabalho. as indicações literárias fazem parte do planejamento de toda a escola. do escritor galês Roald Dahl. Essa situação didática deve fazer parte da rotina da alfabetização inicial.

a professora passou mais de uma semana lendo diariamente um ou dois capítulos de cada vez. . passaram a ditar uma descrição do enredo.A gente tem de contar um pouco da história para que eles também tenham vontade de ler . Reescrita de história Neste trabalho. Ele deve chamar a atenção sobre a estrutura. estimulando a turma a expor suas ideias. textualizar e revisar. Por fim. ressalta Silvana.Vamos colocar que esta é uma história encantadora e envolvente. ele explicita aos estudantes os comportamentos próprios de quem escreve". Todos. Carlene relia o que estava escrito. Carlene abriu a conversa. as crianças se identificaram com o personagem principal. ao escrever no quadronegro.ditou uma das crianças. negociar significados e propor a substituição de palavras repetidas. . e partiu delas mesmas a iniciativa de escrever uma recomendação para a 1ª série C. "O papel do professor aqui é fundamental. A cada nova passagem. .disse um aluno. os pequenos ditaram os motivos que os levaram a escrever aquela recomendação e utilizaram expressões que estavam nos modelos de indicação literária que Carlene havia mostrado. que não deixa a gente perder a atenção .32 Por ser um livro grande.Como vamos começar esse texto? perguntou a professora. prática que elas já estavam acostumadas a realizar.Depois de lermos na sala de . como "de repente". O debate foi acalorado.Aborda questões relacionadas ao gênero e às características da linguagem escrita. o menino Charlie.Permite aos alunos que se sintam escritores e produtores de texto antes de saber grafá-lo. Diário da professora Rozangela Barbosa Cardoso . "aí" e "daí" (marcas da oralidade) precisam ser trocadas por outras mais adequadas à linguagem escrita e que marquem a temporalidade e a causalidade. .Desenvolve o comportamento escritor: planejar. . o professor: . muitas vezes utilizando expressões que tinham visto no livro. então. Expressões como "e". pois. Terminada a leitura.

Eles usam outras palavras. No livro Aprender a Ler e Escrever.33 aula vários livros com bruxas como personagens. ela explicou que eles produziriam coletivamente um conto sobre bruxas e iniciou a leitura de diversos livros que tinham essa personagem. Em um primeiro momento.Começa por "era uma vez".. "A reescrita não equivale a uma cópia porque a criança fará uma versão pessoal do texto fonte". no início do ano ela se deparou com uma situação comum nas escolas brasileiras: menos de um terço de seus alunos estava no nível alfabético. Depois a professora pediu que eles destacassem oralmente o que caracteriza uma história de bruxa. eles encontraram respostas nos livros lidos. pedi que eles retomassem a história. o professor deve realizar situações de leitura de diferentes textos de um mesmo gênero para a ampliação do repertório linguístico dos alunos e a apropriação de suas características. sobretudo. Planejadas com o objetivo de eliminar algumas dificuldades inerentes à produção de textos. em que viram como os autores resolvem problemas semelhantes. Num segundo momento. pois uma parte tinha ficado confusa. que tipo de reflexão deve ser feita na hora de escolher a forma e a sequência dos fatos e destacar as . Que tal "um certo dia"? – propôs outra criança. Para melhorar o texto. Foi o que fez Rozangela Barbosa Cardoso. Antes de propor essa atividade. aprender a reescrever. É importante ajudar a turma a perceber como se trabalha um texto. Professora da 2ª série. . a 580 quilômetros de Curitiba.Mas será que a gente não consegue encontrar outro começo? Esse não é muito comum? Nas histórias que lemos. a pesquisadora argentina Ana Teberosky afirma que a orientação que se dá para a utilização do textomodelo pressupõe que aprender a escrever é.indagou a professora. dos gêneros. da EM Sebastião de Mattos. Fotos Ivan Amorim As atividades de reescrita de textos diversos favorecem a apropriação das características da linguagem escrita. O próximo passo foi começar a produzir o texto. das convenções e das formas. professora . explica Silva Augusto." para que os alunos pudessem consultar as características que haviam encontrado. como os autores fizeram? . em Umuarama. .. os alunos produziram uma versão própria. consistem em recriar algo com base no que já existe. Ela escreveu no quadro-negro uma lista intitulada "Nas histórias de bruxas tem.disse um dos alunos. uma roda de conversa sobre o texto era realizada. A cada conto finalizado. Rozangela desenvolveu um projeto de reescrita de histórias de bruxas. Esse tipo de intervenção da professora é de grande valia nas situações de produção. .

. então. Rozangela digitou no computador a história e.34 questões de estilo e de efeito que deve provocar no leitor. Terminada a segunda versão. a professora retomou a produção." Texto informativo Neste trabalho. Os estudantes continuaram ditando a história até que a primeira versão fosse finalizada.Explora as características do texto de caráter científico e informativo. eles pediram. Fotos Marcos Rosa É muito importante que desde cedo os alunos tenham contato com uma boa variedade de textos informativos e de caráter científico.Propõe a pesquisa e a busca de informações. Com os dados coletados na pesquisa e a leitura feita por mim. Diário da professora Anna Lúcia Schneider . pois eles permitem o acesso a informações diversas e contribuem para o aprendizado dos procedimentos de pesquisa e de estudo. pedindo que revisassem e tentassem encontrar partes que ainda precisavam ser trabalhadas. em outra aula. Sugeri que eles procurassem nos livros como os autores resolvem esses problemas.Pedi que os estudantes pesquisassem nos livros informações sobre os polos norte e sul para saber como vivem ali as pessoas e os animais. "As crianças perceberam que precisávamos melhorar a coerência da narrativa para que o leitor não tivesse dúvidas. No dia seguinte. grifando passagens e propondo que juntos tentassem melhorar o texto. . relendo. o professor: . eles produziram um texto informativo sobre a vida de um bicho. Depois da pesquisa.Amplia o universo de conhecimento e informação do aluno acerca de um tema específico. A atividade de produção do texto oral com destino escrito no gênero informativo é fundamental na alfabetização inicial. Saber extrair informações de textos e aprender com eles é uma condição para se tornar estudante. para alterar algumas expressões e acrescentar novas frases para que a história ficasse mais redonda. entregou uma cópia para cada um deles. seguindo as pesquisas mais . Eles trabalharam em duplas e um deles ficou com a tarefa de escrever o que ambos julgaram importante.

A cada texto finalizado. Todos eram estimulados a trocar informações e a mostrar para os colegas o que haviam descoberto. explica Silvana Augusto. Ela circulava pela sala para ver se alguém precisava de ajuda. As informações estão de acordo com o que lemos? Será que o leitor vai entender o que queremos dizer? Eles consultavam os livros para checar se estava tudo certo e se havia uma maneira melhor de construir o texto. Ela levou livros com informações sobre as regiões e os animais e pessoas que vivem nelas. a organização e as expressões características. . utilizando a linguagem. Depois. em São Paulo. as características do comportamento escritor e a importância de trabalhar o texto que a criança vai avançar na compreensão da linguagem que usamos para escrever. Na Escola Alecrim.35 consistentes na área. o estudante passa a se familiarizar com as maneiras de buscar e apresentar informações".). É percebendo a função social da linguagem escrita. Primeiro. Anna Lúcia propunha uma discussão. O trabalho com produção escrita deve ser uma prática continuada. explicações e curiosidades. Além disso. Em seguida. na qual se reproduz o contexto cotidiano em que escrever tem sentido. O passo seguinte foi a escrita coletiva. formou duplas e pediu que cada uma pesquisasse sobre um aspecto dos polos (animais. a professora Anna Lúcia Schneider propôs um projeto sobre os polos norte e sul. ela explicou que o produto final da atividade seria um livro ilustrado e que cada um receberia uma cópia. tentou descobrir o que o grupo conhecia sobre o tema. clima etc. ele tem mais uma oportunidade de analisar e refletir sobre o sistema de escrita e ainda entra em contato com informações variadas. "Ao participar desse tipo de situação de escrita.

professora da Universidade de Barcelona. confrontando-se com textos desde o início da alfabetização. na Espanha. Diferentemente dos desenhos.Leitura pelo aluno Edição Especial | 03/2009 Desde o começo É preciso oferecer textos à criança já nas primeiras atividades de alfabetização porque conhecer seus usos e suas funções favorece a reflexão sobre o sistema de escrita APRENDER A LER LENDO Os alunos podem avançar se colocados em atividades que proporcionam a eles situações reais de leitura. O segredo para ensinar a ler é dar condições para o aluno resolver problemas que lhe permitam avançar como leitor e escritor. a escrita ultrapassa os limites da sala de aula. Texto memorizado Neste trabalho. Está presente em todas as etapas da vida e atinge o ser humano desde que surge o interesse pela representação gráfica.36 Alfabetização inicial . o professor: • Propõe a reflexão sobre o sistema alfabético de escrita.Prática pedagógica . que comunicam referentes com facilidade. uma das quatro situações didáticas básicas para a alfabetização. Segundo Ana Teberosky. que se alternam e se combinam para formar um significante. Foto: Marcelo Min A criança compreende o sistema alfabético na prática de leitura. O longo processo de conhecimento da linguagem escrita tem início antes de ela frequentar a escola. o sentido da escrita alfabética é adquirido com o tempo: as palavras se dispõem quase sempre em linha reta e descontínua e possuem uma quantidade de letras. A criança não tarda em reconhecer e distinguir palavras de figuras ao abrir um gibi ou um livro. .

37 • Proporciona situações reais de leitura com cantigas e parlendas. • Permite que os alunos estabeleçam uma relação entre o oral e o escrito.

Diário da professora Ana Rosa Piovesana - Um aluno leu a letra da cantiga que escrevi em um papel pardo, preso na parede a uma altura que permitia acompanhar com o dedo. Eu também dei uma cópia do texto para cada um colar no caderno e acompanhar a leitura na carteira e fiz algumas intervençoes para que todos analisassem mais do que a primeira letra da palavra e usassem diversas estratégias. Fotos: Kriz Knack Segundo Beatriz Gouveia, coordenadora do programa Além das Letras, do Instituto Avisa Lá, em São Paulo, é o contato com o texto que permite ao aluno refletir sobre o funcionamento do sistema de escrita. “A reflexão constante possibilita desenvolver estratégias de leitura”, explica a educadora. Tais estratégias são postas em prática pelas crianças sempre que tentam “ler” mesmo sem saber ler. “Elas antecipam o que pode estar escrito. Como ainda não dominam o sistema, estão o tempo todo usando informações sobre a escrita do próprio nome, do nome dos colegas ou outros que trazem da própria experiência.” Beatriz esclarece que essa tentativa de leitura não é aleatória. Ao contrário, “é um trabalho intelectual. A criança compara as palavras, seleciona, olha para todas as pistas e só então verifica o que está escrito”. Existem atividades que ensinam o aluno a ler ao mesmo tempo em que proporcionam situações reais de “leitura”. Um exemplo é uma coletânea de cantigas e parlendas que as crianças já conheçam de cor. A letra da música é afixada pela professora na parede da sala de aula de maneira que todos possam acompanhar a leitura enquanto cantam. Assim – sempre com a intervenção da professora –, constroem relações entre o que pronunciam e a escrita correspondente. A professora Ana Rosa Piovesana conseguiu alfabetizar todos os alunos no 1º ano da EMEB Rosa Scavone, em Itatiba, a 89 quilômetros de São Paulo, lançando mão de atividades de leitura e escrita de cantigas e parlendas, entre outras. No início de 2008, sua sala tinha oito crianças pré-silábicas, duas silábicas sem valor, oito silábicas com valor, uma silábica-alfabética e duas alfabéticas. Antes de tudo, Ana Rosa pergunta quais cantigas todos conhecem. Esse levantamento é importante para saber que canções fazem parte do repertório comum da classe. Como as crianças ainda não dominam o sistema de escrita, a memorização prévia da canção que será “lida” é essencial para saber o que está escrito e tentar ler onde está

38 escrito: se trabalha a música O Sapo Não Lava o Pé, por exemplo, o estudante saberá que as estrofes que tentará ler durante a atividade correspondem tão-somente à letra dessa música. “Escrevo a letra das cantigas num papel pardo e coloco na parede da sala. Também entrego uma cópia para cada um colar no caderno para levar para casa e ler com os pais”, diz Ana Rosa. “Então cantamos a música, acompanhando a letra, apontando e fazendo o ajuste do falado ao escrito conforme ela vai sendo cantada. Depois, peço que encontrem palavras da música.” Ana Rosa descreve as intervenções realizadas com um de seus alunos durante o trabalho com uma das cantigas. Os versos em questão eram: “Havia uma barata/ Na careca do vovô/ Assim que ela me viu/ Bateu asas e voou”. Ana perguntou: – Lucas, encontre para mim na cantiga a palavra “vovô”. Ele apontou a palavra “voou”. – Lucas, diga com que letra começa a palavra “vovô”? – Com “v”, de Vanessa. – Muito bem, mas... – Mas esta também começa com “v” – disse Lucas, se antecipando à docente e apontando para a palavra “vovô”. – Então, com que letra termina a palavra “vovô”? A intervenção nesse caso levou o garoto a analisar mais que a primeira letra da palavra para conseguir lê-la e encontrá-la. “Lucas observou que ‘voou’ não tinha a letra ‘o’ no fim, percebeu que aquela não era a palavra correta e recorreu novamente à música para encontrar o que havia sido pedido”, explica Ana Rosa.

Títulos de livros
Neste trabalho, o professor: • Propõe a reflexão sobre o sistema alfabético de escrita. • Aciona estratégias de leitura que permitam descobrir o que está escrito e onde (seleção, antecipação e verificação).

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Diário da professora Tatiana Garcez Jora - Escrevi os títulos dos livros que selecionei em pequenas tarjetas de cartolina e apresentei três delas de cada vez aos estudantes. Depois que cada um escolheu o título de uma obra, pedi que eles procurassem por ela em uma caixa que matenho na sala de aula. Antes de retirar o que seria levado para casa, cada um colocou o título da história em um caderno que registra os empréstimos. Fotos Tatiana Cardeal O objetivo da leitura de títulos de livros é oferecer ao aluno o desafio de encontrar, entre muitas histórias, uma que gostaria de escutar em casa pela voz dos pais. Esse é o motivo pelo qual ele é levado a procurar em uma lista o título de sua história preferida. Isso é feito com base nos conhecimentos sobre a escrita de que já dispõe e naqueles que adquire com o passar do tempo – a escrita do próprio nome, do nome de colegas etc. Na EMEF Laura Lopes, em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, Tatiana Garcez Jora começa essa atividade colocando os estudantes em círculo para que comentem o livro que leram com a família. A professora permite que eles citem os trechos da história que mais chamaram a atenção. A intenção é fazer com que apresentem as obras uns aos outros, despertando o interesse coletivo. Tatiana prepara pequenas tarjetas de cartolina. Em cada uma, vai escrito o título de um dos muitos livros que podem ser encontrados numa caixa que fica na sala de aula. Então um aluno se sente atraído por Branca de Neve. A professora seleciona três tarjetas, A Bela Adormecida, Branca de Neve e A Bela e a Fera, lê os títulos numa ordem e os apresenta à criança em outra. O fato de que os três títulos terem palavras começadas com “b” impõe a necessidade de encontrar na extensão da palavra mais indicativos – tamanho, outras letras etc. A professora fica ao lado do aluno durante as tentativas de leitura, fazendo intervenções que promovam a reflexão sobre o sistema de escrita, seja para levá-lo a repensar uma escolha, seja para pedir justificativas se ele aponta corretamente o título (leia a atividade permanente). Uma vez que o encontra, o estudante coloca o título num caderno para registrar o empréstimo e vai à caixa de livros, onde estará envolvido em outra atividade de busca, com o auxílio das imagens nas capas. Utilizar essas tarjetas que apresentam apenas o título das histórias, em vez de exibir as imagens na capa dos livros, permite o foco exclusivamente no contexto escrito – objetivo da alfabetização.

