EU, TODOS OS SONETOS E OUTRAS POESIAS

(OBRA COMPLETA)

AUGUSTO DOS ANJOS

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Autor: Augusto dos Anjos Título: Eu, todos os sonetos e outras poesias Data da Digitalização: 2004 Data Publicação Original: Primeiras décadas do séc. XX

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ÍNDICE
Introdução
As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos (por Horácio de Almeida) ....................................... 06 Um Currículo Escrito pelo próprio poeta (respostas ao inquérito de Licínio dos Santos) .............. 33

Sonetos
O Morcego ..................................................34 Psicologia de um Vencido ......................... 34 A Idéia ....................................................... 35 O Lázaro da Pátria ..................................... 35 Idealização da Humanidade Futura ........... 36 Soneto ao Meu Primeiro Filho .................. 36 Versos a um Cão ....................................... 37 O Deus-Verme .......................................... 37 Debaixo do Tamarindo .............................. 38 Budismo Moderno ..................................... 38 Sonho de um Monista ................................ 39 Solitário ..................................................... 39 Mater Originalis ........................................ 40 O lupanar ................................................... 40 Idealismo ................................................... 41 Último Credo ............................................. 41 O Caixão Fantástico .................................. 42 Solilóquio de um Visionário ..................... 42 A um Carneiro Morto ................................ 43 Vozes da Morte ......................................... 43 Insânia de um Simples .............................. 44 Asa de Corvo ............................................. 44 O Martírio do Artista ................................. 45 O Mar, a Escada e o Homem ..................... 45 Decadência ................................................ 46 Ricordanza della mia Gioventú ................. 46 A Um Mascarado ...................................... 47 Vozes de um Túmulo ................................ 47 Contrastes .................................................. 48 Soneto I a meu pai doente ......................... 48 Soneto II a meu pai morto ......................... 49 Soneto III ................................................... 49 Depois da Orgia ......................................... 50 A Arvore da Serra ..................................... 50 Vencido ..................................................... 51 O Corrupião ............................................... 51 Alucinação a Beira Mar ............................. 52 Vandalismo ............................................... 52 Versos Íntimos .......................................... 53 Vencedor ................................................... 53 Eterna Mágoa ............................................ 54 O Lamento das Coisas .............................. O Meu Nirvana ......................................... Caput Immortale ....................................... Apóstrofe a Carne ..................................... Louvor a Unidade ..................................... O Pântano ................................................. Supreme Convulsion ................................. A Um Gérmen .......................................... Natureza Íntima ........................................ A Floresta ................................................. Guerra ....................................................... O Sarcófago .............................................. Hino a Dor ................................................ Última Visio ............................................. Aos Meus Filhos ....................................... A Dança da Psique .................................... O Poeta do Hediondo ................................ A Fome e o Amor ..................................... Homos Infimus ......................................... Minha Finalidade ...................................... Noli Mi Tangere ....................................... O Canto dos Presos ................................... Aberração .................................................. Vítima do Dualismo .................................. Ao Luar ..................................................... A Um Epiléptico ....................................... Canto da Onipotência ............................... Minha Arvore ........................................... Anseio (Quem Sou Eu...) .......................... Revelação I ............................................... Revelação II .............................................. Versos a um Coveiro ................................ Trevas ....................................................... As Montanhas I ......................................... As Montanhas II ....................................... Apocalipse ................................................ A Nau ........................................................ Volúpia Imortal ......................................... O Fim das Coisas ...................................... A Noite ..................................................... A Obsessão do Sangue ............................. 54 55 55 56 56 57 57 58 58 59 59 60 60 61 61 62 62 63 63 64 64 65 65 66 66 67 67 68 68 69 69 70 70 71 71 72 72 73 73 74 74

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Vox Victimae ............................................ Agonia de Um Filósofo ............................. O Último Número ..................................... Saudade ..................................................... Abandonada ............................................... Ceticismo ................................................... Mágoas ...................................................... Ouvi, Senhora ............................................ Triste Regresso .......................................... Infeliz ........................................................ N’augusta solidão dos cemitérios ............. Noivado ..................................................... No meu peito arde .................................... A Máscara ................................................. Amor e Religião ........................................ Canta no espaço a passarada ..................... O Coveiro .................................................. Pecadora .................................................... No Claustro ............................................... Il Trovatore ................................................ A Louca ..................................................... Primavera .................................................. A Esperança .............................................. Senhora, eu trajo o luto do passado .......... Sofredora ................................................... Ecos d’Alma .............................................. Amor e Crença .......................................... Ariana ........................................................ Tempos Idos .............................................. Na rua em funeral ei-la que passa ............. Adeus, adeus, adeus! E, suspirando... ....... A Aeronave ............................................... Lirial .......................................................... A Minha Estrela ........................................ A praça estava cheia.... .............................. A Esmola de Dulce .................................... Ave Dolorosa ............................................ Gênio das trevas lúgubres... ...................... Nimbos ...................................................... O Mar ....................................................... Anseio (Nessas Paragens Desoladas...) ..... Aurora Morta, Foge! ................................. No Campo ................................................. Canta o Teu Riso Esplendida Sonata ........ Cravo de Noiva ......................................... Plenilúnio .................................................. Insânia ....................................................... O Bandolim ...............................................

75 75 76 76 77 77 78 78 79 79 80 80 81 81 82 82 83 83 84 84 85 85 86 86 87 87 88 88 89 89 90 90 91 91 92 92 93 93 94 94 95 95 96 96 97 97 98 98

Ara Maldita ............................................... 99 Na etérea limpidez... ................................ 99 Treva e Luz ............................................ 100 O Templo da Descrença .......................... 100 A Peste .................................................... 101 Ideal ........................................................ 101 Cítara Mística ......................................... 102 Súplica num Túmulo .............................. 102 Afetos ..................................................... 103 Martírio Supremo .................................. 103 Sombra Imortal ....................................... 104 Coração Frio ........................................... 104 Noturno (Para o Vale Noital...) ............... 105 Sedutora .................................................. 105 Pelo Mundo ............................................. 106 E o Mar Gemeu a Funda Melopéia ......... 106 O Riso .................................................... 107 Vamos, Querida! ..................................... 107 A uma Mártir ......................................... 108 Régio ...................................................... 108 Pelo Mar ................................................. 109 Pallida Luna ............................................ 109 A Morte de Vênus ................................... 110 Mártir da Fome ....................................... 110 Sonho de Amor ....................................... 111 A Orgia Mata a Mocidade ...................... 111 Festival ................................................... 112 Noturno (Chove, lá fora...) ...................... 112 E Ele Morreu .......................................... 113 Vaes Victis .............................................. 113 A Dor ..................................................... 114 Terra Fúnebre ......................................... 114 O sonho, a Crença e o Amor ................... 115 Meditando ............................................... 115 Para Quem Tem na Vida... ...................... 116 Soneto a Frederico Nietzche ................... 116 O Negro ................................................. 117 Vinhas trilhando gárrulo a Avenida ........ 117 O Ébrio ................................................... 118 O Canto da Coruja .................................. 118 Senectude Precoce .................................. 119 André Chénier .......................................... 119 Mystica Visio .......................................... 120 Ilusão ...................................................... 120 Nome Maldito ........................................ 121 Dolências ................................................ 121 A Lágrima ............................................... 122

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............................................... 180 Canto Íntimo ........ 184 Idealizações ...................................................................... 141 Os Doentes ......... 155 Duas Estrofes ....................................... 166 A Luva ..... 197 Quadras .................. 199 Tristezas de um Quarto Minguante ............... 156 Gemidos de Arte .................. 203 Vênus Morta ..................................................... 190 Mistérios de um Fósforo .................................................................................... 155 Mater ................................................................................................... 173 A Ilha de Cipango .................................................... 183 Gozo Insatisfeito ............................................................................. 182 Canto de Agonia ..... 209 Poema Negro ........................................ 179 Estrofes Sentidas ........................................ 168 Noite de um Visionário ........................... 186 Insônia ................ 129 A Caridade ............................... 157 A Meretriz ................................. 142 À Mesa ................................................................................................................................ 200 Mãos ............................ 212 5 .....................................................123 Uma noite no Cairo ............................... 183 História de Um Vencido .......Outras Poesias Monólogo de uma Sombra .......... 195 Numa Forja ...................................128 As Cismas do Destino .................................................................................................................................... 192 Ode ao Amor . 204 Viagem de um Vencido ...................... 170 A Vitória do Espírito ............................................................................................................................................................. 176 Ave Libertas ........................................................................ 175 Barcarola ................................................................................................ 205 Queixas Noturnas ........................................... 162 Versos de Amor ...................

A crítica literária já lhe realçou a obra em sua forma estética. quando. ao menos. que forjava em versos candentes a produção que depois levava ao papel. Apenas como contribuição a essa crítica de sentido mais amplo. nos moldes em que se ajusta a passividade compreensiva do comum dos homens. já outros o fizeram com maior ou menor adequação. segundo as síndromes patológicas revelados. penso poder levantar a ponta da cortina para melhor compreensão das suas mensagens de angústia. Convenha-se antes de tudo que Augusto não foi um homem normal. já que não podemos penetrar com tanta intimidade o mundo subliminal. Nessa tentativa de interpretação psicológica. paremos reverentes à porta do templo. nesse estado de superexcitação. contudo. Por conseguinte.INTRODUÇÃO AS RAZÕES DA ANGÚSTIA DE AUGUSTO DOS ANJOS* Por Horácio de Almeida Muito se tem escrito sobre Augusto dos Anjos. senão em mais de um. que é de todas a menos operante. entrava em crise espiritual. acompanhá-lo na trajetória desse pensamento tumultuário. o eu fora do Eu. Interpretar cada verso isoladamente não é tarefa que se enquadre no plano deste trabalho. é possível que se tenha conservado à distância da crítica literária. Só o estudo do conjunto poderá explicar os matizes de um pensamento que tinha por norma ocultar-se em metáforas. proponho-me a interpretá-lo a partir de um ângulo até agora pouco estudado — a inquietação de sua personalidade. desejosos de. um psicastênico para outros. que o não convencia de todo. no que há de mais sutil e imponderável. RJ. não conhecemos sequer a nossa. na verdade. pois. Em Augusto dos Anjos não há que procurar o autor fora de sua obra. O autor revela o homem e ambos estão por inteiro em sua obra. É preciso. em suas mensagens de angústia. ed. A crítica metodológica do autor do Eu e Outras Poesias devia constituir o alvo desta escalada. realçar a força de sua inteligência manifestada na originalidade do estilo e na tônica de um materialismo filosófico. Fazer o elogio do poeta. Teria sido um neurótico para uns. poder conhecer a árvore pelo fruto. na chaga viva de sua consciência. Toda vez que o poeta se concentrava na dor que mais o cruciava. nos moldes da velha orientação impressionista. A crítica genética já lhe esvurmou a alma em busca de uma explicação para as suas anomalias psíquicas. Nalgum ponto. Sua personalidade singular ali se projeta. 1962) 6 . sobretudo pela sinceridade com que nela está fotografado. e era aí. não vejo documento mais preciso para conhecer o autor que a sua própria obra. compreendendo inclusive a estilística. isto é. numa atitude de respeito e reflexão. esteja o poeta revelado por inteiro em todos os reflexos de sua alma. Seja como * (do livro As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos. inatingível também ao bisturi dos que tentam dissecar o interior humano. Não me parece. Difícil tarefa é essa de querer conhecer a alma dos nossos semelhantes. Gráfica Ouvidor. o que de alguma forma facilita o trabalho de interpretação. Deste modo. quando não irrompia ovante para logo se perder na dúvida. não escapasse um pouco da minha acuidade intelectual.

Juízo é coisa que todos julgam ter. que procura dissecar a alma para ajustá-la a quadros nosológicos já catalogados e. nas modalidades do caráter. sobretudo quando tal obra reflete da primeira à última página a alma do autor. ficou desajustada da mente pelo resto da vida. quando este ainda em estado de gestação sofreu uma comoção das mais fortes. do sentimento. Isto posto. Augusto não era um homem igual aos outros. aos que se rebaixam para subir. mas da mediocridade ajuizada que enche de presença os quadros humanos nunca ninguém viu sair obra duradoura. sobretudo quando provém da linha materna. Não se trata aqui de fazer coincidir a personalidade criadora de 7 . que nada explica. aos que se acomodam. sobre o seu caso clínico. aos que perseguem riquezas ou fazem do amor o cio bestial. Não há que imputar a Augusto a pecha de louco. não há negar também a dos psicológicos. nem os que vieram depois. tiques nervosos. de quem o sobrinho nascituro herdaria o nome e as conseqüências do choque. fobias. a de Nietzche. só ele dava a impressão de um desajustado. perturbou-a por muito tempo. sestros. a de Byron. Pai e irmãos passavam por normais. que já era constitucionalmente quase louca. De seu pai também não herdou as características psíquicas que o marcaram a fundo. por vezes controvertidos. assim como está provada a hereditariedade dos caracteres biológicos. sofreram perturbações muito fortes na época de gestação daqueles notáveis supranormais. jamais denotaram qualquer grau de semelhança ou relação de afinidade com a alma bizarra do poeta. tem sido Augusto comparado a Leopardi. Por seu parentesco espiritual. mas vale a pena ser louco quando se deixa por tal motivo um nome à admiração da posteridade. tal fato não podia deixar de refletir-se no filho em gestação. A causa primária de sua desordem nervosa já é assunto conhecido. repetindo conceitos. Todas se angustiaram por acontecimentos imprevistos. tenho por desnecessário entrar aqui nesse campo de especulação psiquiátrica. em relação com a casuística. causada pela perda imprevista de um irmão querido. Tanto isso parece verdade que seus irmãos. choques emocionais. Obviamente. O traumatismo moral que tão fundamente abalou a mãe. enfim. com distúrbios os mais evidentes no seu sistema nervoso. como se houvesse saído do limbo para cair na labareda. no final. além mesmo da gravidez. Oscar Wilde e outros loucos geniais ou degenerados superiores. tais modelos de comparação passaram também pelas mesmas crises intra-uterinas que afetaram a sensibilidade do autor do Eu. como é do gosto da crítica científica. Ao que se sabe. Assim como a mãe de Augusto. menos a de Byron. na classificação dos antropologistas do século passado. enfim. a de Leopardi. o refinamento de suas faculdades morais. E por curiosa coincidência. Nem os que nasceram antes. Sem o concurso da causa primária.for. pelo drama que padeceu na vida intra-uterina. igualmente inteligentes. estudante de medicina. Byron. a de Wilde. da inteligência. Nietzche. reduzir tudo a categorismo. com preocupações de grandeza e fidalguia. a partir de Lombroso. caracterizado por uma sensibilidade doentia. por motivos vários. de fundo genético. Explica-se deste modo. A mãe do poeta. não é possível interpretar a obra de um escritor. todo o seu temperamento emocional.

Tão na flor da juventude e já se dizia um descrente. Nada de admirar. Alexandre dos Anjos. Falava nele o positivista que. em contraste com a mocidade e a inteligência. Muito cedo. entrou a estudar as matérias do curso de humanidades.Augusto com a sua personalidade psicológica. definia mais claramente esse pensamento “como uma vocação para a Desgraça e um tropismo ancestral para o infortúnio”. haurido no transformismo de Haeckel e no evolucionismo de Spencer. A doutrina positivista foi a primeira a ganhar terreno. mas não era somente isso. no último ano do século passado. dr. Já em 1875. E para completar o esboço do auto-retrato acrescentava: “Eu hoje só vivo para a descrença”. na várzea do Paraíba. Sílvio Romero. Tais idéias materialistas eram a coqueluche que o século passado legara ao presente. viu nele um tipo excêntrico de pássaro molhado. quando apareceu para os primeiros exames no velho Liceu Paraibano. cinco anos após a sua morte. saído da roça. logo mais. publicado no Almanaque do Estado da Paraíba. que lançou em 1919. sofregamente bebida nas academias. Os conhecimentos filosóficos gozavam reputação de primeira plana. Com seu pai. como uma fatalidade. Deste modo. em Monólogos de uma Sombra. A amizade que logo nasceu da admiração foi regada mais tarde com lágrimas de saudade no elogio que fez do poeta. foi logo chamando a atenção de mestres e colegas pelos conhecimentos que demonstrava. como expressão do pensamento nacional. porquanto as duas já se apresentam fundidas sem a química da ajuda biográfica. mas no final 8 . Coelho Rodrigues. Esse adolescente sorumbático já poetava desde os sete anos de idade. O que há de singular nele não é. com o título Eu e Outras Poesias. cuja vida corria sem obstáculos. em sua linha tomista. começou a envenenar-se com o materialismo filosófico. guiado apenas pela ilustração paterna. em 1900. Quando Órris o conheceu nos idos de 1900. Logo mais. a rigor. aprendeu a ler e. sem afastar-se do lar. a quietude da vida na província. Augusto nasceu e se criou no engenho Pau d’Arco. para maior complicação de sua personalidade. segundo os primeiros retratos que temos dele. A paisagem bucólica da várzea. numa defesa de tese na Faculdade de Direito do Recife. sofreu duros reveses. a sua própria vida sem problemas. Vinha-se de uma época em que a erudição nacional destilava-se da cultura européia. do Eu. Ocioso será afirmar que a metafísica ortodoxa. conforme disse num soneto que não consta. O rapazinho de 16 anos. evolvia para o evolucionismo de Speneer. reunindo a esse volume a produção posterior à edição princeps de 1912. agravados por outros que irromperam na idade perigosa. era um introvertido. não fossem os conflitos espirituais que trazia do berço. bradava para o conceituado mestre que o argüia. que a metafísica estava morta. o seu tipo de pássaro molhado. A par disso. estavam a fazer dele um lírico. Órris Soares confessa que só conseguiu passar no exame de latim porque se valeu do colega que o ajudou a destrinchar Horácio. é a vocação que já revelava para o infortúnio. inspirado na natureza e no amor. confessava-se já então “afeito às mágoas e ao tormento”. Era de fato um excêntrico. os quais o acompanhariam. de vez que a literatura indígena longe estava de adquirir a consciência de sua função. para aprazimento intelectual das elites. visto ter nascido poeta. em prefácio à segunda edição do Eu. até o túmulo. ao invés de um estudante bisonho.

os que ainda não tinham qualquer convicção filosófica. suportou a mais dura crise. influenciado pelos naturalistas e evolucionistas do século. como toda substância animada. O materialismo dialético dos nossos dias retrocede. mas a metafísica resistiu ao impacto das idéias novas. com a evolução da matéria e do espírito. um século antes de Hugo. de que católico era sinônimo de burro. disse-me certa vez que só depois de formado foi que veio a conhecê-lo direito. já era moda entre os renovadores o lançamento de poemas filosóficos. conciliada. Aliás. tentou o milagre de 9 . Por todo o Nordeste. Nas rodas que se faziam na Paraíba. adepto do positivismo. Desta forma. como se desconhecesse ou procurasse desconhecer a parte subjetiva de si mesmo. Foi nesse ambiente de agitação doutrinária. segundo o depoimento de Cristino Castelo Branco. a ciência do Direito interessou menos ao estudante taciturno que as especulações filosóficas do materialismo naturalista. nas concepções filosóficas de seus poemas. enquanto a metafísica do verdadeiro cristianismo continua palpitando na alma de todos os povos. formavam rodas para discutir o sexo dos anjos. Esquisitão que era. desde Haller. Na Paraíba. proceda ou não proceda. já lidos nos filósofos da natureza. se o diabo é tão feio como o pintam. aliás. Comte passou. José Américo de Almeida. não exclui absolutamente a hipótese da existência da alma. Era a época da evolução do pensamento brasileiro. irradiação natural da Escola do Recife discutia-se o problema do ser e do não-ser. o rapazelho sorumbático deu asas ao pensamento nos conflitos entre a consciência e o sentimento. o pensamento ao longe. Darwin e Haeckel podem ser contestados ainda hoje como panteístas pelos que seguem ao pé da letra a história bíblica da Criação. firmava-se o conceito. os intelectuais mais dotados. que só cuidava de preocupações teológicas. Toda a preocupação era combater o pensamento teológico. Um que foi seu colega de estudos e morou com ele na mesma pensão em Recife. introduziu entre nós a poesia científica. quando ainda pontificava na Faculdade de Direito do Recife um devoto do fenomenismo agnóstico. emancipou-se dela intelectualmente. desde o monismo de Haeckel ao evolucionismo de Spencer. isto é. que se irradiava do Recife ao sopro tempestuoso de Tobias Barreto e seus ardorosos discípulos. mas a origem simiesca do homem. em seu livro Frases e Notas. Embora educado na religião católica. Desses embates. que. que Augusto dos Anjos penetrou os umbrais da tradicional escola. A matéria em sua essência afigurava-se-lhe tão misteriosa como a força. O beatério era o último reduto do catolicismo. Laurindo Leão. confundidas ambas na unidade cósmica. como uma velharia do século. de onde saiu formado em 1907. entre o mundo da forma e o mundo da razão. por ver em tudo isso hipóteses visionárias. Ao que parece. a velha Escolástica. já no seu ocaso. está sujeita também ao processo da evolução. Os menos letrados. Até no Piauí. a exemplo de Victor Hugo. faziam praça de livres pensadores. Martins Júnior. aliás bem pouco lisonjeiro. o queixo apoiado no cabo do guarda-chuva. ficava a escutar os companheiros. Os filósofos da natureza foram ficando para trás. Ainda na fase preparatória de estudos. ou mesmo. Augusto pouco falava.de contas resistiu ao choque de uma crença que condenava até a indagação anatômica e a astronomia sideral. que ficou sem seguidores e acabou relegada pelo próprio poeta. em sua. dupla feição de filósofo e de poeta.

até adquirir a forma humana. Rimbaud escrevera Bateau ivre. Em minha ignota mônada. enfim. poema que abre o Eu e Outras Poesias. A simbiose das coisas me equilibra. Do cosmopolitismo das moneras. Integrado na sociedade. desesperado por não poder libertar a energia intra-atômica e dominar a lei da mecânica universal. a consciência 10 . ouvindo a citação de dois versos seus tomados ao acaso. terso na linguagem. fundado na unidade cósmica. já desiludido. E assim continua. e—crente no tema. Vejamos. mas “a solidariedade subjetiva de todas as espécies sofredoras”. começa então o drama crucial da consciência. chega aos seres mais complexos. bem mostra a preocupação indagativa do poeta de penetrar a coisa em si. Encontra-se. procedo Da escuridão do cósmico segredo. como bem observa Cavalcanti Proença. numa caminhada de 31 estâncias. Não há. Pólipo de recônditas reentrâncias. Aos 17 anos. já diferenciado na mônada. Nessa ânsia de penetrar a vida fenomênica das formas. ora transfigurado em sátiro vilíssimo... que é a derrota da humanidade. vibra A alma dos movimentos rotatórios. Em Monólogos de uma Sombra é a Sombra que fala e a Sombra é o eu do poeta. Por ela vai buscar-se no mundo informe da vida planetária. identifica-se na substância primeva. depois de infinitas transformações. Quem já o leu uma vez. que passou do reino vegetal para o animal. “esse mineiro doido das origens”. Imitá-lo seria obra grosseira de pastiche. por força das sucessivas mutações da matéria.reduzir a um campo único a ciência e a arte. 186 versos. É a sua confissão de f transformista. nas duas composições uma coincidência de temas. trinta anos antes. Larva do caos telúrico. mas há casos em que a vidência poética de um é manifesta no outro. sempre a evoluir em movimentos rotatórios. Realizou de fato esse milagre em estrofações de profunda força conceptiva e de cunho tão pessoal que toda a sua produção traz a marca do autor — a eurritmia musicada dos decassílabos. E a morbidez dos seres ilusórios! E por aí vai. na larva que procede do caos telúrico. Em Bateau ivre quem fala é o barco ébrio e conta a sua derrota. O aspecto conceptual do poema. ampla. todavia.. naquela mesma idade em que.. Venho de outras eras. como amostra. Augusto compôs Monólogos de uma Sombra. A saúde das forças subterrâneas. E é de mim que decorrem. incomparável na forma musicada. simultâneas. A partir da monera. Da substância de todas as substâncias. ora transfigurado em filósofo moderno. mas há paralelismo de símbolos e de força criadora. Não sei se Augusto leu alguma vez Rimbaud. a ponto de mostrar seu nojo à natureza humana. facilmente o identifica. Não sofre apenas a sua dor. e vem vindo como uma monera através de milhões de anos. as duas primeiras estrofes dos Monólogos: Sou uma Sombra.

noção trivialíssima das funções orgânicas. A mesma coisa. segundo a qual a matéria e o espírito se unificam numa só substância. respondeu-me que por todo o casco da cabeça. que faz quase lembrar a reencarnação. No tocante à transformação da matéria. em esconderijos apropriados. ouvia mais que um tísico. Nesse estado d’alma. no entanto. onde impera a força que responde pelo movimento ubiqüitário da massa. a forma para ele era a manifestação passageira da matéria em seus processos evolutivos. Para os que negam o espírito há muitos fenômenos que ficam sem explicação. No fundo. sente o remorso a queimar-lhe a consciência. Por alma. as conchas das orelhas rasas como a palma da mão e. Augusto nunca deixou de ser um metafísico no sentido religioso da palavra. segundo querem os frenologistas. E por que não admitir logo a alma? Se eu disser que a consciência e a inteligência têm a sua sede no espírito. chamando a si. como está dito em Monólogos de uma Sombra. Isso não impede que o espírito seja o agente atuante de tão prodigiosa membrana. tantas vezes exaltada pelo poeta. assombrado com o não-ser. cuido não estar proferindo uma heresia. força será admitir um agente oculto capaz de operar o fenômeno. conheci um sujeito. dentro do mundo fenomenal. É a concepção monística. centro de toda a acuidade sensorial. sem mais compreender que prodígios são esses da monera. temos aí um transformismo metafísico. sente-se vencido diante do seu martírio e do martírio das criaturas. Vemos o poeta a adquirir a forma humana e a degradar-se em seguida num gozo efêmero de dolorosas conseqüências. uma espécie de fogo que devora e não consome. A partir dai. já havia dito. Quando a matéria transmigra acompanhada de um elemento hereditário que memoniza o instinto da espécie através das gerações. Sabemos que a consciência tem a sua morada no cérebro. dezenove séculos antes. que tinha os ouvidos totalmente tapados. diante das maravilhas do aparelho encefálico.conspurcada de gozo malsão. o que vale dizer. no princípio era a força. entendia o agregado abstrato da saudade. embora intelectualmente convencido da teoria racionalista. o sofrimento de toda a humanidade. Eis que assim se expressa em Os Doentes: A vida vem do éter que se condensa. Por fim. E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva! Bem examinada a questão. do ponto de vista metafísico. o remorso já acordado na caverna escura. que a ele não interessava considerar. Nada obstante. A rigor. Perguntei-lhe um dia por onde entrava o som. o vidente de Patmos: . Todo mundo sabe que é pelo ouvido que se ouve. O próprio Augusto. Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma 11 . natural de minha terra. com sótão e porão. entrega-se ao sacrifício.No princípio era o Verbo. numa espécie de solidariedade subjetiva. há que distinguir um pormenor. posto que falasse às vezes em alma divina e em Deus de amor e de bondade. manifestou o seu espanto.

vermes. O próprio amor. A influência má dos signos do zodíaco. Na idade em que os encantos do mundo douram a existência. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. Por toda parte. sem problemas materiais: Eu. inconformado com a idéia de ser um dia roído pelos vermes. Ao invés de fecundação do espírito. Augusto falava como um homem que já perdeu o ideal da vida. que é o Deus materialista de Haeckel. um mundo de fantasmas errantes que não adquiriram ainda a consciência de sua dor. Custa crer que este soneto . Exausto da luta. onde imperam sombras. dominado por um ceticismo acabrunhador. procura penetrar o mistério da substância universal. só serviu para adensar o clima de alucinação. Monstro de escuridão e rutilância. Sofro.Psicologia de um Vencido . admite o éter. Em sua alma atormentada as superexcitações provocam visões aterradoras. filho do carbono e do amoníaco. o éter cósmico. servindo de pasto a uma civilização corrompida. Já o verme . Este ambiente me causa repugnância. Essa saturação filosófica fez-lhe um grande mal. a matéria putrefata. faz perguntas ao destino: “Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?” E nesse duelo da matéria com o espírito perturba-se. uma natureza gasta.tenha sido escrito por um adolescente para quem o cotidiano devia correr. Os tormentos mortais da alma crescem com a descrença.este operário das ruínas. desde a epigênese da infância. cadáveres e bocas necrófagas. fonte inesgotável de vida. No auge da inquietação. firmava-se no presente a flagelar-se na ciência racionalista.. Mas como é preciso preencher um claro na consciência. Profundissimamente hipocondríaco.. solta blasfêmias. Querendo fugir a essas coisas. procura 12 . na melhor das suposições. Em tudo. impreca. Na frialdade inorgânica da terra! Assombrado com o futuro. mas “diante da sombra do mistério eterno” considera-se vencido. causa-lhe repugnância.Fazer a luz do cérebro que pensa. Nem por isso admite Deus. E há-de deixar-me apenas os cabelos. o lado malsão da vida. onde não há lugar para a alegria. Sobe-me à boca uma ânsia igual à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. Que o sangue podre das carnificinas Come e à vida em geral declara guerra. O mundo em que vive é um vasto hospital. rasgar do mundo o velário espêsso. que era o pior dos remédios para a sua alma inquieta. perscrutar a fenomenalidade da energia a erguer da prisão milenária outras espécies que hão de vir.

mas não me parece bastante para torná-lo um desgraçado. em suas visões oníricas. Depois disso. leve-se em conta a deformação de uma sensibilidade que vinha do berço e o predispunha ao desequilíbrio das sensações entre o eu e o mundo externo. O niilismo esvaziava-lhe a alma da mesma forma que o cientificismo materialista. de subverter-se no grande todo e fazer da parte abstrata do universo a sua morada equilibrada e firme. monstros terríveis. E é nesta manumissão schopenhauriana. acompanham-no. Mas o diabo não larga a sua presa. supõe-se integrado na imanência da idéia soberana.refúgio na inexistência espiritual. Com efeito. não há homem que sofra mais. tenta ir ao fundo da crença monística. no todo ou em parte. o Eu e Outras Poesias. gasta imensas energias e enche de culminâncias. como se já tivesse despido a carcaça da matéria. paralelamente. O subconsciente o aturde. já cansado de escutar a natureza. nem Haeckel compreenderam. Espera aí encontrar o seu nirvana. Há. diz ele. Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer. a perda da crença e. Até agora 13 . há muitos anos desapareceram! Nesta temática vai longe. pois que precisaria a tinta de todos os tormentos do homem. O resultado de bilhões de raças Que.. Mas há dentro dele qualquer coisa que o chama à realidade. Grita a sua dor por toda parte e. uma desgraça na vida do poeta. podia fazer dele um triste. Tudo isso. não é demais supor a existência de algum motivo oculto capaz de levá-lo ao desespero. na vã expectativa de que seu ego o deixe em sossego. evadido de si mesmo. A julgar pelos seus gemidos. Falava como um homem que parecia ter a consciência carregada de remorsos. com efeito. E para não capitular a esse apelo. a terrível moléstia que se atribui. sente o desejo. podia exercer influência no temperamento sensível do poeta. Algo de mais grave. deve ter acontecido na sua juventude. como se o infortúnio tivesse desabado sobre a sua cabeça. E de onde vem essa dor? É possível que tenha a explicá-la um concurso de causas. Onde quer que se refugie. que ele denomina um sonho ladrão. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das idéias! Mas de novo se encontra em face do nada. coberto de desgraças. Por um instante. Um inocente metido na prisão talvez se revoltasse menos que ele no ergástulo da carne. que os anos não carcomem. com o poder de sua imaginação. Nenhum pintor. numa atitude mental de fuga à realidade. seria capaz de executar o quadro de suas aflições.. que exulta triunfante: Gozo o prazer. como se supunha. Antes de mais nada. para não desmoronar a fortaleza de suas convicções filosóficas. E via em mim.

em . desespero virtual e não real. é que deve começar o trabalho de pesquisa para a verdadeira interpretação psicológica do autor. Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. Lembro-me bem. no capítulo do amor. não vejo maior necessidade de conhecer a biografia de Augusto dos Anjos para bem interpretar a sua obra. pois. no tocante a esse drama. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. Exatamente aí. Trata-se... não tenho dúvidas em afirmar que foi o drama do amor. de uma paixão. Por mais que Augusto negue o amor. Por mais que procure fugir ao assunto.. Gozei numa hora séculos de afagos. dada a ausência de biografia. depois de haver conhecido os inefáveis afagos do amor. Iríamos a um país de eternas pazes. cujo desfecho infeliz teria abalado convulsivamente sua personalidade carente de equilíbrio. Mas o seu eu está projetado na obra e nestas condições não preciso de outro elemento identificador para firmeza do valor interpretativo que neste trabalho tenho a intenção de destacar. Por enquanto. . A dificuldade está em conhecer o valor dos símbolos e em seguida decifrar as alegorias. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrio! Um penetrante e corrosivo frio 14 .esse seu sofrimento tem sido considerado puramente abstrato. Minha desgraça há de ficar sozinha! E que desgraça foi essa que o fez ficar assim tão sombrio? Convém que ele mesmo conte a sua história. Mesmo que quisesse recorrer a essa fonte para uma boa exegese literária. coberto de desgraças Mas veio o vento que a Desgraça espalha Para iludir minha desgraça estudo. Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E via em mim. sempre se revela. inútil seria qualquer esforço. Ele próprio. que é o drama mais doloroso de sua consciência. Banhei-me na água de risonhos lagos E finalmente me cobri de flores. não pode ocultar que foi vítima dele. Por suas próprias palavras.A Ilha de Cipango alude a uma felicidade perdida. Mas é ele próprio quem está a falar continuamente numa desgraça.

Anestesiou-me a sensibilidade. E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. A tarde morre. Passa o seu enterro. . A luz descreve ziguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos!

Até aqui, apenas um lampejo, mas o bastante para mostrar que foi por causa de um amor desventurado que se fez assim tão sombrio. Onde deixa vislumbrar um pouco mais de claridade é neste outro quadro - A Árvore da Serra:
As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice calma! — Meu pai, porque sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs alma nos cedros... no junquilho... Esta árvore, meu pai, possui minha alma!... Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa: “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!” E quando a árvore, olhando a pátria serra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra!

Numa e noutra composição, como se vê, o assunto é tratado em linguagem hermética. Aliás, o uso de metáfora é freqüente nele, mais ainda quando alude ao drama da consciência. Um corte transversal nas duas composições - A Ilha de Cipango e A Arvore da Serra - entremostra a desventura amorosa. A cena teria se passado no engenho Pau D’Arco, residência do poeta. O moço triste era ele, e a namorada, a árvore da serra, que possuía a sua alma. A bem amada já havia cedido o seu amor ao poeta, como adiante veremos. Por ser uma jovem de condição humilde, um junquilho entre cedros, o pai austero, orgulhoso de sua estirpe ou premido pela família, determinou ou concordou tirar para sempre da presença do filho aquela flor silvestre, que o tinha preso aos seus encantos, crendo que, com o desaparecimento do empecilho, pudesse ter uma velhice calma.

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Para melhor compreensão do drama, convém apanhar o pensamento do poeta na parte em que as duas composições esboçam de leve o quadro: - “Gozei numa hora séculos de afagos,/’ Banhei-me na água de risonhos lagos,/ E finalmente me cobri de flores ... / Mas veio o vento que a Desgraça espalha”/ “Esta árvore, meu pai, possui minha alma!” ‘ / “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”/ “Foi sobre esta ilha que extingui meu sonho!”/ Desde então para cá fiquei sombrio!/ Um penetrante e corrosivo frio/ Anestesiou-me a sensibilidade.”// “Invoco os Deuses salvadores do erro./ A tarde morre. Passa o seu enterro!”// “Pela estrada feral dois realejos/’ Estão chorando meus amores mortos!”./ “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/ Caiu aos golpes do machado bronco,/ O moço triste se abraçou com o tronco/ E nunca mais se levantou da terra!” Seus versos deixam transparecer que houve violência. Mais de uma vez fala o poeta em golpes: - “E a grandes golpes arrancou as raízes/’ Que prendiam meus dias infelizes/ A um sonho antigo de felicidade!” / / “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/i/ Caiu aos golpes do machado bronco”/... A moça, ao que parece, era natural do brejo ou do sertão lugares que ficam sobre a Serra da Borborema, cujos contornos, na faixa do horizonte, se avistam da várzea do Paraíba, pois de outra forma não há sentido para o verso que diz: “E quando a árvore, olhando a pátria serra”... Se aprofundarmos um pouco mais a indagação, vamos encontrar retalhos desse episódio em quase todas as composições do Eu. A coisa tem começo em Monólogos de uma Sombra, quando o poeta, em seu primeiro exame de consciência, já mordido pelo remorso, acusa o sátiro que ele foi.
As alucinações táteis pululam. Sente que megatérios o estrangulam; A asa negra das moscas o horroriza. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa!

