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ALEGRO DESBUNDACCIO

(Se o Martins Penna fosse vivo)

PERSONAGENS:

BUJA
PROTÉTICO
CREMILDA

DE MARCO
ÊNIA
SÁ GOMES
CHEFE DOS ESCOTEIROS
MULHER

PRIMEIRA PARTE

Apartamento conjugado. Sua característica principal é o desmanzelo e o improviso


misturado com objetos de alto valor. Tapete moderno, uma poltrona de prêmio em
exposição internacional, objetos modernos de arte, talvez um Picasso na parede. Tudo isso
misturado com desmanzelo, descuido e coisas provisórias. Uma estante giratória de metal
que serve como guarda comida, guarda pratos e guarda roupas. Vemos um gravador
Nagra. Entre as roupas jogadas, camisas de givanchy, calça de tep lapidus. Numa mesa,
encima de uma pilha de fitas gravadas, uma calça de smoking bem visível. abandonada.

CENA I

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Quando acende a luz. Uma hora da tarde, apartamento às escuras. Notamos que é dia
forte pelo sol que empurra pelas frestas de uma persiana escarafunchada. BUJA quer
dormir. Ouvimos Dalva de Oliveira cantando “Segredo” numa vitrola vizinha. Ruídos
comuns de edifícios – rádios, marteladas. Depois de alguns tempo, as VOZES dos vizinhos
mais próximos surgem.

VOZES – (MULHER) não puxa o rabo do cachorro! (Tempo. Homem) Eleonora!


Nora! Essa cueca está com o elástico frouxo Nora! Meu negócio fica
saindo, pra fora! (BUJA senta na cama. Fica ali, parado, olho fechado,
querendo dormir) (Menino) Não quero escovar os dentes, mãe! Gasta
eles!

BUJA – ...quer dizer que a famosa lei do silêncio do Embaixador Negrão de


Lima, não se respeita, não é? Vocês respeitam todas as leis, menos a
sacrossanta lei do venerável Embaixador Negrão de Lima? (Fala baixo,
dormindo. no que se deita, entra altíssimo um conjunto de ié ié. Dalva de
Oliveira recomeça “Segredo”.) ... (dormindo)... este é um trabalho o
Capitão Caceta! Shazam! (Tempo. Levanta. Sai do apartamento. Está de
paletó de smoking, gravata borboleta e sem calça. Apartamento vazio).

VOZES – (Rosnar de cão. Latido. Criança que chora) (MULHER) Bem feito,
menino! Não disse pra não enfiar o dedo nesse lugar do cachorro? Bem
feito! (O som do conjunto de ié ié, termina de estalo)

VOZES – (Um) Ei, acabou o som da minha guitarra! – (Dois) Acho que michou ea
energia! – (Três) É geral? – (Um) Não. É só aqui no apartamento. (Dois)
Vai ver que é o fuzível de novo! (nesse exato momento, Dalva de
Oliveira também sai do ar)

ÊNIA – (Voz) Ei, Minha vitrola!

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(Pequeno tempo. BUJA entra no seu apartamento com uma vitrola, discos numa mão, um
fuzível numa outra.)

VOZES – (Um) É. Foi o fuzível, mesmo! (Dois) Pô, outra vez o Buja tirou o
fuzível! (Três) BUJA! BUJA! Você tirou o fuzível daqui?

BUJA – (Grita enquanto atira o fuzível pela janela) Tirei o fuzível sim, qual é?
Ou você pensa que a humanidade levou 20000 anos prá descobrir a
eletricidade pra você ficar tocando ié-ié-ié, hein, ô presunçoso?
(Entra ÊNIA. 17 anos. Roupa hippie. Lânguida. maravilhosa. Fala calma)

ÊNIA – ... mania de pegar minha vitrola, Buja... (Arrumam a vitrola. Liga-a
numa tomada)... estou descobrindo a Dalva de Oliveira, faz uma
semana... (abre a persiana. põe o disco alto. quando a claridade entra,
Buja que acabou de deitar, salta, vai até a persiana, desce-a. a Persiana
meio se desfaz. fica uma fresta enorme jorrando luz. Buja pega uma
maleta de viagem aérea, enfia-a na cabeça. diminui ao máximo o som da
vitrola, fecha o zip da mala, vai para a cama. Ênia fica ouvindo)... que a
roupa marcando touca é essa?

BUJA – ... fui numa festa de formatura...

ÊNIA – Já velho assim? Festa de formatura de quem?

BUJA – Atenção todos os carros, atenção todos os carros, porra louca nacional
impedindo pacato cidadão de dormi... não dormi ainda... cheguei faz uma
hora... quero nanar... (ÊNIA FICA OUVINDO A VITROLA.
CURTINDO)

VOZES – (MULHER) Demóstenes! Você está bêbado de novo, à uma da tarde?


(HOMEM) Eu bêbado? Eu? (MULHER) Deixa eu te cheirar! (HOMEM)

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Não sou cadela prá me cheirarem! Me cheirarem é contra meus
princípios!
(Enquanto essas VOZES se ouviam, PROTÉTICO apareceu na porta. pasta de documentos
numa mão, copo de alka seltzer borbulhando em outra. toca a campanhia insistente, mesmo
a porta estando aberta. Buja não tem outro remédio senão levantar. vai até a porta, fica
parado diante do PROTÉTICO, dormindo em pé, com a mala fechada na cabeça.
PROTÉTICO, às vezes, é extremamente afrescalhado, às vezes não. PROTÉTICO repara
na roupa de Buja)

PROTÉTICO – A idéia é mais ou menos essa, mas roupa de astronauta não é bem
assim, não. (PEQUENO TEMPO) Ou revolveu despachar a cabeça pelo
reembolso postal? (BUJA ABRE O ZIP DA MALA) Olha o seu
desjejum. (BUJA TOMA A ALKA SELTZER DE UM GOLE SÓ)
Precisa consertar a porta, bem. Porta aberta, o justo peca.

BUJA – Que é que você quer, fora desmunhecar?

PROTÉTICO – (TIRA PAPÉIS DA PASTA) Consegui o empréstimo lá naquele banco


que você me falou prá montar a minha oficina. Só que o gerente quer que
você seja o meu avalista. Acho que ele pensa que você ainda é uma
pessoa respeitável. (BUJA VAI ATÉ O BANHEIRO. DEITA LÁ)

ÊNIA – ... ele foi numa festa de formatura...

PROTÉTICO – (TEMPO) Ui, eu ouço a Dalva de Oliveira e tenho espasmos no ovário!


(À BUJA) Como é? Quer ser meu avalista, paixão? (DE MARCO
APARECE NA PORTA. ELEGANTÍSSIMO) ui, elegante, vamos
entretanto, o negócio é o seguinte: na frente é dez, atrás é vinte. (DE
MARCO VAI ENTRANDO, ESTRANHANDO) BUJA. BUJA. (BUJA
VEM DO BANHEIRO, AINDA COM A CABEÇA COBERTA.)

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BUJA – (TRANSMITE A SUA IRRITAÇÃO, IMITANDO PROTÉTICO,
DESVAIRADO) Quero dormir, entende? Quero um sono reparador, não
posso ser avalista de ninguém, abrenuncio! Estou desempregada,
roubaram minha peruca e não me aceitaram no show de travesti porque
tenho bata da perna grande... (SILÊNCIO. ABRE O ZIP) Ui, um
executivo! (DE MARCO RI MUITO. BUJA RI. CAEM UM NOS
BRAÇOS DO OUTRO)

DE MARCO – Ô, canalha, faz seis meses que você largou a minha agência, ganhando
20 milhões prá virar bicha? (RIEM)

BUJA – Esse é o DE MARCO, o cara que foi meu patrão. Vem cheirar ele, vem,
á Água de Colônia Ives de Saint Laurent! Tira a roupa, mostra o pintinho,
passa talco americano no pipi. Tremendo homem de publicidade e
negócios porém incapaz de vender a mãe, a não ser que seja indispensável
mesmo. Essa é ÊNIA. E a madame aí é o PROTÉTICO.

PROTÉTICO – Faço dentaduras, coroas, pivôs, adoro botar coisas na boca, entende?

ÊNIA – Ontem, ele foi numa festa de formatura...

BUJA – Quero dormir, rei de ouros, que é que você veio fazer aqui?

DE MARCO – Tinha que vir ver o cara que faz seis meses hoje, jogou um emprego de
vinte milhões na minha cara. Penso mais em você do que em MULHER
nua.

PROTÉTICO – (Fala sério) Com 20 milhões por mês, eu dava tanto, mas dava tanto...

ÊNIA – Ganhar vinte milhões é feito Maria Antonieta mandando comer pão de
ló...

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DE MARCO – O que é que você foi fazer numa festa de formatura, pomba?

BUJA – Ora, fazia doze anos que eu não ia numa, DE MARCO. Tomei porre de
cuba livre, me esfreguei numa porção de menininhas suadas brilhando,
cuspi no ponche, mijei na piscina do clube e fiz cocô na quadra de tênis...

DE MARCO – (CORTA) ... faz seis meses que eu penso em você: “BUJA teve
coragem e largou; e eu, não! Eu, na engrenagem! Ele, coragem; eu,
engrenagem!” Vim trêmulo para cá, com medo de me ver e me sentir
mais mesquinho ainda e descubro que você largou tudo prá ir em festa de
formatura, se esfregar em adolescentes e defecar em lugares impróprios?
Você não largou pra escrever um romance preto, fazer um filme,
epopéias, éclogas? (PEQUENO TEMPO)

PROTÉTICO – Bem, assina meu anal? Quero dizer: meu aval?

BUJA – Onde é seu aval, bem? (ASSINA ONDE PROTÉTICO MOSTRA)

ÊNIA – (OUVINDO DALVA) ... demais a Dalva... ela é precursora de... deve
ser a precursora de... não sei bem de que, mas ela tem que ter sido uma
tremenda precursora... (BUJA TIRA O SMOKING QUE LHE SOBROU
E PÕE BERMUDA)

DE MARCO – Pomba! Pomba! Não vai me dizer que você largou a Agência DE
MARCO, 20 milhões mensais, tratado como uma Madona, premiado no
Festival de Publicidade em Veneza, cheio de mulheres excitadas, largou
tudo isso pra ficar com essa porra louca desmantelada aí e esse cara que
faz trocadilho de aval com anal e é... é... pomba, é uma bichona!?

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PROTÉTICO – Bichona, publicitário, é a vossa mãe. Sou uma senhora casada com
Luciano Ribas, cineasta atualmente na Bolívia. Sou protética. Arranjei um
sócio, um empréstimo de 30 milhõese vou montar uma oficina de prótese
só minha. Além do mais, aos sábados e domingos, para completar o
orçamento, faço mágicas em festas infantis. Sou uma senhora de respeito.
(PROTÉTICO ARRUMA OS PAPÉIS) (DE MARCO, MEIO PARVO,
PARADO. BUJA DEITOU)

VOZES – (HOMEM) Seu Juvenal. Seu Juvenal. Conhece um bom médico de


bexiga?

VOZES – (OUTRO HOMEM) Minha MULHER tem um primo que é médico


especialista ótimo mesmo da cintura prá baixo. (TEMPO)

BUJA – ... empresta um dinheiro, PROTÉTICO?

DE MARCO – ... você é inviável, BUJA, não finja calma, você e a vida não
conjuminam.

PROTÉTICO – PROTÉTICO, me empresta uma nota?

PROTÉTICO – Não se enxerga, garota? Você acabada de virar meu avalista e eu vou te
emprestar dinheiro? É contra a lógica aristotélica. (SILÊNCIO)

DE MARCO – Quanto você está precisando?

BUJA – ...cem contos... não, dois milhões... (DE MARCO TIRA UM TALÃO
DE CHEQUES. PREENCHE. BUJA VAI FALANDO) ÊNIA, desconta
esse cheque pra mim... presta atenção, vai num banco que não esteja
sendo assaltado... compra... o que é preciso, PROTÉTICO? Meio quilo de
que, vai...?

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PROTÉTICO – ... café, sabonete, biscoito, manteiga, precisa pagar sua pensão, deve
dois meses de marmita, modess prá mim, ovo, sal, açúcar... (À DE
MARCO) senta, querida, está tão afogueada. (À ÊNIA)

BUJA – Me traz o troço que tenho que pagar uns três meses de... aluguel na
justiça que amanhã acho que é o último dia. Homem de bem, por
princípio, só para aluguel na justiça. (ÊNIA SAI. SILÊNCIO.
PROTÉTICO ARRUMA OS PAPÉIS PARA IR EMBORA)

DE MARCO – Vem cá, ô veado.

PROTÉTICO – Sim, sim.

DE MARCO – Não é com você, é com ele. Você não vai me agradecer, não?

BUJA – O que?

DE MARCO – Te dei dois mil cruzeiros, BUJA.

BUJA – Você acha muito? Prá mim fizar aqui no meu canto e não sair pela rua
exigindo guilhotina pra vocês? ... ainda te ofereço um... pó, não tem nada
prá tomar aqui...

PROTÉTICO – Pra tomar sempre tem, eu tomo a hora que vocês quiserem...

DE MARCO – Quero uma idéia prá lançar uma cerveja pernambucana aí, um grupo
pernambucano norueguês. Já fiz dez reuniões na Agência, não sai nada.

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BUJA – Uma idéia por dois milhões? Me dá mais três. (DE MARCO, TEMPO.
PEGA O LIVRO CHEQUE. ASSINA) Vamos ver... é em lata a pomba da
cerveja?

DE MARCO – Justamente.

BUJA – ... muito bem... muito bem... (TEMPO) Cerveja?

DE MARCO – Olinda...

BUJA – (TEMPO) Põe lá... “Cerveja Olinda! A pura! Lata esterilizada com
vapor vivo!”.

DE MARCO – Todas as latas de cerveja do mundo são esterilizadas com vapor vivo!

BUJA – Ninguém sabe disso, nenhuma anuncia isso. Anuncia você. “Olinda. A
pureza ao alcance dos seus lábios!”

DE MARCO – Genial! Perfeitamente genial, simples, evidente por si mesmo como


queria Descartes! Você continua um canalha! Idéia aprovadíssima!

BUJA – Então, custa mais cinco milhões, Paganinni. (PAUSA. DE MARCO


TIRA O LIVRO DE CHEQUE. ASSINA.)

PROTÉTICO – (NAJANELA) Ih, aquela mulherzinha é uma que é nova no prédio. (DE
MARCO DÁ O CHJEQUE E VAI À JANELA. BUJA PROCURA
ALGUMA COISA PARA COMER)

BUJA – Pó, ontem tinha a maior salsicha por aqui... (ACHA UM OVO DURO.
VEM PARA A JANELA, DESCANDO O OVO)

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DE MARCO – É uma mulherzinha fantástica!... (BUJA EXAGERA. TEM
ORGASMOS, FAZ RUÍDOS SENSUAIS. ASPIRA AR FORTE COM A
BOCA FECHADA)

BUJA – ...sssssssss... coxa-moreno-Bahia... (FICA FAZENDO BARULHOS)

DE MARCO – Ih, ficou só de calcinha, olha, ficou de calcinha, ficou só de calcinha,


olha só de calcinha...

BUJA – Dá um beijinho, dá um beijinho...

DE MARCO – ... sai daí, BUJA... olha só de calcinha, só de calcinha, tem binóculo aí?

BUJA – ... você faz a publicidade de toda a linha Valisère, passa o dia vendo
MULHER de calça...

DE MARCO – Ei, que é aquilo?

PROTÉTICO – É uma velha escrota que mora com ela...

BUJA – ... sssssss... a velha olha que velha gostosa...

DE MARCO – Pô, sai da frente velha escrota. Isso. Olha!

PROTÉTICO – Hum, aquela bundinha num rapaz.

DE MARCO – Não! Botou a saia, não! Ah! (TEMPO) Olha lá, olha lá, na janela
chupando sorvete... gracinha...

BUJA – (FALA NUM MEGAFONE) Ssssss! Vizinha! Ssssss! (ACENA) Aqui.


Bom dia. Ssssss. Está chupando sorvete, vizinha? Estou comendo ovo.

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Quer meu ovo? Você come o meu ovo e você chupa o meu sorvete. Você
acha que eu estou sendo muito grosseiro ou apenas, maliciosa?...

DE MARCO – Pronto, michou, olha lá! A velha escrota tirou ela da janela...

BUJA – (CONTINUA NO MEGAFONE) ... Ssssss... a velha também é


gostosa...

DE MARCO – Pára com isso, BUJA, estragou tudo, pomba! Que cara mais destrutivo!

PROTÉTICO – A menina tem anca muito fina, hein? Nádega bem mais prá abacate do
que prá laranja lima, pé grande...

DE MARCO – Bicha tem mania de entender de MULHER...

PROTÉTICO – Publicitário, quero saber de onde você tirou essa idéia que eu lhe dei
intimidade para me chamar de bicha?

DE MARCO – A velha escrota cortou uma boa, hein? Tem sempre uma velha escrota
pra se meter, seu... (IRROMPE CREMILDA APARTAMENTO
ADENTRO. ATRÁS DELA, TERESA E SÀ GOMES)

CREMILDA – Olha a velha escrota aqui.

TERESA – Vão embora, mãe, deixa prá lá!

CREMILDA – Que é o AzamBUJA que largou um emprego de 20 milhões? (BUJA


LEVANTA A MÃO, FEITO GINÁSIO) Ficou maluco? Um emprego de
20 milhões?

BUJA – Pó, estou na berlinda hoje? Não quer entrar, senhora, esteja à vontade.

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CREMILDA – É verdade isso?

TERESA – ...deve ser... (PEGA COISAS ESPALHADAS) Olha aí, camisa


Givanchy, abotoadura de Salvador Dali, esse móvel é premiado, vi numa
revista... essa cara já teve dinheiro...

CREMILDA – Fui reclamar com o síndico porque nós mal nos mudamos e já tem um
bando de delinqüentes sexuais paquerando a coxa da menina e eis que o
síndico me disse que você era um cara esquisito que largou um emprego
de 20 milhões: Eu disse: “Perdão, cavalheiro, esquisito, não. Trata-se de
um filho da puta.” (SILÊNCIO LIGEIRO)

PROTÉTICO – Ah, agora estou me lembrando da senhora. A senhora não é da artilharia


pesada?

CREMILDA – Meu falecido marido passou vinte anos no funcionalismo carimbando


uma cacetada de papel prá conseguir chegar a um ordenado de 1300
bruto, 1012 líquido e você larga 20 milhões? Hein, moleque? Se explica.
Como é que foi o ato de largar 20 milhões, começa pelo ato.

TERESA – Foi fácil, o capitão Bandeira aí, revoltado contra a opulência das
minorias, entrou num mictório, gritou Shazan e sai voando...

DE MARCO – (TODO SORRIDENTE PARA TERESA) .. e entrou sensacionalmente


pela janela do escritório refrigerado do chefe e...

CREMILDA – Cala a boca, você! (PARA BUJA) Vai, vai, você entrou no escritório do
babaca lá e disse como? “Ô babaca, não quero mais os teus 20 milhões...”

BUJA – Tal e qual.

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CREMILDA – E qual foi a reação do babaca lá?

BUJA – O babaca lá, é ele. (TEMPO) DE MARCO, minha vizinha.

CREMILDA – Prazer. (UM TEMPO DE SILÊNCIO)

PROTÉTICO – Por falar em babaca, quem é este senhor? (APONTA SÁ GOMES)

CREMILDA – Perdão, dr. SÁ GOMES! Perdão! Fiquei tão fora das tamancas que...
Dr. SÁ GOMES, advogado, nosso amigo, tem sido uma mãe para nós...

SÁ GOMES – Bondade sua, dana CREMILDA, estou apenas ajudando nessa parte
maçante de auxílio funeral, pensão do falecido... ela perdeu o esposo há
três semanas... nós nos conhecemos no velório... Przaer, eu tenho a
impre...

CREMILDA – (À BUJA) Vai, vai, vai porque é que você largou os 20 milhões?

CREMILDA – Balança sua mãe éfe pê. Você é um éfe pê. Tenho um irmão que é
CHEFE DOS ESCOTEIROS da 5ª Região. Pena que escoteiro não prende
ninguém!

TERESA – Eu não larguei emprego nenhum, tenho que ir embora, quero almoçar,
pode ser?

CREMILDA – Chama o Pinel pré ele, hein? (Vão Saindo. Teresa MEIO PUXANDO)
Contestador, não é? Eu, por mim, dava é cacete nesses malucos todos,
não me puxa, menina; por causa de gente assim que o mundo está que não
se agüenta, todo mundo com vergonha de ser normal, eu sou normal,
entende, veado, normalíssima! (CRUZA COM ÊNIA QUE TRAZ

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PACOTES) Olhai, olhai quem mora neste prédio, quem mora no mundo
agora! Eu dava é muita porrada... (SAI)

ÊNIA – Ela é da onde? De alguma cruzada cristã? (FALA SÉRIO RISO DOS
OUTROS) (BUJA DESEMBRULHA AS COISAS QUE ÊNIA
TROUXE.)