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Texto informativo
Neste trabalho, o professor: • Expõe o procedimento que os leitores experientes usam para buscar informações. • Formula questões sobre o que será lido e procura no texto como respondê-las.

Di ário da professora Lóide Carvalho de Vasconcelos - Pedi que as crianças procurassem na biblioteca da escola livro sobre girafas. Ajudei na leitura dos índices das obras para buscar as informações desejadas. Mostrei que apenas ver as figuras não basta. É preciso verificar se a informação está escrita. Organizei uma roda na sala para uma leitura coletiva das informações encontradas. Fotos Marcelo Min Em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, a professora Lóide Carvalho de Vasconcelos iniciou com a turma de 1º ano da EMEB Anísio Teixeira o projeto Conhecendo os Animais. “Primeiro, perguntei a todos quais animais queriam conhecer melhor. Eles chegaram a um consenso e decidiram se aprofundar na vida da girafa”, explica Lóide. “Então levantamos questões sobre o que a girafa come, onde mora, quantos anos vive etc.” Para confirmar as respostas que os alunos deram às perguntas, a solução foi encaminhá-los à biblioteca. Na rede municipal de São Bernardo, a pesquisa não apresenta as dificuldades tradicionais que uma criança encontraria numa biblioteca comum. As obras estão dispostas por temas e divididos por cores. Os livros se organizam em ordem alfabética pelo sobrenome do autor e ficam com a capa à mostra para que o aluno que está aprendendo a ler possa utilizar as imagens como um instrumento adicional de busca. As estantes são baixas para que a criança alcance as obras. Lóide diz que os estudantes são orientados sobre como usar a biblioteca antes de sair à procura de informação. “Eles foram atrás de dicionários e enciclopédias em que pudessem constar informações sobre as girafas, além de livros e revistas” (leia atividade permanente).

eu lia o sumário com ele para saber se ali há elementos sobre a girafa”. Depois. escrever leva a turma a refletir a respeito do sistema alfabético. por exemplo. segundo pesquisas na área – como um instrumento com razão de existir. e-mail. receita e bilhete. relata Lóide. No livro Aprender a Ler e a Escrever. não é diferente: está em cada carta. livros. Fora da escola. elas conseguem realizar a leitura e. Foto Marcos Rosa No dia-a-dia da sala de aula. revistas. que não fazem sentido para as crianças. testar e avançar nas próprias hipóteses MUITO ESFORÇO Na atividade de redigir uma lista.Prática pedagógica .. o aluno escreve as palavras dentro de sua hipótese alfabética. seguindo os mesmos procedimentos.. Nessas entrelinhas. aprendem a ler”. “Se um aluno trazia um livro porque tinha visto uma figura de mamíferos. conclui a professora. quando há um contexto gerador de informações. “Esse procedimento ensina a buscar informações de maneira cada vez mais autônoma e a compreender que só o desenho não esclarece tudo: é preciso ler. cartazes. cada um escolheu um animal para pesquisar individualmente. palavras e frases soltas. o alfabetizador tem um aliado: a escrita pelo aluno – uma das quatro situações didáticas básicas da alfabetização. Alfabetização inicial . para ‘apropriar-se da linguagem escrita’ é necessário que . a escrita aparece em listas de presença. placa. assim. e não apenas como sílabas. Lóide formou uma roda e leu os textos para responder às dúvidas sobre a girafa. calendários. O papel da professora é investigar junto com a turma se os livros trazidos podem ou não servir para aprimorar o conhecimento sobre o tema. “Mesmo que as crianças não saibam ler de forma convencional. Ana Teberosky e Teresa Colomer falam sobre a importância com esse cuidado: “Apesar de a criança aprender graças à interação com diferentes materiais gráficos.” Alunos e professora escolheram quatro livros. além de formular.Leitura pelo aluno Edição Especial | 03/2009 Na ponta do lápis Desde as primeiras aulas.41 As obras são selecionadas.

sem a preocupação de criar o texto. Depois. Ciente da importância de propor à turma de 1º ano a escrita de textos conhecidos. Cecilia decidiu fazer disso uma atividade permanente. juntos. conta a professora (leia o projeto didático). existam os que queiram colocar apenas vogais e outros que optem por usar somente consoantes. No começo. . percebem que faltam elementos nos dois casos e passam a negociar”. “Assim. contempla-se o preceito colocado pela psicolinguista argentina Emilia Ferreiro de que qualquer escrita é um conjunto de marcas gráficas intencionais. em Petrópolis. Parlendas e cantigas Neste trabalho. diz Cecilia. as crianças tiveram mais oportunidades de se voltar apenas para o próprio ato de escrever. Fiz intervenções para incentivar a reflexão e a discussão dentro de cada parceria. sem prender o pensamento à criação”. a professora Cecilia Pinheiro. • Oferece espaço de troca de opiniões entre as crianças. separou o grupo em duplas para que um complementasse as ideias do outro. Um desses momentos foi a produção escrita de Atirei o Pau no Gato. entre os silábicos com valor sonoro. mas são as práticas culturais de interpretação que as transformam em objetos simbólicos e linguísticos.” Assim.Levei os garotos para o pátio da escola e eles memorizaram a cantiga enquanto brincavam. da EM Robert Kennedy.42 ela participe de situações em que a escrita adquira significação. ambos ficam relutantes e não querem abrir mão de suas opiniões. “É comum que. Diário da professora Cecília Pinheiro . Antes de começar. Mas. Já em sala. a 65 quilômetros do Rio de Janeiro. investiu em parlendas e cantigas para alavancar o processo de alfabetização. Fotos: Ricardo Beliel Em 2008. Dividi a turma em duplas para permitir que um complementasse as idéias do outro. a professora propôs a produção de um cartaz que ficasse no corredor da escola para que outras turmas também apreciassem os versos da canção. o professor: • Foca a atenção do aluno apenas para o ato de escrever. a classe foi ao pátio da escola para cantar e brincar com a letra da cantiga.

conforme as crianças avançavam na alfabetização. Diário da professora Sandra Santos da Silva Jacques . voltar a elas quando necessário. a turma pode escrever as grafias corretas e. o Guia de Planejamento e Orientações Didáticas do Programa Ler e Escrever sugere não só o uso do dicionário como também consultas a uma lista de palavras organizadas coletivamente. texto. Álbum de legendas Neste trabalho. De acordo com Denise Maria Milan Tonello. “não adianta mesmo falar em ‘s’ ou ‘ç’ para crianças que ainda não estão plenamente alfabetizadas. a professora ofereceu letras móveis para permitir a reflexão da dupla e fez uma intervenção: . O trabalho com as letras .43 A escrita começou com lápis e papel. Isso só ganhou destaque ao longo do ano. . Em duplas. ao surgir a questão de o ‘qu’ nao escrever a palavra ‘queijo’.O “d” sozinho não consegue formar o “do”. depois. Por exemplo. Que letra está faltando? A letra “o”.E como se escreve o “na”? Com o “n” sozinho? Não falta alguma coisa aqui? Falta o “a”. Ainda em relacão às dúvidas ortográficas. ao ver que uma dupla se deparou com o dilema de escrever “dona” como “oa” ou “dn”. responderam. Cecilia também conta que a cobrança da ortografia não foi uma preocupação nessa atividade.Pedi que os alunos explicassem as fotos de viagens que trouxeram de casa. o professor: • Mostra a importância do destinatário na construção do • Permite às crianças a discussão de critérios de seleção. pedagoga e orientadora do Colégio Miguel de Cervantes. eles escreveram quem estava na imagem e qual era o local. os alunos podem fazer um levantamento de outras em que o ‘q apareça e perceber que ele está sempre acompanhado do ‘u’”. berraram os dois. mas. As dúvidas aparecerão naturalmente e renderão boas chances de pesquisa. em São Paulo. A cada nova dúvida solucionada.

Além disso. Ela também considera que o trabalho em duplas colabora com a construção dos textos e permite que. escrita. “Textos curtos e em que apareça o nome do colega favorecem a realização da atividade. viagem ou brincadeira. em um passeio. Fotos: Fernando Vivas Um aspecto que deve ser abordado nas primeiras atividades com a linguagem escrita é o destinatário. os pequenos levantem ideias do que escrever de acordo com o que veem nas imagens. elas se comprometem com a tarefa porque preveem um propósito de leitura claro e ganham possibilidades de discutir critérios de seleção dos textos. sabendo que o álbum se destina aos pais e parentes. A professora explicou a ele que o texto não poderia ser “Eu na fazenda” porque seria lido em outro lugar por pessoas que não o conheciam. . A docente levou a turma a refletir sobre isso. as crianças são motivadas a explicar as informações de forma que possam ser compreendidas de maneira clara por qualquer leitor. Alguns alunos escreviam nas legendas indicadores como “no mês passado” ou “no fim de semana”. a posição do enunciador se mostrou um problema. relata Sandra. As crianças se apropriam da estrutura das legendas e percebem. do Colégio Miró.” Outra questão recorrente nas discussões foi a temporalidade. Para isso. a professora Sandra Santos da Silva Jacques. cada um relatou o que fazia no momento da foto. onde estava. quem o acompanhava (leia o projeto didático). Quando um aluno escreveu a legenda de sua própria foto. É preciso que as crianças tenham a chance de se questionar para quem escrevem e o que é preciso garantir no texto para que o leitor compreenda as informações registradas. optou por legendar um álbum de fotos dirigido à família da garotada. Ao mesmo tempo. “Escreva Marcelo no lugar do ‘eu’. por exemplo. solicitou fotografias tiradas nas férias. Lista de personagens Neste trabalho. Com sua turma de 5 anos. juntos. em Salvador. Depois a turma iniciou a seleção das fotografias que entrariam no álbum e a escrita de legendas. que não são extensas e não começam com ‘era uma vez’”. Com as imagens em mãos. assim você informa qual é o seu nome. o professor: • Propõe a reflexão sobre o sistema de • Desenvolve na turma comportamento leitor e escritor.44 móveis propiciou a reflexão sobre o que escreviam e permitiu revisões.

do Colégio Sidarta. ela sugere não misturar uma quantidade grande de letras e. Fotos: Marcos Rosa A professora Adriana de Oliveira Rocha. com uma gravura ou ilustração de um dos personagens previamente listados. tornam as falhas mais aparentes. escreviam seu nome com letras móveis. Entre as demais expectativas estão compreender o funcionamento alfabético do sistema de escrita. na ordem do abecedário. em Cotia. Depois de identificarem coletivamente quem era ele e de qual história fazia parte.Utilizei as letras móveis para a atividade de listar personagens de contos infantis porque elas permitem revisar e mudar o texto facilmente. A atividade começou com uma conversa sobre quais histórias faziam parte do repertório da turma e quais eram mais apreciadas. os alunos realizam o ajuste entre o que se fala e o que se escreve e. Após as intervenções da professora e da troca de experiências dentro de grupos de trabalho. brinquedos que os pequenos levavam de casa e nomes de fantasias. os alunos redigiam os nomes individualmente e com lápis e papel. Uma das listas foi a que compôs uma galeria de personagens conhecidos como Cinderela e Chapeuzinho Vermelho (leia a sequência didática). Tal habilidade é tão importante que figura nas expectativas de aprendizagem do Guia de Planejamento e Orientações Didáticas do programa Ler e Escrever. Para evitar que as crianças se percam em problemas como “cadê o L?”. se possível. a cada etapa do trabalho. “Elas permitem mudar o que foi escrito”. é indispensável confirmar o que foi produzido. ela distribuía uma ficha de atividade individual. diz Denise Tonello. das secretarias estadual e municipal de Educação de São Paulo.45 Diário da professora Adriana de Oliveira Rocha . na Grande São Paulo. Adriana montou uma lista de personagens a serem nomeados por escrito pelos pequenos. Cada dupla de alunos teve de observar uma ilustração e. A seleção para a escrita por parte dos alunos incluía elementos como ingredientes de receitas. as letras móveis funcionam como boas aliadas. Ao ler o que escreveram. guardá-las em caixas com divisões. Com a ajuda de peças móveis ou no papel. Como a reflexão sobre o sistema de escrita é permanente e requer que a produção seja avaliada e revista pelas crianças. Então. Depois da fase de discussões em duplas. lançou mão das listagens com crianças de 5 a 6 anos no ano passado. desse modo. então. escrever textos que . Com base nessa checagem inicial. escrever o nome do personagem que aparecia nela. cada criança escreveu os nomes individualmente com lápis e papel.

O desejo de aprender a ler para decifrar os livros preferidos com autonomia e descobrir novas histórias aumenta de intensidade". RJ COMPORTAMENTO LEITOR É fundamental que toda a turma participe da atividade. lugares. Foto: Tatiana Cardeal Sempre que o professor lê para a turma. desenvolver o comportamento leitor e iniciar o processo formal de alfabetização . identificar a história com base no seu título e escrever a lista dos personagens. como bilhetes. Segundo Adriana. diz Ana Flavia Alonço. Essa é uma das quatro situações didáticas básicas no processo de alfabetização. reportagem sugerida pela leitora Josélia de Castro Silva.46 conhece de memória. Alfabetização inicialPrática pedagógicaLeitura pelo professor Edição Especial | 03/2009 Pequenos leitores Ouvir permite às crianças ampliar o repertório cultural. pedagoga e formadora de professores do Projeto Entorno. personagens e autores e têm a oportunidade de se encantar com a leitura. como explorar livros da biblioteca de sala. A cada proposta. cartas e instrucionais. expondo suas ideias sobre o que foi lido. o projeto dessa galeria ajudou a desenvolver comportamentos leitores e escritores ao longo do ano. colaboraram muito na evolução da escrita das crianças. surgiam novos desafios. que. Petrópolis. revela as múltiplas possibilidades que os textos oferecem. aumentar a familiaridade com a língua. "As crianças conhecem narrativas. da Fundação Victor Civita. de acordo com Denise. reescrever histórias conhecidas e produzir textos de autoria. .

ao efetuar essa ação aparentemente banal. os alunos e a linguagem escrita. Segundo ela. capaz de ser desenvolvido desde muito cedo com a ajuda dos mais experientes. "a leitura é um momento mágico. Os alunos não tinham o hábito de ouvir e comentar histórias. pois faltam os procedimentos necessários à mediação entre o professor. bem que você disse que eu ia adorar aprender a ler. Conteúdo relacionado Sequência Didática • Comparar histórias Projeto Didático • Leituras simultâneas de contos Atividade Permanente • Leitura compartilhada e debate É preciso. Mas também deve estar ciente dos objetivos didáticos a que ela se destina . Indicação literária Neste trabalho. por si só. debatendo ideias. Atitudes como essas compõem o chamado comportamento leitor.por exemplo. afirma Célia Prudêncio. apenas duas eram alfabéticas no início do ano letivo. pode ser ensinada em situações em que a turma toda participe. o professor: • Apresenta à turma autores em obras de reconhecida qualidade. Dita por um aluno de 1º ano em 2008. porém. tem de considerar sua ação como prática social que entretém. que chamamos de 'um ato de leitura'. pois eles assumem o papel de condutores de seus ouvintes para um mundo fantástico. em São Paulo. ter em mente a intenção da leitura. emociona. • Comunica os motivos pelos quais selecionou o livro. diferenciar a linguagem escrita da falada ou conhecer o estilo de um autor". não dá conta de alavancar o processo de alfabetização. comentando o que foi lido. "Quando o professor lê. guardou a frase na lembrança. diferenciar versões da . do governo do estado de São Paulo. que essas marcas têm poderes especiais: basta olhá-las para produzir linguagem"." Sirley Aparecida Mastini da Costa. da EMEF Padre Gregório Westrupp. Nas palavras da psicolinguista argentina Emilia Ferreiro. Em dezembro esse número saltou para 29 e todos passaram a participar de discussões sobre as obras lidas. se os objetivos não estiverem claros. Não basta simplesmente fazer uma sessão por dia sem propósito comunicativo. como prática social. ela mostra o resultado de um investimento feito desde o primeiro dia letivo – incluir a leitura na rotina da classe. formadora do Programa Ler e Escrever. "Professora. De 33 crianças. A figura de pais e professores é fundamental. pois o interpretante informa à criança. a leitura. informa e diverte. levantando e explicitando hipóteses.47 A leitura. • Lê o texto tal qual está escrito.