A seguir, em As Cismas do Destino, descreve o segundo ato da tragédia:
Fetos magros, ainda na placenta, Estendiam-me as mãos rudimentares! Ah! Com certeza, Deus me castigava! Por toda a parte, como um réu confesso, Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo, me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Não sei porque me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança

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E um pedaço de víscera escarlate. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse, E até o fim, cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória.

O terceiro ato da cena, constante do mesmo poema, é de revolta contra os seus, os que, cansados de viver na paz de Buda ou inflamados de preconceitos de nobreza, se encheram de humano orgulho, e quais guerreiros priscos contra uma imbele criatura que ao amor se rendera, entraram em conserto para a consumação da tragédia. Assim fala o poeta:
Todos os personagens da tragédia, Cansados de viver na paz de Buda, Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psico-plasma Humano sofre na mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, A morte desgraçada dos açougues... Tudo isso que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra!

E ao terminar o poema, no qual pôs toda a sua amargura, o peito arfando de impotente indignação, solta esse brado de desespero:
Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psiquê no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo!

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Como quem afasta de si a visão terrível de um drama macabro, guarda-se o poeta, mui cautelosamente, de descobrir o motivo cruciante do seu trabalho poético, deixando, entretanto, a perceber, em cada símbolo, em cada imagem de sentimentos dissimulados, um fragmento da realidade que abrasava o seu mundo interior. Sofre realmente e sofre mais porque a dor que se dissimula não estanca, principalmente quando falta ao paciente resignação cristã ou conformidade filosófica. A obsessão do sangue vai até o fim. Alma agoniada por tormentos mil, anda gemendo pelas estradas solitárias, perseguida por visões alucinadoras. Numa de suas últimas composições, ainda atormentado pelo monocromatismo monstruoso da universal vermelhidão, assim recorda o passado sombrio:
No inferno da visão alucinada, Viu montanhas de sangue enchendo a estrada, Viu vísceras vermelhas pelo chão...

Ele guarda para todo o sempre o pesar do golpe sofrido. Ora irrompe em forma de protesto, ora de arrependimento pela culpa que lhe cabe. A consciência inquietada pelo remorso é aquele morcego do seu soneto, que à noite entra imperceptivelmente em seu quarto. Seu coração ficou um deserto. Nem mais amor a Deus, nem mais amor à humanidade, nem mais amor à mulher. Ao coração devastado a alegria nunca mais voltou. Vive somente para a sua dor. Poder, riquezas, glórias terrenas, são coisas que despreza. Em sua musa, o amor não terá mais lugar, nem mesmo como tema de glorificação poética. Causa-lhe até repugnância. Explica-se desse modo a deficiência cromática de seus versos. Só na cor do sangue às vezes se manifesta. Em toda a sua poesia, a paisagem do Pau D’Arco se converte em cenário triste e repugnante. Com referência a esse cenário, diz ele em Psicologia de um Vencido: “Este ambiente me causa repugnância...” Alguns críticos tomaram o impropério como dirigido à sociedade da Paraíba. Do Pau D’Arco, ressalva apenas o velho Tamarindo, a árvore da perpétua maravilha, a cuja sombra amou e chorou. Varado de dor — continua amando em espírito, um amor etéreo, que está fora da carne e não tem mais sentido com o coração. Eis que assim se manifesta: Porque o amor, tal como eu o estou amando, É espírito, é éter, é substância fluida, É assim como o ar que a gente pega e cuida, Cuida, entretanto, não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes, imponderabilíssima e impalpável, Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! O fato em si é de todo interesse para a interpretação da obra original de Augusto. Já os detalhes do fato são sobras que ficarão reservadas ao investigador biográfico, que infelizmente ainda não apareceu. Em Augusto dos Anjos o que mais interessa é a biografia do poeta. Erro será querer julgá-lo como prosador, fora da área da poesia, como tem sido estranhamente fariscado por alguns críticos. Na prosa, era, de fato, rebarbativo, como de refinado mau gosto também foi, na prosa, o genial cantor dos Lusíadas. Apenas como um desafio ao futuro biógrafo, seria curioso saber como se chamava a moça que Augusto metamorfoseou na árvore da serra. Essa curiosidade vem a propósito do nome de uma 18

Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim.. contrito. como é sabido... confessa mais uma vez a sua culpa.. Rola impetuosa por meu peito a dentro?! Porque é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ao mapa-mundi estranha..referindo-se certamente ao espectro de sua desventurada amada. O poeta.extravasava desta forma o seu lamento: 19 .. Porque não evitei o precipício Estrangulando a minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! De outras vezes. E invejo o sofrimento desta Santa. em mágoa. eu também vou passando Sonâmbulo. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido. como em . Como um bemol ou como um sustenido. Em cujo olhar o vício não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Porque cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. surpreende com a invocação de Santa Francisca. Depois de embebedado deste vinho. Sonâmbulo. Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta.santa.Insônia . mas no poema .Queixas Noturnas . Noite. ao mesmo tempo que. que não é das mais invocadas. nunca foi chegado a santos. Sonâmbulo.

entre estes monstros. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu. quando a morte o olhar lhe vidra. Toda a crença monística em que procura consolo não lhe explica à satisfação o fenômeno da vida.brada: 20 . De nada valia para um espírito inquietante como o seu uma filosofia que arma o seu sistema à margem da vida. luta por fugir dela. A projeção da imagem materna esvaneceu-se por certo como símbolo da mais freqüente e sublimada veneração. dormir primeiro. que não admite a vida espiritual. E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. Madrugada de treze de janeiro. A morte é o fim de tudo. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. Ao pai. sem resolver a verdade interior. o ofício da agonia.Quem foi que viu minha Dor chorando? Saio. cuidei que ele dormia E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o!” deixa-o. que parece se deixou levar por pressão da família. como referiu vagamente em As Cismas do Destino. em que a piedade do sentimento se sublima na tessitura da composição. Mas pareceu-me. num carro azul de glórias. entre as estrelas flóreas. Talvez visse nela uma criatura transtornada pela “mania mística”.. pouco fala. como perseguido pela sinistra ceifeira. ama-o até mesmo na atômica desordem. Nem uma névoa no estrelado véu. Da mãe. ando! Bati nas pedras de um tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza a minha única saúde! Curioso é que o egoísmo de uma dor sem fim não lhe fez perder o amor ao pai. não para ele. sonhando.. E porque a visão da morte não o deixa em sossego. Ao vê-lo morto. expressa a sua mágoa numa comovente unção. isso mesmo sem revelar um mínimo de afeto. Minha alma sai agoniada. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. A satisfação que buscava nos conhecimentos filosóficos só lhe faz aumentar a sede de infinito. Rezo. mas para os que crêem há ainda uma esperança. Em . entretanto. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. Como Elias. apenas três vezes.As Cismas do Destino . Mãe.

Vivia um mundo à parte. habitado por monstros humanos. em cujas entranhas um feto magro estendia-lhe as mãos rudimentares.. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. alguém há de responder pelos sucessos infelizes do seu destino. Por tua causa apodreci nas cruzes. é natural que se mostre rebelado contra a natureza. Meu raciocínio enorme te condena! E num horror quase pânico exclama.. Essa visão shakespeariana das espadas cruzando o espaço tanto pode ser a perseguição da morte como o trágico fim da sua amada. escravo do raciocínio frio.. pois estava certo que nem Deus compreendia os seus soluços. ilustre membro da Academia Paraibana de Letras. E ainda. Procura assim desoprimir o coração. Forma difusa da matéria imbele. ardendo em indagações subjectivas. Nestas condições. devia ter na época. desabafando-se nestes termos contra a natureza: Tu não és minha mãe. Nada o consolava nesse estado de espírito. Já que não crê em Deus. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas Atravessando os ares bruscamente. desesperado por não encontrar solução no raciocínio frio e racionalista. Acha Flósculo da Nóbrega. em Alucinação à Beira Mar: “Um medo de morrer meus pés esfriava”. em A Ilha de Cipango: Tenho alucinações de toda a sorte. 22 anos de idade. as palavras também servem para ocultar o pensamento. não cria em Deus. levava-o a recolher-se em si mesmo. embora ansiasse por encontrá-lo. que Augusto era um cerebral. O sentimento profundo de dor e de descrença afastava-o da realidade. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Presumivelmente. que só faziam aumentar a sua ânsia de infinito. E porque não se acalmava? Faltava-lhe fé.Morte. como em toda a obra. Ao invés de ajustá-lo à realidade. ponto final da última cena. Não me parece tenha razão 21 . tanto que nos conflitos entre a inteligência e o sentimento tomava o partido do intelectualismo. quando recebeu os 22 açoites da natureza. Aqui. Minha filosofia te repele.. O remédio que então buscava para as suas mágoas era o pior dos excitantes. Impressionado sem cessar com a morte E sentindo o que um lázaro não sente. cheio de imperfeições.

podia ter alguma razão para queixar-se da sociedade. excetuado da segunda parte do Eu e Outras Poesias o grande soneto O Lamento das Coisas. Um tuberculoso pode sucumbir a outro evento que lhe antecipe o fim. um cuidado muito discreto da família em negar a tuberculose. que só repugnância lhe causava. noite a dentro. Em agravo da tortura moral que não cessa de persegui-lo. condenado a expectorar os pulmões dilacerados. além de pouco. Punha-se então a passear. Ao contemplar esse ambiente. Na luta em que Augusto se debate. No fundo. destoa em força emocional do que produzira em sua terra natal. As suas relações com a sociedade parecem rompidas. contudo. entrava em crise espiritual. e a mim pergunto. na vertigem: Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. Em reforço desse argumento temos uma prova no próprio Eu. Os seus melhores versos. Há. um homem excluído do mundo. Nem ele próprio se conhecia. passos largos. ao contrário. mas porque se sente um desajustado. Já é tempo de desfazer um equivoco que de tão repetido vai criando raízes. que o acolhia com carinho. mas no particular. De um modo geral. via na sociedade a representação da humanidade sofredora. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. O mundo que o fazia sofrer não era de certo o da sociedade paraibana. A inspiração despertava com a dor.o ilustre intelectual paraibano. nunca recebeu hostilidades. andar bamboleante. sua musa empalideceu à falta de ambiente. torturado no sentimento do desamparo. no caso. um espiritualista em eterna briga com o racionalismo. o cérebro em fogo. o que ele via realmente era o ambiente do engenho Pau D’Arco. Tomado de tensão nervosa pela repugnância que lhe causava o ambiente. em Poema Negro: A passagem dos séculos me assombra. não se deixaria possuir pelo demônio da dúvida. não viveria atormentado com os mitos que o afastavam da realidade. conforme declarou nesta honesta confissão. Desta. foram produzidos no Pau D’Arco. como um sonâmbulo. Não que tenha recebido ofensas dela. Era. Não importa que tenha morrido de pneumonia. volta-se vez por outra contra a sociedade. ao redor da capela do engenho. Surgem daí as freqüentes inflexões mentais e os distúrbios emocionais de fundo neurótico. de vez que ninguém o compreendia. tinha-se na conta de um doente. teria Augusto encontrado satisfação na filosofia. toda a mágoa do seu espírito vem à tona. em 1912. que não se sabe se foi escrito na Paraíba ou no sul. Depois que o poeta deixou a Paraíba. os de maior densidade emocional. conforme ouvi de Alcides Carneiro que ouvira dos seus íntimos. Fosse como ele diz. Era ali que ele sentia bulir na alma o drama de sua existência. Mas ninguém tinha culpa de ser ele um incompreendido. O que produziu no sul do País. que o 22 . Suas percepções sensoriais estão sempre em conflito com as atividades especulativas do espírito.

passa a chorar a sua dor e a alheia. que os enfermos se reuniam pela camaradagem da moléstia. Já cansado do ceticismo. despedaçando as imagens dos próprios sonhos. Esse retorno do pensamento aos dias tranqüilos do passado. sob os seus pés. deixa escapar este triste lamento: O inventário do que eu já tinha sido Espantava. jamais preenchido pelo cientificismo materialista. Parece que desperta para a vida. Essa real ou imaginária doença. Em As Cismas do Destino. Mas ninguém pode furtar-se às impressões da infância. que admirar chore um dia a crença perdida. a imagem dos sonhos remotos que ele quebrara com o furor de um iconoclasta. o soneto Vandalismo. perdeu também a crença. imaginária cidade à margem do Paraíba. como um arrependido. assim principia o soneto Apóstrofe à Carne: “Quando eu pego nas carnes do meu rosto/’ Pressinto o fim da orgânica batalha”. eis que escuta. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minha alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. “na urbe natal do Desconsolo”. De início. confessa-se minado pela tuberculose. Foi a partir dai que entrou a sentir o vazio de sua alma. à guisa de ácido resíduo. os acordes saudosos do coração. tudo isso ele pincelou num quadro que é uma jóia de rara beleza. a arremetida que deu depois contra esses tesouros do coração. Na ascensão barométrica da calma. que pode figurar sem favor entre os melhores da língua.próprio poeta confessava. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! Mais tarde. como ele chamava. pois. 23 . havia “um fígado doente que sangrava e uma garganta de órfã que gemia”. Perdido o amor. A tragédia espiritual de Augusto começou desde que extinguiu seu sonho de amor sobre a Ilha de Cipango. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. entra a descrever a cidade dos lázaros. atormenta-se com a idéia de que. fez dele um misantropo. Lá para o fim do poema. hosanas ao Senhor. Era ali. Eu bem sabia. como se já tivesse perdido o alento de viver. Depois disso. ansiado e contrafeito. em serenata. depois de exclamar que sua angústia feroz não tinha nome. levado pela lembrança terna de um mundo cheio de encantos e maravilhas. aliada à descrença. num desalento ainda maior. Mais adiante. Não há. na qual os doentes consagravam a sua última fonética a uma recitação de misereres. na terra onde pisava. numa emoção que comove. em Os Doentes. onde os anjos cantavam.

Nesse decurso. Onde um nume de amor. de admirar que ao lado de conceitos da mais justa penetração girem outros que espantam pela desconformidade. na Academia Paraibana de Letras. gostar e não gostar é coisa que se não discute. Enfim. Ao contrário da incontinente afirmativa. Não era espremendo o cérebro como muitos que se apagam antes de morrer. a musa é que tomava o poeta de assalto nos momentos de suas lucubrações. reconhecendo nele apenas o mérito de artista do verso. chegou a dizer que Augusto não era poeta. apenas como autor de um livro apologético. Negou-lhe peremptoriamente as qualidades de poeta. Álvaro de Carvalho. que se afundava a alma do poeta. a outros poderá parecer insípido ou fastidioso. era apenas o meio de formular soluções. disse que Augusto agarrava a musa e saía com ela a passear pelos recônditos da diluição biológica. destaco Órris Soares. Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! Caminha para cinqüenta anos que Augusto dos Anjos morreu. Dos outros. cada leitor tem o direito de sentir o autor a seu modo. João Lélis e De Castro e Silva. Flóscolo da Nóbrega. este último. Como os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. tenham bordejado na superfície do abismo em. em gemidos de dor. A arte. Santos Neto. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas. Para só mencionar os intelectuais paraibanos que se pronunciaram sobre Augusto dos Anjos. pois.. já na 27ª edição. Sabe-se como compunha. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. José Américo de Almeida. em serenatas. Sua obra. quase todos. Não é. João Lélis.. ao aludir com desdenhoso apreço aos motivos abjetos que abundam no Eu e Outras Poesias. Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. tanto sobre a obra como sobre a personalidade do autor. continua despertando o mesmo interesse dos primeiros tempos. Assim é que. posto que. No desespero dos iconoclastas. num discurso de recepção a Flóscolo da Nóbrega. Canta a aleluia virginal das crenças.Meu coração tem catedrais imensas. que não é biografia e não chega a ser estudo. quando a aflição interior explodia em chamas 24 . ler. Raul Machado. Templos de priscas e longínquas datas. há sempre o que referir. No final de contas. por exemplo. mas dar opinião atabalhoada a respeito daquilo que não chegou a ser entendido muda de figura. muitas opiniões foram veiculadas. para ele. O que a uns desperta atenção e convida mesmo a uma meditação mais séria.

de um a outro canto da sala. Anoja-se o crítico diante de cadáveres. que só deu pela presença do amigo depois de concluído o trabalho mental. impressionam pelo poder da dialética. escarros. Os versos espoucavam no momento da inspiração. Essa incompreensão a respeito de Augusto. já por sua tendência malsã de ver as coisas pelo lado abjeto. à margem das correntes estéticas do pensamento literário. na época. Não importa que Augusto tenha ficado sem seguidores. tem a prejudicá-la a idiossincrasia literária que afasta cada vez mais o retratista do retratado. olhar perdido no espaço. reside justamente no termo técnico. também 25 . disse que uma das suas forças. Em ter ficado sozinho. associado à vibração sonora. num timbre especial de voz. como lamenta o crítico. que pretende ser de interpretação psicológica. essa linguagem. Repugna-lhe o fartum que diz emanar do Eu e Outras Poesias. Órris Soares. Neles. mas quem os lê e os medita tem a impressão de que foram cavoucados na rocha. Seus versos. nem o gosto se levava em conta quando prevalecia a prevenção pessoal ou quando se pretendia alcançar fama com a marreta da demolição. figuras espectrais e outras visões sinistras. o que acabava de compor. sangue de vísceras dilaceradas. segundo a classificação que adota de Agripino Grieco. túmulos.devoradoras. entrava disciplinada em seus versos. lábios crispados. como em compasso de música. Poe e Rimbaud. em excelente estudo sobre o artesanato na poesia de Augusto dos Anjos. A virtuosidade ganha valor na opulência da expressão verbal. essa repulsa idiossincrásica que compromete o crítico antes de atingir o alvo. lá fora. em 1945. a sua personalidade psicológica. afirma e reafirma que o Eu ficou como planta exótica. insulado em sua própria grandeza. Augusto foi um torturado da idéia a serviço de um estro estrepitoso. Euclides da Cunha. um em 1920. que não tenha fecundado a poesia nacional. com efeito. o ilustre escritor paraibano opõe embargos ao poeta. Cavalcanti Proença. certa preocupação inclusive dos simbolistas. Essa crítica. sobretudo da crítica provinciana. o que era. à primeira vista incompatível com a poesia. já pelo cientificismo que tem por incompatível com a linguagem poética. No entanto. este na prosa. enquanto forjava mentalmente a composição. o sentimento parece ter outra dimensão. duendes. Jamais foi o leit-motiv de sua produção intelectual. a densidade. seu colega de turma e companheiro de estudos desde a fase preparatória. Foi então que recitou de inopino. entre nós. Os que o conheceram de perto descrevem-no de andar banzeiro. Só depois de elaborada é que ia para o papel. Em ambos. Muitas vezes. por ver em tais composições a podridão enroupada em jargão científico ou jargão clínico. Álvaro de Carvalho escreveu dois estudos sobre Augusto dos Anjos. claro que avulta ainda mais o seu mérito. Escrevia numa linguagem difícil porque era esse o seu estilo. Por tudo isso. vermes. cujos adeptos se apraziam em demolir toda vez que a obra visada não estava na conformidade do seu gosto. Bilac pode ter sido um lapidário da forma. a passear a esmo. surpreendeu-o num desses partos sem dor e tão absorto divagava o poeta. o outro 25 anos depois. tem as suas raízes no caráter polêmico da crítica passadista.

num dos seus últimos sonetos. como se definiu neste quarteto de Minha Finalidade: Pré-determinação imprescritível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. ninguém lhes nega a grandeza de gigantes. O autor é o que é e não o que o crítico quer que ele: seja. Sua obra está aí mesmo a desafiar a argúcia dos mais entendidos. Mas é preciso notar que essa musa.ficaram sem seguidores. é mais uma aversão de olfato alérgico. neste ensaio de exegese literária. reconheça-se que essa poesia é humana. como se vê. Há. o que forma em seu conjunto a harmonia orgânica de toda a obra poética do consagrado artista paraibano. numa revolta do espírito que vai aos extremos da blasfêmia. pela bizarria do estro e pelo gosto malsão de impregnar a poesia com o almíscar das coisas abjetas. Com Mallarmé. Admita-se que a musa de Augusto tenha algo de doentio. juízos despropositados de quem roça pelo assunto sem penetrar o recôndito da dor possessiva que tanto sublimava o poeta. Se há fartum de diluição biológica na poesia de Augusto. não lhe tira o vigor da expressão verbal. Com Baudelaire. aparelhou. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto. Ou então. Com Verlaine. Eis porque. pela tristeza indefinível da alma. Augusto tem sido comparado aos mais altos padrões da corrente estética do pensamento. por isso mesmo poética. deu resposta por antecipação aos reparos dos seus futuros críticos. Foi exatamente com esse título — Poeta do Hediondo — que ele. nem tudo pode ter cabimento. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Tenho por desnecessário dizer que uma interpretação psicológica de Augusto. Por suas excentricidades e afinidades outras de ordem espiritual. Nem por isso. tenho por objetivo abrir aos estudiosos uma clareira que os conduza ao fundo da obra. Absurdo é querer sujeitar a literatura aos padrões em voga. Note-se mais que a esse vigor casa-se uma virtude de efeitos encantatórios. manifestada em poemas impressionistas de aguda sensação. que apenas transparece em linguagem evasiva. Não pode o critico ser ortodoxo. elogios ou restrições. O anojamento de Álvaro de Carvalho. a fim de atingir. na impotência de estabelecer relação entre o mundo visível e o invisível. Até mesmo quando desce ao abominável das podridões tumulares cintila em fulgurações de gênio. de sentido mais profundo. 26 . pelas crises espirituais porque ambos passaram. está em tempo de ser feita. na interpretação de um drama emocional. Da vasta literatura que já se produziu sobre Augusto dos Anjos. mesmo doentia. no duelo da carne. O próprio Augusto tinha a consciência de que ia ficar sozinho e que era o poeta do hediondo. com efeito.

Até nas aliterações e metáforas. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. as mesmas despreocupações do rebuscado pour épater le bourgeois. Segundo Delahaye. como neste exemplo: 27 .. como se fosse uma convicção firmada e firmada com ênfase. desejada por um. “Na Eternidade. ambos procuram traduzir a sensação das coisas inanimadas. Em outros lances de sua obra manifesta o mesmo desdém. as mesmas figuras de linguagem. Encontra-se. vem o barulho das matracas. Nos transportes espirituais os dois correm parelha. só nesse ponto dissimula o pensamento. em grupos prosternados. palavras raras e eruditas. foi José Américo de Almeida. Veja-se como se pronuncia a respeito do assunto: Falas de amor. numa sexta-feira santa. ao pé de um muro carcomido pelo tempo. Augusto lembra Rimbaud. a filosofia da dor. citado por Augusto Meyer. Súbito. pela tortura do espírito e pela constância do tema da morte. que dialoga com os elementos imponderáveis. De lá de fora. quando a cristandade parecia pura sobre a terra.através da sensação. usando símbolos e valores que convergem para o fim colimado. num artigo publicado em 1914. Dentro da Igreja de São Pedro o silêncio só é quebrado pelo vento que entoa cânticos de morte. Curioso é que fez a citação ‘unicamente para dizer que nenhuma parecença encontrara entre com emprego de termos técnicos. que cultivava em sua sensibilidade enfermiça. temida pelo outro. assentado sobre cacos de pote e urtigas. É. Augusto tem as suas razões para desdenhar o amor. crematismos. Não fica apenas aí o confronto. na terra santa. um mês após a morte de Augusto. a idéia pura das coisas. O triste espetáculo do seu século leva Rimbaud a um passado remoto. em termos de comparação. posto que as coisas que tinha a dizer exigiam. de uma honestidade quase bravia. e eu ouço tudo e calo! O amor na Humanidade é uma mentira. visionário. isso mesmo de passagem. no ar de minha terra. como quem deriva o pensamento para o lado oposto da imagem triste que o assedia. pelo sentido da dor universal. Com Antero do Quental. Também no amor os dois se assemelham.. em tropos ousados. os mesmos descuidos de metro e rima. O único que mencionou Rimbaud. em quem se acumulam. sensações simples e cenestesias. para a neologia e o vocábulo raro. nunca nenhum dos seus críticos traçou o paralelo. desde a sua fase inicial. na postura de um campônio rústico. Só com Rimbaud. havia acentuada tendência do poeta. A mesma coisa ocorre com Augusto. Vez por outra. de mistura com alucinações. Honesto em tudo. Ouvindo isso. um grande medo toma conta do poeta. guardando o corpo do Divino Mestre. encontra-se em Roma. os ventos gemedores estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na Serra da Borborema. e é com veneração religiosa que vê os soldados do Vaticano. por sua natureza.” Então desperta como de um pesadelo e com os olhos ainda ensanguentados da vigília sente a tristeza de ver mais uma vez como a sua vida é tão vazia. Com Leopardi.

Há. No tempo de jovem. Rimbaud.. Descasco-a. Nem há mulher talvez capaz de amar-me. como Tântalo. A violência do veneno que ingeriu muito cedo nas fontes materialistas fá-lo morrer de sede. provo-a. andou conspurcado de sensações súcubas. Teria acontecido com ele alguma coisa? Ao que se sabe. em suma. é inútil. a julgar pelos seus lamentos. que é talvez o drama mais crucial de suas consciências. Não sou capaz de amar mulher alguma. Rimbaud encontrou-se a si mesmo depois que descobriu o caminho da virtude — le sentier de l’honner — que tanto procurava. um suave concerto espiritual na natureza. E como não 28 .. Começou então a ver e a sentir milhões de criaturas encantadoras. Era a vida que lhe chegava e que fugia de Augusto. ilusão treda! O amor. mas que o levaram ao resultado conhecido. tendo culminado com aquele célebre tiro que recebeu de Verlaine. depois de errar longos anos pela África e pelo Oriente Médio. enquanto Augusto não chegou a cumprir a sua. largou-se para a África. embora tenham se casado e tido filhos. é como a cana azeda. em busca do paraíso terrestre. chupo-a. Ao invés de aceitá-la como resultante de seu egocentrismo. contudo. filha legítima de sua alma.Sobre histórias de amor o interrogar-me É vão. Depois desse fato. As repetidas negativas ocultam de certo uma dolorosa frustração. que era o seu anseio máximo. acabou por admitir a presença de uma realidade espiritual. Em cada um deles. Não percebe sequer que toda a sua angústia é nascida de suas entranhas. É que Rimbaud era portador de uma mensagem que acabou por cumprir. sente-se que há um complexo de culpa. é improfícuo.. e por isso mesmo não achava conformidade para a sua dor. homens de bem cheios de nobres intenções. à beira da água. . Ninguém sofre mais do que ele. por causas várias. Augusto e Rimbaud negam sistematicamente o amor. na Bélgica. Motivos escabrosos. Ou então como nesta outra amostra: Parece muito doce aquela cana. Também Rimbaud modulou o seu canto no mesmo tom: “Je n’aime pas les femmes: l’amour est à réinventer. Augusto sentia-se puro. é verdade.”. segundo é fama. o bem e o mal caminhando juntos. converteu-se à realidade e mandou ao diabo o ar do inferno que o sufocava. Quando viu que tudo quanto imaginava como solução para restabelecer o paraíso não passava de divagação delirante. teve motivos de sobra para tratar o amor com aquele desdenhoso apreço. uma diferença de fundo entre os dois poetas. poeta. exacerbava-a. A toda boca que o não prova engana. vítima de injustiças humanas. onde se casou com uma nativa da Abissínia.

Ou será preenchido ou compromete a dinâmica das forças morais. Rimbaud salvou-se porque se encontrou a si mesmo. como muito bem já disse Augusto Meyer a propósito de Machado de Assis. e se o fez alguma vez foi guiado pela dialética do monismo. Possuído do demônio da dúvida. Tais similitudes valeriam. como Camões na de Petrarca e de Vergílio. É sabido que nenhum escritor adquire a força do seu gênio senão depois de renovarse interiormente. quando muito. cor. A vida. onde não faltavam o ranger de dentes. do qual se considerava prisioneiro. martelada em versos magníficos e candentes. isto é. mas depois que abandonou a luta espiritual afundou no suicídio. Uma análise mais demorada encontraria maiores pontos de contacto entre Augusto e Rimbaud. Mallarmé também passou pelas mesmas crises. Todo vácuo que se abre na vida interior é prejudicial ao comportamento do indivíduo. Mesmo assim. numa reação inócua. deixava-se ficar no interior da concha. Por curioso paradoxo. que se agravou o drama latente de sua alma inquieta. Jamais desceu ao fundo de si mesmo. Torturava-se por ver somente o lado negativo das coisas. chegaríamos por certo ao pai Homero que. Machado de Assis só entrou na posse de si mesmo depois que se converteu à descrença. quanto mais afunda no racionalismo mais vacila na dúvida. Neste passo. tudo quanto desperta a alma. perfume. Uma mesma idéia artística pode ser tratada com sabor de originalidade por mais de um autor. sua vida se transforma num verdadeiro inferno. dessa conversão ao materialismo. contra a sua grei. sem procurar levantar o véu das aspirações profundas de sua alma. nada disso seria capaz de provocar-lhe uma sensação nova de vida. Esse divórcio do eu com o indivíduo acabou por abranger a própria sociedade. a criação. depois que perdeu a ilusão dos homens. como fontes de inspiração. Não raras vezes. tudo quanto eleva os sentidos. Augusto vai irredento até o fim. beleza. revolta-se contra o mundo. isto é. se fossemos no rasto dos poetas mais notáveis em busca de fontes de inspiração ou influências literárias. contra a sociedade. quando a monera já manifestava os primeiros sintomas de diluição. Augusto revela-se mais lido em Põe e em Shakespeare. da mesma forma como sucumbira Antero do Quental. Dominado pela idéia de um mundo sem objetivo. luz. conforme confissão feita a Mário de Alencar. perdia-se no estado de dúvida. silvos de labaredas e suspiros de empestados. porém.Une Saison en Enfer . autores que exerceram forte influência em sua formação intelectual.espécie de autobiografia moral. segundo o conhecido conceito bergsoniano do intuitivismo. Ele mesmo se esvaziava no mundo vazio que se criou. entre a voz do sentimento e a da razão.pode reformar o mundo. sem preencher esse vácuo. mas nem isso acredito tenha havido. som. Nas coincidências de temas ou mesmo de paralelismo de imagens não se veja. os mistérios da natureza. o que recebe influências supera o modelo de inspiração. Rimbaud também criou para si uma estação no inferno .. o amor. imitação. Um problema sempre gera outro. Há muitas espécies de conversões em literatura. Também Rimbaud bebeu na mesma taça de Põe. teria apenas disciplinado em poemas imortais os cânticos populares da época. A conversão de Augusto foi às avessas e porque não se desconverteu estabeleceu-se o conflito do eu com o indivíduo. 29 . segundo apregoam os fundibulários da crítica. Foi a partir daí.

outros andam com a Bíblia debaixo do braço e o coração carregado de impiedade. proclamou que Deus não existe. nas apóstrofes do poeta contra o cristianismo.Enredado em idéias preconcebidas. outros negando. a propósito. se manifesta ainda escravo do batismo. um episódio que me foi contado por um amigo do Ceará. supria-se do mais no magistério particular. em torrentes de eloqüência. a essência dos Evangelhos. 30 . todavia. Mas no mundo fechado em que se enclausurava não era possível ver lá fora as almas piedosas e aflitas que tão necessitadas como ele pediam socorro. tal como Rimbaud. na realidade. Ora. sentia-se Augusto na impossibilidade de admitir a realidade da vida. olhar menos para as suas dores e um pouco mais para as alheias. uns batem nos peitos diante do altar e querem logo a recompensa do sacrifício feito. Isso mostra que ele. mas os que o seguem desconhecem. nas Alterosas. viram nisso o pecado da blasfêmia. alcançando a grande esforço um lugar de diretor de Grupo Escolar. lecionando a quatro gatos pingados todas as matérias do curso de humanidades. levantou-se a questão de saber se Deus existe ou não existe. é questão que não deve ser formulada. Só é possível possuir a fé quando se está convencido da verdade. sem advertir-se de que jamais dera um passo ao encontro do Mestre. descuramos o nosso destino espiritual pelo gozo do momento que passa. Os oradores. Não fosse a trama filosófica do individualismo racionalista. que se veja na blasfêmia. a reação que lhe ocorre é a de menosprezo ao cristianismo. É o que há. é. Num dos muitos grêmios literários que proliferam na terra de Iracema. Na prática. Alguns críticos. Para uma alma sequiosa de infinito como a sua não há que estranhar uma ou outra expressão de revolta. Convém. a meu ver. Se emigrou para o sul do país foi porque a Paraíba do seu tempo nada tinha de melhor para dar-lhe senão uma cátedra no Liceu Paraibano. como ninguém ainda se entendesse. uns afirmando. via de regra. quando não proferida por modo vulgar e chulo. Se o Cristo não vem em seu auxílio. no desespero de tantos sofrimentos. em meio a tantas emoções extravasadas. E como não lhe bastasse pela exigüidade dos proventos. há que distinguir entre blasfêmia contra o cristianismo e blasfêmia contra o Cristo. Embora não caiba nos limites deste trabalho uma digressão sobre a contradição reinante no mundo da crença. Todos nós. No meio em que viveu era querido e admirado. No sul do país continuou a mesma luta heróica pela subsistência. certos de que no futuro sobrará tempo para essas coisas. Se há Deus. decretar a inexistência de Deus por decisão tomada nas urnas ou no bozó. afetando melindres de devotos. um pedido de socorro. porquanto Deus é princípio e é fim. se sucediam na tribuna. Toda a obra poética de Augusto é um grito de dor arrancado do fundo da alma. A conquista da fé importa na conquista do próprio eu. com raríssimas exceções. é objeto de amor e de crença e não de investigação científica. resolveu o presidente submeter a questão a votos. O cristianismo se apresenta como a doutrina de Cristo. se não há Deus. aceitar as imperfeições do mundo. Ao cabo do bombardeio oratório. Apurada a eleição e com base no resultado. Vale mencionar. teria certamente encontrado a realidade espiritual que nasce da fé e se alimenta na caridade. heresia maior que a do poeta quando.

