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apostila de metodologia de historia

apostila de metodologia de historia

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Heloísa Dupas Penteado Metodologia do Ensino de História e Geografia Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro

, SP, Brasil)
Penteado, Heloísa Dupas. Metodologia do ensino de história e geografia / Heloísa Dupas Penteado. -São Paulo : Cortez, 1994. - (Coleção magistério. 2° grau. Série formação do professor) Bibliografia. ISBN 85-249-0285-X l. Geografia - Estudo e ensino - Metodologia 2. História - Estudo e ensino -Metodologia I. Título. II. Série. CD -907 90-2397________________________________________-910.7

índices para catálogo sistemático: 1. Geografia: Ensino : Metodologia 910.7 2. História : Ensino : Metodologia 907 3. Metodologia: Ensino de geografia 910.7 4. Metodologia: Ensino de história 907 Material digitalizado referentes às páginas 1 a 40.

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a seguir. com os recursos já criados por outros homens através dos tempos. é necessário precisar a natureza e importância específicas das disciplinas com cuja metodologia de ensino trabalharemos e examinar a contribuição das Ciências Humanas na formação do aluno das séries iniciais do curso de 1. subordinação e resistência desenvolvidas pelos agrupamentos humanos na sua convivência etc.. religiosas. como as Ciências Humanas têm-se configurado no ensino de 1º grau e qual a contribuição que têm a dar na formação dos alunos. a Política — que busca apreender as relações de dominação. entre outras — todas têm como objeto de estudo o homem em suas relações: entre si. com o meio natural em que vive. Para isso recorre ao conhecimento produzido por outras Ciências Humanas como a Economia — que tem como centro de seus estudos as relações de produção e distribuição de bens necessários à sobrevivência —.Capítulo l : As Ciências Humanas Iniciamos o nosso estudo de Metodologia do Ensino de História e Geografia situando estas disciplinas num quadro mais geral das Ciências Humanas. de lazer. como a Sociologia. Cada uma delas. a Economia etc. Geografia. Verificaremos. Empenha-se em adquirir conhecimentos sobre o ser humano enquanto uma espécie animal. no seu espaço e no seu tempo.° grau. Químicas e Biológicas. Ao buscar essa compreensão. A Geografia privilegia as relações do homem com o espaço em que está situado. bem como a inter-relação dessas relações na sua organização e funcionamento simultâneos. História. Economia e Política. por sua vez. A Antropologia centraliza seus estudos nos homens e nos produtos de suas ações. Antropologia. Área do conhecimento humano Para nos situarmos dentro da perspectiva de trabalho pedagógico aqui proposta. ao qual pertencem. As Ciências Humanas compreendem uma área do conhecimento humano alimentada pelo saber produzido por várias ciências — Sociologia. e também a conhecimentos produzidos pelas Ciências da Natureza. através das relações que mantêm entre si — campo de preocupações da Geografia Humana. a Geografia recorre a conhecimentos produzidos por outras Ciências Humanas. de poder. A Sociologia focaliza as relações que os homens travam entre si. especializa-se em determinados aspectos desse seu objeto de conhecimento. ou Ciências Físicas. Utiliza tanto 2 . que é muito amplo. Busca compreender as relações de trabalho. familiares. Busca compreender tanto as características do espaço natural em que os homens se situam — campo de preocupações da chamada Geografia Física — como o uso que eles fazem desse espaço. dentro da escala zoológica — campo de preocupações da chamada Antropologia Física — e também sobre as criações humanas — campo de preocupações da chamada Antropologia Cultural.