uma boa preparação requer uma pesquisa detalhada sobre o autor. a coleção elementos que não apenas enriqueçam o repertório da turma como também sirvam de base para as escolhas que todos farão como leitores. se houver. participar de atividades de contação de histórias organizadas pelos mais velhos e. seleciono obras clássicas e atuais para ler diariamente". é preciso ter muitas letras e . A qualidade se faz ainda mais necessária. E é importante que o professor também conheça e aprecie a história”. orienta Ana Flavia. montar as próprias rodas literárias. o ilustrador e. cobrar os momentos de leitura. já alfabetizados. a professora investiu na organização dos momentos de leitura: "Para entrar no clima. "Atuar como leitores competentes é também um aprendizado. definir qual o melhor momento da rotina para a leitura em voz alta. treinar a história em voz alta.48 mesma história e conhecer o trabalho de autores como Ziraldo e Monteiro Lobato. com ritmo e gestos. Além disso. vão por conta própria para o fundo da sala. Aspectos como esses devem ser levados em consideração durante o planejamento da aula. sempre que possível. as crianças assimilam aspectos da estrutura do texto. é importante definir previamente possíveis intervenções que auxiliem na compreensão do texto e. Ou seja. Resta. “Devem ser obras bem escritas. A atenção dos pequenos ouvintes ficou cada vez maior e cresceu também a vontade de conhecer outros livros. Fotos: Tatiana Cardeal Com tais objetivos em vista. lembrando sempre que a quantidade de vezes em que ela é realizada é menos relevante do que a qualidade da situação didática.Antes de iniciar a leitura. para escrever. Por isso. retiram livros das estantes e leem para os colegas". conta Sirley. todos a serviço da produção de sentido por parte dos pequenos. é comum as crianças formarem grupos e retirarem outros livros das estantes. que encantem as crianças. "Depois que uma atividade acaba. Eles passaram a levar exemplares de casa para a escola. A escolha dos textos requer cuidados especiais. pois a leitura em voz alta é uma porta fundamental para que os pequenos entrem no mundo letrado (leia a sequência didática). então. apresento seus autores e falo de outras obras deles. eu destaco a capa dos livros. “Além da história. converso com as crianças sobre o autor e sobre o que o título da história parece sugerir". Diário da Professora Sirley Aparecida Mastini da Costa . Percebem que. diz Sirley. Após a sessão.

depois dessa atividade. poesia. Fotos: Fernando Vivas Todos os dias. as crianças estabelecem relações acerca dos termos que não conhecem e ampliam seu repertório". "Ao contrário. basta procurá-las no dicionário". De acordo com Ana Flavia. dicionários e publicações sobre arte e animais. em Presidente Prudente. as crianças exploram as obras para escolher a história que lerei a seguir".Eu ajudo os alunos na escolha do livros e na leitura. sentindo a necessidade de cada um. passa pelas salas de Educação Infantil e dos primeiros anos do Ensino Fundamental levando uma mala de rodinhas que esconde um verdadeiro tesouro.49 colocadas em lugares certos”. Entre os textos literários. subtítulos e legendas. que tem até uma boneca de pano como mascote. Ela não troca nem simplifica palavras. • Aponta estratégias para buscar informações em títulos. ao ouvir histórias. a 565 quilômetros de São Paulo. diz. para descobrir o significado de termos desconhecidos. ela contém mais de 40 livros. o professor: • Apresenta a variedade de gêneros literários. afirma Maria Peregrina de Fátima Rotta Furlanetti. despertar neles a preocupação de cuidar dos volumes. Ela também investiu na decoração da sala de leitura com almofadas e . Consegui. entre obras literárias. • Desperta nos alunos a vontade de cuidar dos livros. Abastecida com frequência pela biblioteca da escola. em Salvador. diz Maria Aparecida. É a biblioteca circulante. do Departamento de Educação da Universidade Estadual Paulista (Unesp). que levo do lado de fora para criar um clima gostoso. responsável pela sala de leitura da EM Teresa Cristina. Aí os meninos passam a escolher livremente o que ler e se espalham pela sala. "Antes de começar abrir a mala. Escolha de obras Neste trabalho. é recomendável evitar aqueles em que a transmissão de uma moral supere a qualidade literária. Diário da professora Maria Aparecida de Araújo Silva . Outro cuidado de Sirley é em relação ao vocabulário. leio um livro ou texto avulso. a professora Maria Aparecida de Araújo Silva. Depois disso. a medida é importante "porque cada palavra contribui para a beleza do texto literário e também porque. A intervenção inicial dura cinco minutos. procuro mostrar que.

Esse contato permite à criança apreender as características específicas de cada gênero. têm hoje só leitores interessados e responsáveis. Juntos. As turmas. pedir a releitura de trechos e até folhear o exemplar". no fim da leitura. e na instalação de sapateiras. • Abre espaço para que elas demonstrem livremente suas impressões. "Independentemente da idade. o professor: • Aproxima os alunos de diferentes gêneros literários. sempre terminar com um desenho sobre a história que foi apresentada. da Unesp. Maria Aparecida comenta. Em cada momento de leitura. entre outros (leia o projeto didático). que antes do início do projeto de biblioteca circulante chegaram a estragar 45 livros em uma semana. contos. ou seja. poderão perguntar o que não entenderam. ler diferentes textos com diferentes objetivos". Desse modo. então.só não deve cair na rotina de. "a variedade de gêneros deve ser um eixo do trabalho do professor. que lotam na hora do recreio.50 tapetes doados. E vale lembrar que esse é um ótimo momento para combinar com as crianças que elas devem evitar interrupções. todos querem cuidar dos volumes. conta a professora. bem como os propósitos com que são escritos e lidos. que podem ser um reconto. diz Ana Flavia Alonço. Esse momento posterior à leitura é bastante flexível . de modo que todas possam escutá-la claramente e enxergar as páginas da publicação. por exemplo. selecionar dados e reler para retomar dúvidas ou apenas voltar a trechos apreciados. escolher as obras preferidas e até inventar as próprias histórias". como quem é o personagem principal ou onde a trama se passa. Assim. poemas e notícias. De acordo com Célia Prudêncio. dados do texto e informações fornecidas pelo contexto. fornece elementos que ajudam os pequenos a formular suas primeiras hipóteses. as crianças se organizam ao redor da professora. "É preciso ter sensibilidade para perceber as necessidades da turma. uma dramatização. Livros variados Neste trabalho. realizando a leitura de obras literárias. sugere Maria Peregrina Furlanetti. que servem de estantes em todas as salas até o 2º ano. É importante garantir a diversidade textual. então. .conhecimentos do leitor. algum aspecto da história. um debate de ideias ou até mesmo o silêncio". "Explique que muitas dúvidas são respondidas no desenrolar da história e que. que coordena informações de diversas procedências . os resultados não demoram a aparecer. • Cria situações em que eles possam atuar como leitores. num processo ativo de construção de significados. professor e alunos exploram essa imensa gama de possibilidades. Por exemplo: buscar informações em títulos.

Nesse caso. é importante não interromper e não induzir a opiniões. Fotos Kriz Knack Daniela Ribeiro deu aulas em 2008 para a turma de 1º ano da EMEF Rosalvito Cobra. Já com os alunos.hábitos que podem ser construídos antes mesmo de a turma dominar a escrita. Para tanto. o que não agradou. um tema atual ou um personagem curioso . cada aluno escolhe um livro para levar para casa. que ela lê em capítulos. "Depois de ouvir a leitura de um texto sobre um animal. se leram com ajuda ou não. Antes de entrar em sala. Na segunda. É enriquecedor voltar aos trechos comentados pela turma e ajudar a identificar pontos em que as imagens são fundamentais para o desenrolar da história. como O Mágico de Oz. ela treina a entonação. Todas as sessões de leitura são seguidas de conversas para a exposição de ideias (leia a atividade permanente). ela não pensa duas vezes: a leitura. Foi assim que os alunos de Daniela passaram a agir. as crianças se divertem falando sobre o lugar onde ele mora e outras curiosidades. Eu complemento a atividade oferecendo exemplares que eles podem levar para casa. É nesse espaço que podem demonstrar livremente suas impressões. Quando alguém pergunta qual é o segredo para terminar o ano com todos os alunos alfabetizados. sem trocar palavras para simplificar o vocabulário. em especial porque queriam muito encontrar as informações". o que faz dela algo especial . as obras vão de clássicos. se as expectativas foram correspondidas . eles se sentiram cada vez mais motivados a ler. por exemplo. Na sala de Daniela. . Toda sexta-feira. Ensinar a ler não é transmitir conteúdos. O cardápio de textos oferecidos é bem variado. eu explico porque escolhi o livro do dia. ilustrações interessantes. conta. a textos informativos. ao longo do ano. “Percebi que. basta pedir que esperem a vez.51 Diário da professora Daniela Ribeiro . mas criar situações em que as crianças possam atuar como leitoras.tem frases engraçadas. fazem roda para comentar o que gostaram. Eles buscam as ilustrações e as relacionam com trechos da história que eu narrei. lê o título. Quando mais de uma criança falar ao mesmo tempo. na Grande São Paulo.e deixar claro qual será o gênero. em São Caetano do Sul. A roda de biblioteca complementa a leitura diária. comenta o tema e abre o livro. é importante explicar por que determinada leitura foi escolhida. Revelar esses elementos ajuda as crianças a selecionar as próprias leituras e justificar tais escolhas.Antes de começar a leitura em roda com os alunos.

Foto: Gilvan Barreto Pendurado na parede desde o primeiro dia de aula. Material de apoio precioso para um ambiente alfabetizador na Educação Infantil e nas séries iniciais do Ensino Fundamental. a resposta também está lá. ele ocupa uma posição central na classe .br) É ASSIM QUE SE FAZ Na EM Atenas. o alfabeto ajuda as crianças a tirar dúvidas sobre a grafia das letras com autonomia Rodrigo Ratier (rodrigo.com. no campo de visão de todos os alunos. acima do quadro. Se na hora de escrever "mar" bater a dúvida de quantas perninhas tem o M. O alfabeto da classe é um companheiro permanente para quem ensaia os primeiros passos no universo da escrita. Se sabem que "gato" se escreve com G.de preferência. mas esqueceram o jeitão dele. é a ele que os pequenos recorrem quando querem encontrar uma letra e saber como grafá-la.ratier@abril. a turma consulta o alfabeto na parede para conferir a grafia correta das letras.52 Alfabetização inicialPrática pedagógicaEscrita pelo aluno Edição 220 | Março 2009 O alfabeto não pode faltar Ferramenta indispensável nas salas de séries iniciais. é só caminhar pela sequência de letras até encontrá-lo. Conteúdo relacionado Reportagens • • • Pequenos leitores Alfabetizar é todo dia Tudo sobre alfabetização Atividades .

Uma excelente chance para conhecer esses e outros procedimentos essenciais para o letramento é a edição especial NOVA ESCOLA Alfabetização (leia o quadro "Um raio X da alfabetização"). deve estar presente em toda . diz. Para que o alfabeto realmente ajude na compreensão do funcionamento da escrita.sim. mas esse saber deve ser acionado pelas crianças durante atividades de reflexão sobre a escrita". uma das quatro situações didáticas mais importantes nesse processo (as outras três são a leitura pelo professor. Foto: Gilvan Barreto Uma oportunidade de fazer isso é trabalhar com a construção de agendas telefônicas (leia o projeto didático).53 • • • • Nomes próprios Legendas para fotos Hora da chamada Criar agendas telefônicas Não espanta o consenso de que um alfabeto. que teve o alfabeto como aliado em todas as etapas. "Memorizar a ordem das letras é importante. organizado em cartazes ou painéis de tamanho razoável. quando o professor atua como escriba). Afinal. Nessa tarefa. em São Paulo. em toda . A proposta foi adotada pela professora Janine Caldeira Veiga. a leitura pelo aluno e a produção oral com destino escrito. da EM Atenas. no Rio de Janeiro.sala de alfabetização inicial. ele não é nada além de uma lista de letras. precisa dominar essas práticas. o instrumento é útil durante todo o início da alfabetização. formadora do Instituto Avisa Lá. No caso de Janine. a utilidade da ordem das letras fica clara: ela serve para tornar a busca de nomes mais rápida e precisa. ele é um precioso instrumento de consulta para as situações de escrita. afirma Clélia Cortez. Se você leciona para pré-escola. é preciso saber usá-lo. a confecção das agendas fez parte de um projeto amplo. De fato. "Ele ajudou a turma do 2º ano a conferir a grafia e a pronunciar o nome das letras ou como apoio à memória para saber qual a posição de uma delas na sequência". O . Responder aos dois principais problemas da alfabetização SABER NECESSÁRIO Agendas telefônicas mostram a importância da ordem alfabética numa situação real. Apenas mandar a garotada ler a sequência de A a Z não faz ninguém avançar na alfabetização. Isoladamente. ajudando a responder aos dois principais problemas de quem está entrando no processo. 1º ou 2º ano.

o B. por exemplo. O alfabeto deve ter letras de imprensa. incentive a criança a procurar a letra pela recitação do alfabeto. Por isso. antes de produzir o alfabeto da classe. alfabeto É com o que P. Não é o ideal. provoque uma reflexão e questione: Me indique Está no ali. ela imita a escrita e ainda não consegue determinar com clareza o que é central e o que é periférico. O melhor é que o alfabeto seja composto de letras de imprensa maiúsculas. com letras de imprensa e cursivas. Por exemplo. . Paula. Assim. . se um aluno escreve "AO" para representar "pato". com um contorno que se mistura ao da letra. exatamente. A forma do G é uma das mais problemáticas.o que. enfatizar a diferença entre desenhar e escrever é fundamental. qualquer elemento supérfluo acaba sendo reproduzido". Ainda são muito comuns os modelos que trazem as letras de A a Z decoradas. Onde a gente pode colocar o P na sua escrita? Outra dúvida comum diz respeito à grafia das letras.pode ser enfrentado quando alguma palavra apresentar falta de letras. O segundo desafio . em que elas ainda não entendem que a escrita é uma representação da fala. a escrita representa? . Você pode usar o alfabeto para apresentar as letras que compõem a escrita. sem decorações PASSOS SEGUINTES Alfabetos mais sofisticados. Agora olhe o que você escreveu: "AO".Isso mesmo. Foto: Gilvan Barreto Atenção. o que realmente faz parte da letra e o que é somente um enfeite. Para desenvolver a autonomia. pois a associação com desenhos confunde a criança. de contornos mais limpos e claramente identificáveis quando reunidos em palavras. aprimoram a escrita. porém. vem adornado por uma asa de borboleta. com figuras cuja inicial é a letra em questão. letra de começa "pato". "Nessa fase inicial de aprendizado. coordenadora pedagógica de NOVA ESCOLA. colaborando para distingui-las dos números e de outros símbolos.como se organiza a escrita? .54 primeiro . Nessa fase.mobiliza sobretudo as crianças na fase pré-silábica. argumenta Regina Scarpa.