Só muito raramente soltava uma blasfêmia.Debaixo do Tamarindo. Como uma vela fúnebre de cera. nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência. A minha sombra há de ficar aqui! Por sombra. Voltando à pátria da homogeneidade. desde Tales de Mileto. De inflexões mentais sua obra anda cheia. coisa que não cabe na boca de um ateu. por mãos de seu filho Pirro. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. O passado da flora brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida. não se pode dizer fosse ele um materialista ético.atormentado por visões escatológicas. sob estes galhos. vem de muito longe. dá à alma a denominação de sombra. como se vê. Por mais de uma vez chegou a falar em alma divina. Abraçada com a própria Eternidade. 31 . depois de carpir amargamente diante de um mundo que se mostrava indiferente às suas mágoas: Escarrar de um abismo noutro abismo. o sacrifício da linda moça Polixena. A denominação. entendiam a alma. através dos séculos. esse sombrio personagem do drama panteístico das trevas. De outras vezes. Camões fala na sombra de Aquiles quando exigia. Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do cristianismo! Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio. e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. encarnado nele e manifestado nesta passagem: Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade? Já em Monólogos de uma Sombra. Por outro lado. começa o poema “Sou uma Sombra. virtudes que cultivava com extremado zelo. No tempo de meu Pai. E como era sincero e honesto. como uma caixa derradeira.” E onde mais expressivo se mostra é neste admirável soneto . os filósofos iônios. Mandando ao céu o fumo de um cigarro. esta árvore de amplos agasalhos Guarda. explodiu em As Cismas do Destino.

aos 30 anos de idade. sua intimidade numenal. isto é. conjunto das faculdades intelectuais e morais do homem. mas dentro da alma aflita Via Deus . desde o declínio das crenças mitológicas. até que morre numa cidade das Alterosas. o metafísico cede lugar ao inveterado monista. da substância de todas as substâncias. como está dito em Sonhos de um Monista: A verdade espantosa do protilo Me aterrava. 32 . Mais poderia dizer agora. Assim vai. vacilante na ciência fria. É a substância primeva. em Leopoldina. até mesmo num grão de areia. assaltado de alucinações. mito cosmogônico que liga entre si o espírito e a matéria. Que outros. tal como se apresenta.essa mônada esquisita Coordenando e animando tudo aquilo! Em Ultima Visio revela-se um metafísico teológico. Daí por diante. era uma mônada. na Federação das Academias de Letras do Brasil. foi objeto de uma palestra proferida em maio de 1960. Quem o ler nesse soneto dirá que já está reconciliado com Deus. mais dotados de inteligência e espírito de penetração. Até Deus. Quando essa cegueira for resgatada e arrancar o homem da inciência. completem os estudos aqui esboçados ou deles discordem por modo a dar uma interpretação mais aceitável às mensagens de angústia. como entidade eterna. então a presença do Eterno afastará a escuridão do caminho e aproximará a criatura do Criador. mas com o que ai está me contento. a 12 de novembro de 1914. Choram ainda dentro dele. acrescenta.Mas o que Augusto chama a sua sombra não é ainda a alma. tal como a entendiam os filósofos iônios. à semelhança da mônada de Leibnitz ou da monera de Haeckel. para ele. de onde decorrem todas as moléculas que se esvaem na transubstanciação da natureza. Assim fala e assim termina a composição: A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ainda tem de abrir para o infinito! Vã ilusão será pensar que já está reconciliado com Deus. que eram uma constante na alma torturada do poeta paraibano. em soluços quase humanos. as formas microscópicas do mundo. larva do caos telúrico. em briga com o dualismo. !" Este trabalho. virtualidade espiritual. que não quer ver a glória de Deus resplandescendo em tudo. ansiado por compreender o princípio anêmico dos seres. perdendo-se novamente no enleio cósmico. que procede do éter cósmico. Fala como um crente da cegueira da criatura humana. nas composições que vão até o fim do livro.

Córdula C. vítima de surmenage morreu de paralisia geral e minha mãe é excessivamente nervosa Antecedentes pessoais: O que me pode adiantar sua infância: Desde a mais tenra idade eu me entreguei exclusivamente aos estudos. Tenho insônia raras vezes. presumo. cefaléia e amnésia: Até esta data não sofro absolutamente de amnésia.UM CURRÍCULO ESCRITO PELO PRÓPRIO POETA Resposta ao inquérito de Licínio dos Santos em A Loucura dos Intelectuais. o que não impede. Faz as suas irregularidade: Sim refeições com Tem muito apetite: Regular Faz uso do álcool: Não Faz uso excessivo do café. Engenho Pau d'Arco. comecei a produzir muito antes dos 9 anos. da chamada vida física. São muito poucas vezes que me sento à mesa para produzir. entretanto. O que sente de anormal quando está produzindo: Uma série indescritível de fenômenos nervosos. Conservo de memória tudo quanto produzo. Quantas horas repousa: Meu repouso varia de 7 a 8 horas. R. mas a cefalalgia persegue-me constantemente. Eu. 33 . Rio de Janeiro. Tem continuados sonhos fantásticos: Quanto a sonhos fantásticos é também muito raramente que os tenho. quase sempre andando no meio de toda azáfama ambiente ou à noite deitado. acompanhados muitas vezes de uma vontade de chorar. Quais os trabalhos que deu à luz até a presente data: um livro de versos. 1914 Nome: Augusto dos Anjos Idade: 28 anos Profissão: Professor e advogado Estado civil: Casado Filiação: Filho legítimo do bacharel Alexandre R. Em que idade começou a produzir: Se me não falha o poder de reminiscência. chá ou outro excitante intelectual: Sou contra os excessos. dos Anjos e D. Quais as cores de sua predileção: A vermelha e a azul. Sofre de insônia. Quais as horas que dedica ao seu trabalho intelectual: Não tenho horas metodicamente preferidas para o meu trabalho mental. Como faz o seu trabalho intelectual: Durante o dia. dos Anjos Antecedentes hereditários: Meu pai. Quais os autores que mais o impressionaram: Shakespeare e Edgar Poe Qual o seu autor favorito: Todos os bons autores me agradam. de abusar um pouco do café. numa atmosfera de rigorosíssima moralidade. relegando por completo tudo quanto concerne ao desenvolvimento. Onde e como foi educado: Na Paraíba do Norte.

Ergo-me a tremer. Na frialdade inorgânica da terra! 34 .” -. E vejo-o ainda. Já o verme -. Sofro. Minh’alma se concentra.. igual a um olho. Que ventre produziu tão feio parto?! A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça.. Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. Circularmente sobre a minha rede! Pego de um pau. à noite ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto! PSICOLOGIA DE UM VENCIDO Eu.TODOS OS SONETOS O MORCEGO Meia-noite. Monstro de escuridão e rutilância. agora. Esforços faço. filho do carbono e do amoníaco.este operário das ruínas -Que o sangue podre das carnificinas Come. Produndissimamente hipocondríaco. Morde-me a goela ígneo e escaldante molho. Chego A tocá-lo. “Vou mandar levantar outra parede.. desde a epigênese da infância.. E há de deixar-me apenas os cabelos. e à vida em geral declara guerra. A influência má dos signos do zodíaco. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. vede: Na bruta ardência orgânica dasede. Este ambiente me causa repugnância. Fecho o ferrolho E olho o teto. Ao meu quarto me recolho. Meu Deus! E este morcego! E.Digo.

mínima. Mostra aos montes e aos rígidos rochedos A hedionda elefantíase dos dedos Há um cansaço no Cosmos.. de repente. raquítica. em desintegrações maravilhosas. e depois. Anoitece.. esbarra No molambo da língua paralítica! O LÁZARO DA PÁTRIA Filho podre de antigos Goitacases. À noite. Marcas oriundas de úlceras e antrazes. Todos os cinocéfalos vorazes Cheiram seu corpo. Riem as meretrizes no Cassino. Deixa circunferências de peçonha. quer e executa! Vem do encéfalo absconso que a constringe. Quebra a força centrípeta que a amarra. Delibera. Chega em seguida às cordas da laringe.. Mas. quando sonha.. Que. Sente no tórax a pressão medonha Do bruto embate férreo das tenazes. E o Lázaro caminha em seu destino Para um fim que ele mesmo desconhece! 35 . tênue. Em qualquer parte onde a cabeça ponha.A IDÉIA De onde ela vem?! De que matéria bruta Vem essa luz que sobre as nebulosas Cai de incógnitas criptas misteriosas Como as estalactites duma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta Do feixe de moléculas nervosas. Tísica. e quase morta.

em vez de achar a luz que os Céus inflama... Meus olhos liam! No húmus dos monturos. a feder?! Ah! Possas tu dormir. feto esquecido. com a sinergia de um gigante. Em que lugar irás passar a infância. em letras garrafais. Agregado infeliz de sangue e cal. Que poder embriológico fatal Destruiu. Realizavam-se os partos mais obscuros. Em tua morfogênese de infante A minha morfogênese ancestral?! Porção de minha plásmica substância. Panteisticamente dissolvido Na noumenalidade do NÃO SER! 36 . Dentre as genealogias animais! Como quem esmigalha protozoários Meti todos os dedos mercenários Na consciência daquela multidão. E. Tragicamente anônimo.IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA Rugia nos meus centros cerebrais A multidão dos séculos futuros . Fruto rubro de carne agonizante. Filho da grande força fecundante De minha brônzea trama neuronial. Somente achei moléculas de lama E a mosca alegre da putrefação! SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos 2 fevereiro 1911.Homens que a herança de ímpetos impuros Tornara etnicamente irracionais! Não sei que livro.

. para provar A incógnita alma. Suficientíssima é.Alma do inferior rapsodo errante! Resigna-a. Jamais emprega o acérrimo exorcismo Em sua diária ocupação funérea. Tua garganta estúpida arrancar Do segredo da célula ovular Para latir nas solidões enormes? Esta obnóxia inconsciência. E irás assim. rói vísceras magras E dos defuntos novos incha a mão. acode-a A escala dos latidos ancestrais.. avoenga e elementar Dos teus antepassados vemiformes. Almoça a podridão das drupas agras. em que tu dormes. Janta hidrópicos. Latindo a esquisitíssima prosódia Da angústia hereditária dos teus pais! O DEUS-VERME Fator universal do transformismo.. pelos séculos adiante. afaga-a. Cão! -. E no inventário da matéria rica Cabe aos seus filhos a maior porção! 37 . Ah! Para ele é que a carne podre fica.. Verme -.VERSOS A UM CÃO Que força pôde adstrita e embriões informes. Na superabundância ou na miséria. arrima-a. ampara-a. E vive em contubérnio com a bactéria. Filho da teleológica matéria. Livre das roupas do antropomorfismo.é o seu nome obscuro de batismo.

de amplos agasalhos. esta árvore. Dr.. e.DEBAIXO DO TAMARINDO No tempo de meu Pai. esta tesoura. portanto. Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do último verso que eu fizer no mundo! 38 . Guarda. depois da morte?! Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também. O passado da Flora Brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. como uma caixa derradeira.. minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo. Que importa a mim que a bicharia roa Todo o meu coração. Como uma vela fúnebre de cera.corte Minha singularíssima pessoa. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte! Dissolva-se. Abraçada com a própria Eternidade A minha sombra há de ficar aqui! BUDISMO MODERNO Tome. Voltando à pátria da homogeneidade.. sob estes galhos.

um dia. mas dentro da alma aflita Via Deus -.Velho caixão a carregar destroços -Levando apenas na tumba carcaça O pergaminho singular da pele E o chocalho fatídico dos ossos! 39 . Cortava assim como em carniçaria O aço das facas incisivas corta! Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E eu saí. Na guturalidade do meu brado. -. com o esqueleto ao lado. Eu fui refugiar-me à tua porta! Fazia frio e o frio que fazia Não era esse que a carne nos contorta. com uma ânsia sibarita. Alheio ao velho cálculo dos dias.. Como um pagão no altar de Proserpina.essa mônada esquisita -Coordenando e animando tudo aquilo! E eu bendizia. Na inconsciência de um zoófito tranqüilo. como quem tudo repele. Por trás dos ermos túmulos.. A verdade espantosa do Protilo Me aterrava.SONHO DE UM MONISTA Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo Viajávamos. A energia intracósmica divina Que é o pai e é a mãe das outras energias! SOLITÁRIO Como um fantasma que se refugia Na solidão da natureza morta. por toda a pro-dinâmica infinita.

como um gado vivo.. talvez. Oh! Mãe original das outras formas. A alma do homem poilígamo e lascivo?! Este lugar. vede: É o grande bebedeouro coletivo. autônoma e sem normas. moços do mundo. A minha forma lúgubre nasceu! O LUPANAR Ah! Por que monstruosíssimo motivo Prenderam para sempre. Todas as noites. Em que é mister que o gênero humano entre.MATER ORIGINALIS Forma vermicular desconhecida Que estacionaste. Ah! De ti foi que. nascida Dessa homogeneidade indefinida Que o insigne Herbert Spencer nos ensina. Onde os bandalhos. mísera e mofina. Vêm matar a sede! É o afrodístico leito do hetairismo A antecâmara lúbrica do abismo.. O hierofante que leu a minha sina Ignorante é de que és. Nenhuma ignota união ou nenhum sexo À contingência orgânica do sexo A tua estacionária alma prendeu. Como quase impalpável gelatina. Dentro do ângulo diedro da parede. Quando a promiscuidade aterradora Matar a última força geradora E comer o último óvulo do ventre! 40 . Nos estados prodrômicos da vida. nesta rede.

é esse danado número Um Que matou Cristo e que matou Tibério! Creio. e eu ouço tudo e calo! O amor da Humanidade é uma mentira. O amor! Quando virei por fim a amá-lo?! Quando.este ladrão comum Que arrasta a gente para o cemitério! É o transcendentalíssimo mistério! É o nous . como o filósofo mais crente. É a morte... na generalidade descrente Com que a substância cósmica evolui. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo.Alavanca desviada do seu futuro -E haja só amizade verdadeira Duma caveira para outra caveira. Creio. perante a evolução imensa. De Messalina e de Sardanapalo?! Pois é mister que. É. Amo o coveiro -.IDEALISMO Falas de amor. O mundo fique imaterializado -. é o ego sum qui sum . Do meu sepulcro para o teu sepulcro?! ÚLTIMO CREDO Como ama o homem adúltero o adultério E o ébrio a garrafa tóxica de rum. Que o homem universal de amanhã vença O homem particular eu que ontem fui! 41 . se o amor quea Humanidade inspira É o amor do sibarita e da hetaíra. para o amor sagrado. é o pneuma .

Mas. se hoje volto assim. De aberratórias abstrações abstrusas! Nesse caixão iam.. penetrava fundo No meu fenomenal cérebro cheio. É necessário que ainda eu suba mais! 42 . caixas cranianas. talvez as Musas. Era tarde! Fazia muito frio. Numa antropofagia de faminto! A digestão desse manjar funéreo Tornado sangue transformou-me o instinto De humanas impressões visuais que eu sinto Nas divinas visões do íncola etéreo! Vestido de hidrogênio incandescente. Talvez meu Pai! Hoffmânicas viagens Enchiam meu encéfalo de imagens As mais contraditórias e confusas! A energia monística do Mundo. e. com a alma às escuras. Pelas monotonias siderais.. nele. Cinzas. improficuamente. Vaguei um século. inclusas..O CAIXÃO FANTÁSTICO Célere ia o caixão. Na rua apenas o caixão sombrio Ia continuando o seu passeio! SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO Para desvirginar o labirinto Do velho e metafísico Mistério.. Comi meus olhos crus no cemitério. cartilagens Oriundas. como os sonhos dos selvagens. À meia-noite. subi talvez às máximas alturas.

Pelo muito que em vida nos amamos.fontes de perdão -.perdoaram! Oh! tu que no Perdão eu simbolizo. com o envelhecimento dos tecidos! Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos! E a podridão. no Dia de Juízo. a maldição de Pio Décimo caia em teu algoz sombrio E em todo aquele que for seu herdeiro! Maldito seja o mercador vadio Que te vender as carnes por dinheiro. inda teremos filhos! 43 . tuas sementes! E assim. Talvez perdoasses os que te mataram! VOZES DA MORTE Agora sim! Vamos morrer. selvas. glebas. Eu. Tu. Se fosses Deus. Depois da morte. porém. vales. trilhos. em diferentes Florestas. meu velho! E essa futura Ultrafatalidade de ossatura. com o envelhecimento da nervura. Tamarindo de minha desventura. Ao monstro que espremeu teu sangue grosso Teus olhos -.A UM CARNEIRO MORTO Misericordiosíssimo carneiro Esquartejado. pois. A que nos acharemos reduzidos! Não morrerão. reunidos. Na multiplicidade dos teus ramos. tua lã aquece o mundo inteiro E guarda as carnes dos que estão com frio! Quando a faca rangeu no teu pescoço. para o Futuro.

Como os Goncourts. Deixar enfim na cloaca mais sombria Este feixe de células humanas! E enquanto arremedando Éolo iracundo. à categoria Das organizações liliputianas. apodrecer sozinho No silêncio de minha pequenez! ASA DE CORVO Asa de corvos carniceiros. Ser semelhante aos zoófitos e às lianas. É ainda com essa asa extraordinária Que a Morte -. Apraz-me. Na orgia heliogabálica do mundo.INSÂNIA DE UM SIMPLES Em cismas patológicas insanas. É meu destino viver junto a esa asa. asa De mau agouro que... nos doze meses. Ganem todos os vícios de uma vez. Ter o destino de uma larva fria. É-me grato adstringir-me. Como a cinza que vive junto à brasa. adstrito ao triângulo mesquinho De um delta humilde... como os irmãos siameses! É com essa asa que eu faço este soneto E a indústria humana faz o pano preto Que as famílias de luto martiriza. Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes O telhado de nossa própria casa. na hierarquia Das formas vivas.a costureira funerária -Cose para o homem a última camisa! 44 . Perseguido por todos os reveses.

A ESCADA E O HOMEM “Olha agora. “Homem. Busca exteriorizar o pensamento Que em suas fronetais células guarda! Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda! E ei-lo a tremer. Como o soldado que rasgou a farda No desespero do último momento! Tenta chorar e os olhos sente enxutos!. o Hércules. a mim. violento. aos soluços. “À luz da epicurista ataraxia. “O fracasso da tua geografia “E do teu escafandro esmiuçador! “Ah! Jamais saberás ser superior.O MARTÍRIO DO ARTISTA Arte ingrata! E conquanto.. puxa e repuxa a língua. o Homem. “Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me! E a verticalidade da Escada íngreme: “Homem. conquanto ainda hoje em dia. em desalento. rasga o papel. É como o paralítico que. à míngua Da própria voz e na que ardente o lavra Febre de em vão falar. mamífero inferior. já transpuseste os meus degraus?!” E Augusto. A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda.. Ouvindo a Escada e o Mar. caiu de bruços No pandemônio aterrador do Caos” 45 . E não lhe vem à boca uma palavra! O MAR. “Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia “Voando ao vento o vastíssimo vapor. com os dedos brutos Para falar.

entretanto. Estragara-lhe os centros medulares! Como quem quebra o objeto mais querido E começa a apanhar piedosamente Todas as microscópicas partículas. mas eu. afetava Susceptibilidade de menina: “-. agora. Vejo. Tu só furtaste a moeda. então.DECADÊNCIA Iguais às linhas perpendiculares Caíram. Em sucessivas atuações nefastas. porque furtei o peito Que dava leite para a tua filha! 46 . Eu furtei mais. Via naquilo a minha própria ruína! Minha ama. Furtaste a moeda só. Que ela absolutamente não furtava... Nas suas 33 vértebras gastas Quase todas as pedras tumulares! A frialdade dos círculos polares. hipócrita. após tudo perdido..Não. minha Mãe. ralhava. Sinhá-Mocinha. Ele hoje vê que. Que a mim somente cabe o furto feito. não fora ela! --“ E maldizia a sina. como cruéis e hórridas hastas. em minha cama.. Penetrara-lhe os próprios neuroplastas. o ouro que brilha. minha ama. Só lhe restam agora o último doente E a armação funerária das clavículas! RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ A minha ama-de-leite Guilhermina Furtava as moedas que o Doutor me dava.

Serviu as carnes do seu próprio filho! Por que para este cemitério vim?! Por que?! Antes da vida o angusto trilho Palmilhasse. E tu mesmo.. porque não tem fim! No ardor do sonho que o fronema exalta Construí de orgulho ênea pirâmide alta. aos reais convivas. e..o brilho Destes meus olhos apagou!. após a árdua e atra refrega.. à noite. os restos Duma comida horrivelmente azeda! A sucessão de hebdômadas medonhas Reduzirá os mundos que tu sonhas Ao microcosmos do ovo primitivo.. do que este que palmilho E que me assombra. Hoje. Hoje que apenas sou matéria e entulho Tenho consciência de que nada sou! 47 .. porém. igual a um porco. Assim Tântalo.a mãe comum -. a escândalos e incestos É natural que o instinto humano aceda! Sem que te arranquem da garganta queda A interjeição danada dos protestos. num festim.A UM MASCARADO Rasga essa máscara ótima de seda E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos. Hás de engolir.. Terás somente uma vontade cega E uma tendência obscura de ser vivo! VOZES DE UM TÚMULO Morri! E a Terra -. É noite.. que se desmoronou A pirâmide real do meu orgulho..

Deus. meu Pai?! Que mão sombria. Deus não havia de magoar-te assim! 48 . pois. O Amor e a Paz. Pai. Tudo convém para o homem ser completo! O ângulo obtuso. para amenizar as minhas dores! Que coisa triste! O campo tão sem flores. o Ódio e a Carnificina. trilhando as mesmas ruas. Indiferente aos mil tormentos teus De assim magoar-te sem pesar havia?! -. Irei também. SONETO – I – A MEU PAI DOENTE Para onde fores. para amenizar as dores tuas. Uma feição humana e outra divina São como a eximenina e a endimenina Que servem ambas para o mesmo feto! Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes! Por justaposição destes contrastes.. Às alegrias juntam-se as tristezas. Tu. e o ângulo reto.Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim É bom. O que o homem ama e o que o homem abomina.. é justo. Junta-se um hemisfério a outro hemisfério. para onde fores. E eu tão sem crença e as árvores tão nuas E tu. e o horror de nossas duas Mágoas crescendo e se fazendo horrores! Magoaram-te.CONTRASTES A antítese do novo e do obsoleto. E o carpinteiroque fabrica as mesas Faz também os caixões do cemitério!. e sendo justo.. Eu. gemendo..

E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o”! deixa-o. Em seus lábios que os meus lábios osculam Microrganismos fúnebres pululam Numa fermentação gorda de cidra. num carro azul de glórias. o ofício da agonia. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu! SONETO – III Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra. dormir primeiro! E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. Com a invariabilidade da clepsidra! Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos Roída toda de bichos. cuidei que ele dormia.SONETO – II – A MEU PAI MORTO Madrugada de Treze de Janeiro. como os queijos Sobre a mesa de orgíacos festins!.. Duras leis as que os homens e a hórrida hidra A uma só lei biológica vinculam. E a marcha das moléculas regulam. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. Como Elias. Mas pareceu-me. Rezo. Nem uma névoa no estrelado véu. sonhando... entre as estrelas flóreas. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. Amo meu Pai na atômica desordem Entre as bocas necrófagas que o mordem E a terra infecta que lhe cobre os rins! 49 . Mãe..

Apraz-me. O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra! 50 . sôfrega e ansiosa. É preciso cortá-la. por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs almas nos cedros. Esta árvore. no junquilho.. -.Meu pai. pai.. Caiu aos golpes do machado bronco. para que eu viva!” E quando a árvore. Livre deste cadeado de peçonha..Disse -. não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho.As árvores.. despindo a última alfaia Que ao comércio dos homens me traz presa. meu filho. olhando a pátria serra..DEPOIS DA ORGIA O prazer que na orgia a hetaíra goza Produz no meu sensorium de bacante O efeito de uma túnica brilhante Cobrindo ampla apostema escrofulosa! Troveja! E anelo ter. possui minh’alma!. meu pai.e ajoelhou-se.. meu filho. pois. Ficar latindo minha dor medonha! A ÁRVORE DA SERRA -... numa rogativa: “Não mate a árvore. enfim. Para que eu tenha uma velhice calma! -. Semelhante a um cachorro de atalaia Às decomposições da Natureza. O sistema nervoso de um gigante Para sofrer na minha carne estuante A dor da força cósmica furiosa.

. desde o mais prístino mito. Foi a gaiola que te pôs assim! 51 . por exemplo: o do boi Ápis do Egito Ao velho Niebelungen da Alemanha. Tu nunca mais verás a liberdade!. preto e amarelo. Olha a atmosfera livre. E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria O vencido pensava que cuspia Na célula infeliz de onde nasceu. Pondo a áurea insígnia heráldica da farda À vontade do vômito plebeu. não tens mais! E pois. Continua a comer teu milho alpiste.. de à antiga rota Voar. Arrancou os cabelos na montanha! Desceu depois à gleba mais bastarda. Acometido de uma febre estranha Sem o escândalo fônico de um grito. Ah! Tu somente ainda és igual a mim. O CORRUPIÃO Escaveirado corrupião idiota. bruto. E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo.VENCIDO No auge de atordoadora e ávida sanha Leu tudo.. Pões-te a assobiar. sem cerebelo A gargalhada da última derrota! A gaiola aboliu tua vontade.. Foi este mundo que me fez tão triste. o amplo éter belo. mergulhou a cabeça no Infinito. Que do fundo do chão todo o ano brota! Mas a ânsia de alto voar.

No eterno horror das convulsões marítimas Pareciam também corpos de vítimas Condenados à Morte.ALUCINAÇÃO À BEIRA MAR Um medo de morrer meus pés esfriava.. me assombrava! Mas a alga usufrutuária dos oceanos E os malacopterígios subraquianos Que um castigo de espécie emudeceu. em serenatas. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. na diuturna discórdia. Canta a aleluia virginal das crenças. cismava Em meu destino!. No desespero dos iconoclastas Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! 52 .. Onde um nume de amor. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. a equórea coorte Atordoadamente ribombava! Eu. assim como eu! VANDALISMO Meu coração tem catedrais imensas. Ante o telúrico recorte. Noite alta. Templos de priscas e longínquas datas... ególatra céptico. Com os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. O vento estava forte E aquela matemárica da Morte Com os seus números negros.

E à rutilância das espadas. toma A adaga de aço. entre feras. E qual mais pronto. e. e doma Meu coração -.VERSOS ÍNTIMOS Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. Toma um fósforo.estranho carniceiro! Não podes?! Chama então presto o primeiro E o mais possante gladiador de Roma. Que ninguém doma um coração de poeta! 53 . ao todo.. sente invevitável Necessidade de também ser fera. nesta terra miserável. uns cem. Se a alguém causa inda pena a tua chaga. Veio depois um domador de hienas E outro mais.esta pantera -Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem. Meu coração triunfava nas arenas. Somente a Ingratidão -.. por fim. Acende teu cigarro! o beijo. e qual mais presto assoma Nenhum pôde domar o prisioneiro. Apedreja essa mão vil que te afaga. Mora. A mão que afaga é a mesma que apedreja. é a véspera do escarro. veio um atleta. que. amigo. Escarra nessa boca que te beija! VENCEDOR Toma as espadas rútilas. por fim. Vieram todos. o gládio de aço. E não pôde domá-lo enfim ninguém. guerreiro.

o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada. o subconsciente ai formidando Da Natureza que parou. a que só ele assiste. do Orbe oriundos. Que.. mas o que não sabe E que essa mágoa infinda assim não cabe Na sua vida. em sons subterrâneos. é que essa mágoa infinda Transpõe a vida do seu corpo inerme.. No rudimentarismo do Desejo! 54 . Quer resistir. chorando. pois..ETERNA MÁGOA O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo. Ouço. E é em suma. e quanto mais resiste Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga. jazem ainda na estática do Nada! É o soluço da forma ainda imprecisa. Da transcendência que se não realiza.. A sucessividade dos segundos. Sabe que sofre. E quando esse homem se transforma em verme É essa mágoa que o acompanha ainda! O LAMENTO DAS COISAS Triste. Da luz que não chegou a ser lampejo. O choro da Energia abandonada! É a dor da Força desaproveitada — O cantochão dos dínamos profundos.. podendo mover milhões de mundos. pancada por pancada. a escutar. nada há que traga Consolo à Mágoa..

me desencarcero. Morto o comércio físico nefando. Tua cabeça há de ficar vibrando Na negatividade universal! 55 . Parem as vidas. eu. impero Na imanência da Idéa Soberana! Destruída a sensação que oriunda fora Do tacto — ínfima antena aferidora Destas tegumentárias mãos plebéas — Gozo o prazer. Foi que eu. sincero Encontrei. afinal. Aglomeradamente e em turbilhão Solucem dentro do Universo ancião. o meu Nirvana! Nessa manumissão schopenhauereana. Sobre a pancosmológica exaustão Reste apenas o acervo árido e vão Das muscularidades consumidas! Ainda assim. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das Idéas! CAPUT IMMORTALE Na dinâmica aziaga das descidas. pensando. Onde a Vida do humano aspecto fero Se desarraiga. Oh! Nauta aflito do Subliminal. De que. num grito de emoção. Todas as urbes siderais vencidas! Morra o éter. Como a última expressão da Dor sem termo. a animar o cosmos ermo. feito força. Cesse a luz. que os anos não carcomem.O MEU NIRVANA No alheamento da obscura forma humana.

Era.. Pressinto o fim da orgânica batalha: — Olhos que o húmus necrófago estraçalha. arpões. a irmanar diamantes e hulhas. Da multimilenária dissonância Que as harmonias siderais invade. e.. Que eu tenho de deixar para os meus filhos! LOUVOR A UNIDADE "Escafandros. Dói-me ver. Desagrega-se e deixa na mortalha O tacto. Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas.APOSTROFE À CARNE Quando eu pego nas carnes do meu rosto. "Com essa intuição monística dos gênios. numa alta aclamação. o ouvido. feixe de mônadas bastardas. Diafragmas. decompondo-se.. A dardejar relampejantes brilhos. "Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas! "Une. Em tua podridão a herança horrenda.. Onde a alva flama psíquica trabalha. o olfato e o gosto! Carne. há inúmeros milênios. ao sol posto. muito embora a alma te acenda. E o Homem — negro e heteróclito composto. a vista. "À hirta forma falaz do are perennius "A transitoriedade das fagulhas!" — Era a estrangulação. sem retumbância. O regresso dos átomos aflitos Ao descanso perpétuo da Unidade! 56 . sem gritos. pois. sondas e agulhas "Debalde aplicas aos heterogêneos "Fenômenos.

E a alma o obnóxio quietismo sonolento Rasga. Este pântano é o túmulo absoluto. é a essência pura. para mim que a Natureza escuto. E eu sinto a angústia dessa raça ardente Condenada a esperar perpetuamente No universo esmagado da água morta! SUPREME CONVULSION O equilíbrio do humano pensamento Sofre também a súbita ruptura. opondo-se à Inércia. e... sem dor. à espera de quem passa Para abrir-lhe. é o transunto. E o nada do meu homem interior! 57 . na noite escura. É a síntese. Ah! foi teu beijo convulsionador Que produziu este contraste fundo Entre a abundância do que eu sou. meus semelhantes! Mas.O PÂNTANO Podem vê-lo. Tragicamente. é a abreviatura Do todo o ubiqüitário Movimento! Sonho. De todas as grandezas começantes! Larvas desconhecidas de gigantes Sobre o seu leito de peçonha e luto Dormem tranqüilamente o sono bruto Dos superorganismos ainda infantes! Em sua estagnação arde uma raça. às escâncaras. a porta. no Mundo. Que produz muita vez. A convulsão meteórica do vento. — libertação do homem cativo — Ruptura do equilíbrio subjetivo.

.. no teu silêncio. O espanto Convulsiona os espíritos.. Vence o granito. um dia. "Quanto mais em mim mesma me aprofundo. geléia crua. rosto?! "Serei apenas mera crusta espessa?! "Pois é possível que Eu. que ainda haveres De atingir. Teu desenvolvimento continua! Antes. tanto Que.A UM GÉRMEN Começaste a existir. como o gérmen de outros seres. em conjugação com a terra nua. Volvas à antiga inexistência calma!. causa do Mundo. ainda sentia Era a mesma imortal monotonia De sua face externa indiferente! E a Natureza disse com desgosto: "Terei somente. geléia humana. "Menos interiormente me conheça?!" 58 . ainda algum dia. deprimindo-o . o pranto Das tuas concreções plásmicas flua! A água. Antes o Nada. em realidade. A Natureza olhou-se interiormente! Baldada introspecção! Noumenalmente O que Ela. não progridas E em retrogradações indefinidas. Reconcentrando-se em si mesma. entanto. porventura. oh! gérmen. Ao supremo infortúnio de ser alma! NATUREZA ÍNTIMA Ao filósofo Farias Brito Cansada de observar-se na corrente Que os acontecimentos refletia. é natural. e.. E hás de crescer.

. no seu arcano. E a dramatização sangrenta e dura Vir Deus num simples grão de argila errante. na ordem cósmica. Como um convite para estranhas viagens. São absolutamente negativas! Araucárias. Porque nunca puderam realizar-se! GUERRA Guerra é esforço. Precisa de encharcar-se em sangue humano Para mostrar aos homens que está viva! 59 . é inquietude. traçando arcos de ogivas. Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens..As ambições que se fizeram troncos. Tornam todas as almas pensativas! Há uma força vencida nesse mundo! Todo o organismo florestal profundo É dor viva... Da avidez com que o Espírito procura É a Subconsciência que se transfigura Em volição conflagradora. . descendo A irracionalidade primitiva.Todas as hermenêuticas sondagens. trancada num disfarce. É a Natureza que..A FLORESTA Em vão com o mundo da floresta privas!. é ânsia. Bracejamentos de álamos selvagens. os elementos broncos.. nele. é transporte... que se entrega à morte Para a felicidade da Criatura! É a obsessão de ver sangue. . Vivem só... é o instinto horrendo De subir. E a coorte Das raças todas.

ouro De que as próprias desgraças se engalanam! Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato. Dói-lhe.O SARCÓFAGO Senhor da alta hermenêutica do Fado Perlustro o atrium da Morte.. Alegria das glândulas do choro De onde todas as lágrimas emanam. assim. À humana comoção impondo-a. psíquico tesouro. É frio o ambiente E a chuva corta inexoravelmente O dorso de um sarcófago molhado! Ah! Ninguém ouve o soluçante brado De dor profunda. sol do cérebro. Que o sarcófago. És suprema! Os meus átomos se ufanam De pertencer-te. Minha maior ventura é estar de posse De tuas claridades absolutas! 60 . saúde dos seres que se fanam. Riqueza da alma. em suma. acérrima e latente. ereto e imóvel sente Em sua própria sombra sepultado! Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível Que em toda a sua máscara se expande... oh! Dor. E. sem convulsão que me alvorece. inteira... perante o Incognoscível Essa fatalidade de ser grande Para guardar unicamente poeira! HINO À DOR Dor.. Com os corpúsculos mágicos do tacto Prendo a orquestra de chamas que executas. ancoradouro Dos desgraçados..

que. Benditos vós.ÚLTIMA VISIO Quando o homem resgatado da cegueira Vir Deus num simples grão de argila errante.. Sois vós que sustentais ( Força Alta exige-o . para a hora derradeira! Culminâncias humanas ainda obscuras. Ions emanados do meu próprio ideal. Terá nascido nesse mesmo instante A mineralogia derradeira! A impérvia escuridão obnubilante Há de cessar! Em sua glória inteira Deus resplandecerá dentro da poeira Como um gasofiláceo de diamante! Nessa última visão já subterrânea. ) Com o vosso catalítico prestígio. Haveis de ser no mundo subjetivo.... Dai-me asas. em épocas futuras. pois. Minha continuidade emocional! 61 .. A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ele ainda tem de abrir para o Infinito! AOS MEUS FILHOS Na intermitência da vital canseira. pois. Dai-me alma. Um movimento universal de insânia Arrancará da insciência o homem precito. Expressões do universo radioativo. Meu fantasma de carne passageira! Vulcão da bioquímica fogueira Destruiu-me todo o orgânico fastígio . para o último remígio..

A DANÇA DA PSIQUÊ A dança dos encéfalos acesos Começa. os pés e os braços Tombara. A alma arde.. E acho um feixe de forças prodigiosas Sustentando dois monstros: a alma e o instinto! O POETA DO HEDIONDO Sofro aceleradíssimas pancadas No coração.. então. Arranco do meu crânio as nebulosas. A carne é fogo. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto! 62 . Emoções extraordinárias sinto. O cosmos sintético da Idéa Surge. as mãos. Eu sinto. sondando-me a consciência A ultra-inquisitorial clarividência De todas as neuronas acordadas! Quanto me dói no cérebro esta sonda! Ah! Certamente eu sou a mais hedionda Generalização do Desconforto. cedendo à ação de ignotos pesos! É então que a vaga dos instintos presos — Mãe de esterilidades e cansaços — Atira os pensamentos mais devassos Contra os ossos cranianos indefesos. Subitamente a cerebral coréa Pára. A espaços As cabeças. Ataca-me a existência A mortificadora coalescência Das desgraças humanas congregadas! Em alucinatórias cavalgadas...