BUJA – ... salmão defumado, marron glacê, vinho do porto, conhaque francês...
mas você é porra louca faixa azul, hein? Cadê café, açúcar, biscoito...?
que ovo!

ÊNIA – Comprei o que me deu vontade BUJA, não dá prá racionalizar esse
negócio de cozinha comida, não...

PROTÉTICO – Cadê troco, pelo menos, deficiente?

ÊNIA – Olha, BUJA, eu passei numa butique e vi essa toga desbundante,


comprei... e emprestei acho que uns 500 contos que sobrou pros pintas do
703...

BUJA – 500 contos pro Esquadrão da Morte do Ritmo?

ÊNIA – O amplificador de som deles não amplifica, eu grilo...

BUJA – Sai daqui, maluca! Mesmo pro meu gosto liberal de esquerda, você é
maluca demais, ta? (ÊNIA PEGOU A VITROLA. SAI. TEMPO. À DE
MARCO) Viu por que é que eu larguei tudo? Pra virar dona de casa.
(SORRISOS).

PROTÉTICO – Eu desço com você, publicitário. Aproveito e patolo horrores no


elevador que é lentíssimo. (SAEM. BUJA VAI ATÉ A CAMA. MUITA

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LUZ. PEGA UMA COLCHA. PENDURA-A NUM BARBANTE. FAZ
UM DOSSEL PARA A CAMA. DEITA. QUASE DESAPARECE DA
VISTA DO ESPECTADOR.)

VOZES – (MULHER) Vai fechar a água de novo às quatro horas? Meu Deus,
quando é que eu tomo banho na vida? (ÊNIA VOLTA COM A
VITROLA. PROCURA NAS COISAS QUE COMPROU. ACHA
MARRON GLACÊ. COME.)

VOZES – (MULHER) Olha essa boca suja, menino! Ainda descubro quem é que
fica ensinando palavras de baixo calão pras crianças do prédio!

BUJA – (PÔE A CARA POR DETRÁS DO CORTINADO) Atenção todos os


carros! Atenção todos os carros, porra louca ataca novamente... Vai
embora. (DESAPARECE)

ÊNIA – Vim comer o tal de marrom glacê, nunca comi isso na minha vida. O
que é marrom glacê?

BUJA – (DE DENTRO) Uma castanha bicha. (ÊNIA FICA COMENDO.


PROTÉTICO ENTRA. CARTA NA MÃO. DESESPERADO.)

PROTÉTICO – BUJA! BUJA, pelo amor de Deus! (PUXA O CORTINADO. SACODE


BUJA.) BUJA, BUJA, sério, me ouve, sério...

BUJA – Sério, não, puto da vida, puto da minha vida!

PROTÉTICO – ... Olha a carta do Luciano que estava na portaria, estou sem fôlego:
prenderam o Luciano na Bolívia! Olha aí, prenderam meu marido na
Bolívia!... Ele quer dinheiro pra... (PROCURA. LÊ) “subornar as
autoridades coatoras...” Me empresta aqueles cinco milhões que o

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publicitário te deu? Pelo amor de Deus, onde está aquele cheque, me
empresta...?

BUJA – ...acho que está ali, não sei aonde, como é que ele foi preso? Quero
dormir...

PROTÉTICO – (ACHA O CHEQUE) Obrigado anjo, amor. (LÊ) “Eu estava filmando
na cidade de El Potosi. Acho que pensaram que sou do apoio logístico à
guerrilha. O que me dificulta é que não tenho nenhum documento
comigo. Só a carterinha do Museu de Arte Moderna. Sabe que não sei
onde deixei meu passaporte? Vê se ele ficou aí em casa, amor, na
gavetinha do pechichê”... ai, meu Deus, tenho que ir buscar meu
empréstimo e agora também tenho mandar dinheiro pra Bolívia. Como é
que se manda dinheiro pra Bolívia?... Banco do Brasil deve informar, não
é? Sabe o telefone do banco do Brasil...?

ÊNIA – Vê se não tem escrito numa nota...


(PROTÉTICO PROCURA NUMA LISTA TELEFÔNICA. ÊNIA COLOCA
NOVAMENTE DALVA DE OLIVEIRA. DE MARCO ENTRA. VAI
ATÉ BUJA.)

DE MARCO – BUJA, BUJA. (BUJA ABRE O OLHO)

BUJA – Pomba! Você voltou também? Essa aí vai ouvir Dalva de Oliveira de
novo? O que é? É vídeo tape? Vocês estão passando vídeo tape?

DE MARCO – ... tive uma idéia no meio do caminho, tem uma MULHER aí casadona
querendo se libertar, entende? Dando gargalhadas, fazendo gênero porra
louca, eu também fiz gênero porra louca e ela está muito a fim mas eu
queria levar ela num lugar bem porra louca, entende? Prá manter essa

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atmosfera porra louca já conseguida, entende? Será que você podia me
emprestar o cafofo? BUJA, acorda, estou com pressa....

PROTÉTICO – É do Banco do Brasil? Boa tarde, cavalheiro, eu queria saber como é


que manda dinheiro prá Bolívia. Não pode explicar porque? É da Agência
do Méier? E daí, cavalheiro? O Méier rompeu relações com a Bolívia?
Sei, sei, Agência Central, não é? (DESLIGA. PROCURA NA LISTA)

DE MARCO – BUJA, como é? Empresta o apartamento?

BUJA – Eu alugo ele, vivo disso, sou cafetina.

DE MARCO – Aluga prá mim.

BUJA – Duzentas pratas a tarde toda, com roupa de cama e toalhinhas...

DE MARCO – Está certo. Sábado de manhã, pode ser...? (BUJA DEITA) Não. Sábado
quatro horas. Vamos fazer uma vesperal. (DE MARCO VAI SAINDO.
CREMILDA VOLTA COM TERESA ATRÁS. BUJA PULA DA
CAMA, SEM ENTENDER)

TERESA – Mãe, por favor, absurdo mãe! Absurdo, mãe!

PROTÉTICO – Madame de volta? Brucutu, seu esposo, está passando bem?

CREMILDA – Vim aqui pedir algumas informações...

TERESA – CREMILDA, pelo amor de Deus, CREMILDA! (BUJA DEITA DE


NOVO)

PROTÉTICO – É do banco do Brasil?

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CREMILDA – Um minuto só aqui, meu filho, ouve um segundinho... (CUTUCA
BUJA)

DE MARCO – Bem, eu estava de saída...

CREMILDA – Que saída, os cambáu, um segundinho só...

TERESA – Pelo amor de Deus, mãe. (CREMILDA SACODE BUJA)

BUJA – Por que tudo isso, ó Deus? Porque não tenho ido à igreja, porque não fiz
a primeira comunhão?

PROTÉTICO – Eu queria mandar dinheiro pra Bolívia. Pra quem? Pro meu marido.
AlÔ, alô? Não é trote não, cavalheiro... alô? (VOLTA A DISCAR)

CREMILDA – Olha, meu filho, eu quero casar a menina com um homem rico e sereno,
entende? Nós vivemos prá isso, eu e ela, e...

TERESA – Você está ficando completamente desvairada, mãe?!

PROTÉTICO – A senhora sua mãe desvairada? Calúnia!

CREMILDA – ... aqui são todos porra loucas, menina, excusado fazer a flosô. Só tenho
no mundo um irmão escoteiro, o que é que eu faço co irmão escoteiro?
Portanto, eu e ela estamos afim de um homem rico, e...

TERESA – Vou te botar em camisa de força, mãe!

PROTÉTICO – Do Banco do Brasil? Faça o favor de me dar atenção. Sou acionista daí,
entende? Quem está falando é o seu patrão!

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CREMILDA – ... e eu me lembrei que se você largou mesmo um emprego de 20
milhões, deve conhecer uma porção de rapazes, gente moça, que tenha
dinheiro e esteja a fim de casar com uma menininha pobre mas limpinha,
prendada, que faz Comunicação na PUC, gostosinha, criada com leite de
peito mesmo, nada de Nestlé que deixa a bunda caída, aqui na teta
mesmo!

TERESA – Polícia! Polícia!

CREMILDA – Porque não está saindo casamento, entende? A gente vira e mexe,
economiza dinheiro, compra roupa exclusiva, assinada, sapato, mas não
está saindo casamento, parece que vai sair, chego a chamar meu irmão
escoteiro pra conhecer o pretendente, os caras vem, conversam, sorrisos
flores, mas o que eles querem no fim é só comer e mais nada... (TERESA
COMEÇA A RIR.) O que foi, menina?

TERESA – ... é que eu acho que nunca na minha vida nada mais constrangedor,
entende? Você é um fenômeno CREMILDA, gênio... estou morta azeda
de vergonha. (MORRE DE RIR. OS OUTROS RIEM TAMBÉM.)

PROTÉTICO – (NO TELEFONE) Quero mandar cinco milhões... ah, pelo Correio
Nacional? Mas então meu marido vai apodrecer na cadeia...

CREMILDA – Estão vendo? Além do mais a putinha tem espírito, tem saída, puta
personalidade, sabe tirar a raiz quadrada, esposa perfeita, faz um bolinho
de bacalhau dos culhões! (TERESA RI MAIS)

BUJA – Em programa de calouro sempre tem sessão vale-tudo. A senhora devia


participar.

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TERESA – Mãe, agora vamos se mandar, pelo amor de Deus e os anjos!

CREMILDA – Como embora? Não ouvi ainda nenhuma sugestão...

DE MARCO – Vai pra cidade, Teresa, eu também vou... Você trabalha onde?...

CREMILDA – Não se engraça você, não, com essa voz de cama, você é casado,
tremenda aliançona no dedo, não vem, não; casado ela tem aos potes, é o
que mais tem... o que interessa onde ela trabalha? Tem um filho do patrão
lá, solteiro que olha muito, procura sempre uma posição que de prá olhar
a bunda dela mas até agora não disse a que veio, fora paquerar o rabo...

TERESA – Mãe, vou me atirar já por essa janela... (SAI CORRENDO)

BUJA – E eu vou dormir que jamais vi papo mais brochante em toda minha
vida. (DEITA ATRÁS DA COLCHA.)

DE MARCO – A senhora quer solteiro, bem de vida... fora o papa, deixa eu pensar...

PROTÉTICO – O Clóvis Bornay. Diz que tem uma fortuna em canutilhos.

CREMILDA – Estão afim de sacanear. Está bem, michou o papo. Bando de veados.
Coitado do Deocleciano... Deocleciano é o meu irmão escoteiro...
telefona todo mês... Como é? Desencalhamos a menina? (VAI SAINDO)
Vou indo... vou ver se vendo Coleção Mãos de Ouro... vendo livro de
casa em casa, varise nas pernas, os cambáu... principalmente, os
cambáu... (À ÊNIA) Minha filha, do outro lado do disco, também toca
música, viu? (SAI)

PROTÉTICO – (À DE MARCO) Publicitário, me leva até a cidade?

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DE MARCO – Você se incomoda se eu procurar aquela menina prá dar carona
também?

PROTÉTICO – Não, querida, adoro ménage à trois. (SAEM. ÊNIA FICA SÓ)

ÊNIA – (VAI VER BUJA. ELE DORME. TEMPO) ...pô... acho que minha mãe
já deve ter voltado prá casa... ô, saco... capaz de meu pai também estar em
casa, acho que hoje é folga dele... sacolândia... (SAI)

CENA 2

MUDANÇA DE LUZ. SÓ LUAR FILTRANDO PELA JANELA. TERESA ENTRA.


ESTÁ VESTIDA PARA SAIR. TERESA ACENDE A LUZ. NÃO VÊ BUJA. VAI ATÉ A
COLCHA. AFASTA-A. BUJA ESTÁ LÁ AINDA, DORMINDO. TERESA FICA
OLHANDO. RUÍDOS DE PROGRAMAS DE TV. BUJA, LENTO, ACORDA.

TERESA – (PEQUENO TEMPO) Vem cá. Passei a tarde pensando em você. Você
largou 20 milhões prá ficar aí dormindo desbundado, sem fazer lhufas?

BUJA – ...pô, não está dando mesmo prá mudar de assunto, é?...

TERESA – (TEMPO PEQUENO) ... fiz uma cacetada de curso: Aliança Francesa,
Cultura Inglesa, arranjo floral, etiqueta, forno, História da Arte,
andamento, o maior sacrifício prá pagar... Vejo filme do Ingmar Bergman
que eu acho um pé no saco mas vejo prá ficar por dentro, tudo isso prá
pegar um cara bonito, jovem, rico, pele saída da sauna, pouco pivô na
boca, sem barriga, por dentro da política internacional, que ganhe mais de
20 milhões por mês e você largou uma situação dessa, cara?

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BUJA – ... está linda... parece um Corcel 73 gelo... deixa eu passar a mão?

TERESA – (NEM TOMA CONHECIMENTO DA PROPOSTA) Que é que você


faz na pomba da vida fora pensar que fez um grande gesto e se sentir uma
estrela matutina?

BUJA – Quem te ensinou a ser agressiva assim? Filmes da Doris Day?


(APONTA O NAGRA E MOSTRA FITAS) Gravei uma entrevista com
um policial logo depois que ele fuzilou um marginal de bermuda,
entrevistas com velhos moradores do Catete, nem dá pra escutar, falam
baixinho que estão vendo o bairro e a vida deles desaparecerem,
entrevista com catadores de xepa na feira...

TERESA – Pô, você agora passa a vida gravando entrevista com fodido? Eu sei que
fodido existe, qual é, tem o Ministério do Trabalho, a Casa da Mãe
Solteira! Ou você vai solucionar alguma coisa com um gravador? Ah,
você é muito veado. Largou os 20 milhões pra fazer gravação?

BUJA – (Vai ao banheiro) ... não, menina, isso faz parte, isso acontece
também... na verdade mesmo, eu larguei pra tomar café devagar, entende?
Passar a manteiga no pão devagar, depois a geléinha, sem derrubar
geléinha no dedo pro dedo não ficar grudento... pó, não tem água jamais
nesse pardieiro?... (Vem até a geladeira. Lava a cara e escova os dentes,
com água da geladeira.) ... larguei pra não viver mais com a cabeça cinco
horas adiante... (ÊNIA entra com a vitrola)

ÊNIA – Pó, tem uma rádio aí que transmite esporte e agora vai transmitir uma
partida de ping-pong. Putz! E o meu pai vai ouvir a partida de ping-pong,
pomba! Tenho que ouvir a Dalva aqui... (Liga a vitrola. Pôe a Dalva de
novo “Segredo”.)

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BUJA – ... e tenho mil outras atividades importantes: sou ponta direita da linha
de passe que fica à esquerda da praça do Lido, sou da Ala dos
Desbundados do Ritmo, que sai na Mangueira... (Mostra uma caixa) Olha
uns pedações da fantasia desse ano... ela é da alta também.... (Refere-se à
ÊNIA)

TERESA – Ah, isso é folclore, meu santo, folclore!

BUJA – Folclore, por exemplo, é a senhora sua mãe, folclore por exemplo, é
golpe do baú, é subir na vida... e não te dou mais entrevista que você é
muito ressentida azedinha. (Toca o telefone. BUJA atende) Alô?... O
PROTÉTICO? É, sou vizinho dele... entendi. O senhor está que parece
um coelho, não é isso? Os dentes pra fora, eu sei como é, dou o recado...
(Desliga) O PROTÉTICO fez uma dentadura apertada demais prum cara
aí; ele já chegou, ÊNIA? ÊNIA, está ouvindo?

ÊNIA – Estou ouvindo a Dalva de Oliveira.

BUJA – Isso, acho que já deu pra reparar. O PROTÉTICO está no apartamento
dele? (ÊNIA faz cara que não sabe) Esquisito esse cara não ter aparecido.

TERESA – Precisamente, meu filho, precisamente: você está a fim de que?

BUJA – Sou um egoísta, entende? Já estava com úlcera, sinto ânsia de vômito
quando a vida engrossa, sou uma sensitiva – resolvi não terminar no
Pinel. E também o meu lado altruísta – além de não ir pro Pinel, também
não quero enlouquecer a humanidade...

TERESA – Humanidade se vira, qual é? Não enlouquece assim fácil...

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BUJA – Mas eu fazia publicidade, companheira, dava uma boa mão... (Tem
ânsias) Está vendo? Nem posso falar nisso ainda direito... sabe quanto se
gasta de publicidade nos Estados Unidos, por exemplo? 20 milhões de
dólares. 20 bi! Bi de Bibi Ferreira! Metade do Produto Bruto Brasileiro de
um ano! (Tem ânsias)... entende? (Vai falar do banheiro pra se
prevenir)... cada ano um novo carro, nova geladeira, nova maçaneta pra
porta nova calça novo batom, margarina mais cremosa; exércitos pra
bolar novos modelos, exércitos pra fazer pesquisa, exércitos pra fazer
espionagem industrial, tudo pra bolar um novo dentrifício com listinha, é
o famoso parto da montanha! Rios de dinehiro e as pessoas passando
fome e miséria... demagógico eu, não? lembro o velho PTB, não? ... 20
milhões de dólares dá pra que? Por exemplo... dá pra construir casas pra
todos os brasileiros... (Tem ânsias mais fortes) ... não dá pra falar muito
nisso, eu te explico um dia, aos poucos, com um piniquinho na mão...
(Sai) PROTÉTICO, PROTÉTICO, paixão! (Tempo)

TERESA – E esse veado, essa margaridinha do campo vivo como agora?

ÊNIA – Ah... aluga o apartamento pra bimbar, é argumentista de história em


quadrinho de sacanegem. A última que ele escreveu fez sucesso paca.
Chamava: “A estranha amizade de Maria e seu Pequinês”. (BUJA volta)

BUJA – PROTÉTICO sumiu. Fico tão aflitinha. (Parado diante de Teresa.


Tempo. Beija delicado o lábio dela..)

TERESA – Muito veado, você.

CREMILDA – (Voz) Teresa? É você que está aí, no apartamento do porra louca?
Teresa? (Tempo. Sorriso dos dois. BUJA beija delicado Teresa outra vez)

TERESA – (Tempo) Ta sabendo que eu sou virgem?

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ÊNIA – Isola.

BUJA – Você é virgem porque? Promessa?

TERESA – Só dou pra homem rico que casar comigo.

BUJA – Entendo. É uma espécie de brinde. Uma bonificação.

TERESA – Justamente. Valoriza a mercadoria.

BUJA – Você nunca teve caso com um home?

TERESA – Só na coxa, naturalmente.

BUJA – Naturalmente. (Parados. BUJA puxa Teresa. Beijá-a forte.)

ÊNIA – Não se acanhem por minha causa, hein?...

TERESA – (Se soltando)... qual é, qual é? Pensa que eu sou Bom Bril que tenho mil
e uma utilidades, que é só ir manipulando? Não requeiro prática nem
habilidade? Requeiro, sim!

BUJA – Está legal, está legal... Você é a favor da burocracia, legal... (Pega o
nagra) Tenho que me mandar.

TERESA – vai fazer mais uma gravação para o rearmamento moral?

BUJA – Ah, tinha uma coisa que eu queria tanto te falar... Vá à merda, antes que
eu me esqueça. (Sai. Tempo)

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TERESA – O que é ser a favor da burocracia?...

ÊNIA – ... ah... esse negócio de antes de dar tem que se conhecer melhor... se for
dando logo de cara, levantando a saia, acham que é galinha...

TERESA – ... e é galinha, sim... pensa que esse negócio de ir pra cama é feito trocar
figurinhas... você dorme com todo mundo que te pede, é?

ÊNIA – ... se eu não estiver morrendo de preguiça... (CREMILDA entra. Copo


na mão muito ligeiramente alta.)

CREMILDA – Sabia que era você, não me ouviu?... O que é que você está fazendo
aqui com essa porra louca? Boa Noite, minha filha.

ÊNIA – Oi.

CREMILDA – Dr. SÁ GOMES todo cocô de terno italiano faz mais de quinze minutos
que está lá te esperando, menina. Pensei que você tinha ido comprar
cigarro, onde está o porra louca daqui? Não é bom você ficar vindo aqui,
não, que o que mais pega no mundo, todo mundo pensa que é chato, não
é, é porralouquice, epidemia de porralouquice alastra mais que chato...
(Vai à janela) Dr. SÁ GOMES, Dr. SÁ GOMES? (Baixo) Aqui, meu
santo, aqui! Levanta essa merda dessa cabeça. (Alto) Aqui! Meu santo,
aqui! Levanta essa merda dessa cabeça. (Alto) Aqui! Isso! Teresa está
aqui! (Sai da janela. À ÊNIA) Ainda está ouvindo esse mesmo disco,
menina? Não deu pra entender a letra? (À Teresa) Não fica aí com essa
cara de Governanta da Rebeca, o SÁ GOMES vai te levar no Bec Fin,
maravilha, o homem está interessado mesmo. (Entra SÁ GOMES) Olha
dr. SÁ GOMES, a menina estava aqui... ela veio pra telefonar... pois é...
não ter telefone é uma bosta total, não é? ... quer dizer... bem... conhece

26
aquela menina? Como é mesmo o seu nome, filha? Sal de Fruta Eno, não
é?