Quer saber mais? CONTATOS Clélia Cortez EM Atenas. Artmed. 300 págs. 192 págs. tel. 4. jornais. nas bancas a partir de 16 de março Psicogênese da Língua Escrita. como a de imprensa minúscula (o que vai ampliar a compreensão de livros.. ao todo. tel.e como ajudar os pequenos com mais dificuldades? O especial chega às bancas no dia 16 de março.55 Depois que os pequenos já entenderam o que a escrita representa e como ela se organiza. revistas e outros materiais impressos) e a cursiva maiúscula e minúscula (facilitando o contato com notas e bilhetes manuscritos e produções escolares). RJ.são. Ed. 12 projetos e sequências didáticas -. Ana Teberosky e Teresa Colomer. R. 23063-340. Ed.80 reais. aí. 52 reais . s/nº. com a letra maiúscula em destaque e os outros quatro tipos correspondentes logo abaixo. edição especial. Novamente. as reportagens mergulham no passo-a-passo do processo e respondem às principais questões que interessam a todo alfabetizador: como identificar o que as crianças sabem sobre a escrita? Quais as melhores estratégias para ensinar? O que os alunos precisam ter aprendido ao fim de cada série? Como acompanhar o avanço da sala . Artmed. um modelo um pouco mais sofisticado. 0800-703-3444.. sim.dessa vez. você deve mostrar outros tipos de letra. Emilia Ferreiro e Ana Teberosky. essa etapa também pode se beneficiar da colaboração de um alfabeto pendurado na parede . Totalmente voltadas para a prática de sala . (21) 2413-3809 BIBLIOGRAFIA Aprender a Ler e a Escrever. Um raio X da alfabetização A edição especial que a equipe de NOVA ESCOLA preparou traz mais de 50 páginas de material inédito sobre a alfabetização inicial. Rio de Janeiro. Gentil de Ouro. 49 reais NOVA ESCOLA Alfabetização.

56 Reflexões sobre Alfabetização. “O ambiente escolar deve ser pensado para propiciar inúmeras interações com a língua escrita”. tel. antes de ler a história do livro • Plano de aula para a situação didática Nomes próprios • Plano de aula para a situação didática Trabalhando uma questão ortográfica com ditado interativo • Plano de aula para a situação didática Projeto Biografias e autobiografias • Plano de aula para a situação didática Regras de brincadeira • Plano de aula para a situação didática Estudando seminários • 20 20 21 22 22 23 23 24 . (11) 36119616. Conteúdo relacionado Plano de aula Seqüência didática Contos do mundo todo • Seqüência didática Prática de leitura • Procure no Ponto de Encontro por comunidades sobre alfabetização • Plano de aula para a situação didática Comparando diferentes versões de Chapeuzinho Vermelho • Plano de aula para a situação didática Comparando diferentes versões de Pinóquio • Plano de aula para a situação didática Lendo o livro . Cortez. especialista em Psicologia Escolar e uma das maiores autoridades em alfabetização no Brasil. Emilia Ferreiro.. 15 reais Edição 213 | 06/2008 Mais do que letras Até dominar a leitura e a escrita. Apesar de uma classe ter alunos em estágios diferentes de conhecimento.. a garotada passa por experiências enriquecedoras. como ler sem saber ler e escrever sem saber escrever Cada criança chega à escola em uma fase da alfabetização – o nível de compreensão depende das possibilidades prévias de contato com o mundo da escrita.. afirma Telma Weisz. 104 págs. todos podem aprender. O papel do professor é mediar interações. Ed.

A conclusão da alfabetização inicial ocorre após os dois primeiros anos de escolaridade. Além de contos de fadas. alfabetização inicial e continuidade (veja a seguir). ela explica. A educadora incentiva a escrita utilizando letras móveis ou lápis: “É para que as crianças descubram que tudo o que falam pode ser escrito”. Também é imprescindível garantir a qualidade do material à disposição da meninada. Os gêneros devem variar para que o repertório se amplie. O objetivo é que a turma construa uma compreensão coletiva de cada obra. vê o progresso de seus alunos da 4ª série. a 160 quilômetros de São Paulo. regras de jogos etc. falo sobre o autor e leio por cerca de 15 minutos”. Eles lêem uns para os outros e indicam títulos a amigos. jornalísticos. de Umuarama. “Percebo que mesmo os que não têm o hábito de ler ficam interessados quando vêem o colega com um livro ou contando uma história curiosa”. é importante identificar em que fase cada aluno está e escolher atividades adequadas para a turma. a 600 quilômetros de Curitiba. da EMEB Professor Bráulio José Valentim. e o professor lê em voz alta textos literários. o docente tem à disposição algumas atividades consagradas. Nas séries seguintes. Leitura para a classe (na continuidade) O que é Leitura de livros literários mais longos (podem ser selecionados capítulos inteiros. 20 Leitura para a classe (na alfabetização inicial) O que é A turma forma uma roda. propor . valem notícias que tratem de algum assunto de interesse de crianças. por exemplo) e textos informativos mais complexos.57 Para auxiliá-lo na tarefa de facilitar o ingresso da meninada no universo da linguagem escrita. propor O que a criança aprende Os usos e as funções da escrita. afirma Cintia Dante de Queiroz Minelli. Quando Diariamente. Quando Diariamente. Maria Ussifati. a garotada aprofunda conhecimentos sobre diferentes gêneros de texto e ganha maior autonomia na produção e na leitura. “Aprendi que a leitura para a classe é uma delas e faço isso diariamente. dos jornais (que trazem notícias) e dos textos instrucionais (que incluem regras de jogos ou receitas culinárias). As cinco situações didáticas de Língua Portuguesa estão descritas em duas fases. Como o nível de leitura e escrita varia dentro de uma classe. da EM Tempo Integral. Sento-me em roda com a turma. na zona rural de Mogi Mirim. Ela se familiariza com a linguagem e os elementos dos livros (que contam histórias). mostro um livro. as características que distinguem os gêneros e as diferenças entre o oral e o escrito.

entre outras formas (leia o quadro abaixo). 21 Leitura para aprender a ler (na alfabetização inicial) O que é A tentativa de ler listas ou textos conhecidos de memória (poemas. Eles ficam com o controle do que se escreve e acompanham como isso é feito. O estudante pode entrar em contato com diferentes gêneros para saber quando e como usá-los e. e o professor escreve no quadro. canções e travalínguas). O que a criança aprende A organizar as idéias principais de um texto conhecido e a modificar a linguagem. aprender a buscar informações e a ler para estudar. sempre houver uso da escrita. ela pode localizar e selecionar informações apoiandose em títulos. Quando Várias vezes propor que por semana. é possível antecipar o que pode estar escrito e confirmar por meio do conhecimento das letras iniciais ou finais. ela compreende como acionar as primeiras estratégias de leitura. a produção deve ser revisada. O que a criança aprende A compreender textos mais desafiadores. Além disso. por exemplo). Sabendo o que es tá escrito (nomes de frutas. Ao fim da atividade. assim. Quando Em dias propor de atividades alternados aos de escrita. O que a criança aprende O funcionamento do sistema de escrita. 23 Produção textual (na alfabetização inicial) O que é Os pequenos ditam um texto. Durante a leitura. Leitura para aprender a ler (na continuidade) O que é O crescimento da autonomia. . subtítulos ou imagens e apontando o que é interessante. Podem ser feitas perguntas para provocar participações e estruturar a escrita. Quando Em dias propor de atividades alternados aos de escrita.58 O que a criança aprende Características de textos mais difíceis e de diferentes gêneros (leia o quadro).

articulando conteúdos de linguagem verbal e escrita. propor atividades em mês. relatando acontecimentos. Alfabetização inicial . Produção textual (na continuidade) O que é A reescrita e a produção de textos com autonomia crescente. Comunicação oral (na continuidade) O que é Preparação e realização de atividades e projetos que incluam a exposição oral.59 passando da forma oral para a escrita. propor atividades em mês. intervir sem sair do assunto tratado. Podem ser feitos saraus e apresentações para expor um tema usando roteiros ou cartazes para apoiar a fala. dependendo dos projetos e das O que a criança aprende A participar de situações que requeiram ouvir com atenção. formulando perguntas e adequando sua fala a diferentes situações formais. É interessante incentivar a turma a falar com base em um roteiro e a fazer entrevistas e seminários. 24 Comunicação oral (na alfabetização inicial) O que é Atividades em que a garotada narra histórias. responder a elas justificando suas respostas e fazer exposições sobre temas estudados. o propósito e o gênero. revisa e cuida da apresentação final. defendendo pontos de vista. fazer rascunhos. formular perguntas. Quando Algumas vezes por desenvolvimento. reler e revisar. declama poemas. O aluno define o leitor. Quando Algumas vezes por desenvolvimento. apresenta seminários e realiza entrevistas. dependendo dos projetos e das O que a criança aprende A utilizar a linguagem oral com eficiência. propor O que a criança aprende A usar procedimentos de escritor: planejar o que escrever. Quando Diariamente.

Foto: Tatiana Cardeal Todo ano. Outros 18% chegam à 4a série sem terem sido alfabetizados.Garante que os alunos avancem no aprendizado da leitura.Nestas páginas. Conteúdo relacionado . . . de Utinga (BA). mal atendidas pelo sistema de ensino. moradores da maior favela de São Paulo. porém. Mariluci Kamisaka garante que seus alunos. Alfabetizar na 1a série. da escrita e das demais matérias escolares. que todos podem aprender. acabam permanecendo nessa situação de exclusão. há professores dedicados que não aceitam desculpas extraclasse para não ensinar.gurgel@abril. em São Paulo. condenadas ao fracasso no início da escolaridade.. vêm de famílias que não têm acesso à leitura e à escrita e. sempre caprichando na intonação para aumentar o interesse. e Edinelma Ferreira de Souza.. de fato.60 Edição 204 | 08/2007 ''Vou alfabetizar todos eles até o fim do ano'' Com um planejamento que inclui atividades diversificadas e muito estudo e dedicação. NOVA ESCOLA encontrou três profissionais que acreditam. de Porto Alegre. saiam da 1ª série lendo e escrevendo Thais Gurgel (thais. Em várias escolas brasileiras. um de cada seis alunos que entram na 1ª série é reprovado. você encontra no nosso site.br) Todo dia é dia de ler: Mariluci forma a roda de crianças e lê para elas.com. você vai conhecer Mariluci Falco Fernandes Kamisaka e sua turma de 1ª série da EE Maria Odila Guimarães Bueno. As histórias de Janice Cunha. Essas crianças.Evita que o fracasso seja uma marca na vida das crianças já no início da escolaridade.

Com conhecimento teórico. Eu trabalho para que isso aconteça”. e Janice Cunha. Muito do que essa professora de 39 anos faz está descrito nos Indicadores de Qualidade na Educação – Ensino e Aprendizagem da Leitura e da Escrita. até o fim do ano. que muitos consideram condenada ao fracasso. Atividade Leitura para a classe O que é: o professor organiza a turma em uma roda e faz a leitura em voz alta de diferentes tipos de texto (contos. cartas etc. Quando propor: diariamente. a maior da cidade. recomenda que a escola ofereça uma rotina de trabalho variada e que os professores os incentivem o tempo todo. quatro outros vídeos mensais mostrando o avanço dos alunos de Mariluci • Leia como trabalham as professoras Edinelma Ferreira de Souza. Mariluci não inventou nenhum método revolucionário. elaborados pelo Ministério da Educação (MEC). ela tem evitado que seus alunos sigam na escola e na vida enfrentando dificuldades para fazer da leitura um meio de aprender. que você acompanha nos quadros de atividades desta reportagem: a leitura em voz alta feita pela professora para a turma (leia abaixo). trabalhar e participar da sociedade em pé de igualdade. revistas e jornais circulam naturalmente e em que a leitura é valorizada e a escrita utilizada no dia-a-dia. receitas. Ensinar para essa clientela. para que a turma se familiarize com ele. a leitura de textos reais feita pelos que ainda estão tentando ler. Além disso. Da prática de Mariluci fazem parte ao menos quatro situações essenciais – de acordo com pesquisas da área de didática da alfabetização –.). uma prática bem planejada e muita dedicação. tomando o cuidado de trabalhar cada tipo de texto várias vezes. No que depender de Mariluci. para que o repertório se amplie. Elas são filhas de pais com baixa escolaridade e têm pouco acesso a materiais escritos – o que as diferencia das nascidas em ambientes em que livros. O documento defende que os estudantes tenham contato com diferentes tipos de texto. ela tem uma turma com 32 crianças. de Porto Alegre • Neste ano. notícias. e de variar os gêneros. a escrita feita pelos que ainda estão aprendendo o sistema alfabético e a produção de texto oral com destino escrito. essencial para os filhos de pais analfabetos ou que têm pouco contato em casa com . todos os itens estão contemplados: “Meus alunos podem e vão aprender. O que a criança aprende: esse é o principal canal de acesso ao mundo da escrita. poemas. pela Ação Educativa e por outras entidades ligadas à alfabetização. quando os alunos ditam e ela escreve no quadro. • Confira.61 Assista a quatro vídeos mostrando a professora Mariluci promovendo em classe as atividades de leitura e escrita descritas na reportagem. Ao contrário. não assusta Mariluci. se informar. de Utinga (BA). ouçam histórias todos os dias e observem adultos lendo e escrevendo. quase todas moradoras da favela de Heliópolis.

ela aprende que cada um é produzido e apresentado de uma forma diferente e. seja para indicar a leitura. Na hora da determinar o que será lido. mostra as ilustrações da página para toda a roda. começa a perceber a diferença entre a língua falada e a escrita.Depois que todos já sabem o nome da obra. por exemplo. Discussão final: a atividade termina com Mariluci abrindo espaço para que todos se manifestem sobre o que foi lido. A atividade reproduz o que acontece com os adultos. revistas e outros materiais. Por isso. do Brasil e do mundo. nesse momento. e rápidas recapitulações para chamar a atenção no decorrer da atividade. Mesmo que haja palavras difíceis. Os livros infantis. porém. No caso do livro de histórias. pois é só dessa forma que o vocabulário das crianças se amplia. A cada trecho importante. A professora lê os tradicionais contos de fadas. Quando vai ler um livro de histórias. assim. num momento de dificuldade vivido pelo protagonista. Assim. por sua vez. As etapas da trama ganham também comentários pessoais – “que complicação!” –. não respondemos a nenhum questionário. Reportagens de jornal.Alguns se arriscam baseados na ilustração. têm a função de informar sobre as notícias da cidade.mas também leva para a sala histórias de autores atuais. é essencial garantir que todos se interessem pela leitura antes de iniciá-la. seja para discutir algo polêmico ou marcante da narrativa. dos manuais (que ensinam a usar um aparelho) etc. os pequenos podem desviar a atenção com facilidade. vão aparecendo diferentes impressões sobre a trama. trazem listas de produtos em oferta nos supermercados. Organização da turma e apresentação do material: ao propor a formação de uma roda. Quando lemos um livro por prazer. Mariluci familiariza os alunos com vários tipos de texto. . no entanto.Assim. ela se pauta pela qualidade literária da obra e não por seu tamanho – livro para crianças pequenas não precisa ser curto.62 livros. a criança se familiariza com a linguagem dos livros (onde há histórias que divertem). ela não faz nenhuma simplificação. COMO MARILUCI TRABALHA Escolha do material: nesse momento diário de contato com materiais impressos. Mariluci sempre mostra a ilustração da capa e pergunta quem saberia dizer qual é o título. quais foram os trechos preferidos? Que partes cada um achou mais engraçadas? Ela sempre pergunta. A escolha do texto é coerente com o objetivo de trabalho que ela estabelece para cada dia. têm lugar de destaque na rotina de Mariluci. se alguém tem alguma dúvida sobre o texto e gostaria de apresentá-la aos colegas. que pressupõe interação e diálogo. dos jornais (que trazem notícias). Mais próximos uns dos outros. Os folhetos informativos. Leitura do texto: a professora capricha na entonação – principalmente na fala dos personagens – para criar dramaticidade e dar ritmo à leitura. ela pede que todos falem de que imaginam tratar o enredo. mas sempre fazemos comentários com parentes e amigos. ela já sinaliza à turma que a atividade tem uma dinâmica diferente. Na atividade.

