EU, TODOS OS SONETOS E OUTRAS POESIAS

(OBRA COMPLETA)

AUGUSTO DOS ANJOS

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Autor: Augusto dos Anjos Título: Eu, todos os sonetos e outras poesias Data da Digitalização: 2004 Data Publicação Original: Primeiras décadas do séc. XX

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ÍNDICE
Introdução
As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos (por Horácio de Almeida) ....................................... 06 Um Currículo Escrito pelo próprio poeta (respostas ao inquérito de Licínio dos Santos) .............. 33

Sonetos
O Morcego ..................................................34 Psicologia de um Vencido ......................... 34 A Idéia ....................................................... 35 O Lázaro da Pátria ..................................... 35 Idealização da Humanidade Futura ........... 36 Soneto ao Meu Primeiro Filho .................. 36 Versos a um Cão ....................................... 37 O Deus-Verme .......................................... 37 Debaixo do Tamarindo .............................. 38 Budismo Moderno ..................................... 38 Sonho de um Monista ................................ 39 Solitário ..................................................... 39 Mater Originalis ........................................ 40 O lupanar ................................................... 40 Idealismo ................................................... 41 Último Credo ............................................. 41 O Caixão Fantástico .................................. 42 Solilóquio de um Visionário ..................... 42 A um Carneiro Morto ................................ 43 Vozes da Morte ......................................... 43 Insânia de um Simples .............................. 44 Asa de Corvo ............................................. 44 O Martírio do Artista ................................. 45 O Mar, a Escada e o Homem ..................... 45 Decadência ................................................ 46 Ricordanza della mia Gioventú ................. 46 A Um Mascarado ...................................... 47 Vozes de um Túmulo ................................ 47 Contrastes .................................................. 48 Soneto I a meu pai doente ......................... 48 Soneto II a meu pai morto ......................... 49 Soneto III ................................................... 49 Depois da Orgia ......................................... 50 A Arvore da Serra ..................................... 50 Vencido ..................................................... 51 O Corrupião ............................................... 51 Alucinação a Beira Mar ............................. 52 Vandalismo ............................................... 52 Versos Íntimos .......................................... 53 Vencedor ................................................... 53 Eterna Mágoa ............................................ 54 O Lamento das Coisas .............................. O Meu Nirvana ......................................... Caput Immortale ....................................... Apóstrofe a Carne ..................................... Louvor a Unidade ..................................... O Pântano ................................................. Supreme Convulsion ................................. A Um Gérmen .......................................... Natureza Íntima ........................................ A Floresta ................................................. Guerra ....................................................... O Sarcófago .............................................. Hino a Dor ................................................ Última Visio ............................................. Aos Meus Filhos ....................................... A Dança da Psique .................................... O Poeta do Hediondo ................................ A Fome e o Amor ..................................... Homos Infimus ......................................... Minha Finalidade ...................................... Noli Mi Tangere ....................................... O Canto dos Presos ................................... Aberração .................................................. Vítima do Dualismo .................................. Ao Luar ..................................................... A Um Epiléptico ....................................... Canto da Onipotência ............................... Minha Arvore ........................................... Anseio (Quem Sou Eu...) .......................... Revelação I ............................................... Revelação II .............................................. Versos a um Coveiro ................................ Trevas ....................................................... As Montanhas I ......................................... As Montanhas II ....................................... Apocalipse ................................................ A Nau ........................................................ Volúpia Imortal ......................................... O Fim das Coisas ...................................... A Noite ..................................................... A Obsessão do Sangue ............................. 54 55 55 56 56 57 57 58 58 59 59 60 60 61 61 62 62 63 63 64 64 65 65 66 66 67 67 68 68 69 69 70 70 71 71 72 72 73 73 74 74

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Vox Victimae ............................................ Agonia de Um Filósofo ............................. O Último Número ..................................... Saudade ..................................................... Abandonada ............................................... Ceticismo ................................................... Mágoas ...................................................... Ouvi, Senhora ............................................ Triste Regresso .......................................... Infeliz ........................................................ N’augusta solidão dos cemitérios ............. Noivado ..................................................... No meu peito arde .................................... A Máscara ................................................. Amor e Religião ........................................ Canta no espaço a passarada ..................... O Coveiro .................................................. Pecadora .................................................... No Claustro ............................................... Il Trovatore ................................................ A Louca ..................................................... Primavera .................................................. A Esperança .............................................. Senhora, eu trajo o luto do passado .......... Sofredora ................................................... Ecos d’Alma .............................................. Amor e Crença .......................................... Ariana ........................................................ Tempos Idos .............................................. Na rua em funeral ei-la que passa ............. Adeus, adeus, adeus! E, suspirando... ....... A Aeronave ............................................... Lirial .......................................................... A Minha Estrela ........................................ A praça estava cheia.... .............................. A Esmola de Dulce .................................... Ave Dolorosa ............................................ Gênio das trevas lúgubres... ...................... Nimbos ...................................................... O Mar ....................................................... Anseio (Nessas Paragens Desoladas...) ..... Aurora Morta, Foge! ................................. No Campo ................................................. Canta o Teu Riso Esplendida Sonata ........ Cravo de Noiva ......................................... Plenilúnio .................................................. Insânia ....................................................... O Bandolim ...............................................

75 75 76 76 77 77 78 78 79 79 80 80 81 81 82 82 83 83 84 84 85 85 86 86 87 87 88 88 89 89 90 90 91 91 92 92 93 93 94 94 95 95 96 96 97 97 98 98

Ara Maldita ............................................... 99 Na etérea limpidez... ................................ 99 Treva e Luz ............................................ 100 O Templo da Descrença .......................... 100 A Peste .................................................... 101 Ideal ........................................................ 101 Cítara Mística ......................................... 102 Súplica num Túmulo .............................. 102 Afetos ..................................................... 103 Martírio Supremo .................................. 103 Sombra Imortal ....................................... 104 Coração Frio ........................................... 104 Noturno (Para o Vale Noital...) ............... 105 Sedutora .................................................. 105 Pelo Mundo ............................................. 106 E o Mar Gemeu a Funda Melopéia ......... 106 O Riso .................................................... 107 Vamos, Querida! ..................................... 107 A uma Mártir ......................................... 108 Régio ...................................................... 108 Pelo Mar ................................................. 109 Pallida Luna ............................................ 109 A Morte de Vênus ................................... 110 Mártir da Fome ....................................... 110 Sonho de Amor ....................................... 111 A Orgia Mata a Mocidade ...................... 111 Festival ................................................... 112 Noturno (Chove, lá fora...) ...................... 112 E Ele Morreu .......................................... 113 Vaes Victis .............................................. 113 A Dor ..................................................... 114 Terra Fúnebre ......................................... 114 O sonho, a Crença e o Amor ................... 115 Meditando ............................................... 115 Para Quem Tem na Vida... ...................... 116 Soneto a Frederico Nietzche ................... 116 O Negro ................................................. 117 Vinhas trilhando gárrulo a Avenida ........ 117 O Ébrio ................................................... 118 O Canto da Coruja .................................. 118 Senectude Precoce .................................. 119 André Chénier .......................................... 119 Mystica Visio .......................................... 120 Ilusão ...................................................... 120 Nome Maldito ........................................ 121 Dolências ................................................ 121 A Lágrima ............................................... 122

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........123 Uma noite no Cairo .................................................................................................................. 184 Idealizações ............................... 203 Vênus Morta .... 142 À Mesa ......................................... 175 Barcarola ................................................................ 205 Queixas Noturnas ................................................................... 173 A Ilha de Cipango .............................. 156 Gemidos de Arte .................... 209 Poema Negro ................. 197 Quadras .......... 212 5 ........................................ 204 Viagem de um Vencido ..........................................................................................................................128 As Cismas do Destino ...................................................... 157 A Meretriz .... 176 Ave Libertas ........ 199 Tristezas de um Quarto Minguante ................................................................................................................................................................................................................. 186 Insônia ........................................................................................................................................ 180 Canto Íntimo .. 182 Canto de Agonia ............... 183 Gozo Insatisfeito ............. 179 Estrofes Sentidas ................ 183 História de Um Vencido ............................................. 155 Duas Estrofes .................................. 155 Mater ............................................................. 129 A Caridade .......................................................... 195 Numa Forja .......................................... 141 Os Doentes ....................................... 200 Mãos ......................................... 170 A Vitória do Espírito ............................. 192 Ode ao Amor ............................ 168 Noite de um Visionário ........................................................................................................... 190 Mistérios de um Fósforo ..............................................................................Outras Poesias Monólogo de uma Sombra .................. 162 Versos de Amor .......... 166 A Luva .....

1962) 6 . já que não podemos penetrar com tanta intimidade o mundo subliminal. paremos reverentes à porta do templo. é possível que se tenha conservado à distância da crítica literária. O autor revela o homem e ambos estão por inteiro em sua obra. o eu fora do Eu. A crítica literária já lhe realçou a obra em sua forma estética. esteja o poeta revelado por inteiro em todos os reflexos de sua alma. Apenas como contribuição a essa crítica de sentido mais amplo. Gráfica Ouvidor. poder conhecer a árvore pelo fruto. realçar a força de sua inteligência manifestada na originalidade do estilo e na tônica de um materialismo filosófico. Difícil tarefa é essa de querer conhecer a alma dos nossos semelhantes. contudo. segundo as síndromes patológicas revelados. em suas mensagens de angústia. Só o estudo do conjunto poderá explicar os matizes de um pensamento que tinha por norma ocultar-se em metáforas. que forjava em versos candentes a produção que depois levava ao papel. quando. senão em mais de um. acompanhá-lo na trajetória desse pensamento tumultuário. nos moldes em que se ajusta a passividade compreensiva do comum dos homens. Por conseguinte. não conhecemos sequer a nossa. Convenha-se antes de tudo que Augusto não foi um homem normal. proponho-me a interpretá-lo a partir de um ângulo até agora pouco estudado — a inquietação de sua personalidade.INTRODUÇÃO AS RAZÕES DA ANGÚSTIA DE AUGUSTO DOS ANJOS* Por Horácio de Almeida Muito se tem escrito sobre Augusto dos Anjos. no que há de mais sutil e imponderável. Deste modo. numa atitude de respeito e reflexão. Sua personalidade singular ali se projeta. isto é. RJ. penso poder levantar a ponta da cortina para melhor compreensão das suas mensagens de angústia. desejosos de. ed. Nalgum ponto. que é de todas a menos operante. na chaga viva de sua consciência. Seja como * (do livro As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos. quando não irrompia ovante para logo se perder na dúvida. A crítica metodológica do autor do Eu e Outras Poesias devia constituir o alvo desta escalada. Toda vez que o poeta se concentrava na dor que mais o cruciava. Nessa tentativa de interpretação psicológica. ao menos. Fazer o elogio do poeta. Interpretar cada verso isoladamente não é tarefa que se enquadre no plano deste trabalho. inatingível também ao bisturi dos que tentam dissecar o interior humano. já outros o fizeram com maior ou menor adequação. nesse estado de superexcitação. sobretudo pela sinceridade com que nela está fotografado. A crítica genética já lhe esvurmou a alma em busca de uma explicação para as suas anomalias psíquicas. que o não convencia de todo. e era aí. na verdade. compreendendo inclusive a estilística. Em Augusto dos Anjos não há que procurar o autor fora de sua obra. É preciso. um psicastênico para outros. pois. Não me parece. entrava em crise espiritual. Teria sido um neurótico para uns. não vejo documento mais preciso para conhecer o autor que a sua própria obra. não escapasse um pouco da minha acuidade intelectual. nos moldes da velha orientação impressionista. o que de alguma forma facilita o trabalho de interpretação.

com distúrbios os mais evidentes no seu sistema nervoso. a de Byron. estudante de medicina. Todas se angustiaram por acontecimentos imprevistos. sestros. De seu pai também não herdou as características psíquicas que o marcaram a fundo. por vezes controvertidos. Isto posto. Por seu parentesco espiritual. mas da mediocridade ajuizada que enche de presença os quadros humanos nunca ninguém viu sair obra duradoura. assim como está provada a hereditariedade dos caracteres biológicos. fobias. quando este ainda em estado de gestação sofreu uma comoção das mais fortes. não é possível interpretar a obra de um escritor. Juízo é coisa que todos julgam ter. A mãe do poeta. Byron. Explica-se deste modo. enfim. que procura dissecar a alma para ajustá-la a quadros nosológicos já catalogados e. tenho por desnecessário entrar aqui nesse campo de especulação psiquiátrica. não há negar também a dos psicológicos. E por curiosa coincidência. Assim como a mãe de Augusto. ficou desajustada da mente pelo resto da vida. o refinamento de suas faculdades morais. Sem o concurso da causa primária. tais modelos de comparação passaram também pelas mesmas crises intra-uterinas que afetaram a sensibilidade do autor do Eu. como se houvesse saído do limbo para cair na labareda.for. caracterizado por uma sensibilidade doentia. mas vale a pena ser louco quando se deixa por tal motivo um nome à admiração da posteridade. de quem o sobrinho nascituro herdaria o nome e as conseqüências do choque. a de Wilde. tiques nervosos. repetindo conceitos. por motivos vários. sofreram perturbações muito fortes na época de gestação daqueles notáveis supranormais. Ao que se sabe. sobre o seu caso clínico. de fundo genético. Pai e irmãos passavam por normais. Obviamente. O traumatismo moral que tão fundamente abalou a mãe. só ele dava a impressão de um desajustado. causada pela perda imprevista de um irmão querido. a de Leopardi. aos que perseguem riquezas ou fazem do amor o cio bestial. que nada explica. a de Nietzche. da inteligência. todo o seu temperamento emocional. jamais denotaram qualquer grau de semelhança ou relação de afinidade com a alma bizarra do poeta. A causa primária de sua desordem nervosa já é assunto conhecido. nas modalidades do caráter. Tanto isso parece verdade que seus irmãos. igualmente inteligentes. tal fato não podia deixar de refletir-se no filho em gestação. com preocupações de grandeza e fidalguia. choques emocionais. Nietzche. Nem os que nasceram antes. reduzir tudo a categorismo. que já era constitucionalmente quase louca. pelo drama que padeceu na vida intra-uterina. Oscar Wilde e outros loucos geniais ou degenerados superiores. em relação com a casuística. aos que se rebaixam para subir. a partir de Lombroso. nem os que vieram depois. no final. como é do gosto da crítica científica. na classificação dos antropologistas do século passado. sobretudo quando tal obra reflete da primeira à última página a alma do autor. enfim. sobretudo quando provém da linha materna. aos que se acomodam. menos a de Byron. do sentimento. Não se trata aqui de fazer coincidir a personalidade criadora de 7 . perturbou-a por muito tempo. Não há que imputar a Augusto a pecha de louco. Augusto não era um homem igual aos outros. além mesmo da gravidez. tem sido Augusto comparado a Leopardi.

saído da roça. reunindo a esse volume a produção posterior à edição princeps de 1912. evolvia para o evolucionismo de Speneer. ao invés de um estudante bisonho. Nada de admirar. Quando Órris o conheceu nos idos de 1900. Órris Soares confessa que só conseguiu passar no exame de latim porque se valeu do colega que o ajudou a destrinchar Horácio. Era de fato um excêntrico. em sua linha tomista. mas no final 8 . em contraste com a mocidade e a inteligência. no último ano do século passado. bradava para o conceituado mestre que o argüia. não fossem os conflitos espirituais que trazia do berço. em 1900. como uma fatalidade. a rigor. porquanto as duas já se apresentam fundidas sem a química da ajuda biográfica. logo mais. que lançou em 1919. sofreu duros reveses. para aprazimento intelectual das elites. agravados por outros que irromperam na idade perigosa. cuja vida corria sem obstáculos. mas não era somente isso. A paisagem bucólica da várzea. Com seu pai.Augusto com a sua personalidade psicológica. dr. é a vocação que já revelava para o infortúnio. Sílvio Romero. conforme disse num soneto que não consta. inspirado na natureza e no amor. Ocioso será afirmar que a metafísica ortodoxa. Muito cedo. a sua própria vida sem problemas. com o título Eu e Outras Poesias. estavam a fazer dele um lírico. Deste modo. Tão na flor da juventude e já se dizia um descrente. A doutrina positivista foi a primeira a ganhar terreno. O que há de singular nele não é. Falava nele o positivista que. Vinha-se de uma época em que a erudição nacional destilava-se da cultura européia. Augusto nasceu e se criou no engenho Pau d’Arco. era um introvertido. segundo os primeiros retratos que temos dele. em Monólogos de uma Sombra. Já em 1875. os quais o acompanhariam. do Eu. para maior complicação de sua personalidade. até o túmulo. definia mais claramente esse pensamento “como uma vocação para a Desgraça e um tropismo ancestral para o infortúnio”. sofregamente bebida nas academias. guiado apenas pela ilustração paterna. O rapazinho de 16 anos. de vez que a literatura indígena longe estava de adquirir a consciência de sua função. Alexandre dos Anjos. Coelho Rodrigues. A par disso. quando apareceu para os primeiros exames no velho Liceu Paraibano. começou a envenenar-se com o materialismo filosófico. entrou a estudar as matérias do curso de humanidades. visto ter nascido poeta. publicado no Almanaque do Estado da Paraíba. que a metafísica estava morta. o seu tipo de pássaro molhado. a quietude da vida na província. A amizade que logo nasceu da admiração foi regada mais tarde com lágrimas de saudade no elogio que fez do poeta. haurido no transformismo de Haeckel e no evolucionismo de Spencer. E para completar o esboço do auto-retrato acrescentava: “Eu hoje só vivo para a descrença”. foi logo chamando a atenção de mestres e colegas pelos conhecimentos que demonstrava. cinco anos após a sua morte. confessava-se já então “afeito às mágoas e ao tormento”. Logo mais. sem afastar-se do lar. aprendeu a ler e. Tais idéias materialistas eram a coqueluche que o século passado legara ao presente. Esse adolescente sorumbático já poetava desde os sete anos de idade. Os conhecimentos filosóficos gozavam reputação de primeira plana. numa defesa de tese na Faculdade de Direito do Recife. na várzea do Paraíba. em prefácio à segunda edição do Eu. viu nele um tipo excêntrico de pássaro molhado. como expressão do pensamento nacional.

desde Haller. aliás. Nas rodas que se faziam na Paraíba. Embora educado na religião católica. faziam praça de livres pensadores. Augusto pouco falava. que se irradiava do Recife ao sopro tempestuoso de Tobias Barreto e seus ardorosos discípulos. está sujeita também ao processo da evolução. como se desconhecesse ou procurasse desconhecer a parte subjetiva de si mesmo. irradiação natural da Escola do Recife discutia-se o problema do ser e do não-ser. um século antes de Hugo. como uma velharia do século. em seu livro Frases e Notas. Darwin e Haeckel podem ser contestados ainda hoje como panteístas pelos que seguem ao pé da letra a história bíblica da Criação. dupla feição de filósofo e de poeta. ou mesmo. Era a época da evolução do pensamento brasileiro. José Américo de Almeida. O beatério era o último reduto do catolicismo. introduziu entre nós a poesia científica. A matéria em sua essência afigurava-se-lhe tão misteriosa como a força. como toda substância animada. o queixo apoiado no cabo do guarda-chuva. suportou a mais dura crise. os intelectuais mais dotados. que Augusto dos Anjos penetrou os umbrais da tradicional escola. influenciado pelos naturalistas e evolucionistas do século. Esquisitão que era. emancipou-se dela intelectualmente. tentou o milagre de 9 . Na Paraíba. se o diabo é tão feio como o pintam. Os filósofos da natureza foram ficando para trás. Ainda na fase preparatória de estudos. o pensamento ao longe. conciliada. enquanto a metafísica do verdadeiro cristianismo continua palpitando na alma de todos os povos. O materialismo dialético dos nossos dias retrocede. isto é. que só cuidava de preocupações teológicas. Martins Júnior. a exemplo de Victor Hugo. com a evolução da matéria e do espírito. adepto do positivismo. nas concepções filosóficas de seus poemas. o rapazelho sorumbático deu asas ao pensamento nos conflitos entre a consciência e o sentimento. que. Desta forma. que ficou sem seguidores e acabou relegada pelo próprio poeta. Um que foi seu colega de estudos e morou com ele na mesma pensão em Recife. Os menos letrados. mas a origem simiesca do homem. Por todo o Nordeste. de que católico era sinônimo de burro. proceda ou não proceda. já no seu ocaso. não exclui absolutamente a hipótese da existência da alma. Foi nesse ambiente de agitação doutrinária. a ciência do Direito interessou menos ao estudante taciturno que as especulações filosóficas do materialismo naturalista. a velha Escolástica. Ao que parece. já era moda entre os renovadores o lançamento de poemas filosóficos. Desses embates. entre o mundo da forma e o mundo da razão.de contas resistiu ao choque de uma crença que condenava até a indagação anatômica e a astronomia sideral. de onde saiu formado em 1907. por ver em tudo isso hipóteses visionárias. mas a metafísica resistiu ao impacto das idéias novas. os que ainda não tinham qualquer convicção filosófica. Aliás. desde o monismo de Haeckel ao evolucionismo de Spencer. Comte passou. Toda a preocupação era combater o pensamento teológico. disse-me certa vez que só depois de formado foi que veio a conhecê-lo direito. quando ainda pontificava na Faculdade de Direito do Recife um devoto do fenomenismo agnóstico. confundidas ambas na unidade cósmica. Até no Piauí. ficava a escutar os companheiros. Laurindo Leão. segundo o depoimento de Cristino Castelo Branco. firmava-se o conceito. em sua. já lidos nos filósofos da natureza. aliás bem pouco lisonjeiro. formavam rodas para discutir o sexo dos anjos.

procedo Da escuridão do cósmico segredo. até adquirir a forma humana. todavia. Realizou de fato esse milagre em estrofações de profunda força conceptiva e de cunho tão pessoal que toda a sua produção traz a marca do autor — a eurritmia musicada dos decassílabos. mas “a solidariedade subjetiva de todas as espécies sofredoras”.. enfim. Em Bateau ivre quem fala é o barco ébrio e conta a sua derrota. Do cosmopolitismo das moneras. sempre a evoluir em movimentos rotatórios. Pólipo de recônditas reentrâncias. e vem vindo como uma monera através de milhões de anos. como amostra. Vejamos. desesperado por não poder libertar a energia intra-atômica e dominar a lei da mecânica universal. chega aos seres mais complexos. A simbiose das coisas me equilibra. na larva que procede do caos telúrico. A saúde das forças subterrâneas. Augusto compôs Monólogos de uma Sombra. simultâneas.. incomparável na forma musicada. e—crente no tema. facilmente o identifica.. E assim continua. Em minha ignota mônada. Larva do caos telúrico. numa caminhada de 31 estâncias. ora transfigurado em filósofo moderno. E a morbidez dos seres ilusórios! E por aí vai. Não há. naquela mesma idade em que. as duas primeiras estrofes dos Monólogos: Sou uma Sombra. trinta anos antes. Integrado na sociedade. ora transfigurado em sátiro vilíssimo. já desiludido. mas há casos em que a vidência poética de um é manifesta no outro. Venho de outras eras. nas duas composições uma coincidência de temas. E é de mim que decorrem. identifica-se na substância primeva. a consciência 10 . Por ela vai buscar-se no mundo informe da vida planetária. ampla. “esse mineiro doido das origens”. O aspecto conceptual do poema. Encontra-se.reduzir a um campo único a ciência e a arte. Aos 17 anos. Em Monólogos de uma Sombra é a Sombra que fala e a Sombra é o eu do poeta. Imitá-lo seria obra grosseira de pastiche. mas há paralelismo de símbolos e de força criadora. bem mostra a preocupação indagativa do poeta de penetrar a coisa em si. por força das sucessivas mutações da matéria. que passou do reino vegetal para o animal. fundado na unidade cósmica. É a sua confissão de f transformista. terso na linguagem. Quem já o leu uma vez. 186 versos. vibra A alma dos movimentos rotatórios. A partir da monera. ouvindo a citação de dois versos seus tomados ao acaso. que é a derrota da humanidade. já diferenciado na mônada. Rimbaud escrevera Bateau ivre. a ponto de mostrar seu nojo à natureza humana. como bem observa Cavalcanti Proença. poema que abre o Eu e Outras Poesias. Da substância de todas as substâncias.. Não sofre apenas a sua dor. Nessa ânsia de penetrar a vida fenomênica das formas. Não sei se Augusto leu alguma vez Rimbaud. começa então o drama crucial da consciência. depois de infinitas transformações.

Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma 11 . com sótão e porão. o que vale dizer. cuido não estar proferindo uma heresia. numa espécie de solidariedade subjetiva. centro de toda a acuidade sensorial. temos aí um transformismo metafísico. em esconderijos apropriados. Por fim. já havia dito. o remorso já acordado na caverna escura. segundo querem os frenologistas. No fundo. assombrado com o não-ser. sente-se vencido diante do seu martírio e do martírio das criaturas. sem mais compreender que prodígios são esses da monera. o sofrimento de toda a humanidade. E por que não admitir logo a alma? Se eu disser que a consciência e a inteligência têm a sua sede no espírito. força será admitir um agente oculto capaz de operar o fenômeno. no entanto. No tocante à transformação da matéria. noção trivialíssima das funções orgânicas. que tinha os ouvidos totalmente tapados. respondeu-me que por todo o casco da cabeça. como está dito em Monólogos de uma Sombra. que a ele não interessava considerar. ouvia mais que um tísico. Quando a matéria transmigra acompanhada de um elemento hereditário que memoniza o instinto da espécie através das gerações. que faz quase lembrar a reencarnação. Nada obstante. chamando a si. Por alma. dezenove séculos antes. E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva! Bem examinada a questão. Eis que assim se expressa em Os Doentes: A vida vem do éter que se condensa. no princípio era a força. uma espécie de fogo que devora e não consome. A rigor. embora intelectualmente convencido da teoria racionalista. a forma para ele era a manifestação passageira da matéria em seus processos evolutivos.No princípio era o Verbo. natural de minha terra. A mesma coisa. o vidente de Patmos: . há que distinguir um pormenor. Augusto nunca deixou de ser um metafísico no sentido religioso da palavra. conheci um sujeito. onde impera a força que responde pelo movimento ubiqüitário da massa. manifestou o seu espanto.conspurcada de gozo malsão. Para os que negam o espírito há muitos fenômenos que ficam sem explicação. posto que falasse às vezes em alma divina e em Deus de amor e de bondade. as conchas das orelhas rasas como a palma da mão e. Todo mundo sabe que é pelo ouvido que se ouve. segundo a qual a matéria e o espírito se unificam numa só substância. sente o remorso a queimar-lhe a consciência. tantas vezes exaltada pelo poeta. do ponto de vista metafísico. entendia o agregado abstrato da saudade. A partir dai. dentro do mundo fenomenal. Nesse estado d’alma. diante das maravilhas do aparelho encefálico. entrega-se ao sacrifício. Isso não impede que o espírito seja o agente atuante de tão prodigiosa membrana. Perguntei-lhe um dia por onde entrava o som. É a concepção monística. O próprio Augusto. Vemos o poeta a adquirir a forma humana e a degradar-se em seguida num gozo efêmero de dolorosas conseqüências. Sabemos que a consciência tem a sua morada no cérebro.

servindo de pasto a uma civilização corrompida. Profundissimamente hipocondríaco. A influência má dos signos do zodíaco. procura penetrar o mistério da substância universal. E há-de deixar-me apenas os cabelos. Custa crer que este soneto . Em sua alma atormentada as superexcitações provocam visões aterradoras. Este ambiente me causa repugnância.. solta blasfêmias.Psicologia de um Vencido . Que o sangue podre das carnificinas Come e à vida em geral declara guerra. O mundo em que vive é um vasto hospital. Sobe-me à boca uma ânsia igual à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. só serviu para adensar o clima de alucinação. Na frialdade inorgânica da terra! Assombrado com o futuro. desde a epigênese da infância. admite o éter. rasgar do mundo o velário espêsso. Mas como é preciso preencher um claro na consciência. faz perguntas ao destino: “Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?” E nesse duelo da matéria com o espírito perturba-se. onde imperam sombras. causa-lhe repugnância. na melhor das suposições.. firmava-se no presente a flagelar-se na ciência racionalista. onde não há lugar para a alegria. Querendo fugir a essas coisas. o lado malsão da vida. Augusto falava como um homem que já perdeu o ideal da vida. perscrutar a fenomenalidade da energia a erguer da prisão milenária outras espécies que hão de vir. Na idade em que os encantos do mundo douram a existência. Ao invés de fecundação do espírito. um mundo de fantasmas errantes que não adquiriram ainda a consciência de sua dor. inconformado com a idéia de ser um dia roído pelos vermes. Os tormentos mortais da alma crescem com a descrença. sem problemas materiais: Eu.tenha sido escrito por um adolescente para quem o cotidiano devia correr. vermes. dominado por um ceticismo acabrunhador. Exausto da luta. que é o Deus materialista de Haeckel.este operário das ruínas. Monstro de escuridão e rutilância. Nem por isso admite Deus. uma natureza gasta. o éter cósmico. que era o pior dos remédios para a sua alma inquieta. filho do carbono e do amoníaco. fonte inesgotável de vida. a matéria putrefata. Já o verme . O próprio amor. Sofro. No auge da inquietação.Fazer a luz do cérebro que pensa. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. cadáveres e bocas necrófagas. procura 12 . Por toda parte. Essa saturação filosófica fez-lhe um grande mal. impreca. mas “diante da sombra do mistério eterno” considera-se vencido. Em tudo.

a terrível moléstia que se atribui. não há homem que sofra mais. Com efeito. no todo ou em parte. há muitos anos desapareceram! Nesta temática vai longe. tenta ir ao fundo da crença monística. Um inocente metido na prisão talvez se revoltasse menos que ele no ergástulo da carne. para não desmoronar a fortaleza de suas convicções filosóficas. Até agora 13 . como se já tivesse despido a carcaça da matéria. pois que precisaria a tinta de todos os tormentos do homem. como se o infortúnio tivesse desabado sobre a sua cabeça. paralelamente. coberto de desgraças. podia exercer influência no temperamento sensível do poeta. Espera aí encontrar o seu nirvana. que exulta triunfante: Gozo o prazer. Mas o diabo não larga a sua presa. que ele denomina um sonho ladrão. Antes de mais nada. com o poder de sua imaginação.. Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer. numa atitude mental de fuga à realidade. na vã expectativa de que seu ego o deixe em sossego. de subverter-se no grande todo e fazer da parte abstrata do universo a sua morada equilibrada e firme.refúgio na inexistência espiritual. monstros terríveis. seria capaz de executar o quadro de suas aflições. nem Haeckel compreenderam. O subconsciente o aturde. E é nesta manumissão schopenhauriana. E de onde vem essa dor? É possível que tenha a explicá-la um concurso de causas. O niilismo esvaziava-lhe a alma da mesma forma que o cientificismo materialista. Por um instante.. deve ter acontecido na sua juventude. supõe-se integrado na imanência da idéia soberana. evadido de si mesmo. Falava como um homem que parecia ter a consciência carregada de remorsos. E via em mim. sente o desejo. A julgar pelos seus gemidos. Nenhum pintor. O resultado de bilhões de raças Que. mas não me parece bastante para torná-lo um desgraçado. que os anos não carcomem. gasta imensas energias e enche de culminâncias. Grita a sua dor por toda parte e. diz ele. já cansado de escutar a natureza. a perda da crença e. em suas visões oníricas. Onde quer que se refugie. acompanham-no. não é demais supor a existência de algum motivo oculto capaz de levá-lo ao desespero. podia fazer dele um triste. Algo de mais grave. Há. E para não capitular a esse apelo. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das idéias! Mas de novo se encontra em face do nada. com efeito. leve-se em conta a deformação de uma sensibilidade que vinha do berço e o predispunha ao desequilíbrio das sensações entre o eu e o mundo externo. uma desgraça na vida do poeta. como se supunha. Mas há dentro dele qualquer coisa que o chama à realidade. Tudo isso. Depois disso. o Eu e Outras Poesias.

inútil seria qualquer esforço.A Ilha de Cipango alude a uma felicidade perdida. é que deve começar o trabalho de pesquisa para a verdadeira interpretação psicológica do autor. não tenho dúvidas em afirmar que foi o drama do amor. Iríamos a um país de eternas pazes. Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. Por mais que procure fugir ao assunto.. coberto de desgraças Mas veio o vento que a Desgraça espalha Para iludir minha desgraça estudo. Mas o seu eu está projetado na obra e nestas condições não preciso de outro elemento identificador para firmeza do valor interpretativo que neste trabalho tenho a intenção de destacar. Por enquanto. de uma paixão. não pode ocultar que foi vítima dele. sempre se revela. Gozei numa hora séculos de afagos. Mesmo que quisesse recorrer a essa fonte para uma boa exegese literária.esse seu sofrimento tem sido considerado puramente abstrato. Lembro-me bem. no capítulo do amor. Banhei-me na água de risonhos lagos E finalmente me cobri de flores. no tocante a esse drama. que é o drama mais doloroso de sua consciência. Minha desgraça há de ficar sozinha! E que desgraça foi essa que o fez ficar assim tão sombrio? Convém que ele mesmo conte a sua história. Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E via em mim. Por mais que Augusto negue o amor. Exatamente aí. não vejo maior necessidade de conhecer a biografia de Augusto dos Anjos para bem interpretar a sua obra. Trata-se. Mas é ele próprio quem está a falar continuamente numa desgraça. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. . pois. dada a ausência de biografia. Por suas próprias palavras. depois de haver conhecido os inefáveis afagos do amor. A dificuldade está em conhecer o valor dos símbolos e em seguida decifrar as alegorias. Ele próprio. cujo desfecho infeliz teria abalado convulsivamente sua personalidade carente de equilíbrio... Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrio! Um penetrante e corrosivo frio 14 . desespero virtual e não real. em .

Anestesiou-me a sensibilidade. E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. A tarde morre. Passa o seu enterro. . A luz descreve ziguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos!

Até aqui, apenas um lampejo, mas o bastante para mostrar que foi por causa de um amor desventurado que se fez assim tão sombrio. Onde deixa vislumbrar um pouco mais de claridade é neste outro quadro - A Árvore da Serra:
As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice calma! — Meu pai, porque sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs alma nos cedros... no junquilho... Esta árvore, meu pai, possui minha alma!... Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa: “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!” E quando a árvore, olhando a pátria serra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra!

Numa e noutra composição, como se vê, o assunto é tratado em linguagem hermética. Aliás, o uso de metáfora é freqüente nele, mais ainda quando alude ao drama da consciência. Um corte transversal nas duas composições - A Ilha de Cipango e A Arvore da Serra - entremostra a desventura amorosa. A cena teria se passado no engenho Pau D’Arco, residência do poeta. O moço triste era ele, e a namorada, a árvore da serra, que possuía a sua alma. A bem amada já havia cedido o seu amor ao poeta, como adiante veremos. Por ser uma jovem de condição humilde, um junquilho entre cedros, o pai austero, orgulhoso de sua estirpe ou premido pela família, determinou ou concordou tirar para sempre da presença do filho aquela flor silvestre, que o tinha preso aos seus encantos, crendo que, com o desaparecimento do empecilho, pudesse ter uma velhice calma.

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Para melhor compreensão do drama, convém apanhar o pensamento do poeta na parte em que as duas composições esboçam de leve o quadro: - “Gozei numa hora séculos de afagos,/’ Banhei-me na água de risonhos lagos,/ E finalmente me cobri de flores ... / Mas veio o vento que a Desgraça espalha”/ “Esta árvore, meu pai, possui minha alma!” ‘ / “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”/ “Foi sobre esta ilha que extingui meu sonho!”/ Desde então para cá fiquei sombrio!/ Um penetrante e corrosivo frio/ Anestesiou-me a sensibilidade.”// “Invoco os Deuses salvadores do erro./ A tarde morre. Passa o seu enterro!”// “Pela estrada feral dois realejos/’ Estão chorando meus amores mortos!”./ “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/ Caiu aos golpes do machado bronco,/ O moço triste se abraçou com o tronco/ E nunca mais se levantou da terra!” Seus versos deixam transparecer que houve violência. Mais de uma vez fala o poeta em golpes: - “E a grandes golpes arrancou as raízes/’ Que prendiam meus dias infelizes/ A um sonho antigo de felicidade!” / / “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/i/ Caiu aos golpes do machado bronco”/... A moça, ao que parece, era natural do brejo ou do sertão lugares que ficam sobre a Serra da Borborema, cujos contornos, na faixa do horizonte, se avistam da várzea do Paraíba, pois de outra forma não há sentido para o verso que diz: “E quando a árvore, olhando a pátria serra”... Se aprofundarmos um pouco mais a indagação, vamos encontrar retalhos desse episódio em quase todas as composições do Eu. A coisa tem começo em Monólogos de uma Sombra, quando o poeta, em seu primeiro exame de consciência, já mordido pelo remorso, acusa o sátiro que ele foi.
As alucinações táteis pululam. Sente que megatérios o estrangulam; A asa negra das moscas o horroriza. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa!

