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Augusto dos Anjos - Obra completa

Augusto dos Anjos - Obra completa

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Sections

  • O MORCEGO
  • PSICOLOGIA DE UM VENCIDO
  • IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA
  • SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO
  • VERSOS A UM CÃO
  • O DEUS-VERME
  • DEBAIXO DO TAMARINDO
  • BUDISMO MODERNO
  • SONHO DE UM MONISTA
  • MATER ORIGINALIS
  • O LUPANAR
  • IDEALISMO
  • ÚLTIMO CREDO
  • SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO
  • A UM CARNEIRO MORTO
  • VOZES DA MORTE
  • INSÂNIA DE UM SIMPLES
  • ASA DE CORVO
  • O MARTÍRIO DO ARTISTA
  • O MAR, A ESCADA E O HOMEM
  • RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ
  • A UM MASCARADO
  • VOZES DE UM TÚMULO
  • CONTRASTES
  • DEPOIS DA ORGIA
  • A ÁRVORE DA SERRA
  • VENCIDO
  • VANDALISMO
  • VERSOS ÍNTIMOS
  • VENCEDOR
  • ETERNA MÁGOA
  • O LAMENTO DAS COISAS
  • O MEU NIRVANA
  • CAPUT IMMORTALE
  • LOUVOR A UNIDADE
  • SUPREME CONVULSION
  • NATUREZA ÍNTIMA
  • A FLORESTA
  • GUERRA
  • ÚLTIMA VISIO
  • AOS MEUS FILHOS
  • O POETA DO HEDIONDO
  • A FOME E O AMOR
  • HOMO INFIMUS
  • MINHA FINALIDADE
  • NOLI ME TANGERE
  • O CANTO DOS PRESOS
  • VÍTIMA DO DUALISMO
  • AO LUAR
  • CANTO DA ONIPOTÊNCIA
  • ANSEIO (QUEM SOU EU...)
  • VERSOS A UM COVEIRO
  • TREVAS
  • AS MONTANHAS
  • APOCALIPSE
  • A NAU
  • O FIM DAS COISAS
  • A NOITE
  • A OBSESSÃO DO SANGUE
  • VOX VICTIMAE
  • AGONIA DE UM FILÓSOFO
  • O ÚLTIMO NÚMERO
  • SAUDADE
  • ABANDONADA
  • CETICISMO
  • OUVI, SENHORA
  • TRISTE REGRESSO
  • INFELIZ
  • N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS
  • NOIVADO
  • NO MEU PEITO ARDE
  • AMOR E RELIGIÃO
  • CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA
  • O COVEIRO
  • PECADORA
  • NO CLAUSTRO
  • IL TROVATORE
  • A LOUCA
  • PRIMAVERA
  • SENHORA, EU TRAJO O LUTO DO PASSADO
  • SOFREDORA
  • ECOS D’ALMA
  • AMOR E CRENÇA
  • ARIANA
  • TEMPOS IDOS
  • NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA
  • ADEUS, ADEUS, ADEUS! E, SUSPIRANDO
  • A AERONAVE
  • LIRIAL
  • A MINHA ESTRELA
  • A ESMOLA DE DULCE
  • AVE DOLOROSA
  • NIMBOS
  • O MAR
  • ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS...)
  • AURORA MORTA, FOGE!
  • NO CAMPO
  • CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA
  • CRAVO DE NOIVA
  • O BANDOLIM
  • ARA MALDITA
  • TREVA E LUZ
  • O TEMPLO DA DESCRENÇA
  • A PESTE
  • IDEAL
  • AFETOS
  • MARTÍRIO SUPREMO
  • SOMBRA IMORTAL
  • NOTURNO (PARA O VALE NOITAL..)
  • SEDUTORA
  • PELO MUNDO
  • E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA
  • O RISO
  • VAMOS, QUERIDA!
  • A UMA MÁRTIR
  • PELO MAR
  • PALLIDA LUNA
  • A MORTE DE VÊNUS
  • MÁRTIR DA FOME
  • SONHO DE AMOR
  • A ORGIA MATA A MOCIDADE
  • FESTIVAL
  • NOTURNO (CHOVE, LÁ FORA...)
  • E ELE MORREU
  • A DOR
  • O SONHO, A CRENÇA E O AMOR
  • MEDITANDO
  • PARA QUEM TEM NA VIDA
  • SONETO A FREDERICO NIETZCHE
  • O NEGRO
  • VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA
  • O ÉBRIO
  • O CANTO DA CORUJA
  • SENECTUDE PRECOCE
  • MYSTICA VISIO
  • NOME MALDITO
  • MONÓLOGO DE UMA SOMBRA
  • UMA NOITE NO CAIRO
  • AS CISMAS DO DESTINO
  • A CARIDADE
  • OS DOENTES
  • À MESA
  • DUAS ESTROFES
  • MATER
  • GEMIDOS DE ARTE
  • A MERETRIZ
  • VERSOS DE AMOR

EU, TODOS OS SONETOS E OUTRAS POESIAS

(OBRA COMPLETA)

AUGUSTO DOS ANJOS

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Autor: Augusto dos Anjos Título: Eu, todos os sonetos e outras poesias Data da Digitalização: 2004 Data Publicação Original: Primeiras décadas do séc. XX

Esta obra foi digitalizada, formatada, revisada e liberta das excludentes convenções do mercado pelo Coletivo Sabotagem. Ela não possui direitos autorais pode e deve ser reproduzida no todo ou em parte, além de ser liberada a sua distribuição, preservando seu conteúdo e o nome do autor.

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ÍNDICE
Introdução
As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos (por Horácio de Almeida) ....................................... 06 Um Currículo Escrito pelo próprio poeta (respostas ao inquérito de Licínio dos Santos) .............. 33

Sonetos
O Morcego ..................................................34 Psicologia de um Vencido ......................... 34 A Idéia ....................................................... 35 O Lázaro da Pátria ..................................... 35 Idealização da Humanidade Futura ........... 36 Soneto ao Meu Primeiro Filho .................. 36 Versos a um Cão ....................................... 37 O Deus-Verme .......................................... 37 Debaixo do Tamarindo .............................. 38 Budismo Moderno ..................................... 38 Sonho de um Monista ................................ 39 Solitário ..................................................... 39 Mater Originalis ........................................ 40 O lupanar ................................................... 40 Idealismo ................................................... 41 Último Credo ............................................. 41 O Caixão Fantástico .................................. 42 Solilóquio de um Visionário ..................... 42 A um Carneiro Morto ................................ 43 Vozes da Morte ......................................... 43 Insânia de um Simples .............................. 44 Asa de Corvo ............................................. 44 O Martírio do Artista ................................. 45 O Mar, a Escada e o Homem ..................... 45 Decadência ................................................ 46 Ricordanza della mia Gioventú ................. 46 A Um Mascarado ...................................... 47 Vozes de um Túmulo ................................ 47 Contrastes .................................................. 48 Soneto I a meu pai doente ......................... 48 Soneto II a meu pai morto ......................... 49 Soneto III ................................................... 49 Depois da Orgia ......................................... 50 A Arvore da Serra ..................................... 50 Vencido ..................................................... 51 O Corrupião ............................................... 51 Alucinação a Beira Mar ............................. 52 Vandalismo ............................................... 52 Versos Íntimos .......................................... 53 Vencedor ................................................... 53 Eterna Mágoa ............................................ 54 O Lamento das Coisas .............................. O Meu Nirvana ......................................... Caput Immortale ....................................... Apóstrofe a Carne ..................................... Louvor a Unidade ..................................... O Pântano ................................................. Supreme Convulsion ................................. A Um Gérmen .......................................... Natureza Íntima ........................................ A Floresta ................................................. Guerra ....................................................... O Sarcófago .............................................. Hino a Dor ................................................ Última Visio ............................................. Aos Meus Filhos ....................................... A Dança da Psique .................................... O Poeta do Hediondo ................................ A Fome e o Amor ..................................... Homos Infimus ......................................... Minha Finalidade ...................................... Noli Mi Tangere ....................................... O Canto dos Presos ................................... Aberração .................................................. Vítima do Dualismo .................................. Ao Luar ..................................................... A Um Epiléptico ....................................... Canto da Onipotência ............................... Minha Arvore ........................................... Anseio (Quem Sou Eu...) .......................... Revelação I ............................................... Revelação II .............................................. Versos a um Coveiro ................................ Trevas ....................................................... As Montanhas I ......................................... As Montanhas II ....................................... Apocalipse ................................................ A Nau ........................................................ Volúpia Imortal ......................................... O Fim das Coisas ...................................... A Noite ..................................................... A Obsessão do Sangue ............................. 54 55 55 56 56 57 57 58 58 59 59 60 60 61 61 62 62 63 63 64 64 65 65 66 66 67 67 68 68 69 69 70 70 71 71 72 72 73 73 74 74

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Vox Victimae ............................................ Agonia de Um Filósofo ............................. O Último Número ..................................... Saudade ..................................................... Abandonada ............................................... Ceticismo ................................................... Mágoas ...................................................... Ouvi, Senhora ............................................ Triste Regresso .......................................... Infeliz ........................................................ N’augusta solidão dos cemitérios ............. Noivado ..................................................... No meu peito arde .................................... A Máscara ................................................. Amor e Religião ........................................ Canta no espaço a passarada ..................... O Coveiro .................................................. Pecadora .................................................... No Claustro ............................................... Il Trovatore ................................................ A Louca ..................................................... Primavera .................................................. A Esperança .............................................. Senhora, eu trajo o luto do passado .......... Sofredora ................................................... Ecos d’Alma .............................................. Amor e Crença .......................................... Ariana ........................................................ Tempos Idos .............................................. Na rua em funeral ei-la que passa ............. Adeus, adeus, adeus! E, suspirando... ....... A Aeronave ............................................... Lirial .......................................................... A Minha Estrela ........................................ A praça estava cheia.... .............................. A Esmola de Dulce .................................... Ave Dolorosa ............................................ Gênio das trevas lúgubres... ...................... Nimbos ...................................................... O Mar ....................................................... Anseio (Nessas Paragens Desoladas...) ..... Aurora Morta, Foge! ................................. No Campo ................................................. Canta o Teu Riso Esplendida Sonata ........ Cravo de Noiva ......................................... Plenilúnio .................................................. Insânia ....................................................... O Bandolim ...............................................

75 75 76 76 77 77 78 78 79 79 80 80 81 81 82 82 83 83 84 84 85 85 86 86 87 87 88 88 89 89 90 90 91 91 92 92 93 93 94 94 95 95 96 96 97 97 98 98

Ara Maldita ............................................... 99 Na etérea limpidez... ................................ 99 Treva e Luz ............................................ 100 O Templo da Descrença .......................... 100 A Peste .................................................... 101 Ideal ........................................................ 101 Cítara Mística ......................................... 102 Súplica num Túmulo .............................. 102 Afetos ..................................................... 103 Martírio Supremo .................................. 103 Sombra Imortal ....................................... 104 Coração Frio ........................................... 104 Noturno (Para o Vale Noital...) ............... 105 Sedutora .................................................. 105 Pelo Mundo ............................................. 106 E o Mar Gemeu a Funda Melopéia ......... 106 O Riso .................................................... 107 Vamos, Querida! ..................................... 107 A uma Mártir ......................................... 108 Régio ...................................................... 108 Pelo Mar ................................................. 109 Pallida Luna ............................................ 109 A Morte de Vênus ................................... 110 Mártir da Fome ....................................... 110 Sonho de Amor ....................................... 111 A Orgia Mata a Mocidade ...................... 111 Festival ................................................... 112 Noturno (Chove, lá fora...) ...................... 112 E Ele Morreu .......................................... 113 Vaes Victis .............................................. 113 A Dor ..................................................... 114 Terra Fúnebre ......................................... 114 O sonho, a Crença e o Amor ................... 115 Meditando ............................................... 115 Para Quem Tem na Vida... ...................... 116 Soneto a Frederico Nietzche ................... 116 O Negro ................................................. 117 Vinhas trilhando gárrulo a Avenida ........ 117 O Ébrio ................................................... 118 O Canto da Coruja .................................. 118 Senectude Precoce .................................. 119 André Chénier .......................................... 119 Mystica Visio .......................................... 120 Ilusão ...................................................... 120 Nome Maldito ........................................ 121 Dolências ................................................ 121 A Lágrima ............................................... 122

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.................................... 155 Duas Estrofes . 205 Queixas Noturnas ............................ 183 Gozo Insatisfeito ............................... 204 Viagem de um Vencido ................................................. 182 Canto de Agonia ..... 197 Quadras .... 203 Vênus Morta ................................................ 180 Canto Íntimo .................................................................................................................................................................................................... 170 A Vitória do Espírito ............... 129 A Caridade ................. 142 À Mesa ...........123 Uma noite no Cairo ................................................. 186 Insônia ....Outras Poesias Monólogo de uma Sombra ......................................................................................................................................................... 184 Idealizações ................... 173 A Ilha de Cipango .................................................128 As Cismas do Destino ............................. 155 Mater .. 209 Poema Negro ............................................................................... 156 Gemidos de Arte ........................................................................... 157 A Meretriz ...................................................................................................................................... 179 Estrofes Sentidas ........ 212 5 .... 176 Ave Libertas ............................................................ 168 Noite de um Visionário ........................ 192 Ode ao Amor ......................... 141 Os Doentes ........................ 162 Versos de Amor ................................................ 190 Mistérios de um Fósforo ................. 175 Barcarola ................................................ 166 A Luva ........................................................................................................................................................................................................................ 199 Tristezas de um Quarto Minguante ....................... 183 História de Um Vencido ....................... 200 Mãos ..................... 195 Numa Forja .............................................

É preciso. A crítica literária já lhe realçou a obra em sua forma estética. Sua personalidade singular ali se projeta. que o não convencia de todo. inatingível também ao bisturi dos que tentam dissecar o interior humano. é possível que se tenha conservado à distância da crítica literária. nos moldes em que se ajusta a passividade compreensiva do comum dos homens.INTRODUÇÃO AS RAZÕES DA ANGÚSTIA DE AUGUSTO DOS ANJOS* Por Horácio de Almeida Muito se tem escrito sobre Augusto dos Anjos. um psicastênico para outros. pois. que forjava em versos candentes a produção que depois levava ao papel. não vejo documento mais preciso para conhecer o autor que a sua própria obra. nos moldes da velha orientação impressionista. O autor revela o homem e ambos estão por inteiro em sua obra. A crítica metodológica do autor do Eu e Outras Poesias devia constituir o alvo desta escalada. Gráfica Ouvidor. ed. Interpretar cada verso isoladamente não é tarefa que se enquadre no plano deste trabalho. Apenas como contribuição a essa crítica de sentido mais amplo. não conhecemos sequer a nossa. Toda vez que o poeta se concentrava na dor que mais o cruciava. e era aí. que é de todas a menos operante. Só o estudo do conjunto poderá explicar os matizes de um pensamento que tinha por norma ocultar-se em metáforas. poder conhecer a árvore pelo fruto. Difícil tarefa é essa de querer conhecer a alma dos nossos semelhantes. RJ. Convenha-se antes de tudo que Augusto não foi um homem normal. Teria sido um neurótico para uns. Fazer o elogio do poeta. já que não podemos penetrar com tanta intimidade o mundo subliminal. 1962) 6 . contudo. quando não irrompia ovante para logo se perder na dúvida. ao menos. o eu fora do Eu. quando. nesse estado de superexcitação. acompanhá-lo na trajetória desse pensamento tumultuário. A crítica genética já lhe esvurmou a alma em busca de uma explicação para as suas anomalias psíquicas. no que há de mais sutil e imponderável. na verdade. numa atitude de respeito e reflexão. sobretudo pela sinceridade com que nela está fotografado. esteja o poeta revelado por inteiro em todos os reflexos de sua alma. Seja como * (do livro As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos. senão em mais de um. isto é. Nalgum ponto. proponho-me a interpretá-lo a partir de um ângulo até agora pouco estudado — a inquietação de sua personalidade. Por conseguinte. já outros o fizeram com maior ou menor adequação. Nessa tentativa de interpretação psicológica. paremos reverentes à porta do templo. o que de alguma forma facilita o trabalho de interpretação. penso poder levantar a ponta da cortina para melhor compreensão das suas mensagens de angústia. na chaga viva de sua consciência. Deste modo. não escapasse um pouco da minha acuidade intelectual. Em Augusto dos Anjos não há que procurar o autor fora de sua obra. desejosos de. em suas mensagens de angústia. compreendendo inclusive a estilística. entrava em crise espiritual. Não me parece. segundo as síndromes patológicas revelados. realçar a força de sua inteligência manifestada na originalidade do estilo e na tônica de um materialismo filosófico.

por motivos vários. Obviamente. Explica-se deste modo. aos que se rebaixam para subir. mas da mediocridade ajuizada que enche de presença os quadros humanos nunca ninguém viu sair obra duradoura. fobias. o refinamento de suas faculdades morais. a de Wilde. como é do gosto da crítica científica. choques emocionais. caracterizado por uma sensibilidade doentia. Pai e irmãos passavam por normais. Juízo é coisa que todos julgam ter. da inteligência. Não há que imputar a Augusto a pecha de louco. tiques nervosos. sobretudo quando provém da linha materna. enfim. Ao que se sabe. repetindo conceitos. O traumatismo moral que tão fundamente abalou a mãe. sobre o seu caso clínico. A mãe do poeta. que procura dissecar a alma para ajustá-la a quadros nosológicos já catalogados e. de fundo genético. assim como está provada a hereditariedade dos caracteres biológicos. não é possível interpretar a obra de um escritor. tal fato não podia deixar de refletir-se no filho em gestação. Não se trata aqui de fazer coincidir a personalidade criadora de 7 . aos que se acomodam. em relação com a casuística. tais modelos de comparação passaram também pelas mesmas crises intra-uterinas que afetaram a sensibilidade do autor do Eu. Todas se angustiaram por acontecimentos imprevistos. sobretudo quando tal obra reflete da primeira à última página a alma do autor. Nietzche.for. reduzir tudo a categorismo. Tanto isso parece verdade que seus irmãos. quando este ainda em estado de gestação sofreu uma comoção das mais fortes. perturbou-a por muito tempo. causada pela perda imprevista de um irmão querido. Isto posto. Augusto não era um homem igual aos outros. Por seu parentesco espiritual. do sentimento. na classificação dos antropologistas do século passado. que já era constitucionalmente quase louca. igualmente inteligentes. como se houvesse saído do limbo para cair na labareda. mas vale a pena ser louco quando se deixa por tal motivo um nome à admiração da posteridade. Assim como a mãe de Augusto. por vezes controvertidos. a partir de Lombroso. com distúrbios os mais evidentes no seu sistema nervoso. Oscar Wilde e outros loucos geniais ou degenerados superiores. tenho por desnecessário entrar aqui nesse campo de especulação psiquiátrica. a de Leopardi. a de Byron. menos a de Byron. todo o seu temperamento emocional. sofreram perturbações muito fortes na época de gestação daqueles notáveis supranormais. nem os que vieram depois. sestros. enfim. que nada explica. De seu pai também não herdou as características psíquicas que o marcaram a fundo. estudante de medicina. no final. além mesmo da gravidez. jamais denotaram qualquer grau de semelhança ou relação de afinidade com a alma bizarra do poeta. Byron. aos que perseguem riquezas ou fazem do amor o cio bestial. não há negar também a dos psicológicos. de quem o sobrinho nascituro herdaria o nome e as conseqüências do choque. ficou desajustada da mente pelo resto da vida. nas modalidades do caráter. a de Nietzche. Sem o concurso da causa primária. pelo drama que padeceu na vida intra-uterina. A causa primária de sua desordem nervosa já é assunto conhecido. só ele dava a impressão de um desajustado. tem sido Augusto comparado a Leopardi. E por curiosa coincidência. Nem os que nasceram antes. com preocupações de grandeza e fidalguia.

Vinha-se de uma época em que a erudição nacional destilava-se da cultura européia. a sua própria vida sem problemas. haurido no transformismo de Haeckel e no evolucionismo de Spencer. com o título Eu e Outras Poesias. dr. visto ter nascido poeta. guiado apenas pela ilustração paterna. Coelho Rodrigues. para maior complicação de sua personalidade. a quietude da vida na província. em Monólogos de uma Sombra. numa defesa de tese na Faculdade de Direito do Recife. começou a envenenar-se com o materialismo filosófico. logo mais. Logo mais. O que há de singular nele não é. saído da roça. bradava para o conceituado mestre que o argüia. Quando Órris o conheceu nos idos de 1900. os quais o acompanhariam. ao invés de um estudante bisonho. Já em 1875. entrou a estudar as matérias do curso de humanidades. conforme disse num soneto que não consta. mas no final 8 . Com seu pai. viu nele um tipo excêntrico de pássaro molhado. estavam a fazer dele um lírico. evolvia para o evolucionismo de Speneer. não fossem os conflitos espirituais que trazia do berço. E para completar o esboço do auto-retrato acrescentava: “Eu hoje só vivo para a descrença”. A paisagem bucólica da várzea. A amizade que logo nasceu da admiração foi regada mais tarde com lágrimas de saudade no elogio que fez do poeta. reunindo a esse volume a produção posterior à edição princeps de 1912. aprendeu a ler e. que lançou em 1919. Sílvio Romero. Muito cedo. publicado no Almanaque do Estado da Paraíba. para aprazimento intelectual das elites. Alexandre dos Anjos. inspirado na natureza e no amor. Nada de admirar. Deste modo. como expressão do pensamento nacional.Augusto com a sua personalidade psicológica. A par disso. quando apareceu para os primeiros exames no velho Liceu Paraibano. porquanto as duas já se apresentam fundidas sem a química da ajuda biográfica. o seu tipo de pássaro molhado. Tais idéias materialistas eram a coqueluche que o século passado legara ao presente. na várzea do Paraíba. Falava nele o positivista que. em 1900. de vez que a literatura indígena longe estava de adquirir a consciência de sua função. definia mais claramente esse pensamento “como uma vocação para a Desgraça e um tropismo ancestral para o infortúnio”. como uma fatalidade. em contraste com a mocidade e a inteligência. do Eu. mas não era somente isso. segundo os primeiros retratos que temos dele. no último ano do século passado. a rigor. Augusto nasceu e se criou no engenho Pau d’Arco. que a metafísica estava morta. até o túmulo. é a vocação que já revelava para o infortúnio. A doutrina positivista foi a primeira a ganhar terreno. Esse adolescente sorumbático já poetava desde os sete anos de idade. em sua linha tomista. cinco anos após a sua morte. O rapazinho de 16 anos. sofreu duros reveses. sofregamente bebida nas academias. sem afastar-se do lar. agravados por outros que irromperam na idade perigosa. Ocioso será afirmar que a metafísica ortodoxa. em prefácio à segunda edição do Eu. Tão na flor da juventude e já se dizia um descrente. foi logo chamando a atenção de mestres e colegas pelos conhecimentos que demonstrava. Órris Soares confessa que só conseguiu passar no exame de latim porque se valeu do colega que o ajudou a destrinchar Horácio. Era de fato um excêntrico. Os conhecimentos filosóficos gozavam reputação de primeira plana. confessava-se já então “afeito às mágoas e ao tormento”. era um introvertido. cuja vida corria sem obstáculos.

Até no Piauí. formavam rodas para discutir o sexo dos anjos. em sua. Comte passou. nas concepções filosóficas de seus poemas. Martins Júnior. Esquisitão que era. já no seu ocaso. adepto do positivismo. introduziu entre nós a poesia científica. conciliada. não exclui absolutamente a hipótese da existência da alma. a velha Escolástica. que só cuidava de preocupações teológicas. já lidos nos filósofos da natureza. se o diabo é tão feio como o pintam. Nas rodas que se faziam na Paraíba. Darwin e Haeckel podem ser contestados ainda hoje como panteístas pelos que seguem ao pé da letra a história bíblica da Criação. um século antes de Hugo. dupla feição de filósofo e de poeta. disse-me certa vez que só depois de formado foi que veio a conhecê-lo direito. enquanto a metafísica do verdadeiro cristianismo continua palpitando na alma de todos os povos. Os menos letrados. segundo o depoimento de Cristino Castelo Branco. faziam praça de livres pensadores. O materialismo dialético dos nossos dias retrocede. de que católico era sinônimo de burro. Augusto pouco falava. tentou o milagre de 9 . que ficou sem seguidores e acabou relegada pelo próprio poeta. que. o queixo apoiado no cabo do guarda-chuva. a exemplo de Victor Hugo. ou mesmo. A matéria em sua essência afigurava-se-lhe tão misteriosa como a força. que se irradiava do Recife ao sopro tempestuoso de Tobias Barreto e seus ardorosos discípulos. mas a metafísica resistiu ao impacto das idéias novas. como se desconhecesse ou procurasse desconhecer a parte subjetiva de si mesmo. firmava-se o conceito. Ao que parece. Desses embates. Embora educado na religião católica. Na Paraíba. está sujeita também ao processo da evolução.de contas resistiu ao choque de uma crença que condenava até a indagação anatômica e a astronomia sideral. a ciência do Direito interessou menos ao estudante taciturno que as especulações filosóficas do materialismo naturalista. Um que foi seu colega de estudos e morou com ele na mesma pensão em Recife. Laurindo Leão. quando ainda pontificava na Faculdade de Direito do Recife um devoto do fenomenismo agnóstico. isto é. proceda ou não proceda. confundidas ambas na unidade cósmica. já era moda entre os renovadores o lançamento de poemas filosóficos. Os filósofos da natureza foram ficando para trás. suportou a mais dura crise. o pensamento ao longe. ficava a escutar os companheiros. os intelectuais mais dotados. irradiação natural da Escola do Recife discutia-se o problema do ser e do não-ser. emancipou-se dela intelectualmente. aliás. desde Haller. mas a origem simiesca do homem. Era a época da evolução do pensamento brasileiro. O beatério era o último reduto do catolicismo. Toda a preocupação era combater o pensamento teológico. de onde saiu formado em 1907. com a evolução da matéria e do espírito. entre o mundo da forma e o mundo da razão. Desta forma. Por todo o Nordeste. que Augusto dos Anjos penetrou os umbrais da tradicional escola. em seu livro Frases e Notas. os que ainda não tinham qualquer convicção filosófica. desde o monismo de Haeckel ao evolucionismo de Spencer. José Américo de Almeida. o rapazelho sorumbático deu asas ao pensamento nos conflitos entre a consciência e o sentimento. Aliás. como toda substância animada. influenciado pelos naturalistas e evolucionistas do século. Foi nesse ambiente de agitação doutrinária. aliás bem pouco lisonjeiro. por ver em tudo isso hipóteses visionárias. como uma velharia do século. Ainda na fase preparatória de estudos.

desesperado por não poder libertar a energia intra-atômica e dominar a lei da mecânica universal. até adquirir a forma humana. Em Bateau ivre quem fala é o barco ébrio e conta a sua derrota. na larva que procede do caos telúrico. A partir da monera. ouvindo a citação de dois versos seus tomados ao acaso. Do cosmopolitismo das moneras. Aos 17 anos. mas “a solidariedade subjetiva de todas as espécies sofredoras”. Não sofre apenas a sua dor. E a morbidez dos seres ilusórios! E por aí vai. e—crente no tema. identifica-se na substância primeva. poema que abre o Eu e Outras Poesias. depois de infinitas transformações.reduzir a um campo único a ciência e a arte. sempre a evoluir em movimentos rotatórios. ora transfigurado em filósofo moderno. procedo Da escuridão do cósmico segredo. enfim.. nas duas composições uma coincidência de temas. E assim continua. já desiludido. Imitá-lo seria obra grosseira de pastiche. chega aos seres mais complexos. O aspecto conceptual do poema. bem mostra a preocupação indagativa do poeta de penetrar a coisa em si. facilmente o identifica. Quem já o leu uma vez.. Integrado na sociedade. Nessa ânsia de penetrar a vida fenomênica das formas. já diferenciado na mônada.. como bem observa Cavalcanti Proença. e vem vindo como uma monera através de milhões de anos. que passou do reino vegetal para o animal. mas há casos em que a vidência poética de um é manifesta no outro.. incomparável na forma musicada. começa então o drama crucial da consciência. Em Monólogos de uma Sombra é a Sombra que fala e a Sombra é o eu do poeta. “esse mineiro doido das origens”. vibra A alma dos movimentos rotatórios. fundado na unidade cósmica. E é de mim que decorrem. que é a derrota da humanidade. como amostra. A saúde das forças subterrâneas. Augusto compôs Monólogos de uma Sombra. É a sua confissão de f transformista. numa caminhada de 31 estâncias. por força das sucessivas mutações da matéria. Em minha ignota mônada. Pólipo de recônditas reentrâncias. A simbiose das coisas me equilibra. ampla. Venho de outras eras. Rimbaud escrevera Bateau ivre. Encontra-se. mas há paralelismo de símbolos e de força criadora. Não há. Vejamos. Larva do caos telúrico. Da substância de todas as substâncias. ora transfigurado em sátiro vilíssimo. terso na linguagem. trinta anos antes. 186 versos. Não sei se Augusto leu alguma vez Rimbaud. Realizou de fato esse milagre em estrofações de profunda força conceptiva e de cunho tão pessoal que toda a sua produção traz a marca do autor — a eurritmia musicada dos decassílabos. as duas primeiras estrofes dos Monólogos: Sou uma Sombra. simultâneas. todavia. a ponto de mostrar seu nojo à natureza humana. a consciência 10 . naquela mesma idade em que. Por ela vai buscar-se no mundo informe da vida planetária.

sente o remorso a queimar-lhe a consciência. Nesse estado d’alma. centro de toda a acuidade sensorial. posto que falasse às vezes em alma divina e em Deus de amor e de bondade.No princípio era o Verbo. que tinha os ouvidos totalmente tapados. como está dito em Monólogos de uma Sombra. dezenove séculos antes. Perguntei-lhe um dia por onde entrava o som. Todo mundo sabe que é pelo ouvido que se ouve. E por que não admitir logo a alma? Se eu disser que a consciência e a inteligência têm a sua sede no espírito.conspurcada de gozo malsão. manifestou o seu espanto. força será admitir um agente oculto capaz de operar o fenômeno. uma espécie de fogo que devora e não consome. Por fim. noção trivialíssima das funções orgânicas. Quando a matéria transmigra acompanhada de um elemento hereditário que memoniza o instinto da espécie através das gerações. sem mais compreender que prodígios são esses da monera. a forma para ele era a manifestação passageira da matéria em seus processos evolutivos. entendia o agregado abstrato da saudade. o remorso já acordado na caverna escura. no princípio era a força. há que distinguir um pormenor. É a concepção monística. A rigor. cuido não estar proferindo uma heresia. embora intelectualmente convencido da teoria racionalista. Isso não impede que o espírito seja o agente atuante de tão prodigiosa membrana. natural de minha terra. O próprio Augusto. segundo querem os frenologistas. sente-se vencido diante do seu martírio e do martírio das criaturas. tantas vezes exaltada pelo poeta. em esconderijos apropriados. ouvia mais que um tísico. o sofrimento de toda a humanidade. onde impera a força que responde pelo movimento ubiqüitário da massa. temos aí um transformismo metafísico. o que vale dizer. No tocante à transformação da matéria. do ponto de vista metafísico. Vemos o poeta a adquirir a forma humana e a degradar-se em seguida num gozo efêmero de dolorosas conseqüências. respondeu-me que por todo o casco da cabeça. numa espécie de solidariedade subjetiva. A mesma coisa. A partir dai. já havia dito. conheci um sujeito. No fundo. dentro do mundo fenomenal. que a ele não interessava considerar. entrega-se ao sacrifício. no entanto. Augusto nunca deixou de ser um metafísico no sentido religioso da palavra. Nada obstante. Eis que assim se expressa em Os Doentes: A vida vem do éter que se condensa. que faz quase lembrar a reencarnação. chamando a si. E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva! Bem examinada a questão. o vidente de Patmos: . segundo a qual a matéria e o espírito se unificam numa só substância. assombrado com o não-ser. diante das maravilhas do aparelho encefálico. com sótão e porão. Sabemos que a consciência tem a sua morada no cérebro. Para os que negam o espírito há muitos fenômenos que ficam sem explicação. Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma 11 . Por alma. as conchas das orelhas rasas como a palma da mão e.

Monstro de escuridão e rutilância. Essa saturação filosófica fez-lhe um grande mal. O mundo em que vive é um vasto hospital. filho do carbono e do amoníaco. firmava-se no presente a flagelar-se na ciência racionalista. Os tormentos mortais da alma crescem com a descrença. Mas como é preciso preencher um claro na consciência. vermes. impreca. Na frialdade inorgânica da terra! Assombrado com o futuro. O próprio amor.tenha sido escrito por um adolescente para quem o cotidiano devia correr. Querendo fugir a essas coisas. faz perguntas ao destino: “Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?” E nesse duelo da matéria com o espírito perturba-se. Sofro. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. desde a epigênese da infância. só serviu para adensar o clima de alucinação. o éter cósmico. Sobe-me à boca uma ânsia igual à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. uma natureza gasta. Por toda parte. Profundissimamente hipocondríaco. que era o pior dos remédios para a sua alma inquieta. Nem por isso admite Deus. Ao invés de fecundação do espírito.Psicologia de um Vencido . um mundo de fantasmas errantes que não adquiriram ainda a consciência de sua dor. Augusto falava como um homem que já perdeu o ideal da vida. a matéria putrefata. procura penetrar o mistério da substância universal. sem problemas materiais: Eu. procura 12 .Fazer a luz do cérebro que pensa. A influência má dos signos do zodíaco. Em tudo. rasgar do mundo o velário espêsso.este operário das ruínas. onde imperam sombras. solta blasfêmias. o lado malsão da vida. E há-de deixar-me apenas os cabelos. que é o Deus materialista de Haeckel. onde não há lugar para a alegria. Custa crer que este soneto . fonte inesgotável de vida. perscrutar a fenomenalidade da energia a erguer da prisão milenária outras espécies que hão de vir. Em sua alma atormentada as superexcitações provocam visões aterradoras. Exausto da luta.. Já o verme . Na idade em que os encantos do mundo douram a existência. Que o sangue podre das carnificinas Come e à vida em geral declara guerra.. No auge da inquietação. inconformado com a idéia de ser um dia roído pelos vermes. servindo de pasto a uma civilização corrompida. cadáveres e bocas necrófagas. admite o éter. causa-lhe repugnância. mas “diante da sombra do mistério eterno” considera-se vencido. na melhor das suposições. Este ambiente me causa repugnância. dominado por um ceticismo acabrunhador.

a perda da crença e. A julgar pelos seus gemidos. Espera aí encontrar o seu nirvana. Mas há dentro dele qualquer coisa que o chama à realidade. pois que precisaria a tinta de todos os tormentos do homem. como se já tivesse despido a carcaça da matéria. Tudo isso. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das idéias! Mas de novo se encontra em face do nada. a terrível moléstia que se atribui. já cansado de escutar a natureza. E via em mim. podia fazer dele um triste. Nenhum pintor. na vã expectativa de que seu ego o deixe em sossego. gasta imensas energias e enche de culminâncias. podia exercer influência no temperamento sensível do poeta. com o poder de sua imaginação. Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer. não há homem que sofra mais. que exulta triunfante: Gozo o prazer. Com efeito. numa atitude mental de fuga à realidade. E de onde vem essa dor? É possível que tenha a explicá-la um concurso de causas. O resultado de bilhões de raças Que. Grita a sua dor por toda parte e. O subconsciente o aturde. supõe-se integrado na imanência da idéia soberana. como se supunha. E para não capitular a esse apelo. o Eu e Outras Poesias. em suas visões oníricas. Até agora 13 . nem Haeckel compreenderam. Há. Depois disso. acompanham-no. evadido de si mesmo.refúgio na inexistência espiritual. no todo ou em parte.. diz ele. de subverter-se no grande todo e fazer da parte abstrata do universo a sua morada equilibrada e firme. há muitos anos desapareceram! Nesta temática vai longe. O niilismo esvaziava-lhe a alma da mesma forma que o cientificismo materialista. deve ter acontecido na sua juventude. Antes de mais nada. coberto de desgraças. Falava como um homem que parecia ter a consciência carregada de remorsos. leve-se em conta a deformação de uma sensibilidade que vinha do berço e o predispunha ao desequilíbrio das sensações entre o eu e o mundo externo. não é demais supor a existência de algum motivo oculto capaz de levá-lo ao desespero. para não desmoronar a fortaleza de suas convicções filosóficas. Onde quer que se refugie. como se o infortúnio tivesse desabado sobre a sua cabeça. que os anos não carcomem. Um inocente metido na prisão talvez se revoltasse menos que ele no ergástulo da carne. sente o desejo. seria capaz de executar o quadro de suas aflições. mas não me parece bastante para torná-lo um desgraçado. Algo de mais grave. monstros terríveis. paralelamente. E é nesta manumissão schopenhauriana. tenta ir ao fundo da crença monística. Mas o diabo não larga a sua presa. Por um instante. uma desgraça na vida do poeta.. com efeito. que ele denomina um sonho ladrão.

no tocante a esse drama.esse seu sofrimento tem sido considerado puramente abstrato.. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrio! Um penetrante e corrosivo frio 14 . Mas é ele próprio quem está a falar continuamente numa desgraça. depois de haver conhecido os inefáveis afagos do amor. sempre se revela. Ele próprio. não tenho dúvidas em afirmar que foi o drama do amor. Banhei-me na água de risonhos lagos E finalmente me cobri de flores. Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. A dificuldade está em conhecer o valor dos símbolos e em seguida decifrar as alegorias. Lembro-me bem. não pode ocultar que foi vítima dele. Iríamos a um país de eternas pazes. Trata-se. Por mais que procure fugir ao assunto. em . pois. Por mais que Augusto negue o amor. cujo desfecho infeliz teria abalado convulsivamente sua personalidade carente de equilíbrio. Mesmo que quisesse recorrer a essa fonte para uma boa exegese literária. Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E via em mim. Mas o seu eu está projetado na obra e nestas condições não preciso de outro elemento identificador para firmeza do valor interpretativo que neste trabalho tenho a intenção de destacar. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. dada a ausência de biografia. não vejo maior necessidade de conhecer a biografia de Augusto dos Anjos para bem interpretar a sua obra. Exatamente aí. no capítulo do amor. Por suas próprias palavras. inútil seria qualquer esforço.A Ilha de Cipango alude a uma felicidade perdida. de uma paixão. é que deve começar o trabalho de pesquisa para a verdadeira interpretação psicológica do autor. Por enquanto. que é o drama mais doloroso de sua consciência.. coberto de desgraças Mas veio o vento que a Desgraça espalha Para iludir minha desgraça estudo. Gozei numa hora séculos de afagos. . Minha desgraça há de ficar sozinha! E que desgraça foi essa que o fez ficar assim tão sombrio? Convém que ele mesmo conte a sua história.. desespero virtual e não real.