ÊNIA – ÊNIA.

SÁ GOMES – Teresa, telefonei ao Bec Fin e o Lafaiete me disse que eles estão com
lagostas lá, recém chegadas da Praia da Viagem, se você preferir carne, o
Michel tem um filé flambado em conhaque com trufas que é uma
trovaille... carne ou peixe?

TERESA – Acho que não vou...

SÁ GOMES – Mas por que? Já está pronta, tão linda e...

TERESA – Acho que as minhas regras estão chegando.

CREMILDA – Que é isso, menina? Mas que grossura é esta? Onde é que você
aprendeu a ser grossa assim, minha filha? (Tempo de silêncio)

SÁ GOMES – ... bem... então, claro... vamos marcar outro dia... eu telefono pra o Bec
Fin, desmarco com o Lafaiete, não se preocupe... telefono amanhã pro seu
trabalho... Boa noite, então.

CREMILDA – Boa noite, dr. SÁ GOMES. Desculpe a menina. Boa noite. (SÁ GOMES
sorri. Tempo. Ouvimos só Dalva de Oliveira.) Está de porre? Mas que
negócio é esse, enina?

TERESA – A senhora é que está bebendo.

CREMILDA – Claro, claro, você encalhada e recusando um convite pra ir ao Bec Fin?
O cara é solteiro, de terno italiano, evidentemente interessado, tesudo e

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você me fala em regras? (À ÊNIA) Ô, filhinha, não está apertada não?
Não quer ir ao banheiro? Estou aqui numa conversa particular com minha
filha... (ÊNIA parada) Acho que ela nem entendeu que é com ela. (À
Teresa) O que é que deu em você, Teresa?

TERESA – Não gosto desse cara, mãe, não gosto, usa sapato de bico fino com
cadarço, diz trovaille, carne ou peixe... tudo previsto, engomado...

ÊNIA – Esse pinta morre se sem graça mesmo.

CREMILDA – Ela não vai casar prá achar, vai casar prá se segurar e segurar a velha
sua mãe; se for prá acha graça, ela casa com um rico, compra uma
televisão a cores e fica vendo Chacrinha enfiar o dedo no nariz...

TERESA – Está bom, mãe, pára de beber.

CREMILDA – Precisa parar com essa mania de querer que o sujeito além de rico,
também seja bonito, também ame como um Romeu. Isso só acontece com
aquela Gata Borralheira em história de fada, em história de foda, não
acontece, menina! Você já tem quase 22 anos, 22 anos! Daqui a pouco o
XXX micha, daí não tem homem nem como o SÁ GOMES, daí só
mesmo dono de quitanda, viúvo, palito na boca e eu ó... (Faz gesto) ... eu
mifu! (Silêncio) Vamos embora...

TERESA – ... vou ficar um pouco...

CREMILDA – ... mas fazendo o que no apartamento desse cara?

TERESA – ...vou ouvir umas entrevistas que ele fez...

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CREMILDA – ... você é maior de idade... (Tempo. Sai. Tempo de silêncio. ÊNIA canta
junto com Dalva de Oliveira)

ÊNIA – ... diz que os anjos da porta do paraíso, cantam com essa voz... (Tempo.
Dança diante de Teresa. Teresa meio abúlica. PROTÉTICO aparece.
Está de porre. Olho roxo. Vê um pouco ÊNIA dançando para Teresa.)

PROTÉTICO – Já vi esse filme: As Lésbicas do Posto 4, não é?

ÊNIA – (Dança ainda) Que é que você tem? Todo roxo...

PROTÉTICO – Fui assaltada, fui violentada, estrupada. Sou uma bicha no protesto.
Bicha falida. Bicha morta. (Vai deitar na cama, atrás da colcha)

VOZES – (MULHER) Mas não liga o liquidificador que treme a imagem da


televisão, Nandinho. Olha lá o Tarcísio Meira tremendo feito baiana.

ÊNIA – (Depois de um pequeno tempo) Acho que o Raulzinho Fumaça vai dar
uma volta com a motoca. (Sai. Tempo. Teresa parada)

CREMILDA – (A voz está mais pastosa. Só a voz.) Teresa! Volta prá casa, filha
desnaturada! Vamos telefonar pro Dr. SÁ GOMES, comer lagosta. Está
ficando velha, hein? Já está com celulite nas nádegas!

TERESA – (Vai à janela) CREMILDA! Pára de beber! (Vai decidida para a porta.
Entra BUJA, pequeno tempo frente a frente, BUJA pega Teresa, beija-ª
Se beijam, se cheiram, se agarram.)

BUJA – Corcel 73... Corcel 73... (Beijos. Esfregões)

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TERESA – ... vocês são muito frescos demais, muito agüinha de cheiro... (BUJA
puxou Teresa para a cama, Afastou a colcha. Deitam, batem em
PROTÉTICO estirado.)

PROTÉTICO – Respeitem a dor da bicha.

TERESA – (Quer sair) Minha mãe está bebendo muito...

BUJA – Teresa, Teresa... Corcel... então vem amanhã, depois do trabalho...

TERESA – ... não quero nada contigo, cara... amanhã, depois do trabalho, tenho
aula...

BUJA – PROTÉTICO, realmente você está destruindo um pouco a intimidade


dessa cena... (Beija Teresa)

TERESA – ... Mas o que é? Pensa que comigo é só ir abrindo a braguilha, é?...

PROTÉTICO – Abrenuncio! Ninhuém pergunta porque é que eu estou assim?

BUJA – Sábado, Corcel, sábado você pode?...

TERESA – Desiste, cara, desiste... sábado só no fim da tarde

BUJA – ... fim da tarde é a minha linha de passe...

TERESA – Ah, váte à merda....

BUJA – Perdão, perdão, sábado à tarde, claro, sábado às quatro horas, está
bem... perdão (Se beijam. PROTÉTICO embola com eles. Incomoda) Mas
o que é que aconteceu, ô paneleiro?

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PROTÉTICO – Meu sócio pegou os trinta milhões do empréstimo e fugiu pra Europa!
(Aparece CREMILDA na porta. Bêbada. Garrafa de Pitu na mão)

CREMILDA – Com dois na cama, isso é que é! Tal mãe, tal filha!

PROTÉTICO – Meu porre me deixou maluco ou estou vendo aquela MULHER de


novo?

BUJA – (Morre de rir) Teu sócio fugiu com teu dinheiro pra Europa?

CREMILDA – ... vou te contar uma coisa que eu nunca contei, minha filha...

PROTÉTICO – Ai! Quem está contando sou eu!

TERESA – Vambora, mãe!

PROTÉTICO – Eu fui pro Banco com meu sócio, entreguei toda a papelada do
empréstimo.

CREMILDA – Quando teu pai ficou doente.,,

PROTÉTICO – (Mais alto) ... aí ele ficou esperando o dinheiro e eu fui pro Correio
mandar um cheque pro meu marido na Bolívia...

CREMILDA – O médico mandar dar um remédio de três em três horas... (Grita)

PROTÉTICO – (Gria) ... despachei o dinheiro pro Luciano, fui pra oficina nova que eu
e o meu sócio alugamos, certo de que já ia encontrar ele lá... nada dele
chegar, então chegaram as máquinas – uma Piroplast para jaqueta e coroa
vennier...

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CREMILDA – Coroa é a mãe...

PROTÉTICO – ... 5 milhões, uma máquina arco voltaico, 3 milhões e meio, um motot
de 20.000 rotações pra acabamento de crimo cobalto, oito milhões...

BUJA – Pára, conta o que aconteceu, o sócio, o sócio... (Ri)

CREMILDA – Essas máquinas são prá mudar de sexo, bicha?

PROTÉTICO – ... e nada do meu sócio aparecer, BUJA, os homens das máquinas com
as faturas, querendo receber...

CREMILDA – Porque você não deu prá eles, bicha?

PROTÉTICO – A senhora sua mãe sabe que a carrocinha de cachorro de vez em quando
passa nesse prédio?

CREMILDA – ... meu marido estava morrendo e o médico mandou dar três em três em
três horas...

PROTÉTICO – ... e nada do meu sócio chegar...

CREMILDA – ... ele tem marido na Bolívia, sócio aqui, é bicha bígama?

PROTÉTICO – (Grita histérico) Aaaaaaahhhhhh! (ÊNIA entra. Vai pôr o disco da


Dalva de Oliveira)

ÊNIA – Raulzinho Fumaça está sem dinheiro prá gasolina...

TERESA – ... é uma zona isso aqui, uma...

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PROTÉTICO – ... eu nervosíssima, as máquinas ali – um Piroplast para jaqueta e coroa
vennier, 5 milhôes, uma máquina de arco voltaico, 3 milhões e meio...

BUJA – Você já deu o orçamento...

CREMILDA – Pomba, pomba, mas outra vez essa menina vai tocar a Dalva de
Oliveira.

PROTÉTICO – Então, eu telefonei prá casa da amásia do meu sócio, ela etendeu aos
prantos, chorando...

CREMILDA – Chorando? Eu também choro, se é prá chorar... (Chora)

PROTÉTICO – Eu também sei chorar, escrota... (Chora)

BUJA – (Morre de rir) Está de fazer inveja aos irmãos Marx!

TERESA – Mãe, por favor, vambora...

PROTÉTICO – ... aí ela me disse aos prantos que o meu sócio pegou o dinheiro do
empréstimo e se mandou prá França... “foi prá França, quando, estive
com ele há uma hora...” “agora mesmo, passou por aqui, já estava com o
passaporte no bolso há duas semanas, me abandonou...” Ah, peguei um
táxi, desabalei prô Galeão, cheguei, tinha um aviando na pista taxiando, ia
prá França, ah, entrei na pista...

CREMILDA – Deixa eu contar a minha história!

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PROTÉTICO – ... a polícia atrás de mim, eu gritando “pára esse avião aí!” me plantei
na frente daquele puxa jato, menina, uma quentura, puta barulhão “pára
essa porra aí, pára essa porra aí”, a polícia veio e me pegou de cacete...

CREMILDA – Era o sonho da bicha!

PROTÉTICO – O piloto de bigodinho fazia sinal prá mim sair da frente, eu gritava:
“piloto de merda” “pilotinho de merda”... a polícia me dando porrada.

CREMILDA – Um devaneio, um devaneio...

PROTÉTICO – ... ele pensaram que eu queria seqüestrar a pomba do avião, “meus
filhos, meus filhos, prá que é que vocês acham que eu quero seqüestrar
um puto avião desses? Prá ir prô serviço? Fui roubada!” ... O avião
levantou vôo, ai, estou falida! Bicha em concordata! (Chora)
(CREMILDA chora)

TERESA – Mãe, vai dormir...

CREMILDA – Vai comer lagosta com o dr. SÁ GOMES, filha...

TERESA – Está certo, mãe, está certo...

PROTÉTICO – BUJA, até amanhã tenho que pagar 10 milhões de primeira parte do
pagamento de um Piroplast para jaqueta e coroa vennier, um motot de
2000 rotações prá acabamento de...

BUJA – ... te mato se você disser tudo isso de novo...

PROTÉTICO – ... me ajuda...

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CREMILDA – ... rico, a gente não escolhe, filha, pega o primeiro...

PROTÉTICO – BUJA tem razão de largar tudo, esse mundo é um cocô, faço tudo isso
por amor paixão ao meu marido, detesto ser PROTÉTICO, eu ia ser
escultor, terminei fazendo pivô, ai sou uma bicha degouutant!

CREMILDA – ... querendo contar minha história... meu irmão é Comandante da 5ª


Região dos Escoteiros...

PROTÉTICO – ... preciso de dez milhões, BUJA, seu sei que você hoje de manhã já me
emprestou cinco, mas você tinha mais três... deve estar por aí o cheque...

BUJA – Eu não tenho de pagar meu aluguel?... te empresto o que sobrar...

PROTÉTICO – ÊNIA, procura o cheque prá mim também... procura gente...

TERESA – Posso te emprestar 3 mil eu tenho na Caderneta de Poupança.

CREMILDA – Nem morta. São economias prá mim, prá quando eu começar a bater
pino.

PROTÉTICO – BUJA, posso vender as tuas camisas Givenchy, meu mor?

TERESA – Vou emprestar, sim, mãe, só por uma semana.

BUJA – Essas camisas são velhas, não valem nada...

PROTÉTICO – Conheço bichas provectas, entende? Que pagariam muito bem por essas
camisas, só prá ter um Givenchy...

TERESA – Ele foi roubado, mãe...

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CREMILDA – E daí? Ele é bicha.

TERESA – Vou emprestar sim. Pode contar, PROTÉTICO.

PROTÉTICO – Sabe? Apesar de você ser MULHER, simpatizo com você. 3 mil seus...
essas camisas dão uns quatro, quatro e pouco....

TERESA – Acho melhor você parar de falar em dinheiro; a mimosa sensitiva si não
pode ouvir falar em dinheiro que vomita...

CREMILDA – PÔ, por falar em vomitar, acho que eu vou dar uma tremenda vomitada.
(Vai para o banheiro. Desaparece lá dentro)

PROTÉTICO – Ai, meu Deus... não posso ver defunto, sem chorar... (Vai para o o
banheiro. Desaparece lá dentro) (Não deve haver som também)

TERESA – Ué, querido, não vai se juntar aos bons, margaridinha do campo?

BUJA – Não, minha filha... negócio de dinheiro com os outros, mesmo os


amigos, é engraçado paca!

TERESA – Com os outros? Ué, você não é o avalista dele? (Tempo. BUJA lembra.
Vai correndo e desaparece também dentro do banheiro.)

CREMILDA – ... lotação esgotada aqui, meu filho... lotação esgotada... (ÊNIA dança
Dalva de Oliveira) Pomba, esqueci de contar a minha história... (Aparece)
Pára com essa Dalva de Oliveira, menina, você quer que além de bêbada,
eu fique louca?
LUZ

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CENA 3

No escuro ouvimos beijos, gemidinhos. Acende a luz. Atrás da colcha, na cama, não vemos
um casal que se ama. Vemos seus movimentos denunciados pelo pano pendurado. Semi
obscuridade. Só um abajur aceso ao alcance da mão dos que estão na cama. Luz da tarde
aparece na persiana descida.

MULHER – (Voz) Ai, DE MARCO, loucura... loucura...

DE MARCO – (Voz) Eloneida, amor... deixa eu me ajeitar melhor... amor...

MULHER – (Voz) Pecado... pecado...

DE MARCO – (Voz) ...loucura ...loucura... Ali Babá quer entrar...

MULHER – (Voz) ...ui ... ele veio com todos os quarenta ladrões... (Risinhos)
(Entram BUJA e Teresa, aos beijos e abraços)

MULHER – (Voz) (Baixo) Que é isso? Tem alguém aí?...

DE MARCO – (Voz. Baixo) ... não estou entendendo meu amor... psiu.

BUJA – Corcel 73, graça, Corcel... (Tira a blusa dela)

TERESA – ... não, não tira minha roupa...

BUJA – ... Corcel gelo...

37
TERESA – ... você tem mão tão bonita... (Abrem a colcha. A cabeça de DE
MARCO e as pernas de uma MULHER)

VOZES – (Gritos de todo mundo) Ai! – Que é isso? – BUJA, eu estou aqui! –
Socorro! Não estou entendendo, não estou entendendo! – Tem gente na
cama! – Ocupado. Ocupado!

TERESA – Que palhaçada é essa? BUJA? Mas que...

BUJA – ... como palhaçada? DE MARCO nu na minha cama é tragédia...

TERESA – ... você é porra louca demais, sabe? Não respeita nada que é de outro ser
humano! Finge que respeita a humanidade mas de verdade, não consegue
nem respeitar uma vizinha... (Sai)

BUJA – Espera, espera... (Sai. Tempo. Volta. Senta perto da cama) DE


MARCO. DE MARCO. (DE MARCO põe a cabeça pra fora) DE
MARCO, que você está fazendo nu na minha cama intempestivamente?

MULHER – (Voz) manda esse rapaz embora, amor, vem, vem...

BUJA – O fato da porta do meu apartamento não estar consertada, DE MARCO,


me parece que não lhe dá o direito de ir entrando aqui com MULHER...

DE MARCO – Deixa de ser palhaço, eu combinei com você...

MULHER – (Voz) Vem amor, estava numa hora tão boa...

DE MARCO – Vem cá. Não dá prá você ir embora? (Desaparece. Som de beijos)
Amor... loucura...

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BUJA – ... estou me lembrando agora que você marcou sábado de manhã, DE
MARCO.

DE MARCO – (De dentro) Pensa bem nessa sugestão que eu te dei de você ir embora,
cara.

BUJA – Sábado de manhã, você marcou...

DE MARCO – (Reaparece) Vesperal, eu falei, não lembra? Primeiro marquei sábado


de manhã, depois me lembrei que o marido dela vai pescar é no sábado de
tarde...

MULHER – (Voz) Amor, essa intimidade é absolutamente indispensável? (DE


MARCO desaparece. Som de beijos. BUJA fica um pouco. Sai. Os dois
atrás da colcha, falam feito crianças.)

DE MARCO – ... é o Ali Babá di novo ati... (Voz)

MULHER – (Voz) tomo vai, Ali Babá?... tomo vance é crescidinho!...

DE MARCO – (Voz) Aji Babá toma vichamina... (ÊNIA entra. Maiô sumaríssimo. Traz
um cachorrinho pequinês. Puxa a colcha.)

ÊNIA – ... opa... está bem? Viu o BUJA?... não está podendo levar papo, não,
né? Está numa boa aí, hein... se o BUJA aparecer, que eu deixei o
Crisnamurti aqui, viu? ... meu pai e minha mãe foram ao Rotary, pode?
Eu vou na praia mas o Cirsnamurti tem alergia com areia, ta? (Sai)

DE MARCO – (Voz) loucura... pecado...

MULHER – (Voz) Desvario...

39
DE MARCO – (Voz infantil de novo) ... olha o beija florzinho... bzzz...bzzzz.

MULHER – (Voz) Bzzz.... Bzzz...

CREMILDA – (Voz) Sai daqui, AzamBUJA. Lucifer. Arreda, Satanás! Tem nada que
conversar com Teresa. Arreda! (PROTÉTICO entra no apartamento)

PROTÉTICO – (Puxa a colcha) BUJA... tudo resolvido, eu... BUJA? Ah, é você
publicitário?... fazendo um lanchinho aí, né?.... viu o BUJA? (Sai)

MULHER – (Voz) ... tenho a impressão que a gente está se amando na escadaria do
Teatro Municipal, amor... (Risinhos) .... cadê beijaflorinho da mamãe...

DE MARCO – (Voz) ... bzzz.. to atí... (BUJA entra. Tempo parado. Resolve dar uma
espiada no casal. Abre uma fresta da colcha)

MULHER – (Voz) ... beisaflorzinho ta com sedinha, tá?...

DE MARCO – (Voz) ... glub glub glub ... beisaflorzinho tá com sedinha....

MULHER – (Voz) vem naisafllorzinho... vem beisaflorzinho...

DE MARCO – (Voz) (Vão perdendo as inflexões infantis) Loucura... loucura...

MULHER – (Voz) Vem, beija flor, vem...

DE MARCO – (Voz) Loucura... desva... (Pôe a cara prá fora. Interrompe) Pomba! O
que é que você está fazendo aí?

BUJA – Eu moro aqui...

40
DE MARCO – Está me espiando?

BUJA – ... só uma casquinha. Sem compromisso...

DE MARCO – Ficou maluco, cara?

BUJA – Não. Fiquei sem MULHER (?) não é, ô cara...?

DE MARCO – Está bem. Está bem. Vamos embora. (BUJA levanta. Vai até a porta)

BUJA – DE MARCO, ESTA SENHORA QUE ESTÁ COM VOCÊ, NÃO É A


MULHER DO seu sócio?

MULHER – (Voz) Quero ir embora daqui, DE MARCO, já, agora!

DE MARCO – (Voz) ... meu amor...

MULHER – (Voz) ...faça o favor de apagar a luz, quero sair daqui imediatamente,
não quero ser vista... (Braço de DE MARCO apaga a luz do abajur) è
uma calúnia dizerem que eu sou a MULHER do Paranhos!

DE MARCO – (Voz) ... amor, você está se traindo...

MULHER – (Voz) ...não me empurra...

DE MARCO – (Voz) ... não estou empurrando.... estou me vestindo...

MULHER – (Voz) .... você disse que ia me trazer num lugar prá frente mas isso aqui
não é prá frente, não, aqui é o Mangue, é a zona, um puteiro!... (Uma
MULHER sai na escuridão. Tropeça) Ai!

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DE MARCO – (Tateando) ... amor... amor... BUJA, você me paga... amor... você
esqueceu algumas coisinhas de baixo, amor... BUJA, puto... (Sai. Tempo.
BUJA vai á janela).