A seguir, em As Cismas do Destino, descreve o segundo ato da tragédia:
Fetos magros, ainda na placenta, Estendiam-me as mãos rudimentares! Ah! Com certeza, Deus me castigava! Por toda a parte, como um réu confesso, Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo, me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Não sei porque me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança

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E um pedaço de víscera escarlate. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse, E até o fim, cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória.

O terceiro ato da cena, constante do mesmo poema, é de revolta contra os seus, os que, cansados de viver na paz de Buda ou inflamados de preconceitos de nobreza, se encheram de humano orgulho, e quais guerreiros priscos contra uma imbele criatura que ao amor se rendera, entraram em conserto para a consumação da tragédia. Assim fala o poeta:
Todos os personagens da tragédia, Cansados de viver na paz de Buda, Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psico-plasma Humano sofre na mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, A morte desgraçada dos açougues... Tudo isso que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra!

E ao terminar o poema, no qual pôs toda a sua amargura, o peito arfando de impotente indignação, solta esse brado de desespero:
Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psiquê no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo!

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Como quem afasta de si a visão terrível de um drama macabro, guarda-se o poeta, mui cautelosamente, de descobrir o motivo cruciante do seu trabalho poético, deixando, entretanto, a perceber, em cada símbolo, em cada imagem de sentimentos dissimulados, um fragmento da realidade que abrasava o seu mundo interior. Sofre realmente e sofre mais porque a dor que se dissimula não estanca, principalmente quando falta ao paciente resignação cristã ou conformidade filosófica. A obsessão do sangue vai até o fim. Alma agoniada por tormentos mil, anda gemendo pelas estradas solitárias, perseguida por visões alucinadoras. Numa de suas últimas composições, ainda atormentado pelo monocromatismo monstruoso da universal vermelhidão, assim recorda o passado sombrio:
No inferno da visão alucinada, Viu montanhas de sangue enchendo a estrada, Viu vísceras vermelhas pelo chão...

Ele guarda para todo o sempre o pesar do golpe sofrido. Ora irrompe em forma de protesto, ora de arrependimento pela culpa que lhe cabe. A consciência inquietada pelo remorso é aquele morcego do seu soneto, que à noite entra imperceptivelmente em seu quarto. Seu coração ficou um deserto. Nem mais amor a Deus, nem mais amor à humanidade, nem mais amor à mulher. Ao coração devastado a alegria nunca mais voltou. Vive somente para a sua dor. Poder, riquezas, glórias terrenas, são coisas que despreza. Em sua musa, o amor não terá mais lugar, nem mesmo como tema de glorificação poética. Causa-lhe até repugnância. Explica-se desse modo a deficiência cromática de seus versos. Só na cor do sangue às vezes se manifesta. Em toda a sua poesia, a paisagem do Pau D’Arco se converte em cenário triste e repugnante. Com referência a esse cenário, diz ele em Psicologia de um Vencido: “Este ambiente me causa repugnância...” Alguns críticos tomaram o impropério como dirigido à sociedade da Paraíba. Do Pau D’Arco, ressalva apenas o velho Tamarindo, a árvore da perpétua maravilha, a cuja sombra amou e chorou. Varado de dor — continua amando em espírito, um amor etéreo, que está fora da carne e não tem mais sentido com o coração. Eis que assim se manifesta: Porque o amor, tal como eu o estou amando, É espírito, é éter, é substância fluida, É assim como o ar que a gente pega e cuida, Cuida, entretanto, não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes, imponderabilíssima e impalpável, Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! O fato em si é de todo interesse para a interpretação da obra original de Augusto. Já os detalhes do fato são sobras que ficarão reservadas ao investigador biográfico, que infelizmente ainda não apareceu. Em Augusto dos Anjos o que mais interessa é a biografia do poeta. Erro será querer julgá-lo como prosador, fora da área da poesia, como tem sido estranhamente fariscado por alguns críticos. Na prosa, era, de fato, rebarbativo, como de refinado mau gosto também foi, na prosa, o genial cantor dos Lusíadas. Apenas como um desafio ao futuro biógrafo, seria curioso saber como se chamava a moça que Augusto metamorfoseou na árvore da serra. Essa curiosidade vem a propósito do nome de uma 18

Noite. surpreende com a invocação de Santa Francisca. O poeta. Como um bemol ou como um sustenido. Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. Sonâmbulo. que não é das mais invocadas. Sonâmbulo.. eu também vou passando Sonâmbulo. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim.santa. contrito. como é sabido. como em . Em cujo olhar o vício não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. E invejo o sofrimento desta Santa.extravasava desta forma o seu lamento: 19 . confessa mais uma vez a sua culpa.Insônia . Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Porque cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. Porque não evitei o precipício Estrangulando a minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! De outras vezes. em mágoa..referindo-se certamente ao espectro de sua desventurada amada. mas no poema .. nunca foi chegado a santos.Queixas Noturnas . Rola impetuosa por meu peito a dentro?! Porque é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ao mapa-mundi estranha. Depois de embebedado deste vinho... ao mesmo tempo que.. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido.

Ao pai. A projeção da imagem materna esvaneceu-se por certo como símbolo da mais freqüente e sublimada veneração. Nem uma névoa no estrelado véu. ama-o até mesmo na atômica desordem.. ando! Bati nas pedras de um tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza a minha única saúde! Curioso é que o egoísmo de uma dor sem fim não lhe fez perder o amor ao pai. o ofício da agonia. E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. pouco fala. não para ele. como referiu vagamente em As Cismas do Destino. que parece se deixou levar por pressão da família. entretanto. Ao vê-lo morto. sem resolver a verdade interior. isso mesmo sem revelar um mínimo de afeto. Talvez visse nela uma criatura transtornada pela “mania mística”. Toda a crença monística em que procura consolo não lhe explica à satisfação o fenômeno da vida.brada: 20 . De nada valia para um espírito inquietante como o seu uma filosofia que arma o seu sistema à margem da vida. como perseguido pela sinistra ceifeira. apenas três vezes. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. Rezo. Como Elias. luta por fugir dela. Mãe. A morte é o fim de tudo. em que a piedade do sentimento se sublima na tessitura da composição. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. dormir primeiro.As Cismas do Destino . expressa a sua mágoa numa comovente unção. Minha alma sai agoniada. A satisfação que buscava nos conhecimentos filosóficos só lhe faz aumentar a sede de infinito.Quem foi que viu minha Dor chorando? Saio. que não admite a vida espiritual. entre estes monstros. Da mãe. sonhando. num carro azul de glórias. entre as estrelas flóreas. Em . quando a morte o olhar lhe vidra.. Madrugada de treze de janeiro. mas para os que crêem há ainda uma esperança. cuidei que ele dormia E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o!” deixa-o. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. E porque a visão da morte não o deixa em sossego. Mas pareceu-me.

Morte. em Alucinação à Beira Mar: “Um medo de morrer meus pés esfriava”. Já que não crê em Deus. Impressionado sem cessar com a morte E sentindo o que um lázaro não sente.. desabafando-se nestes termos contra a natureza: Tu não és minha mãe. Procura assim desoprimir o coração. as palavras também servem para ocultar o pensamento. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Presumivelmente. 22 anos de idade. Meu raciocínio enorme te condena! E num horror quase pânico exclama. tanto que nos conflitos entre a inteligência e o sentimento tomava o partido do intelectualismo. ponto final da última cena. Por tua causa apodreci nas cruzes. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. Aqui. Minha filosofia te repele.. levava-o a recolher-se em si mesmo. embora ansiasse por encontrá-lo. cheio de imperfeições. quando recebeu os 22 açoites da natureza. ilustre membro da Academia Paraibana de Letras. O remédio que então buscava para as suas mágoas era o pior dos excitantes. Vivia um mundo à parte. O sentimento profundo de dor e de descrença afastava-o da realidade. ardendo em indagações subjectivas. habitado por monstros humanos. Forma difusa da matéria imbele. que Augusto era um cerebral. E ainda. como em toda a obra. que só faziam aumentar a sua ânsia de infinito. Ao invés de ajustá-lo à realidade. em A Ilha de Cipango: Tenho alucinações de toda a sorte.. não cria em Deus. Essa visão shakespeariana das espadas cruzando o espaço tanto pode ser a perseguição da morte como o trágico fim da sua amada. devia ter na época. alguém há de responder pelos sucessos infelizes do seu destino. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas Atravessando os ares bruscamente. Acha Flósculo da Nóbrega. Nestas condições. escravo do raciocínio frio. pois estava certo que nem Deus compreendia os seus soluços. E porque não se acalmava? Faltava-lhe fé. em cujas entranhas um feto magro estendia-lhe as mãos rudimentares. Não me parece tenha razão 21 . é natural que se mostre rebelado contra a natureza. desesperado por não encontrar solução no raciocínio frio e racionalista. Nada o consolava nesse estado de espírito..

um homem excluído do mundo. que o 22 . ao redor da capela do engenho. nunca recebeu hostilidades. contudo. Um tuberculoso pode sucumbir a outro evento que lhe antecipe o fim. que só repugnância lhe causava. Punha-se então a passear. Depois que o poeta deixou a Paraíba. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. o que ele via realmente era o ambiente do engenho Pau D’Arco. como um sonâmbulo. no caso. mas no particular. que o acolhia com carinho. Suas percepções sensoriais estão sempre em conflito com as atividades especulativas do espírito. teria Augusto encontrado satisfação na filosofia. Os seus melhores versos. o cérebro em fogo. O que produziu no sul do País. Tomado de tensão nervosa pela repugnância que lhe causava o ambiente. noite a dentro. sua musa empalideceu à falta de ambiente. No fundo. em 1912. O mundo que o fazia sofrer não era de certo o da sociedade paraibana. os de maior densidade emocional. Fosse como ele diz. não viveria atormentado com os mitos que o afastavam da realidade. mas porque se sente um desajustado. Na luta em que Augusto se debate. Já é tempo de desfazer um equivoco que de tão repetido vai criando raízes. Ao contemplar esse ambiente. Em agravo da tortura moral que não cessa de persegui-lo. via na sociedade a representação da humanidade sofredora. na vertigem: Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. ao contrário. Mas ninguém tinha culpa de ser ele um incompreendido. Não importa que tenha morrido de pneumonia. um cuidado muito discreto da família em negar a tuberculose. além de pouco. entrava em crise espiritual. destoa em força emocional do que produzira em sua terra natal. andar bamboleante. conforme ouvi de Alcides Carneiro que ouvira dos seus íntimos.o ilustre intelectual paraibano. excetuado da segunda parte do Eu e Outras Poesias o grande soneto O Lamento das Coisas. em Poema Negro: A passagem dos séculos me assombra. Nem ele próprio se conhecia. torturado no sentimento do desamparo. podia ter alguma razão para queixar-se da sociedade. que não se sabe se foi escrito na Paraíba ou no sul. De um modo geral. de vez que ninguém o compreendia. Em reforço desse argumento temos uma prova no próprio Eu. Há. passos largos. As suas relações com a sociedade parecem rompidas. toda a mágoa do seu espírito vem à tona. condenado a expectorar os pulmões dilacerados. Surgem daí as freqüentes inflexões mentais e os distúrbios emocionais de fundo neurótico. Era ali que ele sentia bulir na alma o drama de sua existência. conforme declarou nesta honesta confissão. Desta. A inspiração despertava com a dor. não se deixaria possuir pelo demônio da dúvida. Era. e a mim pergunto. foram produzidos no Pau D’Arco. volta-se vez por outra contra a sociedade. um espiritualista em eterna briga com o racionalismo. tinha-se na conta de um doente. Não que tenha recebido ofensas dela.

ansiado e contrafeito. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! Mais tarde. entra a descrever a cidade dos lázaros. Mais adiante. fez dele um misantropo. 23 . sob os seus pés. “na urbe natal do Desconsolo”. Em As Cismas do Destino. A tragédia espiritual de Augusto começou desde que extinguiu seu sonho de amor sobre a Ilha de Cipango. Lá para o fim do poema. pois. jamais preenchido pelo cientificismo materialista. tudo isso ele pincelou num quadro que é uma jóia de rara beleza. os acordes saudosos do coração.próprio poeta confessava. Na ascensão barométrica da calma. a imagem dos sonhos remotos que ele quebrara com o furor de um iconoclasta. atormenta-se com a idéia de que. Essa real ou imaginária doença. depois de exclamar que sua angústia feroz não tinha nome. passa a chorar a sua dor e a alheia. que admirar chore um dia a crença perdida. levado pela lembrança terna de um mundo cheio de encantos e maravilhas. eis que escuta. na terra onde pisava. onde os anjos cantavam. deixa escapar este triste lamento: O inventário do que eu já tinha sido Espantava. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. num desalento ainda maior. Era ali. Já cansado do ceticismo. Depois disso. Parece que desperta para a vida. confessa-se minado pela tuberculose. despedaçando as imagens dos próprios sonhos. numa emoção que comove. imaginária cidade à margem do Paraíba. como ele chamava. De início. aliada à descrença. à guisa de ácido resíduo. Mas ninguém pode furtar-se às impressões da infância. Esse retorno do pensamento aos dias tranqüilos do passado. como se já tivesse perdido o alento de viver. em serenata. perdeu também a crença. em Os Doentes. Não há. Foi a partir dai que entrou a sentir o vazio de sua alma. na qual os doentes consagravam a sua última fonética a uma recitação de misereres. hosanas ao Senhor. Perdido o amor. como um arrependido. Eu bem sabia. o soneto Vandalismo. havia “um fígado doente que sangrava e uma garganta de órfã que gemia”. assim principia o soneto Apóstrofe à Carne: “Quando eu pego nas carnes do meu rosto/’ Pressinto o fim da orgânica batalha”. que pode figurar sem favor entre os melhores da língua. a arremetida que deu depois contra esses tesouros do coração. que os enfermos se reuniam pela camaradagem da moléstia. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minha alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava.

mas dar opinião atabalhoada a respeito daquilo que não chegou a ser entendido muda de figura. muitas opiniões foram veiculadas. disse que Augusto agarrava a musa e saía com ela a passear pelos recônditos da diluição biológica. a outros poderá parecer insípido ou fastidioso. cada leitor tem o direito de sentir o autor a seu modo. Não era espremendo o cérebro como muitos que se apagam antes de morrer. Como os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. em serenatas. chegou a dizer que Augusto não era poeta. Para só mencionar os intelectuais paraibanos que se pronunciaram sobre Augusto dos Anjos. pois. tanto sobre a obra como sobre a personalidade do autor. que não é biografia e não chega a ser estudo. Não é. posto que. José Américo de Almeida. A arte. de admirar que ao lado de conceitos da mais justa penetração girem outros que espantam pela desconformidade.. quase todos. Enfim. Álvaro de Carvalho. apenas como autor de um livro apologético. Ao contrário da incontinente afirmativa. destaco Órris Soares. na Academia Paraibana de Letras. gostar e não gostar é coisa que se não discute. a musa é que tomava o poeta de assalto nos momentos de suas lucubrações. Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. Nesse decurso. para ele. Assim é que. em gemidos de dor. Templos de priscas e longínquas datas. ler. Santos Neto. Sabe-se como compunha. este último. João Lélis. já na 27ª edição. reconhecendo nele apenas o mérito de artista do verso. Raul Machado. continua despertando o mesmo interesse dos primeiros tempos. que se afundava a alma do poeta. num discurso de recepção a Flóscolo da Nóbrega. quando a aflição interior explodia em chamas 24 . Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! Caminha para cinqüenta anos que Augusto dos Anjos morreu.Meu coração tem catedrais imensas. No final de contas. Canta a aleluia virginal das crenças. há sempre o que referir. Sua obra. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. Dos outros. João Lélis e De Castro e Silva. era apenas o meio de formular soluções. Flóscolo da Nóbrega. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas. ao aludir com desdenhoso apreço aos motivos abjetos que abundam no Eu e Outras Poesias. O que a uns desperta atenção e convida mesmo a uma meditação mais séria. Negou-lhe peremptoriamente as qualidades de poeta. por exemplo. No desespero dos iconoclastas.. tenham bordejado na superfície do abismo em. Onde um nume de amor.

lá fora. Augusto foi um torturado da idéia a serviço de um estro estrepitoso. Por tudo isso. que pretende ser de interpretação psicológica. insulado em sua própria grandeza. reside justamente no termo técnico. que só deu pela presença do amigo depois de concluído o trabalho mental. o que acabava de compor. seu colega de turma e companheiro de estudos desde a fase preparatória. por ver em tais composições a podridão enroupada em jargão científico ou jargão clínico. tem as suas raízes no caráter polêmico da crítica passadista. Jamais foi o leit-motiv de sua produção intelectual. enquanto forjava mentalmente a composição. Euclides da Cunha. Poe e Rimbaud. entrava disciplinada em seus versos. Essa crítica. figuras espectrais e outras visões sinistras. Bilac pode ter sido um lapidário da forma. certa preocupação inclusive dos simbolistas. lábios crispados. Álvaro de Carvalho escreveu dois estudos sobre Augusto dos Anjos. Em ter ficado sozinho. olhar perdido no espaço. o ilustre escritor paraibano opõe embargos ao poeta. Essa incompreensão a respeito de Augusto. em 1945. Escrevia numa linguagem difícil porque era esse o seu estilo. Repugna-lhe o fartum que diz emanar do Eu e Outras Poesias. entre nós. nem o gosto se levava em conta quando prevalecia a prevenção pessoal ou quando se pretendia alcançar fama com a marreta da demolição. Não importa que Augusto tenha ficado sem seguidores. à margem das correntes estéticas do pensamento literário. num timbre especial de voz. Neles. Só depois de elaborada é que ia para o papel. claro que avulta ainda mais o seu mérito. vermes. com efeito. Os que o conheceram de perto descrevem-no de andar banzeiro. Seus versos. a sua personalidade psicológica. Em ambos. o sentimento parece ter outra dimensão. Cavalcanti Proença. já pelo cientificismo que tem por incompatível com a linguagem poética. Os versos espoucavam no momento da inspiração. Muitas vezes. de um a outro canto da sala. mas quem os lê e os medita tem a impressão de que foram cavoucados na rocha. Anoja-se o crítico diante de cadáveres. No entanto. o que era. associado à vibração sonora. Foi então que recitou de inopino. duendes. essa linguagem. sangue de vísceras dilaceradas. à primeira vista incompatível com a poesia. escarros. também 25 . impressionam pelo poder da dialética. essa repulsa idiossincrásica que compromete o crítico antes de atingir o alvo. surpreendeu-o num desses partos sem dor e tão absorto divagava o poeta.devoradoras. tem a prejudicá-la a idiossincrasia literária que afasta cada vez mais o retratista do retratado. na época. o outro 25 anos depois. já por sua tendência malsã de ver as coisas pelo lado abjeto. como lamenta o crítico. disse que uma das suas forças. um em 1920. túmulos. segundo a classificação que adota de Agripino Grieco. cujos adeptos se apraziam em demolir toda vez que a obra visada não estava na conformidade do seu gosto. Órris Soares. sobretudo da crítica provinciana. a passear a esmo. A virtuosidade ganha valor na opulência da expressão verbal. que não tenha fecundado a poesia nacional. a densidade. afirma e reafirma que o Eu ficou como planta exótica. em excelente estudo sobre o artesanato na poesia de Augusto dos Anjos. este na prosa. como em compasso de música.

Sua obra está aí mesmo a desafiar a argúcia dos mais entendidos. que apenas transparece em linguagem evasiva. numa revolta do espírito que vai aos extremos da blasfêmia. Até mesmo quando desce ao abominável das podridões tumulares cintila em fulgurações de gênio. na interpretação de um drama emocional. com efeito. aparelhou. ninguém lhes nega a grandeza de gigantes. pela bizarria do estro e pelo gosto malsão de impregnar a poesia com o almíscar das coisas abjetas. Não pode o critico ser ortodoxo.ficaram sem seguidores. Se há fartum de diluição biológica na poesia de Augusto. Com Verlaine. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto. O autor é o que é e não o que o crítico quer que ele: seja. na impotência de estabelecer relação entre o mundo visível e o invisível. Mas é preciso notar que essa musa. Foi exatamente com esse título — Poeta do Hediondo — que ele. por isso mesmo poética. num dos seus últimos sonetos. deu resposta por antecipação aos reparos dos seus futuros críticos. é mais uma aversão de olfato alérgico. mesmo doentia. Eis porque. 26 . Ou então. o que forma em seu conjunto a harmonia orgânica de toda a obra poética do consagrado artista paraibano. Por suas excentricidades e afinidades outras de ordem espiritual. a fim de atingir. Admita-se que a musa de Augusto tenha algo de doentio. como se vê. O próprio Augusto tinha a consciência de que ia ficar sozinho e que era o poeta do hediondo. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Tenho por desnecessário dizer que uma interpretação psicológica de Augusto. de sentido mais profundo. reconheça-se que essa poesia é humana. Augusto tem sido comparado aos mais altos padrões da corrente estética do pensamento. pelas crises espirituais porque ambos passaram. Com Baudelaire. Da vasta literatura que já se produziu sobre Augusto dos Anjos. juízos despropositados de quem roça pelo assunto sem penetrar o recôndito da dor possessiva que tanto sublimava o poeta. Note-se mais que a esse vigor casa-se uma virtude de efeitos encantatórios. elogios ou restrições. no duelo da carne. neste ensaio de exegese literária. não lhe tira o vigor da expressão verbal. Absurdo é querer sujeitar a literatura aos padrões em voga. Há. Com Mallarmé. nem tudo pode ter cabimento. O anojamento de Álvaro de Carvalho. está em tempo de ser feita. tenho por objetivo abrir aos estudiosos uma clareira que os conduza ao fundo da obra. como se definiu neste quarteto de Minha Finalidade: Pré-determinação imprescritível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. pela tristeza indefinível da alma. Nem por isso. manifestada em poemas impressionistas de aguda sensação.

crematismos. a idéia pura das coisas. Vez por outra. em grupos prosternados. um mês após a morte de Augusto. guardando o corpo do Divino Mestre. como se fosse uma convicção firmada e firmada com ênfase. Com Antero do Quental.. Só com Rimbaud. Honesto em tudo. para a neologia e o vocábulo raro. Encontra-se. De lá de fora. Com Leopardi. ambos procuram traduzir a sensação das coisas inanimadas. É. posto que as coisas que tinha a dizer exigiam. em quem se acumulam. num artigo publicado em 1914. Veja-se como se pronuncia a respeito do assunto: Falas de amor. “Na Eternidade. Dentro da Igreja de São Pedro o silêncio só é quebrado pelo vento que entoa cânticos de morte. assentado sobre cacos de pote e urtigas. Também no amor os dois se assemelham. visionário.” Então desperta como de um pesadelo e com os olhos ainda ensanguentados da vigília sente a tristeza de ver mais uma vez como a sua vida é tão vazia. temida pelo outro. Augusto lembra Rimbaud. Curioso é que fez a citação ‘unicamente para dizer que nenhuma parecença encontrara entre com emprego de termos técnicos. pela tortura do espírito e pela constância do tema da morte. Segundo Delahaye. que cultivava em sua sensibilidade enfermiça. havia acentuada tendência do poeta. Em outros lances de sua obra manifesta o mesmo desdém. por sua natureza. foi José Américo de Almeida. na terra santa. de mistura com alucinações. sensações simples e cenestesias. O triste espetáculo do seu século leva Rimbaud a um passado remoto. de uma honestidade quase bravia. como quem deriva o pensamento para o lado oposto da imagem triste que o assedia. desde a sua fase inicial. que dialoga com os elementos imponderáveis. quando a cristandade parecia pura sobre a terra. vem o barulho das matracas. os mesmos descuidos de metro e rima. O único que mencionou Rimbaud. pelo sentido da dor universal. A mesma coisa ocorre com Augusto. numa sexta-feira santa. usando símbolos e valores que convergem para o fim colimado. isso mesmo de passagem.. só nesse ponto dissimula o pensamento. as mesmas figuras de linguagem. e é com veneração religiosa que vê os soldados do Vaticano. Até nas aliterações e metáforas. na postura de um campônio rústico. em tropos ousados. desejada por um. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. as mesmas despreocupações do rebuscado pour épater le bourgeois. Não fica apenas aí o confronto. em termos de comparação. e eu ouço tudo e calo! O amor na Humanidade é uma mentira. Nos transportes espirituais os dois correm parelha. no ar de minha terra. Ouvindo isso. a filosofia da dor. os ventos gemedores estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na Serra da Borborema. ao pé de um muro carcomido pelo tempo. nunca nenhum dos seus críticos traçou o paralelo. Augusto tem as suas razões para desdenhar o amor. palavras raras e eruditas. citado por Augusto Meyer. um grande medo toma conta do poeta. Súbito. como neste exemplo: 27 .através da sensação. encontra-se em Roma.

Ao invés de aceitá-la como resultante de seu egocentrismo. Nem há mulher talvez capaz de amar-me. à beira da água. Depois desse fato. onde se casou com uma nativa da Abissínia. tendo culminado com aquele célebre tiro que recebeu de Verlaine. . Em cada um deles.. é como a cana azeda. A violência do veneno que ingeriu muito cedo nas fontes materialistas fá-lo morrer de sede. ilusão treda! O amor. filha legítima de sua alma. Motivos escabrosos. que é talvez o drama mais crucial de suas consciências. chupo-a. sente-se que há um complexo de culpa. Augusto e Rimbaud negam sistematicamente o amor. mas que o levaram ao resultado conhecido. E como não 28 . Não sou capaz de amar mulher alguma. exacerbava-a. É que Rimbaud era portador de uma mensagem que acabou por cumprir.. um suave concerto espiritual na natureza. e por isso mesmo não achava conformidade para a sua dor. a julgar pelos seus lamentos. o bem e o mal caminhando juntos. Não percebe sequer que toda a sua angústia é nascida de suas entranhas. é improfícuo. converteu-se à realidade e mandou ao diabo o ar do inferno que o sufocava. Rimbaud. embora tenham se casado e tido filhos.Sobre histórias de amor o interrogar-me É vão. contudo. é inútil.. Teria acontecido com ele alguma coisa? Ao que se sabe. poeta.”. em busca do paraíso terrestre. Augusto sentia-se puro. Quando viu que tudo quanto imaginava como solução para restabelecer o paraíso não passava de divagação delirante. homens de bem cheios de nobres intenções. Era a vida que lhe chegava e que fugia de Augusto. A toda boca que o não prova engana. largou-se para a África. Começou então a ver e a sentir milhões de criaturas encantadoras. enquanto Augusto não chegou a cumprir a sua. No tempo de jovem. vítima de injustiças humanas. Também Rimbaud modulou o seu canto no mesmo tom: “Je n’aime pas les femmes: l’amour est à réinventer. como Tântalo. provo-a. por causas várias. segundo é fama. em suma. depois de errar longos anos pela África e pelo Oriente Médio. na Bélgica. é verdade. teve motivos de sobra para tratar o amor com aquele desdenhoso apreço. andou conspurcado de sensações súcubas. Rimbaud encontrou-se a si mesmo depois que descobriu o caminho da virtude — le sentier de l’honner — que tanto procurava. que era o seu anseio máximo. Há. uma diferença de fundo entre os dois poetas. Ninguém sofre mais do que ele. acabou por admitir a presença de uma realidade espiritual. Descasco-a. Ou então como nesta outra amostra: Parece muito doce aquela cana. As repetidas negativas ocultam de certo uma dolorosa frustração.

segundo o conhecido conceito bergsoniano do intuitivismo. a criação. mas nem isso acredito tenha havido. Mesmo assim. Tais similitudes valeriam. A conversão de Augusto foi às avessas e porque não se desconverteu estabeleceu-se o conflito do eu com o indivíduo. A vida. Também Rimbaud bebeu na mesma taça de Põe. tudo quanto eleva os sentidos. Uma mesma idéia artística pode ser tratada com sabor de originalidade por mais de um autor. martelada em versos magníficos e candentes.espécie de autobiografia moral. entre a voz do sentimento e a da razão. da mesma forma como sucumbira Antero do Quental. o que recebe influências supera o modelo de inspiração. Mallarmé também passou pelas mesmas crises. Augusto revela-se mais lido em Põe e em Shakespeare.Une Saison en Enfer . Não raras vezes. porém. se fossemos no rasto dos poetas mais notáveis em busca de fontes de inspiração ou influências literárias. autores que exerceram forte influência em sua formação intelectual. Há muitas espécies de conversões em literatura. quanto mais afunda no racionalismo mais vacila na dúvida. Ou será preenchido ou compromete a dinâmica das forças morais. É sabido que nenhum escritor adquire a força do seu gênio senão depois de renovarse interiormente. Machado de Assis só entrou na posse de si mesmo depois que se converteu à descrença. Esse divórcio do eu com o indivíduo acabou por abranger a própria sociedade. beleza. Possuído do demônio da dúvida. Foi a partir daí. numa reação inócua. como fontes de inspiração.. revolta-se contra o mundo. perdia-se no estado de dúvida. segundo apregoam os fundibulários da crítica. Rimbaud salvou-se porque se encontrou a si mesmo. que se agravou o drama latente de sua alma inquieta. o amor. isto é. Augusto vai irredento até o fim. do qual se considerava prisioneiro. os mistérios da natureza. dessa conversão ao materialismo. contra a sua grei. Todo vácuo que se abre na vida interior é prejudicial ao comportamento do indivíduo. Torturava-se por ver somente o lado negativo das coisas. perfume. Por curioso paradoxo. chegaríamos por certo ao pai Homero que. mas depois que abandonou a luta espiritual afundou no suicídio. imitação. e se o fez alguma vez foi guiado pela dialética do monismo. teria apenas disciplinado em poemas imortais os cânticos populares da época. tudo quanto desperta a alma. como Camões na de Petrarca e de Vergílio. sem procurar levantar o véu das aspirações profundas de sua alma. sem preencher esse vácuo. isto é. Rimbaud também criou para si uma estação no inferno . 29 . sua vida se transforma num verdadeiro inferno. conforme confissão feita a Mário de Alencar. Dominado pela idéia de um mundo sem objetivo. nada disso seria capaz de provocar-lhe uma sensação nova de vida. cor. Neste passo. contra a sociedade. som. Nas coincidências de temas ou mesmo de paralelismo de imagens não se veja. como muito bem já disse Augusto Meyer a propósito de Machado de Assis. silvos de labaredas e suspiros de empestados. deixava-se ficar no interior da concha. Uma análise mais demorada encontraria maiores pontos de contacto entre Augusto e Rimbaud. quando muito. Jamais desceu ao fundo de si mesmo. Ele mesmo se esvaziava no mundo vazio que se criou. depois que perdeu a ilusão dos homens. Um problema sempre gera outro. onde não faltavam o ranger de dentes.pode reformar o mundo. quando a monera já manifestava os primeiros sintomas de diluição. luz.

30 . sentia-se Augusto na impossibilidade de admitir a realidade da vida. Apurada a eleição e com base no resultado. proclamou que Deus não existe. em torrentes de eloqüência. É o que há. em meio a tantas emoções extravasadas. levantou-se a questão de saber se Deus existe ou não existe. porquanto Deus é princípio e é fim. resolveu o presidente submeter a questão a votos. sem advertir-se de que jamais dera um passo ao encontro do Mestre. a meu ver. Na prática. nas Alterosas. se manifesta ainda escravo do batismo. que se veja na blasfêmia. um episódio que me foi contado por um amigo do Ceará. se não há Deus. Não fosse a trama filosófica do individualismo racionalista. Toda a obra poética de Augusto é um grito de dor arrancado do fundo da alma. a reação que lhe ocorre é a de menosprezo ao cristianismo. alcançando a grande esforço um lugar de diretor de Grupo Escolar. teria certamente encontrado a realidade espiritual que nasce da fé e se alimenta na caridade. se sucediam na tribuna. mas os que o seguem desconhecem. é objeto de amor e de crença e não de investigação científica. descuramos o nosso destino espiritual pelo gozo do momento que passa. Se há Deus. Alguns críticos. tal como Rimbaud. aceitar as imperfeições do mundo. é.Enredado em idéias preconcebidas. viram nisso o pecado da blasfêmia. Se emigrou para o sul do país foi porque a Paraíba do seu tempo nada tinha de melhor para dar-lhe senão uma cátedra no Liceu Paraibano. certos de que no futuro sobrará tempo para essas coisas. é questão que não deve ser formulada. como ninguém ainda se entendesse. quando não proferida por modo vulgar e chulo. nas apóstrofes do poeta contra o cristianismo. O cristianismo se apresenta como a doutrina de Cristo. há que distinguir entre blasfêmia contra o cristianismo e blasfêmia contra o Cristo. todavia. na realidade. no desespero de tantos sofrimentos. uns afirmando. outros negando. a propósito. E como não lhe bastasse pela exigüidade dos proventos. heresia maior que a do poeta quando. Mas no mundo fechado em que se enclausurava não era possível ver lá fora as almas piedosas e aflitas que tão necessitadas como ele pediam socorro. Se o Cristo não vem em seu auxílio. Convém. uns batem nos peitos diante do altar e querem logo a recompensa do sacrifício feito. Para uma alma sequiosa de infinito como a sua não há que estranhar uma ou outra expressão de revolta. Ao cabo do bombardeio oratório. um pedido de socorro. Embora não caiba nos limites deste trabalho uma digressão sobre a contradição reinante no mundo da crença. supria-se do mais no magistério particular. No sul do país continuou a mesma luta heróica pela subsistência. No meio em que viveu era querido e admirado. com raríssimas exceções. via de regra. outros andam com a Bíblia debaixo do braço e o coração carregado de impiedade. a essência dos Evangelhos. Os oradores. A conquista da fé importa na conquista do próprio eu. Vale mencionar. Ora. olhar menos para as suas dores e um pouco mais para as alheias. Num dos muitos grêmios literários que proliferam na terra de Iracema. Isso mostra que ele. lecionando a quatro gatos pingados todas as matérias do curso de humanidades. Só é possível possuir a fé quando se está convencido da verdade. afetando melindres de devotos. Todos nós. decretar a inexistência de Deus por decisão tomada nas urnas ou no bozó.