Esta. um processo de trabalho. contudo. a Antropologia. A História procura estudar o homem através dos tempos. a Economia. As divisas de seus campos de trabalho constituem um recurso didático que viabiliza a abordagem ou o tratamento científico da realidade. ou a construção de equipes interdisciplinares de trabalho. como a Sociologia. como podem ampliar. segundo normas observadas precisa e sistematicamente. a Política etc. o recurso aos saberes produzidos em outros campos. Esses conceitos e generalizações tanto podem reforçar os conhecimentos produzidos anteriormente. procede-se à análise das informações coletadas. a História e a Economia. Investiga permanências e mudanças ou transformações de seu modo de vida.conhecimentos produzidos por outras Ciências Humanas. Nesse trabalho conta com o conhecimento produzido por outras Ciências Humanas. As Ciências Humanas no l? grau Tradicionalmente as Ciências Humanas encontram-se inseridas na educação básica (curso primário e curso ginasial. antes de 1971. De acordo com essas normas. o que conduz à última etapa do trabalho: a construção de conceitos e generalizações. que o homem tenta compreender para colocar a serviço do seu viver e do seu bem-estar. Na etapa seguinte. Químicas e Biológicas. Este se distingue dos diferentes tipos de conhecimento ou compreensão da realidade por ser produzido através de um trabalho organizado. nos diferentes lugares em que tem vivido. parte-se sempre da observação metódica do objeto que se pretende conhecer. modificar ou mesmo negar os conhecimentos já existentes. é um todo que não se pode decompor. Estes exemplos bastam para mostrar que as Ciências Humanas formam uma intrincada teia de conhecimentos. de fato. Isso porque a própria indivisibilidade da realidade exige sempre a volta ao todo. Não impede. como a Sociologia. Ambas se alimentam mutuamente na tarefa comum de construção do conhecimento científico da realidade. essa divisão tem a função de viabilizar a ação humana de produção do conhecimento científico. No presente momento da história das ciências. e chega mesmo a requerer. O mesmo se pode dizer a respeito da divisão entre Ciências Humanas e Ciências da Natureza. à compreensão abrangente. e curso de 1º grau após essa data) através das disciplinas História e 3 . atualmente organizado por uma "divisão do trabalho" entre cientistas de diferentes especialidades. como conhecimentos produzidos pelas Ciências da Natureza ou Ciências Físicas. pois. no empenho de compreendê-las. Constituem também pontos de partida para novas investigações. e da coleta de dados ou informações significativas para a compreensão do aspecto que está sendo focalizado. A produção do conhecimento compreende.

"Estudos Sociais é uma área de estudos que tem por objetivo a integração espaço-temporal do educando. entender a realidade sociocultural como um fato "natural" — e. e principalmente a escola básica. Propicia ou provoca. — a ideia de "área de estudos" interdisciplinar. O conhecimento científico.° grau. as Ciências Humanas não se reduzem a duas. vem sendo de alguma maneira garantida. Essa redução das Ciências Humanas às disciplinas História e Geografia é motivo de preocupação. no momento histórico por ele vivido. "dado" — propicia. importante pela possibilidade que criava de trabalho integrado entre profissionais de diferente formação. ou seja. em quem se inicia nele." Destacavam-se nessa colocação legal. Ao que acrescentamos: como instrumentos imprescindíveis à compreensão da realidade do educando. Embora essas duas ciências tenham grande importância na formação do educando. três aspectos: — as Ciências Humanas como instrumento necessário para a compreensão da História. inquietação. de 1. senão mesmo garante. Para herdeiros de um passado colonialista. constitui um canal social do acesso da população ao conhecimento sistematizado. por razões sociais e históricas. Com a Lei 5692/71 foram introduzidos os "Estudos Sociais" no curso de l. — o acesso da população ao conhecimento produzido pelas Ciências Humanas vem sendo negligenciado. à compreensão de sua realidade social. e de regimes autoritários de governo. Pode conduzir ao ato de "indagar". — as Ciências Humanas como instrumento necessário para o ajustamento ao meio social a que pertence o educando. o que introduzia uma probabilidade 4 . é um saber ameaçador. entremeados de regimes populistas. — a oportunidade de acesso da população ao conhecimento produzido pelo conjunto das Ciências da Natureza. portanto. através da escola. pela sua importância. Política. Sociologia. embora também aqui tenham sido acionados mecanismos que desqualificam esse ensino. Sabemos também que: — a escola. já produzido pelas Ciências. Entendemos por "ajustamento" um processo altamente dinâmico. Economia — como instrumentos necessários para a compreensão da História e para o ajustamento ao meio social a que pertence o educando. servindo-se para tanto dos conhecimentos e conceitos da História e Geografia como base e das outras ciências humanas — Antropologia.Geografia. ao longo de nossa educação escolarizada. que se configura em "ação-reação-transformação". o "fatalismo" com que a população enfrenta as situações de injustiça social que compõem o seu cotidiano. em si desmistificador pela sua própria natureza e modo de produção. curiosidade. Segundo a Lei e o Parecer 853/71. organizado.° grau (direitos de todos e dever do Estado).

