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Saude mental na atencao basica

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  • 3.1 Os antecedentes históricos
  • 3.1.1 Antecedentes históricos estrangeiros
  • 3.1.2 Antecedentes históricos brasileiros
  • 3. 2 A Reforma Psiquiátrica Brasileira
  • 5.1 Precursores estrangeiros e críticas
  • 5.2 Precursores Brasileiros
  • 5.3 Trabalhos atuais
  • 5.4 O ano de 2001: mudanças e diretrizes

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JULIO CESAR SILVEIRA GOMES PINTO

A SAÚDE MENTAL NA ATENÇÃO BÁSICA

MACAÉ 2004

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JULIO CESAR SILVEIRA GOMES PINTO

A SAÚDE MENTAL NA ATENÇÃO BÁSICA

Monografia apresentada à Universidade Estácio de Sá, no Curso de Pós Graduação em Saúde Pública (Macaé).

Aprovada em

Banca Examinadora:

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Dedico esta monografia às Agentes Comunitárias de Saúde

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AGRADECIMENTOS

A todos que, através do diálogo, do trabalho e da amizade, colaboraram para a minha atual compreensão do campo da Saúde Mental. À Equipe do Programa de Saúde Mental de Macaé, em especial às Coordenadoras de Equipes Josemarlen Gonçalves Carvalho Silva, Maria Luiza Vaccari Quaresma, Naly Soares de Almeida e Telma Auxiliadora Alves Ferreira Lobo, e a Paulo de Tarso de Castro Peixoto. À Equipe do Programa de Saúde da Família de Macaé, em especial a sua Coordenadora, Miriam Cristina Ribeiro Benjamin Franco Pacheco, a Cristina Albuquerque Cadinelli, Elizabeth Silveira Ferolla, Raquel Miguel Rodrigues, e ao médico de família Henrique Pazzini. Ao Dr Pedro Reis, Secretário de Saúde de Macaé durante a aproximação entre a Saúde Mental e o Programa de Saúde da Família. A Hugo Fagundes, Coordenador do Programa de Saúde Mental do Município do Rio de Janeiro. À Equipe da Assessoria de Saúde Mental da Secretaria de Estado de Saúde do Estado do Rio de Janeiro, a suas ex-coordenadoras Paula Cerqueira e Cristina Loyola, a Leila Vianna e Carlos Eduardo Honorato. A Mauricio Schneider. A Sandra Fortes. A Domingos Sávio. Aos Professores do curso, em especial a Ann Mary Machado Tinoco Feitosa Rosas, André Luis Toríbio Dantas, Gloria Michele e Jairo Luís Jacques da Matta. Aos colegas do curso, especialmente à colega e secretária do curso, Christiane Oliveira dos Santos. Um agradecimento especial às Agentes Comunitárias de Saúde, que trazem as formas mais criativas de lidar com os problemas da Saúde Mental. A Taísa Alves Torres, por sua ajuda na formatação do texto. A Norberto Bacelar Correia, pela ajuda na formatação e pelas cópias. À Professora Celita Aguiar Ribeiro, pela revisão. A Analúcia, Luisa e Clarice, pela paciência.

Mesmo o simples pensar e o simples falar quotidianos são já uma história. e não virão a ser nunca. contamos também histórias os poetas. poetas.5 “Que fazemos. contam-nas igualmente aqueles que não são.” José Saramago . dramaturgos ou romancistas. Contamos histórias os romancistas. os que escrevemos? Nada mais que contar histórias. contamos histórias os dramaturgos.

e também alguns possíveis entraves para a entrada das ações de Saúde Mental na Atenção Básica. . para inserir ações de cunho comunitário e participativo nas práticas diárias. relatórios de Conferências Nacionais. Foi dada atenção especial para: a tensão entre controle/transformação. Reforma Psiquiátrica. no questionamento da exclusão da loucura. Saúde Mental. as orientações da Organização Mundial da Saúde. em particular o dos Profissionais de Saúde Mental e dos Agentes Comunitários de Saúde. tendo como resultantes as ações em conjunto. pelas Equipes na Atenção Básica.6 RESUMO A presente monografia pesquisou como está acontecendo a entrada das ações de Saúde Mental nos Programas de Atenção Básica (Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS) e Programa de Saúde da Família (PSF)). a participação da população na organização das ações de saúde. Aspectos de financiamento das ações. na adoção. na possibilidade de romper a dicotomia mente/corpo. as diretrizes e documentos oficiais. saindo da exclusão para tomar o caminho da inclusão. de práticas individuais e grupais que dêem resposta à demanda motivada por sofrimento mental. as ações das Equipes de Saúde Mental na Atenção Básica. Têm destaque os conceitos de rede. junto ao PSF e ao PACS. com as respectivas origens e diretrizes atuais. Foi ressaltado o papel fundamental do Agente Comunitário de Saúde para as práticas da Saúde Mental na Atenção Básica. criação de indicadores e Capacitação em larga escala foram analisados . A experiência do autor da monografia. com referências bibliográficas nacionais e estrangeiras. com exemplos práticos e atuais. na área. Foi utilizada a metodologia de pesquisa qualitativa. Pretende-se que. Palavras chave: Atenção Básica. A monografia percorreu a história das mudanças de paradigma na abordagem ao sofrimento mental. É problematizado o papel dos profissionais de Saúde. portarias. com os possíveis modos de articulação e capacitação. território e responsabilidade. Para a compreensão do tema central da monografia. Foram examinadas algumas possibilidades de Capacitação. que aparece na Atenção Básica em número elevado. as práticas da Reforma Psiquiátrica sejam potencializadas e campo de capacitação seja aberto para profissionais e população. Foram estudadas a mudança do Modelo Assistencial em Saúde Mental e a estratégia de mudança do Modelo Assistencial que o PSF representa. foi mencionada. A importância das ações de Saúde Mental na Atenção Básica foi evidenciada: na descoberta de grande faixa de desassistência. na ajuda às Equipes da Atenção Básica para trabalhar seus problemas institucionais e seus sentimentos despertados pelo contato com a realidade das pessoas e comunidades. Foi evidenciada a necessidade de capacitação em dois planos: para que os profissionais de Saúde Mental conheçam as bases dos Programas de Atenção Básica e sua importância para a Saúde Mental e para que os profissionais da Atenção Básica incorporem conceitos e ações de Saúde Mental. trabalhos de autores com prática na área e os conceitos que formam a base do trabalho da Saúde Mental na Atenção Básica. e em especial no Estado do Rio de Janeiro. foram estudados os conceitos e práticas da Reforma Psiquiátrica e dos Programas de Atenção Básica. com as ações de Saúde Mental na Atenção Básica. fora do conhecimento dos dispositivos de Saúde Mental. no Brasil.

The methodology of qualitative research has been used. in the adoption. laws. The change of the Assistance Model in Mental Health and the change strategy of Assistance Model that PSF represents have been studied. Psychiatric Reform. in the inquiry of madness exclusion. For the understanding of the core theme of this monography. for the Teams in Primary Care. leaving the exclusion aside so as to take the road of inclusion. has been mentioned. the guidelines and official documents. creation of indicators and Training in wide scale have been analyzed. the concepts and practices of the Psychiatric Reform and Primary Care Programs have been studied. The Community Health Agent's fundamental role has been pointed out for the practices of the Mental Health in the Primary Care. that the practices of the Psychiatric Reform are boosted together with the opening of training fields for professionals and population. with national and foreign bibliographical references. Aspects of financing of the actions. having group-action as a result. The monography author's experience.7 ABSTRACT The present monography reports the research of how the input of Mental Health Action within the Primary Care Programs (Program of Health Community Agents (PACS in Brazil)) and Family Health Program (PSF in Brazil)). . Special attention was given to: the tension between control/transformation. the orientations of the World Health Organization. with the actions of Mental Health in Primary Care. with practical and upto-date examples. It is intended though. Key Words: Primary Care. which appears in Primary Care at high figures. to insert community-related and participation actions in the daily practices. The training need was evidenced in two scopes: so that the professionals of Mental Health get to know the bases of the Primary Care Programs and their importance to the Mental Health as well as the professionals of the Primary Care incorporate concepts and actions of Mental Health. Network concepts. works of authors with practice in the area and the concepts that form the work base of the Mental Health in Primary Care. the participation of the population in the organization of the health actions. The monography has gone through the history of the paradigm changes in the approach to mental suffering. The role of health professionals is problematized. the actions of the Mental Health Teams in Primary Care. The importance of the actions of Mental Health in Primary Care was evidenced: in the discovery of a large rate of lack of assistance. together with PSF and PACS. is taking place. Mental Health. of individual and group practices that throw light to the demand motivated by mental suffering. territory and responsibility have been highlighted. within the help to Primary Care Teams to work out their institutional problems and their feelings wakened up by the contact with the people and communities’ reality. with special regards in the State of Rio de Janeiro. and also some possible hindrances for the input of Mental Health actions in Primary Care were examined. with possible articulation modes and training. within the possibility to break the mind/body dichotomy. out of the knowledge of the Mental Health departments. in particular the Mental Health Professionals and Health Community Agents. with the respective origins and current guidelines. National Conferences reports. Some possibilities of Training. in the field.

8 LISTA DE SIGLAS ABP: Associação Brasileira de Psiquiatria ACS: Agente Comunitário de Saúde AIH: Autorização de Internação Hospitalar CAPS: Centro de Atenção Psicossocial CONASP: Conselho Consultivo da Administração de Saúde Previdenciária ESF: Equipe de Saúde da Família MS: Ministério da Saúde MTSM: Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental NAPS: Núcleo de Atenção Psicossocial OMS: Organização Mundial da Saúde OPAS: Organização Pan-americana da Saúde PACS: Programa de Agentes Comunitários de Saúde PSF: Programa de Saúde da Família SES-RJ: Secretaria de Estado de Saúde do Estado do Rio de Janeiro SIAB: Sistema de Informação da Atenção Básica SUS: Sistema Único de Saúde .

...204 .............118 O ano de 2001: mudanças e diretrizes ...3 5........... 3 .............1 5.109 Trabalhos atuais ..1 Antecedentes históricos estrangeiros .......... 2 ............. 6 ......................................................................33 3...4 Precursores estrangeiros e críticas ...............................................................15 3....................Os Programas de Atenção Básica no Brasil ...............................Metodologia ...2 5..........................................................................................................36 Cap......................15 3..................................................................................137 Cap......................................................................92 5................................. 1 ......................1............................13 Cap..9 SUMÁRIO Cap........Considerações Finais .................................................................2 A Reforma Psiquiátrica Brasileira........10 Cap...77 Cap........................................................188 Referências Bibliográficas ..........92 Precursores brasileiros .Considerações Iniciais ..16 3............................................1..... 4 ...................................................A Reforma Psiquiátrica .....................................1 Os antecedentes históricos ...........................2 Antecedentes históricos brasileiros .........................................A Saúde Mental na Atenção Básica ... 5 .......................

o resultado da entrada da Saúde Mental na Atenção Básica poderá ser a quebra da dicotomia mente/corpo na abordagem do ser humano. com especial atenção para o Estado do Rio de Janeiro. A inclusão dos campos psíquico e social no trabalho diário da Atenção à Saúde deverá fazer parte do questionamento da exclusão da loucura e da possível mudança de atitude da sociedade. no Brasil. através de levantamento bibliográfico. e os Programas de Saúde da Família e de Agentes Comunitários de Saúde. que serão estudados. redução dos custos para o Sistema de Saúde. de um lado. por momentos. Para atingir o que pretendemos e situar corretamente a questão. Para os profissionais de Saúde em geral e para os profissionais de Saúde Mental. como está acontecendo a entrada das ações de Saúde Mental na Atenção Básica. Na ocasião. A escolha do tema desta monografia está ligada à minha experiência na Saúde Mental. Atenção especial deve ser dada para o aspecto de campo de capacitação e pesquisa que o trabalho de Saúde Mental na Atenção Básica abre. tradicional. com incidência em profissionais de Saúde Mental. uma equipe da qual fiz parte saiu. promoção das condições de vida e de saúde e maior organização das comunidades. podemos supor que a articulação desses dois modos de compreender o campo da Saúde pode ter como resultados avanços na assistência. universitário. Logo após. com inclusão também dos aspectos sociais na determinação dos problemas de saúde e nas suas soluções. tive a percepção da premência das mudanças.10 CAPÍTULO 1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS A presente monografia tem como objetivo pesquisar. que serão explicitados ao longo do texto. investigaremos a seqüência de textos e acontecimentos que estão levando às comunidades as ações de Saúde Mental. profissionais de Saúde em geral e comunidade. Por artes do acaso e da necessidade. críticas e problemas. vamos estudar as duas vertentes que estão se encontrando nas ações da Saúde Mental na Atenção Básica: a Reforma Psiquiátrica. Considerando que tanto a Reforma Psiquiátrica como os Programas de Saúde da Família e de Agentes Comunitários de Saúde têm diversos pontos em comum. do isolamento do Hospital e . A compreensão deverá evoluir para um enfoque global. Comecei a prática na área num Hospital Psiquiátrico Público. A inserção de ações de Saúde Mental na Atenção Básica traz consigo potencialidades. de outro. naquela época. em relação a esse fenômeno humano.

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realizou uma Visita Domiciliar. O efeito da visão da realidade concreta da vida da pessoa assistida provocou em mim a compreensão de que apenas incidindo na família e na comunidade, poderíamos ter uma prática efetivamente transformadora. Anos depois pude começar a agir além dos muros dos Hospícios e das salas dos ambulatórios, entrando na vida concreta das famílias e comunidades. Portanto, esta monografia traz, a partir de certo ponto, relatos e trabalhos relativos à minha atuação na área, que dura até hoje. Para a história da Reforma Psiquiátrica, partiremos dos autores estrangeiros que a influenciaram com textos e ações, sempre com atenção ao que deixaram de pistas para as práticas com as comunidades. Os movimentos questionadores da internação psiquiátrica enquanto instrumento de exclusão e encobrimento da realidade social e psíquica, ou mesmo como uma forma pouco cientifica de tratamento, serão revisados e comentados. Foi dada especial atenção aos textos de Michel Foucault e aos textos e práticas da Antipsiquiatria inglesa e da Psiquiatria Democrática italiana. Foucault nos fornece as bases para a compreensão da crise dos saberes articulados em estratégias de poder. Ronald Laing e David Cooper, na Inglaterra, radicalizaram a aproximação com a loucura, deixando elementos para importantes e atuais reflexões. A influência de Franco Basaglia e de outros italianos, decisiva para a Reforma Psiquiátrica Brasileira, será registrada tanto com observações a respeito de seus trabalhos na Itália, como nas intervenções no Brasil. Em Gilles Deleuze e Felix Guattari vamos encontrar o estímulo para a procura de ações que, ao questionar as centralizações, percorram caminhos potencializadores da singularidade e da coletividade. Pretendi observar algo a respeito da gênese do pensamento crítico que, no Brasil, após o aparecimento de um movimento contestador, organizado por profissionais de Saúde Mental, chegou à Reforma Psiquiátrica. Vamos, então, lembrar Ulysses Pernambucano, Luiz da Rocha Cerqueira e Nise da Silveira, com suas propostas de uma psiquiatria sem segregação. A crise do Modelo Assistencial baseado no complexo hospitalar, correspondente à crise de financiamento do Setor Saúde, ao lado do processo de abertura política, favoreceu a entrada do movimento de renovação em Saúde Mental no aparelho do Estado. Essa etapa será observada, no texto, com detalhes e com citação de autores que a pesquisaram. Serão abordados e detalhados alguns conceitos que norteiam as ações da Reforma Psiquiátrica no Brasil, como, por exemplo, desinstitucionalização, rede, território, responsabilidade.

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A progressiva adoção, pelos órgãos Federais, Estaduais e Municipais, das propostas e práticas da Reforma Psiquiátrica será acompanhada, com destaque para as resoluções de Encontros e Conferências e para acontecimentos que determinaram avanços. Em todo relato, o foco estará voltado para a evolução das propostas de inserção das ações de Saúde Mental na Atenção Básica. Para um estudo a respeito de como surgiu a estratégia dos Programas de Saúde da Família e de Agentes Comunitários de Saúde, serão pesquisados documentos internacionais que orientam a mudança do Modelo Assistencial, textos de autores nacionais e documentos oficiais norteadores do processo que será descrito. Para chegar a compreender o que hoje está sendo praticado como Saúde Mental na Atenção Básica, também recorreremos às origens internacionais, passaremos pelas propostas e críticas iniciais ao trabalho nas comunidades, chegando aos dias de hoje com citação de conclusões de Fóruns e Conferências, documentos oficiais, trabalhos atuais e resumo da minha experiência. Será dada atenção aos resultados que já têm sido relatados em termos de assistência e de mudanças na atitude das Equipes de Saúde Mental e dos Programas da Atenção Básica, em relação ao trabalho com Saúde Mental nas comunidades. Será dado particular destaque para o repertório de ações de Saúde Mental que estão sendo praticadas na Atenção Básica, em diversos trabalhos em andamento no Brasil, com o interesse centrado nas atribuições das Equipes de Saúde Mental, do Programa de Saúde da Família e de Agentes Comunitários de Saúde e suas necessidades de Capacitação. O conflito entre controle e transformação está presente nas ações de Saúde Mental na comunidade e é objeto de interesse na presente monografia. É mantida a postura de análise crítica em relação aos textos e documentos pesquisados, com atenção especial para os aspectos controladores das intervenções estatais em Saúde. Por outro lado, a potencialidade mobilizadora das ações de Saúde, em particular as da Saúde Mental, terá tratamento constante no texto. Serão registradas as dificuldades que podem estar causando obstáculo ao mais rápido desenvolvimento da entrada das ações de Saúde Mental na Atenção Básica, e avaliadas as ações que a estimulam.

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CAPÍTULO 2

METODOLOGIA

A Metodologia utilizada para a realização desta monografia foi a da “Pesquisa Qualitativa”. (Cf. MINAYO, 2003). Segundo esta autora, o campo da Saúde está inserido em outro maior, o das Ciências Sociais. (Cf. MINAYO, 1992). Justificando a sua afirmação, a autora citada diz que “[...] a saúde não institui nem uma disciplina nem um campo separado das outras instâncias da realidade social” (MINAYO, 1992, p. 13). Como uma das conseqüências, a metodologia para a pesquisa em Saúde estará “[...] submetida às mesmas vicissitudes, avanços, recuos, interrogações e perspectivas da totalidade sociológica da qual faz parte” (MINAYO, 1992, p. 13). Minayo (Cf. MINAYO, 1992) interroga-se e decide por não fugir ao desafio, se é possível “[...] tratarmos de uma realidade da qual nós próprios, enquanto seres humanos, somos agentes” (MINAYO, 2003, p. 11). Tomando o princípio de que “O objeto das Ciências Sociais é histórico” (MINAYO, 2003, p. 13, grifo da autora), a autora afirma que “O nível de consciência histórica das Ciências Sociais está referenciado ao nível de consciência histórica social” (MINAYO, 2003, p. 14). Sendo o pesquisador parte integrante do campo pesquisado, não há a intenção de fazer ciência neutra. A autora diz mesmo que “Na investigação social, a relação entre o pesquisador e seu campo de estudo se estabelecem definitivamente” (MINAYO, 2003, p. 14). A autora cita Lévi-Strauss para ilustrar a sua argumentação: “Numa ciência, onde o observador é da mesma natureza que o objeto, o observador, ele mesmo, é uma parte de sua observação” (MINAYO, 2003, p. 14). A Pesquisa Qualitativa, segundo Minayo,

[...] se preocupa, nas ciências sociais, com um nível de realidade que não pode ser quantificado. Ou seja, ela trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis” (MINAYO, 2003, p. 21).

Para a autora que vem sendo citada, não há oposição entre dados quantitativos e qualitativos, mas complementariedade. (Cf. MINAYO, 2003). Enquanto as pesquisas que

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[...] trabalham com estatísticas apreendem dos fenômenos apenas a região ‘visível, ecológica, morfológica e concreta’, a abordagem qualitativa aprofunda-se no mundo dos significados das ações e relações humanas, um lado não perceptível e não captável em equações, médias e estatísticas (MINAYO, 2003, p. 22).

Para a realização da presente monografia, foram utilizados 42 livros; 4 textos “mimeografados”; 3 trabalhos publicados em anais de Simpósios, Encontros, Congressos; 5 Relatórios de Conferências, Encontros, Simpósios; 21 documentos oficiais do Ministério da Saúde; 32 trabalhos publicados em livros; 30 textos obtidos na Internet; um trabalho incluído em publicação do Ministério da Saúde; 3 trabalhos publicados em Revistas Científicas; 2 teses de doutorado; uma dissertação de mestrado; uma publicação de programa institucional de saúde; 2 documentos oficiais de instâncias oficiais de Saúde do Estado do Rio de Janeiro; um texto cedido diretamente pelo autor; 2 palestras e um trabalho apresentado em congresso.

passando pela depositação comum com delinqüentes e rejeitados de todo tipo. Trata-se de matéria da maior importância determinar os parâmetros dessa ruptura e suas conseqüências práticas no . 1995.15 CAPÍTULO 3 A REFORMA PSIQUIÁTRICA NO BRASIL 3. p. Itália). ao contrário das tentativas anteriores de “[. 1978). também isolou aqueles que a ciência ou o senso comum assim o determinava. as tentativas de mudança de um aparelho destruidor que se propunha terapêutico. caminham no sentido de uma ruptura. AMARANTE.]” (Franco Basaglia. citando Joel Birman e Jurandir Freire Costa.] a antipsiquiatria [. com a intenção de tornar terapêutico esse ambiente. Prevenir e promover a saúde mental.. O Estado. O segundo momento foi quando a psiquiatria pretendeu ampliar seus domínios. a internação psiquiátrica como terapêutica e o Hospital Psiquiátrico como o lugar de práticas curativas.. na Inglaterra e Estados Unidos e a Psicoterapia Institucional Francesa.. conforme acima. no Brasil. Durante séculos. Segundo Amarante (1995. 22).] meras reformas do modelo psiquiátrico [. ainda. são as Comunidades Terapêuticas. p. chegamos à organização dos Hospitais Psiquiátricos.... que se deu. desde o Império. Os exemplos dessas tentativas. sem questionar seus princípios segregadores. dentro dos marcos da adaptação social. Do barco que vagava pelo Mediterrâneo lotado de seres humanos indesejáveis (Cf. a forma de lidar com a loucura. 21).. existiram dois momentos importantes.] psiquiatria na tradição basagliana [. mas ainda mantendo-se como preponderante. saindo do Hospício para a comunidade..1 Os antecedentes históricos.. radical ameaça à Razão. Importante para nós é a critica da entrada inicial da saúde mental na comunidade. numa tentativa de modernização da psiquiatria. O primeiro tinha a pretensão de melhorar o funcionamento organizacional do Hospício. chama a atenção para o fato de que.. quando a psiquiatria tentou a renovação.]”. Com isso afirmava.]” (Laing e Cooper. “[.. foi a exclusão.. Das sucessivas crises desse sistema surgiram. no século XX. FOUCAULT. Inglaterra) e a “[. p. segundo os autores citados por Amarante (Cf. sem a participação efetiva de outros saberes e sem a crítica política que pudesse observar as implicações sociais dessas práticas. foram as intenções da Psiquiatria de Setor na Franca e da Psiquiatria Comunitária e Preventiva nos EUA. Amarante (1995. 22). segundo o texto citado.

D. A Psicoterapia Institucional supunha que um Hospital Psiquiátrico “tratado”. Por outro lado. estamos querendo observar. p. Editora Vozes. mantinha a internação psiquiátrica como um instrumento válido. no Hospital Saint-Albain. devido às condições que encontrou no hospício em meio à guerra e. ao mesmo tempo. hoje. No texto de apresentação do livro “Los Crímenes de la Paz” (BASAGLIA & BASAGLIA. durante a II Grande Guerra Mundial. isto é. poderia se tornar um ambiente terapêutico. Editorial Paidos. R. Nesse resumo estão tanto aqueles movimentos que. São Paulo e “O Eu Dividido”. D. segundo o texto de Paulo Amarante.1 Antecedentes históricos estrangeiros. então.1.16 momento em que. de autores estrangeiros. Veremos a seguir. Martins Fontes. criticandoos como instrumentos de alienação e dominação. Buenos Aires. Cooper. técnicos e internados) participando de uma estrutura coletiva de desvendamento do mal que as relações institucionais. : “Psiquiatria y Antipsiquiatria”. alguma das mais importantes raízes históricas. resistir ao nazismo. tentaram mudar a realidade da assistência psiquiátrica sem que o principal fosse tocado (Comunidades Terapêuticas e Psicoterapia Institucional). visto que tinha que salvar pacientes da morte. Petrópolis. O trabalho de Tosquelles revestiu-se de tons dramáticos. Levaram à prática seus questionamentos e deixaram importantes e emocionados relatos sobre o que fizeram. como aqueles que foram mais longe (Antipsiquiatrias e a Psiquiatria Democrática Italiana de Franco Basaglia e seus colegas). o movimento que se formou por inspiração da Psicoterapia Institucional aponta para a necessidade da constante transformação institucional na área da Saúde Mental como condição básica para o funcionamento de dispositivos que estejam a serviço das pessoas atendidas. para designar o trabalho iniciado por François Tosquelles. 32) o termo “psicoterapia institucional” foi uma denominação dada posteriormente.: “A Política da Família”. funcionários. 1973). 1974 e Laing. Também faremos referência a Foucault. 1977 b) . Segundo Amarante (1995. avaliar e praticar as ações de saúde mental nas comunidades. que fundamentaram a Reforma Psiquiátrica Brasileira. 3. com sua aguda observação a respeito dos Poderes e suas artimanhas. Franco e Franca Basaglia resumem muito claramente a diferença e a . Laing e Cooper pretenderam questionar o saber psiquiátrico e psicológico. interpessoais e intergrupais podem causar. com todos os seus habitantes (direção. Dessa forma. (Cf.

não só a prática basagliana. sem conseguir. No diálogo entre Basaglia e Laing. poderá ser deixada de lado a pesquisa e a clínica da loucura. para seus projetos de convivência direta com os ditos “pacientes”. Por isso. O texto citado é exemplar. Já é hora. atrelado que ficaria ao movimento político e suas contingências. a investigue. também. na medida em que define com precisão. mas marcando bem qual a atenção principal que tinham os dois grupos. así como nosotros tendemos a privilegiar. O tempo passou e já quase trinta anos nos separam do texto citado. A tendência. Laing e seus amigos fundaram. nesse caso. 1977 b. então. em relação ao que fazia Ronald Laing. com mobilização dos diversos atores da cena. base organizacional que mantinha casas onde estudantes e profissionais de saúde mental e de outras áreas moravam com pessoas diagnosticadas de esquizofrenia. Mesmo advertido por Basaglia de que não existe um “fora do sistema”. iludindo o social e o político. Um dos desafios colocados para nós é abordar com uma prática integradora os chamados “transtornos mentais graves”. acolha. Abordagem que ao mesmo tempo se aproxime da loucura. Partiu. os autores apontam para uma necessária não exclusão dos dois planos em jogo. fazer uma leitura do texto que nos permite ver uma advertência quanto a tomar como “principal” um dos lados da questão: o social/político ou o subjetivo. tomou. p. el de la trasformación social (BASAGLIA & BASAGLIA. Laing relata que. Caso o privilégio recaia sobre o subjetivo. Podemos. denominação atual para a loucura. com todo o desafio humano que representa. este defende sua posição de não mais trabalhar dentro de instituições estatais. percebeu que levaria a vida toda tentando. que é o fenômeno humano de base. Dizem eles que La práctica y la teoría de Laing tienden a enfocar y a privilegiar – si bien manteniendo presentes los otros planos del discurso – el momento de la trasformación subjetiva. mas também o caminho que o ramo das chamadas antipsiquiatrias (Laing rejeitava o termo) representada. a queda na exaltação da loucura e sua romantização são um caminho no qual a alienação passa a ser compartilhada entre “terapeutas” e “pacientes”. em Londres. aqui. portanto. sem que houvesse ali uma relação tradicional . “trate” e a questione como produção psíquica e também traga toda a complexidade social e política envolvida. si bien manteniendo presentes los otros planos del discurso. Tomando como principal o social/político e sua transformação. por Laing. no livro “Los Crímenes de la Paz”. após dez anos de tentativas de mudanças institucionais.17 pretendida complementariedade dos trabalhos que desenvolviam. na época. a Philadelphia Association. é a burocratização dos trabalhos. 68). de uma prática que não estabeleça privilégios na abordagem à loucura.

Um dos livros de maior importância de Cooper é “Psiquiatria e Antipsiquiatria” (Cf. a “[. De acordo com Foucault. As pessoas diagnosticadas faziam seus tratamentos com outros profissionais que não os que moravam na casa.. p. de tutela de quien vive una experiencia “diferente”.. 1993. ajudar financeiramente os doentes mentais e promover a formação daqueles que se interessavam pela nova concepção de doença mental” (Cf. 127). potente instrumento de atuação em Saúde Mental que está presente nos Centros de Atenção Psicossocial. Como podemos ver. de protección. No texto que se segue ao debate com Laing.. Essa estratégia visava a fugir do ataque das leis. que seriam manipuladas por aqueles a quem a experiência certamente incomodou.77). Cooper — Explicitou a semelhança de origem e de métodos entre a violência da família. Dizem os autores que Laing replantea [.. nas famílias de esquizofrênicos. Foucault (1993) define esta forma de lidar com os Poderes.. Franco e Franca Basaglia apontam um detalhe de importância para as nossas atuais discussões. Marx e Sartre). bem como sua prevenção. descobriu. mostrando a atualidade do trabalho de Laing. como o “[. organizando em conjunto novas formas de viver. esses são. Encontramos essa defesa de um “direito de asilo” também nos italianos. do qual apresento um resumo. nos Lares Abrigados e até mesmo nos ambulatórios e atendimentos particulares. 127). Mais ainda veremos essa atualidade. nas Oficinas Terapêuticas. O objetivo desse instrumento foi “investigar as causas da doença mental. Un lugar donde el diferente pueda expresarse sin limitaciones y donde se aprenda a convivir con él (BASAGLIA & BASAGLIA. 1993. p. (FOUCAULT. COOPER. se observarmos que sua prática direta com pessoas diagnosticadas.] estabelecimento de um local privilegiado onde eles devam ser suspensos ou rechaçados no caso de se reconstituírem” (FOUCAULT. 1977 b.] balizá-los um por um e destruí-los progressivamente. a qual Laing tentou. o trabalho de David Cooper se propôs. MARQUES PINTO). da escola e da psiquiatria. enquanto modo de lidar com os Poderes do campo das práticas da psiquiatria. Nessa obra. que leva à eclosão de psicose em um dos seus membros. na Atenção Básica. p. partes importantes dos objetivos dos nossos novos dispositivos de saúde mental. um padrão constante de “estranhamento” nas relações.] la formación de un ‘asilo’que responda – fuera de cualquier burocracia organizativa e institucional – a la necesidad de reparación. . enquanto produtoras de alienação. no interior de uma instituição de tipo clássico”.18 terapeuta/paciente. 1974). — Utilizando o conceito de Alienação (Hegel. deu pistas para a teoria e prática do Acompanhante Terapêutico.. hoje.

a grupos terapêuticos interpretativos. pelo contrário. Entre nós. igualando as pessoas que. — Iniciou a experiência dos lares protegidos. Sua função é manter a ordem . as terapias alternativas. mas como um ‘ conjunto de pautas de interação pessoal’. 24). a psicologia. durante a internação. tenta encontrar uma causa comum para a sua suposta “doença mental”.19 — Observou a melhora no padrão de relacionamento de esquizofrênicos. — Treinou pessoas para a função que denominou de terapeutas sociais. doença. como forma de atender psicóticos. — Criticou a tendência. — Após explorar os “limites de mudança possível dentro do hospital psiquiátrico”. p. desvinculadas da realidade dos pacientes. quando estes freqüentavam grupos. — Criticou radicalmente a psiquiatria clássica organicista enquanto teoria que. médico. trata-se só de que você está doente”. — Postulou que a esquizofrenia seria um dos aspectos da nossa necessidade de fragmentação e posterior unificação. no seu modo de ver. levando a um progressivo questionamento de todos os papéis estereotipados na instituição: paciente. consiste num problema mais amplo que o da repressão das instituições psiquiátricas. — Atacou as bases pouco críticas das Comunidades Terapêuticas. tendo o Marxismo como fundamento. a “Vila 21”. e a experiência foi interrompida. em relação às buscas por um gen que seria a “causa” da esquizofrenia ou de outros distúrbios. as prisões. A prática inicial de Cooper foi dentro de um hospital psiquiátrico. A visão crítica e política de Cooper tornou-se acentuada. Cooper também partiu. os tribunais. — Criticou as Terapias Ocupacionais alienantes. fora do contexto institucional psiquiátrico. Dentro dessa psicotecnologia Cooper enquadrava. — Preferiu atividades que desmistificassem os papéis envolvidos na atribuição de esquizofrenia a uma pessoa. Os marcos institucionais da época suportaram durante pouco tempo a contestação resultante da tomada da palavra pelos pacientes. (Laing também compreendia assim). das fantasias e preconceitos a respeito da loucura. a psicanálise. tratar. naquele momento. o militarismo. ao que chamou de psico-tecnologia que. inclusive pacientes. não como uma entidade nosológica. a mídia. 1998. como Laing. enfermeiro. — Abordou a esquizofrenia. propôs a criação de unidades pequenas. Estendeu a crítica à psiquiatria. na década de 60. onde estabeleceu uma pequena comunidade. Esta mesma crítica deve-se fazer hoje. além da psiquiatria. — Estabeleceu que o ponto central da organização do trabalho alternativo de atendimento a psicóticos deve ser a elaboração. dizendo que este fato incrementaria a noção de doença mental. a favor do “status quo”. têm sofrimentos diversos e singulares. de uma base filosófica Humanista – Existencial para mover suas críticas à psiquiatria. terapeuta ocupacional. pela equipe. de colocar enfermarias psiquiátricas em Hospitais Gerais. são os hoje chamados Acompanhantes Terapêuticos (PINTO. como se disséssemos às pessoas: “Você não pode estar realmente sentindo isso. onde as relações interpessoais eram analisadas e não repetiam os modos alienados da família e da sociedade.

Relata o aparecimento da “Rede Internacional Alternativas para a Psiquiatria”. com o objetivo de “[... O relato de Cooper. Cooper define “não-psiquiatria” como o desenvolvimento de ações “contra e para além do poder médico. é importante para que tenhamos a dimensão do que estava . Portugal. hoje.] produzir na comunidade um contexto em que as pessoas pudessem viver situações críticas das suas vidas sem que o processo de mudança fosse impedido pela habitual invalidação psiquiátrica [. Deste modo. Cooper faz um importante apanhado do que havia. de movimentos e grupamentos em luta contra a psiquiatria oficial e em busca de alternativas. sentiu que havia um limite para a sua atuação transformadora dentro das instituições. 1979. mas apontando para a necessidade de uma revolução social.. 1978. define “antipsiquiatria” como “[. além de trabalhar com a transformação de hospitais psiquiátricos. Na fase institucional. Cooper diz que foi infeliz ao criar o termo “antipsiquiatria”.20 estabelecida iludindo. 1979. p. fez uma reunião no Brasil. publicado na Inglaterra em 1978 e acrescido de material de um artigo que saiu na Itália em 1975. Alemanha Ocidental. não “[. Cooper fez sua definição política no sentido do marxismo. e que. como campo de mudanças no qual a loucura poderia ser questionada e ter seu destino mudado de alienação para libertação. que depois. 127). Suíça. chamou a atenção para a necessidade da psiquiatria de setor. como “comunidades fora do sistema hospitalar”. Interessante para nós. na época..]” (COOPER. 124). sujeito que foi a muitas distorções. 1979. entre nós.. prendendo. 1979. já que ele e seus colegas estavam “isolados nos contextos nacionais de trabalho” (COOPER. no momento em que escreveu o texto que está sendo citado por último. nos CAPS. então nascente. Bélgica. e cujas vítimas são predominantemente da classe operária” (COOPER. do Livro “A Linguagem da Loucura”. que conduzem à recuperação-ganho social da loucura como parte da cultura do povo. distraindo. Porém. mistificando de acordo com local e necessidade.. p. COOPER. Espanha. Lares Abrigados.] uma ação sistemática contra a repressão psiquiátrica dentro da estrutura estatal da psiquiatria.] havia consciência coletiva da necessidade de envolvimento político”. em Belo Horizonte. semelhante ao que acima está citado de Laing. além dos ensinamentos históricos. Fala de trabalhos na França. Itália. Oficinas Terapêuticas e comunidades. No capítulo “A Invenção da não-psiquiatria”. até mesmo de forma bastante dogmática. p. 1979).. (Cf. é acompanhar a seqüência de acontecimentos que Cooper descreve na sua trajetória.. Cita experiências que se assemelham ao que hoje tem sido tentado. além da própria Inglaterra. 141). como parte de uma subversão mais total do espírito burguês” (COOPER. em 1982. p. Cooper. 128). EUA. mais do que a política. e partiu para “dentro da comunidade”.

A colocação em debate do ambiente hospitalar. p. 149). 1979. e depois noutros bairros da cidade (COOPER. no sentido de “sensibilizar a comunidade para a possibilidade de usar os seus próprios recursos naturais humanos. mas não sem a importante advertência de que o Setor poderia criar os “asilos familiares por meio da injeção neuroléptica de ação prolongada” (COOPER. Cooper falava do trabalho no Setor.. nos seus mínimos detalhes. sem a crítica política constante. Com suas visitas ao Brasil pôde. isto é. diz que um dos trabalhos viáveis naquele momento seria uma ação com os “dissidentes”. p. A ênfase em todos os trabalhos citados por Cooper é o da criação de redes sociais que escapem à captura pelo sistema tradicional de transcrição de acontecimentos de determinação política em fatos psicopatológicos. ao lado de explicitar em nome de que estavam organizados: da repressão às classes dominadas. cairá na lógica da disciplina ou do controle. . procurando resumir o que estava pensando na época. demonstrar o absurdo dos hospitais psiquiátricos. Ao mesmo tempo podemos ler nas suas palavras algo muito semelhante a Basaglia. foi a marca histórica do trabalho de Basaglia. Depois surge outro problema e forma-se outra rede. a fim de procederem a uma autogestão desprofissionalizada não-médica da sua loucura e ‘problema afetivos’” (COOPER.21 ocorrendo no mundo. p. de modo que se tornem criatividade e espontaneidade numa sociedade transformada (COOPER. modelo Francês. deixamos a seguinte citação: A loucura é uma propriedade social comum que nos foi roubada. Cooper. 1979. Exemplo dessa posição é o seguinte trecho: O problema pessoal é visto no contexto das contradições políticas que ele encarna. como a realidade dos sonhos e das nossas mortes: temos que recuperar politicamente estas coisas. 149). 140). em comparação ao que acontecia no Brasil na época. a atualidade do que dizia Cooper. mais uma vez. por maior que sejam as eternas boas intenções. 12). p.]” (BASAGLIA & BASAGLIA 1977 b). Concluindo esse esboço da obra de Cooper.. com a clareza que lhe era própria. Franco Basaglia tem uma participação fundamental na história da Reforma Psiquiátrica Brasileira. Note-se. e dá-se uma sobreposição de redes que são mantidas como focos autogestores de educação política nesse bairro. 1979. Aqui. com o lema “crear condiciones para permitir aflorar las necessidades reales de los usuarios del servicio [. todo e qualquer dispositivo de Saúde Mental. está apontado o rumo e os perigos dos trabalhos com a comunidade. loucos e profissionais. 1979.

já que. F.Relato de um hospital Psiquiátrico". não deixa de estar presente e produzindo efeitos. Mario Tommasini mostra a direção política do trabalho italiano em Saúde Mental. BASAGLIA. F. Basaglia. en Parma como en todo nuestro país. 1977 a. de los enfermeros y de los trabajadores en febrero de 1969 tenía el objetivo de denunciar la realidad del manicomio. Edições Graal. 1977). 1977 a). F.: "A Instituição Negada . Mario Tommasini adianta o percurso que tomou Basaglia no sentido de politizar a discussão em Saúde em geral e em Saúde Mental em particular. Basaglia mostra que a psiquiatra.): “Los Crímenes de la Paz”. Madrid. 10). Apontando o caminho que a mudança no modo de organizar os sistemas de saúde deveriam tomar. Pretendeu revelar que o campo da saúde mental é eminentemente político. (org. F. para convertirse también en instrumentos de liberación del hombre oprimido (BASAGLIA. 1977 a. Isto é. F. Basaglia colocou os direitos da cidadania como pedra fundamental para as práticas em Saúde Mental. Aqui.: “Qué es la Psiquiatria?”. 9).: “A Psiquiatria Alternativa: Contra o Pessimismo da Razão. ao descrever o início das contestações do asilo psiquiátrico. Ed. Brasil Debates. 1985. No prólogo do livro “Qué es la Psiquiatria?” (Cf. sem o qual o risco permanente de estarmos a serviço das forças da alienação não pode ser criticado. No livro citado. Diz ele que La ocupación del Hospital Psiquiátrico Provincial por parte de los estudiantes de la Facultad de Medicina. Editorial Labor. que a psiquiatria sempre esteve a serviço dos poderes dominantes. tornar explícita a dimensão política envolvida em cada ação e instituição de saúde. & Basaglia. Basaglia. até então. Basaglia. p. com sua articulação entre as práticas de Saúde Mental e a política. São Paulo. (Cf. Recortando um aspecto do homem . o Otimismo da Prática”. só havia proposto soluções negativas para o problema do sofrimento mental. Esse desvelamento tornou-se fator básico para os avanços. mesmo quando esse aspecto não está claro e sendo discutido. Siglo Veintiuno Editores. O. p. é ainda o autor do prólogo que ressalta que las unidades locales de los servicios sanitarios y sociales tienen que ser nuevos órganos de gestión democrática y de lucha. Basaglia. México.22 Franco Basaglia mostrou. de afirmar la necesidad de que las instituciones democráticas se responsabilizaran de una transformación radical en las estructuras asistenciales y de incidir en la conciencia y en la cultura de la población de nuestra provincia (BASAGLIA. Rio de Janeiro.1982.1977.

p 20. a psiquiatria tornou-se parte do aparelho de exclusão. 1977 a. Pretendendo chamar a atenção para o fato de que o problema da Saúde Mental é muito mais amplo do que a mera criação de novos “serviços”. 1977 a. (BASAGLIA. ao assinalar . que o trabalho deve ter os dois aspectos: o científico e o político. também. o sofrimento. lamentava que na França e na Inglaterra já existiam experiências consolidadas de transformação do tratamento psiquiátrico. 21). podremos evitar la edificación de una nueva ideología: la del hospital abierto. grifo do autor). o que Basaglia diz é que não há “soluções” definitivas em Saúde Mental. propuestas como solución al problema del enfermo mental. (Cf. afastados da vida concreta das pessoas. p. 1977 a. diz Basaglia: Por el contrario. que a sociedade seja provocada a se colocar a mesma questão: o que é o sofrimento mental? Quem são as pessoas que sofrem? Quais as condições sociais que favorecem a saúde mental e as que a prejudicam? Curioso e instrutivo é acompanhar a evolução do trabalho de Basaglia. BASAGLIA. na Inglaterra. que desenvolveu um esboço de comunidade terapêutica. Ao ter essa função. p. se siente la exigencia de una psiquiatría que quiera constantemente verificar su validez en la realidad y que encuentre en la realidad los elementos de discusión para discutirse a si misma (BASAGLIA. atingindo a discussão da forma como se organiza toda a sociedade. a psiquiatria se incumbia de escamotear as contradições sociais que produzem as injustiças. a lançar a discussão e as ações na direção da vida concreta das pessoas envolvidas. cada vez mais. o trabalho de Conolly. mas sim mudanças nas práticas que levam. como em “La liberdad comunitaria como alternativa a la regresión institucional” (em “Qui es la psiquiatria”). reduzindo toda a complexidade da vida a dados psicopatológicos. Nos seus escritos iniciais.23 que sofre. Basaglia diz que sólo teniendo presente la extrema ambigüedad de la situación que estamos viviendo. de las comunidades terapéuticas. Chamando de “literatura” a tendência da psiquiatria de apenas descrever os fenômenos psicopatológicos. a miséria. Ao propor as mudanças. 27) Cita. E. como exemplo de que a liberdade como base do tratamento não é nenhuma novidade. Adverte. também. enquanto na Itália havia muita dificuldade. Transportando para os nossos dias. Basaglia. em 1838. rechazando tanto la estéril “literatura” psiquiátrica como la estéril relación puramente humanitaria. Basaglia adverte para um perigo: o de cairmos num humanitarismo que também estaria impedindo as transformações.

em todas as suas formas de apresentação e entre todos os envolvidos: pacientes. 1977 a. Aos enfermeiros. p 29). Basaglia chama a atenção para a reunião comunitária diária que. Basaglia dizia que as contradições são uma base definitiva do trabalho. por lo tanto. p. Passaram. etc. funcionários de nível superior. Com entrada em atividade da estrutura de decisão e funcionamento tipo Comunidade Terapêutica. demais funcionários. é requerida mais claramente a função de vigilância. A organização de uma estrutura de reuniões comunitárias. 1977 a. Note-se que esse preceito para uma transformação da realidade institucional dos hospícios foi intensamente desenvolvido no Brasil e agora norteia o funcionamento dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e de muitos outros serviços de Saúde Mental. segundo ele. cria uma referência psicológica protetora ao redor da qual os internados podem sair de seus papéis rígidos. diz que a base do trabalho de transformação institucional é a forma de trabalhar que tem como princípio o de “uma comunidad organizada de forma que pueda permitir el movimiento de dinámicas interpersonales entre los grupos que la constituyen y que presenta las características de cualquiera otra comunidad de hombres libres” (BASAGLIA. Contrariando um ideal romântico que pode surgir da idéia de Comunidade Terapêutica. Como fundamento assinala: Tiene que partir. é o eixo ao redor do qual gira a vida institucional. as contradições são reveladas e a possibilidade de mudança se .24 que Maxwell Jones descobriu a Comunidade Terapêutica em 1952. Também instrutivo para a situação atual que vivemos. Basaglia destaca a colocação em questão do papel do médico e do enfermeiro na Comunidade Terapêutica. mesmo. as instituições que adotaram a forma de Comunidade Terapêutica. a serem referências para o trabalho na área e campo importante de capacitação no início das ações da Reforma Psiquiátrica. de las exigencias del enfermo y desde ellas intentar adaptar a su alrededor el espacio vital que necesita para extender y actuar aquello que es la cuestión primera de la comunidade terapéutica: la potencia terapéutica que cada uno de los miembros de la comunidad emana hacia el otro (BASAGLIA. Note-se que a crítica de Basaglia ao movimento da Comunidade Terapêutica é ao seu apoliticismo e à sua tentativa de dar como resolvida a questão da psiquiatria com essa prática. vemos Basaglia mostrar muito claramente que a sociedade dá ao psiquiatra dois papéis que se opõem: o de tratar e o de excluir. 29). atribuídos pela sociedade e mantidos pela psiquiatria. Para Basaglia a Comunidade Terapêutica é instrumento e não fim. o que se mantém até os dias de hoje. em que todos os que freqüentam a instituição devem participar.

p. e que é da maior importância para a Reforma Psiquiátrica Brasileira e suas práticas. desta vez. é a estrutura social e não mais uma instituição particular. 41). 1985. (BASAGLIA.] "não vão além de promover o aperfeiçoamento da assistência psiquiátrica.25 estabelece. 1977 b. que ele considerava a Comunidade Terapêutica de Maxwell Jones e o XIII Arrondissement (França) “aparadores psiquiátricos en los cuales exponer el nuevo producto listo para el consumo” (BASAGLIA. mais adiante. a exemplo das “reformas de tipo setorial”. então. a crítica à Psiquiatria de Setor da França. el mantenimiento de la salud. lemos em “Los Crimenes de la Paz”. Hoje. Encontramos.. p. de passagem. 96). Essa crítica ao Setor pode ser um dos motivos para as propostas atuais de entrada da Saúde Mental na Atenção Básica não estarem se desenvolvendo no ritmo que seus resultados sugeririam. p. Ao lado de tornar claro que Basaglia adotava a estrutura da Comunidade Terapêutica como estratégia. 1977 b. sem que nos paralise: Las consignas más actuales y modernas son ahora la medicina preventiva. no máximo. apenas útiles para cubrir la realidad que continúa inalterada a sus espaldas: porque se conservan inalteradas la estructura y el modelo de las delegaciones del poder sobre las cuales se fundamenta (BASAGLIA. vemos. Passa a haver história viva onde existia apenas a apatia e a rotina mortificadora. recomenda-se que essa discussão se dê em todos os locais de trabalho em Saúde Mental. com as diversas categorias profissionais reagindo a seu modo quanto a questionar posturas tradicionais. está bem resumido na seguinte passagem: O problema de Gorizia será. O desafio que se colocava. 57). e que sua proposta não se resumia a mais uma modificação técnica. la lucha en la comunidad que frecuentemente se reducen en la práctica a coartadas. . [. tendendo.. o de decidir em que medida sua atitude de negação pode se voltar para o mundo externo. Ainda em “A Instituição Negada”. De modo algum Basaglia pretende que a abertura do Hospital Psiquiátrico de Gorizia limite-se a uma mudança apenas de alcance institucional. 1985. p. Franca Basaglia afirma que as propostas da Comunidade Terapêutica inglesa e a de Gorizia são diferentes na medida em que aquela. uma advertência de Basaglia que temos que levar sempre em consideração. 97). à ‘solução ideológica’ dos conflitos sociais” (BASAGLIA. visto que o objetivo. Para esclarecer mais uma vez a posição crítica de Basaglia a respeito das Comunidades Terapêuticas.

que traz algumas conferências de Basaglia no Brasil. apesar de serem muito mais intensos e exigentes que os ambulatórios. podemos ter como hipótese. proponía una problemática política y social que no deseaba limitarse a la trasformación humanitaria del hospital – aunque la efectuara – sino que consideraba ésta como una ocasión para poner práticamente en discusión la finalidad de la existencia del manicomio y de las modalidades de su existencia. que a ausência das paredes institucionais e o confronto com a realidade social gerariam o mesmo fenômeno que Basaglia detectou na ameaça da perda dos marcos históricos dos hospícios. como diz Basaglia. podemos transpor a fala de Basaglia. não sabendo mais quem ele é” (BASAGLIA. da ameaça de perda da identidade conquistada nos anos de formação tradicional e nos anos de prática repetitiva nos ambulatórios de especialidades. disse o seguinte: “O problema é que quando se fala em destruição do manicômio. p. No momento em que vivemos. numa de suas estadas no Brasil em 1979. e serviu como instrumento privilegiado para a formação de pessoal questionador. há um resumo . Por que essa diferença? Matéria para pesquisa de campo. Basaglia. a maior e mais importante frente de luta pelas mudanças na Saúde Mental. a que gerou a maior parte das discussões. para tentar captar o que se passa com muitos dos profissionais de Saúde Mental. 36). nas praças e nas ruas. em geral. A demora em se aproximar dessas ações e a adotar essas práticas pode vir. uma visão muito distante do que seja trabalhar diretamente nos Postos de Saúde. a terra treme sob os pés do profissional. A influência de Basaglia demonstra-se no fato de que as tentativas de transformação democrática dos Hospitais Psiquiátricos públicos foram. os profissionais têm. nas casas. en la relación con nuestra estructura social (BASAGLIA. 1982). 41). partiendo de la psiquiatría y del manicomio como situaciones emblemáticas. o otimismo da prática” (Cf.26 Basaglia resume muito bem a sua orientação política aliada à técnica nas seguintes linhas: La experiencia de Gorizia. 1982. BASAGLIA. Notemos que os CAPS são muito mais rapidamente aceitos pelos profissionais que os trabalhos na comunidade. no Brasil. 1977 b. ele perde sua identidade e entra numa situação anômala. Já estabelecidos nos ambulatórios. depois dos avanços iniciais da Reforma Psiquiátrica. p. quando lhes é apresentada a proposta de trabalhos com a comunidade. nas décadas de 70 e 80. Em “Psiquiatria Alternativa: contra o pessimismo da razão.

que foram a criação de um banco de dados a respeito dos acontecimentos na área. Finalizando. Estavam sendo dados. p. em Camboriú. alguns passos do movimento que teria fundamental importância para a Saúde Mental no Brasil. de uma Assembléia de Profissionais de Saúde Mental do Brasil. onde foram condenadas as péssimas condições de trabalho e também o modelo assistencial. A sociedade brasileira tentava acordar de anos de regime de exceção e. cita as decisões de caráter organizativo que saíram de Camboriú. Relata a realização. Após abandonar a carreira universitária. o trabalho em Gorizia chega ao impasse e a partir de 1971 Basaglia e equipe dirigem o Hospital Psiquiátrico Regional de Trieste. em 29 de julho de 1979. organizou um local de atendimento com quarenta vagas para quadros agudos. A base de seu trabalho foi dar voz aos pacientes. durante o V Congresso Brasileiro de Psiquiatria. Denuncia o modelo assistencial cronificador. Essas conferências resumem muito bem a importância de Franco Basaglia para a Reforma Psiquiátrica Brasileira e há um registro que mostra claramente o clima de efervescência política que existia naquele momento. manifestando-se em nome do “movimento dos profissionais do Rio” (BASAGLIA. Como conseqüência dessa atuação. organiza Centros de Saúde Mental para o acolhimento das pessoas anteriormente internadas. em São Paulo. em 1961. desta forma. hospitalocêntrico. com o apoio de forças políticas e culturais. aparece a fala de um participante da platéia. 1982. Em 1968. com o trabalho voltado para a comunidade. Na transcrição do debate que se seguiu à palestra de Basaglia no Hospital das Clínicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. . não identificado. já tendo conhecimento da Comunidade Terapêutica de Maxwell Jones. na área de Saúde. 1982) transcreve as conferências de Basaglia no Brasil. que no seu modo de ver reproduzia a violência institucionalizada da psiquiatria. Basaglia foi dirigir o Hospital Psiquiátrico de Gorizia. Eram realizadas internações curtas (duas semanas). traça o quadro em que se encontrava a luta naquele momento e anuncia os seus próximos passos. que.27 de seu percurso na abertura dos hospitais psiquiátricos. com as pessoas sendo depois atendidas nos Centros de Saúde Mental. o número de internados diminui e. no ano de 1979. tomavam força as articulações para dotar o país de uma Política de Saúde voltada para os interesses da população. Partindo de um Hospital de 1101 leitos. quando houve uma virada na história do movimento pela transformação das condições de atendimento à Saúde Mental no país. 121). O livro citado (BASAGLIA. e a realização do Encontro Nacional de Profissionais de Saúde Mental. numa organização de reuniões que confrontavam os diversos grupos da instituição.

a forma de conhecimento. O texto da lei estabelece critérios para a internação involuntária. Nele. 1993. depois de descrever “as condições que possibilitaram a constituição do saber sobre a loucura. a psiquiatria. p. Para Foucault. p. expansão das relações mercantis à escala do globo. de poder-saber que funcionam e se efetivam no nível da infra-estrutura” e que dão lugar à “relação de conhecimento sujeitoobjeto como nome do saber” (FOUCAULT.. Articularam-se. a norma sujeito-objeto. p. chega ao século XVIII. Foucault descreve o percurso da submissão da loucura ao conhecimento. no Brasil. 1978). os ramos do saber encarregados do que foi definido negativamente: a medicina. Os procedimentos devem ser comunicados à autoridade jurídica em 48 horas. a grande transformação dos procedimentos de saber acompanha as mutações essenciais das sociedades ocidentais: emergência de um poder político sob a forma do Estado. 1993). FOUCAULT. 1993. Essa crise coloca em questão o conhecimento. sua submissão à razão [. loucura” (FOUCAULT. Interroga as relações entre as estruturas econômicas e políticas de nossa sociedade e o conhecimento. segundo Foucault. estabelecimento das grandes técnicas de produção (FOUCAULT. Trata-se da Lei 180. Foucault. numa coroação do processo histórico de controle social dos desviantes. O que escapa é definido como “doença. Em “A Casa dos Loucos” (Cf. 4).. não em seus conteúdos falsos . porque vai tentar ser aplicada a tudo na sociedade mercantilista e sob o poder estatal. Em 1975 Foucault esteve no Brasil para uma série de conferências e “influencia até hoje os rumos da implementação das novas formas de cuidar em psiquiatria” (SÁVIO. no nosso tempo. 2003. Por isso. A obra de Michel Foucault é uma influência determinante. 23). p. de 13 de maio de 1978. ao historiar como se deu a constituição dos saberes e sua dominação sobre os objetos a serem conhecidos. Trata-se de uma norma historicamente importante. 1995.28 O trabalho de Basaglia e a mobilização que provocou fez surgir uma lei que passou a orientar o trabalho em Saúde Mental na Itália. crime. De interesse maior para nós é o livro “História da Loucura na Idade Clássica” (Cf. A lei determina que o tratamento em Saúde Mental será feito prioritariamente em ambiente extra-hospitalar. 118). 1993. “formas de poder-e-de-saber. tornou-se de grande importância para a Reforma Psiquiátrica. para a crítica à psiquiatria reducionista e suas práticas de exclusão. segundo Foucault. que na Itália recebe o nome de “tratamento sanitário obrigatório”.]” (AMARANTE. 117). 117). p. a justiça penal e a criminologia. Estão em crise. quando se instituiu o conceito de doença mental. então. FOUCAULT. que ficou conhecida como “Lei Basaglia”.

Especificando mais ainda o seu estudo a respeito das teorias e práticas que tiveram como objetivo mudar radicalmente o panorama em vigor da psiquiatria no século XX. 1993. a função 'produção da verdade' se hipertrofia. não só da prática psiquiátrica mas do pensamento psiquiátrico. 122). Vemos. forma de distribuição e mecanismo destas relações de poder. Crise por conseqüência histórico política (FOUCAULT. A hipótese de Foucault é que a crise da Psiquiatria começou quando ficou demonstrado que Charcot “provocava” as crises histéricas que descrevia. Foucault estabelece que “é precisamente a instituição como lugar. p 118). De forma inversa. foi a de um lugar onde a doença podia e devia se manifestar de modo livre e claro para. se situam em torno desta relação de poder. uma indicação de por onde as propostas da Reforma Psiquiátrica encontraram substrato socioeconômico para evoluir. Mas não nos Hospitais Psiquiátricos: no Hospital de Pasteur. ser compreendida e talvez tratada. p. são tentativas de deslocar a relação. a função 'produzir a verdade da doença' não parou de se atenuar. Foucault diz que a função científica nascente. à semelhança dos médicos que Pasteur apontou como “transmissores das doenças que deviam curar” (FOUCAULT. p. que a antipsiquiatria ataca” (FOUCAULT. 1993. primordial. no hospital de Esquirol ou de Charcot. aqui. eliminá-la e anulá-la” (FOUCAULT. mascará-la. p. 1993. mas em suas funções de poder-saber. . 1993. Para Foucault. 127): -Szasz: escapar a eles segundo a forma de um contrato dual. Tentando perceber o que a antipsiquiatria trouxe de questionamento ao poder médicopsiquiátrico. p. então. Além da crise de financiamento do setor saúde. E isso num jogo onde o que está em questão é o sobrepoder do médico (FOUCAULT. o ponto principal das crises da psiquiatria está no questionamento do poder do psiquiatra: “Todas as grandes reformas.29 ou verdadeiros. inviabilizando a assistência em bases hospitalares dispendiosas. 123). também a crise nos modelos teóricos antes hegemônicos. Foucault subdivide o que chama de “diferentes formas da antipsiquiatria segundo sua estratégia em relação a estes jogos do poder institucional” (FOUCAULT. 1993. se exalta em torno do personagem médico. 1993. O médico produtor de verdade desaparece numa estrutura de conhecimento. Depois que Pasteur descobriu a contaminação levada pelas mãos dos médicos. p. 126). 124). do Hospital. essa função do Hospital decaiu. livremente consentido por ambas as partes.

mas necessária. para perceber que essa relação não se desfaz apenas com a entrada em ação das diversas categorias profissionais da Saúde Mental. O desafio é: “[. em Gorizia: ligá-los a outras relações de poder que. Balizamento de poderes. Para que possamos ter uma avaliação clara do alcance e pretensão do que está colocado como metas e diretrizes atuais da Reforma Psiquiátrica no Brasil. segundo ele. -Cooper. no pavilhão 21: balizá-los um por um e destruí-los progressivamente. hoje. Tarefa desafiadora. no interior de uma instituição de tipo clássico. nas nossas práticas. os CAPS e a Saúde Mental na Atenção Básica. A relação de poder (disciplina. -Basaglia. e a crítica diária é a tarefa básica. quando Foucault diz que a relação de poder é o dado primordial na prática psiquiátrica.. 128). p. para depois lançar um desafio que. podemos perceber a influência. Foucault descreve com clareza o jogo de poder estabelecido na relação ciência/loucura. passando pelos Ambulatórios. do exterior do asilo já puderam determinar a segregação de um indivíduo como doente mental. sua colocação em questão de modo permanente. 1993. nossa ciência permite que a chamemos doença e daí em diante. exclusão) está sempre sendo requisitada ao aparelho de atendimento em Saúde Mental.. p. para evitar a repetição de velhas submissões ou a criação de novas. Uma interpretação possível para essas palavras de Foucault é que devemos procurar uma abordagem da loucura sem os preconceitos de qualquer conhecimento prévio. E qualquer profissional de saúde pode exercer o papel repressor. que a subdivisão de Foucault contempla. 127). Esta classificação de Foucault é bastante instrutiva quando podemos pensá-la. Mas. devemos estar atentos.30 -Kingsley Hall: estabelecimento de um local privilegiado onde eles devam ser suspensos ou rechaçados no caso de se reconstituírem. estando abertos para o devir-louco (Deleuze). as antipsiquiatrias tomaram para si: Sua loucura. 1993. bem como do .] é possível que a produção da verdade da loucura possa efetuar-se em formas que não são aquelas da relação de conhecimento?” (FOUCAULT. Desde o questionamento dos Hospícios. a discussão do poder da psiquiatria e a queda da sua hegemonia são temas do nosso cotidiano. controle. nós médicos estamos qualificados para intervir e diagnosticar uma loucura que lhe impede de ser um doente como os outros: você será então um doente mental (FOUCAULT. em termos do que está sendo feito na Rede de Atenção Psicossocial que tecemos.