Por mais de uma vez chegou a falar em alma divina. como uma caixa derradeira. De outras vezes. vem de muito longe. encarnado nele e manifestado nesta passagem: Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade? Já em Monólogos de uma Sombra. 31 . Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do cristianismo! Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio. Só muito raramente soltava uma blasfêmia. como se vê. coisa que não cabe na boca de um ateu. virtudes que cultivava com extremado zelo. por mãos de seu filho Pirro. esta árvore de amplos agasalhos Guarda. esse sombrio personagem do drama panteístico das trevas.” E onde mais expressivo se mostra é neste admirável soneto . depois de carpir amargamente diante de um mundo que se mostrava indiferente às suas mágoas: Escarrar de um abismo noutro abismo. dá à alma a denominação de sombra. através dos séculos. entendiam a alma. Abraçada com a própria Eternidade. o sacrifício da linda moça Polixena. A minha sombra há de ficar aqui! Por sombra. De inflexões mentais sua obra anda cheia. nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência. Por outro lado. desde Tales de Mileto. Mandando ao céu o fumo de um cigarro. E como era sincero e honesto.atormentado por visões escatológicas. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. Voltando à pátria da homogeneidade. não se pode dizer fosse ele um materialista ético. explodiu em As Cismas do Destino.Debaixo do Tamarindo. sob estes galhos. os filósofos iônios. O passado da flora brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida. Camões fala na sombra de Aquiles quando exigia. Como uma vela fúnebre de cera. começa o poema “Sou uma Sombra. A denominação. e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. No tempo de meu Pai.

assaltado de alucinações. em Leopoldina. Quando essa cegueira for resgatada e arrancar o homem da inciência. Mais poderia dizer agora. aos 30 anos de idade. na Federação das Academias de Letras do Brasil. até que morre numa cidade das Alterosas. Assim fala e assim termina a composição: A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ainda tem de abrir para o infinito! Vã ilusão será pensar que já está reconciliado com Deus. era uma mônada. tal como se apresenta. que eram uma constante na alma torturada do poeta paraibano. da substância de todas as substâncias. mais dotados de inteligência e espírito de penetração. Quem o ler nesse soneto dirá que já está reconciliado com Deus. a 12 de novembro de 1914. !" Este trabalho. mas com o que ai está me contento. as formas microscópicas do mundo. em briga com o dualismo. como entidade eterna. Fala como um crente da cegueira da criatura humana. mas dentro da alma aflita Via Deus .essa mônada esquisita Coordenando e animando tudo aquilo! Em Ultima Visio revela-se um metafísico teológico. Assim vai. como está dito em Sonhos de um Monista: A verdade espantosa do protilo Me aterrava. à semelhança da mônada de Leibnitz ou da monera de Haeckel. de onde decorrem todas as moléculas que se esvaem na transubstanciação da natureza. que não quer ver a glória de Deus resplandescendo em tudo. isto é. que procede do éter cósmico. sua intimidade numenal. completem os estudos aqui esboçados ou deles discordem por modo a dar uma interpretação mais aceitável às mensagens de angústia. acrescenta. larva do caos telúrico. foi objeto de uma palestra proferida em maio de 1960. perdendo-se novamente no enleio cósmico. nas composições que vão até o fim do livro. Que outros. em soluços quase humanos. 32 . Choram ainda dentro dele. então a presença do Eterno afastará a escuridão do caminho e aproximará a criatura do Criador. desde o declínio das crenças mitológicas. ansiado por compreender o princípio anêmico dos seres. Até Deus. para ele. Daí por diante. É a substância primeva. conjunto das faculdades intelectuais e morais do homem. até mesmo num grão de areia. tal como a entendiam os filósofos iônios. o metafísico cede lugar ao inveterado monista. virtualidade espiritual. vacilante na ciência fria.Mas o que Augusto chama a sua sombra não é ainda a alma. mito cosmogônico que liga entre si o espírito e a matéria.

Tenho insônia raras vezes. Rio de Janeiro. numa atmosfera de rigorosíssima moralidade. O que sente de anormal quando está produzindo: Uma série indescritível de fenômenos nervosos. chá ou outro excitante intelectual: Sou contra os excessos. Córdula C. R. Em que idade começou a produzir: Se me não falha o poder de reminiscência. entretanto. dos Anjos Antecedentes hereditários: Meu pai. presumo. da chamada vida física. cefaléia e amnésia: Até esta data não sofro absolutamente de amnésia. Eu. Sofre de insônia. comecei a produzir muito antes dos 9 anos. São muito poucas vezes que me sento à mesa para produzir. Como faz o seu trabalho intelectual: Durante o dia. Quais os trabalhos que deu à luz até a presente data: um livro de versos. Faz as suas irregularidade: Sim refeições com Tem muito apetite: Regular Faz uso do álcool: Não Faz uso excessivo do café. Quais os autores que mais o impressionaram: Shakespeare e Edgar Poe Qual o seu autor favorito: Todos os bons autores me agradam. Tem continuados sonhos fantásticos: Quanto a sonhos fantásticos é também muito raramente que os tenho. relegando por completo tudo quanto concerne ao desenvolvimento. Onde e como foi educado: Na Paraíba do Norte. acompanhados muitas vezes de uma vontade de chorar. mas a cefalalgia persegue-me constantemente. Quais as horas que dedica ao seu trabalho intelectual: Não tenho horas metodicamente preferidas para o meu trabalho mental. Conservo de memória tudo quanto produzo. Engenho Pau d'Arco. o que não impede. Quais as cores de sua predileção: A vermelha e a azul. vítima de surmenage morreu de paralisia geral e minha mãe é excessivamente nervosa Antecedentes pessoais: O que me pode adiantar sua infância: Desde a mais tenra idade eu me entreguei exclusivamente aos estudos. de abusar um pouco do café.UM CURRÍCULO ESCRITO PELO PRÓPRIO POETA Resposta ao inquérito de Licínio dos Santos em A Loucura dos Intelectuais. dos Anjos e D. Quantas horas repousa: Meu repouso varia de 7 a 8 horas. 1914 Nome: Augusto dos Anjos Idade: 28 anos Profissão: Professor e advogado Estado civil: Casado Filiação: Filho legítimo do bacharel Alexandre R. quase sempre andando no meio de toda azáfama ambiente ou à noite deitado. 33 .

Sofro.TODOS OS SONETOS O MORCEGO Meia-noite. Que ventre produziu tão feio parto?! A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça. Chego A tocá-lo. Produndissimamente hipocondríaco. “Vou mandar levantar outra parede. Morde-me a goela ígneo e escaldante molho. à noite ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto! PSICOLOGIA DE UM VENCIDO Eu. Fecho o ferrolho E olho o teto.. Já o verme -...Digo. Na frialdade inorgânica da terra! 34 . E vejo-o ainda. Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. A influência má dos signos do zodíaco. Minh’alma se concentra.” -. Ergo-me a tremer. vede: Na bruta ardência orgânica dasede. igual a um olho. Monstro de escuridão e rutilância. Ao meu quarto me recolho. Esforços faço. Meu Deus! E este morcego! E. desde a epigênese da infância. e à vida em geral declara guerra. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. Circularmente sobre a minha rede! Pego de um pau. agora. filho do carbono e do amoníaco. Este ambiente me causa repugnância.este operário das ruínas -Que o sangue podre das carnificinas Come. E há de deixar-me apenas os cabelos..

de repente. Marcas oriundas de úlceras e antrazes. esbarra No molambo da língua paralítica! O LÁZARO DA PÁTRIA Filho podre de antigos Goitacases. quer e executa! Vem do encéfalo absconso que a constringe. À noite. Todos os cinocéfalos vorazes Cheiram seu corpo. quando sonha.. Chega em seguida às cordas da laringe. Que. Quebra a força centrípeta que a amarra. Em qualquer parte onde a cabeça ponha. mínima.. Delibera. em desintegrações maravilhosas. e quase morta.. e depois.A IDÉIA De onde ela vem?! De que matéria bruta Vem essa luz que sobre as nebulosas Cai de incógnitas criptas misteriosas Como as estalactites duma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta Do feixe de moléculas nervosas. raquítica. Riem as meretrizes no Cassino.. Mostra aos montes e aos rígidos rochedos A hedionda elefantíase dos dedos Há um cansaço no Cosmos. Mas. Tísica. Deixa circunferências de peçonha. Sente no tórax a pressão medonha Do bruto embate férreo das tenazes. tênue. E o Lázaro caminha em seu destino Para um fim que ele mesmo desconhece! 35 . Anoitece.

Fruto rubro de carne agonizante.. com a sinergia de um gigante. em vez de achar a luz que os Céus inflama. Em tua morfogênese de infante A minha morfogênese ancestral?! Porção de minha plásmica substância. Tragicamente anônimo. Filho da grande força fecundante De minha brônzea trama neuronial.. feto esquecido. Realizavam-se os partos mais obscuros. a feder?! Ah! Possas tu dormir. Agregado infeliz de sangue e cal.IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA Rugia nos meus centros cerebrais A multidão dos séculos futuros . Dentre as genealogias animais! Como quem esmigalha protozoários Meti todos os dedos mercenários Na consciência daquela multidão. E.Homens que a herança de ímpetos impuros Tornara etnicamente irracionais! Não sei que livro. Meus olhos liam! No húmus dos monturos. em letras garrafais. Que poder embriológico fatal Destruiu. Em que lugar irás passar a infância. Somente achei moléculas de lama E a mosca alegre da putrefação! SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos 2 fevereiro 1911. Panteisticamente dissolvido Na noumenalidade do NÃO SER! 36 .

Jamais emprega o acérrimo exorcismo Em sua diária ocupação funérea. Almoça a podridão das drupas agras.. arrima-a. E irás assim.Alma do inferior rapsodo errante! Resigna-a. Ah! Para ele é que a carne podre fica. em que tu dormes. Latindo a esquisitíssima prosódia Da angústia hereditária dos teus pais! O DEUS-VERME Fator universal do transformismo. afaga-a. Suficientíssima é.. ampara-a. Livre das roupas do antropomorfismo.VERSOS A UM CÃO Que força pôde adstrita e embriões informes. rói vísceras magras E dos defuntos novos incha a mão. E vive em contubérnio com a bactéria. Cão! -. acode-a A escala dos latidos ancestrais.. pelos séculos adiante. E no inventário da matéria rica Cabe aos seus filhos a maior porção! 37 . Filho da teleológica matéria. Janta hidrópicos. Na superabundância ou na miséria. para provar A incógnita alma. avoenga e elementar Dos teus antepassados vemiformes..é o seu nome obscuro de batismo. Verme -. Tua garganta estúpida arrancar Do segredo da célula ovular Para latir nas solidões enormes? Esta obnóxia inconsciência.

Guarda. esta árvore.. e. esta tesoura. Dr. Voltando à pátria da homogeneidade. Que importa a mim que a bicharia roa Todo o meu coração. depois da morte?! Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. Como uma vela fúnebre de cera... de amplos agasalhos. Abraçada com a própria Eternidade A minha sombra há de ficar aqui! BUDISMO MODERNO Tome. minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo. como uma caixa derradeira.corte Minha singularíssima pessoa. Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do último verso que eu fizer no mundo! 38 .DEBAIXO DO TAMARINDO No tempo de meu Pai. das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte! Dissolva-se. O passado da Flora Brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. portanto. sob estes galhos.

por toda a pro-dinâmica infinita. Na guturalidade do meu brado.Velho caixão a carregar destroços -Levando apenas na tumba carcaça O pergaminho singular da pele E o chocalho fatídico dos ossos! 39 . A energia intracósmica divina Que é o pai e é a mãe das outras energias! SOLITÁRIO Como um fantasma que se refugia Na solidão da natureza morta. A verdade espantosa do Protilo Me aterrava. Alheio ao velho cálculo dos dias. Como um pagão no altar de Proserpina. como quem tudo repele. com uma ânsia sibarita. -..SONHO DE UM MONISTA Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo Viajávamos.essa mônada esquisita -Coordenando e animando tudo aquilo! E eu bendizia. um dia. com o esqueleto ao lado.. mas dentro da alma aflita Via Deus -. Eu fui refugiar-me à tua porta! Fazia frio e o frio que fazia Não era esse que a carne nos contorta. Cortava assim como em carniçaria O aço das facas incisivas corta! Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E eu saí. Na inconsciência de um zoófito tranqüilo. Por trás dos ermos túmulos.

vede: É o grande bebedeouro coletivo. Quando a promiscuidade aterradora Matar a última força geradora E comer o último óvulo do ventre! 40 . Oh! Mãe original das outras formas. Todas as noites. A minha forma lúgubre nasceu! O LUPANAR Ah! Por que monstruosíssimo motivo Prenderam para sempre. moços do mundo.. Dentro do ângulo diedro da parede. Onde os bandalhos. O hierofante que leu a minha sina Ignorante é de que és. Nos estados prodrômicos da vida. nesta rede. A alma do homem poilígamo e lascivo?! Este lugar. Ah! De ti foi que. mísera e mofina. como um gado vivo. Em que é mister que o gênero humano entre. talvez. Vêm matar a sede! É o afrodístico leito do hetairismo A antecâmara lúbrica do abismo. nascida Dessa homogeneidade indefinida Que o insigne Herbert Spencer nos ensina.. autônoma e sem normas. Como quase impalpável gelatina. Nenhuma ignota união ou nenhum sexo À contingência orgânica do sexo A tua estacionária alma prendeu.MATER ORIGINALIS Forma vermicular desconhecida Que estacionaste.

Que o homem universal de amanhã vença O homem particular eu que ontem fui! 41 . De Messalina e de Sardanapalo?! Pois é mister que..IDEALISMO Falas de amor. O mundo fique imaterializado -. para o amor sagrado. perante a evolução imensa. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo.. Amo o coveiro -. na generalidade descrente Com que a substância cósmica evolui. É. É a morte. O amor! Quando virei por fim a amá-lo?! Quando. como o filósofo mais crente.Alavanca desviada do seu futuro -E haja só amizade verdadeira Duma caveira para outra caveira.este ladrão comum Que arrasta a gente para o cemitério! É o transcendentalíssimo mistério! É o nous . se o amor quea Humanidade inspira É o amor do sibarita e da hetaíra. e eu ouço tudo e calo! O amor da Humanidade é uma mentira. Do meu sepulcro para o teu sepulcro?! ÚLTIMO CREDO Como ama o homem adúltero o adultério E o ébrio a garrafa tóxica de rum. Creio. é o pneuma . é o ego sum qui sum . é esse danado número Um Que matou Cristo e que matou Tibério! Creio.

com a alma às escuras.. À meia-noite. caixas cranianas. É necessário que ainda eu suba mais! 42 . se hoje volto assim.. Na rua apenas o caixão sombrio Ia continuando o seu passeio! SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO Para desvirginar o labirinto Do velho e metafísico Mistério. Pelas monotonias siderais.O CAIXÃO FANTÁSTICO Célere ia o caixão. Comi meus olhos crus no cemitério. De aberratórias abstrações abstrusas! Nesse caixão iam. improficuamente. Vaguei um século. Cinzas. inclusas. Numa antropofagia de faminto! A digestão desse manjar funéreo Tornado sangue transformou-me o instinto De humanas impressões visuais que eu sinto Nas divinas visões do íncola etéreo! Vestido de hidrogênio incandescente. e. penetrava fundo No meu fenomenal cérebro cheio. Era tarde! Fazia muito frio. talvez as Musas.. Mas.. nele. como os sonhos dos selvagens. subi talvez às máximas alturas. cartilagens Oriundas. Talvez meu Pai! Hoffmânicas viagens Enchiam meu encéfalo de imagens As mais contraditórias e confusas! A energia monística do Mundo.

Ao monstro que espremeu teu sangue grosso Teus olhos -. meu velho! E essa futura Ultrafatalidade de ossatura. porém. Depois da morte. em diferentes Florestas. Tamarindo de minha desventura. Talvez perdoasses os que te mataram! VOZES DA MORTE Agora sim! Vamos morrer. inda teremos filhos! 43 . a maldição de Pio Décimo caia em teu algoz sombrio E em todo aquele que for seu herdeiro! Maldito seja o mercador vadio Que te vender as carnes por dinheiro. com o envelhecimento da nervura. Se fosses Deus. Tu.fontes de perdão -.perdoaram! Oh! tu que no Perdão eu simbolizo. Eu. glebas. vales. trilhos. no Dia de Juízo. A que nos acharemos reduzidos! Não morrerão. reunidos. para o Futuro.A UM CARNEIRO MORTO Misericordiosíssimo carneiro Esquartejado. com o envelhecimento dos tecidos! Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos! E a podridão. tuas sementes! E assim. Na multiplicidade dos teus ramos. pois. Pelo muito que em vida nos amamos. tua lã aquece o mundo inteiro E guarda as carnes dos que estão com frio! Quando a faca rangeu no teu pescoço. selvas.

como os irmãos siameses! É com essa asa que eu faço este soneto E a indústria humana faz o pano preto Que as famílias de luto martiriza.. Ganem todos os vícios de uma vez. Na orgia heliogabálica do mundo. Como os Goncourts. É ainda com essa asa extraordinária Que a Morte -. Como a cinza que vive junto à brasa. asa De mau agouro que.. nos doze meses. Apraz-me. É-me grato adstringir-me.a costureira funerária -Cose para o homem a última camisa! 44 . adstrito ao triângulo mesquinho De um delta humilde. Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes O telhado de nossa própria casa. à categoria Das organizações liliputianas. na hierarquia Das formas vivas. apodrecer sozinho No silêncio de minha pequenez! ASA DE CORVO Asa de corvos carniceiros.INSÂNIA DE UM SIMPLES Em cismas patológicas insanas... Ser semelhante aos zoófitos e às lianas. Perseguido por todos os reveses. Deixar enfim na cloaca mais sombria Este feixe de células humanas! E enquanto arremedando Éolo iracundo. Ter o destino de uma larva fria. É meu destino viver junto a esa asa.

em desalento. É como o paralítico que. A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda. Busca exteriorizar o pensamento Que em suas fronetais células guarda! Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda! E ei-lo a tremer. já transpuseste os meus degraus?!” E Augusto. aos soluços. caiu de bruços No pandemônio aterrador do Caos” 45 .. “Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia “Voando ao vento o vastíssimo vapor. violento.. Ouvindo a Escada e o Mar. E não lhe vem à boca uma palavra! O MAR. A ESCADA E O HOMEM “Olha agora. o Homem. à míngua Da própria voz e na que ardente o lavra Febre de em vão falar. conquanto ainda hoje em dia. “O fracasso da tua geografia “E do teu escafandro esmiuçador! “Ah! Jamais saberás ser superior. puxa e repuxa a língua. “À luz da epicurista ataraxia. com os dedos brutos Para falar. o Hércules. rasga o papel. a mim. “Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me! E a verticalidade da Escada íngreme: “Homem. mamífero inferior. “Homem. Como o soldado que rasgou a farda No desespero do último momento! Tenta chorar e os olhos sente enxutos!.O MARTÍRIO DO ARTISTA Arte ingrata! E conquanto.

Ele hoje vê que. afetava Susceptibilidade de menina: “-. não fora ela! --“ E maldizia a sina.. Sinhá-Mocinha. Tu só furtaste a moeda.DECADÊNCIA Iguais às linhas perpendiculares Caíram. hipócrita. como cruéis e hórridas hastas. agora. em minha cama. Vejo. Só lhe restam agora o último doente E a armação funerária das clavículas! RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ A minha ama-de-leite Guilhermina Furtava as moedas que o Doutor me dava. porque furtei o peito Que dava leite para a tua filha! 46 . Estragara-lhe os centros medulares! Como quem quebra o objeto mais querido E começa a apanhar piedosamente Todas as microscópicas partículas. após tudo perdido. Penetrara-lhe os próprios neuroplastas.. Que a mim somente cabe o furto feito. Furtaste a moeda só. mas eu.. Via naquilo a minha própria ruína! Minha ama.. minha ama. Em sucessivas atuações nefastas. então. minha Mãe.Não. ralhava. Eu furtei mais. Nas suas 33 vértebras gastas Quase todas as pedras tumulares! A frialdade dos círculos polares. Que ela absolutamente não furtava. o ouro que brilha. entretanto.

do que este que palmilho E que me assombra. os restos Duma comida horrivelmente azeda! A sucessão de hebdômadas medonhas Reduzirá os mundos que tu sonhas Ao microcosmos do ovo primitivo.o brilho Destes meus olhos apagou!. Hoje que apenas sou matéria e entulho Tenho consciência de que nada sou! 47 . à noite. aos reais convivas.a mãe comum -.. Terás somente uma vontade cega E uma tendência obscura de ser vivo! VOZES DE UM TÚMULO Morri! E a Terra -. Assim Tântalo.A UM MASCARADO Rasga essa máscara ótima de seda E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos. porque não tem fim! No ardor do sonho que o fronema exalta Construí de orgulho ênea pirâmide alta. E tu mesmo... Hás de engolir. Hoje. É noite.. que se desmoronou A pirâmide real do meu orgulho.. a escândalos e incestos É natural que o instinto humano aceda! Sem que te arranquem da garganta queda A interjeição danada dos protestos. e.. igual a um porco.. porém. Serviu as carnes do seu próprio filho! Por que para este cemitério vim?! Por que?! Antes da vida o angusto trilho Palmilhasse. após a árdua e atra refrega. num festim..

o Ódio e a Carnificina. Tu. para amenizar as dores tuas.. Uma feição humana e outra divina São como a eximenina e a endimenina Que servem ambas para o mesmo feto! Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes! Por justaposição destes contrastes. Deus. Junta-se um hemisfério a outro hemisfério. e o horror de nossas duas Mágoas crescendo e se fazendo horrores! Magoaram-te. Irei também. O que o homem ama e o que o homem abomina. pois. E eu tão sem crença e as árvores tão nuas E tu. e o ângulo reto. meu Pai?! Que mão sombria. para onde fores... SONETO – I – A MEU PAI DOENTE Para onde fores. Eu. trilhando as mesmas ruas. para amenizar as minhas dores! Que coisa triste! O campo tão sem flores. Pai. E o carpinteiroque fabrica as mesas Faz também os caixões do cemitério!. gemendo.CONTRASTES A antítese do novo e do obsoleto. e sendo justo. Às alegrias juntam-se as tristezas. é justo. Indiferente aos mil tormentos teus De assim magoar-te sem pesar havia?! -. Deus não havia de magoar-te assim! 48 . O Amor e a Paz.. Tudo convém para o homem ser completo! O ângulo obtuso.Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim É bom.

E a marcha das moléculas regulam.SONETO – II – A MEU PAI MORTO Madrugada de Treze de Janeiro. como os queijos Sobre a mesa de orgíacos festins!. E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o”! deixa-o. cuidei que ele dormia. sonhando. dormir primeiro! E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza.. Rezo. Como Elias. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. num carro azul de glórias. Mãe. o ofício da agonia. Nem uma névoa no estrelado véu. entre as estrelas flóreas... Com a invariabilidade da clepsidra! Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos Roída toda de bichos. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu! SONETO – III Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. Amo meu Pai na atômica desordem Entre as bocas necrófagas que o mordem E a terra infecta que lhe cobre os rins! 49 . Em seus lábios que os meus lábios osculam Microrganismos fúnebres pululam Numa fermentação gorda de cidra. Duras leis as que os homens e a hórrida hidra A uma só lei biológica vinculam. Mas pareceu-me..

Semelhante a um cachorro de atalaia Às decomposições da Natureza. pois.. não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho. olhando a pátria serra... Caiu aos golpes do machado bronco. por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs almas nos cedros.As árvores. meu pai.e ajoelhou-se. O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra! 50 . -.Meu pai.. possui minh’alma!. meu filho. O sistema nervoso de um gigante Para sofrer na minha carne estuante A dor da força cósmica furiosa.. sôfrega e ansiosa.. Esta árvore.DEPOIS DA ORGIA O prazer que na orgia a hetaíra goza Produz no meu sensorium de bacante O efeito de uma túnica brilhante Cobrindo ampla apostema escrofulosa! Troveja! E anelo ter. Ficar latindo minha dor medonha! A ÁRVORE DA SERRA -... no junquilho. Apraz-me. pai. Para que eu tenha uma velhice calma! -. para que eu viva!” E quando a árvore. meu filho. enfim. É preciso cortá-la. Livre deste cadeado de peçonha. despindo a última alfaia Que ao comércio dos homens me traz presa.Disse -. numa rogativa: “Não mate a árvore.

. Acometido de uma febre estranha Sem o escândalo fônico de um grito.. bruto. Arrancou os cabelos na montanha! Desceu depois à gleba mais bastarda. E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo. sem cerebelo A gargalhada da última derrota! A gaiola aboliu tua vontade. Pões-te a assobiar. por exemplo: o do boi Ápis do Egito Ao velho Niebelungen da Alemanha. o amplo éter belo. mergulhou a cabeça no Infinito. preto e amarelo. Continua a comer teu milho alpiste..VENCIDO No auge de atordoadora e ávida sanha Leu tudo. Que do fundo do chão todo o ano brota! Mas a ânsia de alto voar. Foi este mundo que me fez tão triste. não tens mais! E pois. Ah! Tu somente ainda és igual a mim. Tu nunca mais verás a liberdade!. Foi a gaiola que te pôs assim! 51 .. Pondo a áurea insígnia heráldica da farda À vontade do vômito plebeu. E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria O vencido pensava que cuspia Na célula infeliz de onde nasceu. de à antiga rota Voar. desde o mais prístino mito. O CORRUPIÃO Escaveirado corrupião idiota. Olha a atmosfera livre.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. em serenatas. na diuturna discórdia.ALUCINAÇÃO À BEIRA MAR Um medo de morrer meus pés esfriava. a equórea coorte Atordoadamente ribombava! Eu. Com os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. Ante o telúrico recorte. Canta a aleluia virginal das crenças.. assim como eu! VANDALISMO Meu coração tem catedrais imensas.. me assombrava! Mas a alga usufrutuária dos oceanos E os malacopterígios subraquianos Que um castigo de espécie emudeceu. Noite alta. cismava Em meu destino!. No desespero dos iconoclastas Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! 52 . ególatra céptico.. Onde um nume de amor.. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. Templos de priscas e longínquas datas. O vento estava forte E aquela matemárica da Morte Com os seus números negros. No eterno horror das convulsões marítimas Pareciam também corpos de vítimas Condenados à Morte.

guerreiro. Vieram todos.. entre feras. veio um atleta. e doma Meu coração -. E à rutilância das espadas. Que ninguém doma um coração de poeta! 53 . Escarra nessa boca que te beija! VENCEDOR Toma as espadas rútilas. Se a alguém causa inda pena a tua chaga. toma A adaga de aço. por fim..VERSOS ÍNTIMOS Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. que. e qual mais presto assoma Nenhum pôde domar o prisioneiro. Mora. amigo. sente invevitável Necessidade de também ser fera. ao todo. E não pôde domá-lo enfim ninguém.esta pantera -Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem. por fim. o gládio de aço. A mão que afaga é a mesma que apedreja. Toma um fósforo. Apedreja essa mão vil que te afaga.estranho carniceiro! Não podes?! Chama então presto o primeiro E o mais possante gladiador de Roma. E qual mais pronto. Meu coração triunfava nas arenas. nesta terra miserável. Somente a Ingratidão -. é a véspera do escarro. Veio depois um domador de hienas E outro mais. Acende teu cigarro! o beijo. e. uns cem.

Sabe que sofre. E é em suma. Da luz que não chegou a ser lampejo. é que essa mágoa infinda Transpõe a vida do seu corpo inerme. o subconsciente ai formidando Da Natureza que parou. podendo mover milhões de mundos. pancada por pancada.. do Orbe oriundos. a escutar. Quer resistir. a que só ele assiste. nada há que traga Consolo à Mágoa.. A sucessividade dos segundos. jazem ainda na estática do Nada! É o soluço da forma ainda imprecisa.ETERNA MÁGOA O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo. O choro da Energia abandonada! É a dor da Força desaproveitada — O cantochão dos dínamos profundos.. No rudimentarismo do Desejo! 54 . mas o que não sabe E que essa mágoa infinda assim não cabe Na sua vida... pois. E quando esse homem se transforma em verme É essa mágoa que o acompanha ainda! O LAMENTO DAS COISAS Triste. Da transcendência que se não realiza. Que.. e quanto mais resiste Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga. em sons subterrâneos. chorando. o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada. Ouço.

Parem as vidas. que os anos não carcomem. De que. num grito de emoção. eu. me desencarcero. Onde a Vida do humano aspecto fero Se desarraiga. pensando. Cesse a luz. Oh! Nauta aflito do Subliminal. Todas as urbes siderais vencidas! Morra o éter. sincero Encontrei. o meu Nirvana! Nessa manumissão schopenhauereana. a animar o cosmos ermo. Aglomeradamente e em turbilhão Solucem dentro do Universo ancião. impero Na imanência da Idéa Soberana! Destruída a sensação que oriunda fora Do tacto — ínfima antena aferidora Destas tegumentárias mãos plebéas — Gozo o prazer. Como a última expressão da Dor sem termo.O MEU NIRVANA No alheamento da obscura forma humana. Foi que eu. feito força. afinal. Morto o comércio físico nefando. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das Idéas! CAPUT IMMORTALE Na dinâmica aziaga das descidas. Sobre a pancosmológica exaustão Reste apenas o acervo árido e vão Das muscularidades consumidas! Ainda assim. Tua cabeça há de ficar vibrando Na negatividade universal! 55 .

Pressinto o fim da orgânica batalha: — Olhos que o húmus necrófago estraçalha. Era. "Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas! "Une. numa alta aclamação. E o Homem — negro e heteróclito composto. Dói-me ver. Que eu tenho de deixar para os meus filhos! LOUVOR A UNIDADE "Escafandros. a vista. muito embora a alma te acenda. "Com essa intuição monística dos gênios. Diafragmas. "À hirta forma falaz do are perennius "A transitoriedade das fagulhas!" — Era a estrangulação. A dardejar relampejantes brilhos. sem gritos.. feixe de mônadas bastardas. ao sol posto. sondas e agulhas "Debalde aplicas aos heterogêneos "Fenômenos. Onde a alva flama psíquica trabalha. Em tua podridão a herança horrenda.. O regresso dos átomos aflitos Ao descanso perpétuo da Unidade! 56 . arpões. há inúmeros milênios. Desagrega-se e deixa na mortalha O tacto. pois. decompondo-se. a irmanar diamantes e hulhas.. Da multimilenária dissonância Que as harmonias siderais invade. Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas.APOSTROFE À CARNE Quando eu pego nas carnes do meu rosto. o olfato e o gosto! Carne. e. o ouvido. sem retumbância..

meus semelhantes! Mas. a porta.. E eu sinto a angústia dessa raça ardente Condenada a esperar perpetuamente No universo esmagado da água morta! SUPREME CONVULSION O equilíbrio do humano pensamento Sofre também a súbita ruptura. A convulsão meteórica do vento. Este pântano é o túmulo absoluto. é a abreviatura Do todo o ubiqüitário Movimento! Sonho. — libertação do homem cativo — Ruptura do equilíbrio subjetivo. sem dor. É a síntese. para mim que a Natureza escuto. e. Ah! foi teu beijo convulsionador Que produziu este contraste fundo Entre a abundância do que eu sou. no Mundo. na noite escura. E o nada do meu homem interior! 57 . De todas as grandezas começantes! Larvas desconhecidas de gigantes Sobre o seu leito de peçonha e luto Dormem tranqüilamente o sono bruto Dos superorganismos ainda infantes! Em sua estagnação arde uma raça.O PÂNTANO Podem vê-lo. à espera de quem passa Para abrir-lhe. às escâncaras. é o transunto.. é a essência pura. Que produz muita vez. E a alma o obnóxio quietismo sonolento Rasga. Tragicamente. opondo-se à Inércia.

. um dia. Antes o Nada.. como o gérmen de outros seres. geléia humana. é natural.. entanto.A UM GÉRMEN Começaste a existir. "Quanto mais em mim mesma me aprofundo. no teu silêncio. o pranto Das tuas concreções plásmicas flua! A água. ainda algum dia. E hás de crescer.. em realidade. e. não progridas E em retrogradações indefinidas. deprimindo-o . Vence o granito. tanto Que. Ao supremo infortúnio de ser alma! NATUREZA ÍNTIMA Ao filósofo Farias Brito Cansada de observar-se na corrente Que os acontecimentos refletia. O espanto Convulsiona os espíritos. que ainda haveres De atingir. porventura. Volvas à antiga inexistência calma!. geléia crua. "Menos interiormente me conheça?!" 58 . em conjugação com a terra nua. oh! gérmen. rosto?! "Serei apenas mera crusta espessa?! "Pois é possível que Eu. causa do Mundo. Reconcentrando-se em si mesma. Teu desenvolvimento continua! Antes. A Natureza olhou-se interiormente! Baldada introspecção! Noumenalmente O que Ela. ainda sentia Era a mesma imortal monotonia De sua face externa indiferente! E a Natureza disse com desgosto: "Terei somente.

. . São absolutamente negativas! Araucárias. Tornam todas as almas pensativas! Há uma força vencida nesse mundo! Todo o organismo florestal profundo É dor viva. Da avidez com que o Espírito procura É a Subconsciência que se transfigura Em volição conflagradora. Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens. Precisa de encharcar-se em sangue humano Para mostrar aos homens que está viva! 59 . traçando arcos de ogivas... é o instinto horrendo De subir. Bracejamentos de álamos selvagens. Vivem só.As ambições que se fizeram troncos. E a dramatização sangrenta e dura Vir Deus num simples grão de argila errante.A FLORESTA Em vão com o mundo da floresta privas!. é transporte.. os elementos broncos. . na ordem cósmica. E a coorte Das raças todas.. trancada num disfarce... Como um convite para estranhas viagens. é inquietude. descendo A irracionalidade primitiva. no seu arcano.Todas as hermenêuticas sondagens... É a Natureza que. que se entrega à morte Para a felicidade da Criatura! É a obsessão de ver sangue. nele. é ânsia. Porque nunca puderam realizar-se! GUERRA Guerra é esforço..

És suprema! Os meus átomos se ufanam De pertencer-te.. Dói-lhe. psíquico tesouro.. ereto e imóvel sente Em sua própria sombra sepultado! Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível Que em toda a sua máscara se expande. assim. em suma. E. Riqueza da alma.. acérrima e latente. inteira. Alegria das glândulas do choro De onde todas as lágrimas emanam. ouro De que as próprias desgraças se engalanam! Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato. sol do cérebro. oh! Dor. saúde dos seres que se fanam. perante o Incognoscível Essa fatalidade de ser grande Para guardar unicamente poeira! HINO À DOR Dor. sem convulsão que me alvorece..O SARCÓFAGO Senhor da alta hermenêutica do Fado Perlustro o atrium da Morte.. Minha maior ventura é estar de posse De tuas claridades absolutas! 60 .. Com os corpúsculos mágicos do tacto Prendo a orquestra de chamas que executas. ancoradouro Dos desgraçados. Que o sarcófago. À humana comoção impondo-a. É frio o ambiente E a chuva corta inexoravelmente O dorso de um sarcófago molhado! Ah! Ninguém ouve o soluçante brado De dor profunda..

Minha continuidade emocional! 61 .. Ions emanados do meu próprio ideal. Haveis de ser no mundo subjetivo. em épocas futuras. Terá nascido nesse mesmo instante A mineralogia derradeira! A impérvia escuridão obnubilante Há de cessar! Em sua glória inteira Deus resplandecerá dentro da poeira Como um gasofiláceo de diamante! Nessa última visão já subterrânea. Dai-me alma.. pois. Sois vós que sustentais ( Força Alta exige-o . Dai-me asas. ) Com o vosso catalítico prestígio. para o último remígio.. Meu fantasma de carne passageira! Vulcão da bioquímica fogueira Destruiu-me todo o orgânico fastígio . A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ele ainda tem de abrir para o Infinito! AOS MEUS FILHOS Na intermitência da vital canseira. Um movimento universal de insânia Arrancará da insciência o homem precito.ÚLTIMA VISIO Quando o homem resgatado da cegueira Vir Deus num simples grão de argila errante.. que.. para a hora derradeira! Culminâncias humanas ainda obscuras.. Expressões do universo radioativo. pois. Benditos vós.

A alma arde. os pés e os braços Tombara. Eu sinto. Subitamente a cerebral coréa Pára. sondando-me a consciência A ultra-inquisitorial clarividência De todas as neuronas acordadas! Quanto me dói no cérebro esta sonda! Ah! Certamente eu sou a mais hedionda Generalização do Desconforto.. A espaços As cabeças. cedendo à ação de ignotos pesos! É então que a vaga dos instintos presos — Mãe de esterilidades e cansaços — Atira os pensamentos mais devassos Contra os ossos cranianos indefesos. Emoções extraordinárias sinto. então. A carne é fogo. O cosmos sintético da Idéa Surge. E acho um feixe de forças prodigiosas Sustentando dois monstros: a alma e o instinto! O POETA DO HEDIONDO Sofro aceleradíssimas pancadas No coração. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto! 62 ... Ataca-me a existência A mortificadora coalescência Das desgraças humanas congregadas! Em alucinatórias cavalgadas. as mãos. Arranco do meu crânio as nebulosas.A DANÇA DA PSIQUÊ A dança dos encéfalos acesos Começa..

