EU, TODOS OS SONETOS E OUTRAS POESIAS

(OBRA COMPLETA)

AUGUSTO DOS ANJOS

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Autor: Augusto dos Anjos Título: Eu, todos os sonetos e outras poesias Data da Digitalização: 2004 Data Publicação Original: Primeiras décadas do séc. XX

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ÍNDICE
Introdução
As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos (por Horácio de Almeida) ....................................... 06 Um Currículo Escrito pelo próprio poeta (respostas ao inquérito de Licínio dos Santos) .............. 33

Sonetos
O Morcego ..................................................34 Psicologia de um Vencido ......................... 34 A Idéia ....................................................... 35 O Lázaro da Pátria ..................................... 35 Idealização da Humanidade Futura ........... 36 Soneto ao Meu Primeiro Filho .................. 36 Versos a um Cão ....................................... 37 O Deus-Verme .......................................... 37 Debaixo do Tamarindo .............................. 38 Budismo Moderno ..................................... 38 Sonho de um Monista ................................ 39 Solitário ..................................................... 39 Mater Originalis ........................................ 40 O lupanar ................................................... 40 Idealismo ................................................... 41 Último Credo ............................................. 41 O Caixão Fantástico .................................. 42 Solilóquio de um Visionário ..................... 42 A um Carneiro Morto ................................ 43 Vozes da Morte ......................................... 43 Insânia de um Simples .............................. 44 Asa de Corvo ............................................. 44 O Martírio do Artista ................................. 45 O Mar, a Escada e o Homem ..................... 45 Decadência ................................................ 46 Ricordanza della mia Gioventú ................. 46 A Um Mascarado ...................................... 47 Vozes de um Túmulo ................................ 47 Contrastes .................................................. 48 Soneto I a meu pai doente ......................... 48 Soneto II a meu pai morto ......................... 49 Soneto III ................................................... 49 Depois da Orgia ......................................... 50 A Arvore da Serra ..................................... 50 Vencido ..................................................... 51 O Corrupião ............................................... 51 Alucinação a Beira Mar ............................. 52 Vandalismo ............................................... 52 Versos Íntimos .......................................... 53 Vencedor ................................................... 53 Eterna Mágoa ............................................ 54 O Lamento das Coisas .............................. O Meu Nirvana ......................................... Caput Immortale ....................................... Apóstrofe a Carne ..................................... Louvor a Unidade ..................................... O Pântano ................................................. Supreme Convulsion ................................. A Um Gérmen .......................................... Natureza Íntima ........................................ A Floresta ................................................. Guerra ....................................................... O Sarcófago .............................................. Hino a Dor ................................................ Última Visio ............................................. Aos Meus Filhos ....................................... A Dança da Psique .................................... O Poeta do Hediondo ................................ A Fome e o Amor ..................................... Homos Infimus ......................................... Minha Finalidade ...................................... Noli Mi Tangere ....................................... O Canto dos Presos ................................... Aberração .................................................. Vítima do Dualismo .................................. Ao Luar ..................................................... A Um Epiléptico ....................................... Canto da Onipotência ............................... Minha Arvore ........................................... Anseio (Quem Sou Eu...) .......................... Revelação I ............................................... Revelação II .............................................. Versos a um Coveiro ................................ Trevas ....................................................... As Montanhas I ......................................... As Montanhas II ....................................... Apocalipse ................................................ A Nau ........................................................ Volúpia Imortal ......................................... O Fim das Coisas ...................................... A Noite ..................................................... A Obsessão do Sangue ............................. 54 55 55 56 56 57 57 58 58 59 59 60 60 61 61 62 62 63 63 64 64 65 65 66 66 67 67 68 68 69 69 70 70 71 71 72 72 73 73 74 74

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Vox Victimae ............................................ Agonia de Um Filósofo ............................. O Último Número ..................................... Saudade ..................................................... Abandonada ............................................... Ceticismo ................................................... Mágoas ...................................................... Ouvi, Senhora ............................................ Triste Regresso .......................................... Infeliz ........................................................ N’augusta solidão dos cemitérios ............. Noivado ..................................................... No meu peito arde .................................... A Máscara ................................................. Amor e Religião ........................................ Canta no espaço a passarada ..................... O Coveiro .................................................. Pecadora .................................................... No Claustro ............................................... Il Trovatore ................................................ A Louca ..................................................... Primavera .................................................. A Esperança .............................................. Senhora, eu trajo o luto do passado .......... Sofredora ................................................... Ecos d’Alma .............................................. Amor e Crença .......................................... Ariana ........................................................ Tempos Idos .............................................. Na rua em funeral ei-la que passa ............. Adeus, adeus, adeus! E, suspirando... ....... A Aeronave ............................................... Lirial .......................................................... A Minha Estrela ........................................ A praça estava cheia.... .............................. A Esmola de Dulce .................................... Ave Dolorosa ............................................ Gênio das trevas lúgubres... ...................... Nimbos ...................................................... O Mar ....................................................... Anseio (Nessas Paragens Desoladas...) ..... Aurora Morta, Foge! ................................. No Campo ................................................. Canta o Teu Riso Esplendida Sonata ........ Cravo de Noiva ......................................... Plenilúnio .................................................. Insânia ....................................................... O Bandolim ...............................................

75 75 76 76 77 77 78 78 79 79 80 80 81 81 82 82 83 83 84 84 85 85 86 86 87 87 88 88 89 89 90 90 91 91 92 92 93 93 94 94 95 95 96 96 97 97 98 98

Ara Maldita ............................................... 99 Na etérea limpidez... ................................ 99 Treva e Luz ............................................ 100 O Templo da Descrença .......................... 100 A Peste .................................................... 101 Ideal ........................................................ 101 Cítara Mística ......................................... 102 Súplica num Túmulo .............................. 102 Afetos ..................................................... 103 Martírio Supremo .................................. 103 Sombra Imortal ....................................... 104 Coração Frio ........................................... 104 Noturno (Para o Vale Noital...) ............... 105 Sedutora .................................................. 105 Pelo Mundo ............................................. 106 E o Mar Gemeu a Funda Melopéia ......... 106 O Riso .................................................... 107 Vamos, Querida! ..................................... 107 A uma Mártir ......................................... 108 Régio ...................................................... 108 Pelo Mar ................................................. 109 Pallida Luna ............................................ 109 A Morte de Vênus ................................... 110 Mártir da Fome ....................................... 110 Sonho de Amor ....................................... 111 A Orgia Mata a Mocidade ...................... 111 Festival ................................................... 112 Noturno (Chove, lá fora...) ...................... 112 E Ele Morreu .......................................... 113 Vaes Victis .............................................. 113 A Dor ..................................................... 114 Terra Fúnebre ......................................... 114 O sonho, a Crença e o Amor ................... 115 Meditando ............................................... 115 Para Quem Tem na Vida... ...................... 116 Soneto a Frederico Nietzche ................... 116 O Negro ................................................. 117 Vinhas trilhando gárrulo a Avenida ........ 117 O Ébrio ................................................... 118 O Canto da Coruja .................................. 118 Senectude Precoce .................................. 119 André Chénier .......................................... 119 Mystica Visio .......................................... 120 Ilusão ...................................................... 120 Nome Maldito ........................................ 121 Dolências ................................................ 121 A Lágrima ............................................... 122

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... 200 Mãos ............................... 184 Idealizações .................................... 156 Gemidos de Arte .................................................................................................. 168 Noite de um Visionário ...........................................................................................................123 Uma noite no Cairo ...................... 209 Poema Negro .............................. 155 Mater ............................................... 205 Queixas Noturnas ............................................................................................................................................. 183 Gozo Insatisfeito ................... 162 Versos de Amor ................ 212 5 .................................................................................................... 170 A Vitória do Espírito .................................. 157 A Meretriz ................................. 142 À Mesa .........128 As Cismas do Destino ............................................................................................ 179 Estrofes Sentidas .................................. 195 Numa Forja ................................ 197 Quadras ..Outras Poesias Monólogo de uma Sombra ......................................................................... 186 Insônia ........................ 176 Ave Libertas .................................................. 190 Mistérios de um Fósforo .... 155 Duas Estrofes ....................................... 199 Tristezas de um Quarto Minguante ................... 204 Viagem de um Vencido ................................................................... 166 A Luva ............................................................... 173 A Ilha de Cipango ............................................................................ 141 Os Doentes ............................ 175 Barcarola ............ 183 História de Um Vencido ................................................................... 192 Ode ao Amor ....... 180 Canto Íntimo ......................................................... 182 Canto de Agonia ........................................................................................................... 129 A Caridade .... 203 Vênus Morta .....................................

desejosos de. nos moldes da velha orientação impressionista. que o não convencia de todo. Por conseguinte. Difícil tarefa é essa de querer conhecer a alma dos nossos semelhantes. sobretudo pela sinceridade com que nela está fotografado. já outros o fizeram com maior ou menor adequação. o que de alguma forma facilita o trabalho de interpretação. o eu fora do Eu. paremos reverentes à porta do templo. RJ. Nessa tentativa de interpretação psicológica. esteja o poeta revelado por inteiro em todos os reflexos de sua alma. A crítica metodológica do autor do Eu e Outras Poesias devia constituir o alvo desta escalada. nesse estado de superexcitação. quando. numa atitude de respeito e reflexão. entrava em crise espiritual. O autor revela o homem e ambos estão por inteiro em sua obra. Teria sido um neurótico para uns. Sua personalidade singular ali se projeta. não conhecemos sequer a nossa. ed. acompanhá-lo na trajetória desse pensamento tumultuário. Nalgum ponto. que é de todas a menos operante. É preciso. quando não irrompia ovante para logo se perder na dúvida. contudo. Deste modo. Apenas como contribuição a essa crítica de sentido mais amplo. segundo as síndromes patológicas revelados. que forjava em versos candentes a produção que depois levava ao papel. já que não podemos penetrar com tanta intimidade o mundo subliminal. Não me parece. A crítica literária já lhe realçou a obra em sua forma estética. nos moldes em que se ajusta a passividade compreensiva do comum dos homens. realçar a força de sua inteligência manifestada na originalidade do estilo e na tônica de um materialismo filosófico.INTRODUÇÃO AS RAZÕES DA ANGÚSTIA DE AUGUSTO DOS ANJOS* Por Horácio de Almeida Muito se tem escrito sobre Augusto dos Anjos. senão em mais de um. não escapasse um pouco da minha acuidade intelectual. compreendendo inclusive a estilística. e era aí. proponho-me a interpretá-lo a partir de um ângulo até agora pouco estudado — a inquietação de sua personalidade. Só o estudo do conjunto poderá explicar os matizes de um pensamento que tinha por norma ocultar-se em metáforas. um psicastênico para outros. 1962) 6 . na verdade. ao menos. Fazer o elogio do poeta. é possível que se tenha conservado à distância da crítica literária. Toda vez que o poeta se concentrava na dor que mais o cruciava. Interpretar cada verso isoladamente não é tarefa que se enquadre no plano deste trabalho. penso poder levantar a ponta da cortina para melhor compreensão das suas mensagens de angústia. em suas mensagens de angústia. Em Augusto dos Anjos não há que procurar o autor fora de sua obra. no que há de mais sutil e imponderável. Convenha-se antes de tudo que Augusto não foi um homem normal. inatingível também ao bisturi dos que tentam dissecar o interior humano. Gráfica Ouvidor. não vejo documento mais preciso para conhecer o autor que a sua própria obra. pois. na chaga viva de sua consciência. Seja como * (do livro As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos. A crítica genética já lhe esvurmou a alma em busca de uma explicação para as suas anomalias psíquicas. poder conhecer a árvore pelo fruto. isto é.

reduzir tudo a categorismo. choques emocionais. Assim como a mãe de Augusto. tais modelos de comparação passaram também pelas mesmas crises intra-uterinas que afetaram a sensibilidade do autor do Eu. repetindo conceitos. Augusto não era um homem igual aos outros. o refinamento de suas faculdades morais. De seu pai também não herdou as características psíquicas que o marcaram a fundo. ficou desajustada da mente pelo resto da vida. a de Nietzche. jamais denotaram qualquer grau de semelhança ou relação de afinidade com a alma bizarra do poeta. pelo drama que padeceu na vida intra-uterina. com preocupações de grandeza e fidalguia. sestros. Nietzche. só ele dava a impressão de um desajustado. não é possível interpretar a obra de um escritor. sobretudo quando provém da linha materna. a de Wilde. que procura dissecar a alma para ajustá-la a quadros nosológicos já catalogados e. caracterizado por uma sensibilidade doentia. Sem o concurso da causa primária. Não se trata aqui de fazer coincidir a personalidade criadora de 7 . na classificação dos antropologistas do século passado. Obviamente. não há negar também a dos psicológicos. igualmente inteligentes. por motivos vários. Todas se angustiaram por acontecimentos imprevistos. que já era constitucionalmente quase louca. tem sido Augusto comparado a Leopardi. causada pela perda imprevista de um irmão querido. tenho por desnecessário entrar aqui nesse campo de especulação psiquiátrica. aos que se rebaixam para subir. E por curiosa coincidência. além mesmo da gravidez. Ao que se sabe. por vezes controvertidos. enfim. Byron. A causa primária de sua desordem nervosa já é assunto conhecido. Isto posto. Pai e irmãos passavam por normais. em relação com a casuística. Oscar Wilde e outros loucos geniais ou degenerados superiores. menos a de Byron. a de Byron. como se houvesse saído do limbo para cair na labareda. sobretudo quando tal obra reflete da primeira à última página a alma do autor. aos que perseguem riquezas ou fazem do amor o cio bestial. com distúrbios os mais evidentes no seu sistema nervoso. enfim. perturbou-a por muito tempo. Tanto isso parece verdade que seus irmãos. sobre o seu caso clínico. Não há que imputar a Augusto a pecha de louco. da inteligência. no final. nem os que vieram depois. todo o seu temperamento emocional. de quem o sobrinho nascituro herdaria o nome e as conseqüências do choque. mas da mediocridade ajuizada que enche de presença os quadros humanos nunca ninguém viu sair obra duradoura. quando este ainda em estado de gestação sofreu uma comoção das mais fortes. tal fato não podia deixar de refletir-se no filho em gestação. estudante de medicina. Por seu parentesco espiritual. a de Leopardi. como é do gosto da crítica científica. aos que se acomodam. Explica-se deste modo. mas vale a pena ser louco quando se deixa por tal motivo um nome à admiração da posteridade. que nada explica. sofreram perturbações muito fortes na época de gestação daqueles notáveis supranormais. A mãe do poeta. do sentimento. tiques nervosos. assim como está provada a hereditariedade dos caracteres biológicos. Nem os que nasceram antes. nas modalidades do caráter. fobias. a partir de Lombroso. Juízo é coisa que todos julgam ter. de fundo genético.for. O traumatismo moral que tão fundamente abalou a mãe.

visto ter nascido poeta. em prefácio à segunda edição do Eu. definia mais claramente esse pensamento “como uma vocação para a Desgraça e um tropismo ancestral para o infortúnio”. confessava-se já então “afeito às mágoas e ao tormento”. Esse adolescente sorumbático já poetava desde os sete anos de idade. haurido no transformismo de Haeckel e no evolucionismo de Spencer. a sua própria vida sem problemas. numa defesa de tese na Faculdade de Direito do Recife. mas não era somente isso. a quietude da vida na província. como expressão do pensamento nacional. Vinha-se de uma época em que a erudição nacional destilava-se da cultura européia. que lançou em 1919. cuja vida corria sem obstáculos. porquanto as duas já se apresentam fundidas sem a química da ajuda biográfica. entrou a estudar as matérias do curso de humanidades. como uma fatalidade. do Eu. agravados por outros que irromperam na idade perigosa. os quais o acompanhariam. até o túmulo. aprendeu a ler e. segundo os primeiros retratos que temos dele. em contraste com a mocidade e a inteligência. Era de fato um excêntrico. A par disso. Muito cedo. Sílvio Romero. na várzea do Paraíba. estavam a fazer dele um lírico. começou a envenenar-se com o materialismo filosófico. não fossem os conflitos espirituais que trazia do berço. dr. Deste modo. de vez que a literatura indígena longe estava de adquirir a consciência de sua função. Com seu pai. Logo mais. A amizade que logo nasceu da admiração foi regada mais tarde com lágrimas de saudade no elogio que fez do poeta. reunindo a esse volume a produção posterior à edição princeps de 1912. no último ano do século passado. Órris Soares confessa que só conseguiu passar no exame de latim porque se valeu do colega que o ajudou a destrinchar Horácio. para maior complicação de sua personalidade. em sua linha tomista. era um introvertido. publicado no Almanaque do Estado da Paraíba. que a metafísica estava morta. é a vocação que já revelava para o infortúnio. foi logo chamando a atenção de mestres e colegas pelos conhecimentos que demonstrava. A doutrina positivista foi a primeira a ganhar terreno. Quando Órris o conheceu nos idos de 1900. com o título Eu e Outras Poesias.Augusto com a sua personalidade psicológica. Coelho Rodrigues. A paisagem bucólica da várzea. cinco anos após a sua morte. Nada de admirar. Tão na flor da juventude e já se dizia um descrente. Augusto nasceu e se criou no engenho Pau d’Arco. sem afastar-se do lar. ao invés de um estudante bisonho. logo mais. E para completar o esboço do auto-retrato acrescentava: “Eu hoje só vivo para a descrença”. guiado apenas pela ilustração paterna. sofreu duros reveses. Ocioso será afirmar que a metafísica ortodoxa. Alexandre dos Anjos. o seu tipo de pássaro molhado. viu nele um tipo excêntrico de pássaro molhado. Já em 1875. quando apareceu para os primeiros exames no velho Liceu Paraibano. conforme disse num soneto que não consta. O rapazinho de 16 anos. Falava nele o positivista que. para aprazimento intelectual das elites. em 1900. em Monólogos de uma Sombra. O que há de singular nele não é. Tais idéias materialistas eram a coqueluche que o século passado legara ao presente. sofregamente bebida nas academias. a rigor. mas no final 8 . evolvia para o evolucionismo de Speneer. Os conhecimentos filosóficos gozavam reputação de primeira plana. saído da roça. bradava para o conceituado mestre que o argüia. inspirado na natureza e no amor.

introduziu entre nós a poesia científica. Foi nesse ambiente de agitação doutrinária. O beatério era o último reduto do catolicismo. Até no Piauí. O materialismo dialético dos nossos dias retrocede. Na Paraíba. aliás. Darwin e Haeckel podem ser contestados ainda hoje como panteístas pelos que seguem ao pé da letra a história bíblica da Criação. como toda substância animada. dupla feição de filósofo e de poeta. Comte passou. desde Haller. como se desconhecesse ou procurasse desconhecer a parte subjetiva de si mesmo. isto é. um século antes de Hugo. que só cuidava de preocupações teológicas. de onde saiu formado em 1907. se o diabo é tão feio como o pintam. ou mesmo. mas a origem simiesca do homem. está sujeita também ao processo da evolução. disse-me certa vez que só depois de formado foi que veio a conhecê-lo direito. o pensamento ao longe. proceda ou não proceda. a exemplo de Victor Hugo. já era moda entre os renovadores o lançamento de poemas filosóficos. já lidos nos filósofos da natureza. emancipou-se dela intelectualmente. Desses embates. em seu livro Frases e Notas. Aliás. Era a época da evolução do pensamento brasileiro. como uma velharia do século. firmava-se o conceito. Augusto pouco falava. os intelectuais mais dotados. Os filósofos da natureza foram ficando para trás. que Augusto dos Anjos penetrou os umbrais da tradicional escola. Embora educado na religião católica.de contas resistiu ao choque de uma crença que condenava até a indagação anatômica e a astronomia sideral. Por todo o Nordeste. Martins Júnior. Ao que parece. Desta forma. por ver em tudo isso hipóteses visionárias. tentou o milagre de 9 . a velha Escolástica. suportou a mais dura crise. nas concepções filosóficas de seus poemas. Laurindo Leão. ficava a escutar os companheiros. com a evolução da matéria e do espírito. Esquisitão que era. que ficou sem seguidores e acabou relegada pelo próprio poeta. entre o mundo da forma e o mundo da razão. Ainda na fase preparatória de estudos. já no seu ocaso. o rapazelho sorumbático deu asas ao pensamento nos conflitos entre a consciência e o sentimento. a ciência do Direito interessou menos ao estudante taciturno que as especulações filosóficas do materialismo naturalista. que. A matéria em sua essência afigurava-se-lhe tão misteriosa como a força. adepto do positivismo. conciliada. de que católico era sinônimo de burro. Nas rodas que se faziam na Paraíba. mas a metafísica resistiu ao impacto das idéias novas. não exclui absolutamente a hipótese da existência da alma. irradiação natural da Escola do Recife discutia-se o problema do ser e do não-ser. em sua. influenciado pelos naturalistas e evolucionistas do século. os que ainda não tinham qualquer convicção filosófica. Toda a preocupação era combater o pensamento teológico. Os menos letrados. José Américo de Almeida. segundo o depoimento de Cristino Castelo Branco. confundidas ambas na unidade cósmica. formavam rodas para discutir o sexo dos anjos. desde o monismo de Haeckel ao evolucionismo de Spencer. o queixo apoiado no cabo do guarda-chuva. aliás bem pouco lisonjeiro. faziam praça de livres pensadores. que se irradiava do Recife ao sopro tempestuoso de Tobias Barreto e seus ardorosos discípulos. enquanto a metafísica do verdadeiro cristianismo continua palpitando na alma de todos os povos. Um que foi seu colega de estudos e morou com ele na mesma pensão em Recife. quando ainda pontificava na Faculdade de Direito do Recife um devoto do fenomenismo agnóstico.

Imitá-lo seria obra grosseira de pastiche. Não sofre apenas a sua dor. mas há paralelismo de símbolos e de força criadora. Em Monólogos de uma Sombra é a Sombra que fala e a Sombra é o eu do poeta. nas duas composições uma coincidência de temas. terso na linguagem. facilmente o identifica. identifica-se na substância primeva. já diferenciado na mônada. bem mostra a preocupação indagativa do poeta de penetrar a coisa em si. e—crente no tema. E assim continua.reduzir a um campo único a ciência e a arte. Quem já o leu uma vez. Da substância de todas as substâncias. trinta anos antes. A saúde das forças subterrâneas. Em Bateau ivre quem fala é o barco ébrio e conta a sua derrota. poema que abre o Eu e Outras Poesias. numa caminhada de 31 estâncias. É a sua confissão de f transformista.. A simbiose das coisas me equilibra. Aos 17 anos. já desiludido. todavia. como amostra. as duas primeiras estrofes dos Monólogos: Sou uma Sombra. Realizou de fato esse milagre em estrofações de profunda força conceptiva e de cunho tão pessoal que toda a sua produção traz a marca do autor — a eurritmia musicada dos decassílabos. A partir da monera. ampla.. até adquirir a forma humana. mas “a solidariedade subjetiva de todas as espécies sofredoras”. naquela mesma idade em que. 186 versos. Do cosmopolitismo das moneras. fundado na unidade cósmica. Larva do caos telúrico. simultâneas. ora transfigurado em sátiro vilíssimo. desesperado por não poder libertar a energia intra-atômica e dominar a lei da mecânica universal. incomparável na forma musicada. sempre a evoluir em movimentos rotatórios. a ponto de mostrar seu nojo à natureza humana.. Encontra-se. começa então o drama crucial da consciência. depois de infinitas transformações. como bem observa Cavalcanti Proença. E é de mim que decorrem. E a morbidez dos seres ilusórios! E por aí vai. Não sei se Augusto leu alguma vez Rimbaud. Integrado na sociedade. enfim. Nessa ânsia de penetrar a vida fenomênica das formas. e vem vindo como uma monera através de milhões de anos. Venho de outras eras. a consciência 10 . “esse mineiro doido das origens”. procedo Da escuridão do cósmico segredo. ora transfigurado em filósofo moderno. Por ela vai buscar-se no mundo informe da vida planetária. Vejamos.. Não há. mas há casos em que a vidência poética de um é manifesta no outro. na larva que procede do caos telúrico. que passou do reino vegetal para o animal. Rimbaud escrevera Bateau ivre. O aspecto conceptual do poema. chega aos seres mais complexos. vibra A alma dos movimentos rotatórios. Em minha ignota mônada. por força das sucessivas mutações da matéria. Augusto compôs Monólogos de uma Sombra. ouvindo a citação de dois versos seus tomados ao acaso. Pólipo de recônditas reentrâncias. que é a derrota da humanidade.

o vidente de Patmos: . centro de toda a acuidade sensorial. o remorso já acordado na caverna escura. Por alma. entrega-se ao sacrifício. sem mais compreender que prodígios são esses da monera. as conchas das orelhas rasas como a palma da mão e. Augusto nunca deixou de ser um metafísico no sentido religioso da palavra. Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma 11 . Nesse estado d’alma. O próprio Augusto. dezenove séculos antes. E por que não admitir logo a alma? Se eu disser que a consciência e a inteligência têm a sua sede no espírito. numa espécie de solidariedade subjetiva. A rigor. como está dito em Monólogos de uma Sombra. segundo a qual a matéria e o espírito se unificam numa só substância. onde impera a força que responde pelo movimento ubiqüitário da massa. sente o remorso a queimar-lhe a consciência. respondeu-me que por todo o casco da cabeça. que a ele não interessava considerar. o que vale dizer. Todo mundo sabe que é pelo ouvido que se ouve. É a concepção monística. há que distinguir um pormenor. do ponto de vista metafísico. No tocante à transformação da matéria. noção trivialíssima das funções orgânicas. Quando a matéria transmigra acompanhada de um elemento hereditário que memoniza o instinto da espécie através das gerações. no princípio era a força. Por fim. tantas vezes exaltada pelo poeta. entendia o agregado abstrato da saudade. embora intelectualmente convencido da teoria racionalista. temos aí um transformismo metafísico. Perguntei-lhe um dia por onde entrava o som.No princípio era o Verbo. No fundo. sente-se vencido diante do seu martírio e do martírio das criaturas.conspurcada de gozo malsão. que faz quase lembrar a reencarnação. diante das maravilhas do aparelho encefálico. dentro do mundo fenomenal. com sótão e porão. E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva! Bem examinada a questão. Sabemos que a consciência tem a sua morada no cérebro. A mesma coisa. em esconderijos apropriados. a forma para ele era a manifestação passageira da matéria em seus processos evolutivos. Eis que assim se expressa em Os Doentes: A vida vem do éter que se condensa. uma espécie de fogo que devora e não consome. segundo querem os frenologistas. chamando a si. A partir dai. que tinha os ouvidos totalmente tapados. Nada obstante. assombrado com o não-ser. Vemos o poeta a adquirir a forma humana e a degradar-se em seguida num gozo efêmero de dolorosas conseqüências. posto que falasse às vezes em alma divina e em Deus de amor e de bondade. Para os que negam o espírito há muitos fenômenos que ficam sem explicação. conheci um sujeito. manifestou o seu espanto. o sofrimento de toda a humanidade. natural de minha terra. ouvia mais que um tísico. já havia dito. força será admitir um agente oculto capaz de operar o fenômeno. no entanto. cuido não estar proferindo uma heresia. Isso não impede que o espírito seja o agente atuante de tão prodigiosa membrana.

rasgar do mundo o velário espêsso.. vermes. dominado por um ceticismo acabrunhador.. Nem por isso admite Deus. A influência má dos signos do zodíaco. cadáveres e bocas necrófagas. Em tudo. na melhor das suposições. perscrutar a fenomenalidade da energia a erguer da prisão milenária outras espécies que hão de vir. No auge da inquietação. Os tormentos mortais da alma crescem com a descrença. desde a epigênese da infância. Por toda parte. um mundo de fantasmas errantes que não adquiriram ainda a consciência de sua dor. impreca. Já o verme . Na frialdade inorgânica da terra! Assombrado com o futuro. Este ambiente me causa repugnância.tenha sido escrito por um adolescente para quem o cotidiano devia correr. solta blasfêmias. que é o Deus materialista de Haeckel. causa-lhe repugnância. Sofro. Mas como é preciso preencher um claro na consciência.este operário das ruínas. sem problemas materiais: Eu. Monstro de escuridão e rutilância. E há-de deixar-me apenas os cabelos. onde não há lugar para a alegria. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. inconformado com a idéia de ser um dia roído pelos vermes. procura penetrar o mistério da substância universal. que era o pior dos remédios para a sua alma inquieta. mas “diante da sombra do mistério eterno” considera-se vencido. O mundo em que vive é um vasto hospital. Exausto da luta. uma natureza gasta. fonte inesgotável de vida. Ao invés de fecundação do espírito. Essa saturação filosófica fez-lhe um grande mal. Em sua alma atormentada as superexcitações provocam visões aterradoras. Na idade em que os encantos do mundo douram a existência. o éter cósmico. admite o éter. Profundissimamente hipocondríaco. onde imperam sombras. firmava-se no presente a flagelar-se na ciência racionalista. Augusto falava como um homem que já perdeu o ideal da vida. Que o sangue podre das carnificinas Come e à vida em geral declara guerra.Psicologia de um Vencido . O próprio amor. Sobe-me à boca uma ânsia igual à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco.Fazer a luz do cérebro que pensa. a matéria putrefata. Querendo fugir a essas coisas. filho do carbono e do amoníaco. faz perguntas ao destino: “Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?” E nesse duelo da matéria com o espírito perturba-se. Custa crer que este soneto . o lado malsão da vida. procura 12 . só serviu para adensar o clima de alucinação. servindo de pasto a uma civilização corrompida.

podia exercer influência no temperamento sensível do poeta. O niilismo esvaziava-lhe a alma da mesma forma que o cientificismo materialista. podia fazer dele um triste. evadido de si mesmo. na vã expectativa de que seu ego o deixe em sossego. leve-se em conta a deformação de uma sensibilidade que vinha do berço e o predispunha ao desequilíbrio das sensações entre o eu e o mundo externo. Com efeito. Há. coberto de desgraças. E de onde vem essa dor? É possível que tenha a explicá-la um concurso de causas. Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer. com efeito.. Mas o diabo não larga a sua presa. no todo ou em parte. Onde quer que se refugie. paralelamente. com o poder de sua imaginação. Tudo isso. já cansado de escutar a natureza. Falava como um homem que parecia ter a consciência carregada de remorsos. Algo de mais grave.. deve ter acontecido na sua juventude. mas não me parece bastante para torná-lo um desgraçado. O resultado de bilhões de raças Que. a terrível moléstia que se atribui. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das idéias! Mas de novo se encontra em face do nada. que exulta triunfante: Gozo o prazer. o Eu e Outras Poesias. O subconsciente o aturde. como se o infortúnio tivesse desabado sobre a sua cabeça. Depois disso. tenta ir ao fundo da crença monística. E é nesta manumissão schopenhauriana. a perda da crença e. em suas visões oníricas. Um inocente metido na prisão talvez se revoltasse menos que ele no ergástulo da carne. monstros terríveis. que os anos não carcomem. Espera aí encontrar o seu nirvana. como se já tivesse despido a carcaça da matéria. Nenhum pintor. Até agora 13 . pois que precisaria a tinta de todos os tormentos do homem. há muitos anos desapareceram! Nesta temática vai longe. Mas há dentro dele qualquer coisa que o chama à realidade. Antes de mais nada. supõe-se integrado na imanência da idéia soberana. não é demais supor a existência de algum motivo oculto capaz de levá-lo ao desespero. que ele denomina um sonho ladrão. diz ele. como se supunha.refúgio na inexistência espiritual. Por um instante. Grita a sua dor por toda parte e. E para não capitular a esse apelo. gasta imensas energias e enche de culminâncias. E via em mim. seria capaz de executar o quadro de suas aflições. acompanham-no. A julgar pelos seus gemidos. numa atitude mental de fuga à realidade. de subverter-se no grande todo e fazer da parte abstrata do universo a sua morada equilibrada e firme. sente o desejo. uma desgraça na vida do poeta. nem Haeckel compreenderam. não há homem que sofra mais. para não desmoronar a fortaleza de suas convicções filosóficas.

. no tocante a esse drama. Mas é ele próprio quem está a falar continuamente numa desgraça. sempre se revela.esse seu sofrimento tem sido considerado puramente abstrato. inútil seria qualquer esforço. cujo desfecho infeliz teria abalado convulsivamente sua personalidade carente de equilíbrio. Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. Iríamos a um país de eternas pazes. Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E via em mim. desespero virtual e não real. Por enquanto. não vejo maior necessidade de conhecer a biografia de Augusto dos Anjos para bem interpretar a sua obra..A Ilha de Cipango alude a uma felicidade perdida.. Banhei-me na água de risonhos lagos E finalmente me cobri de flores. Minha desgraça há de ficar sozinha! E que desgraça foi essa que o fez ficar assim tão sombrio? Convém que ele mesmo conte a sua história. não tenho dúvidas em afirmar que foi o drama do amor. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. Exatamente aí. Gozei numa hora séculos de afagos. não pode ocultar que foi vítima dele.. Por mais que Augusto negue o amor. no capítulo do amor. depois de haver conhecido os inefáveis afagos do amor. Mas o seu eu está projetado na obra e nestas condições não preciso de outro elemento identificador para firmeza do valor interpretativo que neste trabalho tenho a intenção de destacar. A dificuldade está em conhecer o valor dos símbolos e em seguida decifrar as alegorias. de uma paixão. Por suas próprias palavras. dada a ausência de biografia. Ele próprio. que é o drama mais doloroso de sua consciência. Lembro-me bem. pois. coberto de desgraças Mas veio o vento que a Desgraça espalha Para iludir minha desgraça estudo. Mesmo que quisesse recorrer a essa fonte para uma boa exegese literária. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrio! Um penetrante e corrosivo frio 14 . Trata-se. é que deve começar o trabalho de pesquisa para a verdadeira interpretação psicológica do autor. em . Por mais que procure fugir ao assunto.

Anestesiou-me a sensibilidade. E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. A tarde morre. Passa o seu enterro. . A luz descreve ziguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos!

Até aqui, apenas um lampejo, mas o bastante para mostrar que foi por causa de um amor desventurado que se fez assim tão sombrio. Onde deixa vislumbrar um pouco mais de claridade é neste outro quadro - A Árvore da Serra:
As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice calma! — Meu pai, porque sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs alma nos cedros... no junquilho... Esta árvore, meu pai, possui minha alma!... Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa: “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!” E quando a árvore, olhando a pátria serra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra!

Numa e noutra composição, como se vê, o assunto é tratado em linguagem hermética. Aliás, o uso de metáfora é freqüente nele, mais ainda quando alude ao drama da consciência. Um corte transversal nas duas composições - A Ilha de Cipango e A Arvore da Serra - entremostra a desventura amorosa. A cena teria se passado no engenho Pau D’Arco, residência do poeta. O moço triste era ele, e a namorada, a árvore da serra, que possuía a sua alma. A bem amada já havia cedido o seu amor ao poeta, como adiante veremos. Por ser uma jovem de condição humilde, um junquilho entre cedros, o pai austero, orgulhoso de sua estirpe ou premido pela família, determinou ou concordou tirar para sempre da presença do filho aquela flor silvestre, que o tinha preso aos seus encantos, crendo que, com o desaparecimento do empecilho, pudesse ter uma velhice calma.

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Para melhor compreensão do drama, convém apanhar o pensamento do poeta na parte em que as duas composições esboçam de leve o quadro: - “Gozei numa hora séculos de afagos,/’ Banhei-me na água de risonhos lagos,/ E finalmente me cobri de flores ... / Mas veio o vento que a Desgraça espalha”/ “Esta árvore, meu pai, possui minha alma!” ‘ / “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”/ “Foi sobre esta ilha que extingui meu sonho!”/ Desde então para cá fiquei sombrio!/ Um penetrante e corrosivo frio/ Anestesiou-me a sensibilidade.”// “Invoco os Deuses salvadores do erro./ A tarde morre. Passa o seu enterro!”// “Pela estrada feral dois realejos/’ Estão chorando meus amores mortos!”./ “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/ Caiu aos golpes do machado bronco,/ O moço triste se abraçou com o tronco/ E nunca mais se levantou da terra!” Seus versos deixam transparecer que houve violência. Mais de uma vez fala o poeta em golpes: - “E a grandes golpes arrancou as raízes/’ Que prendiam meus dias infelizes/ A um sonho antigo de felicidade!” / / “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/i/ Caiu aos golpes do machado bronco”/... A moça, ao que parece, era natural do brejo ou do sertão lugares que ficam sobre a Serra da Borborema, cujos contornos, na faixa do horizonte, se avistam da várzea do Paraíba, pois de outra forma não há sentido para o verso que diz: “E quando a árvore, olhando a pátria serra”... Se aprofundarmos um pouco mais a indagação, vamos encontrar retalhos desse episódio em quase todas as composições do Eu. A coisa tem começo em Monólogos de uma Sombra, quando o poeta, em seu primeiro exame de consciência, já mordido pelo remorso, acusa o sátiro que ele foi.
As alucinações táteis pululam. Sente que megatérios o estrangulam; A asa negra das moscas o horroriza. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa!

A seguir, em As Cismas do Destino, descreve o segundo ato da tragédia:
Fetos magros, ainda na placenta, Estendiam-me as mãos rudimentares! Ah! Com certeza, Deus me castigava! Por toda a parte, como um réu confesso, Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo, me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Não sei porque me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança

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E um pedaço de víscera escarlate. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse, E até o fim, cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória.

O terceiro ato da cena, constante do mesmo poema, é de revolta contra os seus, os que, cansados de viver na paz de Buda ou inflamados de preconceitos de nobreza, se encheram de humano orgulho, e quais guerreiros priscos contra uma imbele criatura que ao amor se rendera, entraram em conserto para a consumação da tragédia. Assim fala o poeta:
Todos os personagens da tragédia, Cansados de viver na paz de Buda, Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psico-plasma Humano sofre na mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, A morte desgraçada dos açougues... Tudo isso que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra!

E ao terminar o poema, no qual pôs toda a sua amargura, o peito arfando de impotente indignação, solta esse brado de desespero:
Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psiquê no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo!

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Como quem afasta de si a visão terrível de um drama macabro, guarda-se o poeta, mui cautelosamente, de descobrir o motivo cruciante do seu trabalho poético, deixando, entretanto, a perceber, em cada símbolo, em cada imagem de sentimentos dissimulados, um fragmento da realidade que abrasava o seu mundo interior. Sofre realmente e sofre mais porque a dor que se dissimula não estanca, principalmente quando falta ao paciente resignação cristã ou conformidade filosófica. A obsessão do sangue vai até o fim. Alma agoniada por tormentos mil, anda gemendo pelas estradas solitárias, perseguida por visões alucinadoras. Numa de suas últimas composições, ainda atormentado pelo monocromatismo monstruoso da universal vermelhidão, assim recorda o passado sombrio:
No inferno da visão alucinada, Viu montanhas de sangue enchendo a estrada, Viu vísceras vermelhas pelo chão...

Ele guarda para todo o sempre o pesar do golpe sofrido. Ora irrompe em forma de protesto, ora de arrependimento pela culpa que lhe cabe. A consciência inquietada pelo remorso é aquele morcego do seu soneto, que à noite entra imperceptivelmente em seu quarto. Seu coração ficou um deserto. Nem mais amor a Deus, nem mais amor à humanidade, nem mais amor à mulher. Ao coração devastado a alegria nunca mais voltou. Vive somente para a sua dor. Poder, riquezas, glórias terrenas, são coisas que despreza. Em sua musa, o amor não terá mais lugar, nem mesmo como tema de glorificação poética. Causa-lhe até repugnância. Explica-se desse modo a deficiência cromática de seus versos. Só na cor do sangue às vezes se manifesta. Em toda a sua poesia, a paisagem do Pau D’Arco se converte em cenário triste e repugnante. Com referência a esse cenário, diz ele em Psicologia de um Vencido: “Este ambiente me causa repugnância...” Alguns críticos tomaram o impropério como dirigido à sociedade da Paraíba. Do Pau D’Arco, ressalva apenas o velho Tamarindo, a árvore da perpétua maravilha, a cuja sombra amou e chorou. Varado de dor — continua amando em espírito, um amor etéreo, que está fora da carne e não tem mais sentido com o coração. Eis que assim se manifesta: Porque o amor, tal como eu o estou amando, É espírito, é éter, é substância fluida, É assim como o ar que a gente pega e cuida, Cuida, entretanto, não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes, imponderabilíssima e impalpável, Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! O fato em si é de todo interesse para a interpretação da obra original de Augusto. Já os detalhes do fato são sobras que ficarão reservadas ao investigador biográfico, que infelizmente ainda não apareceu. Em Augusto dos Anjos o que mais interessa é a biografia do poeta. Erro será querer julgá-lo como prosador, fora da área da poesia, como tem sido estranhamente fariscado por alguns críticos. Na prosa, era, de fato, rebarbativo, como de refinado mau gosto também foi, na prosa, o genial cantor dos Lusíadas. Apenas como um desafio ao futuro biógrafo, seria curioso saber como se chamava a moça que Augusto metamorfoseou na árvore da serra. Essa curiosidade vem a propósito do nome de uma 18

Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. E invejo o sofrimento desta Santa.. Noite. Em cujo olhar o vício não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. surpreende com a invocação de Santa Francisca. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido. que não é das mais invocadas. ao mesmo tempo que.Queixas Noturnas ... Sonâmbulo.. O poeta.. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim.. Porque não evitei o precipício Estrangulando a minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! De outras vezes. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Porque cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. Sonâmbulo. contrito. como em .santa.Insônia . eu também vou passando Sonâmbulo. Depois de embebedado deste vinho.referindo-se certamente ao espectro de sua desventurada amada. nunca foi chegado a santos. mas no poema . Rola impetuosa por meu peito a dentro?! Porque é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ao mapa-mundi estranha. como é sabido. confessa mais uma vez a sua culpa.extravasava desta forma o seu lamento: 19 . em mágoa. Como um bemol ou como um sustenido.

mas para os que crêem há ainda uma esperança. expressa a sua mágoa numa comovente unção. Rezo. como perseguido pela sinistra ceifeira.Quem foi que viu minha Dor chorando? Saio. luta por fugir dela. De nada valia para um espírito inquietante como o seu uma filosofia que arma o seu sistema à margem da vida. como referiu vagamente em As Cismas do Destino. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. dormir primeiro. Talvez visse nela uma criatura transtornada pela “mania mística”. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu. quando a morte o olhar lhe vidra. E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. em que a piedade do sentimento se sublima na tessitura da composição. sonhando. entre as estrelas flóreas. cuidei que ele dormia E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o!” deixa-o. Como Elias. apenas três vezes. Madrugada de treze de janeiro. ando! Bati nas pedras de um tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza a minha única saúde! Curioso é que o egoísmo de uma dor sem fim não lhe fez perder o amor ao pai. Nem uma névoa no estrelado véu. ama-o até mesmo na atômica desordem. entretanto.brada: 20 . A morte é o fim de tudo.. que não admite a vida espiritual..As Cismas do Destino . assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. isso mesmo sem revelar um mínimo de afeto. num carro azul de glórias. pouco fala. A projeção da imagem materna esvaneceu-se por certo como símbolo da mais freqüente e sublimada veneração. A satisfação que buscava nos conhecimentos filosóficos só lhe faz aumentar a sede de infinito. Mãe. Da mãe. Ao vê-lo morto. o ofício da agonia. que parece se deixou levar por pressão da família. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. Ao pai. Mas pareceu-me. entre estes monstros. não para ele. Em . E porque a visão da morte não o deixa em sossego. Toda a crença monística em que procura consolo não lhe explica à satisfação o fenômeno da vida. Minha alma sai agoniada. sem resolver a verdade interior.

não cria em Deus. Nestas condições. Essa visão shakespeariana das espadas cruzando o espaço tanto pode ser a perseguição da morte como o trágico fim da sua amada. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes.Morte. tanto que nos conflitos entre a inteligência e o sentimento tomava o partido do intelectualismo. Não me parece tenha razão 21 . as palavras também servem para ocultar o pensamento. E porque não se acalmava? Faltava-lhe fé. O remédio que então buscava para as suas mágoas era o pior dos excitantes. quando recebeu os 22 açoites da natureza. Meu raciocínio enorme te condena! E num horror quase pânico exclama. Nada o consolava nesse estado de espírito. Ao invés de ajustá-lo à realidade. 22 anos de idade. O sentimento profundo de dor e de descrença afastava-o da realidade. Já que não crê em Deus. ponto final da última cena. embora ansiasse por encontrá-lo. como em toda a obra. é natural que se mostre rebelado contra a natureza. Vivia um mundo à parte. que Augusto era um cerebral.. devia ter na época. pois estava certo que nem Deus compreendia os seus soluços. alguém há de responder pelos sucessos infelizes do seu destino.. desesperado por não encontrar solução no raciocínio frio e racionalista. Por tua causa apodreci nas cruzes.. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Presumivelmente. escravo do raciocínio frio. ardendo em indagações subjectivas. em A Ilha de Cipango: Tenho alucinações de toda a sorte. em cujas entranhas um feto magro estendia-lhe as mãos rudimentares. Procura assim desoprimir o coração. Aqui. cheio de imperfeições. Acha Flósculo da Nóbrega. levava-o a recolher-se em si mesmo. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas Atravessando os ares bruscamente. em Alucinação à Beira Mar: “Um medo de morrer meus pés esfriava”. E ainda. Impressionado sem cessar com a morte E sentindo o que um lázaro não sente. ilustre membro da Academia Paraibana de Letras. Forma difusa da matéria imbele. habitado por monstros humanos. Minha filosofia te repele. desabafando-se nestes termos contra a natureza: Tu não és minha mãe. que só faziam aumentar a sua ânsia de infinito..

Desta. condenado a expectorar os pulmões dilacerados. via na sociedade a representação da humanidade sofredora. O mundo que o fazia sofrer não era de certo o da sociedade paraibana. passos largos. além de pouco. no caso. Surgem daí as freqüentes inflexões mentais e os distúrbios emocionais de fundo neurótico. De um modo geral. destoa em força emocional do que produzira em sua terra natal. sua musa empalideceu à falta de ambiente. Depois que o poeta deixou a Paraíba. Era ali que ele sentia bulir na alma o drama de sua existência. Em reforço desse argumento temos uma prova no próprio Eu. excetuado da segunda parte do Eu e Outras Poesias o grande soneto O Lamento das Coisas. foram produzidos no Pau D’Arco. ao redor da capela do engenho. em 1912. podia ter alguma razão para queixar-se da sociedade. tinha-se na conta de um doente. o que ele via realmente era o ambiente do engenho Pau D’Arco. toda a mágoa do seu espírito vem à tona. Mas ninguém tinha culpa de ser ele um incompreendido. Suas percepções sensoriais estão sempre em conflito com as atividades especulativas do espírito. teria Augusto encontrado satisfação na filosofia. na vertigem: Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. torturado no sentimento do desamparo. o cérebro em fogo. volta-se vez por outra contra a sociedade. nunca recebeu hostilidades. Em agravo da tortura moral que não cessa de persegui-lo. que não se sabe se foi escrito na Paraíba ou no sul. entrava em crise espiritual. No fundo. conforme declarou nesta honesta confissão. mas porque se sente um desajustado. ao contrário.o ilustre intelectual paraibano. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. de vez que ninguém o compreendia. Não importa que tenha morrido de pneumonia. Tomado de tensão nervosa pela repugnância que lhe causava o ambiente. em Poema Negro: A passagem dos séculos me assombra. mas no particular. que o acolhia com carinho. que o 22 . um cuidado muito discreto da família em negar a tuberculose. As suas relações com a sociedade parecem rompidas. Não que tenha recebido ofensas dela. Um tuberculoso pode sucumbir a outro evento que lhe antecipe o fim. e a mim pergunto. Na luta em que Augusto se debate. Ao contemplar esse ambiente. Era. A inspiração despertava com a dor. andar bamboleante. Há. noite a dentro. um espiritualista em eterna briga com o racionalismo. os de maior densidade emocional. não se deixaria possuir pelo demônio da dúvida. Fosse como ele diz. Já é tempo de desfazer um equivoco que de tão repetido vai criando raízes. conforme ouvi de Alcides Carneiro que ouvira dos seus íntimos. Punha-se então a passear. O que produziu no sul do País. Nem ele próprio se conhecia. como um sonâmbulo. que só repugnância lhe causava. não viveria atormentado com os mitos que o afastavam da realidade. contudo. um homem excluído do mundo. Os seus melhores versos.

Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce.próprio poeta confessava. Não há. em Os Doentes. num desalento ainda maior. imaginária cidade à margem do Paraíba. Essa real ou imaginária doença. Lá para o fim do poema. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minha alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. jamais preenchido pelo cientificismo materialista. Perdido o amor. sob os seus pés. o soneto Vandalismo. tudo isso ele pincelou num quadro que é uma jóia de rara beleza. confessa-se minado pela tuberculose. onde os anjos cantavam. De início. Parece que desperta para a vida. passa a chorar a sua dor e a alheia. Em As Cismas do Destino. havia “um fígado doente que sangrava e uma garganta de órfã que gemia”. como ele chamava. Eu bem sabia. assim principia o soneto Apóstrofe à Carne: “Quando eu pego nas carnes do meu rosto/’ Pressinto o fim da orgânica batalha”. numa emoção que comove. que admirar chore um dia a crença perdida. deixa escapar este triste lamento: O inventário do que eu já tinha sido Espantava. que pode figurar sem favor entre os melhores da língua. como um arrependido. Mas ninguém pode furtar-se às impressões da infância. Na ascensão barométrica da calma. na terra onde pisava. a imagem dos sonhos remotos que ele quebrara com o furor de um iconoclasta. hosanas ao Senhor. A tragédia espiritual de Augusto começou desde que extinguiu seu sonho de amor sobre a Ilha de Cipango. perdeu também a crença. pois. depois de exclamar que sua angústia feroz não tinha nome. na qual os doentes consagravam a sua última fonética a uma recitação de misereres. à guisa de ácido resíduo. Já cansado do ceticismo. que os enfermos se reuniam pela camaradagem da moléstia. Foi a partir dai que entrou a sentir o vazio de sua alma. aliada à descrença. Depois disso. a arremetida que deu depois contra esses tesouros do coração. entra a descrever a cidade dos lázaros. levado pela lembrança terna de um mundo cheio de encantos e maravilhas. como se já tivesse perdido o alento de viver. eis que escuta. ansiado e contrafeito. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! Mais tarde. Esse retorno do pensamento aos dias tranqüilos do passado. “na urbe natal do Desconsolo”. 23 . em serenata. os acordes saudosos do coração. Era ali. despedaçando as imagens dos próprios sonhos. atormenta-se com a idéia de que. fez dele um misantropo. Mais adiante.

pois. tenham bordejado na superfície do abismo em. reconhecendo nele apenas o mérito de artista do verso. cada leitor tem o direito de sentir o autor a seu modo. Santos Neto. num discurso de recepção a Flóscolo da Nóbrega. Sabe-se como compunha. quando a aflição interior explodia em chamas 24 . Ao contrário da incontinente afirmativa. No desespero dos iconoclastas. Enfim. Sua obra. Não é. Templos de priscas e longínquas datas. a outros poderá parecer insípido ou fastidioso. Raul Machado. apenas como autor de um livro apologético. há sempre o que referir. em gemidos de dor. a musa é que tomava o poeta de assalto nos momentos de suas lucubrações. Como os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. João Lélis. O que a uns desperta atenção e convida mesmo a uma meditação mais séria. Onde um nume de amor.. No final de contas. Para só mencionar os intelectuais paraibanos que se pronunciaram sobre Augusto dos Anjos.. quase todos. Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! Caminha para cinqüenta anos que Augusto dos Anjos morreu. ler. Flóscolo da Nóbrega. já na 27ª edição. em serenatas. Assim é que. Nesse decurso. que não é biografia e não chega a ser estudo. continua despertando o mesmo interesse dos primeiros tempos. José Américo de Almeida. Canta a aleluia virginal das crenças. de admirar que ao lado de conceitos da mais justa penetração girem outros que espantam pela desconformidade. João Lélis e De Castro e Silva. mas dar opinião atabalhoada a respeito daquilo que não chegou a ser entendido muda de figura. Não era espremendo o cérebro como muitos que se apagam antes de morrer. Negou-lhe peremptoriamente as qualidades de poeta. muitas opiniões foram veiculadas. destaco Órris Soares. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. era apenas o meio de formular soluções.Meu coração tem catedrais imensas. por exemplo. chegou a dizer que Augusto não era poeta. ao aludir com desdenhoso apreço aos motivos abjetos que abundam no Eu e Outras Poesias. este último. para ele. posto que. tanto sobre a obra como sobre a personalidade do autor. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas. A arte. gostar e não gostar é coisa que se não discute. Álvaro de Carvalho. Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. que se afundava a alma do poeta. na Academia Paraibana de Letras. disse que Augusto agarrava a musa e saía com ela a passear pelos recônditos da diluição biológica. Dos outros.

essa linguagem. duendes. escarros. como em compasso de música. o ilustre escritor paraibano opõe embargos ao poeta. Repugna-lhe o fartum que diz emanar do Eu e Outras Poesias. este na prosa. Essa crítica. A virtuosidade ganha valor na opulência da expressão verbal. já pelo cientificismo que tem por incompatível com a linguagem poética. a passear a esmo. com efeito. No entanto. o sentimento parece ter outra dimensão. Em ter ficado sozinho. Seus versos. por ver em tais composições a podridão enroupada em jargão científico ou jargão clínico. Os que o conheceram de perto descrevem-no de andar banzeiro. como lamenta o crítico. sobretudo da crítica provinciana. em 1945. cujos adeptos se apraziam em demolir toda vez que a obra visada não estava na conformidade do seu gosto. figuras espectrais e outras visões sinistras. olhar perdido no espaço. Jamais foi o leit-motiv de sua produção intelectual. já por sua tendência malsã de ver as coisas pelo lado abjeto. que não tenha fecundado a poesia nacional. Não importa que Augusto tenha ficado sem seguidores. surpreendeu-o num desses partos sem dor e tão absorto divagava o poeta. Foi então que recitou de inopino. Escrevia numa linguagem difícil porque era esse o seu estilo. o que era. associado à vibração sonora. Cavalcanti Proença. que só deu pela presença do amigo depois de concluído o trabalho mental. à margem das correntes estéticas do pensamento literário. que pretende ser de interpretação psicológica. Poe e Rimbaud. entrava disciplinada em seus versos. Bilac pode ter sido um lapidário da forma. segundo a classificação que adota de Agripino Grieco. claro que avulta ainda mais o seu mérito. a densidade. Euclides da Cunha. num timbre especial de voz. disse que uma das suas forças. em excelente estudo sobre o artesanato na poesia de Augusto dos Anjos. um em 1920. entre nós. lá fora. insulado em sua própria grandeza.devoradoras. de um a outro canto da sala. Os versos espoucavam no momento da inspiração. túmulos. reside justamente no termo técnico. certa preocupação inclusive dos simbolistas. a sua personalidade psicológica. enquanto forjava mentalmente a composição. sangue de vísceras dilaceradas. tem a prejudicá-la a idiossincrasia literária que afasta cada vez mais o retratista do retratado. mas quem os lê e os medita tem a impressão de que foram cavoucados na rocha. vermes. nem o gosto se levava em conta quando prevalecia a prevenção pessoal ou quando se pretendia alcançar fama com a marreta da demolição. essa repulsa idiossincrásica que compromete o crítico antes de atingir o alvo. Álvaro de Carvalho escreveu dois estudos sobre Augusto dos Anjos. na época. seu colega de turma e companheiro de estudos desde a fase preparatória. Por tudo isso. Órris Soares. Em ambos. Anoja-se o crítico diante de cadáveres. lábios crispados. tem as suas raízes no caráter polêmico da crítica passadista. Neles. o que acabava de compor. Essa incompreensão a respeito de Augusto. Augusto foi um torturado da idéia a serviço de um estro estrepitoso. impressionam pelo poder da dialética. o outro 25 anos depois. Muitas vezes. afirma e reafirma que o Eu ficou como planta exótica. Só depois de elaborada é que ia para o papel. também 25 . à primeira vista incompatível com a poesia.

num dos seus últimos sonetos. como se vê. como se definiu neste quarteto de Minha Finalidade: Pré-determinação imprescritível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. com efeito. Eis porque. a fim de atingir. numa revolta do espírito que vai aos extremos da blasfêmia. Nem por isso. 26 . reconheça-se que essa poesia é humana. que apenas transparece em linguagem evasiva. Se há fartum de diluição biológica na poesia de Augusto. na impotência de estabelecer relação entre o mundo visível e o invisível. deu resposta por antecipação aos reparos dos seus futuros críticos. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Tenho por desnecessário dizer que uma interpretação psicológica de Augusto. pela tristeza indefinível da alma. nem tudo pode ter cabimento. Absurdo é querer sujeitar a literatura aos padrões em voga. Da vasta literatura que já se produziu sobre Augusto dos Anjos. manifestada em poemas impressionistas de aguda sensação. O próprio Augusto tinha a consciência de que ia ficar sozinho e que era o poeta do hediondo. Com Verlaine. Não pode o critico ser ortodoxo. Com Mallarmé. O autor é o que é e não o que o crítico quer que ele: seja. pelas crises espirituais porque ambos passaram. tenho por objetivo abrir aos estudiosos uma clareira que os conduza ao fundo da obra. Ou então. o que forma em seu conjunto a harmonia orgânica de toda a obra poética do consagrado artista paraibano. aparelhou. Sua obra está aí mesmo a desafiar a argúcia dos mais entendidos. Note-se mais que a esse vigor casa-se uma virtude de efeitos encantatórios. ninguém lhes nega a grandeza de gigantes. por isso mesmo poética. Mas é preciso notar que essa musa. elogios ou restrições. Augusto tem sido comparado aos mais altos padrões da corrente estética do pensamento. pela bizarria do estro e pelo gosto malsão de impregnar a poesia com o almíscar das coisas abjetas. Até mesmo quando desce ao abominável das podridões tumulares cintila em fulgurações de gênio. mesmo doentia. Foi exatamente com esse título — Poeta do Hediondo — que ele. na interpretação de um drama emocional. é mais uma aversão de olfato alérgico. não lhe tira o vigor da expressão verbal. Admita-se que a musa de Augusto tenha algo de doentio.ficaram sem seguidores. O anojamento de Álvaro de Carvalho. está em tempo de ser feita. juízos despropositados de quem roça pelo assunto sem penetrar o recôndito da dor possessiva que tanto sublimava o poeta. Com Baudelaire. de sentido mais profundo. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto. Há. no duelo da carne. neste ensaio de exegese literária. Por suas excentricidades e afinidades outras de ordem espiritual.

Súbito. e eu ouço tudo e calo! O amor na Humanidade é uma mentira. O único que mencionou Rimbaud. O triste espetáculo do seu século leva Rimbaud a um passado remoto. só nesse ponto dissimula o pensamento. e é com veneração religiosa que vê os soldados do Vaticano. “Na Eternidade.. de uma honestidade quase bravia. como se fosse uma convicção firmada e firmada com ênfase. Não fica apenas aí o confronto. vem o barulho das matracas. Só com Rimbaud. Segundo Delahaye. Vez por outra. Encontra-se. citado por Augusto Meyer. Curioso é que fez a citação ‘unicamente para dizer que nenhuma parecença encontrara entre com emprego de termos técnicos. no ar de minha terra. Com Leopardi. nunca nenhum dos seus críticos traçou o paralelo. um mês após a morte de Augusto. que cultivava em sua sensibilidade enfermiça. Também no amor os dois se assemelham. A mesma coisa ocorre com Augusto. as mesmas figuras de linguagem. Ouvindo isso. isso mesmo de passagem. quando a cristandade parecia pura sobre a terra. em grupos prosternados. pela tortura do espírito e pela constância do tema da morte. crematismos. palavras raras e eruditas. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. foi José Américo de Almeida. É. desejada por um. assentado sobre cacos de pote e urtigas. visionário. desde a sua fase inicial. que dialoga com os elementos imponderáveis. ao pé de um muro carcomido pelo tempo. para a neologia e o vocábulo raro. Até nas aliterações e metáforas. Veja-se como se pronuncia a respeito do assunto: Falas de amor. encontra-se em Roma. em termos de comparação. Augusto lembra Rimbaud. de mistura com alucinações. usando símbolos e valores que convergem para o fim colimado. Nos transportes espirituais os dois correm parelha. como quem deriva o pensamento para o lado oposto da imagem triste que o assedia. a idéia pura das coisas. na terra santa. ambos procuram traduzir a sensação das coisas inanimadas. temida pelo outro.. um grande medo toma conta do poeta. pelo sentido da dor universal.através da sensação. na postura de um campônio rústico. em tropos ousados. Honesto em tudo. sensações simples e cenestesias. posto que as coisas que tinha a dizer exigiam. Com Antero do Quental. De lá de fora. a filosofia da dor. havia acentuada tendência do poeta. Em outros lances de sua obra manifesta o mesmo desdém. numa sexta-feira santa. num artigo publicado em 1914.” Então desperta como de um pesadelo e com os olhos ainda ensanguentados da vigília sente a tristeza de ver mais uma vez como a sua vida é tão vazia. as mesmas despreocupações do rebuscado pour épater le bourgeois. guardando o corpo do Divino Mestre. Dentro da Igreja de São Pedro o silêncio só é quebrado pelo vento que entoa cânticos de morte. por sua natureza. Augusto tem as suas razões para desdenhar o amor. em quem se acumulam. os mesmos descuidos de metro e rima. os ventos gemedores estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na Serra da Borborema. como neste exemplo: 27 .

. As repetidas negativas ocultam de certo uma dolorosa frustração. andou conspurcado de sensações súcubas. Teria acontecido com ele alguma coisa? Ao que se sabe. homens de bem cheios de nobres intenções. É que Rimbaud era portador de uma mensagem que acabou por cumprir.. chupo-a. Era a vida que lhe chegava e que fugia de Augusto. onde se casou com uma nativa da Abissínia. A toda boca que o não prova engana. Rimbaud encontrou-se a si mesmo depois que descobriu o caminho da virtude — le sentier de l’honner — que tanto procurava.”. provo-a. enquanto Augusto não chegou a cumprir a sua. Ninguém sofre mais do que ele. sente-se que há um complexo de culpa. vítima de injustiças humanas. e por isso mesmo não achava conformidade para a sua dor. No tempo de jovem. que era o seu anseio máximo. Ao invés de aceitá-la como resultante de seu egocentrismo. na Bélgica.. E como não 28 . Começou então a ver e a sentir milhões de criaturas encantadoras. Em cada um deles. como Tântalo. Descasco-a. largou-se para a África. à beira da água. teve motivos de sobra para tratar o amor com aquele desdenhoso apreço. é verdade. mas que o levaram ao resultado conhecido. converteu-se à realidade e mandou ao diabo o ar do inferno que o sufocava. Depois desse fato. acabou por admitir a presença de uma realidade espiritual. tendo culminado com aquele célebre tiro que recebeu de Verlaine. em busca do paraíso terrestre. . Também Rimbaud modulou o seu canto no mesmo tom: “Je n’aime pas les femmes: l’amour est à réinventer. A violência do veneno que ingeriu muito cedo nas fontes materialistas fá-lo morrer de sede. Não percebe sequer que toda a sua angústia é nascida de suas entranhas. depois de errar longos anos pela África e pelo Oriente Médio. que é talvez o drama mais crucial de suas consciências. contudo. exacerbava-a. o bem e o mal caminhando juntos. embora tenham se casado e tido filhos. ilusão treda! O amor. Motivos escabrosos. Há. filha legítima de sua alma. é improfícuo. um suave concerto espiritual na natureza. Não sou capaz de amar mulher alguma. Augusto e Rimbaud negam sistematicamente o amor. Ou então como nesta outra amostra: Parece muito doce aquela cana. a julgar pelos seus lamentos. Augusto sentia-se puro. é como a cana azeda. em suma. Rimbaud. uma diferença de fundo entre os dois poetas.Sobre histórias de amor o interrogar-me É vão. poeta. por causas várias. Nem há mulher talvez capaz de amar-me. é inútil. segundo é fama. Quando viu que tudo quanto imaginava como solução para restabelecer o paraíso não passava de divagação delirante.

Também Rimbaud bebeu na mesma taça de Põe.. A vida. Torturava-se por ver somente o lado negativo das coisas. luz. Todo vácuo que se abre na vida interior é prejudicial ao comportamento do indivíduo. Nas coincidências de temas ou mesmo de paralelismo de imagens não se veja. isto é. contra a sua grei. numa reação inócua. cor. isto é. tudo quanto eleva os sentidos. Uma mesma idéia artística pode ser tratada com sabor de originalidade por mais de um autor. da mesma forma como sucumbira Antero do Quental. como Camões na de Petrarca e de Vergílio. o amor. quando a monera já manifestava os primeiros sintomas de diluição. Mallarmé também passou pelas mesmas crises.espécie de autobiografia moral. quando muito. Jamais desceu ao fundo de si mesmo. Por curioso paradoxo. som. Rimbaud também criou para si uma estação no inferno . perdia-se no estado de dúvida. Machado de Assis só entrou na posse de si mesmo depois que se converteu à descrença. silvos de labaredas e suspiros de empestados. do qual se considerava prisioneiro. beleza. conforme confissão feita a Mário de Alencar. tudo quanto desperta a alma.Une Saison en Enfer . 29 . contra a sociedade. Ou será preenchido ou compromete a dinâmica das forças morais. sem preencher esse vácuo. o que recebe influências supera o modelo de inspiração. martelada em versos magníficos e candentes. Um problema sempre gera outro. porém. revolta-se contra o mundo. onde não faltavam o ranger de dentes. e se o fez alguma vez foi guiado pela dialética do monismo.pode reformar o mundo. Há muitas espécies de conversões em literatura. Rimbaud salvou-se porque se encontrou a si mesmo. como muito bem já disse Augusto Meyer a propósito de Machado de Assis. dessa conversão ao materialismo. que se agravou o drama latente de sua alma inquieta. A conversão de Augusto foi às avessas e porque não se desconverteu estabeleceu-se o conflito do eu com o indivíduo. perfume. chegaríamos por certo ao pai Homero que. autores que exerceram forte influência em sua formação intelectual. Ele mesmo se esvaziava no mundo vazio que se criou. se fossemos no rasto dos poetas mais notáveis em busca de fontes de inspiração ou influências literárias. Foi a partir daí. Dominado pela idéia de um mundo sem objetivo. a criação. Mesmo assim. imitação. Uma análise mais demorada encontraria maiores pontos de contacto entre Augusto e Rimbaud. Neste passo. depois que perdeu a ilusão dos homens. sem procurar levantar o véu das aspirações profundas de sua alma. Augusto revela-se mais lido em Põe e em Shakespeare. mas nem isso acredito tenha havido. os mistérios da natureza. Tais similitudes valeriam. quanto mais afunda no racionalismo mais vacila na dúvida. Não raras vezes. deixava-se ficar no interior da concha. como fontes de inspiração. sua vida se transforma num verdadeiro inferno. mas depois que abandonou a luta espiritual afundou no suicídio. segundo o conhecido conceito bergsoniano do intuitivismo. É sabido que nenhum escritor adquire a força do seu gênio senão depois de renovarse interiormente. segundo apregoam os fundibulários da crítica. Possuído do demônio da dúvida. nada disso seria capaz de provocar-lhe uma sensação nova de vida. teria apenas disciplinado em poemas imortais os cânticos populares da época. Esse divórcio do eu com o indivíduo acabou por abranger a própria sociedade. Augusto vai irredento até o fim. entre a voz do sentimento e a da razão.

é objeto de amor e de crença e não de investigação científica. nas apóstrofes do poeta contra o cristianismo. sem advertir-se de que jamais dera um passo ao encontro do Mestre. nas Alterosas. teria certamente encontrado a realidade espiritual que nasce da fé e se alimenta na caridade. um episódio que me foi contado por um amigo do Ceará. outros andam com a Bíblia debaixo do braço e o coração carregado de impiedade. se sucediam na tribuna. lecionando a quatro gatos pingados todas as matérias do curso de humanidades. Todos nós. Toda a obra poética de Augusto é um grito de dor arrancado do fundo da alma. A conquista da fé importa na conquista do próprio eu. Se há Deus. certos de que no futuro sobrará tempo para essas coisas. a propósito. se manifesta ainda escravo do batismo. em torrentes de eloqüência. Só é possível possuir a fé quando se está convencido da verdade. Se o Cristo não vem em seu auxílio. via de regra. Os oradores. a meu ver. há que distinguir entre blasfêmia contra o cristianismo e blasfêmia contra o Cristo. Apurada a eleição e com base no resultado. levantou-se a questão de saber se Deus existe ou não existe. sentia-se Augusto na impossibilidade de admitir a realidade da vida. Isso mostra que ele. afetando melindres de devotos. Vale mencionar. olhar menos para as suas dores e um pouco mais para as alheias. Convém. mas os que o seguem desconhecem. outros negando. a reação que lhe ocorre é a de menosprezo ao cristianismo. é. aceitar as imperfeições do mundo. como ninguém ainda se entendesse. Embora não caiba nos limites deste trabalho uma digressão sobre a contradição reinante no mundo da crença. que se veja na blasfêmia. No sul do país continuou a mesma luta heróica pela subsistência. alcançando a grande esforço um lugar de diretor de Grupo Escolar. Alguns críticos. Ora. descuramos o nosso destino espiritual pelo gozo do momento que passa. viram nisso o pecado da blasfêmia. E como não lhe bastasse pela exigüidade dos proventos. um pedido de socorro. Na prática. Se emigrou para o sul do país foi porque a Paraíba do seu tempo nada tinha de melhor para dar-lhe senão uma cátedra no Liceu Paraibano. É o que há. todavia. uns afirmando. porquanto Deus é princípio e é fim. heresia maior que a do poeta quando. uns batem nos peitos diante do altar e querem logo a recompensa do sacrifício feito. é questão que não deve ser formulada. a essência dos Evangelhos. resolveu o presidente submeter a questão a votos. proclamou que Deus não existe. Não fosse a trama filosófica do individualismo racionalista. com raríssimas exceções. decretar a inexistência de Deus por decisão tomada nas urnas ou no bozó. quando não proferida por modo vulgar e chulo. se não há Deus. Para uma alma sequiosa de infinito como a sua não há que estranhar uma ou outra expressão de revolta. no desespero de tantos sofrimentos. 30 . Mas no mundo fechado em que se enclausurava não era possível ver lá fora as almas piedosas e aflitas que tão necessitadas como ele pediam socorro. No meio em que viveu era querido e admirado. Num dos muitos grêmios literários que proliferam na terra de Iracema. O cristianismo se apresenta como a doutrina de Cristo. supria-se do mais no magistério particular. em meio a tantas emoções extravasadas. na realidade.Enredado em idéias preconcebidas. Ao cabo do bombardeio oratório. tal como Rimbaud.

Como uma vela fúnebre de cera. Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do cristianismo! Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio. O passado da flora brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida. coisa que não cabe na boca de um ateu. esta árvore de amplos agasalhos Guarda. 31 . De inflexões mentais sua obra anda cheia. A denominação. nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência. Por outro lado. como se vê. por mãos de seu filho Pirro. encarnado nele e manifestado nesta passagem: Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade? Já em Monólogos de uma Sombra. Mandando ao céu o fumo de um cigarro.” E onde mais expressivo se mostra é neste admirável soneto . A minha sombra há de ficar aqui! Por sombra. Por mais de uma vez chegou a falar em alma divina. E como era sincero e honesto. o sacrifício da linda moça Polixena. entendiam a alma. depois de carpir amargamente diante de um mundo que se mostrava indiferente às suas mágoas: Escarrar de um abismo noutro abismo. Abraçada com a própria Eternidade. desde Tales de Mileto. Camões fala na sombra de Aquiles quando exigia. sob estes galhos. virtudes que cultivava com extremado zelo. os filósofos iônios. através dos séculos. Só muito raramente soltava uma blasfêmia.Debaixo do Tamarindo. dá à alma a denominação de sombra. explodiu em As Cismas do Destino. esse sombrio personagem do drama panteístico das trevas. não se pode dizer fosse ele um materialista ético. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje.atormentado por visões escatológicas. e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. vem de muito longe. como uma caixa derradeira. começa o poema “Sou uma Sombra. Voltando à pátria da homogeneidade. No tempo de meu Pai. De outras vezes.

então a presença do Eterno afastará a escuridão do caminho e aproximará a criatura do Criador. da substância de todas as substâncias. tal como a entendiam os filósofos iônios. Fala como um crente da cegueira da criatura humana. mas dentro da alma aflita Via Deus . em briga com o dualismo. que procede do éter cósmico.essa mônada esquisita Coordenando e animando tudo aquilo! Em Ultima Visio revela-se um metafísico teológico. completem os estudos aqui esboçados ou deles discordem por modo a dar uma interpretação mais aceitável às mensagens de angústia. Daí por diante. mito cosmogônico que liga entre si o espírito e a matéria. em Leopoldina. que não quer ver a glória de Deus resplandescendo em tudo. Até Deus. mas com o que ai está me contento. desde o declínio das crenças mitológicas. em soluços quase humanos. assaltado de alucinações. isto é. sua intimidade numenal. acrescenta. foi objeto de uma palestra proferida em maio de 1960. como entidade eterna. Que outros. na Federação das Academias de Letras do Brasil. Choram ainda dentro dele. como está dito em Sonhos de um Monista: A verdade espantosa do protilo Me aterrava. Quem o ler nesse soneto dirá que já está reconciliado com Deus. nas composições que vão até o fim do livro. vacilante na ciência fria. a 12 de novembro de 1914. ansiado por compreender o princípio anêmico dos seres. as formas microscópicas do mundo. Assim fala e assim termina a composição: A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ainda tem de abrir para o infinito! Vã ilusão será pensar que já está reconciliado com Deus. de onde decorrem todas as moléculas que se esvaem na transubstanciação da natureza. mais dotados de inteligência e espírito de penetração. Mais poderia dizer agora. que eram uma constante na alma torturada do poeta paraibano. larva do caos telúrico. até mesmo num grão de areia. Assim vai. virtualidade espiritual. conjunto das faculdades intelectuais e morais do homem. era uma mônada. para ele. !" Este trabalho. à semelhança da mônada de Leibnitz ou da monera de Haeckel. até que morre numa cidade das Alterosas. Quando essa cegueira for resgatada e arrancar o homem da inciência. 32 .Mas o que Augusto chama a sua sombra não é ainda a alma. o metafísico cede lugar ao inveterado monista. perdendo-se novamente no enleio cósmico. aos 30 anos de idade. tal como se apresenta. É a substância primeva.

Em que idade começou a produzir: Se me não falha o poder de reminiscência. entretanto. Engenho Pau d'Arco. R. Conservo de memória tudo quanto produzo. Quais as horas que dedica ao seu trabalho intelectual: Não tenho horas metodicamente preferidas para o meu trabalho mental. Quais os trabalhos que deu à luz até a presente data: um livro de versos. Faz as suas irregularidade: Sim refeições com Tem muito apetite: Regular Faz uso do álcool: Não Faz uso excessivo do café. Eu. 33 . comecei a produzir muito antes dos 9 anos. Tem continuados sonhos fantásticos: Quanto a sonhos fantásticos é também muito raramente que os tenho. dos Anjos e D. quase sempre andando no meio de toda azáfama ambiente ou à noite deitado. Quais as cores de sua predileção: A vermelha e a azul. numa atmosfera de rigorosíssima moralidade. acompanhados muitas vezes de uma vontade de chorar. cefaléia e amnésia: Até esta data não sofro absolutamente de amnésia. Como faz o seu trabalho intelectual: Durante o dia. 1914 Nome: Augusto dos Anjos Idade: 28 anos Profissão: Professor e advogado Estado civil: Casado Filiação: Filho legítimo do bacharel Alexandre R. o que não impede.UM CURRÍCULO ESCRITO PELO PRÓPRIO POETA Resposta ao inquérito de Licínio dos Santos em A Loucura dos Intelectuais. Rio de Janeiro. dos Anjos Antecedentes hereditários: Meu pai. Onde e como foi educado: Na Paraíba do Norte. Sofre de insônia. Quais os autores que mais o impressionaram: Shakespeare e Edgar Poe Qual o seu autor favorito: Todos os bons autores me agradam. de abusar um pouco do café. O que sente de anormal quando está produzindo: Uma série indescritível de fenômenos nervosos. vítima de surmenage morreu de paralisia geral e minha mãe é excessivamente nervosa Antecedentes pessoais: O que me pode adiantar sua infância: Desde a mais tenra idade eu me entreguei exclusivamente aos estudos. relegando por completo tudo quanto concerne ao desenvolvimento. chá ou outro excitante intelectual: Sou contra os excessos. São muito poucas vezes que me sento à mesa para produzir. mas a cefalalgia persegue-me constantemente. Quantas horas repousa: Meu repouso varia de 7 a 8 horas. presumo. da chamada vida física. Córdula C. Tenho insônia raras vezes.

Meu Deus! E este morcego! E. Fecho o ferrolho E olho o teto. igual a um olho. Já o verme -.. Ao meu quarto me recolho. Este ambiente me causa repugnância.. E vejo-o ainda.este operário das ruínas -Que o sangue podre das carnificinas Come. Minh’alma se concentra. Monstro de escuridão e rutilância.” -.TODOS OS SONETOS O MORCEGO Meia-noite. Produndissimamente hipocondríaco. Chego A tocá-lo. Ergo-me a tremer... filho do carbono e do amoníaco. Na frialdade inorgânica da terra! 34 . Sofro. Que ventre produziu tão feio parto?! A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça. Circularmente sobre a minha rede! Pego de um pau. Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. “Vou mandar levantar outra parede. Morde-me a goela ígneo e escaldante molho. E há de deixar-me apenas os cabelos. à noite ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto! PSICOLOGIA DE UM VENCIDO Eu. vede: Na bruta ardência orgânica dasede. e à vida em geral declara guerra. desde a epigênese da infância.Digo. A influência má dos signos do zodíaco. Esforços faço. agora. Anda a espreitar meus olhos para roê-los.

. quer e executa! Vem do encéfalo absconso que a constringe. em desintegrações maravilhosas. esbarra No molambo da língua paralítica! O LÁZARO DA PÁTRIA Filho podre de antigos Goitacases. Delibera. Sente no tórax a pressão medonha Do bruto embate férreo das tenazes.. Todos os cinocéfalos vorazes Cheiram seu corpo.A IDÉIA De onde ela vem?! De que matéria bruta Vem essa luz que sobre as nebulosas Cai de incógnitas criptas misteriosas Como as estalactites duma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta Do feixe de moléculas nervosas. À noite. mínima. Quebra a força centrípeta que a amarra. de repente... Mas. Marcas oriundas de úlceras e antrazes. tênue. Mostra aos montes e aos rígidos rochedos A hedionda elefantíase dos dedos Há um cansaço no Cosmos. Anoitece. quando sonha. e quase morta. Riem as meretrizes no Cassino. Chega em seguida às cordas da laringe. e depois. Deixa circunferências de peçonha. Em qualquer parte onde a cabeça ponha. Que. E o Lázaro caminha em seu destino Para um fim que ele mesmo desconhece! 35 . Tísica. raquítica.

. Realizavam-se os partos mais obscuros.. Somente achei moléculas de lama E a mosca alegre da putrefação! SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos 2 fevereiro 1911. com a sinergia de um gigante. Tragicamente anônimo. Meus olhos liam! No húmus dos monturos. Panteisticamente dissolvido Na noumenalidade do NÃO SER! 36 . Dentre as genealogias animais! Como quem esmigalha protozoários Meti todos os dedos mercenários Na consciência daquela multidão. Em tua morfogênese de infante A minha morfogênese ancestral?! Porção de minha plásmica substância. Em que lugar irás passar a infância. Fruto rubro de carne agonizante. Filho da grande força fecundante De minha brônzea trama neuronial.Homens que a herança de ímpetos impuros Tornara etnicamente irracionais! Não sei que livro. E. Agregado infeliz de sangue e cal. em vez de achar a luz que os Céus inflama. em letras garrafais. a feder?! Ah! Possas tu dormir. feto esquecido.IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA Rugia nos meus centros cerebrais A multidão dos séculos futuros . Que poder embriológico fatal Destruiu.

Almoça a podridão das drupas agras. acode-a A escala dos latidos ancestrais.. pelos séculos adiante. Suficientíssima é. Janta hidrópicos. E irás assim.é o seu nome obscuro de batismo.VERSOS A UM CÃO Que força pôde adstrita e embriões informes. Latindo a esquisitíssima prosódia Da angústia hereditária dos teus pais! O DEUS-VERME Fator universal do transformismo. Filho da teleológica matéria. Cão! -. E no inventário da matéria rica Cabe aos seus filhos a maior porção! 37 . Jamais emprega o acérrimo exorcismo Em sua diária ocupação funérea. Ah! Para ele é que a carne podre fica. Tua garganta estúpida arrancar Do segredo da célula ovular Para latir nas solidões enormes? Esta obnóxia inconsciência. rói vísceras magras E dos defuntos novos incha a mão.. E vive em contubérnio com a bactéria. avoenga e elementar Dos teus antepassados vemiformes.Alma do inferior rapsodo errante! Resigna-a. afaga-a. Verme -.. arrima-a. para provar A incógnita alma. Livre das roupas do antropomorfismo. em que tu dormes.. ampara-a. Na superabundância ou na miséria.

Que importa a mim que a bicharia roa Todo o meu coração. das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte! Dissolva-se. Como uma vela fúnebre de cera. Guarda... esta árvore. depois da morte?! Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também..corte Minha singularíssima pessoa. Abraçada com a própria Eternidade A minha sombra há de ficar aqui! BUDISMO MODERNO Tome. O passado da Flora Brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. e. Voltando à pátria da homogeneidade. esta tesoura. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. sob estes galhos. de amplos agasalhos. Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do último verso que eu fizer no mundo! 38 . minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo. como uma caixa derradeira.DEBAIXO DO TAMARINDO No tempo de meu Pai. portanto. Dr.

A verdade espantosa do Protilo Me aterrava. A energia intracósmica divina Que é o pai e é a mãe das outras energias! SOLITÁRIO Como um fantasma que se refugia Na solidão da natureza morta. Na inconsciência de um zoófito tranqüilo. Como um pagão no altar de Proserpina. como quem tudo repele. por toda a pro-dinâmica infinita.essa mônada esquisita -Coordenando e animando tudo aquilo! E eu bendizia. Por trás dos ermos túmulos.. um dia. Cortava assim como em carniçaria O aço das facas incisivas corta! Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E eu saí..Velho caixão a carregar destroços -Levando apenas na tumba carcaça O pergaminho singular da pele E o chocalho fatídico dos ossos! 39 .SONHO DE UM MONISTA Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo Viajávamos. Eu fui refugiar-me à tua porta! Fazia frio e o frio que fazia Não era esse que a carne nos contorta. mas dentro da alma aflita Via Deus -. Na guturalidade do meu brado. com o esqueleto ao lado. com uma ânsia sibarita. -. Alheio ao velho cálculo dos dias.

. moços do mundo. Ah! De ti foi que. A alma do homem poilígamo e lascivo?! Este lugar. mísera e mofina. Nenhuma ignota união ou nenhum sexo À contingência orgânica do sexo A tua estacionária alma prendeu. talvez. autônoma e sem normas. Quando a promiscuidade aterradora Matar a última força geradora E comer o último óvulo do ventre! 40 . vede: É o grande bebedeouro coletivo. O hierofante que leu a minha sina Ignorante é de que és. Em que é mister que o gênero humano entre. como um gado vivo. Dentro do ângulo diedro da parede. Vêm matar a sede! É o afrodístico leito do hetairismo A antecâmara lúbrica do abismo. Todas as noites.MATER ORIGINALIS Forma vermicular desconhecida Que estacionaste. Como quase impalpável gelatina. nesta rede. A minha forma lúgubre nasceu! O LUPANAR Ah! Por que monstruosíssimo motivo Prenderam para sempre.. nascida Dessa homogeneidade indefinida Que o insigne Herbert Spencer nos ensina. Onde os bandalhos. Oh! Mãe original das outras formas. Nos estados prodrômicos da vida.

é esse danado número Um Que matou Cristo e que matou Tibério! Creio. na generalidade descrente Com que a substância cósmica evolui. é o pneuma . O amor! Quando virei por fim a amá-lo?! Quando.IDEALISMO Falas de amor.. é o ego sum qui sum . como o filósofo mais crente. Que o homem universal de amanhã vença O homem particular eu que ontem fui! 41 . É a morte. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo.Alavanca desviada do seu futuro -E haja só amizade verdadeira Duma caveira para outra caveira. Do meu sepulcro para o teu sepulcro?! ÚLTIMO CREDO Como ama o homem adúltero o adultério E o ébrio a garrafa tóxica de rum. O mundo fique imaterializado -.. e eu ouço tudo e calo! O amor da Humanidade é uma mentira. Amo o coveiro -. Creio. De Messalina e de Sardanapalo?! Pois é mister que. perante a evolução imensa. É. para o amor sagrado.este ladrão comum Que arrasta a gente para o cemitério! É o transcendentalíssimo mistério! É o nous . se o amor quea Humanidade inspira É o amor do sibarita e da hetaíra.

caixas cranianas. Cinzas. se hoje volto assim. com a alma às escuras. inclusas. e. nele. como os sonhos dos selvagens. penetrava fundo No meu fenomenal cérebro cheio. improficuamente. talvez as Musas. Era tarde! Fazia muito frio. Pelas monotonias siderais.O CAIXÃO FANTÁSTICO Célere ia o caixão.. Mas. cartilagens Oriundas. Talvez meu Pai! Hoffmânicas viagens Enchiam meu encéfalo de imagens As mais contraditórias e confusas! A energia monística do Mundo. Numa antropofagia de faminto! A digestão desse manjar funéreo Tornado sangue transformou-me o instinto De humanas impressões visuais que eu sinto Nas divinas visões do íncola etéreo! Vestido de hidrogênio incandescente.. Vaguei um século. subi talvez às máximas alturas. À meia-noite. Comi meus olhos crus no cemitério. De aberratórias abstrações abstrusas! Nesse caixão iam.. É necessário que ainda eu suba mais! 42 .. Na rua apenas o caixão sombrio Ia continuando o seu passeio! SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO Para desvirginar o labirinto Do velho e metafísico Mistério.

A que nos acharemos reduzidos! Não morrerão. no Dia de Juízo. meu velho! E essa futura Ultrafatalidade de ossatura. em diferentes Florestas. Depois da morte. tua lã aquece o mundo inteiro E guarda as carnes dos que estão com frio! Quando a faca rangeu no teu pescoço. reunidos.fontes de perdão -.perdoaram! Oh! tu que no Perdão eu simbolizo. Tu. a maldição de Pio Décimo caia em teu algoz sombrio E em todo aquele que for seu herdeiro! Maldito seja o mercador vadio Que te vender as carnes por dinheiro. Se fosses Deus. selvas. Eu. Pelo muito que em vida nos amamos. com o envelhecimento dos tecidos! Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos! E a podridão.A UM CARNEIRO MORTO Misericordiosíssimo carneiro Esquartejado. com o envelhecimento da nervura. para o Futuro. vales. Na multiplicidade dos teus ramos. porém. Ao monstro que espremeu teu sangue grosso Teus olhos -. trilhos. Tamarindo de minha desventura. glebas. inda teremos filhos! 43 . pois. Talvez perdoasses os que te mataram! VOZES DA MORTE Agora sim! Vamos morrer. tuas sementes! E assim.

Na orgia heliogabálica do mundo. É-me grato adstringir-me. como os irmãos siameses! É com essa asa que eu faço este soneto E a indústria humana faz o pano preto Que as famílias de luto martiriza. É meu destino viver junto a esa asa.. Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes O telhado de nossa própria casa. na hierarquia Das formas vivas. Como a cinza que vive junto à brasa.INSÂNIA DE UM SIMPLES Em cismas patológicas insanas. à categoria Das organizações liliputianas. Deixar enfim na cloaca mais sombria Este feixe de células humanas! E enquanto arremedando Éolo iracundo. Ser semelhante aos zoófitos e às lianas. Como os Goncourts. asa De mau agouro que. adstrito ao triângulo mesquinho De um delta humilde. Apraz-me.a costureira funerária -Cose para o homem a última camisa! 44 . nos doze meses.. É ainda com essa asa extraordinária Que a Morte -. Ter o destino de uma larva fria.. apodrecer sozinho No silêncio de minha pequenez! ASA DE CORVO Asa de corvos carniceiros.. Perseguido por todos os reveses. Ganem todos os vícios de uma vez.

A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda. em desalento. rasga o papel. conquanto ainda hoje em dia. com os dedos brutos Para falar. violento. E não lhe vem à boca uma palavra! O MAR. É como o paralítico que. já transpuseste os meus degraus?!” E Augusto. Busca exteriorizar o pensamento Que em suas fronetais células guarda! Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda! E ei-lo a tremer. a mim. à míngua Da própria voz e na que ardente o lavra Febre de em vão falar. “O fracasso da tua geografia “E do teu escafandro esmiuçador! “Ah! Jamais saberás ser superior. “Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me! E a verticalidade da Escada íngreme: “Homem.. Como o soldado que rasgou a farda No desespero do último momento! Tenta chorar e os olhos sente enxutos!. Ouvindo a Escada e o Mar. “À luz da epicurista ataraxia.. caiu de bruços No pandemônio aterrador do Caos” 45 . “Homem. mamífero inferior. o Hércules. “Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia “Voando ao vento o vastíssimo vapor. o Homem. puxa e repuxa a língua. A ESCADA E O HOMEM “Olha agora.O MARTÍRIO DO ARTISTA Arte ingrata! E conquanto. aos soluços.

minha Mãe. hipócrita. agora.. Via naquilo a minha própria ruína! Minha ama..DECADÊNCIA Iguais às linhas perpendiculares Caíram. Tu só furtaste a moeda. Que ela absolutamente não furtava. não fora ela! --“ E maldizia a sina. após tudo perdido. Que a mim somente cabe o furto feito. minha ama. Sinhá-Mocinha. Só lhe restam agora o último doente E a armação funerária das clavículas! RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ A minha ama-de-leite Guilhermina Furtava as moedas que o Doutor me dava. Em sucessivas atuações nefastas. entretanto. Nas suas 33 vértebras gastas Quase todas as pedras tumulares! A frialdade dos círculos polares. porque furtei o peito Que dava leite para a tua filha! 46 . afetava Susceptibilidade de menina: “-. o ouro que brilha. mas eu. como cruéis e hórridas hastas. Penetrara-lhe os próprios neuroplastas.. Eu furtei mais. Ele hoje vê que. em minha cama.. ralhava.Não. Estragara-lhe os centros medulares! Como quem quebra o objeto mais querido E começa a apanhar piedosamente Todas as microscópicas partículas. Vejo. Furtaste a moeda só. então.

os restos Duma comida horrivelmente azeda! A sucessão de hebdômadas medonhas Reduzirá os mundos que tu sonhas Ao microcosmos do ovo primitivo. que se desmoronou A pirâmide real do meu orgulho. Serviu as carnes do seu próprio filho! Por que para este cemitério vim?! Por que?! Antes da vida o angusto trilho Palmilhasse. E tu mesmo. Terás somente uma vontade cega E uma tendência obscura de ser vivo! VOZES DE UM TÚMULO Morri! E a Terra -. à noite.A UM MASCARADO Rasga essa máscara ótima de seda E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos. igual a um porco.. Assim Tântalo.. É noite. num festim..a mãe comum -... e.o brilho Destes meus olhos apagou!. do que este que palmilho E que me assombra. Hoje que apenas sou matéria e entulho Tenho consciência de que nada sou! 47 .. a escândalos e incestos É natural que o instinto humano aceda! Sem que te arranquem da garganta queda A interjeição danada dos protestos. Hoje. porém. porque não tem fim! No ardor do sonho que o fronema exalta Construí de orgulho ênea pirâmide alta. aos reais convivas. após a árdua e atra refrega. Hás de engolir...

Tudo convém para o homem ser completo! O ângulo obtuso.Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim É bom. Uma feição humana e outra divina São como a eximenina e a endimenina Que servem ambas para o mesmo feto! Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes! Por justaposição destes contrastes... Às alegrias juntam-se as tristezas. E eu tão sem crença e as árvores tão nuas E tu. trilhando as mesmas ruas. e o horror de nossas duas Mágoas crescendo e se fazendo horrores! Magoaram-te. Deus não havia de magoar-te assim! 48 . Tu. SONETO – I – A MEU PAI DOENTE Para onde fores. para onde fores. para amenizar as minhas dores! Que coisa triste! O campo tão sem flores. gemendo. O que o homem ama e o que o homem abomina. o Ódio e a Carnificina. meu Pai?! Que mão sombria. pois. E o carpinteiroque fabrica as mesas Faz também os caixões do cemitério!. Pai. Irei também. para amenizar as dores tuas. é justo.. e o ângulo reto.CONTRASTES A antítese do novo e do obsoleto.. Junta-se um hemisfério a outro hemisfério. Eu. Indiferente aos mil tormentos teus De assim magoar-te sem pesar havia?! -. e sendo justo. O Amor e a Paz. Deus.

entre as estrelas flóreas. Duras leis as que os homens e a hórrida hidra A uma só lei biológica vinculam. Mas pareceu-me.. o ofício da agonia. como os queijos Sobre a mesa de orgíacos festins!. Mãe. Nem uma névoa no estrelado véu. Como Elias. Em seus lábios que os meus lábios osculam Microrganismos fúnebres pululam Numa fermentação gorda de cidra. Amo meu Pai na atômica desordem Entre as bocas necrófagas que o mordem E a terra infecta que lhe cobre os rins! 49 . Rezo. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu! SONETO – III Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra. sonhando.. dormir primeiro! E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza.. cuidei que ele dormia.SONETO – II – A MEU PAI MORTO Madrugada de Treze de Janeiro. num carro azul de glórias. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o”! deixa-o.. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. Com a invariabilidade da clepsidra! Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos Roída toda de bichos. E a marcha das moléculas regulam.

Para que eu tenha uma velhice calma! -.. para que eu viva!” E quando a árvore. pois. meu pai. despindo a última alfaia Que ao comércio dos homens me traz presa. O sistema nervoso de um gigante Para sofrer na minha carne estuante A dor da força cósmica furiosa. não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho. numa rogativa: “Não mate a árvore. Semelhante a um cachorro de atalaia Às decomposições da Natureza.Meu pai. meu filho. meu filho.. no junquilho. olhando a pátria serra. Apraz-me. possui minh’alma!. Esta árvore. pai.As árvores. enfim...e ajoelhou-se. O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra! 50 .. sôfrega e ansiosa. Ficar latindo minha dor medonha! A ÁRVORE DA SERRA -..DEPOIS DA ORGIA O prazer que na orgia a hetaíra goza Produz no meu sensorium de bacante O efeito de uma túnica brilhante Cobrindo ampla apostema escrofulosa! Troveja! E anelo ter. -. Caiu aos golpes do machado bronco. É preciso cortá-la. Livre deste cadeado de peçonha... por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs almas nos cedros.Disse -.

Acometido de uma febre estranha Sem o escândalo fônico de um grito.. de à antiga rota Voar. o amplo éter belo. Arrancou os cabelos na montanha! Desceu depois à gleba mais bastarda.. Olha a atmosfera livre. Foi a gaiola que te pôs assim! 51 . bruto. Pões-te a assobiar. Que do fundo do chão todo o ano brota! Mas a ânsia de alto voar.. Pondo a áurea insígnia heráldica da farda À vontade do vômito plebeu. desde o mais prístino mito. não tens mais! E pois. Tu nunca mais verás a liberdade!. E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo. Ah! Tu somente ainda és igual a mim. E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria O vencido pensava que cuspia Na célula infeliz de onde nasceu. mergulhou a cabeça no Infinito. sem cerebelo A gargalhada da última derrota! A gaiola aboliu tua vontade. preto e amarelo. por exemplo: o do boi Ápis do Egito Ao velho Niebelungen da Alemanha. Foi este mundo que me fez tão triste. Continua a comer teu milho alpiste.VENCIDO No auge de atordoadora e ávida sanha Leu tudo. O CORRUPIÃO Escaveirado corrupião idiota..

em serenatas. a equórea coorte Atordoadamente ribombava! Eu. No eterno horror das convulsões marítimas Pareciam também corpos de vítimas Condenados à Morte. Onde um nume de amor. na diuturna discórdia.. E erguendo os gládios e brandindo as hastas... Com os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos.. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. me assombrava! Mas a alga usufrutuária dos oceanos E os malacopterígios subraquianos Que um castigo de espécie emudeceu. O vento estava forte E aquela matemárica da Morte Com os seus números negros.ALUCINAÇÃO À BEIRA MAR Um medo de morrer meus pés esfriava. cismava Em meu destino!. ególatra céptico. Noite alta. Canta a aleluia virginal das crenças. Templos de priscas e longínquas datas. Ante o telúrico recorte. assim como eu! VANDALISMO Meu coração tem catedrais imensas. No desespero dos iconoclastas Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! 52 .

por fim.VERSOS ÍNTIMOS Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. e qual mais presto assoma Nenhum pôde domar o prisioneiro. Toma um fósforo.. que. Veio depois um domador de hienas E outro mais. é a véspera do escarro.estranho carniceiro! Não podes?! Chama então presto o primeiro E o mais possante gladiador de Roma. Escarra nessa boca que te beija! VENCEDOR Toma as espadas rútilas. ao todo. E não pôde domá-lo enfim ninguém. guerreiro. amigo. Acende teu cigarro! o beijo. e doma Meu coração -.esta pantera -Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem. E à rutilância das espadas. e. nesta terra miserável. E qual mais pronto. Mora. sente invevitável Necessidade de também ser fera. Que ninguém doma um coração de poeta! 53 . A mão que afaga é a mesma que apedreja. uns cem. veio um atleta.. o gládio de aço. por fim. entre feras. toma A adaga de aço. Vieram todos. Somente a Ingratidão -. Apedreja essa mão vil que te afaga. Se a alguém causa inda pena a tua chaga. Meu coração triunfava nas arenas.

E quando esse homem se transforma em verme É essa mágoa que o acompanha ainda! O LAMENTO DAS COISAS Triste. O choro da Energia abandonada! É a dor da Força desaproveitada — O cantochão dos dínamos profundos. o subconsciente ai formidando Da Natureza que parou. Que. pancada por pancada. E é em suma. nada há que traga Consolo à Mágoa.. em sons subterrâneos. chorando. Da luz que não chegou a ser lampejo. Ouço. pois.. Da transcendência que se não realiza. a escutar. Sabe que sofre.ETERNA MÁGOA O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo.. No rudimentarismo do Desejo! 54 . Quer resistir. jazem ainda na estática do Nada! É o soluço da forma ainda imprecisa. mas o que não sabe E que essa mágoa infinda assim não cabe Na sua vida. podendo mover milhões de mundos. e quanto mais resiste Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.... o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada. a que só ele assiste. A sucessividade dos segundos. é que essa mágoa infinda Transpõe a vida do seu corpo inerme. do Orbe oriundos.

Oh! Nauta aflito do Subliminal. Sobre a pancosmológica exaustão Reste apenas o acervo árido e vão Das muscularidades consumidas! Ainda assim. feito força. afinal. Todas as urbes siderais vencidas! Morra o éter. Onde a Vida do humano aspecto fero Se desarraiga. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das Idéas! CAPUT IMMORTALE Na dinâmica aziaga das descidas. a animar o cosmos ermo. me desencarcero. Cesse a luz. eu. o meu Nirvana! Nessa manumissão schopenhauereana. pensando. Como a última expressão da Dor sem termo. Aglomeradamente e em turbilhão Solucem dentro do Universo ancião. De que. Parem as vidas. Foi que eu. sincero Encontrei. Tua cabeça há de ficar vibrando Na negatividade universal! 55 . impero Na imanência da Idéa Soberana! Destruída a sensação que oriunda fora Do tacto — ínfima antena aferidora Destas tegumentárias mãos plebéas — Gozo o prazer. Morto o comércio físico nefando.O MEU NIRVANA No alheamento da obscura forma humana. que os anos não carcomem. num grito de emoção.

. sem retumbância. Pressinto o fim da orgânica batalha: — Olhos que o húmus necrófago estraçalha. Que eu tenho de deixar para os meus filhos! LOUVOR A UNIDADE "Escafandros.APOSTROFE À CARNE Quando eu pego nas carnes do meu rosto. a irmanar diamantes e hulhas.. sondas e agulhas "Debalde aplicas aos heterogêneos "Fenômenos. o olfato e o gosto! Carne. pois. a vista. muito embora a alma te acenda. O regresso dos átomos aflitos Ao descanso perpétuo da Unidade! 56 .. Da multimilenária dissonância Que as harmonias siderais invade. decompondo-se. feixe de mônadas bastardas.. "Com essa intuição monística dos gênios. numa alta aclamação. e. E o Homem — negro e heteróclito composto. "À hirta forma falaz do are perennius "A transitoriedade das fagulhas!" — Era a estrangulação. "Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas! "Une. Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas. sem gritos. Dói-me ver. há inúmeros milênios. Era. Em tua podridão a herança horrenda. o ouvido. Onde a alva flama psíquica trabalha. Diafragmas. Desagrega-se e deixa na mortalha O tacto. arpões. A dardejar relampejantes brilhos. ao sol posto.

. é o transunto. é a abreviatura Do todo o ubiqüitário Movimento! Sonho. e. Tragicamente. na noite escura. E a alma o obnóxio quietismo sonolento Rasga. é a essência pura.O PÂNTANO Podem vê-lo. Ah! foi teu beijo convulsionador Que produziu este contraste fundo Entre a abundância do que eu sou. sem dor. à espera de quem passa Para abrir-lhe. Que produz muita vez. A convulsão meteórica do vento. E o nada do meu homem interior! 57 . no Mundo.. opondo-se à Inércia. para mim que a Natureza escuto. De todas as grandezas começantes! Larvas desconhecidas de gigantes Sobre o seu leito de peçonha e luto Dormem tranqüilamente o sono bruto Dos superorganismos ainda infantes! Em sua estagnação arde uma raça. — libertação do homem cativo — Ruptura do equilíbrio subjetivo. E eu sinto a angústia dessa raça ardente Condenada a esperar perpetuamente No universo esmagado da água morta! SUPREME CONVULSION O equilíbrio do humano pensamento Sofre também a súbita ruptura. Este pântano é o túmulo absoluto. É a síntese. a porta. meus semelhantes! Mas. às escâncaras.

Teu desenvolvimento continua! Antes.. oh! gérmen. ainda algum dia. Vence o granito. E hás de crescer. geléia humana. em conjugação com a terra nua.. Ao supremo infortúnio de ser alma! NATUREZA ÍNTIMA Ao filósofo Farias Brito Cansada de observar-se na corrente Que os acontecimentos refletia. O espanto Convulsiona os espíritos. um dia. "Menos interiormente me conheça?!" 58 . porventura.A UM GÉRMEN Começaste a existir. e. entanto. Antes o Nada. Volvas à antiga inexistência calma!. ainda sentia Era a mesma imortal monotonia De sua face externa indiferente! E a Natureza disse com desgosto: "Terei somente. geléia crua.. que ainda haveres De atingir. é natural. como o gérmen de outros seres. rosto?! "Serei apenas mera crusta espessa?! "Pois é possível que Eu. A Natureza olhou-se interiormente! Baldada introspecção! Noumenalmente O que Ela. deprimindo-o . tanto Que. causa do Mundo.. no teu silêncio. Reconcentrando-se em si mesma. o pranto Das tuas concreções plásmicas flua! A água. em realidade. "Quanto mais em mim mesma me aprofundo. não progridas E em retrogradações indefinidas.

na ordem cósmica.As ambições que se fizeram troncos. Como um convite para estranhas viagens. É a Natureza que.. é inquietude. nele... Porque nunca puderam realizar-se! GUERRA Guerra é esforço. os elementos broncos. é transporte. São absolutamente negativas! Araucárias. é ânsia.. . trancada num disfarce. traçando arcos de ogivas.Todas as hermenêuticas sondagens... Da avidez com que o Espírito procura É a Subconsciência que se transfigura Em volição conflagradora.. . Vivem só. é o instinto horrendo De subir. Precisa de encharcar-se em sangue humano Para mostrar aos homens que está viva! 59 . no seu arcano. Tornam todas as almas pensativas! Há uma força vencida nesse mundo! Todo o organismo florestal profundo É dor viva. que se entrega à morte Para a felicidade da Criatura! É a obsessão de ver sangue.A FLORESTA Em vão com o mundo da floresta privas!. E a coorte Das raças todas. descendo A irracionalidade primitiva. Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens.. E a dramatização sangrenta e dura Vir Deus num simples grão de argila errante.. Bracejamentos de álamos selvagens..

. ouro De que as próprias desgraças se engalanam! Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato. inteira. Riqueza da alma.. em suma... És suprema! Os meus átomos se ufanam De pertencer-te. saúde dos seres que se fanam. ereto e imóvel sente Em sua própria sombra sepultado! Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível Que em toda a sua máscara se expande. perante o Incognoscível Essa fatalidade de ser grande Para guardar unicamente poeira! HINO À DOR Dor. acérrima e latente. Dói-lhe. sol do cérebro. É frio o ambiente E a chuva corta inexoravelmente O dorso de um sarcófago molhado! Ah! Ninguém ouve o soluçante brado De dor profunda. E. Com os corpúsculos mágicos do tacto Prendo a orquestra de chamas que executas.. Que o sarcófago.O SARCÓFAGO Senhor da alta hermenêutica do Fado Perlustro o atrium da Morte. Alegria das glândulas do choro De onde todas as lágrimas emanam. oh! Dor. assim.. Minha maior ventura é estar de posse De tuas claridades absolutas! 60 . sem convulsão que me alvorece.. À humana comoção impondo-a. ancoradouro Dos desgraçados. psíquico tesouro.

para o último remígio.. Benditos vós. Dai-me asas. Dai-me alma. A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ele ainda tem de abrir para o Infinito! AOS MEUS FILHOS Na intermitência da vital canseira.. Um movimento universal de insânia Arrancará da insciência o homem precito.ÚLTIMA VISIO Quando o homem resgatado da cegueira Vir Deus num simples grão de argila errante. para a hora derradeira! Culminâncias humanas ainda obscuras. pois. ) Com o vosso catalítico prestígio. Expressões do universo radioativo. Haveis de ser no mundo subjetivo... Sois vós que sustentais ( Força Alta exige-o . Ions emanados do meu próprio ideal.. em épocas futuras.. Terá nascido nesse mesmo instante A mineralogia derradeira! A impérvia escuridão obnubilante Há de cessar! Em sua glória inteira Deus resplandecerá dentro da poeira Como um gasofiláceo de diamante! Nessa última visão já subterrânea. Meu fantasma de carne passageira! Vulcão da bioquímica fogueira Destruiu-me todo o orgânico fastígio . Minha continuidade emocional! 61 . que. pois.

Eu sinto.. então. E acho um feixe de forças prodigiosas Sustentando dois monstros: a alma e o instinto! O POETA DO HEDIONDO Sofro aceleradíssimas pancadas No coração. A espaços As cabeças. A alma arde. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto! 62 . A carne é fogo. cedendo à ação de ignotos pesos! É então que a vaga dos instintos presos — Mãe de esterilidades e cansaços — Atira os pensamentos mais devassos Contra os ossos cranianos indefesos. O cosmos sintético da Idéa Surge. Emoções extraordinárias sinto. Subitamente a cerebral coréa Pára. as mãos. Arranco do meu crânio as nebulosas.. sondando-me a consciência A ultra-inquisitorial clarividência De todas as neuronas acordadas! Quanto me dói no cérebro esta sonda! Ah! Certamente eu sou a mais hedionda Generalização do Desconforto.A DANÇA DA PSIQUÊ A dança dos encéfalos acesos Começa. os pés e os braços Tombara.. Ataca-me a existência A mortificadora coalescência Das desgraças humanas congregadas! Em alucinatórias cavalgadas..

. Excrescência de terra singular. O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! O nôumeno e o fenômeno. Tu só tens um direito: — o de chorar! 63 . entretanto. Porque.A FOME E O AMOR A um monstro Fome! E. No desembestamento que os arrasta. os dois Representam. e. tragando a ambiência vasta. Rugindo. Os dentes antropófagos que rangem. Teu coração se desagrega. criatura cega. Antes da refeição sanguinolenta! Amor! E a satiríasis sedenta. Deixa a tua alegria aos seres brutos. Realidade geográfica infeliz. no ardor dos seus assomos A alegoria do que outrora fomos E a imagem bronca do que inda hoje sois! HOMO INFIMUS Homem. Montão de estercorária argila preta. Sangram-te os olhos. ávida.. Superexcitadíssimos. na ânsia voraz que. o alfa e o omega Amarguram-te. aumenta. enquanto as almas se confrangem. carne sem luz. ris! Fruto injustificável dentre os frutos. Hebdômadas hostis Passam. na superfície do planeta. Todas as danações sexuais que abrangem A apolínica besta famulenta! Ambos assim. Receando outras mandíbulas a esbangem.

de sofrerdes A sensação de todas as misérias! 64 . — A águia dos latifúndios florentinos! Sistematizo... por conseqüência um ser monstruoso! Em minha arca encefálica indefesa Choram as forças más da Natureza Sem possibilidades de repouso! Agregados anômalos malditos Despedaçam-se. aparelhou. dão gritos Nas minhas camas cerebrais funéreas.MINHA FINALIDADE Turbilhão teleológico incoercível. Ai! Não toqueis em minhas faces verdes.. Que força alguma inibitória acalma. Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma Dos que amam apreender o Inapreensível! Predeterminação imprescriptível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. Sob pena. Da dor humana. sou maior que Dante. a Glória.. a Arte e a Beleza Servem de combustíveis à ira acesa Das tempestades do meu ser nervoso! Eu sou. homens felizes. E trago em mim. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Na canonização emocionante. a Ciência. o Inferno. O Amor. num sincronismo eterno A fórmula de todos os destinos! NOLI ME TANGERE A exaltação emocional do Gozo. mordem-se. soluçando.

a exigir que os sãos enfermem.. È a saudade dos erros satisfeitos. engendro o lodo E nas mudanças do Universo todo Deixo inscrita a memória do meu gérmen! 65 . ontem... A ignomínia de todos os abusos! É a prosódia do cárcere. em voz muito alta. Uiva. Existo Como o cancro. Em que o Mal se engrandece e o ódio se exalta. Como Belerofonte com a Quimera Mato o ideal. amanhã e em qualquer era) Minha hibridez é a súmula sincera Das defectividades da Substância. Se escapa pela boca dos cativos! ABERRAÇÃO Na velhice automática e na infância. (Hoje.. cresto o sonho. Que. O epitalâmio da Suprema Falta. é a partênea Aterradoramente heterogênea Dos grandes transviamentos subjectivos. a alardear bárbaros sons abstrusos. Pela promiscuidade dos reclusos! No wagnerismo desses sons confusos. não cabendo mais dentro dos peitos. achato a esfera E acho odor de cadáver na fragrância! Chamo-me Aberração. à luz de fantástica ribalta.O CANTO DOS PRESOS Troa. Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia. Entoado asperamente. urdo o crime. Minha alma é um misto De anomalias lúgubres. Teço a infâmia.

de quanta Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos. ausculto. Criação a um tempo escura e cor-de-rosa. o Céu e o Inferno absorvo. dona. como um corvo. à noite. dada às bravias Cóleras dos dualismos implacáveis E à gula negra das antinomias! Psique biforme. transmudado em rutilância fria. O Infinitésimo e o Indeterminado. enfim.Carrego em minhas células sombrias Antagonismos irreconciliáveis E as mais opostas idiossincrasias! Muito mais cedo do que o imagináveis Eis-vos. Encho o Espaço com a minha plenitude! 66 . invado. pelos caminhos quedos Minha tátil intensidade é tanta Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos! Quebro a custódia dos sentidos tredos E a minha mão. Transponho ousadamente o átomo rude E. Ceva-se em minha carne. por fim. minha alma. A simultaneidade ultramonstruosa De todos os contrastes famulentos! AO LUAR Quando. o Infinito se levanta À luz do luar. Feita dos mais variáveis elementos.VÍTIMA DO DUALISMO Ser miserável dentre os miseráveis -.. agarro.. Nos paroxismos da hiperestesia. apreendo. Todas as coisas íntimas suplanta! Penetro...

como um astro. Siva. A coisa em si movia-se aos meus brados E os acontecimentos subjugados Olhavam como escravos para mim! 67 . Tu hás de entrar completamente puro Para a circulação do Grande Todo! CANTO DA ONIPOTÊNCIA Cloto.A UM EPILÉTICO Perguntaras quem sou?! – ao suor que te unta À dor que os queixos te arrebenta. e nos abismos Ninguém responderá tua pergunta! Reclamada por negros magnetismos Tua cabeça há de cair. como a luz do amanhecer.. Como a luz que arde. defunta Na aterradora operação conjunta Da tarefa animal dos organismos! Mas após o antropófago alambique Em que é mister todo o teu corpo fique Reduzido a excreções de sânie e lodo. Tifon. A perfeição virtual tornada viva E o embrião do que podia acontecer! Por antecipação divinatória. Sentia dos fenômenos o fim. arder... projetado muito além da História. Átropos. aos trismos Da epilepsia horrenda. Laquesis. E acima deles.. Na hiperculminação definitiva O meu supremo e extraordinário Ser! Em minha sobre-humana retentiva Brilhavam. num monturo. virgem. Eu.

Hão de encontrar as gerações futuras Só. remoinha. minha árvore humana desfolhada! Mulher nenhuma afagará meu tronco! Eu não me abalarei. tenta transpor o Ideal. às apalpadelas e às escuras. a afagar tantas feridas. neste ergástulo das vidas Danadamente.MINHA ÁRVORE Olha: É um triângulo estéril de ínvia estrada! Como que a erva tem dor.. rábido. ai! como eu sinto no esqueleto exausto Não poder dar-lhe vida material! 68 . sobre a terra ardente Hão de encher outras árvores! Somente Minha desgraça há de ficar sozinha! ANSEIO (QUEM SOU EU. esse mundo incoerente.. e entre rochas duras Mostra ao Cosmos a face degradada! Entre os pedrouços maus dessa morada É que. Essa elementaríssima semente Do que hei de ser. nem mesmo ao ronco Do furacão que. alarga-se em meu hausto.. Grita em meu grito..Trilhões de células vencidas. a soluçar de dor?! -. Folhas e frutos... Roem-na amarguras Talvez humanas.. Nutrindo uma efeméride inferior. E. Branda. nas minhas formas carcomidas. entanto. A estrutura de um mundo superior! Alta noite.. A áurea mão taumatúrgica do Amor Traça.) Quem sou eu.

Restituo triunfalmente à esfera calma Todos os cosmos que circulam na alma Sob a forma embriológica de sonhos! II Treva e fulguração.. em cisma abismadora absorto.Tudo a unidade do meu ser resume! Sou eu que. sânie e perfume. Sinto bater na putrescível crusta Do tegumento que me cobre os peitos Toda a imortalidade da Substância! 69 . ateando da alma o ocíduo lume. desconforto E ataraxia. -. Ouço o universo ansioso que se agita Dentro de cada pensamento humano! No abstrato abismo equóreo. revolvendo o ego profundo E a escuridão dos cérebros medonhos.REVELAÇÃO I Escafandrista de insondado oceano Sou eu que. Sou eu que. transpondo a escarpa augusta Dos limites orgânicos estreitos.. auscultando o absconso arcano! Por um poder de acústica esquisita.Mãe promíscua do amor e do ódio insano! Sou eu que. Apreendo. Massa palpável e éter. em que me inundo. feto vivo e aborto. Penetro a essência plásmica infinita. -. aliando Buda ao sibarita. A potencialidade do que é morto E a eficácia prolífica do estrume! Ah! Sou eu que. Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia. hirto.

sem complicados silogismos. -. crânios. três. somente em. A aritmética hedionda dos coveiros! Um. na abismal sustância informe. Reduzir carnes podres a algarismos.Tal é. dois. infinita como os próprios números. Para convulsionar a alma que dorme Todas as tempestades são pequenas! Há de a Terra vibrar na ardência infinda Do éter em branca luz transubstanciado. A tua conta não acaba mais! TREVAS Haverá. Na progressão dos números inteiros A gênese de todos os abismos! Oh! Pitágoras da última aritmética.. Esoterismos Da Morte! Eu vejo. cinco.. Rotos os nimbos maus que a obstruem a esmo. hei de ficar trancado Na noite aterradora de mim mesmo! 70 . quatro. cérebros.. Porque. nas geenas Luz bastante fulmínea que transforme Dentro da noite cavernosa e enorme Minhas trevas anímicas serenas?! Raio horrendo haverá que as rasgue apenas?! Não! Porque.VERSOS A UM COVEIRO Numerar sepulturas e carneiros.. A própria Esfinge há de falar-vos ainda E eu. em fúlgidos letreiros. rádios e úmeros. por hipótese. Continua a contar na paz ascética Dos tábidos carneiros sepulcrais Tíbias.

recalcados. Qual é. amam jazer. Estacionadas. a alma. perscruta O puerpério geológico interior. sob o horror Dessas agregações de pedra bruta?! Como nesses relevos orográficos. afinal. De onde rebenta. alma. A significação dessas montanhas! Quem não vê nas graníticas entranhas A subjetividade ascensional Paralisada e estrangulada. mal Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?! Ah! Nesse anelo trágico de altura Não serão as montanhas. Toda a sublevação da crusta hirsuta! No curso inquieto da terráquea luta Quantos desejos fervidos de amor Não dormem. na natureza espiritual. em contrações de dor. Por um abortamento de mecânica. oh! delumbrada alma. me semente. Quem sabe. A representação ainda inorgânica De tudo aquilo que parou em mim?! II Agora. Inacessíveis aos humanos tráficos Onde sóis. assim.AS MONTANHAS I Das nebulosas em que te emaranhas Levanta-te. e dize-me. íngremes. se o que ainda não existe Não vibra em gérmen no agregado triste Da síntese sombria do meu Ser?! 71 . porventura.

derrubadas. babando. Espião da cataclísmica surpresa. derrota Na atual força.. integérrima. A íngreme cordoalha úmida fica. Zarpa. sonha! Mágoas. haurem-lhe o cheiro! Na glauca artéria equórea ou no estaleiro Ergue a alta mastreação. Federações sidéricas quebradas. pelo orbe adiante. E eu só.. alçando o hirto esporão guerreiro. se as Tem..APOCALIPSE Minha divinatória Arte ultrapassa Os séculos efêmeros e nota Diminuição dinâmica. subjugue-as ou difarce-as. É a subversão universal que ameaça A Natureza. em noite aziaga e ignota. que o Éter indica. a amarra agarrada à âncora. o último a ser. Destrói a ebulição que a água alvorota E põe todos os astros na desgraça! São despedaçamentos.. e. Pára e. E não haver uma alma que lhe entenda A angústia transoceânica medonha No rangido de todas as enxárcias! 72 .. Lambe-lhe a quilha e espúmea onda impudica E ébrios tritões. A única luz tragicamente acesa a universalidade agonizante! A NAU A Heitor Lima Sôfrega.. da Massa. E estende os braços de madeira rica Para as populações do mundo inteiro! Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda.

Arrancar. Haurindo o gás sulfídrico das covas. Dentro dos ossos. Para a perpetuação da Espécie forte. Os nossos esqueletos descarnados. que ela encheu. Sôfrego. Das profundezas do Subconsciente O milagre estupendo da aeronave! Rasgue os broncos basaltos negros. continua a arder! Surdos destarte a apóstrofes e brados. Fome do átomo e eurítmico transporte De todas as moléculas. na ânsia ardente De perscrutar o íntimo do orbe... o dolo sáxeo. Com essa volúpia das ossadas novas Hão de ainda se apertar cada vez mais! O FIM DAS COISAS Pode o homem bruto. A humanidade vai pesar seu gênio Encontra o mundo. invente A lâmpada aflogística de Davy! Em vão! Contra o poder criador do Sonho O Fim das Coisas mostra-se medonho Como o desaguadouro atro de um rio. Tragicamente. Em convulsivas contorções sensuais. aborte Na hora em que a nossa carne apodrecer?! Não! Essa luz dial. adstrito à ciência grave. num triunfo surpreendente. ao cabo do último milênio. cave. e. em que arde o Ser. ainda depois da morte. E quando. vazio! 73 .VOLÚPIA IMORTAL Cuidas que o genesíaco prazer.

A NOITE A nebulosidade ameaçadora Tolda o éter. O monocromatismo monstruoso Daquela universal vermelhidão! 74 . Ficam brilhando com fulgor sinistro Dentro da treva onímoda e complexa Os olhos fundos dos que estão com medo A OBSESSÃO DO SANGUE Acordou.. Ah! Certamente não podia ser! Levantou-se. fora. Viu montanhas de sangue enchendo a estrada. Disse. agride os rios E urde amplas teias de carvões sombrios No ar que álacre e radiante.. iguais a espiões que acordam cedo. Olhou-se no espelho. À custódia do anímico registro A planetária escuridão se anexa. mancha a gleba. há instantes. Horrível! O osso Frontal em fogo. Viu vísceras vermelhas pelo chão.. A carne que ele havia de comer! No inferno da visão alucinada. E. eis que viu. vendo sangue. com um berro bárbaro de gozo. Na mão dos açougueiros. A água transubstancia-se. A onda estoura Na negridão do oceano e entre os navios Troa bárbara zoada de ais bravios.... antes do almoço. E amou. Extraordinariamente atordoadora. Ia talvez morrer. a escorrer Fita rubra de sangue muito grosso.. Era tão moço. Somente..

O Inconsciente me assombra e eu nele rolo Com a eólica fúria do harmatã inquieto! Assisto agora à morte de um inseto!.... Rasgo dos mundos o velário espesso. Outras cabeças aparecerão Para compartilhar do meu destino! Na festa genetlíaca do Nada. ante obras tais. Abraço-me com a terra atormentada Em contubérnio convulsionador. E. Leio o obsoleto Rig-Veda. E ai! Como é boa esta volúpia obscura Que une os ossos cansados da criatura Ao corpo ubiqüitário do Criador! AGONIA DE UM FILÓSOFO Consulto o Phtah-Hotep.VOX VICTIMAE Morto! Consciência quieta haja o assassino Que me acabou.. me não consolo. dando-me ao corpo vão Esta volúpia de ficar no chão Fruindo na tabidez sabor divino! Espiando o meu cadáver ressupino.. percorro como um gênio Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!. E em tudo igual a Goethe. No mar de humana proliferação.. reconheço O império da substância universal ! 75 ... Ah! todos os fenômenos do solo Parecem realizar de pólo a pólo O ideal do Anaximandro de Mileto! No hierático areópago heterogêneo Das idéias.

Fora da sucessão. imóvel. Eu a bendigo da descrença. E à dor e ao sofrimento eterno afeito. ao meu lado. Não te abandono mais! Morro contigo!" SAUDADE Hoje que a mágoa me apunhala o seio. E o coração me rasga atroz. amigo! Pois que a minha autogênica Grandeza Nunca vibrou em tua língua presa. À noute qunado em funda soledade Minh’alma se recolhe tristemente. Porque eu hoje só vivo da descrença. Para dar vida à dor e ao sofrimento. Mas que no entanto me alimenta a vida. A Idéia estertorava-se.O ÚLTIMO NÚMERO Hora da minha morte. E assim afeito às mágoas e ao tormento. Como o reflexo fúnebre do Incriado: Bradei: -. atro e subterrâneo. Se acende o círio triste da Saudade. P’ra iluminar-me a alma descontente. imensa. Hirta.Que fazes ainda no meu crânio? E o Último Número. Tragicamente de si mesmo oriundo. 76 . Parecia dIzer-me: "É tarde. em meio.. Da saudade na campa enegrecida Guardo a lembrança que me sangra o peito. estranho ao mundo. Era de vê-lo. No fundo Do meu entendimento moribundo Jazia o Último Número cansado. resignado.

ABANDONADA Ao meu irmão Odilon dos Anjos Bem depressa sumiu-se a vaporosa Nuvem de amores. gárrulos voando .Resta somente um’alma tristurosa! Coitada! o gozo lhe fugiu correndo. Ah. sombras cor-de-rosa . Não sei se morra p’ra viver no Céu! 77 .Todas se foram num festivo bando. CETICISMO Desci um dia ao tenebroso abismo. entre o medo que o meu Ser aterra. O brilho se apagou daquela estrela Que a vida lhe tornava venturosa! Sombras que passam. Cansado de lutar no mundo insano. em fundo misticismo: . seu olhar magoado. Fraco que sou. de ilusões tão bela.Oh! Deus. Hoje ela habita a erma soledade. Fazem lembrar em noute de saudade A luz mortiça d’um olhar nublado. Fugazes sonhos. desgraçado réu.a Grande Mãe . Em que vive e em que aos poucos vai morrendo! Seu rosto triste. volvi ao ceticismo. mas me perdoa! Se esta dúvida cruel qual me magoa Me torna ínfimo. Onde a dúvida ergueu altar profano.o exorcismo Terrível me feriu. eu creio em ti. De joelhos aos pés do Nazareno Baixo rezei. Da Igreja . Não sei se viva p’ra morrer na terra. e então sereno.

tristes. triste pela vida afora. amei. senhora. Cansado de chorar pelas estradas. senhora. o cântico sentido Do coração que geme e s’estertora N’ânsia letal que o mata e que o devora. Ouvi. Tristes fanaram redolentes rosas. pálidas agora. Minh’alma levo aflita à Eternidade. Quando a morte matar meus dissabores. SENHORA Ouvi. As minhas crenças que alentei outrora Rolam dispersas. Mais tarde da existência nos verdores Da infância nunca tive as venturosas Alegrias que passam bonançosas. Eterno pegureiro caminhando. Como um coveiro a sepultar quimeras! 78 . Desfeitas todas num guaiar dorido. E que tornou-o assim. Morreram todas. Todas murcharam. Hoje eu carrego a cruz das minhas dores! OUVI. todas sem olores. E como a luz do sol vai-se apagando! E eu triste. langorosas. de amor ferido. senhora. triste e descrido. Exausto de pisar mágoas pisadas. Revolvo as cinzas de passadas eras.MÁGOAS Quando nasci. Oh! Minha infância nunca teve flores! Volvendo à quadra azul da mocidade. num mês de tantas flores. Sombrio e mudo e glacial.

Se nada te aniquila o desalento Que te invade. No sepulcro da loura virgem bela. E voltou. olímpica e singela! E partiu.TRISTE REGRESSO Uma vez um poeta. venceu batalhas. Vivia alegre o vate apaixonado. pendeu triste e desmaiada. 79 . um tresloucado. Altivo lutador. Tu que. E tinha que deixar p’ra sempre aquela Meiga visão. INFELIZ Alma viúva das paixões da vida. que na grinalda emurchecida De teu passado de felicidade Foste juntar os goivos da Saudade Às flores da Esperança enlanguescida. coração amargurado. Mas a Pátria chamou-o. e o pesar negro e profundo. Era o soldado. Juncou-lhe a fronte aurifulgente estrela. Alma viúva das paixões da vida. Apaixonou-se d’uma virgem bela. Louco vivia. mas a fronte aureolada. Ao chegar. Alma arrancada do prazer do mundo. Dos canhões ao ribombo e das metralhas. e na existência agora Triste soluças a ilusão peerdida. Cantaste e riste. E fica no teu ermo entristecida. Esconde à Natureza o sofrimento. enamorado dela. na estrada da existência em fora. Oh! Tu.

Resvalando nas sombras dos ciprestes. ardentes . pálidos. Ambos unidos soluçara um beijo. Era o supremo beijo de noivado! 80 . São minhas crenças divinais. E a mesma frase o noivo repetia. Há de chegar. E rompe a orquestra sepulcral da morte. Eu choro e gemo e triste me debruço Na lájea fria dos meus sonhos pulcros. NOIVADO Os namorados ternos suspiravam. Fora no campo pássaros trinavam. Dos rouxinóis ao sonoroso harpejo E a luz do sol vibrava esplendorosa. funéreos. Quebrando a paz suprema dos sepulcros.Alvos fantasmas pelos merencórios Túmulos tristes. Quando há de ser o venturoso dia?! Quando há de ser!? O noivo então dizia E a noiva e ambos d’amores s’embriagavam. Quando da vida. a brisa respondia. no eternal soluço. Passam meus sonhos sepultados nestes Brancos sepulcros. silentes. Vinha rompendo a aurora majestosa. Quando há de ser!? E os pássaros falavam.N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS N’augusta solidão dos cemitérios. soturnais. Chegara enfim o dia desejado. Hoje rolando nos umbrais marmóreos. Desliza então a lúgubre coorte.

Assim a turba inconsciente passa.NO MEU PEITO ARDE No meu peito arde em chamas abrasada A pira da vingança reprimida. E espuma e ruge a cólera entranhada. E em centelhas de raiva ensurdecida A vingança suprema e concentrada. Aí existe a mágoa em sua essência. 81 . A morte me será vingança eterna. porém. No delírio. Muitos que esgotam do prazer a taça Sentem no peito a dor indefinida. Já que do mundo não vinguei-me em vida. Eu subo na atitude dolorida De um Cristo a redimir um mundo vário. E onde a vida borbulha e o sangue medra. Espumando e rugindo em marulhada. Em luta co’a natura sempiterna. A MÁSCARA Eu sei que há muito pranto na existência. Mas se das minhas dores ao calvário. da febre ardente Da ventura fugaz e transitória O peito rompe a capa tormentória Para sorrindo palpitar contente. Como no mar a vaga embravecida Vai bater-se na rocha empedernida. Dores que ferem corações de pedra. E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca A humanidade ri-se e ri-se louca No carnaval intérmino da vida.

" CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior pelas nove primaverasque hoje completou. Foste do amor o mártir sacrossanto. Somente assim festejarei teus anos. consente Que neste dia de ventura tanta Vá. Eu só encontro no primor de rima A justa oferta. a jóia que te exprima O amor fraterno do teu mano Em 28 de abril de 1901 82 . um desses santos Sacerdotes da Fé de crença pura. bom Papá. Canta no espaço a passarada e canta Dentro do peito o coração contente. E Deus lhe disse: "És duas vezes santo. oh! Quantos Ouviram dele frases de candura Que d’infelizes enxugavam prantos! E como alegres não ficaram tantos Corações sem prazer e sem ventura! No entanto dizem que este padre amara. Quantos. Mostrar-te o afeto que meu peito sente. Da sua fala na eternal doçura Falava o coração. dão-te enganos. estulto. Enquanto outros que podem. Jóias. Morrera um dia desvairado.AMOR E RELIGIÃO Conheci-o: era um padre. Su’alma livre para o Céu se alara. Tu’alma ri-se descuidosamente. Pois se da Religião fizeste culto. num abraço de ternura santa. Minh’alma alegre no teu rir s’encanta. Irmão querido. bonecos de formoso busto.

Tornou-se a pecadora vil. que matou-te o coração?" Ele apontou para uma cruz no chão. presa. Bela. tomando a enxada gravemente. Os seios brancos. palpitantes. Eu senti a minh’alma entristecida E interroguei-o: "Eterno companheiro Da morte. divina. Do fado. mornos. tinha ido ver a sepultura De um ente caro.O COVEIRO Uma tarde de abril suave e pura Visitava eu somente ao derradeiro Lar. esta mulher de grã beleza. Balbuciou. morria Uma noute entre as vascas da agonia Tendo no corpo o verme do pecado! 83 . Dançavam-lhe no colo perfumado. Lá encontrei um pálido coveiro Com a cabeça para o chão pendida. amigo verdadeiro. No entanto. A chama cruel que arrasta os corações. Do destino fatal. o porte emoldurado No mármore sublime dos contornos. Ali jazia o seu amor primeiro! Depois. sorrindo tristemente: "Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!" PECADORA Tinha no olhar cetíneo. Moldada pela mão da Natureza. Os seios rijos eram dois brasões Onde fulgia o simb’lo do Pecado. aveludado.

dolente. Que guardam pér’las de funéreas rosas. os sons esmorecendo. Assim canta também meu coração.Addio. Que guardam cinzas de ilusões passadas. Na vastidão silente das caladas Abóbodas sombrias tenebrosas. No sigilo das rezas misteriosas. E as mesmas monjas sempre tristurosas. Trovador torturado e angustioso. addio. Vagueiam tristemente desfiladas De freiras e de monjas tristurosas. Repercute. Subindo pelo Azul da Inspiração. mudas! IL TROVATORE Canta da torre o trovador saudoso Addio. addio! 84 . Perdem-se as notas pelo Azul morrendo. pouco a pouco. mavioso. Nem a sombra mais leve de ventura! Sempre as arcadas ogivais.NO CLAUSTRO Pelas do claustro salas silenciosas De lutulentas. Ai! não. não acordeis. desnudas. lembranças minhas! Saudades d’umas noutes em que vinhas Cantar comigo em doce desafio! Mas. Eleonora! Oh! sonhos meus! E o canto se desprende harmonioso Na vibração final do extremo adeus. E à noute quando rezam na clausura. Eleonora. úmidas arcadas. . E as mesmas portas impassíveis.

os teus fulgores. a desgraçada estulta. Arca sagrada de cerúleos sonhos. para guardar a mágoa oculta. Primavera. gargalha. Tu que sorveste o fel das minhas dores E me trouxeste o néctar dos teus sonhos! Cedo virá. PRIMAVERA A meu irmão Odilon dos Anjos Primavera gentil dos meus amores. Vai morta em vida assim pelo caminho. Moça.a veste desgrenhada. O cabelo revolto em desalinho. soluça . Chova-te o Céu cintilações sidéreas E a terra chova no teu seio flores! Esplende. Na auréola azul dos dias teus risonhos. Primavera gentil dos meus amores! 85 . Eu sei a sua história. Da desdita ferida pelo espinho.coração saudoso.Em seu passado Houve um drama d’amor misterioso . tão moça e já desventurada. Chora. No seu olhar feroz eu adivinho O mistério da dor que a traz penada. .Arca cerúlea de ilusões etéreas. No sudário de mágoa sepultada. Num sepulcro de rosas e de flores. . Os dias voltarão a ser tristonhos E tu hás de dormir o eterno sono. o triste outono.O segredo d’um peito torturado E hoje.A LOUCA A Dias Paredes Quando ela passa: . Canta. porém.

Vão-se sonhos nas asas da Descrença. O berço onde as venturas se embalaram. ela não cansa. Muita gente infeliz assim não pensa. que vivo atrelado ao desalento. Também como ela não sucumbe a Crença. portanto. Salve-te a glória no futuro . eu trajo o luto do passado. Quantas venturas que me acalentaram! Mau peito. Sonâmbulo da dor angustiado. Foi outrora do riso abençoado. Também espero o fim do meu tormento. Voltam sonhos nas asas da Esperança. risonha. O mistério d’um peito que estertora E o segredo d’um’alma que não sonha! Não. Senhora. túm’lo do prazer finado. Sirva-te a crença de fanal bendito. delirante e vário. EU TRAJO O LUTO DO PASSADO Senhora. É minha sina perenal. Este luto sem fim que é o meu Calvário E anseio e choro. E não é a Esperança por sentença Este laço que ao mundo nos manieta? Mocidade.Cantar o Ocaso quando surge a Aurora.avança! E eu. não busques saber por que.A ESPERANÇA A Esperança não murcha. 86 . Mas não queiras saber nunca. Na voz da morte a me bradar: descansa! SENHORA. ergue o teu grito. tristonha . No entanto o mundo é uma ilusão completa.

Quem me dera morrer então risonho. Das brancas rosas do seu triste rosto Que rolam murchas como um sol já posto Um perfume de lágrimas se evola. sublime na Descrença. porém. Como Jesus a soluçar no Horto! ECOS D’ALMA Oh! madrugada de ilusões. Chora . Mas volta logo um negro desconforto.o orvalho do pranto lhe perola As faces maceradas de desgosto. Tenta às vezes. nervosa e louca Esquecer por momento a mágoa intensa Arrancando um sorriso à flor da boca. Fitando a nebulosa do meu Sonho E a Via-Láctea da Ilusão que passa! 87 . santíssima. Sombra perdida lá do meu Passado. Mas quando vibrar a última balada Da tarde e se calar a passarada Na bruma sepulcral que o céu embaça. Bela na Dor. Vinde entornar a clâmide puríssima Da luz que fulge no ideal sagrado! Longe das tristes noutes tumulares Quem me dera viver entre quimeras. Quando o rosário de seu pranto rola. Por entre o resplandor das Primaveeras Oh! madrugada azul dos meus sonhares.SOFREDORA Cobre-lhe a fria palidez do rosto O sendal da tristeza que a desola.

. mimosa. púbere. Essa sublime adoração do crente. Na altura Imensa. Em flácido abandono Lembra formosa no seu casto sono A languidez dormente da indiana.AMOR E CRENÇA E sê bendita! H. Que os encantos e a força dos poderes Reúne tudo em si. Branca. As níveas pomas do candor da rosa. Fita a cúp’la do Céu santa e infinita! Deus é o templo do Bem. o olhar velado No Mistério da Carne Soberana 88 . sê bendita! ARIANA Ela é o tipo perfeito da ariana. A carne exuberante e capitosa Trescala a essência que de si dimana. Emergem da camisa cetinosa Entre as rendas sutis de filigrana. Sienkiewicz Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo Ser que preside e rege os outros seres. Estende o teu olhar à Natureza. Rendilhando-lhe o colo de sultana. e. O amor é a hóstia que bendiz a Crença. Dorme talvez. Enquanto o amante pálido. Esse manto de amor doce e clemente Que lava as dores e que enxuga o pranto?! Ah! Se queres saber a sua grandeza. pois. ama.. crê em Deus. a fronte triste. nevada. a seu lado Medita. num só encanto? Esse mistério eterno e sacrossanto.

e quero sempre tê-las ao meu lado! Não. Eu vivo dessas crenças que passaram. . A procissão dos tristes. além. Vai Corina mendiga e esfarrapada. Tem pena dessas cinzas que ficaram. Que não se enterra assim sem compaixão Os escombros benditos de um Passado! Ai! Não me arranques d’alma este conforto! . A romaria eterna dos aflitos. Entre todos. o meu Passado.Dizer adeus aos sonhos meus perdidos! Deixa ao menos que eu suba à Eternidade Velado pelo círio da Saudade. E na choça a lamúria que traspassa O coração. Dos romeiros saudosos da desgraça. A alma saudosa pelo amor vibrada. lânguida e bela.A Stella Matutina da Desgraça! 89 . dos proscritos. Ao dobre funeral dos tempos idos! NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA (Lendo o "Poema de Maio") Na rua em funeral ei-la que passa.Quero abraçar o meu passado morto.TEMPOS IDOS Não enterres. . porém. não quero o meu sonho sepultado No cemitério da Desilusão. coveiro. ânsias e gritos De mães que arquejam sobre os probrezitos Filhos que a Fome derrubou na praça. Da juventude a virginal capela A lhe cingir de luz a fronte baça.

Vinha o luar iluminando a estrada E eu vinha pela estrada soluçando. Deixa ver na fulgência do seu rastro A trajetória augusta da Ciência. Vencendo o azul que ante si s’erguera. SUSPIRANDO Pareceu-me inda ouvir o nome dela No badalar monótono dos sinos. Fitando o abismo sepulcral dos mares. Auroreando a humana consciência. adeus! E. 90 . Hermeto Lima Adeus. ADEUS! E. Perto. Parecia o ribeiro estar chorando As lágrimas que eu triste gotejava. apenas restam mágoas. ADEUS. Voa. devassando a terra. Para mim no mundo Tudo acabou-se. se eleva em busca do infinito. Súbito ecoou do sino o som profundo! Adeus! . E na esteira sem fim da azúlea esfera Ei-la embalada n’amplidão dos ares. Cheia da luz do cintilar de um astro. Mas no mistério astral da noute bela Pareceu-me inda ouvir o nome dela No marulhar monótono das águas! A AERONAVE Cindindo a vastidão do Azul profundo. Sulcando o espaço. É como um despertar de estranho mito. adeus. suspirando. A aeronave que um mistério encerra Vai pelo espaço acompanhando o mundo.ADEUS. Saí deixando morta a minha amada. um ribeiro claro murmurando Muito baixinho como quem chorava.eu disse.

E nunca mais eu vi a minha estrela! 91 . e a estrela foi p’ra o Céu subindo. Deixa beijar-te a face que descora! Fosses antes a rosa purpurina E eu beijaria a pétala divina Da rosa. com ela Negras sombras também foram chegando. Viu o adeus que do Céu ela enviava.Vai-te. onde não pousa a desventura.LIRIAL Por que choras assim. Minh’alma que de longe a acompanhava.a mágica princesa! E eu vi o Sol do Céu iluminando A Catedral da Grande Natureza. Disse. . E quando ela no Azul foi-se sumindo Surgia a Aurora . E eu disse . Estrela esmaecida do Martírio. irmã pálida da Aurora. triste. Se eu sou o orvalho eterno que te chora. Lá onde nunca chegue esta saudade. Mas a noute chegou. Para eu sorrir à sombra da ventura! A MINHA ESTRELA A meu irmão Aprígio A.A sombra deste afeto estiolado. Ai! que ao menos talvez na vida escassa Não chorasses à sombra da desgraça. P’ra que pendes o cálice que enflora Teu seio branco do palor do círio?! Baixa a mim. Envolto da tristeza no delírio. estrela do Passado! Esconde-te no Azul da Imensidade. tristonho lírio.

Pedir a Dulce. o algoz . E todo o dia eu vou como um perdido De dor. por entre a dolorosa estrada. Estendo à Dulce a mão.. como este beijo me consola! Bendita seja a Dulce! A minha vida Estava unicamente nessa esmola. Caiu na praça como fulminado A soluçar: perdão. Vítima augusta de indelével falso. E dos lábios de Dulce cai um beijo. O condenado Transpunha nobremente o cadafalso. a fé perdida.e estertorada A minha voz soluça num gemido.então. dai-me u’a esmola . 92 . Quando do algoz cruento o braço alçado Se dispunha a vibrar sem compaixão O golpe na cabeça do culpado Ele. perdão. Depois. O olhar azul pregado n’amplidão.A PRAÇA ESTAVA CHEIA. A esmola dum carinho apetecido.Senhora. Morre-me a voz. E na atitude do Crucificado. E eu balbucio trêmula balada: . o olhar enlanguescido. Puro de crime. Pude rever naquele desgraçado O drama lutuoso da Paixão. E ela fita-me. A praça estava cheia. isento de pecado.o criminoso . perdão! A ESMOLA DE DULCE Ao Alfredo A. a minha bem amada. e eu gemo o último harpejo..

Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença! Dos sonhos meus na Catedral imensa Que nunca pouses. Lá. e à ingrata Luz deste mundo em breve me arrebata E num pallium de tênebras recolhe-me! Aqui há muita luz e muita aurora. Gênio das trevas lúgubres. Há perfumes d’amor .segue a trilha que te traça O Destino. Leva-me o esp’rito dessa luz que mata. obumbra-me em teu seio. E o viver calmo e sossegado tolhe-me! Leva-me.. Seja-te a vida uma agonia intensa! Vives de crenças mortas e te nutres.. assassino. Num desespero rábido. na névoa baça Onde o teu vulto lúrido esvoaça. Empenhada na sanha dos abutres. acolhe-me N’asa da Morte redentora. E hás de tombar um dia em mágoas lentas.crença Perdida . E as trevas moram. acolhe-me.. e.AVE DOLOROSA Ave perdida para sempre . ave negra da Desgraça. nem me turba a calma A aurora deste amor que é o meu ocaso! 93 .. Negrejadas das asas lutulentas Que te emprestar o corvo do Destino! GÊNIO DAS TREVAS LÚGUBRES. E a alma me ofusca e o peito me maltrata.venenos d’alma E eu busco a plaga onde o repouso mora. onde d’água raso O olhar não trago.

então. a vida é qual risonho Batel.NIMBOS Nimbos de bronze que empanais escuros O santuário azul da Natureza. Reflete a luz do sol que já não arde. O MAR O mar é triste como um cemitério. Cada rocha é uma eterna sepultura Banhada pela imácula brancura De ondas chorando num albor etéreo. Que o céu reflete. sem nenhuma Nuvem sequer. Treme na treva a púrpura da tarde. negros palinuros Da tempestade negra e da tristeza. só descanta. Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma. Ah! dessas no bramir funéreo Jamais vibrou a sinfonia pura Do amor. Quando vos vejo. Chora a saudade envolta nesta espuma! 94 . Que o guia e o leva ao porto da bonança. Abismados na bruma enegrecida. num mar de esp’rança. e a alma é a Flâmula do sonho. Os nimbos das procelas desta vida. a voz do meu saltério! Quando a cândida espuma dessas vagas. Mas quando o céu é límpido. Banhando a fria solidão das fragas. Julgo ver nos reflexos de minh’alma As mesmas nuvens deslizando em calma. dentre a escura Treva do oceano. sem bruma Que a transparência tolde.

Donde Fluiu outrora a luz dum doce engano. foge! Eu busco a virgem loura Que fugiu-me do peito ao teu clarão de morte E Ela era a minha estrela..esse clarão eterno d’alma forte Astro da minha Paz..) Nessas paragens desoladas.ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS.1902 95 . Agora. E eu ergo preces que ninguém responde. meu Futuro. num Pálio auroral de Luz deslumbradora. Sírius da minha Sorte E da Noute da vida a Vênus Redentora. quem dera Voar est’alma a ti. O grande Sol de afeto . onde O silêncio campeia soberano Morreram notas do bulício humano. e em si a Luz consoladora Do amor . Triste criança virginal. é desengano. o meu único Norte.. Adeus oh! Dia escuro.eu busco a virgem loura! Pau d’Arco . agita as tuas asas. Nem vibra a corda que a saudade esconde.1902 AURORA MORTA. Ascende à Claridade. oh! Minha Mágoa. Hoje é trevas. Tendo a minh’alma presa nos teus braços! Pau d’Arco . Dia do meu Passado! Irrompe. Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas E. Anseios d’alma aqui se perdem. lá nos espaços. Cantarias do amor a primavera. longe dos laços Dessa jaula de carne que a encarcera! Ah! Que unidos assim. FOGE! Aurora morta. é dor. foge ..o Sol que as almas doura! Fugiu. Aurora morta.

Um arroio canta pela umbrosa Estrada. emergindo às trevas que a negrejam. Chora a corrente múrmura. úmido de beijos em ressábios Teu riso esponta. ao luar.a Louca tenebrosa. entretanto. Ri-se o meu coração na tua boca! Pau D'Arco .os roseirais descoram E elas bóiam no pranto da corrente Que as rosas. Pendem e caem . as flores também choram Num chuveiro de pétalas. E há.NO CAMPO Tarde. Cantando sempre em trínula volata! Aurora ideal dos dias meus risonhos. os astros rumorejam Um presságio de noute luminosa E ei-la que assoma . chorando enfloram. Ah! num delíquio de ventura louca.1902 96 . Pau d’Arco – 1902 CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA Canta o teu riso esplêndida sonata.. Branca.Cítara suave dos apaixonados. Como que um doce tilintar de prata E a vibração de mil cristais quebrados. as águas límpidas alvejam Com cristais. nitente.. despertando sonhos. Bendito o riso assim que se desata . Sonorizando os sonhos já passados. no teu riso de anjos encantados. Vai-se minh'alma toda nos teus lábios. e. Aragem suspirosa Agita os roseirais que ali vicejam. à dolente Unção da noute. Quando. No alto.

Voga a lua na etérea imensidade! Ela. noctâmbulo da Dor e da Saudade.CRAVO DE NOIVA Ao Dias Paredes Cravo de noiva. toda a cálida Mística essência desse alampadário. Guarda segredos divinais que eu dera Duas vidas. Ah! como a branca e merencórea lua. É que dessa concha armínea Da lactescência angélica da neve. Também envolta num sudário — a Dor. é como os prantos Níveos. que a virgem chora. E tudo quer que nessa flor se enleve O poeta. A gaze pálida Que lhe serve de alvíssimo sudário Respira essências raras. Se evolarn castos. PLENILUNIO Desmaia o plenilúnio. Pau d'Arco -1902. Derramam a urna dum perfume vário. entre os encantos Dum noivado risonho em primavera. A nívea cor de cera Que o seu seio branqueja. E a lua é como um pálido sacrário. Flor dos mistérios d'alma. 97 . P'ra desvendar os seus segredos santos. olências de virgínea Carne fremindo num langor de pomas. virginais aromas De essência estranha. Eu. Minh'alma triste pelos céus flutua! Pau d'Arco -1902. sacrossantos. se duas eu tivera. Onde as almas das virgens em crisálida De seios alvos e de fronte pálida. eterna noctâmbula do Amor.

vindo de profundas fráguas. Paraíba -1902 O BANDOLIM Cantas. a lua é triste e calma. pompeia a luz da branca aurora. sonhar novas idades. Um dia morto da Ilusão às bordas. Quando alta noute. . e eu julgo que nas tuas cordas Choram todas as cordas do Passado! Guardas a alma talvez d'um desgraçado. bandolim do Fado E de Saudade o peito meu transbordas. E vais aos poucos soluçando queixas! 98 . Choras.Quero Correr em busca do Futuro. E vais aos poucos soluçando mágoas.. Teu canto. Mas ao esplendor das velhas majestades Vacila a mente e o seu ardor esfria. e ilusões acordas. Ali. soluças. É como as nênias do Coveiro d'alma! Tudo eterizas num coral de endeixas. Tanto que cantas.INSÂNIA No mundo vago das idealidades Afundei minha louca fantasia.Quero partir em busca do Passado. Que desespero insano me apavora! Aqui. bandolim do Fado. Cedo atraiu-me a áurea fulgidia Da refulgência antiga das idades. Busquei então na nebulosa fria Das Ilusões. Tanto que gemes. chora um ocaso sepultado.. E eu tremo e hesito entre um mistério escuro: .

Foge. E eu quis beijar-te o lábio redolente.. Para nunca tocarem negros sonhos! Caíste enfim no meu sacrário ardente.. E Lúcia disse à bruma lutulenta: . senão co'o o meu olhar te espanco! E eu vi que. Aquele riso despertava a aurora! E tudo riu-se. Foste caindo n'ara dos meus sonhos. Lúcia sorriu-se à bruma nevoenta. alegre e rubro. mas eis que neste enleio. Na etérea limpidez de um sonho branco. e como Lúcia. Quiseste-me beijar a ara do peito. E eu vi os seios teus virem inconhos . A vida Despontava na aurora amortecida  rutilância mágica do dia. Meiga. caindo dos altares.Esses teus seios que os cerúleos lares Branquejaram de eternos nenúfares. cindindo os céus risonhos. também ria! 99 . NA ETÉREA LIMPIDEZ. E beijei-te. Tocando n'ara negra o níveo seio. qual hóstia. O sol. tu vinhas a cindir os ares. E a procela chorou n'um fundo arranco De mágoa triste e de paixão violenta.ARA MALDITA Como um'ave. à voz de Lúcia. grave e lenta. agora. O céu tremia em seu trevoso flanco. E. Fulgia a bruma para sempre. Caíste morta ao celestial preceito.

luminosa. Sentes o peito em ânsias revoltadas. Em mim como no Templo a Angústia se condensa. às fundas Águas do mar das glórias obumbradas.A colunata êxul do Sonho Morto . E a lua. E a rasgar. o túmulo da Crença. á luz das alvoradas santas Ungem-te o corpo redolências tantas. Que. eis que emerges. Flores mortas da Aurora. eu sombrio chorando Ante a imagem fatal do Sepulcro da Crença! 100 . Nua.TREVA E LUZ Neste pélago escuro em que te afundas.ei-lo que avisto. em bando. o Mundo se concentre. Beije-te o seio e te abençoe o ventre! O TEMPLO DA DESCRENÇA O Templo da Descrença . E. Tudo! até o altar onde a Angústia vibra intensa N'uma fúria assombrai de feras em delírio! Penetro louco enfim o abismo funerário. E em mim como no Templo. a Virgem Mãe dos céus escampos. ante o branco estendal das madrugadas. A imensa Cruz da Dor está serena como um lírio! E vejo o pedestal que sustenta o Martírio. a rasgar o lúrido sacrário. Mas. e. Que beija a terra e que abençoa os campos. e. urnas de Sonho. ao ver-te nua. Agora. Longe das sombras aurorais e amadas. E vejo o pedestal que sustenta a Descrença! .o círio Da Quimera Falaz. em banho ideal de amor te inundas. Diluis teu peito em sensações profundas.

Embaladas no albor da adolescência. formosa entre as formosas.O sol a segue. formosa. Todos dizem co'os olhos para a Sorte .. tudo chora. Quero-te assim .o astro Deixa um rastro de luto em cada canto! IDEAL Quero-te assim.. enquanto Vai devastando o coração das casas.e que bendita sejas Como as aras sagradas das igrejas. . santa de inocência! Anjo de luz de astral aurifulgência. No olhar d'amor a mística fulgência E o misticismo cândido das rosas. De espaço a espaço sepulturas planta E em cada coração planta um cipreste! Exulta o Eterno e..Virgens filhas das virgens nebulosas! Quero-te assim.É o castigo de Deus que passa mudo! . 101 . Etéreo como as Wilis vaporosas. entre esplendores. e a Peste ri-se. ela.A PESTE Filha da raiva de Jeová .a Peste N'um insano ceifar que aterra e espanta. semeando a Morte. A alma diluída em eterais cismares. E como o sol que a segue e deixa um rastro De luz em tudo.. tudo! Quando Ela passa. Colmado o seio de virentes flores..Fúlgido foco de escaldantes brasas .. Plena de graça. como o sol . Como o Cristo sagrado dos altares.

E a Noite afeia corno num sarcasmo E agora a sombra vesperal morreu. pátria da Aurora exilada do Sonho! . . É a música de Deus que vem do Céu! SÚPLICA NUM TÚMULO Maria. Chegou a Noite. insânia. penseroso e pasmo. meu anjo..Harpa virgem brandindo mil delírios! Quedo-me aos poucos... perdoa o teu vencido..Irei agora.CÍTARA MÍSTICA Cantas.. E eu ouço etérea cavatina! Há nos teus lábios .. eis-me a teus pés. para onde Me levar o Destino abatido e tristonho. Implorar-te o perdão do imenso crime meu! Eis-me. Rendo piedosa dúlia peregrina À tua doce voz que me fascina. insânia. assim. Açucena de Deus.. Teu canto agora é um salmodiar de arcanjo. o meu Sonho morreu! Perdão.. E para mim. lírio morto do Céu! Perdão! E a minha voz estertora um gemido. ah! ninguém me responde. Como o santo levita dos Martírios. Eu venho arrependido. E o lábio meu pra sempre apartado do teu Não há de beijar mais o teu lábio querido! Ah! Quando tu morreste. pelo mundo.dois sangrentos círios A gêmea florescência de dois lírios Entrelaçados numa unção divina. pois. Perdão! E este silêncio e esta tumba que cala! Insânia.. a teus pés. Perdão! E este sepulcro imenso que não fala! 102 ..

supremos. Cristo d'amor morri pela inocência! 103 . sem Calvário. Da Messalina fria no regaço. Tinha os lábios crestados pela ardência Da luz letal do grande Sol do Vício! E mergulhei mais fundo no estuário. e ora Em contorço es supremas de Delícia! MARTÍRIO SUPREMO Duma Quimera ao fascinante abraço.AFETOS Bendito o amor que infiltra n'alma o enleio E santifica da existência o cardo. Em ânsia de repouso. Banhou-me o peito. Turificando a languidez dum seio! O amor.Amor que é mirra e que é sagrado nardo. Chora saudades do terreno pouso! Como um mártir de estranho sacrifício. Desce para a alma o ocaso da Carícia Ora em sonhos de Dor. no Inferno do Gozo. Onde nunca gemeu o humano passo. e. Por um Cocito ardente e luxurioso... Mas. . que da Desgraça veio Maldito seja. seja como o fardo Desta descrença funeral em que ardo E com que o fogo da paixão ateio! Funambulescamente a alma se atira À luta das paixões. como a Aurora Que ao beijo vesperal anseia e expira. porém. Transpus um dia o Inferno Azul do Gozo! O amor em lavas de candência d'aço...

. desvalida e nua! E o olhar perdi. . lá dos braços hercúleos.Sonâmbulo glacial da estranha pena! Estavas fria! A neve que a alma corta Não gele talvez mais. no pó da fulgurância Como uma velha cruz vela na sombra morta! Fora.. ansiando a luz amena No silêncio notívago da rua. a sós.. eu que te almejo.Lua que esfria o sol do meu desejo! 104 . Teu coração rolou da luz serena! E eu tinha ido ver a aurora tua Nos raios d'ouro da celeste arena.. mulher.. a noute é tumbal.SOMBRA IMORTAL . E estavas morta.. Sombra de gelo que me apaga a febre. O penetral que leva à derradeira porta! Revejo em ti. também da Dor.E tu velas.. nem mais alquebre Um coração como a alma que está morta. estes dardos acúleos Caíam.. Ah! que um dia da Vida. me acalenta e conforta! Noute! E somente tu velas a rutilância. E vi-te triste. . e a saudade da infância. eu vi.. Como um'alma de mãe... Domados pela meiga Ónfale a que me rendo! CORAÇÃO FRIO Frio o sagrado coração da lua. num lânguido smorzando A sombra virginal qu'eu adoro chorando E há de um dia amparar-me na luta correndo. Lua que já passou e que hoje ainda corta O penetral que guia à derradeira estância..

e no meu peito estes teus olhos Como que cravam dois punhais gelados! SEDUTORA Alva d'aurora. O roble altivo entreteceu4e um ninho.. virginal. No lago branco e rútilo do dia O azul pompeava para sempre vasto. tu. e. Branca bem como empalecido arminho. entanto. Santificada pela Dor do Mundo! U'a luz.. e em lânguida sonata Vinhas transpondo a margem do caminho. Para o Infinito e para o Céu voltados! Cantas.NOTURNO (PARA O VALE NOITAL. Somente tristes os teus olhos vejo.. ajoelhando à imagem do Carinho. Que canto é este.. no negror me abrasa. E um canto vai morrer no vale fundo. Pérolas e ouro pela serrania. te acolheu a mata. o seio branco. Uma pantera foi se ajoelhando.. inata! E. e é noute de fatais abrolhos. Choras. Alva d'aurora.) Para o vale noital da eterna gaza Rolou o Sol . Bendita a Santa do Carinho.. Alvorejando em arrebol de prata. Que luz é esta que das brumas vasa.. Rendida ao eflúvio do teu seio casto! 105 .imenso moribundo E a noute veio na negrura d'asa. e no Santo harpejo. chegando. Chegaste.. profundo?! Rumores santos..

e lânguida. mórbidos encantos. no Alto.. Eflúvios quentes e fatais quebrantos Crestam a alma das virgens adormidas.. Triste como um soluço de Dalila. E as brumas velam nos sinistros mantos E as virgens dormem nas tumbais jazidas! Súbitos fremem 'spasmos derradeiros. cintila! Naquela hora morria para a Idéia A minha branca e desgraçada Déa. E o mar chamou-a para o funda abismo! E o céu chamou-a para o Misticismo. 106 . Vão pelo mundo ensangüentando as Vidas. Fria como um crepúsculo da Judéia. E a paixão morre e os corações coveiros Vão como duendes pelos céus risonhos. Qual rosa branca que ao tufão vacila.. Já Vésper.PELO MUNDO Ânsias que pungem. Crepitaç5es de flamas incendidas Nalma explodindo como fogos santos. Nos campos-santos enterrando os Sonhos! E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA E o mar gemeu a funda melopéia À luz feral que a tarde morta instila. Chorando auroras músicas perdidas Na estrada santa ensangüentando as Vidas.. Nesse momento a Lua vinha calma E céu e mar num desespero mudo Não viram que num halo de veludo À alma de Déa se evolava est'alma.

. QUERIDA! Vamos. saturnal do Inferno! Eu te bendigo! No mundano cúmulo És a Ironia que tombou no túmulo Nas sombras mortas de um desgosto eterno! VAMOS. Desfaz-se o peito em vibrações dormentes E o Fado geme sob a névoa fria! Que eu sinta n'alma o que tu n'alma sentes! Nesta Missa de Atroz Melancolia Bebes chorando o Vinho da Agonia . Alenta a Vida que tombou no Tédio! Que à Dor se prende. Silfos morriam. No ar. adormecida.quem mede-o?! . Clarões de sonho em nimbos de epicédio! Bendito sejas.A hora dos tristes e dos descontentes. Punge-me o peito da Saudade o cardo Enquanto um mocho. Na Via-Látea fria do Nirvana. coração. Canta no espaço a maldição da Vida! 107 . que ao frio alvor da Mágoa Humana.. Riso.Eterno fogo.Consagração das almas padecentes! Foi numa tarde assim que nos amamos. sonolento e tardo...Fogo sagrado nos festins da Morte . E ergue à sombra da dor a que se irmana Lauréis de sangue de volúpia insana. tristíssimo palhaço" Cruz e Souza O Riso .o voltairesco clown .O RISO "Ri. querida! Já é Ave-Maria . os gaturamos Num recesso de névoa. clown da Sorte . e a todo o seu assédio.Ele.

A UMA MÁRTIR Alma em cilício, vem, enrista a dava, Brande no seio o espículo e o acinace E unjam-te o seio que d'auroras nasce Sangrentas bênçãos eclodindo em lava! Nossa Senhora te unge a face escrava, Cristo saudoso te abençoa a face De monja - violeta que do Céu baixasse À Virgem Santa Natureza brava! Vais caminhando para a terra extrema, Rosa dos Sonhos! e o teu galho trema E a tua crença, o desespero mate-a... E em nuvens d'ouro ascende enfim ao plaustro Da Neve Eterna, estrela azul do claustro, Levada para o Azul da Via-Látea!

RÉGIO Festa no paço! Noite... E no entretanto Luzes; flores, clarões por toda a festa E há nos régios salões, em cada aresta, Credências d'ouro de supremo encanto. No baldaquino a orquestra real se apresta E o áureo dossel finge um relevo santo... - Bissos egípcios d'alto gosto, a um canto, Flordilisados de nelumbo e giesta. Morreu a noite e veio o Sol Eterno - Âmbar de sangue que desceu do Inferno No turbilhão dos alvos raios diurnos... Brilham no paço refulgências de elmo E a princesa assomou corno um santelmo Na realeza branca dos coturnos.

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PELO MAR Manhã em flor. O mar é um policromo E imenso lago d'íris e alabastros... À aurora é branco e ao sol, o mar é como Um pálio imenso que caiu dos astros. Longe, bem longe, no alvoral assomo Ergue um navio os altanados mastros E o Oceano dorme - alourecido pomo Num leito irial de pérolas e nastros. A alma da Mágoa vai pelo seu dorso, Em sonhos geme... Um coração de corso Geme no mar, vibra no mar, entanto, Colma-lhe o seio a opala das esponjas... E à noute morta choram vagas - monjas Purificadas no cristal do pranto!

PALLIDA LUNA És do Passado! Vieste d'alvorada N'asa dos elfos pela Morte espalma... Cantas... e eu ouço esta berceuse calma Da harpa dos mundos ideais do Nada! Ergue o Missal brilhante de tu'alma, Mas nessa elevação mistificada, Vem, que eu te espero, Deusa constelada Desce, anêmona êxul que o Céu ensalma! Venhas e desças, Lua dos Martírios, Desças, mas venhas pela unção dos lírios. Visão de Ocaso de enluaradas comas, Vaso de Unção descido dos espaços, Para ungirmos nós dois, os nossos paços, Na tule idealizada dos aromas.

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A MORTE DE VÊNUS Velhos berilos, pálidas cortinas, Morno frouxel de nardos recendendo Velam-lhe o sono... e Vênus vai morrendo No berço azul das névoas matutinas! Halos de luz de brancas musselinas Vão-lhe do corpo virginal descendo - Abelha irial que foi adormecendo Sobre um coxim de pérolas divinas. E quando o Sol lhe beija a espádua nua, Cai-lhe da carne o resplendor da Lua No reverbero dos deslumbramentos... Enquanto no ar há sândalos, há flores E haustos de morte - os últimos clangores Da música chorosa dos mementos!

MÁRTIR DA FOME Nesta da vida lúgubre caverna De ossos e frios funerais que eu sinto Corno um chacal saciando o eterno instinto Vou saciando a minha Fome Eterna. - Fome de sangue de um Passado extinto, De extintas crenças - bacanal superna, Horrível assim como a Hidra de Lema E muda como o bronze de Corinto! Ânsias de sonhos, desespero fundo! E a alma que sonha no marnel do Mundo, Morre de Fome pelas noites belas... E como o Cristo - o Mártir do Calvário Morre. E no entanto vai para o estelário Matar a Fome num festim de estrelas!

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SONHO DE AMOR Sobre o aromal e amplo coxim de Flora, Que os vapores da tarde inda incensavam E que um incenso tênue e bom vapora, Os namorados lânguidos sonhavam. A alma do Ocaso entrava o céu agora E havia pelas tênebras que entravam Ora estrangulamentos surdos, ora Ruídos de carnes que se estrangulavam. E sonharam assim durante toda A noute, e toda a alva manhã durante! - O Sol jorrava largos raios longos E em roda víride e nevado, em roda, Lembrava o campo um colorido ondeante De vidros verdes e cristais oblongos!

A ORGIA MATA A MOCIDADE A orgia mata a mocidade, quando Rugem na carne do delírio as feras, E o moço morre como está sonhando Nas suas vinte e cinco primaveras. Em cima - o oiro sem mancha das esferas, Em baixo oiro manchado de execrando Festim de sibarita:, das heteras Lubricamente se despedaçando! Em cima, a rede do estelário imáculo Suspensa no alto como um tabernáculo - A orgia, em baixo, e no delírio doudo Corno arvoredos juvenis tombados Os moços mortos, os brasões manchados, E um turbilhão de púrpuras no lodo!

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Negro. A incandescência irial dos candelabros. E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos Enquanto a chuva cai nos cemitérios E o vento apaga os lampiões da rua! 112 . violentos. Vibra. diante do vulto dos conventos. mas meus movimentos Susto. Fulgem por entre mil cristais vermelhos O alvo cristal dos nítidos espelhos E a seda verde dos arbustos glabros.. Estatuetas de mármore de Lemnos Estão dispostas numa simetria Inconfundível. Lá fora os lampiões escuros Semelham monjas a morrer. E em meio ás refrações verdes e hialinas. Desencadeados.. LÁ FORA. ameaçando os séculos futuros! De São Francisco no plangente bronze Em badaladas compassadas onze Horas soaram.. batendo em todas as retinas. em compassados trenos Sobre os veludos da tapeçaria. recordando a estria Dos corpos de Afrodite e Vênus. Surge agora a Lua.. Os passos mal seguros Trêmulo movo.FESTIVAL Para Jônatas Costa Címbalos soam no salão. NOTURNO (CHOVE.) Chove.. Os ventos. Saio de casa. De encontro ás torres e de encontro aos muros.. e ao compasso de arrabis serenos A valsa rompe. vão bater. O dia Foge.

. já faz sete dias Que eu ouço o canto desse sabiá! VAE VICTIS A Dor meu coração torça e retorça E me retalhe como se retalhe Para escárnio e alegria da canalha Um leão vencido que perdeu a força! Sobre mim caia essa vingança corsa. E hoje. Que há muito tempo não cantava lá. . tão sereno e forte! Quando meu Pai deixou o lar amigo Um sabiá da casa muito antigo. inverno! 113 .. outono.E ELE MORREU Ao sétimo dia de seu falecimento E ele morreu. mas não deixou na ara do rosto Um só vestígio que acusasse a Morte! O anatomista que investiga a sorte Das vidas que se abismam no Sol-posto Ficaria admirado do seu rosto Vendo-o tão belo.. os vermes vis. Primavera. os sapos Encontrem nele pábulo eviterno. A Dor meu coração torça e retorça! Cubra-me o corpo a podridão dos trapos! Os vibriões.Repositório de milhões de miasmas Onde se fartem todos os fantasmas.. Já que perdi a última batalha! E. poetas. Ele que foi um forte Que nunca se quebrou pelo Desgosto Morreu... Diluiu o silêncio em litanias. enquanto o Tédio a carne me trabalha. verão..

. enluta E todo mundo que por ela passa Há de beber a taça da cicuta E há de beber até o fim da taça! Há de beber. Gemem poetas . ao noturno açoute. inda o olhar sereno De agonizante multidão rodeada. enxuto o olhar. aqui é a Terra! Em que a alma chora e em que a Saudade canta! O caminheiro que o Pesar desterra. abraçado às campas dos poetas. Ela. O caminheiro fique nesta Terra! À noute aqui um trovador eterno Chora. Carpem na sombra pássaros ascetas. e a ameaça Amarga dessa desgraçada fruta Que é a fruta amargosa da Desgraça! E quando o mundo todo paralisa E quando a multidão toda agoniza. Aqui é o Campo-Santo. e o travo há de sentir. onde. e quando passa. ela. enxuta A face. inda altiva. Derrama em cada boca envenenada Mais uma gota do fatal veneno! TERRA FÚNEBRE Aqui morreram tantos poetas! Tanta Guitarra morta este lugar encerra!. E se cantar como a Saudade canta.A DOR Chama-se a Dor.pássaros da Noute! 114 ..Esse sombrio trovador é o Inverno! Aqui é a Terra.. Pare chorando nesta Terra Santa.

assomem Descrenças. A CRENÇA E O AMOR O sonho. e morrem os vermes que o consomem. e por fim. no imenso Azul do Firmamento Ir rolando pelo ouro das estrelas. sendo a risonha Santíssima Trindade da Ventura Pode ser venturosa a criatura Que não crê. Vence.O SONHO. eu penso na Ventura! E o pensamento. a crença e o amor. poeta. na Suprema Altura Sinto. E esse ouro santo vir rolando pelas Trevas profundas do meu pensamento! 115 . Luta. nada há que o abata e o vença! Por isso. o sonho. De onde me vem esta felicidade?! MEDITANDO Penso em venturas! A alma do homem pensa Sempre em venturas! Sorte do homem! O homem Há de embalar eternamente a crença Sem ter grilhões e sem ter leis que o domem! Punjam-no os vermes da Desgraça. surjam tédios na Descrença. Contentamento numa dor medonha?! Há muito tempo. que não ama e que não sonha?! Pois a alma acostumada a ser tristonha Pode achar por acaso ou porventura Felicidade numa sepultura. do meu seio Partiu num célere arrebatamento De minha crença arrebentando a grade Pois se eu não amo e se também não creio De onde me vem este contentamento.

em homenagem ao aniversário natalício de Alexandre Rodrigues dos Anjos 28 de abril de 1905. Atinge o amor um grau nunca atingido No termômetro santo da Amizade... pois. Tesouros reais. estudares. nada achaste. De que te serviu. homem meditabundo?! Escalpelaste todo o cadáver do mundo E.. para penetrar o mistério das lousas. por fim. Depois quando no irmão estremecido Fazem aliança o gênio e a probidade..Construíste de ilusões um mundo diferente. Feito no decurso de dois minutos. auríferos tesouros. Foi-te mister sondar a substância das cousas . O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?! Pois.... nada achaste! A loucura destruiu tudo que arquitetaste E a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo. por fim. e. O Alexandre dos Anjos merecia Grandes coroas nesse grande dia. Desconheceste Deus no vidro do astrolábio E quando a ciência vã te proclamava sábio A tua construção quebrou-se de repente! 116 . Terá no entanto indubitavelmente A admiração do século presente E a sagração dos séculos vindouros! SONETO A FREDERICO NIETZCHE Para que nesta vida o espírito esfalfaste Em vás meditações. profundo. Para quem tem na vida compreendido Toda a grandeza da Fraternidade O aniversário dum irmão querido A alma de alegres emoções invade..PARA QUEM TEM NA VIDA.

.. Quando o fantasma da tuberculose Pediu-te. oh! Filho da Hotentóia ufana Teus braços brônzeos como dois escudos.. . o óbolo da Vida! Recordo agora a nossa despedida Na Estação do Cobé. Fulge o fogo mordente dos mormaços E a chama fulge do solar brasido. Embora oculta. . no entanto.ei-Ia que sobe ainda! Pau D'Arco – 1905 117 .. São dois colossos. em ânsias. dois gigantes mudos.as flores e os metais e os frutos Simbolizados nesse colorido! VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA À memória do meu colega Caldas Líns Vinhas trilhando gárrulo a Avenida Onde Deus manda que todo homem goze. E eu cuido ver os múltiplos produtos Da Terra . E subiu tanto e subiu tanto e tanto Que hoje que és morto.O NEGRO Oh! Negro. ela subiu. Representando a integridade humana! Nesses braços de força soberana Gloriosamente á luz do sol desnudos Ao bruto encontro dos ferrões agudos Gemeu por muito tempo a alma africana! No colorido dos teus brônzeos braços.santa nevrose que com fios de ferro as almas cose Principalmente se uma está ferida! Das tuas dores na procela brava Não soubeste talvez que eu te estimava! Mas a amizade oculta não se finda...

.O ÉBRIO Bebi! Mas sei porque bebi!. Achava a Glória que ninguém achava! E todo o dia então eu me embriagava . foram buscar a Glória E que.E o horror começa! Rasga As vestes... . Saiu. como eu. ira-o morrer também. Nisto. e não vê por onde fuja.Se ao menos voasse! . A estrada torta Lembrava a antiga ponte de Sublício. ouve o canto aziago da coruja! . A ninguém nunca eu contarei a história Dos que. O Sol ardia. Implora a Deus como a um fetiche vago. Trás de mim..Novo Sileno.Quer fugir. quantos também deixei. na atra estrada que trilhei.. Daí a pouco.Era o suplício!. O CANTO DA CORUJA A coruja cantara-lhe na porta Sinistramente a noite inteira! Indício Mais certo não havia! .... ela seria morta.em busca de ascender A essa Babel fictícia do Prazer Que procuravam e que eu procurava. Mas eu não contarei nunca a ninguém. Quantos também. Havia pelo chão um desperdício De folhas que a áurea xantofila corta. ver Se nesta ânsia suprema de beber.. como eu. Buscava Em verdes nuanças de miragens. uma convulsão a engasga E morre ouvindo o mesmo canto aziago! 118 .

Sei que na infância nunca tive auroras. de repente.. canta vibrantes Versos divinos que arrebatam a hoste." Pau d'Arco -1905 119 .SENECTUDE PRECOCE Envelheci. A cal da sepultura Caiu por sobre a minha mocidade.Continua a cantar. Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas. a alma serena.. Por isso. E afora disto. Mas. Batendo com a cabeça no barrote Da guilhotina. Grave como um lacedemônio harmoste André Chénier ia subir ao poste A que Luís XVI subira dantes! Que a sua morte a homem nenhum desgoste E incite o heroísmo das nações distantes. E eu que julgava em minha idealidade Ver inda toda a geração futura! Eu que julgava! Pois não é verdade?! Hoje estou velho.Foi saudade? Foi dor? . eu já nem sei mais nada! ANDRÉ CHÉNIER Na real magnificência dos gigantes. Olha essa neve pura! . vivia..Aqui ainda havia alguma cousa..... ele a morrer.. pressentindo a lousa.. diz ao povo: "É pena! . Não há quem nele um só tremor denote! .Foi tanta agrura Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade! Sei que durante toda a travessia Da minha infância trágica.. Assim como uma casa abandonada.

Diz que ele não morreu. Da tribo alegre que povoa os ares. em Tebas . persuadido fica do que diz. diz que ele é vivo. e ainda Te persuades de que sou feliz! 120 ... que nessa crença infinda Feliz me viste no Passado.. Ostenta ainda as mesmas cicatrizes Que eternizaram sua heroicidade! Quem vê o her6i.a tumbal cidade. Para onde eu ia. Bem como tu.. A múmia de um herói do tempo de Ísis. ... Dizes Tudo que sentes.Assombrava-me aquela claridade! Mas através daquelas falsas luzes Pude rever enfim todas as cruzes Que têm pesado sobre a Humanidade! ILUSÃO Dizes que sou feliz.. o vulto ia a meu lado E desde então.MYSTICA VISIO Vinha passando pelo meu caminho Um vulto estranhamente iluminado. sendo assim beijado Muito acima do humano borborinho! Falou-me de ilusões e de luares. não andei mais sozinho! Abraçou-me. E. inda com o braço altivo. Não mentes. A infelicidade Parece às vezes com a felicidade E os infelizes mostram ser felizes! Assim. beijou-me com um carinho Que a um ser divino não seria dado. E eu me elevava..

. pois. quando Eu. de saudades me despedaçando De novo. Saiu aos tombos.O tamarindo reverdeça ainda. assim como o de Jesus Cristo. assombrado. A lua continue sempre a nascer! 121 . E. à tarde. por seus onze augúrios certos: "E maldito o teu nome! E aos céus abertos. com medo do Infinito. Não há divina proteção que o guarde!" Dúvidas cruéis! Momentos cruéis! Incertos E cruéis momentos! Ânsias cruéis! E. Por toda a parte. morrer. como um cão covarde. amigos.. Teve sede e fome.. Nada se altere em sua marcha infinda .E apesar disto. apesar disto Inda cadáver hei também de ser! Quando eu morrer de novo. E foi assim que ele morreu um dia Amaldiçoado pelo próprio nome! DOLÊNCIAS Eu fui cadáver. A percorrer desertos e desertos. ia. Existo! . onde.. triste e sem cantar. a sofrer E acostumado a assim sofrer existo...NOME MALDITO Das trombetas proféticas o alarde Falou-lhe. antes de viver! Meu corpo. aos tropeços. Por toda a parte viu seu nome escrito! Vieram-lhe as ânsias. Sofreu o que olhos de homem não têm visto E olhos de fera não puderam ver! Acostumei-me. assim.

Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai Do que todas as drogas da farmácia! 122 .O farmacêutico me obtemperou.A LÁGRIMA .Faça-me o obséquio de trazer reunidos Clorureto de sódio. Ah! Basta isto.A farmacologia e a medicina Com a relatividade dos sentidos Desconhecem os mil desconhecidos Segredos dessa secreção divina. porque isto é que origina A lágrima de todos os vencidos! . Vem-me então à lembrança o pai Ioiô Na ânsia psíquica da última eficácia! E logo a lágrima em meus olhos cai. água e albumina. ...

vibra A alma dos movimentos rotatórios. Amarguradamente se me antolha...Esta universitária sanguessuga Que produz. os resíduos ruins dos quiosques E o animal inferior que urra nos bosques É com certeza meu irmão mais velho! Tal qual quem para o próprio túmulo olha. A saúde das forças subterrâneas E a morbidez dos seres ilusórios! Pairando acima dos mundanos tetos. Em minha ignota mônada. 123 . E é de mim que decorrem. Amo o esterco. O amarelecimento do papirus E a miséria anatômica da ruga! Na existência social..OUTRAS POESIAS MONÓLOGO DE UMA SOMBRA “Sou uma Sombra! Venho de outras eras. Não conheço o acidente da Senectus -. sem bramânicas tesouras. Do cosmopolitismo das moneras. ampla. procedo Da escuridão do cósmico segredo. A solidariedade subjetiva De todas as espécies sofredoras. Pólipo de recônditas reentrâncias. Larva de caos telúrico.O metafisicismo de Abidarma -E trago. Como um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à Natureza Humana. A podridão me serve de Evangelho. sem dispêndio algum de vírus. possuo uma arma -. Da substância de todas as substâncias! A simbiose das coisas me equilibra... À luz do americano plenilúnio. Como um dorso de azêmola passiva. simultâneas..

causa ubíqua de gozo. Raio X. quebrando estéreis normas. Tal a finalidade dos estames! Mas ele viverá. O coração. abdômen. amanhã. rotos os liames Dessa estranguladora lei que aperta Todos os agregados perecíveis. Trazendo no deserto das idéias O desespero endêmico do inferno.Na alma crepuscular de minha raça Como uma vocação para a Desgraça E um tropismo ancestral para o Infortúnio. Fonte de repulsões e de prazeres. a coçar chagas plebéias. A vida fenomênica das Formas. Com a cara hirta. luzem. O horror dessa mecânica nefasta. 124 . E apenas encontrou na idéia gasta. Que. já nos últimos momentos. Aí vem sujo. Que se chama o Filósofo Moderno! Quis compreender. ondulação aérea. bestas agrestes. Sobre a esteira sarcófaga das pestes A mostrar. Estrangulada dentro da matéria! E o que ele foi: clavículas. iguais a fogos passageiros.Engrenagem de vísceras vulgares -Os dedos carregados de peçonha. tatuada de fuligens Esse mineiro doido das origens. O espólio dos seus dedos peçonhentos. Ao clarão tropical da luz danada. magnetismo misterioso. Nas eterizações indefiníveis Da energia intra-atômica liberta! Será calor. em síntese. a boca. Quimiotaxia. o Homem. A que todas as coisas se reduzem! E hão de achá-lo. -. Sonoridade potencial dos seres. Tudo coube na lógica medonha Dos apodrecimentos musculares. Como quem se submete a uma charqueada.

à noite. fazendo um s. 125 .. Lembra a fome incoercível que escancara A mucosa carnívora dos lobos. E à noite. ébrio de vício. consumir-se. Como que. Uivando. Num suicídio graduado. Do seu zooplasma ofídico resulta. reduzir-se À herança miserável dos micróbios! Estoutro agora é o sátiro peralta Que o sensualismo sodomita exalta. No sombrio bazer domeretrício. Como as cadelas que as dentuças trincam No espasmo fisiológico da fome.A desarrumação dos intestinos Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos Dentro daquela massa que o húmus come. em suas clélulas vilíssimas. em lúbricos arroubos. E foi então para isto que esse doudo Estragou o vibrátil plasma todo. E após tantas vigílias.. pelos cenóbios?!.. Negra paixão congênita. Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo.. Toda a sensualidade da simbiose. Vendo as larvas malignas que se embrulham No cadáver malsão.. Sentindo o odor das carnações abstêmias. À guisa de um faquir. Sôfrego... o monstro as vítimas aguarda. Numa glutonaria hedionda. Brancas bacantes bêbadas o beijam. brincam. No horror de sua anômala nevrose. É uma trágica festa emocionante! A bacteriologia inventariante Toma conta do corpo que apodrece. bastarda. igual à luz que o ar acomete. E até os membros da família engulham. Suas artérias hírcicas latejam. O cuspo afrodisíaco das fêmeas.. vai gozar. E explode. Como no babilônico sansara . Há estratificações requintadíssimas De uma animalidade sem castigo.

esculpindo a humana mágoa. quando a noite avança.. A asa negra das moscas o horroriza. Numa coreografia de danados. Dentro da elipse ignívoma da lua A realidade de uma esfera opaca. com os candeeiros apagados. Mas muitas vezes. Assim também. Sente que megatérios o estrangulam. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa! Míngua-se o combustível da lanterna E a consciência do sátiro se inferna.. bêbedo de sono. Hirto. Que é talvez propriedade do carbono! Ah! Dentro de toda a alma existe a prova De que a dor como um dartro se renova. Mostrando.Com a veemência mavórtica do aríete E os arremessos de uma catapulta. Quando o prazer barbaramente a ataca. Fazendo ultra-epiléticos esforços. Abranda as rochas rígidas. observa a ciência crua. Somente a Arte. As incestuosidades sanguinárias Que ele tem praticado na família.Macbeths da patológica vigília. em rembrandtescas telas várias. A família alarmada dos remorsos. Reconhecendo. torna água Todo o fogo telúrico profundo 126 . observa através a tênue trança Dos filamentos fluídicos de um halo A destra descarnada de um duende.. Na própria ânsia dionísica do gozo. É o despertar de um povo subterrâneo! É a fauna cavernícola do crânio -. se estende Dentro da noite má. E de su’alma na caverna escura. Acorda. Que tateando nas tênebras. para agarrá-lo! Cresce-lhe a intracefálica tortura.. As alucinações tácteis pululam. Essa necessidade de horroroso.

E. Sem os métodos da abstrusa ciência fria E os trovões gritadores da dialética. Executando. até que minha efêmera cabeça. em suas bases. a desintegre.. Na ânsa de um nervosíssimo entusiasmo. Da luz da lua aos pálidos venábulos. Julgava ouvir monótonas corujas. ouvindo estes vocábulos. -. Que a mais alta expressãoda dor estética Consiste essencialmente na alegria.. entanto. Prostituído talvez. sem que. Na produção do sangue humano imenso. entre daveiras sujas.E reduz. Continua o martírio das criaturas: -. Reverta à quietação datrava espessa E à palidez das fotosferas mortas! 127 .O último solilóquio dos suicidas -E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva!” Disse isto a Sombra. Era a canção da Natureza exausta. -. E o turbilhão de tais fonemas acres Trovejando grandíloquos massacres.O ferido que a hostil gleba atra escarva. Há-de ferir-me as auditivas portas. A aspereza orográfica do mundo! Provo desta maneira ao mundo odiento Pelas grandes razões do sentimento.O homicídio nas vielas mais escuras. À condição de uma planície alegre. Chorando e rindo na ironia infausta Da incoerência infernal daquelas frases. A orquestra arrepiadora do sarcasmo! Era a elegia panteísta do Universo.

Resplandece a celeste superfície.. no apogeu da fúria. O céu claro e produndo Fulgura. um saltimbanco da Ásia. e sobre a paz do mundo A alma dos Faraós anda e vagueia. Tonto do vinho. Dorme soturna a natureza sábia.. Num quiosque em festa alegre turba grita. E dentro dançam homens e mulheres Numa aglomeração cosmopolita. O Egito é sempre assim quando anoitece! Às vezes.UMA NOITE NO CAIRO Noite no Egito. Vaga no espaço um silfo solitário. Pasta um cavalo esplêndido da Arábia. na mais próxima planície.. parece Uma sombria interjeição de medo! Como um contraste àqueles mesereres. O Cairo é de uma formosura arcaica.. Os mastins negros vão ladrando à lua. Apenas como um velho stradivário. Soluça toda a noite a água do Nilo! 128 . exposto ao luar.Última nota do conúbio infando -Vêem-se dez jogadores de roleta Fumando. conversando.. A Lua cheia Está sinistra. No ângulo mais recôndito da rua Passa cantando uma mulher hebraica. das pirâmides o quedo E atro perfil. discutindo. Convulso e roto. Executando evoluções de razzia Solta um brado epilético de injúria! Em derredor duma ampla mesa preta -. Embaixo. Troam kinnors ! Depois tudo é tranqüilo. A rua é triste..

A matilha espantada dos instintos! Era como se. Eu. e tinha medo! Na austera abóbada alta o fósforo alvo Das estrelas luzia. O calçamento Sáxeo. Como uma pele de rinoceronte Estendida por toda a minha vida! A noite fecundava o ovo dos vícios Animais. Livres de microscópios e escalpelos. E aprofundando o raciocínio obscuro. então. Do carvão da treva imensa Caía um ar danado de doença Sobre a cara geral dos edifícios! Tal uma horda feroz de cães famintos. com a boca aberta. Fazendo à noite os homens do Futuro. Mas. indo em direção à casa do Agra. na alma da cidade. E a minha sombra enorme enchia a ponte. Mostrando as carnes. de asfalto rijo.AS CISMAS DO DESTINO I Recife.. Apregoando e alardeando a cor nojenta. Dançavam. Pensava no Destino. uma besta solta Soltasse o berro da animalidade. Profundamente lúbrica e revolta. 129 . Bilhões de centrossomas apolínicos Na câmara promíscua do vitellus . Assombrado com a minha sombra magra. Lembro-me bem. Atravessando uma estação deserta. Ponte Buarque de Macedo. Copiava a polidez de um crânio alvo. parodiando saraus cínicos. A ponte era comprida. a irritar-me os globos oculares. O trabalho genésico dos sexos.. Uivava dentro do eu . atro e vidrento. Eu vi. à luz de áureos reflexos.

na ígnea crosta do Cruzeiro. É bem possível que eu umdia cegue. Estendiam-me as mãos rudimentares! Mostravam-me o apriorismo incognoscível Dessa fatalidade igualitária. como um réu confesso. pelo menos. Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! Mas o vento cessara por instantes Ou.Fetos magros. Não sei por que me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança E um pedaço de víscera escarlate. O ventobravo me atirava flechas E aplicações hiemais de gelo russo. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse. A vingança dos mundos astronômicos Enviava à terra extraordinária faca. 130 . Julgava eu ver o fúnebre candeeiro Que há de me alumiar na hora da morte. Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas. ainda na placenta. E. No ardor desta letal tórrida zona. Posta em rija adesão de goma laca Sobre os meus elementos anatômicos. Deus me castigava! Por toda a parte. Que fez minha família originária Do antro daquela fábrica terrível! A corrente atmosférica mais forte Zunia. A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Ninguém compreendia o meu soluço. Ah! Com certeza. o ignis sapiens do Orco Abafava-me o peito arqueado e porco Num núcleo de substâncias abrasantes.

Sob a forma de mínimas camândulas. Eu bem sabia. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minh’alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. Que eu. 131 . seis e sete Vezes que eu me furei com um canivete. cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória. cujas caudais meus beiços regam. ansiado e contrafeito. quatro. aos poucos. Igual ao ruído de um calhau redondo Arremessado no apogeu do estrondo. com certeza Era a expectoração pútrida e crassa Dos brônquios pulmorares de uma raça Que violou as leis da Natureza! Era antes uma tosse ubíqua. Arrebatada pelos aneurismas. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. Benditas sejam todas essas glândulas. Mandando ao Céu o fumo de um cigarro. te segregam! Escarrar de um abismo noutro abismo. Na ascensão barométrica da calma. Não! Não era o meu cuspo. A hemoglobina vinha cheia de água! Cuspo. a hemoptísis! Na alta alucinação de minhas cismas O microcosmos líquido da gota Tinha a abundância de uma artéria rota. cinco. Ia engolindo. estranha. Pelos fundibulários da montanha! E a saliva daqueles infelizes Inchava. três. à guisa de ácido resíduo. Chegou-me o estado máximo da mágoa! Duas. para não cuspir por toda a parte.E até ao fim. Que. de tal arte. em minha boca. quotidianamente.

E o luar. Perpetravam-se os atos mais funestos. Siva e Arimã. Um sugestionador olho. sem pudicícia. Imitando o barulho dos engasgos. lembrava ante o meu rosto. Livres do acre fedor das carnes mortas. a espiar-me. Jamais exprimiria o acérrimo asco Que os canalhas do mundo me provocam! II Foi no horror dessa noite tão funérea Que eu descobri. Embriões de mundos que não progrediram! 132 . Buscando uma taverna que os açoite. À anatomia mínima da caspa. com as brancas tíbias tortas. Vai pela escuridão pensando crimes. então. Davam pancadas no adro das igrejas. para hipnotizar-me! Em tudo.Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do Cristianismo! Porque. Nessa hora de monólogos sublimes. estava ali. Iluminava. Mas um lampião. ali posto De propósito. A companhia dos ladrões da noite. Ninguém. da cor de um doente de icterícia. Numa dança de números quebrados! Todas as divindades malfazejas. A camisa vermelha dos incestos. a rir. Rodopiavam. maior talvez que Vinci. Com a força visualística do lince. meus olhos distinguiram Da miniatura singular de uma aspa. os duendes. se no orbe oval que os meus pés tocam Eu não deixasse o meu cuspo carrasco. A falta de unidade na matéria! Os esqueletos desarticulados. o In e os trasgos. de certo.

e vence-O. Na atra dissoluçào que tudo inverte. Desde os foraminíferos dos mares À grei liliputiana dos pólipos. os montes argilosos Criariam feixes de cordões nervosos E o neuroplasma dos que raciocinam! Almas pigméias! Deus subjuga-as. E a palavra embrulhar-se na laringe. Todos os personagens da tragédia. Deixar cair sobre a barriga inerte O apetite necrófago da mosca! A alma dos animais! Pego-a. Como bolhas febris de água. daquele horrendo Caos de corpos orgânicos disformes Rebentariam cérebros enormes.Ser cachorro! Ganir incompreendidos Verbos! Querer dizer-nos que não finge. E o meu sonho crescia nosilâncio. Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. A pedra dura. 133 . Escapando-se apenas em latidos! Despir a putrescível forma tosca. cinge-as À imperfeição! Mas vem o Tempo. Cansados de viver na paz de Buda. Maior que as epopéias carolíngias! Era a revolta trágica dos tipos Ontogênicos mais elementares. em que. Acho-a nesse interior duelo secreto Entre a ânsia de um vocábulo completo E uma expressão que não chegou à língua! Surpreendo-a em quatrilhões de corpos vivos. distingo-a. Nos antiperistálticos abalos Que produzem nos bois e nos cavalos A contração dos gritos instintivos! Tempo viria. fervendo! Nessa época que os sábios não ensinam.

na dor forte do vômito. refletindo. Os bêbedos alvares que me olhavam. sobre o meu caso Vi que. Um conjunto de gosmas amarelas. Fabricavam destarte os bastodermas. E as coisas inorgânicas mais nulas Apregoavam encéfalos. aflita. E sacudidos de um tremor indômito Expeliam. Com os copos cheios esterilizavam A substância prolífica dos sêmens! Enterravam as mãos dentro das goelas. Em cujo repugnante receptáculo Minha perscrutação via o espetáculo De uma progênie idiota de palermas. Iam depois dormir nos lupanares Onde. jazia atravassada no meu crânio A intercessão fatídica do atraso! A hipótese genial do microzima Me estrangulava o pensamento guapo. a sós. No meu temperamento de covarde! Mas. igual a um amniota subterrâneo.A planta que a canícula ígnea torra. na glória da concupiscência. E eu me encolhia todo como um sapo Que tem um peso incômodo por cima! Nas agonias do delirium-tremens . Aquela humanidade parasita. E apesar de já não ser assim tão tarde. berrava. Depositavam quase sem consciência As derradeiras forças musculares. 134 . Como um bicho inferior. medulas Na alegria guerreira da desforra! Os protistas e o obscuro acervo rijo Dos espongiários e dos infusórios Recebiam com os seus órgãos sensóricos O triunfo emocional do regozijo.

ponto final da última cena.. III “Homem! por mais que a Idéia deintegres. 135 . tal qual. por tua causa. nas catedrais mais ricas.. Reboou.Prostituição ou outro qualquer nome. Há o malvado carbúnculo que mata A sociedade infante dos bezerros! Quantas moças que o túmulo reclama! E após a podridão de tantas moças. num fundo de caverna. o eco particular do meu Destino. Numa impressionadora voz interna. Minha morada equilibrada e firme! Nisto. embora o homem te aceite. É que as mulheres ruins ficam sem leite E os meninos sem pai morrem de fome! Por que há de haver aqui tantos enterros? Lá no “Engenho” também. Minha filosofia te repele. na cara! Era um sonho ladrão de submergir-me Na vida universal. pior que o remorso do assassino. Oh! Senhora dos nossos esqueletos E das caveiras diárias que fabricas! E eu desejava ter. Os porcos espojando-se nas poças Da virgindade reduzida à lama! Morte. a morte é ingrata. Forma difusa da matéria embele. Meu raciocínio enorme te condena! Diante de ti. como um cordão. Ao pensar nas pessoas que perdera. Nessas perquisições que não têm pausa. em tudo imerso. numa ânsia rara.e. Fazer da parte abstrada do Universo. A inconsciência das máscaras de cera Que a gente prega. Rolam sem eficácia os amuletos.

se divide. seu todo não RESIDENCIA No quociente isolado da parcela! Ah! Como o ar imortal a Dor não finda! Das papilas nervosas que há nos tatos Veio e vai desde os tempos mais transatos Para outros tempos que hão de vir ainda! Como o machucamento das insônias Te estraga. antes Fosses. Trazes. em síntese. E se. não como és. fora Mister que. para que a Dor perscrutes. Negro e sem fim é esse em que te mergulhas lugar do Cosmos. espirra. por perscrutar (oh! ciência louca!) O conteúdo das lágrimas hediondas. por vezes. A própria humanidade sofredora! A universal complexidade é que Ela Compreende. Mesmo ainda assim. 136 . e a hialina lâmpada oca. a refletir teus semelhantes. estriada. e a ele se prendem Como às pulseiras que os mascates vendem A aderência teimosa da ferrugem. As rebeladas cóleras que rugem No homem civilizado. saberás a causa De todos os fenômenos alegres! Em vão. sondas A estéril terra.Jamais. A formação molecular da mirra. o cordeiro simbólico da Páscoa. com a bronca enxada árdega. onde a dor infrene É feita como é feito o querosene Nos recôncavos úmidos das hulhas! Porque. magro homem. quando toda a estuada Idéia Dás ao sôfrego estudo da ninféia E de outras plantas dicotiledôneas! A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua Que da ígnea flama bruta.

Tudo que gera no materno ventre A causa fisiológica do nojo. A mentira meteórica do arco-íris. As aves moças que perderam a asa. As projeções flamívomas que ofuscam. O antagonismo de Tífon e Osíris. Na sangueira concreta dos massacres. Os sanguinolentíssimos chicotes Da hemorragia. Como uma pincelada rembrandtesca. O tecido da roupa que se gasta. Onde morreu o chefe da família. -. Deixa os homens deitados. sem mortalha.O orbe feraz que bastos jojos acres Produz’a rebelião que na batalha. as negras formas feias Dos aracnídeos e das centopéias. Que ainda degrada os povos hotentotes. A sensação que uma coalhada fresca Transmite às mãos nervosas dos que a buscam. 137 . O Amor e a Fome. abalando os solos. à espera que a mansa vítima o entre. O achatamento ignóbil das cabeças. O trem particular que um corpo arrasta Sinistramente pela via férrea. a fera ultriz que o fojo Entra. O homem grande oprimindo o homem pequeno A lua falsa de um parasseleno. Os terremotos que. A rotação dos fluidos produzindo A depressão geológica dos pólos. A cristalização da massa térrea. Lembram paióis de pólvora explodindo. as nódoas mais espessas. A água arbitrária que hiulcos caules grossos Carrega e come. O fogão apagado de uma casa. As pálpebras inchadas na vigília. O fogo-fátuo que ilumina os ossos.

O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psicoplasma Humano sofre da mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E, (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, À morte desgraçada dos açougues... Tudo isto que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra! Por descobrir tudo isso, embalde cansas! Ignoto é o gérmem dessa força ativa Que engendra, em cada célula passiva, A heterogeneidade das mudanças! Poeta, feito malsão, criado com os sucos De um leite mau, carnívoro asqueroso, Gerado no atavismo monstruoso Da alma desordenada dos malucos; Última das criaturas inferiores Governada por átomos mesquinhos, Teu pé mata a uberdade dos caminhos E esteriliza os ventres geradores! O áspero mal que a tudo, em torno, trazes, Amálogo é ao que, negro e a seu turno, Traz o ávido filóstomo noturno Ao sangue dos mamíferos vorazes! Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes A perfeição dos seres existentes, Hás de mostrar a cárie dos teus dentes Na anatomia horrenda dos detalhes!

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O Espaço -- esta abstração spencereana Que abrange as relações de coexistência E só! Não tem nenhuma dependência Com as vértebras mortais da espécie humana! As radiantes elipses que as estrelas Traçam, e ao espectador falsas se antolham São verdades de luz que os homens olham Sem poder, entretanto, compreendê-las. Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes Que essa mão, de esqueléticas falanges, Dentro dessa água que com a vista abranges, Também prova o princípio de Arquimedes! A fadiga feroz que te esbordoa Há de deixar-te essa medonha marca, Que, nos corpos inchados de anasarca, Deixam os dedos de qualquer pessoa! Nem terás no trabalho que tiveste A misericordiosa toalha amiga, Que afaga os homens doentes de bexiga E enxuga, à noite, as pústulas da peste! Quando chegar depois a hora tranqüila, Tu serás arrastado, na carreira, Como um cepo inconsciente de madeira Na evolução orgânica da argila! Um dia comparado com um milênio Seja, pois, o teu último Evangelho... É a evolução do novo para o velho E do homogêneo para o heterogêneo! Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo A apodrecer!... És poeira e embalde vibras! O corvo que comer as tuas fibras Há de achar nelas um sabor amargo!”

IV Calou-se a voz. A noite era funesta. E os queixos, a exibir trismos danados,

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Eu puxava os cabelos desgrenhados Como o Rei Lear, no meio da floresta! Maldizia, com apóstrofes veementes, No estentor de mil línguas insurretas, O convencionalismo das Pandetas E os textos maus dos códigos recentes! Minha imaginação atormentada Paria absurdos... Como diabos juntos, perseguiam-me os olhos dos defuntos Com a carne da esclerótica esverdeada. Secara a clorofila das lavouras. Igual aos sustenidos de uma endecha Vinha-me às cordas glóticas a queixa Das coletividades sofredoras. O mundo resignava-se invertido Nas forças principais do seu trabalho... A gravidade era um princípio falho, A análise espectral tinha mentido! O Estado, a Associação, os Municípios Eram mortos. De todo aquele mundo Restava um mecanismo moribundo E uma teleologia sem princípios. Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psique no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo! Mas a Terra negava-me o equilíbrio... Na Natureza, uma mulher de luto Cantava, espiando as árvores sem fruto. A canção prostituta do ludíbrio.

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A CARIDADE No universo a caridade Em contraste ao vicio infando É como um astro brilhando Sobre a dor da humanidade! Nos mais sombrios horrores Por entre a mágoa nefasta A caridade se arrasta Toda coberta de flores! Semeadora de carinhos Ela abre todas as portas E no horror das horas mortas Vem beijar os pobrezinhos. Torna as tormentas mais calmas Ouve o soluço do mundo E dentro do amor profundo Abrange todas as almas. O céu de estrelas se veste Em fluidos de misticismo Vibra no nosso organismo Um sentimento celeste. A alegria mais acesa Nossas cabeças invade... Glória, pois, á Caridade No seio da Natureza! Estribilho Cantemos todos os anos Na festa da Caridade A solidariedade Dos sentimentos humanos.

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OS DOENTES

I Como uma cascavel que se enroscava, A cidade dos lázaros dormia... Somente, na metróplole vazia, Minha cabeça autônoma pensava! Mordia-me a obsessão má de que havia, Sob os meus pés, na terra onde eu pisava, Um fígado doente que sangrava E uma garganta órfã que gemia! Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam... E via em mim, coberto de desgraças, O resultado de bilhões de raças Que há muito desapareceram!

II Minha angústia feroz não tinha nome. Ali, na urbe natal do Desconsolo, Eu tinha de comer o último bolo Que Deus fazia para a minha fome! Convulso, o vento entoava um pseudosalmo. Contrastando, entretanto, com o ar convulso A noite funcionava como um pulso Fisiologicamente muito calmo. Caíam sobre os meus centros nervosos, Como os pingos ardentes de cem velas, O uivo desenganado das cadelas E o gemido dos homens bexigosos. Pensava! E em que eu pensava, não perguntes! Mas, em cima de um túmulo, um cachorro

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como as ervas. A queixada específica de um burro! Gordo adubo de agreste urtiga brava. magnânima e magnífica. satisfeito. sobre as hortas. Em cuja álgida unção. Apenas eu compreendo. olhando os campos Circunjacentes. Criando as superstições de minha terra. os astros miúdos Reduziam os Céus sérios e rudos A uma epiderme cheia de sarampos! III Dormia embaixo.Pedia para mim água e socorro À comiseração dos transeuntes! Bruto. a ameixa. o álamo E a câmara odorífera dos sumos Absorvem diariamente o ubérrimo húmus Que Deus espalha à beira do seu tálamo! Nos de teu curso desobstruídos trilhos. O hidrogênio e o oxigênio que tu choras Pelo falecimento dos teus filhos! Ah! Somente eu compreendo. em quaisquer horas. branda e beatífica. A comunhão dos homens reunidos Pela camaradagem da moléstia. a amêndoa. Além jazia os pés da serra. 143 . A Paraíba indígena se lava! A manga. o urro Reboava. de errante rio. Meu ser estacionava. Benigna água. No Alto. com a promíscua véstia No enbotamento crasso dos sentidos. Na esteira igualitária do teu leito! O vento continuava sem cansaço E enchia com a fluidez do eólico hissope Em seu fantasmagórido galope A abundância geométrica do espaço. A incógnita psique das massas mortas Que dormem. alto e hórrido. a abóbora.

Nas cancerosidades do organismo! Falar somente uma linguagem rouca. adstritos ao quimiotropismo Erótico. Reboando pelos séculos vindouros. OH! desespero das pessoas tísicas. Estas dis bacalhaus o óleo não bebem. entre estrépitos e estouros. a existência Numa bacia autômata de barro. Vômitos impregnados de ptialina. como inúmeros soldados. Estas não cospem sangue.Feriam-me o nervo óptico e a retina Aponevroses e tendões de Aquiles. Alucinado. Restos repugnantíssimos de bílis. 144 . Cair doente e passar a vida inteira Com a boca junto de uma escarradeira. O ruído de uma tosse hereditária. por mais que os cardos grandes rocem Seus corpos brutos. Da degenerescência étnica do Ária Se escapava. Cortanto as raízes do último vocábulo. vendo em cada escarro O retrato da própria consciência! Querer dizer a angústia de que é pábulo E com a respiração já muito fraca Sentir como que a ponta de uma faca. Pintando o chão de coágulos sangüíneos! Sentir. os micróbios assanhados Passearem. Um português cansado e incompreensível. estas não tossem! Descender dos macacos catarríneos. Vomitar o pulmão na noite horrível Em que se deita sangue pela boca! Expulsar. dores não recebem. aos bocados. Maior felicidade é a destas cousas Submetidas apenas às leis físicas! Estas. Adivinhando o frio que há nas lousas.

com o vexame de uma fusa. a água. magras mulheres. hoje. Lhe houvessem sacudido sobre o peito A máquina pneumática de Bianchi! E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba A erguer. É a alfândega. onde toda a vida orgânica Há de pagar um dia o último imposto! IV Começara a chover. Vinha da vibração bruta da corda Mais recôndita da alma brasileira! Aturdia-me a tétrica miragem De que. Consagrando vossa última fonética A uma recitação de mesereres. Aquele ruído obscuro de gagueira Que à noite. Antes levardes ainda uma quimera Para a garganta omnívora das lajes Do que morrerdes. 145 . Onde a Resignação os braços cruza.Não haver terapêutica que arranque Tanta opressão como se. Pelas algentes Ruas. resfriando-vos o rosto. como um cronômetro gigante Marcando a transição emocionante Do lar materno para a catacumba! Mas vos não lamenteis. em sonhos mórbidos. naquele instante. em cachoeiras desobstruídas Encharcava os buracos das feridas. no Amazonas. A mágoa gaguejada de um cretino. Alagava a medula dos Doentes! Do fundo do meu trágico destino. com efeito. Saía. Consoante a minha concepção vesânica. Nos ardores danados da febre hética. urrando ultrajes Contra a dissolução que vos espera! Porque a morte. me acorda.

entregue a vísceras glutonas.. Cuspiu na cova do morubixaba ! E o índio.. Em vez da prisca tribo e indiana tropa A gente deste século.Fedia. De repente. Com uma clarividência aterradora. diante a xantocróide raça loura. sem difíceis nuanças dúbias. como um lúgubre ciclone. tendo o horror no rosto impresso. adstrito à étnica escória. E sentia-se pior que um vagabundo Microcéfalo vil que a espécie encerra. Desterrado na sua própria terra. caladas. Diminuído na crônica do mundo! A hereditariedade dessa pecha Seguiria seus filhos. Na tumba de Iracema!. O gênio de Colombo Manchou de opróbrios a alma do mazombo . E agora. todas as inúbias. por fim. A carcaça esquecida de um selvagem. Recebeu. espantada. Dora em diante Seu povo tombaria agonizante Na luta da espingarda contra a flecha! Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos.. acordando na desgraça. Jazem. Ah! Tudo. A civilização entrou na taba Em que ele estava. Uma desesperada ânsia improfícua De estrangular aquela gente iníqua Que progredia sobre os seus despojos! Mas. Esse achincalhamento do progresso Que o anulava na crítica da História! Como quem analisa uma apostema. Exercia sobre ela ação funesta Desde o desbravamento da floresta à ultrajante invenção do telefone.. Viu toda a podridão de sua raça. 146 .

: o homem e o ofídio. ex. Todos os vocativos dos blasfemos. E eu. com voz estentorosa. Com a contorção neurótica de um bicho Que ingeriu 30 gramas de noz-vômica. A peçonha inicial de onde nascemos. Os fantasmas hamléticos dispersos Atiram na consciência dos perversos A sombra dos remorsos famulentos. Como que havia na ânsia de conforto De cada ser. As mães sem coração rogavam pragas Aos filhos bons. Hereditariedades politípicas Punham na minha boca putrescível Interjeições de abracadabra horrível E os verbos indignados das Filípicas. 147 . roído pelos medos. Batia com o pentágono dos dedos Sobre um fundo hipotético de chagas! Diabólica dinâmica daninha Oprimia meu cérebro indefeso Com a força onerosíssima de um peso Que eu não sabia mesmo de onde vinha. Uma necessidade de suicídio E um desejo incoercível de ser morto! Naquela angústia absurda e tragicômica Eu chorava. Perfurava-me o peito a áspera pua do desânimo negro que me prostra. rolando sobre o lixo. Maldiziam. E quase a todos os momentos mostra Minha caveira aos bêbedos da rua.Vê somente a caveira abandonada De uma raça esmagada pela Europa! V Era a hora em que arrastados pelos ventos. No horror daquela noite monstruosa.

reaparece Na universalidadej do c arbono! A vida vem do éter que se condensa Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma Fazer a luz do cérebro que pensa. como um homem doido que se enforca. na terráquea superfície. cansado. por epigênese. Arrancar do meu próprio corpo a prova Da persistência trágica da força. 148 . Tentava. da árdua liça À substância inorgânica primeva De onde. às vezes. Menor que o anfióxus e inferior à tênia. o anelo instável De. Eu voltarei. Era (nem sei em síntese o que diga) Um velhíssimo instinto atávico. porém. perante a cova. Anelava ficar um dia. como Cristo. com o auxílio especial do osso masséter Mastigando homeomérias neutras de éter Nutrir-me da matéria imponderável. veio Eva E a stirpe radiolar chamada Actissa . A pragmática má de humanos usos Não compreende que a Morte que não dorme É a absorção do movimento enorme Na dispersão dos átomos difusos. Com o horror tradicional da raiva corsa Minha vontade era. Sem diferenciação de espécie alguma. Não me incomoda esse último abandono Se a carne individual hoje apodrece Amanhã. Consubstanciar-me todo com a imundície. Reduzido à plastídula homogênea. era A saudade inconsciente da monera Que havia sido minha mãe antiga. Confundir-me com aquela coisa porca! Vinha. em suma.E.

a saraiva Caindo. vítima última da insânia. análoga era. Nessa alegria bárbara que cobre Os saracoteamentos da lascívia. entre oscilantes chamas. no horizonte. Cheirava com prazer no sacrifício A lepra má que lhe roía o braço! E ensangüentava os dedos da mão nívea Com o sentimento gasto e a emoção pobre. Mas. quando o éreis.... Uma.. dando emoção à pedra Na acústica de todos os planetas! VI À álgida agulha. a perversão de que era presa o sensorium daquela prostituta Vinha da adaptação quase absoluta À ambiência microbiana da baixeza! Entanto. Quase que escangalhada pelo vício. Um cão agora Punha a atra língua hidrófoba de fora Em contrações miológicas de raiva. Estendestes ao mundo. embalde. Nem tínheis.Quando eu for misturar-me com as violetas Minha lira. maior que a Bíblia e a Fedra Reviverá. virgem fostes. agora. As prostitutas.. Acordavam os bairros da luxúria. à-toa. Não tínheis ainda essa erupção cutânea. O sol malvado que secou a fonte De vossa castidade agora finda! Talvez tivésseis fome. ignóbil. De certo. Duas mamárias glândulas estéreis! Ah! Certamente não havia ainda Rompido. Se extenuavam nas camas. doentes de hematúria. 149 . com violência. derreada de cansaço. e. alva. até que. e as mãos. para além..

Cismava no propósito funéreo Da mosca debochada que fareja O defunto. porém. E vai depois levá-lo ao cemitério! E esfregando as mãos magras. eu. no chão frio da igreja.De vós o mundo é farto.Fostes vender a virginal coroa Ao primeiro bandido do arrabalde. A energúmena gei dos ébrios da urbe Festejava seu sábado de infâmias. 150 . Como uma associação de monopólio. inquieto. Somente as bruxas negras da derrota Freqüentam diariamente vosso quarto! prometem-vos (quem sabe?!) entre os ciprestes Longe da mancebia dos alcouces. Como quem nada encontra que o perturbe. Como a boca de um poço artesiano! Atabalhoadamente pelos becos. A consciência terrível desse inseto! Regougando. E hoje. Dentro da noite funda um braço humano Parecia cavar ao longe um poço Para enterrar minha ilusão de moço. A racionalidade dessa mosca. Eu pensava nas coisas que perecem. que a sociedade vos enxota. Sentia. Lançavam pinceladas pretas de óleo Na arquitetura arcaica dos sobrados. argots e aljâmias. E estais velha! -. Nas quietudes nirvânicas mais doces O noivado que em vida não tivestes! VII Quase todos os lutos conjugados. Desde as musculaturas que apodrecem À ruína vegetal dos lírios secos. na craniana caixa tosca.

E o cemitério. Em cujo aspecto o olhar perspícuo prendo. uma cabeça Que possa mastigar na hora da morte E nua. roubada à humana coorte Morre de fome. Vem para aqui. palpável. Punham-lhe num destaque horrendo o horrendo Tamanho aberratório das orelhas. que a morféia miserável Tornava às impressões táteis. Quanta gente. após baixar ao caos budista. Como se fosse um corpo organizado! VIII Em torno a mim. Onde minh’alma inteira surpreendia A Humanidade que se lamentava! Era todo o meu sonho. Puxava aquele povo de demônios Para a promiscuidade das adegas. nos braços de um canalha 151 . assim inchado. como Ugolino. Mas. A mandíbula inchada de um morfético! Saliências polimórficas vermelhas. sobre a palha espessa. E a ébria turba que escaras sujas masca. Já podre. Absorvia com gáudio absinto. À falta idiossincrásica de escrúpulo.Aquilo era uma negra eucaristia. com o ar de quem empesta. de repente. lúpulo E outras substâncias tóxicas da tasca. estriges voam. Apareceu.A estática fatal das paixões cegas. Sem ter. nesta hora. O fácies do morfético assombrava! -. Pela degradação dos que o povoam. Dá-me a impressão de um boulevard que fede. O ar ambiente cheirava a ácido acético. Rugindo fundamente nos neurônios. em que eu entrei adrede. escorraçando a festa.

iguais a irmãs de caridade. Pisando. Ao pegar num milhão de miolos gastos. Na impaciência do estômago vazio. Todos os meus cabelos se arrepiaram. entre fardos. As escaveiradíssimas figuras Das negras desonradas pelos brancos. à meia-noite! Com uma ilimitadíssima tristeza. Nos corpos nus das moças hotentotes Entregues. a alma aos arrancos. À sodomia indigna dos moscardos. Eu devorava aquele bolo frio Feito das podridões da Natureza! E hirto. Vendo passar com as túnicas obscuras. Todos os animais que apodreciam! É possível que o estômago se afoite (Muito embora contra isto a alma se irrite) A cevar o antropófago apetite. Num prato de hospital.porque o madapolão para a mortalha Custa 1$200 ao lojista! Que resta das cabeças que pensaram?! E afundado nos sonhos mais nefastos. Eu mendigava aos vermes insubmissos 152 . cheio de vermes. transgredindo a igualitária regra Da Natureza. atira a raça negra Ao contubérnio diário das quitandas! Na evolução de minha dor grotesca. ao clarão de alguns archotes. Comendo carne humana. como quem salta. Os evolucionistas benfeitores Que por entre os cadáveres caminham. vinham Com a podridão dar de comer às flores! Os defuntos então me ofereciam Com as articulações das mãos inermes. Eu maldizia o deus de mãos nefandas Que. a camisa suada.

Proporcionando-me o prazer inédito. O benefício de uma cova fresca.Como indenização dos meus serviços. Nunca mais as goteiras cairiam Como propositais setas malvadas. Absorve. O adesionismo biôntico das formas Multiplicadas pela lei da herança! 153 . No frio matador das madrugadas. Como o íncola do pólo ártico. Dentro da filogênese moderna. Uma sobrevivência de Sidarta. após a noite de seis meses. Por sobre o coração dos que sofriam! Do meu cérebro à absconsa tábua rasa Vinha a luz restituir o antigo crédito. às vezes. E eis-me a absorver a luz de fora. déspota e sem normas. trazendo-me ao sol claro. Os raios caloríficos da aurora. De quem possui um sol dentro de casa. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! O gênio procriador da espécie eterna Que me fizera. em vez de hiena ou lagarta. E arrancara milhares de existências Do ovário ignóbil de uma fauna imunda. No céu calamitoso de vingança Desagregava. Manhã. Era a volúpia fúnebre que os ossos Me inspiravam. Ia arrastando agora a alma infecunda Na mais triste de todas as falências. À apreensão fisiológica do faro O odor cadaveroso dos destroços! IX O inventário do que eu já tinha sido Espantava.

com os pés atolados no Nirvana.. A gestação daquele grande feto. O começo magnífico de um sonho! Entre as formas decrépitas do povo. com um prazer secreto. tudo a extenuar-se Estava. Decompondo-se desde os alicerces! A doença era geral. Parecia também desagregar-se! O prodromos de um tétano medonho Repuxavam-me o rosto. vinha de dentro Da matéria em fusão que ainda há no centro. em colônias fluídas. O ar que. Que vinha substituir a Espécie Humana! 154 .. O Espaço abstrato que não morre Cansara. Eu sentia nascer-me n’alma.. a meu ver. entanto. Acompanhava. o vagido de uma outra Humanidade! E eu. os sáxeos prédios tortos Tinham aspectos de edifícios mortos. oh! Morte. Vinha da original treva noturna. Para alcançar depois a periferia! Contra a Arte. corre. Igual a um parto. numa furna. Hirto de espanto..A ruína vinha horrenda e deletéria Do subsolo infeliz. Já batiam por cima dos estragos A sensação e os movimentos vagos Da célula inicial de um Cosmos novo! O letargo larvário da cidade Crescia. em vão teu ódio exerces! Mas.

têm carne.À MESA Cedo à sofreguidão do estômago. DUAS ESTROFES À memória de João de Deus Ahi! ciechi! il tanto affaticar che giova? Tutti torniamo alla gran madre antica E il nostro nome appena si ritrova. com este assomo Que a espécie humana em comer carne tem!.. Que um dia no ano trágico de mil E setecentos e cinqüenta e cinco. Ai! Como Os que. amigo. Apenas com uma diferença triste. Rodeado pelas moscas repugnantes. E agora. Com a diferença que Lisboa existe E tu. Foi abalada por um terremoto! A água quieta do Tejo te abençoa. não existes mais! 155 . Petrarca A queda do teu lírico arrabil De um sentimento português ignoto Lembra Lisboa. Para comer meus próprios semelhantes Eis-me sentado à mesa! Como porções de carne morta.. Tu representas toda essa Lisboa De glórias quase sobrenaturais.. É a hora De comer. como eu. Coisa hedionda! Corro. bela como um brinco. Antegozando a ensangüentada presa. Como! E pois que a Razão me não reprime. Possa a terra vingar-se do meu crime Comendo-me também..

nas vitrinas. Mas o ramo fragílimo e venusto Que hoje nas débeis gêmulas se esboça.MATER Como a crisálida emergindo do ovo Para que o campo flórido a concentre. Clara. quanto a mim. há de tornar-se arbusto E álamo altivo de ramagem grossa. Há de beijar-te as mãos todos os dias! Quando chegar depois tua velhice Batida pelos bárbaros invernos. entre dores. que te esgotou as pomas. oh! Mãe. haurindo amplo deleite. -Com que avidez ele essa fonte suga! Ninguém mais com a Beleza está de acordo.. te emergiu do ventre! E puseste-lhe. sujo de sangue. Bebendo a vida no teu seio gordo! Pois. sem pretensões. a atmosfera se encherá de aromas. Essas humanas coisas pequeninas A um biscuit de quilate muito raro Exposto aí. No lábio róseo a grande teta farta -. um novo Ser. Há de crescer. E o antigo leão. Relembrarás chorando o que eu te disse. à amostra. O Sol virá das épocas sadias.. comparo. Assim.Fecunda fonte desse mesmo leite Que amamentou os éfebos de Esparta. Do que essa pequenina sanguessuga. À sombra dos sicômoros eternos! 156 .

Nabucodonosor ser do Pau d’Arco. mordendo glabros talos. Dormir na manjedoura com os cavalos! 157 . também gira e redemoinham.. Tenho estremecimentos indecisos E sinto. com que guarda meus sapatos. nos fortes fulcros.GEMIDOS DE ARTE I Esta desilusão que me acabrunha É mais traidora do que o foi Pilatos!.filhos legítimos dos trigos -Nutrem a geração do Ódio e da Guerra. numa ininterrupta Adesão. roendo a substância córnea de unha. maior do que Laplace. Não fez cair o túmulo de Plínio Por sobre todo o meu raciocínio Para que eu nunca mais raciocinase?! Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles Carinhos. as tesouras Brônzeas. O mesmo assombro que sentiu Parfeno Quando arrancou os olhos de Dionisos! Em giro e em redemoinho em mim caminham Ríspidas mágoas estranguladoras. haurindo o tépido ar sereno. eu vivo pelos matos. Os pães -. Beber a acre e estagnada água do charco. não prendi minha existência?! Por que Jeová. Por que me deu consciência dos meus atos Para eu me arrepender de todos eles?! Quisera antes. Magro.. Os cachorros anônimos da terra São talvez os meus únicos amigos! Ah! Por que desgraçada contingência À híspida aresta sáxea áspera e abrupta Da rocha brava. Por causa disto. Tais quais.

Com a flexibilidade de um molusco. Dorme num leito de feridas. Úmido. Beija a peçonha. onde não cuspa língua alguma O óleo rançoso da saliva humana! Uma região sem nódoas e sem lixos.Mas a carne é que é humana! A alma é divina. Subtraída à hediondez de ínfimo casco. E eu vou andando. Chupar os ossos das alimarias! Barulho de mandíbulas e abdômens! E vem-me com um desprezao por tudo isto Uma vontade absurda de ser Cristo Para sacrificar-me pelos homens! Soberano desejo! Soberana Ambição de construir para o homem uma Região. pegajoso e untuoso ao tacto! Reúnam-se em rebelião ardente e acesa Todas as minhas forças emotivas 158 . Onde a forca feroz coma o carrasco E o olho do estuprador se encha de bichos! Outras constelações e outros espaços Em que. cheio de chamusco. no agudo grau da última crise. goza O lodo. Comprar vestidos pretos numa loja E andar de luto pelo pai que é morto! E por trezentos e sessenta dias Trabalhar e comer! Martírios juntos! Alimentar-se dos irmãos defuntos. e não se contamina! Ser homem! escapar de ser aborto! Sair de um vente inchado que se anoja. O braço do ladrão se paralise E a mão da meretriz caia aos pedaços! II O sol agora é de um fulgor compacto. apalpa a úlcera cancerosa.

Com a rapidez duma semicolcheia.. Um pássaro alvo artífice da teia De um ninho.Augusto ... Por toda a parte a seiva bruta esguicha Num extravasamento involuntário. queime. bolem Nas árvores. Voam à semelhan ça de cabelos Os chicotes finíssimos dos juncos. em vez do nome -. Os ventos vagabundos batem. A terra cheira. Deleito a vista na verdura gorda Que nas hastes delgadas se balouça! Avisto o vulto das sombrias granjas Perdidas no alto. corte. no árdego trabalho. Possuir aí o nome dum arbusto Qualquer ou de qualquer obscura planta! 159 . depois de morrer. quero.. largando pêlos.. depois de tanta Tristeza. No chão coleia a lagartixa. pelo ar. Nos terrenos baixos. Eu. Em grandes semicírculos aduncos. O ar cheira. Olhando para as pútridas charnecas Grita o exército avulso das marrecas Na úmida copa dos bambus verdoengos. A câmara nupcial de cada ovário Se abre. fustigue.E armem ciladas como cobras vivas Para despedaçar minha tristeza! O sol de cima espiando a flora moça Arda. Das laranjeiras eu admiro os cachos E a ampla circunferência das laranjas. morda!. salta.. E a alma dos vegetais rebenta inteira De todos os corpúsculos do pólen. Entrançados. De árvore em árvore e de galho em galho. Ladra furiosa a tribo dos podengos.

III Pelo acidentalíssimo caminho Faísca o sol. unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança. O cupim negro broca o âmago fino Do teto. Na bruta dispersão de vítreos cacos. Trôpega e antiga. Como pela avenida das Mappales. Quantas flores! Agora. em vez de flores. O céu lembra uma lauda Do mais incorruptível pergaminho. sem conchego nobre. O ardente calor da areia forte Racha-me os pés como se fosse agulha. sentiu e amou este homem pobre Que carregava canas para o engenho! Nos outros tempos e nas outras eras. E traça trombas de elefantes Com as circunvoluções extravagantes Do seu complicadíssimo intestino. uma parede doente Mostra a cara medonha dos buracos. Me arrasta à casa do finado Toca ! Todas as tardes a esta casa venho. Os musgos. As lagartixas. Aqui. O lodo obscuro trepa-se nas portas. Urram os bois. dos esconderijos. Viveu. Estão olhando aquelas coisas mortas! Fico a pensar no Espírito disperso Que. outrora. O aziago ar morto a morte Fede. Não sei que subterrânea e atra voz rouca. Une todas as coisas do Universo! 160 . Nédios. Pintam caretas verdes nas taperas. Amontoadas em grossos feixes rijos. Por saibros e por cem côncavos vales. Uma atmosfera má de incômoda hulha Abafa o ambiente. À dura luz do sol resplandecente. batendo a cauda. Como um anel enorme de aliança. como exóticos pintores.

é o óbolo obscuro. É o dinheiro coberto de azinhavre Que o escravo ganha.E assim pensando. e se gritio é para que meu grito Seja a revelação deste Infiniti Que eu trago encarcerado da minh’alma! Sol brasileiro! queima-me os destroços! Quero assistir. À carbonização dos próprios ossos! 161 . E o espírito infeliz que em mim se encarna Se alegre ao sol. Súbito. Julgo ver este Espírito sublime. arrebentando a horrenda calma... sem pai que me ame. De pé.. Só. É o pedaço já podre de pão duro Que o miserável recebeu na estrada! Não são os cinco mil milhões de francos Que a Alemanha pediu a Jules Favre.. com a cabeça em brasas Ante a fatalidade que me oprime. Chamando-me do sol com as suas asas! Gosto do sol ignívomo e iracundo Como o réptil gosta quando se molha E na atra escuridão dos ares. trabalhando aos brancos! Seja este sol meu último consolo. A lamparina quando falta o azeite Morre. olha Melancolicamente para o mundo! Essa alegria imaterializada. Tudo enfim a mesma órbita percorre E as bocas vão beber o mesmo leite.. Grito. com a misericórdia de um tijolo!. da mesma forma que o homem morre. Que por vezes me absorve. aqui.. como quem raspa a sarna. à luz da consciência infame.

Lúbrica. urna de ovos mortos. a arquivar credos desfeitos. em contorções sombrias. funcionária dos instintos. ébria e lasciva. à luz do olhar protervo. E a mulher. Na vacuidade das entranhas frias O esgotamento intrínseco da besta! E ela que.. a âmbulas moles. em coréas doudas. Reduzidos. Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos. 162 . Espicaça-a a ignomínia. aliando. de cabelos ruivos. espremendo os peitos. Bramando. Sente. hórridos uivos Na mesma esteira pública.A MERETRIZ A rua dos destinos desgraçados Faz medo. como o estepe. Na sodomia das mais negras bodas Desarticula-se. por fim.. Ouvem-se os brados Da danação carnal. O eretismo das classes superiores E o orgasmo bastardíssimo da plebe! É ela que. Entre farraparias e esplendores. excita-a o açoite Do incêndio que lhe inflama a língua espúria. Na vizinhança aziaga dos ossuários Representa. através os meus sentidos. O Vício estruge. O indumento vilíssimo do servo Ao brilho da augustal toga pretexta. arremessada sobre o rude 'Despenhadeiro da decrepitude. Uma mulher completamente nua! É a meretriz que. hirta. recebe. à falta Da água criadora que alimenta as proles! É ela que. A escuridão dos gineceus falidos E a desgraça de todos os ovários! Irrita-se-lhe a carne á meia-noite. à lua. Com as mãos chagadas. Sofre em cada molécula a angústia alta De haver secado. Gane instintivamente de luxúria! Navio para o qual todos os portos Estão fechados. alta noite.

. É o hino Da matéria incapaz. Pagando com volúpia o crime eterno De não ter sido fiel ao seu destino! E o Desespero que se faz bramido De anelo animalíssimo incontido. em cada humana nebulosa. filha do inferno. alvo e desnudo A síntese eucarística de tudo Que não se realizou na Natureza! Antigamente. de bruços.. Passa agora ao clarão da lua acesa E é seu corpo expiatório. E é aterradora essa alegria de ossos Pedindo ao sensualismo que os esmague! É o pseudo-regozijo dos eunucos Por natureza. Ei-la.Chão de onde unia só planta não rebenta. no horror da ocídua fase Esterilizadora de órgãos. já morta essencialmente. Para a Finalidade Transcendente Gera o prodígio anímico da Insânia! Nas frias antecâmaras do Nada O fantasma da fêmea castigada. Lembra o ruído harto azorrague A vergastar ásperos dorsos grossos.. dos que são caducos Desde que a Mâe-Comum lhes deu início. Fulgia. Na óptica abreviatura de um reflexo. aos tácitos apelos Das suas carnes e dos seus cabelos. bêbeda de gozo Saciando o geotropismo pavoroso De unir o corpo à terra famulenta! Nesse espolinhamento repugnante O esqueleto irritado da bacante Estrala.. E a dor profunda da incapacidade Que.. E a Carne que.. pela própria hereditariedade A lei da seleção disfarça em Vício! É o júbilo aparente da alma quase A eclipsar-se... Toda a sensualidade tempestuosa Dos apetites bárbaros do Sexo! 163 . Mais que a vaga incoercível na água oceânea.

.. do deserto! Vede! A prostituição ofídia aziaga Cujo tóxico instila a infâmia. Pudera progredir. Como o .... Gorda a escorrer-lhe das artérias túmidas Lembrava um transbordar de ânforas cheias. hírcica. Ficou rolando. Na homofagia hedionda que o consome... Vinha saciar a milenária fome Dentro das abundâncias do seu leito! Toda a libidinagem dos mormaços Americanos fluía-lhe dos braços. rubros. decerto. Agarrou-se-lhe aos seios impudicos Como o abraço mortífero do Ficus 164 . Libertos da ancestral modorra calma. Saem da infância embrionária e erguem-se.. Brilha na prostituta moribunda Como a fosforescência sobre a lama! É a visita alarmante do que outrora Na abundância prospérrima da aurora. e a estraga Na delinqüência . Resíduos memoriais tornam-se luzes Fazem-se idéias e ela vê as cruzes Do seu martirológio miserando! Inícios atrofiados de ética. talvez. impune... Numa cenografia de diorama. Irradiava-se-lhe. Lançando a sombra horrível dos seus vultos Sobre a noite fechada daquela alma! É o sublevantamento coletivo De um mundo inteiro que aparece vivo. sonhos de culminância. Que. adultos. A hora da morte acende-lhe o intelecto E à úmida habitação do vício abjecto Afluem milhões de sóis.. das veias E em torrencialidades quentes e úmidas. Mas que.... adstrito a inferior plasma inconsútil.O atavismo das raças sibaritas. ânsia De perfeição. momentaneamente luz fecunda. radiando. como aborto inútil. Criando concupiscências infinitas Como eviterno lobo insatisfeito.

. ................................. condenada.. ..... ............................................................................... ........................................................................................................................ Na horrorosa avulsão da forma nívea Dizer ainda palavras de lascívia..... .. oca..................................... Mordeu-lhe a boca e o rosto........................................... ............... Enroscou-se-lhe aos abraços com tal gosto......................................... . .............. Oferecer-se à bicharia infame Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos! Sentir a língua aluir-se-lhe na boca E com a cabeça sem cabelos............................................................................................................................................................... ................... ........................... Ser meretriz depois do túmulo! A alma Roubada a hirta quietude da urbe calma Onde se extinguem todos os escolhos: E...................................Sugando a seiva da árvore a que se une! ...................................................... 165 ............................ ao trágico ditame.................... ...................

. Para que. Como um saco vazio dentro d’alma! 166 . por experiência. oposto a mim. do egoísta Modo de ver. Como Mársias -. Descasco-a. o observas. eu que idolatro o estudo.. poeta. chupo-a. este o amor não é que. pois. chegando à última calma Meu podre coração roto não role. é éter. Quis saber que era o amor. Cuida. Oposto ideal ao meu ideal conservas. é como a cana azeda. Diverso é. Pudera eu ter. em ânsias. Por conseguinte Chamas amor aquilo que eu não chamo. provo-a. enfim. atenta a orelha cauta. ilusão treda! O amor.o inventor da flauta -Vou inventar também outro instrumento! Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo Ambiciono. E hoje que. que o idioma em que te eu falo Possam todas as línguas decliná-lo Possam todos os homens compreendê-lo. amo Mas certo. não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes.VERSOS DE AMOR A um poeta erótico Parece muito doce aquela cana. Porque o amor. É Espírito. Imponderabilíssima e impalpável. É assim como o ar que a gente pega e cuida. é substância fluida. tal como eu o estou amando. Todas as ciências menos esta ciência! Certo. Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! Para reproduzir tal sentimento Daqui por diante. o ponto outro de vista Consoante o qual. conheço o seu conteúdo. Integralmente desfibrado e mole. entretanto. enfim. observo o amor. o egoísta amor este é que acinte Amas. consoante o qual. A toda a boca que o não prova engana.

Como Camões morrendo sobre um catre!" Nisto. Trabalharei assim dias inteiros. no quadrilátero da alcova. . Como Vulcano. Entendi. contra ele. horrendo e preto O áspide abjeto do Pesar se mova!. a tumbal janela E diz. em ânsias. com o seu grande grito. Que importa que.. Durante as vinte e quatro horas do dia! Riam de mim. opresso. os monstros zombeteiros. olhando o céu que além se expande: ".A LUVA Para o Augusto Belmont Pensa na glória! Arfa-lhe o peito. trágico e maldito. Escrevia Mais por impulso de idiosincrasia Do que por uma propulsão consciente. que devia.. trabalhar contente. Tenha a sorte de Cícero proscrito Ou morra embora. Sem ter uma alma só que me idolatre.. Vem-lhe á imaginação este soneto: "A princípio escrevia simplesmente Para entreter o espírito... abre.O pensamento é uma locomotiva Tem a grandeza duma força viva Correndo sem cessar para o Progresso. sobre a forja ardente Da ilha de Lemnos. Mas meu orgulho ainda é maior do que ela! Ruja a boca danada da profana Coorte dos homens..A maldade do mundo é muito grande. E só. depois disso. 167 .

Que meu orgulho do alto do Infinito Suplantará a própria espécie humana! Quebro montanhas e aos tutões resisto Numa absolta impassibilidade". Sobre a cidade geme a chuva. E como um desafio à eternidade Atira a luva para o próprio Cristo! Chove. Batem-lhe os nervos. E na suprema convulsão o doudo Parece aos astros atirar a luva! 168 . sacudindo-o todo.

e erguia. 169 . O reino mineral americano Dormia. É a potencialidade que me eleva Ao grande Deus. alto. E a ela se aliava o ardor das sirtes líbias. por ver-vos. Eu tinha a sensação de quem se esfola E inopinadamente o corpo atola Numa poça de carne liquefeita! -. sob os pés do orgulho humano.este sombrio personagem Do drama panteístico da treva! Depois de dezesseis anos de estudo Generalizações grandes e ousadas Traziam minhas forças concentradas Na compreensão monística de tudo.ca! Perante o inexorável céu aceso Agregações abióticas espúrias. Com a rebeldia acérrima dos nervos Minha atormentadíssima cabeça.NOITE DE UM VISIONÁRIO Número cento e três. Com os ligamentos glóticos precisos.“Que esta alucinação tátil não cresça!” -. A essa hora. Arimânico gênio destrutivo Desconjuntava minha autônoma alma Esbandalhando essa unidade calma. Como quem é levado para o hospício Aos trambolhões. E eu sí a tremer com a língua grossa E a volição no cúmulo do exício.Dizia. recebendo injúrias. nas telúrias reservas. Cortanto o melanismo da epiderme. E não haver quem. e absorve em cada viagem Minh’alma -. Rua Direita. E a cimalha minúscula das ervas. lhe entregue. Que forma a coerência do ser vivo. íntegra. num canto de carro. Como um cara. Mas a aguadilha pútrida o ombro inerme Me aspergia. banhava minhas tíbias. Recebiam os cuspos do desprezo. oh! céu.

Com a abundância de um geyser deletério. Um necrófilo mau forçava as lousas E eu -. me pediam.coetâneo do horrendo cataclismo -Era puxado para aquele abismo No redemoinho universal das cousas! 170 . com a símplice sarcode. Um pedaço de língua disponível Para a filogenética vingança! A cidade exalava um podre béfio: Os anúncios das casas de comércio. úmida e fresca.A liberdade de vingar em risos A angústia milenária que o persegue! Bolia nos obscuros labirintos Da fértil terra gorda. Dedos denunciadores escreviam Na lúgubre extensão da rua preta Todo o destino negro do planeta. O vibrião. o ancilóstomo. Vinha do coração quente da terra Um rumor de matéria dissolvida. Onde minhas moléculas sofriam. O motor teleológico da Vida Parara! Agora. E no estrume fresquíssimo da gleba Formigavam. Pela alta frieza intrínseca. lembravam Toalhas molhadas sobre as minhas pernas. A ínfima fauna abscôndita e grotesca Da família bastarda dos helmintos. Mais tristes que as elegais de Propércio. em diástoles de guerra. o colpode E outros irmãos legítimso da ameba! E todas essas formas que Deus lança No Cosmos. Pareciam talvez meu epitáfio. As vegetalidades subalternas Que osserenos noturnos orvalhavam. com o ar horrível. A química feroz do cemitério Transformava porções de átomos juntos No óleo malsão que escorre dos defuntos.

Um vento frio começou gemendo. rutilava Lantejoulada de opalinos crivos. . Feras rompiam tolos e balseiros. Os astros mortos refulgiam vivos E a noite. Em passo lento. a viúva.. Eternamente aberta ao sol e à chuva. Engalanava-lhe as paredes frias Uma coroa de urzes e de cardos Coberta em pálio pelas laçarias. foi transpondo a porta. se desenrolava A esteira astral da retração etérea. funeral mesquita. o passo constrangendo. dentro. E pelas catacumbas desprezadas. Uma vez. Já na eminência da amplidão sidérea Como uma umbela. Abandonada aos lobos e aos leopardos Numa floresta lúgubre e esquisita. Foram caindo como estalactites Sobre o ouro e a prata das alfaias priscas 171 . Parou em frente da mesquita morta. A Lua encheu o espaço sem limites E. Em atalaia às gerações passadas! Um crepúsculo imenso. aos lampejos derradeiros Das irisadas vespertinas velas.. Súbito alguém. Fulgia em tudo uma estriação violeta E um violáceo clarão banhava os mochos Que em torno estavam da mesquita preta. e o olhar errante.A VITÓRIA DO ESPÍRITO Era uma preta. Mochos vagavam como sentinelas. nunca visto Tauxiava o Céu de grandes roxos Da mesma cor da túnica de Cristo. nos altares esboroados. Era uma viúva. ampla e brilhante.

por um chão de onagras Vinha passeando corno numa viagem Um grupo feio de panteras magras. As flâmulas altivas Do sol nascente erguiam-se vermelhas. E raivosas. Além. Como uma exposição de carnes vivas. E iam cair em pérolas de sangue Sobre as asas doiradas das abelhas. as panteras todas Avançam para a viúva desvalida.Um dilúvio de fósforos prateados E uma chuva doirada de faíscas. A Natureza celebrava a festa Do astro glorioso em cantos e baladas . contra ela. No desfilar de sua carne morta A transitoriedade da matéria! 172 . Estrugiam canções desesperadas De misereres e de sustenidos. E havia no atro olhar dessas panteras Essa alegria doida da carnagem Que é a alegria única das feras. infernais ardendo Todas as feras. Fora. arremetendo. O espírito da viúva se quedara Ao contemplar dessa fulgente porta E dessa clara e alva redoma aérea. E sobre o corpo da viúva exangue. Morria a noite.O próprio Deus cantava na floresta! Nos arvoredos rejuvenescidos. entanto. Tiram-lhe todas ali mesmo a vida. na redoma clara Que envolve a porta da região etérea. E ardendo na impulsão das ânsias doidas E em sevas fúrias. entretanto.

Os olhos volvo para o céu divino E observo-me pigmeu e pequenino Através de minúsculos espelhos. afetando a forma de um losango. ostentando amplo floral risonho. brilha A árvore da perpétua maravilha. quem diante duma cordilheira.. E ao longe soam trágicos fracassos De heróis. Pára. Qual num sonho arrebatado fosse... exata. A saudade interior que há no meu peito.. partindo e fraturando os braços Nas pontas escarpadas dos rochedos! Mas de repente. Da qual.. tenho alucinações de toda a sorte. Na ilha encantada de Cipango tombo. no meio. Anunciando desmoronamentos De mil lajedos sobre mil lajedos.. E por essa finíssima epiderme Eis-me passeando como um grande verme Que. num enleio doce. Rica. trêmulo. em luz perpétua.. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas. Sente vontade de cair de joelhos! Soa o rumor fatídico dos ventos. Assim. entre assombros. À cuja sombra descansou Colombo! Foi nessa ilha encantada de Cipango. pela vez primeira. Atravessando os ares bruscamente.A ILHA DE CIPANGO Estou sozinho! A estrada se desdobra Como uma imensa e rutilante cobra De epiderfe finíssima de areia. passeia! A agonia do sol vai ter começo! Caio de joelhos. 173 .. Ofereço Preces a Deus de amor e de respeito E o Ocaso que nas águas se retrata Nitidamente repdoruz... ao sol. em plena podridão. Verde. Impressionado sem cessar com a Morte E sentindo o que um lázaro não sente.

. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. Iríamos a um país de eternas pazes Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio.. E como agora a lua cheia brilha! Ilha maldita vinte vezes a ilha Que para todo o sempre me fez triste! 174 ... Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha. Gozei numa hora séculos de afagos. Passa o seu enterro!. O Firmamento é uma caverna oblonga Em cujo fundo a Via-Láctea existe... A luz descreve siguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Banhei-me na água de risonhos lagos.Que Toscanelli viu seu sonho extinto E como sucedeu a Afonso Quinto Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho! Lembro-me bem.. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos! E a treva ocupa toda a estrada longa. Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrioi! Um penetrante e corrosivo frio Anestesiou-me a sensibilidade E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro.. E finalmente me cobri de flores. A tarde morre.

globo de louça Surgiu. A Lua . Mas desgraçado do pobre Que em meio da Vida cai! Esse não volta. Se um cai. a luzir Como um diamante de Ofir Imita a curva de um arco. fingindo cristais Das mais deslumbrantes cores. Espelham-se os esplendores Do céu. outro se ergue e sonha. Cantam! Os astros do Céu Ouçam e a Lua Cheia ouça! 175 . choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas. O Céu. de cima. Quem as esconda. Lá onde as rochas se assentam Fulguram como outros sóis Os flamívomos faróis Que os navegantes orientam. outro cai. as esconda.. em lúcido véu.. Vagueia um poeta num barco. em reflexos. nas Águas. Alegoria tristonha Do que pelo Mundo vai! Se um sonha e se ergue. Em fulvos filões doirados Cai a luz dos astros por Sobre o marítimo horror Como globos estrelados. esse vai Para o túmulo que o cobre. vem outra onda E nesse eterno vaivém Coitadas! não acham quem.BARCAROLA Cantam nautas. Vai uma onda.

. Haja silêncio no mar Para se ouvir a sereia. "Fecha-te nesse medonho "Reduto de Maldição. "Sonhador do último sonho! "Numa redoma ilusória "Cercou-te a glória falaz. Súbito o barco tombou Sem que o poeta o pressentisse! Vista de luto o Universo E Deus se enlute no Céu! Mais um poeta que morreu... E como um requiem profundo De tristíssimos bemóis..Ouça do alto a Lua Cheia Que a sereia vai falar. Sua voz é igual à voz Das dores todas do mundo. Que é que ela diz?! Será uma História de amor feliz? Não! O que a sereia diz Não é história nenhuma. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas! 176 .. porém. "Viajeiro da Extrema-Unção. forte. "Mas nunca mais. nunca mais "Há de cercar-te essa glória! "Nunca mais! Sê. Mais um coveiro do Verso! Cantam flautas. "O poeta é como Jesus! "Abraça-te á tua Cruz "E morre. poeta da Morte!" .E disse e porque isto disse O luar no Céu se apagou..

AVE LIBERTAS Ao clarão irial da madrugada. . risonho. e há de elevar-se neste sonho Ao topo azul das Glórias Imortais! Esplende. Enquanto fora na trevosa agrura Sucumbe o servilismo. oh Pátria. E ali do despotismo entre os escombros. pois. Há de transpor sereno os penetrais Da Pátria. e. A Liberdade assoma majestosa. essa bendita e branca Luz que os negrores da opressão espanca. Como um Tritão. Banhou-se o coração do Brasileiro Num eflúvio de luz auroreada. Caia do santuário lá da História. Que apouca o triunfo e que se chama sangue. Manchar não pode as aras da República. É que baqueia a vida escravizada! Já se ouvem os clangores do pregoeiro. Oh! Liberdade. levando ao mundo inteiro. A bênção do valor dos vossos filhos! 177 . Vós. Da República a nova sublimada. fazei que destes brilhos. Não! que esse ideal puro.Estrela d'Alva imaculada e pura! É livre a Pátria outrora opressa e exangue! Esse labéu que mancha a glória pública. oh! Redentora d'alma. Fulgente do valor da vossa glória. Rola um drama que a Pátria exalça e doura Numa auréola de paz imorredoura. esplendorosa. A República rola-lhe nos ombros. Essa luz etereal bendita e calma. Da liberdade ao toque alvissareiro.

Eleito Deus no altar do fetichismo! Tudo sacrifiquei para adorá-lo .. A compreensão da minha niilidade Aumenta à proporção que aumenta o dia E pouco a pouco o encéfalo me invade Numa clareza de fotografia. Uniformiza todos os anelos E une organizações fortes e fracas Nos mesmos laços e nos mesmos elos. Tenho vontade de estrangulá-lo E reduzi-lo muitas vezes a ossos! Todo o ser que no mundo turbilhona Veja do Amor. O amor reduz-nos a uniformes placas. Além. E o Sol arranca as minhas crenças como Boucher de Perthes arrancava fósseis. sem prever o abismo Fiz desse amor um ídolo de Roma. cantam óperas inteiras. à luz das minhas frases. Estremecendo em suas próprias bases. E em qualquer parte do Universo veja Sombrias ruínas de um solar egrégio E o desmoronamento duma Igreja Despedaçada pelo sacrilégio.ESTROFES SENTIDAS Eu sei que o Amor enche o Universo todo E se prende dos poetas à guitarra Como o Pólipo que se agarra ao lodo E a ostra que às rochas eternais se agarra. Passa um rebanho de carneiros dóceis. desvairado. 178 .. Uma montanha que se desmorona. Na área em que estou. vendo o horror dos meus destroços.Mas hoje. E. A Natureza veste extraordinárias Roupagens de ouro. nas oliveiras. Aves de várias cores e de várias Espécies. ao matinal assomo. Por muito tempo eu lhe sorvi o aroma.

Tal qual ela é. A inanidade da Ilusão demonstro Mas.Observo então a condição tristonha Da Humanidade. eu vou cantando a nênia Do Amor que eu tive e que se fez argila. tanjo minha harpa E a harpa saudosa a minha Dor exprime! Estes versos de amor que agora findo Foram sentidos na solidão de uma horta. demonstrando-a. Como Tirteu na guerra de Messênia! Transponho assim toda a sombria escarpa Sinistro como quem medita um crime. heroicamente. e não tal qual a sonha E a vê o Sábio pelo telescópio. à nitidez real dos aspectos. ébria de fumo e de ópio. À sombra dum verdoengo tamarindo Que representa a minha infância morta! 179 . E quando a Dor me dói. sinto um violento Rancor da Vida . à frente dele.. Da observação nos elevados montes Prefiro. na água Da misteriosíssima lagoa Que a língua humana denomina Mágoa! Dos meus sonhos o exército desfila E. construindo corpos quase informes E aquilo que é uma parcela apenas. O Sábio vê em proporções enormes Aquilo que é composto de pequenas Partes.este maldito monstro Que no meu próprio estômago alimento! Nisto a alma o oficio da Paixão entoa E vai cair. Ver mastodontes onde há mastodontes E insetos ver onde há somente insetos..

Muito longe. Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois. dos grandes espaços. De lá. Passo longos dias. Que o amor abriu no meu peito. se duvidas.CANTO ÍNTIMO Meu amor. olha estas feridas. erra. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra!" 180 . Um grande recolhimento Preside neste momento Todas as forças do Mundo. Onde há sonhos inefáveis Vejo os vermes miseráveis Que hão de comer os meus braços. Não me queixo mais da sorte Nem tenho medo da Morte Que eu tenho a Morte em mim mesmo! "Meu amor. Vem cá. a esmo. Ah! Se me ouvisses falando! (E eu sei que ás dores resistes) Dir-te-ia coisas tão tristes Que acabarias chorando. Muito longe. em sonhos erra. em sonhos. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra! O Sol está moribundo.

até que esta dor se concentre No âmago de meu peito e de minha saudade. e entre sorrisos e entre Mágoas soluço. escuridão e eterna claridade.. num volutuoso assomo. Amor. morre! E a alma se lhe dilui na amplidão infinita. numa delícia infinda. Caminha e vai. vendo-a. Sem um domingo ao menos de repouso. amor e frio. Queimam-me o peito cáusticos de fogo Esta ânsia de absoluto desafogo Abrange todo o circulo infinito. agonia. Na insaciedade desse gozo falho Busco no desespero do trabalho.. Frio que me assassina. e o sofrimento De minha mocidade. o louco. Fazer parar a máquina do instinto. murmura: .Misto de infinita mágoa e de crença infinita. oração. Neve da minha dor. neve. sinto A insaciabilidade desse gozo! 181 . e vê a luz e vendo Uma sombra que passa.. Nos desertos da Vida uma estrela fulgura E o Viajeiro do Amor. uma nuvem que corre. prece que ainda Entre saudades rezo. triste. agonia bendita! GOZO INSATISFEITO Entre o gozo que aspiro. Delícia que ainda gozo.. agonia bendita! .CANTO DE AGONIA Agonia de amor. . agonia! . Agonia de amar. experimento O mais profundo e abalador atrito... quanto mais me desespero.. abraça a sombra e. agonia. e cansado e morrendo O Viajeiro vai. neve do meu destino! E eu aqui a chorar nesta noite tão fria! Agonia. Mas.Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore como Chorei.. Neve que me embala como um berço divino. Numa prece de amor. ontem. a sós.Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve.Diz e morre-lhe a voz.

Triste. nesta maldita senda De sofrimento ignaro em sofrimento ignaro Ir caminhando até tombar sem um amparo No tremendo marneI da Desgraça tremenda?! II Noute! O silêncio vinha entrando pelo mundo E ele. do agro solo. oito vezes.O Hércules que ele fora! O fraco que ele hoje era! E surpreendido viu que um abismo se erguera Entre o fraco que era hoje. A terra escalda: é um forno. desoladoramente A revolver da terra o atro e infecundo arcano. Rasgando. do alegre Sol ao grande globo quente E pôs-se para aí. lúgubre e só. foi aos poucos se arrastando. aclara o mar e por tudo se estende E arde em tudo. alta e descompassada A dura vibração incômoda da enxada. Para as bordas fatais dum precipício fundo! Quis um momento ainda olhar para o Passado. Fez reboar pelo solo. A flama oriunda Da solar refração bate no mundo. acende O pó. trôpego e cambaleando Foi-se arrastando. a superfície bruta.... Mas o braço cansou! Trabalhou. e entre o Hércules de outrora! Pois havia de assim. E em tudo que o rodeava.HISTÓRIA DE UM VENCIDO I Sol alto.Do Eterno Bem motor principal e alavanca Arrancara-lhe a Crença assim como se arranca De um ninho a seda branca e de uma árvore o galho! Sangrou-lhe o coração a saudade da Aurora! . e o trabalho . E o Velho veio para o labor cotidiano.. funéreo 182 . mordendo a atra terra infecunda. Por seis horas seu braço empenhado na luta.

sozinho.. Somente entre a negrura atra da terra poenta Alguém beija. flutua! Ninguém o vê.. enquanto a Terra Vencedora Celebrava ao luar a Missa dos Vencidos! E o cadáver. alguém vela o cadáver: a Lua! 183 . avistar a Árvore da Esperança.. viveria! Viveria! E a fecunda e deleitosa seara Verde dos campos.. ninguém o acalenta.Horrorizado viu como num cemitério Cadáveres de um lado e cinzas de outro lado! De súbito. a flux d'água. E amplo. o Velho caminhava. ele pisasse os trilhos. e a sonhar. Compensaria toda a sua dor imensa Tal qual o Céu a dor de Cristo compensara! E aos tropeços. era a turba trovadora Que assim cantava.. no horror bruto da despedida Abraçou-se com a Dor. Que mal lhe haviam feito a esposa e a irmã e os filhos?! Preciso era viver! Portanto.. abraçou-se com a Vida E sepultou-se ali no coração das águas! Cantavam muito ao longe uns carmes doloridos! Eram tropeiros. o precipício estava..o último esforço. e ele quis falar e estava mudo! Mudo! E a quem contaria agora as suas mágoas?! E trágico. Nem viu que era chegado o termo da viagem. o cansaço Empolgara-o. o peito arqueou-se. a toa. e o braço Pendeu exangue. tombando. Caminhava. avistando uma frondosa tília Julgou. Num instante viu tudo. os filhos. e compreendendo tudo. onde arde e floresce a Crença.. o acalenta. bêbado de miragem. a família! Não morreria. pois! Somente morreria Se da Vida. louco. E bateram-lhe então de chofre na lembrança A casa que deixara. Quis fazer um esforço . a rugir-lhe aos pés.

Subindo á majestade do Infinito. da Noite ao negro assomo Beijam-lhe o corpo ensangúentado d'ouro. Raios flamejam e fuzilam ígneos. E os Sete Passos que magoaram Cristo! II Agora dorme o astro de sangue e de ouro Como um sultão cansado! As nuvens como Odaliscas. aos astrais desígnios. ígneo.Crepúsculo fatal vindo do Nada! Que importa o Sol! A Treva. Trazem no peito o branco das manhãs 184 . No ar há malabatros Turiferando a negridão tediosa. Atros.condensada treva A sombra desce.ocaso nunca visto. Nas chispas fulvas de um vulcão violento! E tudo em vão! Atrás da luz dourada.. E a Noite emerge. mudo. Descem os nimbos.eis tudo! E no meu peito . fulvos. Martirizado porque nunca dorme As Sete Chagas dum martírio enorme.. . volaterizadas. pompeiam (triste maldição!) . e o meu pesar se eleva E chora e sangra. Legiões de névoas mortas e finadas Como fragmentações d'ouro e basalto Lembram guirlandas pompeando no Alto Eterizadas. E há no meu peito . A VIa-Láctea vai abrindo os braços! Áureas estrelas. Além. a Sombra ..Asas de corvo pelo coração. mudo. sangrento O sol.. dourando as névoas dos espaços.. rubro. alvas. Na majestade dum condor bendito.. luminosas. santa e vitoriosa Dentre um velarium de veludos. Negras.IDEALIZAÇÕES A Santos Neto I Em vão flameja. e. mudo.

E dormem brancas corno leviatãs Sobre o oceano astral das nebulosas. de que serve Se é desespero e maldição todo ele?! Pois.o Sol . aclarando os cerros E engalanando os arvoredos gaios. E corno a Aurora . há-de Alva. Como Herculanum foi após as chamas.hóstia da Aurora. curvo ao seu destino. em lodo tudo acaba. se triste em cada Raio que tomba no marnel da terra. assassino Ébrio de fogo. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca. se erguer. á luz áurea que dele Emana e estua e se refrange e ferve. Abençoada pela Eternidade! E ei-lo de novo. como se esses raios N'alma caindo. a lesma. Mais em minh'alma um desespero brada?! De que serve. o mastodonte. entre esplendores. ontem moribundo. Eu amo a noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. lodo. se. ciclópico. Hoje de novo. Fantástico. e hás de ser após as chamas. a Aurora. de que serve.. Tudo por fim há de acabar na mesma Tênebra que hoje sobre ti desaba. O leão. em vão na luz do sol te inflamas. o tigre. A alma se abate. A Mágoa ferve e estua. como tombou outrora. Mais em meu peito uma ilusão se enterra. se. 185 . Vésper me encanta. se tornassem ferros?! IV Poeta. em plena e fulva reverberação. dominando o mundo! Mas de que serve o Sol. E nessa luz queimas4e em vão! És todo Pó. III De novo. Sírius me deslumbra. Ninguém se exime dessa lei imensa Que. Ah! Como tu..

sobe ao pedestal. Ergue. um pedestal de tanta Treva e dor tanta.Fera rendida à música divina. e.. como abutres Medonhos. Silêncio! Mas de novo as harpas Reboam pelo mar. onde.. e num supremo e insano E extraordinário e grande e sobre-humano Esforço. Vives de cinzas e de ruinarias! V Agora é noite! E na estelar coorte. Como recordação da festa diurna. Medonhas valas. de ossos. pelas escarpas. de ilusões te nutres. banha As serranias duma luz estranha.. pelas penedias. Pelos rochedos. Canto. Harpas concertam! Brandas melodias Plangem. foi valas funerais deixando.. a Lua que no céu se espalha. frias. Então. Vésper me encanta.. Eu amo a Noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. pois poeta.Arrasta as almas pela Escuridão. e minh'alma cobre-se de flores . E arrasta os coraç5es pela Descrença. E em vez de chagas e de cicatrizes Deixar. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca! 186 . Alva corno um pedaço de mortalha! Nessa música que a alma me ilumina Tento esquecer as minhas pr6prias dores. E foi deixando essas funéreas.. Iluminando as serranias.. Sírius me deslumbra.. Geme a pungente orquestração noturna E chora a fanfarra triunfal da Morte. canta! Canta a Descrença que passou cortando As tuas ilusões pelas raízes.

. Desta cidade pelas ruas erra A procissão dos Mártires da Terra Desde os Cristãos até Giordano Bruno! Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta... Por que não evitei o precipício Estrangulando minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! À proporção que a minha insônia aumenta Hierógafos e esfinges interrogo. nos céus altos. triunfalmente. em mágoa. A dispersão dos sonhos vagos reuno. Depois de embebedado deste vinho.Por que é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ou mapa-múndi estranha. eu também vou passando Sonâmbulo. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido Como um bemol e como um sustenido Rola impetuosa por meu peito adentro?! ... 187 . Mas. sonâmbulo. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Por que cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício... Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim. E invejo o sofrimento desta Santa. Em cujo olhar o Vicio não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse.INSÔNIA Noite.. sonâmbulo. logo Toda a alvorada esplêndida se ostenta.

Restitui-me a pureza da hematose E então uma interior metamorfose Nas minhas arcas cerebrais se opera. As árvores. por exemplo. em mágoa imerso. Atro dragão da escura noite. hedionda. Outra vez serei pábulo do susto E terei outra vez de. batendo na alma. contemplo As maravilhas reais do meu Pau d'Arco! Cedo virá.. o funerário. equilibrando-se na esfera. Cercado destas árvores. os corimbos. Respira com vontade a alma campônia! Grita a satisfação na alma dos bichos. Aqui. O odor da margarida e da begônia Subitamente me penetra o olfato. Estou alegre. Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos. Sacrificar-me por amor do Verso No meu eterno leito de Procusto! 188 . Agora.. Em que o Tédio. O Sol.. neste silêncio e neste mato. Com o olhar a verde periferia abarco. as flores.. Recordam santos nos seus próprios nichos.Vagueio pela Noite decaída. porém. estronda Como um grande trovão extraordinário. No espaço a luz de Aldebarã e de Árgus Vai projetando sobre os campos largos O derradeiro fósforo da Vida.

barro.MISTÉRIOS DE UM FÓSFORO Pego de um fósforo. aparece. Olho-o. De onde. harto. a esvaziar báquicos odres: . sinto O amargor especifico do absinto E o cheiro animalíssimo do parto! E afogo mentalmente os olhos fundos Na amorfia da cítula inicial. Risco-o Depois. porque um. ante Minha massa encefálica minguante Todo o gênero humano intra-uterino! É o caos da avita víscera avarenta . amorfo e lúrido. "Onde os ventres maternos ficam podres. são dois Túmulos dentro de um carvão promíscuo. é do sonho assíduo Que a individual psique humana tece e O outro é o do sonho altruístico da espécie Que é o substractum dos sonhos do indivíduo! E exclamo. por outra. o arquitetural e íntegro aspecto 189 . ébrio. por epigênese geral. através ovóide e hialino Vidro. "Na tua clandestina e erma alma vasta. é mais de um. certo. síntese má da podridão. Mergulho. E o que depois fica e depois Resta é um ou."Cinza. "Onde nenhuma lâmpada se acende. "Miniatura alegórica do chão. Olho-o ainda. "Meu raciocínio sôfrego surpreende "Todas as formas da matéria gasta!" Raciocinar! Aziaga contingência! Ser quadrúpede! Andar de quatro pés E mais do que ser Cristo e ser Moisés Porque é ser animal sem ter consciência! Bêbedo. Presto. irrupto. os beiços na ânfora ínfima. e na ínfima ânfora. Dois são. Todos os organismos são oriundos.Mucosa nojentíssima de pus. A nutrir diariamente os fetos nus Pelas vilosidades da placenta? Certo.

Do mundo o mesmo inda e. é todo aquele Que vem de um ventre inchado. sou eu. Migalha de albumina semifluida. que. na terra instável. dentre as tênebras. ínfimo e infecto! É a flor dos genealógicos abismos . o que nele Morre.Zooplasma pequeníssimo e plebeu. De onde o desprotegido homem nasceu Para a fatalidade dos tropismos. Na anfigonia que me produziu Nonilhões de moléculas de esterco. como nunca outro homem viu. sozinho. atender Ao pedido da célula cansada! Um dia restará. Move todos os meus nervos vibráteis. Então. mônada vil. é o céu abscôndito do Nada. cósmico zero. E este ato extraordinário de morrer Que há de na última hebdômada. Que mão sinistra e desgraçada encheu Os olhos tristes que meu Pai me deu De alfinetes. em segredo.. De minha antropocêntrica matéria Numa côncava xícara funérea Uma colher de cinza miserável! Abro na treva os olhos quase cegos.. O espectro angulosíssimo do Medo! Em cismas filosóficas me perco E vejo. de agulhas e de pregos?! Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis! Dentro um dínamo déspota. Se escapa. Na síntese acrobática de um salto. Basta um fósforo só Para mostrar a incógnita de pó. muito alto. Vida. Que fez a boca mística do druida E a língua revoltada de Lutero. sois vós. Depois. ora. Sob a morfologia de um moinho. Em que todos os seres se resolvem! 190 . Teus gineceus prolíficos envolvem Cinza fetal!. do meu espírito.

De onde quimicamente tu derivas. Adeus! Que eu veio enfim.. Na aclamação simbiótica do gozo! O enterro de minha última neurona Desfila. com a alma vencida Na abjeção embriológica da vida O futuro de cinza que me aguarda! 191 . E eis-me outro fósforo a riscar. E esse acidente químico vulgar Extraordinariamente me impressiona! Mas minha crise artrítica não tarda.Ah! Maldito o conúbio incestuoso Dessas afinidades eletivas..

192 . Sobes ao monte onde o edelweiss pompeia Nalma do que subiu àquele monte! Mas.Estas multidões Sonham pátrias doiradas de ilusões Entre os tórculos negros da Desgraça . lembras. a soberana Imagem pétrea das montanhas duras.. medras Nalma de cada virgem. tangendo tiorbas em volatas. .Flores que tombam quando a neve passa No turbilhão das avalanches bravas! Tudo dominas! Dos vergéis tranqüilos Aos Capitólios. Rendilhados de fulvas gemas raras E pontilhados de crisoberilos.dúlia Que na fibra mais forte e até na fibra Mais tênue. Ora. Amor. Sinos além bimbalham. E em tudo estruge a tua dúlia . Troa o conúbio dos amores velhos . desces ao segredo insonte Do mar profundo onde a sereia canta E onde a Alcíone trêmula se espanta Ouvindo a gusla crebra da sereia! Rompe a manha. E. e dos Capitólios Aos claros pulcros e brilhantes sólios De esplendor pulcro e de fulgências claras.. bate nos granitos E quebra as rochas e arrebenta as pedras! És soberano! Sangras e torturas! Ora. vezes..As borboletas e os escaravelhos Beijam-se no ar.. . Retroa o sino.ODE AO AMOR Enches o peito de cada homem. davas brandindo em seva e insana Fúria. Cantas a Vida que sangrando matas. quietos Beijam-se além os silfos e os insetos Sob a esteira dos campos que se orvalham. Beijam-te o passo multidões escravas Dos Desgraçados! . chora e se lamenta e vibra. e toda a alma Enches de beijos de infinita calma. E o aroma dos teus beijos infinitos Entra na terra.

aos astros. fosforeando. eis-me de ti cativo! Cativaste-me. Entre timbales e anafis estrídulos. Eis o motivo porque fiz esta ode. 193 . Egrégia estavas no teu plaustro egrégio Mais bela do que a Virgem de Corrégio E os quadros divinais de Guido Reni! Qual um crente em asiático pagode. Quedo. . impassível! Esta de amor ode queixosa. e eis o motivo. pois.Enorme força regeneradora Que faz dos homens um leão que dorme E do Amor faz uma potência enorme Que vela sobre os homens. beija os áureos pés dos ídolos. esse poder terrível. Irene. Irene. Assim. ontem.Essa dominação aterradora . Cativo. sonhei-a. quando Entre estrias de estrelas. Irene.E em cada peito onde um Ocaso chora Levanta a cruz da redenção da Aurora Como a Judite a redimir Betúlia! Bem haja.

a ouvir Cada átomo de ferro Contra a incude esmagado Sofrer. tinir. No horror da metalúrgica batalha O ferro chiava e ria! Ria. ao meio-dia. Quase com febre. erguido do pó. Inopinadamente 194 . provinha Como de um negro cáspio de água impura A multissecular desesperança De sua espécie abjeta Condenada a uma estática mesquinha! Ria com essa metálica tristeza De ser na Natureza. Trinta e seis graus à sombra.NUMA FORJA De inexplicáveis ânsias prisioneiro Hoje entrei numa forja. Onde a Matéria avança E a Substância caminha Aceleradamente para o gozo Da integração completa. Cujo negror profundo Astro nenhum exorna Gritando na bigorna Asperamente a sua própria dor! Era. Dentro. Compreendia por fim que aquele berro À substância inorgânica arrancado Era a dor do minério castigado Na impossibilidade de reagir! Era um cosmos inteiro sofredor. Uma consciência eternamente obscura! O ferro continuava a chiar e a rir. bruta. E eu nervoso. a cuspir escórias De fúlgida limalha Dardejando centelhas transitórias. O éter possuía A térmica violência de um braseiro. Da qual. num sardonismo doloroso De ingênita amargura. irritado. berrar.

A ouvir todo esse cosmos potencial. Essa angústia alarmante Própria de alienação raciocinante. afinal.O ígneo jato vulcânico Que. Cansado de estar só! Era a revelação De tudo que ainda dorme No metal bruto ou na geléia informe No parto primitivo da Criação! Era o ruído-clarão. . atravessando a absconsa cripta enorme De minha cavernosa subconsciência. A ansiedade de um mundo Doente de ser inerte. Punha em ciarividência Intramoleculares sóis acesos Perpetuamente às mesmas formas presos.Para que à vida quente Da sinergia cósmica desperte. Agarrados à inércia do Inorgânico Escravos da Coesão! Repuxavam-me a boca hórridos trismos E eu sentia. em lúgubre crescendo A antífona assimétrica E o incompreensível wagnerismo aziago De seu destino horrendo! Ao clangor de tais carmes de martírio Em cismas negras eu recaio imerso Buscando no delírio De uma imaginação convulsionada Mais revolta talvez de que a onda atlântica Compreender a semântica Dessa aleluia bárbara gritada Às margens glacialíssimas do Nada Pelas coisas mais brutas do Universo! 195 . Preso aos mineralógicos abismos Angustiado e arquejante A debater-se na estreiteza bronca De um bloco de metal! Como que a forja tétrica Num estridor de estrago Executava. Cheia de ânsias e medos Com crispações nos dedos Piores que os paroxismos Da árvore que a atmosfera ultriz destronca.

De amores bons à sombra Quero em cheirosa alfombra Pousar os sonhos lassos! Teus seios. Aperta-me em teu peito. divina. Assim como Jesus. Eu quero o meu Calvário .Relíquias de Carrara Têm a ambrosia rara Da mais rara verbena. Morreu-te a redolência. Alma das virgens mortas Mas não! Apaga os traços De tão funesto aspeito... Embala-me em teus braços! 196 . oh! morena . Aperta-me em teu peito. E dá-me assim. De lírios e boninas Um veludíneo leito.QUADRAS Embala-me em teus braços.Anelo morrer vário Dos braços teus na Cruz! Porque não me confortas?! Bem sei. perdeste a ciência.

três.Uma. e. tonta Sinto a cabeça e a conta perco. Tenho 300 quilos no epigastro. em ânsias: . Agora a cara do astro Lembra a metade de uma casca de ovo. de enterrar-me todo Naquele semicírculo medonho! Mas tudo isto é ilusão de minha parte! Quem sabe se não é porque não saio Desde que. através do vidro azul. Este Engenho Pau d'Arco é muito triste. duas. Dói-me a cabeça. parece Um paralelepípedo quebrado! O sono esmaga o encéfalo do povo... Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?! A lâmpada a estirar línguas vermelhas Lambe o ar. quando a noite cresce. E aos tombos... em suma. quatro...Uma. A conta recomeço. Vista. 6. Morde-me os nervos o desejo doudo De dissolver-me. Variando à ação mecânica dos dedos! Vai-me crescendo a aberração do sonho. Mas novamente eis-me a perder a conta! 197 .. 3 de maio.TRISTEZAS DE UM QUARTO MINGUANTE Quarto Minguante! E. Aumentam-se-me então os grandes medos.. No bruto horror que me arrebata. O hemisfério lunar se ergue e se abaixa Num desenvolvimento de borracha. Como um degenerado psicopata Eis-me a contar o número das telhas! . Diabo! Não ser mais tempo de milagre! Para que esta opressão desapareça Vou amarrar um pano na cabeça1 Molhar a minha fronte com vinagre. Nos engenhos da várzea não existe Talvez um outro que se lhe equipare! Do observatório em que eu estou situado A lua magra. embora a lua o aclare.ª-feira.

. Cinco lençóis balançam numa corda.. Tal urna planta aquática submersa.. Choro e quero beber a água do choro Com as mãos dispostas á feição de conchas. Um frio Cai sobre o meu estômago vazio Como se fosse um copo de sorvete! A alta frialdade me insensibiliza.aquela grande aranha Que anda tecendo a minha desventura! A luz do quarto diminuindo o brilho Segue todas as fases de um eclipse. Caem-me de uma só vez todos os dentes! Então dois ossos roídos me assombraram.vis raízes adventícias No algodão quente de um tapete persa. Minha família ainda está dormindo E eu não posso pedir outra camisa! Abro a janela. Começo a ver coisas de Apocalipse No triângulo escaleno do ladrilho! Deito-me enfim. .. Meu tormento é infindo. Elevam-se fumaças Do engenho enorme. Por muito tempo rolo no tapete."Por ventura haverá quem queira roer-nos?! Os vermes já não querem mais comer-nos E os formigueiros lá nos desprezaram".Estarei morto?! E a esta pergunta estranha Responde a Vida .Sucede a uma tontura outra tontura. Mas aquilo mortalhas me recorda.. Súbito me ergo.. Ponho o chapéu num gancho. Antegozando as últimas delicias Mergulho as mãos . Tomba uma torre sobre a minha testa.. . Vêm-me á imaginação sonhos dementes. por exemplo. A lua é morta. Acho-me. Figuras espectrais de bocas tronchas Tornam-me o pesadelo duradouro.. O suor me ensopa.. A luz fulge abundante 198 .. numa festa. E o amontoamento dos lençóis desmancho.

o solo um caramujo Naturalmente pelos mata-pastos. no ato da entrega Do mato verde. Côncavo. Pelos respiratórios tênues tubos Dos poros vegetais. se ostenta A monarquia da árvore opulenta Que dá aos homens o óbolo dos frutos. oh! Vida em que a sofrer me exortas Eu estaria como as bestas mortas Pendurado no bico dos abutres! 199 . numa última cobiça. radiante e estriado. em diâmetro. cheios Dos tenros tinhorões e da úmida erva. Babujada por baixos beiços brutos. De mim diverso. Entretanto. nestes bucólicos retiros Toda a salva fatal de 21 tiros Que festejou os funerais de Hamleto! Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas! Quisera ser. feliz. hierática. passei o dia inquieto. a terra resfolega Estrumada. Vários reptis cortam os campos. cheia de adubos. observa A universal criação. No húmus feraz. A ouvir. Broncos e feios. rígido e de rastos Com a solidez do tegumento sujo Sulca.E em vez do sepulcral Quarto Minguante Vi que era o sol batendo nas vidraças. o céu. A fatia esponjosa de carniça Que os corvos comem sobre as jurubebas! Porque. longe do pão com que me nutres Nesta hora.

vão cheirar. Mãos que adquiriram olhos.. Pertencentes talvez. em sangue.MÃOS Há mãos que fazem medo Feias agregações pentagonais. a farpas de rochedo Completamente iguais. Umas. quebrando portas O azul gasofiláceo silencioso Dos tálamos cristãos. mãos mais sanguinárias E estupradoras do que os bisturis Cortando a carne em flor das crianças mortas.. às da neve. a delinqüentes natos. negras. ás dos cristais. Assinalados pelo mancinismo.. Mãos de linhas análogas e anfratos Que a Natureza onicriadora fez Em contraposição e antagonismo Às da estrela. Monstruosíssimas mãos. E à noite. 200 . tentáculos sutis. Outras. Que apalpam e olham com lascfvia e gozo A pureza dos corpos infantis. Mãos adúlteras.. pituitárias Olfativas.

Lotus diluído n'alma dum cipreste! Como um lilás eternizando abrolhos Tinge de roxo o arminho da grinalda. langue e seminua. Opalescência trágica da lua! Tu. Pareces reviver a antiga Ofélia. Recordo o beijo que te dei nas tranças Emolduradas num florão de riços.. E que ela suba na serena gaza Dos mistérios dourados e serenos À terra Ideal das púrpuras em brasa E ao Céu doirado e auroreal de Vênus! 201 . No vácuo imenso das desesperanças E dos passados viços. Rola a violeta santa dos teus olhos . pálida camélia. Brande-lhe n'alma o frio dos sepulcros.a Carne..VÊNUS MORTA A Via-Sacra Azul do amor primeiro Veste hoje o luto que a desgraça veste No miserere do meu desespero.Tufos de goivo em conchas de esmeralda. Reza-lhe todo o cantochão memento Dessa Missa de amor da Extrema Agrura. plangente. Eu guardo o travo deste beijo ardente E a Nostalgia desta Pátria . E como um nume de pesar. Sonho abraçar-te. Abençoada pelo meu tormento E consagrada pela sepultura. Mas neste sonho. Crava-lhe n'alma o tirso das bacantes. oh Quimera. Guarda a saudade que levou do Mame. . de reverberantes E rubras asas de beliantos pulcros.

almas e oceanos As formas microscópicas do mundo! Era a larva agarrada a absconsas landes. uivando hoffmânnicos dizeres. Sentia estar pisando com a planta ávida Um povo de radículas e embriões Prestes a rebentar como vulcões. Em que as formas humanas se sumiam! Reboava. era só O ocaso sistemático de pó. enquanto eu tropeçava sobre os paus. Mergulhar minha exótica visão Na intimidade noumenal dos seres. Do ventre equatorial da terra grávida! Dentro de mim. num ruidoso borborinho Bruto.. Mas o que meus sentidos apreendiam Dentro da treva lúgubre. E. Aprazia-me assim. com uma vela acesa. análogo ao peã de márcios brados.. A rebeldia dos meus pés danados Nas pedras resignadas do caminho. Convulsionando Céus. de onde decorrem Todas essas moléculas que morrem Nas transubstanciações da Natureza. Cruzes na estrada. No desespero de não serem grandes! 202 . Aves com frio. na escuridão. Era o abjeto vibrião rudimentar Na impotência angustiosa de falar. A efígie apocalíptica do Caos Dançava no meu cérebro sombrio! O Céu estava horrivelmente preto E as árvores magríssimas lembravam Pontos de admiração que se admiravam De ver passar ali meu esqueleto! Sozinho. Choravam. com soluços quase humanos. como num chão profundo. O feto original.VIAGEM DE UM VENCIDO Noite. Eu procurava.

O brado emocionante de vindicta Das sensibilidades solitárias! A longanimidade e o vilipêndio. Doía profundamente no meu crânio Esse funcionamento simultâneo De todos os conflitos da matéria! Eu. a esclarecer As manchas subjetivas do meu ser A espionagem fatídica dos astros! Sentinelas de espíritos e estradas. Brilhava. de onde se vê o Homem de rastros. vingadora. A abstinência e a luxúria. perdido no Cosmos. Mas das árvores. Noite alta. na ânsia dos párias. o bem e o mal Ardiam no meu orco cerebral. Cumpria-se afinal dentro de mim O próprio sofrimento da Substância! Como quem traz ao dorso multas cargas Eu sofria. ao colher simples gardênia. Numa crepitação própria de incêndio! Em contraposição à paz funérea. Onde Ormuzd guerreava com Arimã. com a sidérica lanterna. horrenda e monótona. Na óssea armação das vértebras simétricas A angústia da biológica engrenagem! No Céu. A multiplicidade heterogênea De sensações diversamente amargas. Eles entravam todos na caverna Das consciências humanas mais fechadas! Ao castigo daquela rutilância. Como o protesto de uma raça invicta.Vinha-me á boca. Fluía. uma voz 203 . assim. Maior que o olhar que perseguiu Caim. frias como lousas. Na discórdia perpétua do sansara! Já me fazia medo aquela viagem A carregar pelas ladeiras tétricas. me tornara A assembléia belígera malsã.

enquanto Deus. tão profunda. a Energia A última etapa da objetivação?! É inútil. Rir da desgraça que de ti ressuma É quase a mesma coisa que chorar!" 204 . em suma. amanhã píncaros galgas. pois. diante do Homem. ovário. Tragicamente. A humildade botânica das algas De que grandeza não será capaz?! Quem sabe. choramos. tão feroz Que parecia vir da alma das cousas: "Se todos os fenômenos complexos. árvore. Na prisão milenária dos subsolos. Para esconder-se nessa esfinge grande. obscuro. Rasgando avidamente o húmus malsão.. do Equador aos pólos. Porque em todas as coisas. Para erguer.Tão grande. rimos Das vãs diatribes com que aturdes o ar. Se a contração que hoje produz o choro Não há de ser no século vindouro Um simples movimento para rir?! Que espécies outras. montanha. com a febre mais bravia. Se hoje. a espiar enigmas. Deu4e (oh! mistério que se não traduz!) Neste astro ruim de tênebras e abrolhos A efeméride orgânica dos olhos E o simulacro atordoador da Luz! Por isto. se ergue A esfinge do Mistério Universal! A própria força em que teu Ser se expande. afinal. isto é. entres Na química genésica dos ventres. oh! filho dos terráqueos limos. arvoredos desterrados. Crânio. Nós. iceberg. Desde a consciência à antítese dos sexos Vem de um dínamo fluídico de gás. Não trabalham. porque. que. na ânsia cósmica. Rimos.. Jeová ou Siva Oculta à tua força cognitiva Fenomenalidades que hão de vir.

desgraçadamente magro. Reproduzida pelos arvoredos! Agora. A voz cavernosíssima de Deus. a escalar Céus e apogeus. Eu fora. A maior expressão do homem vencido Diante da sombra do Mistério Eterno! 205 .As vibrações daquele horrível karma Meu dispêndio nervoso era tamanho Que eu sentia no corpo um vácuo estranho Como uma boca sôfrega a esvaziar-me! Na avançada epiléptica dos medos Cria ouvir. Tinha necessidade de esconder-me Longe da espécie humana. astro decrépito. naquela noite de ânsia e inferno. a erguer-me. Eu. alheio ao mundanário ruído. com os meus ossos! Restava apenas na minha alma bruta Onde frutificara outrora o Amor Uma volicional fome interior De renúncia budística absoluta! Porque. em destroços.

. rolando dos últimos degraus. pela boca.QUEIXAS NOTURNAS Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio. era preciso a tinta Feita de todos os tormentos do homem! Como um ladrão sentado numa ponte Espera alguém. é o prélio enorme. é a rebelião Da criatura contra a natureza! Para essas lutas uma vida é pouca Inda mesmo que os músculos se esforcem. quero até rompê-las! Quero. E muitas vezes a agonia é tanta Que. armado de arcabuz. As minhas roupas. Abraçado com todas as estrelas! A Noite vai crescendo apavorante E dentro do meu peito. em coalhos. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. 206 . Os pobres braços do mortal se torcem E o sangue jorra. no combate. arrancado das prisões carnais. Para pintá-lo. A Eternidade esmagadora bate Numa dilatação exorbitante! E eu luto contra a universal grandeza Na mais terrível desesperação É a luta. Estou á espera de que o Sol desponte! Bati nas pedras dum tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza é minha única saúde. entre estes monstros. Na ânsia incoercível de roubar a luz. Minh'alma sai agoniada. Viver na luz dos astros imortais. O quadro de aflições que me consomem O próprio Pedro Américo não pinta.. ando! Não trago sobre a túnica fingida As insígnias medonhas do infeliz Como os falsos mendigos de Paris Na atra rua de Santa Margarida.

Igual á luta dos cristãos e mouros! Sobre histórias de amor o interrogar-me E vão.. é improfícuo. Ah! Por todos os séculos vindouros Há de travar-se essa batalha vã Do dia de hoje contra o de amanhã. E é tudo: o pão que como. faz mal. Estrangulado pelas rodas brutas Do mecanismo que tiver mais força. a água que bebo. é inútil. O coração do Poeta é um hospital Onde morreram todos os doentes. enfim. Este relógio trágico que marca Todos os atos da tragédia humana! Seja esta minha queixa derradeira Cantada sobre o túmulo de Orfeu. Seja este. Se algum dia o Prazer vier procurar-me Dize a este monstro que eu fugi de casa! 207 . O velho tamarindo a que me encosto! Vou enterrar agora a harpa boêmia Na atra e assombrosa solidão feroz Onde não cheguem o eco duma voz E o grito desvairado da blasfêmia! Que dentro de minh'alma americana Não mais palpite o coração . o último canto meu Por esta grande noite brasileira! Melancolia! Estende-me a tu'asa! És a árvore em que devo reclinar-me.O Hércules treme e vai tombar no caos De onde seu corpo nunca mais levanta! É natural que esse Hércules se estorça. A bênção matutina que recebo. em suma.. O amor tem favos e tem caldos quentes E ao mesmo tempo que faz bem..esta arca.. E tombe para sempre nessas lutas. Não sou capaz de amar mulher alguma Nem há mulher talvez capaz de amar-me. Hoje é amargo tudo quanto eu gosto.

Levanta contra mim grandes cutelos E as baionetas dos dragões antigos! 208 . come. Sai para assassinar o mundo inteiro.. Então meu desvario se renova.esta carnívora assanhada -Serpente má de língua envenenada Que tudo que acha no caminho. à meia-noite. estudo. a 1 de Janeiro. vendo o verme frio Que há de comer a minha carne toda! É a Morte -. Para onde vou (o mundo inteiro o nota) Nos meus olhares fúnebres. A Morte. numa cova. em trajes pretos e amarelos.. E o mundo inteiro não lhe mata a fome! Nesta sombria análise das cousas. sozinho.. Como que. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. ouvindo um grande estrondo. carrego A indiferença estúpida de um cego E o ar indolente de um chinês idiota! A passagem dos séculos me assombra. Corro.. Na podridão daquele embrulho hediondo Reconheço assombrado o meu Destino! Surpreendo-me..Faminta e atra mulher que. -. abrindo todos os jazigos. na vertigem: -. Intimamente sei que não me iludo. Arranco os cadáveres das lousas E as suas partes podres examino.Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade.. Em vão com o grito do meu peito impreco! Dos brados meus ouvindo apenas o eco. Mas de repente. Eu torço os braços numa angústia douda E muita vez.POEMA NEGRO A Santos Neto Para iludir minha desgraça. e a mim pergunto. rio Sinistramente.

. e quando vi o que era. os soldados Buardam o corpo do Divino Mestre.E quando vi que aquilo vinha vindo Eu fui caindo como um sol caindo De declínio em declínio. oh! Natureza! Eu desafio agora essa grandeza. canalha. Cai no silêncio da Cidade Eterna A água da chuva em largos fios grossos. Deixa-te estar. A trava invade o obscuro orbe terrestre No Vaticano. Contra a agressão dos teus contrastes juntos A besta. Chocalha os dentes com medonha fúria Como se fosso o atrito de dois ferros! Pois bem! Chegou minha hora de vingança. Quis ver o que era.. Como as estalactites da caverna. em grupos prosternados. e de declínio Em declínio. acorda em berros Acorda. Perante a qual meus olhos se extasiam.. No histerismo danado da tortura Todos os monstros que os teus peitos criam. desta cova escura. Amarrado no horror de tua rede. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Semeadora terrível de defuntod. É Sexta-feira Santa.. que eu me vingo! Súbito outra visão negra me espanta! Estou em Roma. Tu mataste o meu tempo de criança E de segunda-feira até domingo. Vi que era pó. e após gritar a última injúria... velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. Por tua causa apodreci nas cruzes. como a gula de uma fera. De Jesus Cristo resta unicamente 209 . Deste-me fogo quanto eu tinha sede. que em mim dorme. vi que era esterquilínio! Chegou a tua vez. Tu não és minha mãe. Com as longas fardas rubras. Eu desafio.

. Dentro da igreja de São Pedro. a gente Sente vontade de abraçar-lhe os ossos! Não há ninguém na estrada da Ripetta. no ar de minha terra. num rumor forte Recomeça o barulha das matracas. Na agonia de tantos pesadelos Uma dor bruta puxa-me os cabelos. Na Eternidade. O céu dorme. e a gente. Na molécula e no átomo.. O vento entoa cânticos de morte. Desperto. somente eu. A desagregação da minha Idéia Aumenta. vendo-o. As luzes funerais arquejam fracas. A árvore dorme Eu.Um esqueleto. com a minha dor enorme Os olhos ensangüento na vigília! E observo. enquanto o horror me corta a fala O aspecto sepulcral da austera FIM 210 . Roma estremece! Além. Resume A espiritualidade da matéria E ele é que embala o corpo da miséria E faz da cloaca uma urna de perfume.. quieta. o desalento e o desconforto Paralisam-me os círculos motores.. Como as chagas da morféia O medo. os ventos gemedores Estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na serra Da Borborema. É tão vazia a minha vida! No pensamento desconexo e falho Trago as cartas confusas de um baralho E pedaço de cera derretida! Dorme a casa.

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