Receando outras mandíbulas a esbangem. o alfa e o omega Amarguram-te. Realidade geográfica infeliz. No desembestamento que os arrasta. Porque. Antes da refeição sanguinolenta! Amor! E a satiríasis sedenta. Tu só tens um direito: — o de chorar! 63 .. ávida. no ardor dos seus assomos A alegoria do que outrora fomos E a imagem bronca do que inda hoje sois! HOMO INFIMUS Homem. tragando a ambiência vasta. Sangram-te os olhos. os dois Representam. Hebdômadas hostis Passam. Os dentes antropófagos que rangem. carne sem luz. criatura cega. ris! Fruto injustificável dentre os frutos. entretanto. na superfície do planeta. aumenta. Todas as danações sexuais que abrangem A apolínica besta famulenta! Ambos assim. Rugindo. Teu coração se desagrega. Excrescência de terra singular. e. enquanto as almas se confrangem. na ânsia voraz que. Deixa a tua alegria aos seres brutos. O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! O nôumeno e o fenômeno. Montão de estercorária argila preta. Superexcitadíssimos..A FOME E O AMOR A um monstro Fome! E.

Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma Dos que amam apreender o Inapreensível! Predeterminação imprescriptível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou.. E trago em mim. a Ciência. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Na canonização emocionante. Da dor humana. mordem-se. de sofrerdes A sensação de todas as misérias! 64 . dão gritos Nas minhas camas cerebrais funéreas. num sincronismo eterno A fórmula de todos os destinos! NOLI ME TANGERE A exaltação emocional do Gozo. Ai! Não toqueis em minhas faces verdes.. a Arte e a Beleza Servem de combustíveis à ira acesa Das tempestades do meu ser nervoso! Eu sou. — A águia dos latifúndios florentinos! Sistematizo. Sob pena. O Amor. o Inferno. a Glória. soluçando...MINHA FINALIDADE Turbilhão teleológico incoercível. homens felizes. Que força alguma inibitória acalma. por conseqüência um ser monstruoso! Em minha arca encefálica indefesa Choram as forças más da Natureza Sem possibilidades de repouso! Agregados anômalos malditos Despedaçam-se. sou maior que Dante. aparelhou.

em voz muito alta. O epitalâmio da Suprema Falta. Em que o Mal se engrandece e o ódio se exalta. Como Belerofonte com a Quimera Mato o ideal.. engendro o lodo E nas mudanças do Universo todo Deixo inscrita a memória do meu gérmen! 65 . a alardear bárbaros sons abstrusos. urdo o crime. achato a esfera E acho odor de cadáver na fragrância! Chamo-me Aberração. (Hoje. A ignomínia de todos os abusos! É a prosódia do cárcere. à luz de fantástica ribalta.O CANTO DOS PRESOS Troa. a exigir que os sãos enfermem. é a partênea Aterradoramente heterogênea Dos grandes transviamentos subjectivos. Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia. não cabendo mais dentro dos peitos. Que. ontem. Se escapa pela boca dos cativos! ABERRAÇÃO Na velhice automática e na infância. Minha alma é um misto De anomalias lúgubres.. cresto o sonho. amanhã e em qualquer era) Minha hibridez é a súmula sincera Das defectividades da Substância. Teço a infâmia.. Entoado asperamente. È a saudade dos erros satisfeitos.. Uiva. Existo Como o cancro. Pela promiscuidade dos reclusos! No wagnerismo desses sons confusos.

Feita dos mais variáveis elementos.. à noite. como um corvo. agarro. ausculto. pelos caminhos quedos Minha tátil intensidade é tanta Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos! Quebro a custódia dos sentidos tredos E a minha mão. apreendo. O Infinitésimo e o Indeterminado. Encho o Espaço com a minha plenitude! 66 . invado. Ceva-se em minha carne. enfim. o Céu e o Inferno absorvo. dada às bravias Cóleras dos dualismos implacáveis E à gula negra das antinomias! Psique biforme. Nos paroxismos da hiperestesia..VÍTIMA DO DUALISMO Ser miserável dentre os miseráveis -.. transmudado em rutilância fria. por fim. minha alma. de quanta Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos. Transponho ousadamente o átomo rude E. Todas as coisas íntimas suplanta! Penetro. Criação a um tempo escura e cor-de-rosa.. o Infinito se levanta À luz do luar. A simultaneidade ultramonstruosa De todos os contrastes famulentos! AO LUAR Quando. dona.Carrego em minhas células sombrias Antagonismos irreconciliáveis E as mais opostas idiossincrasias! Muito mais cedo do que o imagináveis Eis-vos.

arder.A UM EPILÉTICO Perguntaras quem sou?! – ao suor que te unta À dor que os queixos te arrebenta.. Sentia dos fenômenos o fim. defunta Na aterradora operação conjunta Da tarefa animal dos organismos! Mas após o antropófago alambique Em que é mister todo o teu corpo fique Reduzido a excreções de sânie e lodo. como um astro. virgem.. Tifon. projetado muito além da História. Laquesis. Átropos. Eu. A coisa em si movia-se aos meus brados E os acontecimentos subjugados Olhavam como escravos para mim! 67 .. Siva. e nos abismos Ninguém responderá tua pergunta! Reclamada por negros magnetismos Tua cabeça há de cair. num monturo. aos trismos Da epilepsia horrenda. E acima deles. A perfeição virtual tornada viva E o embrião do que podia acontecer! Por antecipação divinatória. Como a luz que arde.. Na hiperculminação definitiva O meu supremo e extraordinário Ser! Em minha sobre-humana retentiva Brilhavam. como a luz do amanhecer. Tu hás de entrar completamente puro Para a circulação do Grande Todo! CANTO DA ONIPOTÊNCIA Cloto.

. Essa elementaríssima semente Do que hei de ser.MINHA ÁRVORE Olha: É um triângulo estéril de ínvia estrada! Como que a erva tem dor. remoinha. nem mesmo ao ronco Do furacão que.. alarga-se em meu hausto... Hão de encontrar as gerações futuras Só. a afagar tantas feridas.) Quem sou eu. Nutrindo uma efeméride inferior. às apalpadelas e às escuras. A áurea mão taumatúrgica do Amor Traça. E. minha árvore humana desfolhada! Mulher nenhuma afagará meu tronco! Eu não me abalarei. rábido.. nas minhas formas carcomidas. sobre a terra ardente Hão de encher outras árvores! Somente Minha desgraça há de ficar sozinha! ANSEIO (QUEM SOU EU.Trilhões de células vencidas. tenta transpor o Ideal. ai! como eu sinto no esqueleto exausto Não poder dar-lhe vida material! 68 . Grita em meu grito. e entre rochas duras Mostra ao Cosmos a face degradada! Entre os pedrouços maus dessa morada É que. Roem-na amarguras Talvez humanas. entanto.. Branda. esse mundo incoerente. Folhas e frutos... a soluçar de dor?! -. A estrutura de um mundo superior! Alta noite. neste ergástulo das vidas Danadamente.

REVELAÇÃO I Escafandrista de insondado oceano Sou eu que. auscultando o absconso arcano! Por um poder de acústica esquisita. Massa palpável e éter. Ouço o universo ansioso que se agita Dentro de cada pensamento humano! No abstrato abismo equóreo. -. Restituo triunfalmente à esfera calma Todos os cosmos que circulam na alma Sob a forma embriológica de sonhos! II Treva e fulguração.Tudo a unidade do meu ser resume! Sou eu que. transpondo a escarpa augusta Dos limites orgânicos estreitos. A potencialidade do que é morto E a eficácia prolífica do estrume! Ah! Sou eu que. sânie e perfume. Sinto bater na putrescível crusta Do tegumento que me cobre os peitos Toda a imortalidade da Substância! 69 . Apreendo. revolvendo o ego profundo E a escuridão dos cérebros medonhos. ateando da alma o ocíduo lume. Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia. em cisma abismadora absorto. Penetro a essência plásmica infinita. Sou eu que. desconforto E ataraxia.Mãe promíscua do amor e do ódio insano! Sou eu que. -. aliando Buda ao sibarita. feto vivo e aborto... hirto. em que me inundo.

crânios. Na progressão dos números inteiros A gênese de todos os abismos! Oh! Pitágoras da última aritmética. Para convulsionar a alma que dorme Todas as tempestades são pequenas! Há de a Terra vibrar na ardência infinda Do éter em branca luz transubstanciado. em fúlgidos letreiros. -.VERSOS A UM COVEIRO Numerar sepulturas e carneiros. hei de ficar trancado Na noite aterradora de mim mesmo! 70 . na abismal sustância informe.. cinco. A tua conta não acaba mais! TREVAS Haverá. cérebros. quatro.. dois. somente em. Porque. por hipótese. Continua a contar na paz ascética Dos tábidos carneiros sepulcrais Tíbias. sem complicados silogismos.. rádios e úmeros.. Rotos os nimbos maus que a obstruem a esmo. A própria Esfinge há de falar-vos ainda E eu. Esoterismos Da Morte! Eu vejo.Tal é. Reduzir carnes podres a algarismos. nas geenas Luz bastante fulmínea que transforme Dentro da noite cavernosa e enorme Minhas trevas anímicas serenas?! Raio horrendo haverá que as rasgue apenas?! Não! Porque. infinita como os próprios números. A aritmética hedionda dos coveiros! Um. três.

me semente. na natureza espiritual. íngremes. De onde rebenta. e dize-me. Inacessíveis aos humanos tráficos Onde sóis. oh! delumbrada alma. afinal. em contrações de dor. a alma. alma. perscruta O puerpério geológico interior. mal Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?! Ah! Nesse anelo trágico de altura Não serão as montanhas. Toda a sublevação da crusta hirsuta! No curso inquieto da terráquea luta Quantos desejos fervidos de amor Não dormem. Estacionadas. A representação ainda inorgânica De tudo aquilo que parou em mim?! II Agora. assim. Qual é. porventura. sob o horror Dessas agregações de pedra bruta?! Como nesses relevos orográficos. A significação dessas montanhas! Quem não vê nas graníticas entranhas A subjetividade ascensional Paralisada e estrangulada. amam jazer. Quem sabe. se o que ainda não existe Não vibra em gérmen no agregado triste Da síntese sombria do meu Ser?! 71 . Por um abortamento de mecânica.AS MONTANHAS I Das nebulosas em que te emaranhas Levanta-te. recalcados.

integérrima. Destrói a ebulição que a água alvorota E põe todos os astros na desgraça! São despedaçamentos. derrubadas.. o último a ser. E não haver uma alma que lhe entenda A angústia transoceânica medonha No rangido de todas as enxárcias! 72 .. Espião da cataclísmica surpresa. Lambe-lhe a quilha e espúmea onda impudica E ébrios tritões. sonha! Mágoas.. A única luz tragicamente acesa a universalidade agonizante! A NAU A Heitor Lima Sôfrega. É a subversão universal que ameaça A Natureza. Federações sidéricas quebradas. a amarra agarrada à âncora.. em noite aziaga e ignota. A íngreme cordoalha úmida fica. haurem-lhe o cheiro! Na glauca artéria equórea ou no estaleiro Ergue a alta mastreação. alçando o hirto esporão guerreiro. E eu só.. pelo orbe adiante. e. E estende os braços de madeira rica Para as populações do mundo inteiro! Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda.. babando. Pára e. derrota Na atual força. subjugue-as ou difarce-as. da Massa. se as Tem.APOCALIPSE Minha divinatória Arte ultrapassa Os séculos efêmeros e nota Diminuição dinâmica. que o Éter indica. Zarpa.

Para a perpetuação da Espécie forte. Em convulsivas contorções sensuais. E quando. continua a arder! Surdos destarte a apóstrofes e brados. na ânsia ardente De perscrutar o íntimo do orbe. o dolo sáxeo. vazio! 73 . Com essa volúpia das ossadas novas Hão de ainda se apertar cada vez mais! O FIM DAS COISAS Pode o homem bruto. Haurindo o gás sulfídrico das covas. Sôfrego. A humanidade vai pesar seu gênio Encontra o mundo. cave. Dentro dos ossos. adstrito à ciência grave. ainda depois da morte. Das profundezas do Subconsciente O milagre estupendo da aeronave! Rasgue os broncos basaltos negros. aborte Na hora em que a nossa carne apodrecer?! Não! Essa luz dial. Os nossos esqueletos descarnados. ao cabo do último milênio.. Tragicamente. que ela encheu. em que arde o Ser. num triunfo surpreendente. invente A lâmpada aflogística de Davy! Em vão! Contra o poder criador do Sonho O Fim das Coisas mostra-se medonho Como o desaguadouro atro de um rio. e. Arrancar.VOLÚPIA IMORTAL Cuidas que o genesíaco prazer. Fome do átomo e eurítmico transporte De todas as moléculas..

E. À custódia do anímico registro A planetária escuridão se anexa. agride os rios E urde amplas teias de carvões sombrios No ar que álacre e radiante. Viu vísceras vermelhas pelo chão... Disse. Viu montanhas de sangue enchendo a estrada. A água transubstancia-se. Somente.. Era tão moço. Ficam brilhando com fulgor sinistro Dentro da treva onímoda e complexa Os olhos fundos dos que estão com medo A OBSESSÃO DO SANGUE Acordou. Extraordinariamente atordoadora. há instantes. Olhou-se no espelho. com um berro bárbaro de gozo. eis que viu. A carne que ele havia de comer! No inferno da visão alucinada..A NOITE A nebulosidade ameaçadora Tolda o éter. Na mão dos açougueiros. iguais a espiões que acordam cedo. a escorrer Fita rubra de sangue muito grosso. O monocromatismo monstruoso Daquela universal vermelhidão! 74 .. mancha a gleba. fora. Horrível! O osso Frontal em fogo. A onda estoura Na negridão do oceano e entre os navios Troa bárbara zoada de ais bravios. Ah! Certamente não podia ser! Levantou-se... antes do almoço. Ia talvez morrer.. E amou. vendo sangue.

.VOX VICTIMAE Morto! Consciência quieta haja o assassino Que me acabou. dando-me ao corpo vão Esta volúpia de ficar no chão Fruindo na tabidez sabor divino! Espiando o meu cadáver ressupino. E... O Inconsciente me assombra e eu nele rolo Com a eólica fúria do harmatã inquieto! Assisto agora à morte de um inseto!. E ai! Como é boa esta volúpia obscura Que une os ossos cansados da criatura Ao corpo ubiqüitário do Criador! AGONIA DE UM FILÓSOFO Consulto o Phtah-Hotep. Outras cabeças aparecerão Para compartilhar do meu destino! Na festa genetlíaca do Nada. Rasgo dos mundos o velário espesso.. Leio o obsoleto Rig-Veda. ante obras tais.... No mar de humana proliferação. reconheço O império da substância universal ! 75 . percorro como um gênio Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!. Abraço-me com a terra atormentada Em contubérnio convulsionador. Ah! todos os fenômenos do solo Parecem realizar de pólo a pólo O ideal do Anaximandro de Mileto! No hierático areópago heterogêneo Das idéias. me não consolo. E em tudo igual a Goethe..

Tragicamente de si mesmo oriundo. estranho ao mundo. Hirta. Porque eu hoje só vivo da descrença. amigo! Pois que a minha autogênica Grandeza Nunca vibrou em tua língua presa. P’ra iluminar-me a alma descontente. No fundo Do meu entendimento moribundo Jazia o Último Número cansado. Eu a bendigo da descrença. Para dar vida à dor e ao sofrimento. em meio. imensa. E à dor e ao sofrimento eterno afeito. ao meu lado. Da saudade na campa enegrecida Guardo a lembrança que me sangra o peito. Como o reflexo fúnebre do Incriado: Bradei: -. Mas que no entanto me alimenta a vida.Que fazes ainda no meu crânio? E o Último Número. imóvel. Não te abandono mais! Morro contigo!" SAUDADE Hoje que a mágoa me apunhala o seio. À noute qunado em funda soledade Minh’alma se recolhe tristemente. Se acende o círio triste da Saudade.O ÚLTIMO NÚMERO Hora da minha morte.. Parecia dIzer-me: "É tarde. atro e subterrâneo. Era de vê-lo. 76 . Fora da sucessão. resignado. E o coração me rasga atroz. E assim afeito às mágoas e ao tormento. A Idéia estertorava-se.

Fraco que sou.Oh! Deus. gárrulos voando . de ilusões tão bela. De joelhos aos pés do Nazareno Baixo rezei.o exorcismo Terrível me feriu.a Grande Mãe . em fundo misticismo: . Fugazes sonhos. Fazem lembrar em noute de saudade A luz mortiça d’um olhar nublado. Cansado de lutar no mundo insano. Onde a dúvida ergueu altar profano. sombras cor-de-rosa . Não sei se morra p’ra viver no Céu! 77 . Não sei se viva p’ra morrer na terra. Hoje ela habita a erma soledade. desgraçado réu. Ah. mas me perdoa! Se esta dúvida cruel qual me magoa Me torna ínfimo. seu olhar magoado. volvi ao ceticismo. O brilho se apagou daquela estrela Que a vida lhe tornava venturosa! Sombras que passam. Da Igreja . entre o medo que o meu Ser aterra.ABANDONADA Ao meu irmão Odilon dos Anjos Bem depressa sumiu-se a vaporosa Nuvem de amores.Todas se foram num festivo bando. Em que vive e em que aos poucos vai morrendo! Seu rosto triste. eu creio em ti. e então sereno. CETICISMO Desci um dia ao tenebroso abismo.Resta somente um’alma tristurosa! Coitada! o gozo lhe fugiu correndo.

num mês de tantas flores. Sombrio e mudo e glacial. langorosas. Morreram todas. Oh! Minha infância nunca teve flores! Volvendo à quadra azul da mocidade. Ouvi. pálidas agora. triste e descrido. Como um coveiro a sepultar quimeras! 78 . Cansado de chorar pelas estradas. o cântico sentido Do coração que geme e s’estertora N’ânsia letal que o mata e que o devora. Tristes fanaram redolentes rosas. de amor ferido. Revolvo as cinzas de passadas eras. Quando a morte matar meus dissabores. Mais tarde da existência nos verdores Da infância nunca tive as venturosas Alegrias que passam bonançosas. Minh’alma levo aflita à Eternidade. Todas murcharam. triste pela vida afora. amei. senhora. Hoje eu carrego a cruz das minhas dores! OUVI. SENHORA Ouvi. Desfeitas todas num guaiar dorido. E como a luz do sol vai-se apagando! E eu triste. senhora. todas sem olores. As minhas crenças que alentei outrora Rolam dispersas.MÁGOAS Quando nasci. senhora. E que tornou-o assim. Exausto de pisar mágoas pisadas. tristes. Eterno pegureiro caminhando.

Apaixonou-se d’uma virgem bela. Mas a Pátria chamou-o. e o pesar negro e profundo. e na existência agora Triste soluças a ilusão peerdida. INFELIZ Alma viúva das paixões da vida. coração amargurado. Juncou-lhe a fronte aurifulgente estrela. um tresloucado. Alma viúva das paixões da vida. Oh! Tu. pendeu triste e desmaiada. Dos canhões ao ribombo e das metralhas. Era o soldado. na estrada da existência em fora. Esconde à Natureza o sofrimento. mas a fronte aureolada. Cantaste e riste. Louco vivia. venceu batalhas. que na grinalda emurchecida De teu passado de felicidade Foste juntar os goivos da Saudade Às flores da Esperança enlanguescida. E tinha que deixar p’ra sempre aquela Meiga visão. Tu que. Alma arrancada do prazer do mundo.TRISTE REGRESSO Uma vez um poeta. E voltou. Ao chegar. Se nada te aniquila o desalento Que te invade. 79 . Vivia alegre o vate apaixonado. olímpica e singela! E partiu. Altivo lutador. enamorado dela. E fica no teu ermo entristecida. No sepulcro da loura virgem bela.

Resvalando nas sombras dos ciprestes. soturnais. pálidos.Alvos fantasmas pelos merencórios Túmulos tristes. Fora no campo pássaros trinavam. funéreos. no eternal soluço. Quebrando a paz suprema dos sepulcros. Eu choro e gemo e triste me debruço Na lájea fria dos meus sonhos pulcros. E rompe a orquestra sepulcral da morte. Quando há de ser o venturoso dia?! Quando há de ser!? O noivo então dizia E a noiva e ambos d’amores s’embriagavam. a brisa respondia. Hoje rolando nos umbrais marmóreos.N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS N’augusta solidão dos cemitérios. Ambos unidos soluçara um beijo. Dos rouxinóis ao sonoroso harpejo E a luz do sol vibrava esplendorosa. E a mesma frase o noivo repetia. Há de chegar. Quando há de ser!? E os pássaros falavam. Quando da vida. silentes. ardentes . NOIVADO Os namorados ternos suspiravam. Passam meus sonhos sepultados nestes Brancos sepulcros. Chegara enfim o dia desejado. Vinha rompendo a aurora majestosa. Era o supremo beijo de noivado! 80 . Desliza então a lúgubre coorte. São minhas crenças divinais.

E onde a vida borbulha e o sangue medra. No delírio. 81 . da febre ardente Da ventura fugaz e transitória O peito rompe a capa tormentória Para sorrindo palpitar contente.NO MEU PEITO ARDE No meu peito arde em chamas abrasada A pira da vingança reprimida. Já que do mundo não vinguei-me em vida. Mas se das minhas dores ao calvário. A morte me será vingança eterna. Muitos que esgotam do prazer a taça Sentem no peito a dor indefinida. Dores que ferem corações de pedra. Em luta co’a natura sempiterna. E em centelhas de raiva ensurdecida A vingança suprema e concentrada. Aí existe a mágoa em sua essência. E espuma e ruge a cólera entranhada. Eu subo na atitude dolorida De um Cristo a redimir um mundo vário. Como no mar a vaga embravecida Vai bater-se na rocha empedernida. A MÁSCARA Eu sei que há muito pranto na existência. Espumando e rugindo em marulhada. porém. Assim a turba inconsciente passa. E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca A humanidade ri-se e ri-se louca No carnaval intérmino da vida.

Mostrar-te o afeto que meu peito sente. consente Que neste dia de ventura tanta Vá. bonecos de formoso busto. E Deus lhe disse: "És duas vezes santo. Somente assim festejarei teus anos. Foste do amor o mártir sacrossanto. Pois se da Religião fizeste culto. dão-te enganos. Quantos. estulto. Da sua fala na eternal doçura Falava o coração. a jóia que te exprima O amor fraterno do teu mano Em 28 de abril de 1901 82 . Eu só encontro no primor de rima A justa oferta.AMOR E RELIGIÃO Conheci-o: era um padre. Tu’alma ri-se descuidosamente. Minh’alma alegre no teu rir s’encanta. num abraço de ternura santa. um desses santos Sacerdotes da Fé de crença pura. Enquanto outros que podem." CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior pelas nove primaverasque hoje completou. Irmão querido. Jóias. oh! Quantos Ouviram dele frases de candura Que d’infelizes enxugavam prantos! E como alegres não ficaram tantos Corações sem prazer e sem ventura! No entanto dizem que este padre amara. bom Papá. Canta no espaço a passarada e canta Dentro do peito o coração contente. Su’alma livre para o Céu se alara. Morrera um dia desvairado.

O COVEIRO Uma tarde de abril suave e pura Visitava eu somente ao derradeiro Lar. No entanto. divina. Bela. esta mulher de grã beleza. Lá encontrei um pálido coveiro Com a cabeça para o chão pendida. amigo verdadeiro. mornos. Do fado. Tornou-se a pecadora vil. Os seios rijos eram dois brasões Onde fulgia o simb’lo do Pecado. tomando a enxada gravemente. Ali jazia o seu amor primeiro! Depois. Dançavam-lhe no colo perfumado. o porte emoldurado No mármore sublime dos contornos. Eu senti a minh’alma entristecida E interroguei-o: "Eterno companheiro Da morte. morria Uma noute entre as vascas da agonia Tendo no corpo o verme do pecado! 83 . que matou-te o coração?" Ele apontou para uma cruz no chão. presa. A chama cruel que arrasta os corações. Balbuciou. palpitantes. Moldada pela mão da Natureza. tinha ido ver a sepultura De um ente caro. Os seios brancos. Do destino fatal. sorrindo tristemente: "Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!" PECADORA Tinha no olhar cetíneo. aveludado.

Nem a sombra mais leve de ventura! Sempre as arcadas ogivais. Que guardam cinzas de ilusões passadas. Repercute. Assim canta também meu coração. Trovador torturado e angustioso. Na vastidão silente das caladas Abóbodas sombrias tenebrosas. lembranças minhas! Saudades d’umas noutes em que vinhas Cantar comigo em doce desafio! Mas. os sons esmorecendo. mudas! IL TROVATORE Canta da torre o trovador saudoso Addio. Vagueiam tristemente desfiladas De freiras e de monjas tristurosas. Eleonora. pouco a pouco. E as mesmas portas impassíveis.NO CLAUSTRO Pelas do claustro salas silenciosas De lutulentas. E as mesmas monjas sempre tristurosas. mavioso. desnudas. dolente. No sigilo das rezas misteriosas. não acordeis. úmidas arcadas. Ai! não. . E à noute quando rezam na clausura. addio.Addio. Perdem-se as notas pelo Azul morrendo. Que guardam pér’las de funéreas rosas. addio! 84 . Eleonora! Oh! sonhos meus! E o canto se desprende harmonioso Na vibração final do extremo adeus. Subindo pelo Azul da Inspiração.

Tu que sorveste o fel das minhas dores E me trouxeste o néctar dos teus sonhos! Cedo virá. Os dias voltarão a ser tristonhos E tu hás de dormir o eterno sono. Vai morta em vida assim pelo caminho. Primavera gentil dos meus amores! 85 . tão moça e já desventurada. a desgraçada estulta. Moça. gargalha. soluça . No seu olhar feroz eu adivinho O mistério da dor que a traz penada. Arca sagrada de cerúleos sonhos. Canta. O cabelo revolto em desalinho. porém. Num sepulcro de rosas e de flores. .coração saudoso. os teus fulgores.a veste desgrenhada.A LOUCA A Dias Paredes Quando ela passa: . Da desdita ferida pelo espinho.Em seu passado Houve um drama d’amor misterioso . o triste outono.Arca cerúlea de ilusões etéreas. Chova-te o Céu cintilações sidéreas E a terra chova no teu seio flores! Esplende. No sudário de mágoa sepultada.O segredo d’um peito torturado E hoje. PRIMAVERA A meu irmão Odilon dos Anjos Primavera gentil dos meus amores. Na auréola azul dos dias teus risonhos. para guardar a mágoa oculta. Primavera. Eu sei a sua história. . Chora.

O mistério d’um peito que estertora E o segredo d’um’alma que não sonha! Não. É minha sina perenal. que vivo atrelado ao desalento. Também espero o fim do meu tormento. EU TRAJO O LUTO DO PASSADO Senhora. Vão-se sonhos nas asas da Descrença. Sonâmbulo da dor angustiado.Cantar o Ocaso quando surge a Aurora. Na voz da morte a me bradar: descansa! SENHORA. Quantas venturas que me acalentaram! Mau peito. ergue o teu grito. ela não cansa. O berço onde as venturas se embalaram. portanto. delirante e vário. risonha. Este luto sem fim que é o meu Calvário E anseio e choro. túm’lo do prazer finado. Salve-te a glória no futuro . Sirva-te a crença de fanal bendito. Muita gente infeliz assim não pensa. Também como ela não sucumbe a Crença.A ESPERANÇA A Esperança não murcha. E não é a Esperança por sentença Este laço que ao mundo nos manieta? Mocidade. eu trajo o luto do passado. 86 . não busques saber por que. Mas não queiras saber nunca. No entanto o mundo é uma ilusão completa. Voltam sonhos nas asas da Esperança. Senhora. tristonha .avança! E eu. Foi outrora do riso abençoado.

nervosa e louca Esquecer por momento a mágoa intensa Arrancando um sorriso à flor da boca.o orvalho do pranto lhe perola As faces maceradas de desgosto. Das brancas rosas do seu triste rosto Que rolam murchas como um sol já posto Um perfume de lágrimas se evola. sublime na Descrença. Sombra perdida lá do meu Passado. Tenta às vezes. Quem me dera morrer então risonho. Como Jesus a soluçar no Horto! ECOS D’ALMA Oh! madrugada de ilusões. Vinde entornar a clâmide puríssima Da luz que fulge no ideal sagrado! Longe das tristes noutes tumulares Quem me dera viver entre quimeras. Mas volta logo um negro desconforto. Fitando a nebulosa do meu Sonho E a Via-Láctea da Ilusão que passa! 87 . santíssima.SOFREDORA Cobre-lhe a fria palidez do rosto O sendal da tristeza que a desola. Bela na Dor. Quando o rosário de seu pranto rola. Por entre o resplandor das Primaveeras Oh! madrugada azul dos meus sonhares. Mas quando vibrar a última balada Da tarde e se calar a passarada Na bruma sepulcral que o céu embaça. Chora . porém.

pois. As níveas pomas do candor da rosa. a seu lado Medita. Em flácido abandono Lembra formosa no seu casto sono A languidez dormente da indiana. nevada. Que os encantos e a força dos poderes Reúne tudo em si. púbere. mimosa. Branca. sê bendita! ARIANA Ela é o tipo perfeito da ariana. e. ama. O amor é a hóstia que bendiz a Crença. Enquanto o amante pálido. Estende o teu olhar à Natureza. Na altura Imensa. Essa sublime adoração do crente. num só encanto? Esse mistério eterno e sacrossanto. Emergem da camisa cetinosa Entre as rendas sutis de filigrana.. Sienkiewicz Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo Ser que preside e rege os outros seres. Fita a cúp’la do Céu santa e infinita! Deus é o templo do Bem. A carne exuberante e capitosa Trescala a essência que de si dimana.AMOR E CRENÇA E sê bendita! H. crê em Deus. Esse manto de amor doce e clemente Que lava as dores e que enxuga o pranto?! Ah! Se queres saber a sua grandeza.. Rendilhando-lhe o colo de sultana. a fronte triste. o olhar velado No Mistério da Carne Soberana 88 . Dorme talvez.

não quero o meu sonho sepultado No cemitério da Desilusão. coveiro. Eu vivo dessas crenças que passaram.TEMPOS IDOS Não enterres. lânguida e bela. Tem pena dessas cinzas que ficaram. . dos proscritos. Que não se enterra assim sem compaixão Os escombros benditos de um Passado! Ai! Não me arranques d’alma este conforto! . Entre todos. além. Da juventude a virginal capela A lhe cingir de luz a fronte baça. Ao dobre funeral dos tempos idos! NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA (Lendo o "Poema de Maio") Na rua em funeral ei-la que passa. Dos romeiros saudosos da desgraça. A procissão dos tristes.Dizer adeus aos sonhos meus perdidos! Deixa ao menos que eu suba à Eternidade Velado pelo círio da Saudade. A alma saudosa pelo amor vibrada. porém. E na choça a lamúria que traspassa O coração. .Quero abraçar o meu passado morto. o meu Passado. e quero sempre tê-las ao meu lado! Não. A romaria eterna dos aflitos. Vai Corina mendiga e esfarrapada.A Stella Matutina da Desgraça! 89 . ânsias e gritos De mães que arquejam sobre os probrezitos Filhos que a Fome derrubou na praça.

eu disse. Para mim no mundo Tudo acabou-se. É como um despertar de estranho mito. adeus! E. Súbito ecoou do sino o som profundo! Adeus! . Perto. 90 . apenas restam mágoas. A aeronave que um mistério encerra Vai pelo espaço acompanhando o mundo. Hermeto Lima Adeus. Parecia o ribeiro estar chorando As lágrimas que eu triste gotejava. adeus. Vinha o luar iluminando a estrada E eu vinha pela estrada soluçando. devassando a terra. Deixa ver na fulgência do seu rastro A trajetória augusta da Ciência. um ribeiro claro murmurando Muito baixinho como quem chorava. Fitando o abismo sepulcral dos mares. Auroreando a humana consciência. Mas no mistério astral da noute bela Pareceu-me inda ouvir o nome dela No marulhar monótono das águas! A AERONAVE Cindindo a vastidão do Azul profundo. ADEUS! E. suspirando. Sulcando o espaço.ADEUS. Saí deixando morta a minha amada. Voa. Cheia da luz do cintilar de um astro. SUSPIRANDO Pareceu-me inda ouvir o nome dela No badalar monótono dos sinos. Vencendo o azul que ante si s’erguera. ADEUS. se eleva em busca do infinito. E na esteira sem fim da azúlea esfera Ei-la embalada n’amplidão dos ares.

e a estrela foi p’ra o Céu subindo. Envolto da tristeza no delírio. com ela Negras sombras também foram chegando. tristonho lírio. Deixa beijar-te a face que descora! Fosses antes a rosa purpurina E eu beijaria a pétala divina Da rosa. onde não pousa a desventura. triste.a mágica princesa! E eu vi o Sol do Céu iluminando A Catedral da Grande Natureza. Minh’alma que de longe a acompanhava. Lá onde nunca chegue esta saudade.A sombra deste afeto estiolado. Disse. Mas a noute chegou. E nunca mais eu vi a minha estrela! 91 . Ai! que ao menos talvez na vida escassa Não chorasses à sombra da desgraça. estrela do Passado! Esconde-te no Azul da Imensidade. Estrela esmaecida do Martírio. Viu o adeus que do Céu ela enviava.Vai-te. irmã pálida da Aurora. E eu disse . P’ra que pendes o cálice que enflora Teu seio branco do palor do círio?! Baixa a mim.LIRIAL Por que choras assim. . E quando ela no Azul foi-se sumindo Surgia a Aurora . Para eu sorrir à sombra da ventura! A MINHA ESTRELA A meu irmão Aprígio A. Se eu sou o orvalho eterno que te chora.

Vítima augusta de indelével falso. Estendo à Dulce a mão.A PRAÇA ESTAVA CHEIA. E todo o dia eu vou como um perdido De dor.o criminoso . Pude rever naquele desgraçado O drama lutuoso da Paixão. a minha bem amada. O olhar azul pregado n’amplidão. isento de pecado.. Caiu na praça como fulminado A soluçar: perdão. por entre a dolorosa estrada. A praça estava cheia. Pedir a Dulce. perdão. E ela fita-me.. dai-me u’a esmola . a fé perdida. Quando do algoz cruento o braço alçado Se dispunha a vibrar sem compaixão O golpe na cabeça do culpado Ele. e eu gemo o último harpejo.e estertorada A minha voz soluça num gemido. perdão! A ESMOLA DE DULCE Ao Alfredo A. E dos lábios de Dulce cai um beijo. Morre-me a voz. 92 .Senhora.então. E eu balbucio trêmula balada: . O condenado Transpunha nobremente o cadafalso. como este beijo me consola! Bendita seja a Dulce! A minha vida Estava unicamente nessa esmola. Puro de crime. A esmola dum carinho apetecido. E na atitude do Crucificado. Depois. o olhar enlanguescido. o algoz .

. obumbra-me em teu seio.venenos d’alma E eu busco a plaga onde o repouso mora. acolhe-me. Negrejadas das asas lutulentas Que te emprestar o corvo do Destino! GÊNIO DAS TREVAS LÚGUBRES.crença Perdida . ave negra da Desgraça. assassino. Lá. Num desespero rábido. Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença! Dos sonhos meus na Catedral imensa Que nunca pouses. Seja-te a vida uma agonia intensa! Vives de crenças mortas e te nutres. E as trevas moram. Leva-me o esp’rito dessa luz que mata. Gênio das trevas lúgubres. nem me turba a calma A aurora deste amor que é o meu ocaso! 93 . Há perfumes d’amor . E o viver calmo e sossegado tolhe-me! Leva-me.. onde d’água raso O olhar não trago. E a alma me ofusca e o peito me maltrata. e à ingrata Luz deste mundo em breve me arrebata E num pallium de tênebras recolhe-me! Aqui há muita luz e muita aurora. acolhe-me N’asa da Morte redentora.. e. Empenhada na sanha dos abutres.. E hás de tombar um dia em mágoas lentas.AVE DOLOROSA Ave perdida para sempre .segue a trilha que te traça O Destino. na névoa baça Onde o teu vulto lúrido esvoaça.