De saída. rede de biopoderes e disciplinas que conformam o controle social do louco (AMARANTE. Para uma aproximação a respeito de como e em que medida Gilles Deleuze e Felix Guattari influenciaram os profissionais de Saúde Mental no Brasil. a compreensão do delírio como social-histórico e não pessoal-familiar. suporte de ideologia. com séculos de duração. (Cf. é preciso. no sentido de motivá-los às práticas inovadoras. Portanto. saberes e discursos que vêm fundar a psiquiatria. a dura crítica ao familialismo da psicanálise e das técnicas de terapia familiar acomodadoras. A instigação é para a procura de “linhas de fuga” coletivas a partir de cada acontecimento-sintoma. querendo devolver a experiência da loucura para o campo do trágico. aquele que submeteu a experiência radicalmente singular do enlouquecer a classificações e terapêuticas ditas científicas: submissão da singularidade à norma da razão e da verdade do olhar psiquiátrico. e muito mais. além de apontar a vivência de horror que desperta nos menos habituados. Os dispositivos disciplinares da prática médica psiquiátrica permitem um mascaramento da experiência trágica e cósmica da loucura. cujo conceito Nietzsche tão bem definiu.31 ponto de questionamento que alcançam as práticas comunitárias. vejamos o texto de Paulo Amarante a respeito de Foucault: O objeto de estudo de Foucault em História da Loucura é precisamente a rede de relações entre práticas. & GUATTARI. p. 24). compõe um quadro teórico-prático estimulante. Com isso. qual seja. Esta obra aponta para uma desnaturalização e desconstrução do caminho aprisionador da modernidade sobre a loucura. Jamais o sintoma reduzido à sanha explicatória individualizante. estão em questão todas as formações sociais que se orientam pela referência identitária. Deleuze . 1995. DELEUZE. Estamos. edipianizante. A abordagem da esquizofrenia como um limite alcançado nos capitalismos. O texto mostra o que está sendo tocado com as práticas de desinstitucionalização e as ações comunitárias de Saúde Mental: estamos mexendo no imaginário a respeito do louco. também. Desde a crítica da teoria de Édipo como organizador do psiquismo humano. tudo isso. podemos compreender as resistências que as práticas citadas despertam e a potencialidade de transformação social que representam. sobretudo. estamos tentando transgredir a lógica das relações de poder que imperam na área da Saúde. 1976). mas lançado no sentido do fenômeno social inerente e só invisível para quem está com a visão encoberta por teorias reducionistas. partir da acirrada crítica que esses autores desenvolveram a todo tipo de centralização. através de uma consciência crítica.

inspirou. 1976. dentre outros. então. Guattari diz que: não são mais apenas os muros do asilo que se tenta destruir. Trata-se de um lugar de experimentação de práticas terapêuticas e institucionais que durante muito tempo foram supervisionadas por Guattari. antes. Por isso. p. dos movimentos do desejo e da diferença – opõe-se ao molar. 1986. Guattari cita o exemplo da Itália. mas apenas repetem as estruturas que dizem combater. como práticas mais conseqüentes. Investiu. existiam práticas apaziguadoras e sem alcance social. Não mais aceitar a captura por modelos teóricos adaptadores. mas igualmente os muros do profissionalismo: a medicina mental aqui é feita diretamente com os membros do gueto. com Basaglia. nos arredores de Paris. Apenas que é exigido.invenção de possibilidades. a contradição exposta em acontecimento gerador de transformação. Mas a ação molecular não exclui o trabalho no campo molar. ainda existente. ou receberam seus relatos ou lá fizeram estágio. nos vilarejos. A clínica “La Borde”. visto que enraizadas no movimento popular. ”Instaurar ligações laterais”. O molecular . com os trabalhadores das fábricas. sem controle central. Muitos profissionais de Saúde Mental tiveram suas possibilidades de prática com as pessoas com diagnóstico psiquiátrico de psicose expandidas pelos textos de Deleuze e Guattari. GUATTARI & ROLNICK. 127). um exemplo de ação molecular transformadora. das instituições. da qual dá sua visão num artigo do livro “A Revolução Molecular” (Cf. a proposta da Rede foi de que os profissionais de Saúde Mental se colocassem como estimuladores e assessores dos movimentos populares de busca de novos caminhos na área. movimentos sociais . . as rádios livres na França. GUATTARI. (Cf. (Cf. a fenda. fundada. disparadores de ações contagiantes. mas estimular a singularização e a problematização cada vez mais ampla do emergente: família. Com isso. reafirma o caráter político e não apenas técnico das mudanças realmente necessárias no campo da Saúde Mental. criativos. nos movimentos horizontalizantes. A crítica aos centralismos levou Guattari a renegar os movimentos que se pretendem revolucionários.campo da singularidade. Referindo-se ao trabalho que Jervis desenvolvia em Reggio Emilia. teve importante influência em profissionais de Saúde Mental que. segundo Deleuze. Giovanni Jervis e outros.32 e Guattari abriram caminho para as ações de caráter coletivo onde. redes de vizinhança. 1981). Nele. 21). serviços de saúde. Guattari também colaborou com a Rede Alternativas à Psiquiatria. Adverte que as inovações técnicas “despolitizadas” levam a novas formas de controle. p. por exemplo. CARRILHO. A prática da Clínica Ampliada tem nas concepções de Deleuze e Guattari uma de suas bases. sempre. o olhar que procura a fratura. das formações hierarquizadas. na mesma situações. por Guattari.

Em nota. pistas para os trabalhos com Agentes Comunitários de Saúde e com voluntários. De acordo com Heitor Resende. nem sonhar com uma grande mudança que cada vez mais é adiada. modos de isolar os indesejáveis já estavam sendo articulados. a evolução do capitalismo. portanto. a tradutora do texto esclarece o termo “paraprofissionais”. essa concepção ajuda a retirar o profissional da inércia. 1981. 3. ao lado dos quais trabalham certas equipes de ‘saúde mental’ no sentido de reconhecer o poder potencial da população. 1981. que especifica os mecanismos de invalidação e mortificação das Instituições Totais e de Thomas Szasz. 127). 29). RESENDE. mais uma vez. para instalar máquinas de mudança. 1976. p. locais de ação. institucionais. p. de acordo com a época. O conceito de Micropolítica (Cf. cujo caráter provisório as aspas anunciam: “Os paraprofissionais são membros da comunidade. juntamente com seus continuadores que vieram para o Brasil. portanto necessitando de providências repressivas. No Brasil. 125). O termo “Esquizoanálise” indica o trabalho de procurar de que modo funciona o nível molar. é importante assinalar a influência que tiveram entre nós os trabalhos de Erving Goffman. existe a possibilidade de atuação transformadora. Na Europa. 1986) desenvolvido por Guattari. quebrando a ordem feudal. para autogerir a resolução de seus problemas” (GUATTARI. Colocada no campo da Saúde Mental.1. uma grande colaboração para a prática institucional em Saúde Mental. p 49). familiares. que hoje estão sendo desenvolvidos no Brasil. mesmo numa sociedade ainda rural. em cada ponto em que estejamos situados. Mesmo estando além das possibilidades de aprofundamento. (Cf. do adiamento ou da espera por dias melhores. 1987. o aparecimento do louco enquanto problema de desordem. CARRILHO. & ROLNICK. trouxe a necessidade de segregar as pessoas que não se enquadravam no ideal daquele modo de produção. p. aqui. (Cf.33 apoiando-se sobre “paraprofissionais” formados na prática (GUATTARI. tem a grande utilidade de nos mostrar que. Em Enrique Pichon-Rivière temos uma criativa tentativa de articulação entre a psicanálise e o marxismo e uma união entre teoria e prática de trabalhos com grupos. . deu-se de modo diferente na Europa e no Brasil. Deixou. GUATTARI. Não há que esperar condições favoráveis. com a crítica ao modelo psiquiátrico tradicional. todos esses são. Temos. para agir num incitamento às ações afirmativas e alegres no dia de hoje.2 Antecedentes históricos brasileiros. das relações interpessoais. Se o Poder se instala e opera em cada desvão da sociedade.

p. no Engenho de Dentro e outra para homens. surgiu um contingente de desempregados aos quais o olhar do controle administrativo associou os loucos e os delinqüentes. No Rio de Janeiro foram construídas duas Colônias. recebendo ajuda eventual da caridade pública. ou o São Pedro. a base da exclusão estava dada e se materializou com a criação dos Hospícios. 1987. e vem engrossar as levas de vadios e desordeiros nas cidades. quando as vagas eram 1. Pedro II inaugurou. 1987. predominantemente nas capitais dos estados. indisfarçavelmente notória. Foi no quadro descrito acima que.700. Nos cem anos que se seguiram à fundação do primeiro hospício no Brasil.. à ociosidade (RESENDE. 35). toda ela marcada pelo organicismo.. como por exemplo. com a ciência emergente tomando para si a tarefa de segregar. Encontrou como . Também surgiram as Colônias. Portanto. com 3. Ao mesmo tempo.]” (RESENDE. eram isoladas e não aceitas. desde que não violentos. era a de origem francesa. situação semelhante que. 44).. 1987. Socialmente ignorada por quase trezentos anos. hospitais abertos e atenção aos egressos [. a força policial era o remédio. no Rio de Janeiro. os Hospícios estão com lotação muito acima da sua capacidade. p. Depois da abolição da escravatura. 1987. p. como a de Ulysses Pernambucano. Propostas de “[. e será arrastada na rede comum da repressão à desordem. com forte acento na interpretação dos problemas mentais como decorrentes de degenerações. Para esses. que tomou seu nome: Hospício de Pedro II. nota-se a proliferação de muitos outros. Em 1852. p 54). em Porto Alegre. o “diagnóstico” de “degenerado atípico” constava em 90% das descrições dos internados. a psiquiatra Nise da Silveira.34 após um longo período no qual os loucos podiam vagar a esmo. (RESENDE.200 internos. seguindo a tendência de que a natureza por si só faria bem às pessoas internadas. em Jacarepaguá. A psiquiatria dominante. o Juqueri. na Europa. na época. a Internação Psiquiátrica no Brasil produziu seus efeitos: no fim da década de 50. em 1944.] organização assistencial abrangente. o primeiro hospício do Brasil. o Imperador D. uma para mulheres. a loucura acorda. em São Paulo. foi trabalhar no então chamado Centro Psiquiátrico Nacional do Rio de Janeiro. à mendicância. serviam para escoar os inúmeros pacientes “crônicos” excedentes dos hospícios. além do trabalho agrícola. na década de 30. no Brasil.. ambulatórios. Posteriormente a denominação “Hospício de Pedro II” ficou com a instituição do Engenho de Dentro. Estava criada. séculos antes. (RESENDE. Útil para o recolhimento de indesejáveis. Com a sua história brevemente resumida acima. 54). levou à grande onda de internações. com quase 15 mil pessoas. nada mais que hospícios situados em áreas rurais.

De posse dessa compreensão e de um profundo interesse pela pessoa a ser tratada. caso se queira prestar atenção. como as de Fernando Diniz e Carlos Pertuis. com seu trabalho que indica a aproximação pessoal e artística com as pessoas com diagnósticos de psicose. Mas. é. Internet 2). (Cf. Ao mesmo tempo em que criticava o mercantilismo na área da . pelas publicações e pela organização do Museu de Imagens do Inconsciente. continuou com seu trabalho. já um verdadeiro movimento. artistas cujas obras estão entre as mais importantes do século XX no Brasil. o antigo “Hospício de Pedro II” tem o nome de “Instituto Municipal de Assistência à Saúde Nise da Silveira”. A época estava ainda longe disso. no seu tempo de atuação. São dela as palavras: Sem a pintura seria pouco provável descobrir-se que no íntimo daquele homem de aspecto humilde e face à primeira vista impassível permanecessem guardadas secretas ambições nem que no seu mundo interno tivesse raízes uma árvore de intensas emoções (SILVEIRA. Em meio à incompreensão e falta de recursos. O psiquiatra alagoano Luiz da Rocha Cerqueira. que os métodos tradicionais da psiquiatria caracterizavam uma violência aniquiladora. CERQUEIRA. 1984). com diversos colaboradores. modelagem e xilogravura. produziu textos que abriram caminho para o atual pensamento a respeito da Saúde Mental. pelo exemplo. o que proporcionou que levantasse questões incômodas para a época e ainda para os dias em que vivemos: os sintomas e as produções do inconsciente das pessoas com diagnósticos de psicose fazem sentido. em 1946. Nise da Silveira conhecia a obra de Carl Gustav Jung. suas determinações sociais e sua assistência. a face da Saúde Mental no Brasil. Viu surgir. o Serviço de Terapêutica Ocupacional no referido Hospício. um capítulo à parte na história da Reforma Psiquiátrica Brasileira. MUSEU DE IMAGENS DO INCONSCIENTE. ação no sentido de mudanças amplas na organização da Assistência à Saúde Mental. Hoje.35 práticas dominantes o eletrochoque. Utilizando técnicas de pintura. o coma insulínico e a lobotomia. Nise da Silveira não teve. com repercussão internacional. dentre os internados. Inconformado com o que via lutando em períodos de grande dificuldade política. tendo como base as obras que os pacientes criavam. Nise proporcionou aos internos um oásis de humanidade e criatividade em meio à destruição do ambiente hospitalar. na década de 30 (Cf. internet 1). Mostrou. que teve sua formação médica e psiquiátrica no Recife. Nise organizou. revolucionou. pela sua obra e tenacidade.

Mas a insatisfação fermentava na sociedade e nas Instituições de Saúde. O somatório desses pontos de não aceitação e proposição formou a massa crítica para o que veio a ser o movimento pela mudança nos rumos da Assistência à Saúde Mental no país e a forma de conceber o que é Saúde Mental. portanto. Do mesmo modo. temos que destacar a importância de todos os profissionais de Saúde Mental que. dentre muitos outros temas. com o auxílio doença. o quadro era semelhante: autoritarismo e resistência. Os autores consultados para a composição da cena em que se deu o início da Reforma Psiquiátrica coincidem em localizar. Este quadro facilitou a implantação da chamada “indústria da loucura”. com minuciosas pesquisas. 3. hospitais psiquiátricos particulares conveniados com o poder público que atuavam praticamente sem barreiras. Paulo Amarante situa o “Início do movimento da reforma psiquiátrica” entre os anos de 1978 e 1980. No seu modo de ver.36 Saúde. por exemplo.] o movimento da reforma psiquiátrica brasileira tem como estopim o episódio que fica conhecido como a 'Crise da DINSAM'” (Divisão . O autoritarismo político se transferia para todas as instituições. ao lado de propor mudanças no trabalho diário. a psiquiatria no Hospital Geral. sem a participação das bases. Além das figuras públicas aqui nomeadas como precursores do movimento que resultou na Reforma Psiquiátrica Brasileira. Nas Universidades. os dados relativos a gastos com internações psiquiátricas. Sem eleições diretas para Governadores dos Estados. a Terapia Ocupacional. com as liberdades democráticas não garantidas. Foram inúmeras as demissões e perseguições de profissionais que não compactuavam com o que estava estabelecido. mostrava. com o sistema ambulatorial. com dificuldade ou impossibilidade de debate. era restrita ou impedida. as Emergências Psiquiátricas. as prioridades do atendimento. com textos políticos. 2 A Reforma Psiquiátrica Brasileira. no final da década de 70 e início da de 80. É importante assinalar que o ambiente político era de ditadura militar. os Hospitais Psiquiátricos Estaduais mantinham-se com suas direções distantes da discussão política. os Hospitais Psiquiátricos Federais eram dirigidos por indicação superior. o período em que os acontecimentos de precipitaram. “[.. durante os tempos mais difíceis. ofereceram sua dedicação e esforços no sentido de resistir ao autoritarismo político e institucional. A participação política.. Voltaremos ao trabalho de Luiz Cerqueira quando falarmos dos primórdios da Saúde Mental Coletiva no Brasil. Pensou a formação de profissionais de saúde mental.

Paulo Amarante resume os principais pontos de reivindicação e denúncias nos diversos documentos elaborados pelo MTSM durante o ano de 1978: salariais. no então já denominado Centro Psiquiátrico Pedro II. Assinalemos. que deu sustentação legal ao trabalho da Psiquiatria Democrática Italiana. os movimentos que já estavam em andamento em diversos estados.37 Nacional de Saúde Mental). falta de garantias trabalhistas. 1995). 1995. Pedro Gabriel Delgado (Cf. agressões. (Cf. clientela e profissionais. com repercussão nos serviços. universidades.. estupros. ameaças a profissionais e pacientes. O movimento associativo na área médica estava renascendo. trabalho escravo. a greve foi um estímulo e logo estariam acontecendo reuniões em diversos serviços e entidades de classe. 1995.] que aglutina informações. Realizado pela conservadora Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Em abril de 1978.. um inédito estímulo à organização dos profissionais de Saúde Mental no país. formação de recursos humanos. Ao invés de enfraquecer o movimento. p. Os principais pontos de denúncia e reivindicação eram: péssimas condições de trabalho. associações de classe. na época. Com essa mobilização surgiu o Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM). entidades de classe. Aconteceu. AMARANTE. organiza encontros. então. e a situação culminou numa greve. reúne trabalhadores em saúde. e na demissão de estagiários e profissionais. com a função de ser: um espaço de luta não institucional [. modelo médicoassistencial e condições de atendimento. 1995. foi aprovada em maio de 1978. resultou em apoios políticos e notícias na imprensa. em Camboriú. crítico às internações psiquiátricas. Com a mobilização no Rio de Janeiro. 51). Como um precedente oficial. Note-se que as condições eram dramáticas no que diz respeito a todos os pontos. As condições (ou a falta de) da assistência à Saúde Mental eram semelhantes em todo o país. o Congresso teve seu desenvolvimento politizado pela presença dos militantes do MTSM que.S. do antigo INPS. p. Assembléias reuniam profissionais de diversas categorias e representantes das entidades da área de saúde. . que a chamada “Lei Basaglia”. relações entre instituição. 1987) se refere ao “Manual de Serviço para Assistência Psiquiátrica”. mas a pauta ainda é atual. o velho hospício do Engenho de Dentro. (Cf. um episódio de denúncia de falta de condições humanas e de trabalho. DELGADO. 52). bem como entidades e setores mais amplos da sociedade (AMARANTE. também. AMARANTE. 53). confluíram para o V Congresso Brasileiro de Psiquiatria. de 1973 (O. p. (AMARANTE. em abril de 1978. 304. em outubro de 1978.3/73).

do que estava acontecendo com a mobilização em torno no MTSM. a plenária também se manifestou. o Congresso movimentou ainda mais o ambiente. No campo político amplo. Guattari. pela livre organização de trabalhadores e estudantes (AMARANTE. bem como a ausência de discussão pública a respeito dos rumos da assistência à saúde. organizando-se de modo autônomo. realizado em Belo Horizonte. aprofundando suas discussões. Robert Castel. 55). p. era: -A crítica ao modelo asilar em psiquiatria. o I Congresso Brasileiro de Psicanálise de Grupos e Instituições. 1995. em geral. Nele estiveram presentes Basaglia. ainda em outubro de 1978 realizouse. acontece em São Paulo o I Encontro Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental.38 através da federada baiana da ABP. -Pressão por solução política para a questão da orientação da assistência à saúde mental. distante do que havia por detrás dos muros dos hospícios. a Associação Psiquiátrica da Bahia. AMARANTE. (Cf. inclusive a respeito de venda de cadáveres de . Este quadro mudou durante e após o III Congresso Mineiro de Psiquiatria. o Instituto Brasileiro de Psicanálise. conseguiram marcar posição na plenária final e aprovar resoluções que foram tiradas nas reuniões paralelas ao evento. Numa demonstração da fertilidade do momento. com a bandeira de luta pela Anistia Ampla. em janeiro de 1979. em resumo. entre os profissionais de Saúde Mental. 1995. -O movimento faz parte dos setores da sociedade que lutam pelas liberdades democráticas. 54). 55). Grupos e Instituições (IBRAPSI). 1995. p. o que estava sendo colocado pelo MTSM. terapia de grupo e analistas institucionais. A censura à imprensa permanecia em vigor e era difícil vencer a barreira do silêncio. Nessa altura dos acontecimentos. Apesar da grande repercussão. AMARANTE. Durante o evento. em novembro de 1979. Geral e Irrestrita. Logo a seguir. sobre os quais recaíam denúncias assustadoras de maus tratos. p. A privatização na área da saúde é denunciada. Revestido de uma aura de grande produção. Goffman e outros nomes representantes do pensamento crítico da área. A universidade é criticada pela sua adesão à lógica do mercado. (Cf. que já se colocava em adesão ao MTSM. p. a grande imprensa mantinha-se. no Rio de Janeiro. que lançava a instituição de formação em psicanálise. pela Anistia. 55). É o movimento tomando corpo. 1995. O Congresso foi organizado pela Associação Mineira de Psiquiatria. A prática psiquiátrica em vigor é apontada como instrumento “de controle e reprodução das desigualdades sociais” (AMARANTE. Basaglia foi visitar o grande hospício de Barbacena.

a perspectiva da abolição dos hospitais psiquiátricos. evitava-se a burocratização e mantinha-se a autonomia. Devemos estar atentos para essa possibilidade de trabalhar com a perspectiva de abolição total dos hospitais psiquiátricos. por outro lado.. ocorrida em Camboriú..]” e “os movimentos de trabalhadores de saúde mental decidem. Continuam em discussão no movimento os temas presentes nos encontros anteriores. À época. Em 1980. fica exposta nesse momento em que as propostas do MTSM excedem em muito a posição mais que moderada da ABP. de usuários do sistema se saúde e seus familiares. no horizonte. Com o avanço da Abertura Democrática.. realiza-se. Posteriormente. estrategicamente. um importante conceito do movimento. que se dará no momento em que a comunidade souber lidar com os emergentes que até aqui foram excluídos. central em toda a discussão. repercutiu na imprensa e durante muitos dias foi para os grandes jornais do país a situação dos hospitais psiquiátricos. 1995. atuar na ocupação do espaço que se apresenta nas instituições públicas [. temos que ter o fim da Internação Psiquiátrica. surge o Movimento da Luta Antimanicomial. 1995).. AMARANTE. expandindo-se através das entidades das categorias profissionais envolvidas..]” (AMARANTE. no início da década de 80. p. como por exemplo. A fragilidade da aproximação entre a ABP e o MTSM. mais claramente. pela censura e pela conivência. ao especificar as características do Movimento dos Profissionais em Saúde Mental. o II Encontro Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental. em Salvador. impulsionador importante da Reforma Psiquiátrica. porém coloca. diz que a forma de organização que tomou dispensava a institucionalização. em palestra do Congresso. Paulo Amarante. (Cf. paralelo ao VI Congresso Brasileiro de Psiquiatria. Esta postura foi coerente com a proposta de desinstitucionalização da assistência. para romper o bloqueio e expor o que estava escondido pelos muros dos hospícios. abolir os Hospitais Psiquiátricos não significa acabar com o procedimento Internação Psiquiátrica. “[. Porém. nos Hospitais Gerais. Voltaremos ao assunto. com as postulações do MTSM. com ênfase na crítica ao “modelo assistencial como ineficiente. 58). a bandeira de luta era tida como radical. O relato emocionado de Basaglia. no período que relatamos aqui.] o Estado passa a incorporar os setores críticos da saúde mental [. Desse modo.. que pode sobreviver de outras formas. Teve adesão. mas. p. Foi preciso um visitante estrangeiro. 56). com as propostas de criação de . 1995. mas também em entidades fora da área médica. cronificador e estigmatizante”. (AMARANTE. O MTSM cresceu. mas hoje já está nas metas do Ministério da Saúde.39 pacientes para faculdades de medicina.

1995. era curativista e privatizante. mas ética e de modelo de saúde. ou indicador de cooptação das lideranças e do projeto de MTSM pelo Estado. e postos de direção foram preenchidos por integrantes do início do movimento ou que receberam suas influências. (Cf. mas pelas próprias características de um modelo que comprava serviços de particulares. há redirecionamento de recursos públicos que estavam sendo usados.40 dispositivos de saúde mental extra-hospitalares. 58). Nas décadas de 80 e 90 surgiram as oportunidades de tentar mudar. de dentro do aparelho estatal. a descentralização e a regionalização. p. o modelo acabou por levar os cofres públicos à penúria. que será um dos princípios do SUS. p. Organizado pelos setores que se beneficiavam do regime de exceção. na qual o Ministério da Previdência e Assistência Social (MPAS) passa a participar com custeio. . o MPAS deixa de comprar serviços ao Ministério da Saúde. AMARANTE. e passa a atender de forma universalizada. a partir do advento da 'co-gestão'. No início da década de 80 surge. Equilibrar direção com militância nas bases. Paulo Amarante define bem a situação: A questão da estratégia de ocupação de cargos em órgãos estatais. e onde a fiscalização era ineficiente. eis a questão. A ocupação de cargos e funções no aparelho do Estado sempre foi um dilema para os movimentos sociais e seus integrantes. A Co-gestão foi uma oportunidade para a implantação de “uma política de saúde que tem como bases o sistema público de prestação de serviços. o pagamento por produção. Com a Co-gestão. 58). 1995. então. embora projetos como os da Colônia Juliano Moreira ou do Centro Psiquiátrico Pedro II tenham procurado equilibrar a direção e a militância das bases (AMARANTE. gestão democrática e trabalho em equipes multidisciplinares. Deu-se a chamada “Crise da Previdência”. para tentar aplacar a crise no setor. propostas defendidas pelos movimentos das reformas sanitária e psiquiátrica” (AMARANTE. E não por algum mau funcionamento do sistema. Note-se que estamos nos primórdios da construção do Sistema Único de Saúde. pagando por procedimento realizado com dinheiro público. a cooperação interinstitucional. 1995). a realidade da Assistência à Saúde Mental no Brasil. chega a dividir o movimento em duas facções. não apenas financeira. para pagar serviços prestados pelo setor privado. planejamento e avaliação das unidades hospitalares do Ministério da Saúde. O modelo de assistência implantado no Brasil. Mantinha-se a perspectiva de abolir os hospícios e a crítica ao lucro extraído das ações de saúde. como tática de mudança 'por dentro'. a “Co-gestão”. Desta forma.

O chamado “Plano do CONASP” tem como função reverter o modelo médico assistencial privatizante da Previdência e tem uma parte dedicada à assistência psiquiátrica. influenciaram as resoluções do CONASP a experiência da Co-gestão e algumas outras. de 1982. O que estava acontecendo. preocupados com a perda de receita que viria da evolução do que estava proposto na Co-gestão. 6). 1995.] frente a uma redução da capacidade financeira dos estados nacionais e a quebra das bases de solidariedade criadas para a cobertura dos riscos clássicos. O município do Rio de Janeiro tem a característica de ter herdado. Por isso. que será o “primeiro plano de assistência médico-hospitalar a ser discutido mais amplamente” (AMARANTE. 65).. . no setor saúde. representados pela Federação Brasileira de Hospitais (FBH). realizadas em municípios e que seguiam os “princípios de integração. Maurício Lougon. como a doença. além do primeiro hospício do Brasil. em 1981. é criado o Conselho Consultivo da Administração de Saúde Previdenciária (CONASP). condizia com a tendência global de reforma dos sistemas nacionais de saúde. A crise financeira do Estado e da Previdência se agrava e. Vemos numa nota do trabalho “Estudo sobre o processo de reforma em saúde no Brasil”: As reformas dos sistemas de saúde decorrem de uma conjuntura que produz custos crescentes [. a crise da DINSAM e a Co-gestão tiveram uma enorme incidência nesse contexto. ligado ao MPAS. p. por exemplo (VIANA. p. ou que recebiam sua influência. citado por Paulo Amarante. diz que o debate FBH versus Co-gestão traduz uma disputa de modelos de assistência: é a substituição de um modelo essencialmente privativista. no Brasil. outras unidades psiquiátricas que vieram a fazer parte do Ministério da Saúde. Com isso. colocaram-se contra as novas diretrizes.. pautado na relação atendimento/produção/lucro. puderam participar desse momento de colocação em prática do que estava sendo proposto pelo movimento. quando a articulação entre os Ministérios da Saúde e da Previdência e Assistência Social se efetivou em ações de gerenciamento e reorganização dos hospitais psiquiátricos situados no Rio. o “Programa de Reorientação da Assistência Psiquiátrica no âmbito da Previdência Social” (MPAS/CONASP). por um modelo assistencial público eficiente (AMARANTE. 1998 p. 66). técnicos que participavam do MTSM. 1995.41 Os empresários da área de saúde. Nessa altura dos acontecimentos. naquele momento.

Pedro Gabriel mostra que desse texto constam as seguintes diretrizes para um novo modelo assistencial: a. Curioso notar...] acaba por assumir um papel que se pode definir como não mais que modernizante.. Politicamente. f. afirma o procedimento.] disciplinar os mecanismos de encaminhamento. 3. por demais estatizantes para seu gosto. como hospital-dia. ainda no registro restrito da psiquiatria. hospital-noite.ser predominantemente extra-hospitalar. setores universitários e os grupos com posturas psicologizantes. 65). ligados ou influenciados pelo MTSM. Citando o “Programa de Reorientação da Assistência Psiquiátrica no âmbito da Previdência Social”. 1995. pré-internação.ser regionalizada.restringir a internação aos casos estritamente necessários.42 hierarquização.] intermediários entre o ambulatório e a internação integral’. c. apenas sendo necessário que se note. o relatório do CONASP ainda mantém um lugar para a internação psiquiátrica. A entrada de profissionais. a FBH continuava articulando contra as mudanças.deve incluir-se numa estratégia de atenção primaria de saúde. por exemplo). d. ou seja: 1.integrar ao sistema ‘[.‘[. Mas está colocada a diretriz: “incluir-se numa estratégia de atenção primária de saúde”.promover a implantação progressiva de pequenas unidades psiquiátricas em hospitais gerais (DELGADO 1987. 5. b. p. principalmente nas funções de direção.. nessa altura dos fatos. continuou criando polêmica.ser exercida por equipe multidisciplinar. a ABP. isto é. 4. regionalização e descentralização do sistema de saúde” (AMARANTE. pensão e oficina protegidas. 182). De acordo com Paulo Amarante. ou ainda reformista. o MTSM “[.. Existe uma ênfase na atuação da Saúde Mental nos serviços básicos de saúde. que ao dizer que se deve “restringir a internação aos casos estritamente necessários”. p. mais uma vez. a título de revisão histórica.] recursos não estritamente psiquiátricos’ (generalistas treinados. Podemos observar que nesses seis itens está contida grande parte das orientações que norteiam a Reforma Psiquiátrica até hoje. Também se colocavam críticos os setores organicistas da psiquiatria.. em uma estratégia global que se pode definir como a de evitar que o caos ou problemas sociais sejam erroneamente rotulados e tratados como doenças mentais’.integrar-se a rede de serviços básicos de saúde da área programática. ou tecnicista.. de 1982.utilizar recursos ‘[.. no sentido .promover ações de prevenção e promoção de saúde mental. na administração pública. acima apontado. 2. e.

muitos postos de direção em instituições. que só nos enfraquecem. por passar a ver a luta dentro delas apenas como parte da luta mais geral pela democratização do país. o movimento coloca em primeiro plano a redução do número de leitos psiquiátricos (meta que continua hoje). já apontado: equilibrar direção com militância nas bases. jamais podemos repetir divisões. perdendo a especificidade do campo. Outra. as suas próprias bandeiras e projetos de origem” (AMARANTE. Quanto a esses dispositivos. o “I Encontro de Coordenadores de Saúde Mental da Região Sudeste”. . 1995. 71). na eterna e ainda não resolvida questão da unidade das forças que lutam por mudanças. Como estratégia. lares abrigados. Estamos. já então discutindo as estratégias para “o desenvolvimento e fortalecimento das ações no campo da saúde mental” (AMARANTE. É traçado um diagnóstico mais claro a respeito das condições da assistência à saúde mental. a internação em Hospitais Gerais. hospital-noite.43 de operar reformas sem objetivar mudanças estruturais” (AMARANTE. 1995. Trata-se do velho problema. com a sua substituição por dispositivos extrahospitalares. em Vitória. 71).] “comprometendo. a desarticulação dos atores institucionais leva à ineficiência e gastos sem controle.. estivessem ocupados por militantes ligados ao MTSM. no Espírito Santo. Já a linha sindical “também perde os objetivos de uma real transformação da natureza da instituição psiquiátrica” (AMARANTE. pré-internações. 1995. p. mas com a reafirmação do que havia antes sido colocado pelo movimento: as internações psiquiátricas em hospitais privados consomem a maior parte do dinheiro público gasto na área. (AMARANTE. atua nas organizações dos trabalhadores. p 68). no meio da década de 80. Propunha-se. A volta das eleições para Governadores dos estados foi mais um fator propiciante para que. p. p. em setembro de 1985. a carência de recursos humanos capacitados é patente. Devemos aprender com a História que. Permanecer no movimento ou entrar para as instituições oficiais? Gostaria de ver essa discussão com suas vertentes de necessidade de sobrevivência (política e pessoal) e de vaidades claramente colocadas. a “sindical”. com base em detalhes secundários. Paulo Amarante opina que a opção institucional “acaba por confundir-se com o próprio Estado” [. É interessante o resumo que Paulo Amarante faz das divergências que se clarificaram na época. Uma “linha”. também. núcleos autogestionários. pretende proceder às reformas propostas pelo movimento através da participação na administração pública. organizam. estando de acordo com os rumos principais. p. assim.. 68). 1995. a chamada “institucional”. aqui. Já na condição de participantes do poder público. antes conduzidas por representantes do conservadorismo. 65). 1995. naquele momento o que estava posto era: hospitaldia.

. os fatores considerados básicos. a realização de conferências específicas. 72). sindicatos. uma espécie de pré-conferência estadual. associações de moradores e de usuários. universal. o passo decisivo para as mudanças na área da Saúde no país. Os hospitais psiquiátricos interessados em diminuir o tempo de permanência (número de dias de internação). que são as cooperativas sociais. de participação comunitária. no “I Encontro de Coordenadores de Saúde Mental da Região Sudeste”. descentralizado e com controle da sociedade. por sua identidade com a instituição a ser desmontada. Os hospitais psiquiátricos públicos adotam as enfermarias abertas. Dando partida para a efetivação de uma das decisões da Oitava Conferência Nacional de Saúde.. organizam as pré-internações. p. que abrigam as pessoas que lá viveram longos períodos e não têm para onde ir. equânime. usuários e familiares. Assim.] os mecanismos de integração.. Os lares abrigados estão funcionando com o nome de Serviço Residencial Terapêutico. 1995. na formulação e avaliação das políticas de saúde. O hospital-dia perdeu esse nome. E como “núcleos autogestionários” podemos entender as diversas criações conjuntas de profissionais. dentre as quais a de Saúde Mental. A convocação dessa conferência deu-se sem o aval do Ministério da Saúde. “[.] de controle. enfim. mas como um dos atores na participação social na condução das políticas públicas de saúde. e aí estão os Centros de Atenção Psicossocial. para o “fortalecimento efetivo do setor” são: “[.. de unificação interinstitucional. p 70). os clubes. A I Conferência Estadual de Saúde Mental do Estado do Rio de Janeiro ocorreu em março de 1987. com nomes mudados e concepção mais articulada. de descentralização [. hoje. e muitas outras. avaliação e informação” (AMARANTE.. dos movimentos populares. Chama a atenção o fato de estar fora das estratégias daquele momento o trabalho nas comunidades. Em março de 1986. que adiava a decisão de realizar a Conferência Nacional de Saúde Mental temendo o avanço da . já com a participação de delegações do movimento social e de entidades de profissionais. É o antigo hospital-noite. que se realiza em outubro de 1986. com portaria e financiamento do Ministério da Saúde. a diretoria do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro toma a iniciativa de organizar o I Encontro de Saúde Mental do Estado do Rio de Janeiro. as igrejas. a sua organização trouxe para a cena a discussão e decisão institucional sobre a necessidade de participação.44 Notemos que cada um desses recursos está. que entram não como local de possíveis ações de Saúde Mental. em atividade. a sociedade organizada. Além de reafirmar os princípios para um sistema de saúde público. acontece a Oitava Conferência Nacional de Saúde. as associações de usuários e familiares..]”. (AMARANTE. 1995. as associações profissionais.

o que hoje está como uma das prioridades da orientação na área. 74).45 renovação que julgava radical. habitação.. p. nos programas informativopedagógicos. (AMARANTE.] a doença mental é fruto do processo de marginalização e exclusão social”. O tema central da I Conferência Estadual de Saúde Mental do Estado do Rio de Janeiro foi “a política nacional de saúde mental na reforma sanitária” (AMARANTE. a redução progressiva dos leitos manicomiais públicos e o não credenciamento de leitos privados. hospital-dia. As conclusões da I Conferência Estadual de Saúde Mental do Estado do Rio de Janeiro reconhecem que “[. pois aponta para as determinações sociais do sofrimento mental. (Cf. no setor. a tal “doença mental” desapareceria. meio ambiente. Quanto ao modelo assistencial. por meio de atendimentos alternativos em saúde mental. descentralizando e melhor capacitando tecnicamente. 1995.. Reforça-se a necessidade de inserção. com alguns sendo eleitos como delegados à Conferência Nacional de Saúde Mental. Houve grande participação de usuários e familiares. préinternações. politizando a questão. ao serem resolvidas a exclusão e a marginalização. A Conferência segue em suas conclusões.] considera-se que a saúde é resultante das condições de alimentação. com o movimento pressionando agora com eventos amplos. pretende-se a reversão da tendência hospitalocêntrica. repercutindo. AMARANTE. liberdade. Mas as conclusões que a Conferência tira do tema são pertinentes e atuais. lares protegidos. transporte. apontando para o direito do cidadão ao acesso irrestrito a todos os recursos para tratamento disponíveis. lazer. da Política Nacional de Saúde Mental. objetivando. Novamente o movimento insere os temas das equipes multidisciplinares. Na área mais ampla. essa afirmação é positiva por um lado. um poder de resolutividade mais eficiente (AMARANTE. p. p. emprego. tais como leitos psiquiátricos em hospitais gerais. a hierarquização da rede assistencial e a expansão da rede ambulatorial. etc. as conclusões são as seguintes: [. 1995. renda. Por outro lado. acesso e posse da terra. Propõe-se ainda. reafirma o duvidoso conceito de “doença mental” e pode sugerir que. inclusive Conferências Estaduais e Municipais. educação. Nota-se uma luta de posições. o que estava em pauta após a Oitava Conferência Nacional de Saúde. das condições de trabalho para as equipes. a necessidade de participação da comunidade e da sociedade organizada na elaboração e controle das políticas públicas. de medidas que visem a promoção da saúde em geral. . 73).. 74). como a necessidade do “resgate da cidadania”.. hospital-noite. assim. 73). e acesso a serviços de saúde. trabalho não alienado. 1995. de repercussão nacional. assim. p. Polêmica em todos os sentidos. 1995.

[.] a priorização de investimentos nos serviços extra-hospitalates e multiprofissionais como oposição à tendência hospitalocêntrica (AMARANTE. então. em Barbacena. Minas Gerais.] a orientação de que os trabalhadores de saúde mental realizem esforços em conjunto com a sociedade civil. na I Conferência Nacional de Saúde Mental. são as seguintes as principais recomendações da I Conferência Nacional de Saúde Mental: [.. as correntes em disputa dentro do movimento de transformação da Saúde Mental unem-se. visto que este a pretendia um encontro meramente técnico. ameaçam abandoná-lo ao verem rejeitada pela plenária inicial o regulamento da Conferência. Segundo Paulo Amarante.. [. (AMARANTE. A I Conferência Nacional de Saúde Mental realiza-se em clima de aberto conflito político. Nesse momento. acontece a I Conferência Nacional de Saúde Mental.. Após a avaliação regional e nacional do movimento ter sido realizada em abril de 1987.. no II Encontro de Coordenadores de Saúde Mental da Região Sudeste.suposta representante dos psiquiatras . 1995. É interessante acompanhar o aumento do número de delegados nas próximas Conferências. com o intuito não só de redirecionar as suas práticas (de lutar por melhores condições institucionais).. 80).. com a recomendação de que “[. tanto na elaboração e implementação.] o Estado reconheça os espaços não profissionais criados pelas comunidades visando à .. p. com a participação de 176 delegados eleitos nas pré-conferências estaduais. 1995. quanto no nível decisório das políticas de saúde mental.46 O documento mostra a continuidade do movimento de mudanças na Saúde Mental e a crescente ampliação do leque de propostas. Já aparece. Notamos que ainda não aparece nada em relação aos trabalhos que inserem ações de saúde mental na comunidade. (Cf. tendo estado em atrito devido à referida diferença de posição quanto ao modo de encaminhar as mudanças. p. AMARANTE. p. pois a Divisão Nacional de Saúde Mental. principalmente no que tange à ocupação do Aparelho de Estado. uma referência a trabalhos ou ações de saúde mental na comunidade.] a necessidade de participação da população. 1995.organizadoras do evento. democratizando instituições e unidades de saúde. indicativo da crescente representatividade. em junho de 1987. órgão do Ministério da Saúde encarregado da Política de Saúde Mental e a Associação Brasileira de Psiquiatria . já então com responsabilidades de organização dos serviços. e que o Estado reconheça os espaços não profissionais criados pelas comunidades visando a promoção da saúde mental. 75). mas também de combater a psiquiatrização do social.. 75).

1995. p. um patamar mais amplo com as mudanças operadas nos campos técnico-assistencial. 80). p. 1995. p. p. 75)..] para a intervenção na sociedade” (AMARANTE.. 80). ao listar os “[. Domingos Sávio. usuários e familiares. 1995. o MTSM avalia. 80). Assim. e . 81). Dentro da discussão acima. 1995. a limitação da crítica à psiquiatria.. também. aponta. p. o rumo da desinstitucionalização.] marcos iniciais paradigmáticos da Reforma Psiquiátrica no Brasil”. 1995. já com a tarefa de “[. Paulo Amarante descreve como histórico esse momento. A influência basagliana torna-se predominante agora. de caráter nacional e de formulação de Políticas de Saúde Mental. Estado de São Paulo. 2003. afirma-se a posição do movimento de que este deve ultrapassar as propostas de transformação institucional.] construir opinião pública favorável à luta antimanicomial” (AMARANTE. Nele. a Reforma Psiquiátrica Brasileira toma. 76 e 79). ao colocar no horizonte possível uma “utopia que pode demarcar um campo para a crítica das propostas assistenciais em voga” (AMARANTE. citado por Paulo Amarante como “II Congresso Nacional do MTSM”. No modo de ver de Paulo Amarante.47 promoção da saúde mental” (AMARANTE. devido a três fatores. ressalte-se que algo já surge em uma reunião importante. -A aproximação do MTSM com as entidades de usuários e familiares (AMARANTE. -O início de um processo de distanciamento entre o Movimento e o Estado. a “I Conferência Nacional de Saúde Mental” e o “Encontro Nacional do Movimento de Trabalhadores de Saúde Mental” (SÁVIO... além da aliança entre novos e antigos militantes: -A renovação teórica e política do MTSM. com grande participação de técnicos. durante a I Conferência Nacional de Saúde Mental. teóricoconceitual e sociocultural. Alcança. p.. O II Congresso Nacional do MTSM aconteceu em Bauru. que aponta para a comunidade como sede de transformações. com a “desinstitucionalização em sua dimensão mais propriamente antimanicomial” (AMARANTE. buscando formas independentes de organização e voltando-se [. Quanto aos fatos políticos do movimento. o lema “Por uma Sociedade sem Manicômios” aponta para uma intervenção/provocação no âmbito sócio-cultural. a aliança com o Estado. Para além do fato de ser contraditório pedir que o Estado reconheça espaços que se pretendem autônomos. p. em dezembro de 1987. político-jurídico. como os dois primeiros. com as novas decisões. que é preciso ter como estratégia principal “o desatrelamento do aparelho do Estado. 1995. 1).

103). enquanto instrumento de tratamento. Terapia Ocupacional). com a eleição direta para Governador de Estado. o que depois veio a ser chamado de ambulatório ampliado com oficinas terapêuticas. Em São Paulo. Esse CAPS leva o nome de “Centro de Atenção Psicossocial Professor Luiz da Rocha Cerqueira”. surgiu a oportunidade de implantar um Programa de Saúde Mental de acordo com o que havia de avançado na época. não integrado à comunidade. Com a regionalização da assistência. das condições de vida. que já contavam com o ingresso de diversas categorias profissionais além da psiquiatria (Psicologia. p. e às resistências a lidar com a questão. em 1987. A percepção da necessidade de um espaço próprio para a abordagem da psicose fez . praticado no espaço físico do ambulatório ou Centro de Saúde. burocrático.48 partir para expandir para a sociedade a discussão da loucura. da exclusão. (Cf. aumentam em número e em qualidade os dispositivos alternativos à internação psiquiátrica. 1996. multidisciplinar. Com essa compreensão. não questionador da exclusão. 105). um sistema que não rompe com a “figura cronificada de 'paciente'” (GOLDBERG. grupal. que logo mostraram sua pouca eficácia quanto à abordagem dos quadros graves. Constatada a falência do Hospital Psiquiátrico. em São Paulo. Rotineiro. haveria o encaminhamento para os Ambulatórios especializados de Saúde Mental. as pessoas que precisavam de atendimento em Saúde Mental procuravam o que então se considerava o mais simples. no que foi implantado. Isto é. as atenções voltaram-se para o ambulatório de Saúde Mental. os Centros de Saúde. ainda centrado no modelo médico. Serviço Social.GOLDBERG. repetidor. 1996. Caso fosse necessário. o ambulatório não dava respostas à enorme tarefa de substituir a internação psiquiátrica. o conceito de desinstitucionalização passa a primeiro plano. na sua maioria psicoses. uma modalidade de atendimento intensivo. Jairo Goldberg vê. pouco interdisciplinar. p. e com a proposta de substituir internações por outros procedimentos. abrindo a perspectiva de ações conjuntas e multiplicando o questionamento a respeito dos métodos criticados e das alternativas. Começa a surgir. dada a não efetividade das consultas especializadas no atendimento à psicose. lembrando o já conhecido hospital-dia. Mesmo reconhecendo os avanços conseguidos. Outro fator da maior importância no momento descrito é a entrada em cena das associações de familiares e usuários. é um momento marcante na história da transformação da assistência à Saúde Mental no Brasil. A instalação do primeiro Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) do país. Com o movimento em franca expansão e com pessoas ligadas a ele ocupando postos de direção em diversas instâncias governamentais.

Assemelha-se mais ao que foi implantado na Itália. p. SÁVIO. Paulo Delgado. de um dispositivo que acolhia de modo diferenciado. em Santos. Outro momento expressivo da Reforma Psiquiátrica no Brasil foi a intervenção da Secretaria de Saúde do Município de Santos. a Casa de Saúde Anchieta. no que foi o disparador de um processo de multiplicação dessa modalidade de atendimento num ritmo que mostra a adesão de profissionais e instâncias de governo. p. também. em maio de 1989. o Projeto motivou uma discussão inédita a respeito da loucura. a intervenção em Santos mostrou-se como exemplo de determinação política e de resultados. Os NAPS têm uma estrutura diferenciada dos CAPS. que se propõe a “lidar com a psicose e suas determinações de marginalização e cronificação nas vertentes de assistência. O Projeto tomou corpo com a instalação. mas que ainda está aquém do necessário para dar conta da demanda. 1996. investigação e formação de recursos humanos para a rede de prestadores de serviços de saúde” (GOLDBERG. numa casa. foram os instrumentos de substituição das internações. Em 1997 já havia 176 CAPS e Núcleos de Atenção Psicossocial (NAPS) no Brasil. do preconceito. por exemplo. 111). O CAPS Luiz Cerqueira iniciou seu funcionamento em junho de 1987. Devido ao inédito da ação. AMARANTE. p. por oferecer atendimento nas 24 horas. 113). 84). p. 2003. que estabelecia os direitos dos pacientes psiquiátricos e postulava a extinção progressiva dos hospitais psiquiátricos. Mesmo não sendo modelo para repetições mecânicas. com estímulo às relações interpessoais e grupais e com “instâncias de escuta.49 surgir o documento “O Centro de Atenção Psicossocial Professor Luiz da Rocha Cerqueira – Projeto Docente-Assistencial Multicêntrico”. complementando o trabalho de transformação feito dentro do hospício. (Cf. aos confrontos jurídicos. 1995. Os NAPS. à vontade política implicada. dos métodos de tratamento e suas alternativas. O ano de 1989 também foi marcado pelo início da tramitação no Congresso Nacional do Projeto de Lei do Deputado Federal por Minas Gerais. às denúncias de maus tratos e aos desdobramentos em termos de articulação de um Programa de Saúde Mental que se propunha totalmente substitutivo ao modelo manicomial. ou até mesmo por isso. o fato teve demorada repercussão nacional. São Paulo. Apesar do longo tempo que levou para ser aprovado. (Cf. diversas associações de usuários e familiares e leis estaduais com o mesmo sentido do Projeto federal. Fez surgir. numa instituição privada conveniada. de expressão verbal e não-verbal” (GOLDBERG. 1996. . chegando a 295 em 2001. 8).

MINISTÉRIO DA SAÚDE. 2003. no Ano 2000 (BRASIL. além de propor a quebra da hegemonia do hospital psiquiátrico como recurso preferencial e de chamar a atenção para a necessidade de garantir os direitos humanos das pessoas assistidas tem como seu primeiro ponto a recomendação de que a reestruturação da atenção psiquiátrica ligada ao Atendimento Primário de Saúde e no quadro dos Sistemas Locais de Saúde. centrados na comunidade e dentro de suas redes sociais (BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. MINISTÉRIO DA SAÚDE. lembra. que O Atendimento Primário de Saúde é a estratégia adotada pela Organização Mundial de Saúde e pela Organização Pan-Americana de Saúde e referendada pelos países membros para alcançar a meta de Saúde para Todos. naquele momento.. na área da Saúde Mental. p. na época que estamos percorrendo.50 Domingos Sávio destaca como fatos importantes para a Reforma Psiquiátrica Brasileira. e a Declaração de Caracas. Ressaltando que os Sistemas Locais de Saúde são os instrumentos para a efetivação da meta de oferecer "[. 2002.. e a apresentação do Projeto do Deputado Paulo Delgado. acontece em Caracas. em novembro de 1990. a "Conferência Regional para a Reestruturação da Atenção Psiquiátrica dentro dos Sistemas Locais de Saúde".] os Programas de Saúde Mental e Psiquiatria devem adaptar-se aos princípios e orientações que fundamentam essas estratégias e os modelos de organização de assistência à saúde" (BRASIL. permite a promoção de modelos alternativos. participativa e preventiva". os dois fatos em 89... p. Após os avanços políticos e de organização conseguidos na década de 80. 1). A parte do documento reservada às recomendações finais. no Brasil. a intervenção na Casa de Saúde Anchieta. . que veio a ser conhecido como "Declaração de Caracas". 11). 11). 2002. Essa reunião produziu um documento que resume o que era o entendimento. Trata-se de um documento com a chancela da Organização Mundial da Saúde e da Organização Panamericana da Saúde. No preâmbulo. em 1990. a respeito de como deveriam ser conduzidas as Ações de Saúde Mental. fim da década de 80 e início da de 90. sob a forma de declaração. a Declaração recomenda que “[. (SÁVIO. p. Numa afirmação decisiva para a área da Saúde Mental. nas considerações. p. 12). critica a internação psiquiátrica e a assistência psiquiátrica convencional. na Venezuela.] melhores condições para desenvolver programas baseados nas necessidades da população de forma descentralizada. 2002. o texto final aprovado na Conferência. em Santos.

do Secretário Nacional de Assistência à Saúde do Ministério da Saúde. MINISTÉRIO DA SAÚDE. como vimos acima. Depois. que nessa altura estavam em postos no Ministério da Saúde. usuários e familiares (lares abrigados. emergências psiquiátricas em hospital geral. afastado do centro das discussões. define o financiamento para ações de Saúde Mental que já estavam sendo praticadas sem esse incentivo. o trabalho nas comunidades permaneceu. p. de forma a adequá-lo à realidade da transformação em andamento. no seu início. 55). apesar da recomendação explícita da OPAS e da OMS na Declaração de Caracas. A importância desta e das outras portarias está no fato de alterar o financiamento em Saúde Mental. “Política pública de faz conhecer quando se define o seu financiamento” (BRASIL. ao lado de representar um avanço da OMS. começaram a ser editadas. Faz parte dos objetivos dessa monografia. de 29 de janeiro de 1992. Porém. A substituição do Modelo Assistencial em Saúde Mental estava. oficinas terapêuticas em ambulatórios ampliados. atendimento em CAPS e NAPS em um e dois turnos. clubes e associações autônomas). centrado na transformação dos hospícios e na implantação de equipes multidisciplinares ambulatoriais. Estas portarias foram elaboradas já com a participação de pessoas ligadas ao movimento de transformação da Saúde Mental. 2002. pelo Ministério da Saúde. a introdução dos NAPS e CAPS representou um passo decisivo na concepção e prática da atenção intensiva. Visita Domiciliar e Psicodiagnóstico. Em 1991. Outros dispositivos. atendimento em Oficinas Terapêuticas. no Brasil. inclui no Sistema de Informações Ambulatoriais (SIA/SUS) os seguintes procedimentos: atendimento em grupo. nota-se a orientação do movimento de mudanças. bem como seus resultados. foram incorporados ao cotidiano de profissionais. Nas diretrizes contidas no preâmbulo da histórica Portaria 224. é um documento que aponta com clareza o trabalho nas comunidades e nos sistemas locais de saúde como o campo onde as ações preferenciais de Saúde Mental devem ser executadas. durante anos.51 A Declaração de Caracas. Conforme o próprio comentário da publicação do Ministério da Saúde onde está a Portaria 189. levantar a seqüência das práticas de Saúde Mental ligadas à Atenção Básica. alguns já praticados de modo não sistemático. portarias que concretizavam. as mudanças que estavam em andamento nos serviços de Saúde Mental. tentando perceber o que facilita e o que dificulta a sua compreensão e execução. A Portaria 189. Além de alterar a normatização da Autorização de Internação Hospitalar. no que diz respeito às práticas do dia a dia. de 19 de novembro de 1991. oficialmente. presente na Coordenação de Saúde .

. hierarquização. 56). governos e entidades da sociedade civil” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. diversidade de métodos e técnicas terapêuticas nos vários níveis de complexidade assistencial. conselhos da área de saúde. visto como homogêneo. o que de fato nunca foi. MINISTÉRIO DA SAÚDE. 2002. e proibir práticas restritivas típicas desses locais. também. as ações dos CAPS e NAPS. em linhas gerais. Em 1991.] associações de usuários e familiares. no fim da década de 80 e início da de 90. p. É importante assinalar que o que foi chamado de Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental. MINISTÉRIO DA SAÚDE. A Portaria 224 “[. 64). seja das diversas formas de compreender e trabalhar o social e o político. no seu início. representantes das “[. traçar normas para os Hospitais Psiquiátricos. 2002. Cada linha teórica. e teve a grande importância de definir. O comentário à portaria chama a atenção para o fato político que ela representou. ênfase na participação social desde a formulação das políticas de saúde mental até o controle de sua execução.] regulamenta o funcionamento de todos os serviços de saúde mental” (BRASIL.. 7). entendida como 'regra mínima'. 2002. Foram cerca de 20 mil pessoas envolvidas nas diversas etapas. regionalização e integralidade das ações. p.. 64). MINISTÉRIO DA SAÚDE. isto é. Tentou..52 Mental do Departamento de Programas de Saúde da Secretaria Nacional de Assistência à Saúde do Ministério da Saúde: organização de serviços baseada nos princípios de universalidade. prestadores de serviço. ao “[. definição dos órgãos gestores locais como responsáveis pela complementação da presente portaria normativa e pelo controle e avaliação dos serviços prestados (BRASIL. sempre de difícil fiscalização. o conjunto de profissionais. já não pode mais ser. seja do campo da psicologia. da psicanálise.. p. A Conferência teve na sua Comissão Organizadora. de 1 a 4 de dezembro de 1992. multiprofissionalidade na prestação de serviços. Um dos méritos desse movimento foi encontrar a unidade na prática. O amplo debate .] ter sido aprovada pelo conjunto dos coordenadores/assessores de saúde mental dos estados. Nem era essa a pretensão. usuários e familiares que postulavam e praticavam novas concepções a respeito do que se entende por “sofrimento mental” e sua abordagem terapêutica. pudesse ser cumprida em todas as regiões do País” (BRASIL. A II Conferência Nacional de Saúde Mental acontece em Brasília. 1994. encontra meios de participar do movimento em razão dos objetivos comuns. para que. p. o movimento. após mobilização que contou com 150 conferências municipais ou regionais e 24 Conferências Estaduais. no fim da década de 70. já é um conjunto complexo com várias tendências políticas e linhas teóricas..

cooperativas de trabalho e outros serviços que tenham como princípio a integralidade do cidadão (MINISTÉRIO DA SAÚDE. uma marcada citação da Declaração de Caracas.. p.] referência fundamental para o processo de transformação do modelo de atenção à saúde mental que se desenvolve no país” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. serviços territoriais que funcionem 24 horas. eqüidade. 1994. centros de convivência. apontada como sendo uma “[. estão indicados os conceitos que nortearam a Conferência: Atenção Integral e Cidadania.. da Declaração de Caracas e da I Conferência Nacional de Saúde Mental: visão integrada da complexidade da vida social. 1994. Ao citar os dispositivos da rede de atenção que substituirá o modelo hospitalocêntrico.] inserção da saúde mental nas ações gerais de saúde” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. deixando pistas. .] como “[. na sua Apresentação. e alguns conceitos básicos que aparecem no texto do Relatório Final. p. traçando rumos ou marcando omissões.] democratização do Estado com controle da sociedade civil” [. quais os pontos aprovados que têm relação com o trabalho da Saúde Mental na Atenção Básica. A Conferência. (MINISTÉRIO DA SAÚDE. p. Define-se “Atenção Integral” como a concepção de atenção à saúde dentro dos princípios da 8a. Como poderemos perceber.. Veremos. 11). centros de atenção psicossocial. a transformação e cumprimento das leis e o direito à atenção e à cidadania. unidades de atenção intensiva em saúde mental em regime de hospital-dia. 1994. afirma a necessidade da “[. com a participação de usuários em todas as atividades. dentro da sua posição política. pensões protegidas. a Conferência teve como temas centrais a Rede de Atenção em Saúde Mental. a seguir. 7). relaciona: unidades de saúde mental em hospital geral. 13).. O termo “Atenção Básica” não aparece no relatório. Nos “Marcos Conceituais”. Aponta para a “[. dispositivos sanitários e socioculturais.] fundamento do direito à cidadania e da transformação da legislação de saúde mental” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. 1994. é esparsa e mínima a alusão à entrada da Saúde Mental na Atenção Básica e nas comunidades. 13). 9). mesmo tendo. A Conferência reafirma todos os postulados do movimento de transformação da Saúde Mental dos últimos anos e traça diretrizes para a sua efetivação na prática.53 prévio materializou-se. emergência psiquiátrica em pronto-socorro geral. universalidade. descentralização e participação. durante a Conferência.. p. p. Segundo o Relatório Final.. 1994. dentro de um resumo das conclusões da Conferência. Conferência Nacional de Saúde. lares abrigados... integralidade...

e também cotidiano e elementar. Franco Rotelli e outros esboçam a definição de desinstitucionalização como: o processo social complexo que tende a mobilizar como atores os sujeitos sociais envolvidos. 2001. sempre referido ao conceito de doença.. de saída. p. Rotelli afirma que a psiquiatria tradicional parte de uma concepção que a leva a encarar o seu campo. sinônimo de redução de leitos hospitalares e uma das primeiras operações conseqüentes da crise fiscal” (ROTELLI.. sem proporcionar uma rede de atenção que os substitua e sem criar uma alteração na forma da sociedade lidar com o “problema mental”.] desmontar a solução institucional existente para desmontar (e remontar) o problema” (ROTELLI. 2001. 19). 29).] (ROTELLI. 19). Rotelli pretende trazer para a discussão e para a prática toda a complexidade. Então.. p. liberando-a das suas funções arcaicas de controle social. mas como um conjunto complexo. nem com um “programa de racionalização financeira e administrativa. que tende a produzir estruturas de Saúde Mental que substituam inteiramente a internação no Hospital Psiquiátrico [. a terapia não é mais entendida como a perseguição da solução-cura. p. Em artigo publicado em 1986. “[. 19). coação e segregação” (ROTELLI. Um conceito que tem forte presença no Relatório Final é o de “desinstitucionalização”. apenas retira as pessoas de dentro dos Hospitais Psiquiátricos.. 29). Rotelli diz que esta não se limita à desospitalização nem ao “intento de renovar a capacidade terapêutica da Psiquiatria.. Para situar precisamente o que seu grupo italiano pratica como desinstitucionalização. p. 18). a solução é o tratamento segregador. antes ocultada. p. 2001. Esta..] simbolizava a perspectiva de abolição de todas as instituições de controle social” (ROTELLI. p..54 Note-se que não há menção de trabalhos diretos com as comunidades. O problema é a doença mental. de estratégias indiretas e mediatas que enfrentam o problema em questão através de um percurso crítico sobre os modos de ser do próprio tratamento (ROTELLI. Ao não entrar na discussão teórica de etiologia dos transtornos mentais. 2001. que tende a transformar as relações de poder entre os pacientes e as instituições. Rotelli adverte para a distinção entre desinstitucionalização e desospitalização. Igualmente não se destina ao que “[. 2001.] para os grupos de técnicos e políticos radicais [. .. quer. 2001. dentro do esquema simplificador problema-solução.