Anestesiou-me a sensibilidade. E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. A tarde morre. Passa o seu enterro. . A luz descreve ziguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos!

Até aqui, apenas um lampejo, mas o bastante para mostrar que foi por causa de um amor desventurado que se fez assim tão sombrio. Onde deixa vislumbrar um pouco mais de claridade é neste outro quadro - A Árvore da Serra:
As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice calma! — Meu pai, porque sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs alma nos cedros... no junquilho... Esta árvore, meu pai, possui minha alma!... Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa: “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!” E quando a árvore, olhando a pátria serra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra!

Numa e noutra composição, como se vê, o assunto é tratado em linguagem hermética. Aliás, o uso de metáfora é freqüente nele, mais ainda quando alude ao drama da consciência. Um corte transversal nas duas composições - A Ilha de Cipango e A Arvore da Serra - entremostra a desventura amorosa. A cena teria se passado no engenho Pau D’Arco, residência do poeta. O moço triste era ele, e a namorada, a árvore da serra, que possuía a sua alma. A bem amada já havia cedido o seu amor ao poeta, como adiante veremos. Por ser uma jovem de condição humilde, um junquilho entre cedros, o pai austero, orgulhoso de sua estirpe ou premido pela família, determinou ou concordou tirar para sempre da presença do filho aquela flor silvestre, que o tinha preso aos seus encantos, crendo que, com o desaparecimento do empecilho, pudesse ter uma velhice calma.

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Para melhor compreensão do drama, convém apanhar o pensamento do poeta na parte em que as duas composições esboçam de leve o quadro: - “Gozei numa hora séculos de afagos,/’ Banhei-me na água de risonhos lagos,/ E finalmente me cobri de flores ... / Mas veio o vento que a Desgraça espalha”/ “Esta árvore, meu pai, possui minha alma!” ‘ / “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”/ “Foi sobre esta ilha que extingui meu sonho!”/ Desde então para cá fiquei sombrio!/ Um penetrante e corrosivo frio/ Anestesiou-me a sensibilidade.”// “Invoco os Deuses salvadores do erro./ A tarde morre. Passa o seu enterro!”// “Pela estrada feral dois realejos/’ Estão chorando meus amores mortos!”./ “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/ Caiu aos golpes do machado bronco,/ O moço triste se abraçou com o tronco/ E nunca mais se levantou da terra!” Seus versos deixam transparecer que houve violência. Mais de uma vez fala o poeta em golpes: - “E a grandes golpes arrancou as raízes/’ Que prendiam meus dias infelizes/ A um sonho antigo de felicidade!” / / “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/i/ Caiu aos golpes do machado bronco”/... A moça, ao que parece, era natural do brejo ou do sertão lugares que ficam sobre a Serra da Borborema, cujos contornos, na faixa do horizonte, se avistam da várzea do Paraíba, pois de outra forma não há sentido para o verso que diz: “E quando a árvore, olhando a pátria serra”... Se aprofundarmos um pouco mais a indagação, vamos encontrar retalhos desse episódio em quase todas as composições do Eu. A coisa tem começo em Monólogos de uma Sombra, quando o poeta, em seu primeiro exame de consciência, já mordido pelo remorso, acusa o sátiro que ele foi.
As alucinações táteis pululam. Sente que megatérios o estrangulam; A asa negra das moscas o horroriza. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa!

A seguir, em As Cismas do Destino, descreve o segundo ato da tragédia:
Fetos magros, ainda na placenta, Estendiam-me as mãos rudimentares! Ah! Com certeza, Deus me castigava! Por toda a parte, como um réu confesso, Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo, me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Não sei porque me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança

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E um pedaço de víscera escarlate. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse, E até o fim, cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória.

O terceiro ato da cena, constante do mesmo poema, é de revolta contra os seus, os que, cansados de viver na paz de Buda ou inflamados de preconceitos de nobreza, se encheram de humano orgulho, e quais guerreiros priscos contra uma imbele criatura que ao amor se rendera, entraram em conserto para a consumação da tragédia. Assim fala o poeta:
Todos os personagens da tragédia, Cansados de viver na paz de Buda, Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psico-plasma Humano sofre na mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, A morte desgraçada dos açougues... Tudo isso que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra!

E ao terminar o poema, no qual pôs toda a sua amargura, o peito arfando de impotente indignação, solta esse brado de desespero:
Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psiquê no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo!

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Como quem afasta de si a visão terrível de um drama macabro, guarda-se o poeta, mui cautelosamente, de descobrir o motivo cruciante do seu trabalho poético, deixando, entretanto, a perceber, em cada símbolo, em cada imagem de sentimentos dissimulados, um fragmento da realidade que abrasava o seu mundo interior. Sofre realmente e sofre mais porque a dor que se dissimula não estanca, principalmente quando falta ao paciente resignação cristã ou conformidade filosófica. A obsessão do sangue vai até o fim. Alma agoniada por tormentos mil, anda gemendo pelas estradas solitárias, perseguida por visões alucinadoras. Numa de suas últimas composições, ainda atormentado pelo monocromatismo monstruoso da universal vermelhidão, assim recorda o passado sombrio:
No inferno da visão alucinada, Viu montanhas de sangue enchendo a estrada, Viu vísceras vermelhas pelo chão...

Ele guarda para todo o sempre o pesar do golpe sofrido. Ora irrompe em forma de protesto, ora de arrependimento pela culpa que lhe cabe. A consciência inquietada pelo remorso é aquele morcego do seu soneto, que à noite entra imperceptivelmente em seu quarto. Seu coração ficou um deserto. Nem mais amor a Deus, nem mais amor à humanidade, nem mais amor à mulher. Ao coração devastado a alegria nunca mais voltou. Vive somente para a sua dor. Poder, riquezas, glórias terrenas, são coisas que despreza. Em sua musa, o amor não terá mais lugar, nem mesmo como tema de glorificação poética. Causa-lhe até repugnância. Explica-se desse modo a deficiência cromática de seus versos. Só na cor do sangue às vezes se manifesta. Em toda a sua poesia, a paisagem do Pau D’Arco se converte em cenário triste e repugnante. Com referência a esse cenário, diz ele em Psicologia de um Vencido: “Este ambiente me causa repugnância...” Alguns críticos tomaram o impropério como dirigido à sociedade da Paraíba. Do Pau D’Arco, ressalva apenas o velho Tamarindo, a árvore da perpétua maravilha, a cuja sombra amou e chorou. Varado de dor — continua amando em espírito, um amor etéreo, que está fora da carne e não tem mais sentido com o coração. Eis que assim se manifesta: Porque o amor, tal como eu o estou amando, É espírito, é éter, é substância fluida, É assim como o ar que a gente pega e cuida, Cuida, entretanto, não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes, imponderabilíssima e impalpável, Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! O fato em si é de todo interesse para a interpretação da obra original de Augusto. Já os detalhes do fato são sobras que ficarão reservadas ao investigador biográfico, que infelizmente ainda não apareceu. Em Augusto dos Anjos o que mais interessa é a biografia do poeta. Erro será querer julgá-lo como prosador, fora da área da poesia, como tem sido estranhamente fariscado por alguns críticos. Na prosa, era, de fato, rebarbativo, como de refinado mau gosto também foi, na prosa, o genial cantor dos Lusíadas. Apenas como um desafio ao futuro biógrafo, seria curioso saber como se chamava a moça que Augusto metamorfoseou na árvore da serra. Essa curiosidade vem a propósito do nome de uma 18

Sonâmbulo.. mas no poema .extravasava desta forma o seu lamento: 19 ... contrito. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim. Em cujo olhar o vício não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse.Insônia . Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Porque cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício.santa. eu também vou passando Sonâmbulo. O poeta..Queixas Noturnas . surpreende com a invocação de Santa Francisca. Sonâmbulo. Rola impetuosa por meu peito a dentro?! Porque é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ao mapa-mundi estranha. que não é das mais invocadas. Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. Porque não evitei o precipício Estrangulando a minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! De outras vezes. Como um bemol ou como um sustenido. nunca foi chegado a santos. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido.referindo-se certamente ao espectro de sua desventurada amada. como em . em mágoa. como é sabido. Noite. Depois de embebedado deste vinho.. confessa mais uma vez a sua culpa.. E invejo o sofrimento desta Santa. ao mesmo tempo que.

E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. Nem uma névoa no estrelado véu. que não admite a vida espiritual. ando! Bati nas pedras de um tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza a minha única saúde! Curioso é que o egoísmo de uma dor sem fim não lhe fez perder o amor ao pai. pouco fala. sem resolver a verdade interior. Toda a crença monística em que procura consolo não lhe explica à satisfação o fenômeno da vida. dormir primeiro. E porque a visão da morte não o deixa em sossego. Ao pai. como referiu vagamente em As Cismas do Destino. De nada valia para um espírito inquietante como o seu uma filosofia que arma o seu sistema à margem da vida. Ao vê-lo morto. Da mãe.As Cismas do Destino . assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. isso mesmo sem revelar um mínimo de afeto. num carro azul de glórias. Mãe. apenas três vezes. entre as estrelas flóreas. entretanto.Quem foi que viu minha Dor chorando? Saio. A satisfação que buscava nos conhecimentos filosóficos só lhe faz aumentar a sede de infinito. Rezo. quando a morte o olhar lhe vidra. Como Elias. Minha alma sai agoniada. Madrugada de treze de janeiro.brada: 20 . luta por fugir dela. Talvez visse nela uma criatura transtornada pela “mania mística”. cuidei que ele dormia E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o!” deixa-o. A projeção da imagem materna esvaneceu-se por certo como símbolo da mais freqüente e sublimada veneração. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. entre estes monstros. o ofício da agonia. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu. A morte é o fim de tudo. sonhando. como perseguido pela sinistra ceifeira. Mas pareceu-me. ama-o até mesmo na atômica desordem. mas para os que crêem há ainda uma esperança. expressa a sua mágoa numa comovente unção. em que a piedade do sentimento se sublima na tessitura da composição. não para ele.. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada.. que parece se deixou levar por pressão da família. Em .

devia ter na época. pois estava certo que nem Deus compreendia os seus soluços. levava-o a recolher-se em si mesmo. Acha Flósculo da Nóbrega. quando recebeu os 22 açoites da natureza.. Meu raciocínio enorme te condena! E num horror quase pânico exclama. habitado por monstros humanos. que só faziam aumentar a sua ânsia de infinito. que Augusto era um cerebral. 22 anos de idade. Forma difusa da matéria imbele. escravo do raciocínio frio.. ilustre membro da Academia Paraibana de Letras. Procura assim desoprimir o coração. não cria em Deus. desesperado por não encontrar solução no raciocínio frio e racionalista. alguém há de responder pelos sucessos infelizes do seu destino. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Presumivelmente. Impressionado sem cessar com a morte E sentindo o que um lázaro não sente.. ponto final da última cena. as palavras também servem para ocultar o pensamento. O sentimento profundo de dor e de descrença afastava-o da realidade. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. Ao invés de ajustá-lo à realidade. Já que não crê em Deus. em Alucinação à Beira Mar: “Um medo de morrer meus pés esfriava”. tanto que nos conflitos entre a inteligência e o sentimento tomava o partido do intelectualismo. Essa visão shakespeariana das espadas cruzando o espaço tanto pode ser a perseguição da morte como o trágico fim da sua amada. E porque não se acalmava? Faltava-lhe fé. Vivia um mundo à parte. O remédio que então buscava para as suas mágoas era o pior dos excitantes. como em toda a obra. E ainda. cheio de imperfeições. desabafando-se nestes termos contra a natureza: Tu não és minha mãe.. ardendo em indagações subjectivas. Por tua causa apodreci nas cruzes. em A Ilha de Cipango: Tenho alucinações de toda a sorte. Nada o consolava nesse estado de espírito. Nestas condições. é natural que se mostre rebelado contra a natureza. embora ansiasse por encontrá-lo. Aqui. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas Atravessando os ares bruscamente. Não me parece tenha razão 21 . em cujas entranhas um feto magro estendia-lhe as mãos rudimentares. Minha filosofia te repele.Morte.

Não importa que tenha morrido de pneumonia. volta-se vez por outra contra a sociedade. um espiritualista em eterna briga com o racionalismo. Suas percepções sensoriais estão sempre em conflito com as atividades especulativas do espírito. O mundo que o fazia sofrer não era de certo o da sociedade paraibana. e a mim pergunto. Era ali que ele sentia bulir na alma o drama de sua existência. que o 22 . o cérebro em fogo. entrava em crise espiritual. de vez que ninguém o compreendia. que o acolhia com carinho. Desta. não viveria atormentado com os mitos que o afastavam da realidade. no caso. Depois que o poeta deixou a Paraíba. As suas relações com a sociedade parecem rompidas. um homem excluído do mundo. Nem ele próprio se conhecia. foram produzidos no Pau D’Arco. Era. que só repugnância lhe causava. destoa em força emocional do que produzira em sua terra natal. Fosse como ele diz. tinha-se na conta de um doente. Ao contemplar esse ambiente. Há. ao redor da capela do engenho. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. ao contrário. em 1912. Tomado de tensão nervosa pela repugnância que lhe causava o ambiente. Mas ninguém tinha culpa de ser ele um incompreendido. De um modo geral. teria Augusto encontrado satisfação na filosofia. andar bamboleante. Surgem daí as freqüentes inflexões mentais e os distúrbios emocionais de fundo neurótico. Um tuberculoso pode sucumbir a outro evento que lhe antecipe o fim. No fundo. A inspiração despertava com a dor. como um sonâmbulo. em Poema Negro: A passagem dos séculos me assombra. conforme ouvi de Alcides Carneiro que ouvira dos seus íntimos.o ilustre intelectual paraibano. além de pouco. nunca recebeu hostilidades. Os seus melhores versos. toda a mágoa do seu espírito vem à tona. os de maior densidade emocional. sua musa empalideceu à falta de ambiente. contudo. excetuado da segunda parte do Eu e Outras Poesias o grande soneto O Lamento das Coisas. não se deixaria possuir pelo demônio da dúvida. mas no particular. via na sociedade a representação da humanidade sofredora. Não que tenha recebido ofensas dela. Em agravo da tortura moral que não cessa de persegui-lo. noite a dentro. torturado no sentimento do desamparo. um cuidado muito discreto da família em negar a tuberculose. podia ter alguma razão para queixar-se da sociedade. Na luta em que Augusto se debate. Punha-se então a passear. que não se sabe se foi escrito na Paraíba ou no sul. passos largos. condenado a expectorar os pulmões dilacerados. o que ele via realmente era o ambiente do engenho Pau D’Arco. Já é tempo de desfazer um equivoco que de tão repetido vai criando raízes. Em reforço desse argumento temos uma prova no próprio Eu. mas porque se sente um desajustado. O que produziu no sul do País. conforme declarou nesta honesta confissão. na vertigem: Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade.

entra a descrever a cidade dos lázaros. 23 . Perdido o amor. Parece que desperta para a vida. numa emoção que comove. A tragédia espiritual de Augusto começou desde que extinguiu seu sonho de amor sobre a Ilha de Cipango. “na urbe natal do Desconsolo”. que pode figurar sem favor entre os melhores da língua. num desalento ainda maior. assim principia o soneto Apóstrofe à Carne: “Quando eu pego nas carnes do meu rosto/’ Pressinto o fim da orgânica batalha”. Mas ninguém pode furtar-se às impressões da infância. Depois disso. perdeu também a crença. levado pela lembrança terna de um mundo cheio de encantos e maravilhas. aliada à descrença. em Os Doentes. confessa-se minado pela tuberculose. Em As Cismas do Destino. como se já tivesse perdido o alento de viver. atormenta-se com a idéia de que. como um arrependido. em serenata. passa a chorar a sua dor e a alheia. hosanas ao Senhor. os acordes saudosos do coração. Esse retorno do pensamento aos dias tranqüilos do passado. sob os seus pés. despedaçando as imagens dos próprios sonhos. Lá para o fim do poema. Eu bem sabia. havia “um fígado doente que sangrava e uma garganta de órfã que gemia”. De início. Essa real ou imaginária doença. Mais adiante. Já cansado do ceticismo. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! Mais tarde. onde os anjos cantavam. que os enfermos se reuniam pela camaradagem da moléstia. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. jamais preenchido pelo cientificismo materialista. como ele chamava. ansiado e contrafeito. a arremetida que deu depois contra esses tesouros do coração. na terra onde pisava. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minha alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. Era ali. Na ascensão barométrica da calma. deixa escapar este triste lamento: O inventário do que eu já tinha sido Espantava. a imagem dos sonhos remotos que ele quebrara com o furor de um iconoclasta. Foi a partir dai que entrou a sentir o vazio de sua alma. que admirar chore um dia a crença perdida. à guisa de ácido resíduo. imaginária cidade à margem do Paraíba. eis que escuta. Não há. tudo isso ele pincelou num quadro que é uma jóia de rara beleza.próprio poeta confessava. na qual os doentes consagravam a sua última fonética a uma recitação de misereres. o soneto Vandalismo. fez dele um misantropo. pois. depois de exclamar que sua angústia feroz não tinha nome.

Nesse decurso. pois. Assim é que. em gemidos de dor. Ao contrário da incontinente afirmativa. Templos de priscas e longínquas datas. num discurso de recepção a Flóscolo da Nóbrega. Sabe-se como compunha. há sempre o que referir. destaco Órris Soares. de admirar que ao lado de conceitos da mais justa penetração girem outros que espantam pela desconformidade. Negou-lhe peremptoriamente as qualidades de poeta. Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. Não é. a musa é que tomava o poeta de assalto nos momentos de suas lucubrações. disse que Augusto agarrava a musa e saía com ela a passear pelos recônditos da diluição biológica. Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! Caminha para cinqüenta anos que Augusto dos Anjos morreu.. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas. Onde um nume de amor. José Américo de Almeida. gostar e não gostar é coisa que se não discute. continua despertando o mesmo interesse dos primeiros tempos. tanto sobre a obra como sobre a personalidade do autor. Não era espremendo o cérebro como muitos que se apagam antes de morrer. ao aludir com desdenhoso apreço aos motivos abjetos que abundam no Eu e Outras Poesias. Raul Machado. No desespero dos iconoclastas. para ele. Enfim. por exemplo. apenas como autor de um livro apologético. Dos outros. quando a aflição interior explodia em chamas 24 . este último. que não é biografia e não chega a ser estudo. Como os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. No final de contas. Álvaro de Carvalho. posto que. A arte. cada leitor tem o direito de sentir o autor a seu modo. Sua obra. Santos Neto. era apenas o meio de formular soluções. muitas opiniões foram veiculadas. chegou a dizer que Augusto não era poeta. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. João Lélis. O que a uns desperta atenção e convida mesmo a uma meditação mais séria. que se afundava a alma do poeta. Para só mencionar os intelectuais paraibanos que se pronunciaram sobre Augusto dos Anjos. Flóscolo da Nóbrega. ler. em serenatas.Meu coração tem catedrais imensas. reconhecendo nele apenas o mérito de artista do verso. tenham bordejado na superfície do abismo em. Canta a aleluia virginal das crenças. João Lélis e De Castro e Silva. mas dar opinião atabalhoada a respeito daquilo que não chegou a ser entendido muda de figura. a outros poderá parecer insípido ou fastidioso. quase todos. já na 27ª edição. na Academia Paraibana de Letras..

tem as suas raízes no caráter polêmico da crítica passadista. como lamenta o crítico. Poe e Rimbaud. olhar perdido no espaço. como em compasso de música. Repugna-lhe o fartum que diz emanar do Eu e Outras Poesias. Escrevia numa linguagem difícil porque era esse o seu estilo. essa repulsa idiossincrásica que compromete o crítico antes de atingir o alvo. Essa incompreensão a respeito de Augusto. Jamais foi o leit-motiv de sua produção intelectual. lá fora. reside justamente no termo técnico. mas quem os lê e os medita tem a impressão de que foram cavoucados na rocha. na época. essa linguagem. sangue de vísceras dilaceradas. este na prosa. o outro 25 anos depois. Anoja-se o crítico diante de cadáveres. Augusto foi um torturado da idéia a serviço de um estro estrepitoso. Os que o conheceram de perto descrevem-no de andar banzeiro. por ver em tais composições a podridão enroupada em jargão científico ou jargão clínico. um em 1920. o ilustre escritor paraibano opõe embargos ao poeta. a densidade. duendes. figuras espectrais e outras visões sinistras. já por sua tendência malsã de ver as coisas pelo lado abjeto. já pelo cientificismo que tem por incompatível com a linguagem poética. Por tudo isso. também 25 . afirma e reafirma que o Eu ficou como planta exótica. num timbre especial de voz. o que acabava de compor. à margem das correntes estéticas do pensamento literário. Foi então que recitou de inopino. enquanto forjava mentalmente a composição. entrava disciplinada em seus versos. Muitas vezes. surpreendeu-o num desses partos sem dor e tão absorto divagava o poeta. nem o gosto se levava em conta quando prevalecia a prevenção pessoal ou quando se pretendia alcançar fama com a marreta da demolição. seu colega de turma e companheiro de estudos desde a fase preparatória. certa preocupação inclusive dos simbolistas. Cavalcanti Proença. associado à vibração sonora. em 1945. a passear a esmo. Não importa que Augusto tenha ficado sem seguidores. A virtuosidade ganha valor na opulência da expressão verbal. Em ter ficado sozinho. vermes. cujos adeptos se apraziam em demolir toda vez que a obra visada não estava na conformidade do seu gosto. entre nós. Bilac pode ter sido um lapidário da forma. claro que avulta ainda mais o seu mérito. que só deu pela presença do amigo depois de concluído o trabalho mental. o que era. Álvaro de Carvalho escreveu dois estudos sobre Augusto dos Anjos. túmulos. insulado em sua própria grandeza. à primeira vista incompatível com a poesia.devoradoras. lábios crispados. Só depois de elaborada é que ia para o papel. impressionam pelo poder da dialética. em excelente estudo sobre o artesanato na poesia de Augusto dos Anjos. que pretende ser de interpretação psicológica. com efeito. tem a prejudicá-la a idiossincrasia literária que afasta cada vez mais o retratista do retratado. que não tenha fecundado a poesia nacional. No entanto. disse que uma das suas forças. sobretudo da crítica provinciana. Euclides da Cunha. segundo a classificação que adota de Agripino Grieco. Os versos espoucavam no momento da inspiração. Órris Soares. de um a outro canto da sala. a sua personalidade psicológica. Essa crítica. Seus versos. Neles. escarros. Em ambos. o sentimento parece ter outra dimensão.

Mas é preciso notar que essa musa. Admita-se que a musa de Augusto tenha algo de doentio. ninguém lhes nega a grandeza de gigantes. com efeito. Eis porque. elogios ou restrições. Ou então. por isso mesmo poética. manifestada em poemas impressionistas de aguda sensação. Foi exatamente com esse título — Poeta do Hediondo — que ele. de sentido mais profundo. na interpretação de um drama emocional. nem tudo pode ter cabimento. aparelhou. num dos seus últimos sonetos. Nem por isso. Sua obra está aí mesmo a desafiar a argúcia dos mais entendidos. mesmo doentia. como se definiu neste quarteto de Minha Finalidade: Pré-determinação imprescritível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. Da vasta literatura que já se produziu sobre Augusto dos Anjos. na impotência de estabelecer relação entre o mundo visível e o invisível. pelas crises espirituais porque ambos passaram. 26 . Com Baudelaire. Com Verlaine. é mais uma aversão de olfato alérgico. a fim de atingir. O autor é o que é e não o que o crítico quer que ele: seja. Até mesmo quando desce ao abominável das podridões tumulares cintila em fulgurações de gênio. Se há fartum de diluição biológica na poesia de Augusto. Absurdo é querer sujeitar a literatura aos padrões em voga. Com Mallarmé. no duelo da carne. está em tempo de ser feita. Note-se mais que a esse vigor casa-se uma virtude de efeitos encantatórios. O anojamento de Álvaro de Carvalho. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Tenho por desnecessário dizer que uma interpretação psicológica de Augusto. Não pode o critico ser ortodoxo. Por suas excentricidades e afinidades outras de ordem espiritual. neste ensaio de exegese literária. pela bizarria do estro e pelo gosto malsão de impregnar a poesia com o almíscar das coisas abjetas. Augusto tem sido comparado aos mais altos padrões da corrente estética do pensamento. deu resposta por antecipação aos reparos dos seus futuros críticos.ficaram sem seguidores. Há. numa revolta do espírito que vai aos extremos da blasfêmia. que apenas transparece em linguagem evasiva. como se vê. o que forma em seu conjunto a harmonia orgânica de toda a obra poética do consagrado artista paraibano. tenho por objetivo abrir aos estudiosos uma clareira que os conduza ao fundo da obra. não lhe tira o vigor da expressão verbal. juízos despropositados de quem roça pelo assunto sem penetrar o recôndito da dor possessiva que tanto sublimava o poeta. O próprio Augusto tinha a consciência de que ia ficar sozinho e que era o poeta do hediondo. reconheça-se que essa poesia é humana. pela tristeza indefinível da alma. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto.

de uma honestidade quase bravia. assentado sobre cacos de pote e urtigas. os mesmos descuidos de metro e rima.. Veja-se como se pronuncia a respeito do assunto: Falas de amor. de mistura com alucinações. desejada por um. “Na Eternidade. Só com Rimbaud. encontra-se em Roma. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. Vez por outra. sensações simples e cenestesias. Também no amor os dois se assemelham. É.” Então desperta como de um pesadelo e com os olhos ainda ensanguentados da vigília sente a tristeza de ver mais uma vez como a sua vida é tão vazia. a filosofia da dor.através da sensação. em tropos ousados. citado por Augusto Meyer. O único que mencionou Rimbaud. pela tortura do espírito e pela constância do tema da morte. A mesma coisa ocorre com Augusto. temida pelo outro. Ouvindo isso. quando a cristandade parecia pura sobre a terra. em termos de comparação. no ar de minha terra. como quem deriva o pensamento para o lado oposto da imagem triste que o assedia. Curioso é que fez a citação ‘unicamente para dizer que nenhuma parecença encontrara entre com emprego de termos técnicos. posto que as coisas que tinha a dizer exigiam. num artigo publicado em 1914. em grupos prosternados. Com Leopardi. Nos transportes espirituais os dois correm parelha. como se fosse uma convicção firmada e firmada com ênfase. Dentro da Igreja de São Pedro o silêncio só é quebrado pelo vento que entoa cânticos de morte. que dialoga com os elementos imponderáveis. Com Antero do Quental. pelo sentido da dor universal. guardando o corpo do Divino Mestre. foi José Américo de Almeida. visionário. havia acentuada tendência do poeta. ambos procuram traduzir a sensação das coisas inanimadas. em quem se acumulam. como neste exemplo: 27 . isso mesmo de passagem. O triste espetáculo do seu século leva Rimbaud a um passado remoto. Augusto lembra Rimbaud. e é com veneração religiosa que vê os soldados do Vaticano. na postura de um campônio rústico. um mês após a morte de Augusto. só nesse ponto dissimula o pensamento. para a neologia e o vocábulo raro. por sua natureza. Honesto em tudo. as mesmas figuras de linguagem. Até nas aliterações e metáforas. Encontra-se. Segundo Delahaye. palavras raras e eruditas. na terra santa. que cultivava em sua sensibilidade enfermiça. usando símbolos e valores que convergem para o fim colimado. crematismos. os ventos gemedores estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na Serra da Borborema. Súbito. a idéia pura das coisas. ao pé de um muro carcomido pelo tempo. Não fica apenas aí o confronto. De lá de fora. Em outros lances de sua obra manifesta o mesmo desdém. desde a sua fase inicial. um grande medo toma conta do poeta. as mesmas despreocupações do rebuscado pour épater le bourgeois.. nunca nenhum dos seus críticos traçou o paralelo. numa sexta-feira santa. e eu ouço tudo e calo! O amor na Humanidade é uma mentira. Augusto tem as suas razões para desdenhar o amor. vem o barulho das matracas.

. é como a cana azeda. uma diferença de fundo entre os dois poetas. Ao invés de aceitá-la como resultante de seu egocentrismo. A toda boca que o não prova engana. Nem há mulher talvez capaz de amar-me. enquanto Augusto não chegou a cumprir a sua. é inútil. segundo é fama. ilusão treda! O amor. que era o seu anseio máximo. contudo. As repetidas negativas ocultam de certo uma dolorosa frustração. sente-se que há um complexo de culpa. Descasco-a. Há. mas que o levaram ao resultado conhecido.. Era a vida que lhe chegava e que fugia de Augusto.. exacerbava-a. acabou por admitir a presença de uma realidade espiritual. é verdade. Não percebe sequer que toda a sua angústia é nascida de suas entranhas. Teria acontecido com ele alguma coisa? Ao que se sabe. à beira da água. Não sou capaz de amar mulher alguma. filha legítima de sua alma. Augusto sentia-se puro. embora tenham se casado e tido filhos. Em cada um deles. onde se casou com uma nativa da Abissínia. É que Rimbaud era portador de uma mensagem que acabou por cumprir. em busca do paraíso terrestre. Rimbaud encontrou-se a si mesmo depois que descobriu o caminho da virtude — le sentier de l’honner — que tanto procurava. Motivos escabrosos.”. provo-a. Quando viu que tudo quanto imaginava como solução para restabelecer o paraíso não passava de divagação delirante. o bem e o mal caminhando juntos. homens de bem cheios de nobres intenções. como Tântalo. um suave concerto espiritual na natureza.. chupo-a. Ou então como nesta outra amostra: Parece muito doce aquela cana. teve motivos de sobra para tratar o amor com aquele desdenhoso apreço. poeta. tendo culminado com aquele célebre tiro que recebeu de Verlaine. No tempo de jovem. converteu-se à realidade e mandou ao diabo o ar do inferno que o sufocava. é improfícuo. por causas várias. Também Rimbaud modulou o seu canto no mesmo tom: “Je n’aime pas les femmes: l’amour est à réinventer. andou conspurcado de sensações súcubas. em suma. depois de errar longos anos pela África e pelo Oriente Médio. e por isso mesmo não achava conformidade para a sua dor.Sobre histórias de amor o interrogar-me É vão. Depois desse fato. E como não 28 . A violência do veneno que ingeriu muito cedo nas fontes materialistas fá-lo morrer de sede. vítima de injustiças humanas. na Bélgica. Augusto e Rimbaud negam sistematicamente o amor. Rimbaud. Ninguém sofre mais do que ele. largou-se para a África. Começou então a ver e a sentir milhões de criaturas encantadoras. que é talvez o drama mais crucial de suas consciências. a julgar pelos seus lamentos.

A vida. Por curioso paradoxo. que se agravou o drama latente de sua alma inquieta. numa reação inócua. onde não faltavam o ranger de dentes. contra a sociedade. sem preencher esse vácuo. o que recebe influências supera o modelo de inspiração. luz. Jamais desceu ao fundo de si mesmo. segundo o conhecido conceito bergsoniano do intuitivismo. depois que perdeu a ilusão dos homens. Um problema sempre gera outro. da mesma forma como sucumbira Antero do Quental. tudo quanto eleva os sentidos. como Camões na de Petrarca e de Vergílio. porém. Neste passo. martelada em versos magníficos e candentes. Rimbaud salvou-se porque se encontrou a si mesmo. Nas coincidências de temas ou mesmo de paralelismo de imagens não se veja. quando a monera já manifestava os primeiros sintomas de diluição. Dominado pela idéia de um mundo sem objetivo. Torturava-se por ver somente o lado negativo das coisas. silvos de labaredas e suspiros de empestados. autores que exerceram forte influência em sua formação intelectual. isto é. contra a sua grei. deixava-se ficar no interior da concha. imitação. revolta-se contra o mundo. entre a voz do sentimento e a da razão. quando muito. nada disso seria capaz de provocar-lhe uma sensação nova de vida.pode reformar o mundo. quanto mais afunda no racionalismo mais vacila na dúvida. Mesmo assim. perdia-se no estado de dúvida. chegaríamos por certo ao pai Homero que. 29 . Ele mesmo se esvaziava no mundo vazio que se criou. Possuído do demônio da dúvida. teria apenas disciplinado em poemas imortais os cânticos populares da época. Augusto revela-se mais lido em Põe e em Shakespeare. tudo quanto desperta a alma. sem procurar levantar o véu das aspirações profundas de sua alma. Augusto vai irredento até o fim. Há muitas espécies de conversões em literatura. Ou será preenchido ou compromete a dinâmica das forças morais. beleza. É sabido que nenhum escritor adquire a força do seu gênio senão depois de renovarse interiormente. Tais similitudes valeriam. perfume. mas nem isso acredito tenha havido.. Mallarmé também passou pelas mesmas crises. segundo apregoam os fundibulários da crítica. Todo vácuo que se abre na vida interior é prejudicial ao comportamento do indivíduo. dessa conversão ao materialismo. Machado de Assis só entrou na posse de si mesmo depois que se converteu à descrença. a criação. conforme confissão feita a Mário de Alencar. do qual se considerava prisioneiro.Une Saison en Enfer . Esse divórcio do eu com o indivíduo acabou por abranger a própria sociedade. Uma mesma idéia artística pode ser tratada com sabor de originalidade por mais de um autor. isto é. se fossemos no rasto dos poetas mais notáveis em busca de fontes de inspiração ou influências literárias. os mistérios da natureza. Também Rimbaud bebeu na mesma taça de Põe. como muito bem já disse Augusto Meyer a propósito de Machado de Assis. Rimbaud também criou para si uma estação no inferno . Não raras vezes. A conversão de Augusto foi às avessas e porque não se desconverteu estabeleceu-se o conflito do eu com o indivíduo. sua vida se transforma num verdadeiro inferno. cor. Foi a partir daí. mas depois que abandonou a luta espiritual afundou no suicídio. como fontes de inspiração. e se o fez alguma vez foi guiado pela dialética do monismo. som. o amor. Uma análise mais demorada encontraria maiores pontos de contacto entre Augusto e Rimbaud.espécie de autobiografia moral.