recém-formada em Pedagogia. O lançamento de A Psicogênese da Língua Escrita. finalmente. No entanto. suas aulas foram tão organizadas e focadas na aprendizagem do aluno. E. Teoria HIPÓTESES DE ESCRITA De acordo com as pesquisas de Emilia Ferreiro e Ana Teberosky. a mesma pela qual ela havia sido ensinada quando criança. O importante é a continuidade. ela está no nível silábico – inicialmente sem valor sonoro e depois com a correspondência sonora nas vogais e/ou nas consoantes. considera-se que ele compreende o princípio alfabético de nossa escrita. mesmo nessa fase. inspirava os primeiros trabalhos feitos por pesquisadores brasileiros. Quando Mariluci começou a lecionar. é preciso uma quantidade de letras (no mínimo três) diferentes entre si. as crianças elaboram diferentes hipóteses sobre o funcionamento do sistema de escrita – com quantas letras se escreve uma palavra. a hipótese é considerada pré-silábica.” Nem sempre. quando começa a representar cada fonema com uma letra. os alunos ainda apresentam erros de ortografia. já replicadas no mundo inteiro. para escrever. A obra revolucionou a percepção sobre a alfabetização ao considerar que o ponto de partida da aprendizagem é a própria criança e permitiu compreender por que a escola conseguia alfabetizar alguns e não outros. Na hipótese silábico-alfabética. havia uma linha didática predominante na alfabetização. quais são elas e em que ordem elas aparecem.“Hoje sei dosar melhor o tempo e se não consigo dar conta de alguma delas num dia compenso no outro. no entanto. ela dedica a maior parte do tempo à alfabetização. em meados dos anos 1980. No entanto. conta Mariluci. Quando passa a registrar uma letra para cada emissão sonora. livro de Emilia Ferreiro e Ana Teberosky. garante que haja espaço para Matemática ou História e Geografia.63 Em seu planejamento diário – são quatro horas e meia de aula –. Veja como poderia ser a escrita da palavra camiseta de acordo com cada hipótese: ■ Pré-silábica: P B V A Y O ■ Silábica sem valor sonoro: E R F E ■ Silábica com valor sonoro: K I Z T ■ Silábico-alfabética: K A I Z T A ■ Alfabética: C A M I Z E T A . A novidade conceitual ainda estava distante das salas de aula e poucos sabiam explicar como de fato as crianças aprendem os degraus pelos quais elas passam durante esse processo (leia o quadro abaixo). “Já tive dificuldade de balancear a rotina porque muitas atividades têm de ser realizadas com freqüência quase diária”. Na fase em que o aluno adota simplesmente o critério de que. as escritas incluem sílabas representadas com uma única letra e outras com mais de uma letra.

lembra Mariluci.se as letras. Percebendo os avanços e as dificuldades dos pequenos. É a prova de que a escola apenas perpetua essa exclusão. 43% não possuem essas habilidades. mostram que 74% dos brasileiros adultos não conseguem ler textos longos. você consegue planejar uma boa aula e propor atividades adequadas para levar cada um a se desenvolver ainda mais e chegar ao fim do ano lendo e escrevendo. a aprendizagem fica prejudicada. Nos anos 1980. se o aluno tem pouco contato. o conhecimento sobre a escrita deveria se dar em etapas: primeiro aprendiam. que precisa ser trabalhado pela professora. depois as sílabas e as palavras e só então vinha o trabalho com textos. Dados do 5º Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf). Teoria O VALOR DO DIAGNÓSTICO Conhecer o nível em que está a turma é essencial durante a alfabetização – e no decorrer de toda a escolaridade. simplesmente desistem dessas crianças como se elas fossem incapazes de aprender. da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo. “Hoje sabe-se que as crianças constroem simultaneamente conhecimentos sobre o sistema de escrita e sobre a linguagem que se escreve. realizado pelo Instituto Paulo Montenegro em 2005. Dentro dessa concepção. supervisora do programa Letra e Vida. temos o que já seria considerada uma escrita alfabética. Ainda hoje. pois não está ensinando a utilizar a leitura e a escrita para dar conta das demandas sociais e para continuar aprendendo ao longo da vida – como o Inaf define o que seja uma pessoa alfabetizada. relacionar informações e comparar diferentes materiais escritos. Essa avaliação deve ser feita logo no início do ano e repetida no mínimo uma vez por bimestre. “O que me incomodava naquela época era insistir com os alunos no ponto que eles não compreendiam e não saber contornar a situação com outra abordagem”. Os reflexos dessa situação são sentidos no país. Hoje é amplamente sabido que o que mais pesava era o contato com a escrita no cotidiano. para Mariluci – assim como para a massa de professores brasileiros –. seus usos e funções”. As pesquisas iniciadas por Emilia Ferreiro e comprovadas por diversos outros estudiosos transformaram a compreensão do que é a escrita: em vez de um código a ser assimilado. cabe ao professor diagnosticar em que nível está cada aluno (leia o quadro) para planejar as aulas e ajudar todos a avançar sempre mais. . em alguns casos extremos. afirma Telma Weisz. mas ainda com um erro ortográfico. E. muitos professores sofrem ao perceber que alguns estudantes vão ficando para trás e se sentem impotentes para ajudá-los ou. Mesmo entre os que concluíram o Ensino Médio.64 Nesse último exemplo. é um sistema de representação que cada um reconstrói até estar plenamente alfabetizado.

é preciso escolher como atividade algo que seja feito regularmente. animais etc. camelo. Desde que teve a oportunidade de fazer uma formação em alfabetização. registre tudo. Atividade Ler para aprender a ler O que é: a confrontação da criança com listas (de nomes. Como? Eles “leem” a letra de uma música que sabem de cor. Como elas acham ainda que as palavras devem ter um número mínimo de letras – por volta de três –. parlendas e trava-línguas –. é possível verificar como a turma está se saindo individual e coletivamente. boi). a professora mudou a forma de ensinar. uma dissílaba e uma monossílaba). Como os alunos já conhecem o tema que deve ser posto no papel. Terminado o ditado. fica mais fácil planejar atividades que façam os alunos avançar. do MEC. mesmo sem essa sondagem. no dia-a-dia. O Módulo 1 do Programa de Formação de Professores Alfabetizadores (Profa). Com esse material. como as listas – de frutas. frutas. se você ditar “arara”. seus alunos participam de diversas atividades de leitura e produção de texto mesmo sem terem aprendido isso formalmente. manteiga. propondo que neles ela encontre palavras ou “leia” trechos (antes mesmo de estar alfabetizada). traz uma sugestão: ditar uma lista de quatro palavras (uma polissílaba. pois é ela que permite ao professor verificar se o aluno estabelece algum tipo de correspondência entre partes do falado e partes do escrito”. É preciso lembrar também que. Portanto. em 2003. “O professor deve. Veja aqui dois exemplos possíveis: itens para um lanche coletivo (refrigerante. É preciso tomar o cuidado para que as sílabas próximas contenham vogais diferentes. pão) e bichos vistos no zoológico (rinoceronte. por exemplo).65 Para realizá-la adequadamente. primeiro. zebra. se você ditar só monossílabos elas também podem se recusar a escrever. Isso porque a maioria das crianças que começa a se familiarizar com o sistema de escrita inicia os registros apenas com vogais e acredita que é necessário usar letras diferentes para escrever. Com essas palavras. queijo. Para finalizar. avisar a turma sobre o tema da lista e depois ditar as palavras. aponta o Profa. brinquedos etc. os alunos podem pensar mais em como escrever (quantas e quais letras usar. acompanhar a evolução de cada um e montar os agrupamentos produtivos. uma trissílaba. Além de aprenderem o sistema de escrita. . peça que cada um leia o que escreveu. ajustando a fala ao que está escrito (leia o quadro). sem marcar as sílabas”. Mariluci introduz a garotada no universo da escrita.) e textos que ela conhece de cor – como cantigas. “Essa leitura é tão ou mais importante do que a própria escrita. cores. muitos poderiam querer escrever A A A e achar que isso não faz sentido. Ao propor atividades como essa. explica a formadora Beatriz Gouveia. você provoca o estudante a refletir sobre a forma de representação.

é a resposta. Para os alfabetizados. ela convida um a um a ler o cartaz com o poema. Ele reconhece as primeiras letras e partes de palavras conhecidas ou identifica as que se repetem. é aconselhável propor outras tarefas de leitura. por exemplo. Novamente. Trocar idéias sobre a prática é extremamente rico para qualquer professor. Proposta de leitura: individualmente ou em duplas. A criança mostra a palavra correta. ele se vale de estratégias de leitura. por já saber o que está escrito.As perguntas são feitas a diversos alunos. Intervenção da professora: durante a tarefa. No caso das listas. Outra estratégia é a verificação. como a antecipação. como parlendas e canções. Para isso. mas Mariluci pede uma justificativa. ela pede que todos leiam um verso para achar determinada palavra. a professora pede que os alunos encontrem certas palavras em uma lista. O que a criança aprende: acompanhando o texto com o dedo enquanto recita os versos. que só é produtiva porque ela aprendeu a diagnosticar as hipóteses sobre a escrita que cada um tem e junta alunos que estão em níveis próximos. COMO MARILUCI TRABALHA Escolha do texto: Mariluci utiliza listas conhecidas pelos pequenos – como a de nomes da turma. Quando trabalha com a letra de uma canção. Ela compartilha sua rotina com os colegas nas duas semanais de trabalho pedagógico coletivo. que fica exposta na parede – e textos memorizados. É condição didática dessa atividade saber o que está escrito para descobrir onde está escrito. Teoria . o aluno busca meios de “descobrir” as palavras fazendo o ajuste do falado para o escrito. no caso dos textos memorizados. já que eles conseguem ler com autonomia. Dessa forma.de Vinicius de Moraes. cores – e. que podem contar com a ajuda dos colegas de classe. Depois. ele prevê qual será determinada palavra por já conhecer o tema em questão – frutas. em que a equipe aproveita para estudar o tema.66 Quando propor: em dias alternados com as atividades de escrita (leia o quadro na página 41). que consiste na identificação de uma letra conhecida que esteja no começo ou no fim da palavra e que confirme a antecipação feita. “Onde está escrito ‘nariz’?”. A professora se vale com freqüência da estratégia. intervém em dificuldades específicas. A mesma oportunidade Mariluci proporciona aos estudantes. ela roda pela classe para acompanhar como cada um ou cada dupla está se saindo e pede que uma criança encontre determinado termo no texto. questiona sobre o poema A Foca. “Começa com N”. Isso acontece porque ele já sabe “o que” está escrito (condição para a realização da atividade) e precisa pensar somente no “onde”. a professora provoca a reflexão e faz a turma avançar. fazendo dessa interação um importante instrumento de aprendizagem (leia mais no quadro). A atividade deve ser realizada só com alunos não alfabéticos. trabalhando muitas vezes em duplas.

você deve levar isso em conta também na hora de fazer suas intervenções para que eles estabeleçam novas relações. Quando a garotada vai escrever uma cantiga já memorizada (como a da atividade mostrada no quadro). “Se o objetivo é que eles decidam conjuntamente sobre a escrita de um texto. já que a organização da turma não pode ser aleatória. quando os alunos ditam para o professor ou a leitura pelo professor e posterior discussão pela classe. Lembre: se os grupos têm níveis diferentes. assim. o ideal é fazer intervenções específicas para que haja reflexão sobre as letras e palavras a usar. É essencial conhecer quanto os alunos já sabem sobre o desafio que será proposto. Leitura e Escrita (Ceale). . mas próximos entre si. em suas carteiras). Atuar em duplas pressupõe também que as crianças já conheçam o conteúdo para fazer alguns progressos sem a intervenção direta e constante do professor (mesmo porque é impossível acompanhar todos. numa situação de escrita. como a produção de texto oral com destino escrito. para que haja uma verdadeira troca”. parlendas. é possível organizar duplas com crianças de níveis diferentes. afirma Francisca Izabel Pereira Maciel.) que podem ser escritos com lápis e papel ou com letras móveis. é importante juntar os que apresentam níveis diferentes. “É importante que o professor atue nessas tarefas como um mediador. o tempo todo. da Universidade Federal de Minas Gerais. ■ As de hipótese silábica com valor com as de hipótese silábico-alfabética. possa evoluir. Essa troca. Atividade Escrever para aprender a escrever O que é: a escrita de textos memorizados – como cantigas. como explica Ana Teberosky no livro Os Processos de Leitura e Escrita. Assim. como as mostradas a seguir: ■ As de hipótese pré-silábica com as de hipótese silábica sem valor sonoro. brinquedos etc.67 AGRUPAMENTOS PRODUTIVOS Para toda criança. observando e intervindo de acordo com as necessidades de cada aluno”. que leva ao avanço na aprendizagem. por exemplo. frutas. O sucesso no trabalho com agrupamentos produtivos depende do tipo de tarefa: ela deve ser sempre desafiadora para que a turma use tudo o que sabe na sua resolução e. confrontar suas idéias com as dos colegas e oferecer e receber informações é essencial. trava -línguas e quadrinhas – ou de listas (de nomes. acaba-se reproduzindo a situação escolar de “alguém que ‘sabe’ mais que os demais. Há os casos em que toda a turma pode atuar na mesma atividade. Isso vale para as perguntas que você fizer e também para as informações que der. precisa ser bem planejada. obrigando os outros a uma atitude passiva de recepção”. afirma Beatriz Gouveia. ■ Os já alfabéticos trabalham entre si. diretora do Centro de Alfabetização. porém próximos. ■ As de hipótese silábica sem valor com as de hipótese silábica com valor. Quando se reúnem crianças de níveis muito diferentes.

liberando os dois para discutir os próximos passos.“Coloca o C de cai!”. Mariluci convida os estudantes a consultar o dicionário. indagou.68 Quando propor: em dias alternados com as atividades de leitura para reflexão sobre o sistema de escrita (leia o quadro na página 38). “Não está faltando letra nesse verso. pensando em quantas e quais letras usar. Cai. perguntou Mariluci. A atividade deve ser realizada com alunos não alfabéticos. avançando no processo de alfabetização. “O começo das duas palavras não é parecido?”. Assim. há espaço para problematizar a diferença entre o que se lê e o que se escreve. disse ela. escreveram a palavra e passaram adiante na tarefa. Os dois se entreolharam. Confirmar o que está escrito: uma última etapa é fundamental nessa atividade: a professora pede que os alunos leiam o que acabaram de produzir. Balão. perguntou. Ao perguntar a uma dupla o que já tinha escrito. mas juntando umas às outras. Para os alfabéticos – que vão se tornando mais numerosos com o passar do ano –. os dois concordaram. a criança não só consegue organizar sua concepção sobre a escrita como também repensá-la. ela deixa de ser a única informante válida na classe e ganha mobilidade para dar atenção a quem precisa de mais ajuda. O desafio era escolher letras e formar as palavras necessárias para compor o texto com a ajuda do parceiro. uma vez que eles já sabem escrever. COMO MARILUCI TRABALHA Organização da turma: a produção escrita é uma atividade em que a formação de agrupamentos produtivos tem ótimo resultado. Para os alfabetizados. então?”. Permitindo que os alunos trabalhem em dupla.“E onde está escrito mão?”. Quando passa nesses grupos para acompanhar o andamento da tarefa e vê que há erros ortográficos. já que eles sabem escrever. questionou ela. pedindo que o aluno comparasse a palavra “cai” com um dos nomes da turma – Carina. Dessa forma. Desenvolvimento da atividade: em uma das aulas do mês de junho. ela não corrige. a professora sugeriu que a turma escrevesse a letra da música Cai. “Com que letra começa ‘mão’?”. essa atividade tem outro objetivo. Mariluci interveio. “Com M!”. O que a criança aprende: concentrada apenas no sistema de escrita – pois o conteúdo ela já sabe de cor –. uma menina sinalizou que não era essa a letra. Ao ver o colega começar o primeiro verso com A – quando deveria ser escrita a palavra “cai” –. soube que os três primeiros versos estavam ali representados. Ela se esforça para encontrar formas de representar graficamente o que necessita redigir. já memorizada por todos. respondeu o outro aluno. Trabalhando entre si. é aconselhável propor um trabalho sobre ortografia ou pontuação. Mariluci junta crianças com níveis próximos. encontrando certa desconfiança do parceiro. Um deles mostrou: “NU”. mas ensina a buscar a . Ela passa ao menos uma vez pelas carteiras no decorrer do trabalho.Argumentando com o colega e trocando idéias.Assim. a criança pode se voltar apenas ao “como escrever”. eles devem melhorar a ortografia e a segmentação – é comum escreverem as palavras corretamente.