Porque. Os dentes antropófagos que rangem. Superexcitadíssimos. tragando a ambiência vasta. ris! Fruto injustificável dentre os frutos.A FOME E O AMOR A um monstro Fome! E. No desembestamento que os arrasta. Sangram-te os olhos. Hebdômadas hostis Passam. e.. ávida. Deixa a tua alegria aos seres brutos. na ânsia voraz que. O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! O nôumeno e o fenômeno. enquanto as almas se confrangem. Teu coração se desagrega. Todas as danações sexuais que abrangem A apolínica besta famulenta! Ambos assim. na superfície do planeta. Realidade geográfica infeliz. Rugindo. Receando outras mandíbulas a esbangem. o alfa e o omega Amarguram-te. entretanto. Excrescência de terra singular. criatura cega.. os dois Representam. no ardor dos seus assomos A alegoria do que outrora fomos E a imagem bronca do que inda hoje sois! HOMO INFIMUS Homem. aumenta. Tu só tens um direito: — o de chorar! 63 . Antes da refeição sanguinolenta! Amor! E a satiríasis sedenta. carne sem luz. Montão de estercorária argila preta.

dão gritos Nas minhas camas cerebrais funéreas. soluçando.MINHA FINALIDADE Turbilhão teleológico incoercível. Da dor humana. a Glória. Que força alguma inibitória acalma. mordem-se... Ai! Não toqueis em minhas faces verdes. de sofrerdes A sensação de todas as misérias! 64 .. por conseqüência um ser monstruoso! Em minha arca encefálica indefesa Choram as forças más da Natureza Sem possibilidades de repouso! Agregados anômalos malditos Despedaçam-se. sou maior que Dante. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Na canonização emocionante. aparelhou. a Arte e a Beleza Servem de combustíveis à ira acesa Das tempestades do meu ser nervoso! Eu sou. Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma Dos que amam apreender o Inapreensível! Predeterminação imprescriptível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. E trago em mim. Sob pena. — A águia dos latifúndios florentinos! Sistematizo. o Inferno. O Amor. num sincronismo eterno A fórmula de todos os destinos! NOLI ME TANGERE A exaltação emocional do Gozo.. homens felizes. a Ciência.

ontem.. a alardear bárbaros sons abstrusos. Teço a infâmia. Se escapa pela boca dos cativos! ABERRAÇÃO Na velhice automática e na infância. cresto o sonho. Minha alma é um misto De anomalias lúgubres. Uiva.. Como Belerofonte com a Quimera Mato o ideal. urdo o crime. a exigir que os sãos enfermem. achato a esfera E acho odor de cadáver na fragrância! Chamo-me Aberração. O epitalâmio da Suprema Falta. amanhã e em qualquer era) Minha hibridez é a súmula sincera Das defectividades da Substância. é a partênea Aterradoramente heterogênea Dos grandes transviamentos subjectivos. Entoado asperamente. não cabendo mais dentro dos peitos. Existo Como o cancro. È a saudade dos erros satisfeitos. Em que o Mal se engrandece e o ódio se exalta..O CANTO DOS PRESOS Troa. engendro o lodo E nas mudanças do Universo todo Deixo inscrita a memória do meu gérmen! 65 . A ignomínia de todos os abusos! É a prosódia do cárcere. Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia.. Que. em voz muito alta. Pela promiscuidade dos reclusos! No wagnerismo desses sons confusos. à luz de fantástica ribalta. (Hoje.

de quanta Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos. Ceva-se em minha carne. Nos paroxismos da hiperestesia.VÍTIMA DO DUALISMO Ser miserável dentre os miseráveis -. invado. como um corvo. pelos caminhos quedos Minha tátil intensidade é tanta Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos! Quebro a custódia dos sentidos tredos E a minha mão. A simultaneidade ultramonstruosa De todos os contrastes famulentos! AO LUAR Quando. O Infinitésimo e o Indeterminado.. agarro. por fim. Encho o Espaço com a minha plenitude! 66 . Transponho ousadamente o átomo rude E. o Céu e o Inferno absorvo.. Todas as coisas íntimas suplanta! Penetro. Feita dos mais variáveis elementos. dona. ausculto. transmudado em rutilância fria. enfim. apreendo. dada às bravias Cóleras dos dualismos implacáveis E à gula negra das antinomias! Psique biforme. o Infinito se levanta À luz do luar. minha alma. à noite.. Criação a um tempo escura e cor-de-rosa..Carrego em minhas células sombrias Antagonismos irreconciliáveis E as mais opostas idiossincrasias! Muito mais cedo do que o imagináveis Eis-vos.

Sentia dos fenômenos o fim.. projetado muito além da História. como a luz do amanhecer. arder. A coisa em si movia-se aos meus brados E os acontecimentos subjugados Olhavam como escravos para mim! 67 . Siva. Tifon. aos trismos Da epilepsia horrenda. A perfeição virtual tornada viva E o embrião do que podia acontecer! Por antecipação divinatória... e nos abismos Ninguém responderá tua pergunta! Reclamada por negros magnetismos Tua cabeça há de cair. virgem. E acima deles. Átropos.A UM EPILÉTICO Perguntaras quem sou?! – ao suor que te unta À dor que os queixos te arrebenta. defunta Na aterradora operação conjunta Da tarefa animal dos organismos! Mas após o antropófago alambique Em que é mister todo o teu corpo fique Reduzido a excreções de sânie e lodo. Eu. Tu hás de entrar completamente puro Para a circulação do Grande Todo! CANTO DA ONIPOTÊNCIA Cloto. Na hiperculminação definitiva O meu supremo e extraordinário Ser! Em minha sobre-humana retentiva Brilhavam. Como a luz que arde.. como um astro. num monturo. Laquesis.

. Essa elementaríssima semente Do que hei de ser... Folhas e frutos. sobre a terra ardente Hão de encher outras árvores! Somente Minha desgraça há de ficar sozinha! ANSEIO (QUEM SOU EU. entanto. nas minhas formas carcomidas. esse mundo incoerente.. A estrutura de um mundo superior! Alta noite.) Quem sou eu.MINHA ÁRVORE Olha: É um triângulo estéril de ínvia estrada! Como que a erva tem dor. ai! como eu sinto no esqueleto exausto Não poder dar-lhe vida material! 68 . às apalpadelas e às escuras. e entre rochas duras Mostra ao Cosmos a face degradada! Entre os pedrouços maus dessa morada É que. remoinha. nem mesmo ao ronco Do furacão que. minha árvore humana desfolhada! Mulher nenhuma afagará meu tronco! Eu não me abalarei. Grita em meu grito. a afagar tantas feridas. A áurea mão taumatúrgica do Amor Traça. Roem-na amarguras Talvez humanas. rábido. neste ergástulo das vidas Danadamente.. tenta transpor o Ideal.. E.. Hão de encontrar as gerações futuras Só. alarga-se em meu hausto.. a soluçar de dor?! -. Nutrindo uma efeméride inferior. Branda.Trilhões de células vencidas.

Apreendo. em que me inundo. revolvendo o ego profundo E a escuridão dos cérebros medonhos.Tudo a unidade do meu ser resume! Sou eu que. feto vivo e aborto. Sou eu que. Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia. desconforto E ataraxia. -. hirto. -.REVELAÇÃO I Escafandrista de insondado oceano Sou eu que. Restituo triunfalmente à esfera calma Todos os cosmos que circulam na alma Sob a forma embriológica de sonhos! II Treva e fulguração.. A potencialidade do que é morto E a eficácia prolífica do estrume! Ah! Sou eu que. ateando da alma o ocíduo lume.Mãe promíscua do amor e do ódio insano! Sou eu que. Penetro a essência plásmica infinita. auscultando o absconso arcano! Por um poder de acústica esquisita. Sinto bater na putrescível crusta Do tegumento que me cobre os peitos Toda a imortalidade da Substância! 69 . Ouço o universo ansioso que se agita Dentro de cada pensamento humano! No abstrato abismo equóreo. transpondo a escarpa augusta Dos limites orgânicos estreitos. aliando Buda ao sibarita.. sânie e perfume. em cisma abismadora absorto. Massa palpável e éter.

por hipótese. Reduzir carnes podres a algarismos. Porque. infinita como os próprios números. três. rádios e úmeros.. hei de ficar trancado Na noite aterradora de mim mesmo! 70 . -. Continua a contar na paz ascética Dos tábidos carneiros sepulcrais Tíbias.Tal é. A aritmética hedionda dos coveiros! Um. cérebros. quatro. somente em. Na progressão dos números inteiros A gênese de todos os abismos! Oh! Pitágoras da última aritmética. em fúlgidos letreiros. Esoterismos Da Morte! Eu vejo. dois. A tua conta não acaba mais! TREVAS Haverá. sem complicados silogismos. A própria Esfinge há de falar-vos ainda E eu... nas geenas Luz bastante fulmínea que transforme Dentro da noite cavernosa e enorme Minhas trevas anímicas serenas?! Raio horrendo haverá que as rasgue apenas?! Não! Porque.VERSOS A UM COVEIRO Numerar sepulturas e carneiros. Para convulsionar a alma que dorme Todas as tempestades são pequenas! Há de a Terra vibrar na ardência infinda Do éter em branca luz transubstanciado. crânios.. Rotos os nimbos maus que a obstruem a esmo. na abismal sustância informe. cinco.

Qual é. Por um abortamento de mecânica. porventura. recalcados. Toda a sublevação da crusta hirsuta! No curso inquieto da terráquea luta Quantos desejos fervidos de amor Não dormem. me semente. A significação dessas montanhas! Quem não vê nas graníticas entranhas A subjetividade ascensional Paralisada e estrangulada. na natureza espiritual. afinal. íngremes. mal Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?! Ah! Nesse anelo trágico de altura Não serão as montanhas. e dize-me. De onde rebenta.AS MONTANHAS I Das nebulosas em que te emaranhas Levanta-te. sob o horror Dessas agregações de pedra bruta?! Como nesses relevos orográficos. alma. A representação ainda inorgânica De tudo aquilo que parou em mim?! II Agora. amam jazer. a alma. se o que ainda não existe Não vibra em gérmen no agregado triste Da síntese sombria do meu Ser?! 71 . Estacionadas. assim. em contrações de dor. Quem sabe. Inacessíveis aos humanos tráficos Onde sóis. oh! delumbrada alma. perscruta O puerpério geológico interior.

. subjugue-as ou difarce-as. o último a ser. derrubadas. que o Éter indica. pelo orbe adiante.. Espião da cataclísmica surpresa... e. babando.APOCALIPSE Minha divinatória Arte ultrapassa Os séculos efêmeros e nota Diminuição dinâmica. em noite aziaga e ignota. Pára e. Destrói a ebulição que a água alvorota E põe todos os astros na desgraça! São despedaçamentos. da Massa. Lambe-lhe a quilha e espúmea onda impudica E ébrios tritões. integérrima. É a subversão universal que ameaça A Natureza. derrota Na atual força. Zarpa. alçando o hirto esporão guerreiro. E não haver uma alma que lhe entenda A angústia transoceânica medonha No rangido de todas as enxárcias! 72 .. a amarra agarrada à âncora. Federações sidéricas quebradas. A única luz tragicamente acesa a universalidade agonizante! A NAU A Heitor Lima Sôfrega.. sonha! Mágoas. A íngreme cordoalha úmida fica. se as Tem. E eu só. haurem-lhe o cheiro! Na glauca artéria equórea ou no estaleiro Ergue a alta mastreação. E estende os braços de madeira rica Para as populações do mundo inteiro! Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda.

ainda depois da morte. vazio! 73 . que ela encheu. Fome do átomo e eurítmico transporte De todas as moléculas.VOLÚPIA IMORTAL Cuidas que o genesíaco prazer. invente A lâmpada aflogística de Davy! Em vão! Contra o poder criador do Sonho O Fim das Coisas mostra-se medonho Como o desaguadouro atro de um rio. Sôfrego. Arrancar. cave. Tragicamente. aborte Na hora em que a nossa carne apodrecer?! Não! Essa luz dial. Haurindo o gás sulfídrico das covas. em que arde o Ser. Das profundezas do Subconsciente O milagre estupendo da aeronave! Rasgue os broncos basaltos negros. Em convulsivas contorções sensuais. Dentro dos ossos.. o dolo sáxeo. Os nossos esqueletos descarnados. continua a arder! Surdos destarte a apóstrofes e brados. e. adstrito à ciência grave. A humanidade vai pesar seu gênio Encontra o mundo.. num triunfo surpreendente. na ânsia ardente De perscrutar o íntimo do orbe. Com essa volúpia das ossadas novas Hão de ainda se apertar cada vez mais! O FIM DAS COISAS Pode o homem bruto. ao cabo do último milênio. Para a perpetuação da Espécie forte. E quando.

À custódia do anímico registro A planetária escuridão se anexa. E. Na mão dos açougueiros.. A onda estoura Na negridão do oceano e entre os navios Troa bárbara zoada de ais bravios. Ficam brilhando com fulgor sinistro Dentro da treva onímoda e complexa Os olhos fundos dos que estão com medo A OBSESSÃO DO SANGUE Acordou. A carne que ele havia de comer! No inferno da visão alucinada. Disse. antes do almoço. agride os rios E urde amplas teias de carvões sombrios No ar que álacre e radiante.. eis que viu. a escorrer Fita rubra de sangue muito grosso. mancha a gleba. O monocromatismo monstruoso Daquela universal vermelhidão! 74 ... Era tão moço..A NOITE A nebulosidade ameaçadora Tolda o éter.. Olhou-se no espelho. fora. Ia talvez morrer. Extraordinariamente atordoadora. A água transubstancia-se.. iguais a espiões que acordam cedo. vendo sangue. com um berro bárbaro de gozo. Viu montanhas de sangue enchendo a estrada.. Ah! Certamente não podia ser! Levantou-se. Horrível! O osso Frontal em fogo. há instantes. Viu vísceras vermelhas pelo chão. Somente. E amou.

Leio o obsoleto Rig-Veda. Outras cabeças aparecerão Para compartilhar do meu destino! Na festa genetlíaca do Nada.... percorro como um gênio Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!. O Inconsciente me assombra e eu nele rolo Com a eólica fúria do harmatã inquieto! Assisto agora à morte de um inseto!. E em tudo igual a Goethe. Ah! todos os fenômenos do solo Parecem realizar de pólo a pólo O ideal do Anaximandro de Mileto! No hierático areópago heterogêneo Das idéias.. Rasgo dos mundos o velário espesso. E ai! Como é boa esta volúpia obscura Que une os ossos cansados da criatura Ao corpo ubiqüitário do Criador! AGONIA DE UM FILÓSOFO Consulto o Phtah-Hotep. E. me não consolo..VOX VICTIMAE Morto! Consciência quieta haja o assassino Que me acabou.. dando-me ao corpo vão Esta volúpia de ficar no chão Fruindo na tabidez sabor divino! Espiando o meu cadáver ressupino. reconheço O império da substância universal ! 75 . No mar de humana proliferação. ante obras tais. Abraço-me com a terra atormentada Em contubérnio convulsionador...

imensa. Fora da sucessão. atro e subterrâneo. em meio. Porque eu hoje só vivo da descrença. Para dar vida à dor e ao sofrimento. E o coração me rasga atroz.O ÚLTIMO NÚMERO Hora da minha morte. E à dor e ao sofrimento eterno afeito. ao meu lado. 76 . Eu a bendigo da descrença. Da saudade na campa enegrecida Guardo a lembrança que me sangra o peito. A Idéia estertorava-se. Tragicamente de si mesmo oriundo. P’ra iluminar-me a alma descontente. Era de vê-lo. estranho ao mundo. amigo! Pois que a minha autogênica Grandeza Nunca vibrou em tua língua presa.. imóvel.Que fazes ainda no meu crânio? E o Último Número. Parecia dIzer-me: "É tarde. Como o reflexo fúnebre do Incriado: Bradei: -. Mas que no entanto me alimenta a vida. resignado. No fundo Do meu entendimento moribundo Jazia o Último Número cansado. Hirta. Não te abandono mais! Morro contigo!" SAUDADE Hoje que a mágoa me apunhala o seio. Se acende o círio triste da Saudade. E assim afeito às mágoas e ao tormento. À noute qunado em funda soledade Minh’alma se recolhe tristemente.

O brilho se apagou daquela estrela Que a vida lhe tornava venturosa! Sombras que passam.o exorcismo Terrível me feriu. Fugazes sonhos. Fraco que sou. mas me perdoa! Se esta dúvida cruel qual me magoa Me torna ínfimo. e então sereno. desgraçado réu. De joelhos aos pés do Nazareno Baixo rezei.ABANDONADA Ao meu irmão Odilon dos Anjos Bem depressa sumiu-se a vaporosa Nuvem de amores. entre o medo que o meu Ser aterra.Todas se foram num festivo bando. volvi ao ceticismo. Da Igreja . em fundo misticismo: . gárrulos voando . sombras cor-de-rosa . Fazem lembrar em noute de saudade A luz mortiça d’um olhar nublado. de ilusões tão bela. eu creio em ti.Oh! Deus. seu olhar magoado. Hoje ela habita a erma soledade. Não sei se morra p’ra viver no Céu! 77 . Ah. Em que vive e em que aos poucos vai morrendo! Seu rosto triste. Onde a dúvida ergueu altar profano. Não sei se viva p’ra morrer na terra. CETICISMO Desci um dia ao tenebroso abismo.Resta somente um’alma tristurosa! Coitada! o gozo lhe fugiu correndo. Cansado de lutar no mundo insano.a Grande Mãe .

As minhas crenças que alentei outrora Rolam dispersas. Como um coveiro a sepultar quimeras! 78 . Todas murcharam. E como a luz do sol vai-se apagando! E eu triste. tristes. Revolvo as cinzas de passadas eras. senhora. num mês de tantas flores. langorosas. triste pela vida afora. Exausto de pisar mágoas pisadas. todas sem olores.MÁGOAS Quando nasci. Tristes fanaram redolentes rosas. senhora. Eterno pegureiro caminhando. Cansado de chorar pelas estradas. Desfeitas todas num guaiar dorido. triste e descrido. Oh! Minha infância nunca teve flores! Volvendo à quadra azul da mocidade. Hoje eu carrego a cruz das minhas dores! OUVI. o cântico sentido Do coração que geme e s’estertora N’ânsia letal que o mata e que o devora. SENHORA Ouvi. de amor ferido. Quando a morte matar meus dissabores. amei. Mais tarde da existência nos verdores Da infância nunca tive as venturosas Alegrias que passam bonançosas. Sombrio e mudo e glacial. Morreram todas. Minh’alma levo aflita à Eternidade. E que tornou-o assim. senhora. Ouvi. pálidas agora.

Juncou-lhe a fronte aurifulgente estrela. Mas a Pátria chamou-o. Ao chegar. venceu batalhas. um tresloucado. Tu que. coração amargurado. Era o soldado. Altivo lutador. na estrada da existência em fora. E fica no teu ermo entristecida. Alma arrancada do prazer do mundo. Se nada te aniquila o desalento Que te invade. enamorado dela. pendeu triste e desmaiada. e o pesar negro e profundo. olímpica e singela! E partiu. Vivia alegre o vate apaixonado. Apaixonou-se d’uma virgem bela. Esconde à Natureza o sofrimento.TRISTE REGRESSO Uma vez um poeta. Oh! Tu. 79 . que na grinalda emurchecida De teu passado de felicidade Foste juntar os goivos da Saudade Às flores da Esperança enlanguescida. Louco vivia. e na existência agora Triste soluças a ilusão peerdida. Cantaste e riste. E tinha que deixar p’ra sempre aquela Meiga visão. E voltou. Alma viúva das paixões da vida. INFELIZ Alma viúva das paixões da vida. Dos canhões ao ribombo e das metralhas. mas a fronte aureolada. No sepulcro da loura virgem bela.

Ambos unidos soluçara um beijo. E rompe a orquestra sepulcral da morte. Fora no campo pássaros trinavam. silentes. Dos rouxinóis ao sonoroso harpejo E a luz do sol vibrava esplendorosa. Quebrando a paz suprema dos sepulcros. ardentes .N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS N’augusta solidão dos cemitérios. a brisa respondia. NOIVADO Os namorados ternos suspiravam. Era o supremo beijo de noivado! 80 . Quando há de ser!? E os pássaros falavam. São minhas crenças divinais. pálidos. Chegara enfim o dia desejado. Resvalando nas sombras dos ciprestes. Há de chegar. Vinha rompendo a aurora majestosa. Desliza então a lúgubre coorte. soturnais.Alvos fantasmas pelos merencórios Túmulos tristes. Quando da vida. Passam meus sonhos sepultados nestes Brancos sepulcros. E a mesma frase o noivo repetia. funéreos. no eternal soluço. Hoje rolando nos umbrais marmóreos. Quando há de ser o venturoso dia?! Quando há de ser!? O noivo então dizia E a noiva e ambos d’amores s’embriagavam. Eu choro e gemo e triste me debruço Na lájea fria dos meus sonhos pulcros.

da febre ardente Da ventura fugaz e transitória O peito rompe a capa tormentória Para sorrindo palpitar contente. Assim a turba inconsciente passa. Como no mar a vaga embravecida Vai bater-se na rocha empedernida. 81 . A morte me será vingança eterna. Em luta co’a natura sempiterna. porém. Muitos que esgotam do prazer a taça Sentem no peito a dor indefinida. Mas se das minhas dores ao calvário. E espuma e ruge a cólera entranhada. Eu subo na atitude dolorida De um Cristo a redimir um mundo vário. Espumando e rugindo em marulhada. E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca A humanidade ri-se e ri-se louca No carnaval intérmino da vida. No delírio. Já que do mundo não vinguei-me em vida. E onde a vida borbulha e o sangue medra. E em centelhas de raiva ensurdecida A vingança suprema e concentrada. Aí existe a mágoa em sua essência. A MÁSCARA Eu sei que há muito pranto na existência.NO MEU PEITO ARDE No meu peito arde em chamas abrasada A pira da vingança reprimida. Dores que ferem corações de pedra.

Jóias. dão-te enganos. Irmão querido. Tu’alma ri-se descuidosamente. Quantos. Enquanto outros que podem. Somente assim festejarei teus anos. Mostrar-te o afeto que meu peito sente. Su’alma livre para o Céu se alara.AMOR E RELIGIÃO Conheci-o: era um padre. bonecos de formoso busto." CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior pelas nove primaverasque hoje completou. Minh’alma alegre no teu rir s’encanta. estulto. Foste do amor o mártir sacrossanto. Canta no espaço a passarada e canta Dentro do peito o coração contente. consente Que neste dia de ventura tanta Vá. um desses santos Sacerdotes da Fé de crença pura. Da sua fala na eternal doçura Falava o coração. num abraço de ternura santa. a jóia que te exprima O amor fraterno do teu mano Em 28 de abril de 1901 82 . E Deus lhe disse: "És duas vezes santo. bom Papá. Pois se da Religião fizeste culto. Morrera um dia desvairado. Eu só encontro no primor de rima A justa oferta. oh! Quantos Ouviram dele frases de candura Que d’infelizes enxugavam prantos! E como alegres não ficaram tantos Corações sem prazer e sem ventura! No entanto dizem que este padre amara.

tinha ido ver a sepultura De um ente caro. Moldada pela mão da Natureza. palpitantes. sorrindo tristemente: "Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!" PECADORA Tinha no olhar cetíneo. Os seios rijos eram dois brasões Onde fulgia o simb’lo do Pecado. mornos. Tornou-se a pecadora vil. aveludado. Ali jazia o seu amor primeiro! Depois. o porte emoldurado No mármore sublime dos contornos. morria Uma noute entre as vascas da agonia Tendo no corpo o verme do pecado! 83 . presa. Dançavam-lhe no colo perfumado. amigo verdadeiro. Os seios brancos. Eu senti a minh’alma entristecida E interroguei-o: "Eterno companheiro Da morte. Balbuciou. No entanto. que matou-te o coração?" Ele apontou para uma cruz no chão. tomando a enxada gravemente. Do fado.O COVEIRO Uma tarde de abril suave e pura Visitava eu somente ao derradeiro Lar. divina. Do destino fatal. A chama cruel que arrasta os corações. Bela. Lá encontrei um pálido coveiro Com a cabeça para o chão pendida. esta mulher de grã beleza.

Eleonora. Na vastidão silente das caladas Abóbodas sombrias tenebrosas. Repercute. Trovador torturado e angustioso. úmidas arcadas. E à noute quando rezam na clausura. Ai! não. pouco a pouco. dolente. Subindo pelo Azul da Inspiração. mudas! IL TROVATORE Canta da torre o trovador saudoso Addio. addio. lembranças minhas! Saudades d’umas noutes em que vinhas Cantar comigo em doce desafio! Mas. Nem a sombra mais leve de ventura! Sempre as arcadas ogivais. desnudas. No sigilo das rezas misteriosas. . Eleonora! Oh! sonhos meus! E o canto se desprende harmonioso Na vibração final do extremo adeus. não acordeis. addio! 84 . E as mesmas monjas sempre tristurosas. os sons esmorecendo. Que guardam cinzas de ilusões passadas. E as mesmas portas impassíveis. mavioso.NO CLAUSTRO Pelas do claustro salas silenciosas De lutulentas. Perdem-se as notas pelo Azul morrendo. Que guardam pér’las de funéreas rosas. Assim canta também meu coração.Addio. Vagueiam tristemente desfiladas De freiras e de monjas tristurosas.

os teus fulgores. Na auréola azul dos dias teus risonhos. para guardar a mágoa oculta. porém.Em seu passado Houve um drama d’amor misterioso . soluça .A LOUCA A Dias Paredes Quando ela passa: . gargalha. Da desdita ferida pelo espinho. Chova-te o Céu cintilações sidéreas E a terra chova no teu seio flores! Esplende. a desgraçada estulta. Eu sei a sua história. Moça.coração saudoso. . No sudário de mágoa sepultada. o triste outono. Num sepulcro de rosas e de flores. . Tu que sorveste o fel das minhas dores E me trouxeste o néctar dos teus sonhos! Cedo virá. Canta. tão moça e já desventurada. Os dias voltarão a ser tristonhos E tu hás de dormir o eterno sono. Chora. PRIMAVERA A meu irmão Odilon dos Anjos Primavera gentil dos meus amores. O cabelo revolto em desalinho. Primavera.Arca cerúlea de ilusões etéreas. Primavera gentil dos meus amores! 85 . Vai morta em vida assim pelo caminho. Arca sagrada de cerúleos sonhos.O segredo d’um peito torturado E hoje.a veste desgrenhada. No seu olhar feroz eu adivinho O mistério da dor que a traz penada.

Sirva-te a crença de fanal bendito. No entanto o mundo é uma ilusão completa. túm’lo do prazer finado.A ESPERANÇA A Esperança não murcha. delirante e vário. Também espero o fim do meu tormento. Muita gente infeliz assim não pensa. EU TRAJO O LUTO DO PASSADO Senhora. tristonha . não busques saber por que. Voltam sonhos nas asas da Esperança. Mas não queiras saber nunca. risonha. Salve-te a glória no futuro . É minha sina perenal. portanto. ergue o teu grito.Cantar o Ocaso quando surge a Aurora. Vão-se sonhos nas asas da Descrença. E não é a Esperança por sentença Este laço que ao mundo nos manieta? Mocidade. Foi outrora do riso abençoado. Quantas venturas que me acalentaram! Mau peito. O berço onde as venturas se embalaram. Sonâmbulo da dor angustiado. 86 . ela não cansa. O mistério d’um peito que estertora E o segredo d’um’alma que não sonha! Não. Senhora. Também como ela não sucumbe a Crença.avança! E eu. Na voz da morte a me bradar: descansa! SENHORA. eu trajo o luto do passado. que vivo atrelado ao desalento. Este luto sem fim que é o meu Calvário E anseio e choro.

Quando o rosário de seu pranto rola.SOFREDORA Cobre-lhe a fria palidez do rosto O sendal da tristeza que a desola. porém. Fitando a nebulosa do meu Sonho E a Via-Láctea da Ilusão que passa! 87 . Bela na Dor. santíssima. Mas quando vibrar a última balada Da tarde e se calar a passarada Na bruma sepulcral que o céu embaça. Mas volta logo um negro desconforto. Por entre o resplandor das Primaveeras Oh! madrugada azul dos meus sonhares.o orvalho do pranto lhe perola As faces maceradas de desgosto. Chora . Quem me dera morrer então risonho. Vinde entornar a clâmide puríssima Da luz que fulge no ideal sagrado! Longe das tristes noutes tumulares Quem me dera viver entre quimeras. nervosa e louca Esquecer por momento a mágoa intensa Arrancando um sorriso à flor da boca. sublime na Descrença. Das brancas rosas do seu triste rosto Que rolam murchas como um sol já posto Um perfume de lágrimas se evola. Como Jesus a soluçar no Horto! ECOS D’ALMA Oh! madrugada de ilusões. Tenta às vezes. Sombra perdida lá do meu Passado.

Essa sublime adoração do crente. a seu lado Medita. crê em Deus.. Esse manto de amor doce e clemente Que lava as dores e que enxuga o pranto?! Ah! Se queres saber a sua grandeza. mimosa.. a fronte triste. pois. Dorme talvez. Sienkiewicz Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo Ser que preside e rege os outros seres. púbere. ama. sê bendita! ARIANA Ela é o tipo perfeito da ariana. Em flácido abandono Lembra formosa no seu casto sono A languidez dormente da indiana. o olhar velado No Mistério da Carne Soberana 88 . nevada. Estende o teu olhar à Natureza. e. Enquanto o amante pálido.AMOR E CRENÇA E sê bendita! H. Fita a cúp’la do Céu santa e infinita! Deus é o templo do Bem. O amor é a hóstia que bendiz a Crença. num só encanto? Esse mistério eterno e sacrossanto. As níveas pomas do candor da rosa. Branca. A carne exuberante e capitosa Trescala a essência que de si dimana. Emergem da camisa cetinosa Entre as rendas sutis de filigrana. Na altura Imensa. Que os encantos e a força dos poderes Reúne tudo em si. Rendilhando-lhe o colo de sultana.

o meu Passado. além.Dizer adeus aos sonhos meus perdidos! Deixa ao menos que eu suba à Eternidade Velado pelo círio da Saudade. Entre todos. E na choça a lamúria que traspassa O coração.Quero abraçar o meu passado morto. porém. Que não se enterra assim sem compaixão Os escombros benditos de um Passado! Ai! Não me arranques d’alma este conforto! . Tem pena dessas cinzas que ficaram. A romaria eterna dos aflitos. e quero sempre tê-las ao meu lado! Não. . A alma saudosa pelo amor vibrada. Da juventude a virginal capela A lhe cingir de luz a fronte baça. Eu vivo dessas crenças que passaram.A Stella Matutina da Desgraça! 89 . Ao dobre funeral dos tempos idos! NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA (Lendo o "Poema de Maio") Na rua em funeral ei-la que passa. Vai Corina mendiga e esfarrapada. . ânsias e gritos De mães que arquejam sobre os probrezitos Filhos que a Fome derrubou na praça. coveiro. lânguida e bela. A procissão dos tristes. dos proscritos. Dos romeiros saudosos da desgraça.TEMPOS IDOS Não enterres. não quero o meu sonho sepultado No cemitério da Desilusão.

Voa. Deixa ver na fulgência do seu rastro A trajetória augusta da Ciência. devassando a terra. Perto. ADEUS. Vinha o luar iluminando a estrada E eu vinha pela estrada soluçando. É como um despertar de estranho mito. 90 . Hermeto Lima Adeus. se eleva em busca do infinito. Sulcando o espaço. Cheia da luz do cintilar de um astro. um ribeiro claro murmurando Muito baixinho como quem chorava. adeus! E. Saí deixando morta a minha amada. Parecia o ribeiro estar chorando As lágrimas que eu triste gotejava. ADEUS! E. Fitando o abismo sepulcral dos mares.eu disse. Vencendo o azul que ante si s’erguera. adeus. apenas restam mágoas. suspirando.ADEUS. SUSPIRANDO Pareceu-me inda ouvir o nome dela No badalar monótono dos sinos. Súbito ecoou do sino o som profundo! Adeus! . Para mim no mundo Tudo acabou-se. Auroreando a humana consciência. A aeronave que um mistério encerra Vai pelo espaço acompanhando o mundo. Mas no mistério astral da noute bela Pareceu-me inda ouvir o nome dela No marulhar monótono das águas! A AERONAVE Cindindo a vastidão do Azul profundo. E na esteira sem fim da azúlea esfera Ei-la embalada n’amplidão dos ares.

Estrela esmaecida do Martírio. Se eu sou o orvalho eterno que te chora. Minh’alma que de longe a acompanhava. E quando ela no Azul foi-se sumindo Surgia a Aurora .A sombra deste afeto estiolado. tristonho lírio. Mas a noute chegou. irmã pálida da Aurora. Deixa beijar-te a face que descora! Fosses antes a rosa purpurina E eu beijaria a pétala divina Da rosa. com ela Negras sombras também foram chegando. Lá onde nunca chegue esta saudade.a mágica princesa! E eu vi o Sol do Céu iluminando A Catedral da Grande Natureza. onde não pousa a desventura.Vai-te. Viu o adeus que do Céu ela enviava. E eu disse . P’ra que pendes o cálice que enflora Teu seio branco do palor do círio?! Baixa a mim. Envolto da tristeza no delírio. Disse. . e a estrela foi p’ra o Céu subindo. E nunca mais eu vi a minha estrela! 91 . Ai! que ao menos talvez na vida escassa Não chorasses à sombra da desgraça. triste. estrela do Passado! Esconde-te no Azul da Imensidade.LIRIAL Por que choras assim. Para eu sorrir à sombra da ventura! A MINHA ESTRELA A meu irmão Aprígio A.

Pude rever naquele desgraçado O drama lutuoso da Paixão. perdão. a fé perdida. 92 . Morre-me a voz.. e eu gemo o último harpejo.. A esmola dum carinho apetecido. o algoz . Vítima augusta de indelével falso. o olhar enlanguescido. a minha bem amada. isento de pecado.Senhora.o criminoso . Estendo à Dulce a mão. perdão! A ESMOLA DE DULCE Ao Alfredo A.então. Quando do algoz cruento o braço alçado Se dispunha a vibrar sem compaixão O golpe na cabeça do culpado Ele. E ela fita-me. dai-me u’a esmola . E eu balbucio trêmula balada: . como este beijo me consola! Bendita seja a Dulce! A minha vida Estava unicamente nessa esmola. O olhar azul pregado n’amplidão.A PRAÇA ESTAVA CHEIA. A praça estava cheia.e estertorada A minha voz soluça num gemido. E todo o dia eu vou como um perdido De dor. Depois. O condenado Transpunha nobremente o cadafalso. E na atitude do Crucificado. Pedir a Dulce. E dos lábios de Dulce cai um beijo. por entre a dolorosa estrada. Caiu na praça como fulminado A soluçar: perdão. Puro de crime.

acolhe-me N’asa da Morte redentora. na névoa baça Onde o teu vulto lúrido esvoaça.crença Perdida .venenos d’alma E eu busco a plaga onde o repouso mora. E a alma me ofusca e o peito me maltrata. Leva-me o esp’rito dessa luz que mata. E hás de tombar um dia em mágoas lentas. e à ingrata Luz deste mundo em breve me arrebata E num pallium de tênebras recolhe-me! Aqui há muita luz e muita aurora. e. Negrejadas das asas lutulentas Que te emprestar o corvo do Destino! GÊNIO DAS TREVAS LÚGUBRES... Há perfumes d’amor . acolhe-me. Lá.. assassino.. ave negra da Desgraça. Seja-te a vida uma agonia intensa! Vives de crenças mortas e te nutres. onde d’água raso O olhar não trago. Empenhada na sanha dos abutres.AVE DOLOROSA Ave perdida para sempre . Num desespero rábido. Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença! Dos sonhos meus na Catedral imensa Que nunca pouses. Gênio das trevas lúgubres.segue a trilha que te traça O Destino. E o viver calmo e sossegado tolhe-me! Leva-me. obumbra-me em teu seio. nem me turba a calma A aurora deste amor que é o meu ocaso! 93 . E as trevas moram.