É o que há. Toda a obra poética de Augusto é um grito de dor arrancado do fundo da alma. Ao cabo do bombardeio oratório. que se veja na blasfêmia. outros negando. no desespero de tantos sofrimentos. uns batem nos peitos diante do altar e querem logo a recompensa do sacrifício feito. Na prática. mas os que o seguem desconhecem. via de regra. Só é possível possuir a fé quando se está convencido da verdade. lecionando a quatro gatos pingados todas as matérias do curso de humanidades. outros andam com a Bíblia debaixo do braço e o coração carregado de impiedade. No meio em que viveu era querido e admirado. a propósito. Apurada a eleição e com base no resultado. levantou-se a questão de saber se Deus existe ou não existe. Num dos muitos grêmios literários que proliferam na terra de Iracema. nas Alterosas. E como não lhe bastasse pela exigüidade dos proventos. um episódio que me foi contado por um amigo do Ceará. como ninguém ainda se entendesse. Os oradores. heresia maior que a do poeta quando. resolveu o presidente submeter a questão a votos. sem advertir-se de que jamais dera um passo ao encontro do Mestre. decretar a inexistência de Deus por decisão tomada nas urnas ou no bozó. é questão que não deve ser formulada. se manifesta ainda escravo do batismo. em torrentes de eloqüência. Todos nós. proclamou que Deus não existe. Se o Cristo não vem em seu auxílio. é objeto de amor e de crença e não de investigação científica. a essência dos Evangelhos. alcançando a grande esforço um lugar de diretor de Grupo Escolar. olhar menos para as suas dores e um pouco mais para as alheias. se sucediam na tribuna. 30 . O cristianismo se apresenta como a doutrina de Cristo. se não há Deus. Se há Deus. A conquista da fé importa na conquista do próprio eu. Embora não caiba nos limites deste trabalho uma digressão sobre a contradição reinante no mundo da crença. em meio a tantas emoções extravasadas. certos de que no futuro sobrará tempo para essas coisas. quando não proferida por modo vulgar e chulo. Ora. Alguns críticos. Isso mostra que ele. nas apóstrofes do poeta contra o cristianismo. Mas no mundo fechado em que se enclausurava não era possível ver lá fora as almas piedosas e aflitas que tão necessitadas como ele pediam socorro. sentia-se Augusto na impossibilidade de admitir a realidade da vida. todavia. tal como Rimbaud.Enredado em idéias preconcebidas. na realidade. uns afirmando. No sul do país continuou a mesma luta heróica pela subsistência. teria certamente encontrado a realidade espiritual que nasce da fé e se alimenta na caridade. viram nisso o pecado da blasfêmia. Não fosse a trama filosófica do individualismo racionalista. com raríssimas exceções. Convém. aceitar as imperfeições do mundo. é. Se emigrou para o sul do país foi porque a Paraíba do seu tempo nada tinha de melhor para dar-lhe senão uma cátedra no Liceu Paraibano. afetando melindres de devotos. porquanto Deus é princípio e é fim. a reação que lhe ocorre é a de menosprezo ao cristianismo. descuramos o nosso destino espiritual pelo gozo do momento que passa. supria-se do mais no magistério particular. a meu ver. Vale mencionar. há que distinguir entre blasfêmia contra o cristianismo e blasfêmia contra o Cristo. Para uma alma sequiosa de infinito como a sua não há que estranhar uma ou outra expressão de revolta. um pedido de socorro.

Só muito raramente soltava uma blasfêmia. sob estes galhos. A minha sombra há de ficar aqui! Por sombra. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. esta árvore de amplos agasalhos Guarda. dá à alma a denominação de sombra. não se pode dizer fosse ele um materialista ético.Debaixo do Tamarindo.” E onde mais expressivo se mostra é neste admirável soneto . como uma caixa derradeira. Como uma vela fúnebre de cera. encarnado nele e manifestado nesta passagem: Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade? Já em Monólogos de uma Sombra. 31 . Camões fala na sombra de Aquiles quando exigia. por mãos de seu filho Pirro. O passado da flora brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida. Por mais de uma vez chegou a falar em alma divina. vem de muito longe. desde Tales de Mileto. De outras vezes. No tempo de meu Pai. Voltando à pátria da homogeneidade. como se vê. esse sombrio personagem do drama panteístico das trevas. De inflexões mentais sua obra anda cheia. Abraçada com a própria Eternidade. A denominação. Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do cristianismo! Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio. Por outro lado. através dos séculos. nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência. Mandando ao céu o fumo de um cigarro. o sacrifício da linda moça Polixena. E como era sincero e honesto. e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. explodiu em As Cismas do Destino.atormentado por visões escatológicas. os filósofos iônios. depois de carpir amargamente diante de um mundo que se mostrava indiferente às suas mágoas: Escarrar de um abismo noutro abismo. coisa que não cabe na boca de um ateu. virtudes que cultivava com extremado zelo. começa o poema “Sou uma Sombra. entendiam a alma.

como entidade eterna. Daí por diante. Mais poderia dizer agora. !" Este trabalho. que não quer ver a glória de Deus resplandescendo em tudo. completem os estudos aqui esboçados ou deles discordem por modo a dar uma interpretação mais aceitável às mensagens de angústia. em Leopoldina. o metafísico cede lugar ao inveterado monista. como está dito em Sonhos de um Monista: A verdade espantosa do protilo Me aterrava. Choram ainda dentro dele. mito cosmogônico que liga entre si o espírito e a matéria. larva do caos telúrico. foi objeto de uma palestra proferida em maio de 1960. até que morre numa cidade das Alterosas. em soluços quase humanos. aos 30 anos de idade. até mesmo num grão de areia. da substância de todas as substâncias. Fala como um crente da cegueira da criatura humana. Quem o ler nesse soneto dirá que já está reconciliado com Deus. sua intimidade numenal. as formas microscópicas do mundo. na Federação das Academias de Letras do Brasil. em briga com o dualismo. para ele. vacilante na ciência fria. Até Deus. Assim fala e assim termina a composição: A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ainda tem de abrir para o infinito! Vã ilusão será pensar que já está reconciliado com Deus. que procede do éter cósmico. então a presença do Eterno afastará a escuridão do caminho e aproximará a criatura do Criador. nas composições que vão até o fim do livro. mais dotados de inteligência e espírito de penetração. era uma mônada. acrescenta. Que outros. isto é. desde o declínio das crenças mitológicas. a 12 de novembro de 1914. tal como se apresenta. Assim vai. mas dentro da alma aflita Via Deus . Quando essa cegueira for resgatada e arrancar o homem da inciência. assaltado de alucinações.essa mônada esquisita Coordenando e animando tudo aquilo! Em Ultima Visio revela-se um metafísico teológico. tal como a entendiam os filósofos iônios. ansiado por compreender o princípio anêmico dos seres.Mas o que Augusto chama a sua sombra não é ainda a alma. perdendo-se novamente no enleio cósmico. mas com o que ai está me contento. É a substância primeva. de onde decorrem todas as moléculas que se esvaem na transubstanciação da natureza. virtualidade espiritual. à semelhança da mônada de Leibnitz ou da monera de Haeckel. que eram uma constante na alma torturada do poeta paraibano. 32 . conjunto das faculdades intelectuais e morais do homem.

de abusar um pouco do café. cefaléia e amnésia: Até esta data não sofro absolutamente de amnésia. 1914 Nome: Augusto dos Anjos Idade: 28 anos Profissão: Professor e advogado Estado civil: Casado Filiação: Filho legítimo do bacharel Alexandre R. O que sente de anormal quando está produzindo: Uma série indescritível de fenômenos nervosos. dos Anjos Antecedentes hereditários: Meu pai. Em que idade começou a produzir: Se me não falha o poder de reminiscência. Conservo de memória tudo quanto produzo. São muito poucas vezes que me sento à mesa para produzir. Como faz o seu trabalho intelectual: Durante o dia. Faz as suas irregularidade: Sim refeições com Tem muito apetite: Regular Faz uso do álcool: Não Faz uso excessivo do café. entretanto. da chamada vida física. o que não impede. Sofre de insônia. mas a cefalalgia persegue-me constantemente. acompanhados muitas vezes de uma vontade de chorar. Engenho Pau d'Arco. Quais as horas que dedica ao seu trabalho intelectual: Não tenho horas metodicamente preferidas para o meu trabalho mental. R. Eu. Rio de Janeiro. quase sempre andando no meio de toda azáfama ambiente ou à noite deitado. relegando por completo tudo quanto concerne ao desenvolvimento.UM CURRÍCULO ESCRITO PELO PRÓPRIO POETA Resposta ao inquérito de Licínio dos Santos em A Loucura dos Intelectuais. Quantas horas repousa: Meu repouso varia de 7 a 8 horas. comecei a produzir muito antes dos 9 anos. chá ou outro excitante intelectual: Sou contra os excessos. Tem continuados sonhos fantásticos: Quanto a sonhos fantásticos é também muito raramente que os tenho. Onde e como foi educado: Na Paraíba do Norte. 33 . dos Anjos e D. Tenho insônia raras vezes. Córdula C. presumo. Quais as cores de sua predileção: A vermelha e a azul. Quais os autores que mais o impressionaram: Shakespeare e Edgar Poe Qual o seu autor favorito: Todos os bons autores me agradam. numa atmosfera de rigorosíssima moralidade. vítima de surmenage morreu de paralisia geral e minha mãe é excessivamente nervosa Antecedentes pessoais: O que me pode adiantar sua infância: Desde a mais tenra idade eu me entreguei exclusivamente aos estudos. Quais os trabalhos que deu à luz até a presente data: um livro de versos.

Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. desde a epigênese da infância.. filho do carbono e do amoníaco.. Morde-me a goela ígneo e escaldante molho. Na frialdade inorgânica da terra! 34 . “Vou mandar levantar outra parede.TODOS OS SONETOS O MORCEGO Meia-noite. vede: Na bruta ardência orgânica dasede. Ergo-me a tremer. Este ambiente me causa repugnância. E vejo-o ainda. Monstro de escuridão e rutilância. Chego A tocá-lo.. Ao meu quarto me recolho. Fecho o ferrolho E olho o teto. Meu Deus! E este morcego! E. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. agora. Produndissimamente hipocondríaco.” -. A influência má dos signos do zodíaco.. igual a um olho. Esforços faço. e à vida em geral declara guerra.este operário das ruínas -Que o sangue podre das carnificinas Come. Minh’alma se concentra. E há de deixar-me apenas os cabelos. à noite ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto! PSICOLOGIA DE UM VENCIDO Eu.Digo. Já o verme -. Que ventre produziu tão feio parto?! A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça. Circularmente sobre a minha rede! Pego de um pau. Sofro.

raquítica. Deixa circunferências de peçonha. e quase morta. Mostra aos montes e aos rígidos rochedos A hedionda elefantíase dos dedos Há um cansaço no Cosmos. e depois... Tísica. mínima. Que. Marcas oriundas de úlceras e antrazes.. quando sonha. Delibera. Sente no tórax a pressão medonha Do bruto embate férreo das tenazes.. esbarra No molambo da língua paralítica! O LÁZARO DA PÁTRIA Filho podre de antigos Goitacases. Todos os cinocéfalos vorazes Cheiram seu corpo. À noite. Quebra a força centrípeta que a amarra. quer e executa! Vem do encéfalo absconso que a constringe. em desintegrações maravilhosas. E o Lázaro caminha em seu destino Para um fim que ele mesmo desconhece! 35 . Mas. Anoitece.A IDÉIA De onde ela vem?! De que matéria bruta Vem essa luz que sobre as nebulosas Cai de incógnitas criptas misteriosas Como as estalactites duma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta Do feixe de moléculas nervosas. Em qualquer parte onde a cabeça ponha. Riem as meretrizes no Cassino. de repente. tênue. Chega em seguida às cordas da laringe.

Homens que a herança de ímpetos impuros Tornara etnicamente irracionais! Não sei que livro. em vez de achar a luz que os Céus inflama. Em que lugar irás passar a infância. Panteisticamente dissolvido Na noumenalidade do NÃO SER! 36 . Agregado infeliz de sangue e cal. Realizavam-se os partos mais obscuros. E. Tragicamente anônimo.. Filho da grande força fecundante De minha brônzea trama neuronial. Que poder embriológico fatal Destruiu. Meus olhos liam! No húmus dos monturos.. Somente achei moléculas de lama E a mosca alegre da putrefação! SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos 2 fevereiro 1911. feto esquecido. Em tua morfogênese de infante A minha morfogênese ancestral?! Porção de minha plásmica substância. em letras garrafais. Fruto rubro de carne agonizante. a feder?! Ah! Possas tu dormir.IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA Rugia nos meus centros cerebrais A multidão dos séculos futuros . com a sinergia de um gigante. Dentre as genealogias animais! Como quem esmigalha protozoários Meti todos os dedos mercenários Na consciência daquela multidão.

. Jamais emprega o acérrimo exorcismo Em sua diária ocupação funérea.Alma do inferior rapsodo errante! Resigna-a. Latindo a esquisitíssima prosódia Da angústia hereditária dos teus pais! O DEUS-VERME Fator universal do transformismo.é o seu nome obscuro de batismo. pelos séculos adiante. Tua garganta estúpida arrancar Do segredo da célula ovular Para latir nas solidões enormes? Esta obnóxia inconsciência. E no inventário da matéria rica Cabe aos seus filhos a maior porção! 37 . Janta hidrópicos. Cão! -. Almoça a podridão das drupas agras. E vive em contubérnio com a bactéria... Na superabundância ou na miséria. Ah! Para ele é que a carne podre fica. acode-a A escala dos latidos ancestrais. Livre das roupas do antropomorfismo.VERSOS A UM CÃO Que força pôde adstrita e embriões informes. arrima-a. E irás assim. para provar A incógnita alma. Verme -. rói vísceras magras E dos defuntos novos incha a mão. Filho da teleológica matéria. afaga-a. ampara-a. em que tu dormes.. Suficientíssima é. avoenga e elementar Dos teus antepassados vemiformes.

e.corte Minha singularíssima pessoa. Dr. como uma caixa derradeira. de amplos agasalhos. sob estes galhos.. esta árvore. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. O passado da Flora Brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo. depois da morte?! Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também..DEBAIXO DO TAMARINDO No tempo de meu Pai. portanto. Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do último verso que eu fizer no mundo! 38 . esta tesoura. Como uma vela fúnebre de cera. Abraçada com a própria Eternidade A minha sombra há de ficar aqui! BUDISMO MODERNO Tome. Voltando à pátria da homogeneidade. das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte! Dissolva-se. Que importa a mim que a bicharia roa Todo o meu coração. Guarda..

Cortava assim como em carniçaria O aço das facas incisivas corta! Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E eu saí. Na guturalidade do meu brado. Por trás dos ermos túmulos. com o esqueleto ao lado. A energia intracósmica divina Que é o pai e é a mãe das outras energias! SOLITÁRIO Como um fantasma que se refugia Na solidão da natureza morta. Eu fui refugiar-me à tua porta! Fazia frio e o frio que fazia Não era esse que a carne nos contorta. como quem tudo repele.SONHO DE UM MONISTA Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo Viajávamos. com uma ânsia sibarita. um dia... Como um pagão no altar de Proserpina.essa mônada esquisita -Coordenando e animando tudo aquilo! E eu bendizia.Velho caixão a carregar destroços -Levando apenas na tumba carcaça O pergaminho singular da pele E o chocalho fatídico dos ossos! 39 . Na inconsciência de um zoófito tranqüilo. A verdade espantosa do Protilo Me aterrava. -. por toda a pro-dinâmica infinita. mas dentro da alma aflita Via Deus -. Alheio ao velho cálculo dos dias.

moços do mundo. Vêm matar a sede! É o afrodístico leito do hetairismo A antecâmara lúbrica do abismo. mísera e mofina. talvez. O hierofante que leu a minha sina Ignorante é de que és. Em que é mister que o gênero humano entre.MATER ORIGINALIS Forma vermicular desconhecida Que estacionaste. vede: É o grande bebedeouro coletivo.. como um gado vivo. Ah! De ti foi que. Nos estados prodrômicos da vida. Todas as noites. Quando a promiscuidade aterradora Matar a última força geradora E comer o último óvulo do ventre! 40 . Onde os bandalhos. nesta rede. Como quase impalpável gelatina. Nenhuma ignota união ou nenhum sexo À contingência orgânica do sexo A tua estacionária alma prendeu.. Dentro do ângulo diedro da parede. A minha forma lúgubre nasceu! O LUPANAR Ah! Por que monstruosíssimo motivo Prenderam para sempre. Oh! Mãe original das outras formas. nascida Dessa homogeneidade indefinida Que o insigne Herbert Spencer nos ensina. A alma do homem poilígamo e lascivo?! Este lugar. autônoma e sem normas.

este ladrão comum Que arrasta a gente para o cemitério! É o transcendentalíssimo mistério! É o nous . Creio. De Messalina e de Sardanapalo?! Pois é mister que. na generalidade descrente Com que a substância cósmica evolui. é o pneuma . é esse danado número Um Que matou Cristo e que matou Tibério! Creio. É.. É a morte. Do meu sepulcro para o teu sepulcro?! ÚLTIMO CREDO Como ama o homem adúltero o adultério E o ébrio a garrafa tóxica de rum. é o ego sum qui sum .. Amo o coveiro -. e eu ouço tudo e calo! O amor da Humanidade é uma mentira.Alavanca desviada do seu futuro -E haja só amizade verdadeira Duma caveira para outra caveira. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. O amor! Quando virei por fim a amá-lo?! Quando. perante a evolução imensa. O mundo fique imaterializado -. como o filósofo mais crente. se o amor quea Humanidade inspira É o amor do sibarita e da hetaíra. para o amor sagrado.IDEALISMO Falas de amor. Que o homem universal de amanhã vença O homem particular eu que ontem fui! 41 .

caixas cranianas. Comi meus olhos crus no cemitério.. Cinzas.. se hoje volto assim. De aberratórias abstrações abstrusas! Nesse caixão iam. Na rua apenas o caixão sombrio Ia continuando o seu passeio! SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO Para desvirginar o labirinto Do velho e metafísico Mistério. Era tarde! Fazia muito frio. Vaguei um século. nele.. com a alma às escuras. cartilagens Oriundas. improficuamente. inclusas. Talvez meu Pai! Hoffmânicas viagens Enchiam meu encéfalo de imagens As mais contraditórias e confusas! A energia monística do Mundo. subi talvez às máximas alturas. e. talvez as Musas. É necessário que ainda eu suba mais! 42 . penetrava fundo No meu fenomenal cérebro cheio. como os sonhos dos selvagens. À meia-noite. Mas.. Numa antropofagia de faminto! A digestão desse manjar funéreo Tornado sangue transformou-me o instinto De humanas impressões visuais que eu sinto Nas divinas visões do íncola etéreo! Vestido de hidrogênio incandescente. Pelas monotonias siderais.O CAIXÃO FANTÁSTICO Célere ia o caixão.

Tamarindo de minha desventura. inda teremos filhos! 43 .A UM CARNEIRO MORTO Misericordiosíssimo carneiro Esquartejado.fontes de perdão -. Pelo muito que em vida nos amamos. glebas. selvas. A que nos acharemos reduzidos! Não morrerão. trilhos. tuas sementes! E assim. Se fosses Deus. com o envelhecimento da nervura. Ao monstro que espremeu teu sangue grosso Teus olhos -. em diferentes Florestas. com o envelhecimento dos tecidos! Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos! E a podridão.perdoaram! Oh! tu que no Perdão eu simbolizo. Talvez perdoasses os que te mataram! VOZES DA MORTE Agora sim! Vamos morrer. vales. Depois da morte. Tu. a maldição de Pio Décimo caia em teu algoz sombrio E em todo aquele que for seu herdeiro! Maldito seja o mercador vadio Que te vender as carnes por dinheiro. Eu. meu velho! E essa futura Ultrafatalidade de ossatura. reunidos. no Dia de Juízo. tua lã aquece o mundo inteiro E guarda as carnes dos que estão com frio! Quando a faca rangeu no teu pescoço. para o Futuro. Na multiplicidade dos teus ramos. pois. porém.

Perseguido por todos os reveses. apodrecer sozinho No silêncio de minha pequenez! ASA DE CORVO Asa de corvos carniceiros. Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes O telhado de nossa própria casa.. É meu destino viver junto a esa asa. adstrito ao triângulo mesquinho De um delta humilde. Ser semelhante aos zoófitos e às lianas.. Ganem todos os vícios de uma vez.INSÂNIA DE UM SIMPLES Em cismas patológicas insanas.. Ter o destino de uma larva fria. à categoria Das organizações liliputianas. É ainda com essa asa extraordinária Que a Morte -. Como os Goncourts. Deixar enfim na cloaca mais sombria Este feixe de células humanas! E enquanto arremedando Éolo iracundo. como os irmãos siameses! É com essa asa que eu faço este soneto E a indústria humana faz o pano preto Que as famílias de luto martiriza.. Apraz-me. Na orgia heliogabálica do mundo. É-me grato adstringir-me. Como a cinza que vive junto à brasa. nos doze meses. asa De mau agouro que. na hierarquia Das formas vivas.a costureira funerária -Cose para o homem a última camisa! 44 .

“Homem. puxa e repuxa a língua. “Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia “Voando ao vento o vastíssimo vapor. em desalento.. Busca exteriorizar o pensamento Que em suas fronetais células guarda! Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda! E ei-lo a tremer. rasga o papel. aos soluços. “O fracasso da tua geografia “E do teu escafandro esmiuçador! “Ah! Jamais saberás ser superior. à míngua Da própria voz e na que ardente o lavra Febre de em vão falar. mamífero inferior. A ESCADA E O HOMEM “Olha agora. “À luz da epicurista ataraxia.. “Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me! E a verticalidade da Escada íngreme: “Homem. já transpuseste os meus degraus?!” E Augusto. conquanto ainda hoje em dia. caiu de bruços No pandemônio aterrador do Caos” 45 . Como o soldado que rasgou a farda No desespero do último momento! Tenta chorar e os olhos sente enxutos!. a mim. o Hércules. A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda. com os dedos brutos Para falar. Ouvindo a Escada e o Mar. É como o paralítico que. E não lhe vem à boca uma palavra! O MAR. violento. o Homem.O MARTÍRIO DO ARTISTA Arte ingrata! E conquanto.

Vejo.DECADÊNCIA Iguais às linhas perpendiculares Caíram. Estragara-lhe os centros medulares! Como quem quebra o objeto mais querido E começa a apanhar piedosamente Todas as microscópicas partículas.. não fora ela! --“ E maldizia a sina. porque furtei o peito Que dava leite para a tua filha! 46 . o ouro que brilha. ralhava. mas eu. Penetrara-lhe os próprios neuroplastas. minha ama. em minha cama. agora. Nas suas 33 vértebras gastas Quase todas as pedras tumulares! A frialdade dos círculos polares. entretanto. Que ela absolutamente não furtava. minha Mãe..Não. Furtaste a moeda só. Em sucessivas atuações nefastas. Só lhe restam agora o último doente E a armação funerária das clavículas! RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ A minha ama-de-leite Guilhermina Furtava as moedas que o Doutor me dava. Eu furtei mais. após tudo perdido. como cruéis e hórridas hastas.. hipócrita.. Sinhá-Mocinha. Via naquilo a minha própria ruína! Minha ama. então. Ele hoje vê que. Que a mim somente cabe o furto feito. afetava Susceptibilidade de menina: “-. Tu só furtaste a moeda.

. os restos Duma comida horrivelmente azeda! A sucessão de hebdômadas medonhas Reduzirá os mundos que tu sonhas Ao microcosmos do ovo primitivo. Hoje.. num festim... Hás de engolir. aos reais convivas. e.a mãe comum -. É noite. Hoje que apenas sou matéria e entulho Tenho consciência de que nada sou! 47 . porque não tem fim! No ardor do sonho que o fronema exalta Construí de orgulho ênea pirâmide alta. Assim Tântalo. Terás somente uma vontade cega E uma tendência obscura de ser vivo! VOZES DE UM TÚMULO Morri! E a Terra -. após a árdua e atra refrega. Serviu as carnes do seu próprio filho! Por que para este cemitério vim?! Por que?! Antes da vida o angusto trilho Palmilhasse.. que se desmoronou A pirâmide real do meu orgulho.. à noite.A UM MASCARADO Rasga essa máscara ótima de seda E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos. do que este que palmilho E que me assombra.o brilho Destes meus olhos apagou!.. a escândalos e incestos É natural que o instinto humano aceda! Sem que te arranquem da garganta queda A interjeição danada dos protestos. E tu mesmo. igual a um porco. porém..

Eu. Irei também. O Amor e a Paz.. gemendo. e sendo justo. para amenizar as minhas dores! Que coisa triste! O campo tão sem flores. E o carpinteiroque fabrica as mesas Faz também os caixões do cemitério!. Deus não havia de magoar-te assim! 48 . Uma feição humana e outra divina São como a eximenina e a endimenina Que servem ambas para o mesmo feto! Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes! Por justaposição destes contrastes.. pois. O que o homem ama e o que o homem abomina. Tu. Indiferente aos mil tormentos teus De assim magoar-te sem pesar havia?! -.Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim É bom. E eu tão sem crença e as árvores tão nuas E tu. para onde fores. Deus. é justo. Junta-se um hemisfério a outro hemisfério. SONETO – I – A MEU PAI DOENTE Para onde fores. Tudo convém para o homem ser completo! O ângulo obtuso.. Às alegrias juntam-se as tristezas. para amenizar as dores tuas. Pai. trilhando as mesmas ruas. e o horror de nossas duas Mágoas crescendo e se fazendo horrores! Magoaram-te. e o ângulo reto. o Ódio e a Carnificina.CONTRASTES A antítese do novo e do obsoleto. meu Pai?! Que mão sombria..

assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. sonhando. Mas pareceu-me.. Rezo. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu! SONETO – III Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra.. E a marcha das moléculas regulam. dormir primeiro! E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza.. como os queijos Sobre a mesa de orgíacos festins!. Nem uma névoa no estrelado véu. Mãe. o ofício da agonia. Com a invariabilidade da clepsidra! Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos Roída toda de bichos. entre as estrelas flóreas. E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o”! deixa-o. Em seus lábios que os meus lábios osculam Microrganismos fúnebres pululam Numa fermentação gorda de cidra. Duras leis as que os homens e a hórrida hidra A uma só lei biológica vinculam. Amo meu Pai na atômica desordem Entre as bocas necrófagas que o mordem E a terra infecta que lhe cobre os rins! 49 .. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. cuidei que ele dormia. Como Elias.SONETO – II – A MEU PAI MORTO Madrugada de Treze de Janeiro. num carro azul de glórias.

meu filho.As árvores... não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho. Semelhante a um cachorro de atalaia Às decomposições da Natureza.Meu pai. Livre deste cadeado de peçonha. olhando a pátria serra. Apraz-me. O sistema nervoso de um gigante Para sofrer na minha carne estuante A dor da força cósmica furiosa. meu pai.. pois... despindo a última alfaia Que ao comércio dos homens me traz presa. enfim.e ajoelhou-se. pai. possui minh’alma!. Esta árvore.. por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs almas nos cedros. -. sôfrega e ansiosa. meu filho. Ficar latindo minha dor medonha! A ÁRVORE DA SERRA -. É preciso cortá-la. para que eu viva!” E quando a árvore.. no junquilho.DEPOIS DA ORGIA O prazer que na orgia a hetaíra goza Produz no meu sensorium de bacante O efeito de uma túnica brilhante Cobrindo ampla apostema escrofulosa! Troveja! E anelo ter.Disse -. O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra! 50 .. Para que eu tenha uma velhice calma! -. numa rogativa: “Não mate a árvore. Caiu aos golpes do machado bronco.

O CORRUPIÃO Escaveirado corrupião idiota. Pondo a áurea insígnia heráldica da farda À vontade do vômito plebeu. mergulhou a cabeça no Infinito. Tu nunca mais verás a liberdade!. E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo. preto e amarelo. Pões-te a assobiar. Foi a gaiola que te pôs assim! 51 . não tens mais! E pois.. Que do fundo do chão todo o ano brota! Mas a ânsia de alto voar. E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria O vencido pensava que cuspia Na célula infeliz de onde nasceu. Foi este mundo que me fez tão triste. Olha a atmosfera livre. sem cerebelo A gargalhada da última derrota! A gaiola aboliu tua vontade. bruto. de à antiga rota Voar. o amplo éter belo.. Arrancou os cabelos na montanha! Desceu depois à gleba mais bastarda. Acometido de uma febre estranha Sem o escândalo fônico de um grito.VENCIDO No auge de atordoadora e ávida sanha Leu tudo.. Ah! Tu somente ainda és igual a mim. desde o mais prístino mito.. por exemplo: o do boi Ápis do Egito Ao velho Niebelungen da Alemanha. Continua a comer teu milho alpiste.

O vento estava forte E aquela matemárica da Morte Com os seus números negros... Onde um nume de amor. na diuturna discórdia. a equórea coorte Atordoadamente ribombava! Eu. No eterno horror das convulsões marítimas Pareciam também corpos de vítimas Condenados à Morte. ególatra céptico. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. me assombrava! Mas a alga usufrutuária dos oceanos E os malacopterígios subraquianos Que um castigo de espécie emudeceu. Com os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos.ALUCINAÇÃO À BEIRA MAR Um medo de morrer meus pés esfriava. assim como eu! VANDALISMO Meu coração tem catedrais imensas. Canta a aleluia virginal das crenças. Noite alta. Ante o telúrico recorte. Templos de priscas e longínquas datas. cismava Em meu destino!. em serenatas. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. No desespero dos iconoclastas Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! 52 ...

E qual mais pronto. uns cem. Veio depois um domador de hienas E outro mais. guerreiro. toma A adaga de aço. Toma um fósforo. que. por fim. E à rutilância das espadas. Escarra nessa boca que te beija! VENCEDOR Toma as espadas rútilas. por fim. veio um atleta. ao todo.VERSOS ÍNTIMOS Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. e doma Meu coração -. e. Apedreja essa mão vil que te afaga. entre feras.esta pantera -Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem. Se a alguém causa inda pena a tua chaga. Acende teu cigarro! o beijo.. nesta terra miserável. sente invevitável Necessidade de também ser fera. Que ninguém doma um coração de poeta! 53 . Mora. E não pôde domá-lo enfim ninguém. Vieram todos. é a véspera do escarro. amigo. Meu coração triunfava nas arenas.estranho carniceiro! Não podes?! Chama então presto o primeiro E o mais possante gladiador de Roma.. e qual mais presto assoma Nenhum pôde domar o prisioneiro. o gládio de aço. A mão que afaga é a mesma que apedreja. Somente a Ingratidão -.

Que. E quando esse homem se transforma em verme É essa mágoa que o acompanha ainda! O LAMENTO DAS COISAS Triste. o subconsciente ai formidando Da Natureza que parou. A sucessividade dos segundos. em sons subterrâneos.. Ouço. do Orbe oriundos. O choro da Energia abandonada! É a dor da Força desaproveitada — O cantochão dos dínamos profundos. chorando. pois. E é em suma. a que só ele assiste. Sabe que sofre... e quanto mais resiste Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga. Quer resistir.. mas o que não sabe E que essa mágoa infinda assim não cabe Na sua vida. nada há que traga Consolo à Mágoa..ETERNA MÁGOA O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo. podendo mover milhões de mundos.. Da transcendência que se não realiza. a escutar. jazem ainda na estática do Nada! É o soluço da forma ainda imprecisa. o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada. pancada por pancada. é que essa mágoa infinda Transpõe a vida do seu corpo inerme. No rudimentarismo do Desejo! 54 . Da luz que não chegou a ser lampejo.

num grito de emoção. eu. Foi que eu.O MEU NIRVANA No alheamento da obscura forma humana. Onde a Vida do humano aspecto fero Se desarraiga. a animar o cosmos ermo. afinal. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das Idéas! CAPUT IMMORTALE Na dinâmica aziaga das descidas. Como a última expressão da Dor sem termo. feito força. pensando. Aglomeradamente e em turbilhão Solucem dentro do Universo ancião. me desencarcero. Morto o comércio físico nefando. o meu Nirvana! Nessa manumissão schopenhauereana. sincero Encontrei. Todas as urbes siderais vencidas! Morra o éter. Cesse a luz. Oh! Nauta aflito do Subliminal. Sobre a pancosmológica exaustão Reste apenas o acervo árido e vão Das muscularidades consumidas! Ainda assim. Tua cabeça há de ficar vibrando Na negatividade universal! 55 . que os anos não carcomem. impero Na imanência da Idéa Soberana! Destruída a sensação que oriunda fora Do tacto — ínfima antena aferidora Destas tegumentárias mãos plebéas — Gozo o prazer. De que. Parem as vidas.

Desagrega-se e deixa na mortalha O tacto. o ouvido. Diafragmas.APOSTROFE À CARNE Quando eu pego nas carnes do meu rosto. Que eu tenho de deixar para os meus filhos! LOUVOR A UNIDADE "Escafandros. pois.. "Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas! "Une. o olfato e o gosto! Carne. a irmanar diamantes e hulhas. Dói-me ver. numa alta aclamação. Pressinto o fim da orgânica batalha: — Olhos que o húmus necrófago estraçalha. sem retumbância.. muito embora a alma te acenda. sem gritos. arpões. sondas e agulhas "Debalde aplicas aos heterogêneos "Fenômenos. "À hirta forma falaz do are perennius "A transitoriedade das fagulhas!" — Era a estrangulação. Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas. a vista. Da multimilenária dissonância Que as harmonias siderais invade. Era. E o Homem — negro e heteróclito composto. O regresso dos átomos aflitos Ao descanso perpétuo da Unidade! 56 . A dardejar relampejantes brilhos. Em tua podridão a herança horrenda. "Com essa intuição monística dos gênios.. ao sol posto. e. decompondo-se. Onde a alva flama psíquica trabalha. há inúmeros milênios. feixe de mônadas bastardas..

é o transunto. e. E eu sinto a angústia dessa raça ardente Condenada a esperar perpetuamente No universo esmagado da água morta! SUPREME CONVULSION O equilíbrio do humano pensamento Sofre também a súbita ruptura. — libertação do homem cativo — Ruptura do equilíbrio subjetivo. às escâncaras. Que produz muita vez. Tragicamente. De todas as grandezas começantes! Larvas desconhecidas de gigantes Sobre o seu leito de peçonha e luto Dormem tranqüilamente o sono bruto Dos superorganismos ainda infantes! Em sua estagnação arde uma raça. É a síntese. sem dor. é a abreviatura Do todo o ubiqüitário Movimento! Sonho.. para mim que a Natureza escuto. à espera de quem passa Para abrir-lhe. meus semelhantes! Mas. Ah! foi teu beijo convulsionador Que produziu este contraste fundo Entre a abundância do que eu sou.. a porta. A convulsão meteórica do vento. E a alma o obnóxio quietismo sonolento Rasga.O PÂNTANO Podem vê-lo. E o nada do meu homem interior! 57 . Este pântano é o túmulo absoluto. na noite escura. opondo-se à Inércia. é a essência pura. no Mundo.

Vence o granito. oh! gérmen. deprimindo-o . ainda sentia Era a mesma imortal monotonia De sua face externa indiferente! E a Natureza disse com desgosto: "Terei somente. e. "Menos interiormente me conheça?!" 58 . no teu silêncio. E hás de crescer. Reconcentrando-se em si mesma. em conjugação com a terra nua.A UM GÉRMEN Começaste a existir. porventura. O espanto Convulsiona os espíritos... é natural. em realidade.. rosto?! "Serei apenas mera crusta espessa?! "Pois é possível que Eu. que ainda haveres De atingir. Volvas à antiga inexistência calma!. geléia crua. um dia. o pranto Das tuas concreções plásmicas flua! A água. Antes o Nada. causa do Mundo. entanto. ainda algum dia. A Natureza olhou-se interiormente! Baldada introspecção! Noumenalmente O que Ela.. como o gérmen de outros seres. "Quanto mais em mim mesma me aprofundo. tanto Que. geléia humana. Teu desenvolvimento continua! Antes. Ao supremo infortúnio de ser alma! NATUREZA ÍNTIMA Ao filósofo Farias Brito Cansada de observar-se na corrente Que os acontecimentos refletia. não progridas E em retrogradações indefinidas.

.. E a dramatização sangrenta e dura Vir Deus num simples grão de argila errante.. São absolutamente negativas! Araucárias. . Da avidez com que o Espírito procura É a Subconsciência que se transfigura Em volição conflagradora.. no seu arcano. descendo A irracionalidade primitiva. Precisa de encharcar-se em sangue humano Para mostrar aos homens que está viva! 59 . nele. Como um convite para estranhas viagens. É a Natureza que. E a coorte Das raças todas. Vivem só. os elementos broncos..As ambições que se fizeram troncos.. . é transporte. Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens... Tornam todas as almas pensativas! Há uma força vencida nesse mundo! Todo o organismo florestal profundo É dor viva.A FLORESTA Em vão com o mundo da floresta privas!. na ordem cósmica. é ânsia..Todas as hermenêuticas sondagens. traçando arcos de ogivas. trancada num disfarce.. Porque nunca puderam realizar-se! GUERRA Guerra é esforço. que se entrega à morte Para a felicidade da Criatura! É a obsessão de ver sangue. Bracejamentos de álamos selvagens. é inquietude. é o instinto horrendo De subir.

saúde dos seres que se fanam. psíquico tesouro.O SARCÓFAGO Senhor da alta hermenêutica do Fado Perlustro o atrium da Morte. Minha maior ventura é estar de posse De tuas claridades absolutas! 60 . perante o Incognoscível Essa fatalidade de ser grande Para guardar unicamente poeira! HINO À DOR Dor. ouro De que as próprias desgraças se engalanam! Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato. À humana comoção impondo-a.. Dói-lhe. ancoradouro Dos desgraçados. Alegria das glândulas do choro De onde todas as lágrimas emanam. sol do cérebro. És suprema! Os meus átomos se ufanam De pertencer-te. ereto e imóvel sente Em sua própria sombra sepultado! Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível Que em toda a sua máscara se expande. em suma. É frio o ambiente E a chuva corta inexoravelmente O dorso de um sarcófago molhado! Ah! Ninguém ouve o soluçante brado De dor profunda. sem convulsão que me alvorece... inteira... assim.. Que o sarcófago. oh! Dor. Com os corpúsculos mágicos do tacto Prendo a orquestra de chamas que executas. Riqueza da alma. E.. acérrima e latente.