Assim. ela organiza uma roda de conversa e até quem ainda não está alfabetizado conta a história para os colegas. textos literários costumam ser lidos por prazer. imita um gesto porque já sabe que ele faz sentido e é parte do aprendizado. Já o jornal pode ser consultado. é necessário mostrar que um livro de literatura se lê passando página por página e olhando as ilustrações até chegar ao fim e que um dicionário – que também tem a forma de um livro – é útil para verificar a grafia das palavras. Ou seja. que a turma freqüenta diariamente.69 grafia correta. explica Francisca Maciel. que tem o objetivo prático de fazê-lo funcionar corretamente”. Até mesmo o rótulo de um produto pressupõe comportamentos leitores específicos: ali podem ser buscados os ingredientes e o valor nutricional. . como se estivesse lendo. Nas aulas. a escola representa o único meio de contato com o universo da escrita. jornais. Toda semana. por exemplo. anúncios publicitários etc. ou seja. diz a professora (leia mais no quadro). Sua tarefa é formar pessoas que tenham familiaridade com a leitura e seus propósitos. quando se quer ler uma notícia. “Ofereço uma diversidade de textos à qual eles dificilmente teriam acesso”. socialmente. A importância desse momento é enfatizada nas reuniões de pais. é necessário apresentá-los no contexto em que são utilizados. Isso acontece. reportagens.” Teoria ACESSO À DIVERSIDADE DE TEXTOS Para grande parte das crianças brasileiras. cabe a você garantir a elas o acesso à maior diversidade possível de textos – literatura. manuais de instruções. Só assim os estudantes saberão como lidar de maneira adequada com cada um deles no dia-a-dia. afirma Beatriz Gouveia. folhetos de propaganda e enciclopédias. Momentos de leitura e escrita individuais também fazem parte do planejamento porque é necessário que cada aluno tenha espaço para desenvolver as próprias idéias. por exemplo. Ela está se apoiando na experiência do professor e no conhecimento da postura de quem lê”. diferentemente de um manual de montagem de um produto. que compreendam o que lêem e enxerguem nela uma maneira de se informar e se desenvolver pessoalmente No dia em que a garotada traz os livros de volta para a classe. em que Mariluci os incentiva também a acompanhar o progresso dos filhos pelos cadernos. nos intervalos entre as atividades ou nos momentos especialmente destinados a isso. “A criança deve saber que. Mais do que isso. “A criança que lê sem estar alfabética não está brincando de faz-deconta. as crianças podem escolher uma obra e levá-la para casa com a recomendação de ler com os familiares. no cantinho de leitura. É nesse espaço que ficam reunidos materiais como livros. “Digo que as crianças vão sentir que o empenho em aprender está sendo reconhecido.

e a professora escreve no quadro. tem feito os alunos de Mariluci avançar. O conto geralmente se passa num tempo distante e num local indefinido e traz adjetivos como “belo” e “terrível”. Mariluci faz um aquecimento. Mariluci propõe diversas discussões com os alunos. carta. logo apareceram exemplos de expressões e vocabulário adquiridos com as leituras feitas por ela em classe.) e no desenvolvimento de projetos de leitura e escrita. pedindo que todos relembrem as características do gênero. oito silábicos com valor sonoro e só quatro silábico-alfabéticos. o desafio era organizar as sugestões. em março. Como a garotada já conhecia o enredo. foi “era uma vez”. O que a criança aprende: ela se aprimora na linguagem escrita ao adaptar a linguagem oral (mais coloquial) às exigências de um texto no que se refere às suas características. a criança sabe diferenciá-los. Enquanto escrevia no quadro. receita. bilhete. eliminando palavras repetidas. ela garantia que todos articipassem. Esse tipo de atividade é importante para que a garotada. COMO MARILUCI TRABALHA Proposta da atividade: antes de convidar a turma a produzir coletivamente um conto de fadas já conhecido. A escrita de Chapeuzinho: na hora em que Mariluci pediu para a garotada ditar Chapeuzinho Vermelho. mesmo quem não sabe escrever convencionalmente é capaz de ditar um conto de fadas (leia o quadro). Expressões típicas da linguagem oral.Ninguém vai saber como são escritas (e como se leem) uma notícia de jornal ou uma receita de bolo se nunca tiver ouvido uma antes. são substituídas por “depois” ou simplesmente retiradas. É condição didática para a atividade as crianças conhecerem o gênero. fazendo perguntas para que a turma recontasse a história ditando na forma de texto. –. como “e daí”. notícia etc. Ela iniciou o trabalho. com o seguinte quadro: seis dos 32 estavam no nível pré-silábico. mesmo sem dominar ainda o sistema de escrita. Quando propor: várias vezes por semana.70 Desenvolver esse comportamento leitor só é possível com atividades diárias. aliada à atenção constante ao desempenho de cada um. Sempre que o uso da escrita se fizer necessário no dia-a-dia da sala de aula (escrita de bilhetes. 14 eram silábicos sem valor sonoro. Dessa forma. O começo. Revisão e conclusão: durante a escrita. como era de esperar. Atividade Ditado para escriba O que é: a turma cria oralmente um texto num gênero específico – conto. mesmo sem saber definir o que são uma carta ou um conto de fadas. convites etc. Por isso. Há ainda o trabalho de revisão dessa produção. A prática de tantas atividades. aprenda a compor um texto . mesmo sem estar alfabetizada.

Ed. 274 págs. Ed. 13 silábicas com valor sonoro. 175 págs. Artmed.acao educativa. (11) 6215-5339 BIBLIOGRAFIA Contextos de Alfabetização Inicial.. No fim do primeiro semestre. 46 reais INTERNET Faça o download dos Indicadores de Qualidade na Educação: Ensino e Aprendizagem da Leitura e da Escrita em www. ela propõe a releitura e a revisão do que se escreveu para identificar possíveis erros e também formas de melhorar o texto. Emilia Ferreiro e Margarida Gomes Palácio. 300 págs. Seu compromisso é chegar em dezembro com todos os alunos alfabetizados. seja ele de que gênero for. aliás. Emilia Ferreiro e Ana Teberosky. 0800-703-3444. eram 31 crianças – uma foi transferida – na seguinte situação: uma pré-silábica. tel. 350. Artmed. 52 reais Psicogênese da Língua Escrita. Ana Teberosky e Marta Soler Gallart. três silábico-alfabéticas e 14 alfabéticas. Ed. Inspirar-se no exemplo de Mariluci (e das outras professoras que aparecem no site) é fundamental para o Brasil superar o atraso educacional– e passar a acreditar que há esperança para nossas crianças. fazer contas e trabalhar com livros. 32 reais Os Processos de Leitura e Escrita. Artmed.. São Paulo.. tel.. R Américo Samarone. Hoje se sabe que na Educação Infantil é possível pesquisar.br Língua Portuguesa Alfabetização inicial Outubro 2007 Interação com a linguagem escrita Em contato com a escrita As crianças pequenas não vão mais à escola apenas para receber cuidados e brincar. como tem ocorrido nos últimos anos. SP. Ed.org. Artmed.71 escrito. 34 reais Ler e Escrever na Escola. No fim. 128 págs. Delia Lerner. Quer saber mais? CONTATO EE Maria Odila Guimarães Bueno. Os especialistas afirmam que quanto antes elas conhecerem a .

OBJETIVO: Ler e escrever usando os nomes próprios por meio de jogos. PREPARAÇÃO: No começo do ano letivo.72 linguagem escrita mais possibilidades de inclusão terão numa sociedade letrada. lápis ou canetas hidrocor. Entregue a cada criança o cartão com o nome dela. Escreva os nomes das crianças aleatoriamente nas cartelas e distribua. Este é o meu material IDADE: A partir de 4 anos. escreva nos pedaços de papel cartão o primeiro nome de cada criança com letra bastão maiúscula. etiquetas ou tiras de papel e fita adesiva. etiqueta o material. como uma moral. Os espaços devem ter 5 por 2 centímetros. Comece o jogo sorteando um nome. Caso utilize tiras de papel. Sobre as mesas. escreva o nome sorteado no quadro para que elas possam procurar. tesoura. quando a turma tem novos materiais. OBJETIVO: Ler e escrever os nomes próprios para identificar o material pessoal. coloque punhados de botões que serão usados como marcadores. mas proporcionar a interação com a língua escrita. caneta hidrocor. Ganha quem conseguir preencher a cartela primeiro. necessariamente. Cada uma escreve o próprio nome com base no modelo fornecido por você e. Para isso. Não há necessidade de escolher um livro para ensinar algo além da linguagem. você escreve IDADE: 5 anos. régua. saco plástico e botões. ESPAÇO: Sala de atividades. Os nomes estão em jogo IDADE: 5 anos. Se você tiver crianças não-leitoras. Ensine à turma onde e como colar. Quadricule os pedaços de papel cartão. ou associá-lo a um questionário ou a um desenho. é fundamental selecionar bons livros e evitar os textos simplificados e infantilizados. oriente a turma a fixá-las com a fita adesiva. como cadernos e pastas. Escreva o nome de cada uma em pedacinhos de papel e coloque-os dentro do saco. Lembre-se de que elas devem ser diferentes umas das outras para que todas as crianças não ganhem juntas. Dê um tempo para que todos procurem nas cartelas. A leitura tem valor em si. A turma dita. depois. . O objetivo nesta fase não é. TEMPO: De 20 a 30 minutos. ensinar a ler e escrever. etiquetas e lápis ou canetas hidrocor. MATERIAL: Pedaços de papel cartão com 20 por 7 centímetros. TEMPO: 30 minutos. ESPAÇO: Sala de atividades. Sempre utilize letra bastão maiúscula. MATERIAL: Pedaços de papel cartão com 20 por 12 centímetros.

OBJETIVOS: Criar uma nova versão para um enredo conhecido. No dia seguinte. produzir textos orais com destino escrito. pois é um conteúdo de que ainda não têm domínio. Quando chegarem a um consenso. OBJETIVO: Escrever com a ajuda de letras móveis. A pontuação ainda não é corrigida por elas. Depois. . coloque de novo o texto já corrigido no retroprojetor. MATERIAL: Figuras do mesmo campo semântico (não misture objetos com animais. Repita esse procedimento com mais três ou quatro contos. As crianças apontam quais revisões devem ser feitas. Entregue algumas ilustrações para cada grupo e peça às crianças que escrevam o nome da figura. Nesse caso. Após essa etapa. TEMPO: De 40 a 50 minutos. ESPAÇO: Sala de atividades. você pode montar um livro para ser doado à biblioteca ou ser dado de presente para os pais. Seu papel. é fazer pequenas intervenções quando necessário e anotar como elas estão escrevendo para saber o quanto cada uma ainda pode avançar. Bons livros são exemplos IDADE: A partir de 4 anos. chame a atenção do grupo perguntando se há algo para ser modificado. enquanto elas escrevem. por exemplo) e letras bastão maiúsculas móveis. e apropriar-se da linguagem escrita. elas a recontam e depois ditam o texto para você escrevê-lo no quadro-negro. MATERIAL: Retroprojetor. evita-se que uma faça toda a tarefa). Se não for possível. TEMPO: De 20 a 30 minutos. A lista de nomes. ESPAÇO: Sala de atividades. Divida a turma em grupos de quatro. Cuide para que as crianças do mesmo grupo tenham níveis de aprendizagem parecidos (assim. lápis e papel. Marque as alterações com caneta de outra cor.73 TEMPO: De 15 a 30 minutos. revisar. Peça às crianças que elejam uma história de que gostem e que seja conhecida de todas. canetas de duas cores para retroprojetor. trabalhe em duplas. você passa essa história para a folha de transparência exatamente com os termos que elas usaram. Providencie uma quantidade maior de alfabetos do que os grupos da sala. coloque o texto no retroprojetor e leia. É importante voltar ao trabalho inicial (o texto que elas ditaram para você) para que a turma compare com o produto final e perceba a importância da revisão e que aspectos do texto foram modificados. os cartazes e os textos que ficam na sala de aula servem de apoio nessa hora. Se puder. Letras móveis IDADE: 5 anos. No último dia. mantenha as letras organizadas em uma caixa para as crianças as visualizarem melhor. É possível que a turma não perceba alguns erros. folhas de transparência.

com histórias interessantes do ponto de vista da linguagem. MATERIAL: Um mural.74 ESPAÇO: Sala de atividades. É importante combinar com as crianças a forma de marcar as faltas e as presenças. É comum isso acontecer quando os nomes têm a mesma inicial. PREPARAÇÃO: Confeccione uma lista de chamada grande utilizando as cartolinas. A primeira: "Certo dia.. Você deve mostrar às crianças o que está lendo. lápis. Proponha que um voluntário vá até a parede para ler o nome de cada um em voz alta e verificar a presença ou a ausência dos colegas. Veja a diferença entre duas versões de Branca de Neve. Cada coluna será destinada a um dia do mês." Na primeira. Cole os cartazes na parede numa altura ideal para a turma. converse sobre quem faltou e faça com a turma a contagem de quantos foram. nasceu uma linda princesinha. reúna a turma sentada em um semicírculo próximo aos cartazes. ESPAÇO: Sala de atividades. Logo no início do dia. como estrelinhas ou bolinhas. a linguagem é pobre. Você pode variar a atividade fazendo sozinha a chamada ou pedindo que cada um marque o próprio nome. Quem está presente? IDADE: A partir de 4 anos. papéis e um acervo de bons livros. No final. TEMPO: Cerca de 15 minutos. Os demais acompanham a leitura. A segunda: "Nasceu Branca de Neve. OBJETIVO: Familiarizar-se com a linguagem escrita por meio de livros Um requisito importante é ter um bom acervo de livros. você encontra uma história cheia de detalhes. em um reino distante. Ícones. pois o escolhido pode não saber algum nome ou se confundir. MATERIAL: Acervo de livros. podem ser usados. à esquerda. a pele branca como a neve e os lábios vermelhos como sangue". Eventualmente. fita crepe e giz de cera ou canetas hidrocor. faça esta atividade fora da sala. OBJETIVOS: Aprender a ler e escrever usando os nomes próprios e identificar o nome dos colegas. tapete e almofadas. . Risque outras linhas verticais. Isso inclui uma sala com boa acústica e uma apresentação envolvente. MATERIAL: Folhas de cartolina. Prepare o melhor clima para o momento da atividade. se houver muita poluição sonora a atenção das crianças tende a se dispersar. TEMPO: Variável. mas lembre-se de que.. à direita. É importante conhecer o texto previamente para saber que ritmo será empregado na hora da leitura. Escolha uma história e leia. Na outra. Livros 5 Estrelas IDADE: 5 anos. uma menininha muito bonita. com os cabelos negros como ébano. Escreva nelas os nomes de todas as crianças em uma coluna. ESPAÇO: Sala de atividades.