Que o céu reflete. Cada rocha é uma eterna sepultura Banhada pela imácula brancura De ondas chorando num albor etéreo. só descanta. num mar de esp’rança. a vida é qual risonho Batel. e a alma é a Flâmula do sonho. Julgo ver nos reflexos de minh’alma As mesmas nuvens deslizando em calma. Mas quando o céu é límpido. Quando vos vejo. Treme na treva a púrpura da tarde. Abismados na bruma enegrecida. então. Ah! dessas no bramir funéreo Jamais vibrou a sinfonia pura Do amor.NIMBOS Nimbos de bronze que empanais escuros O santuário azul da Natureza. O MAR O mar é triste como um cemitério. Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma. sem bruma Que a transparência tolde. Que o guia e o leva ao porto da bonança. Os nimbos das procelas desta vida. a voz do meu saltério! Quando a cândida espuma dessas vagas. sem nenhuma Nuvem sequer. Chora a saudade envolta nesta espuma! 94 . Banhando a fria solidão das fragas. dentre a escura Treva do oceano. Reflete a luz do sol que já não arde. negros palinuros Da tempestade negra e da tristeza.

Sírius da minha Sorte E da Noute da vida a Vênus Redentora.. Ascende à Claridade. agita as tuas asas.o Sol que as almas doura! Fugiu.ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS. Cantarias do amor a primavera. e em si a Luz consoladora Do amor . meu Futuro.1902 AURORA MORTA. Nem vibra a corda que a saudade esconde. Anseios d’alma aqui se perdem. Hoje é trevas.. Aurora morta. longe dos laços Dessa jaula de carne que a encarcera! Ah! Que unidos assim.eu busco a virgem loura! Pau d’Arco . quem dera Voar est’alma a ti. Donde Fluiu outrora a luz dum doce engano. E eu ergo preces que ninguém responde. foge . é desengano. Dia do meu Passado! Irrompe. foge! Eu busco a virgem loura Que fugiu-me do peito ao teu clarão de morte E Ela era a minha estrela. O grande Sol de afeto . FOGE! Aurora morta.. Adeus oh! Dia escuro. Agora. Triste criança virginal. é dor.) Nessas paragens desoladas.. onde O silêncio campeia soberano Morreram notas do bulício humano. o meu único Norte.esse clarão eterno d’alma forte Astro da minha Paz. num Pálio auroral de Luz deslumbradora.1902 95 . oh! Minha Mágoa. Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas E. Tendo a minh’alma presa nos teus braços! Pau d’Arco . lá nos espaços.

no teu riso de anjos encantados. Aragem suspirosa Agita os roseirais que ali vicejam. Sonorizando os sonhos já passados. entretanto. Quando. ao luar. os astros rumorejam Um presságio de noute luminosa E ei-la que assoma . as águas límpidas alvejam Com cristais. à dolente Unção da noute. E há.1902 96 .Cítara suave dos apaixonados. Um arroio canta pela umbrosa Estrada.os roseirais descoram E elas bóiam no pranto da corrente Que as rosas.. úmido de beijos em ressábios Teu riso esponta. No alto. Como que um doce tilintar de prata E a vibração de mil cristais quebrados.a Louca tenebrosa. Bendito o riso assim que se desata . despertando sonhos. Branca. as flores também choram Num chuveiro de pétalas. Cantando sempre em trínula volata! Aurora ideal dos dias meus risonhos. Ri-se o meu coração na tua boca! Pau D'Arco . Chora a corrente múrmura. Vai-se minh'alma toda nos teus lábios. e. Ah! num delíquio de ventura louca..NO CAMPO Tarde. Pau d’Arco – 1902 CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA Canta o teu riso esplêndida sonata. chorando enfloram. Pendem e caem . nitente. emergindo às trevas que a negrejam.

Derramam a urna dum perfume vário. noctâmbulo da Dor e da Saudade. olências de virgínea Carne fremindo num langor de pomas. Onde as almas das virgens em crisálida De seios alvos e de fronte pálida. É que dessa concha armínea Da lactescência angélica da neve. Voga a lua na etérea imensidade! Ela. Flor dos mistérios d'alma. A nívea cor de cera Que o seu seio branqueja. entre os encantos Dum noivado risonho em primavera. que a virgem chora. E a lua é como um pálido sacrário. Pau d'Arco -1902. Ah! como a branca e merencórea lua. P'ra desvendar os seus segredos santos.CRAVO DE NOIVA Ao Dias Paredes Cravo de noiva. PLENILUNIO Desmaia o plenilúnio. toda a cálida Mística essência desse alampadário. Minh'alma triste pelos céus flutua! Pau d'Arco -1902. Guarda segredos divinais que eu dera Duas vidas. E tudo quer que nessa flor se enleve O poeta. eterna noctâmbula do Amor. A gaze pálida Que lhe serve de alvíssimo sudário Respira essências raras. 97 . virginais aromas De essência estranha. Eu. Também envolta num sudário — a Dor. Se evolarn castos. sacrossantos. é como os prantos Níveos. se duas eu tivera.

Choras. a lua é triste e calma. Paraíba -1902 O BANDOLIM Cantas. Ali. e ilusões acordas. Tanto que gemes... vindo de profundas fráguas. Tanto que cantas. É como as nênias do Coveiro d'alma! Tudo eterizas num coral de endeixas. bandolim do Fado. Busquei então na nebulosa fria Das Ilusões.INSÂNIA No mundo vago das idealidades Afundei minha louca fantasia. soluças. sonhar novas idades. E vais aos poucos soluçando mágoas. Teu canto. bandolim do Fado E de Saudade o peito meu transbordas. pompeia a luz da branca aurora. Cedo atraiu-me a áurea fulgidia Da refulgência antiga das idades. Um dia morto da Ilusão às bordas. Que desespero insano me apavora! Aqui. Mas ao esplendor das velhas majestades Vacila a mente e o seu ardor esfria. chora um ocaso sepultado. . E vais aos poucos soluçando queixas! 98 . e eu julgo que nas tuas cordas Choram todas as cordas do Passado! Guardas a alma talvez d'um desgraçado. E eu tremo e hesito entre um mistério escuro: .Quero partir em busca do Passado. Quando alta noute.Quero Correr em busca do Futuro.

agora. Caíste morta ao celestial preceito. mas eis que neste enleio. E eu vi os seios teus virem inconhos . e como Lúcia. NA ETÉREA LIMPIDEZ.Foge. A vida Despontava na aurora amortecida  rutilância mágica do dia. cindindo os céus risonhos. E Lúcia disse à bruma lutulenta: . caindo dos altares. também ria! 99 .. O céu tremia em seu trevoso flanco. Aquele riso despertava a aurora! E tudo riu-se. E eu quis beijar-te o lábio redolente. Tocando n'ara negra o níveo seio. E a procela chorou n'um fundo arranco De mágoa triste e de paixão violenta. Na etérea limpidez de um sonho branco. à voz de Lúcia. E beijei-te.ARA MALDITA Como um'ave. alegre e rubro. Meiga. Quiseste-me beijar a ara do peito. qual hóstia. Para nunca tocarem negros sonhos! Caíste enfim no meu sacrário ardente. Foste caindo n'ara dos meus sonhos. Lúcia sorriu-se à bruma nevoenta. grave e lenta.Esses teus seios que os cerúleos lares Branquejaram de eternos nenúfares. senão co'o o meu olhar te espanco! E eu vi que. Fulgia a bruma para sempre. O sol. E.. tu vinhas a cindir os ares.

Beije-te o seio e te abençoe o ventre! O TEMPLO DA DESCRENÇA O Templo da Descrença . Agora.A colunata êxul do Sonho Morto . urnas de Sonho. Diluis teu peito em sensações profundas. o túmulo da Crença. Que. Flores mortas da Aurora. Sentes o peito em ânsias revoltadas. e. o Mundo se concentre. em bando. E. às fundas Águas do mar das glórias obumbradas. E em mim como no Templo.o círio Da Quimera Falaz. E a lua. Tudo! até o altar onde a Angústia vibra intensa N'uma fúria assombrai de feras em delírio! Penetro louco enfim o abismo funerário. Em mim como no Templo a Angústia se condensa. a rasgar o lúrido sacrário.ei-lo que avisto. eu sombrio chorando Ante a imagem fatal do Sepulcro da Crença! 100 . ao ver-te nua. Que beija a terra e que abençoa os campos.TREVA E LUZ Neste pélago escuro em que te afundas. E vejo o pedestal que sustenta a Descrença! . á luz das alvoradas santas Ungem-te o corpo redolências tantas. Nua. Mas. ante o branco estendal das madrugadas. eis que emerges. Longe das sombras aurorais e amadas. luminosa. em banho ideal de amor te inundas. A imensa Cruz da Dor está serena como um lírio! E vejo o pedestal que sustenta o Martírio. E a rasgar. a Virgem Mãe dos céus escampos. e.

A alma diluída em eterais cismares. Todos dizem co'os olhos para a Sorte . Quero-te assim . Colmado o seio de virentes flores.a Peste N'um insano ceifar que aterra e espanta. Como o Cristo sagrado dos altares. De espaço a espaço sepulturas planta E em cada coração planta um cipreste! Exulta o Eterno e. entre esplendores. como o sol . formosa. enquanto Vai devastando o coração das casas.Virgens filhas das virgens nebulosas! Quero-te assim. 101 . formosa entre as formosas. santa de inocência! Anjo de luz de astral aurifulgência... ela. Embaladas no albor da adolescência. Etéreo como as Wilis vaporosas.O sol a segue..É o castigo de Deus que passa mudo! . E como o sol que a segue e deixa um rastro De luz em tudo. tudo chora. ..o astro Deixa um rastro de luto em cada canto! IDEAL Quero-te assim. semeando a Morte. Plena de graça.A PESTE Filha da raiva de Jeová .Fúlgido foco de escaldantes brasas ..e que bendita sejas Como as aras sagradas das igrejas.. No olhar d'amor a mística fulgência E o misticismo cândido das rosas. e a Peste ri-se. tudo! Quando Ela passa.

E o lábio meu pra sempre apartado do teu Não há de beijar mais o teu lábio querido! Ah! Quando tu morreste. assim.Harpa virgem brandindo mil delírios! Quedo-me aos poucos. .Irei agora. Eu venho arrependido. E eu ouço etérea cavatina! Há nos teus lábios .. É a música de Deus que vem do Céu! SÚPLICA NUM TÚMULO Maria. ah! ninguém me responde. o meu Sonho morreu! Perdão.. E a Noite afeia corno num sarcasmo E agora a sombra vesperal morreu. Perdão! E este silêncio e esta tumba que cala! Insânia. insânia. Como o santo levita dos Martírios. insânia. perdoa o teu vencido.. a teus pés. lírio morto do Céu! Perdão! E a minha voz estertora um gemido. para onde Me levar o Destino abatido e tristonho... Implorar-te o perdão do imenso crime meu! Eis-me.. Perdão! E este sepulcro imenso que não fala! 102 .CÍTARA MÍSTICA Cantas. penseroso e pasmo.. E para mim..dois sangrentos círios A gêmea florescência de dois lírios Entrelaçados numa unção divina. meu anjo. Teu canto agora é um salmodiar de arcanjo. Açucena de Deus.. pois. pátria da Aurora exilada do Sonho! . pelo mundo.. Rendo piedosa dúlia peregrina À tua doce voz que me fascina. eis-me a teus pés. Chegou a Noite.

AFETOS Bendito o amor que infiltra n'alma o enleio E santifica da existência o cardo. Por um Cocito ardente e luxurioso. Mas. e ora Em contorço es supremas de Delícia! MARTÍRIO SUPREMO Duma Quimera ao fascinante abraço.. seja como o fardo Desta descrença funeral em que ardo E com que o fogo da paixão ateio! Funambulescamente a alma se atira À luta das paixões. e.. Tinha os lábios crestados pela ardência Da luz letal do grande Sol do Vício! E mergulhei mais fundo no estuário. Chora saudades do terreno pouso! Como um mártir de estranho sacrifício. que da Desgraça veio Maldito seja. Turificando a languidez dum seio! O amor. como a Aurora Que ao beijo vesperal anseia e expira.. Cristo d'amor morri pela inocência! 103 .Amor que é mirra e que é sagrado nardo. porém. supremos. Transpus um dia o Inferno Azul do Gozo! O amor em lavas de candência d'aço. Em ânsia de repouso.. sem Calvário. Desce para a alma o ocaso da Carícia Ora em sonhos de Dor. Da Messalina fria no regaço. no Inferno do Gozo. Banhou-me o peito. Onde nunca gemeu o humano passo. .

e a saudade da infância.Lua que esfria o sol do meu desejo! 104 .. .. também da Dor. .. mulher.. no pó da fulgurância Como uma velha cruz vela na sombra morta! Fora.. me acalenta e conforta! Noute! E somente tu velas a rutilância..Sonâmbulo glacial da estranha pena! Estavas fria! A neve que a alma corta Não gele talvez mais. desvalida e nua! E o olhar perdi. ansiando a luz amena No silêncio notívago da rua. E estavas morta.. eu que te almejo.. nem mais alquebre Um coração como a alma que está morta. E vi-te triste. lá dos braços hercúleos. a sós.. eu vi. Como um'alma de mãe.SOMBRA IMORTAL .. Domados pela meiga Ónfale a que me rendo! CORAÇÃO FRIO Frio o sagrado coração da lua. Teu coração rolou da luz serena! E eu tinha ido ver a aurora tua Nos raios d'ouro da celeste arena. Sombra de gelo que me apaga a febre... a noute é tumbal. Ah! que um dia da Vida. Lua que já passou e que hoje ainda corta O penetral que guia à derradeira estância.E tu velas. estes dardos acúleos Caíam. O penetral que leva à derradeira porta! Revejo em ti. num lânguido smorzando A sombra virginal qu'eu adoro chorando E há de um dia amparar-me na luta correndo.

. E um canto vai morrer no vale fundo. chegando. Que luz é esta que das brumas vasa.) Para o vale noital da eterna gaza Rolou o Sol . inata! E... te acolheu a mata. Choras. O roble altivo entreteceu4e um ninho. virginal.. no negror me abrasa. e no Santo harpejo. e em lânguida sonata Vinhas transpondo a margem do caminho. Alvorejando em arrebol de prata. Para o Infinito e para o Céu voltados! Cantas.NOTURNO (PARA O VALE NOITAL. profundo?! Rumores santos. e é noute de fatais abrolhos. Branca bem como empalecido arminho. No lago branco e rútilo do dia O azul pompeava para sempre vasto. Que canto é este. ajoelhando à imagem do Carinho. Bendita a Santa do Carinho. tu. Pérolas e ouro pela serrania.. o seio branco. Santificada pela Dor do Mundo! U'a luz. Alva d'aurora... Somente tristes os teus olhos vejo. e no meu peito estes teus olhos Como que cravam dois punhais gelados! SEDUTORA Alva d'aurora. entanto.. Uma pantera foi se ajoelhando.imenso moribundo E a noute veio na negrura d'asa.. Rendida ao eflúvio do teu seio casto! 105 . Chegaste. e.

Nos campos-santos enterrando os Sonhos! E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA E o mar gemeu a funda melopéia À luz feral que a tarde morta instila. Vão pelo mundo ensangüentando as Vidas. E a paixão morre e os corações coveiros Vão como duendes pelos céus risonhos. E as brumas velam nos sinistros mantos E as virgens dormem nas tumbais jazidas! Súbitos fremem 'spasmos derradeiros. Chorando auroras músicas perdidas Na estrada santa ensangüentando as Vidas. cintila! Naquela hora morria para a Idéia A minha branca e desgraçada Déa. Triste como um soluço de Dalila. mórbidos encantos. Já Vésper..PELO MUNDO Ânsias que pungem. e lânguida. E o mar chamou-a para o funda abismo! E o céu chamou-a para o Misticismo.. Eflúvios quentes e fatais quebrantos Crestam a alma das virgens adormidas. no Alto. Qual rosa branca que ao tufão vacila. Crepitaç5es de flamas incendidas Nalma explodindo como fogos santos. Fria como um crepúsculo da Judéia... 106 . Nesse momento a Lua vinha calma E céu e mar num desespero mudo Não viram que num halo de veludo À alma de Déa se evolava est'alma.

A hora dos tristes e dos descontentes. os gaturamos Num recesso de névoa. E ergue à sombra da dor a que se irmana Lauréis de sangue de volúpia insana. clown da Sorte ..Consagração das almas padecentes! Foi numa tarde assim que nos amamos.. Na Via-Látea fria do Nirvana. saturnal do Inferno! Eu te bendigo! No mundano cúmulo És a Ironia que tombou no túmulo Nas sombras mortas de um desgosto eterno! VAMOS. que ao frio alvor da Mágoa Humana. tristíssimo palhaço" Cruz e Souza O Riso . Alenta a Vida que tombou no Tédio! Que à Dor se prende.quem mede-o?! .. Riso. e a todo o seu assédio. QUERIDA! Vamos. Desfaz-se o peito em vibrações dormentes E o Fado geme sob a névoa fria! Que eu sinta n'alma o que tu n'alma sentes! Nesta Missa de Atroz Melancolia Bebes chorando o Vinho da Agonia . sonolento e tardo. querida! Já é Ave-Maria . Canta no espaço a maldição da Vida! 107 . Clarões de sonho em nimbos de epicédio! Bendito sejas.. No ar. adormecida. coração.Ele.o voltairesco clown .O RISO "Ri.Eterno fogo.Fogo sagrado nos festins da Morte . Punge-me o peito da Saudade o cardo Enquanto um mocho. Silfos morriam.

A UMA MÁRTIR Alma em cilício, vem, enrista a dava, Brande no seio o espículo e o acinace E unjam-te o seio que d'auroras nasce Sangrentas bênçãos eclodindo em lava! Nossa Senhora te unge a face escrava, Cristo saudoso te abençoa a face De monja - violeta que do Céu baixasse À Virgem Santa Natureza brava! Vais caminhando para a terra extrema, Rosa dos Sonhos! e o teu galho trema E a tua crença, o desespero mate-a... E em nuvens d'ouro ascende enfim ao plaustro Da Neve Eterna, estrela azul do claustro, Levada para o Azul da Via-Látea!

RÉGIO Festa no paço! Noite... E no entretanto Luzes; flores, clarões por toda a festa E há nos régios salões, em cada aresta, Credências d'ouro de supremo encanto. No baldaquino a orquestra real se apresta E o áureo dossel finge um relevo santo... - Bissos egípcios d'alto gosto, a um canto, Flordilisados de nelumbo e giesta. Morreu a noite e veio o Sol Eterno - Âmbar de sangue que desceu do Inferno No turbilhão dos alvos raios diurnos... Brilham no paço refulgências de elmo E a princesa assomou corno um santelmo Na realeza branca dos coturnos.

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PELO MAR Manhã em flor. O mar é um policromo E imenso lago d'íris e alabastros... À aurora é branco e ao sol, o mar é como Um pálio imenso que caiu dos astros. Longe, bem longe, no alvoral assomo Ergue um navio os altanados mastros E o Oceano dorme - alourecido pomo Num leito irial de pérolas e nastros. A alma da Mágoa vai pelo seu dorso, Em sonhos geme... Um coração de corso Geme no mar, vibra no mar, entanto, Colma-lhe o seio a opala das esponjas... E à noute morta choram vagas - monjas Purificadas no cristal do pranto!

PALLIDA LUNA És do Passado! Vieste d'alvorada N'asa dos elfos pela Morte espalma... Cantas... e eu ouço esta berceuse calma Da harpa dos mundos ideais do Nada! Ergue o Missal brilhante de tu'alma, Mas nessa elevação mistificada, Vem, que eu te espero, Deusa constelada Desce, anêmona êxul que o Céu ensalma! Venhas e desças, Lua dos Martírios, Desças, mas venhas pela unção dos lírios. Visão de Ocaso de enluaradas comas, Vaso de Unção descido dos espaços, Para ungirmos nós dois, os nossos paços, Na tule idealizada dos aromas.

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A MORTE DE VÊNUS Velhos berilos, pálidas cortinas, Morno frouxel de nardos recendendo Velam-lhe o sono... e Vênus vai morrendo No berço azul das névoas matutinas! Halos de luz de brancas musselinas Vão-lhe do corpo virginal descendo - Abelha irial que foi adormecendo Sobre um coxim de pérolas divinas. E quando o Sol lhe beija a espádua nua, Cai-lhe da carne o resplendor da Lua No reverbero dos deslumbramentos... Enquanto no ar há sândalos, há flores E haustos de morte - os últimos clangores Da música chorosa dos mementos!

MÁRTIR DA FOME Nesta da vida lúgubre caverna De ossos e frios funerais que eu sinto Corno um chacal saciando o eterno instinto Vou saciando a minha Fome Eterna. - Fome de sangue de um Passado extinto, De extintas crenças - bacanal superna, Horrível assim como a Hidra de Lema E muda como o bronze de Corinto! Ânsias de sonhos, desespero fundo! E a alma que sonha no marnel do Mundo, Morre de Fome pelas noites belas... E como o Cristo - o Mártir do Calvário Morre. E no entanto vai para o estelário Matar a Fome num festim de estrelas!

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SONHO DE AMOR Sobre o aromal e amplo coxim de Flora, Que os vapores da tarde inda incensavam E que um incenso tênue e bom vapora, Os namorados lânguidos sonhavam. A alma do Ocaso entrava o céu agora E havia pelas tênebras que entravam Ora estrangulamentos surdos, ora Ruídos de carnes que se estrangulavam. E sonharam assim durante toda A noute, e toda a alva manhã durante! - O Sol jorrava largos raios longos E em roda víride e nevado, em roda, Lembrava o campo um colorido ondeante De vidros verdes e cristais oblongos!

A ORGIA MATA A MOCIDADE A orgia mata a mocidade, quando Rugem na carne do delírio as feras, E o moço morre como está sonhando Nas suas vinte e cinco primaveras. Em cima - o oiro sem mancha das esferas, Em baixo oiro manchado de execrando Festim de sibarita:, das heteras Lubricamente se despedaçando! Em cima, a rede do estelário imáculo Suspensa no alto como um tabernáculo - A orgia, em baixo, e no delírio doudo Corno arvoredos juvenis tombados Os moços mortos, os brasões manchados, E um turbilhão de púrpuras no lodo!

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recordando a estria Dos corpos de Afrodite e Vênus. LÁ FORA. Saio de casa.. Surge agora a Lua. e ao compasso de arrabis serenos A valsa rompe.. em compassados trenos Sobre os veludos da tapeçaria. vão bater. diante do vulto dos conventos. De encontro ás torres e de encontro aos muros. E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos Enquanto a chuva cai nos cemitérios E o vento apaga os lampiões da rua! 112 .. Fulgem por entre mil cristais vermelhos O alvo cristal dos nítidos espelhos E a seda verde dos arbustos glabros. Negro. ameaçando os séculos futuros! De São Francisco no plangente bronze Em badaladas compassadas onze Horas soaram. A incandescência irial dos candelabros. Desencadeados. NOTURNO (CHOVE.. E em meio ás refrações verdes e hialinas. batendo em todas as retinas.FESTIVAL Para Jônatas Costa Címbalos soam no salão. O dia Foge. Os ventos. violentos.) Chove.. Estatuetas de mármore de Lemnos Estão dispostas numa simetria Inconfundível.. mas meus movimentos Susto. Lá fora os lampiões escuros Semelham monjas a morrer. Os passos mal seguros Trêmulo movo. Vibra.

..Repositório de milhões de miasmas Onde se fartem todos os fantasmas.. Já que perdi a última batalha! E. os vermes vis. inverno! 113 . A Dor meu coração torça e retorça! Cubra-me o corpo a podridão dos trapos! Os vibriões. Diluiu o silêncio em litanias. os sapos Encontrem nele pábulo eviterno. Ele que foi um forte Que nunca se quebrou pelo Desgosto Morreu. enquanto o Tédio a carne me trabalha. poetas. verão.. Que há muito tempo não cantava lá. .. E hoje. já faz sete dias Que eu ouço o canto desse sabiá! VAE VICTIS A Dor meu coração torça e retorça E me retalhe como se retalhe Para escárnio e alegria da canalha Um leão vencido que perdeu a força! Sobre mim caia essa vingança corsa. mas não deixou na ara do rosto Um só vestígio que acusasse a Morte! O anatomista que investiga a sorte Das vidas que se abismam no Sol-posto Ficaria admirado do seu rosto Vendo-o tão belo... tão sereno e forte! Quando meu Pai deixou o lar amigo Um sabiá da casa muito antigo. Primavera. outono.E ELE MORREU Ao sétimo dia de seu falecimento E ele morreu.

enxuto o olhar. E se cantar como a Saudade canta. e o travo há de sentir. enxuta A face.pássaros da Noute! 114 . Ela. aqui é a Terra! Em que a alma chora e em que a Saudade canta! O caminheiro que o Pesar desterra. Pare chorando nesta Terra Santa. Aqui é o Campo-Santo. enluta E todo mundo que por ela passa Há de beber a taça da cicuta E há de beber até o fim da taça! Há de beber..Esse sombrio trovador é o Inverno! Aqui é a Terra.A DOR Chama-se a Dor. Carpem na sombra pássaros ascetas. ela. e quando passa. e a ameaça Amarga dessa desgraçada fruta Que é a fruta amargosa da Desgraça! E quando o mundo todo paralisa E quando a multidão toda agoniza. inda o olhar sereno De agonizante multidão rodeada. abraçado às campas dos poetas. inda altiva. onde. O caminheiro fique nesta Terra! À noute aqui um trovador eterno Chora. Derrama em cada boca envenenada Mais uma gota do fatal veneno! TERRA FÚNEBRE Aqui morreram tantos poetas! Tanta Guitarra morta este lugar encerra!. . ao noturno açoute.. Gemem poetas .

Luta. De onde me vem esta felicidade?! MEDITANDO Penso em venturas! A alma do homem pensa Sempre em venturas! Sorte do homem! O homem Há de embalar eternamente a crença Sem ter grilhões e sem ter leis que o domem! Punjam-no os vermes da Desgraça. o sonho. E esse ouro santo vir rolando pelas Trevas profundas do meu pensamento! 115 . a crença e o amor. sendo a risonha Santíssima Trindade da Ventura Pode ser venturosa a criatura Que não crê. surjam tédios na Descrença. do meu seio Partiu num célere arrebatamento De minha crença arrebentando a grade Pois se eu não amo e se também não creio De onde me vem este contentamento. e morrem os vermes que o consomem. eu penso na Ventura! E o pensamento. na Suprema Altura Sinto.O SONHO. no imenso Azul do Firmamento Ir rolando pelo ouro das estrelas. Contentamento numa dor medonha?! Há muito tempo. poeta. e por fim. assomem Descrenças. que não ama e que não sonha?! Pois a alma acostumada a ser tristonha Pode achar por acaso ou porventura Felicidade numa sepultura. nada há que o abata e o vença! Por isso. Vence. A CRENÇA E O AMOR O sonho.

Desconheceste Deus no vidro do astrolábio E quando a ciência vã te proclamava sábio A tua construção quebrou-se de repente! 116 . para penetrar o mistério das lousas. em homenagem ao aniversário natalício de Alexandre Rodrigues dos Anjos 28 de abril de 1905.Construíste de ilusões um mundo diferente.. Feito no decurso de dois minutos.PARA QUEM TEM NA VIDA.. Terá no entanto indubitavelmente A admiração do século presente E a sagração dos séculos vindouros! SONETO A FREDERICO NIETZCHE Para que nesta vida o espírito esfalfaste Em vás meditações. homem meditabundo?! Escalpelaste todo o cadáver do mundo E.. O Alexandre dos Anjos merecia Grandes coroas nesse grande dia. O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?! Pois. Para quem tem na vida compreendido Toda a grandeza da Fraternidade O aniversário dum irmão querido A alma de alegres emoções invade..... auríferos tesouros. Foi-te mister sondar a substância das cousas . De que te serviu. e.. nada achaste! A loucura destruiu tudo que arquitetaste E a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo. Atinge o amor um grau nunca atingido No termômetro santo da Amizade. por fim. profundo. estudares. nada achaste. por fim. pois. Tesouros reais. Depois quando no irmão estremecido Fazem aliança o gênio e a probidade.

Representando a integridade humana! Nesses braços de força soberana Gloriosamente á luz do sol desnudos Ao bruto encontro dos ferrões agudos Gemeu por muito tempo a alma africana! No colorido dos teus brônzeos braços.. Quando o fantasma da tuberculose Pediu-te. E eu cuido ver os múltiplos produtos Da Terra . em ânsias. ela subiu. no entanto. E subiu tanto e subiu tanto e tanto Que hoje que és morto.ei-Ia que sobe ainda! Pau D'Arco – 1905 117 . o óbolo da Vida! Recordo agora a nossa despedida Na Estação do Cobé. dois gigantes mudos.. oh! Filho da Hotentóia ufana Teus braços brônzeos como dois escudos.santa nevrose que com fios de ferro as almas cose Principalmente se uma está ferida! Das tuas dores na procela brava Não soubeste talvez que eu te estimava! Mas a amizade oculta não se finda..as flores e os metais e os frutos Simbolizados nesse colorido! VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA À memória do meu colega Caldas Líns Vinhas trilhando gárrulo a Avenida Onde Deus manda que todo homem goze.. São dois colossos.. .O NEGRO Oh! Negro.. Fulge o fogo mordente dos mormaços E a chama fulge do solar brasido. . Embora oculta.

ira-o morrer também. ver Se nesta ânsia suprema de beber.O ÉBRIO Bebi! Mas sei porque bebi!. Nisto. ela seria morta. como eu. O CANTO DA CORUJA A coruja cantara-lhe na porta Sinistramente a noite inteira! Indício Mais certo não havia! . Implora a Deus como a um fetiche vago. Buscava Em verdes nuanças de miragens. O Sol ardia.E o horror começa! Rasga As vestes.. foram buscar a Glória E que. A ninguém nunca eu contarei a história Dos que. Saiu.em busca de ascender A essa Babel fictícia do Prazer Que procuravam e que eu procurava.Quer fugir. Trás de mim. A estrada torta Lembrava a antiga ponte de Sublício. Quantos também...Novo Sileno.. Havia pelo chão um desperdício De folhas que a áurea xantofila corta. ouve o canto aziago da coruja! ..Se ao menos voasse! .. e não vê por onde fuja.. .Era o suplício!. uma convulsão a engasga E morre ouvindo o mesmo canto aziago! 118 . Achava a Glória que ninguém achava! E todo o dia então eu me embriagava .. Daí a pouco. Mas eu não contarei nunca a ninguém. na atra estrada que trilhei. como eu. quantos também deixei. .

Assim como uma casa abandonada. vivia. Batendo com a cabeça no barrote Da guilhotina. de repente. a alma serena..Continua a cantar. diz ao povo: "É pena! .Aqui ainda havia alguma cousa.Foi saudade? Foi dor? . Sei que na infância nunca tive auroras. Por isso.." Pau d'Arco -1905 119 . pressentindo a lousa. Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas. E eu que julgava em minha idealidade Ver inda toda a geração futura! Eu que julgava! Pois não é verdade?! Hoje estou velho. eu já nem sei mais nada! ANDRÉ CHÉNIER Na real magnificência dos gigantes. A cal da sepultura Caiu por sobre a minha mocidade.SENECTUDE PRECOCE Envelheci. Não há quem nele um só tremor denote! . canta vibrantes Versos divinos que arrebatam a hoste....Foi tanta agrura Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade! Sei que durante toda a travessia Da minha infância trágica. Grave como um lacedemônio harmoste André Chénier ia subir ao poste A que Luís XVI subira dantes! Que a sua morte a homem nenhum desgoste E incite o heroísmo das nações distantes.. Mas... ele a morrer... E afora disto. Olha essa neve pura! .

Bem como tu. Não mentes. inda com o braço altivo.. beijou-me com um carinho Que a um ser divino não seria dado.a tumbal cidade. e ainda Te persuades de que sou feliz! 120 . Diz que ele não morreu. sendo assim beijado Muito acima do humano borborinho! Falou-me de ilusões e de luares. . A múmia de um herói do tempo de Ísis.. E. que nessa crença infinda Feliz me viste no Passado. Para onde eu ia.. não andei mais sozinho! Abraçou-me. diz que ele é vivo.. Da tribo alegre que povoa os ares. persuadido fica do que diz. Ostenta ainda as mesmas cicatrizes Que eternizaram sua heroicidade! Quem vê o her6i. A infelicidade Parece às vezes com a felicidade E os infelizes mostram ser felizes! Assim..Assombrava-me aquela claridade! Mas através daquelas falsas luzes Pude rever enfim todas as cruzes Que têm pesado sobre a Humanidade! ILUSÃO Dizes que sou feliz... Dizes Tudo que sentes.MYSTICA VISIO Vinha passando pelo meu caminho Um vulto estranhamente iluminado. E eu me elevava. em Tebas . o vulto ia a meu lado E desde então..

. por seus onze augúrios certos: "E maldito o teu nome! E aos céus abertos. A lua continue sempre a nascer! 121 . de saudades me despedaçando De novo. a sofrer E acostumado a assim sofrer existo. aos tropeços. triste e sem cantar. assombrado.NOME MALDITO Das trombetas proféticas o alarde Falou-lhe. Não há divina proteção que o guarde!" Dúvidas cruéis! Momentos cruéis! Incertos E cruéis momentos! Ânsias cruéis! E. E foi assim que ele morreu um dia Amaldiçoado pelo próprio nome! DOLÊNCIAS Eu fui cadáver.. Saiu aos tombos.. com medo do Infinito. Teve sede e fome. Sofreu o que olhos de homem não têm visto E olhos de fera não puderam ver! Acostumei-me. morrer. assim.. E. Por toda a parte..O tamarindo reverdeça ainda. antes de viver! Meu corpo. Nada se altere em sua marcha infinda . Por toda a parte viu seu nome escrito! Vieram-lhe as ânsias. assim como o de Jesus Cristo. à tarde. onde.E apesar disto. amigos. apesar disto Inda cadáver hei também de ser! Quando eu morrer de novo.. como um cão covarde. Existo! . A percorrer desertos e desertos. pois. quando Eu. ia.

Vem-me então à lembrança o pai Ioiô Na ânsia psíquica da última eficácia! E logo a lágrima em meus olhos cai.A LÁGRIMA . água e albumina..O farmacêutico me obtemperou. Ah! Basta isto. porque isto é que origina A lágrima de todos os vencidos! .. .A farmacologia e a medicina Com a relatividade dos sentidos Desconhecem os mil desconhecidos Segredos dessa secreção divina.Faça-me o obséquio de trazer reunidos Clorureto de sódio. Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai Do que todas as drogas da farmácia! 122 .

Em minha ignota mônada. Amarguradamente se me antolha. A solidariedade subjetiva De todas as espécies sofredoras. E é de mim que decorrem.OUTRAS POESIAS MONÓLOGO DE UMA SOMBRA “Sou uma Sombra! Venho de outras eras. vibra A alma dos movimentos rotatórios. Da substância de todas as substâncias! A simbiose das coisas me equilibra.. Larva de caos telúrico. À luz do americano plenilúnio. Como um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à Natureza Humana. os resíduos ruins dos quiosques E o animal inferior que urra nos bosques É com certeza meu irmão mais velho! Tal qual quem para o próprio túmulo olha. Não conheço o acidente da Senectus -. Como um dorso de azêmola passiva. A saúde das forças subterrâneas E a morbidez dos seres ilusórios! Pairando acima dos mundanos tetos. Amo o esterco.. procedo Da escuridão do cósmico segredo. sem bramânicas tesouras.. sem dispêndio algum de vírus. possuo uma arma -. A podridão me serve de Evangelho..O metafisicismo de Abidarma -E trago. O amarelecimento do papirus E a miséria anatômica da ruga! Na existência social. Do cosmopolitismo das moneras. Pólipo de recônditas reentrâncias. ampla. simultâneas.Esta universitária sanguessuga Que produz. 123 ...

