EU, TODOS OS SONETOS E OUTRAS POESIAS

(OBRA COMPLETA)

AUGUSTO DOS ANJOS

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Autor: Augusto dos Anjos Título: Eu, todos os sonetos e outras poesias Data da Digitalização: 2004 Data Publicação Original: Primeiras décadas do séc. XX

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ÍNDICE
Introdução
As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos (por Horácio de Almeida) ....................................... 06 Um Currículo Escrito pelo próprio poeta (respostas ao inquérito de Licínio dos Santos) .............. 33

Sonetos
O Morcego ..................................................34 Psicologia de um Vencido ......................... 34 A Idéia ....................................................... 35 O Lázaro da Pátria ..................................... 35 Idealização da Humanidade Futura ........... 36 Soneto ao Meu Primeiro Filho .................. 36 Versos a um Cão ....................................... 37 O Deus-Verme .......................................... 37 Debaixo do Tamarindo .............................. 38 Budismo Moderno ..................................... 38 Sonho de um Monista ................................ 39 Solitário ..................................................... 39 Mater Originalis ........................................ 40 O lupanar ................................................... 40 Idealismo ................................................... 41 Último Credo ............................................. 41 O Caixão Fantástico .................................. 42 Solilóquio de um Visionário ..................... 42 A um Carneiro Morto ................................ 43 Vozes da Morte ......................................... 43 Insânia de um Simples .............................. 44 Asa de Corvo ............................................. 44 O Martírio do Artista ................................. 45 O Mar, a Escada e o Homem ..................... 45 Decadência ................................................ 46 Ricordanza della mia Gioventú ................. 46 A Um Mascarado ...................................... 47 Vozes de um Túmulo ................................ 47 Contrastes .................................................. 48 Soneto I a meu pai doente ......................... 48 Soneto II a meu pai morto ......................... 49 Soneto III ................................................... 49 Depois da Orgia ......................................... 50 A Arvore da Serra ..................................... 50 Vencido ..................................................... 51 O Corrupião ............................................... 51 Alucinação a Beira Mar ............................. 52 Vandalismo ............................................... 52 Versos Íntimos .......................................... 53 Vencedor ................................................... 53 Eterna Mágoa ............................................ 54 O Lamento das Coisas .............................. O Meu Nirvana ......................................... Caput Immortale ....................................... Apóstrofe a Carne ..................................... Louvor a Unidade ..................................... O Pântano ................................................. Supreme Convulsion ................................. A Um Gérmen .......................................... Natureza Íntima ........................................ A Floresta ................................................. Guerra ....................................................... O Sarcófago .............................................. Hino a Dor ................................................ Última Visio ............................................. Aos Meus Filhos ....................................... A Dança da Psique .................................... O Poeta do Hediondo ................................ A Fome e o Amor ..................................... Homos Infimus ......................................... Minha Finalidade ...................................... Noli Mi Tangere ....................................... O Canto dos Presos ................................... Aberração .................................................. Vítima do Dualismo .................................. Ao Luar ..................................................... A Um Epiléptico ....................................... Canto da Onipotência ............................... Minha Arvore ........................................... Anseio (Quem Sou Eu...) .......................... Revelação I ............................................... Revelação II .............................................. Versos a um Coveiro ................................ Trevas ....................................................... As Montanhas I ......................................... As Montanhas II ....................................... Apocalipse ................................................ A Nau ........................................................ Volúpia Imortal ......................................... O Fim das Coisas ...................................... A Noite ..................................................... A Obsessão do Sangue ............................. 54 55 55 56 56 57 57 58 58 59 59 60 60 61 61 62 62 63 63 64 64 65 65 66 66 67 67 68 68 69 69 70 70 71 71 72 72 73 73 74 74

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Vox Victimae ............................................ Agonia de Um Filósofo ............................. O Último Número ..................................... Saudade ..................................................... Abandonada ............................................... Ceticismo ................................................... Mágoas ...................................................... Ouvi, Senhora ............................................ Triste Regresso .......................................... Infeliz ........................................................ N’augusta solidão dos cemitérios ............. Noivado ..................................................... No meu peito arde .................................... A Máscara ................................................. Amor e Religião ........................................ Canta no espaço a passarada ..................... O Coveiro .................................................. Pecadora .................................................... No Claustro ............................................... Il Trovatore ................................................ A Louca ..................................................... Primavera .................................................. A Esperança .............................................. Senhora, eu trajo o luto do passado .......... Sofredora ................................................... Ecos d’Alma .............................................. Amor e Crença .......................................... Ariana ........................................................ Tempos Idos .............................................. Na rua em funeral ei-la que passa ............. Adeus, adeus, adeus! E, suspirando... ....... A Aeronave ............................................... Lirial .......................................................... A Minha Estrela ........................................ A praça estava cheia.... .............................. A Esmola de Dulce .................................... Ave Dolorosa ............................................ Gênio das trevas lúgubres... ...................... Nimbos ...................................................... O Mar ....................................................... Anseio (Nessas Paragens Desoladas...) ..... Aurora Morta, Foge! ................................. No Campo ................................................. Canta o Teu Riso Esplendida Sonata ........ Cravo de Noiva ......................................... Plenilúnio .................................................. Insânia ....................................................... O Bandolim ...............................................

75 75 76 76 77 77 78 78 79 79 80 80 81 81 82 82 83 83 84 84 85 85 86 86 87 87 88 88 89 89 90 90 91 91 92 92 93 93 94 94 95 95 96 96 97 97 98 98

Ara Maldita ............................................... 99 Na etérea limpidez... ................................ 99 Treva e Luz ............................................ 100 O Templo da Descrença .......................... 100 A Peste .................................................... 101 Ideal ........................................................ 101 Cítara Mística ......................................... 102 Súplica num Túmulo .............................. 102 Afetos ..................................................... 103 Martírio Supremo .................................. 103 Sombra Imortal ....................................... 104 Coração Frio ........................................... 104 Noturno (Para o Vale Noital...) ............... 105 Sedutora .................................................. 105 Pelo Mundo ............................................. 106 E o Mar Gemeu a Funda Melopéia ......... 106 O Riso .................................................... 107 Vamos, Querida! ..................................... 107 A uma Mártir ......................................... 108 Régio ...................................................... 108 Pelo Mar ................................................. 109 Pallida Luna ............................................ 109 A Morte de Vênus ................................... 110 Mártir da Fome ....................................... 110 Sonho de Amor ....................................... 111 A Orgia Mata a Mocidade ...................... 111 Festival ................................................... 112 Noturno (Chove, lá fora...) ...................... 112 E Ele Morreu .......................................... 113 Vaes Victis .............................................. 113 A Dor ..................................................... 114 Terra Fúnebre ......................................... 114 O sonho, a Crença e o Amor ................... 115 Meditando ............................................... 115 Para Quem Tem na Vida... ...................... 116 Soneto a Frederico Nietzche ................... 116 O Negro ................................................. 117 Vinhas trilhando gárrulo a Avenida ........ 117 O Ébrio ................................................... 118 O Canto da Coruja .................................. 118 Senectude Precoce .................................. 119 André Chénier .......................................... 119 Mystica Visio .......................................... 120 Ilusão ...................................................... 120 Nome Maldito ........................................ 121 Dolências ................................................ 121 A Lágrima ............................................... 122

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209 Poema Negro . 141 Os Doentes ......... 184 Idealizações .......................................................................................................................................................................................... 162 Versos de Amor ........................... 142 À Mesa ................................. 190 Mistérios de um Fósforo ...........................Outras Poesias Monólogo de uma Sombra ............................................................. 129 A Caridade .................................... 192 Ode ao Amor ...................................................................................................... 199 Tristezas de um Quarto Minguante . 155 Duas Estrofes .................................. 183 História de Um Vencido ........ 186 Insônia ........ 180 Canto Íntimo ............................................................................................................................................ 183 Gozo Insatisfeito ........................................... 182 Canto de Agonia .......... 170 A Vitória do Espírito .. 195 Numa Forja .............................................................................................................................................................................................................................................................................................. 205 Queixas Noturnas ........ 168 Noite de um Visionário ........ 203 Vênus Morta .............................................................................................................. 212 5 ... 166 A Luva .................................................. 173 A Ilha de Cipango .............................123 Uma noite no Cairo .......................................... 200 Mãos ................................ 175 Barcarola .................................. 179 Estrofes Sentidas ............................................................ 157 A Meretriz .............................................................. 155 Mater .............. 176 Ave Libertas ........................... 156 Gemidos de Arte ........................................................... 197 Quadras ...................128 As Cismas do Destino ............................... 204 Viagem de um Vencido ..................

não conhecemos sequer a nossa. Difícil tarefa é essa de querer conhecer a alma dos nossos semelhantes. A crítica literária já lhe realçou a obra em sua forma estética. um psicastênico para outros. paremos reverentes à porta do templo. Sua personalidade singular ali se projeta. em suas mensagens de angústia. Apenas como contribuição a essa crítica de sentido mais amplo. inatingível também ao bisturi dos que tentam dissecar o interior humano. nesse estado de superexcitação. que é de todas a menos operante. o eu fora do Eu. desejosos de. Gráfica Ouvidor. Por conseguinte. numa atitude de respeito e reflexão. RJ. quando não irrompia ovante para logo se perder na dúvida. Seja como * (do livro As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos. Só o estudo do conjunto poderá explicar os matizes de um pensamento que tinha por norma ocultar-se em metáforas. nos moldes da velha orientação impressionista. na chaga viva de sua consciência. já que não podemos penetrar com tanta intimidade o mundo subliminal. A crítica metodológica do autor do Eu e Outras Poesias devia constituir o alvo desta escalada. não escapasse um pouco da minha acuidade intelectual. 1962) 6 . Nalgum ponto. sobretudo pela sinceridade com que nela está fotografado. já outros o fizeram com maior ou menor adequação. pois. é possível que se tenha conservado à distância da crítica literária. realçar a força de sua inteligência manifestada na originalidade do estilo e na tônica de um materialismo filosófico. nos moldes em que se ajusta a passividade compreensiva do comum dos homens. compreendendo inclusive a estilística. esteja o poeta revelado por inteiro em todos os reflexos de sua alma. A crítica genética já lhe esvurmou a alma em busca de uma explicação para as suas anomalias psíquicas. não vejo documento mais preciso para conhecer o autor que a sua própria obra. Toda vez que o poeta se concentrava na dor que mais o cruciava. no que há de mais sutil e imponderável. Em Augusto dos Anjos não há que procurar o autor fora de sua obra. contudo. ed. Nessa tentativa de interpretação psicológica. Deste modo. quando. que o não convencia de todo. entrava em crise espiritual. poder conhecer a árvore pelo fruto. acompanhá-lo na trajetória desse pensamento tumultuário. Não me parece. que forjava em versos candentes a produção que depois levava ao papel.INTRODUÇÃO AS RAZÕES DA ANGÚSTIA DE AUGUSTO DOS ANJOS* Por Horácio de Almeida Muito se tem escrito sobre Augusto dos Anjos. O autor revela o homem e ambos estão por inteiro em sua obra. Convenha-se antes de tudo que Augusto não foi um homem normal. isto é. proponho-me a interpretá-lo a partir de um ângulo até agora pouco estudado — a inquietação de sua personalidade. e era aí. penso poder levantar a ponta da cortina para melhor compreensão das suas mensagens de angústia. na verdade. É preciso. Teria sido um neurótico para uns. segundo as síndromes patológicas revelados. senão em mais de um. Interpretar cada verso isoladamente não é tarefa que se enquadre no plano deste trabalho. o que de alguma forma facilita o trabalho de interpretação. ao menos. Fazer o elogio do poeta.

Juízo é coisa que todos julgam ter. a de Wilde. sobre o seu caso clínico. estudante de medicina. Sem o concurso da causa primária. repetindo conceitos. menos a de Byron. na classificação dos antropologistas do século passado. sobretudo quando provém da linha materna. além mesmo da gravidez. só ele dava a impressão de um desajustado. Augusto não era um homem igual aos outros. em relação com a casuística. aos que se acomodam. com preocupações de grandeza e fidalguia. O traumatismo moral que tão fundamente abalou a mãe. Oscar Wilde e outros loucos geniais ou degenerados superiores. Ao que se sabe. que procura dissecar a alma para ajustá-la a quadros nosológicos já catalogados e. com distúrbios os mais evidentes no seu sistema nervoso. mas da mediocridade ajuizada que enche de presença os quadros humanos nunca ninguém viu sair obra duradoura. perturbou-a por muito tempo. nem os que vieram depois. Tanto isso parece verdade que seus irmãos. assim como está provada a hereditariedade dos caracteres biológicos. jamais denotaram qualquer grau de semelhança ou relação de afinidade com a alma bizarra do poeta. caracterizado por uma sensibilidade doentia. Todas se angustiaram por acontecimentos imprevistos. E por curiosa coincidência. não é possível interpretar a obra de um escritor. de quem o sobrinho nascituro herdaria o nome e as conseqüências do choque. não há negar também a dos psicológicos. aos que perseguem riquezas ou fazem do amor o cio bestial. sofreram perturbações muito fortes na época de gestação daqueles notáveis supranormais. sestros. Obviamente. Pai e irmãos passavam por normais.for. choques emocionais. o refinamento de suas faculdades morais. do sentimento. a de Leopardi. tem sido Augusto comparado a Leopardi. pelo drama que padeceu na vida intra-uterina. Não se trata aqui de fazer coincidir a personalidade criadora de 7 . Isto posto. Explica-se deste modo. de fundo genético. tenho por desnecessário entrar aqui nesse campo de especulação psiquiátrica. Por seu parentesco espiritual. A mãe do poeta. a de Nietzche. Não há que imputar a Augusto a pecha de louco. enfim. igualmente inteligentes. causada pela perda imprevista de um irmão querido. tal fato não podia deixar de refletir-se no filho em gestação. Nem os que nasceram antes. por vezes controvertidos. ficou desajustada da mente pelo resto da vida. que já era constitucionalmente quase louca. quando este ainda em estado de gestação sofreu uma comoção das mais fortes. Assim como a mãe de Augusto. tiques nervosos. De seu pai também não herdou as características psíquicas que o marcaram a fundo. como se houvesse saído do limbo para cair na labareda. por motivos vários. mas vale a pena ser louco quando se deixa por tal motivo um nome à admiração da posteridade. aos que se rebaixam para subir. todo o seu temperamento emocional. reduzir tudo a categorismo. que nada explica. tais modelos de comparação passaram também pelas mesmas crises intra-uterinas que afetaram a sensibilidade do autor do Eu. sobretudo quando tal obra reflete da primeira à última página a alma do autor. enfim. no final. a partir de Lombroso. como é do gosto da crítica científica. Nietzche. da inteligência. A causa primária de sua desordem nervosa já é assunto conhecido. nas modalidades do caráter. Byron. fobias. a de Byron.

Tão na flor da juventude e já se dizia um descrente. Falava nele o positivista que. que lançou em 1919. mas não era somente isso. era um introvertido. inspirado na natureza e no amor. Muito cedo. Sílvio Romero. como expressão do pensamento nacional. A doutrina positivista foi a primeira a ganhar terreno. Nada de admirar. mas no final 8 . publicado no Almanaque do Estado da Paraíba. Augusto nasceu e se criou no engenho Pau d’Arco. Deste modo. em contraste com a mocidade e a inteligência. é a vocação que já revelava para o infortúnio. Quando Órris o conheceu nos idos de 1900. saído da roça. Com seu pai. segundo os primeiros retratos que temos dele. quando apareceu para os primeiros exames no velho Liceu Paraibano. o seu tipo de pássaro molhado. na várzea do Paraíba. em 1900. haurido no transformismo de Haeckel e no evolucionismo de Spencer. em sua linha tomista. estavam a fazer dele um lírico. Esse adolescente sorumbático já poetava desde os sete anos de idade. Ocioso será afirmar que a metafísica ortodoxa. foi logo chamando a atenção de mestres e colegas pelos conhecimentos que demonstrava. guiado apenas pela ilustração paterna. sofregamente bebida nas academias. de vez que a literatura indígena longe estava de adquirir a consciência de sua função. porquanto as duas já se apresentam fundidas sem a química da ajuda biográfica. confessava-se já então “afeito às mágoas e ao tormento”. Alexandre dos Anjos. começou a envenenar-se com o materialismo filosófico. para aprazimento intelectual das elites. com o título Eu e Outras Poesias. do Eu. dr. conforme disse num soneto que não consta. numa defesa de tese na Faculdade de Direito do Recife. a sua própria vida sem problemas. no último ano do século passado. sem afastar-se do lar. definia mais claramente esse pensamento “como uma vocação para a Desgraça e um tropismo ancestral para o infortúnio”. sofreu duros reveses. agravados por outros que irromperam na idade perigosa. Os conhecimentos filosóficos gozavam reputação de primeira plana. Tais idéias materialistas eram a coqueluche que o século passado legara ao presente. logo mais. Era de fato um excêntrico. os quais o acompanhariam. visto ter nascido poeta. entrou a estudar as matérias do curso de humanidades. que a metafísica estava morta. A paisagem bucólica da várzea. a quietude da vida na província. Logo mais. O rapazinho de 16 anos. Vinha-se de uma época em que a erudição nacional destilava-se da cultura européia. ao invés de um estudante bisonho. reunindo a esse volume a produção posterior à edição princeps de 1912.Augusto com a sua personalidade psicológica. até o túmulo. cinco anos após a sua morte. em prefácio à segunda edição do Eu. como uma fatalidade. O que há de singular nele não é. viu nele um tipo excêntrico de pássaro molhado. E para completar o esboço do auto-retrato acrescentava: “Eu hoje só vivo para a descrença”. evolvia para o evolucionismo de Speneer. A amizade que logo nasceu da admiração foi regada mais tarde com lágrimas de saudade no elogio que fez do poeta. Coelho Rodrigues. não fossem os conflitos espirituais que trazia do berço. em Monólogos de uma Sombra. Órris Soares confessa que só conseguiu passar no exame de latim porque se valeu do colega que o ajudou a destrinchar Horácio. bradava para o conceituado mestre que o argüia. Já em 1875. a rigor. A par disso. para maior complicação de sua personalidade. aprendeu a ler e. cuja vida corria sem obstáculos.

o rapazelho sorumbático deu asas ao pensamento nos conflitos entre a consciência e o sentimento. conciliada. nas concepções filosóficas de seus poemas. mas a origem simiesca do homem. ficava a escutar os companheiros. que Augusto dos Anjos penetrou os umbrais da tradicional escola. Ao que parece. disse-me certa vez que só depois de formado foi que veio a conhecê-lo direito. o pensamento ao longe. Até no Piauí. Por todo o Nordeste. A matéria em sua essência afigurava-se-lhe tão misteriosa como a força. enquanto a metafísica do verdadeiro cristianismo continua palpitando na alma de todos os povos. já no seu ocaso. dupla feição de filósofo e de poeta. faziam praça de livres pensadores. aliás. Laurindo Leão. como se desconhecesse ou procurasse desconhecer a parte subjetiva de si mesmo. em sua. Os filósofos da natureza foram ficando para trás. por ver em tudo isso hipóteses visionárias. mas a metafísica resistiu ao impacto das idéias novas. Um que foi seu colega de estudos e morou com ele na mesma pensão em Recife. Aliás. Desta forma. confundidas ambas na unidade cósmica. como uma velharia do século. influenciado pelos naturalistas e evolucionistas do século. ou mesmo. o queixo apoiado no cabo do guarda-chuva. Desses embates. Darwin e Haeckel podem ser contestados ainda hoje como panteístas pelos que seguem ao pé da letra a história bíblica da Criação. Toda a preocupação era combater o pensamento teológico. Esquisitão que era.de contas resistiu ao choque de uma crença que condenava até a indagação anatômica e a astronomia sideral. já lidos nos filósofos da natureza. está sujeita também ao processo da evolução. Nas rodas que se faziam na Paraíba. suportou a mais dura crise. Ainda na fase preparatória de estudos. entre o mundo da forma e o mundo da razão. firmava-se o conceito. em seu livro Frases e Notas. os que ainda não tinham qualquer convicção filosófica. quando ainda pontificava na Faculdade de Direito do Recife um devoto do fenomenismo agnóstico. de que católico era sinônimo de burro. Embora educado na religião católica. irradiação natural da Escola do Recife discutia-se o problema do ser e do não-ser. não exclui absolutamente a hipótese da existência da alma. proceda ou não proceda. a ciência do Direito interessou menos ao estudante taciturno que as especulações filosóficas do materialismo naturalista. que ficou sem seguidores e acabou relegada pelo próprio poeta. José Américo de Almeida. introduziu entre nós a poesia científica. um século antes de Hugo. segundo o depoimento de Cristino Castelo Branco. de onde saiu formado em 1907. Era a época da evolução do pensamento brasileiro. Os menos letrados. os intelectuais mais dotados. adepto do positivismo. Martins Júnior. desde Haller. que se irradiava do Recife ao sopro tempestuoso de Tobias Barreto e seus ardorosos discípulos. Na Paraíba. Comte passou. a exemplo de Victor Hugo. se o diabo é tão feio como o pintam. tentou o milagre de 9 . Foi nesse ambiente de agitação doutrinária. Augusto pouco falava. que só cuidava de preocupações teológicas. aliás bem pouco lisonjeiro. O materialismo dialético dos nossos dias retrocede. isto é. O beatério era o último reduto do catolicismo. como toda substância animada. desde o monismo de Haeckel ao evolucionismo de Spencer. a velha Escolástica. que. com a evolução da matéria e do espírito. formavam rodas para discutir o sexo dos anjos. já era moda entre os renovadores o lançamento de poemas filosóficos. emancipou-se dela intelectualmente.

Integrado na sociedade. E é de mim que decorrem. incomparável na forma musicada. Augusto compôs Monólogos de uma Sombra. até adquirir a forma humana. que é a derrota da humanidade. mas há casos em que a vidência poética de um é manifesta no outro. Realizou de fato esse milagre em estrofações de profunda força conceptiva e de cunho tão pessoal que toda a sua produção traz a marca do autor — a eurritmia musicada dos decassílabos. começa então o drama crucial da consciência. como amostra. ora transfigurado em filósofo moderno. chega aos seres mais complexos. A simbiose das coisas me equilibra. naquela mesma idade em que. e vem vindo como uma monera através de milhões de anos. Não há. numa caminhada de 31 estâncias. E assim continua. facilmente o identifica. ampla.. É a sua confissão de f transformista. Pólipo de recônditas reentrâncias.. poema que abre o Eu e Outras Poesias. por força das sucessivas mutações da matéria. já desiludido. mas há paralelismo de símbolos e de força criadora. que passou do reino vegetal para o animal. como bem observa Cavalcanti Proença. a ponto de mostrar seu nojo à natureza humana. terso na linguagem. ora transfigurado em sátiro vilíssimo. E a morbidez dos seres ilusórios! E por aí vai. Quem já o leu uma vez. A partir da monera. Em Monólogos de uma Sombra é a Sombra que fala e a Sombra é o eu do poeta. enfim. O aspecto conceptual do poema. Larva do caos telúrico. sempre a evoluir em movimentos rotatórios. Venho de outras eras. Por ela vai buscar-se no mundo informe da vida planetária. nas duas composições uma coincidência de temas. procedo Da escuridão do cósmico segredo. 186 versos. Vejamos. desesperado por não poder libertar a energia intra-atômica e dominar a lei da mecânica universal. Aos 17 anos. mas “a solidariedade subjetiva de todas as espécies sofredoras”. simultâneas. Em minha ignota mônada. trinta anos antes. Rimbaud escrevera Bateau ivre. Nessa ânsia de penetrar a vida fenomênica das formas. as duas primeiras estrofes dos Monólogos: Sou uma Sombra. na larva que procede do caos telúrico. Imitá-lo seria obra grosseira de pastiche. já diferenciado na mônada.. ouvindo a citação de dois versos seus tomados ao acaso. Da substância de todas as substâncias. a consciência 10 . Em Bateau ivre quem fala é o barco ébrio e conta a sua derrota. fundado na unidade cósmica. e—crente no tema. Encontra-se.reduzir a um campo único a ciência e a arte. todavia. Não sei se Augusto leu alguma vez Rimbaud. depois de infinitas transformações. vibra A alma dos movimentos rotatórios. “esse mineiro doido das origens”.. Do cosmopolitismo das moneras. identifica-se na substância primeva. bem mostra a preocupação indagativa do poeta de penetrar a coisa em si. A saúde das forças subterrâneas. Não sofre apenas a sua dor.

entendia o agregado abstrato da saudade. chamando a si. cuido não estar proferindo uma heresia. Para os que negam o espírito há muitos fenômenos que ficam sem explicação. Nada obstante. Nesse estado d’alma. o sofrimento de toda a humanidade. em esconderijos apropriados. dentro do mundo fenomenal. No fundo. força será admitir um agente oculto capaz de operar o fenômeno. noção trivialíssima das funções orgânicas. sente-se vencido diante do seu martírio e do martírio das criaturas. Sabemos que a consciência tem a sua morada no cérebro. O próprio Augusto. ouvia mais que um tísico. como está dito em Monólogos de uma Sombra. Por fim. A partir dai. já havia dito. No tocante à transformação da matéria. A rigor. no entanto. dezenove séculos antes. numa espécie de solidariedade subjetiva. sem mais compreender que prodígios são esses da monera. a forma para ele era a manifestação passageira da matéria em seus processos evolutivos. A mesma coisa. no princípio era a força. natural de minha terra. o remorso já acordado na caverna escura. diante das maravilhas do aparelho encefálico. tantas vezes exaltada pelo poeta. Quando a matéria transmigra acompanhada de um elemento hereditário que memoniza o instinto da espécie através das gerações. sente o remorso a queimar-lhe a consciência. Todo mundo sabe que é pelo ouvido que se ouve. assombrado com o não-ser. Eis que assim se expressa em Os Doentes: A vida vem do éter que se condensa. uma espécie de fogo que devora e não consome. Vemos o poeta a adquirir a forma humana e a degradar-se em seguida num gozo efêmero de dolorosas conseqüências. Perguntei-lhe um dia por onde entrava o som. segundo a qual a matéria e o espírito se unificam numa só substância. embora intelectualmente convencido da teoria racionalista. as conchas das orelhas rasas como a palma da mão e. há que distinguir um pormenor. que a ele não interessava considerar. E por que não admitir logo a alma? Se eu disser que a consciência e a inteligência têm a sua sede no espírito. Isso não impede que o espírito seja o agente atuante de tão prodigiosa membrana.conspurcada de gozo malsão. É a concepção monística. Augusto nunca deixou de ser um metafísico no sentido religioso da palavra. onde impera a força que responde pelo movimento ubiqüitário da massa. segundo querem os frenologistas. Por alma. manifestou o seu espanto. respondeu-me que por todo o casco da cabeça. temos aí um transformismo metafísico. que tinha os ouvidos totalmente tapados. com sótão e porão. centro de toda a acuidade sensorial. conheci um sujeito. posto que falasse às vezes em alma divina e em Deus de amor e de bondade. que faz quase lembrar a reencarnação.No princípio era o Verbo. E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva! Bem examinada a questão. do ponto de vista metafísico. o vidente de Patmos: . entrega-se ao sacrifício. Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma 11 . o que vale dizer.

na melhor das suposições. Já o verme . Na idade em que os encantos do mundo douram a existência. perscrutar a fenomenalidade da energia a erguer da prisão milenária outras espécies que hão de vir. um mundo de fantasmas errantes que não adquiriram ainda a consciência de sua dor. O próprio amor. o éter cósmico. Em sua alma atormentada as superexcitações provocam visões aterradoras. Mas como é preciso preencher um claro na consciência. Na frialdade inorgânica da terra! Assombrado com o futuro.Fazer a luz do cérebro que pensa. Em tudo. procura 12 . o lado malsão da vida. que era o pior dos remédios para a sua alma inquieta. mas “diante da sombra do mistério eterno” considera-se vencido. onde imperam sombras.. servindo de pasto a uma civilização corrompida. Custa crer que este soneto . cadáveres e bocas necrófagas. A influência má dos signos do zodíaco. Sofro. O mundo em que vive é um vasto hospital. vermes. causa-lhe repugnância. que é o Deus materialista de Haeckel. inconformado com a idéia de ser um dia roído pelos vermes.Psicologia de um Vencido . solta blasfêmias. a matéria putrefata. E há-de deixar-me apenas os cabelos. só serviu para adensar o clima de alucinação. Essa saturação filosófica fez-lhe um grande mal. filho do carbono e do amoníaco. firmava-se no presente a flagelar-se na ciência racionalista.este operário das ruínas. dominado por um ceticismo acabrunhador. uma natureza gasta. impreca. desde a epigênese da infância. Por toda parte. Nem por isso admite Deus. faz perguntas ao destino: “Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?” E nesse duelo da matéria com o espírito perturba-se. Querendo fugir a essas coisas. Sobe-me à boca uma ânsia igual à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. onde não há lugar para a alegria. Ao invés de fecundação do espírito. admite o éter. sem problemas materiais: Eu. Augusto falava como um homem que já perdeu o ideal da vida. Que o sangue podre das carnificinas Come e à vida em geral declara guerra. rasgar do mundo o velário espêsso. procura penetrar o mistério da substância universal. Monstro de escuridão e rutilância.. Este ambiente me causa repugnância. Profundissimamente hipocondríaco. Exausto da luta. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. No auge da inquietação.tenha sido escrito por um adolescente para quem o cotidiano devia correr. fonte inesgotável de vida. Os tormentos mortais da alma crescem com a descrença.

para não desmoronar a fortaleza de suas convicções filosóficas. Antes de mais nada. a perda da crença e. supõe-se integrado na imanência da idéia soberana. O niilismo esvaziava-lhe a alma da mesma forma que o cientificismo materialista. E para não capitular a esse apelo. como se o infortúnio tivesse desabado sobre a sua cabeça.. Mas o diabo não larga a sua presa. nem Haeckel compreenderam. acompanham-no. não há homem que sofra mais. podia fazer dele um triste. com efeito. Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer.. mas não me parece bastante para torná-lo um desgraçado. que exulta triunfante: Gozo o prazer. uma desgraça na vida do poeta. paralelamente. diz ele. com o poder de sua imaginação. E via em mim. O subconsciente o aturde. há muitos anos desapareceram! Nesta temática vai longe. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das idéias! Mas de novo se encontra em face do nada. não é demais supor a existência de algum motivo oculto capaz de levá-lo ao desespero. Mas há dentro dele qualquer coisa que o chama à realidade. Espera aí encontrar o seu nirvana. sente o desejo. em suas visões oníricas.refúgio na inexistência espiritual. como se já tivesse despido a carcaça da matéria. E de onde vem essa dor? É possível que tenha a explicá-la um concurso de causas. Tudo isso. Depois disso. gasta imensas energias e enche de culminâncias. como se supunha. deve ter acontecido na sua juventude. Com efeito. no todo ou em parte. O resultado de bilhões de raças Que. a terrível moléstia que se atribui. Um inocente metido na prisão talvez se revoltasse menos que ele no ergástulo da carne. Falava como um homem que parecia ter a consciência carregada de remorsos. tenta ir ao fundo da crença monística. monstros terríveis. Onde quer que se refugie. Há. que os anos não carcomem. leve-se em conta a deformação de uma sensibilidade que vinha do berço e o predispunha ao desequilíbrio das sensações entre o eu e o mundo externo. Até agora 13 . Por um instante. Nenhum pintor. Algo de mais grave. seria capaz de executar o quadro de suas aflições. já cansado de escutar a natureza. A julgar pelos seus gemidos. podia exercer influência no temperamento sensível do poeta. E é nesta manumissão schopenhauriana. numa atitude mental de fuga à realidade. de subverter-se no grande todo e fazer da parte abstrata do universo a sua morada equilibrada e firme. pois que precisaria a tinta de todos os tormentos do homem. que ele denomina um sonho ladrão. coberto de desgraças. o Eu e Outras Poesias. na vã expectativa de que seu ego o deixe em sossego. evadido de si mesmo. Grita a sua dor por toda parte e.

não pode ocultar que foi vítima dele. Ele próprio. Por suas próprias palavras. Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E via em mim. Banhei-me na água de risonhos lagos E finalmente me cobri de flores. Por mais que Augusto negue o amor. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrio! Um penetrante e corrosivo frio 14 . Por enquanto. inútil seria qualquer esforço.esse seu sofrimento tem sido considerado puramente abstrato. Por mais que procure fugir ao assunto.. . Mas é ele próprio quem está a falar continuamente numa desgraça. Exatamente aí. não tenho dúvidas em afirmar que foi o drama do amor. Lembro-me bem.A Ilha de Cipango alude a uma felicidade perdida. em . pois. Trata-se. coberto de desgraças Mas veio o vento que a Desgraça espalha Para iludir minha desgraça estudo. que é o drama mais doloroso de sua consciência. depois de haver conhecido os inefáveis afagos do amor. não vejo maior necessidade de conhecer a biografia de Augusto dos Anjos para bem interpretar a sua obra. Minha desgraça há de ficar sozinha! E que desgraça foi essa que o fez ficar assim tão sombrio? Convém que ele mesmo conte a sua história. A dificuldade está em conhecer o valor dos símbolos e em seguida decifrar as alegorias.. Mesmo que quisesse recorrer a essa fonte para uma boa exegese literária.. dada a ausência de biografia. sempre se revela. cujo desfecho infeliz teria abalado convulsivamente sua personalidade carente de equilíbrio. é que deve começar o trabalho de pesquisa para a verdadeira interpretação psicológica do autor. Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. no capítulo do amor. desespero virtual e não real. no tocante a esse drama. Gozei numa hora séculos de afagos. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. Mas o seu eu está projetado na obra e nestas condições não preciso de outro elemento identificador para firmeza do valor interpretativo que neste trabalho tenho a intenção de destacar. de uma paixão. Iríamos a um país de eternas pazes.

Anestesiou-me a sensibilidade. E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. A tarde morre. Passa o seu enterro. . A luz descreve ziguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos!

Até aqui, apenas um lampejo, mas o bastante para mostrar que foi por causa de um amor desventurado que se fez assim tão sombrio. Onde deixa vislumbrar um pouco mais de claridade é neste outro quadro - A Árvore da Serra:
As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice calma! — Meu pai, porque sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs alma nos cedros... no junquilho... Esta árvore, meu pai, possui minha alma!... Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa: “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!” E quando a árvore, olhando a pátria serra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra!

Numa e noutra composição, como se vê, o assunto é tratado em linguagem hermética. Aliás, o uso de metáfora é freqüente nele, mais ainda quando alude ao drama da consciência. Um corte transversal nas duas composições - A Ilha de Cipango e A Arvore da Serra - entremostra a desventura amorosa. A cena teria se passado no engenho Pau D’Arco, residência do poeta. O moço triste era ele, e a namorada, a árvore da serra, que possuía a sua alma. A bem amada já havia cedido o seu amor ao poeta, como adiante veremos. Por ser uma jovem de condição humilde, um junquilho entre cedros, o pai austero, orgulhoso de sua estirpe ou premido pela família, determinou ou concordou tirar para sempre da presença do filho aquela flor silvestre, que o tinha preso aos seus encantos, crendo que, com o desaparecimento do empecilho, pudesse ter uma velhice calma.

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Para melhor compreensão do drama, convém apanhar o pensamento do poeta na parte em que as duas composições esboçam de leve o quadro: - “Gozei numa hora séculos de afagos,/’ Banhei-me na água de risonhos lagos,/ E finalmente me cobri de flores ... / Mas veio o vento que a Desgraça espalha”/ “Esta árvore, meu pai, possui minha alma!” ‘ / “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”/ “Foi sobre esta ilha que extingui meu sonho!”/ Desde então para cá fiquei sombrio!/ Um penetrante e corrosivo frio/ Anestesiou-me a sensibilidade.”// “Invoco os Deuses salvadores do erro./ A tarde morre. Passa o seu enterro!”// “Pela estrada feral dois realejos/’ Estão chorando meus amores mortos!”./ “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/ Caiu aos golpes do machado bronco,/ O moço triste se abraçou com o tronco/ E nunca mais se levantou da terra!” Seus versos deixam transparecer que houve violência. Mais de uma vez fala o poeta em golpes: - “E a grandes golpes arrancou as raízes/’ Que prendiam meus dias infelizes/ A um sonho antigo de felicidade!” / / “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/i/ Caiu aos golpes do machado bronco”/... A moça, ao que parece, era natural do brejo ou do sertão lugares que ficam sobre a Serra da Borborema, cujos contornos, na faixa do horizonte, se avistam da várzea do Paraíba, pois de outra forma não há sentido para o verso que diz: “E quando a árvore, olhando a pátria serra”... Se aprofundarmos um pouco mais a indagação, vamos encontrar retalhos desse episódio em quase todas as composições do Eu. A coisa tem começo em Monólogos de uma Sombra, quando o poeta, em seu primeiro exame de consciência, já mordido pelo remorso, acusa o sátiro que ele foi.
As alucinações táteis pululam. Sente que megatérios o estrangulam; A asa negra das moscas o horroriza. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa!