de 1971. e suas horas de contratação para trabalhos fora da sala de aula são reduzidíssimas. no curso de 1º grau. desdobrados nos seguintes tópicos: — uma problematização e análise das formas de atuação correntes no ensino destas disciplinas. A própria estrutura e organização da escola oficial é um empecilho. desvinculadas entre si e da realidade do aluno que a estudava. a partir da perspectiva que aqui se propõe. não permitindo. de sua existência em sociedade. Disperdiçou-se com esta medida: a importância dos conhecimentos de História e Geografia. Diante disso. não dando conta de uma visão global da vida do ser humano. Remonta ao período anterior. Os doze anos de vigência da disciplina Estudos Sociais.° grau. e não apenas uma alternativa a mais para confundir este já tão emaranhado campo de trabalho. quando existentes. não têm horários comuns de permanência. também. a fim de oferecer uma contribuição real a essa área de ensino. em que História e Geografia eram trabalhadas de maneira estanque. a rica ideia de "área interdisciplinar" de estudos. O desagrado com o ensino das Ciências Humanas no curso de 1. a contribuição das demais Ciências Humanas. de que os professores não se encontram. que dêem conta sequer da tarefa de preparar aulas ou corrigir trabalhos. nossa própria formação. é necessário examinar a contribuição das Ciências Humanas na formação do aluno dos cursos de 1. Esse desperdício traduziu-se de maneira evidente na disciplina Estudos Sociais. com programas tipo "coquetel cultural".de superar o corporativismo que caracteriza a organização do trabalho escolar e. ao longo de suas oito séries. Com a pretensão de introduzir elementos das Ciência» Humana» — o que náo conseguiu —. encarregaram-se de demonstrar o que acabamos de considerar. ainda não permite a realização da ideia de uma "área de estudos" interdisciplinar. marcada pelo corporativismo das instituições que nos educaram. para não citarmos outros.° grau. que foi então implantada no curso de 1. Nossa realidade. descaracterizou a História e a Geografia. 5 . até pelo simples fato. porém. pelo que demonstrou a implantação da Lei 5692/71. O Conselho Federal de Educação.° grau não data. (…) Capítulo 2: Eixos geradores do conhecimento Neste capítulo são apresentados os fundamentos que dão suporte à proposta de ensino de História e Geografia. pelo que conhecemos dela a partir de nossa prática como professores. transformou uma "área de estudos" em "disciplina". ao desconhecer a existência dos professores competentes para trabalhar nesta área e aprovar a criação dos cursos de nível superior de Estudos Sociais.

que se iniciam no estudo da escola e terminam no estudo do mundo. que orientará a sequência de trabalho com eles ao longo das quatro séries. seus volumes de água. Pelo menos três princípios norteiam essa forma de organização do trabalho com estas disciplinas. constantes e imutáveis — nortearam a docência dessa disciplina.— uma apresentação da estrutura conceitual básica da área de Ciências Humanas. De modo geral. Conforme um deles. graus de temperatura máxima e mínima de diferentes locais da Terra etc.° grau caracterizam a história desse trabalho em nossas escolas. já marcaram os procedimentos de ensino em História. seqüenciados linearmente. Listas de heróis desvinculados de seu contexto. a fim de não fazer dela um uso indevido ou inadequado. quando se faz do "próximo" para o "distante". eternos. altitude de planaltos e planícies. História e Geografia no l? grau: formas de atuação nas séries iniciais Diferentes formas de atuação com as Ciências Humanas nas séries iniciais de 1. — uma análise dos conceitos básicos. país. estado. o processo de aprendizagem do homem ocorre mais facilmente. município.. constitui outro filão que alimentou esses trabalhos. Permeia esses três princípios a ideia de que aprende-se quando se parte do "simples" para o "complexo". é preciso examiná-la mais detidamente. Um terceiro apóia-se na convicção de que nosso processo de aprendizagem realiza-se de maneira mais acessível e eficiente quando se caminha da "parte" para o "todo". como se a história se desenvolvesse num sentido único. surpreendente e benévola. agindo de maneira inusitada. instrumento com que atuaremos na construção de um novo ensino. passando sucessivamente pela família. a partir das condições internas e externas de aprendizagem. O apego à ordem cronológica dos acontecimentos. em datas aleatórias. bairro. Pode-se considerar como simples um evento composto de poucas variáveis intervenientes entre si. É preciso então identificar o evento que corresponderia a tal critério no campo das Ciências 6 . extensão de rios. Extensas listas de nomes de acidentes geográficos. bem como extensas listas de números — indicando altura de picos e montanhas. Conduta semelhante orientou o ensino de Geografia. esses temas são dispostos em círculos concêntricos. então preocupada com procedimentos meramente descritivos. A tendência mais recente parece ser o desenvolvimento de temas considerados viabilizadores de abordagens históricas e geográficas integradas. Embora essa idéia seja procedente. com maiores rendimentos. Um segundo assegura que o processo de aprendizagem dá-se de maneira mais fácil e rendosa quando caminha do "concreto" para o "abstrato". como se esses dados fossem todos aleatórios e independentes entre si.