Elas farão isso por meio de recados que serão colocados num mural. Agenda da Turma IDADE: 5 anos. mas. fazer cópia. por sua vez. Peça às crianças que pensem num livro de que gostem muito e que desejem recomendar aos colegas de outra classe. É importante que os espaços já estejam delimitados para facilitar a organização na hora que as crianças forem completar. por exemplo. fazer um intercâmbio cultural. e Rosemeire Brait. pode dizer se gostou ou não e também recomendar outro livro. OBJETIVOS: Ler e escrever usando os nomes próprios. Funciona assim: o Jardim A. envie um bilhete aos pais pedindo essas informações. para este trabalho. Paula Stella. mas esse ritmo deve aumentar conforme a atividade se tornar familiar. Por fim. Se precisar. do Centro de Educação e Documentação para Ação Comunitária. indica um livro para o Pré B. Cada uma deve copiar essas informações no seu papel. Se a garotada ainda não souber escrever. todos ditam o texto e você escreve. do Instituto Avisa Lá. CONSULTORIA: Bia Gouveia. familiarizar-se com a escrita e obter informações sobre os colegas. Risque todos os outros papéis da mesma forma ou tire cópias. Se houver crianças que não tenham telefone. Peça à turma que traga anotado o próprio número de telefone e o dia do nascimento. Para começar. grampeador e canetas ou lápis. A atividade deve ser feita com grupos que já tenham certa familiaridade em ouvir histórias. que deve estar num local comum às turmas de toda a escola. Reserve um dia na semana. Este. usar uma agenda. será apenas um nome a cada dia. números de telefone ou endereços e datas de aniversário. em São Paulo. organize as folhas de cada um em ordem alfabética e grampeie. Agora cada um tem sua agenda. Liste em um papel o lugar onde vai ficar cada informação da agenda: nomes. é possível convidar a turma a pensar quem será o próximo da sequência.75 OBJETIVOS: Desenvolver o comportamento leitor. MATERIAL: Papel. durante um semestre. TEMPO: 30 minutos. ESPAÇO: Sala de atividades. da Escola Municipal de Educação Infantil Inês dos Ramos. No início. em São Caetano do Sul (SP) . e criar uma comunidade de leitores. elabore uma agenda com os endereços. em São Paulo. você deve determinar a ordem na qual os nomes vão aparecer. à medida que o trabalho avançar. Mostre às crianças o lugar de cada informação escrevendo os dados de uma delas no quadro.

como "ploft" e "grrr". . o que permite a compra de vários exemplares da mesma edição para distribuir na sala. Sem contar que os protagonistas passam por situações parecidas com as de seus leitores: vão à escola e ao parque. do Instituto Avisa Lá. gritando ou conversando. explica o psicólogo José Moysés Alves. roupas. da Universidade Federal do Pará. peças de teatro e desenhos na televisão. fica fácil entender a trama". afirma Silvana Augusto.br) Foi-se o tempo em que os gibis eram proibidos na sala de aula e as crianças tinham de escondê-los sob a carteira. A começar pelos personagens.76 ''Eu já sei ler gibi!'' Esse gênero literário colorido. ilustrado e cheio de recursos gráficos estimula as turmas de pré-escola a tomar gosto pela leitura Adriana Toledo (novaescola@atleitor. Isso promove a identidade e a familiaridade entre eles. as onomatopéias. Conteúdo relacionado Tudo sobre • Produção de texto Reportagens • • Aulas que estão no gibi Gibis podem ser usados em sala de aula? Como? Galeria • Calvin e seus amigos "Afinal. estão presentes em brinquedos.com. que. Só de olhar é possível saber se um personagem está pensando. têm pesadelos e medo de dentista. embalagens. por si só. também são importantes para facilitar a compreesão de diversas situações e emoções. As imagens aparecem associadas a textos coloquiais e permitem que a criança antecipe o enredo e atribua sentido à história. Os quadrinhos são uma excelente opção para incentivar a leitura em quem está entrando no mundo das letras. selecionadora do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10. Para Beatriz Gouveia. coordenadora do programa Além das Letras. "Eles despertam interesse por serem bem conhecidos". em São Paulo. O mesmo vale para os balões. Com isso. são atraentes para a garotada. "Com essas informações." Mas o grande trunfo são os recursos gráficos. jogos. Ela lembra que as publicações são baratas e acessíveis. as crianças podem acompanhar a leitura em voz alta pelo professor. mesmo sem saber ler.

O saldo do projeto foi animador: todos se tornaram loucos por gibis. Com esses dados. E tudo isso antes mesmo de estarem alfabetizados. Com a ajuda de um retroprojetor. Isso permitiu que todas manuseassem as histórias.os espontaneamente. Como a escola não tinha as revistinhas. o professor Marcelo Campos. no interior de São Paulo. ele chamou a atenção para o fato de ela só usar roupas vermelhas e sempre se irritar com o Cebolinha. Uma vez por semana. criou o projeto Semeando o Prazer de Ler com as Histórias em Quadrinhos – vencedor do Prêmio Professores do Brasil (dado pelas fundações Orsa e Bunge. ele reproduziu algumas histórias em transparências para a turma perceber detalhes da paisagem e dos personagens. Ele fez uma pesquisa e descobriu que 70% das crianças não vivenciavam situações de leitura em casa. em Pompéia. Marcelo lia o texto na íntegra para todos entenderem a ordem seqüencial. Seu objetivo? Disseminar o prazer de ler. espalhando cartazes pela vizinhança e pedindo ajuda aos pais. nas encenações. Na etapa seguinte. apostou nas histórias em quadrinhos para iniciar o trabalho com classes de crianças com 4 e 5 anos (veja no quadro ao lado uma seqüência didática para desenvolver um projeto nessa área). Ao apresentar a Mônica. Marcelo mobilizou a comunidade para montar a gibiteca. Uma carroceria de caminhão cedida pela prefeitura foi adaptada para transportar as crianças e o acervo e virou o Trenzinho da Leitura. o professor organizou uma verdadeira gibiteca itinerante. Atividades Seqüência didática Conteúdos • Leitura e manuseio de histórias em quadrinhos. formar rodas de leitura com crianças de todas as idades e emprestar as revistinhas. procurando. Em pouco tempo. No fim de cada projeção. Foi a forma que ele encontrou de antecipar informações e facilitar a compreensão do enredo. falava um pouco das características físicas e psicológicas de cada um. Compartilhar os gibis Para encerrar o trabalho. Por isso. Marcelo começou perguntando quais eram as histórias e os personagens mais conhecidos. com o apoio do Ministério da Educação).77 Quadrinhos e fantoches Para explorar essas características. confeccionou fantoches dos mais populares e. . cerca de 300 gibis já estavam catalogados na escola. As crianças podiam levá-los para casa duas vezes por semana e tinham de devolver no dia combinado e cuidar do material. da EMEI Sonho de Criança. criando as noções de como se comporta um leitor de quadrinhos. a turma visita outras unidades educacionais do bairro para apresentar os personagens e falar sobre as histórias. Marcelo organizou uma leitura coletiva. por exemplo.

para estimular as crianças a antecipar o enredo. em duplas ou trios. Uma das maneiras é pedir a doação de gibis. pois o ideal é mostrá-los um a um. Tempo estimado Dois meses. distribua exemplares do mesmo gibi para que todos possam acompanhar a história individualmente. Explique que é preciso se comprometer a devolver o gibi na data estipulada para que outros colegas possam ler depois. Desenvolvimento 1ª etapa Reúna as crianças e pergunte quais personagens elas conhecem. leia o texto completo para a turma entender a seqüência. Assim estará montada a gibiteca. Chame a atenção para o formato dos balões e as onomatopéias. pergunte: "O que será que vem no próximo?". mande um bilhete aos pais ou fale com eles sobre a importância do projeto. transparências e retroprojetor. objetivos • Estimular nas crianças o prazer de ler antes da alfabetização. Organize a sala em grupos e distribua um montinho com uma seqüência . Depois dessa conversa inicial. para ler para a turma ou participar como ouvintes das rodas de leitura. Depois. • Aproximar a escola e a comunidade por meio da leitura. catalogue e organize-as por título para ficar mais fácil encontrar o desejado. pais e comunidade em situações de leitura. cartolina. com o máximo possível de exemplares repetidos. Dessa maneira. • Envolvimento de crianças. 3ª etapa Para a leitura compartilhada. • Formar leitores competentes. Faça uma máscara de cartolina para cobrir os quadrinhos. recorte os quadrinhos e embaralhe-os. Para animar a garotada e controlar os mpréstimos. Material necessário Gibis variados. Anote as datas de retirada e de devolução. Aproveite os momentos de organização do acervo para ensinar a manusear o material corretamente: as páginas devem ser viradas com cuidado e com as mãos limpas para não rasgar nem amassar. Discuta as principais características de cada um e apresente algumas informações comportamentais e físicas. Outra é perguntar sobre a possibilidade de eles comparecerem durante uma hora na escola. Depois de analisar cada um.78 • Valorização da leitura como fonte de prazer e cultura na escola e na comunidade. Aproveite para convidá-los a participar. tesoura. 2ª etapa Prepare transparências com algumas seqüências e apresente as histórias com a ajuda de um retroprojetor. no decorrer do projeto. escolha uma das histórias. faça carteirinhas de sócios para todos (que tal colocar uma foto também?). Ao receber as doações. ANO Préescola. todos vão fazer uma observação minuciosa das expressões fisionômicas dos personagens e dos detalhes das cenas. Depois que a turma tiver um bom repertório.

25 reais Aulas que estão no gibi Ao criar histórias em quadrinhos. Quer saber mais? CONTATO EMEI Sonho de Criança. Consultoria Marcelo Campos Pereira. turma de alfabetização aprende a transmitir suas ideias utilizando o desenho e a palavra Denise Pellegrini (dpellegrini@abril. Contexto. SP. 4ª etapa Repita os momentos de leitura várias vezes durante a semana – o ideal é fazer disso uma atividade permanente durante o ano. Ed.. (14) 3405-1503 BIBLIOGRAFIA Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula. José de Moura Resende. tel. Pompéia. professor da EMEI Sonho de Criança. 160 págs. tel. O desafio é remontar na ordem correta.com. Angela Rama e outros. 650. observe se depois dessas atividades as crianças buscam espontaneamente a leitura de gibis e com que freqüência. Uma idéia é levar os pequenos para ler no parque.br) . em Pompéia. Cuide para que esses momentos sejam bem descontraídos. Eles podem ser leitores ou simplesmente ouvir as histórias na roda. Avaliação Para saber se os objetivos foram alcançados. (11) 3832-5838.79 completa para cada um. SP. 17580-000. R. É hora de chamar os pais que se dispuseram no início a participar do projeto para comparecer à sala. se comentam as histórias preferidas e se adquiriram o hábito de levá-los emprestados para casa. Outra. espalhar colchonetes e deixá-los curtir os quadrinhos à vontade.

De acordo com a consultora de Português Maria José Nóbrega. fez exatamente o contrário: usou o material preferido de seus alunos da pré-escola para animar suas aulas de Português e Educação Artística. "As revistas têm a particularidade de unir duas formas de expressão cultural: a literatura e as artes plásticas". no final do ano. "Por isso. Além disso. os gibis estavam sempre ao alcance de seus 22 alunos. estavam desenhando e escrevendo histórias". afirma. Investigando os balões A experiência de Cynthia começou com o material de que ela dispunha em sala. completa Waldomiro. justifica. Conteúdo relacionado Tudo sobre • Produção de texto Reportagens • • Gibis podem ser usados em sala de aula? Como? ''Eu já sei ler gibi!'' Galeria • Calvin e seus amigos Waldomiro Vergueiro. Ambos falam da importância do trabalho com diferentes tipos de texto. coordenador do Núcleo de Pesquisas em História em Quadrinhos da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP). e pesquisaram os diferentes tipos de balão: trabalho para entender as variações da língua Houve tempo em que levar revista em quadrinhos para a classe valia repreensão e castigo e o aluno ainda se arriscava a perder o gibi. uma das elaboradoras dos PCN de 5ª a 8ª séries. do Colégio Mopyatã. No caso dos quadrinhos. na capital paulista. endossa as palavras de Cynthia. as crianças aprenderam as características desse tipo de linguagem e. Pois a professora Cynthia Nagy. "Cada vez mais os produtos culturais se entrelaçam". analisa a professora. "Enquanto eram alfabetizadas. como o Cascão.80 As crianças desenharam seus personagens preferidos. considero bastante oportuna sua utilização em sala de aula". Quem não sabia ler escutava as histórias contadas por ela e pelos sete colegas já . o resultado é um veículo extremamente atraente para as crianças. "Isso permite exercitar a autonomia da leitura recém-conquistada". entre eles os quadrinhos. Colocados num canto. entre as vantagens de utilizar esse recurso na alfabetização está a possibilidade de a turma ler textos só em letras maiúsculas. relata Cynthia. a experiência se enquadra tanto nos Referenciais Curriculares Nacionais para a Educação Infantil quanto nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN).

" Os artistas dão uma aula prática sobre o processo de produção de uma revista. de costas e de perfil . traziam onomatopéias ou mesmo um simples desenho. Primeiro. informações históricas como essa são importantes para que a criança conheça bem o gênero de linguagem com que está trabalhando. "Eu e as crianças procurávamos tiras nos jornais e colávamos as melhores num cartaz. lançam um mote. amor." A pesquisa foi uma constante no projeto. diz Marcelo. "Expliquei que essa foi a técnica utilizada pelos primeiros desenhistas no Brasil". diz Cynthia. sonho. instigam a turma a criar os personagens. Marcelo e seus companheiros visitam escolas e. Viram que. além de palavras comuns. Confira no quadro ao final da reportagem o telefone para informações. Enquanto os alunos inventam a história coletivamente. distribuindo a informação pelo espaço disponível. como os de fala. grito. recomenda. "Tudo o que as crianças descobriam era socializado com os colegas nas discussões em roda". conta Cynthia. "Também é interessante mostrar à classe personagens desconhecidos". No princípio. Um dos primeiros itens investigados pelos alunos foram os balões. pensamento. são agendadas de acordo com a disponibilidade da equipe. núcleo de produção e ensino dessa técnica localizado em São Paulo. "O desafio é passá-la para o desenho. os profissionais esboçam o desenho. Nesta fábrica. Esse exercício fez parte da rotina das aulas de Cynthia. Depois. a matéria-prima é a ideia Artistas mostram aos alunos como se faz um gibi Ao trabalhar com revistas na sala de aula deixe claro para seus alunos o seguinte: não é necessário fazer desenhos e textos maravilhosos. "Os quadrinhos têm uma linguagem própria e o mais importante é entender seus códigos". As primeiras historinhas começaram a ser feitas depois de a classe conversar sobre as revistas preferidas. Em seguida. os pequenos copiavam os desenhos das revistas com papel vegetal e mudavam apenas o texto. A base de qualquer tira. estudaram o que eles continham. cochicho e uníssono. afirma Marcelo Campos. As crianças recortaram das revistas vários tipos. em palestras de 30 minutos. As palestras. descrevem as etapas envolvidas na confecção de um gibi. De frente. "Sempre alertamos a turma para a necessidade de respeitar o perfil que eles mesmos deram aos personagens". eles avisam. um dos quatro profissionais que cuidam da Fábrica de Quadrinhos. gratuitas na Grande São Paulo. Para Maria José.81 alfabetizados. é a idéia.

o livro e o teatro Assim que terminavam suas tarefas." Três jeitos de contar uma história Alunos conferem diferenças entre os quadrinhos. que eram refeitos pela turma.40 reais. ela distribuía uma história recortada para ser colocada em ordem. vários exercícios se seguiram. "Todas as atividades propostas pela professora deram às crianças competência para produzir seus roteiros". eles desenharam os personagens de frente. explica Silvana. com a ajuda do programa Oficina do Livro (Iona. As técnicas de arte vieram em seguida. "Eu lia um texto curto e repetia. 11. lembra. Depois deram movimento às figuras. os alunos da professora Silvana Vívolo. 0_ _113874-0884). cada criança criou sua história e fez um esboço. não foram corrigidos por ela. Cynthia ensinou como transformar uma ideia em quadrinhos. a turma ficou com os de Mauricio de Sousa. Em grupo. eles descreveram os principais integrantes da Turma da Mônica. Silvana resolveu incorporar o gosto da turma de 5a série a suas aulas de Português. Os erros dos textos. escolhidas em votação. eles tentavam dividir a narrativa em quadros e criar os diálogos. No quadro-negro. O projeto. ainda freqüentes. coordenadora pedagógica do Colégio Mopyatã. A narrativa foi transformada em quadrinhos. de costas e de perfil. "A escrita só era melhorada até o ponto em que a criança tinha condições de chegar". em quatro quadros. tiravam um gibi da mochila e se divertiam com a leitura. trecho por trecho. em São Paulo." Para estimular o processo de criação. para que as alunos fizessem um esboço". "Primeiro. Cynthia passou o que as crianças tinham escrito para cartazes. teve grande influência na alfabetização da turma. Após essa fase.20 reais na Dudes Shop) "Recomendei que evitassem as falas de narrador e tornassem os diálogos curtos como os dos gibis". 47. de acordo com a descrição feita anteriormente. A professora tirava cópias das histórias e apagava balões ou quadros inteiros. festeja Cynthia. O trabalho que veio a seguir fascinou a turma. que eram consultados por todos na hora de criar as tiras. do Colégio Montessori Santa Terezinha. "No final do ano. Outras vezes. mostrando o andar. foram publicadas no jornal bimestral da escola. explica Regina Scarpa. apesar de não ter sido o único em Português. "É importante que as crianças vejam suas criações publicadas em veículos típicos do gênero. As melhores tiras.82 Na hora de escolher personagens para suas histórias. a corrida ou um pulo. Quando todos se familiarizaram com a tarefa. . apenas dois alunos não estavam alfabetizados". As demais formaram um almanaque. tel. na opinião de Maria José. Atenta a esse detalhe. avalia Maria José. Melhoramentos. Ela pediu que a classe lesse o livro Cuidado: Garoto Apaixonado (Toni Brandão. Essa foi uma ótima forma de concluir o trabalho.