O coração. O horror dessa mecânica nefasta. iguais a fogos passageiros. já nos últimos momentos. Raio X. luzem. Como quem se submete a uma charqueada. Tudo coube na lógica medonha Dos apodrecimentos musculares. Que se chama o Filósofo Moderno! Quis compreender. Sonoridade potencial dos seres. quebrando estéreis normas. ondulação aérea. Que. tatuada de fuligens Esse mineiro doido das origens. A vida fenomênica das Formas. Tal a finalidade dos estames! Mas ele viverá. 124 . em síntese. Quimiotaxia. bestas agrestes. amanhã. O espólio dos seus dedos peçonhentos. magnetismo misterioso. o Homem. a boca. Com a cara hirta. E apenas encontrou na idéia gasta. Nas eterizações indefiníveis Da energia intra-atômica liberta! Será calor. -. abdômen.Engrenagem de vísceras vulgares -Os dedos carregados de peçonha. a coçar chagas plebéias. causa ubíqua de gozo. Estrangulada dentro da matéria! E o que ele foi: clavículas. Trazendo no deserto das idéias O desespero endêmico do inferno. Aí vem sujo. Fonte de repulsões e de prazeres. Sobre a esteira sarcófaga das pestes A mostrar. Ao clarão tropical da luz danada. rotos os liames Dessa estranguladora lei que aperta Todos os agregados perecíveis.Na alma crepuscular de minha raça Como uma vocação para a Desgraça E um tropismo ancestral para o Infortúnio. A que todas as coisas se reduzem! E hão de achá-lo.

o monstro as vítimas aguarda.A desarrumação dos intestinos Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos Dentro daquela massa que o húmus come. vai gozar. consumir-se. No sombrio bazer domeretrício. É uma trágica festa emocionante! A bacteriologia inventariante Toma conta do corpo que apodrece. Sôfrego. Numa glutonaria hedionda.. fazendo um s. O cuspo afrodisíaco das fêmeas. Como no babilônico sansara . Uivando. igual à luz que o ar acomete. Sentindo o odor das carnações abstêmias.. Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo. Suas artérias hírcicas latejam... Negra paixão congênita. bastarda. Toda a sensualidade da simbiose. E explode. No horror de sua anômala nevrose.. em suas clélulas vilíssimas.. À guisa de um faquir. 125 . Lembra a fome incoercível que escancara A mucosa carnívora dos lobos. Como as cadelas que as dentuças trincam No espasmo fisiológico da fome. E à noite. E após tantas vigílias. Brancas bacantes bêbadas o beijam. pelos cenóbios?!. E foi então para isto que esse doudo Estragou o vibrátil plasma todo.. brincam. Como que. ébrio de vício. Há estratificações requintadíssimas De uma animalidade sem castigo. Vendo as larvas malignas que se embrulham No cadáver malsão. Do seu zooplasma ofídico resulta. Num suicídio graduado. em lúbricos arroubos. à noite. reduzir-se À herança miserável dos micróbios! Estoutro agora é o sátiro peralta Que o sensualismo sodomita exalta.. E até os membros da família engulham.

observa através a tênue trança Dos filamentos fluídicos de um halo A destra descarnada de um duende. Fazendo ultra-epiléticos esforços. E de su’alma na caverna escura. Sente que megatérios o estrangulam.Macbeths da patológica vigília. Reconhecendo. Acorda. Abranda as rochas rígidas. bêbedo de sono. A família alarmada dos remorsos. Mas muitas vezes. Essa necessidade de horroroso. Hirto. torna água Todo o fogo telúrico profundo 126 . Dentro da elipse ignívoma da lua A realidade de uma esfera opaca.. Somente a Arte. Assim também.. É o despertar de um povo subterrâneo! É a fauna cavernícola do crânio -. As incestuosidades sanguinárias Que ele tem praticado na família. para agarrá-lo! Cresce-lhe a intracefálica tortura. esculpindo a humana mágoa.. Mostrando. Que é talvez propriedade do carbono! Ah! Dentro de toda a alma existe a prova De que a dor como um dartro se renova. Na própria ânsia dionísica do gozo. quando a noite avança. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa! Míngua-se o combustível da lanterna E a consciência do sátiro se inferna.Com a veemência mavórtica do aríete E os arremessos de uma catapulta. com os candeeiros apagados. observa a ciência crua. em rembrandtescas telas várias. Quando o prazer barbaramente a ataca. Que tateando nas tênebras.. As alucinações tácteis pululam. se estende Dentro da noite má. A asa negra das moscas o horroriza. Numa coreografia de danados.

Chorando e rindo na ironia infausta Da incoerência infernal daquelas frases. Executando. até que minha efêmera cabeça. a desintegre. em suas bases. A aspereza orográfica do mundo! Provo desta maneira ao mundo odiento Pelas grandes razões do sentimento.O homicídio nas vielas mais escuras.O último solilóquio dos suicidas -E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva!” Disse isto a Sombra. -. Há-de ferir-me as auditivas portas. sem que. Na produção do sangue humano imenso. Sem os métodos da abstrusa ciência fria E os trovões gritadores da dialética. Na ânsa de um nervosíssimo entusiasmo. Que a mais alta expressãoda dor estética Consiste essencialmente na alegria. entre daveiras sujas. entanto. Reverta à quietação datrava espessa E à palidez das fotosferas mortas! 127 .O ferido que a hostil gleba atra escarva. Prostituído talvez.. E. E o turbilhão de tais fonemas acres Trovejando grandíloquos massacres. À condição de uma planície alegre. Continua o martírio das criaturas: -.E reduz. A orquestra arrepiadora do sarcasmo! Era a elegia panteísta do Universo.. Da luz da lua aos pálidos venábulos. Era a canção da Natureza exausta. Julgava ouvir monótonas corujas. ouvindo estes vocábulos. -.

UMA NOITE NO CAIRO Noite no Egito. e sobre a paz do mundo A alma dos Faraós anda e vagueia. das pirâmides o quedo E atro perfil. O céu claro e produndo Fulgura. A rua é triste. na mais próxima planície. exposto ao luar. Pasta um cavalo esplêndido da Arábia. Soluça toda a noite a água do Nilo! 128 . Resplandece a celeste superfície. Tonto do vinho. parece Uma sombria interjeição de medo! Como um contraste àqueles mesereres. A Lua cheia Está sinistra..Última nota do conúbio infando -Vêem-se dez jogadores de roleta Fumando. Apenas como um velho stradivário. Troam kinnors ! Depois tudo é tranqüilo... No ângulo mais recôndito da rua Passa cantando uma mulher hebraica.. Convulso e roto. Dorme soturna a natureza sábia. Executando evoluções de razzia Solta um brado epilético de injúria! Em derredor duma ampla mesa preta -. no apogeu da fúria. E dentro dançam homens e mulheres Numa aglomeração cosmopolita. O Cairo é de uma formosura arcaica. um saltimbanco da Ásia. Embaixo.. Os mastins negros vão ladrando à lua. Vaga no espaço um silfo solitário. conversando. discutindo. O Egito é sempre assim quando anoitece! Às vezes. Num quiosque em festa alegre turba grita..

Livres de microscópios e escalpelos. uma besta solta Soltasse o berro da animalidade. Fazendo à noite os homens do Futuro. A ponte era comprida. Uivava dentro do eu . na alma da cidade. Profundamente lúbrica e revolta.. Eu vi. Atravessando uma estação deserta. Dançavam. Como uma pele de rinoceronte Estendida por toda a minha vida! A noite fecundava o ovo dos vícios Animais. Lembro-me bem. a irritar-me os globos oculares. Copiava a polidez de um crânio alvo. E a minha sombra enorme enchia a ponte. Apregoando e alardeando a cor nojenta.. com a boca aberta. 129 . atro e vidrento. Pensava no Destino. de asfalto rijo. indo em direção à casa do Agra. Mostrando as carnes. então.AS CISMAS DO DESTINO I Recife. e tinha medo! Na austera abóbada alta o fósforo alvo Das estrelas luzia. Mas. Bilhões de centrossomas apolínicos Na câmara promíscua do vitellus . à luz de áureos reflexos. E aprofundando o raciocínio obscuro. O trabalho genésico dos sexos. parodiando saraus cínicos. Do carvão da treva imensa Caía um ar danado de doença Sobre a cara geral dos edifícios! Tal uma horda feroz de cães famintos. Eu. O calçamento Sáxeo. Assombrado com a minha sombra magra. A matilha espantada dos instintos! Era como se. Ponte Buarque de Macedo.

Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! Mas o vento cessara por instantes Ou. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse. A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Julgava eu ver o fúnebre candeeiro Que há de me alumiar na hora da morte. como um réu confesso. Não sei por que me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança E um pedaço de víscera escarlate. na ígnea crosta do Cruzeiro. Posta em rija adesão de goma laca Sobre os meus elementos anatômicos. Estendiam-me as mãos rudimentares! Mostravam-me o apriorismo incognoscível Dessa fatalidade igualitária. Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas.Fetos magros. E. Ah! Com certeza. Deus me castigava! Por toda a parte. pelo menos. O ventobravo me atirava flechas E aplicações hiemais de gelo russo. Que fez minha família originária Do antro daquela fábrica terrível! A corrente atmosférica mais forte Zunia. A vingança dos mundos astronômicos Enviava à terra extraordinária faca. ainda na placenta. 130 . Ninguém compreendia o meu soluço. o ignis sapiens do Orco Abafava-me o peito arqueado e porco Num núcleo de substâncias abrasantes. No ardor desta letal tórrida zona. É bem possível que eu umdia cegue.

Que. A hemoglobina vinha cheia de água! Cuspo. Igual ao ruído de um calhau redondo Arremessado no apogeu do estrondo. Na ascensão barométrica da calma. para não cuspir por toda a parte. Que eu. Chegou-me o estado máximo da mágoa! Duas. quotidianamente. Não! Não era o meu cuspo. cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória. Pelos fundibulários da montanha! E a saliva daqueles infelizes Inchava. cujas caudais meus beiços regam. Arrebatada pelos aneurismas. Eu bem sabia. estranha. aos poucos. 131 . te segregam! Escarrar de um abismo noutro abismo. Ia engolindo. quatro. com certeza Era a expectoração pútrida e crassa Dos brônquios pulmorares de uma raça Que violou as leis da Natureza! Era antes uma tosse ubíqua. ansiado e contrafeito. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. três. seis e sete Vezes que eu me furei com um canivete. cinco. Benditas sejam todas essas glândulas. Sob a forma de mínimas camândulas. a hemoptísis! Na alta alucinação de minhas cismas O microcosmos líquido da gota Tinha a abundância de uma artéria rota. em minha boca.E até ao fim. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minh’alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. de tal arte. à guisa de ácido resíduo. Mandando ao Céu o fumo de um cigarro.

Imitando o barulho dos engasgos. Com a força visualística do lince. Iluminava. com as brancas tíbias tortas. a rir. o In e os trasgos. Buscando uma taverna que os açoite. da cor de um doente de icterícia. Rodopiavam. À anatomia mínima da caspa. os duendes. então. Vai pela escuridão pensando crimes. Perpetravam-se os atos mais funestos. estava ali. maior talvez que Vinci. A falta de unidade na matéria! Os esqueletos desarticulados. lembrava ante o meu rosto. E o luar. Numa dança de números quebrados! Todas as divindades malfazejas.Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do Cristianismo! Porque. Embriões de mundos que não progrediram! 132 . de certo. A companhia dos ladrões da noite. se no orbe oval que os meus pés tocam Eu não deixasse o meu cuspo carrasco. a espiar-me. Nessa hora de monólogos sublimes. Davam pancadas no adro das igrejas. Um sugestionador olho. A camisa vermelha dos incestos. Siva e Arimã. sem pudicícia. para hipnotizar-me! Em tudo. ali posto De propósito. Mas um lampião. Jamais exprimiria o acérrimo asco Que os canalhas do mundo me provocam! II Foi no horror dessa noite tão funérea Que eu descobri. meus olhos distinguiram Da miniatura singular de uma aspa. Livres do acre fedor das carnes mortas. Ninguém.

distingo-a. A pedra dura. Nos antiperistálticos abalos Que produzem nos bois e nos cavalos A contração dos gritos instintivos! Tempo viria. cinge-as À imperfeição! Mas vem o Tempo. Escapando-se apenas em latidos! Despir a putrescível forma tosca. E a palavra embrulhar-se na laringe. Como bolhas febris de água. 133 . Todos os personagens da tragédia. Acho-a nesse interior duelo secreto Entre a ânsia de um vocábulo completo E uma expressão que não chegou à língua! Surpreendo-a em quatrilhões de corpos vivos. e vence-O. E o meu sonho crescia nosilâncio. fervendo! Nessa época que os sábios não ensinam. em que. Maior que as epopéias carolíngias! Era a revolta trágica dos tipos Ontogênicos mais elementares. os montes argilosos Criariam feixes de cordões nervosos E o neuroplasma dos que raciocinam! Almas pigméias! Deus subjuga-as.Ser cachorro! Ganir incompreendidos Verbos! Querer dizer-nos que não finge. Cansados de viver na paz de Buda. Deixar cair sobre a barriga inerte O apetite necrófago da mosca! A alma dos animais! Pego-a. Na atra dissoluçào que tudo inverte. Desde os foraminíferos dos mares À grei liliputiana dos pólipos. daquele horrendo Caos de corpos orgânicos disformes Rebentariam cérebros enormes. Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia.

berrava. Com os copos cheios esterilizavam A substância prolífica dos sêmens! Enterravam as mãos dentro das goelas. Aquela humanidade parasita. medulas Na alegria guerreira da desforra! Os protistas e o obscuro acervo rijo Dos espongiários e dos infusórios Recebiam com os seus órgãos sensóricos O triunfo emocional do regozijo. na dor forte do vômito. No meu temperamento de covarde! Mas. Depositavam quase sem consciência As derradeiras forças musculares. igual a um amniota subterrâneo. aflita.A planta que a canícula ígnea torra. Fabricavam destarte os bastodermas. 134 . Como um bicho inferior. refletindo. E eu me encolhia todo como um sapo Que tem um peso incômodo por cima! Nas agonias do delirium-tremens . E as coisas inorgânicas mais nulas Apregoavam encéfalos. E sacudidos de um tremor indômito Expeliam. jazia atravassada no meu crânio A intercessão fatídica do atraso! A hipótese genial do microzima Me estrangulava o pensamento guapo. E apesar de já não ser assim tão tarde. Os bêbedos alvares que me olhavam. sobre o meu caso Vi que. Iam depois dormir nos lupanares Onde. na glória da concupiscência. Em cujo repugnante receptáculo Minha perscrutação via o espetáculo De uma progênie idiota de palermas. Um conjunto de gosmas amarelas. a sós.

embora o homem te aceite. Numa impressionadora voz interna. Rolam sem eficácia os amuletos. ponto final da última cena. como um cordão. o eco particular do meu Destino. Fazer da parte abstrada do Universo. tal qual. a morte é ingrata. pior que o remorso do assassino. Forma difusa da matéria embele.e. em tudo imerso. Meu raciocínio enorme te condena! Diante de ti.. 135 . Minha filosofia te repele. É que as mulheres ruins ficam sem leite E os meninos sem pai morrem de fome! Por que há de haver aqui tantos enterros? Lá no “Engenho” também. nas catedrais mais ricas. Oh! Senhora dos nossos esqueletos E das caveiras diárias que fabricas! E eu desejava ter. III “Homem! por mais que a Idéia deintegres. Há o malvado carbúnculo que mata A sociedade infante dos bezerros! Quantas moças que o túmulo reclama! E após a podridão de tantas moças. Nessas perquisições que não têm pausa.. A inconsciência das máscaras de cera Que a gente prega. num fundo de caverna. Reboou. por tua causa. Ao pensar nas pessoas que perdera.Prostituição ou outro qualquer nome. na cara! Era um sonho ladrão de submergir-me Na vida universal. Os porcos espojando-se nas poças Da virgindade reduzida à lama! Morte. Minha morada equilibrada e firme! Nisto. numa ânsia rara.

fora Mister que. e a ele se prendem Como às pulseiras que os mascates vendem A aderência teimosa da ferrugem. A formação molecular da mirra. antes Fosses. As rebeladas cóleras que rugem No homem civilizado. quando toda a estuada Idéia Dás ao sôfrego estudo da ninféia E de outras plantas dicotiledôneas! A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua Que da ígnea flama bruta. e a hialina lâmpada oca. o cordeiro simbólico da Páscoa. espirra. por perscrutar (oh! ciência louca!) O conteúdo das lágrimas hediondas. em síntese. A própria humanidade sofredora! A universal complexidade é que Ela Compreende. Mesmo ainda assim. E se. seu todo não RESIDENCIA No quociente isolado da parcela! Ah! Como o ar imortal a Dor não finda! Das papilas nervosas que há nos tatos Veio e vai desde os tempos mais transatos Para outros tempos que hão de vir ainda! Como o machucamento das insônias Te estraga.Jamais. sondas A estéril terra. saberás a causa De todos os fenômenos alegres! Em vão. por vezes. 136 . estriada. Negro e sem fim é esse em que te mergulhas lugar do Cosmos. com a bronca enxada árdega. se divide. a refletir teus semelhantes. para que a Dor perscrutes. Trazes. magro homem. não como és. onde a dor infrene É feita como é feito o querosene Nos recôncavos úmidos das hulhas! Porque.

O achatamento ignóbil das cabeças. as nódoas mais espessas. abalando os solos. as negras formas feias Dos aracnídeos e das centopéias. à espera que a mansa vítima o entre. sem mortalha. O trem particular que um corpo arrasta Sinistramente pela via férrea. Lembram paióis de pólvora explodindo. As projeções flamívomas que ofuscam. 137 . a fera ultriz que o fojo Entra. O antagonismo de Tífon e Osíris. Os sanguinolentíssimos chicotes Da hemorragia. O tecido da roupa que se gasta. Que ainda degrada os povos hotentotes. Na sangueira concreta dos massacres.O orbe feraz que bastos jojos acres Produz’a rebelião que na batalha. As pálpebras inchadas na vigília. O homem grande oprimindo o homem pequeno A lua falsa de um parasseleno. A mentira meteórica do arco-íris. -. As aves moças que perderam a asa.Tudo que gera no materno ventre A causa fisiológica do nojo. O fogão apagado de uma casa. A sensação que uma coalhada fresca Transmite às mãos nervosas dos que a buscam. Os terremotos que. Onde morreu o chefe da família. Como uma pincelada rembrandtesca. A cristalização da massa térrea. A água arbitrária que hiulcos caules grossos Carrega e come. O fogo-fátuo que ilumina os ossos. A rotação dos fluidos produzindo A depressão geológica dos pólos. Deixa os homens deitados. O Amor e a Fome.

O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psicoplasma Humano sofre da mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E, (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, À morte desgraçada dos açougues... Tudo isto que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra! Por descobrir tudo isso, embalde cansas! Ignoto é o gérmem dessa força ativa Que engendra, em cada célula passiva, A heterogeneidade das mudanças! Poeta, feito malsão, criado com os sucos De um leite mau, carnívoro asqueroso, Gerado no atavismo monstruoso Da alma desordenada dos malucos; Última das criaturas inferiores Governada por átomos mesquinhos, Teu pé mata a uberdade dos caminhos E esteriliza os ventres geradores! O áspero mal que a tudo, em torno, trazes, Amálogo é ao que, negro e a seu turno, Traz o ávido filóstomo noturno Ao sangue dos mamíferos vorazes! Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes A perfeição dos seres existentes, Hás de mostrar a cárie dos teus dentes Na anatomia horrenda dos detalhes!

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O Espaço -- esta abstração spencereana Que abrange as relações de coexistência E só! Não tem nenhuma dependência Com as vértebras mortais da espécie humana! As radiantes elipses que as estrelas Traçam, e ao espectador falsas se antolham São verdades de luz que os homens olham Sem poder, entretanto, compreendê-las. Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes Que essa mão, de esqueléticas falanges, Dentro dessa água que com a vista abranges, Também prova o princípio de Arquimedes! A fadiga feroz que te esbordoa Há de deixar-te essa medonha marca, Que, nos corpos inchados de anasarca, Deixam os dedos de qualquer pessoa! Nem terás no trabalho que tiveste A misericordiosa toalha amiga, Que afaga os homens doentes de bexiga E enxuga, à noite, as pústulas da peste! Quando chegar depois a hora tranqüila, Tu serás arrastado, na carreira, Como um cepo inconsciente de madeira Na evolução orgânica da argila! Um dia comparado com um milênio Seja, pois, o teu último Evangelho... É a evolução do novo para o velho E do homogêneo para o heterogêneo! Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo A apodrecer!... És poeira e embalde vibras! O corvo que comer as tuas fibras Há de achar nelas um sabor amargo!”

IV Calou-se a voz. A noite era funesta. E os queixos, a exibir trismos danados,

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Eu puxava os cabelos desgrenhados Como o Rei Lear, no meio da floresta! Maldizia, com apóstrofes veementes, No estentor de mil línguas insurretas, O convencionalismo das Pandetas E os textos maus dos códigos recentes! Minha imaginação atormentada Paria absurdos... Como diabos juntos, perseguiam-me os olhos dos defuntos Com a carne da esclerótica esverdeada. Secara a clorofila das lavouras. Igual aos sustenidos de uma endecha Vinha-me às cordas glóticas a queixa Das coletividades sofredoras. O mundo resignava-se invertido Nas forças principais do seu trabalho... A gravidade era um princípio falho, A análise espectral tinha mentido! O Estado, a Associação, os Municípios Eram mortos. De todo aquele mundo Restava um mecanismo moribundo E uma teleologia sem princípios. Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psique no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo! Mas a Terra negava-me o equilíbrio... Na Natureza, uma mulher de luto Cantava, espiando as árvores sem fruto. A canção prostituta do ludíbrio.

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A CARIDADE No universo a caridade Em contraste ao vicio infando É como um astro brilhando Sobre a dor da humanidade! Nos mais sombrios horrores Por entre a mágoa nefasta A caridade se arrasta Toda coberta de flores! Semeadora de carinhos Ela abre todas as portas E no horror das horas mortas Vem beijar os pobrezinhos. Torna as tormentas mais calmas Ouve o soluço do mundo E dentro do amor profundo Abrange todas as almas. O céu de estrelas se veste Em fluidos de misticismo Vibra no nosso organismo Um sentimento celeste. A alegria mais acesa Nossas cabeças invade... Glória, pois, á Caridade No seio da Natureza! Estribilho Cantemos todos os anos Na festa da Caridade A solidariedade Dos sentimentos humanos.

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OS DOENTES

I Como uma cascavel que se enroscava, A cidade dos lázaros dormia... Somente, na metróplole vazia, Minha cabeça autônoma pensava! Mordia-me a obsessão má de que havia, Sob os meus pés, na terra onde eu pisava, Um fígado doente que sangrava E uma garganta órfã que gemia! Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam... E via em mim, coberto de desgraças, O resultado de bilhões de raças Que há muito desapareceram!

II Minha angústia feroz não tinha nome. Ali, na urbe natal do Desconsolo, Eu tinha de comer o último bolo Que Deus fazia para a minha fome! Convulso, o vento entoava um pseudosalmo. Contrastando, entretanto, com o ar convulso A noite funcionava como um pulso Fisiologicamente muito calmo. Caíam sobre os meus centros nervosos, Como os pingos ardentes de cem velas, O uivo desenganado das cadelas E o gemido dos homens bexigosos. Pensava! E em que eu pensava, não perguntes! Mas, em cima de um túmulo, um cachorro

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a ameixa. A queixada específica de um burro! Gordo adubo de agreste urtiga brava. No Alto. Meu ser estacionava. olhando os campos Circunjacentes. Em cuja álgida unção. a abóbora. Além jazia os pés da serra. alto e hórrido. Na esteira igualitária do teu leito! O vento continuava sem cansaço E enchia com a fluidez do eólico hissope Em seu fantasmagórido galope A abundância geométrica do espaço. O hidrogênio e o oxigênio que tu choras Pelo falecimento dos teus filhos! Ah! Somente eu compreendo.Pedia para mim água e socorro À comiseração dos transeuntes! Bruto. satisfeito. em quaisquer horas. A incógnita psique das massas mortas Que dormem. Criando as superstições de minha terra. A comunhão dos homens reunidos Pela camaradagem da moléstia. os astros miúdos Reduziam os Céus sérios e rudos A uma epiderme cheia de sarampos! III Dormia embaixo. A Paraíba indígena se lava! A manga. Apenas eu compreendo. 143 . sobre as hortas. o álamo E a câmara odorífera dos sumos Absorvem diariamente o ubérrimo húmus Que Deus espalha à beira do seu tálamo! Nos de teu curso desobstruídos trilhos. branda e beatífica. Benigna água. magnânima e magnífica. de errante rio. a amêndoa. como as ervas. com a promíscua véstia No enbotamento crasso dos sentidos. o urro Reboava.

Da degenerescência étnica do Ária Se escapava. Um português cansado e incompreensível. 144 . Nas cancerosidades do organismo! Falar somente uma linguagem rouca. Pintando o chão de coágulos sangüíneos! Sentir. Vômitos impregnados de ptialina. dores não recebem. Adivinhando o frio que há nas lousas. OH! desespero das pessoas tísicas. os micróbios assanhados Passearem. estas não tossem! Descender dos macacos catarríneos.Feriam-me o nervo óptico e a retina Aponevroses e tendões de Aquiles. O ruído de uma tosse hereditária. Cair doente e passar a vida inteira Com a boca junto de uma escarradeira. Reboando pelos séculos vindouros. vendo em cada escarro O retrato da própria consciência! Querer dizer a angústia de que é pábulo E com a respiração já muito fraca Sentir como que a ponta de uma faca. Restos repugnantíssimos de bílis. por mais que os cardos grandes rocem Seus corpos brutos. Estas dis bacalhaus o óleo não bebem. Alucinado. Estas não cospem sangue. Maior felicidade é a destas cousas Submetidas apenas às leis físicas! Estas. aos bocados. adstritos ao quimiotropismo Erótico. a existência Numa bacia autômata de barro. Cortanto as raízes do último vocábulo. Vomitar o pulmão na noite horrível Em que se deita sangue pela boca! Expulsar. entre estrépitos e estouros. como inúmeros soldados.

É a alfândega. Lhe houvessem sacudido sobre o peito A máquina pneumática de Bianchi! E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba A erguer. como um cronômetro gigante Marcando a transição emocionante Do lar materno para a catacumba! Mas vos não lamenteis. Pelas algentes Ruas. com o vexame de uma fusa. hoje. Alagava a medula dos Doentes! Do fundo do meu trágico destino. A mágoa gaguejada de um cretino. a água. no Amazonas. 145 . Consagrando vossa última fonética A uma recitação de mesereres. naquele instante. em sonhos mórbidos. urrando ultrajes Contra a dissolução que vos espera! Porque a morte.Não haver terapêutica que arranque Tanta opressão como se. com efeito. magras mulheres. me acorda. Aquele ruído obscuro de gagueira Que à noite. Onde a Resignação os braços cruza. em cachoeiras desobstruídas Encharcava os buracos das feridas. Consoante a minha concepção vesânica. Nos ardores danados da febre hética. Vinha da vibração bruta da corda Mais recôndita da alma brasileira! Aturdia-me a tétrica miragem De que. Saía. Antes levardes ainda uma quimera Para a garganta omnívora das lajes Do que morrerdes. onde toda a vida orgânica Há de pagar um dia o último imposto! IV Começara a chover. resfriando-vos o rosto.

Fedia. Desterrado na sua própria terra. De repente. Na tumba de Iracema!. adstrito à étnica escória. caladas. por fim. entregue a vísceras glutonas. Em vez da prisca tribo e indiana tropa A gente deste século.. Ah! Tudo. Uma desesperada ânsia improfícua De estrangular aquela gente iníqua Que progredia sobre os seus despojos! Mas. 146 . espantada. O gênio de Colombo Manchou de opróbrios a alma do mazombo . acordando na desgraça.. A carcaça esquecida de um selvagem. Cuspiu na cova do morubixaba ! E o índio. Dora em diante Seu povo tombaria agonizante Na luta da espingarda contra a flecha! Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos. sem difíceis nuanças dúbias.. A civilização entrou na taba Em que ele estava. tendo o horror no rosto impresso. Exercia sobre ela ação funesta Desde o desbravamento da floresta à ultrajante invenção do telefone. diante a xantocróide raça loura. E sentia-se pior que um vagabundo Microcéfalo vil que a espécie encerra. Viu toda a podridão de sua raça. Diminuído na crônica do mundo! A hereditariedade dessa pecha Seguiria seus filhos. Esse achincalhamento do progresso Que o anulava na crítica da História! Como quem analisa uma apostema. Jazem. todas as inúbias. E agora.. como um lúgubre ciclone. Com uma clarividência aterradora. Recebeu.

A peçonha inicial de onde nascemos. E quase a todos os momentos mostra Minha caveira aos bêbedos da rua. com voz estentorosa. Os fantasmas hamléticos dispersos Atiram na consciência dos perversos A sombra dos remorsos famulentos. Uma necessidade de suicídio E um desejo incoercível de ser morto! Naquela angústia absurda e tragicômica Eu chorava. E eu. As mães sem coração rogavam pragas Aos filhos bons. Maldiziam. ex. Batia com o pentágono dos dedos Sobre um fundo hipotético de chagas! Diabólica dinâmica daninha Oprimia meu cérebro indefeso Com a força onerosíssima de um peso Que eu não sabia mesmo de onde vinha. rolando sobre o lixo.: o homem e o ofídio.Vê somente a caveira abandonada De uma raça esmagada pela Europa! V Era a hora em que arrastados pelos ventos. Hereditariedades politípicas Punham na minha boca putrescível Interjeições de abracadabra horrível E os verbos indignados das Filípicas. Todos os vocativos dos blasfemos. Com a contorção neurótica de um bicho Que ingeriu 30 gramas de noz-vômica. Como que havia na ânsia de conforto De cada ser. roído pelos medos. 147 . No horror daquela noite monstruosa. Perfurava-me o peito a áspera pua do desânimo negro que me prostra.

E. o anelo instável De. reaparece Na universalidadej do c arbono! A vida vem do éter que se condensa Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma Fazer a luz do cérebro que pensa. Anelava ficar um dia. perante a cova. em suma. por epigênese. como Cristo. Com o horror tradicional da raiva corsa Minha vontade era. Consubstanciar-me todo com a imundície. com o auxílio especial do osso masséter Mastigando homeomérias neutras de éter Nutrir-me da matéria imponderável. 148 . às vezes. na terráquea superfície. Eu voltarei. era A saudade inconsciente da monera Que havia sido minha mãe antiga. Era (nem sei em síntese o que diga) Um velhíssimo instinto atávico. Arrancar do meu próprio corpo a prova Da persistência trágica da força. cansado. veio Eva E a stirpe radiolar chamada Actissa . Não me incomoda esse último abandono Se a carne individual hoje apodrece Amanhã. porém. A pragmática má de humanos usos Não compreende que a Morte que não dorme É a absorção do movimento enorme Na dispersão dos átomos difusos. da árdua liça À substância inorgânica primeva De onde. Confundir-me com aquela coisa porca! Vinha. como um homem doido que se enforca. Tentava. Sem diferenciação de espécie alguma. Reduzido à plastídula homogênea. Menor que o anfióxus e inferior à tênia.

Acordavam os bairros da luxúria. com violência. doentes de hematúria. Se extenuavam nas camas. dando emoção à pedra Na acústica de todos os planetas! VI À álgida agulha. à-toa. ignóbil. Um cão agora Punha a atra língua hidrófoba de fora Em contrações miológicas de raiva.Quando eu for misturar-me com as violetas Minha lira. De certo. Nem tínheis. alva. e as mãos. a saraiva Caindo.. vítima última da insânia. quando o éreis. a perversão de que era presa o sensorium daquela prostituta Vinha da adaptação quase absoluta À ambiência microbiana da baixeza! Entanto. derreada de cansaço. Não tínheis ainda essa erupção cutânea. Cheirava com prazer no sacrifício A lepra má que lhe roía o braço! E ensangüentava os dedos da mão nívea Com o sentimento gasto e a emoção pobre.. entre oscilantes chamas. até que.. Nessa alegria bárbara que cobre Os saracoteamentos da lascívia. O sol malvado que secou a fonte De vossa castidade agora finda! Talvez tivésseis fome. Quase que escangalhada pelo vício. maior que a Bíblia e a Fedra Reviverá.. Duas mamárias glândulas estéreis! Ah! Certamente não havia ainda Rompido. 149 . embalde. agora. virgem fostes. Uma. análoga era. para além.. no horizonte. Mas. Estendestes ao mundo. As prostitutas. e..

argots e aljâmias. A consciência terrível desse inseto! Regougando.Fostes vender a virginal coroa Ao primeiro bandido do arrabalde. no chão frio da igreja. E vai depois levá-lo ao cemitério! E esfregando as mãos magras. A racionalidade dessa mosca. Desde as musculaturas que apodrecem À ruína vegetal dos lírios secos. Como quem nada encontra que o perturbe. Como a boca de um poço artesiano! Atabalhoadamente pelos becos. que a sociedade vos enxota. Eu pensava nas coisas que perecem. Somente as bruxas negras da derrota Freqüentam diariamente vosso quarto! prometem-vos (quem sabe?!) entre os ciprestes Longe da mancebia dos alcouces.De vós o mundo é farto. Nas quietudes nirvânicas mais doces O noivado que em vida não tivestes! VII Quase todos os lutos conjugados. eu. Como uma associação de monopólio. E hoje. porém. Cismava no propósito funéreo Da mosca debochada que fareja O defunto. inquieto. E estais velha! -. A energúmena gei dos ébrios da urbe Festejava seu sábado de infâmias. na craniana caixa tosca. Sentia. Lançavam pinceladas pretas de óleo Na arquitetura arcaica dos sobrados. Dentro da noite funda um braço humano Parecia cavar ao longe um poço Para enterrar minha ilusão de moço. 150 .

assim inchado. Onde minh’alma inteira surpreendia A Humanidade que se lamentava! Era todo o meu sonho. A mandíbula inchada de um morfético! Saliências polimórficas vermelhas.Aquilo era uma negra eucaristia. Sem ter. E o cemitério. Rugindo fundamente nos neurônios. estriges voam. Mas. roubada à humana coorte Morre de fome. Quanta gente. Vem para aqui. uma cabeça Que possa mastigar na hora da morte E nua. O fácies do morfético assombrava! -. lúpulo E outras substâncias tóxicas da tasca. após baixar ao caos budista. como Ugolino. escorraçando a festa. E a ébria turba que escaras sujas masca. nesta hora. Puxava aquele povo de demônios Para a promiscuidade das adegas. Apareceu. Dá-me a impressão de um boulevard que fede. Pela degradação dos que o povoam. Absorvia com gáudio absinto. que a morféia miserável Tornava às impressões táteis. Já podre. palpável. nos braços de um canalha 151 . O ar ambiente cheirava a ácido acético. Em cujo aspecto o olhar perspícuo prendo. em que eu entrei adrede. com o ar de quem empesta. À falta idiossincrásica de escrúpulo. sobre a palha espessa. de repente.A estática fatal das paixões cegas. Como se fosse um corpo organizado! VIII Em torno a mim. Punham-lhe num destaque horrendo o horrendo Tamanho aberratório das orelhas.

Eu maldizia o deus de mãos nefandas Que. a alma aos arrancos. atira a raça negra Ao contubérnio diário das quitandas! Na evolução de minha dor grotesca. Vendo passar com as túnicas obscuras. entre fardos. ao clarão de alguns archotes. À sodomia indigna dos moscardos. iguais a irmãs de caridade. à meia-noite! Com uma ilimitadíssima tristeza. Os evolucionistas benfeitores Que por entre os cadáveres caminham. Ao pegar num milhão de miolos gastos. Comendo carne humana. Todos os meus cabelos se arrepiaram. vinham Com a podridão dar de comer às flores! Os defuntos então me ofereciam Com as articulações das mãos inermes. Pisando. a camisa suada.porque o madapolão para a mortalha Custa 1$200 ao lojista! Que resta das cabeças que pensaram?! E afundado nos sonhos mais nefastos. Na impaciência do estômago vazio. As escaveiradíssimas figuras Das negras desonradas pelos brancos. Todos os animais que apodreciam! É possível que o estômago se afoite (Muito embora contra isto a alma se irrite) A cevar o antropófago apetite. como quem salta. cheio de vermes. Eu mendigava aos vermes insubmissos 152 . transgredindo a igualitária regra Da Natureza. Nos corpos nus das moças hotentotes Entregues. Num prato de hospital. Eu devorava aquele bolo frio Feito das podridões da Natureza! E hirto.