eram vítimas frequentes de atropelamentos por carro em São Sebastião. Seria o evento "próximo" mais simples do que o "distante"? Ainda aqui caberia indagar o que é "próximo" e o que é "distante". "Ué. Além disso. tive a oportunidade de constatar que. abundantes no local. Senão. o seguinte comentário. alguns pesquisadores constataram que as crianças desta ilha tinham um agudo sentido de percepção para detectar a presença de cobras. situada no litoral brasileiro. da competência educacional familiar. no mínimo. na altura de São Sebastião. situados no mínimo a 60 quilômetros da cidade de São Paulo. na sequência citada. a escola representa. um meio novo pouco conhecido da vida do educando — se não ameaçador. provenientes de sua experiência docente. Raramente morriam em consequência de picadas. por variáveis que se situam no âmbito da competência política estatal. não haviam registrado sua existência. o palpável. Trata-se de um exemplo ilustrativo. Porém. o São Jorge não é um santo que mora na Lua e é tão poderoso que matou até o dragão? Então ele lá ia deixar ficarem lá os homens com esse foguete? E ele nem 7 . Seria mais simples o evento "concreto" do que o evento "abstrato"? E o que seria "concreto"? O visível. a uma realidade composta. que diariamente passavam por uma das pontes sobre o rio Tiête em seu trajeto para a escola. Seria "próximo" aquilo que se localiza espacialmente mais perto do sujeito? E “distante" o contrário disto? Em termos de aprendizagem. e aos quais seu acesso não era diário. ao qual o leitor certamente poderá acrescentar muitos outros. no início da escolaridade. o experienciável? Fazendo um levantamento linguístico junto à população de uma ilha de difícil acesso. estado de São Paulo. No entanto. audível e palpável: uma cobra ou um carro? Por ocasião da chegada do homem à Lua. tivemos oportunidade de ouvir de um adulto que testemunhara o fato. quando por qualquer razão iam até o continente. pelo menos assustador. da competência cultural da sociedade em que se insere e da competência profissional dos professores das áreas de ensino que a integram. É um filme. veríamos que ela corresponde. tomada supostamente como o evento mais simples a ser estudado. via televisão. O que mais visível. de maneira bastante geral. todas elas tinham gravado em suas memórias o mar e a praia. Pode-se observar o mesmo em relação ao "concreto" e ao "abstrato". feito com absoluta seriedade e convicção: "Isso aí não é verdade. Lidando com crianças de classe média alta da cidade de São Paulo. a experiência tem demonstrado com grande frequência que não se pode fazer essa afirmação de maneira tão absoluta e tranquila.Humanas. como é que vai fazer com o São Jorge?" "Como assim" indaguei. Submetendo a ele a "Escola".

se possível. bem como pertence a um todo maior do qual recebe influências e a que também influencia. este dentro do estado. de modo geral. que as crianças compreendessem que o bairro está dentro do município. bem como a dinâmica global que preside esse conjunto chamado "colméia"? Poderíamos fazer as mesmas perguntas partindo de um outro aspecto do fenômeno considerado.° grau. Não existia. Ainda que seguisse no trabalho os passos preconizados pela orientação que 8 . Seria realmente mais fácil entender a vida das abelhas começando por observar ou estudar uma abelha? Seria possível isolá-la do conjunto das demais. esse corte não impediria a compreensão se não recorrêssemos em vários momentos ao todo. Não era realidade. O que emprestava ao evento ocorrido tão distante delas. esse corte não impediria a compreensão mais ampla da própria "célula". O que emprestava à figura do santo tanta "factualidade" e "concreticidade". figura ou filme. nunca ocorreu. trabalhando com as séries iniciais do 1. se não recorrêssemos em vários momentos ao todo. senão a crença depositada por esse adulto em sua existência? Sobre esse mesmo evento — chegada do homem à Lua — presenciamos conversas de crianças que davam a impressão de que haviam participado pessoalmente do fato.apareceu aí. por exemplo. por ele conhecido apenas através de fotos. que o estado está dentro de um país e este dentro de um continente. tanta "factualidade" e "concreticidade". embora nunca o tivesse encontrado em "carne e osso". já que ignoraria as relações de cada uma com as demais e com a própria colméia como um todo (e na qual figuram as células como a menor parte de que se compõe)? Nas minhas experiências como professora. Seria realmente mais fácil entender a vida das abelhas começando por observar ou estudar uma das inúmeras "células" de que se compõe a colméia? Mais do que isso: seria possível isolar a "célula" do todo da colméia de que faz parte? E. senão a crença que depositavam na veracidade do fato? Finalmente resta indagar se seria mais simples aprender partindo-se das partes para o todo. já que ignoraria as relações dessa "parte" com o "todo". e por elas testemunhado apenas via televisão. partindo. espacialmente próximo a si. Já o "foguete espacial". tal o grau de veracidade e concreticidade que atribuíam ao acontecimento. Eram as mesmas crianças que não registraram em suas memórias a ponte por que passavam diariamente em seu caminho para a escola. era apenas foto. se subdivide em outras subpartes. ainda que possível. figuras ou filmes (como o São Jorge). do funcionamento do seu organismo? E." "São Jorge" era personagem absolutamente concreto e palpável para esse adulto. É preciso considerar que cada parte. a não ser excepcionalmente.