A seguir, em As Cismas do Destino, descreve o segundo ato da tragédia:
Fetos magros, ainda na placenta, Estendiam-me as mãos rudimentares! Ah! Com certeza, Deus me castigava! Por toda a parte, como um réu confesso, Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo, me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Não sei porque me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança

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E um pedaço de víscera escarlate. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse, E até o fim, cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória.

O terceiro ato da cena, constante do mesmo poema, é de revolta contra os seus, os que, cansados de viver na paz de Buda ou inflamados de preconceitos de nobreza, se encheram de humano orgulho, e quais guerreiros priscos contra uma imbele criatura que ao amor se rendera, entraram em conserto para a consumação da tragédia. Assim fala o poeta:
Todos os personagens da tragédia, Cansados de viver na paz de Buda, Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psico-plasma Humano sofre na mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, A morte desgraçada dos açougues... Tudo isso que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra!

E ao terminar o poema, no qual pôs toda a sua amargura, o peito arfando de impotente indignação, solta esse brado de desespero:
Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psiquê no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo!

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Como quem afasta de si a visão terrível de um drama macabro, guarda-se o poeta, mui cautelosamente, de descobrir o motivo cruciante do seu trabalho poético, deixando, entretanto, a perceber, em cada símbolo, em cada imagem de sentimentos dissimulados, um fragmento da realidade que abrasava o seu mundo interior. Sofre realmente e sofre mais porque a dor que se dissimula não estanca, principalmente quando falta ao paciente resignação cristã ou conformidade filosófica. A obsessão do sangue vai até o fim. Alma agoniada por tormentos mil, anda gemendo pelas estradas solitárias, perseguida por visões alucinadoras. Numa de suas últimas composições, ainda atormentado pelo monocromatismo monstruoso da universal vermelhidão, assim recorda o passado sombrio:
No inferno da visão alucinada, Viu montanhas de sangue enchendo a estrada, Viu vísceras vermelhas pelo chão...

Ele guarda para todo o sempre o pesar do golpe sofrido. Ora irrompe em forma de protesto, ora de arrependimento pela culpa que lhe cabe. A consciência inquietada pelo remorso é aquele morcego do seu soneto, que à noite entra imperceptivelmente em seu quarto. Seu coração ficou um deserto. Nem mais amor a Deus, nem mais amor à humanidade, nem mais amor à mulher. Ao coração devastado a alegria nunca mais voltou. Vive somente para a sua dor. Poder, riquezas, glórias terrenas, são coisas que despreza. Em sua musa, o amor não terá mais lugar, nem mesmo como tema de glorificação poética. Causa-lhe até repugnância. Explica-se desse modo a deficiência cromática de seus versos. Só na cor do sangue às vezes se manifesta. Em toda a sua poesia, a paisagem do Pau D’Arco se converte em cenário triste e repugnante. Com referência a esse cenário, diz ele em Psicologia de um Vencido: “Este ambiente me causa repugnância...” Alguns críticos tomaram o impropério como dirigido à sociedade da Paraíba. Do Pau D’Arco, ressalva apenas o velho Tamarindo, a árvore da perpétua maravilha, a cuja sombra amou e chorou. Varado de dor — continua amando em espírito, um amor etéreo, que está fora da carne e não tem mais sentido com o coração. Eis que assim se manifesta: Porque o amor, tal como eu o estou amando, É espírito, é éter, é substância fluida, É assim como o ar que a gente pega e cuida, Cuida, entretanto, não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes, imponderabilíssima e impalpável, Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! O fato em si é de todo interesse para a interpretação da obra original de Augusto. Já os detalhes do fato são sobras que ficarão reservadas ao investigador biográfico, que infelizmente ainda não apareceu. Em Augusto dos Anjos o que mais interessa é a biografia do poeta. Erro será querer julgá-lo como prosador, fora da área da poesia, como tem sido estranhamente fariscado por alguns críticos. Na prosa, era, de fato, rebarbativo, como de refinado mau gosto também foi, na prosa, o genial cantor dos Lusíadas. Apenas como um desafio ao futuro biógrafo, seria curioso saber como se chamava a moça que Augusto metamorfoseou na árvore da serra. Essa curiosidade vem a propósito do nome de uma 18

mas no poema . como é sabido.santa. Sonâmbulo. O poeta. Sonâmbulo. como em .extravasava desta forma o seu lamento: 19 . Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. eu também vou passando Sonâmbulo. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido... E invejo o sofrimento desta Santa. surpreende com a invocação de Santa Francisca. que não é das mais invocadas. contrito. confessa mais uma vez a sua culpa. Depois de embebedado deste vinho. Como um bemol ou como um sustenido. Rola impetuosa por meu peito a dentro?! Porque é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ao mapa-mundi estranha. nunca foi chegado a santos.. Noite.. Porque não evitei o precipício Estrangulando a minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! De outras vezes.Insônia . ao mesmo tempo que. em mágoa. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Porque cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício.Queixas Noturnas .. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim.referindo-se certamente ao espectro de sua desventurada amada.. Em cujo olhar o vício não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse.

A morte é o fim de tudo. o ofício da agonia. ando! Bati nas pedras de um tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza a minha única saúde! Curioso é que o egoísmo de uma dor sem fim não lhe fez perder o amor ao pai. Rezo. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. em que a piedade do sentimento se sublima na tessitura da composição. expressa a sua mágoa numa comovente unção. não para ele. quando a morte o olhar lhe vidra. A satisfação que buscava nos conhecimentos filosóficos só lhe faz aumentar a sede de infinito. A projeção da imagem materna esvaneceu-se por certo como símbolo da mais freqüente e sublimada veneração. E porque a visão da morte não o deixa em sossego. Talvez visse nela uma criatura transtornada pela “mania mística”. apenas três vezes. pouco fala. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. ama-o até mesmo na atômica desordem. E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu. entretanto.. que não admite a vida espiritual. Nem uma névoa no estrelado véu.brada: 20 . Em . entre estes monstros. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. Ao vê-lo morto. Madrugada de treze de janeiro. Toda a crença monística em que procura consolo não lhe explica à satisfação o fenômeno da vida. luta por fugir dela.. De nada valia para um espírito inquietante como o seu uma filosofia que arma o seu sistema à margem da vida.As Cismas do Destino .Quem foi que viu minha Dor chorando? Saio. Mas pareceu-me. mas para os que crêem há ainda uma esperança. Como Elias. como perseguido pela sinistra ceifeira. num carro azul de glórias. Da mãe. dormir primeiro. cuidei que ele dormia E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o!” deixa-o. isso mesmo sem revelar um mínimo de afeto. entre as estrelas flóreas. sonhando. como referiu vagamente em As Cismas do Destino. sem resolver a verdade interior. Ao pai. Mãe. Minha alma sai agoniada. que parece se deixou levar por pressão da família.

desesperado por não encontrar solução no raciocínio frio e racionalista. Forma difusa da matéria imbele.. pois estava certo que nem Deus compreendia os seus soluços. habitado por monstros humanos. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. que só faziam aumentar a sua ânsia de infinito. devia ter na época. E ainda. Já que não crê em Deus. cheio de imperfeições. Acha Flósculo da Nóbrega. Procura assim desoprimir o coração. Impressionado sem cessar com a morte E sentindo o que um lázaro não sente. como em toda a obra. as palavras também servem para ocultar o pensamento.. escravo do raciocínio frio. Essa visão shakespeariana das espadas cruzando o espaço tanto pode ser a perseguição da morte como o trágico fim da sua amada. ilustre membro da Academia Paraibana de Letras. Vivia um mundo à parte. que Augusto era um cerebral. Por tua causa apodreci nas cruzes.Morte. em Alucinação à Beira Mar: “Um medo de morrer meus pés esfriava”. O sentimento profundo de dor e de descrença afastava-o da realidade. Nestas condições. não cria em Deus. Meu raciocínio enorme te condena! E num horror quase pânico exclama. Nada o consolava nesse estado de espírito. Não me parece tenha razão 21 .. tanto que nos conflitos entre a inteligência e o sentimento tomava o partido do intelectualismo. 22 anos de idade. Ao invés de ajustá-lo à realidade. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas Atravessando os ares bruscamente. alguém há de responder pelos sucessos infelizes do seu destino. é natural que se mostre rebelado contra a natureza. ardendo em indagações subjectivas. Minha filosofia te repele. quando recebeu os 22 açoites da natureza. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Presumivelmente. Aqui. desabafando-se nestes termos contra a natureza: Tu não és minha mãe. embora ansiasse por encontrá-lo. em A Ilha de Cipango: Tenho alucinações de toda a sorte. em cujas entranhas um feto magro estendia-lhe as mãos rudimentares. O remédio que então buscava para as suas mágoas era o pior dos excitantes. levava-o a recolher-se em si mesmo. ponto final da última cena.. E porque não se acalmava? Faltava-lhe fé.

um homem excluído do mundo. Em agravo da tortura moral que não cessa de persegui-lo. foram produzidos no Pau D’Arco. Um tuberculoso pode sucumbir a outro evento que lhe antecipe o fim. o que ele via realmente era o ambiente do engenho Pau D’Arco. Era ali que ele sentia bulir na alma o drama de sua existência. passos largos. contudo. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. As suas relações com a sociedade parecem rompidas. Mas ninguém tinha culpa de ser ele um incompreendido.o ilustre intelectual paraibano. entrava em crise espiritual. Depois que o poeta deixou a Paraíba. volta-se vez por outra contra a sociedade. mas no particular. excetuado da segunda parte do Eu e Outras Poesias o grande soneto O Lamento das Coisas. Desta. sua musa empalideceu à falta de ambiente. um cuidado muito discreto da família em negar a tuberculose. Na luta em que Augusto se debate. noite a dentro. O mundo que o fazia sofrer não era de certo o da sociedade paraibana. Os seus melhores versos. No fundo. o cérebro em fogo. Fosse como ele diz. que não se sabe se foi escrito na Paraíba ou no sul. torturado no sentimento do desamparo. Em reforço desse argumento temos uma prova no próprio Eu. de vez que ninguém o compreendia. em Poema Negro: A passagem dos séculos me assombra. que o 22 . que o acolhia com carinho. via na sociedade a representação da humanidade sofredora. que só repugnância lhe causava. na vertigem: Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. Punha-se então a passear. ao redor da capela do engenho. Ao contemplar esse ambiente. destoa em força emocional do que produzira em sua terra natal. um espiritualista em eterna briga com o racionalismo. andar bamboleante. nunca recebeu hostilidades. Não importa que tenha morrido de pneumonia. mas porque se sente um desajustado. em 1912. Não que tenha recebido ofensas dela. e a mim pergunto. não se deixaria possuir pelo demônio da dúvida. conforme ouvi de Alcides Carneiro que ouvira dos seus íntimos. além de pouco. O que produziu no sul do País. De um modo geral. no caso. Há. como um sonâmbulo. tinha-se na conta de um doente. Nem ele próprio se conhecia. condenado a expectorar os pulmões dilacerados. Suas percepções sensoriais estão sempre em conflito com as atividades especulativas do espírito. não viveria atormentado com os mitos que o afastavam da realidade. toda a mágoa do seu espírito vem à tona. os de maior densidade emocional. Era. Surgem daí as freqüentes inflexões mentais e os distúrbios emocionais de fundo neurótico. Já é tempo de desfazer um equivoco que de tão repetido vai criando raízes. ao contrário. conforme declarou nesta honesta confissão. A inspiração despertava com a dor. Tomado de tensão nervosa pela repugnância que lhe causava o ambiente. teria Augusto encontrado satisfação na filosofia. podia ter alguma razão para queixar-se da sociedade.

fez dele um misantropo. tudo isso ele pincelou num quadro que é uma jóia de rara beleza. despedaçando as imagens dos próprios sonhos. num desalento ainda maior. sob os seus pés. que os enfermos se reuniam pela camaradagem da moléstia. Na ascensão barométrica da calma.próprio poeta confessava. A tragédia espiritual de Augusto começou desde que extinguiu seu sonho de amor sobre a Ilha de Cipango. em Os Doentes. De início. a imagem dos sonhos remotos que ele quebrara com o furor de um iconoclasta. Esse retorno do pensamento aos dias tranqüilos do passado. a arremetida que deu depois contra esses tesouros do coração. Depois disso. Foi a partir dai que entrou a sentir o vazio de sua alma. à guisa de ácido resíduo. eis que escuta. Lá para o fim do poema. na qual os doentes consagravam a sua última fonética a uma recitação de misereres. atormenta-se com a idéia de que. como um arrependido. depois de exclamar que sua angústia feroz não tinha nome. perdeu também a crença. na terra onde pisava. imaginária cidade à margem do Paraíba. Não há. pois. como ele chamava. Perdido o amor. hosanas ao Senhor. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minha alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. havia “um fígado doente que sangrava e uma garganta de órfã que gemia”. numa emoção que comove. deixa escapar este triste lamento: O inventário do que eu já tinha sido Espantava. Em As Cismas do Destino. Eu bem sabia. confessa-se minado pela tuberculose. Mais adiante. levado pela lembrança terna de um mundo cheio de encantos e maravilhas. 23 . jamais preenchido pelo cientificismo materialista. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! Mais tarde. assim principia o soneto Apóstrofe à Carne: “Quando eu pego nas carnes do meu rosto/’ Pressinto o fim da orgânica batalha”. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. Parece que desperta para a vida. Mas ninguém pode furtar-se às impressões da infância. passa a chorar a sua dor e a alheia. que pode figurar sem favor entre os melhores da língua. Era ali. os acordes saudosos do coração. Essa real ou imaginária doença. entra a descrever a cidade dos lázaros. aliada à descrença. “na urbe natal do Desconsolo”. o soneto Vandalismo. que admirar chore um dia a crença perdida. Já cansado do ceticismo. como se já tivesse perdido o alento de viver. em serenata. onde os anjos cantavam. ansiado e contrafeito.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas.. Como os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. muitas opiniões foram veiculadas. Flóscolo da Nóbrega. reconhecendo nele apenas o mérito de artista do verso. João Lélis.Meu coração tem catedrais imensas. Álvaro de Carvalho. tenham bordejado na superfície do abismo em. Dos outros. de admirar que ao lado de conceitos da mais justa penetração girem outros que espantam pela desconformidade. em gemidos de dor. Santos Neto. para ele. que se afundava a alma do poeta. Templos de priscas e longínquas datas. por exemplo. Não é. chegou a dizer que Augusto não era poeta. destaco Órris Soares. Canta a aleluia virginal das crenças. continua despertando o mesmo interesse dos primeiros tempos. Nesse decurso. a outros poderá parecer insípido ou fastidioso. Onde um nume de amor. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. que não é biografia e não chega a ser estudo. em serenatas. na Academia Paraibana de Letras. num discurso de recepção a Flóscolo da Nóbrega. há sempre o que referir. A arte. este último. João Lélis e De Castro e Silva. Negou-lhe peremptoriamente as qualidades de poeta. quando a aflição interior explodia em chamas 24 . Para só mencionar os intelectuais paraibanos que se pronunciaram sobre Augusto dos Anjos. Assim é que. ao aludir com desdenhoso apreço aos motivos abjetos que abundam no Eu e Outras Poesias. quase todos. ler. era apenas o meio de formular soluções. Sabe-se como compunha. Sua obra. Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! Caminha para cinqüenta anos que Augusto dos Anjos morreu. Ao contrário da incontinente afirmativa.. cada leitor tem o direito de sentir o autor a seu modo. disse que Augusto agarrava a musa e saía com ela a passear pelos recônditos da diluição biológica. Não era espremendo o cérebro como muitos que se apagam antes de morrer. posto que. gostar e não gostar é coisa que se não discute. No final de contas. pois. Raul Machado. a musa é que tomava o poeta de assalto nos momentos de suas lucubrações. José Américo de Almeida. Enfim. mas dar opinião atabalhoada a respeito daquilo que não chegou a ser entendido muda de figura. apenas como autor de um livro apologético. tanto sobre a obra como sobre a personalidade do autor. O que a uns desperta atenção e convida mesmo a uma meditação mais séria. No desespero dos iconoclastas. Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. já na 27ª edição.

enquanto forjava mentalmente a composição. de um a outro canto da sala. certa preocupação inclusive dos simbolistas. Neles. num timbre especial de voz. à primeira vista incompatível com a poesia. Euclides da Cunha. essa linguagem. Os versos espoucavam no momento da inspiração. insulado em sua própria grandeza. associado à vibração sonora. claro que avulta ainda mais o seu mérito. o ilustre escritor paraibano opõe embargos ao poeta. nem o gosto se levava em conta quando prevalecia a prevenção pessoal ou quando se pretendia alcançar fama com a marreta da demolição. Repugna-lhe o fartum que diz emanar do Eu e Outras Poesias. A virtuosidade ganha valor na opulência da expressão verbal.devoradoras. seu colega de turma e companheiro de estudos desde a fase preparatória. este na prosa. Bilac pode ter sido um lapidário da forma. afirma e reafirma que o Eu ficou como planta exótica. duendes. também 25 . segundo a classificação que adota de Agripino Grieco. entre nós. tem as suas raízes no caráter polêmico da crítica passadista. Muitas vezes. à margem das correntes estéticas do pensamento literário. Escrevia numa linguagem difícil porque era esse o seu estilo. Os que o conheceram de perto descrevem-no de andar banzeiro. lábios crispados. na época. Poe e Rimbaud. sobretudo da crítica provinciana. a densidade. que só deu pela presença do amigo depois de concluído o trabalho mental. figuras espectrais e outras visões sinistras. Augusto foi um torturado da idéia a serviço de um estro estrepitoso. sangue de vísceras dilaceradas. vermes. Por tudo isso. Órris Soares. Seus versos. Não importa que Augusto tenha ficado sem seguidores. o outro 25 anos depois. escarros. disse que uma das suas forças. o que acabava de compor. já por sua tendência malsã de ver as coisas pelo lado abjeto. em excelente estudo sobre o artesanato na poesia de Augusto dos Anjos. um em 1920. em 1945. impressionam pelo poder da dialética. como lamenta o crítico. Essa crítica. olhar perdido no espaço. a sua personalidade psicológica. essa repulsa idiossincrásica que compromete o crítico antes de atingir o alvo. Essa incompreensão a respeito de Augusto. túmulos. como em compasso de música. Cavalcanti Proença. Álvaro de Carvalho escreveu dois estudos sobre Augusto dos Anjos. mas quem os lê e os medita tem a impressão de que foram cavoucados na rocha. a passear a esmo. por ver em tais composições a podridão enroupada em jargão científico ou jargão clínico. com efeito. lá fora. Em ambos. Só depois de elaborada é que ia para o papel. já pelo cientificismo que tem por incompatível com a linguagem poética. reside justamente no termo técnico. Em ter ficado sozinho. o sentimento parece ter outra dimensão. Anoja-se o crítico diante de cadáveres. que pretende ser de interpretação psicológica. No entanto. cujos adeptos se apraziam em demolir toda vez que a obra visada não estava na conformidade do seu gosto. entrava disciplinada em seus versos. que não tenha fecundado a poesia nacional. Foi então que recitou de inopino. Jamais foi o leit-motiv de sua produção intelectual. o que era. surpreendeu-o num desses partos sem dor e tão absorto divagava o poeta. tem a prejudicá-la a idiossincrasia literária que afasta cada vez mais o retratista do retratado.

no duelo da carne. Nem por isso. na impotência de estabelecer relação entre o mundo visível e o invisível. Augusto tem sido comparado aos mais altos padrões da corrente estética do pensamento. com efeito. pela bizarria do estro e pelo gosto malsão de impregnar a poesia com o almíscar das coisas abjetas. tenho por objetivo abrir aos estudiosos uma clareira que os conduza ao fundo da obra. na interpretação de um drama emocional. Há. O anojamento de Álvaro de Carvalho. pela tristeza indefinível da alma. Se há fartum de diluição biológica na poesia de Augusto. Sua obra está aí mesmo a desafiar a argúcia dos mais entendidos. que apenas transparece em linguagem evasiva. Admita-se que a musa de Augusto tenha algo de doentio. como se vê. neste ensaio de exegese literária. O próprio Augusto tinha a consciência de que ia ficar sozinho e que era o poeta do hediondo. Ou então. Eis porque. o que forma em seu conjunto a harmonia orgânica de toda a obra poética do consagrado artista paraibano. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Tenho por desnecessário dizer que uma interpretação psicológica de Augusto. reconheça-se que essa poesia é humana. Note-se mais que a esse vigor casa-se uma virtude de efeitos encantatórios.ficaram sem seguidores. numa revolta do espírito que vai aos extremos da blasfêmia. mesmo doentia. Com Baudelaire. manifestada em poemas impressionistas de aguda sensação. Até mesmo quando desce ao abominável das podridões tumulares cintila em fulgurações de gênio. não lhe tira o vigor da expressão verbal. Com Mallarmé. Com Verlaine. Foi exatamente com esse título — Poeta do Hediondo — que ele. Por suas excentricidades e afinidades outras de ordem espiritual. 26 . ninguém lhes nega a grandeza de gigantes. Absurdo é querer sujeitar a literatura aos padrões em voga. Não pode o critico ser ortodoxo. está em tempo de ser feita. nem tudo pode ter cabimento. como se definiu neste quarteto de Minha Finalidade: Pré-determinação imprescritível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto. deu resposta por antecipação aos reparos dos seus futuros críticos. Da vasta literatura que já se produziu sobre Augusto dos Anjos. O autor é o que é e não o que o crítico quer que ele: seja. de sentido mais profundo. Mas é preciso notar que essa musa. pelas crises espirituais porque ambos passaram. num dos seus últimos sonetos. juízos despropositados de quem roça pelo assunto sem penetrar o recôndito da dor possessiva que tanto sublimava o poeta. a fim de atingir. aparelhou. é mais uma aversão de olfato alérgico. elogios ou restrições. por isso mesmo poética.

Só com Rimbaud.. Com Leopardi. Veja-se como se pronuncia a respeito do assunto: Falas de amor. Nos transportes espirituais os dois correm parelha. pela tortura do espírito e pela constância do tema da morte. temida pelo outro. a filosofia da dor. na postura de um campônio rústico. Segundo Delahaye. posto que as coisas que tinha a dizer exigiam. um grande medo toma conta do poeta. em grupos prosternados. foi José Américo de Almeida. vem o barulho das matracas. Em outros lances de sua obra manifesta o mesmo desdém. Com Antero do Quental. isso mesmo de passagem. Augusto lembra Rimbaud. assentado sobre cacos de pote e urtigas. citado por Augusto Meyer. Súbito. sensações simples e cenestesias. e é com veneração religiosa que vê os soldados do Vaticano. em tropos ousados. Honesto em tudo. só nesse ponto dissimula o pensamento. Também no amor os dois se assemelham. O único que mencionou Rimbaud. as mesmas figuras de linguagem. havia acentuada tendência do poeta. É. desejada por um. De lá de fora. Até nas aliterações e metáforas. no ar de minha terra. os ventos gemedores estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na Serra da Borborema. Encontra-se. desde a sua fase inicial. usando símbolos e valores que convergem para o fim colimado. de uma honestidade quase bravia.através da sensação. numa sexta-feira santa. nunca nenhum dos seus críticos traçou o paralelo. Ouvindo isso. que dialoga com os elementos imponderáveis. palavras raras e eruditas. como neste exemplo: 27 . os mesmos descuidos de metro e rima. Vez por outra. como quem deriva o pensamento para o lado oposto da imagem triste que o assedia. um mês após a morte de Augusto. Dentro da Igreja de São Pedro o silêncio só é quebrado pelo vento que entoa cânticos de morte. guardando o corpo do Divino Mestre. em termos de comparação. ambos procuram traduzir a sensação das coisas inanimadas. e eu ouço tudo e calo! O amor na Humanidade é uma mentira.. pelo sentido da dor universal. ao pé de um muro carcomido pelo tempo. A mesma coisa ocorre com Augusto. na terra santa. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. que cultivava em sua sensibilidade enfermiça. O triste espetáculo do seu século leva Rimbaud a um passado remoto.” Então desperta como de um pesadelo e com os olhos ainda ensanguentados da vigília sente a tristeza de ver mais uma vez como a sua vida é tão vazia. por sua natureza. “Na Eternidade. em quem se acumulam. quando a cristandade parecia pura sobre a terra. crematismos. a idéia pura das coisas. num artigo publicado em 1914. de mistura com alucinações. encontra-se em Roma. como se fosse uma convicção firmada e firmada com ênfase. Curioso é que fez a citação ‘unicamente para dizer que nenhuma parecença encontrara entre com emprego de termos técnicos. para a neologia e o vocábulo raro. visionário. as mesmas despreocupações do rebuscado pour épater le bourgeois. Augusto tem as suas razões para desdenhar o amor. Não fica apenas aí o confronto.

É que Rimbaud era portador de uma mensagem que acabou por cumprir. Também Rimbaud modulou o seu canto no mesmo tom: “Je n’aime pas les femmes: l’amour est à réinventer. a julgar pelos seus lamentos. Ninguém sofre mais do que ele. uma diferença de fundo entre os dois poetas. . Quando viu que tudo quanto imaginava como solução para restabelecer o paraíso não passava de divagação delirante. Augusto sentia-se puro. A violência do veneno que ingeriu muito cedo nas fontes materialistas fá-lo morrer de sede. Ou então como nesta outra amostra: Parece muito doce aquela cana. como Tântalo. Teria acontecido com ele alguma coisa? Ao que se sabe. contudo. Augusto e Rimbaud negam sistematicamente o amor. andou conspurcado de sensações súcubas. Descasco-a. vítima de injustiças humanas. largou-se para a África. Era a vida que lhe chegava e que fugia de Augusto. é verdade. exacerbava-a. que é talvez o drama mais crucial de suas consciências. embora tenham se casado e tido filhos. Começou então a ver e a sentir milhões de criaturas encantadoras. é como a cana azeda. Em cada um deles. é inútil. chupo-a. sente-se que há um complexo de culpa. enquanto Augusto não chegou a cumprir a sua. na Bélgica. Ao invés de aceitá-la como resultante de seu egocentrismo. é improfícuo. o bem e o mal caminhando juntos. Há. à beira da água. tendo culminado com aquele célebre tiro que recebeu de Verlaine.Sobre histórias de amor o interrogar-me É vão. Rimbaud. poeta. Não percebe sequer que toda a sua angústia é nascida de suas entranhas. No tempo de jovem. filha legítima de sua alma. acabou por admitir a presença de uma realidade espiritual. um suave concerto espiritual na natureza. Rimbaud encontrou-se a si mesmo depois que descobriu o caminho da virtude — le sentier de l’honner — que tanto procurava. segundo é fama.. Motivos escabrosos. em busca do paraíso terrestre. e por isso mesmo não achava conformidade para a sua dor. A toda boca que o não prova engana. Depois desse fato. converteu-se à realidade e mandou ao diabo o ar do inferno que o sufocava. que era o seu anseio máximo. em suma.”.. por causas várias. provo-a. depois de errar longos anos pela África e pelo Oriente Médio. As repetidas negativas ocultam de certo uma dolorosa frustração.. onde se casou com uma nativa da Abissínia. E como não 28 . Não sou capaz de amar mulher alguma. mas que o levaram ao resultado conhecido. ilusão treda! O amor. homens de bem cheios de nobres intenções. Nem há mulher talvez capaz de amar-me. teve motivos de sobra para tratar o amor com aquele desdenhoso apreço.

A vida. Uma análise mais demorada encontraria maiores pontos de contacto entre Augusto e Rimbaud. e se o fez alguma vez foi guiado pela dialética do monismo. revolta-se contra o mundo. Neste passo. Ou será preenchido ou compromete a dinâmica das forças morais. tudo quanto desperta a alma. o que recebe influências supera o modelo de inspiração. luz. como fontes de inspiração. mas nem isso acredito tenha havido. quanto mais afunda no racionalismo mais vacila na dúvida. onde não faltavam o ranger de dentes. Todo vácuo que se abre na vida interior é prejudicial ao comportamento do indivíduo. Um problema sempre gera outro. contra a sua grei. Torturava-se por ver somente o lado negativo das coisas. Dominado pela idéia de um mundo sem objetivo. teria apenas disciplinado em poemas imortais os cânticos populares da época. isto é. conforme confissão feita a Mário de Alencar. Mallarmé também passou pelas mesmas crises. Há muitas espécies de conversões em literatura. sua vida se transforma num verdadeiro inferno. do qual se considerava prisioneiro. Por curioso paradoxo. martelada em versos magníficos e candentes. Esse divórcio do eu com o indivíduo acabou por abranger a própria sociedade. porém.pode reformar o mundo. depois que perdeu a ilusão dos homens. 29 . deixava-se ficar no interior da concha. que se agravou o drama latente de sua alma inquieta. segundo o conhecido conceito bergsoniano do intuitivismo. Augusto revela-se mais lido em Põe e em Shakespeare. perfume. quando a monera já manifestava os primeiros sintomas de diluição. cor. o amor. da mesma forma como sucumbira Antero do Quental. Augusto vai irredento até o fim. A conversão de Augusto foi às avessas e porque não se desconverteu estabeleceu-se o conflito do eu com o indivíduo. sem procurar levantar o véu das aspirações profundas de sua alma.espécie de autobiografia moral. numa reação inócua. sem preencher esse vácuo. entre a voz do sentimento e a da razão. a criação. se fossemos no rasto dos poetas mais notáveis em busca de fontes de inspiração ou influências literárias. nada disso seria capaz de provocar-lhe uma sensação nova de vida. imitação. Tais similitudes valeriam. isto é. Jamais desceu ao fundo de si mesmo. Uma mesma idéia artística pode ser tratada com sabor de originalidade por mais de um autor. som. Ele mesmo se esvaziava no mundo vazio que se criou. Rimbaud também criou para si uma estação no inferno . Também Rimbaud bebeu na mesma taça de Põe. como Camões na de Petrarca e de Vergílio. Rimbaud salvou-se porque se encontrou a si mesmo. segundo apregoam os fundibulários da crítica. autores que exerceram forte influência em sua formação intelectual. Foi a partir daí. tudo quanto eleva os sentidos. Mesmo assim. quando muito. contra a sociedade. Possuído do demônio da dúvida. mas depois que abandonou a luta espiritual afundou no suicídio. dessa conversão ao materialismo. os mistérios da natureza. É sabido que nenhum escritor adquire a força do seu gênio senão depois de renovarse interiormente.Une Saison en Enfer . como muito bem já disse Augusto Meyer a propósito de Machado de Assis. Nas coincidências de temas ou mesmo de paralelismo de imagens não se veja.. Não raras vezes. chegaríamos por certo ao pai Homero que. silvos de labaredas e suspiros de empestados. perdia-se no estado de dúvida. Machado de Assis só entrou na posse de si mesmo depois que se converteu à descrença. beleza.

a meu ver. proclamou que Deus não existe. Embora não caiba nos limites deste trabalho uma digressão sobre a contradição reinante no mundo da crença. Mas no mundo fechado em que se enclausurava não era possível ver lá fora as almas piedosas e aflitas que tão necessitadas como ele pediam socorro. Só é possível possuir a fé quando se está convencido da verdade. tal como Rimbaud. sentia-se Augusto na impossibilidade de admitir a realidade da vida. em torrentes de eloqüência. é questão que não deve ser formulada. A conquista da fé importa na conquista do próprio eu. no desespero de tantos sofrimentos. outros andam com a Bíblia debaixo do braço e o coração carregado de impiedade. mas os que o seguem desconhecem. supria-se do mais no magistério particular. sem advertir-se de que jamais dera um passo ao encontro do Mestre. há que distinguir entre blasfêmia contra o cristianismo e blasfêmia contra o Cristo. uns afirmando. decretar a inexistência de Deus por decisão tomada nas urnas ou no bozó. Não fosse a trama filosófica do individualismo racionalista. Isso mostra que ele. E como não lhe bastasse pela exigüidade dos proventos. todavia. Apurada a eleição e com base no resultado. outros negando. que se veja na blasfêmia. como ninguém ainda se entendesse. nas apóstrofes do poeta contra o cristianismo. com raríssimas exceções. na realidade. um pedido de socorro. Num dos muitos grêmios literários que proliferam na terra de Iracema. Toda a obra poética de Augusto é um grito de dor arrancado do fundo da alma. uns batem nos peitos diante do altar e querem logo a recompensa do sacrifício feito. olhar menos para as suas dores e um pouco mais para as alheias. resolveu o presidente submeter a questão a votos. alcançando a grande esforço um lugar de diretor de Grupo Escolar. Se emigrou para o sul do país foi porque a Paraíba do seu tempo nada tinha de melhor para dar-lhe senão uma cátedra no Liceu Paraibano. se não há Deus. Vale mencionar. afetando melindres de devotos. heresia maior que a do poeta quando. No sul do país continuou a mesma luta heróica pela subsistência. em meio a tantas emoções extravasadas. 30 . certos de que no futuro sobrará tempo para essas coisas. um episódio que me foi contado por um amigo do Ceará. porquanto Deus é princípio e é fim. aceitar as imperfeições do mundo. descuramos o nosso destino espiritual pelo gozo do momento que passa. se manifesta ainda escravo do batismo. se sucediam na tribuna. é objeto de amor e de crença e não de investigação científica. via de regra. teria certamente encontrado a realidade espiritual que nasce da fé e se alimenta na caridade. Se o Cristo não vem em seu auxílio. viram nisso o pecado da blasfêmia. nas Alterosas. quando não proferida por modo vulgar e chulo. Para uma alma sequiosa de infinito como a sua não há que estranhar uma ou outra expressão de revolta. É o que há. a propósito. lecionando a quatro gatos pingados todas as matérias do curso de humanidades. Na prática. Ao cabo do bombardeio oratório. Ora. é. Todos nós. Os oradores.Enredado em idéias preconcebidas. a reação que lhe ocorre é a de menosprezo ao cristianismo. a essência dos Evangelhos. No meio em que viveu era querido e admirado. levantou-se a questão de saber se Deus existe ou não existe. Alguns críticos. Se há Deus. O cristianismo se apresenta como a doutrina de Cristo. Convém.

desde Tales de Mileto. depois de carpir amargamente diante de um mundo que se mostrava indiferente às suas mágoas: Escarrar de um abismo noutro abismo.Debaixo do Tamarindo. através dos séculos.atormentado por visões escatológicas. como se vê. esse sombrio personagem do drama panteístico das trevas. No tempo de meu Pai. coisa que não cabe na boca de um ateu. vem de muito longe. E como era sincero e honesto. sob estes galhos. A minha sombra há de ficar aqui! Por sombra. Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do cristianismo! Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio. o sacrifício da linda moça Polixena. Só muito raramente soltava uma blasfêmia. começa o poema “Sou uma Sombra. O passado da flora brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida. Como uma vela fúnebre de cera. Por outro lado.” E onde mais expressivo se mostra é neste admirável soneto . explodiu em As Cismas do Destino. nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência. encarnado nele e manifestado nesta passagem: Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade? Já em Monólogos de uma Sombra. esta árvore de amplos agasalhos Guarda. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. Por mais de uma vez chegou a falar em alma divina. De outras vezes. Voltando à pátria da homogeneidade. por mãos de seu filho Pirro. De inflexões mentais sua obra anda cheia. A denominação. Abraçada com a própria Eternidade. virtudes que cultivava com extremado zelo. Mandando ao céu o fumo de um cigarro. Camões fala na sombra de Aquiles quando exigia. dá à alma a denominação de sombra. não se pode dizer fosse ele um materialista ético. entendiam a alma. os filósofos iônios. e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. 31 . como uma caixa derradeira.