Quer saber mais? CONTATOS Colégio Mopyatã .R. SP. 3265. SP. Farjalla Koraicho. Prof. (0-11) 6090-1500. é importante oferecer aos alunos o contato com várias linguagens. "Eles percebem que uma mesma mensagem pode ser transmitida de diferentes maneiras e que não há uma mais nobre que a outra".. CEP 04321-130.Av. São Paulo.9 de Julho. 443. 4000. porém.83 Antes que fosse ao laboratório de informática. da USP. Leila Rentroia Lannone e Roberto Antônio LAnnone. O maravilhoso mundo dos contos de fadas e seu poder de formar leitores O bicentenário do escritor infantil Hans Christian Andersen é uma boa oportunidade para explorar a fantasia das crianças com histórias clássicas como O Patinho Feio e O Soldadinho de Chumbo . (0-11) 5011-1022 Waldomiro Vergueiro . tel. tel. De acordo com Waldomiro Vergueiro. 51. 13 reais Era uma vez. a professora levou a classe para ver uma peça de teatro baseada no mesmo livro. CEP 05724-020. conclui. (0-11) 3744-2571 Colégio Montessori Santa Terezinha . São Paulo. Lúcio Martins Rodrigues. CEP 01407-000. (0-11) 818-4324 Maria José Nóbrega . SP. tel. (011) 884-8867 BIBLIOGRAFIA O Mundo das Histórias em Quadrinhos. SP.R. Ribeiro do Vale.. Modema. CEP 04568-000 Fábrica de Quadrinhos . São Paulo. São Paulo.Av. tel. Giovanni Gronchi. SP.Av. tel. CEP 05508-990. 183. São Paulo.

apenas registravam no papel as histórias já contadas oralmente pelo povo. além de poesias e de uma autobiografia. É fácil reconhecer um conto de fadas. na poesia e na melancolia com que trata o sofrimento infantil. pois em cada narrativa escrita por ele há um pouco de suas tristezas e alegrias. como o francês Charles Perrault (1628-1703) e os irmãos alemães Jakob (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859). mas ficou rico e famoso escrevendo histórias infantis. Foto: Karine Basílio Era uma vez um garoto pobre e feio que queria ser ator. Sua obra foi traduzida para mais de 100 línguas. a estudiosa que revolucionou a alfabetização Produzir textos sem escrever Alfabetizar é todo dia Edição especial sobre alfabetização Vídeos • • • Entrevista com Telma Weisz Diagnóstico na alfabetização inicial item Planos de aula • • • Leituras simultâneas de contos Leitura de textos informativos Reescrita de histórias conhecidas A genialidade de Andersen está na leveza. O aniversário de 200 anos do autor é uma oportunidade de desenvolver um projeto de leitura na escola e de explorar as características dos contos de fadas — gênero literário que dá ao leitor oportunidade de encontrar significado para a vida. susto e raiva: a professora Maristela. do Instituto Educacional Stagium. reis e rainhas não podem faltar. como Chapeuzinho Vermelho. E rendeu muitos. Animais que falam. em Diadema (SP). Os escritores que o antecederam. que era sapateiro. o sonho do menino ficou mais distante. Uma de suas poucas alegrias era assistir histórias populares encenadas pelo pai. Um dia. A vida do dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875) daria um conto de fadas. em um teatrinho feito de papelão. assim como a introdução "era uma vez". já que ele teria que sustentar a família. As narrativas se . viaja com a turma para o mundo da imaginação. o garoto partiu para bem longe e passou fome e frio até conhecer um homem que pagou seus estudos e viagens pelo mundo. Ele é autor de cerca de 160 contos e seis romances. Andersen é definitivamente o primeiro escritor infantil. O menino não se tornou ator. como em O Patinho Feio.84 Medo. Quando o pai morreu. fadas madrinhas. Mais sobre alfabetização Reportagens • • • • Emília Ferreiro.

"É o caso de O Pequeno Polegar. de São Paulo. a rivalidade entre irmãos em Cinderela e a separação entre as crianças e os pais em Rapunzel e O Patinho Feio. Que criança não fica com medo ao imaginar o Lobo Mau devorando a Vovozinha? Ou odeia a bruxa quando ela prende Rapunzel na torre? Para a escritora Ana Maria Machado. os contos de fadas pertencem ao gênero literário mais rico do imaginário popular. Para ele. "Essas histórias funcionam como válvula de escape e permitem que a criança vivencie seus problemas psicológicos de modo simbólico. nenhum tipo de leitura é tão enriquecedor e satisfatório do que os contos de fadas. Algumas histórias tratam de temas que fazem parte da tradição de muitos povos e apresentam soluções para problemas universais. "A fantasia é um mecanismo inventado pelo homem na era medieval para superar as dificuldades da vida real". "A criança aumenta seu repertório de conhecimentos sobre o mundo e transfere para os personagens seus principais dramas". e esse drama existencial aparece logo no começo de muitas histórias consideradas referências na literatura. na Índia. a agressividade e o descontentamento com irmãos. pois eles ensinam sobre os problemas interiores dos seres humanos e apresentam soluções em qualquer sociedade. afirma Lilian. As histórias infantis e os contos populares. A leitura das histórias no passado tinha mais um propósito muito claro: apontar padrões . no Japão e no Oriente Médio — como a coleção de contos árabes As Mil e Uma Noites. mestre em literatura pela Universidade Estadual Paulista." A idéia foi difundida após a divulgação dos estudos do psicólogo austríaco Bruno Bettelheim (1903-1990). O que os pequenos mais temem na infância? A separação dos pais. Uma obra é clássica e referência em qualquer época quando desperta as principais emoções humanas. diz a terapeuta Mariúza Pregnolato Tanouye. Para Bettelheim. "No conto maravilhoso. Fantasia ajuda a formar a personalidade A literatura infantil surgiu somente no século 17. o leitor é transportado para um mundo onde tudo é possível: tapetes voam e galinhas põem ovos de ouro. Há notícias de histórias antigas na África. conta Katia Canton. saindo mais feliz dessa experiência. na China. Esses elementos facilitam a memorização e tornam a narrativa apropriada à oralidade. explica Lilian Mangerona Corneta Rotta. especialista em contos de fadas pela Universidade de Nova York. no entanto.85 passam em um lugar distante — "muito longe daqui" — e têm personagens com nomes comuns ou apelidos. a fantasia ajuda a formar a personalidade e por isso não pode faltar na educação. como João e Chapeuzinho Vermelho. O personagem representa o desejo de vingança do mais fraco contra o mais forte". mães e pais são vivenciados na fantasia dos contos: o medo da rejeição é trabalhado em João e Maria. existem desde que o ser humano adquiriu a fala. Os pequenos se identificam com os heróis e experimentam diversas emoções. Ou seja. com a descoberta da prensa. Essa é a magia da fantasia".

Em A Polegarzinha. "As mudanças de enredo apaziguam as emoções que precisam ser vividas. O objetivo das moças ingênuas era encontrar um príncipe. Assim. Canibalismo e incesto. para crianças e adultos. "Todos os estudiosos do assunto afirmam que as crianças gostam de violência. por exemplo. e o Caçador não existe. que as histórias mudam de acordo com a cultura e a época. também era o casamento. "É importante criar esse universo de magia e curiosidade para facilitar o mergulho das crianças nas histórias. é possível usar e abusar de filmes que recontam A Bela e a Fera e O Patinho Feio. Assim que ela coloca o tapete no chão. diz Katia Canton. grandes crueldades também!" Leitura também para adolescentes No Instituto Educacional Stagium. Fazer paródias. como enfrentar o Lobo Mau.. Toda semana. Dedolina. sinaliza que é hora de a professora Maristela Aparecida Martins de Paiva contar histórias. Eles foram escritos em outra época e a criança consegue compreender isso. "Isso mostra como os contos serviam para instruir mais que divertir". como Chapeuzinho Vermelho. parece ser exatamente a sensação de viver por empréstimo grandes aventuras. como mostrado em A Bela Adormecida e Cinderela. lembra Katia. o medo e o castigo das narrativas é forte atualmente. o Lobo devora a Vovó e a própria Chapeuzinho. Ela explica. foram retirados de histórias antigas. professora da Universidade de Campinas. Clássicos são clássicos porque se perpetuam. Essa história tinha forte caráter moral na sociedade rural do século 17: camponesas não deviam andar sozinhas. um dos prazeres da arte. a turma senta ansiosa ao seu redor. Um critério é escolher livros traduzidos por um escritor conhecido. a professora mostra uma página e pede para as crianças adivinharem a . Não é saudável evitar que as crianças enfrentem os conflitos". Já garotas desobedientes. Aliás. a recompensa final da protagonista. em Diadema (SP). no entanto. com muito suspense. mas é preciso apresentar primeiro as obras que mais se aproximam dos originais. por exemplo.86 sociais para as crianças." A atividade é completada com a moldura mágica. A cada dia. de Andersen. Medo e morte devem fazer parte dos contos Por que histórias de reis e rainhas e de moçoilas à espera de um príncipe ainda fazem sentido hoje em dia? "Os contos são um patrimônio da humanidade. Um tapete mágico. afirma Mariúza. confeccionado com retalhos pelos próprios alunos. Especialistas afirmam que a tendência de retirar o mal. Na versão original de Chapeuzinho Vermelho. um livro é apresentado aos pequenos aos poucos. deparavam com situações dramáticas. grandes amores e.. e as obras infantis devem ser respeitadas como a literatura para adultos". A vida da menina foi poupada na versão dos irmãos Grimm. Para Marisa Lajolo. o mais importante é que pais e professores se sintam confortáveis ao contar uma história. os contos de fadas fazem parte das atividades diárias na Educação Infantil e são explorados com criatividade pelos professores. promover uma visão crítica dos temas tratados e indicar a época em que as novas versões foram escritas ajudam a garotada a refletir.

Os campeões são o Lobo Mau. 32 págs." Quais personagens mais marcaram a vida dos jovens? Os alunos respondem e justificam as escolhas com uma redação.87 história pela ilustração. É o primeiro livro escrito pelo autor dinamarquês. Mas é jogado em uma . tel. tradução de Heloisa Jahn. tel. o Soldadinho de Chumbo. alunos de 5ª a 8ª série também lêem os contos durante as aulas. ele faz um novo pedido e. passa a ajudar os pobres. esse tipo de leitura contribui para a formação de alunos leitores e críticos. Depois de perder tudo o que ganhou. 15. tel. Companhia das Letras. (11) 3707-3500. 54 reais OS TRÊS PORQUINHOS. tel... rico. Melhoramentos. 88 págs.. Na Escola Novos Caminhos. ele se apaixona por uma boneca bailarina. O Soldadinho de Chumbo (1838) O protagonista é um boneco de uma perna só. 120 págs. Ed. professora de Língua Portuguesa. Ed. pede para cada aluno levar um livro de casa e relembrar momentos de leitura com os pais. 15. em Santos (SP). (11) 3990-2100. tradução de Tatiana Belinky. Ed. Ed. Os contos de fadas não devem ficar restritos às séries iniciais. "Eles se emocionam e contam fatos significativos vividos em família e proporcionados pela leitura. 288 págs. Ada Priscila da Silva. Ática. (11) 3789-4000. Ed. tradução de Maria Heloisa Penteado. Só na sexta-feira Maristela lê a obra inteira.90 reais Os mais famosos contos de Andersen O Isqueiro Mágico (1835) Um soldado encontra um isqueiro mágico que realiza todos os seus desejos. Obras que não podem faltar na escola CONTOS DE PERRAULT. 16 págs. (11) 3874-0644 . tradução de Ana Maria Machado. Na adolescência. Os pais também participam do projeto: oficinas de leitura de histórias acontecem nas reuniões para que eles aprendam a proporcionar aos filhos esses momentos de magia. 38 reais OS CONTOS DE GRIMM.. Após passar por muitas aventuras nas mãos de crianças. Ática.90 reais HISTÓRIAS MARAVILHOSAS DE ANDERSEN. É um estímulo para os estudos de literatura. Paulus. 16 reais RAPUNZEL. tradução de Fernanda Lopes de Almeida.. Branca de Neve e Cinderela — os adolescentes traçam um paralelo com os políticos atuais e com as cobranças dos padrões sociais.

90 reais . para se aquecer. (11) 3337-8399. 29. tel. SP. 49. (11) 4056-8063 ESCOLA NOVOS CAMINHOS. Objetiva. tel. (21) 2556-7824. Quer saber mais? INSTITUTO EDUCACIONAL STAGIUM... 146 págs. A história não tem um final feliz. tel. Japão. Santos. É considerado um dos contos mais tristes da literatura infantil. um a um. (13) 3251-5174 Bibliografia A PSICANÁLISE DOS CONTOS DE FADAS. Trata-se do primeiro conto totalmente criado por Andersen. mas acaba acendendo todos. 29. Diadema. Paz e Terra. A Pequena Vendedora de Fósforos (1846) No último dia do ano. Senador Pinheiro Machado.50 reais COMO E POR QUE LER OS CLÁSSICOS UNIVERSAIS DESDE CEDO. Ed. tel. É a história que representa de maneira mais explícita a vida do autor. Av. 09910-200. uma menina perambula pelas ruas frias de uma cidade. A ilustração ao lado foi feita em 1847 por Vilhelm Pedersen. Ela tenta vender fósforos para se sustentar. 366 págs. O Patinho Feio (1843) Um pato feio e desengonçado é rejeitado pela família por ser diferente. Ana Maria Machado. SP.88 lareira junto com sua amada. 11075-000. Ele foge e descobre que é na verdade um belo cisne. Ed. R. 495. que ilustrou diversos contos de Andersen. Andersen se inspirou na infância da mãe para escrevê-lo. Bruno Bettelheim.

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