até descobrir se o pão apresentava. ela é engolida pelo "pedaço". empiricamente. pela criança? Seria necessário recorrer a "mapas" e a "globos". por que não começar pelo mundo? Porém. implicava estabelecer uma relação de inclusão de uma parte num todo ainda desconhecido pelo aluno. ou compor o "todo" formado por um pão de: formato e tamanho conhecidos previamente. que apoiava a recomendação metodológica. "espaços" que representam "espaços". a partir de diferentes fatias em que estivesse cortado. para citarmos apenas duas possibilidades. através mesmo de um processo de ensaio e erro. já que no momento em que está num ponto deste limite. apontando para o globo ou para o mapa-múndi? Seria suficiente proceder a uma leitura do mapa ou do globo. não pode mais avistar ou observar o outro. num múltiplo fazer e refazer. É possível tentar lidar com o processo de maneira diferente e observar os seus resultados. localizando a carteira do aluno em sua sala de aula. O que seria mais fácil: compor o "todo" formado por um pão de formato e tamanho desconhecidos. O que não se diria então de compor um "todo" desconhecido. são "pedaços" ou "partes" não domináveis pela criança? Ainda que se possa levá-la a caminhar pela divisa de um bairro. Na primeira. países etc. Em vez de começar pelo Bairro. a esperada transferência de compreensão. revelando águas e terras. a partir das diferentes fatias em que estivesse cortado? Certamente a segunda situação parece mais acessível. desta forma. porque não domináveis pela criança. Bastaria contar às crianças que "isto é a Terra". a sala de aula em seu respectivo corredor. que são. município. mas distribuídos com regularidade. não acontecia. até chegarmos ao Município? Ou apenas estaríamos. contornos regulares ou contornos irregulares. pelo tamanho das mesmas (a criança se 9 . como partir do mundo. este dentro de um país. acrescentando dificuldades à já complexa relação do aluno com o espaço? Antes tratava-se apenas de compor um "todo" desconhecido pela junção de suas "partes". e assim sucessivamente. por sua vez. O que explicaria tal situação? Uma primeira resposta seria que entender que um município está dentro de um estado. pela junção de suas partes também desconhecidas. a sala de aula dentro do prédio escolar —. também desconhecidas. uma vez que bairro. continentes e oceanos. se já o espaço do bairro é não dominável.recebíamos — que se iniciava com um estudo da própria escola. etc. a falta de visão do todo exigiria comparar as diferentes fatias para ordenar sua sequência provável. dentre outras salas. por exemplo.

por exemplo. através. tida como mais acessível. os resultados foram surpreendentes. Bem feito este trabalho. não estaríamos acrescentando dificuldades ao apresentar o "todo". Além disso. na qual começaríamos a preparar o aluno para a compreensão das novas questões que surgiriam.. o "Mundo". Inicialmente seria importante proporcionar à criança a oportunidade de lidar com o espaço dominável por ela. 10 . uma vez que a confecção de tais representações por profissionais é facilmente compreensível para a criança pelo recurso do desenho. e que agora se encontravam dentro de suas mãos. Portanto. mas ele passaria a ser um canal confiável porque dominado por ele. desenvolvido desta outra forma. a criança vivenciaria noções de "dentro" e "fora". dentro dos quais ele se encontrava. como também não se trata de ir das "partes" para o "todo". a impossibilidade de estar simultaneamente dentro de espaços heterocêntricos etc. que podiam ser abarcados pelas suas próprias mãos (mapas e globos). da fotografia quando experienciados por ela. Através destas situações. não mais seria necessário recorrer à crença do aluno de que "o mapa do Brasil representa o Brasil porque a minha professora disse". já não era um espaço dominável empiricamente pelo aluno. experimentaria a possibilidade de poder estar simultaneamente dentro de vários espaços concêntricos. tanto quanto a representação televisiva no caso da alunissagem. ela estaria sendo iniciada em "representação espacial" por meio do desenho feito após cada experiência e trabalhado adequadamente para este fim. é preciso indagar: seria possível. Porém. simplesmente negar todas as indagações até aqui colocadas sobre essa questão. afirmando que se aprende mais facilmente partindo do "todo" para as "partes". portanto. e admitir pura e simplesmente os seus contrários. E o que se observou deixou patente que nem se trata de vir do "todo" para as "partes". A cada experiência realizada seguir-se-ia imediatamente a confecção de um desenho que a representaria. "limites" e "fronteiras". de atividades lúdicas. Agora seria ainda necessário acreditar que esses espaços. a passagem para "mapas" e "globo" seria uma questão de grau. poderiam corresponder a um mesmo espaço real? Se a parte considerada "menor" (o Bairro) e. o ponto de partida do trabalho. tão diferentes entre si.encontra dentro de uma parte). com crianças de diferentes escolas. Ao mesmo tempo. espaço igualmente não dominável empiricamente por ele. Antes de afirmar ou negar qualquer uma dessas colocações. Isto posto. correspondiam àqueles espaços chamados bairros. certamente deveria compreender uma etapa anterior. como um globo e um mapa-múndi. Em várias situações em que se testou este outro procedimento. significaria incorrer em atitude tão mecânica e fragmentada quanto afirmar que se aprende mais facilmente da "parte" para o "todo". municípios etc.