Reflete a luz do sol que já não arde. negros palinuros Da tempestade negra e da tristeza. a vida é qual risonho Batel. só descanta. Banhando a fria solidão das fragas. Treme na treva a púrpura da tarde. Os nimbos das procelas desta vida. então. O MAR O mar é triste como um cemitério. num mar de esp’rança. Chora a saudade envolta nesta espuma! 94 .NIMBOS Nimbos de bronze que empanais escuros O santuário azul da Natureza. e a alma é a Flâmula do sonho. sem bruma Que a transparência tolde. Cada rocha é uma eterna sepultura Banhada pela imácula brancura De ondas chorando num albor etéreo. Abismados na bruma enegrecida. Mas quando o céu é límpido. sem nenhuma Nuvem sequer. dentre a escura Treva do oceano. Que o guia e o leva ao porto da bonança. Quando vos vejo. Ah! dessas no bramir funéreo Jamais vibrou a sinfonia pura Do amor. a voz do meu saltério! Quando a cândida espuma dessas vagas. Que o céu reflete. Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma. Julgo ver nos reflexos de minh’alma As mesmas nuvens deslizando em calma.

o Sol que as almas doura! Fugiu. Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas E.esse clarão eterno d’alma forte Astro da minha Paz. onde O silêncio campeia soberano Morreram notas do bulício humano.. quem dera Voar est’alma a ti. é desengano. lá nos espaços.ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS. Tendo a minh’alma presa nos teus braços! Pau d’Arco .. agita as tuas asas. Donde Fluiu outrora a luz dum doce engano. Anseios d’alma aqui se perdem. Adeus oh! Dia escuro. o meu único Norte. Sírius da minha Sorte E da Noute da vida a Vênus Redentora. foge! Eu busco a virgem loura Que fugiu-me do peito ao teu clarão de morte E Ela era a minha estrela.. Hoje é trevas.. Cantarias do amor a primavera. é dor. Ascende à Claridade. meu Futuro. O grande Sol de afeto . foge . Nem vibra a corda que a saudade esconde. longe dos laços Dessa jaula de carne que a encarcera! Ah! Que unidos assim. Dia do meu Passado! Irrompe.1902 95 . e em si a Luz consoladora Do amor . Triste criança virginal. FOGE! Aurora morta.eu busco a virgem loura! Pau d’Arco .) Nessas paragens desoladas. E eu ergo preces que ninguém responde.1902 AURORA MORTA. Aurora morta. Agora. num Pálio auroral de Luz deslumbradora. oh! Minha Mágoa.

Pau d’Arco – 1902 CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA Canta o teu riso esplêndida sonata.a Louca tenebrosa. as flores também choram Num chuveiro de pétalas. Como que um doce tilintar de prata E a vibração de mil cristais quebrados. Bendito o riso assim que se desata .os roseirais descoram E elas bóiam no pranto da corrente Que as rosas.. Ri-se o meu coração na tua boca! Pau D'Arco . entretanto. Um arroio canta pela umbrosa Estrada. à dolente Unção da noute. Ah! num delíquio de ventura louca. Quando. Chora a corrente múrmura. Cantando sempre em trínula volata! Aurora ideal dos dias meus risonhos. Aragem suspirosa Agita os roseirais que ali vicejam. no teu riso de anjos encantados.Cítara suave dos apaixonados. chorando enfloram. E há. despertando sonhos. Vai-se minh'alma toda nos teus lábios.1902 96 . nitente. as águas límpidas alvejam Com cristais. Pendem e caem . e. os astros rumorejam Um presságio de noute luminosa E ei-la que assoma . úmido de beijos em ressábios Teu riso esponta.NO CAMPO Tarde. emergindo às trevas que a negrejam.. ao luar. Sonorizando os sonhos já passados. No alto. Branca.

A nívea cor de cera Que o seu seio branqueja.CRAVO DE NOIVA Ao Dias Paredes Cravo de noiva. E tudo quer que nessa flor se enleve O poeta. Guarda segredos divinais que eu dera Duas vidas. Minh'alma triste pelos céus flutua! Pau d'Arco -1902. olências de virgínea Carne fremindo num langor de pomas. Voga a lua na etérea imensidade! Ela. sacrossantos. Derramam a urna dum perfume vário. Onde as almas das virgens em crisálida De seios alvos e de fronte pálida. Também envolta num sudário — a Dor. E a lua é como um pálido sacrário. É que dessa concha armínea Da lactescência angélica da neve. Se evolarn castos. Pau d'Arco -1902. noctâmbulo da Dor e da Saudade. toda a cálida Mística essência desse alampadário. 97 . P'ra desvendar os seus segredos santos. entre os encantos Dum noivado risonho em primavera. PLENILUNIO Desmaia o plenilúnio. eterna noctâmbula do Amor. A gaze pálida Que lhe serve de alvíssimo sudário Respira essências raras. é como os prantos Níveos. Eu. virginais aromas De essência estranha. que a virgem chora. se duas eu tivera. Flor dos mistérios d'alma. Ah! como a branca e merencórea lua.

Cedo atraiu-me a áurea fulgidia Da refulgência antiga das idades.Quero partir em busca do Passado. soluças. Tanto que gemes. Quando alta noute. E eu tremo e hesito entre um mistério escuro: ... E vais aos poucos soluçando mágoas. chora um ocaso sepultado. bandolim do Fado. e ilusões acordas. E vais aos poucos soluçando queixas! 98 . e eu julgo que nas tuas cordas Choram todas as cordas do Passado! Guardas a alma talvez d'um desgraçado. pompeia a luz da branca aurora. Busquei então na nebulosa fria Das Ilusões. Que desespero insano me apavora! Aqui. Choras. É como as nênias do Coveiro d'alma! Tudo eterizas num coral de endeixas. .Quero Correr em busca do Futuro. bandolim do Fado E de Saudade o peito meu transbordas.INSÂNIA No mundo vago das idealidades Afundei minha louca fantasia. Paraíba -1902 O BANDOLIM Cantas. Um dia morto da Ilusão às bordas. Tanto que cantas. a lua é triste e calma. Ali. sonhar novas idades. Teu canto. vindo de profundas fráguas. Mas ao esplendor das velhas majestades Vacila a mente e o seu ardor esfria.

Lúcia sorriu-se à bruma nevoenta. E eu quis beijar-te o lábio redolente. cindindo os céus risonhos. tu vinhas a cindir os ares.. E beijei-te. senão co'o o meu olhar te espanco! E eu vi que.Esses teus seios que os cerúleos lares Branquejaram de eternos nenúfares. NA ETÉREA LIMPIDEZ. Para nunca tocarem negros sonhos! Caíste enfim no meu sacrário ardente. à voz de Lúcia. também ria! 99 . O céu tremia em seu trevoso flanco. E eu vi os seios teus virem inconhos . qual hóstia. alegre e rubro.Foge. A vida Despontava na aurora amortecida  rutilância mágica do dia. Foste caindo n'ara dos meus sonhos. E a procela chorou n'um fundo arranco De mágoa triste e de paixão violenta. Aquele riso despertava a aurora! E tudo riu-se. grave e lenta. Fulgia a bruma para sempre. Tocando n'ara negra o níveo seio. E. E Lúcia disse à bruma lutulenta: . caindo dos altares. Na etérea limpidez de um sonho branco. Quiseste-me beijar a ara do peito.. Caíste morta ao celestial preceito. O sol. e como Lúcia.ARA MALDITA Como um'ave. Meiga. mas eis que neste enleio. agora.

Nua. Agora. e. Tudo! até o altar onde a Angústia vibra intensa N'uma fúria assombrai de feras em delírio! Penetro louco enfim o abismo funerário. em banho ideal de amor te inundas. Que beija a terra e que abençoa os campos.A colunata êxul do Sonho Morto . urnas de Sonho. a rasgar o lúrido sacrário. Flores mortas da Aurora.ei-lo que avisto. E. o Mundo se concentre. Que. Beije-te o seio e te abençoe o ventre! O TEMPLO DA DESCRENÇA O Templo da Descrença . Mas. em bando. Diluis teu peito em sensações profundas. o túmulo da Crença. e. E vejo o pedestal que sustenta a Descrença! . E a rasgar. luminosa. eu sombrio chorando Ante a imagem fatal do Sepulcro da Crença! 100 .o círio Da Quimera Falaz. E em mim como no Templo. ante o branco estendal das madrugadas. a Virgem Mãe dos céus escampos.TREVA E LUZ Neste pélago escuro em que te afundas. Em mim como no Templo a Angústia se condensa. eis que emerges. A imensa Cruz da Dor está serena como um lírio! E vejo o pedestal que sustenta o Martírio. E a lua. ao ver-te nua. á luz das alvoradas santas Ungem-te o corpo redolências tantas. Sentes o peito em ânsias revoltadas. às fundas Águas do mar das glórias obumbradas. Longe das sombras aurorais e amadas.

santa de inocência! Anjo de luz de astral aurifulgência. ela.Fúlgido foco de escaldantes brasas . semeando a Morte. No olhar d'amor a mística fulgência E o misticismo cândido das rosas. formosa.. . tudo chora..É o castigo de Deus que passa mudo! . Plena de graça. Todos dizem co'os olhos para a Sorte . entre esplendores. tudo! Quando Ela passa. Colmado o seio de virentes flores.. enquanto Vai devastando o coração das casas. 101 . e a Peste ri-se.. como o sol . E como o sol que a segue e deixa um rastro De luz em tudo. Quero-te assim .a Peste N'um insano ceifar que aterra e espanta. formosa entre as formosas.A PESTE Filha da raiva de Jeová .O sol a segue. De espaço a espaço sepulturas planta E em cada coração planta um cipreste! Exulta o Eterno e. A alma diluída em eterais cismares.e que bendita sejas Como as aras sagradas das igrejas. Embaladas no albor da adolescência...o astro Deixa um rastro de luto em cada canto! IDEAL Quero-te assim. Como o Cristo sagrado dos altares.Virgens filhas das virgens nebulosas! Quero-te assim. Etéreo como as Wilis vaporosas.

para onde Me levar o Destino abatido e tristonho. . eis-me a teus pés... Eu venho arrependido. Teu canto agora é um salmodiar de arcanjo. a teus pés. Açucena de Deus. pelo mundo.. E eu ouço etérea cavatina! Há nos teus lábios . o meu Sonho morreu! Perdão. insânia. E para mim. perdoa o teu vencido. Rendo piedosa dúlia peregrina À tua doce voz que me fascina... meu anjo. pois.Harpa virgem brandindo mil delírios! Quedo-me aos poucos.dois sangrentos círios A gêmea florescência de dois lírios Entrelaçados numa unção divina. insânia. assim.. Como o santo levita dos Martírios. lírio morto do Céu! Perdão! E a minha voz estertora um gemido.CÍTARA MÍSTICA Cantas. penseroso e pasmo. E a Noite afeia corno num sarcasmo E agora a sombra vesperal morreu.. ah! ninguém me responde. Perdão! E este sepulcro imenso que não fala! 102 . É a música de Deus que vem do Céu! SÚPLICA NUM TÚMULO Maria. Chegou a Noite.. E o lábio meu pra sempre apartado do teu Não há de beijar mais o teu lábio querido! Ah! Quando tu morreste. Implorar-te o perdão do imenso crime meu! Eis-me.Irei agora. Perdão! E este silêncio e esta tumba que cala! Insânia. pátria da Aurora exilada do Sonho! ...

.. sem Calvário. Em ânsia de repouso.. Cristo d'amor morri pela inocência! 103 . e. como a Aurora Que ao beijo vesperal anseia e expira. Chora saudades do terreno pouso! Como um mártir de estranho sacrifício. porém. seja como o fardo Desta descrença funeral em que ardo E com que o fogo da paixão ateio! Funambulescamente a alma se atira À luta das paixões. Transpus um dia o Inferno Azul do Gozo! O amor em lavas de candência d'aço. e ora Em contorço es supremas de Delícia! MARTÍRIO SUPREMO Duma Quimera ao fascinante abraço. Onde nunca gemeu o humano passo. no Inferno do Gozo. Tinha os lábios crestados pela ardência Da luz letal do grande Sol do Vício! E mergulhei mais fundo no estuário.. . Banhou-me o peito. supremos. Da Messalina fria no regaço. Turificando a languidez dum seio! O amor. que da Desgraça veio Maldito seja. Desce para a alma o ocaso da Carícia Ora em sonhos de Dor.Amor que é mirra e que é sagrado nardo. Mas. Por um Cocito ardente e luxurioso.AFETOS Bendito o amor que infiltra n'alma o enleio E santifica da existência o cardo.

E vi-te triste. eu vi. também da Dor. Domados pela meiga Ónfale a que me rendo! CORAÇÃO FRIO Frio o sagrado coração da lua. Ah! que um dia da Vida.. lá dos braços hercúleos... nem mais alquebre Um coração como a alma que está morta. ansiando a luz amena No silêncio notívago da rua.. eu que te almejo. mulher.. num lânguido smorzando A sombra virginal qu'eu adoro chorando E há de um dia amparar-me na luta correndo. E estavas morta... estes dardos acúleos Caíam..E tu velas. O penetral que leva à derradeira porta! Revejo em ti.Sonâmbulo glacial da estranha pena! Estavas fria! A neve que a alma corta Não gele talvez mais. . e a saudade da infância... desvalida e nua! E o olhar perdi. no pó da fulgurância Como uma velha cruz vela na sombra morta! Fora. . me acalenta e conforta! Noute! E somente tu velas a rutilância.Lua que esfria o sol do meu desejo! 104 . a sós. a noute é tumbal.. Teu coração rolou da luz serena! E eu tinha ido ver a aurora tua Nos raios d'ouro da celeste arena.SOMBRA IMORTAL .. Como um'alma de mãe. Sombra de gelo que me apaga a febre. Lua que já passou e que hoje ainda corta O penetral que guia à derradeira estância.

Branca bem como empalecido arminho.. Pérolas e ouro pela serrania. Para o Infinito e para o Céu voltados! Cantas. o seio branco.. e em lânguida sonata Vinhas transpondo a margem do caminho. Alvorejando em arrebol de prata. Uma pantera foi se ajoelhando. te acolheu a mata. chegando.NOTURNO (PARA O VALE NOITAL. e no meu peito estes teus olhos Como que cravam dois punhais gelados! SEDUTORA Alva d'aurora... O roble altivo entreteceu4e um ninho. No lago branco e rútilo do dia O azul pompeava para sempre vasto. e é noute de fatais abrolhos. E um canto vai morrer no vale fundo. Somente tristes os teus olhos vejo. virginal. Chegaste.. Alva d'aurora. Rendida ao eflúvio do teu seio casto! 105 .) Para o vale noital da eterna gaza Rolou o Sol . e no Santo harpejo. entanto... tu. Que luz é esta que das brumas vasa. profundo?! Rumores santos. e.imenso moribundo E a noute veio na negrura d'asa. ajoelhando à imagem do Carinho. Choras. Que canto é este. no negror me abrasa. Santificada pela Dor do Mundo! U'a luz. inata! E. Bendita a Santa do Carinho...

mórbidos encantos. Fria como um crepúsculo da Judéia. Qual rosa branca que ao tufão vacila. E a paixão morre e os corações coveiros Vão como duendes pelos céus risonhos. Triste como um soluço de Dalila.PELO MUNDO Ânsias que pungem. E o mar chamou-a para o funda abismo! E o céu chamou-a para o Misticismo. Vão pelo mundo ensangüentando as Vidas. Crepitaç5es de flamas incendidas Nalma explodindo como fogos santos.. Já Vésper.. E as brumas velam nos sinistros mantos E as virgens dormem nas tumbais jazidas! Súbitos fremem 'spasmos derradeiros. 106 . cintila! Naquela hora morria para a Idéia A minha branca e desgraçada Déa. Chorando auroras músicas perdidas Na estrada santa ensangüentando as Vidas.. e lânguida. Eflúvios quentes e fatais quebrantos Crestam a alma das virgens adormidas.. no Alto. Nos campos-santos enterrando os Sonhos! E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA E o mar gemeu a funda melopéia À luz feral que a tarde morta instila. Nesse momento a Lua vinha calma E céu e mar num desespero mudo Não viram que num halo de veludo À alma de Déa se evolava est'alma.

. Canta no espaço a maldição da Vida! 107 . Desfaz-se o peito em vibrações dormentes E o Fado geme sob a névoa fria! Que eu sinta n'alma o que tu n'alma sentes! Nesta Missa de Atroz Melancolia Bebes chorando o Vinho da Agonia .quem mede-o?! . que ao frio alvor da Mágoa Humana. adormecida.Fogo sagrado nos festins da Morte .. saturnal do Inferno! Eu te bendigo! No mundano cúmulo És a Ironia que tombou no túmulo Nas sombras mortas de um desgosto eterno! VAMOS.o voltairesco clown . os gaturamos Num recesso de névoa. No ar..A hora dos tristes e dos descontentes.Consagração das almas padecentes! Foi numa tarde assim que nos amamos. Silfos morriam.. e a todo o seu assédio.O RISO "Ri. QUERIDA! Vamos. sonolento e tardo.Ele.Eterno fogo. Clarões de sonho em nimbos de epicédio! Bendito sejas. coração. clown da Sorte . E ergue à sombra da dor a que se irmana Lauréis de sangue de volúpia insana. Alenta a Vida que tombou no Tédio! Que à Dor se prende. Na Via-Látea fria do Nirvana. Riso. Punge-me o peito da Saudade o cardo Enquanto um mocho. querida! Já é Ave-Maria . tristíssimo palhaço" Cruz e Souza O Riso .

A UMA MÁRTIR Alma em cilício, vem, enrista a dava, Brande no seio o espículo e o acinace E unjam-te o seio que d'auroras nasce Sangrentas bênçãos eclodindo em lava! Nossa Senhora te unge a face escrava, Cristo saudoso te abençoa a face De monja - violeta que do Céu baixasse À Virgem Santa Natureza brava! Vais caminhando para a terra extrema, Rosa dos Sonhos! e o teu galho trema E a tua crença, o desespero mate-a... E em nuvens d'ouro ascende enfim ao plaustro Da Neve Eterna, estrela azul do claustro, Levada para o Azul da Via-Látea!

RÉGIO Festa no paço! Noite... E no entretanto Luzes; flores, clarões por toda a festa E há nos régios salões, em cada aresta, Credências d'ouro de supremo encanto. No baldaquino a orquestra real se apresta E o áureo dossel finge um relevo santo... - Bissos egípcios d'alto gosto, a um canto, Flordilisados de nelumbo e giesta. Morreu a noite e veio o Sol Eterno - Âmbar de sangue que desceu do Inferno No turbilhão dos alvos raios diurnos... Brilham no paço refulgências de elmo E a princesa assomou corno um santelmo Na realeza branca dos coturnos.

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PELO MAR Manhã em flor. O mar é um policromo E imenso lago d'íris e alabastros... À aurora é branco e ao sol, o mar é como Um pálio imenso que caiu dos astros. Longe, bem longe, no alvoral assomo Ergue um navio os altanados mastros E o Oceano dorme - alourecido pomo Num leito irial de pérolas e nastros. A alma da Mágoa vai pelo seu dorso, Em sonhos geme... Um coração de corso Geme no mar, vibra no mar, entanto, Colma-lhe o seio a opala das esponjas... E à noute morta choram vagas - monjas Purificadas no cristal do pranto!

PALLIDA LUNA És do Passado! Vieste d'alvorada N'asa dos elfos pela Morte espalma... Cantas... e eu ouço esta berceuse calma Da harpa dos mundos ideais do Nada! Ergue o Missal brilhante de tu'alma, Mas nessa elevação mistificada, Vem, que eu te espero, Deusa constelada Desce, anêmona êxul que o Céu ensalma! Venhas e desças, Lua dos Martírios, Desças, mas venhas pela unção dos lírios. Visão de Ocaso de enluaradas comas, Vaso de Unção descido dos espaços, Para ungirmos nós dois, os nossos paços, Na tule idealizada dos aromas.

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A MORTE DE VÊNUS Velhos berilos, pálidas cortinas, Morno frouxel de nardos recendendo Velam-lhe o sono... e Vênus vai morrendo No berço azul das névoas matutinas! Halos de luz de brancas musselinas Vão-lhe do corpo virginal descendo - Abelha irial que foi adormecendo Sobre um coxim de pérolas divinas. E quando o Sol lhe beija a espádua nua, Cai-lhe da carne o resplendor da Lua No reverbero dos deslumbramentos... Enquanto no ar há sândalos, há flores E haustos de morte - os últimos clangores Da música chorosa dos mementos!

MÁRTIR DA FOME Nesta da vida lúgubre caverna De ossos e frios funerais que eu sinto Corno um chacal saciando o eterno instinto Vou saciando a minha Fome Eterna. - Fome de sangue de um Passado extinto, De extintas crenças - bacanal superna, Horrível assim como a Hidra de Lema E muda como o bronze de Corinto! Ânsias de sonhos, desespero fundo! E a alma que sonha no marnel do Mundo, Morre de Fome pelas noites belas... E como o Cristo - o Mártir do Calvário Morre. E no entanto vai para o estelário Matar a Fome num festim de estrelas!

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SONHO DE AMOR Sobre o aromal e amplo coxim de Flora, Que os vapores da tarde inda incensavam E que um incenso tênue e bom vapora, Os namorados lânguidos sonhavam. A alma do Ocaso entrava o céu agora E havia pelas tênebras que entravam Ora estrangulamentos surdos, ora Ruídos de carnes que se estrangulavam. E sonharam assim durante toda A noute, e toda a alva manhã durante! - O Sol jorrava largos raios longos E em roda víride e nevado, em roda, Lembrava o campo um colorido ondeante De vidros verdes e cristais oblongos!

A ORGIA MATA A MOCIDADE A orgia mata a mocidade, quando Rugem na carne do delírio as feras, E o moço morre como está sonhando Nas suas vinte e cinco primaveras. Em cima - o oiro sem mancha das esferas, Em baixo oiro manchado de execrando Festim de sibarita:, das heteras Lubricamente se despedaçando! Em cima, a rede do estelário imáculo Suspensa no alto como um tabernáculo - A orgia, em baixo, e no delírio doudo Corno arvoredos juvenis tombados Os moços mortos, os brasões manchados, E um turbilhão de púrpuras no lodo!

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Desencadeados. Fulgem por entre mil cristais vermelhos O alvo cristal dos nítidos espelhos E a seda verde dos arbustos glabros. Vibra. em compassados trenos Sobre os veludos da tapeçaria.) Chove. violentos. LÁ FORA. De encontro ás torres e de encontro aos muros. vão bater. Saio de casa. A incandescência irial dos candelabros.. Os ventos. recordando a estria Dos corpos de Afrodite e Vênus. Os passos mal seguros Trêmulo movo.. e ao compasso de arrabis serenos A valsa rompe.FESTIVAL Para Jônatas Costa Címbalos soam no salão. Estatuetas de mármore de Lemnos Estão dispostas numa simetria Inconfundível. NOTURNO (CHOVE. E em meio ás refrações verdes e hialinas.. E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos Enquanto a chuva cai nos cemitérios E o vento apaga os lampiões da rua! 112 ... Negro.. mas meus movimentos Susto. batendo em todas as retinas. ameaçando os séculos futuros! De São Francisco no plangente bronze Em badaladas compassadas onze Horas soaram. Surge agora a Lua. O dia Foge. diante do vulto dos conventos. Lá fora os lampiões escuros Semelham monjas a morrer.

. os sapos Encontrem nele pábulo eviterno. Ele que foi um forte Que nunca se quebrou pelo Desgosto Morreu. mas não deixou na ara do rosto Um só vestígio que acusasse a Morte! O anatomista que investiga a sorte Das vidas que se abismam no Sol-posto Ficaria admirado do seu rosto Vendo-o tão belo.. Que há muito tempo não cantava lá.. já faz sete dias Que eu ouço o canto desse sabiá! VAE VICTIS A Dor meu coração torça e retorça E me retalhe como se retalhe Para escárnio e alegria da canalha Um leão vencido que perdeu a força! Sobre mim caia essa vingança corsa. Diluiu o silêncio em litanias. os vermes vis. poetas.Repositório de milhões de miasmas Onde se fartem todos os fantasmas.E ELE MORREU Ao sétimo dia de seu falecimento E ele morreu... E hoje. Já que perdi a última batalha! E. verão. outono. tão sereno e forte! Quando meu Pai deixou o lar amigo Um sabiá da casa muito antigo.. enquanto o Tédio a carne me trabalha.. inverno! 113 . . Primavera. A Dor meu coração torça e retorça! Cubra-me o corpo a podridão dos trapos! Os vibriões.

aqui é a Terra! Em que a alma chora e em que a Saudade canta! O caminheiro que o Pesar desterra. Gemem poetas . enluta E todo mundo que por ela passa Há de beber a taça da cicuta E há de beber até o fim da taça! Há de beber. E se cantar como a Saudade canta. inda altiva...pássaros da Noute! 114 . Derrama em cada boca envenenada Mais uma gota do fatal veneno! TERRA FÚNEBRE Aqui morreram tantos poetas! Tanta Guitarra morta este lugar encerra!.A DOR Chama-se a Dor. ao noturno açoute. Aqui é o Campo-Santo. Carpem na sombra pássaros ascetas. . e quando passa.Esse sombrio trovador é o Inverno! Aqui é a Terra. enxuto o olhar. enxuta A face. abraçado às campas dos poetas. ela. onde. e o travo há de sentir. inda o olhar sereno De agonizante multidão rodeada. O caminheiro fique nesta Terra! À noute aqui um trovador eterno Chora. e a ameaça Amarga dessa desgraçada fruta Que é a fruta amargosa da Desgraça! E quando o mundo todo paralisa E quando a multidão toda agoniza. Pare chorando nesta Terra Santa. Ela.

assomem Descrenças. poeta. a crença e o amor. e por fim. Vence. que não ama e que não sonha?! Pois a alma acostumada a ser tristonha Pode achar por acaso ou porventura Felicidade numa sepultura. sendo a risonha Santíssima Trindade da Ventura Pode ser venturosa a criatura Que não crê. no imenso Azul do Firmamento Ir rolando pelo ouro das estrelas. A CRENÇA E O AMOR O sonho. nada há que o abata e o vença! Por isso.O SONHO. E esse ouro santo vir rolando pelas Trevas profundas do meu pensamento! 115 . eu penso na Ventura! E o pensamento. na Suprema Altura Sinto. surjam tédios na Descrença. De onde me vem esta felicidade?! MEDITANDO Penso em venturas! A alma do homem pensa Sempre em venturas! Sorte do homem! O homem Há de embalar eternamente a crença Sem ter grilhões e sem ter leis que o domem! Punjam-no os vermes da Desgraça. e morrem os vermes que o consomem. o sonho. do meu seio Partiu num célere arrebatamento De minha crença arrebentando a grade Pois se eu não amo e se também não creio De onde me vem este contentamento. Contentamento numa dor medonha?! Há muito tempo. Luta.

por fim. homem meditabundo?! Escalpelaste todo o cadáver do mundo E..Construíste de ilusões um mundo diferente. Terá no entanto indubitavelmente A admiração do século presente E a sagração dos séculos vindouros! SONETO A FREDERICO NIETZCHE Para que nesta vida o espírito esfalfaste Em vás meditações.. por fim.. Foi-te mister sondar a substância das cousas . profundo. Tesouros reais. O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?! Pois. O Alexandre dos Anjos merecia Grandes coroas nesse grande dia.. Desconheceste Deus no vidro do astrolábio E quando a ciência vã te proclamava sábio A tua construção quebrou-se de repente! 116 . nada achaste.. para penetrar o mistério das lousas. Para quem tem na vida compreendido Toda a grandeza da Fraternidade O aniversário dum irmão querido A alma de alegres emoções invade. e.. Depois quando no irmão estremecido Fazem aliança o gênio e a probidade. em homenagem ao aniversário natalício de Alexandre Rodrigues dos Anjos 28 de abril de 1905. auríferos tesouros. Atinge o amor um grau nunca atingido No termômetro santo da Amizade. pois. nada achaste! A loucura destruiu tudo que arquitetaste E a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo. estudares.. De que te serviu.PARA QUEM TEM NA VIDA.. Feito no decurso de dois minutos.

oh! Filho da Hotentóia ufana Teus braços brônzeos como dois escudos. Quando o fantasma da tuberculose Pediu-te. Representando a integridade humana! Nesses braços de força soberana Gloriosamente á luz do sol desnudos Ao bruto encontro dos ferrões agudos Gemeu por muito tempo a alma africana! No colorido dos teus brônzeos braços.ei-Ia que sobe ainda! Pau D'Arco – 1905 117 . Fulge o fogo mordente dos mormaços E a chama fulge do solar brasido. no entanto. dois gigantes mudos. .as flores e os metais e os frutos Simbolizados nesse colorido! VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA À memória do meu colega Caldas Líns Vinhas trilhando gárrulo a Avenida Onde Deus manda que todo homem goze.santa nevrose que com fios de ferro as almas cose Principalmente se uma está ferida! Das tuas dores na procela brava Não soubeste talvez que eu te estimava! Mas a amizade oculta não se finda. ...O NEGRO Oh! Negro. São dois colossos.. E eu cuido ver os múltiplos produtos Da Terra . o óbolo da Vida! Recordo agora a nossa despedida Na Estação do Cobé.. em ânsias. Embora oculta. E subiu tanto e subiu tanto e tanto Que hoje que és morto.. ela subiu..

Havia pelo chão um desperdício De folhas que a áurea xantofila corta. Daí a pouco. Trás de mim... Implora a Deus como a um fetiche vago. ver Se nesta ânsia suprema de beber. O Sol ardia. como eu. ira-o morrer também. Nisto. Quantos também. . uma convulsão a engasga E morre ouvindo o mesmo canto aziago! 118 . ela seria morta.Novo Sileno. como eu..E o horror começa! Rasga As vestes. Achava a Glória que ninguém achava! E todo o dia então eu me embriagava .Se ao menos voasse! .Quer fugir.O ÉBRIO Bebi! Mas sei porque bebi!. O CANTO DA CORUJA A coruja cantara-lhe na porta Sinistramente a noite inteira! Indício Mais certo não havia! . Saiu. A ninguém nunca eu contarei a história Dos que.. Mas eu não contarei nunca a ninguém. e não vê por onde fuja.. quantos também deixei.Era o suplício!.. A estrada torta Lembrava a antiga ponte de Sublício.em busca de ascender A essa Babel fictícia do Prazer Que procuravam e que eu procurava. . Buscava Em verdes nuanças de miragens. ouve o canto aziago da coruja! . na atra estrada que trilhei.. foram buscar a Glória E que..

Batendo com a cabeça no barrote Da guilhotina. Por isso. Sei que na infância nunca tive auroras. A cal da sepultura Caiu por sobre a minha mocidade..." Pau d'Arco -1905 119 .Foi tanta agrura Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade! Sei que durante toda a travessia Da minha infância trágica. ele a morrer. E eu que julgava em minha idealidade Ver inda toda a geração futura! Eu que julgava! Pois não é verdade?! Hoje estou velho. canta vibrantes Versos divinos que arrebatam a hoste... de repente. pressentindo a lousa. Olha essa neve pura! . eu já nem sei mais nada! ANDRÉ CHÉNIER Na real magnificência dos gigantes.Aqui ainda havia alguma cousa.... E afora disto.. a alma serena. Assim como uma casa abandonada.Continua a cantar. diz ao povo: "É pena! . Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas. Não há quem nele um só tremor denote! . Mas..Foi saudade? Foi dor? ..SENECTUDE PRECOCE Envelheci. Grave como um lacedemônio harmoste André Chénier ia subir ao poste A que Luís XVI subira dantes! Que a sua morte a homem nenhum desgoste E incite o heroísmo das nações distantes. vivia.

a tumbal cidade.. A infelicidade Parece às vezes com a felicidade E os infelizes mostram ser felizes! Assim. diz que ele é vivo. Bem como tu. sendo assim beijado Muito acima do humano borborinho! Falou-me de ilusões e de luares. beijou-me com um carinho Que a um ser divino não seria dado.. Dizes Tudo que sentes. A múmia de um herói do tempo de Ísis. E eu me elevava. Da tribo alegre que povoa os ares. E. .. em Tebas . Ostenta ainda as mesmas cicatrizes Que eternizaram sua heroicidade! Quem vê o her6i. persuadido fica do que diz....Assombrava-me aquela claridade! Mas através daquelas falsas luzes Pude rever enfim todas as cruzes Que têm pesado sobre a Humanidade! ILUSÃO Dizes que sou feliz.. Diz que ele não morreu. inda com o braço altivo. Para onde eu ia.MYSTICA VISIO Vinha passando pelo meu caminho Um vulto estranhamente iluminado. o vulto ia a meu lado E desde então.. não andei mais sozinho! Abraçou-me. e ainda Te persuades de que sou feliz! 120 . que nessa crença infinda Feliz me viste no Passado. Não mentes.

O tamarindo reverdeça ainda. Nada se altere em sua marcha infinda . Sofreu o que olhos de homem não têm visto E olhos de fera não puderam ver! Acostumei-me. onde. assim.. como um cão covarde. Saiu aos tombos. E. Existo! . Não há divina proteção que o guarde!" Dúvidas cruéis! Momentos cruéis! Incertos E cruéis momentos! Ânsias cruéis! E. aos tropeços. com medo do Infinito.NOME MALDITO Das trombetas proféticas o alarde Falou-lhe. apesar disto Inda cadáver hei também de ser! Quando eu morrer de novo. assim como o de Jesus Cristo. pois. de saudades me despedaçando De novo.. triste e sem cantar. a sofrer E acostumado a assim sofrer existo.. A percorrer desertos e desertos. antes de viver! Meu corpo. Por toda a parte viu seu nome escrito! Vieram-lhe as ânsias. E foi assim que ele morreu um dia Amaldiçoado pelo próprio nome! DOLÊNCIAS Eu fui cadáver. assombrado.. morrer. Por toda a parte.. ia. por seus onze augúrios certos: "E maldito o teu nome! E aos céus abertos. à tarde. quando Eu. amigos.E apesar disto. A lua continue sempre a nascer! 121 .. Teve sede e fome.

Vem-me então à lembrança o pai Ioiô Na ânsia psíquica da última eficácia! E logo a lágrima em meus olhos cai..O farmacêutico me obtemperou. água e albumina. Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai Do que todas as drogas da farmácia! 122 .Faça-me o obséquio de trazer reunidos Clorureto de sódio. porque isto é que origina A lágrima de todos os vencidos! .A LÁGRIMA . .A farmacologia e a medicina Com a relatividade dos sentidos Desconhecem os mil desconhecidos Segredos dessa secreção divina. Ah! Basta isto..

os resíduos ruins dos quiosques E o animal inferior que urra nos bosques É com certeza meu irmão mais velho! Tal qual quem para o próprio túmulo olha. 123 . Pólipo de recônditas reentrâncias. Amarguradamente se me antolha.. Do cosmopolitismo das moneras. simultâneas. Não conheço o acidente da Senectus -.. vibra A alma dos movimentos rotatórios.O metafisicismo de Abidarma -E trago. O amarelecimento do papirus E a miséria anatômica da ruga! Na existência social. Como um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à Natureza Humana. Da substância de todas as substâncias! A simbiose das coisas me equilibra. Em minha ignota mônada. A saúde das forças subterrâneas E a morbidez dos seres ilusórios! Pairando acima dos mundanos tetos. Larva de caos telúrico. Amo o esterco.OUTRAS POESIAS MONÓLOGO DE UMA SOMBRA “Sou uma Sombra! Venho de outras eras. sem bramânicas tesouras. Como um dorso de azêmola passiva.Esta universitária sanguessuga Que produz.. A podridão me serve de Evangelho. possuo uma arma -. procedo Da escuridão do cósmico segredo. E é de mim que decorrem. À luz do americano plenilúnio... sem dispêndio algum de vírus. ampla. A solidariedade subjetiva De todas as espécies sofredoras..

causa ubíqua de gozo.Engrenagem de vísceras vulgares -Os dedos carregados de peçonha. Ao clarão tropical da luz danada. Sobre a esteira sarcófaga das pestes A mostrar. luzem. 124 . O espólio dos seus dedos peçonhentos. Tudo coube na lógica medonha Dos apodrecimentos musculares. Estrangulada dentro da matéria! E o que ele foi: clavículas. a boca. o Homem. -. A que todas as coisas se reduzem! E hão de achá-lo. Fonte de repulsões e de prazeres. rotos os liames Dessa estranguladora lei que aperta Todos os agregados perecíveis. amanhã. magnetismo misterioso. iguais a fogos passageiros. Aí vem sujo. Que. em síntese. O horror dessa mecânica nefasta. Como quem se submete a uma charqueada.Na alma crepuscular de minha raça Como uma vocação para a Desgraça E um tropismo ancestral para o Infortúnio. Tal a finalidade dos estames! Mas ele viverá. O coração. A vida fenomênica das Formas. bestas agrestes. Quimiotaxia. Sonoridade potencial dos seres. Trazendo no deserto das idéias O desespero endêmico do inferno. Raio X. tatuada de fuligens Esse mineiro doido das origens. E apenas encontrou na idéia gasta. a coçar chagas plebéias. ondulação aérea. Nas eterizações indefiníveis Da energia intra-atômica liberta! Será calor. abdômen. Que se chama o Filósofo Moderno! Quis compreender. já nos últimos momentos. Com a cara hirta. quebrando estéreis normas.

pelos cenóbios?!. Numa glutonaria hedionda.. em lúbricos arroubos.. 125 . E até os membros da família engulham. bastarda. Brancas bacantes bêbadas o beijam. brincam.. Como as cadelas que as dentuças trincam No espasmo fisiológico da fome.. O cuspo afrodisíaco das fêmeas. E à noite. E foi então para isto que esse doudo Estragou o vibrátil plasma todo. Suas artérias hírcicas latejam.A desarrumação dos intestinos Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos Dentro daquela massa que o húmus come. reduzir-se À herança miserável dos micróbios! Estoutro agora é o sátiro peralta Que o sensualismo sodomita exalta. Há estratificações requintadíssimas De uma animalidade sem castigo. Do seu zooplasma ofídico resulta. Negra paixão congênita. Lembra a fome incoercível que escancara A mucosa carnívora dos lobos. Sôfrego. vai gozar. Toda a sensualidade da simbiose. à noite. É uma trágica festa emocionante! A bacteriologia inventariante Toma conta do corpo que apodrece.. Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo. Sentindo o odor das carnações abstêmias. Uivando.. em suas clélulas vilíssimas. Vendo as larvas malignas que se embrulham No cadáver malsão. Num suicídio graduado. igual à luz que o ar acomete. No horror de sua anômala nevrose. E explode. Como no babilônico sansara . o monstro as vítimas aguarda. À guisa de um faquir. consumir-se. Como que. fazendo um s.. ébrio de vício. No sombrio bazer domeretrício. E após tantas vigílias..