(Cf. assinalando que: . 31). Nota-se. Por isso trata-se de demolir a compartimentalização entre estas tipologias de intervenção (ROTELLI. MINISTÉRIO DA SAÚDE). Rotelli constrói uma articulação estreita entre teoria e prática da maior importância para nós. psicoterapêutica. então desinstitucionalização será o processo crítico-prático para a reorientação de todos os elementos constitutivos da instituição para este objeto bastante diferente do anterior (ROTELLI. 2001. em que Rotelli diz que: os diversos tipos codificados de 'terapia' (médica. é marcante a importância que é dada aos movimentos sociais. tanto na sua determinação quanto na articulação da rede de atenção. as demandas sociais etc [. No Relatório Final da II Conferência. vê hospitais e ambulatórios como referência (Cf. (ROTELLI.55 Marcando mais ainda sua posição a respeito de uma outra forma de encarar o fenômeno do sofrimento mental. a relação passa a ser como território. mas redutivos e parciais. No bojo dessa intenção. Rotelli mostra que estes “[. os poderes.] ativam toda a rede de relações que estruturam o sistema de ação institucional e dinamizam as competências. 2001... psicofarmacológica. p. Em “Da Cidadania”. os interesses.. uma preocupação constante em conseguir um novo estatuto para a psiquiatria. Mais adiante. e assumindo integralmente sua função política. Rotelli diz que a abordagem. Esta postura do técnico é muito diferente da criticada no artigo. etc. Rotelli diz que: se o objeto ao invés de ser 'a doença' torna-se 'a existência sofrimento dos pacientes'.]” (ROTELLI. que tem como ponto central a “doença”. politicamente. a Conferência se posiciona. outro conceito que aparece no texto do Relatório Final na II Conferência Nacional de Saúde Mental. 2001). p. ROTELLI. Ao mudar o paradigma para a desinstitucionalização. como veremos mais adiante. 2001). Ressaltando o papel do técnico em Saúde Mental no processo de desinstitucionalização. social. p.. mais uma vez. sobretudo se isolados e codificados. psicológica. enquanto protagonistas dos avanços que se pretende na abordagem à questão do sofrimento mental. 30). 2001. 46).. no texto de Rotelli.) são considerados como momentos também importantes. e sua relação com o corpo social. desta vez com inserção no movimento social..

1994. não há diretriz que a defina como local de intervenção direta. envolvendo todas as instituições sociais. (MILAGRES. não deve estar desvinculada do conjunto de esforços desenvolvidos pelo povo brasileiro na luta por sua cidadania.. por vezes também traduzida por “tomar encargo”. 22). usuários e familiares (MINISTÉRIO DA SAÚDE. tanto no que se refere a estimular a participação e luta pela cidadania. Na Segunda Parte do relatório. 1994. MINISTÉRIO DA SAÚDE). 122). O conceito de responsabilidade vem da tradução do italiano presa in carico. quanto pelo aspecto de controle do Sistema de Saúde e definição de seus rumos. de sua inserção no mundo”. Os conceitos de território e de responsabilidade são importantes para os dispositivos que a Reforma Psiquiátrica está implantando e podem mesmo ser parâmetros de aferição da propriedade ou impropriedade das ações. o qual diz que “[. como forma de dar à distritalização em saúde mental um caráter de ruptura com o modelo hospitalocêntrico [. ou assim consideradas. O item citado a seguir é um exemplo dessa postura: “Estimular a organização dos cidadãos em associações comunitárias.]” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. unindo os profissionais. onde serão debatidos os problemas de saúde mental e encaminhadas as propostas aos conselhos municipais de saúde” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. No mesmo capítulo. André Luis Duval Milagres. segundo a nota da tradutora do artigo de Franco ..56 a luta pela cidadania das pessoas com transtornos mentais. cada vez mais. (Cf. mas o conjunto de referências sócio-culturais e econômicas que desenham a moldura de seu cotidiano. de modo a que possam. p.. 19). de seu projeto de vida. O que ainda não aparece é a comunidade como local de intervenção em Saúde Mental. contrastando com a proposta de desinstitucionalização. cita Pedro Gabriel. Ao lado de mostrar a importância da participação da comunidade. numa nota de seu artigo sobre os “Serviços Residenciais Terapêuticos”. 1994. que trata das “Recomendações Gerais” a respeito da “Atenção à Saúde Mental e Municipalização”. p. 19). no trecho acima. 2003. as conclusões apontam para trabalho nas comunidades: O trabalho de saúde mental na comunidade deve ser voltado para o envolvimento das pessoas. num processo de organização crescente. p. 1994. influir diretamente nas questões que lhes digam respeito (MINISTÉRIO DA SAÚDE. p. há a indicação de “Adotar os conceitos de território e responsabilidade. p.] território não é o bairro de domicílio do sujeito. Notamos. que há uma preocupação da Conferência com a participação da comunidade.. 19).

Dar prioridade à capacitação do médico generalista para atenção em saúde mental.. surgem algumas indicações para o investimento em capacitação para as ações nas comunidades... No capítulo “Financiamento”. a impossibilidade de delegar a uma outra estrutura a assistência à população da região de referência (ROTELLI. Assim. p. centros de convivência. com a característica de não localização e de organização.. No capítulo “Gerenciamento”. que esclarece: cabe ressaltar que esta expressão se constitui numa premissa fundamental na organização dos serviços territoriais e significa 'fazer-se responsável'.. como alternativa para a organização de serviços municipais”.. da Organização do Trabalho e da Pesquisa”.] d) criar projetos de extensão que possibilitem a formação de agentes comunitários urbanos e rurais. Ao relacionar os componentes desta rede..] (MINISTÉRIO DA SAÚDE.. 1994. A Reforma Psiquiátrica Italiana no Contexto da Europa Ocidental e dos Países Avançados”. 2001. aparece uma indicação de “Constituir equipes itinerantes que atuem na comunidade. com unidades básicas de saúde/centros de saúde.]” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. 1994. 1994. para as equipes de saúde dos sistemas locais. (MINISTÉRIO DA SAÚDE. 32). está recomendado . Na parte dedicada aos “Direitos dos Usuários”. p. isto é. já aparece a preocupação de redirecionar recursos das internações psiquiátricas para a rede extra-hospitalar. Formar e contratar agentes comunitários em saúde [. p. Esta parece ser a indicação mais clara de um caminho para o trabalho junto às comunidades. introduzindo temas de saúde mental sob a ótica de saúde coletiva [. oficinas terapêuticas e cooperativas [. aparece uma referência à “saúde mental na rede geral de saúde pública. destacam-se os itens: Enfatizar temas de saúde e trabalho e de atenção em saúde da criança. p. Recomendar à Universidade e demais órgãos formadores: a) processar profundas mudanças nas agências formadoras de trabalhadores de saúde. 37 e 38). uma outra via.57 Rotelli “Desinstitucionalização. nas áreas urbana e rural. dentre os outros dispositivos que vêm sendo citados. principalmente em regiões onde a ampliação da equipe não seja viável a curto prazo. 34). No capítulo que trata “Dos Trabalhadores de Saúde. 28).] c) desenvolver programas de pós-graduação em saúde mental na perspectiva da saúde coletiva [.

No plano da legislação. talvez. falta de compreensão das administrações para a questão da Saúde Mental. divulgado os conceitos e levado. de modo a garantir a integração social e familiar dos usuários (MINISTÉRIO DA SAÚDE. com adesão consciente ou não ao modelo manicomial. estadual e municipal. as tentativas de mudança esbarram com problemas que tornam lentas as modificações. usuários e familiares. alguns estados editaram suas leis da Reforma Psiquiátrica. 1994. No Ministério da Saúde. baixa capacitação dos novos gestores. a política e uma grande diversidade de aspectos singulares. A década de 90 foi marcada pela atuação institucional. Uma mostra da atração que tem exercido a Reforma Psiquiátrica é a importante produção acadêmica sobre o tema. como um documento de persuasão nos municípios para que assumissem suas responsabilidades. as portarias contemplaram a eterna e difícil tarefa de regulamentar e fiscalizar os . nos níveis federal. Os entraves são de diversas ordens: falta de politização e de capacitação de profissionais. passaram a inserir temas da Reforma Psiquiátrica. não só de textos sobre a Reforma em si. Mas. 55). p. mas muitos abordando a clínica. As conclusões da II Conferência Nacional de Saúde Mental tornaram-se as diretrizes que passaram a nortear a luta pelas efetivas mudanças na área da Saúde Mental. Quando fazemos um apanhado histórico. começado a afetar a formação. para a prática. com isso. fizeram surgir e se firmar os Programas de Saúde Mental. no dia a dia. com alguns serviços burocratizando-se e perdendo a potencialidade transformadora.58 Formar conselhos comunitários. Os concursos públicos. que terão por função principal assistir. a tendência à repetição do modelo que se quer substituir está sempre presente. de milhares de profissionais de Saúde Mental que adotaram o ideário da Reforma Psiquiátrica. aos poucos. auxiliar e orientar as famílias. A Reforma Psiquiátrica começou como um movimento e pretende continuar a sê-lo. durante a década de 90. A criatividade nos serviços tem produzido diversificação e multiplicação das ações em Saúde Mental. vemos que a evolução dos acontecimentos é favorável. também. Os profissionais. Por outro lado. dificuldades nas políticas públicas necessariamente parceiras da Saúde Mental e. adiantando-se à legislação nacional. inércia administrativo-burocrática. como aqui. profissionais ao menos informados a respeito do que se pretende de avanço na área. choque com interesses políticos locais. com a cooperação do Ministério Público. nos estados e municípios. tendo. em lenta tramitação. tendo servido. principalmente. os problemas ligados ao financiamento do Sistema Único de Saúde.

Temos visto municípios esperando o CAPS. Prioridade é decisão política. traz um problema: a necessidade de convencimento dos gestores municipais de que devem investir em uma casa. Quanto ao trabalho com a Atenção Básica. mas sem prioridade estratégica. entre os dispositivos citados acima. a “Rede Básica de Saúde – PSF”. as ações de Saúde Mental na Atenção Básica são listadas como possibilidade. junto com uma Equipe que.. Desta forma. o financiamento do Serviço Residencial Terapêutico. 2000. Num gráfico a respeito da “Saúde Mental no Território”. com os objetivos podendo ser alcançados através de diversos caminhos. antes que a remuneração comece. deram um impulso até então inédito na organização da Assistência à Saúde Mental no estado. teria início um bom trabalho em Saúde Mental. aí sim. já contava com alguns trabalhos em andamento no país. aluguel.] reorientação do modelo assistencial hospitalocêntrico. criando uma rede de serviços de pequena e média complexidade para atendimento psicossocial com base territorial” (DELGADO & GOMES. ao lado dos Coordenadores Municipais de Saúde Mental. Em abril de 1999. p.. as prioridades e o início das ações da nova Assessoria estão no trabalho “A política de saúde mental do estado do Rio de Janeiro: uma descrição preliminar”. 18). Além da Equipe de . A eleição dos CAPS como prioridade é válida mas. O diagnóstico da situação encontrada.. HD). de Pedro Gabriel Godinho Delgado e Maria Paula Cerqueira Gomes. Unidades Psiquiátricas em Hospital Geral (UPHG). Pedro Gabriel Delgado assumiu a Assessoria de Saúde Mental da Secretaria de Estado de Saúde do Estado do Rio de Janeiro. ações de apoio social e promoção de direitos (DELGADO & GOMES. não há necessidade de construção. (Cf. p. material para colocá-la em funcionamento. trabalho protegido. 2000). pessoal. como se só com a sua colocação em funcionamento.. Definindo a Política Estadual de Saúde Mental como de “[. a assistência farmacêutica.] dispositivos estratégicos para a Reforma Psiquiátrica [.] Serviços de Atenção Diária (Centro de Atenção Psicossocial – CAPS.59 Hospitais Psiquiátricos. instalação. nessa lista. este último já no ano 2000. 18). 2000. Núcleos de Atenção Psicossocial – NAPS. Chama a atenção a falta. Hospital-Dia. que. 2000). o trabalho citado acima lista os [. das ações de Saúde Mental na Atenção Básica. O gráfico tem o “Serviço-Dia” como centro. ambulatórios. DELGADO & GOMES.. aparece. (Cf. na época. serviços residenciais terapêuticos. na página 22 do trabalho citado de Pedro Gabriel e Paula Cerqueira. programas de lazer.. se outros caminhos não são apontados com firmeza. DELGADO & GOMES.

Constatou-se a falta de acompanhamento dos egressos de internações e falhas na rede ambulatorial e na atenção diária. não conseguimos descer do patamar dos sessenta mil leitos . Implantação dos CAPS. Como ações estratégicas de trabalho. p. (Cf. Implantação dos Serviços Residenciais Terapêuticos. Naquele momento existiam 25 CAPS no estado. 21).. praticando.. p. O problema dessa definição do CAPS como pólo articulador.. como “[. está em que ele só pode exercer tal função caso exista. novos militantes.. relatada no trabalho que está sendo citado. Perspectivas e Prioridades”. (Cf. a Assessoria implantou o Colegiado de Coordenadores Municipais de Saúde Mental.]” (DELGADO & GOMES. a base de que precisamos para o trabalho já está alocada: a equipe do Programa de Saúde da Família e do Programa de Agentes Comunitários de Saúde. 20). Política intersetorial para atendimento do usuário de drogas. 2000). Reunindo uma significativa representação de profissionais ligados desde o início à Reforma Psiquiátrica. em uma lógica de rede. p.] a assistência psiquiátrica pública no Estado do Rio de Janeiro ainda tem como característica a hegemonia do dispositivo hospitalar e das longas internações” (DELGADO & GOMES. o Fórum Nacional “Como Anda a Reforma Psiquiátrica Brasileira? Avaliação. capaz de funcionar como centro articulador. 2000.] dispositivo estratégico. Um consenso entre os participantes do Fórum foi o de que a Reforma Psiquiátrica passava por um período de dificuldades quanto à velocidade das ações. DELGADO & GOMES. (CIB 54). 19). o Conselho Federal de Psicologia organizou. familiares e usuários dos serviços. que se reúne mensalmente para troca de informações e discussão geral. Programa de Educação Continuada para atendimento psicossocial. foram eleitas: Padronização de informações. mas também o é prescindir dele. representou um balanço importante e um momento para rearticulações. O diagnóstico da situação encontrada.. repetimos. O trabalho coloca o CAPS. das instâncias de cuidados básicos em saúde [. VÁRIOS AUTORES.. em Brasília.60 Saúde Mental. Política de Medicamentos. constatou que “[. 2000. de reorientação dos recursos das AIHs para o sistema ambulatorial.. então.] há praticamente três anos. sendo 15 na Região Metropolitana e 10 no Interior. Como linhas de ação. pela Secretaria de Estado de Saúde e pela Comissão Intergestores Bipartite. enquanto não se torna realidade. Em maio de 2000. 2000. as ações de atenção diária onde e como for possível. Foi também tomada a decisão. Foi assinalado que “[. o que é visto graficamente com a presença desse dispositivo no centro dos recursos da rede de atenção psicossocial. Programa de Saúde Mental para crianças a adolescentes.. Programa de atenção à população em situação de rua. O CAPS é realmente estratégico.

Isso está avançando aceleradamente .] quando mergulhamos a reforma psiquiátrica no caldo da reforma sanitária.. 24). do Ministério da Saúde... sem esperar pelo Ministério da Saúde.]” (VÁRIOS AUTORES... sem que com isso deixe de ter claro que é necessário o conflito: “Quando falo de falta de audácia de certos gestores progressistas é porque eles. 2000. reducionista [.. na minha opinião. 2000. 2000. p. de 11/2/2000. 2000. destacou-se a ação do “sindicato de empresários”. As respostas a essas críticas mostravam que cabe aos Municípios partir para as ações práticas em Saúde Mental. dentre outras análises. Querem. após assinalar a fertilidade da primeira metade da década de 90.61 psiquiátricos no Brasil” (VÁRIOS AUTORES.. e pela demora da regulamentação da Portaria.. David também sugere que os profissionais de Saúde Mental tenham menos timidez em abrir a discussão com a sociedade e diz: [. MINISTÉRIO DA SAÚDE. citando a sua experiência: “solidez dos apoios” [.. 15). As críticas eram a respeito da não inclusão de pessoas que têm família...] um pensamento acadêmico. 2000.. evitam o conflito. há “dois grandes inimigos” da Reforma Psiquiátrica: “[...] o sindicato dos donos de hospitais [..]” (VÁRIOS AUTORES. Hoje em dia há mais de sete mil equipes de saúde da família no país. que só viria em 7/11/2000..] amplitude das alianças [. p. (BRASIL. a todo custo. lembra. aponta “[. 27). Como fatores que impedem um ritmo maior de queda dos leitos psiquiátricos. Mas.. que instituía o Serviço Residencial Terapêutico. p.. mas são abandonados por elas. ser algodão entre cristais.] e “[. Segundo David.] “uma incompreensão ou uma idéia de não entender a reforma psiquiátrica como uma parte da reforma sanitária” (VÁRIOS AUTORES. por parte do Ministério. p. David Capistrano Filho define a base da ação política em Saúde. O Fórum estava sob o impacto da edição da Portaria 106..] forças corporativas e profissionais reativas e reacionárias a um projeto de horizontalização das relações entre os assistidos e os que assistem” (VÁRIOS AUTORES. ou seja. 94). biologicista. 15). organizados na Federação Brasileira de Hospitais e as “[.. 23). 24). Essas sete mil equipes se responsabilizam por cerca de sete milhões de famílias. mais ou menos trinta milhões de pessoas no país. p. quando a área de Saúde Mental do Ministério da Saúde era coordenada por Domingos Sávio. 2002. Tem que haver conflito” (VÁRIOS AUTORES.] problemas do nosso lado” [. p. p... 2000.]” e “[. que já existe em andamento proposta de introdução da Saúde Mental no Programa de Saúde da Família e no Programa de Agentes Comunitários de Saúde. Alfredo Schechtman. Não podem. temos que pensar a mudança de estratégia e de modelo assistencial que é o chamado Programa de Saúde da Família.

e no ANEXO III (Serviços Integrantes da Rede Pública de Atendimento Psicossocial do Estado do Rio de Janeiro. p. 2000. de 14/03/2000. VÁRIOS AUTORES. (VÁRIOS AUTORES. 26). definidos pela Portaria MS nº 224. o redirecionamento do dinheiro gasto com internações psiquiátricas para a rede de atenção psicossocial.. [. que resolve: Determinar que os recursos financeiros correspondentes à AIH tipo 5. a serem implantados até dezembro de 2001.. foi aprovada pela Comissão Integestores Bipartite uma resolução que redireciona recursos das Interações Psiquiátricas para a rede extra-hospitalar. 2000).. Temos que introduzir os elementos de construção dos sistemas alternativos nos Programas de Saúde da Família (VÁRIOS AUTORES. 2000.. naquele momento. na prática. até dezembro de 2000). Pedro Gabriel Delgado. p. segundo os limites financeiros e o cronograma de implantação e funcionamento discriminados no ANEXO II (Serviços Psiquiátricos Extrahospitalares de Implantação e/ou Consolidação Prioritárias. Diversos participantes mostraram a necessidade de maior participação dos militantes da Reforma Psiquiátrica nos Conselhos Municipais e Estaduais de Saúde e na fiscalização dos hospitais psiquiátricos. apenas está mais lenta..]” (VÁRIOS AUTORES. A deliberação citada inaugura. por município e por custo) (COMISSÃO INTERGESTORES BIPARTITE. no Estado do Rio de Janeiro. sejam integralmente utilizados nos Serviços Residenciais Terapêuticos do município onde se localize o Hospital Psiquiátrico em que o paciente está internado.] avanços localizados em alguns lugares. 37). antes de coordenar a Saúde Mental do Ministério da Saúde. Trata-se da Deliberação CIB-RJ N. p. e que levaria a reivindicação de maior ação ao então Ministro da Saúde José Serra. retrocessos extraordinários em lugares que haviam avançado e existe uma desarticulação muito grande”. Pedro Gabriel informa que. º 54. ainda Assessor de Saúde Mental da Secretaria de Estado de Saúde do Estado do Rio de Janeiro. de 29 de janeiro de 1992. dos pacientes que tiverem alta para encaminhamento aos Serviços Residenciais definidos nos termos da Portaria MS/GM nº 106. 2000)...] Aprovar a utilização dos recursos dos tetos financeiros de Internação em Hospital Psiquiátrico para custear a implantação e funcionamento de Centros de Atenção Psicossocial e Oficinas Terapêuticas.. reconheceu que “[. de 11 de fevereiro de 2000. (Cf. 37). O Deputado Paulo Delgado diz que a Reforma Psiquiátrica não parou.62 e chegando às regiões metropolitanas. . 2000. ou nos municípios de domicílio original do paciente de longa permanência. além de fechar os leitos que se comprovarem ociosos. com “[.] o movimento da reforma psiquiátrica no Brasil vive um período de estagnação [.

] a relativa paralisia da reforma devese... p. p. 2000. “o dinheiro segue o paciente”. Citando a máxima de Benedetto Saraceno. a uma forma que me parece pouco eficaz do movimento social que sustenta a reforma [.. 53). são articuladas propostas interessantes – é fundamental que entrem na agenda do movimento – relativas ao PSF – Programa de Saúde da Família (VÁRIOS AUTORES. visitados e acompanhados. a evitar o abandono do tratamento (VÁRIOS AUTORES.. que é o financiamento das ações em Saúde Mental. a impedir novas internações. Outras intervenções apontaram para o trabalho na Atenção Básica. 67).. 2000.] talvez nós tenhamos que modificar a nossa estratégia de lidar com o Estado” (VÁRIOS AUTORES. parece-me que a integração de saúde mental com o projeto de saúde da família pode nos ajudar a conhecer a clientela. p. também. VÁRIOS AUTORES). 40). recursos previstos e disponíveis no SUS. entre outras coisas. 2000. 2000.. e essas equipes se responsabilizam por esse território. Pedro Gabriel conclui sua fala dizendo que “[. Através desse serviço de atenção diária. Muitos participantes se manifestaram para afirmar a necessidade de estados e. da Associação SOS Saúde Mental. para que se intitular um dispositivo substitutivo às internações psiquiátricas. hoje.. o Ministério da Saúde propõe a saúde da família como um eixo estruturante para a reformulação do modelo e que na proposta da saúde da família todos os moradores de uma região são cadastrados.]” (VÁRIOS AUTORES. os municípios. 39). Acho que essa é uma questão teórica que temos que enfrentar. 39) e que “[.] a unidade básica de saúde.. p. que disse da “[. pergunta: . Isabel Cristina Lopes. que opina que Se consideramos que.63 Pedro Gabriel adverte que. como a de Fernando da Cunha Ramos.. 2000.. p. como preconizada pela VIII Conferência Nacional de Saúde. a tratar dessas pessoas e. assumirem as suas responsabilidades com as ações da Reforma Psiquiátrica.] formação popular de agentes comunitários de saúde mental” (VÁRIOS AUTORES. mais do que isso. mandou um texto onde informa que essa Associação promove a “[. com base no território: Tem que ser um serviço de atenção diária ancorado no território. carece ser recuperada como espaço privilegiado para se fazer saúde mental” (VÁRIOS AUTORES. Fernanda Nicácio toca num aspecto básico. como os Programas de Saúde da Família e de Agentes Comunitários de Saúde” (VÁRIOS AUTORES. (Cf... p. 2000. 45) e a de Gisele Bahia.] importância de se utilizar. p 68) e no qual afirma que “[. principalmente. um serviço ou ação de Saúde Mental deve proporcionar atenção diária. 2000.

membros dos Conselhos Municipais de Saúde.203 pacientes.. p.. depositação de pacientes neurológicos. 2000. portanto quinze dias depois deste. um número grande de pacientes cronificados. é fazer economia dos custos do setor. enfrentar a questão de como uma parte dos recursos destinados à AIH.. Fóruns regionais de Saúde Mental. contenção mecânica fora das recomendações técnicas. não estávamos atentos para isso. nas visitas. PRIMEIRA CARAVANA NACIONAL DE DIREITOS HUMANOS). mais de 10 .474 pacientes. superlotação. 81)... de acordo com a ocasião. na área psiquiátrica [. há anos. em oito estados. celas fortes. os trinta mil leitos que foram fechados? Se. ONGs. em Paracambi. De fato. nos estados. 2000. se faziam acompanhar.] que haja retomada do debate público a respeito das condições de privação de liberdade no Brasil. criar o fato político e apresentar recomendações ao Ministério da Saúde. A Primeira Caravana Nacional dos Direitos Humanos foi composta por Deputados Federais.. usuários do sistema. Iniciativa da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Associações de usuários. banho coletivo. com ida aos Hospitais Psiquiátricos com mais denúncias. para elas. 81). detectou o seguinte quadro de tempo de internação: “até cinco meses . que. Coordenadores Municipais de Saúde Mental. 77). p.257 pacientes.64 “[. representantes da OAB.]” (VÁRIOS AUTORES. profissionais de Saúde Mental.] abrir denúncias e acusações por tortura mental em alguns manicômios e instituições psiquiátricas para se abrir uma nova disputa. efetivamente. Deputados Estaduais. representantes do Movimento da Luta Antimanicomial. passe para a mão dos usuários?” (VÁRIOS AUTORES. A visita à Casa de Saúde Dr. o que foi feito do dinheiro que pagava mensalmente.] como podemos. p. de 01 a 05 anos . agora não é mais possível perder essa fonte de financiamento. O Deputado Marcos Rolim anuncia que. relatos de violência. de 15 a 25 do mês seguinte ao Fórum.. falta de Programa de Saúde Mental estadual e de rede de atenção psicossocial. (Cf. antes. Foram encontrados casos de clínicas que realizam psicocirurgia regularmente. a Caravana teve como resultado apresentar uma amostra do que ainda acontece nos hospitais psiquiátricos no país. por representantes de Conselhos e Sindicatos das categorias profissionais da área de saúde. abandono. 2000. Uma das críticas que se faz às Reformas na Saúde adverte que o principal. estará sendo realizada a Primeira Caravana de Direitos Humanos. Eiras. A Caravana pretende “[. de 06 a 1 ano 83 pacientes. de 05 a 10 anos . O Deputado defende a idéia de “[. Estado do Rio de Janeiro.. Vereadores. uso generalizado de eletrochoque. Promotores de Justiça. que é processar criminalmente os que submetem outros a sofrimento mental” (VÁRIOS AUTORES. hoje.

a respeito da Lei. A Organização Mundial da Saúde decidiu chamar a atenção para as condições de Saúde Mental e sua assistência durante o ano 2001: ao mesmo tempo em que lançava o lema “Não à exclusão. (Cf. hoje. “Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental” (BRASIL. esta “[. naquele ano. que alguns hospitais sejam descredenciados. 18). que 50% do valor que é pago nas Autorizações de Internação Hospitalar seja repassado aos pacientes e famílias quando da alta. A lei. determinou que o Dia Mundial da Saúde. É nossa responsabilidade insistir pelas mudanças de política e de atitude. sob o ângulo “[. em 2001. 2002.485 pacientes” (PRIMEIRA CARAVANA NACIONAL DE DIREITOS HUMANOS). É o nosso objetivo e o atingiremos nos próximos anos” (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. que seja enfrentada a situação dos manicômios judiciários.. está descredenciada do SUS. p. MINISTÉRIO DA SAÚDE. 2002. 2001). a Lei foi sancionada pelo Presidente em 6 de abril. Este é o retrato dos resultados da psiquiatria organicista e do modelo manicomial. que seja acelerada a dinâmica da Reforma Psiquiátrica. Como bem assinala o “Comentário” do Ministério da Saúde.. da discriminação. o problema da Saúde Mental. dedicado à Saúde Mental. que seja restringido o uso do eletrochoque e abolida a psicocirurgia. Fato político marcante. Eiras de Paracambi. PRIMEIRA CARAVANA NACIONAL DE DIREITOS HUMANOS). dos problemas específicos de cada sexo e dos direitos humanos” (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. foi a aprovação pelo Congresso Nacional e a sanção. a chamada “Lei Paulo Delgado”. quem está na direção do Programa de Saúde Mental da OMS é Benedetto Saraceno. O ano de 2001 trouxe avanços políticos significativos para a Reforma Psiquiátrica Brasileira e também na cena mundial da Saúde Mental. a Caravana propõe.65 anos . com seus pacientes sendo encaminhados aos municípios pelo trabalho feito pela Assessoria de Saúde Mental do Estado do Rio de Janeiro. pelo Presidente da República. que diz: “Nós sabemos o que não vai bem e temos as soluções. em maio de 2001. da lei 10. seria dedicado à Saúde Mental. 2001).] da pobreza. sim aos cuidados”. Nas recomendações ao Ministério da Saúde. Este consenso foi . p. dentre outras medidas. Nesse momento.216. A Casa de Saúde Dr. com investimento da rede substitutiva à internação. A OMS levou à sua Assembléia Mundial da Saúde.. 15).] reflete o consenso possível sobre uma lei nacional para a reforma psiquiátrica no Brasil” (BRASIL. Mostrando a importância da pressão internacional. um dia antes do Dia Mundial da Saúde da OMS. que seja convocada a III Conferência Nacional de Saúde Mental. MINISTÉRIO DA SAÚDE.. na sua definição.

excluir. com cerca de 30 mil pessoas envolvidas. muito mais. revelando a maior importância que o assunto estava adquirindo. (Cf. “Saúde Mental na Atenção Básica”. qualidade. se reflete o momento em que vivemos. BRASIL. depreende-se que o Poder Público está instado a dotar o SUS de meios para que a Lei se cumpra: as pessoas têm o direito de terem tratamento em serviços comunitários e não em internações psiquiátricas. bem como as altas. (Cf.] ser tratada. sim. em todos os 27 estados da federação. Como. SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. o texto resume os propósitos atuais da Política de Saúde Mental do Ministério da Saúde: “Efetivando a Reforma Psiquiátrica com acesso. recursos humanos. como tema de um de seus Painéis. preferencialmente. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Ao longo desse percurso. direitos e cidadania. que fez realizar 163 Conferências Municipais.66 conseguido após 12 anos de tramitação do Projeto de Lei do Deputado Paulo Delgado. 2002. a entrada da Saúde Mental na Atenção Básica é citada em várias passagens e num . 15). A Lei 10. mostra que avançamos muito e que precisamos avançar mais. A Lei 10.216 proíbe a internação em lugares de características asilares. 2002. Com essa orientação. aconteceu após intensa mobilização. só será indicada quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes” (BRASIL. Para as internações involuntárias. A Conferência teve. A III Conferência Nacional de Saúde Mental. Um avanço seria essa interpretação ser colocada de modo absolutamente explícito. p.. em qualquer de suas modalidades. BRASIL. no prazo de setenta e duas horas. em serviços comunitários de saúde mental” (BRASIL. no artigo 4. MINISTÉRIO DA SAÚDE. p. 15). a mesma seja comunicada ao Ministério Público Estadual. Na segunda parte. 2002. a Lei exige que. realizada em Brasília. a Lei indica que “A internação. não”. humanização e controle social”. define e diferencia internações voluntárias. de Minas Gerais. 2001 b..216 define uma série de diretos das pessoas portadoras de transtorno mental. 16). O material de divulgação da III Conferência Nacional de Saúde Mental traz um pequeno texto definidor cuja primeira parte. No “Caderno de Textos” da Conferência (Cf. MINISTÉRIO DA SAÚDE. determina que deve ser desenvolvido programa de alta e reabilitação psicossocial para as pessoas há longo tempo internadas.). involuntárias e compulsórias. MINISTÉRIO DA SAÚDE. de 11 a 15 de dezembro de 2001. é o lema da Organização Mundial da Saúde para o ano 2001. 173 Micro-regionais e Regionais. “Cuidar. o projeto passou por mudanças e. p. os sub-temas da Conferência foram: financiamento. 2002). dentre eles o de “[. controle social e acessibilidade.

Entendemos. indica que “[. A definição oficial mostra o avanço que foi obtido e uma posição definida.] as políticas de saúde mental devem ter como pressupostos básicos a inclusão social e a habilitação da sociedade para conviver com a diferença” (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. assim.. campos importantes de enfrentamento da questão... Dos itens aprovados no título “Reorientação do Modelo Assistencial em Saúde Mental” que tratam da Atenção Básica temos os que citaremos a seguir. 2002.Exigir que o Ministério da Saúde.. No capítulo III faremos referência a esses textos. 84. 23). 2002.. Percorreremos. Mas. A III Conferência Nacional de Saúde Mental progride significativamente..] políticas de saúde mental mediante a implementação de uma rede de serviços substitutivos ao hospital psiquiátrico..Articular as ações de assistência.. Para isso. 19). quanto ao conteúdo das propostas que focalizam a Atenção Básica..] propostas e estratégias para efetivar e consolidar um modelo de atenção em saúde mental totalmente substitutivo ao manicomial” (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. territorializados e integrados à rede de saúde [.. p. no Relatório Final da III Conferência Nacional de Saúde Mental. que não basta acabar com a organização hospital psiquiátrico. está colocado que a Conferência elaborou “[.] . que na “Apresentação” do Relatório Final. Esta é uma definição que não deixa margem a dúvidas: estamos no caminho. p.. agora fazendo parte do discurso oficial.67 item específico. como vimos em Foucault..] os municípios desenvolvam [.] 27. da extinção dos hospitais psiquiátricos. implementando uma rede de serviços territoriais de saúde mental. 24).. 2002.. estimulando a criação de grupos de convivência e oficinas terapêuticas na comunidade. com relatos de trabalhos em andamento. Os números referemse à seqüência em que aparecem no Relatório Final. Assinale-se com ênfase. governos estaduais e municipais incluam a saúde mental na NOAS como prioridade na atenção básica [. a Conferência reafirma os princípios do SUS e recomenda que “[. os poderes têm artes sutis com efeitos violentos. p.Garantir espaços de promoção de saúde mental. mas também com a internação e a exclusão em todas as suas formas. prevenção e reabilitação psicossocial mediante o desenvolvimento da atenção básica associada ao Programa de Saúde da Família. Sob o título de “Reorientação do Modelo Assistencial em Saúde Mental”. os “Princípios e Diretrizes” de cada subtema e citaremos os itens aprovados que têm relação com as ações de Saúde Mental na Atenção Básica. [. 12. em relação à II.]” (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE... Estamos no ambiente da cultura e do imaginário social. promoção.

132. 135. garantindo a integralidade da atenção.Garantir maior resolubilidade e capacidade da Rede Básica de Atenção.Promover a prevenção em saúde mental por meio da oferta de atividades para este fim (por exemplo: esportes comunitários. definindo elementos para compor o pacto de criação de indicadores da atenção básica. 139. a atenção à saúde mental.Incluir. 134. “[. 48). em sua recente Assembléia Mundial. 138. 2002. “Atenção Básica”. reafirma as recomendações da Oitava Conferência Nacional de Saúde “[. também... incorporar as ações de saúde mental no Programa de Saúde da Família” (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. O texto introdutório desse item. como estratégia de enfrentamento das situações de crise dos portadores de sofrimento psíquico e seus familiares. 2002. há um item específico para ela. incluindo atenção em saúde mental” (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. Dentro dessa ótica. no elenco de Ações e Programas exigidos pela NOAS/2001.Defender a inclusão das ações de saúde mental no nível básico da atenção à saúde. deliberou pela ampliação dos cuidados em saúde mental na Atenção Básica à Saúde. grupos de . mostrando a importância que a Atenção Básica assumiu na III Conferência. preferencialmente por meio da estratégia do Programa de Saúde da Família (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. atendimentos em grupo e individuais. tais como: visita domiciliar. dimensionando equipes especializadas de referência (para atendimento e assessoria) que podem ser específicas. em maio de 2001. 48). ou aquelas dos serviços de saúde mental especializados já existentes. de modo que sejam cumpridas as metas da OMS.Garantir que cada município conte com atendimento e integração da assistência à saúde mental na rede básica (PACS/PSF/Centros de Saúde comunitários). 48). em substituição ao cuidado hospitalar.. p.68 89. Podemos destacar os seguintes itens aprovados: 128.As equipes multiprofissionais de saúde mental que trabalham junto ao PSF atenderão prioritariamente aos casos graves e observarão a seguinte proporção para sua constituição: um profissional de saúde mental para cada duas equipes de Saúde da Família.. 2002. com capacitação em saúde mental das equipes mínimas do PSF.] que indica a responsabilidade da unidade básica por 80% das necessidades de saúde da população. em articulação com os profissionais de saúde mental.Desenvolver a prática de cuidado domiciliar. p. nas agendas municipais de saúde. 126. 136. Ainda dentro do título “Reorientação do Modelo Assistencial em Saúde Mental”.Introduzir o atendimento domiciliar na Rede de Assistência Básica. para que os municípios sejam habilitados ao nível de gestão PAB Ampliado. mediante oferta de ações mais locais por parte dos profissionais de Saúde da Família. 137.Garantir a incorporação das ações de saúde mental no Programa de Saúde da Família. quando.] é necessário incluir a atenção aos portadores de sofrimento psíquico nas ações básicas de saúde e. para atender ao Princípio da Integralidade. potencialização de recursos comunitários.Estabelecer como porta de entrada da rede de saúde mental as Unidades Básicas de Saúde. p.

avaliar as ações de saúde mental executadas pelas equipes de Saúde da Família visto que o Programa é recente. 2002. com detalhes. 67). p. como forma de coletar dados para acompanhar. p. a garantia de condições de trabalho. que funcionem como referência às equipes do PSF e das Unidades Básicas de Saúde. implantação e avaliação” (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. 143. Os itens aprovados e citados acima revelam que diversos participantes da III Conferência compareceram com o propósito de apresentar as ações de Saúde Mental na Atenção Básica em andamento. monitorar e avaliar os usuários portadores de transtornos mentais atendidos pela Equipe de Saúde da Família. PSF e comunidade. a “[. 2002. 68). contemplando os momentos de planejamento. que discrimina o saber popular. 141.] construção de um novo trabalhador em saúde mental” (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. por meio da maior valorização da experiência de familiares e usuários. colocar suas sugestões em discussão e aprová-las como orientações para o âmbito nacional. PACS...Criar equipes volantes de saúde mental. que tem incidência direta nas ações da Atenção Básica: [. a III Conferência determina a qualificação continuada. O conteúdo das propostas será comentado adiante. lazer e outros). de acordo com a necessidade epidemiológica de cada localidade ou para cada grupo de cinco equipes. p. 2002. Saúde. 51). Criar a ficha “B” de Saúde Mental no Sistema de Informação da Atenção Básica – SIAB. que aconteceu em Brasília.] a política de recursos humanos deve estimular a dissolução do “manicômio mental” implícito no saber científico convencional.. oficinas de arte e de ofícios. 140.69 mães. a remuneração justa. 142.. em março de 2001. para a “[.. 2002. muitos pontos que apareceram como proposições na III Conferência. quando tratarmos da "Oficina de Inclusão de Ações de Saúde Mental no Programa Saúde da Família”. p. As orientações no sentido de rompimento com os “especialismos” são explícitas.Garantir supervisão continuada no desenvolvimento do trabalho conjunto das equipes PACS/ PSF e Saúde Mental e. E o grupo “Atenção à Saúde Mental” do sistema de informações ambulatoriais do SUS na designação “atendimento a grupos específicos” da tabela de procedimentos (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. No título “Recursos Humanos”. Os itens mostram a diversidade de modos de compreender a Saúde Mental na Atenção Básica e a fertilidade do momento. grupos de apoio. também. desenvolvidas preferencialmente por recursos comunitários.] democratização das relações e das discussões em todos os níveis de gestão. capacitadas nos princípios da Reforma Psiquiátrica.. 68). que discutiu. garantindo desta forma a integração e o diálogo com os saberes populares (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE.Implantar serviços de atendimento/internação domiciliar em saúde mental realizados por equipes itinerantes ou equipes do PACS/PSF. . Importante definição é a que se segue.

e relativos à humanização das práticas. Capacitar os médicos generalistas que atuam na atenção básica.70 Dentro do título “Recursos Humanos” há uma subdivisão que trata da “Capacitação em saúde mental para a rede básica de saúde (PACS e PSF)” (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. atendimento e supervisão das equipes dos referidos programas. os casos deverão ser referenciados para serviços mais complexos. O título “Financiamento” reafirma um princípio que. Esta capacitação deverá contemplar tanto aspectos técnicos (relativos à promoção da saúde. Também foi enfatizada a necessidade de reorientar os recursos das AIHs para a rede de atenção psicossocial. assistência e reabilitação social). Assim. os recursos devem ser centrados nas pessoas e não nos serviços (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. consultoria. pp 76 e 77). capacitação. Grifo do autor). 85. Integração do programa municipal de saúde mental com o PACS/PCF. para o uso de medicamentos essenciais nas patologias de maior prevalência (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. 76). O subtítulo “Financiamento das ações de saúde mental na Atenção Básica” tem o seguinte preâmbulo: Uma política de saúde mental baseada no princípio da integralidade requer a garantia de financiamento para as ações básicas de saúde mental desenvolvidas em Unidades Básicas de Saúde (UBS). Normatizar e realizar programas de capacitação em saúde mental para todas as equipes do Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS) e do Programa de Saúde da Família (PSF). p. p. A Saúde Mental na Atenção Básica surge como um dos alvos do redirecionamento financeiro. Programa de Saúde de . nos próximos anos e décadas deveremos ter como básico e orientador para a luta diária: A lógica fundamental da estrutura de financiamento exigida é de que os recursos financeiros devem acompanhar o usuário nos diferentes espaços de reprodução social e ser viabilizadores de processos emancipatórios. 241. Foram aprovados os itens: 239. 240. garantindo o papel da equipe multidisciplinar de saúde mental na condição de assessoria. 2002. em parceria das universidades com os órgãos do SUS. 2002. Quando não houver competência das equipes do PACS/PCF. por meio de protocolos assistenciais. de forma a garantir o desenvolvimento de uma prática de saúde com integralidade e a incorporação destas equipes à rede de saúde mental. quanto aqueles relacionados à mudança de concepção da comunidade acerca do sofrimento psíquico. 2002.

Esse repasse será realizado sem prejuízo dos outros recursos federais destinados à saúde mental. PACS e viabilizar recursos financeiros para a contratação de profissionais de saúde mental. 97). a proposta que levamos. 95).como acontece na saúde bucal do PSF para os municípios que desenvolvem programas de saúde mental. Dentro deste princípio. nesse subtítulo. que inclua aquisição e manutenção de veículo utilizado para a realização das visitas e/ou transporte de usuários (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. . 328. Criar dispositivo de financiamento destinado às ações de atendimento e/ou acompanhamento e/ou internação domiciliar/comunitária aos usuários de todos os programas da rede de atenção em saúde mental. está dito que: O aprofundamento da Reforma Psiquiátrica requer a implementação de novos mecanismos para viabilizar o financiamento de ações inovadoras visando à ampliação do campo de possibilidades das práticas desenvolvidas pela rede de serviços substitutivos. a implementação de novas modalidades de assistência domiciliar. os seguintes itens: 325. pp 85 e 86). familiares e cuidadores e o financiamento de programas de geração de renda e cooperativas de trabalho (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. com algumas modificações. p. ações e procedimentos em saúde mental”. 2002. Financiar ações de saúde mental desenvolvidas em unidades básicas de saúde. que determina: 335. tanto na parte fixa como na variável. 327. com especial ênfase às ações no âmbito da atenção básica. 2002. Tais proposições incluem a ampliação das modalidades de serviços residenciais. com financiamento pelo Piso de Atenção Básica (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. o desenvolvimento de formas de apoio financeiro aos usuários. revendo os valores defasados destinados para os municípios (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. 97). foi aprovada. 2002. 2002. com garantia de financiamento pelo Ministério da Saúde. incluídas e incentivadas no PAB. p. com garantia de contratação de recursos humanos. Reajustar a tabela PAB (Piso de Atenção Básica). p. 326. Garantir o financiamento de ações substitutivas no campo da Saúde Mental. Foram aprovados. representando o Estado do Rio de Janeiro. No subtítulo “Implementação e regulamentação do financiamento de novas iniciativas.71 Família (PSF) e Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS). 329. Incluir a atenção básica em saúde mental como ação prioritária e critério para cadastramento dos municípios no PAB ampliado. Exigir que o Ministério da Saúde crie incentivo mensal para equipes do Programa de Saúde da Família . PSF.

que deve ser garantido ao usuário. ainda. p 39). 2001. 341. lazer. destacam-se os itens: 339. 2002. p.. de garantir eqüidade de acesso a todos os serviços para as pessoas que dele necessitem. Garantir que uma porcentagem do valor das AIHs referentes aos leitos psiquiátricos desativados seja destinada à criação de bolsa de auxílio aos familiares ou aos usuários ex-moradores de hospitais psiquiátricos (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. No “Caderno Informativo”. profissionalização. educação. Ainda no mesmo subtítulo. 107). escolas. a incrementar a abertura de possibilidades de prestar atendimento às crises. cujo texto já circulava antes da Conferência. totalmente com recursos comunitários e familiares. o tema é desenvolvido. Afirma que é necessário ampliar a rede de CAPS e de ambulatórios e: [. saneamento básico” (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE.72 Destina-se. 2002).] garantir a implantação de serviços comunitários de saúde mental integrados aos programas de atenção básica e à rede geral de serviços. segurança pública. moradia decente com um mínimo de privacidade. estadual e municipal desenvolvam iniciativas visando destinar recursos financeiros ao cuidador (familiar ou membro da comunidade) responsável pela desospitalização de usuário morador em hospital psiquiátrico e responsabilizem o serviço de saúde mental de referência pelo acompanhamento contínuo desse processo.. finanças e portarias do SUS e acesso ao prontuário. para promover a reinserção familiar ou a autonomia da pessoa nos serviços residenciais. O título “Acessibilidade” reafirma um dos princípios do SUS. utilizando-se das estratégias mais adequadas a cada região/território no intuito de superar o modelo tradicional (CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE MENTAL. O título “Direitos e Cidadania” abre com uma importante definição: .. Garantir que as instâncias federal. transporte. O texto do “Relatório Final” refere-se à “Acessibilidade” também em termos de acesso a bens e serviços da sociedade: “[. estadual e municipal aprovem e destinem recursos para a criação de bolsa incentivo aos programas de desinstitucionalização às famílias ou diretamente aos usuários. 340. atualmente ainda denominadas de modo reducionista de “emergências psiquiátricas”. 2002. sob responsabilidade e acompanhamento do serviço territorial de referência e controle dos conselhos de saúde. 98). (Cf. creches. lançado na III Conferência pelo Ministério da Saúde. Trata. SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. p. da garantia de acesso às informações a respeito dos dados. articulados à rede de atenção psicossocial com ênfase nas ações de Saúde Mental na Atenção Básica.. essa proposição. Que os governos federal.] trabalho.

de políticas que fomentem a autonomia dos portadores de transtornos mentais. sindicatos. p. Também neste sentido. da cultura. instituições religiosas. movimentos sociais e outros (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. poder público. setor informal. Nas “Moções” da Conferência. familiares e trabalhadores de saúde mental na elaboração das políticas públicas de saúde e no acompanhamento das ações de saúde mental. urge criar estratégias para viabilização de maior envolvimento dos diferentes atores sociais com as questões de saúde mental: usuários. do lazer. na fiscalização das práticas de saúde mental. no âmbito da assistência em saúde mental. etc. são incentivadas as ações de geração de renda e de inclusão dos portadores de transtornos mentais no mundo do trabalho. Deve-se propiciar a participação dos usuários.. 2002. 2002. Importante definição é a que se segue. os Conselhos) e outros que se façam necessários: as Comissões de Saúde Mental. as Conferências. através de mecanismos de controle social já existentes (por exemplo. 141).216/01) e a regulamentação das internações voluntárias e involuntárias. “Controle Social”: A ação da sociedade civil e dos movimentos sociais é ressaltada. independente das mudanças do poder executivo. visando a garantir que os programas municipais de saúde mental não sofram descontinuidade por ocasião de mudanças de gestão administrativa e/ou política. Exige-se a imediata colocação em ação dos princípios dispostos na lei Paulo Delgado (Lei 10. 2002. ONGs. p. . 161). Aqui. p.] garantir a continuidade da política de substituição do modelo hospitalocêntrico. da educação. destaca-se a que repudia a utilização do eletrochoque: Moção de repúdio à utilização da Eletroconvulsoterapia (ECT): Determinar a abolição em definitivo do uso do eletrochoque no cuidado em Saúde Mental. No título “Controle Social”. incentivando deste modo o exercício de cidadania plena. 2002. assim como exigir a retirada do Projeto de Lei (hoje em tramitação) que regulamenta o seu uso (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. o espaço legislativo. a Conferência propõe: [. (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. familiares. 142).. no lugar de iniciativas tutelares (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. p. grandes e pequenos empresários.73 Foi ressaltada a priorização. a organização da sociedade civil e dos movimentos sociais. 121). Propõe-se incentivar e apoiar as ações dos núcleos estaduais da luta antimanicomial. com o usuário podendo recorrer judicialmente quanto às últimas. dentro do mesmo item.

que diz: Repúdio às atitudes de falta de transparência do Governo Federal e do Ministério da Saúde que não explicaram o destino dos recursos financeiros que “desapareceram” com a extinção de mais de 30. 2002. e por ter proporcionado. Depois da III Conferência. Voltaremos a essa publicação no Capítulo IV. A III Conferência Nacional de Saúde Mental tem grande importância por reafirmar os princípios da Reforma Psiquiátrica. que sugere que a Saúde Mental deve ser abordada preferencialmente na rede primária. A Portaria 251. de 19/02/2002. Saúde Mental: Nova Concepção. atualiza a Portaria 224. 105). resgatando a dívida social com as vítimas do modelo manicomial (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. definindo normas e diretrizes para os CAPS de adultos. como conseqüência direta do Movimento da Reforma Psiquiátrica.000 leitos psiquiátricos nos últimos anos.. p. para a rede CAPS” (BRASIL. p. Para uma avaliação da importância do que consta dessa Moção. o debate sobre os rumos das transformações que queremos. infantil e para o problema do álcool e outras drogas. de 31/01/2002. Esse montante deixou de ser gasto pelo Ministério da Saúde por obra dos profissionais de Saúde Mental. estabelece normas para a assistência em hospitais psiquiátricos. ou 252 milhões de reais por ano.. propondo avanços.] substituição progressiva dos macro-hospitais” (BRASIL. a retirada desses leitos economizam um total de 21 milhões de reais por mês. 120). Com os instrumentos de redirecionamento hoje existentes tal distorção começa a ser corrigida.74 Como uma advertência para o que temos pela frente em termos de financiamento. A Portaria 336 também tem o mérito de criar “[. 161). 2002. MINISTÉRIO DA SAÚDE. em todo o país. estimulando a “[. associados a usuários e familiares na luta diária da Reforma Psiquiátrica e não foi reinvestido no sistema. temos a “Moção de repúdio ao Governo Federal e ao Ministério da Saúde”. além de ser uma cobrança. No aspecto específico da Saúde Mental na Atenção Básica. em dinheiro e valores de hoje. o tema surge com uma força que não existiu nas Conferências anteriores e vimos o lançamento do “Relatório Sobre a Saúde no Mundo 2001. p. A Portaria 336. 2002. da Organização Mundial da Saúde. o Ministério da Saúde editou Portarias que redefinem alguns procedimentos. MINISTÉRIO DA SAÚDE. mas fica a dívida que a Moção cobra. ... de 1992.] mecanismo de financiamento próprio. Nova Esperança”. para além dos tetos financeiros municipais. Que estes recursos retornem como investimento na Rede de Serviços Substitutivos.

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Domingos Sávio, em palestra, em novembro de 2003, no lançamento do “Fórum InterInstitucional da Rede de Atenção Psicossocial Extra-Hospitalar do Estado do Rio de Janeiro”, representando o Coordenador de Saúde Mental do Ministério da Saúde, Pedro Gabriel Godinho Delgado, dá como diagnóstico e diretrizes do Ministério da Saúde, a respeito da área de Saúde Mental, os seguintes pontos:
-Grupo de transtornos de alta e crescente prevalência e baixa cobertura assistencial. -Modelo Assistencial em transição do hospitalar para o comunitário, ainda refletindo as graves distorções do modelo asilar. -Política pública necessariamente intersetorial, com interfaces fundamentais com áreas de assistência social, direitos humanos, justiça, trabalho, habitação, etc. (SÁVIO, 2003).

De modo bastante instrutivo, Domingos adverte para o fato de que a Reforma Psiquiátrica, no momento, tem hegemonia da política e não hegemonia da assistência. Isso significa que os principais postos de Poder na área de Saúde Mental e a organização e prática da assistência estão a cargo do movimento pela transformação da área, mas que o modelo que ainda vigora é o manicomial. Domingos lista as diretrizes do Ministério da Saúde para 2003 e 2004, na Saúde Mental:
-Redução progressiva dos leitos psiquiátricos (desinstitucionalização). -Expansão dos CAPS. -Inclusão das Ações de Saúde Mental na Atenção Básica. -Implantação do Programa 'De volta pra casa'. -Expansão das Residências Terapêuticas. -Formação e qualificação de Recursos Humanos. -Promoção de direitos dos usuários e familiares e incentivo à participação no cuidado. -Reorientação dos Manicômios Judiciários. -Qualificação do atendimento hospitalar e ambulatorial. (SÁVIO, 2003).

Em 20 de janeiro de 2004, O Ministério da Saúde editou uma Portaria que define o "Programa Anual de Reestruturação da Assistência Psiquiátrica Hospitalar no SUS – 2004". A Portaria 52, acrescida da Portaria 53, da mesma data, estabelece uma progressão no valor das diárias pagas aos Hospitais Psiquiátricos que diminuírem a quantidade de leitos. Com a Portaria, os Hospitais Psiquiátricos têm um incentivo para a redução das suas vagas e os Estados e Municípios estão, mais ainda, desafiados a aumentar as suas capacidades de ampliação da Rede de Atenção Psicossocial. Deve ser destacado o “Anexo” da Portaria 52, que contém definições para o momento em que vivemos. Dele consta que “O processo de mudança do modelo assistencial deve ser

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conduzido de modo a garantir uma transição segura, onde a redução dos leitos hospitalares possa ser planificada e acompanhada da construção concomitante de alternativas de atenção no modelo comunitário”. (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004, c.). Numa afirmação da política de Saúde Mental do Ministério da Saúde, nos últimos anos, diz a Portaria 52:

Este Programa Anual - 2004 é parte integrante da política de saúde mental do SUS, cujo objetivo é a consolidação do processo de reforma psiquiátrica. Ele trata do componente hospitalar especializado, de sua reestruturação, das mudanças de seu financiamento, do redirecionamento dos recursos financeiros para atenção extra-hospitalar, da construção de planos municipais, micro-regionais estaduais de desinstitucionalização e de implantação de rede de atenção comunitária. O Programa articula-se com outras áreas da reforma psiquiátrica, especialmente: atenção em saúde mental no hospital geral, saúde mental na atenção básica, urgência e emergência em saúde mental, consolidação da rede de CAPS I, II, III, i e AD, programa De Volta para Casa, expansão das residências terapêuticas e outros, que são objeto de normas e documentos específicos. (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004, c.).

Em 16 de setembro de 2004, o Ministério da Saúde editou uma Portaria que representa uma mudança na forma de financiar ações de Saúde Mental (Cf. MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004, f). Pela Portaria, os CAPS passam a receber o incentivo financeiro, inicial, logo após o Gestor Municipal se comprometer a colocá-lo em funcionamento em três meses. Antes, este incentivo só era recebido após o longo processo de credenciamento. Agora, o Governo Federal adianta-se e, desta forma, estimula, com dinheiro novo, a expansão da rede de assistência extra-hospitalar, o que foi uma reivindicação da III Conferência Nacional de Saúde Mental. Escrever sobre a Reforma Psiquiátrica é um trabalho interessante em muitos aspectos, dentre eles o fato de ser um processo vivo. Pretendemos que, com os avanços, o próprio termo “Reforma Psiquiátrica” já mostre o seu caráter provisório, visto que não se trata apenas de uma mudança na psiquiatria. E é preciso algo mais do que “Reforma”. Deixo o relato nesse ponto, aguardando e provocando novos acontecimentos.

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CAPÍTULO 4

OS PROGRAMAS DE ATENÇÃO BÁSICA NO BRASIL

Neste capítulo veremos algo a respeito das origens das orientações para o trabalho na Atenção Básica, os Programas que surgiram no Brasil e algumas críticas às Reformas na área de Saúde. A Declaração de Alma-Ata, de 1978, resultado da “Conferência Internacional sobre Cuidados Primários de Saúde”, teve por objetivo expressar a
[...] necessidade de ação urgente de todos os governos, de todos os que trabalham nos campos da saúde e do desenvolvimento e da comunidade mundial para promover a saúde de todos os povos do mundo [...] (DECLARAÇÃO DE ALMA-ATA).

A Declaração de Alma-Ata tornou-se uma referência central para todos os que pensam a saúde coletiva, e seus princípios estão presentes nos projetos de saúde que trabalham com o coletivo. Num de seus primeiros itens, a Declaração diz: “É direito e dever dos povos participar individual e coletivamente no planejamento e na execução de seus cuidados de saúde” (DECLARAÇÃO DE ALMA-ATA). Trata-se de uma definição simples e de profunda significação. Hoje existe uma tentativa de incorpora-la no modo de agir dos que planejam e executam as ações de saúde, mas ainda foi alcançada a sua plena potência. A Declaração dá total ênfase ao que chama de “cuidados primários em saúde” e muitos dos seus principais itens são voltados para esse conceito, assinalando que esses cuidados seriam a chave, para que a meta de saúde para todos no ano 2000 fosse atingida. A Declaração define:
Os cuidados primários de saúde são cuidados essenciais de saúde baseados em métodos e tecnologias práticas, cientificamente bem fundamentados e socialmente aceitáveis, colocadas ao alcance universal de indivíduos e famílias da comunidade, mediante sua plena participação e a um custo que a comunidade e o país possam manter em cada fase de seu desenvolvimento, no espírito de autoconfiança e automedicação. Fazem parte integrante tanto do sistema de saúde do país, do qual constituem a função central e o foco principal, quanto do desenvolvimento social e econômico global da comunidade. Representam o primeiro nível de contato dos indivíduos, da

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família e da comunidade com o sistema nacional de saúde, pelo qual os cuidados de saúde são levados o mais proximamente possível aos lugares onde as pessoas vivem e trabalham, e constituem o primeiro elemento de um continuado processo de assistência à saúde (DECLARAÇÃO DE ALMAATA).

Como poderemos ver, o que consta dessa citação estará presente nas práticas do Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS), do Programa de Saúde da Família e nas ações da Saúde Mental na Atenção Básica. A Declaração trata de esmiuçar a definição e o alcance dos cuidados primários de saúde. Num dos pontos, diz que os cuidados primários de saúde: “Têm em vista os principais problemas de saúde da comunidade, proporcionando serviços de proteção, cura e reabilitação, conforme as necessidades” (DECLARAÇÃO DE ALMA-ATA). Coerente com a visão ampla a respeito do que é saúde, a Declaração recomenda a educação para a saúde, o controle do meio ambiente e da água, o saneamento básico. Aponta para a política intersetorial, principalmente no aspecto de produção de alimentos, habitação, educação e comunicação. Uma definição preciosa para os propósitos da Saúde Mental nas comunidades diz que os cuidados primários de saúde:

Requerem e promovem a máxima autoconfiança e participação comunitária e individual no planejamento, organização, operação e controle dos cuidados primários de saúde, fazendo o mais pleno uso possível de recursos disponíveis, locais, nacionais e outros, e para esse fim desenvolvem, através da educação apropriada, a capacidade de participação das comunidades (DECLARAÇÃO DE ALMA-ATA).

Possui grande implicação para as práticas atuais um dos itens que define os cuidados básicos em saúde:

Baseiam-se, nos níveis locais e de encaminhamento, nos que trabalham no campo da saúde, inclusive médicos, enfermeiros, parteiras, auxiliares e agentes comunitários, conforme seja aplicável, assim como em praticantes tradicionais, conforme seja necessário, convenientemente treinados para trabalhar, social e tecnicamente, ao lado da equipe de saúde e responder às necessidades expressas de saúde da comunidade (DECLARAÇÃO DE ALMA-ATA).