De quem possui um sol dentro de casa. E arrancara milhares de existências Do ovário ignóbil de uma fauna imunda. Ia arrastando agora a alma infecunda Na mais triste de todas as falências. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! O gênio procriador da espécie eterna Que me fizera. trazendo-me ao sol claro. Como o íncola do pólo ártico. às vezes. Nunca mais as goteiras cairiam Como propositais setas malvadas. E eis-me a absorver a luz de fora. À apreensão fisiológica do faro O odor cadaveroso dos destroços! IX O inventário do que eu já tinha sido Espantava. Uma sobrevivência de Sidarta. No frio matador das madrugadas. O adesionismo biôntico das formas Multiplicadas pela lei da herança! 153 . Por sobre o coração dos que sofriam! Do meu cérebro à absconsa tábua rasa Vinha a luz restituir o antigo crédito. Era a volúpia fúnebre que os ossos Me inspiravam. O benefício de uma cova fresca. Proporcionando-me o prazer inédito. após a noite de seis meses. déspota e sem normas. Dentro da filogênese moderna. Absorve. Os raios caloríficos da aurora. Manhã.Como indenização dos meus serviços. No céu calamitoso de vingança Desagregava. em vez de hiena ou lagarta.

Decompondo-se desde os alicerces! A doença era geral. corre.. O começo magnífico de um sonho! Entre as formas decrépitas do povo. Parecia também desagregar-se! O prodromos de um tétano medonho Repuxavam-me o rosto. Acompanhava. em colônias fluídas. entanto. oh! Morte. em vão teu ódio exerces! Mas. A gestação daquele grande feto. Já batiam por cima dos estragos A sensação e os movimentos vagos Da célula inicial de um Cosmos novo! O letargo larvário da cidade Crescia. o vagido de uma outra Humanidade! E eu. com os pés atolados no Nirvana. numa furna. O ar que. Hirto de espanto. com um prazer secreto. O Espaço abstrato que não morre Cansara. tudo a extenuar-se Estava. vinha de dentro Da matéria em fusão que ainda há no centro.. Igual a um parto. os sáxeos prédios tortos Tinham aspectos de edifícios mortos.. Vinha da original treva noturna. Para alcançar depois a periferia! Contra a Arte. a meu ver. Eu sentia nascer-me n’alma. Que vinha substituir a Espécie Humana! 154 .A ruína vinha horrenda e deletéria Do subsolo infeliz..

Como! E pois que a Razão me não reprime. Tu representas toda essa Lisboa De glórias quase sobrenaturais. Antegozando a ensangüentada presa. Foi abalada por um terremoto! A água quieta do Tejo te abençoa. Apenas com uma diferença triste. com este assomo Que a espécie humana em comer carne tem!. Petrarca A queda do teu lírico arrabil De um sentimento português ignoto Lembra Lisboa. não existes mais! 155 . têm carne.À MESA Cedo à sofreguidão do estômago.. como eu. DUAS ESTROFES À memória de João de Deus Ahi! ciechi! il tanto affaticar che giova? Tutti torniamo alla gran madre antica E il nostro nome appena si ritrova.. Ai! Como Os que. Com a diferença que Lisboa existe E tu.. Rodeado pelas moscas repugnantes. Para comer meus próprios semelhantes Eis-me sentado à mesa! Como porções de carne morta. bela como um brinco.. amigo. E agora. É a hora De comer. Que um dia no ano trágico de mil E setecentos e cinqüenta e cinco. Possa a terra vingar-se do meu crime Comendo-me também. Coisa hedionda! Corro.

Clara. a atmosfera se encherá de aromas. quanto a mim. Mas o ramo fragílimo e venusto Que hoje nas débeis gêmulas se esboça. sujo de sangue. Há de beijar-te as mãos todos os dias! Quando chegar depois tua velhice Batida pelos bárbaros invernos. À sombra dos sicômoros eternos! 156 . sem pretensões. te emergiu do ventre! E puseste-lhe. Assim. Bebendo a vida no teu seio gordo! Pois. oh! Mãe. E o antigo leão. haurindo amplo deleite. há de tornar-se arbusto E álamo altivo de ramagem grossa. um novo Ser. comparo... Há de crescer.MATER Como a crisálida emergindo do ovo Para que o campo flórido a concentre. Essas humanas coisas pequeninas A um biscuit de quilate muito raro Exposto aí. nas vitrinas. Do que essa pequenina sanguessuga. No lábio róseo a grande teta farta -. à amostra. Relembrarás chorando o que eu te disse. O Sol virá das épocas sadias. que te esgotou as pomas. -Com que avidez ele essa fonte suga! Ninguém mais com a Beleza está de acordo.Fecunda fonte desse mesmo leite Que amamentou os éfebos de Esparta. entre dores.

as tesouras Brônzeas. não prendi minha existência?! Por que Jeová. Tais quais.. mordendo glabros talos. eu vivo pelos matos.filhos legítimos dos trigos -Nutrem a geração do Ódio e da Guerra. Beber a acre e estagnada água do charco. Os cachorros anônimos da terra São talvez os meus únicos amigos! Ah! Por que desgraçada contingência À híspida aresta sáxea áspera e abrupta Da rocha brava. também gira e redemoinham. haurindo o tépido ar sereno. Por que me deu consciência dos meus atos Para eu me arrepender de todos eles?! Quisera antes. numa ininterrupta Adesão. Por causa disto. Tenho estremecimentos indecisos E sinto. nos fortes fulcros. Magro. Dormir na manjedoura com os cavalos! 157 . maior do que Laplace. roendo a substância córnea de unha. O mesmo assombro que sentiu Parfeno Quando arrancou os olhos de Dionisos! Em giro e em redemoinho em mim caminham Ríspidas mágoas estranguladoras.GEMIDOS DE ARTE I Esta desilusão que me acabrunha É mais traidora do que o foi Pilatos!. Não fez cair o túmulo de Plínio Por sobre todo o meu raciocínio Para que eu nunca mais raciocinase?! Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles Carinhos. Os pães -. Nabucodonosor ser do Pau d’Arco. com que guarda meus sapatos..

Dorme num leito de feridas. no agudo grau da última crise. Chupar os ossos das alimarias! Barulho de mandíbulas e abdômens! E vem-me com um desprezao por tudo isto Uma vontade absurda de ser Cristo Para sacrificar-me pelos homens! Soberano desejo! Soberana Ambição de construir para o homem uma Região. apalpa a úlcera cancerosa. pegajoso e untuoso ao tacto! Reúnam-se em rebelião ardente e acesa Todas as minhas forças emotivas 158 . O braço do ladrão se paralise E a mão da meretriz caia aos pedaços! II O sol agora é de um fulgor compacto. goza O lodo. Beija a peçonha. Comprar vestidos pretos numa loja E andar de luto pelo pai que é morto! E por trezentos e sessenta dias Trabalhar e comer! Martírios juntos! Alimentar-se dos irmãos defuntos. E eu vou andando. Onde a forca feroz coma o carrasco E o olho do estuprador se encha de bichos! Outras constelações e outros espaços Em que. Com a flexibilidade de um molusco. Subtraída à hediondez de ínfimo casco. e não se contamina! Ser homem! escapar de ser aborto! Sair de um vente inchado que se anoja.Mas a carne é que é humana! A alma é divina. Úmido. cheio de chamusco. onde não cuspa língua alguma O óleo rançoso da saliva humana! Uma região sem nódoas e sem lixos.

no árdego trabalho. em vez do nome -. Por toda a parte a seiva bruta esguicha Num extravasamento involuntário.Augusto . largando pêlos. Das laranjeiras eu admiro os cachos E a ampla circunferência das laranjas. queime.. Em grandes semicírculos aduncos. No chão coleia a lagartixa.. fustigue. Nos terrenos baixos. Voam à semelhan ça de cabelos Os chicotes finíssimos dos juncos. salta. Com a rapidez duma semicolcheia. bolem Nas árvores. Possuir aí o nome dum arbusto Qualquer ou de qualquer obscura planta! 159 .. E a alma dos vegetais rebenta inteira De todos os corpúsculos do pólen. A terra cheira. A câmara nupcial de cada ovário Se abre. quero...E armem ciladas como cobras vivas Para despedaçar minha tristeza! O sol de cima espiando a flora moça Arda. depois de morrer. Um pássaro alvo artífice da teia De um ninho. Olhando para as pútridas charnecas Grita o exército avulso das marrecas Na úmida copa dos bambus verdoengos. Os ventos vagabundos batem. Eu.. morda!. pelo ar. O ar cheira. Deleito a vista na verdura gorda Que nas hastes delgadas se balouça! Avisto o vulto das sombrias granjas Perdidas no alto. De árvore em árvore e de galho em galho. corte. Ladra furiosa a tribo dos podengos. depois de tanta Tristeza. Entrançados.

Quantas flores! Agora. outrora. Na bruta dispersão de vítreos cacos. À dura luz do sol resplandecente. As lagartixas. Por saibros e por cem côncavos vales. Une todas as coisas do Universo! 160 . O céu lembra uma lauda Do mais incorruptível pergaminho. O lodo obscuro trepa-se nas portas. O aziago ar morto a morte Fede. Trôpega e antiga. Amontoadas em grossos feixes rijos. dos esconderijos. Urram os bois. Os musgos. Pintam caretas verdes nas taperas. batendo a cauda. uma parede doente Mostra a cara medonha dos buracos. como exóticos pintores. unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança. Viveu.III Pelo acidentalíssimo caminho Faísca o sol. Como um anel enorme de aliança. Uma atmosfera má de incômoda hulha Abafa o ambiente. O cupim negro broca o âmago fino Do teto. Nédios. Me arrasta à casa do finado Toca ! Todas as tardes a esta casa venho. em vez de flores. E traça trombas de elefantes Com as circunvoluções extravagantes Do seu complicadíssimo intestino. Aqui. Não sei que subterrânea e atra voz rouca. sem conchego nobre. sentiu e amou este homem pobre Que carregava canas para o engenho! Nos outros tempos e nas outras eras. O ardente calor da areia forte Racha-me os pés como se fosse agulha. Como pela avenida das Mappales. Estão olhando aquelas coisas mortas! Fico a pensar no Espírito disperso Que.

. É o pedaço já podre de pão duro Que o miserável recebeu na estrada! Não são os cinco mil milhões de francos Que a Alemanha pediu a Jules Favre. Chamando-me do sol com as suas asas! Gosto do sol ignívomo e iracundo Como o réptil gosta quando se molha E na atra escuridão dos ares. Julgo ver este Espírito sublime. trabalhando aos brancos! Seja este sol meu último consolo. Súbito.E assim pensando. é o óbolo obscuro. aqui.. com a cabeça em brasas Ante a fatalidade que me oprime. Que por vezes me absorve. com a misericórdia de um tijolo!. À carbonização dos próprios ossos! 161 .. É o dinheiro coberto de azinhavre Que o escravo ganha. E o espírito infeliz que em mim se encarna Se alegre ao sol. à luz da consciência infame. da mesma forma que o homem morre. De pé. como quem raspa a sarna... arrebentando a horrenda calma. olha Melancolicamente para o mundo! Essa alegria imaterializada. e se gritio é para que meu grito Seja a revelação deste Infiniti Que eu trago encarcerado da minh’alma! Sol brasileiro! queima-me os destroços! Quero assistir.. Só. sem pai que me ame. Grito. A lamparina quando falta o azeite Morre. Tudo enfim a mesma órbita percorre E as bocas vão beber o mesmo leite.

. O Vício estruge. espremendo os peitos.. Bramando. aliando. excita-a o açoite Do incêndio que lhe inflama a língua espúria. Com as mãos chagadas. Ouvem-se os brados Da danação carnal. Espicaça-a a ignomínia. Gane instintivamente de luxúria! Navio para o qual todos os portos Estão fechados. como o estepe. Na sodomia das mais negras bodas Desarticula-se. à falta Da água criadora que alimenta as proles! É ela que. Uma mulher completamente nua! É a meretriz que. A escuridão dos gineceus falidos E a desgraça de todos os ovários! Irrita-se-lhe a carne á meia-noite. arremessada sobre o rude 'Despenhadeiro da decrepitude. funcionária dos instintos. Sente. através os meus sentidos. Reduzidos. E a mulher. a arquivar credos desfeitos. 162 . Na vacuidade das entranhas frias O esgotamento intrínseco da besta! E ela que. em contorções sombrias. à lua. Entre farraparias e esplendores.A MERETRIZ A rua dos destinos desgraçados Faz medo. Sofre em cada molécula a angústia alta De haver secado. a âmbulas moles. urna de ovos mortos. O indumento vilíssimo do servo Ao brilho da augustal toga pretexta. alta noite. O eretismo das classes superiores E o orgasmo bastardíssimo da plebe! É ela que. por fim. Na vizinhança aziaga dos ossuários Representa. hórridos uivos Na mesma esteira pública. Lúbrica. ébria e lasciva. de cabelos ruivos. em coréas doudas. hirta. Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos. recebe. à luz do olhar protervo.

bêbeda de gozo Saciando o geotropismo pavoroso De unir o corpo à terra famulenta! Nesse espolinhamento repugnante O esqueleto irritado da bacante Estrala. Mais que a vaga incoercível na água oceânea. Para a Finalidade Transcendente Gera o prodígio anímico da Insânia! Nas frias antecâmaras do Nada O fantasma da fêmea castigada. E a Carne que. em cada humana nebulosa.. E a dor profunda da incapacidade Que. Lembra o ruído harto azorrague A vergastar ásperos dorsos grossos. filha do inferno. Pagando com volúpia o crime eterno De não ter sido fiel ao seu destino! E o Desespero que se faz bramido De anelo animalíssimo incontido. alvo e desnudo A síntese eucarística de tudo Que não se realizou na Natureza! Antigamente.. Na óptica abreviatura de um reflexo. de bruços. no horror da ocídua fase Esterilizadora de órgãos.. E é aterradora essa alegria de ossos Pedindo ao sensualismo que os esmague! É o pseudo-regozijo dos eunucos Por natureza. aos tácitos apelos Das suas carnes e dos seus cabelos. Fulgia. Ei-la. Toda a sensualidade tempestuosa Dos apetites bárbaros do Sexo! 163 ... pela própria hereditariedade A lei da seleção disfarça em Vício! É o júbilo aparente da alma quase A eclipsar-se. já morta essencialmente.. Passa agora ao clarão da lua acesa E é seu corpo expiatório. É o hino Da matéria incapaz. dos que são caducos Desde que a Mâe-Comum lhes deu início.Chão de onde unia só planta não rebenta...

O atavismo das raças sibaritas. Como o .. Saem da infância embrionária e erguem-se. Ficou rolando. Irradiava-se-lhe.... radiando.. como aborto inútil. Pudera progredir. Na homofagia hedionda que o consome. A hora da morte acende-lhe o intelecto E à úmida habitação do vício abjecto Afluem milhões de sóis. Libertos da ancestral modorra calma... ânsia De perfeição. Brilha na prostituta moribunda Como a fosforescência sobre a lama! É a visita alarmante do que outrora Na abundância prospérrima da aurora. decerto. Resíduos memoriais tornam-se luzes Fazem-se idéias e ela vê as cruzes Do seu martirológio miserando! Inícios atrofiados de ética. Que.. impune. talvez. Agarrou-se-lhe aos seios impudicos Como o abraço mortífero do Ficus 164 . momentaneamente luz fecunda. Mas que. Vinha saciar a milenária fome Dentro das abundâncias do seu leito! Toda a libidinagem dos mormaços Americanos fluía-lhe dos braços. das veias E em torrencialidades quentes e úmidas. Lançando a sombra horrível dos seus vultos Sobre a noite fechada daquela alma! É o sublevantamento coletivo De um mundo inteiro que aparece vivo.. rubros. Numa cenografia de diorama.. adstrito a inferior plasma inconsútil. Criando concupiscências infinitas Como eviterno lobo insatisfeito. hírcica. e a estraga Na delinqüência .. adultos.. do deserto! Vede! A prostituição ofídia aziaga Cujo tóxico instila a infâmia.. Gorda a escorrer-lhe das artérias túmidas Lembrava um transbordar de ânforas cheias. sonhos de culminância..

.. Oferecer-se à bicharia infame Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos! Sentir a língua aluir-se-lhe na boca E com a cabeça sem cabelos....................................................................................................................................... ............. .......................................... ..................... ............................................................................................. Na horrorosa avulsão da forma nívea Dizer ainda palavras de lascívia.............................. ............................ ...................... condenada............ 165 ............ ao trágico ditame...................... oca... Enroscou-se-lhe aos abraços com tal gosto.......... Mordeu-lhe a boca e o rosto....... ..... .......................................................................................................................Sugando a seiva da árvore a que se une! ................................................. .................................................................................. ....... ............................. Ser meretriz depois do túmulo! A alma Roubada a hirta quietude da urbe calma Onde se extinguem todos os escolhos: E................

atenta a orelha cauta. enfim. eu que idolatro o estudo. é como a cana azeda. enfim. chegando à última calma Meu podre coração roto não role.VERSOS DE AMOR A um poeta erótico Parece muito doce aquela cana.. Como um saco vazio dentro d’alma! 166 . tal como eu o estou amando. Todas as ciências menos esta ciência! Certo.o inventor da flauta -Vou inventar também outro instrumento! Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo Ambiciono. É assim como o ar que a gente pega e cuida. Pudera eu ter. Imponderabilíssima e impalpável. amo Mas certo. Como Mársias -. Integralmente desfibrado e mole. ilusão treda! O amor. este o amor não é que. o egoísta amor este é que acinte Amas. não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes. Porque o amor. do egoísta Modo de ver. Descasco-a. É Espírito. provo-a. por experiência. Oposto ideal ao meu ideal conservas. Por conseguinte Chamas amor aquilo que eu não chamo. Para que. poeta. Diverso é. entretanto. é substância fluida. E hoje que.. observo o amor. em ânsias. pois. Cuida. é éter. oposto a mim. Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! Para reproduzir tal sentimento Daqui por diante. Quis saber que era o amor. que o idioma em que te eu falo Possam todas as línguas decliná-lo Possam todos os homens compreendê-lo. o observas. consoante o qual. chupo-a. o ponto outro de vista Consoante o qual. A toda a boca que o não prova engana. conheço o seu conteúdo.

. em ânsias. depois disso. contra ele. no quadrilátero da alcova. Trabalharei assim dias inteiros. . sobre a forja ardente Da ilha de Lemnos.. Sem ter uma alma só que me idolatre. os monstros zombeteiros. trágico e maldito. olhando o céu que além se expande: ". Entendi.O pensamento é uma locomotiva Tem a grandeza duma força viva Correndo sem cessar para o Progresso. Como Vulcano. Mas meu orgulho ainda é maior do que ela! Ruja a boca danada da profana Coorte dos homens. Que importa que.A LUVA Para o Augusto Belmont Pensa na glória! Arfa-lhe o peito. com o seu grande grito. Durante as vinte e quatro horas do dia! Riam de mim. que devia. Como Camões morrendo sobre um catre!" Nisto. horrendo e preto O áspide abjeto do Pesar se mova!. abre. trabalhar contente.. opresso. 167 . E só.A maldade do mundo é muito grande. Escrevia Mais por impulso de idiosincrasia Do que por uma propulsão consciente. Tenha a sorte de Cícero proscrito Ou morra embora. Vem-lhe á imaginação este soneto: "A princípio escrevia simplesmente Para entreter o espírito... a tumbal janela E diz..

E na suprema convulsão o doudo Parece aos astros atirar a luva! 168 . sacudindo-o todo. Batem-lhe os nervos. Sobre a cidade geme a chuva.Que meu orgulho do alto do Infinito Suplantará a própria espécie humana! Quebro montanhas e aos tutões resisto Numa absolta impassibilidade". E como um desafio à eternidade Atira a luva para o próprio Cristo! Chove.

E não haver quem. por ver-vos. E eu sí a tremer com a língua grossa E a volição no cúmulo do exício. Que forma a coerência do ser vivo. e erguia. 169 .NOITE DE UM VISIONÁRIO Número cento e três. alto. Como um cara. E a ela se aliava o ardor das sirtes líbias. A essa hora. Com a rebeldia acérrima dos nervos Minha atormentadíssima cabeça. sob os pés do orgulho humano. Mas a aguadilha pútrida o ombro inerme Me aspergia. nas telúrias reservas. íntegra. Arimânico gênio destrutivo Desconjuntava minha autônoma alma Esbandalhando essa unidade calma. E a cimalha minúscula das ervas.“Que esta alucinação tátil não cresça!” -. Recebiam os cuspos do desprezo. Cortanto o melanismo da epiderme. oh! céu. Como quem é levado para o hospício Aos trambolhões. Rua Direita. recebendo injúrias. É a potencialidade que me eleva Ao grande Deus. num canto de carro. Com os ligamentos glóticos precisos. O reino mineral americano Dormia.Dizia. Eu tinha a sensação de quem se esfola E inopinadamente o corpo atola Numa poça de carne liquefeita! -. e absorve em cada viagem Minh’alma -.ca! Perante o inexorável céu aceso Agregações abióticas espúrias. lhe entregue. banhava minhas tíbias.este sombrio personagem Do drama panteístico da treva! Depois de dezesseis anos de estudo Generalizações grandes e ousadas Traziam minhas forças concentradas Na compreensão monística de tudo.

Dedos denunciadores escreviam Na lúgubre extensão da rua preta Todo o destino negro do planeta. Mais tristes que as elegais de Propércio. O motor teleológico da Vida Parara! Agora. me pediam. lembravam Toalhas molhadas sobre as minhas pernas.A liberdade de vingar em risos A angústia milenária que o persegue! Bolia nos obscuros labirintos Da fértil terra gorda. Com a abundância de um geyser deletério.coetâneo do horrendo cataclismo -Era puxado para aquele abismo No redemoinho universal das cousas! 170 . Onde minhas moléculas sofriam. úmida e fresca. Um pedaço de língua disponível Para a filogenética vingança! A cidade exalava um podre béfio: Os anúncios das casas de comércio. Vinha do coração quente da terra Um rumor de matéria dissolvida. em diástoles de guerra. A ínfima fauna abscôndita e grotesca Da família bastarda dos helmintos. Pareciam talvez meu epitáfio. Um necrófilo mau forçava as lousas E eu -. A química feroz do cemitério Transformava porções de átomos juntos No óleo malsão que escorre dos defuntos. o colpode E outros irmãos legítimso da ameba! E todas essas formas que Deus lança No Cosmos. E no estrume fresquíssimo da gleba Formigavam. O vibrião. com o ar horrível. o ancilóstomo. Pela alta frieza intrínseca. As vegetalidades subalternas Que osserenos noturnos orvalhavam. com a símplice sarcode.

Abandonada aos lobos e aos leopardos Numa floresta lúgubre e esquisita. Os astros mortos refulgiam vivos E a noite. Era uma viúva. e o olhar errante. dentro. aos lampejos derradeiros Das irisadas vespertinas velas. Uma vez. Fulgia em tudo uma estriação violeta E um violáceo clarão banhava os mochos Que em torno estavam da mesquita preta. Engalanava-lhe as paredes frias Uma coroa de urzes e de cardos Coberta em pálio pelas laçarias. Foram caindo como estalactites Sobre o ouro e a prata das alfaias priscas 171 . Mochos vagavam como sentinelas.A VITÓRIA DO ESPÍRITO Era uma preta. a viúva. A Lua encheu o espaço sem limites E.Um vento frio começou gemendo. Feras rompiam tolos e balseiros. nos altares esboroados. Já na eminência da amplidão sidérea Como uma umbela. Em passo lento. se desenrolava A esteira astral da retração etérea. ampla e brilhante. Em atalaia às gerações passadas! Um crepúsculo imenso. E pelas catacumbas desprezadas. Súbito alguém.. rutilava Lantejoulada de opalinos crivos. nunca visto Tauxiava o Céu de grandes roxos Da mesma cor da túnica de Cristo.. foi transpondo a porta. . o passo constrangendo. Eternamente aberta ao sol e à chuva. Parou em frente da mesquita morta. funeral mesquita.

Morria a noite. as panteras todas Avançam para a viúva desvalida. E iam cair em pérolas de sangue Sobre as asas doiradas das abelhas. por um chão de onagras Vinha passeando corno numa viagem Um grupo feio de panteras magras. As flâmulas altivas Do sol nascente erguiam-se vermelhas. entretanto. O espírito da viúva se quedara Ao contemplar dessa fulgente porta E dessa clara e alva redoma aérea.O próprio Deus cantava na floresta! Nos arvoredos rejuvenescidos. Fora. No desfilar de sua carne morta A transitoriedade da matéria! 172 . A Natureza celebrava a festa Do astro glorioso em cantos e baladas . entanto. E sobre o corpo da viúva exangue. infernais ardendo Todas as feras. Tiram-lhe todas ali mesmo a vida. E havia no atro olhar dessas panteras Essa alegria doida da carnagem Que é a alegria única das feras. Como uma exposição de carnes vivas. Estrugiam canções desesperadas De misereres e de sustenidos. na redoma clara Que envolve a porta da região etérea. E ardendo na impulsão das ânsias doidas E em sevas fúrias. arremetendo. E raivosas.Um dilúvio de fósforos prateados E uma chuva doirada de faíscas. Além. contra ela.

Impressionado sem cessar com a Morte E sentindo o que um lázaro não sente. Qual num sonho arrebatado fosse.. E ao longe soam trágicos fracassos De heróis. Assim. Rica. ao sol. ostentando amplo floral risonho. entre assombros. passeia! A agonia do sol vai ter começo! Caio de joelhos. tenho alucinações de toda a sorte. partindo e fraturando os braços Nas pontas escarpadas dos rochedos! Mas de repente. Verde. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas... Anunciando desmoronamentos De mil lajedos sobre mil lajedos.. Sente vontade de cair de joelhos! Soa o rumor fatídico dos ventos. A saudade interior que há no meu peito.. exata. num enleio doce. Ofereço Preces a Deus de amor e de respeito E o Ocaso que nas águas se retrata Nitidamente repdoruz. afetando a forma de um losango. em luz perpétua. À cuja sombra descansou Colombo! Foi nessa ilha encantada de Cipango. brilha A árvore da perpétua maravilha. E por essa finíssima epiderme Eis-me passeando como um grande verme Que. 173 . no meio.. Na ilha encantada de Cipango tombo. Da qual.. Os olhos volvo para o céu divino E observo-me pigmeu e pequenino Através de minúsculos espelhos.... Pára. Atravessando os ares bruscamente. pela vez primeira.A ILHA DE CIPANGO Estou sozinho! A estrada se desdobra Como uma imensa e rutilante cobra De epiderfe finíssima de areia. quem diante duma cordilheira. em plena podridão. trêmulo.

...Que Toscanelli viu seu sonho extinto E como sucedeu a Afonso Quinto Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho! Lembro-me bem. Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrioi! Um penetrante e corrosivo frio Anestesiou-me a sensibilidade E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. E finalmente me cobri de flores. E como agora a lua cheia brilha! Ilha maldita vinte vezes a ilha Que para todo o sempre me fez triste! 174 ... Banhei-me na água de risonhos lagos. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha... O Firmamento é uma caverna oblonga Em cujo fundo a Via-Láctea existe. Iríamos a um país de eternas pazes Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. Passa o seu enterro!. Gozei numa hora séculos de afagos.. A luz descreve siguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos! E a treva ocupa toda a estrada longa. A tarde morre.

Alegoria tristonha Do que pelo Mundo vai! Se um sonha e se ergue.. em lúcido véu. fingindo cristais Das mais deslumbrantes cores. Vai uma onda. Se um cai.globo de louça Surgiu. Lá onde as rochas se assentam Fulguram como outros sóis Os flamívomos faróis Que os navegantes orientam. de cima. Quem as esconda. Cantam! Os astros do Céu Ouçam e a Lua Cheia ouça! 175 . a luzir Como um diamante de Ofir Imita a curva de um arco. Em fulvos filões doirados Cai a luz dos astros por Sobre o marítimo horror Como globos estrelados. Vagueia um poeta num barco.. A Lua . Espelham-se os esplendores Do céu. as esconda.BARCAROLA Cantam nautas. Mas desgraçado do pobre Que em meio da Vida cai! Esse não volta. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas. nas Águas. vem outra onda E nesse eterno vaivém Coitadas! não acham quem. outro cai. em reflexos. esse vai Para o túmulo que o cobre. outro se ergue e sonha. O Céu.

. Súbito o barco tombou Sem que o poeta o pressentisse! Vista de luto o Universo E Deus se enlute no Céu! Mais um poeta que morreu. "Sonhador do último sonho! "Numa redoma ilusória "Cercou-te a glória falaz. E como um requiem profundo De tristíssimos bemóis.Ouça do alto a Lua Cheia Que a sereia vai falar. porém. forte. "O poeta é como Jesus! "Abraça-te á tua Cruz "E morre. Mais um coveiro do Verso! Cantam flautas. Que é que ela diz?! Será uma História de amor feliz? Não! O que a sereia diz Não é história nenhuma.. poeta da Morte!" .E disse e porque isto disse O luar no Céu se apagou. Haja silêncio no mar Para se ouvir a sereia.. "Viajeiro da Extrema-Unção. nunca mais "Há de cercar-te essa glória! "Nunca mais! Sê.. Sua voz é igual à voz Das dores todas do mundo. "Fecha-te nesse medonho "Reduto de Maldição. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas! 176 . "Mas nunca mais...

Há de transpor sereno os penetrais Da Pátria. e. risonho. A República rola-lhe nos ombros. fazei que destes brilhos. Rola um drama que a Pátria exalça e doura Numa auréola de paz imorredoura.Estrela d'Alva imaculada e pura! É livre a Pátria outrora opressa e exangue! Esse labéu que mancha a glória pública. . Como um Tritão. levando ao mundo inteiro. É que baqueia a vida escravizada! Já se ouvem os clangores do pregoeiro. Da República a nova sublimada. e há de elevar-se neste sonho Ao topo azul das Glórias Imortais! Esplende. Não! que esse ideal puro. Banhou-se o coração do Brasileiro Num eflúvio de luz auroreada. Que apouca o triunfo e que se chama sangue. Manchar não pode as aras da República. Essa luz etereal bendita e calma. Da liberdade ao toque alvissareiro.AVE LIBERTAS Ao clarão irial da madrugada. pois. Caia do santuário lá da História. A bênção do valor dos vossos filhos! 177 . Oh! Liberdade. Vós. oh! Redentora d'alma. E ali do despotismo entre os escombros. oh Pátria. essa bendita e branca Luz que os negrores da opressão espanca. esplendorosa. A Liberdade assoma majestosa. Fulgente do valor da vossa glória. Enquanto fora na trevosa agrura Sucumbe o servilismo.

ESTROFES SENTIDAS Eu sei que o Amor enche o Universo todo E se prende dos poetas à guitarra Como o Pólipo que se agarra ao lodo E a ostra que às rochas eternais se agarra. ao matinal assomo. nas oliveiras. A compreensão da minha niilidade Aumenta à proporção que aumenta o dia E pouco a pouco o encéfalo me invade Numa clareza de fotografia. Passa um rebanho de carneiros dóceis. Uniformiza todos os anelos E une organizações fortes e fracas Nos mesmos laços e nos mesmos elos. Uma montanha que se desmorona. Na área em que estou. E em qualquer parte do Universo veja Sombrias ruínas de um solar egrégio E o desmoronamento duma Igreja Despedaçada pelo sacrilégio. desvairado. sem prever o abismo Fiz desse amor um ídolo de Roma. Além. E o Sol arranca as minhas crenças como Boucher de Perthes arrancava fósseis. 178 .Mas hoje. Aves de várias cores e de várias Espécies. A Natureza veste extraordinárias Roupagens de ouro. O amor reduz-nos a uniformes placas. Eleito Deus no altar do fetichismo! Tudo sacrifiquei para adorá-lo . Por muito tempo eu lhe sorvi o aroma. cantam óperas inteiras. Estremecendo em suas próprias bases. E.. à luz das minhas frases.. Tenho vontade de estrangulá-lo E reduzi-lo muitas vezes a ossos! Todo o ser que no mundo turbilhona Veja do Amor. vendo o horror dos meus destroços.

construindo corpos quase informes E aquilo que é uma parcela apenas. O Sábio vê em proporções enormes Aquilo que é composto de pequenas Partes.. ébria de fumo e de ópio. à frente dele. heroicamente. e não tal qual a sonha E a vê o Sábio pelo telescópio. eu vou cantando a nênia Do Amor que eu tive e que se fez argila. demonstrando-a. À sombra dum verdoengo tamarindo Que representa a minha infância morta! 179 . tanjo minha harpa E a harpa saudosa a minha Dor exprime! Estes versos de amor que agora findo Foram sentidos na solidão de uma horta. à nitidez real dos aspectos. sinto um violento Rancor da Vida .Observo então a condição tristonha Da Humanidade. na água Da misteriosíssima lagoa Que a língua humana denomina Mágoa! Dos meus sonhos o exército desfila E. A inanidade da Ilusão demonstro Mas.. Da observação nos elevados montes Prefiro. E quando a Dor me dói. Ver mastodontes onde há mastodontes E insetos ver onde há somente insetos.este maldito monstro Que no meu próprio estômago alimento! Nisto a alma o oficio da Paixão entoa E vai cair. Tal qual ela é. Como Tirteu na guerra de Messênia! Transponho assim toda a sombria escarpa Sinistro como quem medita um crime.

Ah! Se me ouvisses falando! (E eu sei que ás dores resistes) Dir-te-ia coisas tão tristes Que acabarias chorando. Que o amor abriu no meu peito. Vem cá. em sonhos. em sonhos erra. Onde há sonhos inefáveis Vejo os vermes miseráveis Que hão de comer os meus braços. Muito longe. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra! O Sol está moribundo. Não me queixo mais da sorte Nem tenho medo da Morte Que eu tenho a Morte em mim mesmo! "Meu amor. a esmo. De lá. olha estas feridas. Um grande recolhimento Preside neste momento Todas as forças do Mundo. Muito longe. dos grandes espaços. erra. se duvidas. Passo longos dias.CANTO ÍNTIMO Meu amor. Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra!" 180 .

sinto A insaciabilidade desse gozo! 181 . Amor.Misto de infinita mágoa e de crença infinita. agonia. Neve da minha dor.. Agonia de amar.. a sós.Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore como Chorei. Nos desertos da Vida uma estrela fulgura E o Viajeiro do Amor. Caminha e vai. uma nuvem que corre. Numa prece de amor.. experimento O mais profundo e abalador atrito. agonia! . numa delícia infinda.CANTO DE AGONIA Agonia de amor. quanto mais me desespero. num volutuoso assomo. Delícia que ainda gozo. Queimam-me o peito cáusticos de fogo Esta ânsia de absoluto desafogo Abrange todo o circulo infinito. e o sofrimento De minha mocidade. vendo-a.. morre! E a alma se lhe dilui na amplidão infinita. neve. agonia. Fazer parar a máquina do instinto. triste. .Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve. e vê a luz e vendo Uma sombra que passa. murmura: .. abraça a sombra e. e entre sorrisos e entre Mágoas soluço. neve do meu destino! E eu aqui a chorar nesta noite tão fria! Agonia. Na insaciedade desse gozo falho Busco no desespero do trabalho. agonia bendita! GOZO INSATISFEITO Entre o gozo que aspiro. Mas. escuridão e eterna claridade. o louco..Diz e morre-lhe a voz.. prece que ainda Entre saudades rezo. e cansado e morrendo O Viajeiro vai. até que esta dor se concentre No âmago de meu peito e de minha saudade. ontem. Sem um domingo ao menos de repouso.. amor e frio. Neve que me embala como um berço divino. agonia bendita! . Frio que me assassina. oração.

trôpego e cambaleando Foi-se arrastando. Mas o braço cansou! Trabalhou. aclara o mar e por tudo se estende E arde em tudo. A flama oriunda Da solar refração bate no mundo. desoladoramente A revolver da terra o atro e infecundo arcano. A terra escalda: é um forno. foi aos poucos se arrastando.Do Eterno Bem motor principal e alavanca Arrancara-lhe a Crença assim como se arranca De um ninho a seda branca e de uma árvore o galho! Sangrou-lhe o coração a saudade da Aurora! . Por seis horas seu braço empenhado na luta.. a superfície bruta. E em tudo que o rodeava.. lúgubre e só. nesta maldita senda De sofrimento ignaro em sofrimento ignaro Ir caminhando até tombar sem um amparo No tremendo marneI da Desgraça tremenda?! II Noute! O silêncio vinha entrando pelo mundo E ele. acende O pó. Fez reboar pelo solo.O Hércules que ele fora! O fraco que ele hoje era! E surpreendido viu que um abismo se erguera Entre o fraco que era hoje. do alegre Sol ao grande globo quente E pôs-se para aí. funéreo 182 . e o trabalho . Para as bordas fatais dum precipício fundo! Quis um momento ainda olhar para o Passado. oito vezes. Rasgando. do agro solo. Triste.HISTÓRIA DE UM VENCIDO I Sol alto.. alta e descompassada A dura vibração incômoda da enxada. E o Velho veio para o labor cotidiano.. e entre o Hércules de outrora! Pois havia de assim. mordendo a atra terra infecunda.

no horror bruto da despedida Abraçou-se com a Dor. a rugir-lhe aos pés.. o peito arqueou-se. bêbado de miragem. ele pisasse os trilhos. e o braço Pendeu exangue. o precipício estava. Somente entre a negrura atra da terra poenta Alguém beija. e a sonhar. Nem viu que era chegado o termo da viagem.o último esforço. os filhos. E amplo. avistar a Árvore da Esperança. Quis fazer um esforço .. o acalenta.. E bateram-lhe então de chofre na lembrança A casa que deixara. louco. o Velho caminhava. tombando.Horrorizado viu como num cemitério Cadáveres de um lado e cinzas de outro lado! De súbito. sozinho. a flux d'água. onde arde e floresce a Crença. enquanto a Terra Vencedora Celebrava ao luar a Missa dos Vencidos! E o cadáver. pois! Somente morreria Se da Vida. Caminhava. e ele quis falar e estava mudo! Mudo! E a quem contaria agora as suas mágoas?! E trágico.. avistando uma frondosa tília Julgou. e compreendendo tudo. Compensaria toda a sua dor imensa Tal qual o Céu a dor de Cristo compensara! E aos tropeços. viveria! Viveria! E a fecunda e deleitosa seara Verde dos campos.. abraçou-se com a Vida E sepultou-se ali no coração das águas! Cantavam muito ao longe uns carmes doloridos! Eram tropeiros. Num instante viu tudo. o cansaço Empolgara-o. Que mal lhe haviam feito a esposa e a irmã e os filhos?! Preciso era viver! Portanto. ninguém o acalenta. flutua! Ninguém o vê. a família! Não morreria. era a turba trovadora Que assim cantava.. alguém vela o cadáver: a Lua! 183 ... a toa.