É a substância primeva. o metafísico cede lugar ao inveterado monista. que procede do éter cósmico. até mesmo num grão de areia. da substância de todas as substâncias. Choram ainda dentro dele. !" Este trabalho. aos 30 anos de idade. larva do caos telúrico. sua intimidade numenal. mas com o que ai está me contento. Assim fala e assim termina a composição: A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ainda tem de abrir para o infinito! Vã ilusão será pensar que já está reconciliado com Deus. Até Deus. desde o declínio das crenças mitológicas. vacilante na ciência fria. completem os estudos aqui esboçados ou deles discordem por modo a dar uma interpretação mais aceitável às mensagens de angústia. Fala como um crente da cegueira da criatura humana. mais dotados de inteligência e espírito de penetração.essa mônada esquisita Coordenando e animando tudo aquilo! Em Ultima Visio revela-se um metafísico teológico. na Federação das Academias de Letras do Brasil. as formas microscópicas do mundo. assaltado de alucinações. a 12 de novembro de 1914. então a presença do Eterno afastará a escuridão do caminho e aproximará a criatura do Criador. era uma mônada. mas dentro da alma aflita Via Deus . para ele. tal como se apresenta. de onde decorrem todas as moléculas que se esvaem na transubstanciação da natureza. acrescenta. em briga com o dualismo. conjunto das faculdades intelectuais e morais do homem. que eram uma constante na alma torturada do poeta paraibano. Que outros. virtualidade espiritual. em soluços quase humanos.Mas o que Augusto chama a sua sombra não é ainda a alma. à semelhança da mônada de Leibnitz ou da monera de Haeckel. Daí por diante. nas composições que vão até o fim do livro. Quem o ler nesse soneto dirá que já está reconciliado com Deus. como entidade eterna. Quando essa cegueira for resgatada e arrancar o homem da inciência. ansiado por compreender o princípio anêmico dos seres. isto é. Mais poderia dizer agora. que não quer ver a glória de Deus resplandescendo em tudo. foi objeto de uma palestra proferida em maio de 1960. como está dito em Sonhos de um Monista: A verdade espantosa do protilo Me aterrava. 32 . perdendo-se novamente no enleio cósmico. até que morre numa cidade das Alterosas. Assim vai. em Leopoldina. tal como a entendiam os filósofos iônios. mito cosmogônico que liga entre si o espírito e a matéria.

numa atmosfera de rigorosíssima moralidade. relegando por completo tudo quanto concerne ao desenvolvimento. Quais as horas que dedica ao seu trabalho intelectual: Não tenho horas metodicamente preferidas para o meu trabalho mental. Tenho insônia raras vezes. quase sempre andando no meio de toda azáfama ambiente ou à noite deitado. da chamada vida física. Conservo de memória tudo quanto produzo. 1914 Nome: Augusto dos Anjos Idade: 28 anos Profissão: Professor e advogado Estado civil: Casado Filiação: Filho legítimo do bacharel Alexandre R. Sofre de insônia. o que não impede. Quais os autores que mais o impressionaram: Shakespeare e Edgar Poe Qual o seu autor favorito: Todos os bons autores me agradam. presumo. Onde e como foi educado: Na Paraíba do Norte. Como faz o seu trabalho intelectual: Durante o dia. Rio de Janeiro. Tem continuados sonhos fantásticos: Quanto a sonhos fantásticos é também muito raramente que os tenho. dos Anjos e D. cefaléia e amnésia: Até esta data não sofro absolutamente de amnésia. entretanto. Quais as cores de sua predileção: A vermelha e a azul. comecei a produzir muito antes dos 9 anos. Quantas horas repousa: Meu repouso varia de 7 a 8 horas.UM CURRÍCULO ESCRITO PELO PRÓPRIO POETA Resposta ao inquérito de Licínio dos Santos em A Loucura dos Intelectuais. Córdula C. Quais os trabalhos que deu à luz até a presente data: um livro de versos. O que sente de anormal quando está produzindo: Uma série indescritível de fenômenos nervosos. vítima de surmenage morreu de paralisia geral e minha mãe é excessivamente nervosa Antecedentes pessoais: O que me pode adiantar sua infância: Desde a mais tenra idade eu me entreguei exclusivamente aos estudos. chá ou outro excitante intelectual: Sou contra os excessos. Em que idade começou a produzir: Se me não falha o poder de reminiscência. 33 . Faz as suas irregularidade: Sim refeições com Tem muito apetite: Regular Faz uso do álcool: Não Faz uso excessivo do café. Engenho Pau d'Arco. R. dos Anjos Antecedentes hereditários: Meu pai. mas a cefalalgia persegue-me constantemente. São muito poucas vezes que me sento à mesa para produzir. Eu. acompanhados muitas vezes de uma vontade de chorar. de abusar um pouco do café.

Sofro. Na frialdade inorgânica da terra! 34 . Esforços faço. vede: Na bruta ardência orgânica dasede. E há de deixar-me apenas os cabelos. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. E vejo-o ainda. e à vida em geral declara guerra. à noite ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto! PSICOLOGIA DE UM VENCIDO Eu. Chego A tocá-lo.” -.. Já o verme -.TODOS OS SONETOS O MORCEGO Meia-noite.este operário das ruínas -Que o sangue podre das carnificinas Come. Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco.. desde a epigênese da infância... Que ventre produziu tão feio parto?! A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça. “Vou mandar levantar outra parede. Ergo-me a tremer. Circularmente sobre a minha rede! Pego de um pau. Minh’alma se concentra. agora. Produndissimamente hipocondríaco. Monstro de escuridão e rutilância. A influência má dos signos do zodíaco. Fecho o ferrolho E olho o teto. filho do carbono e do amoníaco. igual a um olho. Ao meu quarto me recolho. Este ambiente me causa repugnância. Morde-me a goela ígneo e escaldante molho. Meu Deus! E este morcego! E.Digo.

Riem as meretrizes no Cassino. raquítica. e quase morta. Quebra a força centrípeta que a amarra. E o Lázaro caminha em seu destino Para um fim que ele mesmo desconhece! 35 .. Que. Deixa circunferências de peçonha. Sente no tórax a pressão medonha Do bruto embate férreo das tenazes. quando sonha. Delibera. Anoitece. de repente. mínima. À noite. tênue.A IDÉIA De onde ela vem?! De que matéria bruta Vem essa luz que sobre as nebulosas Cai de incógnitas criptas misteriosas Como as estalactites duma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta Do feixe de moléculas nervosas. em desintegrações maravilhosas.. Mostra aos montes e aos rígidos rochedos A hedionda elefantíase dos dedos Há um cansaço no Cosmos. Em qualquer parte onde a cabeça ponha. Tísica. Marcas oriundas de úlceras e antrazes. Todos os cinocéfalos vorazes Cheiram seu corpo. Mas. esbarra No molambo da língua paralítica! O LÁZARO DA PÁTRIA Filho podre de antigos Goitacases... e depois. quer e executa! Vem do encéfalo absconso que a constringe. Chega em seguida às cordas da laringe.

Agregado infeliz de sangue e cal. Somente achei moléculas de lama E a mosca alegre da putrefação! SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos 2 fevereiro 1911. Tragicamente anônimo. Em que lugar irás passar a infância. em letras garrafais. feto esquecido. com a sinergia de um gigante. Em tua morfogênese de infante A minha morfogênese ancestral?! Porção de minha plásmica substância.. a feder?! Ah! Possas tu dormir. Fruto rubro de carne agonizante. E. em vez de achar a luz que os Céus inflama. Que poder embriológico fatal Destruiu. Panteisticamente dissolvido Na noumenalidade do NÃO SER! 36 . Filho da grande força fecundante De minha brônzea trama neuronial. Meus olhos liam! No húmus dos monturos. Realizavam-se os partos mais obscuros.. Dentre as genealogias animais! Como quem esmigalha protozoários Meti todos os dedos mercenários Na consciência daquela multidão.Homens que a herança de ímpetos impuros Tornara etnicamente irracionais! Não sei que livro.IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA Rugia nos meus centros cerebrais A multidão dos séculos futuros .

arrima-a. Verme -. E no inventário da matéria rica Cabe aos seus filhos a maior porção! 37 . afaga-a. Jamais emprega o acérrimo exorcismo Em sua diária ocupação funérea. Suficientíssima é. rói vísceras magras E dos defuntos novos incha a mão. Latindo a esquisitíssima prosódia Da angústia hereditária dos teus pais! O DEUS-VERME Fator universal do transformismo. Almoça a podridão das drupas agras..é o seu nome obscuro de batismo. pelos séculos adiante. Na superabundância ou na miséria. Ah! Para ele é que a carne podre fica. Cão! -. para provar A incógnita alma. em que tu dormes.Alma do inferior rapsodo errante! Resigna-a. Tua garganta estúpida arrancar Do segredo da célula ovular Para latir nas solidões enormes? Esta obnóxia inconsciência. E vive em contubérnio com a bactéria. acode-a A escala dos latidos ancestrais. ampara-a.. avoenga e elementar Dos teus antepassados vemiformes.. Filho da teleológica matéria.VERSOS A UM CÃO Que força pôde adstrita e embriões informes. Livre das roupas do antropomorfismo.. Janta hidrópicos. E irás assim.

sob estes galhos..DEBAIXO DO TAMARINDO No tempo de meu Pai...corte Minha singularíssima pessoa. depois da morte?! Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também. Voltando à pátria da homogeneidade. como uma caixa derradeira. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. Guarda. portanto. Como uma vela fúnebre de cera. esta tesoura. e. Abraçada com a própria Eternidade A minha sombra há de ficar aqui! BUDISMO MODERNO Tome. das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte! Dissolva-se. minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo. Que importa a mim que a bicharia roa Todo o meu coração. Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do último verso que eu fizer no mundo! 38 . Dr. O passado da Flora Brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. de amplos agasalhos. esta árvore.

Na inconsciência de um zoófito tranqüilo. um dia. por toda a pro-dinâmica infinita..SONHO DE UM MONISTA Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo Viajávamos. -. Alheio ao velho cálculo dos dias. Na guturalidade do meu brado. Eu fui refugiar-me à tua porta! Fazia frio e o frio que fazia Não era esse que a carne nos contorta. com uma ânsia sibarita. Por trás dos ermos túmulos. Cortava assim como em carniçaria O aço das facas incisivas corta! Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E eu saí.. como quem tudo repele.essa mônada esquisita -Coordenando e animando tudo aquilo! E eu bendizia.Velho caixão a carregar destroços -Levando apenas na tumba carcaça O pergaminho singular da pele E o chocalho fatídico dos ossos! 39 . com o esqueleto ao lado. mas dentro da alma aflita Via Deus -. Como um pagão no altar de Proserpina. A energia intracósmica divina Que é o pai e é a mãe das outras energias! SOLITÁRIO Como um fantasma que se refugia Na solidão da natureza morta. A verdade espantosa do Protilo Me aterrava.

autônoma e sem normas.. Dentro do ângulo diedro da parede. Todas as noites. Quando a promiscuidade aterradora Matar a última força geradora E comer o último óvulo do ventre! 40 . nesta rede. O hierofante que leu a minha sina Ignorante é de que és. talvez. Onde os bandalhos. moços do mundo. nascida Dessa homogeneidade indefinida Que o insigne Herbert Spencer nos ensina. Oh! Mãe original das outras formas.. Ah! De ti foi que. A minha forma lúgubre nasceu! O LUPANAR Ah! Por que monstruosíssimo motivo Prenderam para sempre. como um gado vivo. Nenhuma ignota união ou nenhum sexo À contingência orgânica do sexo A tua estacionária alma prendeu. Nos estados prodrômicos da vida. vede: É o grande bebedeouro coletivo.MATER ORIGINALIS Forma vermicular desconhecida Que estacionaste. Como quase impalpável gelatina. Vêm matar a sede! É o afrodístico leito do hetairismo A antecâmara lúbrica do abismo. A alma do homem poilígamo e lascivo?! Este lugar. Em que é mister que o gênero humano entre. mísera e mofina.

. É. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. Amo o coveiro -. na generalidade descrente Com que a substância cósmica evolui. É a morte.. Creio. perante a evolução imensa. é esse danado número Um Que matou Cristo e que matou Tibério! Creio. Do meu sepulcro para o teu sepulcro?! ÚLTIMO CREDO Como ama o homem adúltero o adultério E o ébrio a garrafa tóxica de rum. O mundo fique imaterializado -. se o amor quea Humanidade inspira É o amor do sibarita e da hetaíra. é o pneuma . Que o homem universal de amanhã vença O homem particular eu que ontem fui! 41 . como o filósofo mais crente.este ladrão comum Que arrasta a gente para o cemitério! É o transcendentalíssimo mistério! É o nous . O amor! Quando virei por fim a amá-lo?! Quando.Alavanca desviada do seu futuro -E haja só amizade verdadeira Duma caveira para outra caveira. e eu ouço tudo e calo! O amor da Humanidade é uma mentira. para o amor sagrado. é o ego sum qui sum . De Messalina e de Sardanapalo?! Pois é mister que.IDEALISMO Falas de amor.

cartilagens Oriundas. De aberratórias abstrações abstrusas! Nesse caixão iam. improficuamente. como os sonhos dos selvagens.. caixas cranianas. Era tarde! Fazia muito frio.. e. Cinzas. Comi meus olhos crus no cemitério. subi talvez às máximas alturas. Pelas monotonias siderais. Vaguei um século.O CAIXÃO FANTÁSTICO Célere ia o caixão. nele. se hoje volto assim.. Na rua apenas o caixão sombrio Ia continuando o seu passeio! SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO Para desvirginar o labirinto Do velho e metafísico Mistério. À meia-noite. É necessário que ainda eu suba mais! 42 . Mas. com a alma às escuras. inclusas. talvez as Musas.. Talvez meu Pai! Hoffmânicas viagens Enchiam meu encéfalo de imagens As mais contraditórias e confusas! A energia monística do Mundo. penetrava fundo No meu fenomenal cérebro cheio. Numa antropofagia de faminto! A digestão desse manjar funéreo Tornado sangue transformou-me o instinto De humanas impressões visuais que eu sinto Nas divinas visões do íncola etéreo! Vestido de hidrogênio incandescente.

para o Futuro. pois. Depois da morte.perdoaram! Oh! tu que no Perdão eu simbolizo. Tamarindo de minha desventura. porém. com o envelhecimento dos tecidos! Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos! E a podridão. Ao monstro que espremeu teu sangue grosso Teus olhos -. glebas. Na multiplicidade dos teus ramos. vales. Eu. reunidos. Talvez perdoasses os que te mataram! VOZES DA MORTE Agora sim! Vamos morrer. tua lã aquece o mundo inteiro E guarda as carnes dos que estão com frio! Quando a faca rangeu no teu pescoço. selvas. Se fosses Deus.fontes de perdão -. trilhos. inda teremos filhos! 43 . meu velho! E essa futura Ultrafatalidade de ossatura. Tu. tuas sementes! E assim.A UM CARNEIRO MORTO Misericordiosíssimo carneiro Esquartejado. Pelo muito que em vida nos amamos. no Dia de Juízo. A que nos acharemos reduzidos! Não morrerão. em diferentes Florestas. a maldição de Pio Décimo caia em teu algoz sombrio E em todo aquele que for seu herdeiro! Maldito seja o mercador vadio Que te vender as carnes por dinheiro. com o envelhecimento da nervura.

. na hierarquia Das formas vivas. nos doze meses. como os irmãos siameses! É com essa asa que eu faço este soneto E a indústria humana faz o pano preto Que as famílias de luto martiriza. asa De mau agouro que.. Perseguido por todos os reveses. Na orgia heliogabálica do mundo. Como os Goncourts. adstrito ao triângulo mesquinho De um delta humilde. apodrecer sozinho No silêncio de minha pequenez! ASA DE CORVO Asa de corvos carniceiros. Ser semelhante aos zoófitos e às lianas.. É meu destino viver junto a esa asa. É-me grato adstringir-me.INSÂNIA DE UM SIMPLES Em cismas patológicas insanas. Ter o destino de uma larva fria. à categoria Das organizações liliputianas. Como a cinza que vive junto à brasa. Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes O telhado de nossa própria casa..a costureira funerária -Cose para o homem a última camisa! 44 . Ganem todos os vícios de uma vez. Apraz-me. Deixar enfim na cloaca mais sombria Este feixe de células humanas! E enquanto arremedando Éolo iracundo. É ainda com essa asa extraordinária Que a Morte -.

“Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me! E a verticalidade da Escada íngreme: “Homem. Ouvindo a Escada e o Mar. o Hércules. aos soluços. caiu de bruços No pandemônio aterrador do Caos” 45 . conquanto ainda hoje em dia. A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda.. “O fracasso da tua geografia “E do teu escafandro esmiuçador! “Ah! Jamais saberás ser superior. E não lhe vem à boca uma palavra! O MAR. “Homem. “Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia “Voando ao vento o vastíssimo vapor. em desalento. Busca exteriorizar o pensamento Que em suas fronetais células guarda! Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda! E ei-lo a tremer. à míngua Da própria voz e na que ardente o lavra Febre de em vão falar. já transpuseste os meus degraus?!” E Augusto. “À luz da epicurista ataraxia. o Homem.. mamífero inferior. A ESCADA E O HOMEM “Olha agora. puxa e repuxa a língua. Como o soldado que rasgou a farda No desespero do último momento! Tenta chorar e os olhos sente enxutos!.O MARTÍRIO DO ARTISTA Arte ingrata! E conquanto. É como o paralítico que. rasga o papel. violento. com os dedos brutos Para falar. a mim.

minha Mãe.Não. Sinhá-Mocinha. Tu só furtaste a moeda. em minha cama. não fora ela! --“ E maldizia a sina.DECADÊNCIA Iguais às linhas perpendiculares Caíram. como cruéis e hórridas hastas. Eu furtei mais. afetava Susceptibilidade de menina: “-. Ele hoje vê que. porque furtei o peito Que dava leite para a tua filha! 46 . Vejo.. Furtaste a moeda só.. minha ama. Que a mim somente cabe o furto feito. ralhava. mas eu. Que ela absolutamente não furtava. então. entretanto. Nas suas 33 vértebras gastas Quase todas as pedras tumulares! A frialdade dos círculos polares. agora. após tudo perdido.. Em sucessivas atuações nefastas. Penetrara-lhe os próprios neuroplastas. o ouro que brilha. Só lhe restam agora o último doente E a armação funerária das clavículas! RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ A minha ama-de-leite Guilhermina Furtava as moedas que o Doutor me dava. Via naquilo a minha própria ruína! Minha ama.. Estragara-lhe os centros medulares! Como quem quebra o objeto mais querido E começa a apanhar piedosamente Todas as microscópicas partículas. hipócrita.

Hoje que apenas sou matéria e entulho Tenho consciência de que nada sou! 47 . porque não tem fim! No ardor do sonho que o fronema exalta Construí de orgulho ênea pirâmide alta. após a árdua e atra refrega. num festim. Hoje. igual a um porco.o brilho Destes meus olhos apagou!.. É noite. Serviu as carnes do seu próprio filho! Por que para este cemitério vim?! Por que?! Antes da vida o angusto trilho Palmilhasse. E tu mesmo..a mãe comum -. que se desmoronou A pirâmide real do meu orgulho. Terás somente uma vontade cega E uma tendência obscura de ser vivo! VOZES DE UM TÚMULO Morri! E a Terra -... aos reais convivas.. à noite..A UM MASCARADO Rasga essa máscara ótima de seda E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos. Hás de engolir. Assim Tântalo... e. do que este que palmilho E que me assombra. os restos Duma comida horrivelmente azeda! A sucessão de hebdômadas medonhas Reduzirá os mundos que tu sonhas Ao microcosmos do ovo primitivo. porém. a escândalos e incestos É natural que o instinto humano aceda! Sem que te arranquem da garganta queda A interjeição danada dos protestos.

pois. Pai. Tudo convém para o homem ser completo! O ângulo obtuso. Deus. para amenizar as dores tuas.CONTRASTES A antítese do novo e do obsoleto. Tu. Indiferente aos mil tormentos teus De assim magoar-te sem pesar havia?! -.. Deus não havia de magoar-te assim! 48 . Às alegrias juntam-se as tristezas. O que o homem ama e o que o homem abomina. Irei também. o Ódio e a Carnificina. SONETO – I – A MEU PAI DOENTE Para onde fores. trilhando as mesmas ruas. e o ângulo reto. E o carpinteiroque fabrica as mesas Faz também os caixões do cemitério!. Junta-se um hemisfério a outro hemisfério.Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim É bom. para amenizar as minhas dores! Que coisa triste! O campo tão sem flores. Uma feição humana e outra divina São como a eximenina e a endimenina Que servem ambas para o mesmo feto! Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes! Por justaposição destes contrastes. gemendo.. E eu tão sem crença e as árvores tão nuas E tu.. e sendo justo.. e o horror de nossas duas Mágoas crescendo e se fazendo horrores! Magoaram-te. para onde fores. é justo. Eu. O Amor e a Paz. meu Pai?! Que mão sombria.

dormir primeiro! E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza.. entre as estrelas flóreas. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei... Como Elias. num carro azul de glórias. E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o”! deixa-o.SONETO – II – A MEU PAI MORTO Madrugada de Treze de Janeiro. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu! SONETO – III Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra. Em seus lábios que os meus lábios osculam Microrganismos fúnebres pululam Numa fermentação gorda de cidra. Com a invariabilidade da clepsidra! Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos Roída toda de bichos.. Mas pareceu-me. cuidei que ele dormia. Amo meu Pai na atômica desordem Entre as bocas necrófagas que o mordem E a terra infecta que lhe cobre os rins! 49 . Rezo. o ofício da agonia. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. E a marcha das moléculas regulam. como os queijos Sobre a mesa de orgíacos festins!. Duras leis as que os homens e a hórrida hidra A uma só lei biológica vinculam. Mãe. sonhando. Nem uma névoa no estrelado véu.

. no junquilho. O sistema nervoso de um gigante Para sofrer na minha carne estuante A dor da força cósmica furiosa.e ajoelhou-se.Disse -. olhando a pátria serra. É preciso cortá-la. meu filho. possui minh’alma!. não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho..Meu pai.. numa rogativa: “Não mate a árvore. O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra! 50 . meu filho.. meu pai.. Caiu aos golpes do machado bronco.As árvores. para que eu viva!” E quando a árvore. Esta árvore.DEPOIS DA ORGIA O prazer que na orgia a hetaíra goza Produz no meu sensorium de bacante O efeito de uma túnica brilhante Cobrindo ampla apostema escrofulosa! Troveja! E anelo ter. despindo a última alfaia Que ao comércio dos homens me traz presa. Para que eu tenha uma velhice calma! -. enfim. Apraz-me. sôfrega e ansiosa.. Livre deste cadeado de peçonha. Semelhante a um cachorro de atalaia Às decomposições da Natureza. Ficar latindo minha dor medonha! A ÁRVORE DA SERRA -.. pois. pai. por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs almas nos cedros.. -.

Arrancou os cabelos na montanha! Desceu depois à gleba mais bastarda. Continua a comer teu milho alpiste. Que do fundo do chão todo o ano brota! Mas a ânsia de alto voar. Foi a gaiola que te pôs assim! 51 ... O CORRUPIÃO Escaveirado corrupião idiota. bruto. Ah! Tu somente ainda és igual a mim.VENCIDO No auge de atordoadora e ávida sanha Leu tudo. Acometido de uma febre estranha Sem o escândalo fônico de um grito. não tens mais! E pois. Foi este mundo que me fez tão triste. preto e amarelo.. Pões-te a assobiar. E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo. mergulhou a cabeça no Infinito. sem cerebelo A gargalhada da última derrota! A gaiola aboliu tua vontade. desde o mais prístino mito. o amplo éter belo. de à antiga rota Voar. E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria O vencido pensava que cuspia Na célula infeliz de onde nasceu. Olha a atmosfera livre. Pondo a áurea insígnia heráldica da farda À vontade do vômito plebeu. por exemplo: o do boi Ápis do Egito Ao velho Niebelungen da Alemanha. Tu nunca mais verás a liberdade!..

No eterno horror das convulsões marítimas Pareciam também corpos de vítimas Condenados à Morte. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. Noite alta... Com os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. em serenatas. Templos de priscas e longínquas datas. a equórea coorte Atordoadamente ribombava! Eu. me assombrava! Mas a alga usufrutuária dos oceanos E os malacopterígios subraquianos Que um castigo de espécie emudeceu. Onde um nume de amor. Ante o telúrico recorte. na diuturna discórdia. cismava Em meu destino!. assim como eu! VANDALISMO Meu coração tem catedrais imensas.ALUCINAÇÃO À BEIRA MAR Um medo de morrer meus pés esfriava. O vento estava forte E aquela matemárica da Morte Com os seus números negros. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. ególatra céptico... Canta a aleluia virginal das crenças. No desespero dos iconoclastas Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! 52 .

Acende teu cigarro! o beijo. o gládio de aço. que. E à rutilância das espadas.estranho carniceiro! Não podes?! Chama então presto o primeiro E o mais possante gladiador de Roma.VERSOS ÍNTIMOS Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. e doma Meu coração -.esta pantera -Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem. Somente a Ingratidão -. guerreiro. Apedreja essa mão vil que te afaga. toma A adaga de aço. e. nesta terra miserável. Veio depois um domador de hienas E outro mais. uns cem.. Se a alguém causa inda pena a tua chaga. E não pôde domá-lo enfim ninguém. e qual mais presto assoma Nenhum pôde domar o prisioneiro. Mora. sente invevitável Necessidade de também ser fera.. por fim. veio um atleta. Que ninguém doma um coração de poeta! 53 . entre feras. Toma um fósforo. amigo. Vieram todos. Meu coração triunfava nas arenas. por fim. é a véspera do escarro. ao todo. Escarra nessa boca que te beija! VENCEDOR Toma as espadas rútilas. A mão que afaga é a mesma que apedreja. E qual mais pronto.

Quer resistir. em sons subterrâneos. a que só ele assiste. Sabe que sofre. chorando.. Que. A sucessividade dos segundos. nada há que traga Consolo à Mágoa. o subconsciente ai formidando Da Natureza que parou. jazem ainda na estática do Nada! É o soluço da forma ainda imprecisa. podendo mover milhões de mundos. E quando esse homem se transforma em verme É essa mágoa que o acompanha ainda! O LAMENTO DAS COISAS Triste. do Orbe oriundos. é que essa mágoa infinda Transpõe a vida do seu corpo inerme. pancada por pancada. Da luz que não chegou a ser lampejo.. O choro da Energia abandonada! É a dor da Força desaproveitada — O cantochão dos dínamos profundos. Ouço.. E é em suma. e quanto mais resiste Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga. a escutar. No rudimentarismo do Desejo! 54 . mas o que não sabe E que essa mágoa infinda assim não cabe Na sua vida. pois. o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada.ETERNA MÁGOA O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo.... Da transcendência que se não realiza.

num grito de emoção. Oh! Nauta aflito do Subliminal. Como a última expressão da Dor sem termo.O MEU NIRVANA No alheamento da obscura forma humana. eu. sincero Encontrei. o meu Nirvana! Nessa manumissão schopenhauereana. Parem as vidas. Onde a Vida do humano aspecto fero Se desarraiga. Todas as urbes siderais vencidas! Morra o éter. a animar o cosmos ermo. pensando. Morto o comércio físico nefando. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das Idéas! CAPUT IMMORTALE Na dinâmica aziaga das descidas. me desencarcero. Sobre a pancosmológica exaustão Reste apenas o acervo árido e vão Das muscularidades consumidas! Ainda assim. Foi que eu. afinal. impero Na imanência da Idéa Soberana! Destruída a sensação que oriunda fora Do tacto — ínfima antena aferidora Destas tegumentárias mãos plebéas — Gozo o prazer. Tua cabeça há de ficar vibrando Na negatividade universal! 55 . Aglomeradamente e em turbilhão Solucem dentro do Universo ancião. Cesse a luz. feito força. De que. que os anos não carcomem.

Da multimilenária dissonância Que as harmonias siderais invade. e.APOSTROFE À CARNE Quando eu pego nas carnes do meu rosto. Dói-me ver. pois. Que eu tenho de deixar para os meus filhos! LOUVOR A UNIDADE "Escafandros. "Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas! "Une. o olfato e o gosto! Carne. E o Homem — negro e heteróclito composto. Desagrega-se e deixa na mortalha O tacto. Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas. a irmanar diamantes e hulhas... Onde a alva flama psíquica trabalha. numa alta aclamação. sem retumbância. há inúmeros milênios. decompondo-se. A dardejar relampejantes brilhos. "À hirta forma falaz do are perennius "A transitoriedade das fagulhas!" — Era a estrangulação. "Com essa intuição monística dos gênios. Em tua podridão a herança horrenda. Pressinto o fim da orgânica batalha: — Olhos que o húmus necrófago estraçalha. Era. muito embora a alma te acenda. arpões. O regresso dos átomos aflitos Ao descanso perpétuo da Unidade! 56 . a vista... sondas e agulhas "Debalde aplicas aos heterogêneos "Fenômenos. ao sol posto. feixe de mônadas bastardas. Diafragmas. o ouvido. sem gritos.

Este pântano é o túmulo absoluto. na noite escura. De todas as grandezas começantes! Larvas desconhecidas de gigantes Sobre o seu leito de peçonha e luto Dormem tranqüilamente o sono bruto Dos superorganismos ainda infantes! Em sua estagnação arde uma raça. Que produz muita vez. opondo-se à Inércia. e. no Mundo.. E a alma o obnóxio quietismo sonolento Rasga. sem dor. a porta. é a abreviatura Do todo o ubiqüitário Movimento! Sonho. à espera de quem passa Para abrir-lhe. para mim que a Natureza escuto. E o nada do meu homem interior! 57 .. é a essência pura. às escâncaras. Tragicamente. — libertação do homem cativo — Ruptura do equilíbrio subjetivo. É a síntese. é o transunto. A convulsão meteórica do vento.O PÂNTANO Podem vê-lo. E eu sinto a angústia dessa raça ardente Condenada a esperar perpetuamente No universo esmagado da água morta! SUPREME CONVULSION O equilíbrio do humano pensamento Sofre também a súbita ruptura. Ah! foi teu beijo convulsionador Que produziu este contraste fundo Entre a abundância do que eu sou. meus semelhantes! Mas.

Teu desenvolvimento continua! Antes. Antes o Nada. "Quanto mais em mim mesma me aprofundo. oh! gérmen. tanto Que.A UM GÉRMEN Começaste a existir. como o gérmen de outros seres. A Natureza olhou-se interiormente! Baldada introspecção! Noumenalmente O que Ela. deprimindo-o .. é natural. em conjugação com a terra nua. não progridas E em retrogradações indefinidas. geléia crua. Volvas à antiga inexistência calma!. ainda algum dia. no teu silêncio. entanto. Vence o granito. que ainda haveres De atingir. em realidade.. porventura. causa do Mundo. geléia humana. um dia. ainda sentia Era a mesma imortal monotonia De sua face externa indiferente! E a Natureza disse com desgosto: "Terei somente. o pranto Das tuas concreções plásmicas flua! A água. Ao supremo infortúnio de ser alma! NATUREZA ÍNTIMA Ao filósofo Farias Brito Cansada de observar-se na corrente Que os acontecimentos refletia. e.. Reconcentrando-se em si mesma. rosto?! "Serei apenas mera crusta espessa?! "Pois é possível que Eu. "Menos interiormente me conheça?!" 58 . O espanto Convulsiona os espíritos.. E hás de crescer.

é transporte.A FLORESTA Em vão com o mundo da floresta privas!.. é inquietude. .. Precisa de encharcar-se em sangue humano Para mostrar aos homens que está viva! 59 .. no seu arcano. Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens... Porque nunca puderam realizar-se! GUERRA Guerra é esforço. É a Natureza que. Como um convite para estranhas viagens.Todas as hermenêuticas sondagens. traçando arcos de ogivas. é o instinto horrendo De subir. descendo A irracionalidade primitiva. os elementos broncos. é ânsia. trancada num disfarce. nele.... Tornam todas as almas pensativas! Há uma força vencida nesse mundo! Todo o organismo florestal profundo É dor viva.. . Vivem só. que se entrega à morte Para a felicidade da Criatura! É a obsessão de ver sangue. na ordem cósmica. Da avidez com que o Espírito procura É a Subconsciência que se transfigura Em volição conflagradora.As ambições que se fizeram troncos. Bracejamentos de álamos selvagens. São absolutamente negativas! Araucárias.. E a coorte Das raças todas. E a dramatização sangrenta e dura Vir Deus num simples grão de argila errante.

. ereto e imóvel sente Em sua própria sombra sepultado! Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível Que em toda a sua máscara se expande. sem convulsão que me alvorece. saúde dos seres que se fanam. Minha maior ventura é estar de posse De tuas claridades absolutas! 60 . És suprema! Os meus átomos se ufanam De pertencer-te.. Que o sarcófago.. acérrima e latente. perante o Incognoscível Essa fatalidade de ser grande Para guardar unicamente poeira! HINO À DOR Dor. ouro De que as próprias desgraças se engalanam! Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato. É frio o ambiente E a chuva corta inexoravelmente O dorso de um sarcófago molhado! Ah! Ninguém ouve o soluçante brado De dor profunda.. assim. em suma. À humana comoção impondo-a.. Com os corpúsculos mágicos do tacto Prendo a orquestra de chamas que executas. ancoradouro Dos desgraçados. Dói-lhe. Riqueza da alma. psíquico tesouro... E. oh! Dor. sol do cérebro.O SARCÓFAGO Senhor da alta hermenêutica do Fado Perlustro o atrium da Morte. Alegria das glândulas do choro De onde todas as lágrimas emanam. inteira.

.... pois. ) Com o vosso catalítico prestígio. que. para o último remígio. Ions emanados do meu próprio ideal.ÚLTIMA VISIO Quando o homem resgatado da cegueira Vir Deus num simples grão de argila errante. Um movimento universal de insânia Arrancará da insciência o homem precito. Dai-me asas. Terá nascido nesse mesmo instante A mineralogia derradeira! A impérvia escuridão obnubilante Há de cessar! Em sua glória inteira Deus resplandecerá dentro da poeira Como um gasofiláceo de diamante! Nessa última visão já subterrânea. Sois vós que sustentais ( Força Alta exige-o . em épocas futuras. Expressões do universo radioativo.. para a hora derradeira! Culminâncias humanas ainda obscuras.. A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ele ainda tem de abrir para o Infinito! AOS MEUS FILHOS Na intermitência da vital canseira. Benditos vós. Minha continuidade emocional! 61 . Haveis de ser no mundo subjetivo. Meu fantasma de carne passageira! Vulcão da bioquímica fogueira Destruiu-me todo o orgânico fastígio . pois. Dai-me alma.

cedendo à ação de ignotos pesos! É então que a vaga dos instintos presos — Mãe de esterilidades e cansaços — Atira os pensamentos mais devassos Contra os ossos cranianos indefesos. sondando-me a consciência A ultra-inquisitorial clarividência De todas as neuronas acordadas! Quanto me dói no cérebro esta sonda! Ah! Certamente eu sou a mais hedionda Generalização do Desconforto.. os pés e os braços Tombara. então. as mãos.. A espaços As cabeças. Emoções extraordinárias sinto. A alma arde. A carne é fogo. Eu sinto. E acho um feixe de forças prodigiosas Sustentando dois monstros: a alma e o instinto! O POETA DO HEDIONDO Sofro aceleradíssimas pancadas No coração. O cosmos sintético da Idéa Surge. Arranco do meu crânio as nebulosas.A DANÇA DA PSIQUÊ A dança dos encéfalos acesos Começa. Ataca-me a existência A mortificadora coalescência Das desgraças humanas congregadas! Em alucinatórias cavalgadas. Subitamente a cerebral coréa Pára... Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto! 62 .