Concluindo, a Declaração “[...] concita à ação internacional e nacional urgente e eficaz, para que os cuidados primários de saúde sejam desenvolvidos e aplicados em todo o

no domicilio. 10).] assegurem a continuidade da relação médico-paciente ou da equipe de saúde com as famílias” (CORDEIRO. 10). da organização dos serviços e da produção da saúde. (Cf.. as políticas de ajuste econômico e o déficit público contribuíram para dificultar que os princípios da Constituição-Cidadã saíssem do papel para que inspirassem leis.. e controlado pelo setor privado” (CORDEIRO.. seria “[. p. 11). 1996. 1996. A intervenção sobre os fatores de risco aos quais a população está exposta. p. . p. contínua e de boa qualidade nas especialidades básicas de saúde à população adscrita.. caro.]” (DECLARAÇÃO DE ALMA-ATA). particularmente.] a lógica da incorporação das inovações nas práticas de saúde” (CORDEIRO.. Para iniciar sua argumentação. As orientações internacionais. adotadas criticamente ou não.. Hesio defende que a mudança do modelo assistencial tem no Programa de Saúde da Família a sua principal estratégia no campo das ações de saúde. Em afirmações que nos permitem fazer imediata correspondência com o que ocorre no sub setor da Saúde Mental. Hesio Cordeiro situa o PSF como uma “[. p. p. A eleição da família e de seu espaço social como núcleo básico de abordagem no atendimento à saúde. 1996.. principalmente. que não incorporaram práticas que “[. A prestação de atenção integral.] a mudança do modelo assistencial esboçada nos projetos de criação dos distritos sanitários ou dos sistemas locais de saúde” (CORDEIRO. segundo Hesio. mas com atenção para “[. 1996. Hesio critica “[.] estratégia para a mudança do modelo assistencial do SUS” (CORDEIRO. 1996. CORDEIRO. A democratização do conhecimento do processo saúde/doença. 10) e também a não resolubilidade dos ambulatórios. nos países em desenvolvimento [. Num artigo muito citado na literatura a respeito do Programa de Saúde da Família.] o chamado ‘modelo hospitalocêntrico’. influenciaram textos e trabalhos no Brasil.. normas e.. no ambulatório e no hospital. Hesio afirma que As crises cíclicas do Estado brasileiro. p.. 1996) e dá como princípios do mesmo os seguintes pontos: O reconhecimento da saúde como um direito de cidadania e que expressa a qualidade de vida. 10).. 10). 1996. de caráter essencialmente curativo.. A tarefa de então.79 mundo e. orçamentos que viabilizassem o pleno desenvolvimento da reforma sanitária (CORDEIRO. A humanização das práticas de saúde e a busca da satisfação do usuário através do estreito relacionamento da equipe de saúde da comunidade.

coloca-se. Hesio chama a atenção para o fato de que o modelo proposto se propõe a algo muito maior do que “[.] parcialização e fragmentação do cuidado médico entre diversos profissionais que exercem trabalhos múltiplos sobre múltiplos ‘objetos’ de trabalho – o corpo do usuário subdividido pelo olhar das várias especialidades médicas” (CORDEIRO. Dentro do contexto das declarações internacionais e da necessidade de avanços na área de saúde no Brasil. 8): [. p. [.. ao lado dos esforços de construção de ‘modelos’ alternativos (TEIXEIRA. p. inspiradas em Alma-Ata.. o problema da mudança do Modelo Assistencial. hoje. 18). 12).] um apelo às tecnologias simplificadas. Podemos compreender.] meios de trabalho as tecnologias de comunicação social.] entendida como eixo de um processo de reorientação do(s) modelo(s) assistencial(ais) do SUS” (TEIXEIRA. 1998. p. p. na área da saúde.. 1996. como “Objeto os danos. 12).. com base nas relações sociais que predominam na sociedade. 1996. 8). necessidades e determinantes dos modos de vida e saúde (condições de vida e trabalho)” (TEIXEIRA.. 1998. O trabalho define a Vigilância da Saúde como um Modelo Assistencial que tem como “Sujeito a Equipe de Saúde e a População (cidadãos)” (TEIXEIRA. p.. 1996. p. que a divisão mente/corpo. o modelo médico-assistencial privatista (ênfase na assistência médico-hospitalar e nos serviços de apoio diagnóstico e terapêutico) e o modelo assistencial sanitarista (campanhas. no caso. 1998. numa seqüência de empobrecimento da compreensão global do ser humano que ainda dará muito trabalho para reverter.. p.... de planejamento e programação local .80 O estímulo à organização da comunidade para o efetivo exercício do controle social. histórica. ou seja. riscos. com a tendência de reprodução conflitiva dos modelos hegemônicos.] o sistema de saúde brasileiro é. dominante. representando uma proposta de ‘medicina pobre para pobres’” (CORDEIRO. como “[.. a “Vigilância da Saúde” pode ser “[. muito menos. programas especiais e ações de vigilância epidemiológica e sanitária). visando apenas à redução de custos e.] palco de disputa entre modelos assistenciais diversos.. 1998. impõe a fragmentação em especialidades valorizadas e a “[. Segundo TEIXEIRA (1998. O estabelecimento de parcerias buscando desenvolver ações intersetoriais (CORDEIRO. está nas origens do aparecimento de profissionais exclusivamente preparados para tratar dos corpos e de outros que se dedicam apenas às mentes. Hesio recorre à crítica à divisão do trabalho. para dizer que o complexo médico-empresarial. 18). portanto. 11). De acordo com o trabalho citado. p. com base nas linhas acima. 9).

na medida em que os autores dizem que O ponto de partida para o desencadeamento do processo de planejamento da vigilância à saúde é a Territorialização do sistema municipal de saúde. 1998. 1998. Assim foi. p. p 5)... de forma rápida (em curto espaço de tempo) e pontual” (VIANA & POZ 1998. as ações intersetoriais. 18). 18) e como “Forma de organização as Políticas públicas saudáveis. as intervenções específicas (promoção. Viana & Poz destacam a importância do Programa de Agentes Comunitários de Saúde e o Programa de Saúde da Família. com a criação do SUS: Esse novo modelo. p. p.81 situacional e tecnologias médico-sanitárias” (TEIXEIRA. saúde e acesso às ações e serviços de saúde (TEIXEIRA. p.] são as que introduzem modificações expressivas e significativas no funcionamento do sistema de saúde. prevenção. o reconhecimento e o esquadrinhamento do território do município segundo a lógica das relações entre condições de vida. 4) dizem que elas podem ser de dois tipos: big bang e incremental. isto é. 18). VIANA & POZ (1998. ou. definiu o princípio do universalismo para as ações de saúde. Com a evolução da crise na área da Saúde. 4). inscrito na própria Constituição brasileira de 1988. da regionalização e da hierarquização. recuperação) e as operações sobre problemas e grupos populacionais” (TEIXEIRA. Discorrendo a respeito das Reformas na área da Saúde. Exemplificando o modo como a reforma incremental se deu e quais as suas estratégias. 5). Qual a origem das Reformas na Saúde? Necessidade da população expressa através da suas organizações em conjunto com os profissionais de saúde? Necessidades de ajuste das finanças públicas? Orientações internacionais com interesses diversos? Vejamos algo a respeito dessa discussão. Desta forma. com definição de porta de entrada (VIANA & POZ 1998. segundo os autores. deu-se início ao que os autores chamam de “reforma da reforma da saúde no Brasil. O tema do Território aparece no trabalho citado de forma incisiva. o início da reforma brasileira. 4). p. destacam: . p. do processo de reforma incremental do sistema público de saúde” (VIANA & POZ 1998. p. As do primeiro tipo “[. de demanda e de oferta (Cf VIANA & POZ 1998. 1998. a descentralização municipalizante e um novo formato organizativo (para os serviços) sob a lógica da integralidade.

Na publicação citada. nas Leis do Sistema Único de Saúde e nas recomendações internacionais sobre Atenção Básica. Nos “Indicadores para avaliação da Atenção Básica nos Municípios Habilitados conforme a NOB-SUS 01/96”.82 No caso brasileiro. vemos que o Ministério da Saúde define Atenção Básica como: [. do Ministério da Saúde. experiências de mudança do modelo assistencial a partir da Atenção Básica. Toda a luta para a valorização da Atenção Básica é parte da mudança do Modelo Assistencial. de modo organizado. de caráter individual ou coletivo. p.PSF).. prioritariamente na população maior de 60 anos”. Ressalvadas as discussões a respeito das possíveis diferenças conceituais entre “cuidados primários de saúde”. (Cf. começaram a surgir (ou ressurgir?)..PACS e Programa de Saúde da Família . MINISTÉRIO DA SAÚDE.] um conjunto de ações. nas práticas assistenciais e no processo mesmo de descentralização (VIANA & POZ 1998. a prevenção de agravos. [. tendo em vista que o programa aponta para mudanças importantes na forma de financiamento do sistema de saúde (superação da exclusividade do pagamento por procedimentos). considera-se que as mudanças no modelo assistencial que vêm se operando dentro do SUS. Dando conseqüência às conclusões da Oitava Conferência Nacional de Saúde. estão provocando alterações tanto no padrão de financiamento da política. “atenção primária” e “atenção básica”. algo a respeito de Saúde Mental aparece apenas numa das “Ações de Atenção Básica Dirigidas a Grupos Específicos da População”: “Incentivo aos grupos de auto-ajuda. passamos a especificar com mais detalhes os conceitos ligados à Atenção Básica.. no Brasil. 7). p. situadas no primeiro nível de atenção dos sistemas de saúde. por conta de dois novos programas (Programa de Agentes Comunitários de Saúde . 1999. 1999. voltadas para a promoção da saúde. que não faremos aqui. Dessa forma.. p. ao que consta na Constituição do país. 9). . não há referência à Saúde Mental. Podemos perceber que a definição do Ministério da Saúde é muito semelhante ao que consta da Declaração de Alma-Ata.] A ampliação desse conceito se torna necessária para avançar na direção de um sistema de saúde centrado na qualidade de vida das pessoas e de seu meio ambiente (MINISTÉRIO DA SAÚDE. de 1999. Definidas algumas origens das orientações para a mudança do modelo assistencial e características da Reforma da Saúde no Brasil. quanto na forma de organização dos serviços. p 23). 1999. 37). visando à “Redução das internações por depressão” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. o PSF se constitui em uma estratégia de reforma incremental do sistema de saúde no Brasil. o tratamento e a reabilitação.

este número varia de acordo com o tamanho do grupo sob a responsabilidade da equipe. no máximo. o conceito de “Territorialização”. O texto do Ministério da Saúde recomenda que “[. No aspecto da composição da Equipe do PSF. aqui. numa proporção média de um agente para 575 pessoas acompanhadas) (MINISTÉRIO DA SAÚDE. com esse número. Territorialização e cadastramento da clientela [. integralidade e participação da comunidade . o Ministério da Saúde define: A estratégia do PSF incorpora e reafirma os princípios básicos do Sistema Único de Saúde (SUS) .500 pessoas” (MINISTÉRIO DA SAÚDE.83 O Ministério da Saúde. entre a Atenção Básica e a Saúde Mental. um auxiliar de enfermagem e de quatro a seis agentes comunitários de saúde (ACS). 2004 a).poderão ser incorporados às equipes ou formar equipes de apoio. influências e propósitos que aparecem e que estamos balizando.. Em janeiro de 1994. Aparece. historiando os inícios dos Programas de Atenção Básica. 2004 a). as Equipes ficam “presas” ao Posto. a discussão desse número terá a importância de determinar a população que uma Equipe pode trabalhar de modo a efetivamente mudar o Modelo Assistencial. O debate a respeito desse número ideal está sendo travado. Equipe multiprofissional.. São as semelhanças de origem. 4. por um médico. 2004 a). Dentro do aspecto do cadastramento. Outros profissionais .] uma equipe (de PSF) seja responsável por.a exemplo de dentistas. na definição acima. também. incorporando e ampliando a atuação dos agentes comunitários (cada equipe do PSF tem de quatro a seis ACS. foram formadas as primeiras equipes de Saúde da Família. assistentes sociais e psicólogos .].]. um enfermeiro. Para a Saúde Mental. . de acordo com as necessidades e possibilidades locais (MINISTÉRIO DA SAÚDE. Como princípios básicos do PSF. que trabalha com base nos seguintes princípios: Integralidade e hierarquização [. descentralização.. temos um ponto sensível e que envolverá discussões ainda não resolvidas: o quantitativo de população que uma Equipe de PSF pode atender de modo efetivo. (MINISTÉRIO DA SAÚDE. diz que A estratégia do PSF foi iniciada em junho de 1991. está estabelecido que: Cada equipe do PSF é composta. com dificuldades de exercer as atividades comunitárias. 2004 a). em relação ao trabalho das Equipes de Saúde Mental na Atenção Básica.. A prática mostra que. no mínimo.e está estruturada a partir da Unidade Básica de Saúde da Família. hoje. com a implantação do Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS). citado no Capítulo II como um dos pilares da Reforma Psiquiátrica.universalização...

mas em especial para as pretensões da Saúde Mental: Faz a ligação entre as famílias e o serviço de saúde. na comunidade. . 2004 b). estímulo à participação na formulação das políticas públicas. e dá outras providências” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. -elaborar. respondendo de forma contínua e racionalizada à demanda. -prestar assistência integral. junto com a obrigação de ser pessoa moradora na área de atuação da Equipe. ou como “equipes de apoio”. visitando cada domicílio pelo menos uma vez por mês. dentre outras atividades específicas. Nesse decreto está determinado que o Agente Comunitário de Saúde deve residir na comunidade e desenvolver atividades de educação para a saúde. realiza o mapeamento de cada área. na Unidade de Saúde da Família. -desenvolver ações educativas e intersetoriais para enfrentar os problemas de saúde identificados (MINISTÉRIO DA SAÚDE. organizada ou espontânea. com a participação da comunidade. da Presidência da Republica que “Fixa diretrizes para o exercício da atividade de Agente Comunitário de Saúde (ACS). um plano local para enfrentar os determinantes do processo saúde/doença. 2004 a).84 Essa definição já abre a possibilidade da entrada da Saúde Mental nas Equipes do PSF. A expressão “faz a ligação entre as famílias e o serviço de saúde”. demográficas e epidemiológicas. 2004 a). Na definição das atribuições de cada membro da Equipe do PSF. de 1999. não só para o trabalho em geral. pela importância que tem. O Ministério da Saúde define que as Equipes do PSF devem estar capacitadas a: -conhecer a realidade das famílias pelas quais é responsável. o cadastramento das famílias e estimula a comunidade (MINISTÉRIO DA SAÚDE. há um decreto. no domicílio e no acompanhamento ao atendimento nos serviços de referência ambulatorial ou hospitalar. por meio de cadastramento e diagnóstico de suas características sociais. ou sob a forma de profissionais incorporados às Equipes de PSF. Mostrando a importância que esse profissional tem alcançado. destacamos as do Agente Comunitário de Saúde. coloca o Agente Comunitário numa posição peculiar e de grande potencial para a prática transformadora que pretendemos. -identificar os principais problemas de saúde e situações de risco aos quais a população que ela atende está exposta.

..14. Na Portaria. para enfrentar os determinantes do processo saúde/doença”. Uma Portaria do Ministério da Saúde.85 O texto acima pretende estabelecer as atribuições de um trabalho que realize os objetivos da Atenção Básica. com detalhes operativos. No que diz respeito à Saúde Mental.] identificação dos portadores de deficiência psicofísica com orientação aos familiares para o apoio necessário no próprio domicílio” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. Está definido. O item 8. referido à Saúde Mental.] contribuir para a reorientação do modelo assistencial através do estímulo à adoção da estratégia de agentes comunitários de saúde pelos serviços municipais de saúde [. 2003). 2004.. na Portaria citada. que [. famílias e comunidade.... . consoante as formações das diversas categorias profissionais. c).. os problemas de Saúde Mental das pessoas. que o ACS deve trabalhar com. que continua com a indicação de “incentivo à comunidade na aceitação e inserção social dos portadores de deficiência psicofísica” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. no máximo. Um importante instrumento de gestão é o “Pacto de Indicadores da Atenção Básica”. Nas atribuições do ACS. adiantamos que as Equipes de PACS e de PSF. não se encontram... o Ministério da Saúde define como sua responsabilidade: “[. estadual e federal) tomando como objeto de negociação as metas a serem alcançadas em relação a indicadores de saúde previamente acordados (PACTO DE INDICADORES DA ATENÇÃO BÁSICA.]” (MINISTÉRIO DA SAÚDE.] constitui-se em um instrumento formal de negociação entre gestores das três instâncias de governo (municipal. 2004. 150 famílias ou 750 pessoas. um plano local.] da estratégia de saúde da família [. O item “elaborar. com a participação da comunidade. c). leva-nos a uma instigante tarefa: discutir com a população o que a faz sofrer psiquicamente e o que fazer para mudar a situação.. Salvo pela indefinida “deficiência psicofísica”.27 dá como atribuição do ACS a “[. capacitadas a reconhecer. de 1997. em geral. 2004.]” e “[. Observaremos como vão evoluir as atribuições do PACS e PSF em relação à Saúde Mental. há uma preocupação do legislador em apontar o domicílio como local de intervenção terapêutica/reabilitadora.. c). a Portaria indica muito pouco em relação ao trabalho em Saúde Mental.. traça as normas e diretrizes para o Programa de Agentes Comunitários de Saúde e para o Programa de Saúde da Família. bem como prestar assistência.

na . a educação mútua. o indicador “Taxa de internação por transtornos mentais”. quanto dos profissionais de saúde. Os ACS podem ter influência na mudança da mentalidade tanto da população.. ou seja. A cobertura alcançada com essas Equipes chega aos números de 94. 2001..805 pessoas para os ACS e 62.] verificou-se estrategicamente que a inserção dos Agentes Comunitários de Saúde nos municípios [. Segundo a autora citada: [. Maria de Fátima assinala: [.. em Brasília. 85).182 Equipes de Saúde da Família. 2001) O Programa de Agentes Comunitários de Saúde teve início no estado da Paraíba. segundo Maria de Fátima. p. No texto citado acima existem algumas características que serão preciosas para o trabalho com a Saúde Mental: o compromisso social.] o compromisso social assumido pelo PACS sem nenhuma discriminação era: melhorar. 2001). no Brasil e 19. em que os ACS exerceriam o papel de interlocutor privilegiado entre as famílias/comunidade e os serviços de saúde locais (SOUSA. Com a entrada das ações de Saúde Mental na Atenção Básica.. 2001. o estímulo ao autocuidado. p.934 Agentes Comunitários de Saúde. no dia 27 de junho de 1991 (SOUSA.665. já havia movimentação. 55).. De acordo com Maria Fátima de Sousa (SOUSA. De acordo com o Ministério da Saúde (MINISTÉRIO DA SAÚDE. (Cf SOUSA. no estímulo aos cuidados com a saúde e no incremento da participação ativa do cidadão na discussão a respeito dos condicionantes da saúde e das doenças. um choque de povo.86 Existem os Indicadores Principais e os Complementares. em janeiro de 2004 existiam 184.. O assessor citado. Antes disso. deverá se impor. apresentou estudo que mostrava os bons resultados do trabalho de 4 mil Agentes Comunitários de Saúde no Ceará. através dos Agentes Comunitários de Saúde a capacidade da população de cuidar da sua saúde. Com a evolução dos acontecimentos.065 para as Equipes de Saúde da Família. a interlocução entre comunidade e serviços de saúde. sendo que em nenhum deles constam indicadores ligados à Saúde Mental. 2004 d).] seria instrumento tático para contribuir para enriquecer os debates em torno de questões cruciais no processo de organização dos serviços locais de saúde. ou semelhante. com a visita do assessor técnico do Fundo das Nações Unidas para a Infância – UNICEF da região Nordeste.685. segundo a mesma autora. em um processo de educação mútua. para transformar as ações dos ACS num Programa nacional. Tratase de um expressivo contingente populacional coberto. o impacto em números e qualidade de vida deverá ser expressivo.

.. Tentando esboçar uma análise em termos de que tipo de proposta política está contida nas mudanças praticadas na área de Saúde. cujo interlocutor poderia ser um deles: o Agente Comunitário de Saúde (SOUSA. adiante. na lida diária.. Mais uma vez reforçando o papel do ACS. [. existem as atribuições de cada componente da Equipe de Saúde da Família (ESF). 2001. a intersetorialidade. em que a vigilância à saúde. temos. 56). Dentre as atribuições do Agente Comunitário de Saúde destacam-se algumas que são da maior importância para o trabalho em Saúde Mental (ressalvando-se que todas elas formam um conjunto que.. e informar aos demais membros da equipe. do Ministério da Saúde. p. 78). na sua harmonia. 2001. p. dentro e além do detalhe da economia de recursos.] – traduzir para a ESF a dinâmica social da comunidade. Maria de Fátima assinala que “[.] o norte desses instrumentos encontrava-se: no exercício progressivo do poder local onde o responsável pela saúde tivesse nome e endereço. e o PACS é um exemplo. Mesmo ainda na expectativa de uma transformação global.87 construção de uma nova agenda positiva para a saúde..] – estar sempre bem informado.] (BRASIL. diz: [.] o custo de um agente bem treinado é insignificante. 2001... no reorientar das práticas sanitárias.. potencialidade e limites. setoriais.. p. [. .] – realizar. em que a população de fato estivesse presente (SOUSA. p. No aspecto da capacitação dos ACS.. 2001. desde que se criassem condições para uma efetiva transformação global (SOUSA.. p. ao tema da capacitação dos ACS. [. por meio da visita domiciliar. institucionais e ou conjunturais... suas necessidades. 120). 2001. sobre a situação das famílias acompanhadas. muitas vezes. Voltaremos. SOUSA (2001)... 144). [. 2001. particularmente aquelas em situações de risco. a integralidade.] transformações ocorreriam por meio de reformas parciais. No “Guia Prático do Programa de Saúde da Família”. o coletivo e a participação popular fossem entendidos pelos profissionais locais e outras forças sociais em constante construção e reconstrução. a multicausalidade. quando comparado à formação de qualquer outro profissional” (SOUSA.] – identificar indivíduos e famílias expostos a situações de risco. 144). acompanhamento mensal de todas as famílias sob sua responsabilidade. necessidade de orientar nossas ações e forjar ferramentas operativas. colabora para a assistência e promoção da saúde): [.. a autora que vem sendo citada diz que o decorrer dos acontecimentos nas últimas décadas fez com que os representantes do movimento sanitário entendessem que [.

Assim: [. em tese de Doutorado de 2002. visto acima como “cuidados primários em saúde”. 2002. as tradições políticas e institucionais.88 Flávio Goulart. prefere fugir dos maniqueísmos e avaliar o que de positivo o Programa de Saúde da Família traz para a mudança da abordagem aos problemas de saúde no Brasil e para a promoção de melhores condições de vida. o conteúdo baseado em terapias e atenção episódica referente a problemas específicos. conforme as disposições da Constituição Federal brasileira de 1988 (GOULART. a responsabilidade centrada de forma restrita no próprio setor saúde. na sua complexidade. as circunstâncias que o rodeiam. A crítica que a citação traz coincide em tudo com a necessidade de mudança do Modelo Assistencial em Saúde Mental. 2002. a organização baseada em médicos e especialistas envolvidos com o trabalho individual e. ancorado em objetivos como: a cura de doenças.] poderia ser considerado. sendo.. 2002. pode ser alvo de análises contraditórias. Ao tentar historiar as práticas de saúde da família. Goulart recorre à Declaração de Alma-Ata. Ao mesmo tempo. p. 50). sugere que O que pode transformá-lo nisso ou naquilo é o modo como está sendo implementado.. A “Atenção Primária à Saúde” seria “a base do sistema de saúde e um enfoque que determinaria o modo de atuar dos níveis restantes do sistema” (GOULART. O autor da tese. atualmente questionado quando comparado com as . 50). p.. argumenta que o Programa de Saúde da Família. Goulart diz que a “Atenção Primária à Saúde” vem praticar a: [. Deste modo. com predomínio técnicoprofissional nos cuidados de saúde (GOULART. p. integralidade e universalidade. a descrição do tradicional Ambulatório de Especialidades em Saúde Mental. p. a força da ação política e das tradições comunitárias (GOULART. Citando Vuori. mesmo.] mudança no sistema tradicional. finalmente. nos moldes preconizados pelos organismos internacionais financiadores de programas sociais no terceiro mundo. 2002. no entanto. a história. mais uma política racionalizadora. trazendo o conceito de “Atenção Primária à Saúde”. 25). por exemplo. a capacidade formuladora e crítica de seus atores.. 90). poderia ser entendido como uma intervenção coerente com os princípios de equidade. de caráter focal.

(i) utilizar os sistemas de informação para o monitoramento das ações e para a tomada de decisões (GOULART. Segundo o autor. Para uma compreensão histórica dos sistemas de saúde.. o que as caracterizaria como partes de um corpo de políticas sociais.. oficial e não-oficial. permanente e de qualidade. comunidades). (c) ter como centro de atenção a família.89 práticas que compreendem as ações de saúde como necessariamente interdisciplinares e comunitárias. Goulart sintetiza. p. (g) estabelecer vínculos de compromisso e de co-responsabilidade entre o serviço de saúde e a população. (e) prestar assistência integral. A proteção voltada não apenas para indivíduos-singulares. biológico e social. que . 2002.] podem ser encontradas várias das categorias-chave que contribuem para a definição ora procurada. (b) ter um território definido com uma população delimitada sob sua responsabilidade. p. de 2001. citando Rosen. (d) intervir sobre os fatores de risco aos quais a comunidade está exposta. Goulart diz que [. o autor citado adverte. sistemas e órgãos. 51). a aproximação entre os conceitos de Atenção Primária à Saúde e Saúde da Família de modo esclarecedor e fértil para as intenções da Saúde Mental na Atenção Básica. mas para coletivos (famílias. grupos. fora do caráter especializado que recorta e separa o objeto das práticas em saúde em faixas de idade. humano e ambiental. prevenção e cura. ou seja. de natureza administrativa. gênero. como por exemplo: (a) ser a porta de entrada de um sistema regionalizado e hierarquizado de saúde. Os modos de pensar e de praticar os cuidados à saúde baseados na ampliação e superação dos conceitos tradicionais antinômicos entre individual e coletivo. resultando em um novo tipo de práticas sociais de saúde. geográfica. cultural ou mesmo ética (GOULART. inserida em seu meio social. ou mesmo de tipos de doenças. O desenvolvimento de vínculos entre clientela e os prestadores de serviços. O processo de trabalho tendo como resultado a intervenção do médico e de outros profissionais dentro de um âmbito generalista. (f) realizar atividades de educação e de promoção da saúde. (h) estimular a organização das comunidades para exercer o efetivo controle social das ações e serviços de saúde. Citando a publicação do Ministério da Saúde “Saúde da Família: Uma estratégia para a organização da atenção básica”. no seguinte trecho. 52). 2002. são pontos de união entre os conceitos de Atenção Primária à Saúde e Saúde da Família: As práticas de saúde como objeto da intervenção do Estado.

com toda a conotação de suas possíveis intenções controladoras e apaziguadoras. p. conseqüência também da Declaração de Alma Ata. 2002. ideologia e ação política. 93).. Já no século XVII. 61). a citação nos permite refletir a respeito de que modo a atual sociedade procura resolver os problemas de Saúde Mental. com as variadas maneiras com que tais sociedades procuraram resolvê-los (GOULART. O autor chama a atenção.] estão vinculadas tanto à crise do capitalismo como ao impacto dos resultados da implementação dos welfare states na Europa ou ainda à formação do National Health System no Reino Unido. os cuidados a domicílio também apareceram na Inglaterra. com raízes que [. 2002. p. da promoção da saúde (OPAS/OMS) e da vigilância à saúde. capazes de conferir novos sentidos para as questões formuladas pelo movimento sanitário em décadas passadas” (GOULART. Posteriormente. com práticas de saúde imbuídas de caráter social e dimensões simultaneamente técnicas.] campo da saúde de origem canadense. o autor cita os conceitos de “[... os problemas de saúde enfrentados tiveram. nesse contexto de absorção de idéias estrangeiras. Estamos exercitando meios efetivos que tentam mudar a forma da sociedade resolver os problemas da Saúde Mental? A história novamente nos traz ensinamentos e nos abre os olhos para as origens e as intenções iniciais do que estamos praticando hoje. 2002. 60). em sua origem. importado na década de 60. 2002. p. (Cf. para o paradigma da Medicina Comunitária.. GOULART. na Inglaterra. p.] mediante seus componentes de saber... p. A Medicina Comunitária. 2002.. 92). uma relação com a vida em comunidade e. foram criadas as workhouses. teria ocorrido o deslocamento de uma ênfase centrada meramente nos serviços para as condições de saúde e seus determinantes. com atendimento a crianças e em obstetrícia. (Cf. através de uma luta contra-hegemônica e [. no século XVIII. embora com ênfases diferentes. p. Insistindo no polêmico tema da importação de propostas para a área de saúde. 2002. 52). entre outras (GOULART. Diz ele que.90 [. 92). O autor situa a década de 60 como o tempo em que os acontecimentos e as idéias colaboraram para o aparecimento do Programa de Saúde da Família no Brasil. instituições descentralizadas que tentavam recuperar pelo trabalho. Valiosa para os nossos tempos. GOULART. políticas e ideológicas (GOULART..] em toda a história das sociedades humanas. Até há pouco predominou a exclusão. seria o .

na década de 80 começam a surgir as experiências do Programa de Agentes Comunitários de Saúde. 100). com o apoio das agências internacionais (GOULART..... a importância das [. bem como na dinâmica do processo de trabalho em saúde e. O autor também cita Niterói.. integração docente assistencial. vistas como eram sob uma ótica fortemente ideológica e. dessa forma.] com extensão de cobertura. que difundiu nos paísesalvo sua proposta de saúde. até certo ponto. voltada para os países pobres da América Latina. de que estes teriam a intenção de mero controle das camadas pobres da população.. p.] concepções fundamentais relativas à determinação social do processo saúde-doença. no Nordeste. . p. 97). nem os organismos internacionais. 2002. p. também conhecida como Aliança para o Progresso. p. 2002... nem mesmo os órgãos centrais dos governos federal e estaduais. p. Campinas e Londrina como exemplo de municípios que tiveram experiências pioneiras de reorientação do modelo assistencial “[. etc. Ainda na década de 70. 94). 93).] da [.] política externa norteamericana dos anos 60. 2002.. Toma força. então. 97). não mais apenas em demolir as propostas colocadas em campo. nesse movimento de suavização da crítica.. Com a evolução dos fatos. “[. político e ideológico [. conspiratória (GOULART.] e no Estado de São Paulo” (GOULART. p. eram fortes na década de 70. com o detalhe: [.91 [. de acordo com Goulart. 95).] as citadas energias intelectuais vão se concentrar em encontrar soluções.. Havia simplesmente novos atores no jogo.. O autor sugere que... 2002.] quem agora estava com a palavra e a vez não eram apenas as academias. O autor comenta que as críticas à importação de modelos de saúde. 2002... mas diminuíram de intensidade na década de 90.] substrato teórico.] destacam-se as experiências pioneiras realizadas em Porto Alegre (Vila de São José do Murialdo) [. participação social.” (GOULART. 2002. com a redemocratização do país e a possibilidade de ação política [... os quais passaram também a formular e colocar em prática novas propostas no cenário – os municípios – como de resto o fizeram em relação a todo um conjunto de políticas públicas a partir dos anos 90 (GOULART. passaria a orientar as propostas democratizadoras e de reforma do sistema vigentes na década de 80 (GOULART.

Spinoza. A todo o momento Hochmann aponta para a necessidade de desenvolver novos conceitos. francesa. 1972. 17). Sartre. então. Balint. Comecemos. p. Jones. Hochmann retoma a discussão a respeito do “tratamento” do hospital psiquiátrico. Marx e Engels.. (Cf. bairro. 1972.] coraza ideológica. Este sector será su zona de reclutamiento de los enfermos de ambos os sexos. Depois. para “[. p 24). que é o tratamento dos conjuntos humanos: instituição. Criticando a filosofia dualista. Hochmann define “o setor” e explica. Freud. Goffman.92 CAPÍTULO 5 A SAÚDE MENTAL NA ATENÇÃO BÁSICA 5. Para chegar ao que hoje está sendo praticado como Saúde Mental na Atenção Básica. com a chamada “Psiquiatria de Setor”. que chama de “[. Forçoso é partir de algum momento e autor. família. numa nota instrutiva: Se designa con este nombre una nueva corriente de la psiquiatría. chegaremos aos textos e trabalhos atuais e ao que está sendo colocado nos textos oficiais. Foucault.. que provocou tanta discussão e ainda permanece em debate. Szasz. Hochmann ataca violentamente a nosografia. Bastide. enquanto “[. HOCHMANN. que influencia a psiquiatria na sua divisão estanque entre social e individual. 1972.] una enfermedad del lazo que une los hombres entre si” (HOCHMANN. y en él deberán . que poco a poco se organizó como un catálogo de enfermidades mentales […]” (HOCHMANN. Um exemplo típico dessa corrente é Jacques Hochmann. Esta circular prevé que todos los servicios de psiquiatría pública deberán relacionarse con un sector geográfico determinado. preconizada por la circular ministerial del 15 de marzo de 1960. para introduzir a questão do seu livro.1 Precursores estrangeiros e críticas. 1972). entre outros.. é necessário observar a lista de autores em que Hochmann se baseia: Bachelard. a psicoterapia institucional.] que rompan de manera radical con los antiguos marcos de referencia” (HOCHMANN. Marcuse... Cooper. Como exemplo de mudança. Bion. 15) e vai propor o conceito de “sociopatia”.. alguns precursores. p. uma categorización de los enfermos. escrito entre 1965 e 1968. Saussure. inicialmente. percorreremos. Antes mesmo de qualquer tentativa de crítica a esse livro (ou ao “setor”). com seu livro “Hacia uma psiquiatria comunitária”.

18). no PACS/PSF: um setor geográfico restrito para o trabalho de cada equipe. naquela época. Ao usar o termo “trabalhadores da saúde mental”. por el mismo equipo médico-social y de enfermería [. desaparece la localización exclusiva de la enfermedad en el individuo. sino el medio de vida del enfermo. Defendendo a sua proposta diante das resistências.93 desarrollarse instituciones extrahospitalarias de cuidado y prevención. p. os sinais de avanço e o que. saindo do indivíduo em direção ao coletivo: Una vez que se rompe con la localización arquitectónica del paciente en el interior del asilo. su lugar de trabajo. no seguinte trecho. la estructura social subyacente y el conjunto de quienes pretenden curarlos. durante toda su evolución intra y extrahospitalaria. el lugar ideal para realizar el tratamiento ya no es más la institución especializada. ao valorizar os trabalhadores sociais da comunidade. asistentes sociales. p. agora. psicólogos o educadores especializados). El sistema completo soporta la patología y se transforma en objeto del tratamiento (HOCHMANN.. 1972. sus parientes. los médicos clínicos y. El mal se ubica en un sistema en el que se articulan el enfermo. su barrio. al dejar de estar aislado en el asilo. Hochmann. considerado durante mucho tiempo el agente terapéutico específico. Podemos observar. 1972. sino que engloba a su medio y a la comunidad toda.] (HOCHMANN. para permitir que los enfermos sean atendidos. considerada ‘enferma’ de sus locos y objeto nuevo de un tratamiento original. podemos notar como repetição sob nova roupagem: Hochmann já fala em serviços extra-hospitalares. médicos clínicos. No seguinte trecho. os avanços ainda eram “uma nova corrente da psiquiatria”. y también los trabajadores sociales de la comunidad. e compreendendo-as. todos que se vinculan con el enfermo. depois de criticar a nosografia. parentes e amigos. 18). é bastante avançado para a época: Por primera vez desde la edad clásica. que vigila al loco y previene el contagio. por último. el proceso patológico ya no impregna solo al enfermo. Sobre todo. p. su casa.. la terapia comunitaria (HOCHMANN. Mas traz o que praticamos. refere-se às pessoas a serem abordadas como “enfermos”. su familia. único beneficiado de la intervención terapéutica. . 19). citando outras categorias. en particular su familia y amigos. Hochmann aponta o caminho das redes de atenção psicossocial que hoje estamos tecendo. Hochmann oferece a sua visão a respeito da mudança de foco no trabalho em Saúde Mental. 1972. hoje. Se asocian al psiquiatra. no texto citado. mas ainda sob a forma de instituições. ao negar o privilégio terapêutico ao psiquiatra. como podemos notar. los demás trabajadores de la salud mental (enfermeros psiquiátricos.

enfermeiras e uma socióloga. trabalhando com a consciência de que opera num sistema do qual faz parte é: “[. que em todo momento el desviado expressa lo más opressivo.. 25). Villeurbanne e Vaulx-en-Velin. Hochmann discute o papel do profissional de Saúde Mental com bastante avanço para a época em que escreveu. p. Podemos ver. A mi juicio. 1972. 1972. 23). 1972). conseqüentemente. alienante y destructor de uma cultura (de toda cultura). Ao negar os enfoques que colocam os profissionais com o saber. ao descrever o que então conceituava como “atenção extrahospitalar”. o autor diz que: “El centro del interés del profesional lo constituye uma red de interacciones evolutivas en la que él se compromete personalmente” (HOCHMANN. que então durava quatro anos. nas cidades de Bron. HOCHMANN. psicólogos. continuamente ‘autoterapéutica’. p. sino que será atendida en todo momento y encarada en forma constructiva. p.94 Os méritos do texto acima são: situar aqueles que tratam no mesmo sistema ao qual pertencem as pessoas a serem tratadas e apontar que a estrutura social precisa estar em questão. p. no texto acima. esta negación. seja interpretação. Hochmann utiliza. HOCHMANN. 1972. para os capítulos do seu livro que tratam da prática da psiquiatria comunitária. 1972) Hochmann. Hochmann entra na discussão do possível desaparecimento dos desviantes em sociedades futuras negando essa possibilidade. por un grupo social que considere al cambio como ley (HOCHMANN.. visto também ser parte do “mal”. conselho ou remédio (Cf. a função atual do terapeuta..] contribuir a que en el interior de este sistema. 1972. Trabalharam com ele médicos. na França. 193).] dispensário de higiene mental” (Hochmann. lidar com seus “diferentes”: Creo. simplesmente. al que pertence. 25). a experiência. nos encaminamos hacia una civilización en la que ella no desaparecerá. . assistentes sociais. se libere el discurso reprimido” (HOCHMANN. descreve as ações do “[. uma seta apontada para um futuro em que a exclusão terá sido elaborada pela Humanidade. Mas aponta muito claramente que a mudança radical dar-se-á na forma como a sociedade poderá se organizar e. Estimo que se ha querido acallar esta voz. (Cf.. a respeito do que acontece com as pessoas que estão sendo tratadas. as manifestações hoje abordadas com métodos reducionistas compreendidas no conjunto social e a função terapêutica espalhada pelos membros das comunidades? Para chegar a uma sociedade que integre suas diferenças de modo radical.

Criticando as práticas profissionais isoladas. En este caso el psiquiatra privado podría desempeñar su papel con gran dificultad. hacerle aceptar la visita de una enfermera psiquiátrica a domicilio y emprender un tratamiento (HOCHMANN. Hochmann relata que os dispensários de higiene mental se encarregavam dos egressos das internações e que os médicos e a Equipe que atendiam os pacientes nos hospitais psiquiátricos. freqüentemente eram os mesmos que o faziam nos dispensários.] em una especie de foro. por último.. (Cf. p. 1972. 1972. atualmente. no contexto francês. Aos poucos. HOCHMANN. Este psiquiatra se colocava à disposição de um grupo de pacientes por um período de três horas semanais. segundo o autor. nos Ambulatórios Ampliados. facilitava uma mudança na relação dos pacientes com seus problemas. 1972. ver el enfermo. Já. 195). desarticular la ansiedad y animosidad que aumentan y. Hochmann reforça a necessidade de intervenção de uma Equipe e diz: Por lo tanto. afirmando que psicóticos e alcoólatras necessitam de atendimento de Equipes e não se beneficiam de abordagens com apenas um profissional. inclusive com pacientes assumindo papéis de cuidadores. en un club.] consulta grupal” (HOCHMANN. en un clima coercitivo que se adapta mal a las reglas de la práctica liberal.. 197). Hochmann relata um caso que é instrutivo para seguirmos os passos da Saúde Mental nas comunidades: X. . la asistente social y el médico del barrio. mas com algumas diferenças no sentido da ação na comunidade. rechaza a todos y se deja morir de hambre lentamente. con los vecinos. Isso. 188). 196). p. se encerró en su casa desde hace ocho días. que utilizou a “[. ao citar o psiquiatra Sassolas. É interessante o registro histórico que faz Hochmann. 1972). p. El dispensario es una herramienta de inestimable valor para permitir la intervención de muchos ( HOCHMANN.. Note-se a semelhança do que está descrito com o que praticamos. Exemplificando o tipo de abordagem que praticava. agora. como o primeiro. pero com clara orientación terapêutica” (HOCHMANN. el tratamiento siempre se emprende bajo una determinada presión social.. p. com freqüência livre e possibilidade de consulta individual. ainda freqüentes entre nós. não carcerária. transformando-se “[. esse grupo recebeu pacientes que nunca estiveram internados e outros profissionais.95 semelhante aos nossos Ambulatórios. ao poderem conviver com os membros dos hospitais num outro tipo de relação. El del dispensario puede venir a hablar con el enfermo. 1972. então.

1972. p. p. con a complicidad del cuerpo social. onde “El enfermo recibe cuidados de um equipo de enfermeras y médicos que van a verlo a su casa todos os dias” (HOCHMANN. em rede e associado à Saúde em geral. 202).. p.. Hochmann traz uma mensagem muito atual para nós: Por desgracia. oficina protegida.] el mejor taller protegido no es la fábrica. 1972). é claro. revertida. Com o exposto. Es el virus antijerárquico y antiinstitucional más poderoso que conocemos (HOCHMANN.96 Mesmo ainda estabelecendo a prática muito centrada no psiquiatra. que o paciente só é visto após muitas outras ações da Equipe. en cuanto sale del asilo. enfermaria psiquiátrica de bairro. 1972. que já são terapêuticas para o conjunto. questionam as hierarquias. É interessante notar. una fortaleza. pois. 200). Os membros da equipe. lar de pós-cura. p.. Hochmann fala mesmo da “[... La visita a domicilio es un elemento indispensable para la higiene mental de los propios asistentes. toda a série de dispositivos então em uso e que não diferem muito dos que utilizamos hoje: hospital-dia. Hochmann diz que “[. Hochmann diz que os equipamentos já existentes na comunidade são os lugares a serem ocupados e onde a exclusão será questionada e. o trabalho em Equipe. 197). talvez. (Cf. Sempre reforçando a necessidade básica de a Equipe questionar seus métodos. no exemplo citado acima. el enfermo puede encontrar una tarea adecuada a él y un grupo de sostén en sus compañeros” (HOCHMANN. Hochmann avança muito em relação ao que praticamos. hospital-noite. na descrição de seu trabalho prático. há vários anos. Hochmann diz que na França ela estava pouco desenvolvida. Dentro da sua linha de aproveitar os recursos das comunidades e de desinstitucionalizar a abordagem. ao saírem do asilo. afinar seus conceitos e perceber o contexto social em que atua. pareciera que. 198). ao questionar se “[. entram em contato com a vida real das comunidades e procedem ao trabalho de desalienação. que.. Desta forma. mas que já estava em uso nos Estados Unidos e Canadá (Cf.] el asilo se reconstruye rapidamente” (HOCHMANN. una baronía. 1972. con la ayuda del equipo de higiene mental y el médico laboral. Hochmann.] hospitalización a domicilio” (HOCHMANN. p.] el dispensario es un lugar de desalienación para el equipo de higiene mental” (HOCHMANN. 1972. 1972. Hochmann percorre. 199). claramente. Hochmann já mostra. p. A respeito da assistência a domicilio. el psiquiatra tiende a reconstituir. 199). Hochmann cria uma regra que vai aparecer nos trabalhos .. en la que.. Le es necesaria una vigilancia particular para evitar un nuevo encierro en algún Centro de Salud. HOCHMANN. 1972). 1972. oficina terapêutica. “[. não termina nunca.

psiquiatra do setor. De alguma forma o trabalho político-administrativo deve ser organizado. . HOCHMANN. Dentro de sua conceituação. Hochmann enfatiza a necessidade de que a Equipe se integre verdadeiramente à comunidade. HOCHMANN. contatos com as instâncias policiais e políticas e o grande público. 1972). onde professores. que Hochmann exemplifica com a Escola. os grupos de ex-alcoólatras. para resolver os problemas de modo coletivo (Cf. Hochmann afirma o caráter desinstitucionalizador do seu trabalho. Seguindo a regra citada acima. as associações de pacientes mentais (Cf.] acción sociopsiquiátrica” (HOCHMANN. os abrigos para jovens. e ainda coloca o trabalho que faz como uma modificação da psiquiatria. 206). por exemplo. A “Equipe Psiquiátrica” estabelece colaboração com as Equipes das instituições.. p. Hochmann cita as ações junto às instituições que existem na comunidade. p. 1972. como. entre nós. p. es decir.97 atuais de Saúde Mental na Atenção Básica e que requer muita atenção: “En la llamada psiquiatría de ‘setor’. 1972). Hochmann diz que se Impide una fácil reconstitución del asilo fuera de sus limites. Mais adiante vamos ver esse conceito surgir. 204) a prática que desenvolveu. no debe crearse ninguna institución especializada antes que hayan sido investigadas y utilizadas todas las posibilidades terapéuticas de la comunidad” (HOCHMANN. que utiliza o termo “sociopatia”. Hochmann diz que El objetivo de estas discusiones es aumentar la tolerancia a la enfermedad mental. p. conforme vimos acima. en resumen. 1972. mantendo contato e trabalhando junto com as estruturas políticas e administrativas. percibido de inmediato como hostil y rápidamente excluido. campanhas de esclarecimento. 1972. en el que personas especiales (los psiquiatras) curen a otras personas especiales (los locos) (HOCHMANN. 204). com o termo “recursos ocultos da comunidade”. 1972. assistente social e psicólogo educacional funcionam juntos. num trabalho conjunto. Hochmann chama de “[.. a Escola. a valorização dos espaços e recursos comunitários e tenta frear os impulsos de abordagens especializadas dos profissionais da Saúde Mental. os Centros Médicos e Sociais. HOCHMANN. com assembléias. desmitificando la locura y a los que la atienden. 1972). también llamar la atención hacia los problemas de equipamiento y reclutamiento de personal. (Cf. 204). de un nuevo espacio especializado. Como exemplo dela. de dinero (HOCHMANN.

. da troca de experiências a respeito do que está sendo vivido. que são membros da comunidade que já eram importantes na vida das pessoas e famílias atendidas e que podem se transformar em importantes formadores de opinião e ajudantes terapêuticos. p. Hochmann trabalhava na lógica que. Hochmann se dispõe a discutir as críticas que já então surgiam a respeito da psiquiatria de setor. é corriqueiro: o paciente perdido entre diversos especialistas e sem que seja ouvido em sua integralidade (Cf.. p.]” (HOCHMANN. De um modo um tanto conformista. tratava de trabalhar em conjunto com os médicos clínicos. HOCHMANN. 210). as diversas instituições da comunidade e da cidade. Hochmann aponta que essas reunioes de equipe devem servir para o desenvolvimento do que chamou de “[. entre nós.] la creación de uma opción ‘clínica’. 208). faziam a ligação entre as famílias. con formación psicológica y sociológica profundizada em el programa de los estúdios de medicina [.. de esta manera. 1972). essas equipes. segundo Hochmann: [. Hochmann valorizava de modo especial o trabalho dos Assistentes Sociais. 1972. p. daí a ter podido fazer suas propostas para que a medicina pudesse ter uma visão melhor da população. Hochmann ressalta a importância das reuniões de pequenas equipes. Era o profissional que tinha mais conhecimento e contato com a comunidade.] solo se unen en razón del caso tratado (y no por una organización jerárquica o la pertenencia a determinado servicio). de controlar os indesejáveis. que seria uma forma especializada. se organizan y desaparecen según la demanda y. 1972. não importando a que instituição pertençam ou. Criticando a especialização excessiva na medicina. Desta forma.98 Hochmann discute o papel do médico clínico na psiquiatria de setor. 210). Momento de organização do atendimento. com “[. até mesmo. chamamos de referência e contra-referência. entre nós. atendiam os pacientes clínicos. chamados por ele de “polivalentes” (Cf. estrutura distinta daquelas que. Hochmann trabalhava nos “dispensários de higiene mental”.] sustitutos terapéuticos” (HOCHMANN. 1972.. os setores dos serviços de saúde. centradas na discussão e encaminhamento da abordagem de um paciente ou família. HOCHMANN.. assinala o que. na região. com alguns pontos de contato com o que vemos hoje no Brasil. 1972) na medida em que visitavam os domicílios. están mejor protegidos contra los peligros de la esclerosis institucional (HOCHMANN. HOCHMANN. 1972). que se realizan entre servicios y son interdisciplinarios. Hochmann diz que “La psiquiatría que hagamos (sea hospitalaria . Sempre atento às ameaças do reaparecimento dos vícios institucionais paralisantes. campo de capacitação.. (Cf. mais “leve”.. se pertencem a alguma. Dessas discussões participam todos os envolvidos na situação. que discutiremos adiante..

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o extrahospitalaria), será a imagen y semejanza de la sociedad y del lugar que esta reserve a la locura” (HOCHMANN, 1972, p. 222). Desta forma, foge da crítica ao postular que o que faz, de qualquer modo, é produto da sociedade. Bem como a crítica, poderia completar. Assim, isenta-se de afirmar que propõe mudanças na sociedade e de valorizar o caráter transformador que sua própria prática contém, postura esta que não coincide com sua crítica social e com a até violenta crítica à psiquiatria organicista e à nosografia. Concluindo sua resposta a possíveis questionamentos, Hochmann diz que

De hecho, el ‘sector’ es, ante todo, un instrumento, y no un fin. La psiquiatría comunitaria representa una etapa técnica en la evolución de la psiquiatría (etapa que quizá sea franqueada con rapidez y que puede desembocar en una decadencia de la propia psiquiatría). Si se evita convertir al ‘sector’ o a la ‘comunidad’ en objeto ideal, especie de dios al que conviene ofrecer sacrificios, si se lo considera, con más modestia, un medio entre otros para asistir a los enfermos mentales - o a algunos -, entonces pierden su razón de ser muchas críticas. Solo se puede cuestionar teóricamente a la ideología comunitaria; la práctica de sector, en cambio, debe ser juzgada por sus resultados (HOCHMANN, 1972, p. 225).

Vemos, no trecho citado, diversos detalhes que ao longo do presente capítulo serão retomados, pois fazem parte da atual discussão a respeito da Saúde Mental na Atenção Básica. Hochmann se refere ao setor como um instrumento e não como um fim. Perguntamos: para que fim? Hochmann responde, de modo novamente contraditório com o seu próprio discurso crítico, que o fim é assistir enfermos mentais. Ao negar-se a dar conseqüência social e política à sua prática, repleta delas, Hochmann recai na razão nosográfica, que tanto abomina. Mais uma vez, também, Hochmann mostra que vê o seu trabalho como uma evolução da psiquiatria e não, como agora podemos colocar, como resultante das mudanças sociais, políticas e econômicas, que levaram a psiquiatria a ser apenas mais uma dentre várias formas de compreender e agir em relação aos denominados “problemas mentais”. E a quais resultados Hochmann se refere? Assistir enfermos mentais de modo avançado, é um resultado necessário, mas acanhado em face dos muitos outros possíveis resultados que o próprio Hochmann aponta: mudar a forma da sociedade encarar a loucura, questionar a exclusão, fazer a sociedade criticar e mudar as suas formas doentias de relacionamento e produção, tornar a comunidade mais autônoma em relação aos poderes estabelecidos.

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Nas conclusões do seu livro, Hochmann volta a dar conseqüência social e política às suas proposições e ações. O título do capítulo já é significativo: “Hacia uma política de salud mental” (HOCHMANN, 1972, p. 226). Nele, Hochmann diz

En efecto, si no se esbozaran profundos cambios en las relaciones entre enfermo mental y sociedad (y, por lo tanto, en la misión que asigna al psiquiatra y sus colaboradores), si las instancias sociales no evolucionaran en este sentido, el hecho de afirmar que el psiquiatra desea tratar a conjuntos y considerar al enfermo como testimonio de una patología más global, y de invocar su condena de una nosografia objetivante, a fin de predisponerlo a nuevas perspectivas y cambios institucionales, solo tendría interés anecdótico. Hay que redefinir la misión de la psiquiatría con ayuda de instrumentos de trabajo radicalmente nuevos (HOCHMANN, 1972, p. 226).

Hochmann, nas suas conclusões, também aponta as dificuldades que o financiamento do Setor Saúde impõe à prática integrada em Saúde Mental, que englobe, ou faça perder seus limites, a assistência e a promoção da Saúde Mental (Hochmann fala em prevenção). Mantendo a sua atualidade, para nós, já que estamos vivendo o problema, Hochmann propõe um ganho, por Equipe, constante, e não o pagamento por “[...] precio diario” (HOCHMANN, 1972, p. 231). De acordo com Hochmann,
[...] la noción de precio diario surge directamente de la remuneración inmediata que es común en las profesiones liberales. Esta forma de financiación nos transforma en una empresa de producción de un servicio individualizado y nos obliga a reforzar cada vez más nuestro poder de especialistas, los únicos capaces de curar. (HOCHMANN, 1972, p. 231).

Em termos de organização dos serviços, Hochmann propõe:

[...] pequeñas unidades asistenciales polivalentes, diseminadas em la comunidad, que puedan funcionar como lugar de cura, hogar, hospital diurno y enfermaria psiquiátrica barrial. Estas pequeñas estructuras podrían ser independientes o adscribirse a un hospital general cercano. Formarían parte del dispositivo sectorial, y no tendrían en él carácter central alguno, ya que representarían solo a uno de los elementos, sin ninguna función de control por sobre los demás (HOCHMANN, 1972, p. 237).

Com essa proposta, Hochmann pretendia tornar unificadas as ações de assistência, prevenção e organização/administração do sistema. (Cf. HOCHMANN, 1972). Quanto à administração do sistema citado, Hochmann, coerente com sua postura de distribuir pela

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comunidade as funções que tradicionalmente são precípuas dos aparelhos governamentais, afirma que

Toda la orientación de nuestro trabajo conduce naturalmente a afirmar que, bajo el control de los organismos presupuestarios públicos, los usuarios del servicio, los asistentes, los pacientes, los habitantes de la comunidad, son los únicos habilitados para orientar y dirigir con eficacia la política de salud mental (HOCHMANN, 1972, p. 238).

Hochmann valoriza as Associações comunitárias, que, no caso francês, seriam sem fins lucrativos e com captação de fundos públicos (Cf. HOCHMANN, 1972). Sugerindo o tipo de composição e de funcionamento dessas Associações, Hochmann diz:

La representación de funcionarios municipales, miembros de asociaciones barriales, familias de enfermos, de estos mismos enfermos y de quienes están a cargo de la asistencia o prevención de sus problemas, la transforma en una verdadera comunidad terapéutica (HOCHMANN, 1972, p. 238).

Ao longo de todo o livro citado, Hochmann propõe a discussão coletiva a respeito do que acontece com aqueles que são apontados como pacientes mentais, nas relações com suas famílias e sua comunidade. Conseqüente com sua orientação teórica, sugere a diluição e potencialização, nas comunidades, da função terapêutica e de cuidados, com aprendizado conjunto. Nas últimas páginas do seu capítulo de conclusão, deixa assinalada uma advertência que estamos, agora, vivenciando e que voltaremos a comentar:
Pero esta inmersión en la corriente comunitaria, esta difusión del trabajo y la pérdida de la protección que representa una identidad profesional, señalada por la pertenencia a un cuerpo rígido (el espíritu de cuerpo), puede provocar angustia; por lo tanto, es importante que el equipo de higiene mental se transforme en un grupo de sostén enriquecedor y reparador (HOCHMANN, 1972, p. 238).

Em 1979, Paulo Rocha, psiquiatra do Rio Grande do Norte, apresentou uma Dissertação de Mestrado, no Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que teve como propósito, discutir os programas de psiquiatria comunitária na América Latina. (Cf. ROCHA, 1979). O autor justifica a delimitação da pesquisa à América Latina, devido à necessidade de observar trabalhos próximos de nós e com a característica de

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países subdesenvolvidos, chamando a atenção para o perigo da importação de modelos. (Cf. ROCHA, 1979). Apesar do título da dissertação fazer referência, ainda, apenas à psiquiatria, a proposta do autor é “[...] contribuir a uma discussão que aperfeiçoe a direção orgânica do movimento em torno da saúde mental” (ROCHA, 1979, p. 5). Paulo Rocha situa as práticas do trabalho comunitário em Saúde dentro do “modelo desenvolvimentista”, sob orientação de organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas e o Banco Interamericano de Desenvolvimento, e que teve, nos Estados Unidos, na década de 60, um impulso com os Programas de Ação Comunitária. (Cf. ROCHA, 1979). A intenção desses programas era que, através da participação popular e de oportunidades sociais, “[...] os problemas sociais, com suas lutas e tensões, seriam minorados e superados” (ROCHA, 1979, p. 7). Tentando situar politicamente as práticas comunitárias em Saúde, Paulo Rocha, fazendo referência a trabalho de Donnangelo, diz:
[...] a alternativa da medicina comunitária surge [...] como uma tentativa de preencher os ‘vazios’ na estrutura de produção dos serviços médicos, com extensão do consumo desse produto, simplificação de recursos (barateamento de custos) e, ao mesmo tempo, fundamentalmente, com ampliação de suas funções ideológicas e políticas, hegemonicamente, no processo de ‘medicalização’ da sociedade (ROCHA, 1979, p 8).

O autor da dissertação, ao procurar definir as determinações que fizeram emergir a “alternativa comunitária” em psiquiatria, situa importantes influências da “[...] série de transformações sócio-econômicas-políticas, a partir da 2a. Guerra mundial, que repercutiram diretamente nas formas organizacionais da Medicina [...]” (ROCHA, 1979, p. 9). Na Inglaterra, em 1959, e nos Estados Unidos, em 1963, são editadas leis que mudaram a forma de tratar em psiquiatria. As preocupações, nos dois casos, eram a precariedade da assistência e a necessidade de cortar gastos. (Cf. ROCHA, 1979). Nos Estados Unidos ganha força a proposta de

[...] aplicação dos princípios preventivistas em Psiquiatria com atuação na comunidade, através dos centros comunitários de saúde mental. Estavam lançadas as bases oficiais para a ampla extensão dessa política de saúde mental, nos EUA e, conseqüentemente, a importação desse modelo, pela dependência econômico-social, para a América Latina ao final da década passada (ROCHA, 1979, p. 10).

Paulo Rocha. p.] é a prevenção primária.. na dissertação de Paulo Rocha. dizia que [. 11)..] essas práticas de saúde...] a partir de 1960. 1979. como conseqüência da dependência. com os problemas decorrentes da importação de modelos de Saúde.]” (ROCHA. de 1978. Talvez tentando encontrar trabalhos que fugissem da lógica de repetição de modelos... p. a sociedade americana passava por uma crise. a pobreza. que desenvolveu um trabalho comunitário a respeito do qual saiu uma publicação em 1972. segundo Paulo Rocha.. ROCHA. pois o situa face a face. o trabalho dos profissionais na área. o nosso recorrente tema do aspecto de controle que tem as ações de Saúde Mental na comunidade e as possibilidades de escapar desse destino. com abordagem dos mesmos. então.. 12). A América Latina absorve. dentro do esquema proposto de evitar/controlar os fatores causais. A pobreza. 1979. dentro dessa visão funcionalista. estável.. Estamos vendo. Lubchansky. p. Surgem as propostas de atacar os focos de problemas. no qual este autor dá como características da psiquiatria brasileira. com grande ajuda dos organismos internacionais – OMS/OPAS” (ROCHA. 11).. como. com as questões estruturais da sociedade – modelo econômico/político vigente [. acesso a centros comunitários para melhoria da saúde mental [. mas “[.] dando ‘oportunidade’ de participação social: acesso a escolas. como resultantes de um ‘desvio’ ou ‘desajuste’ de uma pressuposta e dada sociedade equilibrada... (Cf.. argentino. ao destacar os autores brasileiros que fundaram a psiquiatria social lembra de Ulysses Pernambucano como o precursor.. com incidência na forma de lidar com os “[.]” (ROCHA...] (ROCHA. 11). Característico da forma de os Estados Unidos lidarem com seus problemas.103 De acordo com o autor que vem sendo citado.] concepção funcionalista que entende os problemas sociais. mesmo enquanto agentes ligados ao serviço público.. 21). conflitivamente. a “[. na época das propostas descritas acima. O autor da dissertação cita um trabalho de Lucena. o autor da dissertação cita Lubchansky. p.] conflitos e tensões sociais resultantes de determinantes mais profundos e estruturais na sua formação social” (ROCHA. acesso a habitações. “[.. predominava. funcionando harmonicamente [. ao considerar a saúde como uma variável dependente. não teria sua resolução com base nas origens da desigualdade. acesso à assistência médica. 1979. 1979. 1979). 1979. por exemplo. p. na época: . [. a que colocaria mais em xeque. segundo Paulo Rocha.

(Cf. (ROCHA. os trabalhos de saúde comunitária são em geral funcionalistas. uma “[.difusão nacional do importante esforço de mudança do estilo do hospital psiquiátrico (de custodial para terapêutico). . citando Ulloa.. analisa alguns Programas de Psiquiatria Comunitária e de Saúde Mental em alguns países da América Latina. 1979).. p. é o funcionalista. O autor da dissertação situa a importação dos modelos de saúde comunitária dentro da necessidade. ideológicos. 47). aberto a mudanças não previstas. manipuladores..104 . de acordo com a pesquisa bibliográfica que realizou. 1979).demonstração da miséria da assistência ao doente mental no Brasil. As diferentes formas de conceber a marginalidade resultará em diferentes modos de propor e praticar a participação. 26). da sua análise dos programas comunitários de Saúde Mental na América Latina. que será questionada. que a compreende como uma disfunção que se resolverá pela integração dos marginalizados ao sistema social colocado como modelo a ser incorporado. dizia da importância do “[. Sempre situando o problema da assistência psiquiátrica no campo político. de dar conta da questão da marginalidade. no terceiro capítulo da sua dissertação. Para isso. histórica. que o autor descreve.. 1979. O primeiro modo de ver a marginalidade. p. (Cf..diretrizes de orientação comunitária. Paulo Rocha depreende. . 29). 1979). 1979. A participação será instrumento de modernização conservadora ou será a base mesmo do trabalho comunitário. Segundo Paulo Rocha. Paulo Rocha cita Leme Lopes que. 21). então. ROCHA.] uma visão estrutural.. discorre a respeito da organização de programas de psiquiatria comunitária e de seus embasamentos teóricos. Por outro lado. organização da pobreza no sentido adaptativo de diminuir as tensões sociais” (ROCHA. (Cf. .]” (ROCHA. tema básico para as propostas de saúde comunitária. com alguns esforços para que transitem para o enfoque estrutural. ROCHA.. p.. em 1972. que busca apreender o fenômeno da marginalidade como decorrente de formas de inserção num sistema produtivo.] forma de pseudoparticipação. p. 1979. .] trabalho psiquiátrico como agente de transformação social [. Paulo Rocha.reconhecimento da significação das ciências sociais como uma das bases das ações da ação do psiquiatra. há o que Paulo Rocha descreve como “[. ROCHA. ao nível das relações sociais de produção” (ROCHA. que a participação popular neles tem aspectos mistificadores. A participação é. social e preventiva (se forem seguidas) no âmbito da assistência psiquiátrica da Previdência Social. 1979.