O que isso acrescenta à criança? 11 . ainda. não têm correspondido às expectativas. não se tendo alcançado no desenvolvimento dos temas anteriores — Escola. reproduziu-se o problema das propostas anteriores de História e Geografia. Família e Bairro — conhecimentos que ultrapassassem os do senso comum. para em seguida recorrermos ao todo e. a escola desconsidera esse conhecimento e trabalha um modelo de família. porém a mais frequente. num tratamento sério e cuidadoso de um fenômeno. a criança já viveu no mínimo sete anos na sua família. e de lar. em termos de aprendizagem.retornando ao exemplo da colméia. Na prática pedagógica dos trabalhos realizados em sala de aula. ao longo de todo o seu processo. se possível. Na melhor das hipóteses. que configuram o todo? E. é concreto para o aprendiz aquilo que ele acredita que realmente existe. a partir do tema Município. passa a fazer parte de sua realidade. essa globalização da observação e estudo do fenômeno não equivaleria a superficializar sua compreensão. os meios de comunicação de massa não teriam a influência que têm. as constatações feitas a partir de novas experiências e. novamente às partes? Seria possível abarcar o "todo" num determinado momento. ignorar esse fato nos faz incorrer em erros como confundir "concreto" com o que simplesmente acontece ao lado das crianças e que é perceptível aos órgãos dos sentidos. tendo portanto dominado os conhecimentos necessários para aí sobreviver. Até chegar à 1ª série. se necessário. que nada tem a ver com a realidade vivida pelo aluno nesse grupo social. Cabe aqui uma última observação a respeito do trabalho com História nas séries iniciais do curso de 1º grau. se isso não fosse verdade. ignorando suas partes e as relações entre elas. bem como os conhecimentos sobre o Bairro em que já se encontra vivendo. de estudos e reflexões sobre seus processos e resultados nos encaminham para as seguintes conclusões: • • a aprendizagem se faz num movimento constante que vai tanto das partes para o todo como do todo para as partes. • é "próximo" do aprendiz aquilo que. estereotipado. na medida em que se estaria desconsiderando ou mesmo desconhecendo a dinâmica que configura esse todo? A experiência com os temas dispostos em círculos concêntricos no ensino História e Geografia. sem em vários momentos nos determos nos elementos que a •i«impõem. Na pior das hipóteses. a reflexão sobre seus resultados que. pela significação e importância por ele atribuída. estudá-la como um todo. a escola apenas revê ou retoma esse conhecimento.