Todas as danações sexuais que abrangem A apolínica besta famulenta! Ambos assim. na ânsia voraz que. Excrescência de terra singular.A FOME E O AMOR A um monstro Fome! E. aumenta. carne sem luz. Rugindo. o alfa e o omega Amarguram-te. ávida. Receando outras mandíbulas a esbangem. Deixa a tua alegria aos seres brutos.. Superexcitadíssimos. Hebdômadas hostis Passam. Os dentes antropófagos que rangem. Teu coração se desagrega. O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! O nôumeno e o fenômeno. e. Montão de estercorária argila preta. No desembestamento que os arrasta. tragando a ambiência vasta. Porque.. Realidade geográfica infeliz. entretanto. os dois Representam. Antes da refeição sanguinolenta! Amor! E a satiríasis sedenta. criatura cega. enquanto as almas se confrangem. ris! Fruto injustificável dentre os frutos. Tu só tens um direito: — o de chorar! 63 . na superfície do planeta. Sangram-te os olhos. no ardor dos seus assomos A alegoria do que outrora fomos E a imagem bronca do que inda hoje sois! HOMO INFIMUS Homem.

E trago em mim. aparelhou. homens felizes. mordem-se. de sofrerdes A sensação de todas as misérias! 64 .. soluçando. Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma Dos que amam apreender o Inapreensível! Predeterminação imprescriptível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou.MINHA FINALIDADE Turbilhão teleológico incoercível. a Arte e a Beleza Servem de combustíveis à ira acesa Das tempestades do meu ser nervoso! Eu sou. Ai! Não toqueis em minhas faces verdes. Que força alguma inibitória acalma. a Glória. Sob pena. a Ciência.. dão gritos Nas minhas camas cerebrais funéreas. num sincronismo eterno A fórmula de todos os destinos! NOLI ME TANGERE A exaltação emocional do Gozo. sou maior que Dante. por conseqüência um ser monstruoso! Em minha arca encefálica indefesa Choram as forças más da Natureza Sem possibilidades de repouso! Agregados anômalos malditos Despedaçam-se. O Amor. o Inferno. — A águia dos latifúndios florentinos! Sistematizo. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Na canonização emocionante. Da dor humana...

a exigir que os sãos enfermem. Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia. em voz muito alta. Teço a infâmia.. Em que o Mal se engrandece e o ódio se exalta. O epitalâmio da Suprema Falta. (Hoje. urdo o crime. Se escapa pela boca dos cativos! ABERRAÇÃO Na velhice automática e na infância.. A ignomínia de todos os abusos! É a prosódia do cárcere. à luz de fantástica ribalta. Minha alma é um misto De anomalias lúgubres. Como Belerofonte com a Quimera Mato o ideal. cresto o sonho. amanhã e em qualquer era) Minha hibridez é a súmula sincera Das defectividades da Substância. Uiva. achato a esfera E acho odor de cadáver na fragrância! Chamo-me Aberração.O CANTO DOS PRESOS Troa... È a saudade dos erros satisfeitos. Existo Como o cancro. ontem. Pela promiscuidade dos reclusos! No wagnerismo desses sons confusos. Que. é a partênea Aterradoramente heterogênea Dos grandes transviamentos subjectivos. a alardear bárbaros sons abstrusos. não cabendo mais dentro dos peitos. Entoado asperamente. engendro o lodo E nas mudanças do Universo todo Deixo inscrita a memória do meu gérmen! 65 .

Carrego em minhas células sombrias Antagonismos irreconciliáveis E as mais opostas idiossincrasias! Muito mais cedo do que o imagináveis Eis-vos. Transponho ousadamente o átomo rude E. o Céu e o Inferno absorvo. de quanta Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos.VÍTIMA DO DUALISMO Ser miserável dentre os miseráveis -.. transmudado em rutilância fria. Ceva-se em minha carne. como um corvo. Feita dos mais variáveis elementos. agarro. O Infinitésimo e o Indeterminado.. Encho o Espaço com a minha plenitude! 66 . Todas as coisas íntimas suplanta! Penetro. invado. Nos paroxismos da hiperestesia.. enfim. à noite. dona. o Infinito se levanta À luz do luar. minha alma. por fim. pelos caminhos quedos Minha tátil intensidade é tanta Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos! Quebro a custódia dos sentidos tredos E a minha mão. A simultaneidade ultramonstruosa De todos os contrastes famulentos! AO LUAR Quando. apreendo. ausculto. dada às bravias Cóleras dos dualismos implacáveis E à gula negra das antinomias! Psique biforme. Criação a um tempo escura e cor-de-rosa..

Siva. Tifon. como a luz do amanhecer.. num monturo. e nos abismos Ninguém responderá tua pergunta! Reclamada por negros magnetismos Tua cabeça há de cair.. A coisa em si movia-se aos meus brados E os acontecimentos subjugados Olhavam como escravos para mim! 67 . aos trismos Da epilepsia horrenda.. virgem. Como a luz que arde. arder.A UM EPILÉTICO Perguntaras quem sou?! – ao suor que te unta À dor que os queixos te arrebenta. A perfeição virtual tornada viva E o embrião do que podia acontecer! Por antecipação divinatória. defunta Na aterradora operação conjunta Da tarefa animal dos organismos! Mas após o antropófago alambique Em que é mister todo o teu corpo fique Reduzido a excreções de sânie e lodo. Na hiperculminação definitiva O meu supremo e extraordinário Ser! Em minha sobre-humana retentiva Brilhavam. Átropos. E acima deles. Sentia dos fenômenos o fim. Eu.. como um astro. Laquesis. projetado muito além da História. Tu hás de entrar completamente puro Para a circulação do Grande Todo! CANTO DA ONIPOTÊNCIA Cloto.

entanto.. a soluçar de dor?! -.MINHA ÁRVORE Olha: É um triângulo estéril de ínvia estrada! Como que a erva tem dor.. Roem-na amarguras Talvez humanas. esse mundo incoerente. Branda. Hão de encontrar as gerações futuras Só. minha árvore humana desfolhada! Mulher nenhuma afagará meu tronco! Eu não me abalarei. Grita em meu grito. Essa elementaríssima semente Do que hei de ser. A estrutura de um mundo superior! Alta noite. Nutrindo uma efeméride inferior. ai! como eu sinto no esqueleto exausto Não poder dar-lhe vida material! 68 . Folhas e frutos.Trilhões de células vencidas. nas minhas formas carcomidas. às apalpadelas e às escuras. neste ergástulo das vidas Danadamente.) Quem sou eu.. e entre rochas duras Mostra ao Cosmos a face degradada! Entre os pedrouços maus dessa morada É que. sobre a terra ardente Hão de encher outras árvores! Somente Minha desgraça há de ficar sozinha! ANSEIO (QUEM SOU EU. A áurea mão taumatúrgica do Amor Traça.. rábido.. a afagar tantas feridas. remoinha. tenta transpor o Ideal. E. nem mesmo ao ronco Do furacão que.... alarga-se em meu hausto.

-. revolvendo o ego profundo E a escuridão dos cérebros medonhos. em que me inundo. Massa palpável e éter.Mãe promíscua do amor e do ódio insano! Sou eu que.. A potencialidade do que é morto E a eficácia prolífica do estrume! Ah! Sou eu que. transpondo a escarpa augusta Dos limites orgânicos estreitos. Restituo triunfalmente à esfera calma Todos os cosmos que circulam na alma Sob a forma embriológica de sonhos! II Treva e fulguração. sânie e perfume.REVELAÇÃO I Escafandrista de insondado oceano Sou eu que. auscultando o absconso arcano! Por um poder de acústica esquisita. Penetro a essência plásmica infinita. hirto. -. Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia. em cisma abismadora absorto. ateando da alma o ocíduo lume. desconforto E ataraxia. Ouço o universo ansioso que se agita Dentro de cada pensamento humano! No abstrato abismo equóreo.. Sou eu que. aliando Buda ao sibarita. Apreendo. feto vivo e aborto. Sinto bater na putrescível crusta Do tegumento que me cobre os peitos Toda a imortalidade da Substância! 69 .Tudo a unidade do meu ser resume! Sou eu que.

Esoterismos Da Morte! Eu vejo.VERSOS A UM COVEIRO Numerar sepulturas e carneiros. somente em.Tal é. Reduzir carnes podres a algarismos. Rotos os nimbos maus que a obstruem a esmo. rádios e úmeros. crânios. dois. sem complicados silogismos. Porque. três. A aritmética hedionda dos coveiros! Um. Para convulsionar a alma que dorme Todas as tempestades são pequenas! Há de a Terra vibrar na ardência infinda Do éter em branca luz transubstanciado. quatro.. na abismal sustância informe. infinita como os próprios números. por hipótese. cérebros. em fúlgidos letreiros. Na progressão dos números inteiros A gênese de todos os abismos! Oh! Pitágoras da última aritmética. A tua conta não acaba mais! TREVAS Haverá. -. nas geenas Luz bastante fulmínea que transforme Dentro da noite cavernosa e enorme Minhas trevas anímicas serenas?! Raio horrendo haverá que as rasgue apenas?! Não! Porque.. Continua a contar na paz ascética Dos tábidos carneiros sepulcrais Tíbias... hei de ficar trancado Na noite aterradora de mim mesmo! 70 . cinco. A própria Esfinge há de falar-vos ainda E eu.

na natureza espiritual. porventura. Por um abortamento de mecânica. perscruta O puerpério geológico interior. Toda a sublevação da crusta hirsuta! No curso inquieto da terráquea luta Quantos desejos fervidos de amor Não dormem. a alma. afinal. Inacessíveis aos humanos tráficos Onde sóis. me semente. sob o horror Dessas agregações de pedra bruta?! Como nesses relevos orográficos. alma. amam jazer. mal Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?! Ah! Nesse anelo trágico de altura Não serão as montanhas. Estacionadas. recalcados. oh! delumbrada alma. em contrações de dor. A significação dessas montanhas! Quem não vê nas graníticas entranhas A subjetividade ascensional Paralisada e estrangulada.AS MONTANHAS I Das nebulosas em que te emaranhas Levanta-te. De onde rebenta. e dize-me. se o que ainda não existe Não vibra em gérmen no agregado triste Da síntese sombria do meu Ser?! 71 . A representação ainda inorgânica De tudo aquilo que parou em mim?! II Agora. Quem sabe. Qual é. assim. íngremes.

A única luz tragicamente acesa a universalidade agonizante! A NAU A Heitor Lima Sôfrega. Destrói a ebulição que a água alvorota E põe todos os astros na desgraça! São despedaçamentos. em noite aziaga e ignota. Pára e. É a subversão universal que ameaça A Natureza. se as Tem.. da Massa. que o Éter indica. pelo orbe adiante.. E eu só. integérrima. E não haver uma alma que lhe entenda A angústia transoceânica medonha No rangido de todas as enxárcias! 72 . a amarra agarrada à âncora. alçando o hirto esporão guerreiro. e. o último a ser. E estende os braços de madeira rica Para as populações do mundo inteiro! Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda. Lambe-lhe a quilha e espúmea onda impudica E ébrios tritões.. derrota Na atual força. haurem-lhe o cheiro! Na glauca artéria equórea ou no estaleiro Ergue a alta mastreação. Espião da cataclísmica surpresa.. sonha! Mágoas. Zarpa. derrubadas.APOCALIPSE Minha divinatória Arte ultrapassa Os séculos efêmeros e nota Diminuição dinâmica. babando. Federações sidéricas quebradas.. subjugue-as ou difarce-as. A íngreme cordoalha úmida fica..

ainda depois da morte. Para a perpetuação da Espécie forte.. Dentro dos ossos. que ela encheu. Arrancar. ao cabo do último milênio. invente A lâmpada aflogística de Davy! Em vão! Contra o poder criador do Sonho O Fim das Coisas mostra-se medonho Como o desaguadouro atro de um rio. Em convulsivas contorções sensuais. E quando. em que arde o Ser. e. Tragicamente. o dolo sáxeo. A humanidade vai pesar seu gênio Encontra o mundo. continua a arder! Surdos destarte a apóstrofes e brados. Haurindo o gás sulfídrico das covas.. vazio! 73 .VOLÚPIA IMORTAL Cuidas que o genesíaco prazer. aborte Na hora em que a nossa carne apodrecer?! Não! Essa luz dial. Com essa volúpia das ossadas novas Hão de ainda se apertar cada vez mais! O FIM DAS COISAS Pode o homem bruto. Das profundezas do Subconsciente O milagre estupendo da aeronave! Rasgue os broncos basaltos negros. Os nossos esqueletos descarnados. na ânsia ardente De perscrutar o íntimo do orbe. cave. num triunfo surpreendente. adstrito à ciência grave. Fome do átomo e eurítmico transporte De todas as moléculas. Sôfrego.

. E. Ia talvez morrer. E amou. O monocromatismo monstruoso Daquela universal vermelhidão! 74 . Ah! Certamente não podia ser! Levantou-se. Ficam brilhando com fulgor sinistro Dentro da treva onímoda e complexa Os olhos fundos dos que estão com medo A OBSESSÃO DO SANGUE Acordou. vendo sangue. a escorrer Fita rubra de sangue muito grosso. Olhou-se no espelho. A água transubstancia-se. agride os rios E urde amplas teias de carvões sombrios No ar que álacre e radiante... há instantes.. Era tão moço.. Somente. Extraordinariamente atordoadora. Disse. fora. Na mão dos açougueiros. Horrível! O osso Frontal em fogo. com um berro bárbaro de gozo. Viu montanhas de sangue enchendo a estrada. Viu vísceras vermelhas pelo chão. mancha a gleba. A carne que ele havia de comer! No inferno da visão alucinada.A NOITE A nebulosidade ameaçadora Tolda o éter.. À custódia do anímico registro A planetária escuridão se anexa. antes do almoço. eis que viu... iguais a espiões que acordam cedo. A onda estoura Na negridão do oceano e entre os navios Troa bárbara zoada de ais bravios.

Outras cabeças aparecerão Para compartilhar do meu destino! Na festa genetlíaca do Nada. reconheço O império da substância universal ! 75 . percorro como um gênio Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!. E em tudo igual a Goethe....... E. me não consolo. dando-me ao corpo vão Esta volúpia de ficar no chão Fruindo na tabidez sabor divino! Espiando o meu cadáver ressupino. Ah! todos os fenômenos do solo Parecem realizar de pólo a pólo O ideal do Anaximandro de Mileto! No hierático areópago heterogêneo Das idéias.VOX VICTIMAE Morto! Consciência quieta haja o assassino Que me acabou. Abraço-me com a terra atormentada Em contubérnio convulsionador. Leio o obsoleto Rig-Veda. E ai! Como é boa esta volúpia obscura Que une os ossos cansados da criatura Ao corpo ubiqüitário do Criador! AGONIA DE UM FILÓSOFO Consulto o Phtah-Hotep. No mar de humana proliferação.. Rasgo dos mundos o velário espesso.. O Inconsciente me assombra e eu nele rolo Com a eólica fúria do harmatã inquieto! Assisto agora à morte de um inseto!. ante obras tais.

Como o reflexo fúnebre do Incriado: Bradei: -. Hirta. À noute qunado em funda soledade Minh’alma se recolhe tristemente. Da saudade na campa enegrecida Guardo a lembrança que me sangra o peito. E assim afeito às mágoas e ao tormento. E o coração me rasga atroz. Para dar vida à dor e ao sofrimento. P’ra iluminar-me a alma descontente.O ÚLTIMO NÚMERO Hora da minha morte. Porque eu hoje só vivo da descrença.Que fazes ainda no meu crânio? E o Último Número. Se acende o círio triste da Saudade. imensa. Eu a bendigo da descrença. Fora da sucessão. ao meu lado. em meio. Mas que no entanto me alimenta a vida. Parecia dIzer-me: "É tarde. resignado. imóvel. Não te abandono mais! Morro contigo!" SAUDADE Hoje que a mágoa me apunhala o seio. atro e subterrâneo.. No fundo Do meu entendimento moribundo Jazia o Último Número cansado. E à dor e ao sofrimento eterno afeito. Era de vê-lo. 76 . estranho ao mundo. Tragicamente de si mesmo oriundo. A Idéia estertorava-se. amigo! Pois que a minha autogênica Grandeza Nunca vibrou em tua língua presa.

Cansado de lutar no mundo insano. entre o medo que o meu Ser aterra. seu olhar magoado.Todas se foram num festivo bando. De joelhos aos pés do Nazareno Baixo rezei. mas me perdoa! Se esta dúvida cruel qual me magoa Me torna ínfimo. de ilusões tão bela.Oh! Deus. eu creio em ti. desgraçado réu.o exorcismo Terrível me feriu. Em que vive e em que aos poucos vai morrendo! Seu rosto triste. CETICISMO Desci um dia ao tenebroso abismo.Resta somente um’alma tristurosa! Coitada! o gozo lhe fugiu correndo. em fundo misticismo: . Onde a dúvida ergueu altar profano. sombras cor-de-rosa . Hoje ela habita a erma soledade. O brilho se apagou daquela estrela Que a vida lhe tornava venturosa! Sombras que passam. Ah. Da Igreja . volvi ao ceticismo. gárrulos voando .a Grande Mãe . Fugazes sonhos. Fazem lembrar em noute de saudade A luz mortiça d’um olhar nublado.ABANDONADA Ao meu irmão Odilon dos Anjos Bem depressa sumiu-se a vaporosa Nuvem de amores. e então sereno. Não sei se morra p’ra viver no Céu! 77 . Não sei se viva p’ra morrer na terra. Fraco que sou.

todas sem olores. Minh’alma levo aflita à Eternidade. Sombrio e mudo e glacial. Oh! Minha infância nunca teve flores! Volvendo à quadra azul da mocidade. triste pela vida afora. tristes. Tristes fanaram redolentes rosas. Quando a morte matar meus dissabores. de amor ferido. pálidas agora. langorosas. Ouvi. senhora. Desfeitas todas num guaiar dorido. triste e descrido. amei. Hoje eu carrego a cruz das minhas dores! OUVI. SENHORA Ouvi. Cansado de chorar pelas estradas. As minhas crenças que alentei outrora Rolam dispersas. Morreram todas. E como a luz do sol vai-se apagando! E eu triste. E que tornou-o assim. Como um coveiro a sepultar quimeras! 78 . Mais tarde da existência nos verdores Da infância nunca tive as venturosas Alegrias que passam bonançosas. num mês de tantas flores. senhora. Exausto de pisar mágoas pisadas. senhora. Revolvo as cinzas de passadas eras. o cântico sentido Do coração que geme e s’estertora N’ânsia letal que o mata e que o devora. Todas murcharam.MÁGOAS Quando nasci. Eterno pegureiro caminhando.

Alma viúva das paixões da vida. Oh! Tu. Mas a Pátria chamou-o. Dos canhões ao ribombo e das metralhas. enamorado dela. pendeu triste e desmaiada. venceu batalhas. mas a fronte aureolada. que na grinalda emurchecida De teu passado de felicidade Foste juntar os goivos da Saudade Às flores da Esperança enlanguescida. Era o soldado. INFELIZ Alma viúva das paixões da vida. Louco vivia. na estrada da existência em fora. Ao chegar. e na existência agora Triste soluças a ilusão peerdida. Alma arrancada do prazer do mundo. e o pesar negro e profundo. olímpica e singela! E partiu. Altivo lutador. E tinha que deixar p’ra sempre aquela Meiga visão. Esconde à Natureza o sofrimento. coração amargurado. Apaixonou-se d’uma virgem bela. Cantaste e riste. Se nada te aniquila o desalento Que te invade. um tresloucado. E voltou. E fica no teu ermo entristecida.TRISTE REGRESSO Uma vez um poeta. 79 . No sepulcro da loura virgem bela. Juncou-lhe a fronte aurifulgente estrela. Tu que. Vivia alegre o vate apaixonado.

Vinha rompendo a aurora majestosa. E rompe a orquestra sepulcral da morte. a brisa respondia. Quebrando a paz suprema dos sepulcros. ardentes . Desliza então a lúgubre coorte. Ambos unidos soluçara um beijo. Quando há de ser!? E os pássaros falavam. Resvalando nas sombras dos ciprestes. NOIVADO Os namorados ternos suspiravam.N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS N’augusta solidão dos cemitérios. São minhas crenças divinais. funéreos. Eu choro e gemo e triste me debruço Na lájea fria dos meus sonhos pulcros. Quando da vida. Chegara enfim o dia desejado. Era o supremo beijo de noivado! 80 . silentes. Hoje rolando nos umbrais marmóreos. Passam meus sonhos sepultados nestes Brancos sepulcros. Fora no campo pássaros trinavam. soturnais.Alvos fantasmas pelos merencórios Túmulos tristes. E a mesma frase o noivo repetia. Quando há de ser o venturoso dia?! Quando há de ser!? O noivo então dizia E a noiva e ambos d’amores s’embriagavam. pálidos. Dos rouxinóis ao sonoroso harpejo E a luz do sol vibrava esplendorosa. Há de chegar. no eternal soluço.

Eu subo na atitude dolorida De um Cristo a redimir um mundo vário. Espumando e rugindo em marulhada. Aí existe a mágoa em sua essência. A morte me será vingança eterna. E espuma e ruge a cólera entranhada. Já que do mundo não vinguei-me em vida. Como no mar a vaga embravecida Vai bater-se na rocha empedernida. E onde a vida borbulha e o sangue medra.NO MEU PEITO ARDE No meu peito arde em chamas abrasada A pira da vingança reprimida. Dores que ferem corações de pedra. Assim a turba inconsciente passa. E em centelhas de raiva ensurdecida A vingança suprema e concentrada. porém. No delírio. da febre ardente Da ventura fugaz e transitória O peito rompe a capa tormentória Para sorrindo palpitar contente. Muitos que esgotam do prazer a taça Sentem no peito a dor indefinida. Mas se das minhas dores ao calvário. 81 . Em luta co’a natura sempiterna. A MÁSCARA Eu sei que há muito pranto na existência. E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca A humanidade ri-se e ri-se louca No carnaval intérmino da vida.

Foste do amor o mártir sacrossanto. Morrera um dia desvairado. Enquanto outros que podem. um desses santos Sacerdotes da Fé de crença pura. Minh’alma alegre no teu rir s’encanta. num abraço de ternura santa. consente Que neste dia de ventura tanta Vá. Su’alma livre para o Céu se alara." CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior pelas nove primaverasque hoje completou. Irmão querido. E Deus lhe disse: "És duas vezes santo. bonecos de formoso busto. Da sua fala na eternal doçura Falava o coração. Somente assim festejarei teus anos. Quantos. Mostrar-te o afeto que meu peito sente. a jóia que te exprima O amor fraterno do teu mano Em 28 de abril de 1901 82 . Pois se da Religião fizeste culto. estulto.AMOR E RELIGIÃO Conheci-o: era um padre. Eu só encontro no primor de rima A justa oferta. Tu’alma ri-se descuidosamente. Canta no espaço a passarada e canta Dentro do peito o coração contente. oh! Quantos Ouviram dele frases de candura Que d’infelizes enxugavam prantos! E como alegres não ficaram tantos Corações sem prazer e sem ventura! No entanto dizem que este padre amara. dão-te enganos. Jóias. bom Papá.

Tornou-se a pecadora vil. No entanto. Dançavam-lhe no colo perfumado. Os seios rijos eram dois brasões Onde fulgia o simb’lo do Pecado. Balbuciou. mornos. amigo verdadeiro. Os seios brancos. tinha ido ver a sepultura De um ente caro. aveludado. presa. tomando a enxada gravemente. sorrindo tristemente: "Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!" PECADORA Tinha no olhar cetíneo. Eu senti a minh’alma entristecida E interroguei-o: "Eterno companheiro Da morte. Do destino fatal. Lá encontrei um pálido coveiro Com a cabeça para o chão pendida. o porte emoldurado No mármore sublime dos contornos. A chama cruel que arrasta os corações.O COVEIRO Uma tarde de abril suave e pura Visitava eu somente ao derradeiro Lar. Ali jazia o seu amor primeiro! Depois. palpitantes. Do fado. Moldada pela mão da Natureza. Bela. esta mulher de grã beleza. que matou-te o coração?" Ele apontou para uma cruz no chão. morria Uma noute entre as vascas da agonia Tendo no corpo o verme do pecado! 83 . divina.

Nem a sombra mais leve de ventura! Sempre as arcadas ogivais. Trovador torturado e angustioso. mudas! IL TROVATORE Canta da torre o trovador saudoso Addio. E as mesmas monjas sempre tristurosas. mavioso. addio! 84 . Repercute. Eleonora! Oh! sonhos meus! E o canto se desprende harmonioso Na vibração final do extremo adeus. Que guardam pér’las de funéreas rosas. Que guardam cinzas de ilusões passadas. Perdem-se as notas pelo Azul morrendo. desnudas. pouco a pouco. Vagueiam tristemente desfiladas De freiras e de monjas tristurosas. Assim canta também meu coração. os sons esmorecendo. addio. não acordeis. No sigilo das rezas misteriosas. E à noute quando rezam na clausura. Eleonora. Na vastidão silente das caladas Abóbodas sombrias tenebrosas. lembranças minhas! Saudades d’umas noutes em que vinhas Cantar comigo em doce desafio! Mas. Subindo pelo Azul da Inspiração. dolente. úmidas arcadas. .NO CLAUSTRO Pelas do claustro salas silenciosas De lutulentas. E as mesmas portas impassíveis. Ai! não.Addio.

No sudário de mágoa sepultada. Num sepulcro de rosas e de flores. Chova-te o Céu cintilações sidéreas E a terra chova no teu seio flores! Esplende. os teus fulgores.Arca cerúlea de ilusões etéreas. para guardar a mágoa oculta. Os dias voltarão a ser tristonhos E tu hás de dormir o eterno sono. . No seu olhar feroz eu adivinho O mistério da dor que a traz penada. porém. O cabelo revolto em desalinho.A LOUCA A Dias Paredes Quando ela passa: . Arca sagrada de cerúleos sonhos.Em seu passado Houve um drama d’amor misterioso .O segredo d’um peito torturado E hoje. gargalha. o triste outono. Moça. PRIMAVERA A meu irmão Odilon dos Anjos Primavera gentil dos meus amores. soluça . tão moça e já desventurada. Eu sei a sua história. Na auréola azul dos dias teus risonhos. Canta. Tu que sorveste o fel das minhas dores E me trouxeste o néctar dos teus sonhos! Cedo virá. Chora. a desgraçada estulta. Da desdita ferida pelo espinho.a veste desgrenhada. Primavera gentil dos meus amores! 85 .coração saudoso. Primavera. . Vai morta em vida assim pelo caminho.

Mas não queiras saber nunca. Salve-te a glória no futuro . Foi outrora do riso abençoado. ela não cansa. Senhora. Na voz da morte a me bradar: descansa! SENHORA.Cantar o Ocaso quando surge a Aurora. Muita gente infeliz assim não pensa. Este luto sem fim que é o meu Calvário E anseio e choro. Vão-se sonhos nas asas da Descrença. Também como ela não sucumbe a Crença. 86 . Quantas venturas que me acalentaram! Mau peito.avança! E eu.A ESPERANÇA A Esperança não murcha. ergue o teu grito. EU TRAJO O LUTO DO PASSADO Senhora. No entanto o mundo é uma ilusão completa. Também espero o fim do meu tormento. Sirva-te a crença de fanal bendito. E não é a Esperança por sentença Este laço que ao mundo nos manieta? Mocidade. risonha. eu trajo o luto do passado. portanto. delirante e vário. É minha sina perenal. não busques saber por que. tristonha . O berço onde as venturas se embalaram. O mistério d’um peito que estertora E o segredo d’um’alma que não sonha! Não. que vivo atrelado ao desalento. túm’lo do prazer finado. Voltam sonhos nas asas da Esperança. Sonâmbulo da dor angustiado.

Das brancas rosas do seu triste rosto Que rolam murchas como um sol já posto Um perfume de lágrimas se evola. Mas quando vibrar a última balada Da tarde e se calar a passarada Na bruma sepulcral que o céu embaça.SOFREDORA Cobre-lhe a fria palidez do rosto O sendal da tristeza que a desola. Mas volta logo um negro desconforto. Vinde entornar a clâmide puríssima Da luz que fulge no ideal sagrado! Longe das tristes noutes tumulares Quem me dera viver entre quimeras. Sombra perdida lá do meu Passado. sublime na Descrença. Como Jesus a soluçar no Horto! ECOS D’ALMA Oh! madrugada de ilusões.o orvalho do pranto lhe perola As faces maceradas de desgosto. Quando o rosário de seu pranto rola. Chora . porém. santíssima. Tenta às vezes. nervosa e louca Esquecer por momento a mágoa intensa Arrancando um sorriso à flor da boca. Por entre o resplandor das Primaveeras Oh! madrugada azul dos meus sonhares. Quem me dera morrer então risonho. Bela na Dor. Fitando a nebulosa do meu Sonho E a Via-Láctea da Ilusão que passa! 87 .

Esse manto de amor doce e clemente Que lava as dores e que enxuga o pranto?! Ah! Se queres saber a sua grandeza. Na altura Imensa. ama. As níveas pomas do candor da rosa. Fita a cúp’la do Céu santa e infinita! Deus é o templo do Bem. pois. Emergem da camisa cetinosa Entre as rendas sutis de filigrana. o olhar velado No Mistério da Carne Soberana 88 . nevada. e. a fronte triste. púbere. Essa sublime adoração do crente. mimosa.. Enquanto o amante pálido. crê em Deus. Dorme talvez. Em flácido abandono Lembra formosa no seu casto sono A languidez dormente da indiana. Sienkiewicz Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo Ser que preside e rege os outros seres. sê bendita! ARIANA Ela é o tipo perfeito da ariana.AMOR E CRENÇA E sê bendita! H. a seu lado Medita.. O amor é a hóstia que bendiz a Crença. Rendilhando-lhe o colo de sultana. Que os encantos e a força dos poderes Reúne tudo em si. A carne exuberante e capitosa Trescala a essência que de si dimana. Branca. Estende o teu olhar à Natureza. num só encanto? Esse mistério eterno e sacrossanto.

e quero sempre tê-las ao meu lado! Não. o meu Passado. Que não se enterra assim sem compaixão Os escombros benditos de um Passado! Ai! Não me arranques d’alma este conforto! . E na choça a lamúria que traspassa O coração.Quero abraçar o meu passado morto. A alma saudosa pelo amor vibrada.A Stella Matutina da Desgraça! 89 . ânsias e gritos De mães que arquejam sobre os probrezitos Filhos que a Fome derrubou na praça. Eu vivo dessas crenças que passaram.TEMPOS IDOS Não enterres. lânguida e bela. além. A romaria eterna dos aflitos. Vai Corina mendiga e esfarrapada. dos proscritos. não quero o meu sonho sepultado No cemitério da Desilusão. porém. . Tem pena dessas cinzas que ficaram. Da juventude a virginal capela A lhe cingir de luz a fronte baça. Ao dobre funeral dos tempos idos! NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA (Lendo o "Poema de Maio") Na rua em funeral ei-la que passa. . A procissão dos tristes. Entre todos.Dizer adeus aos sonhos meus perdidos! Deixa ao menos que eu suba à Eternidade Velado pelo círio da Saudade. Dos romeiros saudosos da desgraça. coveiro.

90 . Parecia o ribeiro estar chorando As lágrimas que eu triste gotejava. Cheia da luz do cintilar de um astro. SUSPIRANDO Pareceu-me inda ouvir o nome dela No badalar monótono dos sinos. Vinha o luar iluminando a estrada E eu vinha pela estrada soluçando.ADEUS. Deixa ver na fulgência do seu rastro A trajetória augusta da Ciência.eu disse. se eleva em busca do infinito. A aeronave que um mistério encerra Vai pelo espaço acompanhando o mundo. adeus! E. Saí deixando morta a minha amada. É como um despertar de estranho mito. adeus. Sulcando o espaço. Vencendo o azul que ante si s’erguera. Súbito ecoou do sino o som profundo! Adeus! . Auroreando a humana consciência. Voa. Hermeto Lima Adeus. apenas restam mágoas. Mas no mistério astral da noute bela Pareceu-me inda ouvir o nome dela No marulhar monótono das águas! A AERONAVE Cindindo a vastidão do Azul profundo. um ribeiro claro murmurando Muito baixinho como quem chorava. Fitando o abismo sepulcral dos mares. devassando a terra. Para mim no mundo Tudo acabou-se. suspirando. ADEUS! E. ADEUS. E na esteira sem fim da azúlea esfera Ei-la embalada n’amplidão dos ares. Perto.

triste. Disse. E nunca mais eu vi a minha estrela! 91 . Ai! que ao menos talvez na vida escassa Não chorasses à sombra da desgraça.a mágica princesa! E eu vi o Sol do Céu iluminando A Catedral da Grande Natureza.Vai-te. Lá onde nunca chegue esta saudade. Envolto da tristeza no delírio. P’ra que pendes o cálice que enflora Teu seio branco do palor do círio?! Baixa a mim. Estrela esmaecida do Martírio. e a estrela foi p’ra o Céu subindo. . tristonho lírio. Viu o adeus que do Céu ela enviava. E eu disse . Se eu sou o orvalho eterno que te chora. E quando ela no Azul foi-se sumindo Surgia a Aurora . Mas a noute chegou. com ela Negras sombras também foram chegando. irmã pálida da Aurora.A sombra deste afeto estiolado. estrela do Passado! Esconde-te no Azul da Imensidade.LIRIAL Por que choras assim. Para eu sorrir à sombra da ventura! A MINHA ESTRELA A meu irmão Aprígio A. Deixa beijar-te a face que descora! Fosses antes a rosa purpurina E eu beijaria a pétala divina Da rosa. Minh’alma que de longe a acompanhava. onde não pousa a desventura.

dai-me u’a esmola . A praça estava cheia. isento de pecado. a fé perdida. a minha bem amada.. o olhar enlanguescido. como este beijo me consola! Bendita seja a Dulce! A minha vida Estava unicamente nessa esmola. Pedir a Dulce. E ela fita-me. o algoz . por entre a dolorosa estrada. Estendo à Dulce a mão.A PRAÇA ESTAVA CHEIA. E eu balbucio trêmula balada: . Morre-me a voz. 92 .então. A esmola dum carinho apetecido. Depois. e eu gemo o último harpejo.o criminoso . Quando do algoz cruento o braço alçado Se dispunha a vibrar sem compaixão O golpe na cabeça do culpado Ele. Puro de crime.e estertorada A minha voz soluça num gemido. Caiu na praça como fulminado A soluçar: perdão. Vítima augusta de indelével falso. perdão! A ESMOLA DE DULCE Ao Alfredo A.. E todo o dia eu vou como um perdido De dor. perdão. E na atitude do Crucificado. O olhar azul pregado n’amplidão. Pude rever naquele desgraçado O drama lutuoso da Paixão. O condenado Transpunha nobremente o cadafalso.Senhora. E dos lábios de Dulce cai um beijo.

Num desespero rábido. E as trevas moram. obumbra-me em teu seio.AVE DOLOROSA Ave perdida para sempre . Negrejadas das asas lutulentas Que te emprestar o corvo do Destino! GÊNIO DAS TREVAS LÚGUBRES..crença Perdida . ave negra da Desgraça. assassino. Empenhada na sanha dos abutres. acolhe-me.segue a trilha que te traça O Destino.. onde d’água raso O olhar não trago. na névoa baça Onde o teu vulto lúrido esvoaça... E a alma me ofusca e o peito me maltrata. acolhe-me N’asa da Morte redentora. Leva-me o esp’rito dessa luz que mata. Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença! Dos sonhos meus na Catedral imensa Que nunca pouses. E hás de tombar um dia em mágoas lentas. e à ingrata Luz deste mundo em breve me arrebata E num pallium de tênebras recolhe-me! Aqui há muita luz e muita aurora. Seja-te a vida uma agonia intensa! Vives de crenças mortas e te nutres. Há perfumes d’amor . E o viver calmo e sossegado tolhe-me! Leva-me. Gênio das trevas lúgubres. Lá.venenos d’alma E eu busco a plaga onde o repouso mora. e. nem me turba a calma A aurora deste amor que é o meu ocaso! 93 .

