EU, TODOS OS SONETOS E OUTRAS POESIAS

(OBRA COMPLETA)

AUGUSTO DOS ANJOS

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Autor: Augusto dos Anjos Título: Eu, todos os sonetos e outras poesias Data da Digitalização: 2004 Data Publicação Original: Primeiras décadas do séc. XX

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ÍNDICE
Introdução
As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos (por Horácio de Almeida) ....................................... 06 Um Currículo Escrito pelo próprio poeta (respostas ao inquérito de Licínio dos Santos) .............. 33

Sonetos
O Morcego ..................................................34 Psicologia de um Vencido ......................... 34 A Idéia ....................................................... 35 O Lázaro da Pátria ..................................... 35 Idealização da Humanidade Futura ........... 36 Soneto ao Meu Primeiro Filho .................. 36 Versos a um Cão ....................................... 37 O Deus-Verme .......................................... 37 Debaixo do Tamarindo .............................. 38 Budismo Moderno ..................................... 38 Sonho de um Monista ................................ 39 Solitário ..................................................... 39 Mater Originalis ........................................ 40 O lupanar ................................................... 40 Idealismo ................................................... 41 Último Credo ............................................. 41 O Caixão Fantástico .................................. 42 Solilóquio de um Visionário ..................... 42 A um Carneiro Morto ................................ 43 Vozes da Morte ......................................... 43 Insânia de um Simples .............................. 44 Asa de Corvo ............................................. 44 O Martírio do Artista ................................. 45 O Mar, a Escada e o Homem ..................... 45 Decadência ................................................ 46 Ricordanza della mia Gioventú ................. 46 A Um Mascarado ...................................... 47 Vozes de um Túmulo ................................ 47 Contrastes .................................................. 48 Soneto I a meu pai doente ......................... 48 Soneto II a meu pai morto ......................... 49 Soneto III ................................................... 49 Depois da Orgia ......................................... 50 A Arvore da Serra ..................................... 50 Vencido ..................................................... 51 O Corrupião ............................................... 51 Alucinação a Beira Mar ............................. 52 Vandalismo ............................................... 52 Versos Íntimos .......................................... 53 Vencedor ................................................... 53 Eterna Mágoa ............................................ 54 O Lamento das Coisas .............................. O Meu Nirvana ......................................... Caput Immortale ....................................... Apóstrofe a Carne ..................................... Louvor a Unidade ..................................... O Pântano ................................................. Supreme Convulsion ................................. A Um Gérmen .......................................... Natureza Íntima ........................................ A Floresta ................................................. Guerra ....................................................... O Sarcófago .............................................. Hino a Dor ................................................ Última Visio ............................................. Aos Meus Filhos ....................................... A Dança da Psique .................................... O Poeta do Hediondo ................................ A Fome e o Amor ..................................... Homos Infimus ......................................... Minha Finalidade ...................................... Noli Mi Tangere ....................................... O Canto dos Presos ................................... Aberração .................................................. Vítima do Dualismo .................................. Ao Luar ..................................................... A Um Epiléptico ....................................... Canto da Onipotência ............................... Minha Arvore ........................................... Anseio (Quem Sou Eu...) .......................... Revelação I ............................................... Revelação II .............................................. Versos a um Coveiro ................................ Trevas ....................................................... As Montanhas I ......................................... As Montanhas II ....................................... Apocalipse ................................................ A Nau ........................................................ Volúpia Imortal ......................................... O Fim das Coisas ...................................... A Noite ..................................................... A Obsessão do Sangue ............................. 54 55 55 56 56 57 57 58 58 59 59 60 60 61 61 62 62 63 63 64 64 65 65 66 66 67 67 68 68 69 69 70 70 71 71 72 72 73 73 74 74

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Vox Victimae ............................................ Agonia de Um Filósofo ............................. O Último Número ..................................... Saudade ..................................................... Abandonada ............................................... Ceticismo ................................................... Mágoas ...................................................... Ouvi, Senhora ............................................ Triste Regresso .......................................... Infeliz ........................................................ N’augusta solidão dos cemitérios ............. Noivado ..................................................... No meu peito arde .................................... A Máscara ................................................. Amor e Religião ........................................ Canta no espaço a passarada ..................... O Coveiro .................................................. Pecadora .................................................... No Claustro ............................................... Il Trovatore ................................................ A Louca ..................................................... Primavera .................................................. A Esperança .............................................. Senhora, eu trajo o luto do passado .......... Sofredora ................................................... Ecos d’Alma .............................................. Amor e Crença .......................................... Ariana ........................................................ Tempos Idos .............................................. Na rua em funeral ei-la que passa ............. Adeus, adeus, adeus! E, suspirando... ....... A Aeronave ............................................... Lirial .......................................................... A Minha Estrela ........................................ A praça estava cheia.... .............................. A Esmola de Dulce .................................... Ave Dolorosa ............................................ Gênio das trevas lúgubres... ...................... Nimbos ...................................................... O Mar ....................................................... Anseio (Nessas Paragens Desoladas...) ..... Aurora Morta, Foge! ................................. No Campo ................................................. Canta o Teu Riso Esplendida Sonata ........ Cravo de Noiva ......................................... Plenilúnio .................................................. Insânia ....................................................... O Bandolim ...............................................

75 75 76 76 77 77 78 78 79 79 80 80 81 81 82 82 83 83 84 84 85 85 86 86 87 87 88 88 89 89 90 90 91 91 92 92 93 93 94 94 95 95 96 96 97 97 98 98

Ara Maldita ............................................... 99 Na etérea limpidez... ................................ 99 Treva e Luz ............................................ 100 O Templo da Descrença .......................... 100 A Peste .................................................... 101 Ideal ........................................................ 101 Cítara Mística ......................................... 102 Súplica num Túmulo .............................. 102 Afetos ..................................................... 103 Martírio Supremo .................................. 103 Sombra Imortal ....................................... 104 Coração Frio ........................................... 104 Noturno (Para o Vale Noital...) ............... 105 Sedutora .................................................. 105 Pelo Mundo ............................................. 106 E o Mar Gemeu a Funda Melopéia ......... 106 O Riso .................................................... 107 Vamos, Querida! ..................................... 107 A uma Mártir ......................................... 108 Régio ...................................................... 108 Pelo Mar ................................................. 109 Pallida Luna ............................................ 109 A Morte de Vênus ................................... 110 Mártir da Fome ....................................... 110 Sonho de Amor ....................................... 111 A Orgia Mata a Mocidade ...................... 111 Festival ................................................... 112 Noturno (Chove, lá fora...) ...................... 112 E Ele Morreu .......................................... 113 Vaes Victis .............................................. 113 A Dor ..................................................... 114 Terra Fúnebre ......................................... 114 O sonho, a Crença e o Amor ................... 115 Meditando ............................................... 115 Para Quem Tem na Vida... ...................... 116 Soneto a Frederico Nietzche ................... 116 O Negro ................................................. 117 Vinhas trilhando gárrulo a Avenida ........ 117 O Ébrio ................................................... 118 O Canto da Coruja .................................. 118 Senectude Precoce .................................. 119 André Chénier .......................................... 119 Mystica Visio .......................................... 120 Ilusão ...................................................... 120 Nome Maldito ........................................ 121 Dolências ................................................ 121 A Lágrima ............................................... 122

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.... 205 Queixas Noturnas ....................................................................................................... 204 Viagem de um Vencido .... 212 5 ........................................................................................................ 195 Numa Forja .............................................................. 182 Canto de Agonia ..................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................... 170 A Vitória do Espírito ........................ 197 Quadras ............... 200 Mãos .............. 179 Estrofes Sentidas ............................. 129 A Caridade ............................ 175 Barcarola ........ 183 Gozo Insatisfeito ...................................................................................................... 141 Os Doentes ...................................... 155 Mater ...... 192 Ode ao Amor ......... 183 História de Um Vencido ....... 173 A Ilha de Cipango ................................................................................................. 190 Mistérios de um Fósforo ............................128 As Cismas do Destino ... 199 Tristezas de um Quarto Minguante .. 162 Versos de Amor .................... 180 Canto Íntimo ........................................................ 176 Ave Libertas ....................................... 203 Vênus Morta .................................... 168 Noite de um Visionário ....................... 186 Insônia ............................... 157 A Meretriz ............................ 156 Gemidos de Arte ......................................Outras Poesias Monólogo de uma Sombra .........................123 Uma noite no Cairo ....................................................... 155 Duas Estrofes .. 166 A Luva ........................................................................................................................................................... 184 Idealizações .................................................................. 142 À Mesa ...................... 209 Poema Negro ............

proponho-me a interpretá-lo a partir de um ângulo até agora pouco estudado — a inquietação de sua personalidade. que o não convencia de todo. penso poder levantar a ponta da cortina para melhor compreensão das suas mensagens de angústia. na chaga viva de sua consciência. desejosos de. o que de alguma forma facilita o trabalho de interpretação. A crítica genética já lhe esvurmou a alma em busca de uma explicação para as suas anomalias psíquicas. É preciso. inatingível também ao bisturi dos que tentam dissecar o interior humano. paremos reverentes à porta do templo. realçar a força de sua inteligência manifestada na originalidade do estilo e na tônica de um materialismo filosófico. Difícil tarefa é essa de querer conhecer a alma dos nossos semelhantes. senão em mais de um. que é de todas a menos operante. isto é. nesse estado de superexcitação. Interpretar cada verso isoladamente não é tarefa que se enquadre no plano deste trabalho. quando não irrompia ovante para logo se perder na dúvida. no que há de mais sutil e imponderável. entrava em crise espiritual. Fazer o elogio do poeta. Nessa tentativa de interpretação psicológica. Convenha-se antes de tudo que Augusto não foi um homem normal. Só o estudo do conjunto poderá explicar os matizes de um pensamento que tinha por norma ocultar-se em metáforas. não conhecemos sequer a nossa. Seja como * (do livro As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos. Toda vez que o poeta se concentrava na dor que mais o cruciava. Gráfica Ouvidor. acompanhá-lo na trajetória desse pensamento tumultuário. 1962) 6 . O autor revela o homem e ambos estão por inteiro em sua obra.INTRODUÇÃO AS RAZÕES DA ANGÚSTIA DE AUGUSTO DOS ANJOS* Por Horácio de Almeida Muito se tem escrito sobre Augusto dos Anjos. ao menos. nos moldes em que se ajusta a passividade compreensiva do comum dos homens. sobretudo pela sinceridade com que nela está fotografado. Sua personalidade singular ali se projeta. é possível que se tenha conservado à distância da crítica literária. poder conhecer a árvore pelo fruto. numa atitude de respeito e reflexão. Teria sido um neurótico para uns. já outros o fizeram com maior ou menor adequação. RJ. ed. A crítica metodológica do autor do Eu e Outras Poesias devia constituir o alvo desta escalada. na verdade. quando. não vejo documento mais preciso para conhecer o autor que a sua própria obra. o eu fora do Eu. Não me parece. Apenas como contribuição a essa crítica de sentido mais amplo. nos moldes da velha orientação impressionista. Em Augusto dos Anjos não há que procurar o autor fora de sua obra. contudo. Deste modo. já que não podemos penetrar com tanta intimidade o mundo subliminal. pois. em suas mensagens de angústia. esteja o poeta revelado por inteiro em todos os reflexos de sua alma. Por conseguinte. não escapasse um pouco da minha acuidade intelectual. um psicastênico para outros. A crítica literária já lhe realçou a obra em sua forma estética. segundo as síndromes patológicas revelados. Nalgum ponto. que forjava em versos candentes a produção que depois levava ao papel. compreendendo inclusive a estilística. e era aí.

Nem os que nasceram antes. causada pela perda imprevista de um irmão querido. igualmente inteligentes. que nada explica. todo o seu temperamento emocional. Assim como a mãe de Augusto. quando este ainda em estado de gestação sofreu uma comoção das mais fortes. jamais denotaram qualquer grau de semelhança ou relação de afinidade com a alma bizarra do poeta. em relação com a casuística. sobretudo quando provém da linha materna. o refinamento de suas faculdades morais. Tanto isso parece verdade que seus irmãos. que já era constitucionalmente quase louca. Juízo é coisa que todos julgam ter. repetindo conceitos. caracterizado por uma sensibilidade doentia. assim como está provada a hereditariedade dos caracteres biológicos. de quem o sobrinho nascituro herdaria o nome e as conseqüências do choque. Ao que se sabe. Todas se angustiaram por acontecimentos imprevistos. mas vale a pena ser louco quando se deixa por tal motivo um nome à admiração da posteridade. sobretudo quando tal obra reflete da primeira à última página a alma do autor. tiques nervosos. com preocupações de grandeza e fidalguia. mas da mediocridade ajuizada que enche de presença os quadros humanos nunca ninguém viu sair obra duradoura. aos que se acomodam. da inteligência. Por seu parentesco espiritual. a de Leopardi. além mesmo da gravidez. com distúrbios os mais evidentes no seu sistema nervoso. de fundo genético. nem os que vieram depois. sobre o seu caso clínico. pelo drama que padeceu na vida intra-uterina. como é do gosto da crítica científica. O traumatismo moral que tão fundamente abalou a mãe. A causa primária de sua desordem nervosa já é assunto conhecido. nas modalidades do caráter. a partir de Lombroso. por motivos vários. A mãe do poeta. De seu pai também não herdou as características psíquicas que o marcaram a fundo. fobias. sestros. menos a de Byron. por vezes controvertidos. sofreram perturbações muito fortes na época de gestação daqueles notáveis supranormais. aos que se rebaixam para subir. a de Wilde. Oscar Wilde e outros loucos geniais ou degenerados superiores. enfim. Não se trata aqui de fazer coincidir a personalidade criadora de 7 . que procura dissecar a alma para ajustá-la a quadros nosológicos já catalogados e. Isto posto. como se houvesse saído do limbo para cair na labareda. Augusto não era um homem igual aos outros. Não há que imputar a Augusto a pecha de louco. perturbou-a por muito tempo. Explica-se deste modo. só ele dava a impressão de um desajustado. no final. aos que perseguem riquezas ou fazem do amor o cio bestial. não há negar também a dos psicológicos. tal fato não podia deixar de refletir-se no filho em gestação. a de Byron. do sentimento. na classificação dos antropologistas do século passado. Pai e irmãos passavam por normais. estudante de medicina. tenho por desnecessário entrar aqui nesse campo de especulação psiquiátrica. a de Nietzche. enfim. tais modelos de comparação passaram também pelas mesmas crises intra-uterinas que afetaram a sensibilidade do autor do Eu. ficou desajustada da mente pelo resto da vida. Sem o concurso da causa primária.for. Byron. Nietzche. tem sido Augusto comparado a Leopardi. Obviamente. reduzir tudo a categorismo. choques emocionais. não é possível interpretar a obra de um escritor. E por curiosa coincidência.

mas no final 8 .Augusto com a sua personalidade psicológica. Tão na flor da juventude e já se dizia um descrente. aprendeu a ler e. o seu tipo de pássaro molhado. foi logo chamando a atenção de mestres e colegas pelos conhecimentos que demonstrava. Falava nele o positivista que. em contraste com a mocidade e a inteligência. Alexandre dos Anjos. agravados por outros que irromperam na idade perigosa. Sílvio Romero. Deste modo. Os conhecimentos filosóficos gozavam reputação de primeira plana. Logo mais. confessava-se já então “afeito às mágoas e ao tormento”. em prefácio à segunda edição do Eu. porquanto as duas já se apresentam fundidas sem a química da ajuda biográfica. segundo os primeiros retratos que temos dele. viu nele um tipo excêntrico de pássaro molhado. reunindo a esse volume a produção posterior à edição princeps de 1912. Vinha-se de uma época em que a erudição nacional destilava-se da cultura européia. dr. para aprazimento intelectual das elites. cinco anos após a sua morte. em sua linha tomista. Ocioso será afirmar que a metafísica ortodoxa. como expressão do pensamento nacional. entrou a estudar as matérias do curso de humanidades. de vez que a literatura indígena longe estava de adquirir a consciência de sua função. Órris Soares confessa que só conseguiu passar no exame de latim porque se valeu do colega que o ajudou a destrinchar Horácio. haurido no transformismo de Haeckel e no evolucionismo de Spencer. publicado no Almanaque do Estado da Paraíba. Com seu pai. com o título Eu e Outras Poesias. a rigor. guiado apenas pela ilustração paterna. estavam a fazer dele um lírico. definia mais claramente esse pensamento “como uma vocação para a Desgraça e um tropismo ancestral para o infortúnio”. A doutrina positivista foi a primeira a ganhar terreno. no último ano do século passado. até o túmulo. bradava para o conceituado mestre que o argüia. Era de fato um excêntrico. que lançou em 1919. Augusto nasceu e se criou no engenho Pau d’Arco. ao invés de um estudante bisonho. Já em 1875. é a vocação que já revelava para o infortúnio. visto ter nascido poeta. Esse adolescente sorumbático já poetava desde os sete anos de idade. Muito cedo. como uma fatalidade. não fossem os conflitos espirituais que trazia do berço. inspirado na natureza e no amor. em Monólogos de uma Sombra. E para completar o esboço do auto-retrato acrescentava: “Eu hoje só vivo para a descrença”. sem afastar-se do lar. era um introvertido. conforme disse num soneto que não consta. que a metafísica estava morta. os quais o acompanhariam. em 1900. evolvia para o evolucionismo de Speneer. Tais idéias materialistas eram a coqueluche que o século passado legara ao presente. sofregamente bebida nas academias. saído da roça. A par disso. numa defesa de tese na Faculdade de Direito do Recife. A amizade que logo nasceu da admiração foi regada mais tarde com lágrimas de saudade no elogio que fez do poeta. quando apareceu para os primeiros exames no velho Liceu Paraibano. A paisagem bucólica da várzea. começou a envenenar-se com o materialismo filosófico. a quietude da vida na província. O que há de singular nele não é. logo mais. na várzea do Paraíba. Coelho Rodrigues. para maior complicação de sua personalidade. sofreu duros reveses. Quando Órris o conheceu nos idos de 1900. do Eu. mas não era somente isso. a sua própria vida sem problemas. O rapazinho de 16 anos. cuja vida corria sem obstáculos. Nada de admirar.

dupla feição de filósofo e de poeta. desde Haller. Até no Piauí. como uma velharia do século. nas concepções filosóficas de seus poemas. irradiação natural da Escola do Recife discutia-se o problema do ser e do não-ser. entre o mundo da forma e o mundo da razão. a exemplo de Victor Hugo. Ao que parece. em seu livro Frases e Notas. faziam praça de livres pensadores. aliás. conciliada. já lidos nos filósofos da natureza. já era moda entre os renovadores o lançamento de poemas filosóficos. Darwin e Haeckel podem ser contestados ainda hoje como panteístas pelos que seguem ao pé da letra a história bíblica da Criação.de contas resistiu ao choque de uma crença que condenava até a indagação anatômica e a astronomia sideral. Embora educado na religião católica. Os filósofos da natureza foram ficando para trás. desde o monismo de Haeckel ao evolucionismo de Spencer. o pensamento ao longe. os intelectuais mais dotados. Martins Júnior. O materialismo dialético dos nossos dias retrocede. ficava a escutar os companheiros. com a evolução da matéria e do espírito. segundo o depoimento de Cristino Castelo Branco. mas a origem simiesca do homem. o rapazelho sorumbático deu asas ao pensamento nos conflitos entre a consciência e o sentimento. quando ainda pontificava na Faculdade de Direito do Recife um devoto do fenomenismo agnóstico. Era a época da evolução do pensamento brasileiro. Nas rodas que se faziam na Paraíba. em sua. aliás bem pouco lisonjeiro. a ciência do Direito interessou menos ao estudante taciturno que as especulações filosóficas do materialismo naturalista. não exclui absolutamente a hipótese da existência da alma. Desses embates. enquanto a metafísica do verdadeiro cristianismo continua palpitando na alma de todos os povos. como se desconhecesse ou procurasse desconhecer a parte subjetiva de si mesmo. que só cuidava de preocupações teológicas. isto é. os que ainda não tinham qualquer convicção filosófica. Augusto pouco falava. mas a metafísica resistiu ao impacto das idéias novas. se o diabo é tão feio como o pintam. Foi nesse ambiente de agitação doutrinária. a velha Escolástica. Os menos letrados. suportou a mais dura crise. Desta forma. ou mesmo. de que católico era sinônimo de burro. Esquisitão que era. o queixo apoiado no cabo do guarda-chuva. O beatério era o último reduto do catolicismo. firmava-se o conceito. Toda a preocupação era combater o pensamento teológico. Na Paraíba. Aliás. Um que foi seu colega de estudos e morou com ele na mesma pensão em Recife. Comte passou. proceda ou não proceda. que se irradiava do Recife ao sopro tempestuoso de Tobias Barreto e seus ardorosos discípulos. tentou o milagre de 9 . emancipou-se dela intelectualmente. está sujeita também ao processo da evolução. José Américo de Almeida. de onde saiu formado em 1907. confundidas ambas na unidade cósmica. por ver em tudo isso hipóteses visionárias. Ainda na fase preparatória de estudos. adepto do positivismo. Por todo o Nordeste. disse-me certa vez que só depois de formado foi que veio a conhecê-lo direito. como toda substância animada. introduziu entre nós a poesia científica. que. que Augusto dos Anjos penetrou os umbrais da tradicional escola. A matéria em sua essência afigurava-se-lhe tão misteriosa como a força. um século antes de Hugo. formavam rodas para discutir o sexo dos anjos. Laurindo Leão. já no seu ocaso. que ficou sem seguidores e acabou relegada pelo próprio poeta. influenciado pelos naturalistas e evolucionistas do século.

. Do cosmopolitismo das moneras. já diferenciado na mônada. na larva que procede do caos telúrico. Em minha ignota mônada. Vejamos. E a morbidez dos seres ilusórios! E por aí vai. fundado na unidade cósmica. Larva do caos telúrico. Da substância de todas as substâncias. e vem vindo como uma monera através de milhões de anos. ampla. Não há. depois de infinitas transformações. vibra A alma dos movimentos rotatórios. E assim continua. enfim. chega aos seres mais complexos. Realizou de fato esse milagre em estrofações de profunda força conceptiva e de cunho tão pessoal que toda a sua produção traz a marca do autor — a eurritmia musicada dos decassílabos. Em Monólogos de uma Sombra é a Sombra que fala e a Sombra é o eu do poeta. mas há paralelismo de símbolos e de força criadora. Encontra-se. mas há casos em que a vidência poética de um é manifesta no outro.. ouvindo a citação de dois versos seus tomados ao acaso. trinta anos antes. 186 versos. identifica-se na substância primeva. Aos 17 anos. que passou do reino vegetal para o animal. bem mostra a preocupação indagativa do poeta de penetrar a coisa em si. mas “a solidariedade subjetiva de todas as espécies sofredoras”. Nessa ânsia de penetrar a vida fenomênica das formas. que é a derrota da humanidade. A simbiose das coisas me equilibra. A partir da monera. É a sua confissão de f transformista. Em Bateau ivre quem fala é o barco ébrio e conta a sua derrota. as duas primeiras estrofes dos Monólogos: Sou uma Sombra. ora transfigurado em sátiro vilíssimo. Quem já o leu uma vez. desesperado por não poder libertar a energia intra-atômica e dominar a lei da mecânica universal. por força das sucessivas mutações da matéria. Rimbaud escrevera Bateau ivre. já desiludido. terso na linguagem. procedo Da escuridão do cósmico segredo.. naquela mesma idade em que. Não sei se Augusto leu alguma vez Rimbaud. Venho de outras eras. a ponto de mostrar seu nojo à natureza humana. todavia. simultâneas.reduzir a um campo único a ciência e a arte. Por ela vai buscar-se no mundo informe da vida planetária.. como bem observa Cavalcanti Proença. começa então o drama crucial da consciência. “esse mineiro doido das origens”. E é de mim que decorrem. poema que abre o Eu e Outras Poesias. Não sofre apenas a sua dor. O aspecto conceptual do poema. numa caminhada de 31 estâncias. e—crente no tema. A saúde das forças subterrâneas. sempre a evoluir em movimentos rotatórios. Integrado na sociedade. Imitá-lo seria obra grosseira de pastiche. ora transfigurado em filósofo moderno. como amostra. Augusto compôs Monólogos de uma Sombra. nas duas composições uma coincidência de temas. incomparável na forma musicada. a consciência 10 . facilmente o identifica. até adquirir a forma humana. Pólipo de recônditas reentrâncias.

E por que não admitir logo a alma? Se eu disser que a consciência e a inteligência têm a sua sede no espírito. há que distinguir um pormenor. já havia dito. ouvia mais que um tísico. sem mais compreender que prodígios são esses da monera. posto que falasse às vezes em alma divina e em Deus de amor e de bondade. o sofrimento de toda a humanidade. Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma 11 . centro de toda a acuidade sensorial. manifestou o seu espanto. Todo mundo sabe que é pelo ouvido que se ouve. numa espécie de solidariedade subjetiva. o que vale dizer. assombrado com o não-ser. entendia o agregado abstrato da saudade. com sótão e porão. Isso não impede que o espírito seja o agente atuante de tão prodigiosa membrana. Vemos o poeta a adquirir a forma humana e a degradar-se em seguida num gozo efêmero de dolorosas conseqüências. que faz quase lembrar a reencarnação. no princípio era a força. A partir dai. que tinha os ouvidos totalmente tapados. chamando a si. A mesma coisa. embora intelectualmente convencido da teoria racionalista. conheci um sujeito. do ponto de vista metafísico. entrega-se ao sacrifício. segundo a qual a matéria e o espírito se unificam numa só substância. noção trivialíssima das funções orgânicas. No fundo. respondeu-me que por todo o casco da cabeça.No princípio era o Verbo. o remorso já acordado na caverna escura. no entanto. Nada obstante. Eis que assim se expressa em Os Doentes: A vida vem do éter que se condensa. Por alma. segundo querem os frenologistas. sente o remorso a queimar-lhe a consciência. que a ele não interessava considerar. Quando a matéria transmigra acompanhada de um elemento hereditário que memoniza o instinto da espécie através das gerações. temos aí um transformismo metafísico. cuido não estar proferindo uma heresia. Sabemos que a consciência tem a sua morada no cérebro. tantas vezes exaltada pelo poeta. A rigor. sente-se vencido diante do seu martírio e do martírio das criaturas. O próprio Augusto. as conchas das orelhas rasas como a palma da mão e. É a concepção monística. No tocante à transformação da matéria. diante das maravilhas do aparelho encefálico. onde impera a força que responde pelo movimento ubiqüitário da massa. E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva! Bem examinada a questão. Perguntei-lhe um dia por onde entrava o som. Nesse estado d’alma.conspurcada de gozo malsão. dentro do mundo fenomenal. o vidente de Patmos: . natural de minha terra. Por fim. uma espécie de fogo que devora e não consome. Para os que negam o espírito há muitos fenômenos que ficam sem explicação. força será admitir um agente oculto capaz de operar o fenômeno. a forma para ele era a manifestação passageira da matéria em seus processos evolutivos. como está dito em Monólogos de uma Sombra. Augusto nunca deixou de ser um metafísico no sentido religioso da palavra. dezenove séculos antes. em esconderijos apropriados.

Este ambiente me causa repugnância. uma natureza gasta.tenha sido escrito por um adolescente para quem o cotidiano devia correr. No auge da inquietação. Em tudo. O próprio amor. só serviu para adensar o clima de alucinação. dominado por um ceticismo acabrunhador. fonte inesgotável de vida. inconformado com a idéia de ser um dia roído pelos vermes. Sofro.este operário das ruínas. Augusto falava como um homem que já perdeu o ideal da vida. desde a epigênese da infância.Psicologia de um Vencido . impreca. Essa saturação filosófica fez-lhe um grande mal. Nem por isso admite Deus. solta blasfêmias. Os tormentos mortais da alma crescem com a descrença. Ao invés de fecundação do espírito. o lado malsão da vida. Monstro de escuridão e rutilância. A influência má dos signos do zodíaco. sem problemas materiais: Eu.Fazer a luz do cérebro que pensa. mas “diante da sombra do mistério eterno” considera-se vencido. Na frialdade inorgânica da terra! Assombrado com o futuro. admite o éter. Já o verme . Sobe-me à boca uma ânsia igual à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. Profundissimamente hipocondríaco. firmava-se no presente a flagelar-se na ciência racionalista.. procura penetrar o mistério da substância universal. filho do carbono e do amoníaco. na melhor das suposições. Exausto da luta. O mundo em que vive é um vasto hospital. Custa crer que este soneto .. perscrutar a fenomenalidade da energia a erguer da prisão milenária outras espécies que hão de vir. cadáveres e bocas necrófagas. o éter cósmico. que é o Deus materialista de Haeckel. vermes. Em sua alma atormentada as superexcitações provocam visões aterradoras. um mundo de fantasmas errantes que não adquiriram ainda a consciência de sua dor. Que o sangue podre das carnificinas Come e à vida em geral declara guerra. Querendo fugir a essas coisas. faz perguntas ao destino: “Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?” E nesse duelo da matéria com o espírito perturba-se. procura 12 . Na idade em que os encantos do mundo douram a existência. a matéria putrefata. E há-de deixar-me apenas os cabelos. que era o pior dos remédios para a sua alma inquieta. Mas como é preciso preencher um claro na consciência. onde imperam sombras. onde não há lugar para a alegria. Por toda parte. servindo de pasto a uma civilização corrompida. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. rasgar do mundo o velário espêsso. causa-lhe repugnância.

com o poder de sua imaginação. E para não capitular a esse apelo. O subconsciente o aturde. evadido de si mesmo. podia fazer dele um triste. Mas há dentro dele qualquer coisa que o chama à realidade. Espera aí encontrar o seu nirvana. E de onde vem essa dor? É possível que tenha a explicá-la um concurso de causas. não há homem que sofra mais. O niilismo esvaziava-lhe a alma da mesma forma que o cientificismo materialista. leve-se em conta a deformação de uma sensibilidade que vinha do berço e o predispunha ao desequilíbrio das sensações entre o eu e o mundo externo. supõe-se integrado na imanência da idéia soberana. na vã expectativa de que seu ego o deixe em sossego. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das idéias! Mas de novo se encontra em face do nada. com efeito. já cansado de escutar a natureza. pois que precisaria a tinta de todos os tormentos do homem. como se supunha. Algo de mais grave. diz ele. Falava como um homem que parecia ter a consciência carregada de remorsos. a terrível moléstia que se atribui. para não desmoronar a fortaleza de suas convicções filosóficas. o Eu e Outras Poesias. Grita a sua dor por toda parte e. Onde quer que se refugie. Há. de subverter-se no grande todo e fazer da parte abstrata do universo a sua morada equilibrada e firme. a perda da crença e. E via em mim. que ele denomina um sonho ladrão. tenta ir ao fundo da crença monística. coberto de desgraças. E é nesta manumissão schopenhauriana. Depois disso. no todo ou em parte. Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer. que os anos não carcomem. Com efeito. paralelamente. deve ter acontecido na sua juventude. gasta imensas energias e enche de culminâncias. não é demais supor a existência de algum motivo oculto capaz de levá-lo ao desespero. O resultado de bilhões de raças Que. podia exercer influência no temperamento sensível do poeta. Até agora 13 . uma desgraça na vida do poeta. monstros terríveis. Um inocente metido na prisão talvez se revoltasse menos que ele no ergástulo da carne. sente o desejo. Mas o diabo não larga a sua presa. há muitos anos desapareceram! Nesta temática vai longe. mas não me parece bastante para torná-lo um desgraçado. que exulta triunfante: Gozo o prazer.. numa atitude mental de fuga à realidade. acompanham-no. Nenhum pintor. seria capaz de executar o quadro de suas aflições. em suas visões oníricas.. Antes de mais nada. Por um instante.refúgio na inexistência espiritual. como se já tivesse despido a carcaça da matéria. como se o infortúnio tivesse desabado sobre a sua cabeça. A julgar pelos seus gemidos. nem Haeckel compreenderam. Tudo isso.

que é o drama mais doloroso de sua consciência. no tocante a esse drama.. Gozei numa hora séculos de afagos.esse seu sofrimento tem sido considerado puramente abstrato. coberto de desgraças Mas veio o vento que a Desgraça espalha Para iludir minha desgraça estudo. não pode ocultar que foi vítima dele. A dificuldade está em conhecer o valor dos símbolos e em seguida decifrar as alegorias. em . Mas é ele próprio quem está a falar continuamente numa desgraça. cujo desfecho infeliz teria abalado convulsivamente sua personalidade carente de equilíbrio. inútil seria qualquer esforço. Mesmo que quisesse recorrer a essa fonte para uma boa exegese literária. desespero virtual e não real. Lembro-me bem. Trata-se. pois. no capítulo do amor. não tenho dúvidas em afirmar que foi o drama do amor. Iríamos a um país de eternas pazes.. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. Mas o seu eu está projetado na obra e nestas condições não preciso de outro elemento identificador para firmeza do valor interpretativo que neste trabalho tenho a intenção de destacar. de uma paixão. Por mais que procure fugir ao assunto. . dada a ausência de biografia. Minha desgraça há de ficar sozinha! E que desgraça foi essa que o fez ficar assim tão sombrio? Convém que ele mesmo conte a sua história. Por suas próprias palavras..A Ilha de Cipango alude a uma felicidade perdida. não vejo maior necessidade de conhecer a biografia de Augusto dos Anjos para bem interpretar a sua obra. Exatamente aí. Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrio! Um penetrante e corrosivo frio 14 . sempre se revela. é que deve começar o trabalho de pesquisa para a verdadeira interpretação psicológica do autor. Por mais que Augusto negue o amor. depois de haver conhecido os inefáveis afagos do amor. Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E via em mim. Por enquanto. Banhei-me na água de risonhos lagos E finalmente me cobri de flores. Ele próprio.

Anestesiou-me a sensibilidade. E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. A tarde morre. Passa o seu enterro. . A luz descreve ziguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos!

Até aqui, apenas um lampejo, mas o bastante para mostrar que foi por causa de um amor desventurado que se fez assim tão sombrio. Onde deixa vislumbrar um pouco mais de claridade é neste outro quadro - A Árvore da Serra:
As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice calma! — Meu pai, porque sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs alma nos cedros... no junquilho... Esta árvore, meu pai, possui minha alma!... Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa: “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!” E quando a árvore, olhando a pátria serra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra!

Numa e noutra composição, como se vê, o assunto é tratado em linguagem hermética. Aliás, o uso de metáfora é freqüente nele, mais ainda quando alude ao drama da consciência. Um corte transversal nas duas composições - A Ilha de Cipango e A Arvore da Serra - entremostra a desventura amorosa. A cena teria se passado no engenho Pau D’Arco, residência do poeta. O moço triste era ele, e a namorada, a árvore da serra, que possuía a sua alma. A bem amada já havia cedido o seu amor ao poeta, como adiante veremos. Por ser uma jovem de condição humilde, um junquilho entre cedros, o pai austero, orgulhoso de sua estirpe ou premido pela família, determinou ou concordou tirar para sempre da presença do filho aquela flor silvestre, que o tinha preso aos seus encantos, crendo que, com o desaparecimento do empecilho, pudesse ter uma velhice calma.

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Para melhor compreensão do drama, convém apanhar o pensamento do poeta na parte em que as duas composições esboçam de leve o quadro: - “Gozei numa hora séculos de afagos,/’ Banhei-me na água de risonhos lagos,/ E finalmente me cobri de flores ... / Mas veio o vento que a Desgraça espalha”/ “Esta árvore, meu pai, possui minha alma!” ‘ / “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”/ “Foi sobre esta ilha que extingui meu sonho!”/ Desde então para cá fiquei sombrio!/ Um penetrante e corrosivo frio/ Anestesiou-me a sensibilidade.”// “Invoco os Deuses salvadores do erro./ A tarde morre. Passa o seu enterro!”// “Pela estrada feral dois realejos/’ Estão chorando meus amores mortos!”./ “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/ Caiu aos golpes do machado bronco,/ O moço triste se abraçou com o tronco/ E nunca mais se levantou da terra!” Seus versos deixam transparecer que houve violência. Mais de uma vez fala o poeta em golpes: - “E a grandes golpes arrancou as raízes/’ Que prendiam meus dias infelizes/ A um sonho antigo de felicidade!” / / “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/i/ Caiu aos golpes do machado bronco”/... A moça, ao que parece, era natural do brejo ou do sertão lugares que ficam sobre a Serra da Borborema, cujos contornos, na faixa do horizonte, se avistam da várzea do Paraíba, pois de outra forma não há sentido para o verso que diz: “E quando a árvore, olhando a pátria serra”... Se aprofundarmos um pouco mais a indagação, vamos encontrar retalhos desse episódio em quase todas as composições do Eu. A coisa tem começo em Monólogos de uma Sombra, quando o poeta, em seu primeiro exame de consciência, já mordido pelo remorso, acusa o sátiro que ele foi.
As alucinações táteis pululam. Sente que megatérios o estrangulam; A asa negra das moscas o horroriza. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa!