. para a hora derradeira! Culminâncias humanas ainda obscuras. Meu fantasma de carne passageira! Vulcão da bioquímica fogueira Destruiu-me todo o orgânico fastígio . Terá nascido nesse mesmo instante A mineralogia derradeira! A impérvia escuridão obnubilante Há de cessar! Em sua glória inteira Deus resplandecerá dentro da poeira Como um gasofiláceo de diamante! Nessa última visão já subterrânea.. Um movimento universal de insânia Arrancará da insciência o homem precito. Expressões do universo radioativo. pois... A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ele ainda tem de abrir para o Infinito! AOS MEUS FILHOS Na intermitência da vital canseira. em épocas futuras. Minha continuidade emocional! 61 . Ions emanados do meu próprio ideal.ÚLTIMA VISIO Quando o homem resgatado da cegueira Vir Deus num simples grão de argila errante. pois. Dai-me alma. Dai-me asas. ) Com o vosso catalítico prestígio. que. para o último remígio.. Benditos vós. Haveis de ser no mundo subjetivo. Sois vós que sustentais ( Força Alta exige-o ..

. A carne é fogo. E acho um feixe de forças prodigiosas Sustentando dois monstros: a alma e o instinto! O POETA DO HEDIONDO Sofro aceleradíssimas pancadas No coração. Eu sinto. os pés e os braços Tombara. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto! 62 . A espaços As cabeças. Emoções extraordinárias sinto.A DANÇA DA PSIQUÊ A dança dos encéfalos acesos Começa. O cosmos sintético da Idéa Surge. A alma arde.. então. cedendo à ação de ignotos pesos! É então que a vaga dos instintos presos — Mãe de esterilidades e cansaços — Atira os pensamentos mais devassos Contra os ossos cranianos indefesos. Ataca-me a existência A mortificadora coalescência Das desgraças humanas congregadas! Em alucinatórias cavalgadas. Arranco do meu crânio as nebulosas. Subitamente a cerebral coréa Pára.. sondando-me a consciência A ultra-inquisitorial clarividência De todas as neuronas acordadas! Quanto me dói no cérebro esta sonda! Ah! Certamente eu sou a mais hedionda Generalização do Desconforto.. as mãos.

Antes da refeição sanguinolenta! Amor! E a satiríasis sedenta. Superexcitadíssimos. Deixa a tua alegria aos seres brutos. no ardor dos seus assomos A alegoria do que outrora fomos E a imagem bronca do que inda hoje sois! HOMO INFIMUS Homem.A FOME E O AMOR A um monstro Fome! E. e. entretanto. No desembestamento que os arrasta.. na superfície do planeta. enquanto as almas se confrangem. Porque. o alfa e o omega Amarguram-te. os dois Representam. carne sem luz. criatura cega. aumenta. Hebdômadas hostis Passam. na ânsia voraz que. Sangram-te os olhos. Montão de estercorária argila preta. Rugindo. Realidade geográfica infeliz. Todas as danações sexuais que abrangem A apolínica besta famulenta! Ambos assim. O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! O nôumeno e o fenômeno. Teu coração se desagrega. Excrescência de terra singular. ávida. tragando a ambiência vasta. Tu só tens um direito: — o de chorar! 63 . Receando outras mandíbulas a esbangem. ris! Fruto injustificável dentre os frutos.. Os dentes antropófagos que rangem.

... homens felizes. E trago em mim. Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma Dos que amam apreender o Inapreensível! Predeterminação imprescriptível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. a Glória. aparelhou. num sincronismo eterno A fórmula de todos os destinos! NOLI ME TANGERE A exaltação emocional do Gozo.. O Amor. a Arte e a Beleza Servem de combustíveis à ira acesa Das tempestades do meu ser nervoso! Eu sou. Da dor humana. Sob pena. soluçando. dão gritos Nas minhas camas cerebrais funéreas. Ai! Não toqueis em minhas faces verdes. o Inferno. sou maior que Dante. a Ciência. — A águia dos latifúndios florentinos! Sistematizo. Que força alguma inibitória acalma. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Na canonização emocionante. de sofrerdes A sensação de todas as misérias! 64 . mordem-se.MINHA FINALIDADE Turbilhão teleológico incoercível. por conseqüência um ser monstruoso! Em minha arca encefálica indefesa Choram as forças más da Natureza Sem possibilidades de repouso! Agregados anômalos malditos Despedaçam-se.

Que. A ignomínia de todos os abusos! É a prosódia do cárcere. Em que o Mal se engrandece e o ódio se exalta. ontem. (Hoje. Teço a infâmia.O CANTO DOS PRESOS Troa. Uiva. à luz de fantástica ribalta... cresto o sonho. engendro o lodo E nas mudanças do Universo todo Deixo inscrita a memória do meu gérmen! 65 . a exigir que os sãos enfermem. Existo Como o cancro.. não cabendo mais dentro dos peitos.. em voz muito alta. a alardear bárbaros sons abstrusos. é a partênea Aterradoramente heterogênea Dos grandes transviamentos subjectivos. achato a esfera E acho odor de cadáver na fragrância! Chamo-me Aberração. O epitalâmio da Suprema Falta. Pela promiscuidade dos reclusos! No wagnerismo desses sons confusos. Minha alma é um misto De anomalias lúgubres. amanhã e em qualquer era) Minha hibridez é a súmula sincera Das defectividades da Substância. urdo o crime. Se escapa pela boca dos cativos! ABERRAÇÃO Na velhice automática e na infância. Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia. Como Belerofonte com a Quimera Mato o ideal. Entoado asperamente. È a saudade dos erros satisfeitos.

agarro. pelos caminhos quedos Minha tátil intensidade é tanta Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos! Quebro a custódia dos sentidos tredos E a minha mão. enfim. Feita dos mais variáveis elementos. transmudado em rutilância fria. como um corvo. invado. minha alma.. o Céu e o Inferno absorvo. Ceva-se em minha carne. de quanta Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos. A simultaneidade ultramonstruosa De todos os contrastes famulentos! AO LUAR Quando. apreendo.VÍTIMA DO DUALISMO Ser miserável dentre os miseráveis -. Transponho ousadamente o átomo rude E. dada às bravias Cóleras dos dualismos implacáveis E à gula negra das antinomias! Psique biforme. por fim. dona... Nos paroxismos da hiperestesia. Todas as coisas íntimas suplanta! Penetro..Carrego em minhas células sombrias Antagonismos irreconciliáveis E as mais opostas idiossincrasias! Muito mais cedo do que o imagináveis Eis-vos. à noite. Encho o Espaço com a minha plenitude! 66 . Criação a um tempo escura e cor-de-rosa. o Infinito se levanta À luz do luar. ausculto. O Infinitésimo e o Indeterminado.

projetado muito além da História..A UM EPILÉTICO Perguntaras quem sou?! – ao suor que te unta À dor que os queixos te arrebenta. Na hiperculminação definitiva O meu supremo e extraordinário Ser! Em minha sobre-humana retentiva Brilhavam. como um astro. num monturo. Siva. arder. Tifon. Laquesis. virgem. Tu hás de entrar completamente puro Para a circulação do Grande Todo! CANTO DA ONIPOTÊNCIA Cloto.. Como a luz que arde. Átropos. como a luz do amanhecer. E acima deles. Sentia dos fenômenos o fim. A coisa em si movia-se aos meus brados E os acontecimentos subjugados Olhavam como escravos para mim! 67 . Eu.. aos trismos Da epilepsia horrenda. defunta Na aterradora operação conjunta Da tarefa animal dos organismos! Mas após o antropófago alambique Em que é mister todo o teu corpo fique Reduzido a excreções de sânie e lodo.. e nos abismos Ninguém responderá tua pergunta! Reclamada por negros magnetismos Tua cabeça há de cair. A perfeição virtual tornada viva E o embrião do que podia acontecer! Por antecipação divinatória.

ai! como eu sinto no esqueleto exausto Não poder dar-lhe vida material! 68 . nem mesmo ao ronco Do furacão que. remoinha.. neste ergástulo das vidas Danadamente. esse mundo incoerente. entanto...Trilhões de células vencidas. alarga-se em meu hausto. a afagar tantas feridas.. rábido. e entre rochas duras Mostra ao Cosmos a face degradada! Entre os pedrouços maus dessa morada É que.. Nutrindo uma efeméride inferior. Hão de encontrar as gerações futuras Só. Folhas e frutos. minha árvore humana desfolhada! Mulher nenhuma afagará meu tronco! Eu não me abalarei. sobre a terra ardente Hão de encher outras árvores! Somente Minha desgraça há de ficar sozinha! ANSEIO (QUEM SOU EU.) Quem sou eu. Branda.. Roem-na amarguras Talvez humanas. às apalpadelas e às escuras. E.MINHA ÁRVORE Olha: É um triângulo estéril de ínvia estrada! Como que a erva tem dor. A áurea mão taumatúrgica do Amor Traça. A estrutura de um mundo superior! Alta noite. a soluçar de dor?! -. nas minhas formas carcomidas.. tenta transpor o Ideal.. Grita em meu grito. Essa elementaríssima semente Do que hei de ser.

A potencialidade do que é morto E a eficácia prolífica do estrume! Ah! Sou eu que. desconforto E ataraxia.Tudo a unidade do meu ser resume! Sou eu que. transpondo a escarpa augusta Dos limites orgânicos estreitos. -. em cisma abismadora absorto.Mãe promíscua do amor e do ódio insano! Sou eu que.. Apreendo. Sinto bater na putrescível crusta Do tegumento que me cobre os peitos Toda a imortalidade da Substância! 69 . aliando Buda ao sibarita. Massa palpável e éter. ateando da alma o ocíduo lume.REVELAÇÃO I Escafandrista de insondado oceano Sou eu que. Ouço o universo ansioso que se agita Dentro de cada pensamento humano! No abstrato abismo equóreo. em que me inundo. Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia. -. revolvendo o ego profundo E a escuridão dos cérebros medonhos. Penetro a essência plásmica infinita. feto vivo e aborto. Restituo triunfalmente à esfera calma Todos os cosmos que circulam na alma Sob a forma embriológica de sonhos! II Treva e fulguração. auscultando o absconso arcano! Por um poder de acústica esquisita.. Sou eu que. sânie e perfume. hirto.

. Reduzir carnes podres a algarismos. A tua conta não acaba mais! TREVAS Haverá. Continua a contar na paz ascética Dos tábidos carneiros sepulcrais Tíbias. hei de ficar trancado Na noite aterradora de mim mesmo! 70 . rádios e úmeros.. Na progressão dos números inteiros A gênese de todos os abismos! Oh! Pitágoras da última aritmética. Para convulsionar a alma que dorme Todas as tempestades são pequenas! Há de a Terra vibrar na ardência infinda Do éter em branca luz transubstanciado. em fúlgidos letreiros. Rotos os nimbos maus que a obstruem a esmo. crânios. Porque..VERSOS A UM COVEIRO Numerar sepulturas e carneiros. A própria Esfinge há de falar-vos ainda E eu.. nas geenas Luz bastante fulmínea que transforme Dentro da noite cavernosa e enorme Minhas trevas anímicas serenas?! Raio horrendo haverá que as rasgue apenas?! Não! Porque.Tal é. quatro. sem complicados silogismos. -. cérebros. dois. Esoterismos Da Morte! Eu vejo. na abismal sustância informe. infinita como os próprios números. A aritmética hedionda dos coveiros! Um. três. somente em. cinco. por hipótese.

mal Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?! Ah! Nesse anelo trágico de altura Não serão as montanhas. sob o horror Dessas agregações de pedra bruta?! Como nesses relevos orográficos. e dize-me. Inacessíveis aos humanos tráficos Onde sóis. perscruta O puerpério geológico interior. A representação ainda inorgânica De tudo aquilo que parou em mim?! II Agora. alma. afinal. amam jazer. oh! delumbrada alma. Toda a sublevação da crusta hirsuta! No curso inquieto da terráquea luta Quantos desejos fervidos de amor Não dormem. Por um abortamento de mecânica. assim. recalcados. a alma. me semente. se o que ainda não existe Não vibra em gérmen no agregado triste Da síntese sombria do meu Ser?! 71 . em contrações de dor.AS MONTANHAS I Das nebulosas em que te emaranhas Levanta-te. íngremes. Qual é. na natureza espiritual. A significação dessas montanhas! Quem não vê nas graníticas entranhas A subjetividade ascensional Paralisada e estrangulada. Quem sabe. porventura. De onde rebenta. Estacionadas.

Pára e. pelo orbe adiante. derrota Na atual força. derrubadas. Lambe-lhe a quilha e espúmea onda impudica E ébrios tritões.. A única luz tragicamente acesa a universalidade agonizante! A NAU A Heitor Lima Sôfrega. que o Éter indica. o último a ser. Destrói a ebulição que a água alvorota E põe todos os astros na desgraça! São despedaçamentos. E não haver uma alma que lhe entenda A angústia transoceânica medonha No rangido de todas as enxárcias! 72 .APOCALIPSE Minha divinatória Arte ultrapassa Os séculos efêmeros e nota Diminuição dinâmica. subjugue-as ou difarce-as.. integérrima. E estende os braços de madeira rica Para as populações do mundo inteiro! Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda. se as Tem. em noite aziaga e ignota.. da Massa. e. Federações sidéricas quebradas. babando. Espião da cataclísmica surpresa. Zarpa.. haurem-lhe o cheiro! Na glauca artéria equórea ou no estaleiro Ergue a alta mastreação.. A íngreme cordoalha úmida fica. sonha! Mágoas. alçando o hirto esporão guerreiro. E eu só. É a subversão universal que ameaça A Natureza. a amarra agarrada à âncora..

A humanidade vai pesar seu gênio Encontra o mundo. Arrancar. ao cabo do último milênio. cave. vazio! 73 . Sôfrego. Tragicamente. Com essa volúpia das ossadas novas Hão de ainda se apertar cada vez mais! O FIM DAS COISAS Pode o homem bruto.. Haurindo o gás sulfídrico das covas. adstrito à ciência grave.. continua a arder! Surdos destarte a apóstrofes e brados. Para a perpetuação da Espécie forte. Fome do átomo e eurítmico transporte De todas as moléculas. ainda depois da morte. Em convulsivas contorções sensuais. Os nossos esqueletos descarnados.VOLÚPIA IMORTAL Cuidas que o genesíaco prazer. E quando. invente A lâmpada aflogística de Davy! Em vão! Contra o poder criador do Sonho O Fim das Coisas mostra-se medonho Como o desaguadouro atro de um rio. e. em que arde o Ser. na ânsia ardente De perscrutar o íntimo do orbe. o dolo sáxeo. num triunfo surpreendente. que ela encheu. Dentro dos ossos. Das profundezas do Subconsciente O milagre estupendo da aeronave! Rasgue os broncos basaltos negros. aborte Na hora em que a nossa carne apodrecer?! Não! Essa luz dial.

.. Olhou-se no espelho. antes do almoço. Horrível! O osso Frontal em fogo. com um berro bárbaro de gozo. mancha a gleba.. vendo sangue. A carne que ele havia de comer! No inferno da visão alucinada. Somente. iguais a espiões que acordam cedo.A NOITE A nebulosidade ameaçadora Tolda o éter. Viu vísceras vermelhas pelo chão.. Era tão moço. E. há instantes... Ah! Certamente não podia ser! Levantou-se. Ficam brilhando com fulgor sinistro Dentro da treva onímoda e complexa Os olhos fundos dos que estão com medo A OBSESSÃO DO SANGUE Acordou. agride os rios E urde amplas teias de carvões sombrios No ar que álacre e radiante. A onda estoura Na negridão do oceano e entre os navios Troa bárbara zoada de ais bravios. Disse. Extraordinariamente atordoadora. Ia talvez morrer.. fora. eis que viu. A água transubstancia-se. E amou. À custódia do anímico registro A planetária escuridão se anexa. O monocromatismo monstruoso Daquela universal vermelhidão! 74 . Viu montanhas de sangue enchendo a estrada. Na mão dos açougueiros. a escorrer Fita rubra de sangue muito grosso..

Outras cabeças aparecerão Para compartilhar do meu destino! Na festa genetlíaca do Nada. E ai! Como é boa esta volúpia obscura Que une os ossos cansados da criatura Ao corpo ubiqüitário do Criador! AGONIA DE UM FILÓSOFO Consulto o Phtah-Hotep.. reconheço O império da substância universal ! 75 . O Inconsciente me assombra e eu nele rolo Com a eólica fúria do harmatã inquieto! Assisto agora à morte de um inseto!. percorro como um gênio Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!. ante obras tais. dando-me ao corpo vão Esta volúpia de ficar no chão Fruindo na tabidez sabor divino! Espiando o meu cadáver ressupino.. E em tudo igual a Goethe.. me não consolo. Leio o obsoleto Rig-Veda. E.. Ah! todos os fenômenos do solo Parecem realizar de pólo a pólo O ideal do Anaximandro de Mileto! No hierático areópago heterogêneo Das idéias.... No mar de humana proliferação. Rasgo dos mundos o velário espesso.VOX VICTIMAE Morto! Consciência quieta haja o assassino Que me acabou.. Abraço-me com a terra atormentada Em contubérnio convulsionador.

A Idéia estertorava-se. Da saudade na campa enegrecida Guardo a lembrança que me sangra o peito. E à dor e ao sofrimento eterno afeito. Não te abandono mais! Morro contigo!" SAUDADE Hoje que a mágoa me apunhala o seio.. Para dar vida à dor e ao sofrimento.Que fazes ainda no meu crânio? E o Último Número. ao meu lado. estranho ao mundo. Parecia dIzer-me: "É tarde. Era de vê-lo. resignado. Tragicamente de si mesmo oriundo. em meio. E o coração me rasga atroz. Se acende o círio triste da Saudade. amigo! Pois que a minha autogênica Grandeza Nunca vibrou em tua língua presa. imensa. P’ra iluminar-me a alma descontente. Fora da sucessão. À noute qunado em funda soledade Minh’alma se recolhe tristemente. imóvel. Como o reflexo fúnebre do Incriado: Bradei: -. No fundo Do meu entendimento moribundo Jazia o Último Número cansado. E assim afeito às mágoas e ao tormento. Hirta. Mas que no entanto me alimenta a vida. atro e subterrâneo. Eu a bendigo da descrença. 76 . Porque eu hoje só vivo da descrença.O ÚLTIMO NÚMERO Hora da minha morte.

Cansado de lutar no mundo insano. de ilusões tão bela. desgraçado réu. Fugazes sonhos.a Grande Mãe . Hoje ela habita a erma soledade. CETICISMO Desci um dia ao tenebroso abismo. Não sei se viva p’ra morrer na terra. em fundo misticismo: . Ah. Onde a dúvida ergueu altar profano. volvi ao ceticismo. Não sei se morra p’ra viver no Céu! 77 . seu olhar magoado.Resta somente um’alma tristurosa! Coitada! o gozo lhe fugiu correndo. eu creio em ti. De joelhos aos pés do Nazareno Baixo rezei.Todas se foram num festivo bando.ABANDONADA Ao meu irmão Odilon dos Anjos Bem depressa sumiu-se a vaporosa Nuvem de amores. Fraco que sou. O brilho se apagou daquela estrela Que a vida lhe tornava venturosa! Sombras que passam. Em que vive e em que aos poucos vai morrendo! Seu rosto triste. gárrulos voando . Fazem lembrar em noute de saudade A luz mortiça d’um olhar nublado.Oh! Deus. mas me perdoa! Se esta dúvida cruel qual me magoa Me torna ínfimo. Da Igreja . e então sereno. sombras cor-de-rosa . entre o medo que o meu Ser aterra.o exorcismo Terrível me feriu.

Revolvo as cinzas de passadas eras. Exausto de pisar mágoas pisadas. Ouvi. Cansado de chorar pelas estradas. E como a luz do sol vai-se apagando! E eu triste. As minhas crenças que alentei outrora Rolam dispersas. Oh! Minha infância nunca teve flores! Volvendo à quadra azul da mocidade. E que tornou-o assim. SENHORA Ouvi. senhora. todas sem olores. num mês de tantas flores. Tristes fanaram redolentes rosas. triste pela vida afora. Como um coveiro a sepultar quimeras! 78 . Mais tarde da existência nos verdores Da infância nunca tive as venturosas Alegrias que passam bonançosas.MÁGOAS Quando nasci. triste e descrido. o cântico sentido Do coração que geme e s’estertora N’ânsia letal que o mata e que o devora. de amor ferido. senhora. amei. Sombrio e mudo e glacial. Morreram todas. senhora. Todas murcharam. langorosas. tristes. pálidas agora. Eterno pegureiro caminhando. Minh’alma levo aflita à Eternidade. Quando a morte matar meus dissabores. Desfeitas todas num guaiar dorido. Hoje eu carrego a cruz das minhas dores! OUVI.

Alma viúva das paixões da vida. mas a fronte aureolada. No sepulcro da loura virgem bela. venceu batalhas. que na grinalda emurchecida De teu passado de felicidade Foste juntar os goivos da Saudade Às flores da Esperança enlanguescida.TRISTE REGRESSO Uma vez um poeta. e na existência agora Triste soluças a ilusão peerdida. Altivo lutador. INFELIZ Alma viúva das paixões da vida. Se nada te aniquila o desalento Que te invade. olímpica e singela! E partiu. Esconde à Natureza o sofrimento. E fica no teu ermo entristecida. Juncou-lhe a fronte aurifulgente estrela. e o pesar negro e profundo. 79 . enamorado dela. coração amargurado. Dos canhões ao ribombo e das metralhas. Alma arrancada do prazer do mundo. Cantaste e riste. Era o soldado. Mas a Pátria chamou-o. Tu que. pendeu triste e desmaiada. Oh! Tu. na estrada da existência em fora. Ao chegar. E tinha que deixar p’ra sempre aquela Meiga visão. Apaixonou-se d’uma virgem bela. E voltou. Vivia alegre o vate apaixonado. Louco vivia. um tresloucado.

Eu choro e gemo e triste me debruço Na lájea fria dos meus sonhos pulcros. silentes. soturnais. Quando há de ser!? E os pássaros falavam. Vinha rompendo a aurora majestosa. Quando da vida. NOIVADO Os namorados ternos suspiravam. Fora no campo pássaros trinavam. Há de chegar. Resvalando nas sombras dos ciprestes. ardentes . Dos rouxinóis ao sonoroso harpejo E a luz do sol vibrava esplendorosa. a brisa respondia. no eternal soluço. E a mesma frase o noivo repetia. Ambos unidos soluçara um beijo. Era o supremo beijo de noivado! 80 . Desliza então a lúgubre coorte. São minhas crenças divinais.Alvos fantasmas pelos merencórios Túmulos tristes. E rompe a orquestra sepulcral da morte. Hoje rolando nos umbrais marmóreos. pálidos. funéreos. Chegara enfim o dia desejado. Passam meus sonhos sepultados nestes Brancos sepulcros.N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS N’augusta solidão dos cemitérios. Quando há de ser o venturoso dia?! Quando há de ser!? O noivo então dizia E a noiva e ambos d’amores s’embriagavam. Quebrando a paz suprema dos sepulcros.

E espuma e ruge a cólera entranhada. 81 . Assim a turba inconsciente passa. A morte me será vingança eterna. Mas se das minhas dores ao calvário. E em centelhas de raiva ensurdecida A vingança suprema e concentrada. porém.NO MEU PEITO ARDE No meu peito arde em chamas abrasada A pira da vingança reprimida. E onde a vida borbulha e o sangue medra. Aí existe a mágoa em sua essência. A MÁSCARA Eu sei que há muito pranto na existência. E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca A humanidade ri-se e ri-se louca No carnaval intérmino da vida. Já que do mundo não vinguei-me em vida. Eu subo na atitude dolorida De um Cristo a redimir um mundo vário. Muitos que esgotam do prazer a taça Sentem no peito a dor indefinida. No delírio. Espumando e rugindo em marulhada. Em luta co’a natura sempiterna. Dores que ferem corações de pedra. Como no mar a vaga embravecida Vai bater-se na rocha empedernida. da febre ardente Da ventura fugaz e transitória O peito rompe a capa tormentória Para sorrindo palpitar contente.

Jóias. Somente assim festejarei teus anos. dão-te enganos. Foste do amor o mártir sacrossanto. estulto. a jóia que te exprima O amor fraterno do teu mano Em 28 de abril de 1901 82 . num abraço de ternura santa. Tu’alma ri-se descuidosamente. Irmão querido. Mostrar-te o afeto que meu peito sente. bonecos de formoso busto. Quantos. oh! Quantos Ouviram dele frases de candura Que d’infelizes enxugavam prantos! E como alegres não ficaram tantos Corações sem prazer e sem ventura! No entanto dizem que este padre amara. E Deus lhe disse: "És duas vezes santo. Pois se da Religião fizeste culto. Canta no espaço a passarada e canta Dentro do peito o coração contente. Su’alma livre para o Céu se alara. um desses santos Sacerdotes da Fé de crença pura. bom Papá. Minh’alma alegre no teu rir s’encanta. Morrera um dia desvairado. consente Que neste dia de ventura tanta Vá. Enquanto outros que podem.AMOR E RELIGIÃO Conheci-o: era um padre. Da sua fala na eternal doçura Falava o coração." CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior pelas nove primaverasque hoje completou. Eu só encontro no primor de rima A justa oferta.

que matou-te o coração?" Ele apontou para uma cruz no chão. Lá encontrei um pálido coveiro Com a cabeça para o chão pendida. Eu senti a minh’alma entristecida E interroguei-o: "Eterno companheiro Da morte. aveludado. Dançavam-lhe no colo perfumado. Tornou-se a pecadora vil. A chama cruel que arrasta os corações. Ali jazia o seu amor primeiro! Depois. No entanto. Do destino fatal. mornos. Bela. Balbuciou. divina. esta mulher de grã beleza. amigo verdadeiro. Moldada pela mão da Natureza. tomando a enxada gravemente. Os seios rijos eram dois brasões Onde fulgia o simb’lo do Pecado. Os seios brancos. palpitantes. sorrindo tristemente: "Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!" PECADORA Tinha no olhar cetíneo. presa. tinha ido ver a sepultura De um ente caro.O COVEIRO Uma tarde de abril suave e pura Visitava eu somente ao derradeiro Lar. Do fado. morria Uma noute entre as vascas da agonia Tendo no corpo o verme do pecado! 83 . o porte emoldurado No mármore sublime dos contornos.

Na vastidão silente das caladas Abóbodas sombrias tenebrosas. lembranças minhas! Saudades d’umas noutes em que vinhas Cantar comigo em doce desafio! Mas. Ai! não. Assim canta também meu coração. desnudas. Subindo pelo Azul da Inspiração. Repercute. os sons esmorecendo. Trovador torturado e angustioso. addio! 84 . E as mesmas monjas sempre tristurosas. E à noute quando rezam na clausura. pouco a pouco. Eleonora. Eleonora! Oh! sonhos meus! E o canto se desprende harmonioso Na vibração final do extremo adeus. mudas! IL TROVATORE Canta da torre o trovador saudoso Addio. . Que guardam pér’las de funéreas rosas. Que guardam cinzas de ilusões passadas. úmidas arcadas. Perdem-se as notas pelo Azul morrendo. Nem a sombra mais leve de ventura! Sempre as arcadas ogivais.Addio. não acordeis. No sigilo das rezas misteriosas. E as mesmas portas impassíveis.NO CLAUSTRO Pelas do claustro salas silenciosas De lutulentas. mavioso. dolente. addio. Vagueiam tristemente desfiladas De freiras e de monjas tristurosas.

tão moça e já desventurada. Chova-te o Céu cintilações sidéreas E a terra chova no teu seio flores! Esplende. Tu que sorveste o fel das minhas dores E me trouxeste o néctar dos teus sonhos! Cedo virá. Na auréola azul dos dias teus risonhos. soluça . Primavera gentil dos meus amores! 85 . Moça.a veste desgrenhada.coração saudoso. Num sepulcro de rosas e de flores. a desgraçada estulta. PRIMAVERA A meu irmão Odilon dos Anjos Primavera gentil dos meus amores. No seu olhar feroz eu adivinho O mistério da dor que a traz penada. O cabelo revolto em desalinho.Arca cerúlea de ilusões etéreas. Primavera. No sudário de mágoa sepultada.A LOUCA A Dias Paredes Quando ela passa: . Os dias voltarão a ser tristonhos E tu hás de dormir o eterno sono.O segredo d’um peito torturado E hoje. Da desdita ferida pelo espinho. Chora. Vai morta em vida assim pelo caminho. Canta. Eu sei a sua história.Em seu passado Houve um drama d’amor misterioso . . os teus fulgores. o triste outono. Arca sagrada de cerúleos sonhos. para guardar a mágoa oculta. gargalha. . porém.

Na voz da morte a me bradar: descansa! SENHORA. Sonâmbulo da dor angustiado. Este luto sem fim que é o meu Calvário E anseio e choro. não busques saber por que. E não é a Esperança por sentença Este laço que ao mundo nos manieta? Mocidade. Sirva-te a crença de fanal bendito. EU TRAJO O LUTO DO PASSADO Senhora. Quantas venturas que me acalentaram! Mau peito. O mistério d’um peito que estertora E o segredo d’um’alma que não sonha! Não. Também espero o fim do meu tormento. 86 . ela não cansa.A ESPERANÇA A Esperança não murcha. Salve-te a glória no futuro . Foi outrora do riso abençoado.Cantar o Ocaso quando surge a Aurora.avança! E eu. Senhora. Mas não queiras saber nunca. risonha. Também como ela não sucumbe a Crença. túm’lo do prazer finado. É minha sina perenal. Muita gente infeliz assim não pensa. ergue o teu grito. No entanto o mundo é uma ilusão completa. eu trajo o luto do passado. que vivo atrelado ao desalento. delirante e vário. tristonha . Vão-se sonhos nas asas da Descrença. O berço onde as venturas se embalaram. portanto. Voltam sonhos nas asas da Esperança.

Quando o rosário de seu pranto rola.o orvalho do pranto lhe perola As faces maceradas de desgosto. Por entre o resplandor das Primaveeras Oh! madrugada azul dos meus sonhares. Tenta às vezes.SOFREDORA Cobre-lhe a fria palidez do rosto O sendal da tristeza que a desola. Chora . Bela na Dor. sublime na Descrença. Mas volta logo um negro desconforto. nervosa e louca Esquecer por momento a mágoa intensa Arrancando um sorriso à flor da boca. santíssima. Vinde entornar a clâmide puríssima Da luz que fulge no ideal sagrado! Longe das tristes noutes tumulares Quem me dera viver entre quimeras. Quem me dera morrer então risonho. Sombra perdida lá do meu Passado. Mas quando vibrar a última balada Da tarde e se calar a passarada Na bruma sepulcral que o céu embaça. Fitando a nebulosa do meu Sonho E a Via-Láctea da Ilusão que passa! 87 . Como Jesus a soluçar no Horto! ECOS D’ALMA Oh! madrugada de ilusões. porém. Das brancas rosas do seu triste rosto Que rolam murchas como um sol já posto Um perfume de lágrimas se evola.

a fronte triste. Estende o teu olhar à Natureza. num só encanto? Esse mistério eterno e sacrossanto. púbere. Emergem da camisa cetinosa Entre as rendas sutis de filigrana. o olhar velado No Mistério da Carne Soberana 88 . Esse manto de amor doce e clemente Que lava as dores e que enxuga o pranto?! Ah! Se queres saber a sua grandeza. A carne exuberante e capitosa Trescala a essência que de si dimana. a seu lado Medita. Na altura Imensa. ama. Enquanto o amante pálido. As níveas pomas do candor da rosa. sê bendita! ARIANA Ela é o tipo perfeito da ariana. Fita a cúp’la do Céu santa e infinita! Deus é o templo do Bem. O amor é a hóstia que bendiz a Crença.. Que os encantos e a força dos poderes Reúne tudo em si.AMOR E CRENÇA E sê bendita! H. crê em Deus. Essa sublime adoração do crente.. mimosa. Branca. nevada. pois. Sienkiewicz Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo Ser que preside e rege os outros seres. Dorme talvez. Rendilhando-lhe o colo de sultana. e. Em flácido abandono Lembra formosa no seu casto sono A languidez dormente da indiana.

lânguida e bela. A romaria eterna dos aflitos. A procissão dos tristes. E na choça a lamúria que traspassa O coração. Que não se enterra assim sem compaixão Os escombros benditos de um Passado! Ai! Não me arranques d’alma este conforto! . o meu Passado. e quero sempre tê-las ao meu lado! Não. Eu vivo dessas crenças que passaram. Entre todos. Vai Corina mendiga e esfarrapada.TEMPOS IDOS Não enterres. .A Stella Matutina da Desgraça! 89 . A alma saudosa pelo amor vibrada.Quero abraçar o meu passado morto. dos proscritos. Tem pena dessas cinzas que ficaram. . ânsias e gritos De mães que arquejam sobre os probrezitos Filhos que a Fome derrubou na praça. Da juventude a virginal capela A lhe cingir de luz a fronte baça. além. porém. Dos romeiros saudosos da desgraça. Ao dobre funeral dos tempos idos! NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA (Lendo o "Poema de Maio") Na rua em funeral ei-la que passa. não quero o meu sonho sepultado No cemitério da Desilusão.Dizer adeus aos sonhos meus perdidos! Deixa ao menos que eu suba à Eternidade Velado pelo círio da Saudade. coveiro.

ADEUS.eu disse. Voa. Fitando o abismo sepulcral dos mares. devassando a terra. Parecia o ribeiro estar chorando As lágrimas que eu triste gotejava. se eleva em busca do infinito. E na esteira sem fim da azúlea esfera Ei-la embalada n’amplidão dos ares. ADEUS! E. SUSPIRANDO Pareceu-me inda ouvir o nome dela No badalar monótono dos sinos. Perto. adeus! E. Mas no mistério astral da noute bela Pareceu-me inda ouvir o nome dela No marulhar monótono das águas! A AERONAVE Cindindo a vastidão do Azul profundo. Sulcando o espaço. Cheia da luz do cintilar de um astro. Hermeto Lima Adeus. um ribeiro claro murmurando Muito baixinho como quem chorava. suspirando. Súbito ecoou do sino o som profundo! Adeus! . 90 . Deixa ver na fulgência do seu rastro A trajetória augusta da Ciência.ADEUS. Vinha o luar iluminando a estrada E eu vinha pela estrada soluçando. É como um despertar de estranho mito. adeus. Vencendo o azul que ante si s’erguera. A aeronave que um mistério encerra Vai pelo espaço acompanhando o mundo. apenas restam mágoas. Para mim no mundo Tudo acabou-se. Auroreando a humana consciência. Saí deixando morta a minha amada.