Quando o prazer barbaramente a ataca. para agarrá-lo! Cresce-lhe a intracefálica tortura. Que é talvez propriedade do carbono! Ah! Dentro de toda a alma existe a prova De que a dor como um dartro se renova. bêbedo de sono. quando a noite avança. A asa negra das moscas o horroriza. Dentro da elipse ignívoma da lua A realidade de uma esfera opaca. Sente que megatérios o estrangulam. Mas muitas vezes.Macbeths da patológica vigília. em rembrandtescas telas várias.Com a veemência mavórtica do aríete E os arremessos de uma catapulta. E de su’alma na caverna escura. As incestuosidades sanguinárias Que ele tem praticado na família. torna água Todo o fogo telúrico profundo 126 .. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa! Míngua-se o combustível da lanterna E a consciência do sátiro se inferna. Que tateando nas tênebras. Fazendo ultra-epiléticos esforços. As alucinações tácteis pululam. Mostrando.. Assim também. Abranda as rochas rígidas. Somente a Arte. Reconhecendo. esculpindo a humana mágoa. A família alarmada dos remorsos. com os candeeiros apagados. Essa necessidade de horroroso. Numa coreografia de danados. observa através a tênue trança Dos filamentos fluídicos de um halo A destra descarnada de um duende. se estende Dentro da noite má. É o despertar de um povo subterrâneo! É a fauna cavernícola do crânio -.. observa a ciência crua. Acorda.. Na própria ânsia dionísica do gozo. Hirto.

Que a mais alta expressãoda dor estética Consiste essencialmente na alegria. entre daveiras sujas. Era a canção da Natureza exausta. Julgava ouvir monótonas corujas. -. Executando. entanto. Na produção do sangue humano imenso. A orquestra arrepiadora do sarcasmo! Era a elegia panteísta do Universo. Reverta à quietação datrava espessa E à palidez das fotosferas mortas! 127 . em suas bases.E reduz. Continua o martírio das criaturas: -.. A aspereza orográfica do mundo! Provo desta maneira ao mundo odiento Pelas grandes razões do sentimento. Da luz da lua aos pálidos venábulos. E o turbilhão de tais fonemas acres Trovejando grandíloquos massacres. Na ânsa de um nervosíssimo entusiasmo. Sem os métodos da abstrusa ciência fria E os trovões gritadores da dialética. Há-de ferir-me as auditivas portas. Chorando e rindo na ironia infausta Da incoerência infernal daquelas frases.O último solilóquio dos suicidas -E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva!” Disse isto a Sombra. -. a desintegre. até que minha efêmera cabeça.. À condição de uma planície alegre.O homicídio nas vielas mais escuras. sem que. ouvindo estes vocábulos.O ferido que a hostil gleba atra escarva. E. Prostituído talvez.

discutindo. na mais próxima planície. das pirâmides o quedo E atro perfil. Vaga no espaço um silfo solitário. Soluça toda a noite a água do Nilo! 128 . um saltimbanco da Ásia. Pasta um cavalo esplêndido da Arábia. parece Uma sombria interjeição de medo! Como um contraste àqueles mesereres. Tonto do vinho. E dentro dançam homens e mulheres Numa aglomeração cosmopolita. Executando evoluções de razzia Solta um brado epilético de injúria! Em derredor duma ampla mesa preta -. O Egito é sempre assim quando anoitece! Às vezes.Última nota do conúbio infando -Vêem-se dez jogadores de roleta Fumando.. O céu claro e produndo Fulgura. Troam kinnors ! Depois tudo é tranqüilo... Apenas como um velho stradivário. O Cairo é de uma formosura arcaica. exposto ao luar.. Dorme soturna a natureza sábia. A Lua cheia Está sinistra. Resplandece a celeste superfície.. Convulso e roto. Os mastins negros vão ladrando à lua. e sobre a paz do mundo A alma dos Faraós anda e vagueia. no apogeu da fúria.. No ângulo mais recôndito da rua Passa cantando uma mulher hebraica. Embaixo. A rua é triste. Num quiosque em festa alegre turba grita. conversando.UMA NOITE NO CAIRO Noite no Egito.

Bilhões de centrossomas apolínicos Na câmara promíscua do vitellus . O trabalho genésico dos sexos. indo em direção à casa do Agra. Atravessando uma estação deserta. então. a irritar-me os globos oculares. parodiando saraus cínicos. E aprofundando o raciocínio obscuro. na alma da cidade. A matilha espantada dos instintos! Era como se. com a boca aberta. Profundamente lúbrica e revolta. Mas. Livres de microscópios e escalpelos. Fazendo à noite os homens do Futuro. atro e vidrento. Do carvão da treva imensa Caía um ar danado de doença Sobre a cara geral dos edifícios! Tal uma horda feroz de cães famintos. Lembro-me bem. Ponte Buarque de Macedo. de asfalto rijo.. Pensava no Destino. Dançavam. 129 . Uivava dentro do eu .. Eu vi. O calçamento Sáxeo. Mostrando as carnes. E a minha sombra enorme enchia a ponte. Copiava a polidez de um crânio alvo. Como uma pele de rinoceronte Estendida por toda a minha vida! A noite fecundava o ovo dos vícios Animais. Apregoando e alardeando a cor nojenta. uma besta solta Soltasse o berro da animalidade. à luz de áureos reflexos. Eu. e tinha medo! Na austera abóbada alta o fósforo alvo Das estrelas luzia. Assombrado com a minha sombra magra. A ponte era comprida.AS CISMAS DO DESTINO I Recife.

Posta em rija adesão de goma laca Sobre os meus elementos anatômicos. A vingança dos mundos astronômicos Enviava à terra extraordinária faca. como um réu confesso. Não sei por que me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança E um pedaço de víscera escarlate. Que fez minha família originária Do antro daquela fábrica terrível! A corrente atmosférica mais forte Zunia. Ninguém compreendia o meu soluço. na ígnea crosta do Cruzeiro. E. Deus me castigava! Por toda a parte. Julgava eu ver o fúnebre candeeiro Que há de me alumiar na hora da morte. Estendiam-me as mãos rudimentares! Mostravam-me o apriorismo incognoscível Dessa fatalidade igualitária. pelo menos. ainda na placenta.Fetos magros. Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas. o ignis sapiens do Orco Abafava-me o peito arqueado e porco Num núcleo de substâncias abrasantes. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse. A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo me persegue! Essa obsessão cromática me abate. O ventobravo me atirava flechas E aplicações hiemais de gelo russo. 130 . No ardor desta letal tórrida zona. É bem possível que eu umdia cegue. Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! Mas o vento cessara por instantes Ou. Ah! Com certeza.

a hemoptísis! Na alta alucinação de minhas cismas O microcosmos líquido da gota Tinha a abundância de uma artéria rota. Não! Não era o meu cuspo. com certeza Era a expectoração pútrida e crassa Dos brônquios pulmorares de uma raça Que violou as leis da Natureza! Era antes uma tosse ubíqua. cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória. te segregam! Escarrar de um abismo noutro abismo. Que eu. ansiado e contrafeito. Ia engolindo. Igual ao ruído de um calhau redondo Arremessado no apogeu do estrondo. cinco. à guisa de ácido resíduo. 131 . Chegou-me o estado máximo da mágoa! Duas. aos poucos. de tal arte. quotidianamente. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. Benditas sejam todas essas glândulas. estranha. três. seis e sete Vezes que eu me furei com um canivete. Arrebatada pelos aneurismas.E até ao fim. Eu bem sabia. quatro. Mandando ao Céu o fumo de um cigarro. Pelos fundibulários da montanha! E a saliva daqueles infelizes Inchava. Que. Sob a forma de mínimas camândulas. A hemoglobina vinha cheia de água! Cuspo. cujas caudais meus beiços regam. Na ascensão barométrica da calma. para não cuspir por toda a parte. em minha boca. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minh’alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava.

Buscando uma taverna que os açoite. E o luar. estava ali. Imitando o barulho dos engasgos. a rir. Siva e Arimã. À anatomia mínima da caspa. Um sugestionador olho. com as brancas tíbias tortas. a espiar-me. Jamais exprimiria o acérrimo asco Que os canalhas do mundo me provocam! II Foi no horror dessa noite tão funérea Que eu descobri. então. Vai pela escuridão pensando crimes. meus olhos distinguiram Da miniatura singular de uma aspa. Rodopiavam. Nessa hora de monólogos sublimes. Perpetravam-se os atos mais funestos. Iluminava. para hipnotizar-me! Em tudo. o In e os trasgos. A camisa vermelha dos incestos. de certo. Mas um lampião. Livres do acre fedor das carnes mortas. Com a força visualística do lince.Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do Cristianismo! Porque. A companhia dos ladrões da noite. Davam pancadas no adro das igrejas. sem pudicícia. ali posto De propósito. A falta de unidade na matéria! Os esqueletos desarticulados. lembrava ante o meu rosto. Embriões de mundos que não progrediram! 132 . os duendes. Numa dança de números quebrados! Todas as divindades malfazejas. maior talvez que Vinci. Ninguém. se no orbe oval que os meus pés tocam Eu não deixasse o meu cuspo carrasco. da cor de um doente de icterícia.

distingo-a. Na atra dissoluçào que tudo inverte. Nos antiperistálticos abalos Que produzem nos bois e nos cavalos A contração dos gritos instintivos! Tempo viria. Maior que as epopéias carolíngias! Era a revolta trágica dos tipos Ontogênicos mais elementares. A pedra dura. E o meu sonho crescia nosilâncio. os montes argilosos Criariam feixes de cordões nervosos E o neuroplasma dos que raciocinam! Almas pigméias! Deus subjuga-as. Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. Todos os personagens da tragédia. Cansados de viver na paz de Buda. Acho-a nesse interior duelo secreto Entre a ânsia de um vocábulo completo E uma expressão que não chegou à língua! Surpreendo-a em quatrilhões de corpos vivos. 133 . em que. e vence-O.Ser cachorro! Ganir incompreendidos Verbos! Querer dizer-nos que não finge. Desde os foraminíferos dos mares À grei liliputiana dos pólipos. Como bolhas febris de água. Deixar cair sobre a barriga inerte O apetite necrófago da mosca! A alma dos animais! Pego-a. E a palavra embrulhar-se na laringe. cinge-as À imperfeição! Mas vem o Tempo. Escapando-se apenas em latidos! Despir a putrescível forma tosca. fervendo! Nessa época que os sábios não ensinam. daquele horrendo Caos de corpos orgânicos disformes Rebentariam cérebros enormes.

na dor forte do vômito. berrava. E as coisas inorgânicas mais nulas Apregoavam encéfalos. Fabricavam destarte os bastodermas. Com os copos cheios esterilizavam A substância prolífica dos sêmens! Enterravam as mãos dentro das goelas. Iam depois dormir nos lupanares Onde. Um conjunto de gosmas amarelas. Aquela humanidade parasita. na glória da concupiscência. a sós. E sacudidos de um tremor indômito Expeliam.A planta que a canícula ígnea torra. medulas Na alegria guerreira da desforra! Os protistas e o obscuro acervo rijo Dos espongiários e dos infusórios Recebiam com os seus órgãos sensóricos O triunfo emocional do regozijo. E apesar de já não ser assim tão tarde. aflita. 134 . No meu temperamento de covarde! Mas. refletindo. E eu me encolhia todo como um sapo Que tem um peso incômodo por cima! Nas agonias do delirium-tremens . Depositavam quase sem consciência As derradeiras forças musculares. Os bêbedos alvares que me olhavam. Em cujo repugnante receptáculo Minha perscrutação via o espetáculo De uma progênie idiota de palermas. Como um bicho inferior. igual a um amniota subterrâneo. sobre o meu caso Vi que. jazia atravassada no meu crânio A intercessão fatídica do atraso! A hipótese genial do microzima Me estrangulava o pensamento guapo.

o eco particular do meu Destino..e. por tua causa. III “Homem! por mais que a Idéia deintegres. Os porcos espojando-se nas poças Da virgindade reduzida à lama! Morte. A inconsciência das máscaras de cera Que a gente prega. Oh! Senhora dos nossos esqueletos E das caveiras diárias que fabricas! E eu desejava ter. Nessas perquisições que não têm pausa.Prostituição ou outro qualquer nome. a morte é ingrata. na cara! Era um sonho ladrão de submergir-me Na vida universal. Ao pensar nas pessoas que perdera. Reboou. num fundo de caverna. Fazer da parte abstrada do Universo. numa ânsia rara. como um cordão. É que as mulheres ruins ficam sem leite E os meninos sem pai morrem de fome! Por que há de haver aqui tantos enterros? Lá no “Engenho” também. 135 .. tal qual. embora o homem te aceite. Há o malvado carbúnculo que mata A sociedade infante dos bezerros! Quantas moças que o túmulo reclama! E após a podridão de tantas moças. Rolam sem eficácia os amuletos. Forma difusa da matéria embele. em tudo imerso. pior que o remorso do assassino. nas catedrais mais ricas. Meu raciocínio enorme te condena! Diante de ti. Minha morada equilibrada e firme! Nisto. Numa impressionadora voz interna. Minha filosofia te repele. ponto final da última cena.

espirra. com a bronca enxada árdega. não como és. E se. saberás a causa De todos os fenômenos alegres! Em vão.Jamais. e a ele se prendem Como às pulseiras que os mascates vendem A aderência teimosa da ferrugem. sondas A estéril terra. a refletir teus semelhantes. A própria humanidade sofredora! A universal complexidade é que Ela Compreende. o cordeiro simbólico da Páscoa. por vezes. em síntese. magro homem. fora Mister que. por perscrutar (oh! ciência louca!) O conteúdo das lágrimas hediondas. antes Fosses. seu todo não RESIDENCIA No quociente isolado da parcela! Ah! Como o ar imortal a Dor não finda! Das papilas nervosas que há nos tatos Veio e vai desde os tempos mais transatos Para outros tempos que hão de vir ainda! Como o machucamento das insônias Te estraga. quando toda a estuada Idéia Dás ao sôfrego estudo da ninféia E de outras plantas dicotiledôneas! A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua Que da ígnea flama bruta. A formação molecular da mirra. para que a Dor perscrutes. Mesmo ainda assim. Trazes. Negro e sem fim é esse em que te mergulhas lugar do Cosmos. onde a dor infrene É feita como é feito o querosene Nos recôncavos úmidos das hulhas! Porque. estriada. As rebeladas cóleras que rugem No homem civilizado. e a hialina lâmpada oca. se divide. 136 .

O achatamento ignóbil das cabeças. abalando os solos. As pálpebras inchadas na vigília. O Amor e a Fome. a fera ultriz que o fojo Entra. O fogão apagado de uma casa. as nódoas mais espessas.Tudo que gera no materno ventre A causa fisiológica do nojo. A mentira meteórica do arco-íris.O orbe feraz que bastos jojos acres Produz’a rebelião que na batalha. à espera que a mansa vítima o entre. Onde morreu o chefe da família. As projeções flamívomas que ofuscam. Os sanguinolentíssimos chicotes Da hemorragia. O fogo-fátuo que ilumina os ossos. A água arbitrária que hiulcos caules grossos Carrega e come. Deixa os homens deitados. O trem particular que um corpo arrasta Sinistramente pela via férrea. O homem grande oprimindo o homem pequeno A lua falsa de um parasseleno. A cristalização da massa térrea. Os terremotos que. -. Que ainda degrada os povos hotentotes. 137 . as negras formas feias Dos aracnídeos e das centopéias. Lembram paióis de pólvora explodindo. As aves moças que perderam a asa. O antagonismo de Tífon e Osíris. A sensação que uma coalhada fresca Transmite às mãos nervosas dos que a buscam. Na sangueira concreta dos massacres. A rotação dos fluidos produzindo A depressão geológica dos pólos. Como uma pincelada rembrandtesca. O tecido da roupa que se gasta. sem mortalha.

O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psicoplasma Humano sofre da mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E, (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, À morte desgraçada dos açougues... Tudo isto que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra! Por descobrir tudo isso, embalde cansas! Ignoto é o gérmem dessa força ativa Que engendra, em cada célula passiva, A heterogeneidade das mudanças! Poeta, feito malsão, criado com os sucos De um leite mau, carnívoro asqueroso, Gerado no atavismo monstruoso Da alma desordenada dos malucos; Última das criaturas inferiores Governada por átomos mesquinhos, Teu pé mata a uberdade dos caminhos E esteriliza os ventres geradores! O áspero mal que a tudo, em torno, trazes, Amálogo é ao que, negro e a seu turno, Traz o ávido filóstomo noturno Ao sangue dos mamíferos vorazes! Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes A perfeição dos seres existentes, Hás de mostrar a cárie dos teus dentes Na anatomia horrenda dos detalhes!

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O Espaço -- esta abstração spencereana Que abrange as relações de coexistência E só! Não tem nenhuma dependência Com as vértebras mortais da espécie humana! As radiantes elipses que as estrelas Traçam, e ao espectador falsas se antolham São verdades de luz que os homens olham Sem poder, entretanto, compreendê-las. Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes Que essa mão, de esqueléticas falanges, Dentro dessa água que com a vista abranges, Também prova o princípio de Arquimedes! A fadiga feroz que te esbordoa Há de deixar-te essa medonha marca, Que, nos corpos inchados de anasarca, Deixam os dedos de qualquer pessoa! Nem terás no trabalho que tiveste A misericordiosa toalha amiga, Que afaga os homens doentes de bexiga E enxuga, à noite, as pústulas da peste! Quando chegar depois a hora tranqüila, Tu serás arrastado, na carreira, Como um cepo inconsciente de madeira Na evolução orgânica da argila! Um dia comparado com um milênio Seja, pois, o teu último Evangelho... É a evolução do novo para o velho E do homogêneo para o heterogêneo! Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo A apodrecer!... És poeira e embalde vibras! O corvo que comer as tuas fibras Há de achar nelas um sabor amargo!”

IV Calou-se a voz. A noite era funesta. E os queixos, a exibir trismos danados,

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Eu puxava os cabelos desgrenhados Como o Rei Lear, no meio da floresta! Maldizia, com apóstrofes veementes, No estentor de mil línguas insurretas, O convencionalismo das Pandetas E os textos maus dos códigos recentes! Minha imaginação atormentada Paria absurdos... Como diabos juntos, perseguiam-me os olhos dos defuntos Com a carne da esclerótica esverdeada. Secara a clorofila das lavouras. Igual aos sustenidos de uma endecha Vinha-me às cordas glóticas a queixa Das coletividades sofredoras. O mundo resignava-se invertido Nas forças principais do seu trabalho... A gravidade era um princípio falho, A análise espectral tinha mentido! O Estado, a Associação, os Municípios Eram mortos. De todo aquele mundo Restava um mecanismo moribundo E uma teleologia sem princípios. Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psique no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo! Mas a Terra negava-me o equilíbrio... Na Natureza, uma mulher de luto Cantava, espiando as árvores sem fruto. A canção prostituta do ludíbrio.

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A CARIDADE No universo a caridade Em contraste ao vicio infando É como um astro brilhando Sobre a dor da humanidade! Nos mais sombrios horrores Por entre a mágoa nefasta A caridade se arrasta Toda coberta de flores! Semeadora de carinhos Ela abre todas as portas E no horror das horas mortas Vem beijar os pobrezinhos. Torna as tormentas mais calmas Ouve o soluço do mundo E dentro do amor profundo Abrange todas as almas. O céu de estrelas se veste Em fluidos de misticismo Vibra no nosso organismo Um sentimento celeste. A alegria mais acesa Nossas cabeças invade... Glória, pois, á Caridade No seio da Natureza! Estribilho Cantemos todos os anos Na festa da Caridade A solidariedade Dos sentimentos humanos.

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OS DOENTES

I Como uma cascavel que se enroscava, A cidade dos lázaros dormia... Somente, na metróplole vazia, Minha cabeça autônoma pensava! Mordia-me a obsessão má de que havia, Sob os meus pés, na terra onde eu pisava, Um fígado doente que sangrava E uma garganta órfã que gemia! Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam... E via em mim, coberto de desgraças, O resultado de bilhões de raças Que há muito desapareceram!

II Minha angústia feroz não tinha nome. Ali, na urbe natal do Desconsolo, Eu tinha de comer o último bolo Que Deus fazia para a minha fome! Convulso, o vento entoava um pseudosalmo. Contrastando, entretanto, com o ar convulso A noite funcionava como um pulso Fisiologicamente muito calmo. Caíam sobre os meus centros nervosos, Como os pingos ardentes de cem velas, O uivo desenganado das cadelas E o gemido dos homens bexigosos. Pensava! E em que eu pensava, não perguntes! Mas, em cima de um túmulo, um cachorro

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a abóbora. Meu ser estacionava. A comunhão dos homens reunidos Pela camaradagem da moléstia. A queixada específica de um burro! Gordo adubo de agreste urtiga brava. Benigna água. o álamo E a câmara odorífera dos sumos Absorvem diariamente o ubérrimo húmus Que Deus espalha à beira do seu tálamo! Nos de teu curso desobstruídos trilhos. 143 . como as ervas. Criando as superstições de minha terra. No Alto. Na esteira igualitária do teu leito! O vento continuava sem cansaço E enchia com a fluidez do eólico hissope Em seu fantasmagórido galope A abundância geométrica do espaço. satisfeito. a ameixa. Em cuja álgida unção. Além jazia os pés da serra.Pedia para mim água e socorro À comiseração dos transeuntes! Bruto. sobre as hortas. branda e beatífica. a amêndoa. os astros miúdos Reduziam os Céus sérios e rudos A uma epiderme cheia de sarampos! III Dormia embaixo. O hidrogênio e o oxigênio que tu choras Pelo falecimento dos teus filhos! Ah! Somente eu compreendo. magnânima e magnífica. A Paraíba indígena se lava! A manga. com a promíscua véstia No enbotamento crasso dos sentidos. o urro Reboava. de errante rio. A incógnita psique das massas mortas Que dormem. Apenas eu compreendo. alto e hórrido. olhando os campos Circunjacentes. em quaisquer horas.

Da degenerescência étnica do Ária Se escapava. O ruído de uma tosse hereditária. dores não recebem. Vomitar o pulmão na noite horrível Em que se deita sangue pela boca! Expulsar. 144 . Pintando o chão de coágulos sangüíneos! Sentir. aos bocados. Cortanto as raízes do último vocábulo. Adivinhando o frio que há nas lousas. Restos repugnantíssimos de bílis. Um português cansado e incompreensível. estas não tossem! Descender dos macacos catarríneos. os micróbios assanhados Passearem. adstritos ao quimiotropismo Erótico. Cair doente e passar a vida inteira Com a boca junto de uma escarradeira. Estas não cospem sangue. vendo em cada escarro O retrato da própria consciência! Querer dizer a angústia de que é pábulo E com a respiração já muito fraca Sentir como que a ponta de uma faca. Estas dis bacalhaus o óleo não bebem. Vômitos impregnados de ptialina. como inúmeros soldados. entre estrépitos e estouros. Maior felicidade é a destas cousas Submetidas apenas às leis físicas! Estas.Feriam-me o nervo óptico e a retina Aponevroses e tendões de Aquiles. Nas cancerosidades do organismo! Falar somente uma linguagem rouca. OH! desespero das pessoas tísicas. Alucinado. Reboando pelos séculos vindouros. por mais que os cardos grandes rocem Seus corpos brutos. a existência Numa bacia autômata de barro.

como um cronômetro gigante Marcando a transição emocionante Do lar materno para a catacumba! Mas vos não lamenteis. Onde a Resignação os braços cruza. A mágoa gaguejada de um cretino. em cachoeiras desobstruídas Encharcava os buracos das feridas. com o vexame de uma fusa.Não haver terapêutica que arranque Tanta opressão como se. me acorda. Nos ardores danados da febre hética. magras mulheres. em sonhos mórbidos. 145 . no Amazonas. onde toda a vida orgânica Há de pagar um dia o último imposto! IV Começara a chover. resfriando-vos o rosto. com efeito. naquele instante. hoje. Consagrando vossa última fonética A uma recitação de mesereres. Antes levardes ainda uma quimera Para a garganta omnívora das lajes Do que morrerdes. Consoante a minha concepção vesânica. Pelas algentes Ruas. urrando ultrajes Contra a dissolução que vos espera! Porque a morte. a água. É a alfândega. Vinha da vibração bruta da corda Mais recôndita da alma brasileira! Aturdia-me a tétrica miragem De que. Aquele ruído obscuro de gagueira Que à noite. Lhe houvessem sacudido sobre o peito A máquina pneumática de Bianchi! E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba A erguer. Alagava a medula dos Doentes! Do fundo do meu trágico destino. Saía.

. A civilização entrou na taba Em que ele estava. Esse achincalhamento do progresso Que o anulava na crítica da História! Como quem analisa uma apostema. O gênio de Colombo Manchou de opróbrios a alma do mazombo . E agora. A carcaça esquecida de um selvagem.Fedia. Em vez da prisca tribo e indiana tropa A gente deste século. tendo o horror no rosto impresso. Uma desesperada ânsia improfícua De estrangular aquela gente iníqua Que progredia sobre os seus despojos! Mas. Cuspiu na cova do morubixaba ! E o índio. Diminuído na crônica do mundo! A hereditariedade dessa pecha Seguiria seus filhos. como um lúgubre ciclone. E sentia-se pior que um vagabundo Microcéfalo vil que a espécie encerra. Na tumba de Iracema!. diante a xantocróide raça loura. Dora em diante Seu povo tombaria agonizante Na luta da espingarda contra a flecha! Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos.. Com uma clarividência aterradora. Recebeu. Jazem. entregue a vísceras glutonas. por fim. sem difíceis nuanças dúbias.. Viu toda a podridão de sua raça. acordando na desgraça. 146 . espantada. Exercia sobre ela ação funesta Desde o desbravamento da floresta à ultrajante invenção do telefone.. todas as inúbias. De repente. adstrito à étnica escória. Ah! Tudo. Desterrado na sua própria terra. caladas.

Maldiziam. Como que havia na ânsia de conforto De cada ser. E eu.: o homem e o ofídio. No horror daquela noite monstruosa. E quase a todos os momentos mostra Minha caveira aos bêbedos da rua. Batia com o pentágono dos dedos Sobre um fundo hipotético de chagas! Diabólica dinâmica daninha Oprimia meu cérebro indefeso Com a força onerosíssima de um peso Que eu não sabia mesmo de onde vinha. As mães sem coração rogavam pragas Aos filhos bons. com voz estentorosa. Perfurava-me o peito a áspera pua do desânimo negro que me prostra. Todos os vocativos dos blasfemos. ex. Hereditariedades politípicas Punham na minha boca putrescível Interjeições de abracadabra horrível E os verbos indignados das Filípicas. Uma necessidade de suicídio E um desejo incoercível de ser morto! Naquela angústia absurda e tragicômica Eu chorava. 147 . A peçonha inicial de onde nascemos. roído pelos medos. Com a contorção neurótica de um bicho Que ingeriu 30 gramas de noz-vômica. rolando sobre o lixo. Os fantasmas hamléticos dispersos Atiram na consciência dos perversos A sombra dos remorsos famulentos.Vê somente a caveira abandonada De uma raça esmagada pela Europa! V Era a hora em que arrastados pelos ventos.

Reduzido à plastídula homogênea. perante a cova. era A saudade inconsciente da monera Que havia sido minha mãe antiga. reaparece Na universalidadej do c arbono! A vida vem do éter que se condensa Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma Fazer a luz do cérebro que pensa. Eu voltarei. Confundir-me com aquela coisa porca! Vinha. Sem diferenciação de espécie alguma. em suma. como um homem doido que se enforca. Não me incomoda esse último abandono Se a carne individual hoje apodrece Amanhã.E. veio Eva E a stirpe radiolar chamada Actissa . cansado. porém. A pragmática má de humanos usos Não compreende que a Morte que não dorme É a absorção do movimento enorme Na dispersão dos átomos difusos. da árdua liça À substância inorgânica primeva De onde. Com o horror tradicional da raiva corsa Minha vontade era. 148 . Anelava ficar um dia. Consubstanciar-me todo com a imundície. Menor que o anfióxus e inferior à tênia. às vezes. na terráquea superfície. Era (nem sei em síntese o que diga) Um velhíssimo instinto atávico. o anelo instável De. Tentava. por epigênese. como Cristo. com o auxílio especial do osso masséter Mastigando homeomérias neutras de éter Nutrir-me da matéria imponderável. Arrancar do meu próprio corpo a prova Da persistência trágica da força.

Não tínheis ainda essa erupção cutânea. agora. quando o éreis. Um cão agora Punha a atra língua hidrófoba de fora Em contrações miológicas de raiva.. Estendestes ao mundo. para além.. Uma. à-toa. O sol malvado que secou a fonte De vossa castidade agora finda! Talvez tivésseis fome.. a saraiva Caindo. Nem tínheis. análoga era. derreada de cansaço. De certo. ignóbil.Quando eu for misturar-me com as violetas Minha lira. vítima última da insânia. entre oscilantes chamas. Mas. no horizonte. Quase que escangalhada pelo vício. Cheirava com prazer no sacrifício A lepra má que lhe roía o braço! E ensangüentava os dedos da mão nívea Com o sentimento gasto e a emoção pobre. a perversão de que era presa o sensorium daquela prostituta Vinha da adaptação quase absoluta À ambiência microbiana da baixeza! Entanto. alva. doentes de hematúria. maior que a Bíblia e a Fedra Reviverá. embalde... virgem fostes. 149 . dando emoção à pedra Na acústica de todos os planetas! VI À álgida agulha. com violência. até que. Nessa alegria bárbara que cobre Os saracoteamentos da lascívia. Se extenuavam nas camas. Acordavam os bairros da luxúria. e. As prostitutas. Duas mamárias glândulas estéreis! Ah! Certamente não havia ainda Rompido.. e as mãos.

E estais velha! -. Somente as bruxas negras da derrota Freqüentam diariamente vosso quarto! prometem-vos (quem sabe?!) entre os ciprestes Longe da mancebia dos alcouces. Dentro da noite funda um braço humano Parecia cavar ao longe um poço Para enterrar minha ilusão de moço. E hoje. Sentia. Lançavam pinceladas pretas de óleo Na arquitetura arcaica dos sobrados. 150 . inquieto. argots e aljâmias. eu. Como a boca de um poço artesiano! Atabalhoadamente pelos becos. que a sociedade vos enxota. Desde as musculaturas que apodrecem À ruína vegetal dos lírios secos.De vós o mundo é farto. A racionalidade dessa mosca. A energúmena gei dos ébrios da urbe Festejava seu sábado de infâmias. E vai depois levá-lo ao cemitério! E esfregando as mãos magras. no chão frio da igreja. Eu pensava nas coisas que perecem. Como quem nada encontra que o perturbe. Como uma associação de monopólio. na craniana caixa tosca. A consciência terrível desse inseto! Regougando. porém.Fostes vender a virginal coroa Ao primeiro bandido do arrabalde. Cismava no propósito funéreo Da mosca debochada que fareja O defunto. Nas quietudes nirvânicas mais doces O noivado que em vida não tivestes! VII Quase todos os lutos conjugados.

Pela degradação dos que o povoam. Puxava aquele povo de demônios Para a promiscuidade das adegas. nos braços de um canalha 151 .Aquilo era uma negra eucaristia. Onde minh’alma inteira surpreendia A Humanidade que se lamentava! Era todo o meu sonho. lúpulo E outras substâncias tóxicas da tasca. Sem ter. Punham-lhe num destaque horrendo o horrendo Tamanho aberratório das orelhas. sobre a palha espessa. estriges voam. À falta idiossincrásica de escrúpulo. O fácies do morfético assombrava! -. em que eu entrei adrede. que a morféia miserável Tornava às impressões táteis. Já podre. nesta hora. Apareceu. de repente. com o ar de quem empesta. A mandíbula inchada de um morfético! Saliências polimórficas vermelhas. escorraçando a festa. Rugindo fundamente nos neurônios. Vem para aqui. roubada à humana coorte Morre de fome. assim inchado. como Ugolino. uma cabeça Que possa mastigar na hora da morte E nua. Em cujo aspecto o olhar perspícuo prendo. O ar ambiente cheirava a ácido acético. palpável. E o cemitério. Quanta gente. Mas.A estática fatal das paixões cegas. Absorvia com gáudio absinto. após baixar ao caos budista. Como se fosse um corpo organizado! VIII Em torno a mim. Dá-me a impressão de um boulevard que fede. E a ébria turba que escaras sujas masca.

As escaveiradíssimas figuras Das negras desonradas pelos brancos. Eu maldizia o deus de mãos nefandas Que. Eu mendigava aos vermes insubmissos 152 . entre fardos. a camisa suada. Eu devorava aquele bolo frio Feito das podridões da Natureza! E hirto. Pisando. iguais a irmãs de caridade. À sodomia indigna dos moscardos. vinham Com a podridão dar de comer às flores! Os defuntos então me ofereciam Com as articulações das mãos inermes. Os evolucionistas benfeitores Que por entre os cadáveres caminham. atira a raça negra Ao contubérnio diário das quitandas! Na evolução de minha dor grotesca. Vendo passar com as túnicas obscuras. transgredindo a igualitária regra Da Natureza.porque o madapolão para a mortalha Custa 1$200 ao lojista! Que resta das cabeças que pensaram?! E afundado nos sonhos mais nefastos. Na impaciência do estômago vazio. como quem salta. Nos corpos nus das moças hotentotes Entregues. Todos os meus cabelos se arrepiaram. Num prato de hospital. Todos os animais que apodreciam! É possível que o estômago se afoite (Muito embora contra isto a alma se irrite) A cevar o antropófago apetite. ao clarão de alguns archotes. Ao pegar num milhão de miolos gastos. Comendo carne humana. à meia-noite! Com uma ilimitadíssima tristeza. a alma aos arrancos. cheio de vermes.

trazendo-me ao sol claro. déspota e sem normas. às vezes. Por sobre o coração dos que sofriam! Do meu cérebro à absconsa tábua rasa Vinha a luz restituir o antigo crédito. O benefício de uma cova fresca. Os raios caloríficos da aurora. em vez de hiena ou lagarta. De quem possui um sol dentro de casa. Manhã. Dentro da filogênese moderna. Nunca mais as goteiras cairiam Como propositais setas malvadas. À apreensão fisiológica do faro O odor cadaveroso dos destroços! IX O inventário do que eu já tinha sido Espantava. Proporcionando-me o prazer inédito. Absorve. Ia arrastando agora a alma infecunda Na mais triste de todas as falências. Era a volúpia fúnebre que os ossos Me inspiravam.Como indenização dos meus serviços. após a noite de seis meses. Como o íncola do pólo ártico. No frio matador das madrugadas. No céu calamitoso de vingança Desagregava. O adesionismo biôntico das formas Multiplicadas pela lei da herança! 153 . Uma sobrevivência de Sidarta. E eis-me a absorver a luz de fora. E arrancara milhares de existências Do ovário ignóbil de uma fauna imunda. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! O gênio procriador da espécie eterna Que me fizera.