Crepúsculo fatal vindo do Nada! Que importa o Sol! A Treva. aos astrais desígnios. Subindo á majestade do Infinito. da Noite ao negro assomo Beijam-lhe o corpo ensangúentado d'ouro. Na majestade dum condor bendito. luminosas.. e. Descem os nimbos. Martirizado porque nunca dorme As Sete Chagas dum martírio enorme.. volaterizadas.. santa e vitoriosa Dentre um velarium de veludos.. ígneo. E os Sete Passos que magoaram Cristo! II Agora dorme o astro de sangue e de ouro Como um sultão cansado! As nuvens como Odaliscas. pompeiam (triste maldição!) . mudo.IDEALIZAÇÕES A Santos Neto I Em vão flameja. No ar há malabatros Turiferando a negridão tediosa. e o meu pesar se eleva E chora e sangra. A VIa-Láctea vai abrindo os braços! Áureas estrelas. Negras.. sangrento O sol. mudo. dourando as névoas dos espaços. Além. Nas chispas fulvas de um vulcão violento! E tudo em vão! Atrás da luz dourada. alvas. mudo. a Sombra . Atros.eis tudo! E no meu peito .condensada treva A sombra desce. fulvos. rubro.ocaso nunca visto. Trazem no peito o branco das manhãs 184 . E a Noite emerge. Raios flamejam e fuzilam ígneos. . Legiões de névoas mortas e finadas Como fragmentações d'ouro e basalto Lembram guirlandas pompeando no Alto Eterizadas.Asas de corvo pelo coração. E há no meu peito ..

dominando o mundo! Mas de que serve o Sol. ontem moribundo. Tudo por fim há de acabar na mesma Tênebra que hoje sobre ti desaba. se tornassem ferros?! IV Poeta. se erguer. Abençoada pela Eternidade! E ei-lo de novo.hóstia da Aurora. aclarando os cerros E engalanando os arvoredos gaios. 185 . se. Mais em meu peito uma ilusão se enterra. Ninguém se exime dessa lei imensa Que.o Sol . como tombou outrora. em lodo tudo acaba. há-de Alva. ciclópico.E dormem brancas corno leviatãs Sobre o oceano astral das nebulosas. entre esplendores. assassino Ébrio de fogo. III De novo. Vésper me encanta. em vão na luz do sol te inflamas. a Aurora.. Ah! Como tu. Eu amo a noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. em plena e fulva reverberação. curvo ao seu destino. de que serve. E nessa luz queimas4e em vão! És todo Pó. Sírius me deslumbra. o tigre. como se esses raios N'alma caindo. de que serve Se é desespero e maldição todo ele?! Pois. O leão. E corno a Aurora . se triste em cada Raio que tomba no marnel da terra. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca. A Mágoa ferve e estua. e hás de ser após as chamas. se. A alma se abate. a lesma. Como Herculanum foi após as chamas. Fantástico. Mais em minh'alma um desespero brada?! De que serve. Hoje de novo.. o mastodonte. lodo. á luz áurea que dele Emana e estua e se refrange e ferve.

de ilusões te nutres. Canto. Medonhas valas. Sírius me deslumbra.Arrasta as almas pela Escuridão. Harpas concertam! Brandas melodias Plangem.. pelas escarpas. Ergue. Eu amo a Noite que este Sol arranca! Namoro estrelas.. onde. E arrasta os coraç5es pela Descrença.. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca! 186 . Iluminando as serranias. a Lua que no céu se espalha. e num supremo e insano E extraordinário e grande e sobre-humano Esforço. Então. banha As serranias duma luz estranha. frias. pois poeta... E em vez de chagas e de cicatrizes Deixar.. Vésper me encanta. sobe ao pedestal. de ossos..Fera rendida à música divina. pelas penedias.. Geme a pungente orquestração noturna E chora a fanfarra triunfal da Morte. como abutres Medonhos. E foi deixando essas funéreas. Como recordação da festa diurna. Pelos rochedos. Vives de cinzas e de ruinarias! V Agora é noite! E na estelar coorte. Alva corno um pedaço de mortalha! Nessa música que a alma me ilumina Tento esquecer as minhas pr6prias dores. e. canta! Canta a Descrença que passou cortando As tuas ilusões pelas raízes. Silêncio! Mas de novo as harpas Reboam pelo mar. e minh'alma cobre-se de flores . foi valas funerais deixando. um pedestal de tanta Treva e dor tanta.

. logo Toda a alvorada esplêndida se ostenta. Em cujo olhar o Vicio não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Por que cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. em mágoa.. Desta cidade pelas ruas erra A procissão dos Mártires da Terra Desde os Cristãos até Giordano Bruno! Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta.. Depois de embebedado deste vinho. A dispersão dos sonhos vagos reuno. 187 .Por que é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ou mapa-múndi estranha. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim.. eu também vou passando Sonâmbulo. sonâmbulo. sonâmbulo.. Por que não evitei o precipício Estrangulando minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! À proporção que a minha insônia aumenta Hierógafos e esfinges interrogo.. E invejo o sofrimento desta Santa. nos céus altos.INSÔNIA Noite. Mas. triunfalmente... Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido Como um bemol e como um sustenido Rola impetuosa por meu peito adentro?! .

As árvores. Com o olhar a verde periferia abarco.. Estou alegre. os corimbos. Atro dragão da escura noite. equilibrando-se na esfera. Outra vez serei pábulo do susto E terei outra vez de.. em mágoa imerso. Cercado destas árvores. Agora. Em que o Tédio. por exemplo. Restitui-me a pureza da hematose E então uma interior metamorfose Nas minhas arcas cerebrais se opera. as flores. estronda Como um grande trovão extraordinário. hedionda. contemplo As maravilhas reais do meu Pau d'Arco! Cedo virá. o funerário. Aqui. neste silêncio e neste mato. Respira com vontade a alma campônia! Grita a satisfação na alma dos bichos. Sacrificar-me por amor do Verso No meu eterno leito de Procusto! 188 . No espaço a luz de Aldebarã e de Árgus Vai projetando sobre os campos largos O derradeiro fósforo da Vida. O Sol... Recordam santos nos seus próprios nichos.Vagueio pela Noite decaída. batendo na alma. O odor da margarida e da begônia Subitamente me penetra o olfato. Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos. porém.

aparece. sinto O amargor especifico do absinto E o cheiro animalíssimo do parto! E afogo mentalmente os olhos fundos Na amorfia da cítula inicial. A nutrir diariamente os fetos nus Pelas vilosidades da placenta? Certo. "Onde os ventres maternos ficam podres. é do sonho assíduo Que a individual psique humana tece e O outro é o do sonho altruístico da espécie Que é o substractum dos sonhos do indivíduo! E exclamo. "Onde nenhuma lâmpada se acende. E o que depois fica e depois Resta é um ou. Todos os organismos são oriundos. Olho-o. ébrio. Presto. irrupto. através ovóide e hialino Vidro. por outra. barro. os beiços na ânfora ínfima.Mucosa nojentíssima de pus. e na ínfima ânfora. harto. "Meu raciocínio sôfrego surpreende "Todas as formas da matéria gasta!" Raciocinar! Aziaga contingência! Ser quadrúpede! Andar de quatro pés E mais do que ser Cristo e ser Moisés Porque é ser animal sem ter consciência! Bêbedo. a esvaziar báquicos odres: ."Cinza. por epigênese geral. é mais de um. certo. amorfo e lúrido. Mergulho. síntese má da podridão. De onde. Dois são. "Na tua clandestina e erma alma vasta. Risco-o Depois.MISTÉRIOS DE UM FÓSFORO Pego de um fósforo. o arquitetural e íntegro aspecto 189 . porque um. são dois Túmulos dentro de um carvão promíscuo. ante Minha massa encefálica minguante Todo o gênero humano intra-uterino! É o caos da avita víscera avarenta . "Miniatura alegórica do chão. Olho-o ainda.

Em que todos os seres se resolvem! 190 . Na síntese acrobática de um salto. Sob a morfologia de um moinho. Teus gineceus prolíficos envolvem Cinza fetal!.. Depois. mônada vil. De onde o desprotegido homem nasceu Para a fatalidade dos tropismos. atender Ao pedido da célula cansada! Um dia restará. dentre as tênebras. O espectro angulosíssimo do Medo! Em cismas filosóficas me perco E vejo. Migalha de albumina semifluida. De minha antropocêntrica matéria Numa côncava xícara funérea Uma colher de cinza miserável! Abro na treva os olhos quase cegos. na terra instável. Basta um fósforo só Para mostrar a incógnita de pó. o que nele Morre. Então. sou eu. E este ato extraordinário de morrer Que há de na última hebdômada.Zooplasma pequeníssimo e plebeu.Do mundo o mesmo inda e. como nunca outro homem viu. cósmico zero. sois vós. Que fez a boca mística do druida E a língua revoltada de Lutero. é todo aquele Que vem de um ventre inchado. Vida. é o céu abscôndito do Nada. sozinho. que. do meu espírito. em segredo. Na anfigonia que me produziu Nonilhões de moléculas de esterco. Se escapa. Move todos os meus nervos vibráteis. ínfimo e infecto! É a flor dos genealógicos abismos .. ora. Que mão sinistra e desgraçada encheu Os olhos tristes que meu Pai me deu De alfinetes. de agulhas e de pregos?! Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis! Dentro um dínamo déspota. muito alto.

Ah! Maldito o conúbio incestuoso Dessas afinidades eletivas. Adeus! Que eu veio enfim. com a alma vencida Na abjeção embriológica da vida O futuro de cinza que me aguarda! 191 . De onde quimicamente tu derivas. E esse acidente químico vulgar Extraordinariamente me impressiona! Mas minha crise artrítica não tarda.. E eis-me outro fósforo a riscar.. Na aclamação simbiótica do gozo! O enterro de minha última neurona Desfila.

E em tudo estruge a tua dúlia . e dos Capitólios Aos claros pulcros e brilhantes sólios De esplendor pulcro e de fulgências claras..Estas multidões Sonham pátrias doiradas de ilusões Entre os tórculos negros da Desgraça . Sobes ao monte onde o edelweiss pompeia Nalma do que subiu àquele monte! Mas. Rendilhados de fulvas gemas raras E pontilhados de crisoberilos. desces ao segredo insonte Do mar profundo onde a sereia canta E onde a Alcíone trêmula se espanta Ouvindo a gusla crebra da sereia! Rompe a manha. Sinos além bimbalham. chora e se lamenta e vibra. bate nos granitos E quebra as rochas e arrebenta as pedras! És soberano! Sangras e torturas! Ora.ODE AO AMOR Enches o peito de cada homem.. medras Nalma de cada virgem.As borboletas e os escaravelhos Beijam-se no ar. Beijam-te o passo multidões escravas Dos Desgraçados! .Flores que tombam quando a neve passa No turbilhão das avalanches bravas! Tudo dominas! Dos vergéis tranqüilos Aos Capitólios. Ora.. vezes. Amor. tangendo tiorbas em volatas. . Cantas a Vida que sangrando matas. E. 192 . Retroa o sino.dúlia Que na fibra mais forte e até na fibra Mais tênue. Troa o conúbio dos amores velhos . lembras. E o aroma dos teus beijos infinitos Entra na terra.. davas brandindo em seva e insana Fúria. a soberana Imagem pétrea das montanhas duras. e toda a alma Enches de beijos de infinita calma. quietos Beijam-se além os silfos e os insetos Sob a esteira dos campos que se orvalham. .

Irene. eis-me de ti cativo! Cativaste-me. Cativo. aos astros. Assim. Eis o motivo porque fiz esta ode. esse poder terrível. ontem. . sonhei-a. Egrégia estavas no teu plaustro egrégio Mais bela do que a Virgem de Corrégio E os quadros divinais de Guido Reni! Qual um crente em asiático pagode. quando Entre estrias de estrelas. pois.Enorme força regeneradora Que faz dos homens um leão que dorme E do Amor faz uma potência enorme Que vela sobre os homens. e eis o motivo. impassível! Esta de amor ode queixosa. Irene. 193 . Entre timbales e anafis estrídulos.E em cada peito onde um Ocaso chora Levanta a cruz da redenção da Aurora Como a Judite a redimir Betúlia! Bem haja. beija os áureos pés dos ídolos. Quedo. fosforeando. Irene.Essa dominação aterradora .

num sardonismo doloroso De ingênita amargura. bruta. a cuspir escórias De fúlgida limalha Dardejando centelhas transitórias. O éter possuía A térmica violência de um braseiro. irritado. a ouvir Cada átomo de ferro Contra a incude esmagado Sofrer. Quase com febre. erguido do pó. Onde a Matéria avança E a Substância caminha Aceleradamente para o gozo Da integração completa. Compreendia por fim que aquele berro À substância inorgânica arrancado Era a dor do minério castigado Na impossibilidade de reagir! Era um cosmos inteiro sofredor. No horror da metalúrgica batalha O ferro chiava e ria! Ria. Dentro. provinha Como de um negro cáspio de água impura A multissecular desesperança De sua espécie abjeta Condenada a uma estática mesquinha! Ria com essa metálica tristeza De ser na Natureza. berrar. tinir. E eu nervoso. Uma consciência eternamente obscura! O ferro continuava a chiar e a rir. ao meio-dia. Cujo negror profundo Astro nenhum exorna Gritando na bigorna Asperamente a sua própria dor! Era. Inopinadamente 194 . Trinta e seis graus à sombra. Da qual.NUMA FORJA De inexplicáveis ânsias prisioneiro Hoje entrei numa forja.

afinal. A ansiedade de um mundo Doente de ser inerte.Para que à vida quente Da sinergia cósmica desperte. Punha em ciarividência Intramoleculares sóis acesos Perpetuamente às mesmas formas presos. . Essa angústia alarmante Própria de alienação raciocinante. A ouvir todo esse cosmos potencial. Cansado de estar só! Era a revelação De tudo que ainda dorme No metal bruto ou na geléia informe No parto primitivo da Criação! Era o ruído-clarão. em lúgubre crescendo A antífona assimétrica E o incompreensível wagnerismo aziago De seu destino horrendo! Ao clangor de tais carmes de martírio Em cismas negras eu recaio imerso Buscando no delírio De uma imaginação convulsionada Mais revolta talvez de que a onda atlântica Compreender a semântica Dessa aleluia bárbara gritada Às margens glacialíssimas do Nada Pelas coisas mais brutas do Universo! 195 . atravessando a absconsa cripta enorme De minha cavernosa subconsciência. Cheia de ânsias e medos Com crispações nos dedos Piores que os paroxismos Da árvore que a atmosfera ultriz destronca. Preso aos mineralógicos abismos Angustiado e arquejante A debater-se na estreiteza bronca De um bloco de metal! Como que a forja tétrica Num estridor de estrago Executava.O ígneo jato vulcânico Que. Agarrados à inércia do Inorgânico Escravos da Coesão! Repuxavam-me a boca hórridos trismos E eu sentia.

perdeste a ciência. Aperta-me em teu peito.Relíquias de Carrara Têm a ambrosia rara Da mais rara verbena. oh! morena .Anelo morrer vário Dos braços teus na Cruz! Porque não me confortas?! Bem sei. De lírios e boninas Um veludíneo leito. Alma das virgens mortas Mas não! Apaga os traços De tão funesto aspeito. E dá-me assim. divina. Eu quero o meu Calvário .QUADRAS Embala-me em teus braços. Morreu-te a redolência. Assim como Jesus. De amores bons à sombra Quero em cheirosa alfombra Pousar os sonhos lassos! Teus seios... Aperta-me em teu peito. Embala-me em teus braços! 196 .

. embora a lua o aclare. Agora a cara do astro Lembra a metade de uma casca de ovo. Como um degenerado psicopata Eis-me a contar o número das telhas! . Este Engenho Pau d'Arco é muito triste. Mas novamente eis-me a perder a conta! 197 . Vista. No bruto horror que me arrebata. e. quando a noite cresce. A conta recomeço. duas.Uma. através do vidro azul. Dói-me a cabeça.TRISTEZAS DE UM QUARTO MINGUANTE Quarto Minguante! E.. O hemisfério lunar se ergue e se abaixa Num desenvolvimento de borracha. três.. 3 de maio. Diabo! Não ser mais tempo de milagre! Para que esta opressão desapareça Vou amarrar um pano na cabeça1 Molhar a minha fronte com vinagre. Variando à ação mecânica dos dedos! Vai-me crescendo a aberração do sonho. em suma.. de enterrar-me todo Naquele semicírculo medonho! Mas tudo isto é ilusão de minha parte! Quem sabe se não é porque não saio Desde que.. Morde-me os nervos o desejo doudo De dissolver-me. Nos engenhos da várzea não existe Talvez um outro que se lhe equipare! Do observatório em que eu estou situado A lua magra. Aumentam-se-me então os grandes medos. Tenho 300 quilos no epigastro.. E aos tombos.Uma. em ânsias: . Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?! A lâmpada a estirar línguas vermelhas Lambe o ar.. tonta Sinto a cabeça e a conta perco.ª-feira. 6. parece Um paralelepípedo quebrado! O sono esmaga o encéfalo do povo.. quatro.

Caem-me de uma só vez todos os dentes! Então dois ossos roídos me assombraram.. Por muito tempo rolo no tapete.. E o amontoamento dos lençóis desmancho. Súbito me ergo."Por ventura haverá quem queira roer-nos?! Os vermes já não querem mais comer-nos E os formigueiros lá nos desprezaram".vis raízes adventícias No algodão quente de um tapete persa. A lua é morta. Cinco lençóis balançam numa corda. Tomba uma torre sobre a minha testa.... .. Choro e quero beber a água do choro Com as mãos dispostas á feição de conchas. Tal urna planta aquática submersa. Meu tormento é infindo. Vêm-me á imaginação sonhos dementes. Mas aquilo mortalhas me recorda. . Acho-me. Um frio Cai sobre o meu estômago vazio Como se fosse um copo de sorvete! A alta frialdade me insensibiliza. Começo a ver coisas de Apocalipse No triângulo escaleno do ladrilho! Deito-me enfim. Minha família ainda está dormindo E eu não posso pedir outra camisa! Abro a janela. Antegozando as últimas delicias Mergulho as mãos .Sucede a uma tontura outra tontura. numa festa. Ponho o chapéu num gancho.. por exemplo. A luz fulge abundante 198 . O suor me ensopa. Figuras espectrais de bocas tronchas Tornam-me o pesadelo duradouro.aquela grande aranha Que anda tecendo a minha desventura! A luz do quarto diminuindo o brilho Segue todas as fases de um eclipse..Estarei morto?! E a esta pergunta estranha Responde a Vida ... Elevam-se fumaças Do engenho enorme.

oh! Vida em que a sofrer me exortas Eu estaria como as bestas mortas Pendurado no bico dos abutres! 199 . a terra resfolega Estrumada. Broncos e feios. em diâmetro. A ouvir. nestes bucólicos retiros Toda a salva fatal de 21 tiros Que festejou os funerais de Hamleto! Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas! Quisera ser. o céu. se ostenta A monarquia da árvore opulenta Que dá aos homens o óbolo dos frutos. no ato da entrega Do mato verde. Pelos respiratórios tênues tubos Dos poros vegetais. longe do pão com que me nutres Nesta hora. A fatia esponjosa de carniça Que os corvos comem sobre as jurubebas! Porque. Côncavo. No húmus feraz. cheios Dos tenros tinhorões e da úmida erva. o solo um caramujo Naturalmente pelos mata-pastos. feliz. Babujada por baixos beiços brutos.E em vez do sepulcral Quarto Minguante Vi que era o sol batendo nas vidraças. radiante e estriado. passei o dia inquieto. cheia de adubos. hierática. numa última cobiça. observa A universal criação. Entretanto. Vários reptis cortam os campos. De mim diverso. rígido e de rastos Com a solidez do tegumento sujo Sulca.

E à noite. Mãos que adquiriram olhos. tentáculos sutis. Pertencentes talvez.. 200 . a delinqüentes natos. Assinalados pelo mancinismo. vão cheirar.. pituitárias Olfativas.. mãos mais sanguinárias E estupradoras do que os bisturis Cortando a carne em flor das crianças mortas. Outras. Que apalpam e olham com lascfvia e gozo A pureza dos corpos infantis.MÃOS Há mãos que fazem medo Feias agregações pentagonais. a farpas de rochedo Completamente iguais.. Mãos adúlteras. em sangue. negras. quebrando portas O azul gasofiláceo silencioso Dos tálamos cristãos. ás dos cristais. às da neve. Monstruosíssimas mãos. Umas. Mãos de linhas análogas e anfratos Que a Natureza onicriadora fez Em contraposição e antagonismo Às da estrela.

Eu guardo o travo deste beijo ardente E a Nostalgia desta Pátria . E como um nume de pesar.a Carne. Pareces reviver a antiga Ofélia. Abençoada pelo meu tormento E consagrada pela sepultura. de reverberantes E rubras asas de beliantos pulcros.Lotus diluído n'alma dum cipreste! Como um lilás eternizando abrolhos Tinge de roxo o arminho da grinalda.. Reza-lhe todo o cantochão memento Dessa Missa de amor da Extrema Agrura. . Brande-lhe n'alma o frio dos sepulcros. pálida camélia.Tufos de goivo em conchas de esmeralda. Opalescência trágica da lua! Tu. Rola a violeta santa dos teus olhos . Sonho abraçar-te. E que ela suba na serena gaza Dos mistérios dourados e serenos À terra Ideal das púrpuras em brasa E ao Céu doirado e auroreal de Vênus! 201 . plangente. No vácuo imenso das desesperanças E dos passados viços.VÊNUS MORTA A Via-Sacra Azul do amor primeiro Veste hoje o luto que a desgraça veste No miserere do meu desespero. oh Quimera.. Recordo o beijo que te dei nas tranças Emolduradas num florão de riços. Crava-lhe n'alma o tirso das bacantes. Mas neste sonho. Guarda a saudade que levou do Mame. langue e seminua.

Aves com frio. A efígie apocalíptica do Caos Dançava no meu cérebro sombrio! O Céu estava horrivelmente preto E as árvores magríssimas lembravam Pontos de admiração que se admiravam De ver passar ali meu esqueleto! Sozinho. na escuridão. como num chão profundo. E. Sentia estar pisando com a planta ávida Um povo de radículas e embriões Prestes a rebentar como vulcões. com uma vela acesa.. uivando hoffmânnicos dizeres. Do ventre equatorial da terra grávida! Dentro de mim. Eu procurava. Mergulhar minha exótica visão Na intimidade noumenal dos seres. num ruidoso borborinho Bruto. era só O ocaso sistemático de pó. de onde decorrem Todas essas moléculas que morrem Nas transubstanciações da Natureza.. com soluços quase humanos. análogo ao peã de márcios brados. Choravam. No desespero de não serem grandes! 202 . Aprazia-me assim. Em que as formas humanas se sumiam! Reboava. Mas o que meus sentidos apreendiam Dentro da treva lúgubre.VIAGEM DE UM VENCIDO Noite. almas e oceanos As formas microscópicas do mundo! Era a larva agarrada a absconsas landes. Cruzes na estrada. Convulsionando Céus. Era o abjeto vibrião rudimentar Na impotência angustiosa de falar. O feto original. enquanto eu tropeçava sobre os paus. A rebeldia dos meus pés danados Nas pedras resignadas do caminho.

assim. Na discórdia perpétua do sansara! Já me fazia medo aquela viagem A carregar pelas ladeiras tétricas. Brilhava. me tornara A assembléia belígera malsã. de onde se vê o Homem de rastros. Cumpria-se afinal dentro de mim O próprio sofrimento da Substância! Como quem traz ao dorso multas cargas Eu sofria. Numa crepitação própria de incêndio! Em contraposição à paz funérea. Noite alta. Na óssea armação das vértebras simétricas A angústia da biológica engrenagem! No Céu. vingadora. na ânsia dos párias. uma voz 203 . a esclarecer As manchas subjetivas do meu ser A espionagem fatídica dos astros! Sentinelas de espíritos e estradas. O brado emocionante de vindicta Das sensibilidades solitárias! A longanimidade e o vilipêndio. frias como lousas. Onde Ormuzd guerreava com Arimã. com a sidérica lanterna. Doía profundamente no meu crânio Esse funcionamento simultâneo De todos os conflitos da matéria! Eu. Mas das árvores. A multiplicidade heterogênea De sensações diversamente amargas. Maior que o olhar que perseguiu Caim. horrenda e monótona. Eles entravam todos na caverna Das consciências humanas mais fechadas! Ao castigo daquela rutilância. A abstinência e a luxúria.Vinha-me á boca. perdido no Cosmos. o bem e o mal Ardiam no meu orco cerebral. Como o protesto de uma raça invicta. ao colher simples gardênia. Fluía.

obscuro.. Tragicamente. Nós. árvore. Porque em todas as coisas. arvoredos desterrados. tão profunda. Se hoje.. A humildade botânica das algas De que grandeza não será capaz?! Quem sabe. Jeová ou Siva Oculta à tua força cognitiva Fenomenalidades que hão de vir. que. a espiar enigmas. se ergue A esfinge do Mistério Universal! A própria força em que teu Ser se expande. Rir da desgraça que de ti ressuma É quase a mesma coisa que chorar!" 204 . montanha. choramos. Se a contração que hoje produz o choro Não há de ser no século vindouro Um simples movimento para rir?! Que espécies outras. Para esconder-se nessa esfinge grande. ovário. enquanto Deus. isto é. tão feroz Que parecia vir da alma das cousas: "Se todos os fenômenos complexos. Na prisão milenária dos subsolos. afinal. do Equador aos pólos. diante do Homem. em suma. pois. na ânsia cósmica. Crânio. entres Na química genésica dos ventres. Para erguer. Desde a consciência à antítese dos sexos Vem de um dínamo fluídico de gás. porque. a Energia A última etapa da objetivação?! É inútil. com a febre mais bravia. Deu4e (oh! mistério que se não traduz!) Neste astro ruim de tênebras e abrolhos A efeméride orgânica dos olhos E o simulacro atordoador da Luz! Por isto.Tão grande. rimos Das vãs diatribes com que aturdes o ar. amanhã píncaros galgas. Não trabalham. iceberg. Rasgando avidamente o húmus malsão. Rimos. oh! filho dos terráqueos limos.

a escalar Céus e apogeus. Reproduzida pelos arvoredos! Agora. Tinha necessidade de esconder-me Longe da espécie humana. A voz cavernosíssima de Deus. Eu fora. naquela noite de ânsia e inferno. em destroços. A maior expressão do homem vencido Diante da sombra do Mistério Eterno! 205 .As vibrações daquele horrível karma Meu dispêndio nervoso era tamanho Que eu sentia no corpo um vácuo estranho Como uma boca sôfrega a esvaziar-me! Na avançada epiléptica dos medos Cria ouvir. Eu. alheio ao mundanário ruído. com os meus ossos! Restava apenas na minha alma bruta Onde frutificara outrora o Amor Uma volicional fome interior De renúncia budística absoluta! Porque. astro decrépito. a erguer-me. desgraçadamente magro.

206 . Abraçado com todas as estrelas! A Noite vai crescendo apavorante E dentro do meu peito.QUEIXAS NOTURNAS Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio. no combate. ando! Não trago sobre a túnica fingida As insígnias medonhas do infeliz Como os falsos mendigos de Paris Na atra rua de Santa Margarida. era preciso a tinta Feita de todos os tormentos do homem! Como um ladrão sentado numa ponte Espera alguém. Minh'alma sai agoniada. E muitas vezes a agonia é tanta Que. Para pintá-lo. em coalhos. arrancado das prisões carnais. A Eternidade esmagadora bate Numa dilatação exorbitante! E eu luto contra a universal grandeza Na mais terrível desesperação É a luta. armado de arcabuz. quero até rompê-las! Quero. As minhas roupas. Os pobres braços do mortal se torcem E o sangue jorra. entre estes monstros.. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. é o prélio enorme. rolando dos últimos degraus. Na ânsia incoercível de roubar a luz. é a rebelião Da criatura contra a natureza! Para essas lutas uma vida é pouca Inda mesmo que os músculos se esforcem. pela boca.. O quadro de aflições que me consomem O próprio Pedro Américo não pinta. Estou á espera de que o Sol desponte! Bati nas pedras dum tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza é minha única saúde. Viver na luz dos astros imortais.

Não sou capaz de amar mulher alguma Nem há mulher talvez capaz de amar-me. Estrangulado pelas rodas brutas Do mecanismo que tiver mais força. enfim. O amor tem favos e tem caldos quentes E ao mesmo tempo que faz bem.O Hércules treme e vai tombar no caos De onde seu corpo nunca mais levanta! É natural que esse Hércules se estorça. Hoje é amargo tudo quanto eu gosto.. E tombe para sempre nessas lutas. Seja este. faz mal. A bênção matutina que recebo. O coração do Poeta é um hospital Onde morreram todos os doentes. em suma. Este relógio trágico que marca Todos os atos da tragédia humana! Seja esta minha queixa derradeira Cantada sobre o túmulo de Orfeu. Igual á luta dos cristãos e mouros! Sobre histórias de amor o interrogar-me E vão. Ah! Por todos os séculos vindouros Há de travar-se essa batalha vã Do dia de hoje contra o de amanhã. é improfícuo.... o último canto meu Por esta grande noite brasileira! Melancolia! Estende-me a tu'asa! És a árvore em que devo reclinar-me.esta arca. E é tudo: o pão que como. é inútil. a água que bebo. O velho tamarindo a que me encosto! Vou enterrar agora a harpa boêmia Na atra e assombrosa solidão feroz Onde não cheguem o eco duma voz E o grito desvairado da blasfêmia! Que dentro de minh'alma americana Não mais palpite o coração . Se algum dia o Prazer vier procurar-me Dize a este monstro que eu fugi de casa! 207 .

Sai para assassinar o mundo inteiro.. à meia-noite. Corro. estudo. rio Sinistramente. Levanta contra mim grandes cutelos E as baionetas dos dragões antigos! 208 . -. vendo o verme frio Que há de comer a minha carne toda! É a Morte -. Para onde vou (o mundo inteiro o nota) Nos meus olhares fúnebres.. carrego A indiferença estúpida de um cego E o ar indolente de um chinês idiota! A passagem dos séculos me assombra.. abrindo todos os jazigos. ouvindo um grande estrondo. a 1 de Janeiro. Mas de repente. Arranco os cadáveres das lousas E as suas partes podres examino.. Intimamente sei que não me iludo. sozinho. E o mundo inteiro não lhe mata a fome! Nesta sombria análise das cousas. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. na vertigem: -. Então meu desvario se renova.POEMA NEGRO A Santos Neto Para iludir minha desgraça.. Na podridão daquele embrulho hediondo Reconheço assombrado o meu Destino! Surpreendo-me.Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade.esta carnívora assanhada -Serpente má de língua envenenada Que tudo que acha no caminho. A Morte. Como que. come. Em vão com o grito do meu peito impreco! Dos brados meus ouvindo apenas o eco..Faminta e atra mulher que. Eu torço os braços numa angústia douda E muita vez. numa cova. em trajes pretos e amarelos. e a mim pergunto.

os soldados Buardam o corpo do Divino Mestre. vi que era esterquilínio! Chegou a tua vez. Deste-me fogo quanto eu tinha sede. em grupos prosternados. como a gula de uma fera. Quis ver o que era. Deixa-te estar. De Jesus Cristo resta unicamente 209 . Chocalha os dentes com medonha fúria Como se fosso o atrito de dois ferros! Pois bem! Chegou minha hora de vingança.. No histerismo danado da tortura Todos os monstros que os teus peitos criam.. É Sexta-feira Santa. e de declínio Em declínio. e após gritar a última injúria.. A trava invade o obscuro orbe terrestre No Vaticano. Como as estalactites da caverna.E quando vi que aquilo vinha vindo Eu fui caindo como um sol caindo De declínio em declínio.. Com as longas fardas rubras. Amarrado no horror de tua rede. Perante a qual meus olhos se extasiam. Cai no silêncio da Cidade Eterna A água da chuva em largos fios grossos. acorda em berros Acorda.. que eu me vingo! Súbito outra visão negra me espanta! Estou em Roma. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. Por tua causa apodreci nas cruzes. Vi que era pó. e quando vi o que era. canalha. desta cova escura. oh! Natureza! Eu desafio agora essa grandeza. Eu desafio. Tu mataste o meu tempo de criança E de segunda-feira até domingo.. que em mim dorme. Contra a agressão dos teus contrastes juntos A besta. Tu não és minha mãe. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Semeadora terrível de defuntod.

e a gente. com a minha dor enorme Os olhos ensangüento na vigília! E observo. Como as chagas da morféia O medo. vendo-o. o desalento e o desconforto Paralisam-me os círculos motores. enquanto o horror me corta a fala O aspecto sepulcral da austera FIM 210 . As luzes funerais arquejam fracas. A desagregação da minha Idéia Aumenta. a gente Sente vontade de abraçar-lhe os ossos! Não há ninguém na estrada da Ripetta. Na agonia de tantos pesadelos Uma dor bruta puxa-me os cabelos. Dentro da igreja de São Pedro. quieta.. os ventos gemedores Estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na serra Da Borborema.. Roma estremece! Além. Resume A espiritualidade da matéria E ele é que embala o corpo da miséria E faz da cloaca uma urna de perfume. Na molécula e no átomo. no ar de minha terra. O céu dorme.. num rumor forte Recomeça o barulha das matracas. O vento entoa cânticos de morte.Um esqueleto. Na Eternidade. É tão vazia a minha vida! No pensamento desconexo e falho Trago as cartas confusas de um baralho E pedaço de cera derretida! Dorme a casa.. somente eu. A árvore dorme Eu. Desperto.

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