de cor branca. limpas. de seus colegas ou mesmo da diretora. enquanto num outro cômodo. decorrente das transformações e criações que promove nesse meio. alunos e professores de escola pública. Acompanha o desenho. são um instrumento necessário para a organização do trabalho escolar nesta perspectiva desejada. Pergunto: à família de quantos de nós. acompanhado de duas ou três crianças. quase sempre loiras. que compõem uma estrutura de eixos geradores de conhecimento. numa sala limpa e agradável. o espaço sociocultural de sua existência. sentado em torno de uma mesa farta. cenas como estas: um casal. O encontro dos homens entre si e com o meio natural em que se inserem define. o qual tem características próprias que não foram criadas pelo homem. Estrutura conceitual básica Toda a vida do homem. nos dias atuais. se passa dentro de um espaço. Tratase. a cozinha. um texto lido sem indagações. que diz: "Esta é a minha família". as reflexões sobre elas e nossa compreensão de História e Geografia como disciplinas responsáveis pelo acesso do aluno ao conhecimento produzido pelas Ciências Humanas nos levam a buscar uma forma de atuação com essas disciplinas que nos permita ultrapassar os problemas até aqui enfrentados. de modo geral. História e Geografia. a que os alunos vêm sendo expostos. portanto. Os conceitos básicos das Ciências Humanas. tão formal e vazio de significado acaba sendo o trabalho que nela vem sendo desenvolvido. por intermédio de seu trabalho conjunto para a sobrevivência. ou então um senhor branco. sentado em uma poltrona confortável. 12 . brincam pela sala. as crianças sequer saberem o nome de sua professora. e que são. por uma compreensão globalizada da vida social. de um espaço natural que é transformado através do tempo por agentes naturais (responsáveis pela ocorrência das eras geológicas). As constatações já feitas. E preciso substituir a apreensão fragmentada da vida social. que é comum. Somente assim formaremos sujeitos críticos capazes de uma atuação consequente em sua realidade. Esse delineamento nos possibilita selecionar os conceitos básicos que formam a estrutura deste campo de conhecimento. uma senhora branca de avental lava louça. lendo o seu jornal ou assistindo televisão. em qualquer lugar em qualquer tempo. nos livros de Estudos Sociais. em qualquer sociedade. geradores de outros conhecimentos. enquanto duas ou três crianças brancas.São comuns. corresponde esse modelo? Não seria de esperar da escola pelo menos um maior senso de realidade? Com relação à própria escola. cada um deles. no seu funcionamento e na sua historicidade. para representar a família reunida à hora da refeição.

à medida que o processo de compreensão dos mesmos caminha. que se amplia e desdobra em outros conceitos a ele relacionados.Expressando-os numa disposição gráfica teríamos: NATUREZAESPAÇO RELAÇÕ ES SOCIAIS CULTURA• TEMPO Os conceitos básicos são instrumentos de trabalho. ao longo de seus desdobramentos. com os conceitos como eixos que se ampliam e se inter-relacionam. provenientes das diferentes Ciências Humanas. temos: 13 . Permitem perceber a íntima interligação dos fenômenos. relações entre si. Completando a expressão gráfica desse corpo conceitual. Cada um dos conceitos. A esses conceitos inter-relacionados denominamos corpo conceitual. para a análise e compreensão da realidade. Todos mantêm. representada no gráfico pelas setas. por si. constitui-se num eixo conceitual.

pode vir a ser tanto um agente facilitador e catalisador.ESPAÇO RELAÇÕE S SOCIAIS HUMANAS A estrutura conceitual básica e o ensino de História e Geografia no lº grau: condições de aprendizagem CULTURA TEMPO Os conceitos de espaço e de tempo são básicos no estudo da Geografia e da História. Para que seja um agente facilitador e catalisador. se localiza entre as condições ambientais. ou externas. Neste papel de mediação que exerce no processo de aprendizagem. com aprendizes em processo de desenvolvimento. Considerando as condições internas. e que atua na interação destas com as condições internas do aprendiz. transformando a natureza. é necessário que se oriente por um duplo critério. construindo a História. respectivamente. É nestas duas dimensões que as relações sociais humanas se travam. definido pelas condições internas e pelas condições externas. 14 . quanto um agente que o retarda. nesse processo. O professor é um profissional que. dificulta ou inibe. agindo como mediador. A construção mental desses conceitos por parte do ser humano se dá na interação das condições internas de aprendizagem com as condições ambientais de que dispõe o aprendiz. o professor precisa saber: com quais desses conceitos lidar primeiro. produzindo cultura.