Que vinha substituir a Espécie Humana! 154 . Decompondo-se desde os alicerces! A doença era geral. em colônias fluídas. Já batiam por cima dos estragos A sensação e os movimentos vagos Da célula inicial de um Cosmos novo! O letargo larvário da cidade Crescia. Hirto de espanto.. com os pés atolados no Nirvana. A gestação daquele grande feto. o vagido de uma outra Humanidade! E eu.. Para alcançar depois a periferia! Contra a Arte. vinha de dentro Da matéria em fusão que ainda há no centro. O ar que. os sáxeos prédios tortos Tinham aspectos de edifícios mortos. Vinha da original treva noturna. Igual a um parto. O Espaço abstrato que não morre Cansara. Parecia também desagregar-se! O prodromos de um tétano medonho Repuxavam-me o rosto. Eu sentia nascer-me n’alma. entanto. a meu ver. com um prazer secreto.. tudo a extenuar-se Estava. em vão teu ódio exerces! Mas.A ruína vinha horrenda e deletéria Do subsolo infeliz. Acompanhava.. corre. oh! Morte. O começo magnífico de um sonho! Entre as formas decrépitas do povo. numa furna.

Ai! Como Os que. Como! E pois que a Razão me não reprime. Para comer meus próprios semelhantes Eis-me sentado à mesa! Como porções de carne morta. Com a diferença que Lisboa existe E tu. Tu representas toda essa Lisboa De glórias quase sobrenaturais.. bela como um brinco. Apenas com uma diferença triste. Antegozando a ensangüentada presa. amigo. Rodeado pelas moscas repugnantes. É a hora De comer. com este assomo Que a espécie humana em comer carne tem!. E agora.À MESA Cedo à sofreguidão do estômago. não existes mais! 155 . têm carne.. Que um dia no ano trágico de mil E setecentos e cinqüenta e cinco. Coisa hedionda! Corro. como eu. DUAS ESTROFES À memória de João de Deus Ahi! ciechi! il tanto affaticar che giova? Tutti torniamo alla gran madre antica E il nostro nome appena si ritrova. Foi abalada por um terremoto! A água quieta do Tejo te abençoa. Possa a terra vingar-se do meu crime Comendo-me também. Petrarca A queda do teu lírico arrabil De um sentimento português ignoto Lembra Lisboa...

Fecunda fonte desse mesmo leite Que amamentou os éfebos de Esparta. E o antigo leão. entre dores. comparo. Do que essa pequenina sanguessuga. Bebendo a vida no teu seio gordo! Pois. Relembrarás chorando o que eu te disse. sujo de sangue. Há de beijar-te as mãos todos os dias! Quando chegar depois tua velhice Batida pelos bárbaros invernos. Mas o ramo fragílimo e venusto Que hoje nas débeis gêmulas se esboça. nas vitrinas. te emergiu do ventre! E puseste-lhe. -Com que avidez ele essa fonte suga! Ninguém mais com a Beleza está de acordo.. Assim. Essas humanas coisas pequeninas A um biscuit de quilate muito raro Exposto aí. O Sol virá das épocas sadias.. oh! Mãe. No lábio róseo a grande teta farta -. um novo Ser. a atmosfera se encherá de aromas. que te esgotou as pomas.MATER Como a crisálida emergindo do ovo Para que o campo flórido a concentre. à amostra. quanto a mim. À sombra dos sicômoros eternos! 156 . haurindo amplo deleite. há de tornar-se arbusto E álamo altivo de ramagem grossa. sem pretensões. Clara. Há de crescer.

eu vivo pelos matos. Tais quais. Dormir na manjedoura com os cavalos! 157 .GEMIDOS DE ARTE I Esta desilusão que me acabrunha É mais traidora do que o foi Pilatos!. Beber a acre e estagnada água do charco. também gira e redemoinham. nos fortes fulcros. Nabucodonosor ser do Pau d’Arco. mordendo glabros talos. haurindo o tépido ar sereno. as tesouras Brônzeas.. Por que me deu consciência dos meus atos Para eu me arrepender de todos eles?! Quisera antes. maior do que Laplace. Por causa disto. Os cachorros anônimos da terra São talvez os meus únicos amigos! Ah! Por que desgraçada contingência À híspida aresta sáxea áspera e abrupta Da rocha brava. Magro. Não fez cair o túmulo de Plínio Por sobre todo o meu raciocínio Para que eu nunca mais raciocinase?! Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles Carinhos.. Tenho estremecimentos indecisos E sinto. com que guarda meus sapatos. O mesmo assombro que sentiu Parfeno Quando arrancou os olhos de Dionisos! Em giro e em redemoinho em mim caminham Ríspidas mágoas estranguladoras. numa ininterrupta Adesão. Os pães -. não prendi minha existência?! Por que Jeová. roendo a substância córnea de unha.filhos legítimos dos trigos -Nutrem a geração do Ódio e da Guerra.

goza O lodo. e não se contamina! Ser homem! escapar de ser aborto! Sair de um vente inchado que se anoja. Dorme num leito de feridas. no agudo grau da última crise. Subtraída à hediondez de ínfimo casco. Comprar vestidos pretos numa loja E andar de luto pelo pai que é morto! E por trezentos e sessenta dias Trabalhar e comer! Martírios juntos! Alimentar-se dos irmãos defuntos. Com a flexibilidade de um molusco. Chupar os ossos das alimarias! Barulho de mandíbulas e abdômens! E vem-me com um desprezao por tudo isto Uma vontade absurda de ser Cristo Para sacrificar-me pelos homens! Soberano desejo! Soberana Ambição de construir para o homem uma Região. Beija a peçonha. pegajoso e untuoso ao tacto! Reúnam-se em rebelião ardente e acesa Todas as minhas forças emotivas 158 . O braço do ladrão se paralise E a mão da meretriz caia aos pedaços! II O sol agora é de um fulgor compacto. E eu vou andando. cheio de chamusco. onde não cuspa língua alguma O óleo rançoso da saliva humana! Uma região sem nódoas e sem lixos.Mas a carne é que é humana! A alma é divina. apalpa a úlcera cancerosa. Úmido. Onde a forca feroz coma o carrasco E o olho do estuprador se encha de bichos! Outras constelações e outros espaços Em que.

. Das laranjeiras eu admiro os cachos E a ampla circunferência das laranjas. Em grandes semicírculos aduncos. pelo ar. Voam à semelhan ça de cabelos Os chicotes finíssimos dos juncos. em vez do nome -. O ar cheira. A terra cheira. Nos terrenos baixos. morda!. no árdego trabalho. Com a rapidez duma semicolcheia. fustigue. salta.. Entrançados. Um pássaro alvo artífice da teia De um ninho.. Possuir aí o nome dum arbusto Qualquer ou de qualquer obscura planta! 159 .Augusto .E armem ciladas como cobras vivas Para despedaçar minha tristeza! O sol de cima espiando a flora moça Arda. Eu. A câmara nupcial de cada ovário Se abre. bolem Nas árvores. Ladra furiosa a tribo dos podengos. E a alma dos vegetais rebenta inteira De todos os corpúsculos do pólen. depois de morrer. Os ventos vagabundos batem. Por toda a parte a seiva bruta esguicha Num extravasamento involuntário. depois de tanta Tristeza. largando pêlos. Deleito a vista na verdura gorda Que nas hastes delgadas se balouça! Avisto o vulto das sombrias granjas Perdidas no alto. Olhando para as pútridas charnecas Grita o exército avulso das marrecas Na úmida copa dos bambus verdoengos. quero. No chão coleia a lagartixa. queime.. De árvore em árvore e de galho em galho. corte...

III Pelo acidentalíssimo caminho Faísca o sol. O céu lembra uma lauda Do mais incorruptível pergaminho. Estão olhando aquelas coisas mortas! Fico a pensar no Espírito disperso Que. Como um anel enorme de aliança. Trôpega e antiga. Quantas flores! Agora. batendo a cauda. Urram os bois. E traça trombas de elefantes Com as circunvoluções extravagantes Do seu complicadíssimo intestino. Aqui. sem conchego nobre. Nédios. unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança. sentiu e amou este homem pobre Que carregava canas para o engenho! Nos outros tempos e nas outras eras. As lagartixas. Não sei que subterrânea e atra voz rouca. Na bruta dispersão de vítreos cacos. outrora. O cupim negro broca o âmago fino Do teto. Amontoadas em grossos feixes rijos. em vez de flores. Une todas as coisas do Universo! 160 . Por saibros e por cem côncavos vales. Os musgos. dos esconderijos. O aziago ar morto a morte Fede. Como pela avenida das Mappales. uma parede doente Mostra a cara medonha dos buracos. À dura luz do sol resplandecente. como exóticos pintores. Viveu. Uma atmosfera má de incômoda hulha Abafa o ambiente. O lodo obscuro trepa-se nas portas. O ardente calor da areia forte Racha-me os pés como se fosse agulha. Me arrasta à casa do finado Toca ! Todas as tardes a esta casa venho. Pintam caretas verdes nas taperas.

Julgo ver este Espírito sublime. arrebentando a horrenda calma.. olha Melancolicamente para o mundo! Essa alegria imaterializada. sem pai que me ame. A lamparina quando falta o azeite Morre. Grito.. trabalhando aos brancos! Seja este sol meu último consolo. Tudo enfim a mesma órbita percorre E as bocas vão beber o mesmo leite. E o espírito infeliz que em mim se encarna Se alegre ao sol. é o óbolo obscuro. aqui. à luz da consciência infame. Que por vezes me absorve. É o dinheiro coberto de azinhavre Que o escravo ganha. com a misericórdia de um tijolo!. Só. com a cabeça em brasas Ante a fatalidade que me oprime.. Chamando-me do sol com as suas asas! Gosto do sol ignívomo e iracundo Como o réptil gosta quando se molha E na atra escuridão dos ares.E assim pensando. Súbito. da mesma forma que o homem morre.. como quem raspa a sarna. e se gritio é para que meu grito Seja a revelação deste Infiniti Que eu trago encarcerado da minh’alma! Sol brasileiro! queima-me os destroços! Quero assistir.. É o pedaço já podre de pão duro Que o miserável recebeu na estrada! Não são os cinco mil milhões de francos Que a Alemanha pediu a Jules Favre. À carbonização dos próprios ossos! 161 .. De pé.

Espicaça-a a ignomínia.A MERETRIZ A rua dos destinos desgraçados Faz medo. Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos. a âmbulas moles. urna de ovos mortos. Sente. em contorções sombrias.. Sofre em cada molécula a angústia alta De haver secado. à luz do olhar protervo. aliando. por fim. ébria e lasciva. de cabelos ruivos. excita-a o açoite Do incêndio que lhe inflama a língua espúria. à falta Da água criadora que alimenta as proles! É ela que. O Vício estruge. através os meus sentidos. Ouvem-se os brados Da danação carnal. Com as mãos chagadas. E a mulher. Na vacuidade das entranhas frias O esgotamento intrínseco da besta! E ela que. a arquivar credos desfeitos. O eretismo das classes superiores E o orgasmo bastardíssimo da plebe! É ela que. espremendo os peitos. à lua. Lúbrica. Na sodomia das mais negras bodas Desarticula-se. em coréas doudas.. Bramando. O indumento vilíssimo do servo Ao brilho da augustal toga pretexta. Uma mulher completamente nua! É a meretriz que. Na vizinhança aziaga dos ossuários Representa. Entre farraparias e esplendores. alta noite. hirta. como o estepe. Reduzidos. arremessada sobre o rude 'Despenhadeiro da decrepitude. A escuridão dos gineceus falidos E a desgraça de todos os ovários! Irrita-se-lhe a carne á meia-noite. funcionária dos instintos. Gane instintivamente de luxúria! Navio para o qual todos os portos Estão fechados. hórridos uivos Na mesma esteira pública. recebe. 162 .

.. Mais que a vaga incoercível na água oceânea. Lembra o ruído harto azorrague A vergastar ásperos dorsos grossos. E a Carne que. Toda a sensualidade tempestuosa Dos apetites bárbaros do Sexo! 163 . filha do inferno.... É o hino Da matéria incapaz.. no horror da ocídua fase Esterilizadora de órgãos. de bruços. Para a Finalidade Transcendente Gera o prodígio anímico da Insânia! Nas frias antecâmaras do Nada O fantasma da fêmea castigada. Na óptica abreviatura de um reflexo. em cada humana nebulosa. aos tácitos apelos Das suas carnes e dos seus cabelos. E a dor profunda da incapacidade Que.. dos que são caducos Desde que a Mâe-Comum lhes deu início. bêbeda de gozo Saciando o geotropismo pavoroso De unir o corpo à terra famulenta! Nesse espolinhamento repugnante O esqueleto irritado da bacante Estrala. Fulgia. já morta essencialmente. E é aterradora essa alegria de ossos Pedindo ao sensualismo que os esmague! É o pseudo-regozijo dos eunucos Por natureza. Passa agora ao clarão da lua acesa E é seu corpo expiatório.Chão de onde unia só planta não rebenta. alvo e desnudo A síntese eucarística de tudo Que não se realizou na Natureza! Antigamente. pela própria hereditariedade A lei da seleção disfarça em Vício! É o júbilo aparente da alma quase A eclipsar-se.. Ei-la. Pagando com volúpia o crime eterno De não ter sido fiel ao seu destino! E o Desespero que se faz bramido De anelo animalíssimo incontido.

sonhos de culminância. rubros. Criando concupiscências infinitas Como eviterno lobo insatisfeito... Libertos da ancestral modorra calma.. Ficou rolando. Saem da infância embrionária e erguem-se.. Brilha na prostituta moribunda Como a fosforescência sobre a lama! É a visita alarmante do que outrora Na abundância prospérrima da aurora. Lançando a sombra horrível dos seus vultos Sobre a noite fechada daquela alma! É o sublevantamento coletivo De um mundo inteiro que aparece vivo. momentaneamente luz fecunda. decerto. Mas que. talvez... Como o . Que. Gorda a escorrer-lhe das artérias túmidas Lembrava um transbordar de ânforas cheias. adstrito a inferior plasma inconsútil. hírcica. Na homofagia hedionda que o consome. como aborto inútil. A hora da morte acende-lhe o intelecto E à úmida habitação do vício abjecto Afluem milhões de sóis. do deserto! Vede! A prostituição ofídia aziaga Cujo tóxico instila a infâmia.. adultos. e a estraga Na delinqüência . ânsia De perfeição.. Numa cenografia de diorama. Agarrou-se-lhe aos seios impudicos Como o abraço mortífero do Ficus 164 . Resíduos memoriais tornam-se luzes Fazem-se idéias e ela vê as cruzes Do seu martirológio miserando! Inícios atrofiados de ética... das veias E em torrencialidades quentes e úmidas. Vinha saciar a milenária fome Dentro das abundâncias do seu leito! Toda a libidinagem dos mormaços Americanos fluía-lhe dos braços... radiando. Irradiava-se-lhe...O atavismo das raças sibaritas. impune. Pudera progredir.

... ............................................................. ................................................... Mordeu-lhe a boca e o rosto.............. Na horrorosa avulsão da forma nívea Dizer ainda palavras de lascívia.................................................................................................. ...... ..... .................................................................................................................................................... condenada..................... .. ................... Ser meretriz depois do túmulo! A alma Roubada a hirta quietude da urbe calma Onde se extinguem todos os escolhos: E........................................................................................ Oferecer-se à bicharia infame Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos! Sentir a língua aluir-se-lhe na boca E com a cabeça sem cabelos........................................................................... 165 .................... Enroscou-se-lhe aos abraços com tal gosto................................................... ........Sugando a seiva da árvore a que se une! . . ......... .................. ao trágico ditame......................... oca...................................

Pudera eu ter. É assim como o ar que a gente pega e cuida. Cuida. Descasco-a. enfim. em ânsias. tal como eu o estou amando. por experiência. poeta. Para que. é éter. do egoísta Modo de ver. Por conseguinte Chamas amor aquilo que eu não chamo. que o idioma em que te eu falo Possam todas as línguas decliná-lo Possam todos os homens compreendê-lo. amo Mas certo. enfim.VERSOS DE AMOR A um poeta erótico Parece muito doce aquela cana. atenta a orelha cauta. Integralmente desfibrado e mole. conheço o seu conteúdo. chupo-a. o observas. Diverso é. Imponderabilíssima e impalpável. E hoje que.. entretanto. É Espírito. Como Mársias -. é substância fluida. não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes. Oposto ideal ao meu ideal conservas. pois. oposto a mim. Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! Para reproduzir tal sentimento Daqui por diante. Como um saco vazio dentro d’alma! 166 . observo o amor. Todas as ciências menos esta ciência! Certo.. Quis saber que era o amor. provo-a. Porque o amor. ilusão treda! O amor. A toda a boca que o não prova engana. consoante o qual. chegando à última calma Meu podre coração roto não role. este o amor não é que. eu que idolatro o estudo. o egoísta amor este é que acinte Amas. o ponto outro de vista Consoante o qual.o inventor da flauta -Vou inventar também outro instrumento! Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo Ambiciono. é como a cana azeda.

A LUVA Para o Augusto Belmont Pensa na glória! Arfa-lhe o peito. abre.A maldade do mundo é muito grande. contra ele. Vem-lhe á imaginação este soneto: "A princípio escrevia simplesmente Para entreter o espírito. trabalhar contente. Mas meu orgulho ainda é maior do que ela! Ruja a boca danada da profana Coorte dos homens. com o seu grande grito. trágico e maldito. Durante as vinte e quatro horas do dia! Riam de mim. Que importa que.. horrendo e preto O áspide abjeto do Pesar se mova!. a tumbal janela E diz. 167 .. Escrevia Mais por impulso de idiosincrasia Do que por uma propulsão consciente... no quadrilátero da alcova. Tenha a sorte de Cícero proscrito Ou morra embora. . em ânsias. opresso. Entendi. Sem ter uma alma só que me idolatre. os monstros zombeteiros.. E só. olhando o céu que além se expande: ". sobre a forja ardente Da ilha de Lemnos. que devia. depois disso.. Como Camões morrendo sobre um catre!" Nisto.O pensamento é uma locomotiva Tem a grandeza duma força viva Correndo sem cessar para o Progresso. Como Vulcano. Trabalharei assim dias inteiros.

Que meu orgulho do alto do Infinito Suplantará a própria espécie humana! Quebro montanhas e aos tutões resisto Numa absolta impassibilidade". Batem-lhe os nervos. E na suprema convulsão o doudo Parece aos astros atirar a luva! 168 . sacudindo-o todo. Sobre a cidade geme a chuva. E como um desafio à eternidade Atira a luva para o próprio Cristo! Chove.

Mas a aguadilha pútrida o ombro inerme Me aspergia. íntegra. Como um cara.NOITE DE UM VISIONÁRIO Número cento e três. Com a rebeldia acérrima dos nervos Minha atormentadíssima cabeça. lhe entregue.Dizia. Arimânico gênio destrutivo Desconjuntava minha autônoma alma Esbandalhando essa unidade calma. Com os ligamentos glóticos precisos.ca! Perante o inexorável céu aceso Agregações abióticas espúrias. É a potencialidade que me eleva Ao grande Deus. Rua Direita. sob os pés do orgulho humano. num canto de carro.este sombrio personagem Do drama panteístico da treva! Depois de dezesseis anos de estudo Generalizações grandes e ousadas Traziam minhas forças concentradas Na compreensão monística de tudo. Cortanto o melanismo da epiderme. Como quem é levado para o hospício Aos trambolhões. por ver-vos. Que forma a coerência do ser vivo. E a ela se aliava o ardor das sirtes líbias. 169 . recebendo injúrias. e erguia. banhava minhas tíbias. Recebiam os cuspos do desprezo. e absorve em cada viagem Minh’alma -. O reino mineral americano Dormia. alto. A essa hora. E eu sí a tremer com a língua grossa E a volição no cúmulo do exício. E a cimalha minúscula das ervas. E não haver quem. Eu tinha a sensação de quem se esfola E inopinadamente o corpo atola Numa poça de carne liquefeita! -. oh! céu.“Que esta alucinação tátil não cresça!” -. nas telúrias reservas.

com a símplice sarcode. As vegetalidades subalternas Que osserenos noturnos orvalhavam. E no estrume fresquíssimo da gleba Formigavam. O vibrião. me pediam. com o ar horrível. O motor teleológico da Vida Parara! Agora. lembravam Toalhas molhadas sobre as minhas pernas. A química feroz do cemitério Transformava porções de átomos juntos No óleo malsão que escorre dos defuntos.coetâneo do horrendo cataclismo -Era puxado para aquele abismo No redemoinho universal das cousas! 170 . úmida e fresca. A ínfima fauna abscôndita e grotesca Da família bastarda dos helmintos. Mais tristes que as elegais de Propércio. Vinha do coração quente da terra Um rumor de matéria dissolvida. o colpode E outros irmãos legítimso da ameba! E todas essas formas que Deus lança No Cosmos. Pareciam talvez meu epitáfio.A liberdade de vingar em risos A angústia milenária que o persegue! Bolia nos obscuros labirintos Da fértil terra gorda. Um pedaço de língua disponível Para a filogenética vingança! A cidade exalava um podre béfio: Os anúncios das casas de comércio. Onde minhas moléculas sofriam. Dedos denunciadores escreviam Na lúgubre extensão da rua preta Todo o destino negro do planeta. o ancilóstomo. Pela alta frieza intrínseca. Um necrófilo mau forçava as lousas E eu -. Com a abundância de um geyser deletério. em diástoles de guerra.

nos altares esboroados. Engalanava-lhe as paredes frias Uma coroa de urzes e de cardos Coberta em pálio pelas laçarias. funeral mesquita. Foram caindo como estalactites Sobre o ouro e a prata das alfaias priscas 171 . aos lampejos derradeiros Das irisadas vespertinas velas. Fulgia em tudo uma estriação violeta E um violáceo clarão banhava os mochos Que em torno estavam da mesquita preta. Parou em frente da mesquita morta. Em atalaia às gerações passadas! Um crepúsculo imenso. se desenrolava A esteira astral da retração etérea.. Súbito alguém. Abandonada aos lobos e aos leopardos Numa floresta lúgubre e esquisita. Os astros mortos refulgiam vivos E a noite. dentro. ampla e brilhante. foi transpondo a porta. Em passo lento. nunca visto Tauxiava o Céu de grandes roxos Da mesma cor da túnica de Cristo. Feras rompiam tolos e balseiros. . rutilava Lantejoulada de opalinos crivos. A Lua encheu o espaço sem limites E. Era uma viúva. a viúva. Já na eminência da amplidão sidérea Como uma umbela.Um vento frio começou gemendo. Uma vez. Eternamente aberta ao sol e à chuva. e o olhar errante. Mochos vagavam como sentinelas. o passo constrangendo.. E pelas catacumbas desprezadas.A VITÓRIA DO ESPÍRITO Era uma preta.

Além. entretanto. Morria a noite. Estrugiam canções desesperadas De misereres e de sustenidos. A Natureza celebrava a festa Do astro glorioso em cantos e baladas . infernais ardendo Todas as feras. as panteras todas Avançam para a viúva desvalida. E sobre o corpo da viúva exangue. Tiram-lhe todas ali mesmo a vida. O espírito da viúva se quedara Ao contemplar dessa fulgente porta E dessa clara e alva redoma aérea. contra ela. Fora. No desfilar de sua carne morta A transitoriedade da matéria! 172 . Como uma exposição de carnes vivas. arremetendo. entanto. na redoma clara Que envolve a porta da região etérea. As flâmulas altivas Do sol nascente erguiam-se vermelhas. E havia no atro olhar dessas panteras Essa alegria doida da carnagem Que é a alegria única das feras. E raivosas. por um chão de onagras Vinha passeando corno numa viagem Um grupo feio de panteras magras.Um dilúvio de fósforos prateados E uma chuva doirada de faíscas.O próprio Deus cantava na floresta! Nos arvoredos rejuvenescidos. E ardendo na impulsão das ânsias doidas E em sevas fúrias. E iam cair em pérolas de sangue Sobre as asas doiradas das abelhas.

Os olhos volvo para o céu divino E observo-me pigmeu e pequenino Através de minúsculos espelhos. afetando a forma de um losango. Assim. exata. entre assombros. no meio. Qual num sonho arrebatado fosse. pela vez primeira. E por essa finíssima epiderme Eis-me passeando como um grande verme Que. trêmulo. Rica. Anunciando desmoronamentos De mil lajedos sobre mil lajedos.. Pára. ao sol. em plena podridão.. Na ilha encantada de Cipango tombo.. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas.. Verde. partindo e fraturando os braços Nas pontas escarpadas dos rochedos! Mas de repente.A ILHA DE CIPANGO Estou sozinho! A estrada se desdobra Como uma imensa e rutilante cobra De epiderfe finíssima de areia. Da qual.. 173 . Sente vontade de cair de joelhos! Soa o rumor fatídico dos ventos. A saudade interior que há no meu peito. brilha A árvore da perpétua maravilha.. tenho alucinações de toda a sorte. Ofereço Preces a Deus de amor e de respeito E o Ocaso que nas águas se retrata Nitidamente repdoruz. passeia! A agonia do sol vai ter começo! Caio de joelhos.. Impressionado sem cessar com a Morte E sentindo o que um lázaro não sente. ostentando amplo floral risonho.. À cuja sombra descansou Colombo! Foi nessa ilha encantada de Cipango. num enleio doce. E ao longe soam trágicos fracassos De heróis. em luz perpétua... quem diante duma cordilheira. Atravessando os ares bruscamente.

. E como agora a lua cheia brilha! Ilha maldita vinte vezes a ilha Que para todo o sempre me fez triste! 174 . Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos! E a treva ocupa toda a estrada longa.. Passa o seu enterro!.. Iríamos a um país de eternas pazes Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio... Gozei numa hora séculos de afagos. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. A tarde morre. E finalmente me cobri de flores. Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrioi! Um penetrante e corrosivo frio Anestesiou-me a sensibilidade E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro.. A luz descreve siguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos..Que Toscanelli viu seu sonho extinto E como sucedeu a Afonso Quinto Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho! Lembro-me bem. Banhei-me na água de risonhos lagos. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha. O Firmamento é uma caverna oblonga Em cujo fundo a Via-Láctea existe..

. em reflexos.BARCAROLA Cantam nautas. Alegoria tristonha Do que pelo Mundo vai! Se um sonha e se ergue. nas Águas. Quem as esconda. Em fulvos filões doirados Cai a luz dos astros por Sobre o marítimo horror Como globos estrelados. O Céu. esse vai Para o túmulo que o cobre. Se um cai. Cantam! Os astros do Céu Ouçam e a Lua Cheia ouça! 175 . outro se ergue e sonha. outro cai. em lúcido véu. a luzir Como um diamante de Ofir Imita a curva de um arco. Lá onde as rochas se assentam Fulguram como outros sóis Os flamívomos faróis Que os navegantes orientam.. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas. Vagueia um poeta num barco. A Lua . fingindo cristais Das mais deslumbrantes cores. Mas desgraçado do pobre Que em meio da Vida cai! Esse não volta. Vai uma onda. Espelham-se os esplendores Do céu. as esconda. vem outra onda E nesse eterno vaivém Coitadas! não acham quem. de cima.globo de louça Surgiu.

. "Sonhador do último sonho! "Numa redoma ilusória "Cercou-te a glória falaz. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas! 176 . Sua voz é igual à voz Das dores todas do mundo.. "Mas nunca mais. Haja silêncio no mar Para se ouvir a sereia..Ouça do alto a Lua Cheia Que a sereia vai falar. Que é que ela diz?! Será uma História de amor feliz? Não! O que a sereia diz Não é história nenhuma. Mais um coveiro do Verso! Cantam flautas. "Viajeiro da Extrema-Unção.E disse e porque isto disse O luar no Céu se apagou. porém. Súbito o barco tombou Sem que o poeta o pressentisse! Vista de luto o Universo E Deus se enlute no Céu! Mais um poeta que morreu. "O poeta é como Jesus! "Abraça-te á tua Cruz "E morre.. forte. "Fecha-te nesse medonho "Reduto de Maldição. E como um requiem profundo De tristíssimos bemóis. nunca mais "Há de cercar-te essa glória! "Nunca mais! Sê.. poeta da Morte!" ..

É que baqueia a vida escravizada! Já se ouvem os clangores do pregoeiro. A República rola-lhe nos ombros. e. risonho. e há de elevar-se neste sonho Ao topo azul das Glórias Imortais! Esplende. E ali do despotismo entre os escombros. Vós. Caia do santuário lá da História. Essa luz etereal bendita e calma. Há de transpor sereno os penetrais Da Pátria. oh Pátria.Estrela d'Alva imaculada e pura! É livre a Pátria outrora opressa e exangue! Esse labéu que mancha a glória pública. fazei que destes brilhos. A Liberdade assoma majestosa.AVE LIBERTAS Ao clarão irial da madrugada. essa bendita e branca Luz que os negrores da opressão espanca. A bênção do valor dos vossos filhos! 177 . Banhou-se o coração do Brasileiro Num eflúvio de luz auroreada. Fulgente do valor da vossa glória. Enquanto fora na trevosa agrura Sucumbe o servilismo. pois. levando ao mundo inteiro. esplendorosa. Da liberdade ao toque alvissareiro. Oh! Liberdade. Da República a nova sublimada. Como um Tritão. Manchar não pode as aras da República. Que apouca o triunfo e que se chama sangue. oh! Redentora d'alma. Rola um drama que a Pátria exalça e doura Numa auréola de paz imorredoura. . Não! que esse ideal puro.

E em qualquer parte do Universo veja Sombrias ruínas de um solar egrégio E o desmoronamento duma Igreja Despedaçada pelo sacrilégio. Passa um rebanho de carneiros dóceis. Por muito tempo eu lhe sorvi o aroma. O amor reduz-nos a uniformes placas. Tenho vontade de estrangulá-lo E reduzi-lo muitas vezes a ossos! Todo o ser que no mundo turbilhona Veja do Amor.ESTROFES SENTIDAS Eu sei que o Amor enche o Universo todo E se prende dos poetas à guitarra Como o Pólipo que se agarra ao lodo E a ostra que às rochas eternais se agarra. Uniformiza todos os anelos E une organizações fortes e fracas Nos mesmos laços e nos mesmos elos. desvairado. E. vendo o horror dos meus destroços. Eleito Deus no altar do fetichismo! Tudo sacrifiquei para adorá-lo . à luz das minhas frases.Mas hoje.. Além. Na área em que estou.. Estremecendo em suas próprias bases. Uma montanha que se desmorona. ao matinal assomo. cantam óperas inteiras. A compreensão da minha niilidade Aumenta à proporção que aumenta o dia E pouco a pouco o encéfalo me invade Numa clareza de fotografia. 178 . nas oliveiras. Aves de várias cores e de várias Espécies. A Natureza veste extraordinárias Roupagens de ouro. sem prever o abismo Fiz desse amor um ídolo de Roma. E o Sol arranca as minhas crenças como Boucher de Perthes arrancava fósseis.

E quando a Dor me dói. heroicamente. na água Da misteriosíssima lagoa Que a língua humana denomina Mágoa! Dos meus sonhos o exército desfila E.. Como Tirteu na guerra de Messênia! Transponho assim toda a sombria escarpa Sinistro como quem medita um crime.este maldito monstro Que no meu próprio estômago alimento! Nisto a alma o oficio da Paixão entoa E vai cair. eu vou cantando a nênia Do Amor que eu tive e que se fez argila. Ver mastodontes onde há mastodontes E insetos ver onde há somente insetos. ébria de fumo e de ópio. à nitidez real dos aspectos. sinto um violento Rancor da Vida .Observo então a condição tristonha Da Humanidade. Tal qual ela é. O Sábio vê em proporções enormes Aquilo que é composto de pequenas Partes.. Da observação nos elevados montes Prefiro. A inanidade da Ilusão demonstro Mas. À sombra dum verdoengo tamarindo Que representa a minha infância morta! 179 . tanjo minha harpa E a harpa saudosa a minha Dor exprime! Estes versos de amor que agora findo Foram sentidos na solidão de uma horta. e não tal qual a sonha E a vê o Sábio pelo telescópio. construindo corpos quase informes E aquilo que é uma parcela apenas. demonstrando-a. à frente dele.

Ah! Se me ouvisses falando! (E eu sei que ás dores resistes) Dir-te-ia coisas tão tristes Que acabarias chorando. De lá. a esmo. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra!" 180 . em sonhos. em sonhos erra. Não me queixo mais da sorte Nem tenho medo da Morte Que eu tenho a Morte em mim mesmo! "Meu amor. dos grandes espaços. Muito longe. Muito longe. Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois. se duvidas. olha estas feridas. Um grande recolhimento Preside neste momento Todas as forças do Mundo. Vem cá.CANTO ÍNTIMO Meu amor. Passo longos dias. Onde há sonhos inefáveis Vejo os vermes miseráveis Que hão de comer os meus braços. Que o amor abriu no meu peito. erra. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra! O Sol está moribundo.

abraça a sombra e. Sem um domingo ao menos de repouso. Frio que me assassina. escuridão e eterna claridade. e vê a luz e vendo Uma sombra que passa. triste. o louco. morre! E a alma se lhe dilui na amplidão infinita. murmura: . numa delícia infinda. ontem.. Agonia de amar.CANTO DE AGONIA Agonia de amor. Neve da minha dor. Delícia que ainda gozo. Numa prece de amor. Nos desertos da Vida uma estrela fulgura E o Viajeiro do Amor.. agonia. e entre sorrisos e entre Mágoas soluço..Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore como Chorei. uma nuvem que corre. a sós.Misto de infinita mágoa e de crença infinita. prece que ainda Entre saudades rezo.Diz e morre-lhe a voz. agonia bendita! . Mas. Queimam-me o peito cáusticos de fogo Esta ânsia de absoluto desafogo Abrange todo o circulo infinito. Fazer parar a máquina do instinto. Caminha e vai. neve do meu destino! E eu aqui a chorar nesta noite tão fria! Agonia. Na insaciedade desse gozo falho Busco no desespero do trabalho. até que esta dor se concentre No âmago de meu peito e de minha saudade. agonia. num volutuoso assomo. neve. amor e frio.. vendo-a. e o sofrimento De minha mocidade. . experimento O mais profundo e abalador atrito. agonia! .. Amor..Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve.. oração. sinto A insaciabilidade desse gozo! 181 . quanto mais me desespero. Neve que me embala como um berço divino. e cansado e morrendo O Viajeiro vai.. agonia bendita! GOZO INSATISFEITO Entre o gozo que aspiro.