BUJA – (Pega o megafone. Fala nele) ... Vizinha... Corcel 73 ... comeback...
comeback to Bahia... (Fica ali parado. Senta. Pega uns biscoitos. Entra
ÊNIA de maiô)

ÊNIA – ... pomba, que água suja, seu... que ovo.... parece que a gente está
mergulhando na latrina de casa... Crisnamurti... (Assovia. Acende a luz.
Tempo) Que é que você está olhando?

BUJA – ... você de maiozinho... fica bem...

ÊNIA – às ordens...

BUJA – Precisa circular mais de maiozinho...

ÊNIA – ...detesto soutien...

BUJA – Você já é maiorzinha, pois não?

ÊNIA – Dezessete. Por que?

BUJA – ... me sinto meio sedutor de menores te olhando assim concupiscente...

ÊNIA – ... concu o que? (BUJA pega ÊNIA. Beija-a delicado. Sorriem. Beijam-
se. Riem. Beijam-se de novo. Entra Teresa. Tempo)

TERESA – Pode continuar. Estou na fila.

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ÊNIA – (Tempo. À BUJA) Hum, o Ibrahim diria que você está agradando
horrores. (Tempo. BUJA e Teresa se olhando) Não me diga que vocês
curtindo uma de ficar apaixonados? Vou pôr de fundo orquestra do Ray
Coniff, está bem? Ou os Românticos de Cuba? (Sai. Os dois vão lentos
um para os braços do outro)

TERESA – (Teresa. Suavissimo) ... só na coxa...

BUJA – (Tempo. Suavissimo) .. isso é idéia fixa...?

TERESA – (Tom idílico) ... quero ficar com você, mas...

BUJA – ...only on the coxas... (deitam atrás da colcha)

TERESA – ...justamente...

BUJA – ...maravilha... Corcel 73...

TERESA – ... não sei se você é muito corajoso ou muito pusilânime... (Cai a blusa
dela)

BUJA – ...graça... você foi feita pela Bauhaus!!! (cai a camisa de BUJA.
PROTÉTICO entra)

PROTÉTICO – (Vai até a colcha. Afasta-a) BUJA... Abrenuncio, está mesmo


movimentado hoje, aqui. É um campeonato? Quero participar. A
Diretoria fornece o par ou tem que catar fuzileiro naval na rua?

BUJA – ... simbora, PROTÉTICO...

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PROTÉTICO – (Tira telegrama do bolso) Chegou telegrama do Luciano. Ai, que
felicidade! Está solto, free again!

BUJA – Bacana. Até um dia.

PROTÉTICO – Paguei seu aluguel, condomínio, me sobrou ainda mil e duzentos


cruzeiros, vendi todas as suas camisas Givenchy...

BUJA – ... não queria ouvir balancete agora, estava pensando em fazer outra
coisa...

PROTÉTICO – Deixa eu explicar: com esse dinheiro e mais os três mil que... é com a
minha amiga Teresa que você está fazendo reuniãozinha aí, não é?

TERESA – ... é....

PROTÉTICO – ...cuidado, é enorme, hein? – deu prá pagar a primeira prestação da


Piroplast para jaqueta e coroa vennier...

BUJA – ... eu te dou um pau, hein?

PROTÉTICO – Só nisso que eu penso, amor... Ouve o telegrama dele: “Querida, estou
livre. Com o dinheiro que você mandou, dava prá comprar toda a polícia
americana. Gracias. Besos...”

BUJA – Vai embora ou eu chamo o Bloco caçadores de Veado!

PROTÉTICO – Está bem... está bem... que falta de diálogo, meu Deus! (Sai. Na porta)
Bom coito. (Sai. Os dois ficam se abraçando. Se beijando. Cai a saia de
Teresa. Calça de BUJA. Risos dos dois. Entra DE MARCO. Senta-se al
lado da cama. Tempo.)

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DE MARCO – BUJA... (BUJA põe a cara. Espantado) tenho certeza que marquei
sábado de tarde... que coisa desagradável... (iTempo) BUJA... (BUJA põe
a cara de novo)... não sei, rapaz, não sei...

BUJA – O que?...

DE MARCO – ... a vida... não sei... sinto uma grande falsidade, BUJA... comigo
mesmo... nem falso eu sou... não me conheço mais... sabe? Tem outro
aqui que vive que fala... um desconhecido... chato, não é?

BUJA – ...é...

DE MARCO – ... semana que vem minha MULHER vai prá Teresópolis... acho que
venho prá cá... preciso não sei o que...

BUJA – ...legal...

DE MARCO – ... BUJA, estou precisando muito de você, lá na Agência... a


criatividade caiu muito... estou perdendo umas contas... Contratei um tal
de Caito.... você largou mesmo, não é? Por que, BUJA?

BUJA – ... sabe, DE MARCO, eu preferia levar esse papo em outra


oportunidade mais azada. (Tempo)

DE MARCO – Tchau.

BUJA – Tcháu. (DE MARCO sai abatido) estou pensando seriamente em


mandar consertar aquela porta. (Beijos. Risos)

TERESA – Você tem pele de criança...

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BUJA – verdade que você foi contratado pelo Walt Disney para a série
maravilhas da Natureza? (Entra Ceremilda)

CREMILDA – Ô, porra louca, está aí? (BUJA põe a cabeça) ... fecharam a coluna de
água do me lado do prédio. Tem água aqui? (BUJA faz que sim) Trouxe
até cafaspirina, me dá dor de cabeça essa falta de água... Posso me lavar
que estou com uma catinga pior que violinista de casaca em
churrascaria...? (Entra na banheiro. Abre a torneira) ... está com
comidinha aí, é? ... coisinha fresca ou papinha antiga?

BUJA – ... sabe que a senhora me deixa um pouco contragido?...

CREMILDA – ... come, meu filho, come... vou até fechar a porta aqui... não se
incomode comigo... (Encosta a porta. Tempo. Sai correndo de lá de
dentro. Tira a colcha) Eu sabia! De repente me deu uma veneta!... só
pode ser a Teresa que está aí! (Silêncio)

TERESA – vai embora, mãe, por favor... (Silêncio)

CREMILDA – ... vou te contar uma história que nunca nem tentei contar prá
ninguém... quando seu pai estava doente, o médico deu um remédio que
tinha que dar pré ele de três em três horas... ele já estava muito doente, o
coração batendo pino... não dei o remédio de três em três horas, era muito
caro, dei de seis em seis... prá economizar dinheiro prôs teus vestidos, um
banho de parafina... esses cursos... coitado do teu pai, deve ter ido prás
picas mais cedo... faz anos que a gente quer arrumar um homem numa
situação boa, não é, Teresinha? ... você resolveu mudar de idéia depois de
22 anos, é?....

TERESA – ...mãe, a gente não está fazendo nada...

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CREMILDA – ... está bem... estão jogando mico.... (Tempo) Esse porra louca vai
deixar a gente na rua da amargura, Teresa, ouve o que eu estou dizendo...
você é maior de idade... nem vou tomar essa Cafisaspirina... (Atira-a
longe)... prá que ficar sem dor de cabeça?... (Sai abatida. Tempo de
silêncio)

TERESA – ...olha... estou pensando muito, e... sabe? Eu vou dar prá você, cara...
não sei por que... de graça... quero que seja você, cara... será que porque
você é o primeiro que não me pediu insistente?... (Tempo. BUJA se atira
nos braços de Teresa. A luz apaga lenta; música linda)

CENA 4

Luz abre lenta. Os dois estão na cama, deitados.

BUJA – ... está quente...

TERESA – ..hum,hum...

BUJA – ...sinto meu sangue circulando...

TERESA – ...hum, hum... (Tempo) Engraçado, 22 anos...

BUJA – Devo agradecer a preferência?

TERESA – Você não faça piada nessa hora...

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BUJA – ...perdão... (Tempo) bonito paca.

PROTÉTICO – (Põe a cara) BUJA. Pessoal já está todo aí embaixo.

BUJA – Já vou...

TERESA – Você vai sair?

BUJA – ...é...

TERESA – ...pra onde, pomba?

BUJA – Muriquí. Amanhã tem uma peixada lá.

TERESA – Pomba. Pomba. Você acabou de me... e vai prá Muriquí, comer
peixada?

BUJA – Não sabia que ia te...

TERESA – ... ia ficar comigo de qualquer maneira, isso você sabia, ora!

BUJA – ... é que vão todos os maiores partideiros do samba do Rio, não é uma
peixada comum, é...

TERESA – Pomba, você não vai ficar comigo?

BUJA – ...gênio, você vem prá Muriquí também... vai ser lindo com você, vem,
vai ser lindo, te levo no mar de noite, agora, chegando lá no meio da noite
só o barulho do mar e da tua pulsação...

TERESA – Vá à merda, cara.

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BUJA – ...vem comigo...

TERESA – 22 anos, 22 anos cara, resolvi que ia ser você, podia pelo menos me
abraçar, ficar comigo, me dar um bom abraço...

BUJA – ... vamos prá Muriquí sim, a...

TERESA – ...ficar sozinho uma noite, olhando prá minha cara, olhando meus
olhos...

BUJA – ... então não vou prá Muriquí...

TERESA – ... agora, vai prá Muriquí, palhaço! Você é um palhaço! Você não
largou 20 milhões por mês, cara, você largou o alicate que a gente tem
que usar prá segurar na vida forte... palhaço.... (Sai correndo. Com um
lençol ou então se vestiu na discussão. Luz)

Quando a lua apaga, imediatamente ouvimos DeMarco cantando sempre o mesmo verso.
Acende – PROTÉTICO faz contas, atarantado, incomodado pelo barulho de DE MARCO.
Na sua frente, recibos, papéis, livros de contabilidade. Está com a roupa de mágico que
usa em shows (uma grande bata de tecido estampado com luas e estrelas e enorme chapéu
cônico à la Mago Marlin) Além disso, para fazer as contas, usa uma lupa de pala,
instrumento de trabalho característico dos PROTÉTICOs. DE MARCO, tira sua roupa de
executivo. Coloca uma bermuda que tira de sua pasta. Encima da mesa perto do
PROTÉTICO, uma roupa de pato. Outra de oncinha. E uma de jacaré. Um abacate.

DE MARCO – (Cantando) Francisca da Silva, do cativeiro zombou ô ô ô. (Repete duas


vezes) ... só sei esse pedaço do samba.

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PROTÉTICO – Já tinha reparado, publicitário. (DE MARCO recomeça) Meu Deus,
trabalho feito uma moura, estou acordando às cinco da manhã e a porra da
coluna do Haver não alcança a porra da coluna do Deve...

DE MARCO – Que roupa de mágico é essa?

PROTÉTICO – ... quanto é oito vezes sete é um mistério insondável pra mim... tenho
um show num aniversário de criança no Monte Líbano daqui a
pouquinho... meu Deus! Tenho que pagar 6 mil e 200 cruzeiros até
segunda feira! Estou inadimplente! (DE MARCO canta sempre mais
baixo ou mais alto)

DE MARCO – Isso é uma roupa de pato? Essa é uma onça? Isso é um jacaré?

PROTÉTICO – Amor, você é alto funcionário do Ministério das Perguntas Cretinas?

DE MARCO – Desbunde, vim prum Desbunde... (Fica olhando os bichos.)

BUJA – (Voz. Gritos) Teresa! Quero falar com a Teresa, pomba!

CREMILDA – (Voz. Mesmo tom) Ela não quer falar com você, ô galã da Atlântida!
Essas flores por exemplo, você enfia...

BUJA – (Voz) Teresa, deixa de frescura...

CREMILDA – (Voz) Sai daqui!

DE MARCO – ... minha MULHER em Teresópolis, estou a fim de um desbunde


terrível... (Veste pedaços de fantasia de BUJA que achou por ali)

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PROTÉTICO – Cruzes! Agora a conta deu 7 mil cruzeiros e oitecentos... não acerto
essas contas, não acerto! Ai, histeria! (Entra BUJA com flores. Zangado.
Atira as flores num canto)

BUJA – Uma fresca essa menininha, fresca! Fui grosseiro com ela vá lá, vá lá,
estou querendo limpar a barra mas acho que ela queria que eu fosse um
príncipe, me apaixonasse, matasse o dragão e fossemos felizes para
sempre... (Vai à janela)

DE MARCO – ... Francisca da Silva, do cativeiro zombou ô ô ô. Olha eu aqui, irmão!


Vim me purificar. (BUJA chateadíssimo na janela. DE MARCO canta)

PROTÉTICO – Meu Deus! Agora pela minhas contas tenho que pagar nove mil
cruzeiros trezentos e vinte e sete centavos... vou parar com essa
contabilidade, abrenuncio!

DE MARCO – Como é que é? Como é que é? (Outro tom) Aqui só tem Conhaque
Palhinha e Fogo Paulista?

BUJA – (Ao PROTÉTICO) Que casal você trouxe ontem pro meu apartamento
que desenharam pênis voadores no meu espelho e compraram Conhaque
Palhinha?

PROTÉTICO – ... amor, não estou fazendo triagem, mandei o Santos do botequim
alugar o apartamento prá todo casal que aparecer lá por baixo com cara de
tesão...

DE MARCO – Cadê o conhaque francês?

PROTÉTICO – Vendi. Vendi o vinho do Porto, o marrom glacê, vendo tudo... tenho
dois empregados, a minha Piroplastpara jaqueta e coroa Vennier não pára,

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ritmo de Brasil grande, estou pegando todas as encomendas, tenho resina
paladon simples gesso-estuque até o reto e não consigo o suficiente para
ir pagando...

BUJA – Meu saco, você fala nisso o dia inteiro...

PROTÉTICO – ... e você? Que não fala nada o dia inteiro... por falar nisso, bem, não
paguei sua pensão, amor, não veio comida prá você hoje... come um
abacate, bem, abacate é muito substancioso... (Joga a roupa de pato prá
ele)

BUJA – Baixo astral hoje, baixo astral! (Tempo) Trata-se de aque?

PROTÉTICO – ... é a roupinha de pato que ontem te falei... experimenta... ganho 2 mil
cruzeiros, amor, se eu fizer mágica e levar bichinhos para distrair a
petizada... aquela mulata gorda do 102 aceitou ir de oncinha por 100
contos, um empregado da oficina vai de Jacaré Alegre. Você vai de pato.
É o principal da companhia.

BUJA – Acho que está me caindo magnífico. Tem que fazer o que?

PROTÉTICO – Tem que fazer quen quen agüentar beliscão e muito ponta pé na canela
das crianças...

DE MARCO – (Põe a cabeça de pato. O resto da fantasia está em BUJA) Que, quen...
pomba, BUJA, faz quen quen aí... quen quen... Vamos desbundar... eu de
pato não sou um desbunde?... (BUJA na janela) (Olhando)

PROTÉTICO – Tem que mexer a bunda publicitário, pato mexe tanto a bunda que a
gente pensa até que ele foi contratado por Deus prá fazer promoção da

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dita cuja. (DE MARCO fica mexendo a bunda e fazendo quen quen. ÊNIA
entra com a vitrola)

ÊNIA – Por que é que ele está assim vestido de avestruz? (Vai até o telefone)

DE MARCO – (Vai até BUJA na janela) Ela está nua de novo? Nem está lá... Vou
propor ela ser modelo de publicidade.... Vem cá, afinal, você comeu ou
não? (BUJA quieto)

ÊNIA – (Fala. Os outros não ouvem) Que queria uma ligação prá Nova Iorque.
(Vê um papelzinho) Hampshire Hotel. (No telefone) Falou, espero.

DE MARCO – Skindô, skindô, como é que é? E a animação? (Volta a cantar)

PROTÉTICO – Ah, graças à Deus, diminuiu... tenho que conseguir 5 mil e duzentos
cruzeiros só... (Tempo) Socorro! Socorro! Onde é qe eu vou conseguir 5
milhões até segunda-feira? Ai, falta de ar... falta de ar... (BUJA vem cer
as contas)

DE MARCO – Skindô, skindô, estou suado paca.... como é que é?

ÊNIA – Nova Iorque? Hampshire Hotel? (Ninguém ouviu a referência a Nova


Iorque. Saqui em diante todos podem ouvir a conversa que ÊNIA
mantêm, falando às vezes baixo, às vezes audível para todos) Ah, que
legal. Quero falar com a Amélia Avelar. (DE MARCO acha no chão a
pílula de cafiaspirina deixada por CREMILDA em cena anterior)

BUJA – (Fazendo contas) Não é cinco mil que você tem que pagar, é três mil...

PROTÉTICO – Isso, meu Pitágoras, isso, me salva meu Malba Tahan, meu Leibniz...

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DE MARCO – (À ÊNIA) Garota, escuta... essa pílula aqui... você manja... é ácido, é
LSD? (Fala só com ÊNIA)

ÊNIA – Hein? Acho que é... (DE MARCO fica olhando a pílula. Tomando
coragem) Melita? Oi. É ÊNIA. No Brasil. Como vai? Eu comprei uma
toga azul. Raulzinho Fumaça comprou gasolina hoje prá motoca...

BUJA – Vamos vender essa cadeira Mies der Roche, isso é tapete persa, essa
poltrona é premiada no Festival de Barcelona... leva, mês passado você
me ajudou paca, esse mês é meu...

DE MARCO – Pomba, chega de falar em dinheiro, passo a semana toda falando em


dinheiro, vim aqui prá desbundar...

ÊNIA – ...ouve só a Dalva de Oliveira, ouve só... (Põe o disco e põe o fone na
vitrola)

BUJA – Ô, DE MARCO, você não pode emprestar um dinheiro aí prá gente?

DE MARCO – Como é que é? A cigarra e a formiga? Vocês desbundam magnífico e eu


trabalho? Na hora do aperto é dos carecas que vocês precisam mais, não
é? Eu me sujando e a Estrela Dalva aí mantendo a pureza? Picas!
(Francês) Piques! (Inglês) Paicas! Se quer dinheiro, trabalha prá mim!
Então, se vira!

BUJA – Falou um trabalhador, o representante da classe operária, hipócrita...

PROTÉTICO – Avarento de Molière...

DE MARCO – Francisca da Silva, do cativeiro zombou ô ô ô.

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ÊNIA – Pára com essa merda dessa música aí, amizade. (DE MARCO desiste de
vez. Vai para um canto e põe na boca da pílula de cafiaspirina.
CREMILDA entra chorando. Senta. Chora manso. )

PROTÉTICO – Que foi? Roubaram as chuteiras da senhora?

ÊNIA – (No telefone) Afinada paca, não é? Demais ela, demais...

CREMILDA – (À BUJA) Comeu mesmo, não é, meu filho? Não ficou só na bulinação
não... comeu mesmo a minha garota... 22 anos, prendada, gostosa, pele
cheirosa, líquida, os peitinhos firmes que parecem focinho de foca...
Acabou dando prum sujeito vestido de pato... um pato que come
abacate... (Silêncio entre eles)

ÊNIA – E você tem andado de esquí? Não tem lugar prá andar de esqui, aí, é?
Pô, sacanagem... (DE MARCO está junto à parede, de costas para os
outros, bufando, sem escândalo, concentrado)

CREMILDA – ... ela não disse nada, não, mas olhei nos olhos dela... coração de ma~e
sabe... conhece a carinha de filha papada.... (Chora suave)

BUJA – Que é isso, minha senhora...? (Vai até a geladeira. Põe um copo de
água com açúcar)

PROTÉTICO – Não faz falta, não, dona CREMILDA, hoje em dia o pessoal liga muito
pouco prá essas formalidades... (BUJA traz o copo d’água. CREMILDA
chora manso, sentida) A senhora vai pensar que é deboche meu, mas
mamãe também chorou muito quando soube que eu perdi a virgindade...
meu pai, na verdade, quase se matou....

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CREMILDA – ... pensei em chamar meu irmão que é chefe de Escoteiro... mas ele
pode tampar a menina de novo... (Chorando suave, aponta DE
MARCO) ...Vem cá... aquele ali também virou a mão? (Reparam em DE
MARCO bufando, voltado para a parede, lívido. PROTÉTICO e BUJA
vão para perto dele; ÊNIA no telefonei)

BUJA – DE MARCO... DE MARCO... o que é que houve?

PROTÉTICO – O que é que deu nele, ÊNIA? ÊNIA?

ÊNIA – Acho que ele tomou um troço... aí também tem rock-rural, é? Que
tremenda coincidência!

PROTÉTICO – Tomou o que, ÊNIA? Fala menina...

ÊNIA – ... uma pílula que estava aí... lisérgico, sei lá...

DE MARCO – ... as flores, as flores, sou um nenúfar, sou um nenúfar...

BUJA – DE MARCO... DE MARCO...

DE MARCO – ... um nenúfar que está nascendo dentro de mim...

BUJA – ... a pílula que estava aí no chão, era uma cafiaspirina, DE MARCO...

DE MARCO – (Tempo) Cafiaspirina, os cambau...