Reflete a luz do sol que já não arde. num mar de esp’rança. só descanta. e a alma é a Flâmula do sonho. sem bruma Que a transparência tolde. a vida é qual risonho Batel. Treme na treva a púrpura da tarde. Abismados na bruma enegrecida. O MAR O mar é triste como um cemitério. a voz do meu saltério! Quando a cândida espuma dessas vagas. Que o guia e o leva ao porto da bonança. então. Julgo ver nos reflexos de minh’alma As mesmas nuvens deslizando em calma. Que o céu reflete. negros palinuros Da tempestade negra e da tristeza. Mas quando o céu é límpido. Cada rocha é uma eterna sepultura Banhada pela imácula brancura De ondas chorando num albor etéreo.NIMBOS Nimbos de bronze que empanais escuros O santuário azul da Natureza. Quando vos vejo. Chora a saudade envolta nesta espuma! 94 . Banhando a fria solidão das fragas. dentre a escura Treva do oceano. sem nenhuma Nuvem sequer. Ah! dessas no bramir funéreo Jamais vibrou a sinfonia pura Do amor. Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma. Os nimbos das procelas desta vida.

eu busco a virgem loura! Pau d’Arco .) Nessas paragens desoladas. é dor. Dia do meu Passado! Irrompe.1902 95 .esse clarão eterno d’alma forte Astro da minha Paz. Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas E.. num Pálio auroral de Luz deslumbradora. longe dos laços Dessa jaula de carne que a encarcera! Ah! Que unidos assim. Hoje é trevas. agita as tuas asas. Anseios d’alma aqui se perdem. Donde Fluiu outrora a luz dum doce engano.o Sol que as almas doura! Fugiu.ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS. Adeus oh! Dia escuro. Nem vibra a corda que a saudade esconde.1902 AURORA MORTA. onde O silêncio campeia soberano Morreram notas do bulício humano. Agora. meu Futuro. Tendo a minh’alma presa nos teus braços! Pau d’Arco . Aurora morta. e em si a Luz consoladora Do amor .. Sírius da minha Sorte E da Noute da vida a Vênus Redentora. o meu único Norte. FOGE! Aurora morta.. lá nos espaços. oh! Minha Mágoa. Triste criança virginal. E eu ergo preces que ninguém responde. Ascende à Claridade. O grande Sol de afeto .. é desengano. foge . Cantarias do amor a primavera. foge! Eu busco a virgem loura Que fugiu-me do peito ao teu clarão de morte E Ela era a minha estrela. quem dera Voar est’alma a ti.

à dolente Unção da noute. Pendem e caem . Pau d’Arco – 1902 CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA Canta o teu riso esplêndida sonata. emergindo às trevas que a negrejam. Ah! num delíquio de ventura louca. Aragem suspirosa Agita os roseirais que ali vicejam. os astros rumorejam Um presságio de noute luminosa E ei-la que assoma . No alto. Quando.. Vai-se minh'alma toda nos teus lábios.Cítara suave dos apaixonados.. Ri-se o meu coração na tua boca! Pau D'Arco .os roseirais descoram E elas bóiam no pranto da corrente Que as rosas. e. E há. nitente. chorando enfloram. ao luar.NO CAMPO Tarde.a Louca tenebrosa. no teu riso de anjos encantados. úmido de beijos em ressábios Teu riso esponta. Branca. Chora a corrente múrmura. as flores também choram Num chuveiro de pétalas.1902 96 . Sonorizando os sonhos já passados. despertando sonhos. entretanto. Como que um doce tilintar de prata E a vibração de mil cristais quebrados. as águas límpidas alvejam Com cristais. Bendito o riso assim que se desata . Cantando sempre em trínula volata! Aurora ideal dos dias meus risonhos. Um arroio canta pela umbrosa Estrada.

A gaze pálida Que lhe serve de alvíssimo sudário Respira essências raras. Derramam a urna dum perfume vário. Também envolta num sudário — a Dor. toda a cálida Mística essência desse alampadário. P'ra desvendar os seus segredos santos.CRAVO DE NOIVA Ao Dias Paredes Cravo de noiva. E tudo quer que nessa flor se enleve O poeta. Voga a lua na etérea imensidade! Ela. Ah! como a branca e merencórea lua. se duas eu tivera. É que dessa concha armínea Da lactescência angélica da neve. Onde as almas das virgens em crisálida De seios alvos e de fronte pálida. Flor dos mistérios d'alma. Se evolarn castos. Eu. entre os encantos Dum noivado risonho em primavera. olências de virgínea Carne fremindo num langor de pomas. virginais aromas De essência estranha. eterna noctâmbula do Amor. A nívea cor de cera Que o seu seio branqueja. 97 . Minh'alma triste pelos céus flutua! Pau d'Arco -1902. que a virgem chora. Guarda segredos divinais que eu dera Duas vidas. noctâmbulo da Dor e da Saudade. Pau d'Arco -1902. E a lua é como um pálido sacrário. é como os prantos Níveos. sacrossantos. PLENILUNIO Desmaia o plenilúnio.

Tanto que gemes. E vais aos poucos soluçando queixas! 98 . sonhar novas idades. a lua é triste e calma. Um dia morto da Ilusão às bordas.. Paraíba -1902 O BANDOLIM Cantas.INSÂNIA No mundo vago das idealidades Afundei minha louca fantasia. Choras. vindo de profundas fráguas. Mas ao esplendor das velhas majestades Vacila a mente e o seu ardor esfria. Tanto que cantas. Cedo atraiu-me a áurea fulgidia Da refulgência antiga das idades. Que desespero insano me apavora! Aqui. chora um ocaso sepultado.Quero partir em busca do Passado. Quando alta noute. bandolim do Fado E de Saudade o peito meu transbordas. e ilusões acordas. Ali. bandolim do Fado. Busquei então na nebulosa fria Das Ilusões. Teu canto. E vais aos poucos soluçando mágoas.. e eu julgo que nas tuas cordas Choram todas as cordas do Passado! Guardas a alma talvez d'um desgraçado. . pompeia a luz da branca aurora.Quero Correr em busca do Futuro. E eu tremo e hesito entre um mistério escuro: . É como as nênias do Coveiro d'alma! Tudo eterizas num coral de endeixas. soluças.

. Fulgia a bruma para sempre. Meiga. E a procela chorou n'um fundo arranco De mágoa triste e de paixão violenta. Lúcia sorriu-se à bruma nevoenta. E. A vida Despontava na aurora amortecida  rutilância mágica do dia. E eu quis beijar-te o lábio redolente. tu vinhas a cindir os ares. grave e lenta. cindindo os céus risonhos. Quiseste-me beijar a ara do peito.Foge. caindo dos altares. Foste caindo n'ara dos meus sonhos. Aquele riso despertava a aurora! E tudo riu-se.. mas eis que neste enleio. Tocando n'ara negra o níveo seio. O céu tremia em seu trevoso flanco. O sol. alegre e rubro. NA ETÉREA LIMPIDEZ. E Lúcia disse à bruma lutulenta: . qual hóstia.ARA MALDITA Como um'ave. à voz de Lúcia. e como Lúcia. Para nunca tocarem negros sonhos! Caíste enfim no meu sacrário ardente.Esses teus seios que os cerúleos lares Branquejaram de eternos nenúfares. senão co'o o meu olhar te espanco! E eu vi que. também ria! 99 . agora. Caíste morta ao celestial preceito. E beijei-te. E eu vi os seios teus virem inconhos . Na etérea limpidez de um sonho branco.

Nua. a Virgem Mãe dos céus escampos. Diluis teu peito em sensações profundas. E. urnas de Sonho.TREVA E LUZ Neste pélago escuro em que te afundas. Que beija a terra e que abençoa os campos. o túmulo da Crença. e. em banho ideal de amor te inundas. Mas. E em mim como no Templo. Sentes o peito em ânsias revoltadas. E a rasgar. ao ver-te nua. Que. às fundas Águas do mar das glórias obumbradas. e.A colunata êxul do Sonho Morto . Beije-te o seio e te abençoe o ventre! O TEMPLO DA DESCRENÇA O Templo da Descrença . Longe das sombras aurorais e amadas. ante o branco estendal das madrugadas.ei-lo que avisto. em bando. eis que emerges. Tudo! até o altar onde a Angústia vibra intensa N'uma fúria assombrai de feras em delírio! Penetro louco enfim o abismo funerário. eu sombrio chorando Ante a imagem fatal do Sepulcro da Crença! 100 . Em mim como no Templo a Angústia se condensa. Flores mortas da Aurora. a rasgar o lúrido sacrário.o círio Da Quimera Falaz. á luz das alvoradas santas Ungem-te o corpo redolências tantas. luminosa. A imensa Cruz da Dor está serena como um lírio! E vejo o pedestal que sustenta o Martírio. E vejo o pedestal que sustenta a Descrença! . o Mundo se concentre. E a lua. Agora.

A alma diluída em eterais cismares.Virgens filhas das virgens nebulosas! Quero-te assim.. formosa. 101 . como o sol . .A PESTE Filha da raiva de Jeová . Como o Cristo sagrado dos altares. Quero-te assim . Colmado o seio de virentes flores. e a Peste ri-se. semeando a Morte. Todos dizem co'os olhos para a Sorte . No olhar d'amor a mística fulgência E o misticismo cândido das rosas.. tudo! Quando Ela passa. Plena de graça.. tudo chora.e que bendita sejas Como as aras sagradas das igrejas. Etéreo como as Wilis vaporosas.É o castigo de Deus que passa mudo! .Fúlgido foco de escaldantes brasas . Embaladas no albor da adolescência. De espaço a espaço sepulturas planta E em cada coração planta um cipreste! Exulta o Eterno e. entre esplendores. ela. formosa entre as formosas.o astro Deixa um rastro de luto em cada canto! IDEAL Quero-te assim.a Peste N'um insano ceifar que aterra e espanta.O sol a segue.. enquanto Vai devastando o coração das casas. santa de inocência! Anjo de luz de astral aurifulgência.. E como o sol que a segue e deixa um rastro De luz em tudo..

... para onde Me levar o Destino abatido e tristonho. ah! ninguém me responde. Perdão! E este silêncio e esta tumba que cala! Insânia. Teu canto agora é um salmodiar de arcanjo. Chegou a Noite. E a Noite afeia corno num sarcasmo E agora a sombra vesperal morreu.. lírio morto do Céu! Perdão! E a minha voz estertora um gemido. É a música de Deus que vem do Céu! SÚPLICA NUM TÚMULO Maria.dois sangrentos círios A gêmea florescência de dois lírios Entrelaçados numa unção divina. insânia. .CÍTARA MÍSTICA Cantas. E para mim.. insânia. pátria da Aurora exilada do Sonho! .Irei agora. assim. a teus pés. pelo mundo. Implorar-te o perdão do imenso crime meu! Eis-me. eis-me a teus pés. Açucena de Deus. pois. Como o santo levita dos Martírios.. o meu Sonho morreu! Perdão. meu anjo. perdoa o teu vencido... E eu ouço etérea cavatina! Há nos teus lábios .. E o lábio meu pra sempre apartado do teu Não há de beijar mais o teu lábio querido! Ah! Quando tu morreste. Rendo piedosa dúlia peregrina À tua doce voz que me fascina.. Perdão! E este sepulcro imenso que não fala! 102 . Eu venho arrependido.Harpa virgem brandindo mil delírios! Quedo-me aos poucos. penseroso e pasmo.

. que da Desgraça veio Maldito seja. Turificando a languidez dum seio! O amor.. no Inferno do Gozo. Banhou-me o peito. Tinha os lábios crestados pela ardência Da luz letal do grande Sol do Vício! E mergulhei mais fundo no estuário. Em ânsia de repouso. Onde nunca gemeu o humano passo. . e ora Em contorço es supremas de Delícia! MARTÍRIO SUPREMO Duma Quimera ao fascinante abraço. Chora saudades do terreno pouso! Como um mártir de estranho sacrifício. porém. e.AFETOS Bendito o amor que infiltra n'alma o enleio E santifica da existência o cardo. sem Calvário. Da Messalina fria no regaço. Cristo d'amor morri pela inocência! 103 . Por um Cocito ardente e luxurioso. Mas.Amor que é mirra e que é sagrado nardo. supremos. como a Aurora Que ao beijo vesperal anseia e expira. seja como o fardo Desta descrença funeral em que ardo E com que o fogo da paixão ateio! Funambulescamente a alma se atira À luta das paixões. Transpus um dia o Inferno Azul do Gozo! O amor em lavas de candência d'aço. Desce para a alma o ocaso da Carícia Ora em sonhos de Dor...

. E vi-te triste. . também da Dor.. a sós. lá dos braços hercúleos. . E estavas morta. Domados pela meiga Ónfale a que me rendo! CORAÇÃO FRIO Frio o sagrado coração da lua.. Ah! que um dia da Vida. eu vi. ansiando a luz amena No silêncio notívago da rua. O penetral que leva à derradeira porta! Revejo em ti.. estes dardos acúleos Caíam.. Como um'alma de mãe.Sonâmbulo glacial da estranha pena! Estavas fria! A neve que a alma corta Não gele talvez mais.... me acalenta e conforta! Noute! E somente tu velas a rutilância. Teu coração rolou da luz serena! E eu tinha ido ver a aurora tua Nos raios d'ouro da celeste arena.. a noute é tumbal.Lua que esfria o sol do meu desejo! 104 . Lua que já passou e que hoje ainda corta O penetral que guia à derradeira estância. mulher. nem mais alquebre Um coração como a alma que está morta... num lânguido smorzando A sombra virginal qu'eu adoro chorando E há de um dia amparar-me na luta correndo. eu que te almejo..E tu velas. Sombra de gelo que me apaga a febre. e a saudade da infância. no pó da fulgurância Como uma velha cruz vela na sombra morta! Fora. desvalida e nua! E o olhar perdi.SOMBRA IMORTAL .

.. te acolheu a mata. ajoelhando à imagem do Carinho.... virginal. Santificada pela Dor do Mundo! U'a luz. e no Santo harpejo.. Alva d'aurora. chegando. Que canto é este. No lago branco e rútilo do dia O azul pompeava para sempre vasto. Para o Infinito e para o Céu voltados! Cantas. e no meu peito estes teus olhos Como que cravam dois punhais gelados! SEDUTORA Alva d'aurora.) Para o vale noital da eterna gaza Rolou o Sol . e. tu. entanto. Somente tristes os teus olhos vejo. Alvorejando em arrebol de prata. o seio branco. no negror me abrasa. Bendita a Santa do Carinho.. E um canto vai morrer no vale fundo. inata! E. profundo?! Rumores santos. Uma pantera foi se ajoelhando. Que luz é esta que das brumas vasa. Branca bem como empalecido arminho. Chegaste. e em lânguida sonata Vinhas transpondo a margem do caminho.imenso moribundo E a noute veio na negrura d'asa..NOTURNO (PARA O VALE NOITAL. Pérolas e ouro pela serrania. O roble altivo entreteceu4e um ninho. e é noute de fatais abrolhos.. Rendida ao eflúvio do teu seio casto! 105 . Choras.

Nesse momento a Lua vinha calma E céu e mar num desespero mudo Não viram que num halo de veludo À alma de Déa se evolava est'alma. e lânguida.. Já Vésper. Eflúvios quentes e fatais quebrantos Crestam a alma das virgens adormidas. Chorando auroras músicas perdidas Na estrada santa ensangüentando as Vidas. Crepitaç5es de flamas incendidas Nalma explodindo como fogos santos.. E as brumas velam nos sinistros mantos E as virgens dormem nas tumbais jazidas! Súbitos fremem 'spasmos derradeiros.. Vão pelo mundo ensangüentando as Vidas.PELO MUNDO Ânsias que pungem.. cintila! Naquela hora morria para a Idéia A minha branca e desgraçada Déa. Triste como um soluço de Dalila. Fria como um crepúsculo da Judéia. 106 . no Alto. Qual rosa branca que ao tufão vacila. E a paixão morre e os corações coveiros Vão como duendes pelos céus risonhos. E o mar chamou-a para o funda abismo! E o céu chamou-a para o Misticismo. mórbidos encantos. Nos campos-santos enterrando os Sonhos! E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA E o mar gemeu a funda melopéia À luz feral que a tarde morta instila.

Ele. No ar. saturnal do Inferno! Eu te bendigo! No mundano cúmulo És a Ironia que tombou no túmulo Nas sombras mortas de um desgosto eterno! VAMOS. sonolento e tardo. tristíssimo palhaço" Cruz e Souza O Riso . os gaturamos Num recesso de névoa. querida! Já é Ave-Maria . QUERIDA! Vamos.A hora dos tristes e dos descontentes. coração.Eterno fogo. Na Via-Látea fria do Nirvana. clown da Sorte . Canta no espaço a maldição da Vida! 107 .O RISO "Ri..Consagração das almas padecentes! Foi numa tarde assim que nos amamos.. adormecida.o voltairesco clown .Fogo sagrado nos festins da Morte . Desfaz-se o peito em vibrações dormentes E o Fado geme sob a névoa fria! Que eu sinta n'alma o que tu n'alma sentes! Nesta Missa de Atroz Melancolia Bebes chorando o Vinho da Agonia . que ao frio alvor da Mágoa Humana.. Riso.quem mede-o?! . e a todo o seu assédio. Alenta a Vida que tombou no Tédio! Que à Dor se prende. Clarões de sonho em nimbos de epicédio! Bendito sejas. Silfos morriam.. Punge-me o peito da Saudade o cardo Enquanto um mocho. E ergue à sombra da dor a que se irmana Lauréis de sangue de volúpia insana.

A UMA MÁRTIR Alma em cilício, vem, enrista a dava, Brande no seio o espículo e o acinace E unjam-te o seio que d'auroras nasce Sangrentas bênçãos eclodindo em lava! Nossa Senhora te unge a face escrava, Cristo saudoso te abençoa a face De monja - violeta que do Céu baixasse À Virgem Santa Natureza brava! Vais caminhando para a terra extrema, Rosa dos Sonhos! e o teu galho trema E a tua crença, o desespero mate-a... E em nuvens d'ouro ascende enfim ao plaustro Da Neve Eterna, estrela azul do claustro, Levada para o Azul da Via-Látea!

RÉGIO Festa no paço! Noite... E no entretanto Luzes; flores, clarões por toda a festa E há nos régios salões, em cada aresta, Credências d'ouro de supremo encanto. No baldaquino a orquestra real se apresta E o áureo dossel finge um relevo santo... - Bissos egípcios d'alto gosto, a um canto, Flordilisados de nelumbo e giesta. Morreu a noite e veio o Sol Eterno - Âmbar de sangue que desceu do Inferno No turbilhão dos alvos raios diurnos... Brilham no paço refulgências de elmo E a princesa assomou corno um santelmo Na realeza branca dos coturnos.

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PELO MAR Manhã em flor. O mar é um policromo E imenso lago d'íris e alabastros... À aurora é branco e ao sol, o mar é como Um pálio imenso que caiu dos astros. Longe, bem longe, no alvoral assomo Ergue um navio os altanados mastros E o Oceano dorme - alourecido pomo Num leito irial de pérolas e nastros. A alma da Mágoa vai pelo seu dorso, Em sonhos geme... Um coração de corso Geme no mar, vibra no mar, entanto, Colma-lhe o seio a opala das esponjas... E à noute morta choram vagas - monjas Purificadas no cristal do pranto!

PALLIDA LUNA És do Passado! Vieste d'alvorada N'asa dos elfos pela Morte espalma... Cantas... e eu ouço esta berceuse calma Da harpa dos mundos ideais do Nada! Ergue o Missal brilhante de tu'alma, Mas nessa elevação mistificada, Vem, que eu te espero, Deusa constelada Desce, anêmona êxul que o Céu ensalma! Venhas e desças, Lua dos Martírios, Desças, mas venhas pela unção dos lírios. Visão de Ocaso de enluaradas comas, Vaso de Unção descido dos espaços, Para ungirmos nós dois, os nossos paços, Na tule idealizada dos aromas.

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A MORTE DE VÊNUS Velhos berilos, pálidas cortinas, Morno frouxel de nardos recendendo Velam-lhe o sono... e Vênus vai morrendo No berço azul das névoas matutinas! Halos de luz de brancas musselinas Vão-lhe do corpo virginal descendo - Abelha irial que foi adormecendo Sobre um coxim de pérolas divinas. E quando o Sol lhe beija a espádua nua, Cai-lhe da carne o resplendor da Lua No reverbero dos deslumbramentos... Enquanto no ar há sândalos, há flores E haustos de morte - os últimos clangores Da música chorosa dos mementos!

MÁRTIR DA FOME Nesta da vida lúgubre caverna De ossos e frios funerais que eu sinto Corno um chacal saciando o eterno instinto Vou saciando a minha Fome Eterna. - Fome de sangue de um Passado extinto, De extintas crenças - bacanal superna, Horrível assim como a Hidra de Lema E muda como o bronze de Corinto! Ânsias de sonhos, desespero fundo! E a alma que sonha no marnel do Mundo, Morre de Fome pelas noites belas... E como o Cristo - o Mártir do Calvário Morre. E no entanto vai para o estelário Matar a Fome num festim de estrelas!

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SONHO DE AMOR Sobre o aromal e amplo coxim de Flora, Que os vapores da tarde inda incensavam E que um incenso tênue e bom vapora, Os namorados lânguidos sonhavam. A alma do Ocaso entrava o céu agora E havia pelas tênebras que entravam Ora estrangulamentos surdos, ora Ruídos de carnes que se estrangulavam. E sonharam assim durante toda A noute, e toda a alva manhã durante! - O Sol jorrava largos raios longos E em roda víride e nevado, em roda, Lembrava o campo um colorido ondeante De vidros verdes e cristais oblongos!

A ORGIA MATA A MOCIDADE A orgia mata a mocidade, quando Rugem na carne do delírio as feras, E o moço morre como está sonhando Nas suas vinte e cinco primaveras. Em cima - o oiro sem mancha das esferas, Em baixo oiro manchado de execrando Festim de sibarita:, das heteras Lubricamente se despedaçando! Em cima, a rede do estelário imáculo Suspensa no alto como um tabernáculo - A orgia, em baixo, e no delírio doudo Corno arvoredos juvenis tombados Os moços mortos, os brasões manchados, E um turbilhão de púrpuras no lodo!

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. Lá fora os lampiões escuros Semelham monjas a morrer. LÁ FORA. Saio de casa.) Chove. Desencadeados. batendo em todas as retinas. Surge agora a Lua. Fulgem por entre mil cristais vermelhos O alvo cristal dos nítidos espelhos E a seda verde dos arbustos glabros.. De encontro ás torres e de encontro aos muros.FESTIVAL Para Jônatas Costa Címbalos soam no salão.. Negro. O dia Foge. NOTURNO (CHOVE. diante do vulto dos conventos. vão bater.. Os ventos. E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos Enquanto a chuva cai nos cemitérios E o vento apaga os lampiões da rua! 112 . ameaçando os séculos futuros! De São Francisco no plangente bronze Em badaladas compassadas onze Horas soaram. violentos. Vibra. em compassados trenos Sobre os veludos da tapeçaria. recordando a estria Dos corpos de Afrodite e Vênus.. E em meio ás refrações verdes e hialinas. A incandescência irial dos candelabros. e ao compasso de arrabis serenos A valsa rompe. Os passos mal seguros Trêmulo movo.. mas meus movimentos Susto. Estatuetas de mármore de Lemnos Estão dispostas numa simetria Inconfundível.

os vermes vis.. enquanto o Tédio a carne me trabalha.Repositório de milhões de miasmas Onde se fartem todos os fantasmas. Já que perdi a última batalha! E. Ele que foi um forte Que nunca se quebrou pelo Desgosto Morreu... Primavera. A Dor meu coração torça e retorça! Cubra-me o corpo a podridão dos trapos! Os vibriões..E ELE MORREU Ao sétimo dia de seu falecimento E ele morreu. poetas.. . tão sereno e forte! Quando meu Pai deixou o lar amigo Um sabiá da casa muito antigo. inverno! 113 . já faz sete dias Que eu ouço o canto desse sabiá! VAE VICTIS A Dor meu coração torça e retorça E me retalhe como se retalhe Para escárnio e alegria da canalha Um leão vencido que perdeu a força! Sobre mim caia essa vingança corsa.. os sapos Encontrem nele pábulo eviterno. Diluiu o silêncio em litanias. outono.. verão. E hoje. Que há muito tempo não cantava lá. mas não deixou na ara do rosto Um só vestígio que acusasse a Morte! O anatomista que investiga a sorte Das vidas que se abismam no Sol-posto Ficaria admirado do seu rosto Vendo-o tão belo.

. inda o olhar sereno De agonizante multidão rodeada. enxuto o olhar. enxuta A face. ao noturno açoute. enluta E todo mundo que por ela passa Há de beber a taça da cicuta E há de beber até o fim da taça! Há de beber.Esse sombrio trovador é o Inverno! Aqui é a Terra. Carpem na sombra pássaros ascetas. Pare chorando nesta Terra Santa. Ela. e a ameaça Amarga dessa desgraçada fruta Que é a fruta amargosa da Desgraça! E quando o mundo todo paralisa E quando a multidão toda agoniza. Aqui é o Campo-Santo. E se cantar como a Saudade canta. O caminheiro fique nesta Terra! À noute aqui um trovador eterno Chora. ela. e quando passa. Gemem poetas .pássaros da Noute! 114 . Derrama em cada boca envenenada Mais uma gota do fatal veneno! TERRA FÚNEBRE Aqui morreram tantos poetas! Tanta Guitarra morta este lugar encerra!.A DOR Chama-se a Dor. abraçado às campas dos poetas. onde.. aqui é a Terra! Em que a alma chora e em que a Saudade canta! O caminheiro que o Pesar desterra.. e o travo há de sentir. inda altiva.

eu penso na Ventura! E o pensamento. surjam tédios na Descrença. no imenso Azul do Firmamento Ir rolando pelo ouro das estrelas. que não ama e que não sonha?! Pois a alma acostumada a ser tristonha Pode achar por acaso ou porventura Felicidade numa sepultura. e por fim. e morrem os vermes que o consomem. Luta. a crença e o amor. E esse ouro santo vir rolando pelas Trevas profundas do meu pensamento! 115 . do meu seio Partiu num célere arrebatamento De minha crença arrebentando a grade Pois se eu não amo e se também não creio De onde me vem este contentamento. o sonho. A CRENÇA E O AMOR O sonho.O SONHO. na Suprema Altura Sinto. Vence. nada há que o abata e o vença! Por isso. Contentamento numa dor medonha?! Há muito tempo. poeta. assomem Descrenças. De onde me vem esta felicidade?! MEDITANDO Penso em venturas! A alma do homem pensa Sempre em venturas! Sorte do homem! O homem Há de embalar eternamente a crença Sem ter grilhões e sem ter leis que o domem! Punjam-no os vermes da Desgraça. sendo a risonha Santíssima Trindade da Ventura Pode ser venturosa a criatura Que não crê.

Feito no decurso de dois minutos. pois. Atinge o amor um grau nunca atingido No termômetro santo da Amizade.. estudares. para penetrar o mistério das lousas.. Foi-te mister sondar a substância das cousas .. por fim. profundo. Terá no entanto indubitavelmente A admiração do século presente E a sagração dos séculos vindouros! SONETO A FREDERICO NIETZCHE Para que nesta vida o espírito esfalfaste Em vás meditações... De que te serviu. Depois quando no irmão estremecido Fazem aliança o gênio e a probidade. Para quem tem na vida compreendido Toda a grandeza da Fraternidade O aniversário dum irmão querido A alma de alegres emoções invade.Construíste de ilusões um mundo diferente.. Tesouros reais.. O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?! Pois.PARA QUEM TEM NA VIDA.. em homenagem ao aniversário natalício de Alexandre Rodrigues dos Anjos 28 de abril de 1905. nada achaste. O Alexandre dos Anjos merecia Grandes coroas nesse grande dia. auríferos tesouros. por fim. homem meditabundo?! Escalpelaste todo o cadáver do mundo E. nada achaste! A loucura destruiu tudo que arquitetaste E a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo. Desconheceste Deus no vidro do astrolábio E quando a ciência vã te proclamava sábio A tua construção quebrou-se de repente! 116 . e.

E eu cuido ver os múltiplos produtos Da Terra . o óbolo da Vida! Recordo agora a nossa despedida Na Estação do Cobé. Representando a integridade humana! Nesses braços de força soberana Gloriosamente á luz do sol desnudos Ao bruto encontro dos ferrões agudos Gemeu por muito tempo a alma africana! No colorido dos teus brônzeos braços. dois gigantes mudos. Embora oculta.. . E subiu tanto e subiu tanto e tanto Que hoje que és morto..O NEGRO Oh! Negro.. em ânsias.as flores e os metais e os frutos Simbolizados nesse colorido! VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA À memória do meu colega Caldas Líns Vinhas trilhando gárrulo a Avenida Onde Deus manda que todo homem goze..santa nevrose que com fios de ferro as almas cose Principalmente se uma está ferida! Das tuas dores na procela brava Não soubeste talvez que eu te estimava! Mas a amizade oculta não se finda. no entanto. . Fulge o fogo mordente dos mormaços E a chama fulge do solar brasido. ela subiu. São dois colossos. Quando o fantasma da tuberculose Pediu-te...ei-Ia que sobe ainda! Pau D'Arco – 1905 117 . oh! Filho da Hotentóia ufana Teus braços brônzeos como dois escudos.

e não vê por onde fuja. A estrada torta Lembrava a antiga ponte de Sublício..Se ao menos voasse! . Daí a pouco. ira-o morrer também.. . ver Se nesta ânsia suprema de beber. na atra estrada que trilhei.O ÉBRIO Bebi! Mas sei porque bebi!. uma convulsão a engasga E morre ouvindo o mesmo canto aziago! 118 .. Achava a Glória que ninguém achava! E todo o dia então eu me embriagava . Buscava Em verdes nuanças de miragens. Implora a Deus como a um fetiche vago. Nisto. como eu.. O CANTO DA CORUJA A coruja cantara-lhe na porta Sinistramente a noite inteira! Indício Mais certo não havia! .. Havia pelo chão um desperdício De folhas que a áurea xantofila corta.E o horror começa! Rasga As vestes. foram buscar a Glória E que. quantos também deixei. Trás de mim.Novo Sileno.em busca de ascender A essa Babel fictícia do Prazer Que procuravam e que eu procurava. O Sol ardia. Quantos também. como eu. Mas eu não contarei nunca a ninguém. ouve o canto aziago da coruja! ... ela seria morta. Saiu.. .Era o suplício!. A ninguém nunca eu contarei a história Dos que.Quer fugir.

E afora disto. diz ao povo: "É pena! . Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas. Por isso. pressentindo a lousa.Foi tanta agrura Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade! Sei que durante toda a travessia Da minha infância trágica. Sei que na infância nunca tive auroras. a alma serena. canta vibrantes Versos divinos que arrebatam a hoste..Aqui ainda havia alguma cousa.Continua a cantar... Mas. Olha essa neve pura! ...SENECTUDE PRECOCE Envelheci. E eu que julgava em minha idealidade Ver inda toda a geração futura! Eu que julgava! Pois não é verdade?! Hoje estou velho.." Pau d'Arco -1905 119 . Não há quem nele um só tremor denote! .. Grave como um lacedemônio harmoste André Chénier ia subir ao poste A que Luís XVI subira dantes! Que a sua morte a homem nenhum desgoste E incite o heroísmo das nações distantes.. de repente. vivia... Assim como uma casa abandonada. A cal da sepultura Caiu por sobre a minha mocidade. ele a morrer.Foi saudade? Foi dor? . eu já nem sei mais nada! ANDRÉ CHÉNIER Na real magnificência dos gigantes. Batendo com a cabeça no barrote Da guilhotina.

Bem como tu. Para onde eu ia.. . e ainda Te persuades de que sou feliz! 120 .. beijou-me com um carinho Que a um ser divino não seria dado. A múmia de um herói do tempo de Ísis..MYSTICA VISIO Vinha passando pelo meu caminho Um vulto estranhamente iluminado. E.Assombrava-me aquela claridade! Mas através daquelas falsas luzes Pude rever enfim todas as cruzes Que têm pesado sobre a Humanidade! ILUSÃO Dizes que sou feliz. persuadido fica do que diz. Não mentes. em Tebas . diz que ele é vivo. Da tribo alegre que povoa os ares. que nessa crença infinda Feliz me viste no Passado..a tumbal cidade.. inda com o braço altivo. Dizes Tudo que sentes.. Diz que ele não morreu.. não andei mais sozinho! Abraçou-me. sendo assim beijado Muito acima do humano borborinho! Falou-me de ilusões e de luares. A infelicidade Parece às vezes com a felicidade E os infelizes mostram ser felizes! Assim. Ostenta ainda as mesmas cicatrizes Que eternizaram sua heroicidade! Quem vê o her6i. E eu me elevava. o vulto ia a meu lado E desde então..

A lua continue sempre a nascer! 121 . apesar disto Inda cadáver hei também de ser! Quando eu morrer de novo.. onde. A percorrer desertos e desertos. a sofrer E acostumado a assim sofrer existo. aos tropeços. Teve sede e fome. amigos.NOME MALDITO Das trombetas proféticas o alarde Falou-lhe. Saiu aos tombos. pois.. de saudades me despedaçando De novo. Nada se altere em sua marcha infinda . Existo! . com medo do Infinito. quando Eu. triste e sem cantar.E apesar disto.. como um cão covarde.. morrer. assim. ia. assim como o de Jesus Cristo. E foi assim que ele morreu um dia Amaldiçoado pelo próprio nome! DOLÊNCIAS Eu fui cadáver. por seus onze augúrios certos: "E maldito o teu nome! E aos céus abertos.O tamarindo reverdeça ainda.. Sofreu o que olhos de homem não têm visto E olhos de fera não puderam ver! Acostumei-me. antes de viver! Meu corpo. Por toda a parte. à tarde. assombrado. E. Não há divina proteção que o guarde!" Dúvidas cruéis! Momentos cruéis! Incertos E cruéis momentos! Ânsias cruéis! E.. Por toda a parte viu seu nome escrito! Vieram-lhe as ânsias.

Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai Do que todas as drogas da farmácia! 122 . Vem-me então à lembrança o pai Ioiô Na ânsia psíquica da última eficácia! E logo a lágrima em meus olhos cai. água e albumina.. Ah! Basta isto.A farmacologia e a medicina Com a relatividade dos sentidos Desconhecem os mil desconhecidos Segredos dessa secreção divina.. .A LÁGRIMA .O farmacêutico me obtemperou.Faça-me o obséquio de trazer reunidos Clorureto de sódio. porque isto é que origina A lágrima de todos os vencidos! .

Pólipo de recônditas reentrâncias. Larva de caos telúrico. ampla. sem bramânicas tesouras.. À luz do americano plenilúnio.. O amarelecimento do papirus E a miséria anatômica da ruga! Na existência social. E é de mim que decorrem.. simultâneas. os resíduos ruins dos quiosques E o animal inferior que urra nos bosques É com certeza meu irmão mais velho! Tal qual quem para o próprio túmulo olha. vibra A alma dos movimentos rotatórios..Esta universitária sanguessuga Que produz. A solidariedade subjetiva De todas as espécies sofredoras. Amo o esterco.OUTRAS POESIAS MONÓLOGO DE UMA SOMBRA “Sou uma Sombra! Venho de outras eras. A podridão me serve de Evangelho. Do cosmopolitismo das moneras. Como um dorso de azêmola passiva. possuo uma arma -...O metafisicismo de Abidarma -E trago. A saúde das forças subterrâneas E a morbidez dos seres ilusórios! Pairando acima dos mundanos tetos. sem dispêndio algum de vírus. Não conheço o acidente da Senectus -. Como um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à Natureza Humana. 123 . Em minha ignota mônada. Da substância de todas as substâncias! A simbiose das coisas me equilibra. Amarguradamente se me antolha. procedo Da escuridão do cósmico segredo.