A terra escalda: é um forno. E o Velho veio para o labor cotidiano. lúgubre e só. trôpego e cambaleando Foi-se arrastando. Rasgando.. a superfície bruta. funéreo 182 . E em tudo que o rodeava.. Para as bordas fatais dum precipício fundo! Quis um momento ainda olhar para o Passado. do agro solo. aclara o mar e por tudo se estende E arde em tudo.HISTÓRIA DE UM VENCIDO I Sol alto. mordendo a atra terra infecunda. e o trabalho .Do Eterno Bem motor principal e alavanca Arrancara-lhe a Crença assim como se arranca De um ninho a seda branca e de uma árvore o galho! Sangrou-lhe o coração a saudade da Aurora! . nesta maldita senda De sofrimento ignaro em sofrimento ignaro Ir caminhando até tombar sem um amparo No tremendo marneI da Desgraça tremenda?! II Noute! O silêncio vinha entrando pelo mundo E ele. Fez reboar pelo solo. oito vezes. do alegre Sol ao grande globo quente E pôs-se para aí. A flama oriunda Da solar refração bate no mundo. desoladoramente A revolver da terra o atro e infecundo arcano. e entre o Hércules de outrora! Pois havia de assim. Mas o braço cansou! Trabalhou. Por seis horas seu braço empenhado na luta. foi aos poucos se arrastando. Triste.. acende O pó. alta e descompassada A dura vibração incômoda da enxada.O Hércules que ele fora! O fraco que ele hoje era! E surpreendido viu que um abismo se erguera Entre o fraco que era hoje..

louco. viveria! Viveria! E a fecunda e deleitosa seara Verde dos campos. o cansaço Empolgara-o. Que mal lhe haviam feito a esposa e a irmã e os filhos?! Preciso era viver! Portanto. enquanto a Terra Vencedora Celebrava ao luar a Missa dos Vencidos! E o cadáver. o precipício estava. avistando uma frondosa tília Julgou. E amplo. no horror bruto da despedida Abraçou-se com a Dor. ninguém o acalenta. e ele quis falar e estava mudo! Mudo! E a quem contaria agora as suas mágoas?! E trágico. E bateram-lhe então de chofre na lembrança A casa que deixara. Compensaria toda a sua dor imensa Tal qual o Céu a dor de Cristo compensara! E aos tropeços.. Somente entre a negrura atra da terra poenta Alguém beija. a família! Não morreria. alguém vela o cadáver: a Lua! 183 . avistar a Árvore da Esperança.. Num instante viu tudo. os filhos.o último esforço. Nem viu que era chegado o termo da viagem. e a sonhar. o acalenta... sozinho.. Caminhava. flutua! Ninguém o vê.. bêbado de miragem. e compreendendo tudo. ele pisasse os trilhos. a flux d'água. Quis fazer um esforço .Horrorizado viu como num cemitério Cadáveres de um lado e cinzas de outro lado! De súbito. a rugir-lhe aos pés. tombando. onde arde e floresce a Crença. abraçou-se com a Vida E sepultou-se ali no coração das águas! Cantavam muito ao longe uns carmes doloridos! Eram tropeiros. o Velho caminhava. a toa. pois! Somente morreria Se da Vida. e o braço Pendeu exangue. era a turba trovadora Que assim cantava.. o peito arqueou-se..

e o meu pesar se eleva E chora e sangra. No ar há malabatros Turiferando a negridão tediosa. Subindo á majestade do Infinito.. luminosas. Legiões de névoas mortas e finadas Como fragmentações d'ouro e basalto Lembram guirlandas pompeando no Alto Eterizadas. pompeiam (triste maldição!) . E a Noite emerge. Negras. Descem os nimbos. mudo. Além. da Noite ao negro assomo Beijam-lhe o corpo ensangúentado d'ouro..Crepúsculo fatal vindo do Nada! Que importa o Sol! A Treva..condensada treva A sombra desce. Trazem no peito o branco das manhãs 184 . Atros. mudo.eis tudo! E no meu peito . . Na majestade dum condor bendito..Asas de corvo pelo coração. E os Sete Passos que magoaram Cristo! II Agora dorme o astro de sangue e de ouro Como um sultão cansado! As nuvens como Odaliscas. Martirizado porque nunca dorme As Sete Chagas dum martírio enorme. santa e vitoriosa Dentre um velarium de veludos.ocaso nunca visto. Nas chispas fulvas de um vulcão violento! E tudo em vão! Atrás da luz dourada. volaterizadas.. Raios flamejam e fuzilam ígneos. ígneo. mudo. dourando as névoas dos espaços. sangrento O sol.IDEALIZAÇÕES A Santos Neto I Em vão flameja. aos astrais desígnios. A VIa-Láctea vai abrindo os braços! Áureas estrelas. a Sombra . fulvos. alvas. E há no meu peito . e.. rubro.

Abençoada pela Eternidade! E ei-lo de novo. o tigre. dominando o mundo! Mas de que serve o Sol. se.E dormem brancas corno leviatãs Sobre o oceano astral das nebulosas. em plena e fulva reverberação. há-de Alva. E nessa luz queimas4e em vão! És todo Pó. Mais em meu peito uma ilusão se enterra. se tornassem ferros?! IV Poeta. de que serve. Vésper me encanta. Mais em minh'alma um desespero brada?! De que serve. Eu amo a noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. Hoje de novo. em vão na luz do sol te inflamas. á luz áurea que dele Emana e estua e se refrange e ferve. ciclópico. Ninguém se exime dessa lei imensa Que. se. assassino Ébrio de fogo.. ontem moribundo.o Sol . de que serve Se é desespero e maldição todo ele?! Pois. Sírius me deslumbra. III De novo.. a lesma. A Mágoa ferve e estua. Ah! Como tu. aclarando os cerros E engalanando os arvoredos gaios. O leão. 185 . A alma se abate. como tombou outrora. Como Herculanum foi após as chamas. a Aurora. se erguer. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca. E corno a Aurora . se triste em cada Raio que tomba no marnel da terra. lodo. curvo ao seu destino.hóstia da Aurora. o mastodonte. Tudo por fim há de acabar na mesma Tênebra que hoje sobre ti desaba. Fantástico. e hás de ser após as chamas. como se esses raios N'alma caindo. em lodo tudo acaba. entre esplendores.

Alva corno um pedaço de mortalha! Nessa música que a alma me ilumina Tento esquecer as minhas pr6prias dores... banha As serranias duma luz estranha. Sírius me deslumbra. Como recordação da festa diurna.. e. como abutres Medonhos. E arrasta os coraç5es pela Descrença. canta! Canta a Descrença que passou cortando As tuas ilusões pelas raízes. e minh'alma cobre-se de flores . sobe ao pedestal. Geme a pungente orquestração noturna E chora a fanfarra triunfal da Morte. a Lua que no céu se espalha. de ossos. Harpas concertam! Brandas melodias Plangem. Vives de cinzas e de ruinarias! V Agora é noite! E na estelar coorte. onde. pelas penedias. Iluminando as serranias. E foi deixando essas funéreas. Eu amo a Noite que este Sol arranca! Namoro estrelas.. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca! 186 . Medonhas valas. Ergue. frias. Pelos rochedos.. pelas escarpas.. Vésper me encanta.Arrasta as almas pela Escuridão. pois poeta.Fera rendida à música divina.. Canto. um pedestal de tanta Treva e dor tanta.. Então. e num supremo e insano E extraordinário e grande e sobre-humano Esforço. E em vez de chagas e de cicatrizes Deixar. foi valas funerais deixando. de ilusões te nutres. Silêncio! Mas de novo as harpas Reboam pelo mar.

A dispersão dos sonhos vagos reuno..INSÔNIA Noite. sonâmbulo. triunfalmente.Por que é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ou mapa-múndi estranha.. Desta cidade pelas ruas erra A procissão dos Mártires da Terra Desde os Cristãos até Giordano Bruno! Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. 187 . em mágoa... Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido Como um bemol e como um sustenido Rola impetuosa por meu peito adentro?! . logo Toda a alvorada esplêndida se ostenta. Depois de embebedado deste vinho. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Por que cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. nos céus altos.. E invejo o sofrimento desta Santa. sonâmbulo.. Em cujo olhar o Vicio não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. Por que não evitei o precipício Estrangulando minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! À proporção que a minha insônia aumenta Hierógafos e esfinges interrogo. eu também vou passando Sonâmbulo... Mas. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim.

o funerário. Em que o Tédio. os corimbos. As árvores. Sacrificar-me por amor do Verso No meu eterno leito de Procusto! 188 .. Com o olhar a verde periferia abarco. contemplo As maravilhas reais do meu Pau d'Arco! Cedo virá. Restitui-me a pureza da hematose E então uma interior metamorfose Nas minhas arcas cerebrais se opera. Outra vez serei pábulo do susto E terei outra vez de. Cercado destas árvores. Atro dragão da escura noite. Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos. Recordam santos nos seus próprios nichos. batendo na alma.. Respira com vontade a alma campônia! Grita a satisfação na alma dos bichos.. Estou alegre.. Aqui. hedionda. por exemplo. em mágoa imerso. neste silêncio e neste mato.Vagueio pela Noite decaída. equilibrando-se na esfera. Agora. porém. No espaço a luz de Aldebarã e de Árgus Vai projetando sobre os campos largos O derradeiro fósforo da Vida. estronda Como um grande trovão extraordinário. O Sol. as flores. O odor da margarida e da begônia Subitamente me penetra o olfato.

e na ínfima ânfora. porque um. é mais de um. são dois Túmulos dentro de um carvão promíscuo. é do sonho assíduo Que a individual psique humana tece e O outro é o do sonho altruístico da espécie Que é o substractum dos sonhos do indivíduo! E exclamo. "Onde os ventres maternos ficam podres. Risco-o Depois. De onde. Mergulho.Mucosa nojentíssima de pus.MISTÉRIOS DE UM FÓSFORO Pego de um fósforo. irrupto. Olho-o ainda. o arquitetural e íntegro aspecto 189 . ante Minha massa encefálica minguante Todo o gênero humano intra-uterino! É o caos da avita víscera avarenta . harto. aparece. através ovóide e hialino Vidro. por outra. A nutrir diariamente os fetos nus Pelas vilosidades da placenta? Certo."Cinza. barro. Olho-o. sinto O amargor especifico do absinto E o cheiro animalíssimo do parto! E afogo mentalmente os olhos fundos Na amorfia da cítula inicial. amorfo e lúrido. E o que depois fica e depois Resta é um ou. os beiços na ânfora ínfima. "Miniatura alegórica do chão. Presto. Dois são. "Onde nenhuma lâmpada se acende. síntese má da podridão. por epigênese geral. Todos os organismos são oriundos. "Na tua clandestina e erma alma vasta. a esvaziar báquicos odres: . ébrio. "Meu raciocínio sôfrego surpreende "Todas as formas da matéria gasta!" Raciocinar! Aziaga contingência! Ser quadrúpede! Andar de quatro pés E mais do que ser Cristo e ser Moisés Porque é ser animal sem ter consciência! Bêbedo. certo.

Basta um fósforo só Para mostrar a incógnita de pó. Que mão sinistra e desgraçada encheu Os olhos tristes que meu Pai me deu De alfinetes. Na anfigonia que me produziu Nonilhões de moléculas de esterco. na terra instável. muito alto. atender Ao pedido da célula cansada! Um dia restará. Teus gineceus prolíficos envolvem Cinza fetal!. O espectro angulosíssimo do Medo! Em cismas filosóficas me perco E vejo. De minha antropocêntrica matéria Numa côncava xícara funérea Uma colher de cinza miserável! Abro na treva os olhos quase cegos. Migalha de albumina semifluida.. sozinho. Que fez a boca mística do druida E a língua revoltada de Lutero.. ora. sois vós. Em que todos os seres se resolvem! 190 . De onde o desprotegido homem nasceu Para a fatalidade dos tropismos. Sob a morfologia de um moinho. dentre as tênebras. ínfimo e infecto! É a flor dos genealógicos abismos . Então. Se escapa. o que nele Morre. E este ato extraordinário de morrer Que há de na última hebdômada. é o céu abscôndito do Nada.Zooplasma pequeníssimo e plebeu. de agulhas e de pregos?! Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis! Dentro um dínamo déspota. Na síntese acrobática de um salto. como nunca outro homem viu.Do mundo o mesmo inda e. é todo aquele Que vem de um ventre inchado. Vida. que. mônada vil. cósmico zero. sou eu. em segredo. do meu espírito. Move todos os meus nervos vibráteis. Depois.

Na aclamação simbiótica do gozo! O enterro de minha última neurona Desfila. com a alma vencida Na abjeção embriológica da vida O futuro de cinza que me aguarda! 191 .. Adeus! Que eu veio enfim.Ah! Maldito o conúbio incestuoso Dessas afinidades eletivas. E eis-me outro fósforo a riscar.. E esse acidente químico vulgar Extraordinariamente me impressiona! Mas minha crise artrítica não tarda. De onde quimicamente tu derivas.

.dúlia Que na fibra mais forte e até na fibra Mais tênue. davas brandindo em seva e insana Fúria. tangendo tiorbas em volatas. Beijam-te o passo multidões escravas Dos Desgraçados! ..As borboletas e os escaravelhos Beijam-se no ar. e toda a alma Enches de beijos de infinita calma. E o aroma dos teus beijos infinitos Entra na terra.Estas multidões Sonham pátrias doiradas de ilusões Entre os tórculos negros da Desgraça .. medras Nalma de cada virgem. vezes. Rendilhados de fulvas gemas raras E pontilhados de crisoberilos. a soberana Imagem pétrea das montanhas duras. Ora.Flores que tombam quando a neve passa No turbilhão das avalanches bravas! Tudo dominas! Dos vergéis tranqüilos Aos Capitólios. Retroa o sino. e dos Capitólios Aos claros pulcros e brilhantes sólios De esplendor pulcro e de fulgências claras. bate nos granitos E quebra as rochas e arrebenta as pedras! És soberano! Sangras e torturas! Ora. . Amor.. quietos Beijam-se além os silfos e os insetos Sob a esteira dos campos que se orvalham. lembras. Sobes ao monte onde o edelweiss pompeia Nalma do que subiu àquele monte! Mas. chora e se lamenta e vibra. desces ao segredo insonte Do mar profundo onde a sereia canta E onde a Alcíone trêmula se espanta Ouvindo a gusla crebra da sereia! Rompe a manha. . Troa o conúbio dos amores velhos . Cantas a Vida que sangrando matas. Sinos além bimbalham.ODE AO AMOR Enches o peito de cada homem. 192 . E. E em tudo estruge a tua dúlia .

E em cada peito onde um Ocaso chora Levanta a cruz da redenção da Aurora Como a Judite a redimir Betúlia! Bem haja. Quedo.Enorme força regeneradora Que faz dos homens um leão que dorme E do Amor faz uma potência enorme Que vela sobre os homens. esse poder terrível. sonhei-a. fosforeando. Assim. . Irene. e eis o motivo. impassível! Esta de amor ode queixosa. Eis o motivo porque fiz esta ode. 193 . ontem. Entre timbales e anafis estrídulos. Irene. Cativo. aos astros. beija os áureos pés dos ídolos. Irene.Essa dominação aterradora . Egrégia estavas no teu plaustro egrégio Mais bela do que a Virgem de Corrégio E os quadros divinais de Guido Reni! Qual um crente em asiático pagode. eis-me de ti cativo! Cativaste-me. quando Entre estrias de estrelas. pois.

erguido do pó. Cujo negror profundo Astro nenhum exorna Gritando na bigorna Asperamente a sua própria dor! Era. E eu nervoso. berrar. provinha Como de um negro cáspio de água impura A multissecular desesperança De sua espécie abjeta Condenada a uma estática mesquinha! Ria com essa metálica tristeza De ser na Natureza. Compreendia por fim que aquele berro À substância inorgânica arrancado Era a dor do minério castigado Na impossibilidade de reagir! Era um cosmos inteiro sofredor. Quase com febre. a cuspir escórias De fúlgida limalha Dardejando centelhas transitórias. Dentro. Onde a Matéria avança E a Substância caminha Aceleradamente para o gozo Da integração completa.NUMA FORJA De inexplicáveis ânsias prisioneiro Hoje entrei numa forja. Inopinadamente 194 . Da qual. num sardonismo doloroso De ingênita amargura. ao meio-dia. No horror da metalúrgica batalha O ferro chiava e ria! Ria. bruta. tinir. O éter possuía A térmica violência de um braseiro. Uma consciência eternamente obscura! O ferro continuava a chiar e a rir. Trinta e seis graus à sombra. a ouvir Cada átomo de ferro Contra a incude esmagado Sofrer. irritado.

Punha em ciarividência Intramoleculares sóis acesos Perpetuamente às mesmas formas presos. Cheia de ânsias e medos Com crispações nos dedos Piores que os paroxismos Da árvore que a atmosfera ultriz destronca. A ouvir todo esse cosmos potencial. . em lúgubre crescendo A antífona assimétrica E o incompreensível wagnerismo aziago De seu destino horrendo! Ao clangor de tais carmes de martírio Em cismas negras eu recaio imerso Buscando no delírio De uma imaginação convulsionada Mais revolta talvez de que a onda atlântica Compreender a semântica Dessa aleluia bárbara gritada Às margens glacialíssimas do Nada Pelas coisas mais brutas do Universo! 195 . Cansado de estar só! Era a revelação De tudo que ainda dorme No metal bruto ou na geléia informe No parto primitivo da Criação! Era o ruído-clarão. Essa angústia alarmante Própria de alienação raciocinante. A ansiedade de um mundo Doente de ser inerte. afinal.O ígneo jato vulcânico Que. atravessando a absconsa cripta enorme De minha cavernosa subconsciência.Para que à vida quente Da sinergia cósmica desperte. Agarrados à inércia do Inorgânico Escravos da Coesão! Repuxavam-me a boca hórridos trismos E eu sentia. Preso aos mineralógicos abismos Angustiado e arquejante A debater-se na estreiteza bronca De um bloco de metal! Como que a forja tétrica Num estridor de estrago Executava.

perdeste a ciência. Assim como Jesus. De amores bons à sombra Quero em cheirosa alfombra Pousar os sonhos lassos! Teus seios. E dá-me assim.QUADRAS Embala-me em teus braços. De lírios e boninas Um veludíneo leito.Anelo morrer vário Dos braços teus na Cruz! Porque não me confortas?! Bem sei. Eu quero o meu Calvário . Morreu-te a redolência. Embala-me em teus braços! 196 . divina.Relíquias de Carrara Têm a ambrosia rara Da mais rara verbena. Aperta-me em teu peito.. Aperta-me em teu peito.. oh! morena . Alma das virgens mortas Mas não! Apaga os traços De tão funesto aspeito.

Diabo! Não ser mais tempo de milagre! Para que esta opressão desapareça Vou amarrar um pano na cabeça1 Molhar a minha fronte com vinagre. parece Um paralelepípedo quebrado! O sono esmaga o encéfalo do povo. 3 de maio. Vista. 6. E aos tombos. Morde-me os nervos o desejo doudo De dissolver-me. Como um degenerado psicopata Eis-me a contar o número das telhas! .. três. A conta recomeço.Uma. Dói-me a cabeça. através do vidro azul. tonta Sinto a cabeça e a conta perco. Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?! A lâmpada a estirar línguas vermelhas Lambe o ar. quatro.TRISTEZAS DE UM QUARTO MINGUANTE Quarto Minguante! E. Mas novamente eis-me a perder a conta! 197 .ª-feira. embora a lua o aclare. O hemisfério lunar se ergue e se abaixa Num desenvolvimento de borracha..... No bruto horror que me arrebata.. e.. em suma. Variando à ação mecânica dos dedos! Vai-me crescendo a aberração do sonho. Tenho 300 quilos no epigastro. quando a noite cresce.Uma. Aumentam-se-me então os grandes medos. Nos engenhos da várzea não existe Talvez um outro que se lhe equipare! Do observatório em que eu estou situado A lua magra. em ânsias: . de enterrar-me todo Naquele semicírculo medonho! Mas tudo isto é ilusão de minha parte! Quem sabe se não é porque não saio Desde que.. Agora a cara do astro Lembra a metade de uma casca de ovo. duas. Este Engenho Pau d'Arco é muito triste.

Estarei morto?! E a esta pergunta estranha Responde a Vida . A lua é morta.vis raízes adventícias No algodão quente de um tapete persa. Elevam-se fumaças Do engenho enorme. O suor me ensopa. Figuras espectrais de bocas tronchas Tornam-me o pesadelo duradouro. Ponho o chapéu num gancho.. Súbito me ergo... Acho-me. A luz fulge abundante 198 . Tal urna planta aquática submersa. Caem-me de uma só vez todos os dentes! Então dois ossos roídos me assombraram.. Começo a ver coisas de Apocalipse No triângulo escaleno do ladrilho! Deito-me enfim. E o amontoamento dos lençóis desmancho.... Mas aquilo mortalhas me recorda.Sucede a uma tontura outra tontura.. Antegozando as últimas delicias Mergulho as mãos . Vêm-me á imaginação sonhos dementes. Por muito tempo rolo no tapete. Meu tormento é infindo. Choro e quero beber a água do choro Com as mãos dispostas á feição de conchas. numa festa.. Um frio Cai sobre o meu estômago vazio Como se fosse um copo de sorvete! A alta frialdade me insensibiliza.. . Minha família ainda está dormindo E eu não posso pedir outra camisa! Abro a janela. por exemplo.aquela grande aranha Que anda tecendo a minha desventura! A luz do quarto diminuindo o brilho Segue todas as fases de um eclipse. Tomba uma torre sobre a minha testa. Cinco lençóis balançam numa corda. ."Por ventura haverá quem queira roer-nos?! Os vermes já não querem mais comer-nos E os formigueiros lá nos desprezaram".

hierática. rígido e de rastos Com a solidez do tegumento sujo Sulca. oh! Vida em que a sofrer me exortas Eu estaria como as bestas mortas Pendurado no bico dos abutres! 199 . em diâmetro. feliz.E em vez do sepulcral Quarto Minguante Vi que era o sol batendo nas vidraças. cheios Dos tenros tinhorões e da úmida erva. No húmus feraz. a terra resfolega Estrumada. Babujada por baixos beiços brutos. De mim diverso. Broncos e feios. radiante e estriado. A fatia esponjosa de carniça Que os corvos comem sobre as jurubebas! Porque. se ostenta A monarquia da árvore opulenta Que dá aos homens o óbolo dos frutos. Vários reptis cortam os campos. longe do pão com que me nutres Nesta hora. Entretanto. A ouvir. cheia de adubos. passei o dia inquieto. numa última cobiça. nestes bucólicos retiros Toda a salva fatal de 21 tiros Que festejou os funerais de Hamleto! Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas! Quisera ser. observa A universal criação. Côncavo. o céu. o solo um caramujo Naturalmente pelos mata-pastos. Pelos respiratórios tênues tubos Dos poros vegetais. no ato da entrega Do mato verde.

Outras. mãos mais sanguinárias E estupradoras do que os bisturis Cortando a carne em flor das crianças mortas. Mãos adúlteras. às da neve..MÃOS Há mãos que fazem medo Feias agregações pentagonais. Umas. quebrando portas O azul gasofiláceo silencioso Dos tálamos cristãos. Monstruosíssimas mãos. em sangue. Mãos que adquiriram olhos. Assinalados pelo mancinismo. E à noite.. pituitárias Olfativas. 200 . Mãos de linhas análogas e anfratos Que a Natureza onicriadora fez Em contraposição e antagonismo Às da estrela.. a farpas de rochedo Completamente iguais. ás dos cristais. vão cheirar. negras.. a delinqüentes natos. tentáculos sutis. Que apalpam e olham com lascfvia e gozo A pureza dos corpos infantis. Pertencentes talvez.

Recordo o beijo que te dei nas tranças Emolduradas num florão de riços. Eu guardo o travo deste beijo ardente E a Nostalgia desta Pátria .. plangente.Lotus diluído n'alma dum cipreste! Como um lilás eternizando abrolhos Tinge de roxo o arminho da grinalda.. Pareces reviver a antiga Ofélia. Rola a violeta santa dos teus olhos . . langue e seminua. E como um nume de pesar. Reza-lhe todo o cantochão memento Dessa Missa de amor da Extrema Agrura. pálida camélia. Crava-lhe n'alma o tirso das bacantes. E que ela suba na serena gaza Dos mistérios dourados e serenos À terra Ideal das púrpuras em brasa E ao Céu doirado e auroreal de Vênus! 201 . No vácuo imenso das desesperanças E dos passados viços. Brande-lhe n'alma o frio dos sepulcros. Sonho abraçar-te.Tufos de goivo em conchas de esmeralda. oh Quimera.VÊNUS MORTA A Via-Sacra Azul do amor primeiro Veste hoje o luto que a desgraça veste No miserere do meu desespero. Guarda a saudade que levou do Mame.a Carne. Opalescência trágica da lua! Tu. Mas neste sonho. Abençoada pelo meu tormento E consagrada pela sepultura. de reverberantes E rubras asas de beliantos pulcros.

Aves com frio. com soluços quase humanos. era só O ocaso sistemático de pó. Eu procurava. como num chão profundo. enquanto eu tropeçava sobre os paus. Cruzes na estrada. Mas o que meus sentidos apreendiam Dentro da treva lúgubre. Mergulhar minha exótica visão Na intimidade noumenal dos seres.. Em que as formas humanas se sumiam! Reboava. Era o abjeto vibrião rudimentar Na impotência angustiosa de falar. Do ventre equatorial da terra grávida! Dentro de mim. Sentia estar pisando com a planta ávida Um povo de radículas e embriões Prestes a rebentar como vulcões. de onde decorrem Todas essas moléculas que morrem Nas transubstanciações da Natureza. almas e oceanos As formas microscópicas do mundo! Era a larva agarrada a absconsas landes. E. Convulsionando Céus. No desespero de não serem grandes! 202 . num ruidoso borborinho Bruto. uivando hoffmânnicos dizeres. Aprazia-me assim.VIAGEM DE UM VENCIDO Noite. análogo ao peã de márcios brados.. A efígie apocalíptica do Caos Dançava no meu cérebro sombrio! O Céu estava horrivelmente preto E as árvores magríssimas lembravam Pontos de admiração que se admiravam De ver passar ali meu esqueleto! Sozinho. na escuridão. com uma vela acesa. O feto original. Choravam. A rebeldia dos meus pés danados Nas pedras resignadas do caminho.

Na óssea armação das vértebras simétricas A angústia da biológica engrenagem! No Céu. perdido no Cosmos. Eles entravam todos na caverna Das consciências humanas mais fechadas! Ao castigo daquela rutilância. Na discórdia perpétua do sansara! Já me fazia medo aquela viagem A carregar pelas ladeiras tétricas. Onde Ormuzd guerreava com Arimã. assim. horrenda e monótona. vingadora. frias como lousas. Fluía. de onde se vê o Homem de rastros. Mas das árvores. A abstinência e a luxúria. com a sidérica lanterna. me tornara A assembléia belígera malsã. uma voz 203 . Maior que o olhar que perseguiu Caim. na ânsia dos párias.Vinha-me á boca. Numa crepitação própria de incêndio! Em contraposição à paz funérea. Como o protesto de uma raça invicta. o bem e o mal Ardiam no meu orco cerebral. A multiplicidade heterogênea De sensações diversamente amargas. Brilhava. ao colher simples gardênia. Doía profundamente no meu crânio Esse funcionamento simultâneo De todos os conflitos da matéria! Eu. Cumpria-se afinal dentro de mim O próprio sofrimento da Substância! Como quem traz ao dorso multas cargas Eu sofria. a esclarecer As manchas subjetivas do meu ser A espionagem fatídica dos astros! Sentinelas de espíritos e estradas. Noite alta. O brado emocionante de vindicta Das sensibilidades solitárias! A longanimidade e o vilipêndio.

que.Tão grande. Para esconder-se nessa esfinge grande. Deu4e (oh! mistério que se não traduz!) Neste astro ruim de tênebras e abrolhos A efeméride orgânica dos olhos E o simulacro atordoador da Luz! Por isto. se ergue A esfinge do Mistério Universal! A própria força em que teu Ser se expande. arvoredos desterrados. diante do Homem. montanha. Se hoje. A humildade botânica das algas De que grandeza não será capaz?! Quem sabe. a espiar enigmas. choramos.. Crânio. Na prisão milenária dos subsolos. Não trabalham. porque. obscuro. Porque em todas as coisas.. na ânsia cósmica. Rir da desgraça que de ti ressuma É quase a mesma coisa que chorar!" 204 . pois. tão feroz Que parecia vir da alma das cousas: "Se todos os fenômenos complexos. oh! filho dos terráqueos limos. rimos Das vãs diatribes com que aturdes o ar. do Equador aos pólos. Rasgando avidamente o húmus malsão. ovário. enquanto Deus. Desde a consciência à antítese dos sexos Vem de um dínamo fluídico de gás. árvore. entres Na química genésica dos ventres. em suma. Jeová ou Siva Oculta à tua força cognitiva Fenomenalidades que hão de vir. Nós. Se a contração que hoje produz o choro Não há de ser no século vindouro Um simples movimento para rir?! Que espécies outras. isto é. tão profunda. iceberg. afinal. com a febre mais bravia. Para erguer. Rimos. a Energia A última etapa da objetivação?! É inútil. Tragicamente. amanhã píncaros galgas.

desgraçadamente magro.As vibrações daquele horrível karma Meu dispêndio nervoso era tamanho Que eu sentia no corpo um vácuo estranho Como uma boca sôfrega a esvaziar-me! Na avançada epiléptica dos medos Cria ouvir. com os meus ossos! Restava apenas na minha alma bruta Onde frutificara outrora o Amor Uma volicional fome interior De renúncia budística absoluta! Porque. Eu. alheio ao mundanário ruído. Eu fora. a escalar Céus e apogeus. naquela noite de ânsia e inferno. em destroços. Tinha necessidade de esconder-me Longe da espécie humana. A voz cavernosíssima de Deus. a erguer-me. A maior expressão do homem vencido Diante da sombra do Mistério Eterno! 205 . Reproduzida pelos arvoredos! Agora. astro decrépito.

Viver na luz dos astros imortais. Para pintá-lo. é a rebelião Da criatura contra a natureza! Para essas lutas uma vida é pouca Inda mesmo que os músculos se esforcem. A Eternidade esmagadora bate Numa dilatação exorbitante! E eu luto contra a universal grandeza Na mais terrível desesperação É a luta. arrancado das prisões carnais. Na ânsia incoercível de roubar a luz. entre estes monstros. ando! Não trago sobre a túnica fingida As insígnias medonhas do infeliz Como os falsos mendigos de Paris Na atra rua de Santa Margarida. Abraçado com todas as estrelas! A Noite vai crescendo apavorante E dentro do meu peito. 206 . E muitas vezes a agonia é tanta Que. pela boca. em coalhos.. Minh'alma sai agoniada. Os pobres braços do mortal se torcem E o sangue jorra. quero até rompê-las! Quero. no combate. Estou á espera de que o Sol desponte! Bati nas pedras dum tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza é minha única saúde. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. armado de arcabuz. O quadro de aflições que me consomem O próprio Pedro Américo não pinta. rolando dos últimos degraus.. era preciso a tinta Feita de todos os tormentos do homem! Como um ladrão sentado numa ponte Espera alguém.QUEIXAS NOTURNAS Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio. As minhas roupas. é o prélio enorme.

é improfícuo. Hoje é amargo tudo quanto eu gosto. Seja este. O coração do Poeta é um hospital Onde morreram todos os doentes. enfim.. A bênção matutina que recebo. Igual á luta dos cristãos e mouros! Sobre histórias de amor o interrogar-me E vão. em suma.O Hércules treme e vai tombar no caos De onde seu corpo nunca mais levanta! É natural que esse Hércules se estorça.. é inútil. Se algum dia o Prazer vier procurar-me Dize a este monstro que eu fugi de casa! 207 . Ah! Por todos os séculos vindouros Há de travar-se essa batalha vã Do dia de hoje contra o de amanhã. a água que bebo.esta arca.. O amor tem favos e tem caldos quentes E ao mesmo tempo que faz bem.. Não sou capaz de amar mulher alguma Nem há mulher talvez capaz de amar-me. Estrangulado pelas rodas brutas Do mecanismo que tiver mais força. Este relógio trágico que marca Todos os atos da tragédia humana! Seja esta minha queixa derradeira Cantada sobre o túmulo de Orfeu. E tombe para sempre nessas lutas. faz mal. E é tudo: o pão que como. o último canto meu Por esta grande noite brasileira! Melancolia! Estende-me a tu'asa! És a árvore em que devo reclinar-me. O velho tamarindo a que me encosto! Vou enterrar agora a harpa boêmia Na atra e assombrosa solidão feroz Onde não cheguem o eco duma voz E o grito desvairado da blasfêmia! Que dentro de minh'alma americana Não mais palpite o coração .

Intimamente sei que não me iludo. A Morte. e a mim pergunto. sozinho.esta carnívora assanhada -Serpente má de língua envenenada Que tudo que acha no caminho. Corro.. estudo. na vertigem: -. Então meu desvario se renova. come. ouvindo um grande estrondo. a 1 de Janeiro.. à meia-noite. Na podridão daquele embrulho hediondo Reconheço assombrado o meu Destino! Surpreendo-me. abrindo todos os jazigos. em trajes pretos e amarelos.POEMA NEGRO A Santos Neto Para iludir minha desgraça... E o mundo inteiro não lhe mata a fome! Nesta sombria análise das cousas. -. Mas de repente. rio Sinistramente. Arranco os cadáveres das lousas E as suas partes podres examino. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. carrego A indiferença estúpida de um cego E o ar indolente de um chinês idiota! A passagem dos séculos me assombra.Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. Em vão com o grito do meu peito impreco! Dos brados meus ouvindo apenas o eco.. Para onde vou (o mundo inteiro o nota) Nos meus olhares fúnebres. Sai para assassinar o mundo inteiro. Levanta contra mim grandes cutelos E as baionetas dos dragões antigos! 208 . Como que.Faminta e atra mulher que.. numa cova. Eu torço os braços numa angústia douda E muita vez. vendo o verme frio Que há de comer a minha carne toda! É a Morte -.

Contra a agressão dos teus contrastes juntos A besta. De Jesus Cristo resta unicamente 209 . A trava invade o obscuro orbe terrestre No Vaticano. os soldados Buardam o corpo do Divino Mestre. Perante a qual meus olhos se extasiam. desta cova escura. em grupos prosternados. Deixa-te estar. Quis ver o que era. Amarrado no horror de tua rede. É Sexta-feira Santa. Tu não és minha mãe. Chocalha os dentes com medonha fúria Como se fosso o atrito de dois ferros! Pois bem! Chegou minha hora de vingança. que eu me vingo! Súbito outra visão negra me espanta! Estou em Roma. Cai no silêncio da Cidade Eterna A água da chuva em largos fios grossos.. e quando vi o que era. Tu mataste o meu tempo de criança E de segunda-feira até domingo. que em mim dorme. oh! Natureza! Eu desafio agora essa grandeza.. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes.. vi que era esterquilínio! Chegou a tua vez. acorda em berros Acorda. e de declínio Em declínio. canalha. Como as estalactites da caverna. Eu desafio.. como a gula de uma fera.. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Semeadora terrível de defuntod. Vi que era pó. Por tua causa apodreci nas cruzes.E quando vi que aquilo vinha vindo Eu fui caindo como um sol caindo De declínio em declínio. No histerismo danado da tortura Todos os monstros que os teus peitos criam. Com as longas fardas rubras.. Deste-me fogo quanto eu tinha sede. e após gritar a última injúria.

Desperto. O vento entoa cânticos de morte. os ventos gemedores Estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na serra Da Borborema.. e a gente.. com a minha dor enorme Os olhos ensangüento na vigília! E observo. no ar de minha terra. A árvore dorme Eu. enquanto o horror me corta a fala O aspecto sepulcral da austera FIM 210 .Um esqueleto.. quieta. num rumor forte Recomeça o barulha das matracas. Resume A espiritualidade da matéria E ele é que embala o corpo da miséria E faz da cloaca uma urna de perfume. vendo-o. Na agonia de tantos pesadelos Uma dor bruta puxa-me os cabelos. A desagregação da minha Idéia Aumenta. o desalento e o desconforto Paralisam-me os círculos motores. O céu dorme. Na molécula e no átomo. Na Eternidade. a gente Sente vontade de abraçar-lhe os ossos! Não há ninguém na estrada da Ripetta. As luzes funerais arquejam fracas. Como as chagas da morféia O medo.. Roma estremece! Além. É tão vazia a minha vida! No pensamento desconexo e falho Trago as cartas confusas de um baralho E pedaço de cera derretida! Dorme a casa. Dentro da igreja de São Pedro. somente eu.

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