BUJA – Cafiaspirina, sim... a dona CREMILDA jogou ela aí, um dia desses...
DE MARCO... deixa a frescura... (Vai se sentardiante de CREMILDA.
CREMILDA segura as mãos dele. Enquanto Marco explode)

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DE MARCO – ...Pó, vim aqui prá desbundar, vocês são uns tristes, uns desguarnecidos,
nem ácido tem! Cafiaspirina tem uma cacetada no armário do banheiro da
minha casa, ora bolas! (Tempo) Nem café tem aqui! Vou tomar café!
(Sai)

ÊNIA – Não ouvi direito... tem racismo aí em Nova Iorque, é? Racismo, como?

PROTÉTICO – Prá onde você está falando, ensan

ÊNIA – Com a Melita, em Nova Iorque.

PROTÉTICO – Nova Iorque? Nova Iorque? Abrenuncio! Nós numa merda de fazer
gosto e você falando prá Nova Iorque, Madame Bovary? (Tira o fone)
Alô, alÔ, não valeu a ligação, é engano, alô, cobra em Nova Iorque,
engano... (Desliga)

ÊNIA – Pó, que repressão... que repressão... (Vai ouvir Dalva. PROTÉTICO vai
para a mesa arrumar todos seus recibos e contas)

CREMILDA – Casar, nem adiante pensar que você é puto mesmo, não é?

PROTÉTICO – ... com licença? Bem, deixa eu descer a bainha do seu patinho que está
um pouco curto? Põe a cabeça do pato, amor, prá ver se não te aperta o
rosto...

CREMILDA – ... vocês duas vão baile das bichas?...

PROTÉTICO – ... não senhora, vamos trabalhar... tenho que pagar cinco mil cruzeiros
até segunda-feira...

CREMILDA – 8 mil cruzeiros....

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PROTÉTICO – 5 mil, madame, ele refez as minhas contas...

CREMILDA – Ele botou os três mil que você deve prá minha filha?

PROTÉTICO – vamos indo, BUJA, estamos atrasados, com licença, sim...? (Saindo) Vê
se está dando prá falar bem, paixão, faz quen quen...

BUJA – Quen, que; quen, quen... (Entra DE MARCO com Teresa)

DE MARCO – Olha o que eu achei. O Corcel 73... (Param na porta. Teresa morre de
rir. DE MARCO também aproveita para morrer de rir)

TERESA – Está bonito de ganso. (DE MARCO tira a bermuda. Põe a roupa de
novo)

DE MARCO – Vira prá lá... vira prá lá... vou jantar com a menina, BUJA. Conversar
sobre o lançamento dela no mundo da publicidade.

TERESA – Não fala desse negócio do mundo da publicidade que ele se sente mal.
Ele largou tudo, vive agora uma livre. Essa roupa de ganso aí representa o
que? A volta à natureza?

BUJA – (Calmo) Essa roupa de ganso representa uma roupa de pato.

DE MARCO – (Canta) Francisca da Silva, do cativeiro zombou ô ô ô... como é a


continuação?

TERESA – (Canta) Tchau mãe, tchau, gente. (Sai. CREMILDA saindo atrás)

58
CREMILDA – Agora sai com um cara casado. É, hoje em dia não se dá mais um golpe
do baú como antigamente. Todo mundo misturado. O espírito do Mangue
tomou conta da cidade... (Sai)

PROTÉTICO – Isso aqui hoje parece as praias cariocas, não é, bem? Só deu merda.
(Saindo) Cuidado, nunca fique de quatro no meio das crianças que elas
são pontapés nos timbilingues, viu? (Saem. ÊNIA fica ouvindo Dalva um
tempo. CREMILDA volta. Tira o disco da vitrola. Quebra-º Tempo. Sai.
ÊNIA fica ali com cara de tacho. Luz apaga)

FIM DA PRIMEIRA PARTE

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2ª PARTE

CENA 6
Acende a luz. O apartamento está vazio. Sem móveis. Nada nas paredes a não ser a
fantasia de pato pendurada no banheiro. Fitas de gravar, máquina de
escrever pelo chão, roupas penduradas em barbantes, em pregos. Ainda
estão lá cama, geladeira, estante giratória. Não há luz. O bocal da
lâmpada do teto está quebrado. No banheiro à uma mesinha
PROTÉTICO trabalha. Faz uma dentadura. Rádio de pilha ligado ao
seu lado, toca a música “Luciana”. Um despertador na mesinha.

PROTÉTICO – (canta quando chega o refrão) “Luciano, Luaciano” ... ai, Luciano,
estou trabalhando tanto que caiu meu útero de cansaço... (Canta)
“Luciano, Luciano” ...Saudadinha, amor. Dadê catinha num creve mais e
catinha? (Cadê cartinha, não escreve mais cartinha?) ... ai, 3 dias sem
dormir... preciso falar senão eu durmo... (À dentadura) ... Sorria sempre
que possível...

RÁDIO – Creveja Olinda, a pura. A pureza ao alcance de sua boca.

PROTÉTICO – (Quase dormindo) fatura, DE MARCO. Fatura... o gosto dessa cerveja


lembra muito o Pinho Sol... (Trabalha. Dorme. Tempo. Toca o
despertador) ...alô, alô? ... que foi? Que é? (Trava o despertador. Acerta-
o de novo) Viu, Luciano? Tenho que colocar o despertador prá tocar de
quinze em quinze minutos, senão viro a Bela Adormecida, durmo até
(Pernachia) fazer bico. Trabalha, trabalha, bicha. Trabalha, trabalha,
bicha.... (CREMILDA aparece na porta. Se encosta no batente. Lenço
amarrado no queixo. Cartaz enorme embrulhado embaixo do braço. Fica
parada) (Tempo) ... não posso fazer nada... não posso exercer
odontologia, é ilegal...

60
CREMILDA – ... parece que um trem passou na minha boca...

PROTÉTICO – (Tempo) ... vem cá, vai... (CREMILDA vai até lá. Senta. Abre a boca)

CREMILDA – (fala de boca aberta) ...estou te procurando.... (Faz gesto de muito


tempo)

PROTÉTICO – ... não estou no meu apartamento, aluguei ele prá bimbar, vim trabalhar
aqui, aluguei minha oficina também que tem um sofá Drago. Aqui não dá
mais prá alugar, parece a Cidade de Deus, não é? ... luz queimada, vendi
tudo... na próxima terça-feira tenho que pagar 4 mil e duzentos e doze
cruzeiros com 35 centavos... abre mais a boca, amor... como se fosse
morder o saco do boi... isso... isso... olha o grosso molar...

CREMILDA – Ai, veado!

PROTÉTICO – Não me chame pelo nome, sim? Estou incógnito. (Toca. CREMILDA
grita) Abcesso fulgurante no grosso molar, querida. Tem que arrancar.

CREMILDA – Arranca....

PROTÉTICO – Enlouqueceu? Pega um táxi, vai numa farmácia Noite e Dia, compra
Eugenol, a dor alivia, amanhã cedinho a senhora vai na Policlínica e
arranca o grosso molar, entende?

CREMILDA – Não agüento.

PROTÉTICO – Com o remédio agüenta, bem... (CREMILDA chora. Tempo) Não


posso exercer a odontologia, é ilegal o que eu já fiz!

CREMILDA – Vai tomar no rabo.

61
PROTÉTICO – Não adianta agradar... (CREMILDA chora desesperada)

CREMILDA – ... eu sou muito infeliz, entende? Eu sou muito infeliz...

PROTÉTICO – ...sem anestesia, dói paca, meu amor...

CREMILDA – ... não faz mal, doutor... doutor... eu sou muito infeliz...

PROTÉTICO – (Pega éter. Embebe algodão em éter) ...cheira esse éter, vai... fica tonta
um pouco prá disfarçara dor... (CREMILDA beija a mão de
PROTÉTICO) Pára com isso, paixão...

CREMILDA – ... gosto muito de você, querida....

PROTÉTICO – ... obrigada, querida... (CREMILDA vai cheirando. Chora. Vai ficando
tonta. PROTÉTICO procura na sua maleta sobre a mesa)

CREMILDA – ... minha filha está pra cima e pra baixo com o tal DE MARCO... ele é
casado, doutora... minha filha está dando prum homem casado...

PROTÉTICO – ... relaxa amor, relaxa... achei um boticão, que sorte...

CREMILDA – ... sou muito infeliz, doutora... minha filha faz três semanas dando prum
homem casado.... e ela não quer pedir nada, “um sala e quarto conjugado
pelo menos, minha filha, um fuquinha, mesmo que seja um meia meia...”,
ela nada... minha filha é como você... não vive para ganhar, vive prá
perder... DE MARCO botou ela na publicidade... olha... olha lá, menina.
(PROTÉTICO tira o papel do cartaz. Uma enorme fotografia colorida
de Teresa. Em close, agarrando um pedaço de marmelada grande e

62
enfiando-a na boca, como se o chupasse. Está escrito: “Boa de boca”
“marmelada cristal”)

PROTÉTICO – É publicidade daonde? Do Mangue... ah, não.. curioso, é de


marmelada...

CREMILDA – Foi um tal de Caíto que fez essa publicidade... é solteiro... normal....
esse BUJA entortou a Teresa.... Se Comandante de Escoteiro prendesse
gente, eu mandava meu irmão prender o BUJA... (PROTÉTICO
repentino enfia o boticão) Que é isso? Argghh...

PROTÉTICO – ... tem que ser assim no solavanco, querida....

CREMILDA – ...argghh...

PROTÉTICO – CREMILDA, meu amor, Creme meu amor...

CREMILDA – Creme, é a mãe! (CREMILDA dá uma joelhada em PROTÉTICO)


(ÊNIA entra de baby doll)

PROTÉTICO – Ai, vagabunda...

CREMILDA – ... lá vem a porra louca tocar a Dalva de afi!

PROTÉTICO – Não morde minha mão, não morde o boticão...

ÊNIA – ... vocês estão conversando sobre o que...? (Tapas e pontapés. Luta de
CREMILDA e PROTÉTICO) ... vi um filme de terror na televisão, fui
dormir, amarrei um pesadelo incrível... vou dormir aqui... estou sozinha
em casa, meu pai e minha mãe adoram ir em velório de conhecido... (Vai
para a cama; toca o despertador)

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CREMILDA – Estão me matando. Socorro!

PROTÉTICO – Agora tem que arrancar, filhinha...

ÊNIA – (Da cama) PROTÉTICO, já reparou que o despertador está tocando?

PROTÉTICO – Não tenho mão prá travar ele...

CREMILDA – Não é esse o dente!

PROTÉTICO – É esse sim... ai, que cansaço físico e espiritual!

ÊNIA – PROTÉTICO, não é melhor desligar esse despertador? (Deita)

CREMILDA – Ai, não aguento... não agüento... (Aos berros)

PROTÉTICO – Mais um pouquinho... um pouquinho só... está saindo! (Aos berros)

CREMILDA – Tira! Tira que eu não agüento mais!

PROTÉTICO – Agora! Agora meu amor! (BUJA entra excitadíssimo. Nagra a tiracolo)

CREMILDA – Dói! Dói! Não põe mais...

BUJA – Põe tudo na velha! Põe tudo na vela!

VOZES – (Homem) Vão pará com essa pouca vergonha aí, ô meu? (Outro
homem) Aonde é, Matilde? Vê se você vê aonde é prá chamar a polícia!

PROTÉTICO – Saiu! Saiu! Amor! VitóriA! Vitória de Samotrácida! Pára, despertador!

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BUJA – (À mil. CREMILDA meio desmaiada) ... arranjei mei destino! Descobri
meu destino! Vou transformar minhas entrevistas num livro... BUJA em
ação. Alô alô, BUJA em ação! (Tempo) Você matou a velha, cara... ganha
o prêmio Molière.

PROTÉTICO – (Dá tapinhas no rosto de CREMILDA) Creme... Creme, meu amor...


Creme... não tenho sulfa aqui prá desinfetar ela...

BUJA – Nada desinfeta essa velha. (PROTÉTICO dá tapinhas. Ela acorda)

PROTÉTICO – Vou buscar sulfa na farmácia pra você... está melhorinha?...


(CREMILDA sorri doce, segura PROTÉTICO agradecida. Faz para ele
não ir. Beija-o. Sussura em seu ouvido) ... não faz mal, estou cansado
sim, amor, mas é um instantinho... (Sai. Na porta) Ih, quanta água aqui no
corredor! Tem torneira aberta ai, hein! Torneira aberta! Torneira aberta!
(Vai sumindo)

BUJA – ... cadê tua filha?...

CREMILDA – ...humhnhunannanhun

BUJA – ... humhnhunannanhun é os cambau... tua filha é gostosinha, Creme,


carnes em calda, lambi muito os braços dele, tem penuginha...

CREMILDA – ... humhnhunannanhun

BUJA – ... é... eu humhnhunannanhun na tua filha... ela pensa que eu sou um
omisso, não é? Um folclórico? Não quero fazer os outros sofrerem, tua
filha não é capaz de entender isso?... Vou publicar entrevistas! Ontem
passei o dia viajando em trem da Central, gravador ligado escondido...

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fantástico... Vou telefonar amanhã para o Astrogildo Pires editor de
coisas corajosas... meu destino é o destino geral!... (Na janela) Olha a
minha bunda, atenção, bunda na janela, olha uma bunda dando bandeira
na janela... (Tempo)

VOZES – Maluco! Retira já esse objeto daí da janela, seu! Eu vou chamar a
polícia! Matilde, acho que é do 9º andar, olha lá. Mãe, ma~e, vem ver
uma bunda, mãe. (BUJA vai para a cama)

BUJA – ... minha vida está mudando muito a partir de hoje, mudando mesmo...
já estou encontrando MULHER na cama... quem é? Vamos ver... pomba,
está escuro demais... é a ÊNIA...oi malandrinha... vem cá... vem cá....

ÊNIA – Oi, BUJA, gostoso acordar assim...

BUJA – ... carnes agradáveis você tem, ÊNIA, muito agradavelzinha... (Beijos.
Abraços)

__ __
VOZES – Olha essa água aí! Está entrando água no meu apartamento! Deve
ser uma troneira aberta por aí! Chama o porteiro! (Começa a entrar água
na soleira da porta do apartamento)

ÊNIA – ...ih, cara, acho que essa água vem da minha casa ...acho que eu deixei a
torneira aberta... ia tomar um banho quente que eu tive um pesadelo que
foi um bode. (Sai da cama. Se veste rápida) Vou fechar... pó, sempre tem
um grilo com a gente, pó...

BUJA – (Deotadp) Vai lá, enxuga tudo, o ilustre, o teto direitinho e volta,
coisinha... (ÊNIA sai. BUJA deitado. Tempo. Levanta) Esse apartamento
está um pouco desarrumado... preciso me organizar... vida nova... vou

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comprar uma vassoura... uma vassoura de piaçaba e uma vassoura de
pêlo.... preciso me organizar... (Sai. CREMILDA só. Dormindo)

VOZES – Achou o porteiro? __ Põe galocha, Anatol, põe galocha senão você pega
um resfriado. É aqui no apartamento ao lado. Onde mora aquela menina
deligada. DE MARCO e Teresa entram no apartamento. Aos beijos.
Abraços esfregões. Os dois de porrinho.

VOZES – Acharam. __ É do apartamento da matusquela! É do apartamento da


menininha maluca. _ Pai, é do apartamento da matusquela! (Teresa parou
diante da foto de sua publicidade)

TERESA – ... olha eu chupando em público (Ri muito. Chora)

DE MARCO – sabe o que eu vidro em você? (Vão indo para a cama) ...vidro que você
é muito agoniada, não consigo ser angustiado, leio Sartre, Beckett, essa
Harold Pinter e não consigo ser angustiado, eu sou normal, entende? Me
esforço e tudo mas sou normal e...

TERESA – ...olha eu chupando...

DE MARCO – ... esse anúncio está fazendo o maior sucesso... minha agência na boca
dos publicitários de novo... Caíto é um gênio, vidrado em você, eu que
falei: não põe a mão é minha... amor... pecado... loucura morena... porque
é que você pediu pra vir aqui? O BUJA pode aparecer e...

TERESA – ...foi aqui, amor, aqui! Aqui que a gente se viu pela primeira vez... (Ri
paca. Chora)

DE MARCO – ... Teresa, por favor, não fica assim, eu sou casado um casamento
formal, mas com três filhos entende, três filhos?... eu monto apartamento

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prá você, Teresa, deixa eu te fazer essa proposta antiga de coronel, fica
minha fica! ...loucura morena ...loucura morena...

TERESA – ... vou te mostrar uma pessoa cheia de esperança, querido, quer ver uma
pessoinha prenhe de esperança? (Levanta da cama)

DE MARCO – Onde vai minha loucura morena?

TERESA – Vou buscar minha fotografia da minha primeira comunhão. Você vai
ver meu olhinho brilhando de esperança... já volto, meu amor...

DE MARCO – ... vem cá, loucura morena... vem cá.... (Teresa sai) ... que menina
pirada, pomba... porque é que eu sou assim normal, meu Deus? Porque
logo eu, Senhor? (Vira a cara para a parede. Meio sonolento. Tempo
pequeno. CREMILDA acorda)

CREMILDA – (Baixo) ...hein? ...hein? ...que sonho horrível... sonhei que vi o BUJA...
(Fala com muita dificuldade) ...ai, como dói... ai... (Anda pelo
apartamento) Doutora... Doutora?.... (Vê a água) Nossa... será que eu me
urinei de medo?... (Vai até a cama. Se ajoelha ao lado de DE MARCO)
(DE MARCO ainda de costas)

DE MARCO – ...já voltou, loucura morena?

CREMILDA – ... dorme, não, amor... está doendo muito...

DE MARCO – (Se vira. De olho fechado) Doendo como? Amor... nós ne começamos...

CREMILDA – ... está doendo, amor... cadê a sulfa?... (CREMILDA deita ao lado de
DE MARCO. O local é escuro. As pessoas pouco se vêem)

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DE MARCO – ...sulfa, amor?!

CREMILDA – Sulfa prá pôr no buraco...

DE MARCO – Amor! Nunca ouvi falar nisso!

CREMILDA – Desculpa te dar tanto trabalho, bicha...

DE MARCO – Bicha? (Olha) Dona CREMILDA!? Eu? Mas... boa noite... eu... a
senhora por aqui?

CREMILDA – ... quer traçar a família toda, é? ...cadê o PROTÉTICO? (Sai. DE


MARCO não entende. Cai na cama. CREMILDA encontra na porta com
PROTÉTICO)

PROTÉTICO – Meu Deus! Parece a passagem do Mar Vermelho com Charlston


Heston. Chô água! Chô...ui, querida...

CREMILDA – ...demorou...

PROTÉTICO – ...dormiu no ônibus, Creme, fui parar no alto da Gávea uma porção de
chofer fungando perto de mim... estou dormindo em pé... (Dá a sulfa) Põe
na boquinha, amor. (Se beijam. Só dão dois beijinhos) Três prá casar. (Dá
mais um beijinho) (CREMILDA sai. PROTÉTICO, caindo pelas tabelas,
pega o despertador. Joga-se na cama. Arruma o despertador. DE
MARCO vira-se. Passa o braço sobre PROTÉTICO. Começa a fazer
carinho em PROTÉTICO)

DE MARCO – ...loucura morena ...loucura morena... (PROTÉTICO vira-se de costas


para DE MARCO)

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PROTÉTICO – ... será que ele pensa que Loucura Morena é meu nome de guerra?

DE MARCO – Loucura Morena!

PROTÉTICO – Sim?

DE MARCO – Tua mãe veio aqui!

PROTÉTICO – Maman?

DE MARCO – Cadê o peito, esse peito que parece que vai saltar... (Tempo) Ué, meu
amor?

PROTÉTICO – Não gosta dessa edição reduzida, amor?

DE MARCO – (Vira PROTÉTICO) Pomba! Pomba! Agora é você quem está na cama?
Pomba! Isso parece peça de Feydau, Feydau na zona! (Se veste)

PROTÉTICO – Não me diga que você é desses homens que dão importância a pequenas
trocas insignificantes...?

DE MARCO – ... o apartamento da Teresa é o 301, não é?... (Sai)

PROTÉTICO – (Sem forças para gritar) Não, bem... é 1301 ...meu Deus formigueiro no
cotovelo, nunca vi, na língua... que cansaço... fadiga... (Arruma o
despertador outra vez) Como é que vou conseguir acordar às sete da
manhã... (Dorme. Tempo. Entra BUJA)

BUJA – ... que absurdo, tudo fechado, nenhum lugar que venda vassoura,
burgueses, enfiai vossas vassouras... (Deita na cama. Pela PROTÉTICO)
ÊNIA, voltou coisinha... ih, coisinha, que bom... (PROTÉTICO ressona)

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Coisinha? ... coisinha? (PROTÉTICO vai acordando) gentinha?...
hipinha?....

PROTÉTICO – ...cruzes ... casa lotada hoje...

BUJA – ... coisinha...

PROTÉTICO – ...hum hum...

BUJA – ... botou calcinha comprida, amor?...