A existência concreta do tempo é definida: • por suas características naturais: luminosidade do sol no dia. no espaço social em que vivemos e que é distinto do chão ou espaço geográfico que ocupamos. Impõe uma análise das características dos conceitos selecionados. os governantes e os serviçais dentro do palácio do governo. Por meio dessas relações. encontramo-nos diante do espaço e do tempo. não palpável. Pessoas ou grupos que convivem em proximidade geográfica. ausência de precipitação das águas e o fenómeno da seca etc. no chão que pisamos. O tempo ganha existência concreta. na terra que habitamos (espaço geográfico). chão plantado pelo homem. por suas características culturais: chão aplainado pelo homem. Por exemplo: patrões e empregados dentro de uma fábrica. na realidade. espaço e tempo assumem dimensões abstratas. no mesmo chão. Essa dimensão abstrata do espaço é definida: pelas relações sociais humanas que desenham as "distâncias sociais". precipitação das águas e o fenômeno da chuva. O espaço ganha existência concreta. precisa saber: como montar as situações de aprendizagem sugestivas desses conceitos para aprendizes em processo de desenvolvimento. utensílios. os homens produzem a cultura. tátil. mas inferida. Adotar as condições internas de aprendizagem como critério para seqüenciar os conceitos conduz a algo mais do que simplesmente optar por ensinar História antes de Geografia. e que nos rodeia. chão devastado pelo homem. visível. chão ondulado. permeadas de ventos e abafamentos. instrumentos) como em sua manifestação abstrata (normas e ordenações do 15 . não visível. chão recoberto de vegetação nativa. tátil. e até palpável nos dias e noites que se sucedem. depois de Geografia ou simultaneamente. A existência concreta do espaço é definida: • • por suas características naturais: chão plano. (…) Além dessa existência concreta. ausência da luminosidade do sol à noite. podem estar muito distantes socialmente. distintas das distâncias geográficas. palpável. concluída através de uma operação mental. nas condições meteorológicas que se alternam de sol a chuva. visível. O espaço ganha sua dimensão abstrata. entrelaçados uns nos outros. surge a questão: por onde começar a lidar com eles na escola? Iniciando pêlos conceitos básicos da História e da Geografia. Como estes. são imbricados.Considerando as condições externas. tanto em sua manifestação concreta (objetos.

abrangem aspectos naturais e culturais. dentro do mesmo tempo geográfico (final do século XX). estudada pela Antropologia. estudada pela Antropologia e pela História. Tanto o espaço quanto o tempo. não visível. transporte.). A duração desses modos sociais de vida define os tempos históricos. vestuário. para a produção e o uso dessa cultura material. Esta primeira análise dos conceitos que compõem a estrutura conceitual básica não é exaustiva. na recreação etc. distintos dos tempos geográficos. Por exemplo: a população brasileira do século XVII (1601 a 1700) e a do século XVIII (1701 a 1800) não viveram no mesmo tempo geográfico. 16 . respectivamente. Da mesma forma. O tempo ganha sua dimensão abstrata. pela Geografia e pela Antropologia. mas já se apresenta suficiente para a tomada de decisão que nos ocupa. ou seja. como a maneira como os homens organizam as relações entre si. Já em suas dimensões abstratas. mas inferida. nas dimensões concretas apontadas. mas viveram num mesmo tempo histórico — o de Brasil Colônia. nas séries iniciais do 1° grau. e da reciprocidade das inter-relações das "partes" com o "todo". Compõem um modo social de vida tanto o mundo material criado pelo homem (habitações. não palpável. tanto o espaço quanto o tempo remetem-nos às relações sociais que se manifestam: • • através de seus produtos concretos: a cultura material. alimentação. pessoas ou grupos que vivem num nesmo tempo geográfico podem viver em tempos históricos diferentes. instrumentos de trabalho). concluída através de uma operação mental. utensílios. estudados. Pessoas ou grupos que vivem em diferentes tempos geográficos podem viver no mesmo tempo histórico. para chegar às abstratas. Por exemplo: um grupo indígena não-aculturado e os grupos brasileiros não-indígenas da atualidade vivem em tempos históricos diferentes. e que diz respeito à disposição desses conceitos no trabalho escolar com História e Geografia. na família. Considerando-se que: — a construção mental do conhecimento parte das características concretas do objeto ou fenômeno a conhecer. a cultura material. no tempo sócio-histórico de que participamos e que é distinto do tempo geográfico em que existimos. Essa dimensão abstrata do tempo é definida: pelas relações sociais humanas que constróem modos sociais de vida e de existência entre os homens. através de seus produtos abstratos: a cultura não-material.comportamento que orientam as suas próprias relações no trabalho. pela Sociologia e pela História.

cultura (material). Tais situações exigem tanto a definição do conteúdo a ser trabalhado quanto a explicitação dos cuidados necessários ao trabalho com os conceitos — desenvolvido através desse conteúdo — a fim de que a ultrapassagem do ensino reprodutivo de História e Geografia (matérias decorativas) para o ensino produtivo (matérias instrumentais para a compreensão da realidade) se realize com sucesso. em todas as séries. o ensino de História e Geografia deverá se orientar por: — trabalhar. — organizar os conceitos específicos na seguinte sequência: natureza. Definido o ponto de partida conceitual e sua sequência. — incidir sobre as dimensões de "natureza" e "cultura" (cultura material) assumidas pelo espaço e pelo tempo. impõe-se tomar as decisões que levem à montagem de situações significativas de aprendizagem.— os conceitos básicos formam um todo reciprocamente interrelacionados. ainda que em diferente níveis. os conceitos da estrutura conceitual básica. 17 . nas séries iniciais do 1° grau. tempo histórico. além dos conhecimento específicos. — temos já a indicação de que. espaço.

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