A seguir, em As Cismas do Destino, descreve o segundo ato da tragédia:
Fetos magros, ainda na placenta, Estendiam-me as mãos rudimentares! Ah! Com certeza, Deus me castigava! Por toda a parte, como um réu confesso, Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo, me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Não sei porque me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança

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E um pedaço de víscera escarlate. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse, E até o fim, cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória.

O terceiro ato da cena, constante do mesmo poema, é de revolta contra os seus, os que, cansados de viver na paz de Buda ou inflamados de preconceitos de nobreza, se encheram de humano orgulho, e quais guerreiros priscos contra uma imbele criatura que ao amor se rendera, entraram em conserto para a consumação da tragédia. Assim fala o poeta:
Todos os personagens da tragédia, Cansados de viver na paz de Buda, Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psico-plasma Humano sofre na mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, A morte desgraçada dos açougues... Tudo isso que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra!

E ao terminar o poema, no qual pôs toda a sua amargura, o peito arfando de impotente indignação, solta esse brado de desespero:
Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psiquê no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo!

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Como quem afasta de si a visão terrível de um drama macabro, guarda-se o poeta, mui cautelosamente, de descobrir o motivo cruciante do seu trabalho poético, deixando, entretanto, a perceber, em cada símbolo, em cada imagem de sentimentos dissimulados, um fragmento da realidade que abrasava o seu mundo interior. Sofre realmente e sofre mais porque a dor que se dissimula não estanca, principalmente quando falta ao paciente resignação cristã ou conformidade filosófica. A obsessão do sangue vai até o fim. Alma agoniada por tormentos mil, anda gemendo pelas estradas solitárias, perseguida por visões alucinadoras. Numa de suas últimas composições, ainda atormentado pelo monocromatismo monstruoso da universal vermelhidão, assim recorda o passado sombrio:
No inferno da visão alucinada, Viu montanhas de sangue enchendo a estrada, Viu vísceras vermelhas pelo chão...

Ele guarda para todo o sempre o pesar do golpe sofrido. Ora irrompe em forma de protesto, ora de arrependimento pela culpa que lhe cabe. A consciência inquietada pelo remorso é aquele morcego do seu soneto, que à noite entra imperceptivelmente em seu quarto. Seu coração ficou um deserto. Nem mais amor a Deus, nem mais amor à humanidade, nem mais amor à mulher. Ao coração devastado a alegria nunca mais voltou. Vive somente para a sua dor. Poder, riquezas, glórias terrenas, são coisas que despreza. Em sua musa, o amor não terá mais lugar, nem mesmo como tema de glorificação poética. Causa-lhe até repugnância. Explica-se desse modo a deficiência cromática de seus versos. Só na cor do sangue às vezes se manifesta. Em toda a sua poesia, a paisagem do Pau D’Arco se converte em cenário triste e repugnante. Com referência a esse cenário, diz ele em Psicologia de um Vencido: “Este ambiente me causa repugnância...” Alguns críticos tomaram o impropério como dirigido à sociedade da Paraíba. Do Pau D’Arco, ressalva apenas o velho Tamarindo, a árvore da perpétua maravilha, a cuja sombra amou e chorou. Varado de dor — continua amando em espírito, um amor etéreo, que está fora da carne e não tem mais sentido com o coração. Eis que assim se manifesta: Porque o amor, tal como eu o estou amando, É espírito, é éter, é substância fluida, É assim como o ar que a gente pega e cuida, Cuida, entretanto, não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes, imponderabilíssima e impalpável, Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! O fato em si é de todo interesse para a interpretação da obra original de Augusto. Já os detalhes do fato são sobras que ficarão reservadas ao investigador biográfico, que infelizmente ainda não apareceu. Em Augusto dos Anjos o que mais interessa é a biografia do poeta. Erro será querer julgá-lo como prosador, fora da área da poesia, como tem sido estranhamente fariscado por alguns críticos. Na prosa, era, de fato, rebarbativo, como de refinado mau gosto também foi, na prosa, o genial cantor dos Lusíadas. Apenas como um desafio ao futuro biógrafo, seria curioso saber como se chamava a moça que Augusto metamorfoseou na árvore da serra. Essa curiosidade vem a propósito do nome de uma 18

eu também vou passando Sonâmbulo. como em . Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. Depois de embebedado deste vinho. como é sabido. Noite. E invejo o sofrimento desta Santa...referindo-se certamente ao espectro de sua desventurada amada. ao mesmo tempo que. mas no poema . Em cujo olhar o vício não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. confessa mais uma vez a sua culpa. Como um bemol ou como um sustenido. que não é das mais invocadas. contrito. Porque não evitei o precipício Estrangulando a minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! De outras vezes. Rola impetuosa por meu peito a dentro?! Porque é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ao mapa-mundi estranha. surpreende com a invocação de Santa Francisca.... Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Porque cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. em mágoa.Insônia . Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim.Queixas Noturnas . Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido. Sonâmbulo. O poeta.santa.. Sonâmbulo.extravasava desta forma o seu lamento: 19 . nunca foi chegado a santos.

Rezo. entre as estrelas flóreas. entretanto. Mãe. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. E porque a visão da morte não o deixa em sossego.brada: 20 . Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. pouco fala. Da mãe. Minha alma sai agoniada. como referiu vagamente em As Cismas do Destino. apenas três vezes.. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. A projeção da imagem materna esvaneceu-se por certo como símbolo da mais freqüente e sublimada veneração. Nem uma névoa no estrelado véu. Mas pareceu-me. entre estes monstros. A morte é o fim de tudo. isso mesmo sem revelar um mínimo de afeto. que não admite a vida espiritual. em que a piedade do sentimento se sublima na tessitura da composição.. Ao pai. Em . como perseguido pela sinistra ceifeira. Como Elias. sonhando. Madrugada de treze de janeiro. mas para os que crêem há ainda uma esperança. o ofício da agonia.As Cismas do Destino . E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. dormir primeiro. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu. luta por fugir dela. De nada valia para um espírito inquietante como o seu uma filosofia que arma o seu sistema à margem da vida. Ao vê-lo morto. ando! Bati nas pedras de um tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza a minha única saúde! Curioso é que o egoísmo de uma dor sem fim não lhe fez perder o amor ao pai. não para ele. cuidei que ele dormia E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o!” deixa-o. A satisfação que buscava nos conhecimentos filosóficos só lhe faz aumentar a sede de infinito. ama-o até mesmo na atômica desordem. que parece se deixou levar por pressão da família. sem resolver a verdade interior.Quem foi que viu minha Dor chorando? Saio. num carro azul de glórias. Toda a crença monística em que procura consolo não lhe explica à satisfação o fenômeno da vida. quando a morte o olhar lhe vidra. expressa a sua mágoa numa comovente unção. Talvez visse nela uma criatura transtornada pela “mania mística”.

devia ter na época. alguém há de responder pelos sucessos infelizes do seu destino. Ao invés de ajustá-lo à realidade. E porque não se acalmava? Faltava-lhe fé. é natural que se mostre rebelado contra a natureza. desesperado por não encontrar solução no raciocínio frio e racionalista. Minha filosofia te repele. Já que não crê em Deus.. em A Ilha de Cipango: Tenho alucinações de toda a sorte. Aqui. quando recebeu os 22 açoites da natureza. 22 anos de idade. escravo do raciocínio frio. Impressionado sem cessar com a morte E sentindo o que um lázaro não sente. as palavras também servem para ocultar o pensamento. em Alucinação à Beira Mar: “Um medo de morrer meus pés esfriava”. em cujas entranhas um feto magro estendia-lhe as mãos rudimentares. Essa visão shakespeariana das espadas cruzando o espaço tanto pode ser a perseguição da morte como o trágico fim da sua amada. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. ardendo em indagações subjectivas. cheio de imperfeições. pois estava certo que nem Deus compreendia os seus soluços. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Presumivelmente. habitado por monstros humanos. ilustre membro da Academia Paraibana de Letras.. Nestas condições. levava-o a recolher-se em si mesmo.. Meu raciocínio enorme te condena! E num horror quase pânico exclama. Acha Flósculo da Nóbrega. não cria em Deus. que só faziam aumentar a sua ânsia de infinito.Morte. Procura assim desoprimir o coração. Não me parece tenha razão 21 . O sentimento profundo de dor e de descrença afastava-o da realidade. O remédio que então buscava para as suas mágoas era o pior dos excitantes. desabafando-se nestes termos contra a natureza: Tu não és minha mãe.. Forma difusa da matéria imbele. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas Atravessando os ares bruscamente. Nada o consolava nesse estado de espírito. que Augusto era um cerebral. ponto final da última cena. Por tua causa apodreci nas cruzes. como em toda a obra. Vivia um mundo à parte. tanto que nos conflitos entre a inteligência e o sentimento tomava o partido do intelectualismo. embora ansiasse por encontrá-lo. E ainda.

Não que tenha recebido ofensas dela. teria Augusto encontrado satisfação na filosofia. de vez que ninguém o compreendia. Desta. Depois que o poeta deixou a Paraíba. As suas relações com a sociedade parecem rompidas. sua musa empalideceu à falta de ambiente. Era. em 1912. Fosse como ele diz. Há. Já é tempo de desfazer um equivoco que de tão repetido vai criando raízes. via na sociedade a representação da humanidade sofredora. entrava em crise espiritual. Tomado de tensão nervosa pela repugnância que lhe causava o ambiente. condenado a expectorar os pulmões dilacerados. podia ter alguma razão para queixar-se da sociedade. conforme declarou nesta honesta confissão. Não importa que tenha morrido de pneumonia. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. Surgem daí as freqüentes inflexões mentais e os distúrbios emocionais de fundo neurótico. Os seus melhores versos.o ilustre intelectual paraibano. o cérebro em fogo. Punha-se então a passear. um espiritualista em eterna briga com o racionalismo. Na luta em que Augusto se debate. tinha-se na conta de um doente. o que ele via realmente era o ambiente do engenho Pau D’Arco. conforme ouvi de Alcides Carneiro que ouvira dos seus íntimos. De um modo geral. que o 22 . Suas percepções sensoriais estão sempre em conflito com as atividades especulativas do espírito. Nem ele próprio se conhecia. Era ali que ele sentia bulir na alma o drama de sua existência. que o acolhia com carinho. Em reforço desse argumento temos uma prova no próprio Eu. Um tuberculoso pode sucumbir a outro evento que lhe antecipe o fim. No fundo. Ao contemplar esse ambiente. os de maior densidade emocional. noite a dentro. um homem excluído do mundo. um cuidado muito discreto da família em negar a tuberculose. A inspiração despertava com a dor. foram produzidos no Pau D’Arco. O que produziu no sul do País. torturado no sentimento do desamparo. como um sonâmbulo. toda a mágoa do seu espírito vem à tona. ao contrário. destoa em força emocional do que produzira em sua terra natal. passos largos. que só repugnância lhe causava. mas no particular. volta-se vez por outra contra a sociedade. andar bamboleante. além de pouco. O mundo que o fazia sofrer não era de certo o da sociedade paraibana. em Poema Negro: A passagem dos séculos me assombra. Em agravo da tortura moral que não cessa de persegui-lo. não se deixaria possuir pelo demônio da dúvida. mas porque se sente um desajustado. no caso. ao redor da capela do engenho. não viveria atormentado com os mitos que o afastavam da realidade. excetuado da segunda parte do Eu e Outras Poesias o grande soneto O Lamento das Coisas. nunca recebeu hostilidades. contudo. Mas ninguém tinha culpa de ser ele um incompreendido. e a mim pergunto. que não se sabe se foi escrito na Paraíba ou no sul. na vertigem: Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade.

em serenata. depois de exclamar que sua angústia feroz não tinha nome. havia “um fígado doente que sangrava e uma garganta de órfã que gemia”. passa a chorar a sua dor e a alheia. 23 . pois. os acordes saudosos do coração. Esse retorno do pensamento aos dias tranqüilos do passado. jamais preenchido pelo cientificismo materialista. confessa-se minado pela tuberculose. na qual os doentes consagravam a sua última fonética a uma recitação de misereres. ansiado e contrafeito. que pode figurar sem favor entre os melhores da língua. como se já tivesse perdido o alento de viver. Era ali. que admirar chore um dia a crença perdida. fez dele um misantropo. deixa escapar este triste lamento: O inventário do que eu já tinha sido Espantava. entra a descrever a cidade dos lázaros. eis que escuta. o soneto Vandalismo. na terra onde pisava. Em As Cismas do Destino. Na ascensão barométrica da calma. a arremetida que deu depois contra esses tesouros do coração. De início. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. Eu bem sabia. imaginária cidade à margem do Paraíba. que os enfermos se reuniam pela camaradagem da moléstia. numa emoção que comove. Foi a partir dai que entrou a sentir o vazio de sua alma. Mas ninguém pode furtar-se às impressões da infância. levado pela lembrança terna de um mundo cheio de encantos e maravilhas. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! Mais tarde. à guisa de ácido resíduo. onde os anjos cantavam. aliada à descrença. despedaçando as imagens dos próprios sonhos. Já cansado do ceticismo. hosanas ao Senhor. Mais adiante. Essa real ou imaginária doença. A tragédia espiritual de Augusto começou desde que extinguiu seu sonho de amor sobre a Ilha de Cipango. Não há. num desalento ainda maior. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minha alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. a imagem dos sonhos remotos que ele quebrara com o furor de um iconoclasta. em Os Doentes. perdeu também a crença.próprio poeta confessava. sob os seus pés. “na urbe natal do Desconsolo”. Perdido o amor. tudo isso ele pincelou num quadro que é uma jóia de rara beleza. como um arrependido. como ele chamava. Depois disso. Parece que desperta para a vida. atormenta-se com a idéia de que. assim principia o soneto Apóstrofe à Carne: “Quando eu pego nas carnes do meu rosto/’ Pressinto o fim da orgânica batalha”. Lá para o fim do poema.

há sempre o que referir. a musa é que tomava o poeta de assalto nos momentos de suas lucubrações. Nesse decurso. para ele. a outros poderá parecer insípido ou fastidioso. em serenatas. que se afundava a alma do poeta. João Lélis e De Castro e Silva. Canta a aleluia virginal das crenças. Templos de priscas e longínquas datas. era apenas o meio de formular soluções. Flóscolo da Nóbrega. ao aludir com desdenhoso apreço aos motivos abjetos que abundam no Eu e Outras Poesias. O que a uns desperta atenção e convida mesmo a uma meditação mais séria. ler. reconhecendo nele apenas o mérito de artista do verso. Raul Machado. Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. tanto sobre a obra como sobre a personalidade do autor. por exemplo.. chegou a dizer que Augusto não era poeta. José Américo de Almeida. Assim é que. num discurso de recepção a Flóscolo da Nóbrega. já na 27ª edição. Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! Caminha para cinqüenta anos que Augusto dos Anjos morreu. posto que. Onde um nume de amor. João Lélis. este último. Não é. No final de contas. Como os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. Sua obra. na Academia Paraibana de Letras. Enfim. Negou-lhe peremptoriamente as qualidades de poeta. de admirar que ao lado de conceitos da mais justa penetração girem outros que espantam pela desconformidade. gostar e não gostar é coisa que se não discute. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas.Meu coração tem catedrais imensas. que não é biografia e não chega a ser estudo. apenas como autor de um livro apologético. cada leitor tem o direito de sentir o autor a seu modo. Dos outros. quando a aflição interior explodia em chamas 24 .. A arte. quase todos. muitas opiniões foram veiculadas. Para só mencionar os intelectuais paraibanos que se pronunciaram sobre Augusto dos Anjos. Álvaro de Carvalho. Ao contrário da incontinente afirmativa. tenham bordejado na superfície do abismo em. pois. No desespero dos iconoclastas. mas dar opinião atabalhoada a respeito daquilo que não chegou a ser entendido muda de figura. Não era espremendo o cérebro como muitos que se apagam antes de morrer. continua despertando o mesmo interesse dos primeiros tempos. em gemidos de dor. Sabe-se como compunha. destaco Órris Soares. Santos Neto. disse que Augusto agarrava a musa e saía com ela a passear pelos recônditos da diluição biológica. E erguendo os gládios e brandindo as hastas.

essa repulsa idiossincrásica que compromete o crítico antes de atingir o alvo. cujos adeptos se apraziam em demolir toda vez que a obra visada não estava na conformidade do seu gosto. duendes. o que acabava de compor. entrava disciplinada em seus versos. à margem das correntes estéticas do pensamento literário. o outro 25 anos depois. segundo a classificação que adota de Agripino Grieco. No entanto. afirma e reafirma que o Eu ficou como planta exótica. Neles. figuras espectrais e outras visões sinistras. Repugna-lhe o fartum que diz emanar do Eu e Outras Poesias. olhar perdido no espaço. também 25 . Anoja-se o crítico diante de cadáveres. Augusto foi um torturado da idéia a serviço de um estro estrepitoso. que só deu pela presença do amigo depois de concluído o trabalho mental. Foi então que recitou de inopino. Muitas vezes. a sua personalidade psicológica.devoradoras. lábios crispados. sangue de vísceras dilaceradas. o que era. um em 1920. o sentimento parece ter outra dimensão. já por sua tendência malsã de ver as coisas pelo lado abjeto. Álvaro de Carvalho escreveu dois estudos sobre Augusto dos Anjos. mas quem os lê e os medita tem a impressão de que foram cavoucados na rocha. com efeito. por ver em tais composições a podridão enroupada em jargão científico ou jargão clínico. Essa incompreensão a respeito de Augusto. entre nós. Jamais foi o leit-motiv de sua produção intelectual. disse que uma das suas forças. nem o gosto se levava em conta quando prevalecia a prevenção pessoal ou quando se pretendia alcançar fama com a marreta da demolição. à primeira vista incompatível com a poesia. a passear a esmo. Bilac pode ter sido um lapidário da forma. Não importa que Augusto tenha ficado sem seguidores. Em ambos. Em ter ficado sozinho. escarros. tem as suas raízes no caráter polêmico da crítica passadista. Seus versos. Essa crítica. de um a outro canto da sala. claro que avulta ainda mais o seu mérito. como em compasso de música. em 1945. insulado em sua própria grandeza. túmulos. na época. num timbre especial de voz. Poe e Rimbaud. que pretende ser de interpretação psicológica. em excelente estudo sobre o artesanato na poesia de Augusto dos Anjos. A virtuosidade ganha valor na opulência da expressão verbal. este na prosa. Órris Soares. Escrevia numa linguagem difícil porque era esse o seu estilo. tem a prejudicá-la a idiossincrasia literária que afasta cada vez mais o retratista do retratado. Os versos espoucavam no momento da inspiração. sobretudo da crítica provinciana. seu colega de turma e companheiro de estudos desde a fase preparatória. que não tenha fecundado a poesia nacional. Os que o conheceram de perto descrevem-no de andar banzeiro. Cavalcanti Proença. Só depois de elaborada é que ia para o papel. essa linguagem. certa preocupação inclusive dos simbolistas. lá fora. a densidade. impressionam pelo poder da dialética. Por tudo isso. como lamenta o crítico. surpreendeu-o num desses partos sem dor e tão absorto divagava o poeta. enquanto forjava mentalmente a composição. associado à vibração sonora. o ilustre escritor paraibano opõe embargos ao poeta. reside justamente no termo técnico. já pelo cientificismo que tem por incompatível com a linguagem poética. vermes. Euclides da Cunha.

talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Tenho por desnecessário dizer que uma interpretação psicológica de Augusto. que apenas transparece em linguagem evasiva. Com Baudelaire. manifestada em poemas impressionistas de aguda sensação. com efeito. como se vê. a fim de atingir. Foi exatamente com esse título — Poeta do Hediondo — que ele. Admita-se que a musa de Augusto tenha algo de doentio. Sua obra está aí mesmo a desafiar a argúcia dos mais entendidos. deu resposta por antecipação aos reparos dos seus futuros críticos. Com Mallarmé. não lhe tira o vigor da expressão verbal. Com Verlaine. O autor é o que é e não o que o crítico quer que ele: seja. reconheça-se que essa poesia é humana. no duelo da carne. neste ensaio de exegese literária. Ou então. está em tempo de ser feita. o que forma em seu conjunto a harmonia orgânica de toda a obra poética do consagrado artista paraibano. por isso mesmo poética. de sentido mais profundo. Por suas excentricidades e afinidades outras de ordem espiritual. O anojamento de Álvaro de Carvalho. O próprio Augusto tinha a consciência de que ia ficar sozinho e que era o poeta do hediondo. na impotência de estabelecer relação entre o mundo visível e o invisível. tenho por objetivo abrir aos estudiosos uma clareira que os conduza ao fundo da obra. Há. Augusto tem sido comparado aos mais altos padrões da corrente estética do pensamento. é mais uma aversão de olfato alérgico. nem tudo pode ter cabimento. elogios ou restrições. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto. Até mesmo quando desce ao abominável das podridões tumulares cintila em fulgurações de gênio. ninguém lhes nega a grandeza de gigantes. Não pode o critico ser ortodoxo. Eis porque. Nem por isso. numa revolta do espírito que vai aos extremos da blasfêmia. 26 . num dos seus últimos sonetos. Se há fartum de diluição biológica na poesia de Augusto. aparelhou. Note-se mais que a esse vigor casa-se uma virtude de efeitos encantatórios. pelas crises espirituais porque ambos passaram. Da vasta literatura que já se produziu sobre Augusto dos Anjos. pela bizarria do estro e pelo gosto malsão de impregnar a poesia com o almíscar das coisas abjetas. mesmo doentia.ficaram sem seguidores. Mas é preciso notar que essa musa. juízos despropositados de quem roça pelo assunto sem penetrar o recôndito da dor possessiva que tanto sublimava o poeta. pela tristeza indefinível da alma. como se definiu neste quarteto de Minha Finalidade: Pré-determinação imprescritível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. na interpretação de um drama emocional. Absurdo é querer sujeitar a literatura aos padrões em voga.

Augusto lembra Rimbaud.” Então desperta como de um pesadelo e com os olhos ainda ensanguentados da vigília sente a tristeza de ver mais uma vez como a sua vida é tão vazia. como se fosse uma convicção firmada e firmada com ênfase. Segundo Delahaye. Só com Rimbaud. isso mesmo de passagem. Curioso é que fez a citação ‘unicamente para dizer que nenhuma parecença encontrara entre com emprego de termos técnicos. pelo sentido da dor universal. visionário. Até nas aliterações e metáforas. vem o barulho das matracas. desde a sua fase inicial. Honesto em tudo. como quem deriva o pensamento para o lado oposto da imagem triste que o assedia. por sua natureza. desejada por um. encontra-se em Roma. “Na Eternidade. os ventos gemedores estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na Serra da Borborema. A mesma coisa ocorre com Augusto. e é com veneração religiosa que vê os soldados do Vaticano. nunca nenhum dos seus críticos traçou o paralelo. Encontra-se. Com Leopardi. De lá de fora. ambos procuram traduzir a sensação das coisas inanimadas. Nos transportes espirituais os dois correm parelha. que cultivava em sua sensibilidade enfermiça. O único que mencionou Rimbaud. usando símbolos e valores que convergem para o fim colimado. Com Antero do Quental. Súbito. que dialoga com os elementos imponderáveis. Vez por outra. na postura de um campônio rústico. temida pelo outro. a filosofia da dor. ao pé de um muro carcomido pelo tempo. em quem se acumulam. de uma honestidade quase bravia. num artigo publicado em 1914. assentado sobre cacos de pote e urtigas. O triste espetáculo do seu século leva Rimbaud a um passado remoto. foi José Américo de Almeida. palavras raras e eruditas. Em outros lances de sua obra manifesta o mesmo desdém. Ouvindo isso. a idéia pura das coisas. um grande medo toma conta do poeta. quando a cristandade parecia pura sobre a terra. em termos de comparação. Veja-se como se pronuncia a respeito do assunto: Falas de amor. as mesmas figuras de linguagem.. os mesmos descuidos de metro e rima. em tropos ousados. Augusto tem as suas razões para desdenhar o amor. crematismos.. pela tortura do espírito e pela constância do tema da morte. só nesse ponto dissimula o pensamento. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. no ar de minha terra. na terra santa. e eu ouço tudo e calo! O amor na Humanidade é uma mentira. Não fica apenas aí o confronto. em grupos prosternados. guardando o corpo do Divino Mestre. É. citado por Augusto Meyer. para a neologia e o vocábulo raro. numa sexta-feira santa. as mesmas despreocupações do rebuscado pour épater le bourgeois. como neste exemplo: 27 . posto que as coisas que tinha a dizer exigiam. Também no amor os dois se assemelham. de mistura com alucinações. sensações simples e cenestesias. havia acentuada tendência do poeta.através da sensação. um mês após a morte de Augusto. Dentro da Igreja de São Pedro o silêncio só é quebrado pelo vento que entoa cânticos de morte.

Há. E como não 28 . tendo culminado com aquele célebre tiro que recebeu de Verlaine. Augusto e Rimbaud negam sistematicamente o amor. Rimbaud encontrou-se a si mesmo depois que descobriu o caminho da virtude — le sentier de l’honner — que tanto procurava. por causas várias. Descasco-a. Ao invés de aceitá-la como resultante de seu egocentrismo. Não percebe sequer que toda a sua angústia é nascida de suas entranhas. Depois desse fato. converteu-se à realidade e mandou ao diabo o ar do inferno que o sufocava. É que Rimbaud era portador de uma mensagem que acabou por cumprir. a julgar pelos seus lamentos. ilusão treda! O amor. homens de bem cheios de nobres intenções. e por isso mesmo não achava conformidade para a sua dor. é inútil. andou conspurcado de sensações súcubas. Teria acontecido com ele alguma coisa? Ao que se sabe. depois de errar longos anos pela África e pelo Oriente Médio. em busca do paraíso terrestre. um suave concerto espiritual na natureza. embora tenham se casado e tido filhos.. é improfícuo. segundo é fama.Sobre histórias de amor o interrogar-me É vão. Motivos escabrosos. provo-a. o bem e o mal caminhando juntos. Ou então como nesta outra amostra: Parece muito doce aquela cana. Ninguém sofre mais do que ele. Não sou capaz de amar mulher alguma. As repetidas negativas ocultam de certo uma dolorosa frustração. é como a cana azeda. contudo.”. teve motivos de sobra para tratar o amor com aquele desdenhoso apreço. Em cada um deles. Rimbaud. à beira da água. mas que o levaram ao resultado conhecido. vítima de injustiças humanas. chupo-a. A toda boca que o não prova engana. onde se casou com uma nativa da Abissínia. exacerbava-a. filha legítima de sua alma. . que era o seu anseio máximo. acabou por admitir a presença de uma realidade espiritual. é verdade. na Bélgica. como Tântalo. No tempo de jovem. que é talvez o drama mais crucial de suas consciências. Quando viu que tudo quanto imaginava como solução para restabelecer o paraíso não passava de divagação delirante. Era a vida que lhe chegava e que fugia de Augusto. Começou então a ver e a sentir milhões de criaturas encantadoras. largou-se para a África. uma diferença de fundo entre os dois poetas. Nem há mulher talvez capaz de amar-me. poeta... em suma. Augusto sentia-se puro. A violência do veneno que ingeriu muito cedo nas fontes materialistas fá-lo morrer de sede. enquanto Augusto não chegou a cumprir a sua. Também Rimbaud modulou o seu canto no mesmo tom: “Je n’aime pas les femmes: l’amour est à réinventer. sente-se que há um complexo de culpa.

Um problema sempre gera outro. contra a sociedade. mas nem isso acredito tenha havido. Tais similitudes valeriam. entre a voz do sentimento e a da razão. Nas coincidências de temas ou mesmo de paralelismo de imagens não se veja. perfume. Augusto revela-se mais lido em Põe e em Shakespeare. É sabido que nenhum escritor adquire a força do seu gênio senão depois de renovarse interiormente. Não raras vezes. quando a monera já manifestava os primeiros sintomas de diluição. silvos de labaredas e suspiros de empestados. a criação. quando muito. como Camões na de Petrarca e de Vergílio. Neste passo. e se o fez alguma vez foi guiado pela dialética do monismo. Torturava-se por ver somente o lado negativo das coisas. teria apenas disciplinado em poemas imortais os cânticos populares da época. os mistérios da natureza.pode reformar o mundo. sem preencher esse vácuo. martelada em versos magníficos e candentes. contra a sua grei. isto é. Jamais desceu ao fundo de si mesmo. Uma mesma idéia artística pode ser tratada com sabor de originalidade por mais de um autor.Une Saison en Enfer . se fossemos no rasto dos poetas mais notáveis em busca de fontes de inspiração ou influências literárias. Dominado pela idéia de um mundo sem objetivo. Foi a partir daí. revolta-se contra o mundo. Mesmo assim. Machado de Assis só entrou na posse de si mesmo depois que se converteu à descrença. que se agravou o drama latente de sua alma inquieta. imitação. A vida.. do qual se considerava prisioneiro. Esse divórcio do eu com o indivíduo acabou por abranger a própria sociedade. tudo quanto eleva os sentidos. Por curioso paradoxo. Todo vácuo que se abre na vida interior é prejudicial ao comportamento do indivíduo. autores que exerceram forte influência em sua formação intelectual. Uma análise mais demorada encontraria maiores pontos de contacto entre Augusto e Rimbaud. A conversão de Augusto foi às avessas e porque não se desconverteu estabeleceu-se o conflito do eu com o indivíduo. como fontes de inspiração. Também Rimbaud bebeu na mesma taça de Põe. perdia-se no estado de dúvida. Há muitas espécies de conversões em literatura. mas depois que abandonou a luta espiritual afundou no suicídio. sua vida se transforma num verdadeiro inferno. beleza. Possuído do demônio da dúvida. Mallarmé também passou pelas mesmas crises. segundo apregoam os fundibulários da crítica. segundo o conhecido conceito bergsoniano do intuitivismo. luz. onde não faltavam o ranger de dentes. o amor. o que recebe influências supera o modelo de inspiração. 29 . sem procurar levantar o véu das aspirações profundas de sua alma. deixava-se ficar no interior da concha. da mesma forma como sucumbira Antero do Quental. quanto mais afunda no racionalismo mais vacila na dúvida. dessa conversão ao materialismo. conforme confissão feita a Mário de Alencar. numa reação inócua. Rimbaud salvou-se porque se encontrou a si mesmo. isto é. tudo quanto desperta a alma. porém. Ele mesmo se esvaziava no mundo vazio que se criou.espécie de autobiografia moral. Rimbaud também criou para si uma estação no inferno . Augusto vai irredento até o fim. nada disso seria capaz de provocar-lhe uma sensação nova de vida. cor. Ou será preenchido ou compromete a dinâmica das forças morais. depois que perdeu a ilusão dos homens. som. como muito bem já disse Augusto Meyer a propósito de Machado de Assis. chegaríamos por certo ao pai Homero que.

a reação que lhe ocorre é a de menosprezo ao cristianismo. É o que há. em meio a tantas emoções extravasadas. aceitar as imperfeições do mundo. em torrentes de eloqüência. Se o Cristo não vem em seu auxílio. nas Alterosas. se sucediam na tribuna. proclamou que Deus não existe. sentia-se Augusto na impossibilidade de admitir a realidade da vida. via de regra. No meio em que viveu era querido e admirado. Não fosse a trama filosófica do individualismo racionalista. olhar menos para as suas dores e um pouco mais para as alheias. outros negando. Todos nós. se não há Deus. afetando melindres de devotos. levantou-se a questão de saber se Deus existe ou não existe. uns afirmando.Enredado em idéias preconcebidas. Se há Deus. Se emigrou para o sul do país foi porque a Paraíba do seu tempo nada tinha de melhor para dar-lhe senão uma cátedra no Liceu Paraibano. como ninguém ainda se entendesse. Toda a obra poética de Augusto é um grito de dor arrancado do fundo da alma. descuramos o nosso destino espiritual pelo gozo do momento que passa. E como não lhe bastasse pela exigüidade dos proventos. com raríssimas exceções. uns batem nos peitos diante do altar e querem logo a recompensa do sacrifício feito. resolveu o presidente submeter a questão a votos. lecionando a quatro gatos pingados todas as matérias do curso de humanidades. é. Isso mostra que ele. Num dos muitos grêmios literários que proliferam na terra de Iracema. na realidade. quando não proferida por modo vulgar e chulo. Para uma alma sequiosa de infinito como a sua não há que estranhar uma ou outra expressão de revolta. Os oradores. A conquista da fé importa na conquista do próprio eu. nas apóstrofes do poeta contra o cristianismo. se manifesta ainda escravo do batismo. Vale mencionar. Mas no mundo fechado em que se enclausurava não era possível ver lá fora as almas piedosas e aflitas que tão necessitadas como ele pediam socorro. Ao cabo do bombardeio oratório. a propósito. há que distinguir entre blasfêmia contra o cristianismo e blasfêmia contra o Cristo. é objeto de amor e de crença e não de investigação científica. um pedido de socorro. Apurada a eleição e com base no resultado. supria-se do mais no magistério particular. 30 . a essência dos Evangelhos. sem advertir-se de que jamais dera um passo ao encontro do Mestre. teria certamente encontrado a realidade espiritual que nasce da fé e se alimenta na caridade. todavia. Na prática. tal como Rimbaud. alcançando a grande esforço um lugar de diretor de Grupo Escolar. Só é possível possuir a fé quando se está convencido da verdade. que se veja na blasfêmia. mas os que o seguem desconhecem. Convém. Alguns críticos. viram nisso o pecado da blasfêmia. no desespero de tantos sofrimentos. O cristianismo se apresenta como a doutrina de Cristo. a meu ver. decretar a inexistência de Deus por decisão tomada nas urnas ou no bozó. é questão que não deve ser formulada. heresia maior que a do poeta quando. Ora. outros andam com a Bíblia debaixo do braço e o coração carregado de impiedade. No sul do país continuou a mesma luta heróica pela subsistência. Embora não caiba nos limites deste trabalho uma digressão sobre a contradição reinante no mundo da crença. certos de que no futuro sobrará tempo para essas coisas. porquanto Deus é princípio e é fim. um episódio que me foi contado por um amigo do Ceará.

Como uma vela fúnebre de cera. e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. A denominação. os filósofos iônios. esta árvore de amplos agasalhos Guarda. De inflexões mentais sua obra anda cheia. O passado da flora brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida. A minha sombra há de ficar aqui! Por sombra. não se pode dizer fosse ele um materialista ético. explodiu em As Cismas do Destino. o sacrifício da linda moça Polixena. desde Tales de Mileto. como se vê. por mãos de seu filho Pirro. Só muito raramente soltava uma blasfêmia. 31 . No tempo de meu Pai. Camões fala na sombra de Aquiles quando exigia. vem de muito longe. Abraçada com a própria Eternidade.atormentado por visões escatológicas. encarnado nele e manifestado nesta passagem: Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade? Já em Monólogos de uma Sombra. Voltando à pátria da homogeneidade. Mandando ao céu o fumo de um cigarro. Por mais de uma vez chegou a falar em alma divina.Debaixo do Tamarindo. através dos séculos. como uma caixa derradeira. entendiam a alma.” E onde mais expressivo se mostra é neste admirável soneto . dá à alma a denominação de sombra. depois de carpir amargamente diante de um mundo que se mostrava indiferente às suas mágoas: Escarrar de um abismo noutro abismo. De outras vezes. virtudes que cultivava com extremado zelo. sob estes galhos. nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência. Por outro lado. começa o poema “Sou uma Sombra. Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do cristianismo! Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio. coisa que não cabe na boca de um ateu. esse sombrio personagem do drama panteístico das trevas. E como era sincero e honesto. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje.