PROTÉTICO – favor examinar bem a mercadoria, não aceitamos reclamações... (BUJA


pára. Vê que é Protético) Surprise! (Tempo. BUJA não se dá muito por
achado. Está morto de cansaço. Começa a apagar. Dormem. Teresa e
CREMILDA chegam na porta. Teresa com uma foto 18 por 24 da sua
primeira comunhão)

CREMILDA – ... pede um apartamento de sala e dois quartos, menina.

TERESA – ... me deixa, mãe, me deixa...

CREMILDA – ... mas você vai ficar dormindo de graça com um homem casado que te
chama de loucura morena? Ai, estou com a boca mole, mole, parece bala
puxa puxa...

TERESA – ... mãe, me deixa...

CREMILDA – ... sala e dois quartos primeira locação, armário embutido azuleijo de
cor até o teto laguinho na entrada, porteiro de bainho tomado...

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TERESA – ... sai, mãe, sai.... (Empurra CREMILDA para fora. Olha sua foto de
primeira comunhão, coloca-a ao lado da foto do anúncio. Chora. Tira a
saia e a blusa) (ÊNIA entra) Onde pensa que vai?

ÊNIA – ... dormir com uns e outros...

TERESA – ... eu é que vou dormir com uns e outros....

ÊNIA – ... na minha casa não fico sozinha....

TERESA – ... fica por aí...

ÊNIA – ... pó, que ovo... que ovo... (ÊNIA procura lugar. Até achar o banheiro.
CREMILDA volta)

CREMILDA – ... pede um fusca também, meia meia... (Sai. Teresa vai para a cama)

TERESA – (Levou a foto da primeira comunhão) Ei, cara, olha eu na primeira


comunhão... olha aqui a coisinha... olha uma coisinha....

BUJA – (Acorda lento) Coisinha! Chegou, coisinha?

TERESA – Me aperta, cara, me aperta, sufoca....

BUJA – Coisinha adulta, adulta...

TERESA – Me descarrega, pinta! Descarrego... Por favor, só não me chama de


loucura morena...

BUJA – Loucura morena, loucura morena!

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TERESA – ... aquele cara não me sai da cabeça, entende? Quero me ligar em você,
mas aquele veado não me sai da cabeça...

BUJA – Está vidrada num veado, coisinha? Lindo, lindo, eu também estou
vidrado numa veada... Vamos se proteger....

TERESA – Protege, esmaga, vem....

BUJA – Você vira MULHER de repente....


(PROTÉTICO acorda de tanto mexerem perto dele.)

TERESA – ... tem mais gente na cama, DE MARCO?

BUJA – O PROTÉTICO. ÊNIA, ÊNIA.

PROTÉTICO – Meu Deus, é a comédia dos Erros de Shakespeare!

BUJA – Prá lá, PROTÉTICO.

PROTÉTICO – Nós três, vira e mexe, estamos na cama, hein?

BUJA – ÊNIA, ÊNIA?

TERESA – Pára de me chamar de ÊNIA, DE MARCO.

BUJA – Pára de me chamar de DE MARCO, ÊNIA. (Os dois se reconhecem)

OS DOIS – Você?! (iSe beijam, se pulam por cima de PROTÉTICO, Fúria de


amor.)

PROTÉTICO – Ai, estão me esmagando, ai, estou com formigueiro até no véu palatino!

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BUJA – Corcel, Corcel 73 gelo meu amor...

TERESA – ... te amo te amo te amo te amo te amo....

BUJA – Dio como ti amo! (Teresa chora) Chora não, chora não, comprei
vassoura, vou comprar uma vassoura de piaçaba e uma de pêlo.

TERESA – ... que adianta alguém te amar, cara, que adianta? (Teresa se vestiu.
Sai.)

TERESA – Vou embora, cara, você, nem o Pinel aceita...

BUJA – Teresa, te amo... Vou publicar minhas entrevistas...

PROTÉTICO – Não estou me sentindo bem... dormência até nas amídalas...

BUJA – .... vou trabalhar, vou editar minhas gravações, vou ganhar dinheiro...

TERESA – ... não vai fazer nada, não vai fazer nada, você tem medo de perder a
inquietação, você não entende? Você tem medo de ficar equilibrado...!

BUJA – Ontem passei o dia num trem da Central do Brasil... (Pega o telefone.
Disca)... os caras lá morreu o irmão deles, o pai caiu dum andaime, a
prima esmagada num ônibus, o filhinho eletrocutado num fio descoberto,
perdem mão braço, pedaços do pé e estão lá, marmita na mão confiando
no ser humano!... alô, alô? Mestre Astrogildo? BUJA... há quanto
tempo... seis da manhã é uma hora linda, sim... lembra da nossa conversa
de um ano atrás... olha, eu topo fazer o livro com as entrevistas.... a idéia
foi sua... estou com material, muito... eu poderia levar e... ah, é? Não me
diga? Não me diga... que coisa... não me diga... um abraço... gostaria de

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poder ajudar... um abraço... (Desliga) A Editora dele vai pedir concordata
agora... passou a noite em claro... os bancos estão fechados pra ele e... me
pediu desculpas... (chora) (Teresa chora e beija-o)

PROTÉTICO – Eu por mim, chamava a ambulância prá mim que estou começando a
ver uma porrada de faisquinha e estrelinha na frente...

DE MARCO – (Entra) A MULHER é minha. Sai daí, cara. (Pega Teresa) Estou
tocando campainha atrás da minha há meia hora... (BUJA e DE MARCO
brigam. Teresa se mete na briga)

PROTÉTICO – Acho melhor parar o entrevero, meus amores e chamar uma ambulância
que estou tendo um enfarte... (CREMILDA aparece)

DE MARCO – Você é um frouxo, BUJA, um frouxo.

BUJA – Larga da minha MULHER. Tasca o vendilhão do Templo. Tasca!

CREMILDA – Bicha. (Mão na boca) Ô bicha, está doendo paca de novo... cadê a
bicha?

PROTÉTICO – ... está aqui à morte... (DE MARCO se agarra com Teresa beija sua
boca)

TERESA – ... larga ... larga... (ÊNIA acorda, se abraça em BUJA)

ÊNIA – ...me perfumei toda... você acha careta se perfumar? Eu adoro me


perfumar...

CREMILDA – Dói paca, doutora, me acuda...

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PROTÉTICO – ... estou vendo estrelinhas Deus, estou vendo estrelinha, ai como o
enfarte é bonito!

VOZES – Mas não pára esse barulho hoje? __ A zona mudou prá ai? __ Olha o
repouso da família brasileira! __ Matilde, vê se dá pra ver onde é!

BUJA – Me larga, ÊNIA, me larga, larga DE MARCO, larga a MULHER, seu,


silêncio, silêncio CREMILDA, pára bicha, pára... (Vai na janela)
Silêncio aí... Quero casar com Teresa! Quero casar com Teresa! (Silêncio)
(Teresa emocionada. CREMILDA corre para ela emocionada)

CREMILDA – ... é demais prô coração da velha... é demais...

PROTÉTICO – ... vou ter um enfarte gente, chama uma ambulância...

CREMILDA – ... vou avisar o Deocleciano, filhinha, teu tio vai ficar que

BUJA – ... eu preciso meter nessa cabeça que tem que fazer o que é possível,
sempre é possível, eu preciso enfiar isso na cabeça...

PROTÉTICO – ... estou morrendo...

CREMILDA – ... cala a boca, bicha, isso é um momento solene...

BUJA – ... em publicidade é possível fazer uma publicidade mais brasileira,


menos americana, menos aristocrática: em vez de cavalo de raça, gente de
smoking com cara de vômito, encher a tela de brasileiro que é qué qué
mesmo... DE MARCO, estou de volta... (DE MARCO vai até BUJA.
Abraça-o comovido. Vai até Teresa.)

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DE MARCO – ... me dá licença de abraçar minha amiga? Então, querida amiga, como
este se sentindo? Deixe-me também cumprimentar a madame...

CREMILDA – Madame está com uma dor de dente cacetal...

ÊNIA – ... até aqui o negócio vai terminar em casamento? ...Nojento, nojento.
(ÊNIA por ali. Teresa e BUJA se abraçam se beijam)

PROTÉTICO – Socorro... o Prontocor... estou gelada... pomba, porque é que ninguém


acredita em mim? Estou gelada, formigueiro no corpo todo... estou cega,
ai, estou cega pelo amor de Deus... (Cai na cama) (Todos correm)

VOZES – Que foi? __ Que é isso? __ Que é que você está sentindo?

PROTÉTICO – ... como? O que é que eu estou sentindo? Há meia hora que estou aqui
reclamando em dores...

BUJA – O que é que você tem, pomba?

PROTÉTICO – Nada, BUJA, nada, estou só morrendo, só morrendo, nada mais... estou
agora, não vejo picas, escuro nos olhos, frio, formigueiro... nada BUJA...

BUJA – ... vou chamar o Prontocor...

PROTÉTICO – .. Não! Chama oficina de consertos de bonecas! Frescps. (Desmaia.


Todos o levam correndo. ÊNIA fica por ali. Pequeno tempo. Liga sua
vitrola que já está com Dalva engatilhada. Entra Dalva. A luz vai
apagando)

CENA 7

77
PROTÉTICO na cama, de baby doll. Tubo de oxigênio à mão, fala ao telefone. Teresa
sentada à sua cabeceira, prepara uma injeção. ÊNIA lê Kamasutra num
canto desligada. BUJA procura entre roupas atiradas no chão, uma para
sair. Um tempo. Pára e fica olhando o cartaz de Teresa. CREMILDA lê
classificados do JB e de vez em quando procura roupas. BUJA está meio
irritado.

PROTÉTICO – (Ao telefone) Claro que eu não morri, Valtencir! Pega aí nossas faturas,
Valtencir...

BUJA – Afinal, quem foi que fez esse anúncio escroto contigo?

PROTÉTICO – (No telefone) Estafa, Waltencir, desidratei, sou uma frutinha seca e
cristalizada... Ramos e ramos, vamos ver, pagou?...

BUJA – Pára de trabalhar, PROTÉTICO.

TERESA – É, vai prô teu apartamento descansar, amor...

CREMILDA – (A BUJA) ...veste essa camisa, que tal?

PROTÉTICO – ... não posso, não posso – espera Waltencir, preciso ficar... preciso ficar
perto do telefone... fala Waltencir...

BUJA – Eu pago isso, PROTÉTICO! Vou voltar a trabalhar, pra quê? Eu pago
isso. (À CREMILDA) Isso é um pijama, CREMILDA.

CREMILDA – Não tem nada que dar mais dinheiro pra bicha, Teresa reclama aí, como
é?

78
BUJA – (À Teresa) Anúncio de produtos alimentares é o maior crime que existe,
ta sabendo?

PROTÉTICO – (No fone) Ramos e Ramos diz que foram dez dentaduras comuns?
Foram dentaduras caracterizadas. Caracterizadas, sim senhor! Espera,
espera vou tomar uma prise. (Respira oxigênio. BUJA está com uma
calça preta na mão e um paletó branco)

CREMILDA – ... não põe isso não, senão vão começar a pedir laranja prá você
pensando que é garçom... (Teresa olha CREMILDA implorando) Não
posso falar por que? É o meu genro, ora! Não quero meu genro fazendo
papel escroto é ou não é, AzamBUJA querido?

PROTÉTICO – ... que adiante médico me pedir repouso absoluto, Waltencir se não
posso ficar um minuto fora dessa oficina... procura a fatura aí...

BUJA – Pára com isso, já disse que pago, vou trabalhar não vou? Não disse aos
quatro ventos que vou trabalhar de novo?

PROTÉTICO – ... pra LN & Filhos fizemos 25 bridjes de ouro platinado...

TERESA – (A PROTÉTICO) Amor, olha a pílula...

PROTÉTICO – ... 25 bridjes de ouro platinado, isso.

CREMILDA – Pára de tratar a bicha, vem cuidar do meu genro que está aqui feito
barata tonta... (Teresa vai procurar roupas juntos com BUJA)

PROTÉTICO – ... espera que vou tomar a pílula... pra evitar filho? Não, sou contra!

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BUJA – (Aponta PROTÉTICO) ... essa louca vendeu tudo... (Tempo) Esses
anúncios de comidas indiscriminados acabaram com qualquer padrão
alimentar, entende? Criou-se o caos alimentar...

CREMILDA – (Lendo) ... salão, 4 quartos, ruído de pássaros, no Parque Guinle... mas
acho que na orla marítima é mais repousante, tem mais nobreza...

PROTÉTICO – “Nobreza repousante da orla marítima” parece nome de fantasia e


bicha.... Telefono meio dia, Waltencir, viu. (Desliga. Torna a discar.
Toma outra prise de oxigênio)

CREMILDA – (Para ÊNIA) Você não tem casa não, minha filha? Isso aqui agora é um
lar, não pode servir de abrigo para débeis mentais desamparadas.

ÊNIA – É comigo?

BUJA – Não precisa você também aceitar fazer parte de um anúncio desses,
basta um no matadouro... (Teresa desconfortável)

PROTÉTICO – Alô/ Aqui é da Prótese Gusmão Barroso. Queria fazer uma encomenda.

CREMILDA – Quem é Gusmão Barroso?

PROTÉTICO – Eu...

CREMILDA – Ué, isso é nome de homem! (Tempo) (Aponta ÊNIA) ...não deixa ela
ficar entrando aqui, Teresa, depois logo, logo está dando pro teu marido,
vira esculhambação, vira logo essas sacanagens suecas, olha lá o livro
dela esse Kamasutra é sacanagem sueca...

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TERESA – (Procurando suportar) (Achando calça e paletó) ... acho que a melhor
dupla possível é essa...

BUJA – ... e camisa pra essa XXX la?...

PROTÉTICO – 10 quilos de gesso XXX Simplex. Acrílico auto polimerisável... voz


XXXX você tem... nunca trabalhou na Rádio Relógio Federal bem? ...
ouço muito porque adoro aquele plic plic plic... Meu nome é Gusmão mas
pode me chamar de Alice. Rainha do Baião. (Desliga. Cheira oxigênio.
Liga de novo)

CREMILDA – ... na Vieira Souto tem um, todo refrigerado, 7 mil mensais... Porra, sete
mil deve ter orquestra na portaria, no mínimo a banda Veneno do Érlon
Chaves... Automóvel, deixa ver...

PROTÉTICO – O gerente por favor? (BUJA tira as calças)

CREMILDA – Porra, porra, vai lá no banheiro, olha só a Teresa... a matusca está aí, a
bicha não pode ver homem de cueca que patola...

PROTÉTICO – ... eu entreguei 10 dentaduras caracterizadas, cavalheiro. Certeza


absoluta.

CREMILDA – Mustang Mach I, com ar condicionado, vitrola, bar... não, com esse ele
todo dia vai fornicar na barra da Tijuca...

TERESA – ... mãe pára com isso...

PROTÉTICO – ... exijo meu pagamento, entendeu? Exijo ... não posso me exaltar
cavalheiro... (Fica falando)... faça o favor de verificar...

81
CREMILDA – Galaxie. Galaxie é mais familiar e...

TERESA – Não, mãe, ouve, o BUJA já me explicou, já expliquei pra você, nisso é
que a gente gasta 20 milhões, em representação, em status...

CREMILDA – Status, que status, status Unidos?

TERESA – ... aluga um apartamento na Vieira Souto porque não tem dinheiro prá
comprar um automóvel tem que ser estrangeiro, BUJA tinha um amigo
que teve inanição, mas tinha um jaguar, e restaurante com garçom de
luva, e abotoadura da moda, loção com perfume da moda, um terno cada
dia, gravata assinada, lenço assinado, cueca com monograma, como se
fosse uniforme, farda de rico...

CREMILDA – Dinheiro é pra ter finesse mesmo, sem finesse tudo é uma bela duma
merda!

TERESA – O único objetivo de quem ganha 25 milhões é ganhar 30. Comigo e


com o BUJA não vai ser assim, muita calma, sem roda viva, sem ficar
olhando o quintal e a geladeira e o lustre e o piso da casa do vizinho...
muita calma, cueca legal... (Abraça BUJA. Beija-o. BUJA frio)

PROTÉTICO – (Fora do telefone) Também quero, ai ciúme mortal, ciúme fatal... quero
o Luciano já, quero meu marido... (No telefone) Nada, cavalheiro,
coisinhas de bicharoca... (ÊNIA põe o disco na vitrola) Dez dentaduras
caracterizadas, não é? Eu tinha razão, não tinha? Ave, ave, evoé! Passar
bem. (Desliga) Não ouso imaginar que você vai ouvir Dalva de Oliveira.

ÊNIA – É um disco gênio que eu descobri. (Liga)

82
TODOS – Não! Pelo amor de Deus! Abrenuncio! Tira essa vitrola dela! (Entra
Carmem Miranda cantando “Como vais você”) (Todos TÊm
exclamações de surpresa e alívio)

ÊNIA – Essa Carmem Miranda, diz que é a precurssora e... ai dos... sei lá,
parece que tudo que tem banana vem dela... me amarrei... (DE MARCO
entra com uma cadeirinha)

DE MARCO – Posso trazer uma cadeirinha para o novo lar? (Ri) Salve! Teresa, minha
querida amiga. Gusmão, querido, melhor? (PROTÉTICO não responde.
Vira para o lado para dormir) Trouxe uns moveizinhos aí, estão no
corredor... moveizinhos leve da Daca, que anuncia lá comigo... coisa
provisória, claro... flores para madame CREMILDA... estamos prontos?
(BUJA faz que sim) Ótimo. Essa calça Ted Lapidus já está saindo da
moda... só a turma que trabalha com a Bemoreira está usando... paletó,
que é isso? Cardin 1970 no máximo, não é? (Morre de rir) Parece um
fantasma, BUJA... Amor de mi vida, tem um almoço no Michel com o
contaco da Solimar Alimentos. As 14 e 30 na Agência um lançamento
imobiliário, alto luxo... Caíto Bonito está morto de inveja que você vai
voltar, que a contada Solimar Alimentos estava prometida pra ele, que vai
jantar amanhã com o gerente de vendas, tem uma irmã que conhece o vice
executivo... vamos à luta, BUJA, de novo no sarilho... (BUJA olha
Teresa que o olha) Vou para São Paulo num táxi aéreo agora, mas no fim
da noitinha estou aqui, vai ter docinho? Te levo até a cidade, estou com
uma Porsche aí embaixo, comprei ontem, oito cilindros, uma escultura...
Até logo... (BUJA sai olhando Teresa)

CREMILDA – Apareça, dr. DE MARCO, apareça. Não fiz um cafezinho que o coador
urinaram nele não sei porque... (CREMILDA sai. Volta com um móvel.
Teresa parada) (À ÊNIA) Matusquinha, quer dar uma mãozinha aqui prá
gente arrumar os móveis, minha filha?

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ÊNIA – ...vou na praia com Robertinho Fumaça... ele vem de motoca... (Sai)

CREMILDA – Agora se manda... quando tem sacanagem, ela vai ficando... (Desliga a
vitrola) (CREMILDA está pegando os móveis e arrumando-os)

TERESA – Mãe, você não vai morar com a gente.

CREMILDA – Não vou o cacete.

TERESA – Não vai.

CREMILDA – É o cacete.

TERESA – Você sabe que não vai dar certo. (Tempo. CREMILDA chora)

CREMILDA – ...você murchou minhas tetas... eu tinha um peito que vinha gente posto
4 até o posto 6 prá olhar... fiz economia, te dei curso, conselho, picardia,
consigo te casar sem estar zero quilômetro e no fim de tudo é isso que eu
tenho prá ouvir? (Arrumam os móveis. CREMILDA chora parada. Entra
SÁ GOMES)

SÁ GOMES – Permitem? (Tempo)

CREMILDA – (Chorando, descarrega) Não tem mais agora prá você, SÁ GOMES.
Coloquei a menina, consegui arranjar ela, mesmo não sendo mais virgem.

TERESA – Mãe.

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CREMILDA – (Chora) E agora ela não quer que eu vá morar com ela. Vou contar uma
coisa que eu nunca tentei contar prá ninguém – meu marido estava doente
grave...

TERESA – ... mãe...

CREMILDA – ... o médico mandou dar um remédio de três em três horas, eu dei de
seis em seis prá economizar prá ela... meu marido foi prás picas mais
cedo e agora ela me faz isso...

SÁ GOMES – Eu soube que ela recebeu proposta de casamento. Vim correndo, larguei
tudo... Teresa, você não pode abandonar sua mãe, Teresa, esse
AzamBUJA é um moço imprevisível...

CREMILDA – Ê, cara, também não é prá melar o casamento...

SÁ GOMES – Teresa, eu tenho uma ocupação prá você que lhe rende 20 milhões por
mês, líquido, mas preciso de você solteira...

TERESA – ... não estou interessada....

CREMILDA – 20 milhões, não está interessada é os cambáu... Fala querido...

SÁ GOMES – ... eu vou sempre a velórios, não as conheci pó acaso! Porque vou
sempre a velórios?

CREMILDA – Você é tarado, meu filho?