Fonte de repulsões e de prazeres. a coçar chagas plebéias. o Homem. Quimiotaxia. A que todas as coisas se reduzem! E hão de achá-lo. abdômen. Trazendo no deserto das idéias O desespero endêmico do inferno. amanhã. Ao clarão tropical da luz danada. iguais a fogos passageiros. luzem. Que. O coração. Sonoridade potencial dos seres.Engrenagem de vísceras vulgares -Os dedos carregados de peçonha. em síntese. 124 . quebrando estéreis normas. Raio X. Sobre a esteira sarcófaga das pestes A mostrar. Que se chama o Filósofo Moderno! Quis compreender. Estrangulada dentro da matéria! E o que ele foi: clavículas. Tudo coube na lógica medonha Dos apodrecimentos musculares. rotos os liames Dessa estranguladora lei que aperta Todos os agregados perecíveis. Nas eterizações indefiníveis Da energia intra-atômica liberta! Será calor. Com a cara hirta. causa ubíqua de gozo. -. tatuada de fuligens Esse mineiro doido das origens. A vida fenomênica das Formas. E apenas encontrou na idéia gasta. Como quem se submete a uma charqueada. Aí vem sujo. já nos últimos momentos. bestas agrestes. Tal a finalidade dos estames! Mas ele viverá. ondulação aérea. O espólio dos seus dedos peçonhentos. O horror dessa mecânica nefasta.Na alma crepuscular de minha raça Como uma vocação para a Desgraça E um tropismo ancestral para o Infortúnio. a boca. magnetismo misterioso.

E foi então para isto que esse doudo Estragou o vibrátil plasma todo. reduzir-se À herança miserável dos micróbios! Estoutro agora é o sátiro peralta Que o sensualismo sodomita exalta. E à noite. em lúbricos arroubos. pelos cenóbios?!. igual à luz que o ar acomete. Sôfrego. E após tantas vigílias. Toda a sensualidade da simbiose. vai gozar.. O cuspo afrodisíaco das fêmeas. Lembra a fome incoercível que escancara A mucosa carnívora dos lobos. ébrio de vício. E explode. No horror de sua anômala nevrose. Como as cadelas que as dentuças trincam No espasmo fisiológico da fome. Uivando. Do seu zooplasma ofídico resulta.. fazendo um s.. E até os membros da família engulham. Há estratificações requintadíssimas De uma animalidade sem castigo. bastarda. Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo. Como que.. 125 . brincam. Brancas bacantes bêbadas o beijam. Sentindo o odor das carnações abstêmias. o monstro as vítimas aguarda. À guisa de um faquir. Vendo as larvas malignas que se embrulham No cadáver malsão. em suas clélulas vilíssimas. consumir-se. É uma trágica festa emocionante! A bacteriologia inventariante Toma conta do corpo que apodrece. Negra paixão congênita.. No sombrio bazer domeretrício..A desarrumação dos intestinos Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos Dentro daquela massa que o húmus come. Suas artérias hírcicas latejam. Num suicídio graduado. à noite. Numa glutonaria hedionda. Como no babilônico sansara ...

As alucinações tácteis pululam. Essa necessidade de horroroso. E de su’alma na caverna escura. Abranda as rochas rígidas. Fazendo ultra-epiléticos esforços. A asa negra das moscas o horroriza... Na própria ânsia dionísica do gozo. para agarrá-lo! Cresce-lhe a intracefálica tortura. se estende Dentro da noite má.Macbeths da patológica vigília. Que tateando nas tênebras. observa a ciência crua. É o despertar de um povo subterrâneo! É a fauna cavernícola do crânio -. Acorda. esculpindo a humana mágoa. com os candeeiros apagados. Mostrando. Hirto... Sente que megatérios o estrangulam. Somente a Arte. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa! Míngua-se o combustível da lanterna E a consciência do sátiro se inferna. Assim também. torna água Todo o fogo telúrico profundo 126 . observa através a tênue trança Dos filamentos fluídicos de um halo A destra descarnada de um duende. A família alarmada dos remorsos. Mas muitas vezes. em rembrandtescas telas várias.Com a veemência mavórtica do aríete E os arremessos de uma catapulta. Dentro da elipse ignívoma da lua A realidade de uma esfera opaca. Quando o prazer barbaramente a ataca. Que é talvez propriedade do carbono! Ah! Dentro de toda a alma existe a prova De que a dor como um dartro se renova. bêbedo de sono. Reconhecendo. Numa coreografia de danados. As incestuosidades sanguinárias Que ele tem praticado na família. quando a noite avança.

entre daveiras sujas.O homicídio nas vielas mais escuras. Que a mais alta expressãoda dor estética Consiste essencialmente na alegria. À condição de uma planície alegre.. Prostituído talvez. ouvindo estes vocábulos. Na ânsa de um nervosíssimo entusiasmo. E o turbilhão de tais fonemas acres Trovejando grandíloquos massacres. Julgava ouvir monótonas corujas. até que minha efêmera cabeça. Continua o martírio das criaturas: -. Da luz da lua aos pálidos venábulos. A aspereza orográfica do mundo! Provo desta maneira ao mundo odiento Pelas grandes razões do sentimento. Era a canção da Natureza exausta.O último solilóquio dos suicidas -E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva!” Disse isto a Sombra. E. a desintegre. Chorando e rindo na ironia infausta Da incoerência infernal daquelas frases. sem que. em suas bases. Na produção do sangue humano imenso. Há-de ferir-me as auditivas portas..O ferido que a hostil gleba atra escarva.E reduz. Executando. Reverta à quietação datrava espessa E à palidez das fotosferas mortas! 127 . Sem os métodos da abstrusa ciência fria E os trovões gritadores da dialética. -. -. entanto. A orquestra arrepiadora do sarcasmo! Era a elegia panteísta do Universo.

um saltimbanco da Ásia. e sobre a paz do mundo A alma dos Faraós anda e vagueia. O Egito é sempre assim quando anoitece! Às vezes. conversando.. Os mastins negros vão ladrando à lua.. Soluça toda a noite a água do Nilo! 128 . exposto ao luar. Apenas como um velho stradivário.Última nota do conúbio infando -Vêem-se dez jogadores de roleta Fumando.. O céu claro e produndo Fulgura. Dorme soturna a natureza sábia. Executando evoluções de razzia Solta um brado epilético de injúria! Em derredor duma ampla mesa preta -. no apogeu da fúria... das pirâmides o quedo E atro perfil.. Troam kinnors ! Depois tudo é tranqüilo. Pasta um cavalo esplêndido da Arábia. Resplandece a celeste superfície. No ângulo mais recôndito da rua Passa cantando uma mulher hebraica. A rua é triste. Vaga no espaço um silfo solitário. E dentro dançam homens e mulheres Numa aglomeração cosmopolita. Embaixo. parece Uma sombria interjeição de medo! Como um contraste àqueles mesereres. na mais próxima planície. Tonto do vinho. discutindo. O Cairo é de uma formosura arcaica.UMA NOITE NO CAIRO Noite no Egito. A Lua cheia Está sinistra. Convulso e roto. Num quiosque em festa alegre turba grita.

Mas. A ponte era comprida. com a boca aberta.. parodiando saraus cínicos. indo em direção à casa do Agra. Pensava no Destino. Ponte Buarque de Macedo. Uivava dentro do eu . O calçamento Sáxeo. O trabalho genésico dos sexos. Copiava a polidez de um crânio alvo.. E aprofundando o raciocínio obscuro. e tinha medo! Na austera abóbada alta o fósforo alvo Das estrelas luzia. atro e vidrento. Profundamente lúbrica e revolta. então. Lembro-me bem. Eu vi. à luz de áureos reflexos. na alma da cidade.AS CISMAS DO DESTINO I Recife. Bilhões de centrossomas apolínicos Na câmara promíscua do vitellus . Dançavam. Como uma pele de rinoceronte Estendida por toda a minha vida! A noite fecundava o ovo dos vícios Animais. Apregoando e alardeando a cor nojenta. Eu. Mostrando as carnes. uma besta solta Soltasse o berro da animalidade. Assombrado com a minha sombra magra. 129 . de asfalto rijo. Livres de microscópios e escalpelos. Fazendo à noite os homens do Futuro. A matilha espantada dos instintos! Era como se. Atravessando uma estação deserta. a irritar-me os globos oculares. E a minha sombra enorme enchia a ponte. Do carvão da treva imensa Caía um ar danado de doença Sobre a cara geral dos edifícios! Tal uma horda feroz de cães famintos.

Ah! Com certeza. A vingança dos mundos astronômicos Enviava à terra extraordinária faca. na ígnea crosta do Cruzeiro. 130 . o ignis sapiens do Orco Abafava-me o peito arqueado e porco Num núcleo de substâncias abrasantes. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse. Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas. Posta em rija adesão de goma laca Sobre os meus elementos anatômicos. A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Não sei por que me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança E um pedaço de víscera escarlate. ainda na placenta.Fetos magros. Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! Mas o vento cessara por instantes Ou. Julgava eu ver o fúnebre candeeiro Que há de me alumiar na hora da morte. É bem possível que eu umdia cegue. Ninguém compreendia o meu soluço. Estendiam-me as mãos rudimentares! Mostravam-me o apriorismo incognoscível Dessa fatalidade igualitária. pelo menos. Que fez minha família originária Do antro daquela fábrica terrível! A corrente atmosférica mais forte Zunia. No ardor desta letal tórrida zona. O ventobravo me atirava flechas E aplicações hiemais de gelo russo. E. Deus me castigava! Por toda a parte. como um réu confesso.

estranha. à guisa de ácido resíduo. Ia engolindo. a hemoptísis! Na alta alucinação de minhas cismas O microcosmos líquido da gota Tinha a abundância de uma artéria rota. aos poucos. com certeza Era a expectoração pútrida e crassa Dos brônquios pulmorares de uma raça Que violou as leis da Natureza! Era antes uma tosse ubíqua. cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória. quatro. ansiado e contrafeito. em minha boca. quotidianamente. Na ascensão barométrica da calma. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minh’alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. te segregam! Escarrar de um abismo noutro abismo. Pelos fundibulários da montanha! E a saliva daqueles infelizes Inchava. seis e sete Vezes que eu me furei com um canivete. três. Igual ao ruído de um calhau redondo Arremessado no apogeu do estrondo. Não! Não era o meu cuspo. para não cuspir por toda a parte. Arrebatada pelos aneurismas. Eu bem sabia. de tal arte. Chegou-me o estado máximo da mágoa! Duas. 131 . Sob a forma de mínimas camândulas. Mandando ao Céu o fumo de um cigarro.E até ao fim. A hemoglobina vinha cheia de água! Cuspo. cujas caudais meus beiços regam. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. Benditas sejam todas essas glândulas. cinco. Que. Que eu.

lembrava ante o meu rosto. a espiar-me. Mas um lampião. então. de certo. Vai pela escuridão pensando crimes. os duendes. Davam pancadas no adro das igrejas. A companhia dos ladrões da noite. o In e os trasgos. Buscando uma taverna que os açoite. E o luar. Numa dança de números quebrados! Todas as divindades malfazejas. se no orbe oval que os meus pés tocam Eu não deixasse o meu cuspo carrasco. maior talvez que Vinci. com as brancas tíbias tortas. a rir. Com a força visualística do lince. estava ali. Embriões de mundos que não progrediram! 132 . A camisa vermelha dos incestos. À anatomia mínima da caspa. Iluminava. Perpetravam-se os atos mais funestos. da cor de um doente de icterícia. Nessa hora de monólogos sublimes. Imitando o barulho dos engasgos. Jamais exprimiria o acérrimo asco Que os canalhas do mundo me provocam! II Foi no horror dessa noite tão funérea Que eu descobri.Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do Cristianismo! Porque. para hipnotizar-me! Em tudo. Ninguém. sem pudicícia. A falta de unidade na matéria! Os esqueletos desarticulados. ali posto De propósito. Rodopiavam. meus olhos distinguiram Da miniatura singular de uma aspa. Siva e Arimã. Um sugestionador olho. Livres do acre fedor das carnes mortas.

e vence-O. Maior que as epopéias carolíngias! Era a revolta trágica dos tipos Ontogênicos mais elementares.Ser cachorro! Ganir incompreendidos Verbos! Querer dizer-nos que não finge. em que. 133 . os montes argilosos Criariam feixes de cordões nervosos E o neuroplasma dos que raciocinam! Almas pigméias! Deus subjuga-as. E a palavra embrulhar-se na laringe. Como bolhas febris de água. fervendo! Nessa época que os sábios não ensinam. E o meu sonho crescia nosilâncio. Deixar cair sobre a barriga inerte O apetite necrófago da mosca! A alma dos animais! Pego-a. Nos antiperistálticos abalos Que produzem nos bois e nos cavalos A contração dos gritos instintivos! Tempo viria. Na atra dissoluçào que tudo inverte. cinge-as À imperfeição! Mas vem o Tempo. daquele horrendo Caos de corpos orgânicos disformes Rebentariam cérebros enormes. Desde os foraminíferos dos mares À grei liliputiana dos pólipos. Escapando-se apenas em latidos! Despir a putrescível forma tosca. Todos os personagens da tragédia. distingo-a. Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. Acho-a nesse interior duelo secreto Entre a ânsia de um vocábulo completo E uma expressão que não chegou à língua! Surpreendo-a em quatrilhões de corpos vivos. A pedra dura. Cansados de viver na paz de Buda.

medulas Na alegria guerreira da desforra! Os protistas e o obscuro acervo rijo Dos espongiários e dos infusórios Recebiam com os seus órgãos sensóricos O triunfo emocional do regozijo. na glória da concupiscência. Um conjunto de gosmas amarelas. Em cujo repugnante receptáculo Minha perscrutação via o espetáculo De uma progênie idiota de palermas. aflita. E sacudidos de um tremor indômito Expeliam. igual a um amniota subterrâneo. E apesar de já não ser assim tão tarde. Aquela humanidade parasita. Iam depois dormir nos lupanares Onde. 134 . Os bêbedos alvares que me olhavam. na dor forte do vômito. No meu temperamento de covarde! Mas. sobre o meu caso Vi que. a sós. Com os copos cheios esterilizavam A substância prolífica dos sêmens! Enterravam as mãos dentro das goelas.A planta que a canícula ígnea torra. E as coisas inorgânicas mais nulas Apregoavam encéfalos. Depositavam quase sem consciência As derradeiras forças musculares. refletindo. Como um bicho inferior. Fabricavam destarte os bastodermas. berrava. jazia atravassada no meu crânio A intercessão fatídica do atraso! A hipótese genial do microzima Me estrangulava o pensamento guapo. E eu me encolhia todo como um sapo Que tem um peso incômodo por cima! Nas agonias do delirium-tremens .

Oh! Senhora dos nossos esqueletos E das caveiras diárias que fabricas! E eu desejava ter. a morte é ingrata. nas catedrais mais ricas. Os porcos espojando-se nas poças Da virgindade reduzida à lama! Morte. Nessas perquisições que não têm pausa. Ao pensar nas pessoas que perdera. A inconsciência das máscaras de cera Que a gente prega. Numa impressionadora voz interna. Minha filosofia te repele. III “Homem! por mais que a Idéia deintegres. o eco particular do meu Destino. tal qual. Fazer da parte abstrada do Universo. como um cordão.Prostituição ou outro qualquer nome. Forma difusa da matéria embele. Minha morada equilibrada e firme! Nisto.e. Meu raciocínio enorme te condena! Diante de ti. embora o homem te aceite.. Há o malvado carbúnculo que mata A sociedade infante dos bezerros! Quantas moças que o túmulo reclama! E após a podridão de tantas moças. Reboou. ponto final da última cena. Rolam sem eficácia os amuletos. numa ânsia rara. por tua causa.. na cara! Era um sonho ladrão de submergir-me Na vida universal. em tudo imerso. É que as mulheres ruins ficam sem leite E os meninos sem pai morrem de fome! Por que há de haver aqui tantos enterros? Lá no “Engenho” também. pior que o remorso do assassino. num fundo de caverna. 135 .

magro homem. com a bronca enxada árdega. quando toda a estuada Idéia Dás ao sôfrego estudo da ninféia E de outras plantas dicotiledôneas! A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua Que da ígnea flama bruta. o cordeiro simbólico da Páscoa. em síntese. a refletir teus semelhantes. onde a dor infrene É feita como é feito o querosene Nos recôncavos úmidos das hulhas! Porque. A formação molecular da mirra. para que a Dor perscrutes. por vezes.Jamais. E se. Mesmo ainda assim. antes Fosses. Negro e sem fim é esse em que te mergulhas lugar do Cosmos. saberás a causa De todos os fenômenos alegres! Em vão. fora Mister que. e a ele se prendem Como às pulseiras que os mascates vendem A aderência teimosa da ferrugem. estriada. seu todo não RESIDENCIA No quociente isolado da parcela! Ah! Como o ar imortal a Dor não finda! Das papilas nervosas que há nos tatos Veio e vai desde os tempos mais transatos Para outros tempos que hão de vir ainda! Como o machucamento das insônias Te estraga. Trazes. por perscrutar (oh! ciência louca!) O conteúdo das lágrimas hediondas. e a hialina lâmpada oca. espirra. A própria humanidade sofredora! A universal complexidade é que Ela Compreende. não como és. 136 . se divide. As rebeladas cóleras que rugem No homem civilizado. sondas A estéril terra.

Os terremotos que. Na sangueira concreta dos massacres. O Amor e a Fome. O achatamento ignóbil das cabeças. As aves moças que perderam a asa. O trem particular que um corpo arrasta Sinistramente pela via férrea.Tudo que gera no materno ventre A causa fisiológica do nojo.O orbe feraz que bastos jojos acres Produz’a rebelião que na batalha. abalando os solos. 137 . as nódoas mais espessas. a fera ultriz que o fojo Entra. sem mortalha. Onde morreu o chefe da família. -. à espera que a mansa vítima o entre. Os sanguinolentíssimos chicotes Da hemorragia. O tecido da roupa que se gasta. as negras formas feias Dos aracnídeos e das centopéias. Lembram paióis de pólvora explodindo. A mentira meteórica do arco-íris. O homem grande oprimindo o homem pequeno A lua falsa de um parasseleno. O antagonismo de Tífon e Osíris. As pálpebras inchadas na vigília. Que ainda degrada os povos hotentotes. A água arbitrária que hiulcos caules grossos Carrega e come. A sensação que uma coalhada fresca Transmite às mãos nervosas dos que a buscam. A cristalização da massa térrea. Deixa os homens deitados. As projeções flamívomas que ofuscam. O fogão apagado de uma casa. O fogo-fátuo que ilumina os ossos. A rotação dos fluidos produzindo A depressão geológica dos pólos. Como uma pincelada rembrandtesca.

O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psicoplasma Humano sofre da mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E, (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, À morte desgraçada dos açougues... Tudo isto que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra! Por descobrir tudo isso, embalde cansas! Ignoto é o gérmem dessa força ativa Que engendra, em cada célula passiva, A heterogeneidade das mudanças! Poeta, feito malsão, criado com os sucos De um leite mau, carnívoro asqueroso, Gerado no atavismo monstruoso Da alma desordenada dos malucos; Última das criaturas inferiores Governada por átomos mesquinhos, Teu pé mata a uberdade dos caminhos E esteriliza os ventres geradores! O áspero mal que a tudo, em torno, trazes, Amálogo é ao que, negro e a seu turno, Traz o ávido filóstomo noturno Ao sangue dos mamíferos vorazes! Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes A perfeição dos seres existentes, Hás de mostrar a cárie dos teus dentes Na anatomia horrenda dos detalhes!

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O Espaço -- esta abstração spencereana Que abrange as relações de coexistência E só! Não tem nenhuma dependência Com as vértebras mortais da espécie humana! As radiantes elipses que as estrelas Traçam, e ao espectador falsas se antolham São verdades de luz que os homens olham Sem poder, entretanto, compreendê-las. Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes Que essa mão, de esqueléticas falanges, Dentro dessa água que com a vista abranges, Também prova o princípio de Arquimedes! A fadiga feroz que te esbordoa Há de deixar-te essa medonha marca, Que, nos corpos inchados de anasarca, Deixam os dedos de qualquer pessoa! Nem terás no trabalho que tiveste A misericordiosa toalha amiga, Que afaga os homens doentes de bexiga E enxuga, à noite, as pústulas da peste! Quando chegar depois a hora tranqüila, Tu serás arrastado, na carreira, Como um cepo inconsciente de madeira Na evolução orgânica da argila! Um dia comparado com um milênio Seja, pois, o teu último Evangelho... É a evolução do novo para o velho E do homogêneo para o heterogêneo! Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo A apodrecer!... És poeira e embalde vibras! O corvo que comer as tuas fibras Há de achar nelas um sabor amargo!”

IV Calou-se a voz. A noite era funesta. E os queixos, a exibir trismos danados,

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Eu puxava os cabelos desgrenhados Como o Rei Lear, no meio da floresta! Maldizia, com apóstrofes veementes, No estentor de mil línguas insurretas, O convencionalismo das Pandetas E os textos maus dos códigos recentes! Minha imaginação atormentada Paria absurdos... Como diabos juntos, perseguiam-me os olhos dos defuntos Com a carne da esclerótica esverdeada. Secara a clorofila das lavouras. Igual aos sustenidos de uma endecha Vinha-me às cordas glóticas a queixa Das coletividades sofredoras. O mundo resignava-se invertido Nas forças principais do seu trabalho... A gravidade era um princípio falho, A análise espectral tinha mentido! O Estado, a Associação, os Municípios Eram mortos. De todo aquele mundo Restava um mecanismo moribundo E uma teleologia sem princípios. Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psique no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo! Mas a Terra negava-me o equilíbrio... Na Natureza, uma mulher de luto Cantava, espiando as árvores sem fruto. A canção prostituta do ludíbrio.

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A CARIDADE No universo a caridade Em contraste ao vicio infando É como um astro brilhando Sobre a dor da humanidade! Nos mais sombrios horrores Por entre a mágoa nefasta A caridade se arrasta Toda coberta de flores! Semeadora de carinhos Ela abre todas as portas E no horror das horas mortas Vem beijar os pobrezinhos. Torna as tormentas mais calmas Ouve o soluço do mundo E dentro do amor profundo Abrange todas as almas. O céu de estrelas se veste Em fluidos de misticismo Vibra no nosso organismo Um sentimento celeste. A alegria mais acesa Nossas cabeças invade... Glória, pois, á Caridade No seio da Natureza! Estribilho Cantemos todos os anos Na festa da Caridade A solidariedade Dos sentimentos humanos.

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OS DOENTES

I Como uma cascavel que se enroscava, A cidade dos lázaros dormia... Somente, na metróplole vazia, Minha cabeça autônoma pensava! Mordia-me a obsessão má de que havia, Sob os meus pés, na terra onde eu pisava, Um fígado doente que sangrava E uma garganta órfã que gemia! Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam... E via em mim, coberto de desgraças, O resultado de bilhões de raças Que há muito desapareceram!

II Minha angústia feroz não tinha nome. Ali, na urbe natal do Desconsolo, Eu tinha de comer o último bolo Que Deus fazia para a minha fome! Convulso, o vento entoava um pseudosalmo. Contrastando, entretanto, com o ar convulso A noite funcionava como um pulso Fisiologicamente muito calmo. Caíam sobre os meus centros nervosos, Como os pingos ardentes de cem velas, O uivo desenganado das cadelas E o gemido dos homens bexigosos. Pensava! E em que eu pensava, não perguntes! Mas, em cima de um túmulo, um cachorro

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sobre as hortas.Pedia para mim água e socorro À comiseração dos transeuntes! Bruto. a ameixa. O hidrogênio e o oxigênio que tu choras Pelo falecimento dos teus filhos! Ah! Somente eu compreendo. branda e beatífica. 143 . alto e hórrido. Meu ser estacionava. o urro Reboava. A comunhão dos homens reunidos Pela camaradagem da moléstia. como as ervas. Além jazia os pés da serra. olhando os campos Circunjacentes. Criando as superstições de minha terra. a abóbora. em quaisquer horas. magnânima e magnífica. Apenas eu compreendo. com a promíscua véstia No enbotamento crasso dos sentidos. os astros miúdos Reduziam os Céus sérios e rudos A uma epiderme cheia de sarampos! III Dormia embaixo. satisfeito. A queixada específica de um burro! Gordo adubo de agreste urtiga brava. o álamo E a câmara odorífera dos sumos Absorvem diariamente o ubérrimo húmus Que Deus espalha à beira do seu tálamo! Nos de teu curso desobstruídos trilhos. Benigna água. No Alto. A incógnita psique das massas mortas Que dormem. Na esteira igualitária do teu leito! O vento continuava sem cansaço E enchia com a fluidez do eólico hissope Em seu fantasmagórido galope A abundância geométrica do espaço. a amêndoa. de errante rio. A Paraíba indígena se lava! A manga. Em cuja álgida unção.

aos bocados. Um português cansado e incompreensível. Alucinado. Vômitos impregnados de ptialina. Vomitar o pulmão na noite horrível Em que se deita sangue pela boca! Expulsar. Pintando o chão de coágulos sangüíneos! Sentir. vendo em cada escarro O retrato da própria consciência! Querer dizer a angústia de que é pábulo E com a respiração já muito fraca Sentir como que a ponta de uma faca. OH! desespero das pessoas tísicas. 144 . Nas cancerosidades do organismo! Falar somente uma linguagem rouca. por mais que os cardos grandes rocem Seus corpos brutos. Restos repugnantíssimos de bílis. Maior felicidade é a destas cousas Submetidas apenas às leis físicas! Estas. Da degenerescência étnica do Ária Se escapava. adstritos ao quimiotropismo Erótico. como inúmeros soldados. dores não recebem. estas não tossem! Descender dos macacos catarríneos. Adivinhando o frio que há nas lousas. a existência Numa bacia autômata de barro. Estas não cospem sangue. Cortanto as raízes do último vocábulo. Cair doente e passar a vida inteira Com a boca junto de uma escarradeira. O ruído de uma tosse hereditária. Estas dis bacalhaus o óleo não bebem. Reboando pelos séculos vindouros. os micróbios assanhados Passearem.Feriam-me o nervo óptico e a retina Aponevroses e tendões de Aquiles. entre estrépitos e estouros.

Aquele ruído obscuro de gagueira Que à noite. Consagrando vossa última fonética A uma recitação de mesereres. Lhe houvessem sacudido sobre o peito A máquina pneumática de Bianchi! E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba A erguer. urrando ultrajes Contra a dissolução que vos espera! Porque a morte. Pelas algentes Ruas. em cachoeiras desobstruídas Encharcava os buracos das feridas. onde toda a vida orgânica Há de pagar um dia o último imposto! IV Começara a chover. 145 . A mágoa gaguejada de um cretino. Consoante a minha concepção vesânica. É a alfândega. Vinha da vibração bruta da corda Mais recôndita da alma brasileira! Aturdia-me a tétrica miragem De que. Saía. com o vexame de uma fusa. no Amazonas. com efeito. em sonhos mórbidos. me acorda. resfriando-vos o rosto. Nos ardores danados da febre hética. naquele instante. a água.Não haver terapêutica que arranque Tanta opressão como se. Onde a Resignação os braços cruza. Antes levardes ainda uma quimera Para a garganta omnívora das lajes Do que morrerdes. como um cronômetro gigante Marcando a transição emocionante Do lar materno para a catacumba! Mas vos não lamenteis. magras mulheres. hoje. Alagava a medula dos Doentes! Do fundo do meu trágico destino.

adstrito à étnica escória. Exercia sobre ela ação funesta Desde o desbravamento da floresta à ultrajante invenção do telefone. E agora. A carcaça esquecida de um selvagem.. todas as inúbias. E sentia-se pior que um vagabundo Microcéfalo vil que a espécie encerra. tendo o horror no rosto impresso. acordando na desgraça.. Desterrado na sua própria terra. Viu toda a podridão de sua raça. Esse achincalhamento do progresso Que o anulava na crítica da História! Como quem analisa uma apostema. entregue a vísceras glutonas. 146 . Em vez da prisca tribo e indiana tropa A gente deste século. sem difíceis nuanças dúbias.. Cuspiu na cova do morubixaba ! E o índio. Na tumba de Iracema!.. Uma desesperada ânsia improfícua De estrangular aquela gente iníqua Que progredia sobre os seus despojos! Mas.Fedia. De repente. Dora em diante Seu povo tombaria agonizante Na luta da espingarda contra a flecha! Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos. O gênio de Colombo Manchou de opróbrios a alma do mazombo . Recebeu. diante a xantocróide raça loura. A civilização entrou na taba Em que ele estava. espantada. Jazem. Diminuído na crônica do mundo! A hereditariedade dessa pecha Seguiria seus filhos. Ah! Tudo. Com uma clarividência aterradora. por fim. caladas. como um lúgubre ciclone.

A peçonha inicial de onde nascemos. 147 . Uma necessidade de suicídio E um desejo incoercível de ser morto! Naquela angústia absurda e tragicômica Eu chorava. Maldiziam. com voz estentorosa. rolando sobre o lixo. As mães sem coração rogavam pragas Aos filhos bons. Como que havia na ânsia de conforto De cada ser. No horror daquela noite monstruosa. Perfurava-me o peito a áspera pua do desânimo negro que me prostra.Vê somente a caveira abandonada De uma raça esmagada pela Europa! V Era a hora em que arrastados pelos ventos. Batia com o pentágono dos dedos Sobre um fundo hipotético de chagas! Diabólica dinâmica daninha Oprimia meu cérebro indefeso Com a força onerosíssima de um peso Que eu não sabia mesmo de onde vinha. E quase a todos os momentos mostra Minha caveira aos bêbedos da rua. Hereditariedades politípicas Punham na minha boca putrescível Interjeições de abracadabra horrível E os verbos indignados das Filípicas. E eu. ex. Os fantasmas hamléticos dispersos Atiram na consciência dos perversos A sombra dos remorsos famulentos. roído pelos medos. Com a contorção neurótica de um bicho Que ingeriu 30 gramas de noz-vômica.: o homem e o ofídio. Todos os vocativos dos blasfemos.

Era (nem sei em síntese o que diga) Um velhíssimo instinto atávico. Tentava. em suma. era A saudade inconsciente da monera Que havia sido minha mãe antiga. como um homem doido que se enforca. às vezes. Não me incomoda esse último abandono Se a carne individual hoje apodrece Amanhã. o anelo instável De. veio Eva E a stirpe radiolar chamada Actissa .E. Eu voltarei. Confundir-me com aquela coisa porca! Vinha. por epigênese. 148 . A pragmática má de humanos usos Não compreende que a Morte que não dorme É a absorção do movimento enorme Na dispersão dos átomos difusos. Reduzido à plastídula homogênea. Anelava ficar um dia. porém. cansado. na terráquea superfície. reaparece Na universalidadej do c arbono! A vida vem do éter que se condensa Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma Fazer a luz do cérebro que pensa. perante a cova. Consubstanciar-me todo com a imundície. Com o horror tradicional da raiva corsa Minha vontade era. Arrancar do meu próprio corpo a prova Da persistência trágica da força. da árdua liça À substância inorgânica primeva De onde. com o auxílio especial do osso masséter Mastigando homeomérias neutras de éter Nutrir-me da matéria imponderável. Menor que o anfióxus e inferior à tênia. Sem diferenciação de espécie alguma. como Cristo.

ignóbil.. Se extenuavam nas camas. De certo. maior que a Bíblia e a Fedra Reviverá. derreada de cansaço. a saraiva Caindo. 149 . Cheirava com prazer no sacrifício A lepra má que lhe roía o braço! E ensangüentava os dedos da mão nívea Com o sentimento gasto e a emoção pobre. As prostitutas. Mas. Duas mamárias glândulas estéreis! Ah! Certamente não havia ainda Rompido. entre oscilantes chamas. doentes de hematúria. Não tínheis ainda essa erupção cutânea. e as mãos. dando emoção à pedra Na acústica de todos os planetas! VI À álgida agulha. à-toa.. agora. Nem tínheis.Quando eu for misturar-me com as violetas Minha lira. no horizonte. com violência. virgem fostes. Acordavam os bairros da luxúria. análoga era. Quase que escangalhada pelo vício. Uma. Nessa alegria bárbara que cobre Os saracoteamentos da lascívia. alva. O sol malvado que secou a fonte De vossa castidade agora finda! Talvez tivésseis fome. embalde... quando o éreis. até que. Um cão agora Punha a atra língua hidrófoba de fora Em contrações miológicas de raiva. a perversão de que era presa o sensorium daquela prostituta Vinha da adaptação quase absoluta À ambiência microbiana da baixeza! Entanto.. vítima última da insânia. e. para além. Estendestes ao mundo..

Somente as bruxas negras da derrota Freqüentam diariamente vosso quarto! prometem-vos (quem sabe?!) entre os ciprestes Longe da mancebia dos alcouces. Nas quietudes nirvânicas mais doces O noivado que em vida não tivestes! VII Quase todos os lutos conjugados. porém. inquieto. eu. argots e aljâmias. Sentia. E vai depois levá-lo ao cemitério! E esfregando as mãos magras. E estais velha! -. Lançavam pinceladas pretas de óleo Na arquitetura arcaica dos sobrados. que a sociedade vos enxota.Fostes vender a virginal coroa Ao primeiro bandido do arrabalde. A energúmena gei dos ébrios da urbe Festejava seu sábado de infâmias. A consciência terrível desse inseto! Regougando. A racionalidade dessa mosca. Como a boca de um poço artesiano! Atabalhoadamente pelos becos. Desde as musculaturas que apodrecem À ruína vegetal dos lírios secos. Eu pensava nas coisas que perecem. no chão frio da igreja. 150 . E hoje. Como quem nada encontra que o perturbe.De vós o mundo é farto. na craniana caixa tosca. Cismava no propósito funéreo Da mosca debochada que fareja O defunto. Como uma associação de monopólio. Dentro da noite funda um braço humano Parecia cavar ao longe um poço Para enterrar minha ilusão de moço.

Como se fosse um corpo organizado! VIII Em torno a mim. palpável. assim inchado. estriges voam. Mas. O ar ambiente cheirava a ácido acético. O fácies do morfético assombrava! -. roubada à humana coorte Morre de fome. nos braços de um canalha 151 . de repente. em que eu entrei adrede. Dá-me a impressão de um boulevard que fede. nesta hora. Sem ter. Quanta gente. sobre a palha espessa. Punham-lhe num destaque horrendo o horrendo Tamanho aberratório das orelhas. uma cabeça Que possa mastigar na hora da morte E nua. Já podre.Aquilo era uma negra eucaristia. Em cujo aspecto o olhar perspícuo prendo. E o cemitério.A estática fatal das paixões cegas. Vem para aqui. escorraçando a festa. como Ugolino. Puxava aquele povo de demônios Para a promiscuidade das adegas. Rugindo fundamente nos neurônios. A mandíbula inchada de um morfético! Saliências polimórficas vermelhas. Absorvia com gáudio absinto. Pela degradação dos que o povoam. Apareceu. que a morféia miserável Tornava às impressões táteis. com o ar de quem empesta. E a ébria turba que escaras sujas masca. Onde minh’alma inteira surpreendia A Humanidade que se lamentava! Era todo o meu sonho. após baixar ao caos budista. À falta idiossincrásica de escrúpulo. lúpulo E outras substâncias tóxicas da tasca.

atira a raça negra Ao contubérnio diário das quitandas! Na evolução de minha dor grotesca. Vendo passar com as túnicas obscuras. Nos corpos nus das moças hotentotes Entregues. vinham Com a podridão dar de comer às flores! Os defuntos então me ofereciam Com as articulações das mãos inermes. Eu devorava aquele bolo frio Feito das podridões da Natureza! E hirto. Num prato de hospital. ao clarão de alguns archotes. a alma aos arrancos. Todos os meus cabelos se arrepiaram. iguais a irmãs de caridade. As escaveiradíssimas figuras Das negras desonradas pelos brancos. Pisando. à meia-noite! Com uma ilimitadíssima tristeza. entre fardos. Eu maldizia o deus de mãos nefandas Que. cheio de vermes. como quem salta. Todos os animais que apodreciam! É possível que o estômago se afoite (Muito embora contra isto a alma se irrite) A cevar o antropófago apetite. Na impaciência do estômago vazio. Comendo carne humana. transgredindo a igualitária regra Da Natureza. Os evolucionistas benfeitores Que por entre os cadáveres caminham. Eu mendigava aos vermes insubmissos 152 . a camisa suada. À sodomia indigna dos moscardos. Ao pegar num milhão de miolos gastos.porque o madapolão para a mortalha Custa 1$200 ao lojista! Que resta das cabeças que pensaram?! E afundado nos sonhos mais nefastos.