. p. diz que ele é talvez o melhor exemplo da visão funcionalista na análise da realidade social latino-americana e.] Campanha Nacional de Saúde Mental esboçada a partir de 1964” (ROCHA. Paulo Rocha começa por situar a “[. em trabalho de 1973. 52). na área de saúde mental.. que se interroga. o diálogo criativo comunidade-técnico é o motor central das mudanças [.105 Ao citar as transformações na Saúde Mental no Chile. Mesmo com um discurso onde aparece a intenção de desenvolver a “psiquiatria preventiva”. reforçando a . 1979. no Congresso em 1963)...] projetos de programas integrais em saúde mental [. (Cf. a troca de informações e saberes com a comunidade é ponto prioritário.. bem como da nossa situação políticoeconômica vigente pela implementação do novo governo militar” (ROCHA. assinalava como princípios gerais para “[. 1979..] constituiu-se basicamente num plano hospitalarpsiquiátrico. 1979..]” (ROCHA.. ROCHA.] proposições norte-americanas sobre assistência aos doentes mentais (Kennedy. p. especificamente. mas através de melhor assistência pela racionalização de recursos.. 1979. Marconi. buscando solução. 54) que “[.. revolução tecnocrática ou revolução cultural?” (ROCHA.[. o autor da dissertação reafirma a influência decisiva do momento histórico do país na determinação dos rumos dos programas de Saúde..] solução nacional. 54). maciça.]”.] o ponto de partida segue sendo a cultura popular. segundo Paulo Rocha.. a Campanha Nacional de Saúde Mental “[. concepção e propostas de programas de psiquiatria comunitária de caráter eminentemente profissional-burocrático. ROCHA.] em nossos programas partimos dos recursos existentes na área e não dos que deveriam existir.. 1979). e que “[.. p. 1979. ao Brasil.. Da etapa intermediária constariam os serviços de psiquiatria nos hospitais gerais e as unidades de saúde mental. 1979. Paulo Rocha cita Marconi. 1979. 67) como representante direta das “[. etc. (ROCHA. (Cf.. Ao chegar... para iniciar a ação [. numa discussão muito atual. privilegiando as instituições hospitalares no sentido de internações. Ao criticar o Programa de Saúde Mental implantado em Cáli. Ainda o mesmo autor.. não pela participação ativa e decisória da comunidade. Paulo Rocha. 52). p. 63). ênfase no treinamento de técnicos-profissionais especializados. Além desses princípios.. intracomunitária. p.. O autor que Paulo Rocha cita deixa uma interrogação muito atual: “Vivemos uma revolução em saúde mental. p. se seria necessária uma etapa intermediária entre o mundo feudal do asilo e a “[.. porém. 1979). na sua pesquisa e análise.. etc.]” (ROCHA.. trazendo como conseqüência dessa orientação.]” (ROCHA. na Colômbia. 67). p.

Paulo Rocha considera que foi com a “[.] os princípios gerais de implantação dos centros comunitários de saúde mental conforme desenvolvidos nos EUA. ROCHA.. é bastante crítica em relação ao trabalho de Busnello. 77). 1979. “[.. 1979. ROCHA.. no Brasil.. A dissertação de Paulo Rocha. a exemplo de Luiz Cerqueira. o grau de participação da comunidade nos Programas de Saúde Mental que se propõem comunitários. Busnello recai em repetições de modelo e em reforço do conceito de doença mental mesmo com as boas intenções que demonstra ao criticar o modelo assistencial dominante na época. (Cf. Em contraposição ao estabelecido.106 velha prática assistencial asilar” (ROCHA. Observando as bases conceituais de Busnello e sua prática e. (Cf. 1979.. o fez. 1979. o ponto central de seu estudo. entre outros.]” (ROCHA. Por exemplo. 71). ao iniciar as ações de psiquiatria na comunidade. p. de unidades de saúde mental integradas em serviços de saúde pública (ROCHA. detecta que Busnello ainda estava utilizando o antiquado binômio saúde/doença e. 1979. que. seguindo “[. estudando possibilidades de adaptação dos mesmos ao nosso contexto sócio-cultural” (ROCHA. talvez. desde o início das suas observações. Paulo Rocha percebe que Busnello. fazendo da tese. no sentido de participação ativa e decisória em todos os níveis” (ROCHA. “Integração da Saúde Mental num Sistema de Saúde Comunitária” como de grande importância para a compreensão dos inícios da Saúde Mental Comunitária. 68).] elaboração de um projeto de serviço de saúde mental comunitária no Centro Médico São José do Murialdo. 76). 1979) uma voz ativa em um período especialmente difícil. como vimos páginas acima. nos moldes dos programas anteriormente descritos do México. Cáli. Paulo Rocha cita os trabalhos de Luiz Cerqueira. nos arredores de Porto Alegre [. na década de 60. ROCHA. 1979). Paulo Rocha diz que “Chama nitidamente a atenção nesses fundamentos a ausência da comunidade como agente principal nesse trabalho. p. p.. Paulo Rocha. . que privilegiava as internações. mais uma vez mostrando o que parece ser um dos focos principais de atenção da dissertação. sempre com a atenção voltada para os conceitos que embasam os trabalhos no que eles têm de ruptura com as formas alienantes de tratamento ou sua repetição. lançavam-se bases concretas de programas comunitários em Psiquiatria. p. 73). (Cf.] colocado dentro de um prisma dos mais criticados ultimamente: a adaptação” (ROCHA. 71). p. 1979). 1979. p. além disso.. cita a tese de Ellis Busnello..

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Apesar de já haver uma preocupação, no trabalho de Busnello, em treinar líderes comunitários, segundo Paulo Rocha é ao ambulatório que cabe, nele, a função principal. O acento, portanto, é na equipe, e no trabalho prioritário na esfera mental. (Cf. ROCHA, 1979). Paulo Rocha, em diversas passagens de seu texto, critica a ênfase exclusiva que Programas de Saúde Comunitária dão ao campo psicológico, enquanto entraves e soluções para os problemas. Desta forma, Paulo diz que a colocação da solução dos problemas na mudança psicológica, seja da população, seja dos profissionais, deixa de levar em conta as “[...] preocupações com a análise e articulação de estudos dessas situações com as estruturas sociais e políticas e seus determinantes econômicos vigentes” (ROCHA, 1979, p. 82). Para concluir sua observação a respeito do trabalho no Sistema Comunitário de Saúde da Unidade Sanitária Murialdo, Paulo Rocha diz que “[...] o papel das comunidades nesse modelo de programa nos parece passivo e receptivo” (ROCHA, 1979, p. 82). Paulo Rocha define como o “objetivo maior” de sua dissertação, “[...] traçar coordenadas gerais, críticas, a partir dos estudos mais pormenorizados de cada programa modelo, sobre as formas organizacionais desses programas na América Latina” (ROCHA, 1979, p. 84). Para dar conseqüência a essa proposta, Paulo cita Marconi, que diz que “[...] existem três modelos teóricos básicos: asilo-hospital psiquiátrico, unidade de saúde mental e programa integral de saúde mental” (ROCHA, 1979, p. 84). Esses modelos acompanhariam a “[...] estrutura sócio econômica de uma sociedade determinada” (ROCHA, 1979, p. 84). A cada um desses modelos corresponde uma concepção do Homem, da sociedade e da participação da comunidade nos serviços de Saúde. Apenas o último modelo define que a comunidade deve gerir o serviço de Saúde, que é seu. (Cf. ROCHA, 1979). É freqüente que convivam os três modelos em situações de transição. Paulo Rocha cita mais uma vez Marconi, que opinava, já em 1976, que ao invés de instalar “[...] unidades de saúde mental, com recursos institucionais tecnificados e em mãos de profissionais de saúde mental” (ROCHA, 1979, p. 87), deveria ser desenvolvido “[...] programa de baixo custo, de acelerada difusão, de dinâmica interna alta, que utilize recursos locais” (ROCHA, 1979, p. 88). As discussões que despertam as últimas citações estão no nosso cotidiano: instalar como prioridade estruturas pesadas e que requerem alto investimento ou aproveitar, também, o que já existe na Atenção Básica, potencializando-a para o trabalho em Saúde Mental? Paulo Rocha traça, já nos seus Comentários Finais, um interessante paralelo entre as ações da Saúde Pública e as táticas de guerra, mais uma vez com a intenção de verificar o quanto de dominação está sendo estabelecido pelos serviços de Saúde. Desta forma, entre

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1930 e 1950 “[...] emerge o conceito de controle [...]” (ROCHA, 1979, p. 97) e entre as décadas de 50 e 70 “[...] surge marcadamente o novo conceito: vigilância” (ROCHA, 1979, p. 98). Esta forma de situar o problema das ações de Saúde serve de base para que o autor da dissertação entre no estudo das implicações político-ideológicas das práticas de psiquiatria comunitária. O primeiro autor que Paulo Rocha estuda é Caplan, de quem retira como bases para o trabalho em prevenção primária, a psicologia do Eu e estudos de adaptação realizados no exército americano, ambas conduzindo ao controle dos desvios. (Cf. ROCHA, 1979). A prevenção para Caplan, segundo Paulo Rocha, é evitar o aparecimento de casos novos. Para esse fim, inclusive, deveriam ser utilizadas técnicas de eugenia. Caplan, de acordo com Paulo Rocha, coloca a situação sócio-econômica das pessoas ao lado de características como sexo, idade e raça, portanto sem possibilidade de mudança. Para concluir o que percebe em Caplan, Paulo Rocha diz:

É marcante a concepção funcionalista, ao colocar a Psiquiatria como realizadora do ‘equilíbrio social’ que encontra-se desajustado, ‘desviado’, por comportamentos ‘inadaptados’ dos indivíduos numa sociedade (ROCHA, 1979, p. 103).

Paulo Rocha, ao estudar o que Blaya publicou, na década de 70, destaca que esse autor fez uma comparação entre a psiquiatria que queria ver comunitária com a psiquiatria que foi praticada na Segunda Guerra Mundial, já com os ensinamentos obtidos durante a Primeira Guerra Mundial. (Cf. ROCHA, 1979). Também adaptativa, a psiquiatria comunitária que Blaya sustentava não esconde a sua condição de mantenedora da ordem. Paulo Rocha cita palavras muito significativas de Blaya: “[...] os princípios de organização são os mesmos experimentados na guerra, com uma adaptação às condições sociais que desejamos servir” (ROCHA, 1979, p. 104). Paulo Rocha, apresentando o que percebeu em Hochmann, critica-o por observar que, ao situar nas relações interpessoais o problema da saúde mental e suas dificuldades, poderia estar isolando essas relações da dinâmica da sociedade e reduzindo “[...] a problemática da loucura nesse nível de ‘interpessoalidade’ com um caráter de nítida psicologização, escamoteando, evidentemente, outros determinantes” (ROCHA, 1979, p. 107). Os serviços psiquiátricos organizados com base nessa concepção de Hochmann seriam, então, mais do que qualquer outra coisa, uma “[...] rede ideológica” (ROCHA, 1979, p. 107).

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Paulo Rocha recorre a Basaglia para continuar a situar o problema do desvio e seu controle no campo econômico. As instituições psiquiátricas seriam, para Basaglia, segundo Paulo, correlatas ao tipo de desenvolvimento do capitalismo, a cada momento dado. (Cf. ROCHA, 1979). Na linha de pensamento de Basaglia, ao descrever como as ações comunitárias lidam com o “social”, Paulo Rocha afirma:

Se nos limitarmos a considerá-lo como um simples conjunto de interações psicológicas manipuláveis segundo uma técnica particular e não como um conjunto das relações sociais de produção, se acaba por esquecer o jogo em cujo interior continuaremos seguindo: a nova técnica psiquiátrico-social surgida em oposição à rígida gestão institucional de enfermidade mental, se converte na realidade em uma nova forma de manipulação que encobre, sob a máscara da técnica, seu profundo significado de controle social (ROCHA, 1979, p. 112).

Ao concluir sua monografia, Paulo Rocha não fecha completamente as possibilidades de que os programas da então chamada Psiquiatria Comunitária possam trazer mudanças que sejam de interesse das populações. Apesar de suas pertinentes críticas às suas bases ideológicas controladoras da Psiquiatria Comunitária, Paulo afirma que “[...] esses programas de psiquiatria comunitária trazem necessariamente, no seu bojo, questões novas como a participação e organização da população em torno de suas questões de saúde, abrindo possíveis canais de reivindicação popular [...]” (ROCHA, 1979, p. 118). O autor da monografia também reconhece que a Psiquiatria Comunitária traz avanços em relação ao asilo e à organização da assistência como meio de lucro. (Cf. ROCHA, 1979). Da sua extensa pesquisa, Paulo Rocha conclui que, na América Latina, naquele momento, os programas estavam “[...] longe ainda de perspectivas ditas intracomunitárias, integrativas, com real organização e participação da população” (ROCHA, 1979, p. 119). Com essas palavras, Paulo mostra a sua expectativa e indica as características que devem ter as ações de Saúde Mental praticadas em benefício das populações assistidas: “[...] intracomunitárias, integrativas, com real organização e participação da população” (ROCHA, 1979, p. 119).

5.2 Precursores Brasileiros.

Com as origens das propostas de aproximação da Saúde Mental com as comunidades esboçadas, passemos às práticas e idéias brasileiras.

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Podemos destacar, no Brasil, o psiquiatra Luiz Cerqueira como um dos primeiros profissionais de Saúde Mental que conceituou, propôs e tentou colocar em prática algo diverso da psiquiatria organicista: uma prática social em Saúde Mental. No seu artigo “Raízes e Tendências da Psiquiatria Social no Brasil”, de 1978, republicado no seu livro de coletânea “Psiquiatria Social – Problemas Brasileiros de Saúde Mental”, de 1984, Cerqueira cita seu mestre Ulysses Pernambucano, que, segundo ele, foi o precursor, no Brasil, das proposições de uma psiquiatria social. Como ilustração, nesse artigo, Cerqueira cita as palavras do mestre:
O que desejam os neuro-higienistas é que os homens de governo se capacitem de que a política de internar doentes, augmentar hospitais, desenvolver colonias sem cuidar de prevenir doenças mentaes, de combater as causas de psycopatias é tão errônea quanto o seria a que construisse hospitaes para doenças contagiosas e não tratasse de evitá-las (CERQUEIRA, 1984, p. 24).

Notam-se, no texto, a crítica à internação e o chamamento para que a psiquiatria se interesse pelo mundo que rodeia o chamado doente mental. Ressalvas podem ser feitas ao texto, mas o que ficou, segundo Cerqueira, foi o exemplo de Ulysses Pernambucano como “[...] um psiquiatra com alma de sanitarista, descompromissado com o modelo médicoprivado-curativo exclusivo” (CERQUEIRA, 1984, p. 25). Ao fazer o elogio de seu professor, Cerqueira o vê como profético, mas também o é, quando diz:

Vemos também nestas palavras algo de profético em que serão reduzidas, um dia, todas as tendências da psiquiatra social, integrando saúde mental em saúde pública, através dos centros comunitários de saúde mental ou coisa que o valham, como, por exemplo, trabalhadores psiquiátricos em todos os centros de saúde (CERQUEIRA, 1984, p. 25).

Apesar de ainda oscilar para a designação “trabalhadores psiquiátricos”, Cerqueira vê a Saúde Mental integrada à Saúde Pública. O valor dessas palavras também está na sua abertura, ao não fechar sua visão privilegiada numa só proposta, quando diz “através dos centros comunitários de saúde mental ou coisa que os valha”. Com esse “ou coisa que os valha”, Cerqueira mostra que olhava para o horizonte, sabia que lá existiriam novas ações em Saúde Mental, mas não sabia exatamente quais seriam, nem se arvorava a isso. Deixava o caminho aberto para as invenções, a criatividade e a surpresa. Como raízes da psiquiatria social, Cerqueira lista a Sociedade de Higiene Mental de Connecticut, EEUU, a psicobiologia, a fenomenologia, a psicologia não comprometida com

Até hoje essa divisão está presente. aqui. a respeito do futuro da psiquiatra comunitária. 1984. Cerqueira aponta a psiquiatria de setor (Lebovicci.uma forma de evitar a internação psiquiátrica. que não mais seria possível falar em psiquiatria social” (CERQUEIRA. a psiquiatria democrática (Basaglia). 1984. a maioria dos profissionais da rede pública ainda foi formada apenas para a clínica. Por exemplo. dos inícios da saúde pública.. embora de forma menos intensa.] ação comunitária extra-hospitalar” (CERQUEIRA. terapêutica e reabilitação. viu em Barreiros.atitude corajosa .abriu o primeiro Ambulatório de Psiquiatria do Brasil e organizou a primeira equipe multiprofissional e uma “[.. que retirava os direitos civis das pessoas . mas ainda não vislumbradas. na Saúde Mental. p. Como tendências da psiquiatria social. Interessante observar o que pensava Cerqueira. Ajuriaguerra). cozinhando os próprios mantimentos e os que iam buscar na sede (CERQUEIRA. um dos seus determinantes. Cerqueira diz que em 1939. o que está colocado acima é o que hoje estamos organizando sob o nome de “Serviço Residencial Terapêutico”. No modo de ver de Luiz Cerqueira.prever a transformação da sua própria identidade profissional. a psiquiatria aproximou-se da Saúde Pública depois que “[.111 condicionamentos para controles sociais. na Saúde Mental na Atenção Básica. enquanto ideal dos psiquiatras sociais: “A assistência psiquiátrica absorvendo e identificando-se tanto com os aspectos sociais. Ulysses Pernambucano implantou. 1984.. CERQUEIRA. integrando-os dinamicamente em prevenção primária. 26). pescando no rio. organizados pelo mestre alguns pacientes se auto dirigindo como parte do programa da Colônia: na periferia da fazenda. visitados pelo médico. cultivando suas roças. está claro para nós. não é psiquiatria comunitária. Continuando a prestar homenagem a Ulysses Pernambucano. p. em 1931. a visão de futuro em aberto e que traria mudanças profundas.] os sanitaristas reformularam seus conceitos estanques de profilaxia. Cerqueira especula a respeito da demora da integração psiquiatria/saúde pública e vê na dicotomia clínica/higiene. A diluição potencializadora. o Serviço Aberto . p. secundária e terciária” (CERQUEIRA. principalmente as suas contribuições para o trabalho com grupos. Paumelle. O que fazemos hoje. Pernambuco. e o seu mérito também é o de . (Cf. bem como não são ações praticadas exclusivamente pelos profissionais de Saúde Mental. a sociologia e a psicanálise. 29). prevista por Cerqueira. 1984. em casas como as que eles construíam em sua terra. 1984). a psiquiatria .. p 27). 28). Novamente. Salvo o fato de estar nos terrenos de uma Colônia. está em andamento.

1984). o mais importante autor. de toda parte. consagram a equipe multiprofissional.. com o que já se gasta com internações psiquiátricas. em 1971. advogam prevenção. Cerqueira percebe que. em decorrência dos princípios de regionalização. 32). 1984. p. p. secundário e terciário – preocupando-se. tentam nova abordagem da comunidade. organicamente aceitam centralização normativa e descentralização executiva. 1984). Cerqueira vai buscar em Hipócrates “[. . p. (CERQUEIRA.. no México. rasgam o modelo médico-clínico-excusivo – na verdade. amarrada nos 3 níveis – primário. é Maxwell Jones. todo um sistema hospitalar conjugado com um extra-hospitalar” (CERQUEIRA.] as resistências às práticas comunitárias [. todas concebem etiologias e terapêuticas biopsicossociais. o que chamou de “indústria da loucura”. Luiz Cerqueira apresentou.. para postergar o advento das socioterapias” (CERQUEIRA. CERQUEIRA. como os sanitaristas. Trata-se de “Resistências às Práticas Comunitárias”. Cerqueira cita Ellis Busnelo. p. Para Cerqueira.] ideologicamente. já que “[. O colapso virá” (CERQUEIRA. numa visão psicodinâmica. o texto é de 1978). realizam tanto atendimentos individuais como grupais. num resumo atual e até mesmo um guia de estudo: [. 30).. no V Congresso Mundial de Psiquiatria.112 preventiva (Kaplan). ensejando uma série de racionalizações.. a psiquiatria compreensiva e a psiquiatria comunitária “[. 1984.] o caráter individualista da profissão médica ainda hoje é ensinado aos psiquiatras.]”. porém. em moldes de vasos comunicantes. levaria os cofres públicos à insolvência e à destruição de muitas vidas: “Não mais de 10 anos e a empresa de saúde terá comido a galinha dos ovos de ouro.. Do Brasil. 1984. com vistas aos fins e não aos meios.] já podíamos ter um funcionamento harmonioso. que recusava definições para a psiquiatria social. em 1976. Cerqueira aponta o que existe de comum nas correntes citadas.. com cobertura da demanda não satisfeita.. um artigo que consta de seu livro de 1984. que é a Previdência Social.. sem onipotências. adotam da psicanálise a teoria do inconsciente com os mecanismos de defesa da personalidade para a compreensão da conduta.. Em termos de análise do que estava ocorrendo na organização da assistência à Saúde Mental no país (lembremos.. Nele. sem se preocuparem com definições acadêmicas” (CERQUEIRA. Cerqueira aponta o que os poderes dominantes ainda tentavam esconder: a privatização da assistência. que produziu a tese “A Integração da Saúde Mental num sistema de saúde comunitário”. 1984. coordenação e integração. p. na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 32). sem reducionismos.. isto é. para nós. (Cf.] de muitos. enriquecendo-o com uma consciência social (CERQUEIRA. normal ou patológica. 1984. 29). “[. enfim. 106). a psiquiatria administrativa (Clark). baseada na experiência de Murialdo.

] a generalizada dificuldade dos psiquiatras em considerar saúde mental como um problema de saúde pública” (CERQUEIRA. de modo geral... 1982. Luiz Cerqueira tem um artigo. mas a necessidade total. apresenta a sua participação na experiência pioneira de Murialdo. principalmente. evitando doenças.]” e “[. 107) e. 107). que começou em 1966.. Busnello define “[. que aconteceu em junho de 1975. Ellis Busnello. e da saúde comunitária. Os três níveis de prevenção clássicos da saúde pública são atendidos dentro da comunidade. a admitir saúde mental em suas preocupações” (CERQUEIRA. (BUSNELLO... em palestra com debates no I Simpósio de Alternativas no Espaço Psi. 1984). I SIMPÓSIO DE ALTERNATIVAS NO ESPAÇO PSI.] todos os problemas de saúde do grupo [. pré-requisito para o centro comunitário [. a se recusarem. Rio Grande do Sul.]” e “A possibilidade de aplicação de técnicas de saúde pública com vistas.. p. p 371)...] a tradicional postura de um profissional com um paciente . que procura ser abrangente fazendo prevenção.. p.] uma prática de uma psiquiatria setorizada. tratando os doentes e reabilitando-os.] como a de certos sanitaristas. na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Continuando a marcar a diferença entre o atendimento por demanda e a saúde comunitária.] a mais grave das resistências [. (Cf. “[. 1984. publicado no livro que está sendo citado...... CERQUEIRA. 1982. 1984. p.. p. Busnello inicia sua palestra diferenciando medicina tradicional. 374). à prevenção primária” (CERQUEIRA. 1982. em 1981 (Cf. esmagados com as endemias.113 Luiz Cerqueira diz que os obstáculos colocados pelos interesses da indústria da loucura já não são novidade. e que integrou a Saúde Mental na saúde comunitária..] o total de serviços de saúde que a população precisa” (BUSNELLO. Nele. da medicina convencional.. aquela das práticas populares. envolvendo Universidade e Coordenadoria Estadual de Saúde Mental.. 374)... 1984.]” como “[.. que atende por demanda. Cerqueira dá notícia do que estava sendo desenvolvido em São Paulo: uma integração docente-assistencial. com a criação de “[. que aconteceu em Porto Alegre. 258). “[.] necessidade [. que é um relatório que apresentou ao “Simpósio de Psiquiatria Comunitária”. Não só a demanda é atendida. Busnello diz que “[. Acentuando o conceito de população definida para as ações da saúde comunitária. p. preferindo analisar outras resistências.. dita científica. Busnello coloca-se como “psiquiatra de comunidade” e diz que “Eu vim falar sobre saúde comunitária e sobre a integração da saúde mental em serviços comunitários de saúde” (BUSNELLO. 1982).

378). para a necessidade de atendimento às famílias das pessoas com diagnósticos mentais. Desta forma. 375). Chama a atenção para a semelhança com o que está estabelecido. A explanação de Birman nos interessa muito. de forma integral. p. grupos de cerca de 5. para a viabilidade da capacitação do pessoal médico e leigo para o trabalho na comunidade e para as possibilidades que se abrem com o trabalho em conjunto com os curandeiros. p. 1982.000 famílias (BUSNELLO. 377). que adiantavam o que hoje se constatou: “[. com técnicas grupais e com auxílio e participação dos doentes e das comunidades” (BUSNELLO. na medida em que retoma o mote em relação às propostas de mudança na Assistência à Saúde Mental: transformação ou conservação? Senão vejamos: . 375). dentro deles mesmos e através de visitação domiciliar. No mesmo Simpósio em que Busnello proferiu a palestra citada acima. Esta percentagem varia de país para país. Recomendava que “[..] deve-se atender. argumenta com as estatísticas que mostram o grande número de pessoas necessitando de atendimento e com o fato de que. ainda. então em andamento no Brasil e em outros países. Busnello cita pesquisas. Busnello chama a atenção.] um percentual muito grande de pessoas que vão à consulta em Postos de Saúde tem definido problema de saúde mental. 376). 377). semelhança que se estende ao quantitativo populacional para cada posto de saúde.. (Cf. 1982..000 pessoas. (Cf.114 deve ser substituída por um ou vários profissionais para alguns milhares de pacientes. personalizada e participativa” (BUSNELLO. na saúde comunitária. 1982.. ou 1.. 1982). para a urgente saída da postura tradicional das profissões do espaço psi. de cerca de 20% a quase 50%” (BUSNELLO. Busnello diz que o trabalho em Saúde Mental deve ser uma prioridade e.. Busnello advoga que A organização sistêmica de um serviço de saúde comunitário inclui a organização de postos de saúde que atendem. Joel Birman apresentou um trabalho em que pretendeu equacionar e analisar o que estava sendo colocado como mais uma reforma da psiquiatria. para atender populações e não apenas indivíduos” (BUSNELLO. p. continuada. Novamente tentando definir saúde comunitária. muitas vezes. para isso. p. 1982. p. 1982.] é aquela que atende uma população definida. os profissionais de saúde não reconhecem os problemas ligados à Saúde Mental. p. BUSNELLO. Busnello diz que “[. para o Programa de Saúde da Família e para o Programa de Agentes Comunitários de Saúde. 1982. BUSNELLO. hoje.

na medida em que atuando diretamente no espaço social no conjunto de relações inter-humanas que o estruturam..] um novo limiar na reflexão das relações da psiquiatria com a sociedade.. surge “[..] ficou reduzida a uma experiência reformista de melhorias das condições hospitalares” (BIRMAN.. p.] estas pensam a saída do hospital psiquiátrico meramente como um problema técnico. a partir dos meados dos sessenta [. ao contrário da prática de Franco Basaglia. p.. p. 166). Birman alude a que a psicoterapia institucional francesa.. assim... “[. que questiona o conceito de doença mental..] (BIRMAN. 1982. que teria se seguido à liberação mítica dos loucos por Pinel na virada do século XVIII para o século XIX e à revolução freudiana na aurora do século XX [.. Assim. Consoante com seu rigor conceitual. já que constituem elementos fundamentais de controle da marginalidade social e de suas implicações políticas (BIRMAN. Remontado ao trabalho de transformação dos Hospitais Psiquiátricos. 160). para dizer que o mesmo rigor deve recair sobre as práticas da psiquiatria preventiva e comunitária no que “[. Birman diz que... a constituição da psiquiatria preventiva e comunitária foi saudada como sendo a terceira revolução psiquiátrica.] não cabe apenas pensar a relação com a loucura em termos de cura. apenas acrescentando etiologias sociais ao que deveria ter resposta pela psiquiatria estabelecida. p.115 A psiquiatria preventiva e comunitária pretende ser a ruptura com o hospital psiquiátrico.. quais são as suas pretensões? E centrada em que forma de sociedade se coloca tudo isso?” (BIRMAN.. Ao se referir ao trabalho de Basaglia. Birman diz que [. 163). 1982.] A emergência da psiquiatria social como saber e como prática técnica. nascida revolucionária. foi inclusive assinalada como uma nova era na história da sociedade ocidental nas suas formas de lidar com a problemática da doença mental. [. p. sem colocar em questão o conjunto de .] de que psiquiatria se fala nisso tudo. 166).. Birman.] sobretudo as implicações da psiquiatria como prática social até então inquestionável” (BIRMAN.. mas procurar transformar a relação da sociedade ocidental com a loucura que está cristalizada no asilo e na exclusão social. após uma linha de pesquisa e ação que não questionava a psiquiatria enquanto instituição. pretende responder a algumas indagações que considera da maior importância: “[. para a análise mais aproximada da questão que está colocada pela psiquiatria preventiva e comunitária. 158). 1982. 1982. 1982. com o objetivo de promover a saúde mental e impedir. pois isso seria continuar no mesmo campo ideológico tradicional que identificou-a com a doença mental. a organização futura de enfermidades mentais. Birman faz essa crítica histórica.

se Sartre é uma referência comum tanto para Laing e Cooper. p. p. 169). poderá acontecer [. baseada num conjunto de razões de ordem política. e que se positivou como tal num momento preciso da história ocidental. Birman vai resgatar a compreensão de que [. [. porque com ela “[. na interpretação realizada por Gramsci e na maneira pela qual pensou especificamente o fenômeno político” (BIRMAN.. 1982. produto da própria sociedade capitalista na sua primeira Revolução Industrial. 1982. 1982. p.] ao pensamento marxista na sua tradição italiana. também deve servir para a possibilidade de controle social através da psiquiatria preventiva e comunitária. (BIRMAN. Birman refere-se às “antipsiquiatrias” e esclarece que. De Foucault.. 167). A advertência de Birman é que se não estivermos atentos para a crítica que aponta.. 168. BIRMAN. 1982. 167).. por sua vez.] interrogação sobre a dimensão histórica da instituição psiquiátrica [.. grifo do autor).. 168). p. Conseqüência necessária deste enfoque metodológico é que a doença mental é um momento determinado na história da loucura. de meados do século XVIII ao início do século XIX (Cf.. caso não existissem medidas corretivas adequadas. articula-se “[.] se atinge um novo limiar para a reflexão das relações entre psiquiatria e sociedade” (BIRMAN. econômica e social (BIRMAN. quanto para Basaglia. isto é.. 1982).]”.] o asilamento do espaço social.. 168).] instituição e saber são dimensões do mesmo problema” (BIRMAN.116 contradições sociais cristalizadas na solução asilar” (BIRMAN. seja para discipliná-lo e retirar seu capital explosivo.. 1982. [. se a crítica serve para o asilo. com as novas intervenções preventivistas. 1982.. p. p. . Birman vai ponderar que. p.. (Cf.. que tendem a serem produtoras de demanda psiquiátrica e a constituir um sistema que tende a reduzir ao psicológico e ao psicopatológico o conjunto dos comportamentos desviantes e socialmente anômalos (BIRMAN. 1982.. este. enquanto encarregada de manter a ordem nas populações marginalizadas. O que pretende Birman é afirmar a necessidade da “[. que a idéia de prevenção se organizou em psiquiatria (BIRMAN. 1982). BIRMAN.] que seriam enlouquecidas com mais facilidade.] Foi em relação a esses bolsões de miséria urbana.. 168).. Para chegar ao cerne de suas observações. Se “[. 1982.] a história da psiquiatria é um momento contemporâneo da história da loucura. p. 172).. Remontando às origens da medicina moderna. seja para controlá-los.. Birman afirma que a psiquiatria já nasceu com ares preventivistas.

com as críticas de Birman e com a prática de Murialdo. 1982. existe. A respeito desse perigo de uma crítica paralisante. Birman utiliza a sua argumentação foucaultiana. Diz Birman: “Essa massa tinha que ser mantida no seu lugar. com uma função de amortecer os problemas gerados pelo desemprego. uma apresentação de um grupo de voluntários. Voltaremos. mais adiante. que devemos entender o que é prevenção em saúde mental” (BIRMAN. 1982. RS. abrindo possíveis inocentes olhos para a importância ideológica. No texto de Birman. Mostrando a riqueza do I Simpósio de Alternativas no Espaço Psi. John Holloway adverte. para que não ameaçasse a ordem recente” (BIRMAN. também. O discurso preventivista da psiquiatria brasileira vem desde duas origens. p 172). p.. O trabalho apresentado pelo grupo faz contraponto. para dizer que “É na procura das razões políticas e ideológicas. segundo Birman. que adverte para as estratégias do poder e do controle. também existe o que pode ser interpretado como uma crítica paralisante. convencida da validade de sua miséria humana e social. ao mesmo tempo. p.] uma mudança social. de 1981. Desta forma. certamente não incluído aí Birman. De uma certa leitura de Foucault nada escapa. a esse aspecto dos efeitos limitadores da crítica inicial às tentativas de ações de Saúde Mental nas comunidades. realizava um trabalho comunitário numa região periférica de Viamão. de todos os modos absolutamente necessário. Não pode haver. se existe a crítica pertinente. de cuja publicação citei os últimos dois trabalhos. partindo para uma . 66). o GUSP – Grupo Unido de Saúde Pública que. que Não há movimento na sociedade que Foucault analisa: muda de uma fotografia fixa a outra. o mesmo aconteceu com a psiquiatria. 2003. a menos que o foco esteja no fazer e na sua existência antagônica (HOLLOWAY. na disciplina de populações marginais que possam apresentar algum caráter explosivo e que devem se conformar com a miséria humana e social. e qualquer tentativa de mudança pode ser vista como nova roupagem do controle. mais típica de alguns ditos foucaultianos do que propriamente de Foucault. ocupando o papel de controle daqueles que os poderes dominantes precisavam manter inofensivos. desde 1978.117 No Brasil.. social e política das práticas em Saúde Mental. Sem meias palavras. disciplinada enfim. após ressaltar a validade das análises de Foucault a respeito das relações de poder. mas não há movimento. 172). define-se como um trabalho que busca “[.

] um novo enfoque de atuar em saúde. quer dizer.. lançado pela Organização Mundial de Saúde. em que ele se propõe a “[. Para iniciar sua argumentação. Se nós temos uma tecnologia que se poderia chamar de imprópria àquela comunidade. referindo-se a “[. 1982). mais justa. 1982. os transtornos mentais (Prevenção Primária). numa comunidade. 346).. O grupo citado define sua concepção de promoção de saúde mental: “[.. 342). temos um grupo politizado. 346).3 Trabalhos atuais. é a medicalização das doenças. O grupo definia que “Dentro da área de saúde mental. 1982.. 340).” (GUSP. então nós buscamos criar uma tecnologia apropriada à nossa vida e à Vila (GUSP. . 1982. num nível de prevenção primária de saúde” (GUSP. no seu livro “Princípios de Psiquiatria Preventiva”. atuando em uma área pobre. 1982. p. 1989. como instrumento para elaborar a relação dominador/dominado dentro da Equipe e com a comunidade (Cf. dentro de si. GUSP. p. Iniciando a aproximação com textos e práticas mais atuais.. porque lá tem uma outra cultura.. uma outra série de símbolos e de relacionamentos que diferem da nossa. E isso tudo num momento difícil da vida nacional. 342). p.] seria um estímulo à crença da pessoa na sua capacidade de trabalhar pelas suas coisas. a resposta que o representante do GUSP deu foi: O trabalho de Murialdo partiu de um modelo norte-americano que utiliza basicamente a medicina simplificada. p. Em relação à experiência de Murialdo. em 1978” (GUSP. 5. escrito entre 1987 e 1988.118 sociedade mais democrática. numa reposta específica quanto às diferenças de enfoque. p. atualizado em relação aos documentos internacionais. Uma de suas referências era Paulo Freire. que. Portanto. temos um esclarecedor artigo de Antonio Lancetti. p. no seu meio ambiente. O nosso modelo parte de uma busca de alternativas apropriadas. o que a gente tem como prioridade é a promoção da saúde mental. Lancetti cita Gerald Caplan. 1982.] problematizar a prevenção que incide e insiste nas nossas práticas psicoafins” (LANCETTI. define a psiquiatria preventiva como caracterizada por: 1-Programas para reduzir (não curar). para tornar este meio mais favorável à sua evolução” (GUSP. 76). fazendo a crítica constante do próprio trabalho e percebendo a dimensão política do mesmo.

1989. Lancetti tenta perceber qual o conceito de transtorno mental com que trabalha Caplan e cita o autor norte americano: “[. 77). que ignora qualquer determinação do sofrimento mental que possa questionar as estruturas sociais.119 2-Programas para reduzir a duração dos transtornos mentais (Prevenção Secundária). ácida crítica ao preventivismo.. Surge. portanto. 84). a despolitização dos movimentos comunitários.. 1989.] comunidade harmônica” (LANCETTI. caso a opção seja por uma prática que pretenda gerar movimentos autônomos nas comunidades. p. Lancetti também considera a Declaração de Alma Ata na mesma linha. p. 1989. temos que fazer perguntas que de certo não terão respostas imediatas. que supõe a “[.. p. afirmar diferenças. Diante de tantas críticas e. Para fazer incidir com mais nitidez sua crítica. respeitar as culturas locais. sua intencionalidade e eficácia consiste na captura dos movimentos autogestivos e a produção de sujeitos carenciados (LANCETTI. 78). eximindo-nos de conduzi-los. prevalências e incidências várias. estimular a politização dos movimentos comunitários e autogestivos. número de suicídios. 77). Lancetti desenvolve. no texto. ao mesmo tempo. mas que devem nortear nosso trabalho diário: quais são os parâmetros que nos informam a respeito de se estamos ou não controlando a comunidade? Quais os indicadores que evidenciam que as nossas ações estão colaborando para a emancipação da comunidade? Indicadores existem diversos: número de internações. podemos traçar algumas diretrizes para nossas ações de Saúde Mental na comunidade.] inadaptação ou desajustes aos princípios sociais e aos valores da cultura” (LANCETTI. ocorrências de violência. 3-Programas para reduzir a deterioração que resulta dos transtornos mentais (Prevenção terciária) (LANCETTI. Por último. 1989. tantas propostas de trabalho em Saúde Mental. p. do que temos o seguinte exemplo: A promiscuidade conceitual do preventivismo gera um objeto primordial que visa à neutralização do conceito de classe social. Mas. Tornando positivo o que está negado no trecho acima. o preventivismo como o fantasma teórico do qual temos que nos afastar. como avaliar se estamos sufocando os protestos inconscientes ou levando-os a produzir mudanças? . estabelecer dispositivos de produção de sujeitos potentes.. Ficaríamos com: reconhecer o conceito de classe social. Deste modo. Caplan se insere na linha da psiquiatria tradicional.

120 Algumas visitas domiciliares realizadas. Até 1992 o Internato recebia estudantes do último ano de medicina e. a equipe não pôde dar conseqüência ao que percebeu. devido à inserção dos estudantes na vida comunitária. (Cf. impressionou a todos. depois. discutimos a entrada de profissionais de Saúde Mental nos Postos de Saúde.. estimulando a existência de uma sociedade mais democrática e igualitária” (INTERNATO RURAL DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. A Equipe do Internato Rural articulava-se com a Secretaria Municipal de Saúde de Resende para um trabalho integrado. em 1976. através da moradia e da participação interativa de ambas as . 1998). com destaque para as visitas domiciliares: A humanização do atendimento a que nos referimos nos objetivos do presente documento. Tal prática foi em muito potencializada. Na “Justificativa” do Internato Rural encontramos a intenção de “[. é consubstanciada pelo uso intensivo da visita domiciliar às famílias das comunidades da área abrangida. de dentro do Hospital Psiquiátrico onde trabalhávamos. 1994)..]” (INTERNATO RURAL DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. procurando o binômio teoria/prática. na região rural de Resende.. De 1991 a 1994. INTERNATO RURAL DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. na área de Saúde Mental. Os estudantes faziam o atendimento à população da região serrana de Resende. Na ocasião. Em 1977. com vínculo externo à Universidade. O Programa.] a integração real entre Universidade e comunidade. supervisionados pelos preceptores. trabalhei com a Equipe do Internato Rural da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. 1994.. Estado do Rio de Janeiro. também os de nutrição e enfermagem. principalmente Psicólogos. Das intenções do Internato Rural da UERJ constavam “[. Da proposta prática do Internato Rural constava o contato estreito dos estudantes e preceptores com a comunidade. por um pequeno número de estudantes e residentes da Universidade Federal Fluminense. Pinto. (Cf. do qual fiz parte. Porém. se desenvolveu por outros caminhos. no entanto.. 12). não conseguíamos nem a mínima visão a respeito do que estava acontecendo com os pacientes. Trabalhávamos numa das enfermarias que eram base para o ensino na Universidade e ficamos todos marcados pela experiência que mostrou que. p.. levada à prática com o trabalho interdisciplinar.] uma política universitária cada vez mais comprometida com a demanda social e com a realidade histórica [. na condição de Preceptor de Medicina. 1994). formou-se um grupo de estudos para elaborar o primeiro Programa de Saúde Mental de Niterói.

. 14).] Dar condições aos alunos de exercerem uma atuação social mais ampla. clínicos e de saúde comunitária) (INTERNATO RURAL DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. Dentre os “Objetivos” do Internato Rural. 12. p.] tem propiciado com os internos importantes reflexões que transcendem em muito os limites convencionais da terapêutica. a fim de que lhes sejam dados a conhecer os determinantes sociais do processo saúde/doença. como um verdadeiro precursor do que mais tarde veio a se constituir como o Programa de Saúde da Família. 14). . 27). através do cumprimento de projetos de pesquisa do Internato Rural (históricos. INTERNATO RURAL DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO.. p.. e “Realizar projeto de pesquisa sobre alcoolismo e uso de benzodiazepínicos” (INTERNATO RURAL DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO.. a “Abordagem multidisciplinar do alcoolismo” e a abordagem à “Dependência de benzodiazepínicos”. Os temas referidos acima.. p. 13).121 partes (INTERNATO RURAL DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. epistemológicos. destacamos os seguintes: Garantir aos estudantes o contato e a possibilidade de integração com as diversas formações das comunidades atendidas. desde o início com a tentativa de questionamento da divisão mente/corpo e seus especialistas. [. extrapolando para o campo filosófico e sócio-politico” (INTERNATO RURAL DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. 1994. dentre muitas outras. surgiu a prática da Saúde Mental. o “Estudo e supervisão da relação profissional de saúde/paciente”.. [. individual e coletivo. p. (Cf. à “desmedicalização”. à abordagem familiar e coletiva do alcoolismo e do uso de benzodiazepínicos e que o estudo desses temas “[. A respeito da integração do Internato Rural com os Programas do Município de Resende. onde inseri o “Estudo e Prática do Trabalho com Grupos”. Do programa do Internato Rural constam as “Atividades com Abordagem Interdisciplinar”. 1994. p. A prática do Internato Rural desenvolvia-se. 1994. Das metas do Internato Rural constavam. Depois que me integrei à Equipe. eram levantados pela comunidade como suas prioridades. as de “Criar cursos de Agentes de Saúde”.] Oferecer aos educandos as condições para a realização de ações de saúde de cunho biológico. grifo do texto original). 1994. na parte dedicada à Saúde Mental há referência à “desospitalização”. desde 1986. 1994. alcoolismo e uso abusivo de benzodiazepínicos.

as teorias psicanalíticas de grupo (principalmente Pichon-Riviére e os argentinos). Com a prática constante da visita domiciliar. dos temas ligados às suas condições de saúde e de vida. em todas as localidades onde os estudantes atuavam. Foucault. Alguns desses autores. Maurício Schneider. Basaglia. 1998) e um estudo de Filosofia que chegou em Deleuze e Guattari. um companheiro de trabalho com quem pude dialogar e produzir com grande prazer e criatividade. em 1994. fóruns comunitários de saúde. possibilitaram referências para tentativas de transformação dos hospícios e de modificação do trabalho ambulatorial. PINTO. . um campo de trabalho muito fértil em relação às possibilidades de praticar uma assistência à saúde com estreito vínculo com a comunidade e com a colocação em discussão. o Dr. uma experiência de ensino no Internato Rural da UERJ”. passando a observar esses componentes na determinação dos problemas de saúde. (Cf. conhecimento da Declaração de Caracas. com as mudanças ocorridas ao longo da experiência. bem como para a atuação num grupo para a criação de um Programa Municipal de Saúde Mental (Niterói). os estudantes puderam abrir suas percepções para a vida afetiva e social das pessoas atendidas. Goffman (Cf. também. No Internato Rural encontrei. Maurício vinha de lutas da categoria médica e pretendia levar à prática uma assistência efetivamente enraizada na comunidade e discutir conceitos e visões de mundo com os estudantes a respeito da transformação social. dos quais participei. a bagagem teórica que trazia era a psicanálise. e visitas às lideranças comunitárias. com repercussões tanto do lado da população. logo surgiu o estudo. Partindo da modificação da relação profissional de saúde/paciente. sempre unida às ações gerais de saúde (as supervisões dos dois preceptores de medicina eram feitas em conjunto). no sentido de uma crítica ao modelo médico curativo estrito. Observando o que seria possível fazer na área da Saúde Mental. no seu Coordenador em Resende. Estava criado. com a rígida divisão mente/corpo. que teve sua função e modos de realizar bastante discutidos. “Uma crítica à Formação na Área de Saúde. dentre outros. então. relato o modo de atuar do conjunto preceptores/alunos. PINTO. na Faculdade de Psicologia da Universidade Federal Fluminense. PINTO.122 Ao dar início a essa etapa da minha vida profissional. nos Postos. com sua recomendação para a atuação no nível primário. 1998). supervisão e modificação da relação profissional de saúde/paciente. quanto do lado dos estudantes. após pouco tempo surgiram. Tinha. No trabalho que apresentei no Seminário “Subjetividade e Serviço Público”. a realização de grupos de discussão sobre saúde. como Laing e Cooper. 1998). (Cf. com a população.

e aprofundar a visão da importância do trabalho comunitário. para a Equipe do Internato Rural. pude acompanhar algumas discussões. para que algo fosse feito em relação ao alcoolismo. do ponto de vista da prática e da teoria. em Niterói. p. Com a proposta acima. cujas linhas gerais estavam colocadas no texto “O modelo de saúde familiar de Quissamã”. passei a trabalhar no município de Quissamã. Quissamã. na época. Ao mesmo tempo em que desenvolvia o trabalho no Internato Rural. que se deu em 1991. Partindo de um pedido da comunidade.123 No caso do alcoolismo. interrogo: Como instalar um dispositivo que. que também contavam com Auxiliares de Enfermagem e Agentes Comunitários de Saúde. Em janeiro de 1995 decidimos capacitar. e que possa tornar-se independente de quem o disparou? Esta é a tarefa teórica e prática (Cf. 136). Da proposta constava a lotação de médicos e enfermeiros com 40 horas nos Postos de Saúde. compreendida como parte integrante das ações gerais de saúde. a respeito da implantação do Programa Médico de Família. os estudantes alternavam os papéis de profissionais que atendem nos Postos com o de visitadores domiciliares. apresentei um trabalho. auxiliares de enfermagem. Todos os momentos da capacitação tiveram como base os casos concretos da vivência . prioridade para a comunidade. ao lado de promover o tratamento individual e dar resolutividade aos casos. Trabalhando no Internato Rural da UERJ. Tratava-se de um modelo similar ao Programa de Saúde da Família. tratando das pessoas e colocando o assunto em discussão. PINTO. tive a oportunidade de levar à prática uma articulação entre a teoria e a prática da Saúde Mental. 1998. evitando internações. o que tornava o momento bastante instrutivo. onde se desenvolvia a implantação do “Programa de Saúde Familiar”. A partir de dezembro de 1994. tinha cerca de 12 mil habitantes. bem como em outros. em Saúde Mental. possa também abrir espaços de criatividade. famílias e comunidade. em 1992. 1998). (Cf. com ênfase para os Agentes Comunitários de Saúde. Estado do Rio de Janeiro. Neste aspecto do trabalho. municipal. de circulação de relações e de encontros (Singularização). foi desenvolvido um trabalho de articulação que envolveu os estudantes. as Equipes do Pronto Socorro e as Equipes dos Postos de Saúde. o que potencializava a sua possibilidade de visão do conjunto. como forma de colocar em discussão o que estávamos fazendo. PINTO. Em relação ao alcoolismo. pudemos articular os atores da cena social e familiar envolvidos com o alcoolismo. desta vez já com influência de Deleuze e Guattari.

das famílias e das comunidades. p. Os assuntos e casos eram trazidos pelos membros da Equipe. De acordo com a minha compreensão. A possibilidade de contar com Visitas Domiciliares e futuros Acompanhantes Terapêuticos são outros fatores importantes (PINTO. os vizinhos e o sistema de saúde. PINTO. 1997). esta capacitação se deu devido à “[.. Um fato logo chamou a minha atenção. mas todo ele era percorrido com base em situações do trabalho de cada profissional ou equipe. O que estava colocado como intenção era a [. Um exemplo significativo da afirmação acima. o alcoolismo e até alguns casos agudos. o uso de benzodiazepínicos. as fantasias da comunidade em relação às pessoas psiquiatrizadas. a possibilidade de uma nova inserção dos pacientes na vida comunitária. como as queixas vagas. relacionados com o conteúdo do programa e as novas intervenções eram decididas em conjunto.124 diária dos profissionais. pela equipe.. uma capacitação para todo o pessoal que atuava na Atenção Básica: cinco médicos. os Agentes Comunitários de Saúde passaram a sair pelas ruas com a paciente. 1997. Partindo da elaboração. discutidos. A freqüência da capacitação com os Agentes Comunitários de Saúde era quinzenal. 166).. depois. Com o desenvolvimento do trabalho. em outros municípios: a rapidez com que os Agentes Comunitários de Saúde aprendem o conteúdo da capacitação. num processo de reinserção social que envolveu a família.] transformação do modo de ver o sofrimento psíquico de importantes formadores de opinião. quatro enfermeiros e 12 Agentes Comunitários de Saúde. . (Cf.] necessidade de melhorar o atendimento ambulatorial em psiquiatria. Existia um programa para a capacitação. que encontrei ao iniciar o atendimento no Centro de Saúde” (PINTO. na época. os Agentes de Saúde. da aura de perigo que cerca o paciente psiquiátrico. 166). Todas essas situações eram objeto de constante discussão com as Equipes. e que não mais se internou após a abordagem realizada.. através de discussões e de visitas domiciliares com a minha presença. foi a mudança de atitude da comunidade em relação a uma pessoa que era constantemente internada em Hospitais Psiquiátricos. Estabeleci. 1997. então. foram aparecendo as situações que eram desconhecidas do ambulatório: pessoas presas em casa. mudam suas atitudes e passam a criar e a trazer questões da maior importância para a vida das pessoas atendidas. fato que se repetiu. com reuniões de duas horas e meia de duração. p. As Equipes passaram a reconhecer melhor e a tratar as situações ligadas à Saúde Mental.

O trabalho desenvolvido em Quissamã foi um dos semifinalistas do Ciclo de Premiação 1998.. em relação aos Agentes de Saúde: Treinamento com o objetivo de capacitar os Agentes de Saúde a atuarem no Programa. que ajudei a organizar. da sua exclusão e dos modos de reincorporá-lo à vida das comunidades (PINTO. De fato.125 Como avaliação. Participação nas discussões. (Cf. Em 1998. Membros da comunidade com conhecimento dos recursos da Rede de Assistência. está a afirmação de que O modelo adotado aqui proporciona um campo de ações no qual. onde terão como tarefas: Visitas Domiciliares. e a forma como a comunidade via os pacientes psiquiátricos começou a mudar. com economia de recursos.. Atuação junto às Escolas e familiares. é estabelecida uma discussão. 1998). com a comunidade. . que criem alternativas às Internações Psiquiátricas (PINTO. 169). p. naquele momento. a respeito do sofrimento psíquico. 1997. indiquei que O presente trabalho mostra como. p. a respeito do sofrimento psíquico. Como uma das conclusões do trabalho.] Inserese também esse trabalho na criação de recursos assistenciais e comunitários. é possível potencializar a capacidade de resolução da Rede de Assistência e ao mesmo tempo levantar temas importantes a respeito da Saúde Coletiva. ao mesmo tempo em que são aperfeiçoados os atendimentos. suas origens e soluções. nos casos de distúrbios de aprendizagem e de comportamento em crianças (PROGRAMA DE SAÚDE MENTAL DE CARAPEBUS. 1998). Deste consta. Acompanhamento Terapêutico. vizinho a Quissamã. 1997. então com pouco mais de 14 mil habitantes. 169). iniciei atendimento ambulatorial no município de Carapebus. da Fundação Getúlio Vargas. Recurso Comunitário nas crises. [. O trabalho seguia os moldes do realizado em Quissamã. mas com participação de toda a Equipe do Programa Municipal de Saúde Mental. CADERNOS GESTÃO PÚBLICA E CIDADANIA. na parte de “Treinamento”. Logo dei início ao trabalho com os Agentes Comunitários de Saúde. que tende a se ampliar. que faziam parte do PACS. as internações psiquiátricas diminuíram muito após o início do trabalho.

etc. reconhecimento da população. a grande velocidade de mudança na compreensão e nas ações dos Agentes de Saúde e a rapidez dos resultados. Esses pacientes eram acompanhados de perto.126 Após umas poucas semanas de trabalho com os Agentes Comunitários. passaram a ser realizados. ao lado da prioridade para os CAPS. resultando em mudanças nas suas inserções familiares e sociais. os Fóruns Regionais de Saúde Mental. No ano de 2000. na condição de Gerente do Programa de Saúde Mental de Macaé. cada um desses profissionais passou a ter sob sua responsabilidade cerca de quatro “pacientes graves”. semanalmente. juntamente com suas famílias. além de acompanhar pacientes em crises no Pronto Socorro. com a . sendo que o primeiro foi realizado em Carapebus. geralmente perto de suas residências. Também os casos de alcoolismo eram abordados. foi destacada a atuação dos Agentes Comunitários de Saúde na Saúde Mental dos municípios de Quissamã e Carapebus. enviei à Assessoria de Saúde Mental do Estado do Rio de Janeiro um fax avaliando o encontro e sugerindo que. formação de multiplicadores de opinião. estabeleci contato com o nível central do Programa de Saúde da Família do município. fossem também motivos de muita atenção a melhoria das Emergências Psiquiátricas e o investimento no trabalho com os Agentes Comunitários de Saúde. em conjunto com os Municípios. pelas pessoas com diagnósticos de transtornos mentais graves. Depois de abril de 1999. dentro da sua área. com um depoimento emocionado de umas das Agentes de Saúde de Quissamã a respeito do trabalho que estava desenvolvendo na Saúde Mental. numa reunião mensal dos Coordenadores Municipais de Saúde Mental da Assessoria de Saúde Mental do RJ. controle de altas hospitalares. Com a divisão dos ACS pelas suas microáreas de atuação.] produz resultados rápidos. Os resultados e limitações das experiências de Quissamã e Carapebus serão comentados mais adiante.” Nessa mesma época apresentei. Nesta ocasião. principalmente. Após esse Fórum. o trabalho que estava sendo realizado com os Agentes Comunitários de Saúde nos municípios citados. com a atuação da nova gestão da Assessoria de Saúde Mental da Secretaria de Estado de Saúde do Estado do Rio de Janeiro. cada ACS ficou responsável.. tanto em Quissamã quanto em Carapebus. o qual “[.. pelo menos. chamando atenção para a potencialidade das ações. e os ACS passaram a ser referência de Saúde Mental nas suas localidades. no que diz respeito ao melhor atendimento de casos graves. colaborando para a mudança de atitude dos plantões em relação a essas pessoas atendidas.

O livro citado teve um papel muito importante na caminhada para o novo papel da Saúde Mental. os debates a respeito das ações conjuntas Atenção Básica/Saúde Mental. mas sem continuidade e acompanhamento constante. tentando suprir a dificuldade de encaminhamento e de comunicação dos PSF com os ambulatórios. que escreve o artigo inicial. No artigo que abre o livro. então num total de 12 módulos. na época. que promoveu no Projeto Qualis/PSF. Também iniciei. Mas algo já poderia ser feito. Lancetti expõe os inícios da aproximação da Saúde Mental da Atenção Básica. para receber a demanda de pacientes graves do PSF. Posteriormente. de outro. do Governo do Estado de São Paulo. num dos ambulatórios. organizado por Antonio Lancetti. de um lado. junto ao Secretário Municipal de Saúde. Depois de descrever os princípios básicos do PSF. nesse mesmo ano. e algumas situações foram discutidas nas suas reuniões de capacitação. junto com a Assistente Social Maria Luiza Vaccari Quaresma. de aproximação. é lançado o livro “SaúdeLoucura 7. para as Equipes de nível superior dos módulos. então. Vamos. a partir de 1998. ocasião em que era estabelecida uma discussão. a respeito das situações de cada família e membro identificado como “paciente”. Lancetti diz que “Logo percebemos que essa trama tecida pela organização sanitária era a esteira fundamental de onde deveria emanar um processo que viesse a produzir saúde mental” (LANCETTI. entre todos os presentes. os ACS estavam sendo capacitados na prática. que é a sua inserção na Atenção Básica. Com isso. percorrer o artigo de abertura e alguns outros trabalhos. por ficha de contra-referência. esclarecer os modos de encaminhamento e a discussão de alguns assuntos de Saúde Mental de escolha das equipes. estando todos atarefados nos ambulatórios. Foi uma espécie de ponto de encontro de experiências que se desenvolviam. sem que tivessem uma organização ampla e até sem conhecimento maior umas das outras. Agentes Comunitários de Saúde e. Na época.127 intenção de estabelecer a aproximação dos dois Programas. profissionais de nível superior. abri um horário de atendimento grupal. abaixo. No ano 2000. ainda precária. não existiam profissionais de Saúde Mental disponíveis para o trabalho na Atenção Básica. para. Como primeiras atividades junto às Equipes de PSF. que tiveram como objetivo informar a respeito do Programa de Saúde Mental e da rede de assistência. Esta era uma forma inicial. coordenei reuniões de capacitação. Tudo o que era decidido era comunicado. mas que foi formando a base do trabalho que se deu a seguir. Saúde Mental e Saúde da Família”. 2000 . Recebíamos essa clientela juntamente com os ACS e familiares. feita a regularização da medicação e estudada as possibilidades de mobilização do posto de PSF e comunidade para atuar em cada situação.

com distribuição de um guia de saúde mental. acima..] criar um dispositivo articulado à rede tecida pela organização de saúde [. segundo Lancetti o “[.. que começa na consulta e termina no hospício.. como consulta psiquiátrica. A idéia era cortar pela raiz o processo de geração de demanda. 19).. p. 20). p. a equipe de Lancetti começou a capacitação pelos Agentes Comunitários de Saúde e a realizar intervenções nas famílias através destes profissionais. Esta opção tinha o intuito de evitar. mas que as primeiras ações no território seriam praticadas pelos ACS. utilizou as “[. 11). A responsabilidade pelo andamento do processo terapêutico recairia em ambas as equipes. pela necessidade de “[. 2000 b. Como estratégia. 2000 b) .] os agentes apresentavam as famílias que consideravam mais problemáticas. 2000 b. Começamos propositalmente sem psiquiatra. 21). Note-se que Lancetti havia sido convidado para “[. psicológica ou visita domiciliar. Num primeiro encontro de capacitação era feito um sociodrama. 2000 b. escolhíamos quais seriam as primeiras nas quais iríamos intervir” (LANCETTI.. o processo de tratamento da demanda que acaba na cronificação dos pacientes e dos próprios dispositivos de atenção.. Note-se a estratégia de entrar na Atenção Básica através dos Agentes de Saúde. Ressalte-se também. p..] conceito [.] não iríamos utilizar nenhum dos dispositivos conhecidos. após notar as suas características. 19).. que são os profissionais que moram na comunidade e a conhecem. Mais adiante. 2000 b..] amigos qualificados” (LANCETTI. 20). de raiz.]” e para “[. Começaríamos capacitando as equipes de saúde mental e de saúde da família intervindo nas famílias em maior dificuldade.. 2000 b. p. 18). quando. p..] equipes volantes de saúde mental” (LANCETTI..] radicalizar na desinstitucionalização” (LANCETTI. No segundo encontro eram revisadas as cenas do primeiro. p.. Havia a intenção de capacitar os ACS como “[. p. Com essa compreensão. LANCETI. (Cf. 21). no terceiro. Posteriormente.] inventar um Programa de Saúde Mental para o Projeto Qualis/PSF” (LANCETTI... 2000 b.] que deu origem à profissão de acompanhante terapêutico” (LANCETTI. que. com o desenvolvimento da capacitação e o inicio do conhecimento da comunidade. 2000 b). 2000 b.. “[. tendo optado pela aproximação com o PSF. Lancetti diz que não faria visitas domiciliares. LANCETTI. (LANCETTI. com correlação com o texto e. Lancetti e seu grupo decidiram que [... referia-se a que a Equipe de Saúde Mental não lançaria mão desse instrumento como uma ação só sua. as Visitas Domiciliares foram realizadas (Cf...128 b. p.

2000 b.] conhecer a estrutura ou sistema que organiza a vida desses grupos antropológicos e os seus interlocutores invisíveis” (LANCETTI. 22. que já foi aludido... [. Destaque-se uma estratégia e um modo de operar. Especificando mais o seu trabalho e teorizando sobre ele. Considero que essa é uma decisão fundamental para a entrada da Saúde Mental na Atenção Básica. impede jogos de empurra.] -[. 37). Como instrumento de ação. por outro lado. une as equipes. propõe uma “[..... Lancetti situa todo o grupo familiar como o paciente do Programa de Saúde Mental e que escutá-lo era “[. elabora um programa para cada família. A estratégia de aproximação será sempre decidida previamente pelas equipes de saúde da família e de saúde mental.. Esse fato potencializa a capacitação. torna o trabalho verdadeiramente de equipe. que a Saúde Mental está integrada aos demais cuidados em saúde. p. mesmo nos casos de emergência (LANCETTI..... Mostra para a comunidade.. [. 2000 b. Em muitas oportunidades vamos ao encontro de surpresa. Este programa é monitorado [.. quebrando os especialismos. enfim.. não está locada em nenhuma das unidades do Projeto Qualis e sempre atua em parceira com as equipes de Saúde da família.] será dada prioridade às famílias que se encontram em maior dificuldade.] -[.. mas. merece destaque: A equipe de saúde mental é volante. diminuem a responsabilização. que a atuação com as pessoas e a comunidade é de responsabilidade conjunta.. Desta forma. Não está prevista consulta psiquiátrica nem consulta psicológica (LANCETTI. na linha de Deleuze e Guattari.] a responsabilidade pelo cuidado pelo cuidado dessas famílias é da equipe de saúde da família e da equipe de saúde mental. de fato.] tratar o grupo familiar para que este possa lidar de maneira mais salutar com seu membro mais doente.] as famílias serão atendidas preferencialmente na hora em que todos ou a maioria dos familiares estejam em casa.. grifo do autor). marcando.. 36). 22).] -[. também. estimulando a integração. 2000 b. fica logo claro para todos que não mais se repetirão os encaminhamentos que. 2000 b.] clínica cartográfica” (LANCETTI. onde “Era premente produzir agenciamentos que conectassem as pessoas com as redes .. [.. o autor citado. p.] quando a equipe de saúde mental intervém.. p. que pela sua importância.. p.129 Consta do “Guia de Saúde Mental do Agente Comunitário de Saúde” as seguintes diretrizes: -[.] -[.