P’ra que pendes o cálice que enflora Teu seio branco do palor do círio?! Baixa a mim. E eu disse . Estrela esmaecida do Martírio. Se eu sou o orvalho eterno que te chora.a mágica princesa! E eu vi o Sol do Céu iluminando A Catedral da Grande Natureza. Para eu sorrir à sombra da ventura! A MINHA ESTRELA A meu irmão Aprígio A. Ai! que ao menos talvez na vida escassa Não chorasses à sombra da desgraça. irmã pálida da Aurora. estrela do Passado! Esconde-te no Azul da Imensidade. E quando ela no Azul foi-se sumindo Surgia a Aurora .LIRIAL Por que choras assim. onde não pousa a desventura. Lá onde nunca chegue esta saudade. Mas a noute chegou. tristonho lírio. E nunca mais eu vi a minha estrela! 91 . Disse. . Envolto da tristeza no delírio. triste. e a estrela foi p’ra o Céu subindo. Viu o adeus que do Céu ela enviava. Deixa beijar-te a face que descora! Fosses antes a rosa purpurina E eu beijaria a pétala divina Da rosa.A sombra deste afeto estiolado. Minh’alma que de longe a acompanhava.Vai-te. com ela Negras sombras também foram chegando.

o algoz .. A esmola dum carinho apetecido. Pedir a Dulce.A PRAÇA ESTAVA CHEIA. Estendo à Dulce a mão. Pude rever naquele desgraçado O drama lutuoso da Paixão. Quando do algoz cruento o braço alçado Se dispunha a vibrar sem compaixão O golpe na cabeça do culpado Ele. a minha bem amada. o olhar enlanguescido. Morre-me a voz. 92 . perdão.então. Depois. E eu balbucio trêmula balada: . como este beijo me consola! Bendita seja a Dulce! A minha vida Estava unicamente nessa esmola.o criminoso . E na atitude do Crucificado. A praça estava cheia. dai-me u’a esmola .Senhora.e estertorada A minha voz soluça num gemido. perdão! A ESMOLA DE DULCE Ao Alfredo A. E dos lábios de Dulce cai um beijo. a fé perdida. Vítima augusta de indelével falso. e eu gemo o último harpejo. O condenado Transpunha nobremente o cadafalso. E todo o dia eu vou como um perdido De dor. Puro de crime. por entre a dolorosa estrada.. Caiu na praça como fulminado A soluçar: perdão. O olhar azul pregado n’amplidão. E ela fita-me. isento de pecado.

na névoa baça Onde o teu vulto lúrido esvoaça. Gênio das trevas lúgubres. assassino.crença Perdida . E hás de tombar um dia em mágoas lentas. obumbra-me em teu seio. E as trevas moram.. Negrejadas das asas lutulentas Que te emprestar o corvo do Destino! GÊNIO DAS TREVAS LÚGUBRES.venenos d’alma E eu busco a plaga onde o repouso mora. Lá.segue a trilha que te traça O Destino. E a alma me ofusca e o peito me maltrata. Seja-te a vida uma agonia intensa! Vives de crenças mortas e te nutres.. e à ingrata Luz deste mundo em breve me arrebata E num pallium de tênebras recolhe-me! Aqui há muita luz e muita aurora.AVE DOLOROSA Ave perdida para sempre . acolhe-me N’asa da Morte redentora. Há perfumes d’amor . E o viver calmo e sossegado tolhe-me! Leva-me. Leva-me o esp’rito dessa luz que mata.. onde d’água raso O olhar não trago. Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença! Dos sonhos meus na Catedral imensa Que nunca pouses. nem me turba a calma A aurora deste amor que é o meu ocaso! 93 . Num desespero rábido. acolhe-me. e. Empenhada na sanha dos abutres. ave negra da Desgraça..

Que o guia e o leva ao porto da bonança. a vida é qual risonho Batel. Treme na treva a púrpura da tarde. Julgo ver nos reflexos de minh’alma As mesmas nuvens deslizando em calma. Reflete a luz do sol que já não arde. Abismados na bruma enegrecida. só descanta. Mas quando o céu é límpido. então. sem bruma Que a transparência tolde. Cada rocha é uma eterna sepultura Banhada pela imácula brancura De ondas chorando num albor etéreo. Que o céu reflete. dentre a escura Treva do oceano. sem nenhuma Nuvem sequer. Chora a saudade envolta nesta espuma! 94 .NIMBOS Nimbos de bronze que empanais escuros O santuário azul da Natureza. a voz do meu saltério! Quando a cândida espuma dessas vagas. Banhando a fria solidão das fragas. Quando vos vejo. Os nimbos das procelas desta vida. e a alma é a Flâmula do sonho. Ah! dessas no bramir funéreo Jamais vibrou a sinfonia pura Do amor. num mar de esp’rança. O MAR O mar é triste como um cemitério. Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma. negros palinuros Da tempestade negra e da tristeza.

lá nos espaços. Tendo a minh’alma presa nos teus braços! Pau d’Arco . FOGE! Aurora morta. Cantarias do amor a primavera.ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS. o meu único Norte. Donde Fluiu outrora a luz dum doce engano. Hoje é trevas. longe dos laços Dessa jaula de carne que a encarcera! Ah! Que unidos assim. foge! Eu busco a virgem loura Que fugiu-me do peito ao teu clarão de morte E Ela era a minha estrela.. onde O silêncio campeia soberano Morreram notas do bulício humano. agita as tuas asas.) Nessas paragens desoladas. Nem vibra a corda que a saudade esconde. Agora.. é dor. é desengano. Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas E. Aurora morta.esse clarão eterno d’alma forte Astro da minha Paz. e em si a Luz consoladora Do amor .eu busco a virgem loura! Pau d’Arco . meu Futuro. Anseios d’alma aqui se perdem. foge .1902 AURORA MORTA. E eu ergo preces que ninguém responde. Sírius da minha Sorte E da Noute da vida a Vênus Redentora. Adeus oh! Dia escuro. Dia do meu Passado! Irrompe.. oh! Minha Mágoa. quem dera Voar est’alma a ti.1902 95 . Triste criança virginal..o Sol que as almas doura! Fugiu. O grande Sol de afeto . Ascende à Claridade. num Pálio auroral de Luz deslumbradora.

Sonorizando os sonhos já passados.os roseirais descoram E elas bóiam no pranto da corrente Que as rosas. os astros rumorejam Um presságio de noute luminosa E ei-la que assoma . emergindo às trevas que a negrejam.Cítara suave dos apaixonados. Cantando sempre em trínula volata! Aurora ideal dos dias meus risonhos. e. entretanto. à dolente Unção da noute. no teu riso de anjos encantados. Um arroio canta pela umbrosa Estrada. Como que um doce tilintar de prata E a vibração de mil cristais quebrados... No alto. as águas límpidas alvejam Com cristais. Vai-se minh'alma toda nos teus lábios. Bendito o riso assim que se desata .a Louca tenebrosa.1902 96 .NO CAMPO Tarde. Pendem e caem . Ah! num delíquio de ventura louca. despertando sonhos. chorando enfloram. Pau d’Arco – 1902 CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA Canta o teu riso esplêndida sonata. E há. as flores também choram Num chuveiro de pétalas. Ri-se o meu coração na tua boca! Pau D'Arco . Chora a corrente múrmura. Aragem suspirosa Agita os roseirais que ali vicejam. ao luar. Quando. Branca. úmido de beijos em ressábios Teu riso esponta. nitente.

97 . noctâmbulo da Dor e da Saudade. Pau d'Arco -1902. É que dessa concha armínea Da lactescência angélica da neve. que a virgem chora. Derramam a urna dum perfume vário. olências de virgínea Carne fremindo num langor de pomas. se duas eu tivera. entre os encantos Dum noivado risonho em primavera. toda a cálida Mística essência desse alampadário. Ah! como a branca e merencórea lua. P'ra desvendar os seus segredos santos. A gaze pálida Que lhe serve de alvíssimo sudário Respira essências raras. é como os prantos Níveos. Também envolta num sudário — a Dor. A nívea cor de cera Que o seu seio branqueja. Flor dos mistérios d'alma.CRAVO DE NOIVA Ao Dias Paredes Cravo de noiva. Onde as almas das virgens em crisálida De seios alvos e de fronte pálida. Eu. E tudo quer que nessa flor se enleve O poeta. Guarda segredos divinais que eu dera Duas vidas. Se evolarn castos. virginais aromas De essência estranha. Minh'alma triste pelos céus flutua! Pau d'Arco -1902. sacrossantos. eterna noctâmbula do Amor. E a lua é como um pálido sacrário. PLENILUNIO Desmaia o plenilúnio. Voga a lua na etérea imensidade! Ela.

bandolim do Fado. É como as nênias do Coveiro d'alma! Tudo eterizas num coral de endeixas. Cedo atraiu-me a áurea fulgidia Da refulgência antiga das idades.Quero partir em busca do Passado. Ali. Paraíba -1902 O BANDOLIM Cantas. e ilusões acordas. Tanto que gemes. Quando alta noute. Um dia morto da Ilusão às bordas. E vais aos poucos soluçando mágoas. e eu julgo que nas tuas cordas Choram todas as cordas do Passado! Guardas a alma talvez d'um desgraçado. Choras. pompeia a luz da branca aurora.. bandolim do Fado E de Saudade o peito meu transbordas. a lua é triste e calma. Que desespero insano me apavora! Aqui. Teu canto. Tanto que cantas. vindo de profundas fráguas. Busquei então na nebulosa fria Das Ilusões.. E vais aos poucos soluçando queixas! 98 .Quero Correr em busca do Futuro. soluças. sonhar novas idades. Mas ao esplendor das velhas majestades Vacila a mente e o seu ardor esfria.INSÂNIA No mundo vago das idealidades Afundei minha louca fantasia. E eu tremo e hesito entre um mistério escuro: . . chora um ocaso sepultado.

E. NA ETÉREA LIMPIDEZ. Meiga. E a procela chorou n'um fundo arranco De mágoa triste e de paixão violenta. Na etérea limpidez de um sonho branco.. Aquele riso despertava a aurora! E tudo riu-se. cindindo os céus risonhos. alegre e rubro. Para nunca tocarem negros sonhos! Caíste enfim no meu sacrário ardente. Lúcia sorriu-se à bruma nevoenta. mas eis que neste enleio. E beijei-te. à voz de Lúcia.Foge. grave e lenta. E Lúcia disse à bruma lutulenta: . Tocando n'ara negra o níveo seio.ARA MALDITA Como um'ave. caindo dos altares. senão co'o o meu olhar te espanco! E eu vi que. também ria! 99 . Fulgia a bruma para sempre. A vida Despontava na aurora amortecida  rutilância mágica do dia.Esses teus seios que os cerúleos lares Branquejaram de eternos nenúfares. agora. Caíste morta ao celestial preceito. e como Lúcia. O céu tremia em seu trevoso flanco. qual hóstia. E eu quis beijar-te o lábio redolente.. Foste caindo n'ara dos meus sonhos. O sol. tu vinhas a cindir os ares. E eu vi os seios teus virem inconhos . Quiseste-me beijar a ara do peito.

Longe das sombras aurorais e amadas. E em mim como no Templo. e.A colunata êxul do Sonho Morto . A imensa Cruz da Dor está serena como um lírio! E vejo o pedestal que sustenta o Martírio. Que beija a terra e que abençoa os campos.o círio Da Quimera Falaz. Em mim como no Templo a Angústia se condensa. Beije-te o seio e te abençoe o ventre! O TEMPLO DA DESCRENÇA O Templo da Descrença . a Virgem Mãe dos céus escampos. E. eis que emerges. á luz das alvoradas santas Ungem-te o corpo redolências tantas. em banho ideal de amor te inundas. ao ver-te nua. E a rasgar. às fundas Águas do mar das glórias obumbradas. E vejo o pedestal que sustenta a Descrença! . o Mundo se concentre. Mas. Que. o túmulo da Crença. em bando. eu sombrio chorando Ante a imagem fatal do Sepulcro da Crença! 100 . Sentes o peito em ânsias revoltadas. luminosa. E a lua. Flores mortas da Aurora. a rasgar o lúrido sacrário. ante o branco estendal das madrugadas. Nua. Diluis teu peito em sensações profundas.TREVA E LUZ Neste pélago escuro em que te afundas. e. Tudo! até o altar onde a Angústia vibra intensa N'uma fúria assombrai de feras em delírio! Penetro louco enfim o abismo funerário. urnas de Sonho. Agora.ei-lo que avisto.

semeando a Morte. E como o sol que a segue e deixa um rastro De luz em tudo. santa de inocência! Anjo de luz de astral aurifulgência. Plena de graça. como o sol .o astro Deixa um rastro de luto em cada canto! IDEAL Quero-te assim.e que bendita sejas Como as aras sagradas das igrejas.a Peste N'um insano ceifar que aterra e espanta..O sol a segue.. tudo chora. formosa entre as formosas.... Todos dizem co'os olhos para a Sorte .Virgens filhas das virgens nebulosas! Quero-te assim. Etéreo como as Wilis vaporosas. e a Peste ri-se. entre esplendores.Fúlgido foco de escaldantes brasas . Como o Cristo sagrado dos altares. . No olhar d'amor a mística fulgência E o misticismo cândido das rosas. formosa. A alma diluída em eterais cismares. tudo! Quando Ela passa. De espaço a espaço sepulturas planta E em cada coração planta um cipreste! Exulta o Eterno e. 101 .. Embaladas no albor da adolescência. Quero-te assim . Colmado o seio de virentes flores.A PESTE Filha da raiva de Jeová . ela.É o castigo de Deus que passa mudo! . enquanto Vai devastando o coração das casas.

Como o santo levita dos Martírios.. a teus pés. assim. Perdão! E este sepulcro imenso que não fala! 102 .. o meu Sonho morreu! Perdão. insânia. pelo mundo.. E eu ouço etérea cavatina! Há nos teus lábios . meu anjo. Perdão! E este silêncio e esta tumba que cala! Insânia. É a música de Deus que vem do Céu! SÚPLICA NUM TÚMULO Maria.. Eu venho arrependido. penseroso e pasmo. pátria da Aurora exilada do Sonho! . ah! ninguém me responde. Teu canto agora é um salmodiar de arcanjo.. Açucena de Deus. lírio morto do Céu! Perdão! E a minha voz estertora um gemido..Harpa virgem brandindo mil delírios! Quedo-me aos poucos. E a Noite afeia corno num sarcasmo E agora a sombra vesperal morreu.Irei agora. para onde Me levar o Destino abatido e tristonho.. insânia. pois. .. perdoa o teu vencido.. Chegou a Noite. Implorar-te o perdão do imenso crime meu! Eis-me. eis-me a teus pés. E o lábio meu pra sempre apartado do teu Não há de beijar mais o teu lábio querido! Ah! Quando tu morreste.CÍTARA MÍSTICA Cantas.dois sangrentos círios A gêmea florescência de dois lírios Entrelaçados numa unção divina. Rendo piedosa dúlia peregrina À tua doce voz que me fascina. E para mim..

que da Desgraça veio Maldito seja.. Banhou-me o peito. Da Messalina fria no regaço. supremos. Mas. seja como o fardo Desta descrença funeral em que ardo E com que o fogo da paixão ateio! Funambulescamente a alma se atira À luta das paixões.. e ora Em contorço es supremas de Delícia! MARTÍRIO SUPREMO Duma Quimera ao fascinante abraço. Cristo d'amor morri pela inocência! 103 . Em ânsia de repouso. Por um Cocito ardente e luxurioso. Onde nunca gemeu o humano passo.. Tinha os lábios crestados pela ardência Da luz letal do grande Sol do Vício! E mergulhei mais fundo no estuário. sem Calvário. como a Aurora Que ao beijo vesperal anseia e expira.. e. . Desce para a alma o ocaso da Carícia Ora em sonhos de Dor. Transpus um dia o Inferno Azul do Gozo! O amor em lavas de candência d'aço. no Inferno do Gozo.Amor que é mirra e que é sagrado nardo. porém.AFETOS Bendito o amor que infiltra n'alma o enleio E santifica da existência o cardo. Turificando a languidez dum seio! O amor. Chora saudades do terreno pouso! Como um mártir de estranho sacrifício.

E vi-te triste. e a saudade da infância. também da Dor. desvalida e nua! E o olhar perdi. O penetral que leva à derradeira porta! Revejo em ti. mulher.. Domados pela meiga Ónfale a que me rendo! CORAÇÃO FRIO Frio o sagrado coração da lua. nem mais alquebre Um coração como a alma que está morta. a noute é tumbal.... num lânguido smorzando A sombra virginal qu'eu adoro chorando E há de um dia amparar-me na luta correndo. Lua que já passou e que hoje ainda corta O penetral que guia à derradeira estância. eu que te almejo. Teu coração rolou da luz serena! E eu tinha ido ver a aurora tua Nos raios d'ouro da celeste arena.....E tu velas.SOMBRA IMORTAL . Como um'alma de mãe. lá dos braços hercúleos. .Lua que esfria o sol do meu desejo! 104 . ansiando a luz amena No silêncio notívago da rua. eu vi.. estes dardos acúleos Caíam. Ah! que um dia da Vida... . E estavas morta. me acalenta e conforta! Noute! E somente tu velas a rutilância. no pó da fulgurância Como uma velha cruz vela na sombra morta! Fora.Sonâmbulo glacial da estranha pena! Estavas fria! A neve que a alma corta Não gele talvez mais.. a sós. Sombra de gelo que me apaga a febre.

chegando.. O roble altivo entreteceu4e um ninho..) Para o vale noital da eterna gaza Rolou o Sol . Para o Infinito e para o Céu voltados! Cantas. E um canto vai morrer no vale fundo. e no Santo harpejo.NOTURNO (PARA O VALE NOITAL. Choras. o seio branco. profundo?! Rumores santos.. inata! E.. no negror me abrasa. ajoelhando à imagem do Carinho. Santificada pela Dor do Mundo! U'a luz. virginal. entanto. Bendita a Santa do Carinho.imenso moribundo E a noute veio na negrura d'asa. Branca bem como empalecido arminho.. Que luz é esta que das brumas vasa. e.. Chegaste. Que canto é este. e em lânguida sonata Vinhas transpondo a margem do caminho.. Uma pantera foi se ajoelhando. e no meu peito estes teus olhos Como que cravam dois punhais gelados! SEDUTORA Alva d'aurora. No lago branco e rútilo do dia O azul pompeava para sempre vasto.. e é noute de fatais abrolhos. tu.. Somente tristes os teus olhos vejo. Alvorejando em arrebol de prata. te acolheu a mata. Pérolas e ouro pela serrania. Rendida ao eflúvio do teu seio casto! 105 . Alva d'aurora.

. E a paixão morre e os corações coveiros Vão como duendes pelos céus risonhos.. Já Vésper. Fria como um crepúsculo da Judéia. Qual rosa branca que ao tufão vacila. no Alto. Vão pelo mundo ensangüentando as Vidas. E o mar chamou-a para o funda abismo! E o céu chamou-a para o Misticismo.. Triste como um soluço de Dalila. Chorando auroras músicas perdidas Na estrada santa ensangüentando as Vidas.. cintila! Naquela hora morria para a Idéia A minha branca e desgraçada Déa. mórbidos encantos. Crepitaç5es de flamas incendidas Nalma explodindo como fogos santos. E as brumas velam nos sinistros mantos E as virgens dormem nas tumbais jazidas! Súbitos fremem 'spasmos derradeiros. e lânguida. Nesse momento a Lua vinha calma E céu e mar num desespero mudo Não viram que num halo de veludo À alma de Déa se evolava est'alma.PELO MUNDO Ânsias que pungem. Eflúvios quentes e fatais quebrantos Crestam a alma das virgens adormidas. Nos campos-santos enterrando os Sonhos! E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA E o mar gemeu a funda melopéia À luz feral que a tarde morta instila. 106 .

Consagração das almas padecentes! Foi numa tarde assim que nos amamos. Clarões de sonho em nimbos de epicédio! Bendito sejas.. E ergue à sombra da dor a que se irmana Lauréis de sangue de volúpia insana.Eterno fogo. Na Via-Látea fria do Nirvana. No ar.o voltairesco clown .A hora dos tristes e dos descontentes..quem mede-o?! . os gaturamos Num recesso de névoa. Desfaz-se o peito em vibrações dormentes E o Fado geme sob a névoa fria! Que eu sinta n'alma o que tu n'alma sentes! Nesta Missa de Atroz Melancolia Bebes chorando o Vinho da Agonia .. tristíssimo palhaço" Cruz e Souza O Riso . coração. clown da Sorte . Punge-me o peito da Saudade o cardo Enquanto um mocho.O RISO "Ri. QUERIDA! Vamos. querida! Já é Ave-Maria . Alenta a Vida que tombou no Tédio! Que à Dor se prende. Canta no espaço a maldição da Vida! 107 . que ao frio alvor da Mágoa Humana. adormecida. sonolento e tardo. Riso.Ele.Fogo sagrado nos festins da Morte . saturnal do Inferno! Eu te bendigo! No mundano cúmulo És a Ironia que tombou no túmulo Nas sombras mortas de um desgosto eterno! VAMOS. Silfos morriam.. e a todo o seu assédio.

A UMA MÁRTIR Alma em cilício, vem, enrista a dava, Brande no seio o espículo e o acinace E unjam-te o seio que d'auroras nasce Sangrentas bênçãos eclodindo em lava! Nossa Senhora te unge a face escrava, Cristo saudoso te abençoa a face De monja - violeta que do Céu baixasse À Virgem Santa Natureza brava! Vais caminhando para a terra extrema, Rosa dos Sonhos! e o teu galho trema E a tua crença, o desespero mate-a... E em nuvens d'ouro ascende enfim ao plaustro Da Neve Eterna, estrela azul do claustro, Levada para o Azul da Via-Látea!

RÉGIO Festa no paço! Noite... E no entretanto Luzes; flores, clarões por toda a festa E há nos régios salões, em cada aresta, Credências d'ouro de supremo encanto. No baldaquino a orquestra real se apresta E o áureo dossel finge um relevo santo... - Bissos egípcios d'alto gosto, a um canto, Flordilisados de nelumbo e giesta. Morreu a noite e veio o Sol Eterno - Âmbar de sangue que desceu do Inferno No turbilhão dos alvos raios diurnos... Brilham no paço refulgências de elmo E a princesa assomou corno um santelmo Na realeza branca dos coturnos.

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PELO MAR Manhã em flor. O mar é um policromo E imenso lago d'íris e alabastros... À aurora é branco e ao sol, o mar é como Um pálio imenso que caiu dos astros. Longe, bem longe, no alvoral assomo Ergue um navio os altanados mastros E o Oceano dorme - alourecido pomo Num leito irial de pérolas e nastros. A alma da Mágoa vai pelo seu dorso, Em sonhos geme... Um coração de corso Geme no mar, vibra no mar, entanto, Colma-lhe o seio a opala das esponjas... E à noute morta choram vagas - monjas Purificadas no cristal do pranto!

PALLIDA LUNA És do Passado! Vieste d'alvorada N'asa dos elfos pela Morte espalma... Cantas... e eu ouço esta berceuse calma Da harpa dos mundos ideais do Nada! Ergue o Missal brilhante de tu'alma, Mas nessa elevação mistificada, Vem, que eu te espero, Deusa constelada Desce, anêmona êxul que o Céu ensalma! Venhas e desças, Lua dos Martírios, Desças, mas venhas pela unção dos lírios. Visão de Ocaso de enluaradas comas, Vaso de Unção descido dos espaços, Para ungirmos nós dois, os nossos paços, Na tule idealizada dos aromas.

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A MORTE DE VÊNUS Velhos berilos, pálidas cortinas, Morno frouxel de nardos recendendo Velam-lhe o sono... e Vênus vai morrendo No berço azul das névoas matutinas! Halos de luz de brancas musselinas Vão-lhe do corpo virginal descendo - Abelha irial que foi adormecendo Sobre um coxim de pérolas divinas. E quando o Sol lhe beija a espádua nua, Cai-lhe da carne o resplendor da Lua No reverbero dos deslumbramentos... Enquanto no ar há sândalos, há flores E haustos de morte - os últimos clangores Da música chorosa dos mementos!

MÁRTIR DA FOME Nesta da vida lúgubre caverna De ossos e frios funerais que eu sinto Corno um chacal saciando o eterno instinto Vou saciando a minha Fome Eterna. - Fome de sangue de um Passado extinto, De extintas crenças - bacanal superna, Horrível assim como a Hidra de Lema E muda como o bronze de Corinto! Ânsias de sonhos, desespero fundo! E a alma que sonha no marnel do Mundo, Morre de Fome pelas noites belas... E como o Cristo - o Mártir do Calvário Morre. E no entanto vai para o estelário Matar a Fome num festim de estrelas!

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SONHO DE AMOR Sobre o aromal e amplo coxim de Flora, Que os vapores da tarde inda incensavam E que um incenso tênue e bom vapora, Os namorados lânguidos sonhavam. A alma do Ocaso entrava o céu agora E havia pelas tênebras que entravam Ora estrangulamentos surdos, ora Ruídos de carnes que se estrangulavam. E sonharam assim durante toda A noute, e toda a alva manhã durante! - O Sol jorrava largos raios longos E em roda víride e nevado, em roda, Lembrava o campo um colorido ondeante De vidros verdes e cristais oblongos!

A ORGIA MATA A MOCIDADE A orgia mata a mocidade, quando Rugem na carne do delírio as feras, E o moço morre como está sonhando Nas suas vinte e cinco primaveras. Em cima - o oiro sem mancha das esferas, Em baixo oiro manchado de execrando Festim de sibarita:, das heteras Lubricamente se despedaçando! Em cima, a rede do estelário imáculo Suspensa no alto como um tabernáculo - A orgia, em baixo, e no delírio doudo Corno arvoredos juvenis tombados Os moços mortos, os brasões manchados, E um turbilhão de púrpuras no lodo!

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ameaçando os séculos futuros! De São Francisco no plangente bronze Em badaladas compassadas onze Horas soaram.) Chove. De encontro ás torres e de encontro aos muros. Desencadeados.FESTIVAL Para Jônatas Costa Címbalos soam no salão. E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos Enquanto a chuva cai nos cemitérios E o vento apaga os lampiões da rua! 112 . Estatuetas de mármore de Lemnos Estão dispostas numa simetria Inconfundível. diante do vulto dos conventos. batendo em todas as retinas. Vibra. E em meio ás refrações verdes e hialinas... e ao compasso de arrabis serenos A valsa rompe.. Fulgem por entre mil cristais vermelhos O alvo cristal dos nítidos espelhos E a seda verde dos arbustos glabros. Lá fora os lampiões escuros Semelham monjas a morrer. mas meus movimentos Susto. em compassados trenos Sobre os veludos da tapeçaria. Os passos mal seguros Trêmulo movo. violentos.. A incandescência irial dos candelabros. O dia Foge.. LÁ FORA. Saio de casa. NOTURNO (CHOVE. vão bater. Os ventos.. Surge agora a Lua. Negro. recordando a estria Dos corpos de Afrodite e Vênus.

..Repositório de milhões de miasmas Onde se fartem todos os fantasmas. tão sereno e forte! Quando meu Pai deixou o lar amigo Um sabiá da casa muito antigo.... mas não deixou na ara do rosto Um só vestígio que acusasse a Morte! O anatomista que investiga a sorte Das vidas que se abismam no Sol-posto Ficaria admirado do seu rosto Vendo-o tão belo. E hoje. os sapos Encontrem nele pábulo eviterno. Ele que foi um forte Que nunca se quebrou pelo Desgosto Morreu..E ELE MORREU Ao sétimo dia de seu falecimento E ele morreu. Diluiu o silêncio em litanias. Primavera. Que há muito tempo não cantava lá. os vermes vis. verão. enquanto o Tédio a carne me trabalha. inverno! 113 . . já faz sete dias Que eu ouço o canto desse sabiá! VAE VICTIS A Dor meu coração torça e retorça E me retalhe como se retalhe Para escárnio e alegria da canalha Um leão vencido que perdeu a força! Sobre mim caia essa vingança corsa. Já que perdi a última batalha! E. outono. A Dor meu coração torça e retorça! Cubra-me o corpo a podridão dos trapos! Os vibriões. poetas..

. abraçado às campas dos poetas.pássaros da Noute! 114 . enxuta A face. e a ameaça Amarga dessa desgraçada fruta Que é a fruta amargosa da Desgraça! E quando o mundo todo paralisa E quando a multidão toda agoniza. inda o olhar sereno De agonizante multidão rodeada. Aqui é o Campo-Santo.. E se cantar como a Saudade canta. Derrama em cada boca envenenada Mais uma gota do fatal veneno! TERRA FÚNEBRE Aqui morreram tantos poetas! Tanta Guitarra morta este lugar encerra!. onde.Esse sombrio trovador é o Inverno! Aqui é a Terra. aqui é a Terra! Em que a alma chora e em que a Saudade canta! O caminheiro que o Pesar desterra. ela. enxuto o olhar. O caminheiro fique nesta Terra! À noute aqui um trovador eterno Chora. enluta E todo mundo que por ela passa Há de beber a taça da cicuta E há de beber até o fim da taça! Há de beber. Ela.. inda altiva. ao noturno açoute. Pare chorando nesta Terra Santa. Carpem na sombra pássaros ascetas. e quando passa. e o travo há de sentir. Gemem poetas .A DOR Chama-se a Dor.

o sonho. nada há que o abata e o vença! Por isso. e morrem os vermes que o consomem. Vence.O SONHO. eu penso na Ventura! E o pensamento. e por fim. De onde me vem esta felicidade?! MEDITANDO Penso em venturas! A alma do homem pensa Sempre em venturas! Sorte do homem! O homem Há de embalar eternamente a crença Sem ter grilhões e sem ter leis que o domem! Punjam-no os vermes da Desgraça. poeta. sendo a risonha Santíssima Trindade da Ventura Pode ser venturosa a criatura Que não crê. no imenso Azul do Firmamento Ir rolando pelo ouro das estrelas. que não ama e que não sonha?! Pois a alma acostumada a ser tristonha Pode achar por acaso ou porventura Felicidade numa sepultura. A CRENÇA E O AMOR O sonho. do meu seio Partiu num célere arrebatamento De minha crença arrebentando a grade Pois se eu não amo e se também não creio De onde me vem este contentamento. surjam tédios na Descrença. na Suprema Altura Sinto. Luta. a crença e o amor. assomem Descrenças. Contentamento numa dor medonha?! Há muito tempo. E esse ouro santo vir rolando pelas Trevas profundas do meu pensamento! 115 .

pois. e. em homenagem ao aniversário natalício de Alexandre Rodrigues dos Anjos 28 de abril de 1905. Tesouros reais. profundo. para penetrar o mistério das lousas... Terá no entanto indubitavelmente A admiração do século presente E a sagração dos séculos vindouros! SONETO A FREDERICO NIETZCHE Para que nesta vida o espírito esfalfaste Em vás meditações..Construíste de ilusões um mundo diferente... Depois quando no irmão estremecido Fazem aliança o gênio e a probidade. Atinge o amor um grau nunca atingido No termômetro santo da Amizade.PARA QUEM TEM NA VIDA. homem meditabundo?! Escalpelaste todo o cadáver do mundo E. O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?! Pois.. De que te serviu. O Alexandre dos Anjos merecia Grandes coroas nesse grande dia.. auríferos tesouros. nada achaste! A loucura destruiu tudo que arquitetaste E a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo. Feito no decurso de dois minutos. nada achaste. estudares. por fim. Foi-te mister sondar a substância das cousas . Desconheceste Deus no vidro do astrolábio E quando a ciência vã te proclamava sábio A tua construção quebrou-se de repente! 116 .. Para quem tem na vida compreendido Toda a grandeza da Fraternidade O aniversário dum irmão querido A alma de alegres emoções invade. por fim.

. E subiu tanto e subiu tanto e tanto Que hoje que és morto. . dois gigantes mudos. oh! Filho da Hotentóia ufana Teus braços brônzeos como dois escudos..O NEGRO Oh! Negro.santa nevrose que com fios de ferro as almas cose Principalmente se uma está ferida! Das tuas dores na procela brava Não soubeste talvez que eu te estimava! Mas a amizade oculta não se finda. Embora oculta.ei-Ia que sobe ainda! Pau D'Arco – 1905 117 . .. Quando o fantasma da tuberculose Pediu-te. em ânsias. São dois colossos. Fulge o fogo mordente dos mormaços E a chama fulge do solar brasido. ela subiu... E eu cuido ver os múltiplos produtos Da Terra . o óbolo da Vida! Recordo agora a nossa despedida Na Estação do Cobé.as flores e os metais e os frutos Simbolizados nesse colorido! VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA À memória do meu colega Caldas Líns Vinhas trilhando gárrulo a Avenida Onde Deus manda que todo homem goze. Representando a integridade humana! Nesses braços de força soberana Gloriosamente á luz do sol desnudos Ao bruto encontro dos ferrões agudos Gemeu por muito tempo a alma africana! No colorido dos teus brônzeos braços.. no entanto.

.E o horror começa! Rasga As vestes. ouve o canto aziago da coruja! . Implora a Deus como a um fetiche vago. Mas eu não contarei nunca a ninguém. O CANTO DA CORUJA A coruja cantara-lhe na porta Sinistramente a noite inteira! Indício Mais certo não havia! .em busca de ascender A essa Babel fictícia do Prazer Que procuravam e que eu procurava.. Achava a Glória que ninguém achava! E todo o dia então eu me embriagava . A ninguém nunca eu contarei a história Dos que.. quantos também deixei. uma convulsão a engasga E morre ouvindo o mesmo canto aziago! 118 . Trás de mim. como eu. Quantos também. ira-o morrer também. ver Se nesta ânsia suprema de beber.. Nisto.Quer fugir. .O ÉBRIO Bebi! Mas sei porque bebi!. foram buscar a Glória E que..Novo Sileno. Saiu.Era o suplício!. .Se ao menos voasse! . como eu. Daí a pouco. Havia pelo chão um desperdício De folhas que a áurea xantofila corta. O Sol ardia. e não vê por onde fuja. na atra estrada que trilhei. Buscava Em verdes nuanças de miragens. A estrada torta Lembrava a antiga ponte de Sublício... ela seria morta..

" Pau d'Arco -1905 119 . a alma serena. Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas. E afora disto. Sei que na infância nunca tive auroras.. Olha essa neve pura! . canta vibrantes Versos divinos que arrebatam a hoste. Não há quem nele um só tremor denote! . pressentindo a lousa..Foi saudade? Foi dor? . diz ao povo: "É pena! . E eu que julgava em minha idealidade Ver inda toda a geração futura! Eu que julgava! Pois não é verdade?! Hoje estou velho. Mas...Aqui ainda havia alguma cousa. Batendo com a cabeça no barrote Da guilhotina. eu já nem sei mais nada! ANDRÉ CHÉNIER Na real magnificência dos gigantes. Por isso. Assim como uma casa abandonada.SENECTUDE PRECOCE Envelheci..Foi tanta agrura Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade! Sei que durante toda a travessia Da minha infância trágica. ele a morrer.. vivia. Grave como um lacedemônio harmoste André Chénier ia subir ao poste A que Luís XVI subira dantes! Que a sua morte a homem nenhum desgoste E incite o heroísmo das nações distantes..Continua a cantar. de repente... A cal da sepultura Caiu por sobre a minha mocidade..

Dizes Tudo que sentes.... em Tebas . que nessa crença infinda Feliz me viste no Passado.MYSTICA VISIO Vinha passando pelo meu caminho Um vulto estranhamente iluminado. sendo assim beijado Muito acima do humano borborinho! Falou-me de ilusões e de luares..Assombrava-me aquela claridade! Mas através daquelas falsas luzes Pude rever enfim todas as cruzes Que têm pesado sobre a Humanidade! ILUSÃO Dizes que sou feliz. beijou-me com um carinho Que a um ser divino não seria dado. E eu me elevava. persuadido fica do que diz. o vulto ia a meu lado E desde então. Não mentes. inda com o braço altivo.. .. Diz que ele não morreu.. A múmia de um herói do tempo de Ísis.. A infelicidade Parece às vezes com a felicidade E os infelizes mostram ser felizes! Assim. e ainda Te persuades de que sou feliz! 120 . E. não andei mais sozinho! Abraçou-me. diz que ele é vivo.a tumbal cidade. Da tribo alegre que povoa os ares. Bem como tu. Para onde eu ia. Ostenta ainda as mesmas cicatrizes Que eternizaram sua heroicidade! Quem vê o her6i.

Por toda a parte. Por toda a parte viu seu nome escrito! Vieram-lhe as ânsias. A percorrer desertos e desertos. aos tropeços. Teve sede e fome. assim. de saudades me despedaçando De novo.. ia. à tarde. apesar disto Inda cadáver hei também de ser! Quando eu morrer de novo. morrer.E apesar disto. Saiu aos tombos. amigos.NOME MALDITO Das trombetas proféticas o alarde Falou-lhe. Sofreu o que olhos de homem não têm visto E olhos de fera não puderam ver! Acostumei-me.O tamarindo reverdeça ainda. por seus onze augúrios certos: "E maldito o teu nome! E aos céus abertos. A lua continue sempre a nascer! 121 .. assombrado. quando Eu. assim como o de Jesus Cristo. E foi assim que ele morreu um dia Amaldiçoado pelo próprio nome! DOLÊNCIAS Eu fui cadáver.. pois. Existo! . Nada se altere em sua marcha infinda . onde. a sofrer E acostumado a assim sofrer existo. como um cão covarde. triste e sem cantar.. com medo do Infinito. E. antes de viver! Meu corpo. Não há divina proteção que o guarde!" Dúvidas cruéis! Momentos cruéis! Incertos E cruéis momentos! Ânsias cruéis! E...

Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai Do que todas as drogas da farmácia! 122 .A LÁGRIMA .. . água e albumina. Ah! Basta isto..Faça-me o obséquio de trazer reunidos Clorureto de sódio. Vem-me então à lembrança o pai Ioiô Na ânsia psíquica da última eficácia! E logo a lágrima em meus olhos cai.O farmacêutico me obtemperou. porque isto é que origina A lágrima de todos os vencidos! .A farmacologia e a medicina Com a relatividade dos sentidos Desconhecem os mil desconhecidos Segredos dessa secreção divina.