O adesionismo biôntico das formas Multiplicadas pela lei da herança! 153 . Era a volúpia fúnebre que os ossos Me inspiravam. Proporcionando-me o prazer inédito. Manhã.Como indenização dos meus serviços. Como o íncola do pólo ártico. déspota e sem normas. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! O gênio procriador da espécie eterna Que me fizera. No céu calamitoso de vingança Desagregava. Os raios caloríficos da aurora. às vezes. E arrancara milhares de existências Do ovário ignóbil de uma fauna imunda. No frio matador das madrugadas. trazendo-me ao sol claro. À apreensão fisiológica do faro O odor cadaveroso dos destroços! IX O inventário do que eu já tinha sido Espantava. De quem possui um sol dentro de casa. E eis-me a absorver a luz de fora. O benefício de uma cova fresca. Dentro da filogênese moderna. Por sobre o coração dos que sofriam! Do meu cérebro à absconsa tábua rasa Vinha a luz restituir o antigo crédito. Uma sobrevivência de Sidarta. após a noite de seis meses. Ia arrastando agora a alma infecunda Na mais triste de todas as falências. Absorve. Nunca mais as goteiras cairiam Como propositais setas malvadas. em vez de hiena ou lagarta.

a meu ver. com um prazer secreto. vinha de dentro Da matéria em fusão que ainda há no centro. Já batiam por cima dos estragos A sensação e os movimentos vagos Da célula inicial de um Cosmos novo! O letargo larvário da cidade Crescia. Eu sentia nascer-me n’alma. Vinha da original treva noturna. corre. O Espaço abstrato que não morre Cansara. oh! Morte. A gestação daquele grande feto. Parecia também desagregar-se! O prodromos de um tétano medonho Repuxavam-me o rosto. os sáxeos prédios tortos Tinham aspectos de edifícios mortos. tudo a extenuar-se Estava. Para alcançar depois a periferia! Contra a Arte. Acompanhava.. Hirto de espanto. O começo magnífico de um sonho! Entre as formas decrépitas do povo. numa furna.. em colônias fluídas. Decompondo-se desde os alicerces! A doença era geral. em vão teu ódio exerces! Mas. Igual a um parto. O ar que.. com os pés atolados no Nirvana. o vagido de uma outra Humanidade! E eu..A ruína vinha horrenda e deletéria Do subsolo infeliz. Que vinha substituir a Espécie Humana! 154 . entanto.

Para comer meus próprios semelhantes Eis-me sentado à mesa! Como porções de carne morta. têm carne. como eu.. Que um dia no ano trágico de mil E setecentos e cinqüenta e cinco. amigo.À MESA Cedo à sofreguidão do estômago. Tu representas toda essa Lisboa De glórias quase sobrenaturais. Com a diferença que Lisboa existe E tu.. com este assomo Que a espécie humana em comer carne tem!. Como! E pois que a Razão me não reprime. Petrarca A queda do teu lírico arrabil De um sentimento português ignoto Lembra Lisboa. É a hora De comer. DUAS ESTROFES À memória de João de Deus Ahi! ciechi! il tanto affaticar che giova? Tutti torniamo alla gran madre antica E il nostro nome appena si ritrova. Possa a terra vingar-se do meu crime Comendo-me também. E agora. Foi abalada por um terremoto! A água quieta do Tejo te abençoa. Apenas com uma diferença triste. não existes mais! 155 . Rodeado pelas moscas repugnantes. Coisa hedionda! Corro. Antegozando a ensangüentada presa... Ai! Como Os que. bela como um brinco.

Bebendo a vida no teu seio gordo! Pois.MATER Como a crisálida emergindo do ovo Para que o campo flórido a concentre. quanto a mim. Relembrarás chorando o que eu te disse. Mas o ramo fragílimo e venusto Que hoje nas débeis gêmulas se esboça. há de tornar-se arbusto E álamo altivo de ramagem grossa. te emergiu do ventre! E puseste-lhe. comparo. à amostra. Do que essa pequenina sanguessuga.Fecunda fonte desse mesmo leite Que amamentou os éfebos de Esparta.. Essas humanas coisas pequeninas A um biscuit de quilate muito raro Exposto aí.. O Sol virá das épocas sadias. Clara. E o antigo leão. No lábio róseo a grande teta farta -. À sombra dos sicômoros eternos! 156 . Há de crescer. entre dores. a atmosfera se encherá de aromas. que te esgotou as pomas. sujo de sangue. Assim. haurindo amplo deleite. nas vitrinas. Há de beijar-te as mãos todos os dias! Quando chegar depois tua velhice Batida pelos bárbaros invernos. um novo Ser. sem pretensões. -Com que avidez ele essa fonte suga! Ninguém mais com a Beleza está de acordo. oh! Mãe.

maior do que Laplace.. roendo a substância córnea de unha. Nabucodonosor ser do Pau d’Arco. Não fez cair o túmulo de Plínio Por sobre todo o meu raciocínio Para que eu nunca mais raciocinase?! Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles Carinhos. nos fortes fulcros. Tais quais. numa ininterrupta Adesão. Os pães -. mordendo glabros talos. não prendi minha existência?! Por que Jeová.GEMIDOS DE ARTE I Esta desilusão que me acabrunha É mais traidora do que o foi Pilatos!. com que guarda meus sapatos. Por causa disto.filhos legítimos dos trigos -Nutrem a geração do Ódio e da Guerra. Tenho estremecimentos indecisos E sinto. Por que me deu consciência dos meus atos Para eu me arrepender de todos eles?! Quisera antes. Magro. Os cachorros anônimos da terra São talvez os meus únicos amigos! Ah! Por que desgraçada contingência À híspida aresta sáxea áspera e abrupta Da rocha brava. O mesmo assombro que sentiu Parfeno Quando arrancou os olhos de Dionisos! Em giro e em redemoinho em mim caminham Ríspidas mágoas estranguladoras. Beber a acre e estagnada água do charco. também gira e redemoinham. Dormir na manjedoura com os cavalos! 157 . haurindo o tépido ar sereno.. as tesouras Brônzeas. eu vivo pelos matos.

Comprar vestidos pretos numa loja E andar de luto pelo pai que é morto! E por trezentos e sessenta dias Trabalhar e comer! Martírios juntos! Alimentar-se dos irmãos defuntos. no agudo grau da última crise. e não se contamina! Ser homem! escapar de ser aborto! Sair de um vente inchado que se anoja. Beija a peçonha. Com a flexibilidade de um molusco. Onde a forca feroz coma o carrasco E o olho do estuprador se encha de bichos! Outras constelações e outros espaços Em que. pegajoso e untuoso ao tacto! Reúnam-se em rebelião ardente e acesa Todas as minhas forças emotivas 158 . Dorme num leito de feridas. Subtraída à hediondez de ínfimo casco. apalpa a úlcera cancerosa. O braço do ladrão se paralise E a mão da meretriz caia aos pedaços! II O sol agora é de um fulgor compacto. cheio de chamusco. onde não cuspa língua alguma O óleo rançoso da saliva humana! Uma região sem nódoas e sem lixos. Úmido. E eu vou andando. Chupar os ossos das alimarias! Barulho de mandíbulas e abdômens! E vem-me com um desprezao por tudo isto Uma vontade absurda de ser Cristo Para sacrificar-me pelos homens! Soberano desejo! Soberana Ambição de construir para o homem uma Região. goza O lodo.Mas a carne é que é humana! A alma é divina.

Olhando para as pútridas charnecas Grita o exército avulso das marrecas Na úmida copa dos bambus verdoengos. No chão coleia a lagartixa. Por toda a parte a seiva bruta esguicha Num extravasamento involuntário. Com a rapidez duma semicolcheia. O ar cheira. De árvore em árvore e de galho em galho.Augusto .E armem ciladas como cobras vivas Para despedaçar minha tristeza! O sol de cima espiando a flora moça Arda.. Possuir aí o nome dum arbusto Qualquer ou de qualquer obscura planta! 159 . Os ventos vagabundos batem. Voam à semelhan ça de cabelos Os chicotes finíssimos dos juncos. A câmara nupcial de cada ovário Se abre. largando pêlos. no árdego trabalho.. queime. Nos terrenos baixos.. A terra cheira. Entrançados. quero. depois de tanta Tristeza.. bolem Nas árvores. pelo ar. Das laranjeiras eu admiro os cachos E a ampla circunferência das laranjas. morda!.. em vez do nome -. Eu. salta. Em grandes semicírculos aduncos.. Um pássaro alvo artífice da teia De um ninho. Ladra furiosa a tribo dos podengos. corte. Deleito a vista na verdura gorda Que nas hastes delgadas se balouça! Avisto o vulto das sombrias granjas Perdidas no alto. depois de morrer. E a alma dos vegetais rebenta inteira De todos os corpúsculos do pólen. fustigue.

Urram os bois. Amontoadas em grossos feixes rijos. As lagartixas. Viveu. O ardente calor da areia forte Racha-me os pés como se fosse agulha. como exóticos pintores. Quantas flores! Agora. Trôpega e antiga. Me arrasta à casa do finado Toca ! Todas as tardes a esta casa venho. Pintam caretas verdes nas taperas. Por saibros e por cem côncavos vales. Como pela avenida das Mappales. outrora. Os musgos. Nédios. batendo a cauda. uma parede doente Mostra a cara medonha dos buracos. E traça trombas de elefantes Com as circunvoluções extravagantes Do seu complicadíssimo intestino. sem conchego nobre. Aqui. Na bruta dispersão de vítreos cacos. unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança. Estão olhando aquelas coisas mortas! Fico a pensar no Espírito disperso Que. Como um anel enorme de aliança. O céu lembra uma lauda Do mais incorruptível pergaminho. Une todas as coisas do Universo! 160 . Não sei que subterrânea e atra voz rouca. sentiu e amou este homem pobre Que carregava canas para o engenho! Nos outros tempos e nas outras eras. O lodo obscuro trepa-se nas portas. O cupim negro broca o âmago fino Do teto. dos esconderijos. À dura luz do sol resplandecente.III Pelo acidentalíssimo caminho Faísca o sol. O aziago ar morto a morte Fede. em vez de flores. Uma atmosfera má de incômoda hulha Abafa o ambiente.

De pé. e se gritio é para que meu grito Seja a revelação deste Infiniti Que eu trago encarcerado da minh’alma! Sol brasileiro! queima-me os destroços! Quero assistir. Julgo ver este Espírito sublime. com a misericórdia de um tijolo!... É o pedaço já podre de pão duro Que o miserável recebeu na estrada! Não são os cinco mil milhões de francos Que a Alemanha pediu a Jules Favre.. A lamparina quando falta o azeite Morre. E o espírito infeliz que em mim se encarna Se alegre ao sol. à luz da consciência infame. Só. sem pai que me ame. Grito.. com a cabeça em brasas Ante a fatalidade que me oprime. À carbonização dos próprios ossos! 161 . da mesma forma que o homem morre. como quem raspa a sarna. trabalhando aos brancos! Seja este sol meu último consolo. É o dinheiro coberto de azinhavre Que o escravo ganha.. Tudo enfim a mesma órbita percorre E as bocas vão beber o mesmo leite. olha Melancolicamente para o mundo! Essa alegria imaterializada. Chamando-me do sol com as suas asas! Gosto do sol ignívomo e iracundo Como o réptil gosta quando se molha E na atra escuridão dos ares. arrebentando a horrenda calma. aqui. Súbito. Que por vezes me absorve. é o óbolo obscuro.E assim pensando..

Na vacuidade das entranhas frias O esgotamento intrínseco da besta! E ela que. Entre farraparias e esplendores. em contorções sombrias. Uma mulher completamente nua! É a meretriz que. O eretismo das classes superiores E o orgasmo bastardíssimo da plebe! É ela que. Bramando. Gane instintivamente de luxúria! Navio para o qual todos os portos Estão fechados.. A escuridão dos gineceus falidos E a desgraça de todos os ovários! Irrita-se-lhe a carne á meia-noite. Sofre em cada molécula a angústia alta De haver secado. recebe.. à falta Da água criadora que alimenta as proles! É ela que. Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos. 162 .A MERETRIZ A rua dos destinos desgraçados Faz medo. Com as mãos chagadas. hórridos uivos Na mesma esteira pública. espremendo os peitos. E a mulher. excita-a o açoite Do incêndio que lhe inflama a língua espúria. Sente. Espicaça-a a ignomínia. alta noite. através os meus sentidos. hirta. Na vizinhança aziaga dos ossuários Representa. a âmbulas moles. por fim. Reduzidos. urna de ovos mortos. Ouvem-se os brados Da danação carnal. de cabelos ruivos. como o estepe. arremessada sobre o rude 'Despenhadeiro da decrepitude. a arquivar credos desfeitos. O indumento vilíssimo do servo Ao brilho da augustal toga pretexta. à luz do olhar protervo. O Vício estruge. aliando. à lua. Lúbrica. ébria e lasciva. funcionária dos instintos. em coréas doudas. Na sodomia das mais negras bodas Desarticula-se.

no horror da ocídua fase Esterilizadora de órgãos. de bruços.. E a Carne que. Para a Finalidade Transcendente Gera o prodígio anímico da Insânia! Nas frias antecâmaras do Nada O fantasma da fêmea castigada. E a dor profunda da incapacidade Que. Fulgia. Na óptica abreviatura de um reflexo. filha do inferno. aos tácitos apelos Das suas carnes e dos seus cabelos. E é aterradora essa alegria de ossos Pedindo ao sensualismo que os esmague! É o pseudo-regozijo dos eunucos Por natureza. Pagando com volúpia o crime eterno De não ter sido fiel ao seu destino! E o Desespero que se faz bramido De anelo animalíssimo incontido. É o hino Da matéria incapaz.. alvo e desnudo A síntese eucarística de tudo Que não se realizou na Natureza! Antigamente. Ei-la..Chão de onde unia só planta não rebenta.. Lembra o ruído harto azorrague A vergastar ásperos dorsos grossos.. Passa agora ao clarão da lua acesa E é seu corpo expiatório. em cada humana nebulosa. bêbeda de gozo Saciando o geotropismo pavoroso De unir o corpo à terra famulenta! Nesse espolinhamento repugnante O esqueleto irritado da bacante Estrala. pela própria hereditariedade A lei da seleção disfarça em Vício! É o júbilo aparente da alma quase A eclipsar-se. dos que são caducos Desde que a Mâe-Comum lhes deu início. Toda a sensualidade tempestuosa Dos apetites bárbaros do Sexo! 163 .. Mais que a vaga incoercível na água oceânea... já morta essencialmente.

... momentaneamente luz fecunda. Brilha na prostituta moribunda Como a fosforescência sobre a lama! É a visita alarmante do que outrora Na abundância prospérrima da aurora. Libertos da ancestral modorra calma.. Lançando a sombra horrível dos seus vultos Sobre a noite fechada daquela alma! É o sublevantamento coletivo De um mundo inteiro que aparece vivo. adstrito a inferior plasma inconsútil. Saem da infância embrionária e erguem-se. Gorda a escorrer-lhe das artérias túmidas Lembrava um transbordar de ânforas cheias. Irradiava-se-lhe. radiando. e a estraga Na delinqüência . das veias E em torrencialidades quentes e úmidas. Agarrou-se-lhe aos seios impudicos Como o abraço mortífero do Ficus 164 .. sonhos de culminância. Numa cenografia de diorama.. ânsia De perfeição. Mas que. impune. Que.. Criando concupiscências infinitas Como eviterno lobo insatisfeito. A hora da morte acende-lhe o intelecto E à úmida habitação do vício abjecto Afluem milhões de sóis. Pudera progredir.. do deserto! Vede! A prostituição ofídia aziaga Cujo tóxico instila a infâmia.O atavismo das raças sibaritas.. rubros. Como o ... Resíduos memoriais tornam-se luzes Fazem-se idéias e ela vê as cruzes Do seu martirológio miserando! Inícios atrofiados de ética... Ficou rolando. decerto. Vinha saciar a milenária fome Dentro das abundâncias do seu leito! Toda a libidinagem dos mormaços Americanos fluía-lhe dos braços. Na homofagia hedionda que o consome. hírcica. adultos.. talvez. como aborto inútil.

......................... . .................... Ser meretriz depois do túmulo! A alma Roubada a hirta quietude da urbe calma Onde se extinguem todos os escolhos: E................................................................................ ao trágico ditame...................................................Sugando a seiva da árvore a que se une! ..... condenada......... ................ 165 ............................................... .......... .................... ...................................................... Na horrorosa avulsão da forma nívea Dizer ainda palavras de lascívia................................................................................ Enroscou-se-lhe aos abraços com tal gosto............... ...................... Oferecer-se à bicharia infame Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos! Sentir a língua aluir-se-lhe na boca E com a cabeça sem cabelos................................................................................................... ........... Mordeu-lhe a boca e o rosto................ .................................................. oca................................................. .......................................................................... .....

em ânsias. A toda a boca que o não prova engana. É Espírito. Integralmente desfibrado e mole. é éter. oposto a mim. amo Mas certo. que o idioma em que te eu falo Possam todas as línguas decliná-lo Possam todos os homens compreendê-lo. atenta a orelha cauta. Descasco-a. Como Mársias -. Quis saber que era o amor. observo o amor. do egoísta Modo de ver. É assim como o ar que a gente pega e cuida. chupo-a. Diverso é.. este o amor não é que. Para que. consoante o qual. Por conseguinte Chamas amor aquilo que eu não chamo. por experiência. eu que idolatro o estudo. é substância fluida. poeta.o inventor da flauta -Vou inventar também outro instrumento! Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo Ambiciono. o egoísta amor este é que acinte Amas. Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! Para reproduzir tal sentimento Daqui por diante. pois. tal como eu o estou amando. Como um saco vazio dentro d’alma! 166 .VERSOS DE AMOR A um poeta erótico Parece muito doce aquela cana. provo-a. Imponderabilíssima e impalpável. chegando à última calma Meu podre coração roto não role. não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes. Cuida. o observas. Todas as ciências menos esta ciência! Certo. o ponto outro de vista Consoante o qual. E hoje que. Pudera eu ter. é como a cana azeda. enfim. Oposto ideal ao meu ideal conservas. conheço o seu conteúdo. enfim.. ilusão treda! O amor. Porque o amor. entretanto.

A LUVA Para o Augusto Belmont Pensa na glória! Arfa-lhe o peito. com o seu grande grito. .. opresso. 167 .. no quadrilátero da alcova. Trabalharei assim dias inteiros. trabalhar contente. E só. Mas meu orgulho ainda é maior do que ela! Ruja a boca danada da profana Coorte dos homens.. Tenha a sorte de Cícero proscrito Ou morra embora. Como Vulcano. Vem-lhe á imaginação este soneto: "A princípio escrevia simplesmente Para entreter o espírito. Entendi. Escrevia Mais por impulso de idiosincrasia Do que por uma propulsão consciente. Como Camões morrendo sobre um catre!" Nisto.. que devia. sobre a forja ardente Da ilha de Lemnos.O pensamento é uma locomotiva Tem a grandeza duma força viva Correndo sem cessar para o Progresso. Sem ter uma alma só que me idolatre. trágico e maldito. contra ele. horrendo e preto O áspide abjeto do Pesar se mova!... Durante as vinte e quatro horas do dia! Riam de mim. abre. a tumbal janela E diz. os monstros zombeteiros. em ânsias. olhando o céu que além se expande: ". Que importa que.A maldade do mundo é muito grande. depois disso.

Que meu orgulho do alto do Infinito Suplantará a própria espécie humana! Quebro montanhas e aos tutões resisto Numa absolta impassibilidade". Batem-lhe os nervos. sacudindo-o todo. E como um desafio à eternidade Atira a luva para o próprio Cristo! Chove. Sobre a cidade geme a chuva. E na suprema convulsão o doudo Parece aos astros atirar a luva! 168 .

Que forma a coerência do ser vivo. recebendo injúrias. E não haver quem.este sombrio personagem Do drama panteístico da treva! Depois de dezesseis anos de estudo Generalizações grandes e ousadas Traziam minhas forças concentradas Na compreensão monística de tudo. lhe entregue. íntegra.ca! Perante o inexorável céu aceso Agregações abióticas espúrias. banhava minhas tíbias. Com os ligamentos glóticos precisos. E a cimalha minúscula das ervas.Dizia. Recebiam os cuspos do desprezo. sob os pés do orgulho humano. e absorve em cada viagem Minh’alma -. E a ela se aliava o ardor das sirtes líbias. alto.NOITE DE UM VISIONÁRIO Número cento e três. Cortanto o melanismo da epiderme. Rua Direita. oh! céu. A essa hora. O reino mineral americano Dormia. 169 . E eu sí a tremer com a língua grossa E a volição no cúmulo do exício. É a potencialidade que me eleva Ao grande Deus. Como quem é levado para o hospício Aos trambolhões. Eu tinha a sensação de quem se esfola E inopinadamente o corpo atola Numa poça de carne liquefeita! -. Arimânico gênio destrutivo Desconjuntava minha autônoma alma Esbandalhando essa unidade calma. Com a rebeldia acérrima dos nervos Minha atormentadíssima cabeça. e erguia. por ver-vos. nas telúrias reservas. Mas a aguadilha pútrida o ombro inerme Me aspergia. num canto de carro.“Que esta alucinação tátil não cresça!” -. Como um cara.

Dedos denunciadores escreviam Na lúgubre extensão da rua preta Todo o destino negro do planeta. Com a abundância de um geyser deletério. Um pedaço de língua disponível Para a filogenética vingança! A cidade exalava um podre béfio: Os anúncios das casas de comércio. As vegetalidades subalternas Que osserenos noturnos orvalhavam. lembravam Toalhas molhadas sobre as minhas pernas.A liberdade de vingar em risos A angústia milenária que o persegue! Bolia nos obscuros labirintos Da fértil terra gorda. A ínfima fauna abscôndita e grotesca Da família bastarda dos helmintos. com o ar horrível. em diástoles de guerra. o ancilóstomo. Onde minhas moléculas sofriam. Vinha do coração quente da terra Um rumor de matéria dissolvida. Um necrófilo mau forçava as lousas E eu -. A química feroz do cemitério Transformava porções de átomos juntos No óleo malsão que escorre dos defuntos. O vibrião. E no estrume fresquíssimo da gleba Formigavam. com a símplice sarcode. me pediam. Pela alta frieza intrínseca.coetâneo do horrendo cataclismo -Era puxado para aquele abismo No redemoinho universal das cousas! 170 . O motor teleológico da Vida Parara! Agora. Pareciam talvez meu epitáfio. úmida e fresca. Mais tristes que as elegais de Propércio. o colpode E outros irmãos legítimso da ameba! E todas essas formas que Deus lança No Cosmos.

a viúva. Mochos vagavam como sentinelas. dentro. Já na eminência da amplidão sidérea Como uma umbela. Os astros mortos refulgiam vivos E a noite.. aos lampejos derradeiros Das irisadas vespertinas velas. Súbito alguém. Feras rompiam tolos e balseiros. Era uma viúva. se desenrolava A esteira astral da retração etérea. nos altares esboroados. o passo constrangendo.. funeral mesquita. Em atalaia às gerações passadas! Um crepúsculo imenso. Foram caindo como estalactites Sobre o ouro e a prata das alfaias priscas 171 . Fulgia em tudo uma estriação violeta E um violáceo clarão banhava os mochos Que em torno estavam da mesquita preta.Um vento frio começou gemendo. A Lua encheu o espaço sem limites E. e o olhar errante. ampla e brilhante. Uma vez.A VITÓRIA DO ESPÍRITO Era uma preta. Parou em frente da mesquita morta. Engalanava-lhe as paredes frias Uma coroa de urzes e de cardos Coberta em pálio pelas laçarias. E pelas catacumbas desprezadas. Abandonada aos lobos e aos leopardos Numa floresta lúgubre e esquisita. foi transpondo a porta. rutilava Lantejoulada de opalinos crivos. Em passo lento. Eternamente aberta ao sol e à chuva. nunca visto Tauxiava o Céu de grandes roxos Da mesma cor da túnica de Cristo. .

Morria a noite. infernais ardendo Todas as feras. arremetendo.O próprio Deus cantava na floresta! Nos arvoredos rejuvenescidos. E raivosas. entretanto. E havia no atro olhar dessas panteras Essa alegria doida da carnagem Que é a alegria única das feras.Um dilúvio de fósforos prateados E uma chuva doirada de faíscas. por um chão de onagras Vinha passeando corno numa viagem Um grupo feio de panteras magras. Tiram-lhe todas ali mesmo a vida. contra ela. E iam cair em pérolas de sangue Sobre as asas doiradas das abelhas. No desfilar de sua carne morta A transitoriedade da matéria! 172 . Como uma exposição de carnes vivas. Fora. na redoma clara Que envolve a porta da região etérea. Além. E sobre o corpo da viúva exangue. Estrugiam canções desesperadas De misereres e de sustenidos. As flâmulas altivas Do sol nascente erguiam-se vermelhas. A Natureza celebrava a festa Do astro glorioso em cantos e baladas . E ardendo na impulsão das ânsias doidas E em sevas fúrias. entanto. O espírito da viúva se quedara Ao contemplar dessa fulgente porta E dessa clara e alva redoma aérea. as panteras todas Avançam para a viúva desvalida.

À cuja sombra descansou Colombo! Foi nessa ilha encantada de Cipango.. 173 . Ofereço Preces a Deus de amor e de respeito E o Ocaso que nas águas se retrata Nitidamente repdoruz.. Pára. entre assombros. Atravessando os ares bruscamente.A ILHA DE CIPANGO Estou sozinho! A estrada se desdobra Como uma imensa e rutilante cobra De epiderfe finíssima de areia. no meio. brilha A árvore da perpétua maravilha. Rica. em plena podridão. Os olhos volvo para o céu divino E observo-me pigmeu e pequenino Através de minúsculos espelhos. em luz perpétua. passeia! A agonia do sol vai ter começo! Caio de joelhos. Impressionado sem cessar com a Morte E sentindo o que um lázaro não sente.. Verde. Na ilha encantada de Cipango tombo. pela vez primeira. ao sol.. partindo e fraturando os braços Nas pontas escarpadas dos rochedos! Mas de repente. Assim. ostentando amplo floral risonho.. num enleio doce. E ao longe soam trágicos fracassos De heróis. exata. quem diante duma cordilheira. tenho alucinações de toda a sorte... trêmulo. Qual num sonho arrebatado fosse. Da qual. Anunciando desmoronamentos De mil lajedos sobre mil lajedos. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas. Sente vontade de cair de joelhos! Soa o rumor fatídico dos ventos. E por essa finíssima epiderme Eis-me passeando como um grande verme Que. afetando a forma de um losango.. A saudade interior que há no meu peito...

. Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrioi! Um penetrante e corrosivo frio Anestesiou-me a sensibilidade E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro.. Passa o seu enterro!.. A tarde morre. E como agora a lua cheia brilha! Ilha maldita vinte vezes a ilha Que para todo o sempre me fez triste! 174 .Que Toscanelli viu seu sonho extinto E como sucedeu a Afonso Quinto Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho! Lembro-me bem. Iríamos a um país de eternas pazes Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. E finalmente me cobri de flores.. Banhei-me na água de risonhos lagos. O Firmamento é uma caverna oblonga Em cujo fundo a Via-Láctea existe.... Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha. Gozei numa hora séculos de afagos.. A luz descreve siguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos! E a treva ocupa toda a estrada longa. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio.

a luzir Como um diamante de Ofir Imita a curva de um arco. as esconda. A Lua . Se um cai. vem outra onda E nesse eterno vaivém Coitadas! não acham quem. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas. outro se ergue e sonha. Vagueia um poeta num barco. fingindo cristais Das mais deslumbrantes cores. em lúcido véu. Em fulvos filões doirados Cai a luz dos astros por Sobre o marítimo horror Como globos estrelados. em reflexos..BARCAROLA Cantam nautas. de cima. Cantam! Os astros do Céu Ouçam e a Lua Cheia ouça! 175 . Vai uma onda. Lá onde as rochas se assentam Fulguram como outros sóis Os flamívomos faróis Que os navegantes orientam. outro cai. Mas desgraçado do pobre Que em meio da Vida cai! Esse não volta. Espelham-se os esplendores Do céu..globo de louça Surgiu. O Céu. Quem as esconda. Alegoria tristonha Do que pelo Mundo vai! Se um sonha e se ergue. esse vai Para o túmulo que o cobre. nas Águas.

Haja silêncio no mar Para se ouvir a sereia. "Sonhador do último sonho! "Numa redoma ilusória "Cercou-te a glória falaz. "O poeta é como Jesus! "Abraça-te á tua Cruz "E morre. "Fecha-te nesse medonho "Reduto de Maldição.. E como um requiem profundo De tristíssimos bemóis. "Viajeiro da Extrema-Unção. Mais um coveiro do Verso! Cantam flautas... porém. Sua voz é igual à voz Das dores todas do mundo.Ouça do alto a Lua Cheia Que a sereia vai falar. nunca mais "Há de cercar-te essa glória! "Nunca mais! Sê.. Que é que ela diz?! Será uma História de amor feliz? Não! O que a sereia diz Não é história nenhuma. poeta da Morte!" . forte.E disse e porque isto disse O luar no Céu se apagou.. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas! 176 . "Mas nunca mais. Súbito o barco tombou Sem que o poeta o pressentisse! Vista de luto o Universo E Deus se enlute no Céu! Mais um poeta que morreu..

Que apouca o triunfo e que se chama sangue. É que baqueia a vida escravizada! Já se ouvem os clangores do pregoeiro. Vós. Caia do santuário lá da História. oh Pátria. Oh! Liberdade. fazei que destes brilhos. pois. Há de transpor sereno os penetrais Da Pátria. E ali do despotismo entre os escombros. levando ao mundo inteiro. e. risonho.Estrela d'Alva imaculada e pura! É livre a Pátria outrora opressa e exangue! Esse labéu que mancha a glória pública.AVE LIBERTAS Ao clarão irial da madrugada. Manchar não pode as aras da República. Fulgente do valor da vossa glória. Enquanto fora na trevosa agrura Sucumbe o servilismo. . e há de elevar-se neste sonho Ao topo azul das Glórias Imortais! Esplende. esplendorosa. Da liberdade ao toque alvissareiro. Não! que esse ideal puro. essa bendita e branca Luz que os negrores da opressão espanca. A Liberdade assoma majestosa. oh! Redentora d'alma. Rola um drama que a Pátria exalça e doura Numa auréola de paz imorredoura. Essa luz etereal bendita e calma. A República rola-lhe nos ombros. Banhou-se o coração do Brasileiro Num eflúvio de luz auroreada. Como um Tritão. A bênção do valor dos vossos filhos! 177 . Da República a nova sublimada.

cantam óperas inteiras. desvairado.. Eleito Deus no altar do fetichismo! Tudo sacrifiquei para adorá-lo . Por muito tempo eu lhe sorvi o aroma.. Aves de várias cores e de várias Espécies.Mas hoje. A compreensão da minha niilidade Aumenta à proporção que aumenta o dia E pouco a pouco o encéfalo me invade Numa clareza de fotografia. E. Uma montanha que se desmorona. 178 . à luz das minhas frases. A Natureza veste extraordinárias Roupagens de ouro. E em qualquer parte do Universo veja Sombrias ruínas de um solar egrégio E o desmoronamento duma Igreja Despedaçada pelo sacrilégio.ESTROFES SENTIDAS Eu sei que o Amor enche o Universo todo E se prende dos poetas à guitarra Como o Pólipo que se agarra ao lodo E a ostra que às rochas eternais se agarra. E o Sol arranca as minhas crenças como Boucher de Perthes arrancava fósseis. Tenho vontade de estrangulá-lo E reduzi-lo muitas vezes a ossos! Todo o ser que no mundo turbilhona Veja do Amor. O amor reduz-nos a uniformes placas. Além. Estremecendo em suas próprias bases. Uniformiza todos os anelos E une organizações fortes e fracas Nos mesmos laços e nos mesmos elos. sem prever o abismo Fiz desse amor um ídolo de Roma. vendo o horror dos meus destroços. Na área em que estou. Passa um rebanho de carneiros dóceis. ao matinal assomo. nas oliveiras.

Da observação nos elevados montes Prefiro. demonstrando-a. Como Tirteu na guerra de Messênia! Transponho assim toda a sombria escarpa Sinistro como quem medita um crime. heroicamente. O Sábio vê em proporções enormes Aquilo que é composto de pequenas Partes. E quando a Dor me dói. sinto um violento Rancor da Vida .este maldito monstro Que no meu próprio estômago alimento! Nisto a alma o oficio da Paixão entoa E vai cair. tanjo minha harpa E a harpa saudosa a minha Dor exprime! Estes versos de amor que agora findo Foram sentidos na solidão de uma horta. construindo corpos quase informes E aquilo que é uma parcela apenas. A inanidade da Ilusão demonstro Mas. à nitidez real dos aspectos.. Ver mastodontes onde há mastodontes E insetos ver onde há somente insetos. ébria de fumo e de ópio. Tal qual ela é. à frente dele..Observo então a condição tristonha Da Humanidade. na água Da misteriosíssima lagoa Que a língua humana denomina Mágoa! Dos meus sonhos o exército desfila E. eu vou cantando a nênia Do Amor que eu tive e que se fez argila. e não tal qual a sonha E a vê o Sábio pelo telescópio. À sombra dum verdoengo tamarindo Que representa a minha infância morta! 179 .

dos grandes espaços. Vem cá. em sonhos erra. a esmo.CANTO ÍNTIMO Meu amor. Não me queixo mais da sorte Nem tenho medo da Morte Que eu tenho a Morte em mim mesmo! "Meu amor. Um grande recolhimento Preside neste momento Todas as forças do Mundo. Que o amor abriu no meu peito. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra! O Sol está moribundo. Ah! Se me ouvisses falando! (E eu sei que ás dores resistes) Dir-te-ia coisas tão tristes Que acabarias chorando. Muito longe. Onde há sonhos inefáveis Vejo os vermes miseráveis Que hão de comer os meus braços. em sonhos. se duvidas. Passo longos dias. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra!" 180 . erra. Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois. Muito longe. olha estas feridas. De lá.

neve.CANTO DE AGONIA Agonia de amor. oração. sinto A insaciabilidade desse gozo! 181 . experimento O mais profundo e abalador atrito. até que esta dor se concentre No âmago de meu peito e de minha saudade. e entre sorrisos e entre Mágoas soluço.. num volutuoso assomo. agonia bendita! .Diz e morre-lhe a voz. Neve da minha dor. uma nuvem que corre. agonia. amor e frio.. Nos desertos da Vida uma estrela fulgura E o Viajeiro do Amor... ontem. . murmura: . vendo-a. Amor. Frio que me assassina. e cansado e morrendo O Viajeiro vai. Neve que me embala como um berço divino. Delícia que ainda gozo. quanto mais me desespero. e vê a luz e vendo Uma sombra que passa.. triste. Na insaciedade desse gozo falho Busco no desespero do trabalho. agonia! . escuridão e eterna claridade. Caminha e vai. prece que ainda Entre saudades rezo. a sós. Mas.Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve.Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore como Chorei. Agonia de amar..Misto de infinita mágoa e de crença infinita. Fazer parar a máquina do instinto. agonia. Numa prece de amor. agonia bendita! GOZO INSATISFEITO Entre o gozo que aspiro.. Sem um domingo ao menos de repouso. o louco. numa delícia infinda. abraça a sombra e. neve do meu destino! E eu aqui a chorar nesta noite tão fria! Agonia. e o sofrimento De minha mocidade.. morre! E a alma se lhe dilui na amplidão infinita. Queimam-me o peito cáusticos de fogo Esta ânsia de absoluto desafogo Abrange todo o circulo infinito.

aclara o mar e por tudo se estende E arde em tudo.. a superfície bruta. Rasgando. e entre o Hércules de outrora! Pois havia de assim. do agro solo. Mas o braço cansou! Trabalhou. desoladoramente A revolver da terra o atro e infecundo arcano. nesta maldita senda De sofrimento ignaro em sofrimento ignaro Ir caminhando até tombar sem um amparo No tremendo marneI da Desgraça tremenda?! II Noute! O silêncio vinha entrando pelo mundo E ele. E em tudo que o rodeava. funéreo 182 . Fez reboar pelo solo. oito vezes. alta e descompassada A dura vibração incômoda da enxada. Para as bordas fatais dum precipício fundo! Quis um momento ainda olhar para o Passado. foi aos poucos se arrastando.O Hércules que ele fora! O fraco que ele hoje era! E surpreendido viu que um abismo se erguera Entre o fraco que era hoje. do alegre Sol ao grande globo quente E pôs-se para aí... mordendo a atra terra infecunda. A terra escalda: é um forno.Do Eterno Bem motor principal e alavanca Arrancara-lhe a Crença assim como se arranca De um ninho a seda branca e de uma árvore o galho! Sangrou-lhe o coração a saudade da Aurora! . Triste. acende O pó. trôpego e cambaleando Foi-se arrastando. A flama oriunda Da solar refração bate no mundo.. e o trabalho . E o Velho veio para o labor cotidiano.HISTÓRIA DE UM VENCIDO I Sol alto. lúgubre e só. Por seis horas seu braço empenhado na luta.

tombando. abraçou-se com a Vida E sepultou-se ali no coração das águas! Cantavam muito ao longe uns carmes doloridos! Eram tropeiros. a família! Não morreria.. louco. ninguém o acalenta. pois! Somente morreria Se da Vida. ele pisasse os trilhos. o precipício estava.. onde arde e floresce a Crença. sozinho. Que mal lhe haviam feito a esposa e a irmã e os filhos?! Preciso era viver! Portanto. o cansaço Empolgara-o.. a toa. e o braço Pendeu exangue.o último esforço.. a flux d'água. o Velho caminhava. o peito arqueou-se.. Somente entre a negrura atra da terra poenta Alguém beija. Caminhava. E bateram-lhe então de chofre na lembrança A casa que deixara.. era a turba trovadora Que assim cantava. e compreendendo tudo.. no horror bruto da despedida Abraçou-se com a Dor. e a sonhar. E amplo. o acalenta. os filhos. bêbado de miragem. e ele quis falar e estava mudo! Mudo! E a quem contaria agora as suas mágoas?! E trágico. a rugir-lhe aos pés. viveria! Viveria! E a fecunda e deleitosa seara Verde dos campos. Num instante viu tudo. avistando uma frondosa tília Julgou. alguém vela o cadáver: a Lua! 183 .. enquanto a Terra Vencedora Celebrava ao luar a Missa dos Vencidos! E o cadáver. avistar a Árvore da Esperança.Horrorizado viu como num cemitério Cadáveres de um lado e cinzas de outro lado! De súbito. Quis fazer um esforço . flutua! Ninguém o vê. Nem viu que era chegado o termo da viagem. Compensaria toda a sua dor imensa Tal qual o Céu a dor de Cristo compensara! E aos tropeços.