[.. para ajudar o paciente. p. e com o que Benedetto Saraceno chama de recursos escondidos da comunidade” (LANCETTI. A descrição dos acontecimentos é importante. Somos ‘volantes’. novas perspectivas. movimento.. sem as referências tranqüilizadoras e limitadoras das instituições conhecidas. . 2000). (PEREIRA. 2000 b.. propicia diversidade. onde o papel da Agente Comunitária de Saúde é determinante. para que o trabalho que organizou seja desenvolvido a contento (Cf. Dessa forma. relata. como membro. após discussão da situação com a Equipe de Saúde Mental. 2000). tanto em termos do relato em si. que apontam para a necessidade de mais profissionais de Saúde Mental por Equipe de Saúde da Família. Lancetti propõe que.] coloca-se como instrumento para uma possibilidade de mudança.] rompe os muros e as paredes institucionais. para refletir a respeito da nova posição do psiquiatra na Equipe de Saúde Mental e também introduz o tema do trabalho em Saúde. Walter ressalta a mudança que ocorre. p. confronta o poder médico estabelecido. para cada duas equipes de saúde da família. um homem de 57 anos. também não ocupamos espaços físicos delimitados. 2000. 37). a loucura e as ações não são restritas a espaços físicos predeterminados. Lancetti sugere que. em que ela posa existir e se manifestar. surgem. Voltaremos ao assunto. transformação (PEREIRA. (Cf. deve existir um técnico de saúde mental. MATTOS. Esta é a introdução que Walter faz. uma Agente Comunitária de Saúde. 2000 b.] a redução de internações psiquiátricas. que vivia isolado da família e da comunidade. 97).130 trançadas pela organização sanitária. 2000. Solange Mattos. No final de seu artigo. 51). de suicídios. em um artigo do livro organizado por Lancetti. para a avaliação do Programa de Saúde Mental sejam levados em consideração “[. p. implode os cofres da loucura e da imposição de lugares. de violência familiar e comunitária e do uso abusivo de drogas” (LANCETTI. Quanto ao importante tema dos indicadores. traz uma definição importante a respeito do trabalho no Projeto Qualis: Do modo como o Projeto foi concebido. psiquiatra. em vários níveis. a equipe e eu. com a nova situação do profissional: [. a sua marcante experiência com uma pessoa. a saúde.. como pelo exemplo de mudança nas relações dos profissionais de saúde com a população que o trabalho com a Saúde Mental pode proporcionar.. Partindo de uma situação em que não sabia muito o que fazer. Walter Augusto Bahia Pereira. mas desde já adiantamos que chegamos a números diferentes. 96). p. LANCETTI. no início de seu artigo no livro que vem sendo citado..

do pessoal ao ideológico.]. passando pela discussão em Equipe e com a intervenção sendo aí decidida (Cf. Trata-se. cara a Deleuze e Guattari. mas para isso precisou ignorar a realidade das vidas das pessoas atendidas. aos quais um sujeito poderia ser remetido ou mesmo estar submetido. Falando em uma “clínica cartográfica”. Vânia Casé descreve. igreja. por características deste. O autor citado fala do encontro entre as expectativas de profissionais de saúde e moradores como a base do trabalho que está sendo criado: “É um encontro entre as duas expectativas. de funcionar como potencializador e fertilizador de agentes e de pessoas na promoção da saúde e da vida (PEREIRA. tem também a possibilidade de existir e intervir de uma outra forma” (PEREIRA. O psiquiatra descreve o caminho que segue a abordagem aos emergentes tidos como problemas de Saúde Mental: quase sempre a partir de situações conhecidas pelos Agentes Comunitários de Saúde. (Cf. num artigo do livro organizado por Lancetti. é exposta por Walter de modo muito claro. entre os membros e os moradores atendidos.] contava com uma equipe mais bem estruturada quantitativa e qualitativamente. entre os moradores e as atividades que falam e intensificam a vida. A partir de demandas da comunidade por consultas psiquiátricas e psicológicas. O que há em comum entras duas expectativas e o que poderá se transformar em trocas?” (PEREIRA.. 2000.. seu papel nas Equipes de Saúde Mental e na sociedade: “O psiquiatra. p. mas que é disfarçado nos diversos mecanismos de defesa que o instituído permite. em 1995.131 A impotência. que a autora descreve: -[.. a equipe de Saúde Mental decidiu-se pela aproximação com o Programa de Saúde da Família.. educação. 101). Frágil. etc. para que possa tentar uma nova concepção e uma nova prática. Operação encobridora em vários sentidos. PEREIRA. entre os diversos níveis institucionais (outras instâncias da saúde. tem de suportar a fragilidade da psiquiatria neste contexto e. sentimento que assola os profissionais de saúde. . 100). ao rever sua função. a psiquiatria revestiu-se de corpo todo poderoso de saberes.] tecerá pontes entre os profissionais [. p. Walter diz que o novo psiquiatra [. Walter resume num trecho uma decisiva discussão a respeito da psiquiatria.. das suas famílias e das suas comunidades.). 2000). neste projeto. 2000. parcial. 2000). justiça. 101). p. tem desfeito seu véu. portanto. PEREIRA. 2000.. a experiência de aproximação da Saúde Mental com o Programa de Saúde da Família realizada no município pernambucano de Camaragibe.

Num ponto do seu relato. Freqüentemente. tendo em vista o nível de conflitos vividos na comunidade e a angústia em lidar com eles” (CASÉ.] discutir uma proposta de saúde mental para o município” (CASÉ. com a intenção de capacitação e de “[. com a prática de discussão constante dos aspectos institucionais e emocionais. -dirigia a atenção à saúde. a autora e sua Equipe foram para a Atenção Básica. de “[. p.. isto é. Vânia se refere a um pedido. A decisão foi. 2000). não têm um espaço próprio para a elaboração do que é mobilizado em cada um e no grupo a partir das condições que enfrentam. 2000. para deixar claro que a estratégia de entrada da Atenção Básica precedeu os outros dispositivos de Saúde Mental. O trabalho em Camaragibe desenvolveu-se com as Oficinas de Capacitação e. Com a entrada da Saúde Mental. a Equipe de Saúde Mental se reuniu com todas as Equipes de Saúde da Família. que se deu sob a forma de Oficinas e que se estenderam para os demais funcionários. quando da necessidade de estruturar um Programa de Saúde Mental. sempre encontrado nas aproximações da Saúde Mental com o PSF. p.] apoio às equipes do PSF. (Cf. no cuidado com sua saúde. não só à cura e à prevenção de doenças mas. de sua família e de sua comunidade (CASÉ. dos quais os dois últimos são um resumo do porquê da potencialidade dessa articulação. Ao invés de organizar dispositivos já consagrados em Saúde Mental. É importante assinalar a procura por ligação com o PSF. sobretudo. 125). a autora diz que . o que percebemos é que as Equipes de Saúde da Família. reúnem-se para discutir as tarefas sem atenção para os aspectos institucionais e emocionais das mesmas. A autora encontrou o que se repete em todas as experiências de trabalho da Saúde Mental na Atenção Básica: um número muito maior do que o imaginado de problemas de Saúde Mental e pessoal sem preparo para reconhecê-los e abordá-los. note-se que o NAPS e o Ambulatório de Psiquiatria foram inaugurados bem depois. 2000). 2000).132 -trabalhava com responsabilidade por um território definido envolvendo ações básicas de saúde. p. Porém. ventilar e elaborar os conflitos pessoais e grupais. para promover a qualidade de vida e a valorização do papel dos indivíduos. sem discussão das implicações do que estará sendo feito. (Cf. 2000. 2000. muitas vezes. 123). Aparentemente. durante 1996 e 1997. (Cf. CASÉ. a Equipe de Vânia não cumpriu esse papel. então. as Equipes de Saúde Mental são vistas como uma chance de abrir o diálogo. estruturam-se como equipes clássicas de saúde... como um “cumpra-se”. pelos motivos citados. Explicando essa orientação. em geral. começar a capacitação com os Agentes Comunitários de Saúde. CASÉ. As capacitações são vistas. 125).. CASÉ. Com a evolução do trabalho.

2000. A reação à capacitação assinalada acima é freqüente.] reconhece a doença mental também como fruto do processo de marginalização e exclusão social. CAPS ou Lares Abrigados.. al. p. p. al.. que passa a comprometerse em construir diversas estratégias possibilitadoras de autonomia das pessoas. antes de investir na criação de serviços especializados como NAPS.. das postulações da Reforma Psiquiátrica.. mostrando-se resistentes a assumir esse cuidado como mais uma atribuição”.. 2000. 139). (CABRAL et.. Com a associação ao PSF.] bem como indicaram a necessidade de prestar apoio às famílias” (CABRAL et.] estratégia de trabalhar a saúde mental na atenção básica. reverte uma lógica.] apresentaram um discurso marcado pela lógica do especialista. p. p. Ambulatório de Psiquiatria e Emergência quando. al. nome local do PSF. fundamentando sua luta política e prática clínica na construção da cidadania do sujeito em sofrimento psíquico e na promoção da saúde mental (CABRAL et. As reações a essa capacitação foram muito características: “[. 133). o trabalho em Saúde Mental ganha outra dimensão... 139). 2000.. p. Pernambuco. mediante uma combinação de técnicas de apoio individual com outras mais sócio-culturais (CABRAL et.. para argumentar a favor da “[. O Programa de Saúde Mental do Cabo de Santo Agostinho já contava com NAPS. em 1998. Bárbara Cabral e suas colegas do Cabo de Santo Agostinho.Situado o campo desta forma. O foco da atuação de saúde mental em Camaragibe prioriza o lugar e o momento em que surgem as primeiras dificuldades e necessidade de cuidados: a comunidade e a família (CASÉ..] os agentes comunitários de saúde demonstraram preocupação com a abordagem da pessoa em crise. al. al. [. integrando-se ao Programa de Saúde da Família (PSF)” (CABRAL et. 145) e “Os médicos e enfermeiros [. e [. 145). partem. com a capacitação das 23 equipes do Programa Saúde em Casa...] resigna-se o objetivo da proposta terapêutica.. 139). do que os profissionais de nível superior. Os ACS assumem com muito mais rapidez os conceitos da Saúde Mental e as suas ações.. 2000. al.133 A estratégia de iniciar as ações de saúde mental no Programa de Saúde da Família. Uma reflexão sobre esse ponto é necessária. 140). 2000. . 2000.. que [. a Equipe do Programa de Saúde Mental iniciou as ações junto ao PSF.. p. para que enganos e injustiças não sejam . as autoras vêem a perspectiva de mudança nas práticas de saúde e definem que “O ato de cuidar exige dos profissionais uma postura técnico-política constante. destacando-se o medo de lidar com essa situação. 2000. p. mediante a criação e mobilização dos diversos espaços coletivos no seio da comunidade” (CABRAL et.

Esta é uma opção encontrada também em outros municípios e será objeto de discussão mais adiante. p. já que. portanto. Foi. freqüentam casas com pacientes identificados e seu medo é mais histórico do que teórico. ficando a proporção de um técnico de Saúde Mental para cada quatro Equipes de PSF.. há o fato de verem a entrada da Saúde Mental na Atenção Básica. Mil famílias representam uma quantidade de problemas de assistência. então. entrar na ilusão de dizer para as Equipes de PSF que elas terão menos trabalho. 147). e sim da satisfação de entrar em outra compreensão e atuação em Saúde e em Saúde Mental..] construir um instrumento de notificação de saúde mental que permitisse delinear o perfil epidemiológico diagnóstico de cada área [. 2000. chamar a ambulância e mandar uma pessoa para a Emergência e daí para o distante Hospício dá muito pouco trabalho. 149). de promoção de saúde. famílias e comunidades atendidas e tendo sua cidadania desenvolvida. 145).. As Equipes decidiram. em geral.. veiculada nas faculdades. com freqüência mensal de supervisão. de atividades comunitárias. com a proposta de regularidade mensal.. para dar maior “[. A diferença não virá de menos ou mais trabalho. de articulações com os recursos de saúde. al. al. p. a Equipe de Saúde Mental do Cabo de Santo Agostinho promoveu “[. por exemplo. (CABRAL et..]” (CABRAL et. Depois da capacitação inicial.. 147). “[. Não é possível iludir esse fato: estamos levando mais trabalho para Equipes de Saúde da Família que.. p. mais as capacitações e relatórios.] encontros sistemáticos com cada uma das equipes (de PSF)” (CABRAL et.. deduzido o número de Equipes de PSF supervisionadas. A Equipe de Saúde Mental percebeu a importância de um estreitamento dos laços políticos com a coordenação do PSF. que lhes forneceram uma idéia já ultrapassada do campo da Saúde Mental.. p. al. As autoras encerram o trabalho com a afirmação da nova forma de trabalhar em Saúde Mental e dizem: “A força deste novo paradigma está no encontro com as pessoas que fazem o .. em ver as pessoas. como mais trabalho que irá se somar ao seu dia já atribulado.] legitimidade para as ações desenvolvidas” (CABRAL et. al. Um tema da maior importância. Os ACS já vivem perto dos problemas de Saúde Mental da comunidade.. 2000. levantado pelo trabalho que está sendo citado é o da precariedade de indicadores de Saúde Mental na Atenção Básica. Não podemos. o que não estava sendo possível devido à pequena Equipe de Saúde Mental para uma grande quantidade de Equipes de PSF. para suprir essa carência. Já os profissionais de nível superior estão mais contaminados pela “ciência oficial”. Foi percebida a necessidade de maior número de reuniões de capacitação. 2000. 2000. Além desses aspectos. tem um contingente populacional sob suas responsabilidades acima das suas capacidades.134 cometidos. que acabam por dificultar alguma dessas tarefas.

p. 2000).. e por isso mesmo repleta de significado.] priorizava. encontraram-no organizado apenas com atendimento ambulatorial-medicamentoso. 2000. do Ceará.. 2000). 2000. de natureza social e política” (SILVA et al. SILVA et al. a fim de construir algo por meio de um dialogo verdadeiro” (CABRAL et. p. 159). 2000). a saúde passou a ser compreendida como questão coletiva. Comentaremos adiante os avanços e entraves dessa abordagem. Esta forma de atuar enquadra-se na articulação entre os dois programas. descartando o aspecto eminentemente curativo” (SILVA et al. sob a responsabilidade de um clínico. Citamos.. p 152). Araçuaí é um município de 36 mil habitantes.. Foi. 2000.. Também foi criada uma “moradia assistida”. SILVA et al. O que ficou estabelecido foi um trabalho de Atenção Básica. criado um serviço de Saúde Mental que “[. no Vale do Jequitinhonha. que visa a procurar a melhor forma de conduzir o tratamento” (SILVA et al. 2000. também... Saúde Mental e PSF. o poema chinês que fecha o texto: Vá ao povo Viva com ele Ame-o Comece com o que ele sabe Construa com o que ele tem. (Cf.. SILVA et al. com o aumento da capacidade de tratamento. em 1995. (CABRAL. mantendo os encaminhamentos e as especialidades. 2000. incumbidas de mudar a orientação do atendimento à Saúde Mental. . inicia a argumentação das autoras do trabalho: “Depois da promulgação da Constituição Federal de 1988 e com a criação do SUS.500 habitantes. José Jackson Sampaio e Carlos Magno Barroso. 158). 165). entre as demandas sociais. p. No meio da seca e da miséria. a saúde preventiva. o trabalho continuou na forma de “[. MG. Uma definição simples..135 lugar. p. então. al. (Cf. As autoras do trabalho.] intercâmbio entre o profissional especializado em saúde mental e a equipe do PSF. retirando das ruas pessoas sem tratamento nem abrigo.. Foram visitadas as famílias com membros identificados como portadores de sofrimento mental. 152). tornou-se sede administrativa de um Consórcio Intermunicipal de Saúde. Depois da plena instalação do PSF. Este consórcio iniciou um Programa de Saúde Mental (Cf... organizado a partir do Consórcio Intermunicipal e um NAPS. com a abrangência de 105. definem o artigo final do livro SaúdeLoucura número 7: “Os elementos postos em ralação no presente texto são o PSF .

bem entrosado com as 42 equipes de PSF já instaladas (SAMPAIO & BARROSO. e monta uma reforma psiquiátrica complexa. as mais complexas atividades. necessariamente. Os autores vão situar o trabalho na experiência de Sobral. duas residências terapêuticas. seja a contenção de uma crise psicótica aguda. que promover os encontros na cidade e não apenas dentro das suas paredes. crenças” (SAMPAIO & BARROSO. logística e sustentabilidade com a expansão do PSF. sintoma positivo. 2000. lazeres. dizem que “As ações precisam estar onde as pessoas estão experimentando seus estilos de vida e suas escolhas. p. 2000. CAPS e PSF interdeterminam-se. padrão cultural ou escolha capaz de afirmar autonomia. trabalhos. A todo tempo os autores lembram que é no campo comunitário que a Saúde Mental. SAMPAIO & BARROSO. baseada na construção de uma rede composta por emergência e internação psiquiátrica em hospital geral. instrumentos práticos da reforma psiquiátrica. papéis. Os autores definem de modo muito determinado o que pensam a respeito da relação CAPS/PSF: “Os CAPS. O PSF já aparecia como parceiro privilegiado do trabalho do CAPS. p. 168). 2000. 173). na trama das possibilidades. precisa ser pensada e praticada. um hospital-dia. operacionalidade. estariam em funcionamento 16 CAPS. adquirem impulso. Trata-se. condições de existência. de 25 anos de idade.136 e os CAPS. p. ajudando a acabar a era do confinamento. 2000. O primeiro CAPS do Ceará foi inaugurado em 1991. (Cf. um pequeno ambulatório de pronto-atendimento para referência aos municípios que ainda não têm políticas de saúde mental. Os autores argumentam que. funções. 171). portanto. município de 150 mil habitantes Que teve fechado seu hospital psiquiátrico clássico. e um CAPS para cobertura municipal. num processo que evoluiu para mais oito em 1999 e estava previsto que. agora. 2000. que já foi tocada ao longo do texto desta monografia e que voltará mais adiante. Desta forma apontam que Na Saúde Mental. p. p. . seja o diagnóstico diferencial entre sintoma negativo. de matéria da maior importância. 168). os CAPS têm. Desta forma. no final de 2000. com base numa perspectiva de uma política municipal de saúde mental e das estratégias de atenção primária” (SAMPAIO & BARROSO. tudo pode e deve ser feito na comunidade (SAMPAIO & BARROSO. 173). 2000). interpotenciam-se e interdependem-se” (SAMPAIO & BARROSO.

(Cf.. SAMPAIO & BARROSO. [. 2000). desta vez com o CAPS. em 1994: Formulou-se uma diretriz inicial: os problemas de sofrimento psíquico e doença mental na Área Descentralizada de Saúde – ADS adstrita a cada equipe. 173). Como documento base para o encontro. assessoria e consultoria. em Brasília. a partir do inicio dos trabalhos do PSF.. nesse último trabalho. 175). mantendo-se.137 Consoante com a prática de virar “para fora” as ações. retaguarda. temos a definição acima. estrategicamente.. como retaguarda e fonte de supervisão. Plano de Inclusão de Ações de Saúde Mental na Atenção Básica”. O documento citado diz. os autores citam a enorme queda na quantidade de benzodiazepínicos receitadas. vanguarda e centro de treinamento. intitulada “Oficina de Trabalho para Discussão do Plano Nacional de Inclusão das Ações de Saúde Mental na Atenção Básica”. já que as internações passaram a ser feitas no Hospital Geral. como os outros problemas sanitários.] o CAPS de Quixadá tem optado. para seis por ano.] seriam de inteira responsabilidade das equipes. mas sem pertenceram aos CAPS.4 O ano de 2001: mudanças e diretrizes. os autores dizem que “[. 2000. a Área Técnica de Saúde Mental e o Departamento de Atenção Básica lançaram o documento “Proposta Preliminar. p. e que o município ofereceria o CAPS como referência. já vimos os especialistas atuarem como supervisores das Equipes de PSF. onde os especialistas freqüentam a comunidade. 2000).. a Área Técnica de Saúde Mental do Ministério da Saúde convocou uma reunião. p. até porque na maioria dos municípios não há CAPS e. Trata-se de mais uma forma de a Saúde Mental atuar na Atenção Básica. no número de pessoas enviadas para hospitais psiquiátricos. SAMPAIO & BARROSO. a circulação de visitas e agentes de saúde colaboraram para mudar a forma da população encarar as crises. Os autores dizem que. 5. principalmente. (Cf. em relação ao PSF e ao PACS: . Já vimos o Projeto Qualis. Em março de 2001. 2000. A diretriz traduz um princípio: não é necessário dispor de um especialista para que o conhecimento sobre saúde mental seja introjetado na atenção básica (SAMPAIO & BARROSO. Outro dado significativo foi a queda de oito por semana. pelo reforço dos vínculos diretamente com a sociedade organizada. Como um dos resultados. como as associações e federações de bairro” (SAMPAIO & BARROSO. para desfazer as especialidades. Neste.

começa a ser gerado (MINISTÉRIO DA SAÚDE.138 Um novo modelo de atenção centrado na lógica da vigilância à saúde e qualidade de vida. de que.] rompendo com o clássico modelo voltado para o indivíduo doente e iniciando um novo olhar aos grupos humanos. “Experiências de inserção de ações de saúde mental nos PSF têm acontecido em diversas regiões com resultados importantes. 2001.. é “Oferecer às equipes de saúde da família condições para cuidar de cidadãos portadores de transtornos mentais no seu contexto familiar ... O texto refere-se à situação.]” e a incluir nesses recursos as “[. 2001. 5). 4). com a entrada da Saúde Mental.. p. decide pela elaboração e implantação de um Plano Nacional de Intervenção para incorporação de ações de Saúde Mental no conjunto de ações que compõem o cuidado integral à saúde (MINISTÉRIO DA SAÚDE. 5). o texto começa a delinear ações de capacitação: A ampliação do conhecimento sobre as ações de saúde mental para as equipes que assistem as famílias [. 2001. para o documento. porém de forma isolada e assistemática” (MINISTÉRIO DA SAÚDE... 5). indivíduos. 4). famílias e redes sociais” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. ou seja. Nas “Justificativas” do Plano. o texto diz que [. Como forma e meio de chegar ao objetivo de inserir a Saúde Mental no PSF. 2001. O texto aponta para a necessidade de identificar recursos na comunidade.] o Ministério da Saúde. p. de forma democrática e participativa com a presença dos profissionais que já vêm agindo no âmbito das comunidades (MINISTÉRIO DA SAÚDE.. dirigido à família e à comunidade. visto partir do Ministério da Saúde. O “Objetivo Geral”. responsável por induzir políticas públicas e sustentá-las com financiamento. o documento diz que com ele se estará “[. já aludida acima. Esta é uma declaração da maior importância. que inclui desde a proteção e promoção à saúde até o diagnóstico e tratamento das doenças. p. 2001.] a realização de um conjunto de ações que se encarregue de construir as pistas necessárias à transferência dos conhecimentos do campo da saúde mental. Com base na constatação de que é necessário ampliar as ações do PSF e do PACS.] invisíveis e conseqüentemente imobilizados [.] riquezas culturais comunitárias” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. p 6). 2001. através da Secretarias de Políticas e da Área Técnica de Saúde Mental.. naquele momento.... p.. p. até então “[.

a atenção a grupos familiares de risco. da forma como está colocado. Dos “Objetivos Específicos” consta a construção regional de planejamento e metas para a implantação das ações de Saúde Mental na Atenção Básica. o desenvolvimento de capacitação para as Equipes de PSF. Para o ano 2001. Inclusão dos cuidados de Saúde Mental nos módulos básicos de treinamento para novas equipes de saúde da família e oficinas regionais de acompanhamento e avaliação da implantação do Plano Nacional. as iniciativas cabem aos municípios. 7). não apontando para ações que envolvam diretamente profissionais de Saúde Mental na comunidade. p. sem incentivo federal. grupos de auto ajuda. não foram cumpridas integralmente. Note-se que. 2001). como já vimos em algumas experiências relatadas. o Objetivo Geral limita-se à capacitação. avaliação e controle para as ações que estejam sendo implantadas no território. criação e capacitação de Equipes de Saúde Mental para apoio as equipes dos PSF. -Construir coletivamente mecanismos públicos de participação. proporcionando uma maior articulação das Redes Sociais com a mobilização de recursos governamentais. Desta forma. o documento deixou as indicações do que deveria ser feito e. 2001. o que é uma definição política. além da realização da “Oficina de Trabalho para Discussão do Plano Nacional de Inclusão das Ações de Saúde Mental na Atenção Básica”. MINISTÉRIO DA SAÚDE. p. 7). p. está apontado o caminho para a avaliação pública das ações de Saúde Mental e sua inserção nas Redes Sociais. o enfrentamento dos problemas de uso de álcool e drogas. (Cf. 2001. para iniciar a implantação da Saúde Mental no PSF. incluindoa no Sistema de Informação da Atenção Básica (SIAB). as demais metas ficaram por conta das iniciativas municipais. -Regulamentação da equipe de Saúde Mental que vai se integrar ao PSF para suporte especializado (MINISTÉRIO DA SAÚDE. pelas informações que tenho. entre outros. como já foi ressaltado. associação de bairro. que. apesar da dependência de financiamento federal. em sua maioria. conselho tutelar. Constavam das metas: definir 40 municípios. capacitação dos recursos humanos dos PSF pelas equipes de Saúde Mental para implementação das ações. Também nos objetivos específicos estão os seguintes pontos muito importantes: -Desenvolver uma base de dados específica para a Saúde Mental. 2001. balizando o caráter participativo da proposta. ONGs. 7). O documento coloca “Metas” para 2001 e para 2002. Mesmo não tendo sido possível realizar todas as metas. (MINISTÉRIO DA SAÚDE. .139 e comunitário” (MINISTÉRIO DA SAÚDE.

9). No capítulo “Equipe de Saúde Mental e Atenção Básica”. na descrição das atividades dos “[. No aspecto institucional. Na parte inicial do documento reservada às “Etapas para Incorporação da Saúde Mental na Atenção Básica”. as ações no território estão. p..] é necessário consolidar um Modelo de Atenção.. com o profissional de Saúde Mental na comunidade. 2001. p. foi objeto de debates na “Oficina” e sofreu mudanças de enfoque. o documento sugere “Apresentar o Plano de Inclusão da Saúde Mental ao Conselho Municipal de Saúde” e “Pactuar na Comissão Intergestores Bipartite (CIB) a adesão da saúde mental à estratégia do PSF” (MINISTÉRIO DA SAÚDE.... hospitais gerais e especializados” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. está sugerido “Elaborar o plano municipal de inclusão da Saúde Mental no PSF. p. isolados com pouca mobilidade de articulação tanto em relação aos PSF. da maior importância. 2001. 9). 9). “[. 10).] encontram-se.. [. o documento critica o estado atual dos Ambulatórios de Saúde Mental: “[. propostas para serem todas realizadas pelas equipes de PSF/PACS: -realização de diagnóstico da comunidade buscando identificar os principais problemas de saúde mental e os recursos institucionais e comunitários existentes com potencialidade de mobilização -planejamento e programação de ações com base no diagnóstico e na mobilização dos diversos setores envolvidos -implantação de um sistema de informação que deverá compor o SIAB -acompanhamento e avaliação das ações. 2001.140 Para 2002. Também o tema da referência e contra-referência foi objeto de acalorados debates na “Oficina”. 8).000 habitantes” e “Oficinas de acompanhamento e avaliação para as equipes com programas em andamento” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. na sua maioria. (MINISTÉRIO DA SAÚDE. inclusive em documentos posteriores do Ministério. Como definição de princípios e reforçando importante diretriz.. com novas propostas. baseado na integralidade e territorialização das ações com serviços . p. até esse momento. para operar a mudança do quadro criticado. 2001. quanto aos serviços de maior complexidade como os NAPS/CAPS. 2001. Como será notado abaixo. 2001. p. o documento fala em capacitação das Equipes de PSF e não de atuação conjunta. o texto propunha a “Implantação de ações de Saúde Mental nos municípios de mais de 100.] profissionais do PSF/PACS com supervisão da equipe de Saúde Mental” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. Note-se que. ao descrever as ações de Saúde Mental no PSF. p. Este detalhe.. o texto recomenda que. 9).] definir o fluxo de referência e contra-referência” (MINISTÉRIO DA SAÚDE.

Além disso. respeitando a realidade específica local e voltada para a inclusão social -Mobilização de recursos comunitários estabelecendo articulações com grupos de auto ajuda. estavam pensadas para serem integralmente executadas pelos profissionais das Equipes de PSF. aparece um dos preceitos do SUS: a integralidade. saúde da mulher. tempos de desinstitucionalização e mobilização social: rede e território.. 2001. egressos dos NAPS e de outros recursos ambulatoriais especializados -Construções de intervenções terapêuticas de forma individualizada. p. listadas a seguir. 10). 10). sendo uma referência para auxiliar no diagnóstico e planejamento das ações. os autores do documento do Ministério da Saúde recomendam [. criança e adolescente. 11). Os profissionais que vão integrar as equipes de saúde mental devem assumir o acompanhamento do PSF. diabete.] a criação de uma equipe de saúde mental que se vincule diretamente como suporte técnico especializado para atenção básica. entre outras organizações populares -Promoção de palestras. São elas: -Sensibilização para a escuta e compreensão da dinâmica familiar e das relações sociais envolvidas -Sensibilização para a compreensão e identificação dos pontos de vulnerabilidade que possam provocar uma quebra ou uma má qualidade dos vínculos familiares e sociais -Incorporar a saúde mental nas ações voltadas para: hipertensão. 2001.141 diversificados. debates.. Lembremos que as ações. item 6 do documento que vem sendo examinado. alcoolismo e outras drogas. Chegamos às “Ações de Saúde Mental na Atenção Básica”. atividades artísticas e de grupos de uma maneira geral com temáticas específicas de acordo com a realidade de cada comunidade -Buscar construir novos espaços de reabilitação psicossocial dentro da comunidade como oficinas comunitárias e outros que venham a ser criados pela mobilização social. como também na capacitação. a procura por recursos já existentes na comunidade e o estímulo à criação de outros. treinamento e avaliação dos resultados com supervisão técnica continuada (MINISTÉRIO DA SAÚDE. os dois conceitos que vêm aparecendo como pilares do trabalho da Saúde Mental nos dias de hoje. 2001. (MINISTÉRIO DA SAÚDE. conselho tutelar. Será de grande interesse comparar a lista de ações acima com as que resultaram da “Oficina” e da que consta do documento “Saúde Mental e Atenção Básica. Percebem-se. p. Assinale-se a clara orientação pela mobilização social como base do trabalho proposto. violência urbana entre outros -Acompanhamento de usuários egressos de internações psiquiátricas. articulados dentro da rede geral de saúde e voltado para a atenção integral” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. O Vínculo e o Diálogo . associações de bairros. idoso. no trecho citado. p. Para efetuar a proposta.

-Garantir a infra-estrutura de funcionamento da unidade de saúde para o trabalho. MINISTÉRIO DA SAÚDE. 2001). -Elaboração de material didático para as atividades de educação continuada. de 2004. Formação e Educação Permanente e outras instituições de ensino. a implantação de capacitação e supervisão técnica no tema. a elaboração de material didático. a ênfase está colocada em fornecer capacitação. começando por aquelas definidas para o Ministério da Saúde. -Disponibilizar meios para capacitação técnica e educação permanente dos profissionais de Saúde Mental. 2004). em parcerias com as Secretarias Municipais de Saúde. juntamente com a SES. no segundo semestre de 2001. Inclusão das Ações de Saúde Mental na Atenção Básica”. -Supervisionar o trabalho dos profissionais das equipes de Saúde Mental. Quanto às “Responsabilidades das Secretarias Estaduais de Saúde”. -Sensibilizar para a necessária prioridade de direcionar as ações para os grupos familiares mais vulneráveis e estabelecer os mecanismos adequados para acompanhamento e avaliação dos resultados esperados. em conjunto com a SES. criar de indicadores para avaliação das ações e trabalhar os dados existentes no SIAB. elaboração de material didático. a avaliação com os estados a respeito do que estaria sendo praticado e a inclusão de base de dados no Sistema de Informação da Atenção Básica (SIAB). (Cf. (Cf. em articulação com a SES por intermédio dos Pólos de Capacitação. O documento propõe-se a definir as “Responsabilidades Institucionais”. Faziam parte desse rol a facilitação regional de planejamento para a inserção das ações de Saúde Mental na Atenção Básica. na Assessoria de Saúde Mental da Secretaria de Estado de Saúde. -Participar de avaliação do trabalho das equipes de saúde da família. o que faremos adiante. -Incorporar no treinamento do ACS os conteúdos de Saúde Mental. foi criado. . Salvo melhor juízo. tendo como responsáveis Leila Vianna e Carlos Eduardo de Moraes Honorato. As “Responsabilidades das Secretarias Municipais de Saúde” são aquelas que efetivamente aproximam os Programas Municipais de Saúde Mental da Atenção Básica. No Estado do Rio de Janeiro. São as seguintes: -Elaboração do plano municipal para inclusão das ações de Saúde Mental na Atenção Básica com objetivos e metas definidas.142 Necessários. um núcleo para encaminhar as propostas de aproximação Saúde Mental/PSF. -Assegurar o acesso progressivo de todas as famílias beneficiadas com o PSF às ações de promoção da Saúde Mental e prevenção de seus agravos. nenhuma delas foi executada até o momento. MINISTÉRIO DA SAÚDE.

p. (MINISTÉRIO DA SAÚDE. 2001 b. a “Oficina de Trabalho para Discussão do Plano Nacional de Inclusão das Ações de Saúde Mental na Atenção Básica”. para subsidiar a conclusão do Plano Nacional de Inclusão da Saúde Mental no Saúde da Família. 1).. Este último “[. diz que “Em relação à Saúde Mental não há necessidade de acrescentar nada à estrutura pré-existente na unidade de saúde” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. entre os participantes da oficina. Trata-se de capacitar recursos humanos e organizar o sistema. (MINISTÉRIO DA SAÚDE. p. p. p. da Saúde Mental. aqui está uma das características que torna a entrada da Saúde Mental no PSF uma estratégia plenamente exeqüível em curto prazo: não há o que construir. 14).] novo modelo de atenção descentralizado e de base comunitária” (MINISTÉRIO DA SAÚDE.. 14). . bem como os indicadores de eficácia e efetividade” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. 2001 b.Aproveitar as experiências vivenciadas pelos participantes da Oficina. 2001.] abordará o desenvolvimento da integração das ações de saúde mental ao PSF. a iniciativa ficou quase apenas na dependência das ações municipais. enquanto um roteiro para a inserção das ações de Saúde Mental na Atenção Básica.. em março de 2001. Depois de historiar os pontos de identificação entre o PSF e o “[. que já temos detalhado nessas páginas. acima. 13). O texto chama a atenção para a “Avaliação” das ações de saúde que estão sendo implantadas e. 2) Realizou-se.Aprofundar. 2001. o texto da “Proposta Preliminar” aponta como “Objetivos” da Oficina: . Apesar de estar em contradição com um dos itens da lista de “Responsabilidades das Secretarias Municipais de Saúde”. a discussão acerca da inclusão de ações de saúde mental no Saúde da Família.143 -Alimentar o SIAB com os dados necessários para avaliação das ações desenvolvidas . 2001.Identificar estratégias específicas para o enfrentamento da concentração de leitos psiquiátricos e problemas decorrentes do uso do álcool e outras drogas e outros transtornos mentais de maior prevalência. Como não se efetivaram integralmente as Responsabilidades nos níveis Federal e Estadual. p. Porém. com vistas a obter subsídios para conclusão do Plano Nacional de Inclusão das Ações de Saúde Mental no PSF. . alugar. em Brasília. adequar. O . O documento aponta a necessidade da avaliação quanto ao processo e quanto aos resultados. então.. o valor das orientações acima permanece. no item “Avaliação da estrutura”.

prostituição infantil.. O que será citado. NAPS.144 encontro representou a retomada.) (MINISTÉRIO DA SAÚDE..] problemas de saúde mental. Sobral/CE. daqui por diante. tentativas de suicídio). Os grupos de trabalho dedicaram-se. etc. psicoses e demais transtornos mentais graves. Aracaju/SE e no Projeto Qualis da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo. segundo suas experiências e orientados pela coordenação do evento. a articulação e a implementação de ações de saúde mental no PSF (MINISTÉRIO DA SAÚDE. também.. hospital geral. doença clínica grave. p. Araçuaí/MG. As mesas redondas e a mesa inicial serviram de subsídios e aquecimento para os trabalhos em grupo. a levantar. 10). CAPS. p. 2001 b. muitas vezes. residências terapêuticas. Quixadá/CE. pronto atendimento. que apresentaram as suas conclusões na Discussão Ampliada. Cabo de Santo Agostinho/PE. p. colocados aqui sem ordem de importância ou estatística: alcoolismo e outras dependências (com suas conseqüências: violência doméstica e no trânsito. prisão domiciliar. referido ao documento que saiu da Oficina. Camaragibe/PE.. não chegam aos dispositivos já consagrados em Saúde Mental. Os relatórios advertem. para iniciar a discussão prática. crianças e adolescentes . Natal/RN. população em situação de rua. Foram apresentadas as experiências desenvolvidas nos municípios de Curitiba/PR. que as [. Recife/PE. idoso abandonado. é o que foi aprovado na Discussão Ampliada final. os “[. em níveis amplos. Em termos gerais. exclusão social (pacientes cronificados em hospitais psiquiátricos. Comparecei na qualidade de “Especialista convidado” e fui relator de um dos Grupos de Trabalho.] ações só terão eficiência e eficácia se estiverem inseridas e articuladas com uma rede de cuidados e ações de saúde mental (emergência. 2001 b. delitos. momento final da Oficina. 7). os relatórios dos grupos reconhecem a semelhança de propósitos que unem os Programas em questão e dizem que As diretrizes do PSF e as diretrizes da reforma psiquiátrica constituem hoje um conjunto de princípios que são fundamentais para o diálogo. 15). Resultou dessa discussão uma extensa lista de problemas que. São os seguintes os problemas e situações de risco e vulnerabilidade. 2001 b. e as situações de risco e vulnerabilidade que mais freqüentemente ameaçam e comprometem os vínculos familiares e sociais” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. da discussão da atuação da Saúde Mental nas comunidades.

é preferível a presença de profissionais de Saúde Mental junto às Equipes de PACS e PSF. suicídios e suas tentativas. comunitária). temos: “Intervenção conjunta em consultas e visitas domiciliares. praticado em alguns municípios. na comunidade. Deste modo. ao intricado de temas de capacitação. a trocar experiências e. como instrumento de capacitação [. Consideramos que. organiza-se melhor a rede de assistência à Saúde Mental. Os participantes dedicaram-se. responsabilidade territorial [. para que as Equipes de PSF e PACS assumam sozinhas a função de “tratar” e receber encaminhamentos (a Equipe de Saúde Mental). transtornos do humor e retardo mental (Cf. discussão de caso. abuso de benzodiazepínicos. 2001 b). “Intervenções familiares comunitárias conjuntas (PSF + ESM). p. 2001 b. discussão de casos e capacitação em temas específicos. intervenção conjunta. tanto que consta de todos os relatórios dos grupos. antes de ver o que deve ser feito. Tenta-se. devido à magnitude dos problemas da Saúde Mental. MINISTÉRIO DA SAÚDE. a tarefa é inverter o discurso das especialidades). Foco de muita polêmica. A alternativa à entrada direta dos profissionais de Saúde Mental nas comunidades. “Atuar junto ao PSF para capacitação e educação continuada. a pensar “Que ações devem ser desenvolvidas pela equipe de saúde mental em articulação com o PSF? Qual sua composição e a quantas equipes de saúde da família deverá dar suporte?” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. 2001 b. a partir delas. também. Criação de Oficinas Terapêuticas na comunidade” (MINISTÉRIO DA SAÚDE.... Exemplificando o que foi aprovado nos relatórios. Trata-se. mobilização e integração com recursos existentes nas comunidades [. à sobrecarga de trabalho das Equipes de PACS e PSF e à necessidade de agilizar as mudanças. com esclarecimentos a respeito de encaminhamentos. de um dos temas centrais da discussão a respeito da Saúde Mental na Atenção Básica: as ações e as equipes. atuando junto com os membros das Equipes de PSF e PACS. p 9).. que as Equipes de PACS e PSF atuem em situações de Saúde Mental sem a presença dos profissionais de Saúde Mental. há uma pequena e importante lista do que não é para ser feito: atuar como especialista (pelo contrário.. planejamento local.]” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. no tema acima. a inserção de profissionais de Saúde Mental diretamente no campo. 21).145 em situações de risco). p. foi a posição que predominou amplamente na Oficina. . numa repetição do modelo dos ambulatórios. 2001 b. violência (domiciliar. 2001 b.]” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. junto às Equipes de PACS e PSF é a opção por manter um trabalho de supervisão. 7). fornecer capacitação. 12). então. Este deve ser um tema de debate constante: o que deve fazer o profissional de Saúde Mental na comunidade? Durante a Oficina foi destacado que..]. então. p.

p. por quatro profissionais. além de todas as demais ações recomendadas pela Oficina. (Cf. o enfrentamento da questão da violência urbana e doméstica. 2001 b). A pergunta inicial da Oficina. 2). MINISTÉRIO DA SAÚDE. (Cf. sendo esta composta. a partir do contato com as Equipes de Saúde Mental. Considerando que cada Equipe de Saúde da Família atende até mil famílias. oito Equipes de PSF atendem uma população de quase trinta e duas mil pessoas. p.. Esta proporção não condiz com a prática. . pois decisivo para o suporte das ações. Articular assistência e promoção de cidadania para essas pessoas. é o da relação quantitativa entre Equipes de Saúde Mental e Equipes de PSF. (Cf. Se o Ministério da Saúde reconhece que 3% da população necessita de cuidados contínuos. de Reforma Psiquiátrica. noções de dinâmicas de grupo. no meu modo de ver e com base na observação da prática que tenho realizado. só neste contingente estão cerca de novecentas e sessenta pessoas. sempre a partir das realidades locais. a mobilização de recursos comunitários.] a quantas equipes de saúde da família deverá dar suporte?” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. com a recomendação de que deve ser continuada e mútua.146 conforme recomendou a Oficina. 2001 b). isto é. organização conjunta do trabalho e para a condução conjunta das situações que se apresentam. A capacitação é uma das ações que se tornaram consenso. a atenção ao idoso e ao adolescente. MINISTÉRIO DA SAÚDE. é tarefa extensa demais para uma só Equipe de Saúde Mental. a Oficina não se limitou a traçar um programa mínimo de capacitação. por apresentar transtornos mentais severos e persistentes (MINISTÉRIO DA SAÚDE. mas estendeu amplamente o campo de conhecimento que as Equipes da Atenção Básica podem adquirir. Os relatórios dos grupos de trabalho indicam entre 8 e 10 Equipes de PSF para cada Equipe de Saúde Mental. em média. ao discutir a implantação efetiva das ações de Saúde Mental na Atenção Básica em Macaé. 2001 b. 2001 b). Em conseqüência da metodologia de educação continuada. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Um tema polêmico e importante. 7). de Programas de Saúde Mental. por mais que saibamos que terá atuação conjunta com as Equipes locais de PACS e PSF e o movimento comunitário disparado potencializará as ações. 2004. Voltaremos ao tema mais adiante. As ações citadas acima são a base para muitas outras. as Equipes trocam experiências e saberes. num total de cerca de quatro mil pessoas. a incorporação da Saúde Mental na atenção aos problemas de saúde em geral. como o estímulo à organização de redes sociais. Foram citados desde conhecimentos de psicofarmacologia e psicopatologia até a história das abordagens ao desvio e à loucura.. em relação às funções das Equipes de Saúde Mental foi: “[. com funções de capacitação.

2001 b. Isso significa que. os problemas não resolvidos possam diminuir. se a opção for por tentar. p. que muitas vezes perde a pessoa encaminhada de vista. mais trabalho é acrescentado. as referências vão perdendo em volume e importância. o que é muito útil. a sobrecarga de trabalho das Equipes do PSF. progressivamente. O tema “Financiamento” não esteve na relação de perguntas oferecidas pelo Ministério da Saúde. Um dos grupos de trabalho respondeu à pergunta acima com: “Mudança da denominação conceitual de referência/contrareferência para co-responsabilidade e trabalho em rede de complementaridade” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. mas não consta do Relatório Final. 23). com organização do fluxo de referência e contra-referência. por parte do Ministério da Saúde. que produziram propostas. 7). 2001 b. num trabalho de co-responsabilidade entre Equipes de Saúde Mental e PSF. Escrevo no segundo semestre de 2004 e até então nenhum incentivo de financiamento à entrada da Saúde Mental na Atenção Básica foi regulamentado.. integrado e em que todos os envolvidos continuam responsáveis e em contato com as pessoas atendidas.. a abordagem efetiva da Saúde Mental na Atenção Básica. Mas. como consta no texto “Saúde Mental e Atenção Básica.147 Um item da maior importância é o que uma das perguntas da equipe de coordenação do evento colocou: “Em que casos a pessoa com problemas de saúde mental deve ser referenciada e qual o fluxo de referência e contra-referência ?” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. p. ao lado de tentar abordar os problemas da Saúde Mental na comunidade. A manutenção ou suspensão deste incentivo serão balizadas pelos indicadores de avaliação também propostos no Plano (MINISTÉRIO DA SAÚDE. Com a entrada da Saúde Mental. 2001 b. Foi. O Vínculo e o Diálogo Necessários. trabalho verdadeiramente conjunto. Inclusão das . passa a ser encarada como parte de uma rede de complementaridade. mas preocupou e ocupou os participantes da Oficina. p. dentro das diretrizes propostas pelo Plano Nacional de Inclusão. Um dos grupos sugeriu e [. então. ventilada a possibilidade de diminuir a quantidade de famílias a serem atendidas pelas Equipes de PSF que tenham ações de Saúde Mental. Quando a opção de trabalho é apenas pela supervisão das Equipes de PSF. Está estabelecida uma definição de investimento em capacitação. depois de implantadas as ações.] a plenária recomendou que seja destinado um incentivo por parte do Ministério da Saúde para os municípios que incluírem ações de saúde mental nos programas de saúde da família. 14). mesmo que. é estabelecido um melhor relacionamento entre o PSF e a rede de assistência à Saúde Mental. a tradicional referência e contra-referência. Também foi discutida.

Assembléia Mundial da Saúde. ORGANIZACIÓN MUNDIAL DE LA SALUD. a OMS indica os meios para se chegar a uma assistência e promoção. a Oficina de 2001 produziu um relatório que é um roteiro para a implantação da Saúde Mental na Atenção Básica com diretrizes. indicadores e financiamento. 2003 b). dada a sua importância epidemiológica e social.148 Ações de Saúde Mental na Atenção Básica”. (Cf. O indicador mais presente nas sugestões foi o número de internações psiquiátricas. A Assembléia reconhece a importância dos fatores sociais para os problemas de Saúde Mental e assinala que . Redução da violência na comunidade também foi um dos indicadores mais citados (Cf. Durante a 54a. 1). Foram discutidos e sugeridos indicadores para a avaliação das ações de Saúde Mental na Atenção Básica. 2001. realizada em maio de 2001. Em resumo. 2). que seja compatível com os conhecimentos atuais. sugestão de ações. na área. y provocan sufrimiento humano. ocorreram quatro mesas redondas de Ministros da Saúde dos países membros. MINISTÉRIO DA SAÚDE. da Coordenação de Saúde Mental do Ministério da Saúde. 2001 b. El hecho de que los países deban abordar otros problemas sanitarios y que sus presupuestos de salud sean limitados ya no puede aducirse como justificación para no adoptar medidas.. 19). da Organização Mundial da Saúde.] indicadores que identifiquem a ampliação de trabalhos comunitários e territoriais” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. que deveria fazer parte do SIAB. 2001. tienen enormes costos económicos y sociales. Informe de la secretaria”. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Apontando para a necessidade de financiamento do setor de Saúde Mental. que resultaram no relatório “Mesas redondas: salud mental. Nele está contida a afirmação: Todos los ministros coincidieron en que los problemas de salud mental representan un componente importante de la carga de morbilidad a nivel mundial. em articulação com os Pólos de Educação Permanente em Saúde e com os gestores estaduais de municipais (Cf. que diz que existem possibilidades de financiar a Formação Profissional através do Programa Permanente de Formação para a Reforma Psiquiátrica. p.. p. Um dos grupos sugeriu “[. 2001 b). p. La evolución reciente indica con claridad que es posible hallar soluciones eficientes en todos los contextos (ORGANIZACIÓN MUNDIAL DE LA SALUD. conteúdo conceitual e de capacitação. iniciando com o chamamento para o combate à estigmatização.

Cidadania e Direito do Cidadão”. Nova Esperança”. Resta saber a que transição econômica se refere o texto. 2001. as famílias e os usuários. la inseguridad personal y la desigualdad de ingresos (ORGANIZACIÓN MUNDIAL DE LA SALUD.149 Los ministros destacaron la importancia de situar el tema de la salud mental en el contexto social pertinente. En gran parte del mundo se asiste a una aceleración de las reformas económicas y los cambios sociales. Com o objetivo de dar a sua orientação atual para a Saúde Mental no mundo. o “Relatório Sobre a Saúde no Mundo 2001. 2001. Saúde Mental: Nova Concepção. Já no campo das ações de saúde. no capítulo “Mejora de las Políticas y los Servicios de Salud Mental”. São os seguintes os títulos das recomendações: 1-Proporcionar tratamento na atenção primária. e chegou a dez recomendações gerais. p. intitulada “Saúde Mental. e deve ser universalmente encarada sob uma nova luz (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. em todos os continentes. 2001. No dia 11 de dezembro de 2001. o texto. das sociedades e dos países. que chama de “evolução” um processo que leva ao caos social. proferiu a Conferência de Abertura da III Conferência Nacional de Saúde Mental. 2-Garantir acesso aos medicamentos psicotrópicos. . p. Benedetto Saraceno. a globalização geradora de mais desigualdade. que então estava sendo lançada. 3). 4-Educação em saúde para a população. 1). vemos que a primeira delas situa na Atenção Básica as ações preferenciais da Saúde Mental. com referências ao Brasil. Inicialmente. p. da publicação. Coordenador do Departamento de Saúde Mental e Abuso de Drogas da Organização Mundial da Saúde (OMS). incluida la transición económica. 13). la desintegración de la familia. aconselha a “Adopción de la atención basada en la comunidad e integración de la salud mental en los sistemas nacionales de atención primaria de salud” (ORGANIZACIÓN MUNDIAL DE LA SALUD. foi um resumo. 3-Garantir atenção na comunidade. isto é. 5-Envolver as comunidades. Ao observar o teor das recomendações. puesto que en ella inciden factores que varían en los diferentes países. esta evolución trae aparejadas unas tasas alarmantes de desempleo. a OMS utilizou centros de pesquisa em dezenas de países. A palestra. o documento lançado chama a atenção para a dimensão dos problemas de Saúde Mental dizendo: A OMS está fazendo uma declaração muito simples: a saúde mental – negligenciada por demasiado tempo – é essencial para o bem-estar das pessoas.

RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO.150 6-Estabelecer políticas. lemos logo no primeiro: “Proporcionar tratamento na Atenção Primária”. 10-Dar mais apoio à pesquisa. p.216. de 2001. 2001. a OMS afirma: . com clareza. a Dra Gro encerra o seu texto com as seguintes palavras: Como a principal instituição mundial de saúde pública. 15). Notemos que o que consta dessa declaração também está na Lei 10. Naquele momento. lembra três princípios adotados pela Organização das Nações Unidas há uma década: O primeiro desses princípios é o de que não deverá existir discriminação em virtude de doenças mentais. A Diretora Geral da OMS. incúria. negligência. p. Na particularização do que está exposto nas recomendações do documento que apontam para a Atenção Básica. a Organização Mundial da Saúde apontava um caminho. na mensagem que abre o documento. 7-Formar recursos humanos.. “Garantir Atenção na Comunidade”. Gro Brudtland. 2001). certamente. programas e legislação nacionais. a OMS tem uma e apenas uma opção: assegurar que a nossa geração seja a última a permitir que a vergonha e o estigma tomem a frente da ciência e da razão (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. inércia. 13).]” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. 14). O Dicionário Aurélio Eletrônico dá os seguintes significados de “desídia” : preguiça. 9-Monitorizar a Saúde Mental na comunidade. descaso. p. A Dra Gro faz uma séria acusação. No item 3. em relação às medidas tomadas para a assistência à Saúde Mental: “Os governos têm-se mostrado desidiosos. com o tratamento menos restritivo ou intrusivo (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. Outro é o que. 8-Criar vínculos com outros setores.. desleixo. Num tom de exortação. 2001. (Cf. uma mudança significativa nos rumos das práticas em Saúde Mental. Assim fica mais claro. indolência. p. 2001. Diz o texto: “O manejo e tratamento de transtornos mentais no contexto da atenção primária é um passo fundamental que possibilita ao maior número possível de pessoas ter acesso mais fácil e mais rápido aos serviços [. que mostra. 14). deve-se conceder a todo paciente o direito de ser tratado e atendido na sua própria comunidade. na medida do possível. 2001. E o terceiro é o de que todo paciente deverá ter o direito de ser tratado num ambiente o menos restritivo. a Lei Paulo Delgado. Cabe forçar as limitações desse “na medida do possível”. tanto como a comunidade da saúde pública” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO.

16). programas e serviços. a cultura e as condições sociais. o sexo. Os grandes hospitais psiquiátricos de tipo carcerário devem ser substituídos por serviços de atenção na comunidade. p. diz que As comunidades. que nunca é demais repetir e ver colocado em palavras claras e por uma entidade da importância da OMS. Diz ele . Notemos que o item começa focalizando o paciente crônico. fazendo uso de todos os recursos disponíveis. Os serviços de base comunitária podem levar a intervenções precoces e limitar o estigma associado com o tratamento. a fim de atender às necessidades das pessoas com transtornos mentais e suas famílias. no seu planejamento e execução. p. ampliando as ações que o início do texto poderia sugerir como restritas. Com o título de “Envolver as comunidades. a atenção aos problemas graves de Saúde Mental passa a ser integral. Assim. fomentar o uso dos serviços de saúde mental e lograr uma aproximação maior entre saúde mental e saúde física” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. Desta forma. A transferência de pacientes dos hospitais psiquiátricos para a comunidade é também efetiva em relação ao custo e respeita os direitos humanos. Isso deve resultar num dimensionamento melhor dos serviços às necessidades da população e na sua melhor utilização. 2001. ao lado de divulgar as opções de tratamento. p. Deste modo sugere que. Essa mudança para a atenção comunitária requer a disponibilidade de trabalhadores em saúde e serviços de reabilitação no nível da comunidade. (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. 16). os serviços de saúde mental devem ser prestados na comunidade. 16). O item “Formar recursos humanos” traz detalhes importantes. as intervenções devem levar em conta a idade. as famílias e os usuários”. mas vai evoluindo até propor intervenções precoces e apoio em crises.151 A atenção baseada na comunidade tem melhor efeito sobre o resultado e a qualidade da vida das pessoas com transtornos mentais crônicos do que o tratamento institucional. Ademais. O item cinco é uma tomada de posição quanto ao controle social das ações de Saúde Mental. segundo a OMS: a luta contra o estigma e o preconceito. 2001. “Uma bem planejada campanha de sensibilização e educação do público pode reduzir a estigmatização e a discriminação. juntamente com a provisão de apoio em face de crises e proteção na moradia e no emprego (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. O item quatro contempla uma das prioridades. as famílias e os usuários devem ser incluídos na formulação e na tomada de decisões sobre políticas. apoiados por leitos psiquiátricos em hospitais gerais e atenção domiciliar que atenda a todas as necessidades dos doentes que eram de responsabilidade daqueles hospitais. 2001.

2001. no mesmo item. p. mais uma vez. 2001. se isso for possível. então. 2001.. 2001... Citando um estudo transcultural de Üstün e . de outros recursos. 17). Essa monitorização ajuda a determinar tendências e detectará mudanças na saúde mental em resultado de eventos externos. O texto diz: A saúde mental das comunidades deve ser monitorizada mediante a inclusão de indicadores de saúde mental nos sistemas de informação e notificação sobre saúde. São necessários novos indicadores para a saúde mental das comunidades (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO.. indicando que “[. que darão atenção especializada e apoiarão programas de atenção primária em saúde” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. no texto a expressão “[. ansiedade e transtorno por uso de substâncias” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. assistentes sociais psiquiátricos e terapeutas ocupacionais. o que parece indicar a tentativa de tentar não referir o paciente e sua família para outros serviços. Os indicadores devem incluir. O Relatório da OMS traz um estudo a respeito da prevalência dos transtornos mentais no contingente populacional que procura a atenção básica. como algumas medidas mais gerais de saúde mental das comunidades.] os diagnósticos mais comuns são depressão. p. Mais adiante. ademais. há necessidade de especialistas para prover toda uma série de serviços.152 que “A maioria dos países em desenvolvimento precisa aumentar e aprimorar a formação de profissionais para a saúde mental. tais como catástrofes. 2001. tanto o número de indivíduos com transtornos mentais e a qualidade da atenção que recebem. enfermeiros psiquiátricos. p 51). e fortalece. psicólogos clínicos. p 17). Em condições ideais. não prescindindo. está colocada mais uma vez a definição da OMS: Embora a atenção primária ofereça o contexto mais vantajoso para a atenção inicial. O item “Monitorizar a Saúde Mental na comunidade” reforça o que entre nós já vem sendo repetido e proposto: a inclusão de indicadores de Saúde Mental no sistema de informação da Atenção Básica. à definição de que as pessoas devem ser tratadas com os recursos comunitários sempre que isso for possível. os argumentos em favor da provisão de mais recursos. A monitorização é necessária para verificar a efetividade dos programas de prevenção e tratamento de saúde mental. tais como psiquiatras. as equipes especializadas em atenção em saúde mental deveriam incluir profissionais médicos e não médicos. que podem trabalhar juntos com vistas à atenção e à integração total dos pacientes na comunidade (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. p.] integração total dos pacientes na comunidade” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. porém. 17). Voltamos. Deste modo.] atenção e [. Destacamos. a OMS define que a Atenção Básica é o nível privilegiado para a abordagem à Saúde Mental.. 16)..

famílias e comunidades. A OMS considera que três fatores contribuíram para a mudança de paradigma da atenção à saúde mental: os avanços da psicofarmacologia.8% para depressão atual. quando utilizada como único instrumento ou ao fornecer base para teorias reducionistas de explicação do sofrimento mental. aponta números que. a começar pela formação dos profissionais de saúde que. isto é. ou mesmo contribuem para o seu controle. Sandra Fortes.153 Sartorius 1995 e de Goldberg e Lecrubier 1995. Constituía-se principalmente de Transtornos Depressivos e Ansiosos. 2001). a OMS chama a atenção para o impacto causado pelos transtornos mentais nas pessoas. Confirmando a alta prevalência de transtornos mentais na população. movimento. em grande maioria. chegou aos seguintes números. o movimento em favor dos direitos humanos e a incorporação.] uma em quatro famílias tem. A definição da OMS.RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. (Cf.1% para dependência do álcool. O movimento em favor dos direitos humanos. dos aspectos sociais e mentais. em tese de doutorado de 2004. mental e social. 2004. se é positiva. aos modos eficazes de tratamento. na definição de saúde. sendo que 33% eram de quadros graves. Com esses números significativos. também não tem amplo alcance. p. pela própria OMS. 22. Como “[.6% para ansiedade generalizada e 4. que diz que saúde é o bem estar físico. necessidade de deslocar pessoas da atividade produtiva para o cuidado com os membros afetados. RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. 2001. 51). (Cf. Podemos comentar que esse trio de avanços custa a chegar às comunidades. é grande o número de lares onde ocorrem perdas econômicas. p. como por exemplo a psicofarmacologia que... está ao sabor das vontades políticas cambiantes e das pressões pela manutenção do encobrimento das mazelas sociais. como a própria denominação indica. pesquisando em unidades do Programa de Saúde da Família em Petrópolis. quando acoplada aos outros dois avanços. RJ: Detectou-se uma prevalência média de 56% de Transtornos Mentais Comuns nos pacientes atendidos. destacando-se também os Transtornos Somatoformes e Dissociativos (FORTES. é feita apenas em bases biológicas. O Capítulo 3 do Relatório é dedicado à abordagem da Resolução de Problemas de Saúde Mental. é meio de controle. A afirmação do Relatório é importante como mais uma convocação à coerência entre os conceitos estabelecidos na teoria e a prática. 2001). para o Rio de Janeiro são: 15. um membro que sofre atualmente um transtorno mental ou comportamental” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. além dos gastos com o tratamento e do sofrimento geral causado pelo estigma e discriminação. pelo menos. . 5).

(RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. de forma drástica. 2003). 80). Esta orientação faz lembrar o que disse Domingos Sávio numa palestra (SÁVIO. em toda a sua grandiosidade e importância. 2001. -intervenções relacionadas tanto com as incapacidades como com os sintomas. já citada no capítulo III: que o hospital psiquiátrico fornece casa e comida. inclusive os que podem oferecer tratamento em casa. concluindo que “[. “[. dentre outras. incluindo o hospital geral para admissão de casos agudos e dependências residenciais de longo prazo na comunidade.. Está apontada a tarefa. 2001. -uma ampla gama de serviços que atendam às necessidades das pessoas com transtornos mentais e comportamentais. 80). o Relatório chega ao tema da desinstitucionalização e lança importantes advertências. deste ponto da argumentação. resultando em violações dos direitos humanos e em cronicidade” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. 80).154 O Capítulo 3 resume.] garantir que certas funções protetoras dos asilos sejam proporcionadas integralmente na comunidade e que os aspectos negativos das instituições não sejam perpetuados” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. 16). 2001.] as condições de vida em todos os hospitais psiquiátricos do mundo são deficientes. p. p. -serviços mais ambulatoriais do que fixos. p. deveria ficar à vista em todos os nossos estabelecimentos de Saúde Mental: “Fechar hospitais mentais sem alternativas comunitárias é tão perigoso como criar alternativas comunitárias sem fechar hospitais psiquiátricos” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. 2001. -parceria com os provedores de atenção e atendimento das suas necessidades. elementos que as propostas de transformação da assistência à Saúde Mental não pode negligenciar. Com o que está estabelecido acima. Este é um dos pontos da argumentação para justificar a atenção à Saúde Mental na comunidade. -serviços que são coordenados entre profissionais de saúde mental e organismos da comunidade. -legislação em apoio dos aspectos da atenção mencionados. o Relatório define: -serviços que estão próximos ao lar. em 2003... Interessante observar que a OMS define que a atenção comunitária à Saúde Mental tem como função.. Fechar hospitais psiquiátricos sem alternativas comunitárias é a . -tratamento e atenção específicos para o diagnóstico e as necessidades de cada pessoa. Como detalhes da atenção à Saúde Mental na comunidade. p. a crítica aos hospitais psiquiátricos. Uma frase.

155 desassistência. esse enfoque não foi ampliado para cobrir todo o país (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. As linhas a seguir se encaixam perfeitamente ao caso do Brasil e devem servir de base para preocupação e organização de profissionais e usuários do sistema de saúde. (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. o Relatório indica: -Prevenção de admissões errôneas em hospitais psiquiátricos mediante a provisão de serviços comunitários. 81). Entre as razões da falta de melhores resultados estão o fato de que os governos não consignaram à atenção na comunidade os recursos poupados com o fechamento de hospitais (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. a dificuldade que é extrair dos cofres públicos o que está estabelecido em legislação como direitos dos usuários do sistema. e criar alternativas comunitárias sem fechar hospitais psiquiátricos é manter o caminho da exclusão aberto. Os outros fatores para a demora de resultados da desinstitucionalização que o Relatório aponta. Índia. 2001. Lembremos os 30 mil leitos de Hospitais Psiquiátricos fechados no Brasil de 1990 até hoje. Brasil. no momento atual. 2001. Paquistão. na África do Sul. o Relatório adverte: Mesmo em paises onde foi demonstrado em programas piloto o valor da integração da atenção em saúde mental na atenção primária (por exemplo. Colômbia. 84). p 81). -Alta para a comunidade de pacientes internados há longo tempo em instituições e que tenham recebido preparação adequada. Filipinas. Comentando o lento desenvolvimento das ações de Saúde Mental na atenção primária. China. numa mensagem de que ela ainda é um caminho viável e aceito. -Estabelecimento e manutenção de sistemas de apoio na comunidade para pacientes não institucionalizados. Ambos devem ser alvo do trabalho diário dos Programas Municipais de Saúde Mental. o Relatório aponta que A desinstitucionalização não tem constituído um êxito sem reservas. p. Nelas. e a atenção comunitária ainda enfrenta muitos problemas operacionais. República Islâmica do Irã. Senegal e Sudão). p. Como componentes do processo de desinstitucionalização. 2001. também. . com o dinheiro economizado tendo tomado outras vias que não a da Saúde Mental e. (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. são a falta de preparo dos funcionários para a mudança de seus papéis e a manutenção do estigma que recai sobre as pessoas que passam por transtornos mentais. 81). p. 2001.

vocacional e . p. substitutivos para as folgas de familiares e cuidadores. atenção ambulatorial. 86).156 Em algumas linhas. 121). mostrando a importância das diretrizes da OMS em relação ao assunto: “A idéia de atenção em saúde mental baseada na comunidade constitui mais um enfoque global do que uma solução organizacional” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. aponta também para “princípios orientadores básicos” para a atenção em Saúde Mental: “[. a família e a comunidade para incluir a saúde mental na agenda do público. Grande parte do capítulo é voltada para as mudanças no tratamento dos chamados “transtornos mentais graves”. p. a segunda. provisão para admissão de casos agudos em hospitais gerais. 2001. p.. parceria com a família. está uma das razões para a citada falta de velocidade na expansão das ações de Saúde Mental nas bases da sociedade: O enfoque baseado na utilização de todos os recursos disponíveis na comunidade tem o atrativo de emancipar o indivíduo. Como orientações.] diagnóstico. O Capítulo 4 do Relatório é dedicado a analisar a situação mundial dos investimentos em Saúde Mental e as possibilidades de ação. mesmo em situações de dificuldade financeira. intervenção precoce. O Relatório. 84). 2001.. e a terceira. os serviços deveriam abranger nutrição. Dentro desse importante Capítulo 3. e não na dos profissionais (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. a OMS aponta: “A primeira é retirar a atenção dos hospitais psiquiátricos. lares residenciais. onde discorre a respeito do que a pesquisa em todo o mundo qualificou como útil e exeqüível. O Relatório indica quais os itens que devem ser desenvolvidos. centros comunitários. desenvolver serviços comunitários. p. mas de uma mudança de direção definida. serviços periféricos. 2001. chamando a atenção para a organização e utilização dos “recursos ocultos” que existem na comunidade. Podemos compreender que não se trata apenas de uma forma a mais de administrar Programas de Saúde Mental. integrar os serviços de saúde mental na atenção de saúde geral” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. o Relatório apresenta os “Princípios da Atenção”. envolvimento da comunidade local e integração na atenção primária de saúde” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. para que a transferência das pessoas internadas para as comunidades seja realizada com sucesso: Em condições ideais. participação do usuário. 2001. 85). antes do trecho citado acima. apoio ocupacional. Uma definição logo de início chama a atenção.

então. comunidade e para as propostas da Reforma Psiquiátrica. p. Para que não haja risco para pacientes. que requerem instalações físicas e gastos iniciais. Todos os pontos estão sendo praticados. Instrumento útil. O incentivo financeiro para municípios que tenham a Saúde Mental na Atenção Básica é uma medida adequada. o que muitas vezes atrasa o desenvolvimento dos Programas Municipais de Saúde Mental. CAPS e Oficinas Terapêuticas. 2001. e necessidades básicas tais como abrigo e vestuário (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. a Deliberação 54 da Comissão Integestores Bipartite da Secretaria de Estado de Saúde do Estado do Rio de Janeiro. É grave o problema do financiamento inicial de dispositivos de Saúde Mental entre nós. três recomendações para o financiamento das ações de Saúde Mental na sua nova fase e paradigma: “A primeira é liberar recursos para o desenvolvimento de serviços comunitários mediante o fechamento parcial de hospitais” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. “A segunda é usar financiamento transitório para investimento inicial em novos serviços. p. famílias. para que a avaliação da sua importância seja mais bem considerada.] manter financiamento paralelo para continuar a cobertura financeira de certo nível de atenção institucional depois de estabelecidos os serviços baseados na comunidade” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. 123). o Relatório traz a terceira: “[. O que estamos tocando são as condições para que a desinstitucionalização funcione. Os serviços. Emergências Psiquiátricas. 2001. 123). A remuneração dos procedimentos e serviços só começa a ser recebida após o pleno funcionamento e cadastramento. Este item revela claramente a preocupação com a possível desassistência que poderá ocorrer em determinados momentos. Concluindo as recomendações. em Brasília. A lista de itens acima citada pode ser comparada com o que estamos realizando no Brasil. no capítulo II desta monografia. 123). 2001.. mas que não contempla a Atenção Básica. como CAPS. 123)..157 de reabilitação. com bons resultados. a qual ainda não se efetivou. em diversos lugares. Mas é interessante vê-los reunidos. p. para os Serviços Residenciais Terapêuticos. a fim de facilitar a passagem dos hospitais para a comunidade” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. 2001. devem ser bancados inicialmente pelos municípios. p. aprovada na “Oficina” de 2001. mesmo após os avanços conseguidos. A OMS faz. Residências Terapêuticas. e com a recomendação da OMS. Já foi mencionada. . que transfere recursos das Internações Psiquiátricas que estão deixando de serem feitas.

A primeira se intitula “Intervenções orientadas para os fatores que determinam ou mantém a saúde debilitada” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. Sob esse título estão as ações capazes de fortalecer e qualificar as relações que “[. 2001. São traçados três cenários que descrevem as situações que ocorrem nos países: recursos escassos. 134). profissionais de saúde. p. O Relatório da OMS chega ao fim com um interessante estudo a respeito de “Como utilizar bem os recursos disponíveis” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. nas comunidades.. há três recomendações. p. podendo ser utilizada como [.. 2001. cujo conteúdo nos transporta para o que podemos observar no Brasil. é ressaltado o papel das Escolas para o desenvolvimento da saúde mental individual e coletiva. p. p. Deste modo. para o problema do estigma e da discriminação que recaem sobre as pessoas que precisam de tratamento para problemas mentais. em diferentes passagens. A orientação é ocupar os meios de comunicação de massa e agir de todas as maneiras possíveis. O Relatório da OMS chama a atenção. o panorama de um país pobre.. 2001. .. estudantes. cognitivo e físico das crianças” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. (Cf. No item “Intervenções orientadas para determinados contextos” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. 2001). p. 134). onde o exemplo é a faixa populacional acima de 60 anos. A segunda recomendação trata de “Intervenções orientadas para grupos de população” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. mesmo assim. e para proporcionar atenção clínica (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. 150). onde não há nem profissionais de saúde em número mínimo.158 O sempre controvertido tema da “Promoção da Saúde Mental” é enfrentado no Relatório com sugestões simples e que já se mostraram eficazes em outros paises. O lembrete do texto. 2001. 2001. A Internet é citada como um recurso de vasta utilidade. p.] podem melhorar substancialmente o desenvolvimento emocional.] meio de informar pacientes. social. Mas. grupos de usuários. para tentar quebrar o preconceito. nível médio de recursos e alto nível de recursos. com um chamamento para a ação nessa área. 134). 2001. é que os três níveis podem conviver numa mesma conjuntura. Dito isso. organizações não-governamentais e a população em geral sobre saúde mental. no Estado do Rio de Janeiro e até mesmo dentro dos municípios. RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. existe a advertência: “O ponto de partida mais apropriado para a promoção da saúde mental dependerá tanto das necessidades como do contexto social e cultural” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. para promover encontros de ajuda mútua e grupos de discussão. 133). 2001. p. 135). 134).

refletindo a falta de profissionais da psiquiatria. uma Assistente Social e uma Psiquiatra. dividia seu tempo entre as Oficinas Terapêuticas e a Atenção Básica. com apoio da Secretaria Municipal de Saúde: além da entrada de profissionais de Saúde Mental nos ambulatórios e emergência psiquiátrica. o atendimento sob a forma de Oficinas Terapêuticas e. foi realizado. em abril de 2002.. para concretizar a entrada da Saúde Mental na Atenção Básica em novos termos. na IV Conferência Municipal de Saúde. uma Terapeuta Ocupacional. outra. Note-se que. Para a Atenção Primária. 2001. níveis médios ou até altos de recursos. acontece num país que tem. uma para formar o embrião do futuro CAPS... Para cada cenário há uma lista de recomendações. p. temos: “Melhorar a eficiência no manejo de transtornos na atenção primária de saúde e [.] Melhorar os padrões de encaminhamento” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. uma Equipe para atuar na Atenção Básica. já havíamos aprovado a mudança do Modelo Assistencial em Saúde Mental. No final do ano de 2001.] Incluir o reconhecimento e tratamento de transtornos mentais comuns nos currículos de formação de todo o pessoal de saúde e [. num dos ambulatórios.] Proporcionar treinamento de atualização a médicos da atenção primária (100% de cobertura em 5 anos)” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO.. naquela altura. Na ocasião. Esta última. nem CAPS nem um trabalho de Saúde Mental efetivamente na comunidade... O planejamento do Programa de Saúde Mental aguardava o Concurso Público para levar à prática o que foi implantado. um concurso público que possibilitou a entrada de vários profissionais no Programa de Saúde Mental. 153).159 nem remédios sempre disponíveis. p. Não existiam. organizando. p. Contou com uma Psicóloga. duas equipes foram criadas. Naly Soares de . então. 153). cuja consulta pode trazer avanços. Foi formada. 2001. as recomendações para o cenário de recursos escassos são: Reconhecer a saúde mental como componente da atenção primária de saúde [. uma psiquiatra. 2001. portanto. em outras áreas.. em Macaé. o trabalho com os Programas de Atenção Básica foi apontado como um caminho a ser seguido. Além desses profissionais. no município. para a Atenção Primária é recomendado “Elaborar material de treinamento com relevância local e [. Quando passamos para o cenário de nível médio de recursos.] Proporcionar treinamento de atualização a médicos da atenção primária (pelo menos 50% de cobertura em 5 anos) (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. em 2000. 153). No nível alto de recursos..

A Equipe de Saúde Mental na Atenção Básica freqüentou o mesmo curso que foi oferecido aos novos profissionais. na comunidade.160 Almeida. Um ponto de importância fundamental. de preferência com a presença do Agente Comunitário. que vai ajudar a introduzir a Equipe de Saúde Mental na comunidade. É essa prática que vai realizar a capacitação permanente e mútua. sobre Saúde Mental. que se deu no momento que está sendo descrito. que defendi e que a Equipe aceitou. fornecida pelo nível central do PSF. avaliando. a minha orientação. bem como as Coordenações dos outros serviços de Saúde Mental. a Reforma Psiquiátrica. noções de rede e território. Esta Equipe de Saúde Mental recebeu capacitação teórica. capacitar a Equipe na prática do trabalho do PSF. os textos prévios à III Conferência Nacional de Saúde Mental. o Relatório da OMS de 2001. a de capacitar todos esses profissionais para o início do trabalho e. dentro de toda a discussão. estabelecer discussões iniciais a respeito do que iria surgir de demanda. Destaquei. que vai responder. Sempre deveria estar pelo menos um membro do PSF. de estudo e discussão a respeito do que estava planejado para ter início. para que pudéssemos determinar qual seria o limite para uma Equipe de Saúde Mental trabalhar na Atenção Básica. Foram estudados os textos recentes a respeito de Saúde Mental na Atenção Básica. que tinha formação sistêmica e visão comunitária. que estava indo para a Atenção Básica. na prática. que a Equipe de Saúde Mental . Acreditamos que essa é a pedra de toque de todo trabalho na Atenção Básica. o Secretário de Saúde e a Coordenação do PSF. Depois desse curso. desde o início. com o tempo e a insistência. examiná-la e decidir o inicio das ações. sendo a minha função. tive reuniões com a Equipe de Saúde Mental. apenas por membros da Equipe de Saúde Mental. depois. foi lotar a Equipe em apenas um Módulo de PSF. é o que define que nenhuma ação seria praticada. para que a expansão do trabalho para outros Módulos de PSF fosse feita de modo cuidadoso e discutido. que se chamou “A Mudança do Modelo Assistencial em Saúde Mental”. para que cada passo pudesse ser examinado. Essa entrada em apenas um Módulo teve os propósitos de continuar a capacitação inicial da Equipe de Saúde Mental (reconhecendo que nenhum de seus membros tinha experiência prática na área). incorporou-se ao trabalho na condição de Supervisora. A escolha do Módulo foi feita pela Coordenação do PSF. que teve como temas a história da exclusão da loucura. um início lento. A forma de entrar na comunidade. à demanda da Equipe de PSF e da comunidade por atuação de especialistas. Em resumo. o que foi alvo de debates na Oficina de Brasília em 2001. a respeito do trabalho na Atenção Básica e continuou essa capacitação em visitas ao Módulo que foi escolhido para o início do trabalho. a de Consultor.

discussão a respeito das propostas. Ocorrem também as reuniões de pequenas equipes. com o médico do módulo e outros profissionais da base trocando idéias com a Equipe de Saúde Mental a respeito de uma situação clínica. encontro com os ACS e participação nos grupos já existentes” (PINTO et al. de Brasília. Deste documento tirei a última citação. foi estabelecida uma rotina de reunioes regulares com a Equipe completa do Módulo. a pedido do nível central do PSF municipal. 5). para efeitos de justificativa de financiamento junto ao Ministério da Saúde (o Projeto de Apoio à Expansão do Programa de Saúde da Família (PROESF)). p. MINISTÉRIO DA SAÚDE. de modo a provocar movimentos de mudança nas famílias e na comunidade. que foi o início das Oficinas Terapêuticas que estão em atividade. examinando a maior parte das informações possíveis.. p. as conclusões da “Oficina de Trabalho para Discussão do Plano Nacional de Inclusão das Ações de Saúde Mental na Atenção Básica”. Seguimos. 2001 b). (Cf. As primeiras ações com a participação dos profissionais de Saúde Mental foram: “[. visto que a cada recusa cria-se campo de capacitação e ação conjunta. e dele também utilizo as seguintes. estudo dos textos que foram trabalhados pela Equipe de Saúde Mental na sua capacitação inicial e princípio dos debates a respeito das ações a serem praticadas.161 recusará.] com plena integração dos profissionais nas ações na comunidade e na formulação de propostas” (PINTO et al.... que se formam para intervir em situações que aparecem e que não podem esperar por reuniões regulares. para discussão dos casos e das situações familiares e comunitárias. acima. A capacitação dos ACS está descrita da seguinte forma: . 5).] grupos de sala de espera. Visitas Domiciliares. 2001. com as possíveis intervenções conjuntas. mas de modo a tornar a situação produtiva. São praticadas as interconsultas. Também foi realizado um grupo para acolher pessoas com “sofrimento mental grave” e seus familiares. pela Equipe de Saúde Mental na Atenção Básica. É com a atuação conjunta que a abordagem do sofrimento individual poderá ser potencializado. Foram realizadas reuniões com a Equipe completa do Módulo de PSF. “[. A Equipe de Saúde Mental na Atenção Básica reconheceu que a capacitação que recebeu provocou mudanças. Em agosto de 2003 foi realizada uma avaliação. para apresentações pessoais. 2003. então. 2003. Em relação à capacitação das Equipes de PSF.

A avaliação dos resultados dessa capacitação foi a seguinte: O resultado da Capacitação dos ACS foi o aparecimento de um novo olhar a respeito da saúde mental. então.] mudou o olhar dos profissionais a respeito dos problemas da saúde mental. Grupos de Diabéticos e Hipertensos. 2003. p. foi decidido e passou a ser realizada uma reunião mensal com todos os profissionais de nível superior do PSF do Município. . com as ações nos Módulos e outro. por exemplo. p. 2003. em reuniões semanais das duas Equipes (PSF E SM) e capacitação em serviço. com a capacitação técnica dos profissionais de nível superior de todos os Módulos (PINTO et al. um espaço para a discussão dos problemas ligados ao trabalho em geral e para a capacitação técnica. p. 5). com participação em todas as atividades da saúde mental e atenção em relação aos problemas na comunidade (PINTO et al. Havia dificuldade em relação à participação. com desmistificação da loucura e do sofrimento mental. Houve adesão dos profissionais de nível superior ao trabalho com grupos (PINTO et al. Oficina de Geração de Renda.162 Os ACS da comunidade foram capacitados logo de inicio. usando as Visitas Domiciliares. após alguns meses. Grupos de Hipertensos e Diabéticos. As justificativas eram sempre ligadas à pressão do trabalho diário. quando da avaliação que está sendo citada: Oficina terapêutica para adultos. com maior resolutividade na abordagem à hipertensão. com postura ativa em relação a todas as atividades da saúde mental. Foi criado. dos profissionais de nível superior do módulo onde as ações foram inicialmente implantadas.. p. Oficinas Terapêuticas. 6). 2003. o assunto foi trabalhado e a presença desses profissionais tornou-se freqüente. Houve integração total ao trabalho.. Visitas Domiciliares. a Saúde Mental na Atenção Básica tornou-se campo de estágio. 2003. Terapia Comunitária. a entrada da Saúde Mental no PSF está se dando em dois níveis: um. Com o esquema de capacitação organizado. Com isso. 6). Eram as seguintes as ações de Saúde Mental realizadas em agosto de 2003. 5). Houve mudança na relação profissional de saúde/paciente. Mas. Em relação à capacitação geral. pela Equipe de Saúde Mental. Terapia Comunitária e a discussão de casos como base (PINTO et al. a avaliação de 2003 relata que Durante o desenvolvimento do trabalho. com o resultado de que [. nas reuniões de capacitação.

criação de espaço para os profissionais do PSF. E. entre os membros das Equipes dos Módulos. A prática de reuniões de equipe e decisões em conjunto. Grupo de Adolescentes.163 Reuniões das Equipes com a comunidade. ou estavam bloqueadas. para todas as Equipes de PSF (no momento são 24 Equipes de PSF). de acordo com o planejamento dos dois Programas (Saúde Mental e Saúde da Família). que nos tornamos facilitadores de discussões que antes não se davam. Com a percepção de que a Equipe de Saúde Mental funciona de modo que os assuntos são discutidos constantemente. começam a aparecer os pedidos para ajuda em reuniões das Equipes de PSF. ou elas são sugeridas pela Equipe de Saúde Mental como instrumento de trabalho. mas não estamos diretamente na comunidade. mensal. da forma descrita acima. com Reuniões de Equipe semanais. Eventos de Saúde na praça. difundidas amplamente na Saúde Mental. com a conseqüência de fazer aparecer os problemas latentes. para discussão de aspectos emocionais que surgem no trabalho (também um espaço para discutir os conflitos naturais de equipe e problemas de organização enquanto profissionais). que é de colocar a Saúde Mental em todos os Módulos. Todas essas ações são praticadas sempre em conjunto com a Equipe do PSF. muito importante. estamos cumprindo parte das diretrizes da Oficina de Brasília 2001 e da OMS. estudo de assuntos específicos de Saúde Mental e Psiquiatria. onde possam ser expostos as angústias e o sofrimento por que passam as Equipes de PSF . para “resolver problemas”. Da forma como está descrito acima. a exemplo de outras experiências de entrada da Saúde Mental no PSF. o trabalho do Programa de Saúde Mental junto ao PSF está se dando. o que provoca todos os efeitos de uma instituição/organização que não se discute e onde não há espaço para ventilar e trabalhar os conflitos. não é corrente na Saúde em geral. melhor conhecimento dos capacitadores a respeito da realidade do PSF e da demanda de assistência e promoção em Saúde Mental. preparação para a chegada das Equipes de Saúde Mental nos Módulos. São diversos os ganhos com essa capacitação: esclarecimento a respeito do funcionamento na rede de atendimento em Saúde Mental e do Programa de Saúde Mental. e também devido à própria demanda. em Macaé. em dois planos: uma Equipe de Saúde Mental atuando junto a Equipes de Módulos de PSF. melhor estruturação de encaminhamentos. na base. e capacitação para os profissionais de nível superior. Os profissionais de Saúde Mental são também solicitados a suprir a falta de espaço. Ao capacitar todas as Equipes de PSF. O programa desta capacitação é elaborado num acordo resultante das necessidades das Equipes de PSF e das sugestões dos responsáveis pela capacitação. em relação aos psi. Notamos.

com Terapia Comunitária. sem serem vistos adequadamente pelo Módulo do PSF. para que esses assuntos sejam abordados e encaminhados de modo produtivo. a cargo da Supervisora. a Equipe decidiu entrar em mais dois Módulos com as seguintes ações: “Reuniões de Equipe. Abre-se. p.. um importante campo para pesquisa a respeito da efetividade das ações de Saúde Mental na Atenção Básica. Esta é uma tentativa de expansão do trabalho utilizando poucos recursos humanos. Trata-se de uma decorrência da organização inicial da assistência a pacientes que estavam. dificuldades do Sistema de Saúde. começou a ser trabalhada com a chegada da Equipe de Saúde Mental. de outro. das cobranças de produção e relatórios. Diz a avaliação que está sendo citada: [. com freqüência irregular aos Ambulatórios de Saúde Mental e. . Capacitação de toda a Equipe dos Postos. o Sana. Acreditamos que podemos cumprir a tarefa de abrir espaços coletivos. Para uma dessas localidades. foi pensado um tipo de entrada da Saúde Mental. miséria. 2003. 2003.. antes da entrada das ações de Saúde Mental e compará-los com os obtidos. A situação de uma pessoa com quatorze anos de internação psiquiátrica. Terapia Comunitária. Grupo de Sala de Espera. resolução de alguns casos de transtorno mental grave e reunioes das Equipes com a comunidade (PINTO et al. 8). nesse ponto. de um lado.164 diante da enorme carga de trabalho. seis meses.] foi iniciado um trabalho em um Módulo do PSF (localidade do Sana). Visitas Domiciliares e da capacitação de Equipe. distante da sede. O Município de Macaé tem uma região serrana. da violência nas comunidades. Visita Domiciliar. eram vinte e três as pessoas com diagnósticos de transtornos mentais graves em acompanhamento na comunidade. Devemos examinar os indicadores de Saúde Mental numa comunidade. por exemplo. p. integração entre a equipe do Modulo e a Supervisora. Os resultados são: grande freqüência na Terapia Comunitária. e que pode servir de método de trabalho para os muitos Municípios do país que não possuem mão de obra de Saúde Mental disponível com facilidade. o número de internações psiquiátricas e de idas ao Pronto Socorro de pessoas com diagnósticos de transtornos mentais graves diminuiu sensivelmente. 8). remuneração não condizente com as responsabilidades. quase contínua. mesmo que sejam ainda precários. Logo após o início do trabalho da Equipe de Saúde Mental na Atenção Básica. um ano e dois anos depois. Oficina Terapêutica e Interconsulta” (PINTO et al. Após um ano de trabalho no primeiro Módulo de PSF. com poucos recursos humanos. À época.

Um dos desdobramentos da prática da Terapia Comunitária foi o surgimento de uma reunião. na descrição da situação em Macaé. a Antropologia Cultural e a Resiliência. nem os meios de compensa-los.. a avaliação de 2003 detectou: a falta de transporte. Adalberto Barreto. BARRETO. 2003. 2003.. quando cessa a tensão causadora de uma deformação elástica” ou “[.] propriedade pela qual a energia armazenada em um corpo deformado é devolvida. é a Terapia Comunitária. (Cf. Estão sendo realizadas reunioes em parceria com o “AA” e Oficinas com o tema “A Bebida e a Família” (PINTO et al. Uma das ações de Saúde Mental que aparecem acima. a Teoria da Comunicação. 12). das famílias e das comunidades. A Terapia Comunitária foi introduzida em Macaé pela Dra Naly Soares de Almeida e está sendo praticada nas comunidades e também em reuniões com os profissionais do PSF. Iniciaram-se reunioes da comunidade com as duas Equipes (Saude Mental e PSF). Para uma explicação do termo. Segundo Adalberto Barreto. segundo seu criador. a falta de espaço para armazenamento de materiais de trabalho. o Terapeuta Comunitário deve ser escolhido pela comunidade.. a dificuldade de encontrar psiquiatras para o trabalho e a violência nas comunidades. p. pelo contrário.. PINTO et al. dentre outras características e. O último termo citado. das Equipes com a Comunidade. “Não é exigida nenhuma capacitação anterior” (Cf. estar engajado em trabalhos comunitários. p.165 Como dificuldades encontradas para o trabalho que vem sendo realizado. Adalberto Barreto apresenta uma definição que também pode ser uma das intenções da Terapia Comunitária: Não buscamos identificar as fraquezas e as carências. possam encontrar as suas próprias soluções e superar as dificuldades impostas pelo meio e pela sociedade (BARRETO. BARRETO. 2003. está articulada em torno da Teoria Geral dos Sistemas. A base teórica da Terapia Comunitária. Diz a avaliação de 2003: Como resultado do grupo da Terapia Comunitaria surgiu a necessidade de incluir a comunidade nas iniciativas da promocao da saude e da assistencia. a meta fundamental da terapia comunitária é identificar e suscitar as forças e as capacidades dos indivíduos. para que. p. 2000). ficou decidido que seria trabalhado o assunto “Alcoolismo”.] resistência ao choque”. por ser um problema altamente prevalente. para tentar alcançar o coletivo e a promoção ou a criação de redes de solidariedade e de ação social. enquanto tratamento individual. (Cf. fato instigante. Na primeira reunião. 2003). Trata-se de uma prática grupal-comunitária que rompe com os conceitos de terapia. agora constante. 6). segundo o Dicionário Aurélio Eletrônico é a “[. não tentamos diagnosticar os problemas. . através desses recursos. 17).

A fractalidade responde pela característica de que Cada conexão da teia/rede se vista de perto reproduz uma nova rede em si. Para uma aproximação ao conceito de Rede. 2001. realizou-se em Itaipava. dando como suas características a metamorfose. Na ocasião. A Oficina serviu para a troca de idéias e de experiências e como estímulo para que os Coordenadores Municipais de Saúde Mental tentassem se aproximar da Atenção Básica. PITTA. O objetivo do encontro foi reunir pessoas que já tinham alguma prática de Saúde Mental na Atenção Básica com Coordenadores Municipais de Saúde Mental. examinando ainda seus atores constitutivos. p. 2001. 2001. ora de vizinhos” (PITTA. (Cf. Paula Cerqueira. a fractalidade. Foi. temos uma interessante incursão de Ana Pitta. profissionais e professores que pensam a rede de assistência e um convidado estrangeiro. está dito que não podemos trabalhar com os conceitos rígidos de hierarquia de serviços e sim com o acompanhamento dos acontecimentos ditados por “[. A heterogeneidade zela pelas conexões múltiplas. na ocasião. a vizinhança e a multicentralidade. na sua palestra. a Coordenadora Estadual de Saúde Mental. 20). com suas raízes e influências observa-se que um tecido rizomático os organiza (PITTA. ora de profissionais. uma oportunidade para aproximar as duas importantes instâncias para o desenvolvimento da Saúde Mental no PSF: o Pólo de Capacitação do PSF e a Assessoria de Saúde Mental da SES-RJ. p. a heterogeneidade. também. uma iniciativa do Pólo de Capacitação em Saúde da Família do Estado do Rio de Janeiro. reforçadas todas as diretrizes dos últimos textos e documentos nacionais e de orientação da OMS. Foram. 20). a “I Oficina de Capacitação de Supervisores em Saúde Mental para o Programa de Saúde da Família”. A metamorfose faz da Rede um instrumento em constante mutação.166 Em 15 e 16 de abril de 2002...] estabilidade temporária será sempre fruto de algum pacto ou negociação coletiva” (PITTA. 2001). profissionais ligados à Atenção Básica... 20). plurais. A multicentralidade indica que os .] percursos ou atalhos regidos pela topologia e conhecimento ora de usuários. reafirmou que os conceitos de território e rede são capitais para o trabalho da Saúde Mental na Atenção Básica. Em “vizinhanças”. com a intenção de estimular as ações de Saúde Mental na Atenção Básica. RJ. adaptando-se às tarefas e onde a “[. p. e. com a coordenação de Sandra Fortes e a colaboração da Assessoria de Saúde Mental da Secretaria de Estado de Saúde do Estado do Rio de Janeiro (SES-RJ). que faz uma correlação entre Rede e teia. resumidos acima.

mobilizados “[. não há motivos para recuar. efetivamente. em troca desse controle.] na crise do hospital como meio de confinamento. A Assessoria de Saúde Mental da SES-RJ me convidou para apresentar.. p. 224). numerosos demais para o confinamento: o controle não só terá que enfrentar a dissipação das fronteiras. para a sociedade de controle. 1992.] na dependência da importância que cada qual assuma na resolução de um problema” (PITTA... Diz ele: [. de 1990. A advertência que encerra a citação acima refere-se ao que Gilles Deleuze diz em seu artigo “Post-Scriptum sobre as sociedades de controle”. onde o domínio era exercido por instituições fechadas (prisões. o atendimento a domicílio puderam marcar de início novas liberdades. 2002). p... p. Devemos estar atentos. 20). faço uma avaliação das experiências que tive nos municípios de Quissamã e Carapebus. mas buscar novas armas (DELEUZE. Não cabe temer ou esperar. com os conhecimentos próprios das comunidades a respeito do sofrimento mental. para o imenso mecanismo de controle que estamos levando aos capilares da sociedade. estaremos apenas cumprindo o triste destino apontado por Deleuze. 1992. por outro lado. e que [. p. para Deleuze. não desenvolvermos ações que estimulem a cidadania e a participação. 224). a setorização. na Oficina de Itaipava. mas também passaram a integrar mecanismos de controle que rivalizam com os mais duros confinamentos. mas também a explosão do gueto e favelas (DELEUZE. de espraiar os tentáculos do Hospício por toda parte. atual. os hospitais-dia. 2).. pobres demais para a dívida. principalmente. PINTO. como uma espécie de declaração de princípios. em que examina a passagem da sociedade disciplinar.] o capitalismo manteve como constante a extrema miséria de três quartos da humanidade. 224). hospícios). Se.167 centros organizadores das ações são provisórios. Podemos. onde o domínio é desempenhado pela mídia. Nele. Deleuze diz que “O marketing é agora o instrumento de controle social” (DELEUZE. o que motivou a redação do trabalho “A Abordagem aos Transtornos Mentais na Atenção Básica” (Cf. 2002. o tema “Transtornos mentais na atenção básica”. 2001. No trabalho que apresentei em Itaipava. suas determinações e soluções. 1992. questionando-os. numa mesa redonda. p. para chegar ao que então estava sendo iniciado em . Mas. (PINTO. trocar os conhecimentos que temos. digo que As ações de saúde mental na atenção básica podem representar uma mudança qualitativa no modo como tratamos os atualmente chamados transtornos mentais graves e como a comunidade vê o que está enclausurado no conceito de doença mental.

devem ser objeto de aprofundada elaboração. agora. dessa forma. 2002). quando estamos em vias de avançar na introdução das ações de saúde mental na atenção básica. com demanda crescente e que não permitem ao profissional mudar de prática. (PINTO. o trabalho apresentado resume as recomendações da Oficina de Brasília 2001. Esses dois fatores. em parte fruto da manutenção interna do papel profissional. dando um novo aspecto à presença dos pacientes no Hospital Geral. Por “demanda ambulatorial tradicional” compreenda-se ambulatórios cheios. teve grande avanço a abordagem aos transtornos mentais graves depois da capacitação constante e em serviço dos ACS e das Equipes de PSF. discutir algo a respeito das dificuldades para a entrada mais rápida da Saúde Mental na Atenção Básica e sugeri que O passo para o trabalho direto nas comunidades ainda não havia sido dado. de ambulatório de especialidades. em decorrência de avaliação posterior à Oficina de Brasília de 2001. que necessitavam de idas ao Pronto Socorro. 2001) e das compreensões e discussões que se deram nesses últimos dois anos. chamei a atenção para as limitações que tem o tipo de trabalho de supervisão com manutenção da referência para o ambulatório.168 Macaé. Destaco dois aspectos na avaliação das experiências de Carapebus e de Quissamã. saindo do isolamento. as Equipes de PSF passaram a ajudar nos tratamentos e as situações de crises. estamos nos referindo a limitações externas ou à falta de clareza e de vontade política nossa mesmo? Para uma efetiva entrada da Saúde Mental na Atenção Básica. que não quer ver questionado seu papel profissional e sua formação? E quando achamos que não há possibilidades de entrar mais determinadamente na Atenção Básica. O número de internações psiquiátricas caiu a quase zero. 2002). anunciando o que estava sendo . Mas. Mas os questionamentos são necessários: será que o problema não está no próprio profissional. mas sim melhorando o modelo existente. pressão da demanda ambulatorial tradicional e manutenção de papéis profissionais. Não estaríamos. no caminho de uma efetiva mudança do modelo assistencial. (Cf. apoiado por um trabalho na Atenção Básica. Em primeiro lugar. no caso. mas também na incidência das ações na mudança do modelo assistencial. eram acompanhadas pelos ACS. Tentei. em parte devido à pressão da demanda ambulatorial tradicional. p. (Cf. PINTO. PINTO. da publicação da OMS de 2001 (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. o tema da loucura e a forma de a sociedade vê-la passou a ser discutido. 2). no trabalho. A ênfase foi na abordagem aos transtornos mentais graves. os pacientes passaram a ter outra inserção na comunidade. 2002.

b. o Cadu.Intervenções familiares. formou-se o Grupo de Trabalho de Saúde Mental do Pólo de Capacitação/Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro. as famílias e a comunidade. além de Sandra Fortes e Luiz Fernando Chazam. em que o Grupo discutiu como os seus membros estavam praticando e compreendendo a Saúde Mental na Atenção Básica. No final de 2002. e com a instituição de internação (hospital psiquiátrico ou hospital geral). 7). (Cf. para o atendimento das situações de crise. (Cf. fomos dar as aulas. indiquei. e. f. PINTO. sempre em dupla e utilizando a Pedagogia da Problematização. depois. Atuação como Acompanhantes Terapêuticos.Articulação com os CAPS e os Serviços Residenciais Terapêuticos. professor da UERJ. (PINTO.Oficinas Terapêuticas Comunitárias. as cadeiras específicas nos cursos de formação . Confirmamos o quadro que já percebíamos em outras observações: os profissionais dos PSF não possuem quase nenhuma informação a respeito de Programas de Saúde Mental. i. que já tinham alguma forma de trabalho de Saúde Mental na Atenção Básica. O Grupo contou com a participação de profissionais de nove municípios. REFLEXÃO PEDAGÓGICA. na medida em que foi possível observar as vivências e expectativas de um grande número de profissionais de PSF.Ações contra a discriminação.169 implantado em Macaé: uma equipe de Saúde Mental exclusiva para a Atenção Básica. g. h. do PSF. 2000). d. alguns membros do nível central do PSF do Estado e de dois membros da Assessoria de Saúde Mental da SES-RJ que se dedicavam ao tema: Leila Vianna e Carlos Eduardo Honorato.Suporte constante entre Equipe de Saúde Mental e Equipe do PSF. A experiência de dar as aulas foi interessante. 2002). para a qual o Grupo teve capacitação. sob a coordenação de Sandra Fortes.Ações de promoção da saúde e de apoio social. p. de produzir uma proposta. naquele momento: a. de diversos municípios do Estado do Rio de Janeiro. c. com a finalidade inicial de dar aulas em cursos de Pós Graduação em Saúde da Família e. para promover a entrada da Saúde Mental na Atenção Básica nos municípios do Estado do Rio de Janeiro. Como instrumentos para uma atenção aos transtornos mentais graves na Atenção Básica.Atendimento nas crises.Contato estreito com o Pronto Socorro. Depois de algumas reuniões. 2002.Agentes Comunitários de Saúde como elementos de ligação entre as equipes de Saúde Mental.

não saber onde está internada Repetir receitas de benzodiazepínicos dá muito menos trabalho. a verdade precisa ser dita: é mais trabalho. formadas no modo organicista e participantes do imaginário geral da sociedade. .170 foram. Depois do final da tarefa de dar as aulas. Esses dados reforçam a nossa conduta em relação às capacitações em Saúde Mental na Atenção Básica de que temos participado: não há como negar que a entrada da Saúde Mental representa mais trabalho para as Equipes. bem como com a função do cuidado já tendo sido espalhada pelas Equipes e comunidade. dadas no modelo organicista. por si mesmas. talvez o detalhe mais importante. Notamos a sensação de esgotamento das Equipes. representando essa opinião o fato de que. percebemos que as Equipes não têm condições. para um trabalho de capacitação. O que podemos e devemos fazer é abrir espaço para discutir a carga de trabalho e as angústias decorrentes e apontar para a satisfação profissional que virá da nova prática. com um total de cerca de 30 municípios por grupo (o Estado do Rio de Janeiro tem 92 municípios). existe o medo de que a entrada da Saúde Mental represente mais um fardo no cansativo dia a dia do trabalho. das novas formas de trabalho em Equipe surgindo. Se lembrarmos o que foi dito na Oficina de Brasília 2001. de modo a estimular a entrada da Saúde Mental na Atenção Básica. de reverter os dispositivos de exclusão. dos resultados aparecendo. na sua quase totalidade. bem como a má disposição em relação às capacitações que. abrindo perspectivas que não se sabe em que resultarão. a carga de trabalho se amenize pelos efeitos que a correção dos procedimentos produz. após alguns meses. nas capacitações. que “o PSF convive com o modelo manicomial”. Até agora essa proposta não foi efetivada. Portanto. uma espécie de “cumpra-se”. do que questionar o porquê do uso. Perder essa pessoa de vista. as ações de Saúde Mental são revestidas de uma aura de mistério para esses profissionais e. que se desdobraria em outras reuniões. Podemos compreender que não dá maior trabalho chamar uma ambulância e mandar uma pessoa para o Pronto Socorro e daí para os hospícios. do ponto de vista das intenções de introduzir a Saúde Mental na Atenção Básica. É possível que. das ações de Saúde Mental implantadas. Os municípios enviariam os Coordenadores de PSF e de Saúde Mental. representam mais trabalho sem muita discussão. o Grupo de Trabalho produziu uma proposta de capacitação de Coordenadores Municipais de PSF e de Saúde Mental. Foi sugerida a divisão do Estado em três grupos de municípios. excludente. conduzido pelo Grupo de Trabalho. depois da capacitação adiantada. no seu trabalho diário. em geral. para avaliação do que estivesse sendo realizado nas práticas que surgissem.

desafios da formação de pessoal para o atendimento comunitário em saúde mental.171 Em agosto de 2003. a “Consolidação de consenso sobre diretrizes.] (MINISTÉRIO DA SAÚDE. cujos dirigentes apresentaram uma fala inicial. também de 2001. 2). desafios na integração das ações de saúde mental na atenção básica” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. p. p. 2). O evento foi organizado pelo Departamento de Ações Programáticas Estratégicas e pela Coordenação Geral de Saúde Mental. caps/rede ambulatorial? (MINISTÉRIO DA SAÚDE. 2003. 2003. no “Pré-congresso” do VII Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva – ABRASCO. promovido pelas áreas federais de Saúde Mental e de Atenção Básica. p.. Desse modo. que contou com a participação de 63 pessoas de vários Estados. bem como na relação saúde mental e violência urbana [. Esperava-se do encontro. 2003. realizou-se a “Oficina de Saúde Mental: Desafios da Integração com a Rede Básica”. reforçam as conclusões da Oficina de Brasília de 2001 e as orientações da OMS. O Objetivo da Oficina foi “Promover a discussão de questões que representam hoje. Um exemplo é o seguinte trecho: É fundamental a possibilidade de que a atenção básica exerça ação resolutiva no âmbito de suas ações que envolvem a saúde mental. 2)... do Ministério da Saúde.] questão do modelo de funcionamento da integração da área de saúde mental com o PSF. situando as questões do momento. modelo organizacional e clínico e ações específicas sobre saúde mental na atenção básica” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. 2). Os participantes da Oficina reafirmaram as diretrizes de todos os textos até aqui citados em relação à atuação da Saúde Mental na Atenção Básica. na sua ligação estreita com o território.. na assunção de responsabilidades entre a atenção básica. A Oficina em questão representa mais um avanço na integração. p. no que diz respeito à confluência de modos de ver a Assistência e a Promoção da Saúde. em Brasília. em Brasília. com ênfase na [. pois a . 2003. Foi solicitado a cada grupo de trabalho que se dedicassem a três questões: Qual o papel da atenção básica na atenção em saúde mental? Qual o desenho organizacional que possibilita a execução das ações/atividades de atenção à saúde mental na atenção básica de forma integrada? Qual as ações/atividades que devem ser desenvolvidas e as prioridades de atendimento.

do PSF para cada 9 equipes do PSF (de forma que esta esteja referenciada em um serviço Caps ou de referência de saúde mental). Consideremos: uma Equipe de PSF é responsável por uma população entre 600 e 1. O texto faz interessante paralelo entre os cuidados prestados nos dispositivos substitutivos da Saúde Mental e os proporcionados na Atenção Básica. A questão é: o que se quer e o que se planeja para as ações das Equipes de Saúde Mental? Se for para retornar à proposta de apenas supervisão. 2003).000 pessoas. à questão da relação entre o número de Equipes de Saúde Mental dedicadas à Atenção Básica e o de Equipes de PSF e também a ligação que essas Equipes de Saúde Mental têm com os serviços de referência da rede de Saúde Mental. . que a “[.. 6). há pertinência dos problemas apresentados com o campo da comunidade. Foi advertido. 2003. já que em diversos aspectos. Voltamos. mas não há especificação de quais seriam. p. que devem ter as mesmas características de “[.. serem abordados. Sabemos que a tendência é de os números de famílias adscritas nos Módulos de PSF serem próximos do limite superior e não do inferior.172 lógica da referência para o nível de maior complexidade não responde muitas vezes ao melhor cuidado.000 pessoas.. ou como apoio matricial. apoio técnico caracterizado como capacitação continuada (MINISTÉRIO DA SAÚDE. 2003. estes.. p. p. (Cf. A parte do relatório dedicada aos “Princípios e Ações de Saúde Mental no PSF” inicia com a recomendação de constituição [. (MINISTÉRIO DA SAÚDE. elaborar junto com a equipe planejamento coletivo das ações em saúde mental local. elaborar projetos de cuidado e intervenção social. que está sendo citada. Podendo ainda alguns técnicos destes serviços ambulatoriais de referência e dos Caps.] foco no território e no vínculo” (MINISTÉRIO DA SAÚDE.600 e 36. pode ser que a relação proposta pela Oficina. potencializados e olhados como o lugar e a esfera da realização do cuidado. p. Multiplicado por nove.. também mais uma vez. 2003. 3). MINISTÉRIO DA SAÚDE. de família e seus espaços de trocas sociais..000 famílias. Mais uma vez aparece o chamamento para a definição de indicadores de Saúde Mental na Atenção Básica. 2003. o que dá um total entre 2.] de uma equipe de Saúde mental de referência. estar compondo ações de supervisão as equipes do PSF na área de saúde mental.Visando a discutir e compartilhar casos. seja viável. temos entre 21.] efetiva implantação da rede de atenção” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. portanto. Que podem sim. 3). 4) é fundamental para o sucesso das ações de Saúde Mental na Atenção Básica.400 e 4.

Quanto à ligação que essas Equipes de Saúde Mental têm com os serviços de referência da rede de Saúde Mental. parece-me que a forma mais correta de situa-la é no Programa de Saúde Mental. organizada no Programa de Saúde Mental. diminuição . E. que indicam a presença na base.080 pessoas. Dos relatórios apresentados pelos Grupos de Trabalho. o número é excessivo. A criação de indicadores de Saúde Mental na Atenção Básica foi mais uma vez lembrada nesse encontro.] diminuição de prescrição de medicamentos. clínica ampliada. com ações de inserção social. a meu ver. cidadania. egressos dos NAPS e outros recursos ambulatoriais especializados” (MINISTÉRIO DA SAÚDE.. relaciona todas as ações já propostas na Oficina de Brasília 2001. diretamente. O que pode ser destacado dessa discussão é que o que importa é o CAPS como conceito. depois. com o destaque para a utilização de indicadores que já podem ser incorporados no trabalho diário: “[. grifos meus). a proporção inviabiliza a proposta. Do contrário. geração de renda. citarei apenas os itens que não repetem o que foi descrito a respeito da Oficina de Brasília 2001 e aqueles que são mais prioritários. CAPS enquanto conceito que envolve integralidade. articulação de condições de vida. Apenas esse número representa um total entre 648 e 1. na sua “Consolidação dos Trabalhos de Grupo”. Pelos cálculos da OMS e do Ministério da Saúde. 3% da população necessitam de cuidados constantes e prolongados em Saúde Mental. A articulação deve ser entre todos os serviços. CAPS ou outro dispositivo. p. Para apenas uma Equipe de Saúde Mental. continuidade de atenção. Estão nesses números apenas as pessoas chamadas de “pacientes graves”. não deixa explícita a opção pela presença dos profissionais de Saúde Mental diretamente na comunidade. inserção e articulação familiar e comunitária. condiciona-se a entrada da Saúde Mental na Atenção Básica e até mesmo a melhor organização da rede de assistência à existência de CAPS. este sim. 2003.”.173 mas se for para a Equipe de Saúde Mental atuar nas comunidades. e não apenas como estrutura física ou serviço. de acordo com o que observo na prática. vejamos.. em “Acompanhamento/Acolhimento de usuários egressos de internações psiquiátricas. que teriam que receber o tipo de assistência qualificada proposta. Tarefa difícil de ser realizada apenas pelas Equipes de PSF. 6. O Relatório que está sendo citado. considerando que muitas outras ações estão previstas e propostas. organizador do sistema e não o NAPS. como sempre assinala Domingos Sávio. mas fala em “Atuação e sensibilização para a escuta e compreensão da dinâmica familiar e das relações sociais envolvidas. Senão.

2003. p. p. VIANNA & HONORATO. 2003. Com essas afirmativas está. mais uma vez. sem nenhuma ênfase no social e no emocional: um enfoque curativo e sem incidência de promoção de cidadania. compreendemos o que resulta das formações da área de Saúde voltadas para o corpo. p. p. que as aludidas equipes dos CAPS não incorporam.]” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. e cerca de 12% dos municípios. Dos 72% de municípios que responderam ao questionário. Com mais freqüência temos as visitas domiciliares em conjunto e as capacitações. é a que fez um dos Grupos de Trabalho: “Hoje. para quantificar as ações de Saúde Mental na Atenção Básica em curso. articulação em rede e identificação de casos de transtornos mentais pelas equipes do PACS/PSF. reforçada a idéia de que a inserção do profissional de Saúde Mental na Atenção Básica não se esgota em Supervisões. os autores mostram os resultados de pesquisa feita com os 92 municípios do Estado. No trabalho. de acordo com informação . no XXI Congresso Brasileiro de Psiquiatria.. Podemos entender que essas “novas tecnologias”. mas em apenas em 46% deles as ações são regulares (cerca de 24 municípios). E por “equipe de PSF sem perfil ou qualificação mínimas”.174 de internação psiquiátrica. 8) e “[. são as que indicam o trabalho em rede e a assistência enquanto disparadora de movimentos sociais. caindo num movimento voltado apenas para as pessoas identificadas como pacientes e para dentro dos limites institucionais. em Goiânia. ir junto no domicílio etc)” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. supervisões regulares.. 10). diminuição de suicídios e homicídios [. 10). mas requer a participação junto à comunidade. Dez municípios têm reuniões regulares entre o Programa de Saúde Mental e o PSF. Em agosto de 2003. A questão do nível de participação dos profissionais de Saúde Mental na Atenção Básica foi discutida. Notese que não são os mesmos municípios que têm as mesmas ações.. e foi assinalado que deve ser sob a forma de “Suporte ‘in locus’ do especialista – ‘fazer junto’” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. com 16% e o acompanhamento medicamentoso pelo PSF. com 19%. Leila Vianna e Carlos Eduardo Honorato apresentaram. têm as seguintes ações: discussão de casos clínicos. Uma preocupante advertência.] apoio matricial as equipes de PSF (discutir e compartilhar casos. 2003). 2003. elaborar projetos. o trabalho “Integração entre os Programas de Saúde Mental e de Saúde da Família no Estado do Rio de Janeiro” (Cf. enfrentam-se 2 problemas que devem ser lembrados: equipe de CAPS não sensibilizada para novas tecnologias e equipe de PSF sem perfil ou qualificação mínimas” (MINISTÉRIO DA SAÚDE.. porque muito real. 80% declaram que têm alguma articulação com o PSF. 2003. que responderam. 8).

p. Portanto. Durante os anos de 2001 e 2002 a curva acentua o crescimento. 2003. o acesso aos equipamentos sociais distribuídos. No final do ano de 2003. p. conseqüentemente.. p. da mesma Secretaria. 2). aparece um significativo aumento durante o ano de 2000. 2003. p. Os autores prometem para breve mais dados. três em 1999.. citando o Ministério da Saúde.] o trabalho efetivo com as famílias em seu local de residência permite identificar diversas formas de sofrimento. O texto. de forma não equânime nos territórios (SES-RJ... p. É interessante observar a curva que mostra a época de início das ações de Saúde Mental na Atenção Básica nos municípios pesquisados.] mudança do modelo assistencial em saúde mental” (SES-RJ. de responsabilidade da Assessoria de Saúde Mental da Secretaria de Estado de Saúde do Estado do Rio de Janeiro e da Coordenação Estadual do Programa Saúde da Família e Agentes Comunitários de Saúde..] rede de serviços territoriais de atenção psicossocial” (SES-RJ. Ressaltando a importância do acesso à atenção à Saúde Mental.. sendo as duas últimas em Macaé.] a proposta de estruturação de uma ação conjunta do Programa de Saúde Mental e do Programa de Saúde da Família mostra-se estratégica para ambos os Programas” (SES-RJ. 2). já que continuam a linha de pesquisa.. dificultada muitas vezes por falta de percepção do problema pelo meio ou por falta de informação e recursos para procurar tratamento fora da comunidade. 2). O texto afirma que o Programa de Saúde Mental Defende igualmente que aqueles que são chamados a cuidar devam preencher as redes e relações produzindo atos de saúde que multipliquem a vida e..175 dos autores. lembra a diretriz de “[. 2003. foi lançada a “Carta de Princípios das Ações de Saúde Mental na Atenção Básica”. Partindo de cerca de dois antes de 1999. 2). 2003. a Carta de Princípios ressalta que [. a Organização Pan-americana da Saúde (OPAS) e a OMS. 1) e a afirmação dos conceitos de base para o tema: território e rede.] semelhanças de diretrizes na condução dos dois programas” (SES-RJ. O texto tem início com a lembrança das “[. 2003. de desassistência. 2003. 1). Oficinas Terapêuticas e Terapia Comunitária aparecem em 1% dos municípios. subindo um pouco menos pronunciadamente do meio de 2002 até o meio de 2003. O texto lembra que de 80 a 85% da demanda de saúde de uma comunidade podem ter resolubilidade na Atenção Básica. p. de processos que podem transformar as diferenças em desigualdade e exclusão (SES-RJ.. muitas vezes. que se dará com a construção da “[.. Pesquisa. . quando quinze municípios tomaram a iniciativa. sendo de Saúde Mental grande parte dessa demanda. diz o texto: “[.

a Carta recomenda a capacitação das Equipes de Saúde da Família.. 3). a inclusão da Saúde Mental no Treinamento Introdutório das Equipes de PSF e a realização de “[. 3). dentro dos Objetivos Específicos. p.] possibilitando a criação de indicadores de acesso e impacto bem como o acompanhamento e monitoramento das ações em curso” (SES-RJ. a Carta indica a capacitação das Equipes de PSF na atenção à Saúde Mental. limitando-se a sugerir a integração entre os Programas Municipais de Saúde Mental e de Saúde da Família. (Cf. a rua. SES-RJ.. SES-RJ. 2003). (Cf. além dos transtornos mentais mais graves.] espaços tradicionalmente reconhecidos como lugares de atendimento: além do consultório e sala de procedimentos. SES-RJ. 2). o bairro. “[. 2003. Mais uma vez é sugerido. que o Sistema de Informação em Saúde Mental se articule com o Sistema de Informação da Atenção Básica (SIAB). o domicílio. A Carta sugere a ampliação dos “[. Como meio de chegar a esses Objetivos... na forma de mútuo aprendizado. (Cf..] oficinas regionais de acompanhamento e avaliação da integração dos Programas de Saúde Mental e Saúde da Família” (SES-RJ. etc. p. a definição do fluxo de pacientes. p. dos encaminhamentos.176 O texto da Carta destaca que. 2003. (Cf. p.]” (SES-RJ. a reversão dos especialismos. 2003). 2003. 2003).] o desenho das ações de saúde mental na atenção básica dos 92 municípios do Estado do Rio de Janeiro” (SES-RJ. para “[. 3).] integração das políticas de Saúde Mental e de Saúde da Família no âmbito do Estado do Rio de Janeiro” (SES-RJ. Um importante pronunciamento é o que diz que “É fundamental que o(s) profissional(is) de Saúde Mental que atua(m) no PSF esteja(m) ligado(s) ao Programa Municipal de Saúde Mental” (SES-RJ. 2003... a ação da Saúde Mental para além da remissão dos sintomas. as tentativas de suicídio. p. Como estratégias. afirmando o papel da SESRJ na “[. 3). . os “distúrbios nurovegetativos”. 2003. A Carta tem como objetivos “Estabelecer o conjunto de princípios e diretrizes [. p.” (SES-RJ. 3). Esta integração deve se dar com o conhecimento mútuo. SES-RJ. 2003). a Carta reafirma a orientação de mudança do modelo hospitalocêntrico. a violência. 2003. a escola. 2003. o estabelecimento de contato entre os Programas.. A Carta não entra na questão da inserção de Equipes de Saúde Mental na comunidade.. 2). existem as diversas formas de sofrimento mental que têm na Atenção Básica seu primeiro recurso de atendimento: as ansiedades.. p... Dentro dos Objetivos Específicos.

p. Inclusão das Ações de Saúde Mental na Atenção Básica”. entre outros”. O documento reafirma que “Os CAPS.. 2003 b. as residências terapêuticas. Outro motivo que o texto apresenta para a articulação da Saúde Mental com a Atenção Básica é o fato de que “[... através da Coordenação de Gestão da Atenção Básica e da agora chamada Coordenação Geral de Saúde Mental. os centros de convivência. são considerados dispositivos estratégicos para a organização da rede de atenção em saúde mental” (MINISTÉRIO DA SAÚDE.. Diríamos que falta capacitação às Equipes de PSF para a melhor compreensão da Saúde Mental e falta capacitação às Equipes de Saúde Mental para melhor compreensão do que é a Atenção Básica e sua potencialidade em relação à Saúde Mental. . Estão incluídos nesta rede: a atenção básica. os clubes de lazer. 2. 2003 b. O Vínculo e o Diálogo Necessários. mas com a observação de que “Deve ser um serviço que resgate as potencialidades dos recursos comunitários à sua volta. 2003 b.). dentro da atual política de saúde mental do MS. 2003 b. O documento define que “[. 2003 b. e que toda saúde mental é também – e sempre – produção de saúde” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. 3)... p. os ambulatórios. (Cf. p. Ao lado de lembrar que 3% da população necessitam de cuidados contínuos em saude mental. o texto diz que “[. 2003 b. Argumentado com a complexidade que representa “[. 2003 b. o texto diz que muitas situações de transtornos mentais menos graves já estão sendo atendidos na atenção básica.177 Em novembro de 2003. p.. p 3). 3). concluindo que “Por sua proximidade com famílias e comunidades.] a atenção em saúde mental deve ser feita dentro de uma rede de cuidados. p 3). as equipes da atenção básica são um recurso estratégico para o enfrentamento de agravos vinculados ao uso abusivo de álcool. p. O texto começa por situar a estratégia Saúde da Família e os novos dispositivos substitutivos em Saúde Mental como avanços na política do SUS nos últimos anos. 2003 b.. lançou o texto “Saúde Mental e Atenção Básica. visto que diagnosticados de portadores de transtornos mentais graves. pois todos esses recursos devem ser incluídos nos cuidados em saúde mental” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. MINISTÉRIO DA SAÚDE. (Cf. grifo do texto original).] atender pessoas com problemas de saúde mental” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. drogas e diversas formas de sofrimento psíquico” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. o Ministério da Saúde. 2). (MINISTÉRIO DA SAÚDE. 2003 b.). 2).] a falta de recursos de pessoal e a falta de capacitação acabam por prejudicar o desenvolvimento de uma ação integral pelas equipes” (MINISTÉRIO DA SAÚDE.] todo problema de saúde é também – e sempre – mental. MINISTÉRIO DA SAÚDE.

2003 b. já que vinda do Ministério da Saúde. em 2002. p. Ressaltando que as ações de Saúde Mental na Atenção Básica “[. nas políticas de expansão. o documento toma por base a Oficina de Brasília de 2001. Aqui. a OPAS..] urge estimular ativamente. que reforça os documentos já produzidos: “[. e a “Oficina de Saúde Mental no VII Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva”. aparece uma importante definição do Ministério da Saúde: os profissionais . Esse compartilhamento se produz em forma de co-reponsabilização pelos casos. 2003 b.178 O texto traz uma declaração importante. dentro da nossa questão a respeito da inserção do profissional de Saúde Mental na comunidade. o que ajuda a fornecer uma base para a capacitação das Equipes: Noção de território Organização da atenção à saúde mental em rede Intersetorialidade Reabilitação psicossocial Multiprofissionalidade/interdisciplinaridade Desinstitucionalização Promoção da cidadania dos usuários Construção da autonomia possível de usuários e familiares. Para produzir as suas diretrizes. 2003 b. formulação e avaliação da atenção básica. a Universidade Federal do Rio de Janeiro e a Universidade de Harvard. p. 2003 b. as equipes da atenção básica responsáveis pelas famílias de um dado território). p. p. O documento tem início com a definição do “Apoio Matricial da Saúde Mental às Equipes da Atenção Básica”: O apoio matricial constitui um arranjo organizacional que visa a outorgar suporte técnico em áreas específicas às equipes responsáveis pelo desenvolvimento de ações básicas de saúde para a população. 3). (MINISTÉRIO DA SAÚDE. o documento sintetiza esses princípios fundamentais.. 4). o “Seminário Internacional sobre Saúde Mental na Atenção Básica”. 2003 b. MINISTÉRIO DA SAÚDE. compartilha alguns casos com a equipe de saúde local (no caso. p 3). 3).. diretrizes que incluam a dimensão subjetiva dos usuários e os problemas mais graves de saúde mental” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. que pode se efetivar através de discussões conjuntas de caso. (Cf. intervenções conjuntas junto às famílias e comunidade ou em atendimentos conjuntos (MINISTÉRIO DA SAÚDE..] devem estar fundamentadas nos princípios de SUS e nos princípios da Reforma Psiquiátrica” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. a equipe por ele responsável. 4). Nesse arranjo. realizado por parceria entre o Ministério da Saúde.