SÁ GOMES – .. lá estão as viúvas pobres e suas filhas lindas, jovens, úmidas...

TERESA – Papo está ficando muito careca, muito...

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SÁ GOMES – ... tenho inúmeros clientes, pessoas respeitabilíssimas nos mais altos
escalões sociais, homens mergulhados na monotonia do matrimônio e das
tarefas cumpridas, ouça Teresa, por favor, essas pessoas dariam uma
fortuna para ter um pouco de açúcar e de afeto de você....

CREMILDA – ah, ele é o cafetão, filhinha.

TERESA – ... faça o favor de sair, vai...

CREMILDA – ... leva o papo, leva o papo...

SÁ GOMES – 480 milhões em dois anos, encontros com senhores discretos, distintos
sempre em locais com ar condicionado, ar condicionado é cláusula
contratual...

TERESA – Mãe, vou chamar a polícia...

CREMILDA – Maluco! No dia que ela fica noiva você vem propor 480 milhões em
dois anos... 480 mesmo?

SÁ GOMES – Se me permitirem arredondar, 500 milhões.

CREMILDA – Putz grila – 500 milhas limpas, Teresa!

TERESA – Está ficando pirada, CREMILDA? Está ficando louca?

CREMILDA – Melhor que o marido ganhar 480 milhões e me largar... se eu soubesse


que você ia me deixar no desvio, assim, há muito tempo que já tinha
posto você dançando no Sssírios ou de go go girl de televisão...

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TERESA – (À SÁ GOMES) Cai fora, pinta, cai fora, pinta! (SÁ GOMES sai)

SÁ GOMES – ... vou deixar meu telefone novo... com licença... meu telefone novo...
(Sai rápido. CREMILDA chora)

CREMILDA – ... vou morar com Deocleciano? Um escoteiro? Deve tomar banho frio,
nem aquecedor deve ter na casa dele... O Deocleciano vem aí às 7 e
pouquinho... vou dizer prá ele que você vai me abandonar... (Entra ÊNIA
de maiô)

TERESA – ÊNIA, daqui uma hora tem que dar remédio prô PROTÉTICO... vou
fazer umas compras... (Sai)

CREMILDA – (Atrás) Pensa que eu sou um pneu velho, é? Vem cá... (ÊNIA põe seu
disco de Carmem Miranda. PROTÉTICO acorda devagarinho)

PROTÉTICO – Ah, Carmem, que prazer em revê-la...

ÊNIA – Ó uma carta prá você...

PROTÉTICO – (Pega. Olha) É dele. É dele. De Luciano... Luciano, meu amor... tenho
agüentado tudo isso por sua causa, amor.. pensando em você, meu
marido... foi ele quem insistiu comigo pra mim aventurar, abrir oficina
maior... ÊNIA, estou tão fraquinha, não posso fixar a vista... lê prá mim?
(Enia vai abrir a carta) Espera, não abra. Deixa eu pentear os cabelos.
(Se penteia) Pronto. Pode abrir. (Pega uma flor e ouve)

ÊNIA – Meu querido companheiro. Preciso ser rápido. Você sempre foi meu
amor e meu melhor amigo. Foi você quem me ensinou que a vida é única
e é prá ser vivida de frente, mesmo que ela queira você de costas ou
agachado.

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PROTÉTICO – Que lindo...

ÊNIA – Hoje estou numa encruzilhada: não quero sofrer e não quero te fazer
sofrer mas tenho que escolher entre mim e você. Nessas horas é mais
honesto escolhermos a nós mesmos.

PROTÉTICO – Que foi? Que foi? Está preso de novo?

ÊNIA – Apaixonei-me pelo cacique da majestosa tribo dos Kalapakores no


Peru... e sou estranhamente correspondido. Platonicamente
correspondido. Os índios não conhecem o contato homossexual. Mas
mesmo assim, fico no Peru! Talvez para sempre. Não posso mais escrever
estou em prantos. Do muito teu amigo, Luciano... (Longo tempo. ÊNIA
abúlica)

PROTÉTICO – (Com a maior dignidade. Comovidíssimo) Me deixa um pouco sozinho,


amor? (ÊNIA ai. Carmem Miranda canta. PROTÉTICO cantarola com
Carmem, procurando se dominar. Levanta. Firme, Másculo. Tempo.
Carmem termina) que bom que a última coisa tenha sido você, Carmem.
Muito bom. (Recoloca Carmem Miranda. Vai aos seus apetrechos. Abre.
Tira um vidro de pílulas. Pega uma garrafa d’água na geladeira.
Começa a engolir as pílulas uma a uma, tranqüilo, com alguma
majestade. Engole 7 pílulas. Derrama mais um monte de pílulas no chão)
(De repente corre ao banheiro. Mete os dedos na garganta. Cospe.
Devolve) Não posso, não posso deixar o Luciano com remorsos, ele foi
tão leal, sempre tão companheiro, desculpe amor, queria te atormentar...
eu vou aguentar, que é isso?... Vou reagir, Luciano, fique calmo... A vida
tem que ser vivida de frente... de frente, não, de costas também que eu
ainda quero dar à mancheias... (Ri suave) ... havemos de nos esquecer
docemente... (esquenta água no fogãozinho) Esquento uma aguinha aqui,

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bebo, vomito até a alma, pronto... bicha não se suicida, que é isso, bicho
acaba. (Carmem cantando. Ele canta tímido) Prá baixo a coisa toda
muda... (A luz apaga lenta)

CENA 8

A luz abre. É noite. PROTÉTICO na cama. Olho vermelho. Batem na porta. PROTÉTICO
vai abrir. Abre. É BUJA. Está deporre.

PROTÉTICO – Alô, garota? ...viu a porta consertada? ... olha a chave... (BUJA joga-a
pela janela) ... seja feliz na sua casa com porta... (Tempo) Que foi, amor?
Não foi bem a volta à escola?

BUJA – ... você não entende... bichinha, com problema de bichinha não entende
de sofrimento, entende? Alô, alô, sofrimento, qual é o seu comprimento?

PROTÉTICO – ... bem daqui a pouco você tem que ir na casa da Teresa, o tio dela já
chegou e... (BUJA arranca suas roupas. Tira a camisa e fica de gravata)

BUJA – (Vai para a janela) ...alô, alô, sofrimento, já viu o tamanho de pinto de
jumento? ... alô, alô, sofrimento... (ÊNIA entra)

PROTÉTICO – sai dessa janela que Teresa vê...

BUJA – ... coisinha ...coisinha... (Abraça-a. Beija-a. Esfrega-se nela)

ÊNIA – Estou paradona em você...

CREMILDA – (Voz) AzamBUJA querido? AzamBUJA já chegou? (Chama) Gusmão


Gusmão? Aparece na janela!

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PROTÉTICO – Chegou não, Creme...

CREMILDA – Não vou morar junto com ninguém, não, AzamBUJA, não se assuste.
Meu irmão está aqui... acho que vi o AzamBUJA querido aí...
(PROTÉTICO vai até BUJA. Tira Buja dos braços de ÊNIA. BUJA
empurra PROTÉTICO. PROTÉTICO dá um soco em BUJA. BUJA
quer briga. Apanha de novo)

PROTÉTICO – Não vai fazer isso com a Teresa, se não gosta dela vai lá, elal, digno e
fala... agora, sassaricando, não... sassarico é coisa de bicha...

BUJA – Você é bicha...

PROTÉTICO – ... sou homossexual, você é que é bicha! (BUJA toma um gole numa
garrafa de whisky. Toma um gole rindo, passa a garrafa para Ênia que
toma gole. Passa a garrafa.)

CREMILDA – (Voz) AzamBUJA está ai? Está zangado? Pelo amor de Deus,
AzamBUJA... Teresa está aqui aflita... não vou morar com vocês, juro...
vou ser tombada pelo PatrimônioHistórico... Eu vi ele lá, Teresa... meu
irmão tem que ir embora que tem uma reunião dos chefes...
(PROTÉTICO luta com ÊNIA e BUJA. Consegue tirar a garrafa de
wisky para ele)

PROTÉTICO – Eles vêm aqui, hein, Teresa vem aqui...

BUJA – (Tem ânsias de vomito) ... não agüentei, PROTÉTICO... não agüento...
(Ânsias) ... primeiro lançamento de uma latinha de ervilhas , selecionadas
uma a uma, com um único problema... para ficarem assim cremozinhas,
iguaizinhas, perdem 80 por cento do valor nutritivo, é como comer
cocôzinho... que anúncio eu faço... “Finalmente ervilhas escolhidas uma a

90
uma” (Ânsias) (ÊNIA bebe. Liga Carmem Miranda) ...depois um
lançamento imobiliário ... eles gostaram do slogan que eu bolei: “Temos
36 apartamentos para os que se tornaram Príncipes – Você já chegou a
Príncipe?”... (Ânsias) ...depois...depois um novo sabão em pó, tem que
bolar o nome de um novo branco... eu bolei o nome de um novo branco
prá eles... não dá... é covardia? É covardia minha?... (Tocam a
campanhia)

CREMILDA – Gusmão, por favor, abre a porta, sim. Estou com meu irmão.
(PROTÉTICO aflitíssimo tenta empurrar BUJA para dentro do
banheiro junto com ÊNIA)

BUJA – ... sou um covarde, não é? Não tenho coragem de jogar napalm em
criancinhas...

PROTÉTICO – (Para fora) Já vou. Estou procurando a chave... (A BUJA) Entra...


ÊNIA, vai...

BUJA – ... não quero ir no banheiro... acho que já me mijei nas calças... (Está de
cueca e gravata)

CREMILDA – Gusmão, com quem você está ai?

PROTÉTICO – ... estou procurando a chave... (Como se chamasse cachorro enquanto


empurre BUJA e ÊNIA) Chave, chave... Não vai falar com Teresa assim,
amanhã você fala de cara limpa se quiser, mas de porre não... (Tranca
BUJA. Corre para a porta. Abre a porta. CREMILDA entra meio
desconfiada. Teresa quase que esperando o que vai acontecer. CHEFE
DOS ESCOTEIROS vestido de escoteiro)

CREMILDA – Esse é meu irmão, Deocleciano...

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PROTÉTICO – (Atrapalhadíssimo) Prazer... também estou de roupinha curta,
Comandante, já reparou?... eu nunca uso baby doll, não... comprei porque
estava em liquidação, aquela oferta do dia na Exposição, mania de
esconomia, não é?... aceita um refresquinho de mangaba, Comandante,
uma brevidade, talvez um bolinho de bacalhau....?

COMANDANTE – ...obrigado...

CREMILDA – AzamBUJA ainda não chegou?

PROTÉTICO – AzamBUJA parece que vai pra S. Paulo, DE MARCO telefonou...

TERESA – São Paulo?

PROTÉTICO – Pois é, um cocô ... desculpe, o senhor que é escoteiro mas a palavra
escapou-me... e além do mais cocô não é assim uma expressão tão
grosseira, não é, cocô de criança é até uma coisa delicada, não é? Meu
Deus, estou tão nervoso, não sei porque não paro de falar em cocô...
(BUJA tosse no banheiro. PROTÉTICO tosse pra mostrar que foi ele)
Com licença, vou por uma roupa mais nabillé... o senhor pode ficar como
está... quer dizer... é permitido o uso de bermuda... quer dizer... com
licença, sim? (Sai para o banheiro)

COMANDANTE – Quem é?

CREMILDA – É um amigo... nem amigo... é um vizinho...

COMANDANTE – Me pareceu um pouco efeminado...

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CREMILDA – Que idéia, Deocleciano, ele é casado. Casado com dona Luciana.
(PROTÉTICO volta com roupa. Braços, de dentro do banheiro, o
seguram)

PROTÉTICO – Que é isso? Estou com visita... não posso agora...

CREMILDA – Quem está aí? É o AzamBUJA?

PROTÉTICO – (Toma beliscões na bunda) Ai, não belisca minha bun... não belisca!
(Aparece ÊNIA morrendo de rir, beliscando PROTÉTICO. Ela só está
de calcinha e soutien. Teresa continua como morta, antevendo tudo)

COMANDANTE – É a dona Luciana?

PROTÉTICO – Dona Luciana?

ÊNIA – (Está de porrinho) Ih, olha a calcinha do cara... que ovo... olha a
calcinha do pinta, BUJA...

CREMILDA – BUJA?

PROTÉTICO – Comandante, comandante, estou me sentindo mal, o senhor é médico de


emergência, não é? Por favor...

ÊNIA – O cara usa uniforme de jogador de futebol misturado com a Real Polícia
Montada, do Canadá... (BUJA aparece com a cabeça de pato, de cueca e
gravata. ÊNIA tem ataques de riso do Comandante)

PROTÉTICO – Ué, BUJA querido! Você por aqui? Estava certo que você estava em
São Paulo. O DE MARCO achou que quer que você...

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BUJA – Eu sou o noivo de sua sobrinha, prazer... o que alfaiate quem é,
cavalheiro?

CREMILDA – BUJA, não faz assim, eu não vou morar com vocês, juro! Vou tirar
minhas cordas vocais, ficar muda....

COMANDANTE – É esse o noivo mesmo?

BUJA – Sou o noivo, o senhor naturalmente está pensando que eu sou um pato,
não é? Um pato de gravata, um pato sempre alerta, mas é impressão, não
sou pato, acho que pato é o senhor com essa roupa de Manduza...

COMANDANTE – O senhor está bêbado...

PROTÉTICO – Ha ha ha... BUJA, eu não te disse que não iam entender essa tua
brincadeira... hahaha... BUJA é um patusco... está brincando...

COMANDANTE – Ele está bêbado.

BUJA – Peru é que fica bêbado, eu sou pato. (Teresa chora, quieta, humilhada)

TERESA – Eu sabia, eu sabia, porque é que a gente faz questão de se iludir, de


querer aquilo que a gente tem certeza que não é possível...?

PROTÉTICO – há há ha, manganão, chega dessa brincadeira, vai... vexame assim nem a
Wilza Carla conseguiu nos seus dias mais inspirados, não é Manduca...
mas que Manduca nada... perdão...

CREMILDA – A culpa é minha, filhinha, a culpa é minha, ele comeu a menina, eu não
devia ter deixado...

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PROTÉTICO – Foi muito engraçado mesmo, BUJA, agora vamos ficar serinho...

BUJA – Estou serinho, estou de gravata, não estou esculhambando nada, não
vim de traje esporte, vim passeio completo de gravata, quem está
esculhambando é o Manduca sem gravata e com chapéu de Tom Mix...

COMANDANTE – O senhor me respeita, o senhor me respeita...

CREMILDA – Sou uma desgraçada, sou uma desgraçada, vou atear fogo às vestes!

BUJA – Quebrou muita vidraça hoje, Manduca?

ÊNIA – (Está dobrada de rir) Pô, os caras reclamam da minha roupa na rua pô...

COMANDANTE – (BUJA começou a dançar com ele) Cavalheiro, contenha-se,


contenha-se...

PROTÉTICO – Desisto, desisto... faz o que quiser, BUJA... leva a porralouquice por
caminhos desconhecidos... assume a vanguarda do porraloquismo, faz
pesquisa porraloquice, eu lavo minhas mãos... passarinho que come pedra
sabe o fiofó que tem...

TERESA – Quero o telefone do SÁ GOMES, mãe.

CREMILDA – Não, filha.

TERESA – Me dá o telefone do SÁ GOMES.

CREMILDA – Eu não quero viver sozinha, não quero...

COMANDANTE – Cavalheiro, me recuso a continuar a dançar com o senhor...

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ÊNIA – Estou fazendo pipi de rir, pára... pára...

BUJA – Um pato dançando com um escoteiro é curioso!... Pato Donald é filho


de um casal assim. (DE MARCO entra fuzilado. Pega os móveis; vai
colocando tudo do lado de fora enquanto fala)

DE MARCO – Quero meus móveis, cretino, moleque, porra louca, imbecil,


irresponsável... (Pula encima de BUJA)

BUJA – Proibida a caça ao pato nessa área, proibida a caça ao pato...

DE MARCO – (Volta a tirar os móveis) Não me apareça mais naquela Agência!

CREMILDA – DE MARCO, DE MARCO, eu...

DE MARCO – Arreda velha do diabo!

PROTÉTICO – Olha aqui, publicitário...

DE MARCO – Vou comer veado à caçadora, hein? Sai daí! (À Teresa enquanto tira o
restante dos móveis aos arrancos) Sabe o que esse estúpido fez? Pediram
um nome de um novo branco para sabão em pó.... ele escreveu num
envelope para o gerente de publicidade Gessy Lever – “Sugiro o seguinte
nome de branco: “Branco Filho da Puta””.... não, isso não é nada... o que
é que essa porra louca está rindo? (Falando de ÊNIA) ... E o que é que
está fazendo aqui um cara ridículo vestido de escoteiro... mais um porra,
não é? (Dá um safanão no Comandante)... sabe o que mais que ele fez?
Íamos fazer o lançamento de vendas de um prédio de alto luxo amanhã...
fizemos uma maquete de 2 metros uma obra prima... ele mijou na

96
maquete...agora prá tirar, só com bomba de succção e a massa está
derretendo...

BUJA – Não tive a intenção de estragar a maquete... não fiz com má intenção...
(Teresa sai correndo. CREMILDA e PROTÉTICO vão atrás dela)

CREMILDA e PROTÉTICO – Teresa... Teresa... (DE MARCO tira o último


móvel. Sai) (Silêncio)

COMANDANTE – Bem, acho que por hoje é só, não é?... (Tempo) Passar bem.
Prazer. (Sai) (BUJA e ÊNIA caem um nos nos braços do outro. Rindo, se
beijando. Entram no banheiro. Porta fechada. Transição de luz.)

CENA 9
Fim da tarde. Cena vazia. Um tempo.

VOZES – Menino, meu Deus outra vez puxando o rabo desse cachorro? O rabo
desse animal vai virar uma serpentina! (MULHER) Demóstenes! Você
está bêbado de novo? As seis da tarde, hora da Ave Maria? (Homem) E
daí? Pomba, não sou católico! (BUJA e ÊNIA entram de maiôs e saídas
de praias molhados. Sentam num canto. Ficam absortos) (Homem) –
Nora! Nora! Eu vou comprar é daqueles cuecão com fecho de pressão.
(Tempo. Tempo)

ÊNIA – Bom demais ver o pôr do sol...

BUJA – ...demais...

ÊNIA – ...tremenda bandeira da natureza...

BUJA – ... natureza ...certeza ... realiza... gentileza...

97
ÊNIA – ... fortaleza...

BUJA – ... pena que hoje não deu prá ver o pôr do sol que está chovendo paca,
não é?

ÊNIA – ...é... (Põe disco da Carmem Miranda)

BUJA – ... não tem mais energia aqui, acho...

ÊNIA – Essa vitrola também funciona à pilha... é andrógina... (Entra Carmem


Miranda. Tempo) O único jeito de contestar a civilização é assim, sabe
bicho? Ficar num canto, à favor da natureza...

BUJA – ...olha como a Carmem gostava muito da vida, olha o bulício dela...

ÊNIA – ... banana na cabeça... tremenda banana na cabeça ela punha... (Pega
um cacho de banana e põe na cabeça) Não é um barato? O negócio é
ficar de banana na cabeça, tropical, contestando adoidado...

BUJA – ... me dá um cacho aí também... (Põe banana na cabeça) Estou muito à


vontade, cheio de banana na cabeça, amizadinha... (Ficam parados.
Catatônicos. CREMILDA bêbada. Garrafa na mão. Entra)

CREMILDA – Orra, parece uma catacumba... (Liga o interruptor) ... não pagaram a
Light ô desbundados? (BUJA e ÊNIA riem)

BUJA – Light que é? Um conjunto musical da pesada?

CREMILDA – Light é a mesma coisa que a mãe de você – dá a luz. (Acha um lampião)
(Acende-o) (Olha os dois) (Senta) tem gente que enfia banana noutro

98
lugar... (Tempo) Se eu tivesse um revólver dava um tiro na sua cara,
BUJA.

ÊNIA – ... que barato...

CREMILDA – (À ÊNIA) Pronto, já disse uma palavra, agora só volta a falar amanhã,
viu, matusca? (À BUJA) Teresa era toda lacradinha, animada prá
encontrar a sorte grande... hoje está por aí pegando gasparino...

BUJA – ... sabe que eu cumprimento a Teresa e ela não me responde, porque
será que ela está zangada comigo...

CREMILDA – ... saiu com um senhor de cabeça branca, bochecha cor de rosa... num
Galáxie... o SÁ GOMES arranjou pra ela um senhor com a bochecha cor
de rosa... SÁ GOMES é cafetão cinco estrela...

BUJA – Aquele cara todo pô pô pô também está em empreendimentos eróticos?


(Morrem de rir ele e ÊNIA)

CREMILDA – ... a menina vai ganhar bem, vai ganhar bem, não é mau como
investimento, mas tem um lado sentimental, não sei... é um preconceito
que a gente tem com a prostituição, é ou não é?... Não me sinto bem... a
parte fiduciária, digamos, é atraente, não se pode discutir, 20 milhões por
mês, daí pra cima dependendo do talento... mas é duro para uma mãe ver
uma filha fornicando profissionalmente... (Tempo) Também, se ela
casasse me largava... Não sei mais nada, sabe... eu também me
desinteressei de tudo, sabe? O que é que vocês estão fazendo aí?