Mas o que Augusto chama a sua sombra não é ainda a alma. até mesmo num grão de areia. Daí por diante. em soluços quase humanos. aos 30 anos de idade. perdendo-se novamente no enleio cósmico. mais dotados de inteligência e espírito de penetração. que eram uma constante na alma torturada do poeta paraibano. completem os estudos aqui esboçados ou deles discordem por modo a dar uma interpretação mais aceitável às mensagens de angústia. à semelhança da mônada de Leibnitz ou da monera de Haeckel. as formas microscópicas do mundo. Quem o ler nesse soneto dirá que já está reconciliado com Deus. assaltado de alucinações. Até Deus. Que outros. para ele. como está dito em Sonhos de um Monista: A verdade espantosa do protilo Me aterrava. o metafísico cede lugar ao inveterado monista. Assim fala e assim termina a composição: A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ainda tem de abrir para o infinito! Vã ilusão será pensar que já está reconciliado com Deus. que procede do éter cósmico. em briga com o dualismo. sua intimidade numenal. que não quer ver a glória de Deus resplandescendo em tudo.essa mônada esquisita Coordenando e animando tudo aquilo! Em Ultima Visio revela-se um metafísico teológico. Mais poderia dizer agora. como entidade eterna. era uma mônada. a 12 de novembro de 1914. em Leopoldina. mas com o que ai está me contento. da substância de todas as substâncias. !" Este trabalho. Quando essa cegueira for resgatada e arrancar o homem da inciência. vacilante na ciência fria. conjunto das faculdades intelectuais e morais do homem. tal como se apresenta. Fala como um crente da cegueira da criatura humana. até que morre numa cidade das Alterosas. foi objeto de uma palestra proferida em maio de 1960. acrescenta. de onde decorrem todas as moléculas que se esvaem na transubstanciação da natureza. virtualidade espiritual. nas composições que vão até o fim do livro. desde o declínio das crenças mitológicas. mas dentro da alma aflita Via Deus . 32 . na Federação das Academias de Letras do Brasil. isto é. então a presença do Eterno afastará a escuridão do caminho e aproximará a criatura do Criador. Assim vai. tal como a entendiam os filósofos iônios. ansiado por compreender o princípio anêmico dos seres. larva do caos telúrico. mito cosmogônico que liga entre si o espírito e a matéria. Choram ainda dentro dele. É a substância primeva.

Rio de Janeiro. Tenho insônia raras vezes. da chamada vida física. o que não impede. Tem continuados sonhos fantásticos: Quanto a sonhos fantásticos é também muito raramente que os tenho. São muito poucas vezes que me sento à mesa para produzir. R. Quais os trabalhos que deu à luz até a presente data: um livro de versos. mas a cefalalgia persegue-me constantemente. Córdula C. O que sente de anormal quando está produzindo: Uma série indescritível de fenômenos nervosos. de abusar um pouco do café. Faz as suas irregularidade: Sim refeições com Tem muito apetite: Regular Faz uso do álcool: Não Faz uso excessivo do café. presumo. vítima de surmenage morreu de paralisia geral e minha mãe é excessivamente nervosa Antecedentes pessoais: O que me pode adiantar sua infância: Desde a mais tenra idade eu me entreguei exclusivamente aos estudos. Conservo de memória tudo quanto produzo. dos Anjos Antecedentes hereditários: Meu pai. cefaléia e amnésia: Até esta data não sofro absolutamente de amnésia. chá ou outro excitante intelectual: Sou contra os excessos. Eu. relegando por completo tudo quanto concerne ao desenvolvimento. Engenho Pau d'Arco. 33 . comecei a produzir muito antes dos 9 anos. Onde e como foi educado: Na Paraíba do Norte. acompanhados muitas vezes de uma vontade de chorar. quase sempre andando no meio de toda azáfama ambiente ou à noite deitado. 1914 Nome: Augusto dos Anjos Idade: 28 anos Profissão: Professor e advogado Estado civil: Casado Filiação: Filho legítimo do bacharel Alexandre R.UM CURRÍCULO ESCRITO PELO PRÓPRIO POETA Resposta ao inquérito de Licínio dos Santos em A Loucura dos Intelectuais. Quais as horas que dedica ao seu trabalho intelectual: Não tenho horas metodicamente preferidas para o meu trabalho mental. entretanto. Sofre de insônia. Como faz o seu trabalho intelectual: Durante o dia. Quantas horas repousa: Meu repouso varia de 7 a 8 horas. Quais as cores de sua predileção: A vermelha e a azul. dos Anjos e D. numa atmosfera de rigorosíssima moralidade. Em que idade começou a produzir: Se me não falha o poder de reminiscência. Quais os autores que mais o impressionaram: Shakespeare e Edgar Poe Qual o seu autor favorito: Todos os bons autores me agradam.

este operário das ruínas -Que o sangue podre das carnificinas Come. Produndissimamente hipocondríaco.. desde a epigênese da infância. “Vou mandar levantar outra parede. Monstro de escuridão e rutilância. Meu Deus! E este morcego! E. Minh’alma se concentra. Esforços faço. Chego A tocá-lo. Já o verme -. filho do carbono e do amoníaco.. igual a um olho. Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco.TODOS OS SONETOS O MORCEGO Meia-noite. E vejo-o ainda.Digo. Que ventre produziu tão feio parto?! A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça. à noite ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto! PSICOLOGIA DE UM VENCIDO Eu. vede: Na bruta ardência orgânica dasede. agora. e à vida em geral declara guerra.. Este ambiente me causa repugnância. Circularmente sobre a minha rede! Pego de um pau. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. Ergo-me a tremer. Ao meu quarto me recolho.” -. A influência má dos signos do zodíaco. E há de deixar-me apenas os cabelos. Morde-me a goela ígneo e escaldante molho. Fecho o ferrolho E olho o teto. Sofro. Na frialdade inorgânica da terra! 34 ..

e quase morta. em desintegrações maravilhosas. Que. de repente.A IDÉIA De onde ela vem?! De que matéria bruta Vem essa luz que sobre as nebulosas Cai de incógnitas criptas misteriosas Como as estalactites duma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta Do feixe de moléculas nervosas. Em qualquer parte onde a cabeça ponha. quer e executa! Vem do encéfalo absconso que a constringe. raquítica. À noite. Marcas oriundas de úlceras e antrazes. Anoitece.. tênue. Mostra aos montes e aos rígidos rochedos A hedionda elefantíase dos dedos Há um cansaço no Cosmos. mínima. Sente no tórax a pressão medonha Do bruto embate férreo das tenazes. esbarra No molambo da língua paralítica! O LÁZARO DA PÁTRIA Filho podre de antigos Goitacases. Todos os cinocéfalos vorazes Cheiram seu corpo.. Delibera. E o Lázaro caminha em seu destino Para um fim que ele mesmo desconhece! 35 . Tísica. quando sonha.. Mas.. Quebra a força centrípeta que a amarra. Chega em seguida às cordas da laringe. e depois. Deixa circunferências de peçonha. Riem as meretrizes no Cassino.

Realizavam-se os partos mais obscuros. Em tua morfogênese de infante A minha morfogênese ancestral?! Porção de minha plásmica substância. Meus olhos liam! No húmus dos monturos.. a feder?! Ah! Possas tu dormir. Em que lugar irás passar a infância. feto esquecido. Panteisticamente dissolvido Na noumenalidade do NÃO SER! 36 . Fruto rubro de carne agonizante. Filho da grande força fecundante De minha brônzea trama neuronial.Homens que a herança de ímpetos impuros Tornara etnicamente irracionais! Não sei que livro. Tragicamente anônimo. em letras garrafais. E. com a sinergia de um gigante. Dentre as genealogias animais! Como quem esmigalha protozoários Meti todos os dedos mercenários Na consciência daquela multidão..IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA Rugia nos meus centros cerebrais A multidão dos séculos futuros . em vez de achar a luz que os Céus inflama. Agregado infeliz de sangue e cal. Que poder embriológico fatal Destruiu. Somente achei moléculas de lama E a mosca alegre da putrefação! SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos 2 fevereiro 1911.

acode-a A escala dos latidos ancestrais. em que tu dormes. avoenga e elementar Dos teus antepassados vemiformes. Cão! -. E vive em contubérnio com a bactéria. Livre das roupas do antropomorfismo.. Latindo a esquisitíssima prosódia Da angústia hereditária dos teus pais! O DEUS-VERME Fator universal do transformismo..é o seu nome obscuro de batismo. afaga-a. Ah! Para ele é que a carne podre fica. Suficientíssima é. Filho da teleológica matéria. Almoça a podridão das drupas agras. Jamais emprega o acérrimo exorcismo Em sua diária ocupação funérea. E irás assim.Alma do inferior rapsodo errante! Resigna-a.. Janta hidrópicos. ampara-a. Tua garganta estúpida arrancar Do segredo da célula ovular Para latir nas solidões enormes? Esta obnóxia inconsciência. pelos séculos adiante.VERSOS A UM CÃO Que força pôde adstrita e embriões informes.. Verme -. arrima-a. Na superabundância ou na miséria. E no inventário da matéria rica Cabe aos seus filhos a maior porção! 37 . rói vísceras magras E dos defuntos novos incha a mão. para provar A incógnita alma.

depois da morte?! Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também. esta tesoura. de amplos agasalhos. Voltando à pátria da homogeneidade. minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo. e. Dr.DEBAIXO DO TAMARINDO No tempo de meu Pai. Como uma vela fúnebre de cera. como uma caixa derradeira.. esta árvore. Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do último verso que eu fizer no mundo! 38 . portanto..corte Minha singularíssima pessoa. Abraçada com a própria Eternidade A minha sombra há de ficar aqui! BUDISMO MODERNO Tome. O passado da Flora Brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte! Dissolva-se. Guarda. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. Que importa a mim que a bicharia roa Todo o meu coração.. sob estes galhos.

SONHO DE UM MONISTA Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo Viajávamos.Velho caixão a carregar destroços -Levando apenas na tumba carcaça O pergaminho singular da pele E o chocalho fatídico dos ossos! 39 .. por toda a pro-dinâmica infinita. A verdade espantosa do Protilo Me aterrava. Eu fui refugiar-me à tua porta! Fazia frio e o frio que fazia Não era esse que a carne nos contorta. Cortava assim como em carniçaria O aço das facas incisivas corta! Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E eu saí. com uma ânsia sibarita..essa mônada esquisita -Coordenando e animando tudo aquilo! E eu bendizia. A energia intracósmica divina Que é o pai e é a mãe das outras energias! SOLITÁRIO Como um fantasma que se refugia Na solidão da natureza morta. Por trás dos ermos túmulos. Como um pagão no altar de Proserpina. -. Na inconsciência de um zoófito tranqüilo. Alheio ao velho cálculo dos dias. um dia. mas dentro da alma aflita Via Deus -. como quem tudo repele. com o esqueleto ao lado. Na guturalidade do meu brado.

como um gado vivo. mísera e mofina. vede: É o grande bebedeouro coletivo. nesta rede. Oh! Mãe original das outras formas. O hierofante que leu a minha sina Ignorante é de que és. Dentro do ângulo diedro da parede. A alma do homem poilígamo e lascivo?! Este lugar. Nenhuma ignota união ou nenhum sexo À contingência orgânica do sexo A tua estacionária alma prendeu. moços do mundo. talvez. Ah! De ti foi que. nascida Dessa homogeneidade indefinida Que o insigne Herbert Spencer nos ensina. Em que é mister que o gênero humano entre... Como quase impalpável gelatina. Vêm matar a sede! É o afrodístico leito do hetairismo A antecâmara lúbrica do abismo. Todas as noites. Nos estados prodrômicos da vida. A minha forma lúgubre nasceu! O LUPANAR Ah! Por que monstruosíssimo motivo Prenderam para sempre.MATER ORIGINALIS Forma vermicular desconhecida Que estacionaste. Quando a promiscuidade aterradora Matar a última força geradora E comer o último óvulo do ventre! 40 . Onde os bandalhos. autônoma e sem normas.

Que o homem universal de amanhã vença O homem particular eu que ontem fui! 41 . Do meu sepulcro para o teu sepulcro?! ÚLTIMO CREDO Como ama o homem adúltero o adultério E o ébrio a garrafa tóxica de rum. Creio. para o amor sagrado. e eu ouço tudo e calo! O amor da Humanidade é uma mentira.este ladrão comum Que arrasta a gente para o cemitério! É o transcendentalíssimo mistério! É o nous .Alavanca desviada do seu futuro -E haja só amizade verdadeira Duma caveira para outra caveira. É. O amor! Quando virei por fim a amá-lo?! Quando.. é o ego sum qui sum . E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo.IDEALISMO Falas de amor. perante a evolução imensa. É a morte. é esse danado número Um Que matou Cristo e que matou Tibério! Creio. De Messalina e de Sardanapalo?! Pois é mister que.. como o filósofo mais crente. O mundo fique imaterializado -. se o amor quea Humanidade inspira É o amor do sibarita e da hetaíra. é o pneuma . na generalidade descrente Com que a substância cósmica evolui. Amo o coveiro -.

. Talvez meu Pai! Hoffmânicas viagens Enchiam meu encéfalo de imagens As mais contraditórias e confusas! A energia monística do Mundo. talvez as Musas.. cartilagens Oriundas. Na rua apenas o caixão sombrio Ia continuando o seu passeio! SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO Para desvirginar o labirinto Do velho e metafísico Mistério. Cinzas. De aberratórias abstrações abstrusas! Nesse caixão iam. Pelas monotonias siderais. como os sonhos dos selvagens. subi talvez às máximas alturas. penetrava fundo No meu fenomenal cérebro cheio. improficuamente.O CAIXÃO FANTÁSTICO Célere ia o caixão.. caixas cranianas. nele. Era tarde! Fazia muito frio. Vaguei um século. À meia-noite. É necessário que ainda eu suba mais! 42 . com a alma às escuras. e. Numa antropofagia de faminto! A digestão desse manjar funéreo Tornado sangue transformou-me o instinto De humanas impressões visuais que eu sinto Nas divinas visões do íncola etéreo! Vestido de hidrogênio incandescente. inclusas. Mas.. se hoje volto assim. Comi meus olhos crus no cemitério.

A UM CARNEIRO MORTO Misericordiosíssimo carneiro Esquartejado. com o envelhecimento da nervura. trilhos. A que nos acharemos reduzidos! Não morrerão. a maldição de Pio Décimo caia em teu algoz sombrio E em todo aquele que for seu herdeiro! Maldito seja o mercador vadio Que te vender as carnes por dinheiro. tuas sementes! E assim.fontes de perdão -. para o Futuro. Pelo muito que em vida nos amamos. Se fosses Deus. com o envelhecimento dos tecidos! Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos! E a podridão. tua lã aquece o mundo inteiro E guarda as carnes dos que estão com frio! Quando a faca rangeu no teu pescoço. Ao monstro que espremeu teu sangue grosso Teus olhos -. porém. pois. em diferentes Florestas. inda teremos filhos! 43 . reunidos. no Dia de Juízo.perdoaram! Oh! tu que no Perdão eu simbolizo. glebas. meu velho! E essa futura Ultrafatalidade de ossatura. vales. selvas. Eu. Tu. Depois da morte. Talvez perdoasses os que te mataram! VOZES DA MORTE Agora sim! Vamos morrer. Na multiplicidade dos teus ramos. Tamarindo de minha desventura.

Deixar enfim na cloaca mais sombria Este feixe de células humanas! E enquanto arremedando Éolo iracundo.a costureira funerária -Cose para o homem a última camisa! 44 . asa De mau agouro que. Como a cinza que vive junto à brasa. Como os Goncourts. É meu destino viver junto a esa asa.INSÂNIA DE UM SIMPLES Em cismas patológicas insanas. Perseguido por todos os reveses. É-me grato adstringir-me.. Ganem todos os vícios de uma vez. Na orgia heliogabálica do mundo. como os irmãos siameses! É com essa asa que eu faço este soneto E a indústria humana faz o pano preto Que as famílias de luto martiriza. Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes O telhado de nossa própria casa. apodrecer sozinho No silêncio de minha pequenez! ASA DE CORVO Asa de corvos carniceiros. na hierarquia Das formas vivas. à categoria Das organizações liliputianas. É ainda com essa asa extraordinária Que a Morte -.. Apraz-me. nos doze meses. Ter o destino de uma larva fria. adstrito ao triângulo mesquinho De um delta humilde. Ser semelhante aos zoófitos e às lianas...

Como o soldado que rasgou a farda No desespero do último momento! Tenta chorar e os olhos sente enxutos!. “O fracasso da tua geografia “E do teu escafandro esmiuçador! “Ah! Jamais saberás ser superior. “Homem. Ouvindo a Escada e o Mar. A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda.. violento. “À luz da epicurista ataraxia. o Homem. a mim. aos soluços.. o Hércules. mamífero inferior. “Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia “Voando ao vento o vastíssimo vapor. caiu de bruços No pandemônio aterrador do Caos” 45 . conquanto ainda hoje em dia. E não lhe vem à boca uma palavra! O MAR. A ESCADA E O HOMEM “Olha agora. puxa e repuxa a língua. em desalento. “Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me! E a verticalidade da Escada íngreme: “Homem. Busca exteriorizar o pensamento Que em suas fronetais células guarda! Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda! E ei-lo a tremer. com os dedos brutos Para falar. É como o paralítico que. à míngua Da própria voz e na que ardente o lavra Febre de em vão falar.O MARTÍRIO DO ARTISTA Arte ingrata! E conquanto. rasga o papel. já transpuseste os meus degraus?!” E Augusto.

Vejo. então. Só lhe restam agora o último doente E a armação funerária das clavículas! RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ A minha ama-de-leite Guilhermina Furtava as moedas que o Doutor me dava. Ele hoje vê que. minha Mãe. Penetrara-lhe os próprios neuroplastas. não fora ela! --“ E maldizia a sina. Nas suas 33 vértebras gastas Quase todas as pedras tumulares! A frialdade dos círculos polares. agora.. porque furtei o peito Que dava leite para a tua filha! 46 . mas eu.DECADÊNCIA Iguais às linhas perpendiculares Caíram. minha ama. como cruéis e hórridas hastas. Via naquilo a minha própria ruína! Minha ama.Não. em minha cama. Em sucessivas atuações nefastas. Que ela absolutamente não furtava. após tudo perdido. Eu furtei mais. Estragara-lhe os centros medulares! Como quem quebra o objeto mais querido E começa a apanhar piedosamente Todas as microscópicas partículas. entretanto. Furtaste a moeda só. hipócrita. Que a mim somente cabe o furto feito. Sinhá-Mocinha.. Tu só furtaste a moeda. o ouro que brilha.. afetava Susceptibilidade de menina: “-.. ralhava.

aos reais convivas. igual a um porco.. Terás somente uma vontade cega E uma tendência obscura de ser vivo! VOZES DE UM TÚMULO Morri! E a Terra -. Hoje. É noite. Serviu as carnes do seu próprio filho! Por que para este cemitério vim?! Por que?! Antes da vida o angusto trilho Palmilhasse. Assim Tântalo. a escândalos e incestos É natural que o instinto humano aceda! Sem que te arranquem da garganta queda A interjeição danada dos protestos.a mãe comum -. porque não tem fim! No ardor do sonho que o fronema exalta Construí de orgulho ênea pirâmide alta. do que este que palmilho E que me assombra.. E tu mesmo. porém...o brilho Destes meus olhos apagou!. e. Hoje que apenas sou matéria e entulho Tenho consciência de que nada sou! 47 .. num festim..A UM MASCARADO Rasga essa máscara ótima de seda E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos.. que se desmoronou A pirâmide real do meu orgulho.. à noite. Hás de engolir. os restos Duma comida horrivelmente azeda! A sucessão de hebdômadas medonhas Reduzirá os mundos que tu sonhas Ao microcosmos do ovo primitivo. após a árdua e atra refrega.

E eu tão sem crença e as árvores tão nuas E tu. Tudo convém para o homem ser completo! O ângulo obtuso. para amenizar as dores tuas. Pai. O que o homem ama e o que o homem abomina. gemendo. e o ângulo reto. trilhando as mesmas ruas. para onde fores. Deus. E o carpinteiroque fabrica as mesas Faz também os caixões do cemitério!... meu Pai?! Que mão sombria. O Amor e a Paz. Indiferente aos mil tormentos teus De assim magoar-te sem pesar havia?! -. Eu. é justo. Tu. Junta-se um hemisfério a outro hemisfério... Uma feição humana e outra divina São como a eximenina e a endimenina Que servem ambas para o mesmo feto! Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes! Por justaposição destes contrastes. e o horror de nossas duas Mágoas crescendo e se fazendo horrores! Magoaram-te.Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim É bom. para amenizar as minhas dores! Que coisa triste! O campo tão sem flores.CONTRASTES A antítese do novo e do obsoleto. Deus não havia de magoar-te assim! 48 . o Ódio e a Carnificina. Às alegrias juntam-se as tristezas. e sendo justo. pois. Irei também. SONETO – I – A MEU PAI DOENTE Para onde fores.

Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu! SONETO – III Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra. Rezo. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. o ofício da agonia.SONETO – II – A MEU PAI MORTO Madrugada de Treze de Janeiro. Com a invariabilidade da clepsidra! Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos Roída toda de bichos. E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o”! deixa-o. Como Elias. Nem uma névoa no estrelado véu. dormir primeiro! E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. Amo meu Pai na atômica desordem Entre as bocas necrófagas que o mordem E a terra infecta que lhe cobre os rins! 49 ... Duras leis as que os homens e a hórrida hidra A uma só lei biológica vinculam. num carro azul de glórias. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. Mas pareceu-me. Mãe. sonhando.. cuidei que ele dormia. Em seus lábios que os meus lábios osculam Microrganismos fúnebres pululam Numa fermentação gorda de cidra.. entre as estrelas flóreas. E a marcha das moléculas regulam. como os queijos Sobre a mesa de orgíacos festins!.

O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra! 50 . pai. possui minh’alma!. meu filho.. numa rogativa: “Não mate a árvore. pois.. despindo a última alfaia Que ao comércio dos homens me traz presa.DEPOIS DA ORGIA O prazer que na orgia a hetaíra goza Produz no meu sensorium de bacante O efeito de uma túnica brilhante Cobrindo ampla apostema escrofulosa! Troveja! E anelo ter... Esta árvore. no junquilho.e ajoelhou-se. Ficar latindo minha dor medonha! A ÁRVORE DA SERRA -. Caiu aos golpes do machado bronco. meu pai.Disse -.. -. não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho. Para que eu tenha uma velhice calma! -. por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs almas nos cedros. É preciso cortá-la.Meu pai.. olhando a pátria serra..As árvores. para que eu viva!” E quando a árvore.. Apraz-me. Livre deste cadeado de peçonha. O sistema nervoso de um gigante Para sofrer na minha carne estuante A dor da força cósmica furiosa. Semelhante a um cachorro de atalaia Às decomposições da Natureza. enfim. sôfrega e ansiosa. meu filho.

E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo. preto e amarelo. Olha a atmosfera livre. não tens mais! E pois. Foi este mundo que me fez tão triste. de à antiga rota Voar. por exemplo: o do boi Ápis do Egito Ao velho Niebelungen da Alemanha. Pões-te a assobiar.. Arrancou os cabelos na montanha! Desceu depois à gleba mais bastarda. mergulhou a cabeça no Infinito.. sem cerebelo A gargalhada da última derrota! A gaiola aboliu tua vontade. Pondo a áurea insígnia heráldica da farda À vontade do vômito plebeu. Continua a comer teu milho alpiste. Tu nunca mais verás a liberdade!. o amplo éter belo..VENCIDO No auge de atordoadora e ávida sanha Leu tudo. Acometido de uma febre estranha Sem o escândalo fônico de um grito. O CORRUPIÃO Escaveirado corrupião idiota. Que do fundo do chão todo o ano brota! Mas a ânsia de alto voar. desde o mais prístino mito. bruto.. Ah! Tu somente ainda és igual a mim. E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria O vencido pensava que cuspia Na célula infeliz de onde nasceu. Foi a gaiola que te pôs assim! 51 .

Noite alta. a equórea coorte Atordoadamente ribombava! Eu. Onde um nume de amor.. Com os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos.. ególatra céptico. Canta a aleluia virginal das crenças. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. me assombrava! Mas a alga usufrutuária dos oceanos E os malacopterígios subraquianos Que um castigo de espécie emudeceu. assim como eu! VANDALISMO Meu coração tem catedrais imensas.ALUCINAÇÃO À BEIRA MAR Um medo de morrer meus pés esfriava. na diuturna discórdia. No desespero dos iconoclastas Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! 52 . em serenatas. Ante o telúrico recorte. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas.. Templos de priscas e longínquas datas. O vento estava forte E aquela matemárica da Morte Com os seus números negros. cismava Em meu destino!.. No eterno horror das convulsões marítimas Pareciam também corpos de vítimas Condenados à Morte.

Acende teu cigarro! o beijo. E qual mais pronto. Apedreja essa mão vil que te afaga. Que ninguém doma um coração de poeta! 53 . A mão que afaga é a mesma que apedreja.. veio um atleta. por fim. Toma um fósforo. nesta terra miserável. E à rutilância das espadas. ao todo. Se a alguém causa inda pena a tua chaga. Veio depois um domador de hienas E outro mais. E não pôde domá-lo enfim ninguém. sente invevitável Necessidade de também ser fera. guerreiro. Meu coração triunfava nas arenas. Mora.estranho carniceiro! Não podes?! Chama então presto o primeiro E o mais possante gladiador de Roma. e doma Meu coração -. e. entre feras. Vieram todos. que. amigo. e qual mais presto assoma Nenhum pôde domar o prisioneiro.esta pantera -Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem. toma A adaga de aço.VERSOS ÍNTIMOS Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. o gládio de aço. Escarra nessa boca que te beija! VENCEDOR Toma as espadas rútilas.. uns cem. é a véspera do escarro. Somente a Ingratidão -. por fim.

. mas o que não sabe E que essa mágoa infinda assim não cabe Na sua vida. o subconsciente ai formidando Da Natureza que parou.. o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada. E é em suma.. Sabe que sofre. Que. O choro da Energia abandonada! É a dor da Força desaproveitada — O cantochão dos dínamos profundos. nada há que traga Consolo à Mágoa.. a que só ele assiste.. pancada por pancada. e quanto mais resiste Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga. a escutar. Ouço.ETERNA MÁGOA O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo. do Orbe oriundos. Da transcendência que se não realiza. No rudimentarismo do Desejo! 54 . pois. Quer resistir. chorando. em sons subterrâneos.. A sucessividade dos segundos. Da luz que não chegou a ser lampejo. E quando esse homem se transforma em verme É essa mágoa que o acompanha ainda! O LAMENTO DAS COISAS Triste. jazem ainda na estática do Nada! É o soluço da forma ainda imprecisa. é que essa mágoa infinda Transpõe a vida do seu corpo inerme. podendo mover milhões de mundos.

Onde a Vida do humano aspecto fero Se desarraiga. Aglomeradamente e em turbilhão Solucem dentro do Universo ancião. Como a última expressão da Dor sem termo. Oh! Nauta aflito do Subliminal.O MEU NIRVANA No alheamento da obscura forma humana. De que. Parem as vidas. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das Idéas! CAPUT IMMORTALE Na dinâmica aziaga das descidas. Todas as urbes siderais vencidas! Morra o éter. a animar o cosmos ermo. afinal. Foi que eu. eu. num grito de emoção. feito força. impero Na imanência da Idéa Soberana! Destruída a sensação que oriunda fora Do tacto — ínfima antena aferidora Destas tegumentárias mãos plebéas — Gozo o prazer. o meu Nirvana! Nessa manumissão schopenhauereana. Sobre a pancosmológica exaustão Reste apenas o acervo árido e vão Das muscularidades consumidas! Ainda assim. Morto o comércio físico nefando. pensando. sincero Encontrei. que os anos não carcomem. Tua cabeça há de ficar vibrando Na negatividade universal! 55 . me desencarcero. Cesse a luz.

o olfato e o gosto! Carne.. Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas. A dardejar relampejantes brilhos. sem gritos.. numa alta aclamação. há inúmeros milênios. ao sol posto. Dói-me ver. Em tua podridão a herança horrenda. muito embora a alma te acenda.. Diafragmas. "Com essa intuição monística dos gênios. "Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas! "Une. Era. e. feixe de mônadas bastardas.APOSTROFE À CARNE Quando eu pego nas carnes do meu rosto. Desagrega-se e deixa na mortalha O tacto. sondas e agulhas "Debalde aplicas aos heterogêneos "Fenômenos. pois. Que eu tenho de deixar para os meus filhos! LOUVOR A UNIDADE "Escafandros. Pressinto o fim da orgânica batalha: — Olhos que o húmus necrófago estraçalha. E o Homem — negro e heteróclito composto. a irmanar diamantes e hulhas. a vista. sem retumbância. decompondo-se. o ouvido. arpões. "À hirta forma falaz do are perennius "A transitoriedade das fagulhas!" — Era a estrangulação.. Onde a alva flama psíquica trabalha. Da multimilenária dissonância Que as harmonias siderais invade. O regresso dos átomos aflitos Ao descanso perpétuo da Unidade! 56 .

para mim que a Natureza escuto. opondo-se à Inércia. E a alma o obnóxio quietismo sonolento Rasga. é a essência pura. E o nada do meu homem interior! 57 . E eu sinto a angústia dessa raça ardente Condenada a esperar perpetuamente No universo esmagado da água morta! SUPREME CONVULSION O equilíbrio do humano pensamento Sofre também a súbita ruptura. à espera de quem passa Para abrir-lhe. A convulsão meteórica do vento. é o transunto.. Ah! foi teu beijo convulsionador Que produziu este contraste fundo Entre a abundância do que eu sou. sem dor. na noite escura. meus semelhantes! Mas. no Mundo. é a abreviatura Do todo o ubiqüitário Movimento! Sonho. a porta. De todas as grandezas começantes! Larvas desconhecidas de gigantes Sobre o seu leito de peçonha e luto Dormem tranqüilamente o sono bruto Dos superorganismos ainda infantes! Em sua estagnação arde uma raça.. Que produz muita vez. Tragicamente. às escâncaras. e.O PÂNTANO Podem vê-lo. Este pântano é o túmulo absoluto. É a síntese. — libertação do homem cativo — Ruptura do equilíbrio subjetivo.

porventura. tanto Que. Ao supremo infortúnio de ser alma! NATUREZA ÍNTIMA Ao filósofo Farias Brito Cansada de observar-se na corrente Que os acontecimentos refletia. deprimindo-o . causa do Mundo.. Teu desenvolvimento continua! Antes. geléia humana. ainda algum dia. geléia crua. Vence o granito. que ainda haveres De atingir. O espanto Convulsiona os espíritos. rosto?! "Serei apenas mera crusta espessa?! "Pois é possível que Eu. um dia. em realidade. Volvas à antiga inexistência calma!. no teu silêncio. oh! gérmen.A UM GÉRMEN Começaste a existir. ainda sentia Era a mesma imortal monotonia De sua face externa indiferente! E a Natureza disse com desgosto: "Terei somente. em conjugação com a terra nua. não progridas E em retrogradações indefinidas... "Menos interiormente me conheça?!" 58 . "Quanto mais em mim mesma me aprofundo.. E hás de crescer. e. Reconcentrando-se em si mesma. A Natureza olhou-se interiormente! Baldada introspecção! Noumenalmente O que Ela. Antes o Nada. é natural. o pranto Das tuas concreções plásmicas flua! A água. entanto. como o gérmen de outros seres.

os elementos broncos. Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens.... trancada num disfarce. Da avidez com que o Espírito procura É a Subconsciência que se transfigura Em volição conflagradora. nele.. é o instinto horrendo De subir. é ânsia. descendo A irracionalidade primitiva. Tornam todas as almas pensativas! Há uma força vencida nesse mundo! Todo o organismo florestal profundo É dor viva.. é transporte. no seu arcano... Bracejamentos de álamos selvagens. na ordem cósmica..As ambições que se fizeram troncos. E a dramatização sangrenta e dura Vir Deus num simples grão de argila errante. Como um convite para estranhas viagens. Porque nunca puderam realizar-se! GUERRA Guerra é esforço. Precisa de encharcar-se em sangue humano Para mostrar aos homens que está viva! 59 . São absolutamente negativas! Araucárias. que se entrega à morte Para a felicidade da Criatura! É a obsessão de ver sangue.. Vivem só. . É a Natureza que. E a coorte Das raças todas.. .A FLORESTA Em vão com o mundo da floresta privas!. traçando arcos de ogivas. é inquietude.Todas as hermenêuticas sondagens.

acérrima e latente. perante o Incognoscível Essa fatalidade de ser grande Para guardar unicamente poeira! HINO À DOR Dor. E.. ouro De que as próprias desgraças se engalanam! Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato. sol do cérebro. À humana comoção impondo-a..O SARCÓFAGO Senhor da alta hermenêutica do Fado Perlustro o atrium da Morte. oh! Dor. É frio o ambiente E a chuva corta inexoravelmente O dorso de um sarcófago molhado! Ah! Ninguém ouve o soluçante brado De dor profunda. saúde dos seres que se fanam.. Com os corpúsculos mágicos do tacto Prendo a orquestra de chamas que executas. sem convulsão que me alvorece. em suma.. Alegria das glândulas do choro De onde todas as lágrimas emanam. ancoradouro Dos desgraçados.. inteira. Dói-lhe.. Que o sarcófago. ereto e imóvel sente Em sua própria sombra sepultado! Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível Que em toda a sua máscara se expande. Minha maior ventura é estar de posse De tuas claridades absolutas! 60 . És suprema! Os meus átomos se ufanam De pertencer-te.. Riqueza da alma. assim. psíquico tesouro.