Imaginemos uma Equipe de PSF sem capacitação em Saúde Mental e trabalhando na lógica manicomial. com os princípios do SUS e da Reforma Psiquiátrica e com a tentativa de dotar a área de Saúde de ações que integrem os aspectos biológicos. Assim. com uma importante orientação vinda do MS. Excluindo a lógica dos encaminhamentos e apontando para a resolução das situações de Saúde Mental. estão presentes nas Equipes e nas ações na comunidade. pois visa a aumentar a capacidade resolutiva de problemas de saúde pela equipe local. fica a orientação do MS como um indicativo do caminho a seguir. também estimula a interdisciplinaridade e a ampliação da clínica na equipe. no momento. Não há abordagem especial a transtornos mentais graves. na análise singular de cada caso. A ampliação da clínica significa o resgate e a valorização de outras dimensões. emocionais e sociais. Mas. Chega. riscos como os sociais e outros se incorporam à avaliação clínica (MINISTÉRIO DA SAÚDE. em número crescente. Equipe que estará presente no território. até que a Equipe local de PSF absorva todas as ações necessárias à atenção em Saúde Mental. o texto recomenda: . muitas vezes deixando de realizar ações comunitárias devido à sobrecarga de trabalho. O texto aponta possibilidade de.179 responsáveis pela capacitação e supervisão. A orientação do MS é interessante. Assim. Mas a questão da inserção do profissional de Saúde Mental persiste. na própria comunidade. ao longo do tempo e gradativamente. p. que não somente a biológica e a dos sintomas. No item “Como Organizar as Ações de Apoio Matricial”. 4). então. Orientação coerente com a mudança do modelo assistencial. responsabilização compartilhada. essa presença ir tornando-se desnecessária: A responsabilização compartilhada dos casos exclui a lógica do encaminhamento. 2003 b. não há prioridade a respeito das pessoas em risco psicossocial e as situações de maior gravidade são atendidas pelo que está estabelecido tradicionalmente no município. talvez só com mudanças ainda não vislumbradas na estrutura do PSF poderá a Equipe de Saúde Mental sair do território. a Equipe de Saúde Mental para o Apoio Matricial. aos poucos. Trata-se de Equipes em geral esgotadas na sua capacidade de atendimento. demonstração. Com o número de famílias a serem atendidas. isto é. estão criados a base e o caminho para a mudança do Modelo Assistencial. desta vez. às cobranças de números ou à deficiência na supervisão. base mesmo para o Apoio Matricial. definida como Apoio Matricial. não vejo como viável a absorção de todas as ações de Saúde Mental pela Equipe de PSF. Esta é a realidade que temos constatado. presença essa que serve de exemplo. mas.

precisamos estar organizados. etc. O que propomos é a constituição de Equipes de Saúde Mental exclusivas para a atuação na Atenção Básica. 4). de carência absoluta de mão de obra de profissionais de Saúde Mental. por exemplo. que só com o trabalho comunitário podem ser descobertas. é imenso. Também aqui. a orientação é trabalhar na . para 2004. que a orientação acima deixa transparecer. A Coordenação de Saúde Mental do MS não recomenda CAPS para municípios de menos de 20 habitantes. inclusive os intersetoriais. p. Pela orientação do MS. E não estamos num daqueles cenários descritos pela OMS. em grande número no país. capacitando e supervisionando Equipes de PSF igualmente sobrecarregadas. o texto propõe a Criação de equipes de apoio matricial compostas. por um médico psiquiatra (ou generalista com capacitação em saúde mental). como um dos “desafios”: “Aumentar recursos do orçamento anual do SUS para a Saúde Mental” (MINISTÉRIO DA SAÚDE e). 4). assistente social. E a quantidade de pessoas desassistidas. para no mínimo 6 e no máximo 9 equipes de PSF ou para grupos populacionais entre 15 a 10 mil habitantes (MINISTÉRIO DA SAÚDE. 2003 b. a orientação do MS é coerente quanto aos princípios e diretrizes da Reforma Psiquiátrica e das Portarias.) e auxiliares de enfermagem. Para suprir a aparente escassez de recursos humanos. Para locais onde não existem serviços de Saúde Mental em número suficiente para fornecer o Apoio Matricial. Oficinas e/ou outros equipamentos de Saúde Mental: os diversos membros dessas equipes de saúde mental farão o apoio matricial às diferentes equipes da atenção básica. Sabemos que as Equipes dos CAPS estão sobrecarregadas. sendo o investimento principal o de recursos humanos.180 Onde houver Caps. à Saúde em geral e a todos os recursos da comunidade. a 336. Pelo contrario. Além disso. terapeuta ocupacional. p. para que se obtenha o que está na proposta da Coordenação de Saúde Mental do MS. programando sua carga horária para encontros semanais. Para estes. bem como a toda a rede de assistência à Saúde Mental. dois técnicos de nível superior (psicólogo. é importante sinalizar para os municípios que é necessário investir em Saúde Mental. teríamos Equipes de Saúde Mental sobrecarregadas. 2003 b. o número de inscritos nos Concursos Públicos nos mostra a quantidade de profissionais à espera de trabalho. de acordo com o que consta da página da Internet do MS. no mínimo. Essas Equipes devem estar estreitamente ligadas aos CAPS. enfermeiro. e formas de contato para demandas inesperadas e intercorrências (MINISTÉRIO DA SAÚDE. mas está aquém da urgência que se apresenta.

” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. com o título “Formação como Estratégia Prioritária para a Inclusão da Saúde Mental na Atenção Básica” (MINISTÉRIO DA SAÚDE.] estão se constituindo com representantes de SMS. 6). (Cf. Mobilização de recursos comunitários. Não fica claro. etc. Desenvolver estratégia de redução de danos no consumo de álcool e outras drogas. egressos de hospitais psiquiátricos. resumidamente: ações conjuntas priorizando casos de transtornos mentais graves. O documento reconhece que Os pólos de Saúde da Família. discutindo propostas conjuntas (MINISTÉRIO DA SAÚDE. 5). 2003 b. quando da exposição da Oficina de Brasília 2001 e da Oficina de Saúde Mental no VII Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva.. 2003 b. A lista de ações dá a dimensão da enorme tarefa que as Equipes tem diante de si. o que é “atendimento específico”. Segundo o texto. Ações contra o preconceito e a segregação da loucura.. No penúltimo capítulo do texto. Trabalhar o vínculo com as famílias e articular redes de apoio. p. 5). por meio dos Pólos de Educação Permanente em Saúde. atendimento em conjunto e atendimento específico. da parte da Coordenação de Saúde Mental (do MS). 2003 b). haverá. vemos uma declaração de princípios que resume o que já foi dito: “As equipes de saúde mental de apoio à atenção básica incorporam ações de supervisão. 6). pacientes de CAPS.. esses pólos deverão se adequar às novas diretrizes da Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde.181 lógica de Apoio Matricial descrita na última citação. porém. p. MINISTÉRIO DA SAÚDE. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Reverter a medicalização. o documento reafirma as ações a serem desenvolvidas em conjunto pelas Equipes e que já foram descritas anteriormente. de forma desarticulada. bem como os pólos de saúde mental. 2003 b. Na atual gestão. (Cf. 5). de uso abusivo de álcool e outras drogas. p. 2003 b. Além das ações acima. alem de participar das iniciativas de capacitação” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. De acordo . a implantação de “[.. No capítulo “Responsabilidades Compartilhadas entre as Equipes Matriciais de Saúde Mental e da Atenção Básica”. Discussão de casos que envolvam o aspecto emocional. porém. unidades acadêmicas envolvidas. 2003 b. 2003 b). SES.] Núcleos Regionais de Capacitação e Produção de Conhecimento no interior dos Pólos de Educação Permanente em Saúde” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. p. Núcleos esses que “[. tentativas de suicídio e vítimas de violência doméstica. p. Desenvolver práticas grupais e coletivas. já vinham desenvolvendo capacitações específicas em suas áreas. o Ministério da Saúde traz recomendações para a formação de pessoal. São elas.

2003 b. p 6). as diretrizes em nível nacional para a Saúde Mental na Atenção Básica. o texto indica que estão propostos indicadores que retratam percentuais de pessoas acompanhadas pela rede básica que tenham problemas com álcool e . 6). 2003 b. 2003 b. problema e responsabilidade sanitária [. O que dá maior importância ao texto citado é que. e das parcerias entre gestores locais e estaduais (MINISTÉRIO DA SAÚDE. A Formação que o MS se propõe a proporcionar consta de cursos a serem oferecidos ao pessoal da rede básica. discutindo casos e textos junto às equipes da atenção básica (MINISTÉRIO DA SAÚDE. existe a proposta de financiamento da capacitação. 2003 b. 2003 b.. desta vez. de recursos específicos da Coordenação Geral de Saúde Mental. O último capítulo do texto trata da “Inclusão da Saúde Mental no Sistema de Informações da Atenção Básica” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. Quanto à incorporação de indicadores da Saúde Mental nos Sistemas de Informação da Atenção Básica. de indicadores de monitoramento baseados no conceito de território. p.182 com o texto. p. que está sendo descrita.] recursos do Projeto de Apoio à Expansão do Programa de Saúde da Família (PROESF). esses são “[.] instrumentos de apoio/cooperação para os municípios que estiverem realizando ações de saúde mental na atenção básica no sentido de qualificar a rede e o cuidado.. Para concluir o capítulo sobre Formação. e “[. 6). pois essas podem trabalhar na linha da formação continuada e em serviço. 6). e de repensar as estratégias de formação” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. 6). p. Estão lançadas. portanto. também englobe os municípios que querem investir na Saúde Mental na Atenção Básica e mesmo uma divulgação ampla do que já é possível realizar. 6). p. O documento diz que o financiamento da Formação/Capacitação proposta terá as seguintes fontes: [... mais uma vez.. a estratégia de capacitação a ser desenvolvida pelos núcleos se entrelaça com a da implantação das equipes de apoio matricial. uma importante observação: Visando ao estímulo para a formação permanente e não somente para capacitações pontuais.] suporte e orientação técnica aos núcleos em formação e aos gestores locais” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. anunciando que “Está em discussão a introdução. no SIAB.. p. Devemos supor que a determinação de apoio para a Formação. de recursos da Secretaria de Gestão do Trabalho e de Educação na Saúde (SEGTES) para os Pólos de Educação Permanente em Saúde.]” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. com divisão de tarefas entre as três instâncias de gestão do SUS. 2003 b...

Abordagem de pessoas com diagnósticos de transtornos mentais graves. coube-me expor o que está sendo praticado em Macaé. a mudança do tipo de prática que o profissional de Saúde Mental está sendo instigado a fazer.183 outras drogas. Débora Oliveira B. a respeito da “Integração entre os Programas de Saúde Mental e de Saúde da Família no Estado do Rio de Janeiro”. Os temas foram: Infraestrutura e realidade no trabalho dos profissionais de Saúde Mental na Atenção Básica. nos seus momentos finais.. Expansão e Capacitação de novos profissionais. Em julho de 2004. Mas uma reportagem onde o repórter está em ação no campo reportado. nas tarefas de continuar a estruturar a entrada da Saúde Mental na Atenção Básica nos Municípios do Estado do Rio de Janeiro. sugeridos indicadores que revelem o “Número de pessoas que utilizam benzodiazepínicos atendidas pela rede básica [. 2003). fui convidado para colaborar. com a saída de Leila Vianna da Assessoria de Saúde Mental da SES-RJ. Psiquiatra. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Supervisora. detalhes das capacitações. prossigamos. número de pessoas com transtornos mentais graves. a Assessoria de Saúde Mental da SES-RJ promoveu. Oficinas Terapêuticas na Atenção Básica e no CAPS (discussão com a presença de um Terapeuta Ocupacional do CAPS). Em julho de 2004. tendo em vista a dinâmica dos acontecimentos. Assim sendo. (Cf. a Equipe de Saúde Mental na Atenção Básica de Macaé realizou seu Primeiro Fórum Interno de Saúde Mental na Atenção Básica. A redação desta monografia. junto a Carlos Eduardo Honorato. Jeovani e Maria do . na referida Assessoria. e um exemplo de ação da Equipe em torno de uma pessoa com diagnóstico de transtorno mental grave. p 6). ainda. Nos debates. Em abril de 2004.]” e o “Percentual de pessoas com tentativa de suicídio acompanhadas pela rede básica” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. percentual de pessoas egressas de internações psiquiátricas e prevalência das epilepsias. Estão. VIANNA & HONORATO.. Neste momento a Equipe de Saúde Mental na Atenção Básica estava composta por: Naly Soares de Almeida. uma apresentação do já citado trabalho de Leila Vianna e Carlos Eduardo Honorato (Cf. numa das suas reuniões bimensais com os Coordenadores Municipais de Saúde Mental. 2003 b. Visita Domiciliar e Interconsulta: quando fazer?. 2003 b). toma o aspecto de uma reportagem. Logo após a esta apresentação. como forma de estimular a que os Coordenadores Municipais insiram ações de Saúde Mental na Atenção Básica. a diversidade de práticas da Equipe. a rapidez dos resultados das ações implantadas. com uma introdução teórica. foram explorados os temas de integração Saúde Mental na Atenção Básica com os CAPS.

foram compreendidas como resultantes do fenômeno da exclusão. mesmo que momentaneamente. em certo sentido. A discussão do tema “Infraestrutura” não se prendeu apenas a detalhes do registro dos procedimentos da necessidade de transporte e de material de consumo. Recentemente. Foi avaliado o andamento do trabalho numa região de serra do município (Sana). Psiquiatra. Psicóloga. de modo mais ou menos sutil. a cargo da Supervisora da Equipe de Saúde Mental. No Fórum. Desta última podem beneficiar-se pessoas cujo comprometimento mental é grave e que a rede de suporte social e familiar não é suficiente nem para conduzi-lo ao CAPS. às vezes. Ficamos. até o outro extremo. Mas. A paciência foi a principal virtude apontada para a compreensão das necessidades das Equipes da Atenção Básica. As demandas da população são. situação em que parece que não há nada a ser realizado em termos de Saúde Mental. variando de uma atitude de negação da presença dos profissionais de Saúde Mental. mas entrou no assunto da infraestrutura pessoal necessária para o trabalho com as comunidades. citadas acima. nessa discussão. que foi detectado no Fórum. Regina Helena Monerat. onde toda a tarefa da assistência à Saúde Mental tende a ser “empurrada” para a Equipe de Saúde Mental. visto que são mais claras e o pedido de ajuda mais evidente. afastada do centro. e não antes. começou a trabalhar na localidade a Terapeuta Ocupacional . para situações de carência de um suporte institucional mais estabelecido. Está claro para todos os membros da Equipe. com a ajuda da Equipe. e como tal deve ser trabalhado. Terapeutas Ocupacionais. ou em casos em que a rede de apoio social ainda não foi possível de ser tecida. O diálogo entre CAPS Básica prosseguirá. O sentimento dos profissionais de Saúde Mental. Assistente Social e Stephan Malta Oliveira. onde a entrada da Saúde Mental se deu. nas suas reuniões. com uma Supervisão de Equipe semanal e uma Terapia Comunitária quinzenal. foi o de solidão. ajuda a que cada membro não se deixe identificar com o papel de excluído. As reações das Equipes da Atenção Básica. despertado pelas formas diversas com que são recebidos. com a criação de mecanismos de integração. foram estabelecidas comparações entre as Oficinas Terapêuticas realizadas no CAPS e na Atenção Básica. com a advertência de que as Oficinas Terapêuticas nas comunidades devem ser estabelecidas dentro da evolução do trabalho geral da Saúde Mental. a essa altura. mais fáceis de atender. os pedidos das Equipes são mais complexos. O CAPS seria mais atrativo.184 Carmo Húbner Stróglio. então. podendo. inicialmente. que são duas as demandas que as Equipes de Saúde Mental na Atenção Básica tem que atender: as da população e as das Equipes de PACS e PSF. Rosemary Gonçalves de Souza. trabalhar a situação junto às Equipes da Atenção Básica. Elaborar esse sentimento.

Foi decidido tornar a Visita Domiciliar mais “precisa”. situações de adiamentos e impedimentos. Foi decidida uma reunião que terá como participantes os médicos de áreas onde já esteja em atuação a Equipe de Saúde Mental. casos de abordagem a pessoas com transtornos mentais graves.185 Maria do Carmo. Em todas as situações estudadas. muitas vezes sendo realizada apenas visando os sintomas. junto com ACS. do alcance das ações. Uma Equipe completa entrará em dois Módulos de PSF. na medida em que discute-se previamente com mais intensidade os seus motivos e a história do que está sendo abordado e. as pessoas não estavam em tratamento regular e tinham histórias de longo curso do problema e/ou de diversas internações psiquiátricas. A Interconsulta ainda não está completamente absorvida no dia a dia do profissional dos módulos. também. estudo de textos.. A discussão a respeito de Visitas Domiciliares e Interconsulta levou a algumas conclusões: a Visita Domiciliar é pouco discutida no PSF. cria-se um campo mais efetivo de capacitação e de conclusões para as ações. Foram discutidos. Depois das primeiras Visitas. para que a Equipe de Saúde Mental atuasse com mais determinação. portanto. familiar e social. isto é. feita pela Coordenadora do PSF. a Supervisora. O tema já foi assunto de capacitação da Saúde Mental e deve voltar a ser mais discutido. através de Concurso Público. que iniciou sua atuação oferecendo-se para Visitas Domiciliares. que surgiu do trabalho do Módulo do PSF com a Saúde Mental. mais importante. de individualização do atendimento (cada caso é um caso. para situações de pedido de intervenção à Saúde. Quanto à Capacitação dos novos profissionais de nível superior que estão para serem integrados à Equipe de Saúde Mental na Atenção Básica. a comunidade mobilizou-se e surgiram solicitações para atendimento de pessoas graves.) e máxima expansão. notando-se alguns bons resultados e. está em atuação regular uma Reunião de Saúde Comunitária. Um fato que considero como um dos resultados mais positivos do trabalho implantado em Macaé foi a solicitação. . alguns acamados. sem tratamento. isto é. outros com diagnóstico de psicose. decide-se que passarão por observação do trabalho que está sendo realizado.. que partem da Escola. depois da Visita. As abordagens seguem a forma de trabalhar já descrita. no Fórum. que fosse mais adiante. Nesta localidade. inicialmente. com as ações de Capacitação. na ajuda às Equipes dos Módulos de PSF na resolução de seus conflitos internos e na ajuda para que essas Equipes realizem trabalhos comunitários. o Psiquiatra e o autor dessa monografia. Visita Domiciliar e Interconsulta. alguns confinados em casa.

sob a denominação de “Integração dos Programas de Saúde Mental e Saúde da Família no Estado do Rio de Janeiro”. foi um ponto marcante nos debates. a Odontologia. o Centro de Estudos do Instituto Municipal Philippe Pinel. Na ocasião. A representante do Ministério da Saúde informou. O tema da violência nas comunidades. foram reafirmadas as necessidades de integração entre a Saúde Mental e os Programas de Atenção Básica. que está em fase final de aprovação a criação de “Núcleos de Saúde Integral”. Cristina Loyola. no Rio de Janeiro. promoveu um dia de debates a respeito da Saúde Mental na Atenção Básica. o “I Encontro Estadual de Integração das Ações de Saúde Mental na Atenção Básica”. já citada nesta monografia. o que ensejará a introdução de indicadores próprios da Saúde Mental. que terão a presença de supervisores das diversas áreas da Saúde que estão atuando no PSF. Maria do Socorro informou. da pesquisa realizada por Leila Vianna e Carlos Honorato. apesar da intenção de os Coordenadores Municipais de Saúde Mental . O Encontro foi dividido em duas partes: durante a manhã. Maria do Socorro Matos. A representante do Ministério da Saúde. e de Maria Amélia Alves. consultora de Saúde Mental do Departamento de Atenção Básica do MS. depois de questionada a respeito da demora do estímulo de financiamento para as ações de Saúde Mental na Atenção Básica. a Fisioterapia e a Saúde Mental. tivemos uma mesa redonda com a participação de Maria do Socorro Matos. como por exemplo. O evento teve a coordenação de Mário Barreira Campos. houve a apresentação de experiências de Saúde Mental na Atenção Básica de três municípios do Estado do Rio de Janeiro: Petrópolis. com apoio da Assessoria de Saúde Mental da SES-RJ. ressaltando a importância das ações coletivas para a abordagem dos problemas de Saúde Mental. no Rio de Janeiro. À tarde. Em 16 de setembro de 2004. tanto a violência doméstica quanto a urbana. que está em estudo a reformulação global do SIAB. com os palestrantes ressaltando a afinidade de conceitos entre as estratégias do PSF e da Reforma Psiquiátrica. A Coordenadora de Saúde Mental da SES-RJ. e sim para Supervisão. uma iniciativa da Coordenação Estadual do Programa Saúde da Família e Agentes Comunitários de Saúde. ressaltou que. reafirmou a necessidade estratégica das ações de Saúde Mental na Atenção Básica. aconteceu.186 Em 18 de agosto de 2004. Sandra Fortes e Marta Zappa. na sua fala. haverá estímulo financeiro. Para esses Núcleos. que atuarão junto às Coordenações Municipais de PSF. Note-se que não há aceno de financiamento para as ações. também. depreende-se que. Niterói e Macaé. Coordenadora de Gestão da Atenção Básica do Ministério da Saúde.

específicos para a realização da tarefa. . aos apresentadores. O Encontro renovou. realizar pesquisa. PSF. Utilizar os Fóruns. No debate final foram aprovados os seguintes itens: continuar a discussão a respeito da inclusão de ações de Saúde Mental na Atenção Básica. mas com a sinalização de que será preciso criar novos campos. antes e depois de capacitação em Saúde Mental na Atenção Básica. as diretrizes e as intenções dos textos e eventos da área. em algum município a ser escolhido. deveu-se à intenção dos organizadores do Encontro de que um debate. que se revelaram singulares. é pequeno o número de municípios que as têm realizado de modo efetivo. para debater a respeito dos Núcleos de Saúde Integral. discutir. portanto. as ações de Saúde Mental na Atenção Básica. a articulação entre Serviços Residenciais Terapêuticos. diferentes e unidos pelas diretrizes dos últimos textos e encontros a respeito do tema. tomando como estimuladores as experiências apresentadas. aprovasse meios de estimular as ações de Saúde Mental na Atenção Básica. em Seminário. Esta solicitação. realizar Supervisão de Saúde Mental na Atenção Básica integrada e por Regiões de Saúde. Coube-me coordenar a mesa de apresentação dos trabalhos dos municípios. até o momento. Foi sugerido que os apresentadores ressaltassem as ações que estão produzindo bons resultados. no Encontro. em que eles mostrem o que têm para ensinar e as suas experiências. com atenção para cada município. pelos municípios. nos Fóruns Regionais de Coordenadores de Saúde Mental. discutir. os pontos de impasse e as possíveis modalidades de capacitação que podem ser úteis. desospitalização e o “Programa de Volta pra Casa”. também. Ficou destacada a necessidade de incrementar a aproximação entre a Saúde Mental e a Atenção Básica. - divulgar amplamente as conclusões do Encontro. regionalmente. utilizando os espaços de discussão já existentes. realizar um Fórum de Agentes Comunitários de Saúde. ao final do mesmo.187 promoverem ações junto à Atenção Básica.

épocas e culturas. Podemos dizer que os conteúdos da exclusão são o inconsciente. as diferenças de classe e a miséria. não se incluem na maioria. a ciência oficial entra em crise. que denotam algum funcionamento fora dos padrões da normalidade eventual.188 CAPÍTULO 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS A presente monografia. execração. a Grande Exclusão. Os emergentes pessoais. com seus modos de produção e de exclusão. termo geral que contém o conceito questionável de “doença mental”. para chegar ao seu objetivo principal . colaboraram para o questionamento do que estava sendo feito com seres humanos nos hospícios. A ciência médica em ascensão organizou. alvo de caridade. sob a forma dos hospícios. A visão do horror dos campos de concentração nazistas e a perda das ilusões a respeito da excelência da sociedade ocidental. Exaltação. A história da abordagem ao que chamamos hoje de sofrimento psíquico.percorreu a história da exclusão praticada pela ciência oficial em nome do encobrimento e do controle de emergentes sociais indesejáveis. têm diferenças consideráveis de tratamento. assassinato. hoje. quando variam os lugares. nos mostra uma imensa variedade de enfoques. sob a justificativa de tratá-los. curiosidade científica e fonte de lucro são alguns dos destinos daqueles que. Depois de dois séculos do isolamento que tentava proteger a sociedade de suas próprias contradições. idolatria. com mais desenvoltura no século XVIII. e da tentativa de expulsão do trágico da existência. torturas. pudemos perceber que as histórias da Reforma Psiquiátrica e dos Programas de Atenção Básica são marcadas pela luta constante entre controle e transformação social.observar como está acontecendo. a entrada das ações da Saúde Mental na Atenção Básica . por seu comportamento ou modo de pensar. em conformidade com as determinações políticas e econômicas. . Ao pesquisar como alguns autores e programas lidaram com tentativas de reverter o quadro de práticas de exclusão.

Inicialmente trabalhando na democratização das instituições asilares. para além do indivíduo. nas suas épocas. não tiveram maior repercussão. A dúvida que permanece é a que traz o constante questionamento: estamos praticando meras reformas que mantém o conteúdo controlador das ações de Saúde ou estamos colaborando para mudanças efetivas? As tentativas de abordar o sofrimento mental diretamente nas comunidades. famílias e população. excludente. no modo de abordar o sofrimento mental. Os programas de Saúde Mental comunitária surgiram em meio a tentativas de controlar populações que ameaçavam sair do domínio do poder estabelecido. segregadora. portanto sua implantação não levava em conta as reais necessidades dos “assistidos”. o movimento de renovação na Saúde Mental mostrou que a individualização dos problemas de sofrimento mental encobria realidades familiares e sociais que precisavam ser explicitadas. Politizado. mas têm precursores. apontam para a falta de participação da população na discussão e organização em todas as fases do processo de mudanças que os profissionais pretendem implantar.189 A ciência oficial psiquiátrica. ruas e famílias. que podem ter funções estimulantes ou paralisantes. nas décadas de 60 e 70. as ações de Saúde Mental na comunidade mostraram que podem ter efeitos transformadores para pessoas. que. Nota-se que a cada tentativa de mudança. inclusive da psicanálise. também tiveram um impulso inicial na Europa e nos Estados Unidos. As críticas que são feitas às tentativas iniciais de inserção de ações de Saúde Mental. a partir da década de 50 do século XX. outras profissões da área entraram em campo. correspondem críticas. De início repetindo o objetivo controlador. o movimento de transformação na Saúde Mental criou dispositivos extra-hospitalares para a abordagem ao sofrimento mental. já atacada por novos conhecimentos. . em contato com os bairros. aprofunda a sua crise com o avanço da psicofarmacologia. A contestação política dos anos 60 e 70. mas ações efetivas de desinstitucionalização no trato com o diferente. Os textos e trabalhos práticos de contestação da instituição psiquiátrica de segregação apareceram mais acentuadamente na Europa. a percepção da determinação e da solução dos problemas. o que possibilitou o aumento do número de altas dos Hospitais Psiquiátricos. nas comunidades. formando os múltiplos olhares a respeito do sujeito a ser tratado e ajudando a lançar. Com o avanço do questionamento do Poder Médico. não sendo coincidência a contemporaneidade das práticas alternativas da Saúde Mental com os movimentos de questionamento dos poderes daquela altura do século XX. produziu não apenas propostas teóricas.

A mudança do Modelo Assistencial em Saúde. ao dilema controle/transformação. A proposta do PSF como estratégia para a mudança do Modelo Assistencial tem recebido atenção especial de Profissionais de Saúde. O que se pretende é ultrapassar as definições de Alma-Ata. no Brasil. melhorados. também os Programas de Atenção Básica são alvos de questionamento. possui diversos pontos de semelhança com o que tem sido proposto pela Reforma Psiquiátrica. através do PSF: a definição de um quantitativo populacional excessivo. De forma semelhante às críticas que recebem as tentativas de mudança na área da Saúde Mental. bem como o farão os resultados. principalmente nos últimos anos. assim como a orientação geral de que o trabalho de promoção da Saúde.190 Das tentativas iniciais de abordar a Saúde Mental na comunidade. o risco é a proposta de mudança resumir-se a uma expansão de ambulatórios. ficaram: as propostas de integração entre as Equipes Clínicas e de Saúde Mental. a discussão a respeito das condições de vida e o estímulo à organização das comunidades são partes inerentes do trabalho. A prática de cada Equipe responderá. que seriam meras formas renovadas de controle. Os Programas de Atenção Básica. que tem no PACS e no PSF as suas bases. o questionamento da divisão entre profissionais do corpo/profissionais da mente. a necessidade de trocar conhecimentos com a população. pelas comunidades. Mesmo criticada por alguns autores. sem que as condições de vida e de saúde sejam discutidas e transformadas. são comuns à Reforma Psiquiátrica e ao PSF/PACS. a Declaração de Alma-Ata ainda é um dos marcos de orientação para que as políticas públicas de Saúde definam-se pelas ações comunitárias e incluam a população na condução dos programas. Os conceitos de território. gestores da área da Saúde e autores ligados. Desta forma. responsabilidade e de integralidade. e a falta de capacitação de muitos profissionais para o trabalho de mobilização das comunidades. a correlação entre sofrimento mental e organização da sociedade. a entrada em campo de diversas categorias profissionais. tanto nos trabalhos nacionais como nos estrangeiros. . à Universidade. em termos sociais. existem dois graves fatores de limitação das possibilidades de efetiva mudança na forma de atuar dos serviços de Saúde. para a tarefa proposta. Porém. rede. a perspectiva de mudar a forma da sociedade lidar com o diferente. tiveram influência de orientações internacionais. ou não. a percepção das diferentes formas com que a loucura é encarada ao longo da história. para cada Módulo de PSF. a noção de população adscrita. com o Programa de Saúde da Família como estratégia para a mudança do Modelo Assistencial. população.

da direção autoritária das instituições. então. cada vez mais. em São Paulo. no campo maior da Reforma Sanitária e da Política. O primeiro Centro de Atenção Psicossocial foi inaugurado em 1987. com a participação da população. A Reforma Psiquiátrica ganhou força. inserindo o que estava sendo pensado e praticado como mudanças. Ultrapassando o Ambulatório em acolhimento e em efetividade no cuidado das pessoas com grave comprometimento mental. depois. O Hospital Psiquiátrico e a Internação Psiquiátrica eram o alvo preferencial das críticas. de fins da década de 70 e em toda a década de 80. É ainda tímida. esses eventos passam a ter o caráter de organização do que estava sendo praticado na assistência e a contar. já com Equipes Multidisciplinares. mas já se fazem notar. com a presença de usuários do Sistema Único de Saúde e seus familiares. Os dispositivos extra-hospitalares surgiram. a partir do fim da década de 70 e início da de 80. revelando-se de grande . da escassez de recursos humanos e do gasto de quase todo o orçamento da Saúde Mental com a exclusão. nesses fóruns. a Reforma Psiquiátrica teve o grande impulso na transformação dos Hospícios. Alguns anos teriam que se passar. com grande força. as indicações de que a comunidade é um dos caminhos para as mudanças em Saúde Mental. na área. ao lado do Poder Médico. O Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental teve papel decisivo na fase de contestação e. em documentos oficiais. Os Encontros de Profissionais de Saúde Mental. Desde o início.191 No Brasil. Além da reafirmação dos princípios da Reforma Psiquiátrica. os encontros do movimento de transformação da Saúde Mental já acontecem com caráter oficial. no bojo da crise de financiamento do Setor Saúde. Mesmo no início das formulações das mudanças na assistência à Saúde Mental já aparecem. o movimento pela transformação do campo da Saúde Mental teve forte cunho político. como as Conferências Estaduais e a I Conferência Nacional de Saúde Mental. na de propostas e reorientação da condução da Política de Saúde Mental no Brasil. surgem os CAPS. no Brasil. refletindo as suas origens principalmente basaglianas. de início com a multiplicação dos Ambulatórios de Saúde Mental. da falta de condições de trabalho. No final da década de 80. formando o pessoal e a consciência crítica que ocupou os cargos no Aparelho do Estado. para que a prática tivesse correspondência com o que estava proposto. que tentava sustentar um Modelo Assistencial curativo fadado à falência. aprofundaram a discussão sobre a necessidade de mudança do Modelo Assistencial em Saúde Mental. orientações no sentido de incluir a Saúde Mental nos cuidados básicos de saúde.

como a desinstitucionalização e a reafirmação dos princípios da 8. descentralização e participação. Caso sejam bem conduzidos. Trabalhava-se com a comunidade fechada dos Hospícios. isoladas. como uma diretriz a ser seguida. então. A II Conferência Nacional de Saúde Mental. A Declaração de Caracas. eqüidade.a Conferência Nacional de Saúde: universalidade. os CAPS promovem o questionamento da cultura da exclusão. Podemos supor que a relutância em tomar o caminho dos trabalhos com as comunidades. desde então já definidos em Portarias no Ministério da Saúde. à proliferação de CAPS e NAPS e ao desenvolvimento de diversos dispositivos criativos de assistência. por outro lado. Ao praticar uma assistência em Saúde Mental que não mais isolava as pessoas a serem tratadas. a forçar a Medicina a mudar seu discurso excludente.192 utilidade para reduzir o número de internações psiquiátricas e proporcionar melhores condições de vida para pessoas em risco de serem internadas. permanecer nas casas. que deram a base de organização dos CAPS e NAPS. realizada em 1992. mesmo citando a Declaração de Caracas. Uma espécie de “caminho natural” dos profissionais era o Hospital Psiquiátrico em transformação. coloca os Sistemas Locais de Saúde como campo privilegiado de ação da assistência da área mental. CAPS e NAPS. de 1992. no seu Relatório Final. incipientes. As ações de Saúde Mental na comunidade eram. onde já estavam membros do movimento de renovação da Saúde Mental. Pode ter contribuído para essa relutância. a loucura passa a freqüentar as ruas. Não mais isolada no gueto da Psiquiatria Organicista. fazer-se visível. sem definição de financiamento e não atraíam a atenção dos profissionais da área. até esse ponto da Reforma Psiquiátrica. . o fato de que as principais influências estrangeiras da Reforma Psiquiátrica Brasileira não terem sido ligadas a trabalhos diretamente nas comunidades. A II Conferência Nacional de Saúde Mental. numa afirmação que ficou como importante orientação para os anos que se seguiram. Aparecem também. A década de 90 assistiu à progressiva diminuição do número de leitos psiquiátricos. a provocar olhares e aproximações de diversas categorias profissionais. de 1990. tornando as práticas comunitárias mais suspeitas de controle do que aquelas dos Ambulatórios. integralidade. a Reforma Psiquiátrica assume a tarefa de tentar mudar os conteúdos imaginários seculares de rejeição da loucura. já traz conceitos que serão base para a aproximação da Saúde Mental da comunidade. os ambulatórios de consultas e os CAPS e NAPS. pouco avança em relação a apontar a necessidade de práticas de Saúde Mental diretamente na comunidade. transformando-os em Comunidades Terapêuticas. devia-se à crítica ao preventivismo ter ficado muito marcada.

que avançou no período. surge. estimular a participação da população na reflexão a respeito de suas condições de saúde.193 com importância. primeiro o PACS. uma possibilidade de ação comunitária inédita em Saúde Mental. Enraizado na comunidade. são alguns dos muitos pontos em comum entre a Reforma Psiquiátrica e a estratégia do PACS/PSF. Na década de 90 surgiram e se desenvolveram os Programas de Atenção Básica no Brasil. ao mesmo tempo. principalmente pelos ACS. Mesmo criticada por alguns autores. em parte reciclando experiências já estabelecidas no país e no exterior. Os Programas de Atenção Básica. em Alma-Ata estão indicadas importantes orientações para o trabalho na Atenção Básica. a possibilidade de promover mudanças que realmente sejam duradouras. na figura do Agente Comunitário de Saúde. uma estratégia para a mudança do Modelo Assistencial. como por exemplo. o membro do Sistema de Saúde mais próximo da realidade dos fatos da saúde da população. em diversos estados do país. então. devido à sua inserção. fundamentos das ações de Saúde Mental na Atenção Básica e indicações para a constituição de “Equipes Itinerantes” e para a capacitação de Agentes Comunitários de Saúde. os conceitos de território e responsabilidade. Constatamos. A compreensão da Saúde como um direito de cidadania. mas com aspectos novos. visto que nela morador. então. de 1978. O ACS tem. A década de 90 caracterizou-se pela expansão dos dispositivos propostos pela Reforma Psiquiátrica. surgem. sendo um exemplo marcante a Declaração de AlmaAta. . na década de 90. tiveram influência de diretrizes internacionais. Com a implantação do PACS. os profissionais envolvidos podem. A implantação dos Programas de Atenção Básica torna-se. o reconhecimento da determinação social dos problemas de saúde. a afirmação do direito das populações de participar do planejamento e controle das ações de saúde. Ao conhecer de perto a realidade das vidas das comunidades e ao poder articular redes de apoio e inserção social. o ACS é. ao lado de assistir pessoas e famílias. sendo as maiores delas o enorme gasto com internações psiquiátricas e o próprio financiamento do SUS. mesmo contra toda as dificuldades. o princípio da integralidade. ações de Saúde Mental ligadas ao PACS/PSF. então. As postulações dessa estratégia e dessa mudança de Modelo Assistencial coincidem com os fundamentos e as práticas da Reforma Psiquiátrica. a necessidade da participação popular para a transformação do campo da Saúde. e depois o PSF. Trabalhos consultados revelam a rapidez de resultados e a potencialidade para a adoção de práticas de Saúde Mental pela Atenção Básica. que. visto que ambas têm suas bases em conceitos comuns: a visão da Saúde como um campo eminentemente político e os princípios da Reforma Sanitária e do SUS.

com suas bases teóricas. Nas capacitações que são fornecidas pelas Equipes de Saúde Mental. apenas tocando no aspecto dos “transtornos mentais graves”. por um lado. sem entrar. constata-se uma realidade que. por mais que os seus conceitos de base indiquem a responsabilidade integral pela saúde da população. ligado ao PACS/PSF. mas com péssima qualidade de vida. Estamos. na lógica da exclusão. trancadas em cômodos. quando é iniciado um trabalho de Saúde Mental nas comunidades. ou que ficam nas comunidades. a sustentação dos avanços num novo patamar. bem como entre toda a rede de assistência. que estão. Por outro lado. como aparecia no preventivismo e em trabalhos nacionais e estrangeiros. é um dos fatores de maior importância e de estímulo. Um fato da maior importância para as práticas da Reforma Psiquiátrica é que. com a confluência entre a Reforma Psiquiátrica e os Programa de Atenção Básica. conceitos e práticas. não chega nem aos ambulatórios nem aos CAPS: uma imensa faixa de desassistência. A definição dos CAPS como prioridade estratégica deve ser . Um ponto comum entre Equipes de Saúde Mental. passam a ter o papel de referência para as situações que envolvem a Saúde Mental. que trabalharam nas comunidades durante a década de 90 e no início do novo século. de modo criativo e inovador. as propostas de inclusão. é o que coloca nos conceitos de território e rede a base para as ações. Com a sensibilidade vinda do contato constante com a população e do conhecimento da cultura local e da dinâmica das famílias e da comunidade.194 O trabalho do ACS. na área mais geral da integração entre o que ficou dividido entre saúde física e saúde mental. porém. isoladas em partes das casas ou terrenos onde moram as famílias ou mesmo perambulando a esmo pelas comunidades. freqüentemente. muitas vezes. Criou-se. é a categoria profissional que mais rapidamente sai da lógica da exclusão e que compreende. Percebemos que. São pessoas em cárcere privado. Em diversas situações são os ACS que fornecem as soluções para os problemas enfrentados. permanecem os Profissionais de Saúde Mental sem contato com pessoas que circulam entre casa. e a definição do CAPS como centro organizador da Rede de Atenção Psicossocial. na articulação entre Saúde Mental e Atenção Básica. emergências e hospícios. Conceitos comuns e intenções comuns poderão fazer da articulação entre os CAPS e a Atenção Básica. ainda. temos os Profissionais da Atenção Básica que não possuem habilidades para perceber e reverter o quadro de exclusão em que vivem pessoas com problemas de Saúde Mental da sua população. a possibilidade de a inserção da Saúde Mental nas comunidades sair das meras tentativas de modificação da assistência psiquiátrica. Estas situações em geral não são abordadas pelos Programas de Atenção Básica.

Da . junto aos Programas de Atenção Básica. Lancetti sugere que para cada duas Equipes de PSF seja destinado um profissional de Saúde Mental. em Brasília. Com diversos trabalhos de Saúde Mental na Atenção Básica já em andamento. iniciando uma longa discussão ainda longe do consenso. Continuando a estabelecer as bases conceituais para a atuação da Saúde Mental. Com essa prática estimulamos o princípio da integralidade. Na nossa experiência. tornamos as ações campo permanente de capacitação mútua. no ano 2000. preparatório para a “Oficina de Trabalho para Discussão do Plano Nacional de Inclusão das Ações de Saúde Mental na Atenção Básica”. nas ações praticadas. No início de 2001. ainda não atendidas. o tema da urgência da entrada da Saúde Mental na Atenção Básica já estava colocado com ênfase. além de um membro da Equipe de Saúde Mental. Nas avaliações da Reforma Psiquiátrica. consideramos que uma diretriz é determinante para os rumos dos trabalhos: a que postula que. o assunto financiamento passa a ter lugar de destaque. produzindo resultados. organizado por Antonio Lancetti. e os apelos por estímulos de financiamento já se faziam ouvir. com múltiplas visões e colaborações. No livro. eliminamos a referência entre os Programas (fonte de possível perda da responsabilização e manutenção da exclusão) e investimos num trabalho realmente de Equipe. Foram feitas solicitações. essa quantidade de profissionais de Saúde Mental é insuficiente em relação à quantidade de ações a serem desenvolvidas. mostrou a criatividade e os resultados de muitos trabalhos de introdução da Saúde Mental nas comunidades. o Ministério da Saúde lançou um documento intitulado “Proposta Preliminar. já está colocado o conceito que define que as ações de Saúde Mental na Atenção Básica devem ser praticadas. em março de 2001. que se realizou. o tema da Saúde Mental na Atenção Básica teve decisivo impulso. em 2000. Nos anos de 2000 e de 2001.195 acompanhada de uma atenção especial para as possibilidades imediatas de ações de Saúde Mental ligadas aos Programas de Atenção Básica. A publicação do livro “Saúdeloucura 7”. com a participação de pelo menos um membro de cada Equipe: Saúde Mental e PACS/PSF. deve estar sempre presente pelo menos um membro da Equipe de Saúde da Família ou do PACS. sempre. Plano de Inclusão de Ações de Saúde Mental na Atenção Básica”. o Ministério da Saúde já percebia a necessidade de estimular essa inserção. de estímulo de financiamento para a introdução da Saúde Mental na Atenção Básica. Em artigo de abertura do livro.

a atenção para o tema. Na Lei. para o Dia Mundial da Saúde. é a articulação da Saúde Mental com o PSF. pelo Congresso Nacional. repleta de itens aprovados que indicam a importância estratégica das ações de Saúde Mental na comunidade. A III Conferência reforça a exigência de repasse financeiro para a Saúde Mental. numa afirmação inédita para textos oficiais. numa Conferência Nacional de Saúde Mental. que teve uma das suas mesas dedicadas à Saúde Mental na Atenção Básica.216. Pela primeira vez. A III Conferência reforça o conceito de uma rede de assistência em Saúde Mental com base territorial e ligada à rede geral de Saúde. Foi aprovada. Por exemplo. significativo estímulo para as ações comunitárias em Saúde Mental. redirecionando a verba alocada nas Internações Psiquiátricas para as ações que a substituem. em dezembro de 2001. no evento. a Saúde Mental na Atenção Básica é citada. “Proposta Preliminar. é exigido que o poder público organize modos comunitários de tratamento dos pacientes com transtornos mentais e coloca a internação psiquiátrica como exceção.196 Oficina saíram diretrizes básicas para a condução dos trabalhos da Saúde Mental na Atenção Básica. os documentos e os encontros citados. ainda em 2001. a III Conferência Nacional de Saúde Mental. que “Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental”. e a estratégia. a lei 10. é sugerido que Municípios que tenham a Saúde Mental na Atenção Básica recebam incentivo mensal. A Lei. recomenda que a implantação da rede de serviços em Saúde Mental substitua totalmente o Hospital Psiquiátrico. a OMS lança o documento “Relatório Sobre a Saúde no Mundo 2001. O documento do Ministério da Saúde. Saúde Mental: Nova Concepção. convergem para a definição da mudança do Modelo Assistencial em Saúde Mental. De acordo com os itens aprovados. como uma das modalidades de trabalho a serem contempladas com o financiamento. base de discussão para a “Oficina de Trabalho . Plano de Inclusão de Ações de Saúde Mental na Atenção Básica”. com destaque. sim aos cuidados”. à Saúde Mental. em Brasília. dedicado. Além dessa definição. mostrando que foi grande. A III Conferência. sem redução de outras dotações da Saúde Mental. a Plenária Final da III Conferência aprovou diversos itens que reforçam a necessidade das ações de Saúde Mental na Atenção Básica. a atenção ao sofrimento mental nas ações básicas de saúde garante o princípio da Integralidade. Nova Esperança”. de profissionais e usuários. Durante a III Conferência. A Organização Mundial da Saúde elege o tema “Não à exclusão. em 2001. Foi realizada. para alcançar esse fim.

o trabalho conjunto deve ser a meta a ser alcançada logo que possível. o que temos visto são trabalhos que optam por uma ou outra forma de agir e outros que associam as duas possibilidades. mudando significativamente o teor das tarefas a serem desenvolvidas. mas que ainda não tenha ações de Saúde Mental da forma que estamos desenvolvendo. rede e integralidade como pilares da mudança. comunitário. um conjunto de indicadores numa região onde já exista o PSF. do Ambulatório de Saúde Mental. para que os profissionais da base executem melhor as tarefas. Dentre elas . A questão dos resultados das ações de Saúde Mental na Atenção Básica abre um interessante campo de pesquisa. as ações do Ministério da Saúde e das Secretarias Estaduais de Saúde são fundamentais e urgentes. mais de uma vez. responsabilidade mútua. A opção pela mudança do Modelo Assistencial é reforçada. No trabalho conjunto Saúde Mental/PACS-PSF. Poderá ser pesquisado. levando-se em consideração o ineditismo da proposta para a maioria dos profissionais de Saúde Mental e a falta de informação dos Coordenadores Municipais de Saúde Mental e de PACS/PSF a respeito do assunto. Na prática.197 para Discussão do Plano Nacional de Inclusão das Ações de Saúde Mental na Atenção Básica”. com as ações sendo praticadas pelos dois grupos de profissionais. é uma importante declaração de intenções da esfera Federal do SUS. com comparação para efeitos de avaliar os resultados. ficando a iniciativa da inserção da Saúde Mental na Atenção Básica por conta do empreendimento dos municípios. Portanto. de preferência já há algum tempo. com impacto nos indicadores. nem é um posto avançado. A “Oficina de Trabalho para Discussão do Plano Nacional de Inclusão das Ações de Saúde Mental na Atenção Básica” chegou a conclusões em relação à prática das ações da Saúde Mental na Atenção Básica que passaram à condição de diretrizes. Nas discussões e conclusões da “Oficina” esta diretriz foi ampliada. Não apenas supervisão. Na nossa experiência. mas trabalho conjunto. trazendo definições básicas. Depois da implantação das ações de Saúde Mental. Tal fato causa dificuldades e atrasos. a coleta dos dados deverá ser repetida. ao longo do tempo. As etapas que faziam parte do cronograma firmado na “Proposta Preliminar” não foram totalmente concretizadas. O texto da “Proposta Preliminar” define como função da Equipe de Saúde Mental na Atenção Básica fornecer supervisão às Equipes de PACS e PSF. estando presentes os conceitos de território. por exemplo. fica estabelecido que a entrada da Saúde Mental na Atenção Básica nem é uma prática de supervisão. para induzir práticas de saúde que apresentam resultados rápidos. Esta é uma fértil conclusão da “Oficina”: o trabalho deve ser conjunto.

apoiar as Equipes de Saúde da Família e PACS nas suas dificuldades institucionais e relacionais. que em geral encaminham situações para a Saúde Mental. o Ministério da Saúde já abaixou essa proporção para de 6 a 9 Equipes de PSF para cada Equipe de Saúde Mental. Até o momento. Não se trata apenas de capacitar as Equipes de PSF. com substituição da referência/contra-referência por co-responsabilidade e trabalho em rede. Na nossa experiência. mudar o Modelo Assistencial em Saúde Mental. Como o próprio Ministério da Saúde define. Os resultados seriam acompanhados por indicadores. A Oficina de Brasília entrou no tema do Financiamento e sugeriu que fosse destinado um incentivo aos municípios que tivessem ações de Saúde Mental na Atenção Básica.198 destacamos: a necessidade do trabalho conjunto entre as Equipes de Saúde Mental e de PACS/PSF. fomentar a discussão e a articulação comunitária a respeito do sofrimento mental. ao alocar em apenas um Módulo toda uma Equipe de Saúde Mental e procedendo a uma lenta e estudada expansão. A Oficina dedicou-se ao controvertido tema da proporção entre o número de profissionais de Saúde Mental e Equipes da Atenção Básica. trabalhe com um número entre 8 e 10 Equipes de PSF. . promovendo os seus direitos e cidadania. essas proporções são excessivas. Em 2003. composta de quatro profissionais. na prática. podendo comprometer os resultados que pretendemos alcançar. a mobilização de recursos da comunidade até então não ativados pelos serviços de saúde. acompanhar as pessoas com transtornos mentais graves. Na nossa experiência. que condicionariam os incentivos. a quebra dos especialismos. a necessidade de inserir o trabalho da Saúde Mental na Atenção Básica em toda a rede articulada de cuidados em Saúde e em Saúde Mental. a mobilização da comunidade para a discussão dos problemas de Saúde Mental e seu enfrentamento. para que “ajudem” o Programa de Saúde Mental a cumprir as suas funções. Trata-se de mudar toda uma visão a respeito do lugar do “mental”. a área federal da Saúde não destinou verba própria para a Saúde Mental na Atenção Básica. atuar em Escolas e outras instituições da comunidade. a necessidade de aproximação e possível intervenção no problema da violência urbana e doméstica. Os Grupos de Trabalho recomendaram que cada Equipe de Saúde Mental. as políticas públicas se materializam de acordo com a decisão governamental de destinação de financiamento. na medida em que o território e as ações estavam sendo conhecidos e compreendidos e que crescia a habilidade da Equipe de Saúde Mental para o trabalho. Chegamos a esse número. não devem passar de cinco os Módulos de PSF que uma Equipe de Saúde Mental de quatro membros pode assumir. a abordagem ao adolescente e ao idoso. a capacitação mútua como base do trabalho.

A OMS. que reuniões de esclarecimento e capacitação que sensibilizem e instrumentem Coordenadores Municipais de Saúde Mental e de PSF/PACS.199 conforme está proposto em documentos oficiais e do que consta de decisões de Conferências. Temos. do exposto. O número de internações psiquiátricas. o número de ocorrências de violência. colocam-se na dependência de verbas federais para novos serviços. Da Oficina de Brasília surgiu uma interessante proposição. são alguns dos dados que devem ser trabalhados para servir de base para a criação de indicadores da Saúde Mental na Atenção Básica. Todos os encontros de profissionais de Saúde Mental que têm por objetivo discutir e decidir a respeito das ações de Saúde Mental na Atenção Básica. mesmo depois que essas ações estejam produzindo resultados. Nova Esperança”. A OMS recomenda que incentivos de financiamento sejam dirigidos para estimular o surgimento de ações de Saúde Mental nas comunidades e que. uma situação na qual ações de Saúde Mental com grande potencial de resolubilidade e impacto sobre os indicadores. a entrada da Saúde Mental na Atenção Básica tem ficado por conta da iniciativa dos municípios que. A OMS aponta. é estratégia essencial no momento. Nota-se. na atual conjuntura. maior divulgação do assunto entre os próprios Profissionais de Saúde Mental e de PSF. a preocupação em investir “dinheiro novo” nos Programas de Saúde Mental e com a possível desassistência em determinados momentos. Oficinas e Encontros. Assim sendo. territoriais. que é a de criar indicadores que informem a respeito da criação e manutenção de trabalhos comunitários. embasados por um conjunto de conceitos e diretrizes que postos em prática. bem como textos oficiais e outros escritos. justificativas epidemiológicas para a . apresentou. a quantidade de pessoas em uso de benzodiazepínicos. As conclusões dos Encontros a respeito do tema poderiam ser mais divulgadas. a falta de repasse. como uma das causas da lentidão no avanço dos trabalhos de Saúde Mental nas comunidades. o número de pessoas usuárias de álcool e outras drogas. para essas práticas. no seu “Relatório Sobre a Saúde no Mundo 2001. Torna-se fundamental incentivo financeiro mais efetivo. Saúde Mental: Nova Concepção. o número de tentativas de suicídio. a respeito do trabalho da Saúde Mental na Atenção Básica. validam as expectativas positivas. do que está sendo economizado com o fechamento de leitos psiquiátricos. visto que o campo de atuação na Atenção Básica é novidade para a maioria dos profissionais de Saúde Mental e os profissionais do PSF não estão formados para a atuação nessa área. então. também. Concluímos. são unânimes em apontar a urgência de definir um conjunto de indicadores que sirvam de pesquisa e balizamento para os nossos novos tempos. não sejam retirados todos os investimentos em trabalhos institucionalizados. com essa orientação. em 2001. É necessário.

o que pode ser feito com o trabalho de inserção na vida das comunidades das pessoas que apresentam essas necessidades. adverte que essas práticas colocam a Saúde Mental na agenda da população e não mais. define que os problemas de Saúde Mental devem ser abordados. devido à falta de capacitação do pessoal que as atende. A OMS afirma a necessidade de participação das pessoas assistidas. são a maioria nos atendimentos na Atenção Básica e constituem-se em importante campo para capacitação e interconsulta. na publicação indicada acima. É uma grave afirmação. não vão ter as dimensões familiares e sociais do sofrimento abordadas. nas comunidades. Trata-se de importante manifestação de intenções e uma diretriz. Para esse fim. Mas apenas a prática dirá de que forma essa participação é estimulada. nas comunidades. a capacitação é citada como estratégia fundamental. recentes. em geral. Como o controle é uma das funções precípuas do Estado. que podem explicar o adiamento que vem sendo observado na efetiva entrada da Saúde Mental na Atenção Básica. demonstram que cerca de 50% das pessoas que são atendidas em unidades de Saúde. onde deverão ser feitos o atendimento às crises. cujo enfoque inicial teve aspecto eminentemente controlador. Esse grande número de pessoas freqüentemente não tem seu problema reconhecido. Os problemas de Saúde Mental que não os considerados mais graves. Estudos internacionais e também nacionais. então. Podemos. o acompanhamento dos tratamentos e a reabilitação. listar alguns dos motivos que fomos encontrando. na dos profissionais de Saúde Mental. . preferencialmente. O fator “participação popular” é um tema constante de trabalhos que se dedicam a avaliar as ações de Saúde Mental na Atenção Básica. A OMS dá destaque especial à luta contra o preconceito e o estigma em relação às pessoas que necessitam de tratamentos mentais. visto que a população pode ser chamada a participar de forma ativa ou passiva. ao levantar as possíveis causas da demora de os países adotarem as ações de Saúde Mental nos cuidados primários de Saúde. ao longo da nossa pesquisa. resultando em nova visão dos profissionais a respeito do sofrimento mental. apresentam alguma forma diagnosticável de transtorno mental. apenas. em todas as etapas da organização dos Programas de Saúde Mental na comunidade. seus familiares e população em geral. devemos sempre ter presente o questionamento a respeito do que predomina nas nossas ações: o controle ou a mobilização das comunidades? O Relatório da OMS.200 atenção especial que a questão da Saúde Mental deve ter. Para cada um deles deve haver uma forma de solução. ou são encaminhadas a ambulatórios de Saúde Mental abarrotados e onde. que faça adiantar o processo de mudanças. A OMS.

em Saúde.Dificuldades no investimento próprio. 10. a primeira fase de preocupação com a perspectiva de mais trabalho. acolher.A falta de programas de Atenção Básica enraizados adiou a entrada da Saúde Mental nas comunidades.201 1. que coincidem com a nossa prática. também. auxiliar nas dificuldades no relacionamento com a comunidade e na criação de espaços de discussão com os níveis . Depois de superada.Falhas nas formações dos Profissionais de Saúde Mental em política. em si mesma justificável. discutir e tentar resolver dificuldades em relação à mobilização emocional que surge com o contato com a dura realidade da população. 11. 2. principalmente por parte dos ACS.A formação dos quadros iniciais da reforma psiquiátrica se deu na transformação dos hospícios. 3. 7. economia. encobriu a visão de que práticas mais simples e de mais rápida implantação. nos inícios da Reforma Psiquiátrica. sociologia. sem a necessidade de investimentos em imóveis. Com o desenrolar das ações conjuntas e a percepção de que. dos Municípios. a adesão e o interesse aumentam.A falta de definição de financiamento a partir do Ministério da Saúde. ainda apenas no campo da psiquiatria.O preventivismo foi a primeira proposta de prática coletiva de Saúde Mental no Brasil. mobiliário e material de consumo. há uma progressiva adesão. uma percepção de que os profissionais de Saúde Mental podem ajudar a: resolver conflitos das Equipes. voltadas para a modificação individual. antropologia. os impede de ver os trabalhos comunitários como transformadores e como campo de trabalho.A falta de um movimento social forte e organizado. 9. pelos profissionais da Atenção Básica. sendo os CAPS a sua seqüência lógica e não a comunidade. 5.Dificuldade dos profissionais de Saúde Mental para o trabalho em ambiente sem a proteção institucional. podem trazer rápido impacto na assistência e na mobilização social. 6. 4.A formação dos profissionais de Saúde Mental para terapias individuais ou. no máximo grupais. 8.Dificuldade dos profissionais de Saúde Mental em encarar a miséria e as difíceis situações de vida da população.A prioridade para os CAPS. com intervenções simples podemos obter respostas favoráveis. Os diversos relatos de experiências de introdução de ações de Saúde Mental na Atenção Básica têm alguns pontos em comum. Ocorre.

Por outro lado. Desde que esses temas sejam trabalhados e bem elaborados pela Equipe de Saúde Mental. mobilização comunitária e relacionamento de Equipes). De acordo com esse texto. O momento nos exige união de esforços. com a adesão das Equipes de PACS/PSF às ações de Saúde Mental (com repercussões na assistência. não tem suficientes esclarecimentos a respeito da Reforma Psiquiátrica. e que cada forma de praticar as capacitações e ações possa dialogar com as outras. constante e fornecida por Equipe responsável pela atuação conjunta na base. estas ações podem ser de utilidade numa parceria constante. As capacitações que são praticadas sem essas características ajudam. Temos. Dentro dessa concepção. também. pelo Grupo de Trabalho de Saúde Mental do Pólo de Capacitação/Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro. ficamos com a tarefa urgente de pensar e executar a capacitação em larga escala. não estamos tratando de capacitar Equipes da Atenção Básica para “ajudar” a assistência à Saúde Mental. nos profissionais dos dois lados que pretendemos aproximar. o avanço das ações da Saúde Mental na Atenção Básica e a integração com seus Programas. O que está proposto é a mudança do Modelo Assistencial em Saúde e em Saúde Mental. na prática. ainda não despertaram para a potencialidade das ações de Saúde Mental na Atenção Básica e não conhecem com detalhes a filosofia do PACS e do PSF. Textos recentes do Ministério da Saúde estimulam a formação de Equipes de Saúde Mental para capacitação e ação conjunta com as Equipes de PACS/PSF. conseqüentemente. em grande parte. a forma de capacitação que pode produzir resultados mais consistentes é aquela que tem as características de ser em serviço. a introdução das ações de Saúde Mental na Atenção Básica. em muito. algumas variações na forma de praticar a capacitação em larga escala e. Essa desinformação permanece nas bases. de uma aproximação com a loucura e outros fenômenos humanos ditos “mentais” radicalmente oposta à exclusão. na sua maioria. Encontramos.202 superiores do PSF. Portanto. suas práticas e suas propostas atuais. feita do início de 2003. Com as repostas à capacitação das Equipes de Saúde Mental para atuar na Atenção Básica apresentando bons resultados. e de acordo com diversos argumentos ao longo desta monografia. Uma forma de potencializar a entrada das Ações de Saúde Mental na Atenção Básica é a proposta. de um lado. temos os Coordenadores dos Programas de Atenção Básica que. Trata-se. A pretensão é muito mais ambiciosa. o estímulo às . mas me parecem etapas preparatórias para a efetiva entrada das ações conjuntas. Coordenadores Municipais de Saúde Mental que. mente e mundo social. Trata-se de mudar a forma de lidar com o que historicamente foi abordado de modo dividido: corpo.

sejam práticas de mobilização social. de Coordenadores Municipais de Saúde Mental e de PACS/PSF (e seus supervisores). principalmente. temos a inclusão das ações de Saúde Mental na Atenção Básica. Do diálogo entre as várias formas de trabalhar. Partindo de trabalhos dispersos. que pesquisamos ao longo da monografia. todas frutíferas. experiências recentes de introdução da Saúde Mental na Atenção Básica. sairão os consensos necessários às urgentes tarefas com que nos deparamos na atual situação da Saúde no país. resultados e questionamentos. ao longo desta monografia. em alguns Estados. Os desdobramentos desse primeiro momento seriam reuniões periódicas de avaliação das ações desenvolvidas nos municípios. suas origens. Percorremos. diretrizes e experiências bem sucedidas que formam uma base para as capacitações e ações da Saúde Mental na Atenção Básica. nos intervalos entre os encontros. logo a seguir da redução do número de leitos psiquiátricos e a expansão dos CAPS. onde os Coordenadores e Supervisores desenvolveriam as tarefas necessárias para a entrada da Saúde Mental na Atenção Básica. para além da assistência. seus conceitos. O que foi encontrado na pesquisa reforça as bases para ações de Saúde Mental que. na lista de diretrizes do Ministério da Saúde para 2004.203 ações começaria pela reunião. daria continuidade ao trabalho. divididos por regiões do Estado. Trata-se se importante manifestação de prioridade. . em terceiro lugar. chegamos a um conjunto de conceitos. A comunicação por correio eletrônico. Enquanto definição oficial. com a Equipe de Capacitação. textos oficiais. com a Equipe de Capacitação ficando disponível para consultas.

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