ÊNIA – Contestando.

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CREMILDA – Ah, sei. (Tempo) Estou pensando seriamente em me matar, dou um puta
tiro no ouvido e babau... Só não sei se antes estouro tua cabeça também,
BUJA. Esse negócio de botar banana na cabeça é simpatia? Me dá umas
aí... (ÊNIA da-lhe uma banana. CREMILDA a coloca na cabeça.
Tempo. Quietos. Entra PROTÉTICO.Pastas. terno, gravata, etc.)

PROTÉTICO – (Tempo rápido) mas é o Pateo dos Milagres do Vitor Hugo? Podia me
informar onde é que eu encontro o Quasimodo? (Liga o interruptor) Você
não pagou a luz, BUJA?... te dei dinheiro... não tenho tempo prá pagar...
pronto, cortaram! Alguém telefonou prá mim prá me dar dinheiro? Alô,
alô estou falando com o bananal geral... (Vai à BUJA) BUJA, deixei uma
lata de sardinha aí...

BUJA – Veio buscar ela, pode levar!

PROTÉTICO – Deixei prá você comer, criatura, você está sem comer há quase dez
dias... essas bananas, amor, também deixei pra comer, não é prá pôr em
lugar nenhum, muito menos na cabeça que cabeça não é merendeira,
amor...

CREMILDA – Vou dar um tiro nessa bicha também.

PROTÉTICO – Anjo, tesouro, arranjei um trabalho prá você numa Enciclopédia, paga 2
mil cruzeiros por linha, quer fazer uma Enciclopédia, tesouro?

BUJA – Faço uma enciclopédia inteira, vou ter dificuldade com a letra z... você
quer uma enciclopédia contra ou a favor...

PROTÉTICO – ... BUJA, você precisa trabalhar... (Pega uma conta de telefone no
chão) Olha a conta do telefone com o telefonema dessa maluca prá Nova

100
Iorque. Um milhão e trezentos... essa conta venceu faz vinte dias, não
tenho como pagar... BUJA, você está sem comer há uma semana...

CREMILDA – Se a temporada de dança estiver aberta, mato a bicha...

PROTÉTICO – BUJA, amanhã é o dia que vence meu esmpréstimo no banco, os 30


milhões que me roubaram, fui falar com o gerente e ele quer 10 milhões
no mínimo de amortização, não posso pagar isso.

BUJA – Não fala de dinheiro que eu sou estrangeiro... dinheiro forasteiro...

PROTÉTICO – ... ai meinha sacolinha....

CREMILDA – Aproveito e também dou um tiro na matusca, em vez de matar dois eu


mato três com uma só cajadada...

PROTÉTICO – Quero que você fale com o gerente do banco, BUJA, só posso pagar 6
milhões de amortização, o gerente é teu amigo, BUJA; BUJA, minha
oficina, minha vida, tudo depende disso, estou trabalhando há três meses
quase sem dormir.

CREMILDA – Vocês destruíram meu lar, destruíram meu lar...

PROTÉTICO – Fala com o gerente prá mim...?

BUJA – ... gerente patente servente reticente...

PROTÉTICO – ... ah meus sais... ah meus sais... (Arrasta BUJA para o telefone. Teresa
entra aos prantos)

101
TERESA – Vocês não queriam fundir minha cuca? Não era esse o objetivo
estratégico? Conseguiram... fundiu... não dá prá mais nada... entendi
agora a expressão miolo mole, estou com o miolo mole...

CREMILDA – Minha filha, filha! Como foi? Como foi? O primeiro dia é tão difícil
não é amor, como é que foi? (PROTÉTICO arrasta BUJA)

BUJA – Teresa, Teresa acho que você está zangada comigo, não está?

PROTÉTICO – Vem, BUJA...

CREMILDA – ... te pagou em dinheiro ou em cheque, meu amor? estou precisando


comprar um vestido que esse está poíndo na bunda e...

TERESA - Me larga...

CREMILDA – Não fala assim com tua mãe! Desnaturada! Ai de mim! Ai de mim!

PROTÉTICO – BUJA, pára quieto prá mim discar o número...

CREMILDA – ... vou te contar uma história que nunca nem tentei contar prá
ninguém... quando seu pai estava doente, o médico deu um remédio...

BUJA – Me larga! Repressão. Repressão.

PROTÉTICO – Dou uma série interminável de porrada em você, BUJA, fica quieto! (À
CREMILDA) Não grita, Baixo Astrasl.

CREMILDA – ... Tinha que dar o remédio de três em três horas... não dei o remédio de
três em três horas...

102
PROTÉTICO – É o carro chefe da senhora, não é, madame? A senhora apresenta esse
número em todos os seus shows, não é? Alô, Alô... (Entra SÁ GOMES)

SÁ GOMES – Por favor, Teresa, por favor, Teresa, volta comigo...

PROTÉTICO – ... desculpe, é engano... (Desliga) A Telefônica está na minha lista


negra, hein? (Liga de novo segurando BUJA)

SÁ GOMES – Você largou o dr. Eurípedes nu na cama, isso não se faz! O homem me
telefonou alucinado, excitadíssimo, aos gritos no telefone, parecia um
urso, uma foca...

CREMILDA – (Berra) ... dei remédio de seis em seis horas... teu pai foi pras picas
mais cedo e agora o que eu recebe? Ingratidão?

SÁ GOMES – Dr. Eurípedes me consegue despachos administrativos, adianta


processos, não posso deixar o homem nu na cama...

CREMILDA – Minha filha.você deixou aquele homem nu na cama, ah, não fica bem...
o que é que ele vai pensar de você... (SÁ GOMES quer puxar Teresa que
chora)

BUJA – Larga a Teresa... Teresa... (SÁ GOMES aguarda. Aflito. Meio sem
ação)

PROTÉTICO – (Agüentando BUJA) Seus Menezes? É Gusmão Barroso... Olha o


AzamBUJA, da DE MARCO Publicidade, meu avalista, lembra? Vai
falar com o senhor... (Põe o fone no ouvido de BUJA) Pela nossa
amizade, companheiro, por favor, por favor.

BUJA – Menezes, velho, como vai?

103
CREMILDA – O começo é sempre difícil, minha família, vamos tentar outra vez.

BUJA – Menezes queridíssimo, sabe o que o pires disse prá xícara? Ui que
bunda quente. (Morre de rir) Não é engraçado? (PROTÉTICO invoca)
Sabe que você é duzentas e doze e onze vezes mais engraçado? Gerente
de bando é de dar hérnia de tanto rir... (PROTÉTICO desliga)

PROTÉTICO – Filho de uma cadel... (Pega BUJA de porrada. SÁ GOMES puxa


Teresa. BUJA pula em cima de SÁ GOMES, dá-lhe uma caquerada)

BUJA – Tira a mão dela, tira a mão dela...

PROTÉTICO – Eu pedi nossa amizade, eu pedi...

CREMILDA – (Corre para a vitrola. Que o disco. Parte para ÊNIA) Já que está
saindo porrada, vem cá, matusca... (Confusão generalizada)

VOZES – Vem, Teresa – Me larga – Não morde sua bicha! – Me larga – Palhaço.
Me traiu! – Ei, velha, sai de cima de mim – Comigo é na porrada,
matusca. (SÁ GOMES cai. Fica meio fora de ação) (ÊNIA sai fora do
apartamento. CREMILDA procura. Vai para cima de PROTÉTICO)

CREMILDA – Agora é você, bicha. Pega a bicha! Pega! (ÊNIA põe a cara. BUJA
com o auxílio de CREMILDA reage)

BUJA – Está me machucando, PROTÉTICO. Está me machucando.

PROTÉTICO – É prá machucar muito. Você tem que sentir dor prá valer, mimosa
sensitiva... me larga, madame Brucutu...

104
BUJA – ... foi você quem fez tudo isso com mania de dinheiro, empréstimos e
oficinas e máquinas e faturas, acabou com o meu sossego, entende? Me
botou na roda viva de novo...

CREMILDA – O culpado é o homossexual?

PROTÉTICO – Meus sais, mas meu sal grosso, por favor!

BUJA – ... tudo por causa do Luciano, outro veado de cabelos doces... larga
essas dívidas, dívida pra banco? Tem medo de banco? Deixa vir cobrar,
não pode te prender, vai levar o que, teus artigos de toucador? Tuas calças
apertadas, sapatilhas? Você é todo servil prá civilização... aceita que ser
bicha é vergonhoso... quer mostrar eficiência... chega... chega... embora
todo mundo... não me apareça mais aqui, nem você, nem Luciano...

ÊNIA – Luciano não vem mais, vai ficar no Peru...

BUJA – Então falou, então falou...

ÊNIA – Luciano escreveu uma carta para ele rompendo...

BUJA – ... então falou... fora todo mundo... (Vão saindo) ... estou cheio de vocês
e de seus problemas sem largueza, sem... (Tempo) Quando foi essa carta?

ÊNIA – ... faz um mês...

BUJA – Um mês? Faz um mês que Luciano brigou contigo? (PROTÉTICO


parado) E você me disse nada... nada prá ninguém?... por que?... vai me
dizer que é porque que não estava bem e você não quis trazer mais
problemas ainda?... Você agüentou firme, PROTÉTICO?... e eu estou
aqui te xingando? ... você sangrou paca, não foi? ... e eu aqui te

105
xingando?... (Vai até ele. Abraça-o. Chora) Você é uma bicha macho
paca. Bicha macha... (Todos vão até ele. Beijam. Choram. SÁ GOMES
levanta. Fica num canto. CREMILDA num outro)

TERESA – ...gosto de você, sabe? Eu... (Ficam abraçados PROTÉTICO e Teresa)

ÊNIA – ... mas porque é que você continua com a oficina e dívidas e tanto
trabalho, você não fazia isso por causa do Luciano...?

PROTÉTICO – ...ai, estou tão comovidinha... um momento... não trabalho por causa do
Luciano, não é por medo de banco... gosto de trabalhar, agir como outros
seres humanos... pensa que é bom ser PROTÉTICO, BUJA? Andar na
rua, vendo brasileiro sem dente, a terra dos mil e um? Meus fuzileirinhos
sem mobília?... e por isso vou parar de fazer dentadura prá quem paga?
Em qualquer profissão tem grilo, quando tem grilo no mundo... essa vida
corroveia nas mãos não largo da sela não, verdade que chacoalha mas não
largo da sela não, verdade que chocoalha paca... ui capitalismo, arreda pé
de pato mangalô três vezes... (Tempo. BUJA beija PROTÉTICO. Teresa
se abraça de novo com ele. Teresa e BUJA, tempo, se beijam forte de
novo) Meu Deus, nós três de novo, um dia a polícia descobre...

BUJA – Corcel 73 gelo, Corcel 73 gelo... (SÁ GOMES disca o telefone)

TERESA – Te amo, tea amo, tea mo...

PROTÉTICO – Já teve essa cena, já teve...

CREMILDA – Com essa cara não, filha, ele foi nominado para o Nobel da
Porraloquice...

BUJA – Vamos tentar? Vamos tentar? Vamos tentar?

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TERESA – Vamos tentar? Vamos tentar? Vamos tentar?

SÁ GOMES – Alô, dr. Eurípides? Me desculpe, mas é melhor o senhor se vestir... mas
quem vai resolver o seu problema? Bem, permita uma pergunta respeito
da... será que sua senhora não podia resolver o problema?... não, não é?
Entendo... 45 anos de casado, imagino... É. A moça é irresponsável. Por
isso que o mundo está assim chafurdando na imoralidade e na
pornografia, doutro... é essa fallta de responsabilidade porque...alô.. alô...
alô...

PROTÉTICO – A Telefônica cortou o telefone! Preciso falar com o gerente de novo!


(BUJA e Teresa riem. PROTÉTICO atrantado. SÁ GOMES indignado.
CREMILDA sentada no chão, com as bananas na cabeça. ÊNIA por ali;
apaga a luz)

CENA 10
A luz apagou. Quase que imediatamente depois abre. Cena vazia.

BUJA – (Voz) Obrigado, companheiro, obrigado. Não precisa carregar mais...


Faço questão de colocar esses móveis prá dentro agora...

HOMEM – (Voz) Obrigado. (BUJA entra com Teresa, Carregam uma mesa. Os
dois rindo)

BUJA – ... cuidado... cuidado prá não estragar a pintura, o verniz...

TERESA – Precisamos pintar o apartamento, BUJA, está muito 2ª guerra mundial


demais... (Simpatia. Risos)

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BUJA – Calma. Já fizemos muito esse mês. Paguei o telefone, religamos a luz,
uma mesa, (Sai e volta com duas cadeiras) duas cadeiras e um tapetinho...
(Mostra um tapetinho)

TERESA – Estamos até indo depressa demais...

BUJA – Como foi o trabalho hoje?

TERESA – ... a mesma chatice de sempre, número paca... olha, de tarde me


telefonaram da Agência... prá mim fazer umas fotos de publicidade...

BUJA – Gênio. Mais dinheiro.

TERESA – Quero uma televisão.

BUJA – Contanto que ela não fale comigo... (Riem) Fiz mais um verbete.

TERESA – Um só, BUJA? Você tinha que ter feito dez. Você capricha demais,
hein? Daqui a pouco te despedem...

BUJA – Não consigo entregar de qualquer jeito, quero ficar sabendo tudo do
troço...

TERESA – Mas você fica enrolando demais...

BUJA – Pronto, pronto, sem discussão Corcel gelo...

TERESA – Sem discussão... (CREMILDA aparece. Pratinho de doce na mão.


Florzinha num vaso)

CREMILDA – Deixa eu entrar? 7 horas. Você disse que das 7 às 8 eu posso entrar.

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TERESA – Entra, mãe...

CREMILDA – Olha. Fiz torta de maçã prá você, meu amor, especial...

BUJA – Gênio.

CREMILDA – Olha margaridinha do campo... prá vocês, casal mais lindo do mundo.

BUJA – Creme, você deixa eu casar com tua filha?

CREMILDA – ... deixo... (Os dois se beijam) Eu fico tão sozinha, bem que eu podia...

TERESA – Mãe...

CREMILDA – ... não falo porra nenhuma...

TERESA – ..mãe...

CREMILDA – ... não falo bosta nenhuma...

TERESA – ... mãe...

CREMILDA – ... está bem... (Toca o telefone. Teresa atende)

TERESA – Alô? Quem? Caíto? Oi, como é que é? Me telefonaram da Agência, não
pude passar hoje, eu passo ama... não é prá anuncio ... prá que é? Como
é? Bem, eu... obrigada.. espera, espera... como é que é?... Quando?...
bem... você tem certeza, Caíto? É isso mesmo que você quer? (Tempo)
Está certo. Daqui uma hora. Uma hora. Tcháu. Tcháu. Prá você também.
(Desliga. Silêncio) (Teresa fica parada. Não diz nada. Longo tempo)

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BUJA – Que foi? (Silêncio) Que foi? (Tempo)

TERESA – Lembra do grande sonho de minha vida? Casar com um cara jovem
rico, pele saída da sauna, pouco pivô na boca, por dentro da política
internacional... um cara solteiro que quisesse casar comigo...?

BUJA – Lembro, e daí?

TERESA – (Tempo) Caíto quer casar comigo.

BUJA – Caíto?

TERESA – É. Está muito apaixonado por mim, há três meses, quer casar comigo,
só pensa em mim...

BUJA – Mas e você...?

TERESA – (Tempo) Acho que vou... Quer casar comigo e me levar prá Europa uns
três quatro meses...

BUJA – Pomba, você não vai me largar, você não me ama?

TERESA – Amo, claro.

BUJA – Então você não pode me largar.

TERESA – E posso largar meu sonho, minha obsessão? Isso aqui falta água,
elevador encrenca, ruído de descarga, gente tossindo, cheiro de lixo,
passo o dia no escritório na máquina com os caras olhando meu peito pelo

110
decote. Almoço sanduíche Geneal, BUJA. Eu te amo mas tenho que
experimentar essa...

CREMILDA – Vamos sim, minha filha, vamos sim... larga esse porra louca filha da
mãe...

BUJA – Mas, Teresa...

TERESA – Vou experimentar...

BUJA – Ele vai te levar prá Europa e na volta é jantar em casa do Vice-
Executivo de uma firma que ele quer pegar publicidade, no dia seguinte é
pro Gerente de Vendas de outra e no dia seguinte é public relations
sempre sempre sem parar, falso, monótono, embaciado, vivendo dos
interesses criados, dos bebedouros já manchados...

TERESA – Pode ser que eu volte um dia, BUJA, se você ainda estiver afim... mas
tenho que ir ver isso de perto...

CREMILDA – Vamos, sim, filha, larga esse maluco prá lá, me dá minha torta de maçã
aqui, veado...

TERESA – A senhora não está pensando que vai prá Europa comigo, não é, mãe?

CREMILDA – Claro que eu vou. Ele é rico. Me paga uma suíte separada em cada
hotel...

TERESA – A senhora não vai...

CREMILDA – Não vou é o cacete...

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TERESA – Vou indo, BUJA., vou combinar tudo com ele, hoje já não volto prá cá,
tchau, vou dormir lá na mãe...

CREMILDA – Está vendo, solteira vai prá casa da mãe, casada, nem quer ver a mãe,
não é? (Teresa sai. CREMILDA atrás) Vou te contar uma história que eu
nunca tentei contar prá ninguém... (Sai. BUJA fica por ali, parado)

VOZES – Menino, pára de enfiar o dedo nesse lugar do cachorro, menino. Pascola
vem ver o cachorro, acho que ele está começando a gostar, vem ver.
(Entra PROTÉTICO)

PROTÉTICO – Ai, meu Deus, ai meu Deus, sou uma bicha roubada, uma bicha traída,
ilaqueada... ai meu Deus...

BUJA – Teresa me largou, cara...

PROTÉTICO – Roubaram a minha Piroplast para jaqueta e coroa Vennier!

BUJA – ... a gente estava rindo e de repente...

PROTÉTICO – ... como eu estou viúva, tenho saído com o Waltencir, sem
compromisso entende? Um dia mãozinha dada, outro dia beijinho no
cinema, sanduíche no Bob’s, mas ele não é meu tipo, só estou com ele prá
me distrair, pra amenizar a dor da ausência de Luciano... quem não tem
cão caça com gato... Ontem eu fiz com ele, entende? Coisinha pequena,
sem graça, só prá distrair mesmo... aí ele me pediu a chave da oficina que
ia chegar mais cedo, me adiantar o trabalho... eu emprestei, tinha cabado
de fazer com ele, não é? É um momento de confiança íntima... hoje,
quando chego na oficina, não vejo a minha Piroplast para jaqueta e coroa
Vennier? Olho pela janela...está num caminhão... Waltencir estava
levando a minha Piroplast para jaqueta e coroa Vennier... aí desci e

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comecei a correr pela Avenida Suburbana aos gritos: “pára esse
caminhão, pára essa merda desse caminhão aí!”, veio um guarda de
bigodinho “o senhor está multado!” “meu amigo, como é que eu posso
estar multado se eu estou andando a pé, seu Guarda? Me larga que estão
me roubando minha Piroplast para jaqueta e coroa Vennier” e o guarda
então pediu prá ver minha carteira, “mas como carteira, seu Guarda, eu
estou a pé, sem automóvel, isso é minha bundinha que é saltadinha não é
pneu, não!” e o caminhão sumindo, eu no meio da rua com o guardinha
de bigodinho, um puta engarrafamento, um sujeito começou a gritar
“bicha bicha” ah, foi a conta... e buzinavam e gritavam bicha bicha, aí eu
dei uma porrada no guarda e corri, me prenderam, me deram tanta
dedada, me levaram pro distrito por desacato à autoridade... ah, meu
Deus, sou uma bicha assaltada... (Se atira na cama! Tempo)

CREMILDA – (Voz) Ai de mim! Ai de mim! (Tempo. Entra ÊNIA. Roupa de quem vai
viajar; mochila nas costas)

ÊNIA – Tchau. Vou prá Bahia.

BUJA – Bahia, é? Legal.

ÊNIA – Meu sonho...

BUJA – Vai de carona?

ÊNIA – Não. Meus pais vão mudar prá lá. A gente vai de carro. Me arranjaram
um emprego lá. Vou trabalhar como arquivista na Prefeitura.

BUJA – Ah...

ÊNIA – Mas sempre é Bahia, não é?

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BUJA – É.

ÊNIA – Tchau.

BUJA – Tchau. (ÊNIA sai. Tempo)

CREMILDA – (Voz) ai de mim. Ai de mim. (Tempo. BUJA corre para a janela)

BUJA – Olha minha bunda. Tem bunda dando sopa na janela. Olha a minha
bunda. Alô, alô...

FIM
23 de março de 1973

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