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FERNANDES CALABAR TRAIDOR OU HERÓI? O SURGIMENTO DE UMA NOVA VISÃO DE UM ANTIGO HABITANTE DA COLÔNIA PORTUGUESA NA AMÉRICA DO SUL J.

Vilsemar Silva1 O conhecimento é um processo e, portanto, a verdade também o é . Adan Schaff (1913-2006), filósofo polonês

- O nome de FERNANDES CALABAR sempre esteve ligado à idéia de traição desde o período em que teve a consciência de que era melhor lutar do lado dos holandeses (1630-1654) do que permanecer do lado da União Ibérica (Portugal e Espanha). Não podemos nos esquecer que o atual Estado brasileiro foi uma colônia da Espanha [1] por 60 anos, ou seja, de 1580 a 1640. - Será que realmente esse senhor mestiço, que desconhecia quem era o seu genitor, com boa educação ministrada pelos jesuítas, que era dono de engenhos de açúcar e descriminado pelos brancos portugueses pela cor pode ser chamado de traidor? Graças à possibilidade de revisão de documentos históricos e fatos históricos recentemente revelados essa visão de que ele seria um traidor vem sendo revista. - Atualmente com a possibilidade de estarmos vivendo dentro de um regime democrática livre, sem a interferência de um Estado ditatorial[2], hoje se pode revisar documentos, fatos históricos e analisar novos vestígios desse período mal contado da nossa História sem pressões corporativas ou, pelo menos, bem mais atenuadas. Nesse sentido, muitos revisionistas já consideram O Major Fernandes Calabar como um verdadeiro herói[3] pela perspicácia de ter tido a consciência de que o território colonial desde o ano de 1500 d.C., o qual um dia seria o atual Estado brasileiro, sempre tinha sido explorado pelos portugueses com muita opressão e dentro desse tempo por seis décadas pela União Ibérica, ou seja, de 1580 d.C a 1640 d.C. , quando Portugal foi anexado a Espanha. - No período do Senhor Calabar, os impostos eram escorchantes e, diga-se de passagem, até hoje os impostos são elevados e o retorno um tanto duvidoso pelos efeitos da corrupção. Nesse período colonial, as viagens eram controladas, quando não proibidas pelos portugueses. Havia a proibição para a produção de tecidos , a educação escolar não existia, proibiam o comércio com os estrangeiros. Profissões ligadas a arte aplicada e a posse de livros eram severamente proibidos, com exceção dos livros religiosos católicos, pois ajudavam na manutenção do controle social e manutenção de um senso comum sobre o povo da época.

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Advogado e professor.

talvez o mestiço autóctone Fernandes Calabar esteja muito mais próximo da imagem de um herói do que a de um reles traidor. . o qual cometeu diversos atos de traição mais infames do que aquele atribuído a Calabar. Estão a ensejar a possibilidade de que se comece a mudar a idéia da acusação de traição divulgada pelos opressores portugueses da União Ibérica.Por esta linha. inclusive da própria inquisição. com o advento das invasões holandesas e a fixação do domínio holandês. viram que com a presença dos holandeses os padrões de justiça. mas sempre acabava escapando das punições. melhorias acentuadas nas condições econômicas e sociais deram um salto gigantesco.Para os historiadores revisionistas. . apenas a religião Católica Apostólica Romana era permitida na colônia. Quais seriam as reais motivações? Seriam religiosas. Estenderam vários benefícios para outras regiões. Calabar e outros colonos mestiços. esses pesquisadores revisionistas. estrela de uma longa constelação de traidores [6]. alguns pesquisadores[4] tentam lançar mais luz nos motivos que levaram Calabar e outros colonos a passar para o lado dos holandeses. O medo da inquisição católica e das suas técnicas de torturas mantinha o povo calado e submisso. econômicas ou o surgimento de uma manifestação de patriotismo dos autóctones? Vários documentos lançam luz nesses emaranhados de interesses. o desenvolvimento econômico. jamais iria permitir tal desenvolvimento sob o seu comando. Entre esses traidores temos o nome do padre jesuíta Manoel de Moraes. atrelado com a Espanha. A partir de uma analise criteriosa. .Convém ressaltar que existiram traidores que não foram tão escorchados como Calabar. Sendo assim. a liberdade religiosa. liberdade religiosa. Obviamente os historiadores levaram em conta as interpretações feitas em décadas passadas e de quem as elaborou. bem como muito s índios e cristãos novos (judeus convertidos compulsoriamente ao catolicismo romano).Além do mais. a qual adotava terríveis castigos para os acusados de heresia. por terem muito prestígio e conhecimento. permitiram o surgimento de escolas fundamentais.O certo é que os holandeses trouxeram. para as regiões por eles ocupadas. . O domínio português da época. Para os autóctones e mestiços que ousavam ter um raciocínio crítico era impossível não ver as melhorias e não precisariam ser muito inteligentes para saber em qual dos lados se deveria ficar e lutar. urbanizaram Recife. dos quais muitos são favoráveis a Calabar. . construíram pontes e obras sanitárias.. possibilitaram a vinda de homens de ciência[5]. estarão formulando novas verdades isentas de paixões para prevalecer à versão mais correta. .Pelos dados já coletados e revisados deverá haver algumas mudanças substanciais na continuação ou não da visão de Calabar como traidor.

Mozart. São Paulo: Ática. p.br/noticia_calabar. mas liberada em 1980 ( Veja.org/files/portuguese/47093~9_18_01_4-13-56_PM~calabar. Disponível em <http://www.htm>.[1] GOMES.uk/portuguese/esp_bra_historia. 14/05/1980. Carlos. Disponível em <http://www. Acessado em 15 mar 2009. Disponível em <http://www. Divalte Garcia. História pode revelar um novo Brasil.thirdmill.htm>.maragogi. [2] A peça Calabar Elogia de uma traição de Chico Buarque de Hollanda e Ruy Guerra foi proibida em 1973 pelo governo militar. herói desconhecido completa 370 anos da sua morte. Disponível em <http:// www. Calabar? O motivo da traição. Acessado em 15 mar 2009.bbc. [4] SCHALKWIJK.fapesp. [3] LUNA. 166 [6] HHAG.tur. Rafael. PP 60 ss). O dilema eterno da traição. 2002.co. Acessado em 08 mar 2009. Calabar.br/?art=3615&bd=1&pg=1&lg=>. Por que.revistapesquisa.htm>. Acessado em 17 mar 2009. Frans Leonard. [5] FIGUEIRA. . História.