.. A saúde das forças subterrâneas E a morbidez dos seres ilusórios! Pairando acima dos mundanos tetos. A solidariedade subjetiva De todas as espécies sofredoras. os resíduos ruins dos quiosques E o animal inferior que urra nos bosques É com certeza meu irmão mais velho! Tal qual quem para o próprio túmulo olha.Esta universitária sanguessuga Que produz.. Da substância de todas as substâncias! A simbiose das coisas me equilibra.. Pólipo de recônditas reentrâncias.. Larva de caos telúrico. 123 . À luz do americano plenilúnio.OUTRAS POESIAS MONÓLOGO DE UMA SOMBRA “Sou uma Sombra! Venho de outras eras.. procedo Da escuridão do cósmico segredo. Amarguradamente se me antolha. Em minha ignota mônada. ampla. vibra A alma dos movimentos rotatórios. Amo o esterco.O metafisicismo de Abidarma -E trago. possuo uma arma -. Do cosmopolitismo das moneras. E é de mim que decorrem. sem dispêndio algum de vírus. sem bramânicas tesouras. O amarelecimento do papirus E a miséria anatômica da ruga! Na existência social. Como um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à Natureza Humana. Como um dorso de azêmola passiva. simultâneas. A podridão me serve de Evangelho. Não conheço o acidente da Senectus -.

já nos últimos momentos. E apenas encontrou na idéia gasta. O espólio dos seus dedos peçonhentos. a boca. Como quem se submete a uma charqueada.Engrenagem de vísceras vulgares -Os dedos carregados de peçonha. bestas agrestes. Raio X. luzem. Ao clarão tropical da luz danada. tatuada de fuligens Esse mineiro doido das origens. Com a cara hirta. quebrando estéreis normas. iguais a fogos passageiros. Sobre a esteira sarcófaga das pestes A mostrar. em síntese. Quimiotaxia. Fonte de repulsões e de prazeres. rotos os liames Dessa estranguladora lei que aperta Todos os agregados perecíveis. Sonoridade potencial dos seres. abdômen. amanhã. Tudo coube na lógica medonha Dos apodrecimentos musculares. -. Estrangulada dentro da matéria! E o que ele foi: clavículas. Trazendo no deserto das idéias O desespero endêmico do inferno. 124 . A que todas as coisas se reduzem! E hão de achá-lo. O coração. ondulação aérea. Que se chama o Filósofo Moderno! Quis compreender. A vida fenomênica das Formas.Na alma crepuscular de minha raça Como uma vocação para a Desgraça E um tropismo ancestral para o Infortúnio. Nas eterizações indefiníveis Da energia intra-atômica liberta! Será calor. Que. a coçar chagas plebéias. o Homem. Tal a finalidade dos estames! Mas ele viverá. magnetismo misterioso. causa ubíqua de gozo. O horror dessa mecânica nefasta. Aí vem sujo.

Sentindo o odor das carnações abstêmias. E à noite.A desarrumação dos intestinos Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos Dentro daquela massa que o húmus come. Suas artérias hírcicas latejam. Toda a sensualidade da simbiose. vai gozar. À guisa de um faquir. em suas clélulas vilíssimas. fazendo um s. E até os membros da família engulham. o monstro as vítimas aguarda. Como que.. em lúbricos arroubos. brincam. Uivando.. Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo. Numa glutonaria hedionda. Negra paixão congênita. 125 . O cuspo afrodisíaco das fêmeas. à noite. igual à luz que o ar acomete.. Lembra a fome incoercível que escancara A mucosa carnívora dos lobos. E após tantas vigílias. bastarda. Vendo as larvas malignas que se embrulham No cadáver malsão.. Há estratificações requintadíssimas De uma animalidade sem castigo. Sôfrego. reduzir-se À herança miserável dos micróbios! Estoutro agora é o sátiro peralta Que o sensualismo sodomita exalta. Como as cadelas que as dentuças trincam No espasmo fisiológico da fome.. ébrio de vício. No horror de sua anômala nevrose. Como no babilônico sansara .. Brancas bacantes bêbadas o beijam.. Do seu zooplasma ofídico resulta. É uma trágica festa emocionante! A bacteriologia inventariante Toma conta do corpo que apodrece. pelos cenóbios?!. consumir-se. E explode. E foi então para isto que esse doudo Estragou o vibrátil plasma todo. Num suicídio graduado.. No sombrio bazer domeretrício.

Reconhecendo. Sente que megatérios o estrangulam. Fazendo ultra-epiléticos esforços. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa! Míngua-se o combustível da lanterna E a consciência do sátiro se inferna. bêbedo de sono. A asa negra das moscas o horroriza. Essa necessidade de horroroso. Numa coreografia de danados. E de su’alma na caverna escura. Abranda as rochas rígidas... com os candeeiros apagados.. As alucinações tácteis pululam. se estende Dentro da noite má. É o despertar de um povo subterrâneo! É a fauna cavernícola do crânio -. Mas muitas vezes. Acorda. Que tateando nas tênebras.. torna água Todo o fogo telúrico profundo 126 . quando a noite avança. Assim também. em rembrandtescas telas várias. observa a ciência crua. Dentro da elipse ignívoma da lua A realidade de uma esfera opaca. Mostrando. para agarrá-lo! Cresce-lhe a intracefálica tortura. Que é talvez propriedade do carbono! Ah! Dentro de toda a alma existe a prova De que a dor como um dartro se renova. esculpindo a humana mágoa.Com a veemência mavórtica do aríete E os arremessos de uma catapulta. Na própria ânsia dionísica do gozo. Hirto. As incestuosidades sanguinárias Que ele tem praticado na família. Quando o prazer barbaramente a ataca. observa através a tênue trança Dos filamentos fluídicos de um halo A destra descarnada de um duende. A família alarmada dos remorsos. Somente a Arte.Macbeths da patológica vigília.

Na ânsa de um nervosíssimo entusiasmo. Na produção do sangue humano imenso. A orquestra arrepiadora do sarcasmo! Era a elegia panteísta do Universo. Julgava ouvir monótonas corujas.. Chorando e rindo na ironia infausta Da incoerência infernal daquelas frases. em suas bases. Reverta à quietação datrava espessa E à palidez das fotosferas mortas! 127 . E.O último solilóquio dos suicidas -E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva!” Disse isto a Sombra. até que minha efêmera cabeça. Executando. -. ouvindo estes vocábulos. Prostituído talvez. entre daveiras sujas. Sem os métodos da abstrusa ciência fria E os trovões gritadores da dialética.O homicídio nas vielas mais escuras. A aspereza orográfica do mundo! Provo desta maneira ao mundo odiento Pelas grandes razões do sentimento. Da luz da lua aos pálidos venábulos.. Há-de ferir-me as auditivas portas. Que a mais alta expressãoda dor estética Consiste essencialmente na alegria. -. a desintegre. À condição de uma planície alegre. Era a canção da Natureza exausta. entanto. sem que.O ferido que a hostil gleba atra escarva. E o turbilhão de tais fonemas acres Trovejando grandíloquos massacres. Continua o martírio das criaturas: -.E reduz.

parece Uma sombria interjeição de medo! Como um contraste àqueles mesereres. Troam kinnors ! Depois tudo é tranqüilo.. Pasta um cavalo esplêndido da Arábia.. O céu claro e produndo Fulgura. Num quiosque em festa alegre turba grita. O Cairo é de uma formosura arcaica. e sobre a paz do mundo A alma dos Faraós anda e vagueia.. conversando. Dorme soturna a natureza sábia.. Soluça toda a noite a água do Nilo! 128 . Tonto do vinho.Última nota do conúbio infando -Vêem-se dez jogadores de roleta Fumando. no apogeu da fúria. Executando evoluções de razzia Solta um brado epilético de injúria! Em derredor duma ampla mesa preta -. um saltimbanco da Ásia... exposto ao luar. Embaixo. Convulso e roto. Apenas como um velho stradivário. Os mastins negros vão ladrando à lua. Resplandece a celeste superfície. A rua é triste. E dentro dançam homens e mulheres Numa aglomeração cosmopolita. das pirâmides o quedo E atro perfil. O Egito é sempre assim quando anoitece! Às vezes. discutindo. Vaga no espaço um silfo solitário.UMA NOITE NO CAIRO Noite no Egito. No ângulo mais recôndito da rua Passa cantando uma mulher hebraica. A Lua cheia Está sinistra. na mais próxima planície.

Dançavam. Lembro-me bem. Ponte Buarque de Macedo. Atravessando uma estação deserta. E a minha sombra enorme enchia a ponte. A ponte era comprida. Pensava no Destino. A matilha espantada dos instintos! Era como se. Mas.. O trabalho genésico dos sexos. Assombrado com a minha sombra magra. Do carvão da treva imensa Caía um ar danado de doença Sobre a cara geral dos edifícios! Tal uma horda feroz de cães famintos. parodiando saraus cínicos. Livres de microscópios e escalpelos. Eu vi. O calçamento Sáxeo. de asfalto rijo. Eu. à luz de áureos reflexos. então. E aprofundando o raciocínio obscuro. na alma da cidade. indo em direção à casa do Agra. Como uma pele de rinoceronte Estendida por toda a minha vida! A noite fecundava o ovo dos vícios Animais. Mostrando as carnes. e tinha medo! Na austera abóbada alta o fósforo alvo Das estrelas luzia. Uivava dentro do eu . Bilhões de centrossomas apolínicos Na câmara promíscua do vitellus . 129 .AS CISMAS DO DESTINO I Recife. uma besta solta Soltasse o berro da animalidade.. Copiava a polidez de um crânio alvo. Apregoando e alardeando a cor nojenta. a irritar-me os globos oculares. atro e vidrento. Profundamente lúbrica e revolta. Fazendo à noite os homens do Futuro. com a boca aberta.

o ignis sapiens do Orco Abafava-me o peito arqueado e porco Num núcleo de substâncias abrasantes. como um réu confesso. ainda na placenta. A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Que fez minha família originária Do antro daquela fábrica terrível! A corrente atmosférica mais forte Zunia. pelo menos. Julgava eu ver o fúnebre candeeiro Que há de me alumiar na hora da morte. A vingança dos mundos astronômicos Enviava à terra extraordinária faca.Fetos magros. Ah! Com certeza. na ígnea crosta do Cruzeiro. Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas. Ninguém compreendia o meu soluço. 130 . Estendiam-me as mãos rudimentares! Mostravam-me o apriorismo incognoscível Dessa fatalidade igualitária. O ventobravo me atirava flechas E aplicações hiemais de gelo russo. Deus me castigava! Por toda a parte. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse. É bem possível que eu umdia cegue. No ardor desta letal tórrida zona. Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! Mas o vento cessara por instantes Ou. E. Posta em rija adesão de goma laca Sobre os meus elementos anatômicos. Não sei por que me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança E um pedaço de víscera escarlate.

Igual ao ruído de um calhau redondo Arremessado no apogeu do estrondo. em minha boca. estranha. cujas caudais meus beiços regam. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. para não cuspir por toda a parte. ansiado e contrafeito. Eu bem sabia. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minh’alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. à guisa de ácido resíduo. Chegou-me o estado máximo da mágoa! Duas. Benditas sejam todas essas glândulas. Não! Não era o meu cuspo. com certeza Era a expectoração pútrida e crassa Dos brônquios pulmorares de uma raça Que violou as leis da Natureza! Era antes uma tosse ubíqua. Sob a forma de mínimas camândulas. Mandando ao Céu o fumo de um cigarro. Pelos fundibulários da montanha! E a saliva daqueles infelizes Inchava. A hemoglobina vinha cheia de água! Cuspo. a hemoptísis! Na alta alucinação de minhas cismas O microcosmos líquido da gota Tinha a abundância de uma artéria rota. cinco. cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória. aos poucos. quatro. Na ascensão barométrica da calma. Arrebatada pelos aneurismas. de tal arte. seis e sete Vezes que eu me furei com um canivete. Que. Que eu. três. te segregam! Escarrar de um abismo noutro abismo. quotidianamente. 131 .E até ao fim. Ia engolindo.

Um sugestionador olho. Jamais exprimiria o acérrimo asco Que os canalhas do mundo me provocam! II Foi no horror dessa noite tão funérea Que eu descobri. Nessa hora de monólogos sublimes. Perpetravam-se os atos mais funestos. sem pudicícia. À anatomia mínima da caspa. A camisa vermelha dos incestos. o In e os trasgos. ali posto De propósito. estava ali. Vai pela escuridão pensando crimes. com as brancas tíbias tortas. para hipnotizar-me! Em tudo. Iluminava. Imitando o barulho dos engasgos. Rodopiavam. A falta de unidade na matéria! Os esqueletos desarticulados. então. E o luar. maior talvez que Vinci. Mas um lampião. se no orbe oval que os meus pés tocam Eu não deixasse o meu cuspo carrasco. os duendes. a rir. Com a força visualística do lince. Buscando uma taverna que os açoite. a espiar-me. A companhia dos ladrões da noite. Embriões de mundos que não progrediram! 132 . de certo. Siva e Arimã. da cor de um doente de icterícia. Numa dança de números quebrados! Todas as divindades malfazejas. Ninguém. lembrava ante o meu rosto. Livres do acre fedor das carnes mortas. Davam pancadas no adro das igrejas. meus olhos distinguiram Da miniatura singular de uma aspa.Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do Cristianismo! Porque.

Na atra dissoluçào que tudo inverte.Ser cachorro! Ganir incompreendidos Verbos! Querer dizer-nos que não finge. E a palavra embrulhar-se na laringe. Como bolhas febris de água. os montes argilosos Criariam feixes de cordões nervosos E o neuroplasma dos que raciocinam! Almas pigméias! Deus subjuga-as. distingo-a. Cansados de viver na paz de Buda. A pedra dura. Maior que as epopéias carolíngias! Era a revolta trágica dos tipos Ontogênicos mais elementares. cinge-as À imperfeição! Mas vem o Tempo. Desde os foraminíferos dos mares À grei liliputiana dos pólipos. Escapando-se apenas em latidos! Despir a putrescível forma tosca. Nos antiperistálticos abalos Que produzem nos bois e nos cavalos A contração dos gritos instintivos! Tempo viria. fervendo! Nessa época que os sábios não ensinam. em que. Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. Deixar cair sobre a barriga inerte O apetite necrófago da mosca! A alma dos animais! Pego-a. e vence-O. 133 . E o meu sonho crescia nosilâncio. daquele horrendo Caos de corpos orgânicos disformes Rebentariam cérebros enormes. Acho-a nesse interior duelo secreto Entre a ânsia de um vocábulo completo E uma expressão que não chegou à língua! Surpreendo-a em quatrilhões de corpos vivos. Todos os personagens da tragédia.

sobre o meu caso Vi que. No meu temperamento de covarde! Mas. Em cujo repugnante receptáculo Minha perscrutação via o espetáculo De uma progênie idiota de palermas. igual a um amniota subterrâneo. E apesar de já não ser assim tão tarde. Os bêbedos alvares que me olhavam. 134 .A planta que a canícula ígnea torra. na dor forte do vômito. E as coisas inorgânicas mais nulas Apregoavam encéfalos. Depositavam quase sem consciência As derradeiras forças musculares. jazia atravassada no meu crânio A intercessão fatídica do atraso! A hipótese genial do microzima Me estrangulava o pensamento guapo. Fabricavam destarte os bastodermas. na glória da concupiscência. Iam depois dormir nos lupanares Onde. aflita. Aquela humanidade parasita. a sós. Como um bicho inferior. Com os copos cheios esterilizavam A substância prolífica dos sêmens! Enterravam as mãos dentro das goelas. E sacudidos de um tremor indômito Expeliam. Um conjunto de gosmas amarelas. E eu me encolhia todo como um sapo Que tem um peso incômodo por cima! Nas agonias do delirium-tremens . medulas Na alegria guerreira da desforra! Os protistas e o obscuro acervo rijo Dos espongiários e dos infusórios Recebiam com os seus órgãos sensóricos O triunfo emocional do regozijo. refletindo. berrava.

Meu raciocínio enorme te condena! Diante de ti. num fundo de caverna. Rolam sem eficácia os amuletos. Numa impressionadora voz interna.. na cara! Era um sonho ladrão de submergir-me Na vida universal. numa ânsia rara. 135 . por tua causa. Reboou. tal qual. Forma difusa da matéria embele. nas catedrais mais ricas. Fazer da parte abstrada do Universo. Oh! Senhora dos nossos esqueletos E das caveiras diárias que fabricas! E eu desejava ter.Prostituição ou outro qualquer nome. embora o homem te aceite. o eco particular do meu Destino. a morte é ingrata.. Minha filosofia te repele. Há o malvado carbúnculo que mata A sociedade infante dos bezerros! Quantas moças que o túmulo reclama! E após a podridão de tantas moças.e. A inconsciência das máscaras de cera Que a gente prega. É que as mulheres ruins ficam sem leite E os meninos sem pai morrem de fome! Por que há de haver aqui tantos enterros? Lá no “Engenho” também. como um cordão. Minha morada equilibrada e firme! Nisto. ponto final da última cena. em tudo imerso. Ao pensar nas pessoas que perdera. pior que o remorso do assassino. III “Homem! por mais que a Idéia deintegres. Os porcos espojando-se nas poças Da virgindade reduzida à lama! Morte. Nessas perquisições que não têm pausa.

em síntese. magro homem. Trazes. Mesmo ainda assim. onde a dor infrene É feita como é feito o querosene Nos recôncavos úmidos das hulhas! Porque. saberás a causa De todos os fenômenos alegres! Em vão. não como és. A formação molecular da mirra. estriada. por vezes. Negro e sem fim é esse em que te mergulhas lugar do Cosmos. se divide. seu todo não RESIDENCIA No quociente isolado da parcela! Ah! Como o ar imortal a Dor não finda! Das papilas nervosas que há nos tatos Veio e vai desde os tempos mais transatos Para outros tempos que hão de vir ainda! Como o machucamento das insônias Te estraga. para que a Dor perscrutes.Jamais. E se. sondas A estéril terra. fora Mister que. 136 . por perscrutar (oh! ciência louca!) O conteúdo das lágrimas hediondas. espirra. o cordeiro simbólico da Páscoa. com a bronca enxada árdega. e a hialina lâmpada oca. As rebeladas cóleras que rugem No homem civilizado. antes Fosses. a refletir teus semelhantes. e a ele se prendem Como às pulseiras que os mascates vendem A aderência teimosa da ferrugem. A própria humanidade sofredora! A universal complexidade é que Ela Compreende. quando toda a estuada Idéia Dás ao sôfrego estudo da ninféia E de outras plantas dicotiledôneas! A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua Que da ígnea flama bruta.

O fogão apagado de uma casa. a fera ultriz que o fojo Entra. As aves moças que perderam a asa. Que ainda degrada os povos hotentotes. abalando os solos. O achatamento ignóbil das cabeças. O Amor e a Fome. 137 . As pálpebras inchadas na vigília. sem mortalha. O antagonismo de Tífon e Osíris.Tudo que gera no materno ventre A causa fisiológica do nojo. As projeções flamívomas que ofuscam. A sensação que uma coalhada fresca Transmite às mãos nervosas dos que a buscam. as negras formas feias Dos aracnídeos e das centopéias. Lembram paióis de pólvora explodindo. A rotação dos fluidos produzindo A depressão geológica dos pólos. A água arbitrária que hiulcos caules grossos Carrega e come. O trem particular que um corpo arrasta Sinistramente pela via férrea. Os sanguinolentíssimos chicotes Da hemorragia. O homem grande oprimindo o homem pequeno A lua falsa de um parasseleno. Os terremotos que. O fogo-fátuo que ilumina os ossos. as nódoas mais espessas. Como uma pincelada rembrandtesca. A mentira meteórica do arco-íris. A cristalização da massa térrea.O orbe feraz que bastos jojos acres Produz’a rebelião que na batalha. -. Deixa os homens deitados. O tecido da roupa que se gasta. à espera que a mansa vítima o entre. Na sangueira concreta dos massacres. Onde morreu o chefe da família.

O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psicoplasma Humano sofre da mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E, (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, À morte desgraçada dos açougues... Tudo isto que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra! Por descobrir tudo isso, embalde cansas! Ignoto é o gérmem dessa força ativa Que engendra, em cada célula passiva, A heterogeneidade das mudanças! Poeta, feito malsão, criado com os sucos De um leite mau, carnívoro asqueroso, Gerado no atavismo monstruoso Da alma desordenada dos malucos; Última das criaturas inferiores Governada por átomos mesquinhos, Teu pé mata a uberdade dos caminhos E esteriliza os ventres geradores! O áspero mal que a tudo, em torno, trazes, Amálogo é ao que, negro e a seu turno, Traz o ávido filóstomo noturno Ao sangue dos mamíferos vorazes! Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes A perfeição dos seres existentes, Hás de mostrar a cárie dos teus dentes Na anatomia horrenda dos detalhes!

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O Espaço -- esta abstração spencereana Que abrange as relações de coexistência E só! Não tem nenhuma dependência Com as vértebras mortais da espécie humana! As radiantes elipses que as estrelas Traçam, e ao espectador falsas se antolham São verdades de luz que os homens olham Sem poder, entretanto, compreendê-las. Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes Que essa mão, de esqueléticas falanges, Dentro dessa água que com a vista abranges, Também prova o princípio de Arquimedes! A fadiga feroz que te esbordoa Há de deixar-te essa medonha marca, Que, nos corpos inchados de anasarca, Deixam os dedos de qualquer pessoa! Nem terás no trabalho que tiveste A misericordiosa toalha amiga, Que afaga os homens doentes de bexiga E enxuga, à noite, as pústulas da peste! Quando chegar depois a hora tranqüila, Tu serás arrastado, na carreira, Como um cepo inconsciente de madeira Na evolução orgânica da argila! Um dia comparado com um milênio Seja, pois, o teu último Evangelho... É a evolução do novo para o velho E do homogêneo para o heterogêneo! Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo A apodrecer!... És poeira e embalde vibras! O corvo que comer as tuas fibras Há de achar nelas um sabor amargo!”

IV Calou-se a voz. A noite era funesta. E os queixos, a exibir trismos danados,

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Eu puxava os cabelos desgrenhados Como o Rei Lear, no meio da floresta! Maldizia, com apóstrofes veementes, No estentor de mil línguas insurretas, O convencionalismo das Pandetas E os textos maus dos códigos recentes! Minha imaginação atormentada Paria absurdos... Como diabos juntos, perseguiam-me os olhos dos defuntos Com a carne da esclerótica esverdeada. Secara a clorofila das lavouras. Igual aos sustenidos de uma endecha Vinha-me às cordas glóticas a queixa Das coletividades sofredoras. O mundo resignava-se invertido Nas forças principais do seu trabalho... A gravidade era um princípio falho, A análise espectral tinha mentido! O Estado, a Associação, os Municípios Eram mortos. De todo aquele mundo Restava um mecanismo moribundo E uma teleologia sem princípios. Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psique no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo! Mas a Terra negava-me o equilíbrio... Na Natureza, uma mulher de luto Cantava, espiando as árvores sem fruto. A canção prostituta do ludíbrio.

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A CARIDADE No universo a caridade Em contraste ao vicio infando É como um astro brilhando Sobre a dor da humanidade! Nos mais sombrios horrores Por entre a mágoa nefasta A caridade se arrasta Toda coberta de flores! Semeadora de carinhos Ela abre todas as portas E no horror das horas mortas Vem beijar os pobrezinhos. Torna as tormentas mais calmas Ouve o soluço do mundo E dentro do amor profundo Abrange todas as almas. O céu de estrelas se veste Em fluidos de misticismo Vibra no nosso organismo Um sentimento celeste. A alegria mais acesa Nossas cabeças invade... Glória, pois, á Caridade No seio da Natureza! Estribilho Cantemos todos os anos Na festa da Caridade A solidariedade Dos sentimentos humanos.

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OS DOENTES

I Como uma cascavel que se enroscava, A cidade dos lázaros dormia... Somente, na metróplole vazia, Minha cabeça autônoma pensava! Mordia-me a obsessão má de que havia, Sob os meus pés, na terra onde eu pisava, Um fígado doente que sangrava E uma garganta órfã que gemia! Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam... E via em mim, coberto de desgraças, O resultado de bilhões de raças Que há muito desapareceram!

II Minha angústia feroz não tinha nome. Ali, na urbe natal do Desconsolo, Eu tinha de comer o último bolo Que Deus fazia para a minha fome! Convulso, o vento entoava um pseudosalmo. Contrastando, entretanto, com o ar convulso A noite funcionava como um pulso Fisiologicamente muito calmo. Caíam sobre os meus centros nervosos, Como os pingos ardentes de cem velas, O uivo desenganado das cadelas E o gemido dos homens bexigosos. Pensava! E em que eu pensava, não perguntes! Mas, em cima de um túmulo, um cachorro

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o urro Reboava. branda e beatífica. A incógnita psique das massas mortas Que dormem. como as ervas. Benigna água. A Paraíba indígena se lava! A manga. Meu ser estacionava. em quaisquer horas. alto e hórrido.Pedia para mim água e socorro À comiseração dos transeuntes! Bruto. com a promíscua véstia No enbotamento crasso dos sentidos. os astros miúdos Reduziam os Céus sérios e rudos A uma epiderme cheia de sarampos! III Dormia embaixo. a abóbora. No Alto. Além jazia os pés da serra. O hidrogênio e o oxigênio que tu choras Pelo falecimento dos teus filhos! Ah! Somente eu compreendo. Apenas eu compreendo. Na esteira igualitária do teu leito! O vento continuava sem cansaço E enchia com a fluidez do eólico hissope Em seu fantasmagórido galope A abundância geométrica do espaço. a amêndoa. Criando as superstições de minha terra. sobre as hortas. de errante rio. magnânima e magnífica. satisfeito. olhando os campos Circunjacentes. A comunhão dos homens reunidos Pela camaradagem da moléstia. A queixada específica de um burro! Gordo adubo de agreste urtiga brava. 143 . Em cuja álgida unção. o álamo E a câmara odorífera dos sumos Absorvem diariamente o ubérrimo húmus Que Deus espalha à beira do seu tálamo! Nos de teu curso desobstruídos trilhos. a ameixa.

aos bocados. dores não recebem. Estas dis bacalhaus o óleo não bebem. Estas não cospem sangue. Restos repugnantíssimos de bílis. OH! desespero das pessoas tísicas. Vomitar o pulmão na noite horrível Em que se deita sangue pela boca! Expulsar. 144 . Maior felicidade é a destas cousas Submetidas apenas às leis físicas! Estas. os micróbios assanhados Passearem. a existência Numa bacia autômata de barro. Vômitos impregnados de ptialina.Feriam-me o nervo óptico e a retina Aponevroses e tendões de Aquiles. Reboando pelos séculos vindouros. como inúmeros soldados. Adivinhando o frio que há nas lousas. Cair doente e passar a vida inteira Com a boca junto de uma escarradeira. entre estrépitos e estouros. Cortanto as raízes do último vocábulo. Um português cansado e incompreensível. Nas cancerosidades do organismo! Falar somente uma linguagem rouca. por mais que os cardos grandes rocem Seus corpos brutos. O ruído de uma tosse hereditária. adstritos ao quimiotropismo Erótico. Alucinado. Pintando o chão de coágulos sangüíneos! Sentir. vendo em cada escarro O retrato da própria consciência! Querer dizer a angústia de que é pábulo E com a respiração já muito fraca Sentir como que a ponta de uma faca. Da degenerescência étnica do Ária Se escapava. estas não tossem! Descender dos macacos catarríneos.

como um cronômetro gigante Marcando a transição emocionante Do lar materno para a catacumba! Mas vos não lamenteis. naquele instante. Lhe houvessem sacudido sobre o peito A máquina pneumática de Bianchi! E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba A erguer. Saía. Vinha da vibração bruta da corda Mais recôndita da alma brasileira! Aturdia-me a tétrica miragem De que. É a alfândega. Nos ardores danados da febre hética. em cachoeiras desobstruídas Encharcava os buracos das feridas. hoje. magras mulheres. com efeito. Consoante a minha concepção vesânica. A mágoa gaguejada de um cretino. Consagrando vossa última fonética A uma recitação de mesereres. no Amazonas. Pelas algentes Ruas. resfriando-vos o rosto. onde toda a vida orgânica Há de pagar um dia o último imposto! IV Começara a chover. Antes levardes ainda uma quimera Para a garganta omnívora das lajes Do que morrerdes. Aquele ruído obscuro de gagueira Que à noite. urrando ultrajes Contra a dissolução que vos espera! Porque a morte. a água. Alagava a medula dos Doentes! Do fundo do meu trágico destino. 145 . Onde a Resignação os braços cruza. me acorda. com o vexame de uma fusa. em sonhos mórbidos.Não haver terapêutica que arranque Tanta opressão como se.

tendo o horror no rosto impresso. Diminuído na crônica do mundo! A hereditariedade dessa pecha Seguiria seus filhos. todas as inúbias. De repente. Cuspiu na cova do morubixaba ! E o índio. Na tumba de Iracema!.. por fim. Dora em diante Seu povo tombaria agonizante Na luta da espingarda contra a flecha! Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos. espantada. diante a xantocróide raça loura. Esse achincalhamento do progresso Que o anulava na crítica da História! Como quem analisa uma apostema. como um lúgubre ciclone. Exercia sobre ela ação funesta Desde o desbravamento da floresta à ultrajante invenção do telefone. sem difíceis nuanças dúbias. entregue a vísceras glutonas. caladas. 146 . Jazem. Ah! Tudo. adstrito à étnica escória. A civilização entrou na taba Em que ele estava. acordando na desgraça. Recebeu. Uma desesperada ânsia improfícua De estrangular aquela gente iníqua Que progredia sobre os seus despojos! Mas. E sentia-se pior que um vagabundo Microcéfalo vil que a espécie encerra... Desterrado na sua própria terra. O gênio de Colombo Manchou de opróbrios a alma do mazombo ..Fedia. A carcaça esquecida de um selvagem. E agora. Viu toda a podridão de sua raça. Em vez da prisca tribo e indiana tropa A gente deste século. Com uma clarividência aterradora.

E eu. Todos os vocativos dos blasfemos. ex. As mães sem coração rogavam pragas Aos filhos bons. Como que havia na ânsia de conforto De cada ser. Com a contorção neurótica de um bicho Que ingeriu 30 gramas de noz-vômica. No horror daquela noite monstruosa. Os fantasmas hamléticos dispersos Atiram na consciência dos perversos A sombra dos remorsos famulentos. Maldiziam.: o homem e o ofídio. Perfurava-me o peito a áspera pua do desânimo negro que me prostra. rolando sobre o lixo. 147 . A peçonha inicial de onde nascemos. com voz estentorosa. Hereditariedades politípicas Punham na minha boca putrescível Interjeições de abracadabra horrível E os verbos indignados das Filípicas. Batia com o pentágono dos dedos Sobre um fundo hipotético de chagas! Diabólica dinâmica daninha Oprimia meu cérebro indefeso Com a força onerosíssima de um peso Que eu não sabia mesmo de onde vinha. E quase a todos os momentos mostra Minha caveira aos bêbedos da rua. Uma necessidade de suicídio E um desejo incoercível de ser morto! Naquela angústia absurda e tragicômica Eu chorava. roído pelos medos.Vê somente a caveira abandonada De uma raça esmagada pela Europa! V Era a hora em que arrastados pelos ventos.

o anelo instável De. perante a cova. às vezes. A pragmática má de humanos usos Não compreende que a Morte que não dorme É a absorção do movimento enorme Na dispersão dos átomos difusos. porém. da árdua liça À substância inorgânica primeva De onde. Era (nem sei em síntese o que diga) Um velhíssimo instinto atávico. Eu voltarei. em suma. Consubstanciar-me todo com a imundície. Menor que o anfióxus e inferior à tênia. na terráquea superfície. Anelava ficar um dia. cansado. como Cristo. era A saudade inconsciente da monera Que havia sido minha mãe antiga.E. Sem diferenciação de espécie alguma. Arrancar do meu próprio corpo a prova Da persistência trágica da força. 148 . Confundir-me com aquela coisa porca! Vinha. reaparece Na universalidadej do c arbono! A vida vem do éter que se condensa Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma Fazer a luz do cérebro que pensa. Com o horror tradicional da raiva corsa Minha vontade era. com o auxílio especial do osso masséter Mastigando homeomérias neutras de éter Nutrir-me da matéria imponderável. como um homem doido que se enforca. Tentava. por epigênese. Reduzido à plastídula homogênea. veio Eva E a stirpe radiolar chamada Actissa . Não me incomoda esse último abandono Se a carne individual hoje apodrece Amanhã.

. a perversão de que era presa o sensorium daquela prostituta Vinha da adaptação quase absoluta À ambiência microbiana da baixeza! Entanto.. até que. dando emoção à pedra Na acústica de todos os planetas! VI À álgida agulha. com violência. à-toa. embalde. Não tínheis ainda essa erupção cutânea. Quase que escangalhada pelo vício. e as mãos. quando o éreis. para além. ignóbil. derreada de cansaço.Quando eu for misturar-me com as violetas Minha lira. Uma.. entre oscilantes chamas. Mas.. Nessa alegria bárbara que cobre Os saracoteamentos da lascívia. As prostitutas. De certo. maior que a Bíblia e a Fedra Reviverá. no horizonte. Estendestes ao mundo. agora. Acordavam os bairros da luxúria. virgem fostes. a saraiva Caindo. Nem tínheis. O sol malvado que secou a fonte De vossa castidade agora finda! Talvez tivésseis fome. 149 . Cheirava com prazer no sacrifício A lepra má que lhe roía o braço! E ensangüentava os dedos da mão nívea Com o sentimento gasto e a emoção pobre. Duas mamárias glândulas estéreis! Ah! Certamente não havia ainda Rompido.. análoga era. vítima última da insânia. Um cão agora Punha a atra língua hidrófoba de fora Em contrações miológicas de raiva.. alva. e. doentes de hematúria. Se extenuavam nas camas.

Como a boca de um poço artesiano! Atabalhoadamente pelos becos.Fostes vender a virginal coroa Ao primeiro bandido do arrabalde. 150 .De vós o mundo é farto. E estais velha! -. E vai depois levá-lo ao cemitério! E esfregando as mãos magras. eu. Eu pensava nas coisas que perecem. Lançavam pinceladas pretas de óleo Na arquitetura arcaica dos sobrados. Nas quietudes nirvânicas mais doces O noivado que em vida não tivestes! VII Quase todos os lutos conjugados. argots e aljâmias. Sentia. A racionalidade dessa mosca. Cismava no propósito funéreo Da mosca debochada que fareja O defunto. Somente as bruxas negras da derrota Freqüentam diariamente vosso quarto! prometem-vos (quem sabe?!) entre os ciprestes Longe da mancebia dos alcouces. que a sociedade vos enxota. Dentro da noite funda um braço humano Parecia cavar ao longe um poço Para enterrar minha ilusão de moço. no chão frio da igreja. E hoje. inquieto. Desde as musculaturas que apodrecem À ruína vegetal dos lírios secos. A energúmena gei dos ébrios da urbe Festejava seu sábado de infâmias. Como uma associação de monopólio. Como quem nada encontra que o perturbe. na craniana caixa tosca. porém. A consciência terrível desse inseto! Regougando.

À falta idiossincrásica de escrúpulo. Rugindo fundamente nos neurônios. Pela degradação dos que o povoam. Como se fosse um corpo organizado! VIII Em torno a mim. Vem para aqui. com o ar de quem empesta. assim inchado. após baixar ao caos budista. nesta hora. nos braços de um canalha 151 . lúpulo E outras substâncias tóxicas da tasca. sobre a palha espessa. E o cemitério. Punham-lhe num destaque horrendo o horrendo Tamanho aberratório das orelhas. A mandíbula inchada de um morfético! Saliências polimórficas vermelhas. em que eu entrei adrede. uma cabeça Que possa mastigar na hora da morte E nua. O fácies do morfético assombrava! -. Onde minh’alma inteira surpreendia A Humanidade que se lamentava! Era todo o meu sonho. O ar ambiente cheirava a ácido acético.Aquilo era uma negra eucaristia. Quanta gente. como Ugolino. palpável. E a ébria turba que escaras sujas masca. Já podre. Dá-me a impressão de um boulevard que fede. Mas. Sem ter. Apareceu. que a morféia miserável Tornava às impressões táteis. Em cujo aspecto o olhar perspícuo prendo. roubada à humana coorte Morre de fome. estriges voam. Puxava aquele povo de demônios Para a promiscuidade das adegas. Absorvia com gáudio absinto.A estática fatal das paixões cegas. de repente. escorraçando a festa.

como quem salta. À sodomia indigna dos moscardos. Eu mendigava aos vermes insubmissos 152 . à meia-noite! Com uma ilimitadíssima tristeza.porque o madapolão para a mortalha Custa 1$200 ao lojista! Que resta das cabeças que pensaram?! E afundado nos sonhos mais nefastos. a alma aos arrancos. cheio de vermes. Na impaciência do estômago vazio. Nos corpos nus das moças hotentotes Entregues. vinham Com a podridão dar de comer às flores! Os defuntos então me ofereciam Com as articulações das mãos inermes. As escaveiradíssimas figuras Das negras desonradas pelos brancos. Todos os meus cabelos se arrepiaram. Pisando. entre fardos. Comendo carne humana. Eu maldizia o deus de mãos nefandas Que. Vendo passar com as túnicas obscuras. transgredindo a igualitária regra Da Natureza. Todos os animais que apodreciam! É possível que o estômago se afoite (Muito embora contra isto a alma se irrite) A cevar o antropófago apetite. Ao pegar num milhão de miolos gastos. iguais a irmãs de caridade. ao clarão de alguns archotes. a camisa suada. Eu devorava aquele bolo frio Feito das podridões da Natureza! E hirto. Num prato de hospital. atira a raça negra Ao contubérnio diário das quitandas! Na evolução de minha dor grotesca. Os evolucionistas benfeitores Que por entre os cadáveres caminham.

após a noite de seis meses. Os raios caloríficos da aurora. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! O gênio procriador da espécie eterna Que me fizera. Nunca mais as goteiras cairiam Como propositais setas malvadas. Ia arrastando agora a alma infecunda Na mais triste de todas as falências. às vezes. Uma sobrevivência de Sidarta. Era a volúpia fúnebre que os ossos Me inspiravam. Absorve. Dentro da filogênese moderna. E arrancara milhares de existências Do ovário ignóbil de uma fauna imunda. Proporcionando-me o prazer inédito. O adesionismo biôntico das formas Multiplicadas pela lei da herança! 153 . O benefício de uma cova fresca. em vez de hiena ou lagarta.Como indenização dos meus serviços. E eis-me a absorver a luz de fora. De quem possui um sol dentro de casa. déspota e sem normas. À apreensão fisiológica do faro O odor cadaveroso dos destroços! IX O inventário do que eu já tinha sido Espantava. Manhã. No céu calamitoso de vingança Desagregava. Por sobre o coração dos que sofriam! Do meu cérebro à absconsa tábua rasa Vinha a luz restituir o antigo crédito. trazendo-me ao sol claro. Como o íncola do pólo ártico. No frio matador das madrugadas.

os sáxeos prédios tortos Tinham aspectos de edifícios mortos. Hirto de espanto. com os pés atolados no Nirvana. Acompanhava. Decompondo-se desde os alicerces! A doença era geral.. O Espaço abstrato que não morre Cansara. a meu ver. em colônias fluídas. Para alcançar depois a periferia! Contra a Arte.. oh! Morte. Já batiam por cima dos estragos A sensação e os movimentos vagos Da célula inicial de um Cosmos novo! O letargo larvário da cidade Crescia. corre. tudo a extenuar-se Estava. O ar que.. Igual a um parto. Que vinha substituir a Espécie Humana! 154 . entanto. com um prazer secreto. O começo magnífico de um sonho! Entre as formas decrépitas do povo. o vagido de uma outra Humanidade! E eu. em vão teu ódio exerces! Mas. numa furna. Eu sentia nascer-me n’alma.. A gestação daquele grande feto. Parecia também desagregar-se! O prodromos de um tétano medonho Repuxavam-me o rosto.A ruína vinha horrenda e deletéria Do subsolo infeliz. Vinha da original treva noturna. vinha de dentro Da matéria em fusão que ainda há no centro.

Foi abalada por um terremoto! A água quieta do Tejo te abençoa. Tu representas toda essa Lisboa De glórias quase sobrenaturais.. Rodeado pelas moscas repugnantes. Petrarca A queda do teu lírico arrabil De um sentimento português ignoto Lembra Lisboa. DUAS ESTROFES À memória de João de Deus Ahi! ciechi! il tanto affaticar che giova? Tutti torniamo alla gran madre antica E il nostro nome appena si ritrova. Ai! Como Os que. E agora. não existes mais! 155 . Apenas com uma diferença triste. Coisa hedionda! Corro. Como! E pois que a Razão me não reprime. como eu.. amigo. têm carne.. Que um dia no ano trágico de mil E setecentos e cinqüenta e cinco.À MESA Cedo à sofreguidão do estômago. Possa a terra vingar-se do meu crime Comendo-me também. É a hora De comer.. Antegozando a ensangüentada presa. com este assomo Que a espécie humana em comer carne tem!. bela como um brinco. Com a diferença que Lisboa existe E tu. Para comer meus próprios semelhantes Eis-me sentado à mesa! Como porções de carne morta.

a atmosfera se encherá de aromas. Essas humanas coisas pequeninas A um biscuit de quilate muito raro Exposto aí. entre dores. Há de beijar-te as mãos todos os dias! Quando chegar depois tua velhice Batida pelos bárbaros invernos. No lábio róseo a grande teta farta -. À sombra dos sicômoros eternos! 156 . que te esgotou as pomas. nas vitrinas. O Sol virá das épocas sadias.Fecunda fonte desse mesmo leite Que amamentou os éfebos de Esparta. comparo. Assim.. Clara. Mas o ramo fragílimo e venusto Que hoje nas débeis gêmulas se esboça.. há de tornar-se arbusto E álamo altivo de ramagem grossa. haurindo amplo deleite. sujo de sangue. Relembrarás chorando o que eu te disse. quanto a mim. te emergiu do ventre! E puseste-lhe. um novo Ser. Bebendo a vida no teu seio gordo! Pois. Há de crescer. oh! Mãe. à amostra. Do que essa pequenina sanguessuga.MATER Como a crisálida emergindo do ovo Para que o campo flórido a concentre. E o antigo leão. sem pretensões. -Com que avidez ele essa fonte suga! Ninguém mais com a Beleza está de acordo.

Dormir na manjedoura com os cavalos! 157 . com que guarda meus sapatos. haurindo o tépido ar sereno. roendo a substância córnea de unha. Tenho estremecimentos indecisos E sinto. Beber a acre e estagnada água do charco. nos fortes fulcros. Magro. mordendo glabros talos. numa ininterrupta Adesão. não prendi minha existência?! Por que Jeová.GEMIDOS DE ARTE I Esta desilusão que me acabrunha É mais traidora do que o foi Pilatos!. Os cachorros anônimos da terra São talvez os meus únicos amigos! Ah! Por que desgraçada contingência À híspida aresta sáxea áspera e abrupta Da rocha brava. Tais quais. Não fez cair o túmulo de Plínio Por sobre todo o meu raciocínio Para que eu nunca mais raciocinase?! Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles Carinhos. Por causa disto. maior do que Laplace. as tesouras Brônzeas. Nabucodonosor ser do Pau d’Arco. O mesmo assombro que sentiu Parfeno Quando arrancou os olhos de Dionisos! Em giro e em redemoinho em mim caminham Ríspidas mágoas estranguladoras. Por que me deu consciência dos meus atos Para eu me arrepender de todos eles?! Quisera antes. Os pães -. eu vivo pelos matos. também gira e redemoinham...filhos legítimos dos trigos -Nutrem a geração do Ódio e da Guerra.

e não se contamina! Ser homem! escapar de ser aborto! Sair de um vente inchado que se anoja. Úmido. Chupar os ossos das alimarias! Barulho de mandíbulas e abdômens! E vem-me com um desprezao por tudo isto Uma vontade absurda de ser Cristo Para sacrificar-me pelos homens! Soberano desejo! Soberana Ambição de construir para o homem uma Região. goza O lodo. Comprar vestidos pretos numa loja E andar de luto pelo pai que é morto! E por trezentos e sessenta dias Trabalhar e comer! Martírios juntos! Alimentar-se dos irmãos defuntos. apalpa a úlcera cancerosa. cheio de chamusco. O braço do ladrão se paralise E a mão da meretriz caia aos pedaços! II O sol agora é de um fulgor compacto. onde não cuspa língua alguma O óleo rançoso da saliva humana! Uma região sem nódoas e sem lixos. Onde a forca feroz coma o carrasco E o olho do estuprador se encha de bichos! Outras constelações e outros espaços Em que.Mas a carne é que é humana! A alma é divina. no agudo grau da última crise. Com a flexibilidade de um molusco. E eu vou andando. Subtraída à hediondez de ínfimo casco. pegajoso e untuoso ao tacto! Reúnam-se em rebelião ardente e acesa Todas as minhas forças emotivas 158 . Beija a peçonha. Dorme num leito de feridas.

corte. Eu. queime.. Olhando para as pútridas charnecas Grita o exército avulso das marrecas Na úmida copa dos bambus verdoengos. Nos terrenos baixos.. E a alma dos vegetais rebenta inteira De todos os corpúsculos do pólen. O ar cheira. no árdego trabalho. Ladra furiosa a tribo dos podengos. A terra cheira. morda!. fustigue. bolem Nas árvores. Em grandes semicírculos aduncos. largando pêlos.. Das laranjeiras eu admiro os cachos E a ampla circunferência das laranjas. pelo ar. em vez do nome -. Por toda a parte a seiva bruta esguicha Num extravasamento involuntário. salta. Voam à semelhan ça de cabelos Os chicotes finíssimos dos juncos. quero..E armem ciladas como cobras vivas Para despedaçar minha tristeza! O sol de cima espiando a flora moça Arda. Entrançados. A câmara nupcial de cada ovário Se abre..Augusto . No chão coleia a lagartixa.. Possuir aí o nome dum arbusto Qualquer ou de qualquer obscura planta! 159 . De árvore em árvore e de galho em galho. depois de tanta Tristeza. Deleito a vista na verdura gorda Que nas hastes delgadas se balouça! Avisto o vulto das sombrias granjas Perdidas no alto. Com a rapidez duma semicolcheia. Os ventos vagabundos batem. Um pássaro alvo artífice da teia De um ninho. depois de morrer.

uma parede doente Mostra a cara medonha dos buracos.III Pelo acidentalíssimo caminho Faísca o sol. Os musgos. Não sei que subterrânea e atra voz rouca. sem conchego nobre. Amontoadas em grossos feixes rijos. batendo a cauda. dos esconderijos. À dura luz do sol resplandecente. O ardente calor da areia forte Racha-me os pés como se fosse agulha. como exóticos pintores. Quantas flores! Agora. Aqui. Une todas as coisas do Universo! 160 . sentiu e amou este homem pobre Que carregava canas para o engenho! Nos outros tempos e nas outras eras. As lagartixas. Uma atmosfera má de incômoda hulha Abafa o ambiente. O aziago ar morto a morte Fede. Nédios. O cupim negro broca o âmago fino Do teto. Por saibros e por cem côncavos vales. O lodo obscuro trepa-se nas portas. outrora. Urram os bois. em vez de flores. Trôpega e antiga. Viveu. Como pela avenida das Mappales. E traça trombas de elefantes Com as circunvoluções extravagantes Do seu complicadíssimo intestino. Pintam caretas verdes nas taperas. Como um anel enorme de aliança. O céu lembra uma lauda Do mais incorruptível pergaminho. unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança. Na bruta dispersão de vítreos cacos. Estão olhando aquelas coisas mortas! Fico a pensar no Espírito disperso Que. Me arrasta à casa do finado Toca ! Todas as tardes a esta casa venho.

e se gritio é para que meu grito Seja a revelação deste Infiniti Que eu trago encarcerado da minh’alma! Sol brasileiro! queima-me os destroços! Quero assistir. olha Melancolicamente para o mundo! Essa alegria imaterializada. à luz da consciência infame. arrebentando a horrenda calma. É o dinheiro coberto de azinhavre Que o escravo ganha. aqui.E assim pensando. Julgo ver este Espírito sublime. sem pai que me ame. Grito.. é o óbolo obscuro. Chamando-me do sol com as suas asas! Gosto do sol ignívomo e iracundo Como o réptil gosta quando se molha E na atra escuridão dos ares. É o pedaço já podre de pão duro Que o miserável recebeu na estrada! Não são os cinco mil milhões de francos Que a Alemanha pediu a Jules Favre. De pé. Que por vezes me absorve. Tudo enfim a mesma órbita percorre E as bocas vão beber o mesmo leite.. À carbonização dos próprios ossos! 161 . trabalhando aos brancos! Seja este sol meu último consolo. A lamparina quando falta o azeite Morre. com a cabeça em brasas Ante a fatalidade que me oprime.. da mesma forma que o homem morre. E o espírito infeliz que em mim se encarna Se alegre ao sol. com a misericórdia de um tijolo!. Só. como quem raspa a sarna... Súbito..

através os meus sentidos. à lua. urna de ovos mortos. ébria e lasciva. por fim. Lúbrica. O eretismo das classes superiores E o orgasmo bastardíssimo da plebe! É ela que. Na vacuidade das entranhas frias O esgotamento intrínseco da besta! E ela que. Sente. à luz do olhar protervo. em contorções sombrias. Na vizinhança aziaga dos ossuários Representa. E a mulher. Na sodomia das mais negras bodas Desarticula-se. aliando. Reduzidos.. Sofre em cada molécula a angústia alta De haver secado. em coréas doudas. a arquivar credos desfeitos. Ouvem-se os brados Da danação carnal. Com as mãos chagadas. Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos. espremendo os peitos. como o estepe. hórridos uivos Na mesma esteira pública. recebe. Gane instintivamente de luxúria! Navio para o qual todos os portos Estão fechados. a âmbulas moles. alta noite. Espicaça-a a ignomínia.. hirta. arremessada sobre o rude 'Despenhadeiro da decrepitude. Bramando. Entre farraparias e esplendores.A MERETRIZ A rua dos destinos desgraçados Faz medo. O Vício estruge. Uma mulher completamente nua! É a meretriz que. excita-a o açoite Do incêndio que lhe inflama a língua espúria. A escuridão dos gineceus falidos E a desgraça de todos os ovários! Irrita-se-lhe a carne á meia-noite. de cabelos ruivos. à falta Da água criadora que alimenta as proles! É ela que. O indumento vilíssimo do servo Ao brilho da augustal toga pretexta. funcionária dos instintos. 162 .

bêbeda de gozo Saciando o geotropismo pavoroso De unir o corpo à terra famulenta! Nesse espolinhamento repugnante O esqueleto irritado da bacante Estrala. Lembra o ruído harto azorrague A vergastar ásperos dorsos grossos..Chão de onde unia só planta não rebenta. Toda a sensualidade tempestuosa Dos apetites bárbaros do Sexo! 163 ... Pagando com volúpia o crime eterno De não ter sido fiel ao seu destino! E o Desespero que se faz bramido De anelo animalíssimo incontido... Mais que a vaga incoercível na água oceânea. no horror da ocídua fase Esterilizadora de órgãos.. já morta essencialmente. Ei-la. dos que são caducos Desde que a Mâe-Comum lhes deu início. pela própria hereditariedade A lei da seleção disfarça em Vício! É o júbilo aparente da alma quase A eclipsar-se. E a Carne que.. alvo e desnudo A síntese eucarística de tudo Que não se realizou na Natureza! Antigamente. Na óptica abreviatura de um reflexo. Fulgia.. Passa agora ao clarão da lua acesa E é seu corpo expiatório. aos tácitos apelos Das suas carnes e dos seus cabelos. de bruços. filha do inferno. E a dor profunda da incapacidade Que. em cada humana nebulosa. Para a Finalidade Transcendente Gera o prodígio anímico da Insânia! Nas frias antecâmaras do Nada O fantasma da fêmea castigada. É o hino Da matéria incapaz. E é aterradora essa alegria de ossos Pedindo ao sensualismo que os esmague! É o pseudo-regozijo dos eunucos Por natureza.

O atavismo das raças sibaritas. e a estraga Na delinqüência .. Mas que. Lançando a sombra horrível dos seus vultos Sobre a noite fechada daquela alma! É o sublevantamento coletivo De um mundo inteiro que aparece vivo. adultos. Numa cenografia de diorama.. decerto. ânsia De perfeição. Brilha na prostituta moribunda Como a fosforescência sobre a lama! É a visita alarmante do que outrora Na abundância prospérrima da aurora. impune. como aborto inútil... das veias E em torrencialidades quentes e úmidas. talvez. Na homofagia hedionda que o consome. Libertos da ancestral modorra calma.. Que... adstrito a inferior plasma inconsútil. radiando. Como o . rubros. Criando concupiscências infinitas Como eviterno lobo insatisfeito. A hora da morte acende-lhe o intelecto E à úmida habitação do vício abjecto Afluem milhões de sóis.. do deserto! Vede! A prostituição ofídia aziaga Cujo tóxico instila a infâmia.. Agarrou-se-lhe aos seios impudicos Como o abraço mortífero do Ficus 164 . sonhos de culminância.. Ficou rolando. Vinha saciar a milenária fome Dentro das abundâncias do seu leito! Toda a libidinagem dos mormaços Americanos fluía-lhe dos braços. Resíduos memoriais tornam-se luzes Fazem-se idéias e ela vê as cruzes Do seu martirológio miserando! Inícios atrofiados de ética.. Gorda a escorrer-lhe das artérias túmidas Lembrava um transbordar de ânforas cheias. Irradiava-se-lhe. Saem da infância embrionária e erguem-se.. Pudera progredir. hírcica.. momentaneamente luz fecunda..

........................................................................................ .................. ............................ ......................................................................................................................... .......................... ......... 165 ....... oca........... ............... .......................................................................................... ................................. Enroscou-se-lhe aos abraços com tal gosto................................. Na horrorosa avulsão da forma nívea Dizer ainda palavras de lascívia.................................................................... Oferecer-se à bicharia infame Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos! Sentir a língua aluir-se-lhe na boca E com a cabeça sem cabelos............... condenada.................................................Sugando a seiva da árvore a que se une! ....................................................... ......................... .................. Mordeu-lhe a boca e o rosto............................. ..... Ser meretriz depois do túmulo! A alma Roubada a hirta quietude da urbe calma Onde se extinguem todos os escolhos: E....... ao trágico ditame.........

o inventor da flauta -Vou inventar também outro instrumento! Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo Ambiciono. o egoísta amor este é que acinte Amas. observo o amor. Descasco-a. chegando à última calma Meu podre coração roto não role. consoante o qual. é éter. não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes. Como um saco vazio dentro d’alma! 166 . enfim.. em ânsias. é como a cana azeda. pois. Para que. Integralmente desfibrado e mole. poeta. Pudera eu ter. eu que idolatro o estudo. o ponto outro de vista Consoante o qual. atenta a orelha cauta. por experiência. Por conseguinte Chamas amor aquilo que eu não chamo. Como Mársias -.VERSOS DE AMOR A um poeta erótico Parece muito doce aquela cana. o observas. chupo-a. E hoje que. este o amor não é que. oposto a mim. Oposto ideal ao meu ideal conservas. ilusão treda! O amor. do egoísta Modo de ver. enfim. A toda a boca que o não prova engana. Porque o amor. que o idioma em que te eu falo Possam todas as línguas decliná-lo Possam todos os homens compreendê-lo. conheço o seu conteúdo. É assim como o ar que a gente pega e cuida. É Espírito. amo Mas certo.. Diverso é. Cuida. Imponderabilíssima e impalpável. entretanto. tal como eu o estou amando. Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! Para reproduzir tal sentimento Daqui por diante. provo-a. Quis saber que era o amor. Todas as ciências menos esta ciência! Certo. é substância fluida.

trágico e maldito. Mas meu orgulho ainda é maior do que ela! Ruja a boca danada da profana Coorte dos homens. E só. . Como Camões morrendo sobre um catre!" Nisto.A LUVA Para o Augusto Belmont Pensa na glória! Arfa-lhe o peito. Que importa que. Escrevia Mais por impulso de idiosincrasia Do que por uma propulsão consciente. depois disso. em ânsias. Como Vulcano. sobre a forja ardente Da ilha de Lemnos. trabalhar contente.. horrendo e preto O áspide abjeto do Pesar se mova!. Trabalharei assim dias inteiros. Durante as vinte e quatro horas do dia! Riam de mim. Tenha a sorte de Cícero proscrito Ou morra embora. Entendi. a tumbal janela E diz. no quadrilátero da alcova.. Vem-lhe á imaginação este soneto: "A princípio escrevia simplesmente Para entreter o espírito. com o seu grande grito. contra ele.. opresso. que devia. 167 .A maldade do mundo é muito grande. olhando o céu que além se expande: "... Sem ter uma alma só que me idolatre.. abre. os monstros zombeteiros.O pensamento é uma locomotiva Tem a grandeza duma força viva Correndo sem cessar para o Progresso.

sacudindo-o todo. Sobre a cidade geme a chuva.Que meu orgulho do alto do Infinito Suplantará a própria espécie humana! Quebro montanhas e aos tutões resisto Numa absolta impassibilidade". Batem-lhe os nervos. E na suprema convulsão o doudo Parece aos astros atirar a luva! 168 . E como um desafio à eternidade Atira a luva para o próprio Cristo! Chove.

Eu tinha a sensação de quem se esfola E inopinadamente o corpo atola Numa poça de carne liquefeita! -.Dizia. Como um cara. Recebiam os cuspos do desprezo. E eu sí a tremer com a língua grossa E a volição no cúmulo do exício. e absorve em cada viagem Minh’alma -. por ver-vos.este sombrio personagem Do drama panteístico da treva! Depois de dezesseis anos de estudo Generalizações grandes e ousadas Traziam minhas forças concentradas Na compreensão monística de tudo. nas telúrias reservas. Rua Direita. Com a rebeldia acérrima dos nervos Minha atormentadíssima cabeça. Mas a aguadilha pútrida o ombro inerme Me aspergia. É a potencialidade que me eleva Ao grande Deus. oh! céu.ca! Perante o inexorável céu aceso Agregações abióticas espúrias. O reino mineral americano Dormia. sob os pés do orgulho humano. Como quem é levado para o hospício Aos trambolhões. íntegra. A essa hora. E não haver quem. num canto de carro. banhava minhas tíbias. alto. 169 . lhe entregue. Cortanto o melanismo da epiderme. Com os ligamentos glóticos precisos. e erguia. recebendo injúrias. E a ela se aliava o ardor das sirtes líbias.NOITE DE UM VISIONÁRIO Número cento e três. Que forma a coerência do ser vivo.“Que esta alucinação tátil não cresça!” -. E a cimalha minúscula das ervas. Arimânico gênio destrutivo Desconjuntava minha autônoma alma Esbandalhando essa unidade calma.

coetâneo do horrendo cataclismo -Era puxado para aquele abismo No redemoinho universal das cousas! 170 .A liberdade de vingar em risos A angústia milenária que o persegue! Bolia nos obscuros labirintos Da fértil terra gorda. me pediam. com o ar horrível. Onde minhas moléculas sofriam. Pela alta frieza intrínseca. Com a abundância de um geyser deletério. Pareciam talvez meu epitáfio. A química feroz do cemitério Transformava porções de átomos juntos No óleo malsão que escorre dos defuntos. com a símplice sarcode. Vinha do coração quente da terra Um rumor de matéria dissolvida. úmida e fresca. em diástoles de guerra. O motor teleológico da Vida Parara! Agora. Um necrófilo mau forçava as lousas E eu -. lembravam Toalhas molhadas sobre as minhas pernas. Mais tristes que as elegais de Propércio. Um pedaço de língua disponível Para a filogenética vingança! A cidade exalava um podre béfio: Os anúncios das casas de comércio. o ancilóstomo. O vibrião. E no estrume fresquíssimo da gleba Formigavam. As vegetalidades subalternas Que osserenos noturnos orvalhavam. Dedos denunciadores escreviam Na lúgubre extensão da rua preta Todo o destino negro do planeta. A ínfima fauna abscôndita e grotesca Da família bastarda dos helmintos. o colpode E outros irmãos legítimso da ameba! E todas essas formas que Deus lança No Cosmos.

A Lua encheu o espaço sem limites E. rutilava Lantejoulada de opalinos crivos. E pelas catacumbas desprezadas. foi transpondo a porta. Em passo lento. nos altares esboroados. nunca visto Tauxiava o Céu de grandes roxos Da mesma cor da túnica de Cristo.. Os astros mortos refulgiam vivos E a noite.A VITÓRIA DO ESPÍRITO Era uma preta. Eternamente aberta ao sol e à chuva. Já na eminência da amplidão sidérea Como uma umbela. aos lampejos derradeiros Das irisadas vespertinas velas. se desenrolava A esteira astral da retração etérea. Abandonada aos lobos e aos leopardos Numa floresta lúgubre e esquisita. o passo constrangendo. Parou em frente da mesquita morta. ampla e brilhante. dentro. Feras rompiam tolos e balseiros.Um vento frio começou gemendo. a viúva. . e o olhar errante. Foram caindo como estalactites Sobre o ouro e a prata das alfaias priscas 171 . Engalanava-lhe as paredes frias Uma coroa de urzes e de cardos Coberta em pálio pelas laçarias. Uma vez. Em atalaia às gerações passadas! Um crepúsculo imenso. Fulgia em tudo uma estriação violeta E um violáceo clarão banhava os mochos Que em torno estavam da mesquita preta.. Súbito alguém. funeral mesquita. Era uma viúva. Mochos vagavam como sentinelas.

A Natureza celebrava a festa Do astro glorioso em cantos e baladas . entanto. E raivosas. por um chão de onagras Vinha passeando corno numa viagem Um grupo feio de panteras magras. contra ela. Morria a noite. E ardendo na impulsão das ânsias doidas E em sevas fúrias. E iam cair em pérolas de sangue Sobre as asas doiradas das abelhas. No desfilar de sua carne morta A transitoriedade da matéria! 172 . entretanto. Além. Tiram-lhe todas ali mesmo a vida. as panteras todas Avançam para a viúva desvalida. na redoma clara Que envolve a porta da região etérea. O espírito da viúva se quedara Ao contemplar dessa fulgente porta E dessa clara e alva redoma aérea. infernais ardendo Todas as feras. arremetendo. As flâmulas altivas Do sol nascente erguiam-se vermelhas. E havia no atro olhar dessas panteras Essa alegria doida da carnagem Que é a alegria única das feras.Um dilúvio de fósforos prateados E uma chuva doirada de faíscas.O próprio Deus cantava na floresta! Nos arvoredos rejuvenescidos. Estrugiam canções desesperadas De misereres e de sustenidos. Fora. E sobre o corpo da viúva exangue. Como uma exposição de carnes vivas.

tenho alucinações de toda a sorte.. quem diante duma cordilheira. Na ilha encantada de Cipango tombo. Assim. Pára.. passeia! A agonia do sol vai ter começo! Caio de joelhos. Anunciando desmoronamentos De mil lajedos sobre mil lajedos. afetando a forma de um losango. 173 . brilha A árvore da perpétua maravilha. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas. A saudade interior que há no meu peito. partindo e fraturando os braços Nas pontas escarpadas dos rochedos! Mas de repente.A ILHA DE CIPANGO Estou sozinho! A estrada se desdobra Como uma imensa e rutilante cobra De epiderfe finíssima de areia. ao sol..... Ofereço Preces a Deus de amor e de respeito E o Ocaso que nas águas se retrata Nitidamente repdoruz. Os olhos volvo para o céu divino E observo-me pigmeu e pequenino Através de minúsculos espelhos. Atravessando os ares bruscamente. em plena podridão. E por essa finíssima epiderme Eis-me passeando como um grande verme Que. Da qual. Impressionado sem cessar com a Morte E sentindo o que um lázaro não sente.. À cuja sombra descansou Colombo! Foi nessa ilha encantada de Cipango.. num enleio doce. Sente vontade de cair de joelhos! Soa o rumor fatídico dos ventos. Qual num sonho arrebatado fosse.. exata. ostentando amplo floral risonho. pela vez primeira. trêmulo. E ao longe soam trágicos fracassos De heróis. Verde. em luz perpétua. no meio. Rica. entre assombros..

Passa o seu enterro!.. O Firmamento é uma caverna oblonga Em cujo fundo a Via-Láctea existe. Gozei numa hora séculos de afagos..... Banhei-me na água de risonhos lagos.Que Toscanelli viu seu sonho extinto E como sucedeu a Afonso Quinto Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho! Lembro-me bem. Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrioi! Um penetrante e corrosivo frio Anestesiou-me a sensibilidade E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha. E finalmente me cobri de flores. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio.... A tarde morre. A luz descreve siguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. E como agora a lua cheia brilha! Ilha maldita vinte vezes a ilha Que para todo o sempre me fez triste! 174 . Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos! E a treva ocupa toda a estrada longa. Iríamos a um país de eternas pazes Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio.

em reflexos. Mas desgraçado do pobre Que em meio da Vida cai! Esse não volta. Vai uma onda. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas. O Céu. nas Águas. Se um cai. Espelham-se os esplendores Do céu. a luzir Como um diamante de Ofir Imita a curva de um arco.. vem outra onda E nesse eterno vaivém Coitadas! não acham quem.. esse vai Para o túmulo que o cobre. Em fulvos filões doirados Cai a luz dos astros por Sobre o marítimo horror Como globos estrelados. outro cai.BARCAROLA Cantam nautas. Lá onde as rochas se assentam Fulguram como outros sóis Os flamívomos faróis Que os navegantes orientam. A Lua . Quem as esconda. de cima. as esconda.globo de louça Surgiu. Vagueia um poeta num barco. Cantam! Os astros do Céu Ouçam e a Lua Cheia ouça! 175 . outro se ergue e sonha. em lúcido véu. Alegoria tristonha Do que pelo Mundo vai! Se um sonha e se ergue. fingindo cristais Das mais deslumbrantes cores.

. E como um requiem profundo De tristíssimos bemóis. "Sonhador do último sonho! "Numa redoma ilusória "Cercou-te a glória falaz... Sua voz é igual à voz Das dores todas do mundo. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas! 176 .E disse e porque isto disse O luar no Céu se apagou. "Viajeiro da Extrema-Unção. porém. "Mas nunca mais.. "O poeta é como Jesus! "Abraça-te á tua Cruz "E morre.. "Fecha-te nesse medonho "Reduto de Maldição.. poeta da Morte!" . Mais um coveiro do Verso! Cantam flautas. Haja silêncio no mar Para se ouvir a sereia.Ouça do alto a Lua Cheia Que a sereia vai falar. Que é que ela diz?! Será uma História de amor feliz? Não! O que a sereia diz Não é história nenhuma. forte. nunca mais "Há de cercar-te essa glória! "Nunca mais! Sê. Súbito o barco tombou Sem que o poeta o pressentisse! Vista de luto o Universo E Deus se enlute no Céu! Mais um poeta que morreu.

esplendorosa. Como um Tritão. Banhou-se o coração do Brasileiro Num eflúvio de luz auroreada. A Liberdade assoma majestosa. oh! Redentora d'alma. A bênção do valor dos vossos filhos! 177 . E ali do despotismo entre os escombros. Da liberdade ao toque alvissareiro. A República rola-lhe nos ombros. Há de transpor sereno os penetrais Da Pátria. Que apouca o triunfo e que se chama sangue. . Vós. Caia do santuário lá da História. essa bendita e branca Luz que os negrores da opressão espanca. e. oh Pátria. Da República a nova sublimada. Rola um drama que a Pátria exalça e doura Numa auréola de paz imorredoura. risonho.Estrela d'Alva imaculada e pura! É livre a Pátria outrora opressa e exangue! Esse labéu que mancha a glória pública. Oh! Liberdade. Não! que esse ideal puro. Manchar não pode as aras da República. levando ao mundo inteiro. Enquanto fora na trevosa agrura Sucumbe o servilismo. É que baqueia a vida escravizada! Já se ouvem os clangores do pregoeiro. e há de elevar-se neste sonho Ao topo azul das Glórias Imortais! Esplende. pois.AVE LIBERTAS Ao clarão irial da madrugada. Fulgente do valor da vossa glória. Essa luz etereal bendita e calma. fazei que destes brilhos.

A Natureza veste extraordinárias Roupagens de ouro. Além. E em qualquer parte do Universo veja Sombrias ruínas de um solar egrégio E o desmoronamento duma Igreja Despedaçada pelo sacrilégio. Aves de várias cores e de várias Espécies. cantam óperas inteiras.. à luz das minhas frases. sem prever o abismo Fiz desse amor um ídolo de Roma. Tenho vontade de estrangulá-lo E reduzi-lo muitas vezes a ossos! Todo o ser que no mundo turbilhona Veja do Amor.ESTROFES SENTIDAS Eu sei que o Amor enche o Universo todo E se prende dos poetas à guitarra Como o Pólipo que se agarra ao lodo E a ostra que às rochas eternais se agarra. Eleito Deus no altar do fetichismo! Tudo sacrifiquei para adorá-lo . E.Mas hoje. Estremecendo em suas próprias bases. Uma montanha que se desmorona.. Uniformiza todos os anelos E une organizações fortes e fracas Nos mesmos laços e nos mesmos elos. O amor reduz-nos a uniformes placas. Passa um rebanho de carneiros dóceis. E o Sol arranca as minhas crenças como Boucher de Perthes arrancava fósseis. vendo o horror dos meus destroços. ao matinal assomo. 178 . Por muito tempo eu lhe sorvi o aroma. desvairado. A compreensão da minha niilidade Aumenta à proporção que aumenta o dia E pouco a pouco o encéfalo me invade Numa clareza de fotografia. nas oliveiras. Na área em que estou.

ébria de fumo e de ópio..Observo então a condição tristonha Da Humanidade.. tanjo minha harpa E a harpa saudosa a minha Dor exprime! Estes versos de amor que agora findo Foram sentidos na solidão de uma horta. E quando a Dor me dói. e não tal qual a sonha E a vê o Sábio pelo telescópio. Tal qual ela é. Ver mastodontes onde há mastodontes E insetos ver onde há somente insetos. eu vou cantando a nênia Do Amor que eu tive e que se fez argila. O Sábio vê em proporções enormes Aquilo que é composto de pequenas Partes. demonstrando-a. sinto um violento Rancor da Vida . heroicamente. na água Da misteriosíssima lagoa Que a língua humana denomina Mágoa! Dos meus sonhos o exército desfila E. à nitidez real dos aspectos. À sombra dum verdoengo tamarindo Que representa a minha infância morta! 179 . construindo corpos quase informes E aquilo que é uma parcela apenas. Como Tirteu na guerra de Messênia! Transponho assim toda a sombria escarpa Sinistro como quem medita um crime. à frente dele. A inanidade da Ilusão demonstro Mas. Da observação nos elevados montes Prefiro.este maldito monstro Que no meu próprio estômago alimento! Nisto a alma o oficio da Paixão entoa E vai cair.

a esmo. Um grande recolhimento Preside neste momento Todas as forças do Mundo. Não me queixo mais da sorte Nem tenho medo da Morte Que eu tenho a Morte em mim mesmo! "Meu amor. Onde há sonhos inefáveis Vejo os vermes miseráveis Que hão de comer os meus braços. Vem cá. Que o amor abriu no meu peito. Muito longe. em sonhos erra. se duvidas. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra! O Sol está moribundo. erra. Passo longos dias. De lá. Ah! Se me ouvisses falando! (E eu sei que ás dores resistes) Dir-te-ia coisas tão tristes Que acabarias chorando. Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois.CANTO ÍNTIMO Meu amor. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra!" 180 . Muito longe. em sonhos. dos grandes espaços. olha estas feridas.

agonia.. num volutuoso assomo. agonia. uma nuvem que corre. e o sofrimento De minha mocidade. ontem. o louco. numa delícia infinda. neve. a sós. Agonia de amar.Misto de infinita mágoa e de crença infinita. agonia bendita! GOZO INSATISFEITO Entre o gozo que aspiro.. vendo-a. escuridão e eterna claridade. oração. e cansado e morrendo O Viajeiro vai. quanto mais me desespero. Sem um domingo ao menos de repouso. Amor.Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore como Chorei. Fazer parar a máquina do instinto. agonia bendita! . Neve que me embala como um berço divino. triste.... Delícia que ainda gozo.Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve.. até que esta dor se concentre No âmago de meu peito e de minha saudade. e entre sorrisos e entre Mágoas soluço.. prece que ainda Entre saudades rezo. agonia! . Nos desertos da Vida uma estrela fulgura E o Viajeiro do Amor. Caminha e vai. Neve da minha dor. e vê a luz e vendo Uma sombra que passa. Queimam-me o peito cáusticos de fogo Esta ânsia de absoluto desafogo Abrange todo o circulo infinito. sinto A insaciabilidade desse gozo! 181 . abraça a sombra e.. Frio que me assassina. neve do meu destino! E eu aqui a chorar nesta noite tão fria! Agonia.Diz e morre-lhe a voz. murmura: . morre! E a alma se lhe dilui na amplidão infinita. Mas. Na insaciedade desse gozo falho Busco no desespero do trabalho.CANTO DE AGONIA Agonia de amor. experimento O mais profundo e abalador atrito. . Numa prece de amor. amor e frio.

. E o Velho veio para o labor cotidiano. mordendo a atra terra infecunda. foi aos poucos se arrastando.. A flama oriunda Da solar refração bate no mundo. do agro solo. A terra escalda: é um forno. do alegre Sol ao grande globo quente E pôs-se para aí.Do Eterno Bem motor principal e alavanca Arrancara-lhe a Crença assim como se arranca De um ninho a seda branca e de uma árvore o galho! Sangrou-lhe o coração a saudade da Aurora! . oito vezes. Por seis horas seu braço empenhado na luta. e entre o Hércules de outrora! Pois havia de assim. Triste. Fez reboar pelo solo. desoladoramente A revolver da terra o atro e infecundo arcano. Para as bordas fatais dum precipício fundo! Quis um momento ainda olhar para o Passado. lúgubre e só. Mas o braço cansou! Trabalhou. Rasgando. a superfície bruta.O Hércules que ele fora! O fraco que ele hoje era! E surpreendido viu que um abismo se erguera Entre o fraco que era hoje. nesta maldita senda De sofrimento ignaro em sofrimento ignaro Ir caminhando até tombar sem um amparo No tremendo marneI da Desgraça tremenda?! II Noute! O silêncio vinha entrando pelo mundo E ele. alta e descompassada A dura vibração incômoda da enxada. e o trabalho . acende O pó. aclara o mar e por tudo se estende E arde em tudo. trôpego e cambaleando Foi-se arrastando.. funéreo 182 ..HISTÓRIA DE UM VENCIDO I Sol alto. E em tudo que o rodeava.

. a rugir-lhe aos pés. bêbado de miragem.. e a sonhar. E bateram-lhe então de chofre na lembrança A casa que deixara. o cansaço Empolgara-o. abraçou-se com a Vida E sepultou-se ali no coração das águas! Cantavam muito ao longe uns carmes doloridos! Eram tropeiros. tombando.. Compensaria toda a sua dor imensa Tal qual o Céu a dor de Cristo compensara! E aos tropeços. Num instante viu tudo. flutua! Ninguém o vê. a toa. os filhos. ninguém o acalenta. Caminhava. no horror bruto da despedida Abraçou-se com a Dor... o Velho caminhava. enquanto a Terra Vencedora Celebrava ao luar a Missa dos Vencidos! E o cadáver. o peito arqueou-se. avistar a Árvore da Esperança. e compreendendo tudo.Horrorizado viu como num cemitério Cadáveres de um lado e cinzas de outro lado! De súbito.. avistando uma frondosa tília Julgou. Nem viu que era chegado o termo da viagem. Quis fazer um esforço .o último esforço. Que mal lhe haviam feito a esposa e a irmã e os filhos?! Preciso era viver! Portanto. viveria! Viveria! E a fecunda e deleitosa seara Verde dos campos. sozinho. era a turba trovadora Que assim cantava. pois! Somente morreria Se da Vida. e o braço Pendeu exangue.. o precipício estava. e ele quis falar e estava mudo! Mudo! E a quem contaria agora as suas mágoas?! E trágico. louco. alguém vela o cadáver: a Lua! 183 .. a família! Não morreria. Somente entre a negrura atra da terra poenta Alguém beija. a flux d'água. ele pisasse os trilhos. E amplo. onde arde e floresce a Crença. o acalenta.

pompeiam (triste maldição!) . Além.condensada treva A sombra desce.. fulvos.. ígneo. mudo. Negras. Raios flamejam e fuzilam ígneos... E a Noite emerge. Na majestade dum condor bendito.. e. Subindo á majestade do Infinito. dourando as névoas dos espaços. mudo. sangrento O sol. santa e vitoriosa Dentre um velarium de veludos.. No ar há malabatros Turiferando a negridão tediosa. . Martirizado porque nunca dorme As Sete Chagas dum martírio enorme. mudo. E os Sete Passos que magoaram Cristo! II Agora dorme o astro de sangue e de ouro Como um sultão cansado! As nuvens como Odaliscas.Crepúsculo fatal vindo do Nada! Que importa o Sol! A Treva. Atros. Legiões de névoas mortas e finadas Como fragmentações d'ouro e basalto Lembram guirlandas pompeando no Alto Eterizadas. Nas chispas fulvas de um vulcão violento! E tudo em vão! Atrás da luz dourada. E há no meu peito . a Sombra . A VIa-Láctea vai abrindo os braços! Áureas estrelas.ocaso nunca visto. Trazem no peito o branco das manhãs 184 . alvas. da Noite ao negro assomo Beijam-lhe o corpo ensangúentado d'ouro.IDEALIZAÇÕES A Santos Neto I Em vão flameja. e o meu pesar se eleva E chora e sangra. volaterizadas. luminosas.eis tudo! E no meu peito . Descem os nimbos. aos astrais desígnios. rubro.Asas de corvo pelo coração.

o tigre. Fantástico. de que serve. Mais em meu peito uma ilusão se enterra. como se esses raios N'alma caindo. Vésper me encanta. III De novo.o Sol . Ninguém se exime dessa lei imensa Que. aclarando os cerros E engalanando os arvoredos gaios. A alma se abate. de que serve Se é desespero e maldição todo ele?! Pois.. curvo ao seu destino. o mastodonte. ciclópico. Sírius me deslumbra. assassino Ébrio de fogo. entre esplendores. Como Herculanum foi após as chamas. em lodo tudo acaba. E corno a Aurora . em vão na luz do sol te inflamas. se triste em cada Raio que tomba no marnel da terra. se erguer. e hás de ser após as chamas. a Aurora. Ah! Como tu. á luz áurea que dele Emana e estua e se refrange e ferve. a lesma.E dormem brancas corno leviatãs Sobre o oceano astral das nebulosas. lodo. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca.. há-de Alva. Mais em minh'alma um desespero brada?! De que serve. Tudo por fim há de acabar na mesma Tênebra que hoje sobre ti desaba. como tombou outrora. se tornassem ferros?! IV Poeta. Abençoada pela Eternidade! E ei-lo de novo. dominando o mundo! Mas de que serve o Sol. se. A Mágoa ferve e estua. ontem moribundo. O leão. E nessa luz queimas4e em vão! És todo Pó. Hoje de novo. se. em plena e fulva reverberação. 185 . Eu amo a noite que este Sol arranca! Namoro estrelas.hóstia da Aurora.

.. canta! Canta a Descrença que passou cortando As tuas ilusões pelas raízes... Como recordação da festa diurna. Harpas concertam! Brandas melodias Plangem. um pedestal de tanta Treva e dor tanta. Sírius me deslumbra. como abutres Medonhos. de ossos. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca! 186 .. onde.. Vives de cinzas e de ruinarias! V Agora é noite! E na estelar coorte. Canto. pelas penedias. Silêncio! Mas de novo as harpas Reboam pelo mar.. sobe ao pedestal. Vésper me encanta. E foi deixando essas funéreas. de ilusões te nutres. Medonhas valas. E arrasta os coraç5es pela Descrença. foi valas funerais deixando.Fera rendida à música divina.. Então. Eu amo a Noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. E em vez de chagas e de cicatrizes Deixar. frias. e minh'alma cobre-se de flores . pelas escarpas.Arrasta as almas pela Escuridão. Alva corno um pedaço de mortalha! Nessa música que a alma me ilumina Tento esquecer as minhas pr6prias dores. e num supremo e insano E extraordinário e grande e sobre-humano Esforço. a Lua que no céu se espalha. banha As serranias duma luz estranha. Ergue. pois poeta. e. Iluminando as serranias. Geme a pungente orquestração noturna E chora a fanfarra triunfal da Morte. Pelos rochedos.

Por que é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ou mapa-múndi estranha. 187 . Em cujo olhar o Vicio não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse.. Desta cidade pelas ruas erra A procissão dos Mártires da Terra Desde os Cristãos até Giordano Bruno! Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. A dispersão dos sonhos vagos reuno... triunfalmente. sonâmbulo. Por que não evitei o precipício Estrangulando minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! À proporção que a minha insônia aumenta Hierógafos e esfinges interrogo. nos céus altos. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim.. logo Toda a alvorada esplêndida se ostenta..INSÔNIA Noite. eu também vou passando Sonâmbulo. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Por que cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício.. E invejo o sofrimento desta Santa. Depois de embebedado deste vinho. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido Como um bemol e como um sustenido Rola impetuosa por meu peito adentro?! ... sonâmbulo. Mas. em mágoa.

em mágoa imerso.. As árvores. Restitui-me a pureza da hematose E então uma interior metamorfose Nas minhas arcas cerebrais se opera. estronda Como um grande trovão extraordinário. Em que o Tédio. Estou alegre. contemplo As maravilhas reais do meu Pau d'Arco! Cedo virá. hedionda. Cercado destas árvores. Com o olhar a verde periferia abarco. O odor da margarida e da begônia Subitamente me penetra o olfato. neste silêncio e neste mato. equilibrando-se na esfera. Agora. Sacrificar-me por amor do Verso No meu eterno leito de Procusto! 188 . porém.. os corimbos. por exemplo. as flores. No espaço a luz de Aldebarã e de Árgus Vai projetando sobre os campos largos O derradeiro fósforo da Vida. Respira com vontade a alma campônia! Grita a satisfação na alma dos bichos.. batendo na alma. Atro dragão da escura noite. o funerário. Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos. Aqui.. Recordam santos nos seus próprios nichos.Vagueio pela Noite decaída. O Sol. Outra vez serei pábulo do susto E terei outra vez de.

aparece. "Onde os ventres maternos ficam podres. ante Minha massa encefálica minguante Todo o gênero humano intra-uterino! É o caos da avita víscera avarenta ."Cinza. são dois Túmulos dentro de um carvão promíscuo. Olho-o ainda. os beiços na ânfora ínfima. Olho-o. sinto O amargor especifico do absinto E o cheiro animalíssimo do parto! E afogo mentalmente os olhos fundos Na amorfia da cítula inicial. e na ínfima ânfora. certo. a esvaziar báquicos odres: . harto. A nutrir diariamente os fetos nus Pelas vilosidades da placenta? Certo. por epigênese geral. através ovóide e hialino Vidro. Presto. "Miniatura alegórica do chão. "Meu raciocínio sôfrego surpreende "Todas as formas da matéria gasta!" Raciocinar! Aziaga contingência! Ser quadrúpede! Andar de quatro pés E mais do que ser Cristo e ser Moisés Porque é ser animal sem ter consciência! Bêbedo. irrupto. "Na tua clandestina e erma alma vasta. barro. Mergulho. é mais de um. Risco-o Depois. "Onde nenhuma lâmpada se acende. síntese má da podridão. ébrio. Dois são.MISTÉRIOS DE UM FÓSFORO Pego de um fósforo.Mucosa nojentíssima de pus. por outra. é do sonho assíduo Que a individual psique humana tece e O outro é o do sonho altruístico da espécie Que é o substractum dos sonhos do indivíduo! E exclamo. o arquitetural e íntegro aspecto 189 . De onde. Todos os organismos são oriundos. E o que depois fica e depois Resta é um ou. porque um. amorfo e lúrido.

De minha antropocêntrica matéria Numa côncava xícara funérea Uma colher de cinza miserável! Abro na treva os olhos quase cegos. Teus gineceus prolíficos envolvem Cinza fetal!. Que fez a boca mística do druida E a língua revoltada de Lutero.Do mundo o mesmo inda e. de agulhas e de pregos?! Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis! Dentro um dínamo déspota. Então. Na anfigonia que me produziu Nonilhões de moléculas de esterco. dentre as tênebras. é o céu abscôndito do Nada. sou eu. na terra instável. Basta um fósforo só Para mostrar a incógnita de pó. ora. do meu espírito. ínfimo e infecto! É a flor dos genealógicos abismos . Sob a morfologia de um moinho. cósmico zero. Se escapa.. sozinho. em segredo. Em que todos os seres se resolvem! 190 .. E este ato extraordinário de morrer Que há de na última hebdômada. O espectro angulosíssimo do Medo! Em cismas filosóficas me perco E vejo. atender Ao pedido da célula cansada! Um dia restará. Vida. Move todos os meus nervos vibráteis. é todo aquele Que vem de um ventre inchado. Que mão sinistra e desgraçada encheu Os olhos tristes que meu Pai me deu De alfinetes. que. sois vós. Na síntese acrobática de um salto. o que nele Morre. Migalha de albumina semifluida. mônada vil. como nunca outro homem viu. De onde o desprotegido homem nasceu Para a fatalidade dos tropismos. Depois.Zooplasma pequeníssimo e plebeu. muito alto.

Adeus! Que eu veio enfim. E esse acidente químico vulgar Extraordinariamente me impressiona! Mas minha crise artrítica não tarda..Ah! Maldito o conúbio incestuoso Dessas afinidades eletivas.. De onde quimicamente tu derivas. com a alma vencida Na abjeção embriológica da vida O futuro de cinza que me aguarda! 191 . Na aclamação simbiótica do gozo! O enterro de minha última neurona Desfila. E eis-me outro fósforo a riscar.

. chora e se lamenta e vibra. Sinos além bimbalham.dúlia Que na fibra mais forte e até na fibra Mais tênue..As borboletas e os escaravelhos Beijam-se no ar. Beijam-te o passo multidões escravas Dos Desgraçados! .. Sobes ao monte onde o edelweiss pompeia Nalma do que subiu àquele monte! Mas.ODE AO AMOR Enches o peito de cada homem. e toda a alma Enches de beijos de infinita calma.. Troa o conúbio dos amores velhos . Rendilhados de fulvas gemas raras E pontilhados de crisoberilos. Amor. quietos Beijam-se além os silfos e os insetos Sob a esteira dos campos que se orvalham. tangendo tiorbas em volatas. a soberana Imagem pétrea das montanhas duras.. davas brandindo em seva e insana Fúria. Cantas a Vida que sangrando matas. medras Nalma de cada virgem. E em tudo estruge a tua dúlia . e dos Capitólios Aos claros pulcros e brilhantes sólios De esplendor pulcro e de fulgências claras. E. . desces ao segredo insonte Do mar profundo onde a sereia canta E onde a Alcíone trêmula se espanta Ouvindo a gusla crebra da sereia! Rompe a manha. lembras. Retroa o sino. E o aroma dos teus beijos infinitos Entra na terra. 192 .Estas multidões Sonham pátrias doiradas de ilusões Entre os tórculos negros da Desgraça . Ora. vezes.Flores que tombam quando a neve passa No turbilhão das avalanches bravas! Tudo dominas! Dos vergéis tranqüilos Aos Capitólios. bate nos granitos E quebra as rochas e arrebenta as pedras! És soberano! Sangras e torturas! Ora.

pois. ontem. Quedo.Essa dominação aterradora . fosforeando. Cativo. eis-me de ti cativo! Cativaste-me. quando Entre estrias de estrelas. Egrégia estavas no teu plaustro egrégio Mais bela do que a Virgem de Corrégio E os quadros divinais de Guido Reni! Qual um crente em asiático pagode.Enorme força regeneradora Que faz dos homens um leão que dorme E do Amor faz uma potência enorme Que vela sobre os homens. Eis o motivo porque fiz esta ode. . Irene. sonhei-a. esse poder terrível. Assim. Irene. beija os áureos pés dos ídolos. e eis o motivo. Irene. impassível! Esta de amor ode queixosa. aos astros. 193 . Entre timbales e anafis estrídulos.E em cada peito onde um Ocaso chora Levanta a cruz da redenção da Aurora Como a Judite a redimir Betúlia! Bem haja.

Onde a Matéria avança E a Substância caminha Aceleradamente para o gozo Da integração completa. O éter possuía A térmica violência de um braseiro. provinha Como de um negro cáspio de água impura A multissecular desesperança De sua espécie abjeta Condenada a uma estática mesquinha! Ria com essa metálica tristeza De ser na Natureza.NUMA FORJA De inexplicáveis ânsias prisioneiro Hoje entrei numa forja. E eu nervoso. tinir. Quase com febre. berrar. bruta. irritado. erguido do pó. num sardonismo doloroso De ingênita amargura. No horror da metalúrgica batalha O ferro chiava e ria! Ria. Trinta e seis graus à sombra. ao meio-dia. Inopinadamente 194 . a ouvir Cada átomo de ferro Contra a incude esmagado Sofrer. Da qual. Cujo negror profundo Astro nenhum exorna Gritando na bigorna Asperamente a sua própria dor! Era. a cuspir escórias De fúlgida limalha Dardejando centelhas transitórias. Dentro. Compreendia por fim que aquele berro À substância inorgânica arrancado Era a dor do minério castigado Na impossibilidade de reagir! Era um cosmos inteiro sofredor. Uma consciência eternamente obscura! O ferro continuava a chiar e a rir.

A ansiedade de um mundo Doente de ser inerte. Cansado de estar só! Era a revelação De tudo que ainda dorme No metal bruto ou na geléia informe No parto primitivo da Criação! Era o ruído-clarão. atravessando a absconsa cripta enorme De minha cavernosa subconsciência. Preso aos mineralógicos abismos Angustiado e arquejante A debater-se na estreiteza bronca De um bloco de metal! Como que a forja tétrica Num estridor de estrago Executava. em lúgubre crescendo A antífona assimétrica E o incompreensível wagnerismo aziago De seu destino horrendo! Ao clangor de tais carmes de martírio Em cismas negras eu recaio imerso Buscando no delírio De uma imaginação convulsionada Mais revolta talvez de que a onda atlântica Compreender a semântica Dessa aleluia bárbara gritada Às margens glacialíssimas do Nada Pelas coisas mais brutas do Universo! 195 . Cheia de ânsias e medos Com crispações nos dedos Piores que os paroxismos Da árvore que a atmosfera ultriz destronca. . Punha em ciarividência Intramoleculares sóis acesos Perpetuamente às mesmas formas presos.O ígneo jato vulcânico Que. afinal.Para que à vida quente Da sinergia cósmica desperte. Agarrados à inércia do Inorgânico Escravos da Coesão! Repuxavam-me a boca hórridos trismos E eu sentia. A ouvir todo esse cosmos potencial. Essa angústia alarmante Própria de alienação raciocinante.

De amores bons à sombra Quero em cheirosa alfombra Pousar os sonhos lassos! Teus seios. Aperta-me em teu peito.Anelo morrer vário Dos braços teus na Cruz! Porque não me confortas?! Bem sei. E dá-me assim. divina. Eu quero o meu Calvário .QUADRAS Embala-me em teus braços. oh! morena .. perdeste a ciência.Relíquias de Carrara Têm a ambrosia rara Da mais rara verbena. Aperta-me em teu peito. Assim como Jesus. Alma das virgens mortas Mas não! Apaga os traços De tão funesto aspeito. De lírios e boninas Um veludíneo leito. Embala-me em teus braços! 196 .. Morreu-te a redolência.

. Tenho 300 quilos no epigastro. Vista. através do vidro azul. em suma. quando a noite cresce. Aumentam-se-me então os grandes medos. Variando à ação mecânica dos dedos! Vai-me crescendo a aberração do sonho. Nos engenhos da várzea não existe Talvez um outro que se lhe equipare! Do observatório em que eu estou situado A lua magra.. em ânsias: . Mas novamente eis-me a perder a conta! 197 . duas. Como um degenerado psicopata Eis-me a contar o número das telhas! . quatro.. 3 de maio. de enterrar-me todo Naquele semicírculo medonho! Mas tudo isto é ilusão de minha parte! Quem sabe se não é porque não saio Desde que. Agora a cara do astro Lembra a metade de uma casca de ovo. e. O hemisfério lunar se ergue e se abaixa Num desenvolvimento de borracha.Uma. No bruto horror que me arrebata.Uma. Este Engenho Pau d'Arco é muito triste.....ª-feira. Morde-me os nervos o desejo doudo De dissolver-me.. Dói-me a cabeça. embora a lua o aclare. três.TRISTEZAS DE UM QUARTO MINGUANTE Quarto Minguante! E. E aos tombos. A conta recomeço. Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?! A lâmpada a estirar línguas vermelhas Lambe o ar. 6. tonta Sinto a cabeça e a conta perco. Diabo! Não ser mais tempo de milagre! Para que esta opressão desapareça Vou amarrar um pano na cabeça1 Molhar a minha fronte com vinagre. parece Um paralelepípedo quebrado! O sono esmaga o encéfalo do povo.

.. O suor me ensopa."Por ventura haverá quem queira roer-nos?! Os vermes já não querem mais comer-nos E os formigueiros lá nos desprezaram". Figuras espectrais de bocas tronchas Tornam-me o pesadelo duradouro. Antegozando as últimas delicias Mergulho as mãos .Estarei morto?! E a esta pergunta estranha Responde a Vida ... Acho-me.vis raízes adventícias No algodão quente de um tapete persa. Tal urna planta aquática submersa...aquela grande aranha Que anda tecendo a minha desventura! A luz do quarto diminuindo o brilho Segue todas as fases de um eclipse. E o amontoamento dos lençóis desmancho.Sucede a uma tontura outra tontura. Elevam-se fumaças Do engenho enorme. por exemplo. Vêm-me á imaginação sonhos dementes.. Minha família ainda está dormindo E eu não posso pedir outra camisa! Abro a janela. Começo a ver coisas de Apocalipse No triângulo escaleno do ladrilho! Deito-me enfim. Caem-me de uma só vez todos os dentes! Então dois ossos roídos me assombraram.. Por muito tempo rolo no tapete. A luz fulge abundante 198 . . Ponho o chapéu num gancho. numa festa. Choro e quero beber a água do choro Com as mãos dispostas á feição de conchas. . Cinco lençóis balançam numa corda. Um frio Cai sobre o meu estômago vazio Como se fosse um copo de sorvete! A alta frialdade me insensibiliza.. Súbito me ergo. A lua é morta. Mas aquilo mortalhas me recorda. Tomba uma torre sobre a minha testa. Meu tormento é infindo..

o solo um caramujo Naturalmente pelos mata-pastos. radiante e estriado. Pelos respiratórios tênues tubos Dos poros vegetais. Babujada por baixos beiços brutos. feliz. No húmus feraz. numa última cobiça. Côncavo. A ouvir. em diâmetro. cheios Dos tenros tinhorões e da úmida erva.E em vez do sepulcral Quarto Minguante Vi que era o sol batendo nas vidraças. longe do pão com que me nutres Nesta hora. De mim diverso. A fatia esponjosa de carniça Que os corvos comem sobre as jurubebas! Porque. nestes bucólicos retiros Toda a salva fatal de 21 tiros Que festejou os funerais de Hamleto! Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas! Quisera ser. no ato da entrega Do mato verde. a terra resfolega Estrumada. hierática. oh! Vida em que a sofrer me exortas Eu estaria como as bestas mortas Pendurado no bico dos abutres! 199 . Entretanto. o céu. se ostenta A monarquia da árvore opulenta Que dá aos homens o óbolo dos frutos. rígido e de rastos Com a solidez do tegumento sujo Sulca. observa A universal criação. passei o dia inquieto. Broncos e feios. cheia de adubos. Vários reptis cortam os campos.

Assinalados pelo mancinismo.. tentáculos sutis. quebrando portas O azul gasofiláceo silencioso Dos tálamos cristãos. Pertencentes talvez. Que apalpam e olham com lascfvia e gozo A pureza dos corpos infantis.MÃOS Há mãos que fazem medo Feias agregações pentagonais. negras. Mãos que adquiriram olhos. mãos mais sanguinárias E estupradoras do que os bisturis Cortando a carne em flor das crianças mortas.. a delinqüentes natos.. em sangue. Mãos de linhas análogas e anfratos Que a Natureza onicriadora fez Em contraposição e antagonismo Às da estrela. 200 . Mãos adúlteras. às da neve. ás dos cristais. Monstruosíssimas mãos. a farpas de rochedo Completamente iguais.. vão cheirar. E à noite. pituitárias Olfativas. Outras. Umas.

plangente.. Sonho abraçar-te. langue e seminua. Pareces reviver a antiga Ofélia. E que ela suba na serena gaza Dos mistérios dourados e serenos À terra Ideal das púrpuras em brasa E ao Céu doirado e auroreal de Vênus! 201 . Recordo o beijo que te dei nas tranças Emolduradas num florão de riços. Mas neste sonho. E como um nume de pesar.Tufos de goivo em conchas de esmeralda.a Carne.VÊNUS MORTA A Via-Sacra Azul do amor primeiro Veste hoje o luto que a desgraça veste No miserere do meu desespero. Guarda a saudade que levou do Mame.Lotus diluído n'alma dum cipreste! Como um lilás eternizando abrolhos Tinge de roxo o arminho da grinalda. Eu guardo o travo deste beijo ardente E a Nostalgia desta Pátria . Reza-lhe todo o cantochão memento Dessa Missa de amor da Extrema Agrura. No vácuo imenso das desesperanças E dos passados viços. oh Quimera.. Brande-lhe n'alma o frio dos sepulcros. Abençoada pelo meu tormento E consagrada pela sepultura. Rola a violeta santa dos teus olhos . Opalescência trágica da lua! Tu. pálida camélia. . de reverberantes E rubras asas de beliantos pulcros. Crava-lhe n'alma o tirso das bacantes.

A efígie apocalíptica do Caos Dançava no meu cérebro sombrio! O Céu estava horrivelmente preto E as árvores magríssimas lembravam Pontos de admiração que se admiravam De ver passar ali meu esqueleto! Sozinho. Mas o que meus sentidos apreendiam Dentro da treva lúgubre. Cruzes na estrada. Do ventre equatorial da terra grávida! Dentro de mim. Em que as formas humanas se sumiam! Reboava. Mergulhar minha exótica visão Na intimidade noumenal dos seres. na escuridão.. como num chão profundo. com uma vela acesa.VIAGEM DE UM VENCIDO Noite. Sentia estar pisando com a planta ávida Um povo de radículas e embriões Prestes a rebentar como vulcões. Choravam. com soluços quase humanos. No desespero de não serem grandes! 202 .. Era o abjeto vibrião rudimentar Na impotência angustiosa de falar. num ruidoso borborinho Bruto. O feto original. E. era só O ocaso sistemático de pó. Aves com frio. Aprazia-me assim. enquanto eu tropeçava sobre os paus. Eu procurava. Convulsionando Céus. uivando hoffmânnicos dizeres. de onde decorrem Todas essas moléculas que morrem Nas transubstanciações da Natureza. análogo ao peã de márcios brados. A rebeldia dos meus pés danados Nas pedras resignadas do caminho. almas e oceanos As formas microscópicas do mundo! Era a larva agarrada a absconsas landes.

me tornara A assembléia belígera malsã. vingadora. assim. Fluía. ao colher simples gardênia. Eles entravam todos na caverna Das consciências humanas mais fechadas! Ao castigo daquela rutilância. O brado emocionante de vindicta Das sensibilidades solitárias! A longanimidade e o vilipêndio. de onde se vê o Homem de rastros. Mas das árvores. com a sidérica lanterna. uma voz 203 . perdido no Cosmos. Noite alta. na ânsia dos párias. Na discórdia perpétua do sansara! Já me fazia medo aquela viagem A carregar pelas ladeiras tétricas. Doía profundamente no meu crânio Esse funcionamento simultâneo De todos os conflitos da matéria! Eu. Como o protesto de uma raça invicta. Maior que o olhar que perseguiu Caim.Vinha-me á boca. A multiplicidade heterogênea De sensações diversamente amargas. Cumpria-se afinal dentro de mim O próprio sofrimento da Substância! Como quem traz ao dorso multas cargas Eu sofria. Numa crepitação própria de incêndio! Em contraposição à paz funérea. horrenda e monótona. Onde Ormuzd guerreava com Arimã. frias como lousas. Brilhava. A abstinência e a luxúria. Na óssea armação das vértebras simétricas A angústia da biológica engrenagem! No Céu. o bem e o mal Ardiam no meu orco cerebral. a esclarecer As manchas subjetivas do meu ser A espionagem fatídica dos astros! Sentinelas de espíritos e estradas.

A humildade botânica das algas De que grandeza não será capaz?! Quem sabe. a Energia A última etapa da objetivação?! É inútil. Jeová ou Siva Oculta à tua força cognitiva Fenomenalidades que hão de vir. Na prisão milenária dos subsolos. Rir da desgraça que de ti ressuma É quase a mesma coisa que chorar!" 204 . a espiar enigmas. Não trabalham. iceberg. diante do Homem. em suma. Se hoje. arvoredos desterrados. pois. Tragicamente. afinal. tão feroz Que parecia vir da alma das cousas: "Se todos os fenômenos complexos. obscuro. Deu4e (oh! mistério que se não traduz!) Neste astro ruim de tênebras e abrolhos A efeméride orgânica dos olhos E o simulacro atordoador da Luz! Por isto. Para erguer. se ergue A esfinge do Mistério Universal! A própria força em que teu Ser se expande. montanha. choramos. Se a contração que hoje produz o choro Não há de ser no século vindouro Um simples movimento para rir?! Que espécies outras. tão profunda. porque. oh! filho dos terráqueos limos. Nós. Crânio. árvore. Rasgando avidamente o húmus malsão. que.. isto é. na ânsia cósmica. ovário. com a febre mais bravia. enquanto Deus. amanhã píncaros galgas. Rimos. entres Na química genésica dos ventres. Desde a consciência à antítese dos sexos Vem de um dínamo fluídico de gás.. do Equador aos pólos. Porque em todas as coisas. Para esconder-se nessa esfinge grande. rimos Das vãs diatribes com que aturdes o ar.Tão grande.

a escalar Céus e apogeus.As vibrações daquele horrível karma Meu dispêndio nervoso era tamanho Que eu sentia no corpo um vácuo estranho Como uma boca sôfrega a esvaziar-me! Na avançada epiléptica dos medos Cria ouvir. Eu. Tinha necessidade de esconder-me Longe da espécie humana. astro decrépito. naquela noite de ânsia e inferno. A voz cavernosíssima de Deus. desgraçadamente magro. com os meus ossos! Restava apenas na minha alma bruta Onde frutificara outrora o Amor Uma volicional fome interior De renúncia budística absoluta! Porque. A maior expressão do homem vencido Diante da sombra do Mistério Eterno! 205 . em destroços. alheio ao mundanário ruído. a erguer-me. Eu fora. Reproduzida pelos arvoredos! Agora.

arrancado das prisões carnais. armado de arcabuz. no combate. Estou á espera de que o Sol desponte! Bati nas pedras dum tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza é minha única saúde. Abraçado com todas as estrelas! A Noite vai crescendo apavorante E dentro do meu peito. pela boca. Viver na luz dos astros imortais. A Eternidade esmagadora bate Numa dilatação exorbitante! E eu luto contra a universal grandeza Na mais terrível desesperação É a luta. O quadro de aflições que me consomem O próprio Pedro Américo não pinta. entre estes monstros. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. é o prélio enorme. 206 . Minh'alma sai agoniada. era preciso a tinta Feita de todos os tormentos do homem! Como um ladrão sentado numa ponte Espera alguém. ando! Não trago sobre a túnica fingida As insígnias medonhas do infeliz Como os falsos mendigos de Paris Na atra rua de Santa Margarida. Na ânsia incoercível de roubar a luz. rolando dos últimos degraus.. é a rebelião Da criatura contra a natureza! Para essas lutas uma vida é pouca Inda mesmo que os músculos se esforcem.. em coalhos. As minhas roupas. E muitas vezes a agonia é tanta Que.QUEIXAS NOTURNAS Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio. quero até rompê-las! Quero. Os pobres braços do mortal se torcem E o sangue jorra. Para pintá-lo.

O Hércules treme e vai tombar no caos De onde seu corpo nunca mais levanta! É natural que esse Hércules se estorça. é improfícuo. a água que bebo. o último canto meu Por esta grande noite brasileira! Melancolia! Estende-me a tu'asa! És a árvore em que devo reclinar-me.. Ah! Por todos os séculos vindouros Há de travar-se essa batalha vã Do dia de hoje contra o de amanhã. O velho tamarindo a que me encosto! Vou enterrar agora a harpa boêmia Na atra e assombrosa solidão feroz Onde não cheguem o eco duma voz E o grito desvairado da blasfêmia! Que dentro de minh'alma americana Não mais palpite o coração . E tombe para sempre nessas lutas. A bênção matutina que recebo. O coração do Poeta é um hospital Onde morreram todos os doentes. Não sou capaz de amar mulher alguma Nem há mulher talvez capaz de amar-me. Igual á luta dos cristãos e mouros! Sobre histórias de amor o interrogar-me E vão.. Seja este. O amor tem favos e tem caldos quentes E ao mesmo tempo que faz bem. Estrangulado pelas rodas brutas Do mecanismo que tiver mais força. Este relógio trágico que marca Todos os atos da tragédia humana! Seja esta minha queixa derradeira Cantada sobre o túmulo de Orfeu. em suma. é inútil.. faz mal.. Hoje é amargo tudo quanto eu gosto.esta arca. E é tudo: o pão que como. Se algum dia o Prazer vier procurar-me Dize a este monstro que eu fugi de casa! 207 . enfim.

Arranco os cadáveres das lousas E as suas partes podres examino. A Morte.POEMA NEGRO A Santos Neto Para iludir minha desgraça. Como que. na vertigem: -.. come. Levanta contra mim grandes cutelos E as baionetas dos dragões antigos! 208 . -.Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. Então meu desvario se renova.. vendo o verme frio Que há de comer a minha carne toda! É a Morte -. Em vão com o grito do meu peito impreco! Dos brados meus ouvindo apenas o eco. Mas de repente. Para onde vou (o mundo inteiro o nota) Nos meus olhares fúnebres. a 1 de Janeiro. abrindo todos os jazigos. Corro. Intimamente sei que não me iludo..esta carnívora assanhada -Serpente má de língua envenenada Que tudo que acha no caminho. E o mundo inteiro não lhe mata a fome! Nesta sombria análise das cousas. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. carrego A indiferença estúpida de um cego E o ar indolente de um chinês idiota! A passagem dos séculos me assombra. numa cova. sozinho. rio Sinistramente. à meia-noite. Sai para assassinar o mundo inteiro... ouvindo um grande estrondo. Eu torço os braços numa angústia douda E muita vez.Faminta e atra mulher que. em trajes pretos e amarelos. e a mim pergunto. estudo.. Na podridão daquele embrulho hediondo Reconheço assombrado o meu Destino! Surpreendo-me.

e de declínio Em declínio... A trava invade o obscuro orbe terrestre No Vaticano. oh! Natureza! Eu desafio agora essa grandeza. Tu mataste o meu tempo de criança E de segunda-feira até domingo. Quis ver o que era. Tu não és minha mãe. vi que era esterquilínio! Chegou a tua vez. Por tua causa apodreci nas cruzes.. Cai no silêncio da Cidade Eterna A água da chuva em largos fios grossos. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. desta cova escura. os soldados Buardam o corpo do Divino Mestre.. É Sexta-feira Santa. Deste-me fogo quanto eu tinha sede. que eu me vingo! Súbito outra visão negra me espanta! Estou em Roma. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Semeadora terrível de defuntod. acorda em berros Acorda. Contra a agressão dos teus contrastes juntos A besta. que em mim dorme. No histerismo danado da tortura Todos os monstros que os teus peitos criam. Vi que era pó. Amarrado no horror de tua rede.. Eu desafio. Com as longas fardas rubras. Perante a qual meus olhos se extasiam. De Jesus Cristo resta unicamente 209 . canalha.E quando vi que aquilo vinha vindo Eu fui caindo como um sol caindo De declínio em declínio. como a gula de uma fera. Deixa-te estar. e quando vi o que era. em grupos prosternados. e após gritar a última injúria.. Como as estalactites da caverna. Chocalha os dentes com medonha fúria Como se fosso o atrito de dois ferros! Pois bem! Chegou minha hora de vingança.

no ar de minha terra..Um esqueleto. Dentro da igreja de São Pedro.. É tão vazia a minha vida! No pensamento desconexo e falho Trago as cartas confusas de um baralho E pedaço de cera derretida! Dorme a casa. Na agonia de tantos pesadelos Uma dor bruta puxa-me os cabelos. Resume A espiritualidade da matéria E ele é que embala o corpo da miséria E faz da cloaca uma urna de perfume. num rumor forte Recomeça o barulha das matracas. o desalento e o desconforto Paralisam-me os círculos motores. A desagregação da minha Idéia Aumenta. Desperto.. Na molécula e no átomo. e a gente. os ventos gemedores Estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na serra Da Borborema. O céu dorme. quieta. O vento entoa cânticos de morte.. enquanto o horror me corta a fala O aspecto sepulcral da austera FIM 210 . A árvore dorme Eu. com a minha dor enorme Os olhos ensangüento na vigília! E observo. Como as chagas da morféia O medo. a gente Sente vontade de abraçar-lhe os ossos! Não há ninguém na estrada da Ripetta. Roma estremece! Além. vendo-o. somente eu. As luzes funerais arquejam fracas. Na Eternidade.

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