Atros.eis tudo! E no meu peito . Nas chispas fulvas de um vulcão violento! E tudo em vão! Atrás da luz dourada.condensada treva A sombra desce. santa e vitoriosa Dentre um velarium de veludos. rubro.. A VIa-Láctea vai abrindo os braços! Áureas estrelas. Martirizado porque nunca dorme As Sete Chagas dum martírio enorme. ígneo. E há no meu peito . fulvos. E os Sete Passos que magoaram Cristo! II Agora dorme o astro de sangue e de ouro Como um sultão cansado! As nuvens como Odaliscas. Subindo á majestade do Infinito.. e o meu pesar se eleva E chora e sangra. mudo.IDEALIZAÇÕES A Santos Neto I Em vão flameja. alvas.. No ar há malabatros Turiferando a negridão tediosa. dourando as névoas dos espaços. mudo. luminosas. Na majestade dum condor bendito.. mudo.. aos astrais desígnios. Raios flamejam e fuzilam ígneos. da Noite ao negro assomo Beijam-lhe o corpo ensangúentado d'ouro. sangrento O sol. e.. . volaterizadas. E a Noite emerge. Trazem no peito o branco das manhãs 184 .ocaso nunca visto. Negras.Asas de corvo pelo coração. Descem os nimbos. a Sombra .Crepúsculo fatal vindo do Nada! Que importa o Sol! A Treva. pompeiam (triste maldição!) . Além. Legiões de névoas mortas e finadas Como fragmentações d'ouro e basalto Lembram guirlandas pompeando no Alto Eterizadas.

Tudo por fim há de acabar na mesma Tênebra que hoje sobre ti desaba. se triste em cada Raio que tomba no marnel da terra. curvo ao seu destino.o Sol . Vésper me encanta. lodo.hóstia da Aurora. a lesma. Ah! Como tu. de que serve Se é desespero e maldição todo ele?! Pois. em vão na luz do sol te inflamas. há-de Alva. á luz áurea que dele Emana e estua e se refrange e ferve. III De novo. de que serve. e hás de ser após as chamas. E corno a Aurora . se erguer. em lodo tudo acaba. entre esplendores. como se esses raios N'alma caindo. Mais em minh'alma um desespero brada?! De que serve. se. aclarando os cerros E engalanando os arvoredos gaios. em plena e fulva reverberação.. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca. se tornassem ferros?! IV Poeta. A Mágoa ferve e estua. dominando o mundo! Mas de que serve o Sol. o tigre. assassino Ébrio de fogo.. se. Sírius me deslumbra. 185 . Fantástico. Hoje de novo.E dormem brancas corno leviatãs Sobre o oceano astral das nebulosas. como tombou outrora. E nessa luz queimas4e em vão! És todo Pó. Ninguém se exime dessa lei imensa Que. ciclópico. Mais em meu peito uma ilusão se enterra. a Aurora. Eu amo a noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. A alma se abate. Como Herculanum foi após as chamas. Abençoada pela Eternidade! E ei-lo de novo. o mastodonte. ontem moribundo. O leão.

Harpas concertam! Brandas melodias Plangem. Silêncio! Mas de novo as harpas Reboam pelo mar. E foi deixando essas funéreas. onde. Canto. Geme a pungente orquestração noturna E chora a fanfarra triunfal da Morte. banha As serranias duma luz estranha. frias. foi valas funerais deixando. Pelos rochedos. sobe ao pedestal. Alva corno um pedaço de mortalha! Nessa música que a alma me ilumina Tento esquecer as minhas pr6prias dores. E arrasta os coraç5es pela Descrença...Fera rendida à música divina. a Lua que no céu se espalha..Arrasta as almas pela Escuridão. Vives de cinzas e de ruinarias! V Agora é noite! E na estelar coorte. Então. como abutres Medonhos. canta! Canta a Descrença que passou cortando As tuas ilusões pelas raízes. Eu amo a Noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. de ossos.. um pedestal de tanta Treva e dor tanta. Sírius me deslumbra. pelas escarpas. de ilusões te nutres. Vésper me encanta... Iluminando as serranias. e num supremo e insano E extraordinário e grande e sobre-humano Esforço.. E em vez de chagas e de cicatrizes Deixar.. e minh'alma cobre-se de flores . Como recordação da festa diurna. Medonhas valas. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca! 186 . pelas penedias. Ergue. pois poeta. e.

logo Toda a alvorada esplêndida se ostenta. Desta cidade pelas ruas erra A procissão dos Mártires da Terra Desde os Cristãos até Giordano Bruno! Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. Mas.. Por que não evitei o precipício Estrangulando minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! À proporção que a minha insônia aumenta Hierógafos e esfinges interrogo. A dispersão dos sonhos vagos reuno.. E invejo o sofrimento desta Santa..INSÔNIA Noite. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Por que cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. sonâmbulo. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido Como um bemol e como um sustenido Rola impetuosa por meu peito adentro?! . 187 .. sonâmbulo..Por que é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ou mapa-múndi estranha. eu também vou passando Sonâmbulo. em mágoa. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim. nos céus altos.. Depois de embebedado deste vinho. Em cujo olhar o Vicio não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse.. triunfalmente..

Respira com vontade a alma campônia! Grita a satisfação na alma dos bichos. as flores. O odor da margarida e da begônia Subitamente me penetra o olfato. hedionda. Em que o Tédio. Aqui.. Estou alegre. Outra vez serei pábulo do susto E terei outra vez de. contemplo As maravilhas reais do meu Pau d'Arco! Cedo virá. Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos. Recordam santos nos seus próprios nichos. em mágoa imerso. Atro dragão da escura noite. equilibrando-se na esfera. Sacrificar-me por amor do Verso No meu eterno leito de Procusto! 188 . o funerário. estronda Como um grande trovão extraordinário. Agora. Restitui-me a pureza da hematose E então uma interior metamorfose Nas minhas arcas cerebrais se opera. Cercado destas árvores. os corimbos.. No espaço a luz de Aldebarã e de Árgus Vai projetando sobre os campos largos O derradeiro fósforo da Vida. As árvores. O Sol.. batendo na alma. porém.Vagueio pela Noite decaída.. por exemplo. neste silêncio e neste mato. Com o olhar a verde periferia abarco.

MISTÉRIOS DE UM FÓSFORO Pego de um fósforo. "Onde nenhuma lâmpada se acende. "Meu raciocínio sôfrego surpreende "Todas as formas da matéria gasta!" Raciocinar! Aziaga contingência! Ser quadrúpede! Andar de quatro pés E mais do que ser Cristo e ser Moisés Porque é ser animal sem ter consciência! Bêbedo. "Onde os ventres maternos ficam podres. "Miniatura alegórica do chão. ébrio. os beiços na ânfora ínfima. De onde. A nutrir diariamente os fetos nus Pelas vilosidades da placenta? Certo. a esvaziar báquicos odres: .Mucosa nojentíssima de pus. ante Minha massa encefálica minguante Todo o gênero humano intra-uterino! É o caos da avita víscera avarenta . o arquitetural e íntegro aspecto 189 . síntese má da podridão. Dois são. Todos os organismos são oriundos. Olho-o ainda. Presto. aparece. amorfo e lúrido. Risco-o Depois. "Na tua clandestina e erma alma vasta. através ovóide e hialino Vidro. é do sonho assíduo Que a individual psique humana tece e O outro é o do sonho altruístico da espécie Que é o substractum dos sonhos do indivíduo! E exclamo. porque um. sinto O amargor especifico do absinto E o cheiro animalíssimo do parto! E afogo mentalmente os olhos fundos Na amorfia da cítula inicial."Cinza. barro. Mergulho. e na ínfima ânfora. são dois Túmulos dentro de um carvão promíscuo. por outra. harto. certo. E o que depois fica e depois Resta é um ou. Olho-o. por epigênese geral. é mais de um. irrupto.

De minha antropocêntrica matéria Numa côncava xícara funérea Uma colher de cinza miserável! Abro na treva os olhos quase cegos. de agulhas e de pregos?! Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis! Dentro um dínamo déspota. é todo aquele Que vem de um ventre inchado. Na síntese acrobática de um salto.. mônada vil. De onde o desprotegido homem nasceu Para a fatalidade dos tropismos.. O espectro angulosíssimo do Medo! Em cismas filosóficas me perco E vejo. Que mão sinistra e desgraçada encheu Os olhos tristes que meu Pai me deu De alfinetes. E este ato extraordinário de morrer Que há de na última hebdômada. sou eu. dentre as tênebras. do meu espírito.Zooplasma pequeníssimo e plebeu. Depois. Sob a morfologia de um moinho. cósmico zero. Teus gineceus prolíficos envolvem Cinza fetal!. Vida. Migalha de albumina semifluida. sois vós. em segredo. o que nele Morre. na terra instável. é o céu abscôndito do Nada. Em que todos os seres se resolvem! 190 . muito alto. ínfimo e infecto! É a flor dos genealógicos abismos . Se escapa. Basta um fósforo só Para mostrar a incógnita de pó.Do mundo o mesmo inda e. Então. ora. Move todos os meus nervos vibráteis. como nunca outro homem viu. atender Ao pedido da célula cansada! Um dia restará. Que fez a boca mística do druida E a língua revoltada de Lutero. sozinho. Na anfigonia que me produziu Nonilhões de moléculas de esterco. que.

Na aclamação simbiótica do gozo! O enterro de minha última neurona Desfila. com a alma vencida Na abjeção embriológica da vida O futuro de cinza que me aguarda! 191 . Adeus! Que eu veio enfim...Ah! Maldito o conúbio incestuoso Dessas afinidades eletivas. E esse acidente químico vulgar Extraordinariamente me impressiona! Mas minha crise artrítica não tarda. De onde quimicamente tu derivas. E eis-me outro fósforo a riscar.

a soberana Imagem pétrea das montanhas duras. Troa o conúbio dos amores velhos .ODE AO AMOR Enches o peito de cada homem. Sinos além bimbalham.As borboletas e os escaravelhos Beijam-se no ar. E o aroma dos teus beijos infinitos Entra na terra. davas brandindo em seva e insana Fúria. chora e se lamenta e vibra. medras Nalma de cada virgem. tangendo tiorbas em volatas. .Estas multidões Sonham pátrias doiradas de ilusões Entre os tórculos negros da Desgraça . e toda a alma Enches de beijos de infinita calma. quietos Beijam-se além os silfos e os insetos Sob a esteira dos campos que se orvalham. Cantas a Vida que sangrando matas. . Amor.. Sobes ao monte onde o edelweiss pompeia Nalma do que subiu àquele monte! Mas. Ora. e dos Capitólios Aos claros pulcros e brilhantes sólios De esplendor pulcro e de fulgências claras.Flores que tombam quando a neve passa No turbilhão das avalanches bravas! Tudo dominas! Dos vergéis tranqüilos Aos Capitólios. E. lembras. Rendilhados de fulvas gemas raras E pontilhados de crisoberilos. 192 .. Retroa o sino. Beijam-te o passo multidões escravas Dos Desgraçados! .. bate nos granitos E quebra as rochas e arrebenta as pedras! És soberano! Sangras e torturas! Ora.dúlia Que na fibra mais forte e até na fibra Mais tênue. vezes. desces ao segredo insonte Do mar profundo onde a sereia canta E onde a Alcíone trêmula se espanta Ouvindo a gusla crebra da sereia! Rompe a manha. E em tudo estruge a tua dúlia ..

fosforeando. 193 .Essa dominação aterradora .E em cada peito onde um Ocaso chora Levanta a cruz da redenção da Aurora Como a Judite a redimir Betúlia! Bem haja. e eis o motivo. aos astros. Irene. Entre timbales e anafis estrídulos. Egrégia estavas no teu plaustro egrégio Mais bela do que a Virgem de Corrégio E os quadros divinais de Guido Reni! Qual um crente em asiático pagode. beija os áureos pés dos ídolos. Assim. Eis o motivo porque fiz esta ode. ontem. Irene.Enorme força regeneradora Que faz dos homens um leão que dorme E do Amor faz uma potência enorme Que vela sobre os homens. eis-me de ti cativo! Cativaste-me. quando Entre estrias de estrelas. Quedo. impassível! Esta de amor ode queixosa. esse poder terrível. . pois. Cativo. Irene. sonhei-a.

Quase com febre. berrar. a ouvir Cada átomo de ferro Contra a incude esmagado Sofrer. Trinta e seis graus à sombra.NUMA FORJA De inexplicáveis ânsias prisioneiro Hoje entrei numa forja. irritado. No horror da metalúrgica batalha O ferro chiava e ria! Ria. ao meio-dia. provinha Como de um negro cáspio de água impura A multissecular desesperança De sua espécie abjeta Condenada a uma estática mesquinha! Ria com essa metálica tristeza De ser na Natureza. erguido do pó. Dentro. Onde a Matéria avança E a Substância caminha Aceleradamente para o gozo Da integração completa. E eu nervoso. num sardonismo doloroso De ingênita amargura. Compreendia por fim que aquele berro À substância inorgânica arrancado Era a dor do minério castigado Na impossibilidade de reagir! Era um cosmos inteiro sofredor. O éter possuía A térmica violência de um braseiro. tinir. a cuspir escórias De fúlgida limalha Dardejando centelhas transitórias. Inopinadamente 194 . Da qual. bruta. Cujo negror profundo Astro nenhum exorna Gritando na bigorna Asperamente a sua própria dor! Era. Uma consciência eternamente obscura! O ferro continuava a chiar e a rir.

atravessando a absconsa cripta enorme De minha cavernosa subconsciência. Preso aos mineralógicos abismos Angustiado e arquejante A debater-se na estreiteza bronca De um bloco de metal! Como que a forja tétrica Num estridor de estrago Executava. em lúgubre crescendo A antífona assimétrica E o incompreensível wagnerismo aziago De seu destino horrendo! Ao clangor de tais carmes de martírio Em cismas negras eu recaio imerso Buscando no delírio De uma imaginação convulsionada Mais revolta talvez de que a onda atlântica Compreender a semântica Dessa aleluia bárbara gritada Às margens glacialíssimas do Nada Pelas coisas mais brutas do Universo! 195 . A ansiedade de um mundo Doente de ser inerte. A ouvir todo esse cosmos potencial.O ígneo jato vulcânico Que. Cheia de ânsias e medos Com crispações nos dedos Piores que os paroxismos Da árvore que a atmosfera ultriz destronca. afinal. Agarrados à inércia do Inorgânico Escravos da Coesão! Repuxavam-me a boca hórridos trismos E eu sentia.Para que à vida quente Da sinergia cósmica desperte. Punha em ciarividência Intramoleculares sóis acesos Perpetuamente às mesmas formas presos. Cansado de estar só! Era a revelação De tudo que ainda dorme No metal bruto ou na geléia informe No parto primitivo da Criação! Era o ruído-clarão. . Essa angústia alarmante Própria de alienação raciocinante.

E dá-me assim..Anelo morrer vário Dos braços teus na Cruz! Porque não me confortas?! Bem sei. De lírios e boninas Um veludíneo leito. Aperta-me em teu peito.QUADRAS Embala-me em teus braços. oh! morena .. Morreu-te a redolência. Assim como Jesus. divina. perdeste a ciência. De amores bons à sombra Quero em cheirosa alfombra Pousar os sonhos lassos! Teus seios. Eu quero o meu Calvário . Aperta-me em teu peito.Relíquias de Carrara Têm a ambrosia rara Da mais rara verbena. Alma das virgens mortas Mas não! Apaga os traços De tão funesto aspeito. Embala-me em teus braços! 196 .

No bruto horror que me arrebata. Vista.. E aos tombos. três. em ânsias: . Agora a cara do astro Lembra a metade de uma casca de ovo. Diabo! Não ser mais tempo de milagre! Para que esta opressão desapareça Vou amarrar um pano na cabeça1 Molhar a minha fronte com vinagre. Dói-me a cabeça..Uma... quatro. duas.ª-feira. 6. A conta recomeço. em suma. Nos engenhos da várzea não existe Talvez um outro que se lhe equipare! Do observatório em que eu estou situado A lua magra.. parece Um paralelepípedo quebrado! O sono esmaga o encéfalo do povo. embora a lua o aclare. Tenho 300 quilos no epigastro.. 3 de maio. Este Engenho Pau d'Arco é muito triste.TRISTEZAS DE UM QUARTO MINGUANTE Quarto Minguante! E.Uma. quando a noite cresce. Variando à ação mecânica dos dedos! Vai-me crescendo a aberração do sonho. tonta Sinto a cabeça e a conta perco. e. Mas novamente eis-me a perder a conta! 197 . Morde-me os nervos o desejo doudo De dissolver-me. através do vidro azul. Como um degenerado psicopata Eis-me a contar o número das telhas! . de enterrar-me todo Naquele semicírculo medonho! Mas tudo isto é ilusão de minha parte! Quem sabe se não é porque não saio Desde que. Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?! A lâmpada a estirar línguas vermelhas Lambe o ar... Aumentam-se-me então os grandes medos. O hemisfério lunar se ergue e se abaixa Num desenvolvimento de borracha.

.aquela grande aranha Que anda tecendo a minha desventura! A luz do quarto diminuindo o brilho Segue todas as fases de um eclipse. A lua é morta... por exemplo. A luz fulge abundante 198 . Começo a ver coisas de Apocalipse No triângulo escaleno do ladrilho! Deito-me enfim.. Caem-me de uma só vez todos os dentes! Então dois ossos roídos me assombraram....Sucede a uma tontura outra tontura. Antegozando as últimas delicias Mergulho as mãos . numa festa. Mas aquilo mortalhas me recorda. Minha família ainda está dormindo E eu não posso pedir outra camisa! Abro a janela. . Tal urna planta aquática submersa.. . Por muito tempo rolo no tapete. E o amontoamento dos lençóis desmancho. Súbito me ergo."Por ventura haverá quem queira roer-nos?! Os vermes já não querem mais comer-nos E os formigueiros lá nos desprezaram".Estarei morto?! E a esta pergunta estranha Responde a Vida . Cinco lençóis balançam numa corda. O suor me ensopa. Elevam-se fumaças Do engenho enorme.vis raízes adventícias No algodão quente de um tapete persa. Meu tormento é infindo. Ponho o chapéu num gancho.. Vêm-me á imaginação sonhos dementes. Tomba uma torre sobre a minha testa.. Acho-me. Choro e quero beber a água do choro Com as mãos dispostas á feição de conchas. Um frio Cai sobre o meu estômago vazio Como se fosse um copo de sorvete! A alta frialdade me insensibiliza. Figuras espectrais de bocas tronchas Tornam-me o pesadelo duradouro.

No húmus feraz. o céu. hierática. rígido e de rastos Com a solidez do tegumento sujo Sulca. oh! Vida em que a sofrer me exortas Eu estaria como as bestas mortas Pendurado no bico dos abutres! 199 . em diâmetro. Babujada por baixos beiços brutos.E em vez do sepulcral Quarto Minguante Vi que era o sol batendo nas vidraças. a terra resfolega Estrumada. observa A universal criação. feliz. numa última cobiça. De mim diverso. nestes bucólicos retiros Toda a salva fatal de 21 tiros Que festejou os funerais de Hamleto! Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas! Quisera ser. longe do pão com que me nutres Nesta hora. no ato da entrega Do mato verde. Pelos respiratórios tênues tubos Dos poros vegetais. o solo um caramujo Naturalmente pelos mata-pastos. A fatia esponjosa de carniça Que os corvos comem sobre as jurubebas! Porque. Côncavo. Entretanto. A ouvir. Broncos e feios. se ostenta A monarquia da árvore opulenta Que dá aos homens o óbolo dos frutos. radiante e estriado. cheios Dos tenros tinhorões e da úmida erva. passei o dia inquieto. Vários reptis cortam os campos. cheia de adubos.

mãos mais sanguinárias E estupradoras do que os bisturis Cortando a carne em flor das crianças mortas. Pertencentes talvez. vão cheirar. Mãos de linhas análogas e anfratos Que a Natureza onicriadora fez Em contraposição e antagonismo Às da estrela. pituitárias Olfativas. Monstruosíssimas mãos. negras.MÃOS Há mãos que fazem medo Feias agregações pentagonais... Umas. Mãos adúlteras.. em sangue. a farpas de rochedo Completamente iguais. Mãos que adquiriram olhos.. Outras. tentáculos sutis. quebrando portas O azul gasofiláceo silencioso Dos tálamos cristãos. ás dos cristais. E à noite. às da neve. 200 . a delinqüentes natos. Que apalpam e olham com lascfvia e gozo A pureza dos corpos infantis. Assinalados pelo mancinismo.

Tufos de goivo em conchas de esmeralda.a Carne. langue e seminua. oh Quimera. E como um nume de pesar. E que ela suba na serena gaza Dos mistérios dourados e serenos À terra Ideal das púrpuras em brasa E ao Céu doirado e auroreal de Vênus! 201 . .VÊNUS MORTA A Via-Sacra Azul do amor primeiro Veste hoje o luto que a desgraça veste No miserere do meu desespero. Sonho abraçar-te. Abençoada pelo meu tormento E consagrada pela sepultura. Opalescência trágica da lua! Tu. No vácuo imenso das desesperanças E dos passados viços. de reverberantes E rubras asas de beliantos pulcros. plangente. Reza-lhe todo o cantochão memento Dessa Missa de amor da Extrema Agrura. Pareces reviver a antiga Ofélia. Crava-lhe n'alma o tirso das bacantes. Rola a violeta santa dos teus olhos . Eu guardo o travo deste beijo ardente E a Nostalgia desta Pátria . pálida camélia. Recordo o beijo que te dei nas tranças Emolduradas num florão de riços..Lotus diluído n'alma dum cipreste! Como um lilás eternizando abrolhos Tinge de roxo o arminho da grinalda. Brande-lhe n'alma o frio dos sepulcros.. Guarda a saudade que levou do Mame. Mas neste sonho.

com soluços quase humanos. E. Do ventre equatorial da terra grávida! Dentro de mim. era só O ocaso sistemático de pó. Sentia estar pisando com a planta ávida Um povo de radículas e embriões Prestes a rebentar como vulcões. Mas o que meus sentidos apreendiam Dentro da treva lúgubre. Em que as formas humanas se sumiam! Reboava. Choravam. como num chão profundo. Aves com frio.. A rebeldia dos meus pés danados Nas pedras resignadas do caminho. num ruidoso borborinho Bruto. de onde decorrem Todas essas moléculas que morrem Nas transubstanciações da Natureza.. Eu procurava. A efígie apocalíptica do Caos Dançava no meu cérebro sombrio! O Céu estava horrivelmente preto E as árvores magríssimas lembravam Pontos de admiração que se admiravam De ver passar ali meu esqueleto! Sozinho. uivando hoffmânnicos dizeres. análogo ao peã de márcios brados. na escuridão. enquanto eu tropeçava sobre os paus. almas e oceanos As formas microscópicas do mundo! Era a larva agarrada a absconsas landes. Era o abjeto vibrião rudimentar Na impotência angustiosa de falar. O feto original. com uma vela acesa. No desespero de não serem grandes! 202 .VIAGEM DE UM VENCIDO Noite. Cruzes na estrada. Convulsionando Céus. Mergulhar minha exótica visão Na intimidade noumenal dos seres. Aprazia-me assim.

Vinha-me á boca. na ânsia dos párias. O brado emocionante de vindicta Das sensibilidades solitárias! A longanimidade e o vilipêndio. A multiplicidade heterogênea De sensações diversamente amargas. frias como lousas. horrenda e monótona. perdido no Cosmos. vingadora. Como o protesto de uma raça invicta. Doía profundamente no meu crânio Esse funcionamento simultâneo De todos os conflitos da matéria! Eu. Na discórdia perpétua do sansara! Já me fazia medo aquela viagem A carregar pelas ladeiras tétricas. A abstinência e a luxúria. a esclarecer As manchas subjetivas do meu ser A espionagem fatídica dos astros! Sentinelas de espíritos e estradas. de onde se vê o Homem de rastros. Noite alta. Maior que o olhar que perseguiu Caim. o bem e o mal Ardiam no meu orco cerebral. Na óssea armação das vértebras simétricas A angústia da biológica engrenagem! No Céu. Brilhava. assim. Mas das árvores. Cumpria-se afinal dentro de mim O próprio sofrimento da Substância! Como quem traz ao dorso multas cargas Eu sofria. me tornara A assembléia belígera malsã. Onde Ormuzd guerreava com Arimã. uma voz 203 . Numa crepitação própria de incêndio! Em contraposição à paz funérea. Eles entravam todos na caverna Das consciências humanas mais fechadas! Ao castigo daquela rutilância. com a sidérica lanterna. Fluía. ao colher simples gardênia.

Rasgando avidamente o húmus malsão. do Equador aos pólos. árvore. porque. Desde a consciência à antítese dos sexos Vem de um dínamo fluídico de gás. rimos Das vãs diatribes com que aturdes o ar. Tragicamente. iceberg. oh! filho dos terráqueos limos. diante do Homem. na ânsia cósmica. arvoredos desterrados. a Energia A última etapa da objetivação?! É inútil. choramos.Tão grande. A humildade botânica das algas De que grandeza não será capaz?! Quem sabe. Se hoje.. Jeová ou Siva Oculta à tua força cognitiva Fenomenalidades que hão de vir. isto é. Rir da desgraça que de ti ressuma É quase a mesma coisa que chorar!" 204 . tão feroz Que parecia vir da alma das cousas: "Se todos os fenômenos complexos. Rimos. a espiar enigmas. Nós. Se a contração que hoje produz o choro Não há de ser no século vindouro Um simples movimento para rir?! Que espécies outras. enquanto Deus. obscuro. amanhã píncaros galgas. em suma. Não trabalham. Para erguer. Crânio. com a febre mais bravia. Para esconder-se nessa esfinge grande. tão profunda. Porque em todas as coisas. que.. entres Na química genésica dos ventres. se ergue A esfinge do Mistério Universal! A própria força em que teu Ser se expande. montanha. Na prisão milenária dos subsolos. ovário. afinal. Deu4e (oh! mistério que se não traduz!) Neste astro ruim de tênebras e abrolhos A efeméride orgânica dos olhos E o simulacro atordoador da Luz! Por isto. pois.

alheio ao mundanário ruído. Reproduzida pelos arvoredos! Agora. Tinha necessidade de esconder-me Longe da espécie humana. naquela noite de ânsia e inferno. A voz cavernosíssima de Deus. A maior expressão do homem vencido Diante da sombra do Mistério Eterno! 205 .As vibrações daquele horrível karma Meu dispêndio nervoso era tamanho Que eu sentia no corpo um vácuo estranho Como uma boca sôfrega a esvaziar-me! Na avançada epiléptica dos medos Cria ouvir. Eu. astro decrépito. com os meus ossos! Restava apenas na minha alma bruta Onde frutificara outrora o Amor Uma volicional fome interior De renúncia budística absoluta! Porque. a erguer-me. desgraçadamente magro. em destroços. Eu fora. a escalar Céus e apogeus.

206 . é o prélio enorme. arrancado das prisões carnais. A Eternidade esmagadora bate Numa dilatação exorbitante! E eu luto contra a universal grandeza Na mais terrível desesperação É a luta. armado de arcabuz. é a rebelião Da criatura contra a natureza! Para essas lutas uma vida é pouca Inda mesmo que os músculos se esforcem. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. rolando dos últimos degraus. no combate... As minhas roupas. ando! Não trago sobre a túnica fingida As insígnias medonhas do infeliz Como os falsos mendigos de Paris Na atra rua de Santa Margarida. quero até rompê-las! Quero. Na ânsia incoercível de roubar a luz. em coalhos. Para pintá-lo. entre estes monstros.QUEIXAS NOTURNAS Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio. Os pobres braços do mortal se torcem E o sangue jorra. Abraçado com todas as estrelas! A Noite vai crescendo apavorante E dentro do meu peito. E muitas vezes a agonia é tanta Que. era preciso a tinta Feita de todos os tormentos do homem! Como um ladrão sentado numa ponte Espera alguém. Viver na luz dos astros imortais. O quadro de aflições que me consomem O próprio Pedro Américo não pinta. Minh'alma sai agoniada. pela boca. Estou á espera de que o Sol desponte! Bati nas pedras dum tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza é minha única saúde.

. Estrangulado pelas rodas brutas Do mecanismo que tiver mais força.. Seja este. Ah! Por todos os séculos vindouros Há de travar-se essa batalha vã Do dia de hoje contra o de amanhã. Este relógio trágico que marca Todos os atos da tragédia humana! Seja esta minha queixa derradeira Cantada sobre o túmulo de Orfeu.. é inútil. Não sou capaz de amar mulher alguma Nem há mulher talvez capaz de amar-me.O Hércules treme e vai tombar no caos De onde seu corpo nunca mais levanta! É natural que esse Hércules se estorça. a água que bebo. E é tudo: o pão que como. O amor tem favos e tem caldos quentes E ao mesmo tempo que faz bem. Hoje é amargo tudo quanto eu gosto. Igual á luta dos cristãos e mouros! Sobre histórias de amor o interrogar-me E vão. E tombe para sempre nessas lutas. enfim. o último canto meu Por esta grande noite brasileira! Melancolia! Estende-me a tu'asa! És a árvore em que devo reclinar-me. faz mal. O coração do Poeta é um hospital Onde morreram todos os doentes. O velho tamarindo a que me encosto! Vou enterrar agora a harpa boêmia Na atra e assombrosa solidão feroz Onde não cheguem o eco duma voz E o grito desvairado da blasfêmia! Que dentro de minh'alma americana Não mais palpite o coração . é improfícuo.. Se algum dia o Prazer vier procurar-me Dize a este monstro que eu fugi de casa! 207 . em suma. A bênção matutina que recebo.esta arca.

A Morte.Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. estudo. Eu torço os braços numa angústia douda E muita vez. à meia-noite.. e a mim pergunto. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. em trajes pretos e amarelos. Para onde vou (o mundo inteiro o nota) Nos meus olhares fúnebres. Em vão com o grito do meu peito impreco! Dos brados meus ouvindo apenas o eco. Como que.Faminta e atra mulher que. Corro. -. vendo o verme frio Que há de comer a minha carne toda! É a Morte -. come. Mas de repente. Sai para assassinar o mundo inteiro. a 1 de Janeiro. Arranco os cadáveres das lousas E as suas partes podres examino.. E o mundo inteiro não lhe mata a fome! Nesta sombria análise das cousas.POEMA NEGRO A Santos Neto Para iludir minha desgraça. Na podridão daquele embrulho hediondo Reconheço assombrado o meu Destino! Surpreendo-me. sozinho.. numa cova. rio Sinistramente.esta carnívora assanhada -Serpente má de língua envenenada Que tudo que acha no caminho.. Intimamente sei que não me iludo. Levanta contra mim grandes cutelos E as baionetas dos dragões antigos! 208 . abrindo todos os jazigos. Então meu desvario se renova.. ouvindo um grande estrondo.. na vertigem: -. carrego A indiferença estúpida de um cego E o ar indolente de um chinês idiota! A passagem dos séculos me assombra.

e após gritar a última injúria. Tu não és minha mãe. Cai no silêncio da Cidade Eterna A água da chuva em largos fios grossos. Por tua causa apodreci nas cruzes. A trava invade o obscuro orbe terrestre No Vaticano. Tu mataste o meu tempo de criança E de segunda-feira até domingo. que eu me vingo! Súbito outra visão negra me espanta! Estou em Roma. desta cova escura.. Como as estalactites da caverna. Deixa-te estar. Perante a qual meus olhos se extasiam. É Sexta-feira Santa.. que em mim dorme. os soldados Buardam o corpo do Divino Mestre. e quando vi o que era. acorda em berros Acorda. De Jesus Cristo resta unicamente 209 .E quando vi que aquilo vinha vindo Eu fui caindo como um sol caindo De declínio em declínio. Deste-me fogo quanto eu tinha sede. em grupos prosternados. Eu desafio. canalha.. Contra a agressão dos teus contrastes juntos A besta. No histerismo danado da tortura Todos os monstros que os teus peitos criam. como a gula de uma fera. Chocalha os dentes com medonha fúria Como se fosso o atrito de dois ferros! Pois bem! Chegou minha hora de vingança.. Com as longas fardas rubras. Amarrado no horror de tua rede.. vi que era esterquilínio! Chegou a tua vez. Vi que era pó. Quis ver o que era. oh! Natureza! Eu desafio agora essa grandeza. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. e de declínio Em declínio. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Semeadora terrível de defuntod..

Na agonia de tantos pesadelos Uma dor bruta puxa-me os cabelos. As luzes funerais arquejam fracas. Desperto. Na Eternidade. Resume A espiritualidade da matéria E ele é que embala o corpo da miséria E faz da cloaca uma urna de perfume. Roma estremece! Além. o desalento e o desconforto Paralisam-me os círculos motores. Dentro da igreja de São Pedro. com a minha dor enorme Os olhos ensangüento na vigília! E observo. a gente Sente vontade de abraçar-lhe os ossos! Não há ninguém na estrada da Ripetta. O céu dorme. no ar de minha terra.Um esqueleto.. num rumor forte Recomeça o barulha das matracas. enquanto o horror me corta a fala O aspecto sepulcral da austera FIM 210 . somente eu. O vento entoa cânticos de morte.. quieta. Na molécula e no átomo. A desagregação da minha Idéia Aumenta. Como as chagas da morféia O medo. e a gente. vendo-o.. É tão vazia a minha vida! No pensamento desconexo e falho Trago as cartas confusas de um baralho E pedaço de cera derretida! Dorme a casa. A árvore dorme Eu. os ventos gemedores Estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na serra Da Borborema..