Meu fantasma de carne passageira! Vulcão da bioquímica fogueira Destruiu-me todo o orgânico fastígio .. Terá nascido nesse mesmo instante A mineralogia derradeira! A impérvia escuridão obnubilante Há de cessar! Em sua glória inteira Deus resplandecerá dentro da poeira Como um gasofiláceo de diamante! Nessa última visão já subterrânea. ) Com o vosso catalítico prestígio. Um movimento universal de insânia Arrancará da insciência o homem precito.. Haveis de ser no mundo subjetivo.. Dai-me asas. Expressões do universo radioativo. Sois vós que sustentais ( Força Alta exige-o . em épocas futuras.ÚLTIMA VISIO Quando o homem resgatado da cegueira Vir Deus num simples grão de argila errante. Dai-me alma. para o último remígio... pois. Benditos vós. pois. Minha continuidade emocional! 61 . para a hora derradeira! Culminâncias humanas ainda obscuras. A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ele ainda tem de abrir para o Infinito! AOS MEUS FILHOS Na intermitência da vital canseira. Ions emanados do meu próprio ideal.. que.

cedendo à ação de ignotos pesos! É então que a vaga dos instintos presos — Mãe de esterilidades e cansaços — Atira os pensamentos mais devassos Contra os ossos cranianos indefesos. A alma arde.A DANÇA DA PSIQUÊ A dança dos encéfalos acesos Começa. E acho um feixe de forças prodigiosas Sustentando dois monstros: a alma e o instinto! O POETA DO HEDIONDO Sofro aceleradíssimas pancadas No coração.. então. sondando-me a consciência A ultra-inquisitorial clarividência De todas as neuronas acordadas! Quanto me dói no cérebro esta sonda! Ah! Certamente eu sou a mais hedionda Generalização do Desconforto.. O cosmos sintético da Idéa Surge. Arranco do meu crânio as nebulosas. os pés e os braços Tombara... as mãos. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto! 62 . Ataca-me a existência A mortificadora coalescência Das desgraças humanas congregadas! Em alucinatórias cavalgadas. A carne é fogo. Subitamente a cerebral coréa Pára. A espaços As cabeças. Emoções extraordinárias sinto. Eu sinto.

tragando a ambiência vasta. O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! O nôumeno e o fenômeno. Todas as danações sexuais que abrangem A apolínica besta famulenta! Ambos assim. Os dentes antropófagos que rangem. aumenta. Receando outras mandíbulas a esbangem. Porque.. os dois Representam. Excrescência de terra singular. na ânsia voraz que. no ardor dos seus assomos A alegoria do que outrora fomos E a imagem bronca do que inda hoje sois! HOMO INFIMUS Homem. Teu coração se desagrega. Deixa a tua alegria aos seres brutos. No desembestamento que os arrasta. Tu só tens um direito: — o de chorar! 63 . Rugindo. na superfície do planeta. entretanto. Realidade geográfica infeliz. o alfa e o omega Amarguram-te. carne sem luz. Sangram-te os olhos.A FOME E O AMOR A um monstro Fome! E. Montão de estercorária argila preta.. ávida. e. Superexcitadíssimos. Hebdômadas hostis Passam. criatura cega. ris! Fruto injustificável dentre os frutos. Antes da refeição sanguinolenta! Amor! E a satiríasis sedenta. enquanto as almas se confrangem.

o Inferno. num sincronismo eterno A fórmula de todos os destinos! NOLI ME TANGERE A exaltação emocional do Gozo. dão gritos Nas minhas camas cerebrais funéreas. mordem-se. a Ciência. homens felizes. de sofrerdes A sensação de todas as misérias! 64 . por conseqüência um ser monstruoso! Em minha arca encefálica indefesa Choram as forças más da Natureza Sem possibilidades de repouso! Agregados anômalos malditos Despedaçam-se. E trago em mim.. Da dor humana. — A águia dos latifúndios florentinos! Sistematizo.. a Arte e a Beleza Servem de combustíveis à ira acesa Das tempestades do meu ser nervoso! Eu sou. aparelhou.MINHA FINALIDADE Turbilhão teleológico incoercível. Ai! Não toqueis em minhas faces verdes.. Sob pena. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Na canonização emocionante.. O Amor. a Glória. soluçando. Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma Dos que amam apreender o Inapreensível! Predeterminação imprescriptível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. Que força alguma inibitória acalma. sou maior que Dante.

a alardear bárbaros sons abstrusos. achato a esfera E acho odor de cadáver na fragrância! Chamo-me Aberração. Que.. Minha alma é um misto De anomalias lúgubres. Teço a infâmia. Uiva. È a saudade dos erros satisfeitos.. à luz de fantástica ribalta.. não cabendo mais dentro dos peitos. Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia. engendro o lodo E nas mudanças do Universo todo Deixo inscrita a memória do meu gérmen! 65 . Em que o Mal se engrandece e o ódio se exalta. A ignomínia de todos os abusos! É a prosódia do cárcere. Entoado asperamente. em voz muito alta. Pela promiscuidade dos reclusos! No wagnerismo desses sons confusos. cresto o sonho. ontem. a exigir que os sãos enfermem. O epitalâmio da Suprema Falta. urdo o crime. Como Belerofonte com a Quimera Mato o ideal. Existo Como o cancro.O CANTO DOS PRESOS Troa. é a partênea Aterradoramente heterogênea Dos grandes transviamentos subjectivos.. (Hoje. Se escapa pela boca dos cativos! ABERRAÇÃO Na velhice automática e na infância. amanhã e em qualquer era) Minha hibridez é a súmula sincera Das defectividades da Substância.

minha alma. agarro. Encho o Espaço com a minha plenitude! 66 . Ceva-se em minha carne. transmudado em rutilância fria. dada às bravias Cóleras dos dualismos implacáveis E à gula negra das antinomias! Psique biforme. Transponho ousadamente o átomo rude E. de quanta Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos. o Céu e o Inferno absorvo. como um corvo. Todas as coisas íntimas suplanta! Penetro. ausculto. A simultaneidade ultramonstruosa De todos os contrastes famulentos! AO LUAR Quando. Nos paroxismos da hiperestesia. dona. o Infinito se levanta À luz do luar... Feita dos mais variáveis elementos. invado.. O Infinitésimo e o Indeterminado.Carrego em minhas células sombrias Antagonismos irreconciliáveis E as mais opostas idiossincrasias! Muito mais cedo do que o imagináveis Eis-vos.VÍTIMA DO DUALISMO Ser miserável dentre os miseráveis -. enfim. por fim. pelos caminhos quedos Minha tátil intensidade é tanta Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos! Quebro a custódia dos sentidos tredos E a minha mão. apreendo. Criação a um tempo escura e cor-de-rosa.. à noite.

A coisa em si movia-se aos meus brados E os acontecimentos subjugados Olhavam como escravos para mim! 67 . e nos abismos Ninguém responderá tua pergunta! Reclamada por negros magnetismos Tua cabeça há de cair. aos trismos Da epilepsia horrenda.A UM EPILÉTICO Perguntaras quem sou?! – ao suor que te unta À dor que os queixos te arrebenta. arder. Tu hás de entrar completamente puro Para a circulação do Grande Todo! CANTO DA ONIPOTÊNCIA Cloto. projetado muito além da História. como a luz do amanhecer. Laquesis.. E acima deles. Na hiperculminação definitiva O meu supremo e extraordinário Ser! Em minha sobre-humana retentiva Brilhavam. Sentia dos fenômenos o fim. virgem.. defunta Na aterradora operação conjunta Da tarefa animal dos organismos! Mas após o antropófago alambique Em que é mister todo o teu corpo fique Reduzido a excreções de sânie e lodo. Como a luz que arde. como um astro. Átropos. Siva. Tifon.. A perfeição virtual tornada viva E o embrião do que podia acontecer! Por antecipação divinatória. Eu.. num monturo.

remoinha. neste ergástulo das vidas Danadamente. rábido. esse mundo incoerente. alarga-se em meu hausto. ai! como eu sinto no esqueleto exausto Não poder dar-lhe vida material! 68 . e entre rochas duras Mostra ao Cosmos a face degradada! Entre os pedrouços maus dessa morada É que. Branda. sobre a terra ardente Hão de encher outras árvores! Somente Minha desgraça há de ficar sozinha! ANSEIO (QUEM SOU EU...Trilhões de células vencidas. Nutrindo uma efeméride inferior. Essa elementaríssima semente Do que hei de ser. a afagar tantas feridas....) Quem sou eu. Grita em meu grito.. tenta transpor o Ideal.. A áurea mão taumatúrgica do Amor Traça. Roem-na amarguras Talvez humanas. E. A estrutura de um mundo superior! Alta noite. minha árvore humana desfolhada! Mulher nenhuma afagará meu tronco! Eu não me abalarei. entanto. às apalpadelas e às escuras. a soluçar de dor?! -. nas minhas formas carcomidas. Hão de encontrar as gerações futuras Só.. nem mesmo ao ronco Do furacão que. Folhas e frutos.MINHA ÁRVORE Olha: É um triângulo estéril de ínvia estrada! Como que a erva tem dor.

Ouço o universo ansioso que se agita Dentro de cada pensamento humano! No abstrato abismo equóreo..Tudo a unidade do meu ser resume! Sou eu que. revolvendo o ego profundo E a escuridão dos cérebros medonhos. desconforto E ataraxia.REVELAÇÃO I Escafandrista de insondado oceano Sou eu que. ateando da alma o ocíduo lume. -. em que me inundo. Sinto bater na putrescível crusta Do tegumento que me cobre os peitos Toda a imortalidade da Substância! 69 . Penetro a essência plásmica infinita. sânie e perfume. Massa palpável e éter. Restituo triunfalmente à esfera calma Todos os cosmos que circulam na alma Sob a forma embriológica de sonhos! II Treva e fulguração. auscultando o absconso arcano! Por um poder de acústica esquisita. hirto. -. em cisma abismadora absorto. A potencialidade do que é morto E a eficácia prolífica do estrume! Ah! Sou eu que.Mãe promíscua do amor e do ódio insano! Sou eu que. transpondo a escarpa augusta Dos limites orgânicos estreitos. Sou eu que. aliando Buda ao sibarita. feto vivo e aborto.. Apreendo. Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia.

na abismal sustância informe. três. A própria Esfinge há de falar-vos ainda E eu. rádios e úmeros. Continua a contar na paz ascética Dos tábidos carneiros sepulcrais Tíbias. dois. Na progressão dos números inteiros A gênese de todos os abismos! Oh! Pitágoras da última aritmética. quatro.. A tua conta não acaba mais! TREVAS Haverá.. somente em..VERSOS A UM COVEIRO Numerar sepulturas e carneiros. Reduzir carnes podres a algarismos. hei de ficar trancado Na noite aterradora de mim mesmo! 70 . em fúlgidos letreiros. Esoterismos Da Morte! Eu vejo. -. sem complicados silogismos. Rotos os nimbos maus que a obstruem a esmo. cinco. Porque. nas geenas Luz bastante fulmínea que transforme Dentro da noite cavernosa e enorme Minhas trevas anímicas serenas?! Raio horrendo haverá que as rasgue apenas?! Não! Porque. infinita como os próprios números. A aritmética hedionda dos coveiros! Um.. Para convulsionar a alma que dorme Todas as tempestades são pequenas! Há de a Terra vibrar na ardência infinda Do éter em branca luz transubstanciado. crânios. por hipótese.Tal é. cérebros.

amam jazer. mal Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?! Ah! Nesse anelo trágico de altura Não serão as montanhas. Quem sabe. perscruta O puerpério geológico interior. recalcados. Por um abortamento de mecânica.AS MONTANHAS I Das nebulosas em que te emaranhas Levanta-te. assim. se o que ainda não existe Não vibra em gérmen no agregado triste Da síntese sombria do meu Ser?! 71 . na natureza espiritual. De onde rebenta. afinal. íngremes. Inacessíveis aos humanos tráficos Onde sóis. sob o horror Dessas agregações de pedra bruta?! Como nesses relevos orográficos. Toda a sublevação da crusta hirsuta! No curso inquieto da terráquea luta Quantos desejos fervidos de amor Não dormem. alma. A representação ainda inorgânica De tudo aquilo que parou em mim?! II Agora. porventura. em contrações de dor. oh! delumbrada alma. A significação dessas montanhas! Quem não vê nas graníticas entranhas A subjetividade ascensional Paralisada e estrangulada. me semente. e dize-me. a alma. Estacionadas. Qual é.

babando. E estende os braços de madeira rica Para as populações do mundo inteiro! Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda.. o último a ser. da Massa.... E não haver uma alma que lhe entenda A angústia transoceânica medonha No rangido de todas as enxárcias! 72 . sonha! Mágoas. Lambe-lhe a quilha e espúmea onda impudica E ébrios tritões. derrota Na atual força. E eu só. a amarra agarrada à âncora. que o Éter indica. e. se as Tem. Federações sidéricas quebradas. Pára e. É a subversão universal que ameaça A Natureza. pelo orbe adiante.. Zarpa. Destrói a ebulição que a água alvorota E põe todos os astros na desgraça! São despedaçamentos. Espião da cataclísmica surpresa. integérrima.. subjugue-as ou difarce-as. A íngreme cordoalha úmida fica.APOCALIPSE Minha divinatória Arte ultrapassa Os séculos efêmeros e nota Diminuição dinâmica. haurem-lhe o cheiro! Na glauca artéria equórea ou no estaleiro Ergue a alta mastreação. alçando o hirto esporão guerreiro. A única luz tragicamente acesa a universalidade agonizante! A NAU A Heitor Lima Sôfrega. derrubadas. em noite aziaga e ignota.

Arrancar. vazio! 73 . aborte Na hora em que a nossa carne apodrecer?! Não! Essa luz dial. Em convulsivas contorções sensuais. ao cabo do último milênio. e. Os nossos esqueletos descarnados. Das profundezas do Subconsciente O milagre estupendo da aeronave! Rasgue os broncos basaltos negros. adstrito à ciência grave.. Haurindo o gás sulfídrico das covas. Fome do átomo e eurítmico transporte De todas as moléculas. continua a arder! Surdos destarte a apóstrofes e brados. Sôfrego. Com essa volúpia das ossadas novas Hão de ainda se apertar cada vez mais! O FIM DAS COISAS Pode o homem bruto. que ela encheu.. invente A lâmpada aflogística de Davy! Em vão! Contra o poder criador do Sonho O Fim das Coisas mostra-se medonho Como o desaguadouro atro de um rio. Para a perpetuação da Espécie forte. em que arde o Ser. cave. Dentro dos ossos. A humanidade vai pesar seu gênio Encontra o mundo. ainda depois da morte. na ânsia ardente De perscrutar o íntimo do orbe. num triunfo surpreendente. E quando.VOLÚPIA IMORTAL Cuidas que o genesíaco prazer. Tragicamente. o dolo sáxeo.

Ia talvez morrer. Extraordinariamente atordoadora. Somente. Ficam brilhando com fulgor sinistro Dentro da treva onímoda e complexa Os olhos fundos dos que estão com medo A OBSESSÃO DO SANGUE Acordou.. Horrível! O osso Frontal em fogo. A água transubstancia-se... À custódia do anímico registro A planetária escuridão se anexa.. Viu vísceras vermelhas pelo chão. A carne que ele havia de comer! No inferno da visão alucinada. Ah! Certamente não podia ser! Levantou-se. iguais a espiões que acordam cedo. vendo sangue. com um berro bárbaro de gozo. fora. mancha a gleba.A NOITE A nebulosidade ameaçadora Tolda o éter. Viu montanhas de sangue enchendo a estrada. E amou. agride os rios E urde amplas teias de carvões sombrios No ar que álacre e radiante. há instantes. a escorrer Fita rubra de sangue muito grosso.... antes do almoço. Era tão moço.. O monocromatismo monstruoso Daquela universal vermelhidão! 74 . Na mão dos açougueiros. A onda estoura Na negridão do oceano e entre os navios Troa bárbara zoada de ais bravios. E. eis que viu. Disse. Olhou-se no espelho.

Abraço-me com a terra atormentada Em contubérnio convulsionador.. E em tudo igual a Goethe.. dando-me ao corpo vão Esta volúpia de ficar no chão Fruindo na tabidez sabor divino! Espiando o meu cadáver ressupino. Ah! todos os fenômenos do solo Parecem realizar de pólo a pólo O ideal do Anaximandro de Mileto! No hierático areópago heterogêneo Das idéias. me não consolo..VOX VICTIMAE Morto! Consciência quieta haja o assassino Que me acabou. Rasgo dos mundos o velário espesso. reconheço O império da substância universal ! 75 . Leio o obsoleto Rig-Veda. Outras cabeças aparecerão Para compartilhar do meu destino! Na festa genetlíaca do Nada... E ai! Como é boa esta volúpia obscura Que une os ossos cansados da criatura Ao corpo ubiqüitário do Criador! AGONIA DE UM FILÓSOFO Consulto o Phtah-Hotep.. O Inconsciente me assombra e eu nele rolo Com a eólica fúria do harmatã inquieto! Assisto agora à morte de um inseto!. ante obras tais... No mar de humana proliferação. percorro como um gênio Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!. E.

Tragicamente de si mesmo oriundo.Que fazes ainda no meu crânio? E o Último Número. Não te abandono mais! Morro contigo!" SAUDADE Hoje que a mágoa me apunhala o seio. E assim afeito às mágoas e ao tormento.. A Idéia estertorava-se. Da saudade na campa enegrecida Guardo a lembrança que me sangra o peito. Hirta. Como o reflexo fúnebre do Incriado: Bradei: -. imensa. Era de vê-lo. Fora da sucessão. ao meu lado. No fundo Do meu entendimento moribundo Jazia o Último Número cansado. P’ra iluminar-me a alma descontente. amigo! Pois que a minha autogênica Grandeza Nunca vibrou em tua língua presa. 76 . E à dor e ao sofrimento eterno afeito. Para dar vida à dor e ao sofrimento. atro e subterrâneo. imóvel. Parecia dIzer-me: "É tarde. Mas que no entanto me alimenta a vida. em meio. resignado. E o coração me rasga atroz. Eu a bendigo da descrença. À noute qunado em funda soledade Minh’alma se recolhe tristemente.O ÚLTIMO NÚMERO Hora da minha morte. Porque eu hoje só vivo da descrença. Se acende o círio triste da Saudade. estranho ao mundo.

volvi ao ceticismo. entre o medo que o meu Ser aterra. Fazem lembrar em noute de saudade A luz mortiça d’um olhar nublado. Cansado de lutar no mundo insano. CETICISMO Desci um dia ao tenebroso abismo.Oh! Deus.o exorcismo Terrível me feriu. Não sei se viva p’ra morrer na terra. Da Igreja . mas me perdoa! Se esta dúvida cruel qual me magoa Me torna ínfimo. seu olhar magoado.a Grande Mãe . eu creio em ti. Ah. de ilusões tão bela.Resta somente um’alma tristurosa! Coitada! o gozo lhe fugiu correndo. Fugazes sonhos. Fraco que sou. De joelhos aos pés do Nazareno Baixo rezei. gárrulos voando .Todas se foram num festivo bando.ABANDONADA Ao meu irmão Odilon dos Anjos Bem depressa sumiu-se a vaporosa Nuvem de amores. sombras cor-de-rosa . Hoje ela habita a erma soledade. em fundo misticismo: . Em que vive e em que aos poucos vai morrendo! Seu rosto triste. Não sei se morra p’ra viver no Céu! 77 . e então sereno. O brilho se apagou daquela estrela Que a vida lhe tornava venturosa! Sombras que passam. Onde a dúvida ergueu altar profano. desgraçado réu.

amei. tristes. o cântico sentido Do coração que geme e s’estertora N’ânsia letal que o mata e que o devora. Exausto de pisar mágoas pisadas. Como um coveiro a sepultar quimeras! 78 . E como a luz do sol vai-se apagando! E eu triste. E que tornou-o assim. Mais tarde da existência nos verdores Da infância nunca tive as venturosas Alegrias que passam bonançosas. senhora. Morreram todas. Desfeitas todas num guaiar dorido. Oh! Minha infância nunca teve flores! Volvendo à quadra azul da mocidade. Sombrio e mudo e glacial. Hoje eu carrego a cruz das minhas dores! OUVI. Tristes fanaram redolentes rosas. de amor ferido. Todas murcharam.MÁGOAS Quando nasci. langorosas. senhora. As minhas crenças que alentei outrora Rolam dispersas. num mês de tantas flores. todas sem olores. pálidas agora. triste e descrido. senhora. triste pela vida afora. Cansado de chorar pelas estradas. Eterno pegureiro caminhando. Minh’alma levo aflita à Eternidade. Ouvi. Quando a morte matar meus dissabores. Revolvo as cinzas de passadas eras. SENHORA Ouvi.

Mas a Pátria chamou-o. INFELIZ Alma viúva das paixões da vida. Dos canhões ao ribombo e das metralhas. Juncou-lhe a fronte aurifulgente estrela. olímpica e singela! E partiu.TRISTE REGRESSO Uma vez um poeta. Ao chegar. e na existência agora Triste soluças a ilusão peerdida. Oh! Tu. enamorado dela. Tu que. e o pesar negro e profundo. 79 . Se nada te aniquila o desalento Que te invade. Alma viúva das paixões da vida. pendeu triste e desmaiada. venceu batalhas. Alma arrancada do prazer do mundo. Vivia alegre o vate apaixonado. um tresloucado. coração amargurado. E tinha que deixar p’ra sempre aquela Meiga visão. Altivo lutador. na estrada da existência em fora. mas a fronte aureolada. Esconde à Natureza o sofrimento. Era o soldado. E fica no teu ermo entristecida. Apaixonou-se d’uma virgem bela. Louco vivia. que na grinalda emurchecida De teu passado de felicidade Foste juntar os goivos da Saudade Às flores da Esperança enlanguescida. E voltou. Cantaste e riste. No sepulcro da loura virgem bela.

Vinha rompendo a aurora majestosa. Eu choro e gemo e triste me debruço Na lájea fria dos meus sonhos pulcros. Quebrando a paz suprema dos sepulcros. funéreos. Fora no campo pássaros trinavam. pálidos. São minhas crenças divinais. no eternal soluço. silentes. Há de chegar. Quando da vida. Hoje rolando nos umbrais marmóreos. Era o supremo beijo de noivado! 80 . Quando há de ser o venturoso dia?! Quando há de ser!? O noivo então dizia E a noiva e ambos d’amores s’embriagavam. soturnais. Quando há de ser!? E os pássaros falavam. Ambos unidos soluçara um beijo. Passam meus sonhos sepultados nestes Brancos sepulcros. Desliza então a lúgubre coorte.N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS N’augusta solidão dos cemitérios. a brisa respondia. ardentes .Alvos fantasmas pelos merencórios Túmulos tristes. Dos rouxinóis ao sonoroso harpejo E a luz do sol vibrava esplendorosa. E rompe a orquestra sepulcral da morte. Resvalando nas sombras dos ciprestes. E a mesma frase o noivo repetia. Chegara enfim o dia desejado. NOIVADO Os namorados ternos suspiravam.

da febre ardente Da ventura fugaz e transitória O peito rompe a capa tormentória Para sorrindo palpitar contente. A MÁSCARA Eu sei que há muito pranto na existência. Espumando e rugindo em marulhada. E em centelhas de raiva ensurdecida A vingança suprema e concentrada. No delírio. porém. E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca A humanidade ri-se e ri-se louca No carnaval intérmino da vida. Dores que ferem corações de pedra. Muitos que esgotam do prazer a taça Sentem no peito a dor indefinida. Mas se das minhas dores ao calvário. Já que do mundo não vinguei-me em vida. Assim a turba inconsciente passa.NO MEU PEITO ARDE No meu peito arde em chamas abrasada A pira da vingança reprimida. Eu subo na atitude dolorida De um Cristo a redimir um mundo vário. Em luta co’a natura sempiterna. Como no mar a vaga embravecida Vai bater-se na rocha empedernida. E espuma e ruge a cólera entranhada. 81 . Aí existe a mágoa em sua essência. A morte me será vingança eterna. E onde a vida borbulha e o sangue medra.

oh! Quantos Ouviram dele frases de candura Que d’infelizes enxugavam prantos! E como alegres não ficaram tantos Corações sem prazer e sem ventura! No entanto dizem que este padre amara. Eu só encontro no primor de rima A justa oferta. E Deus lhe disse: "És duas vezes santo. consente Que neste dia de ventura tanta Vá. Quantos. Pois se da Religião fizeste culto. Morrera um dia desvairado. Canta no espaço a passarada e canta Dentro do peito o coração contente. Minh’alma alegre no teu rir s’encanta. um desses santos Sacerdotes da Fé de crença pura. Irmão querido. Enquanto outros que podem. Su’alma livre para o Céu se alara. num abraço de ternura santa. Somente assim festejarei teus anos. estulto. a jóia que te exprima O amor fraterno do teu mano Em 28 de abril de 1901 82 . Mostrar-te o afeto que meu peito sente.AMOR E RELIGIÃO Conheci-o: era um padre. bom Papá. Foste do amor o mártir sacrossanto. Da sua fala na eternal doçura Falava o coração. Jóias." CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior pelas nove primaverasque hoje completou. dão-te enganos. Tu’alma ri-se descuidosamente. bonecos de formoso busto.

Os seios brancos. Eu senti a minh’alma entristecida E interroguei-o: "Eterno companheiro Da morte. Lá encontrei um pálido coveiro Com a cabeça para o chão pendida. esta mulher de grã beleza. Tornou-se a pecadora vil. Do destino fatal. Os seios rijos eram dois brasões Onde fulgia o simb’lo do Pecado. A chama cruel que arrasta os corações. Moldada pela mão da Natureza. que matou-te o coração?" Ele apontou para uma cruz no chão. mornos. divina. Dançavam-lhe no colo perfumado. o porte emoldurado No mármore sublime dos contornos. palpitantes. No entanto. presa. sorrindo tristemente: "Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!" PECADORA Tinha no olhar cetíneo. tomando a enxada gravemente. tinha ido ver a sepultura De um ente caro. Do fado. Bela. aveludado.O COVEIRO Uma tarde de abril suave e pura Visitava eu somente ao derradeiro Lar. Balbuciou. Ali jazia o seu amor primeiro! Depois. amigo verdadeiro. morria Uma noute entre as vascas da agonia Tendo no corpo o verme do pecado! 83 .

Repercute. Eleonora! Oh! sonhos meus! E o canto se desprende harmonioso Na vibração final do extremo adeus.NO CLAUSTRO Pelas do claustro salas silenciosas De lutulentas. lembranças minhas! Saudades d’umas noutes em que vinhas Cantar comigo em doce desafio! Mas. desnudas. Na vastidão silente das caladas Abóbodas sombrias tenebrosas. mudas! IL TROVATORE Canta da torre o trovador saudoso Addio. Nem a sombra mais leve de ventura! Sempre as arcadas ogivais. addio. mavioso. pouco a pouco. E as mesmas monjas sempre tristurosas. dolente. E as mesmas portas impassíveis. . Eleonora. os sons esmorecendo. Perdem-se as notas pelo Azul morrendo. Que guardam pér’las de funéreas rosas. Subindo pelo Azul da Inspiração. addio! 84 . Que guardam cinzas de ilusões passadas. Assim canta também meu coração. Vagueiam tristemente desfiladas De freiras e de monjas tristurosas.Addio. E à noute quando rezam na clausura. úmidas arcadas. Ai! não. não acordeis. No sigilo das rezas misteriosas. Trovador torturado e angustioso.

Primavera. Chora. soluça . Vai morta em vida assim pelo caminho. Na auréola azul dos dias teus risonhos. PRIMAVERA A meu irmão Odilon dos Anjos Primavera gentil dos meus amores. Os dias voltarão a ser tristonhos E tu hás de dormir o eterno sono. Arca sagrada de cerúleos sonhos.A LOUCA A Dias Paredes Quando ela passa: . Eu sei a sua história. Primavera gentil dos meus amores! 85 . porém. Num sepulcro de rosas e de flores.O segredo d’um peito torturado E hoje. Moça. Da desdita ferida pelo espinho. Chova-te o Céu cintilações sidéreas E a terra chova no teu seio flores! Esplende. . os teus fulgores. a desgraçada estulta. Canta.Em seu passado Houve um drama d’amor misterioso . . Tu que sorveste o fel das minhas dores E me trouxeste o néctar dos teus sonhos! Cedo virá. O cabelo revolto em desalinho.coração saudoso. para guardar a mágoa oculta.Arca cerúlea de ilusões etéreas. No sudário de mágoa sepultada. gargalha.a veste desgrenhada. o triste outono. tão moça e já desventurada. No seu olhar feroz eu adivinho O mistério da dor que a traz penada.

eu trajo o luto do passado. Mas não queiras saber nunca. Sirva-te a crença de fanal bendito. EU TRAJO O LUTO DO PASSADO Senhora. Quantas venturas que me acalentaram! Mau peito. Foi outrora do riso abençoado. túm’lo do prazer finado. não busques saber por que. 86 . Sonâmbulo da dor angustiado. É minha sina perenal. delirante e vário. E não é a Esperança por sentença Este laço que ao mundo nos manieta? Mocidade.Cantar o Ocaso quando surge a Aurora. Voltam sonhos nas asas da Esperança. tristonha . Salve-te a glória no futuro . Também espero o fim do meu tormento. Muita gente infeliz assim não pensa. Este luto sem fim que é o meu Calvário E anseio e choro. Senhora. Vão-se sonhos nas asas da Descrença. O mistério d’um peito que estertora E o segredo d’um’alma que não sonha! Não. ela não cansa. que vivo atrelado ao desalento. O berço onde as venturas se embalaram.avança! E eu. risonha. No entanto o mundo é uma ilusão completa. ergue o teu grito. Na voz da morte a me bradar: descansa! SENHORA.A ESPERANÇA A Esperança não murcha. Também como ela não sucumbe a Crença. portanto.

Bela na Dor. Por entre o resplandor das Primaveeras Oh! madrugada azul dos meus sonhares. Tenta às vezes. Chora . nervosa e louca Esquecer por momento a mágoa intensa Arrancando um sorriso à flor da boca. Das brancas rosas do seu triste rosto Que rolam murchas como um sol já posto Um perfume de lágrimas se evola. sublime na Descrença. porém. Quando o rosário de seu pranto rola. santíssima. Fitando a nebulosa do meu Sonho E a Via-Láctea da Ilusão que passa! 87 .SOFREDORA Cobre-lhe a fria palidez do rosto O sendal da tristeza que a desola. Mas volta logo um negro desconforto. Mas quando vibrar a última balada Da tarde e se calar a passarada Na bruma sepulcral que o céu embaça.o orvalho do pranto lhe perola As faces maceradas de desgosto. Quem me dera morrer então risonho. Vinde entornar a clâmide puríssima Da luz que fulge no ideal sagrado! Longe das tristes noutes tumulares Quem me dera viver entre quimeras. Sombra perdida lá do meu Passado. Como Jesus a soluçar no Horto! ECOS D’ALMA Oh! madrugada de ilusões.

púbere. As níveas pomas do candor da rosa. ama. Emergem da camisa cetinosa Entre as rendas sutis de filigrana. Esse manto de amor doce e clemente Que lava as dores e que enxuga o pranto?! Ah! Se queres saber a sua grandeza. num só encanto? Esse mistério eterno e sacrossanto.. e. mimosa. Que os encantos e a força dos poderes Reúne tudo em si. A carne exuberante e capitosa Trescala a essência que de si dimana. Enquanto o amante pálido. Branca. Em flácido abandono Lembra formosa no seu casto sono A languidez dormente da indiana. a seu lado Medita. Rendilhando-lhe o colo de sultana. Essa sublime adoração do crente.AMOR E CRENÇA E sê bendita! H. nevada. Dorme talvez. sê bendita! ARIANA Ela é o tipo perfeito da ariana. Estende o teu olhar à Natureza. crê em Deus. pois. Sienkiewicz Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo Ser que preside e rege os outros seres. a fronte triste. o olhar velado No Mistério da Carne Soberana 88 . O amor é a hóstia que bendiz a Crença. Fita a cúp’la do Céu santa e infinita! Deus é o templo do Bem. Na altura Imensa..

Vai Corina mendiga e esfarrapada. A alma saudosa pelo amor vibrada. . Que não se enterra assim sem compaixão Os escombros benditos de um Passado! Ai! Não me arranques d’alma este conforto! . além. dos proscritos. ânsias e gritos De mães que arquejam sobre os probrezitos Filhos que a Fome derrubou na praça. coveiro. Entre todos. Tem pena dessas cinzas que ficaram.A Stella Matutina da Desgraça! 89 . não quero o meu sonho sepultado No cemitério da Desilusão. .TEMPOS IDOS Não enterres.Quero abraçar o meu passado morto. Da juventude a virginal capela A lhe cingir de luz a fronte baça. porém. A romaria eterna dos aflitos. A procissão dos tristes. Ao dobre funeral dos tempos idos! NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA (Lendo o "Poema de Maio") Na rua em funeral ei-la que passa. Dos romeiros saudosos da desgraça. lânguida e bela. e quero sempre tê-las ao meu lado! Não.Dizer adeus aos sonhos meus perdidos! Deixa ao menos que eu suba à Eternidade Velado pelo círio da Saudade. Eu vivo dessas crenças que passaram. o meu Passado. E na choça a lamúria que traspassa O coração.

adeus! E. Deixa ver na fulgência do seu rastro A trajetória augusta da Ciência.eu disse. A aeronave que um mistério encerra Vai pelo espaço acompanhando o mundo. Para mim no mundo Tudo acabou-se. Hermeto Lima Adeus. Saí deixando morta a minha amada. adeus. Perto. apenas restam mágoas. devassando a terra. Mas no mistério astral da noute bela Pareceu-me inda ouvir o nome dela No marulhar monótono das águas! A AERONAVE Cindindo a vastidão do Azul profundo. É como um despertar de estranho mito. ADEUS! E.ADEUS. Cheia da luz do cintilar de um astro. Sulcando o espaço. Vinha o luar iluminando a estrada E eu vinha pela estrada soluçando. suspirando. Parecia o ribeiro estar chorando As lágrimas que eu triste gotejava. Voa. E na esteira sem fim da azúlea esfera Ei-la embalada n’amplidão dos ares. Vencendo o azul que ante si s’erguera. ADEUS. Súbito ecoou do sino o som profundo! Adeus! . SUSPIRANDO Pareceu-me inda ouvir o nome dela No badalar monótono dos sinos. um ribeiro claro murmurando Muito baixinho como quem chorava. se eleva em busca do infinito. 90 . Auroreando a humana consciência. Fitando o abismo sepulcral dos mares.

onde não pousa a desventura.A sombra deste afeto estiolado. P’ra que pendes o cálice que enflora Teu seio branco do palor do círio?! Baixa a mim. estrela do Passado! Esconde-te no Azul da Imensidade. Envolto da tristeza no delírio. Se eu sou o orvalho eterno que te chora. irmã pálida da Aurora. com ela Negras sombras também foram chegando. triste. Ai! que ao menos talvez na vida escassa Não chorasses à sombra da desgraça. .Vai-te. Lá onde nunca chegue esta saudade. E nunca mais eu vi a minha estrela! 91 . Viu o adeus que do Céu ela enviava.LIRIAL Por que choras assim. Deixa beijar-te a face que descora! Fosses antes a rosa purpurina E eu beijaria a pétala divina Da rosa. e a estrela foi p’ra o Céu subindo.a mágica princesa! E eu vi o Sol do Céu iluminando A Catedral da Grande Natureza. Mas a noute chegou. Minh’alma que de longe a acompanhava. tristonho lírio. E quando ela no Azul foi-se sumindo Surgia a Aurora . E eu disse . Disse. Para eu sorrir à sombra da ventura! A MINHA ESTRELA A meu irmão Aprígio A. Estrela esmaecida do Martírio.

A praça estava cheia. E todo o dia eu vou como um perdido De dor. E na atitude do Crucificado. 92 . Depois. E ela fita-me. Morre-me a voz. Quando do algoz cruento o braço alçado Se dispunha a vibrar sem compaixão O golpe na cabeça do culpado Ele. E eu balbucio trêmula balada: . E dos lábios de Dulce cai um beijo. Pude rever naquele desgraçado O drama lutuoso da Paixão. como este beijo me consola! Bendita seja a Dulce! A minha vida Estava unicamente nessa esmola. Vítima augusta de indelével falso. dai-me u’a esmola . O olhar azul pregado n’amplidão. Caiu na praça como fulminado A soluçar: perdão..e estertorada A minha voz soluça num gemido. o algoz . perdão. perdão! A ESMOLA DE DULCE Ao Alfredo A. a fé perdida. Puro de crime. a minha bem amada.então. por entre a dolorosa estrada. A esmola dum carinho apetecido. o olhar enlanguescido. e eu gemo o último harpejo. isento de pecado. Pedir a Dulce.Senhora.o criminoso ..A PRAÇA ESTAVA CHEIA. O condenado Transpunha nobremente o cadafalso. Estendo à Dulce a mão.

obumbra-me em teu seio. E a alma me ofusca e o peito me maltrata. acolhe-me. onde d’água raso O olhar não trago.venenos d’alma E eu busco a plaga onde o repouso mora. E o viver calmo e sossegado tolhe-me! Leva-me..segue a trilha que te traça O Destino. Negrejadas das asas lutulentas Que te emprestar o corvo do Destino! GÊNIO DAS TREVAS LÚGUBRES. Num desespero rábido.. ave negra da Desgraça. assassino.crença Perdida .. e. Há perfumes d’amor . E hás de tombar um dia em mágoas lentas. e à ingrata Luz deste mundo em breve me arrebata E num pallium de tênebras recolhe-me! Aqui há muita luz e muita aurora. E as trevas moram. Seja-te a vida uma agonia intensa! Vives de crenças mortas e te nutres. Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença! Dos sonhos meus na Catedral imensa Que nunca pouses. nem me turba a calma A aurora deste amor que é o meu ocaso! 93 . acolhe-me N’asa da Morte redentora.AVE DOLOROSA Ave perdida para sempre . Gênio das trevas lúgubres. Empenhada na sanha dos abutres.. Leva-me o esp’rito dessa luz que mata. Lá. na névoa baça Onde o teu vulto lúrido esvoaça.

negros palinuros Da tempestade negra e da tristeza. a vida é qual risonho Batel. Quando vos vejo. Ah! dessas no bramir funéreo Jamais vibrou a sinfonia pura Do amor. Que o guia e o leva ao porto da bonança. então. Chora a saudade envolta nesta espuma! 94 .NIMBOS Nimbos de bronze que empanais escuros O santuário azul da Natureza. dentre a escura Treva do oceano. Treme na treva a púrpura da tarde. Julgo ver nos reflexos de minh’alma As mesmas nuvens deslizando em calma. Cada rocha é uma eterna sepultura Banhada pela imácula brancura De ondas chorando num albor etéreo. Abismados na bruma enegrecida. num mar de esp’rança. Banhando a fria solidão das fragas. a voz do meu saltério! Quando a cândida espuma dessas vagas. O MAR O mar é triste como um cemitério. Mas quando o céu é límpido. e a alma é a Flâmula do sonho. Reflete a luz do sol que já não arde. sem nenhuma Nuvem sequer. sem bruma Que a transparência tolde. só descanta. Que o céu reflete. Os nimbos das procelas desta vida. Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma.

Donde Fluiu outrora a luz dum doce engano.. Hoje é trevas.1902 95 . Aurora morta. Sírius da minha Sorte E da Noute da vida a Vênus Redentora. Nem vibra a corda que a saudade esconde. O grande Sol de afeto . Triste criança virginal. Cantarias do amor a primavera. FOGE! Aurora morta. longe dos laços Dessa jaula de carne que a encarcera! Ah! Que unidos assim. Dia do meu Passado! Irrompe. Tendo a minh’alma presa nos teus braços! Pau d’Arco . agita as tuas asas. e em si a Luz consoladora Do amor . Adeus oh! Dia escuro.) Nessas paragens desoladas. quem dera Voar est’alma a ti.. oh! Minha Mágoa. Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas E. Ascende à Claridade. onde O silêncio campeia soberano Morreram notas do bulício humano.o Sol que as almas doura! Fugiu. é desengano. é dor.. foge . foge! Eu busco a virgem loura Que fugiu-me do peito ao teu clarão de morte E Ela era a minha estrela.1902 AURORA MORTA. lá nos espaços. Agora.esse clarão eterno d’alma forte Astro da minha Paz.ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS. meu Futuro.eu busco a virgem loura! Pau d’Arco . o meu único Norte. E eu ergo preces que ninguém responde. num Pálio auroral de Luz deslumbradora.. Anseios d’alma aqui se perdem.

Cantando sempre em trínula volata! Aurora ideal dos dias meus risonhos. as flores também choram Num chuveiro de pétalas. Ri-se o meu coração na tua boca! Pau D'Arco . chorando enfloram. emergindo às trevas que a negrejam. Bendito o riso assim que se desata . à dolente Unção da noute. Aragem suspirosa Agita os roseirais que ali vicejam.NO CAMPO Tarde. úmido de beijos em ressábios Teu riso esponta. ao luar. Chora a corrente múrmura. Ah! num delíquio de ventura louca. as águas límpidas alvejam Com cristais. os astros rumorejam Um presságio de noute luminosa E ei-la que assoma .os roseirais descoram E elas bóiam no pranto da corrente Que as rosas.. No alto.Cítara suave dos apaixonados. E há. no teu riso de anjos encantados. Como que um doce tilintar de prata E a vibração de mil cristais quebrados. e. Pau d’Arco – 1902 CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA Canta o teu riso esplêndida sonata. nitente. Quando.. Um arroio canta pela umbrosa Estrada. Sonorizando os sonhos já passados.1902 96 .a Louca tenebrosa. entretanto. despertando sonhos. Pendem e caem . Branca. Vai-se minh'alma toda nos teus lábios.

virginais aromas De essência estranha. entre os encantos Dum noivado risonho em primavera. E a lua é como um pálido sacrário. sacrossantos. Pau d'Arco -1902. Ah! como a branca e merencórea lua. A gaze pálida Que lhe serve de alvíssimo sudário Respira essências raras. Também envolta num sudário — a Dor. Onde as almas das virgens em crisálida De seios alvos e de fronte pálida. P'ra desvendar os seus segredos santos. que a virgem chora.CRAVO DE NOIVA Ao Dias Paredes Cravo de noiva. se duas eu tivera. é como os prantos Níveos. E tudo quer que nessa flor se enleve O poeta. Voga a lua na etérea imensidade! Ela. Minh'alma triste pelos céus flutua! Pau d'Arco -1902. noctâmbulo da Dor e da Saudade. olências de virgínea Carne fremindo num langor de pomas. É que dessa concha armínea Da lactescência angélica da neve. A nívea cor de cera Que o seu seio branqueja. Derramam a urna dum perfume vário. Se evolarn castos. 97 . toda a cálida Mística essência desse alampadário. eterna noctâmbula do Amor. PLENILUNIO Desmaia o plenilúnio. Eu. Guarda segredos divinais que eu dera Duas vidas. Flor dos mistérios d'alma.

E vais aos poucos soluçando queixas! 98 . Que desespero insano me apavora! Aqui. E vais aos poucos soluçando mágoas. sonhar novas idades.INSÂNIA No mundo vago das idealidades Afundei minha louca fantasia. e eu julgo que nas tuas cordas Choram todas as cordas do Passado! Guardas a alma talvez d'um desgraçado. bandolim do Fado. Mas ao esplendor das velhas majestades Vacila a mente e o seu ardor esfria. Teu canto. pompeia a luz da branca aurora. Tanto que cantas. Paraíba -1902 O BANDOLIM Cantas. É como as nênias do Coveiro d'alma! Tudo eterizas num coral de endeixas.Quero partir em busca do Passado. Quando alta noute. e ilusões acordas. soluças. Tanto que gemes.. Busquei então na nebulosa fria Das Ilusões. Cedo atraiu-me a áurea fulgidia Da refulgência antiga das idades. Choras. bandolim do Fado E de Saudade o peito meu transbordas. Um dia morto da Ilusão às bordas. a lua é triste e calma. .Quero Correr em busca do Futuro. vindo de profundas fráguas. Ali. chora um ocaso sepultado. E eu tremo e hesito entre um mistério escuro: ..

Meiga. E eu vi os seios teus virem inconhos . Foste caindo n'ara dos meus sonhos. O céu tremia em seu trevoso flanco. tu vinhas a cindir os ares. qual hóstia. A vida Despontava na aurora amortecida  rutilância mágica do dia. E. senão co'o o meu olhar te espanco! E eu vi que. Aquele riso despertava a aurora! E tudo riu-se.. alegre e rubro. E eu quis beijar-te o lábio redolente. Na etérea limpidez de um sonho branco. Para nunca tocarem negros sonhos! Caíste enfim no meu sacrário ardente. Quiseste-me beijar a ara do peito. cindindo os céus risonhos. agora. Fulgia a bruma para sempre.. Lúcia sorriu-se à bruma nevoenta. E Lúcia disse à bruma lutulenta: . e como Lúcia. Caíste morta ao celestial preceito. O sol. E beijei-te. também ria! 99 . NA ETÉREA LIMPIDEZ. grave e lenta. E a procela chorou n'um fundo arranco De mágoa triste e de paixão violenta. mas eis que neste enleio. Tocando n'ara negra o níveo seio.Esses teus seios que os cerúleos lares Branquejaram de eternos nenúfares.ARA MALDITA Como um'ave.Foge. caindo dos altares. à voz de Lúcia.

Sentes o peito em ânsias revoltadas. a rasgar o lúrido sacrário. Mas. E a rasgar. em bando. o Mundo se concentre. e. á luz das alvoradas santas Ungem-te o corpo redolências tantas. o túmulo da Crença.o círio Da Quimera Falaz. Longe das sombras aurorais e amadas.ei-lo que avisto.A colunata êxul do Sonho Morto . Que. Flores mortas da Aurora. ao ver-te nua. e. Que beija a terra e que abençoa os campos.TREVA E LUZ Neste pélago escuro em que te afundas. ante o branco estendal das madrugadas. E a lua. eis que emerges. E vejo o pedestal que sustenta a Descrença! . Agora. luminosa. a Virgem Mãe dos céus escampos. A imensa Cruz da Dor está serena como um lírio! E vejo o pedestal que sustenta o Martírio. Tudo! até o altar onde a Angústia vibra intensa N'uma fúria assombrai de feras em delírio! Penetro louco enfim o abismo funerário. E. Nua. em banho ideal de amor te inundas. E em mim como no Templo. Em mim como no Templo a Angústia se condensa. às fundas Águas do mar das glórias obumbradas. urnas de Sonho. eu sombrio chorando Ante a imagem fatal do Sepulcro da Crença! 100 . Beije-te o seio e te abençoe o ventre! O TEMPLO DA DESCRENÇA O Templo da Descrença . Diluis teu peito em sensações profundas.

o astro Deixa um rastro de luto em cada canto! IDEAL Quero-te assim.. Plena de graça. E como o sol que a segue e deixa um rastro De luz em tudo. De espaço a espaço sepulturas planta E em cada coração planta um cipreste! Exulta o Eterno e. semeando a Morte. A alma diluída em eterais cismares. santa de inocência! Anjo de luz de astral aurifulgência. Como o Cristo sagrado dos altares. enquanto Vai devastando o coração das casas.O sol a segue.e que bendita sejas Como as aras sagradas das igrejas. Embaladas no albor da adolescência. formosa entre as formosas. Quero-te assim . ela. 101 . entre esplendores. tudo! Quando Ela passa.É o castigo de Deus que passa mudo! .a Peste N'um insano ceifar que aterra e espanta...Virgens filhas das virgens nebulosas! Quero-te assim. . No olhar d'amor a mística fulgência E o misticismo cândido das rosas.A PESTE Filha da raiva de Jeová . como o sol .. formosa..Fúlgido foco de escaldantes brasas . Colmado o seio de virentes flores. Etéreo como as Wilis vaporosas.. e a Peste ri-se. tudo chora. Todos dizem co'os olhos para a Sorte .

.CÍTARA MÍSTICA Cantas. . pois. Teu canto agora é um salmodiar de arcanjo. Perdão! E este silêncio e esta tumba que cala! Insânia... ah! ninguém me responde. Rendo piedosa dúlia peregrina À tua doce voz que me fascina.Harpa virgem brandindo mil delírios! Quedo-me aos poucos.. Perdão! E este sepulcro imenso que não fala! 102 . a teus pés.Irei agora.... perdoa o teu vencido. Chegou a Noite. eis-me a teus pés. E para mim. lírio morto do Céu! Perdão! E a minha voz estertora um gemido.. insânia. Como o santo levita dos Martírios. pátria da Aurora exilada do Sonho! . pelo mundo. Açucena de Deus.. o meu Sonho morreu! Perdão.. E a Noite afeia corno num sarcasmo E agora a sombra vesperal morreu. Eu venho arrependido. E eu ouço etérea cavatina! Há nos teus lábios . meu anjo. para onde Me levar o Destino abatido e tristonho. É a música de Deus que vem do Céu! SÚPLICA NUM TÚMULO Maria. assim. E o lábio meu pra sempre apartado do teu Não há de beijar mais o teu lábio querido! Ah! Quando tu morreste. insânia. penseroso e pasmo. Implorar-te o perdão do imenso crime meu! Eis-me.dois sangrentos círios A gêmea florescência de dois lírios Entrelaçados numa unção divina.

Por um Cocito ardente e luxurioso. Em ânsia de repouso. no Inferno do Gozo. e ora Em contorço es supremas de Delícia! MARTÍRIO SUPREMO Duma Quimera ao fascinante abraço. seja como o fardo Desta descrença funeral em que ardo E com que o fogo da paixão ateio! Funambulescamente a alma se atira À luta das paixões. e. Transpus um dia o Inferno Azul do Gozo! O amor em lavas de candência d'aço. sem Calvário.. Desce para a alma o ocaso da Carícia Ora em sonhos de Dor.. porém. Cristo d'amor morri pela inocência! 103 .AFETOS Bendito o amor que infiltra n'alma o enleio E santifica da existência o cardo. Banhou-me o peito. supremos. Turificando a languidez dum seio! O amor. Tinha os lábios crestados pela ardência Da luz letal do grande Sol do Vício! E mergulhei mais fundo no estuário. Mas. Chora saudades do terreno pouso! Como um mártir de estranho sacrifício.. Onde nunca gemeu o humano passo. que da Desgraça veio Maldito seja.. .Amor que é mirra e que é sagrado nardo. Da Messalina fria no regaço. como a Aurora Que ao beijo vesperal anseia e expira.

mulher.Sonâmbulo glacial da estranha pena! Estavas fria! A neve que a alma corta Não gele talvez mais. nem mais alquebre Um coração como a alma que está morta. E estavas morta. a sós. também da Dor.. Lua que já passou e que hoje ainda corta O penetral que guia à derradeira estância... num lânguido smorzando A sombra virginal qu'eu adoro chorando E há de um dia amparar-me na luta correndo. lá dos braços hercúleos.. eu vi. E vi-te triste.E tu velas. Como um'alma de mãe. Domados pela meiga Ónfale a que me rendo! CORAÇÃO FRIO Frio o sagrado coração da lua.. ansiando a luz amena No silêncio notívago da rua. Ah! que um dia da Vida... Sombra de gelo que me apaga a febre. .Lua que esfria o sol do meu desejo! 104 . Teu coração rolou da luz serena! E eu tinha ido ver a aurora tua Nos raios d'ouro da celeste arena. estes dardos acúleos Caíam. O penetral que leva à derradeira porta! Revejo em ti. me acalenta e conforta! Noute! E somente tu velas a rutilância. ... a noute é tumbal.SOMBRA IMORTAL . e a saudade da infância... no pó da fulgurância Como uma velha cruz vela na sombra morta! Fora. desvalida e nua! E o olhar perdi. eu que te almejo..

. e é noute de fatais abrolhos. Branca bem como empalecido arminho. profundo?! Rumores santos. Para o Infinito e para o Céu voltados! Cantas. Que luz é esta que das brumas vasa. o seio branco. tu. ajoelhando à imagem do Carinho. Chegaste. Bendita a Santa do Carinho.) Para o vale noital da eterna gaza Rolou o Sol . entanto.NOTURNO (PARA O VALE NOITAL. Uma pantera foi se ajoelhando.. te acolheu a mata. E um canto vai morrer no vale fundo. Choras.. Pérolas e ouro pela serrania.. no negror me abrasa. inata! E. Alvorejando em arrebol de prata. Que canto é este. e no Santo harpejo. e no meu peito estes teus olhos Como que cravam dois punhais gelados! SEDUTORA Alva d'aurora.. chegando. Alva d'aurora. e. Rendida ao eflúvio do teu seio casto! 105 ..imenso moribundo E a noute veio na negrura d'asa. virginal. Santificada pela Dor do Mundo! U'a luz... e em lânguida sonata Vinhas transpondo a margem do caminho. O roble altivo entreteceu4e um ninho.. No lago branco e rútilo do dia O azul pompeava para sempre vasto. Somente tristes os teus olhos vejo.

Eflúvios quentes e fatais quebrantos Crestam a alma das virgens adormidas.... Fria como um crepúsculo da Judéia. cintila! Naquela hora morria para a Idéia A minha branca e desgraçada Déa. E o mar chamou-a para o funda abismo! E o céu chamou-a para o Misticismo. 106 . Crepitaç5es de flamas incendidas Nalma explodindo como fogos santos. e lânguida..PELO MUNDO Ânsias que pungem. Chorando auroras músicas perdidas Na estrada santa ensangüentando as Vidas. Já Vésper. E a paixão morre e os corações coveiros Vão como duendes pelos céus risonhos. E as brumas velam nos sinistros mantos E as virgens dormem nas tumbais jazidas! Súbitos fremem 'spasmos derradeiros. Triste como um soluço de Dalila. no Alto. Nos campos-santos enterrando os Sonhos! E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA E o mar gemeu a funda melopéia À luz feral que a tarde morta instila. Nesse momento a Lua vinha calma E céu e mar num desespero mudo Não viram que num halo de veludo À alma de Déa se evolava est'alma. mórbidos encantos. Vão pelo mundo ensangüentando as Vidas. Qual rosa branca que ao tufão vacila.

Ele.Consagração das almas padecentes! Foi numa tarde assim que nos amamos. Desfaz-se o peito em vibrações dormentes E o Fado geme sob a névoa fria! Que eu sinta n'alma o que tu n'alma sentes! Nesta Missa de Atroz Melancolia Bebes chorando o Vinho da Agonia . Silfos morriam.. E ergue à sombra da dor a que se irmana Lauréis de sangue de volúpia insana. No ar.. saturnal do Inferno! Eu te bendigo! No mundano cúmulo És a Ironia que tombou no túmulo Nas sombras mortas de um desgosto eterno! VAMOS. adormecida.O RISO "Ri. Punge-me o peito da Saudade o cardo Enquanto um mocho. querida! Já é Ave-Maria .. clown da Sorte .Fogo sagrado nos festins da Morte . Canta no espaço a maldição da Vida! 107 . os gaturamos Num recesso de névoa..o voltairesco clown . Alenta a Vida que tombou no Tédio! Que à Dor se prende. Clarões de sonho em nimbos de epicédio! Bendito sejas. Na Via-Látea fria do Nirvana.Eterno fogo.quem mede-o?! . e a todo o seu assédio. que ao frio alvor da Mágoa Humana. QUERIDA! Vamos. tristíssimo palhaço" Cruz e Souza O Riso .A hora dos tristes e dos descontentes. Riso. sonolento e tardo. coração.

A UMA MÁRTIR Alma em cilício, vem, enrista a dava, Brande no seio o espículo e o acinace E unjam-te o seio que d'auroras nasce Sangrentas bênçãos eclodindo em lava! Nossa Senhora te unge a face escrava, Cristo saudoso te abençoa a face De monja - violeta que do Céu baixasse À Virgem Santa Natureza brava! Vais caminhando para a terra extrema, Rosa dos Sonhos! e o teu galho trema E a tua crença, o desespero mate-a... E em nuvens d'ouro ascende enfim ao plaustro Da Neve Eterna, estrela azul do claustro, Levada para o Azul da Via-Látea!

RÉGIO Festa no paço! Noite... E no entretanto Luzes; flores, clarões por toda a festa E há nos régios salões, em cada aresta, Credências d'ouro de supremo encanto. No baldaquino a orquestra real se apresta E o áureo dossel finge um relevo santo... - Bissos egípcios d'alto gosto, a um canto, Flordilisados de nelumbo e giesta. Morreu a noite e veio o Sol Eterno - Âmbar de sangue que desceu do Inferno No turbilhão dos alvos raios diurnos... Brilham no paço refulgências de elmo E a princesa assomou corno um santelmo Na realeza branca dos coturnos.

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PELO MAR Manhã em flor. O mar é um policromo E imenso lago d'íris e alabastros... À aurora é branco e ao sol, o mar é como Um pálio imenso que caiu dos astros. Longe, bem longe, no alvoral assomo Ergue um navio os altanados mastros E o Oceano dorme - alourecido pomo Num leito irial de pérolas e nastros. A alma da Mágoa vai pelo seu dorso, Em sonhos geme... Um coração de corso Geme no mar, vibra no mar, entanto, Colma-lhe o seio a opala das esponjas... E à noute morta choram vagas - monjas Purificadas no cristal do pranto!

PALLIDA LUNA És do Passado! Vieste d'alvorada N'asa dos elfos pela Morte espalma... Cantas... e eu ouço esta berceuse calma Da harpa dos mundos ideais do Nada! Ergue o Missal brilhante de tu'alma, Mas nessa elevação mistificada, Vem, que eu te espero, Deusa constelada Desce, anêmona êxul que o Céu ensalma! Venhas e desças, Lua dos Martírios, Desças, mas venhas pela unção dos lírios. Visão de Ocaso de enluaradas comas, Vaso de Unção descido dos espaços, Para ungirmos nós dois, os nossos paços, Na tule idealizada dos aromas.

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A MORTE DE VÊNUS Velhos berilos, pálidas cortinas, Morno frouxel de nardos recendendo Velam-lhe o sono... e Vênus vai morrendo No berço azul das névoas matutinas! Halos de luz de brancas musselinas Vão-lhe do corpo virginal descendo - Abelha irial que foi adormecendo Sobre um coxim de pérolas divinas. E quando o Sol lhe beija a espádua nua, Cai-lhe da carne o resplendor da Lua No reverbero dos deslumbramentos... Enquanto no ar há sândalos, há flores E haustos de morte - os últimos clangores Da música chorosa dos mementos!

MÁRTIR DA FOME Nesta da vida lúgubre caverna De ossos e frios funerais que eu sinto Corno um chacal saciando o eterno instinto Vou saciando a minha Fome Eterna. - Fome de sangue de um Passado extinto, De extintas crenças - bacanal superna, Horrível assim como a Hidra de Lema E muda como o bronze de Corinto! Ânsias de sonhos, desespero fundo! E a alma que sonha no marnel do Mundo, Morre de Fome pelas noites belas... E como o Cristo - o Mártir do Calvário Morre. E no entanto vai para o estelário Matar a Fome num festim de estrelas!

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SONHO DE AMOR Sobre o aromal e amplo coxim de Flora, Que os vapores da tarde inda incensavam E que um incenso tênue e bom vapora, Os namorados lânguidos sonhavam. A alma do Ocaso entrava o céu agora E havia pelas tênebras que entravam Ora estrangulamentos surdos, ora Ruídos de carnes que se estrangulavam. E sonharam assim durante toda A noute, e toda a alva manhã durante! - O Sol jorrava largos raios longos E em roda víride e nevado, em roda, Lembrava o campo um colorido ondeante De vidros verdes e cristais oblongos!

A ORGIA MATA A MOCIDADE A orgia mata a mocidade, quando Rugem na carne do delírio as feras, E o moço morre como está sonhando Nas suas vinte e cinco primaveras. Em cima - o oiro sem mancha das esferas, Em baixo oiro manchado de execrando Festim de sibarita:, das heteras Lubricamente se despedaçando! Em cima, a rede do estelário imáculo Suspensa no alto como um tabernáculo - A orgia, em baixo, e no delírio doudo Corno arvoredos juvenis tombados Os moços mortos, os brasões manchados, E um turbilhão de púrpuras no lodo!

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em compassados trenos Sobre os veludos da tapeçaria.FESTIVAL Para Jônatas Costa Címbalos soam no salão. batendo em todas as retinas.. Estatuetas de mármore de Lemnos Estão dispostas numa simetria Inconfundível. Fulgem por entre mil cristais vermelhos O alvo cristal dos nítidos espelhos E a seda verde dos arbustos glabros. diante do vulto dos conventos.. NOTURNO (CHOVE. O dia Foge. e ao compasso de arrabis serenos A valsa rompe... Os passos mal seguros Trêmulo movo.) Chove. E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos Enquanto a chuva cai nos cemitérios E o vento apaga os lampiões da rua! 112 . recordando a estria Dos corpos de Afrodite e Vênus. Desencadeados. Lá fora os lampiões escuros Semelham monjas a morrer. Surge agora a Lua. Saio de casa.. E em meio ás refrações verdes e hialinas. De encontro ás torres e de encontro aos muros. A incandescência irial dos candelabros.. Os ventos. mas meus movimentos Susto. violentos. LÁ FORA. ameaçando os séculos futuros! De São Francisco no plangente bronze Em badaladas compassadas onze Horas soaram. Negro. vão bater. Vibra.

A Dor meu coração torça e retorça! Cubra-me o corpo a podridão dos trapos! Os vibriões.. verão. Ele que foi um forte Que nunca se quebrou pelo Desgosto Morreu.. tão sereno e forte! Quando meu Pai deixou o lar amigo Um sabiá da casa muito antigo.. .E ELE MORREU Ao sétimo dia de seu falecimento E ele morreu. outono. os sapos Encontrem nele pábulo eviterno. enquanto o Tédio a carne me trabalha. já faz sete dias Que eu ouço o canto desse sabiá! VAE VICTIS A Dor meu coração torça e retorça E me retalhe como se retalhe Para escárnio e alegria da canalha Um leão vencido que perdeu a força! Sobre mim caia essa vingança corsa.. os vermes vis.. Diluiu o silêncio em litanias. mas não deixou na ara do rosto Um só vestígio que acusasse a Morte! O anatomista que investiga a sorte Das vidas que se abismam no Sol-posto Ficaria admirado do seu rosto Vendo-o tão belo.. Primavera. inverno! 113 . E hoje. Que há muito tempo não cantava lá.. Já que perdi a última batalha! E. poetas.Repositório de milhões de miasmas Onde se fartem todos os fantasmas.

ela. Aqui é o Campo-Santo. inda altiva. O caminheiro fique nesta Terra! À noute aqui um trovador eterno Chora. onde. E se cantar como a Saudade canta. ao noturno açoute. Carpem na sombra pássaros ascetas. enxuta A face. Derrama em cada boca envenenada Mais uma gota do fatal veneno! TERRA FÚNEBRE Aqui morreram tantos poetas! Tanta Guitarra morta este lugar encerra!.A DOR Chama-se a Dor. e o travo há de sentir. e a ameaça Amarga dessa desgraçada fruta Que é a fruta amargosa da Desgraça! E quando o mundo todo paralisa E quando a multidão toda agoniza. abraçado às campas dos poetas. Gemem poetas . inda o olhar sereno De agonizante multidão rodeada. e quando passa. enluta E todo mundo que por ela passa Há de beber a taça da cicuta E há de beber até o fim da taça! Há de beber. aqui é a Terra! Em que a alma chora e em que a Saudade canta! O caminheiro que o Pesar desterra.pássaros da Noute! 114 . Ela. Pare chorando nesta Terra Santa.Esse sombrio trovador é o Inverno! Aqui é a Terra. enxuto o olhar.. ..

Vence. nada há que o abata e o vença! Por isso. o sonho. E esse ouro santo vir rolando pelas Trevas profundas do meu pensamento! 115 . no imenso Azul do Firmamento Ir rolando pelo ouro das estrelas. eu penso na Ventura! E o pensamento. do meu seio Partiu num célere arrebatamento De minha crença arrebentando a grade Pois se eu não amo e se também não creio De onde me vem este contentamento. sendo a risonha Santíssima Trindade da Ventura Pode ser venturosa a criatura Que não crê. a crença e o amor. na Suprema Altura Sinto. que não ama e que não sonha?! Pois a alma acostumada a ser tristonha Pode achar por acaso ou porventura Felicidade numa sepultura.O SONHO. e morrem os vermes que o consomem. poeta. Luta. A CRENÇA E O AMOR O sonho. assomem Descrenças. e por fim. surjam tédios na Descrença. De onde me vem esta felicidade?! MEDITANDO Penso em venturas! A alma do homem pensa Sempre em venturas! Sorte do homem! O homem Há de embalar eternamente a crença Sem ter grilhões e sem ter leis que o domem! Punjam-no os vermes da Desgraça. Contentamento numa dor medonha?! Há muito tempo.

Tesouros reais.. para penetrar o mistério das lousas. Depois quando no irmão estremecido Fazem aliança o gênio e a probidade... profundo.. Atinge o amor um grau nunca atingido No termômetro santo da Amizade.. pois. De que te serviu. O Alexandre dos Anjos merecia Grandes coroas nesse grande dia. Desconheceste Deus no vidro do astrolábio E quando a ciência vã te proclamava sábio A tua construção quebrou-se de repente! 116 . em homenagem ao aniversário natalício de Alexandre Rodrigues dos Anjos 28 de abril de 1905.. por fim. por fim. Terá no entanto indubitavelmente A admiração do século presente E a sagração dos séculos vindouros! SONETO A FREDERICO NIETZCHE Para que nesta vida o espírito esfalfaste Em vás meditações. nada achaste.. auríferos tesouros.. homem meditabundo?! Escalpelaste todo o cadáver do mundo E. nada achaste! A loucura destruiu tudo que arquitetaste E a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo.Construíste de ilusões um mundo diferente. Feito no decurso de dois minutos. e. Foi-te mister sondar a substância das cousas . estudares. Para quem tem na vida compreendido Toda a grandeza da Fraternidade O aniversário dum irmão querido A alma de alegres emoções invade.PARA QUEM TEM NA VIDA. O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?! Pois.

O NEGRO Oh! Negro. o óbolo da Vida! Recordo agora a nossa despedida Na Estação do Cobé. . Fulge o fogo mordente dos mormaços E a chama fulge do solar brasido. ela subiu... oh! Filho da Hotentóia ufana Teus braços brônzeos como dois escudos. Quando o fantasma da tuberculose Pediu-te.. E eu cuido ver os múltiplos produtos Da Terra . no entanto..santa nevrose que com fios de ferro as almas cose Principalmente se uma está ferida! Das tuas dores na procela brava Não soubeste talvez que eu te estimava! Mas a amizade oculta não se finda. dois gigantes mudos. ... Representando a integridade humana! Nesses braços de força soberana Gloriosamente á luz do sol desnudos Ao bruto encontro dos ferrões agudos Gemeu por muito tempo a alma africana! No colorido dos teus brônzeos braços.as flores e os metais e os frutos Simbolizados nesse colorido! VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA À memória do meu colega Caldas Líns Vinhas trilhando gárrulo a Avenida Onde Deus manda que todo homem goze.ei-Ia que sobe ainda! Pau D'Arco – 1905 117 . Embora oculta. São dois colossos. E subiu tanto e subiu tanto e tanto Que hoje que és morto. em ânsias.

.. ver Se nesta ânsia suprema de beber. ira-o morrer também.. O CANTO DA CORUJA A coruja cantara-lhe na porta Sinistramente a noite inteira! Indício Mais certo não havia! . uma convulsão a engasga E morre ouvindo o mesmo canto aziago! 118 . foram buscar a Glória E que..Se ao menos voasse! . ela seria morta.. como eu.O ÉBRIO Bebi! Mas sei porque bebi!. Buscava Em verdes nuanças de miragens. e não vê por onde fuja..em busca de ascender A essa Babel fictícia do Prazer Que procuravam e que eu procurava. A ninguém nunca eu contarei a história Dos que. O Sol ardia. quantos também deixei. Saiu.Novo Sileno. A estrada torta Lembrava a antiga ponte de Sublício. Havia pelo chão um desperdício De folhas que a áurea xantofila corta. ouve o canto aziago da coruja! .. Mas eu não contarei nunca a ninguém.. Nisto. Implora a Deus como a um fetiche vago.Quer fugir. Quantos também. . como eu. na atra estrada que trilhei.Era o suplício!. Trás de mim. .E o horror começa! Rasga As vestes. Achava a Glória que ninguém achava! E todo o dia então eu me embriagava . Daí a pouco.

Foi tanta agrura Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade! Sei que durante toda a travessia Da minha infância trágica. eu já nem sei mais nada! ANDRÉ CHÉNIER Na real magnificência dos gigantes.. pressentindo a lousa.. vivia...Continua a cantar. Mas. a alma serena.. canta vibrantes Versos divinos que arrebatam a hoste.SENECTUDE PRECOCE Envelheci.. Grave como um lacedemônio harmoste André Chénier ia subir ao poste A que Luís XVI subira dantes! Que a sua morte a homem nenhum desgoste E incite o heroísmo das nações distantes.. de repente. Batendo com a cabeça no barrote Da guilhotina.. Não há quem nele um só tremor denote! . E eu que julgava em minha idealidade Ver inda toda a geração futura! Eu que julgava! Pois não é verdade?! Hoje estou velho. ele a morrer... diz ao povo: "É pena! . Sei que na infância nunca tive auroras. Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas.Foi saudade? Foi dor? . Assim como uma casa abandonada.Aqui ainda havia alguma cousa." Pau d'Arco -1905 119 . A cal da sepultura Caiu por sobre a minha mocidade. Olha essa neve pura! . E afora disto. Por isso.

. Para onde eu ia. diz que ele é vivo.Assombrava-me aquela claridade! Mas através daquelas falsas luzes Pude rever enfim todas as cruzes Que têm pesado sobre a Humanidade! ILUSÃO Dizes que sou feliz. inda com o braço altivo.. em Tebas . que nessa crença infinda Feliz me viste no Passado.. Não mentes. Ostenta ainda as mesmas cicatrizes Que eternizaram sua heroicidade! Quem vê o her6i.a tumbal cidade. Bem como tu.. E.MYSTICA VISIO Vinha passando pelo meu caminho Um vulto estranhamente iluminado. persuadido fica do que diz. não andei mais sozinho! Abraçou-me. o vulto ia a meu lado E desde então. .. E eu me elevava.. Diz que ele não morreu. Dizes Tudo que sentes. A infelicidade Parece às vezes com a felicidade E os infelizes mostram ser felizes! Assim. sendo assim beijado Muito acima do humano borborinho! Falou-me de ilusões e de luares... beijou-me com um carinho Que a um ser divino não seria dado. e ainda Te persuades de que sou feliz! 120 . Da tribo alegre que povoa os ares. A múmia de um herói do tempo de Ísis.

E apesar disto. morrer.O tamarindo reverdeça ainda. Por toda a parte viu seu nome escrito! Vieram-lhe as ânsias. quando Eu. E foi assim que ele morreu um dia Amaldiçoado pelo próprio nome! DOLÊNCIAS Eu fui cadáver. assombrado.NOME MALDITO Das trombetas proféticas o alarde Falou-lhe. apesar disto Inda cadáver hei também de ser! Quando eu morrer de novo. aos tropeços. assim como o de Jesus Cristo. onde. ia... Sofreu o que olhos de homem não têm visto E olhos de fera não puderam ver! Acostumei-me. Teve sede e fome. com medo do Infinito. assim. de saudades me despedaçando De novo. por seus onze augúrios certos: "E maldito o teu nome! E aos céus abertos. A lua continue sempre a nascer! 121 . triste e sem cantar.. E. Por toda a parte. amigos. Nada se altere em sua marcha infinda . Saiu aos tombos.. Existo! . A percorrer desertos e desertos.. a sofrer E acostumado a assim sofrer existo.. à tarde. antes de viver! Meu corpo. como um cão covarde. Não há divina proteção que o guarde!" Dúvidas cruéis! Momentos cruéis! Incertos E cruéis momentos! Ânsias cruéis! E. pois.

Vem-me então à lembrança o pai Ioiô Na ânsia psíquica da última eficácia! E logo a lágrima em meus olhos cai. Ah! Basta isto. água e albumina. Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai Do que todas as drogas da farmácia! 122 .O farmacêutico me obtemperou. porque isto é que origina A lágrima de todos os vencidos! . .Faça-me o obséquio de trazer reunidos Clorureto de sódio.A farmacologia e a medicina Com a relatividade dos sentidos Desconhecem os mil desconhecidos Segredos dessa secreção divina..A LÁGRIMA ..

123 . Do cosmopolitismo das moneras.OUTRAS POESIAS MONÓLOGO DE UMA SOMBRA “Sou uma Sombra! Venho de outras eras.. O amarelecimento do papirus E a miséria anatômica da ruga! Na existência social. Da substância de todas as substâncias! A simbiose das coisas me equilibra. possuo uma arma -. E é de mim que decorrem. Amarguradamente se me antolha..O metafisicismo de Abidarma -E trago.. procedo Da escuridão do cósmico segredo. sem dispêndio algum de vírus. Larva de caos telúrico.. Pólipo de recônditas reentrâncias.Esta universitária sanguessuga Que produz. os resíduos ruins dos quiosques E o animal inferior que urra nos bosques É com certeza meu irmão mais velho! Tal qual quem para o próprio túmulo olha. Em minha ignota mônada. Não conheço o acidente da Senectus -. A solidariedade subjetiva De todas as espécies sofredoras. A podridão me serve de Evangelho. Amo o esterco. A saúde das forças subterrâneas E a morbidez dos seres ilusórios! Pairando acima dos mundanos tetos. simultâneas. vibra A alma dos movimentos rotatórios. ampla.. sem bramânicas tesouras. Como um dorso de azêmola passiva. À luz do americano plenilúnio.. Como um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à Natureza Humana.

Estrangulada dentro da matéria! E o que ele foi: clavículas. Sonoridade potencial dos seres. 124 . Nas eterizações indefiníveis Da energia intra-atômica liberta! Será calor. Raio X. quebrando estéreis normas. Ao clarão tropical da luz danada. Que se chama o Filósofo Moderno! Quis compreender. O coração. Sobre a esteira sarcófaga das pestes A mostrar. iguais a fogos passageiros. a boca. Aí vem sujo. -. abdômen. o Homem. O horror dessa mecânica nefasta. Como quem se submete a uma charqueada. já nos últimos momentos. A vida fenomênica das Formas. A que todas as coisas se reduzem! E hão de achá-lo. Com a cara hirta.Engrenagem de vísceras vulgares -Os dedos carregados de peçonha. a coçar chagas plebéias. causa ubíqua de gozo. em síntese. luzem. amanhã. Trazendo no deserto das idéias O desespero endêmico do inferno. bestas agrestes. Fonte de repulsões e de prazeres. Quimiotaxia. O espólio dos seus dedos peçonhentos. ondulação aérea.Na alma crepuscular de minha raça Como uma vocação para a Desgraça E um tropismo ancestral para o Infortúnio. magnetismo misterioso. Que. Tal a finalidade dos estames! Mas ele viverá. rotos os liames Dessa estranguladora lei que aperta Todos os agregados perecíveis. E apenas encontrou na idéia gasta. tatuada de fuligens Esse mineiro doido das origens. Tudo coube na lógica medonha Dos apodrecimentos musculares.

Negra paixão congênita... No horror de sua anômala nevrose. ébrio de vício. Como no babilônico sansara . igual à luz que o ar acomete. Num suicídio graduado. À guisa de um faquir. vai gozar.A desarrumação dos intestinos Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos Dentro daquela massa que o húmus come. Suas artérias hírcicas latejam. Vendo as larvas malignas que se embrulham No cadáver malsão. E à noite. O cuspo afrodisíaco das fêmeas. fazendo um s. o monstro as vítimas aguarda. É uma trágica festa emocionante! A bacteriologia inventariante Toma conta do corpo que apodrece. à noite. Numa glutonaria hedionda. E até os membros da família engulham. E explode. Brancas bacantes bêbadas o beijam. Como que.. brincam... 125 .. Sentindo o odor das carnações abstêmias.. Toda a sensualidade da simbiose. Do seu zooplasma ofídico resulta.. em lúbricos arroubos. em suas clélulas vilíssimas. Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo. No sombrio bazer domeretrício. Sôfrego. pelos cenóbios?!. E após tantas vigílias. reduzir-se À herança miserável dos micróbios! Estoutro agora é o sátiro peralta Que o sensualismo sodomita exalta. consumir-se. Uivando. Como as cadelas que as dentuças trincam No espasmo fisiológico da fome. Há estratificações requintadíssimas De uma animalidade sem castigo. E foi então para isto que esse doudo Estragou o vibrátil plasma todo. Lembra a fome incoercível que escancara A mucosa carnívora dos lobos. bastarda.

Macbeths da patológica vigília.. bêbedo de sono. A asa negra das moscas o horroriza. Quando o prazer barbaramente a ataca. Mostrando. Que é talvez propriedade do carbono! Ah! Dentro de toda a alma existe a prova De que a dor como um dartro se renova. observa através a tênue trança Dos filamentos fluídicos de um halo A destra descarnada de um duende.Com a veemência mavórtica do aríete E os arremessos de uma catapulta. Dentro da elipse ignívoma da lua A realidade de uma esfera opaca. Essa necessidade de horroroso.. As alucinações tácteis pululam. torna água Todo o fogo telúrico profundo 126 . Assim também. Abranda as rochas rígidas. Somente a Arte. Que tateando nas tênebras. Hirto.. As incestuosidades sanguinárias Que ele tem praticado na família. É o despertar de um povo subterrâneo! É a fauna cavernícola do crânio -. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa! Míngua-se o combustível da lanterna E a consciência do sátiro se inferna. quando a noite avança. se estende Dentro da noite má. Fazendo ultra-epiléticos esforços. Reconhecendo. em rembrandtescas telas várias. A família alarmada dos remorsos. com os candeeiros apagados. observa a ciência crua. esculpindo a humana mágoa. Na própria ânsia dionísica do gozo. para agarrá-lo! Cresce-lhe a intracefálica tortura. E de su’alma na caverna escura. Sente que megatérios o estrangulam. Numa coreografia de danados.. Mas muitas vezes. Acorda.

Prostituído talvez. Da luz da lua aos pálidos venábulos.. -. Julgava ouvir monótonas corujas. Reverta à quietação datrava espessa E à palidez das fotosferas mortas! 127 . ouvindo estes vocábulos. A aspereza orográfica do mundo! Provo desta maneira ao mundo odiento Pelas grandes razões do sentimento.O último solilóquio dos suicidas -E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva!” Disse isto a Sombra. Continua o martírio das criaturas: -. Na ânsa de um nervosíssimo entusiasmo. -. sem que. A orquestra arrepiadora do sarcasmo! Era a elegia panteísta do Universo. Sem os métodos da abstrusa ciência fria E os trovões gritadores da dialética. até que minha efêmera cabeça. entanto.E reduz. Chorando e rindo na ironia infausta Da incoerência infernal daquelas frases.. Executando. em suas bases. entre daveiras sujas. Era a canção da Natureza exausta. Há-de ferir-me as auditivas portas. E o turbilhão de tais fonemas acres Trovejando grandíloquos massacres.O ferido que a hostil gleba atra escarva. Que a mais alta expressãoda dor estética Consiste essencialmente na alegria. a desintegre. À condição de uma planície alegre.O homicídio nas vielas mais escuras. E. Na produção do sangue humano imenso.

conversando. das pirâmides o quedo E atro perfil..UMA NOITE NO CAIRO Noite no Egito. Tonto do vinho. exposto ao luar. Dorme soturna a natureza sábia.. Vaga no espaço um silfo solitário. Troam kinnors ! Depois tudo é tranqüilo. discutindo. na mais próxima planície.. Resplandece a celeste superfície. e sobre a paz do mundo A alma dos Faraós anda e vagueia. um saltimbanco da Ásia. parece Uma sombria interjeição de medo! Como um contraste àqueles mesereres. Embaixo. Pasta um cavalo esplêndido da Arábia. E dentro dançam homens e mulheres Numa aglomeração cosmopolita. Os mastins negros vão ladrando à lua. A Lua cheia Está sinistra. Num quiosque em festa alegre turba grita..Última nota do conúbio infando -Vêem-se dez jogadores de roleta Fumando. Soluça toda a noite a água do Nilo! 128 .. Convulso e roto. No ângulo mais recôndito da rua Passa cantando uma mulher hebraica. no apogeu da fúria. O Egito é sempre assim quando anoitece! Às vezes. O Cairo é de uma formosura arcaica.. Apenas como um velho stradivário. O céu claro e produndo Fulgura. Executando evoluções de razzia Solta um brado epilético de injúria! Em derredor duma ampla mesa preta -. A rua é triste.

Lembro-me bem. então. 129 . Atravessando uma estação deserta. A ponte era comprida. O trabalho genésico dos sexos. parodiando saraus cínicos. Profundamente lúbrica e revolta. Dançavam. Eu vi. Eu. Pensava no Destino. O calçamento Sáxeo. Copiava a polidez de um crânio alvo. atro e vidrento. Bilhões de centrossomas apolínicos Na câmara promíscua do vitellus . à luz de áureos reflexos. E a minha sombra enorme enchia a ponte. Como uma pele de rinoceronte Estendida por toda a minha vida! A noite fecundava o ovo dos vícios Animais. E aprofundando o raciocínio obscuro. Uivava dentro do eu ..AS CISMAS DO DESTINO I Recife. Mas. uma besta solta Soltasse o berro da animalidade. A matilha espantada dos instintos! Era como se. de asfalto rijo. indo em direção à casa do Agra. com a boca aberta. Mostrando as carnes. na alma da cidade.. Livres de microscópios e escalpelos. Ponte Buarque de Macedo. Fazendo à noite os homens do Futuro. Assombrado com a minha sombra magra. e tinha medo! Na austera abóbada alta o fósforo alvo Das estrelas luzia. Apregoando e alardeando a cor nojenta. Do carvão da treva imensa Caía um ar danado de doença Sobre a cara geral dos edifícios! Tal uma horda feroz de cães famintos. a irritar-me os globos oculares.

Não sei por que me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança E um pedaço de víscera escarlate. na ígnea crosta do Cruzeiro. Julgava eu ver o fúnebre candeeiro Que há de me alumiar na hora da morte. Deus me castigava! Por toda a parte.Fetos magros. ainda na placenta. A vingança dos mundos astronômicos Enviava à terra extraordinária faca. Ah! Com certeza. O ventobravo me atirava flechas E aplicações hiemais de gelo russo. Que fez minha família originária Do antro daquela fábrica terrível! A corrente atmosférica mais forte Zunia. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse. Estendiam-me as mãos rudimentares! Mostravam-me o apriorismo incognoscível Dessa fatalidade igualitária. como um réu confesso. o ignis sapiens do Orco Abafava-me o peito arqueado e porco Num núcleo de substâncias abrasantes. A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas. Ninguém compreendia o meu soluço. 130 . No ardor desta letal tórrida zona. É bem possível que eu umdia cegue. Posta em rija adesão de goma laca Sobre os meus elementos anatômicos. Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! Mas o vento cessara por instantes Ou. E. pelo menos.

Que. cujas caudais meus beiços regam. Mandando ao Céu o fumo de um cigarro. seis e sete Vezes que eu me furei com um canivete. Eu bem sabia. te segregam! Escarrar de um abismo noutro abismo. Que eu. a hemoptísis! Na alta alucinação de minhas cismas O microcosmos líquido da gota Tinha a abundância de uma artéria rota. em minha boca. aos poucos. de tal arte. Arrebatada pelos aneurismas. cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória. quotidianamente. três. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minh’alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. cinco. 131 . Chegou-me o estado máximo da mágoa! Duas. A hemoglobina vinha cheia de água! Cuspo. Na ascensão barométrica da calma. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. à guisa de ácido resíduo. Ia engolindo. Não! Não era o meu cuspo. Pelos fundibulários da montanha! E a saliva daqueles infelizes Inchava. Sob a forma de mínimas camândulas. quatro. com certeza Era a expectoração pútrida e crassa Dos brônquios pulmorares de uma raça Que violou as leis da Natureza! Era antes uma tosse ubíqua. estranha. Benditas sejam todas essas glândulas. para não cuspir por toda a parte. ansiado e contrafeito. Igual ao ruído de um calhau redondo Arremessado no apogeu do estrondo.E até ao fim.

À anatomia mínima da caspa. lembrava ante o meu rosto. os duendes. maior talvez que Vinci. Vai pela escuridão pensando crimes.Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do Cristianismo! Porque. Rodopiavam. Livres do acre fedor das carnes mortas. Davam pancadas no adro das igrejas. Um sugestionador olho. Com a força visualística do lince. o In e os trasgos. Imitando o barulho dos engasgos. A falta de unidade na matéria! Os esqueletos desarticulados. Numa dança de números quebrados! Todas as divindades malfazejas. E o luar. Iluminava. A camisa vermelha dos incestos. A companhia dos ladrões da noite. Buscando uma taverna que os açoite. da cor de um doente de icterícia. ali posto De propósito. Jamais exprimiria o acérrimo asco Que os canalhas do mundo me provocam! II Foi no horror dessa noite tão funérea Que eu descobri. sem pudicícia. com as brancas tíbias tortas. a rir. de certo. Mas um lampião. Perpetravam-se os atos mais funestos. se no orbe oval que os meus pés tocam Eu não deixasse o meu cuspo carrasco. Nessa hora de monólogos sublimes. para hipnotizar-me! Em tudo. estava ali. Siva e Arimã. então. Embriões de mundos que não progrediram! 132 . a espiar-me. Ninguém. meus olhos distinguiram Da miniatura singular de uma aspa.

daquele horrendo Caos de corpos orgânicos disformes Rebentariam cérebros enormes. Maior que as epopéias carolíngias! Era a revolta trágica dos tipos Ontogênicos mais elementares. Cansados de viver na paz de Buda. E a palavra embrulhar-se na laringe. 133 .Ser cachorro! Ganir incompreendidos Verbos! Querer dizer-nos que não finge. Acho-a nesse interior duelo secreto Entre a ânsia de um vocábulo completo E uma expressão que não chegou à língua! Surpreendo-a em quatrilhões de corpos vivos. Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. em que. Escapando-se apenas em latidos! Despir a putrescível forma tosca. distingo-a. Deixar cair sobre a barriga inerte O apetite necrófago da mosca! A alma dos animais! Pego-a. fervendo! Nessa época que os sábios não ensinam. E o meu sonho crescia nosilâncio. Todos os personagens da tragédia. cinge-as À imperfeição! Mas vem o Tempo. Como bolhas febris de água. A pedra dura. Na atra dissoluçào que tudo inverte. Desde os foraminíferos dos mares À grei liliputiana dos pólipos. os montes argilosos Criariam feixes de cordões nervosos E o neuroplasma dos que raciocinam! Almas pigméias! Deus subjuga-as. e vence-O. Nos antiperistálticos abalos Que produzem nos bois e nos cavalos A contração dos gritos instintivos! Tempo viria.

Aquela humanidade parasita. E sacudidos de um tremor indômito Expeliam. E apesar de já não ser assim tão tarde. medulas Na alegria guerreira da desforra! Os protistas e o obscuro acervo rijo Dos espongiários e dos infusórios Recebiam com os seus órgãos sensóricos O triunfo emocional do regozijo. Depositavam quase sem consciência As derradeiras forças musculares. Um conjunto de gosmas amarelas. aflita. a sós. sobre o meu caso Vi que. Fabricavam destarte os bastodermas. Iam depois dormir nos lupanares Onde. No meu temperamento de covarde! Mas. igual a um amniota subterrâneo. na dor forte do vômito. na glória da concupiscência. Os bêbedos alvares que me olhavam. refletindo. 134 . E as coisas inorgânicas mais nulas Apregoavam encéfalos. berrava.A planta que a canícula ígnea torra. jazia atravassada no meu crânio A intercessão fatídica do atraso! A hipótese genial do microzima Me estrangulava o pensamento guapo. E eu me encolhia todo como um sapo Que tem um peso incômodo por cima! Nas agonias do delirium-tremens . Como um bicho inferior. Em cujo repugnante receptáculo Minha perscrutação via o espetáculo De uma progênie idiota de palermas. Com os copos cheios esterilizavam A substância prolífica dos sêmens! Enterravam as mãos dentro das goelas.

. pior que o remorso do assassino. A inconsciência das máscaras de cera Que a gente prega. Fazer da parte abstrada do Universo. nas catedrais mais ricas. por tua causa. embora o homem te aceite.Prostituição ou outro qualquer nome. tal qual. Oh! Senhora dos nossos esqueletos E das caveiras diárias que fabricas! E eu desejava ter. em tudo imerso. num fundo de caverna. o eco particular do meu Destino.. Minha filosofia te repele. a morte é ingrata. ponto final da última cena. Ao pensar nas pessoas que perdera. Nessas perquisições que não têm pausa. É que as mulheres ruins ficam sem leite E os meninos sem pai morrem de fome! Por que há de haver aqui tantos enterros? Lá no “Engenho” também. Meu raciocínio enorme te condena! Diante de ti. Rolam sem eficácia os amuletos.e. Reboou. Há o malvado carbúnculo que mata A sociedade infante dos bezerros! Quantas moças que o túmulo reclama! E após a podridão de tantas moças. Numa impressionadora voz interna. 135 . Forma difusa da matéria embele. na cara! Era um sonho ladrão de submergir-me Na vida universal. Minha morada equilibrada e firme! Nisto. Os porcos espojando-se nas poças Da virgindade reduzida à lama! Morte. como um cordão. numa ânsia rara. III “Homem! por mais que a Idéia deintegres.

Trazes. em síntese. saberás a causa De todos os fenômenos alegres! Em vão. para que a Dor perscrutes. magro homem. estriada. fora Mister que. espirra. e a ele se prendem Como às pulseiras que os mascates vendem A aderência teimosa da ferrugem. A formação molecular da mirra. As rebeladas cóleras que rugem No homem civilizado. por perscrutar (oh! ciência louca!) O conteúdo das lágrimas hediondas. Mesmo ainda assim. Negro e sem fim é esse em que te mergulhas lugar do Cosmos. quando toda a estuada Idéia Dás ao sôfrego estudo da ninféia E de outras plantas dicotiledôneas! A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua Que da ígnea flama bruta. e a hialina lâmpada oca. se divide. onde a dor infrene É feita como é feito o querosene Nos recôncavos úmidos das hulhas! Porque. a refletir teus semelhantes.Jamais. A própria humanidade sofredora! A universal complexidade é que Ela Compreende. não como és. antes Fosses. sondas A estéril terra. 136 . E se. seu todo não RESIDENCIA No quociente isolado da parcela! Ah! Como o ar imortal a Dor não finda! Das papilas nervosas que há nos tatos Veio e vai desde os tempos mais transatos Para outros tempos que hão de vir ainda! Como o machucamento das insônias Te estraga. o cordeiro simbólico da Páscoa. por vezes. com a bronca enxada árdega.

Na sangueira concreta dos massacres. Como uma pincelada rembrandtesca. -. as nódoas mais espessas. O tecido da roupa que se gasta. O antagonismo de Tífon e Osíris. A mentira meteórica do arco-íris. Onde morreu o chefe da família. O homem grande oprimindo o homem pequeno A lua falsa de um parasseleno. As projeções flamívomas que ofuscam. as negras formas feias Dos aracnídeos e das centopéias.O orbe feraz que bastos jojos acres Produz’a rebelião que na batalha. à espera que a mansa vítima o entre. Deixa os homens deitados. Lembram paióis de pólvora explodindo. O Amor e a Fome. O achatamento ignóbil das cabeças. Que ainda degrada os povos hotentotes. A cristalização da massa térrea. A rotação dos fluidos produzindo A depressão geológica dos pólos. O trem particular que um corpo arrasta Sinistramente pela via férrea. As pálpebras inchadas na vigília. As aves moças que perderam a asa. sem mortalha.Tudo que gera no materno ventre A causa fisiológica do nojo. A sensação que uma coalhada fresca Transmite às mãos nervosas dos que a buscam. Os terremotos que. A água arbitrária que hiulcos caules grossos Carrega e come. O fogão apagado de uma casa. Os sanguinolentíssimos chicotes Da hemorragia. 137 . abalando os solos. O fogo-fátuo que ilumina os ossos. a fera ultriz que o fojo Entra.

O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psicoplasma Humano sofre da mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E, (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, À morte desgraçada dos açougues... Tudo isto que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra! Por descobrir tudo isso, embalde cansas! Ignoto é o gérmem dessa força ativa Que engendra, em cada célula passiva, A heterogeneidade das mudanças! Poeta, feito malsão, criado com os sucos De um leite mau, carnívoro asqueroso, Gerado no atavismo monstruoso Da alma desordenada dos malucos; Última das criaturas inferiores Governada por átomos mesquinhos, Teu pé mata a uberdade dos caminhos E esteriliza os ventres geradores! O áspero mal que a tudo, em torno, trazes, Amálogo é ao que, negro e a seu turno, Traz o ávido filóstomo noturno Ao sangue dos mamíferos vorazes! Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes A perfeição dos seres existentes, Hás de mostrar a cárie dos teus dentes Na anatomia horrenda dos detalhes!

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O Espaço -- esta abstração spencereana Que abrange as relações de coexistência E só! Não tem nenhuma dependência Com as vértebras mortais da espécie humana! As radiantes elipses que as estrelas Traçam, e ao espectador falsas se antolham São verdades de luz que os homens olham Sem poder, entretanto, compreendê-las. Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes Que essa mão, de esqueléticas falanges, Dentro dessa água que com a vista abranges, Também prova o princípio de Arquimedes! A fadiga feroz que te esbordoa Há de deixar-te essa medonha marca, Que, nos corpos inchados de anasarca, Deixam os dedos de qualquer pessoa! Nem terás no trabalho que tiveste A misericordiosa toalha amiga, Que afaga os homens doentes de bexiga E enxuga, à noite, as pústulas da peste! Quando chegar depois a hora tranqüila, Tu serás arrastado, na carreira, Como um cepo inconsciente de madeira Na evolução orgânica da argila! Um dia comparado com um milênio Seja, pois, o teu último Evangelho... É a evolução do novo para o velho E do homogêneo para o heterogêneo! Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo A apodrecer!... És poeira e embalde vibras! O corvo que comer as tuas fibras Há de achar nelas um sabor amargo!”

IV Calou-se a voz. A noite era funesta. E os queixos, a exibir trismos danados,

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Eu puxava os cabelos desgrenhados Como o Rei Lear, no meio da floresta! Maldizia, com apóstrofes veementes, No estentor de mil línguas insurretas, O convencionalismo das Pandetas E os textos maus dos códigos recentes! Minha imaginação atormentada Paria absurdos... Como diabos juntos, perseguiam-me os olhos dos defuntos Com a carne da esclerótica esverdeada. Secara a clorofila das lavouras. Igual aos sustenidos de uma endecha Vinha-me às cordas glóticas a queixa Das coletividades sofredoras. O mundo resignava-se invertido Nas forças principais do seu trabalho... A gravidade era um princípio falho, A análise espectral tinha mentido! O Estado, a Associação, os Municípios Eram mortos. De todo aquele mundo Restava um mecanismo moribundo E uma teleologia sem princípios. Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psique no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo! Mas a Terra negava-me o equilíbrio... Na Natureza, uma mulher de luto Cantava, espiando as árvores sem fruto. A canção prostituta do ludíbrio.

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A CARIDADE No universo a caridade Em contraste ao vicio infando É como um astro brilhando Sobre a dor da humanidade! Nos mais sombrios horrores Por entre a mágoa nefasta A caridade se arrasta Toda coberta de flores! Semeadora de carinhos Ela abre todas as portas E no horror das horas mortas Vem beijar os pobrezinhos. Torna as tormentas mais calmas Ouve o soluço do mundo E dentro do amor profundo Abrange todas as almas. O céu de estrelas se veste Em fluidos de misticismo Vibra no nosso organismo Um sentimento celeste. A alegria mais acesa Nossas cabeças invade... Glória, pois, á Caridade No seio da Natureza! Estribilho Cantemos todos os anos Na festa da Caridade A solidariedade Dos sentimentos humanos.

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OS DOENTES

I Como uma cascavel que se enroscava, A cidade dos lázaros dormia... Somente, na metróplole vazia, Minha cabeça autônoma pensava! Mordia-me a obsessão má de que havia, Sob os meus pés, na terra onde eu pisava, Um fígado doente que sangrava E uma garganta órfã que gemia! Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam... E via em mim, coberto de desgraças, O resultado de bilhões de raças Que há muito desapareceram!

II Minha angústia feroz não tinha nome. Ali, na urbe natal do Desconsolo, Eu tinha de comer o último bolo Que Deus fazia para a minha fome! Convulso, o vento entoava um pseudosalmo. Contrastando, entretanto, com o ar convulso A noite funcionava como um pulso Fisiologicamente muito calmo. Caíam sobre os meus centros nervosos, Como os pingos ardentes de cem velas, O uivo desenganado das cadelas E o gemido dos homens bexigosos. Pensava! E em que eu pensava, não perguntes! Mas, em cima de um túmulo, um cachorro

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o urro Reboava. magnânima e magnífica. A comunhão dos homens reunidos Pela camaradagem da moléstia. alto e hórrido. sobre as hortas. A Paraíba indígena se lava! A manga. Em cuja álgida unção.Pedia para mim água e socorro À comiseração dos transeuntes! Bruto. No Alto. em quaisquer horas. a amêndoa. o álamo E a câmara odorífera dos sumos Absorvem diariamente o ubérrimo húmus Que Deus espalha à beira do seu tálamo! Nos de teu curso desobstruídos trilhos. A queixada específica de um burro! Gordo adubo de agreste urtiga brava. como as ervas. Além jazia os pés da serra. com a promíscua véstia No enbotamento crasso dos sentidos. Na esteira igualitária do teu leito! O vento continuava sem cansaço E enchia com a fluidez do eólico hissope Em seu fantasmagórido galope A abundância geométrica do espaço. a ameixa. 143 . O hidrogênio e o oxigênio que tu choras Pelo falecimento dos teus filhos! Ah! Somente eu compreendo. de errante rio. A incógnita psique das massas mortas Que dormem. Criando as superstições de minha terra. os astros miúdos Reduziam os Céus sérios e rudos A uma epiderme cheia de sarampos! III Dormia embaixo. a abóbora. satisfeito. Benigna água. Meu ser estacionava. branda e beatífica. Apenas eu compreendo. olhando os campos Circunjacentes.

vendo em cada escarro O retrato da própria consciência! Querer dizer a angústia de que é pábulo E com a respiração já muito fraca Sentir como que a ponta de uma faca.Feriam-me o nervo óptico e a retina Aponevroses e tendões de Aquiles. Nas cancerosidades do organismo! Falar somente uma linguagem rouca. Adivinhando o frio que há nas lousas. Da degenerescência étnica do Ária Se escapava. Reboando pelos séculos vindouros. Cortanto as raízes do último vocábulo. os micróbios assanhados Passearem. O ruído de uma tosse hereditária. Pintando o chão de coágulos sangüíneos! Sentir. Restos repugnantíssimos de bílis. adstritos ao quimiotropismo Erótico. Alucinado. Um português cansado e incompreensível. Cair doente e passar a vida inteira Com a boca junto de uma escarradeira. como inúmeros soldados. estas não tossem! Descender dos macacos catarríneos. Estas não cospem sangue. aos bocados. OH! desespero das pessoas tísicas. Vomitar o pulmão na noite horrível Em que se deita sangue pela boca! Expulsar. dores não recebem. Vômitos impregnados de ptialina. por mais que os cardos grandes rocem Seus corpos brutos. a existência Numa bacia autômata de barro. 144 . entre estrépitos e estouros. Maior felicidade é a destas cousas Submetidas apenas às leis físicas! Estas. Estas dis bacalhaus o óleo não bebem.

com efeito. Alagava a medula dos Doentes! Do fundo do meu trágico destino. hoje. em cachoeiras desobstruídas Encharcava os buracos das feridas. a água. magras mulheres. Consagrando vossa última fonética A uma recitação de mesereres. Antes levardes ainda uma quimera Para a garganta omnívora das lajes Do que morrerdes. Pelas algentes Ruas. Lhe houvessem sacudido sobre o peito A máquina pneumática de Bianchi! E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba A erguer. no Amazonas. com o vexame de uma fusa. Vinha da vibração bruta da corda Mais recôndita da alma brasileira! Aturdia-me a tétrica miragem De que. como um cronômetro gigante Marcando a transição emocionante Do lar materno para a catacumba! Mas vos não lamenteis.Não haver terapêutica que arranque Tanta opressão como se. me acorda. É a alfândega. Saía. A mágoa gaguejada de um cretino. 145 . urrando ultrajes Contra a dissolução que vos espera! Porque a morte. onde toda a vida orgânica Há de pagar um dia o último imposto! IV Começara a chover. resfriando-vos o rosto. em sonhos mórbidos. Nos ardores danados da febre hética. naquele instante. Consoante a minha concepção vesânica. Aquele ruído obscuro de gagueira Que à noite. Onde a Resignação os braços cruza.

Em vez da prisca tribo e indiana tropa A gente deste século. Exercia sobre ela ação funesta Desde o desbravamento da floresta à ultrajante invenção do telefone.. sem difíceis nuanças dúbias. como um lúgubre ciclone. E agora. adstrito à étnica escória. Uma desesperada ânsia improfícua De estrangular aquela gente iníqua Que progredia sobre os seus despojos! Mas. E sentia-se pior que um vagabundo Microcéfalo vil que a espécie encerra. acordando na desgraça. Jazem. Recebeu. O gênio de Colombo Manchou de opróbrios a alma do mazombo . Com uma clarividência aterradora. entregue a vísceras glutonas. Desterrado na sua própria terra. diante a xantocróide raça loura. Dora em diante Seu povo tombaria agonizante Na luta da espingarda contra a flecha! Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos... Diminuído na crônica do mundo! A hereditariedade dessa pecha Seguiria seus filhos. De repente. Cuspiu na cova do morubixaba ! E o índio.Fedia. todas as inúbias. tendo o horror no rosto impresso. Na tumba de Iracema!. A civilização entrou na taba Em que ele estava.. caladas. por fim. espantada. 146 . Ah! Tudo. Esse achincalhamento do progresso Que o anulava na crítica da História! Como quem analisa uma apostema. A carcaça esquecida de um selvagem. Viu toda a podridão de sua raça.

E quase a todos os momentos mostra Minha caveira aos bêbedos da rua. Com a contorção neurótica de um bicho Que ingeriu 30 gramas de noz-vômica.: o homem e o ofídio. No horror daquela noite monstruosa. rolando sobre o lixo. ex. A peçonha inicial de onde nascemos. Perfurava-me o peito a áspera pua do desânimo negro que me prostra.Vê somente a caveira abandonada De uma raça esmagada pela Europa! V Era a hora em que arrastados pelos ventos. roído pelos medos. Uma necessidade de suicídio E um desejo incoercível de ser morto! Naquela angústia absurda e tragicômica Eu chorava. com voz estentorosa. Maldiziam. Batia com o pentágono dos dedos Sobre um fundo hipotético de chagas! Diabólica dinâmica daninha Oprimia meu cérebro indefeso Com a força onerosíssima de um peso Que eu não sabia mesmo de onde vinha. Os fantasmas hamléticos dispersos Atiram na consciência dos perversos A sombra dos remorsos famulentos. E eu. 147 . Como que havia na ânsia de conforto De cada ser. Todos os vocativos dos blasfemos. As mães sem coração rogavam pragas Aos filhos bons. Hereditariedades politípicas Punham na minha boca putrescível Interjeições de abracadabra horrível E os verbos indignados das Filípicas.

veio Eva E a stirpe radiolar chamada Actissa . porém. por epigênese. Confundir-me com aquela coisa porca! Vinha. o anelo instável De. às vezes. Não me incomoda esse último abandono Se a carne individual hoje apodrece Amanhã.E. cansado. Com o horror tradicional da raiva corsa Minha vontade era. como um homem doido que se enforca. Era (nem sei em síntese o que diga) Um velhíssimo instinto atávico. A pragmática má de humanos usos Não compreende que a Morte que não dorme É a absorção do movimento enorme Na dispersão dos átomos difusos. Eu voltarei. em suma. Anelava ficar um dia. Consubstanciar-me todo com a imundície. como Cristo. Arrancar do meu próprio corpo a prova Da persistência trágica da força. Sem diferenciação de espécie alguma. Menor que o anfióxus e inferior à tênia. 148 . da árdua liça À substância inorgânica primeva De onde. na terráquea superfície. Tentava. perante a cova. Reduzido à plastídula homogênea. era A saudade inconsciente da monera Que havia sido minha mãe antiga. reaparece Na universalidadej do c arbono! A vida vem do éter que se condensa Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma Fazer a luz do cérebro que pensa. com o auxílio especial do osso masséter Mastigando homeomérias neutras de éter Nutrir-me da matéria imponderável.

maior que a Bíblia e a Fedra Reviverá. Duas mamárias glândulas estéreis! Ah! Certamente não havia ainda Rompido. dando emoção à pedra Na acústica de todos os planetas! VI À álgida agulha. entre oscilantes chamas. vítima última da insânia. doentes de hematúria. Acordavam os bairros da luxúria.. virgem fostes. 149 .. Se extenuavam nas camas.Quando eu for misturar-me com as violetas Minha lira. ignóbil. Um cão agora Punha a atra língua hidrófoba de fora Em contrações miológicas de raiva. As prostitutas. com violência. até que. Nessa alegria bárbara que cobre Os saracoteamentos da lascívia. a saraiva Caindo.. e as mãos. Nem tínheis. agora. a perversão de que era presa o sensorium daquela prostituta Vinha da adaptação quase absoluta À ambiência microbiana da baixeza! Entanto. no horizonte. Mas. Quase que escangalhada pelo vício. e. embalde. à-toa. Uma. para além. análoga era. O sol malvado que secou a fonte De vossa castidade agora finda! Talvez tivésseis fome.. De certo. derreada de cansaço. Não tínheis ainda essa erupção cutânea. alva... Cheirava com prazer no sacrifício A lepra má que lhe roía o braço! E ensangüentava os dedos da mão nívea Com o sentimento gasto e a emoção pobre. Estendestes ao mundo. quando o éreis.

Fostes vender a virginal coroa Ao primeiro bandido do arrabalde. Nas quietudes nirvânicas mais doces O noivado que em vida não tivestes! VII Quase todos os lutos conjugados. A racionalidade dessa mosca. na craniana caixa tosca. no chão frio da igreja. A energúmena gei dos ébrios da urbe Festejava seu sábado de infâmias. Lançavam pinceladas pretas de óleo Na arquitetura arcaica dos sobrados. inquieto. Eu pensava nas coisas que perecem. Sentia. E hoje. Desde as musculaturas que apodrecem À ruína vegetal dos lírios secos. Como quem nada encontra que o perturbe. E estais velha! -. A consciência terrível desse inseto! Regougando. Como a boca de um poço artesiano! Atabalhoadamente pelos becos. eu. porém. E vai depois levá-lo ao cemitério! E esfregando as mãos magras.De vós o mundo é farto. Como uma associação de monopólio. argots e aljâmias. Cismava no propósito funéreo Da mosca debochada que fareja O defunto. que a sociedade vos enxota. Somente as bruxas negras da derrota Freqüentam diariamente vosso quarto! prometem-vos (quem sabe?!) entre os ciprestes Longe da mancebia dos alcouces. 150 . Dentro da noite funda um braço humano Parecia cavar ao longe um poço Para enterrar minha ilusão de moço.

em que eu entrei adrede. Absorvia com gáudio absinto. após baixar ao caos budista. escorraçando a festa. assim inchado. Punham-lhe num destaque horrendo o horrendo Tamanho aberratório das orelhas. Mas. lúpulo E outras substâncias tóxicas da tasca. Sem ter. Como se fosse um corpo organizado! VIII Em torno a mim. com o ar de quem empesta. como Ugolino. Em cujo aspecto o olhar perspícuo prendo. Vem para aqui. Onde minh’alma inteira surpreendia A Humanidade que se lamentava! Era todo o meu sonho. roubada à humana coorte Morre de fome. A mandíbula inchada de um morfético! Saliências polimórficas vermelhas. uma cabeça Que possa mastigar na hora da morte E nua. Quanta gente. Apareceu. sobre a palha espessa. nesta hora. O ar ambiente cheirava a ácido acético. de repente. E o cemitério. E a ébria turba que escaras sujas masca. Dá-me a impressão de um boulevard que fede. À falta idiossincrásica de escrúpulo. estriges voam.Aquilo era uma negra eucaristia. palpável. Já podre.A estática fatal das paixões cegas. Rugindo fundamente nos neurônios. nos braços de um canalha 151 . Pela degradação dos que o povoam. que a morféia miserável Tornava às impressões táteis. Puxava aquele povo de demônios Para a promiscuidade das adegas. O fácies do morfético assombrava! -.

cheio de vermes. Vendo passar com as túnicas obscuras. Ao pegar num milhão de miolos gastos. À sodomia indigna dos moscardos. transgredindo a igualitária regra Da Natureza. Comendo carne humana. como quem salta. à meia-noite! Com uma ilimitadíssima tristeza. entre fardos. Eu mendigava aos vermes insubmissos 152 .porque o madapolão para a mortalha Custa 1$200 ao lojista! Que resta das cabeças que pensaram?! E afundado nos sonhos mais nefastos. Todos os meus cabelos se arrepiaram. a alma aos arrancos. Eu devorava aquele bolo frio Feito das podridões da Natureza! E hirto. Eu maldizia o deus de mãos nefandas Que. a camisa suada. atira a raça negra Ao contubérnio diário das quitandas! Na evolução de minha dor grotesca. Na impaciência do estômago vazio. Pisando. vinham Com a podridão dar de comer às flores! Os defuntos então me ofereciam Com as articulações das mãos inermes. ao clarão de alguns archotes. iguais a irmãs de caridade. Todos os animais que apodreciam! É possível que o estômago se afoite (Muito embora contra isto a alma se irrite) A cevar o antropófago apetite. Os evolucionistas benfeitores Que por entre os cadáveres caminham. Nos corpos nus das moças hotentotes Entregues. As escaveiradíssimas figuras Das negras desonradas pelos brancos. Num prato de hospital.

O benefício de uma cova fresca. De quem possui um sol dentro de casa. Era a volúpia fúnebre que os ossos Me inspiravam. em vez de hiena ou lagarta. À apreensão fisiológica do faro O odor cadaveroso dos destroços! IX O inventário do que eu já tinha sido Espantava. Ia arrastando agora a alma infecunda Na mais triste de todas as falências. trazendo-me ao sol claro. Proporcionando-me o prazer inédito. E eis-me a absorver a luz de fora. E arrancara milhares de existências Do ovário ignóbil de uma fauna imunda. Absorve. déspota e sem normas. Como o íncola do pólo ártico. Dentro da filogênese moderna.Como indenização dos meus serviços. após a noite de seis meses. No frio matador das madrugadas. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! O gênio procriador da espécie eterna Que me fizera. Nunca mais as goteiras cairiam Como propositais setas malvadas. Manhã. Os raios caloríficos da aurora. No céu calamitoso de vingança Desagregava. às vezes. Uma sobrevivência de Sidarta. O adesionismo biôntico das formas Multiplicadas pela lei da herança! 153 . Por sobre o coração dos que sofriam! Do meu cérebro à absconsa tábua rasa Vinha a luz restituir o antigo crédito.

corre. entanto. Parecia também desagregar-se! O prodromos de um tétano medonho Repuxavam-me o rosto. Acompanhava. Já batiam por cima dos estragos A sensação e os movimentos vagos Da célula inicial de um Cosmos novo! O letargo larvário da cidade Crescia.. Vinha da original treva noturna. com os pés atolados no Nirvana. com um prazer secreto. oh! Morte. o vagido de uma outra Humanidade! E eu.. em colônias fluídas. O começo magnífico de um sonho! Entre as formas decrépitas do povo. Decompondo-se desde os alicerces! A doença era geral. numa furna. vinha de dentro Da matéria em fusão que ainda há no centro. os sáxeos prédios tortos Tinham aspectos de edifícios mortos. Igual a um parto. Que vinha substituir a Espécie Humana! 154 . em vão teu ódio exerces! Mas. Eu sentia nascer-me n’alma. Hirto de espanto. tudo a extenuar-se Estava..A ruína vinha horrenda e deletéria Do subsolo infeliz. O Espaço abstrato que não morre Cansara.. a meu ver. A gestação daquele grande feto. O ar que. Para alcançar depois a periferia! Contra a Arte.

não existes mais! 155 . Rodeado pelas moscas repugnantes. Foi abalada por um terremoto! A água quieta do Tejo te abençoa. Tu representas toda essa Lisboa De glórias quase sobrenaturais. Para comer meus próprios semelhantes Eis-me sentado à mesa! Como porções de carne morta. amigo. Como! E pois que a Razão me não reprime. Ai! Como Os que. Apenas com uma diferença triste. Petrarca A queda do teu lírico arrabil De um sentimento português ignoto Lembra Lisboa. Possa a terra vingar-se do meu crime Comendo-me também. Coisa hedionda! Corro.. Com a diferença que Lisboa existe E tu. Que um dia no ano trágico de mil E setecentos e cinqüenta e cinco.. É a hora De comer. Antegozando a ensangüentada presa. como eu. DUAS ESTROFES À memória de João de Deus Ahi! ciechi! il tanto affaticar che giova? Tutti torniamo alla gran madre antica E il nostro nome appena si ritrova.. bela como um brinco. com este assomo Que a espécie humana em comer carne tem!. têm carne. E agora..À MESA Cedo à sofreguidão do estômago.

Assim.. Clara. quanto a mim. a atmosfera se encherá de aromas. há de tornar-se arbusto E álamo altivo de ramagem grossa. que te esgotou as pomas. nas vitrinas. Bebendo a vida no teu seio gordo! Pois. um novo Ser.Fecunda fonte desse mesmo leite Que amamentou os éfebos de Esparta. sujo de sangue.. Há de crescer. à amostra. Do que essa pequenina sanguessuga. te emergiu do ventre! E puseste-lhe. -Com que avidez ele essa fonte suga! Ninguém mais com a Beleza está de acordo. No lábio róseo a grande teta farta -. O Sol virá das épocas sadias. Relembrarás chorando o que eu te disse. Mas o ramo fragílimo e venusto Que hoje nas débeis gêmulas se esboça. Há de beijar-te as mãos todos os dias! Quando chegar depois tua velhice Batida pelos bárbaros invernos. E o antigo leão. Essas humanas coisas pequeninas A um biscuit de quilate muito raro Exposto aí. sem pretensões.MATER Como a crisálida emergindo do ovo Para que o campo flórido a concentre. comparo. oh! Mãe. entre dores. À sombra dos sicômoros eternos! 156 . haurindo amplo deleite.

mordendo glabros talos. as tesouras Brônzeas. Por que me deu consciência dos meus atos Para eu me arrepender de todos eles?! Quisera antes. numa ininterrupta Adesão. maior do que Laplace. Os pães -. eu vivo pelos matos. nos fortes fulcros. Nabucodonosor ser do Pau d’Arco. não prendi minha existência?! Por que Jeová. Por causa disto. também gira e redemoinham.filhos legítimos dos trigos -Nutrem a geração do Ódio e da Guerra. Tenho estremecimentos indecisos E sinto. Dormir na manjedoura com os cavalos! 157 .GEMIDOS DE ARTE I Esta desilusão que me acabrunha É mais traidora do que o foi Pilatos!.. com que guarda meus sapatos.. Beber a acre e estagnada água do charco. Não fez cair o túmulo de Plínio Por sobre todo o meu raciocínio Para que eu nunca mais raciocinase?! Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles Carinhos. Tais quais. roendo a substância córnea de unha. haurindo o tépido ar sereno. Magro. O mesmo assombro que sentiu Parfeno Quando arrancou os olhos de Dionisos! Em giro e em redemoinho em mim caminham Ríspidas mágoas estranguladoras. Os cachorros anônimos da terra São talvez os meus únicos amigos! Ah! Por que desgraçada contingência À híspida aresta sáxea áspera e abrupta Da rocha brava.

Chupar os ossos das alimarias! Barulho de mandíbulas e abdômens! E vem-me com um desprezao por tudo isto Uma vontade absurda de ser Cristo Para sacrificar-me pelos homens! Soberano desejo! Soberana Ambição de construir para o homem uma Região. pegajoso e untuoso ao tacto! Reúnam-se em rebelião ardente e acesa Todas as minhas forças emotivas 158 . Dorme num leito de feridas. Subtraída à hediondez de ínfimo casco. apalpa a úlcera cancerosa. Comprar vestidos pretos numa loja E andar de luto pelo pai que é morto! E por trezentos e sessenta dias Trabalhar e comer! Martírios juntos! Alimentar-se dos irmãos defuntos. onde não cuspa língua alguma O óleo rançoso da saliva humana! Uma região sem nódoas e sem lixos. e não se contamina! Ser homem! escapar de ser aborto! Sair de um vente inchado que se anoja. Beija a peçonha. goza O lodo. no agudo grau da última crise. cheio de chamusco. O braço do ladrão se paralise E a mão da meretriz caia aos pedaços! II O sol agora é de um fulgor compacto. E eu vou andando. Com a flexibilidade de um molusco. Úmido. Onde a forca feroz coma o carrasco E o olho do estuprador se encha de bichos! Outras constelações e outros espaços Em que.Mas a carne é que é humana! A alma é divina.

morda!. No chão coleia a lagartixa. pelo ar.. queime. Eu.. Nos terrenos baixos. Deleito a vista na verdura gorda Que nas hastes delgadas se balouça! Avisto o vulto das sombrias granjas Perdidas no alto.E armem ciladas como cobras vivas Para despedaçar minha tristeza! O sol de cima espiando a flora moça Arda... Um pássaro alvo artífice da teia De um ninho. no árdego trabalho. corte.Augusto . bolem Nas árvores. Por toda a parte a seiva bruta esguicha Num extravasamento involuntário. E a alma dos vegetais rebenta inteira De todos os corpúsculos do pólen. Com a rapidez duma semicolcheia. Os ventos vagabundos batem. Voam à semelhan ça de cabelos Os chicotes finíssimos dos juncos. salta.. Em grandes semicírculos aduncos. quero. De árvore em árvore e de galho em galho. A câmara nupcial de cada ovário Se abre. Ladra furiosa a tribo dos podengos. Possuir aí o nome dum arbusto Qualquer ou de qualquer obscura planta! 159 . O ar cheira. A terra cheira. Entrançados. depois de tanta Tristeza. Das laranjeiras eu admiro os cachos E a ampla circunferência das laranjas. depois de morrer. Olhando para as pútridas charnecas Grita o exército avulso das marrecas Na úmida copa dos bambus verdoengos. em vez do nome -.. largando pêlos. fustigue.

Trôpega e antiga. O céu lembra uma lauda Do mais incorruptível pergaminho. Não sei que subterrânea e atra voz rouca. O ardente calor da areia forte Racha-me os pés como se fosse agulha. Nédios. sem conchego nobre. Quantas flores! Agora. uma parede doente Mostra a cara medonha dos buracos. Aqui. dos esconderijos. O cupim negro broca o âmago fino Do teto. como exóticos pintores. Uma atmosfera má de incômoda hulha Abafa o ambiente. À dura luz do sol resplandecente. O aziago ar morto a morte Fede. Amontoadas em grossos feixes rijos. outrora. sentiu e amou este homem pobre Que carregava canas para o engenho! Nos outros tempos e nas outras eras. O lodo obscuro trepa-se nas portas. Estão olhando aquelas coisas mortas! Fico a pensar no Espírito disperso Que. Os musgos. unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança. Como pela avenida das Mappales.III Pelo acidentalíssimo caminho Faísca o sol. E traça trombas de elefantes Com as circunvoluções extravagantes Do seu complicadíssimo intestino. Pintam caretas verdes nas taperas. As lagartixas. Como um anel enorme de aliança. Na bruta dispersão de vítreos cacos. Urram os bois. em vez de flores. Une todas as coisas do Universo! 160 . batendo a cauda. Por saibros e por cem côncavos vales. Me arrasta à casa do finado Toca ! Todas as tardes a esta casa venho. Viveu.

Grito. e se gritio é para que meu grito Seja a revelação deste Infiniti Que eu trago encarcerado da minh’alma! Sol brasileiro! queima-me os destroços! Quero assistir. É o pedaço já podre de pão duro Que o miserável recebeu na estrada! Não são os cinco mil milhões de francos Que a Alemanha pediu a Jules Favre..E assim pensando. da mesma forma que o homem morre. De pé. arrebentando a horrenda calma. é o óbolo obscuro. Chamando-me do sol com as suas asas! Gosto do sol ignívomo e iracundo Como o réptil gosta quando se molha E na atra escuridão dos ares. com a cabeça em brasas Ante a fatalidade que me oprime. sem pai que me ame. aqui.. com a misericórdia de um tijolo!. E o espírito infeliz que em mim se encarna Se alegre ao sol. como quem raspa a sarna.. Que por vezes me absorve. Só. À carbonização dos próprios ossos! 161 . A lamparina quando falta o azeite Morre. Julgo ver este Espírito sublime.. Tudo enfim a mesma órbita percorre E as bocas vão beber o mesmo leite. É o dinheiro coberto de azinhavre Que o escravo ganha. olha Melancolicamente para o mundo! Essa alegria imaterializada... Súbito. à luz da consciência infame. trabalhando aos brancos! Seja este sol meu último consolo.

funcionária dos instintos. Entre farraparias e esplendores. Uma mulher completamente nua! É a meretriz que. Espicaça-a a ignomínia. como o estepe. E a mulher. hirta. de cabelos ruivos. por fim. em coréas doudas. O Vício estruge. Lúbrica. recebe. alta noite. A escuridão dos gineceus falidos E a desgraça de todos os ovários! Irrita-se-lhe a carne á meia-noite. Na vacuidade das entranhas frias O esgotamento intrínseco da besta! E ela que. Gane instintivamente de luxúria! Navio para o qual todos os portos Estão fechados. em contorções sombrias. 162 . à lua. Na sodomia das mais negras bodas Desarticula-se. Com as mãos chagadas. à luz do olhar protervo.A MERETRIZ A rua dos destinos desgraçados Faz medo. aliando. arremessada sobre o rude 'Despenhadeiro da decrepitude. através os meus sentidos. Ouvem-se os brados Da danação carnal. ébria e lasciva. Sente.. Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos. a âmbulas moles. hórridos uivos Na mesma esteira pública. urna de ovos mortos. Sofre em cada molécula a angústia alta De haver secado. Bramando. à falta Da água criadora que alimenta as proles! É ela que. a arquivar credos desfeitos. O indumento vilíssimo do servo Ao brilho da augustal toga pretexta.. Reduzidos. O eretismo das classes superiores E o orgasmo bastardíssimo da plebe! É ela que. espremendo os peitos. excita-a o açoite Do incêndio que lhe inflama a língua espúria. Na vizinhança aziaga dos ossuários Representa.

.. E a Carne que. dos que são caducos Desde que a Mâe-Comum lhes deu início. Toda a sensualidade tempestuosa Dos apetites bárbaros do Sexo! 163 . Ei-la. aos tácitos apelos Das suas carnes e dos seus cabelos. alvo e desnudo A síntese eucarística de tudo Que não se realizou na Natureza! Antigamente. É o hino Da matéria incapaz. bêbeda de gozo Saciando o geotropismo pavoroso De unir o corpo à terra famulenta! Nesse espolinhamento repugnante O esqueleto irritado da bacante Estrala. pela própria hereditariedade A lei da seleção disfarça em Vício! É o júbilo aparente da alma quase A eclipsar-se.. E a dor profunda da incapacidade Que. Lembra o ruído harto azorrague A vergastar ásperos dorsos grossos. filha do inferno.. Passa agora ao clarão da lua acesa E é seu corpo expiatório. em cada humana nebulosa. E é aterradora essa alegria de ossos Pedindo ao sensualismo que os esmague! É o pseudo-regozijo dos eunucos Por natureza. Mais que a vaga incoercível na água oceânea.Chão de onde unia só planta não rebenta. no horror da ocídua fase Esterilizadora de órgãos. Pagando com volúpia o crime eterno De não ter sido fiel ao seu destino! E o Desespero que se faz bramido De anelo animalíssimo incontido. Para a Finalidade Transcendente Gera o prodígio anímico da Insânia! Nas frias antecâmaras do Nada O fantasma da fêmea castigada. Fulgia. de bruços. já morta essencialmente.. Na óptica abreviatura de um reflexo....

Resíduos memoriais tornam-se luzes Fazem-se idéias e ela vê as cruzes Do seu martirológio miserando! Inícios atrofiados de ética. Como o .. Numa cenografia de diorama. Libertos da ancestral modorra calma. Gorda a escorrer-lhe das artérias túmidas Lembrava um transbordar de ânforas cheias. Agarrou-se-lhe aos seios impudicos Como o abraço mortífero do Ficus 164 .. talvez. radiando.. momentaneamente luz fecunda. Brilha na prostituta moribunda Como a fosforescência sobre a lama! É a visita alarmante do que outrora Na abundância prospérrima da aurora... Lançando a sombra horrível dos seus vultos Sobre a noite fechada daquela alma! É o sublevantamento coletivo De um mundo inteiro que aparece vivo. do deserto! Vede! A prostituição ofídia aziaga Cujo tóxico instila a infâmia. sonhos de culminância. Criando concupiscências infinitas Como eviterno lobo insatisfeito. Mas que. rubros. adultos.. decerto. Ficou rolando. como aborto inútil.. impune. das veias E em torrencialidades quentes e úmidas.O atavismo das raças sibaritas. Irradiava-se-lhe... ânsia De perfeição.. A hora da morte acende-lhe o intelecto E à úmida habitação do vício abjecto Afluem milhões de sóis. hírcica. Vinha saciar a milenária fome Dentro das abundâncias do seu leito! Toda a libidinagem dos mormaços Americanos fluía-lhe dos braços... adstrito a inferior plasma inconsútil.. Pudera progredir. Que. Saem da infância embrionária e erguem-se. Na homofagia hedionda que o consome.. e a estraga Na delinqüência .

....... condenada.. Na horrorosa avulsão da forma nívea Dizer ainda palavras de lascívia.............................. ........................ Ser meretriz depois do túmulo! A alma Roubada a hirta quietude da urbe calma Onde se extinguem todos os escolhos: E.. ............................. 165 ......................................................... ....................... ............................................................... ....................... ao trágico ditame.................... ....................................................................... ....... oca............................................................................ .... Enroscou-se-lhe aos abraços com tal gosto......Sugando a seiva da árvore a que se une! ...................................................... .......................................................... ...... Oferecer-se à bicharia infame Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos! Sentir a língua aluir-se-lhe na boca E com a cabeça sem cabelos........................................................... Mordeu-lhe a boca e o rosto......................................................................................................................................... .

o inventor da flauta -Vou inventar também outro instrumento! Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo Ambiciono. Para que. atenta a orelha cauta. Cuida. o egoísta amor este é que acinte Amas. Integralmente desfibrado e mole. ilusão treda! O amor. poeta. enfim. Descasco-a. observo o amor. Como um saco vazio dentro d’alma! 166 . Quis saber que era o amor. Oposto ideal ao meu ideal conservas. oposto a mim.VERSOS DE AMOR A um poeta erótico Parece muito doce aquela cana. Porque o amor. chegando à última calma Meu podre coração roto não role. é éter. por experiência. enfim. em ânsias. o observas.. é substância fluida. do egoísta Modo de ver. provo-a. E hoje que. Por conseguinte Chamas amor aquilo que eu não chamo. Como Mársias -. o ponto outro de vista Consoante o qual. Pudera eu ter. conheço o seu conteúdo. este o amor não é que. é como a cana azeda. Todas as ciências menos esta ciência! Certo. consoante o qual. chupo-a. eu que idolatro o estudo. amo Mas certo. tal como eu o estou amando. A toda a boca que o não prova engana. Imponderabilíssima e impalpável.. Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! Para reproduzir tal sentimento Daqui por diante. É assim como o ar que a gente pega e cuida. pois. É Espírito. que o idioma em que te eu falo Possam todas as línguas decliná-lo Possam todos os homens compreendê-lo. Diverso é. entretanto. não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes.

E só. trágico e maldito.. em ânsias. Vem-lhe á imaginação este soneto: "A princípio escrevia simplesmente Para entreter o espírito.O pensamento é uma locomotiva Tem a grandeza duma força viva Correndo sem cessar para o Progresso. Durante as vinte e quatro horas do dia! Riam de mim. Mas meu orgulho ainda é maior do que ela! Ruja a boca danada da profana Coorte dos homens. no quadrilátero da alcova. Como Camões morrendo sobre um catre!" Nisto. Escrevia Mais por impulso de idiosincrasia Do que por uma propulsão consciente. olhando o céu que além se expande: ". .. sobre a forja ardente Da ilha de Lemnos. Sem ter uma alma só que me idolatre. Que importa que.. Entendi. depois disso.. 167 . com o seu grande grito.A maldade do mundo é muito grande. trabalhar contente. a tumbal janela E diz.A LUVA Para o Augusto Belmont Pensa na glória! Arfa-lhe o peito.. que devia. Trabalharei assim dias inteiros. os monstros zombeteiros. Como Vulcano.. contra ele. abre. horrendo e preto O áspide abjeto do Pesar se mova!. Tenha a sorte de Cícero proscrito Ou morra embora. opresso.

E na suprema convulsão o doudo Parece aos astros atirar a luva! 168 . Sobre a cidade geme a chuva.Que meu orgulho do alto do Infinito Suplantará a própria espécie humana! Quebro montanhas e aos tutões resisto Numa absolta impassibilidade". E como um desafio à eternidade Atira a luva para o próprio Cristo! Chove. sacudindo-o todo. Batem-lhe os nervos.

Como quem é levado para o hospício Aos trambolhões. e absorve em cada viagem Minh’alma -. Como um cara. sob os pés do orgulho humano. lhe entregue. oh! céu. 169 . Mas a aguadilha pútrida o ombro inerme Me aspergia.“Que esta alucinação tátil não cresça!” -. íntegra. É a potencialidade que me eleva Ao grande Deus. E a cimalha minúscula das ervas. E não haver quem.Dizia.este sombrio personagem Do drama panteístico da treva! Depois de dezesseis anos de estudo Generalizações grandes e ousadas Traziam minhas forças concentradas Na compreensão monística de tudo.ca! Perante o inexorável céu aceso Agregações abióticas espúrias. Cortanto o melanismo da epiderme. Eu tinha a sensação de quem se esfola E inopinadamente o corpo atola Numa poça de carne liquefeita! -. banhava minhas tíbias. E a ela se aliava o ardor das sirtes líbias. alto. Rua Direita. nas telúrias reservas. Com a rebeldia acérrima dos nervos Minha atormentadíssima cabeça. recebendo injúrias.NOITE DE UM VISIONÁRIO Número cento e três. Com os ligamentos glóticos precisos. A essa hora. num canto de carro. Arimânico gênio destrutivo Desconjuntava minha autônoma alma Esbandalhando essa unidade calma. O reino mineral americano Dormia. por ver-vos. e erguia. E eu sí a tremer com a língua grossa E a volição no cúmulo do exício. Recebiam os cuspos do desprezo. Que forma a coerência do ser vivo.

A ínfima fauna abscôndita e grotesca Da família bastarda dos helmintos. Um necrófilo mau forçava as lousas E eu -. Onde minhas moléculas sofriam. O motor teleológico da Vida Parara! Agora.coetâneo do horrendo cataclismo -Era puxado para aquele abismo No redemoinho universal das cousas! 170 . O vibrião. Um pedaço de língua disponível Para a filogenética vingança! A cidade exalava um podre béfio: Os anúncios das casas de comércio. Pela alta frieza intrínseca. com a símplice sarcode. Vinha do coração quente da terra Um rumor de matéria dissolvida. Pareciam talvez meu epitáfio.A liberdade de vingar em risos A angústia milenária que o persegue! Bolia nos obscuros labirintos Da fértil terra gorda. com o ar horrível. Mais tristes que as elegais de Propércio. o ancilóstomo. E no estrume fresquíssimo da gleba Formigavam. em diástoles de guerra. lembravam Toalhas molhadas sobre as minhas pernas. Dedos denunciadores escreviam Na lúgubre extensão da rua preta Todo o destino negro do planeta. me pediam. As vegetalidades subalternas Que osserenos noturnos orvalhavam. úmida e fresca. A química feroz do cemitério Transformava porções de átomos juntos No óleo malsão que escorre dos defuntos. Com a abundância de um geyser deletério. o colpode E outros irmãos legítimso da ameba! E todas essas formas que Deus lança No Cosmos.

ampla e brilhante.A VITÓRIA DO ESPÍRITO Era uma preta. Mochos vagavam como sentinelas. se desenrolava A esteira astral da retração etérea. Eternamente aberta ao sol e à chuva. Em passo lento. nunca visto Tauxiava o Céu de grandes roxos Da mesma cor da túnica de Cristo. rutilava Lantejoulada de opalinos crivos. nos altares esboroados.. Engalanava-lhe as paredes frias Uma coroa de urzes e de cardos Coberta em pálio pelas laçarias.. Parou em frente da mesquita morta. foi transpondo a porta. Os astros mortos refulgiam vivos E a noite. dentro. funeral mesquita. E pelas catacumbas desprezadas. . o passo constrangendo. a viúva. Feras rompiam tolos e balseiros. Em atalaia às gerações passadas! Um crepúsculo imenso. Foram caindo como estalactites Sobre o ouro e a prata das alfaias priscas 171 . Uma vez. Abandonada aos lobos e aos leopardos Numa floresta lúgubre e esquisita. e o olhar errante. aos lampejos derradeiros Das irisadas vespertinas velas. A Lua encheu o espaço sem limites E. Fulgia em tudo uma estriação violeta E um violáceo clarão banhava os mochos Que em torno estavam da mesquita preta. Já na eminência da amplidão sidérea Como uma umbela.Um vento frio começou gemendo. Era uma viúva. Súbito alguém.

Como uma exposição de carnes vivas. as panteras todas Avançam para a viúva desvalida. infernais ardendo Todas as feras.O próprio Deus cantava na floresta! Nos arvoredos rejuvenescidos. entretanto. E sobre o corpo da viúva exangue. entanto. E raivosas. O espírito da viúva se quedara Ao contemplar dessa fulgente porta E dessa clara e alva redoma aérea. Fora. E iam cair em pérolas de sangue Sobre as asas doiradas das abelhas. E havia no atro olhar dessas panteras Essa alegria doida da carnagem Que é a alegria única das feras.Um dilúvio de fósforos prateados E uma chuva doirada de faíscas. E ardendo na impulsão das ânsias doidas E em sevas fúrias. na redoma clara Que envolve a porta da região etérea. As flâmulas altivas Do sol nascente erguiam-se vermelhas. Estrugiam canções desesperadas De misereres e de sustenidos. A Natureza celebrava a festa Do astro glorioso em cantos e baladas . arremetendo. Além. por um chão de onagras Vinha passeando corno numa viagem Um grupo feio de panteras magras. Morria a noite. No desfilar de sua carne morta A transitoriedade da matéria! 172 . Tiram-lhe todas ali mesmo a vida. contra ela.

À cuja sombra descansou Colombo! Foi nessa ilha encantada de Cipango. Ofereço Preces a Deus de amor e de respeito E o Ocaso que nas águas se retrata Nitidamente repdoruz.. Na ilha encantada de Cipango tombo.. ao sol. afetando a forma de um losango. no meio. em plena podridão. Pára. tenho alucinações de toda a sorte.. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas. 173 . quem diante duma cordilheira. E por essa finíssima epiderme Eis-me passeando como um grande verme Que. Impressionado sem cessar com a Morte E sentindo o que um lázaro não sente.. num enleio doce.. Os olhos volvo para o céu divino E observo-me pigmeu e pequenino Através de minúsculos espelhos. entre assombros. Qual num sonho arrebatado fosse. exata. Verde. E ao longe soam trágicos fracassos De heróis. Sente vontade de cair de joelhos! Soa o rumor fatídico dos ventos... brilha A árvore da perpétua maravilha. Da qual. A saudade interior que há no meu peito.. partindo e fraturando os braços Nas pontas escarpadas dos rochedos! Mas de repente. ostentando amplo floral risonho. Assim. passeia! A agonia do sol vai ter começo! Caio de joelhos.. pela vez primeira. Atravessando os ares bruscamente. em luz perpétua..A ILHA DE CIPANGO Estou sozinho! A estrada se desdobra Como uma imensa e rutilante cobra De epiderfe finíssima de areia. Rica. Anunciando desmoronamentos De mil lajedos sobre mil lajedos. trêmulo.

Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos! E a treva ocupa toda a estrada longa. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha. Banhei-me na água de risonhos lagos. O Firmamento é uma caverna oblonga Em cujo fundo a Via-Láctea existe.. Gozei numa hora séculos de afagos. A luz descreve siguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. E finalmente me cobri de flores. A tarde morre....Que Toscanelli viu seu sonho extinto E como sucedeu a Afonso Quinto Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho! Lembro-me bem. Iríamos a um país de eternas pazes Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio.... Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrioi! Um penetrante e corrosivo frio Anestesiou-me a sensibilidade E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. E como agora a lua cheia brilha! Ilha maldita vinte vezes a ilha Que para todo o sempre me fez triste! 174 . Passa o seu enterro!..

outro se ergue e sonha. Espelham-se os esplendores Do céu. fingindo cristais Das mais deslumbrantes cores. Vagueia um poeta num barco. vem outra onda E nesse eterno vaivém Coitadas! não acham quem.. Alegoria tristonha Do que pelo Mundo vai! Se um sonha e se ergue.. Mas desgraçado do pobre Que em meio da Vida cai! Esse não volta.globo de louça Surgiu. a luzir Como um diamante de Ofir Imita a curva de um arco.BARCAROLA Cantam nautas. nas Águas. Cantam! Os astros do Céu Ouçam e a Lua Cheia ouça! 175 . em lúcido véu. Se um cai. O Céu. A Lua . choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas. Em fulvos filões doirados Cai a luz dos astros por Sobre o marítimo horror Como globos estrelados. Lá onde as rochas se assentam Fulguram como outros sóis Os flamívomos faróis Que os navegantes orientam. outro cai. em reflexos. esse vai Para o túmulo que o cobre. de cima. Vai uma onda. as esconda. Quem as esconda.

Haja silêncio no mar Para se ouvir a sereia.E disse e porque isto disse O luar no Céu se apagou. porém. "Mas nunca mais. Sua voz é igual à voz Das dores todas do mundo. poeta da Morte!" .Ouça do alto a Lua Cheia Que a sereia vai falar. Mais um coveiro do Verso! Cantam flautas.. "Sonhador do último sonho! "Numa redoma ilusória "Cercou-te a glória falaz.. E como um requiem profundo De tristíssimos bemóis. "Fecha-te nesse medonho "Reduto de Maldição. Que é que ela diz?! Será uma História de amor feliz? Não! O que a sereia diz Não é história nenhuma. "O poeta é como Jesus! "Abraça-te á tua Cruz "E morre... nunca mais "Há de cercar-te essa glória! "Nunca mais! Sê. Súbito o barco tombou Sem que o poeta o pressentisse! Vista de luto o Universo E Deus se enlute no Céu! Mais um poeta que morreu.. "Viajeiro da Extrema-Unção.. forte. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas! 176 .

Estrela d'Alva imaculada e pura! É livre a Pátria outrora opressa e exangue! Esse labéu que mancha a glória pública. risonho. Que apouca o triunfo e que se chama sangue. Da República a nova sublimada. pois. Como um Tritão. Vós. Manchar não pode as aras da República. Fulgente do valor da vossa glória. Há de transpor sereno os penetrais Da Pátria. A bênção do valor dos vossos filhos! 177 .AVE LIBERTAS Ao clarão irial da madrugada. e. . essa bendita e branca Luz que os negrores da opressão espanca. fazei que destes brilhos. Da liberdade ao toque alvissareiro. Essa luz etereal bendita e calma. Banhou-se o coração do Brasileiro Num eflúvio de luz auroreada. levando ao mundo inteiro. Não! que esse ideal puro. A Liberdade assoma majestosa. oh Pátria. É que baqueia a vida escravizada! Já se ouvem os clangores do pregoeiro. Rola um drama que a Pátria exalça e doura Numa auréola de paz imorredoura. A República rola-lhe nos ombros. Caia do santuário lá da História. Enquanto fora na trevosa agrura Sucumbe o servilismo. E ali do despotismo entre os escombros. oh! Redentora d'alma. e há de elevar-se neste sonho Ao topo azul das Glórias Imortais! Esplende. Oh! Liberdade. esplendorosa.

Eleito Deus no altar do fetichismo! Tudo sacrifiquei para adorá-lo . vendo o horror dos meus destroços. Por muito tempo eu lhe sorvi o aroma. Estremecendo em suas próprias bases. Passa um rebanho de carneiros dóceis.ESTROFES SENTIDAS Eu sei que o Amor enche o Universo todo E se prende dos poetas à guitarra Como o Pólipo que se agarra ao lodo E a ostra que às rochas eternais se agarra.Mas hoje. Uniformiza todos os anelos E une organizações fortes e fracas Nos mesmos laços e nos mesmos elos.. A Natureza veste extraordinárias Roupagens de ouro. cantam óperas inteiras. Além. Na área em que estou. E o Sol arranca as minhas crenças como Boucher de Perthes arrancava fósseis. sem prever o abismo Fiz desse amor um ídolo de Roma. ao matinal assomo. Uma montanha que se desmorona. Aves de várias cores e de várias Espécies. Tenho vontade de estrangulá-lo E reduzi-lo muitas vezes a ossos! Todo o ser que no mundo turbilhona Veja do Amor. 178 .. à luz das minhas frases. nas oliveiras. E em qualquer parte do Universo veja Sombrias ruínas de um solar egrégio E o desmoronamento duma Igreja Despedaçada pelo sacrilégio. desvairado. A compreensão da minha niilidade Aumenta à proporção que aumenta o dia E pouco a pouco o encéfalo me invade Numa clareza de fotografia. O amor reduz-nos a uniformes placas. E.

Como Tirteu na guerra de Messênia! Transponho assim toda a sombria escarpa Sinistro como quem medita um crime. ébria de fumo e de ópio. e não tal qual a sonha E a vê o Sábio pelo telescópio. À sombra dum verdoengo tamarindo Que representa a minha infância morta! 179 .este maldito monstro Que no meu próprio estômago alimento! Nisto a alma o oficio da Paixão entoa E vai cair. sinto um violento Rancor da Vida . O Sábio vê em proporções enormes Aquilo que é composto de pequenas Partes. heroicamente. construindo corpos quase informes E aquilo que é uma parcela apenas... Tal qual ela é. A inanidade da Ilusão demonstro Mas. na água Da misteriosíssima lagoa Que a língua humana denomina Mágoa! Dos meus sonhos o exército desfila E.Observo então a condição tristonha Da Humanidade. à frente dele. tanjo minha harpa E a harpa saudosa a minha Dor exprime! Estes versos de amor que agora findo Foram sentidos na solidão de uma horta. Da observação nos elevados montes Prefiro. à nitidez real dos aspectos. Ver mastodontes onde há mastodontes E insetos ver onde há somente insetos. E quando a Dor me dói. eu vou cantando a nênia Do Amor que eu tive e que se fez argila. demonstrando-a.

De lá. dos grandes espaços. a esmo. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra!" 180 . altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra! O Sol está moribundo. olha estas feridas. Um grande recolhimento Preside neste momento Todas as forças do Mundo. Ah! Se me ouvisses falando! (E eu sei que ás dores resistes) Dir-te-ia coisas tão tristes Que acabarias chorando. Onde há sonhos inefáveis Vejo os vermes miseráveis Que hão de comer os meus braços. Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois. se duvidas. em sonhos. em sonhos erra. Não me queixo mais da sorte Nem tenho medo da Morte Que eu tenho a Morte em mim mesmo! "Meu amor. Vem cá.CANTO ÍNTIMO Meu amor. Passo longos dias. Que o amor abriu no meu peito. erra. Muito longe. Muito longe.

. a sós. murmura: . Nos desertos da Vida uma estrela fulgura E o Viajeiro do Amor. sinto A insaciabilidade desse gozo! 181 . Na insaciedade desse gozo falho Busco no desespero do trabalho. vendo-a. Fazer parar a máquina do instinto. numa delícia infinda. quanto mais me desespero.. Neve que me embala como um berço divino.Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve. agonia bendita! . num volutuoso assomo.. Sem um domingo ao menos de repouso. Mas. agonia. e o sofrimento De minha mocidade. oração.Diz e morre-lhe a voz. e entre sorrisos e entre Mágoas soluço. Queimam-me o peito cáusticos de fogo Esta ânsia de absoluto desafogo Abrange todo o circulo infinito. ontem. Caminha e vai. até que esta dor se concentre No âmago de meu peito e de minha saudade.. agonia. e vê a luz e vendo Uma sombra que passa. morre! E a alma se lhe dilui na amplidão infinita.. neve. Neve da minha dor. neve do meu destino! E eu aqui a chorar nesta noite tão fria! Agonia. uma nuvem que corre. Frio que me assassina. agonia! . abraça a sombra e. agonia bendita! GOZO INSATISFEITO Entre o gozo que aspiro.. amor e frio. . o louco. Numa prece de amor. escuridão e eterna claridade. Delícia que ainda gozo. prece que ainda Entre saudades rezo. triste.. Amor. experimento O mais profundo e abalador atrito.Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore como Chorei.Misto de infinita mágoa e de crença infinita.CANTO DE AGONIA Agonia de amor. Agonia de amar. e cansado e morrendo O Viajeiro vai..

. A terra escalda: é um forno. foi aos poucos se arrastando. aclara o mar e por tudo se estende E arde em tudo. a superfície bruta. do alegre Sol ao grande globo quente E pôs-se para aí. funéreo 182 .O Hércules que ele fora! O fraco que ele hoje era! E surpreendido viu que um abismo se erguera Entre o fraco que era hoje. oito vezes. do agro solo. e entre o Hércules de outrora! Pois havia de assim. desoladoramente A revolver da terra o atro e infecundo arcano. e o trabalho . nesta maldita senda De sofrimento ignaro em sofrimento ignaro Ir caminhando até tombar sem um amparo No tremendo marneI da Desgraça tremenda?! II Noute! O silêncio vinha entrando pelo mundo E ele. Para as bordas fatais dum precipício fundo! Quis um momento ainda olhar para o Passado. Triste. Rasgando. E o Velho veio para o labor cotidiano.HISTÓRIA DE UM VENCIDO I Sol alto. Mas o braço cansou! Trabalhou... E em tudo que o rodeava. trôpego e cambaleando Foi-se arrastando. alta e descompassada A dura vibração incômoda da enxada. mordendo a atra terra infecunda. acende O pó. lúgubre e só.. A flama oriunda Da solar refração bate no mundo. Por seis horas seu braço empenhado na luta.Do Eterno Bem motor principal e alavanca Arrancara-lhe a Crença assim como se arranca De um ninho a seda branca e de uma árvore o galho! Sangrou-lhe o coração a saudade da Aurora! . Fez reboar pelo solo.

e ele quis falar e estava mudo! Mudo! E a quem contaria agora as suas mágoas?! E trágico. sozinho. Que mal lhe haviam feito a esposa e a irmã e os filhos?! Preciso era viver! Portanto. Quis fazer um esforço . a família! Não morreria. Nem viu que era chegado o termo da viagem. a toa. era a turba trovadora Que assim cantava. E amplo.. o peito arqueou-se. os filhos. avistando uma frondosa tília Julgou..Horrorizado viu como num cemitério Cadáveres de um lado e cinzas de outro lado! De súbito. ele pisasse os trilhos.. alguém vela o cadáver: a Lua! 183 . E bateram-lhe então de chofre na lembrança A casa que deixara. e a sonhar. onde arde e floresce a Crença. ninguém o acalenta. Num instante viu tudo.. Caminhava. bêbado de miragem.. pois! Somente morreria Se da Vida. Compensaria toda a sua dor imensa Tal qual o Céu a dor de Cristo compensara! E aos tropeços.. e o braço Pendeu exangue. avistar a Árvore da Esperança. no horror bruto da despedida Abraçou-se com a Dor. o precipício estava. viveria! Viveria! E a fecunda e deleitosa seara Verde dos campos. flutua! Ninguém o vê. a flux d'água. enquanto a Terra Vencedora Celebrava ao luar a Missa dos Vencidos! E o cadáver.. abraçou-se com a Vida E sepultou-se ali no coração das águas! Cantavam muito ao longe uns carmes doloridos! Eram tropeiros. Somente entre a negrura atra da terra poenta Alguém beija. louco. o cansaço Empolgara-o. a rugir-lhe aos pés. o acalenta. e compreendendo tudo. o Velho caminhava.o último esforço. tombando..

. e o meu pesar se eleva E chora e sangra. sangrento O sol. Subindo á majestade do Infinito. a Sombra . dourando as névoas dos espaços.condensada treva A sombra desce. pompeiam (triste maldição!) . Na majestade dum condor bendito. No ar há malabatros Turiferando a negridão tediosa. Martirizado porque nunca dorme As Sete Chagas dum martírio enorme. Atros. volaterizadas. santa e vitoriosa Dentre um velarium de veludos. alvas. E há no meu peito . . Legiões de névoas mortas e finadas Como fragmentações d'ouro e basalto Lembram guirlandas pompeando no Alto Eterizadas. luminosas. mudo.. Além.. Descem os nimbos. mudo. fulvos. e.. aos astrais desígnios. A VIa-Láctea vai abrindo os braços! Áureas estrelas.IDEALIZAÇÕES A Santos Neto I Em vão flameja. E a Noite emerge. Nas chispas fulvas de um vulcão violento! E tudo em vão! Atrás da luz dourada.ocaso nunca visto.eis tudo! E no meu peito . Trazem no peito o branco das manhãs 184 . da Noite ao negro assomo Beijam-lhe o corpo ensangúentado d'ouro. E os Sete Passos que magoaram Cristo! II Agora dorme o astro de sangue e de ouro Como um sultão cansado! As nuvens como Odaliscas. ígneo. rubro. mudo.Crepúsculo fatal vindo do Nada! Que importa o Sol! A Treva.Asas de corvo pelo coração. Negras. Raios flamejam e fuzilam ígneos...

Fantástico. E corno a Aurora . Eu amo a noite que este Sol arranca! Namoro estrelas.. a lesma. o mastodonte. Ah! Como tu. como tombou outrora. de que serve Se é desespero e maldição todo ele?! Pois.hóstia da Aurora. se. á luz áurea que dele Emana e estua e se refrange e ferve. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca. A alma se abate. se triste em cada Raio que tomba no marnel da terra.o Sol . há-de Alva. entre esplendores. em lodo tudo acaba. Mais em meu peito uma ilusão se enterra. em vão na luz do sol te inflamas. se. E nessa luz queimas4e em vão! És todo Pó. Tudo por fim há de acabar na mesma Tênebra que hoje sobre ti desaba. dominando o mundo! Mas de que serve o Sol. Hoje de novo. ciclópico. III De novo. O leão. se tornassem ferros?! IV Poeta. de que serve. ontem moribundo. se erguer.. Mais em minh'alma um desespero brada?! De que serve. em plena e fulva reverberação. como se esses raios N'alma caindo. aclarando os cerros E engalanando os arvoredos gaios. e hás de ser após as chamas. A Mágoa ferve e estua. curvo ao seu destino. lodo. assassino Ébrio de fogo. Como Herculanum foi após as chamas. Vésper me encanta. a Aurora. Abençoada pela Eternidade! E ei-lo de novo. o tigre. Sírius me deslumbra.E dormem brancas corno leviatãs Sobre o oceano astral das nebulosas. 185 . Ninguém se exime dessa lei imensa Que.

de ossos. E arrasta os coraç5es pela Descrença. Pelos rochedos. Alva corno um pedaço de mortalha! Nessa música que a alma me ilumina Tento esquecer as minhas pr6prias dores. Vives de cinzas e de ruinarias! V Agora é noite! E na estelar coorte. Iluminando as serranias.. pelas penedias.Fera rendida à música divina. Harpas concertam! Brandas melodias Plangem.. E em vez de chagas e de cicatrizes Deixar.. sobe ao pedestal. Sírius me deslumbra.. pois poeta. Silêncio! Mas de novo as harpas Reboam pelo mar. pelas escarpas.. foi valas funerais deixando. Ergue. canta! Canta a Descrença que passou cortando As tuas ilusões pelas raízes. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca! 186 . Canto. e. Geme a pungente orquestração noturna E chora a fanfarra triunfal da Morte. E foi deixando essas funéreas. e num supremo e insano E extraordinário e grande e sobre-humano Esforço. Então. a Lua que no céu se espalha. como abutres Medonhos. e minh'alma cobre-se de flores .. de ilusões te nutres. Vésper me encanta. Como recordação da festa diurna. frias. banha As serranias duma luz estranha. Eu amo a Noite que este Sol arranca! Namoro estrelas...Arrasta as almas pela Escuridão. Medonhas valas. onde. um pedestal de tanta Treva e dor tanta.

E invejo o sofrimento desta Santa. 187 ... Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim. Mas.. Por que não evitei o precipício Estrangulando minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! À proporção que a minha insônia aumenta Hierógafos e esfinges interrogo. logo Toda a alvorada esplêndida se ostenta.. sonâmbulo. Depois de embebedado deste vinho... triunfalmente. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Por que cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. Desta cidade pelas ruas erra A procissão dos Mártires da Terra Desde os Cristãos até Giordano Bruno! Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. sonâmbulo.Por que é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ou mapa-múndi estranha..INSÔNIA Noite. eu também vou passando Sonâmbulo. em mágoa. Em cujo olhar o Vicio não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse.. A dispersão dos sonhos vagos reuno. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido Como um bemol e como um sustenido Rola impetuosa por meu peito adentro?! . nos céus altos.

Estou alegre. contemplo As maravilhas reais do meu Pau d'Arco! Cedo virá. Restitui-me a pureza da hematose E então uma interior metamorfose Nas minhas arcas cerebrais se opera. porém. equilibrando-se na esfera. Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos. estronda Como um grande trovão extraordinário.. Agora.. Em que o Tédio. os corimbos. Aqui. em mágoa imerso. batendo na alma. Com o olhar a verde periferia abarco. As árvores.. neste silêncio e neste mato. Cercado destas árvores. hedionda. as flores. O Sol. Atro dragão da escura noite. por exemplo. o funerário.Vagueio pela Noite decaída. No espaço a luz de Aldebarã e de Árgus Vai projetando sobre os campos largos O derradeiro fósforo da Vida. O odor da margarida e da begônia Subitamente me penetra o olfato. Sacrificar-me por amor do Verso No meu eterno leito de Procusto! 188 .. Recordam santos nos seus próprios nichos. Outra vez serei pábulo do susto E terei outra vez de. Respira com vontade a alma campônia! Grita a satisfação na alma dos bichos.

A nutrir diariamente os fetos nus Pelas vilosidades da placenta? Certo. E o que depois fica e depois Resta é um ou.MISTÉRIOS DE UM FÓSFORO Pego de um fósforo. são dois Túmulos dentro de um carvão promíscuo. ébrio. harto. "Onde nenhuma lâmpada se acende. "Meu raciocínio sôfrego surpreende "Todas as formas da matéria gasta!" Raciocinar! Aziaga contingência! Ser quadrúpede! Andar de quatro pés E mais do que ser Cristo e ser Moisés Porque é ser animal sem ter consciência! Bêbedo. ante Minha massa encefálica minguante Todo o gênero humano intra-uterino! É o caos da avita víscera avarenta . Presto. o arquitetural e íntegro aspecto 189 . "Na tua clandestina e erma alma vasta. amorfo e lúrido. e na ínfima ânfora.Mucosa nojentíssima de pus. De onde."Cinza. síntese má da podridão. "Onde os ventres maternos ficam podres. é do sonho assíduo Que a individual psique humana tece e O outro é o do sonho altruístico da espécie Que é o substractum dos sonhos do indivíduo! E exclamo. Olho-o. certo. Mergulho. barro. Todos os organismos são oriundos. é mais de um. por outra. através ovóide e hialino Vidro. Dois são. irrupto. os beiços na ânfora ínfima. a esvaziar báquicos odres: . Risco-o Depois. por epigênese geral. porque um. sinto O amargor especifico do absinto E o cheiro animalíssimo do parto! E afogo mentalmente os olhos fundos Na amorfia da cítula inicial. aparece. Olho-o ainda. "Miniatura alegórica do chão.

Em que todos os seres se resolvem! 190 . Então. Vida. na terra instável. que.. é o céu abscôndito do Nada. Migalha de albumina semifluida. Na síntese acrobática de um salto. é todo aquele Que vem de um ventre inchado. dentre as tênebras. O espectro angulosíssimo do Medo! Em cismas filosóficas me perco E vejo. mônada vil. sou eu. Depois. de agulhas e de pregos?! Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis! Dentro um dínamo déspota. ora. atender Ao pedido da célula cansada! Um dia restará. De minha antropocêntrica matéria Numa côncava xícara funérea Uma colher de cinza miserável! Abro na treva os olhos quase cegos. De onde o desprotegido homem nasceu Para a fatalidade dos tropismos. Basta um fósforo só Para mostrar a incógnita de pó. sois vós. Na anfigonia que me produziu Nonilhões de moléculas de esterco. em segredo. o que nele Morre. Que fez a boca mística do druida E a língua revoltada de Lutero. do meu espírito. Sob a morfologia de um moinho. ínfimo e infecto! É a flor dos genealógicos abismos . Move todos os meus nervos vibráteis. muito alto.Zooplasma pequeníssimo e plebeu. E este ato extraordinário de morrer Que há de na última hebdômada. Teus gineceus prolíficos envolvem Cinza fetal!. como nunca outro homem viu. Se escapa.. sozinho. cósmico zero.Do mundo o mesmo inda e. Que mão sinistra e desgraçada encheu Os olhos tristes que meu Pai me deu De alfinetes.

E esse acidente químico vulgar Extraordinariamente me impressiona! Mas minha crise artrítica não tarda..Ah! Maldito o conúbio incestuoso Dessas afinidades eletivas. De onde quimicamente tu derivas. com a alma vencida Na abjeção embriológica da vida O futuro de cinza que me aguarda! 191 . E eis-me outro fósforo a riscar. Na aclamação simbiótica do gozo! O enterro de minha última neurona Desfila.. Adeus! Que eu veio enfim.

a soberana Imagem pétrea das montanhas duras. Rendilhados de fulvas gemas raras E pontilhados de crisoberilos. vezes. davas brandindo em seva e insana Fúria..ODE AO AMOR Enches o peito de cada homem. E o aroma dos teus beijos infinitos Entra na terra. desces ao segredo insonte Do mar profundo onde a sereia canta E onde a Alcíone trêmula se espanta Ouvindo a gusla crebra da sereia! Rompe a manha. medras Nalma de cada virgem. tangendo tiorbas em volatas.Flores que tombam quando a neve passa No turbilhão das avalanches bravas! Tudo dominas! Dos vergéis tranqüilos Aos Capitólios. lembras.. Cantas a Vida que sangrando matas. . E.As borboletas e os escaravelhos Beijam-se no ar. quietos Beijam-se além os silfos e os insetos Sob a esteira dos campos que se orvalham. . chora e se lamenta e vibra.Estas multidões Sonham pátrias doiradas de ilusões Entre os tórculos negros da Desgraça . Sobes ao monte onde o edelweiss pompeia Nalma do que subiu àquele monte! Mas. Sinos além bimbalham. Retroa o sino. 192 ..dúlia Que na fibra mais forte e até na fibra Mais tênue.. Amor. e toda a alma Enches de beijos de infinita calma. Ora. e dos Capitólios Aos claros pulcros e brilhantes sólios De esplendor pulcro e de fulgências claras. E em tudo estruge a tua dúlia . Beijam-te o passo multidões escravas Dos Desgraçados! . Troa o conúbio dos amores velhos . bate nos granitos E quebra as rochas e arrebenta as pedras! És soberano! Sangras e torturas! Ora.

Assim. Cativo. aos astros. eis-me de ti cativo! Cativaste-me. quando Entre estrias de estrelas. Irene. Irene.Enorme força regeneradora Que faz dos homens um leão que dorme E do Amor faz uma potência enorme Que vela sobre os homens. Irene. . Egrégia estavas no teu plaustro egrégio Mais bela do que a Virgem de Corrégio E os quadros divinais de Guido Reni! Qual um crente em asiático pagode. ontem. sonhei-a. pois. Quedo. Entre timbales e anafis estrídulos. e eis o motivo. impassível! Esta de amor ode queixosa. beija os áureos pés dos ídolos. Eis o motivo porque fiz esta ode. 193 . esse poder terrível.E em cada peito onde um Ocaso chora Levanta a cruz da redenção da Aurora Como a Judite a redimir Betúlia! Bem haja.Essa dominação aterradora . fosforeando.

num sardonismo doloroso De ingênita amargura. irritado. O éter possuía A térmica violência de um braseiro. berrar. Dentro. Inopinadamente 194 . provinha Como de um negro cáspio de água impura A multissecular desesperança De sua espécie abjeta Condenada a uma estática mesquinha! Ria com essa metálica tristeza De ser na Natureza. tinir. E eu nervoso. erguido do pó. Cujo negror profundo Astro nenhum exorna Gritando na bigorna Asperamente a sua própria dor! Era. Trinta e seis graus à sombra. a cuspir escórias De fúlgida limalha Dardejando centelhas transitórias. bruta. Quase com febre. Compreendia por fim que aquele berro À substância inorgânica arrancado Era a dor do minério castigado Na impossibilidade de reagir! Era um cosmos inteiro sofredor. No horror da metalúrgica batalha O ferro chiava e ria! Ria. Onde a Matéria avança E a Substância caminha Aceleradamente para o gozo Da integração completa. a ouvir Cada átomo de ferro Contra a incude esmagado Sofrer. ao meio-dia. Uma consciência eternamente obscura! O ferro continuava a chiar e a rir. Da qual.NUMA FORJA De inexplicáveis ânsias prisioneiro Hoje entrei numa forja.

. afinal. A ansiedade de um mundo Doente de ser inerte. Cheia de ânsias e medos Com crispações nos dedos Piores que os paroxismos Da árvore que a atmosfera ultriz destronca. em lúgubre crescendo A antífona assimétrica E o incompreensível wagnerismo aziago De seu destino horrendo! Ao clangor de tais carmes de martírio Em cismas negras eu recaio imerso Buscando no delírio De uma imaginação convulsionada Mais revolta talvez de que a onda atlântica Compreender a semântica Dessa aleluia bárbara gritada Às margens glacialíssimas do Nada Pelas coisas mais brutas do Universo! 195 . Essa angústia alarmante Própria de alienação raciocinante.Para que à vida quente Da sinergia cósmica desperte.O ígneo jato vulcânico Que. Punha em ciarividência Intramoleculares sóis acesos Perpetuamente às mesmas formas presos. Cansado de estar só! Era a revelação De tudo que ainda dorme No metal bruto ou na geléia informe No parto primitivo da Criação! Era o ruído-clarão. A ouvir todo esse cosmos potencial. atravessando a absconsa cripta enorme De minha cavernosa subconsciência. Agarrados à inércia do Inorgânico Escravos da Coesão! Repuxavam-me a boca hórridos trismos E eu sentia. Preso aos mineralógicos abismos Angustiado e arquejante A debater-se na estreiteza bronca De um bloco de metal! Como que a forja tétrica Num estridor de estrago Executava.

Morreu-te a redolência. Assim como Jesus.. E dá-me assim. perdeste a ciência. divina.QUADRAS Embala-me em teus braços.Anelo morrer vário Dos braços teus na Cruz! Porque não me confortas?! Bem sei. Aperta-me em teu peito.. oh! morena . Eu quero o meu Calvário . De amores bons à sombra Quero em cheirosa alfombra Pousar os sonhos lassos! Teus seios. Embala-me em teus braços! 196 . Aperta-me em teu peito.Relíquias de Carrara Têm a ambrosia rara Da mais rara verbena. Alma das virgens mortas Mas não! Apaga os traços De tão funesto aspeito. De lírios e boninas Um veludíneo leito.

de enterrar-me todo Naquele semicírculo medonho! Mas tudo isto é ilusão de minha parte! Quem sabe se não é porque não saio Desde que. Tenho 300 quilos no epigastro. Como um degenerado psicopata Eis-me a contar o número das telhas! . quando a noite cresce. parece Um paralelepípedo quebrado! O sono esmaga o encéfalo do povo.. Nos engenhos da várzea não existe Talvez um outro que se lhe equipare! Do observatório em que eu estou situado A lua magra. Agora a cara do astro Lembra a metade de uma casca de ovo. e. Diabo! Não ser mais tempo de milagre! Para que esta opressão desapareça Vou amarrar um pano na cabeça1 Molhar a minha fronte com vinagre.... Aumentam-se-me então os grandes medos. duas.... tonta Sinto a cabeça e a conta perco. em suma.Uma. três. Vista. quatro. Variando à ação mecânica dos dedos! Vai-me crescendo a aberração do sonho. No bruto horror que me arrebata. Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?! A lâmpada a estirar línguas vermelhas Lambe o ar. 6. O hemisfério lunar se ergue e se abaixa Num desenvolvimento de borracha. E aos tombos.Uma..ª-feira.TRISTEZAS DE UM QUARTO MINGUANTE Quarto Minguante! E. embora a lua o aclare. Morde-me os nervos o desejo doudo De dissolver-me. A conta recomeço. Mas novamente eis-me a perder a conta! 197 . Dói-me a cabeça. 3 de maio. através do vidro azul. em ânsias: . Este Engenho Pau d'Arco é muito triste.

.. Tal urna planta aquática submersa. Súbito me ergo.Sucede a uma tontura outra tontura. Ponho o chapéu num gancho. Elevam-se fumaças Do engenho enorme."Por ventura haverá quem queira roer-nos?! Os vermes já não querem mais comer-nos E os formigueiros lá nos desprezaram". Um frio Cai sobre o meu estômago vazio Como se fosse um copo de sorvete! A alta frialdade me insensibiliza..vis raízes adventícias No algodão quente de um tapete persa. Começo a ver coisas de Apocalipse No triângulo escaleno do ladrilho! Deito-me enfim. Meu tormento é infindo.aquela grande aranha Que anda tecendo a minha desventura! A luz do quarto diminuindo o brilho Segue todas as fases de um eclipse. Caem-me de uma só vez todos os dentes! Então dois ossos roídos me assombraram. por exemplo.... Minha família ainda está dormindo E eu não posso pedir outra camisa! Abro a janela. A luz fulge abundante 198 . Vêm-me á imaginação sonhos dementes. Acho-me. Por muito tempo rolo no tapete. Tomba uma torre sobre a minha testa.. .. O suor me ensopa. E o amontoamento dos lençóis desmancho. numa festa. Choro e quero beber a água do choro Com as mãos dispostas á feição de conchas.. A lua é morta. Cinco lençóis balançam numa corda.Estarei morto?! E a esta pergunta estranha Responde a Vida . . Mas aquilo mortalhas me recorda. Figuras espectrais de bocas tronchas Tornam-me o pesadelo duradouro.. Antegozando as últimas delicias Mergulho as mãos .

De mim diverso. o solo um caramujo Naturalmente pelos mata-pastos. o céu. cheia de adubos. No húmus feraz. nestes bucólicos retiros Toda a salva fatal de 21 tiros Que festejou os funerais de Hamleto! Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas! Quisera ser. Côncavo. Pelos respiratórios tênues tubos Dos poros vegetais. A ouvir. Entretanto. A fatia esponjosa de carniça Que os corvos comem sobre as jurubebas! Porque. radiante e estriado.E em vez do sepulcral Quarto Minguante Vi que era o sol batendo nas vidraças. oh! Vida em que a sofrer me exortas Eu estaria como as bestas mortas Pendurado no bico dos abutres! 199 . longe do pão com que me nutres Nesta hora. se ostenta A monarquia da árvore opulenta Que dá aos homens o óbolo dos frutos. hierática. a terra resfolega Estrumada. cheios Dos tenros tinhorões e da úmida erva. feliz. rígido e de rastos Com a solidez do tegumento sujo Sulca. em diâmetro. numa última cobiça. observa A universal criação. passei o dia inquieto. Vários reptis cortam os campos. Babujada por baixos beiços brutos. no ato da entrega Do mato verde. Broncos e feios.

Que apalpam e olham com lascfvia e gozo A pureza dos corpos infantis. mãos mais sanguinárias E estupradoras do que os bisturis Cortando a carne em flor das crianças mortas. em sangue. Outras.. ás dos cristais. Monstruosíssimas mãos. Assinalados pelo mancinismo. Mãos que adquiriram olhos. tentáculos sutis. quebrando portas O azul gasofiláceo silencioso Dos tálamos cristãos.MÃOS Há mãos que fazem medo Feias agregações pentagonais. Mãos de linhas análogas e anfratos Que a Natureza onicriadora fez Em contraposição e antagonismo Às da estrela. a delinqüentes natos.. negras.. a farpas de rochedo Completamente iguais. Mãos adúlteras. Pertencentes talvez. às da neve. E à noite. 200 .. vão cheirar. pituitárias Olfativas. Umas.

Rola a violeta santa dos teus olhos .Tufos de goivo em conchas de esmeralda.. oh Quimera. Abençoada pelo meu tormento E consagrada pela sepultura. No vácuo imenso das desesperanças E dos passados viços. Brande-lhe n'alma o frio dos sepulcros.Lotus diluído n'alma dum cipreste! Como um lilás eternizando abrolhos Tinge de roxo o arminho da grinalda. Pareces reviver a antiga Ofélia.VÊNUS MORTA A Via-Sacra Azul do amor primeiro Veste hoje o luto que a desgraça veste No miserere do meu desespero. Reza-lhe todo o cantochão memento Dessa Missa de amor da Extrema Agrura.. Guarda a saudade que levou do Mame. . langue e seminua. de reverberantes E rubras asas de beliantos pulcros. plangente. E que ela suba na serena gaza Dos mistérios dourados e serenos À terra Ideal das púrpuras em brasa E ao Céu doirado e auroreal de Vênus! 201 . Crava-lhe n'alma o tirso das bacantes. E como um nume de pesar.a Carne. pálida camélia. Recordo o beijo que te dei nas tranças Emolduradas num florão de riços. Sonho abraçar-te. Eu guardo o travo deste beijo ardente E a Nostalgia desta Pátria . Mas neste sonho. Opalescência trágica da lua! Tu.

A rebeldia dos meus pés danados Nas pedras resignadas do caminho. Do ventre equatorial da terra grávida! Dentro de mim. Em que as formas humanas se sumiam! Reboava.. Aprazia-me assim. Mas o que meus sentidos apreendiam Dentro da treva lúgubre. de onde decorrem Todas essas moléculas que morrem Nas transubstanciações da Natureza. Mergulhar minha exótica visão Na intimidade noumenal dos seres. com uma vela acesa.. Sentia estar pisando com a planta ávida Um povo de radículas e embriões Prestes a rebentar como vulcões. como num chão profundo. A efígie apocalíptica do Caos Dançava no meu cérebro sombrio! O Céu estava horrivelmente preto E as árvores magríssimas lembravam Pontos de admiração que se admiravam De ver passar ali meu esqueleto! Sozinho. uivando hoffmânnicos dizeres. na escuridão. O feto original. enquanto eu tropeçava sobre os paus. Choravam. almas e oceanos As formas microscópicas do mundo! Era a larva agarrada a absconsas landes. Era o abjeto vibrião rudimentar Na impotência angustiosa de falar. com soluços quase humanos. Aves com frio. E. Eu procurava.VIAGEM DE UM VENCIDO Noite. num ruidoso borborinho Bruto. Cruzes na estrada. No desespero de não serem grandes! 202 . era só O ocaso sistemático de pó. análogo ao peã de márcios brados. Convulsionando Céus.

Eles entravam todos na caverna Das consciências humanas mais fechadas! Ao castigo daquela rutilância. perdido no Cosmos. na ânsia dos párias. assim. de onde se vê o Homem de rastros. uma voz 203 . a esclarecer As manchas subjetivas do meu ser A espionagem fatídica dos astros! Sentinelas de espíritos e estradas. Maior que o olhar que perseguiu Caim. O brado emocionante de vindicta Das sensibilidades solitárias! A longanimidade e o vilipêndio. Onde Ormuzd guerreava com Arimã. o bem e o mal Ardiam no meu orco cerebral. me tornara A assembléia belígera malsã. Fluía. Na óssea armação das vértebras simétricas A angústia da biológica engrenagem! No Céu. com a sidérica lanterna. vingadora. Noite alta. Doía profundamente no meu crânio Esse funcionamento simultâneo De todos os conflitos da matéria! Eu. A multiplicidade heterogênea De sensações diversamente amargas. Na discórdia perpétua do sansara! Já me fazia medo aquela viagem A carregar pelas ladeiras tétricas. A abstinência e a luxúria. Numa crepitação própria de incêndio! Em contraposição à paz funérea. Cumpria-se afinal dentro de mim O próprio sofrimento da Substância! Como quem traz ao dorso multas cargas Eu sofria. Brilhava. ao colher simples gardênia.Vinha-me á boca. Como o protesto de uma raça invicta. horrenda e monótona. frias como lousas. Mas das árvores.

Jeová ou Siva Oculta à tua força cognitiva Fenomenalidades que hão de vir. a espiar enigmas. em suma. Se a contração que hoje produz o choro Não há de ser no século vindouro Um simples movimento para rir?! Que espécies outras. Deu4e (oh! mistério que se não traduz!) Neste astro ruim de tênebras e abrolhos A efeméride orgânica dos olhos E o simulacro atordoador da Luz! Por isto. porque. pois. Tragicamente. iceberg. tão feroz Que parecia vir da alma das cousas: "Se todos os fenômenos complexos. amanhã píncaros galgas. enquanto Deus.Tão grande.. entres Na química genésica dos ventres. se ergue A esfinge do Mistério Universal! A própria força em que teu Ser se expande. Na prisão milenária dos subsolos. diante do Homem. árvore. obscuro. Nós. arvoredos desterrados. Se hoje. Rir da desgraça que de ti ressuma É quase a mesma coisa que chorar!" 204 . oh! filho dos terráqueos limos. Para erguer. Porque em todas as coisas. que. Para esconder-se nessa esfinge grande. montanha. rimos Das vãs diatribes com que aturdes o ar. afinal. A humildade botânica das algas De que grandeza não será capaz?! Quem sabe. isto é. tão profunda.. Desde a consciência à antítese dos sexos Vem de um dínamo fluídico de gás. ovário. Crânio. do Equador aos pólos. na ânsia cósmica. Rasgando avidamente o húmus malsão. Não trabalham. choramos. com a febre mais bravia. Rimos. a Energia A última etapa da objetivação?! É inútil.

A voz cavernosíssima de Deus.As vibrações daquele horrível karma Meu dispêndio nervoso era tamanho Que eu sentia no corpo um vácuo estranho Como uma boca sôfrega a esvaziar-me! Na avançada epiléptica dos medos Cria ouvir. desgraçadamente magro. em destroços. astro decrépito. Eu fora. a erguer-me. Reproduzida pelos arvoredos! Agora. a escalar Céus e apogeus. alheio ao mundanário ruído. com os meus ossos! Restava apenas na minha alma bruta Onde frutificara outrora o Amor Uma volicional fome interior De renúncia budística absoluta! Porque. Tinha necessidade de esconder-me Longe da espécie humana. naquela noite de ânsia e inferno. Eu. A maior expressão do homem vencido Diante da sombra do Mistério Eterno! 205 .

Abraçado com todas as estrelas! A Noite vai crescendo apavorante E dentro do meu peito. As minhas roupas. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. Estou á espera de que o Sol desponte! Bati nas pedras dum tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza é minha única saúde. Minh'alma sai agoniada. é a rebelião Da criatura contra a natureza! Para essas lutas uma vida é pouca Inda mesmo que os músculos se esforcem. 206 . no combate. em coalhos. E muitas vezes a agonia é tanta Que. Na ânsia incoercível de roubar a luz... ando! Não trago sobre a túnica fingida As insígnias medonhas do infeliz Como os falsos mendigos de Paris Na atra rua de Santa Margarida.QUEIXAS NOTURNAS Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio. arrancado das prisões carnais. Para pintá-lo. A Eternidade esmagadora bate Numa dilatação exorbitante! E eu luto contra a universal grandeza Na mais terrível desesperação É a luta. armado de arcabuz. Os pobres braços do mortal se torcem E o sangue jorra. entre estes monstros. era preciso a tinta Feita de todos os tormentos do homem! Como um ladrão sentado numa ponte Espera alguém. O quadro de aflições que me consomem O próprio Pedro Américo não pinta. rolando dos últimos degraus. pela boca. quero até rompê-las! Quero. Viver na luz dos astros imortais. é o prélio enorme.

E é tudo: o pão que como. em suma. Seja este. Não sou capaz de amar mulher alguma Nem há mulher talvez capaz de amar-me. a água que bebo. O amor tem favos e tem caldos quentes E ao mesmo tempo que faz bem. Este relógio trágico que marca Todos os atos da tragédia humana! Seja esta minha queixa derradeira Cantada sobre o túmulo de Orfeu.. faz mal. o último canto meu Por esta grande noite brasileira! Melancolia! Estende-me a tu'asa! És a árvore em que devo reclinar-me. Hoje é amargo tudo quanto eu gosto. Estrangulado pelas rodas brutas Do mecanismo que tiver mais força. O coração do Poeta é um hospital Onde morreram todos os doentes. é improfícuo. é inútil.O Hércules treme e vai tombar no caos De onde seu corpo nunca mais levanta! É natural que esse Hércules se estorça. Se algum dia o Prazer vier procurar-me Dize a este monstro que eu fugi de casa! 207 . A bênção matutina que recebo. E tombe para sempre nessas lutas... O velho tamarindo a que me encosto! Vou enterrar agora a harpa boêmia Na atra e assombrosa solidão feroz Onde não cheguem o eco duma voz E o grito desvairado da blasfêmia! Que dentro de minh'alma americana Não mais palpite o coração .. enfim.esta arca. Ah! Por todos os séculos vindouros Há de travar-se essa batalha vã Do dia de hoje contra o de amanhã. Igual á luta dos cristãos e mouros! Sobre histórias de amor o interrogar-me E vão.

Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade.. Intimamente sei que não me iludo. Levanta contra mim grandes cutelos E as baionetas dos dragões antigos! 208 . Corro.. Então meu desvario se renova.esta carnívora assanhada -Serpente má de língua envenenada Que tudo que acha no caminho. carrego A indiferença estúpida de um cego E o ar indolente de um chinês idiota! A passagem dos séculos me assombra.. Sai para assassinar o mundo inteiro. a 1 de Janeiro.Faminta e atra mulher que. Como que.. vendo o verme frio Que há de comer a minha carne toda! É a Morte -.POEMA NEGRO A Santos Neto Para iludir minha desgraça. à meia-noite.. -. Para onde vou (o mundo inteiro o nota) Nos meus olhares fúnebres. ouvindo um grande estrondo. Em vão com o grito do meu peito impreco! Dos brados meus ouvindo apenas o eco. Eu torço os braços numa angústia douda E muita vez. numa cova. estudo. e a mim pergunto. sozinho. em trajes pretos e amarelos. E o mundo inteiro não lhe mata a fome! Nesta sombria análise das cousas.. Mas de repente. na vertigem: -. Arranco os cadáveres das lousas E as suas partes podres examino. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. Na podridão daquele embrulho hediondo Reconheço assombrado o meu Destino! Surpreendo-me. A Morte. come. rio Sinistramente. abrindo todos os jazigos.

Por tua causa apodreci nas cruzes.. os soldados Buardam o corpo do Divino Mestre. que eu me vingo! Súbito outra visão negra me espanta! Estou em Roma. No histerismo danado da tortura Todos os monstros que os teus peitos criam. Deste-me fogo quanto eu tinha sede. Como as estalactites da caverna. Contra a agressão dos teus contrastes juntos A besta. Quis ver o que era. oh! Natureza! Eu desafio agora essa grandeza.. Chocalha os dentes com medonha fúria Como se fosso o atrito de dois ferros! Pois bem! Chegou minha hora de vingança. desta cova escura. Amarrado no horror de tua rede. Deixa-te estar. vi que era esterquilínio! Chegou a tua vez. e quando vi o que era. e após gritar a última injúria. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. acorda em berros Acorda. É Sexta-feira Santa. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Semeadora terrível de defuntod.. como a gula de uma fera. Tu mataste o meu tempo de criança E de segunda-feira até domingo.. que em mim dorme. Perante a qual meus olhos se extasiam.. canalha. Vi que era pó.E quando vi que aquilo vinha vindo Eu fui caindo como um sol caindo De declínio em declínio. Eu desafio. Com as longas fardas rubras.. De Jesus Cristo resta unicamente 209 . e de declínio Em declínio. Cai no silêncio da Cidade Eterna A água da chuva em largos fios grossos. em grupos prosternados. A trava invade o obscuro orbe terrestre No Vaticano. Tu não és minha mãe.

Resume A espiritualidade da matéria E ele é que embala o corpo da miséria E faz da cloaca uma urna de perfume. Dentro da igreja de São Pedro. enquanto o horror me corta a fala O aspecto sepulcral da austera FIM 210 . É tão vazia a minha vida! No pensamento desconexo e falho Trago as cartas confusas de um baralho E pedaço de cera derretida! Dorme a casa. a gente Sente vontade de abraçar-lhe os ossos! Não há ninguém na estrada da Ripetta.. A desagregação da minha Idéia Aumenta. Desperto. Na molécula e no átomo.Um esqueleto.. no ar de minha terra. O céu dorme. As luzes funerais arquejam fracas. com a minha dor enorme Os olhos ensangüento na vigília! E observo. Na Eternidade... O vento entoa cânticos de morte. Como as chagas da morféia O medo. quieta. e a gente. num rumor forte Recomeça o barulha das matracas. A árvore dorme Eu. o desalento e o desconforto Paralisam-me os círculos motores. somente eu. Na agonia de tantos pesadelos Uma dor bruta puxa-me os cabelos. Roma estremece! Além. os ventos gemedores Estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na serra Da Borborema